AS VIAGENS DE GULLIVER
Para Diversas Regiões Remotas do Mundo
por
JONATHAN SWIFT, D.D.
Editado com Introdução e Notas por Thomas M. Balliet Superintendente de Escolas, Springfield, Mass.
Com Trinta e Oito Ilustrações e um Mapa
PARTE I
UMA VIAGEM A LILLIPUT
PARTE II
UMA VIAGEM A BROBDINGNAG
D.C. Heath & Co., Editores Boston Nova Iorque Chicago
1900
PREFÁCIO.
E eis! o livro, de todo o seu fim logrado, Uma maravilha inofensiva a alguma criança feliz.
LORD LYTTON.
As Viagens de Gulliver foi publicado em 1726; e, embora de modo algum se destinasse a eles, o livro foi logo apropriado pelas crianças, que desde então continuaram a considerá-lo um dos mais deleitosos de seus livros de histórias. Elas não conseguem compreender a ocasião que provocou o livro nem apreciar a sátira que subjaz à narrativa, mas deleitam-se com as aventuras maravilhosas, e vagueiam cheias de espanto de olhos abertos para os novos mundos através dos quais a imaginação vívida e logicamente precisa do autor tão pessoalmente as conduz. E há um significado e uma moral nas histórias das Viagens a Lilliput e a Brobdingnag que estão inteiramente à parte da sátira política que pretendem transmitir, um significado e uma moral que a criança mais nova que o consiga ler não deixará de captar, e sobre os quais dificilmente será necessário que o professor comente.
Para as crianças pequenas, o livro combina em certa medida o interesse de Robinson Crusoe e o do conto de fadas; o seu estilo é objetivo, a narrativa é simples, e o assunto apela fortemente à imaginação infantil. Para rapazes e raparigas mais maduros e para adultos, o interesse encontra-se principalmente na sátira aguda que subjaz à narrativa. Apela, portanto, a uma vasta gama de inteligência e gosto, e pode ser lido com proveito pela criança de dez anos e pelo jovem ou mulher de idade madura.
Esta edição é praticamente uma reimpressão da original (1726-27). A pontuação e o uso de maiúsculas foram modernizados, alguns arcaísmos alterados, e os parágrafos foram tornados mais frequentes. Omitiram-se algumas passagens que poderiam ofender os ouvidos modernos e que são inadequadas para a leitura das crianças, e foram acrescentadas algumas notas de rodapé explicando palavras obsoletas e expressões obscuras.
Como livro de leitura na escola, que deve ser adaptado à mente média, estas histórias mostrar-se-ão adequadas para turmas desde o quinto ou sexto ano de escolaridade até ao grau mais elevado da escola primária.
THOMAS M. BALLIET.
ÍNDICE.
VIAGEM A LILLIPUT.
CAPÍTULO I.
O Autor dá algumas informações sobre si próprio e a família--Os seus primeiros motivos para viajar--Sofre um naufrágio e nada para salvar a vida--Chega a salvo à costa no país de Lilliput--É feito prisioneiro e levado para o interior do país.
CAPÍTULO II.
O imperador de Lilliput, acompanhado por vários nobres, vem ver o Autor no seu cativeiro--A figura e os hábitos do imperador descritos--Homens doutos nomeados para ensinar ao Autor a sua língua--Ele ganha favor pela sua disposição branda--Os seus bolsos são revistados e a sua espada e pistolas retiradas.
CAPÍTULO III.
O Autor diverte o imperador e a sua nobreza de ambos os sexos de uma maneira muito incomum--Os divertimentos da corte de Lilliput descritos--O Autor obtém a liberdade sob certas condições.
CAPÍTULO IV.
Mildendo, a metrópole de Lilliput, descrita, juntamente com o palácio do imperador--Uma conversa entre o Autor e um secretário principal sobre os assuntos daquele império--As ofertas do Autor para servir o imperador nas suas guerras.
CAPÍTULO V.
O Autor, por um estratagema extraordinário, impede uma invasão--Um alto título de honra é-lhe conferido--Embaixadores chegam do imperador de Blefuscu e pedem a paz.
CAPÍTULO VI.
Sobre os habitantes de Lilliput; a sua erudição, leis e costumes; a maneira de educar os seus filhos--O modo de vida do Autor naquele país--A sua defesa de uma grande dama.
CAPÍTULO VII.
O Autor, sendo informado de um plano para o acusar de alta traição, foge para Blefuscu--A sua receção lá.
CAPÍTULO VIII.
O Autor, por um acidente feliz, encontra meios de deixar Blefuscu; e após algumas dificuldades, regressa a salvo ao seu país natal.
* * * * *
LISTA DE ILUSTRAÇÕES DE PÁGINA INTEIRA.
"Ordenou aos seus generais que formassem as tropas" Mapa de Lilliput e Blefuscu "Fiquei todo este tempo... em grande inquietação" "Apresentando as suas credenciais" "Estes cavalheiros fizeram um inventário exato" "Sua majestade imperial dignou-se sorrir muito graciosamente para mim" "E criou-me um nardac no momento" "Trezentos alfaiates foram empregues" "A felicidade... de jantar comigo" "Desejou que eu o ouvisse com paciência" "Levantei ferro... às seis da manhã"
E VINTE E TRÊS MAIS PEQUENAS NO TEXTO.
ÍNDICE
UMA VIAGEM A BROBDINGNAG.
CAPÍTULO I.
Uma grande tempestade descrita; o escaler enviado para buscar água, o Autor vai com ele para descobrir o país--É deixado na costa, é agarrado por um dos nativos e levado para a casa de um agricultor--A sua receção lá, com vários acidentes que lá aconteceram--Uma descrição dos habitantes.
CAPÍTULO II.
Uma descrição da filha do agricultor--O Autor levado para uma cidade de mercado e depois para a metrópole--Os pormenores da sua viagem.
CAPÍTULO III.
O Autor mandado chamar à corte--A rainha compra-o ao seu amo, o agricultor, e apresenta-o ao rei--Ele discute com os grandes sábios de sua majestade--Um aposento na corte providenciado para o Autor--Ele está em grande favor com a rainha--Ele defende a honra do seu próprio país--Ele briga com o anão da rainha.
CAPÍTULO IV.
O país descrito--Uma proposta para corrigir mapas modernos--O palácio do rei e alguns pormenores sobre a metrópole--O modo de viajar do Autor--O templo principal descrito.
CAPÍTULO V.
Várias aventuras que aconteceram ao Autor--A execução de um criminoso--O Autor mostra a sua perícia na navegação.
CAPÍTULO VI.
Vários engenhos do Autor para agradar ao rei e à rainha--Ele mostra a sua perícia na música--O rei indaga sobre o estado da Europa, que o Autor lhe relata--As observações do rei sobre isso.
CAPÍTULO VII.
O amor do Autor pelo seu país--Ele faz uma proposta de grande vantagem para o rei, que é rejeitada--A grande ignorância do rei em política--A erudição daquele país muito imperfeita e limitada--As suas leis, e assuntos militares, e o estado.
CAPÍTULO VIII.
O rei e a rainha fazem uma deslocação às fronteiras--O Autor acompanha-os--A maneira pela qual ele deixa o país muito particularmente relatada--Ele regressa a Inglaterra.
NOTA
* * * * *
LISTA DE ILUSTRAÇÕES DE PÁGINA INTEIRA.
"Concluíram que eu era apenas Relplum Sealcath" Mapa de Brobdingnag "Uma criatura enorme a caminhar... no mar" "Ao que a criatura enorme pisou curto" "Desembainhei a minha espada para me defender" "Chamei-lhe a minha Glumdalclitch" "Fintado à maneira dos esgrimistas em Inglaterra" "Esta graciosa princesa estendeu o seu dedo mindinho" "Ela levou-me ao rei" "Só pude vingar-me chamando-lhe irmão" "As aves mais pequenas não pareciam ter qualquer medo de mim" "Deram-me uma aragem com os seus leques" "O exercício mais violento a que alguma vez me submeti" "Fizestes um admirável panegírico" "Ela teve um pressentimento" "Alguém a chamar na língua inglesa" "A minha filha ajoelhou-se, mas eu não a conseguia ver"
E DOZE MAIS PEQUENAS NO TEXTO.
O PRIMEIRO EDITOR AO LEITOR.
O autor destas viagens, o Sr. Lemuel Gulliver, é meu antigo e íntimo amigo; existe igualmente algum parentesco entre nós pelo lado materno. Há cerca de três anos, o Sr. Gulliver, cansado do ajuntamento de pessoas curiosas que vinham ter com ele à sua casa em Redriff,[1] fez uma pequena compra de terras, com uma casa conveniente, perto de Newark, em Nottinghamshire, o seu condado natal, onde vive agora reformado, mas em boa estima entre os seus vizinhos.
Embora o Sr. Gulliver tenha nascido em Nottinghamshire, onde o seu pai habitava, ouvi-o dizer que a sua família vinha de Oxfordshire; para confirmar isto, observei no cemitério de Banbury, naquele condado, vários túmulos e monumentos dos Gullivers. Antes de deixar Redriff, ele deixou a custódia dos seguintes documentos nas minhas mãos, com a liberdade de os dispor como bem entendesse. Li-os cuidadosamente três vezes. O estilo é muito claro e simples, e o único defeito que encontro é que o autor, ao jeito dos viajantes, é um pouco demasiado circunstancial. Há um ar de verdade aparente por toda a parte; e, na verdade, o autor era tão distinto pela sua veracidade que se tornou uma espécie de provérbio entre os seus vizinhos em Redriff, quando alguém afirmava uma coisa, dizer que era tão verdade como se o Sr. Gulliver o tivesse dito.
Por conselho de várias pessoas dignas, a quem, com a permissão do autor, comuniquei estes documentos, atrevo-me agora a enviá-los para o mundo, esperando que possam ser, pelo menos durante algum tempo, um entretenimento melhor do que os rabiscos comuns sobre política e partidos.
Este volume teria sido pelo menos duas vezes maior se eu não me tivesse atrevido a riscar inúmeras passagens relativas aos ventos e marés, bem como às variações e marcações nas várias viagens; juntamente com a descrição minuciosa da gestão do navio nas tempestades, no estilo dos marinheiros; bem como o relato das longitudes e latitudes; onde tenho razões para recear que o Sr. Gulliver possa ficar um pouco insatisfeito; mas resolvi adaptar a obra tanto quanto possível à capacidade geral dos leitores. Contudo, se a minha própria ignorância em assuntos do mar me levou a cometer alguns erros, eu sou o único responsável por eles, e se algum viajante tiver curiosidade em ver a obra completa, tal como saiu da mão do autor, estarei pronto a satisfazê-lo.
Quanto a outros pormenores relacionados com o autor, o leitor receberá satisfação nas primeiras páginas do livro.
RICHARD SYMPSON.
VIAGENS.
PARTE I.
UMA VIAGEM A LILLIPUT.
CAPÍTULO I.
O AUTOR DÁ ALGUMAS INFORMAÇÕES SOBRE SI PRÓPRIO E A FAMÍLIA: OS SEUS PRIMEIROS MOTIVOS PARA VIAJAR. SOFRE UM NAUFRÁGIO E NADA PARA SALVAR A VIDA; CHEGA A SALVO À COSTA NO PAÍS DE LILLIPUT; É FEITO PRISIONEIRO E LEVADO PARA O INTERIOR DO PAÍS.
O meu pai tinha uma pequena propriedade em Nottinghamshire; eu era o terceiro de cinco filhos. Enviou-me para o Emmanuel College, em Cambridge, com catorze anos de idade, onde residi três anos e me dediquei aos meus estudos; mas sendo o custo da minha manutenção, embora tivesse uma mesada muito escassa, demasiado grande para uma fortuna limitada, fui posto como aprendiz do Sr. James Bates, um cirurgião eminente em Londres, com quem continuei quatro anos; e como o meu pai me enviava de vez em quando pequenas quantias de dinheiro, eu gastava-as a aprender navegação e outras partes da matemática úteis para aqueles que tencionam viajar, pois sempre acreditei que seria, um dia ou outro, o meu destino fazê-lo. Quando deixei o Sr. Bates, fui ter com o meu pai, onde, com a assistência dele, do meu tio John e de alguns outros parentes, consegui quarenta libras,[2] e a promessa de trinta libras por ano para me manter em Leyden. Lá estudei medicina durante dois anos e sete meses, sabendo que seria útil em longas viagens.
Pouco depois do meu regresso de Leyden, fui recomendado pelo meu bom mestre, o Sr. Bates, para ser cirurgião do "Swallow", comandado pelo Capitão Abraham Pannell; com quem continuei três anos e meio, fazendo uma ou duas viagens ao Levante,[3] e a algumas outras partes. Quando regressei, resolvi instalar-me em Londres; ao que o Sr. Bates, o meu mestre, me encorajou, e por ele fui recomendado a vários pacientes. Aluguei parte de uma pequena casa em Old Jewry; e, sendo aconselhado a mudar de condição, casei-me com a Sra. Mary Burton,[4] a segunda filha do Sr. Edmund Burton, fabricante de meias em Newgate Street, com quem recebi quatrocentas libras de dote.
Mas o meu bom mestre, Bates, morrendo dois anos depois, e eu tendo poucos amigos, o meu negócio começou a falhar; pois a minha consciência não me permitia imitar a má prática de demasiados entre os meus irmãos. Tendo, portanto, consultado a minha mulher e alguns dos meus conhecidos, decidi ir novamente para o mar. Fui cirurgião sucessivamente em dois navios, e fiz várias viagens, durante seis anos, às Índias Orientais e Ocidentais, com as quais obtive algum acréscimo à minha fortuna. Passava as minhas horas de lazer a ler os melhores autores, antigos e modernos, estando sempre provido de um bom número de livros; e, quando estava em terra, a observar os costumes e disposições das pessoas, bem como a aprender a sua língua, na qual tinha uma grande facilidade, pela força da minha memória.
Não se revelando muito afortunada a última destas viagens, cansei-me do mar e pretendi ficar em casa com a minha mulher e família. Mudei-me de Old Jewry para Fetter Lane, e de lá para Wapping, esperando obter negócio entre os marinheiros; mas não deu resultado. Após três anos de esperança de que as coisas melhorassem, aceitei uma oferta vantajosa do Capitão William Prichard, mestre do "Antelope", que fazia uma viagem ao Mar do Sul.[5] Levantámos ferro de Bristol, a 4 de maio de 1699; e a nossa viagem foi, a princípio, muito próspera.
Não seria adequado, por algumas razões, incomodar o leitor com os pormenores das nossas aventuras naqueles mares. Basta informá-lo de que, na nossa passagem de lá para as Índias Orientais, fomos empurrados por uma tempestade violenta para noroeste da Terra de Van Diemen.[6]
Por uma observação, encontrámo-nos na latitude de 30 graus e 2 minutos sul. Doze da nossa tripulação tinham morrido por trabalho imoderado e má alimentação; os restantes estavam em condições muito débeis.
No dia cinco de novembro, que era o início do verão naquelas partes, o tempo estando muito brumoso, os marinheiros avistaram um rochedo a menos de meio cabo de distância do navio;[7] mas o vento era tão forte que fomos conduzidos diretamente para ele e imediatamente nos despedaçámos. Seis da tripulação, dos quais eu era um, tendo baixado o barco para o mar, conseguiram afastar-se do navio e do rochedo. Remámos, segundo o meu cálculo, cerca de três léguas, até não podermos mais trabalhar, já exaustos pelo trabalho enquanto estávamos no navio. Confiámo-nos, portanto, à misericórdia das ondas; e, ao fim de cerca de meia hora, o barco foi virado por uma rajada súbita do norte. O que aconteceu aos meus companheiros no barco, bem como aos que se salvaram no rochedo ou ficaram no navio, não posso dizer, mas concluo que se perderam todos.
Quanto a mim, nadava conforme a sorte me guiava, e era empurrado pelo vento e pela maré. Deixei cair as pernas muitas vezes e não conseguia sentir fundo; mas, quando já estava quase acabado e incapaz de lutar mais, encontrei-me dentro do meu alcance; e, a esta altura, a tempestade tinha diminuído muito.
O declive era tão pequeno que caminhei quase uma milha antes de chegar à costa, o que conjecturei ser por volta das oito da noite. Avancei então cerca de meia milha, mas não consegui descobrir qualquer sinal de casas ou habitantes; pelo menos, estava em condições tão débeis que não os observei. Estava extremamente cansado, e com isso, e o calor do tempo, e cerca de meio quartilho de aguardente que bebi quando deixei o navio, senti-me muito inclinado a dormir. Deitei-me na relva, que era muito curta e macia, onde dormi mais profundamente do que alguma vez me lembrei de ter dormido na vida, e, segundo calculei, cerca de nove horas; pois, quando acordei, estava exatamente a romper o dia. Tentei levantar-me, mas não consegui mexer-me: pois, como me encontrava deitado de costas, descobri que os meus braços e pernas estavam fortemente presos de cada lado ao chão; e o meu cabelo, que era longo e espesso, atado da mesma maneira. Senti também várias ligaduras finas pelo meu corpo, desde as axilas até às coxas. Só conseguia olhar para cima, o sol começava a aquecer e a luz ofendia-me os olhos.
Ouvi um ruído confuso à minha volta; mas, na posição em que estava, não conseguia ver nada exceto o céu. Pouco tempo depois, senti algo vivo a mover-se na minha perna esquerda, que, avançando suavemente pelo meu peito, chegou quase ao meu queixo; quando, baixando os olhos o máximo que podia, percebi que se tratava de uma criatura humana, não maior de seis polegadas, com um arco e flecha nas mãos e uma aljava às costas. Entretanto, senti pelo menos quarenta outros do mesmo género (como conjecturei) a seguir o primeiro.
Fiquei no maior dos espantos e rugi tão alto que todos recuaram assustados; e alguns deles, como me disseram mais tarde, ficaram feridos com as quedas que deram ao saltar dos meus lados para o chão. No entanto, depressa regressaram, e um deles, que se aventurou o suficiente para ver bem o meu rosto, levantando as mãos e os olhos por admiração, gritou com uma voz aguda, mas distinta--Hekinah degul! os outros repetiram as mesmas palavras várias vezes, mas eu então não sabia o que queriam dizer.
Fiquei todo este tempo, como o leitor pode crer, em grande inquietação. Por fim, lutando para me soltar, tive a sorte de partir as cordas e arrancar as estacas que prendiam o meu braço esquerdo ao chão; pois, ao levantá-lo até ao rosto, descobri os métodos que tinham tomado para me prender e, ao mesmo tempo, com um puxão violento, que me causou dores excessivas, afrouxei um pouco as cordas que prendiam o meu cabelo do lado esquerdo, de modo que consegui virar a cabeça cerca de duas polegadas.
Mas as criaturas fugiram uma segunda vez, antes que eu as pudesse agarrar; ao que se seguiu um grande grito com um sotaque muito agudo, e depois de ter cessado, ouvi um deles gritar em voz alta, Tolgo phonac; quando, num instante, senti mais de cem flechas disparadas contra a minha mão esquerda, que me picaram como outras tantas agulhas; e, além disso, dispararam outra salva para o ar, como fazemos com bombas na Europa, das quais muitas, suponho, caíram no meu corpo (embora não as sentisse), e algumas no meu rosto, que cobri imediatamente com a mão esquerda.
Quando este chuveiro de flechas terminou, comecei a gemer de dor e desgosto, e depois, esforçando-me novamente para me soltar, dispararam outra salva maior que a primeira, e alguns deles tentaram com lanças espetar-me nos lados; mas, por sorte, trazia um gibão de pele de búfalo,[8] que não conseguiam atravessar. Achei que o método mais prudente era ficar quieto, e o meu plano era continuar assim até à noite, quando, com a mão esquerda já solta, poderia facilmente libertar-me; e quanto aos habitantes, tinha razões para acreditar que poderia ser um adversário à altura do maior exército que pudessem trazer contra mim, se fossem todos do mesmo tamanho daquele que vi.
Mas a sorte dispôs de mim de outra forma. Quando as pessoas observaram que eu estava quieto, não dispararam mais flechas: mas, pelo ruído que ouvi, soube que o seu número aumentou; e a cerca de quatro metros de mim, em frente ao meu ouvido direito, ouvi um bater durante mais de uma hora, como o de pessoas a trabalhar; quando, virando a cabeça para aquele lado, tanto quanto as estacas e cordas me permitiam, vi um estrado erguido, a cerca de um pé e meio do chão, capaz de conter quatro dos habitantes, com duas ou três escadas para subir; de onde um deles, que parecia ser uma pessoa de qualidade, me fez um longo discurso, do qual não entendi uma sílaba.
Mas devo mencionar que, antes de a pessoa principal iniciar a sua oração, ele gritou três vezes: Langro debul san (estas palavras, e a anterior, foram depois repetidas e explicadas para mim). Ato contínuo, cerca de cinquenta dos habitantes vieram e cortaram as cordas que prendiam o lado esquerdo da minha cabeça, o que me deu a liberdade de a virar para a direita e de observar a pessoa e os gestos daquele que ia falar. Parecia ser de meia-idade e mais alto do que qualquer um dos outros três que o acompanhavam, sendo um deles um pajem que lhe segurava a cauda da veste e que parecia ser um pouco mais comprido do que o meu dedo médio; os outros dois estavam de pé, um de cada lado, para o apoiar. Ele desempenhou todas as partes de um orador, e pude observar muitos períodos de ameaças, e outros de promessas, piedade e bondade.
Respondi em poucas palavras, mas da maneira mais submissa, levantando a minha mão esquerda e ambos os olhos para o sol, como se o chamasse para testemunha: e, estando quase a morrer de fome, por não ter comido um bocado durante algumas horas antes de deixar o navio, achei as exigências da natureza tão fortes em mim que não pude deixar de mostrar a minha impaciência (talvez contra as regras estritas da decência), levando frequentemente o dedo à boca para significar que precisava de comida. O hurgo (pois assim chamam a um grande senhor, como aprendi depois) compreendeu-me muito bem. Desceu do estrado e ordenou que várias escadas fossem encostadas aos meus lados; nas quais subiram mais de uma centena dos habitantes e caminharam em direção à minha boca, carregados de cestos cheios de carne, que tinham sido providenciados e enviados para lá por ordens do rei, logo após a primeira notícia que recebeu a meu respeito.
Observei que havia carne de vários animais, mas não pude distingui-los pelo paladar. Havia ombros, pernas e lombos, moldados como os de carneiro, e muito bem preparados, mas menores do que as asas de uma cotovia. Comi-os aos dois ou três de cada vez e tomei três pães de uma só vez, do tamanho de balas de mosquete. Abasteceram-me como puderam, mostrando mil sinais de admiração e espanto com o meu volume e apetite. Fiz então outro sinal de que queria beber.
Eles descobriram, pelo meu modo de comer, que uma pequena quantidade não me bastaria; e, sendo um povo muito engenhoso, içaram com grande destreza uma das suas maiores pipas, rolaram-na até à minha mão e bateram no topo: bebi-a de um trago; o que pude muito bem fazer, pois não continha meio pint e tinha o sabor de um vinho da Borgonha, mas muito mais delicioso. Trouxeram-me uma segunda pipa, que bebi da mesma maneira, e fiz sinais por mais; mas não tinham mais para me dar.
Quando realizei estas maravilhas, gritaram de alegria e dançaram sobre o meu peito, repetindo, várias vezes, como fizeram de início, Hekinah degul. Fizeram-me um sinal para que eu deitasse abaixo as duas pipas, mas avisando primeiro as pessoas em baixo para se afastarem, gritando em voz alta: Borach nevola; e, quando viram os recipientes no ar, houve um grito universal de Hekinah degul.
Confesso que fui frequentemente tentado, enquanto passavam de um lado para o outro sobre o meu corpo, a agarrar quarenta ou cinquenta dos primeiros que estivessem ao meu alcance e a esmagá-los contra o chão. Mas a lembrança do que tinha sentido, que provavelmente não seria o pior que poderiam fazer, e a promessa de honra que lhes fiz — pois assim interpretei o meu comportamento submisso — logo expulsaram essas imaginações. Além disso, considerava-me agora ligado, pelas leis da hospitalidade, a um povo que me tinha tratado com tanta despesa e magnificência. Contudo, em pensamento, não podia admirar-me o suficiente da intrepidez destes mortais diminutos, que ousavam aventurar-se a montar e caminhar sobre o meu corpo, enquanto uma das minhas mãos estava livre, sem tremer perante a visão de uma criatura tão prodigiosa, como eu devia parecer-lhes.
Passado algum tempo, quando observaram que eu já não fazia mais pedidos de comida, apareceu diante de mim uma pessoa de alta linhagem da parte de sua majestade imperial. A sua excelência, tendo subido à parte inferior da minha perna direita, avançou até ao meu rosto com cerca de uma dúzia da sua comitiva: e, produzindo as suas credenciais sob o selo real, que aproximou dos meus olhos, falou durante cerca de dez minutos, sem sinais de raiva, mas com uma espécie de resolução determinada, apontando frequentemente para a frente, o que, como descobri mais tarde, era em direção à cidade capital, a cerca de meia milha de distância, para onde fora acordado pelo seu conselho que eu deveria ser transportado. Respondi em poucas palavras, mas sem qualquer propósito, e fiz um sinal com a mão que estava solta, levando-a à outra (mas sobre a cabeça de sua excelência, por medo de o magoar a ele ou à sua comitiva) e depois à minha própria cabeça e corpo, para significar que desejava a minha liberdade.
Pareceu que ele me compreendeu bem, pois abanou a cabeça em sinal de desaprovação e manteve a mão numa postura que mostrava que eu deveria ser levado como prisioneiro. Contudo, fez outros sinais para me deixar entender que teria carne e bebida suficientes, e um tratamento muito bom. Ao que pensei mais uma vez em tentar romper as minhas correntes; mas de novo, quando senti a dor das suas setas no meu rosto e mãos, que estavam todas em bolhas, e muitos dos dardos ainda espetados nelas, e observando, também, que o número dos meus inimigos aumentava, dei sinais para que soubessem que poderiam fazer comigo o que quisessem. Com isto, o hurgo e a sua comitiva retiraram-se, com muita civilidade e semblantes alegres.
Pouco depois, ouvi um grito geral, com repetições frequentes das palavras, Peplom selan, e senti um grande número de pessoas no meu lado esquerdo, afrouxando as cordas a tal ponto que pude virar-me para o lado direito e obter um pouco de alívio. Mas, antes disto, tinham untado o meu rosto e ambas as mãos com uma espécie de pomada muito agradável ao cheiro, que, em poucos minutos, removeu toda a dor das suas setas. Estas circunstâncias, somadas ao refresco que recebera com os seus víveres e bebidas, que eram muito nutritivos, dispuseram-me para dormir. Dormi cerca de oito horas, como me foi assegurado mais tarde; e não era de admirar, pois os médicos, por ordem do imperador, tinham misturado uma poção sonífera nas pipas de vinho.
Parece que, logo no primeiro momento em que fui descoberto a dormir no chão após o meu desembarque, o imperador teve conhecimento disso, através de um mensageiro; e determinou em conselho que eu deveria ser atado da maneira que relatei (o que foi feito durante a noite, enquanto eu dormia), que abundância de comida e bebida me fosse enviada, e uma máquina preparada para me levar à cidade capital.
Esta resolução, talvez, possa parecer muito ousada e perigosa, e estou confiante de que não seria imitada por qualquer príncipe na Europa, em ocasião semelhante. Contudo, na minha opinião, foi extremamente prudente, bem como generosa; pois, supondo que este povo tivesse tentado matar-me com as suas lanças e setas, enquanto eu estava a dormir, eu certamente teria acordado com a primeira sensação de dor, o que poderia ter despertado a minha raiva e força a ponto de me permitir romper as cordas com as quais estava atado; após o que, como não seriam capazes de oferecer resistência, não poderiam esperar qualquer misericórdia.
Este povo é composto por excelentes matemáticos e atingiu uma grande perfeição na mecânica, graças ao apoio e incentivo do imperador, que é um reconhecido patrono das artes. O príncipe possui várias máquinas fixadas sobre rodas para o transporte de árvores e outros pesos pesados. Muitas vezes constrói os seus maiores navios de guerra, alguns dos quais com nove pés de comprimento, nos bosques onde a madeira cresce, e faz com que sejam transportados nestes engenhos a trezentas ou quatrocentas jardas até ao mar. Quinhentos carpinteiros e engenheiros foram imediatamente postos a trabalhar, para preparar o maior engenho que possuíam. Era uma armação de madeira, erguida a três polegadas do chão, com cerca de sete pés de comprimento e quatro de largura, movendo-se sobre vinte e duas rodas. O grito que ouvi foi aquando da chegada deste engenho, que, ao que parece, partiu quatro horas depois da minha aterragem. Foi trazido paralelamente a mim, enquanto eu estava deitado. Mas a principal dificuldade foi levantar-me e colocar-me neste veículo.
Oitenta postes, cada um com um pé de altura, foram erguidos para este fim, e cordas muito fortes, da espessura de cordel, foram presas por ganchos a muitas ligaduras, que os trabalhadores tinham cingido à volta do meu pescoço, das minhas mãos, do meu corpo e das minhas pernas. Novecentos dos homens mais fortes foram empregados para puxar estas cordas por meio de muitas polias presas aos postes; e assim, em menos de três horas, fui erguido e içado para dentro do engenho, e bem atado.
Tudo isto me foi contado; pois, enquanto toda a operação era realizada, eu jazia num sono profundo, pela força daquele medicamento soporífero infundido na minha bebida. Quinhentos dos maiores cavalos do imperador, cada um com cerca de quatro polegadas e meia de altura, foram empregados para me puxar em direção à metrópole, que, como disse, ficava a meia milha de distância.
Cerca de quatro horas depois de iniciarmos a nossa jornada, acordei devido a um acidente muito ridículo; pois, tendo o transporte parado por um momento, para ajustar algo que estava fora do lugar, dois ou três dos nativos jovens tiveram a curiosidade de ver como eu parecia quando estava a dormir. Subiram para cima do engenho e, aproximando-se muito suavemente do meu rosto, um deles, um oficial da guarda, introduziu a ponta afiada da sua meia-lança uma boa distância na minha narina esquerda, o que me fez cócegas no nariz como uma palha e me fez espirrar violentamente; ao que eles se escaparam, sem serem vistos, e passaram-se três semanas até que soubesse a causa de ter acordado tão subitamente.
Fizemos uma longa marcha durante o resto do dia e descansámos à noite com quinhentos guardas de cada lado de mim, metade com tochas e metade com arcos e setas, prontos para me disparar, se eu tentasse mexer-me. Na manhã seguinte, ao nascer do sol, continuámos a nossa marcha e chegámos a duzentas jardas das portas da cidade por volta do meio-dia. O imperador, e toda a sua corte, saíram ao nosso encontro; mas os seus grandes oficiais não permitiram, de forma alguma, que sua majestade colocasse a sua pessoa em perigo, montando sobre o meu corpo.
No local onde o transporte parou, existia um templo antigo, considerado o maior de todo o reino, o qual, tendo sido poluído alguns anos antes por um homicídio antinatural, era, segundo o zelo daquele povo, visto como profano e, portanto, fora destinado a uso comum, tendo todos os ornamentos e mobiliário sido retirados. Foi neste edifício que se determinou que eu deveria alojar-me. A grande porta, voltada para o norte, tinha cerca de quatro pés de altura e quase dois pés de largura, através da qual eu podia facilmente rastejar. De cada lado da porta havia uma pequena janela, não mais do que seis polegadas acima do chão; na da esquerda, o ferreiro do rei introduziu quatro-vintes e onze correntes, como as que pendem do relógio de uma senhora na Europa, e quase tão grandes, que foram trancadas à minha perna esquerda com trinta e seis cadeados.
Em frente a este templo, do outro lado da grande estrada, a vinte pés de distância, havia uma torre com pelo menos cinco pés de altura. Aqui subiu o imperador, com muitos lordes principais da sua corte, para ter a oportunidade de me observar, como me disseram, pois eu não os conseguia ver. Calculava-se que mais de cem mil habitantes saíram da cidade com o mesmo propósito; e, apesar da minha guarda, creio que não seriam menos de dez mil, em diversas ocasiões, que subiram ao meu corpo com a ajuda de escadas. Mas foi logo emitida uma proclamação para o proibir, sob pena de morte.
Quando os trabalhadores descobriram que era impossível eu soltar-me, cortaram todas as cordas que me prendiam; ao que me levantei, com uma disposição tão melancólica como alguma vez tive na minha vida. Mas o ruído e o espanto do povo, ao ver-me levantar e caminhar, são inexprimíveis. As correntes que prendiam a minha perna esquerda tinham cerca de dois metros de comprimento e não só me davam a liberdade de caminhar para trás e para a frente num semicírculo, mas, estando fixas a quatro polegadas da porta, permitiam-me rastejar para dentro e deitar-me no meu comprimento total no templo.
CAPÍTULO II.
O IMPERADOR DE LILLIPUT, ACOMPANHADO POR VÁRIOS NOBRES, VEM VER O AUTOR NO SEU CONFINAMENTO. A PESSOA E O HÁBITO DO IMPERADOR SÃO DESCRITOS. HOMENS LETRADOS SÃO NOMEADOS PARA ENSINAR AO AUTOR A SUA LÍNGUA. ELE GANHA O FAVOR PELA SUA DISPOSIÇÃO MANSA. OS SEUS BOLSOS SÃO REVISTADOS, E A SUA ESPADA E PISTOLAS SÃO-LHE RETIRADAS.
Quando me encontrei de pé, olhei à minha volta e devo confessar que nunca contemplei uma perspetiva mais divertida. O campo em redor parecia um jardim contínuo, e os campos cercados, que eram geralmente de quarenta pés quadrados, assemelhavam-se a tantos canteiros de flores. Estes campos estavam misturados com bosques de meio stang, e as árvores mais altas, pelo que pude julgar, pareciam ter sete pés de altura. Observei a cidade à minha esquerda, que parecia o cenário pintado de uma cidade num teatro.
O imperador já tinha descido da torre e avançava a cavalo na minha direção, o que por pouco lhe custou caro; pois o animal, embora muito bem treinado, estava totalmente inabituado a tal visão, que parecia como se uma montanha se movesse diante dele, e empinou-se nas patas traseiras. Mas aquele príncipe, que é um excelente cavaleiro, manteve-se no assento, até que os seus acompanhantes correram e seguraram a rédea, enquanto sua majestade tinha tempo de desmontar.
Quando desmontou, examinou-me em redor com grande admiração, mas manteve-se fora do alcance da minha corrente. Ordenou aos seus cozinheiros e mordomos, que já estavam preparados, que me dessem comida e bebida, as quais empurraram para a frente numa espécie de veículos sobre rodas, até que eu pudesse alcançá-los. Tomei estes veículos e rapidamente esvaziei-os todos; vinte deles estavam cheios de carne; cada um proporcionou-me dois ou três bons bocados. A imperatriz e os jovens príncipes de sangue de ambos os sexos, acompanhados por muitas damas, sentaram-se a alguma distância nas suas cadeiras; mas, perante o acidente que aconteceu ao cavalo do imperador, desmontaram e aproximaram-se da sua pessoa, que vou agora descrever. Ele é mais alto, quase pela largura da minha unha, do que qualquer um dos seus cortesãos, o que por si só é suficiente para incutir respeito nos espectadores. As suas feições são fortes e masculinas, com um lábio austríaco e nariz arqueado, a tez azeitonada, o semblante ereto, o corpo e os membros bem proporcionados, todos os seus movimentos graciosos e o seu porte majestoso. Ele tinha então passado o auge, tendo vinte e oito anos e três quartos, dos quais reinara cerca de sete em grande felicidade, e geralmente vitorioso. Para melhor conveniência de o contemplar, deitei-me de lado, de modo que o meu rosto ficasse paralelo ao dele, e ele estava apenas a três jardas de distância. Contudo, já o tive muitas vezes na minha mão desde então, e por isso não posso estar enganado na descrição.
O seu traje era muito simples e modesto, e o seu estilo situava-se entre o asiático e o europeu; mas trazia na cabeça um capacete leve de ouro, adornado com joias, e uma pluma na crista. Empunhava a sua espada desembainhada na mão, para se defender, caso eu conseguisse soltar-me; tinha quase três polegadas de comprimento; o punho e a bainha eram de ouro, enriquecidos com diamantes. A sua voz era aguda, mas muito clara e articulada, e eu podia ouvi-la distintamente quando estava de pé.
As damas e os cortesãos estavam todos magnificamente vestidos; de modo que o local onde estavam parecia assemelhar-se a uma saia estendida no chão, bordada com figuras de ouro e prata. Sua majestade imperial falou-me frequentemente, e eu respondi, mas nenhum de nós conseguia entender uma sílaba. Estavam presentes vários dos seus sacerdotes e advogados (como conjecturei pelas suas vestes), que foram ordenados a dirigir-se a mim; e falei-lhes em tantas línguas quantas aquelas de que tinha o mínimo conhecimento, que eram: holandês alto e baixo, latim, francês, espanhol, italiano e língua franca; mas tudo em vão.
Passadas cerca de duas horas, a corte retirou-se e fui deixado com uma guarda forte, para evitar a impertinência, e provavelmente a malícia da populaça, que estava muito impaciente por se aglomerar à minha volta tão perto quanto ousava; e alguns deles tiveram a audácia de disparar as suas setas contra mim, enquanto eu estava sentado no chão à porta da minha casa, das quais uma passou muito perto do meu olho esquerdo. Mas o coronel ordenou que seis dos principais instigadores fossem detidos e achou que nenhum castigo era mais apropriado do que entregá-los atados nas minhas mãos; o que alguns dos seus soldados fizeram, empurrando-os para a frente com as coronhas das suas piques até ao meu alcance. Tomei-os todos na minha mão direita, coloquei cinco deles no bolso do meu casaco; e, quanto ao sexto, fiz um semblante como se o fosse comer vivo. O pobre homem gritou terrivelmente, e o coronel e os seus oficiais ficaram muito angustiados, especialmente quando me viram tirar o meu canivete; mas rapidamente os aliviei do medo, pois, olhando suavemente e cortando imediatamente as cordas com que estava atado, coloquei-o gentilmente no chão, e ele correu. Tratei os restantes da mesma maneira, tirando-os um a um do meu bolso; e observei que tanto os soldados como o povo ficaram altamente encantados com esta marca da minha clemência, que foi representada de forma muito favorável na corte.
Ao cair da noite, entrei com alguma dificuldade na minha casa, onde me deitei no chão, e continuei a fazê-lo durante cerca de uma quinzena, durante a qual o imperador deu ordens para que me preparassem uma cama. Seiscentas camas, da medida comum, foram trazidas em carruagens e montadas na minha casa; cento e cinquenta das suas camas, cosidas umas às outras, compunham a largura e o comprimento; e estas estavam em quatro camadas, o que, contudo, me protegeu apenas muito indiferentemente da dureza do chão, que era de pedra lisa. Pelo mesmo cálculo, providenciaram-me lençóis, mantas e colchas, que eram toleráveis o suficiente para alguém que estava há tanto tempo habituado a privações como eu.
À medida que a notícia da minha chegada se espalhava pelo reino, trazia números prodigiosos de pessoas ricas, ociosas e curiosas para me ver; de tal modo que as aldeias estavam quase vazias; e um grande descuido da lavoura e dos assuntos domésticos ter-se-ia seguido, se sua majestade imperial não tivesse providenciado, através de várias proclamações e ordens de estado, contra este inconveniente. Ordenou que aqueles que já me tinham visto deveriam regressar a casa e não se atrever a chegar a menos de cinquenta jardas da minha casa sem licença da corte; pelo que os secretários de estado obtiveram taxas consideráveis.
Entretanto, o imperador realizava conselhos frequentes, para debater que rumo deveria tomar a meu respeito; e fui depois assegurado por um amigo particular, uma pessoa de grande qualidade, que estava tão a par do segredo como qualquer outro, que a corte enfrentava muitas dificuldades acerca de mim. Receavam que eu me soltasse; que a minha dieta fosse muito dispendiosa e pudesse causar uma fome. Por vezes, determinavam deixar-me morrer à fome, ou pelo menos disparar-me ao rosto e mãos com setas envenenadas, o que rapidamente me liquidaria: mas, por outro lado, consideravam que o fedor de um cadáver tão grande poderia produzir uma praga na metrópole e, provavelmente, espalhar-se por todo o reino.
No meio destas consultas, vários oficiais do exército dirigiram-se à porta da grande câmara do conselho e, sendo dois deles admitidos, prestaram contas do meu comportamento perante os seis criminosos supramencionados, o que causou uma impressão tão favorável no peito de Sua Majestade, e em todo o conselho, em meu favor, que foi emitida uma comissão imperial, obrigando todas as aldeias num raio de novecentos jardas ao redor da cidade a entregar, todas as manhãs, seis bois, quarenta ovelhas e outros víveres para o meu sustento; juntamente com uma quantidade proporcional de pão, vinho e outras bebidas; para o devido pagamento das quais Sua Majestade deu ordens sobre o seu tesouro. Pois este príncipe vive principalmente das suas próprias terras, raramente, exceto em grandes ocasiões, cobrando quaisquer subsídios aos seus súbditos, que são obrigados a servi-lo nas suas guerras à própria custa. Foi também criado um estabelecimento de seiscentas pessoas para serem os meus criados, que recebiam um subsídio de alimentação para a sua manutenção, e tendas construídas para eles de forma muito conveniente em cada lado da minha porta.
Foi igualmente ordenado que trezentos alfaiates me fizessem um fato à moda do país; que seis dos maiores eruditos de Sua Majestade fossem empregados para me instruir na sua língua; e, por último, que os cavalos do imperador, e os da nobreza e das tropas da guarda, fossem frequentemente exercitados à minha vista, para se acostumarem a mim.
Todas estas ordens foram devidamente postas em execução e, em cerca de três semanas, fiz um grande progresso na aprendizagem da sua língua; durante o qual o imperador honrou-me frequentemente com as suas visitas e teve o agrado de assistir os meus mestres a ensinar-me. Começámos já a conversar de certa forma; e as primeiras palavras que aprendi foram para expressar o meu desejo de que ele se dignasse a dar-me a liberdade, o que repetia todos os dias de joelhos. A sua resposta, tanto quanto pude compreender, foi que isso teria de ser uma obra de tempo, não se podendo pensar nisso sem o conselho dos seus ministros, e que primeiro eu deveria lumos kelmin pesso desmar lon emposo; isto é, jurar paz com ele e com o seu reino. Contudo, que eu seria tratado com toda a bondade; e aconselhou-me a adquirir, pela minha paciência e comportamento discreto, a boa opinião dele e dos seus súbditos.
Ele desejou que eu não levasse a mal se desse ordens a certos oficiais competentes para me revistarem; pois provavelmente eu poderia trazer comigo várias armas que seriam necessariamente coisas perigosas, se correspondessem ao volume de uma pessoa tão prodigiosa. Disse que Sua Majestade ficaria satisfeito, pois eu estava pronto para me despir e virar os meus bolsos perante ele. Isto disse-o, parte em palavras e parte por sinais.
Ele respondeu que, pelas leis do reino, eu deveria ser revistado por dois dos seus oficiais; que sabia que isso não poderia ser feito sem o meu consentimento e assistência; que tinha tão boa opinião da minha generosidade e justiça que confiava as pessoas deles nas minhas mãos; que tudo o que me tirassem seria devolvido quando eu deixasse o país, ou pago à taxa que eu próprio estabelecesse. Peguei nos dois oficiais com as mãos, coloquei-os primeiro nos bolsos do meu casaco e depois em todos os outros bolsos que trazia, exceto nos meus dois bolsos pequenos de relógio e num outro bolso secreto, que não tinha vontade que fosse revistado, onde guardava algumas pequenas necessidades que não tinham importância para ninguém exceto para mim. Num dos meus bolsos de relógio havia um relógio de prata, e no outro uma pequena quantidade de ouro numa bolsa.
Estes cavalheiros, tendo consigo caneta, tinta e papel, fizeram um inventário exato de tudo o que viram; e, quando terminaram, pediram que eu os pousasse no chão, para que pudessem entregar o documento ao imperador. Este inventário traduzi-o depois para inglês, e é palavra por palavra como se segue:
Imprimis, No bolso direito do casaco do grande homem-montanha (pois assim interpreto as palavras quinbus flestrin), após a revista mais rigorosa, encontrámos apenas um grande pedaço de pano grosseiro, suficientemente grande para servir de tapete para a principal sala de estado de Vossa Majestade. No bolso esquerdo, vimos um enorme cofre de prata, com uma tampa do mesmo metal, que nós, os revistadores, não fomos capazes de levantar. Pedimos que fosse aberto e um de nós, ao entrar nele, deu por si com as pernas metidas até ao meio numa espécie de pó, parte do qual voou para os nossos rostos, fazendo-nos espirrar a ambos várias vezes seguidas. No bolso direito do seu colete encontrámos um número prodigioso de substâncias brancas e finas, dobradas umas sobre as outras, com o tamanho de três homens, atadas com um cabo forte e marcadas com figuras pretas; que humildemente supomos serem escritos, com cada letra quase metade do tamanho da palma das nossas mãos. No esquerdo, havia uma espécie de engenho, da parte de trás do qual se estendiam vinte varas compridas, semelhantes às paliçadas diante da corte de Vossa Majestade; com as quais conjeturamos que o homem-montanha penteia a cabeça, pois nem sempre o importunávamos com perguntas, por acharmos uma grande dificuldade em fazê-lo entender-nos. No bolso grande do lado direito da sua cobertura central (assim traduzo a palavra ranfu-lo, pela qual queriam dizer os meus calções), vimos um pilar oco de ferro, com o comprimento de um homem, fixado a um pedaço forte de madeira, maior do que o pilar; e, de um lado do pilar, havia enormes pedaços de ferro a sobressair, cortados em formas estranhas, que não sabemos o que significam. No bolso esquerdo, outro engenho do mesmo tipo. No bolso mais pequeno do lado direito, havia várias peças redondas e planas de metal branco e vermelho, de tamanhos diferentes; algumas das brancas, que pareciam ser de prata, eram tão grandes e pesadas que o meu camarada e eu mal as podíamos levantar. No bolso esquerdo, havia dois pilares pretos de forma irregular; não conseguíamos, sem dificuldade, alcançar o topo deles, enquanto estávamos no fundo do bolso. Um deles estava coberto e parecia ser de uma só peça; mas, na extremidade superior do outro, aparecia uma substância branca e redonda, com cerca de duas vezes o tamanho das nossas cabeças. Dentro de cada um destes estava encerrada uma placa prodigiosa de aço, que, por nossas ordens, o obrigámos a mostrar-nos, porque receávamos que pudessem ser engenhos perigosos. Ele tirou-os dos seus estojos e disse-nos que, no seu próprio país, a sua prática era barbear a barba com um destes e cortar a carne com o outro. Havia dois bolsos em que não pudemos entrar: a estes ele chamou de bolsos de relógio. Do bolso direito de relógio pendia uma grande corrente de prata, com um tipo de engenho maravilhoso na extremidade. Ordenámos-lhe que tirasse o que quer que estivesse na extremidade dessa corrente, o que parecia ser um globo, metade prata e metade de algum metal transparente; pois, no lado transparente, vimos certas figuras estranhas, desenhadas em círculo, e pensámos que as podíamos tocar até descobrirmos que os nossos dedos eram detidos por aquela substância lúcida. Ele colocou este engenho junto aos nossos ouvidos, o que fazia um ruído incessante, como o de um moinho de água; e conjeturamos que é ou algum animal desconhecido, ou o deus que ele adora; mas estamos mais inclinados para a segunda opinião, porque ele nos assegurou (se o entendemos bem, pois expressou-se de forma muito imperfeita), que raramente fazia qualquer coisa sem o consultar. Chamou-lhe o seu oráculo e disse que apontava a hora para cada ação da sua vida. Do bolso esquerdo de relógio tirou uma rede quase suficientemente grande para um pescador, mas concebida para abrir e fechar como uma bolsa, e servia-lhe para o mesmo uso; encontrámos nela várias peças maciças de metal amarelo, que, se forem ouro verdadeiro, devem ser de valor imenso.
Tendo assim, em obediência às ordens de Vossa Majestade, revistado diligentemente todos os seus bolsos, observámos um cinto à volta da sua cintura, feito da pele de algum animal prodigioso, do qual, no lado esquerdo, pendia uma espada com o comprimento de cinco homens; e, no lado direito, um saco ou bolsa, dividido em duas células, cada uma capaz de conter três dos súbditos de Vossa Majestade. Numa destas células havia vários globos, ou bolas, de um metal muito pesado, com o tamanho das nossas cabeças, e que exigiam uma mão forte para os levantar; a outra célula continha um monte de certos grãos pretos, mas de pouco volume ou peso, pois podíamos segurar cerca de cinquenta deles na palma das nossas mãos.
Este é um inventário exato do que encontrámos sobre o corpo do homem-montanha, que nos tratou com grande civilidade e devido respeito pela comissão de Vossa Majestade. Assinado e selado, no quarto dia da octogésima nona lua do auspicioso reinado de Vossa Majestade.
CLEFRIN FRELOC. MARSI FRELOC.
Quando este inventário foi lido perante o imperador, ele ordenou-me, embora em termos muito gentis, que entregasse os vários itens.
Pediu primeiro a minha cimitarra, que tirei, bainha e tudo. Entretanto, ordenou a três mil das suas melhores tropas (que então o acompanhavam) que me cercassem à distância, com os seus arcos e flechas prontos a disparar; mas eu não reparei, pois os meus olhos estavam totalmente fixos em Sua Majestade. Desejou então que eu desembainhasse a minha cimitarra, a qual, embora tivesse alguma ferrugem da água do mar, estava na maior parte extremamente brilhante. Assim o fiz, e imediatamente todas as tropas deram um grito entre o terror e a surpresa; pois o sol brilhava intensamente, e o reflexo ofuscou-lhes os olhos, enquanto eu agitava a cimitarra de um lado para o outro na minha mão. Sua Majestade, que é um príncipe magnânimo, ficou menos intimidado do que eu poderia esperar; ordenou-me que a devolvesse à bainha e a lançasse ao chão tão suavemente quanto pudesse, a cerca de seis pés do fim da minha corrente.
A coisa seguinte que pediu foi um dos pilares ocos de ferro, com o qual queria dizer as minhas pistolas de bolso. Tirei-a e, segundo o seu desejo, da melhor forma que pude, expliquei-lhe o uso que lhe dava; e, carregando-a apenas com pólvora, que, pela estanqueidade da minha bolsa, conseguiu escapar a molhar-se no mar (um inconveniente contra o qual todos os marinheiros prudentes tomam cuidados especiais), avisei primeiro o imperador para não ter medo, e depois disparei-a no ar.
O espanto aqui foi muito maior do que à vista da minha cimitarra. Centenas caíram como se tivessem sido fulminadas; e até o imperador, embora se mantivesse firme, não conseguiu recuperar-se durante algum tempo. Entreguei ambas as pistolas, da mesma maneira que tinha feito com a minha cimitarra, e depois a minha bolsa de pólvora e balas, rogando-lhe que a primeira fosse mantida longe do fogo, pois acender-se-ia com a menor faísca e faria voar o seu palácio imperial pelos ares.
Entreguei também o meu relógio, que o imperador estava muito curioso por ver, e ordenou a dois dos seus mais altos guardas que o carregassem numa vara aos ombros, como os carroceiros na Inglaterra fazem com um barril de cerveja. Ele ficou espantado com o ruído contínuo que fazia e com o movimento do ponteiro dos minutos, que ele podia distinguir facilmente; pois a visão deles é muito mais aguda do que a nossa. Pediu as opiniões dos seus sábios sobre o assunto, que foram variadas e remotas, como o leitor bem pode imaginar sem que eu as repita; embora, na verdade, eu não pudesse entendê-los muito perfeitamente.
Depois entreguei o meu dinheiro de prata e cobre, a minha bolsa, com nove grandes peças de ouro e algumas mais pequenas; a minha faca e navalha, o meu pente e tabaqueira de prata, o meu lenço e diário. A minha cimitarra, pistolas e bolsa foram transportadas em carruagens para os armazéns de Sua Majestade; mas o resto dos meus bens foi-me devolvido.
Eu tinha, como observei antes, um bolso privado, que escapou à revista, no qual havia um par de óculos (que uso por vezes devido à fraqueza dos meus olhos), uma luneta de bolso e algumas outras pequenas conveniências; as quais, não tendo importância para o imperador, não me senti obrigado pela honra a revelar; e receei que pudessem perder-se ou estragar-se se eu me arriscasse a tirá-las da minha posse.
CAPÍTULO III.
O AUTOR DIVERTE O IMPERADOR E A SUA NOBREZA DE AMBOS OS SEXOS DE UMA MANEIRA MUITO INCOMUM. DESCREVEM-SE AS DIVERSÕES DA CORTE DE LILLIPUT. O AUTOR OBTÉM A SUA LIBERDADE SOB CERTAS CONDIÇÕES.
A minha gentileza e bom comportamento tinham conquistado de tal forma o imperador e a sua corte, e, na verdade, o exército e o povo em geral, que comecei a conceber esperanças de obter a minha liberdade em pouco tempo. Usei todos os métodos possíveis para cultivar esta disposição favorável. Os nativos começaram, gradualmente, a recear menos qualquer perigo da minha parte. Por vezes, deitava-me e deixava cinco ou seis deles dançarem na minha mão, e finalmente os rapazes e raparigas aventuravam-se a vir brincar às escondidas no meu cabelo. Tinha agora feito um bom progresso na compreensão e fala da sua língua.
O imperador teve vontade, um dia, de me entreter com um dos espetáculos do país, nos quais eles superam todas as nações que conheci, tanto pela destreza como pela magnificência. Nenhum me divertiu tanto como o dos equilibristas, realizado sobre um fio branco fino, estendido a cerca de dois pés, e doze polegadas do chão. Sobre o qual pedirei liberdade, com a paciência do leitor, para me alongar um pouco.
Esta diversão é praticada apenas por aquelas pessoas que são candidatas a grandes empregos e alto favor na corte. São treinados nesta arte desde a juventude e nem sempre são de nascimento nobre ou educação liberal. Quando um grande cargo está vago, seja por morte ou desgraça (o que acontece frequentemente), cinco ou seis desses candidatos pedem ao imperador para entreter Sua Majestade e a corte com uma dança na corda, e quem saltar mais alto, sem cair, sucede no cargo. Muitas vezes, os próprios ministros principais são obrigados a mostrar a sua perícia e a convencer o imperador de que não perderam a sua faculdade. Flimnap, o tesoureiro, tem permissão para dar um salto na corda esticada, pelo menos uma polegada mais alto do que qualquer lorde em todo o império. Vi-o dar o salto mortal várias vezes seguidas sobre um prato, fixado numa corda, que não é mais grossa do que um cordel comum em Inglaterra. O meu amigo Reldresal, secretário principal para os assuntos privados, é, na minha opinião, se não estou a ser parcial, o segundo a seguir ao tesoureiro; os restantes grandes oficiais estão muito ao mesmo nível.
Estas diversões são frequentemente acompanhadas por acidentes fatais, dos quais existem grandes números registados. Eu próprio vi dois ou três candidatos partirem um membro. Mas o perigo é muito maior quando os próprios ministros são obrigados a mostrar a sua destreza! Pois, ao competirem para se superarem a si mesmos e aos seus companheiros, esforçam-se tanto que quase não há um que não tenha sofrido uma queda, e alguns deles duas ou três. Fui assegurado de que, um ou dois anos antes da minha chegada, Flimnap teria partido o pescoço infalivelmente se uma das almofadas do rei, que acidentalmente estava no chão, não tivesse amortecido a força da sua queda.
Existe também outra diversão, que é mostrada apenas perante o imperador e a imperatriz e o primeiro-ministro, em ocasiões particulares. O imperador coloca sobre a mesa três fios de seda finos, de seis polegadas de comprimento; um é roxo, o outro amarelo e o terceiro branco. Estes fios são propostos como prémios para as pessoas que o imperador deseja distinguir com uma marca especial do seu favor. A cerimónia é realizada na grande câmara de estado de Sua Majestade, onde os candidatos têm de passar por uma prova de destreza muito diferente da anterior, e tal que não observei a menor semelhança em qualquer outro país do velho ou novo mundo.
O imperador segura um bastão nas mãos, com ambas as extremidades paralelas ao horizonte, enquanto os candidatos, avançando um a um, saltam por vezes sobre o bastão, por vezes rastejam por baixo dele, para trás e para a frente várias vezes, conforme o bastão é levantado ou baixado. Às vezes o imperador segura uma ponta do bastão e o seu primeiro-ministro a outra: às vezes o ministro tem-no inteiramente para si. Quem desempenha o seu papel com mais agilidade, e aguenta mais tempo a saltar e a rastejar, é recompensado com a seda de cor azul; o amarelo é dado ao segundo, e o verde ao terceiro, que todos eles usam cingidos duas vezes à volta da cintura; e vêem-se poucas pessoas importantes nesta corte que não estejam adornadas com uma destas cintas.
Os cavalos do exército, e os das cavalariças reais, tendo sido diariamente conduzidos perante mim, já não eram tímidos, mas vinham até aos meus pés sem se assustarem. Os cavaleiros faziam-nos saltar sobre a minha mão enquanto a segurava no chão; e um dos caçadores do imperador, sobre um grande cavalo de corrida, saltou sobre o meu pé, sapato e tudo, o que foi, de facto, um salto prodigioso.
Tive a sorte de divertir o imperador um dia de uma maneira muito extraordinária. Pedi-lhe que ordenasse que me trouxessem vários bastões de dois pés de altura e com a espessura de uma bengala comum; ao que Sua Majestade ordenou ao mestre dos seus bosques que desse as instruções nesse sentido; e na manhã seguinte chegaram seis lenhadores com outras tantas carruagens, puxadas por oito cavalos cada.
Peguei em nove destes bastões e, fixando-os firmemente no chão numa figura quadrangular, de dois pés e meio quadrados, peguei noutros quatro bastões e atei-os paralelos em cada canto, a cerca de dois pés do chão; depois prendi o meu lenço aos nove bastões que estavam eretos e estendi-o de todos os lados, até ficar tão tenso como o topo de um tambor; e os quatro bastões paralelos, elevando-se cerca de cinco polegadas acima do lenço, serviam de bordas de cada lado.
Quando terminei o meu trabalho, pedi ao imperador que deixasse uma tropa dos seus melhores cavalos, vinte e quatro em número, vir exercitar-se nesta planície. Sua Majestade aprovou a proposta, e eu peguei neles um a um com as mãos, já montados e armados, com os oficiais competentes para os exercitar. Assim que se organizaram, dividiram-se em duas partes, realizaram escaramuças simuladas, dispararam flechas sem ponta, desembainharam as espadas, fugiram e perseguiram, atacaram e retiraram-se e, em suma, revelaram a melhor disciplina militar que jamais vi. Os bastões paralelos protegiam-nos, a eles e aos seus cavalos, de cair do estrado: e o imperador ficou tão encantado que ordenou que este entretenimento fosse repetido durante vários dias, e uma vez teve a gentileza de ser levantado para dar a palavra de comando; e, com grande dificuldade, convenceu a própria imperatriz a deixar-me segurá-la na sua cadeira fechada a dois metros do estrado, de onde ela pôde ter uma visão completa de todo o desempenho.
Foi minha sorte que nenhum acidente infeliz aconteceu nestes entretenimentos; apenas uma vez um cavalo fogoso, que pertencia a um dos capitães, a escavar com o casco, fez um buraco no meu lenço e, ao escorregar o pé, derrubou o seu cavaleiro e a si mesmo; mas socorri imediatamente ambos e, cobrindo o buraco com uma mão, coloquei a tropa no chão com a outra, da mesma maneira que os tinha pegado. O cavalo que caiu ficou com uma distensão no ombro esquerdo, mas o cavaleiro não sofreu qualquer dano, e reparei o meu lenço o melhor que pude; contudo, não voltaria a confiar na resistência dele em empreendimentos tão perigosos.
Comuniquei ao meu secretário o plano que eu tinha concebido para capturar toda a frota inimiga, a qual, como me fora dito, estava ancorada no porto, pronta para entrar no canal com o primeiro vento favorável. Consultei os mais experimentados marinheiros do império sobre a profundidade do canal, que, segundo me asseguraram, nunca excedia os setenta paus, na maré alta, e seis pés na maré baixa. Escrevi uma nota ao imperador contendo os pormenores do meu projeto e pedi-lhe que me fornecesse um certo número de cabos de ferro, do tamanho de um fio de costura, e de barras de ferro, do tamanho de agulhas de tricô.
Enviei as barras de ferro ao ferreiro, para que as dobrasse em forma de gancho, e depois de ter reunido cinquenta dos referidos cabos, fui até à costa, onde, despindo-me apenas com a camisa, entrei no mar, a cerca de meia hora antes da maré vazar. Caminhei quase todo o caminho, nadando apenas uns cinquenta metros no meio do canal. Cheguei à frota em menos de meia hora. O inimigo ficou tão aterrado ao ver-me que saltou dos navios e nadou até à costa, onde se amontoaram aos milhares, não ousando olhar para trás.
Peguei então no meu conjunto de cabos, que trazia atado à cintura, e prendi um gancho a cada um; depois, metendo o dedo no orifício que tinha feito na proa de cada navio, prendi os cabos e liguei todos os cinquenta navios uns aos outros. Enquanto fazia isto, o inimigo disparou milhares de flechas, muitas das quais me atingiram nas mãos e no rosto, causando-me tal ardor e incômodo que, temendo pela minha visão, me apressei a tirar os meus óculos de bolso, que, felizmente, não tinham sido danificados, e coloquei-os sobre os olhos.
Protegido assim, continuei o meu trabalho, apesar das flechas que choviam sobre mim, as quais pareciam agulhas disparadas contra uma torre. Tendo preso os ganchos a todos os navios, peguei na extremidade do cabo que os unia e comecei a puxar. Mas, como os navios estavam todos ancorados, não se moveram um milímetro. Tive então de me aproximar, cortando as amarras com a minha faca, e fiz o mesmo com as âncoras principais, o que me custou muito trabalho.
Depois, puxei toda a frota, caminhando tranquilamente em direção ao porto de Lilliput, com a maior facilidade, enquanto o inimigo, ao ver os seus navios a moverem-se e a serem levados, soltou um grito de angústia e desespero que é impossível descrever. Quando estive a uma distância segura, parei e tirei os óculos, esperando que o ardor nos olhos diminuísse. Ao chegar ao canal, entrei na água e, com a maré baixa, cheguei ao porto real sem qualquer dificuldade.
O imperador e toda a corte ali estavam à minha espera, na costa. Vi o monarca avançar para a margem e não consegui ouvir o que dizia, mas, quando cheguei perto, vi que ele olhava para os navios com grande espanto. Saí da água, prostrei-me aos seus pés e exclamei em voz alta: "Viva o mais poderoso imperador de Lilliput!" O meu senhor recebeu-me com todo o entusiasmo que se pode imaginar e honrou-me imediatamente com o título de Nardac, que é o título mais elevado de honra entre eles.
O seu império, contudo, não se sentiu satisfeito com este sucesso, pois o imperador, na sua ambição sem limites, desejava que eu capturasse toda a frota restante de Blefuscu e a trouxesse para o seu porto, reduzindo aquele império a uma província, a ser governada por um vice-rei, e exterminando todos os Big-endians. Eu argumentei contra este plano, declarando que nunca seria um instrumento para trazer um povo livre e corajoso à escravidão. Esta minha recusa, que expressei com toda a franqueza, foi o início da minha desgraça na corte, embora o imperador, perante os presentes, tenha mantido o seu tom cortês.
Cerca de três semanas depois, chegaram embaixadores de Blefuscu, com propostas de paz, que foram aceites em termos muito favoráveis pelo nosso imperador. Os embaixadores, que já tinham ouvido falar de mim, pediram uma audiência e, no final da sua visita, convidaram-me, em nome do seu monarca, a visitar o seu império. Aceitei o convite, com o consentimento do meu senhor, o imperador de Lilliput, que, contudo, parecia pouco satisfeito com a minha ida.
Pouco tempo depois, o palácio esteve quase a arder. Fui acordado por gritos à meia-noite, e vi, pelas janelas do meu apartamento, que a ala leste estava em chamas. Peguei no meu casaco, que tinha à mão, e corri para o local, mas não havia meios de apagar o fogo. Num momento de desespero, lembrei-me de que tinha bebido uma grande quantidade de vinho doce, que é muito diurético. Com uma presença de espírito extraordinária, apliquei-o ao fogo, que se extinguiu em menos de três minutos, deixando o resto do edifício a salvo.
O imperador estava presente e, embora estivesse grato, soube mais tarde que a imperatriz, ao ver o meu procedimento, ficou profundamente ofendida e jurou vingar-se, considerando a minha ação como uma falta de decoro imperdoável, esquecendo-se de que a sua própria vida e a do imperador tinham sido salvas graças a esse meu ato impensado.
CAPÍTULO VI.
DOS HABITANTES DE LILLIPUT; A SUA ERUDIÇÃO, LEIS E COSTUMES; A MANEIRA DE EDUCAR OS SEUS FILHOS. O MODO DE VIVER DO AUTOR NAQUELE PAÍS.
Embora pretenda deixar a descrição deste império para um tratado específico, contento-me, por ora, em satisfazer o leitor curioso com algumas ideias gerais. Como o tamanho comum dos nativos é um pouco inferior a seis polegadas de altura, existe uma proporção exata em todos os outros animais, bem como nas plantas e árvores: por exemplo, os cavalos e bois mais altos têm entre quatro e cinco polegadas de altura, as ovelhas uma polegada e meia, mais ou menos; os seus gansos têm o tamanho de um pardal, e assim por diante nas diversas gradações até chegar aos menores, que, para a minha vista, eram quase invisíveis; mas a natureza adaptou os olhos dos lilliputianos a todos os objetos adequados à sua visão; eles veem com grande exatidão, mas não a grande distância. E, para mostrar a agudeza da sua visão perante objetos próximos, aprouve-me observar um cozinheiro a depenar uma cotovia, que não era maior do que uma mosca comum; e uma jovem a enfiar uma agulha invisível com linha invisível.
As suas árvores mais altas têm cerca de sete pés de altura; refiro-me a algumas das que existem no grande parque real, cujas copas eu mal conseguia alcançar com o punho fechado. Os outros vegetais estão na mesma proporção; mas deixo isto à imaginação do leitor.
Direi pouco, por ora, sobre a sua erudição, que, há muitos séculos, floresce em todos os seus ramos entre eles: mas a sua maneira de escrever é muito peculiar, não sendo da esquerda para a direita como a dos europeus; nem da direita para a esquerda, como a dos árabes; nem de cima para baixo, como a dos chineses, mas na diagonal, de um canto do papel ao outro, como as senhoras em Inglaterra.
Enterram os seus mortos com as cabeças diretamente voltadas para baixo, porque sustentam a opinião de que, em onze mil luas, todos hão de ressuscitar, período no qual a terra (que concebem ser plana) se virará ao contrário e, deste modo, na ressurreição, encontrar-se-ão prontos, de pé. Os eruditos entre eles confessam o absurdo desta doutrina, mas a prática continua, em obediência ao vulgo.
Existem algumas leis e costumes neste império muito peculiares; e, se não fossem tão diretamente contrários aos do meu querido país, sentir-me-ia tentado a dizer algo em sua justificação. Só resta desejar que fossem tão bem executadas. A primeira que mencionarei diz respeito aos delatores. Todos os crimes contra o estado são aqui punidos com a máxima severidade; mas, se a pessoa acusada faz a sua inocência transparecer claramente no julgamento, o acusador é imediatamente levado a uma morte ignominiosa; e, dos seus bens ou terras, a pessoa inocente é quadruplamente recompensada pela perda do seu tempo, pelo perigo que sofreu, pela dureza do seu encarceramento e por todas as despesas que teve em fazer a sua defesa, ou, se esse fundo for insuficiente, é largamente suprido pela coroa. O imperador confere-lhe também algum sinal público do seu favor, e é feita proclamação da sua inocência por toda a cidade.
Consideram a fraude um crime maior do que o roubo e, por isso, raramente deixam de puni-la com a morte; pois alegam que o cuidado e a vigilância, com um entendimento muito comum, podem preservar os bens de um homem contra os ladrões, mas a honestidade não tem defesa contra a astúcia superior; e, uma vez que é necessário que haja um intercâmbio perpétuo de compra e venda e de transações a crédito, onde a fraude é permitida e tolerada, ou onde não há lei para a punir, o comerciante honesto fica sempre arruinado e o velhaco leva a vantagem. Recordo-me de, certa vez, interceder junto do rei por um criminoso que tinha lesado o seu senhor numa grande soma de dinheiro, que recebera por ordem, e com a qual fugira, e, acontecendo dizer a Sua Majestade, a título de atenuante, que fora apenas uma quebra de confiança, o imperador achou monstruoso da minha parte oferecer como defesa o maior agravante do crime; e, na verdade, pouco tive a dizer em resposta, para além da resposta comum de que diferentes nações tinham diferentes costumes; pois, confesso, senti-me profundamente envergonhado.
Embora chamemos habitualmente recompensa e castigo aos dois gonzos sobre os quais gira todo o governo, nunca pude observar esta máxima ser posta em prática por nenhuma nação exceto a de Lilliput. Quem possa aí apresentar prova suficiente de que observou estritamente as leis do seu país durante setenta e três luas, tem direito a certos privilégios, de acordo com a sua qualidade e condição de vida, com uma soma proporcional de um fundo apropriado para esse uso; adquire igualmente o título de snillpall, ou legal, que é acrescentado ao seu nome, mas que não descende à sua posteridade. E este povo achava ser um defeito prodigioso de política entre nós, quando lhes disse que as nossas leis eram reforçadas apenas por penalidades, sem qualquer menção a recompensa. É por esta razão que a imagem da Justiça, nos seus tribunais, é formada com seis olhos, dois à frente, outros tantos atrás, e um em cada lado, para significar circunspeção, com um saco de ouro aberto na mão direita e uma espada embainhada na esquerda, para mostrar que estava mais disposta a recompensar do que a punir.
Na escolha de pessoas para todos os empregos, dão mais atenção aos bons costumes do que às grandes capacidades; pois, uma vez que o governo é necessário à humanidade, acreditam que o tamanho comum do entendimento humano está apto para um posto ou outro, e que a Providência nunca pretendeu fazer da gestão dos assuntos públicos um mistério, para ser compreendido apenas por algumas pessoas de génio sublime, das quais raramente nascem três num século; mas supõem que a verdade, a justiça, a temperança e afins estejam ao alcance de qualquer homem, cuja prática dessas virtudes, assistida pela experiência e por uma boa intenção, qualificaria qualquer indivíduo para o serviço do seu país, exceto onde um curso de estudos é exigido. Mas pensavam que a falta de virtudes morais estava tão longe de ser suprida por dotes superiores de espírito, que os empregos nunca poderiam ser colocados em mãos tão perigosas como as dessas pessoas assim qualificadas; e, pelo menos, que os erros cometidos por ignorância, numa disposição virtuosa, nunca teriam consequências tão fatais para o bem público como as práticas de um homem cujas inclinações o levavam a ser corrupto e que possuía grandes capacidades para gerir, multiplicar e defender as suas corrupções.
Do mesmo modo, a descrença numa Providência Divina torna um homem incapaz de ocupar qualquer posto público; pois, uma vez que os reis se declaram representantes da Providência, os lilliputianos acham que nada pode ser mais absurdo do que um príncipe empregar homens que renegam a autoridade sob a qual ele próprio atua.
Ao relatar estas e as seguintes leis, desejo apenas que se entenda que me refiro às instituições originais, e não às corrupções mais escandalosas nas quais este povo caiu, pela natureza degenerada do homem. Pois, quanto àquela prática infame de adquirir grandes empregos por meio de danças sobre cordas, ou insígnias de favor e distinção saltando sobre varas e rastejando sob elas, o leitor deve observar que foram introduzidas pela primeira vez pelo avô do imperador agora reinante, e cresceram até a altura atual pelo aumento gradual de partidos e facções.
A ingratidão é, entre eles, um crime capital, como lemos ter sido em alguns outros países; pois raciocinam da seguinte forma: que quem quer que retribua mal ao seu benfeitor deve, necessariamente, ser um inimigo comum ao resto da humanidade, de quem não recebeu qualquer obrigação, e, portanto, tal homem não é digno de viver.
As suas noções relativas aos deveres dos pais e dos filhos diferem extremamente das nossas. A opinião deles é que os pais são os últimos de todos a serem incumbidos da educação dos seus próprios filhos; e, portanto, possuem, em cada cidade, viveiros públicos, onde todos os pais, exceto camponeses e trabalhadores, são obrigados a enviar os seus infantes de ambos os sexos para serem criados e educados quando atingem a idade de vinte luas, altura em que se supõe que já possuem alguns rudimentos de docilidade. Estas escolas são de vários tipos, adequadas a diferentes qualidades e a ambos os sexos. Têm certos professores, bem versados em preparar as crianças para tal condição de vida que condiz com a posição dos seus pais, e com as suas próprias capacidades, bem como inclinações. Direi primeiro algo sobre os viveiros masculinos, e depois sobre os femininos.
Os viveiros para machos de nascimento nobre ou eminente são providos de professores graves e doutos, e dos seus vários adjuntos. As roupas e a comida das crianças são simples e singelas. São criados nos princípios da honra, justiça, coragem, modéstia, clemência, religião e amor à sua pátria; estão sempre empregados em algum trabalho, exceto nos tempos de comer e dormir, que são muito curtos, e duas horas para diversões, que consistem em exercícios corporais. São vestidos por homens até aos quatro anos de idade, e depois são obrigados a vestir-se a si mesmos, por mais elevada que seja a sua qualidade; e as mulheres atendentes, que têm idade proporcional à nossa de cinquenta anos, desempenham apenas os ofícios mais servis. Nunca lhes é permitido conversar com criados, mas vão juntos em grupos menores ou maiores para as suas diversões, e sempre na presença de um professor, ou de um dos seus adjuntos; pelo que evitam aquelas primeiras más impressões de insensatez e vício a que as nossas crianças estão sujeitas. Aos seus pais só é permitido vê-los duas vezes por ano; a visita dura apenas uma hora; é-lhes permitido beijar a criança no encontro e na despedida; mas um professor, que está sempre presente nessas ocasiões, não lhes permitirá sussurrar, ou usar quaisquer expressões de carinho, ou trazer quaisquer presentes de brinquedos, doces e coisas semelhantes.
A pensão de cada família, para a educação e sustento de uma criança, em caso de falta de pagamento devido, é cobrada pelos oficiais do imperador.
Os viveiros para filhos de cavalheiros comuns, mercadores, negociantes e artesãos são geridos proporcionalmente da mesma maneira; apenas aqueles destinados aos ofícios são colocados como aprendizes aos onze anos de idade, ao passo que as pessoas de qualidade continuam nos seus exercícios até aos quinze, o que equivale a vinte e um connosco; mas o confinamento é gradualmente reduzido durante os últimos três anos.
Nos viveiros femininos, as jovens de qualidade são educadas quase como os machos, apenas são vestidas por criadas ordeiras do seu próprio sexo; mas sempre na presença de um professor ou adjunto, até que cheguem a vestir-se a si mesmas, o que ocorre aos cinco anos de idade. E se for descoberto que estas amas alguma vez se atrevem a entreter as raparigas com histórias assustadoras ou tolas, ou com as loucuras comuns praticadas pelas camareiras entre nós, são publicamente açoitadas três vezes em volta da cidade, presas por um ano e banidas para toda a vida para a parte mais desolada do país. Assim, as jovens senhoras ali sentem tanta vergonha de serem cobardes e tolas como os homens, e desprezam todos os ornamentos pessoais além da decência e limpeza: nem percebi qualquer diferença na sua educação feita pela sua diferença de sexo, exceto que os exercícios das mulheres não eram tão robustos, e que algumas regras lhes eram dadas relativas à vida doméstica, e um âmbito menor de aprendizagem lhes era imposto: pois a sua máxima é que, entre pessoas de qualidade, uma esposa deve ser sempre uma companheira razoável e agradável, porque ela não pode ser sempre jovem. Quando as raparigas têm doze anos de idade, que entre eles é a idade núbil, os seus pais ou tutores levam-nas para casa, com grandes expressões de gratidão aos professores, e raramente sem lágrimas da jovem senhora e das suas companheiras.
Nos viveiros de fêmeas da classe mais humilde, as crianças são instruídas em todos os tipos de trabalhos adequados ao seu sexo e aos seus vários graus; aquelas destinadas a aprendizes são dispensadas aos sete anos de idade, as restantes são mantidas até aos onze.
As famílias mais humildes que têm filhos nestes viveiros são obrigadas, além da sua pensão anual, que é tão baixa quanto possível, a devolver ao administrador do viveiro uma pequena parte mensal dos seus ganhos, para ser um dote para a criança; e, portanto, todos os pais são limitados nas suas despesas pela lei. Pois os lilliputianos pensam que nada pode ser mais injusto do que as pessoas deixarem o fardo de sustentar os seus filhos sobre o público. Quanto às pessoas de qualidade, dão garantia de destinar uma certa quantia para cada criança, adequada à sua condição; e estes fundos são sempre geridos com boa administração e a mais exata justiça.
Os camponeses e trabalhadores mantêm os seus filhos em casa, sendo o seu trabalho apenas lavrar e cultivar a terra, e, portanto, a sua educação é de pouca importância para o público; mas os velhos e doentes entre eles são sustentados por hospitais; pois a mendicidade é um ofício desconhecido neste império.
E aqui poderá talvez divertir o leitor curioso dar algum relato dos meus assuntos domésticos e do meu modo de vida neste país, durante uma residência de nove meses e treze dias. Tendo jeito para a mecânica, e sendo também forçado pela necessidade, fiz para mim mesmo uma mesa e uma cadeira, suficientemente convenientes, a partir das maiores árvores do parque real. Duzentas costureiras foram empregadas para fazerem camisas, e roupa de cama e de mesa para mim, tudo do tipo mais forte e grosseiro que podiam obter; o qual, contudo, foram forçadas a acolchoar em várias dobras, pois a mais espessa era alguns graus mais fina do que o linho fino. A sua tela é geralmente de três polegadas de largura, e três pés fazem uma peça.
As costureiras tiraram as minhas medidas enquanto eu estava deitado no chão, uma de pé ao meu pescoço, e outra a meio da minha perna, com um cordel forte estendido que cada uma segurava pela extremidade, enquanto uma terceira media o comprimento do cordel com uma régua de uma polegada de comprimento. Depois mediram o meu polegar direito, e não pediram mais; pois, por um cálculo matemático, duas vezes a volta do polegar é uma vez a volta do pulso, e assim por diante até ao pescoço e à cintura, e com a ajuda da minha camisa velha, que exibi no chão diante delas como modelo, ajustaram-me perfeitamente. Trezentos alfaiates foram empregados da mesma maneira para fazerem as minhas roupas; mas tinham outro estratagema para tirar a minha medida. Ajoelhei-me, e eles elevaram uma escada do chão até ao meu pescoço; sobre esta escada um deles subiu, e deixou cair um fio de prumo do meu colarinho até ao chão, que correspondia exatamente ao comprimento do meu casaco; mas a minha cintura e braços medi eu mesmo. Quando as minhas roupas ficaram prontas, o que foi feito na minha casa (pois a maior das deles não teria sido capaz de as conter), pareciam a colcha de retalhos feita pelas senhoras na Inglaterra, apenas que as minhas eram todas de uma cor só.
Tive trezentos cozinheiros para preparar a minha comida, em pequenas cabanas convenientes construídas em volta da minha casa, onde eles e as suas famílias viviam, e preparavam-me dois pratos de cada vez. Eu pegava em vinte empregados na minha mão, e colocava-os sobre a mesa; outros cem atendiam em baixo no chão, alguns com pratos de carne, e outros com barris de vinho e outras bebidas, atirados sobre os seus ombros; tudo o que os empregados acima puxavam, conforme eu precisava, de uma maneira muito engenhosa, por certas cordas, como puxamos o balde de um poço na Europa. Um prato da sua carne era uma boa dentada, e um barril da sua bebida um gole razoável. O seu carneiro é inferior ao nosso, mas a sua carne de vaca é excelente; já tive um lombo tão grande que fui forçado a dar três dentadas nele; mas isto é raro. Os meus criados ficaram espantados ao ver-me comê-la, ossos e tudo, como no nosso país fazemos com a perna de uma cotovia. Os seus gansos e perus eu geralmente comia de uma só vez, e devo confessar que superam em muito os nossos. Das suas aves mais pequenas, eu podia pegar vinte ou trinta na ponta da minha faca.
Um dia, a sua majestade imperial, sendo informada do meu modo de vida, desejou que ele próprio e a sua consorte real, com os jovens príncipes de sangue de ambos os sexos, pudessem ter a felicidade, como ele se dignou chamar-lhe, de jantar comigo. Vieram em conformidade, e eu coloquei-os em cadeiras de estado sobre a minha mesa, exatamente defronte de mim, com os seus guardas em volta deles. Flimnap, o lorde alto tesoureiro, compareceu lá também, com o seu bastão branco; e observei que ele frequentemente olhava para mim com um semblante azedo, o que eu não quis parecer notar, mas comi mais do que o habitual, em honra ao meu querido país, bem como para encher a corte de admiração. Tenho algumas razões privadas para acreditar que esta visita de sua majestade deu a Flimnap uma oportunidade de fazer-me más referências ao seu mestre. Aquele ministro tinha sido sempre o meu inimigo secreto, embora exteriormente me acariciasse mais do que era habitual à aspereza da sua natureza. Ele representou ao imperador a baixa condição do seu tesouro; que ele era forçado a tomar dinheiro emprestado com um grande desconto; que as letras do tesouro não circulavam abaixo de nove por cento do valor nominal; que eu tinha custado a sua majestade mais de um milhão e meio de sprugs (a sua maior moeda de ouro, com o tamanho de uma lantejoula); e, no geral, que seria aconselhável para o imperador aproveitar a primeira oportunidade justa para me despedir.
CAPÍTULO VII.
O AUTOR, SENDO INFORMADO DE UM PLANO PARA O ACUSAR DE ALTA TRAIÇÃO, FOGE PARA BLEFUSCU. A SUA RECEPÇÃO LÁ.
Antes de prosseguir com o relato da minha partida deste reino, pode ser apropriado informar o leitor de uma intriga privada que se vinha formando contra mim há dois meses.
Eu tinha sido até então toda a minha vida um estranho às cortes, para o que não estava qualificado pela baixeza da minha condição. Tinha, de facto, ouvido e lido o suficiente sobre as disposições de grandes príncipes e ministros, mas nunca esperei encontrar efeitos tão terríveis delas num país tão remoto, governado, como eu pensava, por máximas muito diferentes daquelas na Europa.
Quando eu estava apenas a preparar-me para apresentar os meus respeitos ao imperador de Blefuscu, uma pessoa considerável na corte (a quem eu tinha sido muito útil, numa altura em que ele estava sob o maior desagrado da sua majestade imperial) veio à minha casa muito privadamente à noite, numa liteira fechada, e sem enviar o seu nome, pediu admissão. Os liteireiros foram dispensados; coloquei a liteira, com o seu senhor dentro, no meu bolso do casaco; e, dando ordens a um criado de confiança para dizer que eu estava indisposto e tinha ido dormir, tranquei a porta da minha casa, coloquei a liteira sobre a mesa, de acordo com o meu costume habitual, e sentei-me ao lado dela. Depois das saudações comuns, observando o semblante do seu senhor cheio de preocupação, e perguntando a razão, ele pediu que eu o ouvisse com paciência, num assunto que dizia respeito altamente à minha honra e à minha vida. O seu discurso foi no seguinte sentido, pois tomei notas dele assim que ele me deixou:--
Deve saber, disse ele, que vários comités do conselho foram recentemente convocados da maneira mais privada por sua causa; e faz apenas dois dias que sua majestade chegou a uma resolução plena.
O senhor está muito ciente de que Skyrris Bolgolam (galbet ou alto-almirante) tem sido o seu inimigo mortal quase desde a sua chegada: as suas razões originais não sei; mas o seu ódio aumentou desde o seu grande sucesso contra Blefuscu, pelo qual a sua glória, como almirante, está muito obscurecida. Este lorde, em conjunto com Flimnap, o alto tesoureiro, cuja inimizade contra si é notória, Limtoc, o general, Lalcon, o camareiro, e Balmuff, o grande justiciário, prepararam artigos de acusação contra si, por traição e outros crimes capitais.
Este prefácio tornou-me tão impaciente, estando consciente dos meus próprios méritos e inocência, que ia interromper; quando ele me implorou que ficasse calado, e assim prosseguiu.
Por gratidão pelos favores que fez por mim, obtive informações de todo o processo, e uma cópia dos artigos; nos quais arrisco a minha cabeça pelo seu serviço.
ARTIGOS DE ACUSAÇÃO CONTRA QUINBUS FLESTRIN, O HOMEM-MONTANHA.
ARTIGO I.
Considerando que, por um estatuto feito no reinado da sua Majestade Imperial Calin Deffar Plune, é decretado que quem quer que ponha as mãos sobre a imperatriz, ou sobre qualquer dos filhos reais, estará sujeito às dores e penas de alta traição. Não obstante, o referido Quinbus Flestrin, em violação aberta da referida lei, sob o pretexto de extinguir o fogo acendido no apartamento da mais querida consorte imperial de Sua Majestade, puxou-a maliciosa e traiçoeiramente pelos braços, e levantou-a alto no ar com ambas as mãos, contra o estatuto previsto para esse caso, etc., contra o dever, etc.
ARTIGO II.
Que o referido Quinbus Flestrin, tendo trazido a frota imperial de Blefuscu para o porto real, e sendo depois ordenado pela sua majestade imperial para tomar todos os outros navios do referido império de Blefuscu, e reduzir aquele império a uma província, a ser governada por um vice-rei daqui, e destruir e pôr à morte, não apenas todos os exilados Big-endian, mas também todo o povo daquele império que não abandonasse imediatamente a heresia Big-endian. Ele, o referido Flestrin, como um falso traidor contra a sua mais auspiciosa, serena e imperial majestade, peticionou para ser desculpado do referido serviço, sob o pretexto de falta de vontade para forçar as consciências ou destruir as liberdades e vidas de um povo inocente.
ARTIGO III.
Que, considerando que certos embaixadores chegaram da corte de Blefuscu, para pedir paz na corte de sua majestade; ele, o referido Flestrin, como um falso traidor, ajudou, instigou, confortou e divertiu os referidos embaixadores, embora soubesse que eram servos de um príncipe que era recentemente um inimigo aberto da sua majestade imperial, e em guerra aberta contra a sua referida majestade.
ARTIGO IV.
Que o referido Quinbus Flestrin, contrariamente ao dever de um súbdito fiel, está agora a preparar-se para fazer uma viagem à corte e império de Blefuscu, para a qual recebeu apenas licença verbal da sua majestade imperial; e sob o pretexto da referida licença, pretende falsa e traiçoeiramente fazer a referida viagem, e assim ajudar, confortar e instigar o imperador de Blefuscu, um inimigo tão recente, e em guerra aberta com a sua majestade imperial supracitada.
Existem alguns outros artigos, mas estes são os mais importantes, dos quais li para si um resumo.
Nos vários debates sobre esta acusação, deve confessar-se que sua majestade deu muitos sinais da sua grande clemência, insistindo frequentemente nos serviços que lhe tinha feito, e esforçando-se por atenuar os seus crimes. O tesoureiro e o almirante insistiram que o senhor deveria ser submetido à morte mais dolorosa e ignominiosa, pondo fogo na sua casa à noite; e o general deveria comparecer, com vinte mil homens armados com flechas envenenadas, para o atingir na cara e nas mãos. Alguns dos seus criados deveriam ter ordens privadas para espalhar um sumo venenoso nas suas camisas e lençóis, o que em breve o faria rasgar a sua própria carne, e morrer na maior tortura. O general teve a mesma opinião; de modo que por muito tempo houve uma maioria contra si: mas sua majestade, resolvendo, se possível, poupar a sua vida, finalmente convenceu o camareiro.
Sobre este incidente, Reldresal, secretário principal para os assuntos privados, que sempre se provou ser o seu verdadeiro amigo, foi ordenado pelo imperador para dar a sua opinião, o que ele fez em conformidade; e nisso justificou os bons pensamentos que o senhor tem dele. Ele admitiu que os seus crimes eram grandes, mas que ainda havia espaço para a misericórdia, a virtude mais louvável num príncipe, e pela qual sua majestade era tão justamente celebrada. Ele disse que a amizade entre si e ele era tão bem conhecida do mundo que, talvez, o conselho mais honroso pudesse considerá-lo parcial; contudo, em obediência à ordem que tinha recebido, ofereceria livremente os seus sentimentos; que se sua majestade, em consideração pelos seus serviços, e em conformidade com a sua própria disposição misericordiosa, se dignasse poupar a sua vida, e apenas desse ordens para arrancar ambos os seus olhos, ele humildemente concebia que, por este expediente, a justiça poderia, em certa medida, ser satisfeita, e todo o mundo aplaudiria a clemência do imperador, bem como os procedimentos justos e generosos daqueles que têm a honra de ser os seus conselheiros: que a perda dos seus olhos não seria impedimento para a sua força corporal, pela qual o senhor ainda poderia ser útil à sua majestade: que a cegueira é uma adição à coragem, ao ocultar-nos os perigos: que o medo que o senhor tinha pelos seus olhos foi a maior dificuldade em trazer a frota do inimigo: e seria suficiente para si ver pelos olhos dos ministros, uma vez que os maiores príncipes não fazem mais do que isso.
Esta proposta foi recebida com a maior desaprovação por todo o conselho. Bolgolam, o almirante, não conseguiu manter a calma, mas levantando-se em fúria, disse que se maravilhava como o secretário se atrevia a presumir dar a sua opinião para preservar a vida de um traidor: que os serviços que tinha realizado eram, por todas as razões verdadeiras de estado, o grande agravante dos seus crimes: que o senhor, que extinguiu o fogo daquela maneira sem princípios, poderia noutra altura inundar e afogar todo o palácio; e a mesma força, que o habilitou a trazer a frota do inimigo, poderia servir, ao primeiro descontentamento, para a levar de volta: que ele tinha boas razões para pensar que o senhor era um Big-endian no seu coração; e, como a traição começa no coração, antes de aparecer em atos públicos, ele acusou-o como um traidor por essa razão, e portanto insistiu que o senhor deveria ser condenado à morte.
O tesoureiro era da mesma opinião. Ele mostrou a que dificuldades a receita de sua majestade estava reduzida, pelo custo de o manter, o que em breve se tornaria insuportável. Que o expediente do secretário de arrancar os seus olhos estava longe de ser um remédio contra este mal, pois provavelmente aumentá-lo-ia, como é manifesto pela prática comum de cegar alguns tipos de aves, após o que elas comiam mais depressa, e engordavam mais cedo. Que a sua sagrada majestade, e o conselho, que são os seus juízes, estavam nas suas próprias consciências plenamente convencidos da sua culpa, o que era um argumento suficiente para o condenar à morte sem as provas formais exigidas pela letra estrita da lei.
Mas a sua majestade imperial, plenamente determinada contra a pena capital, teve a graça de dizer que, uma vez que o conselho considerava a perda dos seus olhos uma censura demasiado leve, alguma outra poderia ser infligida futuramente. E o seu amigo, o secretário, desejando humildemente ser ouvido novamente, em resposta ao que o tesoureiro objetara quanto à grande despesa que a sua majestade tinha em mantê-lo, disse que a sua excelência, que tinha a disposição exclusiva da receita do imperador, poderia facilmente precaver-se contra esse mal, diminuindo gradualmente o seu sustento; pelo que, por falta de alimento suficiente, você tornar-se-ia fraco e debilitado, perderia o apetite e consumir-se-ia em poucos meses; nem seria então o fedor do seu cadáver tão perigoso quando estivesse mais de metade reduzido; e, imediatamente após a sua morte, cinco ou seis mil dos súbditos de sua majestade poderiam, em dois ou três dias, cortar a sua carne dos seus ossos, levá-la aos carregamentos de carroça e enterrá-la em partes distantes, para evitar infeção, deixando o esqueleto como um monumento de admiração para a posteridade.
Assim, pela grande amizade do secretário, todo o assunto foi comprometido. Foi estritamente ordenado que o projeto de o matar à fome gradualmente deveria ser mantido em segredo, mas a sentença de arrancar-lhe os olhos foi inscrita nos registos, sem ninguém discordar, exceto Bolgolam, o almirante, que, sendo uma criatura da imperatriz, era perpetuamente instigado pela sua majestade a insistir na sua morte, pois ela nutria um ódio perpétuo contra si, devido àquele método ilegal que utilizou para a remover a ela e aos seus filhos na noite do incêndio.
Em três dias, o seu amigo o secretário será instruído a ir à sua casa e ler-lhe os artigos de acusação; e, então, significar a grande clemência e favor de sua majestade e do conselho, pelos quais você é apenas condenado à perda dos olhos, o que sua majestade não duvida que você aceitará agradecida e humildemente; e vinte dos cirurgiões de sua majestade comparecerão, a fim de ver a operação bem executada, disparando flechas de pontas muito aguçadas nos globos dos seus olhos enquanto você jaz no chão.
Deixo à sua prudência que medidas tomará; e, para evitar suspeitas, devo retornar imediatamente, da maneira mais privada como vim.
O seu senhor assim o fez, e eu permaneci só, sob muitas dúvidas e perplexidades de espírito.
Era um costume, introduzido por este príncipe e pelo seu ministério (muito diferente, como me foi assegurado, das práticas de tempos anteriores), que, depois de o tribunal ter decretado qualquer execução cruel, fosse para satisfazer o ressentimento do monarca ou a malícia de um favorito, o imperador fazia sempre um discurso a todo o seu conselho, expressando a sua grande clemência e ternura, como qualidades conhecidas e confessadas por todo o mundo. Este discurso era imediatamente publicado por todo o reino; nem nada aterrorizava tanto o povo como esses encómios à misericórdia de sua majestade; porque se observava que, quanto mais estes louvores eram ampliados e insistidos, mais desumana era a punição, e mais inocente o sofredor. No entanto, quanto a mim, devo confessar que, nunca tendo sido destinado a ser cortesão, nem pelo meu nascimento nem pela minha educação, era tão mau juiz das coisas que não conseguia descobrir a clemência e o favor desta sentença, mas concebia-a (talvez erroneamente) antes como rigorosa do que gentil. Pensei por vezes em submeter-me a julgamento; pois, embora não pudesse negar os factos alegados nos diversos artigos, esperava que admitissem alguma atenuação. Mas, tendo na minha vida lido muitos julgamentos de estado, que sempre observei terminarem como os juízes achavam por bem ordenar, não me atrevi a confiar numa decisão tão perigosa, num momento tão crítico, e contra inimigos tão poderosos. Uma vez, estive fortemente inclinado à resistência, pois, enquanto tivesse liberdade, toda a força daquele império dificilmente me subjugaria, e eu poderia facilmente, com pedras, reduzir a metrópole a pedaços; mas logo rejeitei esse projeto com horror, ao lembrar-me do juramento que fiz ao imperador, dos favores que recebi dele e do alto título de nardac que ele me conferiu. Nem tinha aprendido tão depressa a gratidão dos cortesãos para me persuadir de que as atuais severidades de sua majestade me absolviam de todas as obrigações passadas.
Por fim, tomei uma resolução, pela qual é provável que incorra em alguma censura, e não injustamente; pois confesso que devo a preservação dos meus olhos, e consequentemente da minha liberdade, à minha própria grande imprudência e falta de experiência; porque, se eu conhecesse então a natureza dos príncipes e ministros, que observei desde então em muitas outras cortes, e os seus métodos de tratar criminosos menos odiosos do que eu, ter-me-ia submetido com grande prontidão e facilidade a tão leve punição. Mas, levado pela precipitância da juventude, e tendo a licença da sua majestade imperial para prestar os meus respeitos ao imperador de Blefuscu, aproveitei esta oportunidade, antes que os três dias passassem, para enviar uma carta ao meu amigo, o secretário, significando a minha resolução de partir naquela manhã para Blefuscu, conforme a licença que obtivera; e, sem esperar por uma resposta, dirigi-me para aquele lado da ilha onde a nossa frota estava ancorada. Apropriei-me de um grande navio de guerra, atei um cabo à proa e, levantando as âncoras, despi-me, coloquei as minhas roupas (juntamente com a minha colcha, que carregava debaixo do braço) dentro da embarcação e, arrastando-a atrás de mim, entre caminhar e nadar, cheguei ao porto real de Blefuscu, onde as pessoas há muito me esperavam; emprestaram-me dois guias para me dirigirem à cidade capital, que tem o mesmo nome. Segurei-os nas minhas mãos até chegar a duzentas jardas do portão, e pedi-lhes que significassem a minha chegada a um dos secretários, e lhe fizessem saber que ali aguardava as ordens de sua majestade. Tive uma resposta em cerca de uma hora, de que sua majestade, acompanhado pela família real e pelos grandes oficiais da corte, vinha ao meu encontro. Avancei cem jardas. O imperador e o seu séquito desmontaram dos seus cavalos, a imperatriz e as damas das suas carruagens, e não percebi que estivessem com qualquer susto ou preocupação. Deitei-me no chão para beijar a mão de sua majestade e da imperatriz.
Disse a sua majestade que eu viera, conforme a minha promessa, e com a licença do imperador, meu mestre, para ter a honra de ver tão poderoso monarca, e oferecer-lhe qualquer serviço ao meu alcance, consistente com o meu dever para com o meu próprio príncipe, não mencionando uma palavra sobre a minha desgraça, porque até então não tinha informações regulares sobre ela, e poderia supor-me totalmente ignorante de tal desígnio; nem poderia razoavelmente conceber que o imperador revelaria o segredo enquanto eu estivesse fora do seu poder, no que, contudo, logo se viu que fui enganado.
Não aborrecerei o leitor com o relato pormenorizado da minha receção nesta corte, que foi adequada à generosidade de tão grande príncipe; nem das dificuldades em que me vi por falta de uma casa e de uma cama, sendo forçado a deitar-me no chão, enrolado na minha colcha.
CAPÍTULO VIII.
O AUTOR, POR UM ACIDENTE AFORTUNADO, ENCONTRA MEIOS DE DEIXAR BLEFUSCU E, APÓS ALGUMAS DIFICULDADES, RETORNA EM SEGURANÇA AO SEU PAÍS NATAL.
Três dias após a minha chegada, caminhando por curiosidade até à costa nordeste da ilha, observei, a cerca de meia légua mar adentro, algo que parecia um barco virado. Tirei os sapatos e as meias e, caminhando duzentas ou trezentas jardas, vi o objeto aproximar-se mais pela força da maré; e então vi claramente que se tratava de um barco real, que supus ter sido afastado de um navio por alguma tempestade: pelo que retornei imediatamente em direção à cidade, e pedi a sua majestade imperial que me emprestasse vinte das embarcações mais altas que lhe restavam após a perda da sua frota, e três mil marinheiros sob o comando do seu vice-almirante. Esta frota navegou ao redor, enquanto eu voltei pelo caminho mais curto para a costa, onde descobri o barco pela primeira vez. Descobri que a maré o tinha trazido ainda mais para perto. Os marinheiros estavam todos providos de cordame, que eu tinha previamente trançado até uma força suficiente. Quando os navios chegaram, despi-me e caminhei até ficar a cem jardas do barco, após o que fui forçado a nadar até chegar a ele. Os marinheiros lançaram-me a extremidade da corda, que prendi a um buraco na parte dianteira do barco, e a outra extremidade a um navio de guerra. Mas achei todo o meu trabalho de pouca utilidade; pois, estando fora do meu pé, não era capaz de trabalhar. Nesta necessidade, fui forçado a nadar atrás e empurrar o barco para a frente, tão frequentemente quanto podia, com uma das minhas mãos, e, favorecendo-me a maré, avancei tanto que podia apenas manter o queixo erguido e sentir o chão. Descansei dois ou três minutos, e então dei ao barco outro empurrão, e assim por diante até que o mar não estivesse mais alto que as minhas axilas; e agora, sendo a parte mais trabalhosa concluída, tirei os meus outros cabos, que estavam guardados num dos navios, e prendi-os primeiro ao barco, e depois a nove das embarcações que me acompanhavam; sendo o vento favorável, os marinheiros rebocaram e eu empurrei, até chegarmos a quarenta jardas da costa, e, esperando até que a maré baixasse, cheguei seco ao barco e, com a assistência de dois mil homens, com cordas e máquinas, consegui virá-lo sobre o seu fundo, e descobri que estava apenas ligeiramente danificado.
Não aborrecerei o leitor com as dificuldades que enfrentei, com a ajuda de certos remos, que me custaram dez dias a fazer, para levar o meu barco até ao porto real de Blefuscu, onde um imenso concurso de pessoas apareceu à minha chegada, cheio de espanto à vista de tão prodigiosa embarcação. Disse ao imperador que a minha boa fortuna tinha colocado este barco no meu caminho, para me levar a algum lugar de onde pudesse retornar ao meu país natal, e pedi as ordens de sua majestade para obter materiais para o equipar, juntamente com a sua licença para partir, a qual, após alguma amável exposição, ele se dignou conceder.
Eu admirava-me muito, durante todo este tempo, de não ter ouvido falar de qualquer expresso relativo a mim da parte do nosso imperador para a corte de Blefuscu. Mas fui depois, privadamente, levado a entender que a sua majestade imperial, nunca imaginando que eu tivesse a mínima notícia dos seus desígnios, acreditava que eu apenas tinha ido a Blefuscu no cumprimento da minha promessa, de acordo com a licença que ele me tinha dado, a qual era bem conhecida na nossa corte, e que retornaria em poucos dias quando a cerimónia terminasse. Mas ele ficou, por fim, inquieto com a minha longa ausência; e, após consultar o tesoureiro e o resto daquela cabala, uma pessoa de qualidade foi enviada com a cópia dos artigos contra mim. Este enviado tinha instruções para representar ao monarca de Blefuscu a grande clemência do seu mestre, que se contentava em punir-me não mais do que com a perda dos meus olhos; que eu tinha fugido da justiça e, se não retornasse em duas horas, seria privado do meu título de nardac e declarado traidor. O enviado acrescentou ainda que, a fim de manter a paz e amizade entre ambos os impérios, o seu mestre esperava que o seu irmão de Blefuscu desse ordens para que eu fosse enviado de volta a Lilliput, amarrado de pés e mãos, para ser punido como um traidor.
O imperador de Blefuscu, tendo levado três dias a consultar, deu uma resposta que consistia em muitas gentilezas e desculpas. Disse que, quanto a enviar-me amarrado, o seu irmão sabia que era impossível. Que, embora eu o tivesse privado da sua frota, ele devia-me grandes obrigações por muitos bons serviços que lhe tinha prestado ao fazer a paz. Que, contudo, ambas as suas majestades ficariam em breve tranquilizadas; pois eu tinha encontrado uma embarcação prodigiosa na costa, capaz de me levar pelo mar, a qual ele tinha dado ordens para equipar com a minha própria assistência e direção; e esperava que, em poucas semanas, ambos os impérios ficassem livres de tão insuportável embaraço.
Com esta resposta, o enviado retornou a Lilliput, e o monarca de Blefuscu relatou-me tudo o que tinha passado; oferecendo-me ao mesmo tempo (mas sob a mais estrita confiança) a sua graciosa proteção se eu quisesse continuar ao seu serviço; no que, embora acreditasse na sua sinceridade, resolvi nunca mais depositar qualquer confiança em príncipes ou ministros onde pudesse possivelmente evitá-lo; e, portanto, com todos os devidos agradecimentos pelas suas intenções favoráveis, pedi humildemente para ser escusado. Disse-lhe que, desde que a sorte, fosse boa ou má, tinha colocado uma embarcação no meu caminho, eu estava resolvido a aventurar-me no oceano, em vez de ser uma causa de divergência entre dois tão poderosos monarcas. Nem achei o imperador de modo algum descontente; e descobri, por um certo acidente, que ele estava muito contente com a minha resolução, e assim estavam a maioria dos seus ministros.
Estas considerações levaram-me a apressar a minha partida um pouco mais cedo do que pretendia; para o que a corte, impaciente por me ver ir, muito prontamente contribuiu. Quinhentos trabalhadores foram empregados para fazer duas velas para o meu barco, de acordo com as minhas instruções, acolchoando treze dobras do seu mais forte linho. Tive o trabalho de fazer cordas e cabos, trançando dez, vinte ou trinta das suas mais grossas e fortes. Uma grande pedra, que por acaso encontrei após uma longa busca à beira-mar, serviu-me de âncora. Tive o sebo de trezentas vacas para untar o meu barco, e outros usos. Tive um trabalho incrível em cortar algumas das maiores árvores de madeira para remos e mastros, no que fui, contudo, muito ajudado pelos carpinteiros de navios de sua majestade, que me ajudaram a alisá-los depois de eu ter feito o trabalho bruto.
Cerca de um mês depois, quando tudo estava preparado, mandei saber das ordens de sua majestade e despedir-me. O imperador e a família real saíram do palácio. Deitei-me de bruços para beijar a sua mão, que ele muito graciosamente me deu; assim o fizeram a imperatriz e os jovens príncipes de sangue. Sua majestade presenteou-me com cinquenta bolsas de duzentos sprugs cada, juntamente com a sua pintura de corpo inteiro, que coloquei imediatamente numa das minhas luvas, para a manter a salvo de ser danificada. As cerimónias na minha partida foram demasiadas para aborrecer o leitor neste momento.
Abasteci o barco com as carcaças de cem bois e trezentas ovelhas, com pão e bebida proporcionais, e tanta carne pronta a comer quanto quatrocentos cozinheiros poderiam providenciar. Levei comigo seis vacas e dois touros vivos, com outras tantas ovelhas e cordeiros, pretendendo levá-los para o meu próprio país e propagar a raça. E para os alimentar a bordo, tinha um bom fardo de feno e um saco de milho. Teria levado com todo o gosto uma dúzia dos nativos, mas esta foi uma coisa que o imperador de modo algum quis permitir; e, além de uma busca diligente nos meus bolsos, sua majestade empenhou a minha honra para não levar nenhum dos seus súbditos, embora com o seu próprio consentimento e desejo.
Tendo assim preparado todas as coisas tão bem quanto pude, fiz-me ao mar no vigésimo quarto dia de setembro de 1701, às seis da manhã; e, quando tinha percorrido cerca de quatro léguas para norte, sendo o vento de sudeste, às seis da tarde avistei uma pequena ilha a cerca de meia légua a noroeste. Avancei e lancei a âncora a sotavento da ilha, que parecia estar desabitada. Tomei então algum refresco e fui descansar. Dormi bem e, como calculo, pelo menos seis horas, pois encontrei o dia a raiar duas horas depois de ter acordado. Era uma noite clara. Tomei o meu pequeno-almoço antes do sol nascer; e, levantando âncora, sendo o vento favorável, segui o mesmo curso que tinha feito no dia anterior, no que fui guiado pela minha bússola de bolso. A minha intenção era alcançar, se possível, uma daquelas ilhas que eu tinha razões para acreditar que ficavam a nordeste da Terra de Van Diemen. Não descobri nada durante todo aquele dia; mas no seguinte, cerca das três horas da tarde, quando tinha, pelo meu cálculo, percorrido vinte e quatro léguas de Blefuscu, avistei uma vela navegando para sudeste: o meu curso era exatamente para leste. Chamei-a, mas não obtive resposta; contudo, descobri que ganhava terreno sobre ela, pois o vento amainou. Pus toda a vela que pude e, em meia hora, ela avistou-me, então içou o seu pavilhão e disparou uma arma.
Não é fácil expressar a alegria em que me encontrava, devido à esperança inesperada de ver mais uma vez o meu amado país e os queridos penhores que nele deixei. O navio diminuiu as suas velas e eu alcancei-o entre as cinco e as seis da tarde, vinte e seis de setembro; mas o meu coração saltou dentro de mim ao ver as suas cores inglesas. Coloquei as minhas vacas e ovelhas nos bolsos do meu casaco e subi a bordo com toda a minha pequena carga de provisões. A embarcação era um mercante inglês que retornava do Japão pelos mares do Norte e do Sul; o capitão, Sr. John Biddle, de Deptford, um homem muito civil e um excelente marinheiro. Estávamos agora na latitude de 30 graus sul. Havia cerca de cinquenta homens no navio; e aqui encontrei um velho camarada meu, um tal Peter Williams, que me deu boas referências junto do capitão. Este cavalheiro tratou-me com bondade e desejou que eu lhe dissesse de que lugar vinha e para onde me dirigia; o que fiz em poucas palavras, mas ele achou que eu estava a delirar, e que os perigos por que tinha passado tinham perturbado a minha cabeça; pelo que tirei o meu gado preto e as ovelhas do bolso, o que, após grande espanto, o convenceu claramente da minha veracidade. Mostrei-lhe então o ouro que me fora dado pelo imperador de Blefuscu, juntamente com a pintura de sua majestade de corpo inteiro, e algumas outras raridades daquele país. Dei-lhe duas bolsas de duzentos sprugs cada e prometi, quando chegássemos a Inglaterra, dar-lhe de presente uma vaca e uma ovelha.
Não aborrecerei o leitor com o relato pormenorizado desta viagem, que foi muito próspera na maior parte. Chegámos a Downs no dia treze de abril de 1702. Tive apenas um infortúnio, que os ratos a bordo levaram uma das minhas ovelhas; encontrei os seus ossos num buraco, limpos da carne. Consegui levar o resto do meu gado em segurança para terra e coloquei-o a pastar num relvado em Greenwich, onde a fineza da erva os fez alimentar-se muito alegremente, embora eu tivesse sempre temido o contrário: nem poderia tê-los preservado numa viagem tão longa, se o capitão não me tivesse permitido alguns dos seus melhores biscoitos, que, reduzidos a pó e misturados com água, eram o seu alimento constante. No pouco tempo que permaneci em Inglaterra, fiz um lucro considerável exibindo o meu gado a muitas pessoas de qualidade e outras; e antes de começar a minha segunda viagem, vendi-os por seiscentas libras.
Desde o meu último retorno, verifico que a raça aumentou consideravelmente, especialmente as ovelhas, o que espero que venha a ser de grande vantagem para a indústria da lã, pela fineza dos velos.
Fiquei apenas dois meses com a minha esposa e família; pois o meu desejo insaciável de ver países estrangeiros não me permitia continuar por mais tempo. Deixei mil e quinhentas libras com a minha esposa e instalei-a numa boa casa em Redriff. O meu capital restante levei comigo, parte em dinheiro e parte em mercadorias, na esperança de melhorar a minha fortuna. O meu tio mais velho, John, tinha-me deixado uma propriedade em terras, perto de Epping, de cerca de trinta libras por ano; e eu tinha um longo contrato de arrendamento do "Black Bull", em Fetter Lane, que me rendia outro tanto: de modo que não corria qualquer risco de deixar a minha família à mercê da paróquia. O meu filho Johnny, chamado assim em homenagem ao seu tio, estava na escola de gramática e era uma criança promissora. A minha filha Betty (que está agora bem casada e tem filhos), estava na altura dedicada aos seus trabalhos de agulha. Despedi-me da minha esposa, do meu rapaz e da minha rapariga, com lágrimas de ambos os lados, e embarquei no "Adventure", um navio mercante de trezentas toneladas, com destino a Surat, comandado pelo Capitão John Nicholas, de Liverpool. Mas o meu relato desta viagem deve ser remetido para a segunda parte das minhas viagens.
O FIM DA PRIMEIRA PARTE.
VIAGENS.
PARTE II.
UMA VIAGEM A BROBDINGNAG.
CAPÍTULO I.
DESCRIÇÃO DE UMA GRANDE TEMPESTADE; O BOTE É ENVIADO EM BUSCA DE ÁGUA; O AUTOR SEGUE COM ELE PARA DESCOBRIR O PAÍS. É DEIXADO EM TERRA, CAPTURADO POR UM DOS NATIVOS E LEVADO PARA A CASA DE UM LAVRADOR. A SUA RECEÇÃO, COM VÁRIOS ACIDENTES QUE LÁ ACONTECERAM. UMA DESCRIÇÃO DOS HABITANTES.
Tendo sido condenado pela natureza e pela fortuna a uma vida ativa e inquieta, dois meses após o meu regresso deixei novamente o meu país natal e embarquei nos Downs no vigésimo dia de junho de 1702, no "Adventure", sob o comando do Capitão John Nicholas, um homem da Cornualha, com destino a Surat. Tivemos uma brisa muito favorável até chegarmos ao Cabo da Boa Esperança, onde desembarcámos para obter água fresca; mas, descobrindo uma fuga, descarregámos os nossos bens e passámos lá o inverno: pois, o capitão tendo adoecido com uma febre, não pudemos deixar o Cabo até ao fim de março. Levantámos então âncora e tivemos uma boa viagem até passarmos os Estreitos de Madagáscar; mas, tendo chegado a norte daquela ilha, e a cerca de cinco graus de latitude sul, os ventos, que nesses mares se observa soprarem numa brisa constante e igual, entre norte e oeste, desde o início de dezembro até ao início de maio, no décimo nono dia de abril começaram a soprar com muito maior violência e mais de oeste do que o habitual, continuando assim por vinte dias seguidos, durante os quais fomos levados um pouco para leste das Ilhas Molucas, e cerca de três graus a norte da linha, como o nosso capitão constatou por uma observação que fez a dois de maio, altura em que o vento cessou e ficou uma calma perfeita; pelo que não fiquei pouco regozijado. Mas ele, sendo um homem bem experiente na navegação daqueles mares, ordenou-nos a todos que nos preparássemos para uma tempestade, o que de facto aconteceu no dia seguinte: pois o vento sul, chamado monção do sul, começou a instalar-se, e logo se tornou uma tempestade feroz.
Constatando que ia soprar com força, recolhemos o nosso traquete e preparámo-nos para arriar a vela da proa; mas, devido ao mau tempo, verificámos que os canhões estavam todos bem presos e arriámos a mezena.
O navio estava muito de través, por isso achámos melhor correr com o mar pela popa do que tentar orçar ou ficar à capa. Enxertámos a vela de proa e içámo-la, caçámos a escota de proa: o leme estava bem a barlavento. O navio arribou valentemente. Amarrámos o cabo de descida da vela de proa; mas a vela rasgou-se, e arriámos a verga, trouxemos a vela para bordo e desatámos tudo o que estava preso a ela. Foi uma tempestade muito feroz; o mar quebrava de forma estranha e perigosa. Desatámos a adriça da cana do leme e ajudámos o homem ao leme. Não pudemos baixar o mastro de gavia, mas deixámos tudo como estava, porque o navio corria muito bem com o mar pela popa, e sabíamos que, com o mastro de gavia em cima, o navio ficava mais estável e avançava melhor através do mar, uma vez que tínhamos espaço de manobra. Quando a tempestade passou, içámos a vela de proa e a vela grande, e pusemos o navio no rumo. Depois içámos a mezena, o gávea grande e o gávea de proa. O nosso rumo era leste-nordeste, o vento soprava de sudoeste. Caçámos as amuras de estibordo, largámos as bolinas de barlavento e as adriças; puxámos as bolinas de sotavento e caçámos pelas bolinas de barlavento, apertámo-las bem e amarrámo-las, e caçámos a amura da mezena a barlavento, mantendo o navio cheio e orçado, o mais próximo que podia navegar.
Durante esta tempestade, que foi seguida por um vento forte de oeste-sudoeste, fomos levados, segundo o meu cálculo, cerca de quinhentas léguas para leste, de modo que o marinheiro mais velho a bordo não sabia em que parte do mundo nos encontrávamos. As nossas provisões aguentaram-se bem, o nosso navio estava em bom estado e a tripulação toda com boa saúde; mas estávamos na maior aflição por falta de água. Achámos melhor manter o mesmo rumo, em vez de virar mais para norte, o que nos poderia ter levado às partes noroeste da Grande Tartária e ao Mar Congelado.
No décimo sexto dia de junho de 1703, um rapaz no mastro de gavia descobriu terra. No décimo sétimo, avistámos claramente uma grande ilha ou continente (pois não sabíamos qual), no lado sul da qual havia um pequeno istmo que se projetava para o mar, e uma enseada demasiado rasa para conter um navio de mais de cem toneladas. Lançámos âncora a menos de uma légua desta enseada, e o nosso capitão enviou uma dúzia dos seus homens bem armados no bote, com recipientes para água, caso fosse encontrada. Pedi-lhe licença para ir com eles, para poder ver o país e fazer as descobertas que pudesse.
Quando chegámos a terra, não vimos qualquer rio ou nascente, nem qualquer sinal de habitantes. Os nossos homens vaguearam, portanto, pela costa para encontrar alguma água doce perto do mar, e eu caminhei sozinho cerca de uma milha do outro lado, onde observei que o país era todo árido e rochoso. Comecei então a sentir-me cansado e, não vendo nada que satisfizesse a minha curiosidade, voltei calmamente para a enseada; e tendo o mar à vista, vi os nossos homens já dentro do bote, a remar desesperadamente para o navio. Ia gritar por eles, embora tivesse sido de pouca utilidade, quando observei uma enorme criatura a caminhar atrás deles no mar, tão depressa quanto podia; não vadiava muito mais fundo do que pelos joelhos e dava passadas prodigiosas; mas os nossos homens tinham uma vantagem de cerca de meia légua sobre ele, e sendo o mar ali cheio de rochas pontiagudas, o monstro não conseguiu alcançar o bote. Isto foi-me contado mais tarde, pois não me atrevi a ficar para ver o desfecho da aventura; mas corri o mais depressa que pude pelo caminho por onde tinha vindo, e depois subi uma colina íngreme, que me deu alguma vista sobre o país. Encontrei-o totalmente cultivado; mas o que primeiro me surpreendeu foi a altura da erva, que, naqueles terrenos que pareciam ser reservados para feno, tinha cerca de vinte pés de altura.
Entrei numa estrada principal, pois assim a tomei, embora servisse aos habitantes apenas como um caminho pedonal através de um campo de cevada. Caminhei por ali durante algum tempo, mas pouco conseguia ver de um lado ou de outro, estando agora perto da colheita e o cereal elevando-se a pelo menos quarenta pés. Demorei uma hora a caminhar até ao fim deste campo, que estava vedado por uma sebe de pelo menos cento e vinte pés de altura, e as árvores eram tão altas que não conseguia calcular a sua altitude. Havia um escadote para passar deste campo para o seguinte. Tinha quatro degraus e uma pedra para atravessar quando se chegava ao topo. Era-me impossível subir este escadote porque cada degrau tinha seis pés de altura e a pedra superior mais de vinte.
Estava a tentar encontrar alguma abertura na sebe, quando descobri um dos habitantes no campo seguinte, a avançar em direção ao escadote, do mesmo tamanho daquele que vi no mar a perseguir o nosso bote. Parecia tão alto como um pináculo de igreja comum, e dava cerca de dez jardas a cada passada, tanto quanto podia calcular. Fiquei tomado pelo maior medo e espanto, e corri para me esconder no cereal, de onde o vi no topo do escadote, a olhar para trás, para o campo seguinte à direita, e ouvi-o chamar com uma voz muitos graus mais alta do que uma trombeta; mas o ruído era tão alto no ar que, a princípio, pensei certamente que era um trovão. Ao que sete monstros, semelhantes a ele, vieram na sua direção com foices nas mãos, cada foice com o tamanho de seis gadanhas. Estas pessoas não estavam tão bem vestidas como a primeira, de quem pareciam ser servos ou trabalhadores; pois, após algumas palavras que ele disse, foram ceifar o cereal no campo onde eu estava. Mantive-me à maior distância possível deles, mas fui forçado a mover-me, com extrema dificuldade, pois os caules do cereal tinham por vezes não mais de um pé de distância, de modo que mal conseguia espremer o meu corpo entre eles. No entanto, consegui avançar até chegar a uma parte do campo onde o cereal tinha sido derrubado pela chuva e pelo vento. Aqui era-me impossível avançar um passo; pois os caules estavam tão entrelaçados que não conseguia rastejar, e as barbas das espigas caídas eram tão fortes e pontiagudas que atravessavam as minhas roupas até à minha carne. Ao mesmo tempo, ouvi os ceifeiros a não mais de cem jardas atrás de mim.
Sentindo-me totalmente desanimado pelo esforço, e completamente vencido pela dor e pelo desespero, deitei-me entre dois sulcos e desejei sinceramente que pudesse terminar ali os meus dias. Lamentava a minha viúva desolada e os meus filhos órfãos. Lamentava a minha própria insensatez e obstinação em tentar uma segunda viagem contra o conselho de todos os meus amigos e parentes. Nesta terrível agitação de espírito, não pude deixar de pensar em Lilliput, cujos habitantes me viam como o maior prodígio que alguma vez apareceu no mundo; onde fui capaz de arrastar uma frota imperial na minha mão e realizar essas outras ações que serão registadas para sempre nos anais daquele império, enquanto a posteridade dificilmente acreditará nelas, embora atestadas por milhões. Refleti sobre que mortificação seria para mim aparecer tão insignificante nesta nação como um único liliputiano seria entre nós. Mas isto, concebi, seria o menor dos meus infortúnios: pois, como se observa que as criaturas humanas são mais selvagens e cruéis em proporção ao seu tamanho, o que poderia eu esperar senão ser um bocado na boca do primeiro entre estes enormes bárbaros que porventura me capturasse? Sem dúvida, os filósofos têm razão quando nos dizem que nada é grande ou pequeno a não ser por comparação. Poderia ter aprouvado à fortuna deixar que os liliputianos encontrassem alguma nação onde as pessoas fossem tão diminutas em relação a eles como eles eram em relação a mim. E quem sabe se esta prodigiosa raça de mortais não poderia ser igualmente superada em alguma parte distante do mundo, da qual ainda não temos descoberta?
Assustado e confuso como estava, não pude deixar de continuar com estas reflexões, quando um dos ceifeiros, aproximando-se a dez jardas do sulco onde eu estava deitado, me fez recear que, com o passo seguinte, eu fosse esmagado até à morte sob o seu pé, ou cortado em dois com a sua foice. E, portanto, quando ele estava prestes a mover-se novamente, gritei tão alto quanto o medo me permitia. Ao que a enorme criatura parou o passo e, olhando à volta para baixo durante algum tempo, acabou por me avistar enquanto eu estava deitado no chão. Considerou por um momento, com a cautela de quem se esforça por agarrar um pequeno animal perigoso de tal maneira que ele não seja capaz de arranhar ou morder, como eu próprio por vezes fiz com uma doninha em Inglaterra.
Finalmente, aventurou-se a pegar-me entre o polegar e o indicador, e trouxe-me a menos de três jardas dos seus olhos, para que pudesse contemplar a minha forma mais perfeitamente. Adivinhei a sua intenção e a minha boa sorte deu-me tanta presença de espírito que decidi não lutar minimamente enquanto ele me segurava no ar, a mais de sessenta pés do chão, embora ele me apertasse dolorosamente os lados, por medo de que eu escorregasse por entre os seus dedos. Tudo o que me atrevi foi levantar os olhos para o sol e juntar as mãos numa postura suplicante, e proferir algumas palavras num tom humilde e melancólico, adequado à condição em que me encontrava. Pois temia a cada momento que ele me atirasse contra o chão, como habitualmente fazemos com qualquer pequeno animal odioso que desejamos destruir. Mas a minha estrela ditou que ele parecesse satisfeito com a minha voz e gestos, e começou a olhar para mim como uma curiosidade, muito maravilhado por me ouvir pronunciar palavras articuladas, embora não as pudesse compreender. Entretanto, não conseguia deixar de gemer e verter lágrimas, e de virar a cabeça para os meus lados; deixando-lhe saber, tão bem quanto podia, quão cruelmente estava magoado pela pressão do seu polegar e dedo. Ele pareceu compreender o meu significado; pois, levantando a aba do seu casaco, colocou-me gentilmente nele e correu imediatamente comigo para o seu patrão, que era um lavrador abastado, e a mesma pessoa que eu vira primeiro no campo.
O lavrador, tendo (como suponho pela conversa deles) recebido tal relato sobre mim quanto o seu servo lhe pôde dar, pegou num pedaço de palha pequena, com o tamanho de uma bengala, e com ele levantou as abas do meu casaco, que parece que ele pensou ser algum tipo de cobertura que a natureza me tinha dado. Soprou o meu cabelo para o lado, para ter uma melhor visão do meu rosto. Chamou os seus criados para junto de si e perguntou-lhes (como aprendi mais tarde) se alguma vez tinham visto nos campos alguma pequena criatura que se parecesse comigo. Colocou-me então suavemente no chão de gatas, mas levantei-me imediatamente e caminhei lentamente para trás e para a frente para deixar que aquelas pessoas vissem que não tinha intenção de fugir.
Sentaram-se todos num círculo à minha volta, para melhor observar os meus movimentos. Tirei o meu chapéu e fiz uma vénia profunda para o lavrador. Caí de joelhos, levantei as mãos e os olhos, e disse várias palavras tão alto quanto podia: tirei uma bolsa de ouro do meu bolso e apresentei-lha humildemente. Ele recebeu-a na palma da mão, depois aproximou-a do olho para ver o que era, e depois virou-a várias vezes com a ponta de um alfinete (que tirou da sua manga), mas não conseguiu tirar nada daquilo. Ao que fiz um sinal para que ele colocasse a mão no chão. Peguei então na bolsa e, abrindo-a, despejei todo o ouro na sua palma. Eram seis peças espanholas, de quatro pistolas cada, além de vinte ou trinta moedas menores. Vi-o molhar a ponta do dedo mindinho na língua e pegar numa das minhas maiores peças, e depois noutra, mas parecia totalmente ignorante do que eram. Fez-me sinal para as colocar de novo na bolsa, e a bolsa de novo no meu bolso, o que, depois de lho oferecer várias vezes, achei melhor fazer.
O lavrador estava a esta altura convencido de que eu devia ser uma criatura racional. Falou-me muitas vezes, mas o som da sua voz perfurava os meus ouvidos como o de um moinho de água, contudo as suas palavras eram suficientemente articuladas. Respondi tão alto quanto podia em várias línguas, e ele colocava frequentemente o ouvido a menos de duas jardas de mim; mas tudo em vão, pois éramos totalmente ininteligíveis um para o outro. Enviou então os seus servos para o trabalho e, tirando o seu lenço do bolso, dobrou-o e estendeu-o na sua mão esquerda, que colocou plana no chão, com a palma virada para cima, fazendo-me sinal para subir para ele, o que pude facilmente fazer, pois não tinha mais de um pé de espessura.
Achei que era meu dever obedecer e, por medo de cair, deitei-me a todo o comprimento sobre o lenço, com cujo restante ele me enrolou até à cabeça para maior segurança, e desta forma levou-me para casa. Lá chamou a sua esposa e mostrou-me a ela; mas ela gritou e recuou, como as mulheres em Inglaterra fazem ao ver um sapo ou uma aranha. No entanto, quando viu durante algum tempo o meu comportamento, e como eu observava bem os sinais que o seu marido fazia, ela rapidamente se reconciliou e, aos poucos, tornou-se extremamente carinhosa comigo.
Eram cerca de meio-dia, e um servo trouxe o jantar. Era apenas um prato substancial de carne (adequado à condição simples de um lavrador) num prato de cerca de vinte e quatro pés de diâmetro. A companhia eram o lavrador e a sua esposa, três crianças e uma avó idosa. Quando se sentaram, o lavrador colocou-me a alguma distância dele na mesa, que estava a trinta pés de altura do chão. Estava num susto terrível e mantive-me o mais longe possível da borda por medo de cair. A esposa picou um bocado de carne, depois esfarelou um pouco de pão num trinchante e colocou-o à minha frente. Fiz-lhe uma vénia profunda, tirei a minha faca e garfo e comecei a comer, o que lhes deu um prazer imenso.
A patroa enviou a sua criada buscar um pequeno copo de aguardente, que continha cerca de três galões, e encheu-o com bebida: peguei no recipiente com muita dificuldade com ambas as mãos e, de uma forma muito respeitosa, bebi à saúde de sua senhoria, expressando as palavras tão alto quanto podia em inglês, o que fez a companhia rir tão cordialmente que fiquei quase ensurdecido pelo ruído. Este licor tinha um sabor semelhante a sidra fraca e não era desagradável. Depois, o patrão fez-me sinal para ir para o lado do seu trinchante; mas, enquanto caminhava sobre a mesa, estando em grande surpresa o tempo todo, como o leitor indulgente facilmente conceberá e desculpará, tropecei numa crosta e caí de cara, mas não sofri qualquer dano. Levantei-me imediatamente e, observando que as boas pessoas estavam muito preocupadas, tirei o meu chapéu (que mantinha debaixo do braço por boa educação) e, agitando-o sobre a cabeça, dei três vivas, para mostrar que não tinha sofrido qualquer mal com a minha queda.
Mas, avançando na direção do meu mestre (como doravante o chamarei), o seu filho mais novo, que se sentava ao seu lado, um rapaz atrevido de cerca de dez anos, pegou-me pelas pernas e segurou-me tão alto no ar que tremi em cada membro; mas o seu pai arrancou-me das suas mãos e, ao mesmo tempo, deu-lhe uma bofetada na orelha esquerda que teria derrubado um esquadrão de cavalaria europeu, ordenando que fosse retirado da mesa. Mas, temendo que o rapaz pudesse guardar-me rancor, e lembrando-me bem de quão maliciosas todas as crianças entre nós são naturalmente com pardais, coelhos, gatinhos e cachorros, caí de joelhos e, apontando para o rapaz, fiz o meu mestre entender, o melhor que pude, que desejava que o seu filho fosse perdoado. O pai anuiu, e o rapaz retomou o seu lugar; após o que fui até ele e beijei-lhe a mão, o que o meu mestre aceitou, fazendo-o afagar-me suavemente com ela.
A meio do jantar, a gata favorita da minha senhora saltou para o seu colo. Ouvi um ruído atrás de mim como o de uma dúzia de tecelões de meias a trabalhar; e, virando a cabeça, descobri que provinha do ronronar daquele animal, que parecia ser três vezes maior que um boi, conforme calculei pela visão da sua cabeça e de uma das suas patas, enquanto a sua dona a alimentava e afagava. A ferocidade do semblante daquela criatura deixou-me completamente transtornado, embora eu estivesse na extremidade da mesa, a mais de cinquenta pés de distância, e embora a minha senhora a segurasse com firmeza, por medo de que pudesse dar um salto e prender-me nas suas garras.
Mas aconteceu não haver perigo; pois a gata não me dedicou a menor atenção quando o meu mestre me colocou a menos de três jardas dela. E como sempre me disseram, e descobri ser verdade pela experiência nas minhas viagens, que fugir ou revelar medo perante um animal feroz é uma forma certa de o levar a perseguir-nos ou atacar-nos, resolvi, nesta perigosa conjuntura, não demonstrar qualquer tipo de preocupação. Caminhei com intrepidez cinco ou seis vezes diante da própria cabeça da gata e aproximei-me a meio metro dela; após o que ela se retraiu, como se tivesse mais medo de mim. Tive menos apreensão em relação aos cães, dos quais três ou quatro entraram na sala, como é habitual nas casas dos agricultores; um dos quais era um mastim igual em volume a quatro elefantes, e um galgo um pouco mais alto que o mastim, mas não tão grande.
Quando o jantar estava quase terminado, a ama entrou com uma criança de um ano nos braços, que imediatamente me avistou e começou um berreiro que se poderia ter ouvido da London Bridge até Chelsea, segundo a oratória habitual dos bebés, para me obter como brinquedo. A mãe, por pura indulgência, pegou-me e levou-me até à criança, que de imediato me agarrou pelo meio e meteu a minha cabeça na boca, onde rugi tão alto que o pequeno se assustou e deixou-me cair, e teria infalivelmente partido o pescoço se a mãe não tivesse segurado o avental debaixo de mim. A ama, para acalmar o seu bebé, fez uso de um chocalho, que era uma espécie de vaso oco cheio de pedras grandes, e preso por um cabo à cintura da criança. Enquanto ela se sentava perto da mesa sobre a qual eu estava, a sua aparência não deixou de me espantar um pouco. Isto fez-me refletir sobre as peles claras das nossas senhoras inglesas, que nos parecem tão belas apenas porque são do nosso tamanho, e os seus defeitos não podem ser vistos senão através de uma lupa, onde descobrimos por experiência que as peles mais lisas e brancas parecem ásperas, grosseiras e de má cor.
Lembro-me de que, quando estive em Lilliput, a tez daquelas pessoas diminutas parecia-me a mais clara do mundo; e, conversando sobre este assunto com uma pessoa de saber de lá, que era um amigo íntimo meu, ele disse que o meu rosto parecia muito mais claro e liso quando ele olhava para mim do chão do que numa visão mais próxima, quando eu o pegava na mão e o trazia para perto, o que ele confessou ser, a princípio, uma visão muito chocante. Ele disse que conseguia descobrir grandes buracos na minha pele; que os tocos da minha barba eram dez vezes mais fortes que as cerdas de um javali, e a minha tez feita de várias cores completamente desagradáveis: embora eu deva pedir licença para dizer por mim que sou tão claro quanto a maioria do meu sexo e país, e muito pouco queimado do sol pelas minhas viagens. Por outro lado, discorrendo sobre as senhoras da corte daquele imperador, ele costumava dizer-me que uma tinha sardas, outra a boca demasiado larga, uma terceira o nariz demasiado grande, nada do que eu era capaz de distinguir. Confesso que esta reflexão era suficientemente óbvia; o que, contudo, não pude deixar de fazer, para que o leitor não pensasse que aquelas vastas criaturas eram realmente deformadas: pois devo fazer-lhes justiça ao dizer que são uma linhagem de gente atraente; e particularmente os traços do semblante do meu mestre, embora ele fosse apenas um agricultor, quando o contemplei da altura de sessenta pés, pareciam muito bem proporcionados.
Quando o jantar terminou, o meu mestre saiu para os seus trabalhos e, como pude descobrir pela sua voz e gestos, deu à sua esposa uma ordem estrita para cuidar de mim. Eu estava muito cansado e disposto a dormir, o que, percebendo a minha senhora, colocou-me na sua própria cama e cobriu-me com um lenço branco limpo, porém maior e mais grosseiro que a vela mestra de um navio de guerra.
Dormi cerca de duas horas e sonhei que estava em casa com a minha esposa e filhos, o que agravou as minhas mágoas quando acordei e me encontrei sozinho num vasto quarto, entre noventa e noventa e dois metros de largura, e mais de sessenta de altura, deitado numa cama de vinte jardas de largura. A minha senhora tinha ido tratar dos seus afazeres domésticos e tinha-me trancado. A cama ficava a oito jardas do chão.
De repente, dois ratos subiram pelas cortinas e correram cheirando para trás e para a frente sobre a minha cama. Um deles chegou quase à minha cara; após o que me levantei num susto e desembainhei o meu cutelo para me defender. Os horríveis animais tiveram a audácia de me atacar por ambos os lados, e um deles apoiou as patas dianteiras no meu colarinho; mas matei-o antes que me pudesse fazer qualquer mal. Ele caiu aos meus pés; e o outro, vendo o destino do seu camarada, escapou, mas não sem um bom golpe nas costas, que lhe dei enquanto fugia, e que fez o sangue escorrer dele. Após esta proeza, caminhei suavemente de um lado para o outro sobre a cama para recuperar o fôlego e o ânimo perdido. Estas criaturas tinham o tamanho de um grande mastim, mas eram infinitamente mais ágeis e ferozes; de modo que, se eu tivesse tirado o meu cinto antes de ir dormir, teria infalivelmente sido despedaçado e devorado. Medi a cauda do rato morto e descobri que tinha duas jardas de comprimento, menos uma polegada; mas repugnou-me o estômago arrastar a carcaça para fora da cama, onde ela ainda jazia a sangrar. Observei que ainda tinha alguma vida; mas, com um forte talho no pescoço, despachei-o completamente.
Espero que o gentil leitor me desculpe por me deter nestes e noutros detalhes semelhantes, que, por mais insignificantes que possam parecer a mentes vulgares e rasteiras, certamente ajudarão um filósofo a ampliar os seus pensamentos e imaginação, e a aplicá-los em benefício da vida pública, bem como da privada, que foi o meu único desígnio ao apresentar este e outros relatos das minhas viagens ao mundo; nos quais tenho sido principalmente zeloso da verdade, sem afetar quaisquer ornamentos de erudição ou estilo. Mas toda a cena desta viagem causou uma impressão tão forte na minha mente, e está tão profundamente na memória, que ao passá-la para o papel não omiti um único circunstância material. Contudo, após uma análise rigorosa, apaguei várias passagens de menor importância que estavam no meu primeiro rascunho, por medo de ser censurado como enfadonho e trivial, de que os viajantes são frequentemente, talvez não sem justiça, acusados.
CAPÍTULO II.
UMA DESCRIÇÃO DA FILHA DO AGRICULTOR. O AUTOR LEVADO A UMA CIDADE DE MERCADO E DEPOIS À METRÓPOLE. OS DETALHES DESTA VIAGEM.
A minha senhora tinha uma filha de nove anos, uma criança de aptidões promissoras para a sua idade, muito destra com a agulha e habilidosa a vestir a sua boneca. A mãe e ela engendraram adaptar o berço da boneca para mim durante a noite. O berço foi colocado num pequeno armário de gavetas, e a gaveta colocada numa prateleira suspensa por medo dos ratos. Esta foi a minha cama durante todo o tempo que estive com estas pessoas, embora gradualmente tornada mais conveniente, à medida que comecei a aprender a sua língua e a dar a conhecer as minhas necessidades.
Ela fez-me sete camisas, e algum outro linho, de um pano tão fino quanto se pôde obter, que na verdade era mais grosseiro que serapilheira; e estas ela lavava constantemente para mim com as suas próprias mãos. Ela foi também a minha professora, para me ensinar a língua. Quando eu apontava para algo, ela dizia-me o nome na sua própria língua, de modo que em poucos dias fui capaz de pedir o que quer que eu desejasse. Ela era muito bondosa e não tinha mais de quarenta pés de altura, sendo pequena para a sua idade. Deu-me o nome de Grildrig, que a família adotou, e mais tarde todo o reino. A palavra significa o que os latinos chamam nanunculus, os italianos homunceletino, e os ingleses mannikin. A ela devo principalmente a minha preservação naquele país. Nunca nos separámos enquanto lá estive; chamava-lhe a minha Glumdalclitch, ou pequena ama; e seria culpado de grande ingratidão se omitisse esta menção honrosa ao seu cuidado e afeição por mim, o que desejo sinceramente que estivesse ao meu alcance retribuir como ela merece.
Começou então a ser sabido e comentado na vizinhança que o meu mestre tinha encontrado um animal estranho no campo, do tamanho de um splacnuck, mas exatamente formado em todas as partes como uma criatura humana; que imitava igualmente todas as suas ações, parecia falar numa pequena língua própria, já tinha aprendido várias palavras da deles, andava ereto sobre duas pernas, era manso e gentil, vinha quando era chamado, fazia o que lhe era ordenado, tinha os membros mais finos do mundo e uma tez mais clara que a filha de um nobre de três anos. Outro agricultor, que vivia perto e era um amigo particular do meu mestre, veio de visita com o propósito de averiguar a verdade desta história. Fui imediatamente apresentado e colocado sobre uma mesa, onde andei como me foi ordenado, desembainhei o meu cutelo, voltei a guardá-lo, fiz a minha vénia ao convidado do meu mestre, perguntei-lhe na sua própria língua como estava e disse-lhe que era bem-vindo, exatamente como a minha pequena ama me tinha instruído. Este homem, que era velho e de visão fraca, pôs os seus óculos para me ver melhor, ao que não pude deixar de rir muito cordialmente, pois os seus olhos pareciam a lua cheia a brilhar para dentro de uma sala por duas janelas. As nossas pessoas, que descobriram a causa da minha alegria, fizeram-me companhia no riso, ao que o velho foi tolo o suficiente para se zangar e perder o ar. Ele tinha a fama de um grande avarento; e, para meu azar, merecia-a bem pelo conselho maldito que deu ao meu mestre, de me mostrar como atração num dia de mercado na cidade vizinha, que ficava a meia hora de cavalo, a cerca de vinte e duas milhas da nossa casa. Adivinhei que algo de mau estava a ser tramado quando observei o meu mestre e o seu amigo a sussurrar longamente, apontando por vezes para mim; e os meus medos fizeram-me imaginar que ouvia e entendia algumas das suas palavras.
Mas na manhã seguinte, Glumdalclitch, a minha pequena ama, contou-me todo o assunto, que ela tinha astutamente descoberto através da sua mãe. A pobre rapariga deitou-me sobre o seu colo e começou a chorar de vergonha e tristeza. Ela temia que me acontecesse algum mal da parte de gente rude e vulgar, que poderia esmagar-me até à morte ou partir um dos meus membros ao pegar-me nas mãos. Ela também tinha observado quão modesto eu era na minha natureza, com que delicadeza eu prezava a minha honra e que indignidade eu considerava ser exposto por dinheiro, como um espetáculo público, aos mais vis do povo. Ela disse que o seu papá e mamã tinham prometido que Grildrig seria dela, mas agora via que pretendiam servir-lhe como fizeram no ano passado quando pretenderam dar-lhe um cordeiro, e ainda assim, logo que ficou gordo, venderam-no a um talhante. Pela minha parte, posso afirmar verdadeiramente que estava menos preocupado que a minha ama. Tinha uma forte esperança, que não me abandonava, de que um dia recuperaria a minha liberdade; quanto à ignomínia de ser levado por aí como um monstro, considerei-me um perfeito estranho no país, e que tal infortúnio nunca poderia ser imputado como um opróbrio se alguma vez regressasse a Inglaterra; uma vez que o próprio rei da Grã-Bretanha, na minha condição, teria sofrido a mesma aflição.
O meu mestre, em conformidade com o conselho do seu amigo, levou-me numa caixa, no dia de mercado seguinte, à cidade vizinha, e levou consigo a sua filha pequena, a minha ama, numa almofada atrás dele. A caixa estava fechada de todos os lados, com uma pequena porta para eu entrar e sair, e alguns orifícios de verruma para deixar entrar o ar. A rapariga tinha sido tão cuidadosa a ponto de colocar a colcha da cama da sua boneca lá dentro, para eu me deitar. No entanto, fui terrivelmente sacudido e perturbado nesta viagem, embora fosse apenas de meia hora. Pois o cavalo dava cerca de quarenta pés a cada passo e trotava tão alto que a agitação era igual ao subir e descer de um navio numa grande tempestade, mas muito mais frequente; a nossa viagem foi um pouco mais longa do que de Londres a St. Alban's. O meu mestre apeou-se numa estalagem que costumava frequentar; e, após consultar por um tempo com o estalajadeiro e fazer alguns preparativos necessários, contratou o grultrud, ou pregoeiro, para dar aviso por toda a cidade de uma criatura estranha que podia ser vista na taberna da Águia Verde, não tão grande como um splacnuck (um animal daquele país, muito bem formado, com cerca de seis pés de comprimento), e em todas as partes do corpo assemelhando-se a uma criatura humana, capaz de falar várias palavras e realizar uma centena de truques divertidos.
Fui colocado sobre uma mesa na maior sala da estalagem, que poderia ter perto de trezentos pés quadrados. A minha pequena ama estava num banco baixo perto da mesa, para cuidar de mim e dirigir o que eu deveria fazer. O meu mestre, para evitar a multidão, permitia apenas trinta pessoas de cada vez para me ver. Caminhei pela mesa como a rapariga ordenava. Ela fazia-me perguntas, até onde ela sabia que a minha compreensão da língua alcançava, e eu respondia o mais alto que podia. Virei-me várias vezes para a companhia, apresentei os meus humildes respeitos, disse que eram bem-vindos e usei alguns outros discursos que me tinham sido ensinados. Peguei num dedal cheio de licor, que Glumdalclitch me tinha dado como copo, e bebi à saúde deles. Desembainhei o meu cutelo e agitei-o, à maneira dos esgrimistas em Inglaterra. A minha ama deu-me uma parte de uma palha, que exercitei como uma lança, tendo aprendido a arte na minha juventude. Nesse dia fui mostrado a doze grupos de pessoas, e outras tantas vezes forçado a repetir as mesmas palhaçadas, até estar quase morto de cansaço e vexame. Pois aqueles que me tinham visto faziam relatos tão maravilhosos que as pessoas estavam prontas para arrombar as portas para entrar.
O meu mestre, pelo seu próprio interesse, não permitia que ninguém me tocasse, exceto a minha ama, e, para evitar perigo, bancos eram colocados à volta da mesa a tal distância que me colocavam fora do alcance de todos. No entanto, um escolar azarado apontou uma avelã diretamente à minha cabeça, que por pouco me falhou: caso contrário, ela veio com tanta violência que me teria infalivelmente partido os miolos, pois era quase tão grande como uma pequena abóbora; mas tive a satisfação de ver o jovem patife ser bem espancado e expulso da sala.
O meu mestre deu aviso público de que me mostraria novamente no dia de mercado seguinte, e entretanto preparou um veículo mais conveniente para mim, o que ele tinha razões suficientes para fazer; pois eu estava tão cansado da minha primeira viagem, e de entreter companhia durante oito horas seguidas, que mal conseguia manter-me de pé ou dizer uma palavra. Passaram-se pelo menos três dias até eu recuperar as minhas forças; e para que eu não tivesse descanso em casa, todos os cavalheiros vizinhos, de cem milhas em redor, ouvindo a minha fama, vieram ver-me na própria casa do meu mestre. Não podiam ser menos de trinta pessoas com as suas esposas e filhos (pois o país era muito populoso); e o meu mestre exigia o valor de uma sala cheia sempre que me mostrava em casa, ainda que fosse apenas para uma única família; de modo que, durante algum tempo, tive pouco descanso todos os dias da semana (exceto quarta-feira, que é o seu sábado), embora não fosse levado à cidade.
O meu mestre, descobrindo quão rentável eu seria, resolveu levar-me às cidades mais consideráveis do reino. Tendo, portanto, providenciado tudo o necessário para uma longa viagem e resolvido os seus assuntos em casa, despediu-se da sua esposa e, no dia dezassete de agosto de 1703, cerca de dois meses após a minha chegada, partimos para a metrópole, situada no meio daquele império, e a cerca de três mil milhas de distância da nossa casa. O meu mestre fez a sua filha Glumdalclitch cavalgar atrás dele. Ela carregava-me no seu colo, numa caixa atada à sua cintura. A rapariga forrou-a de todos os lados com o pano mais macio que conseguiu obter, bem acolchoado por baixo, mobiliou-a com a cama da sua boneca, providenciou-me linho e outros bens necessários, e fez tudo o mais convenientemente que pôde. Não tínhamos outra companhia além de um rapaz da casa, que cavalgava atrás de nós com a bagagem.
O plano do meu mestre era mostrar-me em todas as cidades pelo caminho e sair da estrada por cinquenta ou cem milhas, para qualquer aldeia, ou casa de pessoa de qualidade, onde pudesse esperar clientela. Fazíamos viagens fáceis de não mais de sete ou oito vezes vinte milhas por dia; pois Glumdalclitch, com o propósito de me poupar, queixava-se de que estava cansada do trote do cavalo. Ela frequentemente tirava-me da minha caixa a meu próprio desejo, para me dar ar e mostrar-me o campo, mas segurava-me sempre firme por uma trela. Passámos por cinco ou seis rios, muitos graus mais largos e profundos que o Nilo ou o Ganges; e mal havia um riacho tão pequeno como o Tamisa na London Bridge. Estivemos dez semanas na nossa viagem, e fui mostrado em dezoito grandes cidades, além de muitas aldeias e famílias privadas.
No dia vinte e seis de outubro, chegámos à metrópole, chamada na sua língua Lorbrulgrud, ou Orgulho do Universo. O meu mestre alugou alojamento na rua principal da cidade, não longe do palácio real, e afixou cartazes na forma habitual, contendo uma descrição exata da minha pessoa e partes. Alugou um salão grande, com trezentos a quatrocentos pés de largura. Providenciou uma mesa de sessenta pés de diâmetro, sobre a qual eu devia representar o meu papel, e cercou-a com uma paliçada a três pés da borda, e de igual altura, para impedir que eu caísse. Fui exibido dez vezes por dia, para espanto e satisfação de todas as gentes. Já conseguia falar a língua toleravelmente bem e compreendia perfeitamente cada palavra que me era dita. Além disso, tinha aprendido o seu alfabeto e conseguia desenrascar-me para explicar uma frase aqui e ali; pois Glumdalclitch tinha sido a minha instrutora enquanto estávamos em casa, e nas horas de lazer durante a nossa viagem. Ela trazia um livrinho no bolso, não muito maior do que um Atlas de Sanson; era um tratado comum para uso de raparigas, dando uma breve explicação da sua religião; a partir dele, ela ensinou-me as letras e interpretou as palavras.
CAPÍTULO III.
O AUTOR É CHAMADO À CORTE. A RAINHA COMPRA-O AO SEU MESTRE, O LAVRADOR, E APRESENTA-O AO REI. ELE DISCUTE COM OS GRANDES SÁBIOS DE SUA MAJESTADE. É PROVIDENCIADO UM APARTAMENTO NA CORTE PARA O AUTOR. ELE É MUITO ESTIMADO PELA RAINHA. DEFENDE A HONRA DO SEU PRÓPRIO PAÍS. DISCUTE COM O ANÃO DA RAINHA.
Os trabalhos frequentes a que me submetia todos os dias causaram, em poucas semanas, uma mudança muito considerável na minha saúde; quanto mais o meu mestre ganhava comigo, mais insaciável ele se tornava. Perdi completamente o apetite e estava quase reduzido a um esqueleto. O lavrador observou-o e, concluindo que eu morreria em breve, resolveu tirar o maior proveito possível de mim. Enquanto ele assim raciocinava e resolvia consigo mesmo, um slardral, ou gentil-homem da câmara, veio da corte, ordenando ao meu mestre que me levasse imediatamente para lá, para diversão da rainha e das suas damas. Algumas destas últimas já me tinham ido ver e relatado coisas estranhas sobre a minha beleza, comportamento e bom senso. Sua majestade e aqueles que a acompanhavam ficaram imensamente encantados com o meu porte. Caí de joelhos e implorei a honra de beijar o seu pé imperial; mas esta graciosa princesa estendeu o seu dedo mindinho na minha direção, depois de eu ser colocado sobre uma mesa, o qual abracei com ambos os braços e, com o maior respeito, encostei a ponta dele aos meus lábios.
Ela fez-me algumas perguntas gerais sobre o meu país e as minhas viagens, às quais respondi o mais distintamente e com o menor número de palavras que pude. Perguntou-me se me contentaria em viver na corte. Inclinei-me até ao tampo da mesa e respondi humildemente que era escravo do meu mestre; mas que, se dependesse de mim, sentir-me-ia orgulhoso de dedicar a minha vida ao serviço de sua majestade. Perguntou então ao meu mestre se ele estaria disposto a vender-me por um bom preço. Ele, que temia que eu não vivesse um mês, estava bem disposto a desfazer-se de mim e pediu mil peças de ouro, que lhe foram ordenadas no momento, sendo cada peça do tamanho de oitocentos moidores; mas, pela proporção de todas as coisas entre aquele país e a Europa, e pelo alto preço do ouro entre eles, dificilmente seria uma soma tão elevada como mil guineus seriam em Inglaterra. Disse então à rainha que, uma vez que eu era agora a criatura e vassalo mais humilde de sua majestade, devia pedir o favor de que Glumdalclitch, que sempre me tratara com tanto cuidado e bondade, e sabia fazê-lo tão bem, pudesse ser admitida ao seu serviço e continuar a ser a minha enfermeira e instrutora.
Sua majestade concordou com o meu pedido e obteve facilmente o consentimento do lavrador, que ficou bastante contente por ver a sua filha preferida na corte, e a própria pobre rapariga não conseguiu esconder a sua alegria. O meu antigo mestre retirou-se, despedindo-se de mim e dizendo que me tinha deixado em bom serviço, ao que não respondi uma palavra, apenas lhe fazendo uma leve vénia.
A rainha observou a minha frieza e, quando o lavrador saiu do apartamento, perguntou-me a razão. Atrevi-me a dizer a sua majestade que não devia outra obrigação ao meu antigo mestre senão a de não ter esmagado os miolos a uma criatura pobre e inofensiva, encontrada por acaso no seu campo; obrigação essa que foi amplamente recompensada pelo ganho que ele obteve ao exibir-me por metade do reino e pelo preço por que me tinha vendido agora. Que a vida que levei desde então era laboriosa o suficiente para matar um animal com dez vezes a minha força. Que a minha saúde estava muito debilitada pelo trabalho contínuo de entreter a ralé a cada hora do dia e que, se o meu mestre não tivesse pensado que a minha vida estava em perigo, sua majestade não teria feito um negócio tão barato. Mas, como eu estava livre de todo o receio de ser maltratado sob a proteção de tão grande e boa imperatriz, o ornamento da natureza, o encanto do mundo, o deleite dos seus súbditos, a fénix da criação; esperava que os receios do meu antigo mestre se revelassem infundados, pois já sentia os meus espíritos reviverem pela influência da sua presença augusta.
Este foi o resumo do meu discurso, proferido com grandes impropriedades e hesitação; a última parte foi inteiramente formulada no estilo peculiar daquele povo, do qual aprendi algumas frases com Glumdalclitch enquanto ela me levava para a corte.
A rainha, dando grande desconto à minha deficiência em falar, ficou, contudo, surpreendida com tanto espírito e bom senso num animal tão diminuto.
Tomou-me na sua própria mão e levou-me ao rei, que se encontrava então retirado no seu gabinete. Sua majestade, um príncipe de muita gravidade e semblante austero, não observando bem a minha forma à primeira vista, perguntou à rainha, de maneira fria, há quanto tempo ela se tinha afeiçoado a um splacnuck; pois parece que foi isso que ele pensou que eu era, enquanto eu jazia sobre o peito na mão direita de sua majestade. Mas esta princesa, que possui uma infinidade de espírito e humor, colocou-me gentilmente de pé sobre a secretária e ordenou-me que desse a sua majestade uma explicação sobre mim, o que fiz em pouquíssimas palavras; e Glumdalclitch, que aguardava à porta do gabinete e não suportava que eu estivesse fora da sua vista, sendo admitida, confirmou tudo o que tinha acontecido desde a minha chegada à casa do seu pai.
O rei, embora seja uma pessoa tão culta como qualquer outra nos seus domínios, tinha sido educado no estudo da filosofia, e particularmente da matemática; contudo, quando observou a minha forma exatamente e me viu andar ereto, antes de eu começar a falar, concebeu que eu pudesse ser uma peça de relojoaria (que naquele país atingiu uma perfeição muito grande), inventada por algum artista engenhoso. Mas quando ouviu a minha voz e descobriu que o que eu dizia era regular e racional, não conseguiu esconder o seu espanto. Não ficou de modo algum satisfeito com o relato que lhe fiz sobre a forma como vim parar ao seu reino, mas pensou que era uma história combinada entre Glumdalclitch e o seu pai, que me tinham ensinado um conjunto de palavras para me venderem por um preço melhor. Com esta imaginação, fez-me várias outras perguntas e recebeu sempre respostas racionais, não mais defeituosas do que por um sotaque estrangeiro e um conhecimento imperfeito da língua, com algumas frases rústicas que tinha aprendido na casa do lavrador e que não se adequavam ao estilo polido de uma corte.
Sua majestade mandou chamar três grandes sábios, que estavam então no seu turno semanal, segundo o costume daquele país. Estes senhores, depois de examinarem a minha forma com muita minúcia por algum tempo, tinham opiniões diferentes a meu respeito. Todos concordaram que eu não podia ser produzido segundo as leis regulares da natureza, porque não fui formado com a capacidade de preservar a minha vida, nem pela rapidez, nem por trepar árvores, nem por cavar buracos na terra. Observaram pelos meus dentes, que examinaram com grande exatidão, que eu era um animal carnívoro; contudo, sendo a maioria dos quadrúpedes demasiado fortes para mim, e os ratos do campo, com alguns outros, demasiado ágeis, não conseguiam imaginar como seria capaz de me sustentar, a menos que me alimentasse de caracóis e outros insetos, o que ofereceram, por muitos argumentos eruditos, provar que eu não poderia possivelmente fazer. Não me quiseram admitir como anão, porque a minha pequenez estava para lá de todos os graus de comparação; pois o anão favorito da rainha, o mais pequeno que jamais se conheceu naquele reino, tinha quase trinta pés de altura. Após muito debate, concluíram unanimemente que eu era apenas um relplum scalcath, que se traduz literalmente por lusus naturae; uma determinação exatamente de acordo com a filosofia moderna da Europa: cujos professores, desdenhando a velha evasão das causas ocultas, com as quais os seguidores de Aristóteles tentavam em vão disfarçar a sua ignorância, inventaram esta maravilhosa solução para todas as dificuldades, para o avanço inefável do conhecimento humano.
Após esta conclusão decisiva, pedi para ser ouvido por uma ou duas palavras. Dirigi-me ao rei e assegurei a sua majestade de que vinha de um país que abundava em vários milhões de ambos os sexos, e da minha própria estatura; onde os animais, árvores e casas eram todos proporcionais e onde, consequentemente, eu poderia ser tão capaz de me defender e de encontrar sustento como qualquer dos súbditos de sua majestade poderia fazer aqui; o que tomei como uma resposta completa aos argumentos daqueles senhores. A isto, responderam apenas com um sorriso de desprezo, dizendo que o lavrador me tinha ensinado muito bem a minha lição. O rei, que tinha uma compreensão muito melhor, dispensando os seus sábios, mandou chamar o lavrador, que, por sorte, ainda não tinha saído da cidade; tendo, portanto, primeiro examinado-o privadamente, e depois confrontando-o comigo e com a jovem rapariga, sua majestade começou a pensar que o que lhe tínhamos dito podia possivelmente ser verdade. Desejou à rainha que ordenasse que fosse tomado um cuidado especial comigo, e era de opinião que Glumdalclitch deveria continuar no seu cargo de me tratar, porque observou que tínhamos uma grande afeição um pelo outro. Foi-lhe fornecido um apartamento conveniente na corte; tinha uma espécie de governanta nomeada para cuidar da sua educação, uma criada para a vestir e outros dois criados para serviços domésticos; mas o cuidado comigo foi inteiramente apropriado a ela. A rainha ordenou ao seu próprio marceneiro que construísse uma caixa que pudesse servir-me de quarto, segundo o modelo com que Glumdalclitch e eu concordássemos. Este homem era um artista muito engenhoso e, segundo as minhas instruções, em três semanas terminou para mim um quarto de madeira de dezasseis pés quadrados e doze de altura, com janelas de guilhotina, uma porta e dois armários, como um quarto de dormir em Londres. A tábua que fazia o teto devia ser levantada e baixada por duas dobradiças, para colocar uma cama pronta, fornecida pelo estofador de sua majestade, a qual Glumdalclitch retirava todos os dias para arejar, fazia-a com as suas próprias mãos e, baixando-a à noite, trancava o teto sobre mim. Um artesão habilidoso, famoso por pequenas curiosidades, encarregou-se de me fazer duas cadeiras, com encostos e armações de uma substância não muito diferente de marfim, e duas mesas, com um gabinete para guardar as minhas coisas. O quarto era acolchoado de todos os lados, assim como o chão e o teto, para evitar qualquer acidente por falta de cuidado daqueles que me transportavam, e para quebrar a força de um solavanco quando eu ia num coche. Pedi uma fechadura para a minha porta, para evitar a entrada de ratos e ratazanas: o ferreiro, após várias tentativas, fez a mais pequena que jamais foi vista entre eles; pois já conheci uma maior no portão da casa de um cavalheiro em Inglaterra. Arrumei-me para guardar a chave num bolso meu, temendo que Glumdalclitch a pudesse perder. A rainha ordenou também as sedas mais finas que se pudessem obter para me fazer roupas, não muito mais grossas do que um cobertor inglês, muito incómodas até me acostumar a elas. Eram à moda do reino, assemelhando-se em parte à persa e em parte à chinesa, sendo um traje muito grave e decente.
A rainha tornou-se tão afeiçoada à minha companhia que não conseguia jantar sem mim. Eu tinha uma mesa colocada sobre a mesma em que sua majestade comia, exatamente junto ao seu cotovelo esquerdo, e uma cadeira para me sentar. Glumdalclitch ficava de pé num banco, no chão, perto da minha mesa, para me assistir e cuidar de mim. Eu tinha um conjunto completo de pratos e travessas de prata, e outras necessidades, que, em proporção aos da rainha, não eram muito maiores do que o que vi numa loja de brinquedos de Londres para a mobília de uma casa de bonecas: estes, a minha pequena enfermeira guardava-os no seu bolso, numa caixa de prata, e dava-mos às refeições conforme eu precisava deles, limpando-os sempre ela mesma. Ninguém jantava com a rainha senão as duas princesas reais, a mais velha com dezasseis anos e a mais nova, na altura, com treze e um mês. Sua majestade costumava colocar um pedaço de carne num dos meus pratos, do qual eu cortava para mim; e a sua diversão era ver-me comer em miniatura; pois a rainha (que tinha, na verdade, um estômago fraco) levava a cada bocado tanto quanto uma dúzia de lavradores ingleses conseguiriam comer numa refeição, o que para mim foi, durante algum tempo, um espetáculo muito nauseabundo. Ela trincava a asa de uma cotovia, ossos e tudo, entre os dentes, embora fosse nove vezes maior do que a de um peru adulto; e colocava na boca um pedaço de pão do tamanho de dois pães de doze pence. Bebia de um copo de ouro, mais de uma barrica de cada vez. As suas facas eram duas vezes mais longas do que uma foice, fixadas a direito no cabo. As colheres, garfos e outros instrumentos eram todos na mesma proporção. Lembro-me de que, quando Glumdalclitch me levou, por curiosidade, para ver algumas das mesas na corte, onde dez ou uma dúzia destas facas e garfos enormes eram levantados ao mesmo tempo, pensei que nunca até então tinha visto um espetáculo tão terrível.
É costume que todas as quartas-feiras (que, como observei antes, são o seu sábado) o rei e a rainha, com a descendência real de ambos os sexos, jantem juntos no apartamento de sua majestade, a quem eu me tinha tornado um grande favorito; e nestas ocasiões, a minha pequena cadeira e mesa eram colocadas à sua mão esquerda, diante de um dos saleiros. Este príncipe tinha prazer em conversar comigo, perguntando sobre os costumes, religião, leis, governo e saber da Europa; onde lhe dei o melhor relato que fui capaz. A sua compreensão era tão clara e o seu juízo tão exato que fazia reflexões e observações muito sábias sobre tudo o que eu dizia. Mas confesso que, depois de ter sido um pouco demasiado prolixo a falar do meu adorado país, do nosso comércio e guerras por mar e terra, dos nossos cismas na religião e partidos no Estado; os preconceitos da sua educação prevaleceram tanto que ele não pôde evitar tomar-me na sua mão direita e, afagando-me suavemente com a outra, depois de um sonoro ataque de riso, perguntou-me se eu era um whig ou um tory? Depois, voltando-se para o seu primeiro-ministro, que esperava atrás dele com um bastão branco, quase tão alto como o mastro principal do "Royal Sovereign", observou quão desprezível era a grandeza humana, que podia ser imitada por insetos tão diminutos como eu: e ainda assim, diz ele, atrevo-me a apostar que estas criaturas têm os seus títulos e distinções de honra; arranjam pequenos ninhos e tocas, a que chamam casas e cidades; fazem figura no vestir e no cortejo; amam, lutam, discutem, enganam, traem. E assim continuou, enquanto a minha cor ia e vinha várias vezes de indignação, ao ouvir o nosso nobre país, a senhora das artes e das armas, o flagelo de França, a árbitra da Europa, a sede da virtude, piedade, honra e verdade, o orgulho e a inveja do mundo, ser tão desprezivelmente tratado.
Mas, como eu não estava em condições de ressentir injúrias, comecei, após reflexões maduras, a duvidar se tinha sido injuriado ou não. Pois, depois de estar habituado, há vários meses, à visão e conversa deste povo, e de observar que cada objeto sobre o qual eu lançava os olhos era de magnitude proporcional, o horror que tinha concebido no início pela sua mole e aspeto tinha desaparecido tanto que, se eu tivesse visto então uma companhia de lordes e damas ingleses nas suas galas e trajes de aniversário, desempenhando os seus vários papéis da maneira mais cortês de pavonearem, inclinarem-se e falarem, para dizer a verdade, ter-me-ia sentido fortemente tentado a rir-me tanto deles como o rei e os seus grandes faziam de mim. Nem, na verdade, pude evitar sorrir de mim mesmo, quando a rainha costumava colocar-me na sua mão em direção a um espelho, pelo qual ambas as nossas pessoas apareciam diante de mim em plena visão; e não poderia haver nada mais ridículo do que a comparação; de modo que realmente comecei a imaginar-me reduzido muitos graus abaixo do meu tamanho habitual.
Nada me irritou e mortificou tanto como o anão da rainha, que, sendo da estatura mais baixa que alguma vez houve naquele país (pois creio piamente que não tinha bem trinta pés de altura), tornou-se tão insolente ao ver uma criatura tão abaixo dele que queria sempre fingir que se pavoneava e se fazia grande ao passar por mim na antecâmara da rainha, enquanto eu estava de pé em alguma mesa, a falar com os lordes ou damas da corte, e ele raramente deixava de dizer uma ou duas palavras mordazes sobre a minha pequenez; contra as quais eu só me podia vingar chamando-lhe irmão, desafiando-o para a luta e outras réplicas que são habituais na boca dos pajens da corte. Um dia, ao jantar, este pequeno cubo malicioso ficou tão irritado com algo que lhe tinha dito que, levantando-se sobre a estrutura da cadeira de sua majestade, pegou-me enquanto eu me sentava, sem pensar em mal algum; e deixou-me cair numa grande tigela de prata com natas, e depois fugiu o mais depressa que pôde. Caí de cabeça e, se não fosse um bom nadador, poderia ter corrido muito mal comigo; pois Glumdalclitch, naquele instante, estava no outro lado da sala, e a rainha ficou tão assustada que lhe faltou presença de espírito para me ajudar. Mas a minha pequena enfermeira correu em meu auxílio e tirou-me de lá, depois de eu ter engolido mais de um litro de natas. Fui posto na cama; contudo, não recebi outro dano senão a perda de um conjunto de roupas, que ficou totalmente estragado. O anão foi severamente açoitado e, como castigo adicional, forçado a beber a tigela de natas na qual me tinha atirado; nem nunca mais foi restituído ao favor; pois, pouco depois, a rainha deu-o a uma senhora de alta linhagem, de modo que não o vi mais, para minha grande satisfação; pois não sabia até que ponto um tal garoto malicioso poderia ter levado o seu ressentimento.
Ele tinha-me pregado anteriormente uma peça desprezível, o que fez a rainha rir-se, embora, ao mesmo tempo, ela estivesse profundamente vexada e tê-lo-ia despedido imediatamente se eu não tivesse sido tão generoso a ponto de interceder. Sua majestade tinha pegado num osso com tutano do seu prato e, depois de retirar o tutano, colocou o osso no prato na vertical, tal como estava antes. O anão, vigiando a sua oportunidade, enquanto Glumdalclitch tinha ido ao aparador, montou no banco em que ela estava para cuidar de mim durante as refeições, pegou-me com ambas as mãos e, apertando as minhas pernas, encaixou-as no osso com tutano acima da minha cintura, onde fiquei preso durante algum tempo, fazendo uma figura muito ridícula; creio que passou quase um minuto até que alguém soubesse o que tinha sido feito de mim, pois eu achava abaixo da minha dignidade gritar. Mas, como os príncipes raramente recebem a sua comida quente, as minhas pernas não foram escaldadas, apenas as minhas meias e calções ficaram num estado lastimável. O anão, por minha súplica, não teve outro castigo senão uma boa chicotada.
Eu era frequentemente alvo de gracejos por parte da rainha devido à minha cobardia; e ela costumava perguntar-me se o povo do meu país era tão covarde quanto eu. A ocasião era esta: o reino é muito infestado de moscas no verão; e estes insetos odiosos, cada um deles tão grande como uma cotovia de Dunstable, dificilmente me davam descanso enquanto eu me sentava para jantar, com o seu contínuo zumbido e voo à volta das minhas orelhas. Elas pousavam, por vezes, nas minhas vitualhas. Por vezes, fixavam-se no meu nariz ou testa, onde me picavam vivamente, e eu tinha muitas dificuldades em defender-me contra estes animais detestáveis, não conseguindo evitar sobressaltar-me quando vinham ao meu rosto. Era prática comum do anão apanhar um número destes insetos na mão, como os rapazes da escola fazem entre nós, e soltá-los subitamente debaixo do meu nariz, propositadamente para me assustar e divertir a rainha. O meu remédio era cortá-los em pedaços com a minha faca, enquanto voavam no ar, no que a minha destreza era muito admirada.
Lembro-me de uma manhã, quando Glumdalclitch me tinha colocado na minha caixa sobre uma janela, como costumava fazer nos dias de sol, para me dar ar (pois eu não me atrevia a arriscar deixar a caixa pendurada num prego fora da janela, como fazemos com as gaiolas em Inglaterra), depois de eu ter levantado um dos meus caixilhos e me ter sentado à minha mesa para comer um pedaço de bolo doce ao pequeno-almoço, mais de vinte vespas, atraídas pelo cheiro, entraram a voar no quarto, zumbindo mais alto do que os bordões de outras tantas gaitas de foles. Algumas delas apoderaram-se do meu bolo e levaram-no pedaço a pedaço; outras voavam à volta da minha cabeça e rosto, confundindo-me com o ruído e colocando-me no maior terror das suas picadas. Contudo, tive a coragem de me levantar e sacar do meu punhal, e atacá-las no ar. Despachei quatro delas, mas as restantes fugiram, e fechei imediatamente a minha janela. Estas criaturas eram tão grandes como perdizes; retirei-lhes os ferrões, descobri que tinham uma polegada e meia de comprimento e eram tão afiados como agulhas. Preservei-os cuidadosamente todos e, tendo-os mostrado desde então, com outras curiosidades, em várias partes da Europa, no meu regresso a Inglaterra, dei três deles ao Gresham College e guardei o quarto para mim.
CAPÍTULO IV.
O PAÍS DESCRITO. UMA PROPOSTA PARA CORRIGIR OS MAPAS MODERNOS. O PALÁCIO DO REI E ALGUMA DESCRIÇÃO DA METRÓPOLE. O MODO DE VIAGEM DO AUTOR. O TEMPLO PRINCIPAL DESCRITO.
Pretendo agora dar ao leitor uma breve descrição deste país, na medida em que viajei nele, o que não foi além de duas mil milhas em redor de Lorbrulgrud, a metrópole. Pois a rainha, a quem eu sempre acompanhava, nunca ia mais longe quando acompanhava o rei nas suas progressões, e ficava lá até sua majestade regressar de observar as suas fronteiras. A extensão total dos domínios deste príncipe chega a cerca de seis mil milhas de comprimento e de três a cinco de largura. De onde não posso deixar de concluir que os nossos geógrafos da Europa estão em grande erro ao supor que não existe nada além de mar entre o Japão e a Califórnia; pois sempre foi a minha opinião que deve haver um equilíbrio de terra para contrabalançar o grande continente da Tartária; e, portanto, deveriam corrigir os seus mapas e cartas, juntando esta vasta extensão de terra às partes noroeste da América, no que estarei pronto a prestar-lhes a minha assistência.
O reino é uma península, terminada a nordeste por uma cadeia de montanhas, trinta milhas de altura, que são totalmente intransponíveis, devido aos vulcões nos seus cumes: nem os mais eruditos sabem que tipo de mortais habitam para lá dessas montanhas, ou se são habitadas de todo. Nos outros três lados, é delimitada pelo oceano. Não há um único porto de mar em todo o reino, e aquelas partes das costas em que os rios desaguam estão tão cheias de rochedos pontiagudos, e o mar geralmente tão agitado, que não há como arriscar com o menor dos seus barcos; de modo que este povo está totalmente excluído de qualquer comércio com o resto do mundo.
Mas os grandes rios estão cheios de embarcações e abundam em peixe excelente, pois raramente obtêm algum do mar, porque os peixes do mar são do mesmo tamanho que os da Europa e, consequentemente, não valem a pena ser pescados, pelo que é manifesto que a natureza, na produção de plantas e animais de tão extraordinário volume, está totalmente confinada a este continente, cujas razões deixo que sejam determinadas pelos filósofos. Contudo, de vez em quando, apanham uma baleia que por acaso é atirada contra as rochas, da qual o povo comum se alimenta com satisfação. Estas baleias, que eu saiba, são tão grandes que um homem dificilmente poderia carregar uma aos ombros; e, por vezes, por curiosidade, são trazidas em cestos para Lorbrulgrud: vi uma delas num prato à mesa do rei, que passou por uma raridade, mas não observei que ele fosse apreciador; pois penso, na verdade, que a sua dimensão o desgostava, embora tenha visto uma um pouco maior na Gronelândia.
O país é bem habitado, pois contém cinquenta e uma cidades, cerca de uma centena de vilas muradas e um grande número de aldeias. Para satisfazer o meu curioso leitor, pode ser suficiente descrever Lorbrulgrud. Esta cidade situa-se em quase duas partes iguais de cada lado do rio que a atravessa. Contém mais de oitenta mil casas e cerca de seiscentos mil habitantes. Tem de comprimento três glomglungs (que perfazem cerca de cinquenta e quatro milhas inglesas) e dois e meio de largura, como medi eu próprio no mapa real feito por ordem do rei, que foi estendido no chão propositadamente para mim, e media cem pés: medi o diâmetro e a circunferência várias vezes descalço e, calculando pela escala, medi-o com bastante exatidão.
O palácio do rei não é um edifício regular, mas um amontoado de construções, com cerca de sete milhas de circunferência: as salas principais têm geralmente duzentos e quarenta pés de altura, e largura e comprimento em proporção. Uma carruagem foi concedida a Glumdalclitch e a mim, na qual a sua governanta a levava frequentemente para ver a cidade ou ir às lojas; e eu fazia sempre parte da comitiva, transportado na minha caixa; embora a rapariga, a meu próprio pedido, me tirasse frequentemente para fora e me segurasse na mão, para que eu pudesse ver mais convenientemente as casas e as pessoas enquanto passávamos pelas ruas. Calculei que a nossa carruagem era aproximadamente do tamanho da praça de Westminster-hall, mas não tão alta: contudo, não posso ser muito exato.
Além da caixa grande em que eu era habitualmente transportado, a rainha ordenou que fosse feita uma mais pequena para mim, de cerca de doze pés quadrados e dez de altura, para a conveniência de viajar, porque a outra era um pouco demasiado grande para o colo de Glumdalclitch e pesada na carruagem. Foi feita pelo mesmo artista, a quem dirigi em toda a construção. Este gabinete de viagem era um quadrado exato, com uma janela no meio de três dos lados, e cada janela era gradeada com fio de ferro no exterior, para evitar acidentes em longas viagens. No quarto lado, que não tinha janela, estavam fixados dois grampos fortes, através dos quais a pessoa que me transportava, quando eu queria andar a cavalo, passava um cinto de couro e prendia-o à cintura. Este era sempre o cargo de algum criado sério e de confiança, em quem eu podia confiar, quer eu acompanhasse o rei e a rainha nas suas progressões, quer estivesse disposto a ver os jardins ou a fazer uma visita a alguma grande dama ou ministro de estado na corte; pois cedo comecei a ser conhecido e estimado entre os maiores oficiais, suponho que mais por causa do favor de suas majestades do que por qualquer mérito meu.
Em viagens, quando eu estava cansado da carruagem, um criado a cavalo prendia a minha caixa e colocava-a sobre uma almofada à sua frente; e ali eu tinha uma visão completa do campo em três lados a partir das minhas três janelas. Tinha neste gabinete uma cama de campanha e uma rede suspensa no teto, duas cadeiras e uma mesa, cuidadosamente aparafusadas ao chão, para evitar ser atirado de um lado para o outro pela agitação do cavalo ou da carruagem. E, tendo estado há muito habituado a viagens marítimas, esses movimentos, embora por vezes muito violentos, não me perturbavam muito.
Sempre que eu tinha vontade de ver a cidade, era sempre no meu gabinete de viagem, que Glumdalclitch segurava no seu colo, numa espécie de liteira aberta, ao jeito do país, carregada por quatro homens e acompanhada por outros dois na libré da rainha. As pessoas, que tinham ouvido falar de mim frequentemente, eram muito curiosas para se aglomerarem à volta da liteira, e a rapariga era suficientemente complacente para fazer os portadores parar e para me levar na mão, para que eu pudesse ser visto mais convenientemente.
Eu estava muito desejoso de ver o templo principal e, particularmente, a torre que lhe pertencia, que é considerada a mais alta do reino. Consequentemente, um dia a minha ama levou-me até lá, mas devo dizer verdadeiramente que voltei desapontado; pois a altura não ultrapassa os três mil pés, contando do chão até ao topo do pináculo mais alto; o que, permitindo a diferença entre o tamanho daquele povo e o nosso na Europa, não é motivo de grande admiração, nem de todo igual em proporção (se bem me lembro) à torre da igreja de Salisbury. Mas, para não menosprezar uma nação à qual, durante a minha vida, reconhecerei estar extremamente obrigado, deve admitir-se que tudo o que falta a esta famosa torre em altura é amplamente compensado em beleza e força. Pois as paredes têm quase cem pés de espessura, construídas de pedra lavrada, cada uma com cerca de quarenta pés quadrados, e adornadas em todos os lados com estátuas de deuses e imperadores, esculpidas em mármore maior que o natural, colocadas nos seus vários nichos. Medi um dedo mindinho que tinha caído de uma destas estátuas e jazia despercebido entre alguns escombros, e descobri que tinha exatamente quatro pés e uma polegada de comprimento. Glumdalclitch embrulhou-o no seu lenço e levou-o para casa no seu bolso, para guardar entre outras bugigangas, das quais a rapariga gostava muito, como as crianças da sua idade habitualmente gostam.
A cozinha do rei é, de facto, um edifício nobre, abobadado no topo e com cerca de seiscentos pés de altura. O grande forno não é dez passos mais largo do que a cúpula da Catedral de São Paulo, pois medi esta última propositadamente após o meu regresso. Mas se eu descrevesse a grelha da cozinha, os potes e chaleiras prodigiosos, as peças de carne a girar nos espetos, com muitos outros detalhes, talvez dificilmente fosse acreditado; pelo menos, um crítico severo seria propenso a pensar que aumentei um pouco, como se suspeita frequentemente que os viajantes fazem. Para evitar tal censura, temo ter ido demasiado para o outro extremo; e que, se este tratado viesse a ser traduzido para a língua de Brobdingnag (que é o nome geral daquele reino) e transmitido para lá, o rei e o seu povo teriam razões para se queixar de que lhes tinha feito um dano, por uma representação falsa e diminuta.
Sua majestade raramente mantém mais de seiscentos cavalos nos seus estábulos: têm geralmente de cinquenta e quatro a sessenta pés de altura. Mas quando ele sai em dias solenes, é acompanhado, por ostentação, por uma guarda de milícia de quinhentos cavalos, que, na verdade, achei ser o espetáculo mais esplêndido que se poderia ver, até ver parte do seu exército em ordem de batalha, do qual encontrarei outra ocasião para falar.
CAPÍTULO V.
VÁRIAS AVENTURAS QUE ACONTECERAM AO AUTOR. O AUTOR MOSTRA A SUA HABILIDADE NA NAVEGAÇÃO.
Eu teria vivido bastante feliz naquele país, se a minha pequenez não me tivesse exposto a vários acidentes ridículos e problemáticos, alguns dos quais me aventurarei a relatar. Glumdalclitch levava-me frequentemente para os jardins da corte na minha caixa mais pequena e, por vezes, tirava-me de lá e segurava-me na mão, ou punha-me no chão para caminhar. Lembro-me de que, antes de o anão deixar a rainha, ele seguiu-nos um dia até esses jardins e, tendo a minha ama posto-me no chão, estando ele e eu próximos um do outro, perto de algumas macieiras anãs, tive de mostrar o meu engenho através de uma alusão estúpida entre ele e as árvores, que por acaso se mantém na língua deles, tal como na nossa. Ao que o patife malicioso, vigiando a sua oportunidade, quando eu caminhava debaixo de uma delas, abanou-a diretamente sobre a minha cabeça; pelo que uma dúzia de maçãs, cada uma delas quase tão grande como um barril de Bristol, veio a rebolar à volta das minhas orelhas; uma delas atingiu-me nas costas quando, por acaso, me inclinei e derrubou-me de bruços; mas não sofri outro ferimento; e o anão foi perdoado a meu pedido, porque eu tinha dado a provocação.
Outro dia, Glumdalclitch deixou-me num relvado liso para me divertir, enquanto ela caminhava a alguma distância com a sua governanta. Entretanto, caiu subitamente um duche de granizo tão violento que fui imediatamente, pela força dele, atirado ao chão; e quando eu estava em baixo, as pedras de granizo deram-me pancadas tão cruéis por todo o corpo como se tivesse sido atingido por bolas de ténis; contudo, arranjei forma de rastejar de gatas e abrigar-me deitando-me de bruços no lado protegido de uma bordadura de lúcia-lima, mas tão nódoas negras da cabeça aos pés que não pude sair durante dez dias. Nem isto é de admirar, porque a natureza, naquele país, observando a mesma proporção em todas as suas operações, uma pedra de granizo é quase mil e oitocentas vezes maior do que uma na Europa, o que posso afirmar por experiência, tendo tido a curiosidade de as pesar e medir.
Mas um acidente mais perigoso aconteceu-me no mesmo jardim quando a minha pequena ama, acreditando que me tinha colocado num local seguro, o que eu frequentemente lhe suplicava que fizesse, para que eu pudesse desfrutar dos meus pensamentos, e tendo deixado a minha caixa em casa, para evitar o incómodo de a carregar, foi para outra parte do jardim com a governanta e algumas damas da sua amizade, e ela estava ausente e fora do alcance da voz, um pequeno cão branco, pertencente a um dos jardineiros-chefes, tendo entrado por acidente no jardim, aconteceu passar pelo local onde eu estava: o cão, seguindo o rasto, veio diretamente até mim e, pegando-me com a boca, correu direito ao seu dono, abanando a cauda, e pousou-me suavemente no chão. Por boa sorte, ele tinha sido tão bem ensinado que fui carregado entre os seus dentes sem o menor ferimento, ou mesmo sem rasgar as minhas roupas. Mas o pobre jardineiro, que me conhecia bem e tinha um grande carinho por mim, ficou num susto terrível: pegou-me suavemente com ambas as mãos e perguntou-me como eu estava; mas eu estava tão espantado e sem fôlego que não conseguia dizer uma palavra. Em poucos minutos voltei a mim e ele levou-me em segurança para a minha pequena ama, que por essa altura tinha regressado ao local onde me tinha deixado e estava em agonia cruel por eu não aparecer nem responder quando ela chamava. Ela repreendeu severamente o jardineiro por causa do seu cão, mas o assunto foi abafado e nunca se soube na corte; pois a rapariga tinha medo da ira da rainha e, na verdade, quanto a mim, pensei que não seria para a minha reputação que tal história corresse por aí.
Este acidente determinou absolutamente que Glumdalclitch nunca mais me deixasse sair fora da sua vista no futuro. Eu receava há muito esta resolução e, por isso, escondi-lhe algumas pequenas aventuras infelizes que aconteceram naqueles tempos em que era deixado sozinho. Uma vez, um milhafre, pairando sobre o jardim, fez um voo picado sobre mim; e se eu não tivesse resolvido sacar do meu punhal e correr para debaixo de uma espaldeira espessa, ele ter-me-ia certamente levado nas suas garras. Noutra ocasião, caminhando para o topo de uma toupeira fresca, caí até ao pescoço no buraco através do qual aquele animal tinha lançado a terra para fora. Também parti a canela direita contra a carapaça de um caracol, em que, por acaso, tropecei enquanto caminhava sozinho e pensava na pobre Inglaterra.
Não sei dizer se fiquei mais satisfeito ou mortificado ao observar naqueles passeios solitários que os pássaros mais pequenos não pareciam ter qualquer medo de mim, mas saltitavam a uma distância de um metro, à procura de minhocas e outro alimento, com tanta indiferença e segurança como se não houvesse criatura nenhuma perto deles. Lembro-me de um tordo que teve a confiança de arrancar da minha mão com o bico um pedaço de bolo que Glumdalclitch me tinha acabado de dar para o meu pequeno-almoço.
Quando tentei apanhar qualquer um destes pássaros, eles voltavam-se corajosamente contra mim, esforçando-se por bicar os meus dedos, que eu não me atrevia a colocar ao alcance deles; e depois saltitavam para trás, indiferentes, para caçar minhocas e caracóis como faziam antes. Mas, um dia, peguei num pau grosso e lancei-o com toda a minha força tão acertadamente a um pintarroxo que o derrubei e, agarrando-o pelo pescoço com ambas as mãos, corri em triunfo para a minha ama. Contudo, o pássaro, que tinha apenas ficado atordoado, recuperando-se, deu-me tantas pancadas com as suas asas em ambos os lados da minha cabeça e corpo, embora eu o segurasse à distância de um braço e estivesse fora do alcance das suas garras, que estive vinte vezes a pensar em deixá-lo ir. Mas fui rapidamente aliviado por um dos nossos criados, que torceu o pescoço do pássaro, e comi-o no dia seguinte ao jantar por ordem da rainha. Este pintarroxo, tanto quanto me lembro, parecia ser um pouco maior do que um cisne inglês.
A rainha, que costumava ouvir-me falar frequentemente das minhas viagens marítimas e aproveitava todas as ocasiões para me divertir quando eu estava melancólico, perguntou-me se eu sabia manejar uma vela ou um remo, e se um pouco de exercício de remo não seria conveniente para a minha saúde. Respondi que entendia muito bem ambos; pois, embora a minha ocupação habitual tivesse sido a de cirurgião ou médico do navio, muitas vezes, em caso de necessidade, era forçado a trabalhar como um marinheiro comum. Mas não conseguia ver como isto poderia ser feito no país deles, onde o menor escaler era igual a um navio de guerra de primeira linha entre nós, e um barco como aquele que eu poderia manejar nunca sobreviveria em nenhum dos seus rios.
Sua majestade disse que, se eu pudesse projetar um barco, o seu próprio marceneiro o faria, e ela providenciaria um lugar para eu velejar. O sujeito era um artesão engenhoso e, sob minhas instruções, em dez dias terminou um barco de recreio, com todo o seu cordame, capaz de acomodar confortavelmente oito europeus. Quando ficou pronto, a rainha ficou tão encantada que correu com ele no colo até o rei, que ordenou que fosse colocado em uma cisterna cheia de água, comigo dentro, a título de teste; onde não consegui manejar meus dois remos curtos, ou pequenos remos, por falta de espaço.
Mas a rainha já havia planejado outro projeto. Ordenou ao marceneiro que fizesse um cocho de madeira de trezentos pés de comprimento, cinquenta de largura e oito de profundidade; o qual, sendo bem vedado com piche para evitar vazamentos, foi colocado no chão ao longo da parede em uma sala externa do palácio. Tinha uma torneira perto do fundo para deixar sair a água, quando começava a ficar estagnada; e dois criados podiam enchê-lo facilmente em meia hora. Aqui eu costumava remar frequentemente para minha própria diversão, bem como para a da rainha e de suas damas, que se consideravam bem entretidas com minha habilidade e agilidade. Às vezes eu içava minha vela, e então minha tarefa era apenas governar, enquanto as damas me davam uma brisa com seus leques; e quando elas se cansavam, alguns de seus pajens sopravam minha vela para frente com o fôlego, enquanto eu mostrava minha arte governando a boreste ou a bombordo, como eu bem entendesse. Quando terminava, Glumdalclitch sempre levava meu barco de volta para seu armário e o pendurava em um prego para secar.
Neste exercício, certa vez sofri um acidente que quase me custou a vida; pois, um dos pajens tendo colocado meu barco no cocho, a governanta, que servia a Glumdalclitch, muito solícita, ergueu-me para me colocar no barco, mas aconteceu de eu escorregar por entre seus dedos e teria caído infalivelmente quarenta pés até o chão se, pela sorte mais incrível do mundo, eu não tivesse sido detido por um alfinete de cabeça que estava preso no corpete da boa senhora; a cabeça do alfinete passou entre minha camisa e o cós de minhas calças, e assim fiquei suspenso pelo meio no ar, até que Glumdalclitch correu em meu socorro.
Outra vez, um dos criados, cuja função era encher meu cocho a cada três dias com água fresca, foi tão descuidado que deixou um sapo enorme (sem perceber) escapar de seu balde. O sapo ficou escondido até que eu fosse colocado em meu barco, mas então, vendo um lugar para descansar, subiu e fez com que ele inclinasse tanto para um lado que fui forçado a equilibrá-lo com todo o meu peso no outro para evitar virar. Quando o sapo entrou, pulou de uma vez metade do comprimento do barco e depois sobre minha cabeça, para frente e para trás. A grandiosidade de suas feições fazia dele o animal mais deformado que se possa imaginar. No entanto, pedi a Glumdalclitch que me deixasse lidar com ele sozinho. Espanquei-o por um bom tempo com um dos meus remos e, finalmente, forcei-o a saltar para fora do barco.
Mas o maior perigo que já corri naquele reino foi por causa de um macaco, que pertencia a um dos escrivães da cozinha. Glumdalclitch tinha me trancado em seu armário, enquanto ela ia a algum lugar a negócios ou fazer uma visita. Como o tempo estava muito quente, a janela do armário foi deixada aberta, assim como as janelas e a porta da minha caixa maior, na qual eu habitualmente vivia, devido ao seu tamanho e conveniência. Enquanto eu estava sentado calmamente meditando à minha mesa, ouvi algo saltar pela janela do armário e pular de um lado para o outro; ao que, embora estivesse muito alarmado, aventurei-me a olhar, mas sem sair do meu assento; e então vi esse animal brincalhão saltitando para cima e para baixo, até que finalmente chegou à minha caixa, a qual pareceu observar com grande prazer e curiosidade, espiando pela porta e por cada janela.
Retirei-me para o canto mais distante do meu quarto ou caixa; mas o macaco, olhando por todos os lados, deixou-me em tal susto que me faltou presença de espírito para me esconder debaixo da cama, como poderia facilmente ter feito. Depois de algum tempo gasto espiando, fazendo caretas e tagarelando, ele finalmente me avistou e, estendendo uma de suas patas pela porta, como um gato faz quando brinca com um rato, embora eu frequentemente mudasse de lugar para evitá-lo, ele finalmente agarrou a aba do meu casaco (que, sendo feito daquela seda do país, era muito espesso e forte) e me arrastou para fora. Ele me tirou com sua pata dianteira direita e me segurou como uma babá segura uma criança, exatamente como vi o mesmo tipo de criatura fazer com um gatinho na Europa: e, quando tentei lutar, ele me apertou com tanta força que achei mais prudente me submeter. Tenho boas razões para acreditar que ele me tomou por um filhote de sua própria espécie, pelo fato de acariciar meu rosto com muita frequência e suavidade com sua outra pata.
Nessas diversões, ele foi interrompido por um barulho na porta do armário, como se alguém estivesse abrindo-a; ao que ele saltou repentinamente para a janela, pela qual havia entrado, e de lá para os telhados e calhas, caminhando sobre três patas e me segurando com a quarta, até que subiu a um telhado que ficava ao lado do nosso. Ouvi Glumdalclitch soltar um grito no momento em que ele me carregava para fora. A pobre menina estava quase enlouquecida. Aquele setor do palácio estava todo em alvoroço; os criados correram em busca de escadas; o macaco foi visto por centenas no pátio, sentado na cumeeira de um edifício, segurando-me como um bebê em uma de suas patas dianteiras: ao que muitos da ralé lá embaixo não puderam deixar de rir; nem creio que devam ser justamente culpados, pois, sem dúvida, a visão era ridícula o suficiente para todos, menos para mim. Algumas pessoas atiraram pedras, esperando fazer o macaco descer; mas isso foi estritamente proibido, caso contrário, muito provavelmente, meus miolos teriam sido espalhados.
As escadas foram então aplicadas e subidas por vários homens, o que o macaco observando, e encontrando-se quase cercado, não sendo capaz de correr o suficiente com suas três patas, deixou-me cair em uma telha de cumeeira e fugiu. Fiquei ali por algum tempo, a quinhentos metros do chão, esperando a cada momento ser soprado pelo vento ou cair por minha própria vertigem, e vir rolando de volta da cumeeira para os beirais; mas um rapaz honesto, um dos lacaios da minha babá, subiu e, colocando-me no bolso de suas calças, trouxe-me para baixo em segurança.
Eu estava tão fraco e machucado nas laterais pelos apertos dados por esse animal odioso, que fui forçado a ficar de cama por quinze dias. O rei, a rainha e toda a corte enviavam notícias todos os dias para saber da minha saúde, e sua majestade fez-me várias visitas durante minha doença. O macaco foi morto e foi dada uma ordem para que nenhum animal daquele tipo fosse mantido nas redondezas do palácio.
Quando me apresentei ao rei, após minha recuperação, para agradecer-lhe por seus favores, ele teve a gentileza de zombar bastante de mim sobre essa aventura. Perguntou-me quais eram meus pensamentos e especulações enquanto eu jazia na pata do macaco. Quis saber o que eu teria feito em tal ocasião em meu próprio país. Disse a sua majestade que na Europa não tínhamos macacos, exceto aqueles trazidos como curiosidades de outros lugares, e tão pequenos que eu poderia lidar com uma dúzia deles ao mesmo tempo se ousassem me atacar. E quanto àquele animal monstruoso com quem me envolvi tão recentemente (era, de fato, tão grande quanto um elefante), se meus medos tivessem me permitido pensar a ponto de usar minha espada (olhando ferozmente e batendo com a mão no punho, enquanto falava), quando ele enfiou a pata no meu aposento, talvez eu lhe tivesse causado tal ferida que o teria feito feliz em retirá-la com mais pressa do que a colocou. Disse isso em tom firme, como uma pessoa que se preocupava que sua coragem fosse colocada em questão.
No entanto, meu discurso não produziu nada além de uma sonora gargalhada, que todo o respeito devido a sua majestade por aqueles ao seu redor não pôde fazer com que contivessem. Isso me fez refletir sobre quão vã é a tentativa de um homem de tentar se honrar entre aqueles que estão fora de qualquer grau de igualdade ou comparação com ele. E, no entanto, vi a moral do meu próprio comportamento ser muito frequente na Inglaterra desde meu retorno, onde um pequeno canalha desprezível, sem o menor título de nascimento, pessoa, inteligência ou bom senso, se atreve a olhar com importância e se colocar em pé de igualdade com as maiores personalidades do reino.
Eu estava todos os dias fornecendo à corte alguma história ridícula; e Glumdalclitch, embora me amasse ao excesso, era astuta o suficiente para informar à rainha sempre que eu cometia alguma loucura que ela achasse que seria divertida para sua majestade. A menina, que não estava passando bem, foi levada por sua governanta para tomar ar a cerca de uma hora de distância, ou trinta milhas da cidade. Desceram da carruagem perto de uma pequena trilha em um campo, e, Glumdalclitch colocando minha caixa de viagem no chão, saí dela para caminhar. Havia uma poça de lama no caminho, e eu tive que tentar minha agilidade tentando saltar sobre ela. Tomei distância, mas infelizmente pulei curto e me vi exatamente no meio, com lama até os joelhos. Atravessei com alguma dificuldade, e um dos lacaios me limpou o melhor que pôde com seu lenço, pois eu estava imundamente enlameado; e minha babá me confinou à minha caixa até voltarmos para casa, quando a rainha foi logo informada do que havia acontecido, e o lacaio espalhou o fato pela corte; de modo que toda a alegria por alguns dias foi às minhas custas.
CAPÍTULO VI.
VÁRIOS ARTEFÁCIOS DO AUTOR PARA AGRADAR AO REI E À RAINHA. ELE MOSTRA SUA HABILIDADE NA MÚSICA. O REI INQUERE SOBRE O ESTADO DA INGLATERRA, O QUE O AUTOR LHE RELATA. AS OBSERVAÇÕES DO REI SOBRE ISSO.
Eu costumava comparecer à recepção do rei uma ou duas vezes por semana, e muitas vezes o tinha visto sob a mão do barbeiro, o que, de fato, era a princípio muito terrível de se ver; pois a navalha tinha quase o dobro do comprimento de uma foice comum. Sua majestade, de acordo com o costume do país, só fazia a barba duas vezes por semana. Uma vez convenci o barbeiro a me dar um pouco da espuma ou sabão, de onde colhi quarenta ou cinquenta dos cotos de cabelo mais fortes, então peguei um pedaço de madeira fina e cortei-o como o dorso de um pente, fazendo vários furos nele a distâncias iguais com uma agulha tão fina quanto pude conseguir com Glumdalclitch. Fixei os cotos tão artificialmente, raspando-os e inclinando-os com minha faca em direção às pontas, que fiz um pente muito tolerável; o que foi um suprimento oportuno, sendo o meu tão quebrado nos dentes que era quase inútil: nem conhecia nenhum artista naquele país tão meticuloso e exato que se dispusesse a fazer outro para mim.
E isso me faz lembrar de um passatempo no qual passei muitas das minhas horas de lazer. Pedi à criada da rainha que guardasse para mim os fios do cabelo de sua majestade, dos quais com o tempo consegui uma boa quantidade; e consultando meu amigo, o marceneiro, que tinha recebido ordens gerais para fazer pequenos trabalhos para mim, instruí-o a fazer duas estruturas de cadeira, não maiores do que as que eu tinha na minha caixa, e então a furar pequenos buracos com um furador fino ao redor daquelas partes onde eu projetava os encostos e assentos; através desses buracos teci os cabelos mais fortes que pude escolher, exatamente da maneira das cadeiras de palha na Inglaterra. Quando ficaram prontas, presenteei-as a sua majestade, que as guardava em seu gabinete e costumava mostrá-las como curiosidades, como de fato eram a maravilha de todos que as contemplavam. Desses cabelos (como eu sempre tive um gênio mecânico) fiz também uma pequena bolsa elegante, com cerca de cinco pés de comprimento, com o nome de sua majestade decifrado em letras de ouro, que dei a Glumdalclitch, com o consentimento da rainha. Para dizer a verdade, era mais para exibição do que para uso, não tendo força para suportar o peso das moedas maiores, e por isso ela não guardava nada nela, exceto algumas pequenas moedas que as meninas adoram.
O rei, que se deleitava com a música, tinha concertos frequentes na corte, aos quais eu era às vezes levado e colocado em minha caixa sobre uma mesa para ouvi-los; mas o ruído era tão grande que eu mal conseguia distinguir as melodias. Estou convencido de que todos os tambores e trombetas de um exército real batendo e soando juntos bem perto de seus ouvidos não poderiam igualar aquilo. Minha prática era ter minha caixa removida do lugar onde os músicos se sentavam, o mais longe que eu pudesse, depois fechar as portas e janelas dela e puxar as cortinas das janelas, após o que descobri que a música deles não era desagradável.
Eu tinha aprendido na minha juventude a tocar um pouco de espineta. Glumdalclitch mantinha uma em seu quarto, e um mestre comparecia duas vezes por semana para ensiná-la. Chamei-a de espineta, porque se assemelhava um pouco a esse instrumento e era tocada da mesma maneira.
Veio-me à cabeça que eu divertiria o rei e a rainha com uma melodia inglesa neste instrumento. Mas isso parecia extremamente difícil; pois a espineta tinha quase sessenta pés de comprimento, cada tecla com quase um pé de largura, de modo que com meus braços estendidos eu não conseguia alcançar mais do que cinco teclas, e pressioná-las exigia um golpe bem forte com meu punho, o que seria um trabalho muito grande e inútil. O método que planejei foi este: preparei dois bastões redondos, do tamanho de cacetes comuns; eram mais grossos em uma extremidade do que na outra, e cobri as extremidades mais grossas com um pedaço de pele de camundongo, para que, batendo nelas, eu não danificasse o topo das teclas nem interrompesse o som. Diante da espineta, um banco foi colocado a cerca de quatro pés abaixo das teclas, e fui colocado sobre o banco. Corri de lado nele para lá e para cá o mais rápido que pude, batendo nas teclas apropriadas com meus dois bastões, e dei um jeito de tocar uma giga para grande satisfação de ambas as majestades; mas foi o exercício mais violento que já fiz, e ainda assim não consegui bater em mais de dezesseis teclas, nem consequentemente tocar o baixo e o agudo juntos como fazem outros artistas, o que foi uma grande desvantagem para minha performance.
O rei, que, como observei antes, era um príncipe de excelente entendimento, ordenava frequentemente que eu fosse trazido em minha caixa e colocado sobre a mesa em seu gabinete. Ele então me ordenava que tirasse uma das minhas cadeiras da caixa e me sentasse a uma distância de três jardas sobre o topo do móvel, o que me trazia quase ao nível de seu rosto. Desta maneira, tive várias conversas com ele. Um dia tomei a liberdade de dizer a sua majestade que o desprezo que ele demonstrava pela Europa e pelo resto do mundo não parecia condizente com aquelas excelentes qualidades de espírito que ele possuía; que a razão não se estendia com o volume do corpo; pelo contrário, observávamos em nosso país que as pessoas mais altas geralmente eram as menos providas dela. Que, entre outros animais, as abelhas e as formigas tinham a reputação de mais indústria, arte e sagacidade do que muitos dos tipos maiores; e que, por mais insignificante que ele me considerasse, esperava que eu pudesse viver para prestar a sua majestade algum serviço notável. O rei me ouviu com atenção e começou a conceber uma opinião muito melhor de mim do que jamais tivera antes. Ele desejava que eu lhe desse um relato tão exato quanto possível sobre o governo da Inglaterra, porque, por mais afeiçoados que os príncipes geralmente sejam aos seus próprios costumes (pois ele conjeturava sobre outros monarcas por meus discursos anteriores), ele ficaria feliz em ouvir algo que pudesse merecer imitação.
Imagina contigo mesmo, cortês leitor, quantas vezes desejei então a língua de Demóstenes ou Cícero, que poderia ter me capacitado a celebrar o louvor da minha própria e querida terra natal, em um estilo igual aos seus méritos e felicidade.
Comecei meu discurso informando a sua majestade que nossos domínios consistiam em duas ilhas, que compunham três poderosos reinos, sob um soberano, além de nossas plantações na América. Demorei-me longamente sobre a fertilidade do nosso solo e a temperança do nosso clima. Falei então extensamente sobre a constituição de um parlamento inglês, parcialmente composto por um corpo ilustre, chamado Câmara dos Lordes, pessoas do mais nobre sangue e dos mais antigos e amplos patrimônios. Descrevi aquele cuidado extraordinário sempre tomado com sua educação nas artes e nas armas, para qualificá-los como conselheiros tanto do rei quanto do reino; para ter uma participação no poder legislativo; para ser membros da mais alta corte de justiça, da qual não poderia haver apelação; e para serem campeões sempre prontos para a defesa de seu príncipe e país, por seu valor, conduta e fidelidade. Que estes eram o ornamento e o baluarte do reino, dignos seguidores de seus ancestrais mais renomados, cuja honra tinha sido a recompensa de sua virtude, da qual nunca se soube que seus descendentes degenerassem. A estes juntavam-se várias pessoas santas, como parte daquela assembleia, sob o título de bispos, cujo negócio peculiar é cuidar da religião e daqueles que instruem o povo nela. Estes eram pesquisados e procurados por toda a nação, pelo príncipe e seus mais sábios conselheiros, entre aqueles do sacerdócio que eram mais merecidamente distinguidos pela santidade de suas vidas e pela profundidade de sua erudição, que eram, de fato, os pais espirituais do clero e do povo.
Que a outra parte do parlamento consistia em uma assembleia, chamada Câmara dos Comuns, que eram todos cavalheiros principais, livremente escolhidos e selecionados pelo próprio povo, por suas grandes habilidades e amor ao seu país, para representar a sabedoria de toda a nação. E que esses dois corpos compunham a assembleia mais augusta da Europa, a quem, em conjunto com o príncipe, é cometido todo o poder legislativo.
Desci então aos tribunais de justiça, sobre os quais presidiam os juízes, aqueles veneráveis sábios e intérpretes da lei, para determinar os direitos e propriedades disputados dos homens, bem como para a punição do vício e proteção da inocência. Mencionei a gestão prudente do nosso tesouro, o valor e as conquistas das nossas forças por mar e terra. Calculei o número do nosso povo, contabilizando quantos milhões poderia haver de cada seita religiosa ou partido político entre nós. Não omiti nem mesmo os nossos esportes e passatempos, ou qualquer outro detalhe, que pensei pudesse redundar em honra ao meu país. E terminei tudo com um breve relato histórico dos assuntos e eventos na Inglaterra nos últimos cem anos.
Esta conversa não terminou em menos de cinco audiências, cada uma de várias horas; e o rei ouviu tudo com grande atenção, frequentemente fazendo anotações do que eu dizia, bem como memorandos de quais perguntas ele pretendia me fazer.
Quando pus termo a estes longos discursos, sua majestade, em uma sexta audiência, consultando as suas notas, propôs muitas dúvidas, questões e objeções sobre cada artigo. Perguntou que métodos eram usados para cultivar as mentes e corpos da nossa jovem nobreza, e em que tipo de ocupações costumavam passar a primeira e mais maleável parte de suas vidas? Que curso era tomado para suprir aquela assembleia quando alguma família nobre se extinguia? Que qualificações eram necessárias naqueles que haviam de ser criados novos lordes; se o humor do príncipe, uma soma de dinheiro a uma dama da corte como primeiro-ministro, ou um desígnio de fortalecer um partido oposto ao interesse público, ocorriam alguma vez como motivos nessas promoções? Que parte de conhecimento esses lordes tinham nas leis de seu país, e como o obtinham, de modo a capacitá-los a decidir sobre as propriedades de seus concidadãos em última instância? Se eram sempre tão livres de avareza, parcialidades ou necessidades, que um suborno ou alguma outra visão sinistra não pudesse ter lugar entre eles? Se aqueles santos lordes de quem falei eram sempre promovidos a esse posto por conta de seu conhecimento em assuntos religiosos e da santidade de suas vidas; se nunca tinham sido coniventes com os tempos enquanto eram sacerdotes comuns, ou capelães escravizados e prostituídos a algum nobre, cujas opiniões continuaram servilmente a seguir, depois de serem admitidos naquela assembleia?
Desejou então saber que artes eram praticadas na eleição daqueles que eu chamava de plebeus; se um estranho, com uma bolsa cheia, poderia não influenciar os votantes vulgares a escolhê-lo antes de seu próprio senhorio, ou do cavalheiro mais considerável da vizinhança? Como sucedia que as pessoas estivessem tão violentamente inclinadas a entrar nesta assembleia, a qual eu admitia ser um grande transtorno e despesa, muitas vezes para a ruína de suas famílias, sem qualquer salário ou pensão: porque isto parecia uma qualidade tão exaltada de virtude e espírito público, que sua majestade parecia duvidar que pudesse, por vezes, não ser sincera; e desejou saber se tais cavalheiros zelosos poderiam ter alguma visão de se reembolsarem pelas despesas e pelo trabalho que tinham, sacrificando o bem público aos desígnios de um príncipe fraco e vicioso, em conjunto com um ministério corrompido? Multiplicou as suas perguntas e examinou-me minuciosamente sobre cada parte deste tópico, propondo inumeráveis indagações e objeções, que não julgo prudente ou conveniente repetir.
Sobre o que disse em relação aos nossos tribunais de justiça, sua majestade desejou ser satisfeito em vários pontos; e isto fui mais capaz de fazer, tendo sido anteriormente quase arruinado por um longo processo na chancelaria, que foi sentenciado a meu favor com custos. Perguntou quanto tempo era habitualmente gasto a determinar entre o certo e o errado, e que grau de despesa? Se advogados e oradores tinham liberdade para pleitear em causas manifestamente conhecidas por serem injustas, vexatórias ou opressivas? Se o partido na religião ou na política era observado como tendo algum peso na balança da justiça? Se esses oradores que pleiteavam eram pessoas educadas no conhecimento geral da equidade, ou apenas em costumes provinciais, nacionais e outros locais? Se eles, ou os seus juízes, tinham alguma parte na redação daquelas leis que assumiam a liberdade de interpretar e glosar ao seu bel-prazer? Se alguma vez tinham, em diferentes momentos, pleiteado a favor ou contra a mesma causa, e citado precedentes para provar opiniões contrárias? Se eram uma corporação rica ou pobre? Se recebiam alguma recompensa pecuniária por pleitear ou emitir as suas opiniões? E, particularmente, se eram admitidos como membros no senado inferior?
Passou depois à gestão do nosso tesouro, e disse que pensava que a minha memória me tinha falhado, porque calculei os nossos impostos em cerca de cinco ou seis milhões por ano, e, quando mencionei as despesas, ele descobriu que por vezes montavam a mais do dobro; pois as notas que tinha tomado eram muito particulares neste ponto, porque esperava, como me disse, que o conhecimento da nossa conduta pudesse ser-lhe útil, e não podia estar enganado nos seus cálculos. Mas se o que eu lhe dizia era verdade, ele ainda não compreendia como um reino poderia esgotar o seu património como uma pessoa privada. Perguntou-me quem eram os nossos credores e onde arranjávamos meios para lhes pagar. Espantou-se ao ouvir-me falar de guerras tão onerosas e dispendiosas; que certamente devíamos ser um povo briguento, ou viver entre vizinhos muito maus, e que os nossos generais deviam ser mais ricos do que os nossos reis. Perguntou que negócios tínhamos fora das nossas ilhas, a não ser por conta de comércio ou tratado, ou para defender as costas com a nossa frota. Acima de tudo, ficou espantado ao ouvir-me falar de um exército mercenário permanente em plena paz e entre um povo livre. Disse que, se éramos governados pelo nosso próprio consentimento, nas pessoas dos nossos representantes, não conseguia imaginar de quem tínhamos medo, ou contra quem devíamos lutar; e queria ouvir a minha opinião sobre se a casa de um homem privado não poderia ser melhor defendida por ele mesmo, pelos seus filhos e família, do que por meia dúzia de patifes, apanhados ao acaso nas ruas por salários baixos, que poderiam ganhar cem vezes mais cortando-lhes a garganta?
Riu-se do meu estranho tipo de aritmética (como lhe aprouve chamar-lhe), ao contar o número do nosso povo por um cálculo extraído das várias seitas entre nós, na religião e na política. Disse que não conhecia qualquer razão pela qual aqueles que mantêm opiniões prejudiciais ao público devessem ser obrigados a mudá-las, ou não devessem ser obrigados a ocultá-las. E, assim como era tirania em qualquer governo exigir o primeiro, era fraqueza não forçar o segundo: pois um homem pode ter permissão para guardar venenos no seu armário, mas não para os vender por aí como tônicos.
Observou que, entre as diversões da nossa nobreza e cavalaria, eu tinha mencionado o jogo: desejou saber em que idade este entretenimento era habitualmente adotado, e quando era abandonado; quanto do seu tempo empregava: se alguma vez atingia um nível tal que afetasse as suas fortunas: se pessoas vis e mesquinhas, pela sua destreza nessa arte, não poderiam chegar a grandes riquezas, e por vezes manter os nossos próprios nobres na dependência, bem como habituá-los a companhias vis, afastando-os totalmente do aprimoramento das suas mentes, e forçando-os, pelas perdas que sofriam, a aprender e praticar essa infame destreza sobre os outros?
Ficou perfeitamente atônito com o relato histórico que lhe dei dos nossos assuntos durante o último século, protestando que era apenas um amontoado de conspirações, rebeliões, assassinatos, massacres, revoluções, banimentos, os piores efeitos que a avareza, a facção, a hipocrisia, a perfídia, a crueldade, a fúria, a loucura, o ódio, a inveja, a luxúria, a malícia e a ambição poderiam produzir.
Sua majestade, em outra audiência, teve o trabalho de recapitular a soma de tudo o que eu tinha dito; comparou as perguntas que fez com as respostas que eu tinha dado; então, tomando-me nas suas mãos e acariciando-me suavemente, expressou-se nestas palavras que nunca esquecerei, nem a maneira como as disse: "Meu pequeno amigo Grildrig, fizeste um panegírico admirável sobre o teu país; provaste claramente que a ignorância, a ociosidade e o vício são os ingredientes próprios para qualificar um legislador; que as leis são melhor explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujo interesse e habilidades residem em pervertê-las, confundi-las e iludi-las. Observo entre vós alguns traços de uma instituição que, na sua origem, poderia ter sido tolerável, mas estes estão meio apagados e o restante totalmente manchado e borrado por corrupções. Não transparece, de tudo o que disseste, como qualquer perfeição é necessária para a obtenção de qualquer cargo entre vós; muito menos que os homens sejam enobrecidos por conta da sua virtude, que os sacerdotes sejam promovidos pela sua piedade ou saber, os soldados pela sua conduta ou valor, os juízes pela sua integridade, os senadores pelo amor ao seu país, ou os conselheiros pela sua sabedoria. Quanto a ti mesmo", continuou o rei, "que passaste a maior parte da tua vida a viajar, estou bem disposto a esperar que possas até agora ter escapado a muitos vícios do teu país. Mas pelo que colhi do teu próprio relato, e das respostas que, com muito esforço, arranquei e extorqui de ti, não posso deixar de concluir que a massa dos teus nativos é a mais perniciosa raça de pequenos vermes odiosos que a natureza alguma vez permitiu rastejar sobre a superfície da terra."
CAPÍTULO VII
O AMOR DO AUTOR PELO SEU PAÍS. ELE FAZ UMA PROPOSTA DE MUITA VANTAGEM AO REI, QUE É REJEITADA. A GRANDE IGNORÂNCIA DO REI EM POLÍTICA. O SABER DAQUELE PAÍS MUITO IMPERFEITO E RESTRITO. AS LEIS, OS ASSUNTOS MILITARES E OS PARTIDOS NO ESTADO.
Nada senão um amor extremo pela verdade poderia ter-me impedido de ocultar esta parte da minha história. Foi em vão descobrir os meus ressentimentos, que eram sempre transformados em ridículo; e fui forçado a descansar com paciência, enquanto o meu nobre e amado país era tratado de forma tão injuriosa. Lamento tão sinceramente quanto qualquer dos meus leitores possa possivelmente lamentar que tal ocasião tenha sido dada: mas este príncipe aconteceu ser tão curioso e inquisitivo sobre cada particular, que não poderia condizer nem com a gratidão nem com as boas maneiras recusar-lhe dar a satisfação que eu era capaz. Contudo, pode-me ser permitido dizer, em minha própria defesa, que iludi astutamente muitas das suas perguntas e dei a cada ponto um rumo mais favorável, por muitos graus, do que a estrita verdade permitiria. Pois sempre tive aquela louvável parcialidade pelo meu próprio país, que Dionísio de Halicarnasso, com tanta justiça, recomenda a um historiador: eu ocultaria as fragilidades e deformidades da minha mãe política, e colocaria as suas virtudes e belezas na luz mais vantajosa. Este foi o meu esforço sincero, naqueles muitos discursos que tive com aquele monarca, embora tenha infelizmente falhado no sucesso.
Mas grandes concessões devem ser feitas a um rei que vive totalmente isolado do resto do mundo, e deve, portanto, estar totalmente desconhecido dos modos e costumes que mais prevalecem em outras nações: a falta desse conhecimento produzirá sempre muitos preconceitos, e uma certa estreiteza de pensamento, da qual nós e os países mais cultos da Europa estamos totalmente isentos. E seria deveras difícil se as noções de virtude e vício de um príncipe tão remoto fossem oferecidas como um padrão para toda a humanidade.
Para confirmar o que acabei de dizer, e para mostrar ainda mais os efeitos miseráveis de uma educação limitada, inserirei aqui uma passagem que dificilmente obterá crença. Na esperança de me tornar mais grato ao favor de sua majestade, contei-lhe sobre uma invenção descoberta entre trezentos e quatrocentos anos atrás, para fazer de um certo pó um monte, sobre o qual a menor faísca de fogo caindo acenderia tudo num momento, embora fosse tão grande como uma montanha, e faria tudo voar para o ar juntamente com um ruído e agitação maiores do que o trovão. Que uma quantidade apropriada deste pó, socada num tubo oco de latão ou ferro, conforme a sua grandeza, impulsionaria uma bala de ferro ou chumbo com tal violência e velocidade que nada era capaz de sustentar a sua força. Que as maiores balas assim disparadas não só destruiriam fileiras inteiras de um exército de uma só vez, mas demoliriam as muralhas mais fortes até ao chão, afundariam navios com mil homens em cada um até ao fundo do mar; e, quando ligados por uma corrente, cortariam mastros e cordames, dividiriam centenas de corpos pelo meio e deixariam tudo devastado diante deles. Que frequentemente colocávamos este pó em grandes balas ocas de ferro, e as disparávamos por um engenho contra alguma cidade que estivéssemos a cercar, o que rasgaria os pavimentos, despedaçaria as casas, rebentaria e lançaria estilhaços para todos os lados, esmagando os miolos de todos que se aproximassem. Que eu conhecia muito bem os ingredientes, que eram baratos e comuns; compreendia a maneira de os compor, e poderia instruir o seu artífice sobre como fazer esses tubos de um tamanho proporcional a todas as outras coisas no reino de sua majestade, e o maior não precisaria de ter mais de cem pés de comprimento; vinte ou trinta desses tubos, carregados com a quantidade apropriada de pó e balas, derrubariam as muralhas da cidade mais forte dos seus domínios em poucas horas, ou destruiriam a metrópole inteira se alguma vez pretendesse contestar as suas ordens absolutas. Ofereci isto humildemente a sua majestade como um pequeno tributo de reconhecimento, em troca de tantas marcas que recebi do seu favor e proteção reais.
O rei ficou tomado de horror com a descrição que lhe tinha dado daqueles terríveis engenhos, e com a proposta que lhe fizera. Espantou-se como um inseto tão impotente e rastejante como eu (estas foram as suas expressões) poderia entreter ideias tão desumanas, e de uma maneira tão familiar, a ponto de parecer totalmente imperturbável perante todas as cenas de sangue e desolação que eu pintei, como os efeitos comuns daquelas máquinas destrutivas, das quais, disse ele, algum gênio maligno, inimigo da humanidade, deve ter sido o primeiro inventor. Quanto a si próprio, protestou que, embora poucas coisas o deleitassem tanto quanto novas descobertas na arte ou na natureza, preferia perder metade do seu reino do que ter conhecimento de tal segredo, o qual me ordenou, se eu prezasse a minha vida, nunca mais mencionar.
Um efeito estranho de princípios estreitos e visões curtas! que um príncipe dotado de todas as qualidades que proporcionam veneração, amor e estima; de partes fortes, grande sabedoria e saber profundo, dotado de talentos admiráveis para o governo, e quase adorado pelos seus súditos, devesse, por um escrúpulo mesquinho e desnecessário, do qual na Europa não podemos ter concepção, deixar escapar uma oportunidade posta nas suas mãos, que o teria tornado mestre absoluto das vidas, das liberdades e das fortunas do seu povo. Nem digo isto com a menor intenção de diminuir as muitas virtudes daquele excelente rei, cujo caráter compreendo que será por esta razão muito diminuído na opinião de um leitor inglês; mas considero que este defeito entre eles surgiu da sua ignorância, por não terem até agora reduzido a política a uma ciência, como os engenhos mais agudos da Europa fizeram. Pois lembro-me muito bem, num discurso um dia com o rei, quando aconteceu dizer que havia vários milhares de livros entre nós, escritos sobre a arte do governo, isso deu-lhe (diretamente ao contrário da minha intenção) uma opinião muito mesquinha dos nossos entendimentos. Professou abominar e desprezar todo o mistério, refinamento e intriga, quer num príncipe ou num ministro. Ele não conseguia dizer o que eu queria significar por segredos de estado, onde um inimigo ou alguma nação rival não estivesse em causa. Limitou o conhecimento de governar dentro de limites muito estreitos, ao senso comum e à razão, à justiça e à clemência, à rápida determinação de causas civis e criminais, com alguns outros tópicos óbvios, que não valem a pena considerar. E deu como sua opinião que quem quer que pudesse fazer duas espigas de trigo, ou duas lâminas de erva crescer num pedaço de terra onde antes só crescia uma, mereceria mais da humanidade, e faria um serviço mais essencial ao seu país, do que toda a raça de políticos reunida.
O saber deste povo é muito defeituoso, consistindo apenas em moral, história, poesia e matemática, nas quais se deve admitir que se destacam. Mas a última destas é inteiramente aplicada ao que pode ser útil na vida, ao aprimoramento da agricultura e a todas as artes mecânicas; de modo que entre nós seria pouco estimada. E quanto a ideias, entidades, abstrações e transcendentais, nunca consegui introduzir a menor concepção nas suas cabeças.
Nenhuma lei daquele país deve exceder em palavras o número de letras no seu alfabeto, que consiste apenas em vinte e duas. Mas, na verdade, poucas delas estendem-se sequer até esse comprimento. São expressas nos termos mais simples e claros, nos quais aquelas pessoas não são mercuriais o suficiente para descobrir mais do que uma interpretação; e escrever um comentário sobre qualquer lei é um crime capital. Quanto à decisão de causas civis, ou processos contra criminosos, os seus precedentes são tão poucos, que têm pouca razão para se vangloriar de qualquer perícia extraordinária em qualquer um deles.
Têm a arte da impressão, tal como os chineses, desde tempos imemoriais: mas as suas bibliotecas não são muito grandes; pois a do rei, que é considerada a maior, não ascende a mais de mil volumes, colocados numa galeria de mil e duzentos pés de comprimento, de onde eu tinha liberdade para pedir emprestados os livros que quisesse. O marceneiro da rainha tinha concebido, num dos quartos de Glumdalclitch, uma espécie de máquina de madeira, de vinte e cinco pés de altura, formada como uma escada de mão; os degraus tinham cada um cinquenta pés de comprimento: era, de fato, uma escada móvel, a extremidade mais baixa colocada a dez pés de distância da parede da câmara. O livro que eu tinha vontade de ler era posto encostado à parede: eu montava primeiro ao degrau superior da escada, e virando o meu rosto para o livro, começava no topo da página, e assim andando para a direita e para a esquerda cerca de oito ou dez passos, conforme o comprimento das linhas, até ter chegado um pouco abaixo do nível dos meus olhos, e depois descendo gradualmente, até chegar ao fundo: após o que montava novamente, e começava a outra página da mesma maneira, e assim virava a folha, o que podia facilmente fazer com ambas as mãos, pois era tão grossa e rígida como cartão, e nos maiores fólios não tinha mais de dezoito ou vinte pés de comprimento.
O seu estilo é claro, masculino e suave, mas não florido; pois não evitam nada mais do que multiplicar palavras desnecessárias, ou usar expressões variadas. Examinei muitos dos seus livros, especialmente aqueles em história e moral. Entre outros, fui muito divertido com um pequeno tratado antigo, que ficava sempre no quarto de dormir de Glumdalclitch, e pertencia à sua governanta, uma senhora grave e idosa, que lidava com escritos de moral e devoção. O livro trata da fraqueza do gênero humano, e é de pouca estima, exceto entre as mulheres e o vulgo. Contudo, fiquei curioso por ver o que um autor daquele país poderia dizer sobre tal assunto.
Este escritor percorreu todos os temas habituais dos moralistas europeus, demonstrando quão diminuto, desprezível e desamparado era o animal que é o homem em sua própria natureza; quão incapaz de se defender das inclemências do ar, ou da fúria das feras selvagens; quão superado era por uma criatura em força, por outra em velocidade, por uma terceira em previdência, por uma quarta em indústria. Acrescentou que a natureza degenerou nestas últimas épocas decadentes do mundo, e que agora só poderia produzir pequenos nascimentos, em comparação com aqueles dos tempos antigos. Disse ser muito razoável pensar, não apenas que a espécie humana era originalmente muito maior, mas também que deve ter havido gigantes em eras passadas; o que, conforme afirmado pela história e pela tradição, tem sido confirmado por ossos e crânios enormes, casualmente desenterrados em várias partes do reino, excedendo em muito a raça comum e definhada do homem em nossos dias. Argumentou que as próprias leis da natureza exigiam absolutamente que tivéssemos sido feitos no início com um tamanho maior e mais robusto, não tão sujeito à destruição por qualquer pequeno acidente, como uma telha caindo de uma casa, ou uma pedra atirada pela mão de um menino, ou o afogamento em um pequeno riacho. Desta forma de raciocinar, o autor extraiu várias aplicações morais, úteis na condução da vida, mas desnecessárias de repetir aqui. Pela minha própria parte, não pude evitar refletir sobre quão universalmente este talento estava espalhado, de extrair lições de moral, ou, na verdade, antes matéria de descontentamento e queixas, das disputas que levantamos contra a natureza. E creio que, após uma investigação rigorosa, essas disputas poderiam ser demonstradas como sendo tão infundadas entre nós quanto o são entre aquele povo.
Quanto aos seus assuntos militares, vangloriam-se de que o exército do rei consiste em cento e setenta e seis mil soldados de infantaria e trinta e dois mil de cavalaria: se é que se pode chamar de exército o que é composto por comerciantes nas várias cidades e fazendeiros no campo, cujos comandantes são apenas a nobreza e a pequena nobreza, sem pagamento ou recompensa. Eles são, na verdade, bastante perfeitos em seus exercícios e sob muito boa disciplina, nos quais não vi grande mérito; pois como poderia ser de outra forma, onde cada fazendeiro está sob o comando de seu próprio senhorio, e cada cidadão sob o dos principais homens de sua própria cidade, escolhidos à maneira de Veneza, por votação?
Vi muitas vezes a milícia de Lorbrulgrud exercitar-se em um grande campo, perto da cidade, de vinte milhas quadradas. Ao todo, não passavam de vinte e cinco mil soldados de infantaria e seis mil de cavalaria: mas era-me impossível computar seu número, considerando o espaço de terreno que ocupavam. Um cavaleiro, montado em um corcel grande, poderia ter cerca de noventa pés de altura. Vi todo este corpo de cavalaria, a uma palavra de comando, desembainhar suas espadas de uma só vez e brandi-las no ar. A imaginação não pode conceber nada tão grandioso, tão surpreendente e tão assombroso! Parecia que dez mil relâmpagos estavam a dardear ao mesmo tempo de todos os quadrantes do céu.
Eu estava curioso para saber como este príncipe, a cujos domínios não há acesso de nenhum outro país, pensou em exércitos, ou em ensinar ao seu povo a prática da disciplina militar. Mas fui logo informado, tanto pela conversação quanto pela leitura de suas histórias: pois, no curso de muitas eras, eles foram perturbados pela mesma doença a que toda a raça humana está sujeita; a nobreza frequentemente lutando pelo poder, o povo pela liberdade, e o rei pelo domínio absoluto. Tudo o que, no entanto, felizmente temperado pelas leis daquele reino, tem sido por vezes violado por cada uma das três partes, e ocasionou mais de uma vez guerras civis, a última das quais foi felizmente encerrada pelo avô deste príncipe, em uma composição geral; e a milícia, então estabelecida com consentimento comum, tem desde então sido mantida no dever mais estrito.
CAPÍTULO VIII
O REI E A RAINHA FAZEM UMA VIAGEM ÀS FRONTEIRAS. O AUTOR ACOMPANHA-OS. A MANEIRA PELA QUAL ELE DEIXA O PAÍS É MUITO PARTICULARMENTE RELATADA. ELE RETORNA À INGLATERRA.
Eu sempre tive um forte impulso de que algum dia recuperaria minha liberdade, embora fosse impossível conjeturar por quais meios, ou formar qualquer projeto com a mínima esperança de sucesso. O navio em que naveguei foi o primeiro que se soube ter sido conduzido à vista da costa; e o rei deu ordens estritas de que, se a qualquer momento outro aparecesse, deveria ser levado à terra e, com toda a sua tripulação e passageiros, trazido em uma carroça para Lorbrulgrud. Fui tratado com muita bondade: eu era o favorito de um grande rei e rainha, e o deleite de toda a corte; mas era em uma base que pouco condizia com a dignidade da espécie humana. Eu nunca poderia esquecer aqueles laços domésticos que deixei para trás. Eu queria estar entre pessoas com quem pudesse conversar em termos de igualdade, e caminhar pelas ruas e campos, sem medo de ser pisoteado até a morte como um sapo ou um filhote de cachorro. Mas minha libertação veio mais cedo do que eu esperava, e de uma maneira não muito comum: a história toda e as circunstâncias da qual relatarei fielmente.
Eu estava agora há dois anos neste país; e, por volta do início do terceiro, Glumdalclitch e eu acompanhamos o rei e a rainha em uma viagem à costa sul do reino. Eu era carregado, como de costume, em minha caixa de viagem, que, como já descrevi, era um armário muito conveniente de doze pés de largura. E ordenei que uma rede fosse fixada por cordas de seda nos quatro cantos do topo, para amortecer os solavancos, quando um servo me carregava diante de si a cavalo, como às vezes eu desejava, e frequentemente dormia em minha rede enquanto estávamos na estrada. No teto do meu armário, não diretamente sobre o meio da rede, ordenei ao marceneiro que cortasse um buraco de um pé quadrado, para me dar ar no tempo quente enquanto eu dormia, buraco este que eu fechava à vontade com uma tábua que corria para trás e para a frente através de uma ranhura.
Quando chegamos ao nosso destino, o rei achou por bem passar alguns dias em um palácio que possui perto de Flanflasnic, uma cidade a dezoito milhas inglesas da beira-mar. Glumdalclitch e eu estávamos muito fatigados; eu tinha pegado um pequeno resfriado, mas a pobre menina estava tão doente a ponto de ficar confinada ao seu quarto. Eu ansiava por ver o oceano, que deveria ser o único cenário da minha fuga, se ela algum dia acontecesse. Fingi estar pior do que realmente estava, e pedi permissão para tomar o ar fresco do mar com um pajem, de quem eu gostava muito, e que às vezes tinha sido confiado a mim. Nunca esquecerei com quanta relutância Glumdalclitch consentiu, nem a estrita recomendação que ela deu ao pajem para ser cuidadoso comigo, irrompendo ao mesmo tempo em um dilúvio de lágrimas, como se tivesse algum pressentimento do que iria acontecer.
O rapaz levou-me na minha caixa a cerca de meia hora de caminhada do palácio em direção às rochas na beira-mar. Ordenei-lhe que me pusesse no chão e, levantando uma das minhas janelas, lancei muitos olhares melancólicos em direção ao mar. Não me senti muito bem e disse ao pajem que tinha vontade de tirar uma soneca na minha rede, o que esperava que me fizesse bem. Entrei, e o rapaz fechou a janela firmemente para manter o frio fora. Logo adormeci, e tudo o que posso conjeturar é que, enquanto eu dormia, o pajem, pensando que nenhum perigo poderia acontecer, foi entre as rochas procurar ovos de pássaros, tendo-o observado antes das minhas janelas procurando por ali, e apanhando um ou dois nas fendas. Seja como for, encontrei-me subitamente acordado com um puxão violento no anel, que estava preso no topo da minha caixa para a conveniência do transporte. Senti minha caixa elevada muito alto no ar e depois levada para a frente com velocidade prodigiosa. O primeiro solavanco quase me sacudiu para fora da minha rede, mas depois o movimento foi bastante suave. Chamei várias vezes, tão alto quanto pude elevar minha voz, mas tudo em vão. Olhei para as minhas janelas e não pude ver nada além das nuvens e do céu. Ouvi um ruído logo acima da minha cabeça como o bater de asas, e então comecei a perceber a condição lamentável em que eu estava, que alguma águia tinha pegado o anel da minha caixa no seu bico, com a intenção de deixá-la cair sobre uma rocha como uma tartaruga em uma carapaça, e então arrancar meu corpo e devorá-lo; pois a sagacidade e o olfato desta ave permitiram-lhe descobrir sua presa a uma grande distância, embora melhor escondida do que eu poderia estar dentro de uma tábua de duas polegadas.
Em pouco tempo observei o ruído e o bater de asas aumentarem muito rapidamente, e minha caixa era jogada para cima e para baixo como um cartaz em um dia de vento. Ouvi vários estrondos ou golpes, como pensei, dados na águia (pois tenho certeza de que deve ter sido ela, que segurava o anel da minha caixa no bico), e então, de repente, senti-me caindo perpendicularmente para baixo por mais de um minuto, mas com tal rapidez incrível, que quase perdi o fôlego. Minha queda foi parada por um baque terrível, que soou mais alto aos meus ouvidos do que a catarata do Niágara; depois do que fiquei completamente no escuro por outro minuto, e então minha caixa começou a subir tão alto que pude ver a luz do topo das janelas. Percebi agora que tinha caído no mar. Minha caixa, pelo peso do meu corpo, dos bens que estavam dentro, e das largas placas de ferro fixadas para resistência nos quatro cantos do topo e do fundo, flutuava a cerca de cinco pés de profundidade na água. Eu supunha, e suponho, que a águia que voou com minha caixa foi perseguida por duas ou três outras, e forçada a me deixar cair enquanto se defendia contra o resto, que esperavam compartilhar a presa. As placas de ferro presas ao fundo da caixa (pois essas eram as mais fortes) preservaram o equilíbrio enquanto ela caía, e impediram que fosse quebrada na superfície da água. Cada junção dela era bem ranhurada, e a porta não se movia sobre dobradiças, mas para cima e para baixo como uma janela, o que mantinha meu armário tão apertado que pouquíssima água entrava. Saí com muita dificuldade da minha rede, tendo primeiro me aventurado a puxar minha tábua deslizante no teto já mencionada, planejada propositadamente para deixar entrar ar, por falta do qual me senti quase sufocado.
Quão frequentemente desejei então estar com minha querida Glumdalclitch, de quem uma única hora me tinha separado tanto. E posso dizer com verdade que, no meio dos meus próprios infortúnios, não pude deixar de lamentar minha pobre ama, a dor que ela sofreria pela minha perda, o desagrado da rainha e a ruína da sua fortuna. Talvez muitos viajantes não tenham estado sob maiores dificuldades e angústias do que eu naquele momento, esperando a cada instante ver minha caixa despedaçada, ou pelo menos virada pela primeira rajada violenta ou onda crescente. Uma brecha em um único vidro teria sido morte imediata; nem nada poderia ter preservado as janelas senão as fortes redes de arame colocadas no lado de fora contra acidentes em viagem. Vi a água filtrar-se por várias frestas, embora os vazamentos não fossem consideráveis, e tentei tapá-los o melhor que pude. Não fui capaz de levantar o teto do meu armário, o que, de outra forma, certamente teria feito, e me sentado em cima dele, onde poderia pelo menos preservar-me por algumas horas mais do que ficando fechado (como posso chamar) no porão. Ou, se escapasse destes perigos por um dia ou dois, o que poderia esperar senão uma morte miserável de frio e fome? Fiquei quatro horas nestas circunstâncias, esperando, e na verdade desejando, que cada momento fosse o meu último.
Já disse ao leitor que havia dois fortes grampos fixados naquele lado da minha caixa que não tinha janela, e nos quais o servo que costumava me carregar a cavalo colocaria um cinto de couro, e o afivelaria em sua cintura. Estando neste estado desconsolado, ouvi, ou pelo menos pensei ter ouvido, algum tipo de ruído de atrito naquele lado da minha caixa onde os grampos estavam fixados, e logo depois comecei a imaginar que a caixa estava sendo puxada ou rebocada no mar, pois agora e então sentia um tipo de puxão que fazia as ondas subirem perto do topo das minhas janelas, deixando-me quase no escuro. Isso me deu algumas esperanças fracas de alívio, embora eu não fosse capaz de imaginar como isso poderia ser realizado. Arrisquei-me a desparafusar uma das minhas cadeiras, que estavam sempre presas ao chão, e tendo feito um esforço duro para aparafusá-la novamente diretamente sob a tábua deslizante que eu tinha aberto recentemente, montei na cadeira e, colocando minha boca o mais perto que pude do buraco, pedi ajuda com uma voz alta e em todas as línguas que entendia. Então prendi meu lenço a uma vara que eu costumava carregar e, empurrando-a para fora pelo buraco, balancei-a várias vezes no ar, para que, se algum barco ou navio estivesse perto, os marinheiros pudessem conjeturar que algum mortal infeliz estava fechado na caixa.
Não encontrei efeito de tudo o que pude fazer, mas percebi claramente que meu armário estava sendo movido; e no espaço de uma hora ou mais, aquele lado da caixa onde estavam os grampos e não tinha janela bateu contra algo que era duro. Receei que fosse uma rocha e senti-me sacudido mais do que nunca. Ouvi claramente um ruído sobre a tampa do meu armário como o de um cabo, e o atrito dele enquanto passava pelo anel. Então senti-me içado gradualmente, pelo menos três pés mais alto do que estava antes. Pelo que empurrei novamente minha vara e lenço, pedindo ajuda até ficar quase rouco. Em resposta ao que ouvi um grande grito repetido três vezes, dando-me tais transportes de alegria como não podem ser concebidos senão por aqueles que os sentem. Ouvi agora um pisar sobre minha cabeça, e alguém chamando através do buraco com uma voz alta na língua inglesa: "Se houver alguém abaixo, que fale." Respondi que era um inglês, levado pela má sorte à maior calamidade que qualquer criatura já sofreu, e implorei por tudo o que era comovente para ser entregue da masmorra em que eu estava. A voz respondeu que eu estava seguro, pois minha caixa estava presa ao seu navio; e que o carpinteiro deveria vir imediatamente e serrar um buraco na tampa, grande o suficiente para me tirar. Respondi que isso era desnecessário, e tomaria tempo demais, pois não havia mais nada a fazer senão deixar que um dos tripulantes colocasse o dedo no anel e tirasse a caixa do mar para o navio, e assim para a cabine do capitão. Alguns deles, ao me ouvirem falar tão loucamente, pensaram que eu estava louco; outros riram; pois, na verdade, nunca me passou pela cabeça que eu estava agora entre pessoas da minha própria estatura e força. O carpinteiro veio, e em poucos minutos serrou uma passagem de cerca de quatro pés quadrados, depois baixou uma pequena escada na qual subi, e de lá fui levado para o navio em uma condição muito fraca.
Os marinheiros ficaram todos maravilhados e me fizeram mil perguntas, que eu não tinha inclinação para responder. Eu estava igualmente confuso à vista de tantos pigmeus, pois assim os tomei por serem, depois de ter por tanto tempo acostumado meus olhos aos objetos monstruosos que tinha deixado. Mas o capitão, Sr. Thomas Wilcocks, um homem honesto e digno de Shropshire, observando que eu estava prestes a desmaiar, levou-me para sua cabine, deu-me um cordial para me confortar e fez-me deitar em sua própria cama, aconselhando-me a descansar um pouco, do que eu tinha muita necessidade. Antes de dormir, dei-lhe a entender que tinha alguns móveis valiosos em minha caixa, bons demais para serem perdidos; uma rede fina, duas cadeiras bonitas, uma mesa e um gabinete. Que meu armário era forrado de todos os lados, ou melhor, acolchoado, com seda e algodão: que se ele deixasse um dos tripulantes trazer meu armário para sua cabine, eu abriria lá diante dele e lhe mostraria meus bens. O capitão, ouvindo-me proferir esses absurdos, concluiu que eu estava delirando: no entanto (suponho que para me pacificar), ele prometeu dar ordens como eu desejava, e subindo ao convés, enviou alguns de seus homens para o meu armário, de onde (como descobri depois) tiraram todos os meus bens e arrancaram o acolchoado; mas as cadeiras, o gabinete e a cama, estando parafusados ao chão, foram muito danificados pela ignorância dos marinheiros, que os arrancaram à força. Então eles arrancaram algumas das tábuas para o uso do navio, e quando conseguiram tudo o que queriam, deixaram o casco cair no mar, o que, devido a tantas brechas feitas no fundo e nas laterais, afundou-se imediatamente. E, na verdade, fiquei feliz por não ter sido espectador do estrago que fizeram; porque estou confiante de que isso teria me tocado sensivelmente, trazendo à minha mente passagens anteriores que eu preferia ter esquecido.
Dormi algumas horas, mas fui perpetuamente perturbado com sonhos do lugar que tinha deixado e dos perigos que tinha escapado. No entanto, ao acordar, encontrei-me muito recuperado. Eram cerca de oito horas da noite, e o capitão ordenou o jantar imediatamente, pensando que eu já tinha jejuado tempo demais. Ele me entreteve com grande bondade, observando que eu não parecia alucinado, nem falava de forma inconsistente; e quando ficamos sozinhos, desejou que eu lhe desse um relato das minhas viagens, e por qual acidente vim a ser deixado à deriva naquele monstruoso baú de madeira.
Ele disse que, por volta de meio-dia, enquanto observava através de sua luneta, avistou-o à distância e pensou que fosse uma vela, a qual teve a intenção de alcançar, não estando muito fora de seu curso, na esperança de comprar algum biscoito, pois o seu próprio começava a faltar. Que, ao aproximar-se e descobrir seu erro, enviou sua lancha para descobrir o que era; que seus homens voltaram assustados, jurando terem visto uma casa flutuante. Que ele riu de sua tolice e foi ele mesmo no barco, ordenando que seus homens levassem um cabo resistente consigo. Que, estando o tempo calmo, remou ao meu redor várias vezes, observou minhas janelas e as grades de arame que as defendiam. Que descobriu dois ganchos em um dos lados, que era todo de tábuas, sem qualquer abertura para a luz. Comandou então seus homens a remar até aquele lado e, prendendo um cabo a um dos ganchos, ordenou que rebocassem meu baú (como eles o chamavam) em direção ao navio. Quando lá chegou, deu instruções para prender outro cabo na argola fixada na tampa e elevar meu baú com roldanas, o que todos os marinheiros não conseguiram fazer mais do que dois ou três pés. Disse que viram minha bengala e meu lenço estendidos para fora do buraco e concluíram que algum infeliz deveria estar encerrado naquela cavidade. Perguntei se ele ou a tripulação tinham visto aves prodigiosas no ar por volta do momento em que me descobriram primeiro; ao que ele respondeu que, discutindo esse assunto com os marinheiros enquanto eu dormia, um deles disse ter observado três águias voando em direção ao norte, mas não notou que fossem maiores do que o tamanho habitual, o que suponho deva ser atribuído à grande altura em que estavam; e ele não pôde adivinhar a razão da minha pergunta. Perguntei então ao capitão a que distância ele calculava que estaríamos de terra.
Ele disse que, pelo melhor cálculo que pôde fazer, estávamos a pelo menos cem léguas. Assegurei-lhe que ele deveria estar enganado por quase a metade, pois não havia deixado o país de onde vim há mais de duas horas antes de cair no mar. Ao que ele começou novamente a pensar que meu juízo estava perturbado, do que me deu um sinal, e aconselhou-me a ir para a cama em uma cabine que havia providenciado. Assegurei-lhe que estava bem revigorado com sua boa hospitalidade e companhia, e tão em meu juízo quanto jamais estive em minha vida.
Ele então tornou-se sério e desejou perguntar-me livremente se eu não estava perturbado mentalmente pela consciência de algum crime enorme, pelo qual fui punido por ordem de algum príncipe, sendo exposto naquele baú, como grandes criminosos em outros países foram forçados ao mar em uma embarcação furada sem provisões; pois, embora lamentasse ter levado um homem tão mau para seu navio, ainda assim daria sua palavra de me deixar em segurança em terra no primeiro porto onde chegássemos. Acrescentou que suas suspeitas aumentaram muito por alguns discursos muito absurdos que eu havia proferido, primeiro aos seus marinheiros e, depois, a ele mesmo, em relação ao meu baú-armário, bem como pela minha aparência e comportamento estranhos enquanto eu jantava.
Implorei sua paciência para me ouvir contar minha história, o que fiz fielmente, desde a última vez que deixei a Inglaterra até o momento em que ele me descobriu pela primeira vez. E, como a verdade sempre força seu caminho nas mentes racionais, este honesto e digno cavalheiro, que tinha alguma tintura de instrução e muito bom senso, ficou imediatamente convencido da minha candura e veracidade. Mas, para confirmar ainda mais tudo o que eu havia dito, supliquei-lhe que desse ordem para que meu gabinete fosse trazido, do qual eu tinha a chave no bolso (pois ele já me havia informado como os marinheiros dispuseram meu armário). Abri-o na presença dele mesmo e mostrei-lhe a pequena coleção de raridades que fiz no país de onde fui tão estranhamente libertado. Lá estava o pente que eu havia improvisado com os tocos da barba do rei. Havia uma coleção de agulhas e alfinetes, de um pé a meio metro de comprimento; quatro ferrões de vespa, como tachas de marceneiro; alguns fios do cabelo da rainha; um anel de ouro, que um dia ela me deu de presente de uma maneira muito gentil, tirando-o de seu dedo mínimo e jogando-o sobre minha cabeça como um colar. Desejei que o capitão tivesse a bondade de aceitar este anel em retribuição às suas gentilezas, o que ele recusou absolutamente. Por último, pedi-lhe que visse as calças que eu usava então, que eram feitas da pele de um rato.
Não pude forçar nada sobre ele, exceto um dente de lacaio, que observei que ele examinou com grande curiosidade e descobri que ele tinha um interesse por ele. Recebeu-o com abundância de agradecimentos, mais do que tal ninharia poderia merecer. Foi extraído por um cirurgião inábil, por engano, de um dos homens de Glumdalclitch, que estava afetado por dor de dente, mas estava tão são quanto qualquer outro em sua cabeça. Limpei-o e coloquei-o em meu gabinete. Tinha cerca de um pé de comprimento e quatro polegadas de diâmetro.
O capitão ficou muito satisfeito com este relato simples que lhe dei e disse esperar que, quando retornássemos à Inglaterra, eu obrigasse o mundo colocando-o no papel e tornando-o público. Minha resposta foi que achava que já estávamos superabastecidos com livros de viagens; que nada poderia passar agora que não fosse extraordinário; nos quais eu duvidava que alguns autores consultassem menos a verdade do que sua própria vaidade, ou interesse, ou a diversão de leitores ignorantes; que minha história poderia conter pouco além de eventos comuns, sem aquelas descrições ornamentais de plantas, árvores, aves e outros animais estranhos; ou dos costumes bárbaros e idolatria de povos selvagens, com os quais a maioria dos escritores abunda. No entanto, agradeci-lhe pela boa opinião e prometi levar o assunto em consideração.
Ele disse que se maravilhava muito com uma coisa, que era ouvir-me falar tão alto, perguntando-me se o rei ou a rainha daquele país eram duros de ouvido. Disse-lhe que era ao que eu estava acostumado há mais de dois anos, e que eu me maravilhava tanto com as vozes dele e de seus homens, que me pareciam apenas sussurrar, e ainda assim eu podia ouvi-los bem o suficiente. Mas quando eu falava naquele país, era como um homem conversando na rua com outro que olhava do topo de um campanário, a menos que eu fosse colocado sobre uma mesa ou segurado na mão de qualquer pessoa. Disse-lhe que também havia observado outra coisa: que quando entrei pela primeira vez no navio, e os marinheiros estavam todos ao meu redor, pensei que eles eram as pequenas criaturas mais desprezíveis que eu já tinha visto. Pois, de fato, enquanto estive no país daquele príncipe, nunca pude suportar olhar em um espelho, depois que meus olhos se acostumaram a objetos tão prodigiosos, porque a comparação me dava uma concepção tão desprezível de mim mesmo. O capitão disse que, enquanto jantávamos, observou-me olhar para tudo com uma espécie de espanto, e que eu parecia muitas vezes mal conseguir conter o riso, o que ele não sabia bem como interpretar, mas atribuía a algum distúrbio em meu juízo. Respondi que era muito verdade, e que eu me perguntava como podia conter-me, quando via seus pratos do tamanho de uma moeda de três centavos de prata, uma perna de porco que mal dava uma bocada, uma xícara não maior que uma casca de noz, e assim continuei, descrevendo o restante de seus utensílios domésticos e provisões da mesma maneira. Pois, embora a rainha tivesse ordenado um pequeno equipamento de todas as coisas necessárias para mim, enquanto estive a seu serviço, minhas ideias estavam totalmente ocupadas com o que eu via de todos os lados, e eu fechava os olhos para minha própria pequenez, como as pessoas fazem com suas próprias falhas. O capitão entendeu muito bem minha pilhéria e respondeu alegremente que não observou meu apetite tão bom, embora eu tivesse jejuado o dia todo; e, continuando em sua alegria, protestou que teria dado alegremente cem libras para ter visto meu armário no bico da águia e, depois, em sua queda de tão grande altura no mar; o que certamente teria sido um objeto assombroso, digno de ter sua descrição transmitida às eras futuras: e a comparação de Faetonte era tão óbvia que ele não pôde deixar de aplicá-la, embora eu não admirasse muito a analogia.
O capitão, tendo estado em Tonquim, foi, em seu retorno à Inglaterra, levado para o nordeste, até a latitude de 44 graus e longitude de 143. Mas, encontrando um vento alísio dois dias depois que embarquei, navegamos para o sul por muito tempo e, costeando a Nova Holanda, mantivemos nosso curso a oeste-sudoeste, e depois sul-sudoeste, até dobrarmos o Cabo da Boa Esperança. Nossa viagem foi muito próspera, mas não incomodarei o leitor com um diário dela. O capitão fez escala em um ou dois portos e enviou sua lancha para provisões e água fresca, mas nunca saí do navio até chegarmos a Downs, o que foi no terceiro dia de junho de 1706, cerca de nove meses após minha fuga. Ofereci-me para deixar bens como garantia para o pagamento do meu frete, mas o capitão protestou que não receberia um centavo. Despedimo-nos gentilmente um do outro, e fiz com que ele prometesse vir visitar-me em minha casa em Redriff. Aluguei um cavalo e um guia por cinco xelins, que tomei emprestado do capitão.
Enquanto estava na estrada, observando a pequenez das casas, das árvores, do gado e das pessoas, comecei a pensar que estava em Lilliput. Tive medo de atropelar cada viajante que encontrava e muitas vezes chamava em voz alta para que saíssem do caminho, de modo que quase levei uma ou duas cabeçadas pela minha impertinência.
Quando cheguei à minha própria casa, sobre a qual fui forçado a perguntar, um dos criados abriu a porta; inclinei-me para entrar (como um ganso sob um portão), por medo de bater a cabeça. Minha esposa saiu correndo para me abraçar, mas me curvei mais baixo que seus joelhos, pensando que ela de outra forma nunca seria capaz de alcançar minha boca. Minha filha ajoelhou-se para pedir minha bênção, mas não pude vê-la até que ela se levantasse, tendo estado tanto tempo acostumado a ficar com a cabeça e os olhos erguidos a mais de sessenta pés; e então fui pegá-la com uma mão pela cintura. Olhei para os criados e para um ou dois amigos que estavam na casa como se fossem pigmeus e eu um gigante. Disse à minha esposa que ela tinha sido econômica demais, pois vi que ela tinha deixado a si mesma e à filha reduzidas a nada. Em suma, comportei-me de forma tão inexplicável que todos eles ficaram da opinião do capitão quando ele me viu pela primeira vez e concluíram que eu havia perdido o juízo. Menciono isto como um exemplo do grande poder do hábito e do preconceito.
Em pouco tempo, eu, minha família e meus amigos chegamos a um entendimento correto: mas minha esposa protestou que eu nunca mais deveria ir ao mar; embora meu destino maligno tenha ordenado de tal forma que ela não teve poder para me impedir, como o leitor poderá saber futuramente. Enquanto isso, concluo aqui a segunda parte de minhas viagens infelizes.
[90] Faetonte, um filho de Apolo que foi precipitado no rio Erídano por sua temeridade ao tentar conduzir os corcéis do sol por um dia.
ANÚNCIOS
Clássicos de Casa e Escola de Heath.
PARA AS SÉRIES I E II.
Mother Goose: Um Livro de Rimas Infantis, organizado por C. Welsh. Em duas partes. Ilustrado por Clara E. Atwood. Brochura, cada parte, 10 centavos; capa dura, duas partes encadernadas em uma, 30 centavos.
So Fat and Mew Mew, de Craik. Introdução de Lucy M. Wheelock. Ilustrado por C.M. Howard. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
Seis Clássicos Infantis. The House That Jack Built, Mother Hubbard, Cock Robin, The Old Woman and Her Pig, Dame Wiggins of Lee e The Three Bears. Editado por M.V. O'Shea. Ilustrado por Ernest Fosbery. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
PARA AS SÉRIES II E III.
Crib and Fly: Um Conto de Dois Terriers. Editado por Charles F. Dole. Ilustrado por Gwendoline Sandham. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
Goody Two Shoes. Atribuído a Oliver Goldsmith. Editado por Charles Welsh. Com vinte e oito ilustrações baseadas nas xilogravuras da edição original de 1765. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
The Story of a Donkey, de Ségur. Traduzido por C. Welsh. Editado por Charles F. Dole. Ilustrado por E.H. Saunders. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
PARA AS SÉRIES III E IV.
The History of the Robins, de Trimmer. Editado por Edward Everett Hale. Ilustrado por C.M. Howard. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
Eyes and No Eyes, and Other Stories, de Aiken e Barbauld. Editado por M. V. O'Shea. Ilustrado por H.P. Barnes e C.M. Howard. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
Waste Not Want Not, and Other Stories, de Edgeworth. Editado por M.V. O'Shea. Ilustrado por W.P. Bodwell. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
The King of the Golden River, de Ruskin. Editado por M.V. O'Shea. Ilustrado por Sears Gallagher. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
The Wonderful Chair and The Tales It Told, de Browne. Editado por M.V. O'Shea. Ilustrado por Clara E. Atwood, baseado em Mrs. Seymour Lucas. Em duas partes. Brochura, cada parte, 10 centavos; capa dura, duas partes encadernadas em uma, 30 centavos.
PARA AS SÉRIES IV E V.
The Rose and the Ring, A Fairy Tale, de Thackeray. Editado por Edward Everett Hale. Ilustrações de Thackeray. Brochura, 15 centavos; capa dura, 25 centavos.
Three Fairy Stories, de Ingelow. Editado por Charles F. Dole. Ilustrado por E. Ripley. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
Child Life in Japan and Japanese Child Stories, de Ayrton. Editado por William Elliot Griffis. Ilustrado por artistas japoneses. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
Jackanapes, de Ewing. Editado por W.P. Trent. Ilustrado por Josephine Bruce. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
The Little Lame Prince, de Muloch. Prefácio de Elizabeth Stuart Phelps Ward. Ilustrado por Miss E.B. Barry. Em duas partes. Brochura, cada parte, 10 centavos; capa dura, duas partes encadernadas em uma, 30 centavos.
PARA AS SÉRIES V E VI.
The Adventures of Ulysses, de Lamb. Editado por W.P. Trent. Ilustrações baseadas em Flamman. Brochura, 15 centavos; capa dura, 25 centavos.
Gulliver's Travels. I. A Voyage to Lilliput. II. A Voyage to Brobdingnag. Editado por T.M. Balliet. Totalmente ilustrado. Em duas partes. Brochura, cada parte, 15 centavos; capa dura, duas partes encadernadas em uma, 30 centavos.
The Story of a Short Life, de Ewing. Editado por T.M. Balliet. Ilustrado por A.F. Schmitt. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
Tales From the Travels of Baron Munchausen. Editado por Edward Everett Hale. Ilustrado por H.P. Barnes, baseado em Doré. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
The Little Lame Prince, de Muloch. Prefácio de Elizabeth Stuart Phelps Ward. Ilustrado por Miss E.B. Barry. Em duas partes. Brochura, cada parte, 10 centavos; capa dura, duas partes encadernadas em uma, 30 centavos.
PARA AS SÉRIES VI E VII.
Tales From Shakespeare, de Lamb. Introdução de Elizabeth Stuart Phelps Ward. Ilustrado por Homer W. Colby, baseado em Pille. Em três partes. Brochura, cada parte, 15 centavos; capa dura, três partes encadernadas em uma, 40 centavos.
The Crofton Boys, de Martineau. Editado por William Elliot Griffis. Ilustrado por A.F. Schmitt. Capa dura, 30 centavos.
The Siege Of Leyden, de Motley. Editado por William Elliot Griffis. Com dezenove ilustrações de gravuras antigas e fotografias, e um mapa. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
Rab and His Friends and Other Stories of Dogs, de Brown. Editado por T.M. Balliet. Ilustrado por David L. Munroe, baseado em Sir Noel Paton, Mrs. Blackburn, George Hardy e Lumb Stocks. Brochura, 10 centavos; capa dura, 20 centavos.
PARA AS SÉRIES VII, VIII E IX.
Chapters on Animals: Dogs, Cats and Horses, de Hamerton. Editado por W.P. Trent. Ilustrado baseado em Sir E. Landseer, Sir John Millais, Rosa Bonheur, E. Van Muyder, Veyrassat, J.L. Gerome, K. Bodmer, etc. Brochura, 15 centavos; capa dura, 25 centavos.
Dolph Heyliger, de Irving. Editado por G.H. Browne. Ilustrado por H.P. Barnes. Brochura, 15 centavos; capa dura, 25 centavos.
The Tempest, de Shakespeare. Editado por Sarah W. Hiestand. Ilustrações baseadas em Retzch e no retrato Chandos. Brochura, 15 centavos; capa dura, 25 centavos.
A Midsummer Night's Dream, de Shakespeare. Editado por Sarah W. Hiestand. Ilustrações baseadas em Smirke e no retrato Droeshout. Brochura, 15 centavos; capa dura, 25 centavos.
The Comedy of Errors, de Shakespeare. Editado por Sarah W. Hiestand. Ilustrações baseadas em Smirke, Creswick e Leslie. Brochura, 15 centavos; capa dura, 25 centavos.
The Winter's Tale, de Shakespeare. Editado por Sarah W. Hiestand. Ilustrações baseadas em Leslie, Wheatley e Wright. Brochura, 15 centavos; capa dura, 25 centavos.
Robinson Crusoe, de Defoe. Editado por Edward Everett Hale. Ilustrado. Em quatro partes. Brochura, cada parte, 15 centavos; capa dura, quatro partes encadernadas em uma, 60 centavos.
True Tales Of Birds and Beasts, de Jordan. Por David Starr Jordan. Ilustrado por Mary H. Wellman. Capa dura, 40 centavos.
Undine, de Fouqué. Introdução de Elizabeth Stuart Phelps Ward. Ilustrações baseadas em Julius Hoppner. Capa dura, 30 centavos.
Typee: Life in the South Seas, de Melville. Introdução de W.P. Trent. Ilustrado por H.W. Moore. Capa dura, 45 centavos.