QUATRO ROMANCES ARTURIANOS:
"EREC ET ENIDE", "CLIGÉS", "YVAIN" E "LANCELOT"
por Chrétien de Troyes
Século XII d.C.
Originalmente escrito em francês antigo, em algum momento da segunda metade do século XII d.C., pelo poeta da corte Chrétien de Troyes.
BIBLIOGRAFIA SELECIONADA:
TEXTO ORIGINAL--
Carroll, Carleton W. (Ed.): "Chrétien DeTroyes: Erec and Enide" (Garland Library of Medieval Literature, Nova York e Londres, 1987). Editado com tradução (ver edição da Penguin Classics abaixo).
Kibler, William W. (Ed.): "Chrétien DeTroyes: The Knight with the Lion, or Yvain" (Garland Library of Medieval Literature 48A, Nova York e Londres, 1985). Texto original com tradução para o inglês (ver edição da Penguin Classics abaixo).
Kibler, William W. (Ed.): "Chrétien DeTroyes: Lancelot, or The Knight of the Cart" (Garland Library of Medieval Literature 1A, Nova York e Londres, 1981). Texto original com tradução para o inglês (ver edição da Penguin Classics abaixo).
Micha, Alexandre (Ed.): "Les Romans de Chrétien de Troyes, Vol. II: Cligés" (Champion, Paris, 1957).
OUTRAS TRADUÇÕES--
Cline, Ruth Harwood (Trad.): "Chrétien DeTroyes: Yvain, or the Knight with the Lion" (University of Georgia Press, Athens GA, 1975).
Kibler, William W. & Carleton W. Carroll (Trad.): "Chrétien DeTroyes: Arthurian Romances" (Penguin Classics, Londres, 1991). Contém traduções de "Erec et Enide" (por Carroll), "Cligés", "Yvain", "Lancelot" e o incompleto "Perceval" de DeTroyes (por Kibler). Altamente recomendado.
Owen, D.D.R (Trad.): "Chrétien DeTroyes: Arthurian Romances" (Everyman Library, Londres, 1987). Contém traduções de "Erec et Enide", "Cligés", "Yvain", "Lancelot" e o incompleto "Perceval" de DeTroyes. NOTA: Esta edição substituiu a de W.W. Comfort no catálogo da Everyman Library. Altamente recomendado.
LEITURA RECOMENDADA--
Anônimo: "Lancelot of the Lake" (Trad: Corin Corely; Oxford University Press, Oxford, 1989). Tradução para o inglês de um dos primeiros romances em prosa sobre Lancelot.
Anônimo: "The Mabinogion" (Ed: Jeffrey Gantz; Penguin Classics, Londres, 1976). Contém uma tradução de "Geraint and Enid", uma versão galesa anterior de "Erec et Enide".
Anônimo: "Yvain and Gawain", "Sir Percyvell of Gales" e "The Anturs of Arther" (Ed: Maldwyn Mills; Everyman, Londres, 1992). NOTA: Os textos estão em inglês médio; "Yvain and Gawain" é uma obra em inglês médio baseada quase exclusivamente no "Yvain" de Chrétien DeTroyes.
Malory, Sir Thomas: "Le Morte D'Arthur" (Ed: Janet Cowen; Penguin Classics, Londres, 1969).
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INTRODUÇÃO
Chrétien de Troyes teve a peculiar sorte de se tornar o mais conhecido dos poetas franceses antigos para os estudantes de literatura medieval, e de permanecer praticamente desconhecido para qualquer outra pessoa. O conhecimento dos estudantes sobre a obra de Chrétien foi possibilitado em círculos acadêmicos pelas admiráveis edições críticas de seus romances, empreendidas e levadas a cabo durante os últimos trinta anos pelo Professor Wendelin Foerster, de Bonn. Ao mesmo tempo, a falta de familiaridade do público com a obra de Chrétien deve-se à quase total ausência de traduções de seus romances para as línguas modernas. O homem que, até onde sabemos, primeiro narrou as aventuras românticas dos cavaleiros de Arthur — Gawain, Yvain, Erec, Lancelot e Perceval — foi esquecido, enquanto a posteridade foi mais gentil com seus devedores: Wolfram von Eschenbach, Malory, Lord Tennyson e Richard Wagner. O presente volume nasceu do desejo de apresentar estes romances de aventura ao leitor de língua inglesa numa versão em prosa baseada diretamente na forma mais antiga em que existem.
Tão extravagantes foram as reivindicações feitas em alguns círculos sobre a arte de Chrétien que se sente desinclinação até mesmo de ecoá-las aqui. O leitor moderno pode formar seu próprio juízo sobre a arte do poeta, e esse juízo provavelmente não será elevado. Monotonia, falta de proporção, vãs repetições, motivação insuficiente, sutilezas cansativas e uma indelicadeza ameaçada, se não real, estão entre os defeitos mais salientes que deterão e, talvez, confundirão o leitor não familiarizado com o ofício literário medieval. Nenhum serviço maior pode ser prestado por um editor em tal caso do que preparar o leitor para ignorar essas falhas comuns e apresentar-lhe a importância literária deste poeta do século XII.
Chrétien de Troyes escreveu em Champagne durante o terceiro quarto do século XII. De sua vida não conhecemos nem o início nem o fim, mas sabemos que entre 1160 e 1172 ele viveu, talvez como arauto (segundo Gaston Paris, com base em "Lancelot" 5591-94), em Troyes, onde ficava a corte de sua patrona, a Condessa Marie de Champagne. Ela era filha de Luís VII e daquela famosa Leonor da Aquitânia, como é chamada nas histórias inglesas, que, vinda do sul da França em 1137, primeiro para Paris e mais tarde para a Inglaterra, pode ter tido alguma participação na introdução daqueles ideais de cortesia e serviço às damas que logo se tornariam o culto da sociedade europeia. A Condessa Marie, possuindo os gostos e dotes de sua mãe real, fez de sua corte uma estação de experimento social, onde estes ideais provençais de uma sociedade perfeita foram plantados novamente em solo receptivo. Parece, pelo testemunho contemporâneo, que a autoridade desta célebre dama feudal era pesada e amplamente sentida. A antiga cidade de Troyes, onde ela mantinha sua corte, deve ser colocada em destaque em qualquer mapa da história literária. Pois foi lá que Chrétien foi levado a escrever quatro romances que, juntos, formam a mais completa expressão que possuímos de um único autor sobre os ideais da cavalaria francesa. Estes romances, escritos em dísticos rimados de oito sílabas, tratam respectivamente de Erec e Enide, Cligés, Yvain e Lancelot. Outro poema, "Perceval le Gallois", foi composto por volta de 1175 para Filipe, Conde de Flandres, a quem Chrétien esteve ligado durante seus últimos anos. Este último poema não está incluído na presente tradução devido à sua extraordinária extensão de 32.000 versos, porque Chrétien escreveu apenas os primeiros 9.000 versos, e porque a Srta. Jessie L. Weston nos deu uma versão inglesa do bem conhecido "Parzival" de Wolfram, que conta substancialmente a mesma história, embora com um espírito diferente. Ter incluído este poema, do qual ele escreveu menos de um terço, nas obras de Chrétien teria sido injusto para com ele. É verdade que o romance de "Lancelot" não foi completado por Chrétien, como nos é dito, mas o poema é dele em tal medida que seria excessivamente escrupuloso não chamá-lo de seu. Os outros três poemas mencionados são inteiramente seus. Além disso, são geralmente atribuídos ao poeta dois poemas líricos insignificantes, o piedoso romance de "Guillaume d'Angleterre" e a elaboração de um episódio das "Metamorfoses" de Ovídio (vi., 426-674) chamado "Philomena" por seu editor recente (C. de Boer, Paris, 1909). Todos estes estão existentes e acessíveis. Mas como "Guillaume d'Angleterre" e "Philomena" não são universalmente atribuídos a Chrétien, e como não têm nada a ver com o material arturiano, parece razoável limitar o presente empreendimento a "Erec e Enide", "Cligés", "Yvain" e "Lancelot".
O Professor Foerster, baseando sua observação no melhor conhecimento que possuímos sobre um assunto obscuro, chamou "Erec e Enide" de o mais antigo romance arturiano existente. Não é possível contestar esta afirmação significativa, mas tornemo-la um pouco mais inteligível. A erudição mostrou que, desde o início da Idade Média, a tradição popular era abundante na Grã-Bretanha e na Bretanha. A existência destas tradições comuns aos povos bretões foi chamada à atenção do mundo literário por Guilherme de Malmesbury ("Gesta regum Anglorum") e Geoffrey de Monmouth ("Historia regum Britanniae") em suas histórias latinas por volta de 1125 e 1137, respectivamente, e pelo poeta anglo-normando Wace imediatamente depois. Os estudiosos travaram guerras sobre as teorias de transmissão do chamado material arturiano durante os séculos que decorreram entre o tempo da atividade do lendário chefe em 500 d.C. e seu surgimento como uma grande figura literária no século XII. Faltam documentos para a idade das trevas da tradição popular antes da Conquista Normanda, e os teóricos podem trabalhar conforme seu desejo. Mas Arthur e seus cavaleiros, como os vemos nos primeiros romances franceses, têm pouco em comum com seus protótipos celtas, como vagamente vislumbramos nas lendas irlandesas, galesas e bretãs. Chrétien pertencia a uma geração de poetas franceses que assumiu uma grande massa de folclore celta que compreendiam imperfeitamente, e fez dele o que, naturalmente, nunca havia sido antes: o veículo para transportar uma rica carga de costumes e ideais cavalheirescos. Como ideal de conduta social, o código da cavalaria nunca tocou as classes média e baixa, mas era a religião da aristocracia e do "honnête homme" do século XII. Nunca a literatura em qualquer época esteve tão próxima dos ideais de uma classe social. Tão verdadeiro é isso que é difícil determinar se as práticas sociais evocaram a literatura ou se, como no caso do romance pastoral do século XVII na França, é mais verdadeiro dizer que a literatura sugeriu à sociedade seus ideais. Seja como for, é apropriado observar que os romances franceses de aventura retratam a aristocracia da baixa Idade Média como ela gostaria de ser. Para as flagrantes inconsistências entre a realidade e o ideal, pode-se recorrer às crônicas do período. No entanto, até mesmo a história fala de muitos pecados feios repreendidos e muitos atos galantes realizados por causa dos ideais corteses da cavalaria. A dívida do nosso próprio código social para com esta literatura de cortesia e frequente sacrifício pessoal é perfeitamente manifesta.
Qual foi a fonte imediata e específica de Chrétien para seus romances é de profundo interesse para o estudante. Infelizmente, ele nos deixou em dúvida. Ele fala da maneira mais vaga sobre os materiais que usou. Não há evidências de que ele tivesse qualquer fonte celta escrita. Somos, portanto, lançados de volta a originais literários latinos ou franceses que estão perdidos, ou a conhecimentos continentais correntes que remontam a uma fonte celta. Este problema muito difícil ainda não foi resolvido no caso de Chrétien, assim como no caso do anglo-normando Beroul, que escreveu sobre Tristan por volta de 1150. O material estava evidentemente à mão e Chrétien apropriou-se dele, sem muita compreensão de seu espírito primitivo, mas apreciando-o como um cenário para a sociedade ideal sonhada, mas não realizada, em seus próprios dias. Acrescente a esta perspicácia literária uma boa base na fábula clássica, um pouco de doutrina eclesiástica, uma notável facilidade de frase, figura e rima, e temos os fundamentos para a arte de Chrétien, como a encontraremos em um exame mais detalhado.
Um poeta narrativo francês do século XII tinha três categorias de temas de onde escolher: lendas conectadas com a história da França ("matière de France"), lendas conectadas com Arthur e outros heróis celtas ("matière de Bretagne") e histórias colhidas da história ou mitologia da Grécia e Roma, correntes em traduções latinas e francesas ("matière de Rome la grant"). Chrétien nos diz em "Cligés" que seus primeiros ensaios como poeta foram as traduções para o francês de certas partes das obras mais populares de Ovídio: as "Metamorfoses", a "Ars Amatoria" e talvez a "Remedia Amoris". Mas ele parece ter escolhido cedo como seu campo especial as histórias de origem celta que tratam de Arthur, da Távola Redonda e de outras características do folclore celta. Ele não estava apenas atento ao interesse literário deste material quando racionalizado para satisfazer o gosto dos leitores franceses; é ainda seu o crédito de ter dado a um folclore um tanto rudimentar aquele polimento e elegância que é peculiarmente francês, e que está inseparavelmente associado às lendas arturianas em toda a literatura moderna. Embora Beroul, e talvez outros poetas, tivessem baseado anteriormente poemas românticos sobre heróis celtas individuais como Tristan, no entanto, a Chrétien, até onde podemos ver, deve-se a honra considerável de ter constituído a corte de Arthur como um centro literário e ponto de encontro para uma companhia inumerável de cavaleiros e damas engajados em uma série interminável de aventuras amorosas e buscas perigosas. Em vez de atribuir incondicionalmente a Chrétien esta importante convenção literária, deve-se ter em mente que todos os seus poemas implicam familiaridade por parte de seus leitores com os heróis da corte de que ele fala. Supor-se-ia que outras histórias, contadas antes de suas versões, eram correntes. Alguns críticos iriam ao ponto de sustentar que Chrétien veio perto do fim, em vez do início, de uma escola de escritores franceses de romances arturianos. Mas, se assim for, não possuímos estas versões anteriores e, na falta de rivais, Chrétien pode ser aclamado como um inovador nas escolas de poesia correntes.
E agora consideremos as falhas que um leitor moderno não demorará a detectar no estilo de Chrétien. A maioria de suas falhas salientes é comum a toda a literatura narrativa medieval. Elas podem ser atribuídas ao extraordinário lazer da classe para a qual foi composta — uma classe que estava sempre pronta para ler uma história antiga contada novamente e que tolerava qualquer descrição, por mais detalhada que fosse. Os passatempos desta classe de leitores eram justas, caçadas e fazer amor. Daí a preponderância destes assuntos na literatura de suas horas de lazer. Nenhum detalhe da justa ou da caçada era desconhecido ou indesejado para estes leitores; nenhuns argumentos sutis sobre a arte de amar eram abstrusos demais para deleitar uma geração imersa na casuística amorosa e em alegorias. E se algumas cenas nos parecem indelicadas, ainda assim, após comparação com outros autores de seu tempo, Chrétien deve ser absolvido com uma sentença leve. É certo que ele pretendia evitar o que era indecente, como faziam os escritores de poesia narrativa em geral. Para apreciar plenamente o tratamento casto de Chrétien, deve-se conhecer outras formas de literatura medieval, como os fabliaux, farsas e peças de moralidade, nas quais a cortesia não impunha restrições. Pela falta de senso de proporção do nosso poeta e por seu descuido na motivação adequada de muitos episódios, nenhuma desculpa pode ser feita. Ele nem sempre é culpado; alguns episódios denotam maestria poética. Mas um poeta familiarizado, como ele era, com alguma poesia latina de primeira classe, e que havia feito de sua arte um negócio, deveria ter tratado seu material com mais inteligência, mesmo no século XII. A ênfase nem sempre é colocada com discernimento, nem seu fio é sempre mantido livre de nós ao ser fiado.
Foi feita referência ao uso de Chrétien de suas fontes. A tendência de alguns críticos tem sido minimizar a originalidade do poeta francês apontando analogias marcantes na fábula clássica e celta. A atenção foi especialmente dirigida para a defesa da fonte e o serviço de uma amante fada em "Yvain", para o cativeiro dos súditos de Arthur no reino de Gorre, como narrado em "Lancelot", lembrando-nos tão insistentemente do tratamento do reino da Morte, do qual algum deus ou herói finalmente liberta aqueles que estão em cativeiro, e para a morte fingida de Fenice em "Cligés", com suas muitas variantes. Estes episódios são apenas exemplos de paralelos que ocorrerão ao leitor atento. O ponto difícil de determinar, ao falar de concepções tão difundidas na literatura clássica e medieval, é a fonte imediata de onde estas concepções chegaram a Chrétien. A lista de obras de referência anexada a este volume permitirá ao estudante aprofundar-se nesta questão muito debatida, e nos permitirá dispensar um exame dos argumentos neste lugar. No entanto, paralelos tão convincentes para muitos dos episódios de fadas e românticos de Chrétien foram aduzidos por estudiosos da lenda irlandesa e galesa que não se pode deixar de ficar impressionado com o fato de que Chrétien estava em contato, seja por tradição oral ou literária, com as populações da Grã-Bretanha e da Bretanha, e que temos aqui sua inspiração mais imediata. O Professor Foerster, opondo-se firmemente à chamada teoria anglo-normanda, que supõe a existência de romances anglo-normandos perdidos em francês como fontes de Chrétien de Troyes, está, no entanto, muito dentro da verdade quando insiste no que é, no que nos diz respeito, a originalidade essencial do poeta francês. O leitor em geral hoje se importará tão pouco quanto o leitor do século XII sobre como o poeta encontrou os motivos e episódios de suas histórias, se ele os tomou emprestados ou os inventou ele mesmo. Qualquer poeta deve ser julgado não como um "descobridor", mas como um "usuário" do estoque comum de ideias. O estudo das fontes da poesia medieval, que está sendo tão obstinadamente levado a cabo pelos estudiosos, pode muito bem lançar luz sobre as correntes principais da tradição literária, mas não lança nenhuma reflexão, favorável ou não, sobre a arte pessoal do poeta ao lidar com seu material. Nesse quesito, ele pode defender sua própria causa diante do júri.
A originalidade de Chrétien, então, consiste em seu retrato do ideal social da aristocracia francesa no século XII. Até onde sabemos, ele foi o primeiro a criar nas línguas vulgares uma vasta corte, onde homens e mulheres viviam em conformidade com as regras da cortesia, onde a verdade era dita, onde a generosidade era de mão aberta, onde os fracos e os inocentes eram protegidos por homens que se dedicavam ao culto da honra e à busca de uma reputação imaculada. Honra e amor combinavam-se para atrair a atenção desta sociedade; estas eram sua religião em um sentido muito mais real do que a da Igreja. A perfeição era alcançável sob este código de ética: Gawain, por exemplo, era um cavaleiro perfeito. Embora os ideais desta corte e os do cristianismo estejam de acordo em muitos pontos, o amor cortês e a moralidade cristã são irreconciliáveis. Este material arturiano, como usado por Chrétien, é fundamentalmente imoral, se julgado pelos padrões cristãos. Sem dúvida, os poetas e o público sabiam que este era o caso, e nisso residia seu charme para uma sociedade na qual as relações reais entre os sexos eram rigidamente prescritas pela Igreja e pela prática feudal, em vez de pelos sentimentos dos indivíduos envolvidos. O amor apaixonado de Tristan por Iseut, de Lancelot por Guinevere, de Cligés por Fenice, fascina a sociedade cristã convencional do século XII e do século XX igualmente, mas só existe um nome entre os homens para tais relações como as deles, e nem a retidão nem a razão seguem esse caminho. Mesmo Tennyson, apesar de tudo o que fez para espiritualizar este material, foi compelido a retratar a inevitável dissolução e ruína da corte de Arthur. Chrétien conhecia bem a diferença entre o certo e o errado, entre a razão e a paixão, como o leitor de "Cligés" pode aprender por si mesmo. Fenice não era Iseut, e ela não queria que seu Cligés fosse um Tristan. Infidelidade, se quiserem, mas não "ménage à trois". Tanto "Erec" quanto "Yvain" apresentam uma moralidade convencional. Mas "Lancelot" é flagrantemente imoral, e o poeta tem o cuidado de declarar que por este romance em particular ele está em dívida com sua patrona Marie de Champagne. Ele diz que foi ela quem lhe forneceu tanto a "matière" quanto o "san", o material da história e seu método de tratamento.
Os estudiosos têm procurado fixar a cronologia das obras do poeta e têm sido tentados a especular sobre a evolução das suas ideias literárias e morais. A cronologia do Professor Foerster é geralmente aceite, e há pouca probabilidade de ele estar errado ao supor que o trabalho de Chrétien foi realizado da seguinte forma: o perdido "Tristan" (cuja existência é negada por Gaston Paris no "Journal des Savants", 1902, pp. 297 segs.), "Erec e Enide", "Cligés", "Lancelot", "Yvain", "Perceval". Os argumentos para esta cronologia, baseados tanto na crítica externa quanto na interna, podem ser encontrados nas Introduções das edições recentes do Professor Foerster. Quando especulamos sobre o desenvolvimento das ideias morais de Chrétien, não estamos em terreno tão seguro. Como vimos, os seus padrões variam amplamente nos diferentes romances. Quanto desta variação se deve a circunstâncias casuais impostas pela natureza do seu tema ou pelo gosto do seu público, e quanto se deve a convicções em mudança, é fácil ver, ao considerarmos algum romancista contemporâneo, quão perigoso é julgar as convicções morais refletidas numa obra literária. "Lancelot" deve ser a pedra angular de qualquer teoria construída acerca da evolução moral de Chrétien. A seguinte suposição é sustentável, se a cronologia de Foerster estiver correta. Após as obras da sua juventude, consistindo em poemas líricos e traduções que incorporavam os ideais de Ovídio e da escola de poetas trovadores contemporâneos, Chrétien retomou o material arturiano e iniciou um novo curso. "Erec" é o romance arturiano mais antigo que sobreviveu em qualquer língua, mas quase certamente não é o primeiro a ter sido escrito. É uma história perfeitamente limpa: de amor, afastamento e reconciliação nas pessoas de Erec e da sua encantadora amada Enide. A análise psicológica dos motivos de Erec no rude teste a Enide é digna de atenção, e é mais subtil do que qualquer coisa anterior na literatura francesa com a qual estamos familiarizados. O poema é um romance episódico na biografia de um herói arturiano, com a quantidade habitual de espaço dedicada às suas aventuras. "Cligés" aparentemente liga um conto bizantino de origem duvidosa, de uma forma arbitrária, à corte de Arthur. Pensa-se que a história incorpora o mesmo motivo do conto generalizado do engano praticado sobre Salomão pela sua esposa, e que a fonte de Chrétien, como ele próprio alega, foi literária (cf. Gaston Paris no "Journal des Savants", 1902, pp. 641-655). A cena onde Fenice finge a morte para se juntar ao seu amante é um paralelo de muitas outras na história literária e, claro, sugerirá a situação em Romeu e Julieta. Este romance ilustra bem o poder de atração da corte de Arthur como centro literário e o seu uso como ponto de encontro para cavaleiros corteses de qualquer extração. O poema foi denominado um "Anti-Tristan", por causa da sua referência depreciativa ao amor de Tristan e Iseut, o que, supõe-se geralmente, tinha sido narrado por Chrétien nos seus primeiros anos. A seguir pode vir "Lancelot", com a sua significativa dedicação à Condessa de Champagne. De toda a obra do poeta, este conto do resgate de Guinevere pelo seu amante parece expressar mais estreitamente os ideais da corte de Marie — ideais nos quais a devoção e a cortesia apenas disfarçam fracamente o amor livre. "Yvain" é um regresso à inclinação natural do poeta, num romance episódico, enquanto "Perceval" coroa a sua produção com a sua nota pura e exaltada, embora sem um toque daquele misticismo religioso que mais tarde marcou o "Parzival" de Wolfram von Eschenbach. "Guillaume d'Angleterre" é um romance pseudo-histórico de aventura no qual as aflições mundanas e a recompensa final da piedade são convencionalmente expostas. É desprovido de inspiração, o seu lugar é difícil de determinar e a sua autoria é questionada por alguns. Está à parte do material arturiano, e não há pista sobre o seu lugar na evolução da arte de Chrétien, se é que é realmente uma obra sua.
Algumas palavras devem ser dedicadas ao lugar de Chrétien na história da poesia narrativa medieval. As canções épicas heroicas da França, dedicadas quer ao conflito da Cristandade sob a liderança da França contra os sarracenos, quer à contenda e rivalidade dos vassalos franceses entre si, tinham sido correntes talvez um século antes de o nosso poeta começar a escrever. Estes poemas épicos, dos quais sobreviveram cerca de três dezenas, retratam uma sociedade feudal guerreira, viril e não sentimental, cuja principal ocupação era lutar e cujos ideais dominantes eram a fé em Deus, a lealdade aos laços familiares feudais e a bravura em batalha. O lugar da mulher é comparativamente obscuro, e pouco se diz sobre namoro. É uma poesia de varonilidade vigorosa, de moralidade intransigente e de golpes duros dados e recebidos por Deus, pela Cristandade e pelo Rei da França. Esta poesia é escrita em versos de dez ou doze sílabas agrupados, a princípio em "tirades" assonantes e, mais tarde, rimadas, de comprimento desigual. Destinava-se a uma sociedade que ainda era homogénea e, para ela, no início, sem dúvida, todas as classes da população ouviam com igual interesse. Como poesia, é monótona, sem sentido de proporção, preenchida para facilitar a memorização por recitadores profissionais e não adornada por figura, fantasia ou imaginação. A sua pretensão à precisão histórica gerava a prosaísmo na sua abordagem ao estilo das crónicas. Mas a sua inspiração era nobre, a sua conceção dos deveres humanos era elevada. Dá um retrato realista da época que a produziu, a era das primeiras cruzadas, e até hoje escolheríamos como os nossos modelos de cidadania Roland e Oliver, em vez de Tristan e Lancelot. Os poemas épicos, lidando com as personagens pseudo-históricas que tinham lutado em guerras civis e estrangeiras sob Carlos Magno, permaneceram o alimento literário favorito das classes médias até ao fim do século XIII. O Professor Bedier está atualmente empenhado em explicar o extraordinário domínio que estes poemas tinham sobre o público e em provar que exerciam uma função distinta quando explorados pela Igreja ao longo do período das cruzadas para celebrar santuários locais e promover o cristianismo muscular. Mas o refinamento que começou a penetrar nos ideais da aristocracia francesa por volta de meados do século XII ansiava por uma expressão diferente na literatura narrativa. A mitologia e a história gregas e romanas foram aproveitadas com algum efeito para satisfazer a nova procura. O "Roman de Thebes", o "Roman d'Alexandre", o "Roman de Troie" e a sua continuação lógica, o "Roman d'Eneas", são todos tentativas do século XII de vestir a lenda clássica com as roupas da cavalaria medieval. Mas mais apta para satisfazer a nova procura foi a descoberta pelos alertas anglo-normandos, talvez na Bretanha, talvez no Sul da Inglaterra, de um vasto corpo de material lendário que, até onde sabemos, nunca antes deste século tinha recebido qualquer tratamento literário elaborado. A existência da procura literária e esta descoberta do material para a sua pronta satisfação é uma das coincidências mais notáveis na história literária. Pareceria que o orgulho das populações celtas num herói celta, auxiliado e incitado por Geoffrey de Monmouth, que mostrou pela primeira vez as possibilidades românticas do material, fez do obscuro chefe britânico Arthur um conquistador mundial. Arthur tornou-se, assim, já na "Historia regum Britaniae" de Geoffrey, um protagonista consciente de Carlos Magno e o seu rival em popularidade. Esta conceção grandiosa de Arthur persistiu na Inglaterra, mas esta conceção do chefe britânico não interessou aos franceses. Para Chrétien, Arthur não tinha significado político. Ele é simplesmente o árbitro da sua corte em todos os assuntos de justiça e cortesia. O séquito muito realista de barões viris e ocupados de Carlos Magno é substituído por uma corte de elegantes cavaleiros e damas desocupadas. O cenário de Carlos Magno é histórico e geográfico; o cenário de Arthur é ideal e etéreo. Nos poemas épicos mais antigos encontramos apenas homens tementes a Deus e algumas mulheres discretas; nos romances arturianos encontramos cavalheiros e damas, mais elegantes e sedutores do que qualquer um nos poemas épicos, mas menos fortificados pela fé e pelo sentido de dever contra o vício por respirarem uma atmosfera enervante de lazer e decadência moral. Embora a Igreja tenha feito a tentativa em "Parzival", nunca pôde pôr as mãos tão eficazmente neste material celta, porque continha demasiados elementos que eram, na raiz e nos ramos, inconsistentes com os ensinamentos essenciais do Cristianismo. Uma comparação fugaz do fim nobre dos Pares de Carlos Magno lutando pelo seu Deus e pelo seu Rei em Ronceval com as carreiras fúteis e diletantes dos cavaleiros de Arthur em justas e caçadas mostrará melhor do que meras palavras onde reside a diferença.
O estudante da história dos ideais sociais e morais encontrará muito que o interesse nos romances de Chrétien. Referências medievais mostram que ele foi considerado pelos seus sucessores imediatos, como é considerado hoje quando visto imparcialmente, como um mestre da arte de contar histórias. Mais do que qualquer outro poeta narrativo individual, ele foi tomado como modelo tanto na França quanto no estrangeiro. O Professor F. M. Warren expôs em detalhe os pontos mais refinados na arte da poesia como praticada por Chrétien e pelos seus artesãos contemporâneos (ver "Some Features of Style in Early French Narrative Poetry, 1150-1170" em "Modern Philology", iii., 179-209; iii., 513-539; iv., 655-675). Poetas na sua própria terra referem-se a ele com reverência, e poetas estrangeiros elogiaram-no em alto grau através da tradução direta e do bordado sobre os temas que ele tinha tornado populares. Os cavaleiros tornados famosos por Chrétien cruzaram rapidamente as fronteiras e obtiveram direitos de cidadania em condados tão diversos quanto a Alemanha, Inglaterra, Escandinávia, Holanda, Itália e, em menor grau, na Espanha e Portugal. A tendência inevitável dos séculos XIV e XV de reduzir a poesia a prosa afetou o material arturiano; vastas compilações em prosa finalmente incorporaram na impressão a matéria anteriormente expressa em verso, e foi nesta forma que as histórias foram conhecidas pelas gerações posteriores até que o interesse renovado na Idade Média trouxe à luz os manuscritos em verso.
À parte certos episódios dos romances de Chrétien, o estudante interessar-se-á mais pelo tratamento do amor tal como nele retratado. Sobre este tópico podemos ouvir o homem do seu tempo a falar. "Cligés" contém o corpo da doutrina de amor de Chrétien, enquanto Lancelot é o seu amante mais perfeito. A sua dívida para com Ovídio ainda não foi indicada com suficiente precisão. Um código elaborado para governar o sentimento e a sua expressão foi desenvolvido independentemente pelos trovadores da Provença no início do século XII. Estes ideais provençais da vida cortês foram levados para o Norte da França, em parte como resultado de um casamento real em 1137 e da cruzada de 1147, e lá, por poetas como Chrétien, foram reunidos e fundidos com a doutrina ovidiana numa declaração altamente complicada, mas perfeitamente definida, das relações ideais entre os sexos. Em parte alguma nas línguas vulgares se pode encontrar uma declaração melhor destas relações do que em "Cligés".
Assim, deixamos Chrétien falar através dos tempos por si mesmo e pela sua geração. Ele deve ser lido como um contador de histórias mais do que como um poeta, como um casuísta mais do que como um filósofo. Mas quando todas as deduções são feitas, a sua importância como artista literário e como fundador de uma preciosa tradição literária distingue-o de todos os outros poetas das raças latinas entre o fim do Império e a chegada de Dante.
--W. W. COMFORT.
EREC ET ENIDE [11]
(Vv. 1-26.) O provérbio do rústico diz que muitas coisas são desprezadas quando valem muito mais do que se supõe. Portanto, faz bem quem aproveita ao máximo qualquer inteligência que possa possuir. Pois aquele que negligencia este cuidado pode provavelmente omitir algo que posteriormente daria grande prazer. Assim, Chrétien de Troyes sustenta que se deve sempre estudar e esforçar-se para falar bem e ensinar o correto; e ele deriva de uma história de aventura um argumento agradável pelo qual se pode provar e saber que não é sábio aquele que não faz uso liberal do seu conhecimento enquanto Deus lhe der graça. A história é sobre Erec, filho de Lac — uma história que aqueles que ganham a vida contando histórias estão acostumados a mutilar e estragar na presença de reis e condes. E agora começarei o conto que será lembrado enquanto a Cristandade durar. Este é o orgulho de Chrétien.
(Vv. 27-66.) Num Domingo de Páscoa, na Primavera, o Rei Arthur realizou a corte na sua cidade de Cardigan. Nunca se viu corte tão rica; pois ali estava muito bom cavaleiro, hardy, ousado e valente, e ricas damas e donzelas, gentis e belas filhas de reis. Mas antes que a corte fosse dissolvida, o Rei disse aos seus cavaleiros que desejava caçar o Veado Branco [12], a fim de observar dignamente o antigo costume. Quando o meu senhor Gawain ouviu isto, ficou muito desgostoso e disse: "Senhor, não obtereis agradecimentos nem boa vontade desta caçada. Todos sabemos há muito tempo qual é este costume do Veado Branco: quem conseguir matar o Veado Branco deve, na verdade, beijar a donzela mais bela da vossa corte, aconteça o que acontecer. Mas disto poderia vir grande mal, pois há aqui quinhentas donzelas de alto nascimento, gentis e prudentes filhas de reis, e não há nenhuma delas que não tenha um cavaleiro ousado e valente como seu amante, que estaria pronto a contender, quer com razão ou sem ela, que aquela que é a sua dama é a mais bela e gentil de todas". O Rei responde: "Isso sei eu bem; contudo não desistirei por causa disso; pois a palavra de um rei nunca deve ser contradita. Amanhã de manhã iremos todos alegremente caçar o Veado Branco na floresta da aventura. E muito deliciosa será esta caçada".
(Vv. 67-114.) E assim o assunto é arranjado para a manhã seguinte, ao romper do dia. No dia seguinte, assim que é dia, o Rei levanta-se e veste-se, e coloca um casaco curto para o seu passeio na floresta. Ele ordena que os cavaleiros sejam despertados e que os cavalos sejam preparados. Já estão a cavalo e partem, com arcos e flechas. Atrás deles, a Rainha monta o seu cavalo, levando uma donzela consigo. Era uma donzela, filha de um rei, e montava um palfrey branco. Atrás deles seguiu rapidamente um cavaleiro, chamado Erec, que pertencia à Távola Redonda e tinha grande fama na corte [13]. De todos os cavaleiros que alguma vez ali estiveram, nunca um recebeu tal louvor; e ele era tão belo que em parte alguma do mundo seria preciso procurar um cavaleiro mais belo do que ele. Era muito belo, valente e cortês, embora ainda não tivesse vinte e cinco anos de idade. Nunca houve um homem da sua idade de maior cavalaria. E que direi das suas virtudes? Montado no seu cavalo, e vestido com um manto de arminho, ele veio a galope pela estrada, usando um casaco de esplêndida seda florida que fora feito em Constantinopla. Tinha colocado calças de brocado, bem feitas e cortadas, e quando as suas esporas de ouro estavam bem presas, sentava-se com segurança nos estribos. Não carregava consigo outra arma senão a sua espada. Enquanto galopava, na esquina de uma rua, aproximou-se da Rainha e disse: "Minha senhora, se vos aprouver, eu gostaria de vos acompanhar ao longo desta estrada, pois não vim com outro propósito senão fazer-vos companhia". E a Rainha agradece-lhe: "Belo amigo, gosto muito da vossa companhia, na verdade; pois melhor não poderia ter".
(Vv. 115-124.) Então eles cavalgam a toda a velocidade até chegarem à floresta, onde o grupo que tinha ido antes deles já tinha iniciado o veado. Alguns tocam as trompas e outros gritam; os cães de caça mergulham em frente atrás do veado, correndo, atacando e ladrando; os arqueiros disparam com força. E diante de todos cavalgava o Rei num caçador espanhol.
(Vv. 125-154.) A Rainha Guinevere estava na floresta à escuta dos cães; ao lado dela estavam Erec e a donzela, que era muito cortês e bela. Mas aqueles que tinham perseguido o veado estavam tão longe deles que, por mais atentamente que pudessem escutar para captar o som da trompa ou o ladrar do cão, já não podiam ouvir nem cavalo, nem caçador, nem cão. Então, todos os três refrearam o passo numa clareira ao lado da estrada. Estavam ali há pouco tempo quando viram um cavaleiro armado, sozinho no seu corcel, com o escudo pendurado ao pescoço e a lança na mão. A Rainha avistou-o à distância. Pelo seu lado direito cavalgava uma donzela de porte nobre e, diante deles, num cavalo de aluguer, vinha um anão carregando na mão um açoite atado. Quando a Rainha Guinevere viu o belo e gracioso cavaleiro, desejou saber quem eram ele e a sua donzela. Então ordenou à sua donzela que fosse rapidamente falar com ele.
"Donzela", diz a Rainha, "vai e ordena àquele cavaleiro que venha ter comigo e traga a sua donzela consigo." A donzela segue a trote diretamente em direção ao cavaleiro. Mas o anão mal-intencionado lança-se ao seu encontro com o seu açoite na mão, gritando: "Para, donzela, o que queres aqui? Não hás de avançar mais." "Anão", diz ela, "deixa-me passar. Desejo falar com aquele cavaleiro; pois a Rainha envia-me aqui." O anão, que era rude e vil, postou-se no meio do caminho e disse: "Não tens aqui nada a fazer. Volta atrás. Não é conveniente que fales com um cavaleiro tão excelente." A donzela avançou e tentou passar por ele à força, tendo o anão em pouca conta quando viu que ele era tão pequeno. Então o anão levantou o seu chicote ao vê-la vir na sua direção e tentou atingi-la no rosto. Ela levantou o braço para se proteger, mas ele ergueu a mão novamente e atingiu-a, sem qualquer proteção, na sua mão nua: e tão forte foi o golpe que lhe deu nas costas da mão que esta ficou toda negra e azulada. Quando a donzela nada mais pôde fazer, contra a sua vontade, teve de regressar. Assim, chorando, voltou para trás. As lágrimas vieram-lhe aos olhos e correram pelas faces. Quando a Rainha vê a sua donzela ferida, fica profundamente pesarosa e irritada e não sabe o que fazer. "Ah, Erec, belo amigo", diz ela, "sinto grande mágoa pela minha donzela, a quem aquele anão feriu. O cavaleiro deve ser, na verdade, muito descortês para permitir que tal monstro golpeie uma criatura tão bela. Erec, belo amigo, vai ter com o cavaleiro e ordena-lhe que venha ter comigo sem demora. Desejo conhecê-lo e à sua dama." Erec parte para lá, esporeando o seu corcel, e cavalga diretamente em direção ao cavaleiro. O ignóbil anão vê-o a aproximar-se e vai ao seu encontro. "Vassalo", diz ele, "recua! Pois não sei que negócios tens aqui. Aconselho-te a retirar-te." "Afasta-te", diz Erec, "anão provocador! Tu és vil e importuno. Deixa-me passar." "Não passarás." "Passarei." "Não passarás." Erec afasta o anão com um empurrão. O anão não tinha igual em vilania: deu-lhe uma grande chicotada bem no pescoço, de modo que o pescoço e o rosto de Erec ficaram marcados com o golpe do açoite; de cima a baixo aparecem as linhas que as tiras lhe levantaram. Ele sabia bem que não poderia ter a satisfação de golpear o anão; pois viu que o cavaleiro estava armado, era arrogante e de má intenção, e temia que ele o matasse rapidamente, caso golpeasse o anão na sua presença. A imprudência não é coragem. Assim, Erec agiu sabiamente ao retirar-se sem mais demoras. "Minha senhora", diz ele, "agora as coisas estão piores; pois o vil anão feriu-me de tal modo que me cortou gravemente o rosto. Não me atrevi a golpeá-lo ou a tocá-lo; mas ninguém me deve censurar, pois estava completamente desarmado. Desconfiei do cavaleiro armado, que, sendo um sujeito feio e violento, não o tomaria como uma brincadeira e matar-me-ia prontamente no seu orgulho. Mas prometo-vos isto: que, se puder, ainda hei de vingar a minha desonra, ou aumentá-la. Mas as minhas armas estão demasiado longe para me valerem neste momento de necessidade; pois em Cardigan as deixei esta manhã quando parti. E se fosse lá buscá-las, porventura nunca mais encontraria o cavaleiro que cavalga a passo apressado. Por isso, devo segui-lo imediatamente, longe ou perto, até encontrar algumas armas para alugar ou pedir emprestado. Se encontrar alguém que me empreste armas, o cavaleiro encontrar-me-á rapidamente pronto para a batalha. E podeis ter a certeza, sem falta, que nós os dois lutaremos até que ele me derrote, ou eu a ele. E, se possível, estarei de volta no terceiro dia, quando me vereis de novo em casa, alegre ou triste, não sei qual. Senhora, não posso demorar-me mais, pois devo seguir o cavaleiro. Vou-me. A Deus vos encomendo." E a Rainha, da mesma maneira, mais de quinhentas vezes encomenda-o a Deus, para que Ele o defenda de qualquer mal.
Erec deixa a Rainha e não cessa de perseguir o cavaleiro. A Rainha permanece na floresta, onde o Rei tinha acabado de chegar com o Cervo. O Rei, ele próprio, ultrapassou os outros no momento da morte do animal. Assim, mataram e tomaram o Cervo Branco, e todos regressaram, transportando o Cervo, até chegarem novamente a Cardigan. Após a ceia, quando os cavaleiros estavam todos em espírito elevado por todo o salão, o Rei, como era costume, por ter caçado o Cervo, disse que concederia o beijo e assim observaria o costume do Cervo. Por toda a corte ouve-se um grande murmúrio: cada um jura e garante ao seu vizinho que isso não será feito sem o protesto da espada ou da lança de freixo. Cada um deseja galantemente sustentar que a sua dama é a mais bela do salão. A conversa deles não augura nada de bom, e quando o meu senhor Gawain a ouviu, ficai a saber que não foi do seu agrado. Assim dirigiu-se ao Rei: "Senhor", diz ele, "os vossos cavaleiros aqui estão muito exaltados, e toda a sua conversa é sobre este beijo. Dizem que nunca será concedido sem perturbação e luta." E o Rei, sabiamente, respondeu-lhe: "Belo sobrinho Gawain, dá-me agora conselho, preservando a minha honra e a minha dignidade, pois não tenho desejo de qualquer perturbação."
Ao concílio veio uma grande parte dos melhores cavaleiros da corte. O Rei Yder chegou, que foi o primeiro a ser convocado, e depois dele o Rei Cadoalant, que era muito sábio e audaz. Kay e Girflet também vieram, e o Rei Amauguin lá estava, e um grande número de outros cavaleiros lá estavam com eles. A discussão estava em curso quando a Rainha chegou e lhes contou a aventura que encontrara na floresta, a respeito do cavaleiro armado que vira, e do pequeno anão malicioso que atingira a sua donzela na mão nua com o seu chicote, e que também atingira Erec, da mesma forma, com um golpe feio no rosto; mas que Erec seguira o cavaleiro para obter vingança, ou aumentar a sua vergonha, e como ele dissera que, se possível, estaria de volta no terceiro dia. "Senhor", diz a Rainha ao Rei, "ouvi-me por um momento. Se estes cavaleiros aprovarem o que digo, adiai este beijo até ao terceiro dia, quando Erec estiver de volta." Não há ninguém que não concorde com ela, e o próprio Rei aprova as suas palavras.
Erec segue constantemente o cavaleiro que estava armado e o anão que o atingira até chegarem a uma cidade bem situada, forte e bela. Entram diretamente pelo portão. Dentro da cidade havia grande alegria de cavaleiros e damas, dos quais havia muitos e belos. Alguns alimentavam nas ruas os seus gaviões e falcões em muda; outros davam ares aos seus terceis, às suas aves em cativeiro e aos jovens falcões amarelos; outros jogavam aos dados ou a outro jogo de azar, alguns ao xadrez e outros às damas. Os cavalariços, em frente às estrebarias, escovam e limpam os cavalos. As damas adornam-se nos seus aposentos. Assim que veem o cavaleiro a chegar, que reconheceram com o seu anão e donzela, saem de três em três ao seu encontro. Ao cavaleiro, todas saúdam e cumprimentam, mas não prestam atenção a Erec, pois não o conheciam. Erec segue de perto o cavaleiro através da cidade, até vê-lo alojado. Depois, muito alegre, passou um pouco mais adiante até ver, reclinado sobre uns degraus, um vavasor já de idade avançada. Era um homem de boa aparência, com madeixas brancas, debonair, agradável e franco. Ali estava ele sentado, todo sozinho, parecendo estar absorto em pensamentos. Erec tomou-o por um homem honrado que lhe daria logo alojamento. Quando ele virou pelo portão para o pátio, o vavasor correu ao seu encontro e saudou-o antes que Erec tivesse dito uma palavra. "Belo senhor", diz ele, "seja bem-vindo. Se quiser dignar-se a hospedar-se comigo, aqui está a minha casa toda pronta para si." Erec responde: "Obrigado! Pois com nenhum outro propósito vim; preciso de um lugar de alojamento esta noite."
Erec desmonta do seu cavalo, que o próprio anfitrião leva pela rédea, e presta grande honra ao seu hóspede. O vavasor chama a sua esposa e a sua bela filha, que estavam ocupadas numa sala de trabalho — fazendo não sei o quê. A dama saiu com a sua filha, que estava vestida com uma túnica branca e macia, com saias largas caindo frouxas em dobras. Por cima, usava uma peça de linho branco, que completava o seu traje. E esta peça era tão antiga que estava cheia de buracos pelos lados. Pobre, na verdade, era o seu vestuário por fora, mas por dentro o seu corpo era belo.
A donzela era encantadora, na verdade, pois a Natureza tinha usado toda a sua perícia ao formá-la. A Natureza, ela própria, maravilhou-se mais de quinhentas vezes como, nesta única ocasião, conseguira criar uma coisa tão perfeita. Nunca mais poderia ela esforçar-se com tanto sucesso para reproduzir o seu padrão. A Natureza dá testemunho a seu respeito de que jamais se viu criatura tão bela em todo o mundo. Em verdade vos digo que nunca Iseut, a Bela, teve madeixas douradas tão radiantes que pudessem ser comparadas com esta donzela. A tez da sua testa e rosto era mais clara e delicada do que o lírio. Mas com uma arte maravilhosa, o seu rosto, com toda a sua palidez delicada, estava inundado por um carmesim fresco que a Natureza lhe tinha concedido. Os seus olhos eram tão brilhantes que pareciam duas estrelas. Deus nunca formou nariz, boca e olhos melhores. Que direi da sua beleza? Em verdade, ela foi feita para ser olhada; pois nela poder-se-ia ver a si mesmo como num espelho. Assim, ela saiu da sala de trabalho: e quando viu o cavaleiro, a quem nunca tinha visto antes, recuou um pouco, porque não o conhecia, e, na sua modéstia, corou. Erec, por sua vez, ficou maravilhado ao contemplar tal beleza nela, e o vavasor disse-lhe: "Bela filha querida, leva este cavalo e conduz-no para a estrebaria juntamente com os meus próprios cavalos. Vê que não lhe falte nada: tira-lhe a sela e a rédea, dá-lhe aveia e feno, trata dele e escova-o, para que esteja em boa forma."
A donzela leva o cavalo, desata a peitoral e tira-lhe a rédea e a sela. Agora o cavalo está em boas mãos, pois ela trata dele excelentemente. Lança um cabresto sobre a sua cabeça, esfrega-o, escova-o e torna-o confortável. Depois, amarra-o à manjedoura e põe diante dele fartura de feno fresco e doce e aveia. Depois, voltou para o seu pai, que lhe disse: "Bela filha querida, leva agora este cavalheiro pela mão e presta-lhe toda a honra. Leva-o pela mão para o andar de cima." A donzela não se demorou (pois nela não havia falta de cortesia) e levou-o pela mão para cima. A dama tinha ido à frente e preparado a casa. Tinha colocado almofadas bordadas e colchas sobre os sofás, onde todos os três se sentaram: Erec com o seu anfitrião ao lado, e a donzela em frente. Diante deles, o fogo arde intensamente. O vavasor tinha apenas um servo, e nenhuma criada para o trabalho de câmara ou cozinha. Este único homem estava ocupado na cozinha a preparar carne e aves para a ceia. Era um cozinheiro habilidoso, que sabia como preparar farinha em água a ferver e aves no espeto. Quando teve a refeição preparada de acordo com as ordens que lhe tinham sido dadas, trouxe-lhes água para lavar em duas bacias. A mesa foi logo posta, panos, pão e vinho foram servidos, e sentaram-se para a ceia. Ficaram fartos de tudo o que precisavam. Quando terminaram e a mesa foi limpa, Erec dirigiu-se assim ao seu anfitrião, o dono da casa: "Dizei-me, belo anfitrião", perguntou ele, "porque é que a vossa filha, que é tão belíssima e inteligente, está tão pobre e inadequadamente vestida." "Belo amigo", responde o vavasor, "muitos homens são prejudicados pela pobreza, e assim mesmo sou eu. Sofro por vê-la tão mal vestida, e ainda assim não posso evitar, pois estive durante tanto tempo envolvido em guerras que perdi ou hipotequei ou vendi todas as minhas terras. E ainda assim ela estaria bem vestida se eu lhe permitisse aceitar tudo o que as pessoas desejam dar-lhe. O próprio senhor deste castelo tê-la-ia vestido de forma conveniente e ter-lhe-ia feito todo o género de favores, pois ela é sua sobrinha e ele é um conde. E não há nobre nesta região, por mais rico e poderoso que seja, que não a teria tomado voluntariamente por esposa se eu tivesse dado o meu consentimento. Mas estou ainda à espera de alguma ocasião melhor, quando Deus lhe conceder ainda maior honra, quando a fortuna trouxer aqui algum rei ou conde que a leve consigo, pois não há sob o Céu rei ou conde que se envergonhasse da minha filha, que é tão maravilhosamente bela que o seu par não pode ser encontrado. Bela, na verdade, ela é; mas ainda maior que a sua beleza é a sua inteligência. Deus nunca criou ninguém tão discreto e de coração tão aberto. Quando tenho a minha filha ao meu lado, não me importa uma ninharia todo o resto do mundo. Ela é o meu deleite e o meu passatempo, ela é a minha alegria e conforto, a minha riqueza e o meu tesouro, e não amo nada tanto como a sua própria e preciosa pessoa."
Quando Erec ouviu tudo o que o seu anfitrião lhe contou, pediu-lhe que o informasse de onde vinha toda a cavalaria que estava aquartelada na cidade. Pois não havia rua ou casa, por mais pobre e pequena, que não estivesse cheia de cavaleiros, damas e escudeiros. E o vavasor disse-lhe: "Belo amigo, estes são os nobres da região em redor; todos, jovens e velhos, vieram para uma festa que se realizará nesta cidade amanhã; por isso as casas estão tão cheias. Quando todos se tiverem reunido, haverá um grande movimento amanhã; pois, na presença de todo o povo, será colocado sobre um poleiro de prata um gavião de cinco ou seis mudas — o melhor que se possa imaginar. Quem desejar ganhar o gavião deve ter uma amante que seja bela, prudente e cortês. E se houver um cavaleiro tão audaz que deseje defender o valor e o nome da mais bela aos seus olhos, fará com que a sua amante se apresente e retire o gavião do poleiro, se ninguém ousar interpor-se. Este é o costume que observam, e por isso todos os anos se reúnem aqui." Então Erec fala e pergunta-lhe: "Belo anfitrião, que não vos desagrade, mas dizei-me, se souberdes, quem é um certo cavaleiro que traz armas de azul e ouro, que passou por aqui não há muito tempo, tendo bem perto de si uma donzela cortês, precedido por um anão corcunda." A ele o anfitrião respondeu então: "Esse é aquele que ganhará o gavião sem qualquer oposição dos outros cavaleiros. Não creio que alguém ofereça oposição; desta vez não haverá golpes ou feridas. Pois há dois anos que ele o ganha sem ser desafiado; e se o ganhar novamente este ano, terá obtido a posse permanente dele. Todos os anos seguintes poderá mantê-lo sem disputa ou desafio." Rapidamente Erec responde: "Não gosto desse cavaleiro. Pela minha palavra, se eu tivesse algumas armas, desafiá-lo-ia pelo gavião. Belo anfitrião, peço-vos como um favor que me aconselheis como posso ser equipado com armas, sejam elas velhas ou novas, pobres ou ricas, não importa." E ele responde-lhe generosamente: "Seria uma pena para si sentir preocupação quanto a isso! Tenho boas e finas armas que terei todo o gosto em emprestar-lhe. Em casa, tenho uma cota de malha de tripla trama, que foi selecionada entre quinhentas. E tenho umas belas e valiosas grevas, polidas, vistosas e leves. O elmo é brilhante e vistoso, e o escudo fresco e novo. Cavalo, espada e lança, tudo lhe emprestarei, naturalmente; por isso não se diga mais nada." "Obrigado, belo e gentil anfitrião! Mas não desejo melhor espada do que esta que trouxe comigo, nem outro cavalo que não o meu, pois consigo arranjar-me bem com ele. Se me emprestardes o resto, considerá-lo-ei um grande favor. Mas há mais um favor que desejo pedir-vos, pelo qual farei justa retribuição se Deus conceder que eu saia da batalha com honra." E francamente ele responde-lhe: "Pedi confiantemente o que quiserdes, seja o que for, pois nada do que é meu vos faltará." Então Erec disse que desejava defender o gavião em nome da sua filha; pois certamente não haverá donzela que seja centésima parte tão bela como ela. E se ele a levar consigo, terá boa e justa razão para manter e provar que ela tem o direito de levar o gavião. Depois acrescentou: "Senhor, não sabeis que hóspede abrigastes aqui, nem conheceis o meu estado e linhagem. Sou filho de um rei rico e poderoso: o nome do meu pai é Rei Lac, e os bretões chamam-me Erec. Pertenco à corte do Rei Arthur e estou com ele há já três anos. Não sei se alguma notícia do meu pai ou de mim chegou alguma vez a esta terra. Mas prometo-vos e juro que, se me armardes e me derdes a vossa filha amanhã quando eu lutar pelo gavião, levá-la-ei para o meu país, se Deus me conceder a vitória, e dar-lhe-ei uma coroa para usar, e ela será rainha de três cidades." "Ah, belo senhor! É verdade que sois Erec, o filho de Lac?" "É quem eu sou, na verdade", disse ele. Então o anfitrião ficou muito deleitado e disse: "Temos, na verdade, ouvido falar de vós nesta terra. Agora penso ainda mais em vós, pois sois muito valente e corajoso. Nada vos será recusado por mim. A vosso pedido, dou-vos a minha bela filha." Então, tomando-a pela mão, diz ele: "Aqui, eu entrego-lha." Erec recebeu-a alegremente, e agora tem tudo o que desejava. Agora estão todos felizes ali: o pai está muito deleitado, e a mãe chora de alegria. A donzela permaneceu quieta; mas estava muito feliz e contente por estar prometida a ele, porque ele era valente e cortês: e ela sabia que ele seria um dia rei, e ela receberia honra e seria coroada rainha rica.
Passara-se muito tempo desde que se recolheram naquela noite. Mas agora os leitos estavam preparados com lençóis brancos e almofadas macias, e quando a conversa esmoreceu, todos foram dormir com o espírito alegre. Erec dormiu pouco naquela noite, e na manhã seguinte, ao romper da alvorada, ele e seu anfitrião levantaram-se cedo. Ambos foram rezar à igreja e ouvir um eremita cantar a Missa do Espírito Santo, sem esquecer de fazer uma oferta. Quando ouviram a Missa, ambos ajoelharam-se diante do altar e depois retornaram à casa. Erec estava ansioso pela batalha; portanto, pede suas armas, as quais lhe são entregues. A própria donzela veste-o com as armas (embora não lance nenhum feitiço ou encanto), ata as grevas de ferro e prende-as com correias de pele de cervo. Ela coloca-lhe o hauberguim com suas malhas resistentes e ata-lhe o ventail. O elmo reluzente ela coloca sobre sua cabeça e, assim, arma-o bem, da ponta dos pés à cabeça. Ao seu lado, ela prende a espada e, em seguida, ordena que tragam seu cavalo, o que é feito. Ele saltou para cima, sem tocar o solo. A donzela então traz o escudo e a lança forte: ela entrega-lhe o escudo, e ele o toma e pendura-o ao pescoço pela correia. Ela coloca a lança em sua mão e, quando ele a segurou pela extremidade, dirigiu-se ao gentil vavasor: "Bom senhor", disse ele, "se vos aprouver, preparai vossa filha agora; pois desejo escoltá-la até o gavião, de acordo com nosso acordo." O vavasor, sem demora, mandou selar um palafrém baio. Nada se pode dizer sobre o arreio devido à terrível pobreza que afligia o vavasor. Sela e rédea foram colocadas, e a donzela montou livremente e em trajes leves, sem esperar para ser instada. Erec não quis mais delongas; partiu, pois, com a filha do anfitrião ao seu lado, seguido pelo cavalheiro e sua dama.
Erec cavalga com a lança ereta e com a donzela formosa ao seu lado. Todo o povo, grandes e pequenos, observa-os com olhos maravilhados enquanto passam pelas ruas. E assim perguntam uns aos outros: "Quem é aquele cavaleiro? Deve ser valoroso e bravo, de fato, para servir de escolta a esta bela donzela. Seus esforços serão bem empregados em provar que esta donzela é a mais bela de todas." Um homem diz ao outro: "Na verdade, ela deveria ter o gavião." Alguns louvavam a donzela, enquanto muitos diziam: "Deus! Quem poderá ser este cavaleiro, com a bela donzela ao seu lado?" "Não sei." "Nem eu." Assim dizia cada um. "Mas o seu elmo reluzente assenta-lhe bem, assim como o hauberguim, o escudo e a sua espada de aço afiada. Senta-se bem sobre o seu corcel e tem o porte de um vassalo valente, bem formado nos braços, nos membros e nos pés." Enquanto todos ali ficam a observá-los, eles, por sua vez, não tardaram a tomar o seu lugar junto ao gavião, onde, de um lado, aguardavam o cavaleiro. E eis que o veem chegar, acompanhado pelo seu anão e pela sua donzela. Ele ouvira o boato de que chegara um cavaleiro que desejava obter o gavião, mas não acreditava que pudesse haver no mundo um cavaleiro tão audaz a ponto de ousar lutar contra ele. Ele rapidamente o derrotaria e o derrubaria. Todo o povo conhecia-o bem, e todos o acolhem e escoltam numa multidão ruidosa: cavaleiros, escudeiros, damas e donzelas apressam-se a correr atrás dele. Liderando a todos, o cavaleiro cavalga orgulhosamente, com a sua donzela e o seu anão ao lado, e dirige-se rapidamente para o gavião. Mas em redor havia tal pressão da multidão rude e vulgar que era impossível tocar no gavião ou aproximar-se do local. Então o Conde chegou à cena e ameaçou a população com uma vara que segurava na mão. A multidão recuou, e o cavaleiro avançou e disse calmamente à sua dama: "Minha dama, este pássaro, que está tão perfeitamente mudado e é tão belo, deveria ser vosso por direito; pois sois maravilhosamente bela e cheia de encanto. Vosso será, certamente, enquanto eu viver. Avançai, minha querida, e levantai o gavião do poleiro." A donzela estava prestes a estender a mão quando Erec se apressou a desafiá-la, pouco se importando com a arrogância do outro. "Donzela", grita ele, "afastai-vos! Ide brincar com outro pássaro, pois a este não tendes direito. Apesar de tudo, digo que este gavião nunca será vosso. Pois uma melhor que vós o reclama — sim, muito mais bela e mais cortês." O outro cavaleiro fica muito irado; mas Erec não se importa com ele e ordena à sua própria donzela que avance. "Bela", grita ele, "ide adiante. Levantai o pássaro do poleiro, pois é justo que o tenhas. Donzela, ide adiante! Pois vangloriar-me-ei de o defender se alguém for tão audaz a ponto de intervir. Pois nenhuma mulher vos supera em beleza ou valor, em graça ou honra, assim como a lua não supera o sol." O outro não pôde sofrer mais, ao ouvi-lo oferecer-se tão virilmente para a batalha. "Vassalo", grita ele, "quem és tu que assim disputas comigo o gavião?" Erec responde-lhe audazmente: "Um cavaleiro sou, de outra terra. Este gavião vim obter; pois é justo, digo-o apesar de tudo, que esta minha donzela o tenha." "Fora!" grita o outro, "nunca o será. A loucura trouxe-te aqui. Se desejas ter o gavião, pagarás caro pela luta." "Pagar, vassalo; e como?" "Terás de lutar comigo, se não o resignares a mim." "Falais loucuras", grita Erec; "para mim, estas são ameaças vãs; pois pouco vos temo." "Então desafio-te aqui e agora. A batalha é inevitável." Erec responde: "Deus me ajude agora; pois nunca desejei tanto algo." Agora, em breve, ouvireis o ruído da batalha.
O grande espaço foi limpo, com o povo reunido ao redor. Afastam-se um do outro pelo espaço de um acre, depois impelem os seus cavalos um contra o outro; alcançam-se com as pontas das lanças e atingem-se com tanta força que os escudos são perfurados e quebrados; as lanças dividem-se e estalam; os arcos das selas são reduzidos a pedaços atrás. Têm de perder os estribos, de modo que ambos caem ao solo, e os cavalos fogem pelo campo. Embora atingidos pelas lanças, rapidamente estão de pé novamente e desembainham as espadas das bainhas. Com grande ferocidade atacam-se um ao outro e trocam grandes golpes de espada, de modo que os elmos são esmagados e fazem-se ecoar. Feroz é o choque das espadas, enquanto chovem grandes golpes sobre o pescoço e os ombros. Pois isto não é um mero passatempo: quebram tudo o que tocam, cortando os escudos e despedaçando os hauberguins. As espadas estão vermelhas de sangue carmesim. A batalha dura muito; mas lutam tão vigorosamente que se tornam exaustos e apáticos. Ambas as donzelas estão em lágrimas, e cada cavaleiro vê a sua dama chorar e erguer as mãos a Deus, rogando que Ele dê as honras da batalha àquele que luta por ela. "Ha! vassalo", diz o cavaleiro a Erec, "retiremo-nos e descansemos um pouco; pois demasiado fracos são estes golpes que desferimos. Devemos desferir golpes melhores do que estes; pois agora aproxima-se o anoitecer. É vergonhoso e altamente desabonador que esta batalha dure tanto. Vede ali aquela gentil donzela que chora por ti e clama a Deus. Muito docemente ela reza por ti, assim como a minha reza por mim. Certamente devemos fazer o nosso melhor com as nossas lâminas de aço em nome das nossas amadas." Erec responde: "Falaste bem." Então descansam um pouco, Erec olhando para a sua dama enquanto ela reza suavemente por ele. Enquanto ele se sentava e a observava, grande força se recrutava dentro dele. O amor e a beleza dela inspiravam-no com grande audácia. Ele lembrou-se da Rainha, a quem prometera que vingaria o insulto que lhe fora feito, ou que o tornaria ainda maior. "Ah! miserável", diz ele, "por que espero? Ainda não me vinguei da injúria que este vassalo permitiu quando o seu anão me golpeou no bosque." A sua ira revive dentro dele enquanto desafia o cavaleiro: "Vassalo", diz ele, "chamo-te à batalha novamente. Descansamos há demasiado tempo; renovemos agora a nossa contenda." E ele responde: "Isso não é um fardo para mim." Ao que, novamente, atacam-se um ao outro. Eram ambos espadachins peritos. No seu primeiro golpe, o cavaleiro teria ferido Erec se este não tivesse aparado habilmente. Ainda assim, golpeou-o tão fortemente sobre o escudo, ao lado do seu templo, que arrancou um pedaço do seu elmo. Raspando de perto a sua coifa branca, a espada desce, fendendo o escudo até à fivela e cortando mais de um palmo do lado do seu hauberguim. Então, deve ter ficado bem atordoado, à medida que o aço frio penetrava até à carne na sua coxa. Que Deus o proteja agora! Se o golpe não tivesse resvalado, teria cortado o seu corpo por completo. Mas Erec não está de modo algum desanimado: paga-lhe o que lhe é devido e, atacando-o audazmente, golpeia-o sobre o ombro com um golpe tão violento que o escudo não o pode resistir, nem o hauberguim é de qualquer serventia para evitar que a espada penetre até ao osso. Fez com que o sangue carmesim escorresse até ao seu cinto. Ambos os vassalos são lutadores árduos: lutam com honras iguais, pois um não pode ganhar do outro um único pé de terra. Os seus hauberguins estão tão rasgados e os seus escudos tão retalhados que, na verdade, não resta o suficiente deles para servir de proteção. Assim, lutam todos expostos. Cada um perde muito sangue, e ambos enfraquecem. Ele golpeia Erec e Erec golpeia-o. Erec desfere-lhe um golpe tão tremendo sobre o elmo que o deixa completamente atordoado. Depois deixa que ele receba mais e mais, dando-lhe três golpes em rápida sucessão, que dividem inteiramente o elmo e cortam a coifa por baixo. A espada chega mesmo ao crânio e corta um osso da sua cabeça, mas sem penetrar no cérebro. Ele tropeça e vacila, e enquanto ele cambaleia, Erec empurra-o, de modo que ele cai sobre o seu lado direito. Erec agarra-o pelo elmo e arranca-o à força da sua cabeça, e desata o ventail, de modo que a sua cabeça e rosto ficam completamente expostos. Quando Erec pensa no insulto que lhe foi feito pelo anão no bosque, tê-lo-ia decapitado se ele não tivesse pedido clemência. "Ah! vassalo", diz ele, "tu derrotaste-me. Clemência agora, e não me mates, depois de me teres vencido e feito prisioneiro: isso nunca te traria louvor ou glória. Se me toques mais, cometerias uma grande vilania. Toma aqui a minha espada; eu entrego-ta." Erec, contudo, não a toma, mas diz em resposta: "Estou a um passo de te matar." "Ah! gentil cavaleiro, clemência! Por que crime, na verdade, ou por que erro deverias tu odiar-me com ódio mortal? Nunca te vi antes que eu saiba, e nunca me envolvi em fazer-te qualquer vergonha ou mal." Erec responde: "De fato, fizeste." "Ah, senhor, dizei-me quando! Pois nunca vos vi, que eu me lembre, e se vos fiz algum mal, coloco-me à vossa mercê." Então Erec disse: "Vassalo, eu sou aquele que estava na floresta ontem com a Rainha Guinevere, quando tu permitiste que o teu anão mal-educado golpeasse a donzela da minha dama. É vergonhoso golpear uma mulher. E depois ele golpeou-me, tomando-me por um qualquer. Tu foste culpado de demasiada insolência quando viste tal ultraje e permitiste, complacente, que tal monstro de patife golpeasse a donzela e a mim mesmo. Por tal crime posso bem odiar-te; pois tu cometeste uma ofensa grave. Tu constituir-te-ás agora meu prisioneiro e, sem demora, irás direto à minha dama, a quem certamente encontrarás em Cardigan, se para lá te dirigires. Chegarás lá esta mesma noite, pois não creio que diste sete léguas daqui. Entregar-te-ás a ela, tu próprio, a tua donzela e o teu anão, para fazerdes como ela ditar; e diz-lhe que lhe mando avisar que amanhã virei contente, trazendo comigo uma donzela tão bela, sábia e fina que em todo o mundo ela não tem par. Tanto podes dizer-lhe com verdade. E agora desejo saber o teu nome." Então ele teve de dizer, apesar de si mesmo: "Senhor, o meu nome é Yder, filho de Nut. Esta manhã não pensava que qualquer homem por força de armas me pudesse conquistar. Agora encontrei por experiência um homem que é melhor do que eu. Vós sois um cavaleiro muito valente, e prometo-vos a minha fé aqui e agora que irei sem demora e me colocarei nas mãos da Rainha. Mas dizei-me sem reservas qual poderá ser o vosso nome. Quem direi que é que me envia? Pois estou pronto a partir." E ele responde: "O meu nome dir-to-ei sem disfarce: é Erec. Vai, e diz-lhe que sou eu quem te envia a ela." "Agora irei, e prometo-vos que colocarei o meu anão, a minha donzela e a mim mesmo inteiramente à sua disposição (não precisais ter receio), e dar-lhe-ei notícias vossas e da vossa donzela." Então Erec recebeu a sua palavra empenhada, e o Conde e todo o povo em redor, as damas e os cavalheiros, estiveram presentes no acordo. Alguns estavam alegres, e outros abatidos; alguns estavam tristes, e outros contentes. Os que mais se regozijaram foram pela donzela com as vestes brancas, a filha do pobre vavasor, ela de coração gentil e aberto; mas a sua donzela e aqueles que lhe eram devotados sentiram muito por Yder.
Yder, compelido a executar a sua promessa, não quis tardar mais, mas montou o seu corcel de imediato. Mas por que hei de fazer uma longa história? Levando o seu anão e a sua donzela, atravessaram os bosques e a planície, seguindo em frente até chegarem a Cardigan. No caramanchão fora do grande salão, Gawain e Kay, o senescal, e um grande número de outros lordes estavam reunidos. O senescal foi o primeiro a avistar os que se aproximavam e disse ao meu senhor Gawain: "Senhor, o meu coração pressente que o vassalo que ali vem é aquele de quem a Rainha falou como tendo ontem lhe feito tal insulto. Se não estou enganado, há três na comitiva, pois vejo o anão e a donzela." "Assim é", diz o meu senhor Gawain; "é certamente uma donzela e um anão que vêm diretamente em nossa direção com o cavaleiro. O cavaleiro em si está totalmente armado, mas o seu escudo não está inteiro. Se a Rainha o visse, reconhecê-lo-ia. Olá, senescal, ide chamá-la agora!" Assim, ele foi imediatamente e encontrou-a num dos aposentos. "Minha dama", diz ele, "recordais-vos do anão que ontem vos irritou ao ferir a vossa donzela?" "Sim, recordo-me bem dele. Senescal, tendes alguma notícia dele? Por que o mencionastes?" "Dama, porque vi um cavaleiro errante armado a chegar num cavalo cinzento, e se os meus olhos não me enganaram, vi uma donzela com ele; e parece-me que com ele vem o anão, que ainda segura o látego com o qual Erec recebeu a sua chicotada." Então a Rainha levantou-se rapidamente e disse: "Vamos depressa, senescal, ver se é o vassalo. Se é ele, podeis estar certo de que vo-lo direi, assim que o vir." E Kay disse: "Eu vo-lo mostrarei. Subi ao caramanchão onde os vossos cavaleiros estão reunidos. Foi de lá que o vimos chegar, e o meu senhor Gawain espera-vos lá. Minha dama, apressemo-nos, pois aqui demoramo-nos demasiado." Então a Rainha apressou-se e, chegando às janelas, posicionou-se junto ao meu senhor Gawain e, de imediato, reconheceu o cavaleiro. "Ha! meus lordes", grita ela, "é ele. Ele passou por grande perigo. Ele esteve numa batalha. Não sei se Erec vingou a sua dor ou se este cavaleiro derrotou Erec. Mas há muitas amolgadelas no seu escudo, e o seu hauberguim está coberto de sangue, de modo que está mais vermelho do que branco." "Na verdade, minha dama", diz o meu senhor Gawain, "estou muito certo de que tendes toda a razão. O seu hauberguim está coberto de sangue, batido e espancado, mostrando claramente que esteve numa luta. Podemos ver facilmente que a batalha foi renhida. Agora, em breve, ouviremos dele notícias que nos darão alegria ou tristeza: se Erec vo-lo envia aqui como prisioneiro à vossa discrição, ou se ele vem com orgulho no coração para se vangloriar arrogantemente perante nós de que derrotou ou matou Erec. Nenhuma outra notícia ele pode trazer, creio eu." A Rainha diz: "Sou da mesma opinião." E todos os outros dizem: "Bem pode ser assim."
Nesse ínterim, Yder entra pelo portão do castelo, trazendo-lhes notícias. Todos desceram da guarita e foram ao seu encontro. Yder aproximou-se do terraço real e ali desmontou de seu cavalo. E Gawain tomou a donzela e ajudou-a a descer de seu palafrém; o anão, por sua vez, também desmontou. Havia mais de cem cavaleiros ali parados e, quando os três recém-chegados desmontaram, foram conduzidos à presença do Rei. Assim que Yder viu a Rainha, inclinou-se profundamente e primeiro a saudou, depois ao Rei e aos seus cavaleiros, e disse: "Senhora, sou enviado aqui como vosso prisioneiro por um fidalgo, um cavaleiro valoroso e nobre, cujo rosto ontem o meu anão fez arder com seu chicote de nós. Ele superou-me em armas e derrotou-me. Senhora, o anão trago-vos aqui: veio para se render à vossa discrição. Trago-vos a mim mesmo, a minha donzela e o meu anão para fazerdes connosco o que vos aprouver." A Rainha não guarda mais silêncio, mas pede-lhe notícias de Erec: "Dizei-me", diz ela, "se vos aprouver, sabeis quando Erec chegará?" "Amanhã, senhora, e com ele trará uma donzela, a mais bela de todas que jamais conheci." Quando ele entregou a sua mensagem, a Rainha, que era gentil e sensata, disse-lhe cortesmente: "Amigo, já que te lançaste à minha mercê, o teu confinamento será menos rigoroso; pois não tenho desejo de procurar o teu mal. Mas dizei-me agora, assim vos ajude Deus, qual é o vosso nome?" E ele responde: "Senhora, o meu nome é Yder, filho de Nut." E eles souberam que ele dizia a verdade. Então a Rainha levantou-se e, indo perante o Rei, disse: "Senhor, ouvistes? Fizestes bem em esperar por Erec, o cavaleiro valoroso. Dei-vos um bom conselho ontem, quando vos aconselhei a aguardar o seu regresso. Isto prova que é sábio aceitar conselhos." O Rei responde: "Isso não é mentira; antes é a mais pura verdade que aquele que aceita conselhos não é tolo. Felizmente seguimos o vosso conselho ontem. Mas, se algo vos importo, libertai este cavaleiro do seu cativeiro, desde que ele consinta em juntar-se doravante à minha casa e corte; e se não consentir, que sofra as consequências." Quando o Rei assim falou, a Rainha libertou imediatamente o cavaleiro; mas foi sob esta condição, que ele deveria permanecer no futuro na corte. Não precisou de ser instado antes de dar o seu consentimento para ficar. Agora ele pertencia à corte e à casa a que antes não pertencia. Então valetes estavam à mão para correr e aliviá-lo das suas armas.
Agora devemos regressar a Erec, a quem deixámos no campo onde a batalha ocorrera. Mesmo Tristan, quando matou o feroz Morhot na ilha de Saint Samson, não despertou tal jubileu como o que celebraram aqui por causa de Erec. Grandes e pequenos, magros e robustos – todos o estimam e elogiam a sua cavalaria. Não há cavaleiro que não clame: "Senhor, que vassalo! Sob o Céu não há igual!" Seguem-no até ao seu alojamento, elogiando-o e falando muito. Até o próprio Conde o abraça, ele que, acima dos outros, estava feliz, e disse: "Senhor, se vos aprouver, deveríeis por direito hospedar-vos na minha casa, já que sois filho do Rei Lac. Se aceitásseis a minha hospitalidade, far-me-íeis uma grande honra, pois considero-vos como o meu suserano. Belo senhor, que vos apraza, rogo-vos que vos hospedeis comigo." Erec responde: "Que não vos desagrade, mas não abandonarei o meu anfitrião esta noite, que me fez muita honra ao dar-me a sua filha. Que dizeis, senhor? Não é uma dádiva bela e preciosa?" "Sim, senhor", responde o Conde; "a dádiva, na verdade, é fina e boa. A donzela em si é bela e inteligente, e além disso é de linhagem muito nobre. Deveis saber que a sua mãe é minha irmã. Certamente, alegro-me de coração que vos digneis tomar a minha sobrinha. Mais uma vez vos rogo que vos hospedeis comigo esta noite." Erec responde: "Não me peçais mais. Não o farei." Então o Conde viu que mais insistência era inútil, e disse: "Senhor, como vos aprouver! Podemos muito bem não dizer mais nada sobre o assunto; mas eu e os meus cavaleiros estaremos todos convosco esta noite para vos alegrar e vos fazer companhia." Quando Erec ouviu isso, agradeceu-lhe e regressou à habitação do seu anfitrião, com o Conde a acompanhá-lo. Damas e cavaleiros estavam reunidos ali, e o vavasor estava feliz de coração. Assim que Erec chegou, mais de uma vintena de escudeiros correu rapidamente para remover as suas armas. Qualquer pessoa que estivesse presente naquela casa poderia ter testemunhado uma cena feliz. Erec foi o primeiro e tomou o seu lugar; depois, todos os outros sentaram-se em ordem nos sofás, almofadas e bancos. Ao lado de Erec sentou-se o Conde, e a donzela com o seu rosto radiante, que alimentava o tão disputado falcão no seu pulso com uma asa de tarambola. Grande honra, alegria e prestígio ela alcançara naquele dia, e estava muito feliz de coração tanto pelo pássaro como pelo seu senhor. Ela não poderia ter estado mais feliz, e mostrava-o claramente, não fazendo segredo da sua alegria. Todos podiam ver quão alegre ela estava, e por toda a casa houve grande regozijo pela felicidade da donzela que amavam.
Erec dirigiu-se assim ao vavasor: "Belo anfitrião, belo amigo, belo senhor! Fizestes-me grande honra, e ricamente vos será retribuída. Amanhã levarei a vossa filha comigo para a corte do Rei, onde desejo tomá-la como minha esposa; e se quiserdes aguardar aqui um pouco, enviarei a seu tempo para vos buscar. Farei com que sejais escoltado para o país que é agora do meu pai, mas que mais tarde será meu. É longe daqui – de modo nenhum perto. Lá vos darei duas cidades, muito esplêndidas, ricas e belas. Sereis senhor de Roadan, que foi construída no tempo de Adão, e de outra cidade próxima, que não é menos valiosa. O povo chama-lhe Montrevel, e o meu pai não possui cidade melhor. E antes que o terceiro dia tenha passado, enviar-vos-ei ouro e prata em abundância, peles malhadas e cinzentas, e preciosos tecidos de seda com que vos adornardes a vós e à vossa esposa, a minha querida senhora. Amanhã ao amanhecer desejo levar a vossa filha à corte, vestida e ataviada como está presentemente. Desejo que a minha senhora, a Rainha, a vista com o seu melhor vestido de cetim e pano escarlate."
Havia uma donzela por perto, muito honrada, prudente e virtuosa. Estava sentada num banco ao lado da donzela da túnica branca, e era a sua própria prima, sobrinha do meu senhor o Conde. Quando ouviu como Erec pretendia levar a sua prima em tão pobre traje para a corte da Rainha, falou sobre isso ao Conde. "Senhor", diz ela, "seria uma vergonha para vós mais do que para qualquer outro se este cavaleiro levasse a vossa sobrinha consigo em tão triste traje." E o Conde respondeu: "Gentil sobrinha, dai-lhe o melhor dos vossos vestidos." Mas Erec ouviu a conversa e disse: "De modo nenhum, meu senhor. Pois estai certo de que nada no mundo me tentaria a deixá-la ter outra veste até que a própria Rainha a outorgue a ela." Quando a donzela ouviu isto, replicou: "Ai! belo senhor, já que insistis em levar a minha prima assim vestida com uma túnica branca e camisa, e já que estais determinado a que ela não tenha nenhum dos meus vestidos, uma dádiva diferente desejo fazer-lhe. Tenho três bons palafréns, tão bons como qualquer um de rei ou conde, um alazão, um malhado e o outro preto com as patas dianteiras brancas. Pela minha palavra, se tivésseis cem para escolher, não encontraríeis um melhor do que a montada malhada. Os pássaros no ar não voam mais velozmente do que o palafrém; e ele não é demasiado vivo, apenas se adequa a uma dama. Uma criança pode montá-lo, pois ele não é arisco nem teimoso, nem morde, nem coiceia, nem se torna incontrolável. Qualquer um que esteja à procura de algo melhor não sabe o que quer. E o seu passo é tão suave e gentil que uma pessoa sente-se mais confortável e à vontade no seu dorso do que num barco." Então disse Erec: "Minha cara, não tenho objeção a que ela aceite esta dádiva; de facto, estou satisfeito com a oferta e não desejo que ela a recuse." Então a donzela chama um dos seus criados de confiança e diz-lhe: "Vai, amigo, sela o meu palafrém malhado e traz-mo aqui imediatamente." E ele cumpre a sua ordem: coloca sela e rédeas e esforça-se para fazê-lo parecer bem. Então ele salta para o palafrém de crina, que está agora pronto para inspeção. Quando Erec viu o animal, não poupou nos elogios, pois podia ver que era muito fino e gentil. Então ordenou a um criado que o levasse de volta e o atasse na cavalariça ao lado do seu próprio cavalo. Então todos se separaram, após uma noite agradavelmente passada. O Conde parte para a sua própria habitação e deixa Erec com o vavasor, dizendo que lhe fará companhia de manhã quando ele partir. Toda aquela noite dormiram bem. De manhã, quando a alvorada estava brilhante, Erec prepara-se para partir, ordenando que os seus cavalos fossem selados. A sua bela amada também acorda, veste-se e prepara-se. O vavasor e a sua esposa levantam-se também, e cada cavaleiro e dama ali prepara-se para escoltar a donzela e o cavaleiro. Agora estão todos montados a cavalo, e o Conde também. Erec cavalga ao lado do Conde, tendo ao seu lado a sua amada, sempre atenta ao seu falcão. Não tendo outras riquezas, ela brinca com o seu falcão. Muito alegres estavam eles enquanto cavalgavam; mas quando chegou a hora de partir, o Conde quis enviar com Erec um grupo dos seus cavaleiros para lhe fazer honra escoltando-o. Mas ele anunciou que ninguém deveria ficar com ele e que não queria outra companhia senão a da donzela. Então, quando os acompanharam por alguma distância, disse: "Em nome de Deus, adeus!" Então o Conde beija Erec e a sua sobrinha, e recomenda ambos ao Deus misericordioso. O seu pai e mãe também os beijam repetidamente e não conseguiram conter as suas lágrimas: ao partir, a mãe chora, o pai e a donzela também. Pois tal é o amor e a natureza humana, e tal é o afeto entre pais e filhos. Choraram de tristeza, ternura e amor que tinham pela sua filha; contudo, sabiam muito bem que a sua filha iria ocupar um lugar do qual lhes adviria grande honra. Derramaram lágrimas de amor e piedade quando se separaram da sua filha, mas não tinham outro motivo para chorar. Sabiam muito bem que, eventualmente, receberiam grande honra do seu casamento. Por isso, ao partir, muitas lágrimas foram derramadas, enquanto chorando se recomendam um ao outro a Deus, e assim se separam sem mais demora.
Erec deixou o seu anfitrião; pois estava muito ansioso por chegar à corte real. Na sua aventura, obteve grande satisfação; pois agora tinha uma dama extremamente bela, discreta, cortês e gentil. Ele não conseguia olhar para ela o suficiente: pois quanto mais olha para ela, mais ela lhe agrada. Não consegue evitar dar-lhe um beijo. Ele é feliz por cavalgar ao seu lado, e faz-lhe bem olhar para ela. Demoradamente olha para o seu belo cabelo, os seus olhos risonhos e a sua fronte radiante, o seu nariz, o seu rosto e boca, por tudo o que a alegria enche o seu coração. Ele olha para ela até à cintura, para o seu queixo e o seu pescoço níveo, o seu busto e os seus lados, os seus braços e mãos. Mas não menos a donzela olha para o vassalo com um olho claro e coração leal, como se estivessem em competição. Eles não teriam deixado de se observar nem mesmo pela promessa de uma recompensa! Eram um par perfeito em cortesia, beleza e gentileza. E eram tão semelhantes em qualidade, maneiras e costumes que ninguém que desejasse dizer a verdade poderia escolher o melhor deles, nem o mais belo, nem o mais discreto. Os seus sentimentos, também, eram muito semelhantes; de modo que eram bem adequados um ao outro. Assim, cada um rouba o coração do outro. A lei ou o casamento nunca uniram duas criaturas tão doces. E assim cavalgavam até que, precisamente ao bater do meio-dia, aproximaram-se do castelo de Cardigan, onde ambos eram esperados. Alguns dos primeiros nobres da corte tinham subido para espreitar das janelas superiores e ver se os conseguiam avistar. A Rainha Guinevere correu para cima, e até o Rei veio com Kay e Perceval do País de Gales, e com eles o meu senhor Gawain e Tor, filho do Rei Ares; Lucan, o copeiro, estava lá também, e muitos outros cavaleiros valorosos. Finalmente, avistaram Erec a vir acompanhado pela sua dama. Todos o conheciam muito bem desde tão longe quanto o podiam ver. A Rainha está muito satisfeita, e de facto toda a corte está contente com a sua vinda, porque todos o amam. Assim que ele chegou perante o salão de entrada, o Rei e a Rainha descem ao seu encontro, cumprimentando-o todos em nome de Deus. Dão as boas-vindas a Erec e à sua donzela, elogiando e exaltando a sua grande beleza. E o próprio Rei pegou nela e ajudou-a a descer do seu palafrém. O Rei estava vestido com trajes finos e estava então de bom humor. Fez honra notável à donzela ao tomar-lhe a mão e conduzi-la para cima, para o grande salão de pedra. Depois deles, Erec e a Rainha também subiram de mãos dadas, e ele disse-lhe: "Trago-vos, senhora, a minha donzela e a minha amada vestida com trajes pobres. Tal como me foi dada, assim a trouxe até vós. Ela é filha de um pobre vavasor. Através da pobreza, muitos homens honrados são humilhados: o seu pai, por exemplo, é gentil e cortês, mas tem poucos meios. E a sua mãe é uma senhora muito gentil, irmã de um rico Conde. Ela não tem falta de beleza ou de linhagem, para que eu não a despose. É a pobreza que a obrigou a usar esta túnica de linho branco até que ambas as mangas estejam rasgadas ao lado. E contudo, se tivesse sido o meu desejo, ela poderia ter tido vestidos suficientemente ricos. Pois outra donzela, uma prima sua, quis dar-lhe uma veste de arminho e seda manchada ou cinzenta. Mas eu não quis que ela se vestisse com nenhuma outra veste até que vós a tivésseis visto. Gentil senhora, considerai agora o assunto e vede que necessidade ela tem de um vestido fino e adequado." E a Rainha responde imediatamente: "Fizestes muito bem; é apropriado que ela tenha um dos meus vestidos, e dar-lhe-ei imediatamente um vestido rico e belo, fresco e novo." A Rainha então levou-a apressadamente para o seu quarto privado e deu ordens para trazer rapidamente a túnica nova e o manto verde-púrpura, bordado com pequenas cruzes, que tinha sido feito para si mesma. Aquele que foi a seu mando veio trazendo-lhe o manto e a túnica, que estava forrada com arminho branco até às mangas. Nos pulsos e na gola havia, na verdade, mais de meio marco de peso de ouro batido, e por toda parte, incrustadas no ouro, havia pedras preciosas de diversas cores, índigo e verde, azul e castanho escuro. Esta túnica era muito rica, mas não menos preciosa, creio eu, era o manto. Ainda não havia fitas nele; pois o manto, tal como a túnica, era novinho em folha. O manto era muito rico e fino: colocadas à volta do pescoço estavam duas peles de zibelina, e nas borlas havia mais de uma onça de ouro; numa, um jacinto, e na outra, um rubi cintilava mais brilhante do que uma vela acesa. O forro de pele era de arminho branco; nunca se viu ou encontrou um mais fino. O pano era habilmente bordado com pequenas cruzes, todas diferentes, índigo, vermelhão, azul escuro, branco, verde, azul e amarelo. A Rainha pediu algumas fitas de quatro côvados de comprimento, feitas de fio de seda e ouro. As fitas são-lhe dadas, belas e bem combinadas. Rapidamente mandou prendê-las ao manto por alguém que sabia como fazê-lo e que era mestre na arte. Quando o manto não precisou de mais toques, a alegre e gentil senhora abraçou a donzela com a túnica branca e disse-lhe alegremente: "Mademoiselle, deve trocar este traje por esta túnica que vale mais de cem marcos de prata. Tanto desejo outorgar-vos. E vista também este manto. Noutra altura dar-vos-ei mais." Não sendo capaz de recusar a dádiva, ela aceita o vestido e agradece-lha. Então duas criadas levaram-na à parte para um quarto, onde ela tirou o seu traje por não ter mais valor; mas pediu e solicitou que fosse dado (a alguma mulher pobre) por amor de Deus. Então ela veste a túnica e cinge-se, atando bem um cinto de ouro, e depois coloca o manto. Agora ela não parecia de todo mal; pois o vestido assentava-lhe tão bem que a tornava mais bela do que nunca. As duas criadas teceram um fio de ouro entre o seu cabelo dourado: mas as suas madeixas eram mais radiantes do que o fio de ouro, por mais fino que fosse. As criadas, além disso, teceram uma grinalda de flores de muitas cores variadas e colocaram-na sobre a sua cabeça. Esforçaram-se tanto quanto puderam para a adornar de tal modo que nenhuma falha fosse encontrada no seu traje. Pendurados numa fita à volta do pescoço, uma donzela colocou dois broches de ouro esmaltado. Agora ela parecia tão encantadora e bela que não creio que pudesse encontrar a sua igual em terra alguma, por mais que procurasse, tão habilmente a Natureza a tinha formado. Então ela saiu do quarto de vestir para a presença da Rainha. A Rainha estimou-a muito, porque gostava dela e estava feliz por ela ser bela e ter maneiras tão gentis. Deram-se as mãos e passaram à presença do Rei. E quando o Rei as viu, levantou-se ao encontro delas. Quando entraram no grande salão, havia tantos cavaleiros ali que se levantaram perante elas que não posso nomear a décima parte deles, ou a décima terceira, ou a décima quinta. Mas posso dizer-vos os nomes de alguns dos melhores cavaleiros que pertenciam à Távola Redonda e que eram os melhores do mundo.
Antes de todos os excelentes cavaleiros, Gawain deve ser nomeado o primeiro, e em segundo Erec, o filho de Lac, e em terceiro Lancelot do Lago. Gornemant de Gohort foi o quarto, e o quinto foi o Belo Covarde. O sexto foi o Feio Bravo, o sétimo Meliant de Liz, o oitavo Mauduit o Sábio, e o nono Dodinel o Selvagem. Que Gandelu seja nomeado o décimo, pois era um bom homem. Os outros mencionarei sem ordem, porque os números me incomodam. Eslit estava lá com Briien, e Yvain, o filho de Uriien. E Yvain de Loenel estava lá, assim como Yvain o Adúltero. Ao lado de Yvain de Cavaliot estava Garravain de Estrangot. Depois do Cavaleiro com o Chifre estava o Jovem com o Anel de Ouro. E Tristan, que nunca ria, sentou-se ao lado de Bliobleheris, e ao lado de Brun de Piciez estava seu irmão Gru o Carrancudo. O Armeiro sentou-se em seguida, que preferia a guerra à paz. A seguir sentou-se Karadues o de Braços Curtos, um cavaleiro de bom ânimo; e Caveron de Robendic, e o filho do Rei Quenedic e o Jovem de Quintareus e Yder do Monte Doloroso. Gaheriet e Kay de Estraus, Amauguin e Gales o Calvo, Grain, Gornevain e Carabes, e Tor, o filho do Rei Aras, Girflet, o filho de Do, e Taulas, que nunca se cansava das armas: e um jovem de grande mérito, Loholt, o filho do Rei Arthur, e Sagremor o Impetuoso, que não deve ser esquecido, nem Bedoiier, o Mestre do Cavalo, que era habilidoso no xadrez e no trictrac, nem Bravain, nem o Rei Lot, nem Galegantin de Gales, nem Gronosis, versado no mal, que era filho de Kay o Senescal, nem Labigodes o Cortês, nem o Conde Cadorcaniois, nem Letron de Prepelesant, cujas maneiras eram tão excelentes, nem Breon, o filho de Canodan, nem o Conde de Honolan, que tinha aquela cabeça de cabelos finos e louros; foi ele quem recebeu o chifre do Rei em um dia de má sorte; ele nunca se importou com a verdade.
Quando a donzela estranha viu todos os cavaleiros perfilados olhando fixamente para ela, baixou a cabeça, embaraçada; nem era estranho que seu rosto corasse inteiramente de carmim. Mas sua confusão era-lhe tão condizente que ela parecia ainda mais adorável. Quando o Rei viu que ela estava embaraçada, não quis deixá-la ao lado. Tomando-a gentilmente pela mão, fê-la sentar-se à sua direita; e à sua esquerda sentou-se a Rainha, dizendo assim ao Rei enquanto isso: "Senhor, na minha opinião, aquele que pode conquistar tal dama formosa por suas armas em outra terra deve, por direito, vir a uma corte real. Foi bom termos esperado por Erec; pois agora podeis conceder o beijo à mais bela da corte. Acredito que ninguém vos censuraria! Pois ninguém pode dizer, a menos que minta, que esta donzela não é a mais encantadora de todas as damas aqui presentes, ou, na verdade, em todo o mundo." O Rei responde: "Isso não é mentira; e nela, se não houver objeção, conferirei a honra do Veado Branco." Então acrescentou aos cavaleiros: "Meus senhores, que dizeis? Qual é a vossa opinião? Em corpo, em rosto, e em tudo o que uma donzela deve ter, esta é a mais encantadora e bela que se pode encontrar, como posso dizer, antes de chegar onde o Céu e a terra se encontram. Digo que é justo que ela receba a honra do Veado. E vós, meus senhores, o que pensais sobre isso? Podeis fazer alguma objeção? Se alguém deseja protestar, que fale logo o que pensa. Sou Rei, e devo manter minha palavra e não devo permitir qualquer baixeza, falsidade ou arrogância. Devo manter a verdade e a retidão. É dever de um rei leal apoiar a lei, a verdade, a fé e a justiça. Não cometeria, de forma alguma, um ato desleal ou um mal, seja contra o fraco ou contra o forte. Não é justo que alguém se queixe de mim; nem desejo que o costume e a prática, que minha família tem o hábito de promover, se percam. Vós, também, sem dúvida, lamentaríeis ver-me esforçar para introduzir outros costumes e outras leis que não aquelas que meu real pai observou. Independentemente das consequências, sou obrigado a guardar e manter a instituição de meu pai Pendragon, que foi um rei e imperador justo. Agora, dizei-me plenamente o que pensais! Que ninguém demore a falar o que pensa, se esta donzela não é a mais bela da minha casa e não deve por direito receber o beijo do Veado Branco: desejo saber o que verdadeiramente pensais." Então todos gritam em um só acordo: "Senhor, pelo Senhor e sua Cruz! Podeis muito bem beijá-la com boa razão, pois ela é a mais bela que existe. Nesta donzela há mais beleza do que há de brilho no sol. Podeis beijá-la livremente, pois todos concordamos em sancioná-lo." Quando o Rei ouve que isso é agradável a todos, não quer mais demorar em conceder o beijo, mas volta-se para ela e a abraça. A donzela era sensata, e perfeitamente disposta a que o Rei a beijasse; seria desleal, de fato, se ela se ressentisse. De maneira cortês e na presença de todos os seus cavaleiros, o Rei a beijou e disse: "Minha cara, dou-vos meu amor com toda a honestidade. Amar-vos-ei com coração verdadeiro, sem malícia e sem dolo." Por esta aventura, o Rei cumpriu a prática e o uso aos quais o Veado Branco tinha direito em sua corte.
Aqui termina a primeira parte da minha história.
Quando o beijo do Veado foi tomado de acordo com o costume da terra, Erec, como um homem educado e gentil, preocupou-se com seu pobre anfitrião. Não era sua intenção deixar de executar o que havia prometido. Ouvi como ele cumpriu seu pacto: pois ele lhe enviou agora cinco mulas de carga, fortes e lustrosas, carregadas com trajes e roupas, bucrans e escarlates, marcos de ouro e prataria, peles de vair e cinzentas, peles de zibelina, tecidos púrpuras e sedas. Quando as mulas estavam carregadas com tudo o que um cavalheiro pode precisar, ele enviou com elas uma escolta de dez cavaleiros e sargentos escolhidos entre seus próprios homens, e ordenou-lhes estritamente que cumprimentassem seu anfitrião e mostrassem grande honra tanto a ele quanto à sua dama, como se fosse a ele próprio em pessoa; e quando tivessem apresentado a eles as cargas que levavam, o ouro, a prata, e o dinheiro, e todos os outros utensílios que estavam nas caixas, deveriam escoltar a dama e o vavasor com grande honra para seu reino de Gales Distante. Duas cidades lá ele lhes havia prometido, as mais escolhidas e as mais bem situadas que havia em toda sua terra, sem nada a temer de ataques. Montrevel era o nome de uma, e o nome da outra era Roadan. Quando chegassem ao seu reino, deveriam entregar-lhes essas duas cidades, juntamente com suas rendas e sua jurisdição, de acordo com o que ele lhes havia prometido. Tudo foi realizado como Erec ordenara. Os mensageiros não demoraram, e em boa hora apresentaram ao seu anfitrião o ouro, a prata, as cargas, os trajes e o dinheiro, dos quais havia grande abundância. Eles os escoltaram para o reino de Erec, e esforçaram-se para servi-los bem. Chegaram ao país no terceiro dia, e transferiram para eles as torres das cidades; pois o Rei Lac não fez objeção. Ele lhes deu uma recepção calorosa e mostrou-lhes honra, amando-os por causa de seu filho Erec. Ele lhes cedeu o título das cidades, e estabeleceu sua suserania fazendo com que cavaleiros e burgueses jurassem que os reverenciariam como seus verdadeiros senhores feudais. Quando isso foi feito e realizado, os mensageiros retornaram ao seu senhor Erec, que os recebeu alegremente. Quando ele pediu notícias do vavasor e de sua dama, de seu próprio pai e de seu reino, o relato que lhe deram foi bom e justo.
Não muito depois disso, aproximou-se o tempo em que Erec deveria celebrar seu casamento. O atraso era-lhe incômodo, e ele resolveu não mais sofrer e esperar. Então foi e pediu ao Rei que lhe aprouvesse permitir que ele se casasse na corte. O Rei concedeu-lhe o favor, e enviou por todo o seu reino para buscar os reis e condes que eram seus vassalos, ordenando-lhes que ninguém fosse tão ousado a ponto de não estar presente no Pentecostes. Ninguém ousa se conter e não ir à corte ao chamado do Rei. Agora vos direi, e ouvi bem, quem eram esses condes e reis. Com uma rica escolta e cem montarias extras veio o Conde Brandes de Gloucester. Depois dele veio Menagormon, que era Conde de Clivelon. E o da Alta Montanha veio com um séquito muito rico. O Conde de Treverain veio, também, com cem de seus cavaleiros, e o Conde Godegrain com tantos outros. Junto com aqueles que acabei de mencionar veio Maheloas, um grande barão, senhor da Ilha de Voirre. Nesta ilha não se ouve trovão, não cai raio, nem tempestades rugem, nem existem sapos ou serpentes, nem é nunca quente ou frio demais. Graislemier de Fine Posterne trouxe vinte companheiros, e tinha consigo seu irmão Guigomar, senhor da Ilha de Avalon. Deste último ouvimos dizer que ele era amigo de Morgana a Fada, e tal ele era em verdade. Davit de Tintagel veio, que nunca sofreu aflição ou tristeza. Guergesin, o Duque de Haut Bois, veio com um equipamento muito rico. Não faltavam condes e duques, mas de reis havia ainda mais. Garras de Cork, um rei valente, estava lá com quinhentos cavaleiros vestidos com mantos, calças e túnicas de brocado e seda. Sobre um corcel da Capadócia veio Aguisel, o rei escocês, e trouxe consigo seus dois filhos, Cadret e Coi--dois cavaleiros muito respeitados. Junto com aqueles que nomeei veio o Rei Ban de Gomeret, e ele tinha em sua companhia apenas jovens, ainda sem barba no queixo e no lábio. Um bando numeroso e alegre ele trouxe, duzentos deles em seu séquito; e não havia ninguém, seja quem for, que não tivesse um falcão ou tercel, um esmerilhão ou um gavião-de-pardal, ou algum precioso pombo-gavião, dourado ou mudado. Kerrin, o velho Rei de Riel, não trouxe nenhum jovem, mas sim trezentos companheiros dos quais o mais novo tinha sete vezes vinte anos. Devido à sua grande idade, suas cabeças eram todas brancas como a neve, e suas barbas chegavam até os cintos. Arthur os tinha em grande respeito. O senhor dos anões veio a seguir, Bilis, o rei dos Antípodas. Este rei de quem falo era ele próprio um anão e irmão do próprio Brien. Bilis, por um lado, era o menor de todos os anões, enquanto seu irmão Brien era meio pé ou um palmo inteiro mais alto do que qualquer outro cavaleiro no reino. Para exibir sua riqueza e poder, Bilis trouxe consigo dois reis que eram também anões e que eram vassalos seus, Grigoras e Glecidalan. Todos olhavam para eles como maravilhas. Quando chegaram à corte, foram tratados com grande estima. Todos os três foram honrados e servidos na corte como reis, pois eram cavalheiros muito perfeitos. Em resumo, quando o Rei Arthur viu todos os seus senhores reunidos, seu coração alegrou-se. Então, para aumentar a alegria, ordenou que fossem banhados cem escudeiros que ele desejava sagrar cavaleiros. Não havia um deles que não tivesse uma túnica bipartida de rico brocado de Alexandria, cada um escolhendo a que lhe agradasse. Todos tinham armas de um padrão uniforme, e cavalos velozes e cheios de brio, dos quais o pior valia cem libras.
Quando Erec recebeu sua esposa, ele precisava chamá-la pelo seu nome correto. Pois uma esposa não é desposada a menos que seja chamada pelo seu nome próprio. Até então ninguém sabia seu nome, mas agora pela primeira vez foi revelado: Enide era seu nome de batismo. O Arcebispo de Canterbury, que viera à corte, abençoou-os, como é seu direito. Quando a corte estava toda reunida, não havia um menestrel no campo que possuísse qualquer talento agradável que não viesse à corte. No grande salão havia muita folia, cada um contribuindo com o que podia para o entretenimento: um salta, outro faz acrobacias, outro faz mágicas; há narração de histórias, canto, assobios, música; tocam harpa, rota, rabeca, violino, flauta e gaita. As donzelas cantam e dançam, e superam umas às outras na folia. No casamento daquele dia, tudo foi feito que pode dar alegria e inclinar o coração do homem à felicidade. Tambores são batidos, grandes e pequenos, e há música de gaitas, flautins, chifres, trombetas e gaitas de fole. Que mais direi? Não havia postigo ou portão mantido fechado; mas as saídas e entradas estavam todas entreabertas, de modo que ninguém, pobre ou rico, fosse afastado. O Rei Arthur não era avarento, mas deu ordens aos padeiros, aos cozinheiros e aos mordomos para que servissem a todos generosamente com pão, vinho e caça. Ninguém pedia nada que fosse passado a ele sem obter tudo o que desejava.
Havia grande folia no palácio. Mas passarei por cima do resto, e ouvireis sobre a alegria e o prazer na câmara nupcial. Bispos e arcebispos estavam lá na noite em que os noivos se retiraram. Neste seu primeiro encontro, Iseut não foi subtraída, nem Brangien foi colocada em seu lugar. A própria Rainha encarregou-se de seus preparativos para a noite; pois ambos lhe eram caros. O veado caçado que ofega de sede não anseia tanto pela fonte, nem o gavião faminto retorna tão rapidamente quando é chamado, como vieram estes dois para se abraçarem estreitamente. Naquela noite tiveram plena compensação pelo seu longo atraso. Depois que a câmara foi esvaziada, permitiram que cada sentido fosse gratificado: os olhos, que são a porta de entrada do amor, e que levam mensagens ao coração, satisfazem-se no olhar, pois se alegram com tudo o que veem; após a mensagem dos olhos vem a doçura que supera tudo, dos beijos que convidam ao amor; ambos provam desta doçura, e deixam seus corações beberem tão livremente que dificilmente podem parar. Assim, beijar foi seu primeiro esporte. E o amor que havia entre eles encorajou a donzela e deixou-a completamente sem seus medos; independentemente da dor, ela sofreu tudo. Antes que se levantasse, ela já não carregava o nome de donzela; pela manhã era uma dama recém-feita. Naquele dia, os menestréis estavam de bom humor, pois foram todos bem pagos. Foram plenamente compensados pelo entretenimento que haviam dado, e muitos presentes belos foram-lhes concedidos: mantos de pele de esquilo cinzento e arminho, de pele de coelho e tecidos violetas, escarlates e sedas. Seja um cavalo ou dinheiro, cada um obteve o que merecia de acordo com sua habilidade. E assim as festividades do casamento e a corte duraram quase uma quinzena com grande alegria e magnificência. Para sua própria glória e satisfação, bem como para honrar Erec ainda mais, o Rei Arthur fez com que todos os cavaleiros permanecessem uma quinzena inteira. Quando a terceira semana começou, todos juntos, por consentimento comum, concordaram em realizar um torneio. De um lado, meu senhor Gawain ofereceu-se como fiador de que ocorreria entre Evroic e Tenebroc: e Meliz e Meliadoc foram garantidores do outro lado. Então a corte separou-se.
Um mês após o Pentecostes o torneio reuniu-se, e as justas começaram na planície abaixo de Tenebroc. Muitas insígnias de vermelho, azul e branco, muitos véus e muitas mangas foram concedidos como provas de amor. Muitas lanças foram ali levadas, ostentando as cores prata e verde, ou ouro e azul-celeste. Havia muitos, também, com emblemas diferentes, alguns com listras e outros com pontos. Naquele dia, viram-se atados a muitos elmos de ouro ou aço, alguns verdes, alguns amarelos, e outros vermelhos, todos a brilhar ao sol; tantos escudos e brioneis brancos; tantas espadas cingidas no lado esquerdo; tantos bons escudos, frescos e novos, alguns resplandecentes em prata e verde, outros de azul com fivelas de ouro; tantos bons corcéis marcados com branco, ou alazão, fulvo, branco, preto e baio: todos se reúnem apressadamente. E agora o campo está totalmente coberto de armas. De ambos os lados as fileiras tremem, e um rugido ergue-se do combate. O choque das lanças é muito grande. Lanças partem-se e escudos são crivados, os brioneis recebem impactos e são rasgados, selas ficam vazias e cavaleiros vagueiam, enquanto os cavalos suam e espumam. Espadas são rapidamente desembainhadas sobre aqueles que tombam ruidosamente, e alguns correm para receber a promessa de um resgate, outros para afastar tal desgraça. Erec montava um cavalo branco, e surgiu sozinho à frente da linha para justar, se pudesse encontrar um oponente. Do lado oposto, cavalga ao seu encontro Orguelleus de la Lande, montado num corcel irlandês que o conduz com velocidade maravilhosa. No escudo diante do peito dele, Erec golpeia-o com tal força que o derruba do cavalo: deixa-o prostrado e segue adiante. Então Raindurant opôs-se a ele, filho da velha dama de Tergalo, coberto por pano de seda azul; era um cavaleiro de grande bravura. Contra o outro agora eles investem e desferem golpes ferozes nos escudos ao redor do pescoço. Erec, ao comprimento de uma lança, estende-o sobre o solo duro. Enquanto cavalgava de volta, encontrou o Rei da Cidade Vermelha, que era muito valente e audaz. Eles agarram as rédeas pelos nós e os escudos pelas tiras internas. Ambos tinham belas armas, e cavalos fortes e velozes, e bons escudos, frescos e novos. Com tamanha fúria atingem um ao outro que ambas as lanças voam em estilhaços. Nunca se viu tal golpe. Eles chocam-se com escudos, armas e cavalos. Mas nem cilha nem rédea nem peitoral puderam evitar que o rei viesse à terra. Assim, ele voou de seu corcel, levando consigo sela e estribo, e até mesmo as rédeas de seu freio na mão. Todos aqueles que testemunharam a justa ficaram cheios de assombro, e disseram que lhe custou caro justar com tão bom cavaleiro. Erec não desejou parar para capturar nem cavalo nem cavaleiro, mas sim justar e distinguir-se para que sua bravura pudesse aparecer. Ele abala as fileiras à sua frente. Gawain anima aqueles que estavam do seu lado pela sua bravura, e por conquistar cavalos e cavaleiros para o desconcerto dos seus oponentes. Falo de meu senhor Gawain, que agiu muito bem e valentemente. No combate, derrubou Guincel, e tomou Gaudin da Montanha; capturou cavaleiros e cavalos da mesma forma: meu senhor Gawain agiu bem. Girtlet, filho de Do, e Yvain, e Sagremor, o Impetuoso, trataram tão mal os seus adversários que os empurraram de volta até os portões, capturando e derrubando muitos deles. Diante do portão da cidade, a luta recomeçou entre os de dentro e os de fora. Ali Sagremor foi derrubado, ele que era um cavaleiro muito galante. Estava prestes a ser detido e capturado, quando Erec esporeia para resgatá-lo, partindo sua lança em estilhaços sobre um dos oponentes. Tão forte ele o atinge no peito que o faz abandonar a sela. Então, ele empunha sua espada e avança sobre eles, esmagando e fendendo seus elmos. Alguns fogem, e outros abrem caminho diante dele, pois até o mais audaz o teme. Finalmente, ele distribuiu tantos golpes e estocadas que resgatou Sagremor deles, e empurrou a todos em confusão para dentro da cidade. Enquanto isso, a hora das vésperas chegava ao fim. Erec portou-se tão bem naquele dia que foi o melhor dos combatentes. Mas, no dia seguinte, ele agiu ainda melhor: pois tomou tantos cavaleiros e deixou tantas selas vazias que ninguém poderia acreditar, exceto aqueles que tinham visto. Todos, de ambos os lados, disseram que, com sua lança e escudo, ele tinha conquistado as honras do torneio. Agora a fama de Erec era tão alta que ninguém falava senão dele, nem alguém era de tão boa aparência. Em semblante, assemelhava-se a Absalão, em linguagem parecia um Salomão, em audácia igualava Sansão, e em generosidade ao dar e gastar era o igual de Alexandre. Em seu retorno do torneio, Erec foi falar com o Rei. Foi pedir-lhe licença para ir visitar a sua própria terra; mas antes agradeceu-lhe como um homem franco, sábio e cortês pela honra que lhe tinha feito; pois muito profunda era a sua gratidão. Então, pediu a sua permissão para partir, pois desejava visitar o seu próprio país, e desejava levar consigo a sua esposa. Este pedido o Rei não pôde negar, embora desejasse que ele ficasse. Dá-lhe licença e roga-lhe que retorne o mais cedo possível: pois em toda a corte não havia cavaleiro melhor ou mais galante, salvo apenas seu querido sobrinho Gawain; com ele ninguém podia ser comparado. Mas, logo depois dele, prezava Erec acima de todos, e o tinha como mais querido do que qualquer outro cavaleiro.
Erec não quis mais se demorar. Assim que obteve a licença do Rei, ordenou à sua esposa que fizesse os seus preparativos, e reteve como sua escolta sessenta cavaleiros de mérito com cavalos e com peles malhadas e cinzentas. Tão logo esteve pronto para a jornada, pouco se demorou na corte, despedindo-se da Rainha e recomendando os cavaleiros a Deus. A Rainha concede-lhe a partida. À hora de prima, partiu ele do palácio real. Na presença de todos, montou o seu corcel, e a sua esposa montou o cavalo malhado que ela trouxera do seu próprio país; então, toda a sua escolta montou. Contando cavaleiros e escudeiros, havia sete vintenas completas na comitiva. Após quatro longos dias de viagem por colinas e encostas, através de florestas, planícies e riachos, chegaram no quinto dia a Camant, onde o Rei Lac residia numa cidade muito encantadora. Ninguém jamais viu uma mais bem situada; pois a cidade era provida de florestas e pastagens, de vinhedos e fazendas, de riachos e pomares, de damas e cavaleiros, e jovens finos e alegres, e clérigos educados e bem-maneirados que gastavam as suas rendas livremente, de donzelas belas e encantadoras, e de burgueses prósperos. Antes que Erec chegasse à cidade, enviou dois cavaleiros à frente para anunciar a sua chegada ao Rei. Ao ouvir a notícia, o Rei fez com que clérigos, cavaleiros e donzelas montassem rapidamente, ordenou que os sinos fossem tocados e que as ruas fossem decoradas com tapeçarias e tecidos de seda, para que o seu filho pudesse ser recebido com alegria; então, ele próprio montou no seu cavalo. De clérigos, estavam presentes quatro vintenas, homens gentis e honrados, vestidos com mantos cinzentos orlados de zibelina. De cavaleiros, havia quinhentos completos, montados em corcéis baios, alazões ou de manchas brancas. Havia tantos burgueses e damas que ninguém poderia dizer o seu número. O Rei e o seu filho galoparam e cavalgaram até que se viram e se reconheceram. Ambos saltam dos seus cavalos e abraçam-se e saúdam-se por um longo tempo, sem se moverem do lugar onde se encontraram pela primeira vez. Cada parte desejava alegria à outra: o Rei faz muito por Erec, mas de repente interrompe para se voltar para Enide. Por todos os lados, ele está no paraíso: abraça-os e beija-os a ambos, e não sabe qual dos dois lhe agrada mais. À medida que entram alegremente no castelo, os sinos tocam os seus repiques para honrar a chegada de Erec. As ruas estão todas cobertas de juncos, hortelã e íris, e estão penduradas por cima com cortinas e tapeçarias de seda fina e cetim. Houve grande regozijo; pois todas as pessoas reuniram-se para ver o seu novo senhor, e ninguém jamais viu maior felicidade do que a demonstrada tanto pelos jovens quanto pelos velhos. Primeiro, foram à igreja, onde muito devotamente foram recebidos numa procissão. Erec ajoelhou-se diante do altar do Crucifixo, e dois cavaleiros conduziram a sua esposa até a imagem de Nossa Senhora. Quando ela terminou a sua oração, recuou um pouco e persignou-se com a mão direita, como uma dama bem-educada deve fazer. Então, saíram da igreja e entraram no palácio real, quando a festividade começou. Naquele dia, Erec recebeu muitos presentes dos cavaleiros e burgueses: de um, um palafrem de linhagem do norte, e de outro, uma taça de ouro. Um presenteia-o com um falcão-peregrino de ouro, outro com um cão de parar, este com um galgo, aquele outro com um gavião, e outro com um veloz corcel árabe, este com um escudo, aquele com um estandarte, este com uma espada, e aquele com um elmo. Nunca um rei foi visto com tanta alegria no seu reino, nem recebido com maior felicidade, à medida que todos se esforçavam para servi-lo bem. Contudo, maior alegria fizeram de Enide do que dele, pela grande beleza que nela viam, e ainda mais pelo seu encanto franco. Ela estava sentada numa câmara sobre uma almofada de brocado que fora trazida da Tessália. À sua volta estava muitas belas damas; contudo, como a gema lustrosa supera a pederneira parda, e como a rosa excede a papoila, assim era Enide mais bela do que qualquer outra dama ou donzela que se pudesse encontrar no mundo, onde quer que se procurasse. Ela era tão gentil e honrada, de fala sábia e afável, de caráter agradável e semblante bondoso. Ninguém jamais poderia ser tão vigilante a ponto de detetar nela qualquer tolice, ou sinal de maldade ou vilania. Ela fora tão instruída nas boas maneiras que aprendera todas as virtudes que qualquer dama pode possuir, bem como a generosidade e o conhecimento. Todos a amavam pelo seu coração aberto, e quem quer que pudesse fazer-lhe qualquer serviço sentia-se feliz e estimava-se mais por isso. Ninguém falava mal dela, pois ninguém poderia fazê-lo. No reino ou império não havia dama de tão boas maneiras. Mas Erec amava-a com um amor tão terno que já não se importava com as armas, nem ia a torneios, nem tinha qualquer desejo de justar; mas passava o seu tempo a acarinhar a sua esposa. Fez dela a sua amante e a sua namorada. Dedicava todo o seu coração e mente a mimá-la e beijá-la, e não procurava deleite em nenhum outro passatempo. Os seus amigos entristeciam-se com isto, e muitas vezes lamentavam entre si que ele estivesse tão profundamente apaixonado. Frequentemente, passava do meio-dia antes que ele deixasse o seu lado; pois ali era ele feliz, digam o que dissessem. Raramente deixava a sua companhia, e ainda assim era tão generoso como sempre para com os seus cavaleiros com armas, vestuário e dinheiro. Não havia torneio em parte alguma para o qual ele não os enviasse bem trajados e equipados. Qualquer que fosse o custo, dava-lhes corcéis novos para o torneio e a justa. Todos os cavaleiros diziam ser uma grande pena e infortúnio que um homem tão valente como ele costumava ser não quisesse mais portar armas. Ele era tão censurado por todos os lados pelos cavaleiros e escudeiros que murmúrios chegaram aos ouvidos de Enide de que o seu senhor se tornara um covarde quanto a armas e feitos de cavalaria, e que o seu modo de vida mudara grandemente. Ela entristeceu-se profundamente com isto, mas não ousava mostrar a sua dor; pois o seu senhor sentir-se-ia imediatamente ofendido, caso ela lhe falasse. Assim, o assunto permaneceu um segredo, até que uma manhã jaziam na cama onde tinham tido prazer juntos. Ali jaziam num abraço estreito, como os verdadeiros amantes que eram. Ele estava a dormir, mas ela estava acordada, pensando no que muitos homens no país diziam sobre o seu senhor. E quando começou a pensar em tudo, não conseguiu conter as lágrimas. Tal era a sua dor e o seu desgosto que, por desventura, deixou cair uma palavra da qual mais tarde se arrependeu, embora no seu coração não houvesse dolo. Começou a observar o seu senhor da cabeça aos pés, o seu corpo bem formado e o seu semblante claro, até que as suas lágrimas caíram rapidamente sobre o peito do seu senhor, e ela disse: "Ai, desdita a minha por ter deixado o meu país! O que vim eu aqui procurar? A terra deveria por direito engolir-me quando o melhor cavaleiro, o mais audaz, corajoso, belo e cortês que jamais foi um conde ou rei, abjurou completamente todos os seus feitos de cavalaria por minha causa. E assim, na verdade, sou eu quem trouxe vergonha sobre a sua cabeça, embora eu quisesse não tê-lo feito a qualquer preço." Então, ela disse-lhe: "Infeliz de ti!" E então manteve silêncio e não falou mais. Erec não estava profundamente adormecido e, embora cochilando, ouviu claramente o que ela disse. Despertou com as suas palavras e, muito surpreendido por vê-la a chorar, perguntou-lhe: "Diz-me, minha beleza preciosa, por que choras assim? O que te causou mágoa ou tristeza? Certamente é meu desejo saber. Diz-me agora, minha doce amada; e esforça-te por não esconder nada, por que disseste que desdita a minha? Pois disseste-o de mim e de mais ninguém. Ouvi as tuas palavras claramente o suficiente." Então Enide ficou em grande aperto, assustada e consternada. "Senhor", diz ela, "nada sei do que dizes." "Dama, por que o ocultas? Ocultar é de pouco valor. Tens estado a chorar; posso vê-lo, e não choras por nada. E no meu sono ouvi o que disseste." "Ah! belo senhor, nunca o ouviste, e ouso dizer que foi um sonho." "Agora vens ter comigo com mentiras. Ouço-te calmamente a mentir-me. Mas se não me disseres a verdade agora, hás de arrepender-te mais tarde." "Senhor, já que me atormentas assim, dir-te-ei toda a verdade, e não ocultarei nada. Mas temo que não gostes disso. Nesta terra todos dizem — os escuros, os claros e os ruivos — que é uma grande pena que renuncies às tuas armas; a tua reputação sofreu com isso. Todos costumavam dizer, não faz muito tempo, que em todo o mundo não se conhecia cavaleiro melhor ou mais galante. Agora, todos andam a zombar de ti — velhos e jovens, pequenos e grandes — chamando-te de recreante. Supões que não me dói ouvir-te assim falado com desprezo? Entristece-me quando ouço dizer, e ainda assim entristece-me mais que ponham a culpa disso em mim. Sim, sou culpada por isso, lamento dizer, e todos afirmam que é porque eu te ensinei e prendi de tal modo que perdes todo o teu mérito, e não te importas com nada a não ser comigo. Deves escolher outro caminho, para que possas silenciar este opróbrio e recuperar a tua antiga fama; pois ouvi demasiado sobre este opróbrio, e ainda assim não ousava revelar-to. Muitas vezes, quando penso nisso, tenho de chorar de pura tristeza. Tal desgosto senti agora que não pude evitar dizer que estavas malfadado." "Dama", disse ele, "tinhas razão, e aqueles que me censuram fazem-no com razão. E agora, prepara-te imediatamente para pegar a estrada. Levanta-te daqui, e veste-te com o teu manto mais rico, e ordena que a tua sela seja colocada no teu melhor palafrem." Agora Enide está em grande angústia: muito triste e pensativa, ela levanta-se, culpando e repreendendo-se pelas palavras tolas que proferiu: ela tinha agora feito a sua cama, e teria de deitar-se nela. "Ah!", disse ela, "pobre tola! Eu era demasiado feliz, pois nada me faltava. Deus! por que fui tão atrevida ao ponto de ousar proferir tal tolice? Deus! não me amava o meu senhor em excesso? Na fé, ai, ele era demasiado afeiçoado a mim. E agora devo partir para o exílio. Mas tenho ainda uma dor maior, que não verei mais o meu senhor, que me amava com tal ternura que nada lhe era tão caro. O melhor homem que jamais nasceu tornara-se tão envolvido em mim que não se importava com mais nada. Nada me faltava então. Eu era muito feliz. Mas é o orgulho que me estimulou: por causa do meu orgulho, devo sofrer a dor por lhe dizer tais palavras insultuosas, e é justo que eu sofra a dor. Não se sabe o que é a boa fortuna até que se tenha experimentado o mal." Assim, a dama lamentou o seu destino, enquanto se vestia adequadamente com o seu manto mais rico. Contudo, nada lhe dava qualquer prazer, mas antes causa para profundo desgosto. Então, ela pediu a uma criada que chamasse um dos seus escudeiros, e ordena-lhe que sele o seu precioso palafrem de linhagem do norte, do qual nenhum conde ou rei jamais teve um melhor. Assim que lhe deu a ordem, o rapaz não pediu demora, mas imediatamente foi e selou o palafrem malhado. E Erec convocou outro escudeiro e ordenou-lhe que trouxesse as suas armas para armar o seu corpo. Então, subiu a um caramanchão, e mandou estender um tapete de Limoges diante de si no chão. Entretanto, o escudeiro correu para buscar as armas e voltou e colocou-as sobre o tapete. Erec tomou um assento em frente, sobre a figura de um leopardo que estava retratada no tapete. Ele prepara-se e apronta-se para vestir as suas armas: primeiro, mandou atar um par de grevas de aço polido; a seguir, veste um haubérgão, que era tão fino que nem uma malha poderia ser cortada dele. Este seu haubérgão era rico, de facto, pois nem dentro nem fora dele havia ferro suficiente para fazer uma agulha, nem poderia acumular qualquer ferrugem; pois era todo feito de prata trabalhada em malhas minúsculas tecidas triplamente; e era feito com tal perícia que vos posso assegurar que ninguém que o tivesse vestido sentir-se-ia mais desconfortável ou dorido por causa disso, do que se tivesse vestido uma jaqueta de seda sobre a sua camisa. Os cavaleiros e escudeiros começaram todos a perguntar-se por que ele estava a ser armado; mas ninguém ousava perguntar-lhe o porquê. Quando lhe tinham vestido o haubérgão, um valete ata à volta da sua cabeça um elmo canelado com uma banda de ouro, brilhando mais do que um espelho. Então, ele pega na espada e cinge-a, e ordena-lhes que lhe tragam selado o seu corcel baio da Gasconha. Então, chama um valete para si, e diz: "Valete, vai depressa, corre à câmara ao lado da torre onde está a minha esposa, e diz-lhe que ela me está a fazer esperar aqui demasiado tempo. Ela passou tempo demais com o seu traje. Diz-lhe que venha e monte imediatamente, pois estou à espera dela." E o rapaz vai e encontra-a toda pronta, chorando e gemendo: e ele imediatamente dirigiu-se a ela assim: "Dama, por que te demoras tanto? O meu senhor está à espera lá fora, já totalmente armado. Ele teria montado há algum tempo, se estivesses pronta." Enide perguntou-se muito sobre qual seria a intenção do seu senhor; mas ela muito sabiamente mostrou-se com um semblante o mais alegre possível, quando apareceu diante dele. No meio do pátio encontrou-o, e o Rei Lac vem correndo. Cavaleiros vêm correndo, também, esforçando-se uns com os outros para chegar lá primeiro. Não há nem jovem nem velho que não vá para aprender e perguntar se ele levará algum deles consigo. Assim, cada um oferece-se e apresenta-se. Mas ele afirma categoricamente e garante que não levará nenhum companheiro exceto a sua esposa, asseverando que irá sozinho. Então, o Rei fica em grande aflição. "Belo filho", diz ele, "o que pretendes tu fazer? Deverias dizer-me os teus negócios e não esconder nada. Diz-me para onde irás; pois não queres, de forma alguma, ser acompanhado por uma escolta de escudeiros ou cavaleiros. Se te comprometeste a lutar contra algum cavaleiro em combate singular, ainda assim não deverias por essa razão deixar de levar uma parte dos teus cavaleiros contigo para denotar a tua riqueza e senhorio. O filho de um rei não deveria viajar sozinho. Belo filho, manda carregar os teus sumares agora, e leva trinta ou quarenta ou mais dos teus cavaleiros, e certifica-te de que prata e ouro sejam levados, e tudo o que um cavalheiro necessita." Finalmente, Erec responde e conta-lhe tudo em detalhe como planeou a sua jornada. "Senhor", diz ele, "tem de ser assim. Não levarei nenhum cavalo extra, nem tenho uso para ouro ou prata, escudeiro ou sargento; nem peço qualquer companhia a não ser a da minha esposa apenas. Mas rogo-vos, aconteça o que acontecer, se eu morrer e ela voltar, que a ameis e a tenhais por cara pelo amor de mim e pela minha prece, e dai-lhe enquanto ela viver, sem contenda ou qualquer disputa, a metade da vossa terra para ser sua." Ao ouvir o pedido do seu filho, o Rei disse: "Belo filho, eu prometo-o. Mas entristece-me muito ver-te partir assim sem escolta, e se fosse por mim, tu não deverias partir assim." "Senhor, não pode ser de outra forma. Parto agora, e a Deus vos recomendo. Mas lembrai-vos dos meus companheiros, e dai-lhes cavalos e armas e tudo o que um cavaleiro possa necessitar." O Rei não consegue conter as lágrimas quando é separado do seu filho. As pessoas à volta choram também; as damas e os cavaleiros derramam lágrimas e fazem grande lamento por ele. Não há um que não lamente, e muitos no pátio desmaiam. Chorando, beijam-no e abraçam-no, e estão quase fora de si com a dor. Penso que não teriam ficado mais tristes se o tivessem visto morto ou ferido. Então Erec disse para os confortar: "Meus senhores, por que chorais tanto? Não estou nem na prisão nem ferido. Nada ganhais com esta exibição de dor. Se me vou embora, voltarei quando a Deus aprouver e quando eu puder. A Deus vos recomendo a todos; portanto, deixai-me ir agora; demasiado tempo me mantendes aqui. Sinto muito e entristece-me ver-vos chorar." A Deus ele os recomenda e eles a ele.
Assim partiram, deixando a tristeza atrás de si. Erec põe-se a caminho e conduz a sua esposa, ele não sabe para onde, conforme o acaso dita. "Monta depressa", diz ele, "e tem o cuidado de não ser tão imprudente a ponto de me falares sobre o que quer que vejas. Tem o cuidado de nunca me falares, a menos que eu te dirija a palavra primeiro. Segue agora rápido e com confiança." "Senhor", diz ela, "assim será feito." Ela cavalgou à frente e manteve-se em silêncio. Nem um nem outro disseram uma palavra. Mas o coração de Enide está muito triste, e dentro de si mesma ela lamenta-se assim, suave e baixo para que ele não a ouça: "Ai de mim", diz ela, "Deus tinha-me erguido e exaltado a tão grande alegria; mas agora Ele lançou-me subitamente ao chão. A Fortuna, que me tinha acenado, retirou agora rapidamente a sua mão. Eu não me importaria tanto com isso, ai de mim, se apenas ousasse dirigir-me ao meu senhor. Mas estou mortificada e angustiada porque o meu senhor voltou-se contra mim, vejo-o claramente, uma vez que não quer falar comigo. E não sou tão audaz a ponto de ousar olhar para ele." Enquanto ela se lamenta assim, um cavaleiro que vivia do roubo surgiu do bosque. Tinha dois companheiros consigo, e todos os três estavam armados. Eles cobiçam o palafrém que Enide monta. "Meus senhores, sabeis as novidades que trago?", diz ele aos seus dois companheiros. "Se não fizermos agora uma pilhagem, somos cobardes inúteis e estamos a ter má sorte. Aqui vem uma dama maravilhosamente bela, se é casada ou não, não sei, mas está muito ricamente vestida. O palafrém e a sela, com a peitoral e as rédeas, valem mil libras de Chartres. Tomarei o palafrém para mim, e o resto do saque podeis tê-lo vós. Não quero mais nada para a minha parte. O cavaleiro não levará a dama, assim me ajude Deus. Pois pretendo dar-lhe tal estocada pela qual ele pagará caro. Fui eu quem o viu primeiro, e por isso é meu direito ir o primeiro e oferecer combate." Eles dão-lhe permissão e ele cavalga, agachando-se bem sob o seu escudo, enquanto os outros dois permanecem à distância. Naqueles dias era costume e prática que, num ataque, dois cavaleiros não se juntassem contra um; assim, se eles também o tivessem assaltado, pareceria que tinham agido traiçoeiramente. Enide viu os salteadores, e foi tomada por um grande medo. "Deus", diz ela, "o que posso dizer? Agora o meu senhor será morto ou feito prisioneiro; pois são três e ele está sozinho. O combate não é justo entre um cavaleiro e três. Aquele sujeito vai atingi-lo agora em desvantagem; pois o meu senhor está desprevenido. Deus, serei eu então tão covarde a ponto de não ousar elevar a minha voz? Tal covarde não serei: não deixarei de lhe falar." No mesmo instante, ela volta-se e chama-o: "Bom senhor, em que estais a pensar? Vêm cavalgando atrás de vós três cavaleiros que vos pressionam. Receio muito que vos façam mal." "O quê?", diz Erec, "o que é que dizes? Foste certamente muito audaz ao desdenhar o meu comando e proibição. Desta vez serás perdoada; mas se viesse a acontecer outra vez, não serias perdoada." Então, virando o seu escudo e lança, ele investe contra o cavaleiro. Este vê-lo vir e desafia-o. Quando Erec o ouve, ele desafia-o. Ambos esporam e chocam um com o outro, segurando as suas lanças em toda a extensão. Mas ele falhou Erec, enquanto Erec usou-o duramente; pois ele conhecia bem o ataque correto. Ele golpeia-o no escudo tão ferozmente que o racha de cima a baixo. Nem o seu hauberk é proteção: Erec perfura-o e esmaga-o no meio do peito, e empurra um pé e meio da sua lança para dentro do corpo dele. Quando recuou, puxou a haste. E o outro caiu por terra. Ele tem de morrer, pois a lâmina tinha bebido do seu sangue vital. Então um dos outros dois precipita-se, deixando o seu companheiro para trás, e esporeia em direção a Erec, ameaçando-o. Erec agarra firmemente o seu escudo, e ataca-o com um coração corajoso. O outro segura o seu escudo diante do peito. Então eles golpeiam sobre os escudos emblasonados. A lança do cavaleiro voa em dois bocados, enquanto Erec introduz um quarto do comprimento da lança através do peito do outro. Ele não lhe dará mais problemas. Erec derruba-o e deixa-o desmaiado, enquanto esporeia num ângulo em direção ao terceiro salteador. Quando este o viu vir, começou a fugir. Estava com medo, e não ousou enfrentá-lo; por isso apressou-se a refugiar-se no bosque. Mas a sua fuga é de pouca utilidade, pois Erec segue-o de perto e grita em voz alta: "Vassalo, vassalo, volta-te agora, e prepara-te para te defenderes, para que eu não te mate em ato de fuga. É inútil tentar escapar." Mas o sujeito não tem qualquer desejo de se voltar, e continua a fugir com todas as suas forças. Seguindo-o e alcançando-o, Erec acerta-lhe em cheio no seu escudo pintado, e atira-o para o outro lado. A estes três salteadores ele não presta mais atenção: um matou, outro feriu, e do terceiro livrou-se atirando-o por terra da sua montada. Ele tomou os cavalos dos três e amarrou-os pelas rédeas. Em cor não eram iguais: o primeiro era branco como leite, o segundo preto e de aparência nada má, enquanto o terceiro era todo malhado. Ele voltou à estrada onde Enide o esperava. Ordenou-lhe que guiasse e conduzisse os três cavalos à sua frente, avisando-a severamente para nunca mais ser tão audaz a ponto de dizer uma única palavra, a menos que ele lhe desse permissão. Ela responde: "Nunca o farei, bom senhor, se for da vossa vontade." Então eles cavalgam, e ela mantém-se em silêncio.
Eles ainda não tinham percorrido uma légua quando, diante deles, num vale, vieram outros cinco cavaleiros, com lanças em riste, escudos mantidos rente ao pescoço, e os seus elmos brilhantes bem atados; eles, também, estavam prontos para a pilhagem. De repente, viram a dama aproximar-se encarregue dos três cavalos, e Erec que a seguia. Assim que os viram, dividiram o equipamento entre si, como se já tivessem tomado posse dele. A cobiça é uma coisa má. Mas não aconteceu como esperavam; pois uma defesa vigorosa foi feita. Muito do que um tolo planeia não é executado, e muitos homens perdem o que pensam obter. Assim aconteceu-lhes neste ataque. Um disse que levaria a dama ou perderia a vida na tentativa; e outro disse que o corcel malhado seria seu, e que ficaria satisfeito com isso. O terceiro disse que tomaria o cavalo preto. "E o branco para mim", disse o quarto. O quinto não ficou nada atrás, e jurou que teria o cavalo e as armas do próprio cavaleiro. Ele desejava ganhá-los sozinho, e gostaria de atacá-lo primeiro, se eles lhe dessem permissão: e eles deram consentimento de bom grado. Então ele deixa-os e cavalga à frente num bom e ágil corcel. Erec viu-o, mas fingiu que ainda não o tinha notado. Quando Enide os viu, o seu coração saltou de medo e grande desânimo. "Ai de mim!", disse ela, "não sei o que dizer ou fazer; pois o meu senhor ameaça-me severamente, e diz que me punirá, se eu lhe disser uma palavra. Mas se o meu senhor estivesse morto agora, não haveria conforto para mim. Eu seria morta e tratada rudemente. Deus! o meu senhor não os vê! Por que, então, hesito, louca como sou? Sou de facto demasiado cautelosa com as minhas palavras, quando ainda não lhe falei. Sei bem que aqueles que vêm lá ao fundo estão decididos a alguma ação perversa. E Deus! como lhe falarei? Ele matar-me-á. Bem, que me mate! Ainda assim não deixarei de lhe falar." Então ela chama-o suavemente: "Senhor!" "O quê?", diz ele, "o que queres?" "O vosso perdão, senhor. Quero dizer-vos que cinco cavaleiros surgiram daquele matagal, dos quais tenho medo mortal. Tendo-os notado, sou da opinião de que pretendem lutar convosco. Quatro deles ficaram para trás, e o outro vem em vossa direção tão rápido quanto o seu corcel o pode levar. Tenho medo a cada momento que ele vos atinja. É verdade, os quatro ficaram para trás; mas ainda assim não estão longe, e rapidamente o ajudarão, se a necessidade surgir." Erec responde: "Tiveste um mau pensamento, quando transgrediste o meu comando — uma coisa que eu te tinha proibido. E ainda assim eu sabia o tempo todo que tu não me tinhas em estima. O teu serviço foi mal empregado; pois não despertou a minha gratidão, mas antes inflamou ainda mais a minha ira. Eu disse-te isso uma vez, e digo-o de novo. Esta vez perdoar-te-ei novamente; mas da próxima vez contém-te, e não te voltes novamente para me observar: pois ao fazê-lo serias muito tola. Não aprecio as tuas palavras." Então ele esporeia através do campo em direção ao seu adversário, e eles aproximam-se. Cada um procura e assalta o outro. Erec golpeia-o com tal força que o seu escudo voa do seu pescoço, e assim ele parte-lhe a clavícula. Os seus estribos partem-se, e ele cai sem forças para se levantar novamente, pois estava muito contundido e ferido. Um dos outros então apareceu, e eles atacam-se ferozmente. Sem dificuldade Erec empurra o aço afiado e bem forjado para o seu pescoço sob o queixo, cortando assim os ossos e nervos. Na parte de trás do pescoço a lâmina sobressai, e o sangue vermelho e quente flui para baixo de ambos os lados da ferida. Ele rende o seu espírito, e o seu coração está parado. O terceiro sai do seu esconderijo do outro lado de um vau. Direto através da água, ele vem. Erec esporeia em frente e encontra-o antes que ele saísse da água, golpeando-o tão forte que derruba tanto o cavaleiro como o cavalo. O corcel jazia sobre o corpo tempo suficiente para o afogar na corrente, e então lutou até que, com dificuldade, conseguiu pôr-se de pé. Assim ele conquistou três deles, quando os outros dois acharam sensato desistir do conflito e não lutar com ele. Na fuga seguem a corrente, e Erec atrás deles em perseguição ardente, até que atinge um sobre a espinha tão forte que o atira para a frente sobre o pomo da sela. Ele colocou toda a sua força no golpe, e parte a sua lança sobre o corpo dele, de modo que o sujeito caiu de cabeça. Erec faz com que ele pague caro pela lança que partiu nele, e desembainhou a sua espada da bainha. O sujeito, imprudentemente, endireitou-se; pois Erec deu-lhe três golpes tais que ele saciou a sede da sua espada no sangue dele. Ele corta o ombro do corpo dele, de modo que caiu no chão. Então, com a espada desembainhada, atacou o outro, enquanto este tentava escapar sem companhia ou escolta. Quando ele vê Erec a persegui-lo, fica tão assustado que não sabe o que fazer: não ousa enfrentá-lo, e não pode desviar-se; tem de deixar o seu cavalo, pois não tem mais confiança nele. Ele atira o seu escudo e lança fora, e desliza do seu cavalo para a terra. Quando o viu de pé, Erec já não se preocupou em persegui-lo, mas inclinou-se para a lança, não querendo deixá-la, por causa da sua que tinha sido partida. Ele carrega a sua lança e vai-se embora, não deixando os cavalos para trás: ele captura todos os cinco e leva-os consigo. Enide teve muito trabalho para os levar a todos; pois ele entrega-lhe todos os cinco com os outros três, e ordena-lhe que vá rapidamente, e que se abstenha de dirigir-lhe a palavra para que nenhum mal ou dano lhe possa acontecer. Assim, nem uma palavra ela responde, mas antes mantém o silêncio; e assim eles vão, levando consigo todos os oito cavalos.
Eles cavalgaram até ao cair da noite sem encontrar qualquer cidade ou abrigo. Quando a noite caiu, refugiaram-se debaixo de uma árvore num campo aberto. Erec ordena à sua dama que durma, e ele vigiará. Ela responde que não o fará, pois não é correto, e ela não deseja fazê-lo. É para ele dormir, que está mais cansado. Muito satisfeito com isto, Erec acede. Sob a sua cabeça colocou o seu escudo, e a dama pegou no seu manto, e estendeu-o sobre ele da cabeça aos pés. Assim, ele dormiu e ela manteve a vigia, nunca cochilando a noite toda, mas segurando firme na sua mão pelas rédeas os cavalos até que a manhã rompeu; e muito ela se culpou e repreendeu pelas palavras que tinha proferido, e disse que tinha agido mal, e que não era nem metade tão maltratada quanto merecia ser. "Ai de mim", disse ela, "em que má hora testemunhei o meu orgulho e presunção! Eu poderia ter sabido sem dúvida que não havia cavaleiro melhor do que, ou tão bom quanto, o meu senhor. Eu sabia-o bem antes, mas agora sei-o melhor. Pois vi com os meus próprios olhos como ele não hesitou perante três ou mesmo cinco homens armados. Uma praga para sempre sobre a minha língua por ter proferido tal orgulho e insulto que agora me obrigam a sofrer vergonha!" Durante toda a noite ela lamentou-se assim até que a manhã amanheceu. Erec levanta-se cedo, e novamente eles tomam a estrada, ela à frente e ele atrás. Ao meio-dia, um escudeiro encontrou-os num pequeno vale, acompanhado por dois rapazes que carregavam bolos e vinho e alguns ricos queijos de outono para aqueles que estavam a ceifar o feno nos prados pertencentes ao Conde Galoain. O escudeiro era um sujeito inteligente, e quando viu Erec e Enide, que vinham da direção do bosque, percebeu que eles deviam ter passado a noite na floresta e não tinham comido nem bebido nada; pois num raio de um dia de viagem não havia vila, cidade ou torre, nenhum lugar forte ou abadia, hospício ou lugar de refúgio. Então ele formou um propósito honesto e voltou os seus passos para eles, saudando-os educadamente e dizendo: "Senhor, presumo que tivestes uma experiência difícil na noite passada. Tenho a certeza de que não tivestes sono e passastes a noite nestes bosques. Ofereço-vos um pouco deste bolo branco, se vos aprouver prová-lo. Não o digo na esperança de recompensa: pois não peço nem exijo nada de vós. Os bolos são feitos de bom trigo; tenho bom vinho e ricos queijos, também, um pano branco e finos jarros. Se vos apetece almoçar, não precisais de procurar mais longe. Debaixo destas faias brancas, aqui na relva, poderíeis deixar as vossas armas e descansar um pouco. O meu conselho é que desmonteis." Erec desceu do seu cavalo e disse: "Bom gentil amigo, agradeço-vos amavelmente: comerei algo, sem ir mais longe." O jovem sabia bem o que fazer: ele ajudou a dama a descer do seu cavalo, e os rapazes que tinham vindo com o escudeiro seguraram os corcéis. Então eles vão e sentam-se à sombra. O escudeiro alivia Erec do seu elmo, desata a proteção da boca diante do seu rosto; então ele estende o pano diante deles sobre a relva espessa. Passa-lhes o bolo e o vinho, e prepara e corta um queijo. Famintos como estavam, serviram-se, e beberam alegremente do vinho. O escudeiro serve-os e não omite qualquer atenção. Quando tinham comido e bebido até se fartarem, Erec foi cortês e generoso. "Amigo", diz ele, "como recompensa, desejo oferecer-vos um dos meus cavalos. Levai aquele de que mais gosteis. E rezo para que não seja qualquer dificuldade para vós retornar à cidade e preparar lá um bom alojamento." E ele responde que fará com gosto tudo o que for da sua vontade. Então ele vai até aos cavalos e, desatando-os, escolhe o malhado, e profere os seus agradecimentos; pois este parece ser o melhor. Ele salta pelo estribo esquerdo, e deixando-os a ambos lá, cavalgou para a cidade a toda a velocidade, onde reservou aposentos adequados. Agora vede! ele está de volta: "Agora montai, senhor, rapidamente", diz ele, "pois tendes um bom e belo alojamento pronto." Erec montou, e depois a sua dama, e, como a cidade era perto, eles logo tinham chegado ao seu local de alojamento. Lá foram recebidos com alegria. O anfitrião com bondade deu-lhes as boas-vindas, e com alegria e contentamento fez generosa provisão para as suas necessidades.
Quando o escudeiro lhes prestou toda a honra que podia, ele veio e montou novamente no seu cavalo, conduzindo-o à frente do aposento do Conde até à cavalariça. O Conde e três dos seus vassalos debruçavam-se do aposento, quando o Conde, vendo o seu escudeiro montado no corcel malhado, perguntou-lhe de quem era. E ele respondeu que era seu. O Conde, muito espantado, diz: "Como é isso? Onde o obtiveste?" "Um cavaleiro a quem estimo muito deu-mo, senhor", diz ele. "Conduzi-o até esta cidade, e ele está alojado na casa de um burguês. É um cavaleiro muito cortês e o homem mais belo que alguma vez vi. Mesmo que vos tivesse dado a minha palavra e juramento, não poderia descrever nem metade da sua formosura." O Conde responde: "Suponho e presumo que não seja mais belo do que eu." "Pela minha palavra, senhor", diz o sargento, "vós sois muito belo e um fidalgo. Não há cavaleiro neste país, nativo desta terra, que não supereis em aparência. Mas atrevo-me a sustentar, no que toca a este, que ele é mais formoso do que vós, se não estivesse todo pisado debaixo da sua cota de malha, e ferido. Na floresta, ele lutou sozinho contra oito cavaleiros e levou os seus oito cavalos. E vem com ele uma senhora tão bela que nunca dama alguma foi metade tão bela quanto ela." Quando o Conde ouve estas notícias, toma-o o desejo de ir ver se isto é verdade ou mentira. "Nunca ouvi tal coisa", diz ele; "leva-me agora ao seu alojamento, pois certamente desejo saber se tu mentes ou dizes a verdade." Ele responde: "Com todo o gosto, senhor. Este é o caminho e a vereda a seguir, pois não fica longe daqui." "Estou ansioso por vê-los", diz o Conde. Então ele desce, e o escudeiro desmonta do seu cavalo e faz o Conde montar em seu lugar. Depois, correu à frente para dizer a Erec que o Conde vinha visitá-lo. O alojamento de Erec era, de facto, rico — do tipo a que ele estava acostumado. Havia muitas velas e círios acesos por toda a parte. O Conde veio acompanhado apenas por três companheiros. Erec, que era de modos graciosos, levantou-se para o receber e exclamou: "Bem-vindo, senhor!" E o Conde retribuiu a saudação. Ambos se sentaram lado a lado num macio leito branco, onde conversam um com o outro. O Conde faz-lhe uma oferta e insta-o a consentir em aceitar dele uma garantia para o pagamento das suas despesas na cidade. Mas Erec não se digna a aceitar, dizendo que está bem provido de dinheiro e que não tem necessidade de aceitar nada dele. Falam longamente de muitas coisas, mas o Conde olha constantemente para o outro lado, onde avistou a senhora. Devido à sua beleza manifesta, fixou todo o seu pensamento nela. Olhou para ela tanto quanto pôde; cobiçou-a, e ela agradou-lhe de tal modo que a sua beleza o encheu de amor. Com muita astúcia, pediu a Erec permissão para falar com ela. "Senhor", diz ele, "peço-vos um favor, e que não vos desagrade. Como ato de cortesia e como um prazer, gostaria de me sentar ao lado daquela senhora. Com boa intenção vim ver-vos a ambos, e não deveis ver mal nisso. Desejo apresentar à senhora o meu serviço em todos os aspetos. Sabei bem que, por vosso amor, faria tudo o que a ela possa agradar." Erec não era minimamente ciumento e não suspeitou de qualquer mal ou traição. "Senhor", diz ele, "não tenho objeção. Podeis sentar-vos e conversar com ela. Não penseis que tenho qualquer objeção. Dou-vos permissão de boa vontade." A senhora estava sentada a cerca de dois comprimentos de lança de distância dele. E o Conde tomou o seu lugar junto dela, num banco baixo. Prudente e cortês, a senhora voltou-se para ele. "Ai", disse ele, "quão aflito fico ao ver-vos em tão humilde estado! Sinto pesar e grande angústia. Mas se quiserdes acreditar na minha palavra, poderíeis ter honra e grande vantagem, e muita riqueza vos adviria. Tal beleza como a vossa tem direito a grande honra e distinção. Far-vos-ia minha amante, se vos aprouvesse e fosse a vossa vontade; seríeis a minha querida amante e senhora sobre toda a minha terra. Quando me digno a cortejar-vos assim, não deveríeis desdenhar o meu pedido. Sei e percebo que o vosso senhor não vos ama nem vos estima. Se quiserdes permanecer comigo, seríeis emparelhada com um senhor digno." "Senhor", diz Enide, "a vossa proposta é vã. Não pode ser. Ah! Melhor seria que eu ainda não tivesse nascido, ou que fosse queimada sobre uma fogueira de espinhos e as minhas cinzas espalhadas, do que eu alguma vez, de qualquer forma, ser falsa para com o meu senhor, ou conceber qualquer felonia ou traição contra ele. Cometestes um grande erro ao fazer tal proposta a mim. Não concordarei com isso de modo algum." A ira do Conde começou a subir. "Desdenhais amar-me, senhora?" diz ele; "pela minha palavra, sois demasiado orgulhosa. Nem por lisonja nem por prece fareis a minha vontade? É certamente verdade que o orgulho de uma mulher aumenta quanto mais se reza e se lhe faz festas; mas quem a insulta e desonra encontrará frequentemente mais tratável. Dou-vos a minha palavra de que, se não fizerdes a minha vontade, em breve haverá aqui um duelo de espadas. Quer queira, quer não, farei com que o vosso senhor seja morto aqui mesmo, diante dos vossos olhos." "Ah, senhor", diz Enide, "há um caminho melhor do que esse que dizeis. Cometeríeis um ato vil e traiçoeiro se o matásseis assim. Acalmai-vos novamente, peço-vos; pois farei o vosso prazer. Podeis considerar-me como toda vossa, pois sou vossa e desejo sê-lo. Não falei como falei por orgulho, mas para aprender e provar se poderia encontrar em vós o verdadeiro amor de um coração sincero. Mas não quereria, por preço algum, que cometêsseis um ato de traição. O meu senhor não está de guarda; e se o matásseis assim, faríeis um ato muito feio, e eu teria a culpa por isso. Todos na terra diriam que tinha sido feito com o meu consentimento. Ide e descansai até ao amanhecer, quando o meu senhor estiver prestes a levantar-se. Então podereis melhor causar-lhe dano sem culpa e sem reprovação." Com os pensamentos do seu coração, as suas palavras não concordam. "Senhor", diz ela, "acreditai-me agora! Não tenhais ansiedade; mas enviai aqui amanhã os vossos cavaleiros e escudeiros e fazei-me levar pela força. O meu senhor correrá em minha defesa, pois ele é orgulhoso e audaz o suficiente. Quer a sério ou a brincar, fazei com que seja preso e maltratado, ou cortai-lhe a cabeça, se quiserdes. Já levei esta vida tempo demais, para dizer a verdade. Não gosto da companhia deste meu senhor. Antes sentiria o vosso corpo deitado ao meu lado numa cama. E uma vez que chegámos a este ponto, do meu amor podeis estar seguro." O Conde responde: "Está bem, minha senhora! Deus abençoe a hora em que nascestes; em grande estado sereis mantida." "Senhor", diz ela, "de facto, acredito nisso. E ainda assim gostaria de ter a vossa palavra de que sempre me tereis em estima; não poderia acreditar em vós de outra forma." Contente e alegre, o Conde responde: "Vede aqui, a minha fé vos penhorarei lealmente como um Conde, Madame, que farei todos os vossos mandamentos. Não tenhais mais medo disso. Tudo o que quiserdes, sempre tereis." Então ela tomou a sua palavra empenhada; mas pouco valorizou ou se importou com ela, exceto para com isso salvar o seu senhor. Bem sabe ela como enganar um tolo, quando coloca o seu espírito nisso. Melhor seria mentir-lhe do que o seu senhor ser eliminado. O Conde levantou-se então do lado dela e recomenda-a a Deus cem vezes. Mas de pouco lhe servirá a fé que ela lhe empenhou. Erec não sabia absolutamente nada disto, que eles estavam a conspirar para causar a sua morte; mas Deus poderá prestar-lhe auxílio, e creio que o fará. Agora Erec está em grande perigo e não sabe que deve estar de guarda. As intenções do Conde são muito vis ao planear roubar a sua esposa e matá-lo quando ele está sem defesa. Sob disfarce traiçoeiro, ele despede-se: "A Deus vos recomendo", diz ele, e Erec responde: "E eu a vós, senhor." Assim se separaram. Já uma boa parte da noite tinha passado. Fora do caminho, num dos quartos, duas camas foram feitas no chão. Numa delas Erec deita-se, na outra Enide foi descansar. Cheia de dor e ansiedade, ela nunca fechou os olhos naquela noite, mas permaneceu de vigia por causa do seu senhor; pois, pelo que tinha visto do Conde, sabia que ele era cheio de maldade. Ela sabe muito bem que, se ele obtiver posse do seu senhor, não deixará de lhe causar dano. Ele pode estar certo de ser morto: por isso, por causa dele, ela está em aflição. Toda a noite ela teve de manter a sua vigília; mas antes do amanhecer, se ela puder concretizá-lo, e se o seu senhor quiser acreditar na sua palavra, eles estarão prontos a partir.
Erec dormiu toda a noite profundamente até ao romper do dia. Então Enide percebeu e suspeitou que poderia hesitar demasiado tempo. O seu coração era terno para com o seu senhor, como uma boa e leal senhora. O seu coração não era nem enganador nem falso. Então ela levanta-se e prepara-se, e aproximou-se do seu senhor para o acordar. "Ah, senhor", diz ela, "peço-vos perdão. Levantai-vos rapidamente agora, pois estais traído sem qualquer dúvida, embora inocente e livre de qualquer crime. O Conde é um traidor provado, e se ele vos conseguir apanhar aqui, nunca escapareis sem que ele vos tenha cortado em pedaços. Ele odeia-vos porque me deseja. Mas se aprouver a Deus, que sabe todas as coisas, não sereis nem morto nem apanhado. Ontem à noite ele ter-vos-ia matado se eu não lhe tivesse garantido que seria a sua amante e a sua esposa. Vê-lo-eis voltar aqui em breve: ele quer prender-me e manter-me aqui e matar-vos se ele puder encontrar-vos." Agora Erec descobre quão leal a sua esposa é para com ele. "Senhora", diz ele, "fazei selar rapidamente os nossos cavalos; depois correi e chamai o nosso anfitrião, e dizei-lhe rapidamente para vir aqui. A traição anda há muito tempo por aí." Agora os cavalos estão selados, e a senhora convocou o anfitrião. Erec armou-se e vestiu-se, e na sua presença veio o anfitrião. "Senhor", disse ele, "que pressa é esta, que estais levantado a tal hora, antes que o dia e o sol apareçam?" Erec responde que tem uma longa estrada e um dia cheio pela frente, e por isso preparou-se para partir, tendo isso muito em mente; e acrescentou: "Senhor, ainda não me apresentastes qualquer conta das minhas despesas. Recebestes-me com honra e bondade, e nisso grande mérito vos advém. Cancelai a minha dívida com estes sete cavalos que trouxe comigo. Não os desdenheis, mas guardai-os para vós. Não posso aumentar a minha dádiva para convosco nem pelo valor de uma cabeçada." O burguês ficou encantado com esta oferta e curvou-se profundamente, expressando os seus agradecimentos e gratidão. Então Erec monta e despede-se, e eles seguem o seu caminho. Enquanto cavalgam, ele avisa frequentemente Enide de que, se ela vir alguma coisa, não deve ser tão audaz a ponto de falar-lhe sobre isso. Entretanto, entraram na casa cem cavaleiros bem armados, e ficaram muito consternados por encontrar Erec já não lá. Então o Conde soube que a senhora o tinha enganado. Descobriu as pisadas dos cavalos, e todos seguiram o rasto, o Conde ameaçando Erec e jurando que, se o conseguir alcançar, nada o impedirá de ter a sua cabeça no local. "Maldito seja aquele que agora fica para trás, e não esporoa a galope!" disse ele; "aquele que me apresentar a cabeça do cavaleiro que tanto odeio, ter-me-á servido ao meu gosto." Então eles lançam-se à velocidade máxima, cheios de hostilidade contra aquele que nunca os tinha visto e nunca lhes tinha causado dano por ato ou palavra. Cavalgaram até que o avistaram; à beira de uma floresta, vislumbraram-no antes que ele fosse escondido pelas árvores da floresta. Nenhum deles parou então, mas todos avançaram em rivalidade. Enide ouve o clangor e o ruído das suas armas e cavalos, e vê que o vale está cheio deles. Assim que os viu, não pôde conter a sua língua. "Ah, senhor", ela grita, "ai, como este Conde vos atacou, quando ele lidera contra vós tal hoste! Senhor, cavalgais mais depressa agora, até que estejamos dentro deste bosque. Penso que podemos facilmente deixá-los para trás, pois ainda estão muito longe. Se continuardes a este passo, nunca podereis escapar à morte, pois não sois páreo para eles." Erec responde: "Pouca estima tendes por mim, e levemente considerais as minhas palavras. Parece que não vos posso corrigir por um pedido justo. Mas, como o Senhor tenha misericórdia de mim até que eu escape daqui, juro que pagareis caro por este vosso discurso; isto é, a menos que o meu espírito mude." Então ele vira-se imediatamente e vê o senescal aproximar-se num cavalo forte e veloz. Diante de todos, ele toma a sua posição à distância de quatro disparos de besta. Ele não se tinha desfeito das suas armas, mas estava totalmente bem equipado. Erec avalia a força dos seus oponentes e vê que há totalmente uma centena deles. Então aquele que assim o pressiona pensa que seria melhor chamar por um cabelo. Depois, cavalgam um ao encontro do outro e atingem o escudo um do outro com grandes golpes das suas espadas afiadas e cortantes. Erec fez com que a sua espada de aço robusto perfurasse o corpo dele de lado a lado, de modo que o seu escudo e cota de malha não o protegeram mais do que um retalho de seda azul-escura. E a seguir o Conde vem a esporo, que, como a história conta, era um cavaleiro forte e valente. Mas o Conde, nisto, foi mal aconselhado quando veio apenas com escudo e lança. Ele depositou tanta confiança na sua própria proeza que pensou que não precisava de outras armas. Mostrou a sua audácia excessiva correndo à frente de todos os seus homens por mais de nove acres. Quando Erec viu que ele estava sozinho, virou-se para ele; o Conde não tem medo dele, e encontram-se com o choque das armas. Primeiro o Conde atinge-o com tal violência no peito que ele teria perdido os estribos se não estivesse bem firme. Ele faz a madeira do seu escudo rachar de tal modo que o ferro da sua lança sobressai do outro lado. Mas a cota de malha de Erec era muito sólida e protegeu-o da morte sem o rasgo de uma única malha. O Conde era forte e parte a sua lança; então Erec atinge-o com tal força no seu escudo pintado de amarelo que ele enfiou mais de um metro da sua lança através do seu abdómen, derrubando-o inconsciente do seu corcel. Depois ele virou-se e cavalgou sem mais tardar no local. Direto para a floresta ele esporoa a velocidade máxima. Agora Erec está nos bosques, e os outros pararam um pouco sobre aqueles que jaziam no meio do campo. Em voz alta juram e prometem que preferem persegui-lo por dois ou três dias do que deixar de capturá-lo e matá-lo. O Conde, embora gravemente ferido no abdómen, ouve o que eles dizem. Ele levanta-se um pouco e abre os olhos um pouco. Agora ele percebe que ato vil ele tinha começado a executar. Ele faz os cavaleiros recuarem e diz: "Meus senhores, ordeno a todos vós, tanto fortes como fracos, altos e baixos, que nenhum de vós seja tão audaz a ponto de ousar avançar um único passo. Retornai todos agora rapidamente! Cometi um ato vilão, e arrependo-me do meu plano infame. A senhora que me superou é muito honrada, prudente e cortês. A sua beleza inflamou-me com amor por ela; porque a desejava, queria matar o seu senhor e mantê-la comigo pela força. Eu bem merecia este infortúnio, e agora ele abateu-se sobre mim. Quão abominavelmente desleal e traiçoeiro fui na minha loucura! Nunca houve um cavaleiro melhor nascido de mãe do que ele. Nunca ele receberá dano através de mim se eu puder de alguma forma evitá-lo. Ordeno-vos a todos que refaçais os vossos passos." De volta eles vão desconsolados, carregando o senescal sem vida no escudo invertido. O Conde, cuja ferida não era mortal, viveu ainda por algum tempo depois. Assim foi Erec salvo.
Erec parte a todo galope por uma estrada entre duas sebes — ele e sua esposa consigo. Esporeando ambos os cavalos, cavalgaram até chegarem a um prado que fora ceifado. Após emergirem do cercado de sebes, depararam-se com uma ponte levadiça diante de uma torre alta, que era toda fechada por um muro e um fosso largo e profundo. Passam rapidamente pela ponte, mas não haviam ido muito longe quando o senhor do lugar os avistou lá do alto de sua torre. Sobre este homem posso vos dizer a verdade: que era de estatura muito pequena, mas de coração muito corajoso. Quando vê Erec atravessar a ponte, desce rapidamente de sua torre e, em um grande corcel alazão seu, ordena que coloquem uma sela, que trazia retratado um leão de ouro. Em seguida, ordena que tragam seu escudo, sua lança rígida e reta, uma espada afiada e polida, seu elmo brilhante e luzidio, sua cota de malha cintilante e grevas de tripla trama; pois viu um cavaleiro armado passar diante de sua barreira contra quem deseja medir forças em armas, ou então este estranho lutará contra ele até confessar a derrota. Sua ordem foi prontamente cumprida: eis o cavalo agora conduzido para fora; um escudeiro trouxe-o já bridado e com a sela posta. Outro sujeito traz as armas. O cavaleiro passou pelo portão, o mais rapidamente possível, totalmente só, sem companheiro. Erec cavalgava ao longo de uma encosta, quando eis que o cavaleiro surge descendo em disparada pelo topo da colina, montado em um corcel poderoso que corria a tal passo que esmagava as pedras sob seus cascos mais finamente do que uma mó mói o milho; e faíscas brilhantes e cintilantes voavam em todas as direções, de modo que parecia que seus quatro pés estavam todos em chamas. Enide ouviu o ruído e o tumulto, e quase caiu de seu palfrey, impotente e em desmaio. Não havia veia em seu corpo na qual o sangue não se agitasse, e seu rosto tornou-se todo pálido e branco como se fosse um cadáver. Grande é seu desespero e consternação, pois não ousa dirigir a palavra a seu senhor, que frequentemente a ameaça, repreende e ordena que guarde silêncio. Ela está dividida entre dois caminhos a seguir, se fala ou se permanece em silêncio. Aconselha-se consigo mesma e, muitas vezes, prepara-se para falar, de modo que sua língua já se move, mas a voz não consegue sair; pois seus dentes estão cerrados de medo, e assim fecham seu discurso lá dentro. Assim ela admoesta e recrimina a si mesma, mas fecha a boca e range os dentes para que seu discurso não possa sair. Em conflito consigo mesma, disse: "Estou certa e convicta de que sofrerei uma perda dolorosa, se aqui perder meu senhor. Devo contar-lhe tudo, então, abertamente? Eu não. Por que não? Eu não ousaria, pois assim enfureceria meu senhor. E se a ira de meu senhor for uma vez despertada, ele me deixará neste lugar selvagem sozinha, miserável e desamparada. Então estarei em pior situação do que agora. Em pior situação? O que me importa? Que o pesar e a tristeza sejam sempre meus enquanto eu viver, se meu senhor não escapar prontamente daqui sem ser entregue a uma morte violenta. Mas se eu não o informar rapidamente, este cavaleiro que galopa para cá tê-lo-á matado antes que ele se dê conta; pois parece ter intenções muito malignas. Penso que esperei tempo demais por medo de sua vigorosa proibição. Mas não hesitarei mais por causa de sua restrição. Vejo claramente que meu senhor está tão absorto em pensamentos que se esquece de si mesmo; por isso é justo que eu me dirija a ele." Ela falou com ele. Ele a ameaça, mas não tem desejo de lhe fazer mal, pois percebe e sabe muito bem que ela o ama acima de tudo, e ele também a ama ao extremo. Ele cavalga em direção ao cavaleiro, que o desafia para a batalha, e eles se encontram ao pé da colina, onde atacam e desafiam um ao outro. Ambos golpeiam-se com suas lanças de ponta de ferro com toda a força. Os escudos que pendem de seus pescoços não valem duas cascas de árvore: o couro rasga, e eles fendem a madeira, e despedaçam as malhas das cotas. Ambos são atravessados até as entranhas pelas lanças, e os cavalos caem por terra. Ora, ambos os guerreiros eram valentes. Gravemente, mas não mortalmente feridos, levantaram-se rapidamente e agarraram de novo suas lanças, que não estavam quebradas nem pioradas pelo uso. Mas atiraram-nas ao chão e, desembainhando suas espadas da bainha, atacam um ao outro com grande fúria. Cada um fere e machuca o outro, pois não há misericórdia de nenhum dos lados. Desferem tais golpes sobre os elmos que faíscas cintilantes voam quando as espadas recuam. Fendem e lascam os escudos; batem e esmagam as cotas de malha. Em quatro lugares as espadas atingem a carne nua, de modo que ficam muito enfraquecidos e exaustos. E se ambas as suas espadas tivessem durado muito sem quebrar, eles nunca teriam recuado, nem a batalha teria chegado ao fim antes que um deles necessariamente tivesse morrido. Enide, que os observava, estava quase fora de si de pesar. Quem quer que a pudesse ter visto então, enquanto ela demonstrava seu grande sofrimento torcendo as mãos, arrancando os cabelos e derramando lágrimas, poderia ter visto uma dama leal. E qualquer homem teria sido um miserável vulgar quem visse e não tivesse pena dela. E os cavaleiros continuam a lutar, derrubando as joias dos elmos e desferindo um no outro golpes temíveis. Da terceira à nona hora a batalha continuou tão feroz que ninguém poderia de modo algum discernir quem levaria a melhor. Erec esforça-se e luta; ele trouxe sua espada para baixo sobre o elmo de seu inimigo, fendendo-o até o forro interior de malha e fazendo-o cambalear; mas ele permaneceu firme e não caiu. Então atacou Erec por sua vez, e desferiu-lhe tal golpe sobre a cobertura de seu escudo que sua espada forte e preciosa quebrou quando ele tentou puxá-la para fora. Quando viu que sua espada estava quebrada, com raiva jogou o mais longe que pôde a parte que restou em sua mão. Agora ele estava com medo e precisava recuar; pois qualquer cavaleiro que careça de sua espada não pode fazer muito estrago na batalha ou no ataque. Erec persegue-o até que ele lhe implora, pelo amor de Deus, que não o mate. "Misericórdia, nobre cavaleiro", ele grita, "não sejas tão cruel e severo comigo. Agora que me encontro sem minha espada, tens a força e o poder de tirar minha vida ou fazer-me teu prisioneiro, pois não tenho meios de defesa." Erec responde: "Quando tu assim me suplicas, eu gostaria de te ouvir admitir claramente se estás derrotado e vencido. Não serás tocado novamente por mim se te renderes ao meu critério." O cavaleiro demorou a responder. Então, quando Erec o viu hesitar, a fim de deixá-lo ainda mais consternado, ele atacou-o novamente, avançando sobre ele com a espada desembainhada; momento em que, totalmente aterrorizado, ele gritou: "Misericórdia, senhor! Considere-me seu cativo, já que não pode ser de outra forma." Erec responde: "Mais do que isso é necessário. Não escaparás tão facilmente assim. Diz-me o teu posto e o teu nome, e eu, por minha vez, direi o meu." "Senhor", diz ele, "tendes razão. Sou rei deste país. Meus vassalos são irlandeses, e não há quem não tenha que me pagar tributo. Meu nome é Guivret, o Pequeno. Sou muito rico e poderoso; pois não há proprietário de terras cujas terras toquem as minhas em qualquer direção que alguma vez transgrida minha ordem e que não faça a minha vontade. Não tenho vizinho que não me tema, por mais orgulhoso e ousado que seja. Mas desejo muito ser seu confidente e amigo a partir de agora." Erec responde: "Eu, também, posso me gabar de ser um homem nobre. Meu nome é Erec, filho do Rei Lac. Meu pai é rei do País de Gales distante, e tem muitas cidades ricas, belos salões e cidades fortes; nenhum rei ou imperador tem mais do que ele, salvo apenas o Rei Arthur. A ele, é claro, eu excluo; pois com ele ninguém se pode comparar." Guivret fica muito espantado com isto e diz: "Senhor, uma grande maravilha é esta que ouço. Nunca fiquei tão contente com nada como com o seu conhecimento. Pode depositar plena confiança em mim! E caso lhe agrade permanecer em meu país dentro de minhas propriedades, farei com que seja tratado com grande honra. Enquanto desejar permanecer aqui, será reconhecido como meu senhor. Ambos precisamos de um médico, e eu tenho um castelo meu perto daqui, a nem oito léguas de distância, nem mesmo sete. Desejo levá-lo comigo, e lá teremos nossas feridas tratadas." Erec responde: "Agradeço-lhe pelo que ouvi você dizer. No entanto, não irei, obrigado. Mas apenas peço-lhe uma coisa: que, se eu estiver em necessidade e você souber que precisei de ajuda, você não se esqueça de mim." "Senhor", diz ele, "prometo-lhe que nunca, enquanto eu viver, você precisará da minha ajuda sem que eu vá imediatamente socorrê-lo com toda a assistência que puder comandar." "Não tenho mais nada a lhe pedir", diz Erec; "você me prometeu muito. Você agora é meu senhor e amigo, se sua ação for tão boa quanto sua palavra." Então cada um beija e abraça o outro. Nunca houve uma despedida tão afetuosa após uma batalha tão feroz; pois por muita afeição e generosidade, cada um cortou tiras longas e largas da bainha de sua camisa e enfaixou as feridas do outro. Quando assim enfaixaram um ao outro, encomendaram-se a Deus.
Assim, eles se separaram. Guivret segue seu caminho de volta sozinho, enquanto Erec retoma a estrada, precisando desesperadamente de emplastros para curar suas feridas. Ele não cessou de viajar até chegar a uma planície ao lado de uma floresta elevada, repleta de cervos, corças, veados, gamos e outros animais, e toda sorte de caça. Ora, o Rei Arthur, a Rainha e o melhor de seus barões haviam chegado ali naquele mesmo dia. O Rei desejava passar três ou quatro dias na floresta para o lazer e a caça, e havia ordenado que tendas, pavilhões e coberturas fossem trazidos. Meu senhor Gawain havia entrado na tenda do Rei, exausto de uma longa cavalgada. Diante da tenda, havia uma faia branca, e ali ele deixara um de seus escudos, juntamente com sua lança de freixo. Deixou seu corcel, todo selado e bridado, preso a um galho pela rédea. Lá o cavalo ficou até que Kay, o senescal, passasse por perto. Ele se aproximou rapidamente e, como se para passar o tempo, pegou o corcel e montou, sem a interferência de ninguém. Pegou a lança e o escudo também, que estavam bem próximos sob a árvore. Galopando no corcel, Kay percorreu um vale até que, por acaso, Erec o encontrou. Erec reconheceu o senescal e conheceu as armas e o cavalo, mas Kay não o reconheceu, pois ele não podia ser distinguido por suas armas. Tantos golpes de espada e lança ele recebera sobre seu escudo que todo o desenho pintado havia desaparecido dele. E a dama, que não desejava ser vista ou reconhecida por ele, astutamente mantinha seu véu diante do rosto, como se o fizesse por causa do brilho do sol e da poeira. Kay aproximou-se rapidamente e imediatamente agarrou a rédea de Erec, sem sequer saudá-lo. Antes de deixá-lo mover-se, perguntou presunçosamente: "Cavaleiro", diz ele, "desejo saber quem sois e de onde vindes." "Deves estar louco para me deter assim", diz Erec; "não saberás disso agora." E o outro responde: "Não se irrite; apenas pergunto para seu próprio bem. Posso ver e notar claramente que estais ferido e machucado. Se vierdes comigo, terei um bom alojamento esta noite; cuidarei para que sejais bem tratado, honrado e confortado: pois precisais de repouso. O Rei Arthur e a Rainha estão bem perto daqui, em um bosque, alojados em pavilhões e tendas. De boa fé, aconselho-vos a vir comigo para ver a Rainha e o Rei, que terão muito prazer em vossa companhia e vos prestarão grandes honras." Erec responde: "Dizeis bem; contudo, não irei para lá por nada. Não sabeis qual é o meu negócio: ainda devo seguir mais longe meu caminho. Agora deixai-me ir; demoro-me por tempo demais. Ainda resta um pouco de luz do dia." Kay responde: "Falais loucuras ao recusar-vos a vir. Acredito que vos arrependereis disso. E, por mais que seja contra a vossa vontade, ireis ambos, como o padre vai ao concílio, queirais ou não. Esta noite sereis mal servidos se, desconsiderando meu conselho, fordes lá como estranhos. Vinde agora rapidamente, pois vos levarei." A esta palavra, a ira de Erec foi despertada. "Vassalo", diz ele, "estais louco para me arrastar assim atrás de vós pela força. Tomastes-me completamente desprevenido. Digo-vos que cometestes uma ofensa. Pois eu pensava estar totalmente seguro, e não estava em guarda contra vós." Então ele coloca a mão sobre sua espada e grita: "Tirem as mãos da minha rédea, vassalo! Afastai-vos. Considero-vos orgulhoso e insolente. Eu vos golpearei, estai certo disso, se me arrastardes mais tempo atrás de vós. Deixai-me em paz agora." Então ele o deixa ir e se afasta pelo campo por mais de uma largura de acre; depois vira-se e, como um homem com más intenções, lança seu desafio. Cada um arremeteu contra o outro. Mas, porque Kay estava sem armadura, Erec agiu cortesmente e virou a ponta de sua lança, apresentando a extremidade oposta. Mesmo assim, deu-lhe tal golpe no alto da larga extensão de seu escudo que o fez ferir-se na têmpora, prendendo seu braço ao peito: ele o derruba prostrado à terra. Então foi buscar o cavalo e entregou-o pela rédea a Enide. Estava prestes a levá-lo embora, quando o homem ferido, com sua costumeira adulação, suplica-lhe que o devolva cortesmente. Com belas palavras, ele o lisonjeia e o convence. "Vassalo", diz ele, "que Deus me ajude, este cavalo não é meu. Antes, pertence àquele cavaleiro em quem habita a maior proeza do mundo, meu senhor Gawain, o Bravo. Digo-vos tanto em seu nome, para que possais enviá-lo de volta a ele e assim ganhar honra. Assim sereis cortês e sábio, e eu serei vosso mensageiro." Erec responde: "Levai o cavalo, vassalo, e conduzi-o. Uma vez que pertence ao meu senhor Gawain, não é justo que eu o aproprie." Kay pega o cavalo, remonta e, chegando à tenda real, conta ao Rei toda a verdade, sem omitir nada. E o Rei convocou Gawain, dizendo: "Belo sobrinho Gawain, se alguma vez fostes verdadeiro e cortês, ide rapidamente atrás dele e perguntai-lhe de modo cativante quem ele é e qual o seu negócio. E se puderdes influenciá-lo e trazê-lo convosco até nós, cuidai para não falhar." Então Gawain monta seu corcel, com dois escudeiros seguindo-o. Logo avistaram Erec, mas não o reconheceram. Gawain o saúda, e ele a Gawain: suas saudações foram mútuas. Então disse meu senhor Gawain com sua costumeira franqueza: "Senhor", diz ele, "o Rei Arthur envia-me por este caminho para vos encontrar. A Rainha e o Rei enviam-vos suas saudações e rogam-vos urgentemente que venhais passar algum tempo com eles (pode vos beneficiar e não vos causará dano), já que estão bem perto." Erec responde: "Estou muito grato ao Rei e à Rainha e a vós, que sois, ao que parece, ambos de coração bondoso e modos gentis. Não estou em estado vigoroso; antes, carrego feridas dentro de meu corpo: contudo, não me desviarei do meu caminho para buscar um lugar de alojamento. Portanto, não precisais esperar mais: agradeço-vos, mas podeis ir." Ora, Gawain era um homem de bom senso. Ele recua e sussurra ao ouvido de um dos escudeiros, ordenando-lhe que vá rapidamente e diga ao Rei para tomar medidas imediatas para desmontar e baixar suas tendas e vir montá-las no meio do caminho, três ou quatro léguas à frente de onde agora estão. Lá o Rei deve alojar-se esta noite, se deseja encontrar e estender hospitalidade ao melhor cavaleiro, em verdade, que ele pode esperar ver; mas que não se desviará de seu caminho por um alojamento a pedido de ninguém. O sujeito foi e deu seu recado. O Rei, sem demora, faz com que suas tendas sejam desmontadas. Agora estão baixadas, os animais de carga carregados, e eles partem. O Rei montou Aubagu, e a Rainha montou depois um palafrem norueguês branco. Durante todo esse tempo, meu senhor Gawain não cessou de deter Erec, até que este lhe disse: "Ontem cobri mais terreno do que farei hoje. Senhor, vós me aborreceis; deixai-me ir. Já perturbastes uma boa parte do meu dia." E meu senhor Gawain responde-lhe: "Gostaria de vos acompanhar por um pequeno trecho, se não vos importardes; pois ainda falta muito para a noite." Eles passaram tanto tempo conversando que todas as tendas foram montadas diante deles, e Erec as vê, e percebe que seu alojamento está arranjado para ele. "Ah! Gawain", diz ele, "vossa astúcia me superou. Por vossa grande esperteza, mantivestes-me aqui. Já que aconteceu assim, dir-vos-ei meu nome imediatamente. Mais ocultação seria inútil. Sou Erec, que fui outrora vosso companheiro e amigo." Gawain ouve-o e imediatamente o abraça. Levantou seu elmo e desamarrou sua barbela. Alegremente ele o aperta em seu abraço, enquanto Erec o abraça por sua vez. Então Gawain o deixa, dizendo: "Senhor, esta notícia dará grande prazer ao meu senhor; ele e minha senhora ficarão ambos contentes, e devo ir adiante para lhes contar. Mas primeiro devo abraçar e dar as boas-vindas e falar confortavelmente à minha senhora Enide, vossa esposa. Minha senhora, a Rainha, tem um grande desejo de vê-la. Ouvi-a falar dela apenas ontem." Então ele se aproxima de Enide e pergunta-lhe como ela está, se está bem e em bom estado. Ela responde cortesmente: "Senhor, não teria motivo para pesar, se não estivesse em grande angústia por meu senhor; mas como está, estou em desânimo, pois ele quase não tem um membro sem uma ferida." Gawain responde: "Isso me aflige muito. É perfeitamente evidente em seu rosto, que está todo pálido e sem cor. Eu mesmo poderia ter chorado ao vê-lo tão pálido e abatido, mas minha alegria apagou meu pesar, pois, à sua vista, senti-me tão feliz que esqueci toda outra dor. Agora começai e cavalgai lentamente. Cavalgarei à frente a toda velocidade para dizer à Rainha e ao Rei que estais me seguindo. Tenho certeza de que ambos ficarão encantados quando ouvirem isso." Então ele vai e chega à tenda do Rei. "Senhor", ele grita, "agora vós e minha senhora deveis ficar contentes, pois aqui vêm Erec e sua esposa." O Rei salta de alegria. "Pela minha palavra!", diz ele, "estou muito contente. Não poderia ouvir notícia que me pudesse dar tanta felicidade." A Rainha e todos os outros regozijam-se e saem das tendas tão rápido quanto podem. Até o Rei sai de seu pavilhão, e eles encontraram Erec bem perto. Quando Erec vê o Rei chegando, ele rapidamente desmonta, e Enide também. O Rei abraça e encontra-os, e a Rainha da mesma forma beija e abraça-os ternamente: não há ninguém que não demonstre sua alegria. Ali mesmo, no local, tiraram a armadura de Erec; e quando viram suas feridas, sua alegria transformou-se em tristeza. O Rei solta um suspiro profundo ao vê-las e manda trazer um emplastro que Morgan, sua irmã, havia feito. Este emplastro, que Morgan dera a Arthur, era de tal virtude soberana que nenhuma ferida, quer no nervo ou articulação, desde que fosse tratada com o emplastro uma vez por dia, poderia deixar de ser completamente curada e sarada dentro de uma semana. Trouxeram ao Rei o emplastro que deu a Erec grande alívio. Quando banharam, secaram e enfaixaram suas feridas, o Rei conduz a ele e a Enide para sua própria tenda real, dizendo que pretende, por amor a Erec, demorar-se na floresta por uma quinzena inteira, até que ele esteja completamente restaurado à saúde. Por isso, Erec agradece ao Rei, dizendo: "Belo senhor, minhas feridas não são tão dolorosas que eu deseje abandonar minha jornada. Ninguém poderia me deter; amanhã, sem demora, desejarei partir pela manhã, assim que eu vir o amanhecer." A isso o Rei balançou a cabeça e disse: "É um grande erro não permanecerdes conosco. Sei que estais longe de estar bem. Ficai aqui, e fareis a coisa certa. Será uma grande pena e motivo de pesar se morrerdes nesta floresta. Belo e gentil amigo, ficai aqui agora até que estejais bem novamente." Erec responde: "Chega disso. Empreendi esta jornada e não me demorarei de modo algum." O Rei ouve que ele não ficaria por súplica alguma sua; então não diz mais nada sobre isso e ordena que a ceia seja preparada imediatamente e que as mesas sejam postas. Os servos vão fazer seus preparativos. Era uma noite de sábado; então comeram peixe e frutas, lúcio e perca, salmão e truta, e depois peras, tanto cruas quanto cozidas. Logo após a ceia, ordenaram que as camas fossem preparadas. O Rei, que estimava Erec, mandou-o deitar-se em uma cama sozinho; pois não desejava que ninguém se deitasse com ele e pudesse tocar suas feridas. Naquela noite ele foi bem alojado. Em outra cama, perto, deitou-se Enide com a Rainha sob uma coberta de arminho, e todos dormiram em grande repouso até que o dia rompeu na manhã seguinte.
No dia seguinte, assim que amanhece, Erec levanta-se, veste-se, ordena que seus cavalos sejam selados e ordena que suas armas lhe sejam trazidas. Os criados correm e as trazem para ele. Novamente o Rei e todos os cavaleiros pedem-lhe que permaneça; mas a súplica não tem efeito, pois ele não ficará por nada. Então teríeis podido vê-los todos chorar e demonstrar tal pesar como se já o vissem morto. Ele veste suas armas, e Enide levanta-se. Todos os cavaleiros estão profundamente angustiados, pois pensam que nunca mais os verão. Eles os seguem para fora das tendas e mandam buscar seus próprios cavalos, para que possam escoltá-los e acompanhá-los. Erec disse-lhes: "Não vos irriteis! Mas não me acompanhareis um passo sequer. Agradecer-vos-ei se ficardes para trás!" Seu cavalo foi trazido a ele, e ele monta sem demora. Pegando seu escudo e lança, ele recomenda todos a Deus, e eles, por sua vez, desejam a Erec o bem. Então Enide monta, e eles partem.
Entrando em uma floresta, cavalgaram sem parar até a hora da prima. Enquanto atravessavam o bosque, ouviram ao longe o grito de uma donzela em grande aflição. Quando Erec ouviu o grito, sentiu certeza pelo som de que era a voz de alguém em apuros e precisando de ajuda. Chamando imediatamente Enide, ele diz: "Senhora, há alguma donzela que atravessa o bosque chamando em voz alta. Suponho que ela precise de auxílio e socorro. Vou apressar-me naquela direção e ver qual é seu problema. Desmontai e aguardai-me aqui, enquanto vou ali." "Com prazer, senhor", diz ela. Deixando-a sozinha, ele faz seu caminho até encontrar a donzela, que atravessava o bosque, lamentando seu amante, a quem dois gigantes haviam tomado e levavam embora com tratamento muito cruel. A donzela estava rasgando suas vestes e arrancando seus cabelos e seu tenro rosto carmesim. Erec a vê e, maravilhando-se muito, pede-lhe que lhe diga por que ela chora e se lamenta tanto. A donzela chora e suspira novamente, então, soluçando, diz: "Belo senhor, não é de admirar se sofro, pois queria estar morta. Não amo nem prezo minha vida, pois meu amante foi levado prisioneiro por dois gigantes perversos e cruéis que são seus inimigos mortais. Deus! que farei? Ai de mim! privada do melhor cavaleiro vivo, o mais nobre e o mais cortês. E agora ele está em grande perigo de morte. Neste mesmo dia, e sem causa, eles o trarão para alguma morte vil. Nobre cavaleiro, pelo amor de Deus, peço-vos que socorrais meu amante, se agora puderdes lhe prestar alguma ajuda. Não tereis de correr muito, pois devem ainda estar bem perto." "Donzela", diz Erec, "eu os seguirei, já que o solicitais, e estai certa de que farei tudo ao meu alcance: ou serei feito prisioneiro junto com ele, ou o devolverei a vós são e salvo. Se os gigantes o deixarem viver até que eu possa encontrá-lo, pretendo medir minha força com a deles." "Nobre cavaleiro", disse a donzela, "serei sempre vossa serva se me devolverdes meu amante. Agora ide em nome de Deus, e apressai-vos, suplico-vos." "Por que caminho vai sua trilha?" "Por aqui, meu senhor. Aqui está o caminho com as pegadas." Então Erec partiu a galope e disse-lhe para aguardá-lo ali. A donzela recomenda-o ao Senhor e reza a Deus muito fervorosamente que Ele lhe dê força por Seu comando para derrotar aqueles que pretendem o mal contra seu amante.
Erec seguiu pela trilha, esporando seu cavalo na perseguição aos gigantes. Seguiu-os até avistá-los antes que saíssem do bosque; viu o cavaleiro de membros nus montado, sem roupas, num pangaré, com as mãos e os pés atados como se tivesse sido preso por roubo na estrada. Os gigantes não tinham lanças, escudos ou espadas afiadas; mas ambos portavam clavas e chicotes, com os quais o espancavam tão cruelmente que já lhe haviam rasgado a pele das costas até o osso. Pelos lados e flancos o sangue corria, de modo que o pangaré estava todo coberto de sangue até a barriga. Erec veio sozinho atrás deles. Estava muito triste e aflito pelo cavaleiro que via ser tratado com tamanha maldade. Entre dois bosques, num campo aberto, alcançou-os e perguntou: "Meus senhores", diz ele, "por qual crime tratais este homem tão mal e o conduzis como a um ladrão comum? Estais sendo cruéis demais. Estais a levá-lo como se tivesse sido pego roubando. É um insulto monstruoso despir um cavaleiro, e então amarrá-lo e espancá-lo tão vergonhosamente. Entregai-o a mim, suplico-vos com toda boa vontade e cortesia. Não desejo exigi-lo de vós à força." "Vassalo", dizem eles, "que negócio é esse que te diz respeito? Deves estar louco para nos fazer qualquer exigência. Se não gostas, tenta melhorar as coisas." Erec responde: "Na verdade, não gosto, e não o levareis embora tão facilmente. Já que deixastes o assunto em minhas mãos, digo que aquele que puder tomar posse dele, que o guarde. Tomai vossas posições. Desafio-vos. Não o levareis mais adiante antes que alguns golpes sejam desferidos." "Vassalo", respondem eles, "estás louco, de fato, ao desejar medir tuas forças conosco. Se fosses quatro em vez de um, não terias mais força contra nós do que um cordeiro contra dois lobos." "Não sei como terminará", responde Erec; "se o céu cair e a terra se fundir, então muitas cotovias serão apanhadas. Muitos homens vangloriam-se em voz alta, sendo de pouco valor. Em guarda agora, pois vou atacar-vos." Os gigantes eram fortes e ferozes, e seguravam em suas mãos cerradas suas grandes clavas com pontas de ferro. Erec avançou contra eles com a lança em riste. Não teme nenhum deles, apesar de sua ameaça e seu orgulho, e golpeia o primeiro deles através do olho, tão profundamente no cérebro que o sangue e os miolos jorram pela parte de trás de seu pescoço; aquele jaz morto e seu coração para de bater. Quando o outro o viu morto, teve motivos para ficar profundamente pesaroso. Furioso, foi vingá-lo: com ambas as mãos ergueu sua clava no alto e pensou em atingi-lo em cheio sobre sua cabeça desprotegida; mas Erec observou o golpe e recebeu-o em seu escudo. Ainda assim, o gigante desferiu tal pancada que o deixou atordoado, quase fazendo-o cair do cavalo em terra. Erec cobre-se com seu escudo e o gigante, recuperando-se, pensa em golpear novamente com rapidez sobre sua cabeça. Mas Erec desembainhara sua espada e atacou-o com tal ferocidade que o gigante foi severamente tratado: golpeia-o tão forte no pescoço que o corta até o pomo da sela. Espalha suas entranhas pela terra, e o corpo cai estendido, partido em duas metades. O cavaleiro chora de alegria e, adorando, louva a Deus que lhe enviou tal auxílio. Então Erec o desamarrou, fez com que se vestisse e se armasse, e montasse num dos cavalos; o outro fez com que conduzisse com a mão direita, e pergunta-lhe quem é. E ele respondeu: "Nobre cavaleiro, tu és meu senhor feudal. Desejo considerar-te como meu senhor, como por direito deveria fazer, pois salvaste minha vida, que agora teria sido ceifada do meu corpo com grande tormento e crueldade. Que sorte, belo e gentil senhor, em nome de Deus, guiou-te até mim, para libertar-me por tua coragem das mãos de meus inimigos? Senhor, desejo prestar-te homenagem. Daqui em diante, sempre te acompanharei e servir-te-ei como meu senhor." Erec vê que ele está disposto a servi-lo com alegria, se puder, e diz: "Amigo, por teu serviço não tenho desejo; mas deves saber que vim aqui para socorrer-te por insistência de tua dama, a quem encontrei entristecida neste bosque. Por tua causa, ela sofre e geme; pois cheio de tristeza está seu coração. Desejo apresentar-te a ela agora. Assim que eu te tiver reunido a ela, seguirei meu caminho sozinho; pois não tens obrigação de vir comigo. Não tenho necessidade de tua companhia; mas gostaria de saber teu nome." "Senhor", diz ele, "como desejares. Já que desejas saber meu nome, não deve ser escondido de ti. Meu nome é Cadoc de Tabriol: sabe que assim sou chamado. Mas já que devo separar-me de ti, gostaria de saber, se for possível, quem és e de que terra, onde eu possa algum dia encontrar-te e procurar-te, quando eu seguir meu caminho daqui." Erec responde: "Amigo, isso nunca te confiarei. Nunca mais fales a respeito; mas se desejas descobrir e honrar-me de alguma forma, vai rapidamente agora, sem demora, ao meu senhor, o Rei Arthur, que com força e vigor está caçando o veado naquele bosque, ao que me parece, a não cinco léguas curtas daqui. Vai para lá rapidamente e leva-lhe a palavra de que és enviado a ele como um presente por aquele a quem ontem, dentro de sua tenda, ele alegremente recebeu e hospedou. E tem o cuidado de não esconder dele de que perigo libertei tanto tua vida quanto teu corpo. Sou caro à corte, e se te apresentares em meu nome, far-me-ás um serviço e uma honra. Lá perguntarás quem sou; mas não podes saber de outra forma." "Senhor", diz Cadoc, "seguirei tua ordem em todos os aspectos. Nunca precisas ter receio de que eu não vá com o coração alegre. Direi ao Rei toda a verdade a respeito da batalha que lutaste em meu favor." Assim falando, continuaram seu caminho até chegarem à donzela onde Erec a havia deixado. A alegria da donzela não teve limites quando viu chegar seu amado, a quem nunca pensou ver novamente. Tomando-o pela mão, Erec apresenta-o a ela com as palavras: "Não mais sofrais, donzela! Eis o vosso amado alegre e jubiloso." E ela, com prudência, responde: "Senhor, por direito ganhastes a ambos. Vossos deveríamos ser, para servir e honrar. Mas quem poderia algum dia pagar metade da dívida que vos devemos?" Erec responde: "Minha gentil dama, nenhuma recompensa vos peço. A Deus recomendo agora a ambos, pois tempo demais, creio, permaneci aqui." Então ele vira seu cavalo e cavalga para longe tão rápido quanto pode. Cadoc de Tabriol, com sua donzela, cavalga para outra direção; e logo contou a notícia ao Rei Arthur e à Rainha.
Erec continua a cavalgar em grande velocidade para o lugar onde Enide o esperava com grande preocupação, pensando que certamente ele a havia abandonado por completo. E ele, também, estava com grande medo de que alguém, encontrando-a sozinha, pudesse tê-la levado. Por isso, apressou-se o máximo para retornar. Mas o calor do dia era tal, e suas armas causavam-lhe tal aflição, que suas feridas abriram-se e romperam as bandagens. Suas feridas nunca pararam de sangrar antes que chegasse diretamente ao local onde Enide o esperava. Ela o avistou e alegrou-se: mas não percebeu ou soube da dor que ele estava sofrendo; pois todo seu corpo estava banhado em sangue, e seu coração mal tinha forças para bater. Enquanto descia uma colina, ele caiu subitamente sobre o pescoço de seu cavalo. Ao tentar endireitar-se, perdeu a sela e os estribos, caindo, como se sem vida, num desmaio. Então começou um pesar tão profundo, quando Enide o viu cair em terra. Cheia de medo ao vê-lo, ela corre em sua direção como alguém que não faz ocultação de seu pesar. Em voz alta ela grita, e torce as mãos: nem um pedaço de sua túnica permanece sem rasgar através de seu peito. Começa a arrancar seus cabelos e a lacerar seu rosto terno. "Ah Deus!", ela clama, "belo e gentil Senhor, por que permites que eu viva assim? Venha a Morte, e mata-me apressadamente!" Com essas palavras, ela desmaia sobre o corpo dele. Quando se recuperou, disse a si mesma com reprovação: "Ai de mim, miserável Enide; sou a assassina de meu senhor, tendo-o matado por minhas palavras. Meu senhor ainda estaria vivo agora, se eu, em minha louca presunção, não tivesse dito a palavra que o envolveu nesta aventura. O silêncio nunca prejudicou ninguém, mas o falar muitas vezes causa dor. A verdade disso comprovei e experimentei de mais de uma forma." Ao lado de seu senhor, ela tomou seu lugar, segurando a cabeça dele em seu colo. Então ela começa seu lamento novamente. "Ai", diz ela, "meu senhor, infeliz de ti, tu que nunca tiveste um par; pois em ti a beleza era vista e a proeza era manifestada; a sabedoria te dera seu coração, e a generosidade coroara-te, sem a qual ninguém é estimado. Mas o que eu disse? Um erro grave cometi ao proferir a palavra que matou meu senhor - essa palavra fatal e envenenada pela qual devo ser justamente reprovada; e reconheço e admito que ninguém é culpado senão eu mesma; apenas eu devo ser culpada por isso." Então, desmaiando, ela cai sobre o chão, e quando mais tarde sentou-se novamente, apenas geme ainda mais: "Deus, o que farei, e por que viver? Por que a Morte demora e hesita em vir e arrebatar-me sem descanso? Verdadeiramente, a Morte tem-me em grande desprezo! Já que a Morte não se digna a tirar minha vida, devo eu mesma, à força, realizar a vingança por meu ato pecaminoso. Assim morrerei apesar da Morte, que não atenderá meu chamado por socorro. Contudo, não posso morrer pelo simples desejo, nem reclamar servir-me-ia de algo. A espada, que meu senhor cingia, deveria por direito vingar sua morte. Não me consumirei mais em aflição, em prece e vão desejo." Ela saca a espada da bainha e começa a examiná-la. Deus, que é cheio de misericórdia, fez com que ela se atrasasse um pouco; e enquanto ela passa em revista seu pesar e sua desgraça, eis que vem cavalgando apressado um Conde com numerosa comitiva, que de longe ouvira o grito alto da dama. Deus não quis abandoná-la; pois agora ela teria se matado, se não tivesse sido surpreendida por aqueles que tomaram dela a espada e a empurraram de volta para a bainha. O Conde então desmontou de seu cavalo e começou a perguntar-lhe sobre o cavaleiro, e se ela era sua esposa ou sua amada. "Ambas, meu senhor", ela diz, "meu pesar é tal que não posso dizer. Ai de mim que não estou morta." E o Conde começa a consolá-la: "Dama", diz ele, "pelo Senhor, peço-vos, tende alguma piedade de vós mesma! É conveniente que lamenteis, mas não serve de nada ficar inconsolável; pois ainda podeis ascender a um alto estado. Não afundeis na apatia, mas confortai-vos; isso será sábio, e Deus vos dará alegria novamente. Vossa maravilhosa beleza reserva boa fortuna para vós; pois eu vos tomarei como minha esposa, e vos farei uma condessa e dama de posição: isso deveria trazer-vos muito consolo. E farei com que o corpo seja removido e depositado com grande honra. Deixai agora esse vosso pesar que, em vosso frenesi, demonstrais." E ela responde: "Senhor, ide embora! Pelo amor de Deus, deixai-me! Não podeis realizar nada aqui. Nada que se pudesse dizer ou fazer poderia algum dia fazer-me feliz novamente." A isso, o Conde recuou e disse: "Façamos um esquife, onde possamos levar embora este corpo com a dama para a cidade de Limors. Lá o corpo será enterrado. Então desposarei a dama, quer ela dê consentimento ou não: pois nunca vi ninguém tão bela, nem desejei ninguém como a desejo. Feliz sou por tê-la encontrado. Agora fazei rápida e sem demora um esquife adequado para este cavaleiro morto. Não vos detenhais pelo trabalho, nem pela preguiça." Então alguns de seus homens sacam suas espadas e logo cortam duas mudas de árvores, sobre as quais colocaram ramos cruzados. Sobre esse leito colocaram Erec; então atrelaram dois cavalos a ele. Enide cavalga ao lado, não cessando de lamentar, e frequentemente desmaiando e caindo para trás; mas os cavaleiros seguram-na firme, e tentam apoiá-la com seus braços, e levantá-la e confortá-la. Por todo o caminho até Limors escoltam o corpo, até chegarem ao palácio do Conde. Todo o povo segue atrás deles - damas, cavaleiros e habitantes da cidade. No meio do salão, sobre um estrado, estenderam o corpo por inteiro, com sua lança e escudo ao lado. O salão está cheio, a multidão é densa. Cada um está ansioso para perguntar qual é este problema, que maravilha é esta. Enquanto isso, o Conde toma conselho com seus barões em particular. "Meus senhores", diz ele, "no local, desejo desposar esta dama aqui. Podemos julgar claramente por sua beleza e porte prudente que ela é de posição muito gentil. Sua beleza e nobre porte mostram que a honra de um reino ou império poderia muito bem ser concedida a ela. Nunca sofrerei desonra através dela; antes, penso em ganhar mais honra. Chamai meu capelão agora, e vós, ide buscar a dama. A metade de toda minha terra darei a ela como dote, se ela cumprir meu desejo." Então ordenaram que o capelão viesse, de acordo com a ordem do Conde, e a dama trouxeram também, e fizeram com que ela se casasse com ele à força; pois ela categoricamente recusou dar consentimento. Mas, apesar de tudo, o Conde casou-se com ela de acordo com seu desejo. E quando ele a desposou, o condestável imediatamente mandou colocar as mesas no palácio e preparou a comida; pois já era hora da refeição noturna.
Após as vésperas, naquele dia de maio, Enide estava em profunda aflição, nem seu pesar cessou de perturbá-la. E o Conde exortou-a suavemente, por prece e ameaça, a fazer as pazes e ser consolada, e fez com que ela se sentasse numa cadeira, embora fosse contra sua vontade. Apesar dela, fizeram-na sentar e colocaram a mesa à sua frente. O Conde ocupa seu lugar do outro lado, quase fora de si de raiva por constatar que não consegue confortá-la. "Dama", diz ele, "deveis agora deixar esse pesar e bani-lo. Podeis ter plena confiança em mim, de que honra e riquezas serão vossas. Deveis certamente perceber que o lamento não reviverá os mortos; pois ninguém jamais viu tal coisa acontecer. Lembrai-vos agora, embora pobre fôsseis, que grandes riquezas estão ao vosso alcance. Outrora éreis pobre; rica agora sereis. A Fortuna não foi mesquinha convosco, ao conceder-vos a honra de ser doravante aclamada como Condessa. É verdade que vosso senhor está morto. Se lamentais e vos queixais por causa disso, pensais que estou surpreso? Não. Mas estou dando-vos o melhor conselho que sei dar. Por eu vos ter casado, deveríeis estar contente. Tende cuidado para não me irritar! Comei agora, como vos ordeno." E ela responde: "Eu não, meu senhor. Em verdade, enquanto eu viver, não comerei nem beberei a menos que primeiro veja meu senhor comer, que jaz sobre aquele estrado." "Dama, isso nunca poderá ser. As pessoas pensarão que estais louca quando dizeis tamanha tolice. Recebereis uma pobre recompensa se derdes ocasião hoje para mais reprovações." A isso ela não respondeu, mantendo suas ameaças em pouca estima, e o Conde golpeia-a no rosto. Diante disso ela grita, e os barões presentes culpam o Conde. "Parai, senhor!", clamam eles ao Conde; "deveríeis ter vergonha de ter golpeado esta dama porque ela não quer comer. Fizestes um ato muito feio. Se esta dama está aflita por causa de seu senhor, a quem vê morto agora, ninguém deveria dizer que ela está errada." "Silêncio, todos", responde o Conde; "a dama é minha e eu sou dela, e farei com ela o que eu quiser." Diante disso ela não pôde calar-se, mas jura que nunca será dele. E o Conde salta e golpeia-a novamente, e ela grita em voz alta. "Ah! miserável", diz ela, "não me importo com o que me digas, ou o que faças! Não temo teus golpes, nem tuas ameaças. Bate-me e golpeia-me, como quiseres. Nunca darei atenção ao teu poder tanto a ponto de fazer tua vontade, mais ou menos, mesmo se tu, com tuas mãos, lutasses agora para arrancar meus olhos ou esfolar-me viva."
No meio destas palavras e disputas, Erec recuperou-se do seu desmaio, como um homem que desperta do sono. Não é de admirar que se tenha espantado com a multidão que via à sua volta. Mas grande foi a sua dor e grande o seu desgosto quando ouviu a voz da sua esposa. Desceu do estrado para o chão e desembainhou rapidamente a sua espada. A ira e o amor que nutria pela esposa deram-lhe coragem. Corre para onde a vê e desfere um golpe no Conde, bem no alto da cabeça, de modo que lhe faz saltar os miolos e, partindo-lhe a testa, deixa-o sem sentidos e sem fala; o sangue e a massa encefálica escorrem-lhe. Os cavaleiros saltam das mesas, convencidos de que é o diabo que abriu caminho entre eles. De jovens ou velhos, não resta ninguém, pois todos foram tomados por um grande pavor. Cada um tenta ultrapassar o outro numa retirada apressada. Em breve, estavam todos fora do palácio e clamam em voz alta, fracos e fortes: "Fugir, fugir, aí vem o cadáver!" À porta, o aperto é grande: cada um esforça-se por escapar, empurrando e atropelando como melhor pode. Aquele que fica por último na multidão agitada deseja estar na primeira fila. Assim, conseguem escapar na fuga, pois ninguém se atreve a parar diante da passagem do outro. Erec correu a buscar o seu escudo, pendurando-o ao pescoço pela correia, enquanto Enide apanha a lança. Depois, saem para o pátio. Não há ninguém tão ousado que ofereça resistência; pois não acreditavam que pudesse ser um homem quem assim os expulsara, mas um diabo ou algum inimigo que tivesse entrado no corpo morto. Erec persegue-os enquanto fogem e encontra, do lado de fora, no pátio do castelo, um cavalariço prestes a levar o seu corcel para o bebedouro, todo equipado com freio e sela. Este encontro fortuito agradou muito a Erec: ao aproximar-se rapidamente do cavalo, o rapaz, com medo, entrega-lho imediatamente. Erec senta-se entre os arções, enquanto Enide, agarrando o estribo, salta para o pescoço do cavalo, conforme Erec, que a mandou montar, a instruiu e ordenou que fizesse. O cavalo leva-os a ambos; e, encontrando o portão da cidade aberto, escapam sem detenção. Na cidade, havia grande ansiedade pelo Conde que fora morto; mas não há ninguém, por mais valente que seja, que siga Erec para se vingar. À sua mesa o Conde fora morto; enquanto Erec, que leva a sua esposa consigo, abraça-a, beija-a e anima-a. Nos braços, aperta-a contra o seu coração e diz: "Doce irmã minha, a minha prova de ti está completa! Não te preocupes mais de forma alguma, pois amo-te agora mais do que jamais amei; e estou certo e convicto de que me amas com um amor perfeito. Daqui em diante, para sempre, ofereço-me para fazer a tua vontade, tal como costumava fazer antes. E se falaste mal de mim, perdoo-te e considero-te quites, tanto da ofensa quanto da palavra que disseste." Então, beija-a novamente e aperta-a com força. Agora Enide não se sente mal quando o seu senhor a aperta e beija, dizendo-lhe de novo que ainda a ama. Montados, cavalgam rapidamente pela noite e alegram-se muito por a lua brilhar intensamente.
Entretanto, as notícias viajaram depressa, e não há nada tão veloz. Chegara ao conhecimento de Guivret, o Pequeno, que um cavaleiro ferido pelas armas fora encontrado morto na floresta e que, com ele, estava uma dama a lamentar-se, e tão maravilhosamente bela que Isolda teria parecido a sua serva. O Conde Oringle de Limors encontrara ambos e mandara levar o cadáver, desejando ele próprio desposar a dama; mas ela recusou-o. Quando Guivret ouviu esta notícia, não ficou nada satisfeito; pois, de imediato, o pensamento de Erec ocorreu-lhe. Veio-lhe ao coração e à mente ir procurar a dama e mandar sepultar o corpo honradamente, caso se viesse a confirmar que era ele. Reuniu mil homens de armas e cavaleiros para tomar a cidade. Se o Conde não entregasse, por vontade própria, o corpo e a dama, ele reduziria tudo a fogo e chamas. Sob a luz da lua que brilhava clara, conduziu os seus homens em direção a Limors, com elmos atados, vestidos em cotas de malha, e dos seus pescoços pendiam os escudos. Assim, sob armas, avançaram todos até quase meia-noite, quando Erec os avistou. Agora espera ser enredado, morto ou capturado inevitavelmente. Faz Enide desmontar junto a uma sebe. Não é de admirar que esteja consternado. "Dama, ficai aqui", diz ele, "junto a esta sebe por um tempo, até que estas pessoas tenham passado. Não quero que vos vejam, pois não sei que espécie de gente são, nem o que procuram. Confio que não atrairemos a sua atenção. Mas não vejo em parte alguma um lugar onde possamos refugiar-nos, caso queiram ferir-nos. Não sei se algum mal me pode advir, mas não será por medo que deixarei de investir contra eles. E se alguém me atacar, não deixarei de justar com ele. Contudo, estou tão dorido e exausto que não é de admirar que me aflija. Agora devo ir ao encontro deles, e ficai vós aqui quietas. Tende cuidado para que ninguém vos veja, até que vos tenham deixado bem para trás." Eis agora Guivret, com a lança estendida, que o avistou de longe. Não se reconheceram, pois a lua ocultara-se atrás da sombra de uma nuvem escura. Erec estava fraco e exausto, e o seu antagonista estava totalmente recuperado das suas feridas e golpes. Agora Erec estará longe de ser prudente se não se der a conhecer prontamente. Ele sai da sebe. E Guivret esporeia em sua direção sem lhe dirigir a palavra, nem Erec lhe profere um vocábulo: pensou que podia mais do que podia. Quem tenta correr mais do que é capaz deve, forçosamente, desistir ou descansar. Chocam um contra o outro; mas o combate foi desigual, pois um estava fraco e o outro forte. Guivret golpeia-o com tal força que o derruba do dorso do cavalo para a terra. Enide, que estava escondida, ao ver o seu senhor no chão, espera ser morta e maltratada. Saltando da sebe, corre em auxílio do seu senhor. Se antes se afligia, agora a sua angústia é maior. Aproximando-se de Guivret, agarrou a rédea do seu cavalo e disse: "Maldito sejas, cavaleiro! Pois atacaste um homem fraco e exausto, que sofre e está mortalmente ferido, com tamanha injustiça que não podes encontrar razão para o teu feito. Se estivesses sozinho e desamparado, terias lamentado este ataque, caso o meu senhor estivesse com saúde. Agora sê generoso e cortês, e bondosamente cessa esta batalha que começaste. Pois a tua reputação não seria melhor por teres morto ou capturado um cavaleiro que não tem forças para se levantar, como podes ver. Pois ele sofreu tantos golpes de armas que está todo coberto de feridas." E ele responde: "Não temais, dama! Vejo que lealmente amais o vosso senhor, e louvo-vos por isso. Não tenhais medo algum de mim ou da minha companhia. Mas dizei-me agora sem ocultação qual é o nome do vosso senhor; pois só vantagem tereis em dizer-mo. Quem quer que seja, dizei-me o seu nome; então ele seguirá são e salvo. Nem ele nem vós tendes algo a temer, pois estais ambos em mãos seguras."
Então Enide descobre que está a salvo e responde-lhe brevemente num só termo: "O seu nome é Erec; não devo mentir, pois vejo que sois honesto e de boa intenção." Guivret, no seu deleite, desmonta e vai cair aos pés de Erec, onde ele jazia no chão. "Meu senhor", diz ele, "eu ia à vossa procura e estava a caminho de Limors, onde esperava encontrar-vos morto. Foi-me contado e narrado como verdade que o Conde Oringle levara para Limors um cavaleiro que estava mortalmente ferido, e que ele, perversamente, pretendia desposar uma dama que encontrara na sua companhia; mas que ela não queria saber dele. E eu vinha urgentemente para a ajudar e libertar. Se ele se recusasse a entregar-me tanto a dama quanto vós sem resistência, considerar-me-ia de pouco valor se lhe deixasse um palmo de terra onde se apoiar. Estai certo de que, se não vos amasse muito, nunca teria tomado tal encargo sobre mim. Sou Guivret, o vosso amigo; mas se vos causei algum dano por não vos ter reconhecido, certamente deveis perdoar-me." A isto, Erec sentou-se, pois não podia fazer mais, e disse: "Ergue-te, meu amigo. Sê absolvido do mal que me fizeste, uma vez que não me reconheceste." Guivret levanta-se, e Erec conta-lhe como matara o Conde enquanto este estava à mesa, e como recuperara a posse do seu corcel diante da estrebaria, e como os sargentos e os escudeiros fugiram pelo pátio, gritando: "Fugi, fugi, o cadáver está a perseguir-nos"; depois, como esteve perto de ser apanhado e como escapou pela cidade e pela colina abaixo, carregando a sua esposa no pescoço do seu cavalo: toda esta aventura sua ele lhe contou. Então Guivret disse: "Senhor, tenho um castelo aqui perto, que está bem situado num local salubre. Para vosso conforto e benefício, desejo levar-vos para lá amanhã e mandar tratar das vossas feridas. Tenho duas irmãs encantadoras e vivazes que são peritas no tratamento de feridas: elas curar-vos-ão completamente em breve. Esta noite deixaremos a nossa companhia alojar-se aqui nos campos até de manhã; pois penso que um pouco de descanso esta noite vos fará muito bem. O meu conselho é que passemos a noite aqui." Erec responde: "Sou favorável a fazê-lo." Então ficaram ali e passaram a noite. Não hesitaram em preparar um alojamento, mas encontraram poucas acomodações, pois a companhia era bastante numerosa. Alojaram-se como melhor puderam entre os arbustos: Guivret mandou montar a sua tenda e ordenou que se acendesse lume, para que pudessem ter luz e ânimo. Mandou tirar velas das arcas e acenderam-nas dentro da tenda. Agora Enide já não se aflige, pois tudo correu bem. Despe o seu senhor das armas e roupas e, tendo lavado as suas feridas, secou-as e ligou-as de novo; pois não queria que mais ninguém lhe tocasse. Agora Erec não vê mais motivos para a repreender, pois provou-a bem e descobriu que ela nutre um grande amor por ele. E Guivret, que os trata gentilmente, mandou construir um leito alto e comprido de colchas acolchoadas, estendidas sobre a erva e o caniço, que encontraram em abundância. Lá deitaram Erec e cobriram-no. Então, Guivret abriu uma arca e tirou dois pastéis. "Amigo", diz ele, "prova agora um pouco destes pastéis frios e bebe um pouco de vinho misturado com água. Tenho tanto quanto seis barris dele, mas puro não é bom para ti; pois estás ferido e coberto de chagas. Belo e doce amigo, tenta agora comer; pois far-te-á bem. E a minha senhora também comerá — a tua esposa que esteve hoje em grande aflição por tua causa. Mas recebeste plena satisfação por tudo isso e escapaste. Portanto, come agora, e eu também comerei, belo amigo." Então Guivret sentou-se ao lado de Erec, e o mesmo fez Enide, que estava muito satisfeita com tudo o que Guivret fazia. Ambos o exortam a comer, dando-lhe vinho misturado com água; pois puro é demasiado forte e quente. Erec comeu como um homem doente come e bebeu um pouco — tudo o que se atreveu. Mas descansou confortavelmente e dormiu toda a noite; pois, por causa dele, não se fez ruído ou perturbação.
De manhã cedo, despertaram e prepararam-se de novo para montar e cavalgar. Erec era tão dedicado ao seu próprio cavalo que não queria montar outro. Deram a Enide uma mula, pois ela perdera o seu palfrém. Mas ela não estava preocupada; a julgar pelo seu aspeto, não dava importância ao assunto. Tinha uma boa mula com um passo suave que a levava muito confortavelmente. E dava-lhe grande satisfação que Erec não estivesse abatido, mas sim que lhes assegurasse que recuperaria completamente. Antes da hora terça, chegaram a Penevric, um castelo forte, bem e belamente situado. Ali habitavam as duas irmãs de Guivret; pois o lugar era bastante agradável. Guivret escoltou Erec para um quarto delicioso e arejado numa parte remota do castelo. As suas irmãs, a seu pedido, esforçaram-se por curar Erec; e Erec colocou-se nas suas mãos, pois elas inspiravam-lhe plena confiança. Primeiro, removeram a carne morta, depois aplicaram emplastro e fios, dedicando ao seu cuidado toda a sua perícia, como mulheres que conheciam bem o seu ofício. Vezes sem conta lavaram as suas feridas e aplicaram o emplastro. Quatro vezes ou mais por dia, faziam-no comer e beber, não lhe permitindo, contudo, alho ou pimenta. Mas qualquer que fosse a pessoa que entrasse ou saísse, Enide estava sempre com ele, preocupando-se mais do que qualquer outro. Guivret vinha frequentemente perguntar e indagar se ele precisava de alguma coisa. Era bem tratado e bem servido, e tudo o que desejava era feito de boa vontade. Mas as donzelas, alegre e felizes, demonstravam tal devoção no seu cuidado que, ao fim de uma quinzena, ele não sentia qualquer dor ou sofrimento. Então, para lhe devolver a cor, começaram a dar-lhe banhos. Não havia necessidade de instruir as donzelas, pois compreendiam bem o tratamento. Quando ele pôde andar por aí, Guivret mandou fazer duas túnicas largas de dois tipos diferentes de seda, uma guarnecida com arminho, a outra com vário. Uma era de cor púrpura escura, e a outra riscada, enviada como presente por um primo seu da Escócia. Enide tinha a túnica púrpura guarnecida com arminho, que era muito preciosa, enquanto Erec tinha a de tecido riscado com a pele, que não era menos valiosa. Agora Erec estava forte e bem, curado e recuperado. Agora que Enide estava muito feliz e tinha tudo o que desejava, a sua grande beleza regressou; pois a sua grande aflição afetara-a tanto que estava muito pálida e macilenta. Agora ela é abraçada e beijada, agora ela é abençoada com todas as coisas boas, agora ela tem a sua alegria e prazeres; pois, sem adornos, deitam-se na cama e cada um envolve e beija o outro; nada lhes dá tanta alegria. Tiveram tanta dor e tristeza, ele por ela, e ela por ele, que agora têm a sua satisfação. Cada um compete em procurar agradar ao outro. Sobre o resto do seu jogo, não devo falar. Agora eles soldaram de tal modo o seu amor e esqueceram o seu desgosto que mal se lembram mais dele. Mas agora devem seguir o seu caminho; por isso pediram-lhe licença para partir de Guivret, em quem tinham encontrado um amigo de facto; pois ele honrara-os e servira-os de todas as formas. Quando chegou a hora de se despedir, Erec disse: "Senhor, não desejo atrasar mais a minha partida para a minha terra. Ordenai que tudo seja preparado e reunido, para que eu possa ter tudo o que preciso. Desejarei partir amanhã de manhã, logo que amanheça. Fiquei tanto tempo convosco que me sinto forte e vigoroso. Deus conceda, se for do Seu agrado, que eu viva para vos encontrar de novo em algum lugar, quando eu possa, por minha vez, servir-vos e honrar-vos. A menos que seja capturado ou detido, não espero demorar-me em parte alguma até chegar à corte do Rei Arthur, a quem espero encontrar em Robais ou em Carduel." Ao que Guivret responde prontamente: "Senhor, não partireis sozinho! Pois eu próprio irei convosco e levarei companheiros connosco, se for do vosso agrado." Erec acede a este conselho e diz que, de acordo com os seus planos, deseja que a jornada seja iniciada. Naquela noite, fazem os preparativos para a viagem, não desejando demorar-se ali mais tempo. Todos se aprontam e preparam. De manhã cedo, quando despertam, as selas são colocadas sobre os corcéis. Antes de partir, Erec vai despedir-se das donzelas nos seus aposentos; e Enide (que estava alegre e cheia de júbilo) segue-o para lá. Quando os seus preparativos de partida estavam feitos, despediram-se das donzelas. Erec, que era muito cortês, ao despedir-se delas, agradece-lhes pela sua saúde e vida, e compromete-se com elas a servi-las. Então, pegou numa delas pela mão — aquela que estava mais perto dele — e Enide pegou na mão da outra: de mãos dadas, subiram do quarto para o salão do castelo. Guivret insta-os a montar imediatamente, sem demora. Enide pensa que nunca chegará o momento de montarem. Trazem-lhe ao bloco um palfrém de bom temperamento, de passo suave, bonito e bem formado. O palfrém era de bela aparência e uma boa montada: não era menos valioso do que o seu, que ficara para trás em Limors. Aquele outro era malhado, este era alazão; mas a cabeça era de outra cor: estava marcada de tal modo que uma face era toda branca, enquanto a outra era negra como um corvo. Entre as duas cores havia uma linha, mais verde do que uma folha de videira, que separava o branco do negro. Do freio, peitoral e sela, posso certamente dizer que o trabalho era rico e belo. Todo o peitoral e freio eram de ouro engastado com esmeraldas. A sela era decorada noutro estilo, coberta com um precioso pano de púrpura. Os arções eram de marfim, nos quais estava esculpida a história de como Eneias viera de Troia, como em Cartago, com grande alegria, Dido o recebera na sua cama, como Eneias a enganou e como ela se suicidou por ele, como Eneias conquistou Laurentum e toda a Lombardia, da qual foi rei toda a sua vida. Engenhosa era a obra e bem esculpida, toda decorada com ouro fino. Um artesão habilidoso, que a fez, passou mais de sete anos a esculpi-la, sem tocar em qualquer outra peça de trabalho. Não sei se a vendeu; mas deveria ter obtido um bom preço por ela. Agora que Enide fora presenteada com este palfrém, estava bem compensada pela perda do seu. O palfrém, assim ricamente aparelhado, foi-lhe dado e ela montou-o alegremente; então os gentis-homens e escudeiros montaram também rapidamente. Para seu prazer e desporto, Guivret mandou levar com eles ricos falcões, tanto jovens quanto mudados, muitos terceis e gaviões, e muitos cães de parar e lebréis.
Cavalgaram direto desde a manhã até a véspera mais de trinta léguas galesas, e então chegaram às torres de uma fortaleza, rica e bela, cingida por toda a parte por uma nova muralha. E ao redor, sob esta muralha, corria um riacho muito profundo, rugindo e apressado como uma tempestade. Erec para para observá-lo, e perguntar e descobrir se alguém poderia dizer-lhe verdadeiramente quem era o senhor desta cidade. "Amigo", disse ele ao seu gentil companheiro, "poderias dizer-me o nome desta cidade, e a quem pertence? Diz-me se pertence a um conde ou a um rei. Uma vez que me trouxeste até aqui, diz-me, se o sabes." "Senhor", diz ele, "sei muito bem, e vos direi a verdade sobre isso. O nome da cidade é Brandigant, e é tão forte e refinada que não teme nem rei nem imperador. Se a França, e toda a Inglaterra, e todos os que vivem daqui até Liège estivessem dispostos a sitiar, nunca a tomariam em suas vidas; pois a ilha sobre a qual a cidade se ergue estende-se por quatro léguas ou mais, e dentro do recinto cresce tudo o que uma cidade rica necessita: fruta, trigo e vinho são encontrados; e de madeira e água não há falta. Não teme qualquer assalto de nenhum lado, nem poderia nada reduzi-la à inanição. O Rei Evrain mandou fortificá-la, e ele a possuiu todos os seus dias sem ser molestado, e a possuirá por toda a sua vida. Mas não porque temesse a alguém ele a fortificou assim; mas a cidade é mais agradável deste modo. Pois se não tivesse muralha ou torre, mas apenas o riacho que a circunda, ainda assim seria tão segura e forte que não teria medo de todo o mundo." "Deus!" disse Erec, "que grande riqueza! Vamos ver a fortaleza, e tomaremos alojamento na cidade, pois desejo parar aqui." "Senhor", disse o outro em grande angústia, "se não fosse para vos desapontar, não deveríamos parar aqui. Na cidade há uma passagem perigosa." "Perigosa?" diz Erec; "sabeis algo a respeito? Seja o que for, contai-nos; pois muito alegremente eu saberia." "Senhor", diz ele, "temeria que pudésseis sofrer algum dano ali. Sei que há tanta ousadia e excelência em vosso coração que, se eu vos contasse o que sei da perigosa e árdua aventura, desejaríeis entrar. Tenho frequentemente ouvido a história, e há mais de sete anos que ninguém que partiu em busca da aventura retornou da cidade; contudo, cavaleiros orgulhosos e audazes vieram de muitas terras. Senhor, não trateis isto como uma brincadeira: pois nunca sabereis o segredo por mim até que me tenhais prometido, pelo amor que me jurastes, que nunca por vós será empreendida esta aventura, da qual ninguém escapa sem receber vergonha ou morte."
Agora Erec ouve o que lhe agrada, e implora a Guivret que não se aflija, dizendo: "Ah, belo e doce amigo, permiti que o nosso alojamento seja feito na cidade, e não vos perturbeis. É hora de parar para a noite, e assim confio que não vos desagradará; pois se alguma honra nos advier aqui, deveis ficar muito contente. Apelo a vós, concedendo a aventura que me contais, apenas o nome dela, e não insisto no restante." "Senhor", diz ele, "não posso calar-me e recusar a informação que desejais. O nome é muito belo de se dizer, mas a execução é muito difícil: pois ninguém pode sair dela vivo. A aventura, pela minha palavra, chama-se 'a Alegria da Corte'." "Deus! não pode haver nada além de bom na alegria", diz Erec; "vou buscá-la. Não me desanimeis agora sobre isto ou qualquer outra coisa, belo e gentil amigo; mas deixemos nossos alojamentos tomados, pois grande bem pode vir de tudo isto. Nada poderia me conter de ir em busca da Alegria." "Senhor", diz ele, "Deus conceda a vossa prece, que possais encontrar a alegria e retornar sem contratempos. Vejo claramente que devemos entrar. Já que de outra forma não pode ser, vamos entrar. Nosso alojamento está garantido; pois nenhum cavaleiro de alto grau, como ouvi dizer e contar, pode entrar neste castelo com a intenção de aqui se hospedar sem que o Rei Evrain se ofereça para abrigá-lo. Tão gentil e cortês é o Rei que ele deu aviso a todos os seus cidadãos, apelando ao amor que sentem por ele, que qualquer cavalheiro vindo de longe não encontre alojamento em suas casas, para que ele próprio possa fazer honra a todos os cavalheiros que desejem aqui permanecer."
Assim seguem em direção ao castelo, passando pelas barreiras e pela ponte levadiça; e quando passaram pelo lugar das justas, as pessoas que estavam reunidas nas ruas em multidões veem Erec em toda a sua beleza, e aparentemente pensam e acreditam que todos os outros estão em seu séquito. Maravilhando-se muito, encaram-no; toda a cidade estava agitada e comovida, enquanto tomam conselho e discutem sobre ele. Até mesmo as donzelas em seu canto deixam de cantar e desistem, enquanto todas juntas olham para ele; e por causa de sua grande beleza santiguam-se, e maravilhosamente sentem piedade dele. Umas para as outras sussurram baixo: "Ai! Este cavaleiro, que está passando, está a caminho da 'Alegria da Corte'. Ele se arrependerá antes de retornar; ninguém jamais veio de outra terra para reclamar a 'Alegria da Corte' que não tenha recebido vergonha e dano, e deixado sua cabeça lá como resgate." Então, para que ele possa ouvir suas palavras, gritam em voz alta: "Deus te defenda, cavaleiro, de qualquer dano; pois és maravilhosamente belo, e tua beleza é digna de grande piedade, pois amanhã a veremos extinta. Amanhã tua morte chegou; amanhã certamente morrerás se Deus não te guardar e defender." Erec ouve e entende que estão falando dele através da cidade baixa: mais de duas mil pessoas sentiam piedade dele; mas nada lhe causa consternação. Ele segue adiante sem demora, curvando-se alegremente para homens e mulheres igualmente. E todos o saúdam também; e a maioria deles jura com ansiedade, temendo mais do que ele próprio, por sua vergonha e por seu dano. A mera visão de seu semblante, sua grande beleza e seu porte, conquistou de tal modo os corações de todos, que cavaleiros, damas e donzelas igualmente temem seu dano. O Rei Evrain ouve a notícia de que homens estavam chegando à sua corte que traziam consigo um numeroso séquito, e por sua armadura parecia que seu líder era um conde ou rei. O Rei Evrain desce a rua para encontrá-los, e saudando-os clama: "Bem-vindos a esta companhia, tanto ao mestre quanto a todo o seu séquito. Bem-vindos, cavalheiros! Desmontai." Eles desmontaram, e houve muitos para receber e tomar seus cavalos. Nem o Rei Evrain foi tardio quando viu Enide chegar; mas ele a saudou imediatamente e correu para ajudá-la a desmontar. Tomando sua mão branca e tenra, ele a conduziu para dentro do palácio, como exigia a cortesia, e honrou-a de toda maneira que pôde, pois sabia muito bem o que deveria fazer, sem absurdos e sem malícia. Ordenou que uma câmara fosse perfumada com incenso, mirra e aloés. Quando entraram, todos cumprimentaram o Rei Evrain pela sua bela aparência. De mãos dadas entram no aposento, o Rei escoltando-os e sentindo grande prazer neles. Mas por que descrever-vos as pinturas e os tecidos de seda com os quais o aposento estava decorado? Eu apenas perderia tempo em tolice, e não desejo desperdiçá-lo, mas sim apressar-me um pouco; pois aquele que viaja pela estrada reta ultrapassa aquele que se desvia; portanto não desejo tardar. Quando o tempo e a hora chegaram, o Rei ordena que a ceia seja preparada; mas não desejo deter-me nisso se puder encontrar algum caminho mais direto. Naquela noite tiveram em abundância tudo o que o coração deseja e anseia: aves, caça, frutas e vinhos de diferentes tipos. Mas melhor do que tudo é uma alegre disposição! Pois de todos os pratos o mais doce é um semblante alegre e uma face feliz. Foram muito ricamente servidos até que Erec de repente parou de comer e beber, e começou a falar do que mais repousava sobre seu coração: lembrou-se da 'Alegria', e iniciou uma conversa sobre ela na qual o Rei Evrain se juntou. "Senhor", diz ele, "é hora agora de vos dizer o que pretendo, e por que vim aqui. Por muito tempo me contive de falar, e agora não posso mais ocultar meu objetivo. Peço-vos pela 'Alegria' da Corte, pois não cobiço nada mais tanto. Concedei-ma, seja ela o que for, se estais no controle dela." "Em verdade, belo amigo", responde o Rei, "ouço-vos dizer grandes absurdos. Esta é uma coisa muito perigosa, que causou tristeza a muitos homens dignos; vós mesmo eventualmente sereis morto e arruinado se não derdes ouvidos ao meu conselho. Mas se estivésseis disposto a aceitar minha palavra, eu vos aconselharia a desistir de solicitar uma coisa tão penosa na qual nunca teríeis sucesso. Não faleis mais disso! Calai-vos! Seria imprudente da vossa parte não seguir o meu conselho. Não estou de modo algum surpreso que desejeis honra e fama; mas se eu vos visse ferido ou prejudicado em vosso corpo, eu ficaria angustiado de coração. E sabei bem que vi muitos homens arruinados que solicitaram esta alegria. Eles nunca foram melhores por causa disso, mas antes morreram e pereceram. Antes que a noite de amanhã chegue, podeis esperar uma recompensa semelhante. Se desejais lutar pela Alegria, fá-lo-eis, embora isso me aflija profundamente. É algo de que estais livre para recuar e retirar-vos se desejais trabalhar pelo vosso bem-estar. Portanto vos digo, pois eu cometeria traição e vos faria um mal se não vos contasse toda a verdade." Erec ouve-o e admite que o Rei com razão o aconselha. Mas quanto maior a maravilha e mais perigosa a aventura, mais ele a cobiça e anseia por ela, dizendo: "Senhor, posso vos dizer que vos considero um homem digno e leal, e não posso vos culpar. Desejo empreender este benefício, aconteça o que acontecer comigo. A sorte está lançada, pois nunca recuarei de nada que tenha empreendido sem exercer toda a minha força antes de deixar o campo." "Sei disso bem", respondeu o Rei; "estais agindo contra a minha vontade. Terei a Alegria que desejais. Mas estou em grande desespero; pois temo muito que sejais arruinado. Mas agora estai assegurado de que tereis o que desejais. Se sairdes disso felizmente, tereis ganho tal honra que nunca homem ganhou maior; e que Deus, como desejo, vos conceda um libertação jubilosa."
Toda aquela noite falaram sobre isso, até que as camas foram preparadas e eles foram descansar. Pela manhã, quando era dia claro, Erec, que estava em vigília, viu o alvorecer claro e o sol, e levantando-se rapidamente, vestiu-se. Enide novamente está angustiada, muito triste e mal à vontade; toda a noite ela está grandemente inquieta com a solicitude e o medo que sentia pelo seu senhor, que está prestes a expor-se a grande perigo. Mas, não obstante, ele equipa-se, pois ninguém pode fazê-lo mudar de ideia. Para seu equipamento o Rei enviou-lhe, quando ele se levantou, armas que ele usou bem. Erec não as recusou, pois as suas estavam gastas e deterioradas e em mau estado. Ele aceitou alegremente as armas e fez-se equipar com elas no salão. Quando estava armado, desce os degraus e encontra seu cavalo selado e o Rei que havia montado. Todos no castelo e nas casas da cidade apressaram-se a montar. Em toda a cidade não restou homem ou mulher, ereto ou deformado, grande ou pequeno, fraco ou forte, que seja capaz de ir e não o faça. Quando partem, há um grande ruído e clamor em todas as ruas; pois aqueles de alto e baixo grau igualmente gritam: "Ai, ai! oh cavaleiro, a Alegria que desejas ganhar traiu-te, e vais ganhar apenas dor e morte." E não há um que não diga: "Deus amaldiçoe esta alegria! que foi a morte de tantos cavalheiros. Hoje ela causará a pior dor que já causou." Erec ouve bem e nota que de cima a baixo diziam dele: "Ai, ai, mal-afortunado foste, belo, gentil e habilidoso cavaleiro! Certamente não seria justo que tua vida terminasse tão cedo, ou que dano viesse para ferir-te e prejudicar-te." Ele ouve claramente as palavras e o que diziam; mas, não obstante, ele passa sem baixar a cabeça, e sem o porte de um covarde. Quem quer que fale, ele anseia por ver e saber e entender por que todos estão em tal angústia, ansiedade e dor. O Rei conduz-no para fora da cidade a um jardim que ficava próximo; e todo o povo segue atrás, rezando para que desta provação Deus lhe conceda um final feliz. Mas não convém que eu prossiga, por cansaço e exaustão da língua, sem vos contar toda a verdade sobre o jardim, conforme a história corre.
O jardim não tinha ao redor muro ou cerca, exceto de ar: contudo, por um feitiço, o jardim estava por todos os lados tão fechado pelo ar que nada poderia entrar ali mais do que se o jardim estivesse encerrado em ferro, a menos que voasse por cima. E durante todo o verão e o inverno também, havia flores e frutos maduros ali; e o fruto era de tal natureza que podia ser comido dentro; o perigo consistia em carregá-lo para fora; pois quem quer que desejasse carregar um pouco nunca seria capaz de encontrar o portão, e nunca poderia sair do jardim até que tivesse restaurado o fruto ao seu lugar. E não há pássaro que voa sob o céu, agradável ao homem, que não cante ali para deleitar e alegrar, e pode ser ouvido ali em números de todo tipo. E a terra, por mais que se estenda, não produz tempero ou raiz de uso na fabricação de remédios que não tivesse sido plantado ali, e que não pudesse ser encontrado em abundância. Por uma entrada estreita as pessoas entraram — o Rei Evrain e todos os outros. Erec entrou cavalgando, lança em riste, no meio do jardim, deleitando-se grandemente com o canto dos pássaros que cantavam ali; eles lembravam-no da sua Alegria, a coisa que ele mais desejava. Mas ele viu uma coisa maravilhosa, que poderia despertar medo no guerreiro mais bravo de todos os que conhecemos, fosse Thiebaut o Esclavon, ou Ospinel, ou Fernagu. Pois diante deles, em estacas afiadas, erguiam-se elmos brilhantes e luzidios, e cada um tinha sob a borda a cabeça de um homem. Mas no fim havia uma estaca onde, por ora, não havia nada além de uma trompa. Ele não sabe o que isso significa, contudo não recua um passo por isso; antes, pergunta ao Rei, que estava ao seu lado à direita, o que pode ser aquilo. O Rei fala e explica-lhe: "Amigo", diz ele, "sabeis o significado desta coisa que vedes aqui? Deveis estar em grande terror dela, se vos importais minimamente com vosso próprio corpo; pois esta única estaca que se ergue à parte, onde vedes esta trompa pendurada, tem esperado há muito tempo, mas não sabemos por quem, se por vós ou por outro alguém. Tende cuidado para que vossa cabeça não seja posta ali; pois tal é o propósito da estaca. Eu vos tinha avisado bem disso antes de vir aqui. Não espero que escapeis daqui, mas que sejais morto e despedaçado. Pois isto sabemos, que a estaca aguarda a vossa cabeça. E se acontecer que ela seja colocada ali, conforme o assunto está acordado, tão logo vossa cabeça esteja fixada nela, outra estaca será erguida ao lado, que aguardará a chegada de outro alguém — não sei quando ou quem. Nada vos direi da trompa; mas nunca ninguém foi capaz de soprá-la. Contudo, aquele que obtiver sucesso em soprá-la, sua fama e honra crescerão até que distanciem todas as de seu país, e ele encontrará tal renome que todos virão prestar-lhe honra, e o considerarão o melhor de todos eles. Agora não há mais nada sobre este assunto. Fazei vossos homens retirarem-se; pois 'a Alegria' logo chegará, e vos fará lamentar, suspeito."
Entretanto, o Rei Evrain retira-se e Erec curva-se diante de Enide, cujo coração estava em grande aflição, embora ela se mantivesse silenciosa; pois a tristeza nos lábios de nada vale se não tocar também o coração. E ele, que bem conhecia o seu íntimo, disse-lhe: "Bela e querida irmã, dama gentil, leal e prudente, estou a par dos vossos pensamentos. Tendes medo, vejo-o bem, e contudo não sabeis de quê; mas não há razão para o vosso desânimo enquanto não virdes o meu escudo despedaçado e o meu corpo ferido, e enquanto não virdes as malhas da minha brilhante cota de malha cobertas de sangue, e o meu elmo quebrado e esmagado, e a mim derrotado e exausto, de modo que já não me possa defender, mas tenha de implorar e suplicar por misericórdia contra a minha vontade; então podereis lamentar-vos, mas agora começastes cedo demais. Gentil dama, ainda não sabeis o que isto será; nem eu o sei. Estais perturbada sem causa. Mas sabei isto com certeza: se houvesse em mim apenas tanta coragem quanto o vosso amor inspira, na verdade não temeria enfrentar qualquer homem vivo. Mas sou tolo em vangloriar-me; contudo, não o digo por orgulho, mas porque desejo confortar-vos. Portanto, confortai-vos, e que assim seja! Não posso demorar-me aqui por mais tempo, nem podeis vir comigo; pois, como o Rei ordenou, não devo levar-vos para além deste ponto." Então ele beija-a e recomenda-a a Deus, e ela a ele. Mas ela está muito desgostosa por não poder segui-lo e acompanhá-lo, até que possa saber e ver qual será esta aventura e como ele se conduzirá. Mas como ela deve ficar para trás e não pode segui-lo, permanece triste e a sofrer. E ele partiu sozinho por um caminho, sem companheiro de qualquer tipo, até chegar a um leito de prata com uma cobertura de tecido bordado a ouro, sob a sombra de um sicómoro; e sobre o leito uma donzela de corpo formoso e rosto adorável, dotada de toda a beleza, estava sentada sozinha. Pretendia não dizer mais nada sobre ela; mas quem quer que pudesse considerar bem todo o seu traje e a sua beleza poderia muito bem dizer que nunca Lavínia de Laurentum, que era tão bela e formosa, possuiu a quarta parte da sua formosura. Erec aproxima-se dela, desejando vê-la mais de perto, e os espectadores vão sentar-se debaixo das árvores no pomar. Então, eis que surge um cavaleiro armado com armadura de cor vermelhão, e era maravilhosamente alto; e se não fosse tão imensamente alto, sob os céus não haveria nenhum mais belo do que ele; mas, como todos afirmavam, ele era um pé mais alto do que qualquer cavaleiro que conhecesse. Antes que Erec o avistasse, ele gritou: "Vassalo, vassalo! Estais louco, pela minha vida, ao aproximar-vos assim da minha donzela. Diria que não sois digno de vos aproximardes dela. Pagareis caro pela vossa presunção, pela minha cabeça! Recuai!" E Erec para e olha para ele, e o outro, também, permaneceu imóvel. Nenhum avançou até que Erec tivesse respondido tudo o que desejava dizer-lhe. "Amigo", diz ele, "pode-se dizer loucuras tão bem como bom senso. Ameaçai o quanto quiserdes, e eu permanecerei em silêncio; pois nas ameaças não há sentido. Sabeis porquê? Um homem por vezes pensa que ganhou o jogo e depois perde-o. Por isso, é manifestamente um tolo aquele que é demasiado presunçoso e que ameaça demasiado. Se há alguns que fogem, há muitos que perseguem, mas eu não vos temo tanto que vá fugir já. Estou pronto para fazer tal defesa, se houver alguém que deseje oferecer-me batalha, que terá de fazer o seu máximo, ou de outra forma não poderá escapar." "Não", diz ele, "assim me ajude Deus! sabei que terei a batalha, pois desafio-vos e provoco-vos." E podeis saber, pela minha palavra, que então as rédeas não foram contidas. As lanças que tinham não eram leves, mas eram grandes e quadradas; nem foram aplainadas, mas eram ásperas e fortes. Sobre os escudos, com poderosa força, golpearam-se com as suas armas afiadas, de modo que uma braça de cada lança atravessa os escudos brilhantes. Mas nenhum toca na carne do outro, nem qualquer lança foi rachada; cada um, tão rapidamente quanto pôde, retira a sua lança, e ambos, correndo um contra o outro, regressam ao combate. Um contra o outro cavalgam, e tão ferozmente se golpeiam que ambas as lanças se partem e os cavalos caem por baixo deles. Mas eles, estando sentados nos seus corcéis, não sofrem qualquer dano; por isso levantam-se rapidamente, pois eram fortes e ágeis. Estão de pé no meio do jardim e, imediatamente, atacam-se um ao outro com as suas espadas verdes de aço alemão, e desferem grandes e terríveis golpes sobre os seus elmos brilhantes e luzidios, de modo que os cortam em pedaços e os seus olhos soltam chamas. Não se podem fazer maiores esforços do que aqueles que fazem esforçando-se e trabalhando para ferir e magoar um ao outro. Ambos golpeiam ferozmente com o pomo dourado e o gume cortante. Tal estrago infligiram um ao outro nos dentes, bochechas, nariz, mãos, braços e no resto, sobre as têmporas, pescoço e garganta, que os seus ossos todos doem. Estão muito doridos e muito cansados; ainda assim, não desistem, mas antes esforçam-se ainda mais. O suor, e o sangue que flui com ele, obscurecem-lhes a vista, de modo que mal podem ver algo; e muitas vezes falhavam os seus golpes, como homens que não viam para manejar as suas espadas um contra o outro. Mal podem ferir-se agora; contudo, não desistem de forma alguma de exercer toda a sua força. Porque os seus olhos estão tão cegos que perdem completamente a visão, deixam cair os seus escudos ao chão e agarram-se um ao outro com raiva. Cada um puxa e arrasta o outro, de modo que caem sobre os joelhos. Assim, lutam durante muito tempo até que a hora de nona passa, e o grande cavaleiro está tão exausto que a sua respiração falta-lhe por completo. Erec tem-no à sua mercê, e puxa e arrasta de tal modo que parte todos os laços do seu elmo e força-o a cair aos seus pés. Ele cai de bruços contra o peito de Erec, e não tem forças para se levantar novamente. Embora o aflija, ele tem de dizer e confessar: "Não posso negá-lo, derrotastes-me; mas vai muito contra a minha vontade. E ainda assim podeis ser de tal grau e fama que apenas crédito advirá para mim; e insistentemente pediria, se de alguma forma puder ser, que eu pudesse saber o vosso nome, e ficar um pouco reconfortado com isso. Se um homem melhor me derrotou, ficarei contente, garanto-vos; mas se aconteceu que um homem mais vil do que eu me venceu, então devo sentir uma grande mágoa, na verdade." "Amigo, desejas saber o meu nome?", diz Erec; "Bem, eu dir-to-ei antes de partir daqui; mas será com a condição de que me digas agora porque estás neste jardim. Relativamente a isso, saberei tudo o que é o teu nome e o que é a Alegria; pois estou muito ansioso por ouvir a verdade do princípio ao fim." "Senhor", diz ele, "sem medo contar-vos-ei tudo o que desejais saber." Erec não retém mais o seu nome, mas diz: "Já alguma vez ouvistes falar do Rei Lac e do seu filho Erec?" "Sim, senhor, conheci-o bem; pois estive na corte do seu pai por muitos dias antes de ser armado cavaleiro, e, se ele tivesse tido a sua vontade, eu nunca o teria deixado por nada." "Então deverias conhecer-me bem, se alguma vez estiveste comigo na corte do meu pai, o Rei." "Então, pela minha fé, tudo correu bem. Agora ouvi quem me deteve tanto tempo neste jardim. Direi a verdade de acordo com a vossa injunção, custe o que custar. Aquela donzela que ali se senta amou-me desde a infância e eu amei-a. Agradou a ambos, e o nosso amor cresceu e aumentou, até que ela me pediu um favor, mas não me disse o que era. Quem negaria algo à sua dama? Não há amante que não fizesse certamente tudo o que a sua amada deseja, sem falhas ou enganos, sempre que pudesse de alguma forma. Concordei com o seu desejo; mas quando concordei, ela também quis que eu jurasse. Eu teria feito mais do que isso por ela, mas ela tomou-me pela palavra. Fiz-lhe uma promessa, sem saber o quê. O tempo passou até que fui feito cavaleiro. O Rei Evrain, de quem sou sobrinho, armou-me cavaleiro na presença de muitos homens honrados neste mesmo jardim onde estamos. A minha senhora, que está ali sentada, de imediato recordou-me a minha palavra, e disse que eu lhe tinha prometido que nunca sairia daqui até que viesse algum cavaleiro que me vencesse pela prova das armas. Era justo que eu permanecesse, pois, em vez de quebrar a minha palavra, nunca a deveria ter dado. Uma vez que conhecia o bem que havia nela, não podia revelar ou mostrar àquela a quem tenho como a mais querida que em tudo isto estava descontente; pois se ela tivesse notado, teria retirado o seu coração, e eu não teria querido que isso acontecesse por nada que pudesse ocorrer. Assim, a minha senhora pensou em deter-me aqui por uma longa estadia; ela não pensou que jamais entraria neste jardim qualquer vassalo que me pudesse vencer. Desta forma, pretendia manter-me absolutamente fechado com ela todos os dias da minha vida. E eu teria cometido uma ofensa se tivesse recorrido a enganos e não derrotasse todos aqueles contra quem pudesse prevalecer; tal fuga seria uma vergonha. E atrevo-me a assegurar-vos que não tenho amigo tão querido que eu tivesse fingido lutar com ele. Nunca me cansei das armas, nem nunca recusei lutar. Tendes certamente visto os elmos daqueles que derrotei e condenei à morte; mas a culpa disso não é minha, quando se considera devidamente. Não podia evitar, a menos que estivesse disposto a ser falso, covarde e desleal. Agora contei-vos a verdade, e estai certo de que não é pequena a honra que ganhastes. Destes grande alegria à corte do meu tio e aos meus amigos; pois agora serei libertado daqui; e porque todos aqueles que estão na corte terão alegria disto, por isso aqueles que aguardavam a alegria chamaram-lhe 'Alegria da Corte'. Eles aguardaram-na por tanto tempo que agora ser-lhes-á concedida por vós, que a conquistastes pela vossa luta. Derrotastes e enfeitiçastes a minha proeza e a minha cavalaria. Agora é justo que vos diga o meu nome, se o quiserdes saber. Chamo-me Mabonagrain; mas não sou lembrado por esse nome em qualquer terra onde tenha estado, exceto apenas nesta região; pois nunca, quando eu era escudeiro, disse ou fiz saber o meu nome. Senhor, sabíeis a verdade relativa a tudo o que me perguntastes. Mas devo ainda dizer-vos que existe neste jardim uma trompa que não duvido que tenhais visto. Não posso sair daqui até que tenhais soprado a trompa; mas então ter-me-eis libertado, e então a Alegria começará. Quem quer que a ouça e lhe preste atenção, nenhum impedimento o deterá, quando ouvir o som da trompa, de vir diretamente para a corte. Levantai-vos, senhor! Ide rapidamente agora! Ide levar a trompa muito alegremente; pois não tendes mais motivos para esperar; por isso fazei o que deveis fazer." Agora Erec levantou-se, e o outro levanta-se com ele, e ambos aproximam-se da trompa. Erec pega nela e sopra-a, colocando nela toda a sua força, de modo que o som chega longe. Enide alegrou-se grandemente quando ouviu a nota, e Guivret também ficou muito encantado. O Rei está contente, e assim está o seu povo; não há um que não esteja bem satisfeito e contente com isto. Ninguém cessa ou para de festejar e de cantar. Erec podia gabar-se naquele dia, pois nunca tal regozijo foi feito; não poderia ser descrito ou relatado pela boca do homem, mas eu contar-vos-ei o resumo brevemente e com poucas palavras. A notícia espalha-se pelo país que assim o assunto se desenrolou. Então não houve hesitação em vir à corte. Todo o povo apressa-se para lá em confusão, uns a pé e outros a cavalo, sem esperar uns pelos outros. E aqueles que estavam no jardim apressaram-se a remover as armas de Erec, e em emulação todos cantaram uma canção sobre a Alegria; e as damas fizeram um lai a que chamaram 'o Lai da Alegria', mas o lai não é bem conhecido. Erec estava bem saciado de alegria e bem servido ao desejo do seu coração; mas aquela que estava sentada no leito de prata não estava nada satisfeita. A alegria que ela via não era nada do seu agrado. Mas muitas pessoas têm de ficar quietas e observar o que lhes causa dor. Enide agiu graciosamente; porque a viu sentada pensativa, sozinha no leito, sentiu-se levada a ir falar com ela e contar-lhe sobre os seus assuntos e sobre si mesma, e esforçar-se, se possível, por fazê-la contar em troca sobre si mesma, se isso não lhe causasse demasiada angústia. Enide pensou em ir sozinha, desejando não levar ninguém consigo, mas algumas das mais nobres e belas damas e donzelas seguiram-na por afeição para lhe fazer companhia, e também para confortar aquela a quem a alegria traz grande desgosto; pois ela supunha que agora o seu amante já não estaria com ela tanto como tinha estado, uma vez que ele desejava deixar o jardim. Por mais dececionante que possa ser, ninguém pode impedir a sua partida, pois a hora e o tempo chegaram. Portanto, as lágrimas corriam pelo seu rosto dos seus olhos. Muito mais do que posso dizer, ela estava a sofrer e angustiada; contudo, sentou-se direita. Mas ela não se importa tanto com nenhuma daquelas que tentam confortá-la que cesse o seu lamento. Enide saúda-a gentilmente; mas por um momento a outra não pôde responder uma palavra, sendo impedida pelos suspiros e soluços que a atormentam e afligem. Passou algum tempo antes que a donzela retribuísse a sua saudação, e quando a olhou e a examinou por um momento, pareceu que já a tinha visto e conhecido antes. Mas não estando muito certa disso, não demorou a indagar de onde ela era, de que país, e onde o seu senhor tinha nascido; ela pergunta quem são ambos. Enide responde brevemente e diz-lhe a verdade, dizendo: "Sou a sobrinha do Conde que governa Lalut, a filha da sua própria irmã; em Lalut nasci e fui criada." A outra não consegue evitar sorrir, sem ouvir mais, pois está tão encantada que esquece a sua tristeza. O seu coração salta de alegria que não pode esconder. Ela corre e abraça Enide, dizendo: "Sou a vossa prima! Esta é a pura verdade, e vós sois sobrinha do meu pai; pois ele e o vosso pai são irmãos. Mas suspeito que não sabeis e nunca ouvistes como vim parar a este país. O Conde, vosso tio, estava em guerra, e até ele vieram lutar por soldo cavaleiros de muitas terras. Assim, bela prima, aconteceu que, com estes cavaleiros mercenários, veio um que era sobrinho do rei de Brandigan. Ele esteve com o meu pai quase um ano. Isso foi, penso eu, há doze anos, e eu ainda era apenas uma pequena criança. Ele era muito bonito e atraente. Lá tivemos um entendimento entre nós que agradou a ambos. Nunca tive outro desejo senão o dele, até que finalmente ele começou a amar-me e prometeu e jurou-me que seria sempre o meu amante, e que me traria para aqui; isso agradou a ambos igualmente. Ele não podia esperar, e eu ansiava por vir para aqui com ele; por isso viemos ambos, e ninguém sabia disso exceto nós. Naqueles dias, vós e eu éramos ambas jovens e pequenas raparigas. Contei-vos a verdade; por isso agora contai-me em troca, como eu vos contei, tudo sobre o vosso amante, e por que aventura ele vos conquistou." "Bela prima, ele casou-se comigo de tal forma que o meu pai sabia tudo sobre isso, e a minha mãe ficou muito satisfeita. Todos os nossos parentes sabiam e regozijaram-se com isso, como deveriam fazer. Até o Conde ficou contente. Pois ele é um cavaleiro tão bom que não se pode encontrar melhor, e ele não precisa de provar a sua honra e cavalaria, e ele é de nascimento muito nobre: não creio que alguém possa ser seu igual. Ele ama-me muito, e eu amo-o mais, e o nosso amor não pode ser maior. Nunca ainda pude reter o meu amor por ele, nem o deveria fazer. Pois não é o meu senhor filho de um rei? Pois não me tomou ele quando eu era pobre e nua? Através dele veio a mim tal honra que nunca tal foi concedida a uma pobre rapariga indefesa. E se vos aprouver, dir-vos-ei sem mentir como vim a ser assim elevada; pois nunca serei lenta a contar a história." Então ela contou e relatou-lhe como Erec veio a Lalut; pois ela não tinha qualquer desejo de o esconder. Contou-lhe a aventura palavra por palavra, sem omissões. Mas passo por cima disso agora, porque quem conta uma história duas vezes torna o seu relato cansativo. Enquanto conversavam, uma dama escapuliu-se sozinha, que enviou e contou tudo aos cavalheiros, a fim de aumentar e elevar também o seu prazer. Todos aqueles que ouviram regozijaram-se com esta notícia. E quando Mabonagrain soube, ficou encantado pela sua amada porque agora ela estava reconfortada. E aquela que lhes levou rapidamente a notícia tornou-os a todos felizes em pouco tempo. Até o Rei ficou contente com isso; embora estivesse muito feliz antes, agora está ainda mais feliz, e mostra a Erec grande honra. Enide leva a sua bela prima, mais bela que Helena, mais graciosa e encantadora. Agora Erec e Mabonagrain, Guivret e o Rei Evrain, e todos os outros correm ao seu encontro e saúdam-nos e fazem-lhes honra, pois ninguém é mesquinho ou hesita. Mabonagrain faz muito por Enide, e ela por ele. Erec e Guivret, pela sua parte, alegram-se pela donzela enquanto todos se beijam e abraçam. Propõem regressar ao castelo, pois demoraram-se demasiado tempo no jardim. Estão todos preparados para sair; por isso saem alegremente, beijando-se pelo caminho. Todos saem atrás do Rei, mas antes de chegarem ao castelo, os nobres estavam reunidos de todo o país em redor, e todos aqueles que sabiam da Alegria, e que podiam fazê-lo, vieram para aqui. Grande foi a reunião e a multidão. Todos, altos e baixos, ricos e pobres, esforçam-se por ver Erec. Cada um empurra-se perante o outro, e todos o saúdam e curvam-se perante ele, dizendo constantemente: "Que Deus salve aquele através de quem a alegria e a felicidade vêm à nossa corte! Deus salve o homem mais abençoado que Deus alguma vez trouxe ao mundo!" Assim trazem-no para a corte, e esforçam-se por mostrar a sua alegria como os seus corações ditam. Cítaras bretãs, harpas e violas soam, rabecas, saltérios e outros instrumentos de corda, e todos os tipos de música que se pudesse nomear ou mencionar. Mas desejo concluir o assunto brevemente sem demora excessiva. O Rei honra-o na medida do seu poder, tal como todos os outros sem hesitação. Não há ninguém que não ofereça alegremente fazer o seu serviço. Três dias inteiros a Alegria durou, antes que Erec pudesse partir. No quarto dia ele não quis demorar-se por qualquer motivo que pudessem alegar. Houve uma grande multidão para o acompanhar e um grande aperto quando chegou a hora de se despedir. Se ele quisesse responder a cada um, não teria sido capaz em meio dia de retribuir as saudações individualmente. Os nobres ele saúda e abraça; os outros recomenda a Deus com uma palavra, e saúda-os. Enide, pela sua parte, não se cala quando se despede dos nobres. Ela saúda-os a todos pelo nome, e eles por sua vez fazem o mesmo. Antes de ir, beija a sua prima muito ternamente e abraça-a. Então eles partem e a Alegria termina.
Partem eles e os outros retornam. Erec e Guivret não se detêm, mas prosseguem alegremente o seu caminho, até que chegaram em nove dias a Robais, onde lhes disseram que o Rei estava. No dia anterior, ele fora sangrado em privado nos seus aposentos; consigo tinha apenas quinhentos nobres da sua casa. Nunca antes em tempo algum o Rei foi encontrado tão só, e ele estava muito aflito por não ter uma comitiva mais numerosa na sua corte. Naquele momento, chega a correr um mensageiro, que eles tinham enviado à frente para avisar o Rei da sua aproximação. Este homem entrou perante a assembleia, encontrou o Rei e todo o seu povo e, saudando-o corretamente, disse: "Sou um mensageiro de Erec e de Guivret, o Pequeno." Então disse-lhe como eles vinham vê-lo à sua corte. O Rei responde: "Que sejam bem-vindos, como valentes e galantes cavalheiros! Em parte alguma conheço melhores do que estes dois. Pela sua presença, a minha corte será muito engrandecida." Então mandou chamar a Rainha e contou-lhe as notícias. Os outros mandam selar os seus cavalos para ir ao encontro dos cavalheiros. Com tamanha pressa se montam que não puseram as suas esporas. Devo declarar brevemente que a multidão de gente comum, incluindo escudeiros, cozinheiros e mordomos, já tinha entrado na cidade para preparar o alojamento. O grupo principal veio atrás e já se aproximara tanto que tinham entrado na cidade. Agora os dois grupos encontraram-se, e saúdam-se e beijam-se. Chegam aos alojamentos e acomodam-se, tirando as suas meias e fazendo a sua higiene ao vestir as suas ricas vestes. Quando estavam completamente trajados, tomaram o seu caminho para a corte. Chegam à corte, onde o Rei os vê, e a Rainha, que está fora de si de impaciência para ver Erec e Enide. O Rei faz com que se sentem ao seu lado, beija Erec e Guivret; à volta do pescoço de Enide lança os seus braços e beija-a repetidamente, na sua grande alegria. Nem a Rainha é lenta a abraçar Erec e Enide. Poder-se-ia muito bem alegrar ao vê-la agora tão cheia de alegria. Todos entram com espírito na folia. Então, o Rei faz silêncio e apela a Erec e pede notícias das suas aventuras. Quando o ruído cessou, Erec começou a sua história, contando-lhe as suas aventuras, sem esquecer qualquer detalhe. Pensais agora que vos direi que motivo ele tinha para partir? Não, pois sabeis toda a verdade sobre isto e o resto, como vo-la revelei. Contar a história de novo sobrecarregar-me-ia; pois o conto não é curto, para que alguém desejasse começá-lo de fresco e reembastá-lo, como ele contou e relatou: dos três cavaleiros que derrotou, e depois dos cinco, e depois do Conde que se esforçou por lhe fazer mal, e depois dos dois gigantes — tudo em ordem, um após o outro, contou-lhe as suas aventuras até ao ponto em que encontrou o Conde Oringle de Limors. "Muitos perigos atravessastes, belo e gentil amigo", disse-lhe o Rei; "agora demorai-vos nesta terra na minha corte, como costumais fazer." "Senhor, uma vez que o desejais, permanecerei muito alegremente três ou quatro anos inteiros. Mas pedi a Guivret que permaneça aqui também, um pedido ao qual eu gostaria de me juntar." O Rei roga-lhe que permaneça, e ele consente em ficar. Assim, ambos ficam: o Rei manteve-os consigo, e estimou-os e honrou-os.
Erec permaneceu na corte, juntamente com Guivret e Enide, até à morte do seu pai, o rei, que era um homem velho e cheio de anos. Os mensageiros então partiram: os nobres que foram à sua procura, e que eram os maiores homens da terra, procuraram e pesquisaram por ele até que o encontraram em Tintagel três semanas antes do Natal; contaram-lhe a verdade sobre o que acontecera ao seu velho pai de cabelos brancos, e como ele agora estava morto e fora. Isto afligiu Erec muito mais do que ele mostrava perante o povo. Mas o pesar não é adequado num rei, nem fica bem a um rei lamentar-se. Ali em Tintagel onde ele estava, mandou cantar vigílias pelos mortos e Missas; prometeu e cumpriu as suas promessas, como tinha jurado às casas religiosas e igrejas; fez bem tudo o que devia fazer: escolheu mais de cento e sessenta e nove dos pobres miseráveis, e vestiu-os a todos com novas vestes. Aos pobres clérigos e priores deu, como era justo, capas pretas e forros quentes para usar por baixo. Por amor de Deus, fez grande bem a todos: àqueles que estavam em necessidade distribuiu mais de um barril de moedas pequenas. Quando partilhou a sua riqueza, fez então uma coisa muito sábia ao receber a sua terra da mão do Rei; e depois implorou ao Rei que o coroasse na sua corte. O Rei pediu-lhe que se preparasse rapidamente; pois ambos serão coroados, ele juntamente com a sua esposa, no aproximar do Natal; e acrescentou: "Deveis ir daqui para Nantes, na Bretanha; lá transportareis um emblema real com coroa na cabeça e cetro na mão; esta dádiva e privilégio concedo-vos." Erec agradeceu ao Rei, e disse que essa era uma nobre dádiva. No Natal, o Rei reúne todos os seus nobres, convocando-os individualmente e ordenando-lhes que venham a Nantes. Convocou-os a todos, e nenhum ficou para trás. Erec, também, mandou dizer a muitos dos seus seguidores, e convocou-os a vir até lá; mas vieram mais do que ele tinha ordenado, para o servir e honrá-lo. Não vos posso dizer ou relatar quem era cada um, e qual o seu nome; mas quem quer que tenha vindo ou não, o pai e a mãe da minha senhora Enide não foram esquecidos. O seu pai foi chamado primeiro que todos, e ele veio à corte em estilo elegante, como um grande senhor e um castelão. Não havia grande multidão de capelães ou de aldeões tolos e boquiabertos, mas de excelentes cavaleiros e de gente bem equipada. Cada dia faziam uma longa jornada diária, e cavalgavam todos os dias com grande alegria e grande ostentação, até que na véspera de Natal chegaram à cidade de Nantes. Não fizeram paragem até entrarem no grande salão onde o Rei e os seus cortesãos estavam. Erec e Enide veem-nos, e podeis saber quão felizes ficaram. Para os encontrar, dirigem-se rapidamente, e saúdam-nos e abraçam-nos, falando-lhes ternamente e mostrando o seu deleite como deveriam. Quando se alegraram juntos, dando um ao outro pela mão, todos os quatro vieram perante o Rei, saudando-o e igualmente a Rainha, que estava sentada ao seu lado. Pegando no seu anfitrião pela mão, Erec disse: "Senhor, contemplai o meu bom anfitrião, o meu gentil amigo, que me fez tamanha honra que me fez senhor na sua própria casa. Antes de saber qualquer coisa sobre mim, alojou-me bem e elegantemente. Tudo o que tinha entregou-me, e até a sua filha me concedeu, sem o conselho ou parecer de ninguém." "E esta senhora com ele", pergunta o Rei, "quem é ela?" Erec não esconde a verdade: "Senhor", diz ele, "desta senhora posso dizer que ela é a mãe da minha esposa." "É ela a sua mãe?" "Sim, verdadeiramente, senhor." "Certamente, posso então bem dizer que bela e formosa deve ser a flor nascida de tão belo caule, e melhor o fruto que se colhe; pois doce é o cheiro do que brota do bem. Bela é Enide e bela deve ser em toda a razão e por direito; pois a sua mãe é uma senhora muito formosa, e o seu pai é um bom cavaleiro. Nem ela em nada os desmente; pois descende e herda diretamente de ambos em muitos aspetos." Então o Rei cala-se e senta-se, ordenando-lhes que se sentem também. Eles não desobedecem à sua ordem, mas imediatamente tomam assento. Agora está Enide cheia de alegria quando vê o seu pai e a sua mãe, pois muito tempo tinha passado desde que os vira. A sua felicidade agora é grandemente aumentada, pois ela estava deleitada e feliz, e mostrava-o tanto quanto podia, mas não poderia fazer tal demonstração sem que a sua alegria fosse ainda maior. Mas desejo não dizer mais nada sobre isso, pois o meu coração atrai-me para a corte que estava agora reunida em força. De muitos países diferentes havia condes e duques e reis, Normandos, Bretões, Escoceses e Irlandeses: da Inglaterra e da Cornualha havia uma reunião muito rica de nobres; pois do País de Gales a Anjou, em Maine e em Poitou, não havia cavaleiro de importância, nem senhora de qualidade, mas os melhores e os mais elegantes estavam na corte em Nantes, como o Rei lhes ordenara. Agora ouvi, se quiserdes, a grande alegria e grandeza, a ostentação e a riqueza, que foi exibida na corte. Antes de a hora de nona ter soado, o Rei Artur armou quatrocentos cavaleiros ou mais, todos filhos de condes e de reis. A cada um deu três cavalos e dois pares de trajes, a fim de que a sua corte faça melhor figura. Potente e generoso era o Rei; pois os mantos que concedeu não eram de sarja, nem de peles de coelho, nem de pele castanha barata, mas de seda pesada e arminho, de pele manchada e sedas floridas, debruados com trança de ouro pesada e rígida. Alexandre, que conquistou tanto que subjugou o mundo inteiro, e que era tão generoso e rico, comparado com ele era pobre e mesquinho. César, o Imperador de Roma, e todos os reis cujos nomes ouvis em histórias e em canções épicas, não distribuíram em qualquer banquete tanto como Artur deu no dia em que coroou Erec; nem César e Alexandre ousariam gastar tanto como ele gastou na corte. O traje foi tirado dos baús e espalhado livremente pelos salões; podia-se tomar o que se quisesse, sem restrição. No meio da corte, sobre um tapete, estavam trinta alqueires de esterlinos brilhantes; pois desde o tempo de Merlin até aquele dia, os esterlinos tinham curso legal em toda a Grã-Bretanha. Ali todos se serviram, cada um levando naquela noite tudo o que queria para o seu alojamento. Às nove horas do dia de Natal, todos se reuniram novamente na corte. A grande alegria que se aproximava dele tinha pilhado completamente o coração de Erec. A língua e a boca de nenhum homem, por mais habilidoso, poderia descrever a terceira, ou a quarta, ou a quinta parte da ostentação que marcou a sua coroação. Por isso é um empreendimento louco que empreendo ao querer tentar descrevê-la. Mas uma vez que devo fazer o esforço, venha o que vier, não falharei em relatar uma parte dela, o melhor que puder.
O Rei tinha dois tronos de marfim branco, bem construídos e novos, do mesmo padrão e estilo. Aquele que os fez, sem dúvida, era um artesão muito habilidoso e astuto. Pois tão precisamente ele fez os dois iguais em altura, em largura e em ornamentação, que não se poderia olhar para eles de todos os lados para distinguir um do outro e encontrar num algo que não estivesse no outro. Não havia parte de madeira, mas tudo de ouro e marfim fino. Bem esculpidos foram com grande habilidade, pois os dois lados correspondentes de cada um ostentavam a representação de um leopardo, e os outros dois a forma de um dragão. Um cavaleiro chamado Bruiant das Ilhas tinha feito uma oferta e presente deles ao Rei Artur e à Rainha. O Rei Artur sentou-se sobre um, e sobre o outro fez Erec sentar-se, que estava vestido de seda mareada. Como lemos na história, encontramos a descrição da veste, e para que ninguém diga que minto, cito como minha autoridade Macróbio, que se dedicou à descrição da mesma. Macróbio instrui-me como descrever, conforme encontrei no livro, a mão de obra e as figuras do tecido. Quatro fadas tinham-na feito com grande habilidade e mestria. Uma representava ali a geometria, como ela estima e mede a extensão dos céus e da terra, de modo que nada falta ali; e então a profundidade e a altura, e a largura, e o comprimento; então estima, além disso, quão largo e profundo é o mar, e assim mede o mundo inteiro. Tal foi o trabalho da primeira fada. E a segunda dedicou o seu esforço à representação da aritmética, e esforçou-se muito para representar claramente como ela enumera sabiamente os dias e as horas do tempo, e a água do mar gota a gota, e depois toda a areia, e as estrelas uma a uma, sabendo bem como dizer a verdade, e quantas folhas existem nos bosques: tal é a habilidade da aritmética que os números nunca a enganaram, nem ela alguma vez estará em erro quando deseja aplicar o seu sentido a eles. O terceiro desenho era o da música, com o qual toda a alegria se encontra em harmonia, canções e harmonias, e sons de cordas: de harpa, de violino bretão e de viola. Esta peça de trabalho era boa e fina; pois sobre ela estavam representados todos os instrumentos e todos os passatempos. A quarta, que a seguir desempenhou a sua tarefa, executou um trabalho excelente; pois a melhor das artes ela ali representou. Ela empreendeu a astronomia, que realiza tantas maravilhas e tira inspiração das estrelas, da lua e do sol. Em parte alguma ela procura conselho sobre algo que tem de fazer. Eles dão-lhe bom e seguro conselho. Sobre qualquer inquérito que ela faça deles, quer no passado ou no futuro, dão-lhe informação sem falsidade e sem engano. Este trabalho foi representado no tecido de que era feita a veste de Erec, tudo trabalhado e tecido com fio de ouro. O forro de pele que foi cosido por dentro pertencia a algumas bestas estranhas cujas cabeças são todas brancas, e cujos pescoços são tão pretos como amoras, e que têm costas vermelhas e ventres verdes, e cauda azul escura. Estas bestas vivem na Índia e são chamadas de "barbiolets". Elas não comem nada além de especiarias, canela e cravos frescos. Que vos direi do manto? Era muito rico e fino e formoso; tinha quatro pedras nas borlas — dois crisólitos de um lado, e duas ametistas do outro, que estavam montadas em ouro.
Até então Enide não tinha vindo ao palácio. Quando o Rei vê que ela se atrasa, ordena a Gawain que vá rapidamente buscá-la e à Rainha. Gawain apressa-se e não se demora, e com ele o Rei Cadoalant e o generoso Rei de Galloway. Guivret, o Pequeno, acompanha-os, seguido por Yder, filho de Nut. Tantos outros nobres correram para lá para escoltar as duas damas que teriam sido suficientes para vencer um exército; pois eram mais de mil. A Rainha tinha feito o seu melhor esforço para adornar Enide. Para o palácio trouxeram-na, o cortês Gawain escoltando-a de um lado, e do outro o generoso Rei de Galloway, que a amava muito por causa de Erec, que era seu sobrinho. Quando vieram ao palácio, o Rei Artur veio rapidamente em direção a eles, e cortesmente sentou Enide ao lado de Erec; pois ele desejava fazer-lhe grande honra. Agora ordena que tragam do seu tesouro duas coroas maciças de ouro fino. Assim que falou e deu a ordem, sem demora as coroas foram trazidas perante ele, todas cintilantes com carbúnculos, dos quais havia quatro em cada. A luz da lua não é nada comparada com a luz que o menos dos carbúnculos poderia lançar. Devido ao brilho que lançavam, todos aqueles que estavam no palácio ficaram tão ofuscados que por um momento não podiam ver nada; e até o Rei ficou espantado, e ainda assim cheio de satisfação, quando os viu tão claros e brilhantes. Mandou que uma delas fosse segurada por duas donzelas, e a outra por dois cavalheiros. Então pediu aos bispos e priores e aos abades da Igreja que se apresentassem e ungissem o novo Rei, como é a prática cristã. Agora todos os prelados, jovens e velhos, apresentaram-se; pois na corte havia um grande número de bispos e abades. O próprio Bispo de Nantes, que era um homem muito digno e santo, ungiu o novo Rei de uma maneira muito santa e adequada, e colocou a coroa na sua cabeça. O Rei Artur mandou trazer um cetro que era muito fino. Ouvi a descrição do cetro, que era mais claro que um painel de vidro, todo de uma esmeralda sólida, totalmente tão grande como o vosso punho. Ouso dizer-vos em muita verdade que em todo o mundo não há espécie de peixe, ou de fera selvagem, ou de homem, ou de ave voadora que não estivesse trabalhado e cinzelado sobre ele com a sua própria figura. O cetro foi entregue ao Rei, que olhou para ele com espanto; então ele colocou-o sem demora na mão direita do Rei Erec; e agora ele era Rei como deveria ser. Então ele coroou Enide por sua vez. Agora os sinos tocam para a Missa, e vão à igreja principal para ouvir a Missa e o serviço; vão rezar na catedral. Teríeis visto chorar de alegria o pai da Rainha Enide e a sua mãe, Carsenefide. Em verdade este era o nome da sua mãe, e o nome do seu pai era Liconal. Muito felizes estavam ambos. Quando chegaram à catedral, a procissão saiu da igreja com relíquias e tesouros para os encontrar. Cruzes e livros de orações e incensários e relicários, com todas as santas relíquias, das quais havia muitas na igreja, foram todos trazidos para os encontrar; nem faltaram cânticos feitos. Nunca foram vistos tantos reis, condes, duques e nobres juntos numa Missa, e a multidão era tão grande e espessa que a igreja estava completamente cheia. Nenhum homem de baixa linhagem podia entrar ali, mas apenas damas e cavaleiros. Fora da porta da igreja um grande número ainda permanecia, tantos eram os que se tinham juntado e que não podiam entrar na igreja. Quando ouviram toda a Missa, regressaram ao palácio. Estava tudo preparado e decorado: mesas postas e toalhas estendidas, quinhentas mesas e mais estavam ali; mas não desejo fazer-vos acreditar numa coisa que não parece verdadeira. Pareceria uma mentira demasiado grande se eu dissesse que quinhentas mesas foram postas em filas num palácio, por isso não o direi; antes havia cinco salões tão cheios delas que com grande dificuldade se podia abrir caminho entre as mesas. Em cada mesa havia em verdade um rei ou um duque ou um conde; e cem cavaleiros estavam sentados em cada mesa. Mil cavaleiros serviam o pão, e mil serviam o vinho, e mil a carne — todos eles vestidos com novas vestes de pele de arminho. Todos são servidos com diversos pratos. Mesmo que eu não os visse, poderia ainda ser capaz de vos falar sobre eles; mas devo ocupar-me de outra coisa que não seja dizer-vos o que tinham para comer. Tinham o suficiente, sem querer mais; alegre e liberalmente foram servidos conforme o seu desejo.
Quando esta celebração foi concluída, o Rei despediu a assembleia de reis, duques e condes, cujo número era imenso, e das outras pessoas humildes que tinham vindo ao festival. Recompensou-os liberalmente com cavalos, armas e prata, tecidos e brocados de muitos tipos, devido à sua generosidade, e devido a Erec, a quem ele amava tanto. Aqui a história termina finalmente.
[Nota 11: Uma versão galesa, "Geraint, o Filho de Erbin", incluída na tradução de Lady Charlotte Guest de "O Mabinogion" (Londres, 1838-49; uma edição moderna encontra-se na Everyman Library, Londres, 1906), conta a mesma história de "Erec et Enide" com algumas variações. Esta versão galesa também foi traduzida para o francês moderno por J. Loth ("Les Mabinogion", Paris, 1889), onde pode ser consultada com a maior confiança. A relação da prosa galesa com o poema francês é uma questão discutível. Cf. E. Philipot em "Romania", XXV. 258-294, e anteriormente, K. Othmer, "Ueber das Verhaltnis Chrestiens Erec und Enide zu dem Mabinogion des rothen Buch von Hergest" (Colônia, 1889); G. Paris em "Romania", XIX. 157, e id. XX. 148-166.]
[Nota 12: Lemos frequentemente nos romances sobre uma caçada na Páscoa (F.). Tal como aqui, em "Fergus" (ed. Martin, Halle, 1872), p. 2 f., os cavaleiros caçam um veado branco, que Perceval finalmente mata, mas não há menção à cerimônia da concessão de um beijo.]
[Nota 13: Chrétien não dá, em parte alguma, qualquer descrição da natureza da Távola Redonda. Para ele, é uma instituição. Layamon em "Brut" e Wace em "Le Roman de Brut" são mais específicos nos seus relatos sobre esta notável peça de mobiliário. A partir das suas descrições, e de outras fontes na literatura galesa e irlandesa, é razoável supor que a Távola Redonda tivesse um lugar no folclore celta primitivo. Cf. L.F. Mott, "The Round Table" em "Pub. of the Modern Language Association of America", XX. 231-264; A.C.L. Brown, "The Round Table before Wace" em "Harvard Studies and Notes in Philology and Literature", vii. 183-205 (Boston, 1900); Miss J.L. Weston, "A Hitherto Unconsidered Aspect of the Round Table" em "Melanges de philologie romane offerts a M. Wilmotte", ii. 883-894, 2 vols. (Paris, 1910).]
[Nota 14: Existe um romance dedicado a Yder, do qual G. Paris imprimiu um resumo em "Hist. Litt. de la France", XXX., e que foi recentemente editado por Heinrich Gelzer: "Der altfranzosische Yderroman" (Dresden, 1913). Existem aparentemente três cavaleiros diferentes com este nome nos antigos romances franceses (F.).]
[Nota 15: A palavra "chastel" (de "castellum") deve ser habitualmente traduzida como "cidade" ou local fortificado dentro de fortificações. Apenas quando se refere claramente a um edifício isolado é que a palavra "castelo" será usada.]
[Nota 16: Um "tercel" é uma espécie de falcão, na qual a ave macho é um terço menor que a fêmea.]
[Nota 17: Um "vavasor" (de "vassus vassallorum") era uma ordem inferior de vassalo, mas um homem livre. Os vavasores são mencionados com respeito nos antigos romances franceses, como sendo de caráter honroso, embora não de nascimento nobre.]
[Nota 18: As numerosas referências à história do Rei Mark, Tristan e Iseut nos poemas existentes de Chrétien sustentam a sua própria afirmação, feita no início de "Cligés", de que ele próprio compôs um poema sobre o sobrinho e a esposa do Rei da Cornualha. Temos fragmentos de poemas sobre Tristan pelos poetas anglo-normandos Beroul e Thomas, que foram contemporâneos de Chrétien. A hipótese de Foerster de que o "Tristan" perdido de Chrétien precedeu "Erec" é sem dúvida correta. Que o poeta tratou mais tarde do amor de Cligés e Fenice como uma espécie de expiação literária pela inevitável frouxidão moral de Tristan e Iseut tem sido sustentado por alguns, e a teoria é aceitável tendo em conta as referências que se encontrarão mais tarde em "Cligés". Para a opinião contrária de Gaston Paris, ver "Journal des Savants" (1902), p. 297 f.]
[Nota 19: No Mabinogi "Geraint, o Filho de Erbin", o anfitrião explica que tinha injustamente privado o seu sobrinho das suas posses, e que em vingança o sobrinho tinha mais tarde tomado toda a propriedade do seu tio, incluindo um condado e esta cidade. Ver Guest, "The Mabinogion".]
[Nota 110: A cota de malha era uma camisa longa de malha que chegava aos joelhos, usada pelos cavaleiros em combate. O elmo e a "coifa" por baixo dele protegiam a cabeça; o "ventail" de malhas ligadas era usado através da parte inferior do rosto e estava preso de cada lado do pescoço à "coifa", de modo a proteger a garganta; as grevas cobriam as pernas. O corpo do cavaleiro ficava assim bem protegido contra golpes de espada ou lança. Cf. Vv. 711 f.]
[Nota 111: Esta passagem parece implicar que feitiços e encantamentos eram por vezes usados quando um cavaleiro estava armado (F.).]
[Nota 112: As "loges", tão frequentemente mencionadas nos antigos romances franceses, eram ou varandas de janela ou pontos de vantagem arquitetônicos que ofereciam uma vista agradável. A tradução convencional nos antigos romances ingleses é "bower".]
[Nota 113: Tristan matou Morholt, o tio de Iseut, quando este veio reclamar tributo ao Rei Mark (cf. Bedier, "Le Roman de Tristan", etc., i. 85 f., 2 vols., Paris, 1902). O combate ocorreu numa ilha, sem nome no texto original (id. i. 84), mas posteriormente identificada com a Ilha de São Sansão, uma das Ilhas Scilly.]
[Nota 114: O mesmo ato de alimentar uma ave de caça com a asa de um tarambola é mencionado em "Le Roman de Thebes", 3857-58 (ed. "Anciens Textes").]
[Nota 115: Para tais expressões figurativas usadas para complementar a negativa, cf. Gustav Dreyling, "Die Ausdruckweise der ubertriebenen Verkleinerung im altfranzosischen Karlsepos", em "Ausgaben und Abhandlungen" de Stengel, nº 82 (Marburg, 1888); W.W. Comfort em "Modern Language Notes" (Baltimore, fevereiro de 1908).]
[Nota 116: Chrétien, nos seus romances posteriores, evitará compilar um livro azul tão prosaico como o que se encontra nesta passagem, embora listas semelhantes de cavaleiros ocorram nos antigos romances ingleses até tão tarde quanto Malory, embora pouco se saiba sobre alguns deles. Infelizmente, não temos para os antigos romances franceses uma obra tão completa como a fornecida para os poemas épicos por E. Langlois, "Table des noms propres de toute nature compris dans les chansons de geste" (Paris, 1904).]
[Nota 117: A única menção feita por Chrétien deste filho de Arthur, cujo papel é absolutamente insignificante nos romances arturianos.]
[Nota 118: Que taça de beber seria esta e quem a enviou a Arthur? Temos "Le Lai du cor" (ed. Wulff, Lund, 1888), que conta como um certo Rei Mangount de Moraine enviou uma taça mágica a Arthur. Ninguém poderia beber desta taça sem derramar o conteúdo se fosse um corno. Beber desta taça era, então, um dos muitos testes de castidade correntes. Mais esclarecimentos podem ser lançados sobre a passagem no nosso texto pelo poema inglês "The Cokwold's Daunce" (em "Ancient Metrical Ballads" de C.H. Hartshorne, Londres, 1829), onde Arthur é descrito como um corno e como tendo sempre consigo um chifre (taça) que ele se delicia em testar nos seus cavaleiros como um teste da castidade das suas damas. Para bibliografia, ver T.P. Cross, "Notes on the Chastity-Testing Horns and Mantle" em "Modern Philology", x. 289-299.]
[Nota 119: Um caso único de tal divisão do material nos poemas de Chrétien (F.).]
[Nota 120: Outre-Gales=Estre-Gales (v.3883)=Extra-Galliam.]
[Nota 121: Tais descrições fantasiosas de homens e terras são comuns nos poemas épicos franceses, onde são geralmente aplicadas aos sarracenos (F.). Cf. W.W. Comfort, "The Saracens in Christian Poetry" em "The Dublin Review", julho de 1911; J. Malsch, "Die Charakteristik der Volker im altfranzosischen nationalen Epos" (Heidelberg, 1912).]
[Nota 122: Com o que nos parece um gosto equivocado, Chrétien atrasa frequentemente a menção do nome das suas personagens principais. O pai e a mãe de Enide permanecem anônimos até ao fim deste poema. O leitor notará outros casos desta peculiaridade em "Yvain" e "Lancelot".]
[Nota 123: A criada Brangien foi substituída por Iseut, a noiva, na primeira noite após o seu casamento com Mark. Tradições semelhantes estão associadas ao casamento de Arthur e Guinevere, e de Pepin e Berte aus grans pies, os pais de Carlos Magno. Adenet le Roi, perto do final do século XIII, é o autor dos tratamentos mais artísticos da história de Berte (ed. A. Scheler, Bruxelas, 1874). Cf. W.W. Comfort, "Adenet le Roi: The End of a Literary Era" em "The Quarterly Review", abril de 1913.]
[Nota 124: A leitura "Sanson" (=Samson) é a sugestão mais recente de Foerster (1904) para substituir a palavra "leão" que consta em todos os manuscritos. O nome de Salomão tem sido sempre sinônimo de sabedoria, e a generosidade de Alexandre era proverbial na Idade Média. Para Alexandre, cf. Paul Meyer, "Alexandre le Grand dans la litterature francaise du moyen age", 2 vols. (Paris, 1886), vol. ii., pp. 372-376, e Paget Toynbee, "Dante Studies and Researches" (Londres, 1902), p. 144.]
[Nota 125: Dos vários sobrinhos de Arthur, Gawain é representado por Chrétien como inigualável em termos de coragem e cortesia. Nos romances ingleses, o seu caráter deteriora-se constantemente.]
[Nota 126: Esta frase contém o motivo de toda a ação na continuação. A mesma situação é ameaçada em "Yvain", mas lá Gawain resgata o herói da letargia, ignóbil aos olhos de um público feudal, na qual ele estava caindo. Cf. também "Marques de Rome" ("Lit. Verein in Stuttgart", Tubingen, 1889), p. 36, onde a Imperatriz de Roma assim incita o seu marido à caça: "Toz jors cropez vos a Postel; vos n'estes point chevalereus, si come vos deussiez estre, si juenes hom come vos estes"; também J. Gower, "Le Mirour de l'omme", 22.813 ss.:
"Rois est des femmes trop decu, Qant plus les ayme que son dieu, Dont laist honour pour foldelit: Cil Rois ne serra pas cremu, Q'ensi voet laisser sou escu Et querre le bataille ou lit."]
[Nota 127: Este comando brusco, implicando uma mudança tão repentina na atitude de Erec em relação à sua esposa, inicia uma longa série de testes da devoção de Enide, que preenchem o resto do romance. Por que Erec tratou a sua esposa com tamanha severidade? No Mabinogi de "Geraint, o Filho de Erbin", é claro que o ciúme foi o motivo do herói. O leitor de "Erec" pode julgar se, como acreditamos, a resolução súbita do herói não é antes a de um homem picado por ter sido justamente repreendido pela sua esposa por uma negligência que ele próprio não tinha notado; irado com a imputação da sua esposa, e temeroso de ter perdido o seu respeito, ele parte para redimir a sua reputação aos olhos dela, e para fazê-la retratar qualquer insinuação que ela tivesse feito. Erec está simplesmente zangado consigo mesmo, mas gasta a sua ira sobre a sua esposa indefesa até estar convencido do amor e respeito que ela tem por ele.]
[Nota 128: A situação aqui é comum. Paralelos serão encontrados no "Voyage de Charlemagne", no primeiro conto das "Mil e Uma Noites", no poema "Biterolf and Dietlieb", e na balada inglesa de "King Arthur and King Cornwall". O Professor Child, em "English and Scotch Ballads", indexa as baladas na sua coleção, que apresentam este motivo, sob a seguinte epígrafe: "Rei que se considera o mais rico, mais magnífico, etc., do mundo, é informado de que há alguém que o supera, e encarrega-se de ver por si mesmo se isto é verdade, ameaçando de morte a pessoa que afirmou a sua inferioridade caso isso seja refutado."]
[Nota 129: A presença dos irlandeses nesta conexão é explicada por G. Paris em "Romania", xx. 149.]
[Nota 130: Kay, o Senescal, aparece aqui pela primeira vez nos poemas de Chrétien com o caráter que ele lhe atribui regularmente. Os leitores do romance arturiano estão todos familiarizados com Sir Kay; eles descobrirão que em Chrétien, o senescal, para além das suas inegáveis qualidades de bravura e franqueza, tem traços menos agradáveis; ele é temerário, sem tato, mesquinho e um depreciador do mérito dos outros. Ele figura proeminentemente em "Yvain" e "Lancelot". A sua história poética ainda não foi escrita. O seu papel nos romances alemães foi abordado pelo Dr. Friedrich Sachse, "Ueber den Ritter Kei" (Berlim, 1860).]
[Nota 131: Não se comia carne porque era a véspera de domingo.]
[Nota 132: Tanto nos poemas épicos franceses quanto nos romances de aventura, é costume gigantes e todo o tipo de rústicos brutos carregarem clavas, sendo as armas de cavalaria apropriadas para tais criaturas ignóbeis. Outros exemplos desta convenção serão notados no texto.]
[Nota 133: Segue-se um excelente exemplo de um antigo lamento francês pelos mortos. Tal pranto era conhecido no francês antigo como um "regret", uma palavra que perdeu o seu significado específico em inglês.]
[Nota 134: Muitos exemplos serão encontrados de mulheres habilidosas na prática da medicina e cirurgia. Sobre o assunto, cf. A. Hertel, "Versauberte Oertlichkeiten und Gegenstande in der altfranzosischen Dichtung" (Hanôver, 1908); Georg Manheimer, "Etwas liber die Aerzte im alten Frankreich" em "Romanische Forschungen", vi. 581-614.]
[Nota 135: A referência aqui e no v. 5891 é provavelmente sugerida pelo "Roman d'Eneas", que conta a mesma história da "Eneida" de Virgílio, em dísticos rimados de oito sílabas em francês antigo, e que é datado pela erudição mais recente cerca de 1160. Cf. F.M. Warren em "Modern Philology", iii. 179-209; iii. 513-539; iv. 655-675. Também M. Wilmotte, "L'Evolution du roman francais aux environs de 1150" (Paris, 1903). Cenas de romances clássicos e medievais foram durante muito tempo temas favoritos de representação em panos e tapeçarias, bem como de iluminuras para manuscritos.]
[Nota 136: Várias conjecturas foram avançadas sobre o significado desta estranha aventura e o seu misterioso nome "La Joie de la cour". É um episódio bastante estranho, e Tennyson, no seu uso artístico do nosso herói e heroína no Idílio de "Geraint and Enid", fez bem em omiti-lo. A explicação de Chrétien, um pouco mais adiante, de "La Joie de la cour" é fraca e insatisfatória, como se ele próprio não compreendesse o significado do assunto sobre o qual estava trabalhando. Cf. E. Philipot em "Romania", xxv. 258-294; K. Othmer, "Ueber das Verhaltnis Chrestiens Erec und Enide zu dem Mabinogion des rothen Buch von Hergest" (Bonn, 1889); G. Paris em "Romania", xx. 152 f.]
[Nota 137: A descrição seguinte da recepção de Erec é repetida com variações no momento da entrada de Yvain no "Chastel de Pesme Avanture" ("Yvain", 5107 f.) (F.).]
[Nota 138: Para tais descrições medievais convencionais de castelos, palácios e paisagens de outro mundo, cf. O.M. Johnston em "Ztsch fur romanische Philologie", xxxii. 705-710.]
[Nota 139: Tiebaut li Esclavon, frequentemente mencionado nos poemas épicos, era um rei sarraceno, o primeiro marido de Guibourne, que mais tarde se casou com o herói cristão Guillaume d'Orange. Opinel também era um sarraceno, mencionado em "Gaufrey", p. 132, e o herói de um poema épico perdido (ver G. Paris, "Historie poetique de Charlemagne", p. 127). Fernagu era outro rei sarraceno, morto num famoso encontro por Roland, "Otinel", p. 9 (F.). Para mais referências a estas personagens, ver E. Langlois, "Table des noms propres de toute nature compris dans les chansons de geste" (Paris, 1904).]
[Nota 140: Existe uma cerca semelhante com estacas encimadas por elmos em "Lai de la Mule sanz frain", v. 433 (ed. por R.T. Hill, Baltimore, 1911).]
[Nota 141: Para tais chifres mágicos, cf. A. Hertel, "Verzauberte Oertlichkeiten", etc. (Hanôver, 1908).]
[Nota 142: De fato, nada se sabe sobre este "lai", se é que alguma vez existiu. Para uma definição recente de "lai", ver L. Foulet em "Ztsch. fur romanische Philologie", xxxii. 161 f.]
[Nota 143: O sterling era o centavo de prata inglês, 240 dos quais equivaliam a 1 Libra Esterlina de prata de 5760 grãos 925 de pureza. É descrito cedo como "denarius Angliae qui vocatur sterlingus" ("Ency. Brit").]
[Nota 144: Macróbio foi um filósofo neoplatônico e gramático latino do início do século V d.C. É mais conhecido como autor das "Saturnalia" e de um comentário sobre o "Somnium Scipionis" de Cícero na obra desse autor "De republica". É esta última obra que está provavelmente na mente de Chrétien, bem como de Gower, que se refere a ele no seu "Mirour de l'omme", e de Jean de Meun, o autor da segunda parte do "Roman de la Rose".]
[Nota 145: Para fadas e o seu trabalho manual na Idade Média, cf. L.F.A. Maury, "Les Fees du moyen age" (Paris, 1843); Keightley, "Fairy Mythology" (Londres, 1860); Lucy A. Paton, "Studies in the Fairy Mythology of Arthurian Romance", Radcliffe Monograph (Boston, 1903); D.B. Easter, "The Magic Elements in the romans d'aventure and the romans bretons" (Baltimore, 1906).]
CLIGÉS [21]
(Vv. 1-44.) Aquele que escreveu sobre Erec e Enide, e traduziu para francês os comandos de Ovídio e a Arte de Amar, e escreveu a Mordida no Ombro [22], e sobre o Rei Mark e a bela Iseut [23], e sobre a metamorfose do Abibe [24], da Andorinha e do Rouxinol, contará agora outra história sobre um jovem que viveu na Grécia e era membro da linhagem do Rei Arthur. Mas antes de vos contar algo sobre ele, ouvireis sobre a vida do seu pai, de onde ele veio e de que família. Ele era tão audaz e tão ambicioso que deixou a Grécia e foi para a Inglaterra, que era chamada Bretanha naqueles dias, a fim de ganhar fama e renome. Esta história, que pretendo narrar-vos, encontramo-la escrita num dos livros da biblioteca do meu senhor São Pedro em Beauvais [25]. De lá foi tirado o material do qual Chrétien fez este romance. O livro no qual a história é contada é muito antigo, e isto aumenta a sua autoridade [26]. De tais livros que foram preservados aprendemos os feitos dos homens de outrora e dos tempos há muito passados. Os nossos livros informaram-nos de que a preeminência na cavalaria e no saber pertenceu outrora à Grécia. Então a cavalaria passou para Roma, juntamente com aquele saber supremo que agora veio para a França. Deus conceda que seja aqui acarinhado, e que seja aqui tão bem-vindo que a honra que se refugiou conosco nunca parta da França: Deus tinha-a concedido como parte de outro, mas dos gregos e romanos nada mais se ouve, a sua fama passou, e a sua brasa brilhante está morta.
Chrétien inicia a sua história tal como a encontramos na crônica, que nos fala de um imperador poderoso em riqueza e honra que governava a Grécia e Constantinopla. Havia também uma imperatriz muito nobre, de quem o imperador teve dois filhos. Mas o filho mais velho já estava tão adiantado antes mesmo do nascimento do mais novo que, se o desejasse, poderia ter sido armado cavaleiro e mantido todo o império sob o seu domínio. O nome do mais velho era Alexandre, e o nome do outro era Alis. Alexandre, também, era o nome do pai, e o nome da mãe era Tantalis. Nada mais direi agora sobre o imperador e sobre Alis; mas falarei de Alexandre, que era tão audaz e orgulhoso que se recusava a ser armado cavaleiro na sua própria terra. Tinha ouvido falar do Rei Arthur, que reinava naqueles dias, e dos cavaleiros que ele mantinha sempre a seu lado, tornando assim a sua corte temida e famosa por todo o mundo. Seja qual for o resultado do assunto e qualquer que seja a sorte que o aguarde, nada pode conter Alexandre do seu desejo de ir para a Britânia, mas ele precisa obter o consentimento do pai antes de seguir para a Britânia e para a Cornualha. Assim, Alexandre, belo e bravo, vai falar com o imperador para pedir e obter a sua licença. Agora ele lhe dirá o seu desejo e o que tenciona fazer e empreender. "Belo senhor", diz ele, "em busca de honra, fama e glória, ouso pedir-vos um favor, que desejo que me concedais agora, sem demora, se estiverdes disposto a tal." O imperador não imagina que algum mal possa advir deste pedido: ele deveria, antes, desejar e ansiar pela honra do seu filho. "Belo filho", diz ele, "concedo-te o teu desejo; diz-me, pois, o que queres que te dê." Agora o jovem alcançou o seu propósito, e sente-se muito satisfeito por lhe ser concedido o favor que tanto desejava. "Senhor", diz ele, "quereis saber o que é que me prometestes? Desejo ter uma grande abundância de ouro e prata, e tais companheiros dentre os vossos homens que eu irei selecionar; pois desejo partir do vosso império e oferecer o meu serviço ao rei que governa a Britânia, para que ele me arme cavaleiro. Prometo-vos que jamais em minha vida usarei armadura no meu rosto ou elmo sobre a minha cabeça até que o Rei Arthur me cinja a espada, se ele, graciosamente, assim o quiser fazer. Pois de nenhum outro, senão dele, aceitarei as minhas armas." Sem hesitar, o imperador responde: "Belo filho, por amor de Deus, não fales assim! Este país pertence-te por inteiro, assim como a rica Constantinopla. Não deves achar-me mesquinho, quando estou pronto para te dar tal presente. Estarei pronto em breve para te fazer coroar, e amanhã serás cavaleiro. Toda a Grécia estará nas tuas mãos, e receberás dos teus nobres, como é de direito, a sua homenagem e juramentos de fidelidade. Quem recusa tal oferta não é sábio."
O jovem ouve a promessa de que na manhã seguinte, após a Missa, o seu pai está pronto para o armar cavaleiro; mas diz que buscará a sua fortuna, para melhor ou para pior, em outra terra. "Se estais disposto a conceder-me o favor que vos pedi neste assunto, dai-me então peles malhadas e cinzentas, alguns bons cavalos e tecidos de seda: pois antes de me tornar cavaleiro, desejo alistar-me no serviço do Rei Arthur. Nem tenho ainda força suficiente para suportar as armas. Ninguém poderia induzir-me, por preces ou lisonjas, a não ir para a terra estrangeira ver os seus nobres e aquele rei cuja fama é tão grande pela sua cortesia e bravura. Muitos homens de alta linhagem perdem, por preguiça, o grande renome que poderiam ganhar se vagueassem pelo mundo. O repouso e a glória mal se harmonizam, ao que me parece; pois um homem rico nada acrescenta à sua reputação se passa todos os seus dias em ócio. A bravura é um incômodo para o homem ignóbil, e a covardia é um fardo para o homem de espírito; assim, ambas são contrárias e opostas. Ele é escravo da sua riqueza aquele que passa os seus dias a acumulá-la e aumentá-la. Belo pai, enquanto tiver a oportunidade, e enquanto a minha têmpera durar, desejo devotar o meu esforço e energia à busca da fama."
Ao ouvir isto, o imperador sente, sem dúvida, tanto alegria quanto pesar: alegra-se por a intenção do seu filho estar fixada na honra e, por outro lado, entristece-se porque o seu filho está prestes a separar-se dele. Contudo, devido à promessa que fez, apesar da tristeza que sente, ele deve conceder-lhe o pedido; pois um imperador deve cumprir a sua palavra. "Belo filho", diz ele, "não devo deixar de fazer a tua vontade, quando te vejo assim a lutar pela honra. Do meu tesouro podes ter duas barcas cheias de ouro e prata; mas cuida de ser generoso, cortês e bem-comportado." Agora o jovem está muito feliz por o seu pai lhe prometer tanto, e colocar o seu tesouro à sua disposição, e instar-lhe vivamente a dar e gastar generosamente. E o seu pai explica-lhe a razão disto: "Belo filho", diz ele, "acredita em mim, a generosidade é a dama e rainha que confere glória a todas as outras virtudes. E a prova disto não é difícil de encontrar. Pois onde poderias encontrar um homem, por mais rico e poderoso que seja, que não seja censurado se for mesquinho? Nem poderias encontrar um, por menos gracioso que seja, que a generosidade não traga a boa reputação? Assim, a largueza faz o cavalheiro, resultado que não pode ser alcançado nem pelo alto nascimento, pela cortesia, pelo saber, pela gentileza, pelo dinheiro, pela força, pela cavalaria, pela audácia, pelo domínio, pela beleza ou por qualquer outra coisa. Mas, tal como a rosa é mais bela do que qualquer outra flor quando está fresca e recém-aberta, assim também, onde habita a largueza, ela toma o seu lugar acima de todas as outras virtudes, e aumenta quinhentas vezes o valor dos outros bons traços que encontra no homem que se conduz bem. Tão grande é o mérito da generosidade que eu não poderia contar-te nem a metade." O jovem concluiu com sucesso as negociações para o que desejava; pois o seu pai acedeu a todos os seus desejos. Mas a imperatriz ficou profundamente entristecida quando ouviu falar da viagem que o seu filho estava prestes a empreender. Contudo, quem quer que se entristeça ou lamente, e quem quer que atribua a sua intenção à loucura juvenil, e quem quer que o censure e procure dissuadi-lo, o jovem ordenou que os seus navios fossem preparados o mais depressa possível, desejando não tardar mais na sua terra natal. Sob o seu comando, os navios foram carregados naquela mesma noite com vinho, carne e biscoito.
Os navios foram carregados no porto e, na manhã seguinte, Alexandre chegou à praia de bom humor, acompanhado pelos seus companheiros, que estavam felizes com a viagem em perspectiva. Foram escoltados pelo imperador e pela imperatriz, esta no seu pesar. No porto, encontram os marinheiros nos navios alinhados junto ao penhasco. O mar estava calmo e suave, o vento era leve e o tempo estava claro. Quando se despediu do pai e deu adeus à imperatriz, cujo coração estava pesado no peito, Alexandre passou primeiro do pequeno barco para a galera; depois, todos os seus companheiros apressaram-se a embarcar, de quatro em quatro, de três em três, de dois em dois, sem demora. Logo a vela foi içada e a âncora levantada. Aqueles que estavam em terra, cujo coração está pesado por causa dos homens que veem partir, seguem-nos com o olhar enquanto podem: e, para vê-los por mais tempo, todos sobem uma colina alta atrás da praia. De lá, observam tristemente, enquanto os seus olhos os conseguem seguir. Com tristeza, de fato, observam-nos partir, sendo solícitos pelos jovens, para que Deus os leve ao seu porto sem acidente e sem perigo. Passaram todo o mês de abril e parte de maio no mar. Sem qualquer grande perigo ou contratempo, chegaram ao porto de Southampton. Um dia, entre as três da tarde e as vésperas, lançaram a âncora e foram para terra. Os jovens, que nunca tinham estado habituados a suportar desconforto ou dor, tinham sofrido tanto tempo com a sua vida no mar que todos tinham perdido a cor, e até os mais fortes e vigorosos estavam fracos e debilitados. Apesar disso, alegram-se por terem escapado do mar e por terem chegado onde desejavam estar. Devido ao seu estado de exaustão, passam a noite em Southampton num ambiente feliz e fazem perguntas sobre se o Rei está na Inglaterra. Dizem-lhes que ele está em Winchester e que podem chegar lá num tempo muito curto se partirem cedo de manhã e se mantiverem no caminho direto. Com esta notícia, ficam muito satisfeitos e, na manhã seguinte, ao amanhecer, os jovens acordam cedo, preparam-se e equipam-se. E quando estavam prontos, deixaram Southampton e mantiveram-se no caminho direto até chegarem a Winchester, onde estava o Rei. Antes das seis da manhã, os gregos tinham chegado à corte. Os escudeiros com os cavalos permanecem em baixo no pátio, enquanto os jovens sobem à presença do Rei, que era o melhor que jamais existiu ou existirá no mundo. E quando o Rei os vê chegar, agradam-lhe muito e encontram o seu favor. Mas antes de se aproximarem da presença do Rei, retiram os mantos dos seus ombros, para não serem considerados mal-educados. Assim, todos sem manto, chegaram perante o Rei, enquanto todos os nobres presentes mantinham o silêncio, muito agradados com a visão daqueles belos e bem-comportados jovens. Supõem, claro, que são todos filhos de condes ou reis; e, sem dúvida, assim o eram, e de uma idade muito encantadora, com formas graciosas e bem-feitas. E as roupas que vestiam eram todas do mesmo tecido e corte, da mesma aparência e cor. Eram doze, além do seu senhor, de quem não preciso dizer-vos mais do que o fato de que não havia nenhum melhor do que ele. Com modéstia e ar ordenado, ele era belo e bem-feito enquanto estava descoberto perante o Rei. Então, ajoelhou-se perante ele, e todos os outros, por honra, fizeram o mesmo ao lado do seu senhor.
Alexandre, com a sua língua bem treinada a falar de forma bela e sábia, saúda o Rei. "Rei", diz ele, "a menos que seja falso o relato que espalha a vossa fama, desde que Deus criou o primeiro homem nunca nasceu um homem temente a Deus de tal potência como a vossa. Rei, o vosso vasto renome atraiu-me para vos servir e honrar na vossa corte, e se quiserdes aceitar o meu serviço, gostaria de permanecer aqui até ser armado cavaleiro pela vossa mão e por mais ninguém. Pois a menos que receba esta honra da vossa mão, renunciarei a toda a intenção de ser armado cavaleiro. Se quiserdes aceitar o meu serviço até que estejais disposto a armar-me cavaleiro, retende-me agora, ó gentil Rei, e aos meus companheiros aqui reunidos." Ao que o Rei responde de imediato: "Amigo, não recuso nem a ti nem aos teus companheiros. Sede todos bem-vindos. Pois, certamente, pareceis, e não duvido disso, ser filhos de homens de alta linhagem. De onde vindes?" "Da Grécia." "Da Grécia?" "Sim." "Quem é o teu pai?" "Pela minha palavra, senhor, o imperador." "E qual é o teu nome, belo amigo?" "Alexandre é o nome que me foi dado quando recebi o sal e o óleo santo, e o cristianismo e o batismo." "Alexandre, meu caro, belo amigo. Manter-te-ei comigo muito alegremente, com grande prazer e deleite. Pois fizeste-me uma honra notável ao vires assim à minha corte. Desejo que sejais honrados aqui, como vassalos livres que são sábios e gentis. Estivestes tempo demais de joelhos; agora, sob o meu comando, e doravante, fazei do meu convívio e da minha corte o vosso lar; é bom que tenhas vindo a nós."
Então os gregos levantam-se, alegres por o Rei os ter tão gentilmente convidado a ficar. Alexandre fez bem em vir; pois nada lhe falta do que deseja, e não há nobre na corte que não o trate gentilmente e o receba bem. Ele não é tão tolo a ponto de se ensoberbecer, nem se vangloria ou se gaba. Ele conhece o senhor Gawain e os outros, um por um. Ganha as boas graças de todos, mas o senhor Gawain torna-se tão afeiçoado a ele que o escolhe como seu amigo e companheiro. Os gregos tomaram os melhores alojamentos que se podiam obter, com um cidadão da cidade. Alexandre tinha trazido grandes posses consigo de Constantinopla, tencionando dar atenção, acima de tudo, ao conselho e à recomendação do Imperador, de que o seu coração deveria estar sempre pronto a dar e a dispensar bem as suas riquezas. Para este fim, ele dedica os seus esforços, vivendo bem nos seus alojamentos, e dando e gastando liberalmente, como convém a alguém tão rico, e como o seu coração dita. Toda a corte se pergunta onde ele obteve toda a riqueza que distribui; pois, por todos os lados, ele presenteia os valiosos cavalos que tinha trazido da sua própria terra. Tanto fez Alexandre, no desempenho do seu serviço, que o Rei, a Rainha e os nobres lhe dedicam grande afeição. O Rei Arthur, por esta altura, desejava atravessar para a Bretanha. Então, convoca todos os seus barões para tomar conselho e indagar a quem pode confiar a Inglaterra, para que seja mantida em paz e segurança até ao seu regresso. Por consenso comum, parece, a confiança foi atribuída ao Conde Angres de Windsor, pois era o juízo de todos que não havia senhor mais digno de confiança em todo o reino do Rei. Quando este homem recebeu a terra, o Rei Arthur partiu no dia seguinte, acompanhado pela Rainha e pelas suas donzelas. Os bretões fazem grande regozijo ao ouvir a notícia na Bretanha de que o Rei e os seus barões estão a caminho.
Para o navio em que o Rei navegava não entrou nenhum jovem ou donzela, salvo apenas Alexandre e Soredamors, que a Rainha trouxe consigo. Esta donzela era desdenhosa do amor, pois nunca tinha ouvido falar de nenhum homem a quem se dignasse amar, independentemente da sua beleza, bravura, senhorio ou nascimento. E, contudo, a donzela era tão encantadora e bela que poderia, apropriadamente, ter aprendido sobre o amor, se lhe tivesse agradado dar ouvidos; mas ela nunca daria um pensamento ao amor. Agora, o Amor fá-la-á sofrer, e vingar-se-á de todo o orgulho e desprezo com que ela sempre o tratou. Cuidadosamente, o Amor apontou o seu dardo com o qual a trespassou no coração. Agora ela empalidece e treme, e, contra a sua vontade, deve sucumbir ao Amor. Apenas com grande dificuldade se pode conter de lançar um olhar para Alexandre; mas ela deve estar de guarda contra o seu irmão, o senhor Gawain. Caro ela paga e expia o seu grande orgulho e desdém. O Amor aqueceu para ela um banho que a aquece e queima dolorosamente. No início, é-lhe grato, e depois magoa-a; num momento ela gosta, e no seguinte já não o quer. Ela acusa os seus olhos de traição, e diz: "Meus olhos, vós traístes-me agora! O meu coração, geralmente tão fiel, agora tem má vontade contra mim por vossa causa. Agora, o que vejo causa-me angústia. Angústia? Não, na verdade, antes gosto bem disso. E se eu vejo algo que me causa angústia, não posso controlar os meus olhos? A minha força deve ter falhado, e pouco me deveria estimar, se não puder controlar os meus olhos e fazê-los desviar o olhar para outro lado. Assim, serei capaz de frustrar o Amor nos seus esforços para obter controle sobre mim. O coração não sente dor quando o olho não vê; portanto, se eu não olhar para ele, nenhum mal me virá. Ele não me dirige nenhum pedido ou prece, como faria se estivesse apaixonado por mim. E uma vez que ele nem me ama nem me estima, amá-lo-ei sem retorno? Se a sua beleza atrai os meus olhos, e os meus olhos ouvem o chamamento, direi que o amo apenas por isso? Não, pois isso seria uma mentira. Portanto, ele não tem fundamento para reclamação, nem posso eu fazer qualquer reivindicação contra ele. Não se pode amar apenas com os olhos. Que crime, então, cometeram os meus olhos, se o seu olhar apenas segue o meu desejo? Qual é a sua falha e qual é o seu pecado? Devo, então, culpá-los? Não, na verdade. Quem, então, deveria ser culpado? Certamente eu própria, que os tenho sob controle. O meu olho não olha para nada a menos que isso dê ao meu coração deleite. O meu coração não deveria ter qualquer desejo que me causasse dor. Contudo, o seu desejo causa-me dor. Dor? Pela minha fé, devo estar louca, se para agradar ao meu coração desejo algo que me perturba. Se puder, devo banir qualquer desejo que me cause angústia. Se puder? Louca, o que disse eu? Devo, de fato, ter pouco poder se não tenho controle sobre mim mesma. O Amor pensa em colocar-me no mesmo caminho que costuma levar outros ao erro? A outros ele pode levar ao erro, mas não a mim, que não me importo com ele. Jamais serei dele, nem nunca fui, e jamais buscarei a sua amizade." Assim, ela discute consigo mesma, num momento amando, e odiando no seguinte. Ela está em tal dúvida que não sabe qual o caminho que deveria adotar. Ela pensa em estar na defensiva contra o Amor, mas a defesa não é o que ela quer. Deus! Ela não sabe que Alexandre também está a pensar nela! O Amor concede-lhes igualmente tal parte quanto lhes é devida. Ele trata-os de forma muito justa e equitativa, pois cada um ama e deseja o outro. E este amor seria verdadeiro e justo se apenas cada um soubesse qual é o desejo do outro. Mas ele não sabe qual é o desejo dela, e ela não sabe a causa da sua angústia.
A Rainha observa-os e vê-os frequentemente empalidecer e soltar profundos suspiros e tremer. Mas ela não conhece a razão pela qual o fazem, a menos que seja por causa do mar onde estão. Penso que ela teria adivinhado a causa se o mar não a tivesse apanhado desprevenida, mas o mar engana-a e ludibria-a, de modo que ela não descobre o amor por causa do mar; e é do amor que vem a dor amarga que os angustia. Mas, dos três envolvidos, a Rainha coloca toda a culpa sobre o mar; pois os outros dois acusam o terceiro perante ela, e consideram-no o único responsável pela sua culpa. Alguém que não tem culpa é frequentemente culpado pelo erro de outro. Assim, a Rainha coloca toda a culpa e responsabilidade sobre o mar, mas é injusto colocar a culpa sobre o mar, pois ele não é culpado de nenhum malfeito. A profunda angústia de Soredamors continuou até o navio chegar ao porto. Quanto ao Rei, é bem sabido que os bretões ficaram muito satisfeitos e serviram-no alegremente como seu senhor soberano. Mas do Rei Arthur não falarei mais neste lugar; antes, ouvireis como o Amor angustia estes dois amantes que ele atacou.
Alexander ama-a e deseja-a; e ela, também, suspira pelo amor dele, mas ele não o sabe, nem o saberá até que tenha sofrido muitas dores e muitos pesares. É por causa dela que ele presta à Rainha amoroso serviço, assim como às suas damas de companhia; mas, àquela em quem os seus pensamentos estão fixos, ele não ousa falar ou dirigir uma palavra. Se ela apenas se atrevesse a afirmar-lhe o direito que pensa ter, informar-lhe-ia alegremente a verdade; mas ela não ousa, e não o pode fazer. Eles não ousam nem falar nem agir de acordo com o que cada um vê no outro — o que lhes causa um grande sofrimento a ambos, e o seu amor apenas cresce e flameja ainda mais. Contudo, é costume de todos os amantes deleitar os olhos com o olhar, se não puderem fazer mais nada; e supõem que, por encontrarem prazer naquilo que faz o seu amor nascer e crescer, deve ser, portanto, para sua vantagem; enquanto que apenas lhes causa mais dano, tal como aquele que se aproxima e se põe junto ao fogo queima-se mais do que aquele que se mantém afastado. O amor deles cresce e aumenta logo; mas cada um está envergonhado perante o outro, e tanto é escondido e ocultado que nenhuma chama ou fumo surge das brasas debaixo das cinzas. O calor não é menor por causa disto, mas antes é melhor sustentado debaixo das cinzas do que acima. Ambos estão em grande tormento; pois, para que ninguém perceba o seu problema, são forçados a enganar as pessoas com um comportamento fingido; mas à noite vem o gemido amargo, que cada um faz dentro do seu peito. De Alexander vos direi primeiro como ele se queixa e desabafa o seu pesar. O Amor apresenta perante a sua mente aquela por quem ele está em tal angústia; é ela quem lhe roubou o coração e não lhe concede descanso na sua cama, porque, na verdade, ele delicia-se a recordar a beleza e a graça daquela que, ele não tem esperança, alguma vez lhe trará qualquer alegria. "Posso muito bem considerar-me um louco", exclama ele. "Um louco? Verdadeiramente, estou fora de mim, quando não ouso dizer o que tenho em mente; pois rapidamente as coisas correriam pior para mim (se eu me calasse). Envolvi os meus pensamentos numa empresa louca. Mas não é melhor guardar os meus pensamentos para mim do que ser chamado de tolo? O meu desejo nunca será então conhecido. Hei de então ocultar a causa do meu sofrimento, e não ousar procurar auxílio e cura para a minha ferida? É louco aquele que se sente aflito, e não procura o que lhe trará saúde, se por acaso a puder encontrar em algum lugar; mas muitos procuram o seu bem-estar esforçando-se pelo desejo do seu coração, e perseguem apenas o que lhes traz desgraça. E por que haveria alguém de pedir conselho, se não espera ganhar a sua saúde? Apenas se esforçaria em vão. Sinto a minha própria doença ser tão grave que nunca serei curado por qualquer medicina ou poção, por qualquer erva ou raiz. Para alguns males não há remédio, e o meu jaz tão fundo dentro de mim que está para lá do alcance da medicina. Não há, pois, ajuda? Parece-me que menti. Quando pela primeira vez senti esta doença, se tivesse ousado fazer menção dela, poderia ter falado com um médico que me teria curado completamente. Mas não gosto de discutir tais assuntos; penso que ele não me daria ouvidos e não consentiria em aceitar um pagamento. Não admira, pois, se estou aterrorizado; pois estou muito doente, contudo não sei que doença é esta que me tem nas suas garras, e não sei de onde veio esta dor. Não sei? Sei muito bem que é o Amor quem me faz este dano. Como é isso? Pode o Amor fazer mal? Não é ele gentil e bem-educado? Costumava pensar que não havia nada além de bem no Amor; mas encontrei-o cheio de inimizade. Aquele que não teve experiência dele não sabe que truques o Amor prega. É um tolo aquele que se junta às suas fileiras; pois ele procura sempre prejudicar os seus seguidores. Pela minha fé, os seus truques são maus. É um pobre divertimento brincar com ele, pois o seu jogo apenas me fará mal. Que farei, então? Hei de retirar-me? Penso que seria sensato fazê-lo, mas não sei como o fazer. Se o Amor me castiga e ameaça para me ensinar e instruir, devo desdenhar o meu mestre? É um tolo aquele que despreza o seu mestre. Devo guardar e acalentar a lição que o Amor me ensina, pois um grande bem pode em breve vir dela. Mas estou assustado porque ele me bate tanto. E tu queixas-te, quando nenhum sinal de golpe ou ferida aparece? Não estarás enganado? Não, pois ele feriu-me tão profundamente que disparou o seu dardo até ao meu próprio coração, e ainda não o retirou novamente. Como ele perfurou o teu corpo com ele, quando nenhuma ferida aparece por fora? Diz-me isso, pois desejo saber. Como o fez entrar? Através do olho. Através do olho? Mas não o apagou? Ele não prejudicou o olho de todo, mas toda a dor está no coração. Então diz-me, se o dardo passou através do olho, como é que o próprio olho não está ferido ou apagado. Se o dardo entrou através do olho, por que é que o coração no peito se queixa, quando o olho, que recebeu o primeiro efeito, não faz queixa alguma disso? Posso facilmente explicar isso: o olho não se preocupa com o entendimento, nem tem qualquer parte nele; mas é o espelho do coração, e através deste espelho passa, sem fazer mal ou dano, a chama que incendeia o coração. Pois não está o coração colocado no peito tal como uma vela acesa que é posta num lanterna? Se retirares a vela, nenhuma luz brilhará da lanterna; mas enquanto a vela durar, a lanterna não está de todo escura, e a chama que brilha lá dentro não lhe faz mal ou dano. Da mesma forma com um painel de vidro, que poderia ser muito forte e sólido, e ainda assim um raio de sol poderia passar através dele sem o rachar de todo; contudo, um pedaço de vidro nunca será tão brilhante a ponto de permitir ver, a menos que uma luz mais forte atinja a sua superfície. Sabe que a mesma coisa é verdadeira para os olhos como para o vidro e a lanterna; pois a luz atinge os olhos nos quais o coração está habituado a ver-se refletido, e eis! ele vê alguma luz lá fora, e muitas outras coisas, algumas verdes, algumas púrpuras, outras vermelhas ou azuis; e algumas ele não gosta, e de algumas gosta, desprezando umas e valorizando outras. Mas muitos objetos parecem belos quando ele os olha no espelho, o que o enganará se não estiver de sobreaviso. O meu espelho enganou-me grandemente; pois nele o meu coração viu um raio de luz com o qual estou aflito, e que penetrou profundamente dentro de mim, fazendo-me perder o juízo. Sou maltratado pelo meu amigo, que me deserta pelo meu inimigo. Posso muito bem acusá-lo de felonia pelo erro que me fez. Pensava que tinha três amigos, o meu coração e os meus dois olhos juntos; mas parece que eles me odeiam. Onde encontrarei alguma vez um amigo, quando estes três são os meus inimigos, pertencendo-me, contudo levando-me à morte? Os meus servos zombam da minha autoridade, fazendo o que lhes apraz sem consultar o meu desejo. Após a minha experiência com estes que me fizeram mal, sei muito bem que o amor de um bom homem pode ser conspurcado por servos perversos ao seu serviço. Aquele que é servido por um servo perverso terá certamente causa para se arrepender, mais cedo ou mais tarde. Agora dir-vos-ei como a flecha, que veio à minha guarda e posse, é feita e moldada; mas temo grandemente que falharei na tentativa; pois o feitio dela é tão fino que não será de admirar se eu falhar. Contudo, dedicarei todo o meu esforço a dizer-vos como me parece. O entalhe e as penas estão tão próximos um do outro, quando cuidadosamente examinados, que a linha de separação é tão fina como a largura de um cabelo; mas o entalhe é tão liso e reto que nele certamente nenhum melhoramento poderia ser feito. As penas são coloridas como se fossem de ouro ou douradas; mas dourado aqui está fora de questão, pois sei que estas penas eram mais brilhantes do que qualquer dourado. Este dardo é farpado com as tranças douradas que vi no outro dia no mar. Esse é o dardo que desperta o meu amor. Deus! Que tesouro possuir! Aquele que pudesse ganhar tal prémio desejaria outras riquezas toda a sua vida? Pela minha parte, poderia jurar que não desejaria mais nada; não desistiria nem da farpa nem do entalhe por todo o ouro de Antioquia. E se valorizo tão altamente estas duas coisas, quem poderia estimar o valor do que resta? Isso é tão belo e cheio de encanto, tão querido e precioso, que anseio e desejo contemplar novamente a sua fronte, que a mão de Deus fez tão clara que seria em vão comparar-lhe qualquer espelho, esmeralda ou topázio. Mas tudo isto é de pouco valor para quem vê os seus olhos cintilantes; para todos os que neles olham, parecem dois círios a arder. E que língua é tão perita para descrever o feitio do seu nariz bem formado e rosto radiante, no qual a rosa inunda o lírio de modo a obscurecê-lo um pouco, e assim aumentar a glória do seu semblante? E quem falará da sua boca risonha, que Deus moldou com tão grande perícia que ninguém a poderia ver e não supor que ela estava a rir? E quanto aos seus dentes? Estão tão próximos uns dos outros que parece serem todos de uma peça sólida, e para que o efeito fosse ainda mais realçado a Natureza acrescentou a sua obra; pois qualquer um, ao vê-la separar os lábios, suporia que os dentes eram de marfim ou de prata. Há tanto a dizer se eu fosse retratar cada detalhe encantador do queixo e das orelhas, que não seria estranho se eu ignorasse alguma pequena coisa. Da sua garganta direi apenas que o cristal ao lado dela parece opaco. E o seu pescoço sob o cabelo é quatro vezes mais branco do que o marfim. Entre a orla do seu vestido e a fivela na garganta entreaberta, vi o seu colo deixado exposto e mais branco do que a neve recém-caída. A minha dor seria, na verdade, apaziguada, se eu tivesse visto o dardo inteiro. Gostaria de dizer, se soubesse, qual era a natureza da haste. Mas não a vi, e não é culpa minha se não tento descrever algo que nunca vi. Naquele tempo, o Amor mostrou-me apenas o entalhe e a farpa; pois a haste estava escondida na aljava, isto é, na túnica e na camisa em que a donzela estava vestida. Pela minha fé, a doença que me tortura é a flecha — é o dardo por que sou um miserável ao enfurecer-me. Sou ingrato ao estar irritado. Nunca uma palha será quebrada devido a qualquer desconfiança ou discussão que possa surgir entre o Amor e mim. Agora deixe o Amor fazer o que quiser comigo como com alguém que lhe pertence; pois eu desejo-o, e assim me agrada. Espero que esta doença nunca me deixe, mas que ela sempre mantenha o seu domínio, e que a saúde nunca me venha senão da fonte da minha doença.
A queixa de Alexander é suficientemente longa; mas a da donzela não é menos. Toda a noite ela jaz em tal angústia que não pode dormir ou obter repouso. O Amor confinou dentro do seu coração uma luta e um conflito que perturba o seu peito, e que lhe causa tal dor e angústia que ela chora e geme toda a noite, e agita-se com sobressaltos súbitos, de modo que está quase fora de si. E quando ela se agitou e soluçou e gemeu e sobressaltou-se e suspirou novamente, então ela olhou dentro do seu coração para ver quem e de que espécie de homem era aquele por quem o Amor a estava a atormentar. E quando ela se refrescou um pouco pensando ao seu bel-prazer, ela estica-se e agita-se novamente, e ridiculariza todos os pensamentos que teve. Então toma outro rumo, e diz: "Tola, que me importa se este jovem é de boa estirpe e sábio e cortês e valoroso? Tudo isto é simplesmente para sua honra e crédito. E quanto à sua beleza, que me importa? Que a sua beleza vá com ele! Mas se for assim, será contra a minha vontade, pois não é o meu desejo privá-lo de nada. Privar? Não, na verdade! Isso eu certamente não farei. Se ele tivesse a sabedoria de Salomão, e se a Natureza lhe tivesse concedido toda a beleza que pode colocar na forma humana, e se Deus tivesse colocado no meu poder desfazer tudo isso, ainda assim não o prejudicaria; mas eu gostaria, se pudesse, de o tornar ainda mais sábio e belo. Em fé, então, não o odeio! E sou por essa razão sua amiga? Não, não sou mais dele do que de qualquer outro homem. Então, porque penso tanto nele, se ele não me agrada mais do que os outros homens? Não sei; estou toda confusa; pois nunca pensei tanto sobre qualquer homem no mundo, e se eu tivesse a minha vontade, vê-lo-ia a toda a hora, e nunca tiraria os meus olhos dele. Sinto tanta alegria ao vê-lo! Será isto amor? Sim, acredito que é. Eu não apelaria a ele tantas vezes, se eu não o amasse acima de todos os outros. Então amo-o, pois, que seja aceite. Então não farei o que me apraz? Sim, desde que ele não recuse. Esta minha intenção é errada; mas o Amor encheu tanto o meu coração que estou louca e fora de mim, nem qualquer defesa me valerá agora, se tenho de suportar o assalto do Amor. Comportei-me prudentemente perante o Amor por tanto tempo, e nunca acederia à sua vontade; mas agora estou mais do que amavelmente disposta perante ele. E que agradecimentos ele me deverá, se não pode ter o meu serviço amoroso e boa vontade? Pela força ele humilhou o meu orgulho, e agora tenho de seguir o seu prazer. Agora estou pronta para amar, e tenho um mestre, e o Amor ensinar-me-á — mas o quê? Como hei de servir a sua vontade. Mas disso estou muito bem informada, e sou tão perita em servi-lo que ninguém poderia encontrar falha em mim. Não preciso de aprender mais nada sobre isso. O Amor quereria, e eu também, que eu fosse sensata e modesta e gentil e acessível a todos por causa daquele que amo. Hei de amar todos os homens, então, por causa de um? Deveria ser agradável para todos, mas o Amor não me manda ser a verdadeira amiga de todos. As lições do Amor são apenas boas. Não é sem significado que sou chamada pelo nome de Soredamors. Estou destinada a amar e ser amada por minha vez, e pretendo prová-lo pelo meu nome, se puder encontrar a explicação lá. Há algum significado no facto de a primeira parte do meu nome ser da cor dourada; pois o que é dourado é o melhor. Por esta razão valorizo altamente o meu nome, porque começa com aquela cor com a qual o ouro mais puro harmoniza. E o fim do nome chama o Amor à minha mente; pois quem quer que me chame pelo meu verdadeiro nome refresca-me sempre com amor. E uma metade doura a outra com uma camada brilhante de ouro amarelo; pois Soredamors tem o significado de 'alguém dourado pelo Amor'. O Amor honrou-me altamente ao dourar-me com ele próprio. Um douramento de ouro verdadeiro não é tão fino como aquele que me torna radiante. E eu farei doravante o meu melhor para ser o seu douramento, e nunca mais me queixarei dele. Agora amo e para sempre mais amarei. Quem? Verdadeiramente, essa é uma bela pergunta! Aquele a quem o Amor me manda amar, pois nenhum outro terá jamais o meu amor. O que lhe importará na sua ignorância, a menos que eu lho diga pessoalmente? Que farei, se não lhe fizer a minha oração? Quem deseja alguma coisa deve pedi-la e fazer o pedido. O quê? Hei de suplicar-lhe, então? Não. Porquê? Alguma vez tal coisa aconteceu que uma mulher fosse tão atrevida a ponto de fazer o amor a qualquer homem; a menos que estivesse completamente fora de si. Eu seria louca sem dúvida se dissesse algo pelo que pudesse ser censurada. Se ele soubesse a verdade através de palavra minha, penso que me teria em pouca estima, e censurar-me-ia frequentemente por ter solicitado o seu amor. Que o amor nunca seja tão vil que eu seja a primeira a preferir um pedido que me rebaixasse aos seus olhos! Ai, Deus! Como saberá ele alguma vez a verdade, uma vez que não lha direi? Até agora tenho muito pouca causa para me queixar. Esperarei até que a sua atenção seja despertada, se é que alguma vez será despertada. Ele certamente adivinhará a verdade, penso, se alguma vez teve comércio com o Amor, ou ouviu falar disso de boca em boca. Ouvido falar disso? Isso é uma coisa tola de dizer. O Amor não é de tão fácil acesso que qualquer um possa alegar conhecimento apenas por ouvir dizer e sem experiência pessoal. Eu cheguei a saber isso bem o suficiente; pois nunca poderia aprender nada sobre o amor através de adulação e palavras de cortejo, embora muitas vezes tenha estado na escola da experiência, e tenha sido adulada muitas vezes. Mas mantive-me sempre afastada, e agora ele faz-me pagar uma pesada penalidade: agora sei mais sobre isso do que o boi sobre o arado. Mas uma coisa causa-me desespero: temo que ele nunca tenha estado apaixonado. E se ele não está apaixonado, e nunca o esteve, então semeei no mar onde nenhuma semente pode criar raiz. Portanto, não há nada a fazer senão esperar e sofrer, até que veja se posso levá-lo por dicas e palavras cobertas. Continuarei isto até que ele esteja certo do meu amor e ouse pedir-mo. Portanto, não há mais nada sobre o assunto, senão que eu o amo e sou dele. Se ele não me ama, ainda assim eu amá-lo-ei.
Assim ele e ela proferem a sua queixa, infelizes à noite e pior de dia, cada um escondendo a verdade dos olhos do outro. Em tal angústia permaneceram muito tempo na Bretanha, creio eu, até que o fim do verão chegou. No início de outubro vieram mensageiros por Dover vindos de Londres e da Cantuária, trazendo ao Rei notícias que o inquietaram. Os mensageiros disseram-lhe que ele poderia estar a demorar-se demasiado tempo na Bretanha; pois, aquele a quem ele tinha confiado o reino estava a tencionar opor-se-lhe, e já tinha convocado um grande exército dos seus vassalos e amigos, e tinha-se estabelecido em Londres com o propósito de defender a cidade contra Arthur quando ele regressasse.
Ao ouvir estas notícias, o Rei, irado e profundamente desgostoso, convoca todos os seus cavaleiros. Para melhor os incitar a punir o traidor, diz-lhes que são inteiramente culpados pelos seus problemas e conflitos; pois, sob o conselho deles, confiou a sua terra às mãos do traidor, que é pior do que Ganelon. Não há um só que não concorde que o Rei tem razão, pois ele apenas seguira o conselho deles; mas agora este homem será banido, e podeis ter a certeza de que nenhuma vila ou cidade bastará para salvar o seu corpo de ser arrastado à força. Assim, todos garantem ao Rei, dando-lhe a sua palavra sob juramento, que lhe entregarão o traidor, ou nunca mais reclamarão os seus feudos. E o Rei proclama por toda a Bretanha que ninguém que possa portar armas se recuse a segui-lo imediatamente.
Toda a Bretanha está agora em alvoroço. Nunca se viu um exército tal como o que o Rei Arthur reuniu. Quando os navios chegaram para zarpar, parecia que o mundo inteiro se fazia ao mar; pois até a água estava escondida da vista, coberta pela multidão de navios. É certamente verdade que, a julgar pela comoção, toda a Bretanha está em marcha. Agora os navios atravessaram o Canal, e o exército reunido está acantonado na margem. Alexander lembrou-se de ir pedir ao Rei que o fizesse cavaleiro, pois se alguma vez alcançasse renome, seria nesta guerra. Impelido pelo seu desejo, leva os seus companheiros consigo para realizar o que tem em mente. Ao chegar aos aposentos do Rei, encontraram-no sentado diante da sua tenda. Quando viu os gregos aproximarem-se, chamou-os a si, dizendo: "Cavalheiros, não oculteis que assunto vos trouxe aqui." Alexander respondeu em nome de todos, e contou-lhe o seu desejo: "Vim", diz ele, "pedir-vos, como devo fazer ao meu senhor soberano, em nome dos meus companheiros e meu, que nos façais cavaleiros." O Rei responde: "Com muito gosto; nem haverá qualquer demora nisso, uma vez que fizestes o vosso pedido." Então, o Rei ordena que seja fornecido equipamento para doze cavaleiros. Imediatamente a ordem do Rei é cumprida. À medida que cada um pede o seu equipamento, este é-lhe entregue — armas ricas e um bom cavalo: assim, cada um recebeu o seu traje. As armas, as vestes e o cavalo eram de valor igual para cada um dos doze; mas a armadura para o corpo de Alexander, se fosse avaliada ou vendida, valia por si só tanto quanto a de todos os outros doze. À beira da água despiram-se, e depois lavaram-se e banharam-se. Não desejando que qualquer outro banho fosse aquecido para eles, lavaram-se no mar e usaram-no como sua tina.
Tudo isto é do conhecimento da Rainha, que não nutre má vontade por Alexander, mas antes o ama, estima e valoriza. Ela deseja fazer um presente a Alexander, mas é muito mais precioso do que ela pensa. Procura e remexe em todas as suas caixas até encontrar uma camisa de seda branca, bem feita, de textura delicada e muito macia. Cada fio da costura era de ouro, ou de prata, pelo menos. Soredamors tinha ajudado na costura aqui e ali, e, a intervalos, nas mangas e no pescoço, tinha inserido ao lado do ouro um fio do seu próprio cabelo, para ver se algum homem poderia ser encontrado que, por um exame atento, pudesse detectar a diferença. Pois o cabelo era tão brilhante e dourado quanto o próprio fio de ouro. A Rainha pega na camisa e presenteia-a a Alexander. Ah, Deus! Que alegria teria sentido Alexander se soubesse o que a Rainha lhe estava a dar! E quão feliz teria ficado ela também, que inserira o seu próprio cabelo, se soubesse que o seu amado iria possuí-la e vesti-la! Teria então encontrado grande conforto; pois não teria cuidado tanto de todo o cabelo que ainda possuía como do pouco que Alexander tinha. Mas, infelizmente, nenhum deles sabia a verdade. O mensageiro da Rainha encontra os jovens na margem onde estão a banhar-se, e entrega a camisa a Alexander. Ele fica muito satisfeito com ela, estimando o presente ainda mais por ter sido dado pela Rainha. Mas se ele soubesse o resto, tê-la-ia valorizado ainda mais; em troca dela não teria aceitado o mundo inteiro, mas antes teria feito dela um relicário e adorá-la-ia, sem dúvida, dia e noite.
Alexander não demora mais, mas veste-se imediatamente. Quando estava vestido e pronto, regressou à tenda do Rei com todos os seus companheiros. A Rainha, ao que parece, tinha vindo também, desejando ver os novos cavaleiros apresentarem-se. Todos poderiam ser chamados de belos, mas Alexander, com o seu corpo bem formado, era o mais formoso de todos. Bem, agora que são cavaleiros, não direi mais nada sobre eles por agora, mas falarei do Rei e do seu exército que chegou a Londres. A maior parte das pessoas permaneceu fiel a ele, embora muitos se tenham aliado à oposição. O Conde Angres reuniu as suas forças, consistindo em todos aqueles cuja influência poderia ser ganha por promessas ou presentes. Quando reuniu toda a sua força, escapou silenciosamente à noite, temendo ser traído pelos muitos que o odiavam. Mas antes de partir, saqueou Londres o mais completamente possível de provisões, ouro e prata, que dividiu entre os seus seguidores. Estas notícias foram contadas ao Rei, como o traidor tinha escapado com todas as suas forças, e que tinha levado da cidade tantos mantimentos que os cidadãos angustiados estavam empobrecidos e destituídos. Então, o Rei respondeu que não aceitaria resgate pelo traidor, mas antes enforcá-lo-ia, se o pudesse apanhar ou pôr-lhe as mãos em cima. Depois disso, todo o exército seguiu para Windsor. Independentemente de como seja agora, naqueles dias o castelo não era fácil de tomar quando alguém escolhia defendê-lo. O traidor tornou-o seguro, assim que planeou o seu ato traiçoeiro, com uma linha tripla de muralhas e fossos, e tinha reforçado as muralhas por dentro com estacas afiadas de modo que as catapultas não as pudessem derrubar. Tinham tido grande trabalho com as fortificações, gastando todo o junho, julho e agosto a construir muralhas e barricadas, fazendo fossos e pontes levadiças, valas, obstruções e barreiras, e grades de ferro e uma grande torre quadrada de pedra. O portão nunca era fechado por medo ou contra assalto. O castelo erguia-se sobre uma colina alta, e em torno dele, por baixo, corria o Tamisa. O exército acampou na margem do rio, e naquele dia só tiveram tempo de montar o acampamento e erguer as tendas.
O exército está acampado junto ao Tamisa, e todo o prado está cheio de tendas verdes e vermelhas. O sol, ao bater nas cores, faz o rio brilhar por mais de uma légua em redor. Aqueles na cidade tinham descido para se divertir na margem do rio apenas com as suas lanças nas mãos e os seus escudos agarrados diante dos peitos, e sem carregar mais armas. Ao vir assim, mostraram aos que estavam fora das muralhas que não tinham medo deles. Alexander estava afastado e observava os cavaleiros a divertirem-se com proezas de armas. Ele anseia por atacá-los, e chama os seus companheiros um a um pelo nome. Primeiro Cornix, a quem amava profundamente, depois o valente Licorides, depois Nabunal de Micenas, e Acorionde de Atenas, e Ferolin de Salonica, e Calcedor de África, Parménides e Francagel, o poderoso Torin e Pinabel, Nerius e Neriolis. "Meus senhores", diz ele, "sinto o chamamento para ir com escudo e lança fazer o conhecimento daqueles que se divertem ali diante dos nossos olhos. Vejo que nos desprezam e nos têm em pouca estima, quando vêm assim sem as suas armas para se exercitarem perante os nossos próprios olhos. Acabámos de ser feitos cavaleiros, e ainda não demos conta de nós contra qualquer cavaleiro ou boneco. Mantivemos as nossas primeiras lanças demasiado tempo intactas. E para que serviam os nossos escudos? Até agora, não têm um buraco ou rachadela para mostrar. Não adianta tê-los exceto num combate ou numa luta. Vamos atravessar o vau e investir contra eles!" "Não vos falharemos", respondem todos; e cada um acrescenta: "Que Deus me ajude, quem vos falhar agora não é vosso amigo." Então apertam as suas espadas, ajustam as selas e cilhas, e montam os seus corcéis com escudos na mão. Quando penduraram os escudos ao pescoço, e tomaram as suas lanças com as insígnias de cores vivas, todos seguem para o vau de uma vez. Aqueles do lado de lá baixam as suas lanças, e cavalgam rapidamente para atacar. Mas eles (na margem de cá) sabiam como pagar-lhes na mesma moeda, não os poupando nem evitando, nem cedendo um pé de terreno. Antes, cada homem atingiu o seu oponente tão ferozmente que não há cavaleiro tão bravo que não seja forçado a deixar a sela. Não subestimaram a experiência, habilidade e bravura dos seus antagonistas, mas fizeram os seus primeiros golpes contarem, e derrubaram treze deles. O relato espalhou-se pelo acampamento sobre o combate e os golpes que estavam a ser desferidos. Em breve haveria uma luta alegre se os outros tivessem ousado manter a sua posição. Por todo o acampamento correm para as armas, e levantando um grito atravessam o vau. E aqueles na margem de lá fogem, não vendo vantagem em ficar onde estão. E os gregos perseguem-nos com golpes de lança e espada. Embora tenham decepado muitas cabeças, eles próprios não receberam um ferimento, e deram uma boa conta de si naquele dia. Mas Alexander distinguiu-se, que pelos seus próprios esforços levou quatro cavaleiros cativos acorrentados. As areias estão cobertas de mortos sem cabeça, enquanto muitos outros jazem feridos e magoados.
Alexander apresenta cortesmente as vítimas da sua primeira conquista à Rainha, não desejando que caiam nas mãos do Rei, que os teria mandado enforcar a todos. A Rainha, contudo, mandou-os prender e manter sob guarda, por serem acusados de traição. Por todo o acampamento falam dos gregos, e todos mantêm que Alexander agiu com muita cortesia e sabedoria ao não entregar os cavaleiros que capturou ao Rei, que certamente os teria queimado ou enforcado. Mas o Rei não está tão satisfeito, e enviando prontamente um recado à Rainha, ordena-lhe que venha à sua presença e não detenha aqueles que se provaram traiçoeiros para com ele, pois ou ela deve entregá-los ou ofendê-lo ao mantê-los. Enquanto a Rainha estava em conferência com o Rei, como era necessário, sobre os traidores, os gregos permaneceram na tenda da Rainha com as suas damas de companhia. Enquanto os seus doze companheiros conversavam com elas, Alexander não disse uma palavra. Soredamors notou isto, sentada como estava perto do seu lado. Com a cabeça apoiada na mão, era evidente que estava perdida em pensamentos. Assim sentaram-se por um longo tempo, até que Soredamors viu na sua manga e à volta do seu pescoço o cabelo que ela tinha costurado na camisa. Então aproximou-se um pouco, pensando agora encontrar uma desculpa para dizer uma palavra a ele. Considera como o pode abordar primeiro, e qual será a primeira palavra — se deve tratá-lo pelo nome; e assim aconselha-se consigo mesma: "O que direi primeiro?" diz ela; "devo tratá-lo pelo nome, ou devo chamá-lo 'amigo'? Amigo? Eu não. Então o que? Devo chamá-lo pelo nome? Deus! O nome de 'amigo' é belo e doce para tomar nos lábios. Se eu me atrevesse a chamá-lo 'amigo'! Deveria atrever-me? O que me proíbe de o fazer? O facto de que isso implica uma mentira. Uma mentira? Não sei qual será o resultado, mas ficarei triste se não disser a verdade. Portanto, é melhor admitir que não gostaria de dizer uma mentira. Deus! contudo ele não diria uma mentira se me chamasse sua doce amiga! E estaria eu a mentir ao tratá-lo assim? Deveríamos ambos dizer a verdade. Mas se eu mentir a culpa é dele. Mas por que razão o seu nome me parece tão difícil que gostaria de substituí-lo por um apelido? Penso que é porque é tão longo que eu pararia a meio. Mas se simplesmente o chamasse 'amigo', eu poderia dizer rapidamente um nome tão curto. Temendo que eu falhasse ao pronunciar o seu nome próprio, preferiria derramar o meu sangue se o seu nome fosse simplesmente 'meu doce amigo'."
Ela volta este pensamento na sua mente até que a Rainha regressa do Rei que a tinha convocado. Alexander, ao vê-la vir, vai ao seu encontro, e pergunta qual é a ordem do Rei sobre os prisioneiros, e qual será o seu destino. "Amigo", diz ela, "ele exige que eu os entregue ao seu critério, e que deixe a sua justiça ser cumprida. De facto, ele está muito irritado por eu ainda não os ter entregado. Então, tenho de os enviar para ele, uma vez que não vejo outra saída." Assim passaram aquele dia; e no dia seguinte houve uma grande assembleia de todos os bons e leais cavaleiros diante da tenda real para julgar e decidir por que punição e tortura os quatro traidores deveriam morrer. Alguns defendem que deveriam ser esfolados vivos, e outros que deveriam ser enforcados ou queimados. E o Rei, da sua parte, mantém que os traidores deveriam ser esquartejados. Então ordena que sejam trazidos. Quando são trazidos, ordena que sejam amarrados, e diz que não serão esquartejados até serem levados para debaixo da cidade, para que aqueles lá dentro possam ver a cena.
Quando esta sentença foi pronunciada, o Rei dirige-se a Alexander, chamando-o seu caro amigo. "Meu amigo", diz ele, "ontem vi-te atacar e defender-te com grande bravura. Desejo agora recompensar a tua ação! Acrescentarei à tua companhia quinhentos cavaleiros galeses e mil soldados daquela terra. Além do que te dei, quando a guerra terminar, coroar-te-ei rei do melhor reino no País de Gales. Vilas e castelos, cidades e salões te darei até ao tempo em que receberes a terra que o teu pai detém, e da qual hás de ser imperador." Os companheiros de Alexander juntam-se a ele para agradecer gentilmente ao Rei por este benefício, e todos os nobres da corte dizem que a honra que o Rei concedeu a Alexander é bem merecida.
Assim que Alexander vê a sua força, consistindo nos companheiros e nos soldados que aprouve ao Rei dar-lhe, imediatamente começam a soar as trompas e trombetas por todo o acampamento. Homens do País de Gales e da Bretanha, da Escócia e da Cornualha, tanto bons como maus sem exceção — todos tomam as armas, pois as forças do exército eram recrutadas de todas as partes. O Tamisa estava baixo devido à seca resultante de um verão sem chuva, de modo que todos os peixes estavam mortos, e os navios estavam encalhados na margem, e era possível atravessar o rio a vau mesmo na parte mais larga.
Após atravessar o Tamisa, o exército dividiu-se, alguns tomando posse do vale, e outros ocupando o terreno elevado. Aqueles na cidade notam-nos, e quando veem aproximar-se o arranjo maravilhoso, determinado a reduzir e tomar a cidade, preparam-se do seu lado para a defender. Mas antes que qualquer assalto seja feito, o Rei manda arrastar os traidores por quatro cavalos através dos vales e sobre as colinas e campos não lavrados. Com isto, o Conde Angres fica muito angustiado, quando vê aqueles a quem estimava arrastados em redor fora da cidade. E o seu povo, também, fica muito consternado, mas apesar da ansiedade que sentem, não têm intenção de entregar o lugar. Têm de se defender, pois o Rei deixa claro a todos que está irado e mal-disposto, e eles veem que se ele lhes pusesse as mãos em cima, fá-los-ia ter uma morte vergonhosa.
Quando os quatro foram esquartejados e os seus membros jaziam espalhados pelo campo, então começa o assalto. Mas todo o seu trabalho é em vão, pois não importa o quanto atirem e disparem, os seus esforços não surtem efeito. Contudo, esforçam-se por fazer o seu melhor, arremessando os seus dardos vigorosamente, e disparando setas e virotes. Por todos os lados ouve-se o estrondo das bestas e fundas enquanto as setas e as pedras redondas voam densas, como chuva misturada com granizo. Assim, durante todo o dia, a luta de ataque e defesa continua, até que a noite os separa. E o Rei manda proclamar que dom dará àquele que efetuar a rendição da cidade: uma taça de grande preço pesando quinze marcos de ouro, a mais rica no seu tesouro, será a sua recompensa. A taça será muito fina e rica, e, para dizer a verdade, a taça deve ser estimada pela mão de obra mais do que pelo material de que é feita. Mas tão boa quanto a mão de obra possa ser, e fino quanto o ouro, se a verdade for dita, as pedras preciosas incrustadas no exterior da taça eram de maior valor. Aquele por cujos esforços a cidade for tomada deve ter a taça, se for apenas um soldado de infantaria; e se a cidade for tomada por um cavaleiro, com a taça na sua posse ele nunca procurará a sua fortuna em vão, se houver alguma para ser encontrada no mundo.
Ao ser anunciada esta notícia, Alexandre não se esquecera do seu costume de ir ver a Rainha todas as noites. Naquela noite, também, ele tinha ido até lá e estava sentado ao lado da Rainha. Soredamors estava sentada sozinha perto deles, olhando para ele com tal satisfação que não teria trocado a sua sorte pelo Paraíso. A Rainha tomou Alexandre pela mão e examinou o fio de ouro que mostrava os efeitos do desgaste; mas a mecha de cabelo estava a tornar-se mais lustrosa, enquanto o fio de ouro perdia o brilho. E ela riu-se ao recordar-se de que o bordado era obra de Soredamors. Alexandre notou isto e suplicou-lhe que lhe dissesse, se fosse apropriado, por que motivo se ria. A Rainha demorou a responder e, olhando para Soredamors, ordenou-lhe que se aproximasse. Com agrado, ela foi e ajoelhou-se perante ela. Alexandre ficou transbordante de alegria quando a viu aproximar-se tanto que a poderia ter tocado. Mas ele não é tão ousado que ouse sequer olhar para ela; antes, perde de tal modo os sentidos que fica quase sem fala. E ela, por sua vez, está tão dominada que não tem o uso dos olhos; mas lança o seu olhar para o chão, sem o fixar em nada. A Rainha maravilha-se grandemente ao vê-la ora pálida, ora rubra, e nota bem no seu coração o porte e a expressão de cada um deles. Ela repara e julga ver que estas mudanças de cor são o fruto do amor. Mas, não querendo embaraçá-los, finge não entender nada do que vê. Nisto agiu bem, pois não deu qualquer prova do que lhe ia na mente além de dizer: "Olha aqui, donzela, e diz-nos verdadeiramente onde foi cosida a camisa que este cavaleiro traz vestida, e se tiveste alguma mão nela ou se nela trabalhaste algo teu." Embora a donzela sinta alguma vergonha, conta a história com agrado; pois deseja que a verdade seja conhecida por ele, que, ao ouvi-la contar como a camisa foi feita, mal se consegue conter de alegria, de vontade de adorar e venerar o cabelo dourado. Os seus companheiros e a Rainha, que estavam com ele, irritam-no e embaraçam-no; pois a presença deles impede-o de elevar o cabelo aos olhos e à boca, como teria desejado fazer, se não pensasse que isso seria notado. Ele sente-se feliz por ter tanto da sua senhora, mas não espera nem crê vir a receber mais dela: o seu próprio desejo torna-o hesitante. Contudo, quando deixa a Rainha e fica sozinho, beija-o mais de cem mil vezes, sentindo quão afortunado é. Durante toda a noite, faz dele o seu tesouro, mas tem o cuidado de que ninguém o veja. Enquanto jaz no seu leito, encontra um deleite vão e um consolo naquilo que lhe não pode dar satisfação. Toda a noite aperta a camisa nos braços e, quando olha para o cabelo dourado, sente-se como o senhor de todo o vasto mundo. Assim, o Amor faz um tolo deste homem sensato, que encontra o seu prazer num único cabelo e está em êxtase pela sua posse. Mas este encanto terá fim para ele antes da aurora brilhante do sol. Pois os traidores estão reunidos em conselho para discutir o que podem fazer; e quais são as suas perspectivas. Sem dúvida que poderão fazer uma longa defesa da cidade se assim o determinarem; mas sabem que o propósito do Rei é tão firme que ele não desistirá dos seus esforços para tomar a cidade enquanto viver, e quando esse tempo chegar, eles terão de morrer. E se entregassem a cidade, não devem esperar qualquer misericórdia por o fazerem. Assim, qualquer resultado parece de facto sombrio, pois não veem auxílio, apenas a morte em qualquer dos casos. Mas esta decisão é finalmente tomada: que na manhã seguinte, antes de a aurora aparecer, sairão secretamente da cidade e encontrarão o acampamento desarmado, e os cavaleiros ainda a dormir nas suas camas. Antes que acordem e vistam as suas armaduras, terá sido feita tal matança que a posteridade falará sempre da batalha daquela noite. Não tendo mais confiança na vida, os traidores, como último recurso, subscrevem todos este desígnio. O desespero encorajou-os a lutar, qualquer que fosse o resultado; pois não veem nada de seguro reservado para eles a não ser a morte ou a prisão. Tal resultado não é atraente; nem veem qualquer utilidade na fuga, pois não veem lugar onde pudessem encontrar refúgio caso se lançassem em fuga, estando completamente cercados pela água e pelos seus inimigos. Por isso, não perdem mais tempo em conversas, mas armam-se e equipam-se e fazem uma incursão por uma antiga porta de serviço em direção ao noroeste, sendo esse o lado onde pensavam que o acampamento menos esperaria um ataque. Em fileiras cerradas saíram e dividiram a sua força em cinco companhias, cada uma composta por dois mil homens de infantaria bem armados, para além de mil cavaleiros. Naquela noite, nem estrela nem lua tinham lançado um raio através do céu. Mas antes de chegarem às tendas, a lua começou a mostrar-se, e penso que foi para lhes causar desgraça que ela se ergueu mais cedo do que era costume. Assim, Deus, que se opôs ao seu empreendimento, iluminou a escuridão da noite, não tendo amor por estes homens maus, mas antes odiando-os pelo seu pecado. Pois Deus odeia os traidores e a traição mais do que qualquer outro pecado. Por isso, a lua começou a brilhar para entravar o seu empreendimento.
Eles são muito entravados pela lua, à medida que esta brilha sobre os seus escudos, e são prejudicados pelos seus elmos também, à medida que estes cintilam à luz do luar. São detetados pelos piquetes que montam guarda ao exército, que agora gritam por todo o acampamento: "Levantai-vos, cavaleiros, levantai-vos! Erguei-vos rapidamente, tomai as vossas armas e armai-vos! Os traidores estão sobre nós." Por todo o acampamento correm para as armas e esforçam-se apressadamente por se equiparem na necessidade urgente; mas nenhum deles deixou o seu lugar até que estivessem todos confortavelmente armados e montados nos seus corcéis. Enquanto se armam, as forças atacantes estão ansiosas pela batalha e avançam, esperando apanhá-los desprevenidos e encontrá-los desarmados. Trazem de diferentes direções as cinco companhias nas quais tinham dividido as suas tropas: algumas mantêm-se junto aos bosques, outras seguem o rio, a terceira companhia posiciona-se na planície, enquanto a quarta entra num vale, e a quinta segue junto a um penhasco rochoso. Pois planeavam cair sobre as tendas subitamente com grande fúria. Mas não encontraram o caminho livre. Pois os homens do Rei resistem-lhes, desafiando-os corajosamente e censurando-os pela sua traição. As pontas das suas lanças de ferro são estilhaçadas e despedaçadas à medida que se encontram; aproximam-se com as espadas desembainhadas, golpeando uns aos outros e derrubando-se uns aos outros sobre a face. Lançam-se uns contra os outros com a fúria dos leões, que devoram tudo o que capturam. Nesta primeira investida houve pesada matança de ambos os lados. Quando já não se podem manter, o auxílio chega aos traidores, que se defendem bravamente e vendem as suas vidas a alto preço. Veem as suas tropas de quatro lados chegar para os socorrer. E os homens do Rei cavalgam com força, usando as esporas para os atacar. Desferem tais golpes sobre os seus escudos que, para além dos feridos, derrubam mais de quinhentos deles. Alexandre, com os seus gregos, não pensa em poupá-los, fazendo todos os esforços para prevalecer, pois dirige-se ao mais grosso da luta para golpear um patife cujo escudo e cota de malha não servem para o impedir de cair na terra. Quando acaba com ele, oferece o seu serviço a outro livremente e sem reservas, e serve-o também tão selvaticamente que expulsa a alma do seu corpo completamente, e deixa o apartamento sem inquilino. Depois destes dois, dirige-se a outro, trespassando um cavaleiro nobre e cortês de parte a parte, de modo que o sangue esguicha do outro lado, e a sua alma expirante despede-se do corpo. Muitos matou e muitos atordoou, pois, como um raio voador, ele fulmina todos aqueles que persegue. Nem cota de malha nem escudo podem proteger aquele que ele atinge com lança ou espada. Os seus companheiros, também, são generosos no derramamento de sangue e massa encefálica, pois eles também sabem bem como desferir os seus golpes. E as tropas reais retalham tantos deles que os destroem e dispersam como gente de baixa linhagem que perdeu a cabeça. Tantos mortos jaziam pelos campos, e tão longa foi a batalha que, muito antes de o dia raiar, as fileiras estavam tão cortadas em pedaços que as filas de mortos estendiam-se por cinco léguas ao longo do curso de água. O Conde Angres deixa o seu estandarte no campo e foge, acompanhado apenas por sete dos seus homens. Em direção à sua cidade dirigiu-se por um caminho secreto, pensando que ninguém o poderia ver. Mas Alexandre nota isto, e vê-os a escapar das tropas, e pensa que, se puder escapar sem o conhecimento de ninguém, irá alcançá-los. Mas antes de descer ao vale, viu trinta cavaleiros a segui-lo pelo caminho, dos quais seis eram gregos e vinte e quatro eram homens de Gales. Estes pretendiam segui-lo à distância até que ele precisasse deles. Quando Alexandre os viu chegar, parou para os esperar, sem deixar de observar que curso era tomado por aqueles que regressavam à cidade. Finalmente, viu-os entrar nela. Então, começou a planear um feito muito ousado e um desígnio muito maravilhoso. E quando se decidiu, virou-se para os seus companheiros e dirigiu-lhes a palavra: "Meus senhores", diz ele, "seja loucura ou sabedoria, concedei-me francamente o meu desejo se vos importa a minha boa vontade." E eles prometeram-lhe nunca se opor à sua vontade em nada. Então ele diz: "Mudemos o nosso equipamento exterior, tomando os escudos e as lanças dos traidores que matámos. Assim, quando nos aproximarmos da cidade, os traidores lá dentro suporão que somos do seu partido e, sem olhar ao destino que lhes está reservado, abrir-nos-ão as portas. E sabeis que recompensa lhes ofereceremos? Se Deus quiser, tomá-los-emos a todos mortos ou vivos. Agora, se algum de vós se arrepender da sua promessa, sabei que, enquanto eu viver, nunca o terei em estima."
Todos os outros concedem-lhe o seu desejo e, despojando os cadáveres dos seus escudos, armam-se com eles em vez dos seus. Os homens dentro da cidade tinham subido às ameias e, reconhecendo os escudos, supõem que pertencem ao seu partido, nunca sonhando com o estratagema escondido sob os escudos. O porteiro abre-lhes o portão e admite-os na cidade. Ele é iludido e enganado por não lhes dirigir uma palavra; pois nenhum deles lhe fala, mas silenciosos e mudos passam, fazendo tal exibição de dor que arrastam as suas lanças atrás de si e apoiam-se nos seus escudos. Assim parece que estão em grande aflição, enquanto avançam à sua própria vontade até estarem dentro das muralhas triplas. Lá dentro encontram um número de homens de armas e cavaleiros com o Conde. Não vos posso dizer exatamente quantos; mas estavam desarmados, exceto oito deles que tinham acabado de regressar da luta, e até eles se preparavam para remover as suas armas. Mas a sua pressa foi mal calculada; pois agora o outro partido já não faz qualquer fingimento, mas, sem qualquer desafio por via de aviso, firmam-se nos estribos e deixam os seus cavalos carregar diretamente contra eles, atacando-os com tal rigor que derrubam mais de trinta e um deles. Os traidores, em grande desânimo, gritam: "Estamos traídos, traídos!" Mas os atacantes não dão ouvidos a isto e deixam que aqueles que encontram desarmados sintam o fio das suas espadas. De facto, três daqueles que encontraram ainda armados foram tão maltratados que apenas cinco restaram vivos. O Conde Angres investiu contra Calcedor e, à vista de todos, atingiu-o no seu escudo dourado com tal violência que o estendeu morto no chão. Alexandre fica grandemente perturbado e está quase fora de si de raiva quando vê o seu companheiro morto; o seu sangue ferve de ira, mas a sua força e coragem duplicam à medida que atinge o Conde com tal fúria que parte a sua lança. Se possível, vingaria o seu amigo. Mas o Conde era um homem poderoso e um bom e robusto cavaleiro, de quem seria difícil encontrar igual, se não fosse um vil traidor. Ele retribui agora o golpe, fazendo a sua lança dobrar-se de modo a partir-se e quebrar-se; mas o escudo do outro mantém-se firme, e nenhum cede perante o outro mais do que uma rocha o faria, pois ambos os homens eram extremamente fortes. Mas o facto de o Conde estar errado perturba-o grandemente e inquieta-o. A ira de cada um aumenta à medida que ambos desembainham as suas espadas depois de as suas lanças terem sido quebradas. Nenhuma fuga teria sido possível se estes dois espadachins tivessem persistido em continuar a luta. Mas, finalmente, um ou outro deve morrer. O Conde não se atreve a manter a sua posição por mais tempo, quando vê a jazê-lo morto à sua volta os seus homens que tinham sido apanhados desarmados. Entretanto, os outros pressionam-nos com força, cortando, golpeando e talhando-os, derramando as suas massas encefálicas e censurando o Conde pela sua traição. Quando ele se ouve acusado de traição, foge para a segurança da sua torre, seguido pelos seus homens. E os seus inimigos seguem-nos, investindo ferozmente contra eles pela retaguarda, e não deixando escapar um único de todos aqueles sobre os quais lançam as mãos. Matam e abatem tantos deles que calculo que não mais de sete conseguiram escapar.
Quando entraram na torre, fizeram uma resistência no portão; pois aqueles que vinham logo atrás tinham seguido tão de perto que eles também teriam entrado se a passagem tivesse sido deixada exposta. Os traidores fazem uma defesa valente, à espera de socorro dos seus amigos, que se armavam lá em baixo na cidade. Mas, por conselho de Nabunal, que era um grego de grande sabedoria, a aproximação foi bloqueada para que o socorro não pudesse chegar a tempo; pois aqueles lá em baixo tinham demorado demasiado, fosse por covardia ou preguiça. Agora havia apenas uma entrada para a fortaleza; de modo que, se bloqueassem essa entrada, não precisariam de ter medo de que qualquer força se aproximasse para lhes fazer mal. Nabunal ordena e exorta vinte deles a manterem o portão; pois em breve poderia chegar tal companhia com força que lhes faria mal com o seu assalto e ataque. Enquanto estes vinte mantêm o portão, os dez restantes deveriam atacar a torre e impedir o Conde de se barricar lá dentro. O conselho de Nabunal é aceite: dez permanecem para continuar o assalto à entrada da torre, enquanto vinte vão defender o portão. Ao fazê-lo, demoram quase demasiado; pois veem aproximar-se, furiosa e ávida pela luta, uma companhia contendo muitos besteiros e soldados de infantaria de diferentes graduações que carregavam armas de diversos tipos. Alguns carregavam projéteis ligeiros, e outros machados dinamarqueses, lanças e espadas turcas, virotes para bestas, flechas e dardos. Os gregos teriam de ter pago uma conta pesada, se esta multidão tivesse realmente caído sobre eles; mas não chegaram ao local a tempo. Nabunal, pela sua previdência e conselho, tinha bloqueado os seus planos, e eles foram forçados a permanecer fora. Quando veem que estão fechados, fazem uma pausa no seu avanço, pois é evidente que nada podem ganhar fazendo um assalto. Então começa tal choro e lamento de mulheres e crianças pequenas, de velhos e jovens, que aqueles na cidade não poderiam ter ouvido um trovão do céu. Com isto, os gregos ficam transbordantes de alegria; pois agora sabem com certeza que o Conde, por nenhuma boa sorte, pode escapar à captura. Quatro deles sobem às muralhas para vigiar, para que aqueles lá fora, por qualquer meio ou estratagema, não entrem na fortaleza e caiam sobre eles. Os dezasseis restantes regressaram para onde os dez lutavam. O dia já estava a romper, e os dez tinham lutado tão bem que forçaram a sua entrada na torre. O Conde posicionou-se contra um pilar e, armado com um machado de batalha, defendeu-se com grande bravura. Aqueles que ele alcança, corta-os ao meio. E os seus homens alinham-se à sua volta e não tardam a vingar-se neste último reduto do dia. Os homens de Alexandre têm razão para se queixar, pois dos dezasseis originais restam agora apenas treze. Alexandre está quase fora de si quando vê o estrago feito entre os seus seguidores mortos ou exaustos. Contudo, os seus pensamentos estão fixos na vingança: encontrando à mão um cacete longo e pesado, atingiu um dos patifes com ele tão ferozmente que nem escudo nem cota de malha valiam um botão para o impedir de cair no chão. Depois de acabar com ele, persegue o Conde e, erguendo o seu cacete para o atingir, desfere-lhe tal golpe com o seu cacete quadrado que o machado cai das suas mãos; e ele ficou tão atordoado e desconcertado que não se teria conseguido manter de pé se não se tivesse apoiado contra a parede.
Após este golpe a batalha cessa. Alexander salta sobre o Conde e segura-o de modo a que ele não se possa mover. Dos outros nada é preciso dizer, pois foram facilmente dominados quando viram a captura do seu senhor. Todos são feitos prisioneiros com o Conde e levados em desgraça, de acordo com os seus merecimentos. Disso tudo os homens de fora nada sabiam. Mas quando chegou a manhã, encontraram os escudos dos seus companheiros caídos entre os mortos quando a batalha terminou. Então os Gregos, enganados, fizeram um grande lamento pelo seu senhor. Reconhecendo o seu escudo, todos estão em agonia de dor, desmaiando à vista do seu escudo e dizendo que agora viveram demasiado tempo. Cornix e Nerius desmaiam primeiro, depois, recuperando os sentidos, desejam estar mortos. O mesmo fazem Torin e Acorionde. As lágrimas correm em rios dos seus olhos sobre os seus peitos. A vida e a alegria parecem agora odiosas. E Parmenides mais do que os outros arrancou os cabelos em terrível angústia. Não se poderia mostrar maior dor do que a destes cinco pelo seu senhor. Contudo, o seu desânimo é infundado, pois é o corpo de outro que eles levam quando pensam ter o seu senhor. A sua angústia é ainda aumentada pela visão dos outros escudos, que os levam a confundir estes cadáveres com os seus companheiros. Assim, sobre eles lamentam-se e desmaiam. Mas são enganados por todos estes escudos, pois dos seus homens apenas um foi morto, cujo nome era Neriolis. A este, de facto, teriam levado se soubessem a verdade. Mas estão em tão grande ansiedade pelos outros como por ele; por isso levaram-nos a todos. Em todos os casos, exceto um, foram enganados. Mas como o homem que sonha e toma uma ficção pela verdade, assim os escudos levam-nos a supor que esta ilusão é uma realidade. São os escudos, então, que causam este erro. Transportando os cadáveres, afastam-se e chegam às suas tendas, onde havia uma tropa em luto. Ao ouvirem o lamento levantado pelos Gregos, logo todos os outros se reuniram, até que não houve mais do que um grande clamor. Agora Soredamors pensa no seu estado miserável quando ouve o grito e o lamento pelo seu amante. A sua angústia e aflição fazem-na perder os sentidos e a cor, e a sua dor e tristeza aumentam porque não ousa mostrar abertamente um sinal da sua aflição. Ela encerrou a sua dor no seu coração. Se alguém a tivesse olhado, poderia ter visto pela expressão do seu rosto que agonia ela sentia; mas todos estavam tão absortos na sua própria dor que não tinham cuidado com o sofrimento alheio. Cada um lamentava a sua própria perda. Pois encontram a margem do rio coberta com os seus parentes e amigos, que tinham sido feridos ou tratados com brutalidade. Cada um chorava pela sua própria perda pesada e amarga: aqui está um filho chorando por um pai, ali um pai por um filho; um desmaia à vista do seu primo, outro sobre o seu sobrinho. Assim, pais, irmãos e parentes lamentam a sua perda por todos os lados. Mas acima de tudo é notável a dor dos Gregos; e, contudo, poderiam ter antecipado grande alegria, pois a mais profunda dor de todo o acampamento será em breve transformada em regozijo.
Os Gregos de fora continuam o seu lamento, enquanto os de dentro esforçam-se por lhes dar a notícia que os fará regozijar. Desarmam e atam os seus prisioneiros, que rezam e imploram-lhes que lhes cortem as cabeças de imediato. Mas os Gregos não estão dispostos, e desdenham as suas súplicas, dizendo que os manterão sob guarda e os entregarão ao Rei, que lhes concederá tal recompensa que exigirá os seus serviços. Quando os desarmaram a todos, fizeram-nos subir à muralha para que pudessem ser vistos pelas tropas abaixo. Este privilégio não é do seu agrado, e quando viram o seu senhor amarrado como prisioneiro, eram homens infelizes. Alexander, sobre as muralhas, jura a Deus e a todos os santos que não deixará nenhum deles vivo, mas que os matará a todos rapidamente, a menos que se vão render ao Rei antes que ele os possa capturar. "Ide", diz ele, "confiantemente ao Rei sob o meu comando, e lançai-vos à sua mercê. Nenhum de vós, exceto o Conde, mereceu morrer. Não perdereis nem vida nem membro se vos renderdes ao Rei. Se não vos livrardes da morte clamando por mercê, deveis ter pouca esperança de salvar as vossas vidas ou corpos. Ide desarmados ao encontro do Rei, e dizei-lhe da minha parte que Alexander vos envia a ele. A vossa ação não será em vão; pois o meu senhor o Rei é tão gentil e cortês que deixará de lado a sua ira e raiva. Mas se desejais agir de outra forma, deveis esperar morrer, pois o seu coração estará fechado à piedade." Todos concordam em aceitar este conselho, e não hesitam até chegarem à tenda do Rei, onde todos caem aos seus pés. A história que contaram foi logo conhecida por todo o acampamento. O Rei e todos os seus homens montaram e esporearam os seus cavalos até à cidade sem demora.
Alexander sai da cidade para encontrar o Rei, que ficou muito satisfeito, e para lhe entregar o Conde. O Rei não demorou em puni-lo devidamente. Mas Alexander é congratulado e louvado pelo Rei e por todos os outros que o estimam altamente. A sua alegria afasta a dor que tinham sentido pouco antes. Mas nenhuma alegria dos outros se pode comparar à exultação dos Gregos. O Rei presenteia-o com a taça preciosa, pesando quinze marcos, e diz-lhe confiantemente que não há nada na sua posse tão valioso que ele não colocasse nas suas mãos a pedido — exceto apenas a coroa e a Rainha. Alexander não ousa mencionar o desejo do seu coração, embora saiba bem que não seria recusado ao pedir a mão da sua amada. Mas teme tanto desagradá-la, cujo coração teria sido feito feliz, que prefere sofrer sem ela do que conquistá-la contra a sua vontade. Portanto, pede um pouco de tempo, não querendo apresentar o seu pedido até ter a certeza do seu agrado. Mas não pediu qualquer trégua ou demora em aceitar a taça de ouro. Ele toma a taça, e pede cortesamente ao meu senhor Gawain que aceite esta taça como um presente seu, o que Gawain fez muito relutantemente. Quando Soredamors soube a verdade sobre Alexander, ficou muito satisfeita e encantada. Quando ouviu que ele estava vivo, sentiu-se tão feliz que lhe pareceu que nunca mais poderia estar triste. Mas reflete que ele é mais lento a vir do que é o seu costume. Contudo, em boa hora ela terá o seu desejo, pois ambos, em rivalidade, estão ocupados com um pensamento comum.
Parecia a Alexander uma era antes que pudesse festejar os seus olhos com apenas um olhar suave dela. Há muito tempo ele teria ido à tenda da Rainha, se não tivesse sido detido noutro lugar. Ele ficou muito perturbado com este atraso e, logo que pôde, dirigiu-se à Rainha na sua tenda. A Rainha foi cumprimentá-lo e, sem que ele lhe tivesse confidenciado, ela já tinha lido os seus pensamentos e sabia o que se passava na sua mente. Ela cumprimenta-o à entrada da tenda e esforça-se por dar-lhe as boas-vindas, sabendo bem para que propósito ele tinha vindo. Desejosa de lhe conceder um favor, faz sinal a Soredamors para se juntar a eles, e os três iniciam uma conversa a alguma distância dos outros. A Rainha fala primeiro, em cuja mente não havia dúvida de que este par estava apaixonado. Deste facto ela tem certeza absoluta e está persuadida, além disso, de que Soredamors não poderia ter um amante melhor. Ela tomou o seu lugar entre os dois e começou a dizer o que era apropriado.
"Alexander", diz a Rainha, "qualquer amor é pior do que o ódio, quando atormenta e angustia o seu devoto. Os amantes não sabem o que fazem quando escondem a sua paixão um do outro. O amor é um negócio sério, e quem não estabelece corajosamente a sua fundação firme dificilmente conseguirá completar o edifício. Dizem que não há nada tão difícil de atravessar como o limiar. Agora desejo instruir-vos na sabedoria do amor; pois sei bem que o Amor vos está a atormentar. Por isso, tomei a tarefa de vos instruir; e tende o cuidado de não me esconder nada, pois vi claramente nos rostos de ambos que de dois corações fizestes apenas um. Portanto, tende cuidado e não me escondais nada! Estais a agir muito tolamente ao não dizerdes o que pensais; pois a ocultação será a vossa morte; assim sereis os assassinos do Amor. Agora aconselho-vos a não exercerdes qualquer tirania, e a não procurardes qualquer gratificação passageira no vosso amor; mas a serdes honradamente unidos em casamento. Assim, creio, o vosso amor durará muito tempo. Posso assegurar-vos que, se concordardes com isto, tratarei do casamento."
Quando a Rainha disse o que pensava, Alexander respondeu assim: "Senhora", diz ele, "não apresento defesa contra a acusação que fazeis, mas antes admito a verdade de tudo o que dizeis. Desejo nunca ser abandonado pelo amor, mas sempre fixar os meus pensamentos nele. Sinto-me satisfeito e encantado com o que tão gentilmente dissestes. Uma vez que sabeis quais são os meus desejos, não vejo razão para que os esconda de vós. Há muito tempo, se tivesse ousado, tê-los-ia confessado abertamente; pois o silêncio tem sido difícil. Mas pode muito bem ser que, por alguma razão, esta donzela não deseje que eu seja dela e ela minha. Mas mesmo que ela não me conceda direitos sobre ela, ainda assim colocar-me-ei nas suas mãos." A estas palavras ela tremeu, não tendo desejo de recusar o presente. O desejo do seu coração trai-se nas suas palavras e no seu semblante. Hesitantemente ela entrega-se a ele, e diz que, sem exceção, a sua vontade, o seu coração e o seu corpo, tudo está à disposição da Rainha, para fazer com ela o que lhe aprouver. A Rainha abraça ambos nos seus braços e apresenta um ao outro. Então, rindo, acrescenta: "Entrego-te, Alexander, o corpo da tua amada, e sei que o teu coração não recua. Quer quem quer que goste ou não goste, dou cada um de vós ao outro. Toma tu, Soredamors, o que é teu, e tu, Alexander, toma o que é teu!" Agora ela tem o seu inteiro, e ele tem o seu sem falta. Em Windsor, naquele dia, com a aprovação e permissão do meu senhor Gawain e do Rei, o casamento foi celebrado. Ninguém poderia dizer, tenho a certeza, tanto sobre a magnificência e a comida, sobre o prazer e o entretenimento, neste casamento sem ficar aquém da verdade. Na medida em que seria desagradável para alguns, não me importo de desperdiçar mais palavras sobre o assunto, mas estou ansioso por passar a outro tema.
Naquele dia em Windsor, Alexander teve toda a honra e felicidade que poderia desejar. Três alegrias e honras diferentes foram suas: uma foi a cidade que capturou; outra foi o presente do melhor reino no País de Gales, que o Rei Arthur tinha prometido dar-lhe quando a guerra terminasse; naquele mesmo dia ele fê-lo rei na sua sala. Mas a maior alegria de todas foi a terceira — que a sua amada era rainha do tabuleiro de xadrez onde ele era rei. Antes que cinco meses tivessem passado, Soredamors encontrou-se grávida, e carregou o filho até que o tempo fosse cumprido. A semente permaneceu em germe até que o fruto estivesse totalmente amadurecido. Nenhuma criança mais bela nasceu antes ou depois do que aquele a quem chamaram agora Cligés.
Assim nasceu Cligés, em cuja honra esta história foi posta na língua Românica. Ouvir-me-eis falar dele e dos seus feitos valorosos, quando ele tiver chegado à idade adulta e obtido um bom nome. Mas, entretanto, na Grécia aconteceu que aquele que governava Constantinopla aproximou-se do seu fim. Ele morreu, como de facto deve, não sendo capaz de sobreviver ao seu tempo. Mas antes de morrer, reuniu todos os nobres da sua terra para enviar e procurar o seu filho Alexander, que estava felizmente retido na Bretanha. Os mensageiros partem da Grécia e começam a sua viagem pelos mares; mas uma tempestade apanha-os no seu aperto e danifica o seu navio e companhia. Afogaram-se todos no mar, exceto um infiel desgraçado, que era mais dedicado a Alis, o filho mais novo, do que a Alexander, o mais velho. Quando escapou do mar, regressou à Grécia com a história de que se tinham perdido todos no mar enquanto conduziam o seu senhor de volta da Bretanha, e que ele era o único sobrevivente da tragédia. Eles acreditaram nesta mentira dele e, tomando Alis sem objeção ou dissensão, coroaram-no imperador da Grécia. Mas não passou muito tempo até que Alexander soubesse que Alis era imperador. Então despediu-se do Rei Arthur, não querendo deixar o seu irmão usurpar a sua terra sem protesto. O Rei não faz oposição ao seu plano, mas ordena-lhe que leve consigo uma companhia tão grande de Galeses, Escoceses e Cornualleses que o seu irmão não ousará opor-se-lhe quando o vir chegar com tal hoste. Alexander, se quisesse, poderia ter liderado uma força poderosa; mas não tem desejo de prejudicar o seu próprio povo, se o seu irmão consentir em fazer a sua vontade. Levou consigo quarenta cavaleiros, além de Soredamors e do seu filho; estas duas pessoas, que lhe eram tão caras, ele não queria deixar para trás. Escoltados até Shoreham por toda a corte, embarcaram lá, e com ventos favoráveis o seu navio avançou mais rapidamente do que um veado em fuga. Dentro de um mês, penso eu, chegaram ao porto diante de Atenas, uma cidade rica e poderosa. De facto, o imperador estava a residir lá e tinha convocado uma grande assembleia dos seus nobres. Assim que chegaram, Alexander enviou um mensageiro privado à cidade para saber se o receberiam, ou se resistiriam à sua pretensão de ser o seu único senhor legítimo.
Aquele que foi escolhido para esta missão foi um cavaleiro cortês com bom julgamento, chamado Acorionde, um homem rico e eloquente; ele era um nativo do país, também, tendo nascido em Atenas. Os seus antepassados, por gerações, tinham sempre exercido o senhorio na cidade. Quando soube que o imperador estava na cidade, foi e desafiou a coroa em nome do seu irmão Alexander, acusando-o abertamente de a ter usurpado ilegalmente. Chegando ao palácio, encontra muitas pessoas que o recebem bem; mas não diz nada a nenhum daqueles que o cumprimentam até saber qual é a sua atitude e disposição para com o seu legítimo senhor. Ao entrar na presença do imperador, nem o cumprimenta, nem se curva perante ele, nem o chama de imperador. "Alis", diz ele, "trago-te notícias de Alexander, que está ali fora no porto. Ouve a mensagem do teu irmão: ele pede-te o que lhe pertence, nem exige o que é injusto. Constantinopla, que tu deténs, deveria ser dele e será dele. Não seria justo nem correto que a discórdia surgisse entre vós dois. Por isso, dá-lhe a coroa sem contestação, pois é justo que tu a entregues."
Alis responde: "Belo e gentil amigo, empreendeste uma empresa louca ao trazer esta mensagem. Há pouco conforto no teu discurso, pois sei bem que o meu irmão está morto. Eu alegrar-me-ia, de facto, por saber que ele ainda estava vivo. Mas não acreditarei nas notícias até o ter visto com os meus olhos. Ele morreu há algum tempo, infelizmente! O que dizes não é credível. E se ele vive, por que não vem? Ele nunca precisa de temer que eu não lhe conceda algumas terras. Ele é um tolo ao manter-se afastado de mim, pois ao servir-me encontrará lucro. Mas ninguém possuirá a coroa e o império ao meu lado." Ele não gostou do discurso do imperador e não deixou de dizer o que pensava na resposta que fez. "Alis", diz ele, "que Deus me confunda se o assunto for deixado assim. Desafio-te em nome do teu irmão e, falando obedientemente em seu nome, convoco todos aqueles que vejo aqui a renunciarem a ti e a juntarem-se à sua causa. É justo que fiquem do seu lado e o reconheçam como o seu senhor. Deixe que aquele que é leal agora se apresente."
Ao dizer isto, deixa a corte, e o imperador convoca aqueles em quem tem mais confiança. Solicita o seu conselho sobre este desafio por parte do seu irmão, e deseja saber se pode confiar neles para não emprestarem qualquer apoio ou ajuda à pretensão do seu irmão. Assim, tenta testar a lealdade de cada um; mas não encontra um que fique do seu lado na disputa, antes todos lhe pedem que se lembre da guerra que Eteocles empreendeu contra o seu próprio irmão Polinices, e como cada um morreu pela mão do outro. "Assim, também, pode acontecer-vos, se empreenderdes uma guerra, e toda a terra será angustiada." Portanto, aconselham que se procure tal paz que seja tanto razoável como justa, e que nenhum faça exigências excessivas. Assim, Alis entende que, se não fizer um acordo equitativo com o seu irmão, todos os seus vassalos o abandonarão; por isso, diz que respeitará os seus desejos ao fazer qualquer contrato adequado, desde que, no entanto, o caso acabe, a coroa permaneça na sua posse.
(Vv. 2555-2618.) Para assegurar uma paz firme e estável, Alis envia um dos seus oficiais a Alexander, ordenando-lhe que venha ter com ele pessoalmente e receba o governo da terra, mas estipulando que ele lhe deve deixar a honra de imperador nominal e o uso da coroa: assim, se Alexander estiver disposto, a paz poderá ser estabelecida entre eles. Quando esta notícia chegou a Alexander, os seus homens prepararam-se com ele e foram a Atenas, onde foram recebidos com alegria. Mas Alexander não consente que o seu irmão tenha a soberania do império e da coroa a menos que ele dê a sua palavra de nunca tomar esposa, e que, depois dele, Cligés seja o imperador de Constantinopla. Sobre isto, ambos os irmãos concordaram. Alexander ditou os termos do juramento, e o seu irmão concordou e deu a sua palavra de que nunca, em toda a sua vida, tomaria esposa em matrimónio. Assim, a paz é feita e eles são amigos novamente, para grande satisfação dos senhores. Eles consideram Alis como seu imperador, mas todos os negócios são remetidos a Alexander. O que ele ordena é feito, e pouco se faz sem passar por ele. Alis nada tem além do nome de imperador; mas Alexander é servido e amado; e quem não o serve por amor, forçosamente terá de o fazer por temor. Através do efeito de um ou de outro destes dois motivos, ele tem toda a terra sob o seu poder. Mas aquele a quem chamam Morte não poupa nem o homem forte nem o fraco, mas mata-os e abate-os a todos. Assim, Alexander teve de morrer; pois uma doença apoderou-se dele, da qual não pôde obter alívio. Mas antes de ser surpreendido pela morte, convocou o seu filho e disse-lhe: "Meu belo filho Cligés, nunca poderás saber que a proeza e o valor te pertencem a menos que vás primeiro pô-los à prova com os bretões e os franceses na corte do Rei Arthur. Se a aventura te levar até lá, conduz-te e porta-te de tal modo que a tua identidade não seja conhecida até que tenhas provado a tua força com os cavaleiros mais excelentes daquela corte. Rogo-te que atendas ao meu conselho nesta matéria e, se a ocasião surgir, não tenhas medo de medir a tua perícia com o teu tio, o meu senhor Gawain. Não te esqueças deste conselho, peço-te."
(Vv. 2619-2665.) Depois de tê-lo exortado deste modo, ele não viveu muito mais. O pesar de Soredamors foi tal que ela não pôde sobreviver-lhe, mas morreu depois dele de coração partido. Alis e Cligés lamentaram-no ambos de forma apropriada, mas finalmente cessaram o seu pesar, pois a dor, tal como tudo o resto, deve ser superada. Continuar na dor é um erro, pois nenhum bem pode vir dela. Assim, o luto terminou, e o imperador absteve-se por muito tempo de tomar esposa, sendo cuidadoso com a sua palavra. Mas não há corte em todo o mundo que esteja livre de maus conselhos. Os grandes homens frequentemente desviam-se e não observam a lealdade por causa dos maus conselhos que tomam. Assim, o imperador ouve os seus homens a dar-lhe conselhos e a incitá-lo a tomar esposa; e diariamente eles tanto o exortam e instam que, pela sua própria insistência, o persuadem a quebrar o seu juramento e a aceder ao desejo deles. Mas ele insiste que aquela que será senhora de Constantinopla deve ser gentil, bela, sábia, rica e nobre. Então os seus conselheiros dizem que desejam preparar-se para partir para a terra alemã e buscar a filha do imperador. Ela é a escolha que lhe propõem; pois o imperador da Alemanha é muito rico e poderoso, e a sua filha é tão encantadora que nunca houve donzela da sua beleza na cristandade. O imperador concede-lhes autoridade plena, e eles partem na jornada bem providos com tudo o que necessitam. Proseguiram o seu caminho até encontrarem o imperador em Regensburg, quando lhe pediram que lhes desse a sua filha mais velha a instâncias do seu senhor.
(Vv. 2669-2680.) O imperador ficou satisfeito com este pedido e deu-lhes alegremente a sua filha; pois, ao fazê-lo, ele não se avilta, nem diminui a sua honra de modo algum. Mas diz que a tinha prometido ao Duque da Saxónia, e que eles não seriam capazes de levá-la a menos que o imperador viesse com um grande exército, para que o duque fosse incapaz de lhe causar qualquer dano ou injúria durante a viagem de regresso.
(Vv. 2681-2706.) Quando os mensageiros ouviram a resposta do imperador, despediram-se e partiram. Regressaram para o seu senhor e levaram-lhe a resposta. E o imperador selecionou uma companhia escolhida dos cavaleiros mais experientes que pôde encontrar, e levou consigo o seu sobrinho, em cujo interesse tinha jurado nunca tomar esposa, mas ele não respeitará este voto se puder chegar a Colónia. Num certo dia, ele deixa a Grécia e aproxima-se da Alemanha, tencionando tomar esposa apesar de toda a culpa e reprovação; mas a sua honra ficará manchada. Ao chegar a Colónia, descobriu que o imperador tinha reunido toda a sua corte para um festival. Quando a companhia dos gregos chegou a Colónia, havia um número tão grande de gregos e alemães que foi necessário alojar mais de sessenta mil deles fora da cidade.
(Vv. 2707-2724.) Grande era a multidão de pessoas, e grande a alegria dos dois imperadores quando se encontraram. Quando os barões se reuniram no vasto palácio, o imperador convocou a sua encantadora filha. A donzela não tardou a entrar imediatamente no palácio. Ela tinha sido feita muito bela e bem-formada pelo Criador, cujo prazer tinha sido suscitar a admiração das pessoas. Deus, que a formara, nunca deu ao homem uma palavra que pudesse expressar adequadamente tal beleza como a que ela possuía.
(Vv. 2725-2760.) Fenice era o nome da donzela, e para isto havia uma boa razão: pois se o pássaro Fénix é único como o mais belo de todos os pássaros, assim Fenice, parece-me, não tinha igual em beleza. Ela era tal milagre e maravilha que a Natureza nunca foi capaz de fazer outra igual. Para ser mais breve, não descreverei em palavras os seus braços, o seu corpo, a sua cabeça e as suas mãos; pois se eu vivesse mil anos, e se a minha perícia duplicasse a cada dia, ainda assim desperdiçaria todo o meu tempo tentando dizer a verdade sobre ela. Sei muito bem, se o tentasse, que esgotaria o meu cérebro e desperdiçaria os meus esforços: seria apenas energia mal empregada. A donzela apressou-se até entrar no palácio, com a cabeça descoberta e o rosto desvelado; e o brilho da sua beleza iluminava o palácio mais intensamente do que quatro carbúnculos teriam feito. Cligés estava de pé, o seu sobrecasaco removido, na presença do seu tio. O dia lá fora estava um tanto escuro, mas ele e a donzela eram ambos tão belos que um raio emanava da sua beleza que iluminava o palácio, tal como o sol da manhã brilha claro e vermelho.
(Vv. 2761-2792.) Desejo tentar em pouquíssimas palavras descrever a beleza de Cligés. Ele estava no seu apogeu, tendo agora quase quinze anos de idade. Era mais apessoado e encantador do que Narciso que viu o seu reflexo na nascente debaixo do olmeiro e, quando o viu, amou-o tanto que morreu, dizem, porque não o podia obter. Narciso era belo, mas tinha pouco juízo; mas tal como o ouro fino supera o cobre, assim era Cligés melhor dotado de sabedoria, e mesmo assim não disse tudo. As suas madeixas pareciam feitas de ouro fino, e o seu rosto era de uma cor rosada e fresca. Tinha um nariz bem formado e uma boca harmoniosa, e em estatura era construído segundo o melhor padrão da Natureza; pois nela ele tinha unido dons que ela costuma espalhar amplamente. A Natureza foi tão generosa com ele que lhe deu tudo o que podia, e colocou tudo num só receptáculo. Tal era Cligés, que combinava bom senso e beleza, generosidade e força. Ele possuía o lenho tanto quanto a casca; ele sabia mais de esgrima e de arco do que Tristan, o sobrinho do Rei Mark, e mais sobre aves e cães de caça do que ele. Em Cligés não faltava nenhuma boa qualidade.
(Vv. 2793-2870.) Cligés estava em toda a sua beleza diante do seu tio, e aqueles que não sabiam quem ele era olhavam para ele com curiosa avidez. E, por outro lado, o interesse despertava naqueles que não conheciam a donzela: maravilhavam-se ao contemplá-la. Mas Cligés, sob o domínio do amor, deixava os seus olhos pousarem nela furtivamente, e retirava-os de novo tão discretamente que, na sua passagem de ida e volta, ninguém poderia censurar a sua falta de jeito. Alegremente ele olha para a donzela, mas não nota que ela lhe retribui na mesma moeda. Não o lisonjeando, mas num amor sincero, ela dá-lhe os seus olhos e toma os dele. Esta troca parece-lhe boa, e ter-lhe-ia parecido ainda melhor se ela soubesse algo sobre quem ele era. Mas ela nada sabe, exceto que ele é belo, e que, se ela alguma vez amasse alguém por causa da sua beleza, não precisaria de procurar noutro lugar para entregar o seu coração. Ela entregou-lhe a posse dos seus olhos e coração, e ele comprometeu os seus, por sua vez, a ela. Comprometeu? Antes deu-os por completo. Deu? Não, pela minha fé, minto; pois ninguém pode dar o seu coração. Devo expressá-lo de outra maneira. Não o direi, como alguns fizeram, que fazem dois corações habitar num só corpo, pois não traz sequer a semelhança da verdade que possa haver num só corpo dois corações; e mesmo que pudessem estar assim unidos, nunca pareceria verdade. Mas se vos aprouver atender às minhas palavras, serei capaz de explicar como dois corações formam apenas um sem se tornarem idênticos. Apenas até certo ponto se fundem num só, à medida que o desejo de cada um passa de um para o outro, unindo-se assim num desejo comum; e por causa desta harmonia de desejo, há alguns que costumam dizer que cada um tem ambos os corações; mas um coração não pode estar em dois lugares. Cada um mantém sempre o seu próprio coração, embora o desejo seja partilhado por ambos, tal como muitos homens diferentes podem cantar uma canção ou melodia em uníssono. Por esta comparação provo que, para um corpo conter dois corações, não basta conhecer o desejo do outro, nem mesmo conhecer o que o outro ama e o que ele odeia; tal como as vozes que são ouvidas juntas parecem fundir-se numa só, e ainda assim não vêm todas de uma só boca, assim é com um corpo que pode conter apenas um coração. Mas não há necessidade de mais argumentos, pois outros assuntos pressionam-me. Devo falar agora da donzela e de Cligés, e ouvireis falar do Duque da Saxónia, que enviou a Colónia um jovem sobrinho seu. Este jovem informa o imperador que o seu tio, o duque, envia palavra de que não deve esperar paz ou trégua com ele, a menos que lhe envie a sua filha, e que aquele que tenciona levá-la consigo é melhor que não inicie o caminho para casa, pois encontrará a estrada ocupada e bem defendida, a menos que a donzela seja entregue.
(Vv. 2871-3010.) O jovem proferiu a sua mensagem bem, sem orgulho e sem insulto. Mas não encontrou nem cavaleiro nem imperador que lhe respondesse. Quando viu que todos guardavam silêncio e o tratavam com desdém, deixou a corte em tom de desafio. Mas a juventude e a sede de feitos audazes fizeram Cligés desafiá-lo em combate quando ele saía. Para o concurso, montam os seus corcéis, trezentos de cada lado, exatamente iguais em força. Todo o palácio está completamente esvaziado de cavaleiros e damas, que sobem às varandas, ameias e janelas para ver e observar aqueles que estavam prestes a lutar. Até a donzela, cuja vontade o Amor tinha subjugado sob o seu domínio, procurou um ponto de onde pudesse ver. Ela tomou o seu lugar numa janela, onde se sentou com grande deleite, porque de lá podia obter uma visão daquele a quem ela mantém secretamente no seu coração, sem qualquer desejo de o remover de lá; pois ela nunca amará nenhum outro homem. Mas ela não sabe o seu nome, nem quem ele é, nem de que raça; pois não é próprio fazer perguntas; mas ela anseia por ouvir notícias que tragam alegria ao seu coração. Ela olha pela janela para os escudos com o seu ouro brilhante, e contempla aqueles que usam os escudos ao pescoço, enquanto se preparam para a prova de armas. Mas todos os seus pensamentos e olhares repousam logo num objeto, e para todos os outros ela é indiferente. Onde quer que Cligés vá, ela procura segui-lo com os olhos. E ele, por sua vez, faz o melhor por ela, e batalha abertamente, para que ela pelo menos possa ouvir dizer que ele é ousado e muito perito: assim, ela sentir-se-á compelida a valorizá-lo pela sua proeza. Ele ataca o sobrinho do duque, que estava a quebrar muitas lanças e a desbaratar gravemente os gregos. Mas Cligés, que se sente desagradado com isto, firma-se nos estribos e vai golpeá-lo com tal rapidez que, apesar de si mesmo, ele teve de deixar o selim. Quando ele se levantou, o alvoroço foi grande; pois o jovem levantou-se e montou, pensando em vingar a sua vergonha. Mas muitos homens apenas caem em desgraça mais profunda quando pensam em vingar a sua vergonha quando têm a oportunidade. O jovem investe contra Cligés, que baixa a lança para o enfrentar, e investe contra ele com tal força que o leva de novo para a terra. Agora a sua vergonha é duplicada, e todos os seus seguidores estão em consternação, vendo que nunca poderão deixar o campo com honra; pois nenhum deles é tão valente que possa manter-se no selim quando o golpe de Cligés o alcança. Mas os da Alemanha e os gregos rejubilam quando veem o seu partido repelir os saxões, que recuam desbaratados. Com escárnio, perseguem-nos até que os alcançam num riacho, para dentro do qual os empurram para um mergulho. Na parte mais profunda do vau, Cligés derrubou o sobrinho do duque e tantos dos seus homens que eles escaparam pesarosos e tristes na sua vergonha e confusão. Mas Cligés, duas vezes vitorioso, regressou em alegria e entrou por um portão que ficava perto do apartamento onde estava a donzela; e à medida que passava pelo portão, ela exigiu como portagem um olhar terno, que ele lhe pagou assim que os seus olhos se encontraram. Assim foi a donzela subjugada pelo homem. Mas não há um alemão, da planície ou da montanha, que possua o dom da fala que não grite: "Deus! Quem é este em quem tanta beleza resplandece? Deus! Como aconteceu que tão subitamente ele tenha alcançado tal sucesso?" Assim, um homem e outro perguntam: "Quem é este jovem, quem é ele, digo eu?" Assim, logo por toda a cidade sabe-se qual é o seu nome, e quem é o seu pai, e que penhor foi aquele que tinha sido feito a ele pelo imperador. Tanto foi dito e apregoado que a notícia chegou aos ouvidos daquela que no seu coração rejubilava por já não poder dizer que o Amor tinha feito escárnio dela, nem tinha qualquer motivo para se queixar. Pois o Amor fê-la entregar o seu coração ao homem mais belo, cortês e valente que pudesse ser encontrado em qualquer lugar. Mas alguma força deve ser empregada se ela quiser ganhar a posse daquele que não é livre para seguir a sua vontade. Isto torna-a ansiosa e perturbada. Pois ela não tem ninguém com quem tomar conselho acerca daquele por quem definha, mas deve consumir-se em pensamento e vigílias. Ela torna-se tão afetada por estes cuidados que perde a sua cor e empalidece, e torna-se claro para todos que a sua perda de cor denota um desejo não realizado. Ela brinca menos agora do que costumava, ri menos e perde a sua alegria. Mas ela esconde o seu problema e disfarça-o se alguém pergunta qual é a sua doença. O nome da sua velha ama era Thessala, que era perita em necromancia, tendo nascido na Tessália, onde os feitiços diabólicos são ensinados e realizados; pois as mulheres daquele país realizam muitos feitiços e ritos místicos.
(Vv. 3011-3062.) Thessala viu pálida e macilenta aquela a quem o Amor mantém nos seus laços, e assim dirigiu-se a ela com conselhos: "Deus!" disse ela, "estais enfeitiçada, minha senhora querida, para que o vosso rosto esteja tão pálido? Pergunto-me qual é o vosso problema. Dizei-me, se puderdes, onde esta dor vos ataca mais, pois se alguém vos pode curar, podeis confiar seguramente em mim para vos devolver a saúde novamente. Posso curar a hidropisia, a gota, a angina e a asma; sou tão perita em examinar a urina e o pulso que não necessitais de consultar outro médico. E ouso dizer que sei mais do que Medea alguma vez soube de encantamentos e de feitiços que testes provaram ser verdadeiros. Nunca vos falei disto, embora tenha cuidado de vós toda a vossa vida; e agora não deveria mencioná-lo se não visse claramente que estais tão aflita a ponto de precisar das minhas ministrações. Minha senhora, fareis bem em dizer-me qual é a vossa doença antes que o seu domínio se torne mais severo. O imperador confiou-vos a mim para que eu cuide de vós, e a minha devoção tem sido tal que vos mantive sã e salva. Agora todos os meus esforços serão em vão se eu não aliviar esta doença. Tende cuidado em não me esconder se isto é doença ou outra coisa." A donzela não ousa expor abertamente o seu desejo em toda a sua plenitude, pois teme que seja reprovada e censurada. E quando ela ouve e entende como Thessala se gaba e se avalia altamente como sendo perita em encantamentos, feitiços e poções, ela decide dizer-lhe qual é a causa do seu rosto pálido e sem cor; mas primeiro faz com que ela prometa guardar o seu segredo e nunca se opor à sua vontade.
"Ama," disse ela, "pensei verdadeiramente que não sentia dor, mas logo sentirei de modo diferente. Pois, assim que começo a pensar nisso, sinto uma grande dor e fico consternada. Mas quando alguém não tem experiência, como pode saber o que é doença e o que é saúde? A minha doença é diferente de todas as outras; pois, quando desejo falar sobre ela, causa-me tanto alegria quanto dor, tão feliz que estou na minha angústia. E se pode ser que a doença traga deleite, então o meu sofrimento e a minha alegria são um só, e na minha doença consiste a minha saúde. Portanto, não sei por que me queixo, pois não sei de onde vem o meu sofrimento, a menos que seja causado pelo meu desejo. Talvez o meu desejo seja a minha doença, mas encontro tanta alegria nele que o sofrimento que ele me causa é grato, e há tanto contentamento na minha dor que é doce sofrer assim. Ama Thessala, diz-me agora a verdade, não é este um mal enganador, encantar-me e atormentar-me ao mesmo tempo? Não vejo como posso dizer se isto é uma doença ou não. Ama, diz-me agora o seu nome, a sua natureza e o seu caráter. Mas compreende bem que não tenho desejo de ser curada dele, pois a minha angústia é-me muito cara." Thessala, que era muito sábia sobre o amor e os seus sintomas, sabe muito bem, pelo que ouve, que é o amor que a está a atormentar; os termos ternos e carinhosos que usa são prova certa de que ela está apaixonada, pois todos os outros sofrimentos são difíceis de suportar, exceto aquele que vem do amor; mas o amor transforma a sua amargura em doçura e alegria, para depois, frequentemente, transformá-las de volta. A ama, que era perita nesta matéria, responde-lhe assim: "Não tenhas medo, pois dir-te-ei imediatamente o nome da tua enfermidade. Disseste-me, creio eu, que a dor que sentes parece ser antes alegria e saúde: ora, de tal natureza é a doença de amor, pois nela, também, há alegria e felicidade. Estás apaixonada, então, como te posso provar, pois não encontro prazer em nenhuma enfermidade exceto apenas no amor. Toda a outra doença é sempre má e horrível, mas o amor é doce e pacífico. Estás apaixonada; disso tenho a certeza, nem vejo mal algum nisso. Mas considerarei um grande mal se, por alguma tolice infantil, me ocultares o teu coração." "Ama, não há necessidade de falares assim. Mas primeiro devo estar segura e certa de que, sob circunstância alguma, falarás disso a qualquer alma viva." "Minha senhora, certamente os ventos falarão disso antes de mim sem a tua permissão, e dar-te-ei a minha palavra de favorecer os teus desejos de tal modo que podes confiar em ter a tua alegria concretizada através dos meus serviços." "Nesse caso, Ama, estarei curada. Mas o imperador está a dar-me em casamento, pelo que sofro e estou triste; pois aquele que ganhou o meu coração é sobrinho daquele com quem devo casar. E embora ele possa encontrar alegria em mim, a minha alegria está perdida para sempre, e nenhum descanso é possível. Preferiria ser despedaçada membro a membro do que os homens falarem de nós como falam dos amores de Iseut e Tristan, pois contam-se tantas histórias indecorosas que teria vergonha de as mencionar. Nunca poderia levar a vida que Iseut levou. Tal amor como o dela era demasiado vil; pois o seu corpo pertencia a dois, enquanto o seu coração era possuído por um. Assim foi toda a sua vida, não recusando os seus favores a nenhum dos dois. Mas o meu está fixado num objeto, e sob circunstância alguma haverá qualquer partilha do meu corpo e coração. Nunca o meu corpo será repartido entre dois acionistas. Quem tem o coração tem o corpo também, e pode ordenar a todos os outros que se afastem. Mas não consigo ver claramente como aquele a quem amo pode ter o meu corpo quando o meu pai me entrega a outro, e a sua vontade não ouso resistir. E quando este outro for senhor do meu corpo, e fizer algo que me desagrade, não é justo que eu chame outro em meu auxílio. Nem pode este homem casar com uma esposa sem quebrar a sua palavra empenhada; pois, a menos que se cometa uma injustiça, Cligés deve ter o império após a morte do seu tio. Mas eu seria bem servida por ti, se fosses tão habilidosa a ponto de impedir que aquele a quem estou prometida e comprometida tenha qualquer direito sobre mim. Ó Ama, esforça-te para que ele não quebre a promessa que fez ao pai de Cligés, quando lhe prometeu solenemente nunca tomar uma esposa em casamento. Pois agora, se ele se casar comigo, a sua promessa seria quebrada. Mas Cligés é-me tão caro que preferiria estar debaixo da terra do que ele perder por minha causa um centavo da fortuna que deveria ser sua. Que nunca nasça um filho de mim para causar a sua deserdamento! Ama, faz agora o teu melhor, e eu serei sempre tua escrava." Então a ama diz-lhe e garante-lhe que lançará tantos encantos, e preparará tantas poções e feitiços, que ela nunca precisará de ter qualquer preocupação ou medo em relação ao imperador depois de ele ter bebido a poção que ela lhe dará; mesmo quando eles se deitarem juntos e ela estiver ao lado dele, ela poderá estar tão segura como se houvesse uma parede entre eles. "Mas não te alarmes se, durante o sono, ele se divertir contigo, pois quando ele estiver mergulhado no sono ele divertir-se-á contigo, e ele ficará convencido de que te possuiu quando estava bem acordado, nem pensará que tudo não passa de um sonho, uma ficção e uma ilusão. Assim, ele divertir-se-á contigo enquanto dorme, e pensará que está acordado."
A donzela fica muito satisfeita e encantada com a bondade e a oferta de ajuda da ama. A sua ama inspira-lhe boa esperança com a promessa que faz, e que se compromete a cumprir; com esta esperança ela espera obter o seu desejo, apesar do atraso cansativo, pois se a natureza de Cligés for tão nobre como ela a considera, ele não pode deixar de ter piedade dela quando souber que ela o ama, e que ela se impôs a virgindade para garantir a sua herança. Assim, a donzela acredita na sua ama, e deposita total confiança nela. Uma promete à outra, e dá a sua palavra, que esta conspiração será mantida tão secreta que nunca será revelada. Neste ponto a sua conversa cessa, e na manhã seguinte o imperador convoca a sua filha. Por ordem dele, ela vai ter com ele. Mas por que haveria de vos cansar com detalhes? Os dois imperadores resolveram a questão de tal forma que o casamento é celebrado, e a alegria reina no palácio. Mas não desejo deter-me para descrever tudo isto em detalhe. Antes, dirigir-me-ei a Thessala, enquanto ela prepara e tempera diligentemente as suas poções.
Thessala mergulha a sua bebida, colocando especiarias em abundância para a adoçar e temperar. Depois de bem batida e misturada, ela coa-a para que fique límpida, sem qualquer sabor acre ou amargo, pois as especiarias que ela coloca dão-lhe uma fragrância doce e agradável. Quando a poção estava preparada, o dia tinha chegado ao fim, as mesas estavam postas para a ceia, e as toalhas estavam estendidas. Mas Thessala atrasa a ceia, porque tem de descobrir por que estratagema e por que agente pode fazer servir a poção. À ceia, finalmente, todos estavam sentados, e mais de seis pratos tinham sido servidos, e Cligés servia atrás do lugar do seu tio. Thessala, enquanto o observa, pensa em como ele serve mal os seus próprios interesses, e como ele está a assistir ao seu próprio deserdamento, e o pensamento atormenta-a e preocupa-a. Então, na sua bondade, ela concebe o plano de fazer com que a poção seja servida por aquele a quem trará tanto alegria quanto honra. Então Thessala chamou Cligés; e quando ele se aproximou dela, perguntou-lhe por que o tinha mandado chamar. "Amigo," disse ela, "desejo oferecer ao imperador nesta refeição uma bebida que ele estimará muito, e quero que ele não prove outra esta noite, nem na ceia nem quando for para a cama. Penso que ele não pode deixar de a apreciar, pois nunca provou uma bebida melhor ou uma que tenha custado tanto. E aviso-te, toma muito cuidado para não deixares que mais ninguém beba dela, pois há apenas um pouco. E peço-te também isto, não deixes que ele saiba de onde veio; mas diz-lhe que aconteceu por acaso que a encontraste entre os presentes, e provaste-a tu mesmo, e detetaste o aroma das especiarias doces no ar; então, vendo que o vinho estava límpido, despejaste-o no seu copo. Se por acaso ele perguntar, podes satisfazê-lo com esta resposta. Mas não tenhas qualquer suspeita, depois do que eu disse, pois a bebida é pura e saudável, cheia de especiarias excelentes, e penso que pode um dia trazer-te alegria." Quando ele ouviu que viria vantagem para ele, pegou na poção e partiu, pois não sabia que havia qualquer mal nela. Colocou-a num copo de cristal diante do imperador, que a tomou sem questionar, confiando no seu sobrinho. Depois de tomar um longo gole da bebida, sente imediatamente a sua força, à medida que desce da cabeça ao coração, e sobe novamente do coração à cabeça, e penetra cada parte dele sem causar o menor dano. E quando deixaram as mesas, o imperador tinha bebido tanto da bebida agradável que nunca poderá escapar à sua influência. Todas as noites ele dormirá sob a sua influência, e os seus efeitos serão tais que ele pensará que está acordado quando estiver profundamente a dormir.
Agora o imperador foi enganado. Muitos bispos e abades estavam presentes para abençoar e santificar o leito nupcial. Quando chegou a hora de se retirar, o imperador, como era o seu direito, deitou-se ao lado da sua esposa naquela noite. "Como era o seu direito;" mas a afirmação é inexata, pois ele nem a beijou nem a acariciou, contudo deitaram-se juntos numa cama. A princípio, a donzela tremia de medo e ansiedade por recear que a poção não atuasse. Mas ela dominou-o de tal modo que ele nunca desejará ela ou qualquer outra mulher, exceto enquanto dorme. Mas quando adormecido, ele divertir-se-á com ela como se pode ter em sonhos, e ele pensará que o sonho é verdadeiro. No entanto, ela está de guarda e, a princípio, mantém-se afastada dele, de modo que ele não pode aproximar-se dela. Mas agora ele tem de adormecer; então ele dorme e sonha, embora os sentidos estejam despertos, e ele esforça-se por ganhar os favores da donzela, enquanto ela, percebendo o perigo, defende a sua virgindade. Ele corteja-a e chama-lhe gentilmente a sua amada, e pensa que a possui, mas em vão. Mas ele é gratificado por esta vã aparência, abraçando, beijando e acariciando uma coisa vazia, vendo e falando em vão, lutando e esforçando-se sem efeito. Certamente a poção foi eficaz ao possuí-lo e dominá-lo assim. Todos os seus esforços são inúteis, enquanto ele pensa e está convencido de que a fortaleza foi vencida. Assim ele pensa e está convencido, quando desiste após os seus esforços vãos. Mas agora posso dizer de uma vez por todas que a sua satisfação nunca foi mais do que isto. A tais relações com ela ele estará para sempre condenado se, de facto, a puder levar para a sua própria terra; mas antes que ele a possa levar para um lugar seguro, julgo que há problemas à sua espera. Pois enquanto ele está na sua viagem de regresso, o duque, a quem a noiva tinha sido prometida, aparecerá em cena. O duque reuniu uma força numerosa e guarneceu as fronteiras, enquanto na corte ele tinha os seus espiões para o informarem a cada dia dos feitos e preparativos do imperador, e quanto tempo eles pretendem ficar, e por que rota pretendem regressar. O imperador não se demorou muito após o casamento, mas deixou Colónia de bom humor. O imperador alemão escoltou-o com uma companhia numerosa, temendo e receando a força do Duque da Saxónia.
Os dois imperadores continuaram a sua viagem até estarem para além de Regensburg, onde uma noite estavam acampados num prado junto ao Danúbio. Os gregos estavam nas suas tendas nos campos que faziam fronteira com a Floresta Negra. Em frente a eles, os saxões estavam alojados, espiando-os. O sobrinho do duque estava sozinho numa colina, de onde podia observar uma oportunidade para infligir alguma perda ou dano ao inimigo. Desse ponto de vantagem, ele avistou Cligés com três dos seus jovens homens divertindo-se com lanças e escudos, desejosos de um conflito e choque de armas. Se pudesse ter a oportunidade, o sobrinho do duque atacá-los-ia alegremente e far-lhes-ia mal. Partindo com cinco companheiros, escondeu-os num vale perto de um bosque, de modo que os gregos nunca os viram até que emergissem do vale; então o sobrinho do duque fez um ataque e, atingindo Cligés, feriu-o ligeiramente nas costas. Cligés, inclinando-se, evita a lança que passou por ele, infligindo apenas um leve ferimento.
A alegria do imperador foi imensa quando ouviu a voz do seu sobrinho Cligés a chamá-los e a exortá-los; ficou muito satisfeito e reconfortado. Mas o duque sente-se agora profundamente desgostoso ao ver-se traído, a menos que a sua força se mostre superior. Enquanto reúne as suas tropas em linhas cerradas, os gregos fazem o mesmo e, pressionando-os, atacam e precipitam-se sobre eles. De ambos os lados, as lanças são baixadas à medida que se encontram para a devida receção de um exército hostil. No primeiro choque, os escudos são perfurados e as lanças despedaçadas, as cilhas cortadas e os estribos partidos, enquanto os cavalos daqueles que caem por terra ficam sem cavaleiro. Mas, independentemente do que qualquer outro faça, Cligés e o duque encontram-se na contenda; mantendo as suas lanças baixas, atingem-se um ao outro no escudo com tal violência que as lanças, fortes e bem feitas, voam em estilhaços. Cligés era destro a cavalo e mantém-se direito na sela, sem oscilar ou perder o equilíbrio. Mas o duque perdeu o assento e, contra a sua vontade, abandona os arcos da sela. Cligés esforçou-se e lutou para capturá-lo e levá-lo, mas a sua força não bastou, pois os saxões estavam em redor a lutar para o resgatar. Contudo, Cligés escapa do conflito sem sofrer danos e com um prémio precioso; pois leva consigo o corcel do duque, que era mais branco que a lã e valia mais para um fidalgo do que a fortuna de Octavian em Roma. O corcel era um árabe. Os gregos e os alemães rejubilam ao ver Cligés em tal montada, pois já tinham notado a excelência e a beleza do corcel árabe. Mas não estavam prevenidos contra uma emboscada; e, antes de se aperceberem, grandes danos serão causados.
Um espião veio ter com o duque, trazendo-lhe notícias bem-vindas. "Duque", diz o espião, "não resta um homem em todo o acampamento dos gregos que seja capaz de se defender. Se quiseres acreditar na minha palavra, este é o momento de mandar capturar a filha do imperador, enquanto os gregos estão vistos como atentos à batalha e ao conflito. Empresta-me cem dos teus cavaleiros e eu porei a dama nas mãos deles. Por um caminho antigo e isolado, conduzi-los-ei com tanto cuidado que não serão vistos nem encontrados por nenhum homem da Germânia, até que possam capturar a donzela na sua tenda e levá-la tão habilmente que não haverá resistência." Com isto, o duque fica muito satisfeito. Enviou cem e mais cavaleiros experimentados com o espião, que os conduziu com tanto sucesso que levaram a donzela cativa sem exercer qualquer força; pois podiam raptá-la facilmente. Após tê-la levado a alguma distância das tendas, enviam-na sob escolta de doze dos seus, aos quais acompanham apenas por um curto trajeto. Enquanto os doze conduziam a donzela, os outros foram dizer ao duque quão bem-sucedidos tinham sido. Sendo o desejo do duque agora satisfeito, ele faz imediatamente uma trégua com os gregos até ao dia seguinte. A trégua foi jurada por ambas as partes. Os homens do duque voltaram então para trás, enquanto os gregos, sem demora, dirigiram-se cada um para a sua própria tenda. Mas Cligés fica para trás, sozinho, posicionado numa pequena colina onde ninguém o avistou, até ver os doze passarem com aquela que levavam à máxima velocidade. Cligés, na sua sede de glória, cavalga contra eles sem demora; pois pensa consigo mesmo, e o seu coração diz-lhe, que não é por nada que eles fogem. Assim, logo que os avistou, esporeou atrás deles; e quando eles o viram aproximar-se, ocorreu-lhes um pensamento insensato: "É o duque", disseram, "que vem. Refreemos um pouco; pois ele deixou as tropas e cavalga duramente atrás de nós, sozinho." Cada homem pensa que assim é. Todos querem voltar para o encontrar, mas cada um deseja ir sozinho. Entretanto, Cligés tem de descer um vale profundo entre duas montanhas. Ele nunca teria reconhecido as suas insígnias se não tivessem vindo ao seu encontro ou se não o tivessem aguardado. Seis dos doze vêm ao seu encontro num embate de que se arrependerão em breve. Os outros seis ficam com a donzela, conduzindo-a gentilmente a passo e trote suave. E os seis cavalgam rapidamente, esporeando vale acima, até que aquele que tinha o cavalo mais veloz chegou primeiro a ele e gritou em voz alta: "Salve, Duque da Saxónia! Deus te abençoe! Duque, recuperámos a tua dama. Os gregos não a levarão agora, pois será colocada nas tuas mãos." Quando Cligés ouviu as palavras que este indivíduo grita, o seu coração não fica alegre; antes, é estranho que ele não perca o juízo. Nunca uma besta selvagem — leopardo, tigre ou leão — ao ver as suas crias capturadas, foi tão feroz e furiosa como Cligés, que não atribui qualquer valor à sua vida se abandonar a sua amada agora. Preferiria morrer a não a reconquistar. No seu transtorno, sente uma grande ira, que lhe confere a coragem de que necessita. Ele incita e esporeia o corcel árabe, e precipita-se para dar ao saxão tal golpe no seu escudo pintado que, sem exagero, faz o seu coração sentir a lança. Isto confere confiança a Cligés. Conduziu e esporeou o corcel árabe por mais do que o espaço de um acre antes de se deparar com o saxão seguinte, pois eles aproximavam-se um a um, cada um destemido do destino do seu predecessor, pois Cligés luta contra eles um de cada vez. Como os enfrenta assim individualmente, ninguém recebe a ajuda de outro. Ele lança-se contra o segundo, que, tal como o primeiro, pensou dar-lhe alegria ao contar-lhe o seu próprio destino maligno. Mas Cligés não tem qualquer interesse em atender à sua conversa e falatório ocioso. Empurrando a sua lança contra o corpo dele, de modo que o sangue jorra quando a retira, priva-o da vida e do dom da fala. Depois destes dois, encontra o terceiro, que espera encontrá-lo bem-disposto e fazê-lo regozijar-se com o seu próprio infortúnio. Esporeando ansiosamente, aproximou-se dele; mas, antes que tivesse tempo de dizer uma palavra, Cligés atravessou uma braça da sua lança pelo meio do seu corpo, deixando-o sem sentidos no chão. Ao quarto, dá tal golpe que o deixa desmaiado no campo. Depois do quarto, vai contra o quinto, e depois dele ataca o sexto. Nenhum deles pôde defender-se, mas cada um foi deixado silencioso e mudo. Ele temia menos os outros agora e pressionou-os mais arduamente, não mais pensando nos seis homens mortos.
Sentindo-se sem mais cuidados para com eles, começa a apresentar uma dívida de vergonha e aflição aos outros que levam a donzela. Alcançou-os e fez tal investida contra eles como um lobo faminto e voraz faz quando salta sobre a sua presa. Agora sente que a sua sorte chegou, quando pode exibir a sua cavalaria e bravura abertamente diante daquela que é a sua própria vida. Agora pode ele morrer, se não a resgatar! E ela, também, está às portas da morte de ansiedade por causa dele, embora não saiba que ele está tão perto. Lança em riste, Cligés fez um ataque que lhe agradou bastante; pois atingiu primeiro um saxão e depois outro, de modo que com uma única investida os levou a ambos a terra, embora lhe tenha custado a sua lança de freixo. E ambos caem em tal angústia, estando feridos no corpo, que não têm poder para se erguer novamente e fazer-lhe qualquer mal ou dano. Os outros quatro, em amarga raiva, unem-se num ataque a Cligés; mas ele nem recua nem treme, e eles são incapazes de o desalojar do seu assento. Desembainhando rapidamente a sua espada afiada, a fim de agradar àquela que aguarda o seu amor, ele cavalgou duramente contra um saxão e, golpeando-o com a sua lâmina afiada, separou-lhe a cabeça e metade do pescoço do corpo: tal foi o limite da sua piedade. Fenice, que testemunha o que se desenrola, não sabe ainda que este é Cligés. Deseja que ele o seja, na verdade, mas devido ao perigo presente diz para consigo que não o queria ali. Assim, duplamente, mostra a devoção de uma amada, temendo de imediato a sua morte e desejando que a honra seja dele. E Cligés, espada na mão, ataca os outros três, que o enfrentam bravamente e perfuram e dividem o seu escudo. Mas são incapazes de lhe pôr as mãos ou de perfurar as malhas do seu hauberk. E o que quer que Cligés alcance não pode resistir ao seu golpe, mas tem de ser dividido e despedaçado; pois ele vira-se mais depressa do que um pião impulsionado e açoitado pelo chicote. A audácia e o amor, que o mantém enfeitiçado, tornam-no ansioso pela contenda. Pressionou os saxões tão duramente que os deixou a todos mortos e derrotados, alguns apenas feridos e outros mortos — exceto um, que deixou escapar, desdenhando matá-lo quando deixado sozinho à sua mercê; além disso, desejava que ele contasse ao duque a perda e o dano que sofrera. Mas, antes que este indivíduo deixasse Cligés, suplicou-lhe que lhe dissesse o seu nome, o que mais tarde repetiu ao duque, despertando assim a sua amarga ira.
Ora, a má sorte caíra sobre o duque, que estava em grande angústia e pesar. E Cligés leva de volta Fenice, cujo amor o atormenta e perturba. Se ele não se confessar a ela agora, o amor será por muito tempo o seu inimigo, e dela também, se ela permanecer em silêncio e não disser a palavra que lhe trará alegria; pois agora cada um pode dizer ao outro, privadamente, os pensamentos que jazem dentro do coração. Mas receiam tanto ser recusados que não ousam revelar os seus corações. Pela sua parte, ele teme que ela não aceite o seu amor, enquanto ela, também, teria falado se não temesse ser rejeitada. Apesar disto, os olhos de cada um revelam o pensamento oculto, se apenas tivessem prestado atenção a esta evidência. Conversam pelo olhar dos olhos, mas as suas línguas são tão cobardes que não ousam falar de modo algum sobre o amor que os possui. Não é de admirar se ela hesita em começar, pois uma donzela deve ser uma criatura simples e retraída; mas ele — por que espera e se contém, ele que foi tão audaz por ela ainda agora, mas que agora, na sua presença, é cobarde? Deus! De onde vem este medo, que ele deva encolher-se perante uma rapariga solitária, fraca e tímida, simples e meiga? É como se eu visse o cão fugir perante a lebre, e o peixe perseguir o castor, o cordeiro o lobo, e a pomba a águia. Da mesma forma, o trabalhador abandonaria a sua picareta com que se esforça para ganhar o sustento, e o falcão fugiria do pato, e o gerifalte da garça, e o lúcio do peixinho, e o veado perseguiria o leão, e tudo seria invertido. Agora sinto dentro de mim o desejo de dar alguma razão pela qual deve acontecer aos verdadeiros amantes que percam o sentido e a audácia de dizer o que têm em mente quando têm lazer, lugar e tempo.
Vós que estais interessados na arte do Amor, que fielmente mantendes os costumes e o uso da sua corte, que nunca falhastes em obedecer à sua lei, qualquer que fosse o resultado, dizei-me se há algo que agrade por causa do amor sem nos fazer tremer e empalidecer. Se alguém se opuser a mim nisto, posso refutar imediatamente o seu argumento; pois quem não empalidece e treme, quem não perde os sentidos e a memória, está a tentar roubar e obter por furto o que não lhe pertence por direito. O servo que não teme o seu senhor não deveria permanecer ao seu serviço nem prestar o seu serviço. Aquele que não estima o seu senhor não o teme, e quem não o estima não o teme em apreço, mas antes tenta enganá-lo e roubar-lhe o que é seu. O servo deveria tremer de medo quando o seu senhor o chama ou convoca. E quem se compromete com o Amor possui-o como o seu senhor e mestre, e é obrigado a prestar-lhe reverência e temê-lo muito e honrá-lo, se deseja ser contado na sua corte. Amor sem alarme ou medo é como um fogo sem chama ou calor, dia sem sol, favo sem mel, verão sem flores, inverno sem geada, céu sem lua e um livro sem letras. Tal é o meu argumento em refutação, pois onde o medo está ausente, o amor não deve ser mencionado. Quem quer que queira amar tem necessariamente de sentir medo, pois de outra forma não pode estar apaixonado. Mas que tema apenas aquela que ama, e por amor dela seja corajoso contra todos os outros. Então, se ele teme a sua dama, Cligés não é culpado de nada de errado. Mesmo assim, ele não teria deixado de falar imediatamente com ela sobre o amor, fosse qual fosse o resultado, se não fosse o facto de ela ser a esposa do seu tio. Isto causa a supuração da sua ferida, e atormenta-o e dói-lhe ainda mais porque não ousa proferir o que gostaria de dizer.
Assim, fazem o seu caminho de volta para o seu povo, e se falam de alguma coisa, não é nada de grande preocupação. Cada um montado num cavalo branco, cavalgaram rapidamente em direção ao acampamento, que estava mergulhado em grande tristeza. Todo o exército está fora de si de pesar, mas estão completamente errados ao supor que Cligés está morto: daí o seu pesar amargo e pungente. E por Fenice, também, estão em desânimo, pensando nunca mais a recuperar. Assim, por ela e por ele, todo o exército está em grande angústia. Mas logo após o seu regresso todo o caso mudará o seu aspeto; pois agora chegaram novamente ao acampamento e transformaram rapidamente o pesar em alegria. A alegria regressa e a tristeza foge. Todas as tropas juntam-se e saem para lhes dar as boas-vindas. Os dois imperadores, ao ouvirem o relato sobre Cligés e a donzela, vão ao seu encontro com corações alegres, e cada um mal pode esperar para ouvir como Cligés encontrou e recuperou a imperatriz. Cligés conta-lhes e, enquanto ouvem, ficam maravilhados e são pródigos nos seus elogios à sua coragem e devoção. Mas, da sua parte, o duque está furioso, jurando e proclamando a sua determinação de combater Cligés, se ele se atrever, em combate singular; e ficará acordado que se Cligés vencer a batalha o imperador prosseguirá sem ser desafiado, e tomará livremente a donzela consigo, e se ele matar ou derrotar Cligés, que lhe causou tal dano, então que não haja trégua ou paragem que impeça cada parte de fazer o seu melhor. É isto que o duque deseja, e através de um intérprete seu, que conhecia ambas as línguas, grega e alemã, anuncia aos dois imperadores o seu desejo de assim organizar a batalha.
O mensageiro entregou a sua mensagem tão bem em ambas as línguas que todos a puderam compreender. O exército inteiro estava em alvoroço, dizendo que Deus nos livre que Cligés alguma vez se envolva na batalha. Ambos os imperadores estão em sobressalto, mas Cligés lança-se aos seus pés e suplica-lhes que não se entristeçam, mas se alguma vez lhes fez algum favor, reza-lhes que lhe concedam esta batalha como galardão e recompensa. E se o direito de lutar lhe for negado, então nunca mais servirá por um único dia a causa e a honra do seu tio. O imperador, que amava o seu sobrinho como deveria, levantou-o pela mão e disse: "Belo sobrinho, estou profundamente entristecido por saber que estás tão ávido de lutar; pois depois da alegria, espera-se o pesar. Fizeste-me feliz, não posso negá-lo; mas é difícil para mim ceder no ponto e enviar-te para esta batalha, quando te vejo ainda tão jovem. E, contudo, sei que estás tão confiante em ti mesmo que não me atrevo a recusar nada do que escolhas pedir-me. Tem a certeza de que, meramente para te gratificar, será feito; mas se o meu pedido tem algum poder, nunca assumirias esta tarefa." "Meu senhor, não há necessidade de mais palavras", disse Cligés; "que Deus me amaldiçoe, se eu aceitasse o mundo inteiro e perdesse esta batalha! Não sei por que deveria procurar de ti qualquer adiamento ou longa demora." O imperador chora de piedade, enquanto Cligés derrama lágrimas de alegria quando a permissão para lutar lhe é concedida. Muitas lágrimas foram derramadas naquele dia, e nenhum descanso ou demora foi pedido. Antes da hora de prima, pelo próprio mensageiro do duque, o desafio para a batalha foi-lhe enviado de volta, aceite como ele tinha proposto.
O duque, que pensa e confia convictamente que Cligés será incapaz de evitar a morte e a derrota às suas mãos, faz-se armar rapidamente. Cligés, que está ansioso pela luta, não sente qualquer preocupação quanto à forma como se defenderá. Pede ao imperador as suas armas e deseja que o faça cavaleiro. Assim, o imperador generosamente dá-lhe as suas armas, e ele aceita-as, estando o seu coração ávido pela batalha que antecipa com alegria e desejo. Nenhum tempo é perdido a armá-lo. E quando estava armado da cabeça aos pés, o imperador, todo ele pesaroso, cinge a espada ao seu lado. Assim, Cligés completamente armado monta o seu corcel árabe branco; do pescoço pendura pelas correias um escudo de marfim, tal que nunca se partirá ou dividirá; e sobre ele não havia nem cor nem desenho. Toda a sua armadura era branca, e o corcel, e a arreata, também, tudo era mais branco do que qualquer neve.
Cligés e o duque, agora armados, convocam-se para se encontrarem a meio caminho, e estipulam que os seus homens tomem o seu lugar de cada lado, mas sem as suas espadas e lanças, sob juramento e penhor de que nenhum homem será tão temerário, enquanto a batalha durar, que se atreva a mover-se por qualquer motivo, mais do que se atreveria a arrancar o seu próprio olho. Quando isto foi acordado, encontraram-se, cada um ansioso ardentemente pela glória que espera ganhar e pela alegria da vitória. Mas antes que um único golpe fosse desferido, a imperatriz faz-se levar até lá, solícita quanto ao destino de Cligés. Parece-lhe que se ele morrer, ela, também, terá necessariamente de o fazer. Nenhum conforto pode servir para impedi-la de se juntar a ele na morte, pois, sem ele, a vida não tem alegrias para ela. Quando todos estavam reunidos no campo — altos e baixos, jovens e velhos — e os guardas tinham tomado o seu lugar, então ambos agarraram as suas lanças e precipitaram-se um contra o outro tão selvaticamente que ambos partiram as suas lanças e caíram ao chão, incapazes de manter as suas selas. Mas não estando feridos, levantam-se rapidamente e atacam-se um ao outro sem demora. Sobre os seus elmos ressonantes tocam tal melodia com espadas que parece àqueles que estão a observar que os elmos estão em chamas e enviam faúlhas. E quando as espadas ressaltam no ar, faúlhas brilhantes voam delas como de um pedaço de ferro fumegante que o ferreiro bate na sua bigorna depois de o retirar da forja. Ambos os vassalos são generosos ao desferir golpes em grande abundância, e cada um tem as melhores intenções de pagar rapidamente o que toma emprestado; nenhum retém o pagamento imediato do capital e dos juros, sem contabilidade e sem medida. Mas o duque está muito desgostoso com raiva e desconcerto quando falha ao não derrotar e matar Cligés no primeiro assalto. Tal golpe maravilhosamente grande e poderoso ele desfere-lhe que ele cai a seus pés sobre o joelho.
Quando este golpe levou Cligés ao chão, o imperador foi tomado de medo e não teria ficado mais consternado se ele próprio estivesse sob o escudo. Nem Fenice, em seu temor, pôde conter-se por mais tempo, qualquer que fosse o efeito, de gritar: "Deus o ajude!" tão alto quanto podia. Mas essa foi a única palavra que proferiu, pois logo sua voz lhe faltou e ela caiu de bruços, ferindo-se um pouco na queda. Dois nobres distintos a levantaram e a sustentaram sobre os pés até que recuperou a consciência. Mas, a despeito de seu semblante, ninguém que a viu adivinhou por que ela desmaiara. Nenhum homem ali a censurou, antes a louvaram pelo ato, pois cada um supunha que ela teria feito o mesmo por ele, se estivesse no lugar de Cligés, mas em tudo isso eles estão bem enganados. Cligés ouviu, e bem compreendeu, o som do grito de Fenice. Sua voz restituiu-lhe a força e a coragem, quando saltou rapidamente e veio, com fúria, em direção ao duque, investindo e atacando-o de tal modo que o duque, por sua vez, ficou agora consternado. Pois agora ele o encontrava mais feroz para a peleja, mais forte, mais ágil e enérgico do que quando primeiro se encontraram. E porque temia seu ímpeto, gritou: "Jovem, assim me ajude Deus, vejo que és bravo e muito audaz. Se não fosse pelo meu sobrinho agora, a quem jamais esquecerei, eu de bom grado faria as pazes contigo e deixaria tua querela sem nela mais interferir."
"Duque", diz Cligés, "qual é o seu prazer agora? Não deve alguém renunciar ao seu direito quando é incapaz de recuperá-lo? Quando um de dois males deve ser enfrentado, deve-se escolher o menor. Teu sobrinho não foi sábio ao se envolver irritado comigo. Podes estar certo de que te tratarei da mesma maneira, se eu tiver a chance, a menos que concordes com os meus termos de paz." O duque, a quem parece que o vigor de Cligés está crescendo constantemente, pensa que seria melhor desistir a meio caminho antes de estar completamente arruinado. Contudo, ele não cede abertamente, mas diz: "Jovem, vejo que és habilidoso e alerta e não careces de coragem. Mas és ainda muito novo; portanto, sinto-me assegurado de que, se eu te derrotar e matar, não ganharei louvor nem fama, e jamais gostaria de confessar aos ouvidos de um homem de honra que lutei contigo, pois apenas te honraria e eu ganharia vergonha. Mas se estás ciente do valor da honra, será sempre uma coisa gloriosa para ti ter-me resistido por dois assaltos de armas. Portanto, agora meu coração e sentimento ordenam-me deixar-te seguir teu caminho e não mais lutar contigo." "Duque", diz Cligés, "isso não servirá. Aos ouvidos de todos deves repetir essas palavras, pois jamais será dito e espalhado por aí que me deixaste partir e tiveste piedade de mim. Aos ouvidos de todos os que aqui estão reunidos, deves repetir tuas palavras, se desejas reconciliar-te comigo." Então o duque repete suas palavras aos ouvidos de todos. Então eles fazem as pazes e se reconciliam. Mas, qualquer que seja a maneira como a questão é considerada, Cligés teve toda a honra e glória dela, e os gregos ficaram muito satisfeitos. Por sua vez, os saxões não podiam rir, tendo todos eles visto claramente que seu senhor estava desgastado e exausto agora; mas não há dúvida alguma de que, se ele pudesse ter ajudado a si mesmo, esta paz nunca teria sido feita, e que a alma de Cligés teria sido arrancada de seu corpo se tivesse se mostrado possível. O duque volta para a Saxônia pesaroso, abatido e cheio de vergonha; pois de seus homens não há sequer dois que não o considerem vencido, derrotado e desonrado. Os saxões, com toda a sua vergonha, retornaram agora à Saxônia, enquanto os gregos, sem demora, dirigem-se com alegria e contentamento para Constantinopla, pois Cligés, por sua bravura, abriu-lhes o caminho. O imperador da Alemanha não mais os segue e escolta. Despedindo-se das tropas gregas, de sua filha e de Cligés, e finalmente do imperador, ele permaneceu na Alemanha. E o imperador dos gregos parte feliz e em estado de espírito alegre. Cligés, bravo e cortês, recorda o comando de seu pai. Se seu tio, o imperador, lhe der sua permissão, ele irá e pedir-lhe-á licença para retornar à Bretanha e lá conversar com seu tio-avô, o Rei; pois ele deseja vê-lo e conhecê-lo. Então ele se apresenta diante do imperador e solicita que ele consinta em deixá-lo ir à Bretanha para ver seu tio e seus amigos. Gentilmente ele ofereceu seu pedido. Mas seu tio recusou, quando ouviu o pedido que ele fez. "Belo sobrinho", disse ele, "não é minha vontade que desees deixar-me. Jamais te darei, sem arrependimento, esta permissão para ir embora. Pois é meu prazer e desejo que sejas meu companheiro e senhor, comigo, de todo o meu império."
Agora Cligés ouve algo que não lhe agrada quando seu tio recusa a prece e o pedido que ele fez. "Belo senhor", disse ele, "não sou bravo e sábio o suficiente, nem seria adequado que eu me juntasse a vós ou a qualquer outro no dever de governar este império; sou muito jovem e inexperiente. Eles colocam o ouro à prova quando desejam saber se é fino. E assim é meu desejo, em resumo, tentar provar a mim mesmo, onde quer que eu possa encontrar o teste. Na Bretanha, se eu for bravo, posso aplicar-me à pedra de amolar e ao verdadeiro teste, pelo qual minha bravura será provada. Na Bretanha estão os cavalheiros a quem a honra e a bravura distinguem. E aquele que deseja ganhar honra deve associar-se a eles, pois a honra é ganha e obtida por aquele que se associa com cavalheiros. E assim vos peço licença para ir, e podeis estar muito certo de que, se não me concederdes o benefício e me enviardes para lá, eu irei sem a vossa licença." "Belo sobrinho, dar-te-ei licença, vendo que estás tão disposto que não posso impedir-te nem por força nem por prece minha. Agora, uma vez que a prece, a proibição e a força não aproveitam, que Deus te dê o desejo e a inclinação para retornar prontamente. Desejo que leves contigo mais de um alqueire de ouro e prata, e dar-te-ei para teu prazer os cavalos que escolheres." Ele mal tinha falado quando Cligés se curvou diante dele. Tudo o que o imperador mencionou e lhe prometeu foi imediatamente trazido para lá.
Cligés levou todo o dinheiro e companheiros que desejava e precisava. Para seu uso pessoal ele levou quatro cavalos de cores diferentes: um branco, um alazão, um amarelo-avermelhado e um preto. Mas devo ter deixado passar algo que não é apropriado omitir. Cligés vai pedir e obter licença para partir de sua amada Fenice; pois ele deseja recomendá-la à guarda segura de Deus. Chegando diante dela, ele se lança sobre os joelhos, chorando tão amargamente que as lágrimas umedecem sua túnica e arminho, enquanto mantém os olhos no chão; pois ele não ousa levantar os olhos para ela, como se fosse culpado de algum crime e erro para com ela, pelo qual parece tomado de vergonha. E Fenice, que timida e temerosa olha para ele, não sabe a ocasião de sua vinda e fala com ele com dificuldade. "Levanta-te, amigo e belo senhor! Senta-te aqui ao meu lado, e não chores mais, e diz-me qual é o teu prazer." "Senhora, o que direi, e o que deixarei por dizer? Venho pedir vossa licença." "Licença? Para fazer o quê?" "Senhora, devo partir para a Bretanha." "Então diz-me qual é o teu negócio, antes que eu te dê licença para ir." "Senhora, meu pai, antes que partisse desta vida e morresse, pediu-me para não deixar de ir à Bretanha assim que eu fosse feito cavaleiro. Não desejaria, por nenhuma razão, desconsiderar seu comando. Não devo vacilar até ter realizado a jornada. É um longo caminho daqui até a Grécia, e se eu fosse para lá, a jornada seria longa demais de Constantinopla até a Bretanha. Mas é justo que eu peça licença a vós a quem inteiramente pertenço." Muitos um suspiro oculto e soluço marcaram a separação. Mas os olhos de ninguém eram aguçados o suficiente, nem os ouvidos de qualquer um afiados o suficiente, para aprender com o que via e ouvia que havia qualquer amor entre estes dois. Cligés, apesar da dor que sentia, despediu-se na primeira oportunidade. Ele está cheio de pensamentos enquanto vai embora, e assim estão o imperador e muitos outros que ficam para trás. Mas mais do que todos os outros, Fenice está pensativa: ela não encontra fundo ou limite para as reflexões que a ocupam, tão abundantemente seus cuidados são multiplicados. Ela ainda estava oprimida com o pensamento quando chegou à Grécia. Lá ela era mantida em grande honra como senhora e imperatriz; mas seu coração e mente pertencem a Cligés, onde quer que ele vá, e ela deseja que seu coração nunca retorne a ela, a menos que seja trazido de volta por ele que perece da mesma doença com a qual ele a atingiu. Se ele ficasse bem, ela também se recuperaria, mas ele nunca será sua vítima sem que ela o seja também. Seu problema aparece em sua cor pálida e mudada; pois a cor fresca, clara e radiante que a Natureza lhe tinha dado é agora uma estranha ao seu rosto. Ela frequentemente chora e frequentemente suspira. Pouco ela se importa com seu império e com as riquezas que são suas. Ela sempre guarda em sua memória a hora em que Cligés foi embora, e a licença que ele tomou dela, como ele mudou de cor e ficou pálido, e como chorosa estava sua expressão, pois ele veio chorar em sua presença humilde e simplesmente sobre os joelhos, como se constrangido a adorá-la. Tudo isso é doce e prazeroso para ela lembrar e pensar. E depois, como um pequeno deleite, ela toma em sua língua em vez de especiaria uma doce palavra que por toda a Grécia ela não desejaria que ele tivesse usado contrariamente ao sentido que ela tinha entendido quando ele a proferiu pela primeira vez; pois ela vive de nenhuma outra iguaria, e não há nada mais que a agrade. Esta palavra sozinha a sustenta e nutre, e apazigua toda a sua dor. Ela não se importa em comer e beber de nenhum outro prato ou bebida, pois quando os dois amantes vieram a separar-se, Cligés tinha dito que era "inteiramente dela". Esta palavra é tão doce e tem um gosto tão bom que da língua ela agita seu coração, e ela a toma em sua boca e coração para ter ainda mais certeza dela. Sob qualquer outra fechadura ela não ousaria guardar este tesouro. Em lugar nenhum poderia ser alojado tão bem quanto em seu próprio seio. Ela nunca deixará exposto a qualquer preço, estando com tanto medo de ladrões e gatunos. Mas não há motivo para sua ansiedade, e ela não precisa ter medo das aves de rapina, pois seu tesouro não é móvel, mas é antes como uma casa que não pode ser destruída pelo fogo ou pela inundação, mas sempre ficará fixa em um único lugar. Mas ela não sente confiança no assunto, então ela se preocupa e se esforça para encontrar e manter algum terreno sobre o qual ficar, interpretando a situação de diversas maneiras. Ela tanto se opõe quanto defende sua posição, e se envolve no seguinte argumento: "Com que intenção Cligés diria 'Sou inteiramente teu' a menos que fosse o amor que o incitasse? Que poder posso ter sobre ele para que ele me estime tão altamente a ponto de me tornar a senhora de seu coração? Não é ele mais belo do que eu, e de posição mais elevada do que eu? Não vejo nisso nada além do amor, que poderia conceder-me tal benefício. Eu, que não posso escapar de seu poder, provarei pelo meu próprio caso que, a menos que ele me amasse, ele nunca diria que era meu; a menos que o amor o segure em suas redes, Cligés nunca poderia dizer que era meu, mais do que eu poderia dizer que era inteiramente dele a menos que o amor me tivesse colocado em suas mãos. Pois se ele não me ama, pelo menos ele não me teme. Espero que o amor que me dá a ele me devolva ele a mim. Mas agora estou dolorosamente consternada porque é uma palavra tão banal, e posso estar simplesmente enganada, pois muitos há que em termos lisonjeiros dirão até a um completo estranho: 'Eu e tudo o que tenho são teus', e eles são mais tagarelas ociosos do que os gaios. Então eu não sei o que pensar, pois poderia muito bem acontecer que ele o dissesse apenas para me lisonjear. No entanto, vi sua cor mudar, e vi-o chorando piedosamente. A meu ver, as lágrimas e seu rosto confuso e pálido não foram produzidos por traição, nem foram frutos de truques. Aqueles olhos dos quais vi lágrimas rolarem não eram culpados de falsidade. Sinais suficientes de amor vi, se sei alguma coisa sobre isso. Sim, em má hora pensei no amor; ai de mim que algum dia o aprendi, pois a experiência tem sido amarga. Tem sido mesmo? Sim, verdadeiramente. Estou morta quando não posso ver aquele que roubou meu coração com sua lisonja sedutora, por causa da qual meu coração deixa sua morada, e não quer habitar comigo, odiando meu lar e estabelecimento. Em verdade fui mal tratada por aquele que tem meu coração sob sua guarda. Aquele que me rouba e toma o que é meu não pode me amar, disso tenho certeza. Mas estou certa? Por que então ele chorou? Por quê? Não foi em vão, pois havia causa suficiente. Não devo assumir que fui a causa disso, pois uma pessoa sempre reluta em deixar as pessoas que ama e conhece. Então não é estranho se ele estava triste e aflito e se ele chorou quando deixou alguém que ele conhecia. Mas aquele que lhe deu este conselho para ir e habitar na Bretanha não poderia ter me atingido mais efetivamente. É atingido no âmago aquele que perde seu coração. Aquele que o merece deve ser mal tratado; mas eu nunca mereci tal tratamento. Ai, infeliz, por que Cligés me matou quando sou inocente? Mas sou injusta ao acusá-lo assim sem causa. Certamente Cligés nunca teria me abandonado se seu coração fosse como o meu. Tenho certeza de que seu coração não é como o meu. E se meu coração está alojado no dele, ele nunca se afastará, e o dele nunca se separará do meu, pois meu coração o segue secretamente: eles formaram uma companhia tão boa. Mas, afinal, para dizer a verdade, eles são muito diferentes e contrários. Como são diferentes e contrários? Por que, o dele é o mestre e o meu o escravo; e o escravo não pode ter vontade própria, mas apenas fazer a vontade de seu mestre e abandonar todos os outros assuntos. Mas que referência isso tem para mim? Meu coração e serviço não são da conta dele. Este arranjo me angustia, que um seja mestre de nós dois. Por que meu coração não é tão independente quanto o dele? Então seu poder seria equalizado. Meu coração é agora um prisioneiro, incapaz de se mover a menos que o dele também se mova. E se seu coração vagueia ou permanece quieto, o meu deve necessariamente preparar-se para segui-lo em seu comboio. Deus! por que nossos corpos não estão tão próximos um do outro que eu pudesse de alguma forma trazer de volta meu coração! Trazer de volta? Tola, se eu o removesse de sua alegria, eu seria a morte dele. Deixa-o ficar lá! Não tenho desejo de desalojá-lo, mas antes desejo que ele demore com seu senhor até que ele sinta alguma piedade dele. Pois melhor do que aqui, lá deveria ele ter misericórdia de seu servo, porque eles estão ambos em uma terra estrangeira. Se meu coração conhece bem a linguagem da lisonja, como é necessário para o cortesão, ele será rico antes que volte. Quem deseja estar nas boas graças de seu senhor e sentar-se ao lado dele à sua direita, para estar na moda hoje em dia, deve remover a pena de sua cabeça, mesmo quando não há nenhuma lá. Mas há uma má característica desta prática: enquanto ele está alisando seu mestre, que está cheio de maldade e vilania, ele nunca será tão cortês a ponto de lhe dizer a verdade; antes, ele o faz pensar e acreditar que ninguém poderia se comparar a ele em bravura e em conhecimento, e o mestre pensa que ele está dizendo a verdade. Aquele homem não conhece a si mesmo, aquele que aceita a palavra de outro sobre qualidades que não possui. Pois mesmo que ele seja um miserável perverso e insolente, e tão covarde quanto uma lebre, mesquinho, louco e deformado, e um vilão tanto em palavra quanto em ação--ainda assim algum homem o elogiará em sua face, que pelas costas zombará dele. Mas quando aos ouvidos dele ele fala dele a algum outro, ele o elogia, enquanto seu senhor finge não ouvir o que eles dizem entre si; se, contudo, ele pensasse que não seria ouvido, ele diria algo que seu mestre não gostaria. E se seu mestre se compraz em mentir, o servo está pronto com seu consentimento, e nunca hesitará em afirmar que tudo o que seu mestre diz é verdade. Aquele que frequenta cortes e senhores deve estar sempre pronto com uma mentira. Assim, também, deve fazer meu coração se quiser encontrar favor com seu senhor. Deixa-o lisonjear e ser obsequioso. Mas Cligés é tal cavaleiro, tão belo, tão aberto e tão leal, que meu coração, ao elogiá-lo, nunca precisa ser falso ou pérfido, pois nele não há nada a ser melhorado. Portanto, desejo que meu coração o sirva, pois, como corre o provérbio do povo, 'Aquele que serve a um homem nobre é realmente mau se ele não melhorar em sua companhia.'"
Assim o amor atormenta Fenice. Mas esse tormento é o seu deleite, do qual ela jamais pode se cansar. E Cligés agora cruzou o mar e chegou a Wallingford. Ali, tomou aposentos caros com grande pompa. Mas seus pensamentos estão sempre em Fenice, sem esquecê-la por uma única hora. Enquanto ele se demora e hesita ali, seus homens, agindo sob suas instruções, fizeram diligentes inquirições. Foram informados de que os barões do Rei Arthur e o próprio Rei haviam marcado um torneio para ser realizado na planície diante de Oxford, que fica perto de Wallingford. Ali a luta foi organizada, e deveria durar quatro dias. Mas Cligés terá tempo abundante para se preparar se, entretanto, precisar de algo, pois mais de uma quinzena deve decorrer antes que o torneio comece. Ele ordena a três de seus escudeiros que vão rapidamente a Londres e lá comprem três conjuntos diferentes de armas, um preto, outro vermelho, o terceiro verde, e que, no caminho de volta, cada um seja mantido coberto com um pano novo, para que, se alguém os encontrar na estrada, não saiba a cor das armas que carregam. Os escudeiros partem imediatamente e chegam a Londres, onde encontram disponível tudo o que precisam. Tendo terminado essa tarefa, retornam prontamente sem perder tempo. Quando as armas que trouxeram foram mostradas a Cligés, ele ficou muito satisfeito com elas. Ordenou que fossem guardadas e escondidas, juntamente com aquelas que o imperador lhe dera junto ao Danúbio, quando o sagrou cavaleiro. Não escolho contar-lhe agora por que ele as mandou guardar; mas ser-lhe-á explicado quando todos os altos barões da terra estiverem montados em seus corcéis e se reunirem em busca de fama.
No dia que fora acordado, os nobres de renome reuniram-se. O Rei Arthur, com todos os seus homens que selecionara entre os melhores, tomou sua posição em Oxford, enquanto a maioria dos cavaleiros se enfileirava perto de Wallingford. Não espere que eu atrase a história e lhe diga que este ou aquele rei e conde estavam lá, e que este, aquele e o outro eram do número. Quando chegou a hora de os cavaleiros se reunirem, de acordo com o costume daqueles dias, surgiu sozinho, entre duas linhas, um dos mais valentes cavaleiros do Rei Arthur para anunciar que o torneio deveria começar. Mas, neste caso, ninguém se atreve a avançar e enfrentá-lo para a justa. Não há quem não recue. E há alguns que perguntam: "Por que esses nossos cavaleiros se demoram, sem dar um passo à frente das fileiras? Alguém certamente começará logo." E os outros respondem: "Não vedes, então, que adversário aquele grupo enviou contra nós? Qualquer um que não saiba deve aprender que ele é um pilar, capaz de estar ao lado dos três melhores do mundo." "Quem é ele, então?" "Ora, não vedes? É Sagremor, o Selvagem." "É ele?" "Certamente é." Cligés escuta e ouve o que dizem, enquanto senta em seu cavalo Morel, trajado em armadura mais preta que uma amora: pois toda a sua armadura era preta. Conforme ele emerge das fileiras e esporeia Morel para fora da multidão, não há um, ao vê-lo, que não exclame ao seu vizinho: "Aquele sujeito cavalga bem com a lança em riste; é um cavaleiro muito habilidoso e carrega suas armas com muita destreza; seu escudo encaixa-se bem ao redor de seu pescoço. Mas deve ser um tolo para se aventurar por vontade própria a justar com um dos mais valentes cavaleiros que se pode encontrar em toda a terra. Quem pode ele ser? Onde nasceu? Quem o conhece aqui?" "Eu não." "Nem eu." "Não há um floco de neve nele; mas toda a sua armadura é muito mais preta do que a capa de qualquer monge ou prior." Enquanto assim conversam, os dois competidores dão rédeas aos seus cavalos sem demora, pois estão muito ansiosos e desejosos de se encontrarem no combate. Cligés golpeia-o de tal modo que esmaga o escudo contra seu braço, e o braço contra seu corpo, momento em que Sagremor cai de corpo inteiro. Cligés vai infalivelmente e ordena-lhe que se declare seu prisioneiro, o que Sagremor faz de imediato. Agora o torneio está devidamente iniciado, e adversários se encontram em rivalidade. Cligés corre pelo campo, buscando adversários com quem justar, mas não há um cavaleiro que se apresente que ele não derrube ou tome como prisioneiro. Ele supera em glória todos os cavaleiros de ambos os lados, pois, onde quer que ele vá para a batalha, ali a luta é rapidamente encerrada. Aquele homem pode ser considerado bravo se mantiver sua posição para justar com ele, pois é mais mérito ousar enfrentá-lo do que derrotar outro cavaleiro. E se Cligés o leva como prisioneiro, por isso ao menos ele ganha renome, por ter ousado esperar e lutar com ele. Cligés ganha a fama e a glória de todo o torneio. Quando a noite chegou, ele se recolheu secretamente ao seu alojamento para que ninguém pudesse ter qualquer palavra com ele. E para que ninguém procurasse a casa onde as armas pretas estão expostas, ele as guarda em um quarto para que ninguém possa encontrá-las ou vê-las, e pendura suas armas verdes na porta da rua, onde ficarão em evidência e onde os transeuntes as verão. E se alguém pergunta e indaga onde fica seu alojamento, não pode descobrir ao não ver sinal do escudo preto que procura.
Por esse estratagema, Cligés permanece escondido na cidade. E aqueles que foram seus prisioneiros iam de uma ponta a outra da cidade perguntando pelo cavaleiro negro, mas ninguém podia lhes dar qualquer informação. Até o próprio Rei Arthur manda procurar por ele por toda parte; mas há apenas uma resposta: "Não o vimos desde que deixamos as listas e não sabemos o que aconteceu com ele." Mais de vinte jovens, enviados pelo Rei, procuram por ele; mas Cligés se escondeu tão bem que não conseguem encontrar um rastro dele. O Rei Arthur fica cheio de espanto quando é informado de que ninguém, de alta ou baixa linhagem, pode apontar seu alojamento, tanto quanto se ele estivesse em Cesareia, Toledo ou Creta. "Pela minha palavra", diz ele, "não sei o que possam dizer, mas para mim isto parece uma coisa maravilhosa. Talvez fosse um fantasma que apareceu em nosso meio. Muitos cavaleiros foram derrubados, e homens nobres juraram fé a alguém cuja casa não conseguem encontrar, ou mesmo seu país ou localidade; cada um desses homens, forçosamente, deve falhar em manter sua promessa." Assim o Rei falou sua mente, mas poderia muito bem ter guardado silêncio.
Naquela noite, entre todos os barões, houve muita conversa sobre o cavaleiro negro, pois, na verdade, não falavam de outra coisa. No dia seguinte, armaram-se novamente sem convocação e sem pedido. Lancelot do Lago, em quem não falta coragem, cavalga com a lança erguida para aguardar um competidor na primeira justa. Eis que chega Cligés, cavalgando rápido, mais verde que a relva do campo, e montado em um corcel vermelho baio, carregando sua crina do lado direito. Onde quer que Cligés esporeie o cavalo, não há ninguém, com ou sem cabelos, que não olhe para ele maravilhado e exclame ao seu vizinho de ambos os lados: "Este cavaleiro é, em todos os aspectos, mais gracioso e habilidoso do que aquele que ontem usava as armas pretas, assim como um pinheiro é mais belo que uma faia branca, e o louro mais que o sabugueiro. Ainda não sabemos quem foi o vencedor de ontem; mas saberemos hoje à noite quem é este homem." Cada um responde: "Não o conheço, nem nunca o vi, que eu saiba. Mas ele é mais belo do que aquele que lutou ontem, e mais belo que Lancelot do Lago. Se este homem cavalgasse armado em um saco e Lancelot em prata e ouro, este homem ainda seria mais belo que ele." Assim, todos tomam o partido de Cligés. E os dois campeões impulsionam seus corcéis com toda a força da espora. Cligés dá-lhe um golpe tal sobre o escudo dourado com o leão nele retratado que o derruba de sua sela e permanece sobre ele para receber sua rendição. Para Lancelot não houve ajuda; então, ele admitiu ser seu prisioneiro. Então o barulho recomeçou com o choque das lanças quebrando. Aqueles que estão do lado de Cligés depositam toda a sua confiança nele. Pois, daqueles a quem ele desafia e golpeia, não há ninguém tão forte que não deva cair de seu cavalo ao chão. Naquele dia, Cligés fez tão bem, e derrubou e tomou cativos tantos cavaleiros, que deu o dobro da satisfação ao seu lado e ganhou para si o dobro da glória que ganhara no dia anterior. Quando a noite chegou, dirigiu-se o mais rápido que pôde ao seu alojamento e rapidamente ordenou que tirassem o escudo vermelhão e suas outras armas, enquanto ordenava que as armas que usara naquele dia fossem guardadas: o anfitrião as colocou cuidadosamente de lado. Novamente naquela noite, os cavaleiros que ele capturara procuraram por ele, mas sem ouvir qualquer notícia dele. Em seus alojamentos, a maioria daqueles que falam dele o faz com elogios e admiração. No dia seguinte, os cavaleiros alegres e valentes retornam ao concurso. Do lado de Oxford surge um vassalo de grande renome — seu nome era Perceval de Gales. Assim que Cligés viu que ele começava, e soube com certeza quem era, quando ouviu o nome de Perceval, ficou muito ansioso para competir com ele. Saiu imediatamente das fileiras em um corcel castanho espanhol, e completamente trajado em armadura vermelhão. Então todos olham para ele, maravilhando-se mais do que nunca antes, e dizendo que nunca viram um cavaleiro tão perfeito. E os competidores, sem demora, esporeiam até que seus poderosos golpes caem sobre seus escudos. As lanças, embora fossem curtas e grossas, dobram-se até parecerem arcos. À vista de todos os que olhavam, Cligés golpeou Perceval tão forte que o derrubou de seu cavalo e o fez render-se sem uma longa luta ou muito alvoroço. Quando Perceval deu sua palavra, a justa começou novamente, e o combate tornou-se geral. Todo cavaleiro que Cligés encontra ele força ao chão. Ele não deixou as listas naquele dia nem por uma única hora, enquanto todos os outros golpeavam-no como a uma torre — individualmente, é claro, e não em grupos de dois ou três, pois tal não era o costume então. Sobre seu escudo, como sobre uma bigorna, os outros golpeiam e martelam, rachando-o e cortando-o em pedaços. Mas cada um que o golpeia ali, ele paga de volta derrubando-o de seus estribos e sela; e ninguém, a menos que quisesse mentir, poderia deixar de dizer, quando a justas cessaram, que o cavaleiro com o escudo vermelho vencera toda a glória naquele dia. E todos os melhores e mais corteses cavaleiros teriam gostado de fazer sua amizade. Mas seu desejo não foi sentido antes que ele partisse secretamente, vendo o sol já posto; e ele mandou remover seu escudo vermelhão e toda a sua outra armadura, e ordenou que trouxessem suas armas brancas, nas quais fora primeiramente sagrado cavaleiro, enquanto as outras armas e os corcéis eram presos do lado de fora da porta. Aqueles que notam isso percebem e exclamam que todos foram derrotados e arruinados por um único homem; pois a cada dia ele se disfarçava com um cavalo e um conjunto de armadura diferente, parecendo assim mudar sua identidade; pela primeira vez agora notaram isso. E meu senhor Gawain proclamou que nunca vira tal campeão, e, portanto, desejava fazer sua amizade e saber seu nome, anunciando que no dia seguinte ele mesmo será o primeiro na reunião dos cavaleiros. Contudo, com tudo isso, ele não se gaba; por outro lado, diz que espera plenamente que o cavaleiro estranho tenha toda a vantagem com a lança; mas pode ser que com a espada ele não seja seu superior (pois com a espada Gawain não tinha mestre). Agora é o desejo de Gawain medir sua força no dia seguinte com este cavaleiro estranho que muda a cada dia suas armas, bem como seu cavalo e armadura. Suas mudas logo serão numerosas se ele continuar assim a cada dia, como é seu costume, descartar suas velhas e assumir novas plumagens. Assim, quando pensava na espada e na lança, respectivamente, Gawain menosprezava e estimava altamente a proeza de seu inimigo. No dia seguinte, ele vê Cligés voltar mais branco que a flor-de-lis, seu escudo agarrado firmemente pelas correias internas e sentado em seu corcel árabe branco, como planejara na noite anterior. Gawain, bravo e ilustre, não busca repouso no campo de batalha, mas esporeia e cavalga à frente, esforçando-se o melhor que pode para ganhar honra no combate, se puder encontrar um oponente. Em um momento ambos estarão no campo. Pois Cligés não tinha desejo de recuar quando ouviu as palavras dos homens que diziam: "Lá vai Gawain, que não é nenhum fraco nem a pé nem a cavalo. Ele é um homem a quem ninguém atacará." Quando Cligés ouve essas palavras, ele corre em direção a ele no meio do campo; ambos avançam e se encontram com um salto mais veloz que o do veado que ouve o som dos cães que vêm latindo atrás dele. As lanças são lançadas contra os escudos, e os golpes produzem tal estrago que as lanças se partem, racham e quebram até o cabo, e os arcos da sela atrás cedem, e as cilhas e peitorais arrebentam. Ambos caem ao chão ao mesmo tempo e desembainham suas espadas nuas, enquanto os outros se reúnem ao redor para assistir à batalha. Então o Rei Arthur deu um passo à frente para separá-los e estabelecer a paz. Mas antes que a trégua fosse jurada, as cotas de malha brancas estavam gravemente rasgadas e despedaçadas, os escudos rachados e cortados em pedaços, e os elmos esmagados.
O Rei observou-os com prazer por um tempo, assim como muitos outros que disseram que estimavam os feitos de armas do cavaleiro branco não menos do que aqueles do meu senhor Gawain, e não estavam prontos ainda para dizer qual era o melhor e qual o pior, nem quem provavelmente venceria, se tivessem sido autorizados a lutar até o fim; mas não agradou ao Rei deixá-los fazer mais do que haviam feito. Então ele deu um passo à frente para separá-los, dizendo: "Parem agora! Ai se outro golpe for desferido! Façam a paz agora, e sejam bons amigos. Belo sobrinho Gawain, faço este pedido a vós; pois sem ressentimento e ódio não é conveniente para um cavalheiro continuar a lutar e desafiar seu inimigo. Mas se este cavaleiro consentisse em vir à minha corte e juntar-se ao nosso esporte, não seria para sua tristeza ou dano. Sobrinho, fazei este pedido a ele." "Com prazer, meu senhor." Cligés não tem desejo de recusar, e consente alegremente em ir quando o torneio for concluído. Pois agora ele cumpriu mais do que suficientemente a injunção de seu pai. E o Rei diz que não tem desejo de que o torneio dure muito tempo, e que eles podem se dar ao luxo de parar imediatamente. Então os cavaleiros se retiraram, de acordo com o desejo e ordem do Rei. Agora que ele deve seguir na comitiva real, Cligés manda buscar toda a sua armadura. Assim que pode, ele vem à corte; mas primeiro, ele mudou completamente seu equipamento e veio vestido no estilo dos franceses. Assim que chegou à corte, todos correram para encontrá-lo sem demora, fazendo tal alegria e festa que nunca se viu maior, e todos aqueles o chamam de senhor a quem ele capturara na justa; mas ele não queria ouvir nada disso, e disse que todos poderiam ir livres, se estivessem bem certos e satisfeitos de que fora ele quem os capturara. E não houve um que não gritasse: "Vós fostes o homem; estamos certos disso! Valorizamos altamente vossa amizade, e deveríamos amar-vos, estimar-vos e chamar-vos de nosso senhor, pois nenhum de nós pode igualar-vos. Assim como o sol ofusca as pequenas estrelas, de modo que sua luz não pode ser vista no céu quando os raios do sol aparecem, assim nossa proeza é extinta e rebaixada na presença da vossa, embora a nossa também fosse outrora famosa no mundo." Cligés não sabe o que responder, pois, em sua opinião, todos o elogiam mais do que ele merece; isso o agrada, mas ele sente vergonha, e o sangue sobe ao seu rosto, revelando a todos sua modéstia. Escoltando-o para o meio do salão, levaram-no ao Rei, onde todos cessaram suas palavras de cumprimento e elogio. A hora da refeição chegara, e aqueles cujo dever era apressaram-se em preparar as mesas. As mesas no salão foram rapidamente postas, então, enquanto alguns pegavam as toalhas e outros seguravam as bacias, ofereceram água a todos que chegavam. Quando todos lavaram as mãos, tomaram seus assentos. E o Rei, pegando Cligés pela mão, fê-lo sentar-se à sua frente, pois desejava saber neste mesmo dia, se possível, quem ele era. Da refeição não preciso falar mais, pois os pratos estavam tão bem servidos como se a carne estivesse sendo vendida a um centavo.
Quando todos os pratos foram servidos, o Rei não conteve mais o seu silêncio. "Meu amigo", diz ele, "desejo saber se foi por orgulho que não te dignaste a vir à corte assim que chegaste a este país, e por que te mantiveste afastado das pessoas, e por que mudaste as tuas armas; e dize-me também qual é o teu nome e de que raça procedes." Cligés responde: "Não será ocultado." Ele contou e relatou ao Rei tudo o que ele desejava saber. E quando o Rei ouviu tudo, abraçou-o e fez grande caso dele, enquanto todos se uniam para cumprimentá-lo. E quando meu senhor Gawain soube a verdade, ele, mais do que os outros, acolheu-o cordialmente. Assim, todos se unem para saudá-lo, dizendo que ele é muito belo e valente. O Rei ama-o e honra-o acima de todos os seus sobrinhos. Cligés permanece com o Rei até que o verão chegue, visitando, entretanto, toda a Bretanha, França e Normandia, onde realizou tantas façanhas cavalheirescas que provou cabalmente o seu valor. Mas o amor, cuja ferida ele carrega, não lhe dá paz nem alívio. A inclinação do seu coração mantém-no fixo em um único pensamento. Seu pensamento volta-se para Fenice, que de longe aflige o seu coração. O desejo de voltar toma conta dele; pois ele foi privado por muito tempo da visão da dama mais desejada que jamais foi desejada por alguém. Ele não prolongará esta privação, mas prepara-se para retornar à Grécia e parte, após despedir-se. O Rei e meu senhor Gawain ficaram pesarosos, posso bem acreditar, quando já não puderam detê-lo. Mas ele está ansioso por retornar àquela a quem ama e tanto cobiça, que o caminho lhe parece longo enquanto atravessa terra e mar: tão ardentemente ele anseia pela visão daquela que roubou e surrupiou o seu coração. Mas ela compensa-o plenamente; pois ela paga-lhe, por assim dizer, como um aluguel, a moeda do seu próprio coração, que não lhe é menos caro. Mas ele não tem certeza alguma disso, não tendo contrato ou acordo para mostrar; pelo que a sua ansiedade é grande. E ela está em aflição não menos grave, perseguida e atormentada pelo amor, não encontrando prazer em nada do que vê desde o momento em que o viu pela última vez. O fato de ela sequer saber se ele está vivo ou não enche o seu coração de angústia. Mas Cligés aproxima-se dia após dia, sendo afortunado por ter ventos favoráveis, até que alegremente chega ao porto diante de Constantinopla. Quando a notícia chegou à cidade, ninguém precisa perguntar se o imperador estava contente; mas cem vezes maior era a alegria da imperatriz.
Cligés, com a sua companhia, tendo desembarcado em Constantinopla, está agora de volta à Grécia. Os homens mais ricos e nobres vêm todos ao seu encontro no porto. E quando o imperador o encontra, ele que antes de todos os outros tinha ido ao seu encontro com a imperatriz ao seu lado, corre para abraçá-lo e cumprimentá-lo na presença de todos. E quando Fenice o acolhe, cada um muda de cor na presença do outro, e é, de fato, uma maravilha, quando estão tão próximos um do outro, como se contêm de se abraçarem e trocarem beijos como o amor desejaria; mas isso teria sido loucura e insensatez. O povo reúne-se de todos os lados com o desejo de vê-lo e conduz-no através da cidade, alguns a pé e outros a cavalo, até que o trazem ao palácio imperial. Nenhuma palavra pode jamais descrever a alegria, a honra e o serviço cortês que ali foram exibidos. Mas cada um esforçava-se como melhor podia para fazer tudo o que pensava que agradaria e satisfaria Cligés. E o seu tio entrega-lhe todas as suas posses, exceto a coroa: ele deseja que ele satisfaça plenamente o seu prazer e que tome tudo o que desejar da sua riqueza, seja na forma de terra ou tesouro. Mas ele não se importa com prata ou ouro, contanto que não ouse revelar os seus pensamentos àquela por causa de quem não consegue encontrar repouso; e ainda assim ele tem tempo e oportunidade de sobra para falar, se não tivesse medo de ser repelido; pois agora ele pode vê-la todos os dias e sentar-se ao lado dela "tete-a-tete" sem oposição ou impedimento, pois ninguém vê mal nisso.
Algum tempo depois do seu retorno, ele veio sozinho um dia ao quarto daquela que não era sua inimiga, e pode ter certeza de que a porta não estava trancada à sua aproximação. Ao lado dela ele tomou o seu assento, enquanto os outros se afastavam, para que ninguém pudesse estar sentado perto deles e ouvir as suas palavras. Primeiro, Fenice falou da Bretanha e perguntou-lhe sobre o caráter e a aparência do meu senhor Gawain, até que as suas palavras finalmente atingiram o assunto que a enchia de pavor. Ela perguntou-lhe se ele tinha entregue o seu amor a alguma dama ou donzela naquela terra. Cligés não foi obstinado ou lento para responder a esta pergunta, mas ele soube imediatamente que resposta dar assim que ela colocou a questão. "Senhora", diz ele, "eu estava apaixonado enquanto lá estive, mas não de alguém daquela terra. Na Bretanha, o meu corpo estava sem o meu coração, como um pedaço de casca sem a madeira. Desde que deixei a Alemanha, não soube o que aconteceu com o meu coração, exceto que ele veio para cá atrás de vós. O meu coração estava aqui e o meu corpo estava lá. Eu não estava realmente longe da Grécia; pois para cá o meu coração tinha vindo, pelo que agora voltei novamente; contudo, ele não retorna ao seu lugar de alojamento, nem posso trazê-lo de volta para mim, nem desejo fazê-lo, se pudesse. E vós, como tem sido convosco, desde que viestes para este país? Que alegria tivestes aqui? Gostais das pessoas, gostais da terra? Eu não deveria fazer-vos outra pergunta que não seja se o país vos agrada." "Não me tem agradado até agora; mas, no momento, sinto uma certa alegria e satisfação, a qual, podeis ter certeza, eu não perderia por Pavia ou Piacenza. Desta alegria não posso arrancar o meu coração, nem jamais usarei de força na tentativa. Nada além da casca restou em mim, pois vivo e existo sem um coração. Nunca estive na Bretanha e, no entanto, sem mim, o meu coração esteve envolvido em negócios lá, não sei quais." "Senhora, quando foi que o vosso coração esteve lá? Dizei-me quando ele foi para lá, o tempo e a estação, se é algo que possais razoavelmente dizer-me ou a qualquer outra pessoa. Foi lá enquanto eu lá estava?" "Sim, mas não estivestes ciente disso. Ele esteve lá enquanto lá estivestes e veio embora novamente convosco." "Deus! Eu nunca o vi, nem soube que ele estava lá. Deus! Por que não soube disso? Se eu tivesse sido informado disto, certamente, minha senhora, ter-lhe-ia feito companhia agradável." "Ter-me-íeis recompensado com o consolo que realmente me devíeis, pois eu teria sido muito graciosa para com o vosso coração se ele tivesse tido o prazer de vir para onde poderia saber que eu estava." "Senhora, certamente ele veio até vós." "Até mim? Então ele não veio a nenhum lugar estranho, pois o meu também foi até vós." "Então, senhora, de acordo com o que dizeis, os nossos corações estão aqui conosco agora, pois o meu coração está inteiramente em vossas mãos." "Vós, por vossa vez, tendes o meu, meu amigo; portanto, estamos em perfeito acordo. E podeis ter certeza, que Deus me ajude, que o vosso tio nunca compartilhou de mim, pois não era o meu prazer, e ele não poderia. Nunca ele me conheceu como Adão conheceu a sua esposa. Por erro sou chamada de esposa; mas tenho certeza de que quem quer que me chame de esposa não sabe que ainda sou donzela. Até o vosso tio não está ciente disso, pois, tendo bebido a poção do sono, ele pensa que está acordado quando está adormecido, e ele imagina que se diverte comigo enquanto eu jazendo no seu abraço. Mas a sua exclusão tem sido completa. O meu coração é vosso, e o meu corpo também, e de mim ninguém jamais aprenderá como praticar vilania. Pois quando o meu coração foi até vós, ele presenteou-vos com o corpo também, e fez o juramento de que nenhum outro jamais compartilharia dele. O amor por vós feriu-me tão profundamente que nunca me recuperaria disso, assim como o mar não pode secar. Se eu vos amo e vós me amais, nunca sereis chamado de Tristão, nem eu de Isolda; pois então o nosso amor não seria honroso. Mas faço-vos esta promessa: nunca tereis outro prazer comigo do que aquele que agora tendes, a menos que possais conceber algum meio pelo qual eu possa ser removida do vosso tio e da sua sociedade sem que ele me encontre novamente, ou seja capaz de culpar a vós ou a mim, ou ter qualquer motivo para acusação. E amanhã me direis o melhor plano que concebestes, e eu, também, pensarei nisso. Amanhã, assim que eu me levantar, vinde falar comigo; então cada um de nós falará o que pensa, e prosseguiremos para executar o que parecer melhor."
Assim que Cligés ouviu a sua vontade, ficou plenamente de acordo com ela e disse que essa seria a melhor coisa a fazer. Ele deixa-a feliz e parte com o coração leve também. Naquela noite, cada um permanece acordado pensando, com grande deleite, sobre qual será o melhor plano. Na manhã seguinte, assim que se levantaram, reúnem-se novamente para aconselharem-se em particular, como de fato devem. Cligés fala primeiro e diz o que tinha pensado na noite anterior: "Minha senhora", diz ele, "penso, e sou da opinião, de que não poderíamos fazer melhor do que ir para a Bretanha; pensei que poderia levar-vos para lá; agora não recuseis, pois nunca Helena foi tão alegremente recebida em Troia quando Páris a levou para lá, mas ainda maior alegria seria sentida por vós e por mim na terra do Rei, meu tio. E se este plano não encontrar o vosso favor, dizei-me o que pensais, pois estou pronto, aconteça o que acontecer, a acatar a vossa decisão." E ela responde: "Esta é a minha resposta: nunca partirei convosco assim; pois, depois que tivéssemos partido, todos falariam de nós como fazem de Isolda, a Loira, e de Tristão. E por toda parte todos os homens e mulheres falariam mal do nosso amor. Ninguém acreditaria, nem é natural que o fizessem, na verdade sobre o assunto. Quem acreditaria que eu, assim, tudo sem propósito, evitei e escapei do vosso tio ainda donzela? Eu seria vista simplesmente como leviana e dissoluta, e vós seríeis considerado louco. É bom lembrar e observar a injunção de São Paulo: se alguém não deseja viver casto, São Paulo aconselha-o a agir de modo que não receba nenhuma crítica, ou culpa, ou reprovação. É bom calar bocas más e, portanto, se concordardes, tenho uma proposta a fazer: parece-me melhor consentir em fingir que estou morta. Ficarei doente dentro de pouco tempo. E vós, entrementes, podeis planejar alguns preparativos para um lugar de sepultamento. Colocai todo o vosso engenho em prática para que um sepulcro e um esquife sejam construídos de tal forma que eu não morra nele, ou seja sufocada, e que ninguém monte guarda sobre ele à noite quando vierdes me tirar de lá. Portanto, buscai agora tal retiro para mim, onde ninguém me veja exceto vós; e que ninguém supra qualquer necessidade minha exceto vós, a quem me rendo e me entrego. Nunca, por toda a minha vida, desejo ser servida por outro homem que não vós. Meu senhor e meu servo sereis; o que quer que façais parecerá bom para mim; e nunca serei senhora de qualquer império a menos que sejais o seu mestre. Qualquer lugar miserável, por mais escuro e imundo que seja, parecerá mais brilhante para mim do que todos estes salões se estiverdes comigo. Se eu vos tiver onde possa ver-vos, serei senhora de um tesouro sem limites e o mundo pertencerá a mim. E se o negócio for cuidadosamente conduzido, nenhum mal virá disso, e ninguém jamais será capaz de falar mal dele, pois será acreditado por todo o império que estou apodrecendo no chão. Minha criada, Thessala, que tem sido minha ama, e em quem tenho grande confiança, dar-me-á ajuda fiel, pois ela é muito esperta e confio nela plenamente." E Cligés, quando ouviu a sua amada, responde: "Minha senhora, se isto é exequível, e se pensais que o conselho da vossa ama é confiável, não temos nada a fazer senão fazer os nossos preparativos sem demora; mas se cometermos qualquer imprudência, estamos perdidos sem escapatória. Nesta cidade há um artesão que corta e esculpe imagens maravilhosas: não há terra onde ele não seja conhecido pelas figuras que ele moldou, esculpiu e fez. John é o seu nome e ele é um servo meu. Ninguém poderia lidar com os melhores esforços de John em qualquer arte, por mais variada que fosse. Pois, comparados com ele, são todos noviços e como uma criança com a ama. Ao imitar o seu trabalho manual, os artesãos de Antioquia e Roma aprenderam tudo o que sabem fazer, e além disso não há homem mais leal. Agora quero fazer um teste, e se eu puder depositar confiança nele, eu o libertarei e a todos os seus descendentes; e não deixarei de lhe contar todo o nosso plano se ele jurar e me der a sua palavra de que me ajudará lealmente e nunca divulgará o meu segredo."
E ela responde: "Que assim seja." Com a permissão dela, Cligés deixou o quarto e foi embora. E ela manda chamar Thessala, sua criada, que ela trouxe consigo da sua terra natal. Thessala veio imediatamente sem demora, ainda sem saber por que foi convocada. Quando ela perguntou a Fenice em particular qual era o seu desejo e prazer, ela não lhe escondeu nenhuma das suas intenções. "Ama", disse ela, "sei muito bem que qualquer coisa que eu vos diga não passará daqui, pois testei-vos minuciosamente e vos encontrei muito prudente. Amo-vos por tudo o que fizestes por mim. Em todos os meus problemas recorro a vós sem buscar conselho em outro lugar. Sabeis por que permaneço acordada e quais são os meus pensamentos e desejos. Meus olhos contemplam apenas um objeto que me agrada, mas não posso ter prazer ou alegria nele se não o comprar primeiro com um preço alto. Pois encontrei agora o meu par; e se eu o amo, ele me ama em retorno, e se eu sofro, ele sofre também pela minha dor e tristeza. Agora devo inteirar-vos de um plano e projeto sobre o qual nós dois concordamos privadamente." Então ela contou e explicou-lhe como estava disposta a fingir estar doente e se queixaria tão amargamente que, finalmente, fingiria estar morta, e como Cligés a roubaria à noite, e então estariam juntos todos os seus dias. Ela pensa que de nenhuma outra maneira conseguiria suportar viver por mais tempo. Mas se ela tivesse certeza de que consentiria em prestar a sua ajuda, o assunto seria arranjado de acordo com os seus desejos. "Mas estou cansada de esperar pela minha alegria e sorte." Então a sua ama assegurou-lhe que a ajudaria de todas as maneiras, dizendo-lhe para não ter mais medo. Ela disse que, assim que pusesse mãos à obra, faria com que não houvesse homem que, ao vê-la, não acreditasse certamente que a alma tinha deixado o corpo depois que ela bebesse uma poção que a deixaria fria, incolor, pálida e rígida, sem poder de fala e privada de saúde; contudo, ela estaria viva e bem, e não teria sensações de qualquer espécie, e não estaria nada pior por um dia e uma noite inteiros passados no sepulcro e no esquife.
Quando Fenice ouviu estas palavras, falou assim em resposta: "Ama, entrego-me a vós e, com total confiança em vós, não tomarei nenhuma medida em meu próprio nome. Estou em vossas mãos; portanto, pensai nos meus interesses e dizei a todas as pessoas que estão aqui para se retirarem, pois estou doente e elas me incomodam." Então, como uma mulher prudente, ela disse-lhes: "Meus senhores, minha senhora não está bem e deseja que todos vós váis embora. Estais falando alto e fazendo barulho, e o barulho é desagradável para ela. Ela não pode conseguir descanso ou repouso enquanto estiverdes no quarto. Nunca me lembro dela de ter se queixado de tal doença como esta, tão violenta e séria ela parece. Portanto, ide embora e não vos sintais ofendidos." Assim que ela emitiu este comando, todos rapidamente se retiram. E Cligés mandou chamar John para que viesse rapidamente e assim, em particular, falou-lhe: "John, sabes o que estou prestes a dizer? Tu és meu escravo e eu sou teu mestre, e eu posso doar ou vender o teu corpo como uma coisa que é minha. Mas se eu pudesse confiar em ti num assunto que medito, serias para sempre livre, bem como os herdeiros que possam nascer de ti." John, no seu desejo de liberdade, responde imediatamente: "Meu senhor, não há nada que eu não faria alegremente para ver a mim mesmo, minha esposa e filhos livres. Dizei-me quais são as vossas ordens, pois nada pode ser tão difícil a ponto de me causar qualquer trabalho ou dor ou ser difícil para mim executar. Quanto a isso, mesmo que fosse contra a minha vontade, eu precisaria obedecer às vossas ordens e abandonar os meus próprios assuntos." "Verdade, John; mas este é um assunto sobre o qual mal ouso falar, a menos que me assegures sob teu juramento que me darás ajuda fiel e nunca me trairás." "Com prazer, senhor", faz John em resposta: "não tenhais jamais medo por esse motivo! Pois jurarei e empenharei a minha palavra de que, enquanto eu viver, nunca direi uma palavra que eu pense que vos entristecerá ou causará dano." "Ah, John, mesmo que eu tivesse de morrer por isso, não há homem a quem eu ousaria mencionar o assunto no qual desejo o teu conselho; preferiria ter o meu olho arrancado; preferiria ser morto por ti do que tu falasses sobre isso a outro homem. Mas considero-te tão leal e prudente que revelarei a ti todo o meu pensamento. Tenho certeza de que observarás os meus desejos, tanto ajudando-me quanto mantendo a tua paz." "Verdadeiramente, senhor, que Deus me ajude!" Então Cligés fala e explica-lhe abertamente o plano aventureiro. E quando ele revelou o projeto, como me ouvistes expô-lo, então John disse que prometia construir o sepulcro de acordo com a sua melhor habilidade, e disse que o levaria para ver uma certa casa sua que ninguém ainda jamais tinha visto, nem mesmo a sua esposa ou qualquer filho seu. Esta casa, que ele tinha construído, ele mostrar-lhe-ia, se ele se importasse de ir com ele ao lugar onde, em absoluta privacidade, ele trabalha, pinta e esculpe. Ele mostrar-lhe-ia o lugar mais fino e bonito que ele jamais tinha visto. Cligés responde: "Vamos até lá então."
Abaixo da cidade, em um local remoto, John tinha despendido muito trabalho na construção de uma torre. Para lá ele conduziu Cligés, levando-o através dos diferentes andares, que eram decorados com belas pinturas. Mostra-lhe os cômodos e as lareiras, levando-o a toda parte, subindo e descendo. Cligés examina esta casa solitária onde ninguém vive ou tem acesso. Ele passa de um cômodo a outro, até que pensa ter visto tudo, e ele fica muito satisfeito com a torre e diz que a acha muito fina. A dama estará confortável ali enquanto viver, pois ninguém saberá de seu lugar de morada. "Não, senhor, o senhor tem razão; ela nunca será descoberta aqui. Mas pensa o senhor que viu toda a minha torre e meu belo retiro? Ainda restam aposentos tão ocultos que homem algum jamais poderia descobri-los. E se o senhor escolher testar a verdade disso investigando tão minuciosamente quanto puder, nunca poderá ser tão astuto e inteligente em sua busca a ponto de encontrar outro andar aqui, a menos que eu lho mostre e aponte. Deve saber que não faltam banhos aqui, nem qualquer outra coisa que uma dama precise, e que eu possa imaginar ou recordar. A dama estará aqui à vontade. Abaixo do nível do solo a torre alarga-se, como verá, e o senhor não poderá encontrar em lugar algum qualquer porta de entrada. A porta é feita de pedra dura com tal perícia e arte que o senhor não pode encontrar a fenda." Cligés diz: "Estas são coisas maravilhosas que ouço. Guie-me e eu o seguirei, pois estou ansioso para ver tudo isso." Então John começou a caminhar, tomando Cligés pela mão, até chegar a uma porta lisa e polida, toda colorida e pintada. Quando John chegou à parede, parou, segurando Cligés pela mão direita. "Senhor", diz ele, "não há ninguém que pudesse ver uma janela ou uma porta nesta parede; e pensa o senhor que alguém poderia passar por ela sem usar violência e derrubá-la?" E Cligés responde que não pensa assim, e que nunca pensará, a menos que veja primeiro. Então John diz que ele verá imediatamente, e que abrirá uma porta na parede para ele. John, que construiu esta obra, destrava a porta na parede e abre-a para ele, de modo que ele não precisa usar força ou violência para forçá-la; então, um subindo antes do outro, descem por uma escada em caracol até um aposento abobadado onde John costumava fazer seu trabalho, quando lhe agradava trabalhar em algo. "Senhor", diz ele, "de todos os homens que Deus jamais criou, ninguém além de nós dois esteve onde estamos agora. E o senhor verá logo como o lugar é conveniente. Meu conselho é que escolha este como seu retiro, e que sua amada seja alojada aqui. Estes aposentos são bons o suficiente para tal hóspede; pois há quartos, e banheiros com água quente nas tinas, que vem através de canos sob o solo. Quem quer que esteja procurando um lugar confortável no qual estabelecer e ocultar sua dama, teria que ir muito longe antes de encontrar algo tão encantador. Quando tiver explorado tudo minuciosamente, achará este lugar muito adequado." Então John mostrou-lhe tudo, belas câmaras e abóbadas pintadas, apontando muitos exemplos de seu trabalho que agradaram muito a Cligés. Quando tiveram examinado toda a torre, Cligés disse: "John, meu amigo, eu dou-lhe a liberdade e a todos os seus descendentes, e minha vida está absolutamente em suas mãos. Desejo que minha amada esteja aqui toda sozinha, e que ninguém saiba disso, exceto eu, você e ela." John responde: "Agradeço-lhe, senhor. Agora estivemos aqui o tempo suficiente, e como não temos mais nada a fazer, voltemos." "Está certo", diz Cligés, "partamos." Então eles vão embora, e deixam a torre. Em seu retorno, ouvem todos na cidade dizendo ao seu vizinho: "Não sabe das notícias maravilhosas sobre minha dama, a imperatriz? Que o Espírito Santo lhe dê saúde--a gentil e prudente dama; pois ela jaz doente de uma enfermidade grave."
Quando Cligés ouviu esta conversa, foi com pressa para a corte. Mas não havia alegria ou contentamento lá: pois todas as pessoas estavam tristes e prostradas por causa da imperatriz, que está apenas fingindo estar doente; pois a doença de que ela se queixa não lhe causa pesar ou dor. Mas ela disse a todos que não deseja que ninguém entre em seu quarto enquanto sua doença mantiver seu controle com suas dores acompanhantes em seu coração e cabeça. Ela faz uma exceção, contudo, em favor do imperador e seu sobrinho, não desejando impor um veto a eles; mas não se importará se o imperador, seu senhor, não vier. Por causa de Cligés, ela é compelida a passar por grande dor e perigo. Aflige-a que ele não venha, pois ela não tem desejo de ver ninguém além dele. Cligés, contudo, estará logo lá, para contar-lhe o que viu e encontrou. Ele entrou no quarto e falou com ela, mas ficou apenas um momento, pois Fenice, para que eles pudessem pensar que ela estava irritada pelo que lhe agradava tanto, gritou em voz alta: "Vá embora, vá embora! Você me perturba e incomoda demais, pois estou tão seriamente doente que nunca mais me levantarei." Cligés, embora satisfeito com isso, vai embora com um rosto triste: o senhor nunca veria um semblante tão aflito. A julgar por sua aparência, ele está muito triste; mas dentro de seu coração está alegre em antecipação de sua alegria.
A imperatriz, sem estar realmente doente, queixa-se e finge que está doente. E o imperador, que tem fé nela, não cessa de lamentar, e convoca um médico. Mas ela não permitirá que ninguém a veja ou a toque. O imperador pode bem sentir-se mortificado quando ela diz que nunca terá senão um médico, que pode facilmente restaurá-la à saúde sempre que lhe aprouver fazê-lo. Ele pode causar-lhe a morte ou a vida, e a ele ela confia sua saúde e vida. Eles pensam que ela se refere a Deus; mas seu significado é muito diferente, pois ela não está pensando em ninguém além de Cligés. Ele é seu deus que pode trazer-lhe saúde, ou que pode causar-lhe a morte.
Assim a imperatriz cuida para que nenhum médico a examine; e para enganar mais completamente o imperador, ela recusa comer ou beber, até que fica toda pálida e azulada. Enquanto isso, sua ama mantém-se ocupada ao redor dela, e com grande astúcia procurou privadamente por toda a cidade, sem o conhecimento de ninguém, até encontrar uma mulher que estava irremediavelmente doente com uma doença mortal. A fim de aperfeiçoar seu estratagema, ela costumava ir vê-la frequentemente e prometia curá-la de sua enfermidade; assim, cada dia ela costumava levar um urinol no qual examinar a urina, até que viu um dia que nenhum remédio poderia jamais ser de qualquer ajuda, e que ela morreria naquele mesmo dia. Esta urina Thessala levou consigo e guardou até que o imperador se levantasse, quando ela foi até ele e disse: "Se agora é sua vontade, meu senhor, mande chamar todos os seus médicos; pois minha senhora urinou; ela está muito doente com esta doença, e ela deseja que os médicos vejam, mas ela não deseja que eles venham onde ela está." Os médicos vieram ao salão e descobriram ao exame que a urina era muito ruim e incolor, e cada um disse o que pensava sobre isso. Finalmente, todos concordaram que ela nunca se recuperaria, e que ela dificilmente viveria até as três horas, quando, o mais tardar, Deus levaria sua alma para Si mesmo. A esta conclusão chegaram privadamente, quando o imperador pediu e conjurou-os a dizer-lhe a verdade. Eles respondem que não têm confiança em sua recuperação, e que ela não pode viver além das três horas, mas entregará sua alma antes desse tempo. Quando o imperador ouviu isso, quase caiu inconsciente no chão, assim como muitos outros que ouviram a notícia. Nunca fizeram as pessoas tal lamento como havia então por todo o palácio. Contudo, não falarei mais de sua dor; mas o senhor ouvirá sobre as atividades de Thessala--como ela mistura e prepara a poção. Ela misturou e agitou-a, pois tinha providenciado com muita antecedência tudo o que precisaria para a poção. Pouco antes das três horas ela dá a poção para ela beber. Imediatamente sua visão tornou-se turva, seu rosto ficou tão pálido e branco como se tivesse perdido seu sangue: ela não poderia ter movido um pé ou mão, se a tivessem esfolado viva, e ela não se mexe ou diz uma palavra, embora perceba e ouça a dor do imperador e os gritos que enchem o salão. As multidões que choram lamentam por toda a cidade, dizendo: "Deus! que dor e infortúnio nos foi trazido pela morte perversa! Ó morte cobiçosa e voraz! A morte é pior que uma loba que sempre permanece insaciável. Tal mordida cruel tu nunca infligiste ao mundo! Morte, o que fizeste? Que Deus te confunda por ter apagado a luz da beleza perfeita! Tu levaste à morte a criatura mais bela e adorável, se ela tivesse vivido, que Deus jamais buscou formar. A paciência de Deus certamente é grande demais quando Ele sofre que tenhas o poder de despedaçar o que pertence a Ele. Agora Deus deveria estar irado contigo, e expulsar-te de tua jurisdição; pois tua insolência tem sido grande demais, assim como teu orgulho e desrespeito." Assim as pessoas se enfurecem e torcem os braços e batem as mãos; enquanto os padres leem seus salmos, fazendo orações pela boa dama, para que Deus tenha misericórdia de sua alma.
No meio das lágrimas e gritos, como diz a história, chegaram médicos idosos de Salerno, onde tinham permanecido por muito tempo. Ao ver o grande luto, pararam para perguntar e indagar a causa dos gritos e lágrimas--por que todas as pessoas estão em tal tristeza e angústia. E esta é a resposta que recebem: "Deus! cavalheiros, não sabem? O mundo inteiro estaria fora de si como nós estamos, se apenas soubesse da grande dor e pesar e aflição e perda que nos veio hoje. Deus! de onde vieram, então, que não sabem o que aconteceu agora mesmo nesta cidade? Diremos a verdade, pois queremos que se juntem a nós na dor que sentimos. Não sabem sobre a morte sombria, que deseja e cobiça todas as coisas, e em toda parte espreita pelo que é melhor, não sabem que ato louco ela cometeu hoje, como é seu costume fazer? Deus iluminou o mundo com um grande esplendor, com uma luz brilhante. Mas a morte não pode conter-se de agir como é seu costume. Todos os dias, na medida de seu poder, ela apaga a melhor criatura que pode encontrar. Assim ela deseja testar seu poder, e em um corpo ela levou mais excelência do que deixou para trás. Ela teria feito melhor se tivesse levado o mundo inteiro, e deixado viva e sã esta presa que agora ela levou. Beleza, cortesia, e conhecimento, e tudo o que uma dama pode possuir de bondade foi levado e furtado de nós pela morte, que destruiu toda a bondade na pessoa de nossa dama, a imperatriz. Assim a morte privou-nos a todos da vida." "Ah, Deus!", dizem os médicos, "nós sabemos que Tu estás irado com esta cidade porque não chegamos aqui mais cedo. Se tivéssemos chegado ontem, a morte poderia ter se gabado de sua força se pudesse arrancar sua presa de nós." "Cavalheiros, madame não teria permitido a vocês a qualquer preço que a vissem ou exercessem sua habilidade. De bons médicos não havia falta, mas madame não permitiria que nenhum deles a visse ou investigasse sua enfermidade." "Não?" "Verdadeiramente, senhores, é isso que ela não faria." Então recordaram o caso de Salomão, que era tão odiado por sua esposa que ela o enganou fingindo a morte. Eles pensam que esta mulher fez o mesmo. Mas se pudessem de alguma forma trazer sua cura, ninguém poderia fazê-los mentir ou impedi-los de expor a verdade, se descobrissem qualquer artimanha. Então para a corte seguem seu caminho, onde havia tal ruído e grito que o senhor não poderia ter ouvido o trovão de Deus estalar. O chefe destes três médicos, que era o que mais sabia, aproximou-se do esquife. Ninguém diz a ele "mantenha as mãos longe", e ninguém tenta contê-lo. Ele coloca sua mão no peito e lado dela, e seguramente sente que a vida ainda está no corpo: ele percebe e sabe isso bem o suficiente. Ele vê o imperador parado perto, louco e atormentado por sua dor. Vendo-o, ele exclama em voz alta: "Imperador, consola-te! Tenho certeza e vejo claramente que esta dama não está morta. Deixa tua dor, e sê confortado! Se eu não a restaurar viva para ti, podes matar-me ou enforcar-me."
Imediatamente por todo o palácio o ruído é aquietado e silenciado. E o imperador pediu ao médico que lhe dissesse plenamente suas ordens e desejos, quaisquer que fossem. Se ele puder restaurar a vida na imperatriz, ele será senhor e soberano sobre o próprio imperador; mas se ele tiver em qualquer aspecto mentido para ele, ele será enforcado como um ladrão comum. E o médico disse: "Eu consinto com isso, e que nunca tenhas misericórdia de mim se eu não fizer com que ela fale contigo aqui! Sem tardar e sem demora fazei com que o palácio seja esvaziado imediatamente, e não deixeis que uma única alma permaneça. Devo examinar em privado a doença que aflige a dama. Estes dois médicos, que são meus amigos, permanecerão comigo sozinhos no quarto, e que todos os outros saiam." Esta ordem teria sido oposta por Cligés, John e Thessala; mas todos os outros que estavam lá poderiam ter se voltado contra eles se tivessem tentado opor-se à sua ordem. Então eles ficam em silêncio e aprovam o que ouvem ser aprovado pelos outros, e deixam o palácio. Depois que os três médicos tinham forçosamente aberto a mortalha da dama, sem usar qualquer faca ou tesoura, disseram a ela: "Dama, não se assuste, não tenha medo, mas fale conosco com confiança! Sabemos bem o suficiente que você está perfeitamente sã e em bom estado. Seja sensata e prestativa agora, e não se desespere de nada, pois se tiver alguma necessidade de nós, nós três lhe asseguraremos nossa ajuda, seja para o bem ou para o mal. Seremos muito leais a você, tanto em guardar nosso conselho quanto em ajudá-la. Não nos mantenha falando aqui! Uma vez que colocamos à sua disposição nossa habilidade e serviço, você certamente não deveria recusar." Assim eles pensam em enganar e ludibriar a ela, mas não têm sucesso; pois ela não tem necessidade ou cuidado pelo serviço que eles lhe prometem; então eles estão perdendo seu tempo em um esforço vão. Quando os três médicos veem que não conseguirão nada dela nem por oração nem por lisonja, então eles a tiram de seu esquife, e começam a bater e espancá-la. Mas seus esforços são tolos, pois nem uma palavra podem extrair dela. Então eles ameaçam e tentam aterrorizá-la dizendo que se ela não falar, logo terá motivo para se arrepender de sua tolice, pois vão fazer uma coisa tão maravilhosa com ela que tal coisa nunca foi feita ao corpo de qualquer mulher miserável. "Sabemos que você está viva, e não se digna a falar conosco. Sabemos que você está fingindo a morte, e gostaria assim de enganar o imperador. Não tenha medo de nós! Se algum de nós a irritou, antes que lhe façamos mais mal, cesse seu comportamento louco agora, pois você está agindo perversamente; e nós lhe daremos nossa ajuda em qualquer empreendimento--sábio ou louco." Mas não pode ser; eles não têm sucesso. Então eles renovam seu ataque, golpeando-a com correias sobre as costas, de modo que os vergões são claramente vistos, e eles se unem para rasgar sua carne tenra até que fazem o sangue fluir.
Quando a tinham batido com as correias até terem cortado sua carne, e quando o sangue está pingando, enquanto escorre de entre as feridas, mesmo então seus esforços não são de qualquer utilidade para extrair dela um suspiro ou palavra, nem para fazê-la mexer-se ou mover-se. Então eles dizem que devem conseguir fogo e chumbo, que derreterão e colocarão sobre suas mãos, em vez de falhar em seus esforços para fazê-la falar. Depois de conseguir uma luz e algum chumbo, eles acendem um fogo e derretem o chumbo. Assim os vilões miseráveis atormentam e afligem a dama, pegando o chumbo todo fervente do fogo e derramando-o nas palmas de suas mãos. Não satisfeitos em derramar o chumbo através de suas palmas, os canalhas covardes dizem que, se ela não falar imediatamente, eles a esticarão direto na grelha até que ela esteja completamente grelhada. Ainda assim, ela mantém o silêncio, e não recusa ter seu corpo batido e maltratado por eles. Agora eles estavam prestes a colocá-la sobre o fogo para ser assada e grelhada quando mais de mil damas, que estavam estacionadas diante do palácio, chegam à porta e através de uma pequena fenda vislumbram a tortura e angústia que eles estavam infligindo à dama, enquanto com carvão e chama eles realizavam seu martírio. Elas trazem porretes e martelos para esmagar e derrubar a porta. Grande foi o ruído e o alvoroço enquanto elas batiam e arrombavam a porta. Se agora elas puderem colocar as mãos nos médicos, estes últimos não terão muito tempo para esperar antes de receberem seu merecido. Com uma única investida as damas entram no palácio, e na multidão está Thessala, que não tem outro objetivo senão chegar à sua senhora. Ao lado do fogo ela a encontra despida, severamente ferida e machucada. Ela a coloca de volta no esquife novamente, e sobre ela ela estende um pano, enquanto as damas vão dar sua recompensa aos três médicos, sem desejar esperar pelo imperador ou seu senescal. Pelas janelas elas os lançaram para o pátio, quebrando os pescoços, costelas, braços e pernas de todos: nenhum trabalho melhor foi jamais feito por quaisquer damas.
Agora os três médicos receberam sua recompensa horrível pelas mãos das damas. Mas Cligés está aterrorizado e cheio de luto ao ouvir falar da dor e do martírio que sua amada suportou por ele. Ele está quase fora de si, temendo muito, e com razão, que ela possa estar morta ou gravemente ferida pela tortura infligida a ela pelos três médicos que agora estão mortos. Assim, ele está em desespero e abatimento quando Thessala chega, trazendo consigo uma pomada muito preciosa com a qual ela já havia esfregado suavemente o corpo e as feridas de sua senhora. Quando a colocaram de volta em seu esquife, as damas envolveram-na novamente em um pano de tecido sírio, deixando seu rosto descoberto. Durante toda a noite não houve diminuição dos gritos que elas soltavam sem cessar. Por toda a cidade, altos e baixos, pobres e ricos, estão fora de si de luto, e parece que cada um se orgulha de superar todos os outros em sua dor, e preferiria nunca ser consolado. Durante toda a noite o luto continua. Na manhã seguinte, John foi à corte; e o imperador manda chamá-lo e lhe dá esta ordem: "John, se alguma vez fizeste uma bela obra, agora avança e mostra toda a tua habilidade na construção de um sepulcro que, em beleza e acabamento, não tenha rival". E John, que já havia realizado a tarefa, diz que já completou um que é muito fino e habilmente trabalhado; mas quando começou o trabalho não tinha pensado que outro corpo que não um corpo santo devesse ser nele depositado. "Agora que a imperatriz seja nele colocada e enterrada em algum lugar sagrado, pois ela, creio eu, é santificada." "Falaste bem", diz o imperador; "ela será enterrada ali na Igreja de meu senhor São Pedro, onde os corpos costumam ser sepultados. Pois, antes de sua morte, ela me fez este pedido, que eu a mandasse enterrar lá. Agora vai cuidar de tua tarefa e coloca teu sepulcro na melhor posição no cemitério, onde deve estar por direito." John responde: "Muito bem, meu senhor." John imediatamente toma sua licença e prepara o sepulcro com grande habilidade; ele colocou um colchão de penas dentro, porque a pedra era dura e fria; e para que o odor seja doce, ele espalha flores e folhas por toda parte. Outra razão para fazer isso era que ninguém pudesse perceber o colchão que ele havia colocado dentro da tumba. Já a Missa havia sido rezada pelos mortos nas igrejas e paróquias, e os sinos tocavam continuamente como é próprio para os mortos. Ordens são dadas para trazer o corpo para ser colocado no sepulcro, que John, com toda a sua habilidade, construiu tão ricamente e belamente. Em toda Constantinopla ninguém permanece, pequeno ou grande, que não siga o corpo em lágrimas, amaldiçoando e repreendendo a Morte. Cavaleiros e jovens desmaiam, enquanto as damas e donzelas batem em seus peitos enquanto assim censuram a Morte: "Ó Morte", clama cada uma, "por que não aceitaste resgate por minha senhora? Certamente, teu ganho foi pequeno o suficiente, enquanto a perda para nós é grande." E, neste luto, Cligés certamente faz sua parte, enquanto sofre e lamenta mais do que todos os outros, e é estranho que ele não se mate. Mas, ainda assim, ele decide adiar isso até que a hora e o momento cheguem para ele desenterrá-la, tomar posse dela e ver se ela está viva ou não. Sobre a cova estão os homens que baixam o corpo ao seu lugar; mas, com John lá, eles não se intrometem no ajuste do sarcófago, e como estavam tão prostrados que não podiam ver, John teve tempo de sobra para realizar sua tarefa especial. Quando o caixão estava em seu lugar, e nada mais havia na cova, ele selou firmemente todas as juntas. Quando isso foi feito, qualquer um teria que ser muito habilidoso para, exceto por força ou violência, retirar ou afrouxar qualquer coisa que John houvesse colocado dentro.
Fenice jaz no sepulcro até que a escuridão da noite chegasse. Mas trinta cavaleiros montam guarda sobre ela, e há dez velas queimando ali, que iluminam o local por toda parte. Os cavaleiros estavam cansados e exaustos pelo esforço que haviam suportado; então, comeram e beberam naquela noite até que todos caíram em sono profundo. Quando a noite caiu, Cligés escapa da corte e de todos os seus seguidores, de modo que não houve um único cavaleiro ou servo que soubesse o que havia acontecido com ele. Ele não parou até encontrar John, que o aconselha da melhor maneira que pode. Ele lhe fornece armas, mas ele nunca terá necessidade delas. Uma vez armados, ambos partem a galope para o cemitério. O cemitério era cercado por toda parte com um muro alto, para que os cavaleiros, que haviam adormecido após trancar o portão por dentro, pudessem ficar tranquilos de que ninguém entraria lá. Cligés não vê como pode entrar, pois não há passagem pelo portão. E, no entanto, de alguma forma ele deve passar, pois o amor o ordena e o impele. Ele tenta o muro e sobe, sendo forte e ágil. Dentro havia um jardim plantado com árvores, uma das quais ficava tão perto do muro que o tocava. Agora Cligés tinha o que precisava e, depois de descer pela árvore, a primeira coisa que fez foi ir abrir o portão para John. Vendo os cavaleiros dormindo, eles apagaram todas as luzes, de modo que o lugar permaneceu na escuridão. E John agora descobre a tumba e abre o caixão, tomando cuidado para não lhe causar dano. Cligés entra na tumba e retira sua Amada, toda fraca e prostrada, a quem ele acaricia, beija e abraça. Ele não sabe se deve se alegrar ou se arrepender por ela não se agitar ou mover. E John, o mais rápido que pôde, fechou o sepulcro novamente, de modo que não parecia que ninguém o tivesse mexido. Então, eles se dirigiram o mais rápido que puderam para a torre. Quando a colocaram na torre, nos cômodos que ficavam abaixo do nível do solo, tiraram suas roupas funerárias; e Cligés, que nada sabia da poção que ela havia tomado, que a deixava muda e a mantinha imóvel, pensa que ela está morta, e fica em desespero com a ansiedade enquanto suspira pesadamente e chora. Mas logo chegará o momento da poção perder sua força. E Fenice, que ouve seu luto, luta e se esforça para ter forças para confortá-lo com palavras ou olhares. Seu coração quase explode por causa da tristeza que ele demonstra. "Ah, Morte!", ele diz, "quão mesquinha tu és, para poupar e perdoar todas as coisas desprezíveis e vis — para deixá-las viver e perdurar. Morte! Estás fora de ti ou bêbada, tu que mataste minha senhora sem mim? Esta é uma coisa maravilhosa que vejo: minha senhora está morta, e eu ainda vivo! Ah, preciosa, por que seu amante vive para vê-la morta? Alguém agora poderia dizer com razão que você morreu a meu serviço, e que fui eu quem a matou e assassinou. Amada, então eu sou a morte que a atingiu. Não é isso errado? Pois é minha própria vida que perdi em você, e preservei sua vida em mim. Pois a sua saúde e vida não pertenciam a mim, querida? E a minha não pertencia a você? Pois eu não amava nada exceto você, e nossa existência dupla era como uma só. Então, agora, fiz o que era certo ao manter sua alma em meu corpo enquanto a minha escapou do seu, e um deveria ir buscar a companhia do outro, onde quer que seja, e nada deveria separá-los." Com isso, ela solta um suspiro suave e sussurra fracamente: "Meu amante, não estou totalmente morta, mas muito perto disso. Valorizo pouco a minha vida agora. Pensei que fosse uma brincadeira e uma mera pretensão; mas agora sou realmente digna de pena, pois a morte não tratou isso como uma brincadeira. Será um milagre se eu escapar viva. Pois os médicos me feriram gravemente, quebraram minha carne e me desfiguraram. E, no entanto, se fosse possível minha ama vir aqui, e se os esforços tivessem algum valor, ela me restauraria a saúde novamente." "Não se preocupe, querida, com isso", diz Cligés, "pois esta mesma noite eu a trarei aqui." "Querido, deixe John ir buscá-la agora." Então John partiu e a procurou até encontrá-la, e disse-lhe como desejava que ela viesse e que nenhuma outra causa a detivesse; pois Fenice e Cligés mandaram buscá-la para ir a uma torre onde a esperam; e que Fenice está em um estado grave, de modo que ela deve vir preparada com pomadas e remédios, e ter em mente que ela não viverá muito tempo se ela não vier rapidamente para socorrê-la. Thessala corre imediatamente e, pegando pomadas, emplastros e remédios que ela havia preparado, ela encontra John novamente. Secretamente, eles saem da cidade até chegarem diretamente à torre. Quando Fenice vê sua ama, ela já se sente curada, por causa da fé amorosa e da confiança que ela deposita nela. E Cligés a cumprimenta afetuosamente e diz: "Bem-vinda, ama, a quem amo e prezo. Ama, pelo amor de Deus, o que você acha da doença desta jovem senhora? Qual é a sua opinião? Ela se recuperará?" "Sim, meu senhor, não tenha medo de que eu a restabelecerei completamente. Não passará uma quinzena antes que eu a deixe tão bem que ela nunca esteve tão animada e forte antes."
Enquanto Thessala está ocupada com seus remédios, John vai fornecer à torre tudo o que é necessário. Cligés vai à torre e sai corajosa e abertamente, pois ele abrigou um falcão em muda lá, e ele diz que vai visitá-lo; assim, ninguém pode imaginar que ele vá lá por qualquer outro motivo que não seja o falcão. Ele faz longas estadias lá dia e noite. Ele ordena que John guarde a torre, para que ninguém entre contra sua vontade. Fenice agora não tem mais motivos para reclamar, pois Thessala a curou completamente. Se Cligés fosse Duque de Almeria, Marrocos ou Tudela, ele não consideraria tudo isso valendo uma baga de azevinho comparado com a alegria que ele sente agora. Certamente o Amor não se rebaixou quando uniu esses dois, pois parece para eles, quando se abraçam e se beijam, que todo o mundo deve ser melhor por causa de sua alegria e felicidade. Agora não me peçam mais sobre isso, pois não se pode ter um desejo no qual o outro não concorde. Assim, eles têm apenas um desejo, como se eles dois fossem um só.
Fenice estava na torre, acredito, durante todo aquele ano e dois meses completos do seguinte, até que o verão chegasse novamente. Quando as árvores produzem suas flores e folhas, e os passarinhos se alegram, cantando alegremente suas ladainhas, aconteceu que Fenice, certa manhã, ouviu o canto do rouxinol. Cligés a segurava firmemente abraçada com seus braços ao redor de sua cintura e pescoço, e ela o segurava em um abraço semelhante, enquanto dizia: "Meu querido e belo amante. Um jardim me faria bem, no qual eu pudesse me divertir. Há mais de quinze meses não vejo a luz da lua ou do sol. Se possível, eu gostaria de sair ali para a luz do dia, pois aqui nesta torre estou confinada. Se houvesse um jardim por perto, onde eu pudesse ir e me divertir, isso frequentemente me faria bem." Então Cligés promete a ela consultar John sobre isso assim que puder vê-lo. Naquele exato momento, John entrou, como costumava fazer, e Cligés falou com ele sobre o que Fenice desejava. John responde: "Tudo o que ela pede já está providenciado e suprido. Esta torre está bem equipada com o que ela deseja e precisa." Então Fenice ficou muito feliz e pediu a John que a levasse até lá, o que ele disse que faria com muito prazer. Então John vai e abre uma porta, construída de uma maneira que não posso descrever adequadamente. Ninguém além de John poderia tê-la feito, e ninguém poderia ter afirmado que havia qualquer porta ou janela ali — tão perfeitamente estava oculta.
Quando Fenice viu a porta aberta e o sol entrando, como não via há muitos dias, seu coração bateu forte de alegria; ela disse que agora não faltava nada, já que poderia deixar sua torre-masmorra, e que não desejava outro lugar de alojamento. Ela passou pela porta para o jardim, com seus prazeres e delícias. No meio do jardim havia uma árvore enxertada carregada de flores desabrochadas e folhas, e com uma copa ampla. Os ramos dela eram tão treinados que todos pendiam para baixo até quase tocarem o solo; o tronco principal, no entanto, do qual brotavam, subia reto para o ar. Fenice não deseja outro lugar. Sob a árvore, a relva é muito agradável e fina, e ao meio-dia, quando está quente, o sol nunca estará alto o suficiente para que seus raios penetrem ali. John havia mostrado sua habilidade em organizar e treinar os ramos assim. Ali Fenice vai se divertir, onde prepararam uma cama para ela durante o dia. Ali eles provam alegria e deleite. E o jardim é cercado por um muro alto conectado à torre, de modo que nada pode entrar lá sem antes passar pela torre.
Fenice agora está muito feliz: não há nada que lhe cause desgosto, e nada falta do que ela deseja, quando seu amante está em liberdade para abraçá-la sob as flores e as folhas. Na estação em que as pessoas pegam o gavião e o cão de aponte e caçam a cotovia e o tordo-pardo ou espreitam a codorniz e a perdiz, aconteceu que um cavaleiro da Trácia, jovem e alerta e inclinado ao esporte cavalheiresco, chegou um dia perto da torre em busca de caça. O gavião de Bertrand (pois esse era seu nome), tendo perdido uma cotovia, havia voado para longe, e Bertrand pensou em quão grande seria sua perda se perdesse seu pássaro de caça. Quando o viu descer e pousar em um jardim abaixo da torre, ficou feliz, pois pensou que não poderia perdê-lo agora. Imediatamente ele vai e sobe o muro até conseguir superá-lo, quando sob a árvore vê Fenice e Cligés deitados adormecidos e nus em um abraço próximo. "Deus!", disse ele, "o que aconteceu comigo agora? Que maravilha é esta que vejo? Não é aquele Cligés? Certamente é. Não é aquela a imperatriz com ele ali? Não, mas parece ela. Nunca uma coisa se assemelhou tanto a outra. Seu nariz, sua boca e sobrancelha são como os de minha senhora, a imperatriz. Nunca a Natureza fez duas criaturas de tal semelhança. Não há traço nesta mulher aqui que eu não tenha visto em minha senhora. Se ela estivesse viva, eu diria que certamente era ela mesma." Nesse momento, uma pera cai e atinge perto do ouvido de Fenice. Ela pula e acorda e, vendo Bertrand, grita em voz alta: "Meu querido, meu querido, estamos perdidos. Ali está Bertrand. Se ele escapar de você, estamos presos em uma armadilha ruim, pois ele contará que nos viu." Então Bertrand percebeu que era a imperatriz, sem sombra de dúvida. Ele vê a necessidade de sair imediatamente, pois Cligés havia trazido consigo sua espada para o jardim e a havia deixado ao lado da cama. Ele pulou agora e agarrou sua espada, enquanto Bertrand apressadamente se despediu. O mais rápido que pôde, ele escalou o muro e estava quase em segurança do outro lado quando Cligés, vindo atrás dele, levantou sua espada e o atingiu com tamanha violência que decepou sua perna abaixo do joelho, como se tivesse sido um talo de erva-doce. Apesar disso, Bertrand escapou, embora gravemente ferido e mutilado. Fora de si de tristeza e ira ao ver seu estado deplorável, seus homens do outro lado o pegaram e perguntaram insistentemente quem havia feito isso com ele. "Não falem comigo agora", diz ele, "mas ajudem-me a montar em meu cavalo. Nenhuma menção será feita disso, exceto ao imperador. Aquele que assim me tratou deve estar, e sem dúvida está, em grande terror; pois ele está em grande perigo de vida." Então eles o colocam em seu palfrey e o conduzem pela cidade, profundamente entristecidos em seu medo. Atrás deles vêm mais de vinte mil outros, seguindo-os para a corte. E todo o povo corre junto, cada um se esforçando para chegar primeiro. Bertrand fez sua reclamação em voz alta, ouvindo todos, ao imperador: mas eles o tomaram por um falador ocioso quando ele disse que tinha visto a imperatriz toda exposta. A cidade está em um alvoroço de excitação: alguns consideram as notícias que ouvem como simples bobagem, outros aconselham e instam o imperador a visitar a torre ele mesmo. Grande é o barulho e a confusão das pessoas que se preparam para acompanhá-lo. Mas eles não encontram nada na torre, pois Fenice e Cligés fazem sua fuga, levando consigo Thessala, que os conforta e declara a eles que, se por acaso virem pessoas vindo atrás deles para prendê-los, eles não precisam ter medo; que nunca se aproximariam para lhes fazer mal dentro do alcance de uma besta forte. E o imperador dentro da torre manda buscar John e trazê-lo. Ele ordena que ele seja amarrado e preso, dizendo que o fará enforcar ou queimar, e que fará suas cinzas serem espalhadas por toda parte. Ele receberá sua justa recompensa pela vergonha que causou ao imperador; mas essa recompensa não será agradável, porque John escondeu na torre seu sobrinho com sua esposa. "Pela minha palavra, você diz a verdade", diz John; "não mentirei, mas irei ainda mais longe e declararei a verdade, e se fiz algum mal é justo que eu seja preso. Mas ofereço isso como minha desculpa: que um servo não deve recusar nada quando seu legítimo senhor ordena. Agora, todos sabem, de fato, que sou dele, e esta torre também." "Não é, John. É antes tua." "Minha, senhor? Sim, depois dele: mas nem eu pertenço a mim mesmo, nem tenho nada que seja meu, exceto o que ele se agradou em me dar. E se você pensar em dizer que meu senhor é culpado de ter lhe feito mal, estou pronto para assumir sua defesa sem qualquer ordem dele. Mas sinto-me encorajado a proclamar abertamente o que está em minha mente, exatamente como pensei, pois sei muito bem que devo morrer. Então, falarei independentemente dos resultados. Pois se eu morrer por causa do meu senhor, não morrerei uma morte ignóbil, pois os fatos são geralmente conhecidos sobre aquele juramento e promessa que você fez ao seu irmão, que depois de você Cligés deveria ser imperador, que agora está banido como um errante. Mas se Deus quiser, ele ainda será imperador! Portanto, você está aberto a reprovação, pois não deveria ter tomado uma esposa; ainda assim você se casou com ela e fez um mal a Cligés, e ele não lhe fez mal algum. E se eu for punido com a morte por você, e se eu morrer injustamente por causa dele, e se ele ainda estiver vivo, ele vingará minha morte em você. Agora vá e faça o melhor que puder, pois se eu morrer você também morrerá."
(Vv. 6587-6630.) O imperador treme de ira ao ouvir as palavras zombeteiras que John lhe dirige. "John", diz ele, "terás tanto descanso quanto levarmos para encontrar teu senhor, que me causou tal dano, embora eu o amasse profundamente e não tivesse o menor pensamento de o defraudar. Entretanto, ficarás na prisão. Se sabes o que aconteceu com ele, dize-mo imediatamente, eu te ordeno." "Eu lhe direi? Como poderia cometer tal traição? Ainda que a vida me fosse arrancada do corpo, eu não revelaria meu senhor a você, mesmo que soubesse do seu paradeiro. Na verdade, não sei mais do que você para onde eles foram, que Deus me ajude! Mas não há necessidade de seu ciúme. Não temo tanto a sua ira que não deva dizer, para que todos ouçam, como você foi enganado, ainda que minhas palavras não sejam acreditadas. Você foi enganado e ludibriado pela poção que bebeu na noite de núpcias. A menos que tenha acontecido em sonho, enquanto dormias, jamais tiveste prazer com ela; mas a noite fez você sonhar, e o sonho lhe deu tanta satisfação como se tivesse acontecido em suas horas de vigília que ela o tivesse mantido em seus braços: isso foi a soma de sua satisfação. O coração dela era tão devotado a Cligés que ela fingiu a morte por amor a ele; e ele tinha tal confiança em mim que me explicou tudo e a estabeleceu em minha casa, que legitimamente lhe pertence. Você não deve me censurar. Eu deveria, de fato, ser queimado ou enforcado, se traísse meu senhor ou me recusasse a fazer a sua vontade."
(Vv. 6631-6784.) Quando a atenção do imperador é levada de volta à poção que ele tivera o prazer de beber, e com a qual Thessala o enganara, então ele percebeu pela primeira vez que jamais tivera prazer com sua esposa, a menos que tivesse acontecido em um sonho: assim, fora apenas uma alegria ilusória. E ele diz que, se não se vingar da vergonha e da desonra infligidas a ele pelo traidor que seduziu sua esposa, nunca mais será feliz. "Agora, depressa!", diz ele, "até Pavia, e daqui até a Alemanha, que não reste castelo, vila ou cidade onde a busca não seja feita. Terei como o mais caro de todos aquele que me trouxer os dois cativos. Agora para cima e para baixo, perto e longe, ide diligentemente e procurai!" Então eles partiram com zelo e passaram todo aquele dia na busca. Mas, no número, Cligés tinha alguns amigos que, se os encontrassem, tê-los-iam levado a algum esconderijo em vez de arrastá-los de volta. Durante toda aquela quinzena, exauriram-se em uma busca infrutífera. Pois Thessala, que atua como sua guia, conduz-os por suas artes e encantos com tal segurança que eles não sentem pavor ou medo de toda a força do imperador. Eles não buscam repouso em nenhuma vila ou cidade; contudo, têm tudo o que desejam ou almejam, ainda mais do que é costumeiro. Pois tudo o que precisam é providenciado para eles por Thessala, que busca, escava e provê para eles. Nem há quem os cace agora, pois todos retornaram aos seus lares. Entretanto, Cligés não está ocioso, mas parte para encontrar seu tio, o Rei Arthur. Ele continuou sua busca até encontrá-lo, e a ele apresentou sua queixa e protesto sobre seu tio, o imperador, que, para deserdá-lo, deslealmente tomara uma esposa, o que não era correto ele fazer; pois ele jurara a seu pai que jamais se casaria em sua vida. E o Rei diz que com uma frota ele seguirá para Constantinopla, e que encherá mil navios com cavaleiros, e três mil mais com homens de armas, até que nenhuma cidade ou burgo, vila ou castelo, por mais forte ou por mais alto que seja, seja capaz de resistir ao seu assalto. Então Cligés não esqueceu de agradecer ao Rei pela ajuda que lhe ofereceu. O Rei envia emissários para buscar e convocar todos os grandes barões da terra, e faz com que sejam requisitados e equipados navios, embarcações de guerra, barcos e barcas. Ele tem cem navios carregados e cheios de escudos, lanças, broquéis e armaduras adequadas para cavaleiros. O Rei faz preparativos tão grandes para a guerra que nem César nem Alexandre fizeram igual. Ele ordena reunir sob sua convocação toda a Inglaterra, e toda a Flandres, Normandia, França e Bretanha, e todos os homens até os Pirenéus. Já estavam prestes a zarpar, quando chegaram mensageiros da Grécia que atrasaram o embarque e retiveram o Rei e seu povo. Entre os mensageiros que vieram estava John, aquele homem de confiança, pois ele jamais seria testemunha ou mensageiro de qualquer notícia que não fosse verdadeira, e que ele não soubesse com certeza. Os mensageiros eram homens de alta linhagem da Grécia, que vieram em busca de Cligés. Eles fizeram perguntas e perguntaram por ele, até que o encontraram na corte do Rei, quando lhe disseram: "Deus o salve, senhor! A Grécia é entregue a você, e Constantinopla é dada a você por todos aqueles do seu império, por causa do direito que você tem sobre eles. Seu tio (mas você não sabe disso) está morto pelo pesar que sentiu por não poder encontrá-lo. O seu pesar foi tal que ele perdeu o juízo; não queria beber nem comer, mas morreu como um homem fora de si. Belo senhor, agora volte! Pois todos os seus lordes enviaram por você. Grandemente eles o desejam e anseiam por você, querendo torná-lo seu imperador." Alguns houve que se alegraram com isso; e outros houve que teriam visto de bom grado seus convidados em outro lugar, e a frota partir para a Grécia. Mas a expedição é abandonada, e o Rei dispensa seus homens, e os exércitos partem de volta para seus lares. E Cligés apressa-se em seu desejo de retornar à Grécia. Ele não tem desejo de tardar. Seus preparativos feitos, ele se despediu do Rei, e então de todos os seus amigos, e levando Fenice consigo, ele vai embora. Eles viajam até chegarem à Grécia, onde o recebem com a jubilação que deveriam mostrar ao seu legítimo senhor, e lhe dão sua amada para ser sua esposa. Ambos são coroados de uma só vez. Sua amante ele tornou sua esposa, mas ele ainda a chama de sua amante e amada, e ela não pode se queixar de nenhuma perda de afeto, pois ele a ama ainda como sua amante, e ela o ama, também, como uma dama deve amar seu amante. E cada dia via seu amor crescer mais forte: ele nunca duvidou dela, nem ela o culpou por nada. Ela nunca foi mantida confinada, como tantas mulheres têm sido que viveram desde o seu tempo. Pois nunca desde então houve um imperador que não vivesse com medo de sua esposa, temendo ser enganado por ela, ao ouvir a história de como Fenice enganou Alis, primeiro com a poção que ele bebeu, e então mais tarde por aquele outro estratagema. Portanto, toda imperatriz, por mais rica e nobre que seja, é guardada em Constantinopla como em uma prisão, pois o imperador não tem confiança nela quando se lembra da história de Fenice. Ele a mantém constantemente guardada em seu quarto, nem jamais é permitido qualquer homem em sua presença, a menos que seja um eunuco desde a juventude; no caso de tais, não há medo ou dúvida de que o Amor os enredará em seus laços. Aqui termina a obra de Chrétien.
Artur, o bom Rei da Bretanha, cuja proeza nos ensina que nós, também, devemos ser bravos e corteses, realizou uma rica e real corte naquele precioso dia de festa que é sempre conhecido pelo nome de Pentecostes. A corte era em Carduel, no País de Gales. Quando a refeição terminou, os cavaleiros dirigiram-se para onde foram chamados pelas damas, donzelas e moças. Alguns contavam histórias; outros falavam de amor, das provações e mágoas, bem como das grandes bênçãos, que frequentemente recaem sobre os membros de sua ordem, que era rica e florescente naqueles tempos de outrora. Mas agora seus seguidores são poucos, tendo-a desertado quase até o último homem, de modo que o amor está muito rebaixado. Pois os amantes costumavam merecer ser considerados corteses, bravos, generosos e honrados. Mas agora o amor é um objeto de riso, pois aqueles que não têm inteligência sobre ele afirmam que amam, e nisso mentem. Assim, eles proferem um escárnio e mentem ao se vangloriar onde não têm direito. Mas deixemos aqueles que ainda estão vivos, para falar daqueles de outrora. Pois, presumo eu, um homem cortês, embora morto, vale mais do que um patife vivo. Portanto, é meu prazer relatar um assunto bastante digno de atenção sobre o Rei cuja fama era tal que os homens ainda falam dele de longe e de perto; e concordo com a opinião dos bretões de que seu nome viverá para todo o sempre. E, em conexão com ele, recordamos aqueles bons e escolhidos cavaleiros que se dedicaram por amor à honra. Mas, naquele dia de que falo, grande foi o seu espanto ao ver o Rei deixar a presença deles; e houve alguns que se sentiram mortificados, e que não mediram as palavras, nunca antes tendo visto o Rei, na ocasião de tal festa, entrar em seu próprio aposento para dormir ou para buscar repouso. Mas, naquele dia, aconteceu que a Rainha o deteve, e ele permaneceu tanto tempo ao seu lado que se esqueceu de si mesmo e adormeceu. Do lado de fora da porta do aposento estavam Dodinel, Sagremor e Kay, meu senhor Gawain, meu senhor Yvain e, com eles, Calogrenant, um cavaleiro muito formoso, que começara a lhes contar um conto, embora não fosse para seu crédito, mas sim para sua vergonha. A Rainha pôde ouvi-lo enquanto ele contava seu conto e, levantando-se de perto do Rei, aproximou-se deles tão furtivamente que, antes que qualquer um a avistasse, ela havia caído, por assim dizer, bem no meio deles. Apenas Calogrenant saltou rapidamente quando a viu chegar. Então Kay, que era muito briguento, mesquinho, sarcástico e abusivo, disse-lhe: "Pelo Senhor, Calogrenant, vejo que você está muito audacioso e atrevido agora, e certamente me agrada ver que você é o mais cortês de todos nós. E sei que você está bastante convencido de sua própria excelência, pois isso está de acordo com seu pouco juízo. E, é claro, é natural que minha senhora suponha que você nos supere a todos em cortesia e bravura. Deixamos de nos levantar por preguiça, na verdade, ou porque não nos importávamos! Pela minha palavra, não é assim, meu senhor; mas não vimos minha senhora até que você tivesse se levantado primeiro." "Realmente, Kay," diz então a Rainha, "acho que você explodiria se não pudesse derramar o veneno de que está tão cheio. Você é incômodo e mesquinho ao aborrecer assim seus companheiros." "Senhora", diz Kay, "se não somos melhores por sua companhia, ao menos não percamos com ela. Não tenho consciência de ter dito algo pelo qual deva ser acusado, por isso peço que não diga mais nada. É indelicado e tolo manter uma disputa vã. Este argumento não deve ir mais longe, nem alguém deveria tentar tirar mais proveito dele. Mas, já que não deve haver mais palavras ásperas, ordene-lhe que continue o conto que havia começado." Então, Calogrenant prepara-se para responder desta maneira: "Meu senhor, pouco me importo com a briga, que pouco importa e não me afeta. Se você descarregou seu desprezo sobre mim, nunca serei prejudicado por ele. Você tem falado frequentemente de modo insultuoso, meu senhor Kay, para homens mais bravos e melhores do que eu, pois você é dado a esse tipo de coisa. A pilha de esterco sempre cheirará mal, e as moscas varejeiras picam, e as abelhas zumbem, e assim um chato atormentará e se tornará um incômodo para si mesmo. No entanto, com a licença da minha senhora, não continuarei meu conto hoje, e peço-lhe que não diga mais nada a respeito, e que gentilmente não me dê nenhuma ordem indesejada." "Senhora", diz Kay, "todos os que estão aqui ficarão em dívida com você, pois estão ansiosos para ouvi-lo até o fim. Não faça isso como um favor a mim! Mas, pela fé que você deve ao Rei, seu senhor e meu, ordene-lhe que continue, e você fará bem." "Calogrenant", diz então a Rainha, "não se importe com o ataque do meu senhor Kay, o senescal. Ele está tão acostumado ao discurso maldoso que não se pode puni-lo por isso. Ordeno e peço que não se irrite por causa dele, nem deve deixar, por conta dele, de dizer algo que será um prazer para todos nós ouvir; se deseja preservar minha boa vontade, por favor, comece o conto novamente." "Certamente, senhora, é uma ordem muito indesejada que me impõe. Em vez de contar mais do meu conto hoje, eu preferiria ter um olho arrancado, se não temesse seu descontentamento. Ainda assim, cumprirei sua vontade, por mais desagradável que seja. Então, já que você quer assim, preste atenção. Que seu coração e seus ouvidos sejam meus. Pois as palavras, embora ouvidas, perdem-se a menos que sejam compreendidas dentro do coração. Há alguns homens que dão consentimento ao que ouvem, mas não compreendem: estes homens têm apenas a audição. Pois, no momento em que o coração não compreende, a palavra cai nos ouvidos simplesmente como o vento que sopra, sem parar para ali permanecer; em vez disso, passa rapidamente se o coração não estiver tão desperto a ponto de estar pronto para recebê-la. Pois somente o coração pode recebê-la quando ela chega e fechá-la dentro de si. Os ouvidos são o caminho e o canal pelos quais a voz pode alcançar o coração, enquanto o coração recebe dentro do peito a voz que entra pelo ouvido. Agora, quem quiser atender às minhas palavras deve entregar-me seu coração e seus ouvidos, pois não vou falar de um sonho, de uma história vã ou de uma mentira, com os quais muitos outros o divertiram, mas falarei, antes, do que vi."
"Aconteceu há sete anos que, solitário como um camponês, eu seguia meu caminho em busca de aventuras, totalmente armado como um cavaleiro deve ser, quando encontrei uma estrada que levava à direita, para dentro de uma floresta espessa. A estrada ali era muito ruim, cheia de sarças e espinhos. Apesar do incômodo e da inconveniência, segui a estrada e o caminho. Quase o dia inteiro andei assim cavalgando até sair da floresta de Broceliande. Da floresta, passei para o campo aberto onde vi uma torre de madeira à distância de meia légua galesa: pode ter sido tão longe, mas não mais. Seguindo mais rápido do que um passo, aproximei-me e vi a paliçada e o fosso ao redor dela, profundo e largo, e em pé sobre a ponte, com um falcão que trocara as penas no pulso, vi o senhor do castelo. Não tive tempo de saudá-lo antes que ele se adiantasse para segurar meu estribo e me convidasse a desmontar. Fiz isso, pois era inútil negar que eu precisava de um lugar para pernoitar. Então, ele me disse mais de cem vezes de uma só vez que abençoada fosse a estrada pela qual eu chegara até ali. Enquanto isso, cruzamos a ponte e, passando pelo portão, encontramo-nos no pátio. No meio do pátio deste vavasor, a quem Deus possa retribuir tal alegria e honra como as que ele me concedeu naquela noite, pendia um gongo, não de ferro ou madeira, creio eu, mas todo de cobre. Sobre este gongo, o vavasor bateu três vezes com um martelo que pendia em um poste próximo. Aqueles que estavam lá em cima na casa, ao ouvir sua voz e o som, saíram para o pátio abaixo. Alguns levaram meu cavalo, que o bom vavasor segurava; e vi vir em minha direção uma donzela muito bela e gentil. Ao olhar para ela atentamente, vi que ela era alta, esguia e ereta. Habilidosa, ela me desarmou, o que fez gentilmente e com destreza; então, quando ela me vestiu com um manto curto de tecido escarlate salpicado com plumas de pavão, todos os outros nos deixaram ali, de modo que ela e eu permanecemos sozinhos. Isso me agradou muito, pois não precisava de mais nada para olhar. Então, ela me levou para sentar no campo mais bonito, fechado por um muro ao redor. Ali, achei-a tão elegante, tão bela no falar e tão bem informada, de maneiras e caráter tão agradáveis, que era um deleite estar ali, e eu teria desejado nunca ser compelido a partir. Mas, como o azar quis, a noite caiu e chegara a hora da ceia. O vavasor veio me procurar. Nenhum atraso a mais era possível, então cumpri seu pedido. Da ceia, direi apenas que foi toda conforme o meu gosto, vendo que a donzela tomou seu lugar à mesa bem na minha frente. Após a ceia, o vavasor confessou-me que, embora tivesse hospedado muitos cavaleiros errantes, não sabia quanto tempo fazia desde que recebera um em busca de aventura. Então, como um favor, suplicou-me que voltasse passando por sua residência, se eu pudesse tornar isso possível. Então eu lhe disse: 'Muito alegremente, senhor!', pois uma recusa teria sido indelicada, e isso era o mínimo que eu poderia fazer por um tal anfitrião."
"Naquela noite, de fato, fui bem alojado, e assim que a luz da manhã surgiu, encontrei meu corcel já selado, conforme eu havia solicitado na noite anterior; assim, meu pedido foi atendido. A meu bondoso anfitrião e a sua querida filha, recomendei ao Espírito Santo e, após despedir-me de todos, parti o mais depressa possível. Não havia avançado muito do meu local de parada quando cheguei a uma clareira, onde havia alguns touros selvagens soltos; eles lutavam entre si e faziam um barulho tão terrível e horrendo que, se a verdade deve ser dita, recuei de medo, pois não há besta tão feroz e perigosa quanto um touro. Vi sentado sobre um toco, com um grande porrete na mão, um rústico patife, tão negro quanto uma amora, indescritivelmente grande e hediondo; de fato, tão excessivamente feio era a criatura que nenhuma palavra poderia lhe fazer justiça. Ao aproximar-me desse sujeito, vi que sua cabeça era maior do que a de um cavalo ou de qualquer outra besta; que seu cabelo estava em tufos, deixando sua testa descoberta por uma largura de mais de dois palmos; que suas orelhas eram grandes e musgosas, exatamente como as de um elefante; suas sobrancelhas eram pesadas e seu rosto era achatado; seus olhos eram os de uma coruja, e seu nariz era como o de um gato; suas mandíbulas eram fendidas como as de um lobo, e seus dentes eram afiados e amarelos como os de um javali; sua barba era negra e seus bigodes retorcidos; seu queixo fundia-se ao peito e sua espinha dorsal era longa, porém retorcida e corcunda. Ali estava ele, apoiado em seu porrete e vestido com um traje estranho, que não consistia de algodão ou lã, mas sim das peles recentemente esfoladas de dois touros ou dois bois: estas ele usava penduradas no pescoço. O sujeito saltou imediatamente quando me viu aproximar. Não sei se ele ia me atacar ou o que pretendia fazer, mas eu estava preparado para enfrentá-lo, até que o vi parar e ficar imóvel sobre um tronco de árvore, onde ele media dezessete pés de altura. Então ele me encarou, mas não disse uma palavra, nada mais do que uma besta teria feito. E supus que ele não estivesse em seu juízo ou que estivesse bêbado. Contudo, tomei a ousadia de dizer-lhe: 'Vamos, deixa-me saber se és uma criatura do bem ou não.' E ele respondeu: 'Sou um homem.' 'Que tipo de homem és tu?' 'Tal como me vês ser: não sou de modo algum diferente.' 'Que fazes aqui?' 'Eu estava aqui, cuidando deste gado nesta floresta.' 'Tu estavas realmente cuidando deles? Pelo São Pedro de Roma! Eles não conhecem o comando de nenhum homem. Imagino que não se possa guardar feras selvagens em uma planície ou floresta ou em qualquer outro lugar a menos que estejam amarradas ou confinadas.' 'Bem, eu cuido e tenho controle sobre estas bestas para que elas nunca deixem esta vizinhança.' 'Como fazes isso? Vamos, diz-me agora!' 'Não há uma delas que ouse se mover quando me veem chegar. Pois, quando consigo agarrar uma, dou aos seus dois chifres um puxão tão forte com minhas mãos duras e poderosas que as outras tremem de medo e reúnem-se imediatamente ao meu redor como se pedissem clemência. Ninguém poderia se aventurar aqui além de mim, pois se alguém entrasse entre elas, seria morto instantaneamente. Desta forma, sou mestre das minhas bestas. E agora tu deves me dizer, por tua vez, que tipo de homem és tu e o que buscas aqui.' 'Sou, como vês, um cavaleiro em busca do que não consigo encontrar; há muito busco sem sucesso.' 'E o que é isso que tu tanto desejas encontrar?' 'Alguma aventura pela qual provar minha destreza e minha bravura. Agora eu te peço e rogo urgentemente que me dês algum conselho, se possível, sobre alguma aventura ou coisa maravilhosa.' Diz ele: 'Terás de passar sem, pois não sei nada de aventura, nem jamais ouvi falar de tal coisa. Mas, se fosses a uma certa fonte aqui perto e cumprisses a prática lá, não voltarias facilmente. Bem perto daqui podes encontrar facilmente um caminho que te levará até lá. Se queres ir corretamente, segue a trilha reta; do contrário, podes facilmente te perder entre os muitos outros caminhos. Verás a fonte que ferve, embora a água seja mais fria que o mármore. Ela é sombreira pela mais bela árvore que a Natureza já formou, pois sua folhagem é sempre verde, independentemente do frio do inverno, e uma bacia de ferro está pendurada ali por uma corrente longa o suficiente para alcançar a fonte. E ao lado da fonte encontrarás uma pedra maciça, como verás, cuja natureza não posso explicar, nunca tendo visto algo semelhante. Do outro lado, ergue-se uma capela, pequena, mas muito bela. Se pegares a água na bacia e a derramares sobre a pedra, verás surgir uma tempestade tal que nenhuma besta permanecerá dentro desta floresta; cada corça, veado, javali e pássaro sairá. Pois verás tais relâmpagos descerem, tal sopro de vendavais e estrondo de árvores, tais torrentes caírem, tal trovão e relâmpago, que, se conseguires escapar deles sem problemas e desventuras, serás mais afortunado do que qualquer cavaleiro jamais foi.' Deixei o sujeito então, depois que ele me apontou o caminho. Deve ter passado das nove horas e talvez estivesse se aproximando do meio-dia, quando avistei a árvore e a capela. Posso dizer verdadeiramente que esta árvore era o melhor pinheiro que já cresceu na terra. Não creio que alguma vez tenha chovido tão forte que uma gota de água pudesse penetrá-lo, mas sim que escorreria pelos galhos externos. Da árvore vi a bacia pendurada, do mais fino ouro que já esteve à venda em qualquer feira. Quanto à fonte, pode acreditar na minha palavra que ela fervia como água quente. A pedra era de esmeralda, com orifícios como um barril, e havia quatro rubis por baixo, mais radiantes e vermelhos do que o sol da manhã quando nasce no leste. Agora, não direi uma única palavra que não seja verdade. Eu desejava ver o aparecimento maravilhoso da tempestade e do vendaval; mas nisso não fui sábio, pois teria me arrependido alegremente, se pudesse, quando salpiquei a pedra perfurada com a água da bacia. Mas temo ter derramado demais, pois imediatamente vi os céus se abrirem tanto que de mais de quatorze direções os relâmpagos cegaram meus olhos, e de uma só vez as nuvens deixaram cair neve, chuva e granizo. A tempestade era tão feroz e terrível que cem vezes pensei que seria morto pelos raios que caíam ao meu redor e pelas árvores que eram despedaçadas. Saiba que fiquei em grande angústia até que o tumulto fosse apaziguado. Mas Deus me deu tal conforto que a tempestade não durou muito, e todos os ventos aquietaram-se novamente. Os ventos não ousavam soprar contra a vontade de Deus. E quando vi o ar claro e sereno, enchi-me de alegria novamente. Pois observei que a alegria faz com que o problema seja rapidamente esquecido. Assim que a tempestade passou completamente, vi tantos pássaros reunidos no pinheiro (se alguém quiser acreditar em minhas palavras) que não se podia ver um galho ou graveto que não estivesse inteiramente coberto de pássaros. A árvore ficou ainda mais adorável então, pois todos os pássaros cantavam em harmonia, embora a nota de cada um fosse diferente, de modo que nunca ouvi um cantando a nota do outro. Eu, também, regozijei-me em sua alegria e os ouvi até que tivessem cantado todo o seu ofício, pois nunca ouvi tal canção feliz, nem creio que mais alguém a ouvirá, a menos que vá ouvir o que me encheu de tal alegria e felicidade que me perdi em êxtase. Fiquei lá até ouvir alguns cavaleiros chegando, como achei que parecia haver dez deles. Mas todo o barulho e comoção foram causados pela aproximação de um único cavaleiro. Quando o vi chegando sozinho, rapidamente peguei meu corcel e não demorei a montá-lo. E o cavaleiro, como se com má intenção, avançou mais veloz que uma águia, parecendo tão feroz quanto um leão. De tão longe quanto sua voz podia alcançar, ele começou a me desafiar e disse: 'Vassalo, sem provocação causaste-me vergonha e dano. Se havia qualquer contenda entre nós, deverias primeiro ter me desafiado, ou pelo menos buscado justiça antes de me atacar. Mas, senhor vassalo, se estiver ao meu alcance, sobre ti cairá a punição pelo dano que é evidente. Ao meu redor aqui jaz a evidência de meus bosques destruídos. Quem sofreu tem o direito de reclamar. E tenho bons motivos para reclamar que me expulsaste de minha casa com relâmpago e chuva. Causaste-me problemas, e maldito seja quem acha isso justo. Pois dentro de meus próprios bosques e cidade fizeste tal ataque contra mim que recursos de homens de armas e de fortificações não teriam sido de utilidade para mim; nenhum homem poderia estar seguro, mesmo que estivesse em uma fortaleza de pedra sólida e madeira. Mas esteja certo de que a partir deste momento não haverá nem trégua nem paz entre nós.' A estas palavras, investimos um contra o outro, cada um segurando bem o seu escudo e protegendo-se com ele. O cavaleiro tinha um bom cavalo e uma lança robusta, e era sem dúvida uma cabeça inteira mais alto que eu. Assim, eu estava totalmente em desvantagem, sendo mais baixo que ele, enquanto seu cavalo era mais forte que o meu. Pode ter certeza de que direi os fatos, a fim de encobrir minha vergonha. Com a intenção de fazer o meu melhor, dei-lhe um golpe tão forte quanto pude, atingindo o topo de seu escudo, e apliquei toda a minha força com tal efeito que minha lança voou em lascas. A lança dele permaneceu inteira, sendo muito pesada e maior do que qualquer lança de cavaleiro que já vi. E o cavaleiro atingiu-me com ela tão pesadamente que me derrubou por cima da garupa do meu cavalo e deixou-me estendido no chão, onde ele me deixou envergonhado e exausto, sem lançar outro olhar sobre mim. Ele tomou meu cavalo, mas a mim ele deixou, e partiu de volta pelo caminho que veio. E eu, que não sabia o que fazer, permaneci ali com dor e pensamentos perturbados. Sentando-me ao lado da fonte, descansei ali um pouco, não ousando seguir o cavaleiro por medo de cometer algum ato imprudente de loucura. E, de fato, se eu tivesse a coragem, não sabia o que tinha acontecido com ele. Finalmente, ocorreu-me que eu manteria minha promessa ao meu anfitrião e voltaria pelo caminho de sua residência. Esta ideia me agradou, e assim o fiz. Deixei de lado todas as minhas armas para prosseguir mais facilmente, e assim, com vergonha, refiz meus passos. Quando cheguei à sua casa naquela noite, encontrei meu anfitrião sendo o mesmo homem bem-humorado e cortês que eu havia descoberto antes. Não pude observar que nem sua filha nem ele próprio me receberam com menos alegria, ou me fizeram menos honra do que haviam feito na noite anterior. Estou em dívida com eles pela grande honra que todos me fizeram naquela casa; e eles disseram até que, pelo que sabiam ou tinham ouvido dizer, ninguém jamais escapara, sem ser morto ou mantido prisioneiro, do lugar de onde voltei. Assim fui e assim voltei, sentindo, ao fazê-lo, profunda vergonha. Então, tolamente, contei-vos a história que nunca desejei contar novamente."
"Pela minha cabeça", exclama meu senhor Yvain, "tu és meu próprio primo-irmão, e deveríamos amar-nos bem. Mas devo considerar-te um louco por ter me escondido isso por tanto tempo. Se te chamo de louco, peço-te que não se irrites. Pois, se eu puder, e se obtiver a permissão, irei vingar tua vergonha." "É evidente que jantamos", diz Kay, com sua fala sempre pronta; "há mais palavras em um pote cheio de vinho do que em um barril inteiro de cerveja. Dizem que um gato fica alegre quando está cheio. Após o jantar, ninguém se move, mas cada um está pronto para matar Noradin, e tu vais te vingar de Forre! Estão tuas mantas de sela prontas, e tuas grevas de ferro polidas, e tuas bandeiras desfraldadas? Vamos agora, em nome de Deus, meu senhor Yvain, é hoje à noite ou amanhã que partes? Diz-nos, belo senhor, quando partirás para este teste rude, pois gostaríamos de te escoltar até lá. Não haverá preboste ou condestável que não te escoltará com prazer. E, aconteça o que acontecer, peço que não partas sem se despedir de nós; e se tiveres um pesadelo esta noite, por todos os meios, fica em casa!" "O diabo, Senhor Kay", a Rainha responde, "estás fora de ti que tua língua sempre corre assim? Maldita seja tua língua que é tão cheia de amargura! Certamente tua língua deve te odiar, pois diz o pior que sabe para todos os homens. Maldita seja qualquer língua que nunca para de falar mal! Quanto à tua língua, ela balbucia tanto que te faz ser odiado em toda parte. Ela não pode te fazer maior traição. Vê aqui: se fosse minha, eu a acusaria de traição. Qualquer homem que não possa ser curado pela punição deveria ser amarrado como um louco na frente da capela na igreja." "Na verdade, madame", diz meu senhor Yvain, "sua insolência não me importa. Em toda corte, meu senhor Kay tem tanta habilidade, conhecimento e valor que nunca será surdo ou mudo. Ele tem a sagacidade de responder sábia e cortêsmente a tudo o que é vil, e isso ele sempre fez. Bem sabeis se minto ao dizer isso. Mas não tenho desejo de discutir ou de começar nossas tolices novamente. Pois quem desfere o primeiro golpe nem sempre vence a luta, mas sim aquele que se vinga. Aquele que luta com seu companheiro faria melhor em lutar contra algum estranho. Não desejo ser como o cão que se enrijece e rosna quando outro cão late para ele."
Enquanto conversavam assim, o Rei saiu de seu quarto onde estivera todo esse tempo dormindo. E quando os cavaleiros o viram, todos saltaram de seus assentos diante dele, mas ele os fez sentar-se novamente de imediato. Ele tomou seu lugar ao lado da Rainha, que lhe repetiu palavra por palavra, com sua habilidade costumeira, a história de Calogrenant. O Rei ouviu com avidez e, então, jurou três grandes juramentos pela alma de seu pai Utherpendragon, e pela alma de seu filho, e de sua mãe também, que iria ver aquela fonte antes que uma quinzena tivesse passado; e ele veria a tempestade e as maravilhas lá, chegando na véspera da festa de meu senhor São João Batista; lá ele passaria a noite, e todos que desejassem poderiam acompanhá-lo. Toda a corte achou isso bom, pois os cavaleiros e os jovens solteiros estavam muito ansiosos para fazer a expedição. Mas, apesar da alegria e satisfação geral, meu senhor Yvain estava muito desgostoso, pois pretendia ir até lá sozinho; então, ficou triste e muito aborrecido por causa do Rei que planejava ir. A principal causa de seu descontentamento era saber que meu senhor Kay, a quem o favor não seria negado se ele o solicitasse, asseguraria a batalha em vez dele mesmo, ou então, talvez, meu senhor Gawain a pedisse primeiro. Se qualquer um desses dois fizesse o pedido, o favor nunca lhe seria negado. Mas, não tendo desejo de sua companhia, ele resolve não esperar por eles, mas partir sozinho, se possível, seja para seu ganho ou prejuízo. E quem quer que fique para trás, ele pretende estar no terceiro dia na floresta de Broceliande, e lá buscar, se possível, encontrar a estreita trilha arborizada pela qual ele anseia ardentemente, e a planície com o castelo forte, e o prazer e deleite da donzela cortês, que é tão encantadora e bela, e com a donzela seu digno pai, que é tão honrado e nobre que se esforça para distribuir honra. Então ele verá os touros na clareira, com o camponês gigante que os vigia. Grande é seu desejo de ver este sujeito, que é tão robusto, grande, feio e deformado, e tão negro quanto um ferreiro. Então, também, ele verá, se possível, a pedra e a própria fonte, e a bacia e os pássaros no pinheiro, e ele fará chover e soprar. Mas de tudo isso ele não se gabará, nem, se puder evitar, ninguém saberá de seu propósito até que ele tenha recebido disso ou grande humilhação ou grande renome: então que os fatos sejam conhecidos.
Meu senhor Yvain afasta-se da corte sem que ninguém o encontre e segue sozinho para seu local de hospedagem. Lá encontrou toda a sua casa e deu ordens para que seu cavalo fosse selado; então, chamando um de seus escudeiros que era confidente de cada pensamento seu, ele diz: "Vamos agora, segue-me para fora dali e traz-me minhas armas. Sairei imediatamente por aquele portão em meu palafrem. Quanto a ti, não demores, pois tenho uma longa estrada a percorrar. Manda ferrar bem meu corcel e traz-mo rapidamente para onde estou; depois levarás de volta meu palafrem. Mas toma muito cuidado, eu te rogo, se alguém te perguntar sobre mim, não lhe dês nenhuma satisfação. Caso contrário, qualquer que seja a tua confiança em mim, nunca mais poderás contar com a minha boa vontade." "Senhor", ele diz, "tudo ficará bem, pois ninguém aprenderá nada comigo. Prossiga, e eu o seguirei."
Meu senhor Yvain monta de imediato, tencionando vingar, se possível, a desonra de seu primo antes de regressar. O escudeiro correu em busca das armas e do corcel; ele montou sem demora, já que estava equipado com ferraduras e pregos. Depois, seguiu o rastro de seu senhor até vê-lo parado e montado, aguardando a um lado da estrada em um lugar isolado. Trouxe-lhe a armadura e o equipamento e, então, o armou. Meu senhor Yvain não tardou após vestir suas armas, mas apressou-se a percorrer cada dia as montanhas e os vales, pelas florestas longas e amplas, por terras estranhas e selvagens, atravessando muitos locais medonhos, muitos perigos e muitas passagens estreitas, até chegar diretamente ao caminho, que era cheio de sarças e bastante escuro; então sentiu-se finalmente seguro e que agora não poderia perder a sua direção. Independentemente de quem tenha de pagar o preço, ele não parará até ver o pinheiro que sombreia a fonte e a pedra, e a tempestade de granizo, chuva, trovões e vento. Naquela noite, podeis estar certos, teve a hospedagem que desejava, pois achou o vavasor ainda mais educado e cortês do que lhe haviam dito, e na donzela percebeu cem vezes mais sensatez e beleza do que Calogrenant havia mencionado, pois não se pode ensaiar a soma das qualidades de uma dama ou de um homem de bem. No momento em que tal homem se dedica à virtude, sua história não pode ser resumida ou contada, pois língua alguma poderia estimar os feitos honrosos de tal cavalheiro. Meu senhor Yvain estava muito satisfeito com a excelente hospedagem que teve naquela noite, e quando entrou na clareira no dia seguinte, encontrou os touros e o rústico vilão que lhe mostrou o caminho a seguir. Mas mais de cem vezes benzer-se-ia à vista do monstro diante de si — como a Natureza fora capaz de formar criatura tão hedionda e feia. Então, dirigiu-se à fonte e encontrou lá tudo o que desejava ver. Sem hesitação e sem se sentar, derramou a bacia cheia de água sobre a pedra, quando imediatamente começou a soprar e a chover, e causou-se tal tempestade como fora predito. E quando Deus aplacou a tempestade, os pássaros vieram pousar sobre o pinheiro e entoaram as suas canções alegres lá no alto sobre a fonte perigosa. Mas antes que o seu jubileu tivesse cessado, veio o cavaleiro, mais abrasado de ira do que um tição ardente, e fazendo tanto ruído como se estivesse a perseguir um veado vigoroso. Assim que se avistaram, precipitaram-se um contra o outro e demonstraram o ódio mortal que nutriam. Cada um trazia uma lança rígida e robusta, com a qual desferiram golpes tão potentes que perfuraram os escudos à volta dos pescoços e cortaram as malhas das cotas de malha; as lanças partiram-se e vergaram-se, enquanto os fragmentos eram lançados bem alto no ar. Então, cada um ataca o outro com a espada e, na contenda, cortam as correias dos escudos e despedaçam-nos de ponta a ponta, de modo que as tiras pendem, não servindo mais como cobertura ou defesa; pois partiram-nos tanto que fazem descer as lâminas cintilantes sobre os seus flancos, braços e quadris. Feroz, na verdade, é o seu assalto; contudo, não se movem do seu lugar mais do que dois blocos de pedra. Nunca houve dois cavaleiros tão empenhados na morte um do outro. Têm o cuidado de não desperdiçar os seus golpes, mas desferem-nos o melhor que podem; golpeiam e vergam os seus elmos e fazem voar as malhas das cotas de tal forma que tiram não pouco sangue, pois as cotas estão tão quentes com o calor dos seus corpos que mal servem de proteção superior a um casaco. À medida que impelem a ponta da espada contra o rosto, é maravilhoso que uma luta tão feroz e amarga dure tanto tempo. Mas ambos possuem tal coragem que nenhum recuaria por nada um passo sequer diante do seu adversário até o ter ferido mortalmente. Contudo, neste aspecto, eram muito honrados, não tentando nem dignando-se a atingir ou ferir os seus corcéis de forma alguma; antes, permaneciam montados sem colocar o pé em terra, o que tornava o combate mais elegante. Por fim, meu senhor Yvain esmagou o elmo do cavaleiro, a quem o golpe atordoou e deixou tão fraco que desmaiou, nunca tendo recebido antes um golpe tão cruel. Sob o seu lenço, a cabeça estava partida até aos próprios miolos, de modo que as malhas da sua cota brilhante estavam manchadas com os miolos e o sangue, tudo o que lhe causava tal dor intensa que o seu coração quase parou de bater. Tinha, então, boas razões para fugir, pois sentia que tinha um ferimento mortal e que qualquer resistência adicional não seria útil. Com este pensamento em mente, apressou-se a fugir em direção à sua cidade, onde a ponte foi baixada e o portão rapidamente aberto para ele; enquanto isso, meu senhor Yvain esporeia imediatamente atrás dele à velocidade máxima. Tal como um falcão se precipita sobre uma garça quando a vê elevar-se ao longe, e depois aproxima-se tanto dela que está prestes a agarrá-la, mas falha-lhe, assim foge o cavaleiro, com Yvain a pressioná-lo tão perto que quase consegue lançar-lhe o braço, e ainda assim não consegue alcançá-lo, embora esteja tão próximo que pode ouvi-lo gemer devido à dor que sente. Enquanto um se esforça na fuga, o outro esforça-se na perseguição, temendo ter desperdiçado o seu esforço a menos que o apanhe vivo ou morto; pois ainda se recorda das palavras zombeteiras que o meu senhor Kay lhe dirigira. Ainda não tinha cumprido a promessa que fizera ao seu primo; nem acreditarão na sua palavra a menos que ele regresse com as provas. O cavaleiro conduziu-o numa perseguição rápida até ao portão da sua cidade, onde entraram; mas não encontrando homem ou mulher nas ruas por onde passaram, ambos cavalgaram rapidamente até chegarem ao portão do palácio.
O portão era muito alto e largo, contudo tinha uma entrada tão estreita que dois homens ou dois cavalos dificilmente poderiam entrar lado a lado ou passar sem interferência ou grande dificuldade; pois foi construído tal como uma armadilha que se arma para o rato propenso a travessuras, e que tem uma lâmina por cima pronta a cair, golpear e prender, e que é subitamente libertada sempre que algo, por mais suavemente que seja, entra em contacto com a mola. Da mesma forma, sob o portão havia duas molas ligadas a uma grade no alto, guarnecida de ferro e muito afiada. Se algo pisasse este mecanismo, o portão descia de cima, e quem estivesse por baixo, atingido pelo portão, era apanhado e mutilado. Precisamente no meio, a passagem era tão estreita como se fosse um caminho batido. O cavaleiro precipitou-se diretamente por ela, com o meu senhor Yvain a segui-lo furiosamente, e tão perto dele que o segurava pelo pomo da sela atrás. Foi uma sorte para ele estar esticado para a frente, pois não fosse essa sorte teria sido cortado ao meio; pois o seu cavalo pisou a mola de madeira que mantinha a grade no lugar. Como um demónio infernal, o portão caiu, apanhando a sela e as ancas do cavalo, que cortou rente. Mas, graças a Deus, meu senhor Yvain foi apenas ligeiramente tocado quando roçou tão perto das suas costas que cortou ambas as suas esporas ao nível dos calcanhares. E enquanto ele assim caía em desalento, o outro, com o seu ferimento mortal, escapou-lhe, como agora vereis. Mais adiante, havia outro portão tal como o que tinham acabado de passar; através deste o cavaleiro escapou, e o portão desceu atrás dele. Assim, o meu senhor Yvain ficou preso, muito preocupado e desconcertado ao encontrar-se fechado neste corredor, que estava todo cravejado de pregos dourados, e cujas paredes eram engenhosamente decoradas com tintas preciosas. Mas não estava preocupado com nada tanto quanto por não saber o que tinha acontecido ao cavaleiro. Enquanto estava naquele lugar estreito, ouviu abrir-se a porta de um pequeno quarto contíguo, e saiu de lá, sozinha, uma bela e encantadora donzela que fechou a porta novamente atrás de si. Quando encontrou o meu senhor Yvain, a princípio ficou muito desconcertada. "Certamente, senhor cavaleiro", diz ela, "temo que tenha chegado numa má hora. Se for visto aqui, será cortado em pedaços. Pois o meu senhor está mortalmente ferido, e sei que foi o senhor quem causou a sua morte. A minha senhora está num tal estado de luto, e as suas gentes à sua volta choram de tal modo que estão prontas a morrer de raiva; e, além disso, sabem que o senhor está dentro. Mas, por enquanto, o seu pesar é tal que não conseguem ocupar-se de si. No momento em que vierem atacá-lo, não poderão deixar de o matar ou capturar, como bem entenderem." E o meu senhor Yvain responde-lhe: "Se Deus quiser, nunca me matarão, nem cairei nas suas mãos." "Não", diz ela, "pois farei o possível para o ajudar. Não é de homem acalentar o medo. Por isso, considero-o um homem de coragem, quando não está desalentado. E esteja certo de que, se pudesse, ajudá-lo-ia e tratá-lo-ia honrosamente, como o senhor faria por mim. Uma vez, a minha senhora enviou-me em missão à corte do Rei, e suponho que não fui tão experiente ou cortês ou tão bem comportada como uma donzela deveria ser; de qualquer modo, não houve um cavaleiro lá que se dignasse a dirigir-me uma palavra, exceto o senhor que está aqui agora; mas o senhor, na sua bondade, honrou-me e ajudou-me. Pela honra que me fez então, agora recompensá-lo-ei. Sei muito bem qual é o seu nome, e reconheci-o de imediato: o seu nome é meu senhor Yvain. Pode estar seguro e certo de que, se seguir o meu conselho, nunca será apanhado ou maltratado. Por favor, aceite este meu pequeno anel, que devolverá quando eu o tiver libertado." Então ela entregou-lhe o pequeno anel e disse-lhe que o seu efeito era como o da casca que cobre a madeira para que esta não possa ser vista; mas deve ser usado de modo a que a pedra fique dentro da palma; então, aquele que usa o anel no dedo não precisa de se preocupar com nada; pois ninguém, por mais aguçados que sejam os seus olhos, será capaz de o ver mais do que a madeira que é coberta pela casca exterior. Tudo isto agrada ao meu senhor Yvain. E quando ela lhe disse isto, conduziu-o para um assento sobre um divã coberto com uma colcha tão rica que o Duque da Áustria não possuía igual, e disse-lhe que, se quisesse comer algo, ela traria para ele; e ele respondeu que o faria com gosto. Correndo rapidamente para o quarto, ela voltou pouco depois, trazendo uma ave assada e um bolo, um pano, um jarro cheio de bom vinho de uva coberto por um copo branco; tudo isto ela ofereceu-lhe para comer. E ele, que necessitava de alimento, comeu e bebeu com muito gosto.
Quando terminou a refeição, os cavaleiros estavam agitados lá dentro, procurando-o e ansiosos por vingar o seu senhor, que já estava estendido no seu esquife. Então, a donzela disse a Yvain: "Amigo, ouve-os a todos à tua procura? Há um grande ruído e alvoroço a preparar-se. Mas, quem quer que venha ou vá, não te mexas por qualquer ruído deles, pois nunca te poderão descobrir se não saíres deste divã. Dentro de pouco tempo verás esta sala toda cheia de pessoas mal-intencionadas e hostis, que pensarão encontrar-te aqui; e não tenho dúvidas de que trarão o corpo para aqui antes do enterro, e começarão a procurar-te debaixo dos assentos e das camas. Será divertido para um homem que não tem medo ver as pessoas a procurar tão infrutiferamente, pois estarão todas tão cegas, tão desfeitas e tão enganadas que estarão fora de si de raiva. Não te posso dizer mais nada agora, pois não ouso demorar-me mais aqui. Mas posso agradecer a Deus por me ter dado a hipótese e a oportunidade de fazer algum serviço para te agradar, como eu ansiava fazer." Então ela afastou-se, e quando ela se foi, toda a multidão, de comum acordo, viera de ambos os lados para os portões, armada com paus e espadas. Havia uma grande multidão e pressão de pessoas hostis a agitar-se à volta, quando avistaram diante do portão a metade do cavalo que tinha sido cortado. Então sentiram-se muito seguros de que, quando os portões fossem abertos, encontrariam lá dentro aquele cuja vida desejavam tirar. Então, mandaram levantar aqueles portões que tinham sido a morte de muitos homens. Mas, como nenhuma mola ou armadilha estava preparada para a sua passagem, entraram todos lado a lado. Então encontraram no limiar a outra metade do cavalo que tinha sido morto; mas nenhum deles tinha olhos suficientemente aguçados para ver o meu senhor Yvain, a quem teriam matado de bom grado; e ele viu-os fora de si de raiva e fúria, enquanto diziam: "Como pode isto ser? Pois não há porta ou janela aqui por onde algo pudesse escapar, a menos que seja um pássaro, um esquilo, uma marmota ou algum outro animal ainda mais pequeno; pois as janelas estão gradeadas e os portões foram fechados assim que o meu senhor passou. O corpo está aqui dentro, morto ou vivo, uma vez que não há sinal dele lá fora; podemos ver mais de metade da sela aqui dentro, mas dele não vemos nada, exceto as esporas que caíram decepadas dos seus pés. Agora deixemos esta conversa ociosa e procuremos em todos estes cantos, pois ele está certamente ainda aqui dentro, ou então estamos todos enfeitiçados, ou os espíritos malignos roubaram-no de nós." Assim, todos eles, inflamados de raiva, procuraram-no pela sala, batendo nas paredes, camas e assentos. Mas o divã sobre o qual ele jazia foi poupado e escapou aos golpes, de modo que ele não foi atingido ou tocado. Mas à volta bateram o suficiente e fizeram um alvoroço na sala com os seus paus, como um homem cego que bate à medida que avança na sua procura. Enquanto procuravam debaixo das camas e dos bancos, entrou uma das damas mais belas que qualquer criatura terrena jamais viu. Palavra ou menção nunca foi feita de tal bela dama cristã, e contudo ela estava tão louca de pesar que estava prestes a tirar a própria vida. De repente, ela gritou com toda a força da sua voz e depois caiu prostrada num desmaio. E quando foi levantada, começou a arranhar-se e a rasgar os cabelos, como uma mulher que perdera o juízo. Rasga os cabelos e rasga o vestido, e desmaia a cada passo que dá; nem nada a pode confortar quando vê o seu marido ser transportado sem vida no esquife; pois a sua felicidade chegou ao fim, e assim fez o seu lamento em voz alta. A água benta, a cruz e as velas foram transportadas à frente pelas freiras de um convento; depois vieram missais e incensários e os padres, que pronunciam a absolvição final necessária para a alma desditosa.
O meu senhor Yvain ouviu os gritos e a dor que nunca poderá ser descrita, pois ninguém a poderia descrever, nem tal foi alguma vez registado num livro. O cortejo passou, mas no meio da sala uma grande multidão reuniu-se em torno do esquife, pois o sangue fresco e quente escorria de novo da ferida do homem morto, e isto significava certamente que o homem ainda estava presente, aquele que tinha travado a batalha e o tinha matado e derrotado. Então, procuraram e vasculharam por toda a parte, e viraram e agitaram tudo, até que ficaram todos a suar com a dificuldade e o aperto que tinham sido causados pela visão do sangue carmesim a escorrer. Então o meu senhor Yvain foi bem golpeado e espancado onde jazia, mas não foi por isso que se mexeu de todo. E as pessoas ficaram cada vez mais perturbadas por causa das feridas que rebentavam, e maravilhavam-se com o porquê de sangrarem, sem saberem de quem era a culpa. E cada um dizia ao seu vizinho: "O assassino está aqui entre nós, e contudo não o vemos, o que é estranhamente misterioso." A isto, a senhora mostrou tal dor que tentou tirar a própria vida, e gritou como se estivesse fora de si: "Ó Deus, então não será encontrado o assassino, o traidor que tirou a vida ao meu bom senhor? Bom? Sim, o melhor dos bons, na verdade! Verdadeiro Deus, a culpa será Tua se Tu o deixares escapar assim. Não deveria culpar mais ninguém senão a Ti, que o escondes da minha vista. Tal prodígio nunca foi visto, nem tal injustiça, como a que me fazes ao não me permitires sequer ver o homem que deve estar tão perto de mim. Quando não o posso ver, bem posso dizer que algum demónio ou espírito se interpôs entre nós, de modo que estou sob um feitiço. Ou então ele é um cobarde e tem medo de mim: deve ser um poltrão por ter receio de mim, e é um ato de cobardia não se mostrar perante mim. Ah, tu espírito, coisa poltrona! Por que tens tanto medo de mim, quando perante o meu senhor eras tão corajoso? Ó coisa vazia e esquiva, por que não te posso ter em meu poder? Por que não te posso deitar as mãos agora? Mas como poderia alguma vez acontecer que matasses o meu senhor, a não ser por traição? Certamente o meu senhor nunca teria sido derrotado pelas tuas mãos se te tivesse visto face a face. Pois nem Deus nem homem conheceram jamais alguém como ele, nem existe agora ninguém semelhante a ele. Certamente, se fosses um homem mortal, nunca terias ousado resistir ao meu senhor, pois ninguém se podia comparar a ele." Assim a senhora luta consigo mesma, e assim ela contende e exaure-se. E o seu povo com ela, da sua parte, mostra a maior dor possível enquanto transportam o corpo para o enterro. Após os seus longos esforços e buscas, estão completamente exaustos com a procura, e desistem por cansaço, na medida em que não conseguem encontrar ninguém que seja de alguma forma culpado. As freiras e os padres, tendo já terminado o serviço, tinham regressado da igreja e tinham ido para o enterro. Mas a tudo isto a donzela no seu quarto não prestou atenção. Os seus pensamentos estão com o meu senhor Yvain, e, vindo rapidamente, disse-lhe: "Meu bom senhor, estas pessoas têm andado à sua procura em força. Fizeram um grande tumulto aqui, e espreitaram em todos os cantos mais diligentemente do que um cão de caça a farejar uma perdiz ou uma codorniz. Sem dúvida que teve medo." "Pela minha palavra, tem razão", diz ele: "Nunca pensei ter tanto medo. E contudo, se fosse possível, olharia de bom grado através de alguma janela ou abertura para o cortejo e para o cadáver." Contudo, ele não tinha interesse nem no cadáver nem no cortejo, pois tê-los-ia visto a todos queimados de bom grado, mesmo que lhe custasse mil marcos. Mil marcos? Três mil, na verdade, pela minha palavra. Mas ele disse-o por causa da senhora da cidade, de quem desejava vislumbrar. Então a donzela colocou-o numa pequena janela, e pagou-lhe tão bem quanto pôde pela honra que ele lhe tinha feito. Desta janela, o meu senhor Yvain espia a bela senhora, enquanto ela diz: "Senhor, que Deus tenha misericórdia da vossa alma! Pois nunca, creio eu, algum cavaleiro se sentou na sela que fosse vosso igual em qualquer aspeto. Nenhum outro cavaleiro, meu belo e doce senhor, possuiu alguma vez a vossa honra ou cortesia. A generosidade era vossa amiga e a audácia vossa companheira. Que a vossa alma descanse entre os santos, meu belo e querido senhor." Então ela bate e rasga tudo o que consegue alcançar. Qualquer que seja o resultado, é difícil para o meu senhor Yvain conter-se de correr para segurar as suas mãos. Mas a donzela suplica-lhe e aconselha-o, e até ordena urgentemente, embora com cortesia e amabilidade, que não cometa nenhum ato precipitado, dizendo: "Está bem aqui. Não se mexa por motivo algum até que esta dor seja apaziguada; deixe que estas pessoas partam todas, como farão dentro em breve. Se agir como aconselho, de acordo com as minhas perspetivas, grande vantagem pode advir para si. Será melhor para si permanecer sentado aqui, e observar as pessoas dentro e fora enquanto passam pelo caminho sem que o vejam. Mas tenha cuidado para não falar violentamente, pois considero esse homem mais imprudente do que corajoso, aquele que vai longe demais e perde o seu autocontrolo e comete algum ato de violência no momento em que tem tempo e oportunidade. Portanto, se nutre algum pensamento precipitado, tenha cuidado para não o proferir. O homem sábio esconde o seu pensamento imprudente e trabalha pela retidão se puder. Portanto, prudentemente, tenha cuidado para não arriscar a sua cabeça, pela qual não aceitariam qualquer resgate. Seja ponderado consigo mesmo e lembre-se do meu conselho. Fique descansado até que eu regresse, pois não me atrevo a ficar mais tempo agora. Receio ficar tanto tempo que eles suspeitariam de mim quando não me vissem na multidão, e então eu sofreria por isso."
Então ela vai-se embora, e ele permanece, não sabendo como se comportar. Ele sente relutância em vê-los enterrar o cadáver sem garantir algo para levar como prova de que o derrotou e matou. Se não tiver prova ou evidência, será tido em desprezo, pois Kay é tão vil e obstinado, tão dado ao escárnio, e tão irritante, que ele nunca conseguiria convencê-lo. Ele andaria sempre a insultá-lo, lançando o seu escárnio e provocações como fez no outro dia. Estas provocações ainda estão frescas e a magoar no seu coração. Mas, com o seu açúcar e mel, um novo Amor agora amoleceu-o; ele tinha ido caçar nas suas terras e tinha apanhado a sua presa. O seu inimigo leva consigo o seu coração, e ele ama a criatura que mais o odeia. A senhora, alheia a tudo, vingou bem a morte do seu senhor. Ela garantiu uma vingança maior do que jamais poderia ter feito a não ser que tivesse sido ajudada pelo Amor, que o ataca tão suavemente que lhe fere o coração através dos olhos. E esta ferida é mais duradoura do que qualquer uma infligida por lança ou espada. Uma ferida de espada é curada e sarada de imediato assim que um médico a trata, mas a ferida de amor é pior quando está mais próxima do seu médico. Esta é a ferida do meu senhor Yvain, da qual nunca mais recuperará, pois o Amor instalou-se com ele. Ele deserta e afasta-se dos lugares que costumava frequentar. Ele não se importa com nenhum alojamento ou estalajadeiro a não ser este, e ele é muito sábio ao deixar um lugar de alojamento pobre para se dirigir a ele. Para se dedicar completamente a ele, ele não terá outro alojamento, embora frequentemente costume procurar estalagens humildes. É uma vergonha que o Amor se comporte alguma vez de forma tão vil ao selecionar o alojamento mais mesquinho tão prontamente como o melhor. Mas agora ele veio para onde é bem-vindo, e onde será tratado honrosamente, e onde fará bem em ficar. Esta é a forma como o Amor deveria agir, sendo tal criatura nobre que é maravilhoso como ele se atreve vergonhosamente a descer a tal estado baixo. Ele é como aquele que espalha o seu bálsamo sobre as cinzas e o pó, que mistura açúcar com fel, e sebo com mel. Contudo, ele não agiu assim desta vez, mas antes alojou-se num lugar nobre, pelo que ninguém o pode censurar. Quando o homem morto foi enterrado, todo o povo dispersou-se, não deixando clérigos, nem cavaleiros, nem senhoras, exceto apenas aquela que não faz segredo da sua dor. Ela sozinha permanece para trás, agarrando-se frequentemente à garganta, torcendo as mãos, e batendo com as palmas, enquanto lê os seus salmos no seu saltério de letras douradas. Durante todo este tempo, o meu senhor Yvain está à janela a contemplá-la, e quanto mais a olha, mais a ama e é cativado por ela. Ele teria desejado que ela parasse de chorar e de ler, e que ela se sentisse inclinada a conversar com ele. O Amor, que o apanhou à janela, encheu-o com este desejo. Mas ele desespera de realizar o seu desejo, pois não consegue imaginar ou acreditar que o seu desejo possa ser gratificado. Então ele diz: "Posso considerar-me um tolo por desejar o que não posso ter. Foi o seu senhor que feri mortalmente, e contudo penso que posso ser reconciliado com ela? Pela minha palavra, tais pensamentos são loucura, pois de momento ela tem boas razões para me odiar mais amargamente do que qualquer outra coisa. Tenho razão em dizer 'de momento', pois uma mulher tem mais do que uma disposição. Essa disposição em que ela está agora, confio que ela mudará em breve; de facto, ela mudá-la-á certamente, e eu sou louco em desesperar assim. Que Deus conceda que ela mude em breve! Pois estou condenado a ser seu escravo, já que tal é a vontade do Amor. Quem não recebe o Amor de bom grado, quando ele vem a si, comete traição e um crime. Admito (e que quem quiser, preste atenção ao que digo) que tal pessoa não merece felicidade ou alegria. Mas se perder, não será por tal razão; antes amarei o meu inimigo. Pois não deveria sentir qualquer ódio por ela a não ser que deseje trair o Amor. Devo amar de acordo com o desejo do Amor. E deveria ela considerar-me como um amigo? Sim, certamente, já que é ela quem amo. E chamo-lhe a minha inimiga, pois ela odeia-me, embora com boas razões, pois matei o objeto do seu amor. Então, sou eu o seu inimigo? Certamente que não, mas o seu verdadeiro amigo, pois nunca amei ninguém antes. Sofro pelas suas belas tranças, superando o ouro no seu brilho; sinto as dores da angústia e do tormento quando a vejo rasgá-las e cortá-las, nem as suas lágrimas poderão jamais ser secas, aquelas que vejo cair dos seus olhos; por todas estas coisas estou angustiado. Embora estejam cheios de lágrimas incessantes e sempre a correr, contudo nunca houve olhos tão adoráveis. A visão dela a chorar causa-me agonia, mas nada me magoa tanto como a visão do seu rosto, que ela lacera sem que tenha merecido tal tratamento. Nunca vi tal rosto tão perfeitamente formado, nem tão fresco e delicadamente colorido. E depois, perfurou-me o coração vê-la agarrar-se à garganta. Certamente, é verdade demais que ela está a fazer o pior que pode. E contudo, nenhum cristal nem qualquer espelho é tão brilhante e suave. Deus! por que é ela assim possuída, e por que não se poupa a si mesma? Por que torce as suas belas mãos e bate e rasga o seu peito? Não seria maravilhosamente bela de se ver quando de bom humor, vendo que ela é tão bela no seu descontentamento? Certamente sim, posso jurar sobre isso. Nunca antes numa obra de beleza a Natureza foi capaz de se superar, pois estou certo de que ela foi além dos limites de qualquer tentativa anterior. Como poderia ter acontecido então? De onde veio uma beleza tão maravilhosa? Deus deve tê-la feito com a Sua mão nua para que a Natureza pudesse descansar de mais trabalho. Se ela tentasse fazer uma réplica, poderia gastar o seu tempo em vão sem ter sucesso na sua tarefa. Nem o próprio Deus, se tentasse, poderia ter sucesso, presumo, em fazer outra igual, qualquer esforço que pudesse fazer."
Assim, o meu senhor Yvain considera aquela que está destroçada com a sua dor, e suponho que nunca aconteceria de novo que algum homem na prisão, como o meu senhor Yvain com medo pela sua vida, estivesse tão loucamente apaixonado ao ponto de não fazer qualquer pedido em seu próprio nome, quando talvez ninguém mais fale por ele. Ele ficou à janela até ver a senhora afastar-se, e ambas as grades foram baixadas de novo. Outro poderia ter-se lamentado com isto, quem preferisse uma fuga livre a permanecer mais tempo onde estava. Mas para ele é bastante indiferente se estão fechadas ou abertas. Se estivessem abertas, ele certamente não iria embora, não, mesmo que a senhora lhe desse licença e o perdoasse livremente pela morte do seu senhor. Pois ele é detido pelo Amor e pela Vergonha que se levantam perante ele de ambos os lados: ele tem vergonha de ir embora, pois ninguém acreditaria no sucesso do seu feito; por outro lado, ele tem um desejo tão forte de ver a senhora, pelo menos, se não puder obter qualquer outro favor, que sente pouca preocupação com a sua prisão. Ele preferiria morrer a ir embora. E agora a donzela regressa, desejando fazer-lhe companhia com o seu consolo e alegria, e ir buscar para ele tudo o que ele possa desejar. Mas encontrou-o pensativo e bastante exausto com o amor que se tinha apoderado dele; perante o que ela se dirigiu a ele desta forma: "Meu senhor Yvain, que tipo de tempo passou hoje?" "Tenho estado agradavelmente ocupado", foi a sua resposta. "Agradavelmente? Em nome de Deus, é essa a verdade? O quê? Como pode alguém divertir-se vendo que é caçado até à morte, a não ser que o busque e deseje?" "Na verdade", diz ele, "minha gentil amiga, não desejaria de forma alguma morrer; e contudo, como Deus me vê, fiquei satisfeito, estou satisfeito agora, e sempre estarei satisfeito pelo que vi." "Bem, não falemos mais disso", ela responde, "pois consigo compreender bem o suficiente qual é o significado de tais palavras. Não sou tão tola ou inexperiente que não consiga compreender tais palavras como essas; mas venha agora atrás de mim, pois encontrarei algum meio rápido de o libertar do seu confinamento. Certamente libertá-lo-ei esta noite ou amanhã, se desejar. Venha agora, eu conduzi-lo-ei para fora." E ele responde desta forma: "Pode estar certa de que nunca escaparei secretamente e como um ladrão. Quando as pessoas estiverem todas reunidas lá fora nas ruas, poderei sair mais honrosamente do que se o fizesse sub-repticiamente." Então ele seguiu-a para o pequeno quarto. A donzela, que era gentil, garantiu e concedeu-lhe tudo o que ele desejava. E quando a oportunidade surgiu, ela lembrou-se do que ele lhe tinha dito, como tinha ficado satisfeito pelo que viu quando o procuravam no quarto com a intenção de o matar.
A donzela estava em tal favor com a sua senhora que não tinha medo de lhe dizer nada, independentemente das consequências, pois ela era a sua confidente e companheira. Então, por que deveria ela ser relutante em consolar a sua senhora e em dar-lhe um conselho que redundasse na sua honra? A primeira vez, ela disse-lhe em privado: "Minha senhora, maravilho-me grandemente ao vê-la agir de forma tão extravagante. Pensa que pode recuperar o seu senhor cedendo assim à sua dor?" "Não, antes, se tivesse o meu desejo", diz ela, "estaria agora morta de dor." "E porquê?" "Para segui-lo." "Segui-lo? Deus nos livre, e que lhe dê de novo um senhor tão bom, como é consistente com o Seu poder." "Tu nunca disseste uma mentira como essa, pois Ele nunca poderia dar-me um senhor tão bom de novo." "Ele dar-lhe-á um melhor, se o aceitar, e eu posso prová-lo." "Vai-te embora! Paz! Nunca encontrarei um tal." "Na verdade encontrará, minha senhora, se consentir. Diga-me apenas, se quiser, quem vai defender a sua terra quando o Rei Arthur vier na próxima semana à margem da fonte? Já foi informada disto por cartas que lhe foram enviadas pela Dameisele Sauvage. Ai, que amável serviço ela lhe fez! deveria estar a considerar como defenderá a sua fonte, e contudo não para de chorar! Se lhe agradar, minha cara senhora, não deve atrasar-se. Pois certamente, todos os cavaleiros que tem não valem, como bem sabe, tanto como uma única criada de quarto. Nem escudo nem lança serão alguma vez tomados em mão pelo melhor deles. Tem muitos servos poltrões, mas não há um deles corajoso o suficiente para ousar montar um corcel. E o Rei vem com tal exército que a sua vitória será inevitável." A senhora, após reflexão, sabe muito bem que ela lhe está a dar o seu conselho sincero, mas ela é irracional num aspeto, tal como outras mulheres que são, quase sem exceção, culpadas da sua própria loucura, e recusam aceitar o que realmente desejam. "Vai-te embora", diz ela; "deixa-me em paz. Se ouvir falar disto de novo, será mau para ti, a não ser que fujas. Cansas-me com as tuas palavras ociosas." "Muito bem, minha senhora", diz ela; "que é uma mulher é evidente, pois a mulher ficará irada quando ouve alguém dar-lhe um bom conselho."
Então ela retirou-se e deixou-a sozinha. E a senhora refletiu que tinha estado errada. Teria ficado muito contente em saber como a donzela poderia provar que seria possível encontrar um cavaleiro melhor do que o seu senhor jamais fora. Teria muito gosto em ouvi-la falar, mas agora proibira-a. Com este desejo em mente, esperou até que ela regressasse. Mas o aviso de nada valeu, pois ela começou a dizer-lhe de imediato: "Minha senhora, é conveniente que assim vos tortureis com o pesar? Pelo amor de Deus, controlai-vos agora e, por vergonha, ao menos cessai o vosso lamento. Não é próprio que uma dama tão grandiosa guarde o seu pesar por tanto tempo. Lembrai-vos do vosso estatuto honroso e do vosso nascimento tão gentil! Pensais que toda a virtude cessou com a morte do vosso senhor? Há no mundo cem homens tão bons ou melhores." "Que Deus me confunda, se não mentis! Nomeai-me apenas um que seja reputado como tão excelente quanto o meu senhor foi toda a sua vida." "Se o fizesse, ficaríeis zangada comigo, perderíeis a calma e estimar-me-íeis menos." "Não, não o farei, garanto-te." "Então, que tudo seja para o vosso futuro bem-estar se apenas consentirdes, e que Deus assim incline a vossa vontade! Não vejo razão para me calar, pois ninguém ouve ou atenta no que dizemos. Sem dúvida pensareis que sou atrevida, mas direi livremente o que penso. Quando dois cavaleiros se encontram num recontro de armas e quando um venceu o outro, qual dos dois pensais que é o melhor? Pela minha parte, atribuo o prémio ao vencedor. Ora, que pensais?" "Parece-me que me estais a armar uma cilada e pretendeis apanhar-me nas minhas palavras." "Pela minha fé, podeis estar certa de que tenho razão, e posso provar-vos irrefutavelmente que aquele que derrotou o vosso senhor é melhor do que ele próprio. Ele venceu-o e perseguiu-o valentemente até o aprisionar na sua casa." "Ora", responde ela, "ouço a maior insensatez que jamais foi proferida. Vai-te, espírito carregado de maldade! Vai-te, rapariga tola e enfadonha! Nunca mais profiras tais palavras vãs, e nunca mais venhas à minha presença falar uma palavra em seu nome!" "Na verdade, minha senhora, eu sabia muito bem que não receberia agradecimentos vossos, e disse-o antes de falar. Mas prometestes-me que não ficaríeis desagradada e que não ficaríeis zangada comigo por isso. Mas falhastes em cumprir a vossa promessa e agora, como aconteceu, descarregastes a vossa ira sobre mim, e eu perdi por não me ter calado."
A seguir, ela regressa ao quarto onde o meu senhor Yvain espera, confortavelmente guardado pela sua vigilância. Mas ele está inquieto quando não pode ver a dama, e não presta atenção, nem ouve uma palavra do relato que a donzela lhe traz. A dama, também, está em grande perplexidade durante toda a noite, preocupada com a forma como deverá defender a fonte; e começa a arrepender-se da sua ação para com a donzela, a quem tinha censurado, insultado e tratado com desprezo. Ela sente-se muito segura e certa de que, por nenhuma recompensa ou suborno, nem por qualquer afeição que possa nutrir por ele, a donzela teria mencionado ele; e que ela deve amá-la mais do que a ele, e que nunca lhe daria um conselho que lhe trouxesse vergonha ou embaraço: a donzela é uma amiga demasiado leal para isso. Assim, eis que a dama está completamente transformada: teme agora que aquela a quem falou com aspereza nunca mais a ame devotadamente; e aquele a quem repeliu, ela agora lealmente e com boa razão perdoa, vendo que ele não lhe fizera mal algum. Assim, ela argumenta como se ele estivesse ali na sua presença, e assim começa o seu argumento: "Vamos", diz ela, "podes tu negar que o meu senhor foi morto por ti?" "Isso", diz ele, "não o posso negar. Na verdade, admito-o plenamente." "Dize-me, então, a razão do teu feito. Fizeste-o para me ferir, movido pelo ódio ou pelo rancor?" "Que a morte não me poupe agora, se o fiz para vos ferir." "Nesse caso, não me fizeste mal, nem és culpado de nada para com ele. Pois ele ter-te-ia matado, se pudesse. Por isso, parece-me que decidi bem e retamente." Assim, pelos seus próprios argumentos, ela consegue descobrir a justiça, a razão e o bom senso, como não há causa para o odiar; assim, ela molda a questão para se conformar ao seu desejo e, pelos seus próprios esforços, acende o seu amor, como um arbusto que apenas fumega com a chama por baixo, até que alguém o sopra ou o agita. Se a donzela entrasse agora, ganharia a contenda pela qual fora tão censurada e pela qual fora tão ferida. E na manhã seguinte, de facto, ela apareceu novamente, retomando o assunto onde o tinha deixado. Entretanto, a dama baixou a cabeça, sabendo que tinha errado ao atacá-la. Mas agora está ansiosa por se redimir e por indagar sobre o nome, caráter e linhagem do cavaleiro: por isso, humildemente e com sabedoria, diz: "Desejo pedir-vos perdão pelas palavras insultuosas de orgulho que, na minha raiva, vos dirigi: seguirei o vosso conselho. Por isso, dizei-me agora, se possível, sobre o cavaleiro de quem tanto me falastes: que espécie de homem é ele e de que parentesco? Se ele for adequado para se tornar o meu consorte, e desde que ele esteja disposto, prometo-vos torná-lo meu marido e senhor do meu domínio. Mas ele terá de agir de tal forma que ninguém me possa censurar dizendo: 'Esta é aquela que tomou aquele que matou o seu senhor'." "Em nome de Deus, senhora, assim será. Tereis o mais gentil, nobre e belo senhor que jamais pertenceu à linhagem de Abel." "Qual é o seu nome?" "O meu senhor Yvain." "Pela minha palavra, se ele é filho do Rei Urien, não é de nascimento humilde, mas muito nobre, como bem sei." "Na verdade, minha senhora, dizeis a verdade." "E quando seremos capazes de o ver?" "Daqui a cinco dias." "Isso seria demasiado tempo; pois desejo que ele já tivesse vindo. Que ele venha esta noite ou amanhã, o mais tardar." "Minha senhora, penso que ninguém poderia voar tão longe num dia. Mas enviarei um dos meus escudeiros que pode correr rápido e que chegará à corte do Rei Arthur pelo menos amanhã à noite, penso eu; esse é o lugar que devemos procurar por ele." "Isso é muito tempo. Os dias são longos. Mas dizei-lhe que amanhã à noite ele tem de estar de volta aqui, e que tem de se apressar mais do que o habitual. Se ele apenas fizer o seu melhor, pode fazer dois dias de viagem num só. Além disso, esta noite a lua brilhará; por isso, que ele transforme a noite em dia. E quando ele regressar, dar-lhe-ei o que ele desejar que eu dê." "Deixai todo o cuidado disso para mim; pois tê-lo-eis nas vossas mãos depois de amanhã, o mais tardar. Entretanto, convocareis os vossos homens e conferenciareis com eles sobre a visita iminente do Rei. A fim de fazer a defesa costumeira da vossa fonte, cumpre-vos consultar com eles. Nenhum deles será tão audaz que se atreva a gabar-se de que se apresentará. Nesse caso, tereis uma boa desculpa para dizer que vos cumpre casar novamente. Um certo cavaleiro, altamente qualificado, procura a vossa mão; mas não vos atreveis a aceitá-lo sem o consentimento unânime deles. E garanto qual será o resultado: conheço-os a todos como sendo tais cobardes que, a fim de colocar noutrem o fardo que seria demasiado pesado para eles, cairão aos vossos pés e expressarão a sua gratidão; pois assim a sua responsabilidade chegará ao fim. Pois, quem teme a sua própria sombra evita voluntariamente, se possível, qualquer encontro com lança ou espada; para tais jogos um cobarde não tem utilidade." "Pela minha palavra", responde a dama, "assim o desejaria, e assim consinto, tendo já concebido o plano que expressastes; por isso é isso que faremos. Mas por que demorais aqui? Ide, sem demora, e tomai medidas para o trazer para cá, enquanto eu convocarei os meus vassalos." Assim terminou a sua conferência. E a donzela finge enviar alguém para procurar o meu senhor Yvain na sua terra; enquanto todos os dias ela o faz banhar, lavar e pentear. E além disso, prepara-lhe uma túnica de escarlate vermelho, novinha em folha e forrada com pele manchada. Não há nada necessário para o seu equipamento que ela não lhe empreste: uma fivela de ouro para o pescoço, ornamentada com pedras preciosas que fazem as pessoas parecerem bem, um cinto e uma bolsa feita de rico brocado de ouro. Ela equipou-o perfeitamente, depois informou a sua senhora de que o mensageiro tinha regressado, tendo feito bem o seu recado. "Como é isso?", diz ela, "ele está aqui? Então que ele venha de imediato, secreta e privadamente, enquanto ninguém está aqui comigo. Vede que ninguém mais entre, pois odiaria ver uma quarta pessoa aqui." A isto, a donzela retirou-se e regressou ao seu hóspede novamente. Contudo, o seu rosto não revelava a alegria que estava no seu coração; na verdade, ela disse que a sua senhora sabia que ela o tinha estado a esconder e estava muito irritada com ela. "Mais ocultação é inútil agora. As notícias sobre vós foram tão divulgadas que a minha senhora sabe a história toda e está muito zangada comigo, cobrindo-me de culpa e reprovações. Mas ela deu-me a sua palavra de que posso levar-vos à sua presença sem qualquer mal ou perigo. Assumo que não tereis qualquer objeção a isto, exceto por uma condição (pois não devo disfarçar a verdade, ou seria injusta convosco): ela deseja ter-vos sob o seu controlo, e deseja uma posse tão completa do vosso corpo que mesmo o vosso coração não esteja livre." "Certamente", disse ele, "consinto prontamente naquilo que não será um fardo para mim. Estou disposto a ser o seu prisioneiro." "Assim o sereis: juro-o por esta mão direita colocada sobre vós! Agora vinde e, segundo o meu conselho, comportai-vos tão humildemente na sua presença que o vosso aprisionamento não seja penoso. Caso contrário, não vos preocupeis. Não creio que a vossa restrição seja incómoda." Então a donzela leva-o, ora alarmando-o, ora tranquilizando-o, e falando-lhe misteriosamente sobre o confinamento no qual ele se encontrará; pois cada amante é um prisioneiro. Ela tem razão em chamá-lo de prisioneiro; pois, certamente, qualquer um que ama já não é livre.
Segurando o meu senhor Yvain pela mão, a donzela leva-o para onde ele será ternamente amado; mas, esperando ser mal recebido, não é estranho que ele tenha medo. Encontraram a dama sentada sobre uma almofada vermelha. Garanto-vos que o meu senhor Yvain estava aterrorizado ao entrar no quarto, onde encontrou a dama que não lhe dirigiu uma palavra. A isto, ele ficou ainda mais assustado, sendo dominado pelo medo ao pensar que tinha sido traído. Ele permaneceu ali de lado tanto tempo que a donzela acabou por falar e disse: "Quinhentas maldições sobre a cabeça daquele que leva para a câmara de uma bela dama um cavaleiro que não se quer aproximar, e que não tem nem língua, nem boca, nem sentido para se apresentar." Então, segurando-o pelo braço, ela empurrou-o para a frente com as palavras: "Vamos, avançai, cavaleiro, e não tenhais medo de que a minha senhora vos vá morder; mas procurai a sua benevolência e dai-lhe a vossa. Eu juntar-me-ei a vós na vossa prece para que ela vos perdoe pela morte do seu senhor, Esclados, o Vermelho." Então o meu senhor Yvain juntou as mãos e, caindo de joelhos, falou como um amante com estas palavras: "Não implorarei o vosso perdão, senhora, mas antes agradecer-vos-ei por qualquer tratamento que possais infligir-me, sabendo que nenhum ato vosso poderia jamais ser-me desagradável." "É assim, senhor? E se eu pensar em matar-vos agora?" "Minha senhora, se vos aprouver, nunca me ouvireis falar de outra forma." "Nunca ouvi tal coisa como esta: que vos ponhais voluntária e absolutamente sob o meu poder, sem a coação de ninguém." "Minha senhora, não há força tão forte, na verdade, como aquela que me comanda a conformar-me absolutamente ao vosso desejo. Não temo cumprir qualquer ordem que vos apraza dar. E se eu pudesse expiar a morte, que não veio por culpa minha, fá-lo-ia alegremente." "O quê?", diz ela, "vinde dizer-me agora e sereis perdoado, se não fizestes mal ao matar o meu senhor?" "Senhora", diz ele, "se me é permitido dizê-lo, quando o vosso senhor me atacou, por que estaria eu errado em defender-me? Quando um homem, em legítima defesa, mata outro que está a tentar matá-lo ou capturá-lo, dizei-me se de alguma forma ele é de culpar." "Não, se alguém olhar para isso retamente. E suponho que não teria servido de nada, se vos tivesse mandado executar. Mas teria gosto em saber de onde derivais a força que vos ordena que consintais inquestionavelmente ao que a minha vontade possa ditar. Perdoo-vos todos os vossos erros e crimes. Mas sentai-vos e dizei-nos agora qual é a causa da vossa docilidade?" "Minha senhora", diz ele, "a força impulsionadora vem do meu coração, que está inclinado para vós. O meu coração fixou-me neste desejo." "E o que impeliu o vosso coração, meu belo e doce amigo?" "Senhora, os meus olhos." "E o que os olhos?" "A grande beleza que vejo em vós." "E onde está a culpa da beleza nisso?" "Senhora, nisto: que me faz amar." "Amar? E a quem?" "A vós, minha senhora querida." "A mim?" "Sim, verdadeiramente." "A sério? E como é isso?" "De tal forma que o meu coração não se moverá de vós, nem noutro lugar se encontra; de tal forma que não consigo pensar noutra coisa, e rendo-me totalmente a vós, a quem amo mais do que amo a mim mesmo, e por quem, se vós quiserdes, estou igualmente pronto a morrer ou a viver." "E ousaríeis empreender a defesa da minha fonte por amor a mim?" "Sim, minha senhora, contra o mundo." "Então podeis saber que a nossa paz está feita."
Assim, eles reconciliam-se rapidamente. E a dama, tendo previamente consultado os seus senhores, diz: "Seguiremos daqui para o salão onde os meus homens estão reunidos, que, tendo em vista a necessidade evidente, me aconselharam e recomendaram que tome um marido, a seu pedido. E fá-lo-ei, tendo em vista a necessidade urgente: aqui e agora entrego-me a vós; pois não deveria recusar aceitar como senhor um tão bom cavaleiro e filho de rei."
Agora a donzela alcançou exatamente o que desejava. E o domínio do meu senhor Yvain é mais completo do que poderia ser dito ou descrito; pois a dama leva-o para o salão, que estava cheio dos seus cavaleiros e homens de armas. E o meu senhor Yvain era tão belo que todos se maravilhavam ao olhar para ele, e todos, levantando-se, saúdam e curvam-se diante do meu senhor Yvain, adivinhando bem enquanto o faziam: "Este é aquele que a minha senhora escolherá. Maldito seja quem se lhe oponha! Pois ele parece um homem maravilhosamente distinto. Certamente, a imperatriz de Roma estaria bem casada com um tal homem. Quem dera que ele tivesse dado a sua palavra a ela, e ela a ele, com as mãos entrelaçadas, e que o casamento pudesse ocorrer hoje ou amanhã." Assim falavam entre si. No fundo do salão havia um assento, e ali, à vista de todos, a dama tomou o seu lugar. E o meu senhor Yvain fez como se pretendesse sentar-se aos pés dela; mas ela levantou-o e ordenou ao senescal que falasse em voz alta, para que o seu discurso pudesse ser ouvido por todos. Então o senescal começou, não sendo obstinado nem lento no falar: "Meus senhores", disse ele, "estamos confrontados pela guerra. Todos os dias o Rei prepara-se com toda a pressa que pode comandar para vir devastar as nossas terras. Antes que uma quinzena tenha passado, tudo terá sido assolado, a menos que algum defensor valente apareça. Quando a minha senhora casou pela primeira vez, não faz ainda sete anos, fê-lo por vosso conselho. Agora o seu marido está morto, e ela está aflita. Seis pés de terra é tudo o que tem aquele que outrora possuía toda esta terra, e que era de facto o seu ornamento. É uma pena que tenha vivido tão pouco tempo. Uma mulher não pode carregar um escudo, nem sabe lutar com lança. Exaltá-la-ia e dignificá-la-ia novamente se ela se casasse com algum lorde digno. Nunca houve maior necessidade do que agora; recomendais todos vós que ela tome um esposo, antes que o costume caduque, o qual tem sido observado nesta cidade por mais de sessenta anos." Com isto, todos de uma vez proclamam que lhes parece a coisa certa a fazer, e todos se lançam aos seus pés. Eles fortalecem o seu desejo com o seu consentimento; contudo, ela hesita em afirmar os seus desejos até que, como se contra a sua vontade, ela finalmente fale com o mesmo intuito que teria feito, de facto, se cada um se tivesse oposto ao seu desejo: "Meus senhores, já que é o vosso desejo, este cavaleiro que está sentado ao meu lado cortejou-me e buscou ardentemente a minha mão. Ele deseja comprometer-se na defesa dos meus direitos e ao meu serviço, pelo que lhe agradeço de coração, como vós também fazeis. É verdade que nunca o conheci pessoalmente, mas ouvi muitas vezes o seu nome. Sabei que ele não é menos homem do que o filho do Rei Urien. Além da sua linhagem ilustre, ele é tão bravo, cortês e sábio que ninguém tem motivos para o menosprezar. Todos vós já ouvistes, suponho, falar do meu senhor Yvain, e é ele quem busca a minha mão. Quando o casamento for consumado, terei um lorde mais nobre do que mereço." Eles todos dizem: "Se sois prudente, este próprio dia não passará sem que o casamento seja solene. Pois é loucura adiar por uma única hora um ato vantajoso." Eles suplicam-lhe com tanta insistência que ela consente no que teria feito de qualquer modo. Pois o Amor ordena-lhe que faça aquilo pelo qual ela pede conselho e parecer; mas há mais honra para ele em ser aceite com a aprovação dos seus homens. Para ela, as suas orações não são importunas; antes, agitam e incitam o seu coração a seguir o seu curso. O cavalo, já em velocidade, vai ainda mais rápido quando é esporeado. Na presença de todos os seus lordes, a dama entrega-se ao meu senhor Yvain. Das mãos do seu capelão ele recebeu a dama, Laudine de Landuc, filha do Duque Laudunet, de quem cantam um lais. Nesse mesmo dia, sem demora, ele casou-se com ela, e o casamento foi celebrado. Havia abundância de mitras e báculos ali, pois a dama tinha convocado os seus bispos e abades. Grande foi a alegria e o regozijo, havia muita gente, e muita riqueza foi exibida — mais do que eu vos poderia dizer, se dedicasse muito pensamento a isso. É melhor manter silêncio do que ser inadequado. Assim, o meu senhor Yvain é agora o senhor, e o homem morto é completamente esquecido. Aquele que o matou está agora casado com a sua esposa, e eles desfrutam dos direitos matrimoniais. O povo ama e estima o seu lorde vivo mais do que alguma vez estimou o morto. Serviram-no bem no seu banquete de casamento, até à véspera do dia em que o Rei veio visitar a fonte maravilhosa e a sua pedra, trazendo consigo nesta expedição os seus companheiros e todos os da sua casa; nem um ficou para trás. E o meu senhor Kay comentou: "Ah, o que terá acontecido a Yvain, que depois do seu jantar se gabou de que vingaria a vergonha da sua prima? Evidentemente, falou sob o efeito do vinho. Creio que fugiu. Ele não ousaria voltar por nada deste mundo. Foi muito presunçoso ao fazer tal jactância. É um homem ousado aquele que se atreve a vangloriar-se do que ninguém o louvaria, e que não tem prova das suas grandes façanhas exceto as palavras de algum falso adulador. Há uma grande diferença entre um covarde e um herói; pois o covarde sentado junto ao fogo fala alto sobre si mesmo, considerando todos os outros como tolos, e pensando que ninguém conhece o seu verdadeiro caráter. Um herói ficaria angustiado ao ouvir a sua proeza contada por outra pessoa. E, no entanto, sustento que o covarde não está errado ao louvar e vangloriar-se, pois não encontrará ninguém mais para mentir por ele. Se ele não se gabar dos seus feitos, quem o fará? Todos passam por ele em silêncio, até os arautos, que proclamam os bravos, mas descartam os covardes." Quando o meu senhor Kay falou assim, o meu senhor Gawain deu esta resposta: "Meu senhor Kay, tenha alguma misericórdia agora! Uma vez que o meu senhor Yvain não está aqui, não sabe que negócio o ocupa. De facto, ele nunca se rebaixou tanto a ponto de falar qualquer mal de vós em comparação com as coisas gentis que disse." "Senhor", diz Kay, "vou calar-me. Não direi mais uma palavra hoje, já que vejo que está ofendido pelo meu discurso." Então o Rei, para ver a chuva, derramou uma bacia cheia de água sobre a pedra sob o pinheiro, e de imediato a chuva começou a cair. Não passou muito tempo até que o meu senhor Yvain, sem demora, entrasse na floresta totalmente armado, cavalgando mais rápido que um galope num corcel grande, elegante, forte, intrépido e veloz. E era desejo do meu senhor Kay pedir o primeiro encontro. Pois, qualquer que fosse o resultado, ele desejava sempre começar a luta e justar primeiro, ou então ficava muito irritado. Antes de todos os outros, ele pediu ao Rei que lhe permitisse travar batalha primeiro. O Rei diz: "Kay, já que é o teu desejo, e já que és o primeiro a fazer o pedido, o favor não deve ser negado." Kay agradece-lhe primeiro, depois monta o seu corcel. Se agora o meu senhor Yvain lhe puder infligir uma leve desgraça, ele ficará muito feliz em fazê-lo; pois reconhece-o pelas suas armas. Cada um segurando o seu escudo pelas correias, lançam-se um contra o outro. Esporeando os seus corcéis, baixam as lanças, que seguram firmemente. Então avançam-nas um pouco, de modo a segurá-las pelos cabos revestidos de couro, e para que, quando se encontrassem, pudessem desferir golpes tão cruéis que ambas as lanças se partiram em lascas até ao punho da haste. O meu senhor Yvain deu-lhe um golpe tão poderoso que Kay deu um salto mortal para fora da sua sela e atingiu o chão com o seu elmo. O meu senhor Yvain não tem desejo de lhe infligir mais danos, mas simplesmente desmonta e toma o seu cavalo. Isto agradou a todos, e muitos disseram: "Ah, ah, vejam como estais prostrado, vós que ainda agora desprezáveis os outros! E, contudo, é justo perdoar-vos desta vez; pois nunca vos aconteceu antes." Logo o meu senhor Yvain aproximou-se do Rei, conduzindo o cavalo pela mão pela rédea, desejando entregá-lo. "Senhor", diz ele, "agora aceitai este corcel, pois eu faria mal em guardar qualquer coisa vossa." "E quem sois vós?", o Rei responde; "Eu nunca vos conheceria, a menos que ouvisse o vosso nome, ou vos visse sem as vossas armas." Então o meu senhor disse-lhe quem era, e Kay foi tomado pela vergonha, mortificado, humilhado e desconcertado, por ter dito que ele tinha fugido. Mas os outros ficaram muito satisfeitos, e valorizaram a honra que ele tinha ganho. Até o Rei ficou muito gratificado, e o meu senhor Gawain cem vezes mais do que qualquer outro. Pois ele amava a sua companhia mais do que a de qualquer outro cavaleiro que conhecesse. E o Rei pediu-lhe urgentemente que lhe contasse, se fosse da sua vontade, como tinha passado; pois ele estava muito curioso para saber tudo sobre a sua aventura; então o Rei implora-lhe que diga a verdade. E ele contou-lhe logo tudo sobre o serviço e a bondade da donzela, não omitindo uma única palavra, não esquecendo de mencionar nada. E após isto, ele convidou o Rei e todos os seus cavaleiros para virem alojar-se com ele, dizendo que lhe fariam grande honra em aceitar a sua hospitalidade. E o Rei disse que por uma semana inteira ele aceitaria de bom grado a honra e o prazer, e lhe faria companhia. E quando o meu senhor Yvain lhe agradeceu, não se demoram mais ali, mas montam e tomam o caminho mais direto para a cidade. O meu senhor Yvain envia à frente da comitiva um escudeiro que batia um falcão-guindaste, a fim de que não apanhassem a dama de surpresa, e que o seu povo pudesse decorar as ruas para a chegada do Rei. Quando a dama ouviu as notícias da visita do Rei, ficou muito satisfeita; nem houve ninguém que, ao ouvir a notícia, não ficasse feliz e exultante. E a dama convoca-os a todos e pede-lhes que vão ao seu encontro, ao que eles não fazem objeção ou reclamação, estando todos ansiosos por fazer a sua vontade.
Montados em grandes corcéis espanhóis, todos vão ao encontro do Rei da Grã-Bretanha, saudando o Rei Artur primeiro com grande cortesia e depois toda a sua companhia. "Bem-vindos", dizem eles, "a esta companhia, tão cheia de homens honrados! Bendito seja aquele que os traz aqui e nos presenteia com tão belos convidados!" À chegada do Rei, a cidade ressoa com a alegre receção que lhe dão. Tecidos de seda são retirados e pendurados no alto como decorações, e estendem tapeçarias para caminhar sobre elas e adornar as ruas com elas, enquanto esperam pela aproximação do Rei. E fazem ainda outra preparação, cobrindo as ruas com toldos contra os raios quentes do sol. Sinos, chifres e trombetas fazem a cidade ressoar de tal modo que o trovão de Deus não teria sido ouvido. As donzelas dançam diante dele, flautas e gaitas são tocadas, tambores, tambores de mão e címbalos são batidos. Pela sua parte, os jovens ágeis saltam, e todos se esforçam para mostrar o seu deleite. Com tais provas da sua alegria, eles recebem o Rei adequadamente. E a Dama saiu, vestida em traje imperial — um manto de arminho fresco — e sobre a sua cabeça usava um diadema todo ornamentado com rubis. Nenhuma nuvem havia sobre o seu rosto, mas estava tão alegre e cheia de alegria que era mais bela, penso eu, do que qualquer deusa. À sua volta a multidão apertava-se, enquanto gritavam em uníssono: "Bem-vindo ao Rei dos reis e senhor dos senhores!" O Rei não pôde responder a todos antes de ver a dama vir em sua direção para segurar o seu estribo. No entanto, ele não esperou por isso, mas apressou-se a desmontar assim que a avistou. Então ela saúda-o com estas palavras: "Bem-vindo cem mil vezes ao Rei, meu senhor, e bendito seja o seu sobrinho, meu senhor Gawain!" O Rei responde: "Desejo toda a felicidade e boa sorte ao vosso belo corpo e ao vosso rosto, criatura adorável!" Então, abraçando-a pela cintura, o Rei abraçou-a alegre e cordialmente, como ela fez a ele, lançando os seus braços à volta dele. Não direi mais sobre quão alegremente ela os recebeu, mas ninguém jamais ouviu falar de qualquer povo que fosse tão honradamente recebido e servido. Eu poderia contar-vos muito sobre a alegria se não estivesse a desperdiçar palavras, mas desejo fazer uma breve menção a um conhecimento que foi feito em privado entre a lua e o sol. Sabeis de quem pretendo falar? Aquele que era senhor dos cavaleiros, e que era renomado acima de todos eles, deveria certamente ser chamado de sol. Refiro-me, claro, ao meu senhor Gawain, pois a cavalaria é realçada por ele assim como quando o sol da manhã espalha os seus raios e ilumina todos os lugares onde brilha. E chamo-lhe lua a ela, que não pode ser de outra forma por causa do seu senso e cortesia. No entanto, chamo-lhe assim não apenas por causa da sua boa reputação, mas porque o seu nome é, de facto, Lunete.
O nome da donzela era Lunete, e ela era uma morena encantadora, prudente, inteligente e educada. À medida que o seu conhecimento com o meu senhor Gawain cresce, ele valoriza-a muito e dá-lhe o seu amor como à sua amada, porque ela tinha salvo da morte o seu companheiro e amigo; ele coloca-se livremente ao seu dispor. Da sua parte, ela descreve e relata-lhe com que dificuldade persuadiu a sua senhora a tomar o meu senhor Yvain como seu marido, e como ela o protegeu das mãos daqueles que o procuravam; como ele estava no meio deles mas eles não o viam. O meu senhor Gawain riu alto desta história dela, e então disse: "Mademoiselle, quando precisar de mim e quando não precisar, tal como sou, coloco-me à sua disposição. Nunca me troque por alguém quando achar que pode melhorar a sua sorte. Eu sou seu, e seja de agora em diante a minha demoiselle!" "Agradeço-lhe gentilmente, senhor", disse ela. Enquanto o conhecimento destes dois amadurecia assim, os outros também estavam ocupados em flertar. Pois havia talvez noventa damas ali, cada uma das quais era bela e encantadora, nobre e educada, virtuosa e prudente, e uma dama de nascimento exaltado, então os homens podiam empregar-se agradavelmente em acariciá-las e beijá-las, e em falar com elas e em olhar para elas enquanto estavam sentadas ao seu lado; tanta satisfação tinham pelo menos. O meu senhor Yvain está em alta porque o Rei está alojado com ele. E a dama concede tal atenção a todos eles, como indivíduos e coletivamente, que alguma pessoa tola poderia supor que as atenções encantadoras que ela lhes mostrava eram ditadas pelo amor. Mas tais pessoas podem ser propriamente classificadas como tolas por pensarem que uma dama está apaixonada por elas apenas porque é cortês e fala com algum pobre diabo, e o faz feliz e o acaricia. Um tolo é feito feliz por palavras bonitas, e é muito facilmente enganado. Passaram essa semana inteira em alegria; floresta e riacho ofereciam muito desporto para quem o desejasse. E quem quisesse ver a terra que tinha passado para as mãos do meu senhor Yvain com a dama com quem se tinha casado, podia ir divertir-se num dos castelos que ficavam num raio de duas, três ou quatro léguas. Quando o Rei ficou tanto tempo quanto quis, preparou-se para partir. Mas durante a semana todos tinham implorado urgentemente, e com toda a insistência ao seu comando, que pudessem levar o meu senhor Yvain com eles. "O quê? Será um daqueles", disse o meu senhor Gawain a ele, "que degeneram após o casamento? Maldito seja aquele por Santa Maria que casa e depois degenera! Quem quer que tenha uma bela dama como sua amante ou sua esposa deveria ser melhor por causa disso, e não é justo que o seu afeto lhe seja concedido depois de o seu valor e reputação terem desaparecido. Certamente, vós também teríeis motivos para lamentar o seu amor se vos tornásseis mole, pois uma mulher retira rapidamente o seu amor, e com razão, e despreza aquele que degenera de qualquer forma quando se tornou senhor do reino. Agora deveria a vossa fama ser aumentada! Soltai a rédea e o cabresto e vinde ao torneio comigo, para que ninguém diga que sois ciumento. Agora não deveis mais hesitar em frequentar as listas, em participar no assalto e em contender com força, qualquer esforço que custe! A inação produz indiferença. Mas, na verdade, deveis vir, pois estarei na vossa companhia. Tende cuidado para que a nossa camaradagem não falhe por qualquer culpa vossa, meu caro companheiro; da minha parte, podeis contar comigo. É estranho como um homem dá valor à vida de facilidade que não tem fim. Os prazeres crescem mais doces através do adiamento; e um pequeno prazer, quando adiado, é muito mais doce ao paladar do que um grande prazer desfrutado de imediato. Os doces de um amor que se desenvolve tarde são como um fogo num arbusto verde; pois quanto mais tempo se demora a acendê-lo, maior será o calor que produz, e mais tempo durará a sua força. Pode-se facilmente cair em hábitos dos quais é muito difícil libertar-se, pois quando se deseja fazê-lo, descobre-se que se perdeu o poder. Não interpreteis mal as minhas palavras, meu amigo: se eu tivesse uma amante tão bela como vós tendes, chamo Deus e os Seus santos a testemunhar, deixá-la-ia muito relutantemente; de facto, eu seria indubitavelmente apaixonado. Mas um homem pode dar a outro conselho, que ele próprio não seguiria, tal como os pregadores, que são patifes enganadores, e pregam e proclamam o direito mas que não o seguem eles próprios."
O meu senhor Gawain falou tão longamente e com tanta urgência que ele prometeu-lhe que iria; mas disse que tinha de consultar a sua dama e pedir o seu consentimento. Quer seja uma coisa tola ou prudente a fazer, ele não deixará de lhe pedir licença para regressar à Grã-Bretanha. Então ele aconselhou-se com a sua esposa, que não tinha a mínima ideia da permissão que ele desejava, enquanto a abordava com estas palavras: "Minha amada dama, meu coração e alma, meu tesouro, alegria e felicidade, concedei-me agora um favor que redundará na vossa honra e na minha." A dama dá de imediato o seu consentimento, não sabendo qual é o seu desejo, e diz: "Belo senhor, podeis ordenar-me o vosso prazer, qualquer que seja." Então o meu senhor Yvain pede-lhe de imediato permissão para escoltar o Rei e para comparecer em torneios, para que ninguém possa censurar a sua indolência. E ela responde: "Concedo-vos licença até uma certa data; mas sabei que o meu amor mudará para ódio se ficardes para além do prazo que fixarei. Lembrai-vos de que manterei a minha palavra; se quebrardes a vossa palavra, manterei a minha. Se desejais possuir o meu amor, e se tendes alguma consideração por mim, lembrai-vos de voltar novamente, o mais tardar, um ano a partir da presente data, uma semana após o dia de São João; pois hoje é o oitavo dia desde essa festa. Sereis xeque-mate do meu amor se não fordes restituído a mim nesse dia."
O senhor Yvain chora e suspira tão amargamente que mal consegue encontrar palavras para dizer: "Minha senhora, esta data está de fato muito distante. Se eu pudesse ser uma pomba, sempre que a vontade me viesse, eu frequentemente voltaria a vos encontrar aqui. E rezo a Deus que, em Seu agrado, Ele não me detenha tanto tempo longe. Mas, por vezes, um homem tenciona regressar rapidamente e não sabe o que o futuro lhe reserva. E eu não sei qual será o meu destino — talvez alguma urgência de doença ou aprisionamento possa me impedir: sois injusta em não fazer uma exceção, ao menos, para um impedimento real." "Meu senhor", diz ela, "farei essa exceção. E, contudo, ouso prometer-vos que, se Deus vos livrar da morte, nenhum impedimento se colocará no vosso caminho, contanto que vos lembreis de mim. Portanto, ponde agora no vosso dedo este meu anel, que vos empresto. E eu vos contarei tudo sobre a pedra: nenhum amante verdadeiro e leal pode ser aprisionado ou perder qualquer sangue, nem qualquer mal pode advir-lhe, desde que a carregue e a estime, e mantenha a sua amada em mente. Vós vos tornareis tão duro quanto o ferro, e ela vos servirá de escudo e cota de malha. Nunca antes estive disposta a emprestá-la ou confiá-la a qualquer cavaleiro, mas a vós eu a dou por causa da minha afeição por vós." Agora o senhor Yvain está livre para partir, mas ele chora amargamente ao se despedir. O Rei, contudo, não queria mais tardar por qualquer coisa que pudesse ser dita: antes, estava ansioso por ter os palafrens trazidos, todos equipados e selados. Acederam de imediato ao seu desejo, trazendo os palafrens, de modo que restava apenas montar. Não sei se devo contar-vos como o senhor Yvain se despediu, e dos beijos que lhe foram dados, misturados com lágrimas e banhados em doçura. E que vos direi sobre o Rei, de como a senhora o acompanha, ladeada por suas donzelas e senescal? Tudo isso exigiria tempo demais. Quando vê as lágrimas da senhora, o Rei implora-lhe que não venha mais adiante, mas que retorne à sua morada. Ele rogou-lhe com tanta urgência que, pesada de coração, ela se voltou, seguida por sua companhia.
O senhor Yvain está tão aflito por deixar a sua senhora que o seu coração permanece para trás. O Rei pode levar o seu corpo, mas não pode levar consigo o seu coração. Aquela que fica para trás agarra-se tão firmemente ao seu coração que o Rei não tem o poder de levá-lo consigo. Quando o corpo é deixado sem o coração, não pode possivelmente continuar a viver. Pois tal maravilha nunca foi vista como o corpo vivo sem o coração. Contudo, esta maravilha aconteceu agora: pois ele manteve o seu corpo sem o coração, que costumava estar encerrado nele, mas que agora não queria seguir o corpo. O coração tem uma boa morada, enquanto o corpo, esperando um retorno seguro ao seu coração, de estranha maneira assume um novo coração de esperança, que é tão frequentemente enganoso e traiçoeiro. Ele nunca saberá de antemão, creio eu, a hora em que esta esperança o trairá, pois se ele se atrasar um único dia do prazo que acordou, será difícil para ele ganhar novamente o perdão e a benevolência da sua senhora. Contudo, creio que ele se atrasará, pois o senhor Gawain não lhe permitirá separar-se dele, enquanto juntos vão justar onde quer que torneios sejam realizados. E à medida que o ano passava, o senhor Yvain teve tal sucesso que o senhor Gawain esforçou-se por honrá-lo, e fez com que ele se atrasasse tanto que todo o primeiro ano se passou, e chegou-se a meados de agosto do ano seguinte, quando o Rei realizava a corte em Chester, aonde tinham retornado no dia anterior de um torneio onde o senhor Yvain estivera e onde vencera a glória, e a história conta como os dois companheiros não queriam alojar-se na cidade, mas fizeram montar as suas tendas fora da cidade, e ali realizaram a corte. Pois eles nunca iam à corte real, mas o Rei vinha antes juntar-se à deles, pois eles tinham os melhores cavaleiros, e o maior número, na sua companhia. Agora o Rei Arthur estava sentado no meio deles, quando Yvain teve subitamente um pensamento que o surpreendeu mais do que qualquer outro que lhe tivesse ocorrido desde que se despedira da sua senhora, pois percebeu que quebrara a sua palavra, e que o limite da sua licença já fora excedido. Mal conseguia conter as lágrimas, mas conseguiu fazê-lo por vergonha. Ele ainda estava imerso em pensamentos quando viu uma donzela aproximar-se rapidamente sobre um palafrem preto com as patas dianteiras brancas. Ao descer diante da tenda, ninguém a ajudou a desmontar, e ninguém foi segurar o seu cavalo. Assim que avistou o Rei, ela deixou cair o seu manto, e assim exibida entrou na tenda e veio perante o Rei, anunciando que a sua senhora enviava saudações ao Rei, e ao senhor Gawain e a todos os outros cavaleiros, exceto Yvain, aquele traidor desleal, mentiroso, hipócrita, que a abandonara de forma traiçoeira. "Ela viu claramente a traição daquele que fingia ser um amante fiel enquanto era um falso e traiçoeiro ladrão. Este ladrão difamou a minha senhora, que estava totalmente despreparada para qualquer mal, e a quem nunca ocorreu que ele roubaria o seu coração. Aqueles que amam verdadeiramente não roubam corações; há, contudo, alguns homens, por quem estes primeiros são chamados de ladrões, que eles próprios andam de forma enganosa a fazer amor, mas em quem não há conhecimento real do assunto. O amante leva o coração da sua senhora, certamente, mas ele não foge com ele; antes, ele o estima contra aqueles ladrões que, sob a guisa de homens honrados, o roubariam dele. Mas esses são ladrões enganosos e traiçoeiros que competem entre si em roubar corações pelos quais nada sentem. O verdadeiro amante, onde quer que vá, mantém o coração querido e traz-o de volta. Mas Yvain causou a morte da minha senhora, pois ela supôs que ele guardaria o seu coração para ela, e que o traria de volta antes que o ano terminasse. Yvain, tu tiveste memória curta quando não pudeste lembrar-te de retornar à tua senhora dentro de um ano. Ela deu-te a tua liberdade até ao dia de São João, e tu dás tão pouco apreço a ela que nunca desde então um pensamento sobre ela cruzou a tua mente. A minha senhora tinha marcado cada dia na sua câmara, à medida que as estações passavam: pois quando se está apaixonado, não se está à vontade e não se pode ter qualquer sono repousante, mas durante toda a noite tem-se de contar e calcular os dias à medida que vêm e vão. Sabes tu como os amantes passam o seu tempo? Eles mantêm a contagem do tempo e da estação. A sua queixa não é apresentada prematuramente ou sem causa, e eu não o estou a acusar de forma alguma, mas simplesmente digo que fomos traídos por aquele que casou com a minha senhora. Yvain, a minha senhora não tem mais qualquer cuidado por ti, mas envia-te recado por mim para nunca mais voltares a ela, e para não mais guardares o seu anel. Ela ordena-te que o devolvas a ela por mim, a quem vês presente aqui. Entrega-o agora, como estás obrigado a fazer."
Sem sentido e privado da fala, Yvain é incapaz de responder. E a donzela avança e retira o anel do seu dedo, recomendando a Deus o Rei e todos os outros, exceto ele, a quem deixa em profunda aflição. E a sua mágoa cresce: sente-se oprimido pelo que ouve e atormentado pelo que vê. Preferiria ser banido sozinho para alguma terra selvagem, onde ninguém soubesse onde procurá-lo, e onde nenhum homem ou mulher soubesse do seu paradeiro, nem mais do que se estivesse num abismo profundo. Não odeia nada tanto quanto a si mesmo, nem sabe a quem recorrer em busca de conforto na morte que trouxe sobre si próprio. Mas prefere enlouquecer a não se vingar de si mesmo, privado, como está, de alegria por sua própria culpa. Levanta-se do seu lugar entre os cavaleiros, temendo perder a razão se permanecer mais tempo no meio deles. Da parte deles, não lhe prestam atenção, mas deixam-no partir sozinho. Sabem muito bem que ele não se importa com a conversa ou a companhia deles. E ele afasta-se até estar longe das tendas e pavilhões. Então, uma tal tempestade irrompeu no seu cérebro que ele perde os sentidos; rasga a própria carne e, despindo as suas roupas, foge pelos prados e campos, deixando os seus homens completamente perdidos e a perguntar-se o que terá acontecido com ele. Eles vão à sua procura por todo o país em redor — nos alojamentos dos cavaleiros, junto às sebes e nos jardins —, mas procuram-no onde ele não pode ser encontrado. Ainda a fugir, seguiu rapidamente o seu caminho até encontrar, perto de um parque, um rapaz que tinha na mão um arco e cinco flechas farpadas, que eram muito afiadas e largas. Ele teve discernimento suficiente para ir buscar o arco e as flechas que o rapaz segurava. Contudo, não tinha memória de nada do que tinha feito. Fica à espera das feras nos bosques, matando-as e comendo a carne de caça crua. Assim viveu na floresta como um louco ou um selvagem, até encontrar uma pequena casa térrea pertencente a um eremita, que trabalhava na limpeza do seu terreno. Quando o viu aproximar-se sem nada no corpo, pôde facilmente perceber que não estava no seu juízo perfeito; e era esse o caso, como o eremita sabia muito bem. Por isso, com medo, fechou-se na sua pequena casa e, pegando em algum pão e água fresca, colocou-os caridosamente fora da casa, num parapeito estreito de uma janela. E para lá vai o outro, faminto pelo pão que apanha e come. Não acredito que alguma vez antes tivesse provado um pão tão duro e amargo. A medida de cevada amassada com a palha, da qual o pão, mais azedo do que fermento, fora feito, não custara mais do que cinco soldos; e o pão estava bolorento e seco como casca de árvore. Mas a fome atormenta-o e aguça-lhe o apetite, de modo que o pão lhe soube a molho. Pois a fome é, por si só, um molho bem misturado e preparado para qualquer alimento. O meu senhor Yvain logo comeu o pão do eremita, que lhe soube bem, e bebeu a água fresca do jarro. Quando terminou de comer, lançou-se de novo aos bosques à procura de veados e corças. E quando o vê partir, o bom homem sob o seu teto reza a Deus para que o defenda e guarde, para que nunca mais passe por aquele caminho. Mas não há criatura, por pouco senso que tenha, que não regresse alegremente a um lugar onde é bem tratada. Assim, não passou um dia, enquanto estava neste acesso de loucura, em que não trouxesse à porta alguma caça selvagem. Tal era a vida que levava; e o bom homem encarregava-se de remover a pele e pôr uma boa quantidade de carne a cozinhar; e o pão e a água no jarro estavam sempre no parapeito da janela para o louco fazer a sua refeição. Assim, tinha algo para comer e beber: carne de caça sem sal ou pimenta, e boa água fresca da fonte. E o bom homem esforçava-se por vender a pele e comprar pão feito de cevada, ou aveia, ou de algum outro grão; assim, depois disso, Yvain tinha um fornecimento abundante de pão e carne de caça, o que lhe bastou por muito tempo, até que um dia foi encontrado a dormir na floresta por duas donzelas e a sua senhora, ao serviço de quem estavam. Quando viram o homem nu, uma das três correu, desmontou e examinou-o atentamente, antes de ver qualquer coisa nele que servisse para o identificar. Se estivesse ricamente vestido, como estivera muitas vezes, e se ela o pudesse ter visto então, tê-lo-ia reconhecido rapidamente. Mas demorou a reconhecê-lo e continuou a olhar para ele até que, finalmente, notou uma cicatriz que ele tinha no rosto, e recordou-se de que o rosto do meu senhor Yvain era marcado desta mesma forma; ela tinha a certeza, pois vira-a muitas vezes. Por causa da cicatriz, viu que era ele sem qualquer dúvida; mas maravilhava-se muito de como tinha acontecido encontrá-lo assim, pobre e despojado. Muitas vezes persigna-se de espanto, mas não lhe toca nem o acorda; antes, monta de novo o seu cavalo e, voltando para as outras, conta-lhes, em lágrimas, a sua aventura. Não sei se devo demorar-me a contar-vos a mágoa que ela demonstrou; mas falou assim, a chorar, à sua senhora: "Minha senhora, encontrei Yvain, que se revelou ser o melhor cavaleiro do mundo e o mais virtuoso. Não consigo imaginar que pecado reduziu o cavalheiro a tal estado. Penso que deve ter tido algum infortúnio que o faz humilhar-se desta maneira, pois alguém pode perder o juízo por causa da mágoa. E qualquer um pode ver que ele não está no seu perfeito juízo, pois certamente nunca seria do seu feitio conduzir-se de forma tão indecente a menos que tivesse perdido a razão. Quem dera que Deus lhe tivesse restaurado o melhor juízo que alguma vez teve, e quem dera que ele pudesse então consentir em prestar assistência à vossa causa! Pois o Conde Alier, que está em guerra convosco, fez-vos um ataque feroz. Eu veria a contenda entre vós rapidamente resolvida a vosso favor se Deus favorecesse a vossa sorte, para que ele voltasse a si e se encarregasse de vos ajudar nesta dificuldade." Ao que a senhora respondeu: "Tem cuidado agora! Pois certamente, se ele não escapar, com a ajuda de Deus creio que podemos limpar a sua mente de toda a loucura e demência. Mas temos de nos pôr a caminho imediatamente! Pois recordo-me de um certo unguento com o qual Morgana, a Sábia, me presenteou, dizendo que não havia delírio na cabeça que ele não curasse." Ato contínuo, partem imediatamente em direção à cidade, que era ali perto, pois não ficava a mais de meia légua daquelas que há naquele país; e, comparado com as nossas, duas das suas léguas fazem uma e quatro fazem duas. E ele permanece a dormir, totalmente sozinho, enquanto a senhora vai buscar o unguento. A senhora abre uma caixa sua e, retirando um frasco, entrega-o à donzela, e ordena-lhe que não seja demasiado pródiga no seu uso: que esfregue apenas as suas têmporas com ele, pois não há utilidade em aplicá-lo noutro lugar; que unja apenas as suas têmporas com ele, e o restante ela deve guardar cuidadosamente, pois não há nada de errado com ele exceto no seu cérebro. Envia-lhe também uma túnica de pele malhada, um casaco e um manto de seda escarlate. A donzela pega neles e conduz pela mão direita um excelente palfrém. E acrescentou a estes, da sua própria reserva, uma camisa, algumas meias macias e alguns calções novos de corte apropriado. Com todas estas coisas, partiu rapidamente e encontrou-o ainda a dormir onde o deixara. Depois de colocar o seu cavalo num cercado onde o amarrou bem, dirigiu-se com as roupas e o unguento ao local onde ele dormia. Então, teve a audácia de se aproximar do louco, para que pudesse tocar-lhe e manuseá-lo: então, pegando no unguento, esfregou-o com ele até que nenhum restasse no frasco, sendo tão solícita pela sua recuperação que procedeu a ungir todo o seu corpo com ele; e usou-o tão livremente que não deu ouvidos ao aviso da sua senhora, nem de facto se lembrou dele. Pôs mais do que era necessário, mas, na sua opinião, foi bem empregado. Esfregou as suas têmporas e testa, e todo o seu corpo até aos tornozelos. Esfregou as suas têmporas e todo o seu corpo tanto ali, ao sol quente, que a loucura e a melancolia opressora passaram completamente do seu cérebro. Mas ela foi imprudente ao ungir-lhe o corpo, pois disso não havia necessidade. Se tivesse tido cinco medidas dele, sem dúvida teria feito a mesma coisa. Leva o frasco e refugia-se escondida junto ao seu cavalo. Mas deixa a túnica para trás, desejando que, se Deus o chamar de volta à vida, ele possa vê-la toda estendida, e possa pegá-la e vesti-la. Posiciona-se atrás de um carvalho até que ele tivesse dormido o suficiente, e estivesse curado e completamente restaurado, tendo recuperado o seu juízo e memória. Então, vê que está tão nu quanto o marfim e sente muita vergonha; mas teria sentido ainda mais vergonha se soubesse o que tinha acontecido. Tal como está, não sabe nada a não ser que está nu. Vê a nova túnica estendida diante de si e maravilha-se muito como e por que aventura ela ali teria chegado. Mas sente vergonha e preocupação por causa da sua nudez, e diz que está morto e totalmente perdido se alguém o encontrar ali e o reconhecer. Entretanto, veste-se e olha para a floresta para ver se alguém se aproximava. Tenta levantar-se e apoiar-se, mas não consegue reunir forças para se ir embora, pois a sua doença afetou-o tanto que mal consegue manter-se de pé. Então, a donzela decide não esperar mais e, montando, passou perto dele, como se não soubesse da sua presença. Bastante indiferente à origem da ajuda de que tanto precisava para o levar a algum alojamento onde pudesse recuperar as suas forças, ele chama-a com todas as suas forças. E a donzela, por sua vez, olha à sua volta como se não soubesse qual era o problema. Confusa, vai daqui para ali, não querendo dirigir-se diretamente a ele. Então, ele começa a chamar de novo: "Donzela, venha por aqui, aqui!" E a donzela guiou o seu palfrém de passo suave na direção dele. Com este estratagema, fê-lo pensar que ela não sabia nada sobre ele e que nunca o tinha visto antes; ao fazê-lo, foi sábia e cortês. Quando ela chegou à sua frente, disse: "Senhor cavaleiro, o que deseja para me chamar tão insistentemente?" "Ah," disse ele, "donzela prudente, encontrei-me neste bosque por algum azar — não sei qual. Pelo amor de Deus e pela sua crença n'Ele, rogo-lhe que me empreste, tomando a minha palavra como penhor, ou então que me dê, aquele palfrém que conduz pela mão." "Com prazer, senhor: mas tem de me acompanhar para onde vou." "Para onde?" diz ele. "Para uma cidade que fica ali perto, além da floresta." "Diga-me, donzela, se precisa de mim." "Sim," diz ela, "preciso; mas penso que não está muito bem. Pelo menos nas próximas duas semanas deveria descansar. Pegue neste cavalo, que seguro na minha mão direita, e iremos para o nosso alojamento." E ele, que não tinha outro desejo, aceita e monta, e eles seguem até chegarem a uma ponte sobre um rio rápido e turbulento. E a donzela atira à água o frasco vazio que transporta, pensando desculpar-se perante a sua senhora pelo seu unguento dizendo que teve o azar de deixar o frasco cair à água, pois, quando o seu palfrém tropeçou sob ela, o frasco escorregou-lhe da mão e ela quase caiu também, o que teria sido uma sorte ainda pior. É a sua intenção inventar esta história quando chegar à presença da sua senhora. Juntos, continuaram o seu caminho até chegarem à cidade, onde a senhora deteve o meu senhor Yvain e perguntou à sua donzela, em privado, pelo seu frasco e unguento: e a donzela repetiu-lhe a mentira tal como a tinha inventado, não se atrevendo a dizer-lhe a verdade. Então, a senhora ficou muito enfurecida e disse: "Esta é certamente uma perda muito grave, e tenho a certeza e convicção de que o frasco nunca mais será encontrado. Mas, uma vez que aconteceu assim, nada mais há a fazer quanto a isso. Muitas vezes deseja-se uma bênção que acaba por se tornar uma maldição; assim eu, que esperava uma bênção e alegria deste cavaleiro, perdi o mais querido e precioso dos meus bens. Contudo, rogo-lhe que o sirva em todos os aspetos." "Ah, senhora, que sabiamente agora fala! Pois seria muito mau converter um infortúnio em dois."
Então, não dizem mais nada sobre o frasco, mas providenciam de todas as formas que podem para o conforto do meu senhor Yvain, banhando-o e lavando-lhe o cabelo, mandando-o barbear e cortar o pelo, pois poder-se-ia ter apanhado um punhado de pelo no seu rosto. Cada um dos seus desejos é satisfeito: se pede armas, são-lhe fornecidas; se quer um cavalo, providenciam-lhe um que é grande e belo, forte e fogoso. Permaneceu lá até que, numa terça-feira, o Conde Alier chegou à cidade com os seus homens e cavaleiros, que atearam fogos e levaram despojos. Aqueles que estavam na cidade levantaram-se imediatamente e equiparam-se com armas. Alguns armados e outros desarmados, saíram ao encontro dos saqueadores, que não se dignaram a recuar perante eles, mas esperaram-nos num desfiladeiro estreito. O meu senhor Yvain golpeou a multidão; tinha tido um descanso tão longo que a sua força estava completamente restaurada, e golpeou um cavaleiro no seu escudo com tal força que o enviou para o chão, num montão, penso eu, o cavaleiro juntamente com o seu cavalo. O cavaleiro nunca mais se levantou, pois a sua coluna vertebral estava partida e o seu coração rebentara dentro do peito. O meu senhor Yvain recuou um pouco para recuperar. Então, protegendo-se completamente com o seu escudo, lançou-se para a frente para limpar o caminho. Não se teria conseguido contar até quatro antes de se ver que ele derrubara rapidamente quatro cavaleiros. Ao que aqueles que estavam com ele se tornaram mais corajosos, pois muitos homens de coração pobre e tímido, à vista de algum homem valente que ataca uma tarefa perigosa diante dos seus olhos, serão dominados por confusão e vergonha, que expulsarão o coração pobre do seu corpo e lhe darão outro, semelhante ao de um herói em coragem. Assim, estes homens tornaram-se corajosos e cada um manteve a sua posição no combate e no ataque. E a senhora estava na torre, de onde via o combate e a investida para ganhar e tomar posse do desfiladeiro, e viu caídos no chão muitos que estavam feridos e muitos mortos, tanto do seu grupo como do inimigo, mas mais do inimigo do que do seu próprio. Pois o meu senhor Yvain, cortês, ousado e excelente, fê-los ceder exatamente como um falcão faz com o cerceta. E os homens e mulheres que tinham permanecido dentro da cidade declaravam, enquanto observavam a contenda: "Ah, que cavaleiro valente! Como ele faz os seus inimigos cederem, e como é feroz o seu ataque! Ele estava entre eles como um leão entre os gamos, quando é impelido pela necessidade e pela fome. Então, também, todos os nossos outros cavaleiros são mais corajosos e ousados por causa dele, pois, se não fosse apenas por ele, nem uma lança teria sido estilhaçada nem uma espada desembainhada para golpear. Quando um homem tão excelente é encontrado, ele deve ser amado e altamente estimado. Vede agora como ele se prova, vede como mantém o seu lugar, vede como mancha de sangue a sua lança e espada nua, vede como pressiona o inimigo e os persegue, como vem corajosamente atacá-los, depois recua e volta-se; mas passa pouco tempo a recuar e logo regressa ao ataque. Vede-o na luta novamente, como ele estima pouco o seu escudo, que permite que seja cortado em pedaços impiedosamente. Vede apenas como ele está ansioso por vingar os golpes que lhe são desferidos. Pois, se alguém usasse toda a floresta de Argone para fazer lanças para ele, creio que não lhe restaria nenhuma à noite. Pois ele quebra todas as lanças que colocam no seu encaixe e pede mais. E vede como ele maneja a espada quando a desembainha! Rolando nunca causou tal destruição com Durendal contra os sarracenos em Roncesvales ou em Espanha! Se tivesse na sua companhia alguns bons companheiros como ele próprio, o traidor, cujo ataque estamos a sofrer, recuaria hoje desbaratado, ou só manteria a sua posição para encontrar a derrota." Então, dizem que a mulher seria abençoada se fosse amada por alguém que é tão poderoso em armas, e que acima de todos os outros pode ser reconhecido como uma vela entre as luzes, como uma lua entre as estrelas e como o sol acima da lua. Ele conquistou de tal forma os corações de todos que a proeza que viam nele os fazia desejar que ele tivesse tomado a sua senhora como esposa e que fosse o senhor da terra.
Assim, homens e mulheres igualmente o louvavam, e ao fazê-lo não diziam senão a verdade. Pois o seu ataque aos adversários era tal que eles competiam entre si na fuga. Mas ele pressiona-os de perto nos calcanhares, e todos os seus companheiros seguem-no, pois ao seu lado sentem-se tão seguros como se estivessem encerrados numa muralha de pedra alta e espessa. A perseguição continua até que aqueles que fogem ficam exaustos, e os perseguidores golpeiam-nos e estripam os seus corcéis. Os vivos rolam sobre os mortos à medida que se ferem e matam uns aos outros. Causam uma destruição terrível uns aos outros; e entretanto o Conde foge com o meu senhor Yvain atrás dele, até que o alcança ao pé de uma subida íngreme, perto da entrada de um lugar fortificado que pertencia ao Conde. Ali o Conde foi detido, sem ninguém por perto para lhe prestar auxílio; e sem qualquer parlamentação excessiva, o meu senhor Yvain recebeu a sua rendição. Pois assim que o teve nas suas mãos, e ficaram apenas homem contra homem, não houve mais possibilidade de fuga, ou de rendição, ou de autodefesa; pelo que o Conde deu a sua palavra de ir render-se à senhora de Noroison como seu prisioneiro, e de fazer tal paz como ela ditasse. E quando ele aceitou a sua palavra, fê-lo desarmar a cabeça e remover o escudo de volta do seu pescoço, e o Conde entregou-lhe a sua espada. Assim ganhou a honra de levar o Conde como seu prisioneiro, e de entregá-lo aos seus inimigos, que não escondem a sua alegria. Mas a notícia chegou à cidade antes de eles próprios lá chegarem. Enquanto todos saem ao seu encontro, a própria senhora lidera o caminho. O meu senhor Yvain segura o seu prisioneiro pela mão e apresenta-o a ela. O Conde acedeu de bom grado aos desejos e exigências dela, e assegurou-a pela sua palavra, juramento e promessas. Dando-lhe garantias, ele jura-lhe que viverá sempre em termos pacíficos com ela, que a ressarcirá por toda a perda que ela puder provar, e que reconstruirá as casas que ele destruiu. Quando estas coisas foram acordadas de acordo com o desejo da senhora, o meu senhor Yvain pediu licença para partir. Mas ela não lhe teria concedido esta permissão se ele estivesse disposto a tomá-la como sua amante, ou a desposá-la. Contudo, ele não permitiu que o seguissem ou escoltassem um único passo, mas partiu apressadamente: neste caso, as súplicas foram em vão. Assim, ele começou a refazer o seu caminho, deixando a senhora muito desgostosa, cuja alegria ele havia causado pouco antes. Quando ele não quis permanecer por mais tempo, ela ficou ainda mais angustiada e inquieta na medida da felicidade que ele lhe trouxera, pois ela teria desejado honrá-lo, e tê-lo-ia feito, com o seu consentimento, senhor de todas as suas possessões, ou então tê-lo-ia pago pelos seus serviços com qualquer soma que ele pudesse ter nomeado. Mas ele não quis atender a nenhuma palavra de homem ou mulher. Apesar da dor deles, ele deixou os cavaleiros e a senhora que tentaram em vão detê-lo por mais tempo.
Pensativamente, o meu senhor Yvain prosseguiu por uma floresta profunda, até que ouviu entre as árvores um grito muito alto e lúgubre, e virou-se na direção de onde parecia vir. E quando chegou ao local, viu num espaço limpo um leão, e uma serpente que o segurava pela cauda, queimando-lhe a parte traseira com chamas de fogo. O meu senhor Yvain não ficou boquiaberto com este estranho espetáculo, mas aconselhou-se consigo mesmo sobre qual dos dois deveria ajudar. Então diz que socorrerá o leão, pois uma criatura traiçoeira e venenosa merece ser prejudicada. Ora, a serpente é venenosa, e o fogo irrompe da sua boca — tão cheia de maldade é a criatura. Portanto, o meu senhor Yvain decide que matará a serpente primeiro. Sacando da sua espada, avança, mantendo o escudo diante do seu rosto para não ser prejudicado pela chama que emerge da garganta da criatura, que era maior do que um pote. Se o leão o atacar a seguir, ele também terá toda a luta que desejar; mas, aconteça o que acontecer depois, ele decide ajudá-lo agora. Pois a piedade impele-o e pede-lhe que leve socorro e auxílio à besta gentil e nobre. Com a sua espada, que corta tão limpa, ele ataca a serpente perversa, primeiro fendendo-a até ao chão e cortando-a em duas, depois continuando os seus golpes até reduzi-la a minúsculos pedaços. Mas ele teve de cortar um pedaço da cauda do leão para alcançar a cabeça da serpente, que segurava o leão pela cauda. Ele cortou apenas o necessário e inevitável. Quando libertou o leão, supôs que teria de lutar com ele, e que o leão viria sobre ele; mas o leão não estava disposto a isso. Escutai agora o que o leão fez! Ele agiu nobremente e como alguém bem-nascido; pois começou a tornar evidente que se rendia a ele, ficando de pé nas suas duas patas traseiras e inclinando o rosto até à terra, com as suas patas dianteiras juntas e estendidas em direção a ele. Depois caiu de joelhos novamente, e todo o seu rosto estava molhado com as lágrimas da humildade. O meu senhor Yvain sabe por verdade que o leão lhe agradece e lhe presta homenagem por causa da serpente que ele matara, livrando-o assim da morte. Ele ficou muito satisfeito com este episódio. Limpou a sua espada do veneno e da imundície da serpente; depois guardou-a na bainha, e retomou o seu caminho. E o leão caminha junto ao seu lado, não querendo a partir de agora separar-se dele: ele acompanhá-lo-á sempre no futuro, ansioso por servi-lo e protegê-lo. Ele vai à frente até sentir no vento, no seu caminho, alguns animais selvagens a alimentar-se; então a fome e a sua natureza impelem-no a procurar a sua presa e a assegurar o seu sustento. É a sua natureza fazê-lo. Ele começou a avançar um pouco no rasto, mostrando assim ao seu mestre que tinha encontrado e detetado o odor e o cheiro de alguma caça selvagem. Depois olha para ele e para, desejando servir todos os seus desejos, e não querendo prosseguir contra a sua vontade. Yvain compreende pela sua atitude que ele está a mostrar que aguarda o seu prazer. Ele percebe isto e compreende que, se ele parar, ele também parará, e que, se ele o seguir, ele apanhará a caça que farejou. Então ele incita-o e grita-lhe, como faria com cães de caça. De imediato, o leão dirigiu o seu focinho para o rasto que detetara, e pelo qual não foi enganado, pois não tinha percorrido um tiro de arco quando viu num vale um veado a pastar completamente sozinho. Este veado ele irá apanhar, se depender dele. E assim o fez, no primeiro salto, e depois bebeu o seu sangue ainda quente. Quando o matou, colocou-o nas suas costas e levou-o de volta para o seu mestre, que então concebeu um maior afeto por ele, e escolheu-o como companheiro para toda a sua vida, por causa da grande devoção que encontrou nele. Estava perto do anoitecer agora, e pareceu-lhe bem passar a noite ali, e tirar do veado tanto quanto quisesse comer. Começando a cortá-lo, fende a pele ao longo da costela, e retirando um naco do lombo, golpeia uma pederneira para obter uma faísca, que apanha em alguns gravetos secos; depois coloca rapidamente o seu naco num espeto para assar diante do fogo, e assa-o até estar bem cozinhado. Mas não havia prazer na refeição, pois não havia pão, ou vinho, ou sal, ou pano, ou faca, ou qualquer outra coisa. Enquanto ele comia, o leão deitava-se aos seus pés; nem um movimento fez, mas observou-o fixamente até que ele tivesse comido tudo o que podia comer do naco. O que restou do veado, o leão devorou, até aos ossos. E enquanto durante toda a noite o seu mestre pousava a cabeça sobre o seu escudo para obter o descanso que isso proporcionava, o leão mostrou tal inteligência que se manteve acordado, e teve o cuidado de guardar o cavalo enquanto este se alimentava da erva, que fornecia algum pequeno sustento.
Pela manhã partem juntos, e o mesmo tipo de existência, parece, que tinham levado naquela noite, os dois continuaram a levar durante toda a semana seguinte, até que o acaso os trouxe à fonte debaixo do pinheiro. Ali, o meu senhor Yvain quase perdeu o juízo uma segunda vez, ao aproximar-se da fonte, com a sua pedra e a capela que ficava ali perto. Tão grande foi o seu sofrimento que mil vezes suspirou "ai!" e, sofrendo, caiu num desmaio; e a ponta da sua espada afiada, caindo da bainha, perfurou as malhas da sua cota de malha mesmo no pescoço, junto à face. Não há malha que não se abra, e a espada corta a carne do seu pescoço sob a malha brilhante, de modo a fazer jorrar o sangue. Então o leão pensa que vê o seu mestre e companheiro morto. Nunca ouvistes uma dor maior narrada ou contada sobre algo do que aquela que ele começou agora a mostrar. Atira-se de um lado para o outro, e arranha-se e chora, e tem o desejo de matar-se com a espada com a qual pensa que o seu mestre se matou. Tirando-lhe a espada com os dentes, coloca-a sobre uma árvore caída, e firma-a num tronco por trás, para que não escorregue ou ceda, quando atirar o seu peito contra ela. A sua intenção estava quase cumprida quando o seu mestre recuperou do desmaio, e o leão conteve-se enquanto corria cegamente para a morte, como um javali selvagem sem cuidar de onde se fere. Assim, o meu senhor Yvain jaz num desmaio junto à pedra, mas, ao recuperar, censurou-se violentamente pelo ano durante o qual tinha excedido a sua licença, e pelo qual incorrera no ódio da sua senhora, e disse: "Por que não se mata este desgraçado que assim se privou de alegria? Ai! Por que não tiro a minha vida? Como posso ficar aqui e olhar para o que pertence à minha senhora? Por que a alma ainda se demora no meu corpo? O que está a alma a fazer num corpo tão miserável? Se ela já tivesse escapado para longe, não estaria em tal tormento. É justo odiar, culpar e desprezar-me a mim próprio, tal como de facto faço. Quem perde a sua felicidade e contentamento por culpa ou erro próprio deveria odiar-se mortalmente. Deveria odiar-se e matar-se. E agora, quando ninguém está a olhar, por que me poupo assim? Por que não tiro a minha vida? Não vi este leão preso de tal dor por minha causa que estava prestes, há pouco, a atravessar a minha espada pelo seu peito? E deveria eu temer a morte, eu que mudei a felicidade em dor? A alegria é agora uma estranha para mim. Alegria? Que alegria é essa? Não direi mais nada sobre isso, pois ninguém poderia falar de tal coisa; e fiz uma pergunta tola. Essa foi a maior alegria de todas, que estava assegurada como minha posse, mas durou apenas um pouco. Quem perde tal alegria por culpa própria não merece a felicidade."
Enquanto assim lamentava o seu destino, uma donzela desolada em triste estado, que se encontrava na capela, viu-o e ouviu as suas palavras através de uma fresta na parede. Assim que ele se recuperou do seu desmaio, ela chamou por ele: "Deus", disse ela, "quem é que eu ouço? Quem é que assim se queixa?" E ele respondeu: "E quem és tu?" "Sou uma infeliz", disse ela, "a criatura mais miserável que vive." E ele respondeu: "Cala-te, tola! A tua dor é alegria e o teu sofrimento é felicidade comparados com aquele em que estou mergulhado. Na medida em que um homem se torna mais habituado à felicidade e à alegria, mais distraído e atordoado fica do que qualquer outro homem pela dor quando ela surge. Um homem de pouca força pode carregar, pelo costume e hábito, um peso que outro homem de maior força não conseguiria carregar de modo algum." "Pela minha palavra", disse ela, "conheço a verdade dessa observação; mas isso não é razão para acreditar que o teu infortúnio seja pior do que o meu. De facto, não acredito nisso de modo algum, pois parece-me que podes ir a qualquer lugar que escolhas, enquanto eu estou aqui presa, e tal fado é a minha sorte que amanhã serei capturada e entregue ao julgamento mortal." "Ah, Deus!", disse ele, "e por que crime?" "Senhor cavaleiro, que Deus nunca tenha piedade da minha alma, se eu mereci tal destino! Contudo, dir-vos-ei a verdade, sem engano, por que estou aqui na prisão: sou acusada de traição, e não consigo encontrar ninguém que me defenda de ser queimada ou enforcada amanhã." "Em primeiro lugar", respondeu ele, "posso dizer que a minha dor e sofrimento são maiores do que os teus, pois tu ainda podes ser salva por alguém do perigo em que te encontras. Não é verdade?" "Sim, mas ainda não sei por quem. Há apenas dois homens no mundo que ousariam, em meu nome, enfrentar três homens em batalha." "O quê? Em nome de Deus, são três?" "Sim, senhor, pela minha palavra. São três os que me acusam de traição." "E quem são aqueles que vos são tão dedicados que qualquer um deles teria a ousadia de lutar contra três em vossa defesa?" "Responderei à vossa pergunta com sinceridade: um deles é o meu senhor Gawain, e o outro é o meu senhor Yvain, por causa de quem serei amanhã entregue injustamente ao martírio da morte." "Por causa de quem?", perguntou ele, "o que disseste?" "Senhor, que Deus me ajude, por causa do filho do Rei Urien." "Agora compreendo as tuas palavras, mas não morrerás, sem que ele morra também. Eu próprio sou esse Yvain, por causa de quem estás em tal aflição. E tu, suponho, és aquela que outrora me guardou em segurança no salão, e salvou a minha vida e o meu corpo entre as duas grades, quando eu estava perturbado e angustiado, e alarmado por estar preso. Eu teria sido morto ou capturado, se não fosse a tua ajuda bondosa. Agora dize-me, minha gentil amiga, quem são aqueles que agora te acusam de traição e te confinaram neste lugar solitário?" "Senhor, não vo-lo ocultarei, já que desejais que vos conte tudo. É um facto que não fui lenta em ajudar-vos honestamente. Por meu conselho, a minha senhora recebeu-vos, depois de atender à minha opinião e ao meu parecer. E pelo Santo Pai-Nosso, mais pelo bem-estar dela do que pelo vosso, pensei que o estava a fazer, e ainda penso. Tanto agora vos confesso: foi a honra dela e o vosso desejo que procurei servir, que Deus me ajude! Mas quando se tornou evidente que tínheis ultrapassado o ano em que deveríeis regressar à minha senhora, então ela enfureceu-se comigo e pensou ter sido enganada ao depositar confiança no meu conselho. E quando isto foi descoberto pelo senescal — um canalha, dissimulado, um miserável desleal, que tinha inveja de mim porque em muitas matérias a minha senhora confiava mais em mim do que nele, ele viu que podia agora incitar uma grande inimizade entre mim e ela. Em plena corte e na presença de todos, acusou-me de a ter traído em vosso favor. E eu não tinha conselho ou ajuda senão a minha própria; mas sabia que nunca tinha feito ou concebido qualquer ato traiçoeiro contra a minha senhora, por isso gritei, como alguém fora de si, e sem o conselho de ninguém, que apresentaria em minha defesa um cavaleiro que lutaria contra três. O indivíduo não foi suficientemente cortês para desdenhar tal desvantagem, nem eu estava em liberdade de recuar ou desistir por qualquer coisa que pudesse acontecer. Assim, ele tomou-me pela palavra, e fui obrigada a prestar fiança de que apresentaria dentro de quarenta dias um cavaleiro para combater contra três cavaleiros. Desde então, visitei muitas cortes; estive na corte do Rei Arthur, mas não encontrei ajuda de ninguém ali, nem encontrei ninguém que me pudesse dar boas notícias vossas, pois nada sabiam dos vossos assuntos." "Peço-te que me digas. Onde estava então o meu bom e gentil senhor Gawain? Nenhuma donzela em aflição precisou jamais da sua ajuda sem que ela lhe fosse estendida." "Se o tivesse encontrado na corte, não lhe poderia ter pedido nada que me fosse recusado; mas um certo cavaleiro levou a Rainha, assim me disseram; certamente o Rei estava louco ao enviá-la na sua companhia. Acredito que foi Kay quem a escoltou ao encontro do cavaleiro que a levou; e o meu senhor Gawain, em grande aflição, partiu em busca dela. Ele nunca terá descanso até que a encontre. Agora contei-vos toda a verdade da minha aventura. Amanhã serei entregue a uma morte vergonhosa, e serei queimada inevitavelmente, vítima da vossa negligência criminosa." E ele respondeu: "Que Deus proíba que sejas prejudicada por minha causa! Enquanto eu viver, não morrerás! Podes esperar por mim amanhã, preparado na medida das minhas forças para apresentar o meu corpo pela tua causa, como é próprio que eu faça. Mas não te preocupes em dizer às pessoas quem sou! Qualquer que seja o desfecho da batalha, tem o cuidado de que eu não seja reconhecido!" "Certamente, senhor, nenhuma pressão poderia fazer-me revelar o vosso nome. Preferiria sofrer a morte, já que assim o quereis. No entanto, acima de tudo, peço-vos que não regresseis por mim. Não gostaria que empreendêsseis uma batalha que será tão desesperada. Agradeço-vos a vossa palavra prometida de que a empreenderíeis de bom grado, mas considerai-vos agora libertado, pois é melhor que eu morra sozinha do que ver que eles se regozijam com a vossa morte tal como a minha; eles não poupariam a minha vida depois de vos terem matado. Por isso, é melhor para vós permanecerdes vivo do que ambos encontrarmos a morte." "Essa é uma observação muito ingrata, minha querida", diz o meu senhor Yvain; "suponho que, ou não desejas ser salva da morte, ou então desprezas o conforto que vos trago com a minha ajuda. Não discutirei mais o assunto, pois vós certamente fizestes tanto por mim que não vos posso falhar em qualquer necessidade. Sei que estais em grande aflição; mas, se for da vontade de Deus, em quem confio, todos os três serão derrotados. Por isso, nada mais sobre esse assunto: vou agora procurar algum abrigo neste bosque, pois não há habitação nas proximidades." "Senhor", diz ela, "que Deus vos dê um bom abrigo e uma boa noite, e vos proteja como desejo de tudo o que vos possa causar dano!" Então o meu senhor Yvain parte, e o leão, como de costume, atrás dele. Viajaram até chegarem ao local fortificado de um barão, que estava completamente rodeado por uma muralha maciça, forte e alta. O castelo, sendo extraordinariamente bem protegido, não temia qualquer assalto de catapultas ou máquinas de cerco; mas fora das muralhas o terreno estava tão completamente limpo que nem uma única cabana ou habitação permanecia de pé. Aprenderás a causa disto um pouco mais tarde, quando chegar a altura. O meu senhor Yvain dirigiu-se diretamente ao local fortificado, e sete pajens saíram, baixaram a ponte e avançaram ao seu encontro. Mas ficaram aterrorizados ao ver o leão, que viram com ele, e pediram-lhe gentilmente que deixasse o leão à porta, para que não os ferisse ou matasse. E ele respondeu: "Não digais mais nada sobre isso! Pois não entrarei sem ele. Ou ambos encontraremos abrigo aqui, ou então ficarei fora; ele é-me tão querido quanto eu próprio. Contudo, não precisais de ter medo dele! Pois mantê-lo-ei tão bem sob controlo que podeis estar bastante confiantes." Eles responderam: "Muito bem!" Então entraram na cidade e prosseguiram até encontrarem cavaleiros, damas e donzelas encantadoras que desciam a rua, que o saudaram e esperaram para retirar a sua armadura enquanto diziam: "Bem-vindo ao nosso meio, belo senhor! E que Deus conceda que aqui permaneçais até que possais partir com grande honra e satisfação!" Altos e baixos, igualmente, estendem-lhe um alegre acolhimento e fazem tudo o que podem por ele, enquanto o escoltam alegremente para dentro da cidade. Mas depois de terem expressado a sua alegria, são dominados pela tristeza, o que os faz esquecer rapidamente a sua alegria, à medida que começam a lamentar, a chorar e a bater em si mesmos. Assim, durante um longo espaço de tempo, não cessam de se alegrar ou de se lamentar: é para honrar o seu convidado que se alegram, mas o seu coração não está naquilo que fazem, pois estão muito preocupados com um evento que esperam que ocorra no dia seguinte, e sentem-se muito seguros e certos de que sucederá antes do meio-dia. O meu senhor Yvain ficou tão surpreendido por eles mudarem tantas vezes de humor e misturarem o pesar com a sua felicidade, que se dirigiu ao senhor do lugar sobre o assunto. "Pelo amor de Deus", disse ele, "belo e gentil senhor, teríeis a gentileza de me informar por que motivo me honrastes assim e demonstrastes ao mesmo tempo tanta alegria e tanta tristeza?" "Sim, se desejais saber, mas seria melhor para vós desejar a ignorância e o silêncio. Nunca vos direi voluntariamente algo que vos cause dor. Permiti-nos continuar a lamentar, e não presteis atenção ao que fazemos!" "Seria impossível para mim ver-vos tristes e não o tomar para o meu coração, por isso desejo saber a verdade, qualquer que seja o desgosto que dela resulte para mim." "Bem, então", disse ele, "contar-vos-ei tudo. Tenho sofrido muito com um gigante, que tem insistido que lhe entregue a minha filha, que supera em beleza todas as donzelas do mundo. Este gigante maligno, que Deus confunda, chama-se Harpin da Montanha. Não passa um dia sem que ele tome todos os meus bens sobre os quais consegue deitar as mãos. Ninguém tem melhor direito do que eu para me queixar, estar triste e lamentar-me. Poderia muito bem perder o juízo de tanto pesar, pois tinha seis filhos que eram cavaleiros, mais belos do que qualquer outro que conhecesse no mundo, e o gigante levou todos os seis. Diante dos meus olhos, ele matou dois deles, e amanhã matará os outros quatro, a menos que eu encontre alguém que ouse lutar contra ele pela libertação dos meus filhos, ou a menos que eu consinta em entregar-lhe a minha filha; e ele diz que, quando a tiver em seu poder, entregá-la-á para ser o brinquedo dos homens mais vis e libertinos da sua casa, pois desdenharia tê-la agora para si próprio. Esse é o desastre que me aguarda amanhã, a menos que o Senhor Deus me conceda a Sua ajuda. Por isso, não é de admirar, belo senhor, se estamos todos em lágrimas. Mas por vossa causa, tentamos por um momento assumir uma aparência tão alegre quanto possível. Pois é um tolo aquele que atrai um cavalheiro à sua presença e depois não o honra; e vós pareceis ser um cavalheiro muito perfeito. Agora contei-vos toda a história da nossa grande aflição. Nem na cidade nem na fortaleza o gigante nos deixou nada, exceto o que temos aqui. Se tivésseis notado, teríeis visto esta noite que ele não nos deixou nem um ovo, exceto estas muralhas que são novas; pois ele arrasou a cidade inteira. Quando saqueou tudo o que desejava, incendiou o que restava. Desta forma, ele tem-me feito muitos atos malignos."
O meu senhor Yvain ouviu tudo o que o seu anfitrião lhe contou, e quando ouviu tudo, teve o prazer de lhe responder: "Senhor, lamento e estou angustiado com esse vosso problema; mas admiro-me muito que não tenhais pedido assistência na corte do bom Rei Arthur. Não há homem tão poderoso que não pudesse encontrar na sua corte alguns que ficariam contentes por testar a sua força com a dele." Então o homem rico revela e explica-lhe que teria tido ajuda eficiente se soubesse onde encontrar o meu senhor Gawain. "Ele não me teria falhado nesta ocasião, pois a minha esposa é sua própria irmã; mas um cavaleiro de uma terra estranha, que foi à corte buscar a esposa do Rei, levou-a embora. No entanto, ele não poderia tê-la obtido por qualquer meio da sua própria invenção, se não fosse por Kay, que tanto enganou o Rei que ele entregou a Rainha aos seus cuidados e colocou-a sob a sua proteção. Ele foi um tolo, e ela imprudente ao confiar-se à sua escolta. E eu sou aquele que sofre e perde em tudo isto; pois é certo que o meu excelente senhor Gawain se teria apressado a vir aqui, se soubesse dos factos, por causa dos seus sobrinhos e da sua sobrinha. Mas ele nada sabe disso, razão pela qual estou tão angustiado que o meu coração quase se parte, pois ele partiu na perseguição daquele a quem Deus traga vergonha e desgraça por ter levado a Rainha." Ao ouvir este relato, o meu senhor Yvain não deixa de suspirar. Inspirado pela piedade que sente, faz esta resposta: "Belo e gentil senhor, eu empreenderia de bom grado esta perigosa aventura, se o gigante e os vossos filhos chegassem amanhã a tempo de não me causarem atraso, pois amanhã ao meio-dia estarei noutro lugar, de acordo com uma promessa que fiz." "De uma vez por todas, belo senhor", disse o bom homem, "agradeço-vos cem mil vezes pela vossa disponibilidade." E todas as pessoas da casa igualmente expressaram a sua gratidão.
Nesse momento, a donzela saiu de um quarto, com o seu corpo gracioso e o seu rosto tão belo e agradável de contemplar. Ela vinha muito simples, triste e silenciosa, pois não havia fim para a dor que sentia: caminhava com a cabeça curvada em direção ao chão. E a sua mãe, também, veio de um quarto contíguo, pois o senhor tinha mandado chamá-las para conhecerem o seu hóspede. Elas entraram com os seus mantos envoltos sobre si para ocultar as suas lágrimas; e ele ordenou-lhes que afastassem os mantos e levantassem as cabeças, dizendo: "Não deveis hesitar em obedecer às minhas ordens, pois Deus e a boa fortuna deram-nos aqui um cavalheiro muito bem-nascido que me assegura que lutará contra o gigante. Não demoreis mais agora a lançar-vos aos seus pés!" "Que Deus jamais me deixe ver tal coisa!" apressa-se a exclamar o meu senhor Yvain; "certamente não seria apropriado, sob qualquer circunstância, que a irmã e a sobrinha do meu senhor Gawain se prostrassem aos meus pés. Que Deus me defenda de alguma vez dar lugar a tal orgulho a ponto de as deixar cair aos meus pés! Na verdade, eu jamais esqueceria a vergonha que sentiria; mas ficaria muito contente se elas se reconfortassem até amanhã, quando poderão ver se Deus consentirá em ajudá-las. Não tenho outro pedido a fazer, exceto que o gigante possa chegar em tão boa hora que eu não seja compelido a faltar ao meu compromisso noutro lugar; pois eu não falharia por nada em estar presente amanhã ao meio-dia no maior negócio que jamais poderia empreender." Assim, ele não está disposto a tranquilizá-las completamente, pois teme que o gigante não chegue cedo o suficiente para lhe permitir alcançar a tempo a donzela que está prisioneira na capela. Contudo, ele promete-lhes o suficiente para despertar nelas uma boa esperança. Todas elas, por igual, unem-se a agradecê-lo, pois depositam grande confiança na sua proeza, e pensam que ele deve ser um homem muito bom, ao verem o leão ao seu lado tão confiante como um cordeiro seria. Elas confortam-se e alegram-se por causa da esperança que depositam nele, e já não se entregam à sua dor. Quando chegou a hora, levaram-no para a cama num quarto muito iluminado; tanto a donzela como a sua mãe escoltaram-no, pois estimavam-no muito, e tê-lo-iam feito cem mil vezes mais se estivessem informadas da sua proeza e cortesia. Ele e o leão deitaram-se juntos ali e descansaram. Os outros não ousaram dormir no quarto; mas fecharam a porta tão bem que não puderam sair até ao amanhecer do dia seguinte. Quando o quarto foi aberto, ele levantou-se e ouviu a Missa, e depois, por causa da promessa que tinha feito, esperou até à hora de prima. Então, ouvindo todos, ele convocou o senhor da cidade e disse: "Meu senhor, não tenho mais tempo para esperar, mas devo pedir a vossa permissão para partir imediatamente; não posso demorar-me mais aqui. Mas acreditai verdadeiramente que eu ficaria de bom grado e voluntariamente aqui ainda por algum tempo por causa dos sobrinhos e da sobrinha do meu amado senhor Gawain, se eu não tivesse um grande negócio em mãos, e se não fosse tão longe." A isto, o sangue da donzela estremeceu e ferveu de medo, assim como o da senhora e o do senhor. Eles estavam tão receosos de que ele fosse embora que estavam prestes a humilhar-se e a lançar-se aos seus pés, quando se lembraram de que ele não aprovaria nem permitiria a sua ação. Então, o senhor faz-lhe uma oferta de tudo o que ele quiser tomar das suas terras ou riquezas, se apenas ele esperar um pouco mais. E ele respondeu: "Deus me livre de alguma vez tomar o que quer que seja vosso!" Então, a donzela, que está em desânimo, começa a chorar em voz alta, e suplica-lhe que fique. Como alguém distraído e presa do pavor, ela implora-lhe pela gloriosa rainha do céu e dos anjos, e pelo Senhor, que não vá, mas que espere um pouco; e então, também, pelo bem do seu tio, a quem ele diz conhecer, amar e estimar. Então, o seu coração é tocado por uma profunda piedade quando ele a ouve a conjurá-lo em nome daquele que ele mais ama, e pela senhora do céu, e pelo Senhor, que é o próprio mel e o doce sabor da piedade. Cheio de angústia, ele soltou um suspiro, pois estivesse o reino de Tarsus em jogo, ele não veria ser queimada aquela a quem prometera a sua ajuda. Se não pudesse chegar a tempo, ele seria incapaz de suportar a sua vida, ou continuaria a viver sem o seu juízo; por outro lado, a bondade do seu amigo, meu senhor Gawain, apenas aumentava a sua aflição; o seu coração quase rebenta a meio com o pensamento de que não pode atrasar-se. Contudo, ele não se move, mas atrasa-se e espera tanto tempo que o gigante chegou subitamente, trazendo consigo os cavalheiros: e pendurado ao pescoço carregava uma grande estaca quadrada com uma ponta aguçada, e com ela frequentemente os esporeava. Pela sua parte, eles não tinham vestuário que valesse um palhaço, exceto algumas camisas sujas e imundas: e os seus pés e mãos estavam atados com cordas, enquanto vinham montados em quatro cavalos coxos, que estavam fracos, magros e miseráveis. Enquanto vinham a cavalgar ao longo de um bosque, um anão, que estava inchado como um sapo, tinha atado as caudas dos cavalos uma à outra, e caminhava ao lado deles, batendo-lhes impiedosamente com um chicote de quatro nós até sangrarem, pensando assim estar a fazer algo maravilhoso. Assim foram trazidos na vergonha pelo gigante e pelo anão. Parando na planície em frente ao portão da cidade, o gigante grita ao nobre senhor que matará os seus filhos, a menos que lhe entregue a sua filha, a qual ele entregará aos seus vis companheiros para se tornarem o seu entretenimento. Pois ele já não a ama nem a estima, para que se digne a rebaixar-se até ela. Ela será constantemente assediada por mil patifes piolhentos e esfarrapados, miseráveis vadios e rapazes de cozinha, que todos porão as mãos nela. O digno homem está quase fora de si quando ouve como a sua filha será tornada numa alcoviteira, ou então, diante dos seus próprios olhos, os seus quatro filhos serão postos a uma morte rápida. A sua agonia é como a de alguém que preferiria estar morto a vivo. Repetidamente ele lamenta o seu destino, chora em voz alta e suspira. Então, o meu franco e gentil senhor Yvain começou a falar-lhe deste modo: "Senhor, muito vil e impudente é esse gigante que se vangloria lá fora. Mas que Deus nunca conceda que ele tenha a vossa filha em seu poder! Ele despreza-a e insulta-a abertamente. Seria uma calamidade demasiado grande se uma criatura tão adorável e de tão alto nascimento fosse entregue para se tornar o entretenimento de rapazes. Dai-me agora as minhas armas e o meu cavalo! Fazei baixar a ponte levadiça, e deixai-me passar. Um ou o outro deve ser derrubado, ou eu ou ele, não sei qual. Se eu pudesse apenas humilhar o cruel miserável que vos está assim a oprimir, para que ele libertasse os vossos filhos e viesse fazer reparação pelas palavras insultuosas que vos disse, então eu recomendar-vos-ia a Deus e seguiria com os meus negócios." Então eles vão buscar o seu cavalo, e entregam-lhe as suas armas, esforçando-se tão expeditamente que logo o têm completamente equipado. Eles demoraram o menos que puderam a armá-lo. Quando o seu equipamento ficou completo, não restava nada a não ser baixar a ponte e deixá-lo ir. Eles baixaram-na para ele, e ele saiu. Mas o leão de maneira nenhuma ficaria para trás. Todos aqueles que foram deixados para trás recomendaram o cavalheiro ao Salvador, pois temiam excessivamente que o seu inimigo diabólico, que já tinha morto tantos bons homens no mesmo campo diante dos seus olhos, fizesse o mesmo com ele. Então eles rezam a Deus para que o defenda da morte, e o faça regressar a eles são e salvo, e que Ele lhe dê força para matar o gigante. Cada um reza baixinho a Deus de acordo com o seu desejo. E o gigante veio ferozmente até ele, e com palavras ameaçadoras falou-lhe assim: "Pelos meus olhos, o homem que te enviou aqui certamente não tinha amor por ti! Nenhuma maneira melhor ele poderia ter escolhido para se vingar de ti. Ele escolheu bem a sua vingança por qualquer mal que lhe tenhas feito." Mas o outro, não temendo nada, responde: "Tu tratas do que não importa. Agora faz o teu melhor, e eu farei o meu. Conversa ociosa cansa-me." Ato contínuo, o meu senhor Yvain, que estava ansioso por partir, cavalga até ele. Ele vai atingi-lo no peito, que estava protegido por uma pele de urso, e o gigante corre até ele com a sua estaca erguida no ar. O meu senhor Yvain desfere-lhe tal golpe sobre o peito que ele atravessa a pele e molha a ponta da sua lança no sangue do seu corpo como molho. E o gigante espanca-o com a estaca, e fá-lo dobrar-se sob os golpes. O meu senhor Yvain então desembainha a espada com a qual sabia como desferir golpes ferozes. Ele encontrou o gigante desprotegido, pois ele confiava tanto na sua força que desdenhou armar-se. E ele, que tinha desembainhado a sua lâmina, deu-lhe tal corte com o gume, e não com o lado plano, que cortou da sua bochecha uma fatia pronta para assar. Então o outro, por sua vez, deu-lhe tal golpe com a estaca que o fez cantar num monte sobre o pescoço do seu cavalo. Ato contínuo, o leão eriçou-se, pronto para emprestar ajuda ao seu mestre, e salta na sua ira e força, e atinge e rasga como casca de árvore a pesada pele de urso que o gigante vestia, e arrancou por baixo da pele um grande pedaço da sua coxa, juntamente com os nervos e a carne. O gigante escapou das suas garras, rugindo e bramindo como um touro, pois o leão tinha-o ferido gravemente. Então, erguendo a sua estaca com ambas as mãos, pensou atingi-lo, mas falhou o seu objetivo, quando o leão saltou para trás, de modo que ele falhou o seu golpe, e caiu exausto ao lado do meu senhor Yvain, mas sem que nenhum deles tocasse no outro. Então o meu senhor Yvain apontou e desferiu-lhe dois golpes. Antes que ele pudesse recuperar-se, ele tinha decepado com o gume da sua espada o ombro do gigante do seu corpo. Com o golpe seguinte, ele passou a lâmina inteira da sua espada através do seu fígado por baixo do peito; o gigante cai no abraço da morte. E se um grande carvalho caísse, penso que não faria ruído maior do que o gigante fez quando tombou. Todos aqueles que estavam na muralha teriam querido testemunhar tal golpe. Então tornou-se evidente quem era o mais rápido de pés, pois todos correram para ver o jogo, tal como cães que perseguiram a besta até que finalmente a apanham. Assim, homens e mulheres, em rivalidade, correram para a frente sem demora para onde o gigante jazia de bruços. A filha vem a correr, e a sua mãe também. E os quatro irmãos alegram-se depois das desgraças que suportaram. Quanto ao meu senhor Yvain, eles estão muito certos de que não o poderiam deter por qualquer razão que pudessem alegar, mas imploram-lhe que regresse e fique para se divertir assim que tiver completado o negócio que o chama. E ele responde que não lhes pode prometer nada, pois ainda não pode adivinhar se as coisas lhe correrão bem ou mal. Mas isto disse ele ao seu anfitrião: que desejava que os seus quatro filhos e a sua filha pegassem no anão e fossem ter com o meu senhor Gawain quando ouvissem falar do seu regresso, e que lhe contassem e relatassem como ele se tinha comportado. Pois ações bondosas não têm utilidade se não estiverdes dispostos a que sejam conhecidas. E eles respondem: "Não é justo que tal bondade como esta seja mantida escondida: nós faremos tudo o que desejar. Mas dizei-nos o que podemos dizer quando formos perante ele. De quem podemos falar os louvores, quando não sabemos qual possa ser o vosso nome?" E ele responde-lhes: "Quando vierdes perante ele, podeis dizer isto: que eu vos disse que 'O Cavaleiro com o Leão' era o meu nome. E ao mesmo tempo devo implorar-vos que lhe digais da minha parte que, se ele não reconhece quem eu sou, ainda assim ele conhece-me bem e eu conheço-o. Agora devo partir daqui, e a coisa que mais me alarma é que possa ter-me demorado demasiado aqui, pois antes que a hora do meio-dia passe terei muito que fazer noutro lugar, se é que posso chegar lá a tempo." Então, sem mais demora, ele parte. Mas primeiro o seu anfitrião implorou-lhe insistentemente que levasse consigo os seus quatro filhos: pois não havia nenhum deles que não se esforçasse por servi-lo, se ele o permitisse. Mas não lhe agradou nem lhe convir que alguém o acompanhasse; por isso, deixou-lhes o lugar e partiu sozinho. E assim que ele parte, cavalgando o mais rápido que o seu corcel o pode levar, ele dirige-se para a capela. O caminho era bom e direito, e ele sabia bem como manter a estrada. Mas antes que ele pudesse alcançar a capela, a donzela tinha sido arrastada para fora e a pira preparada sobre a qual ela deveria ser colocada. Vestida apenas com uma camisa, ela era mantida atada perante o fogo por aqueles que erradamente atribuíam a ela uma intenção que ela nunca tinha tido. O meu senhor Yvain chegou, e, vendo-a ao lado do fogo no qual ela estava prestes a ser lançada, ele ficou naturalmente enfurecido. Não seria nem cortês nem sensato quem tivesse qualquer dúvida sobre esse facto. Assim é verdade que ele estava muito enfurecido; mas ele acalenta dentro de si a esperança de que Deus e o Direito estarão do seu lado. Em tais auxiliares ele confia; nem despreza a ajuda do seu leão. Correndo rapidamente em direção à multidão, ele grita: "Deixai a donzela, vós, povo perverso! Não tendo cometido nenhum crime, não é justo que ela seja lançada numa pira ou num forno." E eles afastam-se de cada lado, deixando uma passagem para ele. Mas ele anseia por ver com os seus próprios olhos aquela a quem o seu coração contempla em qualquer lugar onde ela possa estar. Os seus olhos procuram-na até que a encontra, enquanto ele subjuga e mantém sob controlo o seu coração, tal como alguém mantém sob controlo com rédeas fortes um cavalo que puxa. Contudo, ele contempla-a de bom grado, e suspira enquanto isso; mas ele não suspira tão abertamente que a sua ação seja detetada; antes, ele abafa os seus suspiros, embora com dificuldade. E ele é tomado de piedade ao ouvir, ver e perceber a dor das pobres senhoras, que gritavam: "Ah, Deus, como nos esqueceste! Quão desoladas ficaremos agora quando perdermos uma amiga tão bondosa, que nos deu tal conselho e tal ajuda, e intercedeu por nós na corte! Foi ela quem incitou madame a vestir-nos com as suas roupas de vair. De agora em diante a situação mudará, pois não haverá ninguém para falar por nós! Maldito seja aquele que é a causa da nossa perda! Pois ficaremos mal em tudo isto. Não haverá ninguém para proferir tal conselho como este: 'Minha senhora, dai este manto de vair, esta capa e esta vestimenta a tal e tal dama honesta! Verdadeiramente, tal caridade será bem empregada, pois ela está em necessidade muito terrível.' Nenhumas tais palavras como estas serão proferidas de agora em diante, pois não há mais ninguém que seja franco e cortês; mas cada um solicita para si mesmo em vez de para outra pessoa, mesmo que não tenha necessidade."
O leão então retirou-se, e tendo terminado o parlamentar e a querela entre os dois, todos tomaram sua distância para a carga. Os três juntos esporearam em direção a ele, e ele foi ao encontro deles a passo. Não desejava ser derrubado ou ferido neste primeiro encontro. Assim, deixou que partissem suas lanças, mantendo a sua intacta, fazendo de seu escudo um alvo para eles, no qual cada um quebrou a sua. Então galopou até separar-se deles pelo espaço de um acre; mas logo retornou ao negócio em mãos, não tendo desejo de tardar. Ao aproximar-se pela segunda vez, alcançou o senescal antes de seus dois irmãos, e quebrando sua lança contra o corpo dele, levou-o a terra a despeito de si mesmo, e deu-lhe um golpe tão poderoso que, por um longo tempo, ele jazeu atordoado, incapaz de lhe causar qualquer dano. E então os outros dois vieram contra ele com as espadas desembainhadas, e ambos lhe desferem grandes golpes, mas recebem golpes ainda mais pesados dele. Pois um único golpe que ele desfere é mais do que páreo para dois dos deles; assim, defende-se tão bem que eles não têm vantagem sobre ele, até que o senescal se levanta e faz o seu melhor para feri-lo, tentativa na qual os outros se unem, até que começam a pressioná-lo e a ganhar a vantagem. Então o leão, que observa, não tarda mais a prestar-lhe auxílio; pois parece-lhe que ele o necessita agora. E todas as damas, que são devotadas à donzela, imploram a Deus repetidamente e rezam-Lhe fervorosamente para não permitir a morte ou a derrota daquele que entrou no combate por sua conta. As damas, não tendo outras armas, assim o auxiliam com suas preces. E o leão traz-lhe um auxílio tão eficaz que, em seu primeiro ataque, golpeia tão ferozmente o senescal, que agora estava de pé, que faz as malhas da cota de malha voarem como palha, e arrasta-o para baixo com tal violência que rasga a carne macia de seu ombro e por toda a extensão de seu lado. Ele despe o que quer que toque, de modo que as entranhas jazem expostas. Os outros dois vingam este golpe.
Agora estão todos iguais no campo. O senescal está marcado para a morte, enquanto se vira e se revolve no rio vermelho de sangue morno que jorra de seu corpo. O leão ataca os outros; pois meu senhor Yvain é totalmente incapaz, embora tenha tentado o seu melhor batendo nele ou ameaçando-o, de afastá-lo; mas o leão sem dúvida sente-se confiante de que seu mestre não desaprova sua ajuda, mas antes ama-o mais por isso: assim ele ataca-os ferozmente, até que tenham razão para se queixar de seus golpes, e eles o ferem por sua vez e tratam-no mal. Quando meu senhor Yvain vê seu leão ferido, seu coração encoleriza-se dentro de seu peito, e com razão; mas ele faz tais esforços para vingá-lo, e pressiona-os tão fortemente, que os reduz completamente; eles já não resistem a ele, mas rendem-se a ele à discrição, por causa da ajuda do leão, que agora está em grande aflição; pois ele estava ferido por toda parte, e tinha boa causa para estar em dor. Por sua parte, meu senhor Yvain não estava de modo algum em um estado saudável, pois seu corpo trazia muitas feridas. Mas ele não está tão ansioso por si mesmo quanto por seu leão, que está em aflição. Agora ele libertou a donzela exatamente de acordo com seu desejo, e a senhora muito voluntariamente afastou o rancor que nutria contra ela. E aqueles homens foram queimados na pira que havia sido acesa para a morte da donzela; pois é correto e justo que aquele que julgou mal a outro, sofra o mesmo modo de morte àquele a que condenou o outro. Agora Lunete está alegre e contente por estar reconciliada com sua senhora, e juntas elas estavam mais felizes do que qualquer um já esteve antes. Sem reconhecê-lo, todos os presentes ofereceram a ele, que era seu senhor, seu serviço enquanto a vida durasse; até a senhora, que possuía sem saber seu coração, implorou-lhe insistentemente que tardasse ali até que seu leão e ele estivessem completamente recuperados. E ele respondeu: "Senhora, não tardarei aqui agora até que minha senhora remova de mim seu desagrado e raiva: então o fim de todos os meus labores chegará." "De fato," disse ela, "isso me entristece. Penso que a senhora não pode ser muito cortês, aquela que nutre má vontade contra vós. Ela não deveria fechar sua porta a um cavaleiro tão valoroso como vós, a menos que ele lhe tivesse feito algum grande mal." "Senhora," ele responde, "por maior que seja o infortúnio, agrada-me o que quer que seja a sua vontade. Mas não faleis mais disso comigo; pois nada direi sobre a causa ou crime, exceto àqueles que estão informados dele." "Alguém sabe disso, então, além de vós dois?" "Sim, verdadeiramente, senhora." "Bem, dizei-nos ao menos vosso nome, bom senhor; então estareis livre para ir." "Totalmente livre, minha senhora? Não, não estarei livre. Devo mais do que posso pagar. Contudo, não deveria esconder de vós meu nome. Nunca ouvireis falar de 'O Cavaleiro do Leão' sem ouvir falar de mim; pois desejo ser conhecido por esse nome." "Pelo amor de Deus, senhor, o que significa esse nome? Pois nunca vos vimos antes, nem ouvimos mencionar este vosso nome." "Minha senhora, podeis inferir disso que minha fama não é difundida." Então a senhora diz: "Mais uma vez, se não se opusesse à vossa vontade, eu vos rogaria que tardásseis aqui." "Realmente, minha senhora, eu não ousaria, até que soubesse certamente que recuperei a boa vontade de minha senhora." "Bem, então, ide em nome de Deus, bom senhor; e, se for Sua vontade, que Ele converta vossa dor e tristeza em alegria." "Senhora," diz ele, "que Deus ouça vossa prece." Então acrescentou suavemente em voz baixa: "Senhora, sois vós quem detém a chave, e, embora não o saibais, detendes o cofre no qual minha felicidade é mantida sob chave."
Então ele vai embora em grande aflição, e não há ninguém que o reconheça senão Lunete, que o acompanhou por uma longa distância. Lunete sozinha lhe faz companhia, e ele lhe roga insistentemente que nunca revele o nome de seu campeão. "Senhor," diz ela, "eu nunca o farei." Então ele ainda lhe pediu que ela não se esquecesse dele, e que ela guardasse um lugar para ele no coração de sua senhora, sempre que a chance surgisse. Ela diz-lhe para ficar tranquilo quanto a isso; pois ela nunca será esquecida, nem infiel, nem ociosa. Então ele agradece-lhe mil vezes, e parte pensativo e oprimido, por causa de seu leão que ele deve carregar, sendo incapaz de segui-lo a pé. Ele faz para ele uma liteira de musgo e samambaias em seu escudo. Quando preparou uma cama para ele ali, ele deita-o nela tão suavemente quanto pode, e carrega-o assim estendido por todo o comprimento no lado interno de seu escudo. Assim, em seu escudo ele o carrega, até chegar diante do portão de uma mansão, forte e bela. Encontrando-o fechado, chamou, e o porteiro abriu-o tão prontamente que ele não teve necessidade de chamar senão uma vez. Ele estende a mão para tomar sua rédea, e saúda-o assim: "Entrai, bom senhor. Ofereço-vos a habitação de meu senhor, se vos apraz desmontar." "Aceito a oferta alegremente," ele responde, "pois estou em grande necessidade dela, e é hora de encontrar um alojamento."
Em seguida, ele passou pelo portão e viu os vassalos em massa vindo ao seu encontro. Eles o saudaram e ajudaram-no a descer de seu cavalo, e deitaram sobre a calçada seu escudo com o leão nele. E alguns, tomando seu cavalo, colocaram-no em uma estrebaria: enquanto outros muito propriamente aliviaram-no de suas armas e tomaram-nas. Então o senhor do castelo ouviu as notícias, e imediatamente desceu ao pátio e saudou-o. E sua senhora desceu também, com todos os seus filhos e filhas e uma grande multidão de outras pessoas, que todas se regozijaram em oferecer-lhe um alojamento. Deram-lhe um quarto silencioso, pois julgaram que ele estava doente; mas sua boa natureza foi posta à prova quando permitiram que o leão fosse com ele. Sua cura foi empreendida por duas donzelas habilidosas em cirurgia, que eram filhas do senhor. Não sei quantos dias ele permaneceu ali, até que ele e seu leão, estando curados, foram compelidos a seguir seu caminho.
Mas dentro deste tempo aconteceu que meu senhor de Noire Espine teve uma luta com a Morte, e tão feroz foi o ataque da Morte que ele foi forçado a morrer. Após sua morte, aconteceu que a mais velha das duas filhas que ele tinha, anunciou que possuiria incontestada todas as propriedades para si mesma durante toda a sua vida, e que não daria nenhuma parte à sua irmã. E a outra disse que iria à corte do Rei Arthur para buscar ajuda para a defesa de sua reivindicação à terra. Quando a primeira viu que sua irmã de modo algum concederia todas as propriedades a ela sem contestação, ficou muito preocupada, e pensou que, se possível, chegaria à corte antes dela. Imediatamente preparou-se e equipou-se, e sem qualquer tardança ou demora, seguiu para a corte. A outra seguiu-a, e fez toda a pressa que pôde; mas sua jornada foi toda em vão, pois sua irmã mais velha já havia apresentado seu caso ao meu senhor Gawain, e ele havia prometido executar sua vontade. Mas havia um acordo entre eles de que, se alguém soubesse dos fatos por ela, ele nunca mais pegaria em armas por ela, e a este arranjo ela deu consentimento.
Justo então a outra irmã chegou à corte, vestida com um curto manto de pano escarlate e arminho fresco. Aconteceu de ser o terceiro dia após a Rainha ter retornado do cativeiro no qual Maleagant a havia detido com todos os outros prisioneiros; mas Lancelot havia permanecido para trás, traiçoeiramente confinado dentro de uma torre. E naquele mesmo dia, quando a donzela chegou à corte, foram recebidas notícias do cruel e perverso gigante que o cavaleiro do leão havia matado em batalha. Em seu nome, meu senhor Gawain foi saudado por seus sobrinhos e sobrinha, que lhe contaram em detalhes de todo o grande serviço e grandes feitos de proeza que ele havia feito por eles por causa dele, e como ele estava bem familiarizado com ele, embora não ciente de sua identidade.
Tudo isso foi ouvido por ela, que foi lançada por isso em grande desespero e tristeza e abatimento; pois, como o melhor dos cavaleiros estava ausente, ela pensou que não encontraria ajuda ou conselho na corte. Ela já havia feito vários apelos amorosos e insistentes ao meu senhor Gawain; mas ele lhe dissera: "Minha cara, é inútil apelar para mim; não posso fazê-lo; tenho outro assunto em mãos, que de modo algum deixarei." Então a donzela imediatamente deixou-o, e apresentou-se diante do Rei. "Ó Rei," disse ela, "vim a ti e à tua corte em busca de ajuda. Mas não encontro nenhuma, e estou muito perplexa por não poder obter conselho aqui. Contudo, não seria correto para mim ir embora sem me despedir. Minha irmã pode saber, contudo, que ela poderia obter por bondade tudo o que desejasse de minha propriedade; mas nunca entregarei minha herança a ela pela força, se puder evitar, e se puder encontrar qualquer ajuda ou conselho." "Falastes sabiamente," disse o Rei; "já que ela está presente aqui, eu a aconselho, recomendo e exorto a entregar-vos o que é vosso direito." Então a outra, que estava confiante no melhor cavaleiro do mundo, respondeu: "Senhor, que Deus me confunda, se algum dia eu lhe conceder de minhas propriedades qualquer castelo, cidade, clareira, floresta, terra, ou qualquer outra coisa. Mas se algum cavaleiro ousar pegar em armas em seu nome e desejar defender sua causa, que ele se apresente imediatamente." "Sua oferta a ela não é justa; ela precisa de mais tempo," o Rei respondeu; "se ela desejar, pode ter quarenta dias para conseguir um campeão, de acordo com a prática de todas as cortes." Ao que a irmã mais velha respondeu: "Bom Rei, meu senhor, podeis estabelecer vossas leis como vos apraz, e como parece bom, nem cabe a mim contradizer-vos, então devo consentir com o adiamento, se ela o desejar." Ao que a outra diz que ela deseja, e faz o pedido formal por isso. Então ela recomendou o Rei a Deus, e deixou a corte resolvendo dedicar sua vida à busca por toda a terra pelo Cavaleiro do Leão, que dedica-se a socorrer mulheres em necessidade de ajuda.
Assim, ela iniciou sua busca, e atravessou muitos países sem ouvir qualquer notícia dele, o que lhe causou tal tristeza que ela adoeceu. Mas foi bom para ela que tenha acontecido assim; pois ela chegou à habitação de uma amiga dela, por quem era carinhosamente amada. Por este tempo seu rosto mostrava claramente que ela não estava em boa saúde. Eles insistiram em detê-la até que ela lhes contasse sua situação; ao que, outra donzela assumiu a busca na qual ela havia se engajado, e continuou a procura em seu nome. Então, enquanto uma permanecia neste retiro, a outra cavalgava rapidamente durante todo o dia, até que a escuridão da noite chegou, e causou-lhe grande ansiedade. E sua angústia foi dobrada quando a chuva começou com terrível violência, como se o próprio Deus estivesse fazendo o seu pior, enquanto ela estava nas profundezas da floresta. A noite e os bosques causam-lhe grande aflição, mas ela é mais atormentada pela chuva do que pelos bosques ou pela noite. E a estrada era tão ruim que seu cavalo estava frequentemente com as cinchas na lama; qualquer donzela poderia muito bem estar aterrorizada por estar nos bosques, sem escolta, em tal mau tempo e em tal escuridão que ela não podia ver o cavalo que estava montando. Então ela clamou a Deus primeiro, e a Sua mãe depois, e então a todos os santos por sua vez, e ofereceu muitas preces para que Deus a conduzisse para fora daquela floresta e a conduzisse a algum alojamento. Ela continuou em prece até ouvir uma trompa, com a qual ela muito se regozijou; pois pensou agora que encontraria abrigo, se pudesse apenas alcançar o lugar. Então ela virou na direção do som, e encontrou uma estrada pavimentada que levava diretamente em direção à trompa cujo som ela ouviu; pois a trompa havia dado três longos e altos toques. E ela fez seu caminho diretamente em direção ao som, até chegar a uma cruz que ficava no lado direito da estrada, e ali ela pensou que poderia encontrar a trompa e a pessoa que a havia tocado. Então ela esporeou seu cavalo naquela direção, até aproximar-se de uma ponte, e descreveu as paredes brancas e a barbacã de um castelo circular. Assim, por acaso, ela encontrou o castelo, definindo seu rumo pelo som que a havia levado até lá. Ela havia sido atraída pelo som da trompa tocada por um vigia sobre as paredes. Assim que o vigia avistou-a, chamou por ela, depois desceu, e tomando a chave do portão, abriu-o para ela e disse: "Bem-vinda, donzela, quem quer que sejais. Sereis bem alojada esta noite." "Não tenho outro desejo senão esse," a donzela respondeu, enquanto ele a deixava entrar. Após o trabalho e a ansiedade que ela havia suportado naquele dia, ela teve a sorte de encontrar tal alojamento; pois ela estava muito confortável ali. Após a refeição, o anfitrião dirigiu-se a ela, e perguntou para onde ela ia e qual era sua busca. Ao que, ela respondeu assim: "Estou buscando alguém que nunca vi, tanto quanto estou ciente, e nunca conheci; mas ele tem um leão consigo, e me disseram que, se eu o encontrar, posso depositar grande confiança nele." "Posso testificar isso," o outro disse: "pois anteontem Deus enviou-o aqui a mim em minha terrível necessidade. Benditos sejam os caminhos que o levaram à minha habitação. Pois ele me fez feliz vingando-me de um inimigo mortal e matando-o diante de meus olhos. Fora daquele portão podeis ver amanhã o corpo de um poderoso gigante, a quem ele matou com tal facilidade que ele mal teve que suar." "Pelo amor de Deus, senhor," a donzela disse, "dizei-me agora a verdade, se sabeis para onde ele foi, e onde ele está." "Eu não sei," ele disse, "como Deus me vê aqui; mas amanhã eu vos porei no caminho pelo qual ele foi embora daqui." "E que Deus," disse ela, "me conduza onde eu possa ouvir verdadeiras notícias dele. Pois se eu o encontrar, ficarei muito feliz."
Assim eles continuaram em longa conversa até que finalmente foram para a cama. Quando o dia amanheceu, a donzela levantou-se, estando em grande preocupação para encontrar o objeto de sua busca. E o mestre da casa levantou-se com todos os seus companheiros, e colocou-a na estrada que levava diretamente à fonte sob o pinheiro. E ela, apressando-se em seu caminho em direção à cidade, veio e perguntou aos primeiros homens que encontrou, se poderiam dizer-lhe onde encontraria o leão e o cavaleiro que viajavam em companhia. E eles disseram-lhe que tinham visto ele derrotar três cavaleiros naquele mesmo lugar. Ao que, ela disse imediatamente: "Pelo amor de Deus, já que dissestes tanto, não retenhais de mim nada que possais acrescentar." "Não," eles responderam; "não sabemos nada mais do que dissemos, nem sabemos o que aconteceu com ele. Se ela, por cuja causa ele veio aqui, não pode vos dar mais notícias, não haverá ninguém aqui para vos esclarecer. Não tereis muito que andar, se desejais falar com ela; pois ela foi fazer prece a Deus e ouvir Missa na igreja ali adiante, e a julgar pelo tempo que ela tem estado lá dentro, suas orações foram prolongadas."
Enquanto conversavam assim, Lunete saiu da igreja e eles disseram: "Ali está ela". Então ela foi ao seu encontro e cumprimentaram-se. Ela pediu imediatamente a Lunete a informação que desejava; e Lunete disse que mandaria selar um palafrene; pois desejava acompanhá-la e levá-la-ia a um recinto onde o havia deixado. A outra donzela agradeceu-lhe de coração. Lunete monta o palafrene que é trazido sem demora e, enquanto cavalgam, ela conta-lhe como fora acusada e incriminada por traição, e como a pira já estava acesa, sobre a qual ela deveria ser deitada, e como ele tinha vindo ajudá-la exatamente no momento de sua necessidade. Enquanto falava assim, escoltou-a até a estrada que levava diretamente ao local onde meu senhor Yvain se separara dela. Quando a acompanhou até ali, disse: "Siga por esta estrada até chegar a um lugar onde, se aprouver a Deus e ao Espírito Santo, ouvirá notícias mais fiáveis dele do que eu posso contar. Lembro-me muito bem de que o deixei perto daqui, ou exatamente aqui, onde estamos agora; não nos vimos desde então e não sei o que ele fez. Quando me deixou, ele estava a precisar muito de um emplastro para os seus ferimentos. Por isso, enviar-vos-ei atrás dele e, se for vontade de Deus, que Ele conceda que o encontreis hoje à noite ou amanhã com saúde. Agora ide: recomendo-vos a Deus. Não devo seguir-vos mais, para que minha senhora não se desagrade comigo". Então Lunete deixa-a e volta para trás; enquanto a outra apressou-se até encontrar uma casa, onde meu senhor Yvain havia permanecido até recuperar a saúde. Viu pessoas reunidas diante do portão, cavaleiros, damas e homens de armas, e o senhor da casa; cumprimentou-os e pediu-lhes que lhe dessem, se possível, notícias de um cavaleiro que ela procurava. "Quem é ele?", perguntam. "Ouvi dizer que ele nunca está sem um leão." "Pela minha palavra, donzela", diz o senhor, "ele acabou de nos deixar. Pode alcançá-lo hoje à noite, se for capaz de manter os seus rastos à vista e tiver cuidado para não perder tempo." "Senhor", responde ela, "Deus me livre disso. Mas diga-me agora em que direção devo segui-lo." E eles dizem-lhe: "Por este caminho, em frente", e pedem-lhe que o cumprimente em nome deles. Mas a cortesia deles não foi de muita valia; pois, sem dar atenção, ela galopou imediatamente. O ritmo parecia-lhe lento demais, embora o seu palafrene fosse rápido. Por isso, galopou pela lama da mesma forma que onde a estrada era boa e plana, até que o avistou com o leão como seu companheiro. Então, na sua alegria, exclama: "Deus, ajuda-me agora. Finalmente vejo aquele que há tanto tempo persegui e cujo rastro segui por muito tempo. Mas se eu o perseguir e nada ganhar, o que me valerá alcançá-lo? Pouco ou nada, pela minha palavra. Se ele não se juntar ao meu empreendimento, terei desperdiçado todos os meus esforços". Dizendo isso, apressou-se tanto que o seu palafrene ficou todo suado; mas ela alcançou-o e cumprimentou-o. Ele então respondeu-lhe imediatamente: "Deus vos salve, bela, e vos livre da dor e do sofrimento". "O mesmo para vós, senhor, que, espero, em breve podereis livrar-me." Então ela aproxima-se dele e diz: "Senhor, há muito que vos procuro. A grande fama do vosso mérito fez-me atravessar muitos condados na minha cansativa busca por vós. Mas continuei a minha busca por tanto tempo, graças a Deus, que finalmente vos encontrei aqui. E se trouxe alguma ansiedade comigo, já não me preocupo mais com isso, nem me queixo ou me lembro disso agora. Estou totalmente aliviada; a minha preocupação fugiu no momento em que vos encontrei. Além disso, o assunto não é meu: venho ter convosco da parte de alguém que é melhor do que eu, uma mulher que é mais nobre e excelente. Mas se ela se decepcionar nas suas esperanças em vós, então ela foi traída pela vossa bela renome, pois não tem expectativa de outra ajuda. A minha donzela, que é privada da sua herança por uma irmã, espera com a vossa ajuda ganhar a sua causa; ela não quer ninguém senão vós para defender a sua causa. Ninguém a pode fazer acreditar que outro qualquer poderia prestar-lhe auxílio. Ao garantir a sua parte da herança, tereis ganho e adquirido o amor daquela que agora está deserdada, e também aumentareis o vosso próprio renome. Ela própria ia à vossa procura para garantir o favor que esperava; ninguém mais teria tomado o seu lugar, se ela não tivesse sido detida por uma doença que a obriga a ficar de cama. Agora digam-me, por favor, se ousareis vir ou se recusareis". "Não", diz ele; "nenhum homem pode ganhar louvor numa vida de conforto; e não recuarei, mas seguir-vos-ei alegremente, minha doce amiga, para onde quer que vos agrade. E se aquela por quem me procurastes está em grande necessidade de mim, não tenhais medo de que eu não farei tudo o que puder por ela. Agora que Deus me conceda a felicidade e a graça de resolver a seu favor a sua legítima reivindicação."
Assim conversando, os dois cavalaram até se aproximarem da cidade de Pesme Avanture. Eles não tinham desejo de passar por ela, pois o dia já estava chegando ao fim. Chegaram cavalgando ao castelo, quando todo o povo, vendo-os aproximar-se, gritou para o cavaleiro: "Mal-vindo, senhor, mal-vindo. Este alojamento foi-vos apontado para que pudésseis sofrer dano e vergonha. Um abade poderia jurar isso". "Ah", respondeu ele, "povo tolo e vulgar, cheio de toda a maldade e desprovido de honra, por que me atacastes assim?" "Por quê? Descobrireis em breve, se fordes um pouco mais longe. Mas não sabereis mais nada até terdes ascendido à fortaleza." Imediatamente, meu senhor Yvain vira-se para a torre, e a multidão clama, todos gritando alto para ele: "Eh, eh, miserável, para onde vais? Se alguma vez na tua vida encontraste alguém que te causou vergonha e sofrimento, tal te será feito lá, para onde vais, como nunca mais será contado por ti". Meu senhor Yvain, que está a ouvir, diz: "Povo vil e impiedoso, miserável e impudente, por que me atacais assim, por que me investis desta maneira? O que desejais de mim, o que quereis, que rosnais desta forma atrás de mim?" Uma dama, que era um tanto avançada em anos, que era cortês e sensata, disse: "Não tens motivos para estar enfurecido: eles não querem mal no que dizem; mas, se os compreendesses bem, eles estão a avisar-te para não passares a noite lá em cima; não ousam dizer-te o motivo disso, mas avisam-te e censuram-te porque desejam despertar os teus medos. Isso eles estão acostumados a fazer no caso de todos os que chegam, para que não entrem. E o costume é tal que não ousamos receber nas nossas próprias casas, por qualquer motivo que seja, qualquer cavalheiro que venha aqui de longe. A responsabilidade agora é apenas tua; ninguém te impedirá o caminho. Se desejares, podes subir agora; mas o meu conselho é voltares atrás". "Dama", diz ele, "sem dúvida seria para a minha honra e vantagem seguir o vosso conselho; mas não sei onde deveria encontrar um alojamento esta noite." "Pela minha palavra", diz ela, "não direi mais nada, pois o caso não é meu. Ide para onde vos aprouver. No entanto, ficaria muito feliz em ver-vos voltar de lá de dentro sem demasiada vergonha; mas isso dificilmente poderia acontecer." "Dama", diz ele, "que Deus vos recompense pelo desejo. Contudo, o meu coração rebelde leva-me para dentro, e farei o que o meu coração deseja." Então, ele aproxima-se do portão, acompanhado pelo seu leão e pela sua donzela. Então o porteiro chama-o e diz: "Vinde depressa, vinde. Estais a caminho de um lugar onde sereis detidos com segurança, e que a vossa visita seja maldita".
O porteiro, depois de o saudar com esta boas-vindas muito pouco graciosa, subiu apressado as escadas. Mas meu senhor Yvain, sem dar resposta, passou direto e encontrou um salão novo e elevado; diante dele havia um pátio cercado com estacas grandes, redondas e pontiagudas, e sentado dentro das estacas ele viu cerca de trezentas donzelas, trabalhando em diferentes tipos de bordados. Cada uma costurava com fio de ouro e seda, como melhor podia. Mas tal era a sua pobreza que muitas delas não usavam cinto e pareciam desleixadas, por serem tão pobres; e as suas vestes estavam rasgadas na altura dos seios e nos cotovelos, e as suas camisas estavam sujas na altura do pescoço. Os seus pescoços eram finos e os seus rostos pálidos de fome e privação. Elas veem-no, enquanto ele as observa, e choram, e não conseguem por algum tempo fazer nada ou levantar os olhos do chão, tão curvadas estão com a dor. Quando ele as contemplou por um tempo, meu senhor Yvain virou-se e moveu-se em direção à porta; mas o porteiro barrou o caminho e gritou: "Não adianta, belo mestre; não saireis agora. Gostarias de estar lá fora: mas, pela minha cabeça, é inútil. Antes de escapares, terás sofrido tamanha vergonha que não poderias facilmente sofrer mais; por isso não foste sábio ao entrar aqui, pois não há questão de escapar agora". "Nem desejo fazê-lo, belo irmão", disse ele; "mas diz-me, pela alma de teu pai, de onde vieram as donzelas que vi no pátio, tecendo panos de seda e ouro. Gosto de ver o trabalho que fazem, mas fico muito angustiado ao ver os seus corpos tão finos e os seus rostos tão pálidos e tristes. Imagino que seriam belas e encantadoras, se tivessem o que desejam." "Não vos direi nada", foi a resposta; "procurai alguém para vos contar." "Isso farei, já que não há melhor maneira." Então ele procura até encontrar a entrada do pátio onde as donzelas estavam a trabalhar: e chegando diante delas, cumprimenta-as a todas e vê lágrimas a correr dos seus olhos, enquanto choram. Então diz-lhes: "Que apraza a Deus remover dos vossos corações, e transformar em alegria, esta dor, cuja causa eu desconheço". Uma delas responde: "Que sejais ouvido por Deus, a quem dirigistes a vossa prece. Não vos será escondido quem somos, e de que terra: suponho que seja isso que desejais saber". "Para nenhum outro propósito vim aqui", diz ele. "Senhor, aconteceu há muito tempo que o rei da Ilha das Donzelas foi buscar notícias através de diversas cortes e países, e continuou as suas viagens como um tolo até encontrar este lugar perigoso. Foi uma hora de azar quando ele chegou aqui pela primeira vez, pois nós, cativas miseráveis que aqui estamos, recebemos toda a vergonha e miséria que de forma alguma merecemos. E estai certo de que vós próprio podeis esperar grande vergonha, a menos que um resgate por vós seja aceitado. Mas, de qualquer forma, aconteceu que o meu senhor veio a esta cidade, onde há dois filhos do diabo (não tomeis como uma brincadeira) que nasceram de uma mulher e um íncubo. Estes dois estavam prestes a lutar com o rei, cujo terror era grande, pois ele não tinha ainda dezoito anos, e eles teriam sido capazes de o partir como um cordeiro tenro. Então o rei, no seu terror, escapou ao seu destino como melhor pôde, jurando que enviaria para cá a cada ano, conforme exigido, trinta das suas donzelas, e com este tributo ele libertou-se. E quando ele jurou, ficou acordado que este arranjo permaneceria em vigor enquanto os dois diabos vivessem. Mas no dia em que eles fossem conquistados e derrotados em batalha, ele ficaria aliviado deste tributo, e nós seríamos libertadas, que agora estamos vergonhosamente entregues ao sofrimento e à miséria. Nunca mais saberemos o que é o prazer. Mas falei tolice agora ao referir-me à nossa libertação, pois nunca mais deixaremos este lugar. Passaremos os nossos dias tecendo panos de seda, sem nunca estarmos melhor vestidas. Seremos sempre pobres e nuas, e sofreremos sempre com a fome e a sede, pois nunca seremos capazes de ganhar o suficiente para procurar para nós uma comida melhor. A nossa provisão de pão é muito escassa — um pouco de manhã e menos à noite, pois nenhuma de nós pode ganhar pelo seu trabalho manual mais do que quatro denários por dia para o seu pão diário. E com isso não podemos providenciar para nós comida e roupas suficientes. Pois, embora não haja uma de nós que não ganhe tanto quanto vinte soldos por semana, ainda assim não podemos viver sem dificuldades. Agora deveis saber que não há uma única de nós que não faça vinte soldos de trabalho ou mais, e com tal soma até um duque seria considerado rico. Portanto, enquanto estamos reduzidas a tal pobreza, ele, para quem trabalhamos, é rico com o produto do nosso trabalho. Ficamos acordadas muitas noites, bem como todos os dias, para ganhar mais, pois eles ameaçam causar-nos dano quando procuramos algum descanso, por isso não ousamos descansar. Mas por que deveria contar-vos mais? Somos tão vergonhosamente tratadas e insultadas que não vos posso contar a quinta parte de tudo. Mas o que nos deixa quase loucas de raiva é que vemos muitas vezes cavaleiros ricos e excelentes, que lutam com os dois diabos, perderem as suas vidas por nossa causa. Eles pagam caro pelo alojamento que recebem, como vós fareis amanhã. Pois, quer queirais ou não, tereis de lutar sozinhos e perder a vossa bela renome contra estes dois diabos." "Que Deus, o verdadeiro e espiritual, me proteja", disse meu senhor Yvain, "e vos devolva a vossa honra e felicidade, se for a Sua vontade. Devo ir agora e ver as pessoas lá dentro, e descobrir que tipo de entretenimento elas me oferecerão." "Ide agora, senhor, e que Ele vos proteja, Ele que dá e distribui todas as coisas boas."
Então ele foi até chegar ao salão onde não encontrou ninguém, bom ou mau, para falar com ele. Então ele e o seu companheiro passaram pela casa até chegarem a um jardim. Nunca falaram, ou mencionaram, colocar os seus cavalos na estalagem. Mas o que importa? Pois aqueles que os consideravam já como seus os tinham alojado cuidadosamente. Não sei se a expectativa deles foi sábia, pois os donos dos cavalos estão ainda perfeitamente bem. Os cavalos, contudo, têm aveia e feno, e estão em palha até à barriga. Meu senhor Yvain e a sua companhia entram no jardim. Ali ele vê, reclinado sobre o seu cotovelo num tapete de seda, um cavalheiro, a quem uma donzela lia um romance sobre não sei quem. Tinha vindo reclinar-se ali com eles e ouvir o romance uma dama, que era a mãe da donzela, assim como o cavalheiro era o seu pai; eles tinham boas razões para desfrutar de vê-la e ouvi-la, pois não tinham outros filhos. Ela não tinha ainda dezesseis anos, e era tão bela e cheia de graça que o deus do Amor teria dedicado-se inteiramente ao seu serviço, se a tivesse visto, e nunca a teria feito apaixonar-se por ninguém exceto ele próprio. Por causa dela ele ter-se-ia tornado um homem, e teria deixado de lado a sua divindade, e teria golpeado o seu próprio corpo com aquele dardo cuja ferida nunca sara a menos que algum médico vil cuide dela. Não é apropriado que alguém se recupere até encontrar a infidelidade. Qualquer um que seja curado por outros meios não está honestamente apaixonado. Eu poderia contar-vos tanto sobre esta ferida, se vos agradasse ouvir, que não terminaria a minha história hoje. Mas haveria alguém que diria prontamente que eu vos contava apenas uma história ociosa; pois as pessoas não se apaixonam hoje em dia, nem amam como costumavam fazer, por isso não se importam de ouvir sobre isso. Mas ouvi agora de que modo e com que maneira de hospitalidade meu senhor Yvain foi recebido. Todos aqueles que estavam no jardim saltaram para os seus pés quando o viram chegar, e gritaram: "Por aqui, belo senhor. Que vós e todos os que amais sejais abençoados com tudo o que Deus pode fazer ou dizer". Não sei se o estavam a enganar, mas recebem-no alegremente e agem como se estivessem satisfeitos por ele estar confortavelmente alojado. Até a filha do senhor serve-o muito honrosamente, como se deve tratar um convidado digno. Ela alivia-o de todas as suas armas, nem foi a menor atenção que ela lhe dispensou quando ela própria lavou o seu pescoço e rosto. O senhor deseja que toda a honra lhe seja mostrada, como de fato fazem. Ela tira do seu guarda-roupa uma camisa dobrada, calções brancos, agulha e linha para as suas mangas, que ela cose, vestindo-o assim. Que Deus queira agora que esta atenção e serviço não se mostrem demasiado caros para ele! Ela deu-lhe um belo casaco para vestir sobre a sua camisa, e ao redor do seu pescoço ela colocou um manto novo de tecido escarlate manchado. Ela tem tanto cuidado em servi-lo bem que ele se sente envergonhado e embaraçado. Mas a donzela é tão cortês, generosa e educada que ela sente que está a fazer muito pouco. E ela sabe bem que é vontade da sua mãe que ela não deixe nada por fazer por ele que ela pense que possa ganhar a sua gratidão. Naquela noite à mesa, ele foi tão bem servido com tantos pratos que eram demasiados. Os servos que traziam os pratos poderiam muito bem ter ficado cansados de os servir. Naquela noite, fizeram-lhe todo o tipo de honra, colocando-o confortavelmente na cama, e nunca mais se aproximaram dele depois de ele se ter retirado. O seu leão deitava-se aos seus pés, como era o seu costume. De manhã, quando Deus acendeu a Sua grande luz para o mundo, tão cedo quanto era consistente num que era sempre atencioso, meu senhor Yvain levantou-se rapidamente, assim como a sua donzela também. Ouviram Missa numa capela, onde foi prontamente dita para eles em honra do Espírito Santo.
Após a Missa, meu senhor Yvain ouviu más notícias, quando pensou que chegara o momento de partir e que nada se interporia no seu caminho; mas não podia ser de acordo com o seu desejo. Quando ele disse: "Senhor, se for da vossa vontade, e com a vossa permissão, vou-me embora agora", o senhor da casa respondeu: "Amigo, ainda não vos darei permissão. Há uma razão pela qual não o posso fazer, pois está estabelecido neste castelo um costume muito terrível que sou obrigado a observar. Farei aproximarem-se agora dois dos meus grandes e fortes companheiros, contra os quais, com ou sem razão, deveis pegar em armas. Se vos puderdes defender deles, e os vencerdes e matardes a ambos, a minha filha deseja-vos como seu senhor, e a suserania desta cidade e de todas as suas dependências espera-vos." "Senhor", disse ele, "não tenho desejo de nada disto. Que Deus nunca me conceda a vossa filha, mas que ela permaneça convosco; pois ela é tão bela e tão elegante que o Imperador da Alemanha teria sorte em ganhá-la como esposa." "Chega, belo hóspede", respondeu o senhor: "não é necessário que eu ouça a vossa recusa, pois não podeis escapar. Aquele que puder derrotar os dois, que estão prestes a atacar-vos, deve por direito receber o meu castelo, e toda a minha terra, e a minha filha como esposa. Não há maneira de evitar ou renunciar à batalha. Mas sinto-me certo de que a vossa recusa da minha filha se deve à covardia, pois pensais que desta forma podeis evitar completamente a batalha. Sabei, contudo, sem falta, que certamente haveis de lutar. Nenhum cavaleiro que aqui se aloja pode possivelmente escapar. Este é um costume e estatuto estabelecido, que perdurará ainda por muitos anos, pois a minha filha nunca será casada até que eu os veja mortos ou derrotados." "Então devo lutar contra eles contra a minha vontade. Mas asseguro-vos que muito voluntariamente desistiria disso. Apesar da minha relutância, contudo, aceitarei a batalha, uma vez que é inevitável." Então, os dois hediondos e negros filhos do diabo entram, ambos armados com um bastão torto de cerejeira-cornalina, que tinham coberto com cobre e enrolado com latão. Estavam armados dos ombros aos joelhos, mas a cabeça e o rosto estavam descobertos, bem como as suas pernas musculosas. Assim armados, avançaram, trazendo nas mãos escudos redondos, robustos e leves para a luta. O leão começa a tremer assim que os vê, pois vê as armas que têm, e percebe que eles vêm para lutar contra o seu senhor. Ele fica agitado, e eriça-se imediatamente, e, tremendo de raiva e ímpeto ousado, ele açoita a terra com a cauda, desejando salvar o seu senhor antes que o matem. E quando eles o veem, dizem: "Vassalo, remove o leão daqui para que ele não nos faça mal. Ou te rendes a nós imediatamente, ou então, conjuramo-te, esse leão deve ser posto onde não possa tomar parte em ajudar-te ou em prejudicar-nos. Deves vir sozinho para desfrutar do nosso desporto, pois o leão ajudar-te-ia voluntariamente, se pudesse." Meu senhor Yvain responde-lhes então: "Levai-o vós mesmos se tendes medo dele. Pois ficarei bem satisfeito e contente se ele conseguir ferir-vos, e ficarei grato pela sua ajuda." Eles respondem: "Pela minha palavra, isso não servirá; nunca receberás qualquer ajuda dele. Faz o melhor que puderes sozinho, sem a ajuda de ninguém. Deves lutar sozinho contra nós dois. Se não estivesses sozinho, seria dois contra dois; por isso deves seguir as nossas ordens, e remover o teu leão daqui imediatamente, por muito que não gostes de o fazer." "Onde desejais que ele esteja?", pergunta ele, "ou onde desejais que eu o coloque?" Então mostram-lhe um pequeno quarto, e dizem: "Tranca-o aí." "Assim será feito, uma vez que é a vossa vontade." Então ele pega nele e tranca-o. E agora trazem-lhe armas para o seu corpo, e trazem o seu cavalo, que lhe entregam, e ele monta. Os dois campeões, estando agora seguros quanto ao leão, que está trancado no quarto, vêm contra ele para o ferir e fazer-lhe mal. Dão-lhe tais golpes com as maças que o seu escudo e elmo são de pouca utilidade, pois quando lhe batem no elmo, afundam-no e partem-no; e o escudo é quebrado e dissolvido como gelo, pois fazem-lhe tais buracos que se poderia enfiar os punhos através dele: o seu ataque é verdadeiramente terrível. E ele — o que faz ele contra estes dois demónios? Impelido pela vergonha e pelo medo, defende-se com todas as suas forças. Ele esforça-se ao máximo, e empenha-se em desferir golpes pesados e certeiros; eles não perderam nada com as suas dádivas, pois ele retribuiu as suas atenções com medida dobrada. No seu quarto, o coração do leão está pesado e triste, pois lembra-se do ato de bondade feito por este homem nobre, que agora deve estar em grande necessidade do seu serviço e ajuda. Se agora pudesse escapar de lá, retribuir-lhe-ia a bondade com medida cheia e alqueire cheio, sem qualquer desconto. Ele olha em todas as direções, mas não vê maneira de escapar. Ele ouve os golpes da luta perigosa e desesperada, e na sua dor ele enfurece-se e está fora de si. Ele investiga, até chegar ao limiar, que começava a apodrecer; e arranha-o até conseguir esgueirar-se para dentro até aos seus quartos traseiros, quando fica preso. Entretanto, meu senhor Yvain estava sob pressão e a suar livremente, pois descobriu que os dois companheiros eram muito fortes, ferozes e persistentes. Ele tinha recebido muitos golpes, e retribuído o melhor que pôde, mas sem lhes fazer qualquer mal, pois eles eram bem versados na esgrima, e os seus escudos não eram do tipo que pudesse ser cortado por qualquer espada, por mais afiada e bem temperada que fosse. Por isso, o meu senhor Yvain tinha boas razões para temer a sua morte, mas conseguiu manter-se até que o leão se libertou por contínuo arranhar sob o limiar. Se os patifes não forem mortos agora, certamente nunca o serão. Pois enquanto o leão souber que eles estão vivos, nunca poderão obter trégua ou paz com ele. Ele agarra um deles, e derruba-o para a terra como um tronco de árvore. Os miseráveis estão aterrorizados, e não há um homem presente que não se regozije. Pois aquele que o leão arrastou nunca poderá levantar-se novamente, a menos que o outro o socorra. Ele corre para lhe trazer ajuda, e ao mesmo tempo para se proteger, caso o leão o ataque assim que tiver despachado aquele que derrubou; ele tinha mais medo do leão do que do seu senhor. Mas meu senhor Yvain será tolo agora se lhe permitir mais vida, quando o vê virar as costas, e vê o seu pescoço nu e exposto; esta oportunidade correu-lhe bem. Quando o patife lhe expôs a cabeça e o pescoço nus, ele desferiu-lhe tal golpe que lhe cortou a cabeça dos ombros tão silenciosamente que o companheiro nunca soube uma palavra sobre isso. Depois desmonta, desejando ajudar e salvar o outro do leão, que o segura firmemente. Mas é inútil, pois já ele está em tais apuros que um médico nunca poderá chegar a tempo; pois o leão, vindo furiosamente contra ele, feriu-o de tal forma no primeiro ataque, que ele estava num estado terrível. Não obstante, ele arrasta o leão para trás, e vê que ele tinha arrancado o seu ombro do lugar. Ele já não tem medo do companheiro, pois o seu bastão caiu-lhe da mão, e ele jaz como um homem morto sem ação ou movimento; ainda assim, ele tem força suficiente para falar, e disse tão claramente quanto pôde: "Por favor, levai o vosso leão, belo senhor, para que ele não me faça mais mal. Doravante podeis fazer comigo o que for o vosso desejo. Quem implora e reza por misericórdia não deveria ter a sua oração recusada, a menos que se dirija a um homem sem coração. Já não me defenderei, nem me levantarei daqui com as minhas próprias forças; por isso coloco-me nas vossas mãos." "Fala então", diz ele, "se admites que estás conquistado e derrotado." "Senhor", diz ele, "é evidente. Estou derrotado contra a minha vontade, e rendo-me, prometo-vos." "Então não precisas ter mais medo de mim, e o meu leão deixar-te-á em paz." Então ele é rodeado por toda a multidão, que chega ao local à pressa. E tanto o senhor como a sua senhora regozijam-se com ele, e abraçam-no, e falam-lhe da sua filha, dizendo: "Agora sereis o senhor e mestre de todos nós, e a nossa filha será a vossa esposa, pois concedemo-la a vós como vossa consorte." "E da minha parte", diz ele, "entrego-lha de volta. Que a tenha quem a tem. Não tenho interesse nela, embora não o diga em tom de desprezo. Não leveis a mal se eu não a aceitar, pois não posso e não devo fazê-lo. Mas entregai-me agora, se quiserdes, as donzelas miseráveis em vossa posse. O acordo, como bem sabeis, é que todas elas serão libertadas." "O que dizeis é verdade", diz ele: "e eu resigno-as e entrego-as livremente a vós: não haverá disputa sobre esse ponto. Mas sereis sábio em aceitar a minha filha com toda a minha riqueza, pois ela é bela, e encantadora, e sensata. Nunca mais encontrareis um casamento tão rico como este." "Senhor", responde ele, "não sabeis dos meus compromissos e dos meus assuntos, e não me atrevo a explicá-los a vós. Mas, podeis estar certo, quando recuso o que nunca seria recusado por ninguém que fosse livre de devotar o seu coração e intenções a uma rapariga tão bela e encantadora, que eu também aceitaria voluntariamente a sua mão se pudesse, ou se fosse livre para a aceitar ou a qualquer outra donzela. Mas asseguro-vos que não o posso fazer: por isso deixai-me partir em paz. Pois a donzela, que me escoltou até aqui, está à minha espera. Ela fez-me companhia, e eu não a abandonaria voluntariamente, qualquer que seja o futuro que o destino tenha reservado." "Desejais ir, belo senhor? Mas como? O meu portão nunca será aberto para vós, a menos que o meu julgamento ordene que eu dê a ordem; antes permanecereis aqui como meu prisioneiro. Estais a agir arrogantemente e a cometer um erro quando desdenhais aceitar a minha filha a meu pedido." "Desdém, meu senhor? Pela minha alma, eu não a desdenho. Qualquer que seja a penalidade, não posso casar-me ou ficar aqui. Seguirei a donzela que é a minha guia: pois de outra forma não pode ser. Mas, com o vosso consentimento, penhorar-vos-ei a minha mão direita, e podeis tomar a minha palavra, que, tal como me vedes agora, voltarei se possível, e então aceitarei a mão da vossa filha, sempre que vos parecer bem." "Confunda-se qualquer um", diz ele, "que vos peça a vossa palavra ou promessa ou penhor. Se a minha filha vos agrada, voltareis rapidamente o suficiente. Não voltareis mais cedo, penso eu, por terdes dado a vossa palavra ou jurado um juramento. Ide agora. Liberto-vos de todos os juramentos e promessas. Se fordes detidos pela chuva ou pelo vento, ou por nada, não é de qualquer consequência para mim. Não considero a minha filha tão barata para a conceder a vós à força. Ide agora tratar dos vossos negócios. Pois é-me exatamente igual se ides ou se ficais."
Depois disso, o meu senhor Yvain vira-se e não demora mais no castelo. Ele escoltou os miseráveis pobres e mal vestidos, que estavam agora libertados do cativeiro, e que o senhor confiou ao seu cuidado. Estas donzelas sentem que agora são ricas, enquanto saem em pares diante dele do castelo. Não acredito que se regozijassem tanto como agora se Aquele que criou todo o mundo descesse à terra do Céu. Agora, todas aquelas pessoas que o tinham insultado de todas as formas possíveis vêm implorar-lhe misericórdia e paz, e escoltá-lo no seu caminho. Ele responde que não sabe nada do que querem dizer. "Não compreendo o que quereis dizer", diz ele; "mas não tenho nada contra vós. Não me lembro que alguma vez tenhas dito algo que me prejudicasse." Elas estão muito contentes pelo que ouvem, e louvam em voz alta a sua cortesia, e depois de o escoltarem por uma longa distância, todas elas recomendam-no a Deus. Então as donzelas, depois de pedirem a sua permissão, separaram-se dele. Quando o deixaram, todas se curvaram perante ele, e rezaram e expressaram o desejo de que Deus lhe concedesse alegria e saúde, e a realização do seu desejo, onde quer que no futuro ele fosse. Então ele, que está ansioso por partir, diz que espera que Deus salve a todas. "Ide", diz ele, "e que Deus vos conduza aos vossos países salvas e felizes." Então elas continuam o seu caminho alegremente; e o meu senhor Yvain parte na outra direção. Durante todos os dias daquela semana, ele nunca deixa de se apressar sob a escolta da donzela, que conhecia bem a estrada, e o lugar isolado onde ela tinha deixado a donzela infeliz e desconsolada que tinha sido privada da sua herança. Mas quando ela ouviu as notícias da chegada da donzela e do Cavaleiro com o Leão. Nunca houve tal alegria como a que ela sentiu dentro do seu coração. Pois agora ela pensa que, se insistir, a sua irmã lhe cederá uma parte da sua herança. A donzela tinha estado doente durante muito tempo, e tinha acabado de recuperar da sua doença. Tinha-a afetado seriamente, como era aparente pelo seu rosto. Imediatamente ela foi ao encontro deles, cumprimentando-os e honrando-os de todas as formas que pôde. Não há necessidade de falar da felicidade que prevaleceu naquela noite na casa. Nenhuma menção será feita a ela, pois a história seria demasiado longa para contar. Passo por alto tudo isso, até que montaram na manhã seguinte e foram-se embora. Cavalgaram até verem a cidade onde o Rei Arthur estava a ficar há uma quinzena ou mais. E lá estava também a donzela que tinha privado a sua irmã da sua herança, pois ela tinha-se mantido perto da corte, à espera da chegada da sua irmã, que agora se aproxima. Mas ela não se preocupa muito, pois não pensa que a sua irmã possa encontrar qualquer cavaleiro que possa resistir ao ataque do meu senhor Gawain, e apenas um dia dos quarenta ainda resta. Se este único dia tivesse passado, ela teria tido o direito razoável e legal de reclamar a herança apenas para si. Mas mais coisas se interpõem no caminho do que ela pensa ou acredita. Aquela noite passaram-na fora da cidade numa casa pequena e humilde, onde, de acordo com o seu desejo, não foram reconhecidos. Ao primeiro sinal da aurora na manhã seguinte, saem necessariamente, mas escondem-se até ao romper do dia.
Não sei quantos dias tinham passado desde que o meu senhor Gawain tinha desaparecido tão completamente que ninguém na corte sabia nada sobre ele, exceto apenas a donzela em cuja causa ele ia lutar. Ele tinha-se escondido a três ou quatro léguas da corte, e quando regressou estava tão equipado que mesmo aqueles que o conheciam perfeitamente não o podiam reconhecer pelas armas que trazia. A donzela, cuja injustiça para com a sua irmã era evidente, apresentou-o na corte à vista de todos, pois ela pretendia com a sua ajuda triunfar na disputa onde não tinha direitos. Por isso ela disse ao Rei: "Meu senhor, o tempo passa. A hora do meio-dia passará em breve, e este é o último dia. Como vedes, estou preparada para defender a minha reivindicação. Se a minha irmã fosse regressar, não haveria nada a fazer a não ser aguardar a sua chegada. Mas posso louvar a Deus que ela não está a voltar. É evidente que ela não pode melhorar os seus assuntos, e que o seu esforço foi em vão. Da minha parte, estive pronta todo o tempo até este último dia, para provar a minha reivindicação sobre o que é meu. Provei o meu ponto inteiramente sem uma luta, e agora posso legitimamente ir aceitar a minha herança em paz; pois não prestarei contas dela à minha irmã enquanto viver, e ela levará uma existência miserável e infeliz." Então o Rei, que bem sabia que a donzela era deslealmente injusta para com a sua irmã, disse-lhe: "Minha querida, pela minha palavra, numa corte real deve-se esperar tanto tempo quanto a justiça do rei se senta e delibera sobre o veredito. Ainda não é altura de fazer as malas, pois é a minha crença que a vossa irmã ainda chegará a tempo." Antes que o Rei terminasse, ele viu o Cavaleiro com o Leão e a donzela com ele. Os dois avançavam sozinhos, tendo escapado do leão, que tinha ficado onde passaram a noite.
O Rei viu a donzela que ele não deixou de reconhecer, e ficou muito satisfeito e encantado ao vê-la, pois ele estava do lado dela na disputa, porque tinha consideração pelo que era justo. Alegremente ele gritou para ela assim que pôde: "Avançai, bela donzela: que Deus vos salve!" Quando a outra irmã ouve estas palavras, ela vira-se a tremer, e vê-a com o cavaleiro que ela tinha trazido para defender a sua causa: então ela tornou-se mais negra do que a terra. A donzela, depois de ser gentilmente acolhida por todos, foi para onde o Rei estava sentado. Quando chegou perante ele, falou-lhe assim: "Deus salve o Rei e a sua casa. Se os meus direitos nesta disputa puderem ser resolvidos por um campeão, então será feito por este cavaleiro que me seguiu até aqui. Este cavaleiro franco e cortês tinha muitas outras coisas a fazer noutro lugar; mas sentiu tal pena de mim que pôs de lado todos os seus outros assuntos pelo bem dos meus. Agora, senhora, a minha irmã muito querida, a quem amo tanto como ao meu próprio coração, faria a coisa certa e cortês se me deixasse ter tanto do que é meu por direito que pudesse haver paz entre mim e ela; pois não peço nada que seja dela." "Nem peço nada que seja teu", respondeu a outra; "pois não tens nada, e nada terás. Nunca poderás falar tanto para ganhar algo com as tuas palavras. Podes secar de dor." Então a outra, que era muito educada, sensata e cortês, respondeu com as palavras: "Certamente lamento que dois cavalheiros como estes devam lutar em nosso nome por causa de uma desavença tão pequena. Mas não posso ignorar a minha reivindicação, pois estou em grande necessidade dela. Por isso ficaria muito grata se me désseis o que é justamente meu." "Certamente", disse a outra, "qualquer um seria um tolo para considerar as tuas exigências. Que eu arda em fogo e chama malignos se te der alguma coisa para aliviar a tua vida! As margens do Sena encontrar-se-ão, e a hora de prima será chamada meio-dia, antes que eu recuse levar a cabo a luta." "Que Deus e o direito, que tenho nesta causa, e nos quais confio e tenho confiado até ao presente momento, ajudem aquele, que em caridade e cortesia se ofereceu ao meu serviço, embora ele não saiba quem sou, e embora sejamos ignorantes da identidade um do outro."
Assim, conversaram até que a sua palestra cessou, e então trouxeram os cavaleiros para o meio do pátio. Então, todo o povo apinhou-se ao redor, como o povo costuma fazer quando deseja testemunhar golpes em batalha ou em torneio. Mas aqueles que estavam prestes a lutar não se reconheceram, ainda que as suas relações costumassem ser muito afetuosas. Então, não se amam eles agora? Eu responder-vos-ia tanto "sim" como "não". E provarei que cada resposta está correta. Em verdade, o meu senhor Gawain ama Yvain e considera-o seu companheiro, e assim Yvain o considera, onde quer que ele esteja. Mesmo aqui, se soubesse quem ele era, tratá-lo-ia com distinção, e qualquer um deles deporia a cabeça pelo outro antes de permitir que qualquer mal lhe sobreviesse. Não é esse um amor perfeito e elevado? Sim, certamente. Mas, por outro lado, não é o seu ódio igualmente manifesto? Sim; pois é uma coisa certa que, sem dúvida, cada um se alegraria por ter partido a cabeça do outro, e assim tê-lo ferido de modo a causar-lhe humilhação. Pela minha palavra, é uma coisa espantosa que o Amor e o Ódio mortal habitem juntos. Deus! Como podem duas coisas tão opostas encontrar alojamento na mesma morada? Parece-me que não podem viver juntas; pois uma não poderia habitar com a outra, sem dar azo a ruído e contenda, assim que cada uma soubesse da presença da outra. Mas, no piso térreo, pode haver vários aposentos: pois há salões e quartos de dormir. Pode ser o mesmo neste caso: penso que o Amor se tinha instalado nalgum quarto oculto, enquanto o Ódio se tinha dirigido às varandas que dão para a estrada principal, porque ela deseja ser vista. Agora mesmo, o Ódio está na sela, e esporeia e pica para diante como pode, para se adiantar ao Amor que está indisposto para se mover. Ah! Amor, que se tornou de ti? Sai agora, e verás que exército foi erguido e oposto a ti pelos inimigos dos teus amigos. Os inimigos são estes mesmos homens que se amam com um amor tão santo, pois o amor, que não é falso nem fingido, é uma coisa preciosa e santa. Neste caso, o Amor está completamente cego, e o Ódio, também, está privado de visão. Pois, se o Amor tivesse reconhecido estes dois homens, teria de ter proibido cada um de atacar o outro, ou de fazer qualquer coisa para lhe causar dano. A este respeito, então, o Amor está cego, desconcertado e enganado; pois, embora os veja, falha em reconhecer aqueles que legitimamente lhe pertencem. E embora o Ódio seja incapaz de dizer por que razão um deles deveria odiar o outro, ela tenta envolvê-los injustamente, de modo que cada um odeie o outro mortalmente. Sabeis, é claro, que não se pode dizer que ama um homem aquele que desejaria fazer-lhe mal e vê-lo morto. Como então? Yvain deseja matar o seu amigo, o meu senhor Gawain? Sim, e o desejo é mútuo. Desejaria, então, o meu senhor Gawain matar Yvain com as suas próprias mãos, ou fazer ainda pior do que eu disse? Não, na verdade, juro e protesto. Nenhum desejaria ferir ou fazer mal ao outro, em troca de tudo o que Deus fez pelo homem, ou por todo o império de Roma. Mas isto, por sua vez, é uma mentira minha, pois vê-se claramente que, com a lança erguida no apoio, cada um está pronto para atacar o outro, e não haverá contenção do desejo de cada um de ferir o outro com a intenção de o magoar e lhe causar aflição. Agora dizei-me! Quando um tiver derrotado o outro, de quem se pode queixar aquele que leva a pior? Pois, se eles vão tão longe a ponto de chegar a vias de facto, receio muito que continuem a batalha e a contenda até que a vitória seja definitivamente decidida. Se for derrotado, terá Yvain justificação para dizer que foi prejudicado e injustiçado por um homem que o conta entre os seus amigos, e que nunca o mencionou senão pelo nome de amigo ou companheiro? Ou, se acontecer por acaso que Yvain o deva ferir por sua vez, ou derrotá-lo de qualquer modo, terá Gawain o direito de se queixar? Não, pois ele não saberá de quem é a culpa. Na ignorância da identidade um do outro, ambos se afastaram e tomaram a sua distância. Neste primeiro embate, as suas lanças quebram-se, embora fossem robustas e feitas de freixo. Nem uma palavra trocam, pois se tivessem parado para conversar, o seu encontro teria sido diferente. Nesse caso, nenhum golpe teria sido desferido com lança ou espada; ter-se-iam beijado e abraçado um ao outro em vez de procurarem o mal um do outro. Pois agora atacam-se um ao outro com intenção injuriosa. A condição das espadas não é melhorada, nem a dos elmos e escudos, que estão amolgados e fendidos; e os gumes das espadas estão entalhados e embotados. Pois golpeiam-se violentamente, não com o plano das espadas, mas com o gume, e desferem tais golpes com os pomos sobre as guardas do nariz e sobre o pescoço, testa e faces, que ficam todos marcados de negro e azul onde o sangue se acumula sob a pele. E as suas cotas de malha estão tão rasgadas, e os seus escudos tão feitos em pedaços, que nenhum escapou sem ferimentos. A sua respiração está quase exausta com o labor da contenda; martelam um contra o outro com tanto vigor que cada jacinto e esmeralda engastados nos seus elmos são esmagados e feitos em pedaços. Pois dão um ao outro tal tareia com os seus pomos sobre os elmos que ficam completamente atordoados, enquanto quase esmagam os miolos um do outro. Os olhos nas suas cabeças brilham como faíscas, enquanto, com punhos robustos e quadrados, e nervos fortes, e ossos duros, golpeiam-se um ao outro sobre a boca enquanto conseguem agarrar as suas espadas, que lhes são de grande utilidade para desferir os seus golpes pesados.
Quando se esforçaram por muito tempo, até que os elmos foram esmagados, e as malhas das cotas foram rasgadas com o martelar das espadas, e os escudos foram fendidos e rachados, afastaram-se um pouco para dar descanso ao seu pulso e para recuperar o fôlego novamente. Contudo, não demoram muito, mas correm um para o outro novamente com mais ferocidade do que antes. E todos declaram que nunca viram dois cavaleiros mais corajosos. "Esta luta entre eles não é uma brincadeira, mas eles estão em sério confronto. Nunca serão recompensados pelos seus méritos e merecimentos." Os dois amigos, na sua luta amarga, ouviram estas palavras, e ouviram como o povo falava de reconciliar as duas irmãs; mas não tiveram sucesso em aplacar a mais velha. E a mais nova disse que deixaria ao Rei, e não o contradiria em nada. Mas a mais velha era tão obstinada que até a Rainha Guinevere e os cavaleiros e o Rei e as damas e o povo da cidade se colocam do lado da irmã mais nova, e todos se juntam em suplicar ao Rei que lhe dê uma terceira ou uma quarta parte da terra apesar da irmã mais velha, e que separe os dois cavaleiros que exibiram tal bravura, pois seria muito mau se um devesse ferir o outro ou privá-lo de qualquer honra. E o Rei respondeu que não tomaria parte em fazer a paz, pois a irmã mais velha é tão cruel que não tem desejo por ela. Todas estas palavras foram ouvidas pelos dois, que se atacavam tão amargamente que todos estavam espantados com isso; pois a batalha é travada tão equitativamente que é impossível julgar qual tem a melhor e qual a pior sorte. Mesmo os dois homens, que lutam, e que estão a comprar honra com agonia, estão cheios de espanto e ficam pasmados, pois estão tão bem equiparados no seu ataque, que cada um se pergunta quem pode ser aquele que lhe resiste com tal bravura. Lutam tanto tempo que o dia se encaminha para a noite, enquanto os seus braços se tornam cansados e os seus corpos doridos, e o sangue quente e fervente flui de muitos pontos e escorre sob as suas cotas de malha: estão em tal aflição que não é de admirar se desejam descansar. Então ambos retiram-se para descansar, cada um pensando consigo mesmo que, por muito tempo que tenha tido de esperar, encontrou finalmente o seu igual. Por algum tempo buscam assim repouso, sem ousar retomar a luta. Não sentem mais desejo de lutar, por causa da noite que está a escurecer, e por causa do respeito que sentem pela força um do outro. Estas duas considerações mantêm-nos afastados, e instam-nos a manter a paz. Mas antes de deixarem o campo, descobrirão a identidade um do outro, e a alegria e a misericórdia serão estabelecidas entre eles.
O meu valente e cortês senhor Yvain foi o primeiro a falar. Mas o seu bom amigo não foi capaz de o reconhecer pelo tom de voz; pois foi impedido pelo seu tom baixo e pela sua voz que estava rouca, fraca e quebrada; pois o seu sangue estava todo agitado pelos golpes que tinha recebido. "Meu senhor", diz ele, "a noite aproxima-se! Penso que nenhuma culpa ou censura nos será atribuída se a noite se interpuser entre nós. Mas estou disposto a admitir, da minha parte, que sinto um grande respeito e admiração por vós, e nunca na minha vida travei uma batalha que me tenha feito sofrer tanto, nem esperava ver um cavaleiro cuja amizade eu tanto desejasse conquistar. Sabeis bem como desferir os vossos golpes e como fazer bom uso deles: nunca conheci um cavaleiro tão habilidoso a golpear. Foi contra a minha vontade que recebi todos os golpes que me conferistes hoje; estou atordoado pelos golpes que desferistes sobre a minha cabeça." "Pela minha palavra", responde o meu senhor Gawain, "não estais tão atordoado e fraco que eu não esteja tanto, ou mais. E se vos dissesse a pura verdade, creio que não teríeis desgosto em ouvi-la, pois se vos emprestei algo meu, pagastes-me totalmente, com juros e capital; pois estivestes mais pronto a pagar do que eu a aceitar o pagamento. Mas, seja como for, já que quereis que vos informe do meu nome, não vos será ocultado: o meu nome é Gawain, o filho do Rei Lot." Assim que o meu senhor Yvain ouviu isto, ficou espantado e profundamente perturbado; irado e tomado pela dor, lançou ao chão a sua espada ensanguentada e o seu escudo partido, depois desmontou do seu cavalo e gritou: "Ai de mim, que desventura é esta! Por que infeliz ignorância, ao não nos reconhecermos, travámos esta batalha! Pois se eu soubesse quem éreis, nunca teria lutado convosco; mas, pela minha palavra, ter-me-ia rendido sem um golpe." "Como é isso?", pergunta o meu senhor Gawain, "quem sois vós, então?" "Eu sou Yvain, que vos amo mais do que a qualquer homem em todo o vasto mundo, pois sempre fostes afeiçoado a mim e prestastes-me honra em todas as cortes. Mas desejo fazer-vos tal reparação e prestar-vos tal honra neste assunto que confessarei ter sido derrotado." "Fareis tanto por mim?", pergunta-lhe o meu gentil senhor Gawain; "certamente eu seria presunçoso se aceitasse tal reparação da vossa parte. Esta honra nunca será reclamada como minha, mas será vossa, a quem a cedo." "Ah, belo senhor, não faleis assim. Pois isso nunca poderia ser. Estou tão ferido e exausto que não posso suportar mais." "Certamente, não tendes motivos para vos preocupardes", responde o seu amigo e companheiro; "mas da minha parte, estou derrotado e vencido; não o digo como um elogio; pois não há estranho no mundo a quem eu não dissesse o mesmo, em vez de receber mais golpes." Dizendo isto, desceu do seu cavalo, e eles lançaram os braços ao pescoço um do outro, beijando-se e cada um continuando a afirmar que foi ele quem sofreu a derrota. O debate ainda continua quando o Rei e os cavaleiros vêm a correr de todos os lados, ao verem a sua reconciliação; e grande é o seu desejo de ouvir como isto pode ser, e quem são estes homens que demonstram tanta felicidade. O Rei diz: "Cavalheiros, dizei-nos agora quem é que trouxe tão subitamente esta amizade e harmonia entre vós dois, após o ódio e a contenda que houve neste dia?" Então o seu sobrinho, o meu senhor Gawain, responde-lhe assim: "Meu senhor, sereis informado da desventura e do azar que foram a causa da nossa contenda. Uma vez que esperastes para ouvir e saber a causa disso, é justo que saibais a verdade. Eu, Gawain, que sou vosso sobrinho, não reconheci este meu companheiro, o meu senhor Yvain, até que ele, felizmente, pela vontade de Deus, me perguntou o meu nome. Depois de cada um ter informado o outro do seu nome, reconhecemo-nos, mas não sem antes termos lutado até ao fim. A nossa luta já tinha sido longa; e se tivéssemos lutado ainda um pouco mais, teria corrido mal para mim, pois, pela minha cabeça, ele ter-me-ia matado, com a sua proeza e a má causa daquela que me escolheu como seu campeão. Mas prefiro ser derrotado a ser morto por um amigo em batalha." Então o sangue do meu senhor Yvain agitou-se, ao dizer-lhe em resposta: "Belo e caro senhor, que Deus me ajude, não tendes o direito de dizer tanto. Que o meu senhor, o Rei, saiba bem que nesta batalha sou certamente eu aquele que foi derrotado e vencido!" "Sou eu aquele" "Não, sou eu." Assim cada um exclama, e ambos são tão honestos e corteses que cada um permite que a vitória e a coroa sejam o prémio do outro, enquanto nenhum deles o aceita. Assim, cada um esforça-se por convencer o Rei e todas as pessoas de que foi derrotado e vencido.
Mas quando os ouviu durante algum tempo, o Rei terminou a disputa. Ficou muito satisfeito com o que ouviu e com o vê-los nos braços um do outro, embora se tivessem ferido e magoado em vários lugares. "Meus senhores", diz ele, "há uma profunda afeição entre vós dois. Dais provas claras disso, quando cada um insiste que foi ele quem foi derrotado. Agora deixai tudo comigo! Pois penso que posso arranjar isto de tal maneira que redundará em vossa honra, e todos darão o seu consentimento." Então ambos lhe prometeram que fariam a sua vontade em todos os pontos. E o Rei diz que decidirá a contenda justa e fielmente. "Onde está a donzela", pergunta ele, "que expulsou a sua irmã das suas terras, e a deserdou forçada e cruelmente?" "Meu senhor", responde ela, "aqui estou eu." "Estais aí? Então aproximai-vos de mim! Vi claramente há algum tempo que a estáveis a deserdar. Mas o seu direito não será mais negado; pois vós própria me confessastes a verdade. Deveis agora ceder-lhe a sua parte." "Senhor", diz ela, "se proferi uma palavra tola e impensada, não deveis agarrar-me por ela. Pelo amor de Deus, senhor, não sejais duro comigo! Sois um rei, e deveis precaver-vos contra o erro e a injustiça." O Rei responde: "É precisamente por isso que desejo dar à vossa irmã os seus direitos; pois nunca defendi o que é errado. E vós certamente ouvistes como o vosso cavaleiro e o dela deixaram o assunto nas minhas mãos. Não direi o que vos é totalmente agradável; pois a vossa injustiça é bem conhecida. No seu desejo de honrar o outro, cada um diz que foi derrotado. Mas não há necessidade de atrasar mais: uma vez que o assunto foi deixado para mim, ou fareis em todos os aspectos o que digo, sem resistência, ou anunciarei que o meu sobrinho foi derrotado no combate. Isso seria a pior coisa que poderia acontecer à vossa causa, e sentirei muito em fazer tal declaração." Na realidade, ele não o teria dito por nada; mas falou assim para ver se a podia assustar para restaurar a herança à sua irmã; pois via claramente que ela nunca lhe entregaria nada por nenhuma palavra sua, a menos que fosse influenciada pela força ou pelo medo. Com medo e apreensão, ela respondeu-lhe: "Belo senhor, devo agora respeitar o vosso desejo, embora o meu coração esteja muito relutante em ceder. Contudo, por mais difícil que me custe, fá-lo-ei, e a minha irmã terá o que lhe pertence. Dou-lhe a vossa própria pessoa como penhor da sua parte na minha herança, a fim de que ela possa estar mais segura disso." "Dotai-a com ela, então, imediatamente", responde o Rei; "que ela a receba das vossas mãos, e que ela vos jure fidelidade! Amai-a como vossa vassala, e que ela vos ame como a sua senhora soberana e como sua irmã." Assim, o Rei conduz o assunto até que a donzela toma posse da sua terra, e oferece-lhe agradecimentos por isso. Então o Rei pediu ao valente e bravo cavaleiro que era seu sobrinho que se deixasse desarmar; e pediu ao meu senhor Yvain que pusesse as armas de lado também; pois agora podem muito bem dispensá-las. Então os dois vassalos deixam as suas armas de lado e separam-se em termos iguais. E enquanto estão a tirar as suas armaduras, veem o leão a correr em busca do seu mestre. Assim que o avista, começa a mostrar a sua alegria. Então teríeis visto as pessoas afastarem-se, e o mais ousado entre eles foge. O meu senhor Yvain grita: "Ficai todos quietos! Por que fugis? Ninguém vos persegue. Não tenhais medo de que aquele leão vos faça mal. Acreditai em mim, por favor, quando digo que ele é meu, e eu sou dele, e ambos somos companheiros." Então soube-se por verdade, por todos aqueles que tinham ouvido falar das aventuras do leão e do seu companheiro, que este devia ser o próprio homem que tinha matado o gigante malvado. E o meu senhor Gawain disse-lhe: "Senhor companheiro, que Deus me ajude, sobrecarregastes-me de vergonha neste dia. Eu não merecia o serviço que me fizestes ao matar o gigante para salvar os meus sobrinhos e a minha sobrinha. Tenho pensado em vós há algum tempo, e estava perturbado porque se dizia que éramos conhecidos como amigos amorosos. Certamente pensei muito sobre o assunto: mas não conseguia chegar à verdade, e nunca tinha ouvido falar de qualquer cavaleiro que eu tivesse conhecido em qualquer terra onde estivesse, que fosse chamado 'O Cavaleiro do Leão'." Enquanto conversavam assim, tiraram as armaduras, e o leão veio sem passos lentos ao lugar onde o seu mestre estava sentado, e mostrou tanta alegria quanto uma besta muda poderia. Então os dois cavaleiros tiveram de ser levados para um quarto de doentes e enfermaria, pois precisavam de um médico e de emplastro para curar as suas feridas. O Rei Arthur, que os amava muito, mandou trazê-los a ambos perante si, e convocou um cirurgião cujo conhecimento de cirurgia era supremo. Ele exerceu a sua arte em curá-los, até ter sarado as suas feridas tão bem e tão rapidamente quanto possível. Quando os curou a ambos, o meu senhor Yvain, que tinha o seu coração fixo no amor, viu claramente que não poderia viver, mas que acabaria por morrer a menos que a sua senhora tivesse piedade dele; pois ele estava a morrer de amor por ela; por isso pensou em afastar-se da corte sozinho, e iria lutar na fonte que lhe pertencia, onde causaria tal tempestade de vento e chuva que ela seria forçada, à força, a fazer as pazes com ele; caso contrário, não haveria fim para a perturbação da fonte, e para a chuva e o vento.
Assim que o meu senhor Yvain sentiu que estava curado e são novamente, partiu sem o conhecimento de ninguém. Mas tinha consigo o seu leão, que nunca na vida desejou abandoná-lo. Viajaram até verem a fonte e fazerem a chuva descer. Não penseis que isto é uma mentira minha, quando vos digo que a perturbação foi tão violenta que ninguém poderia contar a décima parte dela: pois parecia que toda a floresta seria certamente engolida. A senhora teme pela sua cidade, que ela, também, se desmorone; as muralhas oscilam, e a torre balança de tal forma que está prestes a cair. O mais bravo turco preferiria ser cativo na Pérsia a estar encerrado dentro daquelas muralhas. As pessoas estão tão aterrorizadas que amaldiçoam todos os seus antepassados, dizendo: "Confundido seja o homem que construiu pela primeira vez uma casa nesta vizinhança, e todos aqueles que construíram esta cidade! Pois no vasto mundo não poderiam ter encontrado um local tão detestável, pois um único homem é capaz aqui de nos invadir, preocupar e atormentar." "Deveis tomar conselho sobre este assunto, minha senhora", diz Lunete; "não encontrareis ninguém que se disponha a ajudar-vos neste momento de necessidade, a menos que o procureis longe. No futuro, nunca estaremos seguros nesta cidade, nem ousaremos passar além das muralhas e do portão. Sabeis muito bem que, se alguém convocasse todos os vossos cavaleiros por esta causa, o melhor deles não ousaria dar um passo em frente. Se é verdade que não tendes ninguém para defender a vossa fonte, pareceríeis ridícula e humilhada. Redundará em grande honra vossa, na verdade, se aquele que vos atacou se retirar sem luta! Certamente estais numa má situação se não inventardes algum outro plano para vos beneficiardes." A senhora responde: "Dize tu, que és tão sábia, que plano posso eu inventar, e seguirei o teu conselho." "De facto, senhora, se eu tivesse algum plano, propor-vo-lo-ia de bom grado. Mas precisais muito de um conselheiro mais sábio. Por isso, certamente não ousarei intrometer-me, e juntamente com os outros suportarei a chuva e o vento até que, se a Deus aprouver, veja aparecer aqui na vossa corte algum homem digno que assuma a responsabilidade e o fardo da batalha; mas não acredito que isso vá acontecer hoje, e ainda não vimos o pior da vossa urgente necessidade." Então a senhora responde imediatamente: "Donzela, fala agora de outra coisa! Não digas mais nada sobre as pessoas da minha criadagem; pois não nutro mais expectativa de que a fonte e a sua borda de mármore sejam defendidas por qualquer um deles. Mas, se a Deus aprouver, ouçamos agora qual é a vossa opinião e plano; pois as pessoas dizem sempre que em tempos de necessidade se pode testar o amigo." "Minha senhora, se houver alguém que pense que poderia encontrar aquele que matou o gigante e derrotou os três cavaleiros, faria bem em ir procurá-lo. Mas enquanto ele incorrer na inimizade, ira e descontentamento da sua senhora, imagino que não haja sob o céu homem ou mulher a quem ele seguiria, até que tivesse sido assegurado sob juramento que tudo o que fosse possível seria feito para apaziguar a hostilidade que a sua senhora sente por ele, e que é tão amarga que ele está a morrer de dor e ansiedade que isso lhe causa." E a senhora disse: "Antes de te lançares na busca, estou preparada para te prometer pela minha palavra e para jurar que, se ele regressar a mim, farei aberta e francamente tudo o que puder para trazer a paz ao seu espírito." Então Lunete responde-lhe: "Senhora, não tenhais medo de que não possais facilmente efectuar a sua reconciliação, quando for esse o vosso desejo; mas, se não vos importardes, tomarei o vosso juramento antes de partir." "Não me importo", diz a senhora. Com delicada cortesia, Lunete obteve imediatamente para ela uma relíquia muito preciosa, e a senhora caiu de joelhos. Assim, Lunete aceitou-a muito cortesmente sob o seu juramento. Ao administrar o juramento, não esqueceu nada que pudesse ser uma vantagem inserir. "Senhora", diz ela, "levantai agora a vossa mão! Não quero que depois de amanhã me lanceis qualquer acusação; pois não estais a fazer nada por mim, mas estais a agir para o vosso próprio bem. Se vos aprouver agora, jurareis que vos esforçareis nos interesses do Cavaleiro do Leão até que ele recupere o amor da sua senhora tão completamente como alguma vez o possuiu." A senhora levantou então a sua mão direita e disse: "Juro tudo o que disseste, com a ajuda de Deus e do Seu santo, que o meu coração nunca falhará em fazer tudo o que estiver ao meu alcance. Se tiver a força e a capacidade, restaurar-lhe-ei o amor e o favor que com a sua senhora ele outrora desfrutou."
Lunete fez agora bem o seu trabalho; não havia nada que ela desejasse tanto como o objectivo que tinha agora alcançado. Já tinham preparado para ela um palafrém com um passo fácil. Alegre e com um espírito feliz, Lunete monta e afasta-se, até encontrar sob o pinheiro aquele que ela não esperava encontrar tão perto. De facto, ela tinha pensado que teria de procurar longe antes de o descobrir. Assim que o viu, reconheceu-o pelo leão, e vindo rapidamente em sua direcção, desmontou sobre a terra sólida. E o meu senhor Yvain reconheceu-a assim que a viu, e saudou-a, enquanto ela o cumprimentava com as palavras: "Senhor, estou muito feliz por vos ter encontrado tão perto." E o meu senhor Yvain disse em resposta: "Como é isso? Estáveis à minha procura, então?" "Sim, senhor, e em toda a minha vida nunca me senti tão contente, pois fiz a minha senhora prometer, se ela não voltar atrás na sua palavra, que ela será novamente a vossa senhora como foi outrora o caso, e que vós sereis o seu senhor; esta verdade ouso dizer-vos." O meu senhor Yvain ficou muito exultante com a notícia que ouve, e que nunca esperou ouvir novamente. Ele não podia mostrar gratidão suficiente àquela que tinha realizado isto para ele. Beija-lhe os olhos, e depois o rosto, dizendo: "Certamente, minha doce amiga, nunca poderei recompensar-vos por este serviço. Temo que a habilidade e o tempo me falhem para vos prestar a honra e o serviço que vos é devido." "Senhor", responde ela, "não vos preocupeis, e não deixeis que esse pensamento vos perturbe! Pois tereis abundância de força e tempo para mostrar a mim e aos outros a vossa boa vontade. Se paguei esta dívida que devia, tenho direito apenas a tanta gratidão como o homem que toma emprestados os bens de outrem e depois cumpre a obrigação. Mesmo agora não considero que vos tenha pago a dívida que devia." "De facto pagastes, como Deus me vê, mais de quinhentas mil vezes. Agora, quando estiverdes pronta, vamos. Mas contastes-lhe quem eu sou?" "Não, não contei, pela minha palavra. Ela conhece-vos apenas pelo nome de 'O Cavaleiro do Leão'."
(Vv. 6717-6758.) Assim conversando, seguiram o seu caminho, com o leão a segui-los, até que os três chegaram à cidade. Não disseram uma palavra a nenhum homem ou mulher ali, até que chegaram onde a senhora estava. E a senhora ficou muito satisfeita assim que ouviu dizer que a donzela se aproximava, e que trazia consigo o leão e o cavaleiro, que ela estava muito ansiosa por encontrar, conhecer e ver. Todo revestido com as suas armas, meu senhor Yvain caiu aos seus pés, de joelhos, enquanto Lunete, que estava ao lado, lhe disse: "Levantai-o, senhora, e empregai todos os vossos esforços, força e perícia em obter aquela paz e perdão que ninguém no mundo, exceto vós, pode assegurar-lhe." Então a senhora ordenou-lhe que se levantasse e disse: "Ele pode dispor de todo o meu poder! Ficarei muito feliz, se for possível, em realizar o seu desejo e a sua vontade." "Certamente, minha senhora," respondeu Lunete, "eu não o diria se não fosse verdade. Mas tudo isto é ainda mais possível para vós do que eu disse: mas agora dir-vos-ei toda a verdade, e vereis: nunca tivestes e nunca tereis um amigo tão bom como este cavaleiro. Deus, cuja vontade é que haja paz e amor eternos entre vós e ele, fez com que eu o encontrasse hoje tão perto. Para provar a verdade disto, só tenho uma coisa a dizer: senhora, deixai de lado o ressentimento que nutris por ele! Pois ele não tem outra senhora além de vós. Este é o vosso marido, meu senhor Yvain."
(Vv. 6759-6776.) A senhora, tremendo com estas palavras, respondeu: "Deus me proteja! Apanhaste-me bem numa armadilha! Vais fazer-me amar, apesar de mim mesma, um homem que nem me ama nem me estima. Este é um belo trabalho, e uma forma encantadora de me servir! Preferiria suportar os ventos e as tempestades durante toda a minha vida: e se não fosse uma coisa vil e feia quebrar a palavra dada, ele nunca faria as pazes nem se reconciliaria comigo. Este propósito teria sempre espreitado dentro de mim, como um fogo que arde nas cinzas; mas não desejo renová-lo agora, nem me interessa referir-me a ele, uma vez que devo reconciliar-me com ele."
(Vv. 6777-6798.) O meu senhor Yvain ouve e compreende que a sua causa segue um bom caminho, e que se reconciliará pacificamente com ela. Por isso, ele diz: "Senhora, deve ter-se misericórdia de um pecador. Tive de pagar, e pagar caro, pelo meu ato de loucura. Foi a loucura que me fez afastar, e admito agora a minha culpa e o meu pecado. Fui audaz, na verdade, ao ousar apresentar-me perante vós; mas se vos dignardes a manter-me agora, nunca mais vos farei qualquer mal." Ela respondeu: "Consentirei nisso, certamente; pois, se não fizesse tudo o que pudesse para estabelecer a paz entre vós e mim, seria culpada de perjúrio. Portanto, se vos apraz, concedo o vosso pedido." "Senhora," diz ele, "tão verdadeiramente como Deus nesta vida mortal não poderia restaurar-me a felicidade de outra forma, que o Espírito Santo me abençoe quinhentas vezes!"
(Vv. 6799-6813.) Agora o meu senhor Yvain está reconciliado, e podeis crer que, apesar do sofrimento que suportou, nunca esteve tão feliz por coisa alguma. Tudo acabou bem, finalmente; pois ele é amado e acalentado pela sua senhora, e ela por ele. As suas tribulações já não estão na sua mente; pois ele esquece-as todas na alegria que sente com a sua preciosa esposa. E Lunete, pela sua parte, também está feliz: todos os seus desejos foram satisfeitos quando finalmente estabeleceu uma paz duradoura entre o meu polido senhor Yvain e a sua amada, tão querida e elegante.
(Vv. 6814-6818.) Assim termina Chrétien o seu romance do Cavaleiro do Leão; pois nunca ouvi dizer mais nada sobre isso, nem ouvireis quaisquer outros pormenores, a menos que alguém deseje acrescentar algumas mentiras.
"Sire", diz Kay, "ouvi agora o que desejo e qual é a dádiva que me prometestes. Considero-me muito afortunado por obter tal favor com o vosso consentimento. Sire, empenhastes a vossa palavra de que me confiaríeis a minha senhora aqui presente, e que iríamos atrás do cavaleiro que nos aguarda na floresta." Embora o Rei esteja aflito, confia-lhe o encargo, pois nunca faltou à sua palavra. Mas isso deixou-o tão mal-humorado e descontente que tal se via claramente no seu semblante. A Rainha, pela sua parte, também estava pesarosa, e todos os da casa dizem que Kay fizera um pedido soberbo, ultrajante e louco. Então o Rei tomou a Rainha pela mão e disse: "Minha senhora, deveis acompanhar Kay sem fazer objeções." E Kay disse: "Entregai-ma agora e não tenhais receio, pois trarei a vossa pessoa perfeitamente feliz e em segurança." O Rei entrega-a ao seu cuidado, e ele leva-a consigo. Depois deles, todos os outros saem, e não há um só que não esteja triste. Deveis saber que o senescal estava totalmente armado, e o seu cavalo foi conduzido ao meio do pátio, juntamente com um palafrém, como é de bom tom, para a Rainha. A Rainha caminhou até ao palafrém, que não era nem inquieto nem de boca dura. Pesarosa e triste, com um suspiro a Rainha monta, dizendo para si mesma em voz baixa, para que ninguém pudesse ouvir: "Ai, ai, se apenas soubésseis, estou certa de que nunca permitiríeis que eu fosse levada daqui um passo que fosse, sem intervir." Pensava ter falado num tom muito baixo; mas o Conde Guinable ouviu-a, ele que estava por perto quando ela montou. Quando partiram, uma lamentação tão grande foi feita por todos os homens e mulheres presentes como se ela já jazesse morta sobre um esquife. Eles não acreditam que ela voltará alguma vez na sua vida. O senescal, na sua insolência, leva-a para onde aquele outro cavaleiro a aguarda. Mas ninguém estava tão preocupado a ponto de se dispor a segui-lo; até que, por fim, o meu senhor Gawain dirigiu-se ao Rei, seu tio, desta forma: "Sire", diz ele, "fizestes uma coisa muito insensata, o que me causa grande surpresa; mas se quiserdes aceitar o meu conselho, enquanto ainda estão por perto, eu e vós cavalgaremos atrás deles, e todos os que nos quiserem acompanhar. Pela minha parte, não me posso conter de ir em perseguição deles imediatamente. Não seria próprio de nós não irmos atrás deles, pelo menos o suficiente para saber o que será da Rainha e como Kay se vai comportar." "Ah, bom sobrinho", respondeu o Rei, "falastes cortesmente. E já que empreendestes o assunto, ordenai que os nossos cavalos sejam trazidos refreados e selados para que não haja demora na partida."
Os cavalos são imediatamente trazidos, todos prontos e com as selas postas. Primeiro o Rei monta, depois o meu senhor Gawain, e todos os outros rapidamente. Cada um, desejando ser da comitiva, segue a sua própria vontade e parte. Alguns estavam armados, mas não eram poucos os que estavam sem as suas armas. O meu senhor Gawain estava armado, e ordenou a dois escudeiros que conduzissem pelas rédeas dois corcéis extra. E à medida que se aproximavam da floresta, viram o cavalo de Kay a correr para fora; reconheceram-no e viram que ambas as rédeas do freio estavam partidas. O cavalo corria desgovernado, as correias dos estribos todas manchadas de sangue, e o arção da sela estava partido e danificado. Todos ficaram desgostosos com isto, e cutucavam-se uns aos outros e abanavam as cabeças. O meu senhor Gawain cavalgava muito à frente do resto da comitiva, e não passou muito tempo até ver vir lentamente um cavaleiro num cavalo que estava ferido, dolorosamente cansado e coberto de suor. O cavaleiro saudou primeiro o meu senhor Gawain, e a sua saudação o meu senhor Gawain retribuiu. Então o cavaleiro, reconhecendo o meu senhor Gawain, parou e falou-lhe assim: "Vedes, senhor, o meu cavalo está suado e em tal estado que já não serve. Suponho que aqueles dois cavalos vos pertençam agora; com o entendimento de que retribuirei o serviço e o favor, peço-vos que me deixeis ter um ou outro deles, seja como empréstimo ou como dádiva pura e simples." E ele responde-lhe: "Escolhei o que preferirdes." Então aquele que estava em terrível aflição não tentou selecionar o melhor, nem o mais belo, nem o maior dos cavalos, mas saltou rapidamente para cima daquele que lhe estava mais próximo e cavalgou para longe. Depois, o que ele acabara de deixar caiu morto, pois montara-o duramente naquele dia, de modo que estava esgotado e sobrecarregado de trabalho. O cavaleiro, sem demora, segue a galope através da floresta, e o meu senhor Gawain segue em perseguição dele com toda a velocidade, até chegar ao sopé de uma colina. E quando tinha percorrido alguma distância, encontrou o cavalo morto que dera ao cavaleiro, e notou que o solo fora pisado por cavalos, e que escudos partidos e lanças jaziam espalhados, de modo que parecia que ocorrera um grande combate entre vários cavaleiros, e ele sentiu muito e lamentou não ter estado lá. Contudo, não permaneceu lá muito tempo, mas passou rapidamente até ver novamente, por acaso, o cavaleiro todo sozinho a pé, completamente armado, com o elmo atado, o escudo pendurado ao pescoço e com a espada cingida. Ele tinha alcançado uma carroça. Naqueles dias, tal carroça servia o mesmo propósito que um pelourinho serve agora; e em cada boa cidade onde há mais de três mil dessas carroças hoje em dia, naqueles tempos havia apenas uma, e esta, tal como os nossos pelourinhos, tinha de servir para todos aqueles que cometem homicídio ou traição, e aqueles que são culpados de qualquer delinquência, e para ladrões que roubaram propriedades alheias ou as tomaram à força nas estradas. Quem fosse condenado por qualquer crime era colocado numa carroça e arrastado por todas as ruas, e perdia a partir de então todos os seus direitos legais, e nunca mais era ouvido, honrado ou bem-vindo em qualquer corte. As carroças eram tão terríveis naqueles dias que o ditado foi então usado pela primeira vez: "Quando vires e encontrares uma carroça, faz o sinal da cruz e invoca a Deus, para que nenhum mal te aconteça." O cavaleiro a pé, e sem uma lança, caminhava atrás da carroça, e viu um anão sentado nas varas, que segurava, como faz um cocheiro, um longo aguilhão na mão. Então ele grita: "Anão, pelo amor de Deus, diz-me agora se viste a minha senhora, a Rainha, passar por aqui." O miserável anão de nascimento humilde não lhe quis dar qualquer notícia dela, mas respondeu: "Se quiseres subir para a carroça que estou a conduzir, saberás amanhã o que aconteceu à Rainha." Depois continuou o seu caminho sem prestar mais atenção. O cavaleiro hesitou apenas por um par de passos antes de subir. No entanto, foi infeliz para ele ter recuado perante a desonra e não ter saltado imediatamente; pois ele mais tarde lamentará a sua demora. Mas o senso comum, que é inconsistente com os ditames do amor, ordena-lhe que se abstenha de subir, avisando-o e aconselhando-o a não fazer nem empreender nada pelo qual possa colher vergonha e desgraça. A Razão, que ousa assim falar-lhe, alcança apenas os seus lábios, mas não o seu coração; mas o amor está encerrado dentro do seu coração, ordenando-lhe e instando-o a montar imediatamente na carroça. Então ele salta para dentro, uma vez que o amor assim o quer, não sentindo qualquer preocupação quanto à vergonha, já que é impelido pelos mandamentos do amor. E o meu senhor Gawain apressa-se a seguir a carroça, e quando encontra o cavaleiro sentado nela, a sua surpresa é grande. "Diz-me", gritou ele ao anão, "se sabes alguma coisa da Rainha." E ele respondeu: "Se és tão inimigo de ti próprio como é este cavaleiro que aqui está sentado, sobe com ele, se for do teu agrado, e eu conduzir-te-ei juntamente com ele." Quando o meu senhor Gawain ouviu isso, considerou-o uma grande insensatez e disse que não subiria, pois seria desonroso trocar um cavalo por uma carroça: "Segue em frente, e onde quer que a tua jornada se encontre, eu seguirei atrás de ti."
Aí, eles partem à frente, um montado no seu cavalo, os outros dois seguindo na carroça, e assim prosseguem em companhia. Tarde da tarde, chegam a uma cidade, que, deveis saber, era muito rica e bela. Todos os três entraram pelo portão; o povo está muito espantado ao ver o cavaleiro transportado na carroça, e não se esforçam para esconder os seus sentimentos, mas pequenos e grandes, velhos e novos, gritam provocações a ele nas ruas, de modo que o cavaleiro ouve muitas palavras vis e desdenhosas à sua custa. Todos eles perguntam: "A que punição este cavaleiro será condenado? Será ele esquartejado, ou enforcado, ou afogado, ou queimado numa fogueira de espinhos? Diz-nos, tu anão, que o conduzes, em que crime foi ele apanhado? É condenado por roubo? É um assassino, ou um criminoso?" E a tudo isto o anão não deu resposta, não lhes concedendo qualquer réplica. Ele conduz o cavaleiro a um local de alojamento; e Gawain segue o anão de perto até uma torre, que se erguia no mesmo nível, em frente à cidade. Para além dali estendia-se um prado, e a torre foi construída perto, sobre uma elevação imponente de rocha, cuja face formava um precipício íngreme. Seguindo o cavalo e a carroça, Gawain entrou na torre. No salão, encontraram uma donzela elegantemente vestida, mais bela do que a qual não havia outra na terra, e com ela viram vir duas belas e encantadoras donzelas. Assim que viram o meu senhor Gawain, receberam-no alegremente e saudaram-no, e depois pediram notícias sobre o outro cavaleiro: "Anão, de que crime é culpado este cavaleiro, a quem conduzes como a um coxo?" Ele não quis responder à pergunta dela, mas obrigou o cavaleiro a sair da carroça, e depois retirou-se, sem que soubessem para onde foi. Então o meu senhor Gawain desmonta, e criados apresentam-se para aliviar os dois cavaleiros da sua armadura. A donzela ordenou que fossem trazidos dois mantos verdes, que eles vestiram. Quando chegou a hora da ceia, foi servido um banquete sumptuoso. A donzela sentou-se à mesa ao lado do meu senhor Gawain. Eles não teriam trocado o seu local de alojamento para procurar qualquer outro, pois durante toda a noite a donzela mostrou-lhes grande honra e proporcionou-lhes uma companhia bela e agradável.
Quando estiveram sentados por tempo suficiente, duas camas longas e altas foram preparadas no meio do salão; e havia uma outra cama ao lado, mais bela e mais esplêndida que as restantes; pois, como testemunha a história, possuía toda a excelência que se poderia imaginar numa cama. Quando chegou a hora de se retirar, a donzela levou ambos os convidados a quem oferecera a sua hospitalidade; mostra-lhes as duas camas finas, longas e largas, e diz: "Estas duas camas estão postas aqui para o alojamento dos vossos corpos; mas naquela ali nunca ninguém se deitou sem que a merecesse: não foi posta para ser usada por vós." O cavaleiro que viera montado na carroça responde imediatamente: "Diz-me", diz ele, "por que causa esta cama é inacessível." Sendo completamente informada disto, ela responde sem hesitação: "Não é do teu lugar perguntar ou fazer tal inquérito. Qualquer cavaleiro é desonrado na terra depois de ter estado numa carroça, e não é conveniente que ele se preocupe com o assunto sobre o qual me questionaste; e, acima de tudo, não é correto que ele se deitasse sobre a cama, pois pagaria em breve caro pelo seu ato. Tão rico leito não foi preparado para ti, e pagarias caro por alguma vez teres nutrido tal pensamento." Ele responde: "Verás isso em breve.".... "Serei eu a vê-lo?".... "Sim.".... "Em breve aparecerá.".... "Pela minha cabeça", responde o cavaleiro, "não sei quem é que vai pagar a penalidade. Mas quem quer que se oponha ou desaprove, tenciono deitar-me nesta cama e repousar lá à minha vontade." Então ele despiu-se imediatamente na cama, que era longa e elevada meio côvado acima das outras duas, e estava coberta com um pano de seda amarelo e uma colcha com estrelas douradas. As peles não eram de vair esfolado, mas de zibelina; a cobertura que tinha sobre si teria sido conveniente para um rei. O colchão não era feito de palha ou juncos ou de velhas esteiras. À meia-noite, desceu das traves repentinamente uma lança, como que com a intenção de pregar o cavaleiro pelos flancos à colcha e aos lençóis brancos onde ele jazia. À lança estava preso um pendão todo em chamas. A colcha, a roupa de cama e a própria cama incendiaram-se de imediato. E a ponta da lança passou tão perto do lado do cavaleiro que cortou a pele um pouco, sem o ferir gravemente. Então o cavaleiro levantou-se, apagou o fogo e, pegando na lança, girou-a no meio do salão, tudo isto sem deixar a sua cama; antes, deitou-se novamente e dormiu tão seguro como no princípio.
A donzela, ao vê-lo deitar-se, não se sente muito feliz, pois teria preferido que ele se levantasse. O cavaleiro, contudo, dorme tão profundamente que nada o perturba, nem o fogo nem o clarão, até que a manhã chega e o dia desponta. Quando o dia clareia, a donzela levanta-se, sentindo-se muito vexada e cheia de desgosto. Ela aproxima-se dele e diz: "Cavaleiro, levante-se; já é dia. Por certo, não dormiu muito bem, pois esta cama foi-lhe de pouco descanso. Mas, se me quiser fazer o favor, não me peça nada, pois não lhe concederei mais nada." O cavaleiro, sem dizer palavra, veste-se e arma-se; retira o escudo do gancho e a lança do suporte. Depois, monta o seu cavalo e sai da sala, sem que a donzela lhe dirija a palavra, pois está ainda muito despeitada. O cavaleiro segue o seu caminho e, pouco depois, encontra um cavaleiro que cavalgava muito apressado e que, ao vê-lo, cumprimentou-o de imediato. "Cavaleiro", diz ele, "a vossa montada parece-me cansada; a vossa armadura, pelo que vejo, está muito danificada e o vosso escudo encontra-se num estado miserável. Se quiser trocar o seu cavalo pelo meu, que é muito melhor e mais fresco, fará um bom negócio." O cavaleiro, sem hesitar, responde-lhe: "Pelo meu fé, eu aceito; pois o meu cavalo não pode mais." Assim, trocaram de montadas, e o cavaleiro que tinha trocado o seu cavalo seguiu o seu caminho, muito satisfeito com a sua nova montaria. Mas, assim que se afastou, percebeu que o cavalo que recebera não era melhor que o anterior, antes pelo contrário, pois era um animal de carga e muito lento. Então, compreendeu que o cavaleiro o tinha enganado e que era um trapaceiro. Não obstante, continuou a cavalgar, pois não podia fazer outra coisa. Pouco depois, encontrou um cavaleiro que o desafiou, e, como o cavalo era tão lento, teve muita dificuldade em defender-se. Contudo, com a ajuda da sua perícia, conseguiu vencer o adversário e, após a vitória, continuou a sua jornada em busca da Rainha.
(Vv. 1043-1206.) Quando se levantaram da mesa, a donzela disse ao cavaleiro: «Senhor, se não se importa, vá lá fora divertir-se; mas, se lhe apraz, não demore mais do que o tempo em que julgue que eu já esteja na cama. Não sinta inquietação nem embaraço; pois então poderá vir ter comigo imediatamente, se mantiver a promessa que fez.» E ele respondeu: «Manterei a minha palavra e regressarei quando achar que chegou a hora.» Ele saiu então e permaneceu no pátio até julgar ser altura de voltar e cumprir a promessa feita. De regresso ao salão, nada vê daquela que seria a sua senhora; pois ela ali não estava. Não a encontrando nem vendo, disse: «Onde quer que esteja, hei de procurá-la até a encontrar.» Não se retarda na sua busca, estando vinculado à promessa que lhe fizera. Ao entrar num dos aposentos, ouve uma donzela gritar aflita, e era precisamente aquela com quem estava prestes a deitar-se. Ao mesmo tempo, vê a porta de outro quarto aberta e, caminhando para ela, contempla diante dos próprios olhos um cavaleiro que a tinha derrubado e a mantinha nua e prostrada sobre a cama. Ela, pensando que ele viera naturalmente em seu auxílio, gritou: «Socorro, socorro, ó cavaleiro, que és meu hóspede! Se não me tirares este homem de cima, não encontrarei ninguém que o faça; se não me socorrerdes prestes, ele far-me-á mal diante dos teus olhos. Tu és quem deve deitar-se comigo, de acordo com a tua promessa; e há de este homem à força realizar o seu desejo diante dos teus olhos? Gentil cavaleiro, esforça-te e apressa-te a prestar-me auxílio!» Ele vê que o outro homem mantinha a donzela brutalmente descoberta até à cintura, e sente vergonha e ira ao vê-lo atacá-la assim; contudo, não é ciúme o que sente, nem por ele será feito cornudo. À porta postavam-se como guardas dois cavaleiros completamente armados e de espadas desembainhadas. Atrás deles encontravam-se quatro homens de armas, cada qual armado com um machado do tipo com que se poderia fender uma vaca pelas costas tão facilmente como uma raiz de zimbro ou de giesta. O cavaleiro hesitou à porta e pensou: «Deus, que posso fazer? Estava empenhado em nada menos do que a busca da Rainha Guinevere. Não devo ter o coração de uma lebre, quando por amor dela me empenhei em tal demanda. Se a cobardia me puser o seu coração no peito e se eu seguir os seus ditames, nunca alcançarei o que procuro. Ficarei desgraçado se permanecer aqui parado; na verdade, tenho vergonha até de ter pensado em me reter. O meu coração está muito triste e oprimido: agora estou tão envergonhado e aflito que de bom grado morreria por ter hesitado aqui tanto tempo. Não o digo por orgulho, mas que Deus tenha misericórdia de mim se não preferir morrer honradamente a levar uma vida de vergonha! Se o meu caminho estivesse desimpedido e se estes homens me dessem licença para passar sem restrição, que honra alcançaria? Verdadeiramente, nesse caso, o maior cobarde vivo passaria; e entretanto ouço esta pobre criatura clamar constantemente por socorro, lembrando-me da minha promessa e censurando-me com amargas afrontas.» Então ele avança para a porta, metendo a cabeça e os ombros; olhando para cima, vê duas espadas a descer. Ele recua, e os cavaleiros não puderam deter os seus golpes: tinham-nos desferido com tal força que as espadas bateram no chão e ambas se despedaçaram. Quando vê que as espadas estão partidas, presta menos atenção aos machados, temendo-os e receando-os muito menos. Precipitando-se por entre eles, golpeia primeiro um guarda no flanco e depois outro. Aos dois que lhe estão mais próximos, acotovela-os e empurra-os, derrubando ambos por terra; o terceiro errou o golpe contra ele, mas o quarto, que o atacou, atinge-o de modo a cortar-lhe o manto e a camisa, e fende a carne alva do seu ombro, fazendo o sangue escorrer da ferida. Mas ele, sem demora e sem se queixar da ferida, avança mais velozmente, até golpear entre as têmporas aquele que assaltava a sua hospedeira. Antes de partir, tentará manter o seu empenho para com ela. Obriga-o a levantar-se contra a sua vontade. Entretanto, aquele que falhara o golpe avança contra ele o mais rápido que pode e, erguendo de novo o braço, espera fender-lhe a cabeça até aos dentes com o machado. Mas o outro, lesto em defender-se, empurra o cavaleiro na sua direção de tal modo que este recebe o machado exatamente onde o ombro se junta ao pescoço, ficando divididos. Então o cavaleiro apodera-se do machado, arrancando-o rapidamente a quem o segurava; solta então o cavaleiro que ainda segurava e cuida da sua própria defesa; pois os cavaleiros da porta e os três homens com machados atacam-no todos com ferocidade. Então saltou rapidamente para entre a cama e a parede e gritou-lhes: «Vinde agora, todos vós! Se fôsseis trinta e sete, teríeis toda a luta que desejásseis, estando eu tão bem posicionado; nunca serei vencido por vós.» E a donzela, observando-o, exclamou: «Pelos meus olhos, não precisa de pensar mais nisso daqui em diante onde quer que eu esteja.» Então, imediatamente, despede os cavaleiros e os homens de armas, que dali se retiram sem demora nem objeção. E a donzela continua: «Senhor, bem me defendeu dos homens da minha casa. Venha agora, e eu o conduzirei.» De mãos dadas entram no salão, mas ele não estava de modo algum satisfeito e teria de bom grado passado sem ela.
(Vv. 1207-1292.) No meio do salão fora armada uma cama cujos lençóis de modo algum estavam sujos, mas eram brancos, largos e bem estendidos. A cama não era de palha triturada nem de colchas grosseiras. Antes fora colocado sobre o leito um cobertor de dois tecidos de seda. A donzela deitou-se primeiro, mas sem tirar a camisa. Ele teve grande dificuldade em tirar as calças e em desatar os nós. Suava com o trabalho de tudo aquilo; contudo, no meio de todo o estorvo, a sua promessa impele-o e arrasta-o para a frente. É isto então uma força real? Sim, virtualmente assim é; pois sente que tem a obrigação de tomar o seu lugar ao lado da donzela. É a sua promessa que o incita e dita o seu ato. Deita-se, pois, imediatamente, mas, tal como ela, não tira a camisa. Tem o cuidado de não lhe tocar; e quando está na cama, afasta-se dela o mais possível e não lhe dirige uma palavra, como um monge a quem a fala é proibida. Nem uma única vez olha para ela, nem lhe presta qualquer cortesia. Por que não? Porque o seu coração não se inclina para ela. Ela era certamente muito bela e atraente, mas nem todos se agradam e sensibilizam com o que é belo e atraente. O cavaleiro tem apenas um coração, e este já não é verdadeiramente seu, mas fora confiado a outrem, de modo que não o pode conceder a mais ninguém. O Amor, que mantém todos os corações sob o seu domínio, exige que seja depositado num único lugar. Todos os corações? Não, apenas aqueles que estima. E aquele que o Amor se digna controlar deve estimar-se ainda mais. O Amor estimou o seu coração tão altamente que o constrangeu de modo especial e o tornou tão orgulhoso desta distinção que não estou inclinado a censurá-lo se deixa em paz o que o Amor proíbe e permanece firme onde este deseja. A donzela vê e sabe claramente que ele desdenha a sua companhia e de bom grado passaria sem ela e que, não tendo desejo de ganhar o seu amor, não tentaria cortejá-la. Disse ela então: «Meu senhor, se não se sentir ofendido, retirar-me-ei e regressarei à cama no meu próprio quarto, e ficará mais confortável. Não creio que esteja satisfeito com a minha companhia e convivência. Não me estime menos se lhe disser o que penso. Agora descanse toda a noite, pois tão bem cumpriu a sua promessa que não tenho o direito de lhe fazer mais nenhum pedido. Recomendo-o, pois, a Deus; e ir-me-ei embora.» Dito isto, levanta-se; o cavaleiro não se opõe, antes de bom grado a deixa ir, como quem é o amante devoto de outra pessoa; a donzela percebeu isso claramente e foi para o seu quarto, onde se despiu completamente e se deitou, dizendo para consigo: «De todos os cavaleiros que conheci, nunca conheci um único cavaleiro a quem desse o valor da terça parte de um angevino em comparação com este. Pelo que entendo do caso, ele tem em mãos uma missão mais perigosa e grave do que qualquer outra jamais empreendida por um cavaleiro; e que Deus permita que tenha sucesso nela.» Depois adormeceu e permaneceu na cama até surgir a alvorada do dia seguinte.
(Vv. 1293-1368.) Ao romper do dia, ela acorda e levanta-se. O cavaleiro acorda também, vestindo-se e vestindo as suas armas, sem esperar por nenhuma ajuda. Então a donzela vem e vê que ele já está vestido. Ao vê-lo, diz: «Que este dia lhe seja feliz.» «E que o mesmo seja para vós, donzela», responde o cavaleiro, acrescentando que espera ansiosamente que alguém traga o seu cavalo. A donzela manda alguém buscar o cavalo e diz: «Senhor, gostaria de o acompanhar por alguma distância ao longo do caminho, se concordasse em escoltar-me e conduzir-me segundo os costumes e práticas que se observavam antes de sermos feitos cativos no reino de Logres.» Naqueles dias, os costumes e privilégios eram tais que, se um cavaleiro encontrasse uma donzela ou jovem desamparada sozinha, e se zelasse pelo seu bom nome, não a trataria com desonra mais do que cortaria a sua própria garganta. E se a atacasse, ficaria desgraçado para sempre em qualquer corte. Mas se, enquanto estivesse sob a sua escolta, ela fosse conquistada pelas armas por outro que se empenhasse em batalha com ele, então este outro cavaleiro poderia fazer dela o que quisesse sem receber vergonha ou culpa. É por isso que a donzela disse que iria com ele, se ele tivesse a coragem e a disposição de a guardar na sua companhia, para que ninguém lhe fizesse mal. E ele diz-lhe: «Ninguém vos fará mal, prometo-vos, a menos que me faça mal primeiro.» «Então», diz ela, «irei convosco.» Ela ordena que o seu palafrem seja selado e a sua ordem é cumprida imediatamente. O seu palafrem foi trazido juntamente com o cavalo do cavaleiro. Sem a ajuda de nenhum escudeiro, ambos montam e afastam-se rapidamente. Ela fala com ele, mas ele, não se importando com as suas palavras, não presta atenção ao que ela diz. Gosta de pensar, mas não gosta de falar. O Amor, muito frequentemente, inflige de novo a ferida que
já tinha sofrido, pois o Amor domina-o de tal modo que ele não se lembra de mais nada além de quem ama. Enquanto seguiam conversando, o cavaleiro, que estava sozinho, cavalgou rapidamente em direção a eles a galope. Estava ainda mais ansioso por se apressar, porque se sentia mais seguro do sucesso; sentia que tinha sorte agora por ver aquela que ele mais profundamente ama. Assim que se aproxima dela, saúda-a com palavras que vêm do seu coração: "Bem-vinda seja ela, de onde quer que venha, a quem mais desejo, mas que até agora me causou menos alegria e mais angústia!" Não é adequado que ela seja tão avara com as suas palavras a ponto de não retribuir a saudação, pelo menos com a palavra falada. O cavaleiro sente-se muito eufórico quando a donzela o saúda; embora ela não leve as palavras a sério, e o esforço não lhe custe nada. No entanto, se ele tivesse sido o vencedor num torneio naquele momento, não se teria estimado tanto, nem pensaria ter ganho tal honra e renome. Sendo agora mais confiante no seu valor, agarrou as rédeas e disse: "Agora vou levar-te comigo: hoje naveguei bem no meu curso por ter chegado finalmente a um porto tão bom. Agora os meus problemas chegaram ao fim: depois dos perigos, alcancei um refúgio; depois da tristeza, alcancei a felicidade; depois da dor, tenho perfeita saúde; agora cumpri o meu desejo, ao encontrar-te em tal situação que posso, sem resistência, levar-te comigo imediatamente." Então ela diz: "Não tens nenhuma vantagem; pois estou sob a escolta deste cavaleiro." "Certamente, a escolta não vale muito", diz ele, "e vou levar-te imediatamente. Este cavaleiro teria tempo para comer um alqueire de sal antes de te poder defender de mim; penso que nunca poderia encontrar um cavaleiro de quem eu não te tirasse. E como te encontro aqui tão oportunamente, embora ele também possa fazer o seu melhor para o impedir, ainda assim levar-te-ei diante dos seus próprios olhos, por mais descontente que ele possa ficar." O outro não se irrita com todo o orgulho que ouve ser expresso, mas, sem qualquer insolência ou vanglória, começa assim a desafiá-lo por causa dela: "Senhor, não tenha pressa, e não desperdice as suas palavras, mas fale um pouco razoavelmente. Não lhe será privado nada daquilo que lhe pertence por direito. Deve saber, contudo, que a donzela veio até aqui sob a minha proteção. Deixe-a em paz agora, pois já a deteve durante tempo suficiente!" O outro dá-lhes permissão para que o queimem, se ele não a levar apesar dele. Então o outro diz: "Não seria correto da minha parte deixar que a levasse; preferiria lutar consigo. Mas se desejássemos lutar, não poderíamos fazê-lo de modo algum nesta estrada estreita. Vamos até um lugar plano — um prado ou um campo aberto." E ele responde que isso lhe convém perfeitamente: "Certamente, concordo com isso: tem toda a razão, esta estrada é demasiado estreita. O meu cavalo está tão limitado aqui que receio que ele esmague o flanco antes que eu o possa virar." Então, com grande dificuldade, ele vira-se, e o seu cavalo escapa sem qualquer ferimento ou dano. Então ele diz: "De certo, estou muito aborrecido por não nos termos encontrado num local favorável e na presença de outros homens, pois ter-me-ia agradado vê-los testemunhar qual de nós dois é o melhor. Vamos agora, comecemos a nossa busca: encontraremos nas proximidades algum espaço grande, largo e aberto." Então, prosseguem para um prado, onde havia criadas, cavaleiros e donzelas a jogar diversos jogos neste lugar aprazível. Não estavam todos envolvidos em desporto ocioso, mas jogavam gamão, xadrez ou dados, e estavam evidentemente ocupados de forma agradável. A maioria estava envolvida em jogos como estes; mas os outros ali estavam dedicados a desportos, dançando, cantando, fazendo acrobacias, saltando e lutando uns com os outros.
Um cavaleiro algo avançado em anos estava do outro lado do prado, sentado num corcel castanho espanhol. O seu freio e sela eram de ouro, e o seu cabelo estava a ficar grisalho. Uma mão pendia ao seu lado com graciosa leveza. Como o tempo estava bom, ele estava em mangas de camisa, com um manto curto de tecido escarlate e pele lançado sobre os ombros, e assim observava os jogos e as danças. Do outro lado do campo, perto de um caminho, estavam vinte e três cavaleiros montados em bons corcéis irlandeses. Assim que os três recém-chegados aparecem à vista, todos param o seu jogo e gritam através dos campos: "Vejam, lá vem o cavaleiro que foi conduzido no carro! Que ninguém continue o seu desporto enquanto ele estiver no nosso meio. Maldito seja aquele que se importa ou se digna a jogar enquanto ele estiver aqui!" Entretanto, aquele que amava a donzela e a reclamava como sua, aproximou-se do velho cavaleiro e disse: "Senhor, alcancei uma grande felicidade; que todos os que agora me ouvem digam que Deus me concedeu a coisa que sempre mais desejei; o Seu presente não teria sido tão grande se Ele me tivesse coroado como rei, nem eu lhe estaria tão grato, nem teria lucrado tanto; pois o que ganhei é belo e bom." "Ainda não sei se é teu", responde o cavaleiro ao seu filho. Mas este responde-lhe: "Não sabe? Não consegue ver, então? Pelo amor de Deus, senhor, não tenha mais dúvidas, quando vê que a tenho na minha posse. Nesta floresta, de onde venho, encontrei-a enquanto ela estava a caminho. Penso que Deus a trouxe até lá para mim, e eu tomei-a como minha." "Não sei se isto será permitido por aquele que vejo vir atrás de ti; ele parece que vem para a reclamar de ti." Durante esta conversa, a dança tinha cessado por causa do cavaleiro que viam, nem se divertiam mais alegremente devido ao desgosto e desprezo que sentiam por ele. Mas o cavaleiro, sem demora, aproximou-se rapidamente da donzela e disse: "Deixe a donzela em paz, cavaleiro, pois não tem direito a ela! Se tiver coragem, estou disposto a lutar imediatamente consigo em defesa dela." Então o velho cavaleiro comentou: "Não sabia eu? Meu belo filho, não detenha mais a donzela, mas deixe-a ir." Ele não gosta deste conselho, e jura que não a entregará: "Que Deus nunca me conceda alegria se eu a entregar a ele! Eu tenho-a, e vou mantê-la como algo que é meu. A correia do ombro e todas as braçadeiras do meu escudo serão primeiro quebradas, e eu terei perdido toda a confiança na minha força e armas, na minha espada e lança, antes de entregar a minha senhora a ele." E o seu pai diz: "Não deixarei que lutas por qualquer razão que possas apresentar. Estás demasiado confiante na tua bravura. Por isso, obedece à minha ordem." Mas ele, no seu orgulho, responde: "O quê? Sou uma criança para ser aterrorizada? Antes, vangloriar-me-ei de que não existe dentro da terra rodeada pelo mar nenhum cavaleiro, onde quer que ele habite, tão excelente que eu deixasse que ele a tivesse, e a quem eu não esperasse derrotar rapidamente." O pai responde: "Belo filho, não duvido que penses realmente assim, pois estás tão confiante na tua força. Mas não desejo ver-te entrar num confronto com este cavaleiro." Então ele responde: "Ficarei desonrado se seguir o seu conselho. Maldito seja eu se atender ao seu conselho e me tornar um covarde por sua causa, e não fizer o meu melhor na luta. É verdade que um homem se dá mal entre os seus parentes: poderia fazer um melhor negócio noutro lugar, pois está a tentar enganar-me. Estou certo de que, onde não sou conhecido, poderia agir com melhor graça. Ninguém, que não me conhecesse, tentaria contrariar a minha vontade; enquanto você está a incomodar-me e a atormentar-me. Estou irritado por você me censurar. Sabe bem que, quando alguém é culpado, irrompe ainda mais apaixonadamente. Mas que Deus nunca me dê alegria se eu renunciar ao meu propósito por causa de você; antes lutarei apesar de si!" "Pela fé que tenho no Apóstolo São Pedro", diz o seu pai, "agora vejo que o meu pedido é inútil. Perco o meu tempo a censurar-te; mas em breve conceberei tais meios que te obrigarão contra a tua vontade a obedecer às minhas ordens e a submeter-te a elas." Convocando imediatamente todos os cavaleiros para se aproximarem, ordena-lhes que ponham as mãos sobre o seu filho, a quem não consegue corrigir, dizendo: "Preferirei tê-lo amarrado a deixá-lo lutar. Vocês aqui são todos meus homens, e devem-me a vossa devoção e serviço: por todos os feudos que detêm de mim, responsabilizo-vos, e acrescento a minha súplica. Parece-me que ele deve estar louco, e que demonstra um orgulho excessivo, quando se recusa a respeitar a minha vontade." Então eles prometem cuidar dele, e dizem que nunca, enquanto ele estiver sob a sua custódia, desejará lutar, mas que deve renunciar à donzela contra a sua própria vontade. Então todos se unem e agarram-no pelos braços e pescoço. "Não te achas tolo agora?", pergunta o seu pai; "confessa a verdade: não tens a força ou o poder para lutar ou justar, por mais desagradável e difícil que seja para ti admiti-lo. Serás sensato se consentires na minha vontade e desejo. Sabes qual é a minha intenção? Para atenuar um pouco a tua desilusão, estou disposto a juntar-me a ti, se quiseres, seguindo o cavaleiro hoje e amanhã, através de bosques e planícies, cada um montado no seu cavalo. Talvez em breve descubramos que ele é de tal caráter e comportamento que eu poderia deixar-te seguir o teu caminho e lutar com ele." A esta proposta, o outro tem de consentir à força. Como o homem que não tem alternativa, diz que se renderá, desde que ambos o sigam. E quando as pessoas no campo veem como esta aventura terminou, exclamam todas: "Viram? Aquele que estava montado no carro ganhou tal honra aqui que está a levar a senhora do filho do meu senhor, e ele próprio está a permitir isso. Podemos bem supor que ele encontra nele algum mérito, quando o deixa levá-la. Agora, cem vezes maldito seja aquele que cesse mais o seu desporto por causa dele! Vamos, voltemos aos nossos jogos novamente." Então eles retomam os seus jogos e danças.
Em seguida, o cavaleiro afasta-se, sem permanecer mais tempo no campo, e a donzela acompanha-o. Partem à pressa, enquanto o pai e o filho cavalgam atrás deles através dos campos ceifados até perto das três horas, quando num local muito aprazível encontram uma igreja; ao lado da capela-mor havia um cemitério rodeado por um muro. O cavaleiro foi cortês e sábio ao entrar na igreja a pé e fazer a sua oração a Deus, enquanto a donzela segurava o seu cavalo até ele regressar. Quando ele terminou a sua oração, e enquanto regressava, um monge muito velho apresentou-se subitamente; perante o que o cavaleiro pede-lhe educadamente para lhe dizer o que é aquele lugar; pois ele não sabe. E ele diz-lhe que é um cemitério. E o outro diz: "Deixe-me entrar, que Deus o ajude!" "Com prazer, senhor", e ele deixa-o entrar. Seguindo a liderança do monge, o cavaleiro contempla os mais belos túmulos que alguém poderia encontrar até Dombes ou Pamplona; e em cada túmulo havia letras gravadas, indicando os nomes daqueles que estavam destinados a ser sepultados ali. E ele começou a ler os nomes por ordem, e deparou-se com alguns que diziam: "Aqui Gawain há de jazere, aqui Louis, e aqui Yvain." Depois destes três, leu os nomes de muitos outros entre os mais famosos e queridos cavaleiros desta ou de qualquer outra terra. Entre os outros, encontra um de mármore, que parece ser novo, e é mais rico e belo do que todos os restantes. Chamando o monge, o cavaleiro perguntou: "Qual é o uso destes túmulos aqui?" E o monge respondeu: "Já leu as inscrições; se as compreendeu, deve saber o que dizem, e qual é o significado dos túmulos." "Agora diga-me, para que serve este grande?" E o eremita respondeu: "Dir-lhe-ei. Esse é um sarcófago muito grande, maior do que qualquer outro que tenha sido feito; um tão rico e bem esculpido nunca foi visto. É magnífico por fora, e ainda mais por dentro. Mas não precisa de se preocupar com isso, pois nunca lhe trará qualquer benefício; nunca verá o seu interior; pois seriam necessários sete homens fortes para levantar a tampa de pedra, se alguém desejasse abri-la. E pode ter a certeza de que para a levantar seriam necessários sete homens mais fortes do que eu e você. Há uma inscrição nele que diz que qualquer um que possa levantar esta pedra pela sua própria força sem ajuda libertará todos os homens e mulheres que são cativos na terra, de onde nenhum escravo ou nobre pode sair, a menos que seja natural daquela terra. Ninguém voltou de lá, mas estão detidos em prisões estrangeiras; enquanto os do país entram e saem como desejam." Imediatamente o cavaleiro vai agarrar a pedra, e levanta-a sem a menor dificuldade, mais facilmente do que dez homens fariam se exercessem toda a sua força. E o monge ficou espantado, e quase caiu ao ver esta coisa maravilhosa; pois pensou que nunca mais veria algo semelhante, e disse: "Senhor, estou muito ansioso por saber o seu nome. Dir-me-á qual é?" "Eu não", diz o cavaleiro, "pela minha palavra." "Certamente lamento isso", diz ele; "mas se me dissesse, far-me-ia um grande favor, e poderia beneficiar-se a si próprio. Quem é você, e de onde vem?" "Sou um cavaleiro, como pode ver, e nasci no reino de Logre. Depois de tanta informação, preferiria ser dispensado. Agora, por favor, diga-me, da sua parte, quem há de jazere dentro deste túmulo." "Senhor, aquele que libertará todos os que são mantidos cativos no reino de onde ninguém escapa." E quando ele lhe contou tudo isto, o cavaleiro recomendou-o a Deus e a todos os Seus santos. E então, pela primeira vez, sentiu-se livre para regressar junto da donzela. O velho monge de cabelos brancos acompanha-o para fora da igreja, e eles retomam o seu caminho. Enquanto a donzela monta, contudo, o eremita relata-lhe tudo o que o cavaleiro tinha feito lá dentro, e depois suplicou-lhe que lhe dissesse, se soubesse, qual era o seu nome; mas ela assegurou-lhe que não sabia, mas que havia uma coisa certa que podia dizer, nomeadamente, que não havia tal cavaleiro vivo onde sopram os quatro ventos do céu.
Então a donzela despede-se dele, e cavalga rapidamente atrás do cavaleiro. Então aqueles que os seguiam aproximam-se e veem o eremita parado sozinho diante da igreja. O velho cavaleiro em mangas de camisa disse: "Senhor, diga-nos, viu um cavaleiro com uma donzela na sua companhia?" E ele responde: "Não hesitarei em dizer-vos tudo o que sei, pois eles acabaram de passar por aqui. O cavaleiro esteve lá dentro e fez uma coisa muito maravilhosa ao levantar a pedra do enorme túmulo de mármore, completamente sem ajuda e sem o menor esforço. Ele está empenhado no resgate da Rainha, e sem dúvida ele irá resgatá-la, assim como todas as outras pessoas. Sabeis bem que isto tem de ser assim, pois tendes lido frequentemente a inscrição sobre a pedra. Nenhum cavaleiro nasceu jamais de homem e mulher, e nenhum cavaleiro montou jamais numa sela, que fosse igual a este homem." Então o pai vira-se para o seu filho, e diz: "Filho, o que pensas sobre ele agora? Não é um homem a ser respeitado aquele que realizou tal feito? Agora sabes quem estava errado, e se foste tu ou eu. Eu não permitiria que lutasses com ele por toda a cidade de Amiens; e ainda assim lutaste arduamente, antes que alguém te pudesse dissuadir do teu propósito. Agora podemos muito bem regressar, pois seríamos muito tolos se o seguíssemos mais longe." E ele responde: "Concordo com isso. Seria inútil segui-lo. Uma vez que é do seu agrado, regressemos." Eles foram muito sensatos ao refazer os seus passos. E durante todo o tempo, a donzela cavalga perto do cavaleiro, desejando obrigá-lo a prestar-lhe atenção. Ela está ansiosa por saber o seu nome, e ela suplica-lhe e implora-lhe vezes sem conta que lho diga, até que, no seu aborrecimento, ele lhe responde: "Já não lhe disse que pertenço ao reino do Rei Arthur? Juro por Deus e pela Sua bondade que não saberá o meu nome." Então ela pede-lhe permissão para ir, e ela voltará para trás, pedido que ele concede alegremente.
Logo a donzela parte, e ele cavalga sozinho até que se fez muito tarde. Depois das vésperas, perto das completas, enquanto prosseguia o seu caminho, viu um cavaleiro regressar do bosque onde estivera a caçar. Com o elmo desapertado, cavalgava sobre o seu grande caçador ruço, ao qual atara a caça que Deus lhe permitira abater. Este fidalgo veio rapidamente ao encontro do cavaleiro, oferecendo-lhe hospitalidade. "Senhor", diz ele, "a noite chegará em breve. É tempo de ser sensato e procurar um lugar onde passar a noite. Tenho uma casa minha aqui perto, para onde o levarei. Ninguém jamais o alojou melhor do que eu farei, dentro das minhas possibilidades: ficarei muito contente, se consentir." "Da minha parte, aceito com agrado", diz ele. O fidalgo envia imediatamente o seu filho à frente, para preparar a casa e iniciar os preparativos para a ceia. O rapaz executa prontamente e de boa vontade a sua ordem, e parte a um passo rápido, enquanto os outros, que não têm pressa, seguem a estrada descontraidamente até chegarem à casa. A esposa do fidalgo era uma senhora muito distinta; e ele tinha cinco filhos, a quem amava ternamente, três deles meros rapazes, e dois já cavaleiros; e tinha duas filhas belas e encantadoras, que ainda eram solteiras. Não eram naturais da terra, mas estavam ali em cativeiro, tendo sido mantidas ali durante muito tempo como prisioneiras, longe da sua terra natal de Logres. Quando o fidalgo conduziu o cavaleiro ao seu pátio, a senhora com os seus filhos e filhas levantou-se e correu ao encontro deles, competindo nos seus esforços para lhe prestar homenagem, enquanto o saudavam e o ajudavam a desmontar. Nem as irmãs nem os cinco irmãos prestaram muita atenção ao pai, pois sabiam bem que ele assim o queria. Honraram o cavaleiro e deram-lhe as boas-vindas; e quando o libertaram da sua armadura, uma das duas filhas do seu anfitrião atirou-lhe o seu próprio manto, tirando-o dos seus ombros e lançando-o sobre o pescoço dele. Não preciso de dizer quão bem ele foi servido à ceia; mas, quando a refeição terminou, não sentiram mais hesitação em falar de vários assuntos. Primeiro, o anfitrião começou por lhe perguntar quem era, e de que terra vinha, mas não perguntou o seu nome. O cavaleiro respondeu-lhe prontamente: "Sou do reino de Logres e nunca estive nesta terra antes." E quando o fidalgo ouviu aquilo, ficou muito espantado, tal como a sua esposa e filhos também, e cada um deles ficou profundamente aflito. Então começaram a dizer-lhe: "Ai de ti por teres vindo aqui, belo senhor, pois apenas problemas resultarão disso! Pois, tal como nós, serás reduzido à servidão e ao exílio." "De onde vindes, então?", perguntou ele. "Senhor, pertencemos ao seu país. Muitos homens do seu país são mantidos em servidão nesta terra. Maldito seja o costume, juntamente com aqueles que o mantêm! Nenhum estranho vem aqui que não seja compelido a ficar na terra onde é detido. Pois quem quiser pode entrar, mas, uma vez dentro, tem de ficar. Quanto ao seu próprio destino, pode estar sossegado, sem dúvida nunca escapará daqui." Ele responde: "Na verdade, fá-lo-ei, se for possível." Ao que o fidalgo responde: "Como? Acha que pode escapar?" "Sim, certamente, se for a vontade de Deus; e farei tudo o que estiver ao meu alcance." "Nesse caso, sem dúvida, todos os outros seriam libertados; pois, assim que alguém consegue escapar devidamente deste cativeiro, então todos os outros podem sair sem serem contestados." Então, o fidalgo recordou que lhe tinham dito e informado que um cavaleiro de grande excelência estava a caminho do país para procurar a Rainha, que era mantida pelo filho do rei, Meleagant; e disse para consigo: "Pela minha fé, acredito que é ele, e dir-lhe-ei isso." Então disse-lhe: "Senhor, não me oculte o seu negócio, se eu prometer dar-lhe o melhor conselho que conheço. Eu também lucrarei com qualquer sucesso que possa alcançar. Revele-me a verdade sobre a sua missão, para que possa ser para sua vantagem, bem como para a minha. Estou convencido de que veio em busca da Rainha para esta terra e entre este povo pagão, que é pior que os Sarracenos." E o cavaleiro responde: "Por nenhum outro propósito vim. Não sei onde a minha senhora está confinada, mas estou a esforçar-me muito para a resgatar, e estou na maior necessidade de conselho. Dê-me qualquer conselho que possa." E ele diz: "Senhor, empreendeu uma tarefa muito penosa. A estrada que está a percorrer levá-lo-á diretamente à ponte da espada. Certamente precisa de conselho. Se seguisse o meu conselho, seguiria para a ponte da espada por um caminho mais seguro, e eu faria com que fosse escoltado até lá." Então ele, cuja mente está fixa no caminho mais direto, pergunta-lhe: "É a estrada de que fala tão direta como o outro caminho?" "Não, não é", diz ele; "é mais longa, mas mais segura." Então ele diz: "Não tenho uso para ela; fale-me desta estrada que estou a seguir!" "Estou pronto para o fazer", responde ele; "mas tenho a certeza de que não se sairá bem se tomar qualquer outra que não seja a estrada que recomendo. Amanhã chegará a um lugar onde terá problemas: chama-se 'a passagem pedregosa'. Devo dizer-lhe quão mau é o lugar para passar? Apenas um cavalo pode passar de cada vez; nem dois homens poderiam passar lado a lado, e a passagem está bem guardada e defendida. Encontrará resistência assim que chegar. Sofrerá muitos golpes de espada e lança, e terá de retribuir na mesma moeda antes de conseguir passar." E quando ele completou o relato, um dos filhos do fidalgo, que era cavaleiro, aproximou-se, dizendo: "Senhor, se não se importar, irei com este cavaleiro." Então um dos rapazes salta e diz: "Eu também irei." E o pai concede-lhes alegremente o seu consentimento a ambos. Agora o cavaleiro não terá de ir sozinho, e ele expressa a sua gratidão, estando muito satisfeito com a companhia.
Então a conversa cessa, e levam o cavaleiro para a cama, onde ele ficou contente por adormecer. Assim que a luz do dia foi visível, ele levantou-se, e aqueles que o iam acompanhar levantaram-se também. Os dois cavaleiros vestiram a sua armadura e despediram-se, enquanto o jovem partiu à frente. Juntos prosseguiram o seu caminho até chegarem à hora de prima à "passagem pedregosa". No meio dela encontraram uma torre de madeira, onde havia sempre um homem de guarda. Antes de se aproximarem, aquele que estava na torre viu-os e gritou duas vezes em voz alta: "Ai deste homem que vem!" E então, eis que um cavaleiro saiu da torre, montado e armado com armadura fresca, e escoltado de ambos os lados por servos que transportavam machados afiados. Então, quando o outro se aproxima da passagem, aquele que a defende começa a cobri-lo de insultos sobre a carroça, dizendo: "Vassalo, és ousado e tolo, na verdade, por teres entrado neste país. Nenhum homem deveria jamais vir aqui que tivesse andado numa carroça, e que Deus lhe retenha a Sua bênção!" Então, eles esporam um em direção ao outro à velocidade máxima dos seus cavalos. E aquele que guardava a passagem parte imediatamente a sua lança e deixa cair os dois pedaços; o outro atinge-o no pescoço, alcançando-o por baixo do escudo, e atira-o por terra, prostrado sobre as pedras. Então os servos avançam com os machados, mas falham propositadamente em atingi-lo, não tendo desejo de o magoar ou causar danos; por isso ele não se digna a desembainhar a sua espada, e passa rapidamente com os seus companheiros. Um deles comenta com o outro: "Ninguém viu jamais um cavaleiro tão bom, nem ele tem igual. Não é uma coisa maravilhosa que ele tenha forçado uma passagem aqui?" E o cavaleiro diz ao seu irmão: "Belo irmão, pelo amor de Deus, apressa-te a ir contar ao nosso pai esta aventura." Mas o rapaz afirma e jura que não irá com a mensagem, e que nunca deixará o cavaleiro até que ele o tenha armado cavaleiro; que o seu irmão vá com a mensagem, se está tão preocupado.
Então eles seguem juntos até cerca das três da tarde, quando encontram um homem, que lhes pergunta quem são. E eles respondem: "Somos cavaleiros, ocupados com os nossos próprios assuntos." Então o homem diz ao cavaleiro: "Senhor, teria todo o gosto em oferecer hospitalidade a si e aos seus companheiros aqui." Este convite ele dirige àquele que toma como o senhor e mestre dos outros. E este responde-lhe: "Não poderia procurar abrigo para a noite a uma hora destas; pois não é bom demorar-se e procurar o seu descanso quando se empreendeu uma grande tarefa. E tenho tal negócio em mãos que não pararei para a noite por algum tempo ainda." Então o homem continua: "A minha casa não é aqui perto, mas fica a alguma distância à frente. Será tarde quando lá chegar, por isso pode prosseguir, assegurado de que encontrará um lugar onde se alojar exatamente quando lhe convier." "Nesse caso", diz ele, "irei até lá." Logo a seguir, o homem parte à frente como guia, e o cavaleiro segue ao longo do caminho. E quando tinham avançado alguma distância, encontraram um escudeiro que vinha a galope, montado num pangaré que era tão gordo e redondo como uma maçã. E o escudeiro grita para o homem: "Senhor, senhor, apresse-se! Pois as gentes de Logres atacaram em força os habitantes desta terra, e a guerra e a discórdia já rebentaram; e dizem que este país foi invadido por um cavaleiro que esteve em muitas batalhas, e que onde quer que ele deseje ir, ninguém, por muito relutante que seja, é capaz de lhe negar passagem. E dizem ainda que ele libertará aqueles que estão neste país, e subjugará o nosso povo. Agora siga o meu conselho e apresse-se!" Então o homem parte a galope, e os outros ficam muito encantados com as palavras que ouviram, pois estão ansiosos por ajudar o seu lado. E o filho do vavasor diz: "Ouçam o que este escudeiro diz! Venham e vamos ajudar o nosso povo que está a combater os seus inimigos!" Entretanto, o homem cavalga para longe, sem esperar por eles, e faz o seu caminho rapidamente em direção a uma fortaleza que ficava sobre uma colina fortificada; para lá ele se apressa, até chegar ao portão, enquanto os outros esporam atrás dele. O castelo era rodeado por um muro alto e um fosso. Assim que entraram, um portão foi descido sobre os seus calcanhares, de modo a que não pudessem sair novamente. Então eles dizem: "Vamos, vamos! Não paremos aqui!" e perseguem rapidamente o homem até chegarem a outro portão que não estava fechado contra eles. Mas assim que o homem passou, uma grade caiu atrás dele. Então os outros ficaram muito consternados ao verem-se encerrados, e pensam que devem estar enfeitiçados. Mas ele, de quem tenho mais para contar, trazia no seu dedo um anel, cuja pedra era de tal virtude que qualquer um que olhasse para ela era libertado do poder do encantamento. Segurando o anel diante dos seus olhos, ele olhou para ele e disse: "Senhora, senhora, que Deus me ajude, agora tenho grande necessidade do seu socorro!" Esta senhora era uma fada, que lho tinha dado, e que cuidara dele na sua infância. E ele tinha grande confiança de que, onde quer que estivesse, ela o ajudaria e socorreria. Mas depois de apelar a ela e olhar para o anel, ele apercebe-se de que não há encantamento aqui, mas que estão realmente encerrados e confinados. Então chegam à porta gradeada de uma porta baixa e estreita. Desembainhando as suas espadas, todos atingem-na com tal violência que cortam a barra. Assim que ficaram fora da torre, veem que uma luta feroz já começara lá em baixo nos prados, e que há pelo menos mil cavaleiros envolvidos, além da infantaria de baixa linhagem. Enquanto desciam para a planície, o sensato e moderado filho do vavasor comentou: "Senhor, antes de chegarmos ao campo, seria sensato da nossa parte, parece-me, descobrir e saber de que lado está o nosso povo. Não sei onde estão posicionados, mas irei descobrir, se assim o desejar." "Desejo que o faça", responde ele, "vá rapidamente, e não deixe de voltar imediatamente." Ele vai e regressa de imediato, dizendo: "Correu bem para nós, pois vi claramente que estas são as nossas tropas deste lado do campo." Então o cavaleiro cavalgou imediatamente para o combate e justou com um cavaleiro que se aproximava dele, atingindo-o no olho com tal violência que o derrubou sem vida para o chão. Então o rapaz desmonta, e pegando no cavalo e nas armas do cavaleiro morto, arma-se com habilidade e destreza. Quando estava armado, monta imediatamente, pegando no escudo e na lança, que era pesada, rígida e decorada, e à cintura cingiu uma espada afiada, brilhante e cintilante. Então seguiu o seu irmão e senhor para a luta. Este último comportou-se bravamente na batalha durante algum tempo, partindo, dividindo e esmagando escudos, elmos e cotas de malha. Nenhuma madeira ou aço protegia o homem que ele atingia; ou o feria ou o derrubava sem vida do cavalo. Sem ajuda, ele saiu-se tão bem que derrotou todos os que encontrou, enquanto os seus companheiros fizeram também a sua parte. As gentes de Logres, não o conhecendo, ficam espantadas com o que veem, e perguntam aos filhos do vavasor sobre o cavaleiro estranho. Esta resposta lhes é dada: "Cavalheiros, este é aquele que nos libertará a todos do cativeiro e da miséria, em que temos estado confinados há tanto tempo, e deveríamos prestar-lhe grande honra quando, para nos libertar, ele passou por tantos perigos e está pronto para enfrentar muitos mais. Ele fez muito, e fará ainda mais." Todos estão cheios de alegria ao ouvir estas notícias de boas-vindas. As notícias viajaram depressa, e foram espalhadas por todo o lado, até serem conhecidas por todos. A sua força e coragem aumentam, de modo que matam muitos daqueles que ainda estão vivos, e aparentemente devido ao exemplo de um único cavaleiro causam maior destruição do que devido a todos os outros combinados. E se não fosse tão perto da noite, todos teriam ido embora derrotados; mas a noite caiu tão escura que tiveram de se separar.
Quando a batalha terminou, todos os cativos aglomeraram-se em torno do cavaleiro, segurando as rédeas de ambos os lados e dirigindo-se a ele desta forma: "Sede bem-vindo, belo senhor", e cada um acrescenta: "Senhor, pelo nome de Deus, não deixeis de vos hospedar comigo!" O que um diz, todos repetem, pois jovens e velhos insistem que ele deve hospedar-se com eles, dizendo: "Ficareis mais confortavelmente instalado comigo do que com qualquer outro." Assim, cada um dirige-se a ele pessoalmente e, no desejo de o capturar, cada um puxa-o para o seu lado, até quase chegarem às vias de facto. Então, ele diz-lhes que são muito tolos e insensatos por lutarem assim. "Cessai esta disputa entre vós, pois não traz proveito nem a mim nem a vós. Em vez de nos desentendermos, deveríamos antes ajudar-nos uns aos outros. Não deveis discutir sobre o privilégio de me hospedar, mas antes considerar como me instalar num lugar que seja para o vosso benefício geral e que me permita seguir caminho." Então, cada um exclama de imediato: "Essa casa é a minha, ou, não, é a minha", até que o cavaleiro responde: "Segui o meu conselho e não digais mais nada; o mais sensato entre vós é tolo por contender desta maneira. Deveríeis preocupar-vos em promover os meus assuntos e, em vez disso, procurais desviar-me. Se cada um de vós, individualmente, me tivesse prestado toda a honra e serviço que é possível prestar, e eu tivesse aceite a vossa bondade, juro por todos os santos de Roma que não poderia estar mais agradecido do que estou agora pela vossa boa vontade. Que Deus me dê alegria e saúde, as vossas boas intenções agradam-me tanto como se cada um de vós já me tivesse demonstrado grande honra e bondade: que a vontade valha pelo feito!" Assim, ele persuade-os e apazigua-os a todos. Depois, levam-no rapidamente pela estrada até à residência de um cavaleiro, onde procuram servi-lo: todos se alegram em honrá-lo e servi-lo durante toda a noite até à hora de deitar, pois têm-no em grande estima. Na manhã seguinte, quando chegou a hora de partir, cada um oferece-se e apresenta-se, com o desejo de o acompanhar; mas não é da sua vontade nem do seu agrado que alguém vá com ele, exceto os dois que ele tinha trazido consigo. Acompanhado apenas por eles, retomou a sua jornada. Naquele dia, cavalgaram desde a manhã até à noite sem encontrar qualquer aventura. Quando já era muito tarde e cavalgavam rapidamente para fora de uma floresta, viram uma casa pertencente a um cavaleiro e, sentada à porta, viram a sua esposa, que tinha o porte de uma dama distinta. Assim que ela os avistou a chegar, levantou-se para os receber e cumprimentou-os alegremente com um sorriso: "Sede bem-vindos! Desejo que aceiteis a minha casa; este é o vosso alojamento; peço-vos que desmonteis." "Senhora, já que é a vossa vontade, agradecemos-vos e desmontaremos; aceitamos a vossa hospitalidade para a noite." Quando desmontaram, a dama ordenou que os cavalos fossem recolhidos pelos membros da sua bem organizada casa. Chama os seus filhos e filhas, que vêm de imediato: os jovens eram corteses, belos e bem-educados, e as filhas eram formosas. Ordena aos rapazes que tirem as selas e escovem bem os cavalos; ninguém se recusou a fazê-lo, mas cada um cumpriu as suas instruções de bom grado. Quando ordenou que os cavaleiros fossem desarmados, as suas filhas apresentaram-se para realizar esse serviço. Retiram-lhes as armaduras e entregam-lhes três mantos curtos para vestirem. Depois, levam-nos de imediato para dentro da casa, que era muito bela. O senhor não estava em casa, pois encontrava-se nos bosques com dois dos seus filhos. Mas regressou pouco depois, e a sua criadagem, que era bem organizada, correu ao seu encontro fora da porta. Rapidamente desatam e desembrulham a caça que ele traz e contam-lhe as novidades: "Senhor, senhor, não sabeis que tendes três cavaleiros como hóspedes." "Deus seja louvado por isso", diz ele. Então, o cavaleiro e os seus dois filhos estendem uma calorosa boas-vindas aos seus convidados. O resto da criadagem não ficou atrás, pois até o menos importante entre eles preparou-se para desempenhar a sua tarefa especial. Enquanto alguns correm para preparar a refeição, outros acendem as velas em profusão; outros ainda buscam uma toalha e bacias e oferecem água para as mãos: não são avaros em tudo isto. Quando todos se lavaram, tomam os seus lugares. Nada do que lá foi feito pareceu ser trabalhoso ou um incómodo. Mas, no primeiro prato, surgiu uma surpresa sob a forma de um cavaleiro à porta. Sentado no seu corcel, todo armado da cabeça aos pés, parecia mais orgulhoso do que um touro, e um touro é uma besta muito orgulhosa. Tinha uma perna fixa no estribo, mas a outra estava atirada sobre a crina do pescoço do seu cavalo, para se dar um ar descuidado e jovial. Ei-lo a avançar assim, embora ninguém o tivesse notado até ele se adiantar com as palavras: "Quero saber quem é o homem que é tão tolo e orgulhoso, um paspalho, que veio a este país e pretende atravessar a ponte da espada. Todo o seu esforço será em vão, e a sua expedição é inútil." Então, ele, que não sentia qualquer medo, responde com confiança: "Eu sou aquele que pretende atravessar a ponte." "Tu? Tu? Como ousaste pensar em tal coisa? Antes de empreenderes tal curso, deverias ter pensado no fim que te está reservado e deverias ter em mente a recordação da carroça em que cavalgaste. Não sei se sentes vergonha da viagem que fizeste nela, mas nenhum homem sensato se teria lançado numa empresa como esta se tivesse sentido o opróbrio da sua ação."
Nem uma palavra se digna ele a responder ao que ouve o outro dizer; mas o dono da casa e todos os outros expressam abertamente a sua surpresa: "Ah, Deus, que infortúnio é este", diz cada um deles para consigo mesmo; "maldita seja a hora em que uma carroça foi concebida ou feita! Pois é uma coisa muito vil e detestável. Ah, Deus, de que foi ele acusado? Por que foi ele transportado numa carroça? Por que pecado, ou por que crime? Ele sofrerá sempre o opróbrio. Se ele estivesse livre desta desgraça, não se poderia encontrar em todo o mundo cavaleiro, por muito que o seu valor fosse comprovado, que igualasse o mérito deste cavaleiro. Se todos os bons cavaleiros pudessem ser comparados, e se a verdade fosse conhecida, não se poderia encontrar nenhum tão belo ou tão perito." Assim expressaram os seus sentimentos. Então, ele começou o seu discurso de insolência: "Ouve, tu, cavaleiro, que vais para a ponte da espada! Se quiseres, atravessarás a água muito fácil e confortavelmente. Farei com que sejas transportado rapidamente numa barca. Mas, uma vez do outro lado, far-te-ei pagar portagem, e tomarei a tua cabeça, se me aprouver fazê-lo, ou, se não, ficarás à minha mercê." E ele responde que não está à procura de problemas e que nunca arriscará a sua cabeça em tal aventura por qualquer consideração. Ao que o outro responde de imediato: "Uma vez que não queres fazer isso, seja de quem for a vergonha e a perda, tens de vir cá fora comigo e enfrentar-me em combate singular." Então, para o iludir, o outro diz: "Se pudesse recusar, muito voluntariamente desculpar-me-ia; mas, em verdade, preferiria lutar a ser forçado a fazer o que é errado." Antes de se levantar da mesa onde estavam sentados, disse aos jovens que o serviam que selassem o seu cavalo imediatamente, fossem buscar as suas armas e lhas entregassem. Esta ordem executam-na prontamente: alguns dedicam-se a armá-lo, enquanto outros vão buscar o seu cavalo. Enquanto cavalgava lentamente, completamente armado, segurando o escudo firmemente pelas correias, deveis saber que ele era evidentemente um homem a ser incluído na lista dos valentes e belos. O seu cavalo assentava-lhe tão bem que é evidente que deve ser seu, e quanto ao escudo que segurava pelas correias e ao elmo atado à cabeça, que lhe servia tão bem, nunca por um momento se pensaria que ele o tivesse pedido emprestado ou recebido como um empréstimo; pelo contrário, ficaríeis tão satisfeitos com ele que sustentaríeis que ele tinha nascido e crescido assim: por tudo isto, gostaria que acreditásseis na minha palavra.
Fora do portão, onde a batalha ia ser travada, havia um trecho de terreno plano muito adequado para o encontro. Quando se avistam, esporeiam calorosamente para o ataque e chocam com tal impacto, desferindo tais golpes com as suas lanças, que estas primeiro dobram, depois vergam e, finalmente, voam em lascas. Com as suas espadas, cortam então os seus escudos, elmos e cotas de malha. A madeira é cortada e o aço cede, de modo que ferem um ao outro em vários lugares. Desferem golpes tão coléricos que parece que fizeram um ajuste de contas. As espadas descem frequentemente sobre as ancas dos cavalos, onde bebem e banqueteiam-se com o seu sangue; os cavaleiros atingem-nos pelos flancos até que, finalmente, matam ambos os cavalos. E quando ambos caíram por terra, atacam-se a pé; e, se nutrissem um ódio mortal, não poderiam ter atacado um ao outro mais ferozmente com as suas espadas. Desferem os seus golpes com maior frequência do que o homem que aposta o seu dinheiro nos dados e nunca deixa de duplicar a parada sempre que perde; ainda assim, este jogo deles era muito diferente; pois não havia perdas aqui, apenas golpes ferozes e uma luta cruel. Todo o povo saiu da casa: o senhor, a sua senhora, os seus filhos e filhas; nenhum homem ou mulher, amigo ou estranho, ficou para trás, mas todos se colocaram em fila para ver o combate em curso no campo largo e plano. O Cavaleiro da Carroça culpa-se e censura-se pela sua covardia quando vê o seu anfitrião a observá-lo e nota todos os outros a olhar. O seu coração é agitado pela ira, pois parece-lhe que deveria ter vencido o seu adversário há muito tempo. Então, atinge-o, avançando como uma tempestade e fazendo a sua espada descer perto da sua cabeça; empurra-o e pressiona-o com tanta força que o força a sair da sua posição e reduz o outro a tal estado de exaustão que ele tem pouca força para se defender. Então, o cavaleiro recorda como o outro o tinha vilmente insultado por causa da carroça; por isso, ataca-o e espanca-o tão duramente que não resta um fio ou correia intacta no gorjal da sua cota de malha, e derruba-lhe o elmo e o camail da cabeça. As suas feridas e angústia são tão grandes que ele tem de implorar por misericórdia. Tal como a cotovia não consegue resistir ou proteger-se contra o falcão que voa mais alto e a ataca de cima, assim ele, na sua desamparo e vergonha, deve invocar o outro e pedir misericórdia. E quando ele o ouve implorar por misericórdia, cessa o seu ataque e diz: "Desejas misericórdia?" Ele responde: "Fizeste uma pergunta muito inteligente; qualquer tolo poderia perguntar isso. Nunca desejei nada tanto como agora desejo misericórdia." Então, ele diz-lhe: "Tens de montar, então, numa carroça. Nada do que pudesses dizer teria qualquer influência sobre mim, a menos que montasses na carroça, para expiar os vis insultos que me dirigiste com a tua boca tola." E o cavaleiro responde-lhe assim: "Que nunca praza a Deus que eu monte numa carroça!" "Não?", pergunta ele; "então hás de morrer." "Senhor, podeis facilmente tirar-me a vida; mas suplico-vos e peço-vos, por amor de Deus, que tenhais misericórdia de mim e não me forceis a montar numa carroça. Concordarei com qualquer coisa, por mais penoso que seja, exceto isso. Preferiria morrer cem vezes a sofrer tal desgraça. Na vossa bondade e misericórdia, não podeis pedir-me nada tão desagradável que eu não faça."
Enquanto ele lhe suplica assim, eis que atravessa o campo uma donzela montada numa mula baia, com a cabeça descoberta e o vestido desarrumado. Na mão, segurava um chicote com o qual fustigava a mula; e, na verdade, nenhum cavalo poderia ter galopado tão depressa como o passo da mula. A donzela chamou o Cavaleiro da Carroça: "Que Deus abençoe o teu coração, senhor cavaleiro, com o que mais te agrada!" E ele, que a ouviu com agrado, diz: "Que Deus vos abençoe, donzela, e vos dê alegria e saúde!" Então, ela revela-lhe o seu desejo. "Cavaleiro", diz ela, "em necessidade urgente, vim de longe ter convosco para vos pedir um favor, pelo qual merecereis a melhor recompensa que vos posso dar; e creio que ainda precisareis da minha assistência." E ele responde: "Dizei-me o que desejais; e se eu o tiver, tê-lo-eis de imediato, desde que não seja algo extravagante." Então, ela diz: "É a cabeça do cavaleiro que acabastes de derrotar; em verdade, nunca tivestes que lidar com um homem tão perverso e infiel. Não estareis a cometer pecado ou erro, mas antes a realizar um ato de caridade, pois ele é a criatura mais vil que jamais existiu ou existirá." E quando aquele que tinha sido vencido ouve que ela deseja que ele seja morto, diz-lhe: "Não acredites nela, pois ela odeia-me; mas, por aquele Deus que foi ao mesmo tempo Pai e Filho, e que escolheu para Sua mãe aquela que era Sua filha e serva, imploro-vos que tenhais misericórdia de mim!" "Ah, cavaleiro!", exclama a donzela, "não dês atenção ao que este traidor diz! Que Deus te dê toda a alegria e honra a que aspiras, e que Ele te dê sucesso na tua empresa." Então, o cavaleiro encontra-se num dilema, enquanto pensa e pondera sobre a questão: se deve apresentar-lhe a cabeça que ela lhe pede para cortar, ou se deve deixar-se tocar pela piedade por ele. Ele deseja respeitar os desejos tanto dela como dele. A generosidade e a piedade comandam-no, cada uma, a fazer a sua vontade; pois ele era tanto generoso como terno de coração. Mas se ela levar a cabeça, então a piedade será derrotada e morta; enquanto, se ela não levar a cabeça, a generosidade ficará desbaratada. Assim, a piedade e a generosidade mantêm-no tão confinado e angustiado que ele é atormentado e estimulado por cada uma delas, alternadamente. A donzela pede-lhe que lhe dê a cabeça e, por outro lado, o cavaleiro faz o seu pedido, apelando à sua piedade e bondade. E, uma vez que ele o implorou, não deverá receber misericórdia? Sim, pois nunca aconteceu que, quando ele derrotou um inimigo e o forçou a pedir misericórdia, ele recusasse tal pedido ou guardasse rancor. Sendo este o seu costume, ele não recusará a sua misericórdia àquele que agora a implora e pede. E deverá ela ter a cabeça que cobiça? Sim, se for possível. "Cavaleiro", diz ele, "é necessário que lutes comigo novamente, e se te importares de defender a tua cabeça de novo, mostrar-te-ei tal misericórdia que te permitirei retomar o elmo; e dar-te-ei tempo para armares o teu corpo e a tua cabeça da melhor maneira possível. Mas, se eu te conquistar de novo, sabe que morrerás certamente." E ele responde: "Não desejo nada melhor do que isso, e não peço mais nenhum favor." "E dar-te-ei esta vantagem", acrescenta ele: "Lutarei contigo como estou, sem mudar a minha posição atual." Então, o outro cavaleiro prepara-se e começam a luta novamente com avidez. Mas, desta vez, o cavaleiro triunfou mais rapidamente do que o fizera da primeira vez. E a donzela grita imediatamente: "Não o poupes, cavaleiro, por nada do que ele te possa dizer. Certamente ele não te teria poupado, se te tivesse derrotado. Se deres atenção ao que ele diz, tem a certeza de que ele te enganará de novo. Belo cavaleiro, corta a cabeça do homem mais infiel do império e do reino, e dá-ma! Deverias apresentar-ma, tendo em conta a recompensa que pretendo dar-te. Pois outro dia poderá muito bem vir em que, se ele puder, ele te enganará de novo com as suas palavras." Ele, pensando que o seu fim está próximo, grita-lhe por misericórdia; mas o seu grito não serve de nada, nem tudo o que ele pode dizer. O outro arrasta-o pelo elmo, rasgando todo o aperto, e derruba-lhe da cabeça o camail e a coifa reluzente. Então, ele grita ainda mais alto: "Misericórdia, por amor de Deus! Misericórdia, senhor!" Mas o outro responde: "Que Deus me ajude, nunca mais terei piedade de ti, depois de te ter deixado escapar uma vez." "Ah", diz ele, "faríeis mal em dar ouvidos ao meu inimigo e matar-me assim." Enquanto ela, decidida sobre a sua morte, adverte-o para cortar a sua cabeça e não acreditar numa palavra do que ele diz. Ele desfere o golpe: a cabeça voa pelo relvado e o corpo cai. Então, a donzela fica satisfeita e contente. Segurando a cabeça pelos cabelos, o cavaleiro apresenta-a à donzela, que a recebe alegremente com as palavras: "Que o teu coração receba tal deleite de tudo o que mais deseja como o meu coração agora recebe do que eu mais cobiçava. Eu tinha apenas uma dor na vida, e era que este homem ainda estivesse vivo. Tenho uma recompensa reservada para ti que receberás no momento apropriado. Prometo-te que terás uma recompensa digna pelo serviço que me prestaste. Agora irei embora, com a prece de que Deus te guarde de qualquer mal." Então, a donzela deixa-o, enquanto cada um recomenda o outro a Deus. Mas todos aqueles que tinham visto a batalha na planície estão cheios de alegria e, na sua alegria, libertam de imediato o cavaleiro da sua armadura e honram-no de todas as formas que podem. Depois, lavam as mãos novamente e ocupam os seus lugares à refeição, que comem com melhor ânimo do que o habitual. Quando já comiam há algum tempo, o gentil homem virou-se para o seu hóspede ao lado e disse: "Senhor, há muito tempo viemos para aqui do reino de Logres. Nascemos vossos compatriotas e gostaríamos de vos ver ganhar honra, fortuna e alegria neste país; pois lucraríamos com isso, assim como vós, e seria de vantagem para muitos outros se ganhásseis honra e fortuna na empresa que empreendestes nesta terra." E ele responde: "Que Deus ouça o vosso desejo."
Quando o anfitrião baixou a voz e cessou de falar, um de seus filhos seguiu-o e disse: "Senhor, deveríamos colocar todos os nossos recursos ao vosso serviço, e oferecê-los de pronto em vez de prometê-los; se tendes qualquer necessidade de nossa assistência, não deveríamos esperar até que a peça. Senhor, não vos preocupeis com vosso cavalo que está morto. Temos aqui cavalos bons e fortes. Quero que tomeis tudo o que for nosso de que precisardes, e escolhereis o melhor de nossos cavalos em lugar do vosso." E ele responde: "Aceito de bom grado." Em seguida, mandam preparar as camas e retiram-se para a noite. Na manhã seguinte, levantam-se cedo e vestem-se, após o que se preparam para partir. Ao sair, não falham em nenhum ato de cortesia, mas despedem-se da senhora, de seu senhor e de todos os outros. Mas, para não omitir nada, devo notar que o cavaleiro não quis montar o corcel emprestado que estava pronto à porta; antes, fez com que fosse montado por um dos dois cavaleiros que tinham vindo com ele, enquanto tomava o cavalo deste último, pois assim lhe aprazia mais fazer. Quando cada um estava montado em seu cavalo, pediram licença para partir de seu anfitrião, que os servira tão honrosamente. Então, cavalgam pela estrada até que o dia chega ao fim, e tarde da tarde chegam à ponte da espada.
No fim desta ponte muito difícil, desmontam de seus corcéis e contemplam o riacho de aspecto perverso, que é tão veloz e furioso, tão negro e túrgido, tão feroz e terrível como se fosse o riacho do diabo; e é tão perigoso e sem fundo que qualquer coisa que nele caísse estaria tão completamente perdida como se caísse no mar salgado. E a ponte, que o atravessa, é diferente de qualquer outra ponte; pois nunca houve uma como esta. Se alguém me pedir a verdade, nunca houve uma ponte tão má, nem uma cujo piso fosse tão ruim. A ponte sobre o riacho frio consistia em uma espada polida e reluzente; mas a espada era robusta e rígida, e era tão longa quanto duas lanças. Em cada extremidade havia um tronco de árvore no qual a espada estava firmemente fixada. Ninguém precisa temer cair por ela quebrar ou dobrar, pois sua excelência era tal que podia suportar um grande peso. Mas os dois cavaleiros que estavam com o terceiro ficaram muito desanimados; pois supuseram que dois leões ou dois leopardos seriam encontrados amarrados a uma grande rocha na outra extremidade da ponte. A água, a ponte e os leões combinam-se para aterrorizá-los de tal forma que ambos tremem de medo e dizem: "Belo senhor, considerai bem o que vos confronta; pois é necessário e preciso fazê-lo. Esta ponte é mal feita e construída, e a construção dela é má. Se não mudardes de ideia a tempo, será tarde demais para se arrepender. Deveis considerar qual das várias alternativas escolhereis. Suponhamos que consigais atravessar (mas isso não pode acontecer, da mesma forma que alguém poderia segurar os ventos e proibi-los de soprar, ou impedir os pássaros de cantar, ou entrar novamente no ventre de sua mãe e nascer de novo — tudo o que é tão impossível quanto esvaziar o mar de sua água); mas, mesmo supondo que atravesseis, podeis pensar e supor que aqueles dois leões ferozes que estão acorrentados do outro lado não vos matarão, sugarão o sangue de vossas veias, comerão vossa carne e depois roerão vossos ossos? Por minha parte, sou ousado o suficiente apenas ao atrever-me a olhar e contemplá-los. Se não tiverdes cuidado, eles certamente vos devorarão. Vosso corpo logo será dilacerado e despedaçado, pois eles não vos mostrarão misericórdia. Portanto, tende piedade de nós agora e ficai aqui em nossa companhia! Seria errado vos expordes intencionalmente a tal perigo mortal." E ele, rindo, responde-lhes: "Cavalheiros, recebei meus agradecimentos e gratidão pela preocupação que sentis por mim: ela vem de vosso amor e corações gentis. Sei muito bem que não gostaríeis de ver qualquer infortúnio acontecer-me; mas tenho fé e confiança em Deus, que Ele me protegerá até o fim. Não temo a ponte e o riacho mais do que temo esta terra firme; então pretendo preparar-me e fazer a perigosa tentativa de atravessar. Prefiro morrer a voltar atrás agora." Os outros não têm mais nada a dizer; mas cada um chora de piedade e solta um suspiro. Enquanto isso, ele se prepara, da melhor maneira que pode, para atravessar o riacho, e faz uma coisa muito maravilhosa ao remover a armadura de seus pés e mãos. Ele estará em um estado deplorável quando chegar ao outro lado. Ele vai se apoiar com suas mãos e pés nus sobre a espada, que era mais afiada que uma foice, pois não mantivera em seus pés nem sola, nem parte superior, nem meias. Mas ele não sentiu medo de feridas em suas mãos ou pés; preferiu mutilar-se a cair da ponte e ser mergulhado na água da qual nunca poderia escapar. De acordo com essa determinação, ele passa com grande dor e agonia, sendo ferido nas mãos, joelhos e pés. Mas até esse sofrimento é doce para ele: pois o Amor, que o conduz e o guia, ameniza e alivia a dor. Rastejando sobre suas mãos, pés e joelhos, ele prossegue até chegar ao outro lado. Então ele recorda e relembra os dois leões que pensou ter visto do outro lado; mas, ao olhar em volta, não vê nem mesmo um lagarto ou qualquer outra coisa para lhe causar dano. Ele levanta a mão diante do rosto e olha para seu anel, e por este teste ele prova que nenhum dos leões está lá, os quais pensou ter visto, e que tinha sido enfeitiçado e enganado; pois não havia uma criatura viva ali. Quando aqueles que tinham permanecido para trás na margem viram que ele tinha atravessado em segurança, sua alegria foi natural; mas eles não sabem de seus ferimentos. Ele, no entanto, considera-se afortunado por não ter sofrido nada pior. O sangue de suas feridas pinga em sua camisa por todos os lados. Então ele vê diante de si uma torre, que era tão forte que nunca tinha visto uma tão forte antes: de fato, não poderia ter havido uma torre melhor. Na janela estava sentado o Rei Bademagu, que era muito escrupuloso e preciso sobre questões de honra e do que era certo, e que era cuidadoso em observar e praticar a lealdade acima de tudo; e ao lado dele estava seu filho, que sempre fazia exatamente o oposto na medida do possível, pois encontrava seu prazer na deslealdade e nunca se cansava da vilania, traição e felonia. De seu ponto de vantagem, eles tinham visto o cavaleiro atravessar a ponte com dificuldade e dor. A cor de Meleagant mudou com a raiva e o desprazer que sentiu; pois ele sabe agora que será desafiado pela Rainha; mas seu caráter era tal que não temia nenhum homem, por mais forte ou formidável que fosse. Se ele não fosse vil e desleal, não poderia ser encontrado cavaleiro melhor; mas ele tinha um coração de madeira, sem gentileza e piedade. O que enfureceu seu filho e despertou sua ira, tornou o rei feliz e contente. O rei sabia, na verdade, que aquele que tinha atravessado a ponte era muito melhor do que qualquer outro. Pois ninguém ousaria atravessá-la em quem habitasse qualquer natureza maligna que traz mais vergonha aos que a possuem do que a proeza traz de honra aos virtuosos. Pois a proeza não pode realizar tanto quanto a maldade e a preguiça podem fazer: é verdade, além de qualquer dúvida, que é possível fazer mais mal do que bem.
Eu poderia dizer mais sobre esses dois pontos, se isso não me causasse atraso. Mas devo passar a outra coisa e retomar meu assunto, e vós ouvireis como o rei fala proveitosamente a seu filho: "Filho", diz ele, "foi afortunado que tu e eu viemos olhar por esta janela; nossa recompensa foi testemunhar o feito mais ousado que já entrou na mente do homem. Dize-me agora se não estás bem disposto para com ele que realizou tal feito maravilhoso. Faz a paz e reconcilia-te com ele, e entrega a Rainha em suas mãos. Não ganharás glória alguma em batalha com ele, mas antes poderás incorrer em grande perda. Mostra-te cortês e sensato, e envia a Rainha para encontrá-lo antes que ele te veja. Mostra-lhe honra nesta tua terra e, antes que ele a peça, apresenta-lhe o que ele veio buscar. Tu sabes muito bem que ele veio pela Rainha Guinevere. Não ajas de modo que as pessoas te considerem obstinado, tolo ou orgulhoso. Se este homem entrou em tua terra sozinho, tu deverias fazer-lhe companhia, pois um cavalheiro não deveria evitar outro, mas antes atraí-lo e honrá-lo com cortesia. Recebe-se honra ao mostrá-la; tem certeza de que a honra será tua, se fizeres honra e serviço a ele que é claramente o melhor cavaleiro do mundo." E ele responde: "Que Deus me confunda, se não há um cavaleiro tão bom, ou até melhor que ele!" Foi uma pena que ele não mencionou a si mesmo, de quem não tem opinião baixa. E ele acrescenta: "Suponho que quereis que eu junte minhas mãos e me ajoelhe diante dele como seu vassalo, e que mantenha minhas terras dele? Que Deus me ajude, eu preferiria tornar-me seu homem do que entregar-lhe a Rainha! Deus me livre de que de tal maneira eu a entregue a ele! Ela nunca será entregue por mim, mas antes contestada e defendida contra todos que são tão tolos a ponto de ousar vir em busca dela." Então, novamente o rei diz a ele: "Filho, tu agirias muito cortesmente ao renunciar a esta pretensão. Aconselho-te e suplico-te que mantenhas a paz. Tu sabes bem que a honra pertencerá ao cavaleiro, se ele ganhar a Rainha de ti em batalha. Ele sem dúvida preferiria ganhá-la em batalha do que como um presente, pois assim aumentará sua fama. É minha opinião que ele está buscando-a, não para recebê-la pacificamente, mas porque deseja ganhá-la pela força das armas. Então seria sábio de tua parte privá-lo da satisfação de lutar contigo. Lamento ver-te tão tolo; mas se não deres ouvidos ao meu conselho, o mal virá disso, e o infortúnio resultante será pior para ti. Pois o cavaleiro não precisa temer hostilidade de ninguém aqui, exceto de ti. Em meu nome e de todos os meus homens, conceder-lhe-ei uma trégua e segurança. Nunca fiz um ato desleal ou pratiquei traição e felonia, e não começarei a fazê-lo agora por tua causa, mais do que o faria por qualquer estranho. Não desejo adular-te, pois prometo que ao cavaleiro não faltará armas, ou cavalo ou qualquer outra coisa de que precise, tendo em vista a audácia que demonstrou ao vir até aqui. Ele será seguramente guardado e bem defendido contra todos os homens aqui, exceto tu. Quero que ele entenda claramente que, se puder manter-se contra ti, não precisa ter medo de mais ninguém." "Ouvi-vos em silêncio por tempo suficiente", diz Meleagant, "e podeis dizer o que vos aprouver. Mas pouco me importa tudo o que dizeis. Não sou um eremita, nem tão compassivo e caridoso, e não tenho desejo de ser tão honrado a ponto de dar-lhe o que mais amo. Sua tarefa não será realizada tão rápida ou tão facilmente; antes, acontecerá o contrário do que vós e ele esperais. Vós e eu não precisamos discutir porque vós o ajudais contra mim. Mesmo que ele desfrute de paz e trégua convosco e todos os vossos homens, o que isso importa para mim? Meu coração não vacila por causa disso; antes, que Deus me ajude, estou contente que ele não precise se preocupar com ninguém aqui, exceto comigo; não desejo que façais por mim nada que possa ser interpretado como deslealdade ou traição. Sede tão compassivo quanto quiserdes, mas deixai-me ser cruel." "O quê? Não mudarás de ideia?" "Não", diz ele. "Então não direi mais nada. Deixar-te-ei sozinho para fazeres o teu melhor e irei agora falar com o cavaleiro. Desejo oferecer e apresentar-lhe minha ajuda e conselho em todos os aspectos; pois estou inteiramente do lado dele."
Então o rei desce e ordena que tragam seu cavalo. Um grande corcel é trazido a ele, sobre o qual ele salta pelo estribo, e parte com alguns de seus homens: três cavaleiros e dois escudeiros ele ordenou que fossem com ele. Eles não pararam sua cavalgada descendo a colina até chegarem à ponte, onde o veem estancando suas feridas e limpando o sangue delas. O rei espera mantê-lo como seu convidado por um longo tempo enquanto suas feridas cicatrizam; mas ele poderia muito bem esperar drenar o mar. O rei apressa-se a desmontar, e ele, que estava gravemente ferido, levantou-se imediatamente para encontrá-lo, embora não o conhecesse, e não deu mais evidências da dor que sentia em seus pés e mãos do que se estivesse realmente são. O rei vê que ele está se esforçando e corre rapidamente para cumprimentá-lo com as palavras: "Senhor, estou muito espantado por terdes caído sobre nós nesta terra. Mas sede bem-vindo, pois ninguém jamais repetirá a tentativa: nunca aconteceu no passado, e nunca acontecerá no futuro que alguém realize um feito tão árduo ou se exponha a tal perigo. E sabei que vos admiro muito por terdes executado o que ninguém antes ousou conceber. Encontrar-me-eis muito bem disposto, leal e cortês para convosco. Sou o rei desta terra e ofereço-vos livremente todo o meu conselho e serviço; e penso que sei muito bem o que viestes buscar aqui. Vós viestes, estou certo, para buscar a Rainha." "Senhor", responde ele, "vossa suposição está correta; nenhuma outra causa me traz aqui." "Amigo, deveis sofrer dificuldades para obtê-la", responde ele; "e estais gravemente ferido, como vejo pelas feridas e pelo sangue que flui. Não encontrareis aquele que a trouxe para cá tão generoso a ponto de entregá-la sem uma luta; mas deveis esperar e cuidar de vossas feridas até que estejam completamente curadas. Dar-vos-ei um pouco da pomada das 'três Marias', e algo ainda melhor, se puder ser encontrado, pois estou muito solícito quanto ao vosso conforto e vossa recuperação. E a Rainha está tão confinada que nenhum homem mortal tem acesso a ela — nem mesmo meu filho, que a trouxe aqui consigo e que se ressente de tal tratamento, pois nunca houve um homem tão fora de si e tão desesperado como ele. Mas estou bem disposto para convosco e dar-vos-ei de bom grado, que Deus me ajude, tudo de que precisardes. Meu próprio filho não terá armas tão boas que eu não vos darei algumas que sejam tão boas quanto, e um cavalo também, tal como precisareis, embora meu filho fique zangado comigo. Apesar dos sentimentos de qualquer um, eu vos protegerei contra todos os homens. Não tereis motivo para temer ninguém, exceto aquele que trouxe a Rainha para cá. Nenhum homem jamais ameaçou outro como eu o ameacei, e estive perto de expulsá-lo de minha terra, em meu desprazer porque ele não quer entregá-la a vós. Certamente, ele é meu filho; mas não vos preocupeis, pois a menos que ele vos derrote em batalha, ele nunca poderá vos fazer o menor mal contra minha vontade." "Senhor", diz ele, "agradeço-vos. Mas estou perdendo tempo aqui que não quero desperdiçar. Não tenho motivo para reclamar e não tenho ferida que me esteja causando dor. Levai-me onde possa encontrá-lo; pois com as armas que tenho, estou pronto para me divertir dando e recebendo golpes." "Amigo, seria melhor esperardes duas ou três semanas até que vossas feridas estejam curadas, pois seria bom para vós esperar aqui pelo menos duas semanas, e de forma alguma eu poderia permitir, ou assistir, enquanto lutásseis em minha presença com tais armas e com tal equipamento." E ele responde: "Com vossa permissão, nenhuma outra arma seria usada a não ser estas, pois eu preferiria lutar com elas, e eu não pediria o menor adiamento, interrupção ou demora. Contudo, em deferência a vós, consentirei em esperar até amanhã; mas apesar do que qualquer um possa dizer, não esperarei mais." Então o rei assegurou-lhe que tudo seria feito como ele desejava; então ele manda preparar o alojamento e solicita insistentemente aos seus homens, que estão na companhia, que o sirvam, o que eles fazem devotadamente. E o rei, que teria feito a paz de bom grado, se fosse possível, foi imediatamente ao seu filho e falou com ele como alguém que deseja paz e harmonia, dizendo: "Belo filho, reconcilia-te agora com este cavaleiro sem uma luta! Ele não veio aqui para se divertir ou para caçar ou perseguir, mas ele vem em busca de honra e para aumentar sua fama e renome, e vi que ele precisa muito de descanso. Se ele tivesse aceitado meu conselho, não teria imprudentemente empreendido, nem este mês nem o próximo, a batalha que ele tanto deseja. Se tu entregares a Rainha a ele, temes alguma desonra no ato? Não tenhas medo disso, pois nenhuma culpa pode ser atribuída a ti; antes, é errado manter aquilo a que não se tem direito legítimo. Ele teria entrado de bom grado na batalha imediatamente, embora suas mãos e pés não estejam sãos, mas cortados e feridos." Meleagant responde ao seu pai assim: "Sois tolo por se preocupar. Pela fé que devo a São Pedro, não aceitarei vosso conselho nesta questão. Eu mereceria ser despedaçado por cavalos, se seguisse vosso conselho. Se ele está buscando sua honra, eu também busco a minha; se ele está em busca de glória, eu também; se ele está ansioso pela batalha, eu também o estou cem vezes mais do que ele." "Vejo claramente", diz o rei, "que tu estás determinado em teu empreendimento louco, e terás teu preenchimento dele. Já que tal é teu prazer, amanhã tu tentarás tua força com o cavaleiro." "Que nenhuma dificuldade maior me visite jamais do que essa!" Meleagant responde; "Eu preferiria muito mais que fosse hoje do que amanhã. Vede apenas o quanto estou mais abatido do que o habitual! Meus olhos estão selvagens e meu rosto está pálido! Não terei alegria ou satisfação ou qualquer motivo para felicidade até que esteja realmente engajado com ele."
O rei compreende que conselhos e preces adicionais não servem de nada, então relutantemente deixa seu filho e, tomando um bom e forte cavalo e belas armas, envia-os àquele que bem as merece, junto com um cirurgião que era um homem leal e cristão. Não havia no mundo homem mais de confiança, e ele era mais habilidoso na cura de ferimentos do que todos os doutores de Montpellier. Naquela noite ele tratou o cavaleiro o melhor que pôde, de acordo com a ordem do rei. As notícias já eram conhecidas pelos cavaleiros e donzelas, pelas damas e barões de toda a região, e durante toda a noite até o amanhecer, estranhos e amigos faziam longas jornadas de todo o campo ao redor. Quando a manhã chegou, havia tal aglomeração diante do castelo que não havia espaço para mover um pé. E o rei, levantando-se cedo em sua aflição pela batalha, vai diretamente ao seu filho, que já havia atado sobre sua cabeça o elmo que era de fabricação de Poitiers. Nenhum atraso ou paz é possível, pois, embora o rei tenha feito o seu melhor, seus esforços não surtiram efeito. No meio da praça do castelo, onde todo o povo está reunido, a batalha será travada em conformidade com o desejo e a ordem do rei. O rei envia imediatamente pelo cavaleiro estranho, e ele é conduzido ao terreno que estava cheio de pessoas do reino de Logres. Pois, assim como as pessoas estão acostumadas a ir à igreja para ouvir o órgão nos dias festivos anuais de Pentecostes ou Natal, assim todos eles haviam se reunido agora. Todas as donzelas estrangeiras do reino do Rei Arthur haviam jejuado por três dias e andado descalças em suas túnicas, para que Deus pudesse dotar de força e coragem o cavaleiro que iria lutar contra seu adversário em nome dos cativos. Muito cedo, antes que a prima tivesse soado, ambos os cavaleiros totalmente armados foram levados ao local, montados em dois cavalos igualmente protegidos. Meleagant era muito gracioso, alerta e bem-formado; a cota de malha com suas finas tramas, o elmo e o escudo pendurado em seu pescoço — tudo isso lhe caía bem. Todos os espectadores, no entanto, favoreciam o outro cavaleiro, até mesmo aqueles que lhe desejavam mal, e diziam que Meleagant não valia nada comparado a ele. Assim que ambos estavam no solo, o rei vem e os detém o máximo possível em um esforço para fazer a paz entre eles, mas ele é incapaz de persuadir seu filho. Então ele lhes diz: "Mantenham seus cavalos até que eu alcance o topo da torre. Será apenas um pequeno favor, se me esperarem tanto tempo." Então, em tom melancólico, ele os deixa e vai diretamente ao lugar onde sabia que encontraria a Rainha. Ela lhe havia implorado na noite anterior para colocá-la onde pudesse ter uma visão desobstruída da batalha; ele lhe concedera o benefício, e foi agora buscá-la, pois estava muito ansioso para lhe mostrar honra e cortesia. Ele a colocou em uma janela e tomou seu lugar em outra janela à direita dela. Ao lado deles, estavam reunidos muitos cavaleiros e damas prudentes e donzelas, que eram nativas daquela terra; e havia muitos outros, que eram cativos, e que estavam concentrados em suas orações e preces. Aqueles que eram prisioneiros oravam por seu senhor, pois a Deus e a ele confiavam seu socorro e libertação. Então os combatentes, sem demora, fazem com que todo o povo se afaste; então eles colidem os escudos com os cotovelos, e enfiam os braços nas correias, e esporam um contra o outro tão violentamente que cada um envia sua lança a dois comprimentos de braço através do escudo de seu oponente, fazendo com que a lança se parta e se fragmente como uma faísca voadora. E os cavalos se encontram de frente, chocando peito contra peito, e os escudos e elmos colidem com tal barulho que parece um poderoso estrondo de trovão; nenhuma correia de peito, cilha, rédea ou sobrecilha permanece intacta, e os arcos da sela, embora fortes, são partidos em pedaços. Os combatentes não sentiram vergonha em cair na terra, diante de seus infortúnios, mas rapidamente saltam para seus pés e, sem perder tempo com palavras ameaçadoras, avançam um contra o outro mais ferozmente do que dois javalis selvagens, e desferem grandes golpes com suas espadas de aço como homens cujo ódio é violento. Repetidamente eles aparam os elmos e as brilhantes cotas de malha tão ferozmente que, após a espada, o sangue jorra. Eles proporcionaram uma batalha excelente, de fato, enquanto atordoavam e feriam um ao outro com seus golpes pesados e cruéis. Muitos combates ferozes, duros e longos eles sustentaram com igual honra, de modo que os espectadores não podiam discernir vantagem de nenhum dos lados. Mas era inevitável que aquele que havia atravessado a ponte estivesse muito enfraquecido por suas mãos feridas. O povo que estava ao lado dele estava muito consternado, pois notam que seus golpes estão se tornando mais fracos, e temem que ele leve a pior; parecia-lhes que ele estava enfraquecendo, enquanto Meleagant triunfava, e começaram a murmurar por toda parte. Mas lá na janela da torre havia uma donzela sábia que pensou consigo mesma que o cavaleiro não havia empreendido a batalha nem por sua conta, nem por causa da multidão que se reunira em torno da arena, mas que seu único incentivo havia sido a Rainha; e ela pensou que, se ele soubesse que ela estava na janela vendo-o e observando-o, sua força e coragem aumentariam. E se ela soubesse seu nome, teria alegremente chamado por ele para que olhasse ao seu redor. Então ela veio até a Rainha e disse: "Minha senhora, pelo amor de Deus e pelo seu próprio, assim como pelo nosso, suplico-lhe que me diga, se souber, o nome daquele cavaleiro, para que possa ser de alguma ajuda a ele." "Donzela", responde a Rainha, "você me fez uma pergunta na qual não vejo ódio ou maldade, mas sim boa intenção; o nome do cavaleiro, eu sei, é Lancelot do Lago." "Deus, quão feliz e alegre de coração eu estou!", diz a donzela. Então ela se inclina para frente e chama por ele pelo nome tão alto que todo o povo ouve: "Lancelot, vira-te e vê quem está aqui observando-te!"
Quando Lancelot ouviu seu nome, não demorou a se virar: ele se volta e vê sentada lá em cima na janela da torre aquela a quem ele mais desejava ver no mundo. Desde o momento em que a avistou, ele não se virou nem desviou seus olhos e rosto dela, defendendo-se com golpes de costas. E Meleagant, enquanto isso, atacava-o tão ferozmente quanto podia, encantado ao pensar que o outro não pode resistir a ele agora; e os do país também estão muito satisfeitos, enquanto os estrangeiros estão tão angustiados que não podem mais se sustentar, e muitos deles caem na terra, seja de joelhos ou estirados no chão; assim, alguns estão felizes e outros angustiados. Então a donzela gritou novamente da janela: "Ah, Lancelot, como é que tu te comportas agora tão tolamente? Outrora tu foste a personificação da proeza e de tudo o que é bom, e não penso que Deus jamais fez um cavaleiro que pudesse igualar-te em valor e em mérito. Mas agora vemos-te tão angustiado que desferes golpes de costas e lutas contra teu adversário, por trás de ti. Vira-te, de modo a estar do outro lado, e para que possas ficar de frente para esta torre, pois isso te ajudará a mantê-la à vista." Então Lancelot fica tão envergonhado e mortificado que odeia a si mesmo, pois sabe muito bem que todos viram como, há algum tempo, ele tem levado a pior na luta. Então ele salta para trás e manobra de forma a forçar Meleagant a uma posição entre ele e a torre. Meleagant faz todos os esforços para recuperar sua posição anterior. Mas Lancelot avança sobre ele e golpeia-o tão violentamente em seu corpo e escudo sempre que ele tenta contorná-lo, que o obriga a girar duas ou três vezes, apesar de si mesmo. A força e a coragem de Lancelot crescem, em parte porque ele tem o auxílio do amor, e em parte porque ele nunca odiou ninguém tanto quanto aquele com quem está engajado. Amor e ódio mortal, tão ferozes que nunca antes tal ódio foi visto, tornam-no tão ardente e ousado que Meleagant para de tratar aquilo como uma brincadeira e começa a sentir temor dele, pois nunca havia encontrado ou conhecido um cavaleiro tão valente, nem qualquer cavaleiro jamais o havia ferido ou prejudicado como este faz. Ele fica feliz em se afastar dele, e ele se encolhe e desvia, temendo seus golpes e evitando-os. E Lancelot não o ameaça em vão, mas impulsiona-o rapidamente em direção à torre onde a Rainha estava posicionada em vigília. Lá, na torre, ele lhe prestou a homenagem de seus golpes até chegar tão perto que, se avançasse mais um passo, perderia a visão dela. Assim, Lancelot levou-o para frente e para trás repetidamente em qualquer direção que desejasse, parando sempre diante da Rainha, sua senhora, que havia acendido a chama que o obriga a fixar seu olhar nela. E essa mesma chama o incitou tanto contra Meleagant que ele foi capaz de conduzi-lo e impulsioná-lo para onde quisesse. Apesar de si mesmo, ele o guia como um homem cego ou um homem com uma perna de pau. O rei vê seu filho tão pressionado que sente pena dele e compadece-se, e não lhe negará ajuda e assistência se possível; mas se ele deseja proceder com cortesia, deve primeiro pedir a permissão da Rainha. Então ele começou a dizer-lhe: "Minha senhora, desde que a tive em meu poder, amei-a e fiel e honradamente a servi. Nunca conscientemente deixei nada por fazer em que vi que sua honra estava envolvida; agora retribua-me pelo que fiz. Pois estou prestes a lhe pedir um favor que você não deve conceder a menos que o faça de bom grado. Vejo claramente que meu filho está levando a pior nesta batalha; não falo assim por causa do desgosto que sinto, mas para que Lancelot, que o tem em seu poder, não o mate. Nem você deveria desejar vê-lo morto; não porque ele não tenha errado tanto com você quanto com ele, mas porque eu faço o pedido a você: então diga-lhe, por favor, para parar de golpeá-lo. Se você quiser, pode assim retribuir-me pelo que fiz por você." "Belo senhor, estou disposta a fazê-lo a seu pedido", responde a Rainha; "tivesse eu ódio mortal por seu filho, a quem é verdade que não amo, contudo você me serviu tão bem que, para agradá-lo, estou muito disposta a que ele desista." Estas palavras não foram ditas em particular, mas Lancelot e Meleagant ouviram o que foi dito. O homem que é um amante perfeito é sempre obediente e rápida e alegremente faz o prazer de sua senhora. Assim, Lancelot foi constrangido a fazer a vontade de sua Senhora, pois ele amava mais que Píramo, se isso fosse possível para qualquer homem. Lancelot ouviu o que foi dito, e assim que a última palavra saiu de sua boca, "já que você deseja que ele desista, estou disposta a que ele o faça", Lancelot não o teria tocado ou feito um movimento por nada, mesmo que o outro o tivesse matado. Ele não o toca nem levanta a mão. Mas Meleagant, fora de si de raiva e vergonha quando ouve que foi necessário interceder em seu favor, golpeia-o com toda a força que consegue reunir. E o rei desceu da torre para repreender seu filho e, entrando na arena, dirigiu-se a ele assim: "Como é isso? É apropriado golpeá-lo quando ele não está tocando em ti? Tu és cruel e selvagem demais, e tua proeza está agora fora de lugar! Pois todos nós sabemos sem dúvida que ele é teu superior." Então Meleagant, sufocando de vergonha, diz ao rei: "Penso que você deve estar cego! Não acredito que você veja uma coisa. Alguém deve realmente estar cego para pensar que não sou melhor que ele." "Procure alguém para acreditar em tuas palavras!", responde o rei, "pois todo o povo sabe se tu dizes a verdade ou uma mentira. Todos nós sabemos muito bem a verdade." Então o rei ordena que seus barões levem seu filho embora, o que fazem imediatamente em execução de sua ordem: levaram Meleagant. Mas não foi necessário usar força para induzir Lancelot a recuar, pois Meleagant poderia tê-lo ferido gravemente antes que ele buscasse se defender. Então o rei diz a seu filho: "Assim me ajude Deus, agora tu deves fazer as pazes e entregar a Rainha. Tu deves cessar esta disputa de uma vez por todas e retirar tua reivindicação." "Isso é uma grande tolice que disseste! Ouço-te falar tolamente. Afasta-te! Vamos lutar, e não te metas em nossos assuntos!" Mas o rei diz que irá intervir, pois sabe bem que, se a luta continuasse, Lancelot mataria seu filho. "Ele matar-me! Antes eu logo o derrotaria e o mataria, se tu nos deixasses em paz e nos deixasses lutar." Então o rei diz: "Assim me ajude Deus, tudo o que tu dizes é inútil." "Por que isso?", ele pergunta. "Porque eu não consentirei. Não confiarei tanto em tua tolice e orgulho a ponto de permitir que sejas morto. Um homem é um tolo ao buscar a morte, como tu fazes em tua ignorância. Sei bem que tu me odeias porque desejo salvar tua vida. Deus não me deixará ver e testemunhar tua morte, se eu puder evitar, pois isso me causaria tristeza demais." Ele fala com ele e o repreende até que finalmente a paz e a boa vontade são restauradas. Os termos da paz são estes: ele entregará a Rainha a Lancelot, desde que este, sem relutância, lute contra eles novamente dentro de um ano a partir do momento em que escolher convocá-lo: isso não é uma provação para Lancelot. Quando a paz é feita, todo o povo se aglomera, e decide-se que a batalha será travada na corte do Rei Arthur, que mantém a Grã-Bretanha e a Cornualha sob seu domínio: lá eles decidem que deverá ser. E a Rainha tem de consentir, e Lancelot tem de prometer, que se Meleagant puder provar que ele é um covarde, ela voltará com ele novamente sem a interferência de ninguém. Quando a Rainha e Lancelot ambos concordaram com isso, o arranjo foi concluído, e ambos se retiraram e removeram suas armas. Ora, o costume na terra era que quando um saía, todos os outros poderiam fazê-lo também. Todos invocaram bênçãos sobre Lancelot: e você pode saber que ele deve ter sentido grande alegria, como na verdade sentiu. Todos os estrangeiros se reúnem e se regozijam por Lancelot, falando de modo a serem ouvidos por ele: "Senhor, em verdade ficamos alegres assim que ouvimos seu nome, pois sentimos certeza imediata de que seríamos todos libertados." Havia uma grande multidão presente nesta cena alegre, enquanto cada um se esforça e se pressiona para frente para tocá-lo, se possível. Qualquer um que conseguisse tocá-lo ficava mais encantado do que poderia dizer. Havia muita alegria, e tristeza também; aqueles que foram libertados agora regozijavam-se sem restrições; mas Meleagant e seus seguidores não têm nada do que querem, mas estão pensativos, sombrios e abatidos. O rei se afasta da arena, levando consigo Lancelot, que lhe implora que o leve até a Rainha. "Não deixarei de fazê-lo", responde o rei; "pois me parece a coisa certa a fazer. E se você quiser, lhe mostrarei Kay, o senescal." Com isso, Lancelot fica tão feliz que quase cai a seus pés. Então o rei o levou imediatamente para o salão, onde a Rainha viera esperá-lo.
Quando a Rainha viu o rei segurando Lancelot pela mão, ela se levantou diante do rei, mas ela parecia desapontada, com a testa nublada, e não disse uma palavra. "Minha senhora, aqui está Lancelot que veio vê-la", diz o rei; "você deveria estar satisfeita e contente." "Eu, senhor? Ele não pode me agradar. Não me importo em vê-lo." "Ora, minha senhora", diz o rei, que era muito franco e cortês, "o que a leva a agir assim? Você é desdenhosa demais com um homem que a serviu tão fielmente que expôs repetidamente sua vida a perigo mortal nesta jornada por sua causa, e que a defendeu e resgatou de meu filho Meleagant, que a havia ofendido profundamente." "Senhor, verdadeiramente ele fez mau uso de seu tempo. Nunca negarei que não sinto gratidão alguma por ele." Agora Lancelot está perplexo; mas ele responde muito humildemente, como um amante refinado: "Minha senhora, certamente estou entristecido com isso, mas não ouso perguntar a razão." A Rainha ouviu enquanto Lancelot expressava seu desapontamento, mas para entristecê-lo e confundi-lo, ela não quis responder uma única palavra, mas retornou ao seu aposento. E Lancelot seguiu-a com seus olhos e coração até que ela chegou à porta; mas ela não permaneceu muito tempo à vista, pois o aposento era perto. Seus olhos teriam alegremente seguido-a, se isso fosse possível; mas o coração, que é mais senhorial e dominador em sua força, atravessou a porta atrás dela, enquanto os olhos permaneciam para trás, chorando com o corpo. E o rei disse privadamente a ele: "Lancelot, estou espantado com o que isso significa: e como acontece que a Rainha não pode suportar a visão de você, e que ela está tão relutante em falar com você. Se ela está acostumada a falar com você, não deveria ser mesquinha agora ou evitar a conversa com você, depois do que você fez por ela. Agora diga-me, se souber, por que e por que desobediência ela lhe mostrou tal semblante." "Senhor, não notei isso agora pouco; mas ela não quer olhar para mim ou ouvir minhas palavras, e isso me angustia e entristece muito." "Certamente", diz o rei, "ela está errada, pois você arriscou sua vida por ela. Venha agora, belo doce amigo, e iremos falar com o senescal." "Ficarei feliz em fazê-lo", ele responde. Então ambos vão até o senescal. Assim que Lancelot chegou onde ele estava, a primeira exclamação do senescal foi: "Como tu me envergonhaste!" "Eu? Como assim?", Lancelot indaga; "dize-me que desgraça eu trouxe sobre ti?" "Uma desgraça muito grande, pois tu realizaste o que eu não pude realizar, e tu fizeste o que eu não pude fazer."
Então o rei deixou-os a sós no aposento e saiu sozinho. E Lancelot pergunta ao senescal se ele tem passado mal. "Sim", responde ele, "e ainda estou. Nunca fui tão miserável quanto sou agora. E deveria ter morrido há muito tempo, se não fosse pelo rei, que em sua compaixão me demonstrou tanta gentileza e bondade que de bom grado não deixou que me faltasse nada de que eu necessitasse; mas fui provido prontamente com tudo o que desejei. Contudo, oposto à bondade que ele me mostrou, estava Meleagant, seu filho, que é cheio de maldade e que convocou os médicos e ordenou-lhes que aplicassem tais unguentos que me matariam. Tal pai e tal enteado eu tive! Pois quando o rei mandou aplicar um bom emplastro em minhas feridas em seu desejo de que eu logo fosse curado, seu filho traiçoeiro, desejando me levar à morte, mandou retirá-lo prontamente e aplicar algum unguento nocivo. Mas estou bem certo de que o rei não sabia disso; ele não toleraria tais truques vis e assassinos. Mas não sabes quão cortês ele tem sido com minha senhora: nenhuma torre de fronteira, desde o tempo em que Noé construiu a arca, jamais foi tão cuidadosamente guardada, pois ele a guardou tão vigilantemente que, embora seu filho se irritasse com a restrição, ele não o deixava vê-la exceto na presença do próprio rei. Até o presente momento, o rei, em sua misericórdia, tem-lhe mostrado todas as marcas de consideração que ela mesma propôs. Ela sozinha tinha a disposição de seus negócios. E o rei a estimava ainda mais pela lealdade que ela demonstrava. Mas é verdade, como me contam, que ela está tão zangada contigo que publicamente se recusou a falar-te?" "Contaram-te a pura verdade", responde Lancelot, "mas, pelo amor de Deus, podes dizer-me por que ela está tão descontente comigo?" Ele responde que não sabe, e que está muito surpreso com isso. "Bem, que seja como ela deseja", diz Lancelot, sentindo sua impotência; "devo agora tomar minha licença, e irei buscar meu senhor Gawain, que entrou nesta terra e que combinou comigo que seguiria diretamente para a ponte submersa." Então, deixando o aposento, ele apareceu perante o rei e pediu permissão para seguir naquela direção. E o rei de bom grado concede-lhe licença para partir. Então, aqueles a quem Lancelot libertara e livrara da prisão perguntam-lhe o que devem fazer. E ele responde: "Todos aqueles que desejarem podem vir comigo, e aqueles que quiserem ficar com a Rainha podem fazê-lo: não há razão para que me acompanhem." Então todos aqueles que assim desejam acompanham-no, mais contentes e alegres do que de costume. Com a Rainha permanecem suas donzelas, que são de coração leve, e muitos cavaleiros e damas também. Mas não há um só daqueles que ficam para trás que não teria preferido retornar ao seu próprio país a permanecer ali. Contudo, por causa de meu senhor Gawain, cuja chegada é esperada, a Rainha retém-nos, dizendo que nunca se moverá até que tenha notícias dele.
A notícia espalha-se por toda parte de que a Rainha está livre para partir, e que todos os outros prisioneiros foram postos em liberdade e estão livres para ir quando bem lhes convier e aprouver. Onde quer que as pessoas da terra se reúnam, perguntam umas às outras sobre a veracidade deste relato e nunca falam de outra coisa. Estão muito enfurecidas porque todas as passagens perigosas foram superadas, e que qualquer um pode entrar e sair como bem entender. Mas quando os nativos do país, que não estiveram presentes na batalha, souberam como Lancelot fora o vencedor, todos se dirigiram para o lugar onde sabiam que ele deveria passar, pensando que o rei ficaria muito satisfeito se capturassem Lancelot e o arrastassem de volta para ele. Todos os seus próprios homens estavam sem suas armas e, portanto, estavam em desvantagem quando viram os nativos do país chegando armados. Não foi estranho que capturassem Lancelot, que estava sem suas armas. Levam-no de volta prisioneiro, com seus pés amarrados sob seu cavalo. Então seus próprios homens dizem: "Cavalheiros, este é um ato maligno; pois o rei deu-nos seu salvo-conduto, e estamos sob sua proteção." Mas os outros respondem: "Não sabemos como isso pode ser; mas como vos capturamos, deveis retornar conosco à corte." O boato, que velozmente voa e corre, chega ao rei de que seus homens capturaram Lancelot e o puseram à morte. Quando o rei ouve isso, ele fica profundamente entristecido e jura furiosamente por sua cabeça que aqueles que o mataram certamente morrerão pelo ato; e que, se ele puder capturá-los ou apanhá-los, será o destino deles serem enforcados, queimados ou afogados. E se eles tentarem negar seu feito, ele não acreditará no que dizem, pois eles lhe trouxeram tal pesar e vergonha que ele ficaria desonrado se a vingança não fosse exercida sobre eles; mas ele será vingado sem dúvida. A notícia disso espalhou-se até chegar à Rainha, que estava sentada à mesa. Ela quase se matou ao ouvir o falso relato sobre Lancelot, mas ela supõe que seja verdade e, portanto, está em tamanha consternação que quase perde o poder de falar; mas, por causa dos presentes, ela força-se a dizer: "Em verdade, lamento sua morte, e não é de admirar que eu sofra, pois ele veio a este país por minha causa, e, portanto, devo chorar por ele." Então ela diz a si mesma, para que os outros não ouçam, que ninguém precisa pedir-lhe para beber ou comer, se for verdade que ele está morto, em cuja vida ela encontrava a sua própria. Então, entristecida, ela levanta-se da mesa e faz seu lamento, mas de modo que ninguém a ouça ou note. Ela está tão fora de si que repetidamente agarra sua garganta com o desejo de matar-se; mas primeiro ela confessa a si mesma e arrepende-se com remorso, culpando e censurando a si mesma pelo mal que lhe fizera, àquele que, como sabia, sempre fora seu, e ainda seria seu, se estivesse vivo. Ela está tão aflita com o pensamento de sua crueldade que sua beleza está seriamente prejudicada. Sua crueldade e mesquinharia afetaram-na e desfiguraram sua beleza mais do que todas as vigílias e jejuns com que ela se afligia. Quando todos os seus pecados surgem diante dela, ela os reúne e, ao revisá-los, exclama repetidamente: "Ai de mim! Em que eu estava pensando quando meu amante estava diante de mim e eu deveria tê-lo acolhido, que não quis ouvir suas palavras? Não fui eu uma tola, quando me recusei a olhar para ele ou falar-lhe? Tola, de fato? Antes, fui vil e cruel, que Deus me ajude. Pretendi como uma brincadeira, mas ele não tomou assim, e não me perdoou. Tenho certeza de que não foi ninguém além de mim quem lhe deu o golpe de misericórdia. Quando ele veio diante de mim sorrindo e esperando que eu ficasse feliz em vê-lo e o acolhesse, e quando não quis olhar para ele, não foi isso um golpe mortal? Quando me recusei a falar com ele, então, sem dúvida, num só golpe privei-o de seu coração e de sua vida. Estes dois golpes mataram-no, tenho certeza; nenhum outro bandido causou sua morte. Deus! Posso algum dia reparar este assassinato e este crime? Não, de fato; mais cedo secarão os rios e o mar. Ai de mim! Quão melhor eu me sentiria, e quanto consolo eu teria, se apenas uma vez antes de morrer eu o tivesse segurado em meus braços! O quê? Sim, certamente, bem despido, para melhor desfrutá-lo. Se ele está morto, sou muito perversa por não me destruir. Por quê? Pode prejudicar meu amante que eu continue vivendo após ele estar morto, se não encontro prazer em nada, exceto no pesar que carrego por ele? Ao entregar-me ao pesar após sua morte, os próprios sofrimentos que busco ser-me-iam doces, se ele estivesse apenas ainda vivo. É errado uma mulher desejar morrer em vez de sofrer por causa de seu amante. É certamente doce para mim chorar por ele longamente. Preferiria ser espancada viva do que morrer e estar em repouso."
Por dois dias a Rainha lamentou por ele sem comer ou beber, até que pensaram que ela também morreria. Há muitas pessoas prontas para levar más notícias em vez de boas. A notícia chega a Lancelot de que sua senhora e amada está morta. Não precisais ter dúvida do pesar que ele sentiu; qualquer um pode ter certeza de que ele estava aflito e superado pela dor. De fato, se quereis saber a verdade, ele estava tão abatido que estimava pouco sua vida. Ele desejava matar-se imediatamente, mas primeiro proferiu um breve lamento. Ele faz um laço corrediço em uma das pontas do cinto que usava e, então, chorosamente, comunga assim consigo mesmo: "Ah, morte, como me espreitaste e me desfizeste, quando no auge da saúde! Estou desfeito, e contudo não sinto dor, exceto o pesar dentro de meu coração. Este é um terrível pesar mortal. Estou disposto a que assim seja, e se Deus quiser, morrerei dele. Então não posso morrer de outra forma, sem o consentimento de Deus? Sim, se ele me deixar amarrar este laço em meu pescoço. Creio que posso compelir a morte, mesmo contra a vontade dela, a tirar minha vida. A morte, que cobiça apenas aqueles que a temem, não virá a mim; mas meu cinto trará a ela ao meu poder, e assim que ela for minha, ela executará meu desejo. Mas, em verdade, ela virá tarde demais para mim, pois anseio tê-la agora!" Então ele demora e hesita não mais, mas ajusta sua cabeça dentro do laço até que ele repouse em seu pescoço; e para que ele não deixe de prejudicar a si mesmo, ele prende a extremidade do cinto firmemente ao pomo da sela, sem atrair a atenção de ninguém. Então ele se deixa deslizar para a terra, pretendendo que seu cavalo o arraste até que estivesse sem vida, pois ele desdenha viver mais uma hora. Quando aqueles que cavalgam com ele o veem caído na terra, supõem que ele esteja em um desmaio, pois ninguém vê o laço que ele prendera em seu pescoço. Imediatamente agarraram-no em seus braços e, ao levantá-lo, encontraram o laço que ele colocara em seu pescoço e com o qual buscava matar-se. Eles rapidamente cortaram o laço; mas o laço ferira tanto sua garganta que por algum tempo ele não pôde falar; as veias de seu pescoço e garganta estão quase rompidas. Agora ele não podia prejudicar-se, mesmo que o desejasse; contudo, ele está triste por terem colocado as mãos nele, e ele quase queima de raiva, pois de bom grado teria se matado se ninguém tivesse notado por acaso. E agora, quando ele não pode prejudicar-se, ele clama: "Ah, morte vil e sem vergonha! Pelo amor de Deus, por que não tiveste o poder e a força para me matar antes que minha senhora morresse? Suponho que foi porque não te dignarias a fazer o que poderia ser um ato gentil. Se me poupaste, deve ser atribuído à tua maldade. Ah, que tipo de serviço e bondade é esse! Quão bem os empregaste aqui! Uma maldição sobre aquele que te agradece ou sente gratidão por tal serviço! Não sei qual é mais meu inimigo: a vida, que me detém, ou a morte, que não quer me matar. Cada uma me atormenta mortalmente; e serve-me bem, que Deus me ajude, que apesar de mim mesmo eu continue vivendo. Pois eu deveria ter me matado assim que minha senhora, a Rainha, demonstrou seu ódio por mim; ela não o fez sem causa, mas ela tinha algum bom motivo, embora eu não saiba qual é. E se eu tivesse sabido o que era antes que sua alma fosse para Deus, eu teria feito tal reparação rica que a teria agradado e ganho sua misericórdia. Deus! Qual poderia ter sido meu crime? Acho que ela deve ter sabido que eu montei na carroça. Não sei que outra causa ela pode ter para me culpar. Isto tem sido minha ruína. Se esta é a razão de seu ódio, Deus! Que mal poderia este crime causar? Qualquer um que me repreendesse por tal ato nunca soube o que é o amor, pois ninguém poderia mencionar algo que, se movido pelo amor, devesse ser transformado em uma repreensão. Pelo contrário, tudo o que se pode fazer por sua amada deve ser considerado como um sinal de seu amor e cortesia. Contudo, eu não fiz por minha 'amada'. Não sei por que nome chamá-la, se 'amada' ou não. Não me atrevo a chamá-la por este nome. Mas creio que sei isto do amor: que se ela me amasse, ela não deveria me estimar menos por este crime, mas antes chamar-me seu verdadeiro amante, na medida em que considerei uma honra fazer tudo o que o amor me ordenou, mesmo montar em uma carroça. Ela deveria atribuir isso ao amor; e esta é uma prova certa de que o amor assim testa seus devotos e assim descobre quem é realmente dele. Mas este serviço não agradou minha senhora, como descobri por seu semblante. E, no entanto, seu amante fez por ela aquilo pelo qual muitos o repreenderam e culparam vergonhosamente, embora ela tenha sido a causa disso; e muitos culpam-me pelo papel que desempenhei e transformaram minha doçura em amargura. Em verdade, tal é o costume daqueles que sabem tão pouco do amor, que até a honra eles lavam na vergonha. Mas quem mergulha a honra na vergonha, não a lava, mas antes a suja. Mas eles, que maltratam-no tanto, são totalmente ignorantes do amor; e ele, que não teme seus comandos, gaba-se de ser muito superior a ele. Pois, inquestionavelmente, vai bem quem obedece aos comandos do amor, e tudo o que ele faz é perdoável, mas ele é o covarde que não se atreve."
Assim Lancelot faz seu lamento, e seus homens permanecem aflitos ao seu lado, segurando-o e protegendo-o. Então a notícia chega de que a Rainha não está morta. Com isso, Lancelot imediatamente se consola, e se seu pesar pela morte dela antes tinha sido intenso e profundo, agora sua alegria por sua vida era cem mil vezes maior. E quando chegaram a seis ou sete léguas do castelo onde o rei Bademagu estava, notícias gratificantes de Lancelot foram-lhe ditas, como ele estava vivo e vinha são e salvo, e esta notícia o rei ficou feliz em ouvir. Ele fez uma coisa muito cortês ao ir imediatamente informar a Rainha. E ela responde: "Belo senhor, já que dizeis isso, acredito que seja verdade, mas asseguro-vos que, se ele estivesse morto, eu nunca mais seria feliz. Toda a minha alegria seria cortada, se um cavaleiro tivesse sido morto em meu serviço."
Então o rei a deixa, e a Rainha anseia ardentemente pela chegada de seu amante e sua alegria. Ela não tem desejo desta vez de guardar qualquer rancor dele. Mas o boato, que nunca descansa, mas corre sempre incessantemente, novamente chega à Rainha com o efeito de que Lancelot teria se matado por causa dela, se tivesse tido a chance. Ela fica feliz com o pensamento de que isso é verdade, mas ela não teria querido que tivesse acontecido assim por nada, pois seu pesar teria sido grande demais. Com isso, Lancelot chegou apressado. Assim que o rei o vê, ele corre para beijá-lo e abraçá-lo. Ele sente como se devesse voar, levado pela leveza de sua alegria. Mas sua satisfação é interrompida por aqueles que haviam capturado e amarrado seu convidado, e o rei diz-lhes que eles chegaram em uma hora má, pois todos eles serão mortos e confundidos. Então eles responderam que pensavam que ele gostaria que fosse assim. "É a mim que vós insultastes ao fazer o vosso prazer. Ele não tem razão para reclamar", responde o rei; "vós não o envergonhastes de forma alguma, mas apenas a mim, que o estava protegendo. De qualquer forma que olheis para isso, a vergonha é minha. Mas se vós escapardes de mim agora, vós não vereis graça nisso." Quando Lancelot ouve sua ira, ele se esforça ao máximo para fazer as pazes e ajustar as coisas; quando seus esforços tiveram sucesso, o rei leva-o para ver a Rainha. Desta vez a Rainha não baixou os olhos para o chão, mas foi encontrá-lo alegremente, honrando-o tanto quanto podia e fazendo-o sentar-se ao seu lado. Então eles conversaram longamente sobre tudo o que estava em seus corações, e o amor forneceu-lhes tanto para dizer que tópicos não faltaram. E quando Lancelot vê quão bem ele está posicionado, e que tudo o que ele diz encontra favor com a Rainha, ele diz-lhe em confiança: "Senhora, maravilho-me grandemente por que me recebestes com tal semblante quando me vistes anteontem, e por que não quisestes dizer uma palavra sequer para mim: quase morri do golpe que me destes, e não tive a coragem de ousar questionar-vos sobre isso, como agora me aventuro a fazer. Estou pronto agora, senhora, para fazer reparação, quando me tiverdes dito qual foi o crime que me causou tal aflição." Então a Rainha responde: "O quê? Não hesitastes por vergonha de montar na carroça? Mostrastes que estavas relutante em entrar, quando hesitastes por dois passos inteiros. Essa é a razão pela qual eu não quis dirigir a palavra nem olhar para ti." "Que Deus me salve de tal crime novamente", responde Lancelot, "e que Deus não me mostre misericórdia, se não estivestes com toda a razão! Pelo amor de Deus, senhora, aceitai minha reparação imediatamente, e dizei-me, pelo amor de Deus, se podeis algum dia me perdoar." "Amigo, estás totalmente perdoado", responde a Rainha; "perdoo-te de bom grado." "Obrigado por isso, senhora", ele então diz; "mas não posso dizer-vos aqui tudo o que gostaria de dizer; eu gostaria de falar convosco com mais calma, se possível." Então a Rainha indica uma janela com o olhar mais do que com o dedo, e diz: "Vinde pelo jardim esta noite e falai comigo naquela janela, quando todos lá dentro tiverem ido dormir. Não podereis entrar: eu estarei dentro e vós fora: ganhar entrada será impossível. Eu poderei tocar-vos apenas com meus lábios ou mão, mas, se vos aprouver, ficarei lá até a manhã por amor a vós. Nossos corpos não podem ser unidos, pois bem perto de mim, em meu quarto, jaz Kay, o senescal, que ainda está sofrendo de suas feridas. E a porta não está aberta, mas está firmemente fechada e bem guardada. Quando vierdes, tomai cuidado para que nenhum espião vos veja." "Senhora", diz ele, "se eu puder evitar, nenhum espião me verá, que possa pensar ou falar mal de nós." Então, tendo concordado com este plano, eles se separam muito alegremente.
Lancelot deixa o quarto com um espírito tão alegre que todos os seus problemas passados são esquecidos. Mas ele estava tão impaciente pela chegada da noite que sua inquietação fazia o dia parecer mais longo que cem dias comuns ou que um ano inteiro. Se a noite tivesse chegado, ele teria ido de bom grado ao local do encontro. A noite, escura e sombria, venceu finalmente sua luta contra o dia, envolvendo-o em sua cobertura e guardando-o sob seu manto. Quando viu a luz do dia obscurecida, fingiu estar cansado e exausto, e disse que, em vista de suas longas vigílias, precisava de descanso. Vós, que já fizestes o mesmo, podeis muito bem entender e adivinhar que ele finge estar cansado e vai para a cama a fim de enganar as pessoas da casa; mas ele não se importava com sua cama, nem teria procurado repouso ali por nada, pois não poderia tê-lo feito e não teria ousado, e, além disso, não teria tido o ânimo ou o poder para tal. Logo se levantou suavemente e ficou satisfeito ao ver que nenhuma lua ou estrela brilhava, e que na casa não havia vela, lamparina ou lanterna acesa. Assim, ele saiu e olhou em volta, mas não havia ninguém vigiando-o, pois todos pensavam que ele dormiria em sua cama a noite toda. Sem escolta ou companhia, ele saiu rapidamente para o jardim, não encontrando ninguém no caminho, e teve a sorte de descobrir que uma parte do muro do jardim havia caído recentemente. Através desta abertura, ele passa rapidamente e segue para a janela, onde permanece, tomando muito cuidado para não tossir ou espirrar, até que a Rainha chega vestida com uma camisa muito branca. Ela não usava manto ou casaco, mas tinha jogado sobre si uma curta capa de tecido escarlate e pele de musaranho. Assim que Lancelot viu a Rainha apoiada no parapeito da janela, atrás das grandes grades de ferro, ele a honrou com uma saudação gentil. Ela prontamente retribuiu seu cumprimento, pois ele a desejava, e ela a ele. Suas conversas e diálogos não são sobre assuntos vulgares ou cansativos. Aproximam-se um do outro, até que cada um segura a mão do outro. Mas estão tão angustiados por não poderem se unir mais completamente, que amaldiçoam as grades de ferro. Então Lancelot afirma que, com o consentimento da Rainha, ele entrará para estar com ela, e que as grades não podem mantê-lo afastado. E a Rainha responde: "Não vês como as grades são rígidas para dobrar e difíceis de quebrar? Jamais poderias torcê-las, puxá-las ou arrastá-las a ponto de deslocar uma delas." "Senhora", diz ele, "não tenhais medo disso. Seria preciso mais do que estas grades para me manter afastado. Nada além do vosso comando poderia impedir meu poder de chegar até vós. Se me concederdes vossa permissão, o caminho se abrirá diante de mim. Mas se não for do vosso agrado, então o caminho está tão obstruído que eu não poderia possivelmente passar." "Certamente", ela diz, "eu consinto. Minha vontade não precisa ser um obstáculo em vosso caminho; mas deveis esperar até que eu me retire para minha cama novamente, para que nenhum mal vos aconteça, pois não seria piada ou gracejo se o senescal, que está dormindo aqui, acordasse ao vos ouvir. Portanto, é melhor que eu me retire, pois nenhum bem resultaria disso se ele me visse aqui." "Ide então, senhora", ele responde; "mas não tenhais medo de que eu faça qualquer barulho. Creio que posso retirar as grades tão suavemente e com tão pouco esforço que ninguém será despertado."
Então a Rainha se retira, e ele se prepara para soltar a janela. Agarrando as grades, ele as puxa e as força até fazê-las dobrar e as arrasta de seus lugares. Mas o ferro era tão afiado que a ponta de seu dedo mindinho foi cortada até o nervo, e a primeira junta do dedo seguinte foi rasgada; mas ele, que está atento a outra coisa, não prestou atenção a nenhum de seus ferimentos ou ao sangue que escorria. Embora a janela não seja baixa, Lancelot passa por ela rápida e facilmente. Primeiro ele encontra Kay adormecido em sua cama, depois chega à cama da Rainha, a quem adora e diante de quem se ajoelha, mantendo-a mais cara que a relíquia de qualquer santo. E a Rainha estende seus braços para ele e, abraçando-o, pressiona-o firmemente contra seu seio, puxando-o para a cama ao seu lado e oferecendo-lhe toda satisfação possível; seu amor e seu coração se voltam para ele. É o amor que a impele a tratá-lo assim; e se ela sente grande amor por ele, ele sente cem mil vezes mais por ela. Pois não há amor algum em outros corações comparado ao que há no dele; em seu coração o amor estava tão completamente incorporado que era avarento para com todos os outros corações. Agora Lancelot possui tudo o que deseja, quando a Rainha busca voluntariamente sua companhia e amor, e quando ele a segura em seus braços, e ela o segura nos dela. Seu jogo é tão agradável e doce, enquanto se beijam e se afagam, que, na verdade, uma alegria tão maravilhosa toma conta deles como jamais foi ouvida ou conhecida. Mas sua alegria não será revelada por mim, pois, em uma história, ela não tem lugar. No entanto, a satisfação mais seleta e deliciosa foi precisamente aquela da qual nossa história não deve falar. Naquela noite, a alegria e o prazer de Lancelot foram muito grandes. Mas, para seu pesar, chega o dia em que ele deve deixar o lado de sua amada. Custou-lhe tanta dor deixá-la que ele sofreu a agonia de um verdadeiro mártir. Seu coração agora permanece onde a Rainha reside; ele não tem poder para levá-lo embora, pois encontra tanto prazer na Rainha que não tem desejo de deixá-la: assim, seu corpo vai, e seu coração permanece. Mas o suficiente de seu corpo permanece para manchar e sujar os lençóis com o sangue que caiu de seus dedos. Cheio de suspiros e lágrimas, Lancelot parte em grande angústia. Ele lamenta que nenhum tempo esteja marcado para outro encontro, mas não pode ser. Arrependido, ele sai pela janela pela qual havia entrado tão alegremente. Ele estava tão gravemente ferido nos dedos que eles estavam em triste estado; ainda assim, ele endireitou as grades e as colocou em seu lugar novamente, de modo que, de nenhum dos lados, nem antes nem depois, era evidente que alguém tivesse puxado ou dobrado qualquer uma das grades. Quando ele deixa o quarto, ele se curva e age precisamente como se estivesse diante de um santuário; então ele vai com o coração pesado e chega aos seus aposentos sem ser reconhecido por ninguém. Ele se joga nu em sua cama sem acordar ninguém, e então, pela primeira vez, ele se surpreende ao notar os cortes em seus dedos; mas ele não está nem um pouco preocupado, pois tem certeza de que o ferimento foi causado por arrastar as grades da janela da parede. Portanto, ele não estava nem um pouco preocupado, pois preferiria ter tido ambos os braços arrancados de seu corpo do que não entrar pela janela. Mas ele teria ficado muito irritado e angustiado se tivesse se ferido e machucado dessa forma sob qualquer outra circunstância.
Pela manhã, dentro de seu quarto com cortinas, a Rainha havia caído em um sono suave; ela não tinha notado que seus lençóis estavam manchados de sangue, mas supunha que estivessem perfeitamente brancos, limpos e apresentáveis. Agora, Meleagant, assim que se vestiu e ficou pronto, foi ao quarto onde a Rainha dormia. Ele a encontra acordada e vê os lençóis manchados com gotas frescas de sangue, momento em que cutuca seus companheiros e, suspeitando de alguma travessura, olha para a cama de Kay, o senescal, e vê que seus lençóis também estão manchados de sangue, pois deveis saber que, durante a noite, suas feridas começaram a sangrar novamente. Então ele disse: "Senhora, agora encontrei a prova que desejava. É muito verdade que qualquer homem é um tolo ao tentar confinar uma mulher: ele desperdiça seus esforços e suas dores. Aquele que tenta mantê-la sob guarda a perde mais cedo do que o homem que não pensa nela. Uma bela vigilância, de fato, tem sido mantida pelo meu pai, que a está guardando em meu nome! Ele conseguiu impedi-la de chegar a mim, mas, apesar dele, Kay, o senescal, olhou para vós na noite passada e fez o que quis convosco, como pode ser facilmente provado." "O que é isso?", ela pergunta. "Já que devo falar, encontro sangue em vossos lençóis, o que prova o fato. Eu sei disso e posso provar, porque encontro em ambos os vossos lençóis e nos dele o sangue que saiu de suas feridas: a evidência é muito forte." Então a Rainha viu em ambas as camas os lençóis ensanguentados e, maravilhada, corou de vergonha e disse: "Que Deus me ajude, este sangue que vejo em meus lençóis nunca foi trazido aqui por Kay, mas meu nariz sangrou durante a noite, e suponho que deva ser do meu nariz." Ao dizer isso, ela pensa que diz a verdade. "Pela minha cabeça", diz Meleagant, "não há nada no que dizeis. Jurar não serve de nada, pois estais presa em vossa culpa, e a verdade logo será provada." Então ele disse aos guardas que estavam presentes: "Cavalheiros, não se movam, e certifiquem-se de que os lençóis não sejam tirados da cama até que eu retorne. Desejo que o rei me faça justiça, assim que ele tiver visto a verdade." Então ele procurou até encontrá-lo e, caindo a seus pés, disse: "Senhor, vinde ver o que não conseguistes guardar. Vinde ver a Rainha, e vereis as certas maravilhas que eu já vi e testei. Mas, antes de ir, rogo-vos que não deixeis de ser justo e íntegro para comigo. Sabeis bem a que perigo me expus pela Rainha; no entanto, não sois meu amigo e a mantendes afastada de mim sob guarda. Esta manhã fui vê-la em sua cama e notei que Kay dorme com ela todas as noites. Senhor, pelo amor de Deus, não fiqueis zangado se estou descontente e se reclamo. Pois é muito humilhante para mim ser odiado e desprezado por aquela com quem Kay tem permissão de dormir." "Silêncio!", diz o rei; "Eu não acredito nisso." "Então vinde, meu senhor, e vede os lençóis e o estado em que Kay os deixou. Já que não acreditais em minhas palavras, e já que pensais que estou mentindo, eu vos mostrarei os lençóis e a colcha cobertos de sangue das feridas de Kay." "Venha agora", diz o rei, "desejo ver por mim mesmo, e meus olhos julgarão a verdade." Então o rei vai diretamente ao quarto, onde a Rainha se levantou à sua aproximação. Ele vê que os lençóis estão manchados de sangue tanto na cama dela quanto na de Kay, e ele diz: "Senhora, está indo mal agora, se o que meu filho disse é verdade." Então ela responde: "Que Deus me ajude, nunca nem em sonho foi proferida uma mentira tão monstruosa. Acho que Kay, o senescal, é cortês e leal o suficiente para não cometer tal ato, e, além disso, não exponho meu corpo na praça pública, nem o ofereço por minha própria vontade. Certamente, Kay não é o homem para me fazer uma proposta insultuosa, e eu nunca desejei e jamais desejarei fazer tal coisa." "Senhor, ficarei muito grato a vós", diz Meleagant ao seu pai, "se Kay for feito pagar por este ultraje, e a vergonha da Rainha assim for exposta. Cabe a vós ver que a justiça seja feita, e esta justiça eu agora solicito e exijo. Kay traiu o Rei Arthur, seu senhor, que tinha tal confiança nele que lhe confiou o que amava mais no mundo." "Deixai-me responder, senhor", diz Kay, "e eu me eximirei. Que Deus não tenha misericórdia de minha alma quando eu deixar este mundo, se alguma vez dormi com minha senhora! De fato, eu preferiria estar morto a fazer ao meu senhor um erro tão feio, e que Deus nunca me conceda melhor saúde do que a que tenho agora, mas antes me mate no local, se tal pensamento alguma vez entrou em minha mente! Mas sei que minhas feridas sangraram profusamente na noite passada, e essa é a razão pela qual meus lençóis estão manchados de sangue. É por isso que vosso filho me suspeita, mas certamente ele não tem o direito de o fazer." E Meleagant lhe responde: "Que Deus me ajude, os diabos e demônios vos traíram. Vós vos aquecestes demais na noite passada e, como resultado de vossos esforços, vossas feridas sem dúvida sangraram novamente. Não adianta negar; podemos ver, e é perfeitamente evidente. É justo que ele pague por seu crime, quem é tão claramente pego em sua culpa. Nunca um cavaleiro com um nome tão belo cometeu tais iniquidades como esta, e vossa é a vergonha por isso." "Senhor, senhor", diz Kay ao rei, "eu defenderei a Rainha e a mim mesmo contra a acusação de vosso filho. Ele me assedia e me angustia, embora não tenha base para me tratar assim." "Não podeis lutar", responde o rei, "estais doente demais." "Senhor, se permitirdes, lutarei com ele, doente como estou, e lhe mostrarei que não sou culpado do crime que ele me imputa." Mas a Rainha, tendo enviado secretamente um recado a Lancelot, diz ao rei que apresentará um cavaleiro que defenderá o senescal, se Meleagant se atrever a insistir nesta acusação. Então Meleagant disse imediatamente: "Não há cavaleiro, sem exceção, mesmo que fosse um gigante, contra quem eu não lutaria até que um de nós fosse derrotado." Então Lancelot entrou, e com ele tal grupo de cavaleiros que todo o salão estava cheio deles. Assim que ele entrou, ao ouvir de todos, jovens e velhos, a Rainha contou o que havia acontecido e disse: "Lancelot, este insulto me foi feito por Meleagant. Na presença de todos os que ouvem suas palavras, ele diz que menti, se não o fizerdes retirar o que disse. Na noite passada, ele afirmou, Kay dormiu comigo, porque encontrou meus lençóis, como os dele, todos manchados de sangue; e ele diz que está convicto, a menos que ele empreenda sua própria defesa, ou a menos que alguém lute a batalha em seu nome." Lancelot diz: "Nunca precisais usar argumentos comigo. Que não agrade a Deus que nem vós nem ele sejais assim desacreditados! Estou pronto para lutar e provar, na medida do meu poder, que ele nunca foi culpado de tal pensamento. Estou pronto para empregar minha força em seu nome e defendê-lo contra esta acusação." Então Meleagant saltou e disse: "Que Deus me ajude, estou satisfeito e bem contente com isso: ninguém precisa pensar que eu me oponho." E Lancelot disse: "Meu senhor rei, estou bem familiarizado com processos e leis, com julgamentos e vereditos: em uma questão de veracidade, um juramento deve ser feito antes da luta." Meleagant responde imediatamente: "Concordo em fazer um juramento; então que as relíquias sejam trazidas imediatamente, pois sei bem que estou certo." E Lancelot lhe responde: "Que Deus me ajude, ninguém que tenha conhecido Kay, o senescal, duvidaria de sua palavra em tal ponto." Então eles pedem seus cavalos e pedem que suas armas sejam trazidas. Isso é prontamente feito, e quando os criados os armaram, eles estavam prontos para a luta. Então as santas relíquias são trazidas; Meleagant dá um passo à frente, com Lancelot ao seu lado, e ambos caem de joelhos. Então Meleagant, colocando suas mãos sobre as relíquias, jura sem reservas: "Que Deus e esta santa relíquia me ajudem, Kay, o senescal, dormiu com a Rainha em sua cama na noite passada e teve seu prazer com ela." "E eu juro que mentis", diz Lancelot, "e, além disso, juro que ele nem dormiu com ela nem a tocou. E que agrade a Deus vingar-se daquele que mentiu, e que Ele traga a verdade à luz! Além disso, farei outro juramento e jurarei, quem quer que não goste ou fique descontente, que se me for permitido vencer Meleagant hoje, não lhe mostrarei misericórdia, que Deus e estas relíquias aqui me ajudem!" O rei não sentiu alegria ao ouvir este juramento.
Assim que os juramentos foram feitos, trouxeram-lhes os cavalos, que eram belos e bons sob todos os aspectos. Cada homem monta o seu, e cavalgam de imediato um contra o outro tão velozmente quanto os corcéis podem levá-los; e quando os cavalos estão a meio galope, os cavaleiros atingem-se tão violentamente que não resta nada das lanças em suas mãos. Cada um leva o outro ao chão; contudo, não se deixam abater, mas levantam-se prontamente e atacam-se com as suas espadas nuas e afiadas. Faíscas ardentes voam no ar a partir dos seus elmos. Investem um contra o outro tão amargamente com as espadas nas mãos que, à medida que golpeiam e retiram, encontram-se nos seus ataques e não querem parar nem para recuperar o fôlego. O rei, na sua dor e ansiedade, chamou a Rainha, que tinha subido à torre para olhar da varanda: implorou-lhe, pelo amor de Deus, o Criador, que os deixasse ser separados. "O que for do vosso agrado é-me aceitável", diz a Rainha honestamente: "Não me oporei a nada do que fizerdes." Lancelot ouviu claramente que resposta a Rainha deu ao pedido do rei, e a partir desse momento cessou de lutar e renunciou ao combate de imediato. Mas Meleagant não deseja parar, e continua a atingi-lo e a golpeá-lo. Mas o rei corre entre eles e detém o seu filho, que declara com um juramento que não tem desejo de paz. Ele quer lutar e não se importa com a paz. Então o rei diz-lhe: "Cala-te, aceita o meu conselho e sê sensato. Nenhuma vergonha ou mal te virá, se quiseres fazer o que é justo e atender às minhas palavras. Não te lembras de que concordaste em lutar contra ele na corte do Rei Arthur? E não supões que seria uma honra muito maior para ti derrotá-lo lá do que em qualquer outro lugar?" O rei diz isto para ver se pode influenciá-lo de modo a apaziguá-lo e separá-los. E Lancelot, que estava impaciente para ir em busca do meu senhor Gawain, pede licença ao rei e à Rainha para partir. Com a permissão deles, ele vai embora em direção à ponte da água, e atrás dele seguiu uma grande companhia de cavaleiros. Mas ter-lhe-ia dado muito jeito se muitos daqueles que foram tivessem ficado para trás. Fazem jornadas de muitos dias até se aproximarem da ponte da água, mas ainda estão a cerca de uma légua dela. Antes de avistarem a ponte, um anão veio ao seu encontro num poderoso caçador, segurando um chicote com o qual incitava e estimulava o seu corcel. De acordo com as suas instruções, perguntou de imediato: "Qual de vós é Lancelot? Não mo oculteis; eu sou do vosso partido; dizei-mo com confiança, pois faço a pergunta para vosso bem." Lancelot responde em seu próprio nome, e diz: "Eu sou aquele que procuras e por quem perguntas." "Ah", diz o anão, "franco cavaleiro, deixa este povo e confia em mim. Vem comigo sozinho, pois levar-te-ei a um bom lugar. Que ninguém te siga por nada, mas que eles esperem aqui; pois voltaremos em breve." Ele, não suspeitando de mal algum nisto, ordena a todos os seus homens que fiquem ali, e segue o anão que o traiu. Entretanto, os seus homens que esperam por ele podem continuar a esperá-lo muito tempo em vão, pois aqueles que o capturaram e tomaram não têm desejo de o entregar. E os seus homens estão num tal estado de tristeza pelo facto de ele não ter regressado que não sabem que passos dar. Dizem todos, pesarosos, que o anão os traiu. Seria inútil perguntar por ele: com o coração pesado começam a procurar, mas não sabem onde o procurar com qualquer esperança de o encontrar. Então, todos se aconselham, e os mais razoáveis e sensatos concordam nisto, ao que parece: ir até à passagem da ponte da água, que é ali perto, para ver se conseguem encontrar o meu senhor Gawain no bosque ou na planície, e depois, com o seu conselho, procurar Lancelot. Com este plano, todos concordam sem dissensão. Em direção à ponte da água vão, e assim que chegam à ponte, veem o meu senhor Gawain derrubado e caído da ponte dentro do rio, que é muito profundo. Num momento ele sobe, e no outro afunda-se; num momento veem-no, e no outro perdem-no de vista. Fazem tais esforços que conseguem elevá-lo com ramos, varas e ganchos. Ele não tinha nada além da sua cota de malha nas costas, e na cabeça estava fixado o seu elmo, que valia dez dos comuns, e usava as suas grevas de ferro, que estavam todas enferrujadas com o seu suor, pois tinha suportado grandes provações e tinha passado vitoriosamente por muitos perigos e assaltos. A sua lança, o seu escudo e o seu cavalo estavam todos atrás na outra margem. Aqueles que o resgataram não acreditam que esteja vivo. Pois o seu corpo estava cheio de água, e até que se livrasse dela, não o ouviram dizer uma palavra. Mas quando o seu discurso, a sua voz e a passagem para o seu coração ficaram livres, e assim que o que ele disse pôde ser ouvido e compreendido, ele tentou falar e perguntou de imediato pela Rainha, se os presentes tinham alguma notícia dela. E responderam-lhe que ela ainda está com o Rei Bademagu, que a serve bem e honradamente. "Ninguém veio procurá-la nesta terra?" o meu senhor Gawain pergunta-lhes então. E eles respondem-lhe: "Sim, de facto." "Quem?" "Lancelot do Lago", dizem eles, "que atravessou a ponte das espadas e a resgatou e libertou, assim como a todos nós. Mas fomos traídos por um anão barrigudo, corcunda e rabugento. Ele enganou-nos vergonhosamente ao seduzir Lancelot para longe de nós, e não sabemos o que ele fez com ele." "Quando foi isso?" pergunta o meu senhor Gawain. "Senhor, perto daqui, hoje mesmo, esta partida foi-nos pregada, enquanto ele vinha connosco ao vosso encontro." "E como tem estado Lancelot ocupado desde que entrou nesta terra?" Então eles começam a contar-lhe tudo sobre ele em detalhe, e depois contam-lhe sobre a Rainha, como ela está à espera dele e afirma que nada a poderia induzir a deixar o país até que o veja ou ouça alguma notícia credível dele. A eles, o meu senhor Gawain responde: "Quando deixarmos esta ponte, iremos procurar Lancelot." Não há um que não aconselhe, antes, que vão ter com a Rainha de imediato, e que o rei procure Lancelot, pois é a opinião deles que o seu filho Meleagant mostrou a sua inimizade ao tê-lo mandado lançar na prisão. Mas se o rei puder descobrir onde ele está, certamente fará com que ele o entregue: podem confiar nisto com segurança.
Todos concordaram com este plano e começaram de imediato o seu caminho até se aproximarem da corte onde estavam a Rainha e o rei. Lá estava também Kay, o senescal, e aquele homem desleal, cheio até transbordar de traição, que despertou a maior ansiedade por Lancelot da parte do grupo que agora chega. Sentem que foram desbaratados e traídos, e fazem um grande lamento na sua miséria. Não é uma mensagem graciosa aquela que relata este luto à Rainha. No entanto, ela comporta-se com a maior graça possível. Decide suportá-lo, como deve, pelo bem do meu senhor Gawain. Contudo, ela não esconde tanto a sua dor que ela não transpareça um pouco. Ela tem de mostrar alegria e dor ao mesmo tempo: o seu coração está vazio por Lancelot, e ao meu senhor Gawain ela mostra uma alegria excessiva. Todos os que ouvem falar da perda de Lancelot ficam cheios de dor e perturbados. O rei ter-se-ia alegrado com a chegada do meu senhor Gawain e ter-se-ia sentido encantado com o seu conhecimento; mas está tão pesaroso e angustiado com a traição de Lancelot que está prostrado e cheio de dor. E a Rainha implora-lhe insistentemente que o mande procurar, por toda a terra, sem adiamento ou demora. O meu senhor Gawain e Kay e todos os outros juntam-se a esta prece e pedido. "Deixai este cuidado comigo, e não faléis mais nisso", responde o rei, "pois estou pronto para o fazer há algum tempo. Sem necessidade de pedido ou prece, esta busca será feita com minúcia." Todos se curvam em sinal de gratidão, e o rei envia de imediato mensageiros por todo o seu reino, homens de armas sagazes e prudentes, que perguntaram por ele por toda a terra. Fizeram perguntas sobre ele em toda a parte, mas não obtiveram notícias certas. Não encontrando nenhuma, voltam ao lugar onde os cavaleiros permanecem; então Gawain e Kay e todos os outros dizem que irão em sua busca, totalmente armados e com a lança em riste; não confiarão em enviar mais ninguém.
Um dia, depois do jantar, estavam todos no salão a vestir as suas armaduras, e tinha-se chegado ao ponto em que não havia nada a fazer senão partir, quando um criado entrou e passou por todos até chegar à Rainha, cujas faces não estavam nada rosadas! Pois ela estava num luto tal por Lancelot, de quem não tinha notícias, que tinha perdido toda a sua cor. O criado cumprimentou-a, bem como ao rei, que estava ao seu lado, e depois a todos os outros, e Kay e o meu senhor Gawain. Ele segurava uma carta na mão que entregou ao rei, que a tomou. O rei mandou lê-la, na audição de todos, por alguém que não cometeu erros ao lê-la. O leitor sabia muito bem como comunicar-lhes o que estava escrito no pergaminho: diz que Lancelot envia saudações ao rei como seu bom senhor, e agradece-lhe pela honra e gentileza que lhe mostrou, e que agora se coloca às ordens do rei. E saibam que ele está agora são e salvo na corte do Rei Arthur, e ele pede-lhe que diga à Rainha para lá vir, se ela consentir, em companhia do meu senhor Gawain e Kay. Como prova disso, ele apôs a sua assinatura que eles deveriam reconhecer, como de facto reconheceram. Com isto, ficaram muito felizes e contentes; toda a corte ressoa com o seu júbilo, e dizem que partirão no dia seguinte assim que amanhecer. Então, quando o dia rompeu, preparam-se e arrumam-se: levantam-se, montam e partem. Com grande alegria e jubileu, o rei acompanha-os por uma longa distância no seu caminho. Quando os conduziu até à fronteira e os viu atravessar a salvo, despede-se da Rainha, e também de todos os outros. E quando chega a hora de se despedir, a Rainha tem o cuidado de expressar a sua gratidão por toda a gentileza que ele lhe mostrou e, lançando os braços ao seu pescoço, oferece-lhe e promete-lhe o seu próprio serviço e o do seu senhor: nenhuma promessa maior ela pode fazer. E o meu senhor Gawain promete-lhe o seu serviço, como seu senhor e amigo, e depois Kay faz o mesmo, e todos os restantes. Então o rei recomenda-os a Deus enquanto partem. Depois destes três, despede-se dos restantes, e depois volta o rosto para casa. A Rainha e a sua companhia não tardam um único dia até que notícias deles cheguem à corte. O Rei Arthur ficou encantado com a notícia da aproximação da Rainha, e está feliz e contente com o pensamento de que o seu sobrinho tinha conseguido o regresso da Rainha, assim como o de Kay e das gentes menores. Mas a verdade é bem diferente do que ele pensa. Toda a cidade é limpa enquanto vão ao seu encontro, e cavaleiros e vassalos juntam-se aos gritos enquanto eles se aproximam: "Bem-vindo ao meu senhor Gawain, que trouxe de volta a Rainha e muitas outras damas cativas, e libertou para nós muitos prisioneiros!" Então Gawain respondeu-lhes: "Cavalheiros, não mereço o vosso louvor. Não se incomodem nunca mais em dizer isto, pois o elogio não se aplica a mim. Esta honra causa-me apenas vergonha, pois não cheguei à Rainha a tempo; a minha detenção atrasou-me. Mas Lancelot chegou lá a tempo, e ganhou tal honra como nunca foi ganha por qualquer outro cavaleiro." "Onde está ele, então, bom senhor, pois não o vemos aqui?" "Onde?" repete o meu senhor Gawain; "na corte do meu senhor o Rei, com certeza. Não está?" "Não, não está aqui, nem em qualquer outro lugar deste país. Desde que a minha senhora foi levada, não tivemos notícias dele." Então, pela primeira vez, o meu senhor Gawain percebeu que a carta tinha sido forjada, e que eles tinham sido traídos e enganados: pela carta tinham sido desencaminhados. Então todos começam a lamentar, e chegam assim a chorar à corte, onde o Rei pergunta de imediato por informações sobre o caso. Havia muitos que lhe podiam dizer o quanto Lancelot tinha feito, como a Rainha e todos os cativos foram libertados do cativeiro por ele, e por que traição o anão o tinha roubado e levado para longe deles. Esta notícia não é agradável para o Rei, e ele fica muito arrependido e cheio de dor; mas o seu coração é tão aliviado pelo prazer que sente com o regresso da Rainha, que a sua dor conclui em alegria. Quando tem o que mais deseja, pouco se importa com o resto.
Enquanto a Rainha estava fora do país, creio eu, as damas e as donzelas que estavam desconsoladas decidiram entre si que se casariam, em breve, e organizaram um concurso e um torneio. A senhora de Noauz era patrona dele, com a senhora de Pomelegloi. Elas não querem nada com aqueles que se saem mal, mas afirmam que aceitarão aqueles que se comportam bem no torneio. E fizeram com que a data do concurso fosse proclamada com muita antecedência em todos os países próximos e distantes, para que pudesse haver mais participantes. Ora, a Rainha chegou antes da data que tinham marcado, e assim que as damas souberam do regresso da Rainha, a maioria delas veio de imediato ao Rei e implorou-lhe que lhes concedesse um favor e graça, o que ele fez. Prometeu fazer o que elas quisessem, antes mesmo de saber qual seria o seu desejo. Então disseram-lhe que desejavam que ele deixasse a Rainha ir estar presente no seu concurso. E ele, que não estava acostumado a proibir, disse que estava disposto, se ela assim o desejasse. Em estado de espírito feliz, vão ter com a Rainha e dizem-lhe: "Senhora, não nos priveis da graça que o Rei nos concedeu." Então ela pergunta-lhes: "Qual é? Não deixeis de me contar!" Então dizem-lhe: "Se vierdes ao nosso torneio, ele não vos contrariará nem se porá no caminho." Então ela disse que viria, uma vez que ele estava disposto a que ela viesse. Prontamente, as damas mandam dizer por todo o reino que vão levar a Rainha no dia marcado para o torneio. A notícia espalhou-se por toda a parte, aqui e ali, até chegar ao reino de onde ninguém costumava regressar -- mas agora quem quisesse podia entrar ou sair sem oposição. A notícia viajou neste reino até chegar a um senescal do infiel Meleagant -- que um fogo maligno o queime! Este senescal tinha Lancelot sob a sua guarda, pois a ele tinha sido confiado pelo seu inimigo Meleagant, que o odiava com ódio mortal. Lancelot soube da hora e da data do torneio, e assim que ouviu falar dele, os seus olhos não ficaram sem lágrimas nem o seu coração ficou contente. A senhora da casa, vendo Lancelot triste e pensativo, falou-lhe assim: "Senhor, por amor de Deus e pelo bem da vossa alma, dizei-me verdadeiramente", disse a senhora, "por que estais tão mudado. Não quereis comer nem beber nada, e vejo que não vos divertis nem rieis. Podeis dizer-me com confiança por que estais tão triste e perturbado." "Ah, senhora, pelo amor de Deus, não vos surpreendais por eu estar triste! Verdadeiramente, estou muito abatido, pois não posso estar presente onde todo o bem do mundo estará reunido: isto é, no torneio onde haverá uma reunião das pessoas que fazem a terra tremer. Contudo, se vos agradasse, e se Deus inclinasse o vosso coração a deixar-me ir até lá, poderíeis estar certa de que teria o cuidado de regressar ao meu cativeiro aqui." "Fá-lo-ia de bom grado", respondeu ela, "se não visse que a minha morte e destruição resultariam disso. Mas estou em tal terror do meu senhor, o desprezível Meleagant, que não me atreveria a fazê-lo, pois ele mataria o meu marido de imediato. Não é estranho que eu tenha medo dele, pois, como sabeis, ele é muito mau." "Senhora, se tendes medo de que eu não regresse para vós de imediato após o torneio, farei um juramento que nunca quebrarei, de que nada me impedirá de regressar de imediato para a minha prisão aqui, logo após o torneio." "Pela minha palavra", disse ela, "permiti-lo-ei sob uma condição." "Senhora, que condição é essa?" Então ela responde: "Senhor, sob a condição de que jureis regressar para mim, e prometais que terei o vosso amor." "Senhora, dou-vos todo o amor que tenho, e juro voltar." Então a senhora ri-se e diz: "Não tenho motivo para me gabar de tal presente, pois sei que concedestes a outra pessoa o amor pelo qual acabei de fazer o pedido. Contudo, não desdenho tomar tanto quanto puder obter. Ficarei satisfeita com o que puder ter, e aceitarei o vosso juramento de que serei tão considerada por vós a ponto de regressar aqui como prisioneiro."
Conforme o seu desejo, Lancelot jura pela Santa Igreja que voltará sem falta. E a dama entrega-lhe imediatamente as armas vermelhão do seu senhor, e o seu cavalo, que era maravilhosamente bom, forte e valente. Ele monta e parte, armado com belas armas novas, e segue até chegar a Noauz. Ele apoiou este lado no torneio e alojou-se fora da cidade. Jamais um homem tão nobre escolheu um alojamento tão pequeno e humilde; mas não desejava alojar-se onde pudesse ser reconhecido. Havia muitos bons e excelentes cavaleiros reunidos dentro da cidade. Mas havia muitos mais fora dela, pois tantos tinham vindo por causa da presença da Rainha que a quinta parte não pôde ser acomodada lá dentro. Para cada um que lá estaria em circunstâncias normais, havia sete que não teriam vindo se não fosse por causa da Rainha. Os barões estavam alojados em tendas, albergues e pavilhões por cinco léguas em redor. Além disso, era maravilhoso ver quantas damas gentis e donzelas ali estavam. Lancelot colocou o seu escudo fora da porta do seu alojamento e, então, para ficar mais confortável, despiu as armas e deitou-se sobre uma cama que tinha em pouca estima; pois era estreita, tinha um colchão fino e estava coberta com um pano de cânhamo grosseiro. Lancelot tinha-se atirado para a cama totalmente desarmado e, enquanto jazia ali em tão má situação, eis que um sujeito entrou em mangas de camisa; era um arauto de armas e tinha deixado a sua casaca e os sapatos na taverna como penhor; por isso, vinha a correr descalço e exposto ao vento. Viu o escudo pendurado fora da porta e olhou para ele: mas, naturalmente, não o reconheceu nem sabia a quem pertencia, ou quem era o seu portador. Vê a porta da casa aberta e, ao entrar, vê Lancelot sobre a cama e, logo que o viu, reconheceu-o e benzeu-se. E Lancelot fez-lhe um sinal e ordenou-lhe que não falasse dele onde quer que fosse, pois se contasse que o conhecia, seria melhor para ele que lhe arrancassem os olhos ou lhe partissem o pescoço. "Senhor", diz o arauto, "sempre vos tive em alta estima e, enquanto viver, jamais farei algo que vos cause desagrado." Então ele corre para fora da casa e grita em voz alta: "Agora chegou aquele que tirará as medidas! Agora chegou aquele que tirará as medidas!" O sujeito grita isto por toda a parte, e as pessoas vêm de todos os lados e perguntam-lhe qual é o significado do seu grito. Ele não é tão imprudente a ponto de lhes responder, mas continua a gritar as mesmas palavras: "Agora chegou aquele que tirará as medidas!" Este arauto foi o mestre de todos nós, quando nos ensinou a usar a expressão, pois foi o primeiro a fazer uso dela.
Ora, a multidão estava reunida, incluindo a Rainha e todas as damas, os cavaleiros e as outras gentes, e havia muitos homens de armas por toda a parte, à direita e à esquerda. No local onde o torneio deveria ocorrer, havia grandes bancadas de madeira para uso da Rainha com as suas damas e donzelas. Tais bancadas finas nunca foram vistas antes; eram tão longas e bem construídas. Para lá se dirigiram as damas com a Rainha, desejando ver quem se sairia melhor ou pior no combate. Chegam cavaleiros às dezenas, às vinte e às trinta, aqui oitenta e ali noventa, aqui cem, ali ainda mais, e acolá duas vezes mais ainda; de modo que o aperto é tão grande em frente das bancadas e em toda a volta que decidem começar a justa. À medida que se reúnem, armados e desarmados, as suas lanças sugerem o aspeto de um bosque, pois aqueles que vieram para o desporto trouxeram tantas lanças que não há nada à vista a não ser lanças, bandeiras e estandartes. Aqueles que vão participar começam a justar, e encontram muitos dos seus companheiros que tinham vindo com intenção semelhante. Ainda outros preparam-se para realizar outros feitos de cavalaria. Os campos, prados e terras de pousio estão tão cheios de cavaleiros que é impossível calcular quantos ali estão. Mas não havia sinal de Lancelot nesta primeira reunião dos cavaleiros; contudo, mais tarde, quando ele entrou no meio do campo, o arauto viu-o e não pôde conter-se de gritar: "Eis aquele que tirará as medidas! Eis aquele que tirará as medidas!" E as pessoas perguntam-lhe quem ele é, mas ele não lhes diz nada.
Quando Lancelot entrou no torneio, ele era tão bom quanto vinte dos melhores, e começou a lutar de forma tão valorosa que ninguém conseguia desviar os olhos dele, onde quer que estivesse. Do lado de Pomelegloi havia um cavaleiro bravo e valoroso, e seu cavalo era fogoso e mais veloz que um cervo selvagem. Ele era filho do rei irlandês e lutava bem e com elegância. Mas o cavaleiro desconhecido agradou a todos cem vezes mais. Em admiração, todos se apressam a perguntar: "Quem é este cavaleiro que luta tão bem?" E a Rainha, em particular, chamou uma donzela inteligente e sábia e disse-lhe: "Donzela, deves levar uma mensagem, e faze-o rapidamente e com poucas palavras. Desce da tribuna, aproxima-te daquele cavaleiro com o escudo vermelhão e dize-lhe em segredo que eu ordeno que ele faça o seu 'pior'." Ela vai rapidamente e, com inteligência, executa a ordem da Rainha. Procurou o cavaleiro até chegar perto dele; então disse-lhe, prudentemente e em voz tão baixa que ninguém por perto pudesse ouvir: "Senhor, minha senhora, a Rainha, envia-vos dizer por mim que deveis fazer o vosso 'pior'." Quando ele ouviu isto, respondeu: "Com muito gosto", como alguém que é inteiramente dela. Então, investe contra outro cavaleiro com toda a força que seu cavalo pode carregar e erra o golpe que deveria tê-lo atingido. A partir daquele momento até o cair da tarde, ele continuou a agir tão mal quanto possível, de acordo com o desejo da Rainha. Mas o outro, que lutava com ele, não errou o golpe, mas atingiu-o com tal violência que ele foi duramente tratado. Então, pôs-se em fuga e, depois disso, nunca mais virou a cabeça de seu cavalo em direção a nenhum cavaleiro; e, mesmo que morresse por isso, não faria nada a menos que visse nisso a sua vergonha, desgraça e desonra; finge até ter medo de todos os cavaleiros que passam de um lado para o outro. E os próprios cavaleiros que anteriormente o estimavam agora lançavam zombarias e escárnios contra ele. E o arauto, que vinha dizendo: "Ele vencerá a todos por sua vez!", está muito deprimido e desconcertado quando ouve as piadas desdenhosas daqueles que gritam: "Amigo, não digas mais nada! Este sujeito não medirá mais ninguém. Mediu tanto que sua vara de medir está quebrada, da qual tanto te gabaste conosco." Muitos dizem: "O que ele vai fazer? Ele era tão bravo agora há pouco; mas agora é tão covarde que não há cavaleiro que ele ouse enfrentar. A causa de seu sucesso inicial deve ter sido o fato de nunca ter combatido antes, e ele foi tão bravo em seu primeiro ataque que o cavaleiro mais habilidoso não ousou resistir-lhe, pois ele lutava como um homem selvagem. Mas agora ele aprendeu tanto sobre armas que nunca mais desejará carregá-las por toda a sua vida. Seu coração não pode mais suportar o pensamento, pois não há nada mais covarde do que o seu coração." E a Rainha, enquanto o observa, sente-se feliz e satisfeita, pois sabe muito bem, embora não o diga, que este é certamente Lancelot. Assim, durante todo o dia até a noite, ele desempenhou seu papel de covarde, e no final da tarde eles se separaram. Na despedida, houve uma grande discussão sobre quem havia se saído melhor. O filho do rei irlandês pensa que, sem dúvida ou contradição, ele tem toda a glória e renome. Mas ele está gravemente enganado, pois havia muitos outros tão bons quanto ele. Mesmo o cavaleiro vermelhão agradou tanto às mais belas e gentis damas e donzelas que elas o haviam observado mais do que a qualquer outro cavaleiro, pois notaram quão bem ele lutou no início e quão excelente e bravo ele foi; depois, tornou-se tão covarde que não ousava enfrentar um único cavaleiro, e até o pior deles poderia derrotá-lo e capturá-lo à vontade. Mas cavaleiros e damas concordaram que no dia seguinte deveriam retornar à lista, e as donzelas deveriam escolher como seus senhores aqueles que conquistassem honra na luta daquele dia: neste arranjo todos concordam. Então, voltam para seus alojamentos e, quando retornaram, aqui e ali os homens começaram a dizer: "O que aconteceu com o pior, o mais covarde e desprezado dos cavaleiros? Para onde ele foi? Onde ele está escondido? Onde ele deve ser encontrado? Onde devemos procurá-lo? Provavelmente nunca mais o veremos. Pois ele foi afugentado pela covardia, da qual está tão cheio que não há maior covarde no mundo do que ele. E ele não está errado, pois um covarde está cem vezes mais à vontade do que um homem de armas valoroso. A covardia é fácil de suplicar, e essa é a razão pela qual ele lhe deu o beijo da paz e tomou dela tudo o que ela tinha a dar. A coragem nunca se rebaixou tanto a ponto de se alojar em seu peito ou instalar-se perto dele. Mas a covardia está inteiramente alojada com ele, e ela encontrou um hospedeiro que a honrará e servirá tão fielmente que ele está disposto a renunciar ao seu próprio bom nome em favor do dela." Assim eles discutem a noite toda, competindo entre si em calúnias. Mas muitas vezes um homem difama outro, e ainda assim é muito pior do que o objeto de sua culpa e desprezo. Assim, cada um dizia o que lhe aprazia sobre ele. E quando o dia seguinte amanheceu, todo o povo preparou-se e veio novamente ao local das justas. A Rainha estava na tribuna novamente, acompanhada por suas damas, donzelas e muitos cavaleiros sem suas armas, que haviam sido capturados ou derrotados, e estes explicavam-lhes os brasões dos cavaleiros que mais estimavam. Assim, eles conversam entre si: "Vêem aquele cavaleiro ali com uma faixa dourada no meio do seu escudo vermelho? Aquele é Governauz de Roberdic. E vêem aquele outro, que tem uma águia e um dragão pintados lado a lado em seu escudo? Aquele é o filho do Rei de Aragão, que veio a esta terra em busca de glória e renome. E vêem aquele ao lado dele, que investe e justa tão bem, portando um escudo com um leopardo pintado em fundo verde de um lado, e a outra metade é azul-celeste? Aquele é Ignaures, o bem-amado, um amante e jovial. E aquele que porta o escudo com os faisões retratados bico com bico é Coguillanz de Mautirec. Vêem aqueles dois lado a lado, com seus corcéis malhados e escudos dourados exibindo leões negros? Um chama-se Semiramis, e o outro é seu companheiro; seus escudos são pintados da mesma forma. E vêem aquele que tem um escudo com um portão pintado nele, através do qual um cervo parece estar passando? Aquele é o Rei Ider, em verdade." Assim eles conversam lá na tribuna. "Aquele escudo foi feito em Limoges, de onde foi trazido por Pilades, que é muito ardente e ávido por estar sempre na luta. Aquele escudo, rédea e peitoral foram feitos em Toulouse, e foram trazidos para cá por Kay de Estraus. O outro veio de Lyon, no Ródano, e não há melhor sob o céu; por seu grande mérito, foi presenteado a Taulas do Deserto, que o porta bem e protege-se com ele habilmente. Aquele escudo ali é de fabricação inglesa e foi feito em Londres; vêem nele duas andorinhas que parecem estar prestes a voar; contudo, elas não se movem, mas recebem muitos golpes das lanças de aço de Poitou; aquele que o tem é o pobre Thoas." Assim eles apontam e descrevem as armas daqueles que conhecem; mas não vêem nada daquele a quem haviam tratado com tanto desprezo e, não o notando na luta, supõem que ele tenha escapado. Quando a Rainha vê que ele não está lá, sente-se inclinada a enviar alguém para procurá-lo na multidão até que seja encontrado. Ela não conhece ninguém melhor para enviar em sua busca do que aquela que ontem realizou sua tarefa. Então, chamando-a imediatamente, disse-lhe: "Donzela, vá e monte em seu palafrem! Envio-te ao mesmo cavaleiro a quem te enviei ontem, e procura-o até que o encontres. Não demores por qualquer motivo e dize-lhe novamente para fazer o seu 'pior'. E quando tiveres dado esta mensagem, observa bem que resposta ele dá." A donzela não demora, pois havia observado cuidadosamente a direção que ele tomou na noite anterior, sabendo bem que seria enviada a ele novamente. Ela abriu caminho pelas fileiras até ver o cavaleiro, a quem instrui imediatamente a fazer o seu "pior" novamente, se ele deseja o amor e o favor da Rainha, que ela lhe envia. E ele responde: "Meus agradecimentos a ela, já que tal é a sua vontade." Então, a donzela partiu, e os criados, sargentos e escudeiros começam a gritar: "Vejam esta coisa maravilhosa! Aquele de ontem com as armas vermelhão está de volta. O que ele pode querer? Nunca no mundo houve um miserável tão vil, desprezível e covarde! Ele está tão sob o poder da covardia que a resistência é inútil por parte dele." E a donzela retorna à Rainha, que a reteve e não a deixou partir até ouvir qual fora sua resposta; então ela se alegrou sinceramente, não sentindo mais qualquer dúvida de que este é aquele a quem ela inteiramente pertence, e ele é dela da mesma maneira. Então ela ordena à donzela que retorne rapidamente e lhe diga que é seu comando e pedido que ele faça o seu "melhor"; e ela diz que irá imediatamente sem demora. Ela desceu da tribuna para onde seu criado com o palafrem a esperava. Ela montou e cavalgou até encontrar o cavaleiro, a quem disse imediatamente: "Senhor, minha senhora agora envia palavra para que façais o 'melhor' que puderdes!" E ele responde: "Dizei-lhe agora que nunca é um fardo fazer a sua vontade, pois o que quer que lhe agrade é o meu deleite." A donzela não foi lenta em trazer de volta esta mensagem, pois pensa que ela agradará e deliciará muito a Rainha. Ela abriu caminho o mais diretamente possível até a tribuna, onde a Rainha se levantou e começou a ir ao seu encontro; contudo, ela não desceu, mas esperou por ela no topo dos degraus. E a donzela veio feliz com a mensagem que tinha para levar. Quando ela subiu os degraus e chegou ao seu lado, disse: "Senhora, nunca vi um cavaleiro tão cortês, pois ele está mais do que pronto para obedecer a cada comando que lhe enviais, pois, se a verdade for dita, ele aceita o bem e o mal com a mesma semblante." "De fato," diz a Rainha, "isso bem pode ser verdade." Então ela retorna à sacada para observar os cavaleiros. E Lancelot, sem demora, agarra seu escudo pelas correias de couro, pois está inflamado e consumido pelo desejo de mostrar sua proeza. Guiando a cabeça do cavalo, ele o deixa correr entre duas linhas. Todos aqueles homens equivocados e iludidos, que passaram grande parte do dia e da noite cobrindo-o de ridículo, logo ficarão desconcertados. Por muito tempo eles tiveram seu esporte, piada e diversão. O filho do Rei da Irlanda segurava seu escudo firmemente agarrado pelas correias de couro, enquanto esporeava ferozmente para encontrá-lo na direção oposta. Eles se encontram com tal violência que o filho do rei irlandês, tendo quebrado e estilhaçado sua lança, não deseja mais o torneio; pois não foi musgo o que ele atingiu, mas tábuas duras e secas. Neste encontro, Lancelot ensinou-lhe um de seus golpes, quando ele prendeu seu escudo ao seu braço, e seu braço ao seu lado, e o derrubou de seu cavalo ao chão. Como flechas, os cavaleiros voam imediatamente, esporeando e picando de ambos os lados, alguns para socorrer este cavaleiro, outros para aumentar seu sofrimento. Enquanto alguns tentam assim ajudar seus senhores, muitas selas são deixadas vazias na disputa e na refrega. Mas durante todo aquele dia Gawain não tomou parte nas armas, embora estivesse com os outros lá, pois sentia tanto prazer em observar os feitos daquele com as armas pintadas de vermelho que o que os outros faziam parecia-lhe pálido em comparação. E o arauto animou-se novamente, enquanto gritava alto para que todos pudessem ouvir: "Aqui chegou um que tirará as medidas! Hoje vereis o que ele pode fazer. Hoje sua proeza aparecerá." Então o cavaleiro direciona seu corcel e faz um golpe muito habilidoso contra um certo cavaleiro, a quem atinge tão forte que o leva a cem pés ou mais de seu cavalo. Seus feitos com espada e lança são tão bem realizados que não há um dos espectadores que não sinta prazer em observá-lo. Muitos, inclusive dos que portam armas, encontram prazer e satisfação no que ele faz, pois é um grande espetáculo ver como ele faz cavalos e cavaleiros caírem e tombarem. Ele dificilmente encontra um único cavaleiro que seja capaz de manter seu assento, e ele dá os cavalos que ganha àqueles que os querem. Então aqueles que faziam jogo dele disseram: "Agora estamos desonrados e mortificados. Foi um grande erro da nossa parte zombar e vilipendiar este homem, pois ele certamente vale por mil como nós neste campo; pois ele derrotou e superou todos os cavaleiros do mundo, de modo que não há ninguém agora que o oponha." E as donzelas, que maravilhadas o observavam, todas disseram que ele poderia tomá-las como esposas; mas elas não ousavam confiar em sua beleza ou riqueza, ou poder ou nobreza, pois nem por sua beleza ou riqueza este cavaleiro inigualável se dignaria a escolher qualquer uma delas. No entanto, a maioria delas está tão enamorada dele que dizem que, a menos que se casem com ele, não serão entregues a nenhum homem este ano. E a Rainha, que as ouve gabar-se, ri para si mesma e aproveita a diversão, pois sabe muito bem que se todo o ouro da Arábia fosse colocado diante dele, ainda assim aquele que é amado por todas elas não selecionaria a melhor, a mais bela ou a mais encantadora do grupo. Um desejo é comum a todas elas — cada uma deseja tê-lo como seu esposo. Uma sente ciúmes da outra, como se ela já fosse sua esposa; e tudo isso é porque elas o vêem tão destro que, em sua opinião, nenhum homem mortal poderia realizar tais feitos como ele havia feito. Ele se saiu tão bem que, quando chegou a hora de deixar a lista, eles admitiram livremente em ambos os lados que ninguém havia igualado o cavaleiro com o escudo vermelhão. Todos disseram isso, e era verdade. Mas quando ele partiu, permitiu que seu escudo, lança e arreios caíssem onde viu o maior aperto, depois cavalgou apressadamente com tal segredo que ninguém de todo o exército notou que ele havia desaparecido. Mas ele voltou direto para o lugar de onde viera, para cumprir seu juramento. Quando o torneio terminou, todos procuraram e perguntaram por ele, mas sem sucesso, pois ele fugiu, não tendo desejo de ser reconhecido. Os cavaleiros estão desapontados e angustiados, pois teriam se alegrado em tê-lo lá. Mas se os cavaleiros ficaram tristes por terem sido abandonados assim, ainda maior foi a dor das donzelas quando souberam a verdade, e elas afirmaram por São João que não se casariam de forma alguma naquele ano. Se elas não podem ter aquele a quem verdadeiramente amam, então todos os outros podem ser dispensados. Assim, o torneio foi encerrado sem que nenhum deles escolhesse um marido. Enquanto isso, Lancelot, sem demora, repara para sua prisão. Mas o senescal chegou dois ou três dias antes de Lancelot e perguntou onde ele estava. E sua esposa, que havia dado a Lancelot suas belas e bem equipadas armas vermelhão, bem como seus arreios e seu cavalo, disse a verdade ao senescal — como ela o havia enviado para onde havia justas no torneio de Noauz. "Senhora," responde o senescal, "verdadeiramente não poderíeis ter feito nada pior do que isso. Sem dúvida, pagarei caro por isso, pois meu senhor Meleagant tratar-me-á pior do que a lei dos catadores de praia me trataria se eu fosse um marinheiro em perigo. Serei morto ou banido no momento em que ele ouvir a notícia, e ele não terá piedade de mim." "Belo senhor, não vos desanimeis agora," disse a dama; "não há ocasião para o medo que sentis. Não há possibilidade de sua detenção, pois ele jurou-me pelos santos que retornaria assim que possível."
Agora Meleagant cumpriu todo o seu propósito e dirige-se à corte do Rei Arthur: vede-o agora chegado! E quando esteve diante do Rei, falou assim com orgulho e arrogância: "Rei, marquei uma batalha para ocorrer em vossa presença e em vossa corte. Mas não vejo nada de Lancelot, que concordou em ser meu antagonista. Não obstante, como é meu dever, ouvindo todos os que aqui estão presentes, ofereço-me para travar esta batalha. E se ele está aqui, que dê um passo à frente agora e concorde em encontrar-me em vossa corte daqui a um ano. Não sei se alguém vos contou como esta batalha foi acordada. Mas vejo cavaleiros aqui que estavam presentes em nossa conferência e que, se quisessem, poderiam contar-vos a verdade. Se ele tentasse negar a verdade, não empregaria nenhum mercenário para tomar o meu lugar, mas prová-lo-ia a ele mão a mão." A Rainha, que estava sentada ao lado do Rei, puxa-o para si enquanto diz: "Senhor, sabeis quem é aquele cavaleiro? É Meleagant, que me levou enquanto eu estava sob a escolta de Kay, o senescal; ele causou-lhe muita vergonha e também desgraça." E o Rei respondeu-lhe: "Minha senhora, compreendo; sei muito bem que foi ele quem manteve o meu povo em aflição." A Rainha não diz mais nada, mas o Rei dirige-se a Meleagant: "Amigo", diz ele, "que Deus me ajude, estamos muito tristes porque não sabemos nada de Lancelot." "Meu senhor Rei", diz Meleagant, "Lancelot disse-me que eu certamente o encontraria aqui. Em nenhum outro lugar senão em vossa corte devo eu lançar o chamado para esta batalha, e desejo que todos os vossos cavaleiros aqui presentes me sirvam de testemunha de que o desafio para lutar daqui a um ano, conforme estipulado quando concordamos em lutar."
A isto, meu senhor Gawain levanta-se, muito perturbado com o que ouve: "Senhor, nada se sabe de Lancelot em toda esta terra", diz ele; "mas enviaremos em sua busca e, se Deus quiser, ainda o encontraremos antes que o ano chegue ao fim, a menos que esteja morto ou na prisão. E se ele não aparecer, então concedei-me a batalha, e eu lutarei por ele: armar-me-ei no lugar de Lancelot, se ele não retornar antes desse dia." "Ah", diz Meleagant, "pelo amor de Deus, meu belo senhor Rei, concedei-lhe o favor. Junto o meu pedido ao seu desejo, pois não conheço cavaleiro em todo o mundo com quem mais gostaria de provar a minha força, excetuando apenas Lancelot. Mas tende em mente que, se eu não lutar com um deles, não aceitarei nenhuma troca ou substituição por qualquer um dos dois." E o Rei diz que isto fica entendido, caso Lancelot não retorne dentro do prazo. Então Meleagant deixou a corte real e viajou até encontrar seu pai, o Rei Bademagu. Para parecer corajoso e digno de consideração em sua presença, começou por fingir muito e assumir uma expressão de alegria maravilhosa. Naquele dia, o rei realizava uma corte jubilosa em sua cidade de Bade; era seu aniversário, que ele celebrava com esplendor e generosidade, e havia muitas pessoas de diversas sortes reunidas com ele. Todo o palácio estava cheio de cavaleiros e donzelas, e entre eles estava a irmã de Meleagant, de quem vos direi, mais adiante, qual é o meu pensamento e a razão para mencioná-la aqui. Mas não é adequado que eu explique isso agora, pois não desejo confundir ou emaranhar a minha matéria, mas sim tratá-la de forma direta. Agora devo dizer-vos que Meleagant, ouvindo todos, grandes e pequenos, falou assim ao seu pai, jactancioso: "Pai", diz ele, "que Deus me ajude, por favor dizei-me a verdade agora se não deveria estar bem contente, e se não é verdadeiramente corajoso aquele que pode fazer com que suas armas sejam temidas na corte do Rei Arthur?" A esta pergunta seu pai responde de imediato: "Filho", diz ele, "todos os bons homens devem honrar, servir e buscar a companhia daquele cujos méritos são tais." Então ele o lisonjeou com o pedido de que não escondesse por que aludiu a isso, o que deseja e de onde vem. "Senhor, não sei se vos lembrais", começa Meleagant, "dos acordos e estipulações que foram registrados quando Lancelot e eu fizemos as pazes. Foi então acordado, creio eu, e na presença de muitos fomos informados, que nos apresentaríamos ao fim de um ano na corte de Arthur. Fui até lá no tempo designado, pronto e equipado para os meus negócios ali. Fiz tudo o que havia sido prescrito: chamei e procurei por Lancelot, com quem eu deveria lutar, mas não pude avistá-lo: ele fugiu e escapou. Quando vim embora, Gawain deu sua palavra de que, se Lancelot não estiver vivo e não retornar dentro do prazo acordado, nenhum adiamento será pedido, mas que ele próprio lutará a batalha contra mim no lugar de Lancelot. Arthur não tem cavaleiro, como é bem sabido, cuja fama se iguale à dele, mas antes que as flores desabrochem novamente, verei, quando chegarmos às vias de fato, se sua fama e seus atos estão de acordo: eu apenas gostaria que isso pudesse ser resolvido agora!" "Filho", diz seu pai, "estás agindo exatamente como um tolo. Qualquer um, que não soubesse antes, pode aprender da tua loucura pelos teus próprios lábios. Um bom coração verdadeiramente se humilha, mas o tolo e o jactancioso nunca perdem sua tolice. Filho, a ti dirijo as minhas palavras, pois os traços do teu caráter são tão duros e secos que não há lugar para doçura ou amizade. Teu coração é completamente impiedoso: estás inteiramente sob o domínio da loucura. Isto explica o meu pouco respeito por ti, e é isto que te levará à ruína. Se fores corajoso, haverá muitos homens para dizê-lo em tempos de necessidade. Um homem virtuoso não precisa louvar seu coração para engrandecer seu feito; o próprio feito falará em seu próprio louvor. Teu autoelogio não te ajuda em nada a aumentar a estima de ninguém; na verdade, tenho-te em menor conta. Filho, castigo-te; mas para que fim? É de pouca utilidade aconselhar um tolo. Apenas desperdiça sua força em vão quem tenta curar a loucura de um tolo, e a sabedoria que alguém ensina e expõe é inútil, desperdiçada e desempregada, a menos que seja expressa em obras." Então Meleagant ficou terrivelmente enfurecido e furioso. Posso dizer verdadeiramente que nunca poderíeis ver um homem mortal tão cheio de raiva como ele estava; o último laço entre eles foi quebrado então, enquanto ele dizia ao pai estas palavras pouco graciosas: "Estais em um sonho ou transe, quando dizeis que sou louco por vos contar como estão os meus assuntos? Pensei que tinha vindo a vós como a meu senhor e meu pai; mas isso não parece ser o caso, pois insultais-me de forma mais ultrajante do que creio que tenhais qualquer direito de fazer; além disso, não podeis dar nenhuma razão por me terdes dirigido a palavra assim." "De fato, posso." "Qual é ela, então?" "Porque não vejo em ti nada além de tolice e ira. Sei muito bem como é a tua coragem, e que ela te causará grandes problemas ainda. Uma maldição sobre quem supõe que o elegante Lancelot, que é estimado por todos exceto por ti, já fugiu de ti por medo. Tenho certeza de que ele está enterrado ou confinado em alguma prisão cuja porta está trancada tão apertada que ele não pode escapar sem permissão. Eu certamente ficaria profundamente entristecido se ele estivesse morto ou em aflição. Seria certamente muito ruim se uma criatura tão esplendidamente equipada, tão justa, tão ousada, contudo tão serena, perecesse assim antes do seu tempo. Mas, que apraza a Deus, isto não é verdade." Então Bademagu não disse mais nada; mas uma filha sua ouvira atentamente todas as suas palavras, e deveis saber que foi ela quem mencionei anteriormente em meu conto, e que não está feliz agora ao ouvir tais notícias de Lancelot. Fica bem claro para ela que ele está trancado, já que ninguém sabe nenhuma notícia dele ou de suas andanças. "Que Deus nunca olhe para mim, se eu descansar até que tenha algumas notícias certas e seguras dele!" Imediatamente, sem fazer nenhum ruído ou perturbação, ela corre e monta em uma mula bela e de passo fácil. Mas devo dizer que quando ela deixa a corte, não sabe para que lado se virar. No entanto, ela não pede conselhos em sua situação, mas toma a primeira estrada que encontra, e cavalga ao acaso rapidamente, sem ser acompanhada por cavaleiro ou escudeiro. Em sua ânsia, ela se apressa para alcançar o objeto de sua busca. Com entusiasmo ela pressiona em sua busca, mas isso não terminará logo. Ela não pode descansar ou atrasar muito em nenhum lugar, se deseja cumprir seu plano de libertar Lancelot de sua prisão, se ela puder encontrá-lo e se for possível. Mas na minha opinião, antes que ela o encontre, ela terá procurado em muitas terras, após muitas viagens e muitas buscas, antes que ela tenha qualquer notícia dele. Mas qual seria o uso de eu vos contar de suas estalagens e de suas viagens? Finalmente, ela viajou tão longe por colinas e vales, subindo e descendo, que mais de um mês havia se passado, e até então ela tinha aprendido apenas tanto quanto sabia antes — isto é, absolutamente nada. Um dia ela estava atravessando um campo em um estado de espírito triste e pensativo, quando viu uma torre à distância, situada na margem de um braço de mar. Não havia, dentro de uma légua ao redor, nenhuma casa, cabana ou local de moradia. Meleagant a mandara construir e confinara Lancelot dentro dela. Mas de tudo isso ela ainda não sabia. Assim que ela avistou a torre, fixou sua atenção nela com exclusão de todo o resto. E seu coração lhe dá a garantia de que aqui está o objeto de sua busca; agora, finalmente, ela alcançou seu objetivo, para o qual a Fortuna, através de muitas provações, a dirigiu finalmente.
A donzela aproxima-se tanto da torre que pode tocá-la com as mãos. Ela caminha ao redor, ouvindo atentamente, suponho, se por acaso puder ouvir algum som bem-vindo. Ela olha para baixo e contempla para cima, e vê que a torre é forte, alta e espessa. Ela fica espantada ao não ver porta ou janela, exceto uma pequena e estreita abertura. Além disso, não havia escada ou degraus ao redor desta torre alta e íngreme. Por esta razão, ela supõe que foi feita intencionalmente assim, e que Lancelot está confinado lá dentro. Mas ela resolve que, antes de provar qualquer alimento, saberá se isso é verdade ou não. Ela pensa que chamará Lancelot pelo nome, e está prestes a fazê-lo quando é impedida ao ouvir da torre uma voz que fazia um lamento maravilhosamente triste enquanto chamava pela morte. Ela implora à morte que venha, e queixa-se de uma miséria insuportável. Em desprezo pelo corpo e pela vida, ela fracamente piava em um tom baixo e rouco: "Ah, fortuna, quão desastrosamente tua roda girou para mim! Tu zombaste de mim vergonhosamente: há pouco tempo eu estava no topo, mas agora estou por baixo; eu estava bem recentemente, mas agora estou em um estado lamentável; não faz muito tempo tu sorrias para mim, mas agora teus olhos estão cheios de lágrimas. Ai de mim, pobre desgraçado, por que confiaste nela, quando tão logo ela te desertou! Vede, em muito pouco tempo ela te lançou de teu alto estado! Fortuna, foi errado da tua parte zombar de mim assim; mas o que te importa! Tu não te importas como as coisas podem terminar. Ah, santa Cruz! Ah, Espírito Santo! Como sou miserável e arruinado! Como completamente minha carreira foi encerrada! Ah, Gawain, vós que possuís tal valor, e cuja bondade é inigualável, certamente posso ficar bem espantado que não venhais em meu socorro. Certamente demorais demais e não estais demonstrando cortesia. Aquele a quem costumáveis amar tão devotadamente deveria, de fato, receber o vosso auxílio! Por minha parte, posso dizer verdadeiramente que não há lugar de descanso ou retiro em ambos os lados do mar, onde eu não vos teria procurado por pelo menos sete ou dez anos antes de vos encontrar, se eu soubesse que estaveis na prisão. Mas por que me torturo assim? Vós não vos importais comigo nem o suficiente para ter este trabalho. O rústico tem razão quando diz que é difícil hoje em dia encontrar um amigo! É fácil testar o verdadeiro amigo no tempo da necessidade. Ai de mim! Mais de um ano se passou desde que fui posto pela primeira vez dentro desta torre. Sinto-me ferido, Gawain, que tenhais me abandonado por tanto tempo! Mas, sem dúvida, nada sabeis de tudo isto, e não tenho motivos para vos culpar. Sim, quando penso nisso, deve ser este o caso, e eu estava muito errado em imaginar tal coisa; pois estou confiante de que, por tudo o que o mundo contém, vós e vossos homens não teriam falhado em vir libertar-me deste problema e aflição, se estivésseis cientes disso. Se por nenhuma outra razão, seríeis obrigados a fazer isto por amor a mim, vosso companheiro. Mas é inútil falar sobre isso — não pode ser. Ah, que a maldição e a danação de Deus e de São Silvestre repousem sobre aquele que me trancou tão vergonhosamente! Ele é o homem mais vil que existe, este invejoso Meleagant, ao tratar-me tão mal quanto possível!" Então ele, que está exaurindo sua vida em tristeza, para de falar e mantém sua paz. Mas quando ela, que estava demorando na base da torre, ouviu o que ele dizia, ela não hesitou, mas agiu sabiamente e chamou-o assim: "Lancelot", tão alto quanto podia; "amigo, aí em cima, falai com alguém que é vosso amigo!" Mas lá dentro ele não ouviu suas palavras. Então ela chamou ainda mais alto, até que ele, em sua fraqueza, ouviu-a debilmente e perguntou-se quem poderia estar chamando por ele. Ele ouviu a voz e ouviu seu nome pronunciado, mas não sabia quem o estava chamando: ele pensa que deve ser um espírito. Ele olha ao seu redor para ver, suponho, se pudesse avistar alguém; mas não há nada a ser visto senão a torre e ele próprio. "Deus", diz ele, "o que foi que ouvi? Ouvi alguém falar, mas não vejo nada! De fato, isto é maravilhosamente estranho, pois não estou dormindo, mas bem acordado. Naturalmente, se isto acontecesse em um sonho, eu consideraria uma ilusão; mas estou acordado, e portanto estou angustiado." Então, com alguma dificuldade, ele se levanta e, com passos lentos e débeis, move-se em direção à pequena abertura. Uma vez lá, ele espreita através dela, para cima e para baixo e para ambos os lados. Quando ele olhou para fora o melhor que pôde, avistou aquela que o chamara. Ele não a reconheceu à primeira vista. Mas ela o conheceu de imediato e disse: "Lancelot, vim de longe em tua busca. Agora, graças a Deus, finalmente te encontrei. Sou aquela que te pediu um favor enquanto estavas a caminho da ponte da espada, e tu muito alegremente o concedeste ao meu pedido; foi a cabeça que ordenei que cortasses do cavaleiro conquistado a quem eu odiava tanto. Por causa deste favor e deste serviço que fizeste por mim, tomei todo este trabalho. Como recompensa, libertar-te-ei daqui." "Donzela, muitos agradecimentos a vós", respondeu então o prisioneiro; "o serviço que vos fiz será bem recompensado se eu for libertado. Se puderdes tirar-me daqui, prometo e comprometo-me a ser de agora em diante sempre vosso, que me ajude o santo Apóstolo Paulo! E, como posso ver Deus face a face, nunca deixarei de obedecer aos vossos comandos de acordo com a vossa vontade. Podeis pedir qualquer coisa que eu tenha, e recebê-la sem demora." "Amigo, não tenhas medo de que não sejas libertado daqui. Serás solto e posto em liberdade ainda hoje. Nem por mil libras renunciaria à expectativa de te ver livre antes da data de outro dia. Então levar-te-ei a um lugar agradável, onde possas descansar e tomar o teu conforto. Lá terás tudo o que desejares, seja o que for. Portanto, não tenhas medo. Mas primeiro devo ver se consigo encontrar alguma ferramenta em algum lugar aqui por perto com a qual possas alargar este buraco, pelo menos o suficiente para te deixar passar." "Que Deus conceda que encontreis algo", disse ele, concordando com este plano; "tenho muita corda aqui dentro, que os patifes me deram para puxar minha comida — pão duro de cevada e água suja, que deixam doentes meu estômago e meu coração." Então a filha de Bademagu procurou e encontrou uma picareta forte, robusta e afiada, que ela lhe entregou. Ele golpeou, martelou, bateu e cavou, apesar da dor que isso lhe causava, até que pôde sair confortavelmente. Agora ele está muito aliviado e alegre, podeis ter certeza, por estar fora da prisão e por se afastar do lugar onde esteve confinado por tanto tempo. Agora ele está livre ao ar livre. Podeis ter certeza de que ele não voltaria, se alguém reunisse em uma pilha e lhe desse todo o ouro que existe espalhado pelo mundo.
Eis agora Lancelot liberto, mas tão fraco que cambaleava devido à sua debilidade e impedimento. Gentilmente, sem o ferir, ela o acomoda diante de si em sua mula, e então partem rapidamente. Mas a donzela evita propositalmente o caminho batido, para que não sejam vistos, e segue por uma vereda escondida; pois se tivesse viajado abertamente, sem dúvida alguém os teria reconhecido e feito-lhes mal, e ela não teria desejado que isso acontecesse. Assim, evitou os lugares perigosos e chegou a uma mansão onde costuma fazer sua estada por causa de sua beleza e encanto. Toda a propriedade e as pessoas nela pertenciam-lhe, e o lugar era bem mobiliado, seguro e privado. Ali chegou Lancelot. E tão logo chegou, e pôs de lado suas roupas, a donzela gentilmente o deitou em um leito alto e formoso, depois o banhou e esfregou com tanto cuidado que eu não poderia descrever metade do zelo que ela teve. Manejou-o e tratou-o tão suavemente como se ele fosse seu pai. Seu tratamento faz dele um novo homem, à medida que ela o reanima com seus cuidados. Agora ele não é menos belo que um anjo e é mais ágil e mais lépido do que qualquer coisa que jamais vistes. Quando se levantou, não estava mais sarnento e abatido, mas forte e belo. E a donzela procurou para ele a mais fina túnica que pôde encontrar, com a qual o vestiu quando ele se ergueu. E ele ficou feliz em vesti-la, mais rápido do que um pássaro em voo. Ele beijou e abraçou a moça, e então disse-lhe graciosamente: "Minha querida, só tenho a Deus e a vós a agradecer por estar restaurado à saúde novamente. Uma vez que devo minha liberdade a vós, podeis tomar e comandar à vontade meu coração e corpo, meu serviço e bens. Pertenço-vos em troca do que fizestes por mim; mas faz tempo que não estou na corte de meu senhor Arthur, que me tem demonstrado grande honra; e há muito o que fazer lá. Agora, minha doce e gentil amiga, peço-vos afetuosamente licença para ir; então, com vosso consentimento, sentir-me-ia livre para partir." "Lancelot, belo e doce querido amigo, estou de pleno acordo", diz a donzela; "desejo vossa honra e bem-estar acima de tudo em toda parte." Então ela lhe dá um cavalo maravilhoso que possui, o melhor cavalo que jamais foi visto, e ele salta para cima sem sequer dizer aos estribos "com vossa licença": ele estava montado sem sequer considerá-los. Então a Deus, que nunca mente, eles se recomendam com boa intenção.
Lancelot estava tão feliz por estar na estrada que, se eu tivesse de prestar juramento, não poderia possivelmente descrever a alegria que sentia por ter escapado de sua armadilha. Mas dizia a si mesmo repetidamente que desgraçado era o traidor, o réprobo, a quem agora ele enganou e ridicularizou, "pois, apesar dele, eu escapei". Então ele jura pelo coração e corpo daquele que fez o mundo que, por todas as riquezas e bens da Babilônia a Gante, não deixaria Meleagant escapar, se uma vez o tivesse em seu poder: pois ele tem a agradecer-lhe por demasiado dano e vergonha! Mas os eventos logo se desenrolarão de modo a tornar isso possível; pois este mesmo Meleagant, a quem ele ameaça e pressiona duramente, já tinha vindo à corte naquele dia sem ser convocado por ninguém; e a primeira coisa que fez foi procurar até encontrar meu senhor Gawain. Então o crápula, o provado traidor, pergunta-lhe sobre Lancelot, se ele tinha sido visto ou encontrado, como se ele mesmo não soubesse a verdade. Na verdade, ele não sabia a verdade, embora pensasse que a sabia bem o suficiente. E Gawain disse-lhe, como era verdade, que ele não tinha sido visto, e que não tinha chegado. "Bem, já que não o encontro", diz Meleagant, "vinde vós e cumpri a promessa que me fizestes: não esperarei mais por vós." Então Gawain dá resposta: "Cumprirei prontamente minha palavra convosco, se aprouver a Deus em quem deposito minha confiança. Espero saldar minha dívida convosco. Mas se chegar ao ponto de jogar dados, e eu tirar um número maior que o vosso, que Deus e a santa fé me ajudem, não recuarei, mas continuarei até embolsar todas as apostas." Então, sem demora, Gawain ordena que um tapete seja lançado ao chão e estendido diante dele. Não houve lamúrias ou tentativa de fugir quando os escudeiros ouviram este comando, mas sem resmungar ou reclamar eles executam o que ele ordena. Trazem o tapete e estendem-no no lugar indicado; então aquele que o tinha mandado buscar toma seu assento sobre ele e dá ordens para ser armado pelos jovens que estavam de pé, desarmados, diante dele. Eram dois, seus primos ou sobrinhos, não sei qual, mas eram exímios e sabiam o que fazer. Armam-no tão habilmente e bem que ninguém no mundo poderia encontrar qualquer falha neles por qualquer erro no que faziam. Quando terminaram de armá-lo, um deles foi buscar um corcel espanhol capaz de cruzar os campos, bosques, colinas e vales mais velozmente que o bom Bucéfalo. Sobre um cavalo tal como ouvistes, Gawain tomou seu assento — o admirado e mais exímio cavaleiro sobre quem o sinal da Cruz foi alguma vez feito. Já estava prestes a agarrar seu escudo, quando viu Lancelot desmontar diante dele, a quem não esperava ver. Olhou para ele com espanto, porque tinha chegado tão inesperadamente; e, se não me engano, ele ficou tão surpreso como se tivesse caído das nuvens. Contudo, nenhum negócio seu pode detê-lo, assim que vê Lancelot, de desmontar e estender-lhe os braços, enquanto o abraça, saúda e beija. Agora ele está feliz e à vontade, quando encontrou seu companheiro. Agora vos direi a verdade, e não deveis pensar que minto, que Gawain não desejaria ser escolhido rei, a menos que tivesse Lancelot consigo. O Rei e todos os outros agora ficam sabendo que, apesar de tudo, Lancelot, por quem tanto tempo vigiaram, voltou são e salvo. Portanto, todos se regozijam, e a corte, que há tanto tempo o esperava, reúne-se para honrá-lo. Sua felicidade dissipa e afasta a tristeza que anteriormente era deles. A dor toma voo e é substituída por uma alegria despertada. E quanto à Rainha? Não partilha ela do júbilo geral? Sim, verdadeiramente, ela em primeiro lugar. Como assim? Pelo amor de Deus, onde, então, ela poderia estar se escondendo? Ela nunca esteve tão feliz em sua vida como esteve com seu retorno. E não foi ela mesma até ele? Certamente ela foi; ela está tão próxima dele que seu corpo quase seguiu seu coração. Onde está o coração dela, então? Estava beijando e dando as boas-vindas a Lancelot. E por que o corpo se ocultou? Por que sua alegria não é completa? Está misturada com raiva ou ódio? Não, certamente, de modo algum; mas pode ser que o Rei ou alguns dos outros que estão lá, e que estão observando o que acontece, teriam compreendido toda a situação se, enquanto todos olhavam, ela tivesse seguido os ditames de seu coração. Se o bom senso não tivesse banido este impulso louco e desejo precipitado, seu coração teria sido revelado e sua loucura teria sido completa. Portanto, a razão fecha e prende seu coração afetuoso e seu intento precipitado, e o tornou mais razoável, adiando a saudação até que veja e aviste um lugar adequado e mais privado onde eles passariam melhor do que aqui e agora. O Rei honrou grandemente Lancelot, e após dar-lhe as boas-vindas, assim falou: "Não ouvi há muito tempo notícias de nenhum homem que fossem tão bem-vindas quanto notícias de vós; contudo, estou muito preocupado em saber em que região e em que terra vós tivestes demora por tanto tempo. Mandei fazer buscas por vós por toda parte, durante todo o inverno e o verão, mas ninguém pôde encontrar um rastro vosso." "Na verdade, belo senhor", diz Lancelot, "posso informar-vos em poucas palavras exatamente como tem sido comigo. O miserável traidor Meleagant manteve-me na prisão desde a hora da libertação dos prisioneiros em sua terra, e condenou-me a uma vida de vergonha em uma torre sua à beira-mar. Ali ele me pôs e me encerrou, e lá eu ainda estaria arrastando minha vida cansativa, se não fosse por uma amiga minha, uma donzela para quem uma vez prestei um pequeno serviço. Em troca do pequeno favor que lhe fiz, ela me recompensou liberalmente: ela me concedeu grande honra e bênção. Mas desejo retribuir sem demora àquele por quem não tenho amor, que procurou e arquitetou para mim esta vergonha e injúria. Ele não precisa esperar, pois a soma está toda pronta, principal e juros; mas Deus me livre que ele encontre nela motivo para se regozijar!" Então Gawain disse a Lancelot: "Amigo, será apenas um pequeno favor para mim, que estou em vosso débito, fazer este pagamento por vós. Além disso, estou todo pronto e montado, como vedes. Belo e doce amigo, não me negueis o benefício que desejo e solicito." Mas Lancelot responde que preferiria ter seu olho arrancado, ou mesmo ambos, do que ser persuadido a fazer isso: ele jura que nunca será assim. Ele deve a dívida e a pagará ele mesmo: pois com sua própria mão ele prometeu. Gawain percebe claramente que nada que possa dizer é de qualquer utilidade, então ele afrouxa e tira sua cota de malha de suas costas, e desarma-se completamente. Lancelot arma-se imediatamente sem demora; pois ele está impaciente para acertar e saldar sua dívida. Meleagant, que está maravilhado além da medida com o que vê, chegou ao fim de sua boa sorte, e está prestes a receber o que lhe é devido. Ele está quase fora de si e quase desmaia. "Certamente fui um tolo", diz ele, "por não ir, antes de vir aqui, ver se ainda mantinha aprisionado em minha torre aquele que agora pregou-me esta peça. Mas, Deus, por que deveria eu ter ido? Que causa tinha eu para pensar que ele pudesse possivelmente escapar? Não é a parede construída forte o suficiente, e não é a torre suficientemente forte e alta? Não havia buraco ou fenda nela, através da qual ele pudesse passar, a menos que fosse ajudado de fora. Tenho certeza de que seu esconderijo foi revelado. Se a parede estivesse gasta e tivesse caído em ruínas, ele não teria sido apanhado e ferido ou morto ao mesmo tempo? Sim, que Deus me ajude, se ela tivesse caído, ele certamente teria sido morto. Mas suponho, antes que aquela parede ceda sem ser derrubada, que toda a água no mar secará sem deixar uma gota e o mundo chegará ao fim. Não, não é isso: aconteceu de outra forma: ele foi ajudado a escapar, e não poderia ter saído de outra maneira: fui superado por alguma trapaça. De qualquer modo, ele escapou; mas se eu estivesse em guarda, tudo isso nunca teria acontecido, e ele nunca teria vindo à corte. Mas é tarde demais agora para se arrepender. O rústico, que raramente erra, observa pertinentemente que é tarde demais para fechar o estábulo quando o cavalo já saiu. Sei que agora estarei exposto a grande vergonha e humilhação, se é que não sofro e suporto algo pior. O que sofrerei e suportarei? Antes, enquanto eu viver, dar-lhe-ei medida cheia, se aprouver a Deus, em quem confio." Assim ele se consola, e não tem outro desejo senão encontrar seu antagonista no campo. E não terá de esperar muito, creio, pois Lancelot vai em busca dele, esperando logo conquistá-lo. Mas antes que o assalto comece, o Rei ordena que desçam para a planície onde a torre se ergue, o lugar mais bonito deste lado da Irlanda para uma luta. Assim o fizeram, e logo se encontraram na planície abaixo. O Rei desce também, e todos os outros, homens e mulheres em multidões. Ninguém fica para trás; mas muitos sobem às janelas da torre, entre eles a Rainha, suas damas e donzelas, de quem ela tinha muitas consigo que eram belas.
No campo erguia-se um sicômoro tão belo quanto qualquer árvore poderia ser; era de vasta expansão e cobria uma grande área, e ao seu redor crescia uma bela borda de grama espessa e fresca que era verde em todas as estações do ano. Sob este belo e majestoso sicômoro, que foi plantado ainda no tempo de Abel, nasce uma clara fonte de água que flui apressadamente. O leito da fonte é belo e tão brilhante quanto a prata, e o canal através do qual a água flui é formado, creio, de ouro refinado e testado, e estende-se através do campo até um vale entre os bosques. Lá apraz ao Rei tomar seu assento onde nada desagradável está à vista. Após a multidão ter recuado ao comando do Rei, Lancelot investe furiosamente contra Meleagant como contra alguém a quem odeia cordialmente, mas antes de golpeá-lo, ele gritou com uma voz alta e autoritária: "Tomai vossa posição, eu vos desafio! E tomai minha palavra, desta vez não sereis poupado." Então ele esporeia seu corcel e recua a distância de um disparo de arco. Então conduzem seus cavalos um contra o outro em velocidade máxima, e golpeiam-se tão ferozmente sobre seus escudos resistentes que os perfuraram e furaram. Mas nenhum dos dois é ferido, nem a carne é tocada neste primeiro assalto. Passam um pelo outro sem demora, e retornam no topo da velocidade de seus cavalos para renovar seus golpes nos escudos fortes e robustos. Ambos os cavaleiros são fortes e bravos, e ambos os cavalos são robustos e velozes. Tão poderosos são os golpes que desferem nos escudos ao redor de seus pescoços que as lanças passaram direto, sem quebrar ou estilhaçar, até que o aço frio alcançou sua carne. Cada um golpeia o outro com tamanha força que ambos são levados ao chão, e nenhuma peitoral, cilha ou estribo poderia salvá-los de cair para trás sobre o pomo de sua sela, deixando a sela sem ocupante. Os cavalos correm sem cavaleiro por colinas e vales, mas eles chutam e mordem um ao outro, mostrando assim seu ódio mortal. Quanto aos cavaleiros que caíram ao chão, eles saltaram o mais rapidamente possível e desembainharam suas espadas, que estavam gravadas com letras cinzeladas. Mantendo seus escudos diante do rosto, esforçam-se para ferir um ao outro com suas espadas de aço. Lancelot não teme nada dele, pois ele sabia metade a mais sobre esgrima do que seu antagonista, tendo aprendido em sua juventude. Ambos desferiram tais golpes no escudo pendurado em seus pescoços, e sobre seus elmos barrados com ouro, que os esmagaram e danificaram. Mas Lancelot pressiona-o duramente e desfere-lhe um poderoso golpe sobre seu braço direito que, embora envolto em malha, estava desprotegido pelo escudo, decepando-o com um golpe limpo. E quando ele sentiu a perda de seu braço direito, disse que ele deveria ser caro vendido. Se for de todo possível, ele não deixará de exigir o preço; ele está com tal dor, ira e fúria que está quase fora de si, e ele tem uma pobre opinião de si mesmo, se não puder marcar em seu rival agora. Ele investe contra ele com a intenção de agarrá-lo, mas Lancelot antecipa seu plano, pois com sua espada cortante ele desfere em seu corpo um tal corte do qual ele não se recuperará até que abril e maio tenham passado. Ele esmaga sua viseira contra seus dentes, quebrando três deles em sua boca. E a fúria de Meleagant é tal que ele não pode falar ou dizer uma palavra; nem se digna a pedir misericórdia, pois seu coração tolo segura firme em tal constrangimento que até agora ele ainda o ilude. Lancelot aproxima-se e, desamarrando seu elmo, corta sua cabeça. Nunca mais este homem o incomodará; está tudo acabado com ele enquanto cai morto. Nem uma alma que estava presente ali sentiu qualquer piedade ao ver a cena. O Rei e todos os outros ali estão jubilosos e expressam sua alegria. Mais felizes do que nunca estiveram antes, aliviam Lancelot de suas armas, e conduzem-no embora exultantes.
Meus senhores, se eu prolongasse meu conto, seria fora do propósito, e assim concluirei. Godefroi de Leigni, o clérigo, escreveu a conclusão de "o Cavaleiro da Carreta"; mas que ninguém encontre falha nele por ter bordado sobre o tema de Chrétien, pois foi feito com o consentimento de Chrétien que o iniciou. Godefroi terminou-o a partir do ponto onde Lancelot estava aprisionado na torre. Tanto ele escreveu; mas ele não desejaria acrescentar nada mais, por medo de desfigurar o conto.
[Nota de rodapé 414: A topografia do reino de Gorre, a terra onde habitam os cativos mantidos pelo Rei Bademagu, é muito confusa. Supor-se-ia a princípio que o riacho atravessado pelas duas pontes perigosas formasse a fronteira do reino. Mas aqui (v. 2102), antes de alcançar tal fronteira, os cativos já são encontrados. Foerster sugere que possamos estar aqui numa espécie de plano de fundo ou terra de fronteira que é defendida pelo cavaleiro no vau (v. 735 e segs.), e que, embora não esteja dentro dos limites do reino, está, contudo, sob o domínio de Bademagu. Na sequência, o riacho com as pontes perigosas é colocado imediatamente antes do palácio do Rei (cf. a nota de Foerster e G. Paris em "Romania", xxi. 471, nota).]
[Nota de rodapé 415: Para anéis mágicos, veja A. Hertel, op. cit., p. 62 e segs.]
[Nota de rodapé 416: Esta "dama" era a fada Vivian, "a senhora do lago". (F.)]
[Nota de rodapé 417: Um bom exemplo dos dilemas morais nos quais Chrétien se deleita em colocar as suas personagens. Sob a casca desagradável da alegoria e da casuística medieval, temos aqui o germe da análise psicológica do motivo.]
[Nota de rodapé 418: A origem lendária desta pomada, nomeada em honra de Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Maria Salomé, é mencionada no poema épico "Mort Aimeri de Narbonne" (ed. "Anciens Textes", p. 86). (F.)]
[Nota de rodapé 419: As universidades de Montpellier e de Salerno eram os principais centros de estudo médico na Idade Média. Salerno é mencionada em "Cligés", v. 5818.]
[Nota de rodapé 420: O herói do poema é aqui mencionado pela primeira vez pelo nome.]
[Nota de rodapé 421: A clássica história de amor de Píramo e Tisbe, contada por Ovídio e outros, era uma favorita na Idade Média.]
[Nota de rodapé 422: Eis a explicação para a fria receção de Guinevere a Lancelot; ele fora infiel ao rígido código de cortesia quando hesitou por um momento sequer em cobrir-se de vergonha por ela.]
[Nota de rodapé 423: A expressão "or est venuz qui aunera", menos literalmente, significa "quem derrotará todo o campo". Embora Chrétien se refira à expressão como um provérbio corrente, apenas dois outros exemplos do seu uso foram encontrados. (Cf. "Romania", xvi. 101, e "Ztsch. fur romanische Philologie", xi. 430.) A partir desta passagem, G. Paris supôs que o próprio Chrétien fosse um arauto de armas ("Journal des Savants", 1902, p. 296), mas, como diz Foerster, o texto dificilmente justifica a suposição.]
[Nota de rodapé 424: A evidente satisfação com que Chrétien descreve detalhadamente os brasões dos cavaleiros na passagem seguinte confere credibilidade à conjectura de Gaston Paris de que ele era tanto um arauto quanto um poeta.]
[Nota de rodapé 425: De acordo com a declaração feita no final do poema pelo continuador de Chrétien, Godefroi de Leigni, deve ter sido por volta deste ponto que o continuador retomou o fio da história. Não se sabe por que razão Chrétien abandonou o poema onde o fez.]
[Nota de rodapé 426: Bade = Bath. (F.)]
[Nota de rodapé 427: A situação recorda a de "Aucassin et Nicolette", onde Aucassin, confinado na torre, ouve a sua amada chamá-lo do lado de fora.]
[Nota de rodapé 428: A figura é, naturalmente, tirada do jogo de lançar dados para obter pontuações altas. Para um relato exaustivo do jogo de dados derivado de textos franceses antigos, cf. Franz Semrau, "Wurfel und Wurfelspiel in alten Frankreich", "Beiheft" 23 de "Ztsch. fur romanische Philologie" (Halle, 1910).]
[Nota de rodapé 429: O cavalo de Alexandre.]