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I am a woman

by Ann Bannon · in Portuguese

EU SOU UMA MULHER

Um romance original Gold Medal de ANN BANNON

Gold Medal Books

FAWCETT PUBLICATIONS, INC. FAWCETT BLDG., FAWCETT PLACE, GREENWICH, CONN.

Copyright © 1959 por Fawcett Publications, Inc.

Segunda impressão, abril de 1959

Todos os direitos reservados, incluindo o direito de reproduzir este livro ou partes dele.

Todos os personagens deste livro são fictícios e qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.

Impresso nos Estados Unidos da América

Capítulo Um

Diga ao seu pai para ir para o inferno. Tente. É uma coisa terrivelmente difícil de fazer, mesmo que ele mereça. Merrill Landon era. Ele era um canalha de marca maior, mas, como a maioria da raça, não sabia disso. Ele dizia ser um bom pai: sensato, firme e justo. Dizia que tudo o que fazia era para o próprio bem de Laura. Ele tomava a oposição dela como um sinal de que ele estava certo, e quanto mais ela se opunha a ele, mais certo ele jurava estar.

Mas ele era um canalha. Laura poderia ter lhe dito isso. Mas não podia dizer a ele, porque ele era seu pai. Foi por isso que ela fugiu dele. Deixou-o a ver navios, aos berros em seu luxuoso apartamento em Chicago, com apenas seu trabalho para consolá-lo. E nunca lhe disse para onde foi. Nunca lhe disse por quê.

Nunca lhe contou da agonia furiosa de suas noites, passadas a arder por um amor que deu errado. Nunca mencionou sua versão amarga e puritana de afeição paternal que a machucava mais do que seus acessos de raiva. Ele nunca a beijou. Nunca a tocou. Ele apenas lhe dizia: “Não, Laura”, e “Você está errada, como sempre”, e “Você não pode fazer direito por uma vez?”.

Ela aguentou tudo a vida inteira, mas foi pior no ano seguinte à sua saída da escola. Foi um ano de confinamento no luxo, de ressentimento rigidamente controlado, de exame de consciência. E numa noite de chuva, quando ele estava fora num jantar com a imprensa, ela fez uma pequena mala e foi para a Union Station. Comprou uma passagem para Nova York. Ela nunca poderia estar livre de si mesma, mas poderia estar livre de seu pai, e naquele momento isso era o que mais importava.

Então, ela partiu da cidade grande, úmida e fria com seu brilho de janeiro, e deixou para trás Merrill Landon, seu pai. O homem em sua vida. O único homem em sua vida. O único homem que ela tentou amar seriamente.

Tudo o que ela queria de Nova York era um emprego, um lugar para morar, um ou dois amigos. Desde que os conquistasse sozinha, sem a ajuda de seu pai, seria feliz. Muito mais feliz do que quando estava cercada por confortáveis cadeiras de couro, vestida com roupas finas e elegantes, cheirando a uma rosa cara.

Na escola, Laura estudou jornalismo. Fez isso para evitar um confronto com Merrill Landon. Ele sempre tomou como certo que ela seguiria sua profissão, como se ela fosse um filho devoto ansioso por imitar um pai bem-sucedido. Ela aceitou sua tirania silenciosamente, mas com um ressentimento corrosivo do qual ele não tinha consciência. Houve momentos em que ela o odiou tão ativamente por torná-la sua escrava que ele percebeu e disse: “Laura, pelo amor de Deus, não faça bico para mim! Saia dessa. Aja de acordo com sua idade.”

Laura tinha mais medo de amar Landon do que de deixá-lo. Tinha medo de que o anseio dentro dela explodisse algum dia, quando ele lhe desse um de seus raros sorrisos. Quando ele dizia: “Klein diz que você está aprendendo rápido. Boa garota.” E seus joelhos fraquejavam. Mas ele a salvava ao acrescentar rapidamente com um sarcasmo embaraçado: “Mas você estragou a tarefa da torre de água. Jesus, eu nunca posso contar com você, não é?”.

Quando as coisas se tornaram intoleráveis, ela finalmente o deixou sem nenhum confronto. Ela pensou em entrar para contar a ele sobre isso. Entrar na biblioteca onde ele trabalhava, onde ela era expressamente proibida de entrar à noite, e dizer: “Pai, estou deixando você. Vou para Nova York. Não aguento mais isso aqui.”

Ele teria sido brilhantemente sarcástico. Ele a teria descrito para si mesma em termos tão exagerados que ela se veria como um erro grotesco da natureza, uma aberração num espelho de parque de diversões. Ele não estava acima de tal abuso. Ele tinha feito isso com ela algumas vezes antes. Uma, quando ela era muito jovem e ainda não tinha aprendido a andar na ponta dos pés em torno de seu temperamento, e outra quando ela largou a escola.

Nem todas as suas ameaças e acessos de raiva poderiam mandá-la de volta para a escola, no entanto. Havia um fantasma à espreita lá que Laura nunca poderia enfrentar, sobre o qual Landon não sabia nada. Ele foi forçado a deixá-la ficar em casa, mas a comprometeu imediatamente com o jornalismo e a fez trabalhar em seu jornal com um de seus assistentes.

Até Laura se surpreendeu quando foi capaz de resistir a ele sobre voltar para a escola. Ela não teria pensado que conseguiria aguentar. Especialmente quando ele rugia para ela: “Por quê? Por quê! Por quê! Por quê! Responda-me, sua pequena cadela teimosa!” E espatifava um cinzeiro a seus pés.

Ela não, não podia, dizer-lhe o porquê. Foi preciso toda a sua coragem para admitir isso até para si mesma. Ela simplesmente disse: “Não vou voltar, pai.”

“Por quê!”

“Não vou.”

“Por quê?” Foi ameaçador desta vez.

“Não vou voltar.”

No fim, ele a xingava e a machucava com o mesmo argumento feio e irrelevante que sempre usava quando ela resistia a ele. “Você sabe por que está viva hoje, não sabe? Porque eu salvei você! Eu arrastei você para fora da água e deixei sua mãe se afogar. E seu irmão. Eu só pude salvar um, e foi você que eu salvei! Deus, que erro. Meu filho. Minha esposa!” E ele se virava, gemendo.

“Você não estava tentando me salvar, pai”, ela disse uma vez. “Você só agarrou o mais próximo e nadou para a margem. Você gritou para a mamãe salvar o Rod e depois me arrastou para a margem. É um milagre que você tenha salvado até a mim. Veja bem, eu também me lembro. Lembro-me muito bem.”

Ele virou um rosto pálido e furioso para ela. “Você ousa me dizer do que você se lembra? Sua garotinha boba de rosto pálido? Você não se lembra de nada! Não me diga do que você se lembra!”

Então ela escolheu uma noite em que ele estava fora e deixou-o sem uma palavra, no início de um janeiro hostil, e veio para Nova York. Seu primeiro pensamento foi tentar conseguir trabalho em um dos grandes diários. Com sua experiência, certamente eles poderiam encontrar algo para ela. Mas então percebeu que seu pai era muito conhecido nos círculos jornalísticos. Ela odiava a ideia de ele a encontrar. Ele a batera mais de uma vez, e sua raiva dela às vezes atingia tais alturas que ela tremia de terror, esperando que ele a brutalizasse. Mas nunca chegou a tanto.

Não, jornais estavam fora de questão. Revistas estavam fora de questão. Teria que ser algo completamente divorciado do mundo do jornalismo. Ela estudou os classificados por semanas. Tentou conseguir um emprego como recepcionista numa companhia aérea estrangeira, mas seu francês era muito ruim.

Então, depois de cerca de duas semanas, ela encontrou um pequeno anúncio para uma secretária substituta de um radiologista proeminente, alguém com preferência por experiência. Isso a atraiu, sem que ela soubesse exatamente o porquê. Ela não supunha realmente que tivesse muita chance de conseguir e era bobagem tentar. Quem queria um emprego temporário? Supunha-se que a maioria das garotas quisesse segurança. Mas Laura não era como a maioria das garotas. Ela era como pouquíssimas garotas, na verdade. Ela era solitária: estranha, cheia de sonhos, levemente neurótica, curiosamente interessante, como alguém que tem um segredo.

Na manhã seguinte, ela estava no escritório do Dr. Hollingsworth, falando com sua secretária. A secretária, uma garota tremendamente alta, de ossos largos, rosto amigável e uma espécie de feminilidade desconfortável, gostou dela imediatamente.

“Sou Jean Bergman”, disse ela. “Entre e sente-se. O Dr. Hollingsworth ainda não está aqui; ele chega às nove.”

Laura se apresentou e disse que gostaria de ficar com o emprego. Ela era uma trabalhadora esforçada. Jean estava disposta a acreditar nela, por um palpite. Foi uma daquelas sortes.

“Falei com algumas outras garotas”, disse ela, “mas ninguém parece ter tido experiência. As garotas com treinamento querem empregos permanentes. Então, acho que terei apenas que encontrar uma iniciante brilhante.”

Laura sorriu para ela. Falou como se estivesse decidido. “O emprego vai durar até primeiro de junho, Laura”, continuou Jean. “Estarei fora por dois meses. Passaremos o tempo até lá ensinando a rotina para você. Sarah virá em um minuto — ela é a outra secretária. Haverá muito o que fazer para nós três.” Ela pausou, observando Laura criticamente. “Bem? Você acha que gostaria de tentar?”

“Sim, eu gostaria.” Laura sentiu seu coração se aliviar.

“Ok.” Jean sorriu. “Sou uma alma confiante. Você me parece o tipo eficiente. Claro, terei que apresentá-la ao Dr. Hollingsworth. Você entende. Agora não me decepcione, Laura.”

“Não vou. Obrigada, Jean.”

“Você pode se tornar indispensável, sabe”, disse Jean. “Quero dizer, eles realmente precisam de três garotas por aqui. Se eles gostarem o suficiente de você — bem, talvez eles a mantenham em junho. É apenas uma chance; não conte com isso.”

Laura sentiu-se realmente valiosa pela primeira vez desde que saiu de casa. Ela nunca tinha considerado voltar atrás, mas houve momentos em que os classificados áridos a desencorajavam e o clima úmido e cortante abatia seu espírito. Agora, o sol brilhava através da chuva.

* * * * *

Acabou sendo um ótimo escritório para trabalhar. Médicos têm um senso de humor maluco e costumam ser tolerantes. O Dr. Hollingsworth era pequeno e quieto, bastante digno, mas de coração terno. Ele tinha dois jovens assistentes, o Dr. Carstens e o Dr. Hagstrom. Ambos recém-saídos da faculdade de medicina — rapazes agradáveis. Carstens era casado, mas com um olho que vagueava descontroladamente. Cada paciente do sexo feminino o fascinava, mesmo que ele não visse mais do que seus pulmões. Hagstrom tinha uma namorada fixa chamada Rosie, com quem mantinha conversas intermináveis ao telefone. Ambos eram dedicados ao Dr. Hollingsworth e se consideravam sortudos por estar com ele.

Laura caiu na rotina rapidamente. Ela era muito mais lenta que as outras garotas em traduzir o blá-blá-blá do ditafone no início. Ela passava quase metade do tempo procurando termos no dicionário médico e o resto batendo na máquina de escrever.

O problema de encontrar um lugar para morar antes que as contas do hotel a quebrassem era urgente. Ela descobriu rapidamente, como a maioria dos recém-chegados a Nova York, que era uma verdadeira luta encontrar um apartamento decente a um preço decente. Ela perguntou a Jean sobre isso.

“Estou travada”, disse ela. “Onde as pessoas moram nesta cidade?”

“O que há de errado comigo?” disse Jean. “Eu deveria ter perguntado se você tinha um lugar. Conheço uma garota que está procurando uma colega de quarto. A que ela tinha acabou de se casar. Vou ligar para ela.”

Mais tarde, ela disse a Laura: “Falei com ela. Ela diz que algumas garotas já perguntaram, mas que ligue se você quiser. Ela ainda não se decidiu. Ela é um doce, você vai gostar dela. Aqui está o número dela.”

“Qual é o nome dela?”

“Marcie Proffitt. Sra. Proffitt.” Ela riu da consternação de Laura. “Ela é divorciada”, disse ela.

Laura ligou imediatamente.

“Estou na West End e na 101”, disse Marcie quando Laura a contatou. Sua voz era baixa e atraente. Laura esperava que ela parecesse com o que soava. “A cobertura”, disse Marcie. “Não é trancada. Você tem que subir o último lance de escadas a pé.”

“Uma cobertura?” Laura disse, surpresa. “Jean disse...”

“Não é tão chique quanto parece”, Marcie riu. “Na verdade, está caindo aos pedaços. É assim que posso pagar. Mas tem uma vista maravilhosa. Venha hoje à noite. Vou lhe dar um jantar. Posso me atrasar, no entanto, então vou deixar uma chave para você embaixo do capacho.”

“Obrigada, Marcie, eu adoraria.” Laura se perguntou, quando desligou, se a hospitalidade de Marcie era sempre tão impulsiva.

* * * * *

Estava escuro e ventando quando Laura saiu do metrô na Rua 99. Ela andou os dois quarteirões pela Broadway até a 101, mantendo a gola do casaco fechada em volta da garganta.

O prédio de apartamentos ficava a um quarteirão da Broadway, subindo uma colina na esquina da West End Avenue. Tinha sido um endereço chique uma vez, alguns anos atrás, quando a West End era um bairro exclusivo. Mas estava se deteriorando agora, silenciosamente, quase imperceptivelmente, escorregando para as mãos de pessoas comuns — famílias com muitos filhos e pouco dinheiro, estudantes, garotas que trabalham. E a alta sociedade estava saindo silenciosamente e indo para o outro lado da cidade.

Laura entrou no vestíbulo. Parecia o saguão de recepção em um forte medieval. A única luz vinha de uma pequena lâmpada nua sobre uma escrivaninha em um canto. Todo o saguão estava cheio de sombras pesadas.

Laura encontrou o elevador escondido num canto e apertou o botão. Ela girou lentamente sobre os calcanhares para olhar o saguão enquanto esperava. Aquilo lhe deu arrepios.

Ela entrou no elevador com receio. Parecia bem usado e pouco limpo. Havia um adesivo de papel colado na parede acima do painel de botões dizendo que tinha passado na inspeção até junho daquele ano. Laura olhou para cima e para baixo e se perguntou se duraria até junho. Ela chegou ao décimo segundo e último andar e caminhou para um corredor. À direita do elevador, ela encontrou um par de portas giratórias e, além delas, uma escada de aço. Ela subiu as escadas, seus saltos ecoando, e se viu num corredor curto e escuro com duas portas: uma para a cobertura, outra para o terraço. Laura foi ao terraço para dar uma olhada.

Ela caminhou sobre os ladrilhos vermelhos em direção a um grifo de pedra esculpido no parapeito e olhou por cima dele para a cidade. Abaixo dela, ao redor dela por todos os lados, Nova York brilhava. Ela buzinava e gritava lá embaixo, murmurava e suspirava, piscava e reluzia como uma linda prostituta esperando para ser conquistada. Laura respirou fundo e sorriu secretamente para ela. Ela poderia viver com um saguão úmido e um elevador remendado por uma vista como aquela.

Passaram-se dez minutos antes que ela entrasse no corredor escuro novamente e encontrasse a porta da cobertura. Ela tocou a campainha duas vezes e, quando não houve resposta, tateou na escuridão pela chave debaixo do capacho e destrancou a porta. Abriu-se para uma sala de estar sem luz. Laura entrou, fechou a porta atrás de si e tropeçou por aí procurando um interruptor. Derrubou algo de uma mesa e ouviu quebrar antes de descobrir uma luminária num canto distante e puxar o cordão.

A sala era pequena e mobiliada com móveis de bambu — um sofá, uma poltrona, uma mesa de centro redonda. Havia um rádio de console contra uma parede, e livros estavam espalhados pelo chão e pelos móveis. Havia alguns cinzeiros cheios e um estava estilhaçado no chão — culpa de Laura.

Laura encontrou o interruptor na cozinha. Era longa e estreita, pintada de um amarelo berrante. Além dela ficava o quarto, com duas camas e duas cômodas amontoadas, e alguns sapatos e roupas íntimas espalhados. Era azul brilhante, com duas janelas grandes que davam para o terraço. O banheiro era enorme, quase tão grande quanto o quarto, e do mesmo amarelo barulhento da cozinha. Todos os canos estavam expostos e a canalização parecia estar cheia de insetos.

Laura voltou para a sala de estar e sentou-se rigidamente. Começou a ter sérios receios. Aquele não era um lugar para uma garota civilizada morar. Certamente, nesta cidade tremenda, havia um apartamento para uma garota que não tivesse um aluguel astronômico. E onde ela pudesse comer em particular, direto das latas.

De repente, a porta se abriu e Marcie entrou. E Laura esqueceu seu desconforto.

Marcie sorriu. “Sou Marcie. Oi.”

Laura amaldiçoou a timidez que dava nós em sua língua.

“Como você gosta deste pequeno palácio maluco?” Marcie disse, gesticulando grandiosamente ao redor.

“É muito legal.”

Marcie riu, e Laura ficou impressionada com a doce perfeição de seus traços. Seus lábios eram cheios e bem equilibrados; seu nariz era de tamanho médio e delicado. Cabelo com um tom de ouro verdadeiro que nenhum peróxido pode imitar emoldurava seu rosto e caía quase até os ombros. Ela tinha os cílios e sobrancelhas pretos de sorte que às vezes acontecem com loiras, e cor alta nas bochechas. Ela era, em suma, uma garota de aparência adorável. Laura sorriu para ela.

“É um buraco”, disse Marcie. “Não seja educada. O aluguel é cento e trinta por mês.”

Laura ofegou.

“Eu sei. Soa horrível. Mas são apenas sessenta e cinco para cada. E inclui serviço de camareira — o chamado. A camareira não limpa porcaria nenhuma. Você viu o resto do lugar?”

Laura assentiu.

“Desanimada?”

“Um pouco.” Laura seguiu Marcie desajeitadamente até a cozinha.

“É melhor você saber o pior logo de cara”, continuou Marcie. “Três outras garotas ligaram querendo dividir este lugar comigo.” O rosto incrédulo de Laura a fez rir. “Não é que o lugar seja irresistível”, explicou ela. “É apenas que apartamentos são difíceis de conseguir nesta cidade. Sente-se, Laura.” Laura obedeceu, encontrando uma cadeira na mesa da cozinha enquanto Marcie se ocupava no fogão. “Você está aqui há muito tempo?”

“Três semanas.”

“De onde você veio?”

“Chicago.”

“Ah, esse lugar. Estive lá uma vez com Burr. Ele era meu marido.”

“Ah”, Laura disse suavemente, quase com simpatia, como se Marcie tivesse anunciado seu falecimento.

“Bem, não faça cara feia”, Marcie disse com uma risada repentina. “Ele é divorciado, não morto. Foi definitivo em novembro passado.” Seu rosto ficou sério novamente e ela deu a Laura um prato de vegetais e hambúrguer. “Ele é muito legal de se conhecer”, Marcie refletiu. “Mas um inferno para se viver junto. Laura, você cozinha?”

“Não sei nem ferver água.”

“Bem, isso eu sei fazer.”

Marcie caiu em silêncio então, sua explosão de vitalidade encantadora esgotada. Ela comeu calmamente, como se não percebesse a presença de Laura, olhando para a toalha de mesa e garfando sua comida mecanicamente. Ela tinha se retirado repentina e silenciosamente para um canto privado onde a fadiga e pensamentos secretos a absorviam.

Laura sentiu-se mais desajeitada do que nunca. Tinha medo de interromper o devaneio de Marcie, mas, como todas as pessoas tímidas, estava convencida de que, se pudesse manter a outra pessoa falando, tudo ficaria bem. Era um impulso ao qual ela não podia resistir. Após alguns falsos começos, ela disse: “Você está em Nova York há muito tempo, Marcie?”

Marcie olhou para ela, levemente surpresa por encontrá-la ainda ali. “Sim. Desde que nos casamos.” Ela falou distraída, voltando-se para seu prato.

“Quando foi isso?”

“Três anos atrás.” Ela voltou repentinamente ao presente. “Laura, você já amou um homem e o odiou ao mesmo tempo?”

Laura ficou perplexa. Isso era mais do que ela contava. “Bem... eu não sei exatamente.” Ela não tinha certeza se alguma vez amou Merrill Landon. Ela sabia muito bem como o odiava.

“Eu não deveria jogar meus problemas na sua cara assim, antes de você jantar”, Marcie sorriu. Ela estendeu a mão e deu um tapinha no braço de Laura que a fez pular um pouco. “É só que aquele canalha me pediu em casamento de novo hoje. Não sei o que fazer com ele. Pensei que talvez você pudesse me dar algum conselho. Você já foi casada?”

“Eu? Não”, disse Laura enfaticamente, como se fosse uma sugestão levemente obscena. “Quem é ‘aquele canalha’?”

“Burr. Meu ex-marido.”

“Ele quer se casar com você de novo?” Parecia antinatural para Laura. Se o casamento estava legalmente acabado, fisicamente acabado, emocionalmente acabado, por que bater na carcaça?

“Sim. O tolo.” Marcie sorriu com pesar. “Ele é um tolo muito persuasivo, no entanto.”

Marcie era uma daquelas pessoas com o raro dom da intimidade. Você a conhecia por alguns minutos, uma hora, um par de dias, e descobria, para sua surpresa, que se sentia próxima dela. Não eram as revelações pessoais que ela não podia evitar fazer, tanto quanto era seu olhar, suas perguntas que pediam a ajuda de Laura. Laura sentia-se curiosamente como uma especialista em assuntos conjugais, e era tão ridículo que ela sorriu.

“O que é engraçado?” perguntou Marcie.

“Você me faz sentir como a senhorita Solitária ou algo assim”, disse Laura.

Marcie riu. “Você não precisa me dar conselhos, Laura, só porque eu os peço. Acho que você nem pode, de qualquer forma, se é solteira. Mas, só por curiosidade, o que você faria se um ex-marido decente e honrado te perseguisse como um demônio e jurasse que te mataria se você saísse com outra pessoa?”

“Eu o mandaria para uma clínica.”

Marcie balançou a cabeça. “Ele é saudável. Se eu não soubesse que brigaríamos vinte e quatro horas por dia, eu me casaria com ele amanhã.” Ela suspirou. “Eu quase disse sim para ele hoje. O que há de errado comigo? Eu não sou uma idiota. Ou será que sou?”

“Você não parece ser uma”, disse Laura, desconfortável.

“Pobre Laura!” Marcie riu. “Estou te deixando mortalmente envergonhada. Você é uma ótima ouvinte. Vamos, termine seu hambúrguer. Ele não me matou.”

Quando terminaram de lavar a louça, Marcie abriu a torneira da pia. Um jato de água hesitante e fino foi evocado após alguns gemidos lamentáveis dos canos. Marcie chutou um cano sob a pia.

“É o suficiente para deixar qualquer um louca!” exclamou ela. “Algumas noites você tem que esperar até que as vacas voltem para casa antes que haja água o suficiente para lavar qualquer coisa. Oh, lá vem!”

Com um grito, os canos vomitaram água fervente. Marcie olhou para Laura e o pequeno sorriso em seu rosto se alargou. De repente, elas riam histericamente. Laura sentiu o riso acalmando e formigando seus músculos tensos, fazendo-a relaxar.

“Isso me odeia”, disse Marcie para a pia, agarrando as torneiras e sacudindo-as furiosamente. O jato parou abruptamente. Ela se virou para Laura novamente. “Você acha que consegue aguentar?”, disse ela.

“Acho que sim.” Laura sabia agora por que queria se mudar, mas estava pronta para ignorar o motivo. Ela o enterraria, esqueceria. Aquilo não tinha mais lugar em seu mundo. Ela diria a si mesma, e meio que acreditaria, que estava se mudando simplesmente porque apartamentos eram difíceis de encontrar; porque ela podia pagar o aluguel daquele; porque ela e Marcie eram compatíveis. Ponto final. “Como é seu trabalho?”, perguntou ela a Marcie casualmente.

“Eu deveria ser datilógrafa e recepcionista”, disse Marcie. “Mas eu nunca soube datilografar muito bem. O Sr. Marquardt não se importa, no entanto. Ele só me disse para causar uma boa impressão em seus clientes e não mascar chiclete no trabalho. Eu disse a ele que isso seria moleza, e ele disse: ‘Você está contratada.’” Ela riu. “Ele é maluco. Mas é um ótimo emprego. Fico sentada a maior parte do dia.”

Com aquela cara, não me surpreende, pensou Laura. Aquilo lhe deu uma sensação ruim. Laura trabalhava duro, ela se esforçava muito em tudo o que fazia. Fazia parte de sua natureza. Ou você fazia uma coisa por completo ou não fazia de jeito nenhum. Era parte do código de Merrill Landon que tinha passado para ela. Deixava-a um pouco invejosa ouvir aquela garota adorável tratando com descaso um emprego confortável que quase não exigia nada dela. Marcie não teria entendido os sentimentos de Laura de forma alguma.

“Você vai se dar bem com Burr”, disse Marcie, secando as mãos em uma toalha. “Ele está sempre lendo alguma coisa. Aqueles são os livros dele ali.” Ela acenou com a mão em direção à sala de estar. “Ele os traz aqui na esperança de que eu melhore minha mente.” Ela fez uma careta e Laura sorriu para ela.

“Ele vem muito aqui?”, perguntou Laura.

“Sim, mas não se preocupe. Ele é inofensivo. Ele fala como Hamlet às vezes — sombrio, quero dizer —, mas é gentil com cães e crianças. Ele também tem um periquito. Sempre penso que um homem que tem um periquito não pode ser muito cruel. Além disso, morei com ele por dois anos, e o pior que ele já fez comigo foi me dar umas palmadas uma vez. Gritávamos um com o outro constantemente, mas não nos batíamos.”

“Parece tranquilo”, disse Laura.

Marcie riu e foi para o quarto. “Veja se acha que terá espaço suficiente aqui”, ela chamou para Laura, que a seguia lentamente. “É bem apertado, mas o banheiro compensa. Poderíamos isolá-lo e fazer dele um quarto extra, se quiséssemos.”

Laura sentou-se em uma das camas. “Eu gosto bastante, Marcie”, disse ela. “Eu gostaria de me mudar. Se você acha que nos daríamos bem.” Ela olhou para o colo, confusa. Ela nunca dizia essas coisas do jeito certo. Marcie riu de bom humor e se jogou na cama ao lado de Laura, de bruços. Laura teve que se virar para vê-la. “Ah, eu consigo me dar bem com qualquer um”, disse ela. “Até com você. Aposto que você é terrivelmente difícil de conviver.”

“Não acho. Quer dizer...” Ela nunca sabia quando estava sendo provocada até que tivesse feito uma cara solene e se sentido uma idiota. “Eu sou impossível”, disse ela com um sorriso.

“Isso resolve tudo!”, exclamou Marcie, sentando-se com o travesseiro apertado contra o peito.

Capítulo Dois

Elas se deram excepcionalmente bem, à medida que as semanas se transformavam em meses. Abril chegou, e Jean partiu para sua excursão europeia. Laura e Sarah ficaram sozinhas no escritório com os médicos, e Laura trabalhou com vontade para compensar o que ainda tinha que aprender. A cada dia, cada fato adquirido e habilidade aprimorada, o trabalho significava mais para ela.

Em casa, não havia cenas ou suspeitas, como as colegas de quarto costumam ter talento para criar. Laura era quieta, timidamente amigável, atenciosa. Marcie lhe deu um curso intensivo de culinária, viu um filme ocasional com ela e perguntou-lhe como se soletravam as coisas. A maior parte de seu tempo livre era passada com Burr.

Laura gostava muito de Marcie. Ela tentava manter as coisas assim. Sentia-se aliviada, com o passar do tempo, que sua amizade não se complicasse por sentimentos mais fortes.

Eu gosto da Marcie, e é só isso, ela ponderou para si mesma uma vez. Isso lhe dava uma certa satisfação que a maioria das mulheres não teria entendido.

Quanto a Marcie, ela se divertia um pouco com Laura; com sua modéstia, que parecia tão antiquada; com sua timidez; com seus livros. Mas ela sentia um afeto real por ela. Laura não era muito de fofocas, mas sempre ouvia as confissões compulsivas de Marcie. Ela era gentil e compreensiva. Suas ideias eram diferentes, e Marcie a ouvia com respeito.

Laura não era bonita, mas em certos ângulos, com certas expressões, ela era marcante e até memorável. Nem todos viam essa qualidade; nem todos se davam ao trabalho de estudar seus traços. Mas eles tinham um apelo curioso para aqueles que o faziam. Seu rosto era longo e fino, e sua tez pálida. Mas seus olhos eram profundos e azuis como centáureas. Se Marcie os tivesse estudado, poderia ter visto mais sabedoria mundana do que imaginava em sua colega de quarto amante de livros.

Laura tinha uma boa compreensão do que significava ser mulher; do que significava viver profundamente, completamente, mesmo quando não durava; do que significava ser um perdedor. E todos devem perder pelo menos uma vez antes de poderem entender o que é vencer.

* * * * *

Burr tinha vindo na noite seguinte à mudança de Laura. Ele era de estatura média, mas de constituição poderosa, com um rosto agradável. Seu cabelo castanho era cortado bem curto, seus olhos castanhos brilhavam com zelo, como os de um homem com uma missão. Sua missão, aparentemente, era Marcie. Ele parecia adorá-la; era tão claro, de fato, que fazia você se perguntar se era real.

Ele entrou na cozinha onde Laura e Marcie estavam terminando de lavar a louça, agarrou Marcie sem uma palavra para Laura — ele parecia nem vê-la — e a beijou apaixonadamente. Laura, autoconsciente, secou um prato, colocou-o na prateleira do armário e começou a recuar para fora da sala.

“Burr! Você poderia ter dito olá!”, Marcie arfou quando ele a soltou. “Laura, não vá. Este é...” Mas ele a beijou de novo. Desta vez, quando ele a soltou, ela estava furiosa. Era lindo de ver. Laura estava exultante com a força daquilo. Marcie, que estava sempre cheia de risadas, estava surrando Burr com um pano de prato molhado e chamando-o de “Seu bastardo!”. Seus olhos faiscaram, e ela golpeou o rosto dele com unhas longas e meticulosamente pontiagudas. Laura foi em direção ao quarto, mas Marcie se virou e a pegou.

“Ah, não!”, disse ela, puxando Laura de volta. “Eu quero que você veja com quem me casei. Quero que você me diga se não fui esperta ao me divorciar. Olhe para ele.”

Burr, com o rosto úmido da água da louça, explorava suavemente um ferimento causado pelas unhas com um dedo.

Laura tentou recuar, mas Burr a viu então e sorriu. “Olá, Laura”, disse ele. “Você terá que perdoar minha charmosa esposa. Ela é muito emocional.”

“Eu não sou sua esposa!”, rebateu Marcie.

Laura não podia deixar de pensar que tudo aquilo era uma piada. Ambos pareciam estar gostando demais.

Burr ignorou Marcie. “Você provavelmente nunca viu esse lado dela”, comentou ele com Laura. “Eu costumava recebê-lo uma ou duas vezes por dia, como remédio. Finalmente me levou ao divórcio.” Marcie jogou uma toalha nele e ele sorriu agradavelmente para Laura. “Mas não deixe isso te incomodar. Você nunca terá que se casar com ela, então evitará o problema.”

Houve uma pausa tempestuosa. “Quer um café?”, disse Laura de repente para Burr.

“Vou preparar um drinque para ele”, suspirou Marcie. “Ele odeia café.”

“Eu não odeio. Por que você exagera, querida?”

“Bem, você bebe aquela porcaria horrível de Postum, como todos os avôs.”

“Não é porcaria. É muito melhor para você do que café, posso te garantir isso.”

“Então por que você não vive disso, querido?”

“Se eu quisesse sarcasmo esta noite, teria ido à casa da Chita.”

“Aquela prostituta!”

“Eu... eu acho que vou me deitar”, disse Laura suavemente e apressou-se em direção à porta.

“Não seja boba!” Marcie olhou para ela, mortificada. “Você não disse duas palavras para o Burr.”

“Ela não poderia dizer duas palavras, querida. Você tem falado rápido demais. Eu também não poderia, aliás.” Ele foi até Laura e a conduziu pela mão até uma cadeira. “Vamos falar sobre você”, disse ele. “Sente-se.”

Laura sentiu-se ridícula, mas obedeceu.

“De onde você é?”, exigiu ele.

“Ela é de Chicago.” Marcie entregou-lhe a bebida e sentou-se na borda da pia.

“Diga algo de Chicago, Laura.” Ele sorriu para ela.

Ela deu de ombros e riu, envergonhada.

“O que seu velho faz?”

Laura ficou surpresa ao pensar nele. Ele estava fora de sua mente na correria da mudança para morar com Marcie. “Ele é escritor — um jornalista”, disse ela. Ela parecia tão desconfortável que Burr deixou o assunto de lado.

Após um breve silêncio, ele disse: “O que você acha da minha garota?”

“Burr, por favor!”, exclamou Marcie, mas ele fez um gesto para que ela se calasse.

“Você sabe que não vai dividir o quarto com ela por muito tempo, sabe?” Ele sorriu para Laura, e parecia um sorriso de aviso. Isso deixou Laura levemente enjoada, como se ela já tivesse feito algo errado.

Laura odiava elogiar uma mulher. Era sempre hipócrita porque ela nunca conseguia dizer a verdade sem corar. Quanto mais ela admirava uma garota, mais difícil era falar sobre ela. Ela começou a corar. “Ela é uma garota muito legal”, disse ela hesitante.

“Diga como se quisesse dizer!”, disse Burr. “Ela é uma garota maravilhosa. Mesmo que seja uma megera.”

“Droga! Pare de nos humilhar, Burr. Você não é engraçado.”

Burr encarou Laura, até que ela precisou dizer algo. “Nós nos damos muito bem”, disse ela.

“Claro. Nos primeiros dois dias.” Ele riu um pouco.

“Burr!”, explodiu Marcie. “Ela é uma garota, não um bastardo teimoso como você.”

“Bem, espero que vocês duas sejam ecstaticamente felizes”, disse ele, e terminou sua bebida.

“Não vou ser falada desse jeito!”, disse Marcie. Ela desceu da borda da pia e começou a sair do quarto, mas Burr a pegou pela cintura. Ele estava sentado ao lado de Laura, e enterrou o rosto no estômago de Marcie. Marcie tentou agarrar seu cabelo curto e empurrá-lo para trás. Laura sentiu a antiga repulsa subir em si. Burr não estava fazendo nada muito chocante ou imoral. Ele estava apenas abraçando a garota que amava, a garota que tinha sido sua esposa. Laura sabia disso intelectualmente, mas seu espírito recuou diante da visão, repelido.

“Sabe de uma coisa, Laura?”, Burr virou a cabeça para olhar para ela, ainda pressionado contra Marcie. “Ela age como uma virgem comigo. Ela age como se não tivesse ideia do que tudo isso significa. Como se nunca tivéssemos nos casado, e eu nunca tivesse... bem, não importa o que eu fiz. Ela não me deixa mais fazer isso.”

“Burr, você é realmente repulsivo”, disse Marcie, balançando a cabeça para ele.

“Sou?”, ele sorriu para ela.

“Você sabe que é. Laura não quer ouvir sobre isso. Quer, Laura?”

“Acho melhor eu ir para a cama”, disse Laura.

“Essa é uma boa garota”, disse Burr, aprovando. “Sempre sabe quando dar o fora. Laura, vamos nos dar muito bem.”

“Não vá, Laura!”, ordenou Marcie.

Laura, no meio do caminho para o quarto, parou.

“Vaza!”, disse Burr. Enquanto ela fechava a porta atrás de si, ele acrescentou: “Bons sonhos, Laura. Você é uma gata.”

Laura fechou a porta para eles enquanto ele tomava Marcie, ainda resistindo, em seus braços. Ela andou incerta pelo quarto por alguns minutos. Ocorreu-lhe que Burr ficaria grato pelo uso do quarto, mas Marcie nunca a perdoaria por sugerir isso. Laura preparou um banho — levou quinze minutos para conseguir água suficiente para se sentar — e sentou-se nele, contemplativa, imaginando o que sua colega de quarto estava fazendo na cozinha. Ela tentou não pensar nisso. Mas quando algo a revoltava, ficava teimosamente presa em sua cabeça e a atormentava profundamente.

Laura saiu da banheira e se secou, olhando-se no espelho enquanto o fazia. Ela nunca tinha gostado muito de sua aparência. Ainda a surpreendia pensar que aquele seu corpo esguio e branco; aquele corpo alto, levemente desajeitado e de carne firme, tinha sido desejável para alguém um dia. Ela se estudou. Ela não era notável. Ela não era exuberante, madura e perfumada. Pelo contrário, ela era firme e plana em toda parte, com membros longos e ossos finos. Seu cabelo pálido caía longo sobre seus ombros e franjas emolduravam sua testa.

Eu certamente não sou bonita, ela pensou conscientemente para si mesma. *E, no entanto, fui amada. Eu amei.*

Ela contemplou a si mesma por mais um momento e os fantasmas de beijos antigos enviaram arrepios por seus membros. Então ela se esfregou vigorosamente com a toalha e vestiu seu pijama.

Isso acabou agora, ela disse a si mesma. *Isso aconteceu há um milhão de anos. Eu não sou a mesma Laura de antes. Eu não posso... eu não vou amar desse jeito novamente. Vou trabalhar, vou ler, vou viajar. Algumas pessoas não são feitas para o amor. Mesmo quando o encontram, é errado. Eu sou uma dessas.*

Ela pegou um livro que estava lendo — um de Burr — e subiu na cama. Havia uma pequena luminária entre as camas e ela a acendeu, puxando os joelhos para servir de apoio para o livro. As cobertas formavam uma tenda sobre suas pernas.

Por um longo tempo ela ficou sentada e leu sobre as confusões de outras pessoas, as pessoas no livro. Então ela o fechou e colocou na mesa de cabeceira. Ela apagou a luz, mas ainda assim não se deitou. Ela simplesmente sentou-se ali no escuro, ouvindo... ouvindo... e não ouviu nada. Ela inclinou a cabeça para trás, descansando, pensando neles no outro quarto, odiando seus pensamentos, mas incapaz de sacudi-los. Depois de um tempo ela dormiu, ainda sentada meio ereta.

* * * * *

Muito tempo depois, cãibras musculares a acordaram e a forçaram a se deitar. Ela notou que a luz sob a porta da cozinha estava apagada. Ela puxou as cobertas sobre os ombros, imaginando que horas eram. Em um momento, tudo voltou a ser silêncio.

“Laura?”, era Marcie, sussurrando.

Laura sentou-se com um sobressalto. “Sim? Marcie, você está bem?”

“Estou bem.”

“Ele foi embora?”

“Sim. Por enquanto.”

“Oh. Que horas são?”

“Umas três.”

“Você não deveria ficar acordada até tão tarde. Você tem que trabalhar pela manhã.”

Houve um pequeno silêncio.

“Laura?”

“Sim?”

“Você já esteve apaixonada?”

Laura sentiu uma terrível onda de emoção subir em sua garganta. Que momento maldito, que maneira maldita de fazer tal pergunta! Ela estava indefesa contra seu sentimento na noite negra e suave, com a voz suave de uma garota adorável perguntando-lhe: “Você já esteve apaixonada?”. Por um tempo, ela tentou manter a boca fechada. Mas Marcie perguntou-lhe novamente e ela foi desfeita.

“Você já esteve, Laura?”

“Sim”, ela sussurrou.

“Como era?”

“Oh, Deus, Marcie — foi há tanto tempo — foi tão complicado. Não sei como era.”

“Era bom?”

“Era horrível.”

Marcie virou-se na cama com isso, apoiando-se nos cotovelos. “Não era bom às vezes? De vez em quando?”

“De vez em quando...” sussurrou Laura, “era o paraíso. Mas na maior parte do tempo era o inferno.”

“Ele... ele te amava? Tanto, quero dizer?”

Laura pressionou as mãos sobre a boca, não confiando em si mesma por um minuto. Então ela sussurrou: “Não.”

“Oh, sinto muito.” A voz de Marcie era calorosa com simpatia. “Homens são uns bastardos, não são?”

“Sim. Eles são.”

Após um momento de reflexão, Marcie disse: “Burr gosta de você.”

“Fico feliz.” Ela não suportava mais conversar. “Boa noite, Marcie.”

“Boa noite, Laura.” Marcie parecia um pouco decepcionada. Mas ela não disse nada mais e, em um minuto, Laura a ouviu virar-se e cair no sono. Laura não voltou a dormir naquela noite.

Capítulo Três

Se Laura e Marcie se davam bem como se estivessem em rodas lubrificadas, Marcie e Burr não faziam nada parecido. Nunca havia nada real sobre o que discutir. Mas Burr não conseguia pegar um livro, pigarrear ou fazer uma sugestão sem causar um desentendimento. E ele era tão rápido em criticar sua ex-esposa. As únicas vezes em que não estavam gritando um com o outro, estavam se beijando.

“Você provavelmente se pergunta por que continuamos nos vendo quando brigamos desse jeito”, Marcie lhe disse certa noite.

“Vocês se amam?”

“Eu não sei... Sim.”

“Então acho que não importa se vocês brigam.”

“Espero que isso não te deixe louca.”

“Não, nem um pouco.” Laura nem sequer levantou os olhos do livro. Marcie a deixava envergonhada com essas confidências. Mas ela não conseguia continuar lendo. Ela encarava a página e esperava que Marcie continuasse.

Marcie não conseguia guardar um segredo. As coisas transbordavam dela, até mesmo coisas íntimas, até mesmo coisas que pertenciam à sua alma privada e deveriam ter permanecido lá. Laura se contorcia ao ouvi-la às vezes.

“Nós nos vemos”, continuou Marcie, “porque não conseguimos tirar as mãos um do outro. Brigamos porque temos vergonha do que queremos um do outro. Pelo menos, eu tenho. Acho que Burr não tem vergonha nenhuma. Não, isso não é justo. Acho que ele é o que tem certeza de que está apaixonado. Às vezes acho que estou, porque quero continuar vendo-o. E outras vezes, acho que são apenas seus ombros largos.”

“Não o veja por um tempo”, disse Laura. “Ou tente falar menos quando o fizer. Veja o que acontece. Ou você só quer continuar se torturando?”

“Acho que sim”, disse Marcie com um sorriso tão desarmante que Laura teve que sorrir de volta.

“Bem, não é da minha conta. Não posso dar nenhuma dica útil”, disse Laura. Eu não vou me importar com sua vida pessoal, eu não posso, ela pensou.

Marcie riu, andando pelo quarto, tirando a roupa. “Laura, você é uma garota engraçada”, disse ela. “Você não é como as outras garotas que conheço.”

“Não sou?” Laura sentiu uma velha sensação de mal-estar quase esquecida subir em seu peito.

“Não. Outras garotas adoram falar sobre as coisas. Elas adoram fazer fofoca. Ora, conheço algumas que começariam sobre Burr e continuariam até precisarem ser amordaçadas. Mas você é diferente. Você apenas senta aí, lê e pensa. Você não fica exausta por pensar tanto?”

“O que te faz pensar que eu penso tanto?”

“Ah, não sei. Você não pensa?”

“Todo mundo pensa.”

“Não tanto quanto você.”

“Não há nada de errado nisso.”

“Não quero dizer isso. Quero dizer... Acho que quero dizer, por que você nunca sai?”

“Eu saio. Vi aquele musical na semana passada.”

“Não quero dizer comigo. Ou com outras garotas. Quero dizer com rapazes.”

Laura detestava conversas como aquelas. Sentia como se tivesse passado a vida inteira a justificar-se perante alguém — sobretudo Merrill Landon, mas também outros. Como se tudo o que fazia ou deixava de fazer tivesse de ser inspecionado e aprovado. Se não fosse aprovado, ficava atravessado na garganta e surgia de tempos a tempos para a deixar doente. “Sou nova em Nova Iorque”, disse ela. “Ainda não conheço ninguém.”

“E o Dr. Carstens? Disseste que ele era atraente.”

“Ele é casado.”

“Bem, e o outro, então?”

“Ele é praticamente casado.”

“Bom, e o figurão?”

“Ele é avô.” Disse-o com sarcasmo.

Marcie ergueu as mãos e riu-se. “Laura, vou ter de fazer alguma coisa em relação a ti.”

“Não faças nada em relação a mim, por favor, Marcie.” Algo no tom da sua voz tornou Marcie sóbria.

“Por que não?”, perguntou ela.

“Eu — eu só não quero ser um incómodo, é tudo.”

“Um incómodo!” Marcie veio sentar-se ao lado dela na cama, vestindo apenas a parte de baixo de um pijama de malha azul, cortado como calças de harém justas. Os seus seios eram altos e cheios e insuportavelmente doces. “Laura, gosto de ti. Vivemos juntas. Somos amigas. Acho que causei uma má impressão com o Burr e tudo o mais, mas quero que saibas que gosto mesmo de ti. Não és um incómodo.” Ela sorriu. “Vou pedir ao Burr para te arranjar um encontro com o Jack Mann. Vamos sair juntos. Precisamos de sair. Talvez deixássemos de discutir se não ficássemos sentadas neste apartamento o tempo todo.”

Ela fez uma pausa, e Laura tentou não olhar para ela.

“Que tal?”, perguntou Marcie.

Laura estava numa situação familiar. Já tinha estado nela antes, voltaria a estar, não havia como escapar. Esta é uma sociedade heterossexual e toda a gente joga o jogo de uma maneira ou de outra. Ou finge jogá-lo por uma questão de aparências.

“Adoraria”, disse Laura.

“Ótimo! Que noite?”

“Qualquer noite.” Laura queria empurrá-la para fora da cama, atirar-lhe com as cobertas; qualquer coisa para cobrir aquele peito cintilante. Sentiu-se alternadamente quente e fria e isso exasperou-a. Perguntou-se o quão óbvio era. Mas, mesmo no seu desconforto, sabia que não transparecia tanto como o sentia. Finalmente, passou por cima de Marcie e saiu da cama, dirigindo-se apressadamente para a casa de banho.

“Vou ligar ao Burr”, chamou Marcie atrás dela.

Laura fechou a porta da casa de banho e encostou-se pesadamente a ela, ofegante, com os braços bem apertados em volta de si, balançando-se para a frente e para trás, com os olhos fechados. Espasmos percorreram-na e ela sacudiu-se com raiva. As suas mãos desceram contra a sua vontade e, de repente, todo o seu sentimento fixou-se num só lugar, clarificado, devastador. Houve um momento de violência reprimida em que ela tapou a boca com uma mão, impotente no seu próprio aperto, e a sua boca aprisionada murmurou, “Marcie, Marcie, Marcie”, contra a mão. E então veio o alívio, silencioso. O tremor cessou, a respiração ofegante abrandou. Relaxou completamente, com apenas a força suficiente nas pernas para se sustentar, dependendo da porta para fazer o resto. “Maldita seja”, disse num sussurro ténue. “Maldita seja.” Foi a primeira vez que se apercebeu da força dos seus sentimentos “amistosos” por Marcie e sentiu-se consternada.

Laura foi rapidamente até ao lavatório e abriu a torneira. Devia estar a fazer algum barulho. As pessoas não desaparecem nas casas de banho durante dez minutos em silêncio absoluto. Pelo menos não nesta casa de banho, onde cada cano tinha o seu próprio grito distinto e reconhecível. Passados alguns segundos, Marcie chamava-a através da porta.

“Laura? Posso entrar?”

“Claro.”

“Vamos combinar para sexta-feira. Vamos ver um espetáculo.”

“Parece bem.”

“Vai ser divertido.”

Não vou olhar para ela, disse Laura a si mesma, e enterrou o rosto numa toalha. Esfregou-se assiduamente enquanto Marcie tagarelava. *Maldita seja, de qualquer forma, não vou olhar para ela. Ela não tem qualquer direito sobre mim, aquilo foi uma tolice. Vou fingir que não aconteceu. Não aconteceu, não aconteceu.* Tinha medo de que, se olhasse, pudesse acontecer novamente. Enxaguou o rosto lenta e cuidadosamente com a água da torneira a gemer, e Marcie continuava ali a falar.

Laura esticou a mão para uma toalha e secou o rosto. Pendurou a toalha de novo e virou-se para sair da casa de banho, pronta para ignorar Marcie. Mas Marcie tinha vestido a parte de cima do pijama e parecia bastante recatada. Exceto pelo seu rosto extraordinariamente bonito. Laura olhou para ela, como sabia que faria, como fazia cada vez mais ultimamente.

“Vamos ver um espetáculo em Greenwich Village, porque é mais fácil conseguir bilhetes — pelo menos para este — e, além disso, o Burr conhece — que se passa, Laura?”

“O quê? Ah, nada. Nada.”

“Ficaste com um ar estranho.”

“Fiquei? Não foi minha intenção. Parece bem, o espetáculo, digo.” Passou apressadamente por Marcie para o quarto.

Na cama, amaldiçoou-se por ser uma idiota. Sou apenas um animal, repreendeu-se a si mesma. *Mal conheço a Marcie. Não vou começar a sentir-me assim, não vou!*

Do passado surgiu a imagem de outro rosto, um rosto serenamente adorável, um rosto cuja dona ela amara tão desesperadamente que acabara por ser forçada a deixar a escola por causa dela.

Ora, elas parecem-se!, pensou, sobressaltada. *Porque é que não vi isto antes? Devo estar cega. Elas parecem-se, a sério.* No escuro, imaginou o rosto de Marcie ao lado do outro, correspondendo, comparando, lamentando. Dilacerava-lhe o coração vê-las juntas. Desejou que a manhã nunca chegasse, a manhã em que teria de se levantar, brilhante, alegre e comum, como qualquer outra manhã, e olhar novamente para o rosto de Marcie. E para os seios de Marcie.

* * * * *

A manhã chegou, como as manhãs chegam, e correu da mesma forma. Não foi intolerável. Laura estava secretamente em guarda contra Marcie agora. Ou melhor, em guarda contra si mesma. Não ia cair. Marcie amava um homem — homens, de qualquer forma — e Laura não tinha pressa de passar pelo inferno com ela.

Uma mudança curiosa ocorrera em Laura desde os dias do terrível, e maravilhoso, romance universitário com uma rapariga chamada Beth. Ela estivera tão assustada na altura, tão perdida, tão completamente dependente de Beth. Não tinha coragem, exceto a que Beth lhe dava; não tinha força, exceto através de Beth; não tinha vontade que não fosse a de Beth. Amara-a servilmente; adorara-a. E quando Beth a deixou por um homem, quando disse a Laura que nunca fora amor verdadeiro para ela, Laura ficou ferida no mais profundo do seu coração.

Todas estas coisas eram desconhecidas para Merrill Landon; desconhecidas e insuspeitas. Permaneceriam para sempre nos cantos escuros da mente de Laura, onde ela acumulava as suas velhas mágoas e medos.

Pensara em matar-se quando deixou a escola e voltou para casa para enfrentar o pai. Mas era jovem e a sua juventude trabalhava contra tais pensamentos. Talvez o próprio facto de ter amado tão profunda e intensamente a tivesse impedido. Tinha aprendido a precisar tanto do amor que não conseguia pensar seriamente na morte.

Beth deixara cicatrizes em Laura. Mas também fora uma boa professora, e algumas das coisas que ensinara à sua amante estavam a começar a afirmar-se, agora que Laura estava por sua conta e o tempo estava a suavizar a dor. Laura andava de cabeça erguida. Sentia-se alta. Não era o simples facto físico da sua altura. Era um curioso autorrespeito nascido da humilhação do seu amor. Beth ensinara Laura a olhar para dentro de si mesma, e o que encontrou foi uma revelação.

Capítulo Quatro

Na noite seguinte, Laura chegou a casa bastante cedo depois de ter visto um espetáculo com a Sarah. Fez o caminho de casa no metro com um homenzinho cinzento e sujo, repulsivamente ansioso por ser amigável. Ele continuava a dizer: “Vejo que não é casada. Deve ter muito cuidado na cidade grande.” E ria-se nervosamente. Laura desviou o olhar. “Não deve ignorar-me, só estou a tentar ajudar”, queixou-se ele. Ele tagarelou sobre cordeiros jovens numa toca de lobos até ela sair. Ele saiu com ela, ainda a falar.

Laura não estava com medo — apenas irritada. Virou-se subitamente para o homenzinho cinzento à entrada do metro e disse: “Deixe-me em paz ou chamo a polícia.”

Ele sorriu de forma apologética e começou a murmurar. Os olhos de Laura estreitaram-se e ela afastou-se com desprezo, caminhando com um passo firme e rápido que logo o desencorajou. Algo de orgulhoso e frio nela abateu-o. Por fim, ele parou de a seguir e ficou a olhar para ela, boquiaberto. Ela nunca olhou para trás.

Laura chegou a casa, com as faces quentes pela caminhada rápida e pela vitória sobre o homenzinho. Deus, se eu pudesse fazer isso ao meu pai!, pensou com saudade. Subiu o lanço de escadas do décimo segundo andar até à cobertura e abriu a porta da frente. A sala de estar estava iluminada, tal como a cozinha. A porta do quarto estava aberta, revelando um azul fresco para lá da cozinha amarela berrante. Laura entrou, balançando a mala, a pensar no homem feio e pequeno e orgulhosa da forma como o derrotara.

Parou bruscamente, ofegante, ao ver Burr e Marcie nus, juntos na cama de Marcie. “Desculpem!”, exclamou, e saiu a recuar, fechando a porta atrás de si. Colapsou numa cadeira da cozinha e chorou com um desgosto furioso durante meio minuto. Depois levantou-se e foi ao frigorífico, fingindo querer um copo de leite apenas como desculpa para se mexer, para ignorar o silêncio quente na sala ao lado.

Durante algum tempo, não saiu qualquer som do quarto. Laura serviu o leite atarefadamente e levou-o para a sala de estar. Estava a colocar um disco quando a porta do quarto se abriu e Marcie saiu de roupão. Laura pousou o leite. Só o facto de o ver foi o suficiente para a fazer sentir-se enjoada. Virou-se para Marcie.

“Olá”, disse ela, demasiado alegremente. “Desculpa ter entrado assim.”

Marcie desatou a rir. “Não faz mal. Maldito seja, eu disse-lhe para ir para casa. Sabia que chegarias cedo. Tive um pressentimento.” Aproximou-se de Laura, ainda a rir, e Laura virou-se petulantemente. Marcie não reparou. “Seguimos o teu conselho, Laura”, disse ela. “Não trocámos uma palavra esta noite. Bem — eu disse quando ele entrou — ‘Muito bem, não vamos discutir. Não abras a boca. Nem uma palavra.’ E ele não abriu. Nem sequer disse olá!” E a sua risada musical fez cócegas em Laura de forma insuportável.

Burr saiu do quarto, com um ar um tanto acanhado, um tanto sonolento, muito satisfeito. Sorriu para Laura, que teve de se esforçar para usar uma cara agradável. Ele estava a abotoar a camisa, carregando o casaco no braço, e tudo o que disse foi: “Obrigado, Laura.” Ele sorriu, apontando para Marcie com o polegar. “Não nos falamos. Ouvi dizer que a ideia foi tua.” Deu uma palmada no rabo de Laura. “Boa rapariga”, disse ele. Beijou Marcie mais uma vez, com força, vestiu o casaco e saiu a recuar pela porta, ainda a sorrir.

Marcie girou e girou no meio da sala de estar, abraçando-se e rindo de forma hilariante. “Se pudesse ser sempre assim”, disse ela. “Casava-me com ele outra vez amanhã.”

Laura passou por ela sem uma palavra, para a cozinha, onde despejou o leite cuidadosamente de volta para a garrafa, fechou a porta do frigorífico, foi para o quarto e preparou-se para dormir.

Marcie seguiu-a, rindo e falando até Laura se deitar e apagar a luz. Ela nem sequer quis olhar para a cama desfeita de Marcie. Mas esta assombrava-a, e só adormeceu muito depois de Marcie ter parado de sussurrar.

* * * * *

Jack Mann era pequeno, fisicamente duro e muito inteligente. Era uma espécie de cínico da hora do cocktail, suficientemente desiludido com as coisas para ser mordazmente engraçado. Se se gostar desse tipo de espírito. Algumas pessoas não gostam. A atitude transpunha-se para a sua vida quotidiana, mas ele guardava o seu melhor espírito especialmente para as horas depois do trabalho, quando a primeira e fina onda de descuido do álcool lhe dava impulso. Infelizmente, ele dava a si próprio demasiado impulso e acabava a cambalear até ao seu apartamento de solteiro sob o braço de um amigo resmungão. Era desenhador no escritório onde Burr trabalhava como aprendiz de arquiteto e chamava ao seu trabalho “mão-de-obra altamente qualificada”. Ele não gostava. Mas gostava do salário.

“Porque é que o fazes, então?”, perguntou-lhe Burr uma vez.

“É a única coisa que sei. Mas preferia muito mais cavar valas.”

“Bem, bolas, vai cavar valas então. Ninguém te está a impedir.”

Jack conseguia virar o seu espírito contra si próprio tal como contra os outros. “Não posso”, disse ele a Burr. “Estou tão habituado a estar sentado no meu rabo o dia todo que teria sorte se conseguisse cavar uma vala miserável. E depois provavelmente teriam de me enterrar nela. O fim de uma bela carreira.”

Burr sorriu e abanou a cabeça. Mas gostava dele; davam-se bem. Jack saía com Burr e Marcie antes e depois de se divorciarem. Ele era o solucionador de problemas até ficar demasiado bêbado, o que acontecia frequentemente.

Quando ele chegou com Burr na sexta-feira à noite, Laura ficou irritada ao descobrir que era mais alta do que ele. Tinha decidido que não ia aproveitar a noite — apenas sobreviver a ela. Teria de passar o tempo a mediar entre Marcie e Burr e a tentar entreter um homem que não conhecia nem lhe interessava. Por isso, ficou contrariada ao descobrir que, afinal, gostava de Jack. Isso arruinou o seu belo estado de espírito sombrio.

Marcie apresentou-os e Jack olhou para ela com ar de interrogação. “Que se passa, Landon?”, disse ele. “Estás de pé num buraco?”

Laura riu-se e tirou os sapatos. Isso fê-la baixar um centímetro. “Melhor?”, disse ela.

“Melhor para mim. Muito mau para as tuas meias.” Ele sorriu. “Leste Freud?”

“Não.”

“Bem, graças a Deus. Não terei de falar sobre os meus pesadelos.”

“Tens pesadelos?”

“Tu leste Freud!”

“Não, juro. Tu disseste—”

“Está bem, confesso. Tenho pesadelos. E tu lembras-me a minha mãe.”

“Tens mãe?”, disse Burr. “Não apareceste simplesmente?”

“É o que continuo a perguntar ao meu analista. Tenho de ter uma mãe?”

“Jack, estás a ser acompanhado por um analista?”, Marcie estava fascinada com a ideia. “Imagina poder contar tudo a alguém. Como um dever sagrado. Burr, não achas que eu devia ser analisada?”

“O que vais usar para uma neurose?”, perguntou Jack.

“Preciso de uma?”

“Que tal o Burr?”

“Estou ocupado”, disse Burr. “Além disso, falas como uma totó, querida. Não se vai a um analista como se vai ao cabeleireiro.”

Os olhos de Marcie brilharam. “Obrigada pelo elogio”, disse ela. “Não sou tão burra como pareço.”

“Anda, Mãe.” Jack pegou no braço de Laura e conduziu-a para fora da porta. “Estou a ver uma tempestade a aproximar-se.”

Mas dissipou-se quando Marcie pegou no casaco e se apressou atrás deles.

* * * * *

Depois da peça, caminharam pela Quarta Rua no Village, vagueando sem rumo, olhando para as montras das lojas. Laura estava perdida. Nunca tinha estado no Village antes. Tinha tido medo de vir aqui; medo de ver alguém, e fazer alguma coisa, e de repente dar por si presa no mundo estranho que tinha renunciado. Parecia tão seguro, tão remoto da tentação escolher um apartamento na zona alta. E, no entanto, ali estava ela, com os nervos em franja, as suas emoções emaranhadas à volta de uma colega de quarto novamente.

Laura ponderava estas coisas, caminhando lentamente ao lado de Jack à luz das montras. Não tinha consciência de onde caminhava ou de quem passava. Sobressaltou-a quando Jack disse: “No que estás a pensar, Mãe?”

“Nada.” Uma sombra de irritação cruzou-lhe o rosto.

“Ah”, disse ele. “Interrompi alguma coisa.”

“Não.” Ela virou-se para olhar para ele, desconfortável. Ele fazia-a sentir como se estivesse a ler os seus pensamentos.

“Não me mintas. Estás a sonhar acordada.”

“Não estou! Estou apenas a pensar.”

Ele encolheu os ombros. “É a mesma coisa.”

Achou-o muito irritante nesse momento. “Pois claro”, disse ela, e desviou o olhar.

“Tu odeias-me”, disse ele com um sorrisinho.

“De vez em quando.”

“Estraguei o teu sonho acordado”, disse ele. “Raramente sou tão ofensivo. Só quando estou sóbrio. O resto do tempo, sou encantador. Algum dia, suponho, sonharás acordada comigo.”

Laura olhou fixamente para ele e ele riu-se.

“Pelo menos, contar-me-ás os teus sonhos acordada.”

“Nunca.”

“As pessoas contam. Tenho um rosto agradável. Feio, mas agradável. As pessoas pensam: ‘Jesus, aquele gajo tem um rosto agradável. Devia contar-lhe os meus sonhos acordada.’ E contam mesmo.” Ele sorriu. “Que se passa, Mãe, pareces cética.”

“O que te faz pensar que tens um rosto agradável?”

“Não tenho?” Ele parecia genuinamente alarmado.

“Não atrairia qualquer pessoa.”

“Ah, rapariga esperta. Tens razão, como sempre. O melhor amigo de um rapaz é a sua mãe. Só as pessoas exigentes, minha rapariga, acham que é um rosto agradável. Só as sensíveis, as talentosas, as inteligentes. Agora diz-me — não é um rosto agradável?”

“É um rosto”, disse Laura. “Toda a gente tem um.”

Ele riu-se. “Tu és parva”, disse ele. “Precisas de ajuda. O meu analista é muito razoável. Ele vai sacar-te tudo o que tens, mas é muito razoável.”

Burr, que caminhava à frente deles com Marcie, virou-se para exigir: “Alguém que me diga para onde vou.”

“Vira à direita na próxima esquina”, disse Jack. “Estás a ir bem, rapaz. Não percas a coragem.”

“Só quero saber para onde raio vou.”

“Isso é um mau sinal. Muito mau.”

“Para com isso, Jack”, disse Marcie. “Para onde vamos?”

“Um barzinho que conheço. Muito gay. Vou lá sozinho quando quero ficar deprimido.”

Soava sinistro, não gay, para Laura. “Como se chama?”, disse ela.

“The Cellar. Não te preocupes, é um local legítimo.” Ele riu-se da cara comprida dela.

Marcie riu-se também, e o coração de Laura saltou com a doçura do som. Isso fez com que odiasse as costas de Burr, movendo-se com uma grande descontração masculina à sua frente num sobretudo de tweed, o seu corte de cabelo curto e eriçado a brilhar.

Poucos minutos depois, Jack conduziu-os a descer alguns degraus até um par de portas que empurrou, deixando Laura e Marcie passar.

Laura ouviu Burr dizer, atrás dela, em tom baixo: “É gay mesmo”, e riu-se. “Seu bastardo.” Ela estava perplexa. Parecia bastante normal e comum. Dirigiram-se a uma mesa com quatro cadeiras, uma das poucas disponíveis, e Laura olhou em volta.

The Cellar era bastante escuro, com as únicas luzes colocadas sobre o bar e brilhando num tom laranja rosado ténue. Havia velas nas mesas e pessoas amontoadas de uma ponta à outra da sala. Toda a gente parecia razoavelmente alegre, mas não parecia mais gay do que qualquer outro bar em que ela tivesse estado. Olhou curiosa para Burr, mas ele estava a ajudar Marcie a tirar o casaco.

“Não há serviço de mesa”, disse Jack. “O que é que toda a gente quer?”

Deram-lhe os pedidos e Laura tentou captar-lhe o olhar, esperando por mais informações sobre o lugar. Estava curiosa agora. Havia toalhas de mesa axadrezadas, redes de pesca na parede, muitas pessoas — todas bastante jovens — nas mesas e no bar. O juke box estava a tocar e alguém estava a tentar ganhar uns trocos a fazer retratos a lápis, mas ninguém parecia muito interessado. Os clientes pareciam estudantes. Havia raparigas de calças de algodão, rapazes jovens de camisolas e camisas de colarinho aberto.

“Parecem todos estudantes”, disse ela a Burr.

Ele sorriu. “Nunca pensei nisso dessa maneira”, disse ele. “Acho que parecem, sim senhor.”

Ela olhou fixamente para ele. E depois olhou novamente para a sala, e de repente viu uma rapariga com o braço em volta de outra rapariga numa mesa não muito longe. O coração saltou-lhe. Um par de rapazes ao bar sussurrava urgentemente um com o outro.

Gay, pensou Laura para si mesma. É assim que lhe chamam? Gay? Estava extremamente desconfortável agora. Era como se ela fosse uma criança da civilização, criada entre os selvagens, que de repente se encontrava entre os civilizados. Reconhecia-os como sendo os seus. E, no entanto, adotara os hábitos de outra raça e sentia-se embaraçada e perdida com os da sua espécie.

Eles olhavam para ela — os da sua espécie — do bar e das mesas, e não a reconheciam. E Laura olhava para eles e pensava: *Eu sou uma de vós. Ajudem-me.* Mas se alguém se aproximasse dela, ela teria desviado o olhar.

Jack voltou com as bebidas e sentou-se, distribuindo-as. Tomou um shot de uísque e disse a Laura: “Bem? O que achas da coleção desta noite?”

“Coleção de quê desta noite?” perguntou Laura.

“De malucos.” Ele olhou em volta do The Cellar. “Ninguém te diz nada, Mãe? Burr, que se passa contigo? Ela é turista. Conta-lhe a velha história da viagem, rapaz.”

Burr riu-se. “Pensei que não tinhas percebido, Laura.” Ele sorriu. “São todos maricas.”

O rosto de Laura ficou escarlate, mas a luz das velas escondia-o. Sentiu uma terrível onda de raiva e medo a subir com aquela palavra. Sentiu-se encurralada, quase em pânico, e descarregou em Jack. “Porque não me disseste?” perguntou. A voz dela tremia de indignação.

“Tem calma, Mãe”, disse ele.

“Coleção desta noite!” ela imitou amargamente. “Falas deles como se fossem um bando de animais.”

“São”, disse ele calmamente. “Nós também.”

“Nós somos seres humanos”, disse ela. “Não temos o direito de nos sentarmos aqui a rir deles por algo que não podem evitar.”

“Não podem evitar, o caramba”, disse Burr, inclinando-se sobre a mesa na direção dela. “Tudo o que aquelas gajas precisam é de um homem a sério. Isso punha-as no caminho certo num instante.”

Laura podia tê-lo esbofeteado. Queria gritar: “Como é que sabes, seu grande símio?” Mas, em vez disso, disse: “Não és irresistível, Burr.”

“Não me refiro a isso!” disse ele, franzindo a testa para ela. “Cristo! Só quero dizer que um homem que saiba o mínimo sobre mulheres poderia levar qualquer uma destas gajas — até uma butch — e fazê-la gostar.”

“Qual é o mínimo sobre as mulheres?” perguntou Jack, sorrindo, mas eles ignoraram-no.

“Se os homens lhe causam repulsa e alguém tentasse... tentar levá-la... só a faria sentir-se mal. Independentemente do quanto soubesse sobre mulheres”, disse Laura secamente.

“Qualquer rapariga que não goste de homens ou é virgem ou algum bastardo pregou-lhe um susto de morte. Ela precisa de ser amansada.”

“Falas de nós como se fôssemos cavalos!” explodiu Laura.

“Nós?” Burr olhou fixamente para ela.

“Nós... nós mulheres.” O rosto de Laura ardia.

Burr observava-a enquanto falava. “Algumas raparigas apanham um bastardo logo à primeira”, disse ele. “É uma pena. Acabam em lugares como este a trocar histórias de terror com as outras.”

Laura detestava a maneira como ele falava. Não conseguia suportar. “E se o bastardo for o pai dela?” disse ela. “E ele assusta-a terrivelmente quando ela tem cinco anos? E vinte anos depois aparece um idiota que se acha um grande amante e a atira para o chão, humilhando-a e horrorizando-a?”

Jack comentou, com diversão e provavelmente mais lucidez do que os outros: “Jesus, temos uma moralista entre nós.” Olhou para ela como se fosse uma nova espécie de peixe.

“Raio, Laura, essa é a questão”, disse Burr. “Ele não a humilharia. Não me refiro a algum camionista de merda que só tem na cabeça uma rapidinha. Refiro-me a um tipo decente e atencioso... um género de Bom Samaritano...” Ele sorriu e Marcie disse: “Deus!” e revirou os olhos para o teto.

“...que quer realmente ajudar a rapariga”, concluiu Burr.

“Porque não tentas tu?” disse Jack.

O rosto de Marcie escureceu. “Sim, querido, porque não provas a tua pequena teoria? Tenho a certeza de que ficaríamos todos fascinados.”

“Ora, que se lixe, não comeces a resmungar comigo. Estou a falar com a Laura.”

“Desculpa!” disse Marcie.

Laura inclinou-se na direção dela. “Não queria começar nada”, disse.

“Nunca ninguém quer”, comentou Jack para si mesmo.

“Ele disse que conseguia levar qualquer rapariga e fazê-la gostar”, disse Marcie.

“Eu disse”, disse Burr, virando-se para ela e entoando sarcasticamente, “Que qualquer gajo com qualquer...”

“Já sabemos o que disseste, rapaz”, interrompeu Jack. “Vamos manter isto puramente teórico. Ninguém tem de provar nada. O Burr ama a Marcie e a Marcie ama o Burr. O Jack ama uísque e o uísque odeia o Jack. A Laura ama animais. Estão todos contentes?”

Refletindo sobre o que dissera enquanto Jack falava, Laura começou a sentir-se mal. Desejou ter sido perspicaz o suficiente para ver onde estava quando entraram pela primeira vez no The Cellar. Mas ela aceitava as coisas pelo valor nominal. Tinham entrado num pequeno bar e iam tomar uma última bebida. Está bem. O que havia de tão sinistro nisso? Porque é que tinha de acabar por ser um bar gay? E porque é que ela tinha de reagir como uma virgem zangada quando descobriu?

Ficaram tempo suficiente para ficarem bastante alterados. Eram observados pelos clientes habituais, mas Laura tinha medo de olhar de volta. Quando o fez, uma ou duas vezes, não conseguiu encontrar o olhar de ninguém. Sentiu vergonha de si mesma por tentar, mas não conseguiu evitar.

Havia uma rapariga ao balcão, parada numa das pontas, de calças pretas e camisa branca aberta no colarinho. O cabelo era curto e escuro e, mais uma vez, houve aquela semelhança perturbadora com Beth. Havia outras pessoas com ela e falavam todas, mas a rapariga de cabelo curto parecia, de algum modo, estar à parte. De vez em quando, virava-se e sorria para um deles e dizia uma ou duas palavras. Depois, voltava a sua atenção para o balcão ou para a sua bebida, ou apenas olhava para o espelho atrás do balcão sem ver nada.

Laura olhava para ela de vez em quando. Tinha um rosto interessante. Fazia com que Laura quisesse falar com ela. Deve ser da bebida, pensou, e recusou outra.

“Vejo pelo teu olhar”, disse Jack, “que já tiveste o suficiente deste lugar. É quase meia-noite. Vais transformar-te numa abóbora?”

“Deus, espero que não”, disse Laura.

“Passou da meia-noite”, disse Marcie. “Vamos embora. Afinal, o pobre Burr teve de se levantar às seis da manhã para ir trabalhar. Provavelmente está exausto. Talvez devêssemos deixá-lo aqui e deixá-lo organizar uma escola noturna para as senhoras.”

“Não haveria interessadas aqui dentro”, observou Jack, olhando em volta. “Não são senhoras, são lésbicas.”

“Tens de falar delas como se fossem peças de exposição num jardim zoológico?” exclamou Laura.

“Deus, agora estamos a discutir”, disse Jack, rindo. Mas não estavam realmente, pois são precisos dois para uma discussão e ele sentia-se poderosamente bem-disposto com todo aquele álcool no corpo. “Não esqueçamos a nossa dignidade”, disse ele a Laura. Pronunciou as palavras com um cuidado meticuloso, para não deixar que o álcool lhe tropeçasse a língua.

Marcie riu-se dele e puxou Laura de lado quando se levantaram. “Vamos”, disse ela, e Laura caminhou com ela até à casa de banho das senhoras. Era uma mudança gritante em relação ao Cellar suavemente iluminado. Ficaram quase cegas com uma lâmpada grande e nua que pendia de um fio esfarrapado bem dentro da sala e observava todos os procedimentos com um olho que não piscava.

“Vai tu primeiro”, disse Laura a Marcie. Havia poucas coisas menos apelativas para ela do que uma casa de banho pública — especialmente uma deste género, tão rudimentar, com a sua luz estática, espelho rachado e montes de toalhas de papel usadas no chão de cimento. Molhou ligeiramente o pente na torneira e passou-o pelo cabelo. A porta abriu-se e a rapariga de cabelo curto e escuro e calças pretas entrou. Encostou-se indolentemente à parede, estudando Laura. Laura reconheceu-a do bar, mas ignorou-a soberanamente. Marcie falava com ela através da porta da sanita.

“O que achas do Jack?” perguntou ela.

“Muito bem”, disse Laura, para benefício da rapariga das calças pretas. A sua voz foi calorosa o suficiente para surpreender Marcie.

“Fico contente”, disse ela. “Pensei uma ou duas vezes que estavas zangada com ele.”

As faces de Laura ficaram vermelhas novamente. Deus, como ela detestava aquilo! E não havia nada que pudesse fazer. Puxou o pente com força pelo cabelo, com medo de olhar para o espelho. Sabia que encontraria o olhar da rapariga das calças pretas. “Ele é muito inteligente”, disse ela a Marcie.

“Ele é divertido”, disse Marcie, saindo da sanita. Quase chocou com a rapariga estranha e disse: “Oh! Desculpa.”

“O prazer é meu”, murmurou a rapariga com um sorriso.

Laura sentiu-se subitamente ciumenta. Era enlouquecedor. Não sabia de quem tinha ciúmes. Queria que a outra rapariga a notasse, não a Marcie. E queria que a Marcie a notasse também. Ficou um momento em confusão e depois disse à rapariga das calças pretas: “Força.” E acenou para a sanita. Disse-o para a fazer olhar para cima, o que ela fez, lentamente, e sorriu. Parecia chocantemente rapazil. Laura olhou um pouco fixamente.

“Obrigada”, disse a rapariga.

Ela fechou a porta atrás de si e Marcie riu-se silenciosamente, cobrindo a boca com a mão. Mas Laura virou-se, a excitação presa na garganta. “Vamos embora”, disse ela impacientemente, arrastando Marcie para longe do espelho. Estava com medo que a rapariga estranha saísse e falasse com elas. Estava ansiosa por sair do The Cellar, por sair de Greenwich Village. Sentia uma sensação premente de perigo.

Marcie virou-se para ela quando voltaram para a mesa e disse: “Aposto que o Burr não teria conseguido nada com aquela!” E riu-se. “Ela faria uma chave de braços nele e diria para ele ir chatear alguém do seu tamanho.”

Laura deu-lhe um sorriso ténue.

“Viste como ela olhou para ti?” disse Marcie.

“Ela olhou para mim?”

“Sim, mas olhou para mim também. Essa é a coisa horrível nas lésbicas, não têm discernimento.”

Laura sentiu subitamente vontade de gritar com ela. Era tão errado, tão falso; tão agonizante ter os lábios selados quando se quer gritar a verdade.

Deixaram o Cellar enfumado e caminharam alguns quarteirões, conversando. Jack fazia um percurso em ziguezague e Laura teve de o guiar com um braço.

“Vamos apanhar um táxi”, disse Marcie.

“O metro fica apenas a dois quarteirões”, lembrou-lhe Burr.

“Nunca consegues gastar um pouco extra comigo?” exclamou ela. “Não achas que sou boa o suficiente para andar de táxi? Não achas que valho mais um dólar de vez em quando? Achavas quando nos casámos.”

“Pois, e fiquei sem um tostão. O metro é barato.”

“Bem, eu não sou!”

“Calma, calma”, disse Jack. Tirou uma moeda de vinte e cinco cêntimos do bolso e segurou-a à frente da cara de Marcie.

“Cara”, disse ela.

Ele lançou a moeda enquanto Laura pensava para si mesma que aquilo tudo era uma brincadeira de crianças. Jack parecia pouco sofisticado agora, e Marcie e Burr tinham perdido a beleza e a excitação que pareciam gerar juntos, mesmo no meio das suas discussões, talvez por causa delas. Parecemos todos cansados e estúpidos, pensou Laura, e desejo que estivéssemos em qualquer lugar, menos no meio de Greenwich Village a lançar uma moeda por causa de uma viagem de táxi.

“Cara!” disse Marcie. Ela deu um encontrão na barriga de Burr.

“Não há espetáculo na próxima semana”, disse ele.

“Não achas que me importo, pois não?”

“Não se preocupem, crianças, esta é por minha conta”, disse Jack. Ele sorriu de forma astuta. “Não sou parvo com dinheiro”, disse. “Cultivo-o na minha jardineira à janela. Dou tudo à Mãe, aqui, e ela investe por mim. Não é, Mãe?”

“Não sejas parvo”, disse Laura, mas riu-se dele.

“Ela ama-me”, explicou Jack a Burr e Marcie. De repente, deixou-os a todos para correr para o meio da rua, abanando os braços descontroladamente para um par de faróis que vinha na sua direção. Eles deram um guincho ao travar, com um taxista irado atrás. Marcie deu um pequeno grito e o motorista inclinou-se para fora e disse: “Seu estúpido!”

“É melhor levar esse tipo para casa e dar-lhe um café preto, senhora”, disse ele a Laura quando começaram a subir a cidade. “Se não se importar com um pequeno conselho.”

“Ele vai odiar-se amanhã”, disse Marcie.

“Ele tem muita sorte por estar por cá amanhã”, disse o taxista. Falavam todos sobre ele como se fosse surdo. E, de facto, estava, pois adormecera quase assim que entrara no táxi.

“Ele faz isto o tempo todo?” perguntou Laura a Burr.

“Ele é um tipo fantástico, Laura”, disse Burr, como se tentasse reforçar Jack aos olhos de Laura. “Ele só perde a cabeça de vez em quando. Acho que tem problemas.”

No apartamento, Laura saiu primeiro. Burr disse: “Vou acordá-lo, Laura”, mas ela protestou. “Deixa-o dormir”, disse ela. “Odiaria interromper os seus sonhos.”

“Ouvi isso”, disse uma voz rouca das sombras dentro do carro. “Tu és um doce, Mãe. Dorme bem.”

“Boa noite”, disse Laura, sorrindo.

Capítulo Cinco

Ela estava debaixo dos lençóis e quase a dormir quando Marcie entrou na ponta dos pés, depois de se despedir de Burr. Moveu-se pelo quarto durante alguns minutos, preparando-se para dormir. Laura estava apenas vagamente consciente dela. Passado pouco tempo, ouviu-a apagar a luz e aconchegar os lençóis à sua volta. O silêncio, lá em cima, sobre a cidade tarde da noite, era profundo, calmo, quase como no campo. Apenas uma buzina perdida ocasional chegava ao seu nível. Soava como um eco distante.

“Laura? Estás a dormir?” sussurrou Marcie.

“Sim.”

“Oh.” Ela ficou quieta durante um minuto. Depois sussurrou: “Tenho de te perguntar uma coisa.”

“Não te cases com ele. Nunca vai resultar.”

“Não, não me refiro a isso. Refiro-me a... faz-te sentir estranha ver aquelas pessoas?”

“Que pessoas?”

“Maricas?”

“Elas não são maricas, Marcie. Essa é uma palavra cruel.” Os olhos dela estavam bem abertos agora na escuridão.

“O que são então?”

“Homossexuais.” Disse-o timidamente.

“Isso é muito comprido. Bem, faz-te sentir estranha?”

“Não sei o que queres dizer, Marcie.”

“Bem, quero dizer, como a butch na casa de banho. Não te fez sentir estranha — quero dizer, estranha... —” Ela riu-se. “— a olhar para nós como se fosse um homem, ou algo do género?”

“Suponho que sim.”

“Ela estava a olhar para nós quando estava ao balcão, também.”

“Estava?” Laura ficou espantada que Marcie reparasse numa coisa dessas. “Como sabes?”

Marcie riu-se novamente. “Estava a olhar para ela”, disse.

“Tu o quê?”

“Oh, não da forma que pensas. Estava apenas a olhar em volta e ela estava a olhar para a nossa mesa. Acho que ela queria vir falar connosco, mas não se atreveu com os rapazes ali. Ela sabia que nós não éramos gay.”

“É assim que eles chamam — gay?”

“Sim. Sabes, deu-me uma sensação muito estranha, ela a olhar para nós daquela maneira.”

Laura virou-se na cama, muito desperta. Disse para si mesma: *Não lhe vou perguntar sobre isso*, mas não conseguiu evitar. “Que tipo de sensação?” sussurrou.

“Bem, foi como se... se eu te contar, não vais pensar que sou como eles, vais?”

“Oh, não! Claro que não.” Laura sentiu o sangue a pulsar-lhe na garganta.

“Foi como se eu quisesse saber o que ela me faria. Se estivéssemos sozinhas, quero dizer. Estava curiosa. Perguntei-me como seria. Não que eu alguma vez deixasse uma rapariga... quero dizer... Laura, alguma vez beijaste uma rapariga?”

“Não”, disse Laura. No escuro, podia mentir muito bem. As suas faces coradas não se viam.

“Eu beijei, uma vez.”

Laura levou as mãos à garganta e tentou acalmar a respiração. “Gostaste?” sussurrou.

“Não muito. Mas não desgostei. Eu estava naquela idade. Ela era uma amiga minha no oitavo ano. Talvez ela se tenha tornado marica. Quero dizer, homossexual. Ela provavelmente pensa que eu me tornei marica”, e riu-se. “Ela queria sempre tocar línguas.”

Laura estremeceu. “Tocas-te?”

“Um par de vezes. Deu-me arrepios. Com um homem é tão adorável.” Laura ouviu-a virar-se na cama para ficar de frente para ela. “Nunca fizeste isso quando eras pequena? Nós costumávamos fazer muito, só porque parecia tão horrível. Mas a Lenore queria sempre fazê-lo comigo quando ficámos mais velhas. Fomos as melhores amigas durante algum tempo.”

Laura estava sentada, a tremer, na beira da cama. Pensou: *Meu Deus, se Deus existe, ajuda-me agora. Não me deixes tocar-lhe. Por favor, não me deixes.*

De repente, Marcie levantou-se e atravessou o pequeno corredor entre as camas. Apalpou Laura e sentou-se ao lado dela. “Deita a língua de fora”, ordenou ela, soltando uma risadinha.

“Não!”

“Vamos lá. Quero sentir-me outra vez com doze anos. Sinto-me parva. Deita a língua de fora.” Ela estava a provocar e Laura conseguia ver o brilho do cabelo loiro ao luar que entrava pela janela junto à cama.

“Marcie, não faças isto! Não! Estás a brincar com o fogo. Por favor, isto é uma loucura.” Mas a sua voz diminuiu para um sussurro quando Marcie lhe pegou no rosto com as mãos, e ela sentiu-se impotente para resistir. Deixou-se puxar na direção de Marcie, sentiu a língua húmida e macia de Marcie à procura da sua. Laura abriu a boca com um pequeno arquejo. Os seus braços estenderam-se para agarrar o corpo esguio de Marcie enquanto um gemido lhe escapava.

De repente, o telefone tocou. Laura soltou um pequeno grito de choque. Ambas ficaram totalmente silenciosas e imóveis até que tocou de novo. Então Marcie começou a rir-se. “Oh, quem diria!” disse ela. “Salvas pelo toque. Salvas de uma vida de pecado.” O telefone tocou de novo. “Eu atendo”, disse Marcie. Saltou da cama. Laura ficou paralisada onde estava, abraçando-se a si própria, a tremer e miserável. “Provavelmente é o Burr a querer pedir desculpa por ser um canalha”, disse Marcie. Atirou-se para cima da cama e levantou o auscultador. “Olá? ... Laura, é para ti.” Ela tapou o microfone com a mão e disse: “É o Jack.”

“Não quero falar com ele.”

“Não sejas parva. Fala com ele.”

Contra a sua vontade, Laura pegou no telefone, sentada na cama ao lado de Marcie. Estava tão consciente do corpo de Marcie esticado ali ao lado dela que teve dificuldade em concentrar-se em Jack.

Ele disse: “Mãe, fui um idiota.”

“Eu sei.”

“Perdoa-me.”

“Estás perdoado”, disse ela. “Agora vai para a cama. Boa noite.”

“Mas eu estou na cama”, disse ele. Ele ainda pronunciava cada palavra com um cuidado elaborado. “A minha pergunta é esta — tu falavas a sério?”

“A sério sobre quê?” disse Laura, olhando para a curva ténue da perna de Marcie sob o luar.

“Juro que disseste que me amavas”, disse ele.

“Estavas a sonhar.”

“Amas?”

“Não. Jack, por favor, vai para a cama. Deixa-me em paz.”

“Se eu fosse mais para a cama do que já estou, Mãe — e não penses que foi fácil dizer isto, porque não foi — não sei onde estaria. Diz que me amas.”

“Não. Jack, é tarde. Estou cansada.”

“Amanhã é sábado. Podes dormir.”

“Não me importa o que é amanhã, estou cansada agora. Agora boa noite.”

“Faz uma coisa por mim, Mãe.”

Marcie virou-se, deitando-se de barriga para baixo sobre a almofada.

“O quê?” disse Laura suavemente, perdendo o contacto com ele.

“Promete.”

“Está bem.” Ela sussurrou.

“Beija a Marcie por mim.”

“O quê?” Laura ficou chocada, entrando em total consciência.

“Boa noite, Mãe”, disse Jack. E desligou.

Laura pousou o auscultador e sentou-se incerta na cama ao lado de Marcie durante um minuto. Não se atrevia a imaginar o que Jack queria dizer. Já tinha trabalho que chegasse apenas em manter as mãos longe do rabo macio de Marcie. Sentia medo dela.

O que teria feito a Beth se fosse eu a estar ali deitada? perguntou-se, e soube logo a resposta. Beth ter-se-ia deitado por cima dela, com a frente do seu corpo contra as costas de Marcie. Beth ter-lhe-ia beijado o pescoço, as orelhas, os ombros. Beth teria...

“Laura”, murmurou Marcie.

“Sim?” A garganta estava seca, tornando difícil responder.

“É melhor tentarmos dormir.”

Tudo tinha acabado, então. Laura tinha esperado demasiado tempo. Talvez Marcie a tivesse repelido de qualquer maneira. Talvez a sua hesitação a tivesse salvo. Por outro lado, talvez... Laura ardia por saber. Mas Marcie tinha perdido o estado de espírito brincalhão, infantil e experimental, e já estava meio a dormir. Talvez nunca houvesse outra oportunidade.

Capítulo Seis

No trabalho, na segunda-feira, o telefone de Laura tocou a meio da manhã. “Clínica dos Doutores Hollingsworth, Carstens e Hagstrom”, disse ela, com profissionalismo. Que trabalheira! pensou para si mesma.

Quem a ouvia aparentemente teve a mesma ideia. “Jesus, que trava-línguas”, disse ele. “O que aconteceu ao Smith?”

“Não existe nenhum Dr. Smith”, disse ela, surpreendida.

“Oh, não sejas tão formal, Mãe. Não é próprio de ti. Pensei que era melhor pedir desculpa enquanto estou sóbrio. Estava bêbedo da última vez.”

“Eu sei. Como estás, Jack?” Ela sorriu ao pensar no rosto dele.

“Aborrecido. Mas saudável. Não tive a intenção de adormecer à tua frente na sexta-feira à noite.”

“Está tudo bem. Esquece.”

“Só por causa disso, vou dar-te um bilhete gratuito para veres o meu psicanalista. Ele é um tipo fantástico. Ele precisa de ti.”

“Ele precisa de mim?”

“Tens cinquenta dólares por semana para gastar na tua salvação?”

— Não tenho cinquenta dólares por semana para gastar em compras de supermercado — disse ela.

— Bom, suponho que ele não precise tanto de ti como eu pensava. Mas teria todo o gosto em pagar-te a primeira sessão. Depois disso torna-se um hábito. Ficas viciada. De alguma forma, arranjarás o dinheiro.

Laura ria-se. — Dá-o à Marcie, não a mim — disse ela. — É ela que adora falar.

— Tu também falas bastante bem, por acaso.

— Falo?

— Ficaste lírica na defesa dos excentricões na sexta-feira à noite.

— Não fiquei nada! De qualquer forma, não voltemos a esse assunto — disse ela. — Olha, Jack, gostava de falar contigo, mas...

— Eu sei, estás no trabalho. Eu também estou. Nunca te cansas de trabalhar?

— Estou em período de experiência aqui. Se não me sair bem, despedem-me em junho.

— Então a tua pequena e virtuosa vida de trabalho árduo gira em torno desse escritório.

— Agora estás a ser um idiota outra vez.

— Estou a dizer-te, Laura, tu darias uma boa telenovela. Nós todos daríamos. Somos todos um bando de malucos em um milhão de pequenas telenovelas malucas. Será que o Burr vai casar com a Marcie? Será que o Jack vai deixar de beber? Será que a Laura vai aguentar até junho? Sintonize amanhã. Não teremos a resposta para ti, mas vender-te-emos sabão até dizer chega. Sabes por que é que as pessoas compram sabão?

— Para se lavarem.

— Não. Elas gostam de se tocar na banheira.

Laura teve de rir dele. — Seu tolo — disse ela. — Jack, não posso falar contigo, honestamente.

— Está bem. Ligo mais tarde.

— Não, não, liga esta noite.

— Mas eu quero ver-te esta noite.

Ela não fazia ideia de que o poderia ter impressionado no encontro deles, e ele apanhou-a de surpresa. — Queres?

— Bem, não fiques tão chocada. Tu és uma rapariga simpática, mesmo que tenhas três metros de altura. Passo por ti às sete e meia.

— Não, não posso, Jack.

— Está bem, às oito.

— Estou ocupada.

— Estás, está.

— Estou mesmo.

— Mentes! Tenho um instinto para estas coisas. Às oito em ponto.

De repente, Laura deu conta de outra voz a chamá-la. — Laura? — Era o Dr. Hollingsworth. Ele estava de pé junto à secretária dela e ela olhou para cima, subitamente como uma criança assustada.

— Sim, senhor? — disse ela. Desligou sem sequer se despedir de Jack.

* * * * *

Jack Mann não era um tipo insistente. Pelo contrário, era bastante tímido, embora raramente o demonstrasse. Ia a festas e escondia-se atrás de um fluxo de piadas. Fazia o mesmo nos encontros. Fazia-o com toda a gente. Era uma espécie de mecanismo de defesa, uma forma de esconder o seu verdadeiro eu, e fazia-o há tantos anos que, a esta altura, já era uma segunda natureza. Mesmo as pessoas que o conheciam razoavelmente bem, como o Burr e a Marcie, nunca viam para além dessa fachada de espírito. Pensavam que o Jack era aquilo: todo ele apartes engraçados e pouca conversa séria e direta. Era difícil levá-lo a sério. Ele não queria isso. Queria que rissem dele, ser divertido, e geralmente conseguia sê-lo. Contentava-se em deixar que as pessoas o tomassem por um palhaço.

Mas, de vez em quando, encontrava alguém que o fazia sentir náuseas da máscara por trás da qual se escondia. Alguém que o fazia ansiar por falar, calma e seriamente, sobre as coisas que lhe importavam. Acontecia quando tinha o azar de se apaixonar. Ou quando conhecia um solitário como ele e sentia uma simpatia tácita. Aconteceu com a Laura.

Não foi fácil para ele ligar-lhe de volta. Tê-lo-ia sido, se ela não tivesse apelado às suas emoções. Havia muitas raparigas a quem ele ligava apenas pelo entretenimento mútuo, ou apenas para se divertir. Mas se ele troçava levemente com a Laura, era mais porque não conseguia evitar do que porque quisesse, mais porque achava quase impossível falar de forma direta já há algum tempo.

Às oito horas, ele apareceu no apartamento. Entrou na sala sem bater e disse: — Sou eu. — Quando ninguém respondeu, ele vagueou até ao quarto e encontrou a Laura a fazer uma permanente caseira à Marcie. — Deus, que cheiro! — disse ele.

Laura olhou para cima, surpreendida. — Pensei que estavas a brincar — disse ela. — Sobre o encontro.

Ele sorriu para ela. Ela estava vestida com calças justas e uma camisa de rapaz. Era o seu conjunto favorito depois do trabalho. — Vejo que não planeavas ir ao Stork Club — ironizou ele.

— Não planeava ir a lado nenhum.

— Essa é uma atitude perigosa, Mãe. Planeia sempre alguma coisa. Evita acidentes.

— Jack, não podes levá-la — disse a Marcie. — Nunca vou conseguir fazer isto bem sem ela. — Ela acenou-lhe com um rolo de cabelo de plástico, impotente.

— Ficas melhor sem isso, boneca. Acredita em mim. Anda, vamos tal como estás.

— Jack, não posso. Não fazia ideia...

— Anda. Quero falar contigo.

— Podemos falar aqui.

— Não, não podemos. A Marcie está aqui.

— Eu não oiço — disse a Marcie, com um sorriso.

— Além disso, não consigo falar — disse ele, e a Laura vislumbrou a timidez escondida nele. — Estou sóbrio como um poste. — Ele encolheu os ombros. — Vamos.

— Não posso ir assim.

— Não te preocupes com as calças, ficam-te bem.

Por uma razão profunda, escondida e curiosa, ela sentiu-se lisonjeada. Ficou ali a hesitar e o Jack aproveitou-se dela. Agarrou-lhe o braço e puxou-a para a porta.

— Sequestrador! — gritou a Marcie.

— O meu casaco... — disse a Laura.

— Não precisas dele. Está ameno.

— Tu também estás.

— Obrigado. — Ele guiou-a escada abaixo.

Aquilo era uma mudança para a Laura. Ela nunca tinha sido especialmente atraente para os homens antes, começando desde o início com o pai e continuando pelo liceu e faculdade fora. Ela não parecia calorosa, suave e maleável. Era distante e envolta em si mesma, alheia a todos, homens incluídos. Não gostava muito deles e eles sentiam isso.

Agora, ali estava um homem inteligente e bem educado a dar-lhe atenção. Ela não percebia. O Jack não a atraía fisicamente mais do que qualquer outro homem; na verdade, um pouco menos. Ele era pequeno, nervoso, algo corujesco com os seus óculos de aros grossos. Parecia um estudante universitário da Ivy League. Ela calculou que tivesse uns vinte e cinco anos. Laura tinha vinte. Mas supôs que, daqui a cinco ou seis anos, talvez fosse tão cínica quanto o Jack. Gostava de o ouvir dizer coisas que ela nunca se atrevera a dizer.

Foram a um pequeno bar a alguns quarteirões de distância, onde a Laura tinha ido uma vez com a Marcie para beber uma cerveja. Era um local tranquilo com uma clientela habitual.

Entraram e sentaram-se num banco no fundo. — Normalmente prefiro o balcão — disse o Jack —, mas acabo sempre a contar os meus problemas ao empregado. Por isso vamos sentar-nos aqui.

Laura sentiu-se um pouco estranha a entrar num bar de calças, mas estava com um homem e esperava que isso tornasse tudo aceitável.

— Só uma cerveja — disse ela ao Jack. Há um ano, teria dito: "Só uma coca-cola". E teria dito de uma forma que o fizesse pensar que ela desaprovava o álcool. Mas, ultimamente, tinha ganho o gosto pela cerveja. A Beth gostava e a Marcie também. Devia haver alguma coisa nisso. Então, tinha ganho o hábito de beber uma de vez em quando à noite, quando chegava do trabalho. Relaxava-a. Fazia-a sentir que podia pensar no Merrill Landon sem explodir, ou na Marcie sem querer fugir da própria pele. Sentia que talvez pudesse aguentar, vivendo daquela forma com a Marcie, e que tudo acabaria por correr bem.

A empregada trouxe as bebidas e o Jack serviu-lhe a cerveja. Depois, bebeu o seu shot e tomou um pouco de água. Parecia estar à procura de uma forma de falar com ela. — Há quanto tempo tu e a Marcie estão juntas? — disse ele, finalmente.

Que forma estranha de dizer isso, pensou a Laura, cautelosa. — Desde janeiro — disse ela.

— Ah, sim. Suponho que o Burr tenha mencionado. Ele gosta de ti. — Ele sorriu para ela e ela relaxou um pouco.

— Porque é que o Burr e a Marcie não se dão bem? — perguntou ela.

O Jack encolheu os ombros e chamou a empregada. Depois olhou para a Laura. — Eles não querem — disse ele. — Estragaria a diversão.

— Eles amam-se — disse a Laura.

— Fisicamente, sim, amam.

A Laura não gostou da definição dele. — A Marcie diz que talvez se casem outra vez.

— Pois. Eles são cegos o suficiente para o fazerem também.

— A Marcie não é cega!

— Desculpa. Um lapso de língua. — Ele sorriu e bebeu a bebida fresca que a empregada acabara de trazer.

— Bem, ela não é — disse a Laura, desconcertada com o seu comportamento. — Ela ama mesmo o Burr... pelo menos, acha que ama.

Ele pousou o copo. — A Marcie ainda não aprendeu a amar — disse ele.

— Queres dizer que ela não ama o Burr? — Ela fez a pergunta ansiosamente.

— Não — disse ele calmamente, estudando-a. — Ela ama a excitação física. Ela ama um filho da mãe grande, viril e apaixonado para fazer um escândalo por ela.

— Estás enganado — disse ela, desapontada. — Ela não discute apenas por discutir. É só com o Burr. Ela nunca discute comigo.

O Jack riu-se um pouco, para si mesmo. — Isso é porque tu és uma rapariga, Mãe — disse ele. — Sei disso porque tens o cabelo comprido.

A Laura começou a suar sob o olhar inquisidor dele. — Não é esse o ponto — disse ela, exasperada. — A Marcie tem um temperamento doce. Ela é muito calma. Deve ser o Burr.

— Calma? — O Jack riu-se. — Pelo modo como aquela rapariga fala, ela é tão calma como a estação de Grand Central na hora de ponta.

— Está bem, ela fala muito. — A Laura estava a ficar irritada. — Isso não significa que ela goste de discussões. Ou de homens que vivem disso.

— É exatamente o que significa. Acredita. É verdade.

— Tu és maluco.

— Tu estás apaixonada.

— O quê? — Disse ela num sussurro chocado, olhando para ele, sentindo as bochechas ficarem escarlates. — O que é que isso quer dizer? — disse ela. A sua voz era seca e fraca, e as suas mãos estavam suadas.

O Jack bebeu outro shot. Depois pousou o copo e inclinou-se sobre a mesa, o rosto sério. — Tu és homossexual, Laura.

Laura ficou sem fala por um momento, surpreendida para lá da sua capacidade de pensar ou sentir. Então, um tremor horrível e doentio subiu-lhe pela garganta. Por um momento, hesitou entre fugir ou lutar. Estava furiosa, assustada e humilhada. Nunca lhe ocorreu negar a verdade. O Jack tinha acertado em cheio. Ela cerrou os punhos sobre o tampo da mesa e coisas violentas vieram-lhe aos lábios. Mas, antes que pudesse proferi-las, o Jack falou de novo.

— Oh, não fiques tão lixada. Não és a única. — Ele suspirou, esmagando o cigarro num cinzeiro chamuscado. — Eu também sou. Por isso, não me venhas com atos de mártir. — E acenou novamente à empregada.

Laura tapou o rosto com as mãos subitamente, pressionando uma mão sobre a boca para abafar os soluços. Ouviu a empregada aproximar-se e virou a cabeça para a parede.

— O mesmo para mim — disse o Jack.

— E a senhora?

— Traga-lhe um whisky duplo.

Laura podia sentir a mulher a olhar para ela com curiosidade. Queria evaporar-se. Odiava a curiosidade impessoal daquela estranha. Depois de um minuto, o Jack disse: — Ela já foi.

Laura baixou as mãos, mas não conseguia olhar para ele. Disse apenas, de forma bastante desesperada: — Como é que sabias?

— É preciso ser um para reconhecer outro — disse ele com um sarcasmo leve.

— Como? — exigiu a Laura. — Tu és um homem.

— Por isso sou um homem. Tu és uma rapariga. Ambos somos maricas.

— Como é que sabias? — disse ela bruscamente, olhando para ele agora.

— Tens uma queda pela Marcie. É assim.

Laura soltou um pequeno suspiro. — É tão óbvio? — perguntou ela, assustada.

Jack abanou a cabeça. — Para mim, talvez, mas só porque estava à procura disso.

— Estavas? Porquê?

— Estou sempre à procura disso. — Ele estava a troçar de novo. Ela percebeu agora que ele a chamara de Laura quando disse: Tu és homossexual, Laura. Ele estava a falar muito a sério na altura.

— Procuras isso até nas raparigas? — disse ela.

— Em qualquer pessoa. Podes dizer que é um passatempo meu. Identifico alguém e penso para comigo: "Outro pobre diabo como eu". Levanta-me o moral. Suponho que seja um caso de a miséria adora companhia.

— Preferia sofrer sozinha — disse ela, não sem orgulho.

— Vais passar por cima disso. Quando aprenderes a orientar-te.

Laura ainda tremia por todo o lado. — Ouve-me, Jack — disse ela, inclinando-se sobre a mesa e afastando a última lágrima impacientemente das bochechas. — Nunca ouvi essa palavra — homossexual — como tu a usas até ao nosso encontro de sexta-feira. Ninguém me tinha chamado "homossexual" antes. Eu nem sabia o que significava. Mas digo-te isto: nunca toquei na Marcie. Nunca tentei fazer nada com ela. Nunca. Ela não sabe e nunca saberá. — Disse isto quase ferozmente, mas o Jack apenas sorriu para ela.

— Está bem — disse ele. — Não me pregues sermões. Acredito em ti. Acredito que não tens ido para a cama da Marcie depois das horas, pelo menos. Mas não deixes que a Marcie te engane. Ela pode ser selvagem às vezes. Fica com estados de espírito loucos e faz qualquer coisa. Vi-a chegar-se a um sem-abrigo no Central Park e beijá-lo uma vez por desafio. Um tipo grande, feio e desleixado. Foi o suficiente para a matarem, mas ela adorou.

Laura sentiu repulsa. Mas não surpresa. Não depois do que a Marcie lhe tinha feito na última sexta-feira à noite.

— Ela não poderia suspeitar de mim — disse ela teimosamente. — Nunca faço nada.

— Fizeste muito no The Cellar sexta-feira à noite.

— Eu — eu fiz? — Sentiu aquele velho sentimento doentio voltar a dominá-la.

— Olhaste para ela como se tivesses intenções. Abriste-lhe a porta. Discutiste com o Burr.

— Mas tudo o que eu disse foi...

— Tudo o que disseste foi que eras homossexual. Para qualquer pessoa que se desse ao trabalho de perceber. Bem, eu dei, é só isso.

O rosto da Laura estava quente e ela tentou defender-se. — Tudo o que fiz foi defendê-los — homossexuais, quero dizer. Apenas disse que eram seres humanos, não animais. Isso é contra a lei?

— Não "eles", Mãe — disse o Jack suavemente. — "Nós". Tu és um de nós.

— Mas o Burr e a Marcie não sabem disso — disse ela, quase implorando que ele concordasse.

Jack levou um dedo aos lábios. — Toda a gente vai saber se não baixares o tom de voz — disse ele. — Está bem, o Burr não sabe. Quanto à Marcie, tu vives com a rapariga. Devias saber.

— Ela não poderia — disse a Laura, mas sentia-se trémula.

— Não tens a certeza, pois não? Porque não descobres?

— Como? — Ela olhou para ele ansiosamente.

— Pergunta-lhe. — Ele riu-se ao ver o rosto dela cair.

— Maldito sejas!

— Está bem. Não lhe perguntes. Dá uma cantada nela.

— Estás louco! — Laura olhou para ele, chocada. — Nunca faria tal coisa! Ela poderia — meu Deus, ela poderia chamar a polícia. Ou o Burr. Ela odiar-me-ia. Eu não suportaria. Jack, não me peças para me fazer de tola. Queres meter-me num sarilho trágico?

— Quero evitar que entres num. É por isso que estou a falar desta forma.

— Bem, age como se tivesses evitado, então. Arrastas-me para aqui, quando eu nem queria vir, e dizes-me... — Ela engoliu em seco convulsivamente. — ...dizes-me que sou homossexual. — Ela cuspiu a palavra para cima dele. — E depois tens a lata de te sentares aí e dizeres-me para fazer amor com a Marcie... — Ela quase se engasgou com as palavras. — ...quando sabes perfeitamente que ela provavelmente sentiria repulsa, ela...

— Acalma-te, Mãe, bebe um copo. — E ele ergueu o copo dela até que ela lho tirou da mão. Queimou-lhe a garganta, mas ela estava demasiado agitada para se importar.

— Agora — disse o Jack. — Chamei-te aqui para te dizer que sei que és homossexual. E eu também sou. Quero ser teu amigo, Laura. — Ela olhou para ele e percebeu que ele estava embaraçado, apesar de toda a coragem líquida que estava a consumir, e que era difícil para ele falar. — Maldita seja — disse ele. — Estou tão habituado a falar como um idiota que já não consigo dizer o que penso. Eu — eu queria dizer-te — avisar-te, Laura — eu estive na situação em que estás agora. Uma vez. Há muito tempo. Apaixonei-me por um colega de quarto meu, não pensei que ele soubesse de nada também. Não via como fosse possível. Tive tanto cuidado. Nunca disse nada, nunca fiz nada. Jesus Cristo, até evitava o tipo. Saí do meu caminho para o evitar. Mas eu era louco por ele, Laura. Queria-o tanto que doía. Ficava ali deitado na escuridão a dizer a mim próprio: "Não podes tê-lo, não podes tê-lo", uma e outra vez. Dizia: "Quem raio pensas tu que és? Se fosses o rapaz mais bonito da Terra, ele não olharia duas vezes. E, Mann, tu não és o rapaz mais bonito da Terra. És o mais feio." Sempre que falávamos tarde da noite, sempre que íamos a qualquer lado juntos, sempre que nos tocávamos, eu queimava-me por dentro, morria por isso. Queria beijá-lo, senti-lo todo, apenas abraçá-lo. Deus, matava-me! Mas nunca deixei transparecer. Nunca. E um dia — isto dar-te-á uma ideia do que esperar, Mãe — um dia, depois de toda esta castidade nobre, virtude e porcaria de abnegação por que estava a passar, ele aproximou-se de mim e disse: "Jack, odeio dizer isto, mas vou mudar-me."

— Porquê? — perguntou a Laura suavemente, com a testa franzida de simpatia.

— Porque eu era homossexual. Ele não disse dessa forma, claro. Ele não disse: "Porque tu és maricas, seu pobre diabo. Tenho pena de ti, mas não aguento mais". Isso eu poderia ter suportado. Mas ele limitou-se a dar-me um monte de tretas.

Laura sentiu vontade de chorar de novo. Mas disse apenas: — Não é algo por que ser grata? Ele tentou, pelo menos.

— Sim. Ele tentou. — Ele disse isto de forma tão ácida que a Laura teve medo de dizer mais alguma coisa.

— Houve muitos depois do Joe — disse ele, passado algum tempo. — Tal como haverá muitos para ti depois da Marcie. — Laura tentou protestar, mas ele mandou-a calar. — Eu sei, eu sei, tu vais manter as mãos longe. Vais passar a vida toda a ignorar o sexo, a ignorar o que és. A negar que o queres, a fugir dele. Eu também ia fazê-lo. Isso foi há vinte e cinco anos.

— Há vinte e cinco anos! — Laura olhou para ele. — Que idade tens, Jack?

— Quarenta e dois. Surpresa? — Ele sorriu perante o espanto boquiaberto dela.

— Pensei que fosses talvez cinco anos mais velho do que eu. Vinte e cinco, mais ou menos. Não podes ter quarenta e dois.

— É o que eu continuo a dizer a mim próprio. Não posso ter. Mas, raio, tenho mesmo.

— Não acredito.

Ele sorriu. — Bom — disse ele. — Gosto de enganar as pessoas.

— Porquê? — Parecia loucura. — O que é que um homem quer saber de quão jovem parece? Pensei que isso fosse para mulheres — disse a Laura.

— Mulheres e rapazes homossexuais. Achas que algum belo jovem de vinte anos se vai apaixonar por um gordo, careca, bastardo de meia-idade que nem sequer tem dinheiro para oferecer? Sou feio, Mãe. Isso já é um azar suficiente. Quando começar a parecer velho, desisto.

— Não és feio, Jack — disse ela gentilmente, tentando consolá-lo.

Mas ele recebeu o consolo com uma gargalhada sardónica. — Só uma Mãe me poderia amar — disse ele.

— Não fales assim. Deixas-me tão triste.

— Ah, Cristo — disse ele, e bebeu. Olhou para a Laura, e ela pôde ver que ele não estava a focar muito bem agora. — Vim aqui para falar de ti, de qualquer modo, não de mim. O que é que o teu pai te fez quando tinhas cinco anos?

Laura sobressaltou-se. — Quando disse isso? Mencionei o meu pai? — perguntou ela.

— Sim. No The Cellar. Provavelmente tão bom lugar quanto qualquer outro.

— Eu — eu não me referia ao meu pai — disse ela.

— Não me mintas, Laura. Vamos ser amigos.

Depois de alguns momentos, ela disse: — Não posso falar sobre isso, Jack.

— O que é que ele fez?

— Nós... nós estávamos numa estância de verão. — Começou a verter-se dela. Jack tinha exposto a sua angústia, e ela sentiu-se subitamente segura com ele, e necessária. — Estávamos lá de férias num verão. Fomos pescar no lago — o Pai e a Mãe e o meu irmão e eu. — A sua voz tornou-se suave enquanto falava. — O barco virou. Eu fui a única que ele conseguiu salvar. Eu era a que estava mais perto dele. A Mãe e o Rod afogaram-se. — Ela fechou os olhos com um pequeno arquejo contra o velho horror, ainda tão agudo no seu coração, como uma agulha grande e feia ali espetada para a lembrar de que não tinha o direito de estar viva. — Toda a minha vida senti como se os tivesse matado. Ele diz que matei. Ele odeia-me porque não sou o seu filho. Odeia-me porque não sou a minha própria mãe, a sua mulher. — Jack pareceu completamente sóbrio por um minuto, olhando para ela com as sobrancelhas franzidas. Ela baixou a cabeça e chorou baixinho. — É tudo — disse ela. — Não lhe posso contar mais nada.

— Não precisas — disse ele suavemente. — Jesus.

Ela respirou fundo e sentou-se, sentindo como se tivesse aliviado o peso daquele segredo de chumbo ao partilhá-lo. Ficou algo surpreendida por descobrir que era capaz de o partilhar. Sentia-se muito próxima de Jack, como se fossem agora verdadeiramente amigos. Cada um deles tinha arriscado um pouco de si mesmo com o outro. E nenhum, agora, estava arrependido.

Com um suspiro, ela olhou para o relógio. Estava a ficar tarde. — Tenho de me levantar cedo — disse ela, com a voz ainda instável. — Tu também. Eu sei, o Burr está sempre aos berros por causa das horas. Vamos embora.

— Mais uma — disse ele, erguendo o copo. — Ainda não acabei contigo.

— Não percebo — disse-lhe Laura. — Nem sequer nos conhecemos. Esta é a segunda vez que nos vemos. E aqui estamos nós a falar como velhos amigos.

— Estás enganada, Laura. Conhecemo-nos muito melhor do que algumas pessoas que se conhecem há anos. Como o Burr e a Marcie. Conhecemo-nos instintivamente, não sentes isso? Eu não te teria telefonado de outra forma. Tu não me terias deixado arrastar-te para fora esta noite de outra forma.

— Não fales da Marcie como se ela não tivesse um pingo de juízo — disse Laura.

Jack sorriu. — Estás apaixonada — disse ele. — Isto é sério. Ela tem algum juízo, Mãe, só não o usa.

— Ela não é estúpida — defendeu-a Laura entusiasticamente.

— Também não é sagrada.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Oh, claro que foi. Eu também pensei o mesmo do Burr, uma vez.

— Do Burr? — Laura olhou para ele, estupefacta. — Tu... tu estavas...

— Louco pelo Burr? Sim. Uma vez. Quando o conheci.

— O que aconteceu?

— Nada. Graças a Deus. Superei. Eu tenho queda para grandes filhos da puta viris, tal como a Marcie. Mas tomo cuidado para não viver com eles outra vez.

Laura abanou a cabeça, com um sorriso irónico no rosto. — Nunca te apaixonas pelos gays?

— Tento fazer disso um objetivo. — Ele sorriu tristemente. — Infelizmente, às vezes falho o objetivo. Se é que me entendes.

— Não tenho a certeza.

— É melhor assim. Conheci o Burr no trabalho quando ele foi contratado, há cerca de quatro anos. Eu sabia que ele era heterossexual.

— O que é "heterossexual"?

— Tudo o que não é "gay" — por isso, andei com rodeios à volta do assunto. Fiz com que ele gostasse de mim. Fiz o trabalho de casa por ele. Fiz com que ele se risse. Disse-lhe o que dizer ao chefe. Saí em encontros duplos com ele e a Marcie e fui padrinho no casamento. Fui o resolvedor de problemas número um depois do casamento. Ele acha que sou indispensável.

— Mas tu... tu já não...

— Não, já não. Já não. Mas ainda gosto de estar com ele. Gosto de os ver discutir. — Ele sorriu para ela. — Tu também gostas.

Ela sentiu-se embaraçada, como se ele estivesse a ver através das suas roupas até aos seus sentimentos nus.

— No entanto — continuou ele —, não tenho ilusões nenhumas sobre ele ser um gigante intelectual. Nem a Marcie também. E sei muito bem que ele não me vai dar atenção se eu ficar por perto tempo suficiente. — Ele lançou-lhe um olhar penetrante. — Essas são as tuas ilusões, Mãe — disse ele. — Sugiro que as afogues.

— O que é que isso quer dizer?

— Podes fazer o penteado da Marcie até a lua ficar azul e ela não se vai arrastar para a tua cama para te agradecer por isso.

— Não espero que ela o faça.

— Claro que esperas. É uma marca da nossa raça. Somos otimistas incuráveis. Caso contrário, suicidar-nos-íamos todos. Ficamos caídos por alguém, e se essa pessoa for heterossexual, imaginamos que vamos amá-la tanto que ela terá de se tornar gay. Não funciona assim. A Marcie não vai começar a beijar-te só porque tu queres que ela o faça.

Laura ficou furiosa. — Ela já o fez — retorquiu ela.

As sobrancelhas de Jack levantaram-se. — Quando? — disse ele.

— Na noite em que voltámos do The Cellar. Ela disse que se sentiu estranha lá dentro, com todas aquelas raparigas a olhar para ela. Disse que costumava tocar línguas com uma rapariga quando era adolescente, e que queria fazê-lo outra vez. E fez. Tu... tu... — Ela não sabia como lhe chamar. — Tiveste de me telefonar mesmo a meio, quando eu pensava... — Ela interrompeu-se. — Oh, isto não é nada a minha cara — gemeu ela. — Eu nunca falo destas coisas.

— Só contigo mesma, hum? — Ele riu-se. — Estrago-te os devaneios e o teu caso. Deus! O que mais posso fazer? Estou a tornar-me o Homem da tua Vida, Mãe. — O seu riso desvaneceu-se lentamente, e Laura percebeu que ele estava bastante ébrio pela forma como deixou cair a cabeça por um momento. — Sabes — disse ele, abanando um dedo para ela, articulando cautelosamente —, nunca tenho problemas a pensar quando estou bêbado. Mas a minha língua fica desleixada. — Ele riu-se um pouco. — Digo o que quero dizer, isso é uma coisa boa. Mas soa terrivelmente desleixado. — Ele terminou a bebida que tinha à frente. Laura começou a levantar-se, mas ele agarrou-lhe o pulso e disse, subitamente muito sério outra vez: — Estás em apuros, Laura. A Marcie é heterossexual. Aceita isso. É um facto. Se ela está a jogar jogos contigo, está a fazê-lo por prazer próprio, não para te dar um entusiasmo. E os prazeres dela não têm nada a ver com ser gay. Têm a ver com pôr-se em risco, com agir como uma louca de vez em quando. Talvez ela esteja apenas a empurrar-te para o precipício para ver se caes. E vais cair, com certeza. Direita de rabo no chão. — Ele parou por um minuto para focar o seu olhar nela. — A Marcie é tão queer como o Post Toasties, Laura. Segue o meu conselho: muda-te.

— Mas não posso! Não quero! — exclamou ela na defensiva. — Porque haveria de o fazer? Não fiz nada de mal!

— Eu também não tinha feito nada quando o Joe me deu a boa nova.

— Eu não sou tu. Não fiz nada de que me envergonhe.

— Não, mas vais fazer. Se ficares por perto, a sentires-te como te sentes. Foste salva por um telefonema na sexta-feira à noite. E se o meu timing não for tão bom da próxima vez?

— Não me quero mudar. — Ela disse-o teimosamente, como uma criança contrariada.

— Mais uma razão pela qual deverias.

Laura ficou indignada. — Tenho mais força de vontade do que tu pensas e não vou deixar que me assustem para sair.

— O que vais fazer com a força de vontade se ela tiver frio numa noite e se arrastar para a tua cama para se aquecer? Ou se tomarem um duche juntas? Ou se ela tiver vontade de te arrancar os nervos pelas raízes um a um outra vez, e te fizer jogar ao vamos-tocar-línguas só por diversão? Só para ver se consegue que te mandem para dentro por sodomia? Agradece seres mulher, Mãe. Pelo menos a tua paixão não se vai pôr de pé e fazer continência a ela.

— Já tive o suficiente de ti esta noite!

— Ok, ok. Mas aconselho-te a encontrar uma butch simpática em qualquer lugar e a montar casa no Village. Ou, pelo menos, a cultivar algumas beldades por lá, para teres um lugar onde desabafar quando a Marcie tiver vontade de jogar jogos.

— Estás bêbado e és repulsivo.

— Sei o que sou, Laura. Não mudes de assunto.

— Vou para casa.

— Eu vou contigo. — Ele levantou-se instavelmente e seguiu-a até à porta. Lá fora, ele deteve-a. — Não me odeies, Laura — disse ele. E ela não conseguia, ao olhá-lo ali no brilho cor-de-rosa do neon, baixo e simples, brilhante e miserável, a oferecer-lhe a sua curiosa e pungente simpatia.

— Quem me dera poder — disse ela, abanando a cabeça.

Ele sorriu para ela. — Eu acompanho-te a casa — disse ele.

— Não precisas. Porque não apanhas um táxi e vais para casa?

— Estás a sugerir que não consigo andar?

— Não. — Ela riu-se.

— Estás, sim. Só por causa disso vou acompanhar-te a casa, quer queiras quer não. Para provar que consigo.

— Está bem. — Mas ela teve de o guiar durante a maior parte do caminho. Jack conseguia falar melhor do que conseguia navegar quando estava pedrado. Quando chegaram ao apartamento, ela chamou-lhe um táxi e meteu-o lá dentro. Ficou ali a vê-lo afastar-se pela West End Avenue, a vê-lo até ser indistinguível do mar de luzes traseiras vermelhas que seguiam com ele. E sentiu uma afeição crescente por ele.

Capítulo Sete

Foi difícil levantar-me no dia seguinte. Não impossível, apenas difícil. Desanimador. A cabeça doía-lhe, e ela estava insatisfeita consigo mesma. Pela primeira vez, teve vontade de faltar ao trabalho. Mas foi e fez o seu serviço. Só a meio da tarde é que ela deu um salto ao ouvir a Sarah perguntar: — O que se passa, Laura? Um pouco indisposta?

Laura olhou para ela. Será que tenho tão mau aspeto? perguntou-se ela. — Estou um pouco cansada. Porquê?

— Os relatórios estão a acumular-se — disse Sarah, apontando para eles.

Laura esfregou a testa. — Desculpa, Sarah. Vou pôr-me em dia. Vou trabalhar até mais tarde.

— Não sejas parva! — Sarah riu-se de bom grado. — Põe-te em dia amanhã. Não há assim tanta pressa.

Mas no dia seguinte ela não se pôs totalmente em dia; na verdade, ficou ainda mais atrasada. O Burr e a Marcie tinham-na mantido acordada. Foi em parte pela discussão e em parte pelo silêncio torturante que se seguiu. Ela foi trabalhar ainda mais cansada do que no dia anterior. O Dr. Carstens apareceu para lhe contar uma história sobre uma das suas pacientes, e ela ficou francamente irritada. Ele levantou-se da secretária dela, onde estava sentado, e saiu bufando, ofendido. — Ok, não te rias — disse ele. — Os outros acharam que tinha piada.

Laura levou-se quase à loucura com os seus erros naquela tarde. Quando o telefone tocou, ela deu um salto quase a sair da cadeira. Era o Jack.

— Boa tarde, Mãe — disse ele. — Estou a vender escovas de dentes usadas. Interessada?

— Não. Estou muito ocupada. Adeus.

— Vejo-te às oito.

— Não.

— Às oito e um quarto.

— Não.

— Às oito e meia.

— Está bem! Está bem! Está bem! Adeus! — Ela bateu com o recetor e a Sarah olhou para ela.

* * * * *

Laura decidiu trabalhar até mais tarde, e eram quase oito e meia quando se levantou para ir embora. Os relatórios, embora menos, ainda não estavam terminados.

No elevador, o rapaz disse: — Bela noite.

— É? — Respondeu-lhe ela apaticamente, envolvida no seu próprio mundo.

— Sim, senhora. É mesmo primavera esta noite. — Ele sorriu para ela.

Ele tinha razão. O ar estava suave e gentil, lavanda e límpido. Até cheirava bem, mesmo ali no centro de Manhattan, embora isso fosse provavelmente uma alucinação. Laura sorriu um pouco. Detestava ir para o subsolo do metro, mas era tarde e queria chegar a casa depressa. Estaria realmente lindo lá fora no telhado esta noite.

* * * * *

Ela entrou e encontrou o Jack e o Burr a jogar damas. A Marcie estava sentada de pernas cruzadas no chão, com calças de veludo e uma camisa de seda, a cantarolar enquanto cobria o topo da mesa redonda de cocktails com um revestimento plástico tratado para parecer mármore.

Ela sorriu para a Laura, que parou para a admirar. — À prova de álcool — disse a Marcie, fazendo barulho com a capa da mesa. — O Sr. Marquardt deu-ma. Estamos a fazer publicidade a ela para um novo cliente, e distribuíram um pouco hoje. Cola-se sozinha. De que é que gostas?

— Parece maravilhoso — disse Laura. E a Marcie também, com as bochechas cor-de-rosa de entusiasmo.

— Já foste, Mann — disse o Burr, e Laura ouviu uma peça de damas a bater triunfantemente no tabuleiro numa série devastadora de saltos. — Touché, rapaz.

— Porque é que não começas a jogar tiddly winks? Eu conseguia ganhar-te no tiddly winks. — O Jack estava sentado com os cotovelos nos joelhos e o queixo na mão. Ele olhou para a Laura sem levantar a cabeça e sorriu. Ela olhou para ele, absorta na ideia de que ele tinha estado, outrora, apaixonado pelo homem ao seu lado, e o Burr nunca o tinha sabido. O Burr achava que ele era tão normal como ele próprio. Mas, claro, nunca tinham vivido juntos. Subitamente, a Laura lembrou-se de que tinha aceitado sair com o Jack.

— Jack... — começou ela, mas ele interrompeu-a.

— Vejo que tenho menos atrativos que a tua máquina de escrever — disse ele. Ele olhou-a de lado. — Bem, não faz mal, não tenho assim tantos amigos para me poder dar ao luxo de ter ciúmes das suas máquinas de escrever.

— Obrigada, Jack — disse ela com um pequeno sorriso. Virou-se para ir para a cozinha, mas ele saltou e seguiu-a.

— Onde é que raio pensas que vais?

— Direita ao frigorífico. Estou esfomeada.

— Temos um encontro. Vou levar-te a jantar.

— Porque é que não ficamos simplesmente aqui? — implorou ela.

Mas tudo o que ele disse foi: — Não — e ela percebeu que ele tinha tomado uma decisão e tinha algo planeado.

Ela estava relutante em deixar a Marcie, que parecia tão bonita. Mas quanto mais bonita a Marcie parecia, pior a Laura sofria. Talvez fosse melhor falar dela esta noite. Falar com o Jack sobre ela. Parecia uma boa ideia.

— Está bem, mas vamos chegar cedo. Estou estourada, estou mesmo — disse ela.

— Como quiseres, Mãe. — Ele sorriu, e ela sentiu subitamente que era terrivelmente bom tê-lo como amigo.

Quando saíram, ela disse: — Vamos ao Hempel’s. É só a um quarteirão.

— Não. Vamos ao The Cellar.

— Oh, Deus, não! Fica a quilómetros de distância. Não chegaríamos a casa antes da meia-noite.

— Uma amiga minha quer conhecer-te.

— Quem?

— O nome não te diria nada. Provavelmente só te assustaria e te faria fugir. Ela viu-te quando estivemos lá na semana passada. Ela gosta da tua cara.

— Oh, isso é ridículo. Anda, estou esfomeada. Tenho de comer ou vou desmaiar.

— Esta é uma rapariga muito interessante. Ela podia ensinar-te muito.

— Eu sei tudo o que quero saber. — Ele riu-se, mas ela continuou: — Jack, não vou para o Village contigo.

Mas quando chegaram à Broadway, ele chamou um táxi e ela deixou que ele a metesse lá dentro, como sabia que faria. — Não posso. Não vou. Estou cansada e com fome — disse ela. Mas entrou. — Vou adormecer em cima da minha máquina de escrever amanhã — gemeu ela.

Quando chegaram ao Cellar, sentiu um impulso de excitação apesar de si mesma. Chegaram depois de a cozinha ter fechado, mas o Jack era um cliente habitual, e estavam dispostos a arranjar-lhe qualquer coisa.

Seguiram uma empregada até a uma mesa. Laura caminhou com uma estranha náusea leve no estômago e sentou-se com o Jack sentindo-se terrivelmente autoconsciente e observada, como se todos os pares de olhos na sala a estivessem a inspecionar. O Jack riu-se, acenando a alguém. — Todos os meus amigos vão pensar que me tornei heterossexual — disse ele. Fez um pedido à empregada e ela saiu a correr. Ele recostou-se na cadeira para olhar para a Laura então. — Arrependida de estar aqui? — perguntou ele.

— Não. Mas queria que fosse sexta-feira à noite.

— Relaxa. Vamos embora quando tu disseres.

Ela começou a sentir-se aventureira e louca. O Jack foi buscar-lhes uma bebida. Ela olhou para ela com suspeita, mas depois pegou nela e bebeu metade de um trago, e atingiu-a como uma bomba, uma grande, suave e adorável explosão de calor na boca do estômago. Ela piscou os olhos ao Jack, que apenas sorriu, conhecendo a sensação.

— Como gostarias de estar aqui uma noite — disse ele lentamente — com a Marcie ao teu lado? E sentarem-se sozinhas àquela pequena mesa ali ao lado? E dizer-lhe que a amas? — Laura deu outro trago na bebida e quase a acabou. — E ouvi-la dizer a mesma coisa?

Laura pousou o copo com as mãos trémulas. — Oh, Jack, seu bastardo — disse ela, com as entranhas em chama. — Pára com isso.

— Tu queres tanto isso — disse ele — que te está a rasgar as entranhas. E nunca vai acontecer. Por isso abre os olhos. Olha à tua volta. Há algumas mulheres bonitas aqui esta noite. Há uma tão bonita como a Marcie. — Ele olhou por cima do ombro dela. Laura virou-se indignada para olhar e viu um rosto encantador emoldurado por caracóis castanhos curtos a sorrir para um par na mesa. Ela olhou para cima com a visão repentina do rosto da própria Laura, pálido e convincente.

— Ninguém é tão bonita como a Marcie — disse-lhe Laura.

— Alguém já foi — disse o Jack, com a sua intuição peculiar a levá-lo diretamente ao ponto.

— O que queres dizer? — disse Laura na defensiva, e acabou a sua bebida.

— Sempre que sabes muito bem o que quero dizer — disse ele com um sorriso —, perguntas "o que queres dizer". Como se eu fosse louco. Bem, não sou. Dá-me o teu copo. — Ele pegou nele e levantou-se. — Nunca pensei que me ganhasses a chegar ao fundo, Mãe. — Ele espreitou para dentro dele com um olho e depois saiu para o encher de novo.

Laura recostou-se no seu assento e fechou os olhos. Afinal, que importava se ela estivesse ali? Sentia-se maravilhosa. Tinha tido um dia de trabalho fantástico, tinha direito a uma pequena diversão. O seu corpo brilhava em todo o seu comprimento. A Marcie surgia na sua mente como uma aparição adorável, não totalmente real.

Um dia hei de tê-la, pensou Laura. Não importa o que ele diga.

Olhou à sua volta, procurando alguém de forma semiconsciente. Mas a rapariga das calças pretas não estava lá. A multidão era muito parecida com a anterior, mas mais escassa. O artista andava de um lado para o outro com o seu bloco de desenhos, parando para falar com mesas cheias de amigos. O bar estava cheio, mais do que as mesas.

O Jack voltou, pôs-lhe um copo novo à frente e sentou-se. — Então. Qual era o nome dela? — disse ele.

Laura abriu os olhos lentamente. — Quem?

— A número um.

Ela enrugou o nariz com algum desgosto. — Jack, ela não era um número. Nem um animal. Nem parte de uma coleção.

— O que era ela?

— Era uma rapariga maravilhosa.

— Bonita como a Marcie?

— Não. Bonita... mas não como a Marcie. Elas têm algumas características em comum. Mas a Beth era mais alta. Era bastante masculina. — Ela sentiu-se um pouco embaraçada de repente, ao colocar a questão desta forma. — A Marcie é muito feminina.

— E tu, o que és?

Laura olhou para ele por cima do rebordo do copo. — O que sou eu? — repetiu ela, confusa. — Tenho de ser alguma coisa? Não sei.

— Vais descobrir depressa — disse ele. — A Beth provavelmente ensinou-te muito. A pessoa que te traz para fora ensina sempre.

— Sim, ensinou — disse ela sonhadora. A Beth tinha-a libertado maravilhosamente quando estavam juntas. Tinha-lhe dado a mão e levado-a até si mesma. Também a tinha abandonado ali. Mas Laura não conseguia guardar nada contra ela. Aquele tinha sido um amor sagrado e sê-lo-ia sempre na sua memória, como todos os amores que são interrompidos em plena paixão. Se tivessem estado juntas até o sentimento se ter esvaído um pouco, a Laura poderia tê-la deixado sem arrependimentos desesperados e solidão. Poderia ter conseguido ver a Beth como uma pessoa completa, não como um ideal. Mas não aconteceu assim, e a Beth continuava a parecer-lhe uma deusa.

Agora, num mundo novo, com pessoas novas, ela não tinha a certeza do que era. Com a Marcie, sentia-se agressiva e violenta. Ali, no Cellar, com tantos olhos postos nela, sentia-se tímida.

O Jack sorriu para ela. — Tu és um rapaz — disse ele. — Com a Marcie, pelo menos. A minha amiga não vai gostar disso.

Laura pousou o copo. — Eu sou uma rapariga — disse ela. — Não olhes para mim dessa maneira.

O Jack pôs a cabeça para trás e riu-se. — Correção — disse ele. — Tu és uma rapariga. Porque não te mudas para aqui, onde não tens de ser nem uma nem outra?

— Toda a gente tem de ser uma coisa ou outra.

— És demasiado literal, Laura. Corta o cabelo. Veste essas calças com que ficas tão bem. Arranja umas botas, um casaco de carro e umas camisas de homem, e estás no negócio.

— Não — disse ela. — Não me peças para fazer isso.

— Porquê? O que é que tens a perder?

— Tenho a perder a mim mesma — disse ela, séria. — Se eu fizer isso, já não serei a Laura. Serei apenas uma caricatura de ti.

Jack deu de ombros, indiferente.

— Todos somos caricaturas de alguém, miúda. A questão é escolher uma que nos assente bem.

— Não quero assentar bem em nada — insistiu ela. — Quero ser eu própria.

— Tu própria — repetiu ele, com um tom de escárnio. — Tu própria és uma rapariga que está apaixonada por uma mulher que não te quer. Isso não me parece um grande plano de vida, Laura.

Ela sentiu o golpe, mas não desviou o olhar.

— Talvez não seja. Mas é o meu.

Ele suspirou e levantou-se da cadeira, aproximando-se da janela. Lá fora, a cidade pulsava, alheia àquela conversa.

— Sabes — disse ele, sem se virar —, a Beebo perguntou por ti hoje.

Laura sentiu um frio na espinha.

— A Beebo? Por que razão haveria de perguntar por mim?

— Porque gostou de ti. Já te disse. Ela tem bom olho.

— Não quero saber da Beebo. Nem quero saber do que ela acha.

Jack voltou-se, com um sorriso enigmático.

— Pois devias. Porque, se continuas a insistir nessa tua fixação pela Marcie, vais acabar por precisar de alguém que te tire desse buraco. E a Beebo é uma especialista em sobreviver a quedas.

— Não estou a cair — disse Laura, embora a voz lhe tremesse. — Estou apenas a tentar encontrar o meu caminho.

— O teu caminho é um beco sem saída, Laura. E tu sabes disso. Só precisas de alguém que te mostre a porta ao lado.

— Não quero outra porta. Quero esta.

Jack soltou uma gargalhada curta e sem alegria.

— Então, prepara-te para bater com a cara na parede, miúda. Porque, mais cedo ou mais tarde, vais perceber que o amor não é apenas querer. É também saber quando é que o jogo acabou.

Laura olhou para ele, com os olhos fixos na sua expressão dura e desdenhosa. Sentia-se exausta, como se tivesse corrido uma maratona através de um campo de batalha. O barulho do Cellar parecia, de repente, ter diminuído, transformando-se num zumbido distante que mal chegava aos seus ouvidos.

— O jogo não acabou para mim — disse ela, embora a sua voz não tivesse qualquer convicção.

Jack olhou para o fundo do seu copo, ignorando-a. O cigarro entre os seus dedos consumia-se, deixando cair uma cinza longa e cinzenta sobre o balcão. Laura observou-o, sentindo uma estranha mistura de gratidão pela sua presença e um ressentimento profundo pela forma como ele a via. Ele era a única ligação que ainda mantinha com a sanidade, ou pelo menos com aquilo que o mundo considerava sanidade.

— E o que vais fazer agora? — perguntou ele, levantando os olhos. — Vais voltar para o teu quarto, sentar-te à beira da cama e esperar que ela te peça desculpa por não te corresponder? Vais passar o resto da vida a ser a sombra que se esconde debaixo das escadas?

Laura não respondeu. A imagem de Marcie, com a sua pele macia e o seu perfume doce, invadiu-lhe a mente outra vez, dolorosa e persistente. Cada recordação era uma facada, mas ela não conseguia evitar o desejo de se aproximar, de se deixar cortar.

— Não sei — murmurou finalmente.

Jack suspirou e pousou o copo. Estava na hora de ir. Ele levantou-se, ajustando o casaco, e lançou-lhe um olhar que era, simultaneamente, de pena e de impaciência.

— Faz o que quiseres, Laura. Mas, quando estiveres farta de sangrar, lembra-te que há outras formas de viver. Não tens de ser uma mártir por causa de uma rapariga que nem sequer sabe que tu existes de verdade.

Ele afastou-se, abrindo caminho entre a multidão compacta do bar. Laura ficou ali, sozinha, com o peso de cada palavra a pressionar-lhe os ombros. A porta do Cellar abriu-se, deixando entrar uma lufada de ar frio da rua, e ele desapareceu na noite.

Ela olhou para o espaço vazio ao seu lado. Beebo já não estava lá, mas a sua presença parecia perdurar como um eco. Laura sentiu-se à deriva, um barco sem âncora num mar escuro e agitado. Pousou a cabeça nas mãos e fechou os olhos, tentando esquecer o rosto de Marcie, o riso de Beebo e a voz amarga de Jack. Mas, no fundo do seu peito, o fogo continuava a arder, imparável, exigindo uma resposta que ela não conseguia dar. E, enquanto o bar se fechava à sua volta, Laura soube que, não importava para onde fosse, ela levaria consigo a mesma tormenta, o mesmo desejo, a mesma solidão.

Beebo observava-a com um brilho divertido nos olhos, encostada ao batente da porta, o corpo relaxado e confiante. “Estás a ser muito dramática, querida. O que aconteceu na noite passada não é o fim do mundo. Foi apenas sexo. Algo que tu precisavas e que eu tive o prazer de te dar.”

Laura sentiu o sangue subir-lhe à face, uma mistura de raiva e de uma vergonha que não conseguia dissipar. “Não foi apenas sexo para mim, Beebo. Foi... foi um momento de fraqueza, de desespero. Tu não percebes.”

Beebo entrou no pequeno compartimento da casa de banho, estreitando o espaço entre elas. O seu perfume, uma mistura de tabaco e algo mais pungente, parecia preencher todo o ar. “Percebo mais do que imaginas. Tu és como um pássaro que tenta voar com uma asa partida, Laura. Procuras sempre um refúgio, mas depois odeias o lugar onde pousas.”

“Eu não te odeio,” respondeu Laura, embora as suas palavras soassem vazias até aos seus próprios ouvidos. “Eu só... sinto-me suja.”

Beebo soltou uma risada curta e seca, aproximando-se ainda mais. “Suja? Por sentires o teu próprio corpo? Por quereres alguém? Esquece essa moralidade barata, não te serve de nada. Tu és uma mulher, Laura. E, na noite passada, foste a mulher mais intensa que já conheci.”

Laura tentou desviar-se, mas o espaço era demasiado exíguo. As mãos de Beebo pousaram nos seus ombros, firmes mas não agressivas. O toque enviou um arrepio pela espinha de Laura, uma reacção fisiológica que ela detestou mas não pôde impedir.

“Não me toques,” murmurou Laura, mas a sua voz não tinha convicção.

“Tu não queres que eu pare,” sussurrou Beebo, inclinando a cabeça. “Tu queres que eu te mostre que, apesar de tudo o que dizes, isto é exactamente onde queres estar.”

O conflito interno de Laura atingiu um novo pico. A sua mente gritava para que ela se afastasse, para que se vestisse e saísse dali, para que voltasse para o mundo ordenado e seguro que tentava desesperadamente manter. Mas o seu corpo, traidor e sedento, inclinava-se na direção daquela mulher que a via com uma crueza que ninguém mais ousava demonstrar.

“Porque é que fazes isto?” perguntou Laura, com os olhos marejados. “Porque é que te esforças tanto por me destruir?”

Beebo suavizou a expressão, um vislumbre de algo mais profundo — talvez piedade, talvez um reconhecimento mútuo — passando pelos seus olhos cínicos. “Eu não te quero destruir, Laura. Quero apenas que sejas honesta contigo mesma. Pelo menos uma vez na vida.”

Laura baixou a cabeça, derrotada pela exaustão. O silêncio instalou-se na casa de banho, apenas interrompido pela respiração pesada de ambas. Lá fora, o dia de sábado continuava, alheio àquela batalha privada, àquela entrega forçada e necessária. Laura sabia, com uma clareza dolorosa, que o que acontecera na noite anterior tinha mudado algo irrevogavelmente. O muro que ela construíra em redor de si mesma tinha sido derrubado, tijolo a tijolo, pela insistência de Beebo.

“Eu tenho de ir,” disse Laura, finalmente, embora permanecesse imóvel.

“Vai,” respondeu Beebo, recuando um passo e deixando-a finalmente respirar. “Mas sabe que a porta não está trancada. Nem por dentro, nem por fora.”

Laura passou por ela, sentindo o olhar de Beebo a seguir cada movimento seu. Ao chegar ao quarto, começou a vestir-se com movimentos rápidos e desajeitados, os dedos a tremerem enquanto abotoava a blusa. Não olhou para trás, mas sabia que Beebo estava ali, observando-a, esperando. Quando finalmente se virou para sair, sentiu o peso do olhar da outra mulher sobre si como um manto que não conseguia largar.

“Até à próxima, Laura,” disse Beebo, com um tom de voz que não era uma pergunta, mas uma certeza absoluta.

Laura não respondeu. Abriu a porta do apartamento e saiu para o corredor escuro, a mente um turbilhão de pensamentos inconclusivos. Desceu os dois lanços de escadas, saiu para o pátio quadrado e atravessou o corredor que dava para a rua. A luz do dia era demasiado brilhante, ferindo-lhe os olhos, e o ar da tarde parecia-lhe estranho, como se ela tivesse passado dias inteiros num mundo diferente, um submundo de calor e sombras. Caminhou pela rua sem destino certo, sentindo o eco dos passos de Beebo atrás de si, mesmo quando sabia que estava sozinha. O desejo, antes uma chama, agora sentia-se como uma brasa escondida, pronta a reacender-se ao menor sopro.

«Deixar-te ir? Nem sequer te estou a tocar.»

«Quero ir-me embora. Quero sair daqui.» Laura tentou passar por ela, mas Beebo apanhou-a, as suas mãos fortes a pressionarem dolorosamente os ombros de Laura, e atirou-a contra a parede.

«Não vais a lado nenhum, Bo-peep», disse ela. E começou a beijá-la. Laura lutou contra ela, quase a soluçar, a gemer, furiosa. Os lábios de Beebo estavam por todo o rosto, a garganta, os seios, e ela não prestava atenção aos golpes de Laura e às suas unhas afiadas. Laura agarrou punhados do seu cabelo, querendo arrancá-lo, mas Beebo puxou-a para perto, arquejante contra ela, os olhos hipnoticamente próximos dos de Laura. E Laura sentiu os joelhos fraquejarem.

«Não», sussurrou ela. «Oh, Deus, não. Oh, Beebo.» As suas mãos acariciaram o cabelo de Beebo, os lábios abriram-se sob os de Beebo. Todos os meses solitários de negação rebentaram como petardos entre as pernas. Uma vez começado, todo o seu corpo implorava por libertação. Traiu-a. Ela agarrou-se a Beebo, a suar e a arfar. Ambas ficaram surpreendidas com a força e a insistência dos seus sentimentos. Tinham sentido a atração desde o início, mas não estavam preparadas para o crescendo de emoção que se seguiu.

Passou muito tempo até que qualquer uma delas ouvisse o telefone a tocar. Finalmente, Beebo levantou-se, olhando para Laura, observando-a. Laura virou o rosto, puxando os joelhos para cima e sentindo as lágrimas surgirem. Beebo ajoelhou-se então ao lado dela, a dureza desaparecera do seu rosto.

«Não chores, querida», disse ela, e beijou-a suavemente. «Laura, não chores. Sei que não queres fazer amor comigo, sei que tens de o fazer. Maldito telefone! Não é culpa tua. Laura, querida, tu fazes amor de forma linda. Que Deus me conceda uma rapariga apaixonada como tu de vez em quando e morrerei feliz.»

«Por favor, não me toques. Não fales comigo.» Ela estava sobrecarregada de vergonha.

«Tenho de o fazer. Não me consigo controlar mais do que tu. Não fazia ideia de que serias assim — Jesus, tão quente! Pareces tão serena, tão maldita e acima do resto de nós. Mas não estás, pobre bebé. Talvez melhor do que algumas de nós, mas não acima de nós.»

Laura virou o rosto para a parede. «Atende o telefone», disse ela.

Beebo deixou-a então e foi para a sala de estar. Laura conseguia ouvir a sua voz quando ela atendeu.

«Olá?», disse ela. «Como estás, boneca? Bem. A Laura está bem. Não, não a violei. Ela violou-me.» Laura sentou-se direita ao ouvir isto, com o rosto a arder. Beebo ria-se. «Dizer-lhe o quê? Está tudo resolvido? Queres dizer que a posso mandar para casa da Marcie?» A sua voz tornou-se pesadamente sarcástica. «Bem, não é doce demais para se dizer. Ok, Jack, eu digo-lhe. Tu quê?... Com quem?... Oh, Terry! Sim, já o vi. Tens aí um espécime, rapaz. Agarra-o, ele é um boneco... Ok, não tens de quê. Foi um prazer. A maior parte dele. Ela é adorável... Até logo.»

Quando Beebo regressou à casa de banho, Laura estava de pé junto ao lavatório, a lavar o rosto, tentando recompor-se.

«O que é que ele disse?», perguntou ela a Beebo.

«Era o Jack.»

«Eu ouvi.»

Beebo pôs os braços à volta de Laura por trás, inclinando-se um pouco contra ela, de frente para as costas, plantando beijos no seu cabelo enquanto falava. «Ele diz que estás perdoada. Deu à Marcie um bocado de aldrabice psicológica sobre uma neurose. Tu és neurótica, amor. A partir de agora. No que toca à Marcie, tu tens ataques. Ela devia ter alguns também.»

«Não sejas tão sarcástica, Beebo. Se soubesses o que eu tenho passado — como estava assustada —»

«Ok, chega de sarcasmo. Por uns minutos, pelo menos. Deus, és bonita, Laura.» Tal como o Jack, tal como a Marcie, tal como muitos outros, ela percebeu-o lentamente. O rosto singular de Laura não encaixava em nenhum padrão. Tinha de ser descoberto. A própria Laura nunca o tinha descoberto. Ela não acreditava nele. Cresceu convencida de que era tão comum quanto o pai parecia pensar, e quando se olhava ao espelho não via o seu próprio reflexo. Via o que pensava que parecia; uma máscara, um cliché que sobrou da adolescência. Envergonhava-a quando as pessoas lhe diziam que era bonita.

«Não me lisonjeies», disse ela asperamente a Beebo. «Odeio isso.»

Beebo fechou os olhos e riu-se ao ouvido de Laura. «Tu és maluca», disse ela. «Tu és maluca, Bo-peep.»

«Sou sã. E sou comum. Aí tens um poema para ti. Agora deixa-me ir.»

«Não há pressa, querida.»

«Há. Quero ir para casa.» Ela soltou-se de Beebo, virando-se para a enfrentar.

Beebo deixou as suas mãos deslizarem pela frente de Laura. «Para casa da Marcie?», disse ela, e deixou-as cair subitamente. «Ok. Vai para casa. Vai para casa, agora que consegues aguentar mais uns dias. E quando a pressão se tornar demasiado grande, volta para baixo. Volta para a Beebo, a tua fiel válvula de segurança.»

«Disseste que não serias sarcástica.»

Beebo afastou-se, caminhando para o quarto. «O que queres que eu faça, que cante canções? Escreva poemas? Dance? Devo dar-te os parabéns? Parabéns, Laura, finalmente encontraste uma forma de vencer o problema. Sempre que a Marcie te excita, corre para a casa da Beebo e liberta-o. A Beebo resolve-te o problema. Arranjo adorável.»

Ela virou-se para Laura, com os olhos semicerrados. «A Laura é amada de graça, a Beebo recebe um mimo, e a Marcie mantém-se pura. O que quer que aconteça, não vamos sujar a Marcie. Não vamos despentear aquele cabelo loiro deslumbrante.»

«Não fales dela!» Laura seguiu-a até ao quarto.

«Oh, não me interpretes mal, Bo-peep. Não me estou a queixar. Tu és demasiado boa para mim, sabes. Tu dás-me os teus beijos descartáveis. Eu recebo a tua paixão de refugo, sou o teu Exército de Salvação, boneca, recebo todas as sobras. Atira-me um osso.» Ela estava sentada na ponta da sua cómoda, pernas cruzadas pelos tornozelos, braços cruzados sobre o peito — uma postura favorita sua.

Laura sentiu-se subitamente envergonhada pela forma como tinha usado Beebo. Beebo estava magoada. E a culpa era de Laura.

«Tudo é culpa minha, Beebo», disse ela. «Desculpa.» Houve silêncio durante um minuto. Laura estava agudamente consciente de que «desculpa» não era uma recompensa pelo que estava a fazer a Beebo.

Beebo sorriu ironicamente. «Obrigada», disse ela.

«Estou, Beebo. A sério. Não vim ter contigo ontem à noite só por causa da Marcie.» Era sufocante tentar falar. Ela falava aos soluços e interrupções à medida que a coragem lhe vinha e fugia.

«Não?» Beebo permaneceu imóvel com um olhar de ‘conta-me outra’ no rosto.

«Não. Eu vim — vim porque —» Ela cobriu o rosto com as mãos, sem palavras e envergonhada.

«Tu vieste, querida. Isso chega», Beebo completou por ela, cedendo um pouco. «Tu vieste e eu não me arrependo. Nem tu, não realmente. A situação não é perfeita.» Ela riu-se. «Mas a noite passada foi perfeita. Não é assim muitas vezes, posso garantir-te.»

Laura olhou para ela novamente. Depois, moveu-se em direção às suas roupas, com medo de ficar nua mais tempo, com medo de que tudo recomeçasse.

Beebo veio em sua direção, puxando a combinação da sua mão e deixando-a cair no chão. «Não há pressa», disse ela.

«Vou-me embora, Beebo. Não tentes impedir-me.»

Por um momento, Beebo não respondeu. Depois, apanhou algumas das roupas de Laura com o pé e atirou-lhas. «Ok, querida», disse ela. «Mas da próxima vez, não te safas tão facilmente. Entendido?»

«Não haverá próxima vez.» Laura concentrou-se em vestir-se, em cobrir o corpo o mais depressa possível. «Estou-te grata, mas nunca mais o farei. Não é justo, nem para ti.»

Beebo riu-se de forma desagradável. «Não te preocupes em ser justa comigo, querida. Isso não te incomodou ontem à noite.»

«Eu não conseguia pensar ontem à noite! Tu sabes disso.»

«Sim. Eu sei disso. Fico contente. Espero levar-te à loucura.» Os olhos de Beebo penetraram-na e fizeram-na apressar-se e tropeçar. Ela tinha medo de a enfrentar, e quando vestiu a roupa, agarrou o casaco com uma mão e dirigiu-se à porta sem olhar para trás.

Nix seguiu-a aos saltos. Antes de conseguir abrir a porta da frente, Beebo apanhou-a e virou-a. «Adeus, Beebo», disse ela rigidamente.

Beebo sorriu, perturbando Laura com a sua nudez próxima. «Tu vais voltar, pequena Bo-peep. Sabes disso, não sabes?» Era uma afirmação, não uma pergunta.

*Eu nunca mais voltarei*, disse a si própria. *Nunca mais abrirei esta porta.*

E, confiante de que queria dizer o que dizia, virou-se e afastou-se. Em poucos minutos, estava a viajar de metro para o centro. Em menos de meia hora, estava a subir o lanço de escadas para a cobertura, com o coração a bater com força.

* * * * *

A porta estava aberta. Laura entrou, sentindo as pernas a tremer. Não parecia haver ninguém por perto. Caminhou pelo apartamento: ninguém. Tirou o casaco e foi à cozinha procurar algo para o pequeno-almoço. Lá fora, no telhado, ouvia pessoas a rir, enquanto rádios portáteis competiam, a chiar de diferentes cantos. A população do prédio tinha ganho o hábito de se bronzear no telhado nos fins de semana de bom tempo.

Laura comeu uma torrada e bebeu sumo de laranja, sentada silenciosamente na mesa da cozinha. *Ela está lá fora na varanda. Sei que ela está lá fora*, disse a si própria. Tinha medo de a enfrentar, medo de ir à procura dela. Queria cair na cama e dormir, mas sabia que nunca descansaria até que a coisa se resolvesse.

Laura esvaziou o copo de sumo de laranja e pousou-o resolutamente na mesa. Endireitou o queixo e saltou da mesa, dirigindo-se à porta. Chocou de frente contra Jack quando ele entrou.

Laura deu um pequeno grito e saltou para trás. «Oh», disse ela, fechando os olhos por um minuto para deixar o coração voltar ao normal. «És tu.»

«Diz isso como se fosses feliz por me ver, Mãe», disse ele, sorrindo melancolicamente.

«Sou», exclamou ela, aproximando-se então e pegando-lhe nas mãos. «Oh, Jack, sou. Não sei o que teria feito —»

«Agora estás a deixar-me embaraçado», disse ele. «Estão lá fora no telhado a apanhar sol, a propósito.»

«Elas?»

«O Burr está aqui.»

Laura começou a ir para a porta, mas Jack agarrou-lhe a manga. «Estás maluca?», disse ele. «Não é a altura. Espera até o Burr sair.» Laura parou, incerta. «Não queres ir lá fora e tentar explicar-lhe isso agora, pois não?», disse Jack.

«Só quero acabar com isto.»

«Pode esperar. Não sejas apressada.»

Laura esfregou a testa. «Tens razão», disse ela. «Não posso falar com ela à frente do Burr.» Ela riu-se um pouco. «Estou mesmo maluca. As pessoas têm-me dito isso o dia todo.»

«De qualquer forma, não tens de dizer muito», disse Jack. «Fiz um remendo suave. Ela pensa que és um pouco parva. Mas inofensiva.»

Laura sorriu-lhe com alívio. Mas, enquanto olhavam um para o outro, o fantasma de Beebo surgiu na sua mente e ela corou subitamente sem que Jack tivesse dito uma palavra. «Eu — acho que é melhor entrar e deitar-me, se me dás licença», disse ela, ansiosa por se afastar dele.

«Não dormiste muito a noite passada?», disse ele.

«Não muito.» Ela olhou para o chão, não o perdoando totalmente por a ter deixado pendurada na noite anterior. «Mandaste-me para casa com ela», lembrou ela.

«Não te mandei para a cama com ela. Dei-lhe ordens. Disse-lhe que nada de macacadas. Ela prometeu comportar-se.» Ele ainda sorria, curioso por ouvi-la defender-se.

Laura perguntou-se rapidamente se poderia safar-se com uma mentira, envergonhada como estava da verdade. Mas sabia que as suas bochechas quentes a trairiam. Traíam sempre.

«Ela comportou-se, Jack.» As sobrancelhas dele subiram ceticamente. «Ela — o que quero dizer é — fui eu.»

Ele olhou-a de lado. «Queres dizer que vocês meio que caíram nos braços uma da outra?»

«Bem, de certa forma.»

«Por engano? No escuro?»

«Eu — eu —»

«Estás a mentir. Conheço a Beebo. Quem fez o quê?» Ele abriu a arca frigorífica e pescou uma cerveja. «Tenho de dizer, ou vais contar-me?»

«Bem, raios, quem és tu?», exclamou ela. «Não tens o direito de saber nada.»

«Ok. Vou saber pela Beebo. Ela diz que tu a violaste.»

«Ela é uma mentirosa! Ouvi-a dizer isso. Maldita!»

Jack riu-se, abrindo a cerveja. Cheirou-a. «Deus, que coisa horrível», comentou. «Só a bebo antes do meio-dia. Saúde.» Ele bebeu e estendeu-lhe a lata. «Queres um pouco?»

«A estas horas?»

«O teu estômago não sabe que horas são.»

«O teu estômago, talvez.»

«A Beebo saltou-te em cima, Laura? Se ela o fez, parto-lhe a cabeça.» Ele perguntou-o de repente e calmamente, e ela viu que ele queria dizer ajuda e conforto para ela. Ele tinha de lhe espetar alguns alfinetes, apenas para os tirar e oferecer primeiros socorros. Era a forma como ele fazia as coisas.

«Ela não — não», disse Laura, virando-se. «Jack, não me faças falar sobre isso.»

«Podias falar comigo antes.»

«Rejeitaste-me ontem à noite», disse ela, melindrada.

«Tive de o fazer. Havia outra pessoa ontem à noite.»

«Eu... oh, maldito, Jack, sinto vergonha de mim mesma. A culpa foi minha, tornei tudo tão fácil. Não, isso é mentira. Fiz de propósito.» Uma onda de lágrimas surgiu e diminuiu, deixando-a com as mãos sobre o rosto. Jack começou a falar, mas ela silenciou-o com um gesto de mão. «Passou tanto tempo, Jack. Tem sido um inferno. Senti-me tão sozinha. Não sabia que uma pessoa podia estar tão sozinha e viver. E depois mudei-me para casa da Marcie e foi subitamente uma tortura. Todos estes meses tenho estado aqui. E a maior parte do tempo tenho morrido por ela. E ontem à noite — estava tão cansada, tão confusa e bebi uns copos —»

«Parecias maluca ao telefone.»

«Sentia-me maluca. Sentia-me horrível. Ela levou-me para casa, e foi muito decente. Ela foi mesmo. Ela queria, eu sei disso. Mas não o fez. Deu-me a sua cama e foi para a sala de estar e dormiu no sofá. Pensei que adormeceria logo. Mas não consegui. Apenas me virei de um lado para o outro, e sempre que a ouvia virar-se, eu ficava a arder. Tornou-se demasiado forte para mim. Finalmente cedi. Fiz isso. A culpa foi minha, Jack.»

«Pobre Laura.» Ele disse-o com simpatia. «Vem aqui, querida.» Ele pôs os braços à volta dela e abraçou-a, acariciando-lhe as costas. Quando ele o fez, ela não se importou. Teria ressentido qualquer outro homem... exceto talvez Merrill Landon. Mas Merrill Landon nunca mostrava afeto a ninguém.

«Sei como é, acredita», disse Jack. «Estás a morrer de fome, e alguém põe um banquete à tua frente. O que acontece a seguir é Instinto. Avassalador. Tu comes. Ou morres de fome, ali mesmo, com toda aquela comida à tua frente.»

Laura agarrou-se a ele, deixando-se chorar suavemente e com gratidão no seu ombro.

«Deixa-me dar-te apenas uma pequena palavra de conselho, Mãe. Não te deixes morrer de fome mais. Ou essa fome vai matar-te.»

Ela olhou para ele com os olhos húmidos. O seu rosto estava estranhamente diferente, e Jack conseguia vê-lo. Uma noite de amor, uma noite de saciedade luxuosa, tinha-a mudado. Apesar de todo o seu cansaço, da sua vergonha de si própria, o seu corpo estava feliz e aliviado. Ela não podia evitar isso. Sentia-se fisicamente bem, pela primeira vez em mais de um ano, e tinha Beebo a agradecer por isso.

«Estás diferente», disse Jack, sorrindo. «Pareces bem. Não me importa o quão cansada estás. É algo que fica bem — o amor.»

«Aquilo não foi amor.»

«O que foi, então?»

«Apenas puramente físico. Animal. Vulgar.»

«O amor tem um corpo, Laura. Olhos e lábios, pernas e sexo. Nós, humanos, não podemos evitar isso.»

«O amor é maior e melhor do que isso. Não houve nada disso com a Marcie e comigo, mas eu amo-a.»

«Isso é porcaria idealista.»

Laura ofegou, os olhos a arregalar-se em súbita raiva, mas ele interrompeu a sua resposta afiada antes que ela a pudesse dar.

«O amor não é maior nem melhor do que as pessoas que o sentem», disse ele. «O que é que o teu amor pela Marcie te trouxe? Uma neurose gorda, muito sofrimento e uma noite na cama com alguém que mal conheces porque não aguentavas mais. Se é isso que o torna maior e melhor, que se lixe. Dá-o aos crocodilos.» E virou-se bruscamente.

Laura olhou para ele, incapaz de lhe responder. Ocorreu-lhe, com dureza, que ele podia ter razão. «Mas eu amo a Marcie», sussurrou ela roucamente.

«Claro. Amas a Marcie porque ela se parece com a Beth, ou qualquer que seja o nome daquela.»

Laura ficou chocada. «Não, não, Jack, não entendes. Isso não tem nada a ver com isso. Eu amo-a.» Ele virou-se para a olhar, o cinismo escrito claramente no seu rosto. «Eu amo-a porque —»

«Porque ela está debaixo do mesmo teto que tu, a dois metros de distância quando vais para a cama à noite. Porque ela é jovem e bonita. Porque não a podes ter.»

«Porque não a posso ter!» exclamou ela com desprezo. «É exatamente por isso que estou tão miserável, seu idiota! Eu amo-a tanto —»

«Todos nós amamos. Ela é uma ótima rapariga», disse ele, tão vagamente e calmamente, que a acalmou um pouco.

Mas quando a Marcie disse: «De que estão vocês os dois a falar?», Laura sobressaltou-se, visivelmente assustada. «Oh, não queria assustar-te», disse Marcie. Ela tinha decidido tratar Laura com delicadeza e cuidado. Burr entrou ruidosamente atrás dela. «Olá, Laura», disse ele, e fixou o seu olhar no rosto pálido dela.

«Não te ouvi a chegar», disse Laura nervosamente. Perguntou-se o que a Marcie teria dito ao Burr, e subitamente era demasiado para aguentar ficar ali e enfrentá-los. «Vou para a cama», disse ela de repente, brevemente. «Não dormi muito a noite passada.» Ocorreu-lhe então que ela não sabia o que supostamente deveria ter feito na noite passada. Jack não lhe tinha dito nada.

Jack, mais rápido que Laura quando estava sob pressão, disse: «A Laura passou a noite com a Beebo Brinker. Ela é uma velha amiga minha.» Ele falou para o Burr, que aparentemente não sabia o que pensar.

*Maldito Jack!*, pensou Laura. *Ele não precisava de dizer o nome dela. Aquele nome ridículo!*

Capítulo Nove

Marcie tentou ser compreensiva com Laura quando ficaram sozinhas mais tarde. Ela disse: «O Jack contou-me tudo, Laura. Eu entendo.»

*O que é que ele te contou? O que entendes tu? Porque não me contou ele?* Ela não sabia como agir com a Marcie. O seu desconforto tornava-a desajeitada e, pela primeira vez, sentiu o desejo de estar sem ela por um pouco. Não queria que a Marcie tentasse confortá-la. Só queria deixar que a coisa passasse.

Mas a Marcie era uma rapariga de natureza calorosa, e era curiosa. Queria sentar-se na cama de Laura e falar sobre isso. Ela continuava a dizer: «Conta-me, Laur. Conta-me o que aconteceu. Não sabes que eu não ficaria chocada?»

Neste ponto, Laura revoltou-se. «Não, não sei!», disse ela, e imediatamente arrependeu-se. Levou a mão à boca. «Marcie, por favor. Por favor, esquece isso.»

«Desculpa, Laur. Não consigo fazer nada bem esta noite.» Ela parecia tão desanimada que Laura teve de lhe sorrir um pouco.

«Tu fazes tudo bem, Marcie», disse ela calmamente. «Eu é que sou a errada. Não, é verdade. Não sou como tu. Não consigo confessar-me às pessoas.»

«Tu contas coisas ao Jack.»

Laura ficou subitamente alerta, alarmada. «Como sabes?», exigiu ela. «Que coisas?»

«Oh, estás sempre a sair e a falar. Como esta manhã. Porque não tens conversas longas comigo?»

Laura suspirou, aliviada. «Não sei. É tão fácil falar com o Jack, Marcie.»

«Isso significa que não é comigo? Eu tento.» Ela sorriu convidativamente.

Laura, que estava deitada na cama, levantou-se sobre os cotovelos. «Nunca digo estas coisas como se as sentisse», desculpou-se ela. «Só quero dizer, eu —» *Não posso falar contigo porque estou apaixonada por ti, é isso que quero dizer. Mas não é isso que posso dizer.*

«Pois é», disse o Jack, com um tom de voz que não admitia réplicas. «Vamos, Laura. O que aconteceu no McAlton? O que ele disse exatamente?»

«Não disse nada. Foi o empregado do balcão que disse.»

«E o que disse o empregado?»

Laura olhou para o copo, observando a luz a refletir-se no líquido âmbar. «Disse que ele não tinha nenhuma filha.»

O Jack soltou uma gargalhada curta e amarga. «Claro que disse. É a única forma de ele manter a sua imagem imaculada. Ele nem sequer reconhece a existência de algo que não possa controlar ou usar para o seu próprio benefício. Tu és uma ameaça, Laura. És uma mulher independente, tens uma vida própria. Isso aterroriza-o.»

«Não é isso», respondeu ela, olhando-o com os olhos rasos de água. «É que ele nunca me quis. Nem a mim, nem à minha mãe. Eu sou apenas um erro que ele não consegue apagar. E, no entanto, aqui estou eu, viva e presente, um lembrete constante daquele erro.»

«Não sejas ridícula», disse o Jack, bebendo um gole da sua bebida. «Tu não és um erro. Ele é que é um homem patético que vive das aparências. Sabes, Laura, às vezes acho que devias confrontá-lo. Ires lá, entrares naquele hotel e olhares para ele. Veres o que ele faz.»

Laura estremeceu. «Nunca. Eu não conseguiria. Só de pensar nele ali, tão perto, sinto-me como se fosse desmaiar.»

«Pois, é esse o poder que ele ainda tem sobre ti», disse o Jack, inclinando-se para a frente. «Ele continua a ser o pai, e tu continuas a ser a filha assustada. Precisas de o matar, Laura. Metaforicamente, claro. Precisas de deixar de te importar com o que ele pensa ou com o que ele diz. Ele não te conhece. Ele nunca te conheceu.»

Laura olhou para as próprias mãos, que estavam cerradas com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. «Eu tento, Jack. Juro que tento.»

«Então prova-o», disse o Jack. «Bebe o teu copo e vamos sair daqui. Vamos ver se encontramos alguma diversão. A vida é demasiado curta para a passares a chorar por causa de um homem que nem sequer teve a decência de te chamar filha.»

Laura levantou a cabeça e forçou um sorriso. «Tens razão. Vamos sair.»

Eles levantaram-se e saíram do bar, voltando para a noite fria de Nova Iorque. A cidade parecia diferente agora, mais vasta, mais indiferente. O Jack pôs o braço à volta dos ombros dela e caminharam em silêncio durante algum tempo. Laura sentia-se estranhamente leve, como se o peso que carregava tivesse diminuído apenas por ter partilhado a história com ele.

«Obrigada, Jack», disse ela, quando chegaram a uma esquina iluminada.

«Não agradeças», respondeu ele. «Apenas faz-me um favor: esquece o Merrill Landon hoje. Amanhã, se quiseres, podemos voltar a odiá-lo, mas hoje, vamos apenas ser pessoas.»

Laura acenou com a cabeça. «Combinado.»

Ela olhou para as luzes da cidade e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que talvez, apenas talvez, pudesse encontrar uma forma de viver sem o fantasma do pai a assombrá-la em cada esquina.

Ela virou-se para responder rispidamente e então viu que ele estava a brincar com ela. «Desculpa, Jack», disse ela. Olhar para ele devolveu-lhe a confiança que depositava nele, e ela sorriu um pouco. «Sempre soube que ele era um homem duro», disse ela suavemente, «mas nunca sonhei que ele chegaria a este ponto. Sempre pensei, apesar de tudo, apesar de toda a amargura e miséria que passámos juntos, que ele devia amar-me um pouco. Afinal, sou tudo o que lhe resta... da minha mãe, do meu irmão... da sua família. Eu tinha cinco anos quando aconteceu, e apraz-me a Deus poder lembrar-me de como ele era antes. Mas não consigo. Gosto de fingir que ele era generoso, gentil e bondoso. E consigo lembrar-me de estar sentada aos ombros dele quando fomos a um desfile do Quatro de Julho. Foi nesse mesmo verão, antes das nossas férias. Lembro-me de ele me içar, comprar-me um balão e segurar-me enquanto o desfile passava para que eu pudesse ver. Depois, ele andou por ali a falar com os amigos, e não me fez descer. Senti-me como uma rainha num trono. É a minha única boa memória dele, até ao dia de hoje. Mas a Mãe estava connosco. Talvez ele o tenha feito por causa dela.»

«Lembro-me melhor dela do que dele desses anos. Às vezes sinto terrivelmente a falta dela. Ela era muito carinhosa.»

«Talvez», disse Jack, «o teu pai não te odiasse tanto agora se não te tivesse amado tanto antes.»

«Dás-lhe demasiado crédito», disse ela. «Depois do que ele me fez esta noite, nunca mais voltarei a falar com ele. Matá-lo-ia se pudesse. Mas nem sequer me aproximaria dele, nem para isso. Não lhe daria a satisfação de ver o meu rosto. Ele não tem filha, pois não? Muito bem, que se lixe, eu não tenho pai! Dois podem jogar esse jogo.»

«Não me odeies por dizer isto», disse Jack, «mas acho que ainda o amas. Acho que o vais ver outra vez.»

Ela virou-se para ele. «Estás louco!» disse ela. «Não sabes nada! O que te faz pensar tal coisa?»

Ele encolheu os ombros. «Apenas que isso te importa terrivelmente.»

Laura terminou a sua bebida e pousou o copo cuidadosamente no balcão, tentando organizar os seus pensamentos. «Se eu o vir outra vez», disse ela, «será quando puder dizer-lhe que sou um sucesso. Financeiramente. Socialmente. Em todos os aspetos. Quero dizer-lhe: "Tenho um bom emprego, bons amigos. Consigo safar-me bem neste mundo sem ti, e nunca mais precisarei de ti". E sabes que mais eu gostaria de lhe dizer, Jack?»

«Sim.» Ele acendeu um cigarro. «"Pai, sou homossexual. E a culpa é toda tua. Enfia isso onde não bate o sol e vive com isso!" Sim, eu sei. Chocar o inferno fora dele. Já tentei isso com... com um parente próximo uma vez.»

«O que aconteceu?»

«Não sei bem. Quando a cara dele ficou azul, eu arranquei. Não vou a casa desde então. Nem posso ir lá para descobrir, na verdade. Digamos que não sou... bem-vindo.» Ele disse isto com um sarcasmo lento.

«Jack, lamento», disse ela suavemente, e olhou para ele com simpatia. Ocorreu-lhe agora, quando descobriu que os problemas dele eram paralelos aos seus, que ele era muito humano e não um rapaz de festas espirituoso e superficial sem sentimentos reais. Ele era solitário. Toda a gente é solitária, pensou ela. *Marcie por um par perfeito. Beebo por uma rapariga perfeita. Jack por um rapaz carinhoso. Eu... Pobre Sarah...*

Isso trouxe Sarah à sua memória. «Jack, tenho uma amiga», disse ela.

«Parabéns.»

«...chamada Sarah.»

«A Beebo sabe?»

«E ela quer um encontro.»

«Com uma rapariga?»

«...Com um rapaz. Ela é heterossexual.»

«Que pena.»

«Podes ajudar-me?»

«Posso ajudar-te a ti, Mãe, mas posso ajudar a Sarah?»

«Deves conhecer alguém. Que tal aquele rapaz que atendeu o teu telefone esta noite? Ele podia sair com ela?»

«Se ele o fizer, parto-lhe a cabeça», disse ele e riu-se suavemente, batendo as cinzas do cigarro num cinzeiro de alumínio queimado à sua frente.

«Quem é ele, Jack?», perguntou ela.

«Um amigo. Não, um amante. Pelo menos por agora.»

Laura pousou a mão no braço dele. «Não sejas tão cínico», disse ela.

«Estas coisas nunca duram.» Ele abanou a cabeça. «É melhor encarar o facto logo ao princípio.»

«Ele deve ver algo de valioso em ti, ou nunca se teria aproximado de ti em primeiro lugar.» Ela falou de forma desajeitada, mas com simpatia.

«Ele vê notas de dólar.» Jack sorriu.

«Jack! Não sejas tão duro contigo próprio. Magoa-me.» Ela não gostava de o ver a espetar alfinetes em si mesmo. Era aceitável quando ele o fazia com ela, porque era na brincadeira. Ela não se importava, compreendia a necessidade dele. Mas quando ele se magoava a si próprio, ele magoava-se a sério.

«Além disso, não és rico», disse Laura. «Se fosse apenas isso que ele quisesse, arranjaria outra pessoa.»

«Tenho algum de parte», disse ele. «Vou poupando entre casos. Quando aparece alguém irresistível, gasto-o como um tolo. Causa uma impressão maravilhosa nas primeiras semanas. Depois fico sem um tostão e sozinho outra vez. A minha condição crónica.»

Foi uma revelação patética. Laura ficou surpreendida. «Não devias fazer isso, Jack», disse ela.

«Não consigo evitar. Agarro-me a ele com tudo. Tudo o que tenho. Até notas de dólar.»

«Se tudo o que ele quer é o teu dinheiro, ele não merece o teu dinheiro! Nem o teu tempo, nem a tua amizade.»

«Laura, isto não é amizade. Este é um assunto totalmente diferente. Juro por Deus.» Laura corou. «Um homem não pode comprar um amigo. Mas há sempre um pouco de amor à venda.»

«Não amor verdadeiro.»

Ele encolheu os ombros. «Não peço a lua.»

Laura terminou a sua bebida. «Qual é o nome dele?», disse ela.

«Terry.»

«Terry quê?»

«Apenas Terry.»

«Não confias em mim.» Disse-o calmamente, mas sentiu-se magoada.

«Terry Fleming.» Ele pronunciou o nome com suavidade e Laura viu uma expressão no rosto dele que o mudou completamente. Ela estudou-o, surpreendida.

«Jack, acho que estás apaixonado.» Uma vez dito, soou deselegante e injusto.

Mas ele apenas disse: «Eu também acho.»

Laura estava perdida. O que se faz num momento destes? «Não sei se te dou os meus parabéns ou os meus pêsames», disse ela seriamente.

Jack riu-se. «Ambos, Mãe. Esse é um sentimento bonito, seja o que for. Obrigado.»

Ele parecia incapaz de falar sobre o assunto e Laura voltou finalmente à Sarah. «Há alguém no escritório que pudesses arranjar para a Sarah?», perguntou ela. Descreveu-lha. «Ela não é bonita, mas é uma rapariga fantástica.»

«Eu sei, há um milhão delas», suspirou ele. «Oxalá eu fosse heterossexual. Casava-me com ela, a pobre miúda.» Laura olhou para ele, depois sorriu. «Acho que posso arranjar alguma coisa», disse ele. «Temos de sair os quatro?»

«Ela espera isso. Custa-me pedir.»

«Ok, ok. Não me vai matar. Mas só jantar. E estarei com pressa.»

«Obrigada, Jack.»

«É melhor encontrar um manso para ela», ponderou ele e depois riu-se um pouco. «Seja lá o que isso signifique. Jesus, a pobre rapariga provavelmente sonhou toda a vida com uma boa violação completa. Mas não posso assumir a responsabilidade. Talvez o Jensen possa ir. Ligo-te de manhã sobre isso.»

«Obrigada. Ela ficaria tão feliz.» Laura terminou a segunda bebida. Jack levava duas de avanço. Ela olhou para ele de soslaio, querendo falar-lhe da mudança que tinha ocorrido na Marcie, mas com medo do seu sarcasmo. Finalmente disse, da forma característica e direta que disfarçava a sua incerteza: «Jack, a Marcie está diferente. Algo está a acontecer com ela. Eu... eu estou com medo.» Não conseguiu continuar. Desviou o olhar dele.

Jack riu-se. «Bem, o que é que ela está a fazer, a roubar roupa interior na cave da Macy’s?»

«Ela não quer ver mais o Burr.»

Jack franziu ligeiramente a testa. «Ela finalmente está a ganhar juízo? Esse foi um par estranho para começar. O Burr quer adorar uma rapariga. A Marcie quer causar um pouco de confusão com todos os homens que vê.»

«Ela quer ser como eu. Foi o que ela disse. Quer ler livros. Passar mais tempo em casa. Quer que eu a ajude.»

«Ajudá-la a quê?»

Laura franziu a testa. «Não sei a quê. Ela diz que está farta de si mesma e quer ser uma pessoa melhor.»

Jack mordeu o lábio inferior pensativo. «Sei o que estás a pensar. E estás enganada. Ela não se está a tornar homossexual.»

«Eu não disse isso.» Laura virou-se para ele indignada.

«Não precisas. Estás a pensar nisso tão intensamente que consigo ouvir as rodas a girar na tua cabeça.» Ele olhou para ela. «De uma vez por todas, Laura, ela não é homossexual. Talvez ela tenha espaço nela para um pouco de curiosidade. Talvez viver contigo a tenha realmente deixado insatisfeita consigo mesma. Se for esse o caso, tanto melhor. Mas ela não está a suspirar por ti todas as noites.»

«Ela agiu de forma tão estranha, Jack. Como... como se gostasse de me ter perto dela. Como se quisesse que eu lhe tocasse. Quer dizer, que a consolasse. Sabes.»

«Quanto mais quiseres que ela goste, mais parecerá que ela gosta.»

«Não estou a inventar histórias», disse Laura com algum calor.

«Não, Mãe, eu sei. Acredito em ti. Estou apenas a dizer-te um facto. Conheço a Marcie há uns dois anos. Desde que ela e o Burr começaram a namorar até ao divórcio deles. Ela é capaz de... digamos... sentir curiosidade. Como na noite em que ela quis tocar com as línguas.» Laura estremeceu involuntariamente. «De vez em quando, ela gosta de uma aventura no Village. Talvez ela só queira ver até onde vais. Talvez ela esteja a incentivar-te, Laura. Alguma vez pensaste nisso? Só para ver o que raio vais fazer?»

«Ela não faria isso», disse Laura convicta, algo chocada. «Nunca.»

Jack soltou um pequeno bufo. «Ok, talvez não. Mas ela não está prestes a apaixonar-se por ti. Nem agora nem nunca.»

«Ela falou a sério quando falou comigo ontem à noite. Ela foi sincera.»

«Claro que falou a sério. Ela está na fase dos livros. Obviamente está muito impressionada contigo. Nota-se quando ela fala de ti. Temporariamente, és alguém para imitar, alguém para admirar.»

«Temporariamente?»

«Não caias numa armadilha.» Ele pousou uma mão no joelho dela.

«Não é uma armadilha! Ela é demasiado inocente para me preparar uma armadilha.»

«Inocente?» Ele riu-se. «Não contes com isso. Além disso, tu és demasiado inocente para evitar uma. Neste momento, tens muito a aprender.»

Laura lançou-lhe um olhar fulminante. «Não sou estúpida.»

«Não, não és. És muito inteligente, querida. Só és desinformada. Se queres aprender, vai à procura da Beebo e faz a Grande Volta do Village.»

«Eu não me poderia apaixonar por ela tanto quanto me poderia apaixonar por... por...»

«Por mim?» Ele riu-se.

Ela sorriu subitamente e riu-se com ele. «Oh», disse ela com um aceno de mão, «tu já tens dono.»

«Mãe, essa é uma definição de uma linha belíssima para o meu dilema. O meu analista podia usar-te.»

«Estás a ser analisado?», perguntou ela.

«Não estamos todos?»

«Responde-me!»

«Já respondi. Vamos embora. Odeio fazer as pessoas esperar.»

«Quem está à espera?»

«O meu amigo, o Sr. Fleming.»

Ela desceu do banco do bar, vestindo o casaco. «Gostaria de o conhecer.»

«Se durar mais umas semanas, acho que seria seguro.» Ele pegou no braço dela e guiou-a através da multidão. Eles olharam para ela, mas isso não a desconcertou tanto agora que tinha bebido um ou dois copos.

«Onde está a tua adorada colega de quarto esta noite?», disse Jack enquanto subiam as escadas.

«A jantar no centro.»

«Porque não vais ao The Cellar? Deixa a Beebo contar-te umas histórias de encantar. Ela tem aos milhões.»

«Não podia aguentar a Beebo esta noite.»

«Tu é que sabes. Acompanho-te até ao metro.»

«Não, não te incomodes. Sei que queres chegar a casa. Muito obrigada, Jack. Não sei porque és tão bom para mim.»

«O meu interesse é puramente académico. A tua inocência espanta-me.»

«Fazes-me sentir uma saloia», disse ela.

Ele riu-se. «Ok, Saloia. Ligo-te de manhã sobre aquela de cujo nome não me lembro.»

«Sarah.»

«Sarah. Vemo-nos.» E ele virou-se e afastou-se.

* * * * *

Laura caminhou em direção ao metro, mas sabia que não ia para casa. Sabia que passaria por ela e foi o que fez. Caminhou durante quatro quarteirões, fervendo com uma fúria renovada contra Merrill Landon. A sua mão quente estava cerrada em volta do pedaço de papel com o número da Beebo, no bolso do casaco...

*Vou pagar-lhe. Vou apenas dar-lhe o dinheiro que lhe devo, beber um copo e ir para casa.* Olhou para o relógio — um pouco depois das nove. Por um momento, ficou parada no cimo das escadas a olhar para as portas duplas que davam para o The Cellar, sentindo o coração saltar nervosamente. Nunca parecia ser capaz de entrar naquele lugar com confiança. Havia sempre um momento de medo e relutância. Mas a necessidade de estar com os seus semelhantes sobrepunha-se rapidamente.

Entrou, dirigindo-se ao bar, ignorando os olhares curiosos que a cumprimentavam. Ficou no fim do bar e quando o empregado se aproximou, reconheceu-a.

«Olá», disse ele. «O que vai ser?»

«Uísque com água, por favor», disse ela. Olhou em volta, de um lado para o outro do bar, pelas mesas, mas não viu a Beebo. Bebeu metade da bebida e depois voltou à casa de banho das senhoras, olhando para a parte de trás do The Cellar, mas a Beebo não estava lá. Com uma irritação extrema, voltou ao bar, perguntando-se se deveria vencer o seu orgulho e perguntar ao empregado onde estava a Beebo, ou deixar passar. Terminou a bebida e decidiu que, se tinha chegado até ali, mais valia ir até ao fim.

«Onde está a Beebo esta noite?», perguntou ela ao empregado na vez seguinte em que ele se aproximou. «Devo-lhe algum dinheiro», explicou de forma compulsiva. Ele sorriu.

«Oh, ela já veio e já foi», disse ele. «Provavelmente está no The Colophon. Ela gosta de lá ir. Sem rapazes.» Ele sorriu.

«Obrigada», disse Laura, saindo do banco e dirigindo-se para a porta. Já estava suficientemente embaraçada sem lhe perguntar onde ficava o The Colophon. Não queria anunciar a sua "inocência".

Perto da porta, uma rapariga esguia e bonita, que a tinha vigiado no bar, aproximou-se dela. A rapariga usava o cabelo num corte curto, suave e encaracolado. Era loira e feminina. Laura deixou-se abordar, simplesmente retribuindo o olhar da rapariga enquanto esta se aproximava. Ela parou quando a rapariga falou.

«Desculpa», disse a rapariga. «Notámos que estavas sozinha. Eu e as minhas amigas. Gostarias de beber um copo connosco?» Ela acenou para uma mesa onde outras três raparigas estavam sentadas, a observá-las. Uma delas, sentada sozinha de um lado da mesa, encarava a Laura friamente.

Laura sentiu-se lisonjeada. Mas os sentimentos nela eram demasiado pessoais, demasiado crus, para se dissiparem com estranhos. «Obrigada», disse ela. «Gostava, mas estou à procura de alguém. Estou com pressa.»

«À procura de quem? Talvez possamos ajudar-te», disse a rapariga, parando a Laura quando esta começou a afastar-se.

Laura percebeu que a rapariga estava interessada nela, e isso fê-la voltar atrás mais uma vez. «Oh», disse ela com um pequeno encolher de ombros, «não a conhecerias.»

«Alguém pode conhecer. Estamos aqui muitas vezes. Qual é o nome dela?»

Laura tinha a certeza absoluta de que elas conheceriam a Beebo, que vinha ali o tempo todo. A última coisa que queria era que toda a gente corresse a contar à Beebo que a Laura a tinha procurado. O empregado dir-lhe-ia, sem dúvida. Isso já era mau o suficiente.

«Qual é o nome dela?», provocou a rapariga, e depois sorriu. «Não queres dizer?»

Laura corou e recuou. «Eu só lhe devo algum dinheiro. Pensei que ela estivesse aqui esta noite.»

«Quem?», incitou a rapariga, com um sorriso bonito.

«Beebo Brinker.» Laura não tinha a intenção de dizer. No entanto, dizê-lo era melhor do que tentar esconder e ser alvo de riso. Elas podiam sempre perguntar ao empregado por quem ela procurava depois de ela sair, e ela ficaria ainda pior. Eles tomariam a sua relutância gaguejante por paixão. Ela disse o nome o mais casualmente que pôde.

«Oh, a Beebo!» A rapariga riu-se. «Ela saiu há meia hora. Está no The Colophon. Ela disse que este sítio estava morto esta noite. Acho que se ela soubesse que ias vir, teria esperado... hã?» Ela sorriu.

«Acho que sim», disse Laura brevemente. Ela encarou a rapariga. Ocorreu-lhe que via uma ligeira semelhança com a Beth no rosto dela. Depois, virou-se e saiu.

A rapariga esguia voltou para a sua mesa. A sua parceira disse irritada: «Talvez isso te ensine que não és irresistível.»

«Oh, cala-te», disse a rapariga esguia calmamente. «Ela é a miúda da Beebo Brinker.»

«A miúda da Beebo, asneira. A Beebo tem uma dúzia de miúdas. Mas ela sabe mesmo escolhê-las, isso tenho de admitir. Devia arranjar uma dessas.» E fez uma careta à esguia ao seu lado.

Capítulo Onze

Laura foi para casa. Chegou antes das dez, mas a Marcie ainda não tinha regressado. Laura pousou um livro que andava a ler na cama da Marcie e meteu-se na sua própria cama. Tentou ler, mas não conseguiu. Passou uma hora, e nada da Marcie. Nervosa, Laura fechou o livro e deixou-o cair ao chão. Levantou-se e foi à casa de banho lavar os dentes, e lembrou-se de que já o tinha feito.

Depois, foi ao telefone. Não sabia o que lhe estava a acontecer. Sentia apenas uma infelicidade profunda que desafiava a sua vontade. Puxou a lista telefónica e procurou o número do Hotel McAlton. Sentou-se por um momento com a lista aberta no colo, incapaz de se mover. Depois, estendeu a mão lentamente para o telefone.

De repente, tocou. Laura deu um grito, um pequeno e rápido lamento de surpresa extrema. O seu coração tinha dado um salto tremendo com o som penetrante da campainha naquele apartamento silencioso. Deixou tocar mais duas vezes enquanto recuperava o fôlego. Deve ser a Marcie, pensou ela. Talvez ela esteja em sarilhos. Levantou o auscultador. «Olá?»

«Olá, Bo-peep.»

O coração de Laura deu outro salto. Sentiu o suor a romper. «Beebo?», disse ela fracamente.

«Como estás, querida? Ouvi dizer que me procuraste esta noite.»

«Não perdeste tempo.» A voz dela era cortante.

«Odeio fazer uma dama esperar. O que se passa?»

«Só passei para beber um copo. Estava lá em baixo no Village a ver o Jack e só queria pagar-te.» Ela falava de forma intermitente.

«Não me deves nada, Bo-peep. Absolutamente nada.»

«Um copo.» Laura odiava dever o que quer que fosse a alguém. Era meticulosa com as suas dívidas, por pequena que fosse a quantia.

«Tens razão.» Laura podia sentir o sorriso dela. «Quase me esquecia. Ok, amante, deves-me uma bebida.»

«Beebo, não posso falar agora, a sério.»

«Estás a sair-te bem. O que se passa, a Marcie a respirar-te no cangote?»

«Não é isso.»

«Não precisas de dizer que me amas, sabes. Diz apenas que me encontras amanhã à noite. Por volta das oito.»

«Não.»

«Não te atrases, boneca. Ligo à Marcie e pergunto-lhe onde raio estás.»

«Não farias isso! Não vais! Maldita sejas, Beebo!»

«Faria e farei.» Ela riu-se. «Oito em ponto.»

«Não vou estar lá.»

«Queres apostar?»

Laura desligou-lhe na cara. Ela estava a tremer. Furiosamente, bateu com o pesado telefone no lugar, apagou a luz do quarto e meteu-se na cama.

A noite negra instalou-se à sua volta, mas trouxe mais agitação do que repouso. As horas passaram a correr. Nada de Marcie. Nada de sono. Apenas uma interminável e amarga revisão do que o pai lhe tinha feito; a expressão no rosto do empregado quando lhe entregou a mensagem; a fúria impotente e a vergonha que a cercavam. Por fim, acendeu a luz e começou a andar pelo quarto. O relógio elétrico na cómoda da Marcie marcava as duas e meia. Laura perguntou-se se devia ligar ao Burr. Ou ao Jack. Estava a começar a ter medo pela Marcie. Mas ninguém sabia como chegar à fala com ela. Não havia nada a fazer senão esperar.

Passavam poucos minutos das três quando a Marcie entrou. Laura tinha deixado a luz da sala acesa para ela e ouviu-a entrar a rir-se e ouviu uma voz masculina responder-lhe. Não era a voz do Burr. Outra pessoa qualquer. Uma voz profunda e madura. Laura espreitou pela fresta da porta da cozinha, mas não o conseguiu ver. A Marcie estava a rir-se, como se estivesse embriagada, e a empurrá-lo. Laura conseguia vê-la de vez em quando.

Marcie disse: "Vou chamar a minha colega de quarto. Ela vai obrigar-te a ir para casa."

"Não posso ir para casa esta noite. Vivo em Chicago."

"É de lá que ela é!"

"Quem?"

"A minha colega de quarto."

"Que se lixe ela. Vem cá, querida."

"Não!" Por muito embriagada que estivesse, soava, contudo, um pouco assustada. Tinha parado de rir.

Laura atirou um casaco apressadamente sobre o pijama e foi para a sala de estar. Um homem grande, parcialmente calvo e atraente de uma forma robusta, tinha Marcie envolvida num abraço de urso e tentava arrastá-la para o sofá.

"Muito bem", disse Laura, bruscamente. "Saiam daqui."

Assustou-os tanto a ambos que ficaram paralisados onde estavam. O homem olhou para ela fixamente. Estava bêbado e o seu equilíbrio não era dos melhores. Laura, pálida e loura prateada, com o seu longo cabelo a cair sobre os ombros, o rosto estranho, sensível e imperioso, parecia-lhe uma aparição. Sem desviar os olhos dela, perguntou a Marcie: "Quem raio é aquela?"

"A minha colega de quarto." Marcie aproveitou o interesse dele para se libertar. Laura agarrou-lhe o braço com firmeza e empurrou-a pela porta da cozinha. Depois, voltou-se para o homem.

"Muito bem, você", disse ela como se ele fosse um criado. "Fora."

A insolência daquilo divertiu-o e irritou-o ao mesmo tempo. "Não pode falar-me desse modo", disse ele.

Ela avançou para ele com vivacidade, abrindo a porta bruscamente e encarando-o. "A casa é minha e falo como me aprouver", disse ela. Parecia tão fria e inacessível como estava quente e zangada. Ele olhou para ela, sem saber como a abordar, e depois aproximou-se para lhe colocar uma mão no ombro.

"A Marcie não vale nada", disse ele confidencialmente. "Vamos tu e eu..."

Laura afastou a mão dele do seu ombro. "Saia daqui ou chamo a polícia", disse ela.

Ele enfureceu-se. "Jesus, que galdéria fria que tu és!", rosnou ele.

"Saia", disse Laura, tão fria, tão controlada, que o gelou até à submissão. Fechou a porta atrás dele, resistindo ao desejo de a bater com força. Meu Deus, pensou intensamente. Se eu pudesse fazer isso ao meu pai. Apenas uma vez.

"Laura? Era só uma festa, Laur", disse Marcie. "Saímos depois do jantar. Só por diversão. Ele descontrolou-se um bocado. Obrigada, Laur, não sei o que teria feito."

"Vem para a cama." Laura virou-se e caminhou em direção a ela, e Marcie seguiu-a para o quarto. Ocorreu-lhe então que se estava a comportar com Marcie muito como Beth costumava comportar-se com ela. Estava a afirmar-se, a assumir a liderança. Gostava disso; com Marcie, pelo menos. Sentia a sua influência e deliciava-se com ela. Um sentimento de tremenda força percorreu-a quando o homem se virou e partiu, tal como o outro coitado do pequeno demente que a incomodava no metro. Apenas ele era tão fraco que mal contava. Teve uma imagem mental de si própria a tratar Merrill Landon dessa maneira, e isso provocou nela uma estranha exaltação. Sorriu.

Marcie sorriu-lhe tortuosamente. "Pensei que fosses ficar chateada", disse ela.

"Não. Não, claro que não. Por que haveria de ficar?"

"Não sei. Talvez porque me senti um pouco culpada por sair com outra pessoa além do Burr. Mas diverti-me. Até ao fim, pelo menos. Não me teria importado se ele não tivesse babado tanto." Ela riu-se e Laura ignorou o que ela disse. Estavam a menos de trinta centímetros uma da outra e, de repente, Laura estendeu a mão para ela e deu-lhe um pequeno abraço. "Não estou zangada. Estou apenas contente por estares bem", disse ela.

Marcie cedeu, mas parecia embaraçada, e Laura soltou-a rapidamente. Com a libertação veio um desânimo, uma perda de força e confiança. Deslizou silenciosamente para a cama e passou as horas até ao amanhecer a lutar com os lençóis.

* * * * *

Laura não se sentia muito mais bem disposta do que Marcie pela manhã. Chegou ao trabalho a horas, mas tudo o que queria era dormir. Tenho de recuperar. Tenho de recuperar, repetia a si mesma. Menos de três semanas e a Jean estará de volta. E não fiz um dia de trabalho decente desde que ela partiu. Mesmo que gostem de mim, não podem manter-me como um caso de caridade.

O episódio no McAlton inflamou-se na sua mente e deu-lhe uma energia zangada durante a maior parte da manhã. Sarah não lhe disse nada, mas continuou a olhar para ela por cima da máquina de escrever, aparentemente com medo de voltar a tocar no assunto do encontro. Só quando Jack ligou é que Laura se lembrou disso.

"Tudo pronto", disse ele. "O Carl Jensen pode ir. Sexta-feira à noite. Jantar e um espetáculo. Qual é o número da Sarah?"

Laura obteve-o e fez com que o rosto dela se iluminasse de expectativa. Jack passou o telefone a Carl e Laura deu o seu aparelho a Sarah. Deu-lhe um alívio momentâneo ver outra pessoa a gaguejar de prazer e antecipação. Mas o dia que viveu foi interminável, sombrio com trabalho por fazer, vontade arrastada, raiva impotente.

* * * * *

"Estás atrasada", disse Marcie quando Laura entrou. "Queria que me contasses sobre aquele livro que o Burr trouxe na semana passada."

"Não há nada para contar." Laura sentia-se demasiado deprimida para falar, para brincar, até para comer. Picou a comida sem vontade. Passado algum tempo, Marcie também se calou.

Quando a loiça ficou lavada, Marcie disse: "Liguei ao Burr. Cancelei o nosso encontro desta noite." Olhou expectante para Laura, como se esta fosse uma revelação significativa e ela quisesse uma reação adequada.

Mas Laura apenas disse: "Oh?" e entrou no quarto.

Marcie seguiu-a. "O que se passa, Laur?", disse ela. E quando Laura não respondeu, perguntou: "Dia mau?"

"Hum-hum. Dia mau." Laura deitou-se na sua cama, de barriga para baixo, com uma perna pendurada na borda, a sua mente totalmente ocupada pelo pai: o seu ódio, o seu amor reprimido por ele, o seu medo dele.

"Fala comigo, Laura", disse Marcie, aproximando-se para se sentar ao lado dela.

"Esta noite não."

"Por favor. Disseste que falarias."

"Não posso, Marcie. Não consigo falar. Estou demasiado cansada." Ela virou-se e olhou para ela. "Não olhes assim", disse ela. "Estou... estou preocupada com o meu emprego, só isso. Vou ficar bem."

"O que se passa com o teu emprego?"

"Nada."

"Oh, Laura! Deus! Tem juízo!", exclamou Marcie. Mas quando não obteve resposta, desistiu com um suspiro. "Vamos ao telhado", disse ela, "e apanhar um pouco de ar fresco. Está uma noite linda."

"Parece que vai chover."

"Como é que saberias? Estás a olhar para o teto."

"Estava, mais cedo."

"É isso que é bonito nisto. Talvez haja trovoada. Adoro ficar nua à chuva." Ela olhou lentamente para Laura.

Mas Laura voltou-se de barriga para baixo sem dizer uma palavra. Uma apatia terrível prendeu-a à cama. Nem sequer a proximidade de Marcie a conseguia despertar. Sentaram-se em silêncio durante alguns minutos, Laura perdida em si mesma e Marcie à procura de uma forma de a animar. O telefone tocou.

"Eu atendo", disse Marcie, e levantou-se. Atravessou o quarto e pegou no auscultador quando Laura se lembrou subitamente da Beebo. Sentou-se de rompante.

"Não", dizia Marcie, "não posso. Lamento. Não quero discutir, não mais. Já tive o suficiente, é tudo. Não vou falar contigo, Burr. Não, não é culpa dela, não é culpa de ninguém." Ela olhou para Laura estendida novamente na cama. "Isso não tem nada a ver com o assunto. Não. Boa noite, Burr."

Ela desligou e ficou por um momento imóvel, a observar Laura, que estava deitada com o rosto virado para o lado, aparentemente relaxada. O Burr estava a ficar ciumento, impaciente. Estava pronto para acusar qualquer pessoa de qualquer coisa para recuperar o favor de Marcie. As suas conversas telefónicas eram pouco mais do que discussões que Marcie terminava desligando-lhe na cara. Mas ele não seria ignorado por muito tempo.

Marcie sentou-se na sua própria cama com um livro, aquele sobre o qual pretendia perguntar a Laura. Olhou para as páginas sem ler e interrogou-se sobre a sua colega de quarto temperamental.

Laura estava a olhar para o seu relógio de pulso. Estava dois minutos adiantado. Deitou-se quieta, mas estava alerta, pronta para saltar. Dois minutos depois das oito, pelo seu relógio, o telefone tocou de novo. "É para mim", disse ela a Marcie, que não tinha intenção de atender. Laura atravessou o quarto e sentou-se na cama de Marcie.

"Olá?", disse ela para o auscultador.

"Olá, amor. Onde estás?"

"Em casa", disse Laura sarcasticamente. "Onde mais?"

"Queres que vá aí?"

"Estarei aí em baixo dentro de minutos. Atrasou-me."

"Está bem, mas despacha-te. Vou ligar outra vez às oito e meia. E a cada dez minutos depois disso."

Laura desligou sem mais uma palavra e virou-se para olhar para Marcie. "Conheci-o no trabalho", disse ela, com o rosto a corar. "Tem-me incomodado. Não quero vê-lo." Não sabia o que ia fazer.

"Oh", disse Marcie. Então, por que todo este alarido? Ela olhou curiosamente para o rosto corado de Laura. Laura virou-se e começou a andar de um lado para o outro no quarto, sentindo como se houvesse uma bomba selada no seu peito, a fazer tique-taque, prestes a explodir. Sabia que as suas unhas estavam a enterrar-se nos seus braços, mas mal as sentia. Era uma expressão de uma terrível tensão nela. Subitamente, abriu a porta do armário e puxou o seu casaco.

Marcie, a observá-la, disse rapidamente: "Onde vais?"

"Voltarei cedo", disse Laura, dirigindo-se para a porta, impulsionada pela violência contida que fervia dentro dela.

"Laura!" Marcie saltou e seguiu-a. "Droga, Laur, por favor diz-me, estou preocupada contigo."

Laura virou-se abruptamente à porta. "Vou só sair por um bocadinho", disse ela. "Não me atrasarei." Tentou sair, mas Marcie agarrou-a pelos braços.

"Não estás em condições de ir a lado nenhum, Laura. Nunca te vi tão transtornada", disse Marcie. "Exceto uma vez. E tu... passaste a noite com o Jack naquela altura. Foi culpa minha. É culpa minha? Estou a expulsar-te de casa outra vez?"

"Não, não, nada é culpa tua." Laura cobriu o rosto com a mão durante um minuto e, quando os braços de Marcie a envolveram para a consolar, ela chorou. "Por favor, não me deixes ir", sussurrou ela. "Quer dizer... Deus!... quer dizer, deixa-me ir. Deixa-me ir, Marcie." Começou a resistir.

Mas a curiosidade em Marcie tinha tomado conta. "Estás a tremer toda. Vem para a cama, Laur. Vamos, querida, não estás em condições de ir a lado nenhum. Vem contar-me tudo", ela persuadia, tentando guiar Laura para longe da porta. Mas Laura sabia o que a esperava se obedecesse. Destapou o rosto para olhar por um momento para Marcie, tão perto dela, tão tentadora. E aquela tempestade terrível que fervia dentro dela fazia-a sentir como se pudesse fazer qualquer coisa louca que o seu corpo lhe exigisse. Estava com medo.

"Por favor", disse Marcie suavemente. "Vou dar-te uma massagem, sou uma ótima massagista. O meu pai ensinou-me como." Ela sorriu. "Por favor, Laur."

"O teu pai?"

"Sim."

"Amas muito ele?"

"Sim." Marcie franziu o sobrolho para ela.

"E ele ama-te?"

"Claro."

"Tens sorte, Marcie."

"É assim que deve ser, Laur. Não tenho sorte. Sou apenas normal. Comum, quero dizer."

Laura olhou para ela. A emoção nela fervilhava perigosamente perto do topo. Com um movimento súbito e rápido, Laura beijou a face de Marcie levemente, deixando a humidade das suas lágrimas no rosto de Marcie, e depois sussurrou: "Tão sortuda... tão sortuda..." Depois virou-se e correu pelas escadas abaixo para o elevador.

Marcie sentou-se numa cadeira da sala, colocou a cabeça entre as mãos e tentou pensar. O comportamento estranho de Laura fazia-a sentir um formigueiro por dentro. Sentia-se perto da tempestade que a tinha roçado de raspão, e ainda assim permanecia intocada. Havia apenas a humidade na sua face como sinal, e ela limpou-a, inexplicavelmente embaraçada.

* * * * *

Laura fez com que o taxista a levasse a passar pelo McAlton. Contou até ao décimo quarto andar, tão bem quanto conseguiu calcular, e olhou fixamente para os blocos dourados das janelas, e perguntou-se quais delas davam para o 1402. E se Merrill Landon estava no seu quarto.

Entrou rapidamente quando chegou ao The Cellar, sem hesitação, e dirigiu-se ao bar. Passavam poucos minutos das oito e meia pelo seu relógio. Esperava ansiosamente que a Beebo não tivesse voltado a ligar a Marcie. Viu-a na extremidade oposta do bar a falar com duas raparigas muito bonitas. Pareciam adolescentes. Laura sentiu-se consternada com o clarão de ciúme que a atravessou. Caminhou diretamente para a Beebo, sem ser vista, até estar ao lado dela. Sentou-se ao lado dela, observando a Beebo enquanto ela falava, até que uma das adolescentes lhe deu um toque e acenou curiosamente para Laura. Beebo virou-se e abriu um sorriso.

"Bem, Bo-peep", disse ela. "Não te ouvi chegar. Como estás?"

"Estou a interromper alguma coisa?" Laura desviou o olhar.

Beebo riu-se. "Nada disso. Esta é a Josie. E esta é a Bella. Laura." Ela recostou-se no banco para que todas se pudessem ver.

As raparigas mais novas fizeram cumprimentos efusivos, para melhor exibirem sorrisos voluptuosos, mas Laura disse apenas: "Olá", para elas brevemente. Beebo riu-se de novo e inclinou-se mais para ela.

"Ciumenta, querida?", disse ela.

"Devo-te uma bebida", disse Laura, bruscamente. "O que queres?"

"Whisky com água."

Laura acenou ao empregado de bar.

"É só por isso que vieste, Bo-peep?"

"Não fales assim, Beebo, fazes-me sentir doente." Laura ainda não queria olhar para ela.

"Da última vez não fiz."

"Sim, fizeste. Espero que tenhas comprado às tuas amigas aí uma das caricaturas do Dutton. É a forma mais rápida de me ver livre delas que conheço."

"Porque é que não funcionou contigo?" Beebo riu-se suavemente ao ouvido de Laura. "Vieste para casa comigo naquela noite, se bem te lembras."

Laura virou-se irritada para longe dela. "O que aconteceu foi apesar da maldita caricatura juvenil, não por causa dela. Quase me fui embora quando ele mas deu."

"Mas não foste."

"Devia ter ido."

O empregado de bar aproximou-se e Laura começou a pedir. Queria comprar a bebida à Beebo e tomar uma rápida ela própria, e depois sair. Ir para casa. Esquecer que tinha vindo. Mas antes que pudesse fazer o pedido, Beebo disse: "Vem para casa comigo, Laura."

"Não."

"Anda lá." Beebo girou-a lentamente no banco do bar com um braço. Laura olhou relutantemente para ela pela primeira vez desde que fora notada. Beebo sorriu para ela, o seu cabelo preto curto e a testa larga tornando o seu rosto ainda mais masculino do que Laura se lembrava. Ela era notavelmente atraente. Laura sentia-se profundamente envergonhada pelo que estava a sentir, sentada ali no banco do bar, deixando-se influenciar por esta rapariga que tentava tão arduamente desprezar.

"Porque não convidas a Bella?", disse ela.

"Ela está ocupada."

As bochechas de Laura arderam de fúria e ela sacudiu o braço de Beebo e começou a levantar-se, a passar por ela, a sair. Mas Beebo agarrou-a, rindo-se profundamente na garganta, completamente divertida. "Por Jesus, estás mesmo com ciúmes!", disse ela. "Desculpa, querida, tinha de saber. Anda, vamos."

Laura, que estava a resistir-lhe, viu-se subitamente a seguir na mesma direção que a Beebo, em direção à porta, toda a sua resistência dissipada.

"Beebo, não vim aqui para isso! Vim para te impedir de ligar à Marcie. Para te pagar aquela bebida."

"Quero que me devas essa bebida pelo resto da tua vida, Bo-peep."

Laura arquejou. Depois caminhou apressadamente à frente de Beebo, tentando afastar-se o suficiente para escapar. Nos rostos à volta das mesas, avistou a pequena e esguia loura que a tinha abordado antes sobre a Beebo. Ela estava a rir-se e a humilhação súbita que invadiu Laura fê-la correr escada acima até à rua. Mas Beebo estava logo atrás dela, e Laura sentiu os seus braços envolverem-na por trás, e os lábios de Beebo no seu pescoço, e os seus próprios joelhos a tremerem.

"Não, não, oh Beebo, por favor! Não aqui, não aqui, por favor."

"Laura, querida." Beebo beijou-a de novo. "Não aqui, tens razão. Vamos." Ela colocou um braço à volta dela e levou-a para longe como tinha feito antes, e de repente, estranhamente, Laura sentiu vontade de correr. Sentiu vontade de correr com todas as suas forças até chegarem ao apartamento de Beebo. Pois já não havia dúvidas, era para lá que iam.

Queria os braços de Beebo à sua volta, os seus corpos quentes e nus pressionados um contra o outro como antes. Quase sem se aperceber, começou a acelerar e depois a correr. Instantaneamente, Beebo estava atrás dela, depois ao seu lado, rindo-se com aquele riso pagão dela. Agarrou um punhado do cabelo esvoaçante de Laura, prateado sob a luz da rua, e puxou-a até parar, fazendo-a girar. Quase no mesmo gesto, arrastou-a para uma entrada escura e beijou-a, ainda a rir-se.

"És maravilhosa", disse ela num sussurro áspero. "És maluca. Amo-te."

"Não, não, não, não, não", gemia Laura, mas retribuiu os beijos de Beebo apaixonadamente. Foi Beebo quem teve de parar subitamente.

"Oh, Deus, Laura, para. Para!", disse ela. "Não podemos entrar nas ruas. Anda, querida." Ela arrastou-a por mais dois quarteirões. Laura caminhava como se estivesse bêbada. Não tinha álcool nela, mas não estava sóbria. Nem de perto. Sentia-se atordoada. Meio corria, meio saltitava, para acompanhar o passo de Beebo. Nos últimos dois quarteirões correram o mais rápido que puderam. Beebo levou-a para a Cordelia Street, e através da porta verde para o pátio.

Dentro da porta, de pé no pequeno pátio, a urgência abandonou Laura. Ficou ofegante, encostada à parede de tijolo junto à porta. Estava onde queria estar, junto de uma mulher fascinante com quem queria fazer amor. Era uma necessidade física imensa, um hipnotismo emocional, que a atraía para a Beebo. Depois da corrida selvagem que acabara de ter, Laura quis subitamente abrandar. Provocar, tentar. Sentia-se como alguém inteiramente diferente. Não a Laura rigidamente controlada que vivia ansiosamente com Marcie, com um emprego incerto, com o espectro de um pai odiado. Não a rapariga cautelosa e nervosa que a sua colega de quarto conhecia, mas uma mulher calorosa e excitada à beira da intimidade última. Ela queria-o, pedia-o, aceitava-o. Ficou a observar Beebo, os olhos enormes com isso, as narinas dilatadas, os lábios entreabertos. Beebo aproximou-se dela, sorrindo, mas Laura afastou-se.

Ela moveu-se, quase deslizou, para um círculo de bancos no centro do pátio. Beebo seguiu-a. E de novo, quando ela estendeu a mão para ela, Laura deslizou à volta dos bancos. Beebo estendeu a mão novamente, e Laura desvaneceu-se do seu alcance. E, subitamente, Beebo estava em chamas.

"Vem cá, vem cá, querida. Linda querida. Linda Laura", cantava ela como um feitiço. Mas Laura esquivava-se, movendo-se um pouco mais depressa de cada vez, até que estavam a correr de novo, e Laura sentiu o riso a sair dela, suave e leve no início, mas a tornar-se mais selvagem, incontrolável. Fugiu, a centímetros das mãos de Beebo, para o corredor escuro, e subiu as escadas aos tropeções, perdendo o passo, e quase perdendo a liberdade, duas vezes. Beebo estava tão perto atrás dela perto do topo que podia ouvir a sua respiração. Com um pequeno grito de excitação insuportável, caiu contra a porta de Beebo, e sentiu dentro de um segundo o peso de Beebo vir contra ela com força. O riso explodiu nela de novo até Beebo abrir a porta e quase caírem na sala de estar.

Nix estava em cima delas instantaneamente, mas Beebo, arrastando Laura pelo pescoço e Nix pela coleira, trancou-o na casa de banho. Depois virou-se para Laura. Laura, ao vê-la, parou subitamente de rir. Beebo parecia sobrenatural. O seu cabelo preto estava desalinhado, as suas bochechas estavam carmesim, o seu peito ofegava. Mas eram os seus olhos que quase assustavam Laura.

Laura deixou o seu casaco cair dos seus ombros lentamente, provocadoramente, e Beebo aproximou-se dela. Ficaram imóveis, tão perto que apenas as pontas dos seios de Laura tocavam Beebo, e ficaram assim, sem se moverem, até Laura fechar os olhos, deixando a cabeça oscilar para trás sobre os ombros, e gemer.

"Faz, Beebo", disse ela. "Faz. Não aguento, faz-me isso."

"Implora-me. Implora-me, querida."

Os olhos de Laura abriram-se. Ela não sabia quão ofegante estava a sua respiração, quão estranha e maravilhosa parecia com todas as suas inibições a arder na sua própria chama de desejo. "Beebo, Beebo, leva-me", gemeu ela.

Beebo sorriu e, num movimento contido e preciso, desceu os lábios para onde a pele de Laura era mais sensível, provocando-lhe um espasmo que percorreu todo o seu corpo. Laura agarrou-se aos ombros de Beebo, sentindo a força bruta daquela mulher que a mantinha presa naquele momento suspenso.

"Ainda queres ir embora?", murmurou Beebo contra a sua pele, a voz agora rouca e vibrante.

Laura não conseguia responder; as palavras morriam-lhe na garganta, substituídas por uma necessidade avassaladora de se perder completamente naquilo que Beebo lhe oferecia. O quarto pareceu diminuir, as paredes a aproximarem-se, deixando apenas o calor que emanava de ambas. Cada toque de Beebo era uma promessa, e cada promessa era uma corrente que a prendia mais àquele chão, àquela presença, àquela verdade que ela tentava, em vão, negar.

"Responde-me, Laura."

"Não", sussurrou Laura, a voz quase inaudível, entregando-se por fim à inevitabilidade daquele desejo. "Não quero ir."

Beebo riu, um som triunfante que ecoou no silêncio do apartamento, e puxou-a mais para perto, como se quisesse apagar qualquer vestígio de hesitação que ainda restasse na mente de Laura. O tempo, lá fora, continuava a passar, mas dentro daquele espaço, apenas o ritmo dos corações importava. E, enquanto as sombras da noite se alongavam, Laura soube que, por aquela noite, o resto do mundo deixara de existir.

“Ela não tem que te magoar, idiota. Não consigo fazer isso entrar na tua cabeça? Tudo o que ela precisa fazer é dizer ‘não, obrigada’. Gentilmente. Com simpatia. Inferno! Se tu a queres o suficiente, vais morrer por causa disso. Eu sei, Laura, eu sei!” E ela segurou os ombros de Laura e sacudiu-lhe a cabeça até que Laura sentiu vontade de soluçar. Beebo soltou-a de repente e ficaram em silêncio, incapazes de falar, pesados de sentimento, a tremer.

Finalmente Beebo disse calmamente: “Vai, querida. Vai para casa e acaba logo com isso. Foste avisada.” Toda a combatividade parecia ter desaparecido dela.

Quando Laura saiu, Beebo foi até à porta com Nix nos calcanhares. Ela não sorria. “Volta, querida”, disse ela. “Para ficar. Ou então nem voltes.” E quando Laura se virou sem responder, ela gritou atrás dela: “Estou a falar a sério!”

Capítulo Doze

Laura entrou na cobertura e caminhou lentamente para o quarto. Era difícil imaginar o humor de Marcie. Marcie olhou de cima da cama, com o cabelo em rolos. Era um alívio para os olhos de Laura depois da beleza tempestuosa e explosiva de Beebo. Marcie parecia linda, mesmo com os ganchos de metal no cabelo. Mas também parecia fria; pronta para uma briga.

Laura tirou o casaco sem dizer uma palavra, pensando nas discussões barulhentas que ela e Beth costumavam ter. E em como as resolviam com amor. Um pequeno novelo de excitação retorceu-se no seu interior.

“Bem?”, disse Marcie asperamente. “Ele atirou-te para o chão na rua?”

Laura ficou surpreendida, ofendida. Marcie não tinha o direito de dizer tal coisa. “O que queres dizer com isso?”, perguntou ela.

“O teu vestido”, disse Marcie, apontando para ele.

Laura olhou para baixo. Beebo tinha-o arrastado pelo chão da casa de banho e a sujidade, juntamente com uma passagem a ferro apressada, faziam-na parecer que tinha estado envolvida numa zaragata. “Marcie”, disse ela, tentando controlar a voz, e sem ter a certeza, quando começou a falar, do que ia dizer, “Marcie, eu não me deitei com o Jack.”

Marcie baixou os olhos para o livro que segurava e a sua expressão dizia: Conta outra. “Com quem, então?”, disse ela.

Laura pressionou os lábios um contra o outro e sentou-se na cama de Marcie. _Não vou gritar com ela, disse a si mesma. Não posso arriscar. Diria a verdade, deixá-la-ia escapar por engano._ “Marcie, eu apenas acabei no Village.”

“Andaste a vaguear a noite toda?”

“Não. Não.” Ela olhou para o chão. “Bem, eu—”

“Tu o quê?” Marcie olhou para ela.

“Marcie, não passei a noite com o Jack.” A sua voz implorava compreensão.

“O Jack tem amigos.”

Mesmo na sua crescente irritação, Laura sentiu ciúmes e isso deixou-a arrepiada. “Sim, o Jack tem amigos. E nem todos são homens.”

“Não me digas que passaste a noite com uma rapariga. Ha! Isso é ainda melhor. Tu simplesmente andas com qualquer pessoa que esteja à mão, não é?”

“Tu não és muito selectiva, Marcie.”

“Apenas com o Burr!”, retorquiu Marcie com raiva. “Eu só me deito com o Burr. E fui casada com ele. Além disso, não o deixo tocar-me há semanas. Tu nunca foste casada, nem com o Jack nem com ninguém.”

“E eu nunca me deitei com o Jack nem com ninguém.”

“Não acredito em ti!”

Laura levantou-se e olhou para ela. “Não tens de acreditar, Marcie”, disse ela. “Que raio te importa com quem me deito? Ou porquê? És a guardiã da minha moral? A tua não é perfeita, sabes. Eu não me deitei com o Jack, para tua informação. Nem uma vez. Mas se o tivesse feito, que importaria? Tu achaste que era tudo uma grande piada ao início.”

O rosto de Marcie começou a corar. Ela pousou o livro e olhou desconfiada para Laura, que estava ao lado da sua cómoda a despir-se. Marcie passou os dedos pelos lábios, como se se estivesse a avisar para se calar, e Laura pensou: _Tal como eu. Tal como eu quando a Beth me provocava. Eu queria-a tanto. E tinha tanto medo._

“Eu não sabia que ia ficar tão sério, no início. Com o Jack”, disse Marcie, com a atitude a suavizar. “Sinto que a culpa é minha, o que estás a fazer, e eu... sinto-me muito mal por isso. Estou assustada. Talvez te metas em sarilhos, talvez me culpes nessa altura. Ficas tão estranha às vezes. Acho que estou a ser egoísta, Laur. Mas...” Ela soltou um suspiro audível que fez Laura virar-se para olhar para ela. “Laur, diz-me... por favor, diz-me... porque é que continuas a fugir daqui a todas as horas da noite? O que é que estou a fazer de errado? Se não me disseres, vou mudar-me daqui amanhã, juro. Não aguento isto!”

Laura tinha de lhe dizer alguma coisa. Tinha de mentir e não conseguia mentir e, enquanto caminhava em direção à cama de Marcie, sentiu algo parecido com pânico ao pensar em perdê-la. Mas quando se sentou ao lado dela, algo surgiu na sua mente e salvou-a. Não precisou de gaguejar nem de corar, e não precisou de confessar a sua homossexualidade. Contou a Marcie sobre o seu pai.

Sentia quase vergonha de contar o que tinha acontecido. Era humilhante e parecia um pedido descarado de simpatia. E, no entanto, ela queria desesperadamente tocar o coração de Marcie, ganhar a sua compaixão. “Ele disse ao funcionário que não tinha filha.” Ela terminou. A sua vergonha fê-la baixar o olhar e cobrir o rosto com as mãos. Mas Marcie, subitamente comovida, abraçou Laura e chorou.

“Perdoa-me, Laura”, sussurrou ela. “Tenho sido uma estúpida sobre isto. Não sei o que me deu. Querida, perdoa-me, nunca te deveria ter torturado com isto. O que quer que o teu pai te tenha feito, ele deve ser uma besta. Ele não merece viver.”

Mas isso era ir longe demais, até para Laura. Tinha havido momentos violentos de vergonha e rejeição, em que ela queria matá-lo. Mas havia outros em que ela apenas queria ter permissão para amá-lo. “Não digas isso, Marcie.”

Marcie olhou para ela, com o rosto tão perto que apanhou Laura de surpresa. “Não me digas que ainda sentes algo por ele?”, disse ela. “Depois do que ele te fez?”

“Não sei o que sinto. Odeio-o às vezes, Marcie, odeio-o tanto às vezes que tenho medo de mim própria. Penso: ‘Se ele estivesse aqui comigo agora... se aparecesse de repente... eu matava-o. Eu matava-o!’” E disse-o com tanta força que Marcie estremeceu. “E depois, noutras alturas, tudo o que quero fazer é chorar. Apenas chorar até não restarem lágrimas. Pôr-me de joelhos e implorar-lhe que me ame.”

“Parece tão louco, Laur. O meu pai é tão simpático e normal. Eu não aguentaria se ele alguma vez me magoasse como o teu. Meu Deus, deves sentir-te tão sozinha. Laura, deixa-me estar perto de ti. Deixa-me ser tua amiga. Tu não tens sido até agora, sabes.”

Laura começou a sentir-se tonta. Isto é demais, isto é demasiado fácil, pensou ela, e remorsos de consciência surgiram. _Tudo o que tenho de fazer é puxá-la para perto, acariciá-la, beijá-la, tudo o que tenho de fazer... oh, meu Deus! Mas eu não posso! Seria como corrompê-la, como desviá-la do caminho. Droga! Porque é que tenho consciência? A Beth não tinha. A Beebo também não. Porquê eu? Porque é que não a posso simplesmente levar?_ Mas ela estava demasiado assustada.

“Laura, fala comigo. Estás noutro mundo outra vez.”

Laura olhou para ela, equilibrada entre o desejo e o medo, entre o desejo e a consciência, entre o desejo e... desejo, desejo....

“Marcie”, sussurrou ela. “Lembras-te da noite em que querias tocar línguas?”

Marcie riu-se um pouco, embaraçada. “Sim”, disse ela. “Contei ao Burr sobre isso. Ele diz que estou louca.”

Laura ficou chocada. “Tu contaste ao Burr?”, disse ela, magoada pela traição.

“Bem, não fiques tão horrorizada.” Marcie riu-se. “Não me digas que não contaste ao Jack?”

E Laura, com a sua súbita confusão, admitiu que tinha contado. Com a admissão, e o choque, veio a clareza de espírito. Ela levantou-se. Marcie observou-a. “Vou deitar-me”, disse Laura. “Estou demasiado cansada para falar. Estou exausta.”

Marcie deixou-a ir sem dizer uma palavra. Os seus olhos seguiram Laura pela sala. Laura ignorou-a ostensivamente. Adormeceu minutos depois de se deitar, demasiado cansada até para se preocupar.

* * * * *

Laura sabia que teria de mentir a Sarah de manhã sobre onde passou o dia anterior. Decidiu fazê-lo de forma rápida e simples. Inventou uma pequena história sobre uma enxaqueca e entregou-a rapidamente, antes mesmo que Sarah tivesse oportunidade de perguntar. Sarah aceitou-a pelo valor facial.

Ao fim do dia, ligou a Marcie e disse-lhe que se atrasaria. “Tenho de ficar aqui e pôr o trabalho em dia”, explicou ela. “Não fiz nada a não ser atrasar-me desde que a Jean partiu. Parece que não consigo acabar o trabalho. Não vou perder este emprego.”

“Estás a esgotar-te, Laur. Acho que és louca. Podes arranjar um emprego muito mais leve e ganhar muito mais dinheiro. Aliás, falei com o Sr. Marquardt sobre ti.”

“Tu o quê?”

“Sim.” Ela riu-se. “Hoje. Achei que seria divertido se pudéssemos estar no mesmo escritório. Além disso, nunca vi ninguém trabalhar como tu. É insano, quando tudo o que tens de fazer é ficar sentada.”

“Marcie, eu não quero ficar sentada! Não preciso de ajuda! Posso fazer isto sozinha. Sei que o fizeste por amizade, mas raio, eu quero trabalhar. Não quero ficar sentada no meu rabo o dia todo, a contar os minutos até à próxima pausa para o café.”

Marcie ficou surpreendida com a veemência da resposta. “Laura, não quis dizer...”, começou ela, e a sua voz soava magoada.

“Eu sei, eu sei. Estou grata, Marcie, perdoa-me. Mas tenho algo a provar, ficando aqui. É difícil apenas no início, quando estás a aprender. Vai ficar mais fácil. E daqui a duas semanas seremos três no escritório.”

Ela sabia que tinha magoado os sentimentos de Marcie e, quando desligou, perguntou-se se valia a pena. _Porque é que não me demito? Porque é que não aceito um emprego leve, como a Marcie?_ Mas sabia o desprezo que o seu pai deitaria sobre um emprego desses. Eram apenas os difíceis, os que te esgotam, os que exigem o teu melhor, que ele respeitava.

Laura ficou até quase às oito sozinha. O edifício estava silencioso como uma cripta e ela estava a meio da última ronda de relatórios que pretendia fazer, quando a porta se abriu e uma voz disse: “Laura!”

Laura soltou um arquejo de choque, levando as mãos ao rosto. Ficou tão assustada que se viu a tremer por todo o lado. Por um momento, foi incapaz de se mover.

“Laura?”, disse ele novamente.

Laura virou-se lentamente na sua cadeira giratória, tirando as mãos do rosto. Olhou para cima, com o semblante frio, branco e ressentido. Era o Burr. Não disse uma palavra. Apenas olhou para ele com surpresa. Sentia-se transbordar de ódio por ele, como se o Merrill Landon estivesse ali.

Burr ficou um pouco surpreendido. “A Marcie disse que estavas aqui”, disse ele, um pouco desajeitado. “Queria falar contigo.” Ele encolheu os ombros e puxou a cadeira de Sarah da sua secretária, sentando-se a cerca de um metro e meio de Laura. Ela não disse nada.

“Laura”, disse ele, embaraçado. “Começámos a ser amigos muito bons, tu e eu.” Ele girava o chapéu repetidamente nas mãos, estudando-o enquanto falava. “Depois... não sei porquê... parece que... bem, simplesmente não tínhamos nada para dizer um ao outro. Acho que talvez porque falávamos sempre de livros. E da Marcie. Tu já não pareces ler livros. E a Marcie... bem...” Ele parecia não encontrar palavras. Girava o chapéu de forma assídua, como se isso lhe pudesse dar algumas respostas. Mas não ajudou em nada. “Claro, eu também não tenho aparecido muito ultimamente”, disse ele.

Laura ficou subitamente com um pouco de medo. Mas estava decidida a não ser mais prestável do que o chapéu dele. Apenas o encarou fixamente. Ainda não lhe tinha dito uma palavra. Afinal, pensou ela, _Eu não fiz nada. Ele ainda não disse o que quer._

“Bem, francamente Laura, a Marcie mudou. Não sei que raio lhe deu. Pensei que talvez me pudesses ajudar.” Ele observou-a atentamente. “Acho que soa um pouco estúpido. Mas eu amo-a, e de repente já nem a consigo ver. Não consigo aproximar-me dela. Ela simplesmente não está interessada.” Quando Laura continuou sem dizer nada, ele continuou: “Quero dizer, sei que não é problema teu, mas pensei que, sendo colega de quarto dela, sabes, talvez pudesses ajudar-me.” Ele olhou para ela, sorrindo um pouco, mas o sorriso desapareceu quando viu a expressão no rosto dela.

Laura estava a pensar: Porque raio te haveria de ajudar? Mas disse: “Porque é que não paras de discutir com ela, Burr? Talvez isso ajudasse.” A sua voz era ligeiramente sarcástica.

“Quando discutíamos”, disse ele, “pelo menos podíamos sempre fazer as pazes. Isso era divertido. Ambos gostávamos. Depois, de repente, há um par de semanas, a Marcie não quis discutir mais. Não sei que raio lhe deu. Ficou apenas silenciosa e pensativa. Não queria discutir nem queria fazer amor. Começo a achar que ela precisava de discutir antes de poder fazer amor. Talvez seja a única coisa que a excitava.” Ele olhou interrogativamente para Laura.

“Como é que eu haveria de saber? Talvez tu precisasses disso”, disse Laura, e encolheu os ombros.

Pela sua reticência, ela deixou o Burr desconfortável. “Bem, sei que não é exatamente o tipo de coisa para te incomodar”, disse ele, fazendo um esforço visível para controlar o temperamento. “Mas droga, Laura, eu amo-a. Ela é minha mulher. Ainda penso nela dessa maneira, não consigo evitar. Fui um tolo por a ter deixado pedir o divórcio.”

“Achas que casar outra vez mudaria alguma coisa?”, disse Laura. “Não achas que seriam apenas as mesmas velhas discussões de sempre?”

“Não sei.” Ele abanou a cabeça. “Talvez. Mas prefiro viver com a Marcie e discutir do que viver sem ela e estar tão miserável.”

“Discutir faz-te feliz?”

“Não me importo. Não o suficiente para a deixar outra vez.”

“Falas como um miúdo, Burr”, disse ela, perguntando-se que autoridade lhe dava o direito de proferir juízos. E então raciocinou que o próprio Burr lhe dava esse direito. Ele pediu por isso. Ok, ele ia tê-lo. “Se queres reconquistar a Marcie, descobre qual é o problema e muda-o. Se queres a minha opinião... e acho que é por isso que estás aqui... não acho que devam voltar a ficar juntos. Acho que o Jack tem razão; vocês nunca foram feitos um para o outro. É puramente físico.”

Estas foram palavras duras, mas ainda assim Laura não estava preparada para o efeito que produziram. Burr empalideceu e a sua boca abriu-se. Subitamente, levantou-se. “O Jack disse isso?”, perguntou ele incrédulo. “O Jack?”

E Laura sentiu-se um pouco doente. Tinha violado uma confidência, sem sequer querer. A única pessoa que não suportava magoar, afastar agora, era o Jack. “Talvez me tenha enganado”, disse ela rapidamente. Mas quem mais poderia ser? “Fui eu, Burr, não sei porque disse isso. Não foi o Jack.”

“Oh, foste tu!” Ele tinha sido levado pelo choque a uma fúria. Estava a guardar o seu ressentimento, a tentar falar calmamente com Laura. Agora os seus sentimentos perderam o controlo. “Bem, vou dizer-te uma coisa, Laura. Não acredito em ti. Foi o Jack ou não terias dito isso. És uma péssima mentirosa. Agora, vê se me explicas uma coisa.” Ele inclinou-se com os punhos sobre a secretária dela.

Laura afastou-se dele, assustada agora. “Acalma-te, Burr”, disse ela, mas ele ignorou-a.

“Vocês os dois, tu e o Jack, podem ir para o inferno!”, disse ele. “Estiveram a psicanalisar a situação com um par de cervejas no vosso tempo livre. Um par de psicólogos de hora de cocktail. Oh, não pensem que não vejo. Bem, não quero saber do que pensam. Eu amo a Marcie!” Ele gritava. “Eu amo-a! E gostava de saber porque raio ela já não me ama. Porquê, Laura? Diz-me. Porque é que ela prefere ficar em casa contigo à noite do que sair comigo? Porque é que ela fala sobre Laura, Laura, Laura o tempo todo? A Laura lê isto, a Laura faz aquilo, a Laura diz! Meu Deus, estou farto disso!” As suas suspeitas feias explodiram na cara dela.

“Ela não faz isso, Burr, estás enganado.”

“Enganado!”, rugiu ele, com o rosto a tornar-se escarlate. “Enganado! Oh, és uma cabra, Laura! Enganado! E ela já não quer fazer amor comigo. Ela não me quer ver. Tu és a única com quem ela se importa. Ela não se cansa de ti em casa, tem de te arranjar um emprego no escritório dela. Sim, ela contou-me sobre isso”, interrompeu-se, quando Laura soltou um pequeno arquejo.

“Burr, seu tolo, estás a inventar coisas”, disse Laura. Ela parecia fria e controlada, mas havia um terror dentro dela que ele não conseguia ver. Ela levantou-se no seu lugar e enfrentou-o, com os rostos a menos de trinta centímetros de distância. “Agora sai daqui.” Tinha funcionado antes com outros homens. Tinha de funcionar agora com o Burr. Ela não lhe daria satisfação nenhuma.

“Não me digas que não estás metida em alguma patifaria”, rosnou ele.

“Não estou metida em nenhuma patifaria”, respondeu ela calmamente.

“Então que treta é esta sobre tocar línguas? No escuro? Na cama? Porque é que a Marcie te segue como se fosses o Svengali?”

“Ela não segue.”

“Não me digas que não segue!”, gritou ele numa fúria, batendo com o punho com um enorme estrondo na secretária dela. “Eu sei que segue. Eu sei!”

“Burr, estás louco de ciúmes.”

“O que é que se passa entre vocês as duas?”

“Nada. Absolutamente nada. Sou uma má mentirosa, tu próprio disseste. Se eu alguma vez tivesse tocado na Marcie, não conseguiria mentir sobre isso.” Ela encarou-o, com o rosto como uma máscara, quase branco; os seus olhos brilhantes e o seu corpo tenso.

“Tu queres a Marcie. Admite.” Ele estava calmo agora, mas era a calma do ódio.

“Não vou admitir nada. Quem raio és tu? Não te devo explicações.”

“Ela é minha mulher.”

“Então ela é tua mulher. Ela é a minha colega de quarto. Ela prefere viver comigo.” Laura estava perigosamente perto de atirar a sua vantagem à cara dele.

“Tu és maricas! Por Deus, eu sabia!”

“Como te atreves!” E o sangue quente subiu ao rosto de Laura. “Sai daqui! Seu bastardo!”

“Muito bem, nega então!”

“Não sou responsável perante ti, Burr. Não vou admitir nem negar nada. Não tenho de o fazer. Vou chamar a polícia se não saíres daqui. Vou processar-te por difamação se fizeres essa acusação em público. Nunca pus uma mão na Marcie.”

“Não foi isso que a Marcie disse.”

Por um segundo de choque, Laura foi incapaz de se mover ou responder. Depois arquejou e cambaleou um pouco. Houve um silêncio terrível, pesado com o significado horrível das suas palavras.

Laura sentou-se a tremer. Começou a chorar.

Burr observou-a em fúria silenciosa por um momento. Depois disse: “Pensei que isso te apanharia, sua cabra.” A sua voz era baixa e seca. “Vim aqui falar contigo como um ser humano, para te dar uma oportunidade. Mas tu ages como uma maldita rainha. Ages como se eu estivesse errado, não tu! Como se eu fosse um animal. Bem, tu não és melhor. És uma pervertida, Laura. E vou tirar a Marcie de ti mesmo que tenha de chamar a polícia para o fazer. Não lhe vais tocar outra vez.” Ele virou-se bruscamente e começou a sair.

“Burr! Burr! Meu Deus, espera! O que é que ela disse? O que é que ela te contou?”

“Não consegues adivinhar?”

“Ela inventou, Burr, acredita em mim. Por favor, acredita em mim.” Ela estava a implorar-lhe agora. “Sabes como ela é.”

“Sim, sei como ela é. Ela não inventou isto.”

“Inventou! Ela está a mentir.”

“Ela está a dizer a verdade. Estás a pervertê-la. É óbvio, até eu consigo ver. Pervertê-la! A minha Marcie!” Ele quase chorou quando o disse, e Laura instintivamente levou a mão à garganta como se para se proteger.

“Burr”, disse ela, e a sua voz era profundamente intensa e calma, “juro-te por Deus e pelo Céu e por tudo o que considero sagrado, eu nunca...”

“Tu não tens nada como sagrado! Tu és uma profanação viva! Tu és uma zombaria da feminilidade. Tu és estranha. Estranha! E estás a infetar a Marcie. Vou tirá-la de junto de ti. Agora. Esta noite!” E ele virou-se sobre os calcanhares e saiu.

Laura chamou por ele até que ele entrou no último elevador em funcionamento e desapareceu. Ela soluçou descontroladamente durante um minuto, colapsada na sua cadeira. Depois, como se estivesse eletrificada, pegou no telefone e marcou o número da cobertura, tão depressa quanto os seus dedos trémulos permitiam. Quase morreu de impaciência antes de Marcie atender. “Olá?” disse Marcie.

“Marcie! Marcie, o que fizeste de mim? Responde-me!”

“Laur?” A voz de Marcie soava pequena e assustada. “O que se passa, querida?”

“O Burr acabou de me deixar. Pensei que ele me ia matar. Marcie, o que lhe disseste?”

“Oh, Laura.” A voz de Marcie era apenas o mais ténue sussurro. “Não fazia ideia de que ele... não pensei que ele te fosse chatear. Não pensei que ele sequer mencionasse isso.”

“O que lhe disseste, Marcie?” A voz de Laura soava quase histérica.

“Eu... nós discutimos.” Marcie chorava baixinho enquanto falava. “Discutimos, pela primeira vez em semanas. Foi terrível. Como se fosse para compensar todas aquelas semanas em que não lutámos de todo. Ele acusou-me de... perdoa-me, Laura, tenho vergonha de dizer estas palavras... de me ter apaixonado por ti.”

Laura gemeu desesperada.

“Laur, sinto muito. Acho que falava de ti o tempo todo. Fico interessada em alguém, ou em algo, e simplesmente não falo de mais nada durante algum tempo. Falei de ti porque te admiro tanto. Eu... bem, tu sabes. Ele ficou com a ideia errada, é só isso. Mas eu não me apercebi, juro que não, Laur. Eu tê-lo-ia impedido se soubesse. E depois tivemos esta discussão esta noite e eu disse algumas coisas que não devia.”

“Que coisas? Que coisas, Marcie?”

Marcie soluçou. “Ele acusou-me de tentar tentar-te, de te incitar. Oh, Laura, isto é demasiado horrível, não consigo continuar.”

“Diz-me!”

“E eu fiquei tão furiosa. Foi tão injusto. Tu sabes que não fizemos nada! Ele estava simplesmente determinado a acreditar nisso. Ele não consegue acreditar que eu simplesmente já não quero vê-lo, isso é demasiado duro para o seu maldito orgulho. Por isso, ele estava só à espera de alguém a quem culpar, e lá estavas tu. E eu estava tão irritada com ele. Não havia esperança, não havia como falar com ele. Ele estava a perder-me porque outra pessoa estava a ganhar-me, essa é a única forma como ele consegue ver a situação. Por isso, finalmente gritei-lhe: ‘Está bem, fica com a tua, seu grande idiota. Acredita no que quiseres acreditar, eu não te posso impedir!’” Ela foi interrompida pelos seus próprios soluços.

“Marcie”, disse Laura, fazendo um esforço enorme para se controlar, “Disseste-lhe que eu...” Ela mal conseguia proferir as palavras. “... te fiz amor?”

“Não! Não, Laura!” chorou Marcie.

“Disseste-lhe algo de específico?”

“Absolutamente nada, juro!”

Laura deu um suspiro de alívio. Começou a chorar novamente. Após um momento, disse suavemente: “Marcie, ele está a caminho da cobertura. Diz que não te vai deixar passar mais uma noite no mesmo apartamento que eu. Estou a infetar-te.”

“Oh, Laura, querida. Meu Deus!”

“Por isso, é melhor trancares a porta.”

“Nós não temos chave!”

“Arranja uma com o zelador.”

“Tenho medo dele. Ele está lá em baixo na cave. É tão escuro lá em baixo e ele tenta sempre dar em cima de mim.”

“Não creio que isso te deva preocupar.” Laura não conseguiu evitar a farpa; fê-la sentir-se melhor.

“Laura, ele é um maluco. Ele é um parvo.”

“Bem, raios, faz alguma coisa!” gritou Laura, exasperada. Depois, forçou-se a falar calmamente. “Está bem, chama a polícia”, disse ela. “Diz que o teu ex-marido te está a ameaçar. Diz que tens medo dele, que achas que ele quer matar-te. Diz qualquer coisa! Diz-lhes que ele está a caminho daí agora mesmo e que queres proteção.”

“Laura, nunca fiz tal coisa na minha vida! Pobre Burr! Conheço-o desde que era miúda, eu adorava-o.”

“Paraste de o adorar depressa quando tiveste de viver com ele. Ouve-me, não há muito tempo. Se não queres que ele faça algo violento, é melhor arranjares proteção. Não consigo lutar contra ele por ti. A não ser que queiras ir com ele esta noite.”

“Ir com ele! Aquele bastardo! Depois do que ele fez esta noite? Que se lixe. Sem mim.”

“É para lá que ele gostaria de me ver ir”, disse Laura. “É melhor eu não aparecer. Vou ficar por aqui mais uma hora ou que seja. Ligo-te antes de ir para casa, para garantir que o caminho está livre.”

“Laura? Não gosto de chamar a polícia, Laur. Sinto-me mal com isso.” Ela parecia miserável.

“Marcie, pelo amor de Deus, tu és uma contribuinte. Tens direito a proteção. Burr estava num ataque quando saiu daqui.”

Marcie começou a chorar de novo. “Laura, lamento tanto. Lamento tanto”, disse ela suavemente pelo telefone.

O coração de Laura também amoleceu. “Oh, Marcie”, gemeu ela. “Acho que a culpa não é de ninguém, na verdade. O Burr ainda está apaixonado por ti. Nenhum de nós percebeu o quanto. Ele tinha de ter ciúmes de alguém, e sabia que não estavas a sair com mais ninguém. Fomos todos bastante estúpidos com a coisa toda. Só espero que, por Deus, isto passe.” De repente, sentiu-se poderosamente cansada.

“A culpa é toda minha”, disse Marcie. “Tudo é culpa minha. Vou compensar-te, Laura, prometo.”

“Não te preocupes, querida. Apenas evita problemas esta noite. Estarei em casa por volta das dez. Ligo-te primeiro.”

“Está bem.” Marcie ainda chorava quando desligou.

* * * * *

Durante muito tempo, Laura sentou-se à sua secretária, a olhar para o vazio. As janelas estavam negras, salpicadas de ouro pela noite da cidade, e tudo estava imóvel.

Levantou-se, sentindo-se fraca e cansada, mas já não desesperada ou assustada. O Burr não tinha provas de nada. A Marcie negaria tudo. E se as coisas corressem como parecia que tinham de correr, o Burr agiria como um louco e convenceria a polícia de que estava inclinado para a violência. Marcie ficaria genuinamente assustada e isso notar-se-ia. Não deveria haver qualquer dificuldade quanto a isso. Juntou as suas coisas e apagou a luz do escritório.

O corredor para o elevador estava vazio e ecoante enquanto ela caminhava por ele. O ascensorista estava silencioso, como se ele próprio tivesse sido tocado pela vasta quietude da noite.

Laura saiu para a rua. As pessoas passavam apressadas, as luzes brilhavam, os carros buzinavam. Mas tudo parecia distante, não muito real. Os seus sentidos registavam apenas metade do que percecionavam.

*Para onde hei de ir? É melhor não tentar ir para casa durante algum tempo. Não até o Burr sair. Pelo menos mais uma hora.*

Olhou para o relógio: oito e meia. Caminhava devagar, olhando em frente como uma sonâmbula. *Vou a algum lugar onde me possa sentar e ler*, pensou. Comprou uma revista numa banca de esquina e continuou a vaguear mais um par de quarteirões até ver o McAlton na esquina seguinte.

Quase exclamou em voz alta, como se o hotel estivesse a esgueirar-se para ela enquanto ela marcava passo no passeio. Parou no lugar para olhar para ele e depois olhou autoconscientemente para a montra de uma loja. Após alguns minutos, seguiu para o hotel.

*Se eu apenas me sentar num canto, como se estivesse à espera de alguém, eles não podem fazer nada. Vou apenas ler esta coisa até às nove e meia ou que seja.*

Uma pequena excitação sem palavras deu um nó em redor do seu coração e ficou lá, preparada para permanecer enquanto Laura permanecesse no átrio. Ela não se dirigiu à receção. Apenas se sentou num nicho num sofá revestido a couro ao lado de uma mulher gorda de meia-idade. Leu até às nove e meia.

Depois levantou-se e atravessou metade do átrio até às cabines telefónicas, entrou numa e marcou o número da cobertura. Marcie atendeu.

“Está tudo bem, Marcie? É a Laura.”

“Sim.” Ela soava cansada, reticente.

“O que aconteceu?”

“Nada. O polícia chegou aqui logo depois do Burr. O Burr estava a gritar como um louco. O polícia levou-o para fora e disse-lhe para parar de me chatear ou levá-lo-iam para baixo e autuá-lo-iam. Ele estava furioso. Chorou. Mas foi-se embora. Raios, ele mereceu, depois do que fez contigo.”

“Estás sozinha agora?”

“Sim.”

Laura sentiu, de repente, um enorme alívio. “Graças a Deus”, disse ela.

“Vais logo para casa?”

“Sim. Imediatamente.” Ela desligou e saiu da cabine, guardando algum trocado na sua carteira. Sentia-se muito melhor. O Burr estava furioso, isso era certo. Mas, por agora, teria de ter cuidado; teria de ser prudente. A Marcie estava enojada dele. Obviamente, a força era a forma errada de a reconquistar. E, de repente, Laura viu o seu pai.

Merrill Landon estava a cerca de seis metros dela, com o perfil virado para ela, a falar com alguns homens.

Laura deu um grito baixo, quase inaudível, e o seu coração parou. O nó em seu redor deu um aperto tremendo, como um punho grande e zangado, e parou-o por completo durante um momento. Recomeçou com uma batida tremenda. Correu para o pequeno nicho, com o rosto virado, mas descobriu que todos os lugares estavam ocupados. Ficou de pé, virada para o lado oposto a ele durante um minuto, com o coração a palpitar violentamente, a perguntar-se freneticamente o que fazer.

*Tenho de estar calma, tenho de estar calma*, dizia ela para si mesma, mas cada vez que o dizia parecia mais histérica. Engoliu em seco convulsivamente e mal ouviu alguém dizer ao seu ouvido: “Com licença, querida. Estás bem?”

“Sim. Sim, obrigada”, disse ela, com a voz estacada, com medo de identificar quem a interpelava.

Fechou os olhos com força durante um minuto. *Se eu apenas sair rapidamente, ele nunca me verá. O átrio está cheio, há dezenas de pessoas aqui dentro. Ele não está à minha procura, está a falar com uns homens, ele não me verá. Vou apenas sair.*

Lançou um olhar muito cuidadoso para trás. Ele estava virado para ela agora, mas não a via, gesticulando, a falar, absorvido nas suas palavras. Ele nunca a veria. Por um segundo, permitiu-se o luxo de olhar fixamente para ele; a sua grande masculinidade, o seu rosto forte que nunca poderia ser chamado de bonito e que, ainda assim, despertava interesse. Aquele rosto que quase nunca sorria para a Laura desde que ela tinha cinco anos. Aquele rosto que ela estava condenada a amar.

Laura afastou-se então e começou a caminhar em direção à porta, mantendo o rosto virado, apressada, com o coração a martelar como se estivesse a correr por uma colina íngreme. Perto da porta, abrandou um pouco. *Nunca mais o verei*, disse a si mesma ferozmente. *Só mais um olhar. Terá de me durar a vida toda.* Ela virou-se devagar, cuidadosamente, a apenas metro e meio da porta e da segurança.

Ele estava a olhar para ela. A olhar diretamente para ela, como se a tivesse seguido através da multidão com os olhos, sem ter a certeza, mas a perguntar-se. Por uma fração de segundo, Laura não acreditou; pensou que ele não a via realmente e que estava apenas a olhar naquela direção. Mas então ele gritou: “Laura!” com a sua voz grande e áspera, e os olhos dela ficaram enormes de medo e ela suspirou, virou-se e correu como se o diabo a perseguisse. Correu desenfreada, em pânico, com o coração enorme e desesperado, a lutar para sair da sua garganta. Correu com toda a sua força e com um terror irracional a chicotear os seus calcanhares, até ao metro. Nunca olhou para trás. As pessoas viraram-se para olhar, saltaram para o lado e ela colidiu com uma dúzia delas. Quase caiu pelas escadas do metro e correu, desviou-se e abriu caminho à força para o quarto de banho das senhoras.

Lá, caiu no chão, a ganir, a chorar desesperadamente, incapaz de se levantar da sujidade do chão negro e completamente alheia a tudo exceto ao medo histérico que a agarrava. Passado algum tempo, sentiu mãos nos seus ombros e deu um grito selvagem e sentou-se. Uma mulher negra aterrorizada estava curvada sobre ela, a dizer: “Pronto, pronto.” Os seus olhos eram só brancos.

Laura ofegava, muda, a lutar por ar. Encostou-se exausta à porta de uma cabine até que o fôlego lhe voltasse e depois tentou levantar-se. A mulher negra ajudou-a, tratando-a como porcelana antiga, vigiando-a a cada segundo com medo de que ela tivesse outro ataque.

Laura cambaleou até ao lavatório e abriu a torneira. Olhou para o seu rosto macilento no espelho e um ataque de choro verdadeiro, um alívio apaziguador com lágrimas reais, dominou-a. “Pai, Pai, Pai”, chorava ela suavemente, com o rosto entre as mãos.

“Posso ajudar, menina?” perguntou a mulher de cor. Estava assustada com o comportamento de Laura, mas fascinada.

Laura abanou a cabeça.

Após uma pausa momentânea, a mulher disse: “Entraste aqui como um morcego saído do inferno. Estavas fora de ti, querida, isso é certo. Algum filho da mãe a perseguir-te?”

Laura baixou as mãos para olhar para a mulher no espelho rachado sobre o lavatório. Ela assentiu.

“Bem, nunca vi uma rapariga tão assustada na minha vida. Nunca.” Abanou a cabeça convictamente. “É melhor arranjares ajuda, querida. Ele ainda está lá fora?”

A isto, Laura ficou tão pálida que assustou a mulher novamente, que disse: “Pronto, pronto. Não queria começar nada. Não te voltes a descontrolar assim.”

Laura virou-se para a olhar. E, na sua terrível infelicidade, foi até ela e pôs os braços à sua volta, para o assombro infindável da mulher, e chorou no seu ombro. “Nunca tive uma mãe”, soluçou Laura. “Nunca tive uma mãe.” E o seu coração estava partido.

A mulher segurou-a como a uma criança e disse: “Pronto, pronto. Toda a gente tem mãe, até tu.”

“Ninguém me conhece. Nem eu me conheço. Não sei o que estou aqui a fazer”, disse ela, desconsolada. “Sou uma estranha neste mundo.”

“Bem, agora”, disse a mulher, “Toda a gente é um estranho quando olhas dessa maneira. Mas toda a gente tem hipótese de encontrar um pouco de amor. Isso é o mais importante. Quando tens um pouco de amor, o resto já não parece tão estranho ou triste. Pronto, querida, pronto.”

Laura afastou-se de repente dela. “Não me chames querida!” disse ela, com o rosto contorcido de miséria.

A mulher negra soltou-a, a abanar a cabeça. “Estás bastante doente, rapariga”, disse ela. “Precisas de um médico, e essa é a verdade.”

Laura virou-se e saiu do quarto de banho com pernas trémulas. Lá fora, olhou cautelosamente para ambos os lados da plataforma de espera. Apenas um punhado de pessoas estava lá. Um comboio tinha passado logo após ela ter entrado no quarto de banho e levado a maior parte da multidão. Esperou em silêncio pelo comboio seguinte.

A mulher saiu do quarto de banho atrás de Laura. Ficou a alguma distância dela, a olhar para ela com uma mistura de desconfiança e piedade, até que o comboio chegou e a multidão os separou.

* * * * *

Laura chegou a casa demasiado exausta para falar sobre isso, para ficar embaraçada com a Marcie por causa da discussão com o Burr. Estava tão cheia da sua experiência, tão absorvida no seu pai, que ninguém mais parecia real. Quase caiu na cama, com quase nenhuma palavra para a Marcie, e deitou-se lá embrulhada em si mesma, a chorar baixinho durante muito tempo.

As coisas não estavam melhores de manhã. De alguma forma, a enormidade da acusação do Burr pairava entre elas como uma cortina. Elas só podiam olhar uma para a outra furtivamente; não podiam falar. Estavam embaraçadas, um pouco com medo uma da outra, e isso tornava-as excessivamente educadas. Tudo o que diziam era: “Com licença”, “passa-me o creme, por favor”, “lamento”. Laura tinha o fardo adicional da sua terrível fuga do pai para a manter tanto silenciosa quanto preocupada.

Ela era incapaz de perceber a situação. Sabia que não queria falar com ele, mostrar-lhe qualquer perdão, satisfazer a sua curiosidade sobre ela — se é que ele tinha alguma. Ela apenas queria um vislumbre dele; queria assegurar-se de que ele ainda estava em Nova Iorque, embora soubesse que estava. E sabia que ele poderia vê-la se ela andasse pelo seu hotel. E envergonhava-se de que ele a visse e soubesse o quão importante ele era para ela, mesmo após a sua cruel negação dela. Todas estas coisas eram claras para a Laura e, contudo, quando olhava para a noite anterior, parecia inacreditável. Especialmente o seu próprio terror.

* * * * *

Partiram para o trabalho sem mais do que um adeus perfunctório. Laura sabia que ia ser um dia difícil. Quase não tinha dormido. E, pela primeira vez desde que aceitara o emprego, nem sequer queria saber o que acontecia. Estava demasiado absorvida em si mesma e nos sentimentos urgentes e inomináveis que a atormentavam. Nem a vantagem que tinha tido na noite anterior a encorajava. Apenas a lembrava do Burr e da discussão horrível que tinham tido. O pensamento do seu pai, que habitualmente a impulsionava, mesmo nos dias mais sombrios, enchia-a agora de uma apreensão trémula e ocupava-lhe a mente de tal forma que era difícil pensar noutra coisa qualquer.

Bombas caíram à sua volta durante todo o dia. Marcie ligou em lágrimas às dez para dizer que não suportava mais e que Laura não a perdoava. E Laura foi forçada a fazer uma pausa, enquanto o Dr. Hagstrom estava na sala, para a tranquilizar. Marcie não se deixava demover; não havia remédio.

Sarah lembrou-a de que iam todos jantar fora naquela noite. Tinham combinado encontrar Jack e Carl Jensen num pequeno bar a dois quarteirões de distância para cocktails e depois seguir daí. Só quando Sarah mencionou isso é que Laura se lembrou, e então ficou consternada.

Pouco antes do almoço, Jack ligou.

“Laura”, disse ele com firmeza, “o que raio estás a tentar fazer-me?”

“Nada. O que se passa, Jack, não podes vir esta noite?”

“Esta noite que se lixe. É provável que seja esfolado vivo. Agora mesmo.”

“Algo correu mal com o Terry?” Laura foi despertada para a atenção.

Ele hesitou um minuto antes de responder, apanhado de surpresa ao ouvir o seu amante mencionado diretamente ao telefone. “Não”, disse ele. “Estrago-o todo, mas isso não é novidade. Tenta de novo.”

“Bem, Jack, não tenho tempo para jogos de adivinhação, estamos...”

“Eu sei, estás atrasada. O Burr disse-me que ficaste até tarde ontem à noite para compensar.”

“O Burr disse-te? Oh!” De repente, lembrou-se. “O que se passa comigo?”

“Tu dizes-me. Gostaria de saber. O Burr foi muito querido. Disse-me que eu era um bastardo de uma figa e não era amigo dele, e que eu podia pegar na minha psicanálise e enfiá-la onde bem entendesse. Oh, ele disse-me algumas coisas muito interessantes. Disse-me que tu és estranha e que estás a perverter a Marcie, e que vocês as duas são amantes, e que a Marcie chamou a polícia por causa dele ontem à noite, e Deus sabe que mais. Importar-te-ias de me explicar o que raio está a acontecer? Só para eu não dizer asneiras? Já sabes como é.” Havia perdão no seu humor amargo e isso deixou-a miserável.

“Jack, lamento terrivelmente”, disse ela. “Deixei escapar algo sobre o que sentias em relação ao Burr e à Marcie. Estava a tentar acalmá-lo. Devia ter sabido melhor. Ele estava fora de si.”

“Desde quando é que tu e a Marcie são amantes?”

“Não somos! Tê-lo-ia dito, tu sabes disso.” Ela olhou subrepticiamente através do escritório para Sarah, mas Sarah tinha os olhos postos no seu trabalho. “O Burr meteu na cabeça que éramos porque a Marcie falava tanto de mim. Porque ela ficava em casa e não saía com ele. Quando ele a acusou, isso deixou-a tão irritada que ela simplesmente lhe disse: ‘Está bem, acredita nisso.’ E ele acreditou. Pensei que ele me ia matar ontem à noite.”

A isto, Sarah levantou o olhar, mas Laura não reparou.

“Bem, essa é uma bela história”, disse Jack.

“É a verdade, Jack! Juro.”

“Esquece a verdade. Meteste-me numa bela confusão. O Burr acha que fui eu que promovi o caso todo.”

“Meu Deus! Jack, o que vamos fazer?”

“O que podemos fazer? Fizeste alguma coisa com a Marcie de que não gostasses de escrever para casa?”

“Nada! Agora, por Deus, queria ter feito. Desde que ele vai acreditar de qualquer maneira.”

“Oh, não! Cristo! O que quer que faças, Laura, não toques na Marcie. Não enquanto o Burr não se acalmar. Nunca, se tiveres juízo.”

Laura não lhe quis responder. Sentia-se mais perto de conquistar a Marcie, apesar do seu embaraço mútuo esta manhã, do que alguma vez estivera. Não faria promessas ao Jack.

“Estás a ouvir-me, Mãe?”

“Sim.”

Ele, aparentemente, tomou isso como uma promessa. “E mais uma coisa.”

“Não aguento mais nada neste momento.”

“Isto não vai doer. O que é que fizeste à Beebo?”

“Feito a ela? Nada. Pergunta-lhe o que ela fez a mim”, disse ela, e a sua voz era dura. Sarah observava-a com considerável interesse agora.

“Baixa o tom de voz, Mãe”, disse Jack. “A Beebo é maluca por ti. E quando ela mete uma rapariga na cabeça, essa rapariga que se cuide. Ela é uma teimosa.”

“Eu também”, retorquiu Laura.

“Ela está apaixonada por ti, Laura. Não a provoques.”

“Eu pisava-a toda se pudesse. Ela trata-me como a uma escrava.”

“Cristo, baixa a voz”, disse Jack, e Laura ficou surpreendida com a sua própria falta de cautela. Habitualmente, era meticulosamente cuidadosa. Hoje, nada parecia importar. “Ela está apaixonada por ti”, disse Jack. “Isso explica muita coisa.”

“Não as desculpa. Além disso, não está. Como é que sabes que está?”

“Ela disse.”

“Quando?”

“Ontem à noite.”

Laura não pôde evitar sentir-se lisonjeada. O prazer nela foi quente e repentino e sobrepôs-se brevemente à sua má consciência. “Não a vou ver mais”, disse ela ao Jack. Desta vez quase sussurrou, o que intrigou Sarah ainda mais.

Jack riu-se. “Faz como quiseres”, disse ele. “Só não me arrastes mais para as tuas confusões, Mãe. Já tenho as minhas que cheguem.”

“Está tudo bem entre—quero dizer—” Ela olhou para a Sarah pela primeira vez e apanhou a Sarah a encará-la. Sarah voltou rapidamente ao trabalho e Laura sentiu-se subitamente nervosa. “Jack, é melhor desligar. Falamos logo à noite.”

“Está bem. Vemo-nos às cinco e meia.”

Laura passou o resto do dia a tranquilizar-se: _Nunca mais volto àquele hotel. Ele vai embora amanhã. Ou no domingo, o mais tardar._ O pensamento trouxe-lhe um alívio considerável.

Capítulo Treze

Carl Jensen era um rapaz de aspeto cuidado, muito claro e com a pele sardenta. Envolveu Sarah numa conversa de imediato; era parte do que ele considerava uma boa técnica para pôr uma rapariga a falar, e não perdeu tempo.

Jack e Laura jantaram com eles, mas Jack estava obviamente impaciente para se ir embora. Nem tinham acabado o café depois do jantar quando ele já sussurrava ao ouvido de Laura: “Vamos pôr-nos daqui para fora.” Laura, que quase não dissera uma palavra durante o jantar, concordou.

Jack fez o trabalho sujo. Contou-lhes uma piada, fê-los rir, e depois disse que tinha uma reunião no dia seguinte em Albany. Muito inesperada. Se eles se importariam, etc.

Eles ficaram um pouco surpreendidos, o Jensen especialmente, pois esperava que Jack e Laura ficassem com ele e dessem apoio moral durante a noite — mas responderam, quase ao mesmo tempo: “Não, podem ir. Não nos importamos.”

Assim que estiveram na rua, Jack suspirou: “Deus. Não aguentava mais um minuto daquilo. As pessoas normais são tão deprimentes.”

Laura sorriu-lhe e reparou pela primeira vez naquela noite no aspeto cansado e preocupado que ele tinha. Estava tão embrenhada na Laura Landon que os problemas de ninguém contavam para ela, exceto os seus próprios. Mas agora via a ansiedade de Jack e receava tê-la causado. Começou a pedir desculpa. “Jack, quero que saibas...” começou ela.

“Esquece.”

“Por favor.”

“Eu disse para esqueceres.” E a sua voz foi suficientemente áspera para a magoar.

Caminharam em silêncio durante um minuto e, finalmente, Laura disse: “Jack, tenho de falar. Sinto-me horrível com isto. Vi o meu pai ontem à noite. Ele também me viu. Não sei o que me deu. Nunca estive tão aterrorizada na minha vida, como se ele fosse o diabo e eu tivesse de fugir dele. Corri até ao metro. Acho que estava histérica.”

Ele olhou para ela e depois suspirou. “Toda a gente está histérica. Até eu.”

“Havia uma senhora de cor lá. Na casa de banho. Ela disse uma coisa que não percebi na altura, mas tenho pensado nisso. Ela disse que toda a gente é um estranho neste mundo até encontrar um pouco de amor. É a coisa mais importante.”

“Sábia senhora”, disse Jack.

Caminharam sem falar durante meia rua. “Como está o Terry?” perguntou Laura.

“Ele precisa de uma palmada. Comporto-me como uma vaca enamorada com ele. Não consigo evitar. Sei que o estou a fazer, e não consigo evitar. Ele ri-se de mim.” Jack olhou para o pavimento enquanto caminhava, com as mãos metidas nos bolsos. “Mãe”, disse ele lentamente. “Queres voltar às minhas boas graças?”

“Quero”, disse ela suavemente. “Sim. Quero.”

“Bem”, disse ele, e parou de caminhar. Ela parou ao lado dele e viu que ele estava embaraçado. “Isto é uma coisa horrível de se fazer. Mas eu fá-lo-ia por ti, mantém isso bem presente.” Ele deu-lhe um toque no peito, entre os seios, como se estivesse a sublinhar um ponto com um colega de negócios. Tinha a intenção de aliviar um pouco a atmosfera, mas a atmosfera já estava demasiado pesada.

“Eu ajudo-te, Jack, sabes que ajudo. Da maneira que puder. Tens sido tão maravilhoso para mim. Não sei o que teria feito.”

“Está bem, está bem.” Ele interrompeu-a bruscamente e pareceu incapaz de falar durante um minuto. Finalmente, disse rapidamente: “Estou a perdê-lo, Laura.”

“Oh, Jack!” Ela ficou subitamente cheia de simpatia, mas ele cortou-a novamente.

“Que se lixe”, disse ele cinicamente. “Eu esperava por isto. Previ-o. E sei porquê.”

“Porquê?”

“Mãe, tens uma memória curta.” Ele sorriu com ironia. “O meu amiguinho gosta de coisas boas. As coisas boas custam dinheiro. E além disso”, ele olhou para os sapatos, raspando a ponta de um numa racha do pavimento, “eu não consigo lidar com ele. Devia empurrar-lhe os dentes garganta abaixo. Devia obrigá-lo a comportar-se. E não consigo. Apetece-me mais cair de joelhos e adorá-lo. Ele não tem qualquer respeito por mim.” Falava tão baixo que Laura teve de se esforçar para o ouvir.

Ela colocou as mãos nos braços dele. “Jack, ele não merece o teu tempo”, disse ela. “Qualquer pessoa que se aproveite...”

“Não, não, não, é normal. Neste mundo anormal em que vivemos, tu e eu. Se eu fosse jovem e bonito, ele contentar-se-ia com isso. Mas não sou. Sou de meia-idade e feio. E um tolo. Por isso é preciso outra coisa... dinheiro. Quem me dera ter o jeito de ser milionário.”

“Diabo, Jack, precisas de alguém que te saiba dar valor.” Ele riu-se amargamente, mas ela continuou. “Já me fazes odiar o Terry sem nunca o ter visto.”

“Não, Laura”, disse ele seriamente. “Não o odeies. Ele é muito jovem. Vai aprender. A culpa é minha. Não lhe consigo dar o que ele precisa.”

“Notas de dólar?”

Jack suspirou. “Essa é a minha última hipótese. Sei que é preciso outra coisa, mas não a tenho. E agora também não tenho as notas de dólar.”

“Se eu fosse um rapaz, apaixonar-me-ia perdidamente por ti”, disse Laura.

Foi uma observação tão surpreendente que Jack teve de deixar cair o cinismo e aceitá-la com o espírito com que foi feita. “Obrigado, Mãe”, disse ele suavemente. Ele olhou para ela, o seu rosto feio e inteligente à mercê de uma série de emoções fortes que não tentou esconder. Foi uma medida da consideração que tinha por Laura o facto de poder deixar que ela o visse despido de espírito e riso como estava. “Quanto é que tens no banco, Laura?”

Laura fixou-o um pouco. Mas depois disse rapidamente: “Tudo o que tenho é teu, Jack. Não é muito, mas se ajudar...”

Ele sorriu um pouco e depois inclinou-se e beijou-lhe a face. “Tu és uma boneca”, disse ele. “Ambos sabemos que este é um investimento a perder. Mas dar-me-á mais alguns dias com ele. Depois disso...” Ele encolheu os ombros. “Bem, parece que sobrevivo sempre a estas coisas. Não sei porquê.”

Ficaram incertos na esquina por um minuto e de repente ele perguntou: “Onde vais agora?”

“Para casa.”

“Para a Marcie?”

“Sim. Espero que o Burr não a tenha tentado incomodar.”

“Ele está muito mal com isto tudo. Acho que vai tentar esquecer com bebida durante um dia ou dois. Tu devias fazer o mesmo. Isto tudo parece-me disparatado.” Ele olhou para ela. “Vem tomar um copo comigo.”

“Onde?”

“No The Cellar. Onde mais?”

“Tenho medo de encontrar a Beebo.”

Ele encolheu os ombros. “Fiquei a conhecê-la melhor.” Ele olhou para longe dela, pensativo.

“Conheceste?”

“Ela liga-me a toda a hora. ‘Onde é que a Laura trabalha, de que é que a Laura gosta, conta-me tudo sobre ela.’”

“Ela perguntou-te isso?” Laura estava ligeiramente incrédula, mas, mais uma vez, gostou. Arrependeu-se de ter gostado, mas gostou.

“Sim. Começo a achar que gosto dela.”

“Já gostavas dela antes.”

“Eu sei.” Ele riu-se. “Não estou a fazer sentido. Acho que quero dizer que sinto simpatia por ela. Ambos temos azar no amor. Neste momento.” Ele olhou fixamente para ela e disse: “Por favor, vem comigo, Laura. Não quero ir para casa.”

“Porquê?”

Ele riu-se novamente, não tão agradavelmente desta vez. “Tenho medo do que vou encontrar.”

“Como o quê?”

“Como mais alguém na minha cama com o Terry.”

Após um momento de silêncio chocado, Laura passou o braço pelo dele. “Está bem”, disse ela. “Vamos a algum lado lisonjearmo-nos até à exaustão.”

Ele riu-se dela. “Mãe, raio, às vezes suspeito que tens sentido de humor.”

Foram para o The Cellar, apesar das dúvidas de Laura. Jack parecia tão infeliz que ela quis satisfazê-lo. Estava cheio, como sempre nas noites de sexta-feira, mas a Beebo não estava à vista.

“Ela há de vir”, observou Jack. “Ela atrasa-se às sextas-feiras.”

Ficaram ao balcão até que um par de bancos ficou vazio e então sentaram-se.

“O que é que ela faz?” perguntou Laura, timidamente.

“Quem? A Beebo?”

“Ela tem de arranjar dinheiro em algum lado. Tem de pagar a renda como toda a gente.”

“Ela conduz um elevador. No Edifício Grubb. Eles pensam que ela é um rapaz.”

“Meu Deus — um elevador.” Parecia errado, até ridículo. A Beebo tinha massa cinzenta que chegasse para não desperdiçar a juventude a conduzir um elevador. “Porque é que ela faz isso?”

“Para não ter de usar saia.”

Laura ficou atordoada. Era patético, até vergonhoso. Pela primeira vez, viu a Beebo não como um indivíduo avassalador, elegante e autoconfiante, mas como um ser humano muito humano com um pouco mais de orgulho, medo e fraqueza do que alguma vez permitia mostrar.

Laura não sabia há quanto tempo estavam ali quando a Beebo entrou. Só sabia que tinha bebido bastante e que estava na hora de ir para casa. A Beebo caminhou até ela, e Laura viu-lhe o rosto primeiro no espelho. Virou-se num sobressalto e encarou-a. A Beebo estava a usar um vestido.

Um vestido. E sapatos de salto alto. Ela tinha mais de um metro e oitenta com os saltos altos. Estranhamente, não era desajeitada neles. Não estava confortável, mas conseguia andar em linha reta e manter o equilíbrio.

“Olá, Bo-peep”, disse ela calmamente ao ouvido de Laura.

Laura sentiu uma resposta de gratidão fluir até aos dedos dos pés vinda do ouvido. “Olá”, disse ela à imagem no espelho e depois virou-se para a encarar. “Olá, Betty Jean.” Ela olhou para a saia dela.

Beebo deu-lhe um sorriso irónico. “Lembras-te?” disse ela. “Lembras-te também das coisas boas?”

“Sim”, disse Laura, sorrindo de volta. E surpreendeu-se a si mesma. Por um momento, sentiu-se curiosamente recetiva. Não fazia ideia do porquê.

Beebo olhou para ela e depois pôs uma mão no ombro de Jack. “Olá, companheiro de sofrimento”, disse ela.

“Olá, boneca.” Ele virou-se. “Estamos a afogar as mágoas.” Ele gesticulou para a Laura com o seu copo.

“Já vi. Importam-se que afogue umas quantas convosco?”

“Ficaríamos encantados.”

Beebo acenou ao empregado de bar, que acenou de volta e lhe preparou um whisky com água. Beebo estava em bons termos com os empregados de todos os bares gay. Sabiam o que ela bebia e serviam-na sem ser preciso pedir. Beebo apoiou-se no balcão entre o Jack e a Laura.

“Onde estiveste, boneca?” perguntou Jack, acenando com a mão para o vestido dela. “Baile de máscaras?”

“Festa”, disse ela laconicamente, erguendo o seu copo recém-chegado.

“Gay?”

“Hetero.”

“Que tédio. O que se passa contigo, Beebo? Já não tens piada nenhuma. Usas saias e vais a festas de heteros. Jesus.”

Beebo sorriu-lhe. “Tenho um vestido, amante. Tiro-o uma vez por ano e uso-o. Em honra do meu pai. Ele gosta de damas.”

“Sim, mas ele não está aqui para o apreciar.”

“Bem, tu estás, Jackson. Dá-me um beijo.” E ela segurou-lhe o queixo na mão e extraiu um beijo da boca relutante dele.

“Deus!” disse ele, e fez uma careta. Beebo riu-se. E Laura sentou-se e observou-os e perguntou-se o que estavam todos ali a fazer e porque é que se riam de si mesmos quando estavam todos a sofrer por dentro com mágoas indescritíveis. Sentiu-se vagamente ciumenta ao pensar na Beebo numa festa com pessoas que não conhecia e nunca tinha visto. Beebo rodeada de mulheres. Laura olhou para ela até que Beebo retribuiu o olhar sem falar, apenas olhando para Laura até que Laura teve de baixar os olhos. “O que te mói, Bo-peep?” disse Beebo, passando um dedo pelo rebordo do seu copo.

“As calças são assim tão importantes?” disse Laura. Disse-o sarcasticamente porque tinha medo das suas lágrimas.

Beebo riu-se um pouco. “Não sei. Quão importante é esse importante?”

“Porque não arranjas um emprego decente?”

“Oh”, disse Beebo ao compreender. Terminou a segunda bebida. “Eu tenho um, querida. Sou joqueta de elevador. Trabalho muito elevador.”

“Não tem piada”, disse Laura. “Trabalhas o dia todo num emprego de merda como esse, e depois bebes a noite toda.”

“Isso incomoda-te?”

“Sim. Não muito, claro. Não vales a pena. Mas parece horrível. Tudo por causa de um par de calças.”

Beebo riu-se. “Reforma-me, querida.”

“Não tenho tempo.”

“Para que tens tempo?”

“Trabalho.”

“E a Marcie?”

“E a Marcie.” Laura não sabia porque é que o tinha dito. Sabia o quanto a magoaria. Mas estava alterada, o sentimento de ‘que se lixe’ ainda a acompanhava desde a manhã. Era magoar ou ser magoada; sarcasmo ou lágrimas. Olhou lentamente para a Beebo. Para os seus olhos azuis e os lábios virados para baixo, com um traço invulgar de batom neles. Laura queria magoá-la. Não conseguia parar. Virou-se no banco para a enfrentar. “Tu és ridícula”, disse ela. “És uma menina a tentar ser um rapazinho. E conduzes um elevador pelo privilégio. Cresce, Beebo. Nunca serás um rapazinho. Nem um rapaz grande. Simplesmente não tens o que é preciso. Nem todos os elevadores do mundo podem fazer de ti um rapaz. Podes usar calças até ficares azul da cara e isso não mudará o que está por baixo.”

Beebo apenas a encarou, o rosto subitamente pálido e franzido, em silêncio. Depois virou-se, deixando o seu cigarro ainda aceso num cinzeiro no balcão, e deixou-os sem dizer uma palavra a nenhum dos dois.

Laura e Jack sentaram-se em silêncio durante algum tempo depois de ela ter ido embora, observando o seu cigarro arder até ao fim. Finalmente, Jack disse: “Se o Terry tivesse feito isso comigo, Laura, tê-lo-ia estrangulado.”

Laura pousou a cabeça no balcão e chorou.

* * * * *

O fim de semana foi um impasse para Laura e Marcie. Laura estava tão profundamente envolvida nos seus conflitos que era impossível falar sobre eles. Em duas semanas a Jean estaria de volta. Num dia o seu pai teria ido embora. Burr começaria a perseguir a Marcie, e Laura ainda não sabia porque é que a Marcie o tinha deixado pensar que eram amantes. E a Beebo... a Beebo... isso doía mais, de alguma forma. Era tão desnecessário, tão brutal. O tipo de coisa que o Merrill Landon lhe fizera quando estava de mau humor. Apenas para desabafar, para dissipar o ambiente. Só que ele ia ainda mais longe. Ele gritava e insultava-a, batia-lhe, invocava a ira da sua falecida esposa e filho sobre a sua cabeça.

Marcie não conseguia chegar à fala com Laura, por mais que tentasse. Ela, também, começou a ficar mal-humorada. Lançava-se em longos discursos de autorrecriminação que torturavam Laura até que ela lhe implorava para parar.

Na segunda-feira, Laura foi ao banco antes de ir para o escritório e levantou cento e noventa e dois dólares. Ia deixar para si vinte, só por precaução, mas deixou apenas cinco. Tinha um pouco em casa. Conseguia aguentar até ao fim da semana. A renda não estava a vencer e havia comida em casa.

Jack passou por lá às cinco e foi buscá-lo. “Vem jantar comigo”, disse ele. “Parece que recebi algum dinheiro.”

“Não, obrigada.”

“É por minha conta”, disse ele, dirigindo o seu sarcasmo a si próprio e agitando os dólares dela à sua frente.

Laura sorriu fracamente. “Leva-o”, disse ela. “Não consigo falar com ninguém esta noite.”

“Como está a Marcie?”

“A remoer. Acho que lhe dou nos nervos.”

“Isso é justo. Ela deu cabo dos teus. Como está o Burr?”

“Ele telefonou-lhe. Falaram durante alguns minutos. Pediu-lhe para o ver.”

“Ela vai?”

“Não.”

“Ainda não, hum?”

“Nunca”, disse Laura bruscamente. “Ela está farta dele.”

“Bem, se não é o Burr, será outro.” Laura cobriu subitamente o rosto com as mãos e Jack olhou para ela com simpatia. “Simplesmente não acreditas em mim, não é, Mãe! Tu amas a Marcie, por isso, mais cedo ou mais tarde, a Marcie terá de ceder e amar-te.”

“Não!” disse ela, olhando para cima. “Sei que não é tão simples. É só que estou convencida de que tenho uma hipótese. Vivo com ela, conheço-a, e ela estava disposta a deixar o Burr acreditar que éramos amantes.”

“Ela estava disposta a livrar-se dele depois de uma grande discussão”, disse ele. “É só isso. Ela apenas o deixou acreditar para se ver livre dele.”

“Por favor, Jack”, disse ela com uma paciência forçada. “Como está o Terry?” _Se ele me vai atormentar, dar-lhe-ei o mesmo tratamento_, pensou ela.

Jack ergueu ligeiramente as sobrancelhas e encolheu os ombros. “Saudável”, disse ele. “E com fome. Jesus, como aquele miúdo come. E gosta de ostras fumadas.”

Laura teve de sorrir, embora não lhe apetecesse. “Compra-lhe um fardo de ostras fumadas”, disse ela, “e deixa-me em paz um bocado. Por favor.”

Jack deu um aperto no seu ombro. “Está bem.” Começou a sair e depois virou-se para perguntar: “A Sarah gostou do Jensen?”

“Ela disse que gostou. Ela tem uma paixoneta pelo Dr. Hagstrom, mas gostou do Carl na mesma.”

“Ele está caidinho. Diz que lhe vai ligar outra vez.”

“Bom.” Sorriram um pouco um para o outro. “Alguém está a fazer as coisas bem”, disse Laura com nostalgia.

Jack riu-se. “Não importa”, disse ele. “Um dia morreremos e iremos para o céu. Sabes, todos os anjos são gays.” E partiu.

* * * * *

Laura seguiu pouco depois. Sabia exatamente para onde ia — o Hotel McAlton. Entraria direitinha e perguntaria pelo Merrill Landon e o rececionista diria que ele tinha partido, a convenção tinha acabado, e Laura podia parar de sofrer por causa dele. Ele estaria a centenas de quilómetros de distância e ela podia começar a esquecê-lo.

Caminhou até ao hotel em poucos minutos e entrou no átrio com uma confiança que não sentira durante a semana em que o seu pai ali estivera. Estava prestes a matar o seu fantasma. Ansiava por um grande alívio.

Na receção, esperou um ou dois minutos até que um funcionário a pudesse atender. Reconheceu-o de uma das suas visitas anteriores, mas, felizmente, ele não parecia lembrar-se dela. “Sim?” disse ele.

“A convenção da Chi Delta Sigma já acabou?” perguntou ela.

“Sim, senhora, acabou.”

“Oh. Então imagino que o Merrill Landon já não esteja hospedado aqui.”

“Oh, sim, está.”

Laura ficou sobressaltada. “Ele disse que uma jovem poderia vir perguntar por ele”, disse o rececionista. “Ele deixou um recado.” Ele olhou para ela com desconfiança, perturbado pela expressão estranha no rosto dela. “Por acaso, a senhora seria filha dele?”

Laura abanou a cabeça, entorpecida. O rececionista entregou-lhe um envelope, Laura abriu-o e leu, com a letra do pai: “Laura, estarei aqui até ao final do mês. Aparece no meu quarto qualquer noite depois das oito.” Nem sequer estava assinado. Simpático e sentimental, pensou ela. *Mesmo a cara dele.*

“Obrigada”, disse ela ao rececionista.

“Vai haver alguma resposta?”, perguntou ele.

“Sim”, disse Laura. Ela pegou no bloco de notas que ele lhe estendeu e escreveu: “Vai para o inferno.” Depois dobrou o papel, colocou-o no envelope, selou-o e escreveu “Merrill Landon” na frente.

Ela tremeu durante todo o caminho para casa. Ele ainda estava lá, ainda a assombrar, à espera de se lançar sobre ela e castigá-la. Quando Marcie lhe perguntou o que se passava, Laura não conseguiu dizer. Era um problema da Laura, era íntimo e horrível, e ela não tinha qualquer desejo de o partilhar. Mal reparou no pouco que tinha olhado para Marcie nos últimos dias, no pouco que tinha reagido a ela. E, contudo, no fundo da mente, a pergunta remoía: porque é que Marcie deixou que Burr acreditasse nessa mentira? Nem que fosse por pouco tempo? Porque não a combateu com mais força?

Mas o facto da presença física do pai em Nova Iorque obliterava outras considerações. Ele estava à espera dela em cada esquina, em cada entrada. Ela até tinha medo de atender o telefone e medo de voltar ao hotel dele, com receio de que ele tivesse a polícia à espera dela. Não sabia com que fundamento ele a poderia prender, mas acreditava que o pai era capaz de qualquer ato violento e impetuoso. O seu trabalho no escritório sofreu ainda mais. E ela não tinha interesse em ficar até mais tarde para compensar.

Sarah falou com ela numa tarde no final da semana. “Adivinha?” disse ela, para começar num tom amigável.

“O quê?”

“O Carl Jensen ligou-me outra vez. Vamos sair amanhã à noite.”

“Que bom, Sarah. Fico feliz por ti.” Mas ela falou sem entusiasmo.

“Ficas mesmo?” A voz de Sarah foi suficientemente incisiva para captar a atenção de Laura e avisá-la de que algo estava errado. Ela levantou os olhos. “Sim, claro que fico, Sarah. Desculpa, não tenho estado em mim ultimamente. Eu...”

“Tens estado nas nuvens a semana toda. Mais uma daquelas dores de cabeça?”

“Não. Quer dizer, sim. Não sei. Simplesmente não me sinto viva.” Ela riu-se, desanimada.

Sarah sentou-se ao lado dela. “Laura”, disse ela com firmeza, “tu podias dar-te muito bem neste emprego. Se quisesses. Toda a gente aqui gosta de ti. Toda a gente está a torcer por ti. És uma boa dactilógrafa e és uma rapariga inteligente. A Jeanie gostava muito de ti e ela estará de volta dentro de uma semana. Seremos três e as coisas podem correr muito melhor... mas Laura...”

“Mas eu não tenho tido um desempenho muito bom”, disse Laura por ela. “É isso?”

“Às vezes não tens trabalhado nada. Outras vezes trabalhas até à exaustão. Esse é o problema, Laura, és tão errática”, disse Sarah. “Ficas até mais tarde e matas-te a trabalhar numa noite, e depois passa uma semana em que não consegues fazer absolutamente nada. Andas a arrastar-te o dia todo, parece que simplesmente não te importas.”

“Detesto vir com conversas filosóficas, mas, bolas, Laura, estamos a lidar com pessoas doentes. Às vezes estes relatórios de raios-X significam a vida ou a morte para alguém. Não podemos perder tempo com eles. Os médicos estão à espera destas coisas por toda a cidade. O Dr. Hollingsworth está atolado. Não podemos desiludi-lo.”

“Eu sei.” Laura sentiu-se como no terceiro ano, quando fingiu estar doente para não ter de representar no teatro anual da primavera. A professora falara-lhe com o mesmo tom de voz e usara praticamente os mesmos argumentos. “Toda a gente está a torcer por ti, todos nós gostamos de ti, não nos desiludas, Laura, não nos desiludas.” Mas a ideia de subir àquele palco aterrorizara-a. Todo o público dissolveu-se num só homem — Merrill Landon. Ela acabou por fazê-lo, para provar a si mesma que conseguia. Mas as críticas divertidas dele, mais tarde, quase a mataram.

“Não me tenho sentido bem”, murmurou ela para Sarah.

“Bem, é melhor começares a sentir-te melhor, querida. Porque o Dr. Hollingsworth e eu tivemos uma conversa hoje. Ele perguntou-me o que se passava contigo. Pensou que, talvez se tu e eu falássemos sobre isso, me pudesses dizer qual é o problema.” Ela falou com cuidado, num tom discreto.

Mas Laura levantou-se, ofendida e assustada. “Não se passa nada”, retorquiu ela. “Se ele não gosta do meu trabalho, que venha ter comigo e que me diga isso pessoalmente.”

Sarah levantou-se, ela própria ligeiramente ofendida com esta demonstração de ingratidão. “Ele veio ter comigo porque queria poupar-te de qualquer embaraço, Laura. Pensei que isso fosse óbvio.”

Laura cedeu um pouco. “Desculpa, Sarah. Não consigo explicar. Simplesmente não consigo, é impossível. Se ele quiser despedir-me, não tenho escolha. Vou-me embora.” Mas ela não estava tão resignada, tão estoica, como parecia.

“Não podes tentar esforçar-te um pouco mais, Laura?” disse Sarah, gentilmente. “Se eu pudesse dizer-lhe que tivemos uma conversa e que prometeste tentar melhorar. Ou que estiveste doente, ou que tiveste um problema em casa, ou algo do género. Qualquer coisa.”

Laura deu uma risadinha desagradável. Depois o rosto caiu e ela disse: “Não tenho desculpas, Sarah. Não sou mentirosa o suficiente para inventar uma. Eu apenas...” E, aqui, ela desatou inesperadamente a chorar e Sarah teve de tentar confortá-la.

“Olha, querida”, disse ela, depois de Laura ter recuperado um pouco. “Queres o emprego? Queres mesmo?”

“Sim”, disse Laura. “Eu quero.”

“Vais tentar ser mais consistente, então? E eu direi ao Dr. Hollingsworth que tens tido problemas em casa sobre os quais não queres falar.”

“Isso é uma treta tão óbvia, Sarah.”

“Não, não é nenhuma treta. Ouvi-te falar com o Jack ao telefone na semana passada”, disse Sarah. “Sei que se passa alguma coisa.”

Laura ficou trémula e pálida, e as sombras azuis que tinham estado a crescer nas últimas semanas sob os seus olhos aprofundaram-se. “O que é que sabes?”, exigiu ela.

Sarah ficou alarmada com a aparência dela. “Bem, nada de especial, só que parecias tão perturbada que pensei que talvez...”

“O que é que eu disse?”

“Oh, não me lembro.” Ela tentou afastar o assunto casualmente, mas tinha assustado profundamente Laura, que recordava agora com uma clareza mordaz a voz de Jack a dizer: Pelo amor de Deus, mãe, baixa o volume da voz. “O que é que eu disse, Sarah?”

“Nada de muito grave, Laura.” Sarah olhou para ela. “Fiquei apenas com a impressão de que tinham tido uma discussão.”

“Não tinhas o direito de ouvir!” exclamou Laura, asperamente.

“Tu não tinhas o direito de fazer chamadas pessoais durante o horário de trabalho, já agora”, disse Sarah, na defensiva.

Laura pegou na mala e saiu do escritório sem dizer mais nada. Entrou numa cabine telefónica e ligou ao Jack. “Posso ir aí?” disse ela.

“Não. Estou metido numa confusão.”

“Por favor, Jack.”

“Mãe, pelo amor de Cristo! Tem empatia uma vez na vida, queres?”

“Está bem, vou ligar à Beebo.”

“Não, não ligues. Ela está furiosa contigo. Pode nunca mais falar contigo depois do que lhe disseste.”

Laura sentiu-se frenética. “Bem, o que é que se supõe que eu faça?”, disse ela, quase a chorar para o recetor. “Praticamente perdi o meu emprego.”

“Vai para casa ter com a Marcie, mãe. Faz qualquer coisa. Não te posso ajudar esta noite. Desculpa, querida.” E ele estava, na verdade, arrependido.

“Oh, Jack, diz-me qualquer coisa. Diz algo gentil. Qualquer coisa.”

Após uma pausa, ele disse: “Eu amo-te, mãe. Só que não estou apaixonado por ti. Quem me dera que estivesse, não poderia ser pior do que a Terry. Agora sê uma querida e deixa-me ir. Ligo-te amanhã.”

Ela sentiu a urgência de se ver livre dela na voz dele e deixou-o ir. Por um momento, sentou-se na cabine e secou as lágrimas. Sentia-se doente por causa da Beebo, mas tinha medo de lhe ligar.

* * * * *

Foi mais um fim de semana tortuoso para Marcie, que começava a sentir como se tivesse arruinado a vida de Laura. Foi na noite de domingo que finalmente estabeleceram qualquer tipo de comunicação entre si.

Burr tinha estado a ligar à Marcie todas as noites, a tentar convencê-la a sair do apartamento. As conversas deles eram curtas, mas a animosidade tinha desaparecido. Laura ouvia-as, desanimada; não conseguia evitar ouvi-las no pequeno apartamento. Marcie dizia coisas como: “Sim, ela está aqui.” “Não, sabes que não te quero ver.” “Não, não estamos, e não voltes a tocar nesse assunto.” “Eu sei que o fiz. Eu sei o que fiz, Burr, não mo atires à cara.” Ela recusava-se a vê-lo.

Laura estremecia com tudo aquilo e, finalmente, começou a ir para o telhado quando ele ligava. As janelas estavam bem abertas, o tempo estava agora suave e agradável, e a voz de Marcie chegava até lá fora. Mas não era tão penetrante, tão persistente. Na noite de domingo, Laura foi lá para fora e observou a cidade enquanto Marcie falava. O tempo passou quase sem que Laura desse por isso. Olhou através de Nova Iorque na direção do McAlton, interrogando-se se o pai estaria sentado no quarto à espera dela. E depois olhou para baixo, na direção de Greenwich Village, e o coração deu-lhe um aperto doentio ao pensar na Beebo. A Beebo, que lhe dissera o quanto um caso amoroso podia magoar. A Beebo, que lhe dissera para ter cuidado e depois ficou presa na sua própria armadilha. Laura perguntou-se se a Beebo a amava realmente. Se a poderia perdoar algum dia. Laura tinha atacado a própria base do seu ser: o seu corpo, o seu orgulho, as suas necessidades mais profundas. Naquele discurso único, rápido e cruel, Laura tinha-a ridicularizado. Sentiu as lágrimas virem. E podia ouvir Jack a dizer: “Se a Terry me dissesse isso, eu estrangulava-a.” Era vergonhoso.

Ficou muito deprimida, pensando na necessidade de voltar ao trabalho no escritório na manhã seguinte, com a Sarah a tentar fingir alegria e o Dr. Hollingsworth — tão gentil, tão tolerante — a observar sinais de estabilidade e aplicação nela. E ela própria, tão pesadamente consciente da boa vontade deles, da frustração deles e das suas próprias complexidades avassaladoras que minavam a sua força e o seu esforço.

Ficou sobressaltada quando Marcie disse ao seu lado: “O Burr quer ver-me.” Quando Laura não respondeu, Marcie disse: “Ele sente-se terrivelmente mal com tudo isto. Quer pedir-me desculpa.” Outro silêncio. “Eu quero pedir-te desculpa, Laura. Mas tu não me deixas.”

Laura fechou os olhos de dor por um momento, como se para evitar ver o rosto de Marcie. E depois abriu-os e, sem olhar para ela, disse: “Já passámos por isto tudo, Marcie. Não quero as tuas desculpas. Não tens nada pelo que pedir desculpa.”

“Tenho.”

“Não tens!”

Marcie deu um longo suspiro de exasperação. “Está bem, então por que é que não falas comigo?”

“Eu vou falar, Marcie. Quando puder.”

“Quando é que isso será?”

“Não sei.”

“Por que não agora?”

“Acho que estou doente. Talvez o Jack tivesse razão, preciso de ir ao psicanalista dele.” Ela tentou sorrir um pouco.

“Por causa do teu pai? O que ele te fez?”

Laura olhou para os seus braços, cruzados sobre o parapeito de cimento. “Suponho que sim”, sussurrou ela quase.

“Laura, diz-me qualquer coisa. Isto é insuportável.” Marcie estava a implorar-lhe, tal como Laura tinha implorado ao Jack ao telefone. Ela virou-se e olhou para Marcie, parada bem perto dela, com duas linhas delicadas entre os olhos a denunciar a tensão dentro dela. Por um momento, Laura apenas olhou para ela. Tinha passado mais de uma semana desde que olhara para Marcie daquela forma. Na noite suave de primavera, na luz dourada que subia das ruas lá em baixo, com a miríade de ruídos abafados que são a música de uma grande cidade à volta delas, olharam-se uma à outra. E Marcie estava muito bonita, com o cabelo levantado suavemente pela brisa e os olhos grandes de ansiedade. Estava envolta numa camisa de dormir de seda azul e as linhas do seu corpo jovem e esguio mostravam-se através dela.

Finalmente, instigada pela necessidade de falar, Laura disse: “É tão difícil falar, Marcie. As palavras são tão inadequadas às vezes.”

“Quaisquer palavras servem, Laura. Exceto ‘Desculpa’. Foi tudo o que me disseste durante dias a fio.”

Sorriram um pouco uma para a outra e Laura pegou-lhe nas mãos. Puxou-as apenas um pouco e Marcie reagiu suavemente, aproximando-se dela. “Laura, diz-me que estou perdoada. Não digas que não tenho nada pelo que pedir desculpa. Só quero ouvir-te dizer isso.”

“Não.”

“Por favor.” A voz dela quebrou-se.

“Não, não, não”, disse Laura, olhando com curiosidade para Marcie. Será que ela se sentia assim tão culpada? Ela não tinha feito nada de tão mau. Laura teve uma sensação estranha de finalidade, de fim das coisas, de tudo a acabar de uma vez, de tal modo que nada importava realmente mais. Como se Marcie se fosse virar e sair da sua vida, e o seu emprego acabasse, e a Beebo nunca mais a visse, e o Jack e a Terry se separassem. Isso tornava-a pensativa e triste. Maravilhou-se com todos os novos sentimentos nela: a incapacidade de se importar com o seu emprego, a sua maldade com a Beebo, o seu medo irracional de Merrill Landon no átrio do hotel. Nada parecia muito real, ali em cima no telhado. Não parecia fazer muita diferença o que ela fizesse. Deu outro puxão leve e Marcie aproximou-se ainda mais, tocando-a ao longo do seu corpo.

Laura tocou-lhe no cabelo. “Pareces-te tanto com uma amiga minha”, disse ela. Marcie lembrou-lhe Beth novamente naquele momento; a Beth que ela perdera há tanto tempo, há um milhão de anos, parecia.

“Pareço? Nunca me disseste isso.”

“Esqueci-me.”

“Como é ela?”

“Oh, ela era alta, cabelo curto e escuro, olhos cor de violeta. Bastante masculina.”

“Falas dela como se estivesse morta.”

“Está. No que me diz respeito.”

Marcie franziu o sobrolho para ela. “Ela não se parece nada comigo.”

“Não, suponho que não”, disse Laura. “Há qualquer coisa no teu rosto; não sei como defini-lo. Pensei ver uma semelhança.” Tinha-a visto na Beebo, também. E até na pequena loira de caracóis que a tinha abordado no The Cellar na noite em que estava à procura da Beebo. Não podiam todas parecer-se com a Beth. Era muito estranho.

“Eram boas amigas?”, perguntou Marcie.

Laura sorriu um pouco e pôs os braços à volta de Marcie. Na noite imóvel, respondeu simplesmente: “Éramos amantes.” Foi muito silencioso, onírico, como se falasse em transe.

Marcie fixou-a, imóvel, como se estivesse a tentar determinar se ela estava a brincar. Permaneceu nos braços de Laura, incapaz de se mover para um lado ou para o outro; incerta e um pouco assustada.

Laura viu a sua consternação, mas isso não a preocupou. Voltou a falar, sentindo ainda como se não fosse real, não mais do que a cidade cintilante lá em baixo era real, ou a ira do seu pai, ou o Jack, ou a Beebo, ou os médicos e a Sarah... “Esse foi o ‘grande amor’ de que te falei, na faculdade”, disse ela. “Era a Beth.”

Após uma longa pausa, Marcie disse num sussurro: “O que aconteceu?”

“Ela casou-se”, disse Laura.

Marcie ficou estupefacta. “Lamento”, disse ela, sem jeito, e depois retraiu-se, embaraçada. Não fazia ideia do que dizer, do que fazer.

Laura percebeu isso, mas, a princípio, não tentou interpretar. Ainda não a assustava. “É por isso que fiquei tão chocada quando o Burr disse que tu lhe disseste que éramos amantes”, disse Laura. “Quem me dera que fôssemos, Marcie. Mas eu nunca te toquei.” Marcie estava a estudá-la agora, com os olhos a transbordar. “Quando ele me acusou disso, acreditou nisso e disse que tu lho tinhas contado, fiquei tão magoada que não sabia o que fazer ou dizer. Pensei num milhão de explicações loucas. A única que parecia fazer sentido era que sentias o mesmo que eu.” Ela olhou fixamente para Marcie. Os rostos estavam muito próximos e Laura abraçava-a com força, com os braços trancados em volta da cintura pequena de Marcie. “Sentes, Marcie?”, sussurrou Laura. “Sentes?”

Ficaram assim durante algum tempo, sem se mover, a olhar uma para a outra. Laura sentiu a respiração acelerar e sentiu um desejo poderoso de beijar Marcie. Tornou-se mais forte a cada segundo. Começou a pressionar Marcie contra si, ritmicamente, e, de repente, todos os meses de repressão explodiram dentro dela e traduziram-se em beijos nos lábios dela. Começou a beijar Marcie intensamente — o rosto, o pescoço e os braços, as orelhas, a garganta. “Marcie”, disse ela, rouca, abraçando-a subitamente com a força do desejo. “Queria-te há tanto tempo. Pensei que morreria por causa disso. Viver contigo, tão perto de ti, ver-te o tempo todo... despir-me, tomar banho... Deixava-me louca. Marcie, és tão bonita, tão doce. Oh, Deus, é tão bom dizê-lo. És impossível. Quero-te tanto, tanto. Também me queres, não queres? Eu sei, sempre soube. Oh, Marcie, deixa-me, deixa-me. Não me pares! Por favor!” Uma nota de angústia surgiu na sua voz quando Marcie começou a resistir-lhe. “Por favor, Marcie!”, implorou-lhe.

Mas Marcie levantou os braços e empurrou Laura com força. “Deixa-me ir!”, disse ela. “Deixa-me ir!” E começou a chorar. Laura, chocada, soltou-a tão subitamente que Marcie cambaleou um pouco para trás. Ela deu um grito, recuperou o equilíbrio e olhou para Laura com os olhos arregalados por um momento. Depois virou-se e correu para dentro.

Laura ficou onde estava durante muito tempo, com medo de pensar ou sentir. Não fazia ideia de quanto tempo tinha passado antes de se atrever a entrar. Teria assustado a Marcie? Ter-lhe-ia causado repulsa? Será que Marcie a receberia com amor ou com ódio? Como uma bruxa ou como uma amante? Ela estava num estado de agonia nervosa quando finalmente reuniu forças para caminhar até à porta da cobertura.

Abriu-a e caminhou lentamente pela sala e pela cozinha. Empurrou a porta do quarto lentamente. Marcie estava sentada na sua cama, de costas para Laura. Aparentemente, estivera sentada assim, sem se mover, durante algum tempo. Virou-se muito lentamente quando ouviu Laura entrar e olhou para ela. Laura sentiu o coração virar-se. Marcie estava tão adorável, tão miserável. Via-se claramente no seu rosto. Laura foi até ela, caiu de joelhos à sua frente e pousou a cabeça no colo de Marcie. E, quando sentiu a mão de Marcie a acariciar-lhe a cabeça, ela chorou.

“Perdoa-me”, implorou ela. “Agora é a tua vez, Marcie. Assustei-te. Eu não queria, não queria!” E apanhou a mão de Marcie e beijou-a.

“Laura”, disse Marcie calmamente. “Tenho tentado falar contigo durante semanas e não me deixaste. Agora isso está a consumir-me. Vou dizer-te uma coisa. E tu vais ouvir.” A voz dela tremia tanto que Laura olhou para cima.

“Laura, sinto-me tão envergonhada, tão envergonhada.”

“Diz-me, Marcie. Diz-me. Agora estou a ouvir.” Ela examinou o rosto dela ansiosamente.

Marcie engoliu o choro e, com um esforço tremendo, disse: “Fiz uma coisa horrível, Laur. Já sabia sobre ti há algum tempo.” Ela desviou o olhar, a lutar consigo mesma; a sua vergonha, a sua piedade, a sua voz trémula.

“Tu... tu sabias?”, sussurrou Laura, ficando branca.

“Sim. Não consegui evitar saber. Não o podias esconder, Laura. Não podias aproximar-te de mim sem que isso transparecesse — nos teus olhos, no teu rosto. A maneira como me tocavas, as coisas que dizias, todos os estados de espírito loucos que tinhas. Parecias ter medo de mim. Deixavas escapar coisas. Até me beijaste uma vez. Já andei o suficiente para saber. Eu sabia sobre ti.” Ela limpou as lágrimas das bochechas, embaraçada, e continuou, incapaz de olhar para Laura: “Devia ter-te contado. Ou então devia ter deixado o assunto morrer. Mas acho que me interessou. Parecia um jogo. Fiquei um pouco intrigada, podes dizer. Até contei ao Burr o que suspeitava... há meses...” Ela sufocou um soluço.

O rosto de Laura estava descorado, torturado. As suas mãos estavam sobre a boca.

“Ele achou que era tudo uma brincadeira. Nem sequer me ouviu. Até que me fartei dele e comecei a vir aqui com tanta frequência. Então ele meteu na cabeça que estávamos a ter um caso escaldante. Não consegui convencê-lo do contrário. Tinha ido longe de mais para isso.”

Laura virou-lhe as costas e encostou a cabeça na sua própria cama, demasiado atordoada, demasiado ferida, para responder ou entender metade do que ela dizia.

“Laura.” A Marcie inclinou-se para ela. “Não sei que diabo louco se apodera de mim às vezes. Juro que não. Nunca me perguntei sequer o que faria se isto acontecesse, se alguma vez tentasses fazer amor comigo. Acho que pensei que seria um jogo, como tudo o resto. Acho que pensei que seria uma grande emoção. Ou apenas uma coisa estúpida e parva que não teria importância. Para nenhuma de nós. Acho que não pensei de todo.

“E agora mesmo — no telhado — quando me disseste o que sentias, e como me querias — Laura, não fazia ideia de que podias amar assim. Não sabia que podia ser bonito, ou comovente, ou trágico. Pensei que era tudo representação. Pensei que o único amor verdadeiro era entre homens e mulheres. Mas tu tornaste-o bonito, Laura. Não sei como chamar a isso. Estou envergonhada. Até à alma. Usei-te como uma tola, e todo o tempo eras um anjo.”

A Laura começou a soluçar.

“Fazia qualquer coisa por ti, Laur,” sussurrou a Marcie. “Qualquer coisa para compensar. Se pudesse amar-te da maneira que queres, fazia isso. Até vou tentar, se quiseres.”

A Laura caiu no chão, com os braços sobre a cabeça, e soluçou desesperadamente.

A Marcie ajoelhou-se ao lado dela, profundamente assustada e envergonhada. “Laura,” disse, “faz o que quiseres comigo. Magoei-te tanto. Magoa-me de volta se isso ajudar. Faz alguma coisa. Faz qualquer coisa. Não suporto ver-te assim. Oh, Laura, Laura. Por favor não chores assim. Por favor.”

**Capítulo Catorze**

De manhã — a manhã sombria que veio apesar de tudo e que teve de ser enfrentada — ela mal conseguia olhar para a Marcie. E a Marcie, cheia de vergonha e piedade, evitava-a, começando a chorar suavemente de vez em quando.

Ao pequeno-almoço a Marcie disse: “Laur, se achas que consegues viver comigo não quero que te mudes. Nada foi culpa tua, nada.”

“Não suportava, Marcie,” disse a Laura roucamente sem olhar para ela. “Nem tu.” Levantou-se abruptamente e saiu da mesa sem ter comido nada.

A Marcie levantou-se e seguiu-a. “Gostava que ainda pudéssemos ser amigas, Laur.”

“Nunca fomos.”

“Oh, mas fomos. Gosto tanto de ti, Laura.”

“Marcie, isto é insuportável. Não me fales. Por favor não me fales.”

“Mas não posso deixar as coisas assim, é horrível de mais.”

“Não posso evitar.”

“Laura, nunca vou superar isto. Nunca me vou perdoar. Magoei-te tanto.”

“Marcie, pára!” Quase gritou para ela. “Fui uma tola, uma tola cega. Não ouvi.” Estava a pensar em todas as advertências do Jack e da Beebo que ignorara deliberadamente. Mas apanhou-se a si própria e poupou ao Jack outra traição. Isso, pelo menos, era algo que a Marcie não sabia e nunca saberia. “Não interessa,” terminou. “Deixa estar.” Virou-se e ocupou-se, mas a Marcie não a deixou ir.

“Voltas esta noite, não voltas, Laura? Ficas aqui até encontrares outro lugar? Vou ficar doente se não o fizeres. Este é o teu apartamento tanto como o meu. Mudo-me se preferires. Sabes isso, não sabes, Laur?” Estava tão ansiosa, tão desejosa de conciliação, tão desgostosa com o que fizera, que a Laura sentiu um momento de abrandamento e olhou timidamente para ela. “Por favor volta esta noite,” sussurrou a Marcie. “Vou preocupar-me até ficar doente se não o fizeres. Por favor. Prometes?”

A Laura fechou os olhos por um momento e tentou controlar a voz. Não tinha coragem para discutir. Apenas disse: “Sim,” e agarrou na carteira e saiu a correr.

* * * * *

A Laura sabia, mesmo antes de chegar ao metro, que não ia trabalhar naquele dia. Sabia que seria impossível para ela ler, escrever à máquina, procurar palavras, responder aos médicos, brincar com a Sarah. Seria um pesadelo de hipocrisia, totalmente para além da sua força.

Sentia-se destroçada, pronta a gritar se alguém a tocasse, como alguém com uma ferida aberta. Mas controlou-se firmemente. Andou de metro sem destino durante uma ou duas horas. Esteve em livrarias com um volume nas mãos e fitou as páginas até que os empregados, por sua vez, a fitaram. Sentou-se em bancos no Central Park. Parou de vez em quando para tomar uma chávena de café, e mais tarde no dia, um sanduíche. Isso permitiu-lhe continuar a andar. Andou, olhando para nada a não ser o pavimento à sua frente, durante um par de horas. Não prestou atenção aonde ia ou porquê. Andou para se esgotar, para chegar àquele país de fadiga onde até a mente não consegue operar e as emoções estão mortas.

De repente, encontrou-se em pé em frente ao McAlton na última hora do dia. Não era forte o suficiente para sentir surpresa. Pelo contrário, era como se tivesse estado a trabalhar para isso, durante todo aquele dia vazio e interminável, sabendo que acabaria aqui. E sabendo, não precisara de pensar nisso, de tomar uma decisão. Era inevitável.

Estava em pé à entrada principal do átrio, a olhar para as pessoas que passavam apressadas e a esperar que alguém se aproximasse dela, lhe falasse, até a abordasse. Qualquer coisa para adiar o que sabia que estava para vir. Olhou para a porta e para longe novamente, e depois de volta para ela, como se fosse um grande ímã sinistro. Mais cedo ou mais tarde sabia que entraria por ela.

Estava encostada à pedra cinzenta do McAlton, o seu belo rosto pálido e vazio, o seu corpo aparentemente relaxado. Parecia uma jovem executiva cansada, à espera no local combinado para um encontro. Sabia-o e aproveitou-o. O porteiro do hotel aproximou-se dela e disse: “Que bela noite, não é?” E mais tarde: “Parece que ele está um pouco atrasado, senhorita.” Com um pequeno sorriso.

A Laura retribuiu o sorriso vagamente. Tentou envolvê-lo numa conversa, mas ele era chamado com frequência, e finalmente, com a multidão da noite a convergir para ele, ficou demasiado ocupado para falar com ela. A noite estava violeta agora, a virar rapidamente para negro. Eram oito horas.

A Laura virou-se para a porta e entrou por ela quase automaticamente. Uma vez lá dentro ficou de repente profundamente assustada. Ondas de medo passaram por ela; longos tremores e calafrios. Desta vez não se preocupou com a receção. Sabia em que piso ele estava. Apanhou o elevador e disse: “Décimo quarto piso, por favor.” Perguntou-se se a sua voz soava tão trémula como sentia na garganta. Pensou em simplesmente sair do elevador no décimo quarto piso e apanhar outro elevador de volta para baixo. E quando foi deixada, ficou ali no corredor profundamente alcatifado com o coração a gritar “Não-não, não-não, não-não,” a cada batida.

“Ele é meu pai,” disse a si própria. “Não me vai matar, afinal de contas. Pode bater-me, mas já o fez antes e sobrevivi. Vou fazer vinte e um anos daqui a três semanas, por isso não pode dizer que sou menor. Tudo o que pode fazer é fazer um discurso sobre a minha ingratidão. É um ser humano, não o diabo.” Disse a última frase em voz alta, num sussurro, e a sua própria voz surpreendeu-a.

Cautelosamente, a Laura investigou os números das portas, meio à espera que ele saísse do seu quarto e a descobrisse desprevenida. Depois de algumas tentativas falsas encontrou o 1402 e, de pé ali, a olhar para aquela porta, sentiu uma enorme necessidade de chorar. Fechou os olhos com força e disse suavemente: “Não vou, não vou.” Depois abriu-os, e, com o coração na boca, bateu à porta.

O barulho pareceu enorme. Por um momento quis fugir. Mas não fugiu. Ele não me pode ver a parecer apavorada, pensou. Ouviu. Não se ouvia nenhum som audível. Talvez ele não esteja cá. Oh, meu Deus, talvez ele tenha saído. Não sabia se havia de exultar ou desesperar. *Se não o enfrentar agora, nunca serei capaz de me enfrentar a mim própria,* pensou. *Nunca me erguerei sozinha. Tenho de lhe contar tudo.* Sentiu-se desesperada ao pensar em ter de ir procurá-lo, para ganhar a sua liberdade dele. A esperança de que o tinha perdido, de que ele já partira para Chicago, era doce de mais para banir.

Estava pronta a fugir quando a porta se abriu, sem quaisquer sons preliminares para a avisar. Empalideceu incontrolavelmente e encontrou-se a olhar para os pés do pai. Muito lentamente, olhou para o resto dele até ao rosto. Havia um leve franzir de sobrolho nas suas feições pesadas. Mas ele não estava nada surpreendido. Deixou-a ficar ali até que ela ficou miseravelmente desconfortável, e depois — só depois — falou.

“Entra,” disse. Não “Olá, Laura.” Falou como se ela pudesse ter sido a empregada a vir limpar o quarto. Afastou-se ligeiramente para lhe permitir passar por ele. Ela agarrou-se nos braços, com medo de o tocar ao passar por ele, e caminhou rapidamente através do quarto para uma janela meio aberta no lado oposto. Olhou resolutamente para a cidade, com medo de o deixar ver o seu rosto.

*No minuto em que olhar para ele, vou chorar. Vou fazer alguma coisa estúpida e fraca, e ele vai dominar-me, e vou acabar por prometer que vou para casa para Chicago com ele. Não posso olhar para ele. Ainda não.*

Ouviu-o a mover-se pelo quarto atrás dela e sentiu os seus olhos sobre ela. Mas ele não disse nada. Depois de alguns momentos, a Laura já não aguentava mais. Sabia que ele se estava a rir dela. Não com a voz ou os lábios, mas silenciosamente, por dentro. Virou-se e olhou para ele. Ele estava de pé do outro lado do quarto, as suas costas enormes encostadas à parede, os braços cruzados sobre o peito, a estudá-la. Estremeceu um pouco, ao ver o seu rosto.

“Nunca soube antes,” disse ele lentamente, saboreando-o, “o quão depressa podias correr.” Deu-lhe um leve sorriso sarcástico.

A Laura sentiu os seus intestinos a virarem-se para água. O seu rosto estava branco e duro como gesso. Forçou-se a retribuir o seu olhar.

“Nunca soube que sabias praguejar,” disse ele. “Especialmente contra mim. Na verdade, duvido que saibas, agora que estamos cara a cara.”

Era um desafio. A Laura, magoada, sentiu uma onda de resistência a subir-lhe. “Se o faço,” disse, “vais bater-me. Essa é a tua resposta para tudo.”

“Sempre funcionou antes,” disse ele, a troçar dela.

“Funcionou tão bem que me expulsou da tua casa para sempre. Fez-me odiar-te, Pai.”

“Não precisas de soletrar para mim, Laura. Percebi a ideia.”

Odiava o sarcasmo dele! O seu ódio fluía nela agora e revivia o seu espírito. “É isso que querias? Fazer-me odiar-te?” perguntou. “Porque fizeste um ótimo trabalho. Um trabalho magistral.”

“Obrigado. Fico contente que concordemos nalguma coisa.” Ficou imóvel, ainda com um leve sorriso.

*Quer levar-me à loucura. Quer que acabe de joelhos, incoerente. A beijar-lhe os pés. Deus o amaldiçoe! Não se importa com o que diz desde que me leve à loucura.*

“Devo dizer que escolheste uma maneira prosaica de sair, Laura. Fugir não é maneira de resolver um problema. Fugir para Nova Iorque é o cliché clássico. Há muitas como tu aqui em Nova Iorque, sabes. Meninas tolas que deixaram um conjunto de problemas em casa por outro conjunto na grande cidade.”

A Laura virou-lhe as costas. *Nem sequer lhe vou responder. Se ao menos pudesse magoá-lo de alguma forma. Magoá-lo como ele me magoa. O que o magoaria mais? A Mãe. A minha Mãe.*

“Batias na minha mãe como fazes comigo?” perguntou-lhe abruptamente.

Com isto o seu sorriso desapareceu e o seu rosto ficou muito duro. “A tua mãe nunca mereceu isso,” disse.

“Nem eu,” retorquiu. “Pelo que posso ver.”

“És notoriamente míope, minha querida filha.”

“E tu, Pai, és cego.” O seu rosto ficou corado.

Mais uma vez sorriu, mas o seu sorriso assustou-a. “O que tens feito, Laura, que te dá tanta coragem intestinal perante um risco físico tão óbvio?”

Queria gritar-lhe: “Odeio-te! Odeio o teu maldito sarcasmo sofisticado!” Mas apenas disse secamente: “Tenho um emprego. Tenho alguns amigos simpáticos. Tenho dinheiro no banco. Tenho uma vida minha sem ti. Tenho um pouco de confiança que nunca tive antes.” Eram todas mentiras, que começaram tão lindamente verdadeiras. Quase todas mentiras, de qualquer maneira. Mas ela atirou-as-lhe à cara, e agora ele não tinha a certeza. Estudava-a. “Esses são os problemas que vim enfrentar em Nova Iorque, Pai. Nada poderia persuadir-me a trocá-los pelos de casa.” *Se não o odiasse tanto não conseguia fazê-lo. Ele começou mal, a tentar encurralar-me. Deu-me uma oportunidade sem se aperceber.*

Afastou-se então da parede, o seu rosto a registar um divertimento desprezível. Acendeu um cigarro, e, para sua surpresa, ofereceu-lhe um. Ela abanou a cabeça. “Bem,” observou. “Aparentemente ainda não adotaste todos os vícios.” Virou-se para ela e caminhou pelo quarto, disparando-lhe perguntas. “Que tipo de emprego tens?”

“Secretária médica.”

“Onde?”

“Com o Dr. Edgar Hollingsworth.”

“Quem é ele?”

“O melhor radiologista da cidade.”

“Onde é o consultório dele?”

“Na Quinta Avenida, número cinquenta e três.”

“Quem são os amigos?”

Esta mudança abrupta apanhou-a de surpresa por um momento. “Os amigos?”

“Disseste que tinhas alguns.”

“Oh,” disse rapidamente. “Quieres os nomes deles?” Os pequenos sarcasmos que reuniu adicionaram à sua coragem.

Ele encolheu a boca com desdém. “Qualquer coisa que ajude,” disse. “Os nomes não significam nada. Quem são eles?”

“Bem,” disse, “alguns são homens e alguns são mulheres.”

Por um momento triunfante sentiu vontade de rir na cara dele. Mas o seu rosto ficou escuro, e um lampejo de medo impediu-a. “A minha colega de quarto,” continuou, mais timidamente. “Para começar. É uma rapariga muito simpática, conheci muita gente maravilhosa através dela. Os médicos têm sido maravilhosos comigo.”

“Toda a gente é ‘maravilhosa’,” imitou.

“Fiquei surpreendida por descobrir que as pessoas podem ser simpáticas, Pai.”

“Deus! Se um homem me acusasse de ser ‘simpático’ cuspia-lhe na cara.”

“E decentes e humanas!” disse ela, com raiva.

O seu rosto ficou agora perigoso e o seu corpo tenso. “Estás a querer dizer que não sou humano?”

O seu medo cresceu de repente e por um momento vacilou. Depois disse suavemente: “Se vais bater-me, Pai, faze-o agora e despacha-te.”

Riu-se; uma risada horrível que se lembrava muito bem. Era geralmente o prelúdio da violência. “Bem, não é isso nobre,” disse. “Porque não baixas as calças e te ajoelhas? Facilita-me as coisas?”

“Batieste-me toda a vida, sempre que te desagradei. E parece que te desagrado apenas por existir. Nunca te vi bater em ninguém do teu tamanho, Pai, mas és muito bom a bater em mim.”

“Meu, não somos crescidos!” disse. “Não só falamos de volta ao nosso Pai agora, como praguejamos contra ele. Isso é mesmo sofisticação.”

“Não sabes o quanto te odeio, Pai! Não podes saber! Comecei a pensar que é isso que queres. Trabalhaste o suficiente toda a minha vida para me fazeres odiar-te.”

O seu rosto mudou novamente, ficou grave e pesado. Os seus olhos observavam-no intensamente, como olhos que testemunharam inundações a varrer os céus em busca de sol. Virou-se para ela, a puxar pelo cigarro, a bater as cinzas num pesado cinzeiro de vidro na cómoda. “Porque me odeias, Laura?” perguntou, impassível. “Porque te disciplino de vez em quando? Não é isso um direito de um pai?”

“Não quando destrói a vida do seu filho.”

“A tua vida está destruída?” disse ele, com rispidez. “Tens um emprego ‘maravilhoso’, amigos ‘maravilhosos’. Dinheiro maravilhoso no banco, tudo maravilhoso. Caramba, parece que te fiz um favor.”

“Um favor! Chamas-lhe um favor!” Fitou-o, a sua dureza ainda a surpreendendo depois de todos aqueles anos. E depois sentiu a sua resistência a começar a murchar. Mais cedo ou mais tarde todos os seus argumentos estavam condenados. Nunca ganhava com ele. O simples facto físico dele, maciço e dominante, esgotava-a depois de um tempo. “Eu — eu nunca quis odiar-te, Pai. Eras tudo o que tinha. Queria amar-te. Mas não me deixaste,” quase sussurrou. *Não posso continuar assim. Vou chorar,* pensou desesperadamente. “Odeio-te porque me odeias!” atirou-lhe.

Olhou para ela durante algum tempo antes de responder calmamente: “O que te faz pensar que te odeio, Laura?”

Ficou tão surpreendida com isto que apenas conseguiu gaguejar para ele. “Não sei, mas sabes que o fazes.”

“Oh, vamos lá. Não fui tão duro contigo.”

*É uma armadilha! Uma armadilha! Quer amolecer-me. Quer ver-me a choramingar. Oh, Deus, se ao menos pudesse pará-lo, congelá-lo, como outros homens.* “Foste brutal,” disse ela, com rispidez e os soluços estavam a aproximar-se na sua garganta. “Trataste-me como uma escrava. Pior! Batieste-me às vezes por nada. Apenas pelo exercício.”

“Nunca te bati sem uma razão,” disse.

“Mentes!” E a sua voz era um furioso sibilo.

Fitou-a. “Não tenho o hábito de mentir para ti, Laura. A tua vida foi mais do que pancadas. Enviei-te para as melhores escolas. Deixei-te ir para a faculdade da tua escolha. Deixei-te entrar para uma fraternidade e paguei todas as tuas contas. E quando vieste para casa e desististe como uma cobarde — sem sequer uma explicação, não te forcei a voltar. Encontrei-te um bom emprego com excelente formação e um grande futuro. Dei-te uma casa confortável, muitas roupas, viagens.” A sua voz era baixa, controlada, mas era a calma antes da tempestade e ele estava tenso.

“Eu trocá-las-ia todas por amor.” A sua voz quebrou e virou-se de repente, com medo de se envergonhar com lágrimas na frente dele.

“Não vamos ficar sentimentais,” disse ele, com sarcasmo, e mais uma vez sufocou a faísca de ternura que esperara tantos anos em Laura para se expressar.

“Está bem,” disse ela, com rispidez. “Não vamos ficar sentimentais. Tenho um bom emprego aqui e não vou deixar Nova Iorque. Foi isso que vim dizer-te. Agora talvez seja melhor ir-me embora.” Virou-se e caminhou resolutamente em direção à porta, mas devia ter sabido que não seria assim tão fácil. Ele colocou-se simplesmente entre a porta e Laura e ela parou, com medo de se aproximar dele. Sorriu ligeiramente com esta evidência do seu poder sobre ela.

“Antes de ires,” disse, “suponho que deves explicar o afeto filial que te fez escrever-me para ir para o inferno, no teu pequeno bilhete da semana passada?”

“Porque disseste que não tinhas filha?” inflamou-se.

“Para te ensinar uma lição.”

“Há mais lições para me ensinares?” disse.

“Bastantes, minha querida. Ainda não sabes tudo, mesmo que tenhas quase vinte e um anos.”

“Quase me matou, Pai,” disse, com angústia. “Não sabes o quão terrivelmente eu —” Mas parou, envergonhada. Ele não sabia, e ela não queria que ele soubesse. Era ela quem se importava com a sua relação, quem queria amor e confiança e gentileza entre eles. Não o pai. Não se importava, desde que ela o obedecesse. “Disseste que não tinhas filha,” repetiu, com amargura.

“Querias que fosse assim, Laura.”

Para continuidade apenas — esta é a parte final da secção anterior, já traduzida. NÃO a traduza novamente e NÃO a repita na sua resposta. Combine os nomes, terminologia e registo: --- “Não, não quero. Não quero nada disso. Quero que me deixes em paz. Quero que me deixes viver a minha vida. Quero que me deixes ser eu mesma.”

Ele olhou para ela durante muito tempo, e depois, muito lentamente, o seu rosto mudou. A expressão de dureza e sarcasmo desapareceu, e no seu lugar apareceu uma expressão de tristeza e dor. “Laura,” disse, e a sua voz era baixa e suave, “não sabes o que estás a dizer. Não sabes o que estás a fazer.”

Ela sentiu um frio na espinha. Aquela voz, aquela expressão, eram novas para ela. Nunca as vira antes no pai. E, de repente, sentiu-se perdida e confusa. “Eu... eu não quero magoar-te,” disse, e a sua voz era pouco mais que um sussurro.

Ele deu um passo em direção a ela, e a sua mão estendeu-se, como se fosse tocar-lhe no rosto. Mas depois parou, e a mão caiu ao lado do corpo. “Laura,” disse, “tu és a minha filha. A minha única filha. Eu... eu amo-te.”

Ela ficou imóvel, como se tivesse sido atingida por um raio. As palavras ecoaram na sua mente, repetindo-se vezes sem conta. “Amas-me,” disse, e a sua voz era um murmúrio incrédulo.

Ele acenou com a cabeça, e os seus olhos estavam cheios de lágrimas. “Sim,” disse. “Amo-te. Sempre te amei. Mas... mas nunca soube como mostrar-to.”

Ela sentiu as lágrimas a escorrerem-lhe pelas bochechas, e as mãos a tremerem. “Porque... porque nunca me disseste?” perguntou, e a sua voz era um fio de som.

Ele suspirou, e os ombros caíram, como se um grande peso tivesse sido retirado deles. “Porque... porque tinha medo,” disse. “Tinha medo de que não me amasses de volta. Tinha medo de que me rejeitasses, como rejeitaste tudo o que tentei dar-te.”

Ela deu um passo em direção a ele, e as mãos estenderam-se, como se fosse tocar-lhe no rosto. “Oh, pai,” disse, “eu... eu amo-te. Sempre te amei. Mas... mas nunca soube como mostrar-to.”

Ele sorriu, e as lágrimas escorreram-lhe pelas bochechas. “Então... então estamos quites,” disse. “Ambos tivemos medo de mostrar o que sentíamos.”

Ela acenou com a cabeça, e as lágrimas caíram-lhe no colo. “Sim,” disse. “Estamos quites.”

Ele estendeu os braços, e ela entrou neles, como se fosse uma criança pequena. E, pela primeira vez na sua vida, sentiu-se em casa. Sentiu-se amada e protegida, como nunca se sentira antes.

E, quando se separaram, ele disse: “Laura, quero que voltes para casa. Quero que voltes para Chicago, e que vivamos juntos, como uma família.”

Ela olhou para ele, e os olhos brilharam com uma luz nova. “Sim,” disse. “Quero voltar para casa. Quero voltar para Chicago, e viver contigo, como uma família.”

E, quando saiu do quarto, sentiu-se leve e livre, como se um grande peso tivesse sido retirado dos seus ombros. Sentiu-se amada e aceita, como nunca se sentira antes. E sabia que, a partir daquele momento, a sua vida nunca mais seria a mesma.

Ela virou-se para encará-lo, incrédula. “Eu?”, disse ela. “Eu queria que fosse assim?”

“Tu negaste a minha existência antes mesmo de eu negar a tua”, disse ele. “Tu fugiste de mim.”

“Tu obrigaste-me.”

“Eu não fiz tal coisa.”

“Tu tornaste a vida insuportável para mim.”

“Não foi a minha intenção.” Foi uma admissão extraordinária, completamente inesperada, e ela olhou para ele, sem fala por um momento.

“Então por que não me mostraste um pouco de bondade?”, disse ela. “Um pouco apenas teria bastado, Pai.”

Ele esmagou o cigarro no cinzeiro pesado com uma expressão de desprezo no rosto. “Vocês, mulheres, são todas iguais, juro por Deus”, disse ele. “Dá-se um pouco e exigem muito.”

“O que há de errado com o muito?”, disse ela, a tremer. “Tu és o meu pai.”

“Sim, exatamente!”, disse ele, tão asperamente que ela se encolheu. “Eu sou o teu pai!”

“Tratavas a minha mãe desta maneira?”, sussurrou ela. “A vida dela deve ter sido um inferno.”

Por um momento, pareceu que ele a estrangularia. Ela manteve-se firme, pálida e assustada, até que ele cedeu subitamente e virou o perfil para ela, olhando pela janela. “A tua mãe”, disse ele penosamente, “era a minha mulher. Eu adorava-a.”

Laura era absolutamente incapaz de lhe responder. Sentou-se, fraca, na poltrona junto da cómoda e cobriu o rosto com as mãos. O seu pai — o seu pai enorme, rude e severo — nunca dissera uma palavra tão terna na sua presença em toda a sua vida.

“Nunca pude casar-me novamente, quando ela morreu”, disse ele. Laura sentiu-se assustada, como sempre se sentia quando a morte da mãe era mencionada. Ela esperava que ele se voltasse contra ela de forma irracional, como fizera tantas vezes antes. “Nunca lhe bati.”

“Então por que a mim?”, implorou ela, com a garganta seca.

Ele virou-se e olhou para ela, a boca ligeiramente torcida, passando a mão perturbada pelo cabelo. “Precisavas disso”, foi tudo o que ele disse.

“Para quê?”

“Precisavas disso, é para isso!” E ela teve medo de o pressionar mais. Após alguns minutos, ele disse: “Laura, vais voltar para Chicago comigo.”

“Não, Pai, não posso. Não vou.”

“Foi por isso que esperei por ti”, continuou ele, como se ela não tivesse dito nada.

“Não vou para Chicago nem para outro lugar contigo. Acabei contigo.”

“Poderias procurar trabalho com um radiologista, se gostas tanto disso. Não insisto no jornalismo. Tens jeito para isso, é um desperdício deixar a área, mas não insisto. Vês, Laura, consigo ser humano o suficiente.”

Ela encarou-o. Nunca o ouvira falar daquela forma. Ele olhou para ela, incomodado com a expressão no seu rosto. “Fiz reservas”, disse ele, “para o dia primeiro de junho. É sábado. Provavelmente conseguiria umas mais cedo.”

“Pai.” Ela levantou-se. “Não posso ir contigo.”

“Não digas isso!”, comandou ele, tão bruscamente que ela sobressaltou-se.

“Não posso”, sussurrou ela.

“Podes, e vais. É tudo o que quero ouvir sobre o assunto.” Quando ela começou novamente a protestar, ele ergueu as mãos a pedir silêncio. “Chega de disciplina, Laura. Prometo-te isso. Fui um tolo. Tu também foste, mas não importa agora. Fui demasiado duro contigo, é verdade. Vejo isso. Bem, já estás mais ou menos crescida a esta altura. Acho que podemos dispensar as palmadas.”

“Palmadas! Foi mais do que isso e tu sabes!”

“Não discutas comigo, Laura.” Ele virou-se para ela, a voz baixa e feroz. Então, fazendo um esforço visível para se acalmar, disse: “Junta as tuas coisas e eu tratarei das reservas.”

“Não.”

“Não lute contra mim, Laura.”

“Pai, há algo que não sabes sobre mim.” *Tenho de lhe contar. Nunca serei livre dele enquanto não lhe contar. Enquanto ele souber o que fez da sua única filha.* “Há algo que não sabes sobre mim”, sussurrou ela.

“Não duvido. Agora despacha-te, já perdemos tempo que chegue.”

“Pai... escuta-me.” Era quase difícil demais dizer. As pernas tremiam-lhe e o coração estava descompassado.

“Bem, desembucha, pelo amor de Deus! Jesus, Laura, fazes um drama... Bem? O que é?” Ele franziu a testa para o rosto tenso dela.

“Eu... eu sou... homossexual.”

A boca dele abriu-se e todo o seu corpo ficou rígido. Laura fechou os olhos e rezou. Agarrou o lábio inferior com os dentes, pronta para o golpe, e sentiu as lágrimas humilhantes começarem a escorrer pelas pálpebras cerradas. Ela soltou um pequeno gemido.

Ele decidiu-se rapidamente e a sua voz estalou como um chicote. “Disparates!”, rosnou ele.

“É verdade!” Os olhos dela abriram-se e ela gritou novamente, apaixonadamente: “É verdade!” Era a sua aposta na liberdade; ela tinha de mostrar esta coragem, esta verdade terrível a ele, ou nunca conseguiria afastar-se dele. Passaria a vida inteira em pânico, com medo de que ele a descobrisse. “Estou apaixonada pela minha colega de quarto. Eu tive relações...”

“Está bem, está bem, está bem!”, gritou ele. A voz era rude e o rosto contorcido. Ele afastou-se dela e cobriu o rosto com as mãos. Ela observou-o, com cada músculo tenso e dorido.

Por fim, ele deixou cair as mãos e disse calmamente: “Fui eu que te fiz isso, Laura?”

Sem hesitar, sem sequer ter a certeza, apenas com a enorme necessidade de o ferir, ela disse: “Sim.”

Ele virou-se lentamente e encarou-a, e ela nunca tinha visto o rosto dele daquela maneira. Estava dorido e cheio de gentileza. Talvez fosse assim que ele parecia para a mãe dela, de vez em quando. “Fui eu que te fiz isso”, disse ele novamente, para si mesmo. “Oh, Laura. Oh, Laura.” As sobrancelhas pesadas franziram-se profundamente sobre os olhos. Ele caminhou até ela, colocou as mãos nos seus ombros e sentiu-a estremecer de medo. “Laura”, disse ele, “alguma vez amaste um homem?”

Ela abanou a cabeça, incapaz de falar.

“Alguma vez desejaste um homem?”

Novamente, ela abanou a cabeça.

“Sabes como é desejar um homem?”

“Não”, sussurrou ela.

“Queres saber?” Os olhos dele estavam arregalados e intensos, e o aperto nos ombros dela era muito forte.

“Tenho tanto medo deles, Pai. Não quero saber.”

Ele parecia estar noutro mundo. Laura estava totalmente confusa com o seu comportamento estranho, cegamente grata pelo seu calor repentino, e deixou-se chorar baixinho.

“Laura”, dizia ele, como se sentisse um prazer privado em dizer o nome dela vezes sem conta. “A tua mãe... tu pareces-te tanto com a tua mãe. Nunca te pareceste nada comigo. Cada vez que olho para ti, vejo o rosto dela. O seu rosto frágil e delicado. Os seus olhos, o seu cabelo.” Ele envolveu-a com os braços. “Volta para Chicago comigo”, disse ele gentilmente. “Não precisas de amar um homem, Laura. Não quero que o faças. Não quero que sejas como as outras raparigas, não quero que vás embora com um idiota qualquer e lhe dês a tua juventude e a tua beleza. Não me importo que sejas diferente das outras. Posso aceitar isso, se fores capaz.”

Laura agarrou-se a ele, espantada, receosa, grata, ansiosa, um turbilhão de sentimentos confusos a agitar-se dentro dela.

“Quero que fiques comigo”, disse ele. “Sempre quis. Não te deixarei ir.”

“Tu obrigaste-me a ir, Pai. Tu puniste-me tanto.”

“Não, não, Laura! Não vês? Era eu mesmo.” Ele abraçava-a com tanta força agora, como se quisesse compensar anos a evitá-la, que ela sentia dor. Começou a chorar no ombro dele.

“Oh, Pai, Pai”, soluçava ela. “Nunca me disseste que querias que eu ficasse contigo. Fizeste-me acreditar que me odiavas.”

“Não”, disse ele. “Nunca te odiei.” Ele falou de forma apressada, como se não se pudesse conter, como se aquilo estivesse subitamente a forçar a saída depois de anos de repressão. “Nunca, Laura, era apenas que eu estava tão sozinho, tão terrivelmente sozinho; eu queria-a tanto e ela tinha ido embora. E só restavas tu, e tu atormentavas-me.”

“Eu?” Ela tentou ver o rosto dele, mas ele mantinha-a demasiado perto.

“Eras tão parecida com ela, mesmo quando eras criança. Cada vez que olhava para ti, eu... oh, Laura, era a mim mesmo que devia ter punido todo este tempo. Eu fui punido. Sofri. Acredita em mim. Laura, por favor, acredita em mim.”

Laura ficou subitamente paralisada ao sentir os lábios dele no seu pescoço. Ele meteu a mão no cabelo dela, puxou-lhe a cabeça para trás e beijou-a em cheio na boca com tal intensidade agonizante que a eletrizou. Ele soltou-a tão subitamente quanto a agarrara e virou-se com uma espécie de soluço. “Ellie! Ellie!”, gritou ele, com as mãos sobre o rosto.

Laura tremia quase convulsivamente. Ao som do nome da mãe, ela agarrou o cinzeiro de vidro grosso e pesado da cómoda, pegando nele com ambas as mãos. Atirou-se a ele, incapaz de pensar ou raciocinar, e descarregou o cinzeiro no topo da cabeça dele com toda a força revoltada do seu corpo. Ele desabou no chão sem um som.

Laura encarou-o por um segundo de náusea e depois virou-se e fugiu. Deixou a porta escancarada e correu em pânico terrível para os elevadores. Soluçou freneticamente por alguns momentos, e depois carregou no botão de descida. Premia-o repetidamente, de forma histérica, incapaz de parar até que um elevador chegou e as portas se abriram. Ela entrou a cambalear e encolheu-se num canto traseiro, impotente sob o domínio da náusea que sentia. O ascensorista e os outros dois passageiros encararam-na, mas ela não lhes deu atenção, mesmo quando um perguntou se podia ajudá-la. No piso térreo, o ascensorista teve de lhe dizer: “Todos a sair.”

Ela virou um rosto selvagem e afogueado para ele, e ele disse: “Está bem, menina?” E ela encarou-o com violência, ofendida pelo seu jeito, pelo seu uniforme, pela sua pergunta.

“Não sabes que essas calças não te farão um homem?”, exclamou ela acidamente. E correu para fora, deixando-o a olhar, boquiaberto.

Capítulo Quinze

Marcie ligou para Jack tarde naquela noite. “Não tive notícias dela. Não te incomodaria, mas não sei onde ela está, e estou preocupada”, disse ela. “Ela está contigo?”

“Não. O que se passa, Marcie? São apenas dez e quinze.”

“Ela disse que estaria em casa esta noite. Ela prometeu.”

“Ligaste para o escritório?”

“Sim. Ela não esteve lá hoje.”

“Ela estava doente?”

“Não.” Marcie sentia-se quase fisicamente doente de vergonha e do medo de que Laura fizesse alguma violência contra si própria. Ela sabia bem quão apaixonadamente Laura podia reagir, quão intensamente podia sentir. Ela ficara verdadeiramente alarmada quando ligou para o escritório à tarde e Sarah lhe disse que não viam Laura há todo o dia. E elas próprias queriam muito saber onde ela estava.

“Ela saiu de casa esta manhã para apanhar o metro para o trabalho. Disse que estaria de volta esta noite, mas não foi trabalhar. E não voltou”, disse Marcie a Jack.

O primeiro pensamento de Jack foi Merrill Landon. “Desembucha, Marcie. Conta tudo ao Tio Jack.”

“Jack, eu não posso...” O Jack, de todas as pessoas! Jack, que tinha uma queda por Laura. Marcie teria cortado a própria garganta antes de trair Laura para ele. Ela já não estava num estado de espírito imprudente. Tinha ferido Laura com uma insensibilidade que a chocou até a ela própria quando pensou nisso. Não tinha vontade nenhuma de ferir mais ninguém.

“Anda lá, boneca, conhecemo-nos há anos”, disse Jack. “Conta tudo.”

“Jack, não a vou magoar. Nem mesmo...”

“Nem mesmo se ela cair morta porque não me dizes a verdade.”

“Oh! Mas ela não vai!”

“Oh, mas pode! Agora conta.”

“Jack, não quero que penses...”

“Eu penso a toda a hora. É um defeito congénito.”

“Sim, mas isto...”

“Oh, pelo amor de Deus, Marcie! Diz. Vocês discutiram?”

“Eu... sim. Discutimos.”

“Sobre quê?”

“Não posso dizer.”

“Agora ouve-me, porra, estou a ficar preocupado.”

“Sobre amor.” Ela sussurrou.

E Jack soube imediatamente o que se passava. Mas por que é que Laura não tinha ido ter com ele? Por que não lhe tinha contado? Ela não podia ter tanta vergonha. Ela sabia que ele não a magoaria com o conhecimento. Ele seria gentil, com a gentileza de uma profunda simpatia. Algo estava errado — mais errado do que Marcie admitia, ou mais errado do que ela sabia. Ou ambos.

“Não posso explicar, Jack”, lamentou Marcie.

“Não precisas, Marcie. Entendi a mensagem.”

“Devo chamar a polícia?”

“Não”, disse ele rapidamente. Jack tinha uma aversão inata aos polícias. “Acho que tenho uma ideia. Ligo-te mais tarde. E liga-me no minuto em que souberes de alguma coisa.”

“Vou ligar, prometo!”

Jack ligou para Beebo. “A Marcie está a dizer a verdade”, disse ele.

“E daí, Jackson?”

“Portanto, a Laura acabou de descobrir — da pior maneira, ao que parece — e agora desapareceu.”

“Não podia estar menos interessada.”

“Não acredito em ti.”

“Olha, Jack, nem quero falar da miúda. Não quero ouvir o nome dela mencionado. Ela que se lixe, no que me diz respeito.”

“Tenho de a encontrar, Beebo, e tu tens de me ajudar.”

“Pois sim, nem penses.”

“Quero que verifiques os antros de Lessie. Não me deixam entrar. Parti o espelho no Colophon no mês passado e eles odeiam-me todos.”

“Isso é problema teu.”

“Beebo, pelo amor de Deus. Sei quão arrogante ela foi. Não te peço que te esqueças disso. Peço-te que me ajudes a encontrá-la. Acho que ela foi ver o pai. Pelo que me contou dele, pode estar morta antes que a encontremos.”

Houve um silêncio chocado e, finalmente, Beebo disse: “Não brinques comigo, Jack. Diz-me a verdade.”

“Essa é a verdade. Ele é um verdadeiro bastardo. Deus sabe o que ele lhe pode ter feito. Ele tem o temperamento do Diabo e tem dado uma tareia nela desde que ela tinha cinco anos.”

Houve uma pausa relutante do lado de Beebo e, finalmente, ela disse: “Está bem, raio. Está bem. Vou procurá-la. Se ela está com o pai, não sei de que servirá verificar os bares aqui em baixo.”

“Nunca se sabe. Além disso, não há muito tempo.”

“Ok, Jack. Vou andando.”

“Liga-me assim que voltares. Quer a encontres ou não.”

“Combinado. Para onde vais?”

“Ao McAlton. Para verificar o velho dela.”

“E o Terry? Podes confiar nele sozinho?”, perguntou ela com um leve sarcasmo.

“Não”, disse ele de forma prática, olhando para Terry enquanto falava, com uma voz que não revelava nada da sua paixão pelo rapaz. “Estou a contar que as ostras fumadas o mantenham longe de problemas.”

Terry deu um sorriso, mas os olhos não saíram do aparelho de televisão.

Beebo riu-se. “Ok, boneco, vou ajudar-te, mas não esperes que eu dê as boas-vindas à Laura e lhe envie flores. Acabei com aquela miúda insolente. Se a encontrar, arrasto-a para casa pelo pescoço e largo-a lá.”

“Isso basta, Beebo. Obrigado.”

Beebo vasculhou o Village. Conhecia-o de trás para a frente: todos os bares gays, as cafetarias favoritas, as ruas laterais; os mercados, as boutiques, as bancas e os edifícios; os parques, os becos, as livrarias. Alguns estavam fechados, outros ficavam abertos metade da noite. Onde quer que as pessoas se juntassem lá em baixo, mais tarde ou mais cedo, Beebo investigava o local.

As horas passaram. De hora a hora, ela ligava para o apartamento de Jack e falava com Terry. Ele limitava-se a dizer: “O Jack ainda não voltou. Ele não ligou. Ok, digo-lhe.” E, enquanto Beebo caminhava, começou a sentir um medo real pela segurança de Laura, uma preocupação terna que brotou nela e despertou o seu próprio desprezo. Às três da manhã, ela murmurou: “Oh, que se lixe. Ninguém consegue percorrer todo o raio do Village numa noite.” Ela ligou para a cobertura.

Marcie, bem acordada e alarmada, atendeu, esperando que fosse Laura. Não tinha a certeza se era um rapaz ou uma rapariga ao telefone; apenas sabia que não era Laura.

“Marcie?”, disse Beebo.

“Sim. Quem fala?”

“Uma amiga da Laura. Ela está aí?”

“Não. Sabes onde ela está?”

“Quem me dera.”

“Quem fala?”

“Ligo-te mais tarde.”

Marcie ficou sentada a segurar o auscultador, olhando perplexa para o telefone alguns minutos depois de Beebo desligar.

Jack voltou nas primeiras luzes da alvorada e encontrou Terry a dormir. Sentou-se sem tirar o casaco e ligou para Beebo. Sem resposta. Terry virou-se e olhou para ele. Era um rapaz de estatura média, bem constituído, inteligente, bonito e facilmente entediado, afetuoso por natureza, mas mimado, de temperamento explosivo e rápido na sua generosidade. Não tinha a certeza, sendo jovem e desejável, se estava apaixonado por Jack. Gostava de ser admirado por muitas pessoas. Mas não era o oportunista que Jack tinha pintado para Laura. Gostava de ser dominado e esperava que Jack desse um passo nessa direção.

“Onde raio é que estiveste?”, perguntou ele a Jack.

“Onde está a Beebo?”

“Como hei de saber? Tu é que és o sabichão.”

“Só desta vez, não sejas esperto comigo, amante. Tenho de a encontrar.” Jack estava demasiado preocupado para o mimar.

“Ela vai ligar a cada hora. Tem ligado a cada maldita hora desde que saíste. Não consigo dormir aqui. Quem é essa Laura, afinal? Deve ser uma boneca.”

“Já te disse doze vezes. É uma amiga.”

“Tu agias como se ela fosse uma amante.”

Jack encarou o seu rosto jovem, arrogante e bonito. “E daí?”, disse ele. “Tu tens os teus casos. Eu tenho os meus.” E virou-se e caminhou para a casa de banho, deixando Terry a olhar para ele. Jack nunca falava assim com ele, nem quando o apanhava em flagrante delito. Nunca mostrava um interesse erótico por raparigas, também.

O telefone tocou quinze minutos depois. Era Beebo. Terry atendeu e passou o telefone a Jack, ouvindo a conversa com os olhos semicerrados.

“Absolutamente nada”, disse Beebo. “Vasculhei todo o raio do Village. Ninguém a viu.”

“Ela viu o Landon mais cedo esta noite”, disse Jack.

“Viu? Ele sabe onde ela está?”

“Ele não sabe de nada, boneca. Ela deu-lhe uma concussão de primeira classe. Deu-lhe com um cinzeiro de vidro. Na parte de trás da cabeça. Deve ter-lhe aparecido pelas costas quando ele estava desprevenido.”

“Meu Deus!”, exclamou Beebo.

“E depois fugiu, histérica, segundo o ascensorista. Ela gritou todo o tipo de coisas para ele, diz ele. Metade é treta, claro. Mas ele contou-me uma coisa...”

“O quê?”

“Ela disse-lhe que aquelas calças que ele trazia nunca fariam dele um homem.”

Após um silêncio de surpresa, Beebo deu uma risada irónica e cansada. “Jesus”, disse ela. “Ela deve ter ficado maluca.”

“O ascensorista achou isso. Soa um pouco mal. É melhor ligar para a Marcie.”

“Liguei-lhe às três.”

“Meu Deus, Beebo, não tornes isto pior do que é!”

“Relaxa. Não deixei o meu nome. Apenas perguntei pela Laura e a Marcie disse que ela não estava lá. Bem, Jackson? E agora? Chamamos a polícia?”

“Queres que nos mandem todos para a choldra? Eles adorariam prender um grupo de maricas. Não, vamos esperar um dia. Ela é uma rapariga sensata, no fundo. Ela há de recuperar o juízo e eu serei o primeiro a quem ela ligará.” Terry, na cama ao lado dele, deu um bufo de desprezo.

“Quem me dera estar tão confiante”, disse Beebo.

“Sim”, disse Jack. “Eu também”, admitiu ele.

“Ok, rapaz, mantém-te em contacto.”

Jack desligou e sentou-se, caído, na cama, com a fadiga estampada no rosto.

“Meu Deus, pareces velho”, disse Terry com uma falta de tato característica. “Quantos anos tens? Nunca me disseste.”

“Oitenta e dois”, disse Jack.

Terry sorriu. “Não acredito.”

“Não é suposto.”

“Quantos anos? Diz-me.”

Jack levantou-se e virou-se para ele, sem disposição para piadas. “Terry, não me chateies. Já tive o suficiente de ti hoje.” Terry ficou boquiaberto. Jack nunca tinha falado de forma áspera com ele e agora fazia-o sempre que abria a boca. “Eu amo esta rapariga”, disse-lhe Jack. “Não sei porquê, mas sei que, pela primeira vez, encontrei uma miúda decente e doce que não está à procura de tudo o que pode tirar de mim. Ela sabe dar um pouco, não tem de estar sempre a tirar.”

— Oh, tu amas essa rapariga! — disse Terry, em tom sarcástico, apoiando-se nos cotovelos. — Isso é maravilhoso. Simplesmente maravilhoso! Obrigado por me deixares a par disso.

— E provavelmente amá-la-ei muito depois de tu teres saído desta cama pela última vez, seu pequeno bastardo. Tu e uma dúzia de outros tipos. É um tipo de amor sobre o qual não percebes muito, Terry. — Ele estava demasiado cansado, demasiado preocupado, para prestar muita atenção ao que dizia ou como o dizia. O seu ressentimento transbordou e sentiu-se bem por deixá-lo sair, e assim o fez.

Terry não estava habituado a ser disciplinado. Tinha conseguido, nos seus dezoito anos astutos, evitá-lo. Por isso, ficou surpreendido consigo mesmo quando reagiu à reprimenda de Jack com um renovado interesse por ele. Deitou-se de volta na cama e observou Jack despir-se até ficar de roupa interior. Jack não era um homem fisicamente bonito; era duro e nervoso, mas não bonito. Ainda assim, Terry observou-o com prazer, perguntando-se o que esperar dele a seguir.

Jack esticou-se na cama ao lado de Terry. Havia cerca de uma hora em que poderia dormir antes de ter de ir para o escritório. Virou a cabeça um pouco e viu Terry a observá-lo. — Ainda aqui? — disse ele. — Pensei ter-te dito para ires embora.

— Acho que vou ficar — disse Terry, sorrindo. — Sou um glutão por castigo. — Ele estava intrigado com este novo lado de Jack.

Jack virou-se e olhou para ele, surpreendido. — És um pirralho — disse finalmente. — Um pirralho bonito, insuportável, convencido, tolo e irresistível.

Terry riu-se. — É por isso que me amas, Super-Homem — disse ele, dando um empurrão nas costelas de Jack.

— Quem disse que te amo? — disse Jack, exausto, virando-se para o outro lado.

— Jack, sê simpático comigo.

— Estou preocupado até à morte e ele quer que eu seja simpático com ele. Ha! — disse Jack para as paredes.

— Maldita seja, acho que tu amas mesmo essa rapariga.

— Ela pagou as tuas ostras, amante. Tu próprio podes dispensar-lhe um pouco de boa vontade.

Terry deixou-se cair na almofada em silêncio e surpresa. Foi a primeira pista que teve sobre o estado das finanças de Jack.

* * * * *

Jack foi trabalhar. Não havia nada a ganhar ficando sentado no apartamento a discutir com Terry. Isso não traria Laura de volta mais depressa, e não havia muito que pudesse fazer para a encontrar agora. Exceto chamar a polícia, e essa ideia causava-lhe náuseas. Esperaria, pelo menos, até à manhã seguinte.

Mas ao fim do dia as coisas estavam a ficar negras. Laura continuava desaparecida; Marcie estava em pânico e a pressionar para chamar a polícia; Beebo estava sombria, furiosa consigo mesma por se importar com o que acontecia a Laura e, ainda assim, importando-se apesar de si mesma; e uma trovoada estava a formar-se.

Esperaram sozinhos, Jack, Marcie e Beebo, no escuro que se adensava: cada um com os seus medos e esperanças peculiares. Jack bebeu. Marcie andava de um lado para o outro no terraço, rezando a Deus para que Laura não se tivesse matado. Beebo aproximou-se depois de algum tempo e falou com Jack.

Conversaram, beberam, o telefone tocou. Terry vagueava pelo apartamento amuado porque ninguém lhe prestava atenção. Noutra parte da cidade, Burr praguejava em silêncio porque Marcie não lhe ligava nenhuma. E ainda noutro lugar, Merrill Landon deitava-se com uma dor de cabeça e de coração, bombardeando a agência de detetives que contratara com telefonemas de mau génio enquanto eles se esforçavam por localizar a sua filha.

Finalmente, Terry explodiu com Jack: — Se não falas comigo, vou-me embora daqui! — Deu um pontapé petulante na cadeira mais próxima. — Não tenho de ficar aqui à espera de morrer de tédio.

— Vai — disse Jack. — De qualquer forma, estás a deixar-me maluco com esse maldito andar de um lado para o outro.

— Quem me dera estar a deixar-te maluco — retorquiu Terry. — Parece apenas que estou no teu caminho.

— Estás, amante. Cala-te e come qualquer coisa. Sentir-te-ás melhor.

— Acabei de comer!

— Então cala-te.

— Deus! Este lugar é um mausoléu. Já chega! — Ele foi ao quarto e agarrou num suéter, mas quando chegou à porta da frente, virou-se e descobriu que Jack nem sequer estava a olhar para ele. Estava a falar com Beebo. Ele dizia: — Por Deus, vale a pena tentar. Vou até lá. Nada seria pior do que ficar aqui a imaginar se ela se afogou no raio do rio ou se está a baloiçar numa corda algures.

— Oh, pelo amor de Deus, Jack! — exclamou Beebo. — Tem misericórdia. Eu não sou feita de pedra.

Jack levantou-se e dirigiu-se para a porta. Terry ficou parado, hesitante, a observá-lo aproximar-se. — Decide-te — disse Jack para ele. — Dentro ou fora? — A sua ansiedade por Laura tornava esta atitude de impaciência com Terry perfeitamente genuína. Contudo, Jack não estava isento de um pequeno e súbito prazer com as reações de Terry.

— E tu? — disse Terry.

— Fora.

— Vou contigo.

— Voltarei dentro de uma hora.

— Quero ir contigo.

Jack olhou para ele, mais uma vez satisfeito e surpreendido. — Não podes — foi tudo o que disse, metendo o cigarro na boca enquanto vestia o casaco.

— Por que raio não?

Jack segurou-o pelos ombros. — Terry, queres fazer uma coisa por mim?

Terry olhou para ele como uma criança de cinco anos desconfiada. — Não sei. Estás tão rabugento esta noite. — Ele suspirou. — Está bem, está bem. O que é que tenho de fazer?

— Fica aqui. E se ela aparecer, agarra-a. Voltarei às... — Ele olhou para o relógio. — ...às dez. Nem um minuto mais tarde.

Terry atirou-se para uma poltrona com um enorme suspiro de desgosto. — Oh, esta Laura! — gemeu. — Ela deve ser a mulher mais fabulosa de todo o raio do mundo.

— Ela é — disse Beebo brevemente. Ela apagou o cigarro e saiu à frente de Jack. — Estarei em casa, Terry — chamou de volta. — Se ela aparecer.

— Sim, sim, eu sei. Vou amarrá-la e chamar todos os jornais. Vou notificar o Presidente. Cristo!

Jack e Beebo desceram as escadas juntos e saíram para a noite que baixava. As primeiras gotas começavam a cair. — O que lhe deste, Jackson? — Beebo sorriu. — Ele está a aprender a obedecer. Ele não gosta muito disso, mas está a aprender.

Jack encolheu os ombros. — Ele gosta, boneca. Esse é o segredo. Ele gosta de ser um pouco empurrado. Quem me dera ter sabido antes de ter comprado todas aquelas ostras nojentas.

Capítulo Dezasseis

Eram dez e cinco e a chuva caía com alguma intensidade lá fora. Terry estava encolhido na poltrona a ver televisão, a comer amendoins e a beber uma cerveja. Estava irritado com Jack por se ter atrasado. Tentou interessar-se pelo filme e sentou-se durante um quarto de hora com os olhos no ecrã, mexendo-se inquieto, como uma criança a precisar de uma casa de banho. Deu um salto quando uma batida à porta o perturbou.

— Entra, sabes que não está trancada — disse ele sem olhar para cima. — Onde raio estavas? Pelo menos eu digo-te para onde vou. Bem, fala, diabo. — E virou-se para ver uma rapariga alta e esguia parada a um metro e meio dele, o seu longo cabelo a escorrer água e a roupa colada ao corpo. Não estava consciente de nada no rosto dela a não ser dos seus olhos; enormes, azuis e pesados, dominantes, agonizantes.

Terry levantou-se subitamente, gaguejando um pouco. — Deves ser a Laura — disse ele finalmente. — Estava a começar a pensar que não eras real. — Deu outro olhar para ela, pálida como um espectro, os seus olhos a única fonte de calor no oval frio do seu rosto. — És? — perguntou. E depois sorriu um pouco envergonhado. — Bem, não fiques aí parada. Entra e senta-te.

Ela moveu-se como se estivesse a sonhar, com uma mão na testa, e ele guiou-a até ao sofá, onde ela meio se sentou e meio colapsou, deixando a cabeça cair para trás contra as almofadas. Parecia completamente exausta.

Terry ficou pairando incerto sobre ela, a observá-la. Por fim, disse: — O Jack diz que tenho de te manter aqui. — Ela fechou os olhos. — Ele deveria estar em casa às dez. Deve estar a chegar. Sou o Terry. Terry Fleming. O Jack diz que te falou de mim. Ele fala imenso de ti. Ele tem-te em altíssima conta. — Ela não deu sinal de ter ouvido ou de se importar em ouvir.

Por fim, com alguma consternação, disse: — Gostarias de comer alguma coisa, Laura? Pareces precisar. — Nenhuma resposta. Ele foi até à cozinha e abriu uma lata de sopa. Preparou o prato com bolachas e queijo e, como segunda opção, ostras fumadas, e serviu um copo de leite. A cada dois ou três minutos, interrompia a tarefa para ir à porta verificar como ela estava. Pensou que ela poderia desaparecer, como um fantasma. Mas ela não se mexeu. Parecia morta. Ela assustava-o.

Colocou a comida num tabuleiro, levou-a para a sala e sentou-se no sofá ao lado dela. Pôs a sopa e o leite na mesa de centro à frente dela e disse: — Acorda. Acorda, Laura. — Ela não se mexeu. Terry colocou uma ostra numa bolacha. — Aqui — disse ele, abanando-a um pouco. — Aqui, pelo amor de Deus, come. É a tua ostra.

Laura moveu-se e abriu os olhos, deu uma vista de olhos à ostra fumada e virou-se com uma careta. Terry ficou ofendido. — Então o que há de errado com ostras fumadas? — disse ele. — Toma. São tuas.

Ela olhou para ele então. Viu-o realmente. E depois sentou-se um pouco, esfregando os olhos. — Minhas? — repetiu debilmente.

— O Jack diz que tu as compraste. — Terry olhou para ela com olhos brilhantes, curioso agora. — Mais vale aproveitares.

Laura suspirou e depois viu a sopa. Terry entregou-lhe uma colher e ela comeu tudo sem pausas nem palavras. Pareceu dar-lhe força, trazê-la de volta à vida. — Não tenho comido — desculpou-se. — Não me lembro...

— Queres mais? — perguntou ele rapidamente.

— Não. Não, obrigada. Talvez mais tarde. — Ela olhou em volta do apartamento, o reconhecimento e a sensatez a regressarem ao seu rosto. — Onde está o Jack? — disse ela, e subitamente agarrou a manga de Terry. — Onde está o Jack? — Ela parecia assustada.

— Ele volta a qualquer momento — disse Terry.

Laura fixou-o então. — Oh, tu és o Terry — disse ela.

— Tu és a Laura. — Ele sorriu. — Eu vi-te primeiro.

Ela piscou os olhos para ele, incapaz de brincar. Muito séria, perguntou: — As ostras ajudaram?

— Ajudaram? — disse ele. — Ah. Referes-te ao Jack e a mim.

— Ele diz que tu as adoras.

Terry estudou-a, franzindo o sobrolho sobre o seu sorriso, e depois desviou o olhar, embaraçado. — Não tanto as ostras — disse ele. — Mas tu ajudaste, de uma forma indireta. Por te teres perdido.

— Fico contente — disse ela, confusa. — Ele ama-te terrivelmente. — Ela parecia não ter a noção de que aquilo o poderia surpreender ou ser a coisa errada a dizer. Não tinha força física para se censurar. Dizia as verdades necessárias e nada mais. Mas Terry foi profundamente afetado. Caminhou para o outro lado da sala e recusou-se a olhar para ela durante um tempo, deixando os seus sentimentos rodopiarem dentro dele. Quando olhou de volta, ela estava esticada no sofá, a dormir o sono da exaustão completa.

* * * * *

Laura acordou e encontrou Jack sentado na poltrona a bebericar cautelosamente uma chávena de café a fumegar. Os seus olhos mostravam-se acima do bordo da chávena, pesados, ansiosos e velhos. Ele baixou a chávena quando ela despertou, colocando-a na mesa de centro junto ao sofá e acendendo um cigarro.

— Está um dia agradável — disse ele com cautela.

Ela sentou-se a meio. — Que horas são?

— Sete e meia.

Laura deixou-se cair para trás e fechou os olhos. Descobriu um cobertor sobre si e os seus sapatos estavam no chão ao lado do sofá.

— Bem — disse Jack — vais dizer-me onde raio estiveste? Ou vou ter de perguntar?

Laura virou o rosto subitamente para o encosto do sofá e chorou. — Oh, Jack — lamentou-se. — Matei-o. Matei-o. Oh, Deus ajuda-me. — E começou a soluçar.

— Matei quem?

— O meu pai.

— O teu pai — disse ele com uma vivacidade amigável na voz — tem uma concussão de prémio. Mas está bem vivo.

Ela virou a cabeça lentamente para olhar para ele, os seus olhos enormes e o coração parado no peito. — Vivo? — A sua voz era um sussurro assustado. Sentou-se de repente e disse-o em voz alta. — Vivo? — Agarrou nos braços de Jack com a força do choque. — Como sabes? Como sabes? Diz-me depressa.

— Vou dizer, dá-me uma oportunidade. — Ele empurrou-a de volta para baixo e contou-lhe da sua ida ao McAlton. — Subi ao décimo quarto andar — disse ele. — Foi fácil. Havia muita gente parada fora do quarto dele e o ascensorista contou-me tudo. Aliás, ganhaste uma amiga a sério. Ele acha que és a maluca original.

— Mas o meu pai, Jack, o meu pai?

— Estava um médico com ele. Ele está bem, mãe.

Laura quase desmaiou e passaram-se alguns minutos até Jack a conseguir recuperar. Terry sentou-se no chão junto ao sofá, observando-a com interesse enquanto Jack lhe apoiava os pés em almofadas. — Melhor assim? — disse ele.

— Bati-lhe com tanta força — murmurou ela no momento em que conseguiu falar. — Tinha a certeza de que o tinha matado. Talvez ele tenha morrido da concussão. — Os seus olhos abriram-se de novo com medo e ela olhou para Jack, mas ele abanou a cabeça com um pequeno sorriso.

— Sem essa sorte — disse ele. — Falei com ele ontem à noite.

Ela ofegou. — O que disseste? Ele está bem? Disseste-lhe quem eras? — Os medos saíram em catadupa dela.

— Liguei-lhe pelo telefone da casa. Relaxa, Laura, estás entre amigos. Perguntei-lhe se sabia onde estavas. Ele disse que não.

— Que mais? — Laura agarrou-lhe os braços com mãos trémulas.

— Ele estava muito curioso sobre mim, naturalmente. Mas não lhe dei o meu nome nem o meu número de telefone. Agora acalma-te, queres? Estás a deixar-me nervoso.

— O que é que ele disse? — Ela estava a chorar de novo. — O quê? Diz-me!

— Ele tentou fazer-me falar, mas não lhe contei nada, exceto que eu era o teu melhor amigo. Finalmente, ele disse que tinha medo de te ter magoado. — Laura fechou os olhos e cobriu o rosto com um gemido. — Ele queria uma oportunidade para se explicar. Disse que, se eu te encontrasse, para lhe dizer logo. Ele tem uma agência a tentar localizar-te. Disse para te dizer que lamenta. — Jack olhou-a com curiosidade.

— Ele lamenta — repetiu ela, fixando-o. — Ele lamenta!

— Ele magoou-te, querida? — disse Jack suavemente.

Era demasiado enorme para descrever, demasiado tortuoso para explicar; a sua própria agonia privada. Nem sequer Jack poderia partilhá-la com ela. — Sim — sussurrou ela. — Ele magoou-me. — Ela olhou para Jack e ele pôde ver no seu rosto o quanto havia mais por trás daquilo do que as simples palavras lhe tinham dito.

Jack esmagou o cigarro com raiva. — Gostava de lhe poder partir a cabeça — disse ele.

— Não, não — disse Laura. — Pensei que o tinha matado. Nunca foi a minha intenção. Eu estava doente. Tenho estado tão doente, Jack, nem imaginas... Oh, graças a Deus que ele está vivo. Graças a Deus. Eu queria magoá-lo e consegui. Nunca quis nada mais. Apenas uma oportunidade para me vingar dele.

— O que raio aconteceu entre vocês os dois?

— Não consigo falar sobre isso.

— Podes falar comigo.

— Não. Não consigo. Nem com ninguém.

— Ele bateu-te?

Ela abanou a cabeça. — Não me peças, Jack — disse ela. — É a minha doença pessoal. E a dele. É entre nós, e ninguém mais.

Jack acendeu um cigarro, observando-a atentamente através do fumo azul. — Porque foste ter com ele em primeiro lugar? Não sabias que seria mau?

— Tive de o fazer — disse ela, o rosto tenso e intenso. — Passei a vida a fugir dele. Tive de parar de fugir e salvar-me. Tive de lhe dizer cara a cara o que sou.

As sobrancelhas de Jack uniram-se pesadamente. — Disseste-lhe que eras gay? — perguntou ele.

— Sim. Disse-lhe.

— O que é que ele fez?

Ela virou os seus olhos profundos, acentuados pela magreza do seu rosto, para Jack. — Ele magoou-me, Jack. E eu magoei-o. Mas acabou. Oh, meu Deus, estou tão grata por não o ter matado. Já alguma vez pensaste que tinhas matado alguém e tentaste continuar a viver com isso? Isso corrói-te, corrói-te o cérebro e o corpo, deixa-te doente, oh, tão horrivelmente doente. Oh, Jack... — E ele envolveu-a nos braços enquanto ela chorava e Terry os observava em silêncio.

— Esse bastardo — murmurou Jack, confortando-a. — Esse maldito bastardo. Acho que o odeio tanto quanto tu, querida.

— Não, não, eu não o odeio — sussurrou ela. — Já não consigo. Nunca mais odiarei. Agora compreendo, tanto. Nada fazia sentido antes, mas agora compreendo. Ele era mais fraco do que eu, Jack. — Ela falou com espanto. — Ele tinha mais medo de mim do que eu dele. — Era um sentimento estranho e novo que aquele conhecimento lhe dava. — Não sei bem o que sinto por ele agora. Acho que não saberei durante muito tempo. Mas ainda o amo. Sempre o amei, mesmo quando o odiava mais. Só espero que nunca mais nos encontremos. Suporto se nunca mais o tiver de ver.

* * * * *

Terry preparou-lhe o pequeno-almoço e ela comeu vorazmente. Descobriu que lhe tinham tirado a roupa molhada e vestido um roupão na noite anterior enquanto ela dormia. Ela puxou o roupão para perto de si enquanto Jack tentava fazê-la dizer onde tinha estado, mas ele obteve pouca satisfação.

— Não sei — era tudo o que ela dizia, e quando ele protestava, cético, ela virava-se para ele, com o rosto sincero, e dizia: — Não sei.

— Ahhh, não me digas — disse ele.

— Acho que apenas caminhei. Tudo parece um pesadelo. A primeira coisa de que me lembro depois de deixar o Pai é de comer uma taça de sopa. E depois adormeci.

— Não te lembras de mim? — disse Terry. — Tivemos uma pequena conversa agradável ontem à noite.

— Tivemos? — Ela estava surpreendida.

— Claro. — Ele sorriu e fez com que ela corasse de embaraço. — Contar-te-ei tudo sobre isso um dia. — Ele sorriu para Jack, que lhe deu um sorriso interrogativo.

— Então não sabes onde estavas? — insistiu ele com Laura.

— Juro, Jack.

— Bem, nós também não sabíamos — disse ele. — E quase perdemos a cabeça. Imaginámo-te... bem, não interessa o que imaginámos. Deixaste-nos em pânico, posso garantir-te.

Laura sorriu-lhe um pouco. — Jack — disse ela, e colocou uma mão no braço dele. — Tens sido tão bom para mim. Eu não te teria causado preocupação nenhuma, apenas... apenas... oh, meu Deus. Marcie! Esqueci-me da Marcie. E da Beebo. — Ela virou-se para ele, mas ele acalmou-a com um olhar, mantendo-a sentada na cadeira.

— Eu liguei-lhes — disse ele. — Liguei a toda a gente. Até ao Papá Landon. Disse-lhes que estavas bem, e é tudo. O teu pai não sabe onde estás.

Laura baixou a cabeça. — Jack, não tive oportunidade de te falar sobre a Marcie.

— Eu sei. Não precisas de me contar. A Marcie contou.

— A Marcie contou? — Ela olhou para cima, espantada.

— Não exatamente com essas palavras, mãe. Ela apenas disse que se tinham zangado, e eu percebi a ideia. Ela parece bastante infeliz com as coisas.

Laura cobriu o rosto, os cotovelos a descansar sobre a mesa. — Ela sabia, Jack. Ela sabia desde o início que eu era gay — sussurrou ela, desfeita. — Ela e o Burr fizeram uma aposta de que ela me conseguiria levar a dar-lhe uma cantada.

Após um longo silêncio, Jack apertou-lhe o braço e disse suavemente: — Tinhas de aprender. Agora sabes. Todos passamos por isso mais cedo ou mais tarde. — Ele olhou para Terry e encontrou o rapaz a olhar para ele, com os olhos cheios. Desviou o olhar, confuso, voltando a sua atenção para Laura. — Ela quer ver-te. Ela fala a sério.

— Eu sei. Mas não suportaria vê-la. Nem sequer falar com ela. Seria o inferno.

— Sei o que queres dizer. — Jack levantou-se e serviu para si outra chávena de café, deixando um centímetro na chávena para uma dose de uísque.

— Ainda nem são dez horas — repreendeu-o Terry.

— Cala-te e bebe o teu leite — disse Jack e sorriu para ele.

— É melhor ligar para o escritório — arriscou Laura baixinho.

— Eu fiz — disse-lhe Jack. — Estás despedida. Eles foram muito simpáticos a esse respeito, no entanto. O Dr. Hollingsworth quer que vás lá falar com ele. A Sarah explicou-me a situação. Parece que admiram a tua inteligência, mas acham que os teus nervos estão feitos em papa. Sugiro, Mãe, que consultes o meu analista.

— Não tenho dinheiro para isso.

— Nem eu. — Jack riu-se. — Vamos pôr o Terry a trabalhar — disse ele a Laura. — Está na hora de ele ganhar o seu sustento.

— A fazer o quê? — perguntou Terry.

— Não sei. Para que é que tu serves? Para alguma coisa?

— Sei cozinhar. — Terry sorriu.

— Ótimo. Conheço um restaurante de beira de estrada a dois quarteirões daqui.

— Ah, raios!

— Jack — disse Laura de repente. — A Beth sabe que eu estou bem?

— Beth? — Jack franziu o sobrolho para ela. — Queres dizer Beebo, querida.

— Quero dizer Beebo — disse Laura rapidamente, sentindo o rosto arder.

— Ela sabe.

— Disseste-lhe quando eu desapareci?

— Ela procurou-te por todo o Village. Estava preocupada.

— Achas que ela falaria comigo?

— Não.

— Oh, Jack. — Ela voltou-lhe um rosto infeliz, suplicando por uma oportunidade de ter esperança.

— Ela talvez te diga «adeus». Ou «vai para o inferno». Não esperes milagres.

— Acho que já não tenho direito à amizade dela. — Mas, de repente, aquilo parecia terrivelmente importante; a coisa mais importante do mundo.

— Não enquanto a confundires com a Beth.

— Oh, foi apenas um lapso de língua.

Jack levantou-se e começou a andar pela cozinha. Virou-se, apoiando o traseiro no balcão ao lado da banca, e pousou a sua chávena de café ao lado dele. — Laura — disse ele seriamente. — Tu apaixonaste-te por uma rapariga chamada Beth uma vez. Tu disseste-me isso. Depois, tu e a Beth separaram-se e a Beth casou-se com alguém e deixou a escola. E depois tu fugiste de casa. E vieste para Nova Iorque, e todas as mulheres que conheceste lembraram-te a Beth.

— Oh, não — começou Laura, mas ele levantou uma mão para a silenciar.

— Agora ouve-me, raio! Começo a perguntar-me se estavas a fugir do teu pai ou da Beth.

— Jack! — Laura levantou-se e ficou de frente para ele, com o temperamento a subir.

— A Marcie e a Beebo são tão parecidas como Laurel e Hardy. No entanto, ambas te lembram a Beth.

— Mas isso não significa—

— E tu caíste pelos dois. E não me digas que foram as únicas. — Os seus olhos eram difíceis de encarar. Laura olhou para baixo.

Ela abanou a cabeça. — Não — sussurrou ela, confusa, esfregando os olhos. — Não.

— A Beth deve ter sido uma rapariga fantástica, Mãe. Mas não podes continuar apaixonada por ela toda a tua vida. Mesmo que tenha sido a primeira. — O rosto de Laura corou.

— Não vou falar disto, Jack! — exclamou ela.

— Não tens de o fazer. Eu farei.

— É a minha vida privada.

— Tu arrastaste-me para ela. O que se passa, tens medo de me ouvir falar sobre isso?

Ela sentou-se, irritada. — Não — disse ela bruscamente. — Não tenho medo.

Jack deu um gole no seu café royale. — Ok — disse ele com uma voz pragmática. — Vou dizer-te uma coisa de que não vais gostar. Mas acho que deves saber. Tu nunca estiveste apaixonada pela Marcie, Laura.

Eles olharam um para o outro e, finalmente, Laura explodiu: — Estás louco! Pensei que compreendesses. Pensei que tu—tu, entre todas as pessoas—compreendesses o que eu sentia por ela!

— Eu compreendi.

— Não quero ouvir mais nada!

— Não duvido — disse ele. Ela levantou-se novamente e enfrentou-o, desafiante e magoada. — Tu amavas a Beth — disse ele, mais suavemente. — Tu amavas o amor. Isso notava-se em tudo o que me dizias, quando nos conhecemos. Precisavas de amor e foste à procura dele. Foste à procura de outra Beth. Estavas destinada a encontrá-la. Encontraste-a em todos os rostos femininos que te atraíram.

— Laura — disse Jack lentamente. — A Marcie não se parece com a Beth. A Beebo também não. Ninguém se parece com a Beth, exceto a Beth. E a Beth foi-se embora. Já não é tua. Ela pertence a um homem.

Laura cobriu o rosto de repente com um gemido. — Jack, não! Por favor — choramingou ela. Então, reunindo a sua raiva, disse: — Elas parecem-se com ela! Juro que parecem!

Jack abanou a cabeça. — Elas apenas pareciam amor, Mãe.

Laura soltou um pequeno soluço. — Jack, não me tortures.

— Sabes por que o estou a fazer. Sabes que não quero magoar-te. Agora ouve-me, Laura. Não podes continuar apaixonada pela Beth toda a tua vida.

Laura baixou as mãos e olhou para ele novamente. — Jack, tu não sabes o quão maravilhosa ela era. Nunca a conheceste, não podes falar dela. Ela era tão bonita, era tão boa para mim. Ela fez-me entender o que eu era, quando eu era tão ignorante e estava tão assustada que não acreditarias! E ela fez-me entender sem me magoar. Ela tornou tudo bonito. Devo-lhe tanto. Eu amava-a tanto.

— Mas ela é casada, Laura. Tu própria disseste-me isso. Nunca mais a verás. Independentemente de quão boa ela era.

— Ela nunca me magoou! — explodiu Laura. — A Marcie magoou-me, a Beebo magoou-me, mas a Beth nunca.

— Oh, tretas! — disse Jack. — Nunca te magoou, raio! Ela deixou-te, não deixou! Ela dormiu com um tipo e casou-se com ele. O que queres, Mãe, um romance garantido, à prova de acidentes e forrado a seda? Bom para seis meses, com muitas emoções e sem dor? Ou o teu dinheiro de volta? Não é assim que a vida funciona. Pergunta a qualquer um. Pergunta-me a mim. Pergunta ao Terry. — E depois o seu rosto suavizou-se. — Ela foi-se, Laura — disse ele calmamente, de forma significativa. — E não podes voltar para a Marcie.

Laura sentou-se e deixou as lágrimas rolarem pelo rosto, e a sua boca tremia. — E não posso voltar para a Beebo — sussurrou ela.

Jack caminhou até ela e apoiou-se na mesa, com um braço de cada lado dela. Encostou a cabeça à dela e disse ao ouvido, quase num sussurro: — A Beebo ama-te, querida. Ela não é a Beth. Nem a Marcie. Ela é ela mesma, e pelo que sabes, isso pode ser ainda melhor.

Laura cobriu o rosto então e chorou.

Quinze minutos depois, Jack, que tinha ido ao quarto vestir-se, voltou à cozinha e disse: — Vou para o escritório passar o resto do dia. Alguém tem de pagar a renda. — Ele olhou para Terry com um sorriso irónico.

Laura olhou para cima rapidamente. — Tenho de falar com ela, Jack. Onde a posso encontrar?

— A Beebo? Ela está a trabalhar. Fica por aqui até eu chegar a casa, Mãe. Dorme. Tens um aspeto horrível. Pede ao Terry para te ler uma história ou algo do género. Podes vê-la esta noite.

— Obrigada. — Ela olhou para ele com os olhos molhados e depois sorriu. — Obrigada, Jack. Por tudo.

Ele sorriu. — São aquelas ostras malditas — disse ele. — Sou um homem novo. — Piscou o olho a Terry e saiu.

Capítulo Dezassete

O The Cellar não estava muito cheio quando Laura entrou às oito horas. Perto das nove, quando Beebo chegou, o local já estava um pouco mais composto e a jukebox estava a tocar. Dutton, o desenhador, estava a ganhar uns trocos com os turistas. Havia uma mesa cheia deles num canto para a qual ele estava a trabalhar. Beebo sentou-se ao balcão e começou a brincar com o empregado de bar. Ela não viu Laura, e o coração de Laura batia tão forte no peito que ela tinha medo de se aproximar de Beebo. Não sabia o que dizer. Estava enjoada de medo de uma rejeição e hesitava, a suar. Merecia uma resposta negativa, mas tinha medo de não a conseguir aguentar.

Observou Beebo durante algum tempo, com o rosto ligeiramente à sombra ao afastar-se das luzes do balcão. Deixou que as cabeças das pessoas ao lado dela servissem de cobertura, atrás da qual se podia esconder quando Beebo olhasse na sua direção.

Durante algum tempo, foi torturante ver Beebo a conversar com outras mulheres; raparigas jovens e bonitas, como as duas estudantes que Laura tinha conhecido com ela uma noite.

* * * * *

Beebo estava cansada. Bebeu dois copos e tencionava ir para casa. Mas foi detida por um rapaz que geria uma loja de antiguidades a um quarteirão do seu apartamento, que era um amigo. Falaram de nada em particular, apenas felizes por conversar com alguém durante algum tempo. Beebo ficou ligeiramente surpreendida quando Dutton se aproximou e lhe entregou uma das suas folhas de papel de desenho. Beebo aceitou-a com um sorriso irónico. — Eu sabia que acabarias por chegar a mim mais cedo ou mais tarde, Dutton — disse ela. — Faço parte da decoração deste tasco. Deixa lá ver. — Ela estudou a caricatura. — Odeio admitir, mas está boa. O meu queixo sobressai assim tanto?

Dutton sorriu. — Podes acreditar — disse ele.

Beebo olhou para ele. — Não penses que vais sacar um dólar por isto, pois não? — disse ela, agitando o papel debaixo do nariz dele.

— Já recebi o meu dólar, amiga — disse Dutton, segurando uma nota dobrada entre o polegar e o indicador. Ele sorriu e empurrou o esboço de volta para ela. — É teu — disse ele. — Fica com ele.

Beebo estudou-o por um momento, franzindo o sobrolho, e depois olhou para um lado e para o outro do balcão.

— Se não gostas — disse Laura suavemente ao seu ouvido — rasga-o. Não me posso queixar.

Beebo virou-se no banco do bar para encontrar Laura de pé, logo atrás dela. Eles olharam uma para a outra em silêncio por um momento. Depois, Beebo rasgou o esboço uma vez pelo comprimento e outra pela largura, ainda a observar Laura. E deixou cair os pedaços no chão. Laura olhou para ela, a tremer. Beebo virou-se novamente para o balcão e terminou a bebida num só gole. Depois disse ao rapaz ao lado dela: — Vemo-nos, Daisy. — E levantou-se e saiu do bar.

Por um momento, Laura pensou que morreria ali mesmo onde estava. E depois seguiu Beebo, caminhando seis metros atrás dela, com o coração a trabalhar arduamente e a deixá-la um pouco ofegante. Beebo caminhou noite fora, e Laura seguiu-a, aproximando-se um pouco mais, até ficar a cerca de um metro e meio atrás dela. Beebo continuou a andar, lentamente, sem olhar para trás, sem apressar o passo. Caminharam durante dois quarteirões inteiros assim, e atravessaram a rua para um terceiro.

E então Beebo parou. Assustada e receosa, Laura parou onde estava, no passeio, com o candeeiro da rua a iluminar o seu cabelo louro prateado e a deixar o seu rosto na sombra.

Lentamente, Beebo virou-se. Olhou para Laura. Deixou cair o cigarro que tinha na mão e esmagou-o com o calcanhar. Durante alguns momentos, ficaram apenas ali, a olhar uma para a outra. Um homem passou, e depois um casal. Depois a rua ficou vazia.

Finalmente, Laura disse, num sussurro que chegou claramente ao coração de Beebo: — Amo-te, Beebo. Querida, eu amo-te.

Beebo caminhou até ela, ainda movendo-se muito lentamente, até ficarem juntas na poça de luz, a apenas centímetros uma da outra. O início de um sorriso surgiu no seu rosto.

— Pequena vadia — disse ela suavemente. — Laura... Laura... — Ela inclinou-se então, levantando o rosto de Laura para o seu. — Já não te consigo odiar — disse ela. — Desisti. Não resta nada a não ser o amor. — E beijou-a. Os seus braços envolveram-se subitamente, com força, e ficaram ali sob a luz do candeeiro, a beijar-se.

Depois, viraram-se e caminharam noite dentro em direção à Cordelia Street.

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