Núm. 87
A EXPERIÊNCIA INGLESA
O Seu Registo em Livros Impressos Antigos Publicado em Fac-símile
(FRANCESCO COLONNA)
HYPNEROTOMACHIA
Londres 1592
Da Capo Press Theatrum Orbis Terrarum Ltd. Amesterdão 1969 Nova Iorque
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Os editores reconhecem a sua gratidão aos Curadores da Biblioteca Bodleiana, Oxford, pela sua permissão para reproduzir o exemplar da Biblioteca.
S.T.C. N.º 5577 Colação: A-Z (4o.), Aa-Cc (4o.)
Publicado em 1969 por Theatrum Orbis Terrarum Ltd., O. Z. Voorburgwal 85, Amesterdão & Da Capo Press : uma divisão da Plenum Publishing Corporation :
227 West 17th Street, Nova Iorque. 10011 Impresso nos Países Baixos
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HYPNEROTOMA- CHIA.
A Contenda do Amor em um Sonho.
Em Londres, Impresso para Simon Waterson, e para ser vendido na sua loja, em S. Paules Church- yard, em Cheape-gate.
1592.
ÀS TRÊS VEZES HO- NRÁVEIS E ETERNAMENTE VIVAS VIRTUDES DE SYR PHILLIP SYDNEY CAVALEIRO; E AOS MUITO HONRÁVEIS E A QUAISQUER OUTROS, QUE VIVOS O AMARAM, E SENDO MORTOS LHE DÃO O QUE É DEVIDO.
Ao Muito Honrável Robert Deuorax, Conde de Essex e Ewe, Visconde Hereford, e Bourghchier, Lorde Ferrers de Chartley, Bourghchier e Louaine, Mestre do Cavalo de Sua Majestade a Rainha, e Cavaleiro da mais nobre ordem da Jarreteira: Deseja-se, a perfeição de toda a felicidade, e triunfante felicidade nesta vida, e no mundo por vir.
Quando decidi (Muito Honrável) dedicar este Livro, às virtudes eternamente vivas daquele inigualável Cavaleiro Syr Phillip Sydney; pareceu-me que eu não poderia encontrar uma personagem mais Nobre do que a Vossa Senhoria, e mais apta, para patrocinar, proteger e defender o meu dever para com o morto, do que a Vossa Honra, cuja grandeza é tal, e virtudes de tal poder, que quem as louva, não merece ser considerado um adulador, mas aquele que não faz o mesmo, pode ser considerado um mal- querente. Como a Vossa Honra aceitará isto, não tenho dúvida, porque a cortesia acompanha a verdadeira nobreza; mas o meu humilde pedido é, que a Vossa Honra não pense de mim (pelo título do Livro, e alguma parte do discurso) como se eu fosse amoroso, e falasse de acordo com as minhas próprias paixões, pois eu, sendo privado da minha liberdade, e mantido na sepultura do esquecimento, onde ainda permaneço, oprimido pela Melancolia, e cansado de estudos mais profundos, fiquei feliz por enganar o tempo com estes conceitos, anatomizando neles, a vaidade desta vida, e a incerteza das suas delícias, no Sonho de Poliphilus; O qual se agradar à Vossa Honra em momento oportuno examinar, perdoando o que encontrar de errado, e pesando a minha boa vontade, considerar-me-ei o mais feliz.
E assim humildemente me despeço, até que possa apresentar à Vossa Honra, com um assunto mais adequado a ela.
O devoto de Vossa Honra,
R. D.
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Elegia do Anónimo ao Le- itor.
Cândido Leitor, que escutas Poliphilus a narrar sonhos, sonhos enviados do mais alto polo, Não perderás o teu esforço, não te arrependerás de ter ouvido isto, tão variado em coisas é a obra admirável. Se és grave e severo e desprezas o erótico, das coisas conhece, peço-te, a série tão bem disposta. Recusas? Mas ao menos o estilo e a nova língua e o novo discurso grave, a sabedoria, pedem que os contemples. Se isso também recusas, contempla as geométricas antigas muitas coisas aprende, repletas de notas milésimas. Aqui estão as Pirâmides, termas, e imensos Colossos, e a forma antiga dos Obeliscos se revela. Aqui brilha a base diversa, e variadas colunas e os seus arcos, Zóforos, epistílios, E capitéis e traves, e com o quadrante a coroação simetria, e tudo o que faz os tectos soberbos. Aqui verás os palácios cultivados dos reis, o culto das Ninfas, fontes, e egregíssimos banquetes. Daqui é a bicolor coreia dos ladrões, e expressa toda nas trevas Labirínticas a vida dos homens. Daqui lê sobre a tríplice majestade do tonante que diz, e nas portas agiu ele próprio três._ Polia _qual foi a forma, quão cultivada, triunfos de Júpiter contempla então quatro etéreos. Isto além de vários afectos narra do amor, e obras e quanto esse Deus se enfurece._
Faltas escapadas na impressão.
[Nota do Transcritor: As correções aqui listadas foram feitas no texto. Em muitos casos a forma impressa é diferente daquela mostrada em "faltas"; estas formas originais são dadas em [parênteses].]
+------+-------+-------+--------------------+---------------------+ | Fol. | página| linha | faltas. | correção. | | | | | | | | 1. | 2 | 38 | I begin of the | I began the | | 4. | 2 | 8 | member. | members. | | 6. | 1 | 12 | troake, | trunke, | | 6. | 2 | 3 | assured, | azur'd. | | 7. | 1 | 33 | fiing, [fying] | flying. | | 10 | 1 | 23 | Laborinth, | Laborinths. | | | | | [laborinth] | | | 10 | 2 | 20 | Palia. | Polia. | | 11 | 1 | 2 | foote, | fowre. | | 11 | 1 | 29 | cariec, [carreic] | carrier. | | | | | [carreic] | | | 11 | 2 | 3 | backs, [backes] | backe. | | 12 | 1 | 11 | pecee, [peeee] | peece. | | 13 | 1 | 3 | adolestency, | adolescency. | | | | | [adolestencie] | | | 13 | 1 | 5 | soliature. | foliature. | | 14 | 1 | 29 | stone, | sonne. | | 19 | 2 | 12 | soliature, | foliature. | | 19 | 2 | 25 | briganine, | brigandine. | | | | | [bryganine] | | | 19 | 2 | 39 | all. | off. | +------+-------+-------+--------------------+---------------------+
+------+-------+-------+--------------------+---------------------+ | Fol. | página| linha | faltas. | correção. | | | | | | | | 21 | 1 | 38 | subuaging, | suruaighing | | | | | [sub-/vaging | | | | | | at line break] | | | 21 | 2 | 2 | sardins, [Sardins] | sardius. | | 22 | 1 | 7 | vanubraces, | vaumbraces. | | | | | [Vanubraces] | | | 22 | 1 | 12 | coronie, [Coromie] | coronice. | | 22 | 2 | 18 | Daphus, | Daphne. | | 22 | 1 | 28 | chanifered, | chamfered. | | 22 | 1 | 30 | contract, | contrast. | | 22 | 2 | 29 | Aehanthis. | Achanthis. | | | | | [Aehanthus] | | | 23 | 1 | 12 | hapies, [Hapies] | Harpies. | | 23 | 1 | 15 | fishen, | fishie. | | 23 | 2 | 4 | did Anaglipts, | did y^e Anaglipts | | 23 | 2 | 5 | Briapis, | Briaxes. | | 24 | 2 | 22 | Andraene, | Andracine. | | | | | [Andraeme] | | | 24 | 2 | 32 | bel flowred | bell flowre. | | | | | fox gloue, | | | | | | [bell flowered | | | | | | Foxgloue] | | | 26 | 2 | 2 | menifis, | memphis. | | | | | [Meniphis] | | | 26 | 2 | 34 | which my, | which with my | | 28 | 2 | 8 | vastus, [vastues] | vastnes. | +------+-------+-------+--------------------+---------------------+
[Decoração]
Poliphili hypnerotomachia, Onde ele mostra, que todas as coisas humanas e mundanas não passam de um sonho, e apenas de vaidade em si mesma. Na exposição da qual muitas coisas são figuradas dignas de memória.
O Autor começa a sua Hypnerotomachia, para estabelecer a hora e o tempo em que no seu sono lhe pareceu que estava num quieto deserto solitário, e planície inabitada, e dali depois como ele entrou inadvertidamente antes de se aperceber, com grande medo, num bosque escuro, obscuro e pouco frequentado._
A descrição da manhã.
A que hora, como Phoebus[a] saindo para fora, embelezava com brilho a fronte de Leucothea[b], e aparecendo fora das ondas do Oceano, não mostrando completamente as suas rodas giratórias, que tinham sido penduradas, mas velozmente com os seus cavalos rápidos Pyrous e Eous[c], apressando o seu curso, e dando uma tintura às teias de Aranha, entre as folhas verdes e os espinhos tenros das Rosas Vermelhas, na perseguição das quais ele se mostrou mais veloz e cintilante, agora sobre as ondas que nunca descansam e sempre se movem, ele encrespou os seus cabelos irradiantes.
[Nota lateral a: Phoebus o Sol.]
[Nota lateral b: Leucothea a manhã.]
[Nota lateral c: Pyr e Eo, os cavalos do Sol.]
Sobre a sua ascensão, mesmo naquele instante, a Lua sem chifres desmontou-se, perdendo da sua Carruagem os seus dois cavalos, um branco e o outro castanho, e dirigiu-se para o Horizonte[d] diferente do Hemisfério[e] de onde ela veio.
[Nota lateral d: Horison um círculo que divide a meia esfera do firmamento da outra metade que não vemos.]
[Nota lateral e: Hemispere é metade da bússola do céu visível.]
E quando as montanhas e colinas estavam belas, e os ventos de nordeste tinham deixado de tornar estéreis com a nitidez dos seus sopros, os tenros ramos para inquietar os juncos em movimento, o Junco pantanoso, e o fraco Cipreste, para atormentar as Vinhas que se dobram, para incomodar o Salgueiro que se curva, e para quebrar os frágeis ramos de Abeto, debaixo dos chifres do Touro lascivo, como eles fazem no inverno.
Àquela mesma hora, como as flores de diversas cores e os prados verdes, à vinda do sol de Hypperion[f] não temem o seu calor ardente, estando orvalhados e salpicados com as lágrimas Cristalinas da doce manhã, quando como os Halcyons[g] sobre as ondas niveladas dos mares parados, calmos e de curso quieto, constroem os seus ninhos à vista da praia arenosa, onde o triste Ero, com suspiros escaldantes, contemplou a dolorosa e ingrata partida do seu Leander[h] a nadar.
[Nota lateral f: Hyperion o Sol.]
[Nota lateral g: Halcyons são certos pássaros que construindo perto da praia sobre as ondas, não haverá tempestade até que os jovens sejam chocados.]
[Nota lateral h: Leander um jovem de Abydos, que ao nadar pelo Hellespont (um mar estreito), perto de Bizâncio, que separa a Europa da Ásia) para Sestus, foi à vista da sua amante Ero de Sestus afogado, o que ela vendo, lançou-se para o mar, e morreu com ele.]
Eu deitado na minha cama, um amigo oportuno e adequado a um corpo cansado, nenhuma criatura acompanhando-me no meu quarto, além da atendente do meu corpo, e luzes habituais de noite, que depois de ter usado diversos discursos, a fim de que ela pudesse confortar-me, tendo entendido antes de mim, a causa original dos meus suspiros ocos e profundos, ela esforçou-se o seu melhor para moderar, se ao menos pudesse, aquele, o meu estado perturbado e lamentável. Mas quando ela viu que eu estava desejoso de sono, ela pediu licença para partir.
Então eu sendo deixado só para as altas cogitações do amor, tendo passado uma noite longa e tediosa sem sono, através da minha sorte estéril, e constelação adversa, totalmente desconfortado e triste, por meio do meu amor inoportuno e não próspero, chorando, recontei de ponto a ponto, que coisa desigual é o amor: e como aptamente um pode amar quem não ama: e que defesa pode haver contra os inabituais, porém diários assaltos do amor: para uma alma nua totalmente desarmada, a contenda sediciosa, especialmente sendo intestinal: uma fresca sempre a atacar com pensamentos instáveis e novos.
Desta sorte levado a um estado tão miserável, e por um longo tempo mergulhado numa profunda piscina de amargos pesares, finalmente os meus sentidos errantes estando cansados de alimentar-se sempre de insípido e fingido prazer, mas direta e sem engano, sobre o raro objeto divino: cuja venerável Ideia está profundamente impressa dentro de mim, e vive gravada no segredo do meu coração, de onde procede esta tão grande e incessante contenda, renovando continuamente os meus cruéis tormentos sem intermissão. Comecei as condições daqueles miseráveis amantes, que pelas delícias das suas amantes desejam as suas próprias mortes, e nos seus melhores prazeres pensam-se os mais infelizes, alimentando as suas paixões forjadas não de outra forma senão com imaginações fiéis. E então como um corpo cansado após um árduo trabalho, assim eu, um pouco na aparência qualificado, na dor dos meus pensamentos tristes, e tendo enclausurado e fechado o curso das minhas lágrimas destilantes: cujas gotas tinham regado as minhas pálidas faces, através de pesar amoroso, desejei algum descanso necessário.
Finalmente os meus olhos húmidos estando fechados dentro das suas pálpebras avermelhadas e injetadas de sangue, presentemente entre uma vida amarga e uma doce morte, fui neles invadido e vencido, com um pesado sono, que com a minha mente e espíritos vigilantes, não foram participantes de tão alta operação.
Pareceu-me que estava num lugar grande, plano e campestre, todo verde e diversamente salpicado com flores de muitas espécies, pelo que parecia passavelmente adornado. No qual por causa do ar suave e gentil, havia um silêncio quieto e sussurrado: De tal modo que os meus ouvidos atentos não ouviram ruído, nem qualquer discurso forjado penetrou neles, mas com os raios graciosos do sol, o tempo deslizante passou.
No qual lugar com uma admiração temerosa, olhando em redor de mim, disse assim para mim mesmo. Aqui não aparece nenhuma criatura humana à minha vista, nem besta silvestre, ave voadora, casa de campo, tenda de campo, ou cabana de pastores: nem sobre a relva pude perceber a alimentar-se qualquer rebanho de ovelhas, ou manada de gado, ou pastor rústico com flauta de Aveia a fazer melodia pastoral, mas apenas tirando o benefício do lugar, e quietude da planície, que me assegurou estar sem medo, dirigi o meu curso sempre para a frente, olhando de ambos os lados as tenras folhas e a relva espessa, que descansavam sem serem mexidas, sem a contemplação de qualquer movimento.
Finalmente os meus sonos ignorantes, trouxeram-me para um bosque espesso, onde tendo entrado um bocado, não soube como sair dele. Pelo que, um medo súbito invadiu o meu coração, e difundiu-se em cada junta, de modo que a minha cor começou a ficar pálida, e ainda mais pela razão de que eu estava só, e desarmado, e não podia encontrar qualquer rasto ou caminho, para me dirigir para a frente, ou levar-me de volta novamente. Mas um bosque escuro de arbustos espessos, espinhos afiados, altas cinzas arrastadas pela Víbora, Olmos resistentes amados das vinhas frutíferas, Ébano duro, Carvalhos fortes, Faia macia, e Avelãs castanhas, que entretendo os ramos uns dos outros, com uma boa vontade natural opuseram-se, para resistir à entrada do gracioso brilho do sol, com a cobertura verde das suas inumeráveis folhas. E desta sorte encontrei-me numa sombra fresca, um ar fresco, e um matagal solitário.
Pelo que a minha razão persuadiu-me a acreditar, que este vasto bosque, era apenas um receptáculo para bestas selvagens e nocivas, como o Javali de presas, o furioso e sedento de sangue Urso, a serpente sibilante, e o Lobo invasor, contra os quais eu estava desprovido para fazer resistência, mas antes como uma presa enviada entre eles, miseravelmente para ter a minha carne e ossos rasgados e roídos em pedaços.
E assim prevendo o pior que poderia seguir-se, resolvi não permanecer ali, mas procurar sair, para que pudesse melhor evitar tais ocorrências suspeitas, e tomando-me aos meus pés, vagueei agora por este caminho, agora por aquele, algumas vezes para a mão direita, algumas vezes para a esquerda: agora para a frente, depois de volta novamente, não sabendo como ir entre os ramos espessos e espinhos que rasgam, levando sobre a minha face: rasgando as minhas roupas, e mantendo-me algumas vezes pendurado nelas, pelo que a minha pressa em sair foi muito dificultada. Neste trabalho inabitual: e sem qualquer ajuda apenas a manutenção do sol sempre sobre um lado, para me dirigir diretamente para a frente: tornei-me extremamente quente e fraco, não sabendo o que fazer, mas apenas num corpo cansado, conter uma mente perturbada através de pensamentos problemáticos, respirando suspiros ocos e profundos, desejando ajuda da pitoresca Ariadne Cretense, que para a destruição do seu monstruoso irmão o Minotauro[A] deu ao enganoso Theseus um novelo de fio, para o conduzir para fora do intrincado labirinto, que eu também por alguns tais meios pudesse ser libertado fora deste bosque obscuro.
[Nota lateral A: Minotaurus um monstro em Creta, nascido de Pasiphae que sendo fechado no labirinto alimentava-se de carne humana, a quem Theseus matou e saiu do labirinto por um novelo de fio dado por Ariadne filha do rei Minoes, depois esposa de Theseus, que o abandonou, e a deixou numa Ilha desabitada, não obstante o facto de ela ter salvado a sua vida.]
[Decoração]
_Poliphilus estando assim perturbado neste perigoso e obscuro bosque, finalmente consegue sair, e tendo chegado a um belo Rio, esforçando-se por descansar-se e arrefecer o seu calor, ouviu uma harmonia muito deliciosa, que o fez esquecer de beber, e seguir a voz, que o trouxe a uma pior perplexidade._
Medo e desejo de liberdade ocupando assim os meus sentidos, o meu entendimento estava cego, nem eu sabia se seria melhor para mim ou desejar a odiada morte, ou em tão temível lugar esperar pela desejada vida. Assim descontente de toda a maneira, esforcei-me, com toda a força e diligência para sair, no qual quanto mais me esforçava mais me encontrava emaranhado, e tão enfraquecido com o cansaço, que de cada lado temia, quando alguma besta cruel viria e me devoraria, ou então sem saber tombar num poço profundo ou lugar oco.
Pelo que mais tremendo do que no Outono mustulento estão as folhas de cor amarela, tendo deixado a sua humidade, sendo completamente revistadas com o furioso vento norte, levantei o meu coração a Deus, desejando como Achemenides sendo com medo do horrível Ciclope antes ser morto pelas mãos de Aeneas seu inimigo, do que sofrer tão odiosa morte.
E a minha oração devota, sinceramente unida a um coração contrito, vertendo uma fonte de lágrimas com uma firme crença de ser libertado. Encontrei-me em um curto espaço posto em liberdade, como um novo dia rastejado para fora de uma noite escura e tempestuosa. Os meus olhos antes usados a tal escuridão obumbrada, mal podiam aguentar contemplar a luz, através da tristeza aquosa. Contudo contente eu estava por ver a luz: como alguém posto em liberdade, que tinha sido acorrentado num calabouço profundo e escuridão obscura. Muito sedento eu estava, as minhas roupas rasgadas, o meu rosto e mãos arranhados e urtigados, e com tudo tão extremamente posto em calor, que o ar fresco parecia fazer-me mais mal do que bem, nem de qualquer maneira aliviou o meu corpo, desejoso de manter o seu novo âmbito recuperado e liberdade.
E depois que tinha despertado um pouco a minha mente, e convocado juntos os meus sentidos de uma forma melhor: procurei um meio para saciar a minha sede inordenada, procurada e aumentada através de inumeráveis suspiros, e extremo trabalho de corpo. Assim lançando os meus olhos com um diligente olhar sobre a planície, para encontrar alguma Fonte onde pudesse refrescar-me: uma agradável nascente ou cabeça de água, ofereceu-se a mim, com uma grande veia a ferver, ao redor da qual cresciam diversas ervas doces e flores de água, e da mesma fluía uma corrente cristalina clara, que dividida em diversos ramos, corria através do bosque deserto, com um corpo giratório e serpenteante, recebendo nele outros pequenos canais, descarregando-se.
Em cujos cursos as pedras levantadas pela natureza, e troncos de árvores negados por mais tempo pelas suas raízes de serem sustentados, causavam um obstáculo de paragem à sua corrente e queda zumbidora, que ainda aumentada por outras torrentes dissonantes, de altas e inférteis montanhas na planície, mostravam um brilho belo e um curso suave e passageiro, ao qual vindo rapidamente, por meio da minha fuga temerosa. Eu vi uma pequena luz obscura, através dos topos das altas árvores, dividindo-se um pouco sobre a água, e com o resto dos seus corpos e ramos, como se estivesse a separar os céus dos meus olhos levantados. Um lugar horrível para se estar, desacompanhado de qualquer criatura.
E subitamente ouvindo a queda de árvores, através da força de um redemoinho, & ruído dos ramos quebrados, com um som redobrado e rouco de longe, e ainda assim trazido ao eco da água através do bosque espesso, cresci num novo espanto.
E neste instante, assim aterrorizado e aflito, e contudo sem qualquer dano recebido, estando sobre os meus joelhos dobrados, e fechando a concavidade da minha mão, decidi com ela fazer-me um necessário vaso para beber: não tinha eu mais cedo colocado a mesma na água, oferecendo à minha boca a tão desejada humidade, para assim refrigerar e arrefecer o calor extremo do meu coração ardente, que naquele momento me teria sido mais aceitável do que o Hypanis e o Ganges são para os indianos, o Tigris ou o Eufrates para os arménios, ou o Xeylus para a nação etíope, ou para os egípcios a sua inundação, embebendo o seu solo queimado e tostado, ou ainda o rio Pó para os lígures.
Mesmo então também sucedeu que, não tendo eu mais cedo tomado água na palma da mão, oferecendo a mesma à minha boca aberta, pronta a recebê-la: ouvi um canto dórico, com o qual fiquei tão grandemente deleitado, como se tivesse ouvido o trácio Thamiras, que através dos meus ouvidos se apresentou ao meu coração inquieto, com uma entrega tão doce e deleitável, com uma voz não terrestre, com tanta harmonia e incrível agudeza fingida, e proporção invulgar, como é possível ser imaginado por nenhuma língua ser suficientemente louvado. Cuja doçura tão grandemente me deleitou, que por ela fui arrebatado da minha memória, e o meu entendimento de tal modo tomado de mim, que deixei cair a minha desejada água através das juntas afrouxadas das minhas mãos débeis.
E então, tal como um pássaro, que através da doçura do chamamento esquece-se de lembrar o engano do passarinheiro, assim eu, deixando escapar aquilo de que a natureza necessitava, apressei-me com toda a velocidade, em direção àquela melodia atrativa, a qual, quanto mais eu a costeava, mais longe parecia ainda de mim, algures aqui, algures ali, e ainda enquanto eu mudava de lugar, assim a mesma também mudava com uma voz deleitável e um consentimento celestial. Assim correndo vãmente para cima e para baixo, não sabia atrás de quê, tornei-me mais cansado, fraco e seco, e tão débil, que as minhas pernas podiam apenas com grande dor sustentar o meu corpo transtornado. E os meus espíritos angustiados incapazes de suportar por muito tempo o mesmo, tanto pelo medo em que tinha estado, quanto pela sede extrema, quanto pela longa e cansativa viagem, e quanto por duvidar do pior que pudesse suceder. Assim quente, fraco e seco: não sabia o que fazer senão tratar de procurar descanso para os meus membros cansados. Maravilhei-me primeiro com este estranho acidente, e fiquei atónito com esta harmonia inumana, mas mais que tudo por estar num país estranho, e inabitado, sendo apenas fértil e belo de contemplar, além de que lamentei grandemente a perda do belo rio que tanto me tinha esforçado por encontrar, e agora tão levianamente e descuidadamente ter perdido o benefício dele. Desta sorte, fui mantido num espírito intrincado de dúvidas, finalmente vencido por todo o tipo de pesares, todo o meu corpo tremendo e definhando debaixo de um largo e poderoso Carvalho cheio de Bolotas, estando no meio de um espaçoso e grande prado verde, estendendo para fora os seus braços espessos e frondosos para fazer uma sombra fresca, debaixo de cujo corpo respirando, descansei sobre as ervas orvalhadas, e deitado sobre o meu lado esquerdo, aspirava o ar fresco entre os meus lábios secos e enrugados, mais curtos do que o cansado veado em corrida, apertado na anca e atingido no peito, não capaz de suportar por mais tempo a sua cabeça pesada, ou sustentar o seu corpo sobre os seus joelhos dobrados, mas morrendo prostra-se. E deitado assim em tal agonia, pensei sobre as lutas da fraca fortuna, e os encantamentos da maliciosa Cyrces, como se eu tivesse, pelos seus encantos e lamentos quadrangulares, sido privado dos meus sentidos. Nestas tão grandes e excessivas dúvidas: Ó ai de mim, onde poderia eu lá, entre tantos diversos e variados tipos de ervas, encontrar a Mercurial Moli[A] com a sua raiz negra, para o meu auxílio e remédio. Novamente pensei que não era assim comigo. O que então? apenas um difícil compromisso para adiar a minha morte desejada. E assim permanecendo nestes pensamentos perniciosos, a minha força debilitada: não esperava outro auxílio, senão aspirar e receber ar fresco naquele peito, que arquejava com um pequeno resto de calor vital, tomando nas minhas mãos meio vivo, como o meu último refúgio, as folhas húmidas e orvalhadas, preservadas na sombra fresca do Carvalho verde: colocando as mesmas nos meus lábios pálidos e secos, com um desejo ganancioso de lambê-las para satisfazer a minha boca destemperada com a sua humidade, desejando por tal poço como Hypsipyle[a] mostrou aos gregos: Temendo que, sem saber, enquanto eu tinha roçado no bosque, fosse mordido pela serpente Dipsa[b], a minha sede era tão insuportável. Então renovando as minhas velhas cogitações: enquanto eu jazia debaixo deste poderoso Carvalho: fui oprimido por um sono eminente sobre todos os meus membros: onde novamente sonhei desta sorte.
[Sidenote A: Moly, uma erva grandemente louvada por Homero, e pensada ser soberana contra os encantamentos, pelos autores modernos totalmente desconhecida.]
[Sidenote a: Hypsipile era filha de Thaos, rei de Lemnos, que sozinha, quando todas as mulheres daquela ilha tinham matado os seus maridos & parentes, salvou o seu pai: ela também mostrou aos gregos a fonte Langia no bosque de Nemea em Acaia, onde Hércules matou um leão.]
[Sidenote b: Dipsa, um tipo de serpente que Lucano menciona, cuja mordedura provoca secura ou sede extrema.]
Poliphilus mostra que pensou que dormia novamente, e no seu sonho que estava num Vale, circundado por montanhas e colinas, o fim do qual estava fechado de uma sorte maravilhosa, com uma poderosa pirâmide digna de admiração: sobre o topo da qual havia um alto obelisco, que com grande prazer ele contemplou, e diligentemente descreve.
Saído deste bosque temeroso e espesso, e esquecendo os lugares supramencionados por este doce sono, ocasionado pelos meus membros cansados agora estendidos: pensei que estava num novo e mais deleitável lugar, excedendo de longe o anterior, que não consistia de montanhas férteis e rochas sinuosas e escarpadas, contendo largas cavernas, mas sendo um vale delicado, no qual se erguia um pequeno monte de não grande altura, salpicado aqui e ali com jovens Carvalhos, Freixos, Palmeiras de folhas largas, Aesculies,[a] Azinheiras, Castanheiros, Sugerchist, Álamos, Oliveiras bravas, e Oppies dispostos uns mais altos que outros, de acordo com a subida ou descida do lugar, na planície do qual havia outro tipo de moita de simples medicinais como pequenas árvores jovens, como a Genista[b] florida circundada por diversas ervas verdes, Trevo, erva-de-cheiro, madressilva, a Angélica almíscarada, Ranúnculo, Elapium e Rugwoort, com outras ervas e flores proveitosas e desconhecidas aqui e ali diversamente dispostas. Um pouco mais além no mesmo vale, encontrei uma planície arenosa ou cascalhenta, contudo salpicada com tufos verdes, no qual lugar crescia uma bela Palmeira com as suas folhas como a relha de um arado, e abundando com fruta doce e agradável, algumas postas alto, algumas baixo, algumas num meio termo, algumas no próprio topo, um sinal eleito e escolhido de vitória. Nem neste lugar havia qualquer habitação ou criatura seja ela qual for. Assim caminhando solitariamente entre as árvores, crescendo distantes umas das outras, persuadi-me a mim mesmo, que a isto nenhuma situação terrena era comparável: em cujo pensamento subitamente avistei sobre a minha mão esquerda, um Lobo faminto e carnívoro, bocejando para mim com a boca aberta.
[Sidenote a: Aesculus é uma árvore que dá tanto fruto maior e folhas mais largas que o Carvalho.]
[Sidenote b: Gemista dá uma vagem e flor amarela, as vinhas são atadas com ela. Elaphium é como a Angélica, mas não no cheiro, o veado esfrega a sua cabeça nela quando está veludo.]
Ao ver o qual imediatamente, o meu cabelo ficou em pé, e eu teria gritado, mas não podia: e presentemente o Lobo fugiu: pelo que, voltando a mim, e lançando os meus olhos em direção às montanhas boscosas, que pareciam juntar-se, sendo olhadas de longe, vi a forma de uma torre de uma altura incrível, com uma espira aparecendo imperfeitamente, sendo tudo de forma e mão de obra muito antigas.
E aproximando-me deste edifício, contemplei as graciosas montanhas antes de longe parecendo pequenas, por vir mais e mais perto, pouco a pouco, a levantarem-se mais e mais, ao princípio parecendo-me que se tinham juntado com o edifício que era um encerramento ou fim do vale entre montanha e montanha: que coisa pensei digna de notar, e sem mais demora dirigi-me mais perto para lá. E por quanto mais eu me aproximava do mesmo, por tanto mais a excelência da obra se mostrava, aumentando o meu desejo de contemplar o mesmo. Pois não parecia mais uma substância de forma desconhecida, mas um raro Obelisco sobre uma vasta estrutura e fundação de pedra, a altura do qual sem comparação excedia os topos das montanhas laterais, embora eu pensasse que tinham sido o renomado Olimpo[a], o famoso Cáucaso[b], e não inferior a Cileno[c].
[Sidenote a: Olimpo, uma colina na Grécia entre a Macedónia e a Tessália, tão alta, que pelos Poetas é por vezes tomada pelo céu.]
[Sidenote b: Cáucaso, uma poderosa colina na Ásia que separa a Índia da Cítia.]
[Sidenote c: Cileno, uma colina da Arcádia, onde Júpiter gerou Mercúrio em Maia.]
A este lugar solitário assim desejadamente chegando, com deleite inefável, a meu prazer contemplei a estranha maneira da arte, a imensidade da estrutura, e a maravilhosa excelência da mão de obra. Maravilhando-me e considerando o compasso e largueza deste objeto partido e decadente, feito do puro mármore reluzente de Paros[d]. As pedras quadradas unidas juntas sem qualquer cimento, e as pedras de esquina quadrangulares pontiagudas estreitamente ajustadas e suavemente polidas, cujas arestas eram de uma cor de vermelhão requintada, como é possível ser arquitetado: e tão justamente postas, como entre as juntas, mesmo o inimigo da obra (se alguma vez houve algum) não poderia arquitetar esconder a ponta da mais pequena agulha espanhola usada pelas melhores trabalhadoras. E ali naquela tão nobre peça de trabalho, encontrei uma substância proporcionada a cada forma e semelhança que pode ser pensada e chamada à memória, parcialmente decadente, e algumas ainda inteiras permanecendo, com pilares pequenos sobre grandes, com as suas excelentes cabeças de um fecho exato e mais perfeito, ameias coroadas, entalhes em relevo, projetando-se como bordado, vigas arqueadas, poderosas imagens metálicas, derrubadas e partidas em pedaços, o tronco dos seus membros exatos e perfeitos, parecendo oco de latão. Escifes, pequenos barcos e vasos de pedra Numidiana e Pórfiros, e mármore de diversas cores. Grandes lavatórios, condutas, e outros infinitos fragmentos de notável mão de obra, de longe diferentes e inferiores daquele que eram, na sua perfeição, mas agora trazidos de volta como se fosse para a sua primeira informeza, estando caídos e lançados abaixo, alguns aqui, alguns ali, sobre a terra da qual foram tirados. Entre os lugares partidos e decadentes, dos quais grandes e diversas ervas de parede e ervas, especialmente a Anagyre inabalável, o Lentisco de ambos os tipos, pé-de-urso, cão-de-cabeça, Gladíolo verde, Hera manchada, Centáurea, e diversas tais como estas. E nos lugares bolorentos de paredes partidas crescia a Erva-dos-telhados e a Cymbalaria pendente, silvas e espinhos picantes, entre os quais rastejavam Lagartixas, que vi a rastejar entre as pedras cobertas de vegetação, que à primeira vista neste lugar silencioso e solitário, me fizeram estar cautelosamente com medo delas. De cada lado jaziam peças redondas e suaves de Mármore manchado de serpente, roxo e vermelho de diversas cores. Fragmentos de histórias estranhas, Panglíficas e Hemiglíficas[E] compendiosamente caracterizadas, mostrando a excelência das mesmas, indubitavelmente acusando a nossa idade, que a perfeição de tal arte está esquecida.
[Sidenote d: Paros é uma das 35 ilhas chamadas Cíclades e Espórades, no mar Egeu que divide a Europa da Ásia.]
[Sidenote E: Panglífico são totalmente esculpidos da cabeça aos pés em todos os membros. Hemiglífico aparecem apenas metade.]
Então chegando à frontaria média da grande e excelente obra, vi um único largo e maravilhoso pórtico digno de grande estimação, proporcionado de acordo com a enorme quantidade do resto de toda a obra, que estava colocado entre e continuava em construção desde uma e a outra das montanhas lábio-leporinas, e acima arqueado, cujo espaço entre, como conjecturo, era em medida seis estádios, e doze passos. O topo de cujas montanhas eram perpendicularmente iguais, cada uma tocando o céu azulado. À vista do qual imaginei comigo mesmo e arquitetava pensar com que instrumentos de ferro, com que trabalho de mãos de homens, e número de trabalhadores, tal peça de obra poderia ser, por grande força arquitetada, com muito esforço posta junta, e um longo tempo a terminar. Ali então esta maravilhosa estrutura voluntariamente, por assim dizer, juntou mãos e uniu-se a si mesma com uma e a outra poderosas montanhas, por meio das quais, o supramencionado vale ali tinha um fim, que nenhum homem poderia ir mais para a frente ou para trás, senão entrar por este pórtico largo, grande e amplamente aberto.
Sobre esta estrutura massiva e poderosa mão de obra, que tomo por ser em altura do telhado ou topo ao pé, cinco partes de um estádio, estava colocada uma alta e maravilhosa Pirâmide, à moda de um Diamante pontiagudo quadrado, e tal incrível mão de obra que nunca poderia ser arquitetada e erguida, sem encargo inestimável, grande ajuda, e longo tempo. De modo que pensei que a excelência da mesma, impensada, seria um espelho, a vista do qual era capaz de deslumbrar quaisquer olhos humanos, e abater o resto dos sentidos espirituais. Que direi mais? Pois tão longe quanto o alcance da minha capacidade me pode conceder licença, desta sorte descrevo-a brevemente.
Cada lado ou quarto desta estrutura de quatro quadrados, sobre a qual o pé da Pirâmide estava, estendiam-se em comprimento seis estádios[A], que em compasso sobre cada lado equilátero de igual largura, multiplica para 24 estádios. Então levantando as linhas no alto desde os quatro cantos, tanto quanto cada canto está distante em comprimento de outro, encontrando-se no topo, de modo que a linha Perpendicular possa cair justamente sobre o centro da Diagonal, esticando desde ambos os cantos dos plintos ou pé quadrado, justa e convenientemente unidos fazem uma figura piramidal perfeita. Cuja imensa e maravilhosa forma, com uma maravilhosa e requintada Simetria e devida proporção montando laboriosamente passo a passo, continha 1410 graus ou degraus, tirando 10 graus para fazer o topo e gracilamento da Pirâmide em cujo lugar foi posto um enorme Cubo ou pedra de quatro quadrados de forma como um dado, sã e firme de uma espessura monstruosa e incrível peso para ser levado tão alto. E da mesma pedra de Paros como eram os degraus: cujo cubo e pedra quadrada era a Base e pé posto debaixo do Obelisco, que tenho em mãos descrever.
[Sidenote A: Um estádio é 16 polos, sendo cada polo 16 pés.]
Esta poderosa pedra grande de topo agudo, deslizando abaixo a parte extrema de canto a canto, de lado plano pelo Diâmetro, era quatro passos, em cada canto igualmente distante, do qual estava o pé de uma harpia de metal fundido, as suas garras armadas. Firmemente e fortemente posta com chumbo, em cada canto do Cubo, ou cabeça de quatro quadrados da Pirâmide, encontrando-se juntos sobre a linha Diagonal. De espessura proporcionada em altura dois passos. Que assim fechando e encontrando-se juntos, faziam o encaixe do grande Obelisco: cujo Encaixe era embelezado com folhas, frutos e flores, de metal fundido brilhante, e de conveniência de grandeza. Sobre o qual o peso do Obelisco era suportado. A largura do qual era dois passos, e sete em altura, artificialmente aguçando da pedra de Tebais chamada Pyrus. Sobre as superfícies lisas da qual, pura e brilhante como um espelho, estavam mais excelentemente cortados Hieróglifos Egípcios.
Sobre a ponta do qual Obelisco, com grande arte e diligência, estava presa uma base de cobre, na qual também havia um dispositivo giratório fixado: sobre o qual estava a forma de uma bela ninfa arquitetada da supramencionada matéria, capaz de maravilhar o contínuo e diligente observador. De tal proporção como a estatura comum poderia ser considerada e perfeitamente vista, não obstante a excessiva altura da mesma no ar. Além da grandeza da figura ou imagem: era uma maravilha pensar como tal peso poderia ser levado e posto em tal lugar e tão alto. Coberta com um hábito soprado por toda a parte com o vento, e mostrando parte da substância nua das pernas e coxas: com duas asas crescendo das omoplatas, e espalhadas por toda a parte como se ela estivesse pronta a voar, voltando a sua bela face e doce olhar de semblante para as suas asas. As madeixas do seu cabelo voando por toda a parte, a parte superior ou coroa nua e descoberta. Na sua mão direita segurava da sua visão uma cópia ou chifre recheado cheio de muitas coisas boas, tapado, e a boca para baixo, a sua mão esquerda fixada e fortemente mantida ao seu peito nu. Esta Imagem e estátua era com cada sopro de vento voltada, e movida por toda a parte com tal ruído e tilintar na concavidade do dispositivo metálico: como se a casa da moeda da Rainha de Inglaterra tivesse estado a trabalhar lá. E quando o pé do cata-vento ou Imagem ao girar, esfregava e moía sobre a base de cobre, fixada sobre a ponta do Obelisco, dava tal som, como se o sino da torre do Colégio de São João na famosa Universidade de Cambridge tivesse sido tocado: ou aquele nas pomposas Termas do poderoso Adriano: ou aquele na quinta Pirâmide estando sobre quatro. Este Obelisco no meu juízo era tal, como nem aquele no Vaticano em Alexandria ou Babilónia, pode ser igualmente comparado a ele, mas antes estimado muito inferior. Continha nele tal monte de maravilhas, que eu não podia sem grande assombro olhar para ele. Como também considerar a imensidade da obra, a excessiva sumptuosidade, a estranha invenção, a rara performance, e requintada diligência do trabalhador. Com que arte inventado? com que poder, força humana, e meios incríveis, invejando (se posso dizê-lo) a mão de obra dos céus, tais e tão poderosos pesos deveriam ser transportados e levados para os céus? com que Gruas, vigas giratórias, Trocleas, roldanas redondas, Capres carregando dispositivos, e Poliplasias, e estruturas de desenho, e treliças de cordas, sendo nisso inábil, passo por cima com silêncio.
E aqui do outro lado segue a figura.
Voltemos então à enorme Pirâmide, estando sobre um forte e sólido plinto ou pé de quatro quadrados, catorze passos em altura, e em comprimento seis estádios, que era a fundação e fundo da pesada pirâmide, que eu persuadi-me que não foi trazida de qualquer outro lugar, mas mesmo com trabalho plano e mão de obra cortada das próprias montanhas, e reduzida a esta figura e proporção no seu próprio lugar.
Cuja grande obra de quadrante e quadrada, não ligada firmemente às rochas colaterais e laterais, mas estava entre espaçada e separada em ambos os lados dez passos. Sobre a mão direita enquanto eu ia do supramencionado plinto ou estrutura quadrada, estava mais perfeitamente esculpida a cabeça viperina da medonha Medusa, numa forma mais furiosa e rigorosa de olhar, e como se estivesse a gritar: com terríveis olhos cavernosos, e ocos carrancudos debaixo das suas sobrancelhas pendentes com uma testa enrugada e sulcada e boca escancarada, que sendo escavada com um caminho direto desde o Catil, e sobre pedra por uma linha mediana perpendicular ao centro da Pirâmide que longe mostrava, fez uma larga entrada e vinda até ela, na qual abertura de boca, compassada com cabelos dobrados de uma curiosidade irrepartível, astúcia artificial e custosa mão de obra, as escadas ascendentes giratórias mostravam-se, e em vez de madeixas de cabelo trançadas com laços, vi temerosas víboras e serpentes giratórias crescendo do escalpo da cabeça monstruosa confusamente torcendo-se juntas e sibilando, tão vivamente retratadas e postas para fora, que me fizeram medo de as contemplar. Nos seus olhos estavam colocadas pedras mais brilhantes, de tal sorte, que se eu não tivesse sido persuadido e sabido que eram pedras de facto, não me teria atrevido a aproximar delas.
E a referida entrada, cortada na pedra firme, conduzia à escala e passagem em compasso no centro, com degraus em caracol que tendiam para a parte mais alta das imponentes Pirâmides, abrindo-se sobre o exterior do catilo ou cubo, sobre o qual o brilhante obelisco estava fundado. E entre o resto de tais partes notáveis que contemplei, pareceu-me que este engenho era digno de nota, porque o artífice, arquiteto muito astuto, com uma invenção requintada e perspicaz, fizera nas escadas certas frestas ou pequenas janelas, abraçando os generosos raios do sol correspondentemente em três partes: a inferior, a média e a suprema. A inferior recebendo luz da mais alta, e a mais alta da catabase ou inferior, com os seus reflexos opostos, mostrando uma luz maravilhosamente bela; estavam tão aptamente dispostas pela regra calculada do artífice matemático para as partes Oriental, Meridional e Ocidental do ar, que a cada hora do dia o sol brilhava para dentro e dava luz a toda a escala, sendo os mesmos olhais ou janelinhas dispersos e colocados de forma simétrica e definida em diversos lugares.
Para a referida entrada, através da boca aberta da Medusa, cheguei por uma longa galeria a uma escala de saída ou escada descendente, abrindo-se ao pé e pavimentação do edifício à minha mão direita, defronte de uma das montanhas colaterais e adjacentes, entre as quais havia, cortado na pedra e num espaço aberto, dez passos para cima, para o qual ascendi audaciosamente sem resistência. E tendo chegado ao início da escada na referida boca, por inumeráveis degraus e patamares, não sem grande cansaço e tontura de cabeça, por frequentemente girar ao redor, cheguei a uma altura tão incrível que os meus olhos não me permitiam olhar para baixo, para o solo, de tal modo que me parecia que tudo o que estava em baixo, na planície, tinha perdido a sua forma e parecia imperfeito. Na abertura e saída desta ascensão circular e giratória, muitos pilares de metal fundido e derretido estavam aptamente dispostos e seguramente fixados, com o espaço entre cada um de um pé, e em altura meio passo, gradeados e unidos em cima com uma coroa ameada ao longo do referido pilar, e do mesmo metal circundando a abertura da escada, para que ninguém que saísse incautamente caísse de cabeça. Pois a altura imensurável disso causaria uma vertigem na cabeça e traria um vacilar aos pés. Sobre a planície do obelisco estava afixada uma placa de bronze, fixada e soldada à altura de um homem, com uma inscrição antiga em Latim, Grego e Árabe, pela qual compreendi claramente que o mesmo era dedicado ao Sol, e a medida da obra totalmente descrita e exposta, com o nome do Arquiteto anotado no obelisco em letras Gregas.
+LICHA SOLIBIKOS LIOODOMOS O:RTHOSEN ME+ Lichas Libiicus architectus me erexit. Lichas, arquiteto Líbio, ergueu-me.
Retornemos e voltemos à consideração do soco e tessela ou quadrado, sujeito e sustentáculo das Pirâmides, na fronte e face dianteira das quais contemplei gravada uma Gigantomaquia e combate entre Gigantes, o único inimigo do fôlego vital, supremamente bem cortado, com os movimentos vivos e a ágil vivacidade dos seus corpos grandes e altos, impossíveis de serem corretamente descritos; o manejo artificial disso, como que invejando a própria obra da natureza, como se os seus olhos e pés se movessem juntos e corressem de uma parte para outra com uma passagem expedita e curso veloz. De tal sorte pareciam estar sobre os seus fortes e poderosos cavalos, alguns sendo derrubados, outros tropeçando e caindo, muitos feridos e magoados, entregando as suas vidas desejadas, alguns pisoteados e desventurados sob os pés dos cavalos ferozes e desenfreados. Outros lançando fora a sua armadura, lutando e agarrando-se uns aos outros, alguns de cabeça para baixo, caindo sem chegar ao chão de cima dos seus cavalos. Outros jazendo sobre a terra, segurando os seus escudos e alvos, ofendendo com uma mão e defendendo-se com a outra. Muitos com as suas cimitarras e alfanjes, alguns com longas espadas de duas mãos à moda persa antiga, outros com diversas armas mortais de feitio estranho e perigoso; alguns vestindo brigandinas e elmos, com diversos engenhos sobre os seus elmos, outros nus e desarmados, saltando e arremetendo entre os mais densos, mostrando assim as suas coragens altivas, invencíveis e inabaláveis, resolutas para a morte. Alguns com semblantes medonhos gritando, outros mostrando visagens obstinadas e furiosas, embora estivessem certos de morrer, suportando fortemente a prova da sua dor e o corte do seu fio fatal, outros mortos diante deles, com diversos instrumentos de guerra estranhos, desconhecidos e mortais. Mostrando os seus membros fortes, os seus músculos inchados sobressaindo, oferecendo à vista e aos olhos do espectador o dever dos seus ossos e a concavidade nos lugares onde os seus fortes tendões estão estirados. O seu conflito e combate pareciam tão medonhos, sangrentos, mortais, cruéis e horríveis, como se o próprio Marte estivesse a lutar com Porfírio e Alcion, que faziam um ruído semelhante ao zurro dos Asnos.
Esta imagética cataglífica excedia uma estatura e proporção natural e comum de homens, esculpida em mármore branco privado, o fundo dela tão negro como azeviche, um contraste perfeito para embelezar e realçar com cristal pálido e prata cinzelada inumeráveis corpos enormes, os seus últimos esforços, as suas ações presentes, o feitio da sua armadura, a diversidade das suas mortes e a vitória incerta e duvidosa. O desempenho da descrição a que me propus revela-se estropiado e coxo, pela razão de que o meu entendimento está cansado, a minha memória confusa com a variedade, e a minha visão obscurecida com o contínuo olhar, de modo que os meus sentidos não me permitirão justa e adequadamente manifestar parte, muito menos descrever na íntegra todo o modo dos seus curiosos Litóglifos.
Depois disto, comecei a considerar comigo mesmo o que moveria e causaria tal orgulho e desejo ardente em qualquer homem, para trazer de longe e reunir pedras tão poderosas com tanto trabalho: com que transporte, quem seriam os carregadores e portadores, com que espécie de rodas, engenhos rolantes e suportes de sustentação tais pedras, grandes, largas e inumeráveis, seriam levadas até lá, e de que matéria era feito o seu cimento que as unia e mantinha juntas, a altura do Obelisco e a imponência das Pirâmides, excedendo a conceção imaginada de Dinócrates proposta a Alexandre, o Grande, sobre uma obra a ser realizada no monte Atos. Pois a estranheza da construção Egípcia poderia dar lugar a esta. Os famosos labirintos eram muito inferiores, Lemnos não deve ser mencionada, os Teatros da antiguidade eram em comparação apenas abrigos de coelhos, nem o famoso Mausoléu chegava perto de nada. O que certamente me faz estar absolutamente persuadido de que aquele que escreveu as sete maravilhas do mundo nunca ouviu falar desta, nem em qualquer época foi vista ou imaginada coisa igual, nem mesmo o sepulcro de Nino.
Por fim, maravilhei-me com quais fundações e arcos seriam capazes de sustentar um peso tão monstruoso, se os pilares eram hexágonos ou tetrágonos, e que variedade de colunas, e que número poderia servir, e de que modo proporcionalmente dispostos e colocados. Para a melhor compreensão e conhecimento mais perfeito do qual, encaminhei-me para dentro através do pórtico e entrada aberta e espaçosa, dentro da qual havia uma obscuridade e vastidão oca: o qual pórtico, juntamente com o edifício orgulhoso e imponente (coisas dignas de memória), será de certa forma descrito como se segue.
_Polífilo, após a descrição das enormes Pirâmides e do Obelisco, discorre sobre obras maravilhosas neste Capítulo, nomeadamente sobre um cavalo de Colosso, um Elefante, mas especialmente sobre um Pórtico muito raro e estranho._
Justa e legitimamente posso ter licença para escrever que em todo o mundo nunca houve outro igual, peça de obra tão pomposa, gloriosa e magnífica, vista por olhos humanos ou credivelmente relatada. A maravilhosa excelência e rara estranheza da qual, enquanto contemplava, ora com deleite, ora com admiração, os meus sentidos estavam tão cativados e atados a ela, que nenhum outro consolo ou prazer ocorria ou tomava lugar no meu pensamento velozmente voador.
Mas quando apliquei os meus sentidos a considerar, e enderecei os meus olhos com diligente observação, curiosamente a examinar cada parte particular deste objeto docemente composto e raríssima e bela imagética e corpos como de virgens, sem fissura ou defeito, com um fôlego longo e abrindo um pouco a boca, soltei um suspiro profundo. De tal modo que a minha respiração amorosa e sonora, devido à densidade do ar neste lugar solitário e deserto, deu um eco e fez-me lembrar da minha Angélica e extremamente desejada Polia.
Oh, ai de mim, que tal pequena ou qualquer intermissão deveria causar que a sua amável e celestial Ideia e forma não estivesse ainda impressa na minha mente, e continuasse como companheira diária, em cujo peito a minha vida está resolvida a habitar, e descansar como sob a proteção de um escudo mais seguro e comprovado e defesa segura.
E por este caminho fui trazido a um lugar onde havia diversos e variados tipos excelentes de engenhos e obras antigas: primeiro de tudo, contemplei um pórtico belíssimo, além de qualquer sentido a descrever (pela incrível curiosidade dele, como jamais foi construído ou imaginado) e tanto mais porque a nossa língua materna e fala vulgar pode não oferecer palavras aptas e peculiares para tal peça de trabalho artificial.
Perante este pórtico magnífico e glorioso, devereis entender que ao ar livre havia um pátio quadrado de trinta passos de diâmetro, pavimentado com mármore puro e fino, apontado em quatro quadrados, trabalhado em xadrez de diversas modas e várias cores mais adequadas: mas em muitos lugares, por causa da ruína do passeio antigo e velhos pilares, partido em pedaços e coberto de ervas.
E nas partes extremas do referido pátio, para a mão direita e a esquerda, em direção às montanhas, havia duas fileiras retas de pilares, com um espaço entre elas para o Areostilo interjetante, conforme as quantidades de ambas as colunas exigiam, sendo que o primeiro curso ou ordem de colocar os pilares começava em ambos os lados igual ao Limbo ou parte extrema da frente do pórtico, com o espaço entre pilares e pilares de XV passos. Das quais colunas ou grandes pilares, alguns e a maior parte ou número estavam inteiros. Com os seus capitéis ou cabeças, trabalhados com um trabalho de concha ondulada, e ciliar ou drapeado, os seus cantos projetando-se e anelados ou voltados como um cacho de cabelo, ou a cabeça superior de uma Viola de gamba acima das cravelhas, que esticam as cordas do instrumento para uma concordância musical; com os seus Astrágalos sujeitos, retorcendo-se e pendendo aqui e ali, tornando o capitel três vezes maior que a base da coluna, sobre a qual era colocado o Epístilo ou trave reta, a maior parte decadente, e muitas colunas viúvas e privadas dos seus Capitéis, enterradas em ruínas tanto os Astrágalos como os fustes das colunas e as suas bases ou pés.
[Nota lateral A: Uma coluna consiste no seu Capitel, que é a cabeça. Astragalus, que é o sujeito do capitel próximo da coluna. Hipotraquelio, o fuste da coluna. E Hipótese, que é o pé sobre o qual a Coluna se apoia, excedendo a grandeza da coluna.]
Junto a esta ordem ou fileiras de pilares, cresciam plátanos velhos, Oliveiras bravas, Pinheiros e espinheiros picantes. Conjeturei que fora feito para montar cavalos, para trotar e galopar, o picadeiro, para manejar, carregar e corveta, ou então alguma galeria aberta, coberta por cima, suportada por pilares, e de uma grande largura para caminhar seco e para tomar um ar temperado, não muito subtil.
Acima neste grande Pátio pavimentado como referido, na passagem em direção ao Pórtico, uns dez passos, contemplei um prodigioso cavalo alado saltador, de bronze fundido, de uma grandeza excessiva, as suas asas abanando para fora. Os seus cascos apoiados sobre uma base ou estrutura plana e lisa, cinco pés de largura e nove pés de comprimento, em altura proporcional à largura e comprimento: com a sua cabeça em liberdade e sem rédeas: tendo as suas duas pequenas orelhas, uma voltada para a frente e a outra puxada para trás, com uma longa crina ondulada, caindo da sua crista para o lado contrário: sobre cujo dorso diversos jovens tentavam montar, mas nem um era capaz de sentar-se firme, devido à sua velocidade e alto salto, de quem alguns tinham caído, jazendo amplamente abertos ao ar, alguns de bruços, outros caindo de cabeça entre o cavalo e a terra, os restantes em vão segurando-se pelo cabelo da sua crina, alguns forçando-se a subir sobre ele, e outros tentando recuperar-se debaixo dos seus pés.
Sobre a parte superior da estrutura e base, estava afixada e presa com chumbo uma base ou crosta grossa, do mesmo metal que o cavalo era, e sobre a qual ele estava, e aqueles que foram derrubados jaziam, um pouco mais curta e estreita do que a base ou estrutura sujeita, toda a massa ou composição fundida de uma peça e do mesmo metal, maravilhosamente fundada. Por fim, não podíeis perceber que alguém estivesse contente com a sua aspereza, como aparecia pelas suas fisionomias esculpidas, mostrando um descontentamento que não podiam proferir, sendo imagens sem sentidos, não diferindo de outra forma, através da excelente perícia do artesão, de criaturas vivas, e pela sua imitação superlativa da natureza.
Perilo ali poderia ir guardar as suas gaitas, e corar com o seu Touro inventado, e Hirão, o Judeu, deve aqui dar lugar, ou quaisquer outros fundidores que sejam.
O Pegma, base ou sujeito para esta máquina metálica se apoiar, era de uma peça sólida de mármore (de largura, altura e comprimento aptos e convenientes, para esse propósito correspondentemente proporcionado) cheio de veios escorridos, de várias cores e diversamente manchado, maravilhosamente agradável ao olho, em infinitas misturas, confusamente disposto.
Sobre o peito ou parte dianteira e extremidade da base de mármore, que estava oposta ao pórtico, havia uma grinalda de mármore verde, como as folhas de Esmirnium amargo, misturada com folhas mortas de Erva-de-santa-maria, de cor de cabelo, dentro da qual havia uma pedra pura, branca, redonda e lisa, onde estava gravadas estas letras Romanas capitais.
Na extremidade traseira, da mesma forma, havia uma grinalda de Acônito mortal, com esta inscrição: Equus infelicitatis. E sobre o lado direito estavam gravadas certas figuras, formas e representações de homens e mulheres dançando juntos, biformes ou com duas faces, o da frente sorrindo, o de trás chorando: e dançando em roda, com os seus braços estendidos e de mãos dadas, homem com homem e mulher com mulher. Um braço do homem sob o da mulher, e o outro acima, e assim fechando juntos, e segurando pelas mãos, eles giravam um após outro, de modo que sempre ainda num lugar, uma fisionomia sorridente encontrava uma triste que a precedia. O seu número era sete e sete, tão perfeita e docemente contrafeitos com movimentos vivos, as suas vestes agitando-se e voando, que o artífice não podia ser acusado de qualquer imperfeição, a não ser que um não tivesse uma voz viva para expressar a sua alegria, e o outro lágrimas salgadas para manifestar a sua tristeza: a referida dança era em modo de dois Semicírculos, com uma partição separadora colocada entre eles.
[Nota lateral A: Ninguém vive neste mundo nesse prazer, sem que também tenha os seus pesares a seu tempo.]
Sob esta figura Hemial, estava inscrito esta palavra TEMPVS. No lado contrário, contemplei muitos de verde adolescência de proporção semelhante à anterior, e em tal compasso ou espaço, os fundos de ambos embelezados e realçados com um requintado folheado ou trabalho de folhas e flores, esta companhia estava a colher e reunir as flores de diversas ervas, e tenros caules e ramos; e com eles diversas belas Ninfas agradavelmente divertindo-se, e brincalhonamente arrebatando as suas flores colhidas, e de tal forma como acima dito sob a figura estavam gravadas certas letras capitais, para mostrar esta única palavra AMISSIO, contendo a nona parte do Diâmetro ou a quadratura.
[Nota lateral A: Presente vãmente dado, a seu tempo licenciosamente gasto, é uma grande perda, e gera arrependimento.]
À primeira vista disto fiquei pasmado e atónito, mas com melhor olhar e grande deleite, examinando curiosamente a enorme Máquina fundada, a forma e o feitio de um cavalo feito pela indústria e perícia humana mais louváveis, pois cada membro sem defeito tinha a sua harmonia perfeita, e cada parte a sua proporção desejada, chamei logo à memória o infeliz cavalo de Scio.
E assim continuei a contemplar o mesmo mistério artificial, quando outro espetáculo e objeto não menos digno de ser olhado do que o anterior se ofereceu à minha vista, que era um poderoso Elefante, para o qual com intenção desejosa me apressei a aproximar e chegar perto.
No qual entretanto, por outro lado, ouvi um ruído lúgubre e gemido humano, como procedendo de um corpo doente até à morte: pelo que parei logo de início, os meus cabelos erguendo-se, mas prontamente sem mais demora, enderecei os meus passos para o lugar de onde ouvia este ruído lamentável e lúgubre, forçando-me sobre um monte de mármores arruinados, partidos e caídos. Assim, indo voluntariamente para a frente, cheguei a um vasto e maravilhosamente grande Colosso, os pés dele nus, e as suas solas ocas, e as pernas como se a sua carne tivesse sido consumida, gasta e caída. De lá, com horror, cheguei a olhar para a cabeça, onde conjeturei e imaginei que o ar e o vento, entrando e saindo da sua boca larga e aberta, e dos tubos ocos da sua garganta, por uma invenção divina causavam este ruído moderado e gemidos cronometrados; jazia com a face voltada para cima, tudo de metal fundido, como um homem de meia-idade, e a sua cabeça levantada como com uma almofada, com a semelhança de alguém que estivesse doente, expirando pela boca suspiros e gemidos bocejando, o seu comprimento era de sessenta passos. Pelos cabelos da sua barba podíeis subir até ao seu peito, e pelos pedaços rasgados e despedaçados da mesma até à sua boca ainda lamentante, que gemeantemente permanecia escancarada e vazia, pela qual, provocado pelo esporão do desejo curioso, desci por diversos degraus para a sua garganta, de lá para o seu estômago, e assim por diante por caminhos secretos, e pouco a pouco para todas as várias partes das suas entranhas interiores. Oh, conceção maravilhosa. E cada parte do corpo humano tendo sobre ela escrita a sua própria denominação em três idiomas, Caldeu, Grego e Latino, para que pudesses conhecer as entranhas, tendões, ossos, veias, músculos e a carne incluída, e que doença é gerada ali: a causa disso, a cura e remédio. Ao qual aglomerado e sinuoso monte de entranhas, havia um acesso e entrada conveniente: com pequenos olhais e postigos em diversos lugares diversamente dispostos, cedendo através deles uma luz suficiente para contemplar as várias partes da anatomia artificial, não faltando qualquer membro que se encontre num corpo natural.
Quando cheguei ao coração, vi e li como o Amor na sua primeira entrada gera pesar, e em continuação envia suspiros, e onde o Amor mais gravemente ofende: com o que fui movido a renovar a minha paixão, enviando do fundo do meu coração suspiros profundos e gemidos, invocando e chamando por Polia, de tal sorte que todo o Colosso e Máquina de bronze ressoou, atingindo-me com um medo horrível: uma Arte requintada além de toda a capacidade, para um homem enquadrar o seu semelhante não sendo uma Anatomia de facto.
Oh, a excelência dos espíritos passados, e a perfeita idade de ouro quando a Virtude lutava com a Fortuna, deixando apenas atrás de si como herança para este nosso mundo, cego, ignorante e invejoso desejo de riquezas mundanas.
Por outro lado, percebi de igual tamanho ao Colosso anterior a parte superior da cabeça de uma mulher, em parte descoberta, e o resto sepultado pelas ruínas decaídas, como julguei, de tal lavor como o outro, e sendo impedido por montes incompostos e desordenados de pedras decaídas e derrubadas de ver o mesmo, retornei a outro objeto anterior, que era (e não longe do cavalo, em linha reta) um enorme Elefante de pedra mais negra que a Obsidiana, polvilhado com pequenas manchas de ouro e brilhos de prata, tão densos como pó a cintilar ao sol. A dureza extrema da qual melhor mostrava o seu claro brilho resplandecente, de tal modo que todo objeto próprio nele se representava, exceto na parte onde o metal trazia uma cor contrária. Sobre o seu largo dorso estava posta uma sela ou arreios de bronze, com duas cilhas passando sob o seu largo ventre, entre as quais, sendo apertadas com fivelas da mesma pedra, estava interposto um quadrângulo correspondente à largura do Obelisco colocado sobre a sela, e tão justamente posto que nenhuma linha perpendicular cairia de qualquer lado do diâmetro. Sobre três partes ou lados do obelisco quadrado estavam gravados caracteres egípcios. A besta tão exata e engenhosamente proporcionada, como a invenção poderia conceber e a arte realizar. A referida sela e arreios expostos e embelezados com tachas, joias pendentes, histórias e dispositivos, e sustentando, por assim dizer, um poderoso Obelisco de pedra de cor verde da Lacedemônia, sobre o quadrado plano, dois passos de largura e sete de altura até à sua ponta aguda, tornando-se cada vez menor, sobre a qual ponta estava fixada um Trígono ou Bola redonda de uma substância brilhante e cintilante.
Esta enorme besta estava de pé sobre as quatro patas, de um lavor requintado sobre o nível plano, e a parte superior da base, talhada e engenhosamente moldada, sendo de pedra Pórfiro. Com dois grandes e longos dentes de pedra branca pura e clara, compactos e fixados. E para a cilha dianteira, de ambos os lados, estava presa uma peitoral rica e magnífica, embelezada com diversos ornamentos e variedade de joias, cujo objeto era da mesma substância da sela: no meio da qual estava gravado em latim Cerebrum est in capite. E da mesma maneira, trazida em torno dos exteriores do seu pescoço até ao topo da sua cabeça larga e grande, estava ali fixada juntamente com um nó artificial: do qual pendia um ornamento curioso e muito notável, de trabalho de ourives, cobrindo o seu rosto espaçoso: sendo o mesmo ornamento duas vezes mais longo do que largo, bordeado em volta, na tábua do qual contemplei certas letras, jônicas e árabes, desta sorte.
A sua tromba devoradora não descansava sobre o nível da base, mas pendia um pouco, voltada para cima em direção ao seu rosto. As suas orelhas largas e vincadas, como as de um cão de caça, pendentes e balançantes, cuja vasta estatura era pouco menos que a de um Elefante muito natural. E na circunferência e longos lados da base estavam gravados certos hieróglifos ou caracteres egípcios. Sendo decente e ordenadamente polida, com um rebatimento requisitado, latastros, golas, tórios, orbículas, astrágalos ou neptrules, com uma cimalha voltada para baixo ao pé da base, e voltada para cima com traquéis torcidos e dentículos, agradável e apta à devida proporção de tão grande substância, em comprimento 12 passos, em largura cinco, e em altura três, cuja parte superficial e externa foi talhada em forma de hemiciclo.
Na parte posterior da qual base e pedra, sobre a qual este poderoso animal estava, encontrei um lugar ascendente de sete degraus, para montar até à superfície plana da base sobre a qual o Elefante estava. E no quadrângulo reservado, perpendicularmente em linha reta sob a referida sela de bronze, foi cortada e feita uma pequena porta e entrada oca, um trabalho maravilhoso em tão dura substância, com certos degraus de bronze, à maneira de escadas, pelos quais me era oferecida uma subida conveniente ao corpo do Elefante.
À vista do que, desejei imensamente ver todo o dispositivo e, entrando, subi até à altura da base sobre a qual o monstro cavernoso, oco, vasto, largo e prodigioso estava, exceto aquela parte do Obelisco que estava contida dentro do corpo vazio da besta, e assim passando para a base. Deixando para ambos os lados do Elefante tanto espaço quanto pudesse servir para qualquer homem passar, quer em direção à cabeça ou às ancas traseiras.
E dentro, a partir da curvatura do espinhaço ou dorso da besta, pendia por correntes de cobre uma lâmpada eterna e luz enclausurada, através da qual, nesta parte posterior, vi um antigo sepulcro da mesma pedra, com a forma perfeita de um homem nu, de todas as partes naturais. Tendo sobre a sua cabeça uma coroa de pedra negra como azeviche: os seus dentes, olhos e unhas prateados e de pé sobre um sepulcro coberto como uma arca, de trabalho de escamas e outros lineamentos requintados, apontando com um cetro dourado e segurando o seu braço para a frente para dar direção à parte anterior.
No seu lado esquerdo segurava um escudo à moda da quilha de um navio, ou do osso da cabeça de um cavalo, sobre o qual estava inscrita em letras hebraicas, áticas e latinas, esta sentença que está colocada do outro lado com a figura.
À qual visão estranha e inaudita fiquei não pouco espantado e algo duvidoso do que imaginar, voltando os meus olhos para a parte contrária, vi da mesma sorte uma outra, como a luz ardente anterior, e passando através do meio do lado da besta e da parte do Obelisco ali encerrada, vim em direção à parte dianteira do Elefante, onde da mesma maneira encontrei um sepulcro assim modelado como o anterior, com uma estátua ou imagem de pé sobre ele como a outra, exceto que era uma Rainha, que levantando o seu braço direito com o seu dedo indicador, apontava para aquela parte atrás dos seus ombros, e com o outro segurava uma pequena tábua firme na sua mão, na qual estava escrito em três línguas este epigrama.
Esta novidade digna de ser manifestada, e enigma secreto frequentemente lido, não me era conhecido, de modo que fiquei na dúvida sobre o que a interpretação deste sofisma deveria significar, não ousando tentar a conclusão. Mas, atingido pelo medo neste lugar escuro e sombrio, não obstante a lâmpada que ardia tenuemente, sentia-me mais desejoso de contemplar e examinar aquele pórtico e portão triunfante, como sendo mais legítimo permanecer ali do que noutro lugar. Pelo que, sem mais delongas, determinei deixar este lugar até outra altura, para que pudesse mais quietamente e com lazer olhar para o mesmo, e preparar-me para contemplar o maravilhoso trabalho do portão: e assim descendo, saí de dentro do monstro eviscerado, uma invenção para além da imaginação, e um trabalho excessivo e tentativa audaz de esvaziar tal substância dura acima do que as outras pedras são, sendo o lavor no interior tão curioso quanto o de fora. Finalmente, descendo completamente, contemplei no Pórfiro, ao longo dos lados, notavelmente esculpidos e gravados estes hieróglifos.
Primeiro, o escalpo com chifres de um boi, com duas ferramentas de lavoura presas aos chifres.
Um altar sobre pés de cabra, com um fogo ardente no topo, no lado dianteiro do qual havia também um olho e um abutre.
Depois disso, uma bacia e um jarro.
Um fuso cheio de fio torcido, um vaso antigo moldado com a boca tapada e bem atada.
Uma sola e um olho no seu bojo e dois ramos atravessados, um de oliveira, outro de palmeira.
Uma âncora e um ganso.
Uma lâmpada antiga e uma mão segurando-a.
Um remo de forma antiga com um ramo de oliveira frutífera preso ao cabo.
Dois ganchos ou arpões.
Um golfinho e uma arca bem fechada.
Estes hieróglifos estavam admiravelmente bem cortados desta maneira.
Cuja maneira antiga de escrever, como a entendo, deve ser assim compreendida.
_Ex labore Deo naturae sacrifica liberaliter paulatim reduces animum Deo subiectum. Firmam custodiam vitae tuae, misericorditer gubernando tenebit, incolumemque seruabit._
Deixando passar este dispositivo e obra mais excelente, rara, estranha e secreta: voltemos novamente ao cavalo prodigioso, cuja cabeça era magra e pequena, de pequena proporção e, no entanto, ajustada ao corpo, que parecia continuamente a olhar fixamente, feroz e impaciente, a carne nos seus músculos a tremer e a palpitar, de tal sorte que parecia mais vivo do que uma imitação fingida, com esta palavra grega na sua face +GENEA+. Havia também outras grandes peças e fragmentos de diversos e variados lineamentos entre as ruínas partidas e decaídas, que não observei, continuando a correr e a deslizar, dando-me o tempo apenas a oportunidade de considerar e examinar estas quatro raras maravilhas, o pórtico ou portão, o cavalo, o Colosso e o Elefante.
Ó reverendos artistas dos tempos passados, que despeito obteve a mão superior sobre a vossa perícia, de tal modo que a mesma está enterrada convosco, e nada restou para nós herdarmos nesta era!
Finalmente, tendo chegado a este antigo pórtico, uma obra digna de ser vista, maravilhosamente composta por regras requintadas, e pela arte notavelmente embelezada, com diversos e variados tipos de cortes, que inflamou em mim um desejo de compreender e descobrir os lineamentos e a prática do arquiteto. Comecei desta maneira, fazendo um quadrado a partir das duas colunas de cada lado de uma forma perfeita, na qual tomei a devida proporção de todo o pórtico.
Uma figura de tetrágono A. B. C. D. dividida por três linhas retas e três transversais, igualmente distantes uma da outra, fará dezesseis quadrados, depois adiciona à figura metade de tanto quanto mais em igual proporção, dividindo o adjunto encontrarás vinte e quatro quadrados. Esta figura servirá de credencial para fazer a inlepturgia e breve demonstração que se segue.
Desenha então na primeira figura A. B. C. D. duas diagonais, faz também na mesma duas linhas, e retas para baixo, e a outra transversal, que fazem quatro quadrados mutuamente intersectados.
Depois, no vazio sobre os isopleuros, faz quatro pontos medianos, desenhando linhas de um para o outro, e eles farão o Rombos.
Quando desenhei esta figura desta maneira, imediatamente ponderei comigo mesmo, que razão deveria mover muitos dos nossos obreiros nestes dias, ou a pensar bem de si mesmos, ou a tomar a arte de construir em mãos, não sabendo o que ela é? Fazendo erros tão grosseiros em igrejas e casas de grandes homens, difamando a arte, e tão ignorantes, que parecem como se não pudessem considerar o que a própria natureza nos ensina ao contemplar as suas obras.
E qualquer parte que não esteja de acordo com o seu princípio é feia e má. Pois tira a ordem e a regra, e que coisa pode qualquer homem fazer, quer seja bela ao olho, ou de proporção louvável e durável: então tem de se seguir que a causa de tais erros inconvenientes provém da ignorância, e tem o seu início na iletracia. E isto, não obstante, que embora a perfeição desta arte não varie e caia da sua retidão, ainda assim o arquiteto discreto e astuto, para embelezar o objeto aos olhos dos espectadores, pode legitimamente, quer com adição ou diminuição, embelezar a sua obra, mantendo inteira a parte sólida, com a sua composição universal.
Chamo sólido ao que é o corpo da estrutura, que é a intenção principal, a invenção, o estabelecimento prévio, e a simetria, ou devida proporção do edifício sem quaisquer adições, corretamente examinada e perfeitamente composta, o que manifestará a perícia do obreiro, e o mesmo depois adornar e embelezar, cujo adjunto é uma tarefa fácil. Onde também deve ser considerado a devida ordenação e colocação de cada coisa, e não colocar uma coroa sobre os pés, mas sobre a cabeça, e assim o ovalamento e denticulação, e outros cortes de vários tipos nos seus lugares separados e mais adequados, cuja invenção principal e disposição repousa no raro e astuto arquiteto, mas o trabalho e labor do mesmo aos vulgar e comum grupo de manualistas e servos do arquiteto, que, se quiser fazer bem, não deve de forma alguma ser sujeito à avareza.
E para além da sua perícia deve ser honesto, não um falador cheio de palavras, mas cortês, gentil, benigno, tratável, paciente, alegre e agradável, cheio de novos dispositivos, um curioso pesquisador em todas as artes, e bem aconselhado no seu proceder, para que com rapidez não cometa uma falta ou absurdo na sua obra, e disto assim muito bastará.
Após Poliphylus ter feito uma demonstração alargada da devida proporção do Portão, ele procede a descrever os seus ornamentos e a sua excelência.
Tendo eu sido um pouco prolixo e tedioso no meu propósito anterior, pode ser que tenha causado algum ofensa àqueles que diariamente se esforçam por ocupar os seus sentidos nos agradáveis discursos de amor. Mas também não se provará nada desagradável se, com um pouco de paciência, eles se restringirem de se fartar com a doçura enjoativa de prazeres enganosos e provarem o sabor de uma iguaria contrária.
E na medida em que as afeições dos homens são naturalmente variáveis e diferentes umas das outras: nesta ocasião posso ser desculpado. Pois embora o pão por vezes negado e mantido longe do corpo faminto possa causar um conceito duro, quando é logo oferecido a ele, a malícia é esquecida e o presente muito graciosamente recebido.
Agora, tendo de alguma forma falado do uso correto da arquitetura, e do caminho e meios diretos, por ordem e regra, para descobrir o dispositivo estabelecido e o corpo sólido ou base da obra, com a facilidade de, sendo isso descoberto, o arquiteto poder usar diversas divisões em variadas perfeições, não diferente de um astuto Músico, que, tendo concebido a sua base simples em medida correta, com traços cheios, depois proporcionará a mesma em divisões, por mínimas, colcheias e semicolcheias cromáticas e deleitáveis, relatando curiosamente sobre o seu canto chão. Assim, após a invenção, a regra principal e especial para um Arquiteto é uma quadratura, a mesma dividida em pequenas partes, a harmonia e doce consentimento do edifício, expõe-se a si mesma, e os adjuntos convenientes, agradáveis ao seu principal.
Em todos os quais este pórtico era o mais excelente, tanto pela rara invenção e maravilhosa composição do mesmo, e as estranhas adições para embelezar o mesmo, de tal sorte tão requintadas, tão fitamente colocadas, e tão curiosamente cortadas e gravadas, que a menor parte do mesmo não poderia ser acusada de qualquer falta, mas o obreiro elogiado pela perfeição da sua perícia.
Primeiro, à minha mão direita em baixo, contemplei um estilípode ou pedra quadrada, como um altar sob as bases das colunas, que tendo na parte superior uma cornija conveniente e apropriada, e correspondentemente arqueada, a parte inferior e mais baixa foi da mesma maneira modelada, de tal modo que o quadrado e o referido estilípode não eram mais largos do que longos, mas um quadrângulo reto. O qual altar (como posso chamá-lo) lateralmente em volta, trabalhado com folhas, escavado por baixo com uma gulaterie, e envolvido com a mesma folhagem e trabalho de folha, cercando a face lisa ou tábua do Estilípode de alabastro branco brilhante, polido e plano, a parte externa do quadrângulo, circundando equilateramente o mesmo, sobre o qual com uma curiosidade maravilhosa estava gravado um homem perto da sua meia-idade, de uma aparência rude e morena, com uma barba disforme, espessa, e virando-se para o seu queixo, pela dureza da pele dura, e crescimento inquieto do cabelo.
Ele sentava-se sobre uma pedra com um avental de pele de cabra, as partes traseiras circundando a sua cintura, e atado atrás com um nó, e a parte do pescoço, com o lado peludo próximo dele, pendia entre as suas pernas. Diante dele, no interstício destas grossas e tumorosas barrigas das pernas, havia uma bigorna fixada sobre uma peça de árvore nodosa, sobre a qual ele estava a moldar uma brigandina ou cota de malha de metal ardente, levantando o seu martelo, e como se estivesse a golpear o seu trabalho.
E ali diante dele estava uma mulher muito nobre, tendo duas asas emplumadas postas sobre os seus delicados e ternos ombros, segurando o seu filho, um infante nu, que se sentava com as suas pequenas ancas sobre as coxas largas e bem proporcionadas da bela deusa sua mãe, e brincando com ela, enquanto ela o segurava, e pondo os seus pés sobre uma pedra, como se tivesse sido um pequeno monte, com uma fornalha num buraco oco, onde havia um fogo ardente extremamente quente.
Esta Senhora tinha as suas belas tranças curiosamente arranjadas sobre a sua testa larga e alta, e da mesma sorte circundando com abundância a sua cabeça de uma maneira tão rara e delicada, que me maravilhei por que os ferreiros que ali estavam ocupados no seu trabalho não deixavam de olhar constantemente para tão belo objeto. Havia também ali perto, de igual trabalho excelente, um cavaleiro de aparência feroz,[A] tendo sobre ele uma armadura de bronze, com a cabeça de Medusa sobre a couraça ou placa de peito, e todo o resto requintadamente trabalhado e embelezado, com um bandolete atravessado sobre o seu peito largo e forte, segurando com o seu braço musculoso uma meia-pique, e levantando a ponta da mesma, e carregando sobre a sua cabeça um elmo de crista alta, o outro braço sombreado e não visto devido à figura anterior: Havia também um jovem em roupas de seda, atrás do Ferreiro, a quem eu não podia perceber senão do peito para cima, sobre a cabeça declinante do supracitado Ferreiro. Esta história ensaiada, para o melhor e mais doce agrado ao olho, o obreiro tinha embelezado desta sorte. O solo plano que era oco e liso em cada recorte de um membro ou corpo, sobre a tábua do estilípode, era como coral vermelho e brilhante, que fazia tal reflexão sobre os corpos nus, e os seus membros entre eles, e circundando-os, que pareciam uma cor de rosa cravo.
[Sidenote A: Marte.]
Sobre o lado esquerdo da porta, no mesmo altar ou estilípode sobre a tábua do mesmo, estava gravado um jovem de aparência adequada,[A] na qual aparecia grande celeridade: ele sentava-se sobre um assento quadrado adornado com uma maneira antiga de entalhe, tendo na sua perna um par de meias-botas, abertas desde a barriga da perna até ao tornozelo, de onde crescia em cada tornozelo uma asa, e a quem a referida deusa com uma forma celestial, os seus seios tocando-se e crescidos redondos e firmes sem tremer, com os seus flancos largos conformes ao resto da sua proporção antes mencionada com uma aparência doce, oferecia o jovem e terno filho pronto para ser ensinado: o jovem inclinando-se cortêsmente para baixo para a criança, que estava diante dele sobre os seus pequenos pés bonitos, recebendo do seu tutor três flechas, que de tal sorte eram entregues que se poderia facilmente conjeturar e recolher de que maneira deviam ser usadas: a deusa sua mãe segurando a aljava vazia e o arco desarmado, e aos pés deste instrutor jazia o seu caduceu com víboras.
[Sidenote A: Mercúrio.]
Ali também vi um escudeiro ou portador de armadura e uma mulher com um elmo sobre a sua cabeça carregando um troféu ou sinal de vitória sobre uma lança desta maneira.[A] Uma cota de malha antiga pendurada, e sobre o topo da mesma ou crista, uma esfera sobre duas asas, e entre ambas as asas esta nota ou ditado, Nihil firmum, Nada permanente: ela estava vestida com uma peça de roupa fina carregada pelo vento, e os seus seios nus.
[Sidenote A: Amor mi troua di tutto disarmato.]
Os dois pilares retos de Pórfiro de sete diâmetros sobre qualquer um dos supracitados estilípodes e altares quadrados estendiam-se para cima de uma cor de pedra-pomes ou acastanhada, os lados externos brilhando claros e suavemente polidos, chanfrados e canelados com vinte e quatro rebatimentos ou canais em cada coluna entre os astrágalos ou cordões.
Destes, a terceira parte era redonda, e a razão do seu corte de tal sorte (isto é, duas partes chanfradas, e a terceira redonda) como pensei, era esta: a estrutura ou templo era dedicado a ambos os sexos, isto é, a um deus e a uma deusa, ou à mãe e ao filho, ou ao marido e à esposa, ou ao pai e à filha, e coisas semelhantes. E, portanto, os obreiros especialistas e astutos nos tempos antigos, para o sexo feminino, usavam mais chanfradura e canelamento e dupla variedade do que para o masculino, por causa da sua natureza escorregadia e inconstante.
A causa de tanta reentrância era mostrar que este era o templo de uma deusa, pois o chanfrado exibe as pregas do vestuário feminino, sobre o qual colocaram um capitel com dobragem pendente, semelhante a cabelos pregueados e encaracolados e a penteados femininos, e por vezes, em vez de um capitel, a cabeça de uma mulher com cabelos crespados.
Estas colunas notáveis e belas, supramencionadas, erguiam-se em comprimento sobre as suas bases inferiores de latão, com os seus toros e cimbias lavrados com uma folhagem de folhas de carvalho e bolotas, enrolando-se em torno dos seus capitéis que repousavam sobre os seus plintos subjacentes.
Os capitéis, da mesma substância das suas bases, com a proporção requerida, adequada e conveniente, correspondiam à harmonia de toda a obra. Tal que Calímaco, o escultor-chefe de Calato, filho de Júpiter, nunca realizou ou chegou perto no sepulcro erguido da Virgem Coríntia, embelezado com drapeado de acanto duplo.
Os plintos sobre os quais os capitéis se apoiavam, lavrados com trabalhos de curvas e voltas, e no meio, decorados com um lírio, a taça guarnecida com duas fileiras de oito folhas de acanto, segundo o modo romano e coríntio, de cujas folhas saíam pequenos talos, fechando-se no meio da taça, exibindo um belo e doce lírio composto no côncavo do ábaco ou plinto, a partir do qual os talos tenros se voltavam juntos, sob o compasso do ábaco quadrado, muito ao modo do trabalho que Agripa mandou fazer no pórtico do seu maravilhoso Panteão.
Venhamos agora ao limite e parte mais baixa da porta, para a entrada, que era de uma grande, larga e dura pedra, salpicada com manchas de diversos tipos, brancas, pretas e de cor de argila, e várias outras misturas: sobre esta erguiam-se as ombreiras retas e os lados da porta, com um aspeto intersticial, esculpidos interiormente com tanta mestria como o resto. Sem qualquer sinal de ganchos ou dobradiças, abaixo ou acima.
O arco de tal porta, compassando como um meio círculo, foi lavrado curiosamente e arqueado, e como que ligado por rendas semelhantes a contas de latão, algumas redondas, e outras como bagas de eglantina de uma cor avermelhada, pendentes ao modo antigo, e dobradas e voltadas por entre os talos tenros.
O fecho e travamento de tal hemiciclo ou arco, digno de admiração, de um engenho raro e subtil, e de polimento requintado, assim se objetou e apresentou à minha vista.
Ali contemplei, numa pedra dura e negríssima, uma águia estendida, e sobressaindo da grandeza de uma águia natural, que amorosamente tinha agarrado e tomado no seu pé um doce bebé nas faixas, delicada, cuidadosa e suavemente segurando-o, para que as suas garras fortes, agudas e curvas não pudessem, de modo algum, perfurar a pele tenra do jovem infante.
Os seus pés estavam fixos em torno do peito erguido da criança, a quem ela tinha despido do umbigo para cima e para baixo, de modo que as ancas nuas podiam ser vistas entre as coxas emplumadas da águia. Este pequeno infante e belíssimo bebé (digno e adequado para aquele por quem foi capturado) mostrava pelo seu semblante como se estivesse com medo da sua sorte.
E assim, deitado no pé da águia, estendeu ambos os braços, e com as suas pequenas mãos gordas segurou firmemente os ossos remígios das asas da águia estendidas, conforme referido. E entrelaçando as suas pernas e pés gordinhos e bonitos em torno da cauda espraiada que o vigiava, a qual jazia atrás da ascensão do arco.
Esta pequena criança foi esculpida a partir do veio branco da ágata ou ónix, e a águia do outro veio da mesma pedra chamada sárdio, que é de cor preta, por alguns chamada cordeol, unindo-se ambas na mesma pedra. Perante o que fiquei a meditar e a elogiar para comigo a engenhosa e apta invenção do artista, no uso de tal pedra, que por sua própria natureza a proporções contrárias conferia cores contrárias, e de tal modo que, pelo levantar da sua pequena plumagem sobre a cera, o bico entreaberto, e a língua aparecendo no meio deste, como se ela estivesse resolutamente decidida e ansiosamente empenhada em se ter banqueteado com ele.
O hemiciclo ou arco, elevando-se redondo a partir da parte superior da ombreira reta da entrada, de acordo com a espessura desta, estava disposto em losangos ou quadrados, nos quais estavam esculpidas rosas, cujas folhas e ramos pendiam numa ordem curiosa e deliciosa de contemplar, sobre a entrada do portão.
Nos dois triângulos ocasionados pelo arco, havia duas belas ninfas de proporções e formas excelentes, cujas vestes que cobriam os seus corpos virgens davam lugar para que as pernas, seios e braços ficassem nus, os seus cabelos soltos e esvoaçantes, e em direção ao suporte e união do arco acima, seguravam um troféu vitorioso.
O fundo de tal triângulo era de pedra preta, para melhor mostrar a perfeição e verdade dos metais nos troféus, e os belos corpos das delicadas virgens.
Acima destas partes mencionadas, estava o zóforo, no meio do qual contemplei uma tábua de ouro, onde estava este epigrama em letras capitais gregas de prata. Relatando desta forma.
+THEOIS APHRODITIKAI TO: O: EROTI DIONISOS YKAI DE: ME:TRA EK TO:N IDIO:N MYTRI SUMPATHESTATE:+
_Diis veneri filio amori, Bacchus, & Ceres de propriis, S. substantiis matri pientissim[ae]._
Ambos os lados de tal tábua eram retidos e sustentados por dois bebés ou espíritos alados de formas perfeitas e vivas, como se fossem corpos celestiais, sobre um fundo de jaspe ou safiras azuis para realçar os metais e a imaginária.
Sobre a face do zóforo, estendendo-se ao longo das colunas de pedra de pórfiro, estavam gravados certos despojos ou couraças, gorgueiras de malha, braçais, manoplas, escudos, alvos, elmos, maças, machados de batalha, esporas, aljavas, setas, dardos, lanças quebradas, cutelos e outros instrumentos antigos de guerra. Tanto aéreos e marinhos, como para o campo, singularmente bem cortados, e manifestando ao observador tanto vitórias, força e triunfos, após uma efusão mortal de sangue.
Sobre isto, em ordem, erguia-se a cornija, lavrada com tais lineamentos que decentemente concorriam e eram correspondentes à excelência do resto da obra: pois de outra forma, como no corpo de um homem, sendo uma qualidade contrária a outra, segue-se a doença, os humores oprimindo-se uns aos outros em abundância: assim, na construção, se os adjuntos forem inaptamente dispostos e indecentemente distribuídos, resultará uma torpe deformidade.
Pois uma estrutura e edifício cresce fraco e inestético onde não se consegue encontrar uma doce harmonia e uma ordem e concentração comodulada.
Coisa que muitos idiotas modernos confundem, sendo ignorantes na distribuição local. Pois um mestre artesão mostrará na sua obra uma alusão ou semelhança a uma forma e proporção humana, belamente adornada com vestes.
Acima da cornija, por uma gradação inversa, havia quatro quadraturas ou tábuas quadradas, duas exatamente sobre as colunas chanfradas e pilares canelados, e duas dentro delas. Noutra divisão, entre as ditas duas tábuas contrastantes e interiores, estava uma ninfa no seu anaglifo, raríssimo e excelente, de oricalco ou latão amarelo, segurando em cada mão uma tocha, uma delas invertida e voltada para baixo, estando extinta e apagada, e a outra ardendo em direção ao sol. A tocha acesa na sua mão direita, e a extinta na esquerda.
Na quadratura do lado direito, contemplei a ciumenta Clímene, com o seu cabelo transformado na erva chamada erva-de-Vénus, ou erva-das-senhoras, e Febo numa indignação cruel e desagrado colérico, ela seguindo-o a chorar, de quem ele fugia apressando os seus cavalos velozes, como alguém que foge do seu inimigo mortal e fatal.
Sobre a tábua acima das colunas do lado esquerdo, numa escultura curiosa e rara, estava a semelhança historiada do desconfortável e sempre choroso Cipariso, erguendo as suas mãos e braços em direção ao sol, e fazendo a sua lamentação a Apolo pela corsa ferida.
Na terceira tábua a seguir à última mencionada, num trabalho correspondente ao precedente e anterior, contemplei Leucótoe, iniquamente morta pelo seu próprio pai, mudando e transformando a sua carne bela, jovem e tenra em casca lisa, folhas agitadas e varas curvas.
Na quarta tábua estava representada a descontente e desagradada Dafne, perante os desejos ardentes do Delius de cabeça encaracolada, rendendo pouco a pouco o seu corpo virgem e imaculado, em direção aos céus quentes, sendo metamorfoseada, muito piedosamente, num loureiro verde.
Agora, sucessivamente, por ordem sobre as tábuas e quadraturas supramencionadas no zóforo, onde estas histórias estavam representadas em formas, estendia-se e sobrepunha-se uma cornija denticulada e ovalada com estrias interpostas, entre os vãos dos ovais, e o trabalho de folhas e os ímbrices com o resto que pertence à disposição da mesma (além da minha habilidade para descrever) sem qualquer falha ou defeito: e finalmente, a cimalha era adornada aqui e ali com as folhas de acanto.
E para retornar à visão de toda a estrutura, na disposição da mesma conforme referido, as cornijas por uma linha perpendicular eram correspondentes e concordantes com a queda de toda a obra, apenas excetuando o estilicídio ou perímetro, ou parte exterior da cornija superior.
Segue-se mostrar e falar da tábua ou parte interior do trigonal: dentro da qual, conforme as extremidades do mesmo triângulo permitiam, foi apresentada à minha vista uma coroa ou grinalda de diversas folhas, frutos e talos, dobrados e enrolados juntos, de uma pedra verde, unida em quatro partes, as amarras dos mesmos talos seguradas por duas sereias, as suas partes superiores de forma humana, e a que estava sob o umbigo como um peixe, uma mão para cima e a outra abaixo na grinalda, as suas caudas escamosas estendendo-se para os cantos mais baixos do triângulo, no topo da cornija, tendo nas suas partes extremas as suas asas ou barbatanas de peixe. Os seus rostos como virgens, as suas tranças de cabelo, parcialmente a encaracolar sobre as suas testas, algumas voltadas em torno das suas cabeças e enroladas, algumas dependendo sobre as suas têmporas, e frisando e anelando junto às suas orelhas. De entre os seus ombros cresciam as suas asas como as das harpias, esticando-se para baixo e estendendo-se para as dobragens e voltas das suas caudas; sobre os seus flancos monstruosos cresciam as suas barbatanas para nadar, o seu princípio, a sua substância de peixe e escamosa, e a partir daí continuando as suas partes inferiores para baixo.
Dentro da dita grinalda, contemplei uma cabra leiteira áspera, que uma pequena criança amamentava, sentada sob o seu lado sobre as suas pernas jovens e carnudas, uma esticada para a frente e a outra retraída e dobrada sob ele. Com os seus pequenos braços segurando-se pelos pelos e madeixas ásperas, o seu semblante e olhos postos no úbere grande e cheio, assim a mamar. E uma certa ninfa, como que dizendo palavras e dando vozes de contentamento à cabra, e inclinando-se, com a mão esquerda segurava um dos pés, e com a mão direita colocava a teta para os beijos estalados do infante que mamava, e sob ela estavam estas letras: Amalteia.
Outra ninfa estava em frente à cabeça da cabra, com um braço a rodear cuidadosamente o pescoço, e com o outro segurava-a pelo chifre.
No meio estava a terceira ninfa com ramos de folhas verdes numa mão, e na outra uma taça de beber à moda antiga, mais comprida do que larga, como um barco por uma pequena asa. Sob os seus pés estava escrito: Melissa.
Entre uma e outra das três ninfas anteriormente especificadas, havia outras duas com címbalos nas suas mãos, como que tocando e dançando, cada uma vestida de acordo com a perfeição das suas belezas, com um desempenho artificial de trabalho nas proporções empreendidas, que pareciam antes as substâncias mesmas do que uma litoglifia, uma imaginária, quer por Policleto, Fídias ou Lisipo, nem os anaglifos para Artemísia, a rainha de Cária, Escapas, Briáxis, Timóteo, Leocares e Téon chegavam perto, pois o trabalho aqui parecia exceder a astúcia de qualquer lapidário, escultor, gravador ou cortador humano, fosse ele qual fosse.
Acima deste triângulo supramencionado, e sob a cornija superior, numa superfície lisa, estavam estas duas palavras áticas em letras capitais: +DIOS AIGIOCHION+.
Este pórtico e portão conspícuo, muito digno de ser contemplado, estava assim composto de uma maravilha, excelentemente disposto. Se eu não tivesse explicado a comodulação e harmonia deste particularmente, poderia ter sido culpado pela minha prolixidade e tediosidade, e por falta de palavras adequadas na descrição. E assim, por esta vez, até aqui.
Deve necessariamente seguir-se que todo o resto do referido pátio de cada lado era belo de ver, e de trabalho majestoso por aquilo que ainda permanecia de pé: como na parte interior, as naves e colunas carregando e sustentando um peso imensurável e monstruoso, e coríntias de um tipo menor, uma obra divina e desconhecida, abundante em variedade de perfeições como a proporção requeria e a necessidade desejava para suportar o fardo que sobre elas estava posto. O seu ornamento e decoração com trabalhos, e engenhos imitando o vestir de corpos principescos, dotados como que de uma razão artificial. Pois, tal como para um corpo grande, largo e corpulento, pernas fortes e pés largos são necessários para suportar e carregar o mesmo: assim, num edifício modulado e bem composto, para sustentar grandes pesos, são designadas naves, e para beleza, colunas, coríntias e jónicas esguias, são colocadas sobre elas. E toda esta obra, exatamente da maneira que era requerida para a harmonia desta, assim permanecia numa excelência aprovada.
Com diversidade de cores, docemente postas e aptamente dispostas, o reflexo de uma embelezando a outra, e todas juntas fazendo um objeto gracioso. De pórfiro, ofita, numidiana, alabastrita, piropecila, verde da Lacedemónia, e mármore branco, diversamente veios, e de antracite com manchas brancas, e muitas outras de tipos estranhos e diversas misturas.
Encontrei uma forma rara de base, em moda semelhante a uma almofada, sobre o plinto da qual estavam dois trócilos ou tórulos, com uma interposição de hipotraquelos ou fustes, e astrágalos, com um toro supremo.
Vários lugares estavam escondidos e cobertos por hera sinuosa, feltrada e espalhada, cheia de bagas pretas e folhas verdes e macias aqui e ali, crescendo e impedindo o objeto interior da obra antiga, com outras ervas murais e de parede saindo das fendas e clivagens, como a campânula, o umbigo-de-vénus e Erogenet, por alguns chamado amor, a quem ele é grato, arbustando novamente em direção ao chão; noutras fendas crescia orelha-de-rato, polipódio, adianto ou cabelo-de-vénus, o citracus recortado e encaracolado, a lunária menor atada, pinheirinho, politricon ou cabelos-dourados e similares, que costumam crescer em edifícios degradados e velhas paredes de pedra, de modo que muitas peças dignas estavam investidas e escondidas de mim, com tais ervas e oliveiras verdes, as guarnecedoras de ruínas.
Havia em diversos lugares quedas imensas e inestimáveis de muitas colunas, ou antes, pilhas confusas de pedras partidas e culpines disformes montando-se da terra.
Entre as quais peças caídas eu podia ver os restos de diversas formas de homens de várias sortes, muitos nus, outros com os seus membros cobertos com indumentos dobrados e pregueados, agarrados firmemente às suas proporções nuas. Alguns de pé sobre o pé esquerdo, outros sobre o direito, de forma reta, com as suas cabeças perpendicularmente sobre o centro entre os seus calcanhares, e alguns olhando de lado, em altura, quatro cúbitos de seis pés.
Outros de pé sobre ambos os pés, algum tanto distantes um do outro, e cada um em majestade sentado nos seus tronos, e o resto com uma graça rara e modesta nos seus assentos mais agradáveis e designados.
Ali também contemplei inumeráveis troféus, despojos de armaduras e ornamentos infinitos, com as cabeças de bois e cavalos de grandeza conveniente, e em torno dos seus chifres parte das suas grinaldas de folhas, frutos, ramos, galhos e flores, e alguns em torno de parte dos seus corpos, com pequenas crianças montadas sobre eles e a brincar, de uma forma tão perfeita e ordem desejada, como o mais habilidoso mestre de obras, cheio de variedade, trabalho, estudo e indústria, poderia conceber e realizar. Com que cuidado e dor a sua habilidade abundante se manifestava claramente, e com que prazer o efeito do seu propósito não obscurecia em nada.
E com tal euritmia ou proporção apta de membros, ele mostrava a subtileza da arte da lapidária, como se as substâncias não tivessem sido do mármore mais duro, fosse ele qual fosse, mas de giz macio ou argila de oleiro, e com que conclaustura as pedras eram acamadas, e por que artilharia, regra e medida elas eram compostas e postas, era maravilhoso imaginar.
Esta era a verdadeira arte a desenuclear e descobrir a ignorância em que trabalhamos, a nossa detestável presunção e erros publicamente condenados.
Esta é aquela luz clara e perfeita, que docemente e com as nossas vontades não constrangidas atrai os nossos olhos de visão baça a contemplar e ver o mesmo. Pois ninguém (a menos que seja aquele que de propósito se recusa a vê-lo) teria os olhos a deslumbrar com o desejo contínuo de o ver.
Esta é aquela que acusa a horrível cobiça, a devoradora e consumidora de toda a virtude, um verme ganancioso, sempre a morder e eterno, no coração daquele que está cativado e sujeito à mesma, o obstáculo maldito e impedimento a engenhos bem dispostos, a inimiga mortal da boa arquitetura, e o ídolo execrável deste mundo presente, tão indignamente adorado e condenavelmente venerado. Tu, veneno mortal para aquele que está infetado contigo, que obras sumptuosas são derrubadas e por ti interditadas.
Juntamente com isto, estando eu arrebatado e tomado por um prazer e deleite inefáveis na contemplação deste raro e antigo monumento venerável, de tal graça e admiração, que eu não sabia para que parte me voltar primeiro, aqui e ali olhando voluntariamente ao redor, e maravilhado com isso, lendo consideradamente o que as histórias gravadas me apresentavam, à medida que me movia de lugar para lugar, com um deleite desconhecido e um prazer inenarrável de ver o mesmo, boquiaberto perante eles, esquecendo-me de mim mesmo como uma criança pequena, nunca satisfazendo os meus olhos gananciosos e desejo insaciável de olhar e olhar de novo a perfeição requintada da obra antiga, fui despojado e roubado de todos os pensamentos quaisquer que fossem, a recordação da minha desejada Polia, frequentemente ocorrendo, apenas excetuada. Mas com um suspiro extremo e profundo, deixemo-la um pouco e retornemos novamente ao nosso propósito continuado.
Sem dúvida alguma, seria uma coisa grande e louvável descrever verdadeiramente, e ponto por ponto, estabelecer a obra incrível e a composição inimaginável de tão vasta estrutura e enorme magnitude, de um edifício tão grandioso com a excelência da entrada, em um lugar conspícuo e visível, convenientemente situado, onde o meu deleite em contemplá-los excedeu a grandeza da minha admiração, gerando em mim tal conceito que me persuadi de que Júpiter não ousaria empreender o mesmo perante os outros deuses, e acreditando certamente que nenhum artífice, ou engenho humano, poderia abarcar tão enorme estrutura, expressar conceitos tão notáveis, ou imaginar e inventar dispositivos tão raros e adorná-los tão magnificamente, em tão singular ordem e simetria dispô-los, e sem suplemento ou correção terminá-los perfeitamente. Um orgulho raro e insolente em um edifício. Ocasião pela qual fiquei em alguma dúvida, e não pequena, de que se o historiógrafo natural tivesse visto ou ouvido falar disto, ele teria desprezado o do Egito, e a astúcia e indústria da sua feitura, pois que aqui os vários e diversos trabalhos efetuados por muitos artífices distintos pareciam, nas perfeições das suas devidas proporções, como se tivessem sido realizados por um só.
Ele teria também considerado com igual leveza a astúcia habilidosa de Satirus, o arquiteto, e outros de renome, especialmente Simandrus, para a obra de Memnon, que esculpiu as três estátuas de Júpiter em uma só pedra, tendo os pés mais de sete côvados de comprimento.
A isto a representação da magnânima Semíramis esculpida na montanha Bagistanus deve dar lugar.
E deixando de falar da insolente grandeza das Pirâmides de Mênfis, aqueles escritores teriam, em geral, se voltado para esta descrição. E deixando sem relato os famosos Teatros, Anfiteatros, Banhos, e edifícios sagrados e profanos, condutores de águas, e colossos, e aquele de Apolo transladado por Lioculus. Ou o templo dedicado a Júpiter por Cláudio César. Ou aquele de Lisipo em Tarento, ou a maravilha de Carelindiu em Rodes, e de Xenodoro na França, e em Roma. E o colosso de Serápis com nove côvados de comprimento feito de Esmaragdo ou Esmeraldas, ou o famoso Labirinto do Egito. Ou a representação de Hércules em Tiro.
Eles teriam acomodado os seus estilos doces à recomendação ouvida como a mais excelente de todas as outras, embora o Obelisco de Júpiter, composto de quatro frustos, quarenta côvados de altura, quatro côvados de largura e dois côvados de espessura, no seu delubro dentro do templo, se manifeste como um milagre maravilhoso.
Insaciável, lançando assim os meus olhos, e voltando o meu rosto ora para este lado, ora para aquele, em direção a esta enorme e poderosa estrutura, pensei assim comigo mesmo. Se os fragmentos e restos de tão sagrada antiguidade, e se o lixo e o pó de tal monumento decadente podem gerar uma estupefação na admiração do mesmo, e causar tão grande deleite ao contemplá-lo, o que teria feito no seu maior orgulho.
Após este meu discorrer, a razão persuadiu-me a supor que dentro poderia estar o Altar de Vênus para os seus místicos Sacrifícios e chamas sagradas, ou a representação da sua Divindade, ou a Afrodisia de si mesma e do seu pequeno Arqueiro, e por isso, com uma devoção reverente, estando o meu pé direito posto sobre o limite sagrado da porta, veio em minha direção voando uma Horix branca.[A]
[Nota lateral A: Uma ave de voo lento e longeva, em monumentos antigos dedicada pelos Áugures a Saturno.]
Mas eu, subitamente, sem qualquer outro cuidado ou previsão curiosa, com os meus olhos perscrutadores entrei conforme a espaçosa e luminosa entrada me deu licença, representando-me tais vistas que merecem, e são dignas de eterna lembrança, em ambos os lados revestida de mármore liso e polido, na parte central do qual estava encastrada uma mesa redonda, enclausurada e cercada por uma Pedra verde muito preciosa e adequadamente associada com trabalho curioso. E no lado oposto, de pedra muito preta, desprezando e desdenhando a dureza do ferro, e clara e brilhante como um espelho. Por meio da qual, ao passar (sem o saber), assustei-me com a minha própria sombra, contudo fui logo consolado com um deleite inesperado, pois o lugar que causou o meu desassossego agora oferecia-me o fundamento de todas as ciências, historiado em uma pintura visível, manifesta e perita.
E em ambos os lados, sob as mesmas belas e nobres mesas, estavam colocados ao longo bancos de pedra. O pavimento, limpo e livre de pó, sendo feito de Ostracus.[A]
[Nota lateral A: Ostracus são conchas moídas misturadas com cal, das quais se faz um reboco para pavimentar.]
E assim, da mesma maneira, o teto superior colorido era puro e desprovido de Aranhas e Teias de Aranha, devido ao ar fresco contínuo que entrava e saía.
O forro das paredes, como dito anteriormente, montava até a curvatura do Arco desde os Capitéis que repousavam sobre as suas Antes estritas e eretas, até ao limite mais extremo da entrada, que era, segundo o meu julgamento de perspectiva, de doze passos.
Desta ligadura perpolida e juntas fixadas, o teto da entrada, em todo o seu comprimento, marchava com uma flexura hemicircular, correspondente às Antes e aos lados retos do pórtico acima descrito, cheio de variedades e representações requintadas, raramente gravadas, de pequenos monstros aquáticos, como na própria água nas suas plemirulas diretas e bem dispostas, meio homens e mulheres, com as suas caudas de peixe: alguns abraçando-se uns aos outros com mútuo consentimento, alguns tocando Flautas, e outros outros instrumentos fantásticos.
Alguns sentados em Carros de moda estranha, e puxados neles por Golfinhos velozes, coroados e adornados com Lírios d'água adequados ao mobiliário dos bancos ornamentados: alguns com diversos pratos e vasos repletos de muitos tipos de frutas. Outros com cópias abundantes, alguns acoplados juntos com faixas, e outros lutando como faziam, montados em Hipopótamos, e outras feras várias e estranhas, com uma defesa Quilonial.
Alguns dispostos lascivamente, outros para variedades de esportes e festas, com esforços vivos e movimentos rápidos, muito singularmente bem expostos, e enchendo todo o supracitado teto arqueado.
Ao longo da elevação curva da entrada, contemplei um trabalho singular de várias representações e contrafeitos, em uma excelente Tesselação, brilhando como ouro: e de várias outras cores, com uma borda de dois pés de largura, circundando a cobertura giratória do teto, tanto abaixo quanto acima, e dividindo-os do trabalho, nos lados planos, de cores tão perfeitas e frescas como se tivessem sido recém-postas, com um trabalho de folha natural de um verde esmeralda, sobre um fundo púnico ou castanho, com Flores de Gigantes e Feníceas adulteradas com nós e curvas curiosas, e no espaço contido dos supracitados lados, vi esta antiga História pintada.
Europa, uma jovem Senhora, nadando para Creta sobre um Touro prestigioso. E o édito do Rei Agenor aos seus Filhos Cadmo, Fênix e Cilix, para encontrarem a sua irmã deflorada, o que não puderam fazer, mas depois de terem matado valorosamente o feroz Dragão escamoso que guardava a bela Fonte: e consultado Apolo, determinaram com os seus seguidores, e concordaram em construir uma Cidade, onde a Novilha mugidora indicasse, pelo que esse país, até ao dia de hoje, carrega o nome do mugido de uma Vaca, Europa. Cadmo construiu Atenas. O outro irmão a Fenícia. O terceiro a Cilícia.
Este trabalho e pintura mosaica estava corretamente colocado em ordem, como o começo e o fim da história exigiam, com ficções nas suas cores naturais, as suas ações e graus expressos rigorosamente.
No lado contrário, contemplei da mesma maneira a lasciva e luxuriosa Pasífae queimando em luxúria infame, deitada em uma Máquina ou armação de madeira, e o Touro saltando sobre o que ele não conhecia.
Depois disso, o monstruoso minotauro com a sua forma feia fechado e encerrado no intrincado Labirinto. E depois disso o aprisionado Dédalo, fazendo artificialmente asas para si mesmo e para o seu jovem filho Ícaro, que infelizmente não observando a regra do seu Pai, caiu de cabeça no mar profundo, deixando ao mesmo mar o seu nome, após o seu afogamento. E o seu pai discreto, estando salvo conforme o seu voto, pendurando as suas asas no templo de Apolo.
Sobre o qual eu estava com a boca aberta, olhando atentamente com os meus olhos, e arrebatado na mente com a beleza da história, tão bem disposta, tão perfeitamente ordenada, tão artificialmente pintada e curiosamente expressa, inteira e sã, sem qualquer sinal de decadência, a força da substância glutinosa, que unia e mantinha a Tesselação ou xadrez juntos, era tal e tão perfeita. Pois nela o artífice tinha tomado grande trabalho e mostrado uma astúcia rara.
E assim, passo a passo, fui avançando audazmente, examinando e contemplando que direção e arte de pintura ele tinha observado com uma distribuição a lápis para fazer proporções inteiras em um plano liso e plano. Algumas linhas aproximando-se do meu objeto, e algumas parecendo como se tivessem estado de longe, dificilmente discerníveis, e ainda assim ambas de igual proximidade. E a mesma, novamente, que era dificilmente vista, oferecendo-se mais e mais ao julgamento do olho, com parerga requintada e águas sombreadas, Fontes, Montanhas, Colinas, bosques e bestas, nas suas cores naturais, e distantes uns dos outros, com luz oposta. E no vestuário, as dobras e pregas tão astuciosamente aperfeiçoadas e sombreadas que, tanto nisso quanto em todo o resto, a arte parecia invejar a própria natureza, e não pouco, do que muito me maravilhei.
Desta maneira cheguei ao extremo final, onde as belas histórias terminavam, e para além da mesma, mais para dentro, a escuridão era tal que não ousei entrar, e voltando atrás ouvi entre as ruínas um ruído contínuo como o estalar de ossos ou o seu chocalhar, do que fiquei parado, esquecendo o meu deleite pré-concebido, sendo interrompido com isso da doçura dos objetos. Finalmente, pude ouvir um farfalhar como se um Boi morto tivesse sido arrastado sobre o chão, o ruído aproximando-se cada vez mais do pórtico por onde eu deveria sair, onde ouvi um grande sibilar de uma enorme Serpente: o medo súbito em que estava fez-me não gritar por ajuda, nem vi como escapar, senão correndo para a vastidão escura e obscura na qual antes eu estava com medo de entrar.
Oh, miserável desgraçado oprimido por fortuna adversa e triste, vi na entrada da porta vindo em minha direção, não um Leão nocivo agachando-se para Androclo, mas um terrível e horrível Dragão[A] sacudindo a sua língua trissulca e tripartida contra mim, rangendo os dentes, e fazendo um ruído estridente ou rangente, a sua pele escamosa e esquamosa arrastando-se sobre o pavimento florido, batendo as suas asas sobre as suas costas enrugadas, com uma longa cauda dobrando-se e enrugando-se como uma Enguia e nunca descansando. Ai de mim, a visão era suficiente para ter assustado o próprio Marte na segurança da Armadura guerreira, ou para ter feito tremer o forte e poderoso Hércules, apesar da sua clava e do seu vigor. E para chamar Teseu de volta do seu empreendimento começado e tentativa audaz, e para aterrorizar o gigante Tifão, e para fazer o coração mais orgulhoso e valente, seja ele qual for, vacilar e curvar-se. Desejei para mim a rapidez de Atalanta, sendo ainda jovem e desarmado, de modo algum capaz de enfrentar tal força venenosa, e percebendo o seu hálito negro e infeccioso fumegando para fora da sua boca. Sendo privado de toda a esperança de passar por ele, clamei devotamente por ajuda divina. E subitamente virando as costas, tão rápido quanto podia correr, conduzi o meu corpo medroso com a ajuda dos meus pés de passo rápido para a parte interna dos lugares escuros, penetrando através de vários tormentos tortuosos, passagens ambíguas e caminhos desconhecidos.
[Nota lateral A: O Dragão é aquele Abaddon e Apoliom, o inimigo da humanidade.]
De modo que pensei estar[A] na estrutura inextricável do prudente Dédalo, ou de Porsena, tão cheia de caminhos e voltas sinuosas, um entrando no outro, para enganar a intenção daquele que sai, ou na cova espaçosa do horrível Ciclope, ou na Caverna oca do ladrão Caro. De tal sorte que, embora os meus olhos estivessem um pouco bem acostumados com a escuridão, eu não podia ver absolutamente nada. Mas fiquei feliz por esticar os meus braços para fora diante da minha face, tateando ao meu redor (como alguém que brincava de cego) para não bater a minha face contra alguns pilares, e sentindo com os meus pés suavemente antes de descansar sobre eles por medo de cair em algum cofre sob estas poderosas Pirâmides.
[Nota lateral A: Os lugares escuros são a ignorância, e a sabedoria deste mundo que não é nada mais do que pura tolice.]
E olhando para trás, se este terrível Dragão ainda me seguia ou não, a luz tinha desaparecido completamente. E eu permanecendo em um lugar escuro, cheio de várias voltas e passagens cruzadas, em um terror maior e mais mortal peso de mente do que Mercúrio. Fazendo-se Íbis e Apolo, Trícia, Diana, no pequeno pássaro Colomene. E Pã em duas formas. Eu e mais assustado do que jamais esteve Édipo, Ciro, Creso e Perseu. E mais tremendo do que o ladrão Tracílio na sua pele de urso. Em tristeza mais abundante do que a pobre Psique. E em perigos mais trabalhosos do que Lúcio Apuleio, quando ouviu os ladrões consultando para bater-lhe na cabeça e matá-lo.[A]
[Nota lateral A: Cosby por matar o L. Browgh.]
Oprimido e carregado com todos estes sustos e terrores supramencionados, comecei a imaginar que o Dragão estava voando sobre a minha cabeça, e com o ruído dos seus dentes estridentes e garras rasgadoras a tomar posse de mim com as suas mandíbulas devoradoras: o meu coração dando-me a entender, que o Lobo carnívoro de que sonhei, era um presságio deste meu último fim duvidoso. E assim correndo para cima e para baixo como uma pequena formiga pobre, quando a Perdiz está a arranhar sobre os seus montículos e a apanhá-los. Com os meus ouvidos atentos e vigilantes, ouvindo se o monstro horrível com o seu veneno viscoso e imundo e cheiro fedorento estava a aproximar-se de mim. E temendo tudo o que vinha primeiro ao meu pensamento.
Encontrando-me desarmado, privado de toda a ajuda, neste perigo mortal, e perplexidade miserável, embora a morte seja naturalmente amarga e odiada, ainda assim, naquele tempo, eu estimava-a graciosamente, o que pensei que poderia sofrer voluntariamente, mas essa vontade era insuficiente: a esperança ainda olhando, e persuadindo-me de uma vida incerta, medrosa e inquieta.
Ai, como a minha alma e corpo relutavam em deixar um ao outro, cuja tristeza me tornava relutante em entreter um inimigo tão cruel como a morte: whereupon, ganhando um bom coração, pensei assim.
Deve a grandeza do meu amor tão docemente incendiado agora decair, frustrado de qualquer efeito, pois se neste momento eu tivesse sido presenteado apenas com uma visão disso, eu poderia ter ficado ainda melhor satisfeito.
Mas ainda assim, retornando imediatamente à impressão interna do meu objeto mais doce, ainda habitando no segredo do meu coração, caí em lágrimas soluçantes, pela perda de duas joias tão dignas. Isso era Polia e a minha vida preciosa. Chamando continuamente por ela com profundos suspiros e soluços soluçantes, soando no ar espesso, enclausurado sob os enormes arcos e cobertura escura secreta, dizendo assim para mim mesmo.
Se eu morrer aqui tão miseravelmente, dolorosamente e desconfortavelmente, tudo sozinho, quem será um digno sucessor de uma gema tão preciosa? E quem será o possuidor de tal tesouro de tão inestimável valor? E que céu justo mostrará uma luz tão clara? Oh, Polífilo mais miserável, para onde vais, infeliz? Para onde apressas os teus passos? Esperas alguma vez contemplar novamente qualquer bem desejado? Contempla, todos os teus conceitos graciosos e deleites altos e agradáveis construídos nos teus pensamentos apreensivos, através da doçura do amor, são mortalmente abalados, e abruptamente precipitados e deitados abaixo? Olha como as tuas altivas cogitações Amorosas são abaladas em pedaços e aniquiladas. Ai de mim, que sorte injuriosa e constelações malevolentes, tão perniciosamente te conduziram, e enganosamente te aliciaram para esta miserável escuridão obscura? E agora te levaram desprezivelmente em um monte de medos mortais, e afogando-te em um mar profundo de dores inefáveis. Para o devoramento impiedoso e súbita engolição de um monstro tão imundo, e para ser apodrecido e digerido nas entranhas fedorentas de uma besta tão imunda, e para ser lançado para fora em um lugar tão vil. Oh, morte lamentável e não acostumada. Oh, fim miserável da minha vida desejada. Onde estão os meus olhos? O que são eles, estéreis? O seu humor foi-se? Não restam mais lágrimas para cair escorrendo pelas minhas faces banhadas? Bem, então percebo que a morte está às minhas costas, quem viu alguma vez tal mudança de fortuna? Contempla a morte infeliz e caprichosa, e a última hora, e o minuto maldito da mesma à mão, nesta sombra sombria, onde o meu corpo e carne estão designados a ser alimento para uma besta tão imunda. Que fúria? que crueldade? que miséria mais monstruosa pode uma criatura mortal sofrer? Que a luz doce e agradável deveria ser arrancada daqueles que estão vivos, e a terra negada àqueles que estão mortos. Que calamidade porca, e infortúnio deformado, tão gravemente e prematuramente abandonará de mim a minha mais desejada e florescente Polia, Adeus, espelho de toda virtude, e verdadeira perfeição de beleza, adeus.
E assim, além de toda medida, atirado e tombado em tais e tão grandes aflições, a minha própria alma estava vexada dentro de mim, esforçando-se para ser posta em liberdade do meu infeliz e débil corpo, passando para cima e para baixo, não sabia onde. As minhas pernas fracas, débeis e vacilantes sob mim, os meus espíritos definhando, e os meus sentidos de uma maneira idos de mim. Exceto que clamei devotamente ao Deus omnipotente para ter piedade de mim, e que algum bom Anjo pudesse ser designado para me conduzir para fora. E com isso, contempla, descobri uma pequena luz. Para a qual, quão alegremente me apressei, deixe cada um julgar o que faria em tal perplexidade.
Vi uma Lâmpada eterna, queimando diante de um Altar que tinha cinco pés de altura, e dez pés de largura, com as imagens de ouro sobre ele, as quais não pude contemplar muito perfeitamente, apesar da Lâmpada acesa, a grosseria do ar era tal e tão grande inimiga da luz.
E sempre com ouvidos atentos escutei diligentemente, como ainda não livre do medo, e alguma coisa vi, as imagens baças e as grandes fundações, e cofres temerosos, e contrafortes subterrâneos ou sustentadores e forças, aqui e ali em lugares infinitos distribuídos, e muitos pilares enormes e poderosos, alguns quadrados, alguns de seis lados, alguns de oito lados, aptamente postos sob e proporcionados para sustentar a vasta magnitude das pesadas Pirâmides.
Lá, tendo pouco deleite em fazer qualquer longa estadia, pretendi tomar um caminho desconhecido mais para dentro, cujo curso empreendido, avistei uma luz que há tanto desejava, entrando por uma pequena postigo tão pequena quanto pude ver.
Oh, com que alegria, e com que coração alegre, contemplei-a, e com que ânimo apressei os meus passos em direção a ela. Talvez mais rápido que Canístio ou Filónides,[A] a minha alegria desenfreada e desejo extremo de chegar perto dela era tal, que revoquei e arrastei de volta o divórcio da minha vida descontente e enfadonha, sucessivamente confortando a minha mente perturbada e coração abatido. Refrescando e tranquilizando-me um pouco: enchendo novamente o meu coração evacuado e vazio, e repondo o mesmo com as suas velhas cogitações.
[Nota lateral A: Dois preguiçosos obtusos, um de Melite e outro de Atenas, que pensavam ser um grande trabalho comer a sua própria comida.]
Agora estabeleci-me mais em direção à minha adorável Polia, e vinculei as minhas afeições mais seguramente a ela. Sendo persuadido e firmemente opinado, que esta visão era um transe de amor, por mostrar que eu deveria morrer e perder o meu amor. Oh, como isso me vexou extremamente! Nem recusou ou fez resistência a qualquer assalto agudo e novo de amor, que no meu coração ferido e dolorido ficaria apodrecendo e alimentando-se de si mesmo.
E a este tempo, passados todos os impedimentos e estorvos, ofereceu-se-me uma saída espaçosa e larga. Então, por meio da luz clara, senti-me algo consolado e, reassumindo e reunindo de novo os meus pensamentos errantes, e restaurando a minha força prostrada, a minha suspeitada e desconhecida viagem fez-me partir a correr: de tal modo que, quanto mais me aproximava da porta, maior me parecia que ela crescia. À qual, por fim, pela vontade de Deus, com Polia exercendo um vigor predominante no meu peito amoroso, cheguei, não cessando de continuar a minha rápida marcha: as minhas mãos, que antes estendia tateando, para evitar correr contra pilares, usei agora como um par de remos para apressar a minha fuga.
Viajando assim em segurança, cheguei a um lugar e região muito aprazíveis, nos quais não estava ainda isento de medo, e não ousando descansar, a impressão do horrível monstro estava tão fresca na minha mente que me parecia ouvi-lo ainda atrás de mim e, por isso, não o conseguia esquecer tão facilmente. Mas sentia-me antes persuadido a seguir adiante: primeiro, porque o campo era tão fértil, aprazível e belo. Segundo, para que pudesse afastar-me o suficiente do lugar onde fora tão recentemente aterrorizado. Para que então, sentando-me, pudesse descansar e recompor o meu espírito, e esquecer este pavor concebido, na minha entrada pelo portão, a aparição do branco Sorix, vindo graciosamente de novo à minha memória retentiva, uma provocação exortatória e boa ocasião para animar-me e consolar-me, porque, para os áugures, era um sinal grato e propício de boa sorte.
[Sidenote A: Capillata ministra.]
Por fim, estava resolutamente persuadido a entregar-me à benignidade da minha boa fortuna, que por vezes poderia ser para mim uma serva oficiosa e generosa de eventos prósperos.[A] E, com isso, estimulado e provocado a continuar a minha caminhada, para onde quer que as minhas pernas cansadas e débeis me conduzissem. E, contudo, estava (como em boa medida me competia) algo hesitante em entrar num tal lugar (sendo-me desconhecido), onde talvez não me fosse lícito entrar. Embora, nisto, fosse muito mais audaz e corajoso do que na entrada do sumptuoso Pórtico. E assim, com o peito a bater acelerado e a mente perplexa, disse para comigo.
Não há causa que me deva levar a voltar atrás, tudo considerado: não é este um lugar mais seguro e mais apto para fugir do perigo? Não é melhor arriscar a vida sob o Sol claro e brilhante do que morrer e definhar numa escuridão cega? E assim, resolvido a não voltar mais atrás: com um profundo suspiro, chamei à memória o prazer e o deleite que os meus sentidos tinham quase perdido: pois a obra que eu vira estava cheia de maravilhas extraordinárias e, pensando por que meio fora privado delas, chamei à lembrança os leões de latão, no Templo de Salomão, que eram de semblantes tão ferozes que levariam os homens ao esquecimento.
E temia que o dragão me tivesse levado a tal estado, que obras tão excelentes e maravilhosas, e raras invenções, de certa forma impossíveis de serem realizadas por qualquer criatura humana, dignas de serem manifestadas e por mim diligentemente examinadas, estivessem agora a fugir da minha memória sugadora, de tal modo que eu não fosse capaz de fazer um verdadeiro relato delas: mas nisso contrariei-me a mim mesmo: nem descobri que estava em paixão de letargia: mas que me lembrava muito bem e retinha, sem qualquer falta na ordem e proporção, tudo o que vira e contemplara. E que a besta monstruosa e cruel era uma substância muito viva, e não uma ficção, tal como raramente fora vista por qualquer homem mortal, nem mesmo por Regulus. A própria lembrança da qual fez o meu cabelo ficar em pé e, de imediato, moveu-me a apressar o passo.
Depois, retornando a mim mesmo, pensei assim: aqui, sem dúvida alguma (pois assim imaginava, devido à gloriosa bondade do belo solo), não há habitação senão para pessoas civis, ou antes para anjos e personagens nobres, e um lugar para as Ninfas frequentarem, ou para os Deuses e Antigos, Monarcas e príncipes, de tal modo que o meu desejo persuasivo forçava o meu passo contido, causando uma perseverança na minha jornada recém-iniciada. E assim, como alguém cativado e sujeito à aguda espora do desejo insaciável, propus-me a continuar para onde quer que a formosura da minha fortuna me conduzisse, ainda assim apenas indiferente e antes lânguida.
Agora, chegado a contemplar um campo belo e abundante, campos frutíferos e terras férteis, elogiei excessivamente o desejo que me moveu primeiro a entrar neles. Mas especialmente para dar graças àquele que me trouxera para fora do lugar temível, ao qual agora pouco ligava, estando bastante longe dele.
[Decoration]
_Poliphilus mostra a comodidade do campo para o qual viera; na sua viagem pelo mesmo, chegou a uma boa Fonte, e como viu cinco belas Donzelas vindo em sua direção, e o espanto delas com a sua chegada ali, assegurando-o de qualquer dano, e convidando-o a ser participante dos seus solaces._
Assim, saído deste inferno temível, concavidade escura e lugar pavoroso (embora fosse um sagrado Aphrodise e um reverendo Templo:) e tendo chegado a uma luz desejada, ar amável e campo aprazível, cheio de contentamento: voltei-me para olhar para trás, para o lugar de onde saíra, e onde a minha vida, a minha vida que ultimamente eu estimava tão pouco, estava tão grandemente perplexa e em perigo, onde contemplei uma montanha antinatural, com uma ascensão moderada e subida íngreme, coberta e sombreada com folhas verdes e tenras de carvalhos mastique, faias, carvalhos, azinheiras, _Cerries Aesculies_, sobreiros, teixos, azevinho ou Huluer, ou Acilon.
E em direção à planície, estava coberta de Hamberries, aveleiras, filhós, ameixoeiras, alfeneiro, ou ligustro, e embranquecida com as suas flores: por Xeapie colorida, sendo vermelha em direção ao norte e branca contra o Sul, plátanos, freixos e outros semelhantes, espalhando e estendendo os seus ramos: dobrados e abraçados pelo correr das madressilvas ou videiras, e lúpulos, que faziam uma sombra agradável e fresca. Debaixo da qual crescia o selo de Salomão ou Violeta-de-rapé, prejudicial para a vista, polipódio recortado e a Triental e a Scolopendria de quatro polegadas, ou língua-de-veado, Heleborous Niger, ou Melampodi, trevos e outras ervas umbrófilas e flores silvestres, algumas adornadas com elas e outras sem.
De modo que a boca do lugar escuro, de onde eu escapara, estava de certa forma dentro da alta Montanha, toda coberta de árvores.
E como pude conjeturar, era exatamente em frente à estrutura já falada e, no meu julgamento, tinha sido alguma peça rara de trabalho, mais antiga do que a outra, e pelo tempo gasta e consumida, agora carregando hera e outras árvores de muro, e assim tornara-se um bosque coberto, que quase não conseguia perceber qualquer saída, ou boca para fácil passagem, a não ser por necessidade, pois estava à volta cercado e enquadrado com árvores arbustivas e espalhadas, de tal modo que nunca estive determinado a entrar ali novamente.
Na passagem estreita do vale, entre as rochas extensas e altas, o ar estava baço devido aos vapores retidos, e ainda assim eu estava tão satisfeito com isso como Apolo no seu nascimento divino.
Mas deixando passar este buraco, do qual saí agachado, venhamos em frente para as doces liberdades que vi a seguir, e que era um bosque espesso de castanheiros ao pé da colina, que supus ser um solo para Pan ou algum Deus Silvestre com os seus rebanhos e manadas alimentando-se, com uma sombra aprazível, sob a qual passei, cheguei a uma antiga ponte de mármore com um arco muito grande e alto, sobre o qual, ao longo de ambos os lados das paredes, havia assentos convenientes para descansar, os quais, embora fossem bem-vindos ao meu corpo cansado, eu tinha mais desejo de seguir em frente, sobre os quais, nos lados da ponte, exatamente sobre o topo do arco, estava colocada uma mesa de pórfiro com uma borda sumptuosa de trabalho curioso, uma mesa de um lado e outra do outro lado, mas a do lado esquerdo era de Ofite.
Sobre a mesa à minha direita, conforme seguia, contemplei _hieróglifos egípcios_ desta sorte, um antigo Capacete com uma crista de cabeça de cão.
O crânio ósseo de um boi com dois ramos verdes de árvores presos firmemente aos chifres. E uma velha lâmpada. Quais hieróglifos, os ramos excetuados, porque não sei se eram de pinheiro, ananás, lariço ou zimbro, ou outros semelhantes: interpreto assim.
PATIENTIA EST ORNAMENTVM, CVSTODIA ET PROTECTIO VIT[AE].
Do outro lado estava gravado um círculo, depois uma âncora com um golfinho enrolado à volta da haste, o que conjeturei que significasse isto, +AEI SPEU DE BRADEOS+, Semper festina tarde.
Debaixo da qual ponte antiga, segura e bela, corria uma água claríssima e veloz, dividindo-se em duas correntes separadas, uma para um lado e outra para outro, que corriam muito frias, fazendo um ruído suave e contínuo, nos seus canais congelados, quebrados e mordiscados, pelas suas margens comidas e sulcadas, cheias de pedras, cobertas e sombreadas com árvores, as suas raízes espalhadas aparecendo nuas na mesma, e à volta delas penduradas Tricomanes, Adiantus e Cimbalaria, e barbudas também com diversos pequenos pelos, como costumam crescer à volta das margens dos rios.
O bosque de que falei era muito aprazível de ver, nem demasiado espesso ou mais largo em circunferência do que um homem desejaria, mas construindo uma sombra deliciosa, as árvores cheias de pequenos pássaros e aves.
Diretamente em frente, a Ponte estendia-se e levava em direção a uma grande planície, ressoando por todo o lado com os doces chilreios, gravações melodiosas e o canto alto delas. Onde estavam a saltar e a correr pequenos esquilos, e o arganaz sonolento, e outros animais inofensivos.
E desta maneira, como dito acima, este País arborizado mostrava-se, rodeado de altas montanhas tanto quanto um homem podia ver, e a planície toda coberta com uma fina variedade de várias ervas doces, e os canais claros de correntes cristalinas, deslizando ao longo das colinas com um ruído murmurante para o vale plano.
Adornado e embelezado com a Oliveira amarga, Loureiro, Álamo branco e Lisimachia, choupo negro, amieiros e freixo bravo.
Sobre as colinas cresciam altos pinheiros desarmados, e o lariço chorão, no qual se faz terebintina, e outros semelhantes.
Quando bem considerei este lugar tão frutífero e tão cómodo para o gado e bestas serem alimentados e mantidos (pois parecia que desejaria a companhia de um pastor e uma canção pastoral), ponderei qual seria a ocasião para que um lugar tão cómodo estivesse desabitado. E lançando os meus olhos mais adiante na planície diante de mim, e deixando este lugar anteriormente descrito, pude perceber uma construção de Mármore, mostrando o seu telhado sobre os tenros topos das árvores circundantes. À vista da qual, fiquei maravilhosamente contente e com boa esperança de que ainda ali encontraria alguma habitação e refúgio. Para a qual, sem demora, me apressei. E tendo chegado a ela, encontrei uma construção octogonal, com uma fonte rara e maravilhosa: que não estava de todo mal. Pois ainda não tinha saciado a minha sede.
Esta construção era de oito cantos, pequena em direção ao topo e coberta de chumbo. De um lado estava colocada uma bela pedra de puro Mármore branco, de quatro cantos, metade tão longa quanto larga, cuja latitude, como supus, era de uns seis pés.
Desta boa pedra eram exatos dois pequenos meios-pilares, chanfrados com as suas bases, segurando um Sime reto, com uma gola e denticulado e cordículas, ou trabalho de corações, com os seus capítulos debaixo de um Trabeto, Zóforo e Cornija, sobre os quais estava contido um trigonal, na quarta parte da pedra, suave e plano, sem qualquer trabalho na mesa da mesma, exceto uma pequena guirlanda, dentro da qual estavam duas Pombas a beber num pequeno vaso.
Todo o espaço não mencionado, inclusivamente, foi cortado e evacuado, entre os Pilares, a Gula e o Trabeto transversal, continha uma elegante Ninfa esculpida. E debaixo do Sime havia outro quarto trabalhado com Toros, Torques, Balões e um Plinto.
A qual bela Ninfa jazia dormindo sobre um pano dobrado, dobrado e enrolado debaixo da sua cabeça. Outra parte convenientemente trazida sobre ela, para esconder o que era nu e feminino, e adequado para ser mantido em segredo. Deitada sobre o seu lado direito com aquele braço sujeito retraído, e a palma aberta debaixo da sua bela bochecha, sobre a qual apoiava a cabeça.
O outro braço em liberdade, estendido ao longo sobre o seu quadril esquerdo, alongando-se até ao meio da sua bela coxa. Pelos seus pequenos mamilos (como os de uma jovem) nos seus seios redondos brotavam pequenos jorros de água pura e clara e fresca, do seio direito como se fosse um fio, mas do seio esquerdo muito veementemente. A queda de ambos, recebida num vaso de pedra de pórfiro, com dois receptáculos unidos no mesmo vaso, separados e distintos da Ninfa por seis pés, em pé sobre uma armação conveniente de pedra de sílex. Entre cada um dos receptáculos, havia outro vaso colocado, no qual as águas lutavam juntas e se encontravam, saindo pelos lugares cortados e designados, no limbo médio dos seus Receptáculos, cujas águas misturadas desse vaso descarregavam-se num pequeno canal, deslizando para longe, e com uma e com a outra, todas as ervas e flores adjacentes e em volta eram generosamente beneficiadas.
A do seio esquerdo espalhava-se tão alto que não molhava nem impedia qualquer um que quisesse chupar ou beber da água que corria e brotava do seio direito.
E esta excelente Imagem era tão definidamente expressa, que temo que Prapitiles nunca tenha realizado algo semelhante para Vénus, para Nicomedes, o Rei da Cária, ídolo o qual ele designou para ser adorado pelos seus súbditos, embora a beleza do mesmo fosse tal que movia aquele povo imundo à concupiscência carnal.
Mas eu estava persuadido de que a perfeição da imagem de Vénus não era nada comparada com esta, pois parecia que uma belíssima Senhora no seu sono tinha sido transformada em pedra, o seu coração ainda batendo e os seus doces lábios prontos a abrir, como se não quisesse ser usada assim.
Da sua cabeça, as suas madeixas soltas jaziam ondulando sobre a cobertura suprimida, dobradas e plissadas, e como que desprezando os cabelos do pano aglomerado, as suas coxas de uma grossura conveniente e os seus joelhos carnudos algo dobrados para cima, e retraídos em direção a ela.
Mostrando os seus dedos direitos como se estivessem a suplicar aos seus dedos para os manipular e esticar, o resto do seu corpo correspondente às perfeições destas várias proporções.
E atrás dela a sombra da folhosa Memerill ou Medronheiro, cheia de maçãs pequenas e tenras e frutas, e pássaros bonitos como se estivessem a chilrear e a cantar para ela dormir.
Aos seus pés estava um sátiro em luxúria pruriginosa sobre os seus pés de bode, a sua boca e o seu nariz juntando-se como um bode com uma barba crescendo de ambos os lados do seu queixo, com dois bicos e curtos no meio como pelo de bode, e da mesma maneira à volta dos seus flancos e das suas orelhas, crescia pelo, com um semblante adulterado entre um homem e um bode, de uma forma tão rara como se o excelente artífice na sua escultura tivesse tido apresentado a si pela natureza a Ideia e forma de um Sátiro.
O mesmo Sátiro tinha forçosamente, com a sua mão esquerda, dobrado um braço da árvore de Medronheiro sobre a ninfa adormecida, como se quisesse fazer-lhe uma sombra favorável com isso, e com a outra mão segurando uma cortina por um dos lados que estava presa ao corpo da árvore.
Entre o Medronheiro e o Sátiro, estavam dois pequenos Sátiros, um segurando uma garrafa nas suas mãos e o outro com duas cobras enroladas à volta dos seus braços.
A excelência, delicadeza e perfeição deste figmento e trabalho não pode ser suficientemente expressa.
Isto também ajudando a adornar a doçura do mesmo, que é a brancura da pedra, como se fosse puro marfim.
Maravilhei-me também com o trabalho da cobertura de pano como se tivesse sido tecido: e com os ramos, galhos e folhas, e com os pequenos pássaros, como se estivessem a cantar e a saltitar para cima e para baixo sobre os seus pés bonitos, em cada articulação única e garra feita perfeita, e assim o Sátiro da mesma forma. Sob este raro e maravilhoso trabalho esculpido entre as golas e ondulações, no liso plano, estava gravada em caracteres Áticos esta poesia +PANTA TO KADI+.
A sede que eu tinha adquirido no dia anterior aumentara tanto, que estava provocado agora a saciá-la, ou antes, seduzido pela bela beleza do instrumento, cuja frescura era tal, que entre os meus lábios me parecia que ela agitava e tremia.
E à volta deste lugar aprazível, e pelos canais a gotejar, crescia Vaticinium, Lírio-do-vale, e a Lysimachia florida ou erva-de-são-antão, os juncos pesarosos, hortelãs, salsa-brava, bálsamo, Hydrolapathos, ou azeda-de-água, e outras ervas aprovadas, e flores finas, um pequeno canal vindo por uma eclusa da Ponte, entrando e descarregando-se, era a causa de uma boa bela Poça, larga e grande, numa ordem muito boa, aparada à volta e embelezada com uma cerca de doces Rosas e Jasmim. E de lá, correndo sobre ela, dispersou-se, nutrindo e visitando os campos e terras adjacentes, abundando em todos os tipos de ervas, flores, frutas e árvores.
Crescia também grande quantidade de Cynarie, grata a Vénus, Tanaceto bravo, Colocasia, com folhas como um escudo, e ervas de jardim.
E de lá, contemplando os campos planos, era maravilhoso ver o verde deles, empoado com tal variedade de cores sortidas, e flores de diversos feitios, como Botão-de-ouro, ou Knop dourado, Olho-de-boi, Satrion, orquídea, a centáurea menor, meliloto, saxifraga, prímulas, dedos-de-dama, cerefólio bravo, ou agulha-de-pastor, nabo gentil, cinco-em-rama, eufrásia, morangos, com flores e frutos, columbinas bravas, Agnus Castus, mil-folhas, aquileia, com a qual Aquiles curou Telefo, e a ferrugem da ponta da lança que o feriu. Com os Muscarioli brancos, flores de abelha e Panenentes de uma maneira tão bela e aprazível, que me confortaram grandemente (tendo-me perdido) mas apenas com o olhar para eles. E aqui e ali, numa distância e espaço mensurável e bem disposto. Numa ordem conveniente e doce forma disposta por uma linha justa, cresciam as verdes e doces laranjeiras, limoeiros, cidreiras, romãzeiras, os seus ramos de água dobrando-se para baixo a um passo do chão, cobertos com folhas de uma cor verde vítrea, de uma grande altura e voltando para baixo os seus topos, carregados com a abundância das suas flores e frutos, respirando um cheiro odorífero mais doce e deleitável. Com o qual o meu coração abatido não se reanimou muito facilmente (poderia ser num ar pestilento e odor contagioso e mortal.)
Pelo que fiquei espantado e em grande dúvida sobre o que pensar ou fazer, e ainda mais porque naquele lugar tinha visto uma fonte tão maravilhosa, a variedade de ervas, as cores das flores, a colocação ordenada das árvores, a disposição justa e cómoda do assento, os doces chilreios e o canto quieto dos Pássaros, e o ar temperado e saudável. E com o qual eu poderia muito bem ter ficado contente, e o pior deles poderia bem ter-me contente, se eu tivesse encontrado qualquer habitante ali. E fiquei um pouco triste por não poder permanecer mais tempo num lugar onde tantos espetáculos deleitáveis se apresentavam a mim. Nem estava avisado para a minha melhor segurança e contentamento sobre para que lado me virar.
Estando assim em tal suspense de espírito, trazendo à memória o perigo que ultimamente escapara, e o lugar presente em que recém entrara, e pensando nos hieróglifos que vi no lado esquerdo da ponte, fiquei em dúvida de apressar-me em direção a qualquer acidente adverso e imprevisto, e de que tal monumento e aviso, digno de letras douradas, não devia ser posto em vão para aqueles que passavam, o qual era Semper festina tarde. Eis que, de repente, atrás de mim, ouvi um ruído de farfalhar, como o vento ou o bater das asas de um dragão. Ai de mim, não sabia o que poderia ser. E subitamente, espantado e voltando-me, pude perceber, de um lado, muitas árvores de sílique do Egito, com as suas vagens longas e maduras pendentes, que, batendo umas nas outras com o vento, tinham-se derrubado; o que, quando percebi, logo me aquietei e comecei a zombar da minha própria tolice.
Não havia continuado muito assim quando ouvi um grupo cantor de donzelas galantes vindo em minha direção (pelas vozes, de tenra e jovem idade) e belas (como pensei), solazando-se e divertindo-se entre as ervas florescentes e a sombra fresca e suave, livres da suspeita do olhar de qualquer homem, e fazendo em seu caminhar um grande aplauso entre as flores agradáveis. A incrível doçura de sua voz musical e consonante, transportada no ar rorífero e espalhando-se por toda parte com o som correspondente e o relato deleitável de uma harpa que gorjeava (para o teste de cuja novidade, agachei-me sob os galhos baixos dos arbustos adjacentes e vi-as vir em minha direção com gestos graciosos), sua cabeça de donzela adornada e presa em fitas de ouro cintilante, e instrofiada e redimida, guarnecida e cercada com murta florida; e sobre sua testa de neve, ramificavam-se seus cachos trêmulos e encaracolados, e em torno de seus ombros mais belos voavam suas longas tranças, à maneira de ninfa, tratadas artificialmente.
Estavam vestidas em hábitos carpânticos de seda fina de várias cores, e tecidos de três sortes, um mais curto e distinto do outro. O mais inferior de púrpura, o seguinte de seda verde e ouro ou tecido, e o superior de sendal branco encaracolado, cingido em torno de suas pequenas cinturas com cinturões de ouro sob as partes inferiores de seus seios redondos. Suas mangas do mesmo sendal encaracolado, frequentemente dobradas, o que melhorava e adornava a cor subjacente. E atadas em torno de seus pulsos com fitas de seda, marcadas com o trabalho de ourives. E algumas delas com pantufas sobre os seus sapatos, a parte superior da pantufa de ouro e seda púrpura, trabalho de folha, mostrando através dos espaços vazios das folhas a fina proporção de seus pés bonitos, enlaçados e contidos. Seus sapatos vinham estritamente sob os seus tornozelos, com duas abas encontrando-se sobre os seus peitos do pé, e fechados firmemente quer com botões ou fechos de ouro, de uma maneira fina. Acima das bainhas de suas vestes inferiores, circulavam, em vez de guardas e trabalho bordado, corações que, de vez em quando soprados pelo ar suave, faziam uma descoberta de suas belas pernas.
E assim que se aperceberam de mim, cessaram a sua canção e detiveram os seus passos ninfais, ficando maravilhadas com a visão e com a minha vinda a este lugar, maravilhando-se juntas e inquirindo sussurrantes sobre mim, umas das outras, pois eu parecia-lhes uma coisa rara e incomum, porque eu era um alienígena e estranho, e por acaso vindo a um país tão famoso e renomado. Assim, elas permaneceram imóveis, por vezes olhando para baixo, para mim, e de novo murmurando umas com as outras; eu fiquei imóvel como uma estátua. Oh, ai de mim, pois sentia todas as minhas articulações tremerem como as folhas de um álamo em um vento amargo. E eu estava com medo da poesia pressagiante que havia lido, aconselhando-me de outra forma, da qual agora pensava ser tarde demais para experimentar o efeito, e não esperando outro evento, permanecia tão duvidoso da visão divina, com isso tão enganado quanto Sêmele com a forma fingida da Beroé de Epidauro. Ai de mim, tremia e sacudia-me como os temerosos filhotes de corça ao ver os leões fulvos rugindo de fome.
Contendendo e lutando comigo mesmo, se seria melhor para mim ajoelhar-me submissamente ou, de outra forma, virar-me e fugir delas (pois pareciam-me, pelo seu comportamento, tão corteses jovens mulheres, e além de sua humanidade, de uma benignidade divina) ou permanecer imóvel. Por fim, determinei fazer a experiência e seguir em frente para o que quer que se seguisse, estando muito bem assegurado de que, de modo algum, encontraria qualquer desumanidade ou tratamento cruel por parte de qualquer uma delas, e especialmente porque a inocência carrega sempre a sua proteção consigo. E assim, confortando um pouco a minha mente temerosa, e ainda contido com a vergonha, sabendo que eu tinha vindo indignamente a este lugar sombrio e companhia solícita de divinas e delicadas ninfas, a minha mente culpada e perturbada dizendo-me que fora feito precipitadamente e com demasiada audácia, e que eram, talvez, lugares proibidos e um país interdito para um estranho frequentar. E pensando assim e assim comigo mesmo: uma entre o resto, de um espírito mais audaz e ousado, falou-me com muita dificuldade, dizendo: Oh, quem és tu? Com o seu discurso, fiquei meio assustado e envergonhado de mim mesmo, ignorante do que dizer ou como responder: a minha voz e o meu espírito estando interditados, fiquei imóvel como uma estátua morta. Mas as belas donzelas e formosas ninfas, bem avisadas de que em mim havia uma personagem e forma real e humana, mas perturbada e com medo, aproximaram-se todas mais de mim, dizendo:
Tu, jovem, quem quer que sejas, e de onde quer que tenhas vindo: não deixes que os nossos aspectos presentes te desanimem um pouco ou causem o teu desencorajamento, nem tenhas qualquer medo, pois aqui não encontrarás quaisquer costumes cruéis ou causa de descontentamento, mas livre de desgostos; e, portanto, não tenhas medo de revelar-te e dizer-nos quem és.
Com este movimento, tendo chamado de volta os meus esquecidos e perdidos sentidos, confortado com os seus belos, agradáveis e favoráveis aspectos, e recuperando-me com os seus doces discursos, com muito boa vontade fiz-lhes esta resposta:
Sou o mais desgraçado e infeliz amante que todo o mundo pode oferecer. Amo, e aquela a quem tanto estimo e tão sinceramente desejo, não sei onde, quer ela ou eu, estejamos.
E pelo maior e mais perigoso acaso que se pode imaginar, vim aqui. E agora, com lágrimas provocadas caindo dos meus olhos lacrimosos ao longo das minhas faces pálidas, e curvado até a terra, prostrando-me aos vossos pés virginais, humilde e suplicante peço as vossas graças favoráveis; ao que os seus corações suaves e tenros, movidos por piedade para comigo, e meio chorando comigo em companhia, e como que esforçando-se deverosamente com os seus braços para me levantar do chão, com doces e confortáveis discursos, falaram-me cortesmente:
Estamos certamente persuadidas e sabemos muito bem (pobre desgraçado) que poucos ou ninguém pode escapar pelo caminho pelo qual vieste, e, portanto, não sejas ingrato àquele poder divino que assim te preservou. E agora não tenhas dúvida ou medo de qualquer acidente adverso ou desgosto que te possa atacar. Portanto, aquieta, conforta e estabelece o teu coração para descansar. Pois agora vieste, como podes evidentemente perceber e ver claramente, a um lugar de prazer e deleite, abandonando a luta e o descontentamento. Pois as nossas idades uniformes: o assento imutável, o tempo que não foge, a boa oportunidade, a graciosa e sociável familiaridade, sedutoramente atraem-nos para lá e concedem-nos um lazer contínuo. E disto também deves entender que, se uma de nós estiver alegre e deleitável, a outra mostra-se a mais contente e agradável, e a nossa deleitável e participada amizade é, com uma consideração atenta, perpetuamente unida e ligada. Uma de nós aumentando o contentamento da outra, ao mais alto grau de deleite e o mais conveniente solaz.
Vês também que o ar é saudável, os limites e fronteiras deste lugar muito amplos: de ervas cheias de variedade. De plantas abundantemente em flor, e com frutos fartamente carregados, rodeado e defendido com enormes montanhas e rochedos, bem provido de bestas inofensivas, e apto para todos os passatempos e prazeres, repleto de toda espécie de frutos e grãos, universalmente crescendo, e cheio de boas fontes.
Uma outra disse: entende, desconhecido (e contudo assegurado hóspede), bom amigo, que este território é mais frutífero do que a fértil montanha Taurus no aspecto aquilonal, cuja armação incha tanto, que os seus cachos de uvas têm dois côvados de comprimento, e que uma figueira dará setenta alqueires.
A terceira: este famoso e espaçoso país excede a fertilidade da Ilha Hiperbórea nas Índias Ocidentais, ou dos portugueses da Lusitânia, agora usurpados e tiranizados pelo insolente espanhol.
Nem Talga na montanha Cáspia. A quarta afirmou, em seu elogio àquele país, que a abundância do Egito era apenas considerada escassez em relação àquilo, ainda que fosse pensado ser o jardim do mundo.
E a última, de uma escolha de semblante e doce pronunciação acima do resto, acrescentou tanto, dizendo:
Neste belo país não encontrarás quaisquer grandes terrenos pantanosos, ou ares ofensivos e doentios, ou musgos escarpados e inférteis, mas belas e agradáveis colinas, rodeadas e muradas por rochedos íngremes e intransitáveis, e por meio disso, seguras e livres de todos os perigos e medo; não nos falta nada que possa gerar deleite e causar um doce contentamento. Além de tudo isto, somos atendentes de uma renomada e excelente Rainha de grande bondade e extrema liberalidade: chamada Euterilyda, de grande piedade e maravilhosa clemência, governando com grande sabedoria e com um governo real, com grande pompa, em um monte acumulado de toda felicidade; e ela ficará grandemente deleitada quando te apresentarmos à sua sagrada presença e visão majestosa. E, portanto, lança fora, sacode e esquece toda a tristeza aflitiva, e molda-te a ti mesmo e aos teus espíritos assustados para entreter o nosso conforto, solaz e prazer.
Poliphilus, sentindo-se sob a garantia das cinco Ninfas, foi com elas aos banhos, onde tiveram grande riso no engenho da fonte, e também pela sua unção. Depois, sendo levado à Rainha Eutherillida, viu muitas coisas dignas de nota, mas principalmente o trabalho de uma fonte.
Eu, sendo assim cortesmente tratado por estas graciosas e piedosas Ninfas, e tendo a minha segurança por elas suficientemente garantida com doces confortos, revivendo os meus espíritos decaídos. Para tudo o que pudesse parecer grato e agradável a elas, tanto quanto era conveniente para mim, dispus-me a oferecer o meu serviço. E porque elas tinham caixas de doces perfumes, e frascos de lançar de ouro e pedra preciosa, espelhos nas suas delicadas e belas mãos, e puros véus brancos de seda pregueados e dobrados, e outras necessidades para serem usadas no banho, os quais eu, oferecendo-me para ajudá-las a carregar, elas recusaram, dizendo assim para mim: que a sua vinda a este lugar era para banhar-se, e com isso mostraram-me que era do agrado delas que eu fosse com elas, pois (disseram) a fonte é aqui bem perto, não a viste? E eu, reverentemente, fiz-lhes esta resposta:
Mais belas Ninfas, se eu tivesse mil línguas e soubesse como usá-las todas, ainda assim não poderia render suficientes agradecimentos pelos vossos graciosos méritos, e fazer a retribuição dos vossos grandes favores, porque restaurastes a minha vida. E, portanto, se eu não consentisse e cedesse a vós o meu serviço e companhia, poderia ser bem considerado de uma disposição grosseira. Por cuja causa, entre vós, preferiria ser um servo do que em outro lugar um senhor e comandante, pois que (tanto quanto posso conjeturar) vós sois as inquilinas e companheiras de quarto de todo o deleite e verdadeira felicidade.
Deveis saber que vi uma maravilhosa fonte de um raro e maravilhoso trabalho, como nunca antes os meus olhos beheldaram, e tão ocupada estava a minha mente na consideração da estranheza da mesma, e para saciar a minha grande sede, que não procurei por mais nenhum benefício.
Uma agradável Ninfa falou assim alegremente para mim, dizendo: dá-me a tua mão, és muito bem-vindo. Tu vês neste presente aqui, que somos cinco companheiras, e eu sou chamada Aphea, e ela que carrega as caixas e as roupas brancas, Offressia. Esta outra com o Espelho brilhante (nossos deleites), o seu nome é Orassia. Aquela que carrega a Harpa soante é chamada Achol, e ela que carrega o frasco de lançar de precioso Licor, é chamada Genshra. E estamos todas agora indo juntas para estes banhos temperados, para refrescar e deleitar-nos. Portanto, tu também (vendo que é a tua boa sorte estar entre nós) estarás disposto a fazer o mesmo, e depois, com muito boa vontade, faremos o nosso caminho para o grande Palácio da nossa soberana.
Quem é a mais misericordiosa, bondosa e liberal, e disposta a ajudar e promover-te nos teus pretendidos amores, desejos ardentes e altos conceitos. Ergue um bom coração, homem, vem, vamos seguir.
Com ações prazerosas, gestos de donzela, comportamentos persuasivos, esportes de menina, olhares lascivos e com doces palavras, elas conduziram-me para lá, estando bem contentes com cada ação presente, exceto que a minha Polia não estava lá para o suplemento da minha felicidade, e para ter sido a sexta pessoa na composição de um número perfeito.
Além disso, encontrei-me agastado por a minha roupa não ser conforme a este delicioso conforto, mas crescendo em alguma familiaridade doméstica, dispus-me a ser afável com elas, e elas comigo, até que finalmente chegamos ao lugar.
Ali contemplei um maravilhoso edifício de um banho de oito lados, e em cada canto exterior havia duplicadas duas Colunas, à moda de uma Pique, desde o nível da fundação, o Aerobates subjacente circundado e nervurado em volta. E após elas seguiam-se as extremas de igual grandeza desde o solo da outra, com os seus capitéis postos sob a viga reta, com uma borda acima, sob uma Cornija que ia em volta. A qual borda era embelezada com excelente trabalho entalhado, de pequenas crianças nuas, passando bem apresentadas e igualmente distantes umas das outras, com as suas mãos intrincadamente atadas e enroladas, e nelas segurando pequenos feixes de pequenos galhos verdes instrofiados juntos. E acima da dita Cornija, montava (por um elegante arqueamento) uma Agulha de oito lados, imitando a subjacente. A qual, de canto a canto, era cortada através com um maravilhoso trabalho de mil diferentes modas, e fechada novamente com quadros de Cristal, que de longe tomei por Chumbo. Sobre o topo da qual Agulha arqueada estava colocado um Trígono, e do centro superior da mesma ascendia uma haste forte, onde era unida uma outra haste que era virada em volta, e à mesma estava presa uma asa, que com cada sopro de vento girava em volta, a haste de tubo que tinha sobre o topo da mesma uma bola, sobre a qual estava um Menino nu, reto sobre o seu pé direito, e o esquerdo mantido para fora. A sua cabeça era oca até à sua boca como um Funil, com o Orifício evacuado para a sua boca, à qual era soldado um Trompete, com a sua mão esquerda segurando o bocal à sua boca, e a sua mão direita estendendo-se em direção à articulação média, justamente sobre o pinhão dela, a asa ou cata-vento. Tudo o que era de latão fino, excelentemente bem fundido e dourado. O qual asa, bola e menino, com as suas bochechas e semblante como se estivesse a soar, com a parte de trás da sua cabeça evacuada em direção ao vento tempestuoso, conforme aquele soprava, assim ele soava, e como o vento causava um estranho ruído entre as hastes de Síliques do Egito, exatamente assim ele soava na Trombeta. Pela qual causa pensei alegremente comigo mesmo, que um homem estando sozinho em um lugar desconhecido e fora de quietude, pode facilmente ser assustado com tais estranhos ruídos.
Naquela parte do edifício que estava do outro lado da Ninfa, estava a entrada para o banho, realizada, como pensei, pelo mesmo Litoglifo, que cobria a Ninfa adormecida, sobre o friso da qual estavam certos Caracteres Gregos, significando +ASAMINTHOS+.
Dentro havia quatro assentos que iam em volta, e um sob o outro, e fechados juntos, trabalhados com Jaspe e pedra Calcedônia, em todas as sortes de cores. Dois dos assentos que compunham a volta estavam cobertos pela água, e até à margem superior do terceiro. Nos cantos, e em cada canto estava uma Coluna Coríntia de diversas cores, ondulada com tão puros e belos Jacintos quanto a natureza poderia oferecer, com convenientes bases e os seus capitéis curiosamente feitos sob a viga, sobre a qual estava um Zóforo, onde estavam entalhados pequenos Meninos nus brincando na água, com monstros marinhos, com lutas e contendas infantis, com astúcias e agilidades aptas para as suas idades, em movimentos vivos e esportes. Tudo o que era belamente coberto em volta com uma Cornija. Sobre a qual, de acordo com a ordem das pequenas Colunas, do ponto perpendicular no topo da Cúpula ou Teto e cobertura do Banho, ia um Toro moderador, aumentando cada vez mais de folhas de Carvalho, uma dobrando-se e deitando-se sobre a outra de Jaspe verde, pendentes sobre os seus talos ramificados dourados, que ascendendo subiam e encontravam-se juntos, e uniam-se redondamente na dita Cúpula: onde estava colocada uma cabeça de Leão, com o seu cabelo em pé em volta da sua face, e segurando um Anel nas suas mandíbulas, ao qual estavam presas certas correntes de Oricalco ou Cobre, que seguravam um grande e belo vaso, com uma grande borda ou lábio, e sulcado da dita substância brilhante, e pendendo dois Côvados acima da água, a bacia do vaso, que era de Cristal apenas exceto, o resto como as nervuras da mesma e bordas, era de cor azul Azure, com bolhas de ouro e brilho salpicadas aqui e ali.
Não longe dali, havia uma fenda na terra, a qual continuamente lançava fora matéria ardente, e tomando disto, e enchendo o fundo do vaso, eles colocavam certas engrenagens e madeiras doces que faziam uma inestimável sufumigação, como da mais doce pasta, depois fechando a mesma, e colocando para baixo a cobertura, sendo ambas as partes ocas, e a borda e nervura perfuradas e atravessadas através do transparente, Cristal claro e brilhante, eles rendiam uma agradável e diversamente colorida luz, pela qual, através dos pequenos buracos, os banhos eram iluminados, e o calor ainda encarcerado e interditado.
A parede igualmente interposta entre Coluna e Coluna era de pedra mais preta, de uma extrema dureza e brilho, enclausurada em volta e bordada com uma conveniente borda de Jaspe vermelho como Coral, adornada com um Lineamento e trabalho de duplas Gárgulas ou Vertículos. Na parte do meio da qual mesa, entre as Colunas, estava sentada uma elegante Ninfa nua, como se estivesse esperando e aguardando pela pedra Galatita, de cor como Marfim, as partes inferiores de cada uma das ditas bordas circulando justamente com as bases das Colunas.
Oh, quão requintadamente aquelas mesmas Imagens eram cortadas, que frequentemente os meus olhos vagueavam das formas reais e vivas, para olhar para aquelas representações fingidas.
O chão pavimentado sob a água sendo de uma diversa emblematura de pedra dura, quadriculado onde se podia ver maravilhosos gráficos através da diversidade das cores. Pois a água clara e não sulfurosa, mas doce e temperadamente quente, não como uma estufa ou Estufas, mas naturalmente limpando-se além de toda a credibilidade, não havia meios de impedir o objeto da visão do olho. Pois diversos peixes nos lados dos assentos, e no fundo por um corte mosaico expressos, que imitavam a natureza como se estivessem nadando vivos. Como barbos, lampreias e muitos outros, a curiosidade de cujo trabalho eu mais considerava, do que os seus nomes e naturezas.
A pedra preta das paredes era gravada com um trabalho de folha, como se tivesse sido uma composição enlaçada de folhas e flores, e as pequenas conchas de citeriáceas, tão belas para o olho quanto era possível ser imaginado.
Sobre a porta, cujo interstício era de uma pedra chamada Galactites, contemplei um Golfinho a nadar nas ondas calmas, carregando sobre o dorso um jovem rapaz que tocava harpa: e, do lado oposto, sobre a fria Fonte, havia outro golfinho a nadar, com Posidónio montado nele, segurando uma lança de enguia afiada na mão.
Estas histórias estavam perfeitas dentro do âmbito de uma única e mesma pedra, e delineadas sobre um fundo negríssimo. Então, merecidamente, louvei tanto o arquiteto quanto o estatuário. Do outro lado, a dignidade agradável das belas e formosas ninfas que se divertiam contentou-me sobremaneira, de modo que não podia comparar se o excesso da minha mágoa passada ou do meu presente consolo seria o maior. E ali havia um perfume tão doce como a Arábia jamais produziu semelhante.
Sobre os assentos de pedra, em lugar de um Apoditério, elas empobreceram-se das suas vestes, ricamente envoltas, ao despi-las dos seus corpos celestiais. As suas belas tranças estavam presas em redes de ouro, tecidas de uma forma deveras curiosa. E, sem qualquer respeito, deram-me permissão para contemplar as suas belas e delicadas personagens, ressalvada a sua honestidade e honra. Carne, sem dúvida, como as puras Rosas e a Branca Neve. Ai de mim, senti o meu coração erguer-se e abrir-se, e por completo dedicar-se a um deleite voluptuoso. Pelo que, naquele momento, considerei-me felicíssimo, apenas em contemplar tais delícias, pois não era capaz de resistir às chamas ardentes que se abatiam sobre mim na fornalha do meu coração. E, por isso, por vezes, como refúgio e socorro, não ousava olhar tão fixamente para as suas belezas atraentes, amontoadas nos seus corpos celestiais. E elas, percebendo isso, sorriram do meu comportamento acanhado, fazendo grande troça de mim: e disso fiquei contente e satisfeito por poder, de qualquer forma, dar azo ao seu passatempo. Mas sentia-me grandemente envergonhado por ser um companheiro impróprio para tal companhia, não fosse o facto de elas me terem implorado para entrar com elas, onde eu permanecia como um Corvo entre Pombas brancas, o que me deixava parcialmente envergonhado de contemplar e admirar tais objetos de eleição.
Então Offressia, uma criatura de disposição muito agradável, disse-me: Dize-me, jovem, qual é o teu nome? E eu respondi-lhes reverentemente: Poliphilus: agradar-me-á muito, diz ela, se o efeito das tuas condições for condizente com o teu nome. E sem engano, disseram as restantes. E como se chama o teu amor mais querido? Ao que eu, fazendo uma pausa, respondi: Polia: então ela replicou. Ah, eu pensava que o teu nome significasse que eras um grande amante, mas agora percebo que és um amante de Polia: e logo acrescentou mais, dizendo: se ela estivesse aqui presente, o que farias? Respondi: Aquilo que fosse condizente com a sua honra e adequado à vossa companhia. Dize-me Poliphilus, amas-a mesmo bem? Então, soltando um suspiro profundo, respondi: para além de todas as delícias e da substância principal do maior e mais precioso tesouro de todo o mundo, e esta opinião fez uma impressão eterna no meu coração ainda atormentado. E ela: onde perdeste ou abandonaste tal joia amada? Não sei, nem sei onde eu próprio estou. Então ela, sorrindo, respondeu: Se alguém a encontrasse para ti, que recompensa darias? Mas contenta-te, tem bom ânimo e dispõe-te para as delícias, pois voltarás a encontrar a tua Polia. E com estas e outras questões semelhantes, agradáveis e graciosas, estas belas jovens Virgens, divertindo-se e consolando-se, lavámo-nos e banhámo-nos juntos.
No interstício oposto da bela fonte exterior, da bela Ninfa adormecida anteriormente mencionada, dentro do Banho havia outra de estátuas de metal fino, e de um trabalho curioso, reluzindo com uma cor dourada, que se podia ver a si mesmo nela. As quais estavam fixadas num Mármore, cortado em esquadria e esvaziado para que as Imagens se mantivessem nas suas proporções, com duas meias Colunas, isto é, Hemiciclos, um de cada lado, com um Trabet, um pequeno Zophor e uma Cornija, tudo cortado num único Mármore sólido, e esta peça de trabalho não era inferior a nenhuma das restantes que eu tinha visto anteriormente, mas com uma arte rara e uma invenção maravilhosa, tanto engendrada como realizada. No quadreto vazio e plano, havia duas Ninfas, pouco menos do que se fossem criaturas vivas, vestidas de modo a que se pudesse ver um pouco acima dos seus joelhos, numa das suas pernas, como se o vento a tivesse levantado, enquanto cumpriam o seu ofício, e os seus braços nus, exceto do cotovelo ao ombro. E sobre o braço com que sustentavam o Menino, o hábito que estava levantado estava rejeitado. Os pés do Infante estavam um numa das mãos das Ninfas, e o outro, na mão da outra. Todas as suas três faces sorridentes: e com as outras mãos, seguravam a camisa do Menino acima do seu umbigo.
O Infante segurando o seu pequeno Instrumento com ambas as mãos, continuava a urinar água fresca e fria para dentro da água quente. Neste lugar delicioso de prazer, eu estava muito jovial e cheio de contentamento, mas o mesmo era muito esmorecido pelo facto de eu me considerar um corpo desprezível entre tais belezas, e orvalho congelado em Neve, e como se fosse um Negro ou mouro bronzeado entre elas.
Uma delas chamada Achoe, muito afavelmente e com um semblante agradável, disse-me: Poliphile, toma aquele vaso de cristal e traz-me um pouco dessa água fresca. Eu, sem demora, tencionando fazê-lo, e não pensando em nada a não ser em servi-la de qualquer forma que ela me ordenasse, fui ao local. E não tinha eu colocado o pé no degrau para receber a água, à medida que caía, quando o Menino que urinava levantou o seu membro e lançou subitamente tanta água fria na minha face, que quase caí para trás naquele instante. Ao que elas riram tanto, e fez tal som na redondeza e no fechamento do banho, que eu também comecei (quando voltei a mim) a rir-me de tal forma que quase morri. Depois, descobri a concavidade e percebi que qualquer peso pesado, sendo colocado sobre o degrau móvel, faria com que ele subisse como a Tecla e o Cavalete de um Virginal, e levantasse o membro do Menino, e ao descobrir a astúcia e o trabalho curioso disso, fiquei grandemente contente. Sobre o Zophor estava escrito em letras Áticas este título: +GELOIASTOS+.
Após o nosso grande riso e banho, e tendo todas nos lavado com mil palavras doces, amorosas e agradáveis, jogos e passatempos de donzelas, saímos da água e saltámos para os assentos habituais, tripudiando nas pontas dos pés, onde se ungiram com Odores doces, Diasdasmáticos, e com um licor Mirístico, ou água de Noz-moscada. E ofereceram-me também uma caixa, e ungi-me com ela, e encontrei grande prazer nisso, pois além do cheiro excelente e do sabor doce, era muito bom para confortar o meu corpo, pernas e braços, que tinham ficado tão cansados na minha perigosa fuga.
Depois, quando nos preparámos, o que foi um tanto longo à maneira das outras mulheres, devido a tantas bugigangas e apetrechos, abriram os seus vasos de iguarias delicadas, e refrescaram-se, e eu entre elas, e com bebida preciosa. Quando comeram o suficiente, voltaram aos seus Espelhos, com um exame escrupuloso acerca dos seus corpos e do adorno das suas cabeças, e o arranjo dos seus cabelos amarelos encaracolados dependentes, e hemicircularmente estrofiados sobre os seus rostos divinos. E quando terminaram, disseram-me.
Poliphilus, estamos agora a ir para a nossa graciosa e excelente Soberana, a Rainha Eutherillida, onde encontrarás e conceberás maior deleite, mas a água ainda está na tua face, ao que começaram a renovar o seu riso, sem medida, sobre mim, lançando olhares e virando os olhos uma para a outra, com um olhar amoroso. Por fim, puseram-se a caminho, e enquanto caminhavam juntas em círculo, começaram a cantar versos numa melodia Frígia, sobre uma metamorfose agradável de alguém que, com um unguento, pensou ter-se transformado num Pássaro, e por se enganar na Caixa, foi transformado num Asno rude.
Concluindo que muitos tomavam Unguentos para um propósito e descobriam que o efeito contrariava as suas expectativas.
Ao que comecei a ficar na dúvida se tinham cantado aquilo por minha causa, porque continuavam a sorrir enquanto se viravam para mim. Mas vendo que não percebia qualquer alteração em mim, contudo, estava bem contente em deixá-las continuar a rir. De repente, encontrei-me tão lascivamente inclinado, e com tal luxúria pruriginosa, que para qualquer lado que me virasse, não conseguia evitar, e elas, enquanto cantavam, riam-se mais, sabendo o que me tinha acontecido. E isso aumentou em mim, cada vez mais, de tal modo que não sabia com que me poderia refrear e conter de agarrar uma delas, como um Falcão ávido e quente descendo do ar sobre um bando de Perdizes. Estava picado para a frente por um desejo tão violento, que sentia aumentar cada vez mais num ardor salaz. E quanto mais eu estava sob esse desejo veneroso pelas ofertas violentas de objetos tão oportunos e doces. Um alimento para tal praga perniciosa e queima insaciável.
Então, uma destas Ninfas flamígeras chamada Aphea, disse-me: Como está Poliphilus? Ainda agora te via muito alegre, o que alterou a tua disposição? Respondi: Perdoai-me se me atenho e me vexou mais do que uma Grinalda de salgueiro. Dai-me licença para me destruir num fogo lascivo. E ao que elas rebentaram todas numa gargalhada e disseram: Ah, ah, e se a tua desejada Polia, se ela estivesse aqui, o que farias, como? Ai do meu desejo, pela própria divindade que servis, rogo-vos que não junteis Linho e Resina ao fogo, que me queima fora de toda a medida. Não ponhais Piche no fogo do meu coração, não me façais esquecer de mim mesmo, rogo-vos.
A esta minha resposta lamentável e dolorosa, foram provocadas a tal riso alto, no qual excederam tanto, que nem elas nem eu, com o cansaço disso, podíamos ir mais longe, mas fomos obrigados a descansar, por falta de fôlego, sobre as flores odoríferas e a erva fresca, por meio do que, tornei-me um tanto oportunamente aliviado, o meu calor diminuindo e abrandando pouco a pouco.
E enquanto elas assim descansavam contentes por um momento, sob a sombra fresca das Árvores frondosas, comecei a ser ousado com elas dizendo: Ó vós mulheres, que sois ardentes e destruidoras, usais-me assim? Vede que ocasião oferecida tenho, que me manterá escusado de romper e vos fazer violência. E, sobre isso, movendo-me um tanto ousadamente e fingindo como se quisesse fazer aquilo que de modo algum ousava, mas então com um novo passatempo e riso, chamaram umas pela ajuda das outras, deixando aqui e ali os seus Pantufos de ouro e Véus, para serem levados pelo vento, e os seus vasos negligenciados na erva, correram todas embora, e eu atrás delas, de modo que bem pude perceber que não tinham nem cãibras nem espasmos ou calcanhares de chumbo, e assim continuando os nossos passatempos por um bom espaço, estando um tanto satisfeito por as ter feito correr. Voltei para apanhar os seus Pantufos e as coisas que tinham deixado espalhadas para trás. E aproximando-me de um Rio fresco e frio, começaram a cessar o riso e a ter pena de mim, e Geussia, atrás de todas as outras, curvou-se para a água, belamente adornada com o Junco dobradiço, o Espigão de água, a Vitrix nadante e abundância de Simples de água, ela arrancou a Heraclea Nympha, por alguns chamada Lírio de água ou Nenúfar, e a raiz de Aron ou a "acorda-Robin", por alguns, Pes vituli ou Serpentaria Minor.
E Amella ou Bálsamo Gentil, todos os quais cresciam muito próximos uns dos outros e não muito distantes, o que ela me ofereceu favoravelmente dizendo: destes que escolhi, toma, e pela minha liberdade, prova.
Pelo que recusei o Nenúfar, e rejeitei a Dracúncula pelo seu calor, e aceitei a Amella, que ela tinha lavado bem, por meio do que, num espaço muito curto, descobri que o meu lubrificante veneroso e esporão de desejo incensante cessava, e a minha luxúria intemperante tinha desaparecido por completo.
E quando os meus desejos ilícitos da carne foram refreados, as agradáveis Ninfas vieram novamente ter comigo, e enquanto caminhávamos, chegámos a um lugar frequentado e maravilhosamente frutífero.
E ali, em boa ordem e distância designada, havia um caminho ladeado de ambos os lados por Ciprestes, com as suas maçãs fendidas nos cantos, e tão densas de folhas quanto a sua natureza permite, estando o solo plano coberto por toda a parte com Vinca Peruima verde, ou Loureiro e Chamme, Daphne, e cheio das suas flores azurinas. O qual caminho adornado, de largura adequada e conveniente, conduzia diretamente a um Fechamento verde, do início do qual caminho, exatamente entre os Ciprestes, até à entrada e abertura do referido recinto, havia uns quatro estádios. Ao qual recinto, quando chegámos, encontrei-o equilátero, com três cercas como uma parede reta, tão alta quanto os Ciprestes de ambos os lados do caminho por onde tínhamos passado: que era inteiramente de Cidreiras, Laranjeiras e Limoeiros, arbustivos com as suas folhas umas dentro das outras, e artificialmente unidas e entrelaçadas, e a espessura, ao que me pareceu, de seis pés: com um Portão no meio das mesmas árvores, tão bem composto quanto é possível pensar ou fazer. E acima, em lugares convenientes, foram feitas janelas, por meio das quais os ramos nesses locais podiam ser vistos nus, exceto pelas suas folhas verdes que proporcionavam um verdor muito doce e agradável. Entre os entrelaçamentos curiosos dos ramos e as suas folhas verdes, as flores brancas mostravam-se abundantemente como um Ornamento singular, respirando um odor mais deleitável e doce. E para agradar ao olho, o belo fruto não faltava em parte alguma, onde deveria produzir contentamento. E depois, pude perceber que, na espessura intersticial, os ramos (não sem um trabalho maravilhoso) estavam tão artificialmente entrelaçados e crescidos juntos, que se podia subir por eles, e não ser visto neles, nem sequer o caminho por onde se subia.
Finalmente, chegando a este solo verde e deleitável ao olho, e à compreensão do homem digno de estimação, percebi que era um grande recinto na parte frontal de um Palácio maravilhoso de uma arquitetura simetricamente nobre, que deste conclave frondífero, era a quarta parte em longitude sessenta passos. E este era o Hypaethri para caminhar, ao ar livre.
No meio deste grande Pátio de base, contemplei uma bela Fonte de água clara, que girava desde o topo como se fosse até à fundação, que se apoiava num pavimento liso através de pequenos canos retos, caindo num vaso escavado, que era da mais pura Ametista, cujo Diâmetro continha três passos, a espessura concordando com isso, deixando a décima segunda parte para a espessura da borda, em torno da qual estavam esculpidos monstros marinhos, da melhor sorte que qualquer inventor ou artesão antigo pela dureza da pedra pudesse conceber trabalhar, poderia ser obra de Dédalo, pela sua maravilhosa excelência. Pausânias, se tivesse visto isto, teria tido pouco prazer em vangloriar-se do copo de pé que fez para Hipparis.
O qual mesmo estava fundado sobre uma base ou Pilar final de Jaspe de diversas cores, adulterando belamente uma com a outra, sendo cortado no meio e fechado com a Calcedónia clara, da cor da água do Mar revolta, e trazido a um trabalho maravilhoso, sendo elevado com vasos ocos canalizados, um acima do outro, com uma separação reservada, por juntas artificiais e maravilhosas. Estava ereto, fixado no centro de um Plinto, feito de Ofita verde que era redondo, e um pouco elevado acima, rodeando Porphyr, cerca de cinco polegadas, que era curiosamente trabalhado com diversos lineamentos.
Em torno da base que segurava o vaso, quatro Harpias de Ouro estavam de pé, com as suas garras e pés talonados sobre a mesa lisa da Ofita.
As suas partes traseiras voltadas para a base, uma exatamente oposta à outra, com as suas asas desdobradas e espalhadas, descansavam sob o vaso com os seus semblantes femininos, e tendo cabelo nas suas cabeças, a partir do mesmo, espalhava-se até aos seus ombros, as suas cabeças por baixo, e não tocando no vaso: com as suas caudas como Enguias, e girando em torno. E sobre os seus umbigos, um trabalho de folha Antiga. Estas eram muito necessárias para o fortalecimento do Tubo dentro da base e pequeno Pilar.
Dentro do meio do ventre e barriga, ou umbigo do vaso, sobre a base Sujeita, havia proporcionalmente levantada do mesmo vaso de Ametista, uma substância como um Cálice, para dentro, ou o molde interior para um Sino, tão alto quanto o vaso era profundo, o meio dele, nivelado com a borda do vaso.
Sobre o qual foi feito um pé artificioso colocado sob as três graças nuas de ouro fino, de estatura comum, uma unindo-se à outra.
Dos mamilos dos seus seios a água ascendente girava como fio de prata. E cada uma delas na sua mão direita segurava uma cópia cheia de todos os tipos de frutos, que se estendiam em comprimento acima das suas cabeças, e na abertura, todas as três uniam-se em torno numa só, com diversas folhas e frutos pendendo sobre as bordas ou lábios das Cópias retorcidas.
Entre o fruto e as folhas, subiam seis pequenos Tubos, dos quais a água brotava através de um pequeno orifício.
E o astuto Artífice, porque não queria incomodar um Cubito com o toque de outro. Com um sinal de vergonha, as Imagens com as suas mãos esquerdas escondiam aquela parte que a modéstia não quereria ter vista, mas considera digna de ser coberta.
Sobre a borda do vaso oco, cujo compasso era um pé a mais, do que o que estava abaixo dele, com as suas cabeças levantadas sobre os seus pés de Víboras, com uma intercalação conveniente e decente, estavam colocados seis pequenos Dragões escamosos, de Ouro puro e brilhante, com tal estratagema, que a água que vinha dos mamilos das Damas, caía diretamente sobre a coroa escavada e aberta da cabeça dos Dragões, anteriormente falados, com as suas asas espalhadas, e como se estivessem a morder, lançavam e vomitavam a mesma água que caía para além da redondeza da Ofita, para um receptáculo de Porphyr, e redondo, que eram ambos mais altos do que a planeza do pavimento anteriormente falado: onde havia um pequeno Canal girando em torno entre a Ofita e a Porfirita, em largura um pé e meio, e em profundidade dois pés.
O qual Porfirita estava a três pés da parte superior plana até ao Pavimento, com uma ondulação excelente. O resto das partes dos Dragões, pela profundidade moderada do vaso, cresciam, até que todos se encontrassem, transformando as partes extremas das suas caudas numa folhagem antiga, fazendo um belo ligamento com a arule ou pé colocado sob as três imagens sem qualquer obstáculo deformante à concavidade do vaso precioso. E o que com o assalto verde das laranjeiras envolventes, e os reflexos brilhantes da matéria reluzente, e a água pura, havia uma cor tão graciosa, naquele singular e mais precioso vaso, como se o Arco-íris e as nuvens tivessem feito lá a sua habitação.
Então, no bojo corpulento do ventre do vaso, entre um e outro Dragão, a uma distância igual, e de uma fundição ou moldagem da mais excelente natureza, sobressaíam cabeças de Leões de uma feitura e condução requintadas, expelindo por um pequeno tubo a água que destilava das seis fístulas, colocadas na cópia acima. A qual água jorrava tão fortemente para cima que, ao verter-se, caía entre os Dragões no grande vaso, onde, devido à queda elevada e ao formato do recipiente, produzia um agradável som de tintilar.
Toda essa rara obra, composta por tão agudo e fino engenho, como era este insolente e precioso vaso, as quatro harpias perfeitas, o maravilhoso e curioso azul, sobre o qual as três Imagens de ouro puro se erguiam, com que Arte, ordenação e regra, digeridas e tornadas perfeitas: como sou de todo ignorante nelas, tanto menos sou capaz de descrever o todo como ele merecia, sendo uma obra que excede qualquer alcance e capacidade humana para forjar algo semelhante.
E posso ousadamente dizer que, na nossa era, nunca se viu em pedra e metal tal peça de obra em relevo, cinzelada e gravada. Pois era um prodígio ver que pedras de tamanha dureza extrema, como aquela que servia de esteio para sustentar o Vaso, fossem cortadas e trabalhadas para tal propósito, como se fossem tão macias quanto a cera. Uma obra mais digna de ser admirada do que empreendida.
O pátio quadrado (no meio do qual se erguia esta notável obra da suntuosa Fonte) era pavimentado com mármore fino de diversas cores e feitios. Entre os quais estavam aplicados muito belamente redondéis de Jaspe, igualmente distantes e divergentes da cor do pavimento, e os cantos fechados com folhas e Lírios. Entre as pedras de pavimentação de mármore quadrado, havia um espaço deixado como uma faixa, que era preenchido com diversas pedras coloridas de corte menor, algumas proporcionadas em folhas verdes e flores cor de fulvo. Cyanei, Ph[ae]nicei e Celidônia, tão bem concordantes nas suas cores, tão brilhantes e severamente ajustadas por uma diligente Xesturgia. Tão cheias de cores como um vidro de Cristal, repercutido e batido pelos raios do sol. Porque as cores circum-adjacentes e circundantes, encontrando-se nas mesmas pedras lisas e limpas, produziam um reflexo, sem que nenhuma parte fosse defeituosa, fosse dos quadrados xadrezes ou dos escudos e Trígonos. Mas com uma ordenação lisa e reta bem unida.
Ao que permaneci maravilhosamente atônito por mim mesmo, considerando diligentemente a nobreza da obra, tal como não estava habituado a ver, e muito voluntariamente me teria contentado em ter feito mais demora na contemplação dela, pois a dignidade da obra assim o exigia, mas não pude, porque era necessário que eu seguisse os meus guias.
Então, o aspecto deste suntuoso, magnífico e imponente palácio, a aprovada situação do mesmo, a devida proporção e a maravilhosa composição na minha primeira chegada a ele, fizeram-me maravilhosamente contente por contemplar a sua dignidade, e, em continuidade, fui provocado a observar mais, por cuja causa persuadi-me, como muito bem poderia, de que o construtor perito excedia a todos os outros quaisquer. Que tipo de vigas? Que maneira de teto? De que sorte os Parlatórios, câmaras, closets e aposentos estavam dispostos? Com que tipo de forro estavam encerrados e incrustados? Com que estavam pendurados? Com que cor e tipo de pintura acima? Que ordem de colunata e que espaço entre elas. Nenhuma outra construção pode superar esta, mas pode muito bem ceder o lugar, quanto ao tipo de mármore e quanto à maneira de gravar.
Ali contemplei os trabalhos de Hércules gravados na pedra, com metade da representação sobressaindo ou projetando-se para fora, de um modo maravilhoso, as peles, estátuas, títulos e troféus. Que entrada, que pórtico imponente, que aquele de Tito César com a sua pedra da Fenícia com todo o trabalho de cinzel e polimento à volta, não há ninguém cujo engenho seja tão grosseiro para o elogiar, em relação a este, que não prefira antes evitar falar dele. Quanto à digna e excelente maneira de envidraçar a galeria fora do palácio, o pórtico conspícuo, a maneira de construir, o teto arqueado acima, embelezado e adornado com folhagens e outros lineamentos de ouro puro e cor azul e excelente pintura, que tudo o que eu tinha visto antes, dei por encerrado, como não digno de lembrança. E, estando agora chegado à porta dentro do pórtico, a entrada estava fechada com um cortinado, desenhado à frente de ouro e seda, trabalhados juntos, e no mesmo duas imagens. Uma delas tendo todo o tipo de instrumentos à sua volta, apta e pronta para ir ao trabalho, e a outra com um semblante donzelesco, olhando com os seus olhos para o céu.
A beleza das quais duas era tal e tão fresca, que olhei ao meu redor, se Apeles as teria pintado com o seu Pincel.
E ali os meus divertidos, belos e agradáveis companheiros, cada um colocando as suas mãos direitas nas minhas, querendo ter-me dentro, disseram: Poliphilus, este é o caminho habitual, pelo qual deves vir à presença da nossa Graciosa e mais excelente Rainha.
Mas não podes ter licença para entrar aqui através desta Cortina, antes de seres recebido por uma vigilante e inocente Donzela que é a guardiã desta porta, e ela chama-se Cinosia. A qual, ouvindo-nos chegar, apresentou-se prontamente e favoravelmente ergueu o pano, e entrámos.
Havia ali uma sala pendurada e dividida por uma outra Cortina de Arras excelente, cheia de Imagens, como signos, formas, plantas e bestas, singularmente bem feitas.
Neste lugar, à nossa chegada, uma outra mulher curiosa veio em nossa direção, chamada Indalomena, e ela, afastando a Cortina, entrámos. E ali havia uma outra sala semelhante, a partir da segunda em quantidade, com discursos e razão maravilhosamente tecidos, com infinitos nós, fivelas, ataduras e ferros de ganchos à moda antiga, como se estivessem presos e tricotados juntos. No qual lugar, sem qualquer demora, a terceira mulher veio e recebeu-nos muito graciosamente, o seu nome era Mnemosina, e ela, chamando-nos, deu-nos livre licença para entrar. Onde, finalmente, os meus companheiros apresentaram-me perante a sagrada majestade da Rainha Eleutherillida.
_Poliphilus mostra o melhor que pode quão extraordinariamente grande era a Majestade da Rainha, a maneira da sua Residência e serviço. O seu entretenimento favorável. Como ela se maravilhou com ele._
Quando me aproximei do primeiro porteiro, fiquei um tanto embaraçado, mas ainda assim saudei-a de boa maneira, como me competia fazer. E ela, muito cortesmente, mandou-me chegar perto. E, da mesma maneira, o segundo.
Em cuja guarda vi uma galeria elevada, tão longa quanto o conteúdo do Palácio, cujo teto era todo pintado com uma folhagem verde, com flores distintas e folhas dobradas, e pequenos Pássaros voadores, excelentemente infigiados de pintura musaica, como fora no primeiro Pátio, e as paredes de pedra forradas com trabalhos de marchetaria de diversas cores.
À última porta, a Matrona Mnemosina persuadiu-me muito eficazmente a não duvidar de nada, mas que seguisse firmemente a persuasão real e o conselho salutar da Rainha, e perseverasse na execução dele, pois que o fim, sem dúvida, seria para meu contentamento.
E assim, tendo licença para entrar, eis que se apresentaram aos meus olhos coisas que eram mais prováveis de serem celestiais do que humanas.
Uma preparação mais imponente e suntuosa, num pátio magnífico e espaçoso, além do Palácio, perto e oposto ao outro, e de quatro lados.
O belo e precioso Pavimento dentro de uma bússola xadrez que o rodeava, havia um espaço de sessenta e quatro Quadrados de três pés, o diâmetro de cada um: Dos quais um era de Jaspe, da cor do Coral, e o outro verde, polvilhado com gotas de sangue que não se desgastavam: e ajustados juntos à maneira de um tabuleiro de Xadrez. Circundado por uma borda, a largura de um passo de uma rara invenção de trabalho, com pequenas peças de pedras, de diversas cores, e tão compactas juntas, como se tivesse sido um estranho trabalho pintado, uniformemente cortado e ajustado por régua, que não se poderia perceber a união, mas liso e brilhante, e tão bem enquadrado pelo Nível e Esquadro, que nenhum Instrumento circulante ou esférico se moveria para qualquer dos lados sem esforço.
Sobre isto, finalmente, havia um outro maravilhoso tipo de Pavimento de três passos de largura, em nós de Jaspe, Praxino, Calcedónia, Ágata e outros tipos de pedras de preço.
E ao longo dos lados das paredes, circundando o referido Pátio pavimentado como ouvistes, estavam colocados Assentos, de madeira de Palmeiras, de cor entre o amarelo e o fulvo, passando bem torneados e moldados, cobertos com Veludo verde e almofadados com algum material macio ou penas, fáceis de sentar, o Veludo descendo até à estrutura dos Assentos ou Bancos, e preso ao mesmo com tachas de Ouro, com cabeças em relevo sobre um friso ou cordão de Prata simples.
O acabamento das paredes de clausura estava coberto com Placas de Ouro batido, com uma gravação agradável à preciosidade do metal.
E na plana e lisa superfície das mesmas paredes de pedra, por certos Pilastros, Quadrângulos ou Losangos, de uma dimensão igual e correspondência distinta no meio de cada um, estavam perspicuamente aplicadas joias redondas, sobressaindo e inchando para além do nível plano da parede, à maneira dos toros das bases, e de espessura de acordo com a proporção do Losango onde estava, circundado por folhas verdes serrilhadas, uma dobrando sobre a outra, os topos voltados para a Joia.
E entre a Folhagem e a grande Joia, uma outra borda de pedras preciosas curiosamente ordenadas e conspicuamente colocadas.
E no resto da parede circunvalada por estas joias redondas salientes, os sete Planetas com a sua natureza e propriedades, com um trabalho encáustico, estavam docemente pintados, o que contemplei com grande deleite. O resto da parede, exclusivo da redondeza das joias dentro dos Pilastros, estava preenchido e embelezado com infinita variedade de trabalhos em prata, e polvilhado com diversas pedras inestimáveis, singularmente bem cortadas e de diversas modas.
A parede do lado esquerdo estava da mesma sorte e oposta em rodapés. Contra os sete Planetas estavam sete Triunfos sobre os súbditos dos mesmos Planetas predominantes, e em tal arte de Pintura como o outro lado.
E na parte direita contemplei as suas sete harmonias e aspectos amigáveis, e a passagem do sangue, com o recebimento qualitativo e o retiro e entrada de circulação, com uma História incrível da operação celestial acidental.
O quarto acabamento fazia o Palácio de tal distribuição como o outro, exceto a porta, que ocupava um interstício vazio. Os outros seis com uma correspondência regulada e harmonia do resto, nas Joias para o oposto e simétrico congresso dos Planetas, com as suas inclinações virtuosas, estavam expressos nas formas de elegantes Ninfas, com os títulos e signos das suas naturezas.
O sétimo quarto Mediano era a frente diretamente colocada contra a sétima Joia, representando o Planeta Sol, que estava erguido mais alto do que o resto, devido ao Trono da Rainha.
Cada parte de matéria, número, forma e lineamento, em distribuição igualmente correspondente ao seu Nível, o direito com o esquerdo, e aqui e ali, com um amor e congresso requintados, concordando.
De cujo excelente Pátio, cada lado tinha vinte e oito passos. Desta sorte estava este pátio aberto, todo circundado por ouro fino, uma obra mais digna de ser admirada do que falada.
Os Pilastros eram discrepantes quatro passos um do outro, com uma justa partição de sete (um número grato à natureza) de fino e oriental Azul, pedra Lázuli, passando bem colorido de acordo com a sua espécie, com uma bela distribuição de pequenos brilhos de ouro. Na parte frontal do qual, entre os sete pilastros, estavam apontados pequenos Pilares esguios trabalhados à volta com folhas, cópias, cabeças com cabelo como folhas, rapazes com as suas ancas e pernas proporcionadas em ramos, Pássaros e cópias, e vasos cheios de flores, com outras invenções e dispositivos maravilhosos, do topo ao fundo do Anaglifo, como se tivessem crescido a partir da fundação, fazendo e dividindo em dois os espaços; os seus capitéis eram trabalhados de uma moda correspondente ao resto.
Sobre os quais se estendia uma viga reta com lineamentos gravados adequados ao mesmo. E sobre isso um Zóforo, contendo este trabalho ainda por toda a parte, isto é, as caveiras ósseas de Bois, com ramos de mirra cheios de bagas, atadas à volta dos seus chifres por uma toalha de linho.
Sobre ambos os lados deles estavam Golfinhos, com as suas guelras como folhas, e as suas Barbatanas e as suas partes extremas de uma folhagem, e sobre as suas cabeças e costas certos rapazes nus, agarrando as suas caudas ramificadas levantadas, com folhas e flores, e dobrando-as para baixo.
A cabeça do Golfinho tendo uma Sima, da qual uma parte voltada para o Rapaz, e a outra dobrada contra o vaso com uma abertura larga, e terminando na cabeça de uma Cegonha, com o seu bico contra a boca aberta de um Monstro, deitado com a sua face voltada para cima, e certos Turbilhões ou Contas subindo entre a sua boca e o seu bico.
Cujas cabeças, em vez de cabelo, estavam cobertas com folhas uma sobre a outra, preenchendo o Orifício do vaso, e de um lábio a outro, e sob a taça do mesmo em direção ao pé, circundava uma fina toalha de linho, as pontas pendendo para baixo dos nós, de uma sorte tão excelente que era conveniente tanto para o lugar como para a matéria. E no meio, sobre as cabeças, estava a face de uma criança sobre um par de asas.
E com tais lineamentos era o Zóforo adornado e coberto, com uma Cornija cheia de excelente trabalho. Sobre o topo plano do qual, por uma linha perpendicular sobre os Pilares, na ordenação dos quadrângulos, estavam colocados e forjados certos vasos à moda antiga, por uma distribuição apontada, três pés de altura de Calcedónia, alguns de Ametista, alguns de Ágata, alguns de Jaspe, com os seus ventres sulcados e Canalizados, e cortados de uma astúcia rara e maravilhosa, e com excelentes asas.
Em uma ordem perfeita sobre cada Joia acima da Cornija, estavam aptamente unidos travessões, quadrados de sete pés de altura, e o espaço médio entre eles de Ouro brilhante, com uma extensão superadjectiva, fechando sobre os travessões retos estendidos. E por um dobrar para baixo, os travessões uniam-se decentemente um com o outro, com um trabalho de Topiaria. Pretendendo que fora dos vasos que estavam sobre a Cornija, como referido, nos cantos o travessão e a vinha subissem juntos, mas fora dos outros vasos, ou uma vinha ou algum Madressilva de Ouro, por cursos encontrando-se sobre os travessões transversos, com um espesso estender dos seus ramos espalhados, um unindo-se com o outro, e torcendo-se juntos com um congresso fino e agradável, cobrindo todo o pátio com um rico e inestimável teto, com diversas folhas moldadas de esmeralda verde, gratas à vista, mais perfeitas do que aquela em que Amenon foi impressa, e as flores dispersas e distribuídas de Safiras e berilos. E com uma excelente disposição e artificial, entre as folhas verdes e as veias grossas, tão preciosas pendiam os cachos de uvas feitos de pedras, agradáveis e ajustados às cores naturais das Uvas.
Todas as quais raríssimas invenções, de valor incomparável, incrível e além da imaginação, brilhavam por toda parte preciosissimamente: não tanto de ser maravilhado pelo custo da matéria, mas pela grande magnitude da obra.
Pois não sem grande causa, de lugar para lugar, com um exame diligente e zeloso, considerei cuidadosamente a grande extensão dos ramos mais intrincados, e a sua força e espessura proporcionadas, tão astuciosamente feitas, por tal arte, tentativa ousada e intenção contínua, eram tão aptamente conduzidos, se por solda, ou pelo Martelo, ou por fundição, ou pelos três, parecia-me uma obra impossível fazer uma cobertura de tal largura, e tão torcida e entrelaçada.
No prospecto do meio, oposto à nossa entrada, sobre um trono real degraus, cheio de pedras brilhantes numa ordem maravilhosa, muito mais excelente do que o assento no templo de Hércules em Tiro, da pedra Eusebes. A Rainha, com uma majestade imperial, sentada nele, semelhante a uma deusa, e de uma magnanimidade maravilhosa no semblante: gorgeosamente vestida em pano de ouro, com um traje suntuoso e curioso, sobre a sua cabeça de uma cor púrpura, com uma orla de Pérola Oriental, sombreando sobre a sua testa larga, antiga e principesca, sempre pressionando as suas madeixas de cabelo, tão pretas como azeviche, descendo pelas suas têmporas níveas, e o resto da abundância do seu longo cabelo, preso à volta na parte traseira da sua cabeça, e dividido em duas partes ou tranças, voltadas para este lado e aquele, atrás das suas pequenas orelhas, sobre a sua cabeça de proporção reta, e terminado na coroa, com uma flor de grande Pérola Oriental e redonda, tal como as que são encontradas no promontório indiano Perimula.
O resto do seu longo cabelo espalhado não era visto, mas coberto com um véu fino, orlado com ouro, pendendo da referida flor e nó de pérola, até aos seus ombros delicados, e esvoaçando com o ar.
No meio da orla do seu adorno, sobre a parte mais alta sobre o meio da sua testa, pendia uma joia rara. E à volta do seu pescoço redondo e níveo, ia um Colar inestimável com um pendente sobre a divisão dos seus seios redondos, de um Diamante de mesa, em forma de Ovo, cintilante e de uma largueza monstruosa, engastado em ouro com trabalho de fio.
Nas suas orelhas, ricamente, estavam pendurados nas pontas dois brincos, dois grandes Carbunculos brilhantes de um preço inestimável.
Os seus sapatos eram de seda verde, e as suas pantufas de ouro bordadas num trabalho de folhas. Sobre um escabelo acima do qual, e sob os seus pés, estava deitado uma almofada de Veludo branco, com um debruado de seda e Pérolas Orientais da Arábia, dentro do golfo pérsico, com quatro Botões trabalhados com Pedras preciosas, e borlas de fio de ouro e seda carmesim, pendentes.
Sobre ambos os lados, ao longo dos referidos bancos cobertos com veludo verde, sentavam-se as suas Damas de honra, atendentes em uma ordem boa e louvável, de acordo com os seus estados, vestidas em pano de ouro numa bravura incrível, como no mundo se pode ver. E no meio delas, esta renomeada e famosa Rainha em grande pompa e inefável imponência, e as bainhas das suas vestes tão orladas e ajustadas com pérola e pedra, como se a natureza as tivesse chovido e derramado sobre ela.
Ao seu aspecto alto e imperial, com grande reverência dobrando os seus joelhos até ao chão perante ela, as suas mulheres levantaram-se dos seus assentos, ocasionadas pela novidade do espetáculo, e maravilhando-se muito que eu devesse vir a tal lugar.
Mas eu encontrei-me mais atônito, o meu coração desfalecendo, e dilatando-se tanto dos problemas que passei, quanto do estado presente em que fui trazido, o que me envolveu e encheu com um extremo assombro, medo reverendo e honesta vergonha.
E elas perguntando às cinco Ninfas que me trouxeram, sussurrando quem eu era, e a estranheza da minha sorte, direcionando, dobrando e atentamente fixando todos os seus olhos em mim. Onde, encontrando-me tão vil verme em tal excelente conspecto, fiquei maravilhosamente atônito, e como alguém que não tinha espírito.
Mas, sendo perguntado o sucesso e a maneira da minha vinda, as Ninfas claramente, aberta e manifestamente expuseram o mesmo largamente, ao que a graciosa Rainha, sendo movida à compaixão, fez-me levantar, e entendendo qual era o meu nome, começou a dizer.
Poliphilus, tem bom ânimo, reconforta o teu coração e diz-me como vieste aqui, por que meios e como escapaste daquele mortal e horrível Dragão? E como encontraste o caminho para sair daquela odiosa e cega escuridão, já me contaram: mas não me maravilho pouco, porque poucos ou ninguém ousa aventurar-se por aquele caminho. Mas, vendo que a graça te trouxe aqui a salvo até nós, não te negarei (não obstante qualquer causa) uma graciosa e favorável acolhida.
Ao seu convite liberal, palavras reais e recepção, melhores do que eu poderia ter imaginado desejar, com devotos e honrosos agradecimentos, dados abundantemente de ponto a ponto, contei como escapei e fugi do Dragão, um temível monstro. E consequentemente com que trabalho e dor cheguei ao lugar desejado. E como as cinco Ninfas me encontraram errante e aterrorizado. O que, quando houvera largamente declarado e terminado o meu discurso, comecei com grande desejo a preparar-me para ser participante dos seus solaces e magníficos prazeres.
Depois, ela disse-me com um semblante sorridente e agradável: É matéria digna de consideração que um princípio mau e descontente, muitas vezes resulte num final feliz e bom: e antes que qualquer coisa vos seja cometida para realizar, no que tange à tua amorosa e firme intenção, é do nosso agrado, para o apaziguamento e mitigação dos teus louváveis pesares, que nesta companhia te associes especialmente a Philotesia, vendo que os belos céus te mostraram o caminho para a tua recepção e te trouxeram à nossa triunfante mansão. E portanto, meu Poliphilus, sem mais cerimónias, toma o teu lugar ali e senta-te, pois verás (com muito boa vontade) parte da nossa suntuosa e majestosa maneira de servir, a abundante diversidade e número das minhas mais que principescas iguarias, o honroso atendimento da minha criadagem e a excelente ordem do mesmo, a inestimável preciosidade da minha grande abundância e os largos efeitos da minha generosidade.
A tal imperioso comando, terminado o seu eloquente e favorável discurso, humildemente, e com um pouco mais de audácia do que antes, sentei-me num dos bancos à minha mão direita (cobrindo a minha túnica rasgada à frente com certas folhas de silva que ainda nela restavam), entre as cinco Ninfas que me trouxeram, e entre elas junto a Offresia e Achoe, colocadas atrás da Rainha, e seis outras da câmara do outro lado, e no meio, no alto, sobre um trono, sentava-se a Rainha em uma imperial Majestade.
A cobertura sobre o Trono era de uma coloração esmaltada contendo nela uma bela imagem sem qualquer barba, a cabeça coberta com cabelos amarelos, parte do seu peito coberto com um pano fino sobre as asas abertas de uma Águia, a cabeça dela voltando-se para cima, observando-o. A cabeça da qual a imagem estava cingida com um Diadema azul, adornado com sete raios, e ao pé da Águia dois ramos de Louro verde, um para um lado, o outro contrário para cada lado. E em cada guirlanda contemplei a figura própria do seu planeta, e atrás, nas minhas costas, estava a joia contendo a história do alado Mercúrio, e como a benignidade da sua boa disposição é depravada quando ele está na cauda maligna do venenoso Escorpião. E olhando para mim mesmo, envergonhei-me ao ver o meu hábito vil entre tais suntuosos paramentos, que me parecia nada mais do que aquela vil e mortífera besta entre os mais nobres signos do Zodíaco. As belas e honrosas donzelas sentavam-se em ordem sobre os Bancos, cercadas ao longo dos lados das paredes do lado direito, e o melhor da Corte, com uma rara e estranha espécie de toucado feminino sobre as suas cabeças, como há no mundo, com as tranças dos seus cabelos dobradas e presas em toucas de ouro.
Algumas com os seus cabelos da cor do Âmbar, encaracolados e adornados com flores do mesmo sobre um arame, com as pontas viradas para baixo e ondulando sobre as suas frontes níveas e têmporas lisas, embelezadas com Rubis e Diamantes cravados no cabelo.
Outras da cor do Obsídio da Índia, negro e brilhante, adornadas com flores de Pérola Oriental e colares do mesmo. Ficavam todas esperando com tal venerável atenção que, quando o serviço era trazido à mesa, todas ao mesmo instante faziam as suas reverentes cortesias dobrando os joelhos, e da mesma maneira quando se levantavam dos seus assentos, cada uma vestida em tecido de Ouro, mas não se sentavam nem comiam na mesma mesa.
Diretamente diante da triunfante Rainha estava a abertura da terceira Cortina, cobrindo uma grande e boa porta, não de Mármore, mas de raro e duro Jaspe do Oriente, de um trabalho artificial e antigo, maravilhosamente belo de se ver. Sobre ambos os lados desta porta, jovens donzelas Músicas, sete de cada lado em vestes de Ninfa, notáveis pelo corte e muito ricas: as quais, a cada mudança de serviço, alteravam a sua Música e Instrumentos, e durante o banquete, outras com um consentimento Angélico e Sirenal, afinavam o mesmo às suas mãos. Então, de repente, foram colocadas armações de Ébano, com três pés, e outras mesas temporárias, sem qualquer ruído ou alvoroço. Cada uma pronta para o seu Ofício designado, com um cuidadoso, diligente e afetuoso empenho, inteiramente voltado para aquele serviço que lhe fora ordenado.
E primeiro, diante da Rainha, foi colocada uma armação de três pés desta forma, sobre um círculo de fino Jaspe, com curiosos lineamentos. Ao qual havia três estípites, cujas partes inferiores terminavam na forma da garra rasgante de um Leão, com uma requintada folhagem, cercando os caules dos estípites, tendo no meio de cada um fixada a cabeça de uma criança entre duas asas, das quais, entre um e outro dos estípites, pendia, à maneira de uma Guirlanda, um feixe de folhas e frutos atados juntos, e maior para o meio, e sobre o topo dos estípites ou caules, foi posta uma projeção para sustentar a mesa redonda diante da Rainha.
Esta armação era imóvel, mas a mesa redonda podia ser rapidamente posta e tirada, de acordo com a substância dos vasos a cada mudança da mesa.
E logo, como que num piscar de olhos e num virar de mão, foi posta sobre esta armação de três pés uma mesa redonda de Ouro, de três pés de diâmetro e de uma espessura indiferente, e desta forma e tamanho eram todas as outras.
Sobre esta mesa foi estendido um Tapete perfumado, de tecido de Hormisino de cor verde, uniformemente estendido, largo e longo até ao pavimento: franjado nos lados com fio torcido do mesmo, e misturado com Prata e Ouro, dependendo por baixo de uma borda de bordado de Pérola e pedra preciosa, com um palmo de pavimento pendendo de cada lado. E deste sortimento eram todos os Tapetes bordados e franjados.
Depois seguiu-se uma bela e ágil donzela, com uma grande Bacia de Ouro cheia de flores de Violetas, castanhas, azuis e brancas, e cheirosas, como no início da primavera, e espalhando-as sobre as mesas, exceto a que estava diante da Rainha.
Sua sagrada majestade, tendo tirado o seu manto, tão esplêndido que Lolia, esposa de Paulo Emílio, nunca viu nos triunfos do seu marido, e ela permaneceu numa túnica de Veludo púrpura, tendo tecidos nela pássaros, pequenos animais, folhas e flores em nós, o trabalho um tanto elevado com pérola e pedra, com um fino véu cobrindo tudo de seda de Chipre, mostrando através dele os trabalhos cobertos e o pano devido à clara sutileza e finura do mesmo, e um traje imperial e gracioso.
Depois entraram duas belas Donzelas trazendo uma fonte artificial continuamente correndo com água, e reassumindo a mesma, que era de fino ouro, e num vaso de um trabalho curioso, que foi trazido diante da Rainha, e após a apresentação do mesmo sobre a mesa de ouro, elas dobraram os joelhos até ao pavimento, e igual reverência ao mesmo instante fizeram todas as restantes senhoras atendentes, tanto na apresentação de cada coisa, quanto na retirada. Três outras belas Donzelas seguiram-nas de perto, uma carregando um Jarro de ouro, a segunda uma bacia, e a outra uma toalha de seda branca.
A Rainha, enquanto lavava as mãos, uma das que carregava a bacia de ouro recebia nela a água, para que não caísse de volta na fonte reassumidora: e a outra com o Jarro derramava tanta água doce quanto era levada, para que a fonte não ficasse vazia e impedida no seu curso. A terceira limpava e secava as suas mãos.
O largo e grande Recipiente desta fonte era carregado sobre quatro pequenas rodas, que elas arrastavam sobre cada mesa para lavar as mãos de todos os que estavam sentados.
A borda do vaso onde a fonte ascendente estava, era adornada com bolhas de pérola erguidas, e sob a mesma estava posto outro de outra sorte, e ambos unidos com dois fechos de uma requintada dipolitura, fino trabalho e preciosamente guarnecido. Pois entre outras joias de inestimável preço, sobre o topo, numa flor, estava posto um Diamante em forma de pera, brilhando e faiscando de uma grandeza enorme e nunca vista.
E tão perto quanto o meu olfato podia dizer-me, julguei a água ser de Rosas, misturada com o suco de cascas de Limão e um pouco de Âmbar artificialmente composto, o que produzia um cheiro doce e agradável.
No meio desta admirável e estupenda Corte, estava posta uma maravilhosa vasilha de perfume, não tanto pela excelente e perfeita substância da mesma, que era puro e fino ouro: mas pelo conspícuo, raro e antigo feitio da base, apoiada sobre três pés de Harpias, as quais, numa folhagem, faziam um ligamento triangular à base, cheio de dispositivos, conforme o metal requeria, sobre cada Ângulo ou canto da qual estavam três formas nuas de espíritos voadores, ordenadamente postas, de dois côvados de altura, com os seus ombros voltados um para o outro, e um pouco perto um do outro.
Eles estavam sobre a base com o pé direito para o canto, e o esquerdo estendendo-se para o pé fixo do outro rapaz. Os seus cotovelos dobrados para cima, e segurando a pega da panela de perfume, muito esguia no cabo, e para cima em forma de taça, um tanto sulcada e de lábios largos.
Havia seis num circuito redondo, um para o outro: E entre os seus ombros no ponto central da base triangular, erguia-se um cabo como um Castiçal de moda antiga, segurando no seu topo tal taça ou vaso como o supracitado, e tão largo que preenchia o lugar vazio no meio entre os outros seis.
As quais taças estavam cheias de brasas ardentes cobertas com cinzas, e em cada vaso sobre as cinzas fervia um pequeno pote de ouro, cujos licores contrários infundidos com doces odores.
E como suspeitei, cada pote tinha água distinta, como que uma com água de Rosas, outra com água de flores de Laranjeira, outra de murta, folhas tenras de Louro verde, flores de sabugueiro, e diversos tais simples sociáveis. E estes fervendo juntos, produziam um cheiro muito agradável e fragrante.
Na presença da magnífica Rainha esperavam e atendiam sempre três honrosas Ninfas, sendo o seu vestuário de ouro e seda, maravilhosamente tecido e adornado, e cravejado com pérola e pedra. Os forros das suas túnicas contornando os seus ombros níveos, e descendo sobre os seus pequenos seios redondos até à parte inferior das suas cinturas, de tal cor como os guardanapos, deixando ver os agradáveis vales entre os seus belos seios, um deleite extremo e desejado alimento para um olhar estreito e olho ganancioso, com mil pequenas correntes, joias bonitas e flores de ouro à moda feminina, uma doce isca para levar um homem de cabeça ao esquecimento de si mesmo, estando encantado com escolhas e olhares amorosos, superando de longe o desejo de qualquer outro manjar delicado. Os seus sapatos de ouro cortados com meias Luas, e fechados na junção dos cornos ou cantos com botões e flores de trabalho de ourives de uma forma curiosa, e as madeixas dos seus belos e fartos cabelos acima das suas frontes e têmporas estrofiadas com grandes e redondas pérolas orientais.
Elas estavam assim de cada mão e diante da Rainha com um singular e reverente olhar, esperando e prontamente cumprindo aquele encargo para o qual estavam designadas. E estas serviam apenas uma Mesa: a qual, sendo mudada, retiravam-se e ficavam de pé braço com braço, tendo outras três suprido os seus lugares: e das três que esperavam, a do meio era a trincha.
A outra do lado direito segurava por baixo um prato caso algo caísse: e a terceira do lado esquerdo segurava uma toalha de seda muito branca e limpa para enxugar os seus lábios, e em cada ação uma reverência.
A toalha não era usada senão uma vez, e depois lançada fora sobre o pavimento, e levada por uma que estava perto. E tantos bocados quantos ela comia, tantas doces e perfumadas toalhas de seda limpas, dobradas e finamente trabalhadas eram usadas.
E o mesmo era feito a cada convidado, pois nem um naquele banquete tocava em nada senão apenas na taça.
Depois que a Rainha se lavou, e teve o seu primeiro serviço, então todos os restantes lavaram-se na mesma fonte, lançando água por si mesma, e reassumindo a mesma de uma maneira maravilhosa por dois pequenos tubos de cada lado, e correndo para cima diretamente no meio do fundo do vaso, cujo dispositivo, quando o compreendi, muito me contentou.
Após a lavagem da Rainha primeiro, e sucessivamente de todos os restantes, foi entregue a cada um dos que esperavam uma bola redonda de fio de ouro cheia de pequenos buracos, e por dentro recheada com pasta de Âmbar de uma composição muito perfeita, cravejada com pedras preciosas, para que as suas mãos, olhos e sentidos não ficassem ociosos.
Então, a cada mudança de prato, dois Edeabries que tinham a ordenação da comida da Rainha, traziam ao meio da Corte real sobre quatro rodas giratórias um majestoso repositório ou armário, em forma de navio, e o resto como um Carro triunfal, do mais fino ouro, com muitos peixes e monstros aquáticos, e infinitas outras formas requintadas maravilhosamente trabalhadas, e cheias de pedras ricas, cujos faíscas e brilhos brilhavam ao redor dos lados da Corte, e encontravam-se sobre as rodelas das outras joias anteriormente mencionadas, em cada lado convenientemente colocadas, como se Febo tivesse sido posto por uma Ninfa para abrilhantar os seus olhos e semblante com o seu brilho resplandecente.
Para todo este contínuo brilho de inefável trabalho, não poderia ser imaginado mais nada de igual comparação, embora fosse o Templo na Babilónia com as três estátuas douradas.
Dentro do qual era posto todo o necessário perfumado, que era conveniente para a mudança das mesas, como panos, flores, taças, toalhas e vasos, para despejar, para beber e pratos para comer.
E estas duas Ninfas plaustrárias, retiravam-nos, e entregavam-nos (como a necessidade requeria) aos que esperavam.
E a primeira Mesa sendo mudada, cada coisa era trazida de volta para as plaustrárias, à partida das quais os Trompetes soavam de tal sorte, que Piseus Therrenus nunca se aproximou, nem o Trompetista de Maletus ao Rei da Hetruria.
E então eles sopravam os seus Cornetins, fazendo assim cada vez que o repositório era retirado, até que entrasse de novo, momento em que cessavam.
E quando a Mesa era mudada, eles alteravam os seus instrumentos musicais, os quais, cessando, os cantores começavam tão divinamente, que teria causado as Sereias a dormir, tendo misturado com as suas vozes instrumentos de sopro de madeira, tais como o Dardanus de Troezein nunca inventou.
E por esta ordem designada, ouvia-se continuamente sons melodiosos e agradáveis harmonias, doces concordâncias com Música deleitosa apresentada, perfume odorífero cheirado, e majestosas iguarias abundantemente comidas. E cada coisa qualquer, sem qualquer defeito de graça ou deleite correspondente, de acordo com a dignidade do lugar.
Para esta primeira mesa principesca, todos os vasos e instrumentos juntamente com a mesa em si, eram de puro e fino Ouro. Onde foi apresentada uma confeção Cordial, e como pude conjeturar, era feita de raspas de chifre de Unicórnio, caroços de Tâmaras e Pérola, muitas vezes aquecida, e temperada e moída pequena, Maná, pinhas, água de Rosas, Almíscar e Ouro Líquido, numa composição preciosa por peso, e feita em pastilhas com fino Açúcar e Amido.
Isto era comido sem beber nada por cima, e era uma Confeção para proibir todas as Febres, e para expulsar o cansaço Melancólico.
Isto sendo feito num momento, todas as coisas eram levantadas e removidas, as Violetas lançadas sobre o chão, e a mesa nua. E assim que isto era feito, a mesa era posta de novo coberta com pano de Talasike, e também os que esperavam, e como na primeira vez, foram lançadas sobre eles as doces flores de Cedros, Laranjeiras e Limoeiros, e sobre isso, apresentavam em vasos de Berilo, e dessa pedra preciosa era a mesa da Rainha (exceto os potes de servir que eram todos de puro e fino Ouro), cinco Frituras de massa de cor de Açafrão, e cobertas com água de Rosas extremamente quente, e fino Açúcar moído, e depois novamente lançadas por cima com água almiscarada, e com fino Açúcar como geada sobre o Gelo. Estes Serviços de um gosto muito agradável e de vários feitios eram postos assim. O primeiro, em óleo das flores de Laranjeira. O segundo, em óleo de Goivos. O terceiro, em óleo das flores de Jasmim. O quarto, em puro Óleo de Benjoim.
E o último, no óleo de Almíscar e Âmbar. E quando tínhamos bem provado e comido do mesmo manjar deleitável, foi-nos entregue uma boa taça do supra-nomeado Berilo, com a sua tampa, e coberta também com um fino Véu de seda e Ouro curiosamente dobrado na forma de um Dossel, as pontas lançadas sobre os ombros dos portadores, e pendendo pelas suas costas.
E desta sorte apresentavam todos os vasos de beber e outros, com carnes e molhos cobertos. Dentro da taça de beber tinham infundido um precioso Vinho, de tal modo que me parecia que os Deuses dos campos Elísios tinham transformado o seu poder na doçura do licor: superando o vinho de Thassos.
Sem demora (após bebermos, esta mesa sendo retirada, e as doces flores lançadas sobre o pavimento), foi imediatamente estendido um pano de seda murada e encarnada: com Rosas brancas, vermelhas, Damasco, Almíscar e amarelas lançadas sobre o mesmo. E prontamente novos servos traziam (vestidos nas mesmas cores) seis pedaços de pão cortados para cada um, tostados e temperados com tutano refinado, polvilhado sobre com água de Rosas, Açafrão e suco de Laranjas, temperando o gosto e dourados por cima, e com eles seis pedaços de puro pão branco foram postos. E junto a eles uma confeção, do suco de Limões temperado com fino Açúcar, sementes de Pinheiro, água de Rosas, Almíscar, Açafrão e escolha Canela, e assim eram todos os molhos feitos com conveniente gradação e entrega. Os vasos eram de Topázio e a mesa redonda.
Esta terceira magnífica mesa sendo levantada como dito antes, foi prontamente outra inovada, com um pano de seda liso, e de cor amarela, (os servos adequados) e espalhada com Lírios do Vale, e Narcisos, imediatamente este prato foi apresentado, sete pedaços da carne de uma Perdiz num caldo picante, e tantos pedaços de puro pão branco. O molho Acceres, picado e dissolvido em Açúcar três vezes fervido, Amido, Sândalo, Almíscar e água de Rosas. Os vasos e a mesa redonda de Crisólito. Finalmente, ofereceram uma preciosa taça de beber, e assim observado no resto.
Sendo a quarta mesa retirada, a quinta foi solicitada com uma toalha de seda, de cor carmesim, e da mesma sorte o vestuário das ninfas. As flores de púrpura, amarelo, branco e cor de bronze. O serviço, oito pedaços da carne de um faisão assado, deitado no seu molho, e juntamente outros tantos pedaços de pão fino e branco. O molho era este: água de flores de laranjeira, sumo de romãs, açúcar, cravinhos e canela. Os vasos de esmeralda, e a mesa da Soberana Rainha.
Sendo isto retirado muito solenemente, foi estendida outra toalha de seda de cor púrpura, e assim o vestuário dos serventes.
As flores eram de três sortes, de jasmim, cor de bronze, amarelo e branco. O serviço foi de nove pedaços da carne de um pavão restaurador, humedecido no seu molho. O molho era muito verde e ácido, com pistácios, nozes moídas, açúcar, ciprico, amido e almíscar, tomilho, manjerona branca e pimenta. Os vasos de safira, e a Mesa Principesca.
Na sétima mudança, trouxeram uma sumptuosa mesa de marfim branco, debruada, decorada e finamente trabalhada com muitas pequenas peças sobre a preciosa madeira de aloés, unidas e coladas juntas, e de um lado ao outro, trabalhada com nós e folhagens, flores, vasos, monstros, passarinhos, e os traços e entalhes preenchidos com uma pasta negra e mistura de âmbar e almíscar. Isto pareceu-me uma coisa muito excelente e sumptuosa, exalando um perfume deliciosíssimo. A toalha branca e subtilmente trabalhada com trabalho de fios puxados com seda de cetim, o fundo salpicado e preenchido, e o trabalho branco e liso, com a representação de formas, aves, bestas e flores, e da mesma sorte o vestuário dos serventes. As flores: esteva, colza, violeta e todas as sortes de goivos doces. E assim variava por toda a parte tal diversidade de cheiros, trazidos separadamente, e tão deleitáveis aos sentidos, que não posso expressar suficientemente.
Então foi dado a cada um uma confeção em três pedaços da concha do marisco, dáctilos, com pistácios, miolo de nozes moído e posto em água de rosas das ilhas, e almíscar e folha de ouro, batida e misturada com isso, de tal modo que cada peça colhida parecia ter sido toda de ouro.
Os vasos eram de jacinto, e a mesa circular. Uma pedra apta e conveniente para tão excelente disposição e real mesa e estranhos banquetes, tais como antes nunca se ouviram.
Após a retirada destas maravilhosas confeções, e as flores lançadas sobre o pavimento com uma magnificência principesca, foi prontamente trazido um grande vaso de ouro cheio de brasas acesas, no qual foram lançadas as toalhas de mesa, guardanapos e panos de seda, os quais arderam prontamente, e após isso, sendo retirados e arrefecidos, estavam inteiros, incólumes e limpos como no princípio. E isto foi, contudo, a maravilha mais estranha de todas as outras. E então as mesas e armações foram desmontadas e levadas.
Cuja ordem e vistas mais excelentes, quanto mais me esforçava cuidadosamente por as considerar, mais ignorante e maravilhado me encontrava.
Mas em todas as coisas, certamente, senti grande prazer com a minha intenção de admiração, ao ver tal, tão grande, abundante e triunfante sumptuosidade, de um banquete tão incrivelmente custoso, que é melhor calar-me do que não falar suficientemente no relato do mesmo. Pois os banquetes da Sicília são, em comparação, apenas mendigos, e assim eram os imponentes ornamentos de Átalo. Os vasos coríntios, as iguarias de Chipre e as ceias Saliares.
Contudo, apesar de tão suprema e excessiva alacridade e deleite cordial, e aquele único e extremo prazer (ocasionado por tais e tão inesperados deleites) por uma daquelas três que na última mudança serviam, foi esmorecido, derrubado, interrompido, aleijado, interceptado e tornado vão. Pois ela representava no seu comportamento o doce gesto e semelhança de Polia, despertando por eles em mim olhares furtivos.
Este não foi um pequeno obstáculo para mim na tomada daquelas agradáveis iguarias e refecção principesca. Contudo, os meus olhos de vez em quando, com muito custo, desviavam-se para contemplar a beleza das joias e pedras preciosas, cintilando e brilhando em cada lugar, em tais diversidades de estranha e nunca vista glória e conspícuos adornos, como se todas devessem um dever a ela, o que me fez ter um desejo imoderado de contemplar a correspondência da sua excelente beleza.
Por fim, em tal ordem e sorte, como supradito, sendo as mesas retiradas, pendurei a cabeça, porque não podia seguir as últimas guloseimas que tinha perdido por pensar nela que servia.
Então, primeiro perante a sagrada Majestade e real pessoa da Rainha, e depois a nós, cinco belas ninfas vestidas de seda azul e ouro curiosamente tecidos juntos em trabalhos, apresentaram-se todas juntas.
A do meio trazia um ramo de coral, como uma árvore, tal como não se encontra entre as ilhas Órcades, de um cúbito de altura, que se erguia como sobre uma pequena montanha, que era a tampa de um vaso de moda antiga de ouro puro, em forma de cálice, tão alto quanto a tampa e a árvore de coral, cheio de curiosa mão-de-obra e trabalho de folhagem, nunca feito na nossa era, nem tal visto.
Entre a gracilidade do pé e o copo, estava unido com uma pega de inestimável mão-de-obra, e da mesma maneira o pé e a taça eram de uma excelente anaglifia de folhagem, monstros e Cilas biformes, tão exquisitamente expressos quanto poderiam ser em relevo, cinzelados ou gravados por circulação proporcional.
E a tampa mordicante do mesmo estava densamente cravejada com joias incomparáveis; e da mesma sorte toda a base e pega onde a conveniência requeria, e brilhando ao redor.
Sobre os ramos do coral, estavam artificialmente colocadas certas flores abertas com cinco folhas, algumas de safira, outras de jacinto e berilo, e no meio delas uma pequena semente redonda de ouro, fixando as folhas ao caule de coral.
A qual jovem mulher, curvando-se reverentemente até à terra com o joelho direito, reservando o outro ainda levantado, sobre o qual segurava esta tampa de coral, que também além das flores, tinha sobre as pontas e topos de outros ramos ou rebentos curiosamente fixada uma pérola monstruosamente grande. Outra delas tinha um copo cheio de precioso licor, melhor do que aquele que a orgulhosa Cleópatra deu ao Capitão Romano; as restantes executaram os seus ofícios como supradito, e arrancando um após outro, com um pequeno instrumento com dois dentes de ouro, oferecendo-nos as mesmas frutas, para mim desconhecidas, por nunca ter visto tal, provámo-las.
Mas o inesperado prazer delas, e a doçura do seu sabor, não foi para mim de outra forma senão como uma substância graciosa carente da sua forma desejada.
E foram restauradas novamente as bolas de ouro acima mencionadas.
Sobre isto apareceu outro trabalho maravilhoso, que era uma fonte perpetuamente corrente artificialmente concebida da matéria supradita, mas de outra notável moda e mão-de-obra, fundada sobre um eixo imóvel, sobre o qual duas rodas giravam.
Acima do qual erguia-se uma quadratura desigual de três pés de comprimento, dois pés de largura e seis pés de altura.
Em cada parte angular sentava-se uma Harpia com ambas as asas estendidas e esticadas até à largura de um vaso mais alto, erguendo-se sobre o meio do quadrângulo medido, coroado nas partes extremas e superiores, e embelezado com caneluras e folhagem, circundando a parte inferior.
E sobre cada lado o mesmo dividido em três, a parte média entre a queda das águas interceptadas, continha em meio-corpos esculpidos, um triunfo de Sátiros e Ninfas, com Troféus e ações exquisitas, exceto a parte dianteira e a parte traseira moderadamente sinuadas e dobradas para dentro. As quais, em vez de alinhamento quadrado, continham uma redondeza ondulada entre, na qual estava maravilhosamente gravado um pequeno sacrifício com um velho Altar de ambos os lados, com muitas figuras e ações, o resto que estava vazio, as caudas das supraditas Harpias unindo-se, e transformando-se aqui e ali em folhas, cobriam excelentemente o mesmo.
Do centro mediano do equador e quadrângulo acima especificado e descrito, a partir de uma folhagem antiga, erguia-se um vaso de moda antiga, e muito belo, cujo circuito não excedia o conteúdo do plano quadrangular, e isto com todo o resto do trabalho, e cada investigação, prova e exame proporcional, tanto na maior largura e espessura, com os mais convenientes alinhamentos de vaso, diligentemente delimitados e limados, e então acabados com uma deformação absoluta e polida.
O qual, do seu orifício suprimido, ascendia outro vaso oco, cujo compasso excedia o supradito vaso sujeito, sulcado e canelado ao redor, de uma grande largura e largas bordas tão bem formadas, quanto é possível a qualquer ourives bater com o seu martelo.
No ponto central do qual erguia-se e montava outro vaso de inestimável mão-de-obra.
No fundo do qual terceiro havia pequenas cristas inchando para fora, cujos topos estavam rodeados com uma fila de diversas pedras inestimáveis, sobressaindo e diferindo em cores, como melhor pudesse contentar o olho de um Lapidário curioso e de compreensão hábil.
Sobre o mesmo de ambos os lados era feita uma cabeça de monstro, da qual de ambas as mãos procedia o guarnecimento do mesmo num exquisito e mais raro trabalho de folhas, investindo o mesmo ao redor com o congresso da cabeça oposta, e finamente adornando aquela parte do vaso.
E na saliência do lábio do vaso sobre o ponto perpendicular da cabeça, estava fixado um anel, do qual de ambos os lados pendia uma guirlanda de ramos, folhas, flores e frutos, crescendo maior em direção ao meio, com uma ligação perfeita a ambos os anéis.
Sobre a curva média da guirlanda, e sob a projeção do lábio do vaso, estava fixada e colocada a cabeça de um velho, com a sua barba e cabelo da cabeça transformados em folhas de urtiga, e de cuja boca jorrava a água da fonte por arte continuamente para a cavidade do vaso largo sob este.
Sobre a boca deste vaso descrito por último montava um monte precioso maravilhosamente congestionado, e armado de inumeráveis pedras de rocha preciosas redondas fechando umas com outras desigualmente, como se a natureza as tivesse unido a crescer, fazendo um monte composto redondo, belamente brilhando de diversas sortes e cores num tamanho proporcional.
E lá no alto, sobre o topo deste pequeno monte, crescia uma fina árvore de romã, o corpo, ramos e frutos feitos todos de ouro, as folhas de esmeralda verde. O fruto do seu tamanho natural aqui e ali aptamente colocado, os seus lados cortados abertos, e em lugar de sementes estavam cheios de rubis mais perfeitos, tão grandes como as sementes.
Depois disso, o engenhoso Artífice, não faltando inventiva, separou os grãos em vez da película com folha de prata.
E além disso, noutras maçãs, abertas, mas não maduras, redobrou a espessura da folha, fazendo as sementes de uma cor oriental, assim também fez as flores de coral perfeito, nos copos cheios de abelhas de ouro.
Além disto, do topo da haste oca, como um cano, saía uma haste giratória, cuja parte mais baixa repousava numa cabeça, armada a partir do tronco ou cano médio logo acima do eixo.
A qual haste ou suporte estando fortemente fixado, sustinha um vaso de Topázio de uma forma antiga, cuja taça no fundo era larga, e inchando com cristas na abertura, raramente embelezada com uma cornija, e posta sob outra.
No qual fechamento e união em quatro divisões iguais, havia quatro cabeças aladas de uma pequena criança, com quatro canos nas suas bocas.
O resto montava tanto quanto a menor grandeza do vaso era, sendo fechado no orifício com uma folhagem inversa. Sobre a qual estava colocado outro vaso como se fosse uma tampa circular de um trabalho de folha mais curioso, com uma pequena cornija e um orifício artificial.
Do fundo do qual começou uma cauda florida de um Golfinho fixada e soldada à gracilidade do vaso, descendo com a sua cabeça guarnecida de folhas, para a borda circulante do vaso onde as cabeças dos rapazes estavam fixadas. E com um inchaço moderado ao redor da cabeça, e estreitamento em direção à cauda, ajustavam-se para as orelhas de uma maneira bela. E toda aquela parte inclinada com um polimento exquisito fazia uma demonstração expressa dos mais curiosos alinhamentos.
O vaso superior era tão perfeitamente trabalhado, que quando a roda era movida, a haste com o vaso sobre o topo do mesmo virava-se e derramava água através da árvore, e quando a roda ficava parada, então aquela deixava de girar.
As rodas eram meio cobertas com duas asas, as pontas virando uma para um lado, e a outra para outro lado, adornadas com um cinzelado de Sereias ou Cilas.
Esta excelente peça de trabalho correndo assim perante cada um, e molhando as nossas mãos e pés de uma inestimável doçura, tal como eu nunca tinha sentido antes, secámos as nossas mãos, e foi levado.
E sendo assim aspergidos com esta rara e majestática água, os serventes com grande reverência apresentaram à Rainha primeiro um grande copo de ouro, e a sua alteza saudando-nos afavelmente, bebeu Néctar, e depois cada um de nós após outro, com reverentes, mútuas e solenes honras feitas, bebeu um mais agradável adeus e encerramento de todas as preciosas iguarias que tínhamos provado e comido.
Por fim, as flores redolentes sendo diligentemente retiradas, e todas as coisas que tinham sido usadas levadas dali, o pavimento permaneceu puro e brilhante como um espelho de aço claríssimo, e como se emulasse as pedras preciosas ao redor.
E estando cada um sentado no seu lugar designado, a alta e poderosa Princesa ordenou que uma companhia entrasse, e ficasse sobre os tabuleiros de jaspe, nunca tal visto ou imaginado por criatura mortal.
Poliphilus segue para mostrar além deste grande banquete uma excelente dança ou jogo, e como a Rainha o confiou a duas das suas Ninfas, as quais o levaram e conduziram à visão de muitas coisas maravilhosas, e enquanto falavam, mostraram-lhe os segredos de tais coisas das quais ele estava em dúvida. Finalmente, como chegaram às três portas, na do meio, ele permaneceu entre as ninfas amorosas.
Tendo falado algo da excessiva e incomparável glória, triunfo, tesouro desconhecido, abundantes deleites, solene banquete e a mais honrosa e sumptuosa bebida desta mais feliz e rica Rainha, se não expressei distinta e perfeitamente a sua maior dignidade, não se maravilhe com isso a curiosa companhia, pois qualquer engenho maduro, agudo e pronto, adornado com uma língua franca, eloquente e abundante, não é capaz de realizar a menor parte do seu dever.
E muito menos eu, que sofro continuamente em cada lugar secreto do meu coração ardente, uma luta incessante apesar da ausência de Polia, a minha senhora, a proprietária de toda a minha habilidade, e prisioneira das minhas perfeições.
Além disso, em verdade as muitas maravilhas em excelência e variedade nunca ouvidas, tão estranhas, raras e estranhos dessemelhantes inestimáveis, e não humanas, oprimiram, carregaram e derrubaram os meus sentidos, com a gananciosa e excessiva contemplação e visão das suas variáveis diversidades, de tal modo que de ponto a ponto não sou de todo capaz de as descrever, e muito menos digno de as publicar.
Tudo e o máximo que posso fazer, é pensar no rico vestuário, requintada provisão, curiosos preparos, perfeitas belezas ambiciosas e ferinas sem imperfeições, os seus profundos julgamentos, eloquência Emiliana e bondade mais que principesca, a notável disposição e ordem da Arquitetura, a durável Simetria e proporção do edifício, perfeita e absoluta, a nobreza da Arte da Maçonaria e Lapidária, as direções e colocação de Colunas, a perfeição de estátuas e representações, o adorno das paredes, a diversidade das pedras, a imponente entrada e pórtico principesco, larga Galeria, pavimentos artificiosos, ninguém pensará com que custo e encargo embelezado e pendurado com preciosa Arras e Verdura. O espaçoso e alto Pátio interior, bons aposentos, aposentos interiores de retiro, salas, banhos, biblioteca e pinacoteca, onde brasões de Armas, escudos, mesas pintadas e contrafeitos de estrangeiros eram mantidos, e com uma majestática compostura e ordem colocados e solenemente distribuídos.
Em cuja capacidade concebedora, maravilhoso desempenho, incrível encargo e alto louvor do mais excelente Artífice, dignamente permitido em cada partição e elegante convenção de exquisitos Alinhamentos. Eu também contemplei uma maravilhosa e retorcida coligação ou cobertura de trabalho de ourives, sobre um Pátio plano de quatro quadrados, crescendo igual, sem comparação como um céu, com uma distância disposta de muitas sortes de proporções, com várias Dimensões libelladas, sombreando sobre o Pátio, com uma Eminência Arqueada, que estava sob, adornada com Alinhamentos e gravuras de cornija, a ela convenientes, como Fasceos, Gululles, e Ovalação, e as folhas de Acanto, lambendo por assim dizer nos cantos do Pátio quadrangular. Com Rosas e a ordem crescente das suas folhas, a folha do topo menor, os seus recortes ao redor das folhas, e espaço entre folha e folha. Todas as coisas cobertas com ouro puro fino e cor de Azul, com diversas outras proporções e contrafeitos de substância, iguais com a sua mão-de-obra. A cobertura de Salances Rei da Cólquida, não se pode comparar com esta.
Então a deleitável fecundidade das sebes, Pomares, Jardins regados, Fontes brotantes, correntes em Canais de Mármore, contidos, armados e mantidos, com uma Arte incrível, Ervas verdes, ainda frescas e florescentes, um ar doce, ventos quentes e primaveris, com um encanto confuso de pássaros a cantar e chilrear, um ar puro, justo e brilhante, e ainda continuando temperado e saudável, país livre de perigo e limpo, Sem lugares escarpados nem rochosos, cortados e fustigados com ventos agudos, nem queimados com um Sol quente intemperado, mas sob uma doce e agradável temperatura, num meio moderado regozijando, entre dois extremos, os campos férteis e sem lavoura e estrume, rendendo todas as mercadorias, colinas quentes, madeiras verdes e doces sombras frescas.
Também o inestimável mobiliário, a casa de atendimento e grande número, o seu excelente serviço, a diversidade de jovens, e todos no auge dos seus anos. A deleitável presença das Ninfas, tanto servindo fora na presença e aposentos, a sua sorte mais baixa, os seus honoráveis e graciosos comportamentos, a sua diversidade de vestuário, traje e adornos cravejados com Pérola e pedra, de uma sorte permitida, agradável e amável, como qualquer um pode imaginar ou expressar. Com estas infinitas riquezas, supremos deleites e imensurável tesouro, nem Dario, Creso, ou qualquer outro estado humano, qualquer que seja, poderia de alguma forma comparar-se.
E assim para concluir, sendo vencido pela glória deles, não sei o que mais dizer, senão que fiquei maravilhado, e por assim dizer sem sentidos, e contudo em grande deleite e sem cansaço, contemplando aqueles objetos presentes, e calculando comigo mesmo que destino e fado me deveria conduzir e levar a tal lugar.
Mas depois encontrando-me em tal acumulação de glória, assento agradável, País feliz, grande contentamento e companhia triunfante, tal como Clodius o Ator em Tragédias nunca tinha visto. Eu estava apenas moderadamente convertido, apesar da promessa da Rainha, de favorecer o meu desejo amoroso, considerando tudo, apenas como prazeres oculares que até agora eu tinha visto e me tinham sido apresentados, desejando ainda uma felicidade maior.
Por cuja causa, e para a maior exposição do excesso e abundância de excelência, além de todo o resto da sua real magnificência, sentando-se cada um no seu lugar após o milagroso, maravilhoso e sumptuoso banquete, sem qualquer demora, ela ordenou que um jogo fosse jogado por personagens, não só dignas de contemplação, mas de eterna lembrança, que era um jogo de Xadrez, desta sorte como se segue.
Pela entrada da cortina entraram trinta e duas ninfas, das quais dezasseis estavam vestidas de pano de ouro (oito uniformemente sem diferença de graus) depois uma daquelas dezasseis estava vestida com mantos principescos como um Rei, e a outra como uma Rainha, com dois guardas de torre ou Torres, como nós os chamamos, dois guardas de conselho ou Secretários, nós chamamo-los Bispos, e dois Cavaleiros. Da mesma sorte estavam outras oito em pano de prata, sob o mesmo governo e magistratura supradito.
Cada uma delas, de acordo com as suas funções, ocupou os seus lugares nos quadrados do pavimento, isto é, dezasseis em ouro de um lado em duas filas, e dezasseis em prata do lado contrário.
A música começou de repente com uma invenção rara a soar um ataque com uma agradável concórdia, participando em conjunto de uma melodia doce e trovejante, tendo nela um furor divino.
Ao som compassado e ao ritmo da música sobre os seus quadrados, conforme aprouve ao Rei ordenar, os peões, voltando-se com uma revolução decente, honrando o Rei e a Rainha, saltaram para outro quadrado diante deles.
O Rei dos homens de branco, soando a sua música, ordenou que avançasse aquela que estava diante da Rainha, e a mesma, com igual comportamento reverente, marchou para a frente do seu continente, e permaneceu imóvel. E de acordo com a mensuração do tempo musical nesta ordem, assim mudavam de lugar, ou continuavam sobre os quadrados a dançar, até que fossem capturadas ou ordenadas a avançar pelo Rei.
Se a música mantivesse sempre um tempo, aqueles oito peões uniformes gastavam o tempo a marchar para a frente para outro quadrado, nunca voltando para trás até que, dignamente, sem toque ou esmorecimento de coragem, tivessem saltado sobre a linha daquele quadrado onde era a residência da Rainha, prosseguindo em linha reta, a menos que capturassem um prisioneiro por uma linha diagonal.
O Bispo seguia em linha diagonal, mantendo sempre aquele quadrado colorido em que se encontrava primeiro.
O Cavaleiro, por cima de dois quadrados à sua frente, toma o seguinte de qualquer das mãos, e de cor contrária àquela em que se encontrava imediatamente antes.
Os guardas do Castelo ou Torres podiam passar sobre muitos quadrados em linha reta como lhes aprouvesse ao comando, de modo que podiam ir um, dois, três, quatro ou cinco quadrados, mantendo uma medida, e não parando na sua marcha.
O Rei podia ir para qualquer quadrado se nenhum estivesse nele, ou para trás, e fazer com que qualquer outro se retirasse por ele, e lhe desse espaço.
A Rainha podia ir para qualquer lado, mas é melhor quando está perto do seu marido, de todos os lados.
E sempre que os oficiais de qualquer dos Reis encontrarem um sem guarda de auxílio, tomam-no prisioneiro, e ambos beijando-se um ao outro, aquela que é vencida e tomada, sai e fica de lado.
Assim continuaram a jogar e a dançar de acordo com o tempo da música, com grande prazer, consolo e aplauso, até que o Rei das Ninfas de prata foi vitorioso e conquistador.
Este desporto solene, entre resistência voando para trás, e o apoio de umas às outras, com tal circulação medida, reverência, pausa e modesta continência, durou o espaço de uma hora, do que tirei tal prazer e deleite, que imagino (e não erradamente) que fui arrebatado de repente do gosto dos desportos do Olimpo para uma nova felicidade.
Terminado este primeiro jogo, e obtida a conquista, todos regressaram aos seus lugares habituais, e da mesma maneira que no primeiro, assim a segunda vez cada um nos seus quadrados designados, mudando a música a sua medida, assim os movimentos e gestos dos jogadores foram alterados.
E observando o tempo da música numa ordem conveniente, e gesto e arte aprovados, que não era necessário ordenar ou dizer nada.
Mas as astutas e peritas Ninfas, com as suas tranças abundantes eufusas sobre os seus delicados ombros pendiam ondulantes, e no seu movimento para a frente escorriam em comprimento, mostrando um pouco as suas costas, usando sobre as suas cabeças grinaldas e coroas de violetas. E quando alguma era tomada, levantavam os braços e batiam as mãos. Assim, jogando e correndo de um lado para o outro, a primeira continuou sempre conquistadora.
No último jogo e dança, estando todas elas regressadas aos seus lugares distribuídos, a Música soou novamente uma medida frígia, com um furor tão perfeito e provocante como jamais Marcias da Frígia inventou.
O Rei em vestes de Ouro, ordenou que a jovem donzela que estava diante da Rainha marchasse para a frente até ao terceiro Quadrado, direto na primeira mudança, whereupon imediatamente se viu uma batalha e torneio, com forças tão rápidas e repentinas, dobrando-se para o chão como se estivessem rente à sua guarda, e imediatamente a seguir saltando para cima com uma volta duas vezes acima do solo, uma exatamente oposta à outra, e ao descerem, com isso, uma volta sobre a ponta do pé três vezes em redor.
Toda esta ação fizeram ao mesmo tempo, com tal graça e agilidade, que nada poderia ser melhor, com as suas inclinações baixas, saltos altos e voltas, sem afetação de esforço, como se parecesse com facilidade e cuidado despreocupado, ao prazer e gestos doces, como em tal coisa se pode imaginar, e não se ver em outro lugar. Nunca ninguém incomodando a outra, mas quem era tomada prisioneira, beijava imediatamente o seu conquistador, e desocupava o lugar. E quanto menor fosse o número que lá havia, maior prazer era perceber as políticas de ambos os lados para superar o outro.
E tal ordem e movimento era usado por cada um, de uma forma louvável sem falta, conforme a medida e o tempo da música determinavam, despertando até aqueles que olhavam a ter um movimento nos seus nervos e mentes para fazer o mesmo, havia tal concórdia e acordo entre a natureza e a música, especialmente vendo o desempenho da mesma nas ações dos outros.
Por esta ocasião, fui movido a chamar à memória a força de Timóteo, o músico mais astuto, que com a sua voz e medida sobre o seu instrumento provocaria o grande macedónio Alexandre, violentamente a tomar armas, e alterando imediatamente a sua voz e tom, a esquecer o mesmo, e sentar-se contentemente. Neste terceiro jogo, aquelas vestidas de ouro triunfaram na vitória.
Assim, honrosamente com prazer excessivo e grande consolo, terminada esta sumptuosa festa, cada um preparou-se para se sentar. E eu levantando-me, fiz reverência diante do assento real da sua sagrada majestade, e ajoelhando-me sobre o meu joelho, ela disse-me assim.
Poliphilus, esquece agora, e apaga da tua memória todas as mágoas passadas, problemas ocorrentes, conceitos pensativos e perigos superados, porque estou certa do teu pronto e pleno contentamento de desejo.
E vendo que a tua determinação é perseverar resolutamente nas chamas amorosas e no amor de Polia, penso que é conveniente que, para a recuperação do mesmo, te dirijas aos três Portões, que são os lugares residentes da alta e poderosa Rainha Telosia, em cujo lugar sobre cada um desses Portões e Portas, verás o seu título e nome inscritos. Lê-o diligentemente, mas para a tua melhor direção e salvaguarda, terás para te acompanhar, duas das minhas servas, que conhecem muito bem o caminho até lá, e portanto segue indubitavelmente com um feliz sucesso.
E então com uma bonomia principesca, ela tirou do seu dedo um Anel de ouro, tendo nele engastado um Ancito, e entregou-mo para recordar a sua bonomia.
A este conselho e presente precioso, fiquei afasiático, não sabendo o que dizer ou fazer, em retribuição ou agradecimento. O que a sua Alteza percebendo, maternalmente e com uma prontidão natural numa gravidade majestosa, voltou o seu semblante para duas nobres e belas Ninfas, que atendiam perto do seu Trono real e imperial, dizendo assim a uma delas do seu lado direito.
Logistica, tu serás uma das que acompanhará o nosso convidado Poliphilus, e com uma graça sagrada e honrosa, ela voltou-se para a mão esquerda dizendo, Thelemia, tu também irás com ele. E ambas mostrai-lhe e instruí-o em que Portão ele deve permanecer, e então Poliphilus, elas levar-te-ão a outra poderosa e majestosa Rainha, que se for generosa contigo no entretenimento és feliz, se ao contrário, então descontente.
Não obstante, ninguém conhece a sua intenção pelo seu semblante, porque por vezes ela mostra-se cheia de favor, amor e disposições agradáveis. Noutra altura ela é maligna, intratável, desdenhosa, com paixões incursivas instáveis. E é ela que determina tais eventos como tu procuras. E pela sua condição obscura, ela é justamente chamada Telosia.
A sua residência não é num palácio tão imponente, como vês que eu habito.
Portanto, eu gostaria que compreendesses, que o artífice principal na criação da natureza, não fez nada comparável a mim, nem a terra te pode mostrar tesouro maior do que vir à minha presença e provar da minha bonomia, obter o meu favor e participar da minha qualidade.
E portanto estima-o de acordo com o valor, pois o que encontras em mim, é um Talento celestial acima de todas as joias terrenas, pois não tenho tido a minha residência no homem desde a sua queda.
Eles podem imaginar-me, mas não me conhecem, nem eu exerço qualquer domínio sobre eles para o meu próprio bem.
Agora a Rainha Telosia, ela habita num lugar de escuridão nublada, a sua casa é mantida fechada e trancada, porque ela não quer mostrar-se ao homem, nem anatomezar, descobrir e revelar-se a ninguém como ela é, e por esta causa o evento da sua determinação variável é mantido secreto.
Mas de uma forma maravilhosa e considerada, ela transforma-se contra a corrente, em diversas modas, não se manifestando, embora desejada.
E quando os antigos Portões te forem abertos, em cada um estará escrito o que te acontecerá, mas tu não perceberás o mesmo, a menos que em alguma parte o teu entendimento e sabedoria enigmaticamente e com um juízo correto e sincero olhe para ele, e rapidamente considere sobre isso, porque ela ambiguamente se altera em hábito e semblante, e através desta animadversão duvidosa, um homem permanece enganado da sua expectativa sem remédio.
E portanto Poliphilus, aquilo que estas minhas consignadas fiéis e apontadas servas por sugestão te persuadirem, e em que Portão deves entrar e permanecer, mesmo qual desses dois melhor te aprouver dar ouvidos, faz: pois elas têm algum entendimento dela.
E tendo assim falado, ela fez um sinal ou aceno com a cabeça para as duas Ninfas Logistica e Thelemia, que imediatamente sem demora, foram obedientes ao seu comando. E eu estando pronto a falar, nem sabia o que dizer, ou sequer ousava perante tão alta majestade, e por tão grandes bonomias dar uma palavra.
As duas companheiras apontadas da minha viagem, muito favoravelmente, e com uma prontidão familiar e gestos virginais, pegaram em mim, uma pela mão direita, e a outra pela esquerda, e reverentemente obtendo licença, primeiro da Rainha, e despedindo-se do resto, saíram pelo mesmo caminho por onde entrei.
E eu estando desejoso e não satisfeito, virei-me para o pórtico conspícuo, para observar diligentemente o palácio artificioso, maravilhoso e perfeito da Arte de construir.
A subtileza do qual, nenhuma excogitação humana é capaz de imitar.
E portanto pensei que a natureza tinha feito aquilo como uma maravilha de todas as suas obras para comodidade, uso, graça, beleza, ar e durabilidade contínua.
Pela qual causa, eu estava excessivamente desejoso de parar e olhar para ele, mas os meus líderes e guias não me deixaram, e ainda assim pelo roubo do meu olho no Zóforo, sobre o portão notei esta inscrição, +HO TE:S PHUSEO:S OLBOS+.
E tanto quanto com os meus sentidos rápidos pude carregar, levei na minha saída, com tanto prazer e deleite quanto é possível expressar. Oh, feliz seria aquele que pudesse ser apenas um criado ou escravo de cozinha em tal Paraíso.
Agora, estando chegado ao pátio da base, cercado e rodeado de laranjeiras, Thelemia com grande cortesia disse-me assim, além e acima de todas as coisas maravilhosas e admiráveis que já viste e contemplaste, restam ainda quatro que tu verás.
E do lado esquerdo do incomparável palácio, levaram-me a um belo pomar de excogitável despesa, tempo e subtileza de mão-de-obra, cujo continente e circuito era tanto quanto o terreno do Palácio, onde era a residência e permanência da Rainha.
À volta, perto das paredes do pomar, havia vasos de jardim convenientes nos quais, em vez de plantas em crescimento, cada um era de vidro puro, excedendo a imaginação ou crença de um homem, intorpiariado com caixas, as raízes e talos de ouro, de onde o outro procedia.
Entre um e outro dos quais foi colocado um cipreste, não acima de dois passos de altura, e a caixa um passo cheio de múltiplas e maravilhosas simples, com uma imitação mais excelente da natureza, e agradável diversidade nas modas das flores em cores distintas muito deleitáveis.
O plano labial que rodeia o pomar quadrante, saindo das paredes como um assento para estes vasos de jardim e árvores se apoiarem, foi subcoronizado com ouro por excelentes lineamentos trabalhados e adornados. A face superior do qual, e sobre a qual esses vasos e árvores estavam, estava coberta com um reboco de vidro dourado, e uma historiografia curiosa para ser vista no mesmo, e cercada e mantida com aramado e rede de ouro.
A parede que cercava o pomar com uma distância conveniente, estava boiada com colunas da mesma matéria, e investida com ataduras floridas naturalmente proporcionadas, e aqui e ali havia colunas quadrangulares de ouro chanfradas, arqueando de uma para a outra, com uma viga, Zóforo e cornija adequados, com uma projeção apropriada e conveniente sobre o capítulo de vidro sobre o redondo.
A substância de cuja projeção subjetiva da matéria quebradiça, era de falso diásporo de cores diversas e brilhante. A qual substância quebradiça tinha algum espaço vazio entre essa e a outra.
A boca dos arcos estava tapada com rombos de vidro claro em forma de triângulo, e os tubos embelezados por toda parte com uma pintura encáustica, muito graciosa para a vista do observador.
O solo estava aqui e ali coberto com grandes bolas redondas de pedras de arma semelhantes a vidro, e outras proporções finas muito agradáveis, com um consentimento mútuo imóvel como pérolas brilhantes sem qualquer adulteração por folhagem. Das flores soprava uma fragrância doce por alguma lavagem clara com óleo para esse propósito.
Ali, muito astutamente, Logistica, como uma oradora, fez um discurso em louvor fisicamente daquela excelente confeção da nobreza da substância, segredo da arte e estranheza da invenção. O semelhante não se encontra.
E depois ela disse, Poliphilus, vamos e subamos este monte próximo ao Jardim, e Thelemia permanecendo ao pé da escada, subimos até ao topo plano. Onde ela me mostrou, com uma eloquência celestial, um Jardim de larga circunferência, feito na forma de um labirinto intrincado de alamedas e caminhos, não para serem pisados, mas navegados, pois em vez de alamedas para pisar, havia rios de água.
O qual lugar místico era de um molde muito robusto e frutífero, repleto de todas as sortes de frutos, embelezado com belas fontes, e ervas verdes e flores, cheio de todo o consolo e deleite. Sobre o que ela falou assim.
Eu imagino (Poliphilus) que tu não entendes o estado condicionado deste feito maravilhoso, e portanto dá atenção às minhas palavras.
Quem quer que entre não pode voltar, mas como vês ali as montanhas aqui e ali distribuídas, sete circuitos e as voltas distantes umas das outras.
E a extrema moléstia e tristeza dos que entram é esta: Na montanha do meio, dentro do centro dela, e boca aberta da mesma, espreita invisivelmente um dragão velho devorador mortal, ele é destruição total para alguns, e outros não são feridos até à morte por ele. Ele não pode ser visto nem evitado, nem ele deixa ninguém sem assalto, mas ou na entrada, ou na sua jornada, ele destrói ou fere. E se ele não os mata entre uma montanha e outra, eles passam os sete circuitos até ao monte seguinte.
E aqueles que entram pela primeira torre ou monte (sobre o qual está este título inscrito +DOXA KOSMIKE:O:S POMPHOLYS+.) Navegam num pequeno navio com um vento próspero, e seguramente ao prazer: os frutos e flores caem sobre as suas escotilhas, e com grande consolo e prazer eles cortam através das sete revoluções com um vento alegre, até que o segundo monte seja descoberto e chegado a ele. E marca e contempla (Poliphilus) quão claro e brilhante o ar é na entrada, sobre o que é no centro, à volta do qual é uma escuridão espessa.
No primeiro monte ou torre há sempre residente uma matrona piedosa e generosa, perante a qual está um antigo vaso apontado chamado Vrna, pronto, tendo sobre ele sete letras gregas como assim +THESPION+, cheio de mel apontado, e a cada um que entra, muito cortesmente e com boa vontade ela dá um deles sem respeito de estado e condição, mas de acordo com a sua entrada.
Estes sendo recebidos, eles saem, e começam a navegar no Labirinto, a água sendo enironada de ambos os lados, com rosas, árvores e frutos.
E tendo navegado as primeiras sete revoluções de Áries, e sendo chegados ao segundo monte, lá encontram inumeráveis tropas de jovens mulheres de diversas condições, que exigem de cada um a visão do seu mel, o qual sendo mostrado a elas, elas imediatamente sabem a propriedade do mel, e a bondade do mesmo, e abraçando-o como seu convidado, elas convidam-no com elas a passar através das próximas sete revoluções, e com diversos exercícios de acordo com a sua prontidão inclinada, elas acompanham-nos até ao terceiro monte.
Neste lugar aquele que quiser seguir em frente com a sua companheira, ela nunca o abandonará ou deixará: pois há muitas mais mulheres voluptuosas e agradáveis. E muitos recusam a primeira e fazem escolha delas.
No largar do segundo monte, para chegar ao terceiro, eles encontram a corrente da água um pouco contra eles, e necessitam de remos, mas tendo descido do terceiro monte, fazendo o seu curso para o quarto, eles encontram a maré e corrente mais contra eles, e nestes sete cursos oblíquos o seu prazer é variável e inconstante.
Sendo chegados ao quarto monte, eles encontram outras jovens mulheres combatendo e lutando, e aquelas examinando os seus vasos de mel, elas atraem-nos para o seu exercício, mas aqueles que recusam deixar as suas primeiras companheiras, elas deixam passar juntos, e neste circuito a água é ainda mais contrária e problemática, onde há necessidade de grande estudo e trabalho para passar.
E sendo chegados ao quinto monte, eles encontram-no especulável, como um espelho onde eles veem as suas representações, e nisso eles tiram grande deleite, e com um desejo fervente eles passam o seu curso trabalhoso. Nesse monte eles veem esta sentença e ditado dourado manifestado, Medium tenuere beati: não linear, nem local, mas temporal, onde por um exame sincero e perfeito ele discerne aquele meio com o qual ele juntou a sua felicidade, sabedoria e riquezas: o que se não bem, no resto do seu curso ele desmaia mais.
E soltando-se daí, as Águas por razão dos círculos quebrados, começam a ser muito deslizantes para o Centro, de modo que com pouco ou nenhum remo eles são trazidos ao sexto Monte. E lá eles encontram mulheres elegantes, com uma mostra de modéstia celestial e adoração divina, com cujos aspetos e semblantes amáveis, os Viajantes são tomados no seu amor, condenando os seus anteriores com despeito e horror odioso. E com estas eles ficam familiarizados, e passam as sete revoluções.
Estes sendo chegados com um ar fechado, obscuro e nebuloso, com muitas perdas e uma viagem dolorosa, eles começam a lembrar-se do que passaram e perderam: pois quanto mais o compasso da revolução, se aproxima da descoberta da Figura do Centro, mais cedo eles são passados, sempre mais curtos e mais curtos, e mais rápido o curso da corrente é para a deglutição devoradora do Centro.
E então, com extrema aflição e amarga angústia, lembrando-se do abuso de seus prazeres, e dos companheiros que abandonaram, e dos lugares doces, o que aumenta ainda mais as suas tristezas, pelo facto de não poderem regressar ou voltar atrás com o seu navio, tal companhia segue-os continuamente na popa com os seus castelos de proa. E o que mais os desanima é a pesada sentença sobre o Centro mediano, Theonlykos Dys Algetos.
E ali, considerando o título desagradável, amaldiçoam o tempo da sua entrada no Labirinto, que tem em si tantos deleites variados, e o fim deles sujeito a tal miserável e inevitável necessidade.
E então ela, sorrindo, disse: Poliphilus, sobre a garganta devoradora deste Centro, senta-se um juiz severo, equilibrando as ações de cada um, e ajudando a quem ele quer ajudar. E porque seria entediante contar-te tudo, que baste isto a este respeito. Desçamos até à nossa companheira Thelemia, a qual, perguntando a razão pela qual demoraram tanto tempo lá em cima, Logistica respondeu: não basta ao nosso Poliphilus apenas contemplar, mas também compreender por mim o segredo daquelas coisas, que ele não poderia chegar a conhecer, nas quais eu o satisfiz. E quando ela terminou, Thelemia disse.
Vamos por um pouco a outro jardim não menos aprazível, adjacente ao jardim de vidro, do lado direito do Pallas: e quando ali chegámos, fiquei pasmado com um espanto excessivo, ao ver a curiosidade da obra; tão difícil de relatar como inacreditável de acreditar: equivalente à de vidro, com semelhante disposição de bancos ou leitos; os seus lábios guarnecidos com coroamento e trabalho de fundo dourado, e tais árvores, não fosse que as buxos e os ciprestes serem todos de seda, exceto os corpos e os ramos maiores, ou a força dos braços: o resto, como as folhas, flores e a casca exterior, era de seda fina, não faltando abundância de pérolas para a embelezar: e a cor perfeitamente fina, cheirando como as flores de vidro supramencionadas, e semelhante, não fosse que as paredes que os rodeavam, de maravilhosa e incrível suntuosidade, estivessem todas cobertas por uma crosta de pérola, estreitamente unidas e ajustadas: e em direção ao topo, brotava hera verde, as folhas espessando-se e crescendo a partir das pérolas, com os fios e veios de ouro, correndo para cima em diversos lugares entre as pérolas, de uma forma raríssima e curiosa, como se fosse hera verdadeira, com bagas de pedras preciosas engastadas nos caules em pequenos cachos: e nos arbustos havia rolas de seda, como se estivessem a alimentar-se das bagas, ao longo de todos os lados das paredes do jardim quadrangular: sobre as quais, em ordem magistral e necessária, estendiam-se a trave e o Zophor de ouro.
O plano suave dos assentos, sobre os quais os buxos se erguiam, cobria-se com Histórias de amor e veneração, num trabalho de seda e fios de ouro e prata, numa proporção imaginária e de contrafação tão perfeita que ninguém a pode exceder. O solo do jardim nivelado era de folhas, relva e flores de seda, como um belo e doce prado: no meio do qual havia um grande e vistoso Caramanchão redondo, feito com fio de ouro, e coberto com rosas do mesmo trabalho, mais belas ao olho do que se fossem rosas vivas, sob cuja cobertura, e dentro do qual Caramanchão, pelos lados, havia assentos de Diaspre vermelho, e todo o pavimento redondo de um Diaspre amarelo, de acordo com a amplitude do lugar, com manchas de diversas cores, concordando confusamente numa agradável união adulterada, e tão límpido e brilhante, que a cada objeto a si mesmo representava novamente. Sob o qual Caramanchão, a bela e aprazível Thelemia, sentando-se com deleite, pegou no seu alaúde que trazia consigo, e com uma melodia celestial e uma doçura inaudita, começou a cantar em louvor e deleite da sua Rainha. E vendo que graça dava a ela a companhia da sua colega Logistica, maravilhei-me por que Apolo não vinha escutar a Harmonia feita por elas: era tão melodiosa, que, no momento, um homem teria pensado que não havia maior felicidade. E depois que ela terminou os seus Poemas divinos, Logistica pegou-me pela mão e conduziu-me para fora do Caramanchão, dizendo-me.
Poliphilus, entenderás que o engenho destes objetos é mais agradável de ser compreendido do que contemplado, e por isso entremos aqui, para sermos satisfeitos em ambos.
E daí, ela e a sua companheira trouxeram-me deste jardim para outro, onde contemplei um Areostilo em arco, do chão curvado até ao topo, cinco passos de altura e três de largura, e assim continuado ao redor da circunferência do jardim, numa proporção ordenada e necessária, todo revestido e coberto por hera verde, de modo que nenhuma parte da parede se podia ver. E havia cem Arcos a cercar este jardim.
Junto a cada um dos Arcos, havia um Altar de Pórfiro vermelho, curiosamente proporcionado com lineamentos requintados; e sobre cada um deles estava colocada uma imagem de ouro, como uma Ninfa, de semblantes raros e belos, diversamente vestidas, e variando nos seus trajes e penteados, cada uma inclinando os olhos para o Centro do jardim.
No qual lugar central, estava fundada uma Base, de uma pedra Calcedónia límpida como cristal, em forma Cúbica: isto é, quadrada de todas as formas. E sobre ela estava colocada uma pedra redonda, mas plana em ambos os lados, dois pés de altura, e pelo Diâmetro, um passo e meio de largura, do mais puro Diaspre vermelho. Sobre a qual, estava uma pedra muito preta, em forma triangular, e em quantidade quanto à largura, ajustando-se ao redondo, e em altura um passo e meio. Os cantos cujo triângulo coincidiam com os lados e o limbo do plinto ou pedra redonda subjacente.
Nas frentes polidas e lisas deste triângulo, estava aplicada uma bela Imagem, de aspeto celestial, grave e modesta, com os seus pés não tocando a pedra, mas sobressaindo da mesma logo acima da pedra redonda suprimida e colocada por baixo. As suas estaturas tão altas quanto o trigonal suportaria, ao qual ficavam presas pelas suas partes traseiras. Os seus braços estendiam-se abertos, tanto o direito como o esquerdo, para os cantos do triângulo, onde seguravam uma Cornucópia, cheia e presa aos cantos do Trigonal, sendo o comprimento de cada uma destas Cornucópias de ouro fino, sete pés.
E as Imagens, as Cornucópias, e as suas bandas com as quais estavam atadas no meio e seguradas, eram todas brilhantes, e as suas mãos envolvidas com os vários fios, espalhando-se sobre o plano liso da pedra preta.
Os seus hábitos eram Ninfais, do mais raro e excelente trabalho. O Sepulcro de Tarnia, Rainha dos Citas na Ásia, não era de modo algum comparável.
Na Figura Cúbica mais baixa, sobre o plano liso de cada quadrado, estavam gravadas Letras Gregas, três, uma, duas e três, desta sorte. +DYS A LO: TOS+.
No circular havia três Caracteres Hieroglíficos, perpendicularmente sob os pés de cada Imagem. Para o primeiro, estava impressa a forma do Sol. Seguidamente sob outro, a figura de uma Ampulheta à moda antiga.
Terceiro, um prato com uma chama a arder nele.
Sobre a cabeça da pedra preta trigonal, em direção a cada canto, contemplei um Monstro Egípcio de Ouro, quadrúpede, deitado. Um deles tendo uma face como a de um homem por inteiro. O outro como metade homem e metade besta. E o terceiro como uma besta. Com um véu de linho sobre cada uma das suas cabeças, com duas abas penduradas sobre as suas orelhas, e o resto descendo e cobrindo os seus pescoços e costas, com corpos de Leões. Os seus olhares diretamente para a frente.
Sobre as costas destes três, erguia-se uma maciça Espira de Ouro, triangular, afiando-se para o topo, cinco vezes mais alta do que larga na base. E sobre cada frente ou lado anterior, estava gravado um círculo, e sobre um círculo uma Letra Grega, +O+. sobre outro, uma Letra +O:+. e sobre o terceiro, um Grego +N+.
Ali Logistica começou a falar-me, dizendo: por estas Figuras são descritas, tanto quanto a razão humana pode mostrar, a harmonia celestial. E compreende, Poliphilus, que estas Figuras, com uma afinidade e conjunção perpétua, são Monumentos antigos, e Hieróglifos Egípcios, significando isto, *Divinae infinitaeque trinitati vnius essentiae*. O que é agora pela sua santa palavra, de uma forma muito amorosa manifestado a todo o mundo, de acordo com a sua vontade: e contudo não será um erro ver antiguidades, e considerar que maior benefício é tido pelo precioso Evangelho.
A Figura inferior foi consagrada à Divindade, porque é em todas as formas igual, e uma só: e sobre cada lado, e voltada para todos os lados, de igual estabilidade, sobre cada base, constante e permanente.
O Circular redondo em pé sobre aquela, é sem princípio nem fim. Sobre cujos lados circunferentes, estes três lineamentos estão contidos, diretamente sob cada Imagem, de acordo com a propriedade atribuída.
O Sol com a sua luz confortável, dá vida a todas as coisas, e a sua natureza é atribuída a DEUS.
O segundo é a Ampulheta, que é direção providente, e governo de todos com uma sabedoria infinita.
O terceiro é um Vaso Ardente, pelo qual se entende uma participação de Amor.
E embora sejam três coisas distintas, ainda assim estão contidas e unidas numa só sempiternamente, com grande amor comunicando as suas bênçãos, como podes ver pelas cornucópias em cada canto da pedra trigonal.
E continuando o seu deleitável discurso, ela disse, sob a forma do Sol, nota esta palavra Grega, Adiegetos. Pela Ampulheta olha para isto, Adiachoristos. E pelo Vaso de fogo, estava gravado, Adiereynes.
E para este fim estão os três Monstros colocados sob o Obelisco de ouro, porque há três grandes opiniões como aqueles Monstros: e como aquele com o semblante humano é o melhor, assim os outros são bestiais e monstruosos.
Na Espira há três lados planos, lineados com três círculos, significando um para cada tempo. O passado, o presente, e o futuro; e nenhuma outra figura pode conter estes três círculos, senão naquela invariável. E nenhum homem mortal pode num instante discernir e ver perfeitamente em conjunto dois lados da mesma figura, exceto um integralmente, que é o Presente: e por isso, com grande conhecimento, foram estes três Caracteres gravados, +O. O:. N+.
Pela qual causa, Poliphilus, não que eu me desculpe por ser demasiado prolixa e entediante, mas para brevemente te ensinar, e te pôr no caminho certo. No conhecimento disto, entenderás que a primeira Figura basilar é apenas conhecida por Ele mesmo, e por um Filho do homem, que tem um corpo humano glorificado e sem pecado: e o brilho dele nós vemos apenas como num vidro, e não claramente como ele é, pelo facto de ser incompreensível para uma substância finita.
Mas aquele que é dotado de sabedoria, que considere o brilho glorioso dele. Mas para a terceira Figura, que é de uma cor escura e preta, na qual estão as três Imagens de ouro: *A pedra Preta é a Lei: a comida das Cornucópias: as três Mulheres a preservação do Género Humano.*
Ora, eles que quiserem olhar mais alto, veem uma Figura num aspeto trino, e quanto mais alto vão em direção ao topo, onde a união dos três está, por mais sábios que sejam, o seu entendimento é imperfeito: e embora a vejam, contudo não sabem o que veem, senão que existe tal coisa, em comparação com a qual, eles são tolos, o seu poder fraco, e eles mesmos nada.
E ali Logistica, tendo terminado a sua conversa permitida, procedendo de um conhecimento absoluto, profundo juízo, e agudeza de engenho em assuntos Divinos, e desconhecido para capacidades fracas, comecei aqui a ter maior deleite do que em qualquer outra obra maravilhosa, fosse ela qual fosse, que eu tinha graciosamente contemplado com os meus olhos ávidos. Considerando comigo mesmo sobre o Obelisco místico, a inefável igualdade estática, pela durabilidade e perpetuidade inamovível, e perdurando incorruptível.
Onde soprava um ar doce do céu, com ventos invariáveis, neste Jardim em redor cheio de flores, de um lote permanente grande e circular: cercado por todos os tipos de frutos, agradáveis ao paladar e cheios de saúde; com um verdor perpétuo, disposto e plantado por uma ordem regular, bela, agradável e conveniente; com o perfeito trabalho e esforço da Natureza para o levar a esse ponto, e embelezado com ouro precioso.
E Logistica calando-se, levaram-me ambas pelas mãos, e saímos pela boca de um dos Arcos dos recintos do cercado de hera. E tendo saído de lá, passando muito contentemente entre ambas, diz Thelemia, apressemo-nos agora para as nossas três Portas para onde somos enviadas.
Pelo que, passando nós através de um lugar abundante e um Campo aprazível, com um passo razoavelmente conveniente, contemplei os céus muito límpidos e brilhantes, e enganei o tempo com discursos alegres, doces e deleitáveis. E eu, desejoso de compreender cada particular das inestimáveis riquezas, deleites indizíveis e tesouro incomparável da sagrada Rainha, (à qual Osíris, o construtor dos dois Templos de Ouro, um a Júpiter e o outro ao reino, deve ceder o lugar), movi esta questão.
Dizei-me, vos peço, belas Ninfas, (se a minha curiosidade não vos for um descontentamento) entre todas as pedras preciosas que pude contemplar perfeitamente de grande estimação e preço, uma julguei inestimável, e sem comparação a mais preciosa; o Jaspe que tinha a efígie de Nero esculpida, não era muito maior. Nem era o Coruscante para passar na estátua de Arsinoe, a Rainha Árabe, igual a ele. Seguidamente a ela, de tal valor era a Joia, na qual estava a representação de Nonius, o Senador, como este Diamante faiscante e brilhante, de uma beleza e tamanho raros e nunca vistos, que pendia sobre um rico Colar em redor do colo alvo da sagrada Rainha, que corte havia no mesmo, o que não pude perceber por causa do brilho e de eu estar um pouco afastado. E por isso, sendo nisso ignorante, desejo conhecê-lo.
Logistica, considerando o meu honesto pedido, respondeu-me incontinenti. Sabe isto, Poliphilus, na Joia estava gravado um trono imperial, e no trono o poderoso nome de Iehouah em Letras Hebraicas, e perante aquele trono, são lançados e calcados aos pés os Gigantes que orgulhosamente se elevaram contra a sua palavra, e resistiram à sua vontade: do lado esquerdo do trono há uma chama de fogo, do lado direito um chifre de salvação, ou Cornucópia cheia de toda a boa bem-aventurança, e isto é tudo o que está contido na Joia.
Então presumi ir mais longe para saber o que significariam estas duas coisas de ambos os lados do trono, que eram seguradas em duas mãos. Thelemia respondeu-me rapidamente: Deus, da sua infinita bondade, propõe à humanidade a sua misericórdia e o seu juízo, escolham o que quiserem.
Por isto estando satisfeito, disse ainda mais. Vendo que, graciosíssimas Ninfas, os meus discursos não vos são desagradáveis, e que ainda não estou satisfeito em tudo o que vi, peço-vos que me deixeis entender isto.
Antes do horror medonho em que fui lançado pelo Dragão, contemplei um Elefante enorme de pedra, com uma entrada para a sua barriga, onde havia dois Sepulcros, com uma escrita, cujo significado é demasiado místico para mim, que era, que eu não deveria tocar no corpo, mas levar a cabeça.
Logistica respondeu-me imediatamente. Poliphilus, entendo muito bem a tua dúvida, e por isso deves entender que esta forma monstruosa e máquina não foi feita sem grande e maravilhosa sabedoria humana, muito trabalho e incrível diligência, com uma perplexidade de entendimento para conhecer o conceito místico. Lembras-te que sobre a face pendia um ornamento, com certos Ideonix jónicos e Árabes, que na nossa Língua materna, é o mesmo que dizer, trabalho e indústria. Significando assim, que neste mundo, quem quer que queira ter qualquer bênção que lhe faça bem, deve deixar o corpo, que é a facilidade e o ócio, e entregar-se ao trabalho e à indústria, que é a cabeça.
Ela não tinha terminado as suas palavras, tanto agradáveis como penetrantes, quando eu entendi muito bem e lhe dei grandes graças. E contudo, desejoso de ser resolvido em tudo o que estivesse em dúvida, e vendo que podia falar ousadamente, fiz esta terceira questão. Sábia Ninfa, na minha saída do vasto lugar subterrâneo sombrio, ao passar, cheguei a uma bela ponte, e sobre a mesma, numa pedra de Pórfiro de um lado, e numa Ofite do outro, contemplei gravados certos Hieróglifos, ambos os quais interpretei, mas fiquei em dúvida sobre certos ramos, que estavam atados aos chifres do crânio do Boi, e tanto mais porque estavam na pedra de Pórfiro, e não na Ofite do outro lado.
Ela respondeu-me imediatamente. Os ramos, um é do Cardo ou espinho da Judeia, e o outro da Terebintina. A natureza cujas Madeiras é que uma não se incendiará facilmente, e a outra nem dobrará, apodrecerá, consumirá, nem será comida por vermes. E assim é elogiada a paciência, que com a ira não se incendeia, nem pela adversidade será subjugada.
A natureza da pedra de Pórfiro é deste segredo, que na fornalha nem ela mesma arderá, mas também causa às outras pedras próximas que não ardam. E de tal natureza é a paciência, que nem ela própria se alterará, nem permitirá que qualquer outra em que tenha domínio caia em fúria. E a pedra Ofite é também de tal natureza.
Agora, Poliphilus, elogio-te grandemente, por seres desejoso de entender tais segredos: pois contemplar, considerar e medir o mesmo, é uma virtude louvável, e o caminho para o conhecimento: pelo que tive ocasião de render inumeráveis graças, pela sua grande e favorável cortesia.
E assim, com discursos permitidos e deleitáveis, chegámos a um belo Rio, sobre cuja margem, além de outras belas árvores verdes e florescentes, e ervas aquáticas, contemplei um fino Bosque de Plátanos, no qual havia uma excelente e bela ponte sobre o Rio feita de pedra, com três Arcos, com pilares projetados contra as duas frentes, para preservar a obra da ponte, sendo os seus lados de excelente mão-de-obra.
E na curvatura média da mesma, de ambos os lados, havia uma pedra quadrada de Pórfiro colocada, tendo nela um Cataglifo, gravação de Hieróglifos.
Do lado direito enquanto atravessava, contemplei uma mulher, lançando os braços, sentada apenas sobre uma nádega, estendendo uma das suas pernas como se quisesse levantar-se; na sua mão direita, do lado em que estava sentada, segurava um par de asas, e na outra mão, do lado em que se levantava, uma Tartaruga.
Diretamente em frente a ela, havia um Círculo, cujo centro dois pequenos Espíritos seguravam, com as suas costas voltadas para a circunferência do Círculo.
E então Logistica disse-me: Poliphilus, tenho a certeza de que não entendes estes Hieróglifos, mas eles contribuem muito para o teu propósito: e por isso estão colocados como um Monumento e coisa a ser considerada por aqueles que passam.
O Círculo, *Medium tenuere beati*.
O outro, tempera a tua pressa com a espera, e a tua lentidão com o levantar, considera isto conforme vires causa.
Esta ponte foi construída com uma curvatura moderada, mostrando a disquisição astuta, ensaio, exame, arte, e discrição do excelente artífice e inventor, elogiado na continuação e durabilidade da mesma, a qual muitos dos nossos modernos Idiotas, à moda de Bayard, sem conhecimento, medida e arte, zumbindo, não observam nem proporção nem lineamentos, mas tudo fora de ordem.
Esta ponte era toda de puro Mármore.
Tendo passado a ponte, caminhamos na sombra fresca, deleitando-nos com as notas variáveis e o chilrear dos pequenos pássaros, até um lugar rochoso e pedregoso, onde altas e escarpadas montanhas se erguiam, continuando depois para lugares abruptos e montanhosos e cansativos, cheios de pedras quebradas e roídas, elevando-se no ar tão alto quanto um homem poderia olhar, e sem qualquer erva ou relva verde, e ali foram lavrados os três portões, na própria rocha, tão claros quanto poderiam ser. Uma obra muito antiga e fora de registro, num assento muito desagradável.
#Tif'eret Ha'el# #Gidul Ha'a'hava# #Tif'eret Ha'olam#
+THEODOXIA+ +ERO:TOTROPHOS+ +KOSMODOXIA+
GLORI DEI MATER AMORIS GLORIA MVNDI
Sobre cada um dos quais, contemplei em letras Jónicas, Romanas, Hebraicas e Árabes, o título que a sagrada Rainha Eleutherillida me predisse que eu encontraria. O Portão à minha mão direita tinha nele esta palavra, Theodoxia. Aquele à minha mão esquerda, Cosmodoxia. E o terceiro, Erototrophos. Ao qual, assim que chegamos, as Donzelas começaram a instruir-me nos títulos, e batendo nas folhas ressonantes dos Portões, à mão direita cobertas de musgo verde, eles foram prontamente abertos.
E ali apresentou-se uma velha perante nós, de semblante honroso, saindo de uma casa velha, caiada e enfumaçada, tendo uma porta pequena, pobre e baixa, sobre a qual estava pintado Pilurania. Ela veio com uma modesta e honesta vergonha, e o seu lugar de habitação era num sítio solitário e rocha sombria, decrépita e esfarelada, as suas roupas eram farrapos, o seu rosto magro, pálido e pobre. Os seus olhos olhavam para o chão, o seu nome era Thende. Ela tinha a seu serviço seis Criadas, vestidas de modo humilde e simples. Uma chamava-se Parthenia, a segunda Edosia, outra Hypocolinia, a quarta Pinotidia, a seguinte Tapinosa, a última Prochina. A qual reverenda Matrona, com o braço direito nu, apontava para os céus.
Ela habitava num lugar muito difícil de alcançar, e cheio de problemas para atravessar o caminho, sendo impedido por espinhos e silvas, muito áspero e desagradável, uma nuvem nebulosa lançada sobre ele, e muito difícil de subir.
Logistica, percebendo pelo meu olhar que eu não tinha grande apreço por aquele lugar, algo entristecida com isso, disse: esta Rocha nunca é conhecida senão no fim. E então Thelemia disse: Poliphilus, vejo que fazes pouco caso de tal mulher dolorosa. Ao que, concordando com ela com o meu semblante, partimos, e fechado o portão, chegamos ao seguinte.
Onde, batendo, foi prontamente aberto, e entrando nós, encontrou-nos uma mulher morena, com olhos ferozes e rolantes, e de semblante rápido, levantando uma espada nua e cintilante, sobre o meio da qual havia uma Coroa de ouro, e um ramo de palmeira atravessado.
Os seus braços musculosos como os de Hércules, em labor e atos magnânimos e de alma nobre. A sua barriga pequena. Uma boca pequena, ombros fortes e curvados, pelo seu semblante parecendo ser de uma mente inabalável, não temendo empreender qualquer empresa, por mais difícil que fosse.
O seu nome era Euclelia, muito honrosamente acompanhada por seis jovens Mulheres. A primeira chamava-se Merimnasia, a segunda, Epitide, outra, Ergasilea, a quarta, Anectea, a quinta chamava-se Statia, a última chamava-se Olistea.
A situação e o lugar pareceram-me dolorosos, e Logistica, percebendo a minha inclinação, tomou imediatamente para a sua mão o Alaúde de Thelemia, e começou a tocar uma melodia dórica, e cantou a mesma muito docemente, dizendo: Oh Poliphilus, não te canses de ter trabalho neste lugar, pois quando o labor e o trabalho forem vencidos, haverá um tempo de descanso. E a sua canção era de tal força que eu estava até disposto a permanecer ali, não obstante a habitação parecer laboriosa. Ao que Thelemia, sedutoramente, me disse: Penso que é de muita razão, meu Poliphilus, que antes de repousares aqui neste lugar, devas, em qualquer caso, ver o terceiro Portão.
Ao que consenti de muito boa vontade, e portanto saindo dali, chegamos ao outro Portão, onde Thelemia, batendo num anel de Latão, foi logo aberto, e quando entramos, veio em nossa direção uma mulher notavelmente formosa, e o seu nome era Philtronia.
Os seus olhares eram lascivos, luxuriosos e inconstantes, a sua graça maravilhosamente agradável, de modo que, logo ao primeiro olhar, ela atraiu-me violentamente para o seu amor.
Este lugar era a mansão da Voluptuosidade. O chão adornado com pequenas ervas, e enfeitado com todos os tipos de flores variadas, abundando em conforto e quietude. Emitindo e enviando para fora em diversos lugares pequenos riachos de água, borbulhando e deslizando sobre o cascalho de âmbar nos seus canais sinuosos aqui e ali, por alguma queda súbita fazendo um ruído contínuo e suave, umedecendo com grande prazer os campos abertos, e tornando os lugares sombreados debaixo das árvores folhudas, frescos e amenos.
Ela tinha consigo também seis jovens mulheres de estaturas semelhantes, extremamente belas, de semblantes agradáveis, amorosamente adornadas e vestidas como pode ser desejado por uma beleza e gesto ambiciosos.
A primeira chamava-se Rastonelia. A segunda, Cortasina. A terceira, Idonesa. A quarta, Triphelia. A quinta, Epiania. E a última chamava-se Adia.
Estas e a sua companhia eram muito deleitáveis para os meus olhos perscrutadores e atentos. Ao que Logistica, prontamente com um semblante triste e pesaroso, vendo-me dispor abruptamente para o serviço amoroso delas, disse-me: Oh Poliphilus, as belezas sedutoras e aliciantes destas são vãs, enganosas e falsificadas, insípidas e desagradáveis, e portanto, se olhasses com ponderação para as suas costas, odiarias, desprezarias e abominarias a sua imundície repugnante, que abunda em fedor e odor nocivo mais do que qualquer estrumeira, que nenhum estômago pode suportar.
E portanto, o que é escorregadio e transitório, foge e evita, despreza esse prazer que traz vergonha e arrependimento, vãs esperanças, uma alegria curta e pequena, com queixas perpétuas, suspiros duvidosos e uma vida dolorosa que nunca acaba.
Oh prazer adulterado e antinatural, carregado de miséria, contendo tal amargura, como mel, e ainda assim fel pingando de folhas verdes.
Oh vida pior que a morte, e ainda assim mortal, deleitando-se em doce veneno, com que cuidado, tristeza, pensamentos pensativos, tentativas mortais e desesperadas, és tu procurada para ser obtida por amantes cegos, que sem consideração ou conselho se lançam de cabeça num abismo de tristezas.
Elas estão presentes diante dos teus olhos, e ainda assim tu não as vês. Oh que e quão grandes tristezas, dor amarga e aguda e vexação tu carregas, apetite ímpio, execrável e maldito.
Oh loucura detestável, oh sentidos enganados, por vossa culpa, com o mesmo prazer bestial, miseráveis homens mortais são derrubados.
Oh luxúria imunda, fúria absurda, desejo desordenado e vão, construindo ninhos com erros, e tormentos para corações feridos, o destruidor absoluto, e o deixar passar em vão todas as boas bênçãos.
Oh Monstro cego, como tu cegas, e com que engano tu cobres os olhos, e enganas os sentidos compreensivos de amantes infelizes e miseráveis com véus e névoas.
Oh monstruoso e servil, que cercado de tantos males, te apressas para um prazer tão pequeno, envenenado e fingido.
Logistica falando com veemência estas e outras palavras semelhantes, a sua testa franzida, enrugada de tristezas, e veias, subindo numa grande raiva, ela lançou o seu Alaúde ao chão e partiu-o.
Ao que Thelemia, com um semblante sorridente, acenou para mim, como se quisesse dizer: deixa Logistica falar o que quiser, mas faz como achares melhor.
E Logistica, vendo a minha intenção ímpia e determinação resoluta, estando acesa de desdém, virou as costas e, com um grande suspiro, apressou-se a partir.
E eu permaneci ainda com a minha companheira Thelemia, que com uma graça lisonjeira e sorridente me disse: Poliphilus, este é o lugar onde não continuarás por muito tempo, mas encontrarás a coisa mais querida que amas no mundo, e que tens no teu coração, sem intermissão determinado a procurar e desejar.
E duvidosamente então discorrendo comigo mesmo, decidi que nada poderia gerar quietude, ou trazer contentamento ao meu pobre e triste coração, senão a minha Polia tão desejada. A promessa e garantia de Thelemia para a minha obtenção da mesma, gerou em mim algum conforto.
E ela, percebendo que a Senhora deste lugar, e o próprio assento, e as suas Mulheres me agradavam bem, e me tratavam cortesmente, beijando-me, despediu-se e disse-me adeus.
Os portões metálicos estando fechados, permaneci enclausurado entre estas belas e formosas Ninfas, que começaram muito agradável e lascivamente a conversar comigo: e estando cercado pela sua companhia luxuriosa, encontrei-me provocado pelos seus aliciamentos persuasivos e sedutores, à concupiscência ilegal, sentindo em mim um desejo ardente, acendido pelos seus aspectos lascivos, uma provocação crescente de um fogo luxurioso. Duvido que, se Phrine tivesse tido tal favor, e força no gesto da fala, o frio Xenócrates teria consentido ao seu aliciamento, e não teria sido acusado por ela de ser uma imagem de pedra. Os seus semblantes eram tão lascivos, os seus seios nus e sedutores, os seus olhos lisonjeiros, nas suas frontes rosadas, cintilantes e rolantes, as suas formas mais excelentes, os seus trajes ricos, os seus movimentos infantis, os seus olhares mordazes, os seus ornamentos, doces e preciosos, nenhuma parte falsificada, mas tudo aperfeiçoado pela natureza de uma forma excelente, nada deformado, mas todas as partes condizentes umas com as outras.
As suas cabeças amarelas, as suas tranças belas, e o cabelo macio e fino, de tal forma arrumado e enrolado em redes, com rendas de seda e ouro, superando qualquer alegria que um homem possa contemplar, virado sobre as suas cabeças de uma maneira excelente, envolto e atado em conjunto, as suas frontes cercadas e sombreadas com caracóis ondulantes, movendo-se de uma maneira maravilhosa, maravilhosamente deleitáveis, perfumados e doces, cedendo uma fragrância desconhecida. Os seus discursos tão persuasivos e agradáveis, que poderiam roubar o favor de um coração indisposto, e atrair violentamente para si qualquer mente, embora satírica ou grosseira, seja como for, para depravar a Religião, para prender qualquer conceito solto, para tornar qualquer camponês rústico amoroso, e para suavizar qualquer disposição contrária. Ocasião na qual, a minha mente, totalmente inflamada com um novo desejo, e no calor extremo da concupiscência, provocada a cair de cabeça num apetite lascivo, e afogada num amor luxurioso e desenfreado: na invasão extrema e contágio infecioso do mesmo, as Donzelas abandonaram-me e deixaram-me todo sozinho numa planície frutífera.
*Neste lugar, sendo Poliphilus deixado sozinho, uma Ninfa belíssima (quando ele foi abandonado pela companhia lasciva) veio até ele, cuja beleza e trajes Poliphilus descreve amorosamente.*
O meu coração tenro assim excessivamente ferido com provocação amorosa, penso que estava louco, fiquei tão espantado, ou cego pelo menos, porque não pude perceber de que forma ou como esta companhia desejada e deleitável me escapou: e finalmente não sabendo o que fazia, mas lançando os meus olhos diretamente em frente, contemplei diante de mim um belo caramanchão de jasmim doce, algo alto, elevando-se e curvando-se, todo ele pintado e enfeitado com as flores agradáveis e odoríferas de três tipos misturados, e entrando debaixo do mesmo. Maravilhosamente perplexo pela perda da minha companhia, não sabia como ou de que forma, e chamando à lembrança as diversas, raras e maravilhosas coisas passadas, e acima de tudo a grande esperança e confiança que tinha concebido sobre a promessa da Rainha, de que encontraria o meu amor Polia.
Ai, disse eu, com um suspiro profundo, minha Polia, que o caramanchão verde ressoou novamente com isso, os meus suspiros amorosos eram tais, formados dentro e enviados para fora do meu coração ardente. E eu não tinha entrado bem nesta agonia, e sobrecarregado nesta paixão, quando, ao passar para o outro lado do caramanchão, pude perceber ao longe, um grande número de jovens, regalando-se e divertindo-se muito alto com diversos sons melodiosos, com desportos agradáveis e passatempos variados, em grande alegria, e passando deleite reunidos, numa grande planície. Sobre esta novidade grata e desejada, sentei-me maravilhando-me com ela, antes de dar mais um passo em frente.
E eis que uma Ninfa muito nobre e bela, com uma tocha ardente na mão, partindo da companhia, dirigiu o seu curso para mim, de modo que pude bem perceber que ela era uma donzela real de facto e não um espírito, pelo que não me movi nem um pouco, mas alegremente esperei pela sua chegada, que com uma pressa virginal, acesso modesto, semblante estrelado e graça sorridente, aproximou-se de mim com tal Majestade, e ainda assim amigável, de modo que duvido que a amorosa Idalea alguma vez se tenha mostrado a Marte, nem a ela o belo Pastor Adónis. Nem o delicado Ganímedes a Júpiter, ou a bela Psique, ao seu esposo Cupido.
Pela qual causa, se ela tivesse sido a quarta entre as três Deusas contendentes, se Júpiter tivesse sido Juiz, como nos bosques sombrios de Mensunlone foi o Pastor Frígio, sem dúvida alguma ela teria sido julgada de beleza muito mais excelente, e sem equivalência, mais digna da maçã de ouro do que todas ou qualquer uma das restantes. Ao primeiro olhar, persuadi-me de que ela tinha sido Polia, mas o lugar não acostumado e os seus trajes fizeram-me pensar o contrário, e portanto o meu julgamento duvidoso permaneceu em suspenso, tendo apenas uma suspeita reverente disso.
Esta Ninfa honrosa tinha o seu corpo virginal, divino e pequeno, coberto com um tecido fino e subtil de seda verde, polvilhado com ouro, sobre uma camisa de linho branco puro e frisado, cobrindo o seu corpo mais delicado e tenro, e pele nívea, tão fina e boa como alguma vez Pamphila, filha de Platis na Ilha de Coo, inventou tecer. A qual camisa branca parecia como se tivesse coberto rosas damascenas.
O casaco que ela usava sobre isso não era como os nossos saiotes de moda com cinturas francesas, pois o seu corpo docemente proporcionado não precisava de tal aperto, e trajo insalubre, impedindo a procriação e inimigo da saúde: mas antes como um colete, com pequenas pregas e franzidos debaixo dos seus seios redondos e bastante protuberantes, sobre a sua cintura esguia e pequena, sobre os seus flancos de larga proporção e pequena barriga redonda, fortemente cingido com um cinto de ouro: e sobre o mesmo, uma túnica ou veste comprida até ao chão, e orlada em baixo.
Esta veste, sendo muito comprida, era apanhada em volta pela altura das suas ancas, e à frente sobre a sua barriga, e atada com o cinto de casamento cravejado de Citherea, o puxar da veste, carregando sobre o cinto em volta dela como um verdugado francês, e a parte mais baixa caindo em volta dos seus pés em pregas e dobras, instável e soprando por toda a parte com o ar doce e vento fresco, causando por vezes, pela finura do mesmo, a sua forma ser vista nele, a qual ela parecia com uma prontidão imediata resistir e impedir. A sua beleza e graça eram tais, que eu estava em dúvida se ela teria sido gerada por qualquer geração humana: os seus braços estendendo-se para baixo, as suas mãos longas e esguias, os seus dedos pequenos e belos, e as suas unhas finas e avermelhadas, e brilhantes, como se ela tivesse sido a própria Minerva. Os seus braços podiam ser vistos através da clareza fina do linho, as abas à volta do tamanho da sua veste onde os seus braços saíam, eram de ouro, de uma forma excelente e moda orladas, e cravejadas com Pérola e pedra: e da mesma forma, toda a bainha da sua vestimenta, com lantejoulas de ouro, e Pérola, e brilhos de ouro em diversos lugares, distantes dispostos de uma forma curiosa e agradável de contemplar.
De cada lado, debaixo dos braços até à cintura, a sua veste superior estava descosida e aberta, mas presa com três botões de grande Pérola do Oriente (tais que Cleopatra nunca teve para dissolver numa Poção) em laços de seda azul, de modo que se podia ver a sua camisa entre a distância de uma Pérola para outra, cobrindo a sua pele delicada, macia e nívea: exceto o seu pescoço pequeno e a metade superior do seu espaçoso e delicioso seio, mais desejado e satisfazendo os meus olhos, do que os riachos de água e rios frescos para o Cervo perseguido e exausto, mais agradável do que o barco de pesca de Endimião para Cynthia, e mais agradável do que Cithera para Orfeu.
As mangas da sua camisa de uma largura conveniente, e à volta dos seus pulsos pregueadas e atadas com Braceletes de Ouro, duplas e unidas com Pérola do Oriente. E além de todos os seus ornamentos e gestos graciosos, ela esforçava-se de vez em quando com olhares roubados e afetados, de uma forma doce e agradável, para lançar os seus olhos sobre os seus pequenos seios redondos e inchados, impaciente com a supressão dos seus trajes macios e finos: de modo que julguei sobre boa consideração, e pensei que na dignidade e estrutura honrosa da sua personagem, o Criador tinha formado e unido tudo, toda a violência do Amor. As quatro Nutrizes do reino real de Babilónia, chamadas A língua dos Deuses, não tinham aquele poder de ganhar o favor e amor do Rei, que esta Ninfa mais doce tinha.
À volta do seu belo Pescoço, mais branco que a neve da Cítia, ela usava um colar de Pérola do Oriente: Cerna, a esposa de César, nunca teve igual, e duvido que aquele de Eriphile, que ela tirou a Anfiarao, fosse comparável a ele. E na dobra para baixo sobre a divisão dos seus seios, entre duas grandes Pérolas, estava enlaçado um Rubi redondo e coruscante, e sobre os lados colaterais das ditas Pérolas, duas Safiras cintilantes, e duas Pérolas, junto a elas duas Esmeraldas, e duas Pérolas, e depois delas dois belos Jacinto: todas estas Pérolas e Pedras estavam enlaçadas num trabalho em losangos, de uma forma rara e bela.
A sua bela cabeça, enviando para baixo e desdobrando um espalhar solto de abundante cabelo, como os fios mais pequenos de ouro, ondulando com o vento, e sobre a sua coroa, uma grinalda de violetas castanhas cheirando docemente, e cobrindo a mesma quase até à sua fronte: do ponto superior médio da qual, em forma de dois Hemiciclos até metade das suas orelhas, montava em tramas encaracoladas, caindo novamente sobre as suas belas Têmporas, movendo-se e ondulando e sombreando a mesma, e escondendo a metade superior das suas orelhas pequenas, mais belas do que alguma vez foi relatado de Mimoria.
O resto do seu cabelo amarelo descia sobre o seu belo pescoço, ombros bem dispostos e costas direitas, até aos calcanhares das suas pernas esguias, ondulando moderadamente e soprando por todo o lado, com maior beleza do que as orgulhosas penas do Pássaro de Juno. Tal cabelo como Berenice nunca jurou no Templo de Vénus pelo seu Ptolomeu, nem Conus o Matemático alguma vez contemplou igual colocado no Triângulo.
Na sua fronte, debaixo de dois subtis Hemiciclos negros e sobrancelhas distintas, tais como Abacsine na Etiópia não tinha para se gabar, ou comparar, nem a própria Juno, olhavam para fora e apresentavam-se dois olhos agradáveis, radiantes e cintilantes, que forçariam Júpiter a chover ouro, de uma visão clara, rápida e penetrante, com um círculo castanho entre a Maçã e o branco leitoso: perto do qual, estavam as suas bochechas de púrpura e Cereja, embelezadas com duas covinhas redondas e sorridentes, adornando o prazer do seu semblante, da cor das rosas frescas colhidas ao nascer do Sol, e colocadas num vaso de Cristal de Chipre, e mostrando-se através do mesmo, como me pareceu.
Debaixo do seu nariz até aos seus lábios, passava um pequeno vale até à sua boca pequena de uma forma mais doce, os seus lábios não grossos ou inchados, mas indiferentes, e de uma cor de rubi, cobrindo dois conjuntos uniformes de dentes, como marfim, e pequenos, não um mais longo e afiado que o outro, mas em ordem uniformemente dispostos e colocados: de entre os quais, o Amor tinha composto uma respiração eternamente doce, de modo que presumi pensar que os dentes brancos como a neve entre os seus lábios graciosos não eram outros senão Pérolas do Oriente, e o seu doce hálito almíscar quente, e pela sua voz deleitável que ela era Tespis com as suas nove filhas.
Com toda esta visão fiquei grandemente comovido e os meus sentidos arrebatados com um apetite inflamado, causando entre eles uma grande contenda e amarga disputa, tal como nunca senti antes, por qualquer outra presença ou visões excelentes que fossem. Os meus olhos perscrutadores recomendavam uma parte acima da outra, como sendo mais bela: mas o meu apetite arrebatava-se para outra parte do seu corpo celestial, estimando-a acima da anterior. E assim os meus olhos insaciáveis e lascivos foram o mau princípio de toda esta comoção perturbadora e contenciosa, os quais encontrei serem os seminários e motores de tanta luta e angústia no meu coração ferido e supurante. Através da sua contumácia, fui agora levado para fora de mim mesmo e, contudo, não podia ser satisfeito por eles. O meu apetite ganancioso exaltava o seu seio delicado acima de qualquer comparação, consentindo os meus olhos deleitosamente nisso, e diziam: ao menos por este podemos descobrir como é o restante; e eles, lançando olhares desde esse até ao contemplar da sua graça e gesto, punham todo o seu deleite nisso: e o meu apetite fortalecido e não facilmente removido dali, persuadi-me de que a abundância e formosura da sua cabeça e cabelo, e o arranjo deles, e a beleza da sua testa, jamais poderiam ser comparadas com a de qualquer outra, como as aparas de ouro que sempre se transformam em pequenos círculos.
Com dois olhos como estrelas da manhã num céu claro, adornando a sua cabeça mais belamente do que quaisquer que o bélico Neco jamais contemplou entre os Acitanos, ferindo o meu coração como uma das setas do irado Cupido. E assim, para concluir, ouso dizer que nenhum homem mortal viu luzes tão graciosas, tão brilhantes, tão claras e prazenteiras como estas que estavam colocadas na testa desta criatura celestial; de modo que por elas o meu coração foi feito prisioneiro e ficou preenchido com tais contínuas controvérsias de desejo, como se uma folha do Loureiro do Túmulo do rei de Bibria tivesse sido colocada entre eles, e que tal luta nunca cessasse enquanto estivesse lá: de tal maneira que pensei que esta contenda nunca cessaria, até que o prazer fosse removido, por causa do qual não conseguia perceber como deveria obter a plenitude do meu desejo, ou como poderia concordar com um ou outro. Como alguém extremamente faminto entre uma quantidade de iguarias preparadas, sendo desejoso de todas, não se alimenta de nenhuma, permanecendo o seu apetite ardente satisfeito com nenhuma, mas ainda faminto.
A mais bela Ninfa, tendo chegado a Poliphilus, trazendo uma Tocha na mão esquerda, com a outra pegou nele e convidou-o a caminhar com ela, e ali Poliphilus, pelo seu amor, ficou mais inflamado.
Assim, vendo diante de mim um objeto real e visível de uma representação excelentíssima, presença adorável e aspeto celestial, de uma reserva abundante e reunião universal de beleza invisível e amabilidade inumana, fiz conta leve e pequena, em relação a isto, de todos os inestimáveis deleites, riquezas e grande pompa que antes tinha contemplado e visto, pensando que a sua dignidade não era nada digna de menção em comparação com esta. Oh, feliz aquele que pode desfrutar de tal e tão grande tesouro de amor; e não apenas um feliz possuidor o considero, mas felicíssimo aquele que possuirá e obterá a sua obediência ao seu desejo e comando. Mas se Zenes tivesse contemplado esta substância, tê-la-ia louvado acima de todas as donzelas agrigentinas, cada proporção ter-lhe-ia feito uma demonstração oportuna da perfeição mais absoluta em todo o mundo.
A qual bela e celestial Ninfa, vindo agora para perto de mim, com um semblante alegre, incontinenti a sua beleza raríssima, antes mirada de longe pelos meus olhos, mas agora, por eles mais de perto e estreitamente contemplada, fiquei arrebatado e pasmado.
E o seu aspeto amoroso e presença adorável não foi mais cedo levado pela mensagem dos meus olhos para as minhas partes íntimas, do que a minha lembrança registadora e vigilante, agitando e despertando o meu coração, apresentando-a e oferecendo-a ao mesmo: tornou-se a sua oficina; a aljava para as suas setas penetrantes e olhares feridores, e o lugar de habitação e mansão conservável da sua doce imagem. Sabendo que esta era aquela que tinha consumido tediosamente os meus tenros anos, no seu amor quente e primordial, não passível de ser resistido. Pois sentia-o a saltar e a bater contra o meu peito, sem cessar, como alguém que golpeia um tambor rouco. E ainda me parecia, pelo seu semblante adorável e deleitoso, pelas suas belas tranças, e pelo cabelo encaracolado e ondulante, brincando de um lado para o outro sobre a sua testa, que deveria ser Polia, a quem tanto tinha amado e desejado, e por quem tinha sustentado tantos e variados sofrimentos, sem intermissão, enviando suspiros escaldantes, os relatores externos das minhas chamas internas. Mas o seu rico e ninfeal hábito, não acostumado, e o lugar desconhecido e estranho, faziam-me ainda duvidoso e suspeitoso.
Ela (como dito antes) carregava no seu braço esquerdo, branco como a neve, junto ao seu corpo, uma Tocha acesa e ardente, um tanto mais alta que a sua cabeça um bom bocado, e a extremidade inferior tornando-se cada vez menor, segurava-a na mão: e estendendo aquela que estava em liberdade, mais branca do que jamais fora Pelopea, na qual aparecia a fina suavidade da pele, e o azul das veias como correntes de Azul, sobre o papel mais justo e branco. Ela pegou-me pela mão esquerda com um semblante doce e amoroso e uma graça sorridente, e com um discurso eloquente, disse prazenteiramente desta maneira.
Poliphilus, penso que venho em segurança, mas parece que tu estás duvidoso. Nisto fiquei mais pasmado, e os meus sentidos de certa maneira perdidos ao imaginar como ela saberia o meu nome; e todas as minhas partes internas vencidas, e cercadas por ardentes chamas amorosas, a minha fala foi-me tirada com medo e reverente timidez.
Deste modo permanecendo, não sabia de repente que boa resposta poderia dar, ou de outro modo fazer-lhe reverência, senão oferecer-lhe a minha indigna e imprópria mão; a qual, quando foi apertada nas suas, pareceu-me que estava em neve quente e leite coalhado, e pareceu-me deveras que tocava e manuseava algo que era mais do que humano; o que, quando o fiz, permaneci comovido de espírito, perturbado e duvidoso, não acostumado a tal companhia, não sabendo o que dizer, ou se a deveria seguir, no meu traje simples e criação humilde, não concordante com a dela: e como um tolo, indigno e impróprio para a sua companhia, persuadindo-me de que não era lícito para uma criatura mortal e terrena desfrutar de tais prazeres. Por cuja causa, a minha cor vermelha e corada, com reverente admiração, estando entristecido com a minha baixeza, dispus-me a segui-la.
Afinal, e ainda não com uma mente perfeitamente recordada, comecei a reduzir e convocar, os meus espíritos temerosos e destemperados: persuadindo-me de que necessitaria ter bom sucesso, estando perto de um objeto tão belo e divino, e em tal lugar; e assim segui-a com um coração ofegante, mais trêmulo que o pássaro Sisura, ou um Cordeiro carregado na boca de um Lobo.
E assim, tocado mais ferventemente com calores prazenteiros, crescendo e aumentando cada vez mais, começaram a ferver e a acender o meu medo frio, e dispositivamente a adotar o meu calor alterado ao amor sincero. O qual, estando assim trazido a este ponto, por um desejo interno provocado, ainda internamente enquanto raciocinava comigo mesmo, era maravilhosamente variável e duvidoso. Oh, felicíssimo Amante de todos os Amantes, que em retribuição do seu, pudesse estar seguro de participar do dela.
Por outro lado, persuadi-me de que, se eu oferecesse a ela o meu coração amoroso e amor, não tendo melhor coisa para lhe conceder, ou apresentar, poderia ser que ela não o recusasse: como Artaxerxes, o Rei dos Persas; que, tendo água apresentada às suas mãos, aceitou-a curvando-se. Com isto, pareceu-me ainda que um tremor medroso e frio me invadiu, infundindo-se sobre todo o meu corpo e peito, renovando a força do fogo extremo, até como o caniço seco: que, uma vez aceso, é inflamado e nutrido com o ar fresco, até que finalmente é aumentado tão poderosamente, que consome tudo em cinzas.
E da mesma sorte, encontrei plenamente em mim, um aumento e clarão espalhado das minhas chamas internas, no seu sujeito preparado, tão eficazmente, que os seus olhares amorosos deram-me feridas mortais e mortíferas: tal como o raio e o trovão, entre os fortes e poderosos carvalhos, subitamente com uma grande força, queimando e rasgando-os. E portanto não ousei olhar para os seus olhos brilhantes, porque fazendo-o, (sendo vencido pela incrível beleza do seu aspeto gracioso) se porventura os seus raios radiosos encontrassem mutuamente os meus, por pouco tempo tudo me parecia duplo, até que tivesse fechado as pálpebras, e restaurado-os à sua luz anterior.
Pelo que, e por causa destas coisas cativado, estragado e vencido, determinei naquele instante colher algumas flores frescas, e de toda a forma humilde oferecê-las a ela, e aconteceu que enquanto os meus pensamentos secretos consentiam nisso, consignando um meio livre e grande entrada, para a descoberta do meu desejo. Mas o meu coração ardente humildemente tendo aberto o mesmo, tal como uma Maçã madura sendo ou mordida ou sacudida, assim caiu e falhou-me. E recebendo na sua ferida e familiar situação, em alguma interposição de tempo, imediatamente o seu calor e fervor acostumado aumentou, perfurando as partes internas com os seus aspetos virginais, excedentemente embelezados com uma graça amável e elegância inexcogitável; Porque, que nesta doce introdução na minha mente, destas primeiras chamas amorosas, (como o cavalo Troiano, cheio de armas e engano) a entrada foi feita para uma praga eterna, desconhecida e incessante, profundamente supurante no meu tenro e pobre coração, perpetuamente permanecendo: o qual facilmente vencido com um doce olhar, inconsideradamente sem demora, apressa o seu próprio dano, e inteiramente expõe-se a incursões amorosas, e queima-se com doces conceitos, entrando nas chamas por vontade própria.
A todos estes desejos ardentes a sua companhia presente forçou-me grandemente, a qual estimei conceder-me mais conforto, do que a estrela do Norte numa noite tempestuosa ao Marinheiro perturbado: mais aceitável do que a de Melicta a Adónis, ou a Afrodite, a Ninfa obsequiosa Peristera: e mais deleitoso do que o Dittander à filha de Dido, com a flor Púrpura para a ferida de Pio Eneias: e encontrando o meu coração golpeado e internamente picando, secretamente preenchido e compressivamente entulhado; registando e reunindo nele, pensamentos variáveis e labor de Amor, a minha ferida imedicável cresceu cada vez maior. Mas reunindo o restante dos meus sentidos, como alguém que ousava, assegurei-me de manifestar e expor perante ela, os meus desejos pretendidos e conceitos amorosos. E assim perdendo-me numa loucura cega, não pude senão dar lugar aos meus desejos invasores, ferventemente fervendo e forçando-me a dizer assim.
Oh, delicada e celestial Donzela, o que quer que sejas, o teu amor forçoso pôs-me em fogo, e consome o meu coração aflito; encontro-me por todo o lado, ardendo numa chama incessante, e um dardo afiado lançado no meio do meu peito, onde fica preso, tendo feito uma ferida mortal incurável. E tendo falado assim, para que pudesse descobrir a ela o meu desejo oculto, e moderar por esse meio a extremidade das minhas amargas paixões: as quais sentia que, quanto mais eram ocultadas, mais aumentavam e cresciam, pacientemente mantive o meu silêncio; e por este meio todas aquelas ferrenhas e graves agitações, pensamentos duvidosos, desejos lascivos e violentos, foram um pouco suprimidos; com a minha Sota mal-apessoada, que ainda tinha algumas das folhas de silva e espinhos do Bosque pendurados nela, e assim como um Pavão no orgulho das suas penas, contemplando a imundície dos seus pés, baixa a sua cauda: assim eu, considerando a desigualdade de mim mesmo, com tal objeto celestial, empalideci as provocações dos meus desejos contumazes e elevados, olhando para as vaidades dos meus pensamentos.
E então esforcei-me seriamente por todos os meios que pude, para subjugar, enclausurar e conter o meu apetite errante desenfreado, mente divagante e desejo imodesto, pretendendo agora que nunca mais fosse proferido.
Afinal comecei a pensar no segredo profundo do meu coração ferido, que indubitavelmente este meu presente sofrimento continuado, era igual ao do ímpio Tântalo, aos cujos lábios quentes e sedentos, a água fresca e clara se oferecia, e ao seu apetite faminto, os doces frutos pendiam sobre a sua boca aberta apresentando-se, mas ele nunca provou qualquer um deles.
Ah, ai de mim, da mesma sorte, uma belíssima Ninfa de excelente forma, de idade florescente, de comportamento angelical indescritível, e de rara honra e cortesia excedente como os meus olhos podiam contemplar, cuja companhia excedia qualquer requintado contentamento humano; e eu, justo ao lado dela, cheio de toda a provocação, forçando solaciosamente amor e desejo, amontoando nela mesma as perfeições inteiras do deleite, e ainda o meu desejo bocejante e voluptuoso, nunca mais por isso satisfeito.
Bem, deste modo a minha concupiscência ardente nada aliviada, tanto quanto podia, consolei o meu coração lânguido, imensuravelmente atormentado, colocando-o a lembrar de esperança solaciosa e amorosa; e com isso, nunca houve uma brasa tão perto de se apagar, que não fosse presentemente renovada e posta em fogo, com a companhia da seguinte. E os meus olhos desenfreados, quanto mais eram desarmados para resistir ao seu poder, mais eram inflamados com o desejo insolente e gosto da sua maravilhosa e celestial beleza; ainda parecendo mais bela, mais excelente, mais adorável, mais a ser desejada, extremamente apta e preparada para o amor: mostrando evidentemente em si mesma, um aumento maravilhoso de doce prazer.
Depois pensei comigo mesmo, pode ser que ela seja alguma criatura que eu não deva desejar, e pode ser que o lugar não seja adequado para tais pensamentos, e então pode ser que eu tenha feito um trabalho sábio, e fiado um belo fio, se eu fosse punido pela minha impudência, como Íxion. Da mesma sorte, o Trácio nunca teria encontrado o profundo assento de Neptuno, se não se tivesse metido com Tétis; e Galantide, a serva de Lucina, não teria trazido à luz na sua boca, se não tivesse enganado. Pode ser que esta Ninfa esteja desposada com algum alto e poderoso Príncipe, e eu a oferecer-lhe esta desonra, de que sou digno?
E assim raciocinando comigo mesmo, pensei que aquelas coisas que tinham apenas uma garantia tênue, deslizariam levemente, e que não seria difícil enganar, onde não havia olhar vigilante: e para espíritos audazes, a Fortuna não estava de todo falhando: e além disso, que era difícil conhecer o pensamento de um homem. Pelo que, assim como Calistone, envergonhada da sua barriga inchada, encolheu-se para longe da presença de Diana; assim retirei-me, corando com a minha tentativa, e refreando os meus desejos inconvenientes. Contudo, com um olho lascivo, nunca deixei de examinar, com grande deleite, a beleza extrema da excelente Ninfa, dispondo-me ao seu doce amor, com uma infalível, obstinada e firme resolução.
Polia, até agora desconhecida do seu Amante Poliphilus, ela graciosamente assegura-o: que, pela sua beleza extrema, ele esforça a sua mente a amar. E ambos indo para os triunfos, veem inúmeros jovens e Donzelas, divertindo-se com grande deleite.
O Arqueiro Cupido, no meu coração ferido tendo a sua residência, como um Senhor e rei, mantendo-me atado nas bandas do Amor, encontrei-me picado e gravemente atormentado, no seu tirânico e contudo agradável regimento. E abundando em deleite duvidoso, imensuravelmente suspirando, reguei os meus prantos; e então a Ninfa superante, com uma graça prazenteira, incontinenti deu-me conforto, e com os seus lábios avermelhados e de fala justa, formulando palavras violentas e atrativas, ela deu-me segurança: abandonando e removendo do meu coração, todos os pensamentos medrosos, com os seus aspetos olímpicos, e arrefecendo com os seus discursos eloquentes, o meu coração ardente; e com um olhar amoroso e amigável, e um lançamento dos seus olhos, e graça sorridente, ela disse assim para mim.
Poliphilus, eu gostaria que entendesses e soubesses isto, que o amor verdadeiro e virtuoso não tem respeito por coisas exteriores, e portanto não deixes que a baixeza do teu traje diminua ou encolha a tua mente, se porventura nobre e gentil, e digna destes lugares, e apta para contemplar estes triunfos maravilhosos; Portanto não deixes que a tua mente seja desencorajada com medo, mas diligentemente contempla que Reinos possuem aqueles que são coroados por Vénus. Refiro-me àqueles que são fortemente agonizados e contudo perseveram ainda, servindo e atendendo aos seus altares amorosos e chamas sagradas, até que obtenham o seu favor legítimo. E então fazendo um fim do seu curto e doce discurso, ambos seguindo em frente, o nosso passo nem demasiado rápido nem demasiado lento, mas numa medida; pensei assim, e assim discursando comigo mesmo.
Oh, valentíssimo Perseu, tu terias lutado mais ferozmente com o cruel Dragão, pelo favor desta, do que pelo amor da tua bela Andrómeda. E depois.
Oh Jasão, se o casamento desta te tivesse sido oferecido, com uma aventura maior e mais perigosa do que a obtenção do velo de ouro, tu terias deixado ir esse, e empreendido este, com uma coragem maior, estimando-o acima de todas as joias e tesouros preciosos do mundo inteiro; eu, mais do que os da rica e poderosa Rainha Eleutherillida. Continuamente parecendo mais bela, mais formosa e mais adorável. Hipodâmia, e todos os gananciosos e duvidosos Usurários, nunca tiveram tal deleite em obter ouro. Um Porto quieto nunca foi tão bem-vindo a um Marinheiro aflito, numa noite tempestuosa, escura e invernosa: nem a desejada e oportuna queda de chuva, à oração de Creso, como o consentimento amoroso desta Ninfa delicada: mais bem-vindo para mim, do que lutas sangrentas ao bélico Marte, ou os primeiros frutos de Creta a Dionísio: ou a Harpa trinante a Apolo: e ainda mais grato, do que terreno fértil, espigas cheias e rendimento abundante, ao lavrador laborioso.
E assim de forma mais contente, passando e pressionando a grama espessa, verde e fresca: por vezes os meus olhos perscrutadores e ocupados, teriam um vislumbre com os seus pés bonitos e pequenos, passando bem ajustados com sapatos de couro Vermelho, crescendo mais largos desde o peito do pé, estreitos na ponta, e fechados à volta do calcanhar; e por vezes as suas pernas finas e movíveis, (a sua vestimenta de seda sendo sopradas pelo vento, sobre as suas partes virginais) descobriam-se. Se eu pudesse tê-las visto, imagino que elas pareciam a mais fina flor do Peloponeso, ou como o leite mais puro, coagulado com Almíscar.
Por todas estas coisas mais deleitáveis, atado e ligado nos nós duros e inextricáveis de amor veemente, mais difíceis de desfazer do que o de Hércules, ou aquele que Alexandre o grande cortou em pedaços com a sua espada: e amorosamente mascarado em redes enroladas, e o meu coração subjugado, mantido para baixo com cogitações aflitas e desejos ardentes, conduzindo-me para onde queriam, encontrei nele mais tormentos picantes do que o fiel Régulo em África. De modo que os meus espíritos sofredores, exasperados com um desejo amoroso e extrema vexação, continuamente ardendo no meu peito ofegante, não podiam por meio nenhum ser aplacados, senão com o engolir de soluços contínuos, e respiração da sua perda voadora. E assim afogado numa névoa de dúvidas, e vendo-me violentamente tomado no seu amor, disse assim para mim mesmo.
Ó Poliphilus, como podes tu deixar a qualquer momento o teu amor inseparável, inflamado pela tua doce Polia, por qualquer outro? E com isso, desta Ninfa, assim cerrada e firmemente atada, mais fortemente do que nas garras de um caranguejo ou lagosta, esforçando-me por me desatar, achei que não era tarefa fácil, de modo que não pude deixar de atar gravemente o meu coração perturbado ao amor e ao afeto desta que, por todas as aparências, tinha a verdadeira forma, a doce semelhança e o comportamento gracioso da minha amadíssima Polia. Mas, acima de tudo, isto me atingiu mais de perto e me penalizou pior: como eu poderia estar seguro de que ela era Polia. Pelo que, dos meus olhos lacrimosos, as lágrimas salgadas imediatamente escorrendo, pareceu-me uma coisa dura e desprezível banir do meu desolado e pobre coração a sua antiga soberana Senhora e Dona, e acolher uma nova, estranha e desconhecida tiranizadora.
Depois, reconfortei-me novamente, pensando que porventura esta seria ela, de acordo com o Oráculo sagrado e o verdadeiro discurso da poderosa Rainha Eleutherillida: e, portanto, que eu não deveria esmorecer ou curvar-me sob o meu fardo; pois, se não estivesse muito enganado, esta era ela de fato. E tendo feito este pensamento amoroso e discursivo e este pressuposto persuasivo, abandonando todos os outros desejos, determinei apenas, com o meu coração e a minha mente, voltar novamente a esta nobre e excelente Ninfa; em cujo grande amor estando assim tomado, com extrema compulsão, fui audaz, com uma admiração inusitada, em olhar diligentemente para a sua rara forma e feições amáveis, fazendo os meus olhos redemoinhos engolidores da sua inigualável beleza: e não tinham eles sido abertos, ardentemente para absorver o doce prazer da sua tão benigna e conspícua presença, quando foram fortalecidos para sempre para reter com eles, em concordância solaciosa, a assembleia de todos os meus outros sentidos cativos, para que dela, e de nenhuma outra, eu buscasse a mitigação e o arrefecimento das minhas chamas amorosas. E deste modo viemos, enquanto eu era assim cruelmente ferido pelo amor exasperante, um pouco pelo lado direito do espaçoso campo.
Neste lugar, havia árvores verdes, densas de folhas e cheias de flores, dando frutos, por todo o redor do lugar e assento, de tão variáveis e diversas espécies, nunca desbotadas mas sempre verdes, dando grande contentamento ao deleitoso observador.
A galante e agradável Ninfa ali parou; e eu também fiquei imóvel: onde, olhando em redor, pela benignidade da planície frutífera, com metade da minha visão, porque não podia de todo retirá-la do objeto amoroso; contemplei, muito perto de nós, uma certa exibição de uma companhia envolvente, triunfando e dançando à nossa volta, de jovens bravos e finos, sem barbas e de cabelos não aparados, senão pelo que, das suas cabeças, crescia em volume, encaracolando e retorcendo-se, sem qualquer arte ou frisado efeminado: coroados e vestidos com grinaldas e coroas de diversas flores, e Rosas vermelhas, com Murta folhosa, com Amaranto púrpura ou flor gentil, e Meliloto: e com eles uma grande companhia de jovens donzelas, mais belas e delicadas do que as que se podem encontrar em Esparta; Ambos os tipos vestidos muito ricamente, em sedas de cores cambiantes, escondendo a cor perfeita; alguns em Púrpura e Murta, e outros em Sendal branco encaracolado, tal como o Egito nunca ofereceu, e de diversas outras cores: alguns em castanho-amarelado, alguns em carmesim, outros em Verde, alguns em Violeta, alguns em Azul, cor de pêssego, cor de pavão, perfeitamente tingidos, como jamais Corica poderia produzir: e polvilhados e tecidos com ouro, e orlados e debruados com Pérola oriental e pedras encastoadas em ouro puro; alguns em vestidos compridos, e outros em trajes de caça.
E a maioria das belas Ninfas tinha os seus belos cabelos suavemente presos em conjunto, e três vezes enrolados em volta, com um excelente nó de acabamento; Outras tinham as suas tranças instáveis e ondulantes, espalhando-se sobre os seus belos pescoços. Algumas, com abundância de cabelo, lançadas sobre as suas testas, e as pontas transformando-se em caracóis, e sombreando a brancura da mesma; de modo que a Natureza, e não a Arte, se mostrava nela uma bela mestra; Com fitas e rendas de ouro, orladas com Pérola oriental, e outras em cofias de ouro, usando em torno dos seus pescoços esguios ricas e preciosas gargantilhas e colares, de Pérolas e pedras, e joias pendentes. E sobre as suas pequenas orelhas pendiam diversas pedras preciosas, e sobre os penteados variáveis das suas cabeças, adiante em dois semicírculos, estavam postas sombras de Pérola oriental e pedra, em flores de cabelo.
Todos estes excelentes ornamentos, juntamente com as suas elegantíssimas personagens, eram facilmente capazes de alterar qualquer coração grosseiro, vil ou obstinado.
Os seus belos seios, de uma maneira voluptuosa e lasciva, estavam nus até ao meio: E sobre os seus pés bonitos, algumas usavam sandálias, à maneira antiga, sendo solas, e o pé nu preso às mesmas com uma pequena corrente de ouro, passando entre o polegar e o médio, e o dedo mínimo e o seguinte, em torno do calcanhar sobre o peito do pé, e prendendo-se na parte superior, entre os dedos e o peito do pé, numa flor. Outras tendo sapatos justos, apertados sobre o peito do pé com flores de ouro. As suas meias de seda; algumas de Púrpura, algumas de Cor de Cravo, algumas de cores partidas: tais como Caius Galicola nunca trouxe primeiro. Outras usando Botinas, sobre as brancas e inchadas barrigas das suas pernas, e atadas com seda; algumas abotoadas com ouro e pedra preciosa.
As suas testas, mui belas e embelezadas com as ondas móveis dos seus cabelos frisados, cobertas por um fino véu, como uma teia de Aranha. Os seus olhos mordazes e sedutores, mais brilhantes do que as estrelas cintilantes num ar limpo, sob as suas sobrancelhas circulares: com um nariz pequeno, entre as suas bochechas redondas e cor de cereja: os seus dentes ordenadamente dispostos, pequenos e uniformes, da cor de prata refinada: sobre o resto, entre os seus lábios doces e macios: da cor de Coral.
Muitas delas carregando instrumentos de Música, tais como nunca foram vistos na Ausonia, nem nas mãos de Orfeu: produzindo no prado florido e na planície lisa, sons mui deleitosos, com vozes doces e ruídos de alegria e triunfo: e para aumentar a glória, amorosamente lutando e contendendo umas com as outras, com atos solaciosos e agradáveis, acompanhados de belos discursos e aspetos amigáveis. E neste lugar, com um aplauso mui deleitável, contemplei quatro Triunfos, tão preciosos e sumptuosamente apresentados como nenhum olho mortal jamais viu.
_Poliphilus neste lugar prescrito, contemplou quatro Carros triunfais, todos incrustados com pedras preciosas e joias, por um grande número de jovens, em honra de Júpiter._
O primeiro dos quatro maravilhosos Carros triunfais tinha quatro rodas redondas, de Esmeraldas perfeitas da Cítia; o resto do Carro deixou-me atónito ao contemplar, sendo feito todo de Diamantes de mesa: não da Arábia ou de Chipre, da nova Mina, como os nossos lapidários lhes chamam: mas da Índia, resistindo aos duros golpes de ferro e aço, suportando o fogo quente e lutando com ele, amolecido apenas com o sangue quente de Cabras, grato na arte Mágica; cujas pedras foram maravilhosamente cortadas de uma explicatura cataglífica, e engastadas mui curiosamente em ouro fino.
Sobre o lado direito do Carro, vi expressa a representação de uma nobre Ninfa, com muitas acompanhando-a num Prado, coroando Touros vitoriosos com grinaldas de flores, e um permanecendo ao lado dela mui mansamente.
A mesma Ninfa, sobre o outro lado, foi também representada, que tendo montado sobre o dorso do Touro, que era gentil e branco, ele a carregou sobre o mar.
Sobre a extremidade dianteira contemplei Cupido, com um grande número de pessoas feridas e Nações, maravilhando-se ao vê-lo disparar para o ar. E na parte traseira, Marte de pé perante Júpiter, lamentando-se porque o rapaz tinha disparado através da sua couraça impenetrável, e mostrando a ferida, e com a outra mão, estendendo o braço, segurava esta palavra Nemo.
O formato deste Carro era quadrangular, de dois quadrados perfeitos, no sentido do comprimento, de seis pés de comprimento e três pés de altura, com uma cornija saliente acima e abaixo do plinto: e em torno do mesmo um plano, com dois pés e meio de largura, e cinco pés e meio de comprimento, inclinando-se para a Cornija, toda escamosa, com pedras preciosas, com um congresso alterado e ordem de cores, variadamente dispostas. E sobre os quatro cantos, estavam fixadas quatro cópias, invertidas, e a boca voltada para cima sobre o canto projetado da Cornija, cheia de frutos e flores cortados de pedras preciosas, como se estivessem a crescer de uma folhagem de ouro. Os chifres estavam cinzelados perto da sua boca, com as folhas de Papoila, e retorcidos no ventre: o gracilamento e a curvatura externa, unindo-se firmemente ao fim do plano, e quebrando-se num trabalho de folha recortado à moda antiga, deitado ao longo sob as costas da cópia, e do mesmo metal. Sobre cada canto do Plinto, desde a Cornija para baixo, havia um pé como o de uma Harpia, com uma excelente conversão e viragem sobre ambos os lados das folhas de Acanto.
As rodas, acima dos cubos e eixos, estavam fechadas dentro do Carro, e os lados do mesmo sob os pés das Harpias, curvavam-se um pouco para cima e diminuindo, viravam-se redondos para baixo, onde a mobília ou traço para o puxar estavam fixados: e onde o eixo estava, ali sobre o lado do fundo do Carro, sobre o cubo da roda, descia uma prepensão unindo-se ao Plinto, duas vezes mais longa do que profunda, de duas folhagens, uma estendendo-se para um lado e a outra para o outro lado: e sobre o meio da mesma e parte mais baixa, estava uma Rosa de cinco folhas, na semente da qual repousava a extremidade do eixo.
Sobre o supracitado Plano, contemplei a imagem de um Touro branco e manso, enfeitado e vestido com flores, à maneira de um Boi para um Sacrifício. E sobre o seu dorso grande e largo, sentava-se uma virgem principesca, com braços longos e esguios, meio nua; com as suas mãos segurava os seus chifres. O seu vestuário era requintado, de seda verde e ouro, maravilhosamente tecido, e de um estilo de Ninfa, cobrindo o seu corpo e cingido à volta da sua cintura, orlado à volta com Pérola e pedra, e uma coroa de ouro brilhante sobre a sua bela cabeça.
Este Triunfo era puxado por seis Centauros lascivos, que vieram da semente caída do atrevido e presunçoso Íxion: com um arnês de ouro sobre eles, e ao longo dos seus lados fortes, como cavalos, excelentemente moldados e enlaçados à maneira de uma corrente de frasco, pela qual puxavam o Triunfo; tal como Erictonio nunca inventou, para rapidez.
Sobre cada um deles cavalgava uma bela Ninfa, com os seus ombros um para o outro: três, com as suas faces belas para o lado direito dos Triunfos, e três para o esquerdo, com Instrumentos de Música, fazendo juntas uma harmonia celestial e consorte. Os seus cabelos amarelos, e caindo sobre os seus belos pescoços, com grinaldas pancarpiais de toda a espécie de flores, sobre as suas cabeças. As duas próximas do Triunfo estavam vestidas de seda azul, como a cor do pescoço de um Pavão.
A do meio em carmesim brilhante: e as duas da frente em verde Esmeralda, não faltando qualquer ornamento para as destacar, cantando tão docemente com pequenas bocas redondas, e tocando os seus instrumentos, dentro de uma maneira tão celestial, que impediria um homem de morrer jamais.
Os Centauros estavam coroados com hera, que é chamada Dendrocyssos. Os dois próximos do triunfo carregavam nas suas mãos dois vasos de uma moda antiga, de Topázio da Arábia, de uma cor dourada brilhante, grato a Lucina, e aos quais as ondas serão calmas: esguios na base, inchando no ventre, e diminuindo pequenos para cima em direção ao Orifício; Com dois pés de altura, sem orelhas: de dentro dos quais ascendia um fumo espesso ou fumo, de uma fragrância inestimável. O do meio, soava Trombetas de ouro, com estandartes de seda e ouro, fixados às Trombetas em três lugares.
Os outros dois da frente, com Cornetas à moda antiga, concordando em consorte com os Instrumentos da Ninfa.
Sob o qual Carro triunfal, estavam os Eixos convenientemente colocados, sobre os quais as rodas giravam, e de um alinhamento balústico, crescendo pequeno para o fim e redondo: Os quais Eixos eram de ouro puro fino e maciço, nunca enferrujando ou desgastando; o que é o veneno mortal e destruidor da virtude e da paz sossegada.
Este triunfo foi solenemente celebrado, com saltos e danças moderadas em redor, e grande aplauso: os seus hábitos eram cingidos com lenços, as pontas voando livremente.
E da mesma forma, aqueles que se sentavam sobre os Centauros, louvando na sua canção a ocasião e mistério do Triunfo, em vozes consonantes e verso cantional; mais agradável do que sou capaz de expressar, mas que isto baste.
O segundo Triunfo.
O triunfo seguinte não era menos digno de ser contemplado do que o primeiro. As quatro rodas, os raios e os cubos, eram todos de Ágata Fúlvica, e em diversos lugares veios brancos: tais como o Rei Pirro não poderia mostrar, com a representação das nove Musas, e Apolo tocando no meio delas o seu Alaúde.
Os Eixos e o formato do mesmo como o outro: mas as Tábuas eram de Safira azul oriental, tendo nelas, tão pequenas como motas ao Sol, certos brilhos de ouro, gratos à Arte Mágica, e de Cupido amado na mão esquerda.
Sobre a Tábua do lado direito, contemplei gravada uma bela Matrona deitada num leito principesco, sendo entregue de dois ovos num palácio majestoso: as suas Parteiras e outras Matronas e jovens mulheres, ficando grandemente espantadas com a visão. De um dos quais surgiu uma chama de fogo: e do outro ovo duas estrelas brilhantes.
Sobre o outro lado foram gravados os pais curiosos, ignorantes deste estranho nascimento, no Templo de Apolo, perante a sua imagem, perguntando por Oráculo a causa e fim disto, tendo esta resposta sombria. _Uni gratum Mare. Alterum gratum Mari._ E por esta resposta ambígua foram reservados pelos seus Pais.
Sobre a extremidade dianteira do Carro, estava representada mui vividamente a figura de Cupido, no alto dos céus, com as pontas afiadas das suas setas douradas, ferindo e fazendo sangrar os corpos de diversos animais de quatro patas, Serpentes rastejantes e Aves voadoras. E sobre a terra, estavam diversas pessoas, maravilhando-se com a força de um tão pequeno escravo, e o efeito de uma tal fraca e esguia Seta.
Na extremidade traseira, Júpiter nomeando no seu lugar um Pastor prudente e subtil como Juiz, acordado por ele, enquanto jazia a dormir perto de uma mui bela Fonte, qual das três mais belas Deusas ele considerava mais digna. E ele sendo seduzido pelo Cupido inventor, deu a Maçã à Vénus de agradável trabalho.
Este Carro triunfal era puxado por seis Elefantes brancos, acoplados dois a dois, tais como dificilmente serão encontrados em Agesinua, nem entre os Gandars da Índia. Pompeu nunca teve o igual nos seus Triunfos na África: nem foram vistos os iguais nos Triunfos da conquista da Índia; as suas trombas armadas com dentes mortais de marfim, passando no seu caminho e puxando em conjunto, fazendo um agradável zurro ou ruído. A sua mobília e traços de seda azul pura, torcidos com fios de ouro e prata: as fixações na mobília, todas feitas com nós quadrados ou do verdadeiro amor, como espigas quadradas de milho da Montanha Garganus. Os seus peitorais de ouro, incrustados com Pérola e pedra de diferentes cores; a beleza de uma lutando por exceder a beleza da outra. E assim era toda a sua mobília ou armaduras para os traços, de seda como supracitado.
Sobre eles também cavalgavam (como antes) seis jovens e tenras Ninfas, da mesma forma, mas os seus Instrumentos diferentes dos anteriores, mas concordando em consorte: e o que quer que os primeiros faziam, o mesmo faziam estes.
As duas primeiras estavam vestidas de Carmesim: as duas do meio em fina cor de cabelo: e as da frente em violeta. As Gualdrapas dos Elefantes eram de tecido de ouro, orladas com grandes Pérolas e pedras preciosas: E em torno dos seus pescoços estavam ornamentos de grandes joias redondas, e sobre as suas faces, grandes bolas de Pérolas, adornadas com borlas de seda e ouro, instáveis e giratórias.
Sobre este majestoso Carro triunfal, contemplei um Cisne mui branco, no abraço amoroso de uma nobre Ninfa, a filha de Teseu, de uma beleza incrível: e sobre o seu colo, sentado o mesmo Cisne, sobre as suas coxas brancas. Ela sentava-se sobre duas almofadas de tecido de ouro, finamente e suavemente tecidas, com todos os ornamentos necessários para as mesmas.
Ela própria vestida à maneira de uma Ninfa, em tecido de prata, aqui e ali polvilhado com ouro, sobre um e sob três, sem defeito ou falta de qualquer coisa, requisito para o adorno de uma tal representação honrosa, que para o observador pode ocasionar um deleite prazeroso. Em toda a espécie realizado com tão grande aplauso como o primeiro.
O terceiro Triunfo.
Seguiu-se então o terceiro Triunfo, com quatro rodas de Crisólito etíope, faiscando ouro: o que tem sido mantido no mesmo, nos tempos antigos tem sido pensado ser bom para afastar espíritos malignos. As rodas cobertas para cima, como supracitado, e os cubos e raios do mesmo formato, de Heliotrópio verde de Chipre: cuja virtude é, manter segredo à luz do dia, aos dons divinos, cheios de gotas de sangue.
Esta História estava gravada sobre o lado direito da Tábua do mesmo, como se segue. _Um homem de grande Majestade, pedindo para saber o que aconteceria à sua bela filha: o seu Pai entendendo, que pelos seus meios ele seria despojado da sua Coroa e dignidade; e para que ela não fosse levada ou roubada por ninguém, construiu uma Torre mui forte, e ali, com uma guarda vigilante, ordenou que ela fosse mantida: e ela permanecendo ali desta forma com grande contentamento, caiu no seu colo virginal gotas de Ouro._
Sobre o outro lado estava cinzelado um jovem valente, que com grande reverência recebia a proteção de um escudo de Cristal, e com a sua espada depois cortando a cabeça de uma mulher terrível, e depois orgulhosamente carregando a sua cabeça em sinal de vitória; Do sangue quente da qual, surgiu um cavalo voador: que batendo sobre uma Montanha com um dos seus cascos, fez uma estranha nascente de água jorrar.
Sobre a extremidade dianteira contemplei o poderoso Cupido, puxando a sua Seta dourada, e disparando a mesma para os céus, fazendo-os chover sangue: perante o que um número ficou maravilhosamente espantado, de todos os tipos de pessoas. Sobre a outra extremidade, vi Vénus numa insatisfação maravilhosa, tendo apanhado o seu filho por um Cavaleiro numa Rede, e apanhando-o pelas asas, ela estava prestes a arrancar as suas penas: tendo arrancado um punhado, que voou por aí, o pequeno elfo gritando piedosamente; e outro enviado de Júpiter, levou-o embora e salvou-o da sua mãe, e apresentou-o a Júpiter: contra cuja boca divina, estavam em Letra Ática escritas estas palavras, +SUMOIPL UKUSTEKAIPKROS+ e ele cobriu-o no colo da sua túnica celestial.
Este Carro triunfal era pomposamente puxado com seis Unicórnios ferozes: as suas cabeças como Cervos, reverenciando a casta Diana. Os peitorais e a mobília em torno dos seus peitos fortes, era de ouro, incrustado com pedra preciosa, e debruado com seda prateada e cor de cabelo, atada em nós, à maneira de um trabalho de rede, e adornada com borlas em cada ponto dependente, as suas gualdrapas como as outras das quais se falou antes.
Sobre estes sentavam-se seis belas virgens, em tal pompa e maneira como antes, vestidas de tecido de ouro, tecido com seda azul em diversas folhas e flores; estas tinham um consorte de instrumentos de vento de linho, cheios de espírito. E sobre o topo do Carro, estava colocado um banco de Jaspe verde, incrustado em prata: necessário no nascimento, e medicamentoso para a castidade; no pé era de seis lados, e crescendo menor em direção ao assento, e do meio para o pé, chanfrado e sulcado, e para cima trabalhado com nectúlias: o assento do qual era um pouco escavado, para mais facilmente sentar sobre ele. Os alinhamentos do mesmo mui excelentes.
Sobre o mesmo sentava-se uma Ninfa singularmente formosa, ricamente trajada com tecido de ouro e seda azul, vestida como uma virgem e adornada com inúmeras sortes de pérolas e pedras; ela demonstrava um deleite afetuoso ao contemplar gotas de ouro caírem do céu em seu colo. Sentava-se em solene pompa como a outra, e com grande aplauso, com seus cabelos belos e abundantes espalhando-se pelas costas, coroados com um diadema de ouro, cravejado de várias pedras preciosas.
O quarto Triunfo.
O quarto Triunfo era levado sobre quatro rodas, com aros de ferro, forjadamente batidos sem fogo; todo o restante da Carruagem, em feitio semelhante à anterior, era de carbúnculo ardente, mostrando luz nos lugares mais escuros, de um corte expolido: além de qualquer razão, pensar como ou onde era possível ser feito, ou por qual artífice.
O lado direito do qual continha esta História: uma mulher honrada e grávida, a quem Júpiter se mostrou (como costumava com Juno) em trovões e relâmpagos: de tal modo que ela caiu toda em cinzas, das quais foi recolhido um infante.
Do outro lado, contemplei Júpiter, tendo o dito Infante em suas mãos, e entregando-o a um jovem, com coturnos alados e um bastão, com duas serpentes enroladas nele: que entregou o Infante a certas Ninfas em uma Caverna, para ser criado.
Na extremidade dianteira, pude ver como Cupido, tendo disparado para o céu com sua Flecha maliciosa, havia causado que Júpiter contemplasse uma Ninfa mortal: e um grande número de pessoas feridas maravilhando-se com isso.
Na extremidade traseira estava Júpiter sentado em um assento de tribunal como juiz, e Cupido aparecendo mancando diante dele, e fazendo queixas graves contra sua mãe amorosa, porque, por meio dela, ele havia se ferido extremamente com o amor de uma donzela formosa, e que sua perna estava queimada com a gota de uma lâmpada, apresentando também a jovem Ninfa e a lâmpada em sua mão. E Júpiter, com um semblante sorridente, falando a Cupido,
Perfer scintillam qui coelum accendis & omnes.
Este monóstico estava gravado em letras latinas em uma tábua quadrada diante das faces de suas supremas majestades, o restante como está descrito.
Este triunfo místico era puxado por seis bestas malhadas de cor amarela brilhante, e rápidas como os tigres da Hircânia chamados Leopardos, acoplados juntos com vimes de vinhas entrelaçadas, cheios de tenras folhas verdes, e hastes repletas de cachos verdes. Esta carruagem era puxada muito vagarosamente.
Sobre o meio da qual planície estava colocada uma base de ouro pelo diâmetro mais baixo, um pé e três palmos de altura, a latastra ou margem mais baixa arredondada e escavada, no meio sob a cimeira ou borda superior em forma de palia com nectúlias, réguas e cordéis: a superfície superior desta base era evacuada, na qual descansavam as caudas das quatro águias sobre a superfície plana e lisa da base, que eram de Etite preciosa da Pérsia, da cor da pluma de um falcão-sacre. E estas estavam com seus ombros um oposto ao outro, e suas garras de ouro fixadas e cravadas na dita base, cada uma observando com suas asas, e as pontas floridas de suas penas tocando umas nas outras. Sobre estas, como sobre um ninho, estava colocado este maravilhoso vaso de Jacinto etíope claro e brilhante, Celso inimicus, Comiti gratiosus. Este vaso era incrustado com esmeraldas e veios de diversas outras pedras preciosas, um trabalho incrível. A altura dele, dois pés e meio, o feitio de maneira redonda, a largura pelo diâmetro, um pé e meio, e a circunferência consistia em três diâmetros. Das cabeças das águias, o fundo ou pé do vaso ascendia um triente, e uma borda contornando a espessura de uma mão, da qual borda até o começo do ventre do vaso, e até o fundo do pé com esta largura de mão, havia um pé e meio. Sobre isto estava a forma do vaso supracitado, um palmo e meio mais largo, cujo meio palmo era distribuído para a borda, ao redor da abertura de folhas dobradas e flores sobressaindo do jacinto. O diâmetro, dois quartos e meio. Sob esta borda sobressaiam ao redor certas proporções como cascas de noz, ou a quilha de um navio, um tanto espessas e largas na extremidade superior, e diminuindo-se a nada abaixo. Dali até o orifício, subia dois quartos e meio, sulcado com chanfros giratórios e uma excelente cimeira; e, em vez de asas para pegar o vaso, tinha dois lábios sobressaindo e virando para dentro, arredondados como a cabeça de uma viola de gamba.
Sob e acima das bordas, o vaso era trabalhado com gomos torneados, ondulações e relevos, e com tais lineamentos eram as bordas trabalhadas, tanto sob quanto acima. Sobre a borda, no pescoço da tampa, havia dois meios anéis, suprimidos na borda por transversão, um deles justamente contra o outro, que eram segurados nos dentes mordentes de dois lagartos, ou dragões mordedores de esmeralda verde, sobressaindo da tampa. Eles estavam com seus pés serpentinos sobre a parte inferior da tampa, sob o pescoço, entre o qual e o vaso inferior havia uma quantidade, e de seu gracilamento superior descendo, ele se unia com a cimeira virada para dentro do limbo ou borda circunferente, onde eles mordiam estreitamente juntos. Esta tampa até o pescoço era feita em trabalho escamoso de Jacinto, exceto pelos veios de esmeralda, para os pequenos dragões, seus ventres e pés fixando-se à tampa escamosa. Estes pequenos dragões, um contra o outro, seus peitos e gargantas cavando-se para fora da borda e da tampa, e suas caudas virando-se para cima novamente, serviam como as asas da tampa, justamente sobre as do vaso inferior.
A parte inferior girando ao redor, onde a tampa se fechava com o vaso, sendo de duas partes, unidas juntas com uma excelente foliatura, meio pé de largura, como se tivessem sido inseparáveis.
O corpo deste vaso era todo percorrido por uma Videira, cujas cordas e veios, e pequenos cachos encaracolados, eram de Topázio, muito melhores do que o que é encontrado na Ilha Ofíadis, as folhas de fina esmeralda, e os ramos de Ametista, à vista muito belos, e à compreensão maravilhosamente contempláveis. O vaso sujeito aparecendo através do mesmo de Jacinto tão redondo e polido quanto qualquer roda pode produzir: exceto que, sob as folhas, havia uma substância deixada, que segurava a foliatura ao vaso de Jacinto, passando por cima e separada do sujeito. As folhas escavadas e curvadas com todos os outros lineamentos lapidários eram executadas com tal emulação da natureza que era maravilhoso.
Voltemos agora à borda circunferente do vaso precioso. Nas partes lisas do qual, sobre ambos os lados das caudas dos lagartos, contemplei dois históricos dignos de consideração, gravados desta sorte. Sobre a parte frontal do vaso, a representação de Júpiter, segurando em sua mão direita uma espada cintilante, do veio dos Crisólitos etíopes; e na outra mão um raio de Rubim brilhante. Seu semblante exalava o veio dos Galatitos, e coroado com estrelas como relâmpagos, ele estava sobre um altar de Safira. Diante de sua majestade temível, havia um bando de Ninfas, sete em número, trajadas de branco, propondo-se com suas vozes doces a cantar, e depois transformando-se em árvores verdes como esmeraldas cheias de flores azuis, e inclinando-se com devoção ao seu poder: não que todas fossem transformadas em folhas, mas a primeira em árvore, seus pés em raízes, seus braços e cabeças em ramos, alguns mais do que outros, mas em uma demonstração de que deveriam seguir todas da mesma forma, como aparecia por suas cabeças.
Sobre o outro anaglifo, contemplei um personagem alegre e agradável e majestoso, como um jovem rapaz gordo, coroado com duas serpentes dobradas, uma branca e a outra preta, atadas em um nó. Ele descansava deleitosamente sob uma frondosa videira cheia de uvas maduras, e sobre o topo da estrutura havia pequenos meninos nus, subindo e sentando-se no alto colhendo os cachos maduros: outros oferecendo-os em uma cesta ao Deus, que prazerosamente os recebia: outros jaziam profundamente adormecidos no chão, embriagados com o doce suco da uva. Outros aplicando-se ao trabalho do outono mostulento: outros cantando e tocando flauta: toda cuja expressão era aperfeiçoada pelo artífice em pedras preciosas, de tal cor quanto a vivacidade natural de cada veio, folha, flor, baga, corpo, proporção, forma e representação requeria. E nesta imagética, embora fosse muito pequena, contudo não havia defeito a ser encontrado na menor parte pertencente a ela, mas perfeitamente discernível.
Deste vaso anteriormente descrito brotava uma videira verdejante, os ramos retorcidos dela cheios de cachos de uvas, as bagas tawny de Ametista indiana e as folhas de Selenita verde da Pérsia: não sujeita à mudança da lua, deleitada por Cupido. Esta árvore sombreava a carruagem: em cada canto desta carruagem triunfal, sobre a planície onde o vaso estava, estava colocado um candelabro, de excelente acabamento, sobre três pés de coral vermelho, muito apreciado pelo tipo mais rude, resistindo a relâmpagos e tempestades, favorável e preservativo ao portador: os semelhantes não eram encontrados sob a cabeça da Górgona da Pérsia, nem no Oceano Eritreu. A haste de um dos candelabros era de coral branco, amado por Diana, de um comprimento conveniente, com nós redondos e juntas, em altura dois pés. Outro era da mais fina pedra Dionísias, tendo manchas crescendo de um tom escuro para um vermelho puro, a mesma triturada cheira docemente. O terceiro era de Medeia perfeita da cor de ouro escuro, e tendo o cheiro de Néctar. O quarto de preciosa Nefrita crescendo de um preto para um branco e verde. Das hastes escavadas das quais ascendia uma chama piramidal de fogo eterno, queimando continuamente. O brilho das obras expresso através do reflexo das luzes, e o cintilar das pedras preciosas eram tais que meus olhos ofuscavam ao contemplá-los.
Sobre o qual triunfo celestial, com uma pompa maravilhosa e solene, infinitas tropas de Ninfas, seus belos e abundantes cabelos caindo soltos sobre seus ombros, algumas nuas com aventais de peles de cabras e cabritos, outras com tímpanos e flautas, fazendo um ruído muito agradável, como na dança chamada Tiaso, na trietéria de Baco, com ramos frondosos verdes e ramos de videira, estrofiados ao redor de suas cabeças e cinturas, saltando e dançando diante dos triunfos: imediatamente após os triunfos seguia um velho sobre um asno, e após ele era levado um bode adornado para um sacrifício: e uma que seguia carregando sobre a cabeça um leque, fazendo um riso imensurável, e usando gestos furiosos e ultrajantes. Esta era a ordem destes Mimalões, Sátiros e servos de Baco, alcoviteiros, Tíades, Náiades e aqueles que seguiam atrás.
A Ninfa mostra a Poliphilus a multidão de jovens Amantes, e seus Amores, o que eram, e de que sorte amados.
É muito difícil para um homem acomodar seu discurso a termos aptos, pelos quais ele possa expressamente declarar a grande pompa, triunfo incessante, alegria ininterrupta e saltos deleitáveis ao redor destas raras e nunca vistas carruagens, e sendo uma vez empreendido, é tão difícil deixar de lado: além da notável companhia de jovens rapazes, e as crescentes tropas de inúmeras Ninfas belas e agradáveis, mais aguçadas de espírito, sábias, modestas e discretas do que ordinariamente se vê em tão tenra idade, com seus Amantes imberbes, mal tendo bochechas aveludadas, agradavelmente conversando com elas sobre assuntos de Amor. Muitos deles tendo suas tochas ardentes, outros pastofóricos, alguns com despojos antigos sobre as pontas de hastes retas, e outros com diversas sortes de Troféus sobre lanças, curiosamente pendurados, carregados antes dos triunfos místicos, com gritos ressoando acima no ar. Alguns com instrumentos de sopro de diversas modas e maneiras de enrolamentos, sacabuxas e flautas. Outros com vozes celestiais cantando com inefáveis deleites, e excessivo consolo, além da razão humana de imaginar: dentro deles passavam ao redor dos triunfos gloriosos, girando sobre o solo florido, e relvado verde, um lugar dedicado aos felizes, sem qualquer toco ou árvore, mas o campo era como um prado plano e coadequado de ervas doces e flores agradáveis, de todas as sortes de cores, e variadas modas, produzindo um cheiro tão fragrante quanto é possível falar, não queimado pelo calor extremo do sol, mas moderado, o solo umedecido com rios doces, o ar puro e limpo, os dias todos iguais, a terra continuamente verde, a primavera nunca decaindo mas renovando-se, a grama fresca com flores variáveis como uma pintura, permanecendo sempre incólume, com seu frescor orvalhado, reservando e mantendo suas cores sem interdição do tempo. Ali cresciam as quatro sortes de Violetas, Prímulas, Melilotos, Salsa de Rosa ou Passeflor, Centáureas, Nigela, Selo-de-Salomão, Batráquio, Aquilégia, Lírio-do-vale, Amaranto, Flor-gentil, Ideosmos, todas as sortes de cravos doces, e pequenas ervas floridas de fragrância e cheiro odoríferos, Rosas da Pérsia, tendo o cheiro de almíscar e Âmbar, e inúmeras sortes de outras sem plantio, mas naturalmente crescendo em uma distribuição maravilhosa, espreitando de suas folhas verdes, e barbas muito deleitáveis de contemplar.
Neste lugar eu podia ver mulheres belas e bravas como a arcadiana Calisto, a filha de Licaão, com a desconhecida Diana. A lésbia Antíopa, filha de Nicteu, e mãe de Anfião e Zeto que construíram Tebas, com seu sátiro. Issa, a filha de Macareu, com seu pastor. Antícia, a filha de Éaco, e a jovem Dánae. Astéria, a filha de Ceu, e Alcmena com seu falso marido. Depois contemplei a agradável Egina deleitando-se com o fluxo claro e fogo divino. A filha de Fulo e a de Menenfo, com seu falso pai, e aquela outra de Diodes com seu colo cheio de flores e uma serpente contorcida, e a bela jovem donzela não mais se entristecendo pelo crescimento de seus chifres. Astíoquia e Antígona, filha de Laomedonte, deleitando-se prazerosamente em suas plumas de cegonha, e Lurisile, a primeira inventora de rodas. Garamantide, a Ninfa dançante segurando pelo seu dedo mindinho, e lavando seus pés delicados e bonitos do suor no rio Bagrada. Depois daquilo contemplei uma codorna voando, e um falcão perseguindo-a: Erígone tendo seu belo peito brilhante cravejado de doces uvas, e a filha do rei Chollus com seu touro, Erífile e seu marido trocado: a filha de Alpes e a virgem Melanho com seu golfinho, Filira, a filha do velho Oceano, com o pai de Quíron. Próxima a ela Ceres com sua cabeça estrofiada com maduras espigas de milho abraçando a Hidra escamosa: e a bela Ninfa Lara, companheira de Argifonte: e a doce Futurna do rio Numicus.
E enquanto eu permanecia com excessivo deleite contemplando apenas como um ignorante esta rara companhia e triunfos místicos, circundado com estas e tais sortes de coisas, e assim também os deliciosos campos, mas que me parecia uma visão adorável de contemplar, e assim eu deveria ter continuado: então a graciosa Ninfa associando-se e guiando-me, vendo minha simplicidade e descuido, com um semblante pronto e doces e agradáveis palavras, sem perguntar, ela disse assim para mim: Meu Poliphilus, tu vês estes? (mostrando-me aqueles do mundo antigo) estes foram amados por Júpiter, e esta, e esta era uma tal, e estes estavam apaixonados por ele, por este meio mostrando-me sua linhagem alta e poderosa, e não conhecendo seus nomes, ela, com grande cortesia, contou-me. Depois ela me mostrou um grande número de pequenas virgens, sob o governo de três sóbrias e discretas matronas, as líderes para tão grande deleite: Adicionando a isso muito prazerosamente (mudando seu semblante angelical): Meu Poliphilus, tu deves entender que nenhuma criatura terrena pode entrar aqui sem uma tocha ardente como tu vês em mim, ou com amor extremo e grandes dores, ou pelo favor e companhia daquelas três matronas. E de seu coração soltando um profundo suspiro, ela disse: Esta tocha trouxe eu aqui por tua causa, pretendendo apagá-la naquele templo ali.
Estes discursos perfuraram meu coração, eram tão deleitáveis e desejados, e tanto mais, porque ela me chamou de seu Poliphilus. Pelo que eu me assegurei de que ela era Polia, e do topo à planta dos pés encontrei uma extrema alteração em um supremo deleite, meu coração voando apenas para ela. Cujos pensamentos foram revelados por meu semblante, e sussurrando pequenos suspiros.
O que ela, percebendo astutamente, interrompeu este novo acidente com estas palavras: Oh, quantos há que gostariam de ver estes triunfos, e portanto, Poliphilus, endereça teus pensamentos a outros assuntos, e contempla que nobres e dignas Ninfas mostram-se merecidamente consorciadas com seus amorosos amantes, corteses e afáveis: que com doces e agradáveis notas em verso medido, elogiam e recomendam uns aos outros sem cansaço, incessantemente celebrando suas vezes com excessivo deleite, e exaltando os triunfos, o ar também cheio do chilrear de diversos passarinhos, produzindo um encanto difuso.
Sobre o primeiro triunfo entre a companhia regozijante, as nove Musas cantavam, com seu líder o divino Luter Apolo.[A]
[Nota lateral A: Este verso consistia em Estrofe, Antístrofe e Épodo.]
Após o triunfo seguia a bela Parthenopeiana Leria, com uma coroa de louros, acompanhada de Melantia, cujos hábitos e vozes representavam o orgulho da Grécia,[A] sobre o qual o grande Macedônio descansava sua cabeça: ela carregava uma lâmpada esplendente, comunicando a luz dela com sua companheira, depois o restante mais excelente tanto em voz quanto em canção.
[Nota lateral A: Homero.]
Ali a bela Ninfa mostrou-me a antiga Ifianassa, e depois as filhas do velho pai Himerinus e sua bebida, e uma entre os dois irmãos tebanos: estes com sons agradáveis, doce música e finas agilidades, passaram ao redor do primeiro triunfo.
Sobre o segundo triunfo estava a nobre Nêmesis com a lésbia Corina, Délia e Neera, com diversas outras Ninfas amorosas, fazendo sons agradáveis sobre instrumentos de corda de madeira amarela.
Sobre o terceiro triunfo, as gloriosas Ninfas mostraram-me Quintília e Cintea Nauta, com outras, em grande consolo, fazendo doces harmonias, e cantando agradáveis versos: ali também contemplei a virgem Violantilla com sua Pomba, e a outra lamentando-se por seu Pardal.
Sobre o quarto triunfo, antes dele ia a lídia Cloe, Lide, Neobole, doce Filis, e a bela Lice Tiburts e Pira, com suas harpas cantando e fazendo um ruído muito agradável. Após este quarto triunfo entre as Mênades e sacrificadores a Baco, seguia uma donzela amorosa cantando em louvor à cabeça de seu amante Plaon, ela desejava chifres. E após todos eles, ela mostrou-me duas mulheres, uma delas trajada de branco, e a outra de verde, que vinham por último cantando juntas.
E assim marchavam ao redor de uma maneira muito agradável e deleitável sobre a planície fresca, verde e florescente: alguns estrofiados com louro, alguns com murta, e outros com outras sortes de flores e guirlandas, incessantemente sem qualquer cansaço ou intermissão em uma perfeição da felicidade deste mundo, mutuamente desfrutando do aspecto e companhia um do outro.
A Ninfa, tendo amplamente declarado a Poliphilus os triunfos místicos e o amor extremo, depois desejou que ele seguisse mais adiante, onde também com grande deleite ele contemplou inúmeras outras Ninfas, com seus desejados amantes, em mil sortes de prazeres deleitando-se sobre a grama verde, frescas sombras, e pelos rios frios e fontes claras. E como Poliphilus ali, com loucura, quase esquecera de si mesmo nas paixões do desejo, mas a esperança mitigou sua fúria, aquietando-se na contemplação do doce sabor da bela Ninfa.
Não apenas felizes, mas acima de todos os outros mais felizes seriam aquele a quem fosse concedido continuamente, por favor especial, contemplar a gloriosa pompa, altos triunfos, belos lugares, doces situações, junto com as deusas, semideusas, belas Ninfas de incrível deleite e prazer, mas especialmente ser secundado e acompanhado por tão honorável Ninfa de tão rara e excelente beleza. E isto pensei não ser o menos e menor ponto de minha felicidade. Agora, tendo olhado para estas visões, permaneci um grande espaço registrando as mesmas, estando com elas além da medida abundantemente contente.
Depois, a bela e doce donzela, minha guia, disse assim para mim: Poliphilus, vamos agora um pouco mais adiante. E então imediatamente tendemos nosso passeio em direção às fontes frescas e rios sombreados, contornando os campos florescentes com correntes cristalinas e graciosos fluxos.
Naquela água clara, crescia o filho de flor púrpura da Ninfa Liriope, olhando para cima a partir de suas hastes e folhas tenras. E todos os belos rios estavam cheios de outras flores crescendo docemente entre suas folhas verdes e frescas. Este lugar deleitável era de um circuito espaçoso e amplo, cercado e rodeado por montanhas arborizadas, de altura moderada, de loureiros verdes, memoréis frutíferos, pinheiros altos e peludos, e dentro dos canais claros, com margens de cascalho, e em alguns lugares o fundo era de areia amarela, fina e macia, onde a água corria veloz, e a dríope de três folhas crescia.
Havia uma grande companhia de ninfas delicadas e formosas de tenra idade, com uma flor redolente de timidez, e belas além de toda a credibilidade, continuamente acompanhadas por seus amantes sem barba. Entre as quais Ninfas, algumas muito agradavelmente, com semblantes lascivos nos riachos claros, mostravam-se brincalhonas e folgazãs, tendo levantado finamente suas vestes finas de seda de diversas cores, e segurando-as nas dobras de seus braços brancos, a forma de suas coxas redondas era vista sob as pregas, e suas belas pernas eram reveladas até os joelhos nus, as correntes dos riachos subindo tão alto: era uma visão que teria preparado alguém para o que fosse impróprio, e se ele mesmo fosse incapaz disso. E ali onde a água era mais calma, voltando para baixo seus belos rostos de beleza excessiva, e curvando seus corpos de rara proporção, como em um grande e bom espelho, podiam contemplar suas formas celestiais, quebrando a mesma com o movimento de seus pés graciosos, fazendo um ruído com o contraste da água circulante. Algumas esforçando-se solazadamente para acompanhar os cisnes que nadavam mansamente, e atirando água umas nas outras de forma esportiva, com a concavidade de suas palmas: outras em pé fora da água sobre a grama macia e fresca, fazendo ramilhetes e guirlandas de várias flores doces, e dando as mesmas aos seus amantes como símbolos de sua lembrança favorável, não negando seus doces beijos e abraços amorosos, com os olhares amorosos de seus olhos como estrelas.
E algumas estavam sentadas nas margens verdes não cobertas de juncos e caniços, mas finamente embelezadas com ervas doces e flores, entre as quais as Ninfas tenras, saindo molhadas da água, mais claras que Axius em Mygdonia, sob as árvores sombreadas, sentavam-se esportivamente e conversando umas com as outras em abraços deleitáveis, com seus amantes reverentes, não os desprezando e rejeitando cruelmente, mas com um amor sociável e afabilidade benigna, dispondo-se à mesma mostra de verdadeiro afeto, seus gestos doces e comportamentos agradáveis muito mais graciosos ao olho do que lágrimas correntes são para o froward e imisericordioso Cupido, as fontes doces e orvalhos úmidos para os campos verdes, e a forma desejada para a matéria sem forma.
Algumas cantavam sonetos amorosos e versos de amor, exalando nos mesmos de seus peitos inflamados, suspiros escaldantes cheios de acentos doces, capazes de enamorar corações de pedra: E de suavizar a rugosidade da intransitável montanha Cáucaso, de deter qualquer fúria que a harpa de Orfeu provocaria, e a face suja e de má aparência de Medusa, de tornar qualquer monstro horrível manso e tratável, e de deter a provocação contínua da devoradora Scylla. Algumas descansavam suas cabeças nos colos castos de seus belos amores, contando as agradáveis invenções de Júpiter, e eles entrelaçando seus cachos encaracolados com flores de cheiro doce.
Outras delas fingiam que estavam abandonadas, e pareciam fugir e ir embora daqueles a quem carinhosamente afetavam, e então havia correria uma atrás da outra com risadas altas e gritos efeminados, suas belas tranças espalhando-se sobre seus ombros níveos como fios de ouro, atados em laços de seda verde: algumas soltas à maneira de Ninfa, outras presas em trajes de ouro incrustados de pérolas. Depois, aproximando-se, abaixavam-se e, colhendo as doces flores com seus dedos belos e tenros, atiravam-nas nos rostos de seus amantes perseguidores com grande prazer e solaz, mantendo seus fingidos desprezos.
Outras, com grande cortesia, colocavam folhas de Rosa, uma após a outra, em seus peitos rendados, acrescentando depois delas doces beijos, algumas dando aos seus amantes (se ousados demais) pequenas batidas nas bochechas com suas palmas inofensivas, tornando-as vermelhas como as rodas de Febo em uma manhã bela e clara: com outras novas e impensadas contenções, tais como o amor poderia inventar. Estando todas agradáveis, alegres e dispostas ao deleite: Seus gestos e movimentos infantis, e de uma simplicidade virginal, vestindo amor sincero sem a ofensa da honrosa virtude: Livres e isentas da ocorrência de dor ou emulação da fortuna adversa: Sentadas sob a sombra da irmã chorosa do Phaeton embranquecido, e da imortal Daphne e do abacaxi peludo com folhas pequenas e afiadas, Cipreste reto, laranjeiras verdes e Cedros altos, e outros excelentes, abundando com folhas verdes, flores doces e frutos agradáveis, ainda florescendo de tal sorte que é inestimável, dispostos uniformemente sobre as graciosas margens, e crescendo ordenadamente a uma distância moderada sobre o solo gramado, investido de Vinca peruince verde ou loureiro. Que coração é tão frio e gelado que não seria despertado para o calor, vendo manifestamente os deveres deleitáveis do amor recíproco, tais como eu estava persuadido que teriam acendido a própria Diana?
Pelo que fui ousado em mostrar aquela loucura que atormentava meus espíritos interiores, invejando ver o que outros possuíam, que era um deleite contínuo no prazer e solaz sem qualquer cansaço na saciedade plena, e assim, diversas vezes, meu coração sendo incendiado pelos meus olhos, e queimando extremamente, minha mente ainda fixada em prazeres deleitáveis e seus beijos estalados, e observando com um olho curioso as recompensas abundantes do deus emplumado, pareceu-me naquele instante que eu contemplava a perfeição extrema do prazer. E por este meio fiquei vacilante e além da medida espantado, e como alguém que tivesse bebido uma poção amorosa, chamando à lembrança os unguentos da maliciosa Circe, as ervas forçosas de Medeia, as canções danosas de Byrrena e os versos mortais de Pânfila, fiquei em dúvida se meus olhos tinham visto algo mais do que humano, e que um corpo vil, desonroso e frágil não deveria estar onde criaturas imortais habitavam.
Depois que fui trazido desses longos e duvidosos pensamentos e imaginações fantásticas, e lembrando-me de todas aquelas formas e corpos divinos maravilhosos que eu tinha visto pessoalmente com meus olhos, soube então que não eram sombras enganosas, nem ilusões mágicas, mas que eu não os tinha concebido corretamente.
E agora, com consideração fervorosa entre estes, observando a Ninfa mais excelente perto de mim, meus olhos cheios de dardos amorosos não cessavam de ferir meu coração apaixonado, pelo que incontinenti todos os meus pensamentos errantes foram despertados, compactados e fixados nela, seu objeto desejado, recordando minha alma mortificada para ser atormentada novamente em suas primeiras chamas, o que sofri cruelmente, por não ousar ser ousado em perguntar se ela era minha desejada Polia, pois ela me colocara em alguma dúvida disso antes, e agora, temendo ofendê-la por ser ousado demais e incômodo demais com minha língua rude e inculta, diversas vezes, quando minha voz estava rompendo entre meus lábios, por essa ocasião eu a reprimi. Mas quem ela deveria ser, estava além do meu alcance imaginar, e fiquei tão suspeito disso quanto o enganado Sócia com o fingido Atlantiades. Assim, com olhares diligentes e buscas cordiais examinando suas feições celestiais invadidas por um desejo ardente além da medida, eu disse a mim mesmo: Oh, que eu pudesse ser, se fosse possível, um homem livre em tal lugar, pois nenhuma tristeza me afligiria, nem perigo iminente me faria temer: embora a fortuna froward se opusesse a mim, eu gastaria minha vida sem qualquer consideração por isso, não me recusando a empreender o trabalhoso e grande empreendimento dos dois portões mostrados ao filho de Anfitrião.
Gastar o auge da minha juventude e o prazer dos meus anos nos perigos mortais dos mares impiedosos, e nos lugares temerosos da Trinacria, com os excessivos trabalhos e terrores de Ulisses, na caverna escura do horrível Polifemo, filho de Netuno, ser transformado na companhia de Calipso, embora eu perdesse a vida, ou suportasse a mais dura e longa servidão de Androdus, pois todo cansaço é esquecido onde o amor é veemente. Empreender com os amorosos Minalion e Ileus correr com Atalanta, ou vir apenas de tal sorte como o forte e poderoso Hércules, por seu amor Deianira, fez com o enorme Achelous, de modo que eu pudesse alcançar um favor tão gracioso, e atingir um deleite tão alto, como permanecer nestes lugares solazes, e acima de tudo desfrutar o amor precioso e a inestimável boa vontade dela, mais bela sem comparação que Cassiopeia, de melhor favor que Castiamira. Ah, mim! Minha vida e morte estão em seu poder! E se for o caso de que pareço indigno de sua companhia e encontros amorosos, ainda assim quisera Deus que me fosse concedido como uma recompensa e privilégio especial olhar para ela: e então eu disse a mim mesmo, oh Poliphilus, se estes pesados e onerosos pesos de conceitos amorosos te oprimem; a doçura do fruto te atrai para isso: e se os perigos peremptórios te atingem com terror, a esperança da sustentação e ajuda de uma Ninfa tão bela te animará a ser resoluto. Assim, sendo meu pensamento diverso, eu disse: Oh Deus, se esta é aquela desejada Polia que vejo neste momento, e cuja impressão preciosa, sem intermissão, tenho carregado em meu coração ardente e ferido, desde os primeiros anos do meu amor até este presente, estou contente com todas as tristezas, e além dela, não desejo outro pedido senão este, que ela possa ser atraída para o meu amor fervente, que possa ser conosco igual, ou que eu possa estar em liberdade, pois não sou mais capaz de dissimular minha dor, ou esconder a extremidade da minha mágoa, eu morro vivendo, e vivendo sou como morto: deleito-me naquilo que é minha dor: vou lamentando: consumo-me na chama, e ainda assim a chama me nutre, e queimando como ouro no cimento forte, ainda me encontro como gelo frio. Ai de mim, que o amor deveria ser mais penoso para mim do que o peso de Iuarime para Tifão. Ele me dispersa mais do que os abutres vorazes as entranhas aglomeradas de Tício: Ele me prende mais do que o labirinto sinuoso: Ele me joga mais do que os ventos do nordeste os mares calmos: Ele me rasga pior do que os cães de Actéon seu mestre fugitivo: Ele perturba meus espíritos mais do que a morte horrível faz aqueles que desejam viver: Ele é mais funesto para meu coração vexado do que as entranhas dos crocodilos para o Ichneumon. E tanto mais é minha dor, que com todo o engenho que tenho, não sei pensar em que parte do mundo deveria estar, senão diretamente diante do fogo doce desta semideusa, que sem qualquer substância corporal me consome: seu abundante e belo cabelo amarelo, uma armadilha e rede para meu coração ser mascarado: sua testa larga e fleumática, como lírios brancos, me prende como com um vime: seus olhares penetrantes tiram minha vida como provocações doces para me afligir: suas bochechas rosadas exasperam meu desejo, seus lábios avermelhados continuam o mesmo, e seus seios deliciosos como a neve de inverno sobre as montanhas hiperbóreas, são as esporas afiadas e o chicote cortante para minhas paixões amorosas: seus gestos adoráveis e semblante agradável atraem meu desejo para um deleite imaginativo, amontoando minha tristeza. E a todos esses martírios insultantes e vexames penosos daquele Cupido ímpio e enganoso eu me exponho, esforçando-me poderosamente para suportá-los, e de nenhuma maneira capaz de resistir a eles, mas de me deixar ser vencido: nem pude evitá-los, mas permaneci ainda como alguém sem saber perdido no pântano da Babilônia.
Oh Tício, tu não podes me persuadir de que tua dor é igual à minha, embora os abutres rasguem teu peito, e tirando teu coração quente e fumegante, o despedacem com seus bicos tortos, e belisquem o mesmo com suas garras afiadas, comendo também o resto de tua carne, até que tenham se engordado, e dentro de um tempo depois tu renovado novamente, eles começam de novo a atacar-te. Tu tens um tempo para ser revivido novamente, e feito são como sempre foste: mas dois olhos sem qualquer piedade ou intermissão feriram-me, devoram e consomem-me, não me deixando tempo de descanso, ou espaço para ser confortado.
E tendo tido estes discursos comigo mesmo, comecei secretamente a lamentar e chorar, e desejar um caminho pelo qual eu pudesse morrer, soltando suspiros profundos como se meu coração tivesse se partido em pedaços com cada um deles. E diversas vezes eu tinha proposto com uma voz lamentável desejar sua ajuda, pois que eu estava no ponto de morte: mas como alguém afogado e sobrecarregado, julguei esse caminho ser vão, e de nenhum propósito, e portanto furiosamente, e como alguém de espírito enfurecido, pensei assim: Por que duvidas, Poliphilus? A morte por amor é louvável, e portanto minha fortuna penosa e maligna, meu acidente doloroso e má sorte no amor de uma Ninfa tão bela, serão escritos e relatados quando eu estiver enterrado. O mesmo será cantado em tons tristes sobre instrumentos doces de música, manifestando a força do amor danoso.
E assim continuando a loucura de meus pensamentos, eu disse: Pode ser que esta Ninfa, por todas as probabilidades, seja alguma deusa reverenda, e portanto meus discursos serão apenas como os juncos estalantes da Arcádia nas margens úmidas e pantanosas do rio Labdone, agitados pelo vento leste afiado, pelo vento norte estrondoso, vento sul nublado e vento sudoeste chuvoso. Além disso, os deuses serão severos vingadores de tal insolência, pois os companheiros de Ulisses teriam sido preservados de afogamento e naufrágio, se não tivessem roubado o gado de Apolo guardado por Phaetusa e sua irmã Lampetia. Órion não teria sido morto por um escorpião, se não tivesse tentado a fria e casta Diana, e portanto, se eu usasse qualquer indecência contra a honra desta Ninfa de qualquer maneira, tal vingança ou pior seria usada sobre mim. Finalmente, saindo destes pensamentos mutáveis, eu me consolei grandemente ao contemplar e considerar a excelente proporção e doce sabor desta Ninfa ingênua e mais rara, contendo nela tudo o que quer que possa provocar conceitos amorosos e amor doce, dando de seus olhos belos olhares tão graciosos e favoráveis, como que por isso eu temperei um pouco meus pensamentos problemáticos e desenfreados. E meus suspiros retumbantes, reflexos com uma esperança lisonjeira (oh, o alimento amoroso dos amantes e molho de lágrimas salgadas), por estas e não outras rédeas eu gerenciei meus pensamentos veementes, e fiz com que parassem em uma esperança concebida, fixando meus olhos com deleite excessivo sobre seu belo corpo e membros bem dispostos, por tudo o que, meus desejos descontentes foram gentilmente mitigados e redimidos daquela fúria e fogo amoroso, que tão perto tinha criado a extremidade de minhas paixões.
A Ninfa leva o enamorado Poliphilus a outros lugares agradáveis, onde ele contemplou inúmeras Ninfas se solazando, e também o triunfo de Vertumnus e Pomona.
De maneira nenhuma fui capaz de resistir à força violenta da artilharia de Cupido, e portanto a Ninfa elegante, tendo amorosamente obtido um domínio irrevogável sobre mim, um amante miserável, fui forçado a seguir ainda após seus passos moderados, que me levaram a uma planície espaçosa e larga, o limite conterminante do vale verdejante e de cheiro doce, onde também terminavam as montanhas adornadas e colinas frutíferas, fechando a entrada para este país dourado, cheio de deleite incrível com sua união conjunta: coberto com árvores verdes de uma espessura e distância conspícuas, como se tivessem sido plantadas à mão, como Teixos, Pinhos selvagens, infrutíferos mas gotejando Resina, abacaxi alto, Abeto reto, árvores de Breu ardente, o Larix esponjoso[A], a Teda aérea[B] amada pelas montanhas, celebrada e preservada para as Oreades festivas[C]. Lá, ambos caminhamos na planície verde e florescente, sendo ela minha guia através dos altos ciprestes, a faia de folhas largas, carvalhos frescos e sombreados cheios de bolotas, e outros carpinos, zimbro espinhoso, avelaneira fraca, freixo fendido, loureiro verde e esculias humbríferas, plátanos nodosos e tilias[D] movendo-se pelo doce sopro do agradável Zéfiro, assobiando através de seus ramos tenros, com uma impulsão benigna e favorável.
[Nota lateral A: Larix, é uma árvore que tem folhas como um pinheiro, e boa para construção, não apodrece, não é comida por vermes, nem se reduz a carvão ao queimar.]
[Nota lateral B: Teda, é uma árvore da qual emana um licor mais fino que o breu.]
[Nota lateral C: Oreades, são ninfas do campo.]
[Nota lateral D: Tilias ou árvores de tilo, em latim Tiliae, dão um fruto do tamanho de um feijão, tendo dentro sementes como sementes de anis.]
Todas essas árvores verdes não estavam espessamente retorcidas juntas, mas a uma distância conveniente uma da outra, e todas elas tão aptamente distribuídas que, para o olho, a visão disso gerava grande deleite.
Este lugar era frequentado por ninfas do campo e Dríades[A], suas cinturas pequenas e esguias sendo cingidas com um trançado de corolas tenras de ramos, folhas e flores e, sobre suas cabeças, seus cabelos que se erguiam eram cercados como por guirlandas. Entre eles estavam os faunos com chifres, e sátiros lascivos, solenizando suas festas faunais, estando reunidos de diversos lugares, dentro deste país fértil e agradável: carregando em suas mãos ramos verdes e estranhos tão tenros, como não são encontrados no bosque da deusa Ferônia[B], quando os habitantes carregam sua imagem para o fogo.
[Nota lateral A: Dríades, são ninfas dos bosques.]
[Nota lateral B: Ferônia uma deusa dos bosques.]
De lá entramos em um grande recinto quadrado cercado por caminhos largos, retos de um canto ao outro, com uma cerca viva em ambos os lados, na altura de um passo, de zimbro espinhoso densamente plantado, e misturado com buxo, cercando o prado verde quadrado. Nas fileiras da qual cerca viva havia palmeiras vitoriosas plantadas simetricamente, cujos ramos estavam carregados de frutas, aparecendo fora de suas cascas, algumas pretas, algumas carmesim e muitas amarelas, as semelhantes não são encontradas na terra do Egito, nem em Dabulam[A] entre os Scenits árabes[B], ou em Hieraconta além dos Sauromatas[C]. Todas as quais eram misturadas com Cidras verdes, Laranjas, Hipomelides, Pistácios, Romãs, Meligotons, Dendromirtos, Nêsperas e Sorbus, com diversas outras árvores frutíferas.
[Nota lateral A: Dabulam, um lugar fértil na Arábia.]
[Nota lateral B: Scenits, são um povo na Arábia, que mora inteiramente em tendas.]
[Nota lateral C: Sauromatas, são povos da Sarmácia, que é um país grande, estendendo-se da Alemanha e do rio Vístula até Hycania, e é dividido em duas partes, Europeia e Asiática.]
Neste lugar, sobre o tapete verde do prado florescente, e sob as sombras frescas e frias, eu podia ver uma grande assembleia reunida de pessoas estranhas, e tais como eu nunca tinha visto antes, cheias de alegrias e passatempos, mas vestidas de forma vil, algumas com peles de faunos, pintadas com manchas brancas, algumas com peles de lince[A], outras de leopardos: e muitos tinham prendido diversas folhas largas, entrelaçando-as com várias flores, cobrindo com elas sua nudez, cantando, saltando e dançando com grande aplauso.
[Nota lateral A: Lince é uma fera manchada, mas em forma como um lobo, sendo de visão rápida.]
Essas eram as ninfas Hamadríades[A], cercando agradavelmente em ambos os lados o Vertumnus[B] florescente, tendo sobre sua cabeça uma guirlanda de rosas, e sua dobra de túnica cheia de belas flores, amando a estação do carneiro lanoso. Ele sentava em um carro de moda antiga, puxado por quatro faunos ou sátiros com chifres, com sua amorosa e bela esposa Pomona, coroada com frutas delicadas, seu cabelo pendendo sobre seus ombros, de uma cor de linho, e assim ela sentava participando do prazer e quietude de seu marido, e a seus pés jazia um vaso chamado Clepsydra[C]. Em sua mão direita ela segurava uma cornucópia cheia de flores, frutas e folhas verdes, e em sua mão esquerda um ramo de flores, frutas e folhas.
[Nota lateral A: Hamadríades eram ninfas do bosque e Symenides.]
[Nota lateral B: Vertumnus o Deus das frutas.]
[Nota lateral C: Clepsydra é por vezes tomada como um relógio medindo o tempo pelo correr da água, mas aqui por um vaso para regar um jardim e mudas jovens em um viveiro para um pomar.]
Antes do carro e dos quatro sátiros que o puxavam, marchavam duas belas Ninfas, uma delas carregava um troféu com uma tábua pendente, sobre a qual estava escrito este título,
_Integerrimam corporis valetudinem & stabile robur castasque mensarum delitias, & beatam animi securitatem cultoribus me offero._
E a outra carregava um troféu de certos ramos verdes atados em conjunto, e entre eles diversos instrumentos rurais fixados. Estas passaram assim seguindo o modo antigo, com grandes cerimônias e muita solenidade, circundando uma grande pedra quadrada como um altar, situada no meio deste belo prado, suficientemente umedecido com correntes que fluíam de formosas fontes.
Esta pedra quadrada ou altar era de puro mármore branco, curiosamente talhado por um hábil lapidário, sobre cada face do qual havia uma expressão maravilhosamente boa de uma imagem elegante, tão exata que a semelhança em outro lugar dificilmente se encontrará.
A primeira era uma bela deusa, suas tranças esvoaçando, cingida com rosas e outras flores, sobre uma veste superior fina cobrindo sua bela e agradável proporção. Ela segurava sua mão direita sobre um antigo vaso, à maneira de um braseiro, chamado Chytropodus, emitindo uma chama de fogo, na qual ela lançava rosas e flores, e na outra mão segurava um ramo de murta doce, cheio de bagas. Ao seu lado estava um pequeno menino alado sorrindo, com seu arco e flechas. Sobre sua cabeça estavam dois pombos. E sob o pé desta figura estava escrito
Florido veri S.
Sobre o outro lado contemplei em uma excelente escultura, a representação de uma donzela de semblante virginal, cuja majestade imponente dava grande recomendação ao curioso engenho do artífice. Ela estava coroada com uma guirlanda de espigas de trigo, seu cabelo esvoaçando, e seu hábito de Ninfa. Em sua mão direita ela segurava uma cornucópia cheia de grão maduro, e na outra mão três espigas de milho, sobre seus talos de palha. A seus pés jazia um feixe de trigo atado, e um menino com restos de colheita em ambas as mãos. A inscrição era esta.
Flauae Messi S.
Sobre o terceiro lado estava a semelhança, em um aspecto divino e nu, de um jovem menino, coroado com folhas de videira, e de semblante lascivo, segurando em sua mão esquerda certos cachos de uvas maduras, e na outra, uma cornucópia cheia de uvas que pendiam sobre a boca da mesma. A seus pés jazia um bode peludo e este escrito por baixo.
Mustulento Autumno S.
O último lado quadrado trazia sobre si uma imagem real soberbamente talhada, seu semblante desagradável e austero, em sua mão esquerda ele segurava um cetro para o alto, em direção aos céus, o ar nublado, conturbado e tempestuoso, e com a outra mão alcançando as nuvens cheias de granizo. Atrás dele também o ar estava chuvoso e tempestuoso. Ele estava coberto com peles de animais, e sobre seus pés usava sandálias, sob as quais estava escrito,
Hiemi Aeoliae S.
Dali a mais bela e agradável Ninfa me trouxe em direção à beira do mar e à costa arenosa, onde chegamos a um antigo templo em ruínas, diante do qual, sobre as ervas frescas e frescas, sob doces árvores sombreadas, sentamo-nos e descansamos, meus olhos observando muito atentamente, com um desejo insaciável, em uma única perfeição e corpo virginal, o acúmulo e a reunião de todas as belezas; um objeto que proibia meus olhos de contemplar qualquer outro gracioso, exceto aquele, ou de tão grande contentamento.
Onde refrescando em uma alegria secreta com novas ideias florescentes meu coração ardente, e deixando de lado as loucuras vulgares e comuns, comecei a considerar o efeito inteligível do amor honesto, e com isso a clareza dos céus, o ar doce e suave, o local deleitoso, a agradável região, a grama verde adornada com a diversidade de flores, as belas colinas ornamentadas com bosques espessos, o tempo tranquilo, ventos frescos e lugar frutífero, belamente enriquecido com correntes difluentes, deslizando pelas vales úmidos entre as colinas curvas em seus canais de cascalho, e para os mares próximos com um curso contínuo descarregando-se suavemente.
Um solo o mais saudável, a grama fresca e doce: e das árvores ressoavam os doces consentimentos dos pequenos pássaros chilreantes. As inundações e campos da Thessalie[A] devem dar lugar a este.
[Nota lateral A: Thessalie é uma região da Grécia, tendo de um lado a Macedonia, e do outro a Boeotia, estendendo-se entre Thermopylae, e o rio Pineus, até a beira do mar, é o jardim da Grecia.]
E ali sentados assim juntos entre as doces flores e rosas redolentes, fixei meus olhos nesta forma celestial de tão bela e rara proporção, à qual meus sentidos estavam tão aplicados, atraídos e viciados, que meu coração estava sobrecarregado com prazeres extremos, de modo que permaneci sem sentido, e ainda lançado em um curioso desejo de entender e saber qual seria a razão e a causa de que a umidade púrpura no toque de seu corpo, na suavidade de sua mão, devesse ser tão branca quanto o leite puro: e por quais meios a natureza havia concedido em seu belo corpo a fragrante doçura da Arabia. E por qual indústria em sua testa estrelada, pampinulada com fios de ouro aptamente dispostos, ela havia fixado a parte mais bela dos céus, ou a resplandecente Heraclea[A].
[Nota lateral A: Heraclea, é o nome de diversas belas cidades, uma nos confins da Europa, outra na Italie e no Pontus junto ao rio Licus, também em Narbon pelo Rodanus, também na Caria, Creta e Lydia, de onde a pedra-ímã tira seu nome.]
Depois, deixando cair meus olhos em direção aos seus pés graciosos, contemplei-os encerrados em couro vermelho cortado sobre branco, presos sobre o peito do pé com botões de ouro em laços de seda azul. E dali retornei para cima meu olhar lascivo ao seu pescoço reto circundado com um colar de pérolas orientais, esforçando-se, mas incapaz de igualar a brancura da doce pele. Dali descendo para seu peito brilhante e seio delicioso, de onde cresciam duas maçãs redondas, tais como Hercules nunca roubou do jardim das Hesperides[A]. Nem jamais Pomona contemplou algo semelhante a estas duas, permanecendo imóveis em seu peito rosado, mais brancas que colinas de neve no pôr do sol. Entre as quais passava um vale delicioso, onde estava o delicado sepulcro de meu coração ferido, superando os famosos Mausolea[B].
[Nota lateral A: Hesperides, eram as 3 filhas de Atlas, Aegle, Aretusa e Hesperetusa, que tinham um pomar de maçãs douradas, guardadas por um dragão a quem Hercules matou e levou as maçãs.]
[Nota lateral B: Um sepulcro construído por Artemisia em honra de seu marido Mausolus, rei da Cania.]
Eu então, estando contente com um coração ferido, compreendendo muito bem que meus olhos o haviam arrastado, moribundo, a todas estas partes elegantes. Contudo, não obstante, não pude refrear e suprimir meus suspiros amorosos inflamados, ou encobri-los tão de perto, a ponto de não expressarem meu desejo interior.
Por meio do que ela foi mudada do amor contagioso e, golpeando com seus olhares furtivos (invejando o mesmo), ela o voltou para mim, de modo que percebi um fogo incensante se difundindo prurientemente através de minhas partes internas e veias ocas: e durante a contemplação de sua raríssima e excelente beleza, um prazer melífluo e um doce consolo me constrangeram a isso. Assim desordenadamente golpeado pelo esporo importuno do desejo insaciável, encontrei-me atacado pela mãe do amor, cercado por toda parte por seu filho flamígero, e invadido por uma forma tão bela, que fui, com estas e outras circunstâncias tão excelentes, trazido a tal agonia de mente e enfermidade de corpo, e de tal sorte enfraquecido, que o menor fio de cabelo de sua cabeça era uma atadura forte o suficiente para me prender, e cada trança enrolada uma corrente e grilhão para me encarcerar, sendo alimentado com a doçura de sua beleza, e fisgado pelas iscas agradáveis de seus prazeres amorosos, que eu não era capaz, com qualquer dispositivo astuto, de resistir aos calores invasores e desejos provocantes que ainda vinham sobre mim, de modo que determinei antes morrer do que suportar isso por mais tempo, ou neste lugar solitário oferecer-lhe qualquer desonra.
Então novamente determinei, com humildes pedidos e súplicas submissas, dizer isto:
Ai, Polia mais deleitada, neste momento morrer por ti é uma coisa que desejo, e minha morte, se fosse efetuada por estas tuas mãos pequenas, delgadas e belas, o fim dela seria para mim mais tolerável, doce e glorioso, porque meu coração está cercado por tais chamas atormentadoras, aumentando ainda mais e mais cruelmente, e queimando-o sem piedade ou interrupção, de modo que por meio disso estou privado de todo descanso.
E aqui, pretendendo colocar em execução outro propósito determinado, eis que meu coração foi atormentado com chamas mais agudas, que me pareceu que eu estava todo em chamas. Ah, ai de mim, o que te aconselhaste a fazer, Poliphilus? Lembra-te da violência feita a Deianira e à casta dama romana. Considera o que se seguiu para elas como recompensa, e para diversas outras.
Lembra-te de que poderosos príncipes foram rejeitados por seus inferiores, quanto mais então uma pessoa baixa e abjeta, mas o curso do tempo dá lugar àqueles que esperam pela sua generosidade. O tempo faz com que os leões ferozes fiquem mansos, e qualquer besta furiosa: a pequena formiga, por longo trabalho, armazena seu alimento de inverno na árvore dura, e não haverá uma forma divina escondida em um corpo humano que tome a impressão do amor fervoroso e, então, segurando o mesmo, sacuda todas as paixões incômodas e vexatórias, esperando desfrutar de frutos amorosos, efeitos desejados e agonismos triunfantes?
A Ninfa Polia, percebendo bem a mudança da minha cor e o sangue chegando de forma mais estranha do que o Tripolion ou Teucrion, três vezes ao dia mudando a cor de suas flores, e meu esforço em enviar suspiros escaldantes profundamente postos do fundo do meu coração, ela temperou e mitigou os mesmos com seus olhares doces e amigáveis, pacificando a fúria de minhas paixões opressoras, de modo que, não obstante minha mente ardente nestas chamas contínuas e agudas provocações de amor, eu fui aconselhado a esperar pacientemente, mesmo com o pássaro da Arabia em seu doce ninho de pequenos ramos, acendido pelo calor do sol, para ser renovado.
FIM.
+QUEM QUER QUE SEJAS, TIRA DESTE TESOURO O QUE TE AGRADAR. MAS ACONSELHO-TE: AO PEGARES A CABEÇA, NÃO TOQUES NO CORPO.+
...POR MAIS QUE LHE APRAZA, DESTE TESOURO TIRA; ADMOESTO...
+AOS DEUSES AFRODITE E AO SEU FILHO EROS, DIONISO E DEMÉTER, DOS SEUS PRÓPRIOS MEIOS, OS MAIS COMPASSIVOS.+
+SEMPRE TE APRESSA LENTAMENTE+
+TUDO É TOKADI+
+DE TUDO É TOKADI+
+PARA MIM DOCE E TAMBÉM AMARGO+