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Lady Audley's Secret

by M. E. (Mary Elizabeth) Braddon · in Portuguese

O SEGREDO DE LADY AUDLEY

Por Mary Elizabeth Braddon

CAPÍTULO I.

LUCY.

Ficava num vale, rico em madeiras nobres e pastagens luxuriantes; chegava-se até ele por uma alameda de tílias, ladeada de ambos os lados por prados, sobre cujas sebes altas o gado olhava inquisitivamente para quem passava, imaginando, talvez, o que a pessoa queria; pois não havia caminho de passagem e, a menos que estivesse indo para o Court, não se tinha negócio algum ali.

No final dessa alameda havia um arco antigo e uma torre de relógio, com um relógio estúpido e desconcertante, que tinha apenas um ponteiro — e que saltava diretamente de uma hora para a outra — e era, portanto, sempre extremado. Através desse arco, caminhava-se diretamente para os jardins de Audley Court.

Um gramado liso estendia-se diante de você, salpicado de grupos de rododendros, que cresciam com mais perfeição ali do que em qualquer outro lugar do condado. À direita, ficavam as hortas, o viveiro de peixes e um pomar delimitado por um fosso seco e uma ruína quebrada de um muro, em alguns lugares mais espesso do que alto, e por toda parte coberto por hera rasteira, sedum amarelo e musgo escuro. À esquerda, havia um largo caminho cascalhado por onde, anos atrás, quando o lugar fora um convento, as freiras silenciosas caminhavam de mãos dadas; um muro margeado por espaldeiras e sombreado de um lado por belos carvalhos, que barravam a paisagem plana e cercavam a casa e os jardins com um abrigo sombrio.

A casa voltava-se para o arco e ocupava três lados de um quadrilátero. Era muito antiga, muito irregular e labiríntica. As janelas eram desiguais; algumas pequenas, outras grandes, algumas com pesadas colunas de pedra e vitrais ricos; outras com treliças frágeis que chacoalhavam a cada brisa; outras tão modernas que poderiam ter sido adicionadas apenas ontem. Grandes pilhas de chaminés erguiam-se aqui e ali atrás dos telhados pontiagudos e pareciam estar tão arruinadas pela idade e pelo longo serviço que teriam caído, não fosse a hera que, rastejando pelas paredes e estendendo-se até o telhado, enrolava-se nelas e as sustentava. A porta principal era espremida em um canto de uma torre em um dos ângulos do edifício, como se estivesse escondida de visitantes perigosos e desejasse manter-se em segredo — uma porta nobre, apesar disso — de carvalho antigo, cravejada com grandes pregos de ferro de cabeça quadrada, e tão espessa que o aldravão de ferro batia nela com um som abafado, e o visitante tocava um sino estridente que pendia em um canto entre a hera, para que o ruído da batida nunca penetrasse na fortaleza.

Um lugar glorioso e antigo. Um lugar com o qual os visitantes ficavam arrebatados; sentindo um desejo profundo de terminar com a vida e ficar ali para sempre, contemplando os viveiros de peixes frescos e contando as bolhas à medida que os peixes subiam à superfície da água. Um local no qual a paz parecia ter feito morada, colocando sua mão suave sobre cada árvore e flor, sobre os lagos imóveis e as alamedas silenciosas, os cantos sombreados dos cômodos antiquados, os profundos assentos das janelas atrás do vidro pintado, os prados baixos e as alamedas imponentes — sim, até mesmo sobre o poço estagnado, que, frio e abrigado como tudo no lugar antigo, escondia-se em um arbusto atrás dos jardins, com uma manivela ociosa que nunca era girada e uma corda preguiçosa tão podre que o balde havia se soltado dela e caído na água.

Um lugar nobre; por dentro e por fora, um lugar nobre — uma casa na qual você se perdia incontinenti se fosse imprudente o suficiente para tentar penetrar em seus mistérios sozinho; uma casa na qual nenhum cômodo tinha qualquer simpatia por outro, cada câmara saindo pela tangente para uma câmara interna e, através desta, descendo por alguma escadaria estreita que levava a uma porta que, por sua vez, levava de volta àquela mesma parte da casa da qual você achava estar mais distante; uma casa que nunca poderia ter sido planejada por qualquer arquiteto mortal, mas que deve ter sido obra daquele bom e velho construtor, o Tempo, que, adicionando um quarto em um ano e derrubando outro em outro ano, derrubando uma chaminé contemporânea aos Plantagenetas e erguendo uma no estilo dos Tudor; sacudindo um pedaço de muro saxão, permitindo que um arco normando permanecesse aqui; lançando uma fileira de janelas altas e estreitas no reinado da Rainha Ana, e juntando uma sala de jantar à moda do tempo do George I de Hanôver a um refeitório que estava lá desde a Conquista, havia conseguido, em cerca de onze séculos, erguer tal mansão como não se encontrava em nenhum outro lugar em todo o condado de Essex. É claro que, em tal casa, havia câmaras secretas; a filhinha do atual proprietário, Sir Michael Audley, havia caído por acidente na descoberta de uma. Uma tábua chacoalhara sob seus pés no grande berçário onde ela brincava, e, ao chamar a atenção para isso, descobriu-se que estava solta e, assim removida, revelou uma escada que levava a um esconderijo entre o assoalho do berçário e o teto do cômodo abaixo — um esconderijo tão pequeno que quem ali se escondesse teria de ficar agachado de mãos e joelhos ou deitado de corpo inteiro, e ainda assim grande o suficiente para conter um curioso e antigo baú de carvalho esculpido, meio cheio de vestes sacerdotais, que tinham sido escondidas, sem dúvida, naqueles dias cruéis em que a vida de um homem estava em perigo se fosse descoberto que ele abrigara um padre católico romano ou que a missa fosse dita em sua casa.

O largo fosso externo estava seco e coberto de grama, e as árvores carregadas do pomar pendiam sobre ele com galhos retorcidos e esparsos que desenhavam sombras fantásticas na encosta verde. Dentro deste fosso havia, como eu disse, o viveiro de peixes — uma lâmina de água que se estendia por todo o comprimento do jardim e margeando a qual havia uma alameda chamada alameda das tílias; uma alameda tão sombreada do sol e do céu, tão protegida da observação pelo espesso abrigo das árvores que se arqueavam, que parecia um lugar escolhido para encontros secretos ou entrevistas furtivas; um lugar no qual uma conspiração poderia ter sido planejada ou o voto de um amante registrado com igual segurança; e, no entanto, ficava a menos de vinte passos da casa.

No final dessa arcada escura ficava o arbusto, onde, meio enterrada entre os galhos emaranhados e as ervas daninhas negligenciadas, estava a roda enferrujada daquele velho poço de que falei. Tinha prestado bom serviço em seu tempo, sem dúvida; e freiras ocupadas talvez tenham tirado a água fresca com suas próprias mãos justas; mas caíra em desuso agora, e quase ninguém em Audley Court sabia se a nascente havia secado ou não. Mas, por mais abrigada que fosse a solidão desta alameda das tílias, duvido muito que ela tenha sido usada para fins românticos. Frequentemente, na frescura da noite, Sir Michael Audley passeava para cima e para baixo fumando seu charuto, com seus cães em seus calcanhares e sua linda e jovem esposa caminhando lentamente ao seu lado; mas, em cerca de dez minutos, o barão e sua companheira cansavam-se das tílias farfalhantes e da água imóvel, escondida sob as folhas espalhadas dos nenúfares, e da longa vista verde com o poço quebrado no final, e voltavam para a sala de estar, onde minha lady tocava melodias sonhadoras de Beethoven e Mendelssohn até que seu marido adormecesse em sua poltrona.

Sir Michael Audley tinha cinquenta e seis anos de idade e casara-se com uma segunda esposa três meses após seu quinquagésimo quinto aniversário. Era um homem grande, alto e corpulento, com uma voz profunda e sonora, belos olhos negros e uma barba branca — uma barba branca que o fazia parecer venerável contra sua vontade, pois ele era tão ativo quanto um rapaz e um dos cavaleiros mais árduos do condado. Por dezessete anos ele fora viúvo com uma única filha, Alicia Audley, agora com dezoito anos, e de forma alguma muito satisfeita por ter uma madrasta trazida para o Court; pois a senhorita Alicia reinara suprema na casa de seu pai desde a mais tenra infância, e carregara as chaves, e as fizera tilintar nos bolsos de seus aventais de seda, e as perdera no arbusto, e as deixara cair no lago, e dera todo tipo de trabalho por causa delas desde a hora em que entrou na adolescência, e, por isso, iludira-se com a crença sincera de que, durante todo aquele período, ela estivera cuidando da casa.

Mas o dia da senhorita Alicia chegara ao fim; e agora, quando ela pedia qualquer coisa à governanta, a governanta lhe dizia que falaria com minha lady, ou que consultaria minha lady, e se minha lady desejasse, seria feito. Então, a filha do barão, que era uma excelente amazona e uma artista muito talentosa, passava a maior parte do tempo ao ar livre, cavalgando pelas estradas verdes e esboçando as crianças dos casebres, os rapazes do arado, o gado e todo tipo de vida animal que aparecia em seu caminho. Ela se voltou com uma determinação emburrada contra qualquer intimidade entre si mesma e a jovem esposa do barão; e, por mais amável que aquela lady fosse, ela achava impossível superar os preconceitos e a aversão da senhorita Alicia, ou convencer a garota mimada de que não lhe causara uma injúria cruel ao se casar com Sir Michael Audley. A verdade era que Lady Audley, ao se tornar esposa de Sir Michael, fizera um daqueles casamentos aparentemente vantajosos que tendem a atrair sobre uma mulher a inveja e o ódio de seu sexo. Ela chegara à vizinhança como governanta na família de um cirurgião na aldeia perto de Audley Court. Ninguém sabia nada sobre ela, exceto que viera em resposta a um anúncio que o Sr. Dawson, o cirurgião, inserira no The Times. Ela vinha de Londres; e a única referência que deu foi a uma lady em uma escola em Brompton, onde ela fora professora. Mas essa referência foi tão satisfatória que nenhuma outra foi necessária, e a senhorita Lucy Graham foi recebida pelo cirurgião como instrutora de suas filhas. Suas realizações eram tão brilhantes e numerosas que parecia estranho que ela tivesse respondido a um anúncio oferecendo termos de remuneração tão moderados quanto os mencionados pelo Sr. Dawson; mas a senhorita Graham parecia perfeitamente satisfeita com sua situação, e ela ensinava as garotas a tocar sonatas de Beethoven, e a pintar da natureza segundo Creswick, e caminhava por uma aldeia monótona e remota até a humilde igrejinha, três vezes todo domingo, tão contente como se não tivesse aspiração maior no mundo do que fazer isso pelo resto de sua vida.

As pessoas que observavam isso justificavam dizendo que era parte de sua natureza amável e gentil ser sempre alegre, feliz e contente sob quaisquer circunstâncias.

Onde quer que fosse, parecia levar alegria e brilho consigo. Nos casebres dos pobres, seu rosto claro brilhava como um raio de sol. Ela sentava-se por um quarto de hora conversando com alguma velha, e aparentemente tão satisfeita com a admiração de uma anciã desdentada como se estivesse ouvindo os elogios de um marquês; e quando ela saía saltitando, não deixando nada para trás (pois seu salário pobre não dava margem à sua benevolência), a velha irrompia em arrebatamentos senis com sua graça, beleza e bondade, tais que nunca dedicara à esposa do vigário, que a alimentava e vestia pela metade. Pois veja, a senhorita Lucy Graham era abençoada com aquele poder mágico de fascinação, pelo qual uma mulher pode encantar com uma palavra ou inebriar com um sorriso. Todos a amavam, admiravam e elogiavam. O menino que abria a porteira de cinco barras que ficava em seu caminho corria para casa para contar à mãe sobre sua aparência bonita e a voz doce com que ela lhe agradecia pelo pequeno serviço. O sacristão da igreja, que a conduzia ao banco do cirurgião; o vigário, que via os suaves olhos azuis voltados para seu rosto enquanto ele pregava seu sermão simples; o carregador da estação ferroviária, que às vezes lhe trazia uma carta ou um pacote, e que nunca esperava recompensa dela; seu empregador; seus visitantes; seus alunos; os criados; todos, altos e baixos, uniam-se em declarar que Lucy Graham era a garota mais doce que já vivera.

Talvez tenha sido o rumor disso que penetrou no aposento silencioso de Audley Court; ou, talvez, tenha sido a visão de seu rosto bonito, olhando sobre o banco alto do cirurgião todas as manhãs de domingo; fosse como fosse, era certo que Sir Michael Audley experimentou subitamente um forte desejo de conhecer melhor a governanta do Sr. Dawson.

Ele só precisou dar uma dica de seu desejo ao digno médico para que uma pequena festa fosse organizada, para a qual o vigário e sua esposa, e o barão e sua filha, foram convidados.

Aquela única noite silenciosa selou o destino de Sir Michael. Ele não podia mais resistir à terna fascinação daqueles olhos azuis, suaves e derretidos; à beleza graciosa daquele pescoço esguio e da cabeça pendente, com sua riqueza de cachos loiros em cascata; à música baixa daquela voz gentil; à harmonia perfeita que permeava cada encanto e tornava tudo duplamente encantador nesta mulher; do que ele poderia resistir ao seu destino! Destino! Ora, ela era seu destino! Ele nunca amara antes. O que fora seu casamento com a mãe de Alicia senão um negócio monótono e rotineiro feito para manter alguma propriedade na família que teria ficado tão bem fora dela? O que fora seu amor por sua primeira esposa senão uma faísca pobre, lastimável e latente, muito opaca para ser extinta, muito fraca para queimar? Mas isto era amor — esta febre, este desejo, esta hesitação inquieta, incerta e miserável; estes medos cruéis de que sua idade fosse uma barreira intransponível para sua felicidade; este ódio doentio de sua barba branca; este desejo frenético de ser jovem novamente, com cabelos pretos reluzentes e uma cintura fina, como ele tinha vinte anos antes; estas noites sem dormir e dias melancólicos, tão gloriosamente iluminados se ele, por acaso, visse um vislumbre de seu rosto doce atrás das cortinas da janela, enquanto passava de carruagem pela casa do cirurgião; todos esses sinais davam provas da verdade e diziam, de forma muito clara, que, na sóbria idade de cinquenta e cinco anos, Sir Michael Audley adoecera da terrível febre chamada amor.

Não creio que, durante todo o seu cortejo, o barão tenha calculado sua riqueza ou sua posição como razões para seu sucesso. Se ele alguma vez se lembrou dessas coisas, ele dispensou o pensamento delas com um arrepio. Doía-lhe demais acreditar, por um momento, que alguém tão adorável e inocente pudesse valorizar-se em troca de uma casa esplêndida ou de um bom título antigo. Não; sua esperança era que, como sua vida tinha sido, muito provavelmente, uma vida de trabalho e dependência, e como ela era muito jovem — ninguém sabia exatamente sua idade, mas ela parecia ter pouco mais de vinte anos —, ela poderia nunca ter formado qualquer apego, e que ele, sendo o primeiro a cortejá-la, pudesse, por atenções ternas, por vigilância generosa, por um amor que devesse lembrar-lhe o pai que perdera, e por um cuidado protetor que o tornasse necessário para ela, ganhar seu jovem coração e obter dela, de seu amor fresco e primeiro, a promessa de sua mão. Era um devaneio muito romântico, sem dúvida; mas, apesar disso, parecia estar em um caminho muito bom para se realizar. Lucy Graham parecia não desgostar de forma alguma das atenções do barão. Não havia absolutamente nada em sua maneira que traísse os artifícios superficiais empregados por uma mulher que deseja cativar um homem rico. Ela estava tão acostumada à admiração de todos, altos e baixos, que a conduta de Sir Michael causava muito pouca impressão nela. Novamente, ele fora viúvo por tantos anos que as pessoas tinham abandonado a ideia de ele se casar novamente. Finalmente, no entanto, a Sra. Dawson falou com a governanta sobre o assunto. A esposa do cirurgião estava sentada na sala de aula ocupada com seu trabalho, enquanto Lucy dava os retoques finais em alguns esboços em aquarela feitos por suas alunas.

"Sabe, minha querida senhorita Graham", disse a Sra. Dawson, "acho que você deveria se considerar uma garota notavelmente sortuda."

A governanta levantou a cabeça de sua atitude curvada e olhou maravilhadamente para sua empregadora, sacudindo uma chuva de cachos. Eram os cachos mais maravilhosos do mundo — macios e plumosos, sempre flutuando longe de seu rosto e criando um halo pálido ao redor de sua cabeça quando a luz do sol brilhava através deles.

"O que quer dizer, minha querida Sra. Dawson?" perguntou ela, mergulhando seu pincel de pelo de camelo na água-marinha úmida sobre a paleta e equilibrando-o cuidadosamente antes de colocar o delicado traço de púrpura que deveria iluminar o horizonte no esboço de sua aluna.

"Bem, quero dizer, minha querida, que só depende de você se tornar Lady Audley e a dona de Audley Court."

Lucy Graham deixou cair o pincel sobre o quadro e corou escarlate até a raiz de seus cabelos claros; e então ficou pálida novamente, muito mais pálida do que a Sra. Dawson a vira antes.

"Minha querida, não se agite", disse a esposa do cirurgião, de forma apaziguadora; "você sabe que ninguém lhe pede para se casar com Sir Michael, a menos que você deseje. É claro que seria um casamento magnífico; ele tem uma renda esplêndida e é um dos homens mais generosos. Sua posição seria muito alta e você seria capaz de fazer muito bem; mas, como eu disse antes, você deve ser inteiramente guiada por seus próprios sentimentos. Apenas uma coisa devo dizer, e é que, se as atenções de Sir Michael não são agradáveis para você, é realmente pouco honroso encorajá-lo."

"Suas atenções — encorajá-lo!" murmurou Lucy, como se as palavras a desconcertassem. "Por favor, por favor, não fale comigo, Sra. Dawson. Não tinha ideia disso. É a última coisa que me teria ocorrido." Ela apoiou os cotovelos sobre a prancheta de desenho à sua frente e, cruzando as mãos sobre o rosto, pareceu, por alguns minutos, estar pensando profundamente. Ela usava uma fita preta estreita ao redor do pescoço, com um medalhão, ou uma cruz, ou uma miniatura, talvez, presa a ela; mas, seja o que fosse o adereço, ela sempre o mantinha escondido sob seu vestido. Uma ou duas vezes, enquanto sentava-se silenciosamente pensando, ela removeu uma de suas mãos de diante de seu rosto e mexeu nervosamente com a fita, agarrando-a com um gesto meio irritado e torcendo-a para frente e para trás entre os dedos.

"Acho que algumas pessoas nascem para serem azaradas, Sra. Dawson", disse ela, depois de um tempo; "seria uma sorte grande demais para mim me tornar Lady Audley."

Ela disse isso com tanta amargura em seu tom que a esposa do cirurgião olhou para ela com surpresa.

"Você azarada, minha querida!" exclamou ela. "Acho que você é a última pessoa que deveria falar assim — você, uma criatura tão brilhante e feliz, que faz bem a todos vê-la. Tenho certeza de que não sei o que faremos se Sir Michael nos roubar você."

Após essa conversa, elas frequentemente falavam sobre o assunto, e Lucy nunca mais demonstrou qualquer emoção quando a admiração do barão por ela era discutida. Era uma coisa tacitamente entendida na família do cirurgião que, sempre que Sir Michael a pedisse em casamento, a governanta aceitá-lo-ia silenciosamente; e, de fato, os simples Dawsons teriam considerado algo mais do que loucura uma garota sem um tostão rejeitar tal oferta.

Então, numa noite enevoada de agosto, Sir Michael, sentado em frente a Lucy Graham, junto a uma janela na pequena sala de visitas do cirurgião, aproveitou a oportunidade, enquanto a família por algum acaso estava ausente da sala, para falar sobre o assunto que lhe era mais caro ao coração. Ele fez à governanta, em poucas, mas solenes palavras, uma oferta de sua mão. Havia algo quase comovente na maneira e no tom com que ele lhe falou — meio em tom de desculpa, sabendo que dificilmente poderia esperar ser a escolha de uma bela jovem, e suplicando mais que ela o rejeitasse, ainda que partisse seu coração ao fazê-lo, do que que ela aceitasse sua oferta se não o amasse.

"Dificilmente creio que exista pecado maior, Lucy", disse ele, solenemente, "do que o de uma mulher que se casa com um homem a quem não ama. Você é tão preciosa para mim, minha amada, que por mais que meu coração esteja voltado para isto, e por mais amargo que seja o simples pensamento de uma decepção para mim, eu não gostaria que você cometesse tal pecado por qualquer felicidade minha. Se minha felicidade pudesse ser alcançada por tal ato, o que não poderia — o que nunca poderia", repetiu ele, com fervor — "nada além de miséria pode resultar de um casamento ditado por qualquer motivo que não a verdade e o amor."

Lucy Graham não estava olhando para Sir Michael, mas diretamente para o crepúsculo enevoado e para a paisagem indistinta lá longe, para além do pequeno jardim. O barão tentou ver seu rosto, mas o perfil dela estava voltado para ele, e ele não pôde descobrir a expressão de seus olhos. Se pudesse tê-lo feito, teria visto um olhar anelante que parecia querer perfurar a obscuridade distante e olhar para longe — para longe, para outro mundo.

"Lucy, você me ouviu?"

"Sim", disse ela, gravemente; não com frieza, ou de qualquer modo como se estivesse ofendida com as suas palavras.

"E sua resposta?"

Ela não desviou o olhar da paisagem que escurecia, mas por alguns momentos ficou completamente em silêncio; então, voltando-se para ele, com uma paixão súbita em seu modo de agir, que iluminou seu rosto com uma beleza nova e maravilhosa que o barão percebeu mesmo no crepúsculo crescente, ela caiu de joelhos aos seus pés.

"Não, Lucy; não, não!", exclamou ele, veementemente, "não aqui, não aqui!"

"Sim, aqui, aqui", disse ela, a estranha paixão que a agitava fazendo sua voz soar aguda e penetrante — não alta, mas sobrenaturalmente distinta; "aqui e em nenhum outro lugar. Quão bom você é — quão nobre e quão generoso! Amar você! Ora, existem mulheres cem vezes superiores a mim em beleza e em bondade que poderiam amá-lo profundamente; mas você pede demais de mim! Lembre-se de como tem sido minha vida; apenas lembre-se disso! Desde minha infância nunca vi nada além de pobreza. Meu pai era um cavalheiro: inteligente, talentoso, bonito — mas pobre — e que miserável infeliz a pobreza fez dele! Minha mãe... Mas não me deixe falar dela. Pobreza — pobreza, provações, inquietações, humilhações, privações. Você não pode saber; você, que está entre aqueles para quem a vida é tão suave e fácil, você nunca poderá adivinhar o que é suportado por pessoas como nós. Não peça demais de mim, então. Não posso ser desinteressada; não posso ser cega para as vantagens de tal aliança. Não posso, não posso!"

Além de sua agitação e sua paixão veemente, há algo indefinido em seu modo de agir que enche o barão com um vago alarme. Ela ainda está no chão aos pés dele, agachada em vez de ajoelhada, seu vestido branco fino agarrado ao corpo, seus cabelos claros caindo sobre os ombros, seus grandes olhos azuis brilhando na penumbra, e suas mãos agarradas à fita preta em volta do pescoço, como se estivesse a estrangulá-la. "Não peça demais de mim", ela repetia; "tenho sido egoísta desde a minha infância."

"Lucy — Lucy, fale claramente. Você não gosta de mim?"

"Não gostar de você? Não — não!"

"Mas existe mais alguém a quem você ame?"

Ela riu alto com a pergunta dele. "Eu não amo ninguém no mundo", respondeu ela.

Ele ficou satisfeito com a resposta dela; e, no entanto, isso e a risada estranha feriram seus sentimentos. Ele ficou em silêncio por alguns momentos, e então disse, com uma espécie de esforço:

"Bem, Lucy, não pedirei demais de você. Suponho que sou um velho tolo e romântico; mas se você não desgosta de mim, e se você não ama mais ninguém, não vejo motivo para não sermos um casal muito feliz. É um trato, Lucy?"

"Sim."

O barão ergueu-a nos braços e beijou-a uma vez na testa, então, dando-lhe um boa-noite calmamente, ele saiu direto da casa.

Ele saiu direto da casa, este velho tolo, porque havia uma forte emoção em seu peito — nem alegria nem triunfo, mas algo quase próximo da decepção — algum desejo reprimido e insatisfeito que pesava, pesado e monótono em seu coração, como se ele carregasse um cadáver em seu peito. Ele carregava o cadáver daquela esperança que morrera ao som das palavras de Lucy. Todas as dúvidas, medos e aspirações tímidas haviam terminado agora. Ele teria de se contentar, como outros homens de sua idade, em ser casado por sua fortuna e sua posição.

Lucy Graham subiu lentamente as escadas para seu pequeno quarto no topo da casa. Ela colocou sua vela fraca sobre a cômoda e sentou-se na borda da cama branca, imóvel e branca como as cortinas que pendiam ao seu redor.

"Chega de dependência, chega de labuta, chega de humilhações", disse ela; "cada vestígio da vida antiga derretido — cada pista de identidade enterrada e esquecida — exceto estes, exceto estes."

Ela nunca havia retirado a mão esquerda da fita preta em seu pescoço. Ela a puxou de seu peito, enquanto falava, e olhou para o objeto preso a ela.

Não era um medalhão, uma miniatura, nem uma cruz; era um anel envolto em um pedaço de papel retangular — o papel parcialmente escrito, parcialmente impresso, amarelo com a idade e amassado de tanto ser dobrado.

CAPÍTULO II.

A BORDO DO ARGUS.

Ele jogou a ponta de seu charuto na água e, apoiando os cotovelos nas amuradas, encarou meditativamente as ondas.

"Como são cansativas", disse ele; "azuis e verdes, e opalas; opalas, e azuis, e verdes; tudo muito bem à sua maneira, é claro, mas três meses delas são um pouco demais, especialmente —"

Ele não tentou terminar a frase; seus pensamentos pareciam vagar bem no meio dela e levá-lo a mil milhas ou mais de distância.

"Pobre garotinha, como ela ficará satisfeita!", murmurou ele, abrindo sua cigarreira, examinando preguiçosamente seu conteúdo; "como ficará satisfeita e surpresa? Pobre garotinha. Depois de três anos e meio, ainda por cima; ela ficará surpresa."

Ele era um jovem de cerca de vinte e cinco anos, com o rosto escuro bronzeado pela exposição ao sol; tinha belos olhos castanhos, com um sorriso preguiçoso neles que brilhava através dos cílios negros, e uma barba e bigode espessos que cobriam toda a parte inferior de seu rosto. Ele era alto e de constituição robusta; vestia um terno cinza folgado e um chapéu de feltro, jogado descuidadamente sobre seus cabelos pretos. Seu nome era George Talboys, e ele era passageiro da cabine de popa a bordo do bom navio Argus, carregado com lã australiana e navegando de Sydney para Liverpool.

Havia poucos passageiros na cabine de popa do Argus. Um classificador de lã idoso retornando à sua terra natal com sua esposa e filhas, após ter feito fortuna nas colônias; uma governanta de trinta e três anos de idade, indo para casa para se casar com um homem com quem estava noiva há quinze anos; a filha sentimental de um rico comerciante de vinhos australiano, enviada para a Inglaterra para terminar sua educação, e George Talboys, eram os únicos passageiros de primeira classe a bordo.

Este George Talboys era a vida e a alma do navio; ninguém sabia quem ou o que ele era, ou de onde vinha, mas todos gostavam dele. Ele sentava-se na cabeceira da mesa de jantar e ajudava o capitão a fazer as honras da refeição amigável. Ele abria as garrafas de champanhe e brindava com todos os presentes; contava histórias engraçadas e liderava a vida com um toque tão alegre que o homem deveria ser um grosseiro para não poder rir por pura simpatia. Ele era um mestre em especulação e vingt-et-un, e em todos os jogos alegres que mantinham o pequeno círculo ao redor da lâmpada da cabine tão absorto em diversão inocente que um furacão poderia ter uivado acima deles sem que o ouvissem; mas ele admitia livremente que não tinha talento para o whist, e que não sabia distinguir um cavalo de uma torre num tabuleiro de xadrez.

De fato, o Sr. Talboys não era de modo algum um cavalheiro muito instruído. A governanta pálida tentara conversar com ele sobre literatura da moda, mas George apenas puxara a barba e olhara fixamente para ela, dizendo ocasionalmente: "Ah, sim, por Júpiter!" e "Com certeza, ah!"

A jovem sentimental, indo para casa para terminar sua educação, tentara-o com Shelley e Byron, e ele rira francamente na cara dela, como se poesia fosse uma piada. O classificador de lã sondou-o sobre política, mas ele não parecia muito versado nelas; então eles o deixaram seguir seu próprio caminho, fumar seus charutos e falar com os marinheiros, descansar sobre as amuradas e encarar a água, e tornar-se agradável a todos à sua própria maneira. Mas quando o Argus chegou a estar a cerca de uma quinzena de navegação da Inglaterra, todos notaram uma mudança em George Talboys. Ele tornou-se inquieto e agitado; às vezes tão alegre que a cabine ressoava com suas risadas; às vezes mal-humorado e pensativo. Favorito como ele era entre os marinheiros, eles estavam finalmente cansados de responder às suas perguntas perpétuas sobre o tempo provável de tocar a terra. Seria em dez dias, em onze, em doze, em treze? O vento estava favorável? Quantos nós por hora o navio estava fazendo? Então uma paixão súbita o dominava, e ele batia os pés no convés, gritando que ela era uma embarcação velha e caindo aos pedaços, e que seus donos eram vigaristas por anunciá-la como o Argus de navegação rápida. Ela não era adequada para o tráfego de passageiros; não era adequada para transportar criaturas vivas impacientes, com corações e almas; não servia para nada além de ser carregada com fardos de lã estúpida, que poderiam apodrecer no mar e não seriam prejudicados por isso.

O sol estava caindo atrás das ondas quando George Talboys acendeu seu charuto nesta noite de agosto. Apenas mais dez dias, os marinheiros lhe disseram naquela tarde, e eles veriam a costa inglesa. "Eu irei à terra no primeiro barco que nos chamar", gritou ele; "irei à terra numa casca de noz. Por Júpiter, se chegar a esse ponto, nadarei até a terra."

Seus amigos na cabine de popa, com exceção da governanta pálida, riam de sua impaciência; ela suspirava enquanto observava o jovem, irritado com as horas lentas, empurrando seu vinho não provado, lançando-se inquietamente sobre o sofá da cabine, correndo para cima e para baixo na escada de acesso e encarando as ondas.

À medida que a borda vermelha do sol mergulhava na água, a governanta subiu as escadas da cabine para um passeio no convés, enquanto os passageiros sentavam-se sobre seu vinho lá embaixo. Ela parou quando chegou a George e, ficando ao lado dele, observou o carmesim desbotado no céu ocidental.

A dama era muito quieta e reservada, raramente participando das diversões da cabine de popa, nunca rindo e falando muito pouco; mas ela e George Talboys tinham sido excelentes amigos durante toda a viagem.

"Meu charuto a incomoda, Srta. Morley?", disse ele, tirando-o da boca.

"De forma alguma; por favor, não pare de fumar. Só vim aqui para olhar o pôr do sol. Que noite adorável!"

"Sim, sim, suponho que sim", respondeu ele, impacientemente; "contudo, tão longa, tão longa! Dez dias intermináveis e dez noites cansativas antes de chegarmos."

"Sim", disse a Srta. Morley, suspirando. "Você deseja que o tempo seja mais curto?"

"Se desejo?", exclamou George. "De fato, desejo. Você não?"

"Dificilmente."

"Mas não há ninguém que você ame na Inglaterra? Não há ninguém que você ame à espera da sua chegada?"

"Espero que sim", disse ela gravemente. Eles ficaram em silêncio por algum tempo, ele fumando seu charuto com uma impaciência furiosa, como se pudesse apressar o curso do navio por sua própria inquietude; ela olhando para a luz minguante com olhos azuis melancólicos — olhos que pareciam ter desbotado com o estudo de livros de letras miúdas e costura difícil; olhos que haviam desbotado um pouco, talvez, devido a lágrimas secretamente derramadas na noite solitária.

"Veja!", disse George, de repente, apontando em outra direção daquela para a qual a Srta. Morley estava olhando, "lá está a lua nova!"

Ela olhou para o crescente pálido, seu próprio rosto quase tão pálido e abatido.

"Esta é a primeira vez que a vemos."

"Temos que fazer um desejo!", disse George. "Eu sei o que desejo."

"O quê?"

"Que possamos chegar em casa rapidamente."

"Meu desejo é que não encontremos decepções quando chegarmos lá", disse a governanta, tristemente.

"Decepção!"

Ele sobressaltou-se como se tivesse sido atingido e perguntou o que ela queria dizer ao falar em decepção.

"Quero dizer isto", disse ela, falando rapidamente e com um movimento inquieto de suas mãos finas; "quero dizer que, à medida que o fim da viagem se aproxima, a esperança diminui em meu coração; e um medo doentio toma conta de mim de que, no final, tudo possa não estar bem. A pessoa que vou encontrar pode ter mudado seus sentimentos em relação a mim; ou ele pode manter todo o sentimento antigo até o momento de me ver, e então perdê-lo num sopro ao ver meu rosto pobre e abatido, pois eu era chamada de garota bonita, Sr. Talboys, quando parti para Sydney, quinze anos atrás; ou ele pode estar tão mudado pelo mundo a ponto de ter se tornado egoísta e mercenário, e ele pode me receber por causa das minhas economias de quinze anos. Novamente, ele pode estar morto. Ele pode ter estado bem, talvez, até uma semana antes da nossa chegada, e nessa última semana pode ter contraído uma febre e morrido uma hora antes de nosso navio ancorar no Mersey. Penso em todas essas coisas, Sr. Talboys, e enceno as cenas em minha mente, e sinto a angústia delas vinte vezes ao dia. Vinte vezes ao dia", repetiu ela; "por que, faço isso mil vezes ao dia."

George Talboys permanecera imóvel, com seu charuto na mão, ouvindo-a tão atentamente que, quando ela disse as últimas palavras, seu aperto relaxou e o charuto caiu na água.

"Eu me pergunto", continuou ela, mais para si mesma do que para ele, "eu me pergunto, olhando para trás, pensar em quão esperançosa eu era quando o navio partiu; nunca pensei então em decepção, mas imaginava a alegria do encontro, imaginando as próprias palavras que seriam ditas, os próprios tons, os próprios olhares; mas neste último mês da viagem, dia a dia e hora a hora, meu coração afunda e minhas fantasias esperançosas desaparecem, e eu temo o fim tanto quanto se soubesse que estou indo para a Inglaterra para comparecer a um funeral."

O jovem mudou subitamente de atitude e voltou o rosto totalmente para sua companheira, com um olhar de alarme. Ela viu na luz pálida que a cor havia desaparecido de sua bochecha.

"Que tolo!", exclamou ele, batendo o punho cerrado na lateral da embarcação, "que tolo sou eu para ficar assustado com isso? Por que você vem e diz essas coisas para mim? Por que você vem e me aterroriza para fora dos meus sentidos, quando estou indo direto para casa para a mulher que amo; para uma garota cujo coração é tão verdadeiro quanto a luz do Céu; e em quem não espero encontrar mais mudança do que espero ver outro sol nascer no céu de amanhã? Por que você vem e tenta colocar tais fantasias na minha cabeça quando estou indo para casa para minha querida esposa?"

"Sua esposa", disse ela; "isso é diferente. Não há razão para que meus terrores aterrorizem você. Estou indo para a Inglaterra para reencontrar um homem com quem estava noiva para me casar há quinze anos. Ele era pobre demais para se casar então, e quando me ofereceram um cargo de governanta em uma rica família australiana, persuadi-o a me deixar aceitá-lo, para que eu pudesse deixá-lo livre e desembaraçado para conquistar seu caminho no mundo, enquanto eu economizava um pouco de dinheiro para nos ajudar quando começássemos a vida juntos. Nunca tive a intenção de ficar fora por tanto tempo, mas as coisas correram mal para ele na Inglaterra. Essa é a minha história, e você pode entender meus medos. Eles não precisam influenciá-lo. O meu é um caso excepcional."

"O meu também", disse George, impacientemente. "Eu lhe digo que o meu é um caso excepcional: embora eu jure a você que até este momento nunca conheci um medo quanto ao resultado da minha viagem para casa. Mas você tem razão; seus terrores não têm nada a ver comigo. Você esteve fora por quinze anos; todo tipo de coisa pode acontecer em quinze anos. Agora faz apenas três anos e meio, neste exato mês, desde que deixei a Inglaterra. O que pode ter acontecido em um curto espaço de tempo como esse?"

A Srta. Morley olhou para ele com um sorriso triste, mas não falou. Seu ardor febril, o frescor e a impaciência de sua natureza eram tão estranhos e novos para ela que ela o olhou meio com admiração, meio com pena.

"Minha linda esposinha! Minha gentil, inocente e amorosa esposinha! Você sabe, Srta. Morley", disse ele, com toda a sua esperança habitual, "que deixei minha garotinha dormindo, com seu bebê em seus braços, e com nada além de algumas linhas borradas para dizer a ela por que seu fiel marido a havia abandonado?"

"Abandonado!", exclamou a governanta.

"Sim. Eu era um alferes num regimento de cavalaria quando conheci minha pequena querida. Estávamos aquartelados numa cidade portuária estúpida, onde meu amor vivia com seu pai decadente, um oficial naval da reserva; um velho charlatão, pobre como Jó, e com olhos para nada além da própria vantagem. Eu vi através de todos os seus truques superficiais para pegar um de nós para sua linda filha. Eu vi todas as armadilhas lamentáveis, desprezíveis e palpáveis que ele preparou para nós, dragões, cairmos. Vi através de seus jantares de gente pobre-chique e do vinho do porto de taverna; sua conversa fina sobre a grandeza de sua família; seu falso orgulho e independência, e as falsas lágrimas de seus olhos velhos e remelosos quando falava de sua única filha. Ele era um velho hipócrita bêbado, e estava pronto para vender minha pobre garotinha ao maior lance. Felizmente para mim, eu aconteceu de ser, naquele momento, o maior lance; pois meu pai é um homem rico, Srta. Morley, e como foi amor à primeira vista de ambos os lados, minha querida e eu fizemos um casamento. Não demorou, porém, para que meu pai ouvisse que eu havia me casado com uma garotinha sem um tostão, filha de um velho tenente bêbado da reserva, do que ele me escreveu uma carta furiosa, dizendo-me que nunca mais teria qualquer comunicação comigo e que minha mesada anual pararia desde o dia do meu casamento."

"Como não havia permanência possível em um regimento como o meu, com nada além do meu soldo para viver e minha linda esposinha para sustentar, vendi meu posto, pensando que, antes que o dinheiro se esgotasse, eu certamente conseguiria algo. Levei minha querida para a Itália, e lá vivemos em grande estilo enquanto duraram minhas duas mil libras; mas, quando isso começou a diminuir para umas duzentas ou pouco mais, voltamos para a Inglaterra e, como minha querida tinha o capricho de ficar perto daquele pai cansativo dela, estabelecemo-nos na estância hidromineral onde ele morava. Bem, assim que o velho ouviu que eu ainda tinha umas duzentas libras, expressou um grau maravilhoso de afeição por nós e insistiu que morássemos em sua casa. Consentimos, ainda para agradar minha querida, que bem naquele momento tinha um direito peculiar de ter cada capricho e fantasia de seu coração inocente satisfeitos. Moramos com ele e, finalmente, ele nos depenou; mas, quando falei disso com minha esposinha, ela apenas deu de ombros e disse que não gostava de ser indelicada com seu 'pobre papai'. Então, o pobre papai deu fim à nossa pequena reserva de dinheiro num instante; e, como senti que agora se tornava necessário procurar algo, fui a Londres e tentei conseguir uma situação como balconista no escritório de um comerciante, ou como contador, ou guarda-livros, ou algo desse tipo. Mas suponho que houvesse a marca de um dragão pesado em mim, pois, por mais que tentasse, não conseguia fazer ninguém acreditar na minha capacidade; e, exausto e desanimado, voltei para minha querida, apenas para encontrá-la amamentando um filho e herdeiro da pobreza de seu pai. Pobrezinha, ela estava muito abatida; e quando lhe contei que minha expedição a Londres havia falhado, ela desmoronou completamente e irrompeu em uma tempestade de soluços e lamentações, dizendo-me que eu não deveria tê-la desposado se não podia lhe dar nada além de pobreza e miséria; e que eu lhe havia causado um erro cruel ao torná-la minha esposa. Por Deus! Srta. Morley, suas lágrimas e reprovações me deixaram quase louco; e eu explodi de raiva dela, de mim mesmo, de seu pai, do mundo e de todos nele, e então saí correndo de casa. Caminhei pelas ruas durante todo aquele dia, quase fora de mim, e com uma forte inclinação a me atirar ao mar, para deixar minha pobre menina livre para fazer um casamento melhor. 'Se eu me afogar, o pai dela terá de sustentá-la', pensei; 'o velho hipócrita jamais poderia lhe recusar um abrigo; mas, enquanto eu viver, ela não tem direito algum sobre ele'. Fui até um velho cais de madeira, trêmulo, pretendendo esperar ali até escurecer e então me deixar cair silenciosamente da ponta dele na água; mas, enquanto eu me sentava ali fumando meu cachimbo e olhando vago para as gaivotas, dois homens desceram e um deles começou a falar sobre as minas de ouro australianas e as grandes coisas que se podiam fazer lá. Parecia que ele iria zarpar em um ou dois dias, e estava tentando persuadir seu companheiro a juntar-se a ele na expedição.

"Ouvi esses homens por mais de uma hora, seguindo-os de um lado para o outro no cais, com meu cachimbo na boca, e ouvindo toda a conversa deles. Depois disso, entrei em conversa com eles eu mesmo, e verifiquei que havia um navio para sair de Liverpool em três dias, navio no qual um dos homens iria partir. Este homem me deu todas as informações de que necessitava e disse-me, ainda, que um jovem robusto, como eu era, dificilmente deixaria de se dar bem nas minas. O pensamento surgiu-me tão repentinamente que fiquei quente e com o rosto avermelhado, e tremi em cada membro de excitação. Isso era melhor do que a água, de qualquer modo. Suponha que eu fugisse de minha querida, deixando-a em segurança sob o teto de seu pai, fosse e fizesse fortuna no novo mundo, e voltasse em um ano para depositá-la em seu colo; pois eu era tão otimista naqueles dias que contava fazer minha fortuna em um ano ou algo assim. Agradeci ao homem pela informação e, tarde da noite, caminhei para casa. Fazia um tempo de inverno amargo, mas eu estivera cheio demais de paixão para sentir frio, e caminhei pelas ruas silenciosas, com a neve soprando em meu rosto e uma esperança desesperada em meu coração. O velho estava sentado bebendo conhaque com água na pequena sala de jantar; e minha esposa estava lá em cima, dormindo pacificamente, com o bebê em seu peito. Sentei-me e escrevi algumas breves linhas, que lhe diziam que eu nunca a amara mais do que agora, quando parecia abandoná-la; que eu ia tentar a sorte no novo mundo, e que se eu tivesse sucesso, voltaria para lhe trazer fartura e felicidade; mas que, se falhasse, jamais voltaria a olhar para seu rosto. Dividi o restante de nosso dinheiro — um pouco mais de quarenta libras — em duas partes iguais, deixando uma para ela e colocando a outra em meu bolso. Ajoelhei-me e rezei por minha esposa e filho, com a cabeça sobre a colcha branca que os cobria. Eu não era muito de rezar em tempos normais, mas Deus sabe que aquela foi uma prece sincera. Beijei-a uma vez, e ao bebê uma vez, e então saí sorrateiramente do quarto. A porta da sala de jantar estava aberta e o velho cochilava sobre seu jornal. Ele olhou para cima ao ouvir meu passo no corredor e perguntou-me aonde eu ia. 'Dar uma fumada na rua', respondi; e como esse era um hábito comum meu, ele acreditou em mim. Três noites depois, eu estava em alto-mar, a caminho de Melbourne — um passageiro de terceira classe, com ferramentas de garimpeiro como bagagem e cerca de sete xelins no bolso."

"E o senhor teve sucesso?" perguntou a Srta. Morley.

"Não até que eu tivesse há muito tempo desesperado pelo sucesso; não até que a pobreza e eu nos tornássemos companheiros de cama tão antigos que, olhando para minha vida passada, eu me perguntava se aquele dragão audacioso, imprudente, extravagante, luxuoso e bebedor de champanhe poderia realmente ter sido o mesmo homem que sentava no chão úmido roendo uma crosta mofada nas selvas do novo mundo. Apeguei-me à memória da minha querida, e a confiança que eu tinha em seu amor e lealdade era a única pedra fundamental que mantinha o tecido da minha vida passada coeso — a única estrela que iluminava a espessa escuridão negra do futuro. Eu era camarada de homens maus; eu estava no centro de tumultos, embriaguez e devassidão; mas a influência purificadora do meu amor me manteve a salvo de tudo. Magro e esquelético, a sombra meio faminta do que eu fora um dia, vi-me um dia em um pedaço quebrado de espelho e assustei-me com meu próprio rosto. Mas trabalhei em tudo; através da decepção e do desespero, reumatismo, febre, inanição; às portas da morte, trabalhei constantemente até o fim; e, no fim, venci."

Ele era tão corajoso em sua energia e determinação, em seu orgulhoso triunfo do sucesso e no conhecimento das dificuldades que vencera, que a governanta pálida só podia olhar para ele em admiração maravilhada.

"Como o senhor foi corajoso!" disse ela.

"Corajoso!" exclamou ele, com uma risada alegre; "eu não estava trabalhando para minha querida? Durante todo o tempo triste daquela provação, sua linda mão branca parecia acenar-me para um futuro feliz! Ora, eu a vi sob minha miserável tenda de lona sentada ao meu lado, com seu menino nos braços, tão claramente quanto a vi no único ano feliz de nossa vida conjugal. Finalmente, em uma manhã triste e nevoenta, apenas três meses atrás, com uma chuva fina me molhando até os ossos, até o pescoço na argila e na lama, meio faminto, enfraquecido pela febre, rígido de reumatismo, uma pepita monstruosa apareceu sob minha pá, e fui em um minuto o homem mais rico da Austrália. Caí sobre a argila úmida, com meu pedaço de ouro no peito da camisa e, pela primeira vez na vida, chorei como uma criança. Viajei a galope até Sydney, realizei meu valor, que valia mais de 20.000 libras, e quinze dias depois embarquei para a Inglaterra neste navio; e em dez dias — em dez dias verei minha querida."

"Mas, durante todo esse tempo, o senhor nunca escreveu para sua esposa?"

"Nunca, até a noite antes de deixar Sydney. Eu não podia escrever quando tudo parecia tão negro. Eu não podia escrever e dizer-lhe que estava lutando arduamente contra o desespero e a morte. Esperei por uma sorte melhor, e quando ela veio, escrevi dizendo-lhe que estaria na Inglaterra quase assim que minha carta, e dando-lhe um endereço em uma cafeteria em Londres onde ela pudesse me escrever, dizendo-me onde encontrá-la, embora seja pouco provável que ela tenha deixado a casa de seu pai."

Ele caiu em devaneio depois disso e tragou meditativamente seu charuto. Sua companheira não o perturbou. O último raio da luz do dia de verão havia se extinguido, e apenas a pálida luz da lua crescente permanecia.

Logo, George Talboys jogou fora seu charuto e, voltando-se para a governanta, exclamou bruscamente: "Srta. Morley, se, quando eu chegar à Inglaterra, ouvir que algo aconteceu à minha esposa, cairei morto."

"Meu caro Sr. Talboys, por que pensa nessas coisas? Deus é muito bom conosco; Ele não nos afligirá além do nosso poder de suportar. Vejo todas as coisas, talvez, sob uma luz melancólica; pois a longa monotonia da minha vida me deu tempo demais para pensar em meus problemas."

"E minha vida foi toda ação, privação, labuta, esperança e desespero alternados; não tive tempo para pensar nas chances de algo acontecer à minha querida. Que tolo cego e imprudente eu tenho sido! Três anos e meio e nem uma linha — uma palavra dela, ou de qualquer criatura mortal que a conheça. Céus acima! O que não pode ter acontecido?"

Na agitação de sua mente, ele começou a andar rapidamente de um lado para o outro no convés solitário, a governanta seguindo-o e tentando acalmá-lo.

"Juro-lhe, Srta. Morley," disse ele, "que até o senhor falar comigo esta noite, eu nunca senti uma sombra de medo, e agora tenho aquele pavor doentio e profundo no coração de que o senhor falou há uma hora. Deixe-me em paz, por favor, para superar isso do meu jeito."

Ela se afastou silenciosamente dele e sentou-se na lateral do navio, olhando para a água.

George Talboys caminhou para frente e para trás por algum tempo, com a cabeça curvada sobre o peito, não olhando nem para a direita nem para a esquerda, mas em cerca de um quarto de hora ele retornou ao local onde a governanta estava sentada.

"Eu estava orando," disse ele — "orando por minha querida."

Ele falou com uma voz pouco acima de um sussurro, e ela viu seu rosto inefavelmente calmo sob o luar.

CAPÍTULO III.

RELÍQUIAS OCULTAS.

O mesmo sol de agosto que se pusera atrás da vastidão das águas brilhava avermelhado sobre a face larga do velho relógio acima daquele arco coberto de hera que conduz aos jardins de Audley Court.

Um pôr do sol feroz e carmesim. As janelas com molduras de pedra e as treliças cintilantes estão todas em chamas com a glória vermelha; a luz desbotada tremeluz sobre as folhas das tílias na longa alameda e transforma o viveiro de peixes parado em uma folha de cobre polido; mesmo nos recessos sombrios de silvas e matagais, entre os quais o velho poço está escondido, o brilho carmesim penetra em clarões intermitentes até que as ervas daninhas úmidas, a roda de ferro enferrujado e a madeira quebrada pareçam salpicadas de sangue.

O mugido de uma vaca nos prados silenciosos, o mergulho de uma truta no viveiro, as últimas notas de um pássaro cansado, o ranger das rodas de carroça na estrada distante, rompendo de tempos em tempos o silêncio da noite, apenas tornavam a quietude do lugar ainda mais intensa. Era quase opressivo, esse silêncio do crepúsculo. O próprio repouso do lugar tornava-se doloroso por sua intensidade, e sentia-se como se um cadáver devesse estar jazendo em algum lugar dentro daquela pilha de edifícios cinzentos e cobertos de hera — tão mortal era a tranquilidade de tudo ao redor.

Quando o relógio sobre o arco bateu oito horas, uma porta nos fundos da casa foi suavemente aberta, e uma moça saiu para os jardins.

Mas mesmo a presença de um ser humano mal rompeu o silêncio; pois a moça arrastou-se lentamente sobre a grama espessa e, deslizando para a alameda ao lado do viveiro de peixes, desapareceu no rico abrigo das tílias.

Ela não era, talvez, positivamente uma moça bonita; mas sua aparência era daquela ordem que é comumente chamada de interessante. Interessante, talvez, porque no rosto pálido e nos olhos cinzentos claros, nos traços pequenos e lábios comprimidos, havia algo que sugeria um poder de repressão e autocontrole não comum em uma mulher de dezenove ou vinte anos. Ela poderia ter sido bonita, penso eu, não fosse pelo único defeito em seu pequeno rosto oval. Este defeito era a ausência de cor. Nem um tom de carmesim corava a brancura cerosa de suas bochechas; nem uma sombra de castanho redimia a palidez insípida de suas sobrancelhas e cílios; nem um brilho de ouro ou ruivo aliviava o linho opaco de seu cabelo. Até mesmo seu vestido era estragado por essa mesma deficiência. A musselina lavanda pálida desbotava para um cinza doentio, e a fita atada em volta de seu pescoço fundia-se no mesmo tom neutro.

Sua figura era esbelta e frágil e, apesar de seu vestido humilde, ela tinha algo da graça e do porte de uma dama, mas era apenas uma simples moça do campo, chamada Phoebe Marks, que fora babá na família do Sr. Dawson e a quem Lady Audley escolhera para ser sua camareira após seu casamento com Sir Michael.

Claro, isso foi uma maravilhosa sorte para Phoebe, que viu seu salário triplicado e seu trabalho aliviado na bem ordenada residência de Court; e que era, portanto, tão objeto de inveja entre suas amigas particulares quanto minha senhora o era em círculos mais elevados.

Um homem, que estava sentado na estrutura de madeira quebrada do poço, sobressaltou-se quando a camareira saiu da sombra sombria das tílias e ficou diante dele entre as ervas daninhas e o matagal.

Já disse antes que este era um local negligenciado; ficava no meio de um arbusto baixo, escondido do resto dos jardins e visível apenas pelas janelas do sótão na parte de trás da ala oeste.

"Ora, Phoebe," disse o homem, fechando um canivete com o qual descascava uma estaca de abrunheiro, "você chegou tão silenciosa e de repente que pensei que fosse um espírito maligno. Atravessei os campos e entrei aqui pelo portão junto ao fosso, e estava descansando antes de subir à casa para perguntar se você já tinha voltado."

"Consigo ver o poço da janela do meu quarto, Luke," respondeu Phoebe, apontando para uma treliça aberta em um dos frontões. "Vi você sentado aqui e desci para conversar; é melhor conversar aqui fora do que na casa, onde sempre há alguém ouvindo."

O homem era um camponês grande, de ombros largos e aparência estúpida, de cerca de vinte e três anos de idade. Seu cabelo ruivo escuro crescia baixo na testa, e suas sobrancelhas espessas encontravam-se sobre um par de olhos cinza-esverdeados; seu nariz era grande e bem formado, mas a boca era grosseira na forma e animal na expressão. De bochechas rosadas, cabelo ruivo e pescoço de touro, ele não era diferente de um dos bois robustos que pastavam nos prados ao redor de Court.

A moça sentou-se levemente na estrutura de madeira ao seu lado e colocou uma de suas mãos, que se tornara branca em seu novo e fácil serviço, em volta de seu pescoço grosso.

"Você está feliz em me ver, Luke?" perguntou ela.

"Claro que estou feliz, garota," respondeu ele, de forma grosseira, abrindo seu canivete novamente e raspando a estaca da sebe.

Eram primos em primeiro grau e tinham sido companheiros de brincadeiras na infância e namorados na juventude.

"Você não parece muito feliz," disse a moça; "você poderia olhar para mim, Luke, e me dizer se acha que minha viagem me melhorou."

"Não colocou cor nenhuma em suas bochechas, minha garota," disse ele, olhando para ela debaixo de suas sobrancelhas franzidas; "você está tão pálida quanto estava quando partiu."

"Mas dizem que viajar torna as pessoas gentis, Luke. Estive no Continente com minha senhora, por todo tipo de lugares curiosos; e você sabe, quando eu era criança, as filhas do Squire Horton me ensinaram a falar um pouco de francês, e achei tão bom poder conversar com as pessoas no exterior."

"Gentil!" gritou Luke Marks, com uma risada rouca; "quem quer que você seja gentil, eu me pergunto? Não eu, por um; quando você for minha esposa, não terá muito tempo para gentilezas, minha garota. Francês, ainda por cima! Maldição, Phoebe, suponho que, quando economizarmos dinheiro suficiente entre nós para comprar um pedacinho de fazenda, você ficará conversando em francês com as vacas?"

Ela mordeu o lábio enquanto seu amante falava e olhou para o lado. Ele continuou cortando e picando uma empunhadura rudimentar que estava dando à estaca, assobiando baixinho para si mesmo o tempo todo, e sem olhar nenhuma vez para sua prima.

Por algum tempo ficaram em silêncio, mas logo ela disse, com o rosto ainda voltado para longe de seu companheiro:

"Que coisa fina é para a Srta. Graham que foi, viajar com sua camareira e seu mensageiro, e sua carruagem e quatro, e um marido que pensa que não há um lugar em toda a terra que seja bom o suficiente para ela pisar!"

"Sim, é uma coisa fina, Phoebe, ter muito dinheiro," respondeu Luke, "e espero que você se previna com isso, minha garota, para economizar seu salário contra quando nos casarmos."

"Por que, o que ela era na casa do Sr. Dawson apenas três meses atrás?" continuou a moça, como se não tivesse ouvido o discurso de seu primo. "O que ela era senão uma serva como eu? Recebendo salários e trabalhando por eles tão duro, ou mais duro, do que eu. Você deveria ter visto as roupas surradas dela, Luke — gastas e remendadas, e cerzidas e viradas e retorcidas, mas sempre parecendo bem nela, de alguma forma. Ela me dá mais como camareira aqui do que ela jamais ganhou do Sr. Dawson então. Por que, eu a vi sair da sala com algumas soberanas e um pouco de prata na mão, que o patrão tinha acabado de lhe dar pelo salário do trimestre; e agora olhe para ela!"

"Nunca se importe com ela," disse Luke; "cuide de si mesma, Phoebe; isso é tudo o que você tem a fazer. O que você diria de uma taverna para você e para mim, logo mais, minha garota? Há muito dinheiro a ser feito com uma taverna."

A moça ainda estava sentada com o rosto virado para longe de seu amante, suas mãos pendendo languidamente em seu colo, e seus olhos cinzentos pálidos fixos na última faixa baixa de carmesim morrendo atrás dos troncos das árvores.

"Você deveria ver o interior da casa, Luke," ela disse; "é um lugar com aparência bem decadente por fora; mas você deveria ver os quartos da minha senhora — cheios de pinturas e dourados, e grandes espelhos que se estendem do teto ao chão. Tetos pintados, também, que custaram centenas de libras, a governanta me disse, e tudo feito para ela."

"Ela é uma sortuda," murmurou Luke, com indiferença preguiçosa.

"Você deveria tê-la visto enquanto estávamos no exterior, com uma multidão de cavalheiros ao seu redor; Sir Michael não tinha ciúmes deles, sentia apenas orgulho de vê-la tão admirada. Você deveria tê-la ouvido rir e conversar com eles; devolvendo todos os seus elogios e belos discursos, por assim dizer, como se estivessem atirando rosas nela. Ela deixava todos loucos por ela, onde quer que fosse. Seu canto, seu tocar, sua pintura, sua dança, seu belo sorriso e seus cachos ensolarados! Ela era sempre o assunto do lugar, enquanto permanecêssemos nele."

"Ela está em casa esta noite?"

"Não; ela saiu com Sir Michael para um jantar em Beeches. Eles têm de sete a oito milhas para dirigir, e não estarão de volta antes das onze."

"Então eu lhe digo uma coisa, Phoebe, se o interior da casa é tão magnificamente fino, eu gostaria de dar uma olhada nele."

"Pois então você dará. A Sra. Barton, a governanta, conhece você de vista, e ela não pode se opor a que eu lhe mostre alguns dos melhores cômodos."

Já estava quase escuro quando os primos deixaram o bosque e caminharam lentamente até a casa. A porta pela qual entraram dava para o saguão dos criados, ao lado do qual ficava o quarto da governanta. Phoebe Marks parou por um momento para perguntar à governanta se poderia levar seu primo por alguns dos aposentos e, tendo recebido permissão para fazê-lo, acendeu uma vela na lamparina do saguão e fez sinal para que Luke a seguisse até a outra parte da casa.

Os longos corredores de carvalho escuro estavam sombrios no crepúsculo fantasmagórico — a luz carregada por Phoebe parecia apenas uma mísera centelha nas amplas passagens pelas quais a moça guiava seu primo. Luke olhava desconfiado por cima do ombro de vez em quando, meio assustado com o ranger de suas próprias botas com solas de pregos.

"É um lugar mortalmente monótono, Phoebe", disse ele, ao emergirem de uma passagem para o saguão principal, que ainda não estava iluminado; "ouvi dizer que um assassinato foi cometido aqui nos velhos tempos."

"Há assassinatos suficientes nestes tempos, quanto a isso, Luke", respondeu a moça, subindo a escadaria, seguida pelo jovem.

Ela abriu caminho através de uma grande sala de estar, rica em cetim e bronze dourado, móveis de marchetaria e gabinetes embutidos, bronzes, camafeus, estatuetas e bugigangas, que brilhavam na luz crepuscular; depois, através de uma sala de estar diurna, decorada com gravuras de prova de quadros valiosos; e desta, para uma antecâmara, onde ela parou, mantendo a luz acima de sua cabeça.

O jovem olhou ao redor, boquiaberto e com os olhos arregalados.

"É um lugar raro e fino", disse ele, "e deve ter custado uma fortuna."

"Olhe para os quadros nas paredes", disse Phoebe, lançando um olhar aos painéis da câmara octogonal, que estavam decorados com Claudes e Poussins, Wouvermans e Cuyps. "Ouvi dizer que só eles valem uma fortuna. Esta é a entrada para os aposentos da minha senhora, a Srta. Graham que era." Ela levantou uma pesada cortina de pano verde que pendia sobre uma porta e conduziu o espantado camponês a um boudoir semelhante a um conto de fadas, e de lá para um closet, no qual as portas abertas de um guarda-roupa e uma pilha de vestidos espalhados por um sofá mostravam que ele ainda permanecia exatamente como suas ocupantes o haviam deixado.

"Tenho todas essas coisas para guardar antes que minha senhora chegue em casa, Luke; você poderia se sentar aqui enquanto eu faço isso, não demorarei."

Seu primo olhou em volta com um constrangimento desajeitado, confuso pelo esplendor do quarto; e, após alguma deliberação, selecionou a mais robusta das cadeiras, na borda extrema da qual se sentou cuidadosamente.

"Eu gostaria de poder lhe mostrar as joias, Luke", disse a moça; "mas não posso, pois ela sempre guarda as chaves consigo; aquele é o estojo na penteadeira ali."

"O quê, aquele?" exclamou Luke, olhando para o maciço caixão de madeira de nogueira com incrustações de latão. "Ora, aquilo é grande o suficiente para guardar todas as roupas que tenho!"

"E está tão cheio quanto pode estar de diamantes, rubis, pérolas e esmeraldas", respondeu Phoebe, ocupada enquanto falava em dobrar os vestidos de seda que farfalhavam e colocá-los um a um nas prateleiras do guarda-roupa. Enquanto ela sacudia os babados do último, um som metálico chamou sua atenção, e ela enfiou a mão no bolso.

"Ora!" ela exclamou, "minha senhora deixou as chaves no bolso por uma vez; posso lhe mostrar as joias, se você quiser, Luke."

"Bem, talvez eu devesse dar uma olhada nelas, minha moça", disse ele, levantando-se da cadeira e segurando a luz enquanto sua prima destrancava o estojo. Ele soltou um grito de admiração quando viu os ornamentos brilhando em almofadas de cetim branco. Ele queria tocar nas joias delicadas; puxá-las para lá e para cá e descobrir seu valor comercial. Talvez uma pontada de desejo e inveja tenha atravessado seu coração ao pensar em como gostaria de ter levado uma delas.

"Ora, uma dessas coisas de diamante nos deixaria bem de vida, Phoebe", disse ele, virando uma pulseira repetidamente em suas mãos grandes e vermelhas.

"Coloque-a no lugar, Luke! Coloque-a no lugar imediatamente!" gritou a moça, com um olhar de terror; "como você pode falar de tais coisas?"

Ele colocou a pulseira em seu lugar com um suspiro relutante e, então, continuou seu exame do estojo.

"O que é isto?" perguntou ele pouco depois, apontando para um botão de latão na estrutura da caixa.

Ele o empurrou enquanto falava, e uma gaveta secreta, forrada com veludo roxo, saltou de dentro do estojo.

"Olhe aqui!" gritou Luke, satisfeito com sua descoberta.

Phoebe Marks jogou fora o vestido que estava dobrando e foi até a penteadeira.

"Ora, eu nunca vi isso antes", disse ela; "imagino o que tem dentro."

Não havia muita coisa dentro; nem ouro nem gemas; apenas o sapatinho de lã de um bebê enrolado em um pedaço de papel, e uma pequena mecha de cabelo amarelo, sedoso e pálido, evidentemente tirada da cabeça de um bebê. Os olhos de Phoebe se dilataram enquanto ela examinava o pequeno pacote.

"Então é isto que minha senhora esconde na gaveta secreta", murmurou ela.

"É um lixo estranho para se guardar em um lugar desses", disse Luke, casualmente.

O lábio fino da moça curvou-se em um sorriso curioso.

"Você será minha testemunha de onde encontrei isto", disse ela, colocando o pequeno embrulho em seu bolso.

"Ora, Phoebe, você não vai ser tola a ponto de pegar isso", gritou o jovem.

"Prefiro isto à pulseira de diamante que você teria gostado de levar", respondeu ela; "você terá a taverna, Luke."

CAPÍTULO IV.

NA PRIMEIRA PÁGINA DO "THE TIMES".

Robert Audley era suposto ser um advogado. Como advogado, seu nome estava inscrito na lista da Ordem; como advogado, ele tinha escritórios em Figtree Court, Temple; como advogado, ele havia comido o número determinado de jantares, que formam o sublime calvário pelo qual o aspirante forense caminha em direção à fama e à fortuna. Se essas coisas podem fazer de um homem um advogado, Robert Audley era, sem dúvida, um. Mas ele nunca teve um processo, nem tentou conseguir um, nem mesmo desejou ter um em todos aqueles cinco anos durante os quais seu nome esteve pintado em uma das portas em Figtree Court. Ele era um rapaz bonito, preguiçoso e despreocupado de cerca de vinte e sete anos; o único filho de um irmão mais novo de Sir Michael Audley. Seu pai lhe deixara 400 libras por ano, que seus amigos o aconselharam a aumentar sendo chamado à Ordem; e como ele achou, após a devida consideração, ser mais trabalhoso opor-se aos desejos desses amigos do que comer tantos jantares e alugar um conjunto de escritórios no Temple, ele adotou o último curso e, sem corar, intitulou-se advogado.

Às vezes, quando o tempo estava muito quente e ele se exauria com o esforço de fumar seu cachimbo alemão e ler romances franceses, ele passeava pelos Jardins do Temple e, deitado em algum lugar sombreado, pálido e fresco, com o colarinho da camisa desabotoado e um lenço de seda azul amarrado frouxamente ao pescoço, dizia aos graves magistrados que estava exausto de tanto trabalhar.

Os astutos e velhos magistrados riam da agradável ficção; mas todos concordavam que Robert Audley era um bom sujeito; um sujeito de coração generoso; também um sujeito curioso, com um fundo de sagacidade astuta e humor contido sob seu modo apático, lento, indiferente e irresoluto. Um homem que nunca prosperaria no mundo; mas que não feriria nem uma mosca. De fato, seus escritórios eram convertidos em um verdadeiro canil, devido ao seu hábito de trazer para casa cães vadios e perdidos, que eram atraídos por sua aparência na rua e o seguiam com uma devoção humilde.

Robert sempre passava a temporada de caça em Audley Court; não que ele fosse notável como um Nimrod, pois ele trotava silenciosamente até o esconderijo sobre um cavalo baio de temperamento manso e pernas fortes, mantendo-se a uma distância muito respeitosa dos cavaleiros mais arrojados; seu cavalo sabendo tão bem quanto ele que nada estava mais longe de seus pensamentos do que qualquer desejo de estar presente na morte.

O jovem era um grande favorito de seu tio e de modo algum desprezado por sua prima bonita, de rosto cigano, alegre e moleca, a Srta. Alicia Audley. Poderia ter parecido a outros homens que a parcialidade de uma jovem que era a única herdeira de uma propriedade muito bela valeria a pena ser cultivada, mas isso não ocorreu a Robert Audley. Alicia era uma moça muito legal, ele dizia, uma moça alegre, sem frescuras — uma moça de mil — mas este era o ponto mais alto que o entusiasmo podia levá-lo. A ideia de tirar algum bom proveito do gosto juvenil de sua prima por ele nunca entrou em seu cérebro ocioso. Duvido que ele sequer tivesse qualquer noção correta do montante da fortuna de seu tio, e tenho certeza de que ele nunca, por um momento sequer, calculou as chances de qualquer parte dessa fortuna acabar chegando até ele. Então, quando, em uma bela manhã de primavera, cerca de três meses antes do tempo de que estou escrevendo, o carteiro lhe trouxe os cartões de casamento de Sir Michael e Lady Audley, juntamente com uma carta muito indignada de sua prima, expondo como seu pai acabara de se casar com uma jovem com cara de boneca de cera, não mais velha que a própria Alicia, com cachos cor de linho e uma risadinha perpétua; pois sinto dizer que o ânimo da Srta. Audley a levou a descrever assim aquela risada bonita e musical que fora tão admirada na finada Srta. Lucy Graham — quando, digo, esses documentos chegaram a Robert Audley — eles não provocaram nem aborrecimento nem espanto na natureza linfática daquele cavalheiro. Ele leu a carta irritada de Alicia, cruzada e recruzada, sem sequer remover a piteira de âmbar de seu cachimbo alemão de seus lábios com bigodes. Quando terminou a leitura da epístola, a qual ele leu com as sobrancelhas escuras elevadas até o centro da testa (sua única maneira de expressar surpresa, a propósito), ele deliberadamente jogou aquilo e os cartões de casamento na cesta de lixo e, colocando o cachimbo de lado, preparou-se para o esforço de pensar sobre o assunto.

"Eu sempre disse que o velho casaria", murmurou ele, após cerca de meia hora de devaneio. "Alicia e minha senhora, a madrasta, vão cair em cima uma da outra. Espero que não briguem na temporada de caça, ou digam coisas desagradáveis uma à outra à mesa de jantar; discussões sempre perturbam a digestão de um homem."

Por volta das doze horas da manhã seguinte àquela noite em que os eventos registrados em meu último capítulo haviam ocorrido, o sobrinho do baronete saiu do Temple, em direção a Blackfriars, a caminho da cidade. Ele havia, em uma hora infeliz, obrigado algum amigo necessitado, colocando o antigo nome de Audley em uma nota promissória, nota esta que, não tendo sido providenciada pelo sacador, Robert foi chamado a pagar. Para este fim, ele passeou por Ludgate Hill, com sua gravata azul esvoaçando no ar quente de agosto, e de lá para uma casa bancária refrescantemente fresca em um pátio sombreado perto do cemitério de St. Paul, onde fez arranjos para vender um par de centenas de libras em consols.

Ele havia concluído este negócio e estava perambulando na esquina do pátio, esperando por um hansom casual para levá-lo de volta ao Temple, quando foi quase derrubado por um homem de cerca de sua própria idade, que entrou precipitadamente na abertura estreita.

"Seja tão gentil de olhar para onde vai, meu amigo!" Robert protestou, suavemente, contra o passageiro impetuoso; "você poderia avisar um homem antes de derrubá-lo e pisar sobre ele."

O estranho parou de repente, olhou fixamente para o orador e então ofegou por ar.

"Bob!" ele gritou, em um tom que expressava o mais intenso espanto; "eu só toquei em solo britânico depois de escurecer ontem à noite, e pensar que eu deveria encontrar você esta manhã."

"Eu já vi você em algum lugar antes, meu amigo barbudo", disse o Sr. Audley, examinando calmamente o rosto animado do outro, "mas serei enforcado se conseguir lembrar quando ou onde."

"O quê!" exclamou o estranho, com ar de reprovação. "Você não quer dizer que esqueceu George Talboys?"

"Não, não esqueci!" disse Robert, com uma ênfase de modo algum habitual a ele; e então, enganchando seu braço no de seu amigo, conduziu-o para o pátio sombreado, dizendo, com sua habitual indiferença: "e agora, George, conte-nos tudo sobre isso."

George Talboys contou-lhe tudo sobre isso. Ele contou aquela mesma história que havia relatado dez dias antes para a governanta pálida a bordo do Argus; e então, quente e ofegante, disse que tinha vinte mil libras ou mais no bolso e que queria depositá-las no banco Messrs. ——, que fora seu banco muitos anos antes.

"Se você acreditar em mim, acabei de sair do escritório deles", disse Robert. "Voltarei com você e resolveremos esse assunto em cinco minutos."

Eles conseguiram resolver em cerca de um quarto de hora; e então Robert Audley queria partir imediatamente para o Crown and Scepter, em Greenwich, ou o Castle, em Richmond, onde poderiam comer algo e conversar sobre aqueles bons velhos tempos em que estavam juntos em Eton. Mas George disse ao seu amigo que, antes de ir a qualquer lugar, antes de se barbear ou fazer sua refeição, ou de qualquer forma se refrescar após uma viagem noturna de Liverpool em trem expresso, ele deveria passar em uma certa casa de café na Bridge Street, Westminster, onde esperava encontrar uma carta de sua esposa.

Enquanto atravessavam Ludgate Hill, Fleet Street e o Strand, em um hansom veloz, George Talboys derramou nos ouvidos de seu amigo todas aquelas esperanças e sonhos selvagens que haviam usurpado tal domínio sobre sua natureza otimista.

"Vou alugar uma vila nas margens do Tamisa, Bob", disse ele, "para a pequena esposa e para mim; e teremos um iate, Bob, meu velho amigo, e você ficará no convés e fumará, enquanto minha querida toca seu violão e canta canções para nós. Ela é, para todos os efeitos, como uma daquelas coisas cujo nome esqueci, que levaram o pobre velho Ulisses para o mau caminho", acrescentou o jovem, cujo conhecimento clássico não era muito grande.

Os garçons na casa de café de Westminster olharam para o estranho de olhos encovados e sem barba, com suas roupas de corte colonial e seu jeito barulhento e excitado; mas ele tinha sido um frequentador assíduo do local em seus dias militares, e quando ouviram quem ele era, correram para atender ao seu pedido.

Ele não queria muita coisa — apenas uma garrafa de água com gás e saber se havia uma carta no balcão endereçada a George Talboys.

O garçom trouxe a água com gás antes que os jovens se sentassem em um box sombreado perto da lareira desativada. Não; não havia carta para aquele nome.

O garçom disse isso com total indiferença, enquanto espanava mecanicamente a pequena mesa de mogno.

O rosto de George empalideceu a uma brancura mortal. "Talboys", disse ele; "talvez você não tenha ouvido o nome claramente — T, A, L, B, O, Y, S. Vá e procure novamente, deve haver uma carta."

O garçom encolheu os ombros ao sair da sala e retornou em três minutos para dizer que não havia nenhum nome que se assemelhasse a Talboys no suporte de cartas. Havia Brown, e Sanderson, e Pinchbeck; apenas três cartas no total.

O jovem bebeu sua água com gás em silêncio e, então, apoiando os cotovelos na mesa, cobriu o rosto com as mãos. Havia algo em seu modo que dizia a Robert Audley que seu desapontamento, por mais trivial que pudesse parecer, era na realidade muito amargo. Ele se sentou em frente ao seu amigo, mas não tentou dirigir-lhe a palavra.

Mais tarde, George olhou para cima e, pegando mecanicamente um jornal Times engordurado do dia anterior de uma pilha de jornais sobre a mesa, olhou vagamente para a primeira página.

Não sei quanto tempo ele ficou olhando fixamente para um parágrafo na lista de falecimentos antes que seu cérebro atordoado compreendesse seu significado completo; mas, após uma pausa considerável, ele empurrou o jornal para Robert Audley e, com um rosto que mudara de seu bronze escuro para um branco acinzentado e doentio, e com uma calma terrível em seu modo, apontou com o dedo para uma linha que dizia assim:

"No dia 24 do corrente, em Ventnor, Ilha de Wight, Helen Talboys, com 22 anos."

CAPÍTULO V.

A LÁPIDE EM VENTNOR.

Sim, lá estava em preto no branco — "Helen Talboys, com 22 anos."

Quando George disse à governanta a bordo do Argus que, se ouvisse qualquer má notícia sobre sua esposa, ele cairia morto, ele falou com total boa-fé; e, no entanto, aqui estavam as piores notícias que poderiam lhe chegar, e ele permanecia rígido, branco e impotente, olhando estupidamente para o rosto chocado de seu amigo.

A súbita intensidade do golpe o deixou atordoado. Nesse estado mental estranho e confuso, ele começou a se perguntar o que havia acontecido e por que uma linha no jornal Times poderia ter um efeito tão horrível sobre ele.

Então, gradualmente, até mesmo essa vaga consciência de sua desgraça desapareceu lentamente de sua mente, sucedida por uma consciência dolorosa das coisas externas.

O sol quente de agosto, as vidraças empoeiradas e as persianas de pintura gasta, uma pilha de cartazes de teatro cobertos de moscas presos à parede, as lareiras pretas e vazias, um velho careca cochilando sobre o Morning Advertizer, o garçom desleixado dobrando uma toalha de mesa amassada e o rosto bonito de Robert Audley olhando para ele cheio de alarme compassivo — ele sabia que todas essas coisas assumiam proporções gigantescas e, então, uma a uma, derretiam-se em manchas escuras e nadavam diante de seus olhos. Ele sabia que havia um grande barulho, como se meia dúzia de motores a vapor furiosos estivessem rasgando e rangendo em seus ouvidos, e não sabia mais nada — exceto que alguém ou algo caiu pesadamente no chão.

Ele abriu os olhos para o anoitecer sombrio em um quarto fresco e sombreado, o silêncio apenas interrompido pelo estrondo de rodas à distância.

Ele olhou ao redor, maravilhado, mas meio indiferente. Seu velho amigo, Robert Audley, estava sentado ao seu lado, fumando. George estava deitado em uma cama de ferro baixa em frente a uma janela aberta, na qual havia um suporte de flores e dois ou três pássaros em gaiolas.

"Você não se importa com o cachimbo, não é, George?" seu amigo perguntou, calmamente.

"Não."

Ele ficou deitado por algum tempo olhando para as flores e os pássaros; um canário entoava um hino estridente ao sol poente.

"Os pássaros o incomodam, George? Quer que eu os leve para fora do quarto?"

"Não; gosto de ouvi-los cantar."

Robert Audley bateu as cinzas de seu cachimbo, colocou a preciosa espuma de mar carinhosamente sobre a lareira e, indo para o quarto ao lado, retornou logo com uma xícara de chá forte.

"Tome isto, George", disse ele, enquanto colocava a xícara em uma mesinha perto do travesseiro de George; "fará bem à sua cabeça."

O jovem não respondeu, mas olhou lentamente ao redor do quarto e, depois, para o rosto grave de seu amigo.

"Bob", disse ele, "onde estamos?"

"Nos meus escritórios, meu caro rapaz, no Temple. Você não tem alojamento próprio, então pode muito bem ficar comigo enquanto estiver na cidade."

George passou a mão uma ou duas vezes pela testa e, então, de maneira hesitante, disse calmamente:

"Aquele jornal desta manhã, Bob; o que era?"

"Não se importe com isso agora, meu velho; beba um pouco de chá."

"Sim, sim", gritou George, impaciente, levantando-se na cama e olhando ao redor com olhos encovados. "Lembro-me de tudo. Helen! Minha Helen! Minha esposa, minha querida, meu único amor! Morta, morta!"

"George", disse Robert Audley, pousando a mão suavemente sobre o braço do jovem, "você deve lembrar que a pessoa cujo nome viu no jornal pode não ser sua esposa. Pode ter havido outra Helen Talboys."

"Não, não!" ele gritou; "a idade corresponde à dela, e Talboys é um nome tão incomum."

"Pode ser um erro de digitação para Talbot."

"Não, não, não; minha esposa está morta!"

Ele sacudiu a mão de Robert que o segurava e, levantando-se da cama, caminhou direto para a porta.

"Onde você vai?" exclamou seu amigo.

"Para Ventnor, ver a sepultura dela."

"Não esta noite, George, não esta noite. Eu irei com você no primeiro trem de amanhã."

Robert levou-o de volta para a cama e forçou-o gentilmente a deitar-se novamente. Em seguida, deu-lhe um opiáceo, que fora deixado pelo médico que eles haviam chamado na cafeteria da Bridge Street, quando George desmaiou.

Assim, George Talboys caiu em um sono profundo e sonhou que ia a Ventnor, para encontrar sua esposa viva e feliz, mas enrugada, velha e grisalha, e para encontrar seu filho transformado em um jovem rapaz.

Na manhã seguinte, bem cedo, ele estava sentado em frente a Robert Audley no vagão de primeira classe de um expresso, cortando a bela paisagem aberta em direção a Portsmouth.

Desembarcaram em Ventnor sob o calor abrasador do sol do meio-dia. Enquanto os dois jovens saíam do vapor, as pessoas no píer fixavam o olhar no rosto pálido e na barba por fazer de George.

"O que devemos fazer, George?" perguntou Robert Audley. "Não temos pista alguma para encontrar as pessoas que você quer ver."

O jovem olhou para ele com uma expressão piedosa e confusa. O grande dragão estava tão desamparado quanto um bebê; e Robert Audley, o mais vacilante e inerte dos homens, viu-se chamado a agir por outro. Ele superou a si mesmo e mostrou-se à altura da ocasião.

"Não seria melhor perguntarmos em um dos hotéis sobre uma Sra. Talboys, George?" disse ele.

"O nome de seu pai era Maldon", murmurou George; "ele nunca poderia tê-la enviado para cá para morrer sozinha."

Não disseram mais nada; mas Robert caminhou direto para um hotel, onde perguntou por um Sr. Maldon.

Sim, disseram-lhe, havia um cavalheiro com esse nome hospedado em Ventnor, um Capitão Maldon; sua filha morrera recentemente. O garçom iria indagar sobre o endereço.

O hotel era um lugar movimentado nesta época; pessoas entrando e saindo às pressas, e uma grande agitação de cavalariços e garçons pelos saguões.

George Talboys encostou-se no batente da porta, com quase a mesma expressão no rosto que assustara seu amigo na cafeteria de Westminster.

O pior estava confirmado agora. Sua esposa, a filha do Capitão Maldon, estava morta.

O garçom retornou em cerca de cinco minutos para dizer que o Capitão Maldon estava hospedado no Lansdowne Cottage, nº 4.

Encontraram facilmente a casa, uma casa de campo decadente e de janelas baixas, voltada para o mar.

O Capitão Maldon estava em casa? Não, disse a proprietária; ele tinha saído para a praia com seu netinho. O cavalheiro gostaria de entrar e sentar-se um pouco?

George seguiu mecanicamente seu amigo até a pequena sala de estar da frente — empoeirada, mobiliada de forma simples e desordenada, com brinquedos quebrados de criança espalhados pelo chão e o cheiro de tabaco velho pairando sobre as cortinas de musselina da janela.

"Olhe!" disse George, apontando para um quadro acima da lareira.

Era seu próprio retrato, pintado nos velhos tempos de dragão. Uma semelhança bastante fiel, representando-o de uniforme, com seu cavalo ao fundo.

Talvez o mais animado dos homens dificilmente teria sido um consolador tão sábio quanto Robert Audley. Ele não disse uma palavra ao viúvo atingido, mas sentou-se calmamente de costas para George, olhando pela janela aberta.

Por algum tempo, o jovem vagou inquieto pela sala, olhando e às vezes tocando nas bugigangas espalhadas aqui e ali.

Sua caixa de costura, com um trabalho inacabado; seu álbum cheio de trechos de Byron e Moore, escritos em sua própria letra garranchosa; alguns livros que ele lhe dera e um buquê de flores murchas em um vaso que compraram na Itália.

"O retrato dela costumava ficar ao lado do meu", murmurou ele; "pergunto-me o que fizeram com ele."

Pouco depois, ele disse, após cerca de uma hora de silêncio:

"Eu gostaria de ver a dona da casa; gostaria de perguntar a ela sobre..."

Ele desmoronou e enterrou o rosto nas mãos.

Robert chamou a proprietária. Ela era uma criatura bem-humorada e tagarela, acostumada com a doença e a morte, pois muitos de seus inquilinos vinham até ela para morrer.

Ela contou todos os detalhes das últimas horas da Sra. Talboys; como ela chegara a Ventnor apenas dez dias antes de sua morte, no último estágio da tuberculose; e como, dia após dia, ela definhara gradual, mas certamente, sob a doença fatal. O cavalheiro era algum parente? ela perguntou a Robert Audley, enquanto George soluçava alto.

"Sim, ele é o marido da senhora."

"O quê!" gritou a mulher; "aquele que a abandonou tão cruelmente, e a deixou com seu lindo menino nas mãos do seu pobre velho pai, que o Capitão Maldon me contou muitas vezes, com lágrimas nos seus pobres olhos?"

"Eu não a abandonei", George gritou; e então ele contou a história de seus três anos de luta.

"Ela falou de mim?" perguntou ele; "ela falou de mim — no — no final?"

"Não, ela se foi tão quieta quanto um cordeiro. Ela disse muito pouco desde o início; mas no último dia não reconheceu ninguém, nem seu filhinho, nem seu pobre velho pai, que ficou arrasado. Uma vez ela divagou, falando sobre sua mãe, e sobre a vergonha cruel que era deixá-la morrer em um lugar estranho, até que era comovente ouvi-la."

"A mãe dela morreu quando ela era bem criança", disse George. "Pensar que ela se lembraria dela e falaria dela, mas nunca uma vez de mim."

A mulher levou-o ao pequeno quarto onde sua esposa morrera. Ele ajoelhou-se ao lado da cama e beijou o travesseiro ternamente, a proprietária chorando enquanto ele o fazia.

Enquanto ele estava ajoelhado, orando, talvez, com o rosto enterrado naquele humilde travesseiro branco como a neve, a mulher tirou algo de uma gaveta. Ela deu a ele quando ele se levantou; era uma longa mecha de cabelo embrulhada em papel de prata.

"Eu cortei isso quando ela estava em seu caixão", disse ela, "pobre querida?"

Ele pressionou a mecha macia contra os lábios. "Sim", murmurou ele; "este é o cabelo querido que beijei tantas vezes quando sua cabeça repousava em meu ombro. Mas ele sempre tinha uma onda ondulada naquela época, e agora parece liso e reto."

"Ele muda com a doença", disse a proprietária. "Se o senhor quiser ver onde a enterraram, Sr. Talboys, meu filhinho lhe mostrará o caminho para o cemitério."

Então, George Talboys e seu fiel amigo caminharam até o local tranquilo onde, sob um monte de terra, ao qual os pedaços de grama fresca mal se agarravam, jazia aquela esposa de cujo sorriso de boas-vindas George sonhara tantas vezes nos distantes antípodas.

Robert deixou o jovem ao lado desta sepultura recém-feita e, retornando cerca de quinze minutos depois, descobriu que ele não se movera uma única vez.

Ele olhou para cima logo depois e disse que, se houvesse um pedreiro por perto, gostaria de fazer uma encomenda.

Eles encontraram o pedreiro facilmente e, sentando-se em meio aos detritos fragmentários do pátio do homem, George Talboys escreveu a lápis esta breve inscrição para a lápide do túmulo de sua falecida esposa:

Sagrado à Memória de HELEN, A AMADA ESPOSA DE GEORGE TALBOYS, "Que partiu desta vida Em 24 de agosto de 18—, com 22 anos, Profundamente lamentada por seu marido entristecido.

CAPÍTULO VI.

EM QUALQUER LUGAR, EM QUALQUER LUGAR, FORA DO MUNDO.

Quando retornaram ao Lansdowne Cottage, descobriram que o velho ainda não tinha chegado, então caminharam até a praia para procurá-lo. Após uma breve busca, encontraram-no sentado em uma pilha de seixos, lendo um jornal e comendo avelãs. O menino estava a alguma distância de seu avô, cavando na areia com uma pá de madeira. O crepe em volta do chapéu gasto do velho e o pobre vestidinho preto da criança tocaram o coração de George. Fosse onde fosse, encontrava novas confirmações deste grande pesar de sua vida. Sua esposa estava morta.

"Sr. Maldon", disse ele, ao aproximar-se de seu sogro.

O velho olhou para cima e, largando seu jornal, levantou-se dos seixos com uma reverência cerimoniosa. Seu cabelo claro desbotado estava tingido de cinza; ele tinha um nariz adunco e pinçado; olhos azuis lacrimejantes e uma boca de aspecto irresoluto; ele usava suas roupas gastas com uma afetação de fidalguia elegante; um monóculo balançava sobre seu colete abotoado até em cima e ele carregava uma bengala em sua mão sem luvas.

"Grande Deus!" gritou George, "você não me conhece?"

O Sr. Maldon sobressaltou-se e corou violentamente, com um olhar de susto ao reconhecer seu genro.

"Meu querido rapaz", disse ele, "eu não reconheci; no primeiro momento, não reconheci. Essa barba faz tanta diferença. Você acha que a barba faz uma grande diferença, não é, senhor?" disse ele, apelando para Robert.

"Grande Deus!" exclamou George Talboys, "é assim que você me recebe? Venho à Inglaterra para encontrar minha esposa morta dentro de uma semana após pisar em terra, e você começa a tagarelar comigo sobre minha barba — você, o pai dela!"

"Verdade! verdade!" murmurou o velho, limpando os olhos injetados; "um choque triste, um choque triste, meu caro George. Se você tivesse chegado uma semana antes."

"Se tivesse", gritou George, em um surto de dor e paixão, "dificilmente acho que a teria deixado morrer. Eu teria disputado por ela com a morte. Eu teria! Eu teria! Oh Deus! por que o Argus não afundou com todas as almas a bordo antes que eu viesse ver este dia?"

Ele começou a andar de um lado para o outro na praia, seu sogro olhando-o desamparado, esfregando seus olhos débeis com um lenço.

"Tenho uma forte impressão de que aquele velho não tratou muito bem sua filha", pensou Robert, enquanto observava o tenente da reserva. "Ele parece, por alguma razão ou outra, estar com um pouco de medo de George."

Enquanto o jovem agitado andava de um lado para o outro em uma febre de arrependimento e desespero, a criança correu para seu avô e agarrou-se às abas de seu paletó.

"Vamos para casa, vovô, vamos para casa", disse ele. "Estou cansado."

George Talboys virou-se ao som da voz infantil e olhou longa e seriamente para o menino.

Ele tinha os olhos castanhos e o cabelo escuro de seu pai.

"Minha querida! minha querida!" disse George, pegando a criança em seus braços, "eu sou seu pai, cruzei o mar para encontrá-lo. Você vai me amar?"

O pequeno empurrou-o para longe. "Eu não conheço você", disse ele. "Eu amo o vovô e a Sra. Monks em Southampton."

"Georgey tem um temperamento próprio, senhor", disse o velho. "Ele foi mimado."

Eles caminharam lentamente de volta para a casa de campo, e mais uma vez George Talboys contou a história daquele abandono que parecera tão cruel. Ele contou, também, sobre as vinte mil libras depositadas por ele no dia anterior. Ele não teve coragem de fazer perguntas sobre o passado, e seu sogro apenas lhe disse que, alguns meses após sua partida, eles tinham saído do lugar onde George os deixara para morar em Southampton, onde Helen conseguiu alguns alunos para o piano, e onde eles se arranjaram razoavelmente bem até que sua saúde falhou e ela caiu na tuberculose da qual morreu. Como a maioria das histórias tristes, foi muito breve.

"O menino parece gostar de você, Sr. Maldon", disse George, após uma pausa.

"Sim, sim", respondeu o velho, alisando o cabelo encaracolado da criança; "sim. Georgey é muito afeiçoado ao seu avô."

"Então é melhor que ele fique com você. Os juros do meu dinheiro serão de cerca de seiscentas libras por ano. Você pode sacar cem disso para a educação de Georgey, deixando o restante para acumular até que ele atinja a maioridade. Meu amigo aqui será o curador e, se ele aceitar o encargo, eu o nomearei tutor do menino, permitindo que, por enquanto, ele permaneça sob seus cuidados."

"Mas por que não cuidar dele você mesmo, George?" perguntou Robert Audley.

"Porque eu vou zarpar no próximo navio que sair de Liverpool para a Austrália. Estarei melhor nas minas ou nas florestas do que jamais poderia estar aqui. Estou arruinado para uma vida civilizada a partir desta hora, Bob."

Os olhos fracos do velho brilharam quando George declarou essa determinação.

"Meu pobre rapaz, acho que você está certo", disse ele, "eu realmente acho que você está certo. A mudança, a vida selvagem, a — a —" Ele hesitou e desmoronou quando Robert olhou seriamente para ele.

"Você tem muita pressa em se livrar de seu genro, eu acho, Sr. Maldon", disse ele, gravemente.

"Livrar-me dele, querido rapaz! Oh, não, não! Mas pelo próprio bem dele, meu caro senhor, pelo próprio bem dele, sabe."

"Acho que, pelo próprio bem dele, seria muito melhor que ele ficasse na Inglaterra e cuidasse de seu filho", disse Robert.

"Mas eu lhe disse que não posso", gritou George; "cada centímetro deste chão maldito é odioso para mim — eu quero correr para longe dele como faria de um cemitério. Voltarei para a cidade esta noite, resolverei aquela questão do dinheiro amanhã cedo e partirei para Liverpool sem um momento de atraso. Serei melhor quando tiver colocado metade do mundo entre mim e a sepultura dela."

Antes de sair da casa, ele escapuliu até a proprietária e fez mais algumas perguntas sobre sua falecida esposa.

"Eles eram pobres?" perguntou ele, "eles ficaram apertados por dinheiro enquanto ela estava doente?"

"Oh, não!" a mulher respondeu; "embora o capitão se vista de forma simples, ele sempre tem muitas soberanas em sua bolsa. A pobre senhora não precisou de nada."

George sentiu-se aliviado com isso, embora o desconcertasse saber onde o tenente bêbado da reserva poderia ter conseguido dinheiro para todas as despesas da doença de sua filha.

Mas ele estava tão completamente arrasado pela calamidade que o atingira que não conseguia pensar muito em nada, então não fez mais perguntas, mas caminhou com seu sogro e Robert Audley até o barco pelo qual eles atravessariam para Portsmouth.

O velho despediu-se de Robert de forma muito cerimoniosa.

"Você não me apresentou seu amigo, a propósito, meu caro rapaz", disse ele. George olhou para ele, murmurou algo indistinto e desceu a escada para o barco antes que o Sr. Maldon pudesse repetir seu pedido. O vapor partiu através do pôr do sol, e o contorno da ilha derreteu-se no horizonte à medida que se aproximavam da margem oposta.

"Pensar", disse George, "que há duas noites, a esta hora, eu estava navegando para Liverpool, cheio da esperança de tê-la em meus braços, e esta noite estou me afastando de seu túmulo!"

O documento que nomeava Robert Audley como tutor do pequeno George Talboys foi redigido em um escritório de advocacia na manhã seguinte.

"É uma grande responsabilidade", exclamou Robert; "eu, tutor de alguém ou de algo! Eu, que nunca na minha vida pude cuidar de mim mesmo!"

"Confio no seu coração nobre, Bob", disse George. "Eu sei que você cuidará do meu pobre menino órfão e se certificará de que ele seja bem tratado por seu avô. Só sacarei o suficiente da fortuna de Georgey para me levar de volta a Sydney, e então recomeçarei meu antigo trabalho."

Mas parecia que George estava destinado a ser ele mesmo o tutor de seu filho; pois, quando chegou a Liverpool, descobriu que um navio acabara de zarpar e que não haveria outro por um mês; então, ele retornou a Londres e mais uma vez lançou-se à hospitalidade de Robert Audley.

O advogado recebeu-o de braços abertos; deu-lhe o quarto com os pássaros e flores, e mandou colocar uma cama em seu quarto de vestir para si mesmo. O luto é tão egoísta que George não sabia dos sacrifícios que seu amigo fazia para seu conforto. Ele apenas sabia que, para ele, o sol estava obscurecido e os negócios da vida encerrados. Ele sentava-se o dia todo fumando charutos e olhando para as flores e canários, impaciente para que o tempo passasse para que ele pudesse estar longe em alto-mar.

Mas exatamente quando a hora se aproximava para a partida do navio, Robert Audley entrou um dia, cheio de um grande plano.

Um amigo seu, outro daqueles advogados cujo último pensamento é um processo, ia para São Petersburgo passar o inverno e queria que Robert o acompanhasse. Robert só iria com a condição de que George também fosse.

Por muito tempo o jovem resistiu; mas quando descobriu que Robert estava, de uma forma calma, totalmente determinado a não ir sem ele, ele cedeu e consentiu em se juntar ao grupo. O que importava? disse ele. Um lugar era o mesmo que outro para ele; qualquer lugar fora da Inglaterra; o que ele se importava onde?

Essa não era uma maneira muito alegre de ver as coisas, mas Robert Audley estava totalmente satisfeito por ter conquistado seu consentimento.

Os três jovens partiram sob circunstâncias muito favoráveis, levando cartas de recomendação para os habitantes mais influentes da capital russa.

Antes de deixar a Inglaterra, Robert escreveu para sua prima Alicia, contando-lhe sobre sua partida pretendida com seu velho amigo George Talboys, que ele encontrara recentemente pela primeira vez após vários anos, e que acabara de perder a esposa.

A resposta de Alicia chegou no correio seguinte e dizia assim:

"MEU QUERIDO ROBERT — Como é cruel de sua parte fugir para aquela horrível São Petersburgo antes da temporada de caça! Ouvi dizer que as pessoas perdem o nariz naquele clima desagradável e, como o seu é um pouco longo, eu aconselharia você a retornar antes que o tempo muito severo se instale. Que tipo de pessoa é esse Sr. Talboys? Se ele for muito agradável, você pode trazê-lo para a Court assim que retornar de suas viagens. Lady Audley me pediu para solicitar que você garanta para ela um conjunto de zibelinas. Você não deve considerar o preço, mas certifique-se de que sejam as mais bonitas que puderem ser obtidas. Papai é perfeitamente absurdo com sua nova esposa, e ela e eu não conseguimos nos entender de jeito nenhum; não que ela seja desagradável para mim, pois, até onde isso vai, ela se torna agradável para todos; mas ela é tão irremediavelmente infantil e boba.

"Acredite ser, meu caro Robert.

"Sua afetuosa prima,

"ALICIA AUDLEY."

CAPÍTULO VII.

APÓS UM ANO.

O primeiro ano de viuvez de George Talboys passou, a profunda faixa de crepe em torno de seu chapéu tornou-se marrom e empoeirada e, à medida que o último dia escaldante de outro agosto se desvanecia, ele estava sentado fumando charutos nos tranquilos escritórios de Figtree Court, muito como fizera no ano anterior, quando o horror de sua dor era novo para ele, e cada objeto na vida, por mais trivial ou importante que fosse, parecia saturado com sua única grande tristeza.

Mas o grande ex-dragão sobrevivera à sua aflição por um ano, e, por mais difícil que seja ter que dizer isso, ele não parecia muito pior por causa disso. O céu sabe que agonias desperdiçadas de remorso e autocrítica podem não ter torturado o coração honesto de George, enquanto ele permanecia acordado à noite pensando na esposa que ele abandonara em busca de uma fortuna, que ela nunca viveu para compartilhar.

Uma vez, enquanto estavam no exterior, Robert Audley arriscou-se a parabenizá-lo por seu ânimo recuperado. Ele irrompeu em uma risada amarga.

"Sabe, Bob", disse ele, "que quando alguns de nossos companheiros foram feridos na Índia, eles voltaram para casa trazendo balas dentro de si. Eles não falavam delas, e eram robustos e vigorosos, e pareciam tão bem, talvez, quanto você ou eu; mas cada mudança no tempo, por menor que fosse, cada variação da atmosfera, por mais insignificante, trazia de volta a velha agonia de seus ferimentos tão aguda quanto a que sentiram no campo de batalha. Eu tive meu ferimento, Bob; ainda carrego a bala, e a carregarei até meu caixão."

Os viajantes voltaram de São Petersburgo na primavera, e George instalou-se novamente nos aposentos de seu velho amigo, deixando-os apenas de vez em quando para dar um pulo em Southampton e ver seu filhinho. Ele sempre ia carregado de brinquedos e doces para dar à criança; mas, apesar de tudo isso, Georgey não se tornava muito familiar com seu papai, e o coração do jovem adoecia ao começar a imaginar que até seu filho estava perdido para ele.

"O que posso fazer?", pensava ele. "Se eu o tirar de seu avô, partirei seu coração; se eu o deixar ficar, ele crescerá como um estranho para mim, e se importará mais com aquele velho hipócrita bêbado do que com seu próprio pai. Mas, então, o que um dragão ignorante e pesado como eu poderia fazer com tal criança? O que eu poderia ensinar a ele, exceto fumar charutos e vadiar o dia todo com as mãos nos bolsos?"

Assim, o aniversário daquele 30 de agosto, no qual George vira o anúncio da morte de sua esposa no jornal Times, chegou pela primeira vez, e o jovem tirou suas roupas pretas e o crepe surrado de seu chapéu, e guardou suas vestes lúgubres em um baú no qual mantinha um pacote de cartas de sua esposa, seu retrato e aquela mecha de cabelo que fora cortada de sua cabeça após a morte. Robert Audley nunca tinha visto nem as cartas, nem o retrato, nem a longa trança de cabelo sedoso; nem, na verdade, George mencionara o nome de sua falecida esposa depois daquele único dia em Ventnor, no qual soube todos os detalhes de seu falecimento.

"Escreverei para minha prima Alicia hoje, George", disse o jovem advogado, logo neste dia 30 de agosto. "Sabe que depois de amanhã é 1º de setembro? Escreverei e direi a ela que ambos iremos para a Corte por uma semana de caça."

"Não, não, Bob; vá sozinho; eles não me querem, e eu prefiro..."

"Enterrar-se em Figtree Court, sem companhia além de meus cães e canários! Não, George, você não fará nada desse tipo."

"Mas eu não me importo com a caça."

"E você supõe que eu me importo?", exclamou Robert, com um charme ingênuo. "Ora, homem, eu não sei distinguir uma perdiz de um pombo, e poderia ser 1º de abril, em vez de 1º de setembro, pelo que me importa. Nunca machuquei um pássaro em minha vida, mas já machuquei meu próprio ombro com o peso da minha espingarda. Só vou a Essex pela mudança de ares, pelos bons jantares e pela visão do rosto honesto e bonito do meu tio. Além disso, desta vez tenho outro incentivo, pois quero ver este modelo de cabelos claros — minha nova tia. Você irá comigo, George?"

"Sim, se você realmente deseja."

A forma serena que seu luto tomara após sua primeira breve violência deixou-o tão submisso quanto uma criança à vontade de seu amigo; pronto para ir a qualquer lugar ou fazer qualquer coisa; nunca se divertindo, ou criando qualquer diversão, mas juntando-se aos prazeres dos outros com uma resignação sem esperança, sem queixas e discreta, peculiar à sua natureza simples. Mas a volta do correio trouxe uma carta de Alicia Audley, dizendo que os dois jovens não poderiam ser recebidos na Corte.

"Há dezessete quartos de hóspedes livres", escreveu a jovem, em uma letra indignada e corrida, "mas, apesar disso, meu caro Robert, você não pode vir; pois minha senhora colocou na cabeça tola dela que está doente demais para receber visitas (não há nada de errado com ela além do que há comigo), e ela não pode ter cavalheiros (homens grandes e rudes, ela diz) na casa. Por favor, peça desculpas ao seu amigo Sr. Talboys e diga a ele que papai espera vê-los ambos na temporada de caça."

"Os ares e graças de minha senhora não nos manterão fora de Essex, apesar disso", disse Robert, enquanto torcia a carta para fazer um acendedor de cachimbo para seu grande meerschaum. "Vou lhe dizer o que faremos, George: há uma pousada gloriosa em Audley, e muita pesca nas redondezas; iremos lá e teremos uma semana de esporte. Pescar é muito melhor do que caçar; você só precisa se deitar em uma margem e olhar para sua linha; não acho que você pegue muita coisa, mas é muito agradável."

Ele segurou a carta torcida para a fraca centelha de fogo que brilhava na grade, enquanto falava, e então, mudando de ideia, desdobrou-a deliberadamente e alisou o papel amassado com a mão.

"Pobre pequena Alicia!", disse ele, pensativo; "é um pouco duro tratar a carta dela tão desdenhosamente — vou guardá-la"; ao que o Sr. Robert Audley colocou o bilhete de volta em seu envelope e, depois, enfiou-o em um escaninho na sua mesa de escritório, marcado como importante. O céu sabe que documentos maravilhosos havia neste escaninho em particular, mas não creio que seja provável que contivesse algo de grande valor jurídico. Se alguém pudesse, naquele momento, ter dito ao jovem advogado que algo tão simples quanto a breve carta de sua prima se tornaria um dia um elo naquela terrível cadeia de evidências, depois lentamente forjada no único caso criminal em que ele jamais estaria envolvido, talvez o Sr. Robert Audley tivesse erguido as sobrancelhas um pouco mais alto do que o habitual.

Assim, os dois jovens deixaram Londres no dia seguinte, com uma mala de viagem e uma vara e equipamento de pesca entre eles, e chegaram ao espalhado, antiquado e rapidamente decadente vilarejo de Audley, a tempo de pedir um bom jantar na Sun Inn.

Audley Court ficava a cerca de um quilômetro e duzentos metros do vilarejo, situada, como eu disse, profundamente no vale, cercada por árvores exuberantes. Você só podia chegar lá por uma estrada secundária margeada por árvores, e tão bem mantida quanto as avenidas no parque de um cavalheiro. Era um lugar solitário o suficiente, mesmo em toda a sua beleza rústica, para uma criatura tão brilhante quanto a falecida Srta. Lucy Graham, mas o generoso barão transformara o interior da velha mansão cinzenta em um pequeno palácio para sua jovem esposa, e Lady Audley parecia tão feliz quanto uma criança cercada por brinquedos novos e caros.

Em suas melhores fortunas, como em seus velhos tempos de dependência, onde quer que fosse, ela parecia levar sol e alegria consigo. Apesar do desprezo disfarçado da Srta. Alicia pela infantilidade e frivolidade de sua madrasta, Lucy era mais amada e mais admirada do que a filha do barão. Aquela própria infantilidade tinha um encanto ao qual poucos podiam resistir. A inocência e a franqueza de um bebê brilhavam no rosto claro de Lady Audley, e irradiavam de seus olhos azuis grandes e líquidos. Os lábios rosados, o nariz delicado, a profusão de cachos claros, tudo contribuía para preservar à sua beleza o caráter de extrema juventude e frescor. Ela admitia ter vinte anos de idade, mas era difícil acreditar que tivesse mais de dezessete. Sua figura frágil, que ela adorava vestir com veludos pesados e sedas rígidas e farfalhantes, até parecer uma criança fantasiada para um baile de máscaras, era tão juvenil quanto se ela tivesse acabado de sair do berçário. Todos os seus divertimentos eram infantis. Ela odiava ler, ou estudar qualquer tipo de coisa, e adorava a sociedade. Em vez de ficar sozinha, ela admitia Phoebe Marks em sua confiança, e reclinava-se em um dos sofás em seu luxuoso camarim, discutindo um novo traje para algum jantar que se aproximava; ou sentava-se conversando com a moça com sua caixa de joias ao lado, sobre as almofadas de cetim, e os presentes de Sir Michael espalhados em seu colo, enquanto ela contava e admirava seus tesouros.

Ela aparecera em vários bailes públicos em Chelmsford e Colchester, e fora imediatamente estabelecida como a beldade do condado. Satisfeita com sua posição elevada e sua casa elegante; com cada capricho gratificado, cada extravagância satisfeita; admirada e acariciada onde quer que fosse; afeiçoada ao seu generoso marido; rica em uma nobre mesada para despesas pessoais; sem parentes pobres para preocupá-la com exigências sobre sua bolsa ou patrocínio; teria sido difícil encontrar no Condado de Essex uma criatura mais afortunada do que Lucy, Lady Audley.

Os dois jovens demoraram-se sobre a mesa de jantar na sala de estar privativa da Sun Inn. As janelas estavam escancaradas, e o ar fresco do campo soprava sobre eles enquanto jantavam. O tempo estava adorável; a folhagem dos bosques tocada aqui e ali com leves lampejos das primeiras cores do outono; o milho amarelo ainda em pé em alguns campos, em outros apenas caindo sob a foice brilhante; enquanto nas estradas estreitas você encontrava grandes carroças puxadas por cavalos de tração de peito largo, levando para casa a rica reserva dourada. Para qualquer um que tenha estado, durante os meses quentes de verão, confinado em Londres, há no primeiro gosto da vida rústica uma espécie de arrebatamento sensual difícil de descrever. George Talboys sentiu isso, e nisto experimentou a aproximação mais próxima do prazer que ele já conhecera desde a morte de sua esposa.

O relógio bateu cinco horas quando terminaram o jantar.

"Coloque seu chapéu, George", disse Robert Audley; "eles não jantam na Corte até as sete; teremos tempo para passear e ver o velho lugar e seus habitantes."

O estalajadeiro, que entrara no quarto com uma garrafa de vinho, olhou para cima quando o jovem falou.

"Peço perdão, Sr. Audley", disse ele, "mas se deseja ver seu tio, perderá seu tempo indo à Corte agora. Sir Michael e minha senhora e a Srta. Alicia foram todos para as corridas lá em Chorley, e não voltarão antes de quase oito horas, provavelmente. Eles devem passar por aqui para ir para casa."

Nestas circunstâncias, é claro, não adiantava ir à Corte, então os dois jovens passearam pelo vilarejo e olharam a antiga igreja, e depois foram investigar os riachos onde pescariam no dia seguinte, e por tais meios passaram o tempo até depois das sete horas. Por volta de quinze minutos depois dessa hora, voltaram para a pousada e, sentando-se à janela aberta, acenderam seus charutos e olharam para a perspectiva pacífica.

Ouvimos todos os dias sobre assassinatos cometidos no campo. Assassinatos brutais e traiçoeiros; agonias lentas e prolongadas por venenos administrados por alguma mão familiar; mortes súbitas e violentas por golpes cruéis, infligidos com uma estaca cortada de algum carvalho espalhado, cuja sombra prometia — paz. No condado sobre o qual escrevo, mostraram-me um prado no qual, em uma tranquila noite de domingo de verão, um jovem fazendeiro assassinou a moça que o amava e confiava nele; e, no entanto, mesmo agora, com a mancha daquele ato vil sobre ele, o aspecto do lugar é — paz. Nenhum tipo de crime foi jamais cometido nos piores cortiços em torno de Seven Dials que não tenha sido também feito diante daquela calma rústica que ainda, apesar de tudo, observamos com um anseio terno, meio lúgubre, e associamos com — paz.

Estava escurecendo quando charretes e carruagens, dog-carts e phaetons desajeitados de fazendeiros começaram a chacoalhar pela rua do vilarejo e sob as janelas da Sun Inn; escurecia ainda mais quando uma carruagem aberta e quatro cavalos pararam subitamente sob a placa oscilante.

Era o barouche de Sir Michael Audley que parou tão subitamente diante da pequena pousada. O arreio de um dos cavalos da frente ficara fora de ordem, e o postilhão da frente desmontou para consertá-lo.

"Ora, é meu tio", exclamou Robert Audley, quando a carruagem parou. "Vou correr e falar com ele."

George acendeu outro charuto e, protegido pelas cortinas da janela, observou o pequeno grupo. Alicia estava sentada de costas para os cavalos, e ele pôde perceber, mesmo no crepúsculo, que ela era uma morena bonita; mas Lady Audley estava sentada do lado da carruagem mais distante da pousada, e ele não pôde ver nada do modelo de cabelos claros de quem ouvira falar tanto.

"Ora, Robert", exclamou Sir Michael, quando seu sobrinho emergiu da pousada, "isto é uma surpresa!"

"Não vim para incomodá-los na Corte, meu caro tio", disse o jovem, enquanto o barão o cumprimentava com a mão em seu próprio jeito cordial. "Essex é meu condado natal, você sabe, e nesta época do ano geralmente tenho um toque de saudade de casa; então George e eu viemos para a pousada para dois ou três dias de pesca."

"George — George quem?"

"George Talboys."

"O quê, ele veio?", exclamou Alicia. "Estou tão contente; pois estou morrendo de vontade de ver este jovem viúvo bonito."

"Está, Alicia?", disse seu primo. "Então, por Deus, vou correr e buscá-lo, e apresentá-la a ele imediatamente."

Ora, tão completo era o domínio que Lady Audley, em seu próprio jeito infantil e impensado, obtivera sobre seu marido devoto, que era muito raro que os olhos do barão ficassem muito tempo longe do rosto bonito de sua esposa. Quando Robert, portanto, estava prestes a entrar novamente na pousada, bastou o mais leve erguer das sobrancelhas de Lucy, com uma expressão encantadora de cansaço e terror, para fazer seu marido perceber que ela não queria ser incomodada por uma apresentação ao Sr. George Talboys.

"Não se preocupe esta noite, Bob", disse ele. "Minha esposa está um pouco cansada após nosso longo dia de prazer. Traga seu amigo para jantar amanhã, e então ele e Alicia poderão se conhecer. Venha dar uma volta e falar com Lady Audley, e então iremos para casa."

Minha senhora estava tão terrivelmente fatigada que só pôde sorrir docemente e estender uma pequena mão enluvada para seu sobrinho por casamento.

"Você virá jantar conosco amanhã e trará seu amigo interessante?", disse ela, em uma voz baixa e cansada. Ela fora a principal atração do hipódromo, e estava exausta pelo esforço de fascinar metade do condado.

"É um milagre que ela não o tenha presenteado com sua risada interminável", sussurrou Alicia, enquanto se debruçava sobre a porta da carruagem para desejar boa noite a Robert; "mas imagino que ela reserve isso para sua deleitação amanhã. Suponho que você esteja fascinado, assim como todos os outros?", acrescentou a jovem, de forma um tanto ríspida.

"Ela é uma criatura adorável, certamente", murmurou Robert, com admiração plácida.

"Oh, claro! Agora, ela é a primeira mulher de quem ouvi você dizer uma palavra gentil, Robert Audley. Lamento descobrir que você só consegue admirar bonecas de cera."

A pobre Alicia tivera muitas escaramuças com seu primo sobre aquele temperamento particular dele, que, embora lhe permitisse passar pela vida com perfeito contentamento e gozo tácito, impedia inteiramente que ele sentisse uma faísca de entusiasmo sobre qualquer assunto.

"Quanto a ele se apaixonar um dia", pensava a jovem às vezes, "a ideia é absurda. Se todas as divindades na terra estivessem alinhadas diante dele, esperando que seu sultanato jogasse o lenço, ele apenas ergueria as sobrancelhas até o meio da testa e diria para elas lutarem por ele."

Mas, pela única vez em sua vida, Robert estava quase entusiasmado.

"Ela é a criaturinha mais bonita que você já viu na vida, George", exclamou ele, quando a carruagem partiu e ele voltou para seu amigo. "Tais olhos azuis, tais cachos, tal sorriso arrebatador, tal capota de fada — toda trêmula de amores-perfeitos e lantejoulas orvalhadas, brilhando de uma nuvem de gaze. George Talboys, sinto-me como o herói de um romance francês: estou me apaixonando por minha tia."

O viúvo apenas suspirou e tragou seu charuto ferozmente pela janela aberta. Talvez ele estivesse pensando naquele tempo distante — pouco melhor do que cinco anos atrás, na verdade; mas uma era que se passara para ele — quando conheceu pela primeira vez a mulher por quem usara crepe em torno de seu chapéu três dias antes. Retornaram, todos aqueles velhos sentimentos não esquecidos; eles voltaram, com a cena de seu local de nascimento. Novamente ele vadiou com seus colegas oficiais no píer surrado da surrada estação balneária, ouvindo uma banda sombria com uma corneta que estava um tom e meio desafinada. Novamente ele ouviu as velhas árias de ópera, e novamente ela veio saltitando em sua direção, apoiada no braço de seu velho pai, e fingindo (com tal fingimento encantador, delicioso e sério-cômico) estar ouvindo a música, e totalmente alheia à admiração de meia dúzia de oficiais de cavalaria de boca aberta. Novamente a velha fantasia voltou de que ela era algo belo demais para a terra, ou usos terrenos, e que aproximar-se dela era caminhar em uma atmosfera superior e respirar um ar mais puro. E desde então ela fora sua esposa, e a mãe de seu filho. Ela jazia no pequeno cemitério em Ventnor, e apenas um ano atrás ele dera a ordem para sua lápide. Algumas lágrimas lentas e silenciosas caíram sobre seu colete enquanto ele pensava nessas coisas no quarto silencioso e escurecido.

Lady Audley estava tão exausta quando chegou em casa que se desculpou da mesa de jantar e retirou-se imediatamente para seu camarim, atendida por sua criada, Phoebe Marks.

Ela era um pouco caprichosa em sua conduta com essa criada — às vezes muito confidencial, às vezes um tanto reservada; mas ela era uma patroa liberal, e a moça tinha todos os motivos para estar satisfeita com sua situação.

Esta noite, apesar de sua fadiga, ela estava extremamente animada e deu um relato animado das corridas e da companhia presente nelas.

"Estou morta de cansaço, no entanto, Phoebe", disse ela, pouco depois. "Receio que deva estar um espantalho perfeito, depois de um dia sob o sol quente."

Havia velas acesas em cada lado do espelho diante do qual Lady Audley estava em pé, desabotoando seu vestido. Ela olhou diretamente para sua criada enquanto falava, seus olhos azuis claros e brilhantes, e os lábios rosados e infantis franzidos em um sorriso arqueado.

"Você está um pouco pálida, minha senhora", respondeu a moça, "mas você está tão bonita quanto sempre."

"Isso é bom, Phoebe", disse ela, jogando-se em uma cadeira e jogando seus cachos para trás para a criada, que estava de pé, escova na mão, pronta para arrumar o cabelo luxuoso para a noite. "Sabe, Phoebe, ouvi algumas pessoas dizerem que você e eu somos parecidas?"

"Ouvi-as dizer isso também, minha senhora", disse a moça, calmamente, "mas devem ser muito estúpidas por dizê-lo, pois vossa senhoria é uma beldade, e eu sou uma criatura pobre e comum."

"De jeito nenhum, Phoebe", disse a pequena senhora, soberbamente; "você é como eu, e seus traços são muito bons; é apenas cor que lhe falta. Meu cabelo é amarelo claro com reflexos dourados, e o seu é castanho; minhas sobrancelhas e cílios são castanhos escuros, e os seus são quase — mal gosto de dizer, mas são quase brancos, minha querida Phoebe. Sua pele é amarelada, e a minha é rosada e avermelhada. Ora, com um frasco de tintura de cabelo, como vemos anunciado nos jornais, e um pote de rouge, você seria tão bonita quanto eu, qualquer dia, Phoebe."

Ela tagarelou desse jeito por um longo tempo, falando de cem assuntos diferentes, e ridicularizando as pessoas que encontrara nas corridas, para a diversão de sua criada. Sua enteada entrou no camarim para lhe desejar boa noite, e encontrou a criada e a patroa rindo alto de uma das aventuras do dia. Alicia, que nunca era familiar com seus criados, retirou-se com nojo da frivolidade de minha senhora.

"Continue escovando meu cabelo, Phoebe", disse Lady Audley, toda vez que a moça estava prestes a completar sua tarefa, "eu gosto muito de uma conversa com você."

Finalmente, logo após ter dispensado sua criada, ela a chamou de volta subitamente. "Phoebe Marks", disse ela, "quero que você me faça um favor."

"Sim, minha senhora."

"Quero que vá a Londres no primeiro trem de amanhã cedo para executar uma pequena incumbência para mim. Você pode tirar um dia de folga depois, pois sei que tem amigos na cidade; e lhe darei uma nota de cinco libras se fizer o que desejo e guardar o segredo para si."

"Sim, minha senhora."

"Veja se aquela porta está bem trancada e venha sentar-se neste banquinho aos meus pés."

A moça obedeceu. Lady Audley alisou o cabelo de tom neutro de sua criada com sua mão gorda, branca e adornada de joias enquanto refletia por alguns instantes.

"E agora escute, Phoebe. O que quero que faça é muito simples."

Era tão simples que foi dito em cinco minutos, e então Lady Audley retirou-se para seu quarto e encolheu-se confortavelmente sob a colcha de edredom. Ela era uma criatura friorenta e adorava enterrar-se em macios envoltórios de cetim e pele.

"Beije-me, Phoebe", disse ela, enquanto a moça arrumava as cortinas. "Ouço os passos de Sir Michael na antecâmara; você o encontrará ao sair, e pode muito bem dizer-lhe que vai viajar no primeiro trem de amanhã cedo para buscar meu vestido com Madam Frederick para o jantar em Morton Abbey."

Já era tarde na manhã seguinte quando Lady Audley desceu para o café da manhã — depois das dez horas. Enquanto ela saboreava seu café, um criado trouxe-lhe um pacote selado e um livro para ela assinar.

"Uma mensagem telegráfica!" exclamou ela; pois a palavra conveniente, telegrama, ainda não fora inventada. "O que pode ter acontecido?"

Ela olhou para o marido com olhos arregalados, aterrorizados, e parecia quase com medo de romper o selo. O envelope estava endereçado a Miss Lucy Graham, na casa do Sr. Dawson, e fora encaminhado da aldeia.

"Leia, minha querida", disse ele, "e não se alarme; pode não ser nada de importância."

Vinham de uma Sra. Vincent, a preceptora com quem ela vivera antes de ingressar na família do Sr. Dawson. A senhora estava gravemente doente e implorava que sua antiga aluna fosse visitá-la.

"Pobre alma! Ela sempre teve a intenção de me deixar seu dinheiro", disse Lucy, com um sorriso lúgubre. "Ela nunca soube da mudança em minha sorte. Querido Sir Michael, preciso ir vê-la."

"Certamente deve ir, minha querida. Se ela foi gentil com minha pobre menina em sua adversidade, ela tem um direito sobre sua prosperidade que jamais será esquecido. Coloque seu chapéu, Lucy; chegaremos a tempo de pegar o expresso."

"Você irá comigo?"

"Claro, minha querida. Acha que eu a deixaria ir sozinha?"

"Eu tinha certeza de que você iria comigo", disse ela, pensativa.

"Sua amiga enviou algum endereço?"

"Não; mas ela sempre morou em Crescent Villa, West Brompton; e sem dúvida ainda vive lá."

Houve apenas tempo para Lady Audley apressar-se em colocar seu chapéu e xale antes de ouvir a carruagem chegar à porta e Sir Michael chamá-la ao pé da escadaria.

Seu conjunto de aposentos, como eu disse, abria-se um para o outro e terminava em uma antecâmara octogonal adornada com pinturas a óleo. Mesmo em sua pressa, ela parou deliberadamente à porta deste cômodo, trancou-a com chave dupla e guardou a chave no bolso. Esta porta, uma vez trancada, cortava todo o acesso aos aposentos de minha senhora.

CAPÍTULO VIII.

ANTES DA TEMPESTADE.

Assim, o jantar em Audley Court foi adiado, e Miss Alicia teve que esperar ainda mais por uma apresentação ao jovem viúvo, o Sr. George Talboys.

Receio que, se a verdadeira verdade deve ser dita, houvesse talvez um pouco de afetação na ansiedade que esta jovem expressou em conhecer George; mas se a pobre Alicia, por um momento, calculou despertar qualquer centelha latente de ciúme à espreita no peito de seu primo por meio desta demonstração de interesse, ela não conhecia tão bem o temperamento de Robert Audley quanto poderia. Indolente, bonito e indiferente, o jovem advogado levava a vida como um erro tolo demais para que qualquer evento em seu curso insensato fosse por um momento considerado seriamente por um homem sensato.

Sua bela prima de rosto cigano poderia estar perdidamente apaixonada por ele; e ela poderia ter-lhe dito isso, de alguma forma encantadora, indireta e feminina, cem vezes ao dia durante todos os trezentos e sessenta e cinco dias do ano; mas a menos que ela tivesse esperado por algum 29 de fevereiro privilegiado e caminhado diretamente até ele, dizendo: "Robert, por favor, você quer se casar comigo?", duvido muito que ele tivesse descoberto o estado de seus sentimentos.

Por outro lado, se ele próprio estivesse apaixonado por ela, imagino que a terna paixão teria sido, para ele, um sentimento tão vago e fraco que ele poderia ter descido à sepultura com uma vaga noção de alguma sensação incômoda que poderia ser amor ou indigestão e, além disso, sem qualquer conhecimento de seu estado.

Portanto, não adiantou nada, minha pobre Alicia, cavalgar pelas estradas ao redor de Audley durante aqueles três dias que os dois jovens passaram em Essex; foi trabalho desperdiçado usar aquele lindo chapéu de cavaleiro com pluma e estar sempre, pela mais singular das coincidências, encontrando Robert e seu amigo. Os cachos negros (nada parecidos com os cachos emplumados de Lady Audley, mas madeixas pesadas e agrupadas que se agarravam ao seu pescoço pardo e esguio), os lábios vermelhos e franzidos, o nariz inclinado a ser arrebitado, a tez escura, com seu brilho carmesim, sempre pronta a surgir como uma luz de sinalização em um céu sombrio quando você encontrava de repente seu primo apático — toda essa beleza morena, coquete e espelégica, foi desperdiçada nos olhos baços de Robert Audley, e você poderia ter descansado no fresco salão da mansão, em vez de levar sua linda égua à exaustão sob o sol quente de setembro.

Ora, a pesca, exceto para o discípulo devoto de Izaak Walton, não é a mais animada das ocupações; portanto, talvez não seja de se admirar que, no dia seguinte à partida de Lady Audley, os dois jovens (um dos quais estava incapacitado por aquela ferida no coração que carregava tão silenciosamente, de realmente sentir prazer em qualquer coisa, e o outro que via quase todo prazer como um tipo negativo de problema) começassem a se cansar da sombra dos salgueiros que pendiam sobre os riachos sinuosos ao redor de Audley.

"Figtree Court não é alegre nas férias longas", disse Robert, reflexivamente: "mas acho que, no geral, é melhor do que isto; pelo menos, fica perto de uma tabacaria", acrescentou ele, tragando resignadamente um charuto execrável obtido do dono da Sun Inn.

George Talboys, que só havia consentido com a expedição a Essex em submissão passiva ao amigo, não estava de forma alguma inclinado a objetar ao seu retorno imediato a Londres. "Ficarei feliz em voltar, Bob", disse ele, "pois quero dar um pulo até Southampton; não vejo o pequeno há mais de um mês."

Ele sempre falava de seu filho como "o pequeno"; sempre falava dele com mais luto do que esperança. Ele justificava isso dizendo que tinha a fantasia de que a criança nunca aprenderia a amá-lo; e, pior ainda do que essa fantasia, um vago pressentimento de que ele não viveria para ver seu pequeno Georgey atingir a idade adulta.

"Não sou um homem romântico, Bob", costumava dizer às vezes, "e nunca li uma linha de poesia na vida que fosse para mim mais do que meras palavras e rimas; mas um sentimento tomou conta de mim, desde a morte da minha esposa, de que sou como um homem parado em uma praia longa e baixa, com penhascos hediondos franzindo a testa atrás dele, e a maré crescente rastejando lenta, mas seguramente, ao redor de seus pés. Parece ficar mais perto a cada dia, aquela maré negra e impiedosa; não correndo sobre mim com um grande estrondo e um ímpeto poderoso, mas rastejando, creptando, roubando, deslizando em minha direção, pronta para se fechar acima da minha cabeça quando eu estiver menos preparado para o fim."

Robert Audley olhou para o amigo em silêncio e espanto; e, após uma pausa de profunda deliberação, disse solenemente: "George Talboys, eu poderia entender isso se você estivesse comendo jantares pesados. Carne de porco fria, agora, especialmente se malpassada, pode produzir esse tipo de coisa. Você precisa de mudança de ares, meu caro rapaz; você precisa das brisas revigorantes de Figtree Court e do ar calmante de Fleet Street. Ou espere", acrescentou ele, de repente, "já sei! Você esteve fumando os charutos do nosso amigo, o dono da estalagem; isso explica tudo."

Eles encontraram Alicia Audley em sua égua cerca de meia hora depois de terem tomado a decisão de deixar Essex na manhã seguinte. A jovem ficou muito surpresa e decepcionada ao ouvir a decisão de seu primo e, por essa mesma razão, fingiu encarar o assunto com suprema indiferença.

"Você se cansa muito cedo de Audley, Robert", disse ela, displicente; "mas, naturalmente, você não tem amigos aqui, exceto seus parentes na Mansão; enquanto em Londres, sem dúvida, você tem a companhia mais deliciosa e..."

"Eu consigo um bom tabaco", murmurou Robert, interrompendo a prima. "Audley é o lugar antigo mais querido, mas quando um homem tem que fumar folhas de repolho seco, sabe, Alicia..."

"Então você vai mesmo amanhã de manhã?"

"Positivamente — pelo trem expresso que parte às 10h50."

"Então Lady Audley perderá uma apresentação ao Sr. Talboys, e o Sr. Talboys perderá a chance de ver a mulher mais bonita de Essex."

"Realmente..." gaguejou George.

"A mulher mais bonita de Essex teria pouca chance de obter muita admiração do meu amigo, George Talboys", disse Robert. "O coração dele está em Southampton, onde tem um garotinho de cachos, do tamanho do seu joelho, que o chama de 'o cavalheiro grande' e lhe pede balas."

"Vou escrever para minha madrasta pelo correio desta noite", disse Alicia. "Ela me perguntou particularmente em sua carta por quanto tempo vocês ficariam e se havia alguma chance de ela estar de volta a tempo de recebê-los."

Miss Audley tirou uma carta do bolso de sua jaqueta de montaria enquanto falava — um bilhete bonito e feérico, escrito em papel brilhante de um tom cremoso peculiar.

"Ela diz no pós-escrito: 'Não deixe de responder à minha pergunta sobre o Sr. Audley e seu amigo, sua Alicia volúvel e esquecida!'"

"Que caligrafia bonita ela tem!" disse Robert, enquanto a prima dobrava o bilhete.

"Sim, é bonita, não é? Veja, Robert."

Ela colocou a carta na mão dele, e ele a contemplou preguiçosamente por alguns minutos, enquanto Alicia acariciava o pescoço gracioso de sua égua castanha, que estava ansiosa para partir mais uma vez.

"Já vou, Atalanta, já vou. Devolva-me meu bilhete, Bob."

"É a caligrafia mais bonita e coquete que já vi. Sabe, Alicia, não tenho grande crença naqueles sujeitos que pedem treze selos postais e se oferecem para dizer o que você nunca conseguiu descobrir por si mesma; mas, por minha palavra, acho que se eu nunca tivesse visto sua tia, saberia como ela é por este pedacinho de papel. Sim, está tudo aqui — os cachos de linho, emplumados e salpicados de ouro, as sobrancelhas delineadas, o nariz minúsculo e reto, o sorriso infantil e cativante; tudo para ser adivinhado nestes poucos traços graciosos para cima e para baixo. George, veja isto!"

Mas o distraído e sombrio George Talboys tinha se afastado ao longo da margem da vala e ficara batendo nas taboas com sua bengala, a meia dúzia de passos de Robert e Alicia.

"Não importa", disse a jovem, impacientemente; pois ela de forma alguma gostava desta longa dissertação sobre o bilhete de minha senhora. "Dê-me a carta e deixe-me ir; são mais de oito horas, e preciso respondê-la pelo correio desta noite. Vamos, Atalanta! Adeus, Robert — adeus, Sr. Talboys. Uma boa viagem para a cidade."

A égua castanha galopou vivamente pela estrada, e Miss Audley estava fora de vista antes que aquelas duas lágrimas grandes e brilhantes que ficaram em seus olhos por um momento, antes que seu orgulho as mandasse de volta, subissem de seu coração irritado.

"Ter apenas um primo no mundo", gritou ela, apaixonadamente, "meu parente mais próximo depois do papai, e para ele importar-me tanto quanto um cachorro!"

Pelo mais puro dos acasos, contudo, Robert e seu amigo não foram pelo expresso das 10h50 na manhã seguinte, pois o jovem advogado acordou com uma dor de cabeça tão lancinante que pediu a George que lhe enviasse uma xícara do chá verde mais forte que já fora feito na Sun, e que fosse, além disso, tão gentil a ponto de adiar a viagem deles para o dia seguinte. Naturalmente, George assentiu, e Robert Audley passou a manhã em um quarto escurecido com um jornal de Chelmsford de cinco dias atrás para se entreter.

"Não é nada além dos charutos, George", dizia ele, repetidamente. "Tire-me deste lugar sem que eu veja o dono da estalagem; pois se aquele homem e eu nos encontrarmos, haverá derramamento de sangue."

Felizmente para a paz de Audley, calhou de ser dia de mercado em Chelmsford; e o digno estalajadeiro partira em sua carroça para comprar mantimentos para sua casa — entre outras coisas, talvez, um novo estoque daqueles mesmos charutos que tinham sido tão fatais em seus efeitos sobre Robert.

Os jovens passaram um dia enfadonho, ocioso, estúpido e improdutivo; e, ao entardecer, o Sr. Audley propôs que descessem até a Mansão e pedissem a Alicia que os levasse para conhecer a casa.

"Isso matará algumas horas, sabe, George: e parece uma grande pena arrastá-lo de Audley sem ter lhe mostrado o lugar antigo, que, dou-lhe minha palavra, vale muito a pena ver."

O sol estava baixo no céu enquanto eles pegavam um atalho pelos prados e cruzavam uma porteira para a avenida que levava ao arco — um pôr do sol lívido, pesado e ameaçador, e uma quietude mortal no ar, que assustava os pássaros que tinham vontade de cantar e deixava o campo aberto para alguns sapos rabugentos coaxando nas valas. Por mais estática que estivesse a atmosfera, as folhas farfalhavam com aquele movimento sinistro e trêmulo que não provém de causa externa, mas é antes um estremecimento instintivo dos galhos frágeis, pressagiando uma tempestade que se aproxima. Aquele relógio estúpido, que não conhecia meio-termo e sempre pulava de uma hora para outra, marcava sete quando os jovens passaram sob o arco; mas, apesar disso, eram quase oito.

Eles encontraram Alicia no caminho de tílias, vagando sem rumo para cima e para baixo sob a sombra negra das árvores, das quais, de vez em quando, uma folha murcha caía lentamente ao chão.

Estranhamente, George Talboys, que raramente observava qualquer coisa, notou particularmente aquele lugar.

"Deveria ser uma avenida em um cemitério", disse ele. "Como os mortos poderiam dormir pacificamente sob esta sombra sombria! Gostaria que o cemitério em Ventnor fosse assim."

Eles caminharam até o poço em ruínas, e Alicia contou-lhes alguma lenda antiga ligada ao local — alguma história sombria, como aquelas sempre atribuídas a uma casa antiga, como se o passado fosse uma página escura de tristeza e crime.

"Queremos ver a casa antes que escureça, Alicia", disse Robert.

"Então precisamos ser rápidos", respondeu ela. "Venham."

Ela liderou o caminho através de uma janela francesa aberta, modernizada alguns anos antes, para a biblioteca, e de lá para o saguão.

No saguão, eles passaram pela criada de rosto pálido de minha senhora, que olhou furtivamente por baixo de seus cílios brancos para os dois jovens.

Eles estavam subindo as escadas quando Alicia se virou e falou com a moça.

"Depois de estarmos na sala de estar, gostaria de mostrar a estes cavalheiros os aposentos de Lady Audley. Estão em boa ordem, Phoebe?"

"Sim, senhorita; mas a porta da antecâmara está trancada e imagino que minha senhora tenha levado a chave para Londres."

"Levou a chave! Impossível!" gritou Alicia.

"Na verdade, senhorita, acho que ela levou. Não consigo encontrá-la, e costumava estar sempre na porta."

"Eu declaro", disse Alicia, impacientemente, "que não é nada estranho da parte de minha senhora ter tido esse capricho tolo em mente. Aposto que ela ficou com medo de que entrássemos em seus aposentos, fuxicássemos entre seus vestidos bonitos e mexêssemos em suas joias. É muito irritante, pois as melhores pinturas da casa estão naquela antecâmara. Há também o seu próprio retrato, inacabado, mas maravilhosamente parecido."

"O retrato dela!" exclamou Robert Audley. "Eu daria qualquer coisa para vê-lo, pois tenho apenas uma noção imperfeita de seu rosto. Não há outro caminho para entrar no cômodo, Alicia?"

"Outro caminho?"

"Sim; existe alguma porta, passando por algum dos outros cômodos, pela qual possamos conseguir entrar no dela?"

Sua prima balançou a cabeça e conduziu-os a um corredor onde havia alguns retratos de família. Ela mostrou-lhes um aposento com tapeçarias, as figuras grandes sobre a tela desbotada parecendo ameaçadoras na luz sombria.

"Aquele sujeito com o machado de batalha parece querer rachar a cabeça de George", disse o Sr. Audley, apontando para um guerreiro feroz, cujo braço erguido aparecia acima do cabelo escuro de George Talboys.

"Saia deste cômodo, Alicia", acrescentou o jovem, nervosamente; "acredito que esteja úmido ou então assombrado. Na verdade, acredito que todos os fantasmas sejam resultado de umidade ou dispepsia. Você dorme em uma cama úmida — acorda de repente no meio da noite com um calafrio e vê uma velha senhora com o traje da corte da época de Jorge I, sentada ao pé da cama. A velha senhora é a indigestão, e o calafrio é um lençol úmido."

Havia velas acesas na sala de estar. Nenhuma lâmpada moderna jamais aparecera em Audley Court. Os aposentos de Sir Michael eram iluminados por velas de cera honestas, espessas e de aparência amarelada, em castiçais de prata maciça e em arandelas nas paredes.

Havia muito pouco para ver na sala de estar; e George Talboys logo se cansou de encarar o belo mobiliário moderno e algumas pinturas de alguns dos acadêmicos.

"Não há uma passagem secreta, ou um baú de carvalho antigo, ou algo desse tipo, em algum lugar do lugar, Alicia?" perguntou Robert.

"É claro!" gritou Miss Audley, com uma veemência que assustou seu primo; "naturalmente. Por que não pensei nisso antes? Como fui estúpida!"

"Por que estúpida?"

"Porque, se você não se importar em rastejar de mãos e joelhos, pode ver os aposentos de minha senhora, pois essa passagem comunica-se com seu camarim. Ela mesma não sabe disso, eu acredito. Como ela ficaria assombrada se algum ladrão de viseira preta, com uma lanterna surda, surgisse pelo chão certa noite enquanto ela estivesse sentada diante de seu espelho, arrumando o cabelo para uma festa!"

"Devemos tentar a passagem secreta, George?" perguntou o Sr. Audley.

"Sim, se você deseja."

Alicia conduziu-os ao cômodo que já fora seu berçário. Agora estava em desuso, exceto em ocasiões muito raras, quando a casa estava cheia de companhia.

Robert Audley levantou um canto do tapete, de acordo com as instruções de sua prima, e revelou um alçapão rudemente cortado no piso de carvalho.

"Agora ouça-me", disse Alicia. "Você deve se abaixar pelas mãos para a passagem, que tem cerca de um metro e vinte de altura; abaixe a cabeça, caminhe direto até chegar a uma curva fechada que o levará à esquerda, e no final dela encontrará uma escada curta abaixo de um alçapão como este, que você terá que destravar; essa porta abre-se no piso do camarim de minha senhora, que é coberto apenas por um tapete persa quadrado que você pode facilmente levantar. Você me entende?"

"Perfeitamente."

"Então leve a luz; o Sr. Talboys o seguirá. Dou-lhe vinte minutos para sua inspeção das pinturas — ou seja, cerca de um minuto cada — e ao final desse tempo esperarei vê-los retornar."

Robert obedeceu-a implicitamente, e George, seguindo submissamente o amigo, viu-se, em cinco minutos, no meio da desordem elegante do camarim de Lady Audley.

Ela havia deixado a casa às pressas em sua viagem inesperada a Londres, e todo o seu reluzente aparato de toucador jazia espalhado sobre a penteadeira de mármore. A atmosfera do quarto era quase opressiva devido aos ricos odores dos perfumes nos frascos cujas rolhas de ouro não haviam sido repostas. Um ramalhete de flores de estufa murchava sobre uma minúscula escrivaninha. Dois ou três vestidos elegantes jaziam em um monte sobre o chão, e as portas abertas de um guarda-roupa revelavam os tesouros em seu interior. Joias, escovas de cabelo com cabos de marfim e porcelanas requintadas estavam espalhadas aqui e ali pelo apartamento. George Talboys viu seu rosto barbudo e sua figura alta e esquálida refletidos no espelho, e maravilhou-se ao ver o quão deslocado parecia entre todos esses luxos femininos.

Eles foram do camarim para o boudoir, e através do boudoir para a antecâmara, na qual havia, como Alicia dissera, cerca de vinte pinturas valiosas, além do retrato de minha senhora.

O retrato de minha senhora estava sobre um cavalete, coberto com um baetão verde no centro da câmara octogonal. Tinha sido uma fantasia do artista pintá-la de pé naquele mesmo cômodo, e fazer de seu fundo uma reprodução fiel das paredes retratadas. Temo que o jovem pertencesse à irmandade pré-rafaelita, pois havia gasto um tempo excessivo com os acessórios deste quadro — com os cachos frisados de minha senhora e as pesadas dobras de seu vestido de veludo carmesim.

Os dois jovens olharam primeiro para as pinturas nas paredes, deixando este retrato inacabado para o arremate final.

A essa altura já estava escuro, e a vela carregada por Robert criava apenas um núcleo de luz enquanto ele se movia, segurando-a diante das pinturas, uma a uma. A janela larga e nua dava para o céu pálido, tingido pelo último brilho frio do crepúsculo. A hera farfalhava contra o vidro com o mesmo arrepio agourento que agitava cada folha no jardim, profético da tempestade que estava por vir.

"Ali estão os eternos cavalos brancos do nosso amigo", disse Robert, parado ao lado de um Wouvermans. "Nicholas Poussin — Salvator — ha — hum! Agora, o retrato."

Ele hesitou com a mão sobre o baetão e dirigiu-se solenemente ao amigo.

"George Talboys", disse ele, "temos entre nós apenas uma vela de cera, uma luz muito inadequada para observar uma pintura. Permita-me, portanto, solicitar que nos seja permitido observá-la um de cada vez; se há algo mais desagradável do que outra coisa, é ter uma pessoa desviando por trás de suas costas e espiando por cima de seu ombro, quando você está tentando ver do que um quadro é feito."

George recuou imediatamente. Ele não demonstrou mais interesse pelo retrato de nenhuma senhora do que por todos os outros tédios deste mundo problemático. Ele recuou e, encostando a testa nos vidros da janela, olhou para a noite.

Quando se virou, viu que Robert havia arrumado o cavalete de forma muito conveniente e que se sentara em uma cadeira diante dele com o propósito de contemplar a pintura à vontade.

Ele se levantou quando George se virou.

"Agora, então, é sua vez, Talboys", disse ele. "É um quadro extraordinário."

Ele ocupou o lugar de George na janela, e George sentou-se na cadeira diante do cavalete.

Sim, o pintor deve ter sido um pré-rafaelita. Ninguém, exceto um pré-rafaelita, teria pintado, fio a fio, aquelas massas plumosas de cachos, com cada brilho de ouro e cada sombra de marrom pálido. Ninguém, exceto um pré-rafaelita, teria exagerado tanto cada atributo daquele rosto delicado a ponto de conferir um brilho lívido à tez loira, e uma luz estranha e sinistra aos olhos azul-profundos. Ninguém, exceto um pré-rafaelita, poderia ter dado àquela boca bonita e amuada o aspecto duro e quase perverso que ela tinha no retrato.

Era tão parecido, e ainda assim tão diferente. Era como se você tivesse queimado fogos de cores estranhas diante do rosto de minha senhora e, por influência deles, trazido à tona novas linhas e novas expressões nunca antes vistas nele. A perfeição dos traços, o brilho das cores, estavam lá; mas suponho que o pintor tivesse copiado monstruosidades medievais pitorescas até que seu cérebro ficasse confuso, pois minha senhora, em seu retrato, tinha algo do aspecto de um belo demônio.

Seu vestido carmesim, exagerado como todo o resto nesta estranha pintura, pendia ao redor dela em dobras que pareciam chamas, sua cabeça clara espiando da massa lívida de cor como se fosse de um forno em brasa. De fato, o vestido carmesim, a luz do sol no rosto, o ouro avermelhado brilhando no cabelo amarelo, o escarlate maduro dos lábios amuados, as cores vibrantes de cada acessório do fundo pintado minuciosamente, tudo se combinava para tornar o efeito inicial da pintura nada agradável.

Mas, por mais estranho que fosse o quadro, ele não deve ter causado grande impressão em George Talboys, pois ele ficou sentado diante dele por cerca de um quarto de hora sem pronunciar uma palavra — apenas encarando fixamente a tela pintada, com o castiçal agarrado em sua mão direita forte e o braço esquerdo pendendo frouxamente ao lado do corpo. Ele ficou tanto tempo nessa atitude que Robert finalmente se virou.

"Ora, George, pensei que você tivesse dormido!"

"Eu quase dormi."

"Você pegou um resfriado por ficar parado naquele cômodo úmido e forrado de tapeçaria. Marque minhas palavras, George Talboys, você pegou um resfriado; está rouco como um corvo. Mas vamos embora."

Robert Audley tomou a vela da mão do amigo e voltou rastejando pela passagem secreta, seguido por George — muito quieto, mas quase não mais quieto do que o habitual.

Encontraram Alicia no berçário esperando por eles.

"Bem?", perguntou ela, interrogativamente.

"Conseguimos perfeitamente. Mas não gosto do retrato; há algo estranho nele."

"Há", disse Alicia; "tenho uma fantasia estranha sobre esse ponto. Acho que, às vezes, um pintor é, de certa forma, inspirado e capaz de ver, através da expressão normal do rosto, outra expressão que é igualmente parte dele, embora não seja percebida por olhos comuns. Nunca vimos minha senhora como ela está naquele quadro; mas acho que ela poderia parecer assim."

"Alicia", disse Robert Audley, implorante, "não seja alemã!"

"Mas, Robert—"

"Não seja alemã, Alicia, se você me ama. O quadro é — o quadro: e minha senhora é — minha senhora. Esse é o meu jeito de ver as coisas, e não sou metafísico; não me deixe perturbado."

Ele repetiu isso várias vezes com um ar de terror que era perfeitamente sincero; e então, tendo pegado um guarda-chuva emprestado caso fosse surpreendido pela tempestade que se aproximava, deixou o Court, levando consigo o passivo George Talboys. O único ponteiro do relógio estúpido já tinha pulado para as nove quando chegaram ao arco; mas antes que pudessem passar sob sua sombra, tiveram que se desviar para permitir que uma carruagem passasse velozmente por eles. Era um carro de praça do vilarejo, mas o rosto claro de Lady Audley espiou pela janela. Escuro como estava, ela pôde ver as duas figuras dos jovens negras contra o crepúsculo.

"Quem é esse?", perguntou ela, colocando a cabeça para fora. "É o jardineiro?"

"Não, minha querida tia", disse Robert, rindo; "é seu sobrinho mais obediente."

Ele e George pararam junto ao arco enquanto o carro encostava na porta, e os servos surpresos saíam para dar as boas-vindas ao seu senhor e senhora.

"Acho que a tempestade vai esperar até amanhã", disse o barão, olhando para o céu; "mas certamente a teremos amanhã."

CAPÍTULO IX.

APÓS A TEMPESTADE.

Sir Michael estava enganado em sua profecia sobre o tempo. A tempestade não esperou até o dia seguinte, mas irrompeu com terrível fúria sobre o vilarejo de Audley cerca de meia hora antes da meia-noite.

Robert Audley encarou o trovão e o relâmpago com a mesma compostura com que aceitava todos os outros males da vida. Ele estava deitado em um sofá na sala de estar, aparentemente lendo o jornal de Chelmsford de cinco dias atrás, e regalando-se ocasionalmente com alguns goles de um grande copo de ponche frio. Mas a tempestade teve um efeito bem diferente em George Talboys. Seu amigo ficou assustado quando olhou para o rosto branco do jovem enquanto ele se sentava em frente à janela aberta, ouvindo o trovão e encarando o céu negro, rasgado de vez em quando por riscos bifurcados de relâmpago azul-aço.

"George", disse Robert, depois de observá-lo por algum tempo, "você tem medo de relâmpagos?"

"Não", respondeu ele, de forma curta.

"Mas, querido amigo, alguns dos homens mais corajosos tiveram medo disso. Mal pode ser chamado de medo: é constitucional. Tenho certeza de que você tem medo disso."

"Não, eu não tenho."

"Mas, George, se você pudesse se ver, branco e abatido, com seus grandes olhos vazios encarando o céu como se estivessem fixos em um fantasma. Eu lhe digo que sei que você tem medo disso."

"E eu lhe digo que não tenho."

"George Talboys, você não tem apenas medo do relâmpago, mas está furioso consigo mesmo por ter medo, e comigo por lhe contar sobre seu medo."

"Robert Audley, se você disser mais uma palavra para mim, eu vou derrubá-lo", gritou George, furiosamente; tendo dito isso, o Sr. Talboys saiu do quarto a passos largos, batendo a porta atrás de si com uma violência que sacudiu a casa. Aquelas nuvens cor de tinta, que haviam fechado a terra abafada como se fosse com um telhado de ferro quente, derramaram sua escuridão em um dilúvio repentino enquanto George deixava o quarto; mas se o jovem tinha medo do relâmpago, ele certamente não tinha medo da chuva; pois ele caminhou direto escada abaixo até a porta da estalagem e saiu para a estrada principal molhada. Ele andou de um lado para o outro, de um lado para o outro, sob o aguaceiro por cerca de vinte minutos e, então, retornando à estalagem, caminhou até seu quarto.

Robert Audley encontrou-o no patamar, com o cabelo batido sobre o rosto branco e as roupas ensopadas de chuva.

"Você vai dormir, George?"

"Vou."

"Mas você não tem uma vela."

"Não quero uma."

"Mas olhe para as suas roupas, homem! Você vê a água escorrendo pelas mangas do seu casaco? O que diabos fez você sair em uma noite dessas?"

"Estou cansado e quero dormir — não me amole."

"Você vai tomar um pouco de conhaque quente com água, George?"

Robert Audley ficou no caminho do amigo enquanto falava, ansioso para impedi-lo de ir para a cama no estado em que se encontrava; mas George empurrou-o ferozmente para o lado e, passando por ele, disse, com a mesma voz rouca que Robert notara no Court:

"Deixe-me em paz, Robert Audley, e mantenha-se longe de mim, se puder."

Robert seguiu George até seu quarto, mas o jovem bateu a porta na sua cara, então não restou nada a fazer a não ser deixar o Sr. Talboys sozinho, para se acalmar como pudesse.

"Ele ficou irritado por eu notar seu terror do relâmpago", pensou Robert, enquanto se retirava calmamente para descansar, serenamente indiferente ao trovão, que parecia sacudi-lo na cama, e ao relâmpago que brincava intermitentemente ao redor das navalhas em sua maleta de toucador aberta.

A tempestade passou longe do tranquilo vilarejo de Audley, e quando Robert acordou na manhã seguinte, foi para ver um sol brilhante e um vislumbre de céu sem nuvens entre as cortinas brancas da janela de seu quarto.

Era uma daquelas manhãs serenas e adoráveis que às vezes sucedem uma tempestade. Os pássaros cantavam alto e alegremente, o milho amarelo erguia-se nos vastos campos e ondulava orgulhosamente após sua luta acirrada com a tempestade, que fizera o possível para derrubar as espigas pesadas com vento cruel e chuva forte durante quase toda a noite. As folhas de videira que se aglomeravam ao redor da janela de Robert agitavam-se com um farfalhar alegre, sacudindo as gotas de chuva em chuvas de diamantes de cada ramo e gavinhas.

Robert Audley encontrou seu amigo esperando por ele à mesa do café da manhã.

George estava muito pálido, mas perfeitamente tranquilo — se é que não estava, na verdade, mais alegre do que o habitual.

Ele apertou a mão de Robert com um pouco daquela maneira calorosa pela qual se distinguia antes que a única aflição de sua vida o alcançasse e o naufragasse.

"Perdoe-me, Bob", disse ele, francamente, "pelo meu temperamento ranzinza da noite passada. Você estava totalmente correto em sua afirmação; a tempestade me deixou perturbado. Ela sempre teve o mesmo efeito sobre mim na minha juventude."

"Pobre velho! Vamos pegar o expresso, ou ficaremos aqui e jantaremos com meu tio hoje à noite?", perguntou Robert.

"Para dizer a verdade, Bob, eu preferiria não fazer nenhum dos dois. É uma manhã gloriosa. Que tal passarmos o dia todo passeando, darmos outra volta com a vara e a linha, e subirmos para a cidade no trem que sai daqui às 6h15 da noite?"

Robert Audley teria concordado com uma proposta muito mais desagradável do que esta, em vez de se dar ao trabalho de se opor ao seu amigo, então o assunto foi imediatamente acertado; e depois que terminaram o café da manhã e pediram um jantar para as quatro horas, George Talboys colocou a vara de pescar sobre seus ombros largos e saiu da casa com seu amigo e companheiro.

Mas se o temperamento equilibrado do Sr. Robert Audley não tinha sido perturbado pelos estalos dos trovões que sacudiam as próprias fundações da estalagem Sun, o mesmo não aconteceu com as sensibilidades mais delicadas da jovem esposa de seu tio. Lady Audley confessou estar terrivelmente assustada com o relâmpago. Ela mandou colocar sua cama em um canto do quarto e, com as cortinas pesadas bem fechadas ao seu redor, deitou-se com o rosto enterrado no travesseiro, tremendo convulsivamente a cada som da tempestade lá fora. Sir Michael, cujo coração valente nunca conhecera o medo, quase tremeu por essa criatura frágil, a quem era seu privilégio feliz proteger e defender. Minha senhora não quis consentir em se despir até quase as três horas da manhã, quando o último trovão persistente desapareceu entre as colinas distantes. Até essa hora, ela ficou deitada no elegante vestido de seda em que viajara, encolhida entre as roupas de cama, olhando para cima apenas de vez em quando com um rosto assustado para perguntar se a tempestade havia acabado.

Perto das quatro horas, seu marido, que passou a noite vigiando ao pé de sua cama, viu-a cair em um sono profundo, do qual não acordou por quase cinco horas.

Mas ela entrou na sala de café da manhã, às nove e meia, cantando uma pequena melodia escocesa, suas bochechas tingidas com um rosa tão delicado quanto o tom pálido de seu vestido de manhã de musselina. Como os pássaros e as flores, ela parecia recuperar sua beleza e alegria sob o sol da manhã. Ela saltitou levemente para o gramado, colhendo um botão de rosa persistente aqui e ali, e um ou dois ramos de gerânio, e retornando através da grama orvalhada, cantarolando longas cadências pela pura felicidade do coração, e parecendo tão fresca e radiante quanto as flores em suas mãos. O barão a pegou em seus braços fortes quando ela entrou pela janela aberta.

"Minha linda", disse ele, "minha querida, que felicidade ver você sendo sua própria e alegre pessoa novamente! Você sabia, Lucy, que uma vez na noite passada, quando você olhou pelas cortinas verdes escuras da cama, com seu pobre rosto branco e os aros roxos ao redor de seus olhos fundos, eu quase tive dificuldade em reconhecer minha pequena esposa naquela criatura aterrorizada e agonizante, chorando por causa da tempestade. Graças a Deus pelo sol da manhã, que trouxe de volta as bochechas rosadas e o sorriso brilhante! Espero ao Céu, Lucy, nunca mais ver você como estava na noite passada."

Ela ficou na ponta dos pés para beijá-lo, e mesmo assim só teve altura para alcançar sua barba branca. Ela lhe disse, rindo, que sempre fora uma criatura boba e assustada — assustada com cães, assustada com o gado, assustada com tempestades, assustada com um mar agitado. "Assustada com tudo e com todos, exceto com meu querido, nobre e belo marido", disse ela.

Ela encontrara o tapete em seu camarim desarrumado e indagou sobre o mistério da passagem secreta. Ela repreendeu a senhorita Alicia de uma forma brincalhona e risonha, por sua audácia em introduzir dois grandes homens nos aposentos de minha senhora.

"E eles tiveram a audácia de olhar para o meu retrato, Alicia", disse ela, com uma indignação fingida. "Encontrei o baetão jogado no chão, e a luva de um grande homem sobre o tapete. Olhe!"

Ela ergueu uma luva de direção grossa enquanto falava. Era de George, que ele deixara cair ao olhar para o quadro.

"Vou subir até a Sun e convidar aqueles rapazes para jantar", disse Sir Michael, enquanto deixava o Court em sua caminhada matinal pela fazenda.

Lady Audley flutuava de sala em sala sob o sol brilhante de setembro — agora sentando-se ao piano para trinar uma balada, ou a primeira página de uma bravura italiana, ou correndo com dedos rápidos por uma valsa brilhante — agora pairando sobre um suporte de flores de estufa, fazendo jardinagem amadora com um par de tesouras de bordado de prata, parecidas com fadas — agora passeando pelo seu camarim para conversar com Phoebe Marks e ter seus cachos rearranjados pela terceira ou quarta vez; pois os cachos estavam sempre ficando desarrumados e davam não pouco trabalho à criada de Lady Audley.

Minha querida senhora parecia, neste dia particular de setembro, inquieta pela própria alegria de espírito, e incapaz de ficar muito tempo em um lugar, ou ocupar-se com uma única coisa.

Enquanto Lady Audley se divertia à sua maneira frívola, os dois jovens passeavam lentamente ao longo da margem do riacho até chegarem a um canto sombreado onde a água era profunda e calma, e os longos galhos dos salgueiros se arrastavam pelo riacho.

George Talboys pegou a vara de pescar, enquanto Robert se esticava em todo o seu comprimento sobre um cobertor de viagem e, equilibrando o chapéu sobre o nariz como uma proteção contra o sol, adormeceu profundamente.

Aqueles eram peixes felizes no riacho, nas margens dos quais o Sr. Talboys estava sentado. Eles poderiam ter se divertido à vontade com mordidas tímidas na isca deste cavalheiro sem de forma alguma colocar em perigo sua segurança; pois George apenas olhava vagamente para a água, segurando sua vara em uma mão frouxa e indiferente, e com um olhar estranho e distante em seus olhos. Quando o relógio da igreja bateu duas horas, ele jogou sua vara de lado e, caminhando ao longo da margem, deixou Robert Audley desfrutar de um cochilo que, de acordo com os hábitos daquele cavalheiro, não era de forma alguma improvável que durasse duas ou três horas. Cerca de um quarto de milha adiante, George atravessou uma ponte rústica e entrou nos prados que levavam a Audley Court.

Os pássaros tinham cantado tanto a manhã toda que talvez, a essa altura, estivessem cansados; o gado preguiçoso estava dormindo nos prados; Sir Michael ainda estava fora em seu passeio matinal; a senhorita Alicia tinha saído galopando uma hora antes em sua égua castanha; os servos estavam todos almoçando na parte de trás da casa; e minha senhora tinha passeado, livro na mão, pelo sombrio caminho de tílias; de modo que o velho edifício cinzento nunca ostentara um aspecto mais pacífico do que naquela tarde brilhante em que George Talboys atravessou o gramado para tocar um toque sonoro na resistente porta de carvalho, reforçada com ferro.

O servo que atendeu à sua chamada disse-lhe que Sir Michael estava fora e minha senhora caminhava na avenida das tílias.

Ele pareceu um pouco desapontado com essa notícia e, murmurando algo sobre querer ver minha senhora, ou ir procurar minha senhora (o servo não distinguiu claramente suas palavras), afastou-se da porta sem deixar cartão ou mensagem para a família.

Passou-se uma hora e meia depois disso quando Lady Audley retornou à casa, não vindo do caminho das tílias, mas exatamente da direção oposta, carregando seu livro aberto na mão e cantando enquanto vinha. Alicia tinha acabado de desmontar de sua égua e estava na porta de arco baixo, com seu grande cão Terra-Nova ao seu lado.

O cão, que nunca gostara de minha senhora, mostrou os dentes com um rosnado reprimido.

"Mande esse animal horrível embora, Alicia", disse Lady Audley, impaciente. "O bruto sabe que tenho medo dele e aproveita-se do meu terror. E ainda dizem que as criaturas são generosas e de coração nobre! Bah, Caesar! Eu te odeio, e você me odeia; e se você me encontrasse no escuro em alguma passagem estreita, você saltaria na minha garganta e me estrangularia, não é?"

Minha senhora, abrigada em segurança atrás de sua enteada, sacudiu os cachos loiros para o animal furioso e desafiou-o maliciosamente.

"Sabe, Lady Audley, que o Sr. Talboys, o jovem viúvo, esteve aqui perguntando pelo Sir Michael e por si?"

Lucy Audley ergueu as sobrancelhas desenhadas a lápis. "Julguei que viessem para o jantar", disse ela. "Certamente teremos o suficiente deles então."

Ela trazia um monte de flores silvestres de outono na saia do seu vestido de musselina. Vinha pelos campos atrás de Audley Court, colhendo as flores da sebe pelo caminho. Subiu levemente a larga escadaria para os seus aposentos. A luva de George jazia sobre a mesa do seu boudoir. Lady Audley tocou a campainha violentamente, e foi atendida por Phoebe Marks. "Leve essa tralha daqui", disse ela, rispidamente. A rapariga recolheu a luva, algumas flores murchas e papéis rasgados que estavam sobre a mesa para dentro do seu avental.

"O que esteve a fazer durante toda a manhã?", perguntou minha senhora. "Não esteve a desperdiçar o seu tempo, espero?"

"Não, minha senhora, estive a alterar o vestido azul. Está um pouco escuro deste lado da casa, por isso levei-o para o meu quarto e trabalhei junto à janela."

A rapariga estava a sair do quarto enquanto falava, mas virou-se e olhou para Lady Audley como se esperasse mais ordens.

Lucy olhou para cima no mesmo instante, e os olhos das duas mulheres encontraram-se.

"Phoebe Marks", disse minha senhora, lançando-se numa poltrona e brincando com as flores silvestres no seu regaço, "és uma rapariga boa e industriosa, e enquanto eu viver e for próspera, nunca te faltará uma amiga firme ou uma nota de vinte libras."

CAPÍTULO X.

DESAPARECIDO.

Quando Robert Audley acordou, ficou surpreendido ao ver a cana de pesca deitada na margem, a linha arrastando-se ociosamente na água e a boia oscilando inofensivamente para cima e para baixo ao sol da tarde. O jovem advogado levou muito tempo a esticar os braços e as pernas em várias direções para se convencer, por meio de tal exercício, de que ainda retinha o uso adequado desses membros; depois, com um esforço tremendo, conseguiu erguer-se da relva e, tendo dobrado deliberadamente a sua manta de viagem numa forma conveniente para carregar sobre o ombro, passeou-se à procura de George Talboys.

Uma ou duas vezes deu um grito sonolento, mal alto o suficiente para assustar os pássaros nos ramos acima da sua cabeça ou as trutas no riacho aos seus pés; mas, não recebendo resposta, cansou-se do esforço e continuou a vaguear, bocejando à medida que avançava, ainda à procura de George Talboys.

Pouco depois, tirou o relógio e ficou surpreendido ao descobrir que eram quatro e um quarto.

"Ora, o pedinte egoísta deve ter ido para casa jantar!", murmurou ele, reflexivo; "e, no entanto, isso não é muito parecido com ele, pois raramente se lembra sequer das suas refeições, a menos que eu lhe refresque a memória."

Nem mesmo um bom apetite, e o conhecimento de que o seu jantar sofreria muito provavelmente com este atraso, pôde apressar a vadiagem constitucional do Sr. Robert Audley, e quando ele entrou pela porta da frente do Sun, os relógios davam as cinco. Ele esperava tanto encontrar George Talboys à sua espera na pequena sala de estar que a ausência daquele cavalheiro parecia conferir ao apartamento um aspeto lúgubre, e Robert gemeu alto.

"Isto é animado!", disse ele. "Um jantar frio, e ninguém para o comer comigo!"

O estalajadeiro do Sun veio pessoalmente pedir desculpa pelos pratos arruinados.

"Um par de patos tão bom, Sr. Audley, como nunca viu, mas queimado até virar carvão por ter sido mantido quente."

"Não se importe com os patos", disse Robert impacientemente; "onde está o Sr. Talboys?"

"Ele não apareceu, senhor, desde que o senhor saiu com ele esta manhã."

"O quê!", exclamou Robert. "Mas, em nome do céu, o que é que o homem fez a si mesmo?"

Caminhou até à janela e olhou para a larga estrada branca. Havia uma carroça carregada com fardos de feno passando lentamente, os cavalos preguiçosos e o carroceiro preguiçoso baixando a cabeça com um encurvamento cansado sob o sol da tarde. Havia um rebanho de ovelhas espalhado pela estrada, com um cão correndo até ficar em febre na tentativa de mantê-las decentemente juntas. Havia alguns pedreiros recém-saídos do trabalho — um latoeiro consertando algumas chaleiras à beira da estrada; havia uma charrete passando apressada pela estrada, levando o mestre dos cães de caça de Audley para o seu jantar das sete; havia uma dúzia de vistas e sons comuns da aldeia que se misturavam numa agitação e confusão alegres; mas não havia George Talboys.

"De todas as coisas extraordinárias que já me aconteceram em toda a minha vida", disse o Sr. Robert Audley, "esta é a mais miraculosa!"

O estalajadeiro, ainda presente, arregalou os olhos quando Robert fez esta observação. O que poderia haver de extraordinário no simples facto de um cavalheiro se atrasar para o jantar?

"Vou procurá-lo", disse Robert, agarrando o chapéu e saindo diretamente da casa.

Mas a questão era onde procurá-lo. Ele certamente não estava junto ao riacho das trutas, por isso não valia a pena voltar lá à sua procura. Robert estava parado diante da estalagem, deliberando sobre o que seria melhor fazer, quando o estalajadeiro saiu atrás dele.

"Esqueci-me de lhe dizer, Sr. Audley, que o seu tio passou por aqui cinco minutos depois de o senhor sair e deixou uma mensagem, pedindo ao senhor e ao outro cavalheiro que fossem jantar a Audley Court."

"Então não me espantaria", disse Robert, "se George Talboys tivesse ido a Audley Court visitar o meu tio. Não é do feitio dele, mas é bem possível que o tenha feito."

Eram seis horas quando Robert bateu à porta da casa do seu tio. Não pediu para ver ninguém da família, mas perguntou imediatamente pelo seu amigo.

Sim, o criado disse-lhe; o Sr. Talboys esteve lá às duas horas ou pouco depois.

"E não voltou?"

"Não, não voltou."

O homem tinha a certeza de que foi às duas que o Sr. Talboys apareceu? perguntou Robert.

Sim, tinha a certeza absoluta. Lembrou-se da hora porque era a hora do jantar dos criados, e ele tinha deixado a mesa para abrir a porta ao Sr. Talboys.

"Mas o que terá acontecido ao homem?", pensou Robert, enquanto virava as costas a Audley Court. "Das duas às seis — quatro boas horas — e nenhum sinal dele!"

Se alguém se tivesse aventurado a dizer ao Sr. Robert Audley que ele poderia possivelmente sentir um forte apego por qualquer criatura vivente, aquele cavalheiro cínico teria erguido as sobrancelhas num desprezo supremo pela noção absurda. Contudo, ali estava ele, agitado e ansioso, baralhando o cérebro com toda a sorte de conjeturas sobre o seu amigo desaparecido; e, infiel a cada atributo da sua natureza, andando depressa.

"Não ando depressa desde que estava em Eton", murmurou ele, enquanto se apressava através de um dos prados de Sir Michael na direção da aldeia; "e o pior de tudo é que não tenho a mais remota ideia de para onde vou."

Aqui atravessou outro prado e, sentando-se num degrau de cerca, descansou os cotovelos sobre os joelhos, enterrou o rosto nas mãos e dedicou-se seriamente a pensar no assunto.

"Já sei", disse ele, após alguns minutos de reflexão; "a estação de comboios!" Saltou a cerca e partiu na direção do pequeno edifício de tijolo vermelho.

Não era esperado nenhum comboio por mais meia hora, e o funcionário estava a tomar o seu chá num compartimento de um dos lados do escritório, na porta do qual estava inscrito em letras brancas grandes: "Privado".

Mas o Sr. Audley estava demasiado ocupado com a ideia de procurar o seu amigo para prestar qualquer atenção a este aviso. Caminhou diretamente até à porta e, batendo com a bengala nela, fez o funcionário sair do seu santuário a suar de chá quente e com a boca cheia de pão com manteiga.

"Lembra-se do cavalheiro que veio a Audley comigo, Smithers?", perguntou Robert.

"Bem, para lhe dizer a verdade, Sr. Audley, não posso dizer que me lembre. O senhor veio no das quatro, se bem se lembra, e há sempre muitos passageiros nesse comboio."

"Não se lembra dele, então?"

"Não que eu saiba, senhor."

"Isso é irritante! Quero saber, Smithers, se ele comprou um bilhete para Londres desde as duas horas de hoje. É um rapaz alto, de peito largo, com uma grande barba castanha. Não se podia enganar facilmente."

"Houve quatro ou cinco cavalheiros que compraram bilhetes para o das 3.30 para cima", disse o funcionário de forma um tanto vaga, lançando um olhar ansioso por cima do ombro para a sua esposa, que não parecia nada satisfeita com esta interrupção da harmonia da hora do chá.

"Quatro ou cinco cavalheiros! Mas algum deles correspondia à descrição do meu amigo?"

"Bem, penso que um deles tinha barba, senhor."

"Uma barba castanha escura?"

"Bem, não sei, mas era assim acastanhada."

"Estava vestido de cinzento?"

"Creio que era cinzento; muitos cavalheiros usam cinzento. Ele pediu o bilhete de forma rápida e curta e, quando o obteve, saiu diretamente para a plataforma assobiando."

"É o George", disse Robert. "Obrigado, Smithers; não preciso de o incomodar mais. Está claro como a luz do dia", murmurou ele, ao deixar a estação; "ele teve um dos seus ataques de melancolia e voltou para Londres sem dizer uma palavra sobre isso. Eu próprio sairei de Audley amanhã de manhã; e para esta noite — bem, posso muito bem ir a Audley Court e conhecer a jovem esposa do meu tio. Eles não jantam antes das sete; se eu voltar pelos campos chegarei a tempo. Bob — ou melhor, Robert Audley — este tipo de coisa nunca resultará; estás a apaixonar-te perdidamente pela tua tia."

CAPÍTULO XI.

A MARCA NO PULSO DE MINHA SENHORA.

Robert encontrou Sir Michael e Lady Audley na sala de estar. Minha senhora estava sentada num banco de piano diante do piano de cauda, folheando algumas músicas novas. Ela rodopiou no assento giratório, fazendo um farfalhar com os seus folhos de seda, quando o nome do Sr. Robert Audley foi anunciado; depois, deixando o piano, fez ao seu sobrinho uma vénia bonita, fingidamente cerimoniosa.

"Muito obrigada pelas zibelinas", disse ela, estendendo os seus dedinhos, todos cintilantes e brilhantes com os diamantes que usava neles; "obrigada por essas lindas zibelinas. Como foi bom da sua parte consegui-las para mim."

Robert quase se tinha esquecido da incumbência que executara para Lady Audley durante a sua expedição à Rússia. A sua mente estava tão cheia de George Talboys que ele apenas reconheceu a gratidão da minha senhora com uma vénia.

"Acreditaria nisto, Sir Michael?", disse ele. "Aquele meu companheiro tolo voltou para Londres, deixando-me pendurado."

"O Sr. George Talboys regressou à cidade?", exclamou minha senhora, erguendo as sobrancelhas. "Que catástrofe terrível!", disse Alicia, maliciosamente, "visto que Pítias, na pessoa do Sr. Robert Audley, não consegue existir por meia hora sem Dâmon, vulgarmente conhecido como George Talboys."

"Ele é um excelente rapaz", disse Robert, firmemente; "e, para dizer a verdade, estou bastante inquieto com ele."

"Inquieta com ele!" Minha senhora estava muito ansiosa por saber por que Robert estava inquieto com o seu amigo.

"Vou dizer-lhe porquê, Lady Audley", respondeu o jovem advogado. "George sofreu um golpe amargo há um ano com a morte da sua esposa. Ele nunca superou esse desgosto. Ele leva a vida de forma bastante calma — quase tão calma quanto eu — mas frequentemente fala de forma muito estranha, e por vezes penso que um dia este pesar levará a melhor sobre ele, e ele fará algo imprudente."

O Sr. Robert Audley falou vagamente, mas todos os três ouvintes sabiam que esse "algo imprudente" a que ele aludia era aquele ato único para o qual não há arrependimento.

Houve uma breve pausa, durante a qual Lady Audley arranjou os seus caracóis amarelos com a ajuda do espelho sobre a mesa de consola oposta a ela.

"Meu Deus!", disse ela, "isto é muito estranho. Não pensava que os homens fossem capazes dessas afeições profundas e duradouras. Pensava que um rosto bonito valia tanto como outro rosto bonito para eles; e que quando o número um, com olhos azuis e cabelo claro, morresse, só tinham de procurar o número dois, com olhos escuros e cabelo preto, por uma questão de variedade."

"George Talboys não é um desses homens. Acredito firmemente que a morte da sua esposa lhe partiu o coração."

"Que triste!", murmurou Lady Audley. "Parece quase cruel da parte da Sra. Talboys morrer e entristecer tanto o seu pobre marido."

"A Alicia tinha razão, ela é infantil", pensou Robert enquanto olhava para o rosto bonito da sua tia.

Minha senhora estava muito encantadora à mesa de jantar; professou a mais fascinante incapacidade para trinchar o faisão colocado diante dela e chamou Robert para a sua assistência.

"Eu conseguia trinchar um pernil de carneiro em casa do Sr. Dawson", disse ela, rindo; "mas um pernil de carneiro é tão fácil, e além disso eu costumava levantar-me."

Sir Michael observou a impressão que minha senhora causou no seu sobrinho com um orgulho orgulhoso na sua beleza e fascínio.

"Estou tão contente por ver a minha pobre mulher nos seus espíritos habituais mais uma vez", disse ele. "Ela estava muito abatida ontem por causa de uma desilusão que teve em Londres."

"Uma desilusão!"

"Sim, Sr. Audley, uma muito cruel", respondeu minha senhora. "Recebi na outra manhã uma mensagem telegráfica da minha querida e velha amiga e professora, dizendo-me que estava a morrer e que, se eu a quisesse ver novamente, deveria apressar-me a ir ter com ela imediatamente. O despacho telegráfico não continha endereço e, claro, por essa mesma circunstância, imaginei que ela devesse estar a viver na casa onde a deixei há três anos. Sir Michael e eu corremos para a cidade imediatamente e fomos diretamente para o endereço antigo. A casa estava ocupada por pessoas estranhas, que não me puderam dar notícias da minha amiga. É num lugar retirado, onde há muito poucos comerciantes por perto. Sir Michael fez perguntas nas poucas lojas que lá existem, mas, depois de ter tido uma quantidade imensa de trabalho, não conseguiu descobrir nada que pudesse levar à informação que queríamos. Não tenho amigos em Londres e, por isso, não tive ninguém para me ajudar, exceto o meu querido e generoso marido, que fez tudo o que estava ao seu alcance, mas em vão, para encontrar a nova residência da minha amiga."

"Foi muito tolo não enviar o endereço na mensagem telegráfica", disse Robert.

"Quando as pessoas estão a morrer, não é tão fácil pensar em todas estas coisas", murmurou minha senhora, olhando reprovadoramente para o Sr. Audley com os seus suaves olhos azuis.

Apesar do fascínio de Lady Audley, e apesar da admiração muito incondicional de Robert por ela, o advogado não conseguia superar um vago sentimento de inquietação nesta calma noite de setembro.

Enquanto se sentava na profunda reentrância de uma janela gradeada, conversando com minha senhora, a sua mente vagueava para Figtree Court, e pensava no pobre George Talboys a fumar o seu charuto solitário no quarto com os pássaros e canários.

"Quem me dera nunca ter sentido qualquer amizade por aquele sujeito", pensou ele. "Sinto-me como um homem que tem um filho único cuja vida correu mal. Quem me dera poder devolver-lhe a esposa e enviá-lo para Ventnor para acabar os seus dias em paz."

Ainda assim, o chilrear musical e bonito da minha senhora continuava tão alegre e contínuo como o balbucio de um riacho; e ainda assim os pensamentos de Robert vagueavam, apesar de si mesmo, para George Talboys.

Pensou nele a correr para Southampton no comboio do correio para ver o seu rapaz. Pensou nele como muitas vezes o vira a soletrar os anúncios de navegação no Times, à procura de um navio que o levasse de volta à Austrália. Uma vez pensou nele com um calafrio, deitado, frio e rígido, no fundo de algum riacho pouco profundo, com o seu rosto morto voltado para o céu escurecendo.

Lady Audley notou a sua abstração e perguntou-lhe no que estava a pensar.

"Em George Talboys", respondeu ele abruptamente.

Ela deu um pequeno calafrio nervoso.

"Ora essa", disse ela, "deixa-me bastante desconfortável com a forma como fala do Sr. Talboys. Dir-se-ia que algo de extraordinário lhe aconteceu."

"Deus me livre! Mas não consigo deixar de me sentir inquieto com ele."

Mais tarde, durante a noite, Sir Michael pediu alguma música, e minha senhora foi para o piano. Robert Audley passeou-se atrás dela até ao instrumento para virar as folhas da sua música; mas ela tocou de memória, e ele foi poupado ao trabalho que a sua cavalheirismo lhe teria imposto.

Levou um par de velas acesas para o piano e arrumou-as convenientemente para a bonita música. Ela tocou alguns acordes e depois perdeu-se numa sonata pensativa de Beethoven. Era um dos muitos paradoxos no seu caráter, esse amor por melodias sombrias e melancólicas, tão opostas à sua natureza alegre.

Robert Audley demorou-se ao seu lado e, como não tinha ocupação em virar as folhas da sua música, divertiu-se a observar as suas mãos brancas e adornadas com joias deslizando suavemente sobre as teclas, com as mangas de renda caindo dos seus pulsos graciosos e arqueados. Olhou para os seus dedos bonitos, um a um; este cintilando com um coração de rubi; aquele circundado por uma serpente de esmeralda; e à volta deles, um brilho estrelado de diamantes. Dos dedos, os seus olhos vaguearam para os pulsos arredondados: a pulseira de ouro larga e plana no seu pulso direito deslizou sobre a mão enquanto ela executava uma passagem rápida. Ela parou abruptamente para a rearranjar; mas antes que o pudesse fazer, Robert Audley notou uma nódoa negra na sua pele delicada.

"Magou o seu braço, Lady Audley!", exclamou ele. Ela substituiu apressadamente a pulseira.

"Não é nada", disse ela. "Tenho o azar de ter uma pele que o mais leve toque faz nódoas negras."

Continuou a tocar, mas Sir Michael atravessou a sala para examinar a questão da nódoa negra no pulso bonito da sua esposa.

"O que é isto, Lucy?", perguntou ele; "e como aconteceu?"

"Como são todos tolos por se preocuparem com algo tão absurdo!", disse Lady Audley, rindo. "Sou um pouco distraída e diverti-me há poucos dias a atar uma fita à volta do meu braço com tanta força que deixou uma marca quando a tirei."

"Hum!", pensou Robert. "Minha senhora diz pequenas mentiras infantis; a nódoa negra é de uma data mais recente do que há poucos dias; a pele só agora começou a mudar de cor."

Sir Michael pegou no pulso esbelto com a sua mão forte.

"Segura a vela, Robert", disse ele, "e vamos ver este pobre bracinho."

Não era uma nódoa negra, mas quatro marcas esbeltas e arroxeadas, tais como poderiam ter sido feitas pelos quatro dedos de uma mão poderosa, que tivessem agarrado o pulso delicado um pouco rudemente demais. Uma fita estreita, atada com força, poderia ter deixado algumas dessas marcas, é verdade, e minha senhora protestou mais uma vez que, segundo a sua melhor recordação, deve ter sido assim que foram feitas.

Através de uma das marcas arroxeadas ténues havia um tom mais escuro, como se um anel usado num daqueles dedos fortes e cruéis tivesse sido pressionado na carne tenra.

"Tenho a certeza de que a minha senhora deve dizer mentiras, pois não consigo acreditar na história da fita", pensou Robert.

Disse boa noite e adeus aos seus parentes por volta das dez e meia; ele iria para Londres no primeiro comboio para procurar George em Figtree Court.

"Se não o encontrar lá, irei a Southampton", disse ele; "e se não o encontrar lá..."

"O que então?", perguntou minha senhora.

"Pensarei que algo de estranho aconteceu."

Robert Audley sentiu-se muito desanimado enquanto caminhava lentamente para casa entre os prados sombrios; sentiu-se ainda mais desanimado quando reentrou na sala de estar no Sun Inn, onde ele e George tinham descansado juntos, olhando pela janela e fumando os seus charutos.

"Pensar", disse ele, meditativo, "que é possível importar-se tanto com um companheiro! Mas aconteça o que acontecer, subirei à cidade atrás dele logo pela manhã; e, antes que me impeçam de o encontrar, irei até ao fim do mundo."

"Peço desculpa, senhor, mas lembro-me de uma coisa que talvez lhe interesse. O senhor que se registou como Thomas Brown tinha um cão – um terrier de pelo duro, penso eu – que ele trazia consigo."

"Um terrier de pelo duro?" repetiu Robert.

"Sim, senhor; o animal parecia muito inquieto, e o cavalheiro teve de o carregar nos braços para dentro do barco."

Robert Audley sentiu um frio gélido percorrer-lhe a espinha. George Talboys não possuía cão algum. Ele detestava animais, ou, pelo menos, nunca demonstrara qualquer afeição por eles.

"O senhor tem a certeza?" perguntou ele, com a voz embargada.

"Tenho, senhor. O animal era um tanto peculiar, com uma mancha preta à volta de um dos olhos, o que o tornava bastante fácil de reconhecer."

Robert agradeceu ao funcionário e saiu do escritório. A sua mente estava num turbilhão. Aquele cão, fosse de quem fosse, não era de George. Por que razão um homem teria de embarcar sob um nome falso, trazendo consigo um animal que não lhe pertencia? A dúvida instalou-se-lhe no espírito com uma força esmagadora. Se o homem que partira no Victoria Regia não era George, onde estaria então o seu amigo?

Ele passou o resto do dia em Liverpool, deambulando pelas docas, interrogando marinheiros e funcionários portuários, mas ninguém mais se recordava de um homem com as descrições de George. O desespero começou a apoderar-se dele. A pista do telegrama, que o levara a Southampton, parecia agora uma farsa, um caminho desenhado para o desviar da verdade.

Ao cair da noite, Robert Audley, exausto e mentalmente esgotado, refugiou-se num hotel próximo da estação. Não conseguia dormir. A imagem do pequeno Georgey, com os seus olhos castanhos e o relógio de ouro penhorado, misturava-se com o pesadelo da sepultura aberta e as serpentes nos caracóis dourados de Lady Audley.

"Há algo de errado", murmurava ele, enquanto a chuva fustigava a vidraça do quarto. "Algo de muito errado nesta história, e sinto, com um terror indescritível, que o fio que conduz a este labirinto não está em Liverpool, mas sim em Essex."

Na manhã seguinte, sem ter obtido mais nenhuma informação, Robert tomou o comboio de regresso a Londres. A sua determinação, habitualmente tão letárgica, tinha agora a rigidez do aço. Ele não voltaria a Figtree Court para esperar por cartas que não chegavam; ele iria confrontar o passado, voltaria a Audley Court e, desta vez, não se deixaria enganar pela aparência serena e angelical da sua tia. O pressentimento de que George Talboys estava em perigo, ou pior, tornara-se uma certeza que o impulsionava para o norte, em direção à casa onde o seu amigo fora visto pela última vez.

— Ah, a propósito, senhor — disse ele —, lembro-me de uma coisa sobre este tal Sr. Thomas Brown: o braço dele estava numa tipoia.

Nada mais restava a Robert Audley fazer a não ser regressar à cidade. Reentrou nos seus aposentos às seis horas daquela tarde, exausto mais uma vez com a sua busca inútil.

A Sra. Maloney trouxe-lhe o jantar e uma caneca de vinho de uma taberna no Strand. A noite estava crua e fria, e a lavadeira acendera um bom fogo na lareira da sala de estar.

Depois de comer cerca de metade de uma costeleta de carneiro, Robert ficou sentado com o vinho intocado sobre a mesa à sua frente, fumando charutos e fitando as chamas.

— George Talboys nunca embarcou para a Austrália — disse ele, após uma longa e dolorosa reflexão. — Se ele está vivo, ainda se encontra em Inglaterra; e se está morto, o seu corpo está escondido em algum canto de Inglaterra.

Ficou sentado durante horas a fumar e a pensar — problemas e pensamentos lúgubres deixando uma sombra escura sobre o seu rosto melancólico, que nem a luz brilhante do gás nem o clarão vermelho do fogo conseguiam dissipar.

Muito tarde da noite, levantou-se da cadeira, afastou a mesa, puxou a secretária para junto da lareira, tirou uma folha de papel almaço e molhou uma pena na tinta.

Mas, depois de o fazer, hesitou, apoiou a testa na mão e, mais uma vez, recaiu em pensamentos.

— Vou redigir um registo de tudo o que aconteceu desde a nossa ida para Essex até hoje à noite, começando desde o início.

Compôs este registo em frases curtas e isoladas, que numerou à medida que escrevia.

Dizia o seguinte:

"Diário de factos relacionados com o desaparecimento de George Talboys, incluindo factos que não têm qualquer relação aparente com essa circunstância."

Apesar do estado conturbado da sua mente, sentiu-se um tanto orgulhoso da aparência oficial deste título. Ficou algum tempo a olhá-lo com afeição e com a pena na boca. — Palavra de honra — disse ele —, começo a pensar que devia ter seguido a minha profissão, em vez de desperdiçar a minha vida como fiz.

Fumou metade de um charuto antes de conseguir ordenar os seus pensamentos, e então começou a escrever:

"1. Escrevo a Alicia, propondo levar George ao Court."

"2. Alicia escreve, opondo-se à visita, por parte de Lady Audley."

"3. Vamos para Essex apesar dessa objeção. Vejo a minha senhora. A minha senhora recusa ser apresentada a George nessa noite em particular, alegando fadiga."

"4. Sir Michael convida George e a mim para jantar na noite seguinte."

"5. A minha senhora recebe um despacho telegráfico na manhã seguinte que a chama a Londres."

"6. Alicia mostra-me uma carta da minha senhora, na qual ela pede para ser informada sobre quando eu e o meu amigo, Sr. Talboys, pretendemos deixar Essex. A esta carta é acrescentado um pós-escrito, reiterando o pedido acima."

"7. Visitamos o Court e pedimos para ver a casa. Os aposentos da minha senhora estão trancados."

"8. Entramos nos referidos aposentos por meio de uma passagem secreta, cuja existência é desconhecida da minha senhora. Num dos quartos, encontramos o retrato dela."

"9. George fica assustado com a tempestade. O seu comportamento é extremamente estranho durante o resto da noite."

"10. George volta ao normal na manhã seguinte. Proponho deixar Audley Court imediatamente; ele prefere ficar até à noite."

"11. Vamos pescar. George deixa-me para ir ao Court."

"12. A última informação positiva que consigo obter sobre ele em Essex é no Court, onde o criado diz achar que o Sr. Talboys lhe disse que iria procurar a minha senhora nos terrenos."

"13. Recebo informações sobre ele na estação que podem ou não estar corretas."

"14. Ouço falar dele positivamente mais uma vez em Southampton, onde, segundo o seu sogro, esteve durante uma hora na noite anterior."

"15. A mensagem telegráfica."

Quando Robert Audley terminou este breve registo, que redigiu com grande deliberação e frequentes pausas para reflexão, alterações e rasuras, ficou sentado por muito tempo a contemplar a página escrita.

Por fim, leu-a cuidadosamente, parando em alguns dos parágrafos numerados e marcando alguns deles com uma cruz a lápis; depois, dobrou a folha de papel almaço, dirigiu-se a um gabinete no lado oposto da sala, destrancou-o e colocou o papel naquele mesmo compartimento onde tinha guardado a carta de Alicia — o compartimento marcado como Importante.

Tendo feito isto, voltou para a sua poltrona junto ao fogo, afastou a secretária e acendeu um charuto. — Está tudo escuro como a meia-noite, do princípio ao fim — disse ele; — e a chave do mistério deve ser encontrada em Southampton ou em Essex. Seja como for, a minha decisão está tomada. Irei primeiro a Audley Court e procurarei George Talboys num raio estreito.

CAPÍTULO XIV.

O PRETENDENTE DE PHOEBE.

"Sr. George Talboys. — Qualquer pessoa que tenha encontrado este cavalheiro desde o dia 7 do corrente, ou que possua qualquer informação a seu respeito posterior a essa data, será liberalmente recompensada ao comunicar com A.Z., 14 Chancery Lane."

Sir Michael Audley leu o anúncio acima na segunda coluna do Times, enquanto tomava o pequeno-almoço com a minha senhora e Alicia, dois ou três dias após o regresso de Robert à cidade.

— O amigo de Robert ainda não foi encontrado, então — disse o barão, depois de ler o anúncio à mulher e à filha.

— Quanto a isso — respondeu a minha senhora —, não posso deixar de me admirar que alguém possa ser estúpido o suficiente para anunciar o seu nome. O jovem tinha evidentemente uma disposição irrequieta e errante — uma espécie de Bamfyld Moore Carew da vida moderna, que nenhuma atração conseguia manter num só lugar.

Embora o anúncio tenha aparecido três vezes sucessivas, o grupo no Court deu pouca importância ao desaparecimento do Sr. Talboys; e, após esta ocasião, o seu nome nunca mais foi mencionado por Sir Michael, pela minha senhora ou por Alicia.

Alicia Audley e a sua bonita madrasta não eram, de forma alguma, melhores amigas após aquela noite tranquila em que o jovem advogado jantara no Court.

— Ela é uma coquete vaidosa, frívola e sem coração — disse Alicia, dirigindo-se ao seu cão Terra-Nova, Caesar, que era o único confidente da jovem; — ela é uma coquete consumada e praticante, Caesar; e, não satisfeita com a exibição dos seus caracóis amarelos e da sua risadinha tola para metade dos homens de Essex, tem de fazer com que aquele meu primo estúpido ande a cortejá-la. Não tenho paciência para ela.

Como prova desta última afirmação, a Srta. Alicia Audley tratou a madrasta com uma impertinência tão palpável que Sir Michael sentiu-se no dever de repreender a sua única filha.

— A pobre mulher é muito sensível, sabes, Alicia — disse o barão, gravemente —, e ela sente a tua conduta de forma muito aguda.

— Não acredito nada nisso, papá — respondeu Alicia, resolutamente. — Tu achas que ela é sensível porque ela tem mãos pequenas, brancas e delicadas, grandes olhos azuis com longas pestanas e toda a sorte de maneiras afetadas e fantásticas, que vocês, homens estúpidos, chamam de fascinantes. Sensível! Ora, eu vi-a fazer coisas cruéis com esses dedos brancos e delgados, e rir-se da dor que infligia. Lamento muito, papá — acrescentou ela, suavizada um pouco pelo olhar de aflição do pai; — embora ela se tenha metido entre nós e roubado à pobre Alicia o amor daquele coração querido e generoso, eu gostaria de poder gostar dela por tua causa; mas não posso, não posso, e o Caesar também não. Ela aproximou-se dele uma vez com os lábios vermelhos entreabertos e os seus dentinhos brancos a brilhar, e acariciou-lhe a grande cabeça com a sua mão suave; mas se eu não tivesse segurado a coleira dele, ele ter-se-ia atirado à garganta dela e tê-la-ia estrangulado. Ela pode enfeitiçar todos os homens de Essex, mas nunca será amiga do meu cão.

— O teu cão será abatido — respondeu Sir Michael, irritado —, se o seu temperamento vicioso colocar Lucy em perigo.

O Terra-Nova rodou os olhos lentamente na direção do orador, como se tivesse entendido cada palavra que fora dita. Lady Audley entrou na sala exatamente nesse momento, e o animal encolheu-se ao lado da sua dona com um rosnado reprimido. Havia algo na maneira do cão que era, se é que era alguma coisa, mais indicativo de terror do que de fúria; por mais incrível que pareça que Caesar pudesse ser assustado por uma criatura tão frágil como Lucy Audley.

Por mais amigável que fosse a natureza da minha senhora, ela não podia viver muito tempo no Court sem descobrir a aversão de Alicia por ela. Nunca aludiu a isso senão uma vez; então, encolhendo os seus graciosos ombros brancos, disse, com um suspiro:

— Parece muito difícil que não possas amar-me, Alicia, pois nunca estive acostumada a fazer inimigos; mas, uma vez que parece que tem de ser assim, não posso evitá-lo. Se não podemos ser amigas, sejamos neutras. Não tentarás prejudicar-me?

— Prejudicar-te! — exclamou Alicia; — como haveria de te prejudicar?

— Não tentarás privar-me do afeto do teu pai?

— Posso não ser tão amável como tu, minha senhora, e posso não ter os mesmos sorrisos doces e palavras bonitas para cada estranho que encontro, mas não sou capaz de uma baixeza desprezível; e mesmo que fosse, acho que estás tão segura do amor do meu pai que nada, exceto um ato teu, te privará dele.

— Que criatura severa que és, Alicia! — disse a minha senhora, fazendo uma pequena careta. — Suponho que queres inferir, com tudo isso, que sou enganadora. Ora, não consigo evitar sorrir para as pessoas e falar-lhes de forma gentil. Sei que não sou melhor do que o resto do mundo; mas não posso evitar se sou mais agradável. É constitucional.

Tendo Alicia fechado assim, por completo, a porta a qualquer intimidade entre Lady Audley e ela própria, e estando Sir Michael principalmente ocupado com atividades agrícolas e desportos masculinos, que o mantinham longe de casa, era talvez natural que a minha senhora, sendo de uma disposição eminentemente social, se visse muito dependente da sua criada de pestanas brancas para fazer companhia.

Phoebe Marks era exatamente o tipo de rapariga que é geralmente promovida do posto de criada pessoal para o de companheira. Tinha instrução apenas suficiente para lhe permitir entender a patroa quando Lucy escolhia deixar-se correr solta numa espécie de tarantela intelectual, na qual a sua língua enlouquecia ao som do seu próprio tilintar, como o dançarino espanhol ao ruído das suas castanholas. Phoebe sabia o suficiente da língua francesa para conseguir espreitar os romances de capa amarela que a minha senhora encomendava da Burlington Arcade, e para conversar com a patroa sobre os assuntos duvidosos desses romances. A semelhança que a criada tinha com Lucy Audley era, talvez, um ponto de simpatia entre as duas mulheres. Não se podia dizer que fosse uma semelhança marcante; um estranho poderia vê-las a ambas juntas e, ainda assim, não a notar. Mas havia certas luzes ténues e sombrias nas quais, ao encontrar Phoebe Marks a deslizar suavemente pelos escuros corredores de carvalho do Court, ou sob as avenidas cobertas no jardim, se poderia facilmente confundi-la com a minha senhora.

Ventos ríspidos de outubro varriam as folhas das tílias na longa avenida, empurrando-as em montes murchos com um ruído fantasmal ao longo dos caminhos de cascalho seco. O antigo poço devia estar quase obstruído com as folhas que derivavam à sua volta e rodopiavam em círculos na sua boca negra e quebrada. No peito imóvel do tanque dos peixes, as mesmas folhas murchas apodreciam lentamente, misturando-se com as ervas daninhas emaranhadas que descoloriam a superfície da água. Todos os jardineiros que Sir Michael pudesse empregar não conseguiam evitar que a marca da mão destruidora do outono ficasse nos terrenos à volta do Court.

— Como odeio este mês desolado! — disse a minha senhora, enquanto passeava pelo jardim, tremendo sob a sua capa de zibelina. — Tudo a cair em ruína e decadência, e o frio cintilar do sol a iluminar a fealdade da terra, como o brilho dos candeeiros a gás ilumina as rugas de uma velha. Alguma vez serei velha, Phoebe? O meu cabelo cairá um dia como as folhas estão a cair daquelas árvores, deixando-me pálida e nua como elas? O que será de mim quando eu for velha?

Ela estremeceu com este pensamento mais do que com a brisa fria e invernal, e, envolvendo-se bem na sua pele, caminhou tão depressa que a sua criada teve alguma dificuldade em acompanhá-la.

— Lembras-te, Phoebe — disse ela, pouco depois, relaxando o passo —, lembras-te daquela história francesa que lemos — a história de uma mulher bonita que tinha cometido algum crime — esqueço-me qual — no auge do seu poder e beleza, quando todo o Paris brindava a ela todas as noites, e quando as pessoas fugiam da carruagem do rei para se aglomerarem à volta da dela e ter um vislumbre do seu rosto? Lembras-te de como ela guardou o segredo do que tinha feito durante quase meio século, passando a sua velhice no seu castelo de família, amada e honrada por toda a província como uma santa não canonizada e benfeitora dos pobres; e como, quando o seu cabelo estava branco e os seus olhos quase cegos de idade, o segredo foi revelado através de um daqueles estranhos acidentes pelos quais tais segredos são sempre revelados nos romances, e ela foi julgada, considerada culpada e condenada a ser queimada viva? O rei que tinha usado as suas cores estava morto e enterrado; a corte da qual ela tinha sido uma estrela tinha desaparecido; funcionários poderosos e grandes magistrados, que talvez a pudessem ter ajudado, estavam a apodrecer nas sepulturas; bravos jovens cavalheiros, que teriam morrido por ela, tinham caído em campos de batalha distantes; ela viveu para ver a época a que tinha pertencido desaparecer como um sonho; e ela foi para a fogueira, seguida apenas por alguns camponeses ignorantes, que esqueceram todas as suas bondades e a vaiaram como uma bruxa perversa.

— Não gosto dessas histórias lúgubres, minha senhora — disse Phoebe Marks com um estremecimento. — Não é preciso ler livros para ficar com horror neste lugar monótono.

Lady Audley encolheu os ombros e riu-se da franqueza da criada.

— É um lugar monótono, Phoebe — disse ela —, embora não sirva de nada dizer isso ao meu querido e velho marido. Embora eu seja a esposa de um dos homens mais influentes do condado, não sei se não estava quase tão bem no Sr. Dawson; e, no entanto, é algo usar zibelinas que custam sessenta guinéus e gastar mil libras na decoração dos nossos aposentos.

Tratada como uma companheira pela sua patroa, a receber os salários mais liberais e com gratificações como talvez nenhuma criada pessoal tivesse tido antes, era estranho que Phoebe Marks desejasse deixar o seu lugar; mas não era menos um facto que ela estava ansiosa por trocar todas as vantagens de Audley Court pela perspetiva muito pouco promissora que a aguardava como esposa do seu primo Luke.

O jovem tinha conseguido, de alguma forma, associar-se à melhoria da sorte da sua namorada. Nunca deu paz a Phoebe até que ela obtivesse para ele, com a ajuda da intervenção da minha senhora, um lugar como ajudante de cavalariço do Court.

Ele nunca saía a cavalo com Alicia ou Sir Michael; mas numa das poucas ocasiões em que a minha senhora montou o bonito e pequeno puro-sangue cinzento reservado para o seu uso, ele conseguiu acompanhá-la no passeio. Ele viu o suficiente, na primeira meia hora em que estiveram fora, para descobrir que, por mais graciosa que Lucy Audley pudesse parecer no seu longo hábito de pano azul, ela era uma amazona tímida e totalmente incapaz de dominar o animal que montava.

Lady Audley repreendeu a sua criada pela sua insensatez em querer casar com o cavalariço grosseiro.

As duas mulheres estavam sentadas juntas junto ao fogo no toucador da minha senhora, o céu cinzento a fechar-se sobre a tarde de outubro e o traçado negro da hera a escurecer as janelas.

— Não estás certamente apaixonada pela criatura desajeitada e feia, pois não, Phoebe? — perguntou a minha senhora bruscamente.

A rapariga estava sentada num banco baixo aos pés da sua patroa. Não respondeu imediatamente à pergunta da minha senhora, mas ficou algum tempo a olhar vagamente para o abismo vermelho no fundo do fogo.

Pouco depois, disse, mais como se estivesse a pensar em voz alta do que a responder à pergunta de Lucy:

— Não creio que possa amá-lo. Estivemos juntos desde crianças, e prometi, quando tinha pouco mais de quinze anos, que seria sua mulher. Não me atrevo a quebrar essa promessa agora. Houve alturas em que preparei a própria frase que pretendia dizer-lhe, dizendo-lhe que não podia manter a minha palavra com ele; mas as palavras morreram nos meus lábios, e fiquei sentada a olhar para ele, com uma sensação de sufoco na garganta que não me deixava falar. Não me atrevo a recusar casar com ele. Muitas vezes observei-o e observei-o, enquanto ele se sentava a fatiar uma estaca de sebe com a sua grande faca de bolso, até pensar que são homens exatamente como ele que atraem as suas namoradas para lugares solitários e as assassinam por não cumprirem a sua palavra. Quando ele era rapaz, era sempre violento e vingativo. Vi-o uma vez pegar nessa mesma faca numa discussão com a mãe. Digo-lhe, minha senhora, tenho de casar com ele.

— Sua rapariga tola, não farás nada desse género! — respondeu Lucy. — Achas que ele te vai assassinar, não achas? Achas então que, se o assassínio está nele, estarias mais segura como sua mulher? Se o contrariasses, ou o deixasses com ciúmes; se ele quisesse casar com outra mulher, ou deitar a mão a algum pobre e insignificante dinheirinho teu, não poderia ele assassinar-te então? Digo-te que não vais casar com ele, Phoebe. Em primeiro lugar, odeio o homem; e, em segundo lugar, não me posso dar ao luxo de te perder. Vamos dar-lhe umas libras e mandá-lo tratar da sua vida.

Phoebe Marks agarrou a mão da minha senhora nas suas e apertou-as convulsivamente.

— Minha senhora — minha boa e gentil patroa! — gritou ela, veementemente —, não tente contrariar-me nisto — não me peça para o contrariar. Digo-lhe que tenho de casar com ele. A senhora não sabe o que ele é. Será a minha ruína, e a ruína de outros, se eu faltar à minha palavra. Tenho de casar com ele!

— Muito bem, então, Phoebe — respondeu a sua patroa —, não posso opor-me. Deve haver algum segredo no fundo disto tudo. — Há, minha senhora — disse a rapariga, com o rosto voltado para longe de Lucy.

— Lamento muito perder-te; mas prometi ser tua amiga em todas as coisas. O que pretende o teu primo fazer para viver quando casardes?

— Ele gostaria de tomar uma taberna.

— Então ele tomará uma taberna, e quanto mais depressa ele beber até à morte, melhor. Sir Michael janta num jantar de solteiros em casa do Major Margrave esta noite, e a minha enteada está fora com os seus amigos na Grange. Podes trazer o teu primo à sala de estar depois do jantar, e eu dir-lhe-ei o que pretendo fazer por ele.

— A senhora é muito boa, minha senhora — respondeu Phoebe com um suspiro.

Lady Audley estava sentada no brilho do fogo e das velas de cera na luxuosa sala de estar; as almofadas de damasco âmbar do sofá contrastavam com o seu vestido de veludo violeta escuro, e o seu cabelo ondulado caía à volta do pescoço num manto dourado. Por todo o lado à sua volta estavam as provas de riqueza e esplendor; enquanto, em estranho contraste com tudo isto, e com a sua própria beleza, o cavalariço desajeitado estava de pé a esfregar a sua cabeça de bala enquanto a minha senhora lhe explicava o que pretendia fazer pela sua criada de confiança. As promessas de Lucy eram muito liberais, e ela esperava que, por mais grosseiro que o homem fosse, ele expressasse a sua gratidão, à sua maneira rude.

Para sua surpresa, ele ficou parado a olhar para o chão sem proferir uma palavra em resposta à oferta dela. Phoebe estava de pé junto ao cotovelo dele e parecia aflita com a grosseria do homem.

— Diga à minha senhora o quão agradecido está, Luke — disse ela.

— Mas eu não estou assim tão agradecido — respondeu o amante, de forma selvagem. — Cinquenta libras não é muito para abrir uma taberna. Vai fazer com que sejam cem, minha senhora?

— Não farei nada desse tipo — disse Lady Audley, os seus claros olhos azuis a faiscarem de indignação —, e admiro-me com a sua impertinência ao pedi-lo.

— Oh, sim, vai, porém — respondeu Luke, com uma insolência calma que tinha um significado oculto. — Vai fazer com que sejam cem, minha senhora.

Lady Audley levantou-se do seu assento, olhou o homem fixamente na cara até que o seu olhar determinado se afundasse perante o dela; depois, caminhando diretamente para a sua criada, disse com uma voz aguda e penetrante, peculiar nela em momentos de intensa agitação:

— Phoebe Marks, tu contaste a este homem!

A rapariga caiu de joelhos aos pés da minha senhora.

— Oh, perdoe-me, perdoe-me! — chorou ela. — Ele obrigou-me a dizer, ou eu nunca, nunca teria contado!

CAPÍTULO XV.

À ESPREITA.

Numa manhã soturna de finais de novembro, com o nevoeiro amarelo baixo sobre os prados planos, e o gado encandeado a apalpar o caminho através da obscura penumbra, tropeçando estupidamente contra sebes negras e despidas, ou caindo em valas, indistinguíveis na atmosfera nebulosa; com a igreja da aldeia a surgir acastanhada e suja através da luz incerta; com cada caminho sinuoso e porta de casa, cada empena e velha chaminé cinzenta, cada criança da aldeia e cão vadio a parecerem estranhos e fantasmagóricos no meio da escuridão, Phoebe Marks e o seu primo Luke fizeram o seu caminho através do adro da igreja de Audley, e apresentaram-se perante um coadjutor trémulo, cuja sobrepeliz pendia em dobras húmidas, encharcadas pela névoa matinal, e cujo temperamento não foi melhorado por ter esperado cinco minutos pela noiva e pelo noivo.

Luke Marks, vestido com as suas roupas de domingo mal ajustadas, não parecia de modo algum mais elegante do que com o seu traje habitual; mas Phoebe, adornada com uma seda farfalhante de um cinzento delicado, que tinha sido usada cerca de meia dúzia de vezes pela sua patroa, parecia, como observaram os poucos espectadores da cerimónia, "completamente uma dama".

Uma dama muito ténue e sombria, vaga de contornos e pálida de cor, com olhos, cabelo, tez e vestido, tudo a fundir-se em tons tão pálidos e incertos que, na luz obscura da manhã nevoenta de novembro, um estranho supersticioso poderia ter confundido a noiva com o fantasma de alguma outra noiva, morta e enterrada na cripta sob a igreja.

O Sr. Luke Marks, o herói da ocasião, pensava muito pouco em tudo isto. Tinha assegurado a esposa da sua escolha e o objeto da sua ambição de uma vida — uma taberna. A minha senhora tinha fornecido as setenta e cinco libras necessárias para a compra do trespasse e do inventário, com o stock de cervejas e bebidas espirituosas, de uma pequena estalagem no centro de uma pequena aldeia isolada, empoleirada no cume de uma colina, chamada Mount Stanning. Não era uma casa muito bonita de se olhar; tinha um aspeto um tanto degradado e castigado pelo tempo, erguendo-se, como se erguia, em terreno elevado, abrigada apenas por quatro ou cinco choupos nus e crescidos demais, que tinham disparado demasiado depressa para a sua força e, consequentemente, tinham um ar desolado e fustigado. O vento fizera o que quis com a Castle Inn, e tinha por vezes feito um uso cruel do seu poder. Foi o vento que bateu e entortou os telhados baixos de colmo das dependências e estábulos, até que pendiam e se inclinavam para a frente, como um chapéu descaído sobre a testa baixa de algum rufia da aldeia; foi o vento que sacudiu e fez chocalhar as portadas de madeira perante as janelas estreitas, até que pendiam partidas e dilapidadas das suas dobradiças enferrujadas; foi o vento que derrubou o pombal e partiu o cata-vento que tinha sido imprudentemente colocado para indicar os movimentos da sua majestade; foi o vento que fez pouco de qualquer pequeno pedaço de treliça de madeira, ou planta trepadeira, ou minúscula varanda, ou qualquer decoração modesta que fosse, e a rasgou e espalhou na sua fúria desdenhosa; foi o vento que deixou secreções musgosas na superfície descolorida das paredes de reboco; foi o vento, em suma, que estilhaçou, e arruinou, e rasgou, e pisoteou a pilha vacilante de edifícios, e depois voou aos gritos, para se entregar à folia e à glória da sua força destruidora. O proprietário desanimado cansou-se da sua longa luta contra este poderoso inimigo; assim, o vento foi deixado para fazer a sua própria vontade, e a Castle Inn caiu lentamente na decadência. Mas, apesar de tudo o que sofria por fora, não era menos próspera dentro de portas. Boieiros robustos paravam para beber no pequeno bar; agricultores abastados passavam as suas noites e falavam de política na sala baixa e apainelada, enquanto os seus cavalos mastigavam alguma mistura suspeita de feno bolorento e feijões toleráveis nos estábulos em ruínas. Por vezes, até os membros da caçada de Audley paravam para beber e alimentar os seus cavalos na Castle Inn; enquanto, numa grande e inesquecível ocasião, um jantar tinha sido encomendado pelo mestre da matilha para cerca de trinta cavalheiros, e o proprietário ficara quase louco com a importância do pedido.

Assim, Luke Marks, que não era de todo perturbado por um olho para o belo, considerou-se muito afortunado por se tornar o estalajadeiro da Castle Inn, em Mount Stanning.

Uma carroça esperava no nevoeiro para levar a noiva e o noivo para a sua nova casa; e alguns dos habitantes da aldeia, que conheciam Phoebe desde criança, permaneciam à volta do portão do adro da igreja para lhe dizer adeus. Os seus olhos pálidos estavam ainda mais pálidos devido às lágrimas que tinha derramado e às bordas vermelhas que os rodeavam. O noivo estava incomodado com esta exibição de emoção.

— Porque estás a choramingar, rapariga? — disse ele, ferozmente. — Se não te querias casar comigo, devias ter-mo dito. Eu não vou assassinar-te, pois não?

A criada da senhora estremeceu quando ele falou com ela e puxou o seu pequeno manto de seda para junto de si.

— Estás com frio com todas estas galas — disse Luke, fitando o seu vestido dispendioso sem qualquer expressão de boa vontade. — Porque é que as mulheres não se podem vestir de acordo com o seu estatuto? Não terás vestidos de seda vindos do meu bolso, posso dizer-te isso.

Ele levantou a rapariga trémula para a carroça, envolveu-a num casaco grosso e partiu através do nevoeiro amarelo, seguido por um fraco aplauso de dois ou três garotos aglomerados à volta do portão.

Uma nova criada foi trazida de Londres para substituir Phoebe Marks junto da minha senhora — uma donzela muito vistosa, que usava um vestido de cetim preto e fitas cor-de-rosa na touca, e queixava-se amargamente da monotonia de Audley Court.

Mas o Natal trouxe visitantes à velha e extensa mansão. Um escudeiro rural e a sua esposa gorda ocuparam o quarto das tapeçarias; raparigas alegres corriam para cima e para baixo nos longos corredores, e jovens olhavam pelas janelas gradeadas, à espera de ventos do sul e céus nublados; não havia uma baia vazia nos espaçosos e antigos estábulos; uma forja improvisada tinha sido montada no pátio para o ferrar dos cavalos de caça; cães a ladrar tornavam o lugar ruidoso com o seu clamor perpétuo; criados estranhos amontoavam-se no andar das águas-furtadas; e cada pequena janela escondida sob alguma empena pontiaguda, e cada claraboia no antigo e pitoresco telhado, luzia na noite de inverno com a sua própria vela, até que, chegando subitamente a Audley Court, o viajante transviado, enganado pela luz, o barulho e o movimento do lugar, poderia facilmente ter caído no erro do jovem Marlowe, e ter confundido a mansão hospitaleira com uma boa estalagem à moda antiga, tais como as que desapareceram desta terra desde que a última diligência e os cavalos fogosos fizeram a sua última viagem melancólica para o matadouro.

Entre outros visitantes, o Sr. Robert Audley veio a Essex para a temporada de caça, com meia dúzia de romances franceses, uma caixa de charutos e três libras de tabaco turco na sua mala de viagem.

Os honestos jovens escudeiros rurais, que falavam durante todo o pequeno-almoço sobre potros Flying Dutchman e potros Voltigeur; sobre gloriosas corridas de sete horas de cavalgada intensa por três condados, e uma cavalgada de regresso a casa à meia-noite de trinta milhas nos seus cavalos de montaria; e que fugiam da mesa bem posta com a boca cheia de rosbife frio, para olhar para aquele boleto, ou aquele antebraço distendido, ou o potro que tinha acabado de voltar do veterinário, consideravam Robert Audley, a vadiar sobre uma fatia de pão e marmelada, como uma pessoa totalmente indigna de qualquer comentário.

O jovem advogado tinha trazido um par de cães consigo; e o cavalheiro rural que dava cinquenta libras por um cão de parar, e viajava um par de centenas de milhas para ver uma trela de cães de busca antes de fazer um negócio, ria-se alto dos dois cães miseráveis, um dos quais seguira Robert Audley por Chancery Lane, e metade da extensão de Holborn; enquanto o seu companheiro tinha sido tomado pelo advogado vi et armis de um vendedor ambulante que o estava a maltratar. E como Robert, além disso, insistia em ter estes dois animais deploráveis debaixo da sua poltrona na sala de estar, para grande incómodo da minha senhora, que, como sabemos, odiava todos os cães, os visitantes em Audley Court consideravam o sobrinho do barão como um tipo inofensivo de maníaco.

Durante outras visitas à Corte, Robert Audley tinha feito uma tentativa fraca de participar nos desportos da alegre assembleia. Tinha trotado através de meia dúzia de campos arados num poney cinzento e calmo de Sir Michael, e, parando ofegante à porta de alguma casa de quinta, tinha manifestado a sua intenção de não seguir mais os cães de caça naquela manhã. Tinha até chegado a calçar, com grande esforço, um par de patins, com o intuito de dar uma volta na superfície gelada do viveiro de peixes, e tinha caído ignominiosamente na primeira tentativa, ficando placidamente estendido de costas até ao momento em que os transeuntes achassem por bem levantá-lo. Tinha ocupado o banco de trás numa charrete durante um agradável passeio matinal, protestando veementemente contra ser levado colina acima, e exigindo que o veículo parasse de dez em dez minutos para reajustar as almofadas. Mas, este ano, não mostrou qualquer inclinação para nenhum destes divertimentos ao ar livre, e passou o seu tempo inteiramente a vaguear pela sala de estar, e a tornar-se agradável, à sua própria maneira preguiçosa, para a minha senhora e Alicia.

Lady Audley recebia as atenções do seu sobrinho daquela maneira graciosa e meio infantil que os seus admiradores achavam tão encantadora; mas Alicia estava indignada com a mudança na conduta do seu primo.

— Sempre foste um rapaz pobre e sem espírito, Bob — disse a jovem, com desprezo, enquanto saltava para a sala de estar no seu hábito de montaria, após um pequeno-almoço de caça, do qual Robert se tinha ausentado, preferindo uma chávena de chá no boudoir da minha senhora; — mas este ano não sei o que te aconteceu. Não serves para nada a não ser para segurar uma meada de seda ou ler Tennyson para Lady Audley.

— Minha querida, apressada e impetuosa Alicia, não sejas violenta — disse o jovem de forma suplicante. — Uma conclusão não é um obstáculo de cinco barras; e não precisas de dar rédea livre ao teu julgamento, como dás à tua égua Atalanta, quando estás a voar pelo campo atrás de uma raposa infeliz. Lady Audley interessa-me, e os amigos do condado do meu tio não. É uma resposta suficiente, Alicia?

A Srta. Audley deu um pequeno sacão desdenhoso com a cabeça.

— É a melhor resposta que alguma vez terei de ti, Bob — disse ela, impaciente; — mas, por favor, diverte-te à tua maneira; refestela-te numa poltrona o dia todo, com esses dois cães absurdos a dormir nos teus joelhos; estraga as cortinas das janelas da minha senhora com os teus charutos e irrita toda a gente na casa com a tua fisionomia estúpida e inanimada.

O Sr. Robert Audley abriu os seus belos olhos cinzentos na sua máxima extensão perante esta tirada, e olhou desamparado para a Srta. Alicia.

A jovem caminhava de um lado para o outro na sala, golpeando a saia do seu hábito com a sua chibata. Os seus olhos brilhavam com um fulgor irritado, e um brilho carmesim ardia sob a sua pele castanha e clara. O jovem advogado sabia muito bem, por estes sinais, que a sua prima estava furiosa.

— Sim — repetiu ela —, a tua fisionomia estúpida e inanimada. Sabes, Robert Audley, que, apesar de toda a tua falsa amabilidade, estás cheio de presunção e arrogância. Tu olhas de cima para os nossos divertimentos; levantas as sobrancelhas, encolhes os ombros, atiras-te para trás na tua cadeira e lavas as mãos de nós e dos nossos prazeres. És um sibarita egoísta e insensível...

— Alicia! Meu—Deus—do—céu!

O jornal da manhã caiu das suas mãos, e ele sentou-se a olhar fracamente para a sua atacante.

— Sim, egoísta, Robert Audley! Levas para casa cães esfomeados, porque gostas de cães esfomeados. Inclinas-te e fazes festas na cabeça de cada cão vadio na rua da aldeia, porque gostas de cães vadios. Reparas nas crianças pequenas e dás-lhes moedas, porque te diverte fazê-lo. Mas levantas as sobrancelhas um quarto de jarda quando o pobre Sir Harry Towers conta uma história estúpida, e ficas a encarar o pobre coitado até o deixar sem jeito com a tua insolência preguiçosa. Quanto à tua amabilidade, deixarias que um homem te batesse, e dirias "Obrigado" pela bofetada, em vez de te dares ao trabalho de lhe bater de volta; mas não andarias meio quilómetro fora do teu caminho para servir o teu amigo mais querido. Sir Harry vale vinte de ti, embora tenha escrito a perguntar se a minha égua Atalanta tinha recuperado da distensão. Ele não sabe soletrar, ou levantar as sobrancelhas até à raiz do cabelo; mas atravessaria o fogo e a água pela rapariga que ama; enquanto tu...

Precisamente neste momento, quando Robert estava mais preparado para enfrentar a violência da sua prima, e quando a Srta. Alicia parecia prestes a fazer o seu ataque mais forte, a jovem desfez-se completamente e começou a chorar.

Robert saltou da sua poltrona, derrubando os seus cães no tapete.

— Alicia, minha querida, o que é?

— É—é—é a pena do meu chapéu que me entrou nos olhos — soluçou a sua prima; e antes que ele pudesse investigar a veracidade desta afirmação, Alicia tinha disparado para fora da sala.

Robert Audley preparava-se para a seguir, quando ouviu a sua voz no pátio lá em baixo, entre o bater dos cavalos e o clamor dos visitantes, cães e criados. Sir Harry Towers, o jovem desportista mais aristocrático da vizinhança, tinha acabado de pegar no seu pequeno pé com a mão enquanto ela saltava para a sela.

— Bom Deus! — exclamou Robert, enquanto observava o alegre grupo de cavaleiros até desaparecerem sob o arco. — O que significa tudo isto? Como ela monta bem o seu cavalo! Que figura bonita, também, e uma cara castanha, rosada e franca; mas atacar um rapaz assim, sem a menor provocação! Isso é a consequência de deixar uma rapariga seguir os cães de caça. Ela aprende a olhar para tudo na vida como olha para uma barreira de um metro e oitenta ou um fosso; ela atravessa o mundo como atravessa o campo — sempre em frente, e por cima de tudo. Uma rapariga tão simpática como ela poderia ter sido, também, se tivesse sido criada em Figtree Court! Se alguma vez me casar e tiver filhas (que contingência remota, que o Céu a impeça!), serão educadas em Paper Buildings, farão o seu único exercício nos jardins do Temple, e nunca sairão para além dos portões até estarem em idade de casar, quando as levarei diretamente através de Fleet Street até à igreja de St. Dunstan, e as entregarei nas mãos dos seus maridos.

Com tais reflexões se entretinha o Sr. Robert Audley até que a minha senhora reentrou na sala de estar, fresca e radiante no seu elegante traje matinal, os seus caracóis amarelos a brilhar com as águas perfumadas em que se tinha banhado, e o seu caderno de esboços coberto de veludo nos braços. Ela montou um pequeno cavalete sobre uma mesa junto à janela, sentou-se diante dele e começou a misturar as cores na sua paleta, Robert a observá-la com os seus olhos semicerrados.

— Tem a certeza de que o meu charuto não a incomoda, Lady Audley?

— Oh, não, de todo; estou bastante habituada ao cheiro do tabaco. O Sr. Dawson, o cirurgião, fumava toda a noite quando eu vivia em casa dele.

— Dawson é um bom tipo, não é? — perguntou Robert, casualmente.

A minha senhora soltou a sua risada bonita e efusiva.

— O mais querido dos bons seres — disse ela. — Ele pagava-me vinte e cinco libras por ano — imagine só, vinte e cinco libras! Isso dava seis libras e cinco por trimestre. Como me lembro bem de receber o dinheiro — seis soberanos velhos e baços, e um pequeno monte de prata desarrumada e suja, que vinha diretamente da caixa do consultório! E depois, como fiquei contente por o receber! Enquanto agora — não consigo deixar de rir enquanto penso nisso — estas cores que estou a usar custaram uma guiné cada uma na Winsor & Newton's — o carmim e o ultramarino trinta xelins. Dei à Sra. Dawson um dos meus vestidos de seda no outro dia, e a pobre criatura beijou-me, e o cirurgião levou o embrulho para casa debaixo da capa.

A minha senhora riu-se longa e alegremente com o pensamento. As suas cores estavam misturadas; ela estava a copiar um esboço em aguarela de uma atmosfera impossivelmente turneriana. O esboço estava quase terminado, e ela só tinha de dar alguns toques críticos com o mais delicado dos seus pincéis de marta. Ela preparou-se delicadamente para o trabalho, olhando de lado para a pintura.

Durante todo este tempo, os olhos do Sr. Robert Audley estavam fixos intensamente no seu rosto bonito.

— É uma mudança — disse ele, após uma pausa tão longa que a minha senhora poderia ter-se esquecido do que tinham estado a falar —, é uma mudança! Algumas mulheres fariam muito para conseguir tal mudança.

Os claros olhos azuis de Lady Audley dilataram-se enquanto os fixava subitamente no jovem advogado. A luz do sol de inverno, a brilhar plenamente no seu rosto a partir de uma janela lateral, iluminava o azul daqueles belos olhos, até que a sua cor parecia vacilar e tremer entre o azul e o verde, como os tons opais do mar mudam num dia de verão. O pequeno pincel caiu da sua mão, e manchou o rosto da camponesa sob um círculo crescente de carmim.

Robert Audley estava a afagar ternamente a folha esfarelada do seu charuto com dedos cautelosos.

— O meu amigo da esquina de Chancery Lane não me deu charutos Manilha tão bons como de costume — murmurou ele. — Se alguma vez fumar, minha querida tia (e dizem-me que muitas mulheres fumam um cigarro às escondidas), tenha muito cuidado ao escolher os seus charutos.

A minha senhora respirou fundo, apanhou o pincel e riu-se alto do conselho de Robert.

— Que criatura excêntrica é o Sr. Audley! Sabe que por vezes me confunde...

— Não mais do que a senhora me confunde a mim, querida tia.

A minha senhora guardou as suas cores e o seu caderno de esboços, e sentando-se no recesso profundo de outra janela, a uma distância considerável de Robert Audley, dedicou-se a um grande trabalho de lã de Berlim — um bordado com que as Penélopes de há dez ou doze anos gostavam muito de exercitar a sua engenhosidade — os Tempos Antigos na Abadia de Bolton.

Sentada na abertura desta janela, a minha senhora estava separada de Robert Audley por toda a extensão da sala, e o jovem só conseguia vislumbrar ocasionalmente o seu rosto claro, rodeado pela sua brilhante auréola de cabelo dourado e nebuloso.

Robert Audley estava há uma semana na Corte, mas até então nem ele nem a minha senhora tinham mencionado o nome de George Talboys.

Esta manhã, contudo, depois de esgotar os tópicos habituais de conversa, Lady Audley fez uma pergunta sobre o amigo do seu sobrinho: "Aquele Sr. George — George —" disse ela, hesitante.

— Talboys — sugeriu Robert.

— Sim, certamente — Sr. George Talboys. Um nome bastante singular, aliás, e certamente, segundo todos os relatos, uma pessoa muito singular. Tem-no visto ultimamente?

— Não o vejo desde o dia 7 de setembro passado — o dia em que ele me deixou a dormir nos prados do outro lado da aldeia.

— Meu Deus! — exclamou a minha senhora, "que jovem muito estranho deve ser este Sr. George Talboys! Por favor, conte-me tudo sobre isso."

Robert contou, em poucas palavras, a sua visita a Southampton e a sua viagem a Liverpool, com os seus resultados diferentes, a minha senhora a ouvir muito atentamente.

Para contar esta história da melhor forma, o jovem deixou a sua cadeira e, atravessando a sala, tomou o seu lugar em frente a Lady Audley, na abertura da janela.

— E o que infere de tudo isto? — perguntou a minha senhora, após uma pausa.

— É um mistério tão grande para mim — respondeu ele — que mal me atrevo a tirar qualquer conclusão; contudo, na obscuridade, creio que posso tatear o meu caminho até duas suposições que, para mim, parecem quase certezas.

— E elas são...

— Primeiro, que George Talboys nunca foi além de Southampton. Segundo, que ele nunca foi a Southampton de todo.

— Mas você seguiu o rasto dele até lá. O seu sogro viu-o.

— Tenho motivos para duvidar da integridade do seu sogro.

— Meu Deus do céu! — exclamou a minha senhora, lastimosamente. — O que quer dizer com tudo isto?

— Lady Audley — respondeu o jovem, gravemente —, nunca exerci como advogado. Inscrevi-me nas fileiras de uma profissão cujos membros têm responsabilidades solenes e deveres sagrados a cumprir; e esquivei-me a essas responsabilidades e deveres, tal como me esquivei a todas as fadigas desta vida problemática. Mas somos, por vezes, forçados à própria posição que mais evitámos, e vi-me ultimamente compelido a pensar nestas coisas. Lady Audley, já estudou alguma vez a teoria da prova circunstancial?

— Como pode perguntar a uma pobre pequena senhora sobre tais coisas horríveis? — exclamou a minha senhora.

— A prova circunstancial — continuou o jovem, como se mal ouvisse a interrupção de Lady Audley —, esse tecido maravilhoso que é construído a partir de palhas recolhidas em todos os pontos da bússola, e que, contudo, é suficientemente forte para enforcar um homem. Sobre que ninharias infinitesimais pode, por vezes, pairar todo o segredo de algum mistério perverso, inexplicável até então para os mais sábios da terra! Um pedaço de papel, um trapo de alguma peça de roupa rasgada, o botão de um casaco, uma palavra deixada cair incautamente dos lábios demasiado cautelosos da culpa, o fragmento de uma carta, o fechar ou abrir de uma porta, uma sombra numa persiana, a precisão de um momento testada por um dos relógios de Benson — mil circunstâncias tão ligeiras que são esquecidas pelo criminoso, mas que são elos de ferro na maravilhosa corrente forjada pela ciência do agente de investigação; e eis que a forca é erguida; o sino solene toca através do lúgubre cinzento do início da manhã, o alçapão range sob os pés culpados, e a pena do crime é paga.

Ténues sombras de verde e carmesim caíram sobre o rosto da minha senhora, vindas dos brasões pintados na janela com travessas junto à qual ela estava sentada; mas cada vestígio da cor natural daquele rosto tinha-se desvanecido, deixando-o num cinzento cinéreo cadavérico.

Sentada calmamente na sua cadeira, com a cabeça caída para trás sobre as almofadas de damasco âmbar, e as suas mãozinhas imóveis no colo, Lady Audley tinha desmaiado.

— O raio torna-se mais estreito dia após dia — disse Robert Audley. — George Talboys nunca chegou a Southampton.

CAPÍTULO XVI.

ROBERT AUDLEY RECEBE A SUA DISPENSA.

A semana de Natal tinha terminado e, um a um, os visitantes do campo foram abandonando Audley Court. O gordo proprietário rural e a sua esposa abandonaram o quarto cinzento e tapeçado, e deixaram os guerreiros de sobrancelhas negras, que pairavam na parede, franzir o sobrolho e ameaçar os novos hóspedes, ou encarar vingativamente o vazio. As raparigas alegres do segundo andar fizeram as malas, ou mandaram fazê-lo, e os seus baús e malas de viagem, e vestidos de baile de gaze amarrotados que tinham sido trazidos frescos para Audley, foram levados para casa. As velhas e desajeitadas carruagens de família, com cavalos cujos artelhos não aparados denunciavam um trabalho mais rude do que as estradas rurais, foram trazidas para o largo espaço diante da porta de carvalho sombria, e carregadas com pilhas caóticas de bagagem feminina. Rostos bonitos e rosados espreitavam pelas janelas das carruagens para sorrir a última despedida ao grupo na porta do salão, enquanto o veículo sacudia e ressoava sob o arco coberto de hera. Sir Michael era requisitado em toda a parte. Apertando a mão aos jovens desportistas; beijando as raparigas de faces rosadas; por vezes, abraçando até matronas corpulentas que vinham agradecer-lhe pela agradável visita; sempre afável, hospitaleiro, generoso, feliz e amado, o baronete corria de sala em sala, do salão para as cavalariças, das cavalariças para o pátio, do pátio para o portão em arco para apressar o hóspede que partia.

Os caracóis amarelos da minha senhora brilhavam aqui e ali como lampejos errantes de luz solar nestes dias atarefados de despedidas. Os seus grandes olhos azuis tinham um ar bonito e melancólico, em encantadora uníssono com a pressão suave da sua pequena mão e aquele discurso amigável, embora talvez um tanto estereotipado, no qual dizia aos seus visitantes como lamentava perdê-los e como não sabia o que faria até que eles voltassem a animar a corte com a sua encantadora sociedade.

Mas, por muito que a minha senhora lamentasse perder os seus visitantes, havia pelo menos um hóspede de cuja sociedade ela não era privada. Robert Audley não mostrava qualquer intenção de deixar a casa do seu tio. Ele não tinha deveres profissionais, dizia; Figtree Court era deliciosamente sombria em tempo quente, mas havia um canto agudo onde o vento soprava nos meses de verão, armado com reumatismos vingativos e influenzas. Todos eram tão bons para ele na Corte que, na verdade, não tinha inclinação para se apressar a sair.

Sir Michael tinha apenas uma resposta para isto: — Fique, meu caro rapaz; fique, meu caro Bob, tanto tempo quanto quiser. Não tenho filho, e você ocupa o lugar de um para mim. Torne-se agradável para Lucy e faça da Corte a sua casa enquanto viver.

Ao que Robert respondia apenas apertando a mão do seu tio veementemente, e murmurando algo sobre "um príncipe velho e jovial".

Observava-se que havia por vezes uma certa tristeza vaga no tom do jovem quando ele chamava a Sir Michael "um príncipe velho e jovial"; alguma sombra de arrependimento afetuoso que trazia uma névoa aos olhos de Robert, enquanto ele se sentava num canto da sala, olhando pensativamente para o baronete de barba branca.

Antes que o último dos jovens desportistas partisse, Sir Harry Towers exigiu e obteve uma entrevista com a senhorita Alicia Audley na biblioteca de carvalho — uma entrevista na qual foi demonstrada considerável emoção pelo robusto jovem caçador de raposas; tanta emoção, na verdade, e de um caráter tão genuíno e honesto, que Alicia desmoronou-se ao dizer-lhe que o estimaria e respeitaria para sempre pelo seu coração verdadeiro e nobre, mas que ele nunca, nunca, a menos que quisesse causar-lhe o mais cruel sofrimento, deveria pedir-lhe mais do que esta estima e respeito.

Sir Harry deixou a biblioteca pela janela francesa que dava para o jardim do lago. Passeou por aquele mesmo passeio de tílias que George Talboys tinha comparado a uma alameda num cemitério, e, sob as árvores despidas, travou a batalha do seu corajoso coração jovem.

— Que tolo sou por sentir isto assim! — exclamou, batendo com o pé no chão gelado. — Sempre soube que seria assim; sempre soube que ela era cem vezes demasiado boa para mim. Deus a abençoe! Que nobre e ternamente ela falou; que bonita ela parecia com os rubores carmesim sob a sua pele morena, e as lágrimas nos seus grandes olhos cinzentos — quase tão bonita como no dia em que ela saltou a vala e me deixou pôr a cauda da raposa no seu chapéu enquanto cavalgávamos para casa! Deus a abençoe! Posso superar qualquer coisa desde que ela não se importe com aquele advogado sorrateiro. Mas isso eu não suportaria.

Aquele advogado sorrateiro, epíteto pelo qual Sir Harry se referia ao senhor Robert Audley, estava de pé no hall, a olhar para um mapa dos condados centrais, quando Alicia saiu da biblioteca, com os olhos vermelhos, após a sua entrevista com o baronete caçador de raposas.

Robert, que era míope, tinha os olhos a meio centímetro da superfície do mapa quando a jovem se aproximou dele.

— Sim — disse ele —, Norwich fica em Norfolk, e aquele tolo, o jovem Vincent, disse que ficava em Herefordshire. Ah, Alicia, é você?

Ele virou-se de modo a interceptar a senhorita Audley no seu caminho para a escadaria.

— Sim — respondeu a sua prima secamente, tentando passar por ele.

— Alicia, você esteve a chorar.

A jovem não se dignou a responder.

— Você esteve a chorar, Alicia. Sir Harry Towers, de Towers Park, no condado de Herts, esteve a fazer-lhe uma proposta, não foi?

— Esteve a escutar à porta, senhor Audley?

— Não estive, senhorita Audley. Por princípio, opor-me-ia a escutar, e na prática acredito que seja um procedimento muito trabalhoso; mas sou advogado, senhorita Alicia, e capaz de tirar uma conclusão por indução. Sabe o que é a prova indutiva, senhorita Audley?

— Não — respondeu Alicia, olhando para o seu primo como uma jovem pantera bonita poderia olhar para o seu audacioso atormentador.

— Imaginei que não. Atrevo-me a dizer que Sir Harry perguntaria se era um novo tipo de bola para cavalos. Soube por indução que o baronete ia fazer-lhe uma proposta; primeiro, porque ele desceu as escadas com o cabelo repartido do lado errado e o rosto tão pálido como uma toalha de mesa; segundo, porque não conseguiu comer nada ao pequeno-almoço e deixou o café ir pelo caminho errado; e, terceiro, porque pediu uma entrevista consigo antes de deixar a Corte. Bem, como vai ser, Alicia? Casamos com o baronete, e o pobre primo Bob vai ser o padrinho do casamento?

— Sir Harry Towers é um jovem de coração nobre — disse Alicia, ainda tentando passar pelo seu primo.

— Mas aceitamo-lo — sim ou não? Vamos ser Lady Towers, com uma propriedade soberba em Hertfordshire, aposentos de verão para os nossos cavalos de caça, e uma carruagem com lacaios para nos levar até à propriedade do papá em Essex? Vai ser assim, Alicia, ou não?

— O que é que isso lhe interessa, senhor Robert Audley? — exclamou Alicia, apaixonadamente. — O que lhe importa o que acontece comigo, ou com quem me caso? Se eu casasse com um limpa-chaminés, você apenas ergueria as sobrancelhas e diria: "Valha-me Deus, ela sempre foi excêntrica". Recusei Sir Harry Towers; mas quando penso no seu afeto generoso e altruísta, e o comparo com a indiferença impiedosa, preguiçosa, egoísta e arrogante de outros homens, apetece-me correr atrás dele e dizer-lhe...

— Que vai retratar-se e ser a minha Lady Towers?

— Sim.

— Então não o faça, Alicia, não o faça — disse Robert Audley, segurando o pulso fino e pequeno da sua prima e levando-a para cima. — Venha comigo para a sala de estar, Alicia, minha pobre pequena prima; minha encantadora, impetuosa e alarmante pequena prima. Sente-se aqui nesta janela e vamos falar seriamente e parar de discutir, se pudermos.

Os primos tinham a sala de estar só para si. Sir Michael estava fora, a minha senhora nos seus próprios aposentos, e o pobre Sir Harry Towers caminhava de um lado para o outro no caminho de gravilha, escurecido pelas sombras tremeluzentes dos ramos despidos à luz fria do sol de inverno.

— Minha pobre pequena Alicia — disse Robert, tão ternamente como se estivesse a dirigir-se a alguma criança mimada —, supõe que, porque as pessoas não usam caras azedas, ou repartem o cabelo do lado errado, ou conduzem-se de todo à maneira de maníacos bem-intencionados, a fim de provar a veemência da sua paixão — supõe por causa disto, Alicia Audley, que eles podem não ser tão sensíveis aos méritos de uma querida menina de coração caloroso e afetuoso como os seus vizinhos jamais poderiam ser? A vida é uma questão tão problemática, quando tudo está dito e feito, que é bom até receber as suas bênçãos calmamente. Não faço um grande alarido porque consigo obter bons charutos a uma porta de distância da esquina de Chancery Lane, e tenho uma querida e boa menina por prima; mas não sou menos grato à Providência por ser assim.

Alicia abriu os seus olhos cinzentos o máximo que pôde, olhando o seu primo diretamente na cara com um olhar confuso. Robert tinha apanhado o mais feio e magro dos seus cães acompanhantes e estava placidamente a acariciar as orelhas do animal.

— É tudo o que tem para me dizer, Robert? — perguntou a senhorita Audley, humildemente.

— Bem, sim, penso que sim — respondeu o seu primo, após considerável deliberação. — Imagino que o que eu queria dizer era isto — não case com o baronete caçador de raposas se gosta mais de outra pessoa; porque se você for paciente e levar a vida calmamente, e tentar reformar-se de bater com as portas, entrar e sair a saltar das salas, falar das cavalariças e cavalgar pelo campo, não tenho dúvidas de que a pessoa que você prefere fará de si uma excelente esposa.

— Obrigada, primo — disse a senhorita Audley, corando com rubores brilhantes e indignados até às raízes do seu cabelo castanho ondulado; — mas como você pode não conhecer a pessoa que eu prefiro, penso que seria melhor não se encarregar de responder por ela.

Robert puxou as orelhas do cão pensativamente por alguns momentos.

— Não, com certeza — disse ele, após uma pausa. — É claro, se eu não a conheço — eu pensava que conhecia.

— Pensava? — exclamou Alicia; e, abrindo a porta com uma violência que fez o seu primo estremecer, saiu da sala de estar aos saltos.

— Eu apenas disse que pensava que a conhecia — chamou Robert atrás dela; e, então, enquanto se afundava numa poltrona, murmurou pensativamente: — Uma rapariga tão simpática, se ela não saltasse tanto.

Assim, o pobre Sir Harry Towers cavalgou para fora de Audley Court, parecendo muito abatido e sombrio.

Ele teve muito pouco prazer em regressar à imponente mansão, escondida entre carvalhos protetores e faias veneráveis. A casa quadrada, de tijolo vermelho, brilhando no fim de uma longa arcada de árvores despidas, seria para sempre desolada, pensou ele, uma vez que Alicia não viria para ser a sua senhora.

Centenas de melhorias planeadas e pensadas foram afastadas da sua mente como inúteis agora. O cavalo de caça que Jim, o treinador, estava a domar para uma dama; os dois cães apontadores que estavam a ser criados para a próxima época de caça; o grande cão retriever preto que teria carregado o guarda-sol de Alicia; o pavilhão no jardim, desativado desde a morte da sua mãe, mas que ele tencionava ter restaurado para a senhorita Audley — todas estas coisas eram agora vaidade e vexação de espírito.

— Qual é o bem de ser rico se não temos ninguém para ajudar a gastar o dinheiro? — disse o jovem baronete. — A pessoa torna-se apenas um pedinte egoísta e começa a beber demasiado vinho do Porto. É algo difícil que uma rapariga possa recusar um coração verdadeiro e cavalariças como as que temos no parque. Isso perturba um homem de alguma forma.

De facto, esta rejeição inesperada tinha perturbado muito as poucas ideias que compunham a pequena soma da mente do baronete.

Ele tinha estado desesperadamente apaixonado por Alicia desde a última época de caça, quando a conheceu no baile do condado. A sua paixão, nutrida através da lenta monotonia de um verão, tinha eclodido de novo nos meses alegres de inverno, e apenas a *mauvaise honte* do jovem tinha atrasado a oferta da sua mão. Mas ele nunca tinha suposto, nem por um momento, que seria recusado; estava tão habituado à adulação de mães que tinham filhas para casar, e até das próprias filhas; estava tão acostumado a sentir-se a personagem principal numa assembleia, embora metade dos intelectuais da época estivessem lá, e ele só conseguisse dizer "Hum, com certeza!" e "Por Júpiter — hum!"; tinha sido tão mimado pelas lisonjas de olhos brilhantes que olhavam, ou pareciam olhar, ainda mais brilhantes quando ele se aproximava, que sem possuir uma sombra de vaidade pessoal, tinha chegado a pensar que só precisava de fazer uma proposta à rapariga mais bonita de Essex para se ver imediatamente aceite.

— Sim — dizia ele complacente a algum satélite admirador —, eu sei que sou um bom partido, e sei o que torna as raparigas tão educadas. Elas são muito bonitas, e são muito amigáveis para com um tipo; mas eu não quero saber delas. São todas iguais — só conseguem baixar os olhos e dizer: "Ai, Sir Harry, por que chama a esse cão preto e encaracolado de retriever?" ou "Oh Sir Harry, e será que a pobre égua torceu mesmo a omoplata?". Eu próprio não tenho muitos miolos, eu sei — acrescentava o baronete de forma depreciativa; — e não quero uma mulher de espírito forte, que escreve livros e usa óculos verdes; mas, diabo! Gosto de uma rapariga que saiba do que está a falar.

Portanto, quando Alicia disse "Não", ou melhor, fez aquele bonito discurso sobre estima e respeito, que as jovens bem-educadas substituem pelo monossílabo odioso, Sir Harry Towers sentiu que todo o tecido do futuro que tinha construído tão complacentemente estava estilhaçado num monte de ruínas sombrias.

Sir Michael apertou-lhe calorosamente a mão pouco antes do jovem montar o seu cavalo no pátio.

— Lamento muito, Towers — disse ele. — Você é um tipo tão bom quanto qualquer outro que respira, e teria feito à minha rapariga um excelente marido; mas sabe que há um primo, e penso que...

— Não diga isso, Sir Michael — interrompeu o caçador de raposas, energeticamente. — Posso superar qualquer coisa, menos isso. Um tipo cuja mão sobre o freio pesa meia tonelada (ora, ele fez a boca do Cavalier em pedaços, senhor, no dia em que o senhor o deixou montar o cavalo); um tipo que vira as golas para baixo e come pão com marmelada! Não, não, Sir Michael; é um mundo estranho, mas não consigo pensar isso da senhorita Audley. Deve haver alguém nos bastidores, senhor; não pode ser o primo.

Sir Michael abanou a cabeça enquanto o pretendente rejeitado cavalgava para longe.

— Não sei quanto a isso — murmurou ele. — O Bob é um bom rapaz, e a rapariga poderia fazer pior; mas ele hesita como se não se importasse com ela. Há algum mistério — há algum mistério!

O velho baronete disse isto naquele tom semi-pensativo com que falamos dos assuntos dos outros. As sombras do crepúsculo do início do inverno, acumulando-se mais densamente sob o teto baixo de carvalho do hall, e a curva pitoresca da entrada em arco, caíram escuras à volta da sua cabeça bonita; mas a luz da sua vida declinante, a sua bela e amada jovem esposa, estava perto dele, e ele não conseguia ver sombras quando ela estava por perto.

Ela veio saltitando pelo hall para o encontrar e, sacudindo os seus caracóis dourados, enterrou a sua cabeça brilhante no peito do seu marido.

— Então o último dos nossos visitantes partiu, querido, e estamos todos sozinhos — disse ela. — Não é agradável?

— Sim, querida — respondeu ele carinhosamente, acariciando o seu cabelo brilhante.

— Exceto o senhor Robert Audley. Quanto tempo vai aquele seu sobrinho ficar aqui?

— Tanto tempo quanto quiser, minha querida; ele é sempre bem-vindo — disse o baronete; e então, como se se lembrasse de si mesmo, acrescentou ternamente: — Mas não a menos que a sua visita seja agradável para você, querida; não se os seus hábitos preguiçosos, ou o seu fumo, ou os seus cães, ou qualquer coisa sobre ele for desagradável para você.

Lady Audley comprimiu os seus lábios rosados e olhou pensativamente para o chão.

— Não é isso — disse ela, hesitante. — O senhor Audley é um jovem muito agradável, e um jovem muito honrado; mas sabe, Sir Michael, que sou uma tia um tanto jovem para tal sobrinho, e...

— E o quê, Lucy? — perguntou o baronete, ferozmente.

— A pobre Alicia está um tanto ciumenta de qualquer atenção que o senhor Audley me presta, e — e — penso que seria melhor para a sua felicidade que o seu sobrinho pusesse um termo à sua visita.

— Ele irá esta noite, Lucy — exclamou Sir Michael. — Sou um tolo cego e negligente por não ter pensado nisto antes. Minha adorável pequena querida, dificilmente foi justo para com o Bob expor o pobre rapaz aos seus encantos. Sei que ele é um tipo tão bom e de coração verdadeiro quanto qualquer um que respira, mas — mas — ele irá esta noite.

— Mas não será demasiado abrupto, querido? Não será rude?

— Rude! Não, Lucy. Deixei-o a fumar no passeio de tílias. Vou lá e dizer-lhe que tem de sair da casa dentro de uma hora.

Portanto, naquela alameda despida, sob cuja sombra lúgubre George Talboys estivera naquela noite de trovoada antes do dia do seu desaparecimento, Sir Michael Audley disse ao seu sobrinho que a Corte não era casa para ele, e que a minha senhora era demasiado jovem e bonita para aceitar as atenções de um sobrinho bonito de vinte e oito anos.

Robert apenas encolheu os ombros e ergueu as suas sobrancelhas espessas e negras enquanto Sir Michael sugeria delicadamente tudo isto.

— Tenho sido atencioso com a minha senhora — disse ele. — Ela interessa-me; — e então, com uma mudança na sua voz, e uma emoção não comum nele, virou-se para o baronete e, apertando-lhe a mão, exclamou: — Deus me livre, meu caro tio, de alguma vez trazer problemas a um coração tão nobre como o seu! Deus me livre de que a menor sombra de desonra caia sobre a sua cabeça honrada — menos ainda por minha intervenção.

O jovem proferiu estas poucas palavras de uma maneira entrecortada e desconexa como Sir Michael nunca o ouvira falar antes, e então, virando o rosto, desmoronou-se completamente.

Ele deixou o tribunal naquela noite, mas não foi para longe. Em vez de apanhar o comboio da noite para Londres, foi direto para a pequena aldeia de Mount Stanning e, entrando na estalagem bem conservada, perguntou a Phoebe Marks se poderia ser acomodado com um quarto.

CAPÍTULO XVII.

NA ESTALAGEM DO CASTELO.

A pequena sala de estar para onde Phoebe Marks encaminhou o sobrinho do baronete situava-se no rés-do-chão e estava apenas separada por uma divisória de ripas e gesso da pequena sala da estalagem ocupada pelo estalajadeiro e a sua mulher.

Parecia que o sábio arquiteto que supervisionara a construção da Estalagem do Castelo tivera o cuidado especial de que apenas o material mais frágil e precário fosse utilizado, e que o vento, tendo uma predileção especial por aquele local desprotegido, tivesse liberdade total para a indulgência dos seus caprichos.

Para esse fim, madeira deplorável fora usada em vez de alvenaria sólida; tetos cambaleantes tinham sido escorados por vigas frágeis, e traves que ameaçavam em todas as noites de tempestade cair sobre as cabeças daqueles que estavam por baixo; portas cuja especialidade era nunca fechar, mas estar sempre a bater; janelas construídas com uma visão peculiar de deixar entrar a corrente de ar quando estavam fechadas, e manter o ar fora quando estavam abertas. A mão do génio tinha concebido esta estalagem rural solitária; e não havia um centímetro de madeira ou uma colher de gesso empregue em toda a construção precária que não oferecesse o seu próprio ponto fraco peculiar a cada assalto do seu incansável inimigo.

Robert olhou à sua volta com um fraco sorriso de resignação.

Era uma mudança, decididamente, em relação aos confortos luxuosos de Audley Court, e era uma fantasia bastante estranha do jovem advogado preferir vaguear nesta lúgubre estalagem de aldeia a regressar aos seus cómodos aposentos em Figtree Court.

Mas ele trouxera os seus Lares e Penates consigo, sob a forma do seu cachimbo alemão, da sua lata de tabaco, meia dúzia de romances franceses e os seus dois cães favoritos, de má condição, que se sentavam a tremer diante da pequena lareira fumegante, ladrando curta e agudamente de vez em quando, como forma de sugerir algum pequeno refresco.

Enquanto o Sr. Robert Audley contemplava as suas novas instalações, Phoebe Marks chamou um pequeno rapaz da aldeia que tinha o hábito de fazer recados para ela e, levando-o para a cozinha, deu-lhe um bilhete minúsculo, cuidadosamente dobrado e selado.

— Conheces Audley Court?

— Sim, senhora.

— Se correres até lá com esta carta esta noite e vires que é entregue em segurança nas mãos de Lady Audley, dou-te um xelim.

— Sim, senhora.

— Entendes? Pede para ver a minha senhora; podes dizer que tens uma mensagem — não um bilhete, atenção —, mas uma mensagem de Phoebe Marks; e quando a vires, entrega isto nas próprias mãos dela.

— Sim, senhora.

— Não te vais esquecer?

— Não, senhora.

— Então despacha-te.

O rapaz não esperou por uma segunda ordem, mas, num instante, já corria pela estrada principal solitária, descendo a encosta íngreme que levava a Audley.

Phoebe Marks foi até à janela e olhou para a figura negra do rapaz a apressar-se através da crepuscular noite de inverno.

— Se há algum mau propósito na sua vinda para aqui — pensou ela —, a minha senhora saberá disso a tempo, de qualquer modo.

A própria Phoebe trouxe o tabuleiro de chá cuidadosamente arranjado e o pequeno prato coberto de presunto e ovos que tinha sido preparado para este visitante inesperado. O seu cabelo pálido estava trançado com suavidade, e o seu vestido cinzento-claro ajustava-se com a precisão de sempre. Os mesmos tons neutros predominavam na sua pessoa e no seu vestido; nem fitas cor-de-rosa vistosas nem vestidos de seda a sussurrar proclamavam a esposa do próspero estalajadeiro. Phoebe Marks era uma pessoa que nunca perdia a sua individualidade. Silenciosa e contida, parecia manter-se dentro de si mesma e não absorver cor do mundo exterior.

Robert olhou para ela pensativamente enquanto ela estendia a toalha e puxava a mesa para mais perto da lareira.

— Aquela — pensou ele — é uma mulher que conseguiria guardar um segredo.

Os cães olhavam com alguma desconfiança para a figura silenciosa da Sra. Marks, que deslizava suavemente pela sala, do bule de chá para a caixa de chá, e da caixa de chá para a chaleira que cantava sobre o fogão.

— Pode servir-me o chá, Sra. Marks? — disse Robert, sentando-se numa poltrona revestida de crina, que lhe servia tão ajustada em todas as direções como se tivesse sido feita sob medida.

— Veio diretamente de Court, senhor? — perguntou Phoebe, enquanto entregava a Robert a açucareira.

— Sim; deixei a casa do meu tio há apenas uma hora.

— E a minha senhora, senhor, estava bem?

— Sim, muito bem.

— Tão alegre e despreocupada como sempre, senhor?

— Tão alegre e despreocupada como sempre.

Phoebe retirou-se respeitosamente depois de ter dado o chá ao Sr. Audley, mas, enquanto ela estava com a mão na fechadura da porta, ele falou novamente.

— Conheceu Lady Audley quando ela era a Srta. Lucy Graham, não conheceu? — perguntou ele.

— Sim, senhor. Eu vivia na casa da Sra. Dawson quando a minha senhora era lá governanta.

— De facto! Ela esteve muito tempo na família do cirurgião?

— Um ano e meio, senhor.

— E ela veio de Londres?

— Sim, senhor.

— E era órfã, creio eu?

— Sim, senhor.

— Sempre tão alegre como é agora?

— Sempre, senhor.

Robert esvaziou a sua chávena de chá e entregou-a à Sra. Marks. Os seus olhares cruzaram-se — um olhar preguiçoso no dele, e um olhar ativo e perscrutador no dela.

— Esta mulher seria boa numa tribuna de testemunhas — pensou ele; — seria preciso um advogado astuto para a incomodar num interrogatório.

Ele terminou a sua segunda chávena de chá, afastou o prato, alimentou os seus cães e acendeu o seu cachimbo, enquanto Phoebe levava o tabuleiro de chá.

O vento assobiava através do campo aberto e gelado, e através dos bosques sem folhas, e batia ferozmente nas molduras das janelas.

— Há uma corrente de ar triangular vinda daquelas duas janelas e da porta que dificilmente contribui para o conforto deste apartamento — murmurou Robert; — e certamente existem sensações mais agradáveis do que a de estar de pé com água pelos joelhos.

Ele mexeu na lareira, acariciou os seus cães, vestiu o seu sobretudo, puxou um sofá velho e trôpego para perto da lareira, envolveu as pernas no seu cobertor de viagem e, esticando-se a todo o comprimento na estreita almofada de crina, fumou o seu cachimbo e observou as volutas cinzentas-azuladas a subirem para o teto encardido.

— Não — murmurou ele novamente; — aquela é uma mulher que pode guardar um segredo. Um advogado de acusação poderia extrair muito pouco dela.

Eu disse que a sala da estalagem estava apenas separada da sala de estar ocupada por Robert por uma divisória de ripas e gesso. O jovem advogado conseguia ouvir os dois ou três comerciantes da aldeia e um par de agricultores a rir e a falar em torno do balcão, enquanto Luke Marks os servia do seu estoque de bebidas.

Muitas vezes, ele conseguia até ouvir as suas palavras, especialmente as do estalajadeiro, pois ele falava com uma voz rouca e alta, e tinha uma maneira mais gabarola do que qualquer um dos seus clientes.

— O homem é um tolo — disse Robert, ao pousar o seu cachimbo. — Vou lá conversar com ele daqui a pouco.

Ele esperou até que os poucos visitantes do Castelo tivessem partido um a um, e quando Luke Marks trancou a porta ao último dos seus clientes, ele passeou silenciosamente para a sala da estalagem, onde o estalajadeiro estava sentado com a sua mulher.

Phoebe estava ocupada a uma pequena mesa, sobre a qual estava uma caixa de costura impecável, com cada carretel de algodão e dedal de aço brilhante no seu lugar designado. Ela estava a cerzir as meias cinzentas e grosseiras que adornavam os pés desajeitados do seu marido, mas fazia o seu trabalho tão delicadamente como se fossem as delicadas meias de seda da minha senhora.

Eu digo que ela não absorvia cor de coisas externas, e que o ar vago de requinte que permeava a sua natureza a acompanhava tão de perto na sociedade do seu marido bronco na Estalagem do Castelo como no boudoir de Lady Audley em Court.

Ela levantou os olhos repentinamente quando Robert entrou na sala da estalagem. Havia alguma sombra de vexame nos seus olhos cinzentos e pálidos, que mudou para uma expressão de ansiedade — não, antes, de quase terror — ao olhar do Sr. Audley para Luke Marks.

— Entrei para uma conversa de alguns minutos antes de me deitar — disse Robert, instalando-se muito confortavelmente diante da lareira alegre. — Importar-se-ia com um charuto, Sra. Marks? Refiro-me, naturalmente, a eu fumar um — acrescentou ele, a título explicativo.

— De modo algum, senhor.

— Seria uma boa coisa ela opor-se a um bocadinho de tabaco — rosnou o Sr. Marks —, quando eu e os clientes fumamos o dia todo.

Robert acendeu o seu charuto com um fósforo de papel dourado feito por Phoebe que adornava a cornija da lareira, e deu meia dúzia de baforadas reflexivas antes de falar.

— Quero que me conte tudo sobre Mount Stanning, Sr. Marks — disse ele, pouco depois.

— Então isso conta-se depressa — respondeu Luke, com uma risada áspera e estridente. — De todos os buracos aborrecidos em que um homem pôs os pés, este é mais ou menos o mais aborrecido. Não que o negócio não renda um bocado; não me queixo disso; mas eu teria gostado de uma estalagem em Chelmsford, ou Brentwood, ou Romford, ou algum lugar onde haja um pouco de vida nas ruas; e poderia tê-la tido — acrescentou ele, descontente —, se as pessoas não tivessem sido tão terrivelmente mesquinhas.

Enquanto o seu marido murmurava esta queixa num tom de voz ranzinza, Phoebe levantou os olhos do seu trabalho e falou para ele.

— Esquecemo-nos da porta da cervejaria, Luke — disse ela. — Virás comigo e ajudar-me-ás a pôr a tranca?

— A porta da cervejaria pode esperar para esta noite — disse o Sr. Marks; — não me vou mexer agora. Instalei-me para uma fumarada confortável.

Ele tirou um longo cachimbo de barro de um canto do parapeito da lareira enquanto falava, e começou a enchê-lo deliberadamente.

— Não me sinto à vontade com aquela porta da cervejaria, Luke — argumentou a sua mulher; — há sempre vagabundos por perto, e eles podem entrar facilmente quando a tranca não está posta.

— Vai e põe tu a tranca, então, não podes? — respondeu o Sr. Marks.

— É pesada demais para eu levantar.

— Então deixa ficar, se és uma senhora fina demais para tratar disso tu mesma. Estás muito ansiosa de repente acerca desta porta da cervejaria. Suponho que não queres que eu abra a boca a este senhor, é isso. Oh, não precisas de franzir a testa para me impedir de falar! Estás sempre a meter a tua língua e a cortar as minhas palavras antes de eu as ter dito a meio; mas eu não vou aturar isso.

— Estás a ouvir? Eu não vou aturar isso!

Phoebe Marks encolheu os ombros, dobrou o seu trabalho, fechou a caixa de costura e, cruzando as mãos no colo, sentou-se com os seus olhos cinzentos fixos no rosto taurino do seu marido.

— Então não se importa particularmente de viver em Mount Stanning? — disse Robert, educadamente, como se estivesse ansioso por mudar de assunto.

— Não, não me importo — respondeu Luke; — e não me importa quem o saiba; e, como disse antes, se as pessoas não tivessem sido tão terrivelmente mesquinhas, eu poderia ter tido uma estalagem numa próspera cidade de mercado, em vez deste lugar velho e em ruínas, onde um homem tem o cabelo arrancado da cabeça num dia de vento. O que são cinquenta libras, ou o que são cem libras...

— Luke! Luke!

— Não, tu não vais calar-me com todos os teus "Luke, Lukes!" — respondeu o Sr. Marks à repreensão da sua mulher. — Digo de novo, o que são cem libras?

— Não — respondeu Robert Audley, com uma clareza maravilhosa, e dirigindo as suas palavras a Luke Marks, mas fixando os seus olhos no rosto ansioso de Phoebe. — O que são, na verdade, cem libras para um homem que possui o poder que você detém, ou melhor, que a sua mulher detém, sobre a pessoa em questão.

O rosto de Phoebe, quase sem cor em todos os momentos, parecia dificilmente capaz de ficar mais pálido; mas, enquanto as suas pálpebras baixavam sob o olhar perscrutador de Robert Audley, uma mudança visível ocorreu nos tons pálidos da sua tez.

— Quinze para a meia-noite — disse Robert, olhando para o seu relógio.

— Horas tardias para uma aldeia tão sossegada como Mount Stanning. Boa noite, meu digno anfitrião. Boa noite, Sra. Marks. Não precisa de me enviar a água de barbear até às nove horas de amanhã de manhã.

CAPÍTULO XVIII.

ROBERT RECEBE UMA VISITANTE QUE ELE DIFICILMENTE ESPERAVA.

Onze horas soaram na manhã seguinte, e encontraram o Sr. Robert Audley ainda a vaguear sobre a pequena mesa de pequeno-almoço bem arranjada, com um dos seus cães de cada lado da sua poltrona, a observá-lo com olhos atentos e bocas abertas, à espera do bocado esperado de presunto ou torrada. Robert tinha um jornal do condado nos joelhos e fazia um esforço fraco de vez em quando para ler a primeira página, que estava cheia de anúncios de gado agrícola, medicamentos de charlatães e outros assuntos interessantes.

O tempo mudara, e a neve, que nos últimos dias estivera a pairar sombriamente no céu gelado, caía em grandes flocos plumosos contra as janelas e jazia amontoada no pequeno pedaço de jardim lá fora.

A longa e solitária estrada que conduzia a Audley parecia não pisada por nenhum passo, enquanto Robert Audley olhava para a paisagem invernal.

— Animado — disse ele —, para um homem habituado aos encantos de Temple Bar.

Enquanto observava os flocos de neve a caírem a cada momento mais densos e rápidos sobre a estrada solitária, ficou surpreendido ao ver um brougham a subir lentamente a colina.

— Pergunto-me que infeliz criatura tem um espírito tão inquieto para não parar em casa numa manhã como esta — murmurou ele, enquanto regressava à poltrona junto à lareira.

Ele tinha acabado de se sentar há poucos momentos quando Phoebe Marks entrou na sala para anunciar Lady Audley.

— Lady Audley! Por favor, peça-lhe para entrar — disse Robert; e então, enquanto Phoebe saía da sala para encaminhar esta visitante inesperada, ele murmurou entre os dentes: — Um movimento falso, minha senhora, e um que eu nunca esperei de si.

Lucy Audley estava radiante nesta fria e nevada manhã de janeiro. O nariz das outras pessoas é rudemente assaltado pelos dedos afiados do rei do gelo, mas não o da minha senhora; os lábios das outras pessoas tornam-se pálidos e azuis com a influência arrepiante do tempo amargo, mas a boquinha de botão de rosa da minha senhora retinha a sua cor mais brilhante e frescura mais alegre.

Ela estava envolta nas mesmas peles de zibelina que Robert Audley trouxera da Rússia, e carregava uma manga que o jovem pensou parecer quase tão grande como ela própria.

Ela parecia uma criaturinha infantil, indefesa e mimada; e Robert olhou para ela com algum toque de piedade nos olhos, enquanto ela subia até à lareira junto da qual ele estava de pé, e aquecia as suas mãos minúsculas enluvadas na chama.

— Que manhã, Sr. Audley! — disse ela, — que manhã!

— Sim, de facto! Por que saiu com este tempo?

— Porque desejava vê-lo — particularmente.

— De facto!

— Sim — disse a minha senhora, com um ar de considerável embaraço, brincando com o botão da sua luva, e quase arrancando-o na sua inquietação —, sim, Sr. Audley, senti que não tinha sido bem tratado; que — que tinha, em suma, motivos para se queixar; e que um pedido de desculpas lhe era devido.

— Não desejo qualquer pedido de desculpas, Lady Audley.

— Mas tem direito a um — respondeu a minha senhora, calmamente. — Por que, meu caro Robert, seríamos tão cerimoniosos um com o outro? Estava muito confortável em Audley; estávamos muito contentes por tê-lo lá; mas o meu querido e tolo marido teve de meter na sua cabeça tola que é perigoso para a paz de espírito da sua pobre esposinha ter um sobrinho de vinte e oito ou vinte e nove anos a fumar charutos no seu boudoir, e, eis que o nosso pequeno e agradável círculo familiar é desfeito.

Lucy Audley falou com aquela peculiar vivacidade infantil que parecia tão natural nela, com Robert a olhar quase tristemente para o seu rosto brilhante e animado.

— Lady Audley — disse ele —, o céu me livre de que eu ou a senhora tragamos alguma vez dor ou desonra ao coração generoso do meu tio! Melhor, talvez, que eu estivesse fora da casa — melhor, talvez, que eu nunca tivesse entrado nela!

A minha senhora esteve a olhar para a lareira enquanto o seu sobrinho falava, mas, às suas últimas palavras, ela levantou a cabeça bruscamente e olhou-o nos olhos com uma expressão de admiração — um olhar intenso e questionador, cujo significado completo o jovem advogado compreendeu.

— Oh, por favor, não se alarme, Lady Audley — disse ele, gravemente. — Não tem nenhum disparate sentimental, nenhuma infatuação tola, emprestada de Balzac ou de Dumas filho, a temer de mim. Os magistrados do Inner Temple dir-lhe-ão que Robert Audley não é incomodado por nenhuma das epidemias cujos sinais exteriores são golas viradas e gravatas Byronianas. Digo que desejo nunca ter entrado na casa do meu tio durante o último ano; mas digo-o com um significado muito mais solene do que qualquer significado sentimental.

A minha senhora encolheu os ombros.

— Se insiste em falar por enigmas, Sr. Audley — disse ela —, tem de perdoar uma pobre mulher se ela se recusa a responder-lhes.

Robert não fez nenhuma resposta a este discurso.

— Mas diga-me — disse a minha senhora, com uma mudança total de tom —, o que o levou a vir a este lugar lúgubre?

— Curiosidade.

— Curiosidade?

— Sim; senti interesse por aquele homem de pescoço taurino, com o cabelo vermelho-escuro e olhos cinzentos e malignos. Um homem perigoso, minha senhora — um homem em cujo poder eu não gostaria de estar.

Uma mudança súbita ocorreu no rosto de Lady Audley; o rubor rosado e bonito desvaneceu-se das suas faces e deixou-as brancas como cera, e flashes zangados iluminaram os seus olhos azuis.

— O que lhe fiz eu, Robert Audley — exclamou ela, apaixonadamente —, o que lhe fiz eu para que me odeie tanto?

Ele respondeu-lhe muito gravemente:

— Tive um amigo, Lady Audley, a quem amava muito, e desde que o perdi temo que os meus sentimentos em relação a outras pessoas estejam estranhamente amargurados.

— Refere-se ao Sr. Talboys que foi para a Austrália?

— Sim, refiro-me ao Sr. Talboys que, disseram-me, partiu para Liverpool com a ideia de ir para a Austrália.

— E não acredita que ele tenha embarcado para a Austrália?

— Não acredito.

— Mas por que não?

— Perdoe-me, Lady Audley, se me recuso a responder a essa pergunta.

— Como queira — disse ela, descuidadamente.

— Uma semana depois de o meu amigo desaparecer — continuou Robert —, publiquei um anúncio nos jornais de Sydney e Melbourne, apelando a ele, se estivesse em qualquer uma das cidades quando o anúncio apareceu, para que escrevesse e me dissesse o seu paradeiro, e apelando também a qualquer um que o tivesse encontrado, quer nas colónias ou na viagem de ida, para que me desse qualquer informação a seu respeito. George Talboys deixou Essex, ou desapareceu de Essex, a 6 de setembro passado. Devo receber alguma resposta a este anúncio até ao final deste mês. Hoje é dia 27; o tempo aproxima-se muito.

— E se não receber resposta? — perguntou Lady Audley.

— Se não receber resposta, pensarei que os meus receios não foram infundados, e farei o meu melhor para agir.

— O que quer dizer com isso?

— Ah, Lady Audley, recorda-me quão impotente sou nesta questão. O meu amigo pode ter sido eliminado nesta mesma estalagem, e eu poderia ficar aqui durante um ano, e partir no final tão ignorante do seu destino como se nunca tivesse cruzado o limiar. O que sabemos dos mistérios que podem pairar sobre as casas em que entramos? Se eu fosse amanhã àquela casa vulgar e plebeia de oito divisões em que Maria Manning e o seu marido assassinaram o seu hóspede, eu não teria nenhuma premonição terrível daquele horror passado. Feitos vis foram praticados sob os telhados mais hospitaleiros; crimes terríveis foram cometidos em cenários belíssimos e não deixaram qualquer rasto no local onde foram cometidos. Não acredito em mandrágora, ou em manchas de sangue que nenhum tempo possa apagar. Acredito antes que podemos caminhar inconscientemente numa atmosfera de crime e respirar não menos livremente. Acredito que podemos olhar para o rosto sorridente de um assassino e admirar a sua beleza tranquila.

A minha senhora riu-se da seriedade de Robert.

— Parece ter um gosto especial por discutir estes assuntos horríveis — disse ela, com bastante desdém; — deveria ter sido um agente da polícia de investigação.

— Às vezes penso que teria sido um bom.

— Porquê?

— Porque sou paciente.

— Mas voltando ao Sr. George Talboys, que perdemos de vista na sua eloquente discussão. O que acontecerá se não receber resposta aos seus anúncios?

— Considerar-me-ei então justificado em concluir que o meu amigo está morto.

— Sim, e depois...?

— Examinarei os pertences que ele deixou nos meus aposentos.

— De facto! E quais são eles? Sobretudos, coletes, botas envernizadas e cachimbos de espuma do mar, suponho eu — disse Lady Audley, rindo-se.

— Não; cartas — cartas dos seus amigos, dos seus antigos colegas de escola, do seu pai, dos seus colegas oficiais.

— Sim?

— Cartas, também, da sua esposa.

A minha senhora ficou em silêncio por alguns momentos, olhando pensativamente para o lume.

— Já viu alguma das cartas escritas pela falecida Sra. Talboys? — perguntou ela pouco depois.

— Nunca. Pobre alma! É pouco provável que as suas cartas lancem muita luz sobre o destino do meu amigo. Atrevo-me a dizer que ela escrevia o habitual garranchos feminino. São muito poucas as que escrevem com uma caligrafia tão encantadora e invulgar como a sua, Lady Audley.

— Ah, conhece a minha letra, naturalmente.

— Sim, conheço-a muito bem, na verdade.

A minha senhora aqueceu as mãos mais uma vez e, depois de pegar na grande manga que tinha deixado de lado sobre uma cadeira, preparou-se para partir.

— Recusou-se a aceitar o meu pedido de desculpas, Sr. Audley — disse ela; — mas espero que não esteja menos seguro dos meus sentimentos para consigo.

— Perfeitamente seguro, Lady Audley.

— Então, adeus, e deixe-me recomendar-lhe que não fique muito tempo neste lugar miserável e cheio de correntes de ar, se não quiser levar o reumatismo de volta para Figtree Court.

— Voltarei à cidade amanhã de manhã para tratar das minhas cartas.

— Então, mais uma vez, adeus.

Ela estendeu-lhe a mão; ele pegou nela frouxamente com a sua. Parecia uma mãozinha tão fraca que ele poderia tê-la esmagado no seu aperto forte, se tivesse escolhido ser tão impiedoso.

Acompanhou-a até à sua carruagem e observou-a enquanto partia, não em direção a Audley, mas na direção de Brentwood, que ficava a cerca de seis milhas de Mount Stanning.

Cerca de uma hora e meia depois, enquanto Robert estava à porta da estalagem, fumando um charuto e observando a neve a cair nos campos embranquecidos em frente, viu o brougham voltar, vazio desta vez, para a porta da estalagem.

— Levou Lady Audley de volta para a mansão? — perguntou ele ao cocheiro, que tinha parado para pedir uma caneca de cerveja quente com especiarias.

— Não, senhor; acabo de vir da estação de Brentwood. A minha senhora partiu para Londres no comboio das 12:40.

— Para a cidade?

— Sim, senhor.

— A minha senhora foi para Londres! — disse Robert, enquanto regressava à pequena sala de estar. — Então segui-la-ei no próximo comboio; e se não estou muito enganado, sei onde a encontrar.

Fez as malas, pagou a conta, prendeu os cães com um par de coleiras de couro e uma corrente, e entrou na carruagem alugada que a Castle Inn mantinha para a conveniência de Mount Stanning. Apanhou um expresso que partia de Brentwood às três horas e instalou-se confortavelmente num canto de uma carruagem de primeira classe vazia, enrolado num par de mantas de viagem e fumando um charuto em suave desafio às autoridades.

CAPÍTULO XIX.

A ESCRITA NO LIVRO.

Eram exatamente cinco minutos depois das quatro quando o Sr. Robert Audley saiu para a plataforma em Shoreditch e esperou placidamente até que os seus cães e a sua mala fossem entregues ao porteiro que chamara o seu táxi e assumira a condução geral dos seus assuntos, com aquela cortesia desinteressada que tanto crédito dá a uma classe de servidores a quem é proibido aceitar o tributo de um público grato.

Robert Audley esperou com consumada paciência durante um tempo considerável; mas, como o expresso era geralmente um comboio longo, e como havia muitos passageiros vindos de Norfolk trazendo espingardas, cães de aponte e outros apetrechos de descrição crítica, demorou muito tempo a tornar as coisas agradáveis para todos os reclamantes, e até a indiferença seráfica do advogado pelos assuntos mundanos quase se dissipou.

— Talvez, quando aquele cavalheiro que está a fazer tanto barulho por causa de um cão de aponte com manchas cor de fígado, tiver descoberto o cão e as manchas particulares que quer — o que parece pouco provável que aconteça — eles dar-me-ão a minha bagagem e deixar-me-ão ir. Os miseráveis astutos perceberam à primeira vista que eu nasci para ser enganado; e que, se me pisassem até à morte nesta mesma plataforma, eu nunca teria espírito para processar a companhia.

De repente, uma ideia pareceu ocorrer-lhe, e ele deixou o porteiro a lutar pela custódia dos seus bens e caminhou para o outro lado da estação.

Ouviu um sino tocar e, olhando para o relógio, lembrou-se de que o comboio descendente para Colchester partia àquela hora. Ele tinha aprendido o que era ter um propósito sério desde o desaparecimento de George Talboys; e chegou à plataforma oposta a tempo de ver os passageiros ocuparem os seus lugares.

Havia uma senhora que, evidentemente, acabara de chegar à estação; pois apressou-se a entrar na plataforma no exato momento em que Robert se aproximava do comboio, e quase chocou com o cavalheiro na sua pressa e entusiasmo.

— Peço perdão — começou ela, cerimoniosamente; depois, levantando os olhos do colete do Sr. Audley, que estava aproximadamente ao nível do seu rosto bonito, exclamou: — Robert, tu já em Londres?

— Sim, Lady Audley; a senhora tinha toda a razão; a Castle Inn é um lugar lúgubre, e...

— Ficou cansado dele — eu sabia que ficaria. Por favor, abra a porta da carruagem para mim: o comboio partirá em dois minutos.

Robert Audley estava a olhar para a esposa do seu tio com uma expressão de rosto bastante intrigada.

— O que significa isto? — pensou ele. — Ela é um ser completamente diferente da criatura miserável e impotente que deixou cair a máscara por um momento, e olhou para mim com o seu próprio rosto lamentável, na pequena sala em Mount Stanning, há quatro horas. O que aconteceu para causar a mudança?

Ele abriu-lhe a porta enquanto pensava nisto, e ajudou-a a instalar-se no seu lugar, espalhando as suas peles sobre os joelhos e arranjando o enorme manto de veludo no qual a sua figura esguia estava quase escondida.

— Muito obrigada; quão bom é para mim — disse ela, enquanto ele fazia isto. — Pensará que sou muito tola por viajar num dia destes, sem o conhecimento do meu querido amor, ainda por cima; mas fui à cidade para liquidar uma conta de modista muito terrível, que não queria que o melhor dos maridos visse; pois, por mais indulgente que ele seja, poderia achar-me extravagante; e não suporto sofrer nem nos seus pensamentos.

— O céu queira que nunca sofra, Lady Audley — disse Robert, gravemente.

Ela olhou para ele por um momento com um sorriso, que tinha algo de desafiador na sua luminosidade.

— O céu queira que não, de facto — murmurou ela. — Não creio que alguma vez sofra.

O segundo sino tocou e o comboio moveu-se enquanto ela falava. A última coisa que Robert Audley viu dela foi aquele sorriso brilhante e desafiador.

— Qualquer que seja o objetivo que a trouxe a Londres, foi cumprido com sucesso — pensou ele. — Terá ela confundido-me com algum truque feminino? Nunca hei de chegar mais perto da verdade, mas hei de ser atormentado toda a minha vida por dúvidas vagas e suspeitas miseráveis, que podem crescer em mim até eu me tornar um monomaníaco? Porque veio ela a Londres?

Ele ainda se fazia mentalmente esta pergunta enquanto subia as escadas em Figtree Court, com um dos seus cães debaixo de cada braço e as suas mantas de viagem sobre o ombro.

Encontrou os seus aposentos na sua ordem habitual. Os gerânios tinham sido cuidadosamente tratados e os canários tinham-se retirado para a noite sob a cobertura de um quadrado de baeta verde, atestando o cuidado da honesta Sra. Maloney. Robert lançou um olhar apressado pela sala de estar; depois, colocando os cães sobre o tapete da lareira, caminhou diretamente para a pequena câmara interior que servia de seu quarto de vestir.

Era nesta sala que ele guardava malas de viagem inutilizadas, caixas de laca batidas e outras tralhas; e era nesta sala que George Talboys tinha deixado a sua bagagem. Robert levantou uma mala de viagem de cima de um grande baú e, ajoelhando-se diante dela com uma vela acesa na mão, examinou cuidadosamente a fechadura.

A todas as aparências, estava exatamente na mesma condição em que George a tinha deixado, quando pousou as suas roupas de luto e as colocou neste repositório decadente com todas as outras recordações da sua falecida esposa. Robert passou a manga do casaco pela tampa gasta e coberta de couro, na qual as iniciais G. T. estavam inscritas com pregos de cabeça de latão; mas a Sra. Maloney, a lavadeira, devia ser a mais precisa das donas de casa, pois nem a mala nem o baú estavam empoeirados.

O Sr. Audley enviou um rapaz para buscar a sua servente irlandesa e caminhou de um lado para o outro na sua sala de estar, esperando ansiosamente pela sua chegada.

Ela entrou cerca de dez minutos depois e, após expressar a sua alegria pelo regresso do "patrão", aguardou humildemente as suas ordens.

— Só a chamei para perguntar se alguém esteve aqui; isto é, se alguém lhe pediu a chave dos meus aposentos hoje — alguma senhora?

— Senhora? Não, de facto, sua honra; não houve nenhuma senhora para a chave; a menos que seja o ferreiro.

— O ferreiro!

— Sim; o ferreiro que sua honra ordenou que viesse hoje.

— Eu ordenei um ferreiro! — exclamou Robert. — Deixei uma garrafa de brandy francês no armário — pensou ele — e a Sra. M. tem estado, evidentemente, a divertir-se.

— Certamente, e o ferreiro que sua honra mandou tratar das fechaduras — respondeu a Sra. Maloney. — É o que vive numa das pequenas ruas junto à ponte — acrescentou ela, dando uma descrição muito lúcida do paradeiro do homem.

Robert levantou as sobrancelhas em desespero mudo.

— Se se sentar e se compuser, Sra. M. — ele abreviava o nome dela assim por princípio, para evitar trabalho desnecessário — talvez possamos, daqui a pouco, compreender-nos um ao outro. Diz que um ferreiro esteve aqui?

— Certamente que estive, senhor.

— Hoje?

— Perfeitamente correto, senhor.

Passo a passo, o Sr. Audley obteve a seguinte informação. Um serralheiro tinha visitado a Sra. Maloney naquela tarde, às três horas, e tinha pedido a chave dos aposentos do Sr. Audley, a fim de poder examinar as fechaduras das portas, que ele declarou estarem todas a precisar de reparação. Afirmou que estava a agir por ordens do próprio Sr. Audley, transmitidas por uma carta vinda do campo, onde o cavalheiro estava a passar o Natal. A Sra. Maloney, acreditando na veracidade desta afirmação, tinha admitido o homem nos aposentos, onde ele permaneceu cerca de meia hora.

— Mas esteve com ele enquanto ele examinava as fechaduras, suponho eu? — perguntou o Sr. Audley.

— Certamente que estive, senhor, a entrar e a sair, por assim dizer, durante todo o tempo, pois tenho estado a limpar as escadas esta tarde, e aproveitei a oportunidade para começar a esfregar enquanto o homem trabalhava.

— Oh, esteve a entrar e a sair durante todo o tempo. Se pudesse dar-me uma resposta direta, Sra. M., gostaria de saber qual foi o tempo mais longo que esteve fora enquanto o serralheiro estava nos meus aposentos?

Mas a Sra. Maloney não podia dar uma resposta direta. Podiam ter sido dez minutos; embora não achasse que fosse tanto. Podiam ter sido quinze minutos; mas tinha a certeza de que não fora mais. Não lhe parecia mais de cinco minutos, mas "aquelas escadas, sua honra"; e aqui ela dispersou-se numa dissertação sobre a limpeza de escadas em geral, e as escadas fora dos aposentos de Robert em particular.

O Sr. Audley suspirou o suspiro cansado da resignação triste.

— Não importa, Sra. M. — disse ele; — o serralheiro teve tempo de sobra para fazer o que quisesse, suponho, sem que a senhora desse por nada.

A Sra. Maloney olhou para o seu patrão com uma mistura de surpresa e alarme.

— Certamente, não havia nada para ele roubar, sua honra, a menos que fossem os pássaros e os gerânios, e...

— Não, não, eu entendo. Pronto, chega, Sra. M. Diga-me onde o homem mora, e eu irei vê-lo.

— Mas vai comer um pouco antes, senhor?

— Irei ver o serralheiro antes de jantar.

Ele pegou no seu chapéu enquanto anunciava a sua determinação e caminhou em direção à porta.

— O endereço do homem, Sra. M.?

A irlandesa indicou-lhe uma pequena rua atrás da Igreja de St. Bride, e para lá o Sr. Robert Audley passeou calmamente, através da lama lamacenta que os simples londrinos chamam de neve.

Encontrou o serralheiro e, à custa da copa do seu chapéu, conseguiu entrar pela porta baixa e estreita de uma pequena loja aberta. Um jato de gás ardia na janela sem vidros, e havia uma festa muito alegre na pequena sala atrás da loja; mas ninguém respondeu ao "Olá!" de Robert. A razão disso era suficientemente óbvia. A festa alegre estava tão absorvida na sua própria alegria que era surda a todos os chamamentos comuns do mundo exterior; e foi apenas quando Robert, avançando mais para a pequena loja cavernosa, se atreveu a abrir a porta de meia-vidraça que o separava dos festeiros, que conseguiu obter a sua atenção.

Um quadro muito jovial da escola de Teniers foi apresentado ao Sr. Robert Audley com a abertura desta porta.

O serralheiro, com a sua esposa e família, e dois ou três visitantes do sexo feminino, estavam agrupados em torno de uma mesa, que estava adornada por duas garrafas; não garrafas vulgares daquele extrato incolor da baga de zimbro, muito afetado pelas massas; mas de autêntico vinho do Porto e xerez — xerez ferozmente forte, que deixava um sabor ardente na boca, xerez cor de avelã — bastante castanho de forma não natural, se é que alguma coisa — e bom vinho do Porto antigo; não uma colheita doentia, desbotada e fina devido à idade excessiva: mas um vinho rico, encorpado, doce e substancial e de cor intensa.

O serralheiro estava a falar quando Robert Audley abriu a porta.

— E com isso — dizia ele — ela afastou-se, tão graciosa quanto possível.

Todo o grupo ficou confuso com a aparição do Sr. Audley, mas notou-se que o serralheiro estava mais embaraçado do que os seus companheiros. Pousou o copo tão apressadamente que entornou o vinho e limpou a boca nervosamente com as costas da sua mão suja.

— O senhor esteve nos meus aposentos hoje — disse Robert, calmamente. — Não se deixem incomodar, senhoras. — Isto para os visitantes. — O senhor esteve nos meus aposentos hoje, Sr. White, e...

O homem interrompeu-o.

— Espero, senhor, que seja tão bondoso a ponto de relevar o erro — gaguejou ele. — Tenho a certeza, senhor, de que lamento muito que tenha ocorrido. Fui chamado aos aposentos de outro cavalheiro, o Sr. Aulwin, em Garden Court; e o nome escapou-me da memória; e tendo feito pequenos trabalhos antes para o senhor, pensei que devia ser o senhor quem me queria hoje; e passei pela Sra. Maloney para pedir a chave, conforme; mas assim que vi as fechaduras nos seus aposentos, disse para comigo, as fechaduras do cavalheiro não estão avariadas; o cavalheiro não quer que todas as suas fechaduras sejam reparadas.

— Mas o senhor ficou meia hora.

— Sim, senhor; porque havia uma fechadura avariada — a porta mais próxima da escada — e eu tirei-a, limpei-a e voltei a colocá-la. Não lhe cobrarei nada pelo trabalho, e espero que seja tão bondoso a ponto de relevar o erro que ocorreu, sendo que estou no negócio há treze anos em julho, e...

— Nunca aconteceu nada deste género antes, suponho — disse Robert, gravemente. — Não, é um tipo de negócio totalmente singular, pouco provável que aconteça todos os dias. O senhor tem estado a divertir-se esta noite, vejo. Fez um bom trabalho hoje, aposto — deu um golpe de sorte, e o senhor está a pagar a rodada, eh?

Robert Audley olhou diretamente para o rosto sujo do homem enquanto falava. O serralheiro não era um tipo de má aparência, e não havia nada de que se devesse envergonhar no seu rosto, exceto a sujidade, e isso, como diz a mãe de Hamlet, "é comum"; mas, apesar disso, as pálpebras do Sr. White baixaram sob o escrutínio calmo do jovem advogado, e ele gaguejou algum tipo de discurso de desculpa sobre a sua "patroa", e as vizinhas da sua patroa, e vinho do Porto e vinho de xerez, com tanta confusão como se ele, um mecânico honesto num país livre, fosse obrigado a desculpar-se perante Robert Audley por ser apanhado em flagrante a divertir-se na sua própria sala.

Robert interrompeu-o com um aceno descuidado.

— Por favor, não peça desculpas — disse ele; — gosto de ver as pessoas a divertirem-se. Boa noite, Sr. White, boa noite, senhoras.

Ele levantou o chapéu para a "patroa" e para as vizinhas da patroa, que estavam muito fascinadas pela sua maneira fácil e pelo seu rosto bonito, e saiu da loja.

— E assim — murmurou ele para si mesmo enquanto voltava para os seus aposentos — "com isso ela afastou-se, tão graciosa quanto possível." Quem foi que se afastou; e qual era a história que o serralheiro estava a contar quando eu o interrompi nessa frase? Oh, George Talboys, George Talboys, hei de chegar alguma vez mais perto do segredo do teu destino? Estarei a chegar mais perto agora, lenta mas seguramente? Irá o raio encurtar-se dia após dia até traçar um círculo escuro em torno da casa daqueles que amo? Como é que tudo isto vai acabar?

Ele suspirou exausto enquanto caminhava lentamente de volta através dos pátios pavimentados no Temple para os seus próprios aposentos solitários.

A Sra. Maloney tinha preparado para ele aquele jantar de solteiro que, embora excelente e nutritivo em si mesmo, não tem qualquer pretensão ao encanto especial da novidade. Tinha cozinhado para ele uma costeleta de carneiro, que estava a ficar empapada entre dois pratos sobre a pequena mesa perto do lume.

Robert Audley suspirou ao sentar-se para a refeição familiar, lembrando-se do cozinheiro do seu tio com uma dor afetuosa e pesarosa.

— As suas costeletas à la Maintenon faziam o carneiro parecer mais do que carneiro; uma carne sublimada que dificilmente poderia ter crescido em qualquer ovelha mundana — murmurou ele sentimentalmente — e as costeletas da Sra. Maloney tendem a ser duras; mas assim é a vida — que importa?

Ele empurrou o prato impacientemente depois de comer algumas garfadas.

— Nunca comi um bom jantar nesta mesa desde que perdi George Talboys — disse ele. — O lugar parece tão lúgubre como se o pobre homem tivesse morrido na sala ao lado e nunca tivesse sido levado para ser enterrado. Quanto tempo atrás parece aquela tarde de setembro quando olho para ela — aquela tarde de setembro em que me despedi dele vivo e de boa saúde; e perdi-o tão repentina e inexplicavelmente como se um alçapão se tivesse aberto na terra sólida e o tivesse deixado passar para as antípodas!

O Sr. Audley levantou-se da mesa de jantar e caminhou até ao gabinete onde guardava o documento que tinha elaborado sobre George Talboys. Destrancou as portas do seu gabinete, tirou o papel do compartimento marcado como importante e sentou-se à sua secretária para escrever. Adicionou vários parágrafos aos que constavam no documento, numerando os novos parágrafos tão cuidadosamente como tinha numerado os antigos.

— O céu nos ajude a todos — murmurou ele uma vez; — será este papel com o qual nenhum advogado teve qualquer mão o meu primeiro processo?

Escreveu durante cerca de meia hora, depois voltou a colocar o documento no compartimento e trancou o gabinete. Quando terminou, pegou numa vela e foi para a sala onde estavam as suas malas de viagem e o baú pertencente a George Talboys.

Pegou num molho de chaves do bolso e experimentou-as uma a uma. A fechadura do velho baú decadente era comum e, à quinta tentativa, a chave girou facilmente.

— Não haveria necessidade de ninguém arrombar uma fechadura como esta — murmurou Robert, enquanto levantava a tampa do baú.

Esvaziou-o lentamente do seu conteúdo, retirando cada artigo separadamente e colocando-o com cuidado sobre uma cadeira ao seu lado. Manuseou as coisas com uma ternura respeitosa, como se estivesse a levantar o cadáver do seu amigo perdido. Um a um, pousou as peças de vestuário de luto, cuidadosamente dobradas, sobre a cadeira. Encontrou velhos cachimbos de espuma do mar e luvas sujas e amarrotadas, que outrora tinham sido frescas do fabricante parisiense; velhos cartazes de teatro, cujas letras maiores soletravam os nomes de atores que já tinham morrido e partido; velhos frascos de perfume, perfumados com essências cuja moda já tinha passado; pequenos embrulhos de cartas, cada um cuidadosamente etiquetado com o nome do autor; fragmentos de velhos jornais; e um pequeno monte de livros gastos e em ruínas, cada um dos quais se desfez em tantos pedaços como um baralho de cartas na mão incauta de Robert. Mas, por entre toda a massa de lixo sem valor, em que cada pedaço tinha outrora tido o seu propósito individual, Robert Audley procurou em vão aquilo que buscava — o pacote de cartas escrito ao homem desaparecido pela sua falecida esposa, Helen Talboys. Ouvira George aludir mais do que uma vez à existência destas cartas. Vira-o uma vez a organizar os papéis desbotados com uma mão reverente; e vira-o colocá-los de novo, cuidadosamente atados com uma fita desbotada que outrora fora de Helen, entre as roupas de luto no baú. Se ele as tinha retirado mais tarde, ou se tinham sido retiradas desde o seu desaparecimento por outra mão, não era fácil dizer; mas tinham desaparecido.

Robert Audley suspirou cansado enquanto recolocava as coisas na caixa vazia, uma a uma, tal como as tinha retirado. Parou com o pequeno monte de livros esfarrapados na mão e hesitou por um momento.

— Vou manter estes de fora — murmurou ele — pode haver algo que me ajude num deles.

A biblioteca de George não era uma coleção de literatura muito brilhante. Havia um velho Novo Testamento grego e a Gramática Latina de Eton; um panfleto francês sobre o exercício da espada de cavalaria; um volume isolado de Tom Jones, com metade da sua capa de couro rígido pendurada por um fio; o Don Juan de Byron, impresso num tipo de letra assassino, que devia ter sido inventado para a vantagem especial dos oculistas e óticos; e um livro gordo com uma capa desbotada de ouro e carmesim.

Robert Audley trancou o baú e levou os livros debaixo do braço. A Sra. Maloney estava a limpar os restos da sua refeição quando ele regressou à sala de estar. Pôs os livros de lado numa pequena mesa num canto da lareira e esperou pacientemente que a lavadeira terminasse o seu trabalho. Não estava com humor nem para o seu consolo de espuma do mar; as ficções de capa amarela nas prateleiras acima da sua cabeça pareciam viciadas e inúteis — abriu um volume de Balzac, mas os caracóis dourados da esposa do seu tio dançavam e tremiam num nevoeiro brilhante, tanto sobre a diablerie metafísica da Peau de Chagrin como sobre os hediondos horrores sociais de "Cousine Bette". O volume caiu da sua mão e ele sentou-se, observando cansado a Sra. Maloney enquanto ela varria as cinzas da lareira, reabastecia o fogo, fechava as cortinas de damasco escuro, satisfazia as necessidades simples dos canários e punha o seu chapéu no escritório desativado do escriturário, antes de desejar boa noite ao seu patrão. Quando a porta se fechou atrás da irlandesa, ele levantou-se impaciente da cadeira e caminhou de um lado para o outro da sala.

— Por que continuo com isto — disse ele — quando sei que me está a levar, passo a passo, dia a dia, hora a hora, para mais perto daquela conclusão que, de todas as outras, eu deveria evitar? Estou preso a uma roda e tenho de acompanhar cada uma das suas revoluções, deixe-a levar-me para onde quiser? Ou posso sentar-me aqui esta noite e dizer que cumpri o meu dever para com o meu amigo desaparecido, que o procurei pacientemente, mas que procurei em vão? Estaria justificado em fazer isto? Estaria justificado em deixar cair a corrente que lentamente montei, elo por elo, neste ponto, ou devo continuar a acrescentar novos elos a essa corrente fatal até que o último rebite caia no seu lugar e o círculo esteja completo? Penso, e acredito, que nunca mais verei o rosto do meu amigo; e que nenhum esforço meu poderá alguma vez ser de qualquer benefício para ele. Em palavras mais simples e cruéis, acredito que ele está morto. Estou obrigado a descobrir como e onde ele morreu? Ou estando, como penso, no caminho para essa descoberta, farei um mal à memória de George Talboys ao voltar atrás ou parar? O que devo fazer? — o que devo fazer?

Descansou os cotovelos nos joelhos e enterrou o rosto nas mãos. O único propósito que tinha crescido lentamente na sua natureza descuidada até se tornar poderoso o suficiente para operar uma mudança nessa mesma natureza, fez dele o que nunca fora antes — um cristão; consciente da sua própria fraqueza; ansioso por manter a linha estrita do dever; receoso de se desviar do cumprimento consciencioso da estranha tarefa que lhe fora imposta; e confiante numa mão mais forte do que a sua para apontar o caminho que devia seguir. Talvez tenha feito a sua primeira oração sincera naquela noite, sentado junto à sua lareira solitária, a pensar em George Talboys. Quando levantou a cabeça desse longo e silencioso devaneio, os seus olhos tinham um brilho determinado e cada traço do seu rosto parecia usar uma nova expressão.

— Justiça para os mortos primeiro — disse ele; — misericórdia para os vivos depois.

Rodou a sua poltrona para a mesa, aparou a lâmpada e preparou-se para o exame dos livros.

Pegou neles, um a um, e examinou-os cuidadosamente, olhando primeiro para a página em que o nome do proprietário é ordinariamente escrito e, depois, procurando qualquer pedaço de papel que pudesse ter sido deixado entre as folhas. Na primeira página da Gramática Latina de Eton, o nome do Sr. Talboys estava escrito numa letra primorosa e escolar; o panfleto francês tinha um G.T. descuidado rabiscado na capa a lápis, na caligrafia grande e desleixada de George; o Tom Jones tinha sido evidentemente comprado numa banca de livros e trazia uma inscrição, datada de 14 de março de 1788, declarando que o livro era um tributo de respeito ao Sr. Thos. Scrowton, do seu obediente servidor, James Anderley; o Don Juan e o Testamento estavam em branco. Robert Audley respirou mais livremente; tinha chegado ao penúltimo livro sem qualquer resultado e restava apenas o volume gordo, encadernado em ouro e carmesim, para ser examinado antes de terminar a sua tarefa.

Era um anuário do ano de 1845. As gravuras em talhe-doce de senhoras encantadoras, que tinham florescido naquele dia, estavam amarelas e manchadas de bolor; os trajes grotescos e estranhos; as belezas sorridentes desbotadas e banais. Até os pequenos grupos de versos (nos quais a vela fraca do poeta lançava a sua luz doentia sobre as obscuridades do significado do artista) tinham um tom antiquado; como música numa lira, cujas cordas são afrouxadas pelas humidades do tempo. Robert Audley não parou para ler nenhuma das produções suaves. Percorreu rapidamente as folhas, à procura de qualquer pedaço de escrita ou fragmento de carta que pudesse ter sido usado para marcar um lugar. Não encontrou nada a não ser um anel brilhante de cabelo dourado, daquele tom brilhante que raramente é visto exceto na cabeça de uma criança — uma madeixa ensolarada, que se enrolava tão naturalmente como a gavinha de uma vinha; e era muito oposta em textura, se não diferente em tom, às madeixas macias e lisas que a senhoria em Ventnor tinha dado a George Talboys após a morte da sua esposa. Robert Audley suspendeu o seu exame do livro e dobrou esta madeixa amarela numa folha de papel de carta, que selou com o seu anel de sinete e pôs de lado, com o memorando sobre George Talboys e a carta de Alicia, no compartimento marcado como importante. Estava a colocar o anuário gordo entre os outros livros quando descobriu que as duas folhas em branco no início estavam coladas. Estava tão determinado a levar a sua busca até ao limite, que se deu ao trabalho de separar estas folhas com a ponta afiada da sua faca de papel, e foi recompensado pela sua perseverança ao encontrar uma inscrição numa delas. Esta inscrição estava dividida em três partes e em três letras diferentes. O primeiro parágrafo datava do ano em que o anuário fora publicado e declarava que o livro era propriedade de uma certa Srta. Elizabeth Ann Bince, que tinha obtido o precioso volume como recompensa pelos hábitos de ordem e pela obediência às autoridades do Seminário de Camford House, Torquay. O segundo parágrafo datava de cinco anos depois e estava na caligrafia da própria Srta. Bince, que presenteou o livro, como marca de afeição imortal e estima inabalável (a Srta. Bince era evidentemente de temperamento romântico) à sua amada amiga, Helen Maldon. O terceiro parágrafo datava de setembro de 1853 e estava na letra de Helen Maldon, que deu o anuário a George Talboys; e foi ao ver este terceiro parágrafo que o rosto do Sr. Robert Audley mudou da sua tonalidade natural para uma palidez doentia e cor de chumbo.

— Pensei que seria assim — disse o jovem, fechando o livro com um suspiro cansado. — Deus sabe que estava preparado para o pior, e o pior aconteceu. Já consigo entender tudo. A minha próxima visita deve ser a Southampton. Tenho de colocar o rapaz em melhores mãos.

CAPÍTULO XX.

SRA. PLOWSON.

Entre o pacote de cartas que Robert Audley tinha encontrado no baú de George, havia uma etiquetada com o nome do pai do homem desaparecido — o pai, que nunca fora um amigo demasiado indulgente para o seu filho mais novo e que aproveitara alegremente a desculpa proporcionada pelo casamento imprudente de George para abandonar o jovem aos seus próprios recursos. Robert Audley nunca tinha visto o Sr. Harcourt Talboys; mas a conversa descuidada de George sobre o seu pai dera ao seu amigo alguma noção do caráter daquele cavalheiro. Escrevera ao Sr. Talboys imediatamente após o desaparecimento de George, redigindo cuidadosamente a sua carta, que aludia vagamente ao receio do autor de alguma falcatrua no misterioso assunto; e, após o passar de várias semanas, recebera uma epístola formal, na qual o Sr. Harcourt Talboys declarava expressamente que lavara as mãos de toda a responsabilidade nos assuntos do seu filho George no dia do casamento do jovem; e que o seu desaparecimento absurdo estava apenas de acordo com o seu casamento preposterado. O autor desta carta paternal acrescentava num pós-escrito que, se George Talboys tivesse algum plano vil de alarmar os seus amigos por este pretenso desaparecimento, e assim brincar com os seus sentimentos com o objetivo de obter vantagem pecuniária, estava mais do que terrivelmente enganado quanto ao caráter daquelas pessoas com quem tinha de lidar.

Robert Audley tinha respondido a esta carta com algumas linhas indignadas, informando o Sr. Talboys de que dificilmente o seu filho se esconderia para promover qualquer plano profundo contra os bolsos dos seus parentes, uma vez que tinha deixado vinte mil libras nas mãos dos seus banqueiros no momento do seu desaparecimento. Após despachar esta carta, Robert tinha abandonado qualquer pensamento de assistência por parte do homem que, no curso natural das coisas, deveria ter estado mais interessado no destino de George; mas agora que se via a avançar todos os dias um passo mais perto do fim que jazia tão sombriamente diante dele, a sua mente voltava a este Sr. Harcourt Talboys, insensivelmente indiferente.

— Vou a Dorsetshire depois de deixar Southampton — disse ele — e ver este homem. Se ele se contenta em deixar o destino do seu filho repousar num mistério sombrio e cruel para todos os que o conheciam — se ele se contenta em ir para a sepultura incerto até ao fim do destino deste pobre rapaz — porque deveria eu tentar desenredar o novelo emaranhado, encaixar as peças do terrível puzzle e reunir os fragmentos dispersos que, quando recolhidos, podem formar um todo tão hediondo? Irei ter com ele e exporei livremente as minhas dúvidas mais sombrias diante dele. Caberá a ele dizer-me o que devo fazer.

Robert Audley partiu num expresso matinal para Southampton. A neve cobria espessa e branca a agradável paisagem rural por onde passava; e o jovem advogado tinha-se enrolado em tantos cachecóis e mantas de viagem que parecia uma massa ambulante de artigos de lã, em vez de um membro vivo de uma profissão erudita. Olhou melancolicamente pela janela enevoada, opaca com o hálito de si próprio e de um oficial indiano idoso, que era o seu único companheiro, e observou a paisagem fugaz, que tinha uma certa aparência fantasmagórica sob a sua mortalha de neve. Envolveu-se nas vastas dobras da sua manta de viagem, com um arrepio irritado, e sentiu vontade de discutir com o destino que o obrigava a viajar num comboio matinal num dia impiedoso de inverno.

— Quem diria que eu poderia ter ficado tão afeiçoado ao rapaz — murmurou ele — ou sentir-me tão sozinho sem ele? Tenho uma pequena fortuna confortável nos três por cento; sou herdeiro presuntivo do título do meu tio; e conheço uma certa querida menina que, creio eu, faria o seu melhor para me fazer feliz; mas declaro que daria livremente tudo e ficaria sem um cêntimo no mundo amanhã, se este mistério pudesse ser esclarecido satisfatoriamente e George Talboys pudesse estar ao meu lado.

Chegou a Southampton entre as onze e as doze horas e atravessou a plataforma, com a neve a cair-lhe no rosto, em direção ao cais e à parte baixa da cidade. O relógio da Igreja de São Miguel batia as doze horas enquanto ele atravessava a pitoresca praça antiga em que o edifício se situa e tateava o caminho através das ruas estreitas que conduziam à água.

O Sr. Maldon tinha estabelecido os seus deuses domésticos desleixados numa daquelas vias sombrias que os construtores especulativos adoram erguer sobre algum fragmento miserável de terreno baldio pendurado nas saias de uma cidade próspera. Brigsome's Terrace era, talvez, um dos blocos de construção mais lúgubres que alguma vez foi composto de tijolo e argamassa desde que o primeiro pedreiro usou a sua colher de trolha e o primeiro arquiteto desenhou o seu plano. O construtor que especulara nas dez lúgubres casas-prisão de oito divisões enforcara-se atrás da porta da sala de estar de uma taberna adjacente enquanto as carcaças ainda estavam inacabadas. O homem que comprara os esqueletos de tijolo e argamassa tinha passado pelo tribunal de falências enquanto os aplicadores de papel de parede ainda estavam ocupados em Brigsome's Terrace, e tinha caiado os seus tetos e a si próprio simultaneamente. A má sorte e a insolvência agarravam-se às habitações miseráveis. O oficial de justiça e o cobrador eram tão conhecidos como o talhante e o padeiro pelas crianças barulhentas que brincavam no terreno baldio em frente às janelas da sala de estar. Os inquilinos solventes eram perturbados a horas profanas pelo ruído de furgões de mobiliário fantasmagóricos que se moviam furtivamente na noite sem lua. Os inquilinos insolventes desafiavam abertamente o cobrador da taxa da água dos seus redutos de dez divisões e existiam durante semanas sem quaisquer meios visíveis de adquirir esse fluido necessário.

Robert Audley olhou à sua volta com um estremecimento enquanto se desviava da margem para esta localidade assolada pela pobreza. Um funeral de criança estava a sair de uma das casas enquanto ele se aproximava, e ele pensou com um estremecimento de horror que, se o pequeno caixão contivesse o filho de George, ele teria sido, em certa medida, responsável pela morte do rapaz.

— A pobre criança não dormirá mais uma noite nesta barraca miserável — pensou ele, enquanto batia à porta da casa do Sr. Maldon. — Ele é o legado do meu melhor amigo, e será minha tarefa garantir a sua segurança.

Uma criada desleixada abriu a porta e olhou para o Sr. Audley com alguma suspeita enquanto lhe perguntava, muito pelo nariz, o que desejava. A porta da pequena sala de estar estava entreaberta e Robert podia ouvir o tilintar de facas e garfos e a voz infantil do pequeno George a tagarelar alegremente. Disse à criada que tinha vindo de Londres, que queria ver o Mestre Talboys e que ele próprio se anunciaria; e, passando por ela sem mais cerimónias, abriu a porta da sala. A rapariga olhou para ele estupefacta enquanto o fazia; e, como se fosse atingida por alguma convicção súbita e terrível, atirou o avental sobre a cabeça e saiu a correr para a neve. Atravessou o terreno baldio, mergulhou num beco estreito e nunca recuperou o fôlego até se encontrar no limiar de uma certa taberna chamada Coach and Horses, muito frequentada pelo Sr. Maldon. A leal servidora do tenente tinha tomado Robert Audley por algum novo e determinado cobrador de impostos — rejeitando a explicação do cavalheiro como uma ficção astuta inventada para a destruição dos devedores paroquiais — e correra para dar ao seu amo o aviso atempado da aproximação do inimigo.

Quando Robert entrou na sala de estar, ficou surpreendido ao encontrar o pequeno George sentado em frente a uma mulher que prestava as honras de uma refeição pobre, espalhada sobre uma toalha de mesa suja e ladeada por um medidor de cerveja de estanho. A mulher levantou-se quando Robert entrou e fez uma vénia muito humildemente ao jovem advogado. Parecia ter cerca de cinquenta anos e estava vestida com roupas de viúva enferrujadas. A sua tez era insipidamente clara e as duas faixas lisas de cabelo sob a sua touca eram daquele tom de linho, sem sol, que geralmente acompanha bochechas rosadas e pestanas brancas. Tinha sido uma beleza rústica, talvez, no seu tempo, mas os seus traços, embora toleravelmente regulares na forma, tinham um ar mesquinho e comprimido, como se tivessem sido feitos demasiado pequenos para o seu rosto. Este defeito era particularmente notável na sua boca, que era uma incompatibilidade óbvia para o conjunto de dentes que continha. Ela sorriu ao fazer a vénia ao Sr. Robert Audley, e o seu sorriso, que deixava a descoberto a maior parte deste conjunto de dentes quadrados e com aspeto esfomeado, não acrescentava de forma alguma beleza à sua aparência pessoal.

— O Sr. Maldon não está em casa, senhor — disse ela, com civilidade insinuante; — mas se é pela taxa da água, ele pediu-me para dizer que...

Foi interrompida pelo pequeno George Talboys, que desceu da cadeira alta em que estava empoleirado e correu para Robert Audley.

— Eu conheço-o — disse ele; — o senhor veio a Ventnor com o cavalheiro grande, e veio aqui uma vez, e deu-me algum dinheiro, e eu dei-o ao avô para guardar, e o avô guardou-o, e ele faz sempre isso.

Robert Audley pegou no rapaz ao colo e levou-o para uma pequena mesa junto à janela.

— Fica aí, Georgey — disse ele — quero olhar bem para ti.

Virou o rosto do rapaz para a luz e empurrou os caracóis castanhos da testa com ambas as mãos.

— Estás a ficar cada vez mais parecido com o teu pai, Georgey; e também estás a tornar-te um homem — disse ele; — gostarias de ir para a escola?

— Oh, sim, por favor, gostaria muito — respondeu o rapaz, ansiosamente. — Fui para a escola da Srta. Pevins uma vez — escola diurna, sabe — ao virar da esquina na rua seguinte; mas apanhei sarampo e o avô não me deixou ir mais, com medo que eu apanhasse sarampo outra vez; e o avô não me deixa brincar com os meninos na rua, porque são meninos mal-educados; ele disse meninos malandros; mas ele disse que eu não devo dizer meninos malandros, porque é feio. Ele diz maldito e diabo, mas diz que pode porque é velho. Eu direi maldito e diabo quando for velho; e eu gostaria de ir para a escola, por favor, e posso ir hoje, se quiser; a Sra. Plowson prepara os meus fatos, não é, Sra. Plowson?

— Certamente, Mestre Georgey, se o seu avô assim o desejar — respondeu a mulher, olhando um pouco inquietamente para o Sr. Robert Audley.

"Que diabo se passa com esta mulher", pensou Robert, ao desviar o olhar do rapaz para a viúva de cabelos claros, que se aproximava lentamente da mesa sobre a qual o pequeno George Talboys estava de pé, a conversar com o seu tutor. "Será que ela ainda me toma por um cobrador de impostos com intenções hostis para com estes bens e haveres miseráveis? Ou será que a causa do seu comportamento inquieto reside em algo mais profundo? Embora isso seja pouco provável; pois, quaisquer que sejam os segredos que o Tenente Maldon possa ter, não é muito provável que esta mulher tenha conhecimento deles."

A Sra. Plowson já se tinha aproximado da pequena mesa a estas alturas e estava a fazer uma investida furtiva sobre o rapaz, quando Robert se voltou bruscamente.

"O que vai fazer à criança?", disse ele.

"Eu apenas ia levá-lo para lavar o seu rosto bonito e alisar o seu cabelo, senhor", respondeu a mulher, no tom mais insinuante com que tinha falado sobre a taxa da água. "O senhor não o vê da melhor maneira enquanto o seu rosto precioso estiver sujo. Não demorarei cinco minutos a deixá-lo tão impecável como um alfinete novo."

Ela tinha os seus braços longos e finos à volta do rapaz enquanto falava, e estava evidentemente prestes a levá-lo embora, quando Robert a deteve.

"Prefiro vê-lo como ele está, obrigado", disse ele. "O meu tempo em Southampton não é muito longo e quero ouvir tudo o que o pequeno homem me pode contar."

O pequeno homem aproximou-se de Robert e olhou com confiança para os olhos cinzentos do advogado.

"Gosto muito de si", disse ele. "Tive medo de si quando veio antes, porque era tímido. Já não sou tímido — tenho quase seis anos."

Robert deu palmadinhas encorajadoras na cabeça do rapaz, mas não estava a olhar para o pequeno George; estava a observar a viúva de cabelos claros, que se tinha deslocado para a janela e olhava para o pedaço de terreno baldio.

"Receio que esteja um pouco inquieta por causa de alguém, minha senhora", disse Robert.

Ela corou violentamente quando o advogado fez esta observação e respondeu-lhe de uma forma confusa.

"Estava à procura do Sr. Maldon, senhor", disse ela; "ele ficará tão desapontado se não o vir."

"Sabe quem eu sou, então?"

"Não, senhor, mas..."

O rapaz interrompeu-a, tirando um pequeno relógio cravejado de joias do seu peito e mostrando-o a Robert.

"Este é o relógio que a senhora bonita me deu", disse ele. "Tenho-o agora — mas não o tenho há muito tempo, porque o joalheiro que o limpa é um homem ocioso, diz o vovô, e demora sempre muito tempo; e o vovô diz que terá de ser limpo outra vez, por causa dos impostos. Ele leva-o sempre a limpar quando há impostos — mas diz que, se o perdesse, a senhora bonita dar-me-ia outro. Conhece a senhora bonita?"

"Não, Georgey, mas conta-me sobre ela."

A Sra. Plowson fez outra investida sobre o rapaz. Desta vez estava armada com um lenço de bolso e demonstrou grande ansiedade sobre o estado do nariz do pequeno George, mas Robert afastou a temida arma e puxou a criança para longe da sua atormentadora.

"O rapaz ficará muito bem, minha senhora", disse ele, "se tiver a bondade de o deixar em paz por cinco minutos. Agora, Georgey, que tal sentares-te no meu joelho e contares-me tudo sobre a senhora bonita?"

A criança trepou da mesa para os joelhos do Sr. Audley, auxiliando a sua descida com um manuseamento muito pouco cerimonioso da gola do casaco do seu tutor.

"Vou contar-lhe tudo sobre a senhora bonita", disse ele, "porque gosto muito de si. O vovô disse-me para não contar a ninguém, mas eu conto-lhe, sabe, porque gosto de si e porque me vai levar para a escola. A senhora bonita veio aqui uma noite — há muito tempo — oh, há tanto tempo", disse o rapaz, abanando a cabeça, com um rosto cuja solenidade era expressiva de um prodigioso lapso de tempo. "Ela veio quando eu não era nem de perto tão grande como sou agora — e veio à noite — depois de eu me ter ido deitar, e subiu ao meu quarto, sentou-se na cama e chorou — e deixou o relógio debaixo da minha almofada, e ela... Porque faz caretas para mim, Sra. Plowson? Eu posso contar a este cavalheiro", acrescentou Georgey, dirigindo-se subitamente à viúva, que estava parada atrás do ombro de Robert.

A Sra. Plowson murmurou um pedido de desculpas confuso, no sentido de que temia que o Mestre George estivesse a ser incómodo.

"Suponho que deva esperar até que eu o diga, minha senhora, antes de tapar a boca ao rapazinho", disse Robert Audley, secamente. "Uma pessoa suspeita poderia pensar, pelo seu comportamento, que o Sr. Maldon e a senhora têm alguma conspiração entre ambos, e que têm medo do que a conversa do rapaz possa deixar escapar."

Ele levantou-se da cadeira e olhou fixamente para a Sra. Plowson enquanto dizia isto. O rosto da viúva de cabelos claros estava tão branco como a sua touca quando tentou responder-lhe, e os seus lábios pálidos estavam tão secos que foi forçada a humedecê-los com a língua antes que as palavras pudessem sair.

O rapazinho aliviou o seu embaraço.

"Não seja rude com a Sra. Plowson", disse ele. "A Sra. Plowson é muito gentil comigo. A Sra. Plowson é a mãe da Matilda. O senhor não conhece a Matilda. A pobre Matilda estava sempre a chorar; ela estava doente, ela..."

O rapaz foi interrompido pelo súbito aparecimento do Sr. Maldon, que estava no limiar da porta da sala, a olhar para Robert Audley com um aspeto meio ébrio, meio aterrorizado, pouco condizente com a dignidade de um oficial da marinha reformado. A criada, sem fôlego e ofegante, estava parada logo atrás do seu patrão. Embora fosse cedo, o discurso do velho era arrastado e confuso enquanto se dirigia ferozmente à Sra. Plowson.

"És uma criatura linda para te chamares mulher sensata?", disse ele. "Porque não levas o miúdo, ou lhe lavas a cara? Queres arruinar-me? Queres destruir-me? Leva o miúdo! Sr. Audley, senhor, estou muito contente por vê-lo; muito feliz por recebê-lo na minha humilde morada", acrescentou o velho com uma polidez embriagada, deixando-se cair numa cadeira enquanto falava e tentando olhar fixamente para o seu visitante inesperado.

"Quaisquer que sejam os segredos deste homem", pensou Robert, enquanto a Sra. Plowson empurrava o pequeno George Talboys para fora da sala, "aquela mulher tem uma parte nada insignificante neles. Seja qual for o mistério, torna-se cada vez mais escuro e denso a cada passo; mas tento em vão recuar ou parar no caminho, pois uma mão mais forte do que a minha está a apontar o caminho para a sepultura desconhecida do meu amigo perdido."

CAPÍTULO XXI.

O PEQUENO GEORGEY DEIXA A SUA ANTIGA CASA.

"Vou levar o seu neto comigo, Sr. Maldon", disse Robert gravemente, enquanto a Sra. Plowson se retirava com o seu jovem protegido.

A imbecilidade ébria do velho estava a dissipar-se lentamente como os densos nevoeiros de Londres, através dos quais o sol fraco luta debilmente para aparecer. O brilho muito incerto do intelecto do Tenente Maldon demorou um tempo considerável a atravessar os vapores nebulosos de rum com água; mas a luz bruxuleante acabou por brilhar tenuemente através das nuvens, e o velho concentrou as suas parcas faculdades no ponto crucial.

"Sim, sim", disse ele, debilmente; "leve o rapaz para longe do seu pobre avô velho; eu sempre pensei que isso aconteceria."

"Sempre pensou que eu o levaria embora?", examinando o semblante meio ébrio com um olhar perscrutador. "Por que pensou isso, Sr. Maldon?"

Os nevoeiros da embriaguez sobrepuseram-se à luz da sobriedade por um momento, e o tenente respondeu vagamente:

"Pensei isso... porque pensei isso."

Encontrando o sobrolho impaciente do jovem advogado, ele fez outro esforço, e a luz brilhou novamente.

"Porque pensei que o senhor ou o pai dele o viriam buscar."

"Quando estive nesta casa pela última vez, Sr. Maldon, disse-me que George Talboys tinha partido para a Austrália."

"Sim, sim... eu sei, eu sei", respondeu o velho, confusamente, mexendo nos seus parcos cabelos grisalhos e ralos com as suas duas mãos trémulas — "eu sei; mas ele podia ter voltado, não podia? Ele era inquieto e... e... estranho de espírito, talvez, às vezes. Ele podia ter voltado."

Repetiu isto duas ou três vezes com um tom de voz fraco e murmurante; tateando na lareira coberta de detritos à procura de um cachimbo de barro com aspeto sujo, e enchendo-o e acendendo-o com mãos que tremiam violentamente.

Robert Audley observou aqueles dedos pobres, murchos e trémulos a deixar cair pedaços de tabaco no tapete da lareira, mal conseguindo acender um fósforo devido à sua instabilidade. Depois, caminhando uma ou duas vezes de um lado para o outro da pequena sala, deixou o velho dar algumas passas do grande consolador.

De repente, virou-se para o tenente de meio-soldo com uma solenidade sombria no seu rosto bonito.

"Sr. Maldon", disse ele, observando lentamente o efeito de cada sílaba enquanto falava, "George Talboys nunca partiu para a Austrália — disso eu sei. Mais do que isso, ele nunca veio a Southampton; e a mentira que me contou no dia 8 de setembro passado foi-lhe ditada pela mensagem telegráfica que recebeu nesse dia."

O cachimbo de barro sujo caiu da mão trémula e estilhaçou-se contra o para-lume de ferro, mas o velho não fez qualquer esforço para encontrar outro; ficou sentado, tremendo em cada membro, e olhando, Deus sabe como piedosamente, para Robert Audley.

"A mentira foi-lhe ditada, e o senhor repetiu a sua lição. Mas o senhor não viu George Talboys aqui no dia 7 de setembro, tal como não o vejo nesta sala agora. Pensou que tinha queimado a mensagem telegráfica, mas apenas queimou uma parte dela — o restante está na minha posse."

O Tenente Maldon estava completamente sóbrio agora.

"O que é que eu fiz?", murmurou ele, desesperadamente. "Oh, meu Deus! O que é que eu fiz?"

"Às duas da tarde do dia 7 de setembro passado", continuou a voz impiedosa e acusadora, "George Talboys foi visto vivo e bem numa casa em Essex."

Robert fez uma pausa para observar o efeito destas palavras. Não produziram qualquer mudança no velho. Ele continuava sentado a tremer da cabeça aos pés e a olhar com o olhar fixo e sólido de um desgraçado indefeso, cujos sentidos estão a ser gradualmente entorpecidos pelo terror.

"Às duas da tarde desse dia", observou Robert Audley, "o meu pobre amigo foi visto vivo e bem em..., na casa de que falo. Desde essa hora até hoje, nunca consegui saber que ele tenha sido visto por qualquer criatura viva. Tomei as medidas que deveriam ter resultado na obtenção de informações sobre o seu paradeiro, se ele estivesse vivo. Fiz isto paciente e cuidadosamente — ao início, até esperançosamente. Agora sei que ele está morto."

Robert Audley estava preparado para testemunhar alguma agitação considerável no comportamento do velho, mas não estava preparado para a angústia terrível, o terror macabro, que convulsionou o rosto abatido do Sr. Maldon quando ele proferiu a última palavra.

"Não, não, não, não", reiterou o tenente, com uma voz aguda e quase gritante; "não, não! Pelo amor de Deus, não diga isso! Não pense nisso — não me deixe pensar nisso — não me deixe sonhar com isso! Não morto — qualquer coisa menos morto! Escondido, talvez — subornado para se manter afastado, talvez; mas não morto — não morto — não morto!"

Ele gritou estas palavras em voz alta, como alguém fora de si, batendo com as mãos na cabeça grisalha e oscilando para a frente e para trás na cadeira. As suas mãos fracas já não tremiam — estavam fortalecidas por uma força convulsiva que lhes conferia um novo poder.

"Eu acredito", disse Robert, com a mesma voz solene e implacável, "que o meu amigo deixou Essex; e acredito que ele morreu no dia 7 de setembro passado."

O desgraçado velho, ainda a bater com as mãos nos seus cabelos grisalhos e ralos, escorregou da cadeira para o chão e rastejou aos pés de Robert.

"Oh! não, não — pelo amor de Deus, não!", gritou ele roucamente. "Não! O senhor não sabe o que diz — não sabe o que as suas palavras significam!"

"Conheço o seu peso e valor demasiado bem — tão bem como vejo que o senhor conhece, Sr. Maldon. Que Deus nos ajude!"

"Oh, o que estou a fazer? O que estou a fazer?", murmurou o velho, debilmente; depois, erguendo-se do chão com um esforço, pôs-se de pé e disse, de uma forma que lhe era nova, e que não deixava de ter uma certa dignidade — aquela dignidade que deve estar sempre ligada a uma miséria inenarrável, sob qualquer forma que possa aparecer — disse ele, gravemente:

"O senhor não tem o direito de vir aqui e aterrorizar um homem que esteve a beber e que não está bem de si. Não tem o direito de o fazer, Sr. Audley. Mesmo o... o oficial, senhor, que... que..." Ele não gaguejou, mas os seus lábios tremiam tão violentamente que as suas palavras pareciam ser despedaçadas pelo seu movimento. "O oficial, repito, senhor, que prende um... ladrão, ou um..." Ele parou para limpar os lábios e para os acalmar, se pudesse, o que não conseguiu. "Um ladrão ou um assassino..." A sua voz apagou-se subitamente na última palavra, e foi apenas pelo movimento daqueles lábios trémulos que Robert soube o que ele queria dizer. "Dá-lhe um aviso, senhor, um aviso justo, para que ele não diga nada que o possa incriminar a si próprio — ou... ou... outras pessoas. A... a... lei, senhor, tem essa medida de misericórdia para com um... um... criminoso suspeito. Mas o senhor, senhor... o senhor vem à minha casa, e vem numa altura em que... quando... ao contrário dos meus hábitos habituais — que, como as pessoas lhe dirão, são sóbrios — o senhor aproveita a oportunidade para... me aterrorizar — e não está certo, senhor — é..."

O que quer que ele fosse dizer desvaneceu-se em arquejos inarticulados, que pareciam sufocá-lo, e, afundando-se numa cadeira, pousou o rosto na mesa e chorou alto. Talvez em todas as cenas lúgubres de miséria doméstica que tinham sido encenadas naquelas casas exíguas e desoladoras — em todas as pequenas misérias, as vergonhas ardentes, os sofrimentos cruéis, as amargas desgraças que têm a pobreza por pai — nunca tivesse havido uma cena como esta. Um velho escondendo o rosto da luz do dia e soluçando alto na sua desgraça. Robert Audley contemplou o quadro doloroso com um rosto esperançoso e piedoso.

"Se eu soubesse disto", pensou, "poderia tê-lo poupado. Teria sido melhor, talvez, ter-lhe poupado."

A sala decadente, a sujidade, a confusão, a figura do velho, com a sua cabeça grisalha sobre a toalha de mesa suja, no meio dos restos misturados de um jantar miserável, tornaram-se turvos diante da visão de Robert Audley enquanto ele pensava noutro homem, tão velho como este, mas, ah!, tão amplamente diferente em todas as outras qualidades! que poderia vir, a seu tempo, a sentir a mesma, ou até uma pior angústia, e a derramar, talvez, lágrimas ainda mais amargas. O momento em que as lágrimas subiram aos seus olhos e anuviaram a cena piedosa diante dele foi longo o suficiente para o levar de volta a Essex e para lhe mostrar a imagem do seu tio, atingido pela agonia e pela vergonha.

"Porque continuo com isto?", pensou; "como sou impiedoso, e como sou implacavelmente levado para a frente. Não sou eu; é a mão que me acena cada vez mais para o caminho escuro, cujo fim não me atrevo a sonhar."

Ele pensou isto, e cem vezes mais do que isto, enquanto o velho estava sentado com o rosto ainda escondido, lutando com a sua angústia, mas sem poder contê-la.

"Sr. Maldon", disse Robert Audley, após uma pausa, "não lhe peço que me perdoe pelo que lhe trouxe, pois sinto fortemente dentro de mim que isso teria acontecido mais cedo ou mais tarde — se não através de mim, através de outra pessoa. Há..." ele parou por um momento, hesitante. Os soluços não cessavam; ora eram baixos, ora altos, irrompendo com nova violência ou esmorecendo por um instante, mas nunca cessando. "Há coisas que, como as pessoas dizem, não podem ser escondidas. Penso que há verdade nesse ditado comum que teve a sua origem naquela sabedoria mundana que as pessoas colhiam da experiência e não dos livros. Se... se eu me contentasse em deixar o meu amigo descansar na sua sepultura escondida, é muito provável que algum estranho, que nunca tinha ouvido o nome de George Talboys, pudesse tropeçar, pelo mais remoto acaso, no segredo da sua morte. Amanhã, talvez; ou daqui a dez anos, ou numa outra geração, quando a... a mão que o prejudicou estiver tão fria como a dele. Se eu pudesse deixar o assunto em paz; se... se eu pudesse deixar a Inglaterra para sempre e fugir propositadamente da possibilidade de encontrar outra pista para o segredo, fá-lo-ia — fá-lo-ia com gosto, com gratidão — mas não posso! Uma mão que é mais forte do que a minha acena-me para a frente. Não desejo tirar qualquer vantagem vil de si, menos do que de todas as outras pessoas; mas tenho de continuar; tenho de continuar. Se há algum aviso que queira dar a alguém, dê-o. Se o segredo para o qual estou a caminhar dia após dia, hora após hora, envolve alguém em quem tem interesse, que essa pessoa fuja antes que eu chegue ao fim. Que deixem este país; que deixem todos os que os conhecem — todos cuja paz a sua maldade pôs em perigo; que partam — não serão perseguidos. Mas se ignorarem o seu aviso — se tentarem manter a sua posição atual em desafio ao que estará ao seu alcance dizer-lhes — que se acautelem comigo, pois, quando a hora chegar, juro que não os pouparei."

O velho levantou o rosto pela primeira vez e limpou-o com um lenço de seda esfarrapado.

"Declaro-lhe que não o compreendo", disse ele. "Declaro-lhe solenemente que não posso compreender; e não acredito que George Talboys esteja morto."

"Eu daria dez anos da minha própria vida se pudesse vê-lo vivo", respondeu Robert, tristemente. "Lamento por si, Sr. Maldon — lamento por todos nós."

"Não acredito que o meu genro esteja morto", disse o tenente; "não acredito que o pobre rapaz esteja morto."

Ele esforçou-se de uma forma débil por mostrar a Robert Audley que o seu violento acesso de angústia tinha sido causado pelo seu pesar pela perda de George; mas o pretexto era miseravelmente superficial.

A Sra. Plowson reentrou na sala, guiando o pequeno Georgey, cujo rosto brilhava com aquele polimento brilhante que o sabão amarelo e a fricção podem produzir no semblante humano.

"Meu Deus do céu!", exclamou a Sra. Plowson, "por que este pobre velho cavalheiro tem estado assim? Podíamos ouvi-lo no corredor, a soluçar terrivelmente."

O pequeno George aproximou-se do seu avô e alisou o rosto molhado e enrugado com a sua mão rechonchuda.

"Não chores, vovô", disse ele, "não chores. Tu terás o meu relógio para ser limpo, e o gentil joalheiro emprestar-te-á o dinheiro para pagares ao cobrador de impostos enquanto ele limpa o relógio — eu não me importo, vovô. Vamos ao joalheiro, o joalheiro na High Street, sabes, com bolas douradas pintadas na sua porta, para mostrar que ele vem de Lombar — Lombardshire", disse o rapaz, tentando adivinhar o nome. "Vamos, vovô."

O pequeno rapaz tirou o brinquedo cravejado de joias do seu peito e dirigiu-se para a porta, orgulhoso de possuir um talismã, que tinha visto tantas vezes ser útil.

"Há lobos em Southampton", disse ele, com um aceno de cabeça bastante triunfante para Robert Audley. "O meu vovô diz, quando pega no meu relógio, que o faz para manter o lobo longe da porta. Há lobos onde o senhor vive?"

O jovem advogado não respondeu à pergunta da criança, mas deteve-o enquanto ele arrastava o seu avô em direção à porta.

"O seu avô não precisa do relógio hoje, Georgey", disse ele, gravemente.

"Porque é que ele está triste, então?", perguntou Georgey, ingenuamente; "quando ele precisa do relógio, ele está sempre triste e bate na sua pobre testa assim" — o rapaz parou para gesticular com os seus pequenos punhos — "e diz que ela — a senhora bonita, acho que ele quer dizer — trata-o muito mal, e que ele não consegue manter o lobo longe da porta; e então eu digo: 'Vovô, pega no relógio'; e então ele pega-me nos braços e diz: 'Oh, meu anjo abençoado! como posso roubar o meu anjo abençoado?' e depois ele chora, mas não como hoje — não alto, sabe; apenas lágrimas a correr pelas suas pobres faces, não de modo a que o pudesse ouvir no corredor."

Robert Audley ouviu este relato com um silêncio que não era o silêncio da indiferença. Ele parecia estar a absorver cada detalhe, cada palavra da criança, como se fossem elos de uma corrente que ele, relutantemente, começava a forjar. A sua expressão, habitualmente frouxa e indolente, endurecera-se, mas os seus olhos, quando se fixaram no rapaz, conservavam um brilho de piedade. Ele não fez mais perguntas. O pequeno George tinha fornecido mais do que o suficiente para alimentar as suas suspeitas, para confirmar os seus piores receios.

"Tu és um bom rapaz, Georgey", disse ele, com a voz ligeiramente alterada. "E tu amas o teu avô, não amas?"

"Sim, eu amo-o", respondeu a criança, com uma simplicidade que cortou o coração de Robert. "Ele é muito velho e muito triste. Mas ele diz que eu sou a única coisa que ele tem no mundo."

Robert suspirou e levantou-se. A atmosfera daquele pequeno quarto, impregnada de tabaco barato e da miséria de uma vida arruinada, tornara-se insuportável.

"Temos de ir, Georgey", disse ele. "O teu avô não te pode manter aqui por muito mais tempo. E tu tens de aprender a ser um homem, como o teu pai teria desejado."

O rapaz olhou para ele, intrigado. "O meu pai? O meu pai também era um homem, não era? A mamã dizia que ele era um soldado valente."

"Sim", respondeu Robert, quase num sussurro. "Um soldado valente. E tu vais seguir o seu exemplo."

Ele afastou-se da criança e caminhou até à janela, onde a luz cinzenta de um fim de tarde londrino lutava para entrar através dos vidros sujos. O caso, que ele iniciara por um capricho de curiosidade ou por um vago sentimento de dever para com um amigo desaparecido, tornara-se agora uma questão de vida ou morte — ou, pelo menos, de verdade ou mentira. A sombra de George Talboys parecia pairar sobre aquela casa, sobre o avô, sobre o rapaz, sobre tudo o que Robert tocava.

Ele sabia que, a partir daquele momento, não podia recuar. A verdade, por mais dolorosa ou terrível que fosse, tinha de ser desenterrada. Ele era um homem de preguiça natural, um homem que preferia o conforto do seu clube e a paz dos seus livros, mas o destino — ou talvez uma ironia cruel da Providência — tinha-o colocado no caminho de um segredo que exigia justiça.

"Vamos", repetiu ele, voltando-se para o rapaz com uma determinação que raramente demonstrava. "O teu novo futuro começa hoje."

Georgey seguiu-o, ainda um pouco hesitante, mas confiante na mão firme que o guiava. Robert Audley deixou para trás a miséria daquele lar, carregando consigo o peso da responsabilidade que ele próprio, sem saber, tinha abraçado. Ele não era um detetive, não era um homem de ação, mas ali, naquele momento, ele sentiu que a sua vida tinha mudado irrevogavelmente. O mistério de Helen Talboys e o destino do seu amigo George não eram mais apenas histórias; eram a sua própria vida. E ele não descansaria até que as peças do puzzle estivessem no seu devido lugar, mesmo que o preço dessa clareza fosse a destruição de tudo em que ele, até então, tinha acreditado.

Robert Audley deixou Southampton num comboio que partiu antes do amanhecer e chegou à estação de Wareham cedo no dia. Alugou um veículo em Wareham para o levar até Grange Heath.

A neve tinha endurecido sobre o solo, e o dia estava claro e gélido, cada objeto na paisagem recortando-se com contornos nítidos contra o céu azul e frio. Os cascos dos cavalos batiam na estrada coberta de gelo, os sapatos de ferro a golpear um chão que era quase tão férreo quanto eles próprios. O dia invernal guardava alguma semelhança com o homem a quem Robert se dirigia. Como ele, era cortante, frígido e intransigente: como ele, era impiedoso perante o sofrimento e inexpugnável ao poder suavizante da luz do sol. Não aceitaria sol algum, exceto aquele brilho de janeiro que iluminava a paisagem desolada e nua sem a tornar mais alegre; e, assim, assemelhava-se a Harcourt Talboys, que assumia o lado mais severo de cada verdade e declarava em alta voz ao mundo incrédulo que nunca existira, e nunca poderia existir, qualquer outro lado.

O coração de Robert Audley afundou-se quando o veículo de aluguer, de aspeto gasto, parou junto a uma vedação de barras de aparência austera, e o cocheiro desmontou para abrir um largo portão de ferro que oscilou para trás com um ruído metálico e foi apanhado por um grande dente de ferro, cravado no chão, que se fechou sobre a barra mais baixa do portão como se o quisesse morder.

Este portão de ferro abria-se para uma plantação escassa de abetos de troncos retos, que cresciam em filas e agitavam a sua folhagem de inverno robusta, desafiadoramente, perante a própria brisa gelada. Uma entrada de carruagens, direta e cascalhada, estendia-se entre estas árvores retas através de um relvado cuidadosamente mantido até uma mansão quadrada de tijolo vermelho, cujas janelas piscavam e brilhavam à luz do sol de janeiro como se tivessem sido limpas naquele preciso momento por uma criada incansável.

Não sei se Junius Brutus era uma maçada na sua própria casa, mas, entre outras das suas virtudes romanas, o Sr. Talboys possuía uma aversão extrema à desordem e era o terror de cada doméstico no seu estabelecimento.

As janelas piscavam e o lanço de degraus de pedra resplandecia à luz do sol; os caminhos do jardim, meticulosamente cuidados, estavam tão recentemente cascalhados que conferiam ao lugar um aspeto arenoso e amarelado, lembrando-nos, de forma desagradável, o cabelo ruivo. O relvado era principalmente ornamentado com arbustos escuros e invernais de aspeto fúnebre, que cresciam em canteiros que pareciam problemas de álgebra; e o lanço de degraus de pedra que conduzia à porta quadrada, meio envidraçada, do átrio estava adornado com vasos de madeira verde-escura contendo as mesmas plantas robustas de folhagem perene.

"Se o homem for parecido com a sua casa", pensou Robert, "não me admira que o pobre George e ele se tenham separado."

No fim de uma avenida escassa, a entrada de carruagens fazia uma curva acentuada (teria sido desenhada para descrever uma curva suave nos terrenos de qualquer outro homem) e passava diante das janelas do piso inferior da casa. O cocheiro desmontou junto aos degraus, subiu-os e tocou uma campainha de latão, que voltou ao seu encaixe com um estalido metálico irritado, como se tivesse sido insultada pelo toque plebeu da mão do homem.

Um homem de calças pretas e casaco de linho às riscas, que estava evidentemente acabado de sair das mãos da lavadeira, abriu a porta. O Sr. Talboys estava em casa. O cavalheiro enviaria o seu cartão?

Robert esperou no átrio enquanto o seu cartão era levado ao dono da casa.

O átrio era grande e alto, pavimentado com pedra. Os painéis do lambrim de carvalho brilhavam com o mesmo polimento intransigente que se encontrava em todos os objetos dentro e fora da mansão de tijolo vermelho.

Algumas pessoas são tão fracas de espírito que fingem apreciar quadros e estátuas. O Sr. Harcourt Talboys era demasiado prático para se entregar a tais fantasias tolas. Um barómetro e um suporte para guarda-chuvas eram os únicos adornos do seu átrio de entrada.

Robert Audley olhou para estes objetos enquanto o seu nome era submetido ao pai de George.

O criado de casaco de linho regressou pouco depois. Era um homem de rosto quadrado e pálido, de quase quarenta anos, e tinha a aparência de ter sobrevivido a todas as emoções a que a humanidade está sujeita.

"Se quiser seguir por aqui, senhor", disse ele, "o Sr. Talboys recebê-lo-á, embora esteja a tomar o pequeno-almoço. Pediu-me para declarar que todos em Dorsetshire conhecem a sua hora de pequeno-almoço."

Isto pretendia ser uma repreensão solene ao Sr. Robert Audley. Teve, contudo, muito pouco efeito sobre o jovem advogado. Ele limitou-se a levantar as sobrancelhas numa deprecação plácida de si próprio e de todos os outros.

"Eu não pertenço a Dorsetshire", disse ele. "O Sr. Talboys poderia tê-lo sabido, se me tivesse feito a honra de exercer as suas faculdades de raciocínio. Siga em frente, meu amigo."

O homem inexpressivo olhou para Robert Audley com um olhar vago de horror absoluto e, abrindo uma das pesadas portas de carvalho, abriu caminho para uma grande sala de jantar, mobilada com a simplicidade severa de um compartimento que é destinado a ser usado para comer, mas nunca para viver; e, na cabeceira de uma mesa que teria acomodado dezoito pessoas, Robert viu o Sr. Harcourt Talboys.

O Sr. Talboys estava vestido com um roupão de tecido cinzento, apertado à cintura com um cinto. Era uma peça de vestuário de aspeto austero e era, talvez, a aproximação mais próxima da toga que se podia obter dentro do alcance do traje moderno. Usava um colete de cor de camurça, uma gravata de cambraia rigidamente engomada e um colarinho de camisa impecável. O cinzento frio do seu roupão era quase igual ao cinzento frio dos seus olhos, e o tom pálido do seu colete era o tom pálido da sua tez.

Robert Audley não esperava encontrar Harcourt Talboys nada parecido com George nos seus modos ou disposição, mas esperava ver alguma semelhança familiar entre o pai e o filho. Não havia nenhuma. Teria sido impossível imaginar alguém mais diferente de George do que o autor da sua existência. Robert mal se espantou com a carta cruel que recebeu do Sr. Talboys quando viu o seu autor. Um homem assim dificilmente poderia ter escrito de outra forma.

Havia uma segunda pessoa na grande sala, para quem Robert olhou após saudar Harcourt Talboys, na dúvida sobre como proceder. Esta segunda pessoa era uma senhora, que estava sentada junto à última de uma série de quatro janelas, ocupada com um trabalho de costura, do tipo que é geralmente chamado de trabalho simples, e com um grande cesto de vime, cheio de calicos e flanelas, ao seu lado.

Todo o comprimento da sala dividia esta senhora de Robert, mas ele pôde ver que era jovem e que se parecia com George Talboys.

"A irmã dele!" pensou ele, naquele único momento em que se atreveu a desviar o olhar do dono da casa para a figura feminina à janela. "A irmã dele, sem dúvida. Ele gostava dela, eu sei. Certamente, ela não é totalmente indiferente ao destino dele?"

A senhora levantou-se a meio do assento, deixando o seu trabalho, que era grande e desajeitado, cair do colo ao fazê-lo, e deixando cair um carretel de linha, que rolou para longe sobre o pavimento de carvalho polido para além da margem do tapete turco.

"Senta-te, Clara", disse a voz dura do Sr. Talboys.

Aquele cavalheiro não parecia dirigir-se à sua filha, nem o seu rosto se tinha virado para ela quando ela se levantou. Parecia como se ele o soubesse por algum magnetismo social peculiar a si próprio; parecia, como os seus criados tendiam a observar desrespeitosamente, como se ele tivesse olhos na nuca.

"Senta-te, Clara", repetiu ele, "e mantém a tua linha na tua caixa de costura."

A senhora corou com esta repreensão e inclinou-se para procurar a linha. O Sr. Robert Audley, que não se sentia intimidado pela presença severa do dono da casa, ajoelhou-se no tapete, encontrou o carretel e devolveu-o à sua dona; Harcourt Talboys observando o procedimento com uma expressão de espanto absoluto.

"Talvez, Sr. ——, Sr. Robert Audley!" disse ele, olhando para o cartão que segurava entre o dedo e o polegar, "talvez quando tiver terminado de procurar carreteis de linha, seja tão amável de me dizer a que devo a honra desta visita?"

Ele acenou com a sua mão bem feita num gesto que poderia ter sido admirado no imponente John Kemble; e o criado, compreendendo o gesto, trouxe uma pesada cadeira de marroquim vermelho.

O procedimento foi tão lento e solene que Robert pensou, a princípio, que algo de extraordinário estava prestes a ser feito; mas a verdade surgiu-lhe finalmente, e ele deixou-se cair na cadeira maciça.

"Podes retirar-te, Wilson", disse o Sr. Talboys, quando o criado estava prestes a sair; "o Sr. Audley gostaria, talvez, de café."

Robert não tinha comido nada naquela manhã, mas lançou um olhar à longa extensão da toalha de mesa lúgubre, ao serviço de chá e café de prata, ao esplendor rígido e ao pouco aspeto de qualquer entretenimento substancial, e declinou o convite do Sr. Talboys.

"O Sr. Audley não tomará café, Wilson", disse o dono da casa. "Podes ir."

O homem fez uma vénia e retirou-se, abrindo e fechando a porta com tanta cautela como se estivesse a tomar uma liberdade ao fazê-lo, ou como se o respeito devido ao Sr. Talboys exigisse que ele atravessasse o painel de carvalho como um fantasma numa história alemã.

O Sr. Harcourt Talboys sentou-se com os seus olhos cinzentos fixos severamente no seu visitante, os cotovelos nos braços de marroquim vermelho da sua cadeira e as pontas dos dedos unidas. Era a atitude em que, se ele fosse Junius Brutus, se teria sentado no julgamento do seu filho. Se Robert Audley fosse alguém facilmente embaraçado, o Sr. Talboys poderia ter conseguido fazê-lo sentir-se assim; como ele se sentaria com total tranquilidade sobre um barril de pólvora aberto a acender o seu charuto, ele não ficou nada perturbado nesta ocasião. A dignidade do pai parecia uma coisa muito pequena para ele quando pensava nas possíveis causas do desaparecimento do filho.

"Escrevi-lhe há algum tempo, Sr. Talboys", disse ele calmamente, quando viu que se esperava que ele iniciasse a conversa.

Harcourt Talboys fez uma vénia. Sabia que era sobre o seu filho perdido que Robert viera falar. Que o Céu conceda que o seu estoicismo gelado fosse a afetação mesquinha de um homem vaidoso, em vez da total insensibilidade que Robert pensava que era. Ele fez uma vénia, através das pontas dos dedos, ao seu visitante. O julgamento tinha começado, e Junius Brutus estava a divertir-se.

"Recebi a sua comunicação, Sr. Audley", disse ele. "Está entre outras cartas de negócios: foi devidamente respondida."

"Essa carta dizia respeito ao seu filho."

Houve um pequeno ruído de farfalhar à janela onde a senhora estava sentada, quando Robert disse isto: ele olhou para ela quase instantaneamente, mas ela não parecia ter-se movido. Não estava a trabalhar, mas estava perfeitamente quieta.

"Ela é tão insensível quanto o pai, suponho, apesar de se parecer com o George", pensou o Sr. Audley.

"Se a sua carta dizia respeito à pessoa que foi outrora meu filho, talvez, senhor", disse Harcourt Talboys, "tenho de lhe pedir que se lembre de que já não tenho um filho."

"Não tem razões para me lembrar disso, Sr. Talboys", respondeu Robert, gravemente; "lembro-me disso demasiado bem. Tenho razões fatais para acreditar que já não tem um filho. Tenho causas amargas para pensar que ele está morto."

Pode ser que a tez do Sr. Talboys tenha empalidecido para um tom de cor de camurça mais claro quando Robert disse isto; mas ele apenas levantou as suas eriçadas sobrancelhas cinzentas e abanou a cabeça suavemente.

"Não", disse ele, "não, garanto-lhe, não."

"Acredito que George Talboys morreu no mês de setembro."

A rapariga que tinha sido tratada por Clara estava sentada com o trabalho cuidadosamente dobrado no seu colo e as suas mãos juntas sobre o trabalho, e nunca se mexeu quando Robert falou da morte do seu amigo. Ele não conseguia ver distintamente o rosto dela, pois ela estava sentada a alguma distância dele e de costas para a janela.

"Não, não, garanto-lhe", repetiu o Sr. Talboys, "o senhor labora num triste erro."

"Acredita que estou enganado ao pensar que o seu filho está morto?" perguntou Robert.

"Muito certamente", respondeu o Sr. Talboys, com um sorriso que expressava a serenidade da sabedoria. "Muito certamente, meu caro senhor. O desaparecimento foi um truque muito inteligente, sem dúvida, mas não foi suficientemente inteligente para me enganar. Deve permitir-me compreender este assunto um pouco melhor do que o senhor, Sr. Audley, e deve também permitir-me assegurar-lhe três coisas. Em primeiro lugar, o seu amigo não está morto. Em segundo lugar, ele está a manter-se afastado com o propósito de me alarmar, de brincar com os meus sentimentos como um—como um homem que foi outrora o seu pai, e de obter, finalmente, o meu perdão. Em terceiro lugar, ele não obterá esse perdão, por mais tempo que lhe apraza manter-se afastado; e agiria, portanto, sabiamente ao regressar à sua residência e ocupações habituais sem demora."

"Então imagina que ele se esconde propositadamente de todos os que o conhecem, com o propósito de—"

"Com o propósito de me influenciar", exclamou o Sr. Talboys, que, ao tomar uma posição sobre a sua própria vaidade, traçava todos os eventos da vida a partir desse único centro e recusava resolutamente olhar para eles de qualquer outro ponto de vista. "Com o propósito de me influenciar. Ele conhecia a inflexibilidade do meu caráter; até certo ponto, ele conhecia-me e sabia que todas as tentativas de suavizar a minha decisão, ou de me mover do propósito fixo da minha vida, falhariam. Ele tentou, por isso, meios extraordinários; manteve-se afastado para me alarmar, e quando, após o tempo devido, ele descobrir que não me alarmou, regressará aos seus velhos refúgios. Quando o fizer", disse o Sr. Talboys, elevando-se à sublimidade, "eu perdoar-lhe-ei. Sim, senhor, eu perdoar-lhe-ei. Direi a ele: Tentaste enganar-me, e mostrei-te que não me deixo enganar; tentaste assustar-me, e convenci-te de que não me deixo assustar; não acreditaste na minha generosidade, eu mostrar-te-ei que posso ser generoso."

Harcourt Talboys proferiu estes períodos soberbos com uma maneira estudada, que mostrava que tinham sido cuidadosamente compostos há muito tempo.

Robert Audley suspirou ao ouvi-los.

"Que o Céu conceda que possa ter uma oportunidade de dizer isto ao seu filho, senhor", respondeu ele tristemente. "Fico muito contente por descobrir que está disposto a perdoar-lhe, mas temo que nunca mais o veja sobre esta terra. Tenho muito para lhe dizer sobre este—este triste assunto, Sr. Talboys; mas preferiria dizê-lo a sós", acrescentou ele, lançando um olhar à senhora na janela.

"A minha filha conhece as minhas ideias sobre este assunto, Sr. Audley", disse Harcourt Talboys; "não há razão para que ela não ouça tudo o que tem para dizer. Menina Clara Talboys, Sr. Robert Audley", acrescentou ele, acenando com a mão majestosamente.

A jovem inclinou a cabeça em reconhecimento da vénia de Robert.

"Que ela ouça", pensou ele. "Se ela tem tão pouco sentimento a ponto de não mostrar qualquer emoção sobre tal assunto, que ouça o pior que tenho para contar."

Houve uma pausa de alguns minutos, durante a qual Robert tirou alguns papéis do bolso; entre eles, o documento que tinha escrito imediatamente após o desaparecimento de George.

"Necessitarei de toda a sua atenção, Sr. Talboys", disse ele, "pois aquilo que tenho para lhe revelar é de natureza muito dolorosa. O seu filho era o meu muito caro amigo—caro para mim por muitas razões. Talvez, acima de tudo, caro porque eu o conhecera e estivera com ele através do grande problema da sua vida; e porque ele se encontrava comparativamente sozinho no mundo—rejeitado por si, que deveria ter sido o seu melhor amigo, privado da única mulher que alguma vez amara."

"A filha de um mendigo alcoólico", comentou o Sr. Talboys, parenteticamente.

"Se ele tivesse morrido na sua cama, como por vezes pensei que morreria", continuou Robert Audley, "de coração partido, eu tê-lo-ia lamentado muito sinceramente, mesmo que tivesse fechado os seus olhos com as minhas próprias mãos e o tivesse visto ser colocado no seu lugar de repouso tranquilo. Teria sofrido pelo meu velho colega de escola e pelo companheiro que me era caro. Mas este sofrimento teria sido muito pequeno comparado com aquele que sinto agora, acreditando, como acredito apenas demasiado firmemente, que o meu pobre amigo foi assassinado."

"Assassinado!"

O pai e a filha repetiram simultaneamente a palavra horrível. O rosto do pai mudou para uma tonalidade de um tom lúgubre e cadavérico; o rosto da filha caiu sobre as suas mãos juntas, e nunca mais foi levantado durante toda a entrevista.

"Sr. Audley, o senhor está louco!" exclamou Harcourt Talboys; "o senhor está louco, ou então foi incumbido pelo seu amigo para brincar com os meus sentimentos. Protesto contra este procedimento como uma conspiração, e eu—eu revogo o meu pretendido perdão da pessoa que foi outrora meu filho!"

Ele era ele próprio novamente quando disse isto. O golpe tinha sido duro, mas o seu efeito tinha sido momentâneo.

"Está longe de ser o meu desejo alarmá-lo desnecessariamente, senhor", respondeu Robert. "Que o Céu conceda que o senhor esteja certo e eu errado. Rezo por isso, mas não consigo pensá-lo—não consigo sequer esperá-lo. Venho pedir-lhe conselho. Expor-lhe-ei, clara e imparcialmente, as circunstâncias que despertaram as minhas suspeitas. Se disser que essas suspeitas são tolas e infundadas, estou pronto a submeter-me ao seu melhor julgamento. Deixarei a Inglaterra; e abandonarei a minha busca pelas provas necessárias para—para confirmar os meus medos. Se me disser para continuar, eu continuarei."

Nada poderia ser mais gratificante para a vaidade do Sr. Harcourt Talboys do que este apelo. Declarou-se pronto a ouvir tudo o que Robert pudesse ter para dizer, e pronto a ajudá-lo com o máximo do seu poder.

Ele deu alguma ênfase a esta última garantia, desvalorizando o preço do seu conselho com uma afetação que era tão transparente quanto a sua própria vaidade.

Robert Audley aproximou a sua cadeira da do Sr. Talboys e começou um relato minuciosamente detalhado de tudo o que tinha acontecido a George desde o momento da sua chegada a Inglaterra até à hora do seu desaparecimento, assim como tudo o que tinha acontecido desde o seu desaparecimento, de qualquer forma, tocando esse assunto particular. Harcourt Talboys ouviu com atenção demonstrativa, interrompendo de vez em quando o orador para fazer algum tipo de pergunta magistral. Clara Talboys nunca uma vez levantou o rosto das suas mãos juntas.

Os ponteiros do relógio apontavam para as onze e um quarto quando Robert começou a sua história. O relógio bateu as doze quando ele terminou.

Ele tinha suprimido cuidadosamente os nomes do seu tio e da esposa do seu tio ao relatar as circunstâncias em que eles tinham estado envolvidos.

"Agora, senhor", disse ele, quando a história foi contada, "aguardo a sua decisão. Ouviu as minhas razões para chegar a esta conclusão terrível. De que maneira estas razões o influenciam?"

"Não me desviam de forma alguma da minha opinião anterior", respondeu o Sr. Harcourt Talboys, com o orgulho irracional de um homem obstinado. "Continuo a pensar, como pensava antes, que o meu filho está vivo e que o seu desaparecimento é uma conspiração contra mim próprio. Recuso-me a tornar-me a vítima dessa conspiração."

"E diz-me para parar?" perguntou Robert, solenemente.

"Digo-lhe apenas isto: se continuar, continua para a sua própria satisfação, não para a minha. Não vejo nada naquilo que me contou que me alarme quanto à segurança do—seu amigo."

"Que assim seja, então!" exclamou Robert, subitamente; "a partir deste momento, lavo as minhas mãos deste negócio. A partir deste momento, o propósito da minha vida será esquecê-lo."

Ele levantou-se enquanto falava e pegou no seu chapéu da mesa em que o tinha colocado. Olhou para Clara Talboys. A sua atitude nunca tinha mudado desde que ela deixara cair o rosto sobre as suas mãos. "Bom dia, Sr. Talboys", disse ele, gravemente. "Que Deus conceda que o senhor esteja certo. Que Deus conceda que eu esteja errado. Mas temo que um dia virá em que terá razões para lamentar a sua apatia relativamente ao destino prematuro do seu único filho."

Ele fez uma vénia grave ao Sr. Harcourt Talboys e à senhora, cujo rosto estava escondido pelas mãos.

Ele hesitou por um momento, olhando para a Menina Talboys, pensando que ela olharia para cima, que ela faria algum sinal, ou mostraria algum desejo de o deter.

O Sr. Talboys tocou a campainha para o criado impassível, que conduziu Robert até à porta do vestíbulo com a solenidade de modos que teria sido perfeitamente adequada se o estivesse a conduzir para a execução.

"Ela é como o pai", pensou o Sr. Audley, enquanto lançava um último olhar à cabeça caída. "Pobre George, precisavas de um amigo neste mundo, pois tiveste muito poucos que te amassem."

CAPÍTULO XXIII.

CLARA.

Robert Audley encontrou o cocheiro a dormir na boléia do seu veículo pesado. Tinha sido entretido com cerveja de natureza tão forte que induzira um estrangulamento temporário no audaz consumidor, e ele ficou muito contente por saudar o regresso do seu passageiro. O velho cavalo branco, que parecia ter nascido no ano em que a carruagem fora construída e parecia, tal como a carruagem, ter sobrevivido à moda, estava tão adormecido como o seu dono, e acordou com um solavanco quando Robert desceu a escadaria de pedra, acompanhado pelo seu carrasco, que esperou respeitosamente até que o Sr. Audley tivesse entrado no veículo e sido levado.

O cavalo, despertado por um estalo do chicote do cocheiro e por um abanão das rédeas gastas, arrastou-se num estado semissonolento; e Robert, com o chapéu muito puxado sobre os olhos, pensou no seu amigo desaparecido.

Ele tinha brincado naqueles jardins rígidos, e debaixo daqueles pinheiros lúgubres, anos atrás, talvez — se fosse possível ao mais brincalhão dos jovens ser divertido dentro do alcance dos olhos cinzentos e duros do Sr. Harcourt Talboys. Ele tinha brincado debaixo daquelas árvores escuras, talvez, com a irmã que tinha ouvido falar do seu destino hoje sem uma lágrima. Robert Audley olhou para a rigidez austera dos terrenos ordenados, maravilhando-se sobre como George poderia ter crescido num tal lugar para ser o amigo franco, generoso e despreocupado que ele conhecera. Como era possível que, com o seu pai perpetuamente diante dos seus olhos, ele não tivesse crescido segundo o modelo desagradável do progenitor, para ser um incómodo para os seus semelhantes? Como era possível? Porque temos Alguém superior aos nossos pais a quem agradecer pelas almas que nos tornam grandes ou pequenos; e porque, enquanto os narizes e queixos de família podem descender em sequência ordenada de pai para filho, de avô para neto, tal como a moda das flores murchas de um ano é reproduzida nos botões do ano seguinte, o espírito, mais subtil do que o vento que sopra entre essas flores, independente de qualquer regra terrena, não conhece outra ordem senão a lei harmoniosa de Deus.

"Graças a Deus!", pensou Robert Audley; "graças a Deus! Acabou. O meu pobre amigo deve descansar na sua sepultura desconhecida; e eu não serei o meio de trazer desgraça sobre aqueles que amo. Ela virá, talvez, mais cedo ou mais tarde, mas não virá por meu intermédio. A crise passou, e estou livre."

Ele sentiu um alívio inenarrável com este pensamento. A sua natureza generosa revoltava-se contra o ofício para o qual se sentira atraído — o ofício de espião, o colecionador de factos condenáveis que levavam a deduções horríveis.

Ele respirou fundo — um suspiro de alívio pela sua libertação. Estava tudo acabado agora.

A carruagem estava a sair do portão da plantação enquanto pensava nisto, e ele pôs-se de pé no veículo para olhar para trás, para os pinheiros lúgubres, os caminhos de gravilha, a relva aparada e a grande mansão de tijolo vermelho de aspeto desolado.

Ele ficou surpreendido com o aparecimento de uma mulher a correr, quase a voar, ao longo da estrada de carruagens por onde ele viera, agitando um lenço na mão erguida.

Ele olhou para esta estranha aparição durante alguns momentos em silêncio maravilhado antes de ser capaz de reduzir o seu estupor a palavras.

"Será a mim que a mulher voadora quer?", exclamou, finalmente. "Talvez seja melhor parar", acrescentou, para o cocheiro. "É uma era de excentricidade, uma era anormal da história do mundo. Ela pode querer-me. É muito provável que eu tenha deixado o meu lenço de bolso para trás, e o Sr. Talboys tenha enviado esta pessoa com ele. Talvez seja melhor eu sair e ir ao encontro dela. É uma cortesia devolverem-me o lenço."

O Sr. Robert Audley desceu deliberadamente da carruagem e caminhou lentamente em direção à figura feminina que se apressava, a qual ganhava terreno rapidamente.

Ele era um tanto míope, e não foi até que ela chegasse muito perto dele que ele viu quem era.

"Bom Deus!", exclamou ele, "é a Menina Talboys."

Era a Menina Talboys, corada e ofegante, com um xaile de lã sobre a cabeça.

Robert Audley viu agora o rosto dela claramente pela primeira vez, e viu que ela era muito bonita. Tinha olhos castanhos, como os de George, uma tez pálida (ela estivera corada quando se aproximou dele, mas a cor desvaneceu-se à medida que recuperava o fôlego), traços regulares, com uma mobilidade de expressão que dava conta de cada mudança de sentimento. Ele viu tudo isto em poucos momentos, e maravilhou-se ainda mais com o estoicismo dos modos dela durante a sua entrevista com o Sr. Talboys. Não havia lágrimas nos seus olhos, mas estavam brilhantes com um brilho febril — terrivelmente brilhantes e secos — e ele podia ver que os lábios dela tremiam enquanto ela lhe falava.

"Menina Talboys", disse ele, "o que posso eu — porquê —"

Ela interrompeu-o subitamente, agarrando-o pelo pulso com a mão que estava livre — ela segurava o seu xaile com a outra.

"Oh, deixe-me falar consigo", gritou ela — "deixe-me falar consigo, ou enlouquecerei. Ouvi tudo. Acredito no que acredita, e enlouquecerei a menos que possa fazer algo — algo para vingar a sua morte."

Durante alguns momentos, Robert Audley ficou demasiado desconcertado para lhe responder. De todas as coisas possíveis na terra, ele menos esperava vê-la assim.

"Dê-me o braço, Menina Talboys", disse ele. "Peço-lhe que se acalme. Vamos caminhar um pouco de volta para a casa, e falar calmamente. Não teria falado como falei diante de si se soubesse —"

"Se soubesse que eu amava o meu irmão?", disse ela, rapidamente. "Como poderia saber que eu o amava? Como poderia alguém pensar que eu o amava, quando nunca tive poder para lhe dar as boas-vindas sob aquele teto, ou uma palavra gentil do seu pai? Como poderia eu atrever-me a trair o meu amor por ele naquela casa quando sabia que até o afeto de uma irmã seria usado em desvantagem dele? Não conhece o meu pai, Sr. Audley. Eu conheço. Sabia que interceder por George teria sido arruinar a sua causa. Sabia que deixar os assuntos nas mãos do meu pai, e confiar no tempo, era a minha única hipótese de ver aquele querido irmão outra vez. E esperei — esperei pacientemente, sempre esperando o melhor; pois eu sabia que o meu pai amava o seu único filho. Vejo o seu sorriso de desprezo, Sr. Audley, e atrevo-me a dizer que é difícil para um estranho acreditar que, sob o seu estoicismo afetado, o meu pai esconde algum grau de afeição pelos seus filhos — não um apego muito caloroso, talvez, pois ele sempre regeu a sua vida pela lei estrita do dever. Espere", disse ela, subitamente, colocando a mão sobre o braço dele, e olhando para trás através da alameda reta de pinheiros; "saí de casa pela entrada das traseiras. O papá não deve ver-me a falar consigo, Sr. Audley, e não deve ver a carruagem parada no portão. Irá até à estrada principal e dirá ao homem para seguir caminho por um pouco? Eu sairei da plantação por um pequeno portão mais à frente, e encontrar-me-ei consigo na estrada."

"Mas apanhará uma constipação, Menina Talboys", protestou Robert, olhando para ela ansiosamente, pois viu que ela estava a tremer. "Está a tremer agora."

"Não de frio", respondeu ela. "Estou a pensar no meu irmão George. Se tem alguma pena da única irmã do seu amigo perdido, faça o que lhe peço, Sr. Audley. Tenho de falar consigo — tenho de falar consigo — calmamente, se puder."

Ela levou a mão à cabeça como se tentasse organizar os pensamentos, e depois apontou para o portão. Robert fez uma vénia e deixou-a. Disse ao homem para conduzir lentamente em direção à estação, e caminhou ao lado da cerca de alcatrão que rodeava os terrenos do Sr. Talboys. Cerca de cem metros para lá da entrada principal, chegou a um pequeno portão de madeira na cerca, e esperou ali pela Menina Talboys.

Ela juntou-se a ele pouco depois, com o xaile ainda sobre a cabeça, e os olhos ainda brilhantes e sem lágrimas.

"Quer caminhar comigo dentro da plantação?", disse ela. "Poderíamos ser observados na estrada principal."

Ele fez uma vénia, passou pelo portão e fechou-o atrás de si.

Quando ela aceitou o braço que ele lhe ofereceu, ele descobriu que ela ainda tremia — tremia muito violentamente.

"Peço-lhe, peço-lhe que se acalme, Menina Talboys", disse ele; "posso ter-me enganado na opinião que formei; posso —"

"Não, não, não", exclamou ela, "não se enganou. O meu irmão foi assassinado. Diga-me o nome dessa mulher — a mulher que suspeita estar envolvida no seu desaparecimento — no seu assassínio."

"Isso não posso fazer até —"

"Até quando?"

"Até saber que ela é culpada."

"Disse ao meu pai que abandonaria toda a ideia de descobrir a verdade — que ficaria satisfeito em deixar o destino do meu irmão como um mistério horrível que nunca será resolvido sobre esta terra; mas não o fará, Sr. Audley — não será falso para com a memória do seu amigo. Verá feita justiça contra aqueles que o destruíram. Fará isso, não fará?"

Uma sombra sombria espalhou-se como um véu escuro sobre o rosto bonito de Robert Audley.

Ele lembrou-se do que dissera no dia anterior em Southampton:

"Uma mão que é mais forte do que a minha está a chamar-me para seguir em frente, na estrada escura."

Um quarto de hora antes, ele acreditara que tudo estava acabado, e que estava livre do dever terrível de descobrir o segredo da morte de George. Agora, esta rapariga, esta rapariga aparentemente sem paixão, encontrara uma voz, e estava a empurrá-lo para o seu destino.

"Se soubesse que miséria para mim pode estar envolvida na descoberta da verdade, Menina Talboys", disse ele, "dificilmente me pediria para levar este assunto mais longe?"

"Mas eu peço-lhe", respondeu ela, com paixão contida — "eu peço-lhe. Peço-lhe que vingue a morte prematura do meu irmão. Fá-lo-á? Sim ou não?"

"E se eu responder não?"

"Então fá-lo-ei eu mesma", exclamou ela, olhando para ele com os seus brilhantes olhos castanhos. "Eu própria seguirei a pista deste mistério; encontrarei esta mulher — embora se recuse a dizer-me em que parte da Inglaterra o meu irmão desapareceu. Viajarei de uma ponta à outra do mundo para descobrir o segredo do seu destino, se se recusa a descobri-lo por mim. Sou maior de idade; dona do meu próprio nariz; rica, pois tenho dinheiro que me foi deixado por uma das minhas tias; serei capaz de empregar aqueles que me ajudarão na minha busca, e farei com que seja do interesse deles servirem-me bem. Escolha entre as duas alternativas, Sr. Audley. Deverá ser o senhor ou eu a encontrar o assassino do meu irmão?"

Ele olhou para o rosto dela, e viu que a sua resolução era o fruto de nenhum entusiasmo feminino passageiro que cedesse sob a mão de ferro da dificuldade. Os seus belos traços, naturalmente estatuários nos seus contornos nobres, pareciam transformados em mármore pela rigidez da sua expressão. O rosto para o qual ele olhava era o rosto de uma mulher que só a morte poderia desviar do seu propósito.

"Cresci numa atmosfera de repressão", disse ela, calmamente; "sufoquei e atrofiei os sentimentos naturais do meu coração, até se tornarem antinaturais na sua intensidade; não me foram permitidos nem amigos nem amantes. A minha mãe morreu quando eu era muito nova. O meu pai sempre foi para mim o que viu hoje. Não tive ninguém a não ser o meu irmão. Todo o amor que o meu coração pode conter tem estado centrado nele. Admira-se, então, que quando ouço que a sua jovem vida foi terminada pela mão da traição, eu deseje ver a vingança feita sobre o traidor? Oh, meu Deus", gritou ela, juntando subitamente as mãos, e olhando para o céu frio de inverno, "conduzi-me ao assassino do meu irmão, e deixai que seja a minha mão a vingar a sua morte prematura."

Robert Audley ficou a olhá-la com uma admiração cheia de respeito. A sua beleza era elevada à sublimidade pela intensidade da sua paixão contida. Ela era diferente de todas as outras mulheres que ele tinha visto. A sua prima era bonita, a mulher do seu tio era encantadora, mas Clara Talboys era bela. O rosto de Niobe, sublimado pela tristeza, dificilmente poderia ser mais puramente clássico do que o dela. Até o seu vestido, puritano na sua simplicidade cinzenta, assentava melhor à sua beleza do que um vestido mais belo teria assentado a uma mulher menos bela.

"Menina Talboys", disse Robert, após uma pausa, "o seu irmão não ficará sem vingança. Ele não será esquecido. Não penso que qualquer ajuda profissional que pudesse obter a levaria tão seguramente ao segredo deste mistério como eu a posso levar, se for paciente e confiar em mim."

"Confiarei em si", respondeu ela, "pois vejo que me ajudará."

"Acredito que é o meu destino fazê-lo", disse ele, solenemente.

Em todo o curso da sua conversa com Harcourt Talboys, Robert Audley evitara cuidadosamente tirar quaisquer deduções das circunstâncias que apresentara ao pai de George. Limitara-se a contar a história da vida do homem desaparecido, desde a hora da sua chegada a Londres até à do seu desaparecimento; mas viu que Clara Talboys tinha chegado à mesma conclusão que ele, e que estava tacitamente entendido entre eles.

"Tem alguma carta do seu irmão, Menina Talboys?", perguntou ele.

"Duas. Uma escrita pouco depois do seu casamento, a outra escrita em Liverpool, na noite antes de embarcar para a Austrália."

"Permitir-me-á vê-las?"

"Sim, enviar-lhas-ei se me der a sua morada. Escrever-me-á de tempos a tempos, não escreverá, para me dizer se se está a aproximar da verdade. Serei obrigada a agir secretamente aqui, mas vou deixar a casa daqui a dois ou três meses, e estarei perfeitamente livre então para agir como bem entender."

"Não vai sair de Inglaterra?", perguntou Robert.

"Oh não! Vou apenas fazer uma visita há muito prometida a alguns amigos em Essex."

Robert sobressaltou-se tão violentamente quando Clara Talboys disse isto, que ela olhou subitamente para o rosto dele. A agitação visível ali traiu uma parte do seu segredo.

"O meu irmão George desapareceu em Essex", disse ela.

Ele não a pôde contradizer.

"Lamento que tenha descoberto tanto", respondeu ele. "A minha posição torna-se cada dia mais complicada, cada dia mais dolorosa. Adeus."

Ela deu-lhe a mão mecanicamente, quando ele estendeu a dele; mas estava fria como mármore, e permaneceu sem vida na dele, e caiu como um tronco ao seu lado quando ele a soltou.

"Peço-lhe que não perca tempo a regressar a casa", disse ele, sinceramente. "Temo que sofrerá com o trabalho desta manhã."

"Sofrer!", exclamou ela, com desprezo. "Fala-me de sofrimento, quando a única criatura neste mundo que alguma vez me amou foi tirada dele no auge da juventude. O que pode haver para mim doravante senão sofrimento? O que é o frio para mim?", disse ela, atirando o xaile para trás e expondo a sua bela cabeça ao vento amargo. "Caminharia daqui até Londres descalça pela neve, e nunca pararia pelo caminho, se pudesse trazê-lo de volta à vida. O que não faria eu para o trazer de volta? O que não faria?"

As palavras irromperam dela num lamento de dor apaixonada; e juntando as mãos diante do rosto, ela chorou pela primeira vez naquele dia. A violência dos seus soluços abalou a sua estrutura esguia, e ela foi obrigada a apoiar-se no tronco de uma árvore para se sustentar.

Robert olhou para ela com uma terna compaixão no rosto; ela era tão parecida com o amigo que ele tinha amado e perdido, que era impossível para ele pensar nela como uma estranha; impossível lembrar-se de que se tinham conhecido naquela manhã pela primeira vez.

"Peço-lhe, peço-lhe que se acalme", disse ele: "tenha esperança mesmo contra toda a esperança. Podemos ambos estar enganados; o seu irmão pode ainda estar vivo."

"Oh! se fosse assim", murmurou ela, apaixonadamente; "se pudesse ser assim."

"Tentemos ter esperança de que possa ser assim."

"Não", respondeu ela, olhando para ele através das suas lágrimas, "não tenhamos esperança de nada senão de vingança. Adeus, Sr. Audley. Espere; a sua morada."

Ele deu-lhe um cartão, que ela guardou no bolso do seu vestido.

"Enviar-lhe-ei as cartas do George", disse ela; "podem ajudá-lo. Adeus."

Ela deixou-o meio desconcertado pela energia apaixonada dos seus modos, e pela nobre beleza do seu rosto. Ele observou-a enquanto ela desaparecia entre os troncos retos dos pinheiros, e depois caminhou lentamente para fora da plantação.

"Que o Céu ajude aqueles que se interpõem entre mim e o segredo", pensou ele, "pois serão sacrificados à memória de George Talboys."

CAPÍTULO XXIV.

AS CARTAS DE GEORGE.

Robert Audley não regressou a Southampton, mas comprou um bilhete para o primeiro comboio para a cidade que partiu de Wareham, e chegou a Waterloo Bridge uma ou duas horas depois de escurecer. A neve, que estivera dura e estaladiça em Dorsetshire, era uma lama negra e gordurosa na Waterloo Road, derretida pelos candeeiros flamejantes das casas de gin e pelo gás brilhante nas lojas dos talhantes.

Robert Audley encolheu os ombros enquanto olhava para as ruas sujas pelas quais o Hansom o transportava, escolhendo o cocheiro — com aquele instinto delicioso que parece inato nos condutores de veículos de aluguer — todas aquelas vias escuras e medonhas completamente desconhecidas do peão comum.

"Que coisa agradável é a vida", pensou o advogado. "Que dádiva inexprimível — que bênção avassaladora! Que qualquer homem faça um cálculo da sua existência, subtraindo as horas em que foi inteiramente feliz — realmente e completamente à vontade, sem um *arrière-pensée* para estragar o seu prazer — sem a mais infinitesimal nuvem para obscurecer a luminosidade do seu horizonte. Que o faça, e certamente rir-se-á na mais profunda amargura de alma quando somar o total da sua felicidade e descobrir a lamentável pequenez do montante. Terá gozado a vida durante uma semana ou dez dias em trinta anos, talvez. Em trinta anos de dezembro soturno, de março tempestuoso, de abril chuvoso e de tempo sombrio em novembro, pode ter havido sete ou oito dias gloriosos de agosto, durante os quais o sol brilhou numa radiância sem nuvens e as brisas de verão sopraram um bálsamo perpétuo. Com que carinho recordamos estes dias solitários de prazer, e esperamos pela sua recorrência, e tentamos planear as circunstâncias que os tornaram brilhantes; e arranjamos, e predestinamos, e diplomamos com o destino uma renovação da alegria lembrada. Como se alguma alegria pudesse ser construída a partir de tais e tais partes constituintes! Como se a felicidade não fosse essencialmente acidental — um pássaro brilhante e errante, totalmente irregular nas suas migrações; connosco num dia de verão e para sempre perdido no seguinte! Olhemos para os casamentos, por exemplo", meditou Robert, que estava tão pensativo no veículo aos solavancos, para cuja ocupação ele havia de pagar seis pence por milha, como se estivesse montado num mustang na solidão selvagem das pradarias. "Olhemos para o casamento! Quem dirá qual será a única seleção judiciosa entre novecentos e noventa e nove erros! Quem decidirá, logo ao primeiro aspeto da criatura viscosa, qual será a enguia única dentro do saco colossal de serpentes? Aquela rapariga ali no passeio, à espera para atravessar a rua quando a minha carruagem tiver passado, pode ser a única mulher entre todas as criaturas femininas neste vasto universo que me poderia fazer um homem feliz. No entanto, passo por ela — salpico-a com a lama das minhas rodas, na minha ignorância impotente, na minha submissão cega à terrível mão da fatalidade. Se aquela rapariga, Clara Talboys, tivesse chegado cinco minutos mais tarde, tê-la-ia deixado em Dorsetshire pensando que era fria, dura e pouco feminina, e teria ido para a minha sepultura com esse erro como parte integrante da minha mente. Tomei-a por uma autómato majestosa e sem coração; sei agora que é uma mulher nobre e bela. Que diferença incalculável isto pode fazer na minha vida. Quando deixei aquela casa, saí para o dia de inverno com a determinação de abandonar qualquer outro pensamento sobre o segredo da morte de George. Vejo-a, e ela força-me a seguir pelo caminho repugnante — a vereda tortuosa da vigilância e da suspeita. Como posso dizer a esta irmã do meu amigo morto: 'Acredito que o seu irmão foi assassinado! Acredito que sei por quem, mas não darei um passo para pôr termo às minhas dúvidas, ou para confirmar os meus receios'? Não posso dizer isto. Esta mulher conhece metade do meu segredo; em breve apossar-se-á do resto, e então — e então —"

O táxi parou no meio da meditação de Robert Audley, e ele teve de pagar ao cocheiro e submeter-se a toda a mecânica monótona da vida, que é a mesma, quer estejamos contentes ou tristes — quer estejamos para nos casar ou para sermos enforcados, elevados ao cargo de Lord Chancellor ou expulsos da ordem pelos nossos colegas advogados devido a algum emaranhado técnico misterioso de irregularidades, o que é um enigma social para aqueles que estão fora do *forum domesticum* do Middle Temple.

Somos propensos a irritar-nos com esta dureza cruel na nossa vida — esta regularidade inabalável nas rodas mais pequenas e na mecânica mais mesquinha da máquina humana, que não conhece paragem ou cessação, embora a mola real seja para sempre oca e os ponteiros apontem para figuras sem propósito num mostrador estilhaçado.

Quem não sentiu, na primeira loucura da tristeza, uma raiva irracional contra a propriedade muda das cadeiras e mesas, a rigidez quadrada dos tapetes turcos, a obstinação inflexível do aparato exterior da existência? Queremos arrancar árvores gigantescas numa floresta primitiva e despedaçar os seus ramos enormes no nosso aperto convulsivo; e o máximo que podemos fazer para o alívio da nossa paixão é derrubar uma poltrona ou partir alguns xelins de mercadoria fabricada pelo Sr. Copeland.

Os manicómios são grandes e demasiado numerosos; contudo, é certamente estranho que não sejam maiores, quando pensamos em quantos infelizes impotentes devem bater com a cabeça contra esta persistência sem esperança do mundo exterior ordenado, em comparação com a tempestade e o vendaval, o motim e a confusão interior — quando nos lembramos de quantas mentes devem tremer sobre a fronteira estreita entre a razão e a desrazão, loucas hoje e sãs amanhã, loucas ontem e sãs hoje.

Robert Audley tinha indicado ao cocheiro que o deixasse na esquina de Chancery Lane, e subiu a escadaria brilhantemente iluminada que levava ao salão de jantar do The London, e sentou-se a uma das mesas acolhedoras com uma sensação confusa de vazio e cansaço, em vez de qualquer sensação agradável de fome saudável. Tinha vindo ao luxuoso restaurante para jantar, porque era absolutamente necessário comer qualquer coisa em algum lado, e era muito mais fácil obter um jantar muito bom do Sr. Sawyer do que um muito mau da Sra. Maloney, cuja mente corria num único canal estreito de costeletas e bifes, apenas variável por pequenos riachos e saídas sob a forma de "linguado grelhado" ou "cavala cozida". O camareiro solícito tentou em vão despertar no pobre Robert um sentido adequado da solenidade da questão do jantar. Ele murmurou algo no sentido de que o homem lhe podia trazer o que quisesse, e o camareiro amigável, que conhecia Robert como um cliente frequente das pequenas mesas, voltou para o seu patrão com um rosto triste, para dizer que o Sr. Audley, de Figtree Court, estava evidentemente sem ânimo. Robert comeu o seu jantar e bebeu um pint de Mosel; mas pouco apreciou a excelência dos manjares ou a fragrância delicada do vinho. O monólogo mental continuava, e o jovem filósofo da escola moderna estava a discutir a questão moderna favorita da vacuidade de tudo, e a tolice de se dar ao trabalho de caminhar por uma estrada que não ia a lado nenhum, ou de realizar um trabalho que não significava nada.

"Aceito o domínio daquela rapariga pálida, com as feições estatuárias e os calmos olhos castanhos", pensou. "Reconheço o poder de uma mente superior à minha, e cedo perante ela, e curvo-me perante ela. Tenho agido por mim próprio e pensado por mim próprio, durante os últimos meses, e estou cansado deste negócio antinatural. Tenho sido falso para com o princípio condutor da minha vida, e sofri pela minha tolice. Encontrei dois cabelos brancos na minha cabeça na semana anterior à última, e um corvo impertinente plantou uma delicada impressão do seu pé debaixo do meu olho direito. Sim, estou a ficar velho do lado direito; e porquê — por que haveria de ser assim?"

Empurrou o prato e levantou as sobrancelhas, olhando fixamente para as migalhas sobre o damasco cintilante, enquanto ponderava a questão.

"Que diabo estou eu a fazer nesta galera?", perguntou ele. "Mas estou nela, e não posso sair; por isso é melhor submeter-me à rapariga de olhos castanhos e fazer o que ela me manda, paciente e fielmente. Que solução maravilhosa para o enigma da vida existe no governo de saias! O homem poderia deitar-se ao sol, comer lótus e imaginar que é 'sempre tarde', se a sua mulher o deixasse! Mas ela não deixará, abençoado seja o seu coração impulsivo e a sua mente ativa! Ela sabe mais do que isso. Quem ouviu alguma vez dizer que uma mulher leva a vida como ela deve ser levada? Em vez de a suportar como um incómodo inevitável, apenas redimível pela sua brevidade, ela passa por ela como se fosse um espetáculo ou uma procissão. Ela veste-se para ela, e sorri e faz caretas, e gesticula para ela. Ela empurra os vizinhos e luta por um bom lugar na marcha lúgubre; ela dá cotoveladas, contorce-se, pisa e salta com o único objetivo de tirar o máximo partido da miséria. Levanta-se cedo e deita-se tarde, e é ruidosa, e inquieta, e barulhenta, e impiedosa. Arrastou o marido para o cargo de Lord Chancellor, ou empurrou-o para o Parlamento. Conduz-o de encontro à cara e preguiçosa maquinaria do governo, e bate-lhe e empurra-o contra as rodas, e manivelas, e parafusos, e polias; até que alguém, para ter paz, faz dele algo que ela queria que ele fosse. É por isso que homens incompetentes se sentam por vezes em lugares altos e interpõem os seus intelectos pobres e confusos entre as coisas a serem feitas e as pessoas que as podem fazer, criando uma confusão universal na inocência impotente da incapacidade bem colocada. Os homens quadrados nos buracos redondos são empurrados para lá pelas suas mulheres. O potentado oriental que declarou que as mulheres estavam na origem de todo o mal, deveria ter ido um pouco mais longe e visto por que razão é assim. É porque as mulheres nunca estão ociosas. Não sabem o que é estar quietas. Elas são Semíramis, e Cleopatras, e Joanas d'Arc, Rainhas Isabel e Catarinas Segunda, e elas revoltam-se na batalha, e no assassínio, e no clamor e no desespero. Se não conseguem agitar o universo e jogar à bola com hemisférios, farão montanhas de guerra e vexame a partir de toupeiras domésticas, e tempestades sociais em chávenas de chá domésticas. Proíbam-nas de discursar sobre a liberdade das nações e as injustiças da humanidade, e elas discutirão com a Sra. Jones sobre a forma de um manto ou o caráter de uma pequena criada. Chamar-lhes o sexo mais fraco é proferir uma zombaria hedionda. Elas são o sexo mais forte, o mais barulhento, o mais perseverante, o sexo que mais se afirma. Querem liberdade de opinião, variedade de ocupação, não é? Deixem-nas tê-la. Que sejam advogadas, médicas, pregadoras, professoras, soldados, legisladoras — o que quiserem — mas que estejam quietas — se puderem."

O Sr. Audley passou as mãos pela espessa exuberância do seu cabelo castanho liso e levantou a massa escura no seu desespero.

"Odeio as mulheres", pensou, selvaticamente. "São criaturas audazes, descaradas e abomináveis, inventadas para o incómodo e destruição dos seus superiores. Olhem para este caso do pobre George! É todo obra de mulher de uma ponta à outra. Ele casa com uma mulher, e o pai expulsa-o sem um tostão e sem profissão. Ele ouve falar da morte da mulher e parte o coração — o seu bom, honesto e viril coração, que vale um milhão dos traiçoeiros pedaços de interesse próprio e cálculo mercenário que batem nos peitos das mulheres. Ele vai a casa de uma mulher e nunca mais é visto vivo. E agora encontro-me encurralado por outra mulher, em cuja existência nunca tinha pensado até hoje. E — e depois", meditou o Sr. Audley, de forma algo irrelevante, "há também a Alicia; ela é outro incómodo. Ela gostaria que eu casasse com ela, eu sei; e ela far-me-á fazê-lo, atrevo-me a dizer, antes de acabar comigo. Mas prefiro muito não o fazer; embora ela seja uma coisa querida, saltitante e generosa, abençoado seja o seu pobre coraçãozinho."

Robert pagou a sua conta e recompensou o camareiro generosamente. O jovem advogado estava muito disposto a distribuir o seu confortável rendimento pelas pessoas que o serviam, pois carregava a sua indiferença por todas as coisas no universo, até mesmo pela questão das libras, xelins e pence. Talvez fosse bastante excecional nisto, uma vez que se pode encontrar frequentemente o filósofo que chama à vida uma ilusão vazia bastante astuto no investimento do seu dinheiro, e que reconhece a natureza tangível dos títulos da Índia, certificados espanhóis e *scrip* egípcios — em contraste com a dolorosa incerteza de um *Ego* ou um *não-Ego* na metafísica.

Os quartos acolhedores em Figtree Court pareciam lúgubres na sua quietude ordenada para Robert Audley nesta noite em particular. Não tinha inclinação para os seus romances franceses, embora houvesse um pacote de romances por cortar, cómicos e sentimentais, encomendados um mês antes, à espera do seu prazer sobre uma das mesas. Pegou na sua meerschaum favorita e deixou-se cair na sua cadeira favorita com um suspiro.

"É confortável, mas parece tão terrivelmente solitário esta noite. Se o pobre George estivesse sentado à minha frente, ou — ou até a irmã do George — ela é muito parecida com ele — a existência poderia ser um pouco mais suportável. Mas quando um tipo vive sozinho durante oito ou dez anos, começa a ser uma má companhia."

Desatou a rir pouco depois, ao terminar o seu primeiro cachimbo.

"A ideia de eu estar a pensar na irmã do George", pensou; "que idiota absurdo eu sou!"

O correio do dia seguinte trouxe-lhe uma carta com uma letra firme mas feminina, que lhe era estranha. Encontrou o pequeno pacote pousado na sua mesa de pequeno-almoço, ao lado do pão francês quente embrulhado num guardanapo pelas mãos cuidadosas mas algo sujas da Sra. Maloney. Contemplou o envelope durante alguns minutos antes de o abrir — não por qualquer curiosidade quanto ao seu correspondente, pois a carta trazia o carimbo de Grange Heath, e ele sabia que só havia uma pessoa que provavelmente lhe escreveria daquela aldeia obscura, mas naquela sonolência preguiçosa que fazia parte do seu caráter.

"De Clara Talboys", murmurou lentamente, enquanto olhava criticamente para as letras claramente formadas do seu nome e endereço. "Sim, de Clara Talboys, muito decididamente; reconheci uma semelhança feminina com a letra do pobre George; mais arrumada que a dele, e mais decidida que a dele, mas muito parecida, muito parecida."

Virou a carta e examinou o selo, que trazia o brasão familiar do seu amigo.

"Pergunto-me o que ela me diz?", pensou. "É uma carta longa, atrevo-me a dizer; ela é o tipo de mulher que escreveria uma carta longa — uma carta que me incitará, me impelirá, me arrancará de mim mesmo, não tenho dúvida. Mas não há nada a fazer quanto a isso — por isso, aqui vai!"

Rasgou o envelope com um suspiro de resignação. Não continha nada além das duas cartas de George e algumas palavras escritas na aba: "Envio as cartas; por favor, conserve-as e devolva-as — C.T."

A carta, escrita de Liverpool, não dizia nada sobre a vida do remetente, exceto a sua súbita determinação de partir para um novo mundo, para recuperar as fortunas que tinham sido arruinadas no antigo. A carta escrita quase imediatamente após o casamento de George continha uma descrição completa da sua mulher — uma descrição que um homem só poderia escrever no espaço de três semanas após um casamento por amor — uma descrição na qual cada traço era minuciosamente catalogado, cada graça de forma ou beleza de expressão carinhosamente contemplada, cada encanto de maneira amorosamente representado.

Robert Audley leu a carta três vezes antes de a pousar.

"Se o George pudesse ter sabido para que propósito serviria esta descrição quando a escreveu", pensou o jovem advogado, "certamente a sua mão teria ficado paralisada de horror, e impotente para formar uma sílaba destas palavras ternas."

CAPÍTULO XXV.

INVESTIGAÇÃO RETROGRADA.

O sombrio janeiro londrino arrastou o seu comprimento monótono lentamente. Os últimos registos ténues da época natalícia foram varridos, e Robert Audley ainda permanecia na cidade — ainda passava as suas noites solitárias na sua tranquila sala de estar em Figtree Court — ainda vagueava sem ânimo pelos Jardins do Temple nas manhãs ensolaradas, ouvindo absentemente o balbuciar das crianças, observando ociosamente o seu jogo. Tinha muitos amigos entre os habitantes dos edifícios antigos e pitorescos à sua volta; tinha outros amigos muito longe, em agradáveis lugares rurais, cujos quartos de hóspedes estavam sempre ao dispor de Bob, cujas lareiras alegres tinham cadeiras confortavelmente luxuosas especialmente reservadas para ele. Mas parecia ter perdido todo o gosto pela companhia, toda a simpatia pelos prazeres e ocupações da sua classe, desde o desaparecimento de George Talboys. Juízes idosos indulgentes faziam observações espirituosas sobre o rosto pálido e a maneira melancólica do jovem. Sugeriam a probabilidade de alguma ligação infeliz, algum tratamento feminino inadequado como a causa secreta da mudança. Diziam-lhe para se animar e convidavam-no para festas de ceia, nas quais "a adorável mulher, com todos os seus defeitos, Deus a abençoe", era brindada por cavalheiros que derramavam lágrimas enquanto propunham o brinde, e ficavam piegas e infelizes nos copos perto do final do entretenimento. Robert não tinha inclinação para a bebedeira e para a preparação de ponche. A única ideia da sua vida tinha-se tornado o seu mestre. Ele era o escravo acorrentado de um pensamento sombrio — um pressentimento horrível. Uma nuvem escura pairava sobre a casa do seu tio, e era a sua mão que devia dar o sinal para o estrondo do trovão, e a tempestade que arruinaria aquela vida nobre.

"Se ela apenas se deixasse avisar e fugisse", dizia ele a si próprio, por vezes. "O Céu sabe que lhe dei uma oportunidade justa. Porque não a aproveita e foge?"

Ele recebia notícias por vezes do Sir Michael, por vezes da Alicia. A carta da jovem raramente continha mais do que algumas linhas curtas informando-o de que o seu pai estava bem; e que Lady Audley estava muito bem-disposta, divertindo-se da sua maneira frívola habitual, e com o seu desrespeito habitual pelos outros.

Uma carta do Sr. Marchmont, o professor de Southampton, informava Robert de que o pequeno Georgey estava a ir muito bem, mas que estava atrasado na sua educação e ainda não tinha passado o Rubicão intelectual das palavras de duas sílabas. O Capitão Maldon tinha ido ver o seu neto, mas esse privilégio tinha-lhe sido negado, de acordo com as instruções do Sr. Audley. O velho tinha enviado, além disso, um pacote de pastelaria e doces para o menino, que também tinham sido rejeitados com base em tendências indigestas e biliosas nos alimentos.

Perto do final de fevereiro, Robert recebeu uma carta da sua prima Alicia, que o apressou um passo mais à frente em direção ao seu destino, fazendo com que ele regressasse à casa da qual se tinha tornado, de certa forma, exilado por instigação da esposa do seu tio.

"O papá está muito doente", escreveu Alicia; "não perigosamente doente, graças a Deus; mas confinado ao seu quarto por um ataque de febre baixa que sucedeu a uma constipação violenta. Vem ver-nos, Robert, se tens algum apreço pelos teus parentes mais próximos. Ele tem falado de ti várias vezes; e sei que ficará contente por te ter com ele. Vem imediatamente, mas não digas nada sobre esta carta.

"Da tua afetuosa prima, ALICIA."

Um terror doentio e mortal arrefeceu o coração de Robert Audley, enquanto lia esta carta — um medo vago, porém hediondo, que ele não ousava moldar em qualquer forma definida.

"Fiz bem?", pensou, na primeira agonia deste novo horror — "fiz bem em adulterar a justiça; e em manter o segredo das minhas dúvidas na esperança de que estava a proteger aqueles que amo da tristeza e da desgraça? O que farei se o encontrar doente, muito doente, moribundo talvez, morrendo no seu peito! O que farei?"

Um curso de ação apresentava-se claro diante dele; e o primeiro passo desse curso era uma viagem rápida para Audley Court. Fez a sua mala, saltou para um táxi e chegou à estação ferroviária no espaço de uma hora após a receção da carta de Alicia, que tinha chegado pelo correio da tarde.

As luzes ténues da aldeia cintilavam fracamente através do crepúsculo crescente quando Robert chegou a Audley. Deixou a sua mala com o chefe da estação e caminhou a um passo vagaroso através das estradas tranquilas que levavam à solidão silenciosa do Court. As árvores arqueadas estendiam os seus ramos sem folhas acima da sua cabeça, nus e estranhos na luz crepuscular. Um vento baixo e gemedor varria as terras planas dos prados e atirava esses ramos rugosos de um lado para o outro contra o céu cinzento escuro. Pareciam os braços fantasmagóricos de gigantes encolhidos e mirrados, chamando Robert para a casa do seu tio. Pareciam fantasmas ameaçadores no frio crepúsculo de inverno, gesticulando para que ele se apressasse na sua jornada. A longa avenida, tão brilhante e agradável quando as tílias perfumadas espalhavam a sua flor leve pelo caminho, e as pétalas da rosa brava flutuavam no ar de verão, era terrivelmente sombria e desolada no interlúdio frio que divide as alegrias familiares do Natal do pálido rubor da primavera que se aproxima — uma pausa morta no ano, na qual a Natureza parece repousar num sono de transe, aguardando o sinal maravilhoso para o desabrochar da flor.

Um pressentimento lúgubre rastejou até ao coração de Robert Audley à medida que se aproximava da casa do tio. Cada contorno mutável na paisagem ser-lhe-ia familiar; cada curva das árvores; cada capricho dos ramos desenfreados; cada ondulação na sebe nua de espinheiro-alvar, interrompida por castanheiros-da-índia anões, salgueiros atarracados, silvas e aveleiras.

Sir Michael fora um segundo pai para o jovem, um amigo generoso e nobre, um conselheiro grave e sério; e talvez o sentimento mais forte no coração de Robert fosse o seu amor pelo barão de barba grisalha. Mas a afeição grata era tanto uma parte de si mesmo, que raramente encontrava um desaguadouro em palavras, e um estranho nunca teria sondado a profundidade do sentimento que jazia, uma corrente profunda e poderosa, sob a superfície estagnada do carácter do advogado.

"O que seria deste lugar se o meu tio morresse?", pensou ele, e aproximou-se do arco coberto de hera, e das águas paradas, friamente cinzentas no crepúsculo. "Viveriam outras pessoas na casa antiga, e sentar-se-iam sob os tetos baixos de carvalho nos quartos familiares e acolhedores?"

Aquela maravilhosa faculdade de associação, tão entrelaçada com as fibras mais íntimas até da natureza mais dura, encheu o peito do jovem com uma dor profética ao lembrar-se de que, por mais longe ou tarde que fosse, o dia teria de chegar em que as portadas de carvalho seriam fechadas por algum tempo, e o sol excluído da casa que ele amava. Era-lhe doloroso até lembrar-se disto; como deve ser sempre doloroso pensar no curto arrendamento que os maiores sobre esta terra podem alguma vez ter das suas grandezas. Será tão maravilhoso que alguns viajantes adormeçam sob as sebes, quase sem se importarem de labutar para a frente numa jornada que não conduz a nenhuma habitação duradoura? É de admirar que tenha havido quietistas no mundo desde que a religião de Cristo foi pregada pela primeira vez na terra? É estranho que exista uma paciência resistente e uma resignação tranquila, uma calma expetativa daquilo que está por vir na outra margem do rio de fluxo sombrio? Não será antes de admirar que alguém se importe de ser grande pelo amor à grandeza; por qualquer outra razão que não a pura consciência; a simples fidelidade do servo que teme guardar os seus talentos num guardanapo, sabendo que a indiferença é próxima da desonestidade? Se Robert Audley tivesse vivido no tempo de Thomas à Kempis, muito provavelmente ter-se-ia construído um eremitério estreito no meio de alguma solidão florestal, e passado a sua vida na imitação tranquila do reputado autor de A Imitação. Como as coisas eram, Figtree Court era um eremitério agradável à sua maneira, e, por breviários e Livros de Horas, envergonha-me dizer que o jovem advogado substituía por Paul de Kock e Dumas, fils. Mas os seus pecados eram de uma ordem tão simplesmente negativa, que teria sido muito fácil para ele abandoná-los por virtudes negativas.

Apenas uma luz solitária era visível na longa e irregular fila de janelas de frente para o arco, enquanto Robert passava sob a sombra sombria da hera farfalhante, inquieta no frio gemido do vento. Reconheceu aquela janela iluminada como o grande oriel no quarto do seu tio. Quando olhara pela última vez para a casa antiga, ela estivera alegre com visitantes, cada janela brilhando como uma estrela baixa no crepúsculo; agora, escura e silenciosa, encarava a noite de inverno como uma lúgubre habitação senhorial, profunda numa solidão florestal.

O homem que abriu a porta ao visitante inesperado iluminou-se ao reconhecer o sobrinho do seu patrão.

"Sir Michael ficará um pouco animado, senhor, com a sua visão", disse ele, enquanto guiava Robert Audley para a biblioteca iluminada pelo fogo, que parecia desolada pela razão da poltrona do barão estar vazia no amplo tapete da lareira. "Quer que lhe traga algum jantar aqui, senhor, antes de subir?", perguntou o criado. "A minha senhora e a Srta. Audley têm jantado cedo durante a doença do meu patrão, mas posso trazer-lhe tudo o que desejar, senhor."

"Não comerei nada até ter visto o meu tio", respondeu Robert, apressadamente; "isto é, se puder vê-lo imediatamente. Ele não está demasiado doente para me receber, suponho?", acrescentou, ansiosamente.

"Oh, não, senhor — não demasiado doente; apenas um pouco em baixo, senhor. Por aqui, se faz favor."

Ele conduziu Robert pela curta escadaria de degraus rasos de carvalho até à câmara octogonal em que George Talboys se sentara cinco meses antes, olhando distraidamente para o retrato da minha senhora. O quadro estava terminado agora, e pendurado no lugar de honra oposto à janela, entre Claudes, Poussins e Wouvermans, cujos tons menos brilhantes eram mortos pelo colorido vívido do artista moderno. O rosto brilhante olhava para fora daquele brilho emaranhado de cabelos dourados, em que os pré-rafaelitas se deleitam, com um sorriso trocista, enquanto Robert parava por um momento para olhar para o quadro bem lembrado. Dois ou três momentos depois, ele tinha passado pelo boudoir e pelo quarto de vestir da minha senhora e estava no limiar do quarto de Sir Michael. O barão jazia num sono tranquilo, com o braço estendido para fora da cama e a mão forte apertada nos dedos delicados da sua jovem esposa. Alicia sentava-se numa cadeira baixa ao lado da ampla lareira aberta, na qual os enormes troncos ardiam ferozmente na atmosfera gelada. O interior deste luxuoso quarto de dormir poderia ter feito um quadro marcante para o lápis de um artista. O mobiliário maciço, escuro e sombrio, mas quebrado e aliviado aqui e ali por pedaços de dourado e massas de cor brilhante; a elegância de cada detalhe, em que a riqueza era subordinada à pureza de gosto; e, por último, o mais importante, as figuras graciosas das duas mulheres e a forma nobre do velho teriam formado um estudo digno para qualquer pintor.

Lucy Audley, com o seu cabelo desarrumado numa névoa pálida de ouro amarelo em torno do seu rosto pensativo, as linhas fluidas do seu suave roupão de musselina caindo em dobras retas até aos pés, e apertado na cintura por um estreito círculo de elos de ágata, poderia ter servido de modelo para uma santa medieval, numa das pequenas capelas escondidas nos recantos de uma catedral cinzenta e antiga, inalterada pela Reforma ou por Cromwell; e que mártir santo da Idade Média poderia ter tido um aspeto mais sagrado do que o homem cuja barba grisalha jazia sobre a colcha de seda escura da imponente cama?

Robert parou no limiar, com medo de acordar o seu tio. As duas senhoras tinham ouvido o seu passo, cauteloso embora tivesse sido, e levantaram as cabeças para olhar para ele. O rosto da minha senhora, vigiando silenciosamente o doente, trazia uma seriedade ansiosa que o tornava apenas mais belo; mas o mesmo rosto, ao reconhecer Robert Audley, desvaneceu da sua delicada luminosidade, e parecia assustado e pálido à luz da lâmpada.

"Sr. Audley!", exclamou ela, com uma voz fraca e trémula.

"Silêncio!", sussurrou Alicia, com um gesto de aviso; "vai acordar o papá. Que bom da sua parte vir, Robert", acrescentou ela, nos mesmos tons sussurrados, fazendo sinal ao primo para ocupar uma cadeira vazia perto da cama.

O jovem sentou-se no lugar indicado ao fundo da cama, e oposto à minha senhora, que se sentava perto das almofadas. Olhou longa e seriamente para o rosto do adormecido; ainda mais tempo, ainda mais seriamente para o rosto de Lady Audley, que recuperava lentamente as suas tonalidades naturais.

"Ele não tem estado muito doente, pois não?", perguntou Robert, no mesmo tom em que Alicia falara.

A minha senhora respondeu à pergunta.

"Oh, não, não perigosamente doente", disse ela, sem desviar os olhos do rosto do marido; "mas, ainda assim, temos estado ansiosos, muito, muito ansiosos."

Robert nunca relaxou o seu escrutínio daquele rosto pálido.

"Ela há de olhar para mim", pensou ele; "vou fazê-la encontrar os meus olhos, e vou lê-la como a li antes. Ela saberá quão inúteis são os seus artifícios comigo."

Ele fez uma pausa de alguns minutos antes de falar novamente. A respiração regular do adormecido, o tiquetaque de um relógio de bolso de ouro à cabeceira da cama e o crepitar dos troncos a arder eram os únicos sons que quebravam a quietude.

"Não tenho dúvidas de que tem estado ansiosa, Lady Audley", disse Robert, após uma pausa, fixando os olhos da minha senhora enquanto eles vagueavam furtivamente para o seu rosto. "Não há ninguém para quem a vida do meu tio possa ser de maior valor do que para si. A sua felicidade, a sua prosperidade, a sua segurança dependem todas da existência dele."

O sussurro em que proferiu estas palavras era demasiado baixo para chegar ao outro lado da sala, onde Alicia estava sentada.

Os olhos de Lucy Audley encontraram os do orador com algum brilho de triunfo na sua luz.

"Eu sei disso", disse ela. "Aqueles que me atingem devem atingir através dele."

Ela apontou para o adormecido enquanto falava, ainda olhando para Robert Audley. Ela desafiou-o com os seus olhos azuis, o seu brilho intensificado pelo triunfo no seu olhar. Desafiou-o com o seu sorriso silencioso — um sorriso de beleza fatal, cheio de significado latente e sentido misterioso — o sorriso que o artista exagerara no seu retrato da esposa de Sir Michael.

Robert desviou-se do rosto adorável e cobriu os olhos com a mão; colocando uma barreira entre a minha senhora e ele próprio; um biombo que frustrava a sua penetração e provocava a sua curiosidade. Estaria ele ainda a observá-la ou estaria a pensar? E no que estaria ele a pensar?

Robert esteve sentado à beira da cama durante mais de uma hora antes de o seu tio acordar. O barão ficou encantado com a vinda do seu sobrinho.

"Foi muito bom da tua parte vires ver-me, Bob", disse ele. "Tenho pensado muito em ti desde que estive doente. Tu e a Lucy devem ser bons amigos, sabes, Bob; e deves aprender a pensar nela como a tua tia, senhor; embora ela seja jovem e bela; e — e — tu entendes, eh?"

Robert apertou a mão do seu tio, mas olhou para baixo enquanto respondia: "Eu entendo-o, senhor", disse ele, calmamente; "e dou-lhe a minha palavra de honra de que estou blindado contra os encantos da minha senhora. Ela sabe isso tão bem quanto eu."

Lucy Audley fez uma pequena careta com os seus lábios bonitos. "Bah, seu Robert tonto", exclamou ela; "tu levas tudo au sérieux. Se eu pensei que eras um pouco demasiado jovem para um sobrinho, foi apenas pelo meu medo da mexeriquice tola das outras pessoas; não por qualquer —"

Ela hesitou por um momento, e escapou a qualquer conclusão para a sua frase pela intervenção oportuna do Sr. Dawson, o seu antigo empregador, que entrou no quarto para a sua visita noturna enquanto ela falava.

Ele sentiu o pulso do paciente; fez duas ou três perguntas; pronunciou que o barão estava a melhorar constantemente; trocou algumas observações triviais com Alicia e Lady Audley, e preparou-se para sair do quarto. Robert levantou-se e acompanhou-o até à porta.

"Vou iluminar-lhe a escadaria", disse ele, pegando numa vela de uma das mesas e acendendo-a na lâmpada.

"Não, não, Sr. Audley, por favor, não se incomode", protestou o cirurgião; "conheço muito bem o caminho, de facto."

Robert insistiu, e os dois homens saíram juntos do quarto. Ao entrarem na antecâmara octogonal, o advogado parou e fechou a porta atrás de si.

"Quer ver que a porta está fechada, Sr. Dawson?", disse ele, apontando para a que dava para a escadaria. "Desejo ter alguns momentos de conversa privada consigo."

"Com muito prazer", respondeu o cirurgião, cumprindo o pedido de Robert; "mas se está de todo alarmado quanto ao seu tio, Sr. Audley, posso tranquilizá-lo. Não há motivo para a menor inquietação. Se a sua doença tivesse sido de todo grave, eu teria telegrafado imediatamente para o médico da família."

"Tenho a certeza de que teria cumprido o seu dever, senhor", respondeu Robert, gravemente. "Mas não vou falar do meu tio. Desejo fazer-lhe duas ou três perguntas sobre outra pessoa."

"De facto."

"A pessoa que viveu outrora na sua família como Srta. Lucy Graham; a pessoa que é agora Lady Audley."

O Sr. Dawson olhou para cima com uma expressão de surpresa no seu rosto tranquilo.

"Perdoe-me, Sr. Audley", respondeu ele; "dificilmente pode esperar que eu responda a quaisquer perguntas sobre a esposa do seu tio sem a permissão expressa de Sir Michael. Não consigo compreender qualquer motivo que o possa levar a fazer tais perguntas — nenhum motivo digno, pelo menos." Ele olhou severamente para o jovem, como se dissesse: "O senhor apaixonou-se pela bela esposa do seu tio, e quer fazer-me de intermediário num flirt traiçoeiro; mas não vai resultar, senhor, não vai resultar."

"Sempre respeitei a senhora como Srta. Graham, senhor", disse ele, "e estimo-a duplamente como Lady Audley — não devido à sua posição alterada, mas porque ela é a esposa de um dos homens mais nobres da cristandade."

"Não pode respeitar o meu tio ou a honra do meu tio mais sinceramente do que eu", respondeu Robert. "Não tenho nenhum motivo indigno para as perguntas que estou prestes a fazer; e o senhor deve respondê-las."

"Deve!", ecoou o Sr. Dawson, indignado.

"Sim, o senhor é amigo do meu tio. Foi em sua casa que ele conheceu a mulher que é agora a sua esposa. Ela chamava-se órfã, creio eu, e angariou a piedade dele, bem como a sua admiração, em seu favor. Ela disse-lhe que estava sozinha no mundo, não disse? — sem um amigo ou parente. Foi tudo o que alguma vez consegui saber sobre os seus antecedentes."

"Que razão tem para desejar saber mais?", perguntou o cirurgião.

"Uma razão muito terrível", respondeu Robert Audley. "Nos últimos meses lutei contra dúvidas e suspeitas que amargaram a minha vida. Cresceram todos os dias; e não serão postas de parte pelas sofismas triviais e pelos argumentos superficiais com que os homens tentam enganar-se a si mesmos em vez de acreditar naquilo que, de todas as coisas sobre a terra, mais temem acreditar. Não penso que a mulher que ostenta o nome do meu tio seja digna de ser a sua esposa. Posso estar enganado a seu respeito. O Céu permita que seja assim. Mas se estiver, a corrente fatal de evidência circunstancial nunca se ligou tão estreitamente em torno de uma pessoa inocente. Desejo pôr as minhas dúvidas de parte ou — ou confirmar os meus receios. Só há uma maneira de o fazer. Devo seguir a vida da esposa do meu tio para trás, minuciosamente e cuidadosamente, desde esta noite até um período de seis anos atrás. Hoje é vinte e quatro de fevereiro de cinquenta e nove. Quero saber cada registo da sua vida entre hoje à noite e o fevereiro do ano cinquenta e três."

"E o seu motivo é digno?"

"Sim, desejo limpá-la de uma suspeita muito terrível."

"Que existe apenas na sua mente?"

"E na mente de outra pessoa."

"Posso perguntar quem é essa pessoa?"

"Não, Sr. Dawson", respondeu Robert, decisivamente; "não posso revelar mais nada do que aquilo que já lhe disse. Sou um homem muito irresoluto e vacilante na maioria das coisas. Nesta matéria, sinto-me obrigado a ser decidido. Repito mais uma vez que tenho de saber a história da vida de Lucy Graham. Se se recusar a ajudar-me na pequena medida que está ao seu alcance, encontrarei outros que me ajudarão. Por mais doloroso que se torne, pedirei ao meu tio a informação que o senhor me quer reter, em vez de ser frustrado no primeiro passo da minha investigação."

O Sr. Dawson ficou em silêncio durante alguns minutos.

"Não consigo expressar o quanto me espantou e alarmou, Sr. Audley", disse ele. "Posso dizer-lhe tão pouco sobre os antecedentes de Lady Audley, que seria mera obstinação reter a pequena quantidade de informação que possuo. Sempre considerei a esposa do seu tio uma das mulheres mais amáveis. Não consigo levar-me a pensar nela de outra forma. Seria o desenraizamento de uma das convicções mais fortes da minha vida se fosse forçado a pensar nela de outra forma. Deseja seguir a vida dela para trás, desde a hora presente até ao ano cinquenta e três?"

"Desejo."

"Ela casou com o seu tio em junho do ano passado, no solstício de verão de cinquenta e sete. Ela tinha vivido em minha casa pouco mais de treze meses. Tornou-se um membro do meu agregado familiar a catorze de maio do ano cinquenta e seis."

"E veio até si —"

"De uma escola em Brompton, uma escola dirigida por uma senhora chamada Vincent. Foi a forte recomendação da Sra. Vincent que me induziu a receber a Srta. Graham na minha família sem qualquer conhecimento mais especial dos seus antecedentes."

"Vi essa Sra. Vincent?"

"Não vi. Pus um anúncio para uma governanta, e a Srta. Graham respondeu ao meu anúncio. Na sua carta, ela referiu-me à Sra. Vincent, a proprietária de uma escola em que ela residia então como professora júnior. O meu tempo está sempre tão plenamente ocupado que fiquei contente por escapar à necessidade de perder um dia indo de Audley a Londres para inquirir sobre as qualificações da jovem. Procurei o nome da Sra. Vincent na lista telefónica, encontrei-o, concluí que era uma pessoa responsável e escrevi-lhe. A sua resposta foi perfeitamente satisfatória; — a Srta. Lucy Graham era assídua e conscienciosa; bem como plenamente qualificada para a situação que ofereci. Aceitei esta referência, e não tive motivos para lamentar o que pode ter sido uma indiscrição. E agora, Sr. Audley, disse-lhe tudo o que tenho o poder de dizer."

"Seria tão amável ao dar-me a morada desta Sra. Vincent?", perguntou Robert, tirando o seu caderno.

"Certamente; ela vivia então no n.º 9 Crescent Villas, Brompton."

"Ah, certamente", murmurou o Sr. Audley, uma lembrança do passado mês de setembro relampejando subitamente de volta para ele enquanto o cirurgião falava.

"Crescent Villas — sim, já ouvi essa morada antes da própria Lady Audley. Esta Sra. Vincent telegrafou para a esposa do meu tio no início do passado mês de setembro. Ela estava doente — a morrer, creio eu — e chamou a minha senhora; mas ela tinha-se mudado da sua casa antiga e não foi encontrada."

"De facto! Nunca ouvi Lady Audley mencionar esse facto."

"Talvez não. Ocorreu enquanto eu estava aqui em baixo. Obrigado, Sr. Dawson, pela informação que tão amável e honestamente me deu. Leva-me dois anos e meio atrás na história da vida da minha senhora; mas ainda tenho um vazio de três anos para preencher antes de a poder exonerar da minha terrível suspeita. Boa noite."

Robert apertou a mão ao cirurgião e regressou ao quarto do seu tio. Tinha estado ausente cerca de um quarto de hora. Sir Michael tinha adormecido mais uma vez, e as mãos amorosas da minha senhora tinham descido as cortinas pesadas e sombreado a lâmpada à cabeceira da cama. Alicia e a esposa do seu pai tomavam chá no boudoir de Lady Audley, a sala ao lado da antecâmara em que Robert e o Sr. Dawson tinham estado sentados.

Robert viu Lucy Audley levantar os olhos da sua ocupação entre as frágeis chávenas de porcelana e observou Robert com certa ansiedade enquanto ele caminhava suavemente até ao quarto do seu tio e voltava ao boudoir. Ela parecia muito bonita e inocente, sentada atrás do gracioso grupo de delicada porcelana opala e prata cintilante. Certamente uma mulher bonita nunca parece mais bonita do que quando prepara o chá. A mais feminina e doméstica de todas as ocupações confere uma harmonia mágica a cada movimento seu, um sortilégio a cada olhar. As névoas flutuantes do líquido a ferver, no qual ela infunde as ervas calmantes cujos segredos só ela conhece, envolvem-na numa nuvem de vapor perfumado, através da qual ela parece uma fada social, tecendo feitiços potentes com Gunpowder e Bohea. À mesa do chá, ela reina omnipotente, inalcançável. O que sabem os homens desta misteriosa bebida? Leiam como o pobre Hazlitt preparava o seu chá e estremeçam perante tal terrível barbarismo. Como as desditosas criaturas tentam desajeitadamente ajudar a bruxa presidente do tabuleiro de chá; como seguram o bule de forma desesperada, como põem continuamente em perigo as frágeis chávenas e pires, ou as mãos afiladas da sacerdotisa. Acabar com a mesa de chá é roubar à mulher o seu legítimo império. Enviar um par de homens desajeitados entre os vossos convidados, a distribuir uma mistura feita na copa da governanta, é reduzir a mais social e amigável das cerimónias a uma formal distribuição de rações. Mais vale a bela influência das chávenas e pires graciosamente manejados pela mão de uma mulher do que todo o poder inapropriado arrebatado à ponta da pena ao relutante sexo forte. Imaginem todas as mulheres de Inglaterra elevadas ao alto nível da intelectualidade masculina, superiores à crinolina; acima do pó de pérola e da Sra. Rachael Levison; acima do trabalho de serem bonitas; acima das mesas de chá e daquele mexerico cruelmente escandaloso e algo satírico em que até os homens fortes se deleitam; e que vida lúgubre, utilitária e feia o sexo forte deve levar.

A minha senhora não era de modo algum de espírito forte. Os diamantes cintilantes nos seus dedos brancos brilhavam aqui e ali entre os utensílios de chá, e ela inclinou a sua bela cabeça sobre a maravilhosa caixa de chá indiana de sândalo e prata, com tanta seriedade como se a vida não contivesse objetivo maior do que a infusão de Bohea.

— Tomará uma chávena de chá connosco, Sr. Audley? — perguntou ela, fazendo uma pausa com o bule na mão para olhar para Robert, que estava perto da porta.

— Se faz favor.

— Mas talvez ainda não tenha jantado? Devo tocar e dizer-lhes que lhe tragam algo um pouco mais substancial do que biscoitos e pão com manteiga transparente?

— Não, obrigado, Lady Audley. Almocei antes de sair da cidade. Não a incomodarei com nada que não seja uma chávena de chá.

Ele sentou-se à pequena mesa e olhou através dela para a sua prima Alicia, que estava sentada com um livro no colo e tinha o ar de estar muito absorvida pelas suas páginas. A tez morena e brilhante perdera o seu carmesim resplandecente, e a animação do modo de ser da jovem estava suprimida — devido à doença do seu pai, sem dúvida, pensou Robert.

— Alicia, minha querida — disse o advogado, após uma contemplação muito pausada da sua prima —, não tens um aspeto saudável.

A Srta. Audley encolheu os ombros, mas não se dignou a levantar os olhos do seu livro.

— Talvez não — respondeu ela, com desprezo. — Que importa? Estou a tornar-me uma filósofa da tua escola, Robert Audley. Que importa? Quem quer saber se estou bem ou mal?

— Que cuspidora ela é — pensou o advogado. Ele sabia sempre que a sua prima estava zangada com ele quando ela o tratava por "Robert Audley".

— Não precisas de atacar um tipo só porque ele te faz uma pergunta educada, Alicia — disse ele, com ar de censura. — Quanto a ninguém se importar com a tua saúde, isso é um disparate. Eu importo-me. — A Srta. Audley olhou para cima com um sorriso brilhante. — O Sr. Harry Towers importa-se. — A Srta. Audley voltou ao seu livro com uma carranca.

— O que estás a ler aí, Alicia? — perguntou Robert, após uma pausa, durante a qual estivera sentado a mexer pensativamente o seu chá.

— Changes and Chances.

— Um romance?

— Sim.

— De quem é?

— Do autor de Follies and Faults — respondeu Alicia, continuando o seu estudo do romance no colo.

— É interessante?

A Srta. Audley franziu a boca e encolheu os ombros.

— Não particularmente — disse ela.

— Então penso que poderias ter melhores modos do que lê-lo enquanto o teu primo coirmão está sentado à tua frente — observou o Sr. Audley, com alguma gravidade —, especialmente porque ele só veio fazer-te uma visita rápida e partirá amanhã de manhã.

— Amanhã de manhã! — exclamou a minha senhora, olhando subitamente para cima.

Embora o olhar de alegria no rosto de Lady Audley fosse tão breve como um relâmpago num céu de verão, não passou despercebido a Robert.

— Sim — disse ele; — serei obrigado a ir a Londres amanhã por negócios, mas voltarei no dia seguinte, se me permitir, Lady Audley, e ficarei aqui até que o meu tio recupere.

— Mas não está seriamente alarmado com ele, pois não? — perguntou a minha senhora, ansiosamente.

— Não o acha muito doente?

— Não — respondeu Robert. — Graças ao céu, penso que não há o menor motivo para apreensão.

A minha senhora sentou-se em silêncio por alguns momentos, olhando para as chávenas de chá vazias com um rosto agradavelmente pensativo — um rosto grave com a inocente seriedade de uma criança a devanear.

— Mas esteve fechado tanto tempo com o Sr. Dawson, agora mesmo — disse ela, após esta breve pausa. — Fiquei bastante alarmada com a duração da vossa conversa. Estiveram a falar do Sir Michael todo esse tempo?

— Não; não todo esse tempo.

A minha senhora olhou novamente para as chávenas de chá.

— Ora, o que poderia encontrar para dizer ao Sr. Dawson, ou ele a si? — perguntou ela, após outra pausa. — São quase estranhos um para o outro.

— Suponha que o Sr. Dawson desejava consultar-me sobre algum assunto jurídico.

— Foi isso? — exclamou Lady Audley, ansiosamente.

— Seria pouco profissional da minha parte dizer-lhe se o fosse, minha senhora — respondeu Robert, gravemente.

A minha senhora mordeu o lábio e recaiu no silêncio. Alicia atirou o livro para o lado e observou o rosto preocupado do seu primo. Ele falava com ela de vez em quando por alguns minutos, mas era evidentemente um esforço para ele despertar do seu devaneio.

— Pela minha palavra, Robert Audley, és um companheiro muito agradável — exclamou finalmente Alicia, com o seu stock algo limitado de paciência completamente esgotado por duas ou três destas tentativas abortadas de conversa. — Talvez da próxima vez que vires ao Court sejas tão gentil a ponto de trazer a tua mente contigo. Pelo teu aspeto inanimado atual, diria que deixaste o teu intelecto, tal como ele é, algures no Temple. Nunca foste uma das pessoas mais vivazes, mas ultimamente tornaste-te quase insuportável. Suponho que estás apaixonado, Sr. Audley, e estás a pensar no honrado objeto das tuas afeições.

Ele estava a pensar no rosto erguido de Clara Talboys, sublime na sua dor inefável; nas suas palavras apaixonadas que ainda ecoavam nos seus ouvidos tão claramente como quando foram ditas pela primeira vez. Viu-a novamente a olhar para ele com os seus olhos castanhos brilhantes. Ouviu novamente aquela pergunta solene: "Irás tu ou eu encontrar o assassino do meu irmão?" E ele estava em Essex; na pequena aldeia da qual ele acreditava firmemente que George Talboys nunca tinha partido. Ele estava no local onde todo o registo da vida do seu amigo terminava tão subitamente como uma história termina quando o leitor fecha o livro. E poderia ele retirar-se agora da investigação na qual se encontrava envolvido? Poderia ele parar agora? Por qualquer consideração? Não; mil vezes não! Não com a imagem daquele rosto consumido pela dor impresso na sua mente. Não com os acentos daquele apelo fervoroso a ecoar no seu ouvido.

CAPÍTULO XXVI.

ATÉ AQUI E NÃO MAIS.

Robert deixou Audley na manhã seguinte num comboio matinal e chegou a Shoreditch pouco depois das nove horas. Não voltou para as suas câmaras, mas chamou um táxi e dirigiu-se diretamente para Crescent Villas, West Brompton. Ele sabia que não conseguiria encontrar a senhora que ia procurar neste endereço, tal como o seu tio não conseguira alguns meses antes, mas pensou ser possível obter alguma pista sobre a nova residência da professora, apesar do insucesso de Sir Michael.

— A Sra. Vincent estava em estado terminal, de acordo com a mensagem telegráfica — pensou Robert. — Se a encontrar, conseguirei pelo menos descobrir se essa mensagem era genuína.

Encontrou Crescent Villas após alguma dificuldade. As casas eram grandes, mas estavam meio incrustadas entre o caos de tijolo e argamassa em ascensão ao seu redor. Novos terraços, novas ruas, novas praças conduziam a massas desesperantes de pedra e gesso por todos os lados. As estradas estavam pegajosas com a argila húmida, que entupia as rodas do táxi e enterrava os metacarpos do cavalo. As desolações — aquele aspeto terrível de incompletude e desconforto que permeia um bairro novo e inacabado — tinham colocado o seu selo sombrio nas ruas circundantes que tinham surgido à volta e entrincheirado Crescent Villas; e Robert desperdiçou quarenta minutos pelo seu relógio, e uma hora e um quarto pelas contas do cocheiro, a conduzir para cima e para baixo em ruas e terraços desabitados, tentando encontrar as Villas; cujos topos das chaminés franziam o sobrolho para ele, negros e veneráveis, entre bosques de gesso virgem, não obscurecidos pelo tempo ou pelo fumo.

Mas tendo finalmente conseguido chegar ao seu destino, o Sr. Audley saiu do táxi, ordenou ao cocheiro que o esperasse numa esquina e partiu na sua viagem de descoberta.

— Se eu fosse um distinto Q.C., não poderia fazer este tipo de coisas — pensou ele; — o meu tempo valeria uma guinéu ou que fosse por minuto, e estaria contratado para o grande caso de Hoggs vs. Boggs, que decorre hoje mesmo perante um júri especial em Westminster Hall. Tal como estão as coisas, posso dar-me ao luxo de ser paciente.

Perguntou pela Sra. Vincent no número que o Sr. Dawson lhe dera. A criada que abriu a porta nunca ouvira o nome daquela senhora; mas após ir perguntar à sua patroa, voltou para dizer a Robert que a Sra. Vincent vivera ali, mas que saíra dois meses antes de os atuais ocupantes terem entrado na casa, "e a patroa está aqui há quinze meses", acrescentou a rapariga enfaticamente.

— Mas não me pode dizer para onde ela foi ao sair daqui? — perguntou Robert, desalentado.

— Não, senhor; a patroa diz que acredita que a senhora faliu, e que ela saiu assim de repente e não queria que o seu endereço fosse conhecido na vizinhança.

O Sr. Audley sentiu-se novamente num impasse. Se a Sra. Vincent tinha deixado o local com dívidas, sem dúvida que ocultara escrupulosamente o seu paradeiro. Havia pouca esperança, então, de saber o seu endereço através dos comerciantes; e, por outro lado, era possível que alguns dos seus credores mais astutos tivessem feito questão de descobrir o refúgio da devedora.

Olhou ao seu redor à procura das lojas mais próximas e encontrou uma padaria, uma papelaria e uma frutaria a poucos passos do Crescent. Três lojas pretensiosas e de aspeto vazio, com janelas de vidro e um ar irremediável de fidalguia.

Parou na padaria, que se autodenominava pastelaria e confeitaria, e exibia alguns exemplares de pão-de-ló petrificado em garrafas de vidro, e algumas tartes muito vidradas, cobertas com gaze verde.

— Ela deve ter comprado pão — pensou Robert, enquanto ponderava diante da padaria; — e é provável que o tenha comprado no local mais acessível. Vou tentar a padaria.

O padeiro estava atrás do seu balcão, a discutir os itens de uma conta com uma jovem de aspeto pobretão-fidalgueiro. Não se deu ao trabalho de atender Robert Audley até ter resolvido a disputa, mas olhou para cima enquanto passava o recibo da conta e perguntou ao advogado o que desejava.

— Pode dar-me o endereço de uma Sra. Vincent, que viveu no n.º 9 Crescent Villas há um ano e meio? — perguntou o Sr. Audley, suavemente.

— Não, não posso — respondeu o padeiro, ficando com o rosto muito vermelho e falando num tom de voz desnecessariamente alto; — e, além disso, oxalá pudesse. Essa senhora deve-me mais de onze libras por pão, e é um pouco mais do que posso dar-me ao luxo de perder. Se alguém me puder dizer onde ela vive, ficarei muito grato por isso.

Robert Audley encolheu os ombros e desejou ao homem um bom dia. Sentiu que a descoberta do paradeiro da senhora envolveria mais trabalho do que esperava. Poderia ter procurado o nome da Sra. Vincent no diretório dos Correios, mas pensou ser pouco provável que uma senhora que estava em termos tão desconfortáveis com os seus credores lhes proporcionasse um meio tão fácil de averiguar a sua residência.

— Se o padeiro não a consegue encontrar, como hei de eu encontrá-la? — pensou ele, desesperado. — Se uma criatura resoluta, otimista, ativa e enérgica, como o padeiro, falha em concretizar este negócio, como pode um miserável linfático como eu esperar realizá-lo? Onde o padeiro foi derrotado, que tolice absurda seria eu tentar ter sucesso.

O Sr. Audley entregou-se a estas reflexões sombrias enquanto caminhava lentamente de volta para a esquina onde deixara o táxi. A meio caminho entre a padaria e esta esquina, foi detido ao ouvir o passo de uma mulher perto de si e a voz de uma mulher a pedir-lhe para parar. Voltou-se e viu-se frente a frente com a mulher vestida de forma descuidada que deixara a saldar a sua conta com o padeiro.

— Eh, quê? — perguntou ele, vagamente. — Posso fazer alguma coisa por si, minha senhora? A Sra. Vincent também lhe deve dinheiro?

— Sim, senhor — respondeu a mulher, com um modo de ser semi-fidalgo que correspondia à elegância decadente do seu vestido. — A Sra. Vincent está em dívida comigo; mas não é isso, senhor. Eu — eu quero saber, por favor, qual pode ser o seu negócio com ela — porque — porque —

— Pode dar-me o seu endereço se quiser, minha senhora. É isso que quer dizer, não é?

A mulher hesitou um pouco, olhando com certa suspeita para Robert.

— O senhor não está ligado ao — ao negócio das prestações, pois não, senhor? — perguntou ela, após considerar o aspeto pessoal do Sr. Audley por alguns momentos.

— Ao quê, minha senhora? — perguntou o jovem advogado, olhando horrorizado para a sua interlocutora.

— Tenho a certeza de que lhe peço perdão, senhor — exclamou a pequena mulher, vendo que cometera algum erro terrível. — Pensei que pudesse estar, sabe. Alguns dos senhores que cobram para as lojas de prestações vestem-se tão bem; e sei que a Sra. Vincent deve muito dinheiro.

Robert Audley pousou a mão no braço da mulher.

— Minha querida senhora — disse ele —, não quero saber nada dos assuntos da Sra. Vincent. Longe de estar preocupado com o que chama de negócio das prestações, não tenho a menor ideia do que quer dizer com essa expressão. Pode estar a referir-se a uma conspiração política; pode estar a referir-se a algum novo tipo de impostos. A Sra. Vincent não me deve dinheiro, por muito mal que ela esteja com aquele padeiro de aspeto terrível. Nunca a vi na minha vida; mas desejo vê-la hoje com o simples propósito de lhe fazer algumas perguntas muito diretas sobre uma jovem que residiu outrora na sua casa. Se sabe onde vive a Sra. Vincent e me der o seu endereço, far-me-á um grande favor.

Tirou a sua carteira de cartões e entregou um cartão à mulher, que examinou o pedaço de cartão ansiosamente antes de voltar a falar.

— Tenho a certeza de que parece e fala como um cavalheiro, senhor — disse ela, após uma breve pausa —, e espero que me desculpe se pareci desconfiada; mas a pobre Sra. Vincent teve dificuldades terríveis, e eu sou a única pessoa por aqui a quem ela confiou os seus endereços. Sou costureira, senhor, e trabalho para ela há mais de seis anos, e embora ela não me pague regularmente, sabe, senhor, ela dá-me algum dinheiro por conta de vez em quando, e eu vou sobrevivendo o melhor que posso. Posso dizer-lhe onde ela vive, então, senhor? O senhor não me enganou, pois não?

— Pela minha honra, não.

— Bem, então senhor — disse a costureira, baixando a voz como se pensasse que a calçada sob os seus pés, ou as grades de ferro diante das casas ao seu lado, pudessem ter ouvidos para a ouvir —, é Acacia Cottage, Peckham Grove. Levei lá um vestido ontem para a Sra. Vincent.

— Obrigado — disse Robert, anotando o endereço no seu bloco de notas. — Estou-lhe muito grato e pode estar certa de que a Sra. Vincent não sofrerá qualquer inconveniente por minha causa.

Levantou o chapéu, fez uma vénia à pequena costureira e voltou para o táxi.

— Superei o padeiro, de qualquer forma — pensou ele. — Agora para a segunda etapa, viajando para trás, na vida da minha senhora.

A viagem de Brompton para Peckham Road foi muito longa e, entre Crescent Villas e Acacia Cottage, Robert Audley teve bastante tempo para refletir. Pensou no seu tio, fraco e doente no quarto de carvalho em Audley Court. Pensou nos belos olhos azuis que vigiavam o sono de Sir Michael; nas mãos suaves e brancas que cuidavam dos seus momentos de vigília; na voz baixa e musical que acalmava a sua solidão, animando e consolando os seus anos de declínio. Que retrato agradável poderia ter sido, se ele tivesse sido capaz de o contemplar com ignorância, vendo apenas o que os outros viam, não olhando mais longe do que um estranho poderia olhar. Mas com a nuvem negra que ele via pairar sobre ele, que zombaria em arco, que delírio diabólico parecia ser.

Peckham Grove — bastante agradável durante o verão — tem um aspeto algo lúgubre num dia cinzento de fevereiro, quando as árvores estão nuas e sem folhas, e os pequenos jardins desolados. Acacia Cottage trazia poucos sinais da adequação da sua nomenclatura, e enfrentava a estrada com as suas paredes estucadas abrigadas apenas por um par de choupos atenuados. Mas anunciava que era Acacia Cottage através de uma pequena placa de latão num dos postes do portão, o que foi indicação suficiente para o cocheiro de olhos aguçados, que deixou o Sr. Audley no passeio diante do pequeno portão.

Acacia Cottage estava muito abaixo na escala social do que Crescent Villas, e a pequena criada que veio ao portão de madeira baixo e negociou com o Sr. Audley, estava evidentemente bem habituada ao encontro de credores implacáveis através da mesma barricada frágil.

Murmurou a familiar ficção doméstica da incerteza sobre o paradeiro da sua patroa; e disse a Robert que, se ele quisesse indicar o seu nome e assunto, ela iria ver se a Sra. Vincent estava em casa.

O Sr. Audley produziu um cartão e escreveu a lápis por baixo do seu próprio nome: "um conhecido da falecida Srta. Graham".

Instruiu a pequena criada a levar o seu cartão à sua patroa e aguardou calmamente o resultado.

A criada voltou cerca de cinco minutos depois com a chave do portão. A sua patroa estava em casa, disse ela a Robert enquanto o deixava entrar, e teria todo o gosto em ver o cavalheiro.

A sala quadrada para a qual Robert foi conduzido trazia em cada pedaço de ornamento, em cada artigo de mobiliário, a marca inconfundível daquela espécie de pobreza que é a mais desconfortável porque nunca é estacionária. O mecânico que mobila a sua minúscula sala de estar com meia dúzia de cadeiras de palhinha, uma mesa Pembroke, um relógio holandês, um pequeno espelho, um pastor e pastora de loiça e um conjunto de tabuleiros de chá de ferro lacado, aproveita ao máximo as suas posses limitadas e geralmente consegue obter algum grau de conforto com elas; mas a senhora que perde o mobiliário elegante da casa que é forçada a abandonar e se acampa numa habitação menor com o que resta de gasto — comprado por algum amigo misericordioso no leilão dos seus bens — traz consigo um aspeto de desolação fidalga e miséria vistosa não facilmente comparável em desgraça a qualquer outra fase que a pobreza possa assumir.

"Não, obrigado", respondeu Robert Audley, "esta divisão serve perfeitamente. Gostaria apenas de uma refeição ligeira, e depois, se puder, de algumas informações acerca de Wildernsea."

O hospedeiro, um homem robusto e de rosto corado, que parecia ter-se habituado a uma vida de convívio estival com os visitantes e que achava a solidão da estação invernosa um pouco opressiva, ficou visivelmente satisfeito com a perspectiva de uma conversa.

"Terá toda a informação que eu lhe puder dar, senhor", disse ele, com prontidão. "E quanto à refeição, o que deseja? Temos um bife de vaca que é uma maravilha, ou talvez uma fatia de queijo e um pouco de cerveja inglesa?"

"O bife servirá", respondeu Robert, distraído. "E, por favor, diga-me, conhece alguém em Wildernsea pelo nome de Maldon? Um capitão Maldon?"

O hospedeiro coçou o queixo, pensativo. "Maldon... Maldon... Bem, o nome soa-me a conhecido. Espere lá... Capitão Maldon? Sim, houve um homem que cá viveu há uns anos — um velho pescador de gabarolices, como costumávamos dizer, que costumava frequentar o bar aqui perto. Era um homem alto, de ombros largos, mas que andava sempre curvado, como se o peso das histórias que contava o estivesse a levar para o chão. Sim, chamavam-lhe Capitão, embora eu nunca tenha sabido de que navio terá sido capitão, a não ser talvez de um barco de pesca de arrasto. Viveu numa casinha de campo à beira-mar, lá mais para o norte."

"Ele tinha uma filha?" perguntou Robert, com a voz um pouco mais tensa.

"Tinha, uma rapariga de uma beleza rara, senhor. Loira, com uns olhos que pareciam pedir desculpa por serem tão bonitos. A gente da terra comentava muito a beleza dela; diziam que parecia ter nascido para usar seda e não para andar com vestidos de algodão gasto pelo sal. Mas ela foi-se embora daqui, creio eu, há uns cinco ou seis anos. Casou-se, diziam, com um cavalheiro que apareceu por estas bandas durante o verão."

"Sabe o nome desse cavalheiro?"

"Não, senhor, não me recordo. Era um forasteiro, um jovem bem-parecido, mas que parecia um pouco perdido neste mundo, se é que me entende. Estavam sempre juntos a passear pela areia, quando o tempo o permitia. Depois, partiram. O Capitão Maldon, o velho, ainda cá ficou mais algum tempo, mas depois também desapareceu. Diziam que fora ter com a filha, mas Wildernsea é um lugar que as pessoas esquecem facilmente quando deixam de ter motivos para cá voltar."

Robert Audley sentiu um frio que não vinha apenas da brisa marinha que soprava lá fora. O puzzle começava a compor-se, peça por peça, numa imagem que ele preferiria não ver completa.

"Eles viviam aqui de forma muito reservada?" perguntou Robert.

"O rapaz, sim. Parecia querer manter-se à margem de todos nós. Mas ela era gentil, muito gentil. No entanto, havia algo nela, uma espécie de inquietação, como se estivesse sempre à espera de algo que sabia que nunca chegaria. Ou talvez estivesse apenas cansada de ser a filha de um homem como aquele."

O hospedeiro retirou-se para providenciar o bife, deixando Robert entregue aos seus pensamentos. O jovem advogado olhou para as brasas que ardiam na lareira. A jornada tinha sido longa e, embora estivesse fisicamente exausto, a sua mente permanecia estranhamente alerta. A conexão estava feita. O lugar onde George conhecera a sua infeliz esposa não era apenas um ponto num mapa, era o palco onde a identidade de Lucy Graham tinha começado a ser forjada, ou talvez, onde a verdadeira identidade de Helen Talboys tinha sido, por um breve momento, camuflada sob o manto de uma nova vida.

"Ela fugiu de si própria, não foi?" murmurou Robert para as chamas. "Fugiu da miséria, fugiu do pai, fugiu do nome. E George, o pobre George, foi apenas o veículo, a ponte que ela usou para atravessar o abismo entre a pobreza e o lugar que agora ocupa."

Ele pegou no seu bloco de notas e começou a escrever, registando o que o hospedeiro lhe dissera. Cada detalhe, por mais insignificante que parecesse, era uma prova. E, no entanto, a cada passo que dava, sentia que estava a aproximar-se de um precipício. Se ele encontrasse a verdade completa, o que restaria para o seu tio? O que restaria para a paz da casa em Audley Court?

"A verdade é um veneno", pensou, "mas é o único remédio para a infecção que ela trouxe para as nossas vidas."

O hospedeiro regressou com a bandeja, interrompendo a sua meditação. Robert comeu em silêncio, com o olhar perdido nas sombras que se moviam nas paredes da sala vasta e gélida. Amanhã, procuraria a casa. Amanhã, falaria com quem quer que se lembrasse daquela jovem loira que, uma vez, caminhara por aquelas areias, escondendo sob a sua beleza as cicatrizes de um passado que ela julgava ter enterrado para sempre.

"Não, obrigado", disse Robert, com indiferença; "esta sala parece-me bastante privada o suficiente por agora. Se me pedir uma costeleta de carneiro e uma caneca de xerez, ficarei grato."

"Certamente, senhor."

"E ficarei ainda mais grato se me conceder alguns minutos de conversa antes de o fazer."

"Com muito prazer, senhor", respondeu o estalajadeiro, com boa disposição. "Vemos tão poucos hóspedes nesta altura do ano, que ficamos apenas demasiado contentes por servir aqueles cavalheiros que nos visitam. Qualquer informação que eu possa fornecer-lhe a respeito da vizinhança de Wildernsea e das suas atrações", acrescentou o estalajadeiro, citando inconscientemente um pequeno guia turístico da estância balnear que ele vendia no balcão, "teria todo o gosto em..."

"Mas eu não quero saber nada sobre a vizinhança de Wildernsea", interrompeu Robert, com um fraco protesto contra a loquacidade do estalajadeiro. "Quero fazer-lhe algumas perguntas sobre algumas pessoas que viveram aqui outrora."

O estalajadeiro fez uma vénia e sorriu, com um ar que sugeria a sua prontidão em recitar as biografias de todos os habitantes da pequena cidade portuária, caso o Sr. Audley assim o exigisse.

"Há quantos anos vive aqui?" perguntou Robert, tirando o seu bloco de notas do bolso. "Irritá-lo-á se eu tomar nota das suas respostas às minhas perguntas?"

"De modo algum, senhor", respondeu o estalajadeiro, com um prazer pomposo perante o ar de solenidade e importância que impregnava aquele assunto. "Qualquer informação que eu possa facultar que seja suscetível de ter um valor definitivo..."

"Sim, obrigado", murmurou Robert, interrompendo o fluxo de palavras. "O senhor vive aqui..."

"Seis anos, senhor."

"Desde o ano de cinquenta e três?"

"Desde novembro do ano de cinquenta e dois, senhor. Eu estava no ramo de negócios em Hull antes dessa altura. Esta casa só foi concluída em outubro, antes de eu entrar nela."

"Lembra-se de um tenente da marinha, na reforma, creio eu, nessa altura, chamado Maldon?"

"Capitão Maldon, senhor?"

"Sim, comummente chamado Capitão Maldon. Vejo que se lembra dele."

"Sim, senhor. O Capitão Maldon era um dos nossos melhores clientes. Ele costumava passar as suas noites nesta mesma sala, embora as paredes estivessem húmidas na altura, e não tenhamos conseguido empapelar o local durante quase um ano depois. A sua filha casou-se com um jovem oficial que veio para cá com o seu regimento, na altura do Natal de cinquenta e dois. Casaram-se aqui, senhor, viajaram pelo Continente durante seis meses e voltaram para cá. Mas o cavalheiro fugiu para a Austrália e deixou a senhora, uma ou duas semanas depois de o seu bebé ter nascido. O caso causou uma grande sensação em Wildernsea, senhor, e a Sra.—Sra.—esqueci-me do nome..."

"Sra. Talboys", sugeriu Robert.

"Com certeza, senhor, Sra. Talboys. A Sra. Talboys era muito estimada pelo povo de Wildernsea, senhor, ia dizer, pois era muito bonita e tinha modos tão cativantes que era uma favorita de todos os que a conheciam."

"Pode dizer-me quanto tempo o Sr. Maldon e a sua filha permaneceram em Wildernsea depois de o Sr. Talboys os ter deixado?" perguntou Robert.

"Bem... não, senhor", respondeu o estalajadeiro, após alguns momentos de deliberação. "Não posso dizer exatamente quanto tempo foi. Sei que o Sr. Maldon costumava sentar-se aqui nesta mesma sala e contar às pessoas como a sua filha tinha sido maltratada e como tinha sido enganado por um jovem em quem depositara tanta confiança; mas não sei dizer quanto tempo passou até que ele deixasse Wildernsea. Mas a Sra. Barkamb poderia dizer-lhe, senhor", acrescentou o estalajadeiro, vivazmente.

"Sra. Barkamb."

"Sim, a Sra. Barkamb é a pessoa que possui o n.º 17 dos North Cottages, a casa em que o Sr. Maldon e a sua filha viveram. Ela é uma mulher simpática, educada e maternal, senhor, e tenho a certeza de que lhe dirá tudo o que quiser saber."

"Obrigado, visitarei a Sra. Barkamb amanhã. Espere... mais uma pergunta. Reconheceria a Sra. Talboys se a visse?"

"Certamente, senhor. Tão certo como reconheceria uma das minhas próprias filhas."

Robert Audley escreveu a morada da Sra. Barkamb no seu bloco de notas, comeu o seu jantar solitário, bebeu um par de copos de xerez, fumou um charuto e retirou-se então para o apartamento onde uma lareira fora acesa para seu conforto.

Adormeceu pouco depois, exausto pela fadiga de correr de um lado para o outro durante os últimos dois dias; mas o seu sono não foi pesado, e ele ouviu o lamento desolador do vento sobre os terrenos arenosos e as longas ondas a rolar monotonamente sobre a costa plana. Misturando-se com estes sons lúgubres, os pensamentos melancólicos gerados pela sua jornada sem alegria repetiam-se numa sucessão ininterrupta no caos do seu cérebro adormecido, transformando-se em visões de coisas que nunca tinham acontecido e nunca poderiam acontecer nesta terra, mas que tinham alguma relação vaga com eventos reais lembrados pelo adormecido.

Nesses sonhos perturbadores, ele viu Audley Court, arrancada de entre as pastagens verdes e as sebes sombrias de Essex, erguendo-se nua e desprotegida sobre aquela costa setentrional desolada, ameaçada pela subida rápida de um mar tempestuoso, cujas ondas pareciam acumular-se para descer e esmagar a casa que ele amava. À medida que as ondas apressadas rolavam mais e mais perto da majestosa mansão, o adormecido viu um rosto pálido e estrelado a olhar para fora da espuma prateada, e soube que era a minha senhora, transformada numa sereia, a acenar ao seu tio para a destruição. Para lá daquele mar crescente, grandes massas de nuvens, mais negras do que a tinta mais negra, mais densas do que a noite mais escura, pairavam sobre o olhar do sonhador; mas, ao olhar para o horizonte lúgubre, as nuvens de tempestade separaram-se lentamente e, de uma fenda estreita na escuridão, um raio de luz irradiava sobre as ondas medonhas, que recuaram lenta, muito lentamente, deixando a antiga mansão segura e firmemente enraizada na costa.

Robert acordou com a memória deste sonho na sua mente, e uma sensação de alívio físico, como se algum peso pesado, que o oprimira durante toda a noite, tivesse sido levantado do seu peito.

Adormeceu novamente e não acordou até que a ampla luz do sol de inverno brilhasse sobre a persiana da janela, e a voz estridente da camareira à sua porta anunciasse que eram oito e meia. Às nove e três quartos, tinha deixado o Victoria Hotel e abria caminho ao longo da plataforma solitária em frente a uma fila de casas sem sombra que davam para o mar.

Esta fila de habitações rígidas, intransigentes e de construção quadrada estendia-se até ao pequeno porto, onde dois ou três navios mercantes e um par de carvoeiros estavam ancorados. Para lá do porto, surgia, cinzento e frio no horizonte invernal, um quartel lúgubre, separado das casas de Wildernsea por um riacho estreito, atravessado por uma ponte levadiça de ferro. A casaca escarlate da sentinela que caminhava para trás e para a frente entre dois canhões, colocados em ângulos remotos perante a parede do quartel, era o único pedaço de cor que aliviava o quadro de tons neutros das casas de pedra cinzenta e do mar de chumbo.

De um lado do porto, um longo cais de pedra estendia-se para longe, na solidão cruel do mar, como se tivesse sido construído para a acomodação especial de algum Timon moderno, demasiado misantropo para se contentar até com a solidão de Wildernsea, e ansioso por se afastar ainda mais dos seus semelhantes.

Foi nesse cais que George Talboys conheceu pela primeira vez a sua mulher, sob a glória abrasadora de um céu de pleno verão e ao som de uma banda que tocava. Foi ali que o jovem corneteiro sucumbiu pela primeira vez àquela doce ilusão, àquela paixão fatal que exercera uma influência tão sombria na sua vida posterior.

Robert olhou selvaticamente para esta estância balnear solitária — a cidade portuária decadente.

"É um lugar como este", pensou ele, "que opera a ruína de um homem forte. Ele chega aqui, com o coração inteiro e feliz, sem melhor experiência das mulheres do que aquela que se aprende numa exposição de flores ou num salão de baile; sem um conhecimento mais familiar da criatura do que aquele que tem dos satélites distantes ou dos planetas remotos; com uma noção vaga de que ela é um pião giratório em gaze rosa ou azul, ou um autómato gracioso para a exibição de artigos de modistas. Ele vem para um lugar deste género, e o universo é subitamente reduzido a cerca de meia dúzia de acres; o poderoso esquema da criação é esmagado numa caixa de chapéus. As criaturas distantes que ele vira a flutuar à sua volta, belas e indistintas, são trazidas para debaixo do seu nariz; e antes que ele tenha tempo de recuperar do seu atordoamento, ei, presto, a feitiçaria começou; o círculo mágico é desenhado à sua volta! os encantamentos estão em ação, toda a fórmula da feitiçaria está em pleno funcionamento, e a vítima é tão impotente para escapar como o príncipe de pernas de mármore na história oriental."

Refletindo desta forma, Robert Audley chegou à casa para a qual tinha sido orientado como a residência da Sra. Barkamb. Foi imediatamente admitido por uma criada austera e idosa, que o conduziu a uma sala de estar tão austera e de aspeto idoso como ela própria. A Sra. Barkamb, uma matrona confortável de cerca de sessenta anos, estava sentada numa poltrona diante de um punhado brilhante de lume na grelha reluzente. Um terrier idoso, cuja pelagem preta e castanha estava densamente salpicada de cinzento, repousava no colo da Sra. Barkamb. Cada objeto na tranquila sala de estar tinha um aspeto idoso de simplicidade, conforto e precisão, que é a prova de um repouso exterior.

"Eu gostaria de viver aqui", pensou Robert, "e ver o mar cinzento a rolar lentamente sobre a areia cinzenta sob o céu parado e cinzento. Eu gostaria de viver aqui, e contar as contas do meu rosário, e arrepender-me e descansar."

Sentou-se na poltrona em frente à Sra. Barkamb, a convite daquela senhora, e colocou o seu chapéu no chão. O terrier idoso desceu do colo da sua dona para ladrar e, de outra forma, manifestar a sua oposição a este chapéu.

"O senhor desejava, suponho, alugar um... esteja quieto, Dash... um dos chalés", sugeriu a Sra. Barkamb, cuja mente corria num único sulco estreito, e cuja vida durante os últimos vinte anos tinha sido uma ronda ininterrupta de aluguer de casas.

Robert Audley explicou o propósito da sua visita.

"Venho fazer uma pergunta simples", disse ele, a concluir, "desejo descobrir a data exata da partida da Sra. Talboys de Wildernsea. O proprietário do Victoria Hotel informou-me de que a senhora seria a pessoa mais indicada para me fornecer essa informação."

A Sra. Barkamb deliberou durante alguns momentos.

"Posso dar-lhe a data da partida do Capitão Maldon", disse ela, "pois ele deixou o n.º 17 consideravelmente em dívida comigo, e tenho todo o assunto preto no branco; mas em relação à Sra. Talboys..."

A Sra. Barkamb fez uma pausa durante alguns momentos antes de retomar.

"O senhor está ciente de que a Sra. Talboys partiu de forma bastante abrupta?" perguntou ela.

"Não estava ciente desse facto."

"De facto! Sim, ela partiu abruptamente, coitada da pequena mulher! Ela tentou sustentar-se depois da deserção do marido dando lições de música; ela era uma pianista muito brilhante e teve bastante sucesso, creio eu. Mas suponho que o seu pai lhe tirava o dinheiro e o gastava nas tabernas. Como quer que seja, eles tiveram um mal-entendido muito grave uma noite; e na manhã seguinte a Sra. Talboys deixou Wildernsea, deixando o seu filho pequeno, que estava a ser cuidado por uma ama na vizinhança."

"Mas não pode dizer-me a data da sua partida?"

"Receio que não", respondeu a Sra. Barkamb; "e, no entanto, espere. O Capitão Maldon escreveu-me no dia em que a sua filha partiu. Ele estava em grande aflição, o pobre cavalheiro, e ele vinha sempre ter comigo nos seus problemas. Se eu pudesse encontrar essa carta, talvez estivesse datada, sabe... não estaria?"

O Sr. Audley disse que era apenas provável que a carta estivesse datada.

A Sra. Barkamb retirou-se para uma mesa junto à janela, sobre a qual se encontrava uma secretária de mogno à moda antiga, forrada com baeta verde e sofrendo de uma pletora de documentos, que transbordavam dela em todas as direções. Cartas, recibos, contas, inventários e papéis de impostos misturavam-se numa confusão sem esperança; e entre estes, a Sra. Barkamb pôs-se a procurar a carta do Capitão Maldon.

O Sr. Audley esperou muito pacientemente, observando as nuvens cinzentas a navegar pelo céu cinzento, os navios cinzentos a deslizar sobre o mar cinzento.

Após cerca de dez minutos de busca, e muito farfalhar, estalar, dobrar e desdobrar de papéis, a Sra. Barkamb soltou uma exclamação de triunfo.

"Encontrei a carta", disse ela; "e há um bilhete dentro dela da Sra. Talboys."

O rosto pálido de Robert Audley corou de um carmesim vivo enquanto estendia a mão para receber os papéis.

"As pessoas que roubaram as cartas de amor de Helen Maldon do baú de George nos meus escritórios poderiam ter-se poupado ao trabalho", pensou ele.

A carta do velho tenente não era longa, mas quase todas as outras palavras estavam sublinhadas.

"Minha generosa amiga", começava o escritor — o Sr. Maldon tinha testado a generosidade da senhora bastante severamente durante a sua residência em sua casa, raramente pagando a renda até ser ameaçado com a presença intrusiva do agente do proprietário — "estou nas profundezas do desespero. A minha filha deixou-me! Pode imaginar os meus sentimentos! Tivemos uma troca de palavras ontem à noite sobre o assunto de questões financeiras, assunto que sempre foi desagradável entre nós, e ao levantar-me esta manhã descobri que tinha sido abandonado! O anexo de Helen estava à minha espera na mesa da sala.

"Seu em distração e desespero,

"HENRY MALDON.

"NORTH COTTAGES, 16 de agosto de 1854."

O bilhete da Sra. Talboys era ainda mais breve. Começava abruptamente assim:

"Estou cansada da minha vida aqui, e desejo, se puder, encontrar uma nova. Vou para o mundo, desligada de todos os elos que me prendem ao passado odioso, para procurar outro lar e outra sorte. Perdoe-me se tenho sido irritadiça, caprichosa, inconstante. Deve perdoar-me, pois sabe por que o tenho sido. Sabe o segredo que é a chave da minha vida.

"HELEN TALBOYS."

Estas linhas foram escritas numa caligrafia que Robert Audley conhecia demasiado bem.

Ele sentou-se durante muito tempo a meditar silenciosamente sobre a carta escrita por Helen Talboys.

Qual era o significado daquelas duas últimas frases — "Deve perdoar-me, pois sabe por que o tenho sido. Sabe o segredo que é a chave da minha vida?"

Cansou o cérebro ao tentar encontrar uma pista para o significado destas duas frases. Não conseguia lembrar-se de nada, nem podia imaginar nada que pudesse lançar luz sobre o seu sentido. A data da partida de Helen, de acordo com a carta do Sr. Maldon, era 16 de agosto de 1854. A Srta. Tonks tinha declarado que Lucy Graham entrara na escola em Crescent Villas a 17 ou 18 de agosto do mesmo ano. Entre a partida de Helen Talboys da estância balnear de Yorkshire e a chegada de Lucy Graham à escola de Brompton, não poderiam ter decorrido mais de quarenta e oito horas. Isto constituía um elo muito pequeno na cadeia de provas circunstanciais, talvez; mas era, contudo, um elo, e encaixava perfeitamente no seu lugar.

"O Sr. Maldon teve notícias da sua filha depois de ela ter deixado Wildernsea?" perguntou Robert.

"Bem, creio que ele teve notícias dela", respondeu a Sra. Barkamb; "mas não vi muito do velho cavalheiro depois daquele agosto. Fui obrigada a despejá-lo em novembro, coitado, pois ele devia-me quinze meses de renda; e só vendendo os seus pobres pequenos móveis é que consegui tirá-lo do meu imóvel. Separamo-nos como muito bons amigos, apesar de eu ter enviado os agentes; e o velho cavalheiro foi para Londres com a criança, que mal tinha um ano de idade."

A Sra. Barkamb não tinha mais nada a dizer, e Robert não tinha mais perguntas a fazer. Pediu permissão para ficar com as duas cartas escritas pelo tenente e pela sua filha, e deixou a casa com elas no seu bloco de notas.

Caminhou diretamente de volta para o hotel, onde pediu um horário de comboios. Um expresso para Londres partia de Wildernsea à uma e um quarto. Robert enviou a sua mala para a estação, pagou a conta e caminhou para cima e para baixo no terraço de pedra em frente ao mar, à espera da partida do comboio.

"Tracei as histórias de Lucy Graham e Helen Talboys até um ponto de desvanecimento", pensou ele; "o meu próximo negócio é descobrir a história da mulher que jaz enterrada no cemitério de Ventnor."

CAPÍTULO XXVIII.

ESCONDIDO NA SEPULTURA.

No seu regresso de Wildernsea, Robert Audley encontrou uma carta da sua prima Alicia, à sua espera nos seus aposentos.

"O papá está muito melhor", escreveu a jovem, "e está muito ansioso por ter a tua presença no Court. Por alguma razão inexplicável, a minha madrasta meteu na cabeça que a tua presença é extremamente desejável, e preocupa-me com as suas perguntas frívolas sobre os teus movimentos. Por isso, por favor, vem sem demora, e tranquiliza estas pessoas. Tua prima afetuosa, A.A."

"Portanto, a minha senhora está ansiosa por saber os meus movimentos", pensou Robert Audley, enquanto se sentava a meditar e a fumar junto à sua lareira solitária. "Ela está ansiosa; e ela questiona a sua enteada daquela maneira bonita e infantil que tem um ar tão cativante de frivolidade inocente. Pobre pequena criatura; pobre infeliz pecadora de cabelos dourados; a batalha entre nós parece terrivelmente injusta. Porque é que ela não foge enquanto ainda há tempo? Dei-lhe um aviso justo, mostrei-lhe as minhas cartas e trabalhei abertamente o suficiente neste assunto, Deus sabe. Porque é que ela não foge?"

Repetiu esta pergunta uma e outra vez enquanto enchia e esvaziava o seu cachimbo, rodeando-se com o vapor azul do seu fumo até parecer algum mágico moderno sentado no seu laboratório.

"Porque é que ela não foge? Não traria vergonha desnecessária àquela casa, de todas as outras casas sobre esta vasta terra. Apenas cumpriria o meu dever para com o meu amigo desaparecido, e para com aquele homem corajoso e generoso que prometeu a sua fé a uma mulher sem valor. Deus sabe que não tenho qualquer desejo de punir. Deus sabe que nunca nasci para ser o vingador da culpa ou o perseguidor dos culpados. Apenas desejo cumprir o meu dever. Dar-lhe-ei mais um aviso, completo e justo, e depois..."

Os seus pensamentos divagaram para aquela perspetiva sombria em que não via qualquer brilho para aliviar a obscuridade baça e negra que envolvia o futuro, fechando o seu caminho de todos os lados, e estendendo uma cortina densa à sua volta, que a Esperança era impotente para penetrar. Ele era para sempre assombrado pela visão da angústia do seu tio, para sempre torturado pelo pensamento daquela ruína e desolação que, sendo provocada pelo seu auxílio, pareceria, de certa forma, obra sua. Mas no meio de tudo, e através de tudo, Clara Talboys, com um gesto imperioso, chamava-o para a sepultura desconhecida do seu irmão.

"Devo ir a Southampton", pensou ele, "e tentar descobrir a história da mulher que morreu em Ventnor? Devo trabalhar no subsolo, subornando os assistentes mesquinhos naquela conspiração imunda, até encontrar o meu caminho para o triplamente culpado principal? Não! Não até ter tentado outros meios de descobrir a verdade. Devo ir ter com aquele velho miserável, e acusá-lo da sua parte no truque vergonhoso que acredito ter sido pregado ao meu pobre amigo? Não; não torturarei aquele desgraçado aterrorizado como o torturei há algumas semanas. Irei diretamente àquela arquiconspiradora, e arrancarei o belo véu sob o qual ela esconde a sua maldade, e arrancarei dela o segredo do destino do meu amigo, e bani-la-ei para sempre da casa que a sua presença poluiu."

Partiu cedo na manhã seguinte para Essex, e chegou a Audley antes das onze horas.

Por muito cedo que fosse, a minha senhora estava fora. Tinha ido de carro a Chelmsford numa expedição de compras com a sua enteada. Tinha várias visitas a fazer nos arredores da cidade, e não era provável que regressasse até à hora do jantar. A saúde de Sir Michael estava muito melhorada, e ele desceria à tarde. Iria o Sr. Audley ao quarto do seu tio?

Não; Robert não tinha desejo de encontrar aquele parente generoso. O que poderia ele dizer-lhe? Como poderia suavizar o caminho para o problema que estava para vir? — como suavizar o golpe cruel da grande dor que se preparava para aquele coração nobre e confiante?

"Se eu pudesse perdoar-lhe o mal feito ao meu amigo", pensou Robert, "ainda a detestaria pela miséria que a sua culpa deve trazer ao homem que acreditou nela."

Caminhou lentamente para longe do Court, vagueando pelos prados entre a casa do seu tio e a aldeia, sem rumo e indiferente, com o grande problema e perplexidade da sua vida estampados no rosto e refletidos no seu comportamento.

"Vou entrar no cemitério", pensou, "e fitar as lápides. Não há nada que eu possa fazer que me torne mais sombrio do que já sou."

Ele estava naqueles mesmos prados através dos quais correra apressado de Audley Court para a estação, naquele dia de setembro em que George Talboys desaparecera. Olhou para o caminho por onde tinha ido naquele dia e lembrou-se da sua pressa invulgar e do vago sentimento de terror que se apoderara dele imediatamente ao perder o amigo de vista.

"Porque é que aquele terror inexplicável se apoderou de mim", pensou. "Porque é que vi algum mistério estranho no desaparecimento do meu amigo? Foi uma premonição ou uma monomania? E se eu estiver errado, afinal? E se esta cadeia de provas que construí elo a elo for tecida da minha própria loucura? E se este edifício de horror e suspeita não passa de uma coleção de manias — os caprichos nervosos de um solteiro hipocondríaco? O Sr. Harcourt Talboys não vê significado nos acontecimentos dos quais fiz um mistério horrível. Apresento-lhe os elos separados da corrente e ele não consegue reconhecer a sua adequação. Ele é incapaz de os juntar. Oh, meu Deus, se a miséria estiver em mim todo este tempo; se..." Ele sorriu amargamente e abanou a cabeça. "Tenho a caligrafia na minha carteira, que é a prova da conspiração", pensou. "Resta-me descobrir a metade mais sombria do segredo da minha senhora."

Evitou a aldeia, mantendo-se nos prados. A igreja ficava um pouco afastada da irregular High Street, e um portão de madeira rústica abria-se do cemitério para um prado largo, ladeado por um riacho corrente, que descia para um vale relvado pontilhado por grupos de gado.

Robert subiu lentamente o estreito caminho da encosta que levava ao portão do cemitério. O tédio silencioso da paisagem solitária harmonizava-se com a sua própria melancolia. A figura solitária de um velho a coxear em direção a um degrau de vedação na extremidade oposta do largo prado era a única criatura humana visível na área que o jovem advogado observava. O fumo que ascendia lentamente das casas dispersas na longa High Street era o único sinal de vida humana. O progresso lento dos ponteiros do velho relógio no campanário da igreja era o único sinal pelo qual um viajante poderia perceber que o curso lento da vida rústica não tinha chegado a uma paragem total na aldeia de Audley.

Sim, havia um outro sinal. Quando Robert abriu o portão do cemitério e vagueou sem interesse pelo pequeno recinto, deu-se conta da música solene de um órgão, audível através de uma janela entreaberta no campanário.

Parou e ouviu as harmonias lentas de uma melodia sonhadora que soava como uma composição improvisada de um executante exímio.

"Quem teria acreditado que a igreja de Audley pudesse gabar-se de tal órgão?", pensou Robert. "Da última vez que estive aqui, o professor da escola primária costumava acompanhar as suas crianças com uma execução primitiva de acordes comuns. Não pensei que o velho órgão tivesse tal música nele."

Demorou-se no portão, sem vontade de quebrar o feitiço preguiçoso tecido à sua volta pela melancolia monótona da atuação do organista. Os tons do instrumento, ora crescendo para a sua potência máxima, ora baixando para uma suavidade sussurrante e baixa, flutuavam em direção a ele na atmosfera enevoada do inverno e tinham uma influência apaziguadora que parecia confortá-lo na sua aflição.

Fechou o portão suavemente e atravessou o pequeno pedaço de gravilha diante da porta da igreja. A porta tinha sido deixada entreaberta — talvez pelo organista. Robert Audley empurrou-a e entrou no alpendre quadrado, de onde uma escadaria de pedra estreita subia em espiral para o coro e o campanário. O Sr. Audley tirou o chapéu e abriu a porta entre o alpendre e o corpo da igreja. Entrou suavemente no santo edifício, que tinha um cheiro húmido e bolorento nos dias de semana. Caminhou pelo corredor estreito até às grades do altar e, a partir desse ponto de observação, fez uma inspeção da igreja. A pequena galeria ficava exatamente à sua frente, mas as escassas cortinas verdes diante do órgão estavam bem fechadas e ele não conseguia vislumbrar o executante.

A música continuava a rolar. O organista tinha enveredado por uma melodia de Mendelssohn, uma melodia cuja tristeza sonhadora foi direta ao coração de Robert. Ele deambulou pelos cantos e recantos da igreja, examinando os memoriais degradados dos mortos quase esquecidos e ouvindo a música.

"Se o meu pobre amigo, George Talboys, tivesse morrido nos meus braços, e eu o tivesse enterrado nesta igreja silenciosa, num dos cantos das criptas sobre as quais piso hoje, quanta angústia de espírito, hesitação e tormento eu poderia ter evitado", pensou Robert Audley, enquanto lia as inscrições desbotadas em tábuas de mármore descolorido; "Eu teria sabido o seu destino — eu teria sabido o seu destino! Ah, quanto teria significado isso. É esta incerteza miserável, esta suspeita horrível que envenenou a minha própria vida."

Olhou para o relógio.

"Uma e meia", murmurou. "Terei de esperar quatro ou cinco horas lúgubres até que a minha senhora chegue a casa das suas visitas matinais — as suas belas visitas de cerimónia ou amizade. Bom Deus! que atriz é esta mulher. Que trapaceira arqui-astuta — que enganadora consumada. Mas ela não representará a sua bela comédia por mais tempo sob o teto do meu tio. Diplomatizei durante tempo suficiente. Ela recusou aceitar um aviso indireto. Esta noite falarei claramente."

A música do órgão cessou e Robert ouviu o fecho do instrumento.

"Vou dar uma vista de olhos neste novo organista", pensou, "que se pode dar ao luxo de enterrar os seus talentos em Audley e tocar as melhores fugas de Mendelssohn por um estipêndio de dezasseis libras por ano." Demorou-se no alpendre, à espera que o organista descesse a escada desajeitada. Na aflição cansativa da sua mente, e com a perspetiva de passar as cinco horas da melhor forma que pudesse, o Sr. Audley sentia-se contente por cultivar qualquer diversão de pensamento, por mais ociosa que fosse. Por isso, entregou-se livremente à sua curiosidade sobre o novo organista.

A primeira pessoa a aparecer nos degraus de pedra íngremes foi um rapaz com calças de cotim e uma blusa de linho escuro, que desceu as escadas arrastando os pés com um ruído desnecessário dos seus sapatos de biqueira de ferro, e que estava com o rosto vermelho pelo esforço de soprar os foles do velho órgão. Logo atrás deste rapaz vinha uma jovem, muito discretamente vestida com um vestido de seda preta e um grande xale cinzento, que sobressaltou-se e empalideceu ao ver o Sr. Audley.

Esta jovem era Clara Talboys.

De todas as pessoas do mundo, ela era a última que Robert esperava ou desejava ver. Ela tinha-lhe dito que ia visitar uns amigos que viviam em Essex; mas o condado é vasto e a aldeia de Audley um dos pontos mais obscuros e menos frequentados de toda a sua extensão. Que a irmã do seu amigo perdido estivesse aqui — aqui onde ela podia observar cada uma das suas ações e, dessas ações, deduzir os funcionamentos secretos da sua mente, traçando as suas dúvidas até ao seu objeto, criava uma complicação das suas dificuldades que ele nunca poderia ter previsto. Trouxe-o de volta àquela consciência da sua própria impotência, na qual ele exclamara:

"Uma mão que é mais forte do que a minha está a chamar-me, fazendo-me avançar na estrada escura que conduz à sepultura desconhecida do meu amigo perdido."

Clara Talboys foi a primeira a falar.

"Está surpreendido por me ver aqui, Sr. Audley", disse ela.

"Muito surpreendido."

"Disse-lhe que vinha para Essex. Saí de casa anteontem. Estava a sair de casa quando recebi a sua mensagem telegráfica. A amiga com quem estou hospedada é a Sra. Martyn, esposa do novo reitor de Mount Stanning. Vim esta manhã para ver a aldeia e a igreja e, como a Sra. Martyn tinha de fazer uma visita à escola com o vigário e a sua esposa, parei aqui e diverti-me a experimentar o velho órgão. Não sabia, até vir aqui, que existia uma aldeia chamada Audley. O lugar tira o seu nome da sua família, suponho?"

"Creio que sim", respondeu Robert, maravilhando-se com a calma da senhora, em contraste com o seu próprio embaraço. "Tenho uma recordação vaga de ouvir a história de algum antepassado que foi chamado Audley de Audley no reinado de Eduardo IV. O túmulo dentro das grades perto do altar pertence a um dos cavaleiros de Audley, mas nunca me dei ao trabalho de recordar as suas proezas. Vai esperar aqui pelos seus amigos, Srta. Talboys?"

"Sim; eles hão de voltar aqui para me buscar depois de terminarem as suas rondas."

"E voltará para Mount Stanning com eles esta tarde?"

"Sim."

Robert estava de pé com o chapéu na mão, olhando distraído para as lápides e para o muro baixo do cemitério. Clara Talboys observava o seu rosto pálido, macilento sob a sombra crescente que pairava sobre ele há tanto tempo.

"Tem estado doente desde que o vi pela última vez, Sr. Audley", disse ela, com uma voz baixa que tinha a mesma tristeza melodiosa das notas do velho órgão sob o seu toque.

"Não, não tenho estado doente; tenho estado apenas perturbado, cansado por uma centena de dúvidas e perplexidades."

Ele pensava enquanto falava com ela:

"Quanto é que ela adivinha? Quanto é que ela suspeita?"

Ele tinha contado a história do desaparecimento de George e das suas próprias suspeitas, suprimindo apenas os nomes dos envolvidos no mistério; mas e se esta rapariga desvendasse este disfarce ténue e descobrisse por si mesma aquilo que ele escolhera ocultar.

Os seus olhos graves estavam fixos no rosto dele, e ele sabia que ela estava a tentar ler os segredos mais íntimos da sua mente.

"O que sou eu nas mãos dela?", pensou. "O que sou eu nas mãos desta mulher, que tem o rosto do meu amigo perdido e o porte de Palas Atena. Ela lê a minha alma piedosa e vacilante, e arranca os pensamentos do meu coração com a magia dos seus olhos castanhos solenes. Quão desigual deve ser a luta entre nós, e como posso eu alguma vez esperar conquistar contra a força da sua beleza e da sua sabedoria?"

O Sr. Audley estava a limpar a garganta para se despedir da sua bela companhia e escapar da servidão da sua presença para o prado solitário fora do cemitério, quando Clara Talboys o deteve falando precisamente sobre aquele assunto que ele mais desejava evitar.

"Prometeu escrever-me, Sr. Audley", disse ela, "se fizesse qualquer descoberta que o aproximasse do mistério do desaparecimento do meu irmão. Não me escreveu e imagino, portanto, que não descobriu nada."

Robert Audley ficou em silêncio por alguns momentos. Como poderia ele responder a esta pergunta direta?

"A cadeia de provas circunstanciais que une o mistério do destino do seu irmão à pessoa que suspeito", disse ele, após uma pausa, "é formada por elos muito ténues. Creio que adicionei outro elo a essa corrente desde que a vi em Dorsetshire."

"E recusa-se a dizer-me o que é que descobriu?"

"Apenas até que tenha descoberto mais."

"Pensei, pela sua mensagem, que ia para Wildernsea."

"Estive lá."

"De facto! Foi lá que fez alguma descoberta, então?"

"Foi", respondeu Robert. "Deve lembrar-se, Srta. Talboys, que o único fundamento sobre o qual as minhas suspeitas repousam é a identidade de dois indivíduos que não têm qualquer ligação aparente — a identidade de uma pessoa que se supõe estar morta com uma que está viva. A conspiração da qual acredito que o seu irmão tenha sido vítima depende disto. Se a sua esposa, Helen Talboys, morreu quando os jornais registaram a sua morte — se a mulher que jaz enterrada no cemitério de Ventnor era, de facto, a mulher cujo nome está inscrito na lápide da sepultura — eu não tenho caso, não tenho pista para o mistério do destino do seu irmão. Estou prestes a pôr isto à prova. Acredito que estou agora em posição de jogar um jogo ousado, e acredito que chegarei em breve à verdade."

Ele falou com uma voz baixa e com uma ênfase solene que traía a intensidade do seu sentimento. A Srta. Talboys estendeu a sua mão sem luva e pousou-a na mão dele. O toque frio daquela mão esguia enviou um calafrio através do seu corpo.

"Não permitirá que o destino do meu irmão permaneça um mistério, Sr. Audley", disse ela, calmamente. "Sei que fará o seu dever para com o seu amigo."

A esposa do reitor e os seus dois companheiros entraram no cemitério quando Clara Talboys disse isto. Robert Audley apertou a mão que descansava na sua e levou-a aos lábios.

"Sou um sujeito preguiçoso e que não serve para nada, Srta. Talboys", disse ele; "mas se pudesse restaurar o meu irmão George à vida e à felicidade, eu preocupar-me-ia muito pouco com qualquer sacrifício dos meus próprios sentimentos, receio que o máximo que posso fazer é desvendar o segredo do seu destino e, ao fazê-lo, devo sacrificar aqueles que me são mais queridos do que eu próprio."

Ele colocou o chapéu e apressou-se através do portão que levava ao campo, à medida que a Sra. Martyn se aproximava do alpendre.

"Quem é aquele jovem bonito que apanhei em tête-à-tête consigo, Clara?", perguntou ela, rindo.

"É um Sr. Audley, um amigo do meu pobre irmão."

"De facto! É algum parente de Sir Michael Audley, suponho?"

"Sir Michael Audley!"

"Sim, minha querida; a personagem mais importante na paróquia de Audley. Mas faremos uma visita ao Court dentro de um ou dois dias, e verá o barão e a sua bela e jovem esposa."

"A sua jovem esposa!", respondeu Clara Talboys, olhando seriamente para a sua amiga. "Sir Michael Audley casou-se recentemente, então?"

"Sim. Ele foi viúvo durante dezasseis anos e casou-se com uma jovem governanta sem um tostão há cerca de um ano e meio. A história é bastante romântica, e Lady Audley é considerada a beldade do condado. Mas venha, minha querida Clara, o pónei está cansado de esperar por nós e temos um longo caminho a percorrer antes do jantar."

Clara Talboys sentou-se na pequena carruagem, que esperava no portão principal do cemitério, ao cuidado do rapaz que tinha soprado os foles do órgão. A Sra. Martyn sacudiu as rédeas e o robusto cavalo castanho trotava na direção de Mount Stanning.

"Quer contar-me mais sobre esta Lady Audley, Fanny?", disse a Srta. Talboys, após uma longa pausa. "Quero saber tudo sobre ela. Ouviu o nome de solteira dela?"

"Sim; ela era uma Srta. Graham."

"E ela é muito bonita?"

"Sim, muito, muito bonita. Embora seja uma beleza algo infantil, com olhos grandes e claros, azuis, e caracóis louros pálidos, que caem numa chuva emplumada sobre o seu pescoço e ombros."

Clara Talboys ficou em silêncio. Não fez mais perguntas sobre a minha senhora.

Ela pensava numa passagem daquela carta que George lhe tinha escrito durante a sua lua de mel — uma passagem em que ele dizia: "A minha pequena esposa infantil está a observar-me enquanto escrevo isto — Ah! como eu gostaria que a pudesses ver, Clara! Os seus olhos são tão azuis e tão claros como os céus num dia brilhante de verão, e o seu cabelo cai em volta do seu rosto como a auréola loura pálida que vês à volta da cabeça de uma Madona num quadro italiano."

CAPÍTULO XXIX.

NO PASSEIO DE TÍLIAS.

Robert Audley estava a vaguear pelo largo relvado em frente ao Court quando a carruagem contendo a minha senhora e Alicia passou sob o arco e parou à porta baixa da torre. O Sr. Audley apresentou-se a tempo de ajudar as senhoras a sair do veículo.

A minha senhora parecia muito bonita num delicado chapéu azul e nas peles que o seu sobrinho lhe tinha comprado em São Petersburgo. Parecia muito satisfeita por ver Robert e sorriu de forma encantadora enquanto lhe dava a sua mão pequena e exquisitamente enluvada.

"Então voltou para nós, fujão?", disse ela, rindo. "E agora que voltou, mantê-lo-emos prisioneiro. Não o deixaremos fugir de novo, pois não, Alicia?"

A Srta. Audley fez um gesto de desprezo com a cabeça que sacudiu os caracóis pesados sob o seu chapéu de cavaleiro.

"Não tenho nada a ver com os movimentos de um indivíduo tão errático", disse ela. "Desde que Robert Audley decidiu comportar-se como algum herói assombrado por fantasmas numa história alemã, desisti de tentar compreendê-lo."

O Sr. Audley olhou para a sua prima com uma expressão de perplexidade seriocómica. "Ela é uma rapariga simpática", pensou, "mas é uma maçada. Não sei como é, mas parece uma maçada maior do que costumava ser."

Puxou os bigodes de forma reflexiva enquanto considerava esta questão. A sua mente vagueou por alguns momentos para longe do grande problema da sua vida para se deter nesta perplexidade menor.

"Ela é uma rapariga querida", pensou; "uma rapariga inglesa nobre, saltitante e de coração generoso; e, no entanto —" Perdeu-se num pântano de dúvidas e dificuldades. Havia qualquer entrave na sua mente que ele não conseguia compreender; alguma mudança nele próprio, para lá da mudança feita nele pela sua ansiedade sobre George Talboys, que o mistificava e baralhava.

"E diga-me, onde esteve a vaguear durante o último dia ou dois, Sr. Audley?", perguntou a minha senhora, enquanto se demorava com a sua enteada no limiar da porta da torre, esperando até que Robert tivesse a amabilidade de se colocar de lado e permitir-lhes a passagem. O jovem sobressaltou-se quando ela fez esta pergunta e olhou para ela subitamente. Algo no aspeto da sua beleza jovem e brilhante, algo na inocência infantil da sua expressão, pareceu atingi-lo no coração, e o seu rosto tornou-se mortalmente pálido enquanto a olhava.

"Estive — em Yorkshire", disse ele; "na pequena estância balnear onde o meu pobre amigo George Talboys vivia na altura do seu casamento."

A mudança branca no rosto da minha senhora foi o único sinal de que ela tinha ouvido estas palavras. Ela sorriu, um sorriso fraco e doentio, e tentou passar pelo sobrinho do seu marido.

"Tenho de me vestir para o jantar", disse ela. "Vou a um jantar, Sr. Audley; por favor, deixe-me entrar."

"Tenho de lhe pedir que me dispense meia hora, Lady Audley", respondeu Robert, em voz baixa. "Vim a Essex de propósito para falar consigo."

"Sobre o quê?", perguntou a minha senhora.

Ela tinha recuperado de qualquer choque que pudesse ter sofrido momentos antes, e foi com a sua maneira habitual que ela fez esta pergunta. O seu rosto expressava a perplexidade e curiosidade misturadas de uma criança intrigada, em vez da surpresa séria de uma mulher.

"Sobre o que pode querer falar comigo, Sr. Audley?", repetiu ela.

"Dizer-lhe-ei quando estivermos a sós", disse Robert, lançando um olhar à sua prima, que estava um pouco atrás da minha senhora, observando este pequeno diálogo confidencial.

"Ele está apaixonado pela beleza de boneca de cera da minha madrasta", pensou Alicia, "e é por causa dela que ele se tornou um objeto tão desconsolado. Ele é exatamente o tipo de pessoa que se apaixona pela sua tia."

A Srta. Audley afastou-se para o relvado, dando as costas a Robert e à minha senhora.

"A criatura absurda ficou branca como um lençol quando a viu", pensou ela. "Portanto, ele consegue estar apaixonado, afinal. Aquele pedaço lento de torpor a que ele chama coração pode bater, suponho, uma vez por quarto de século; mas parece que nada menos do que uma boneca de cera de olhos azuis o pode pôr em movimento. Tê-lo-ia esquecido há muito tempo se soubesse que a sua ideia de beleza se podia encontrar numa loja de brinquedos."

A pobre Alicia atravessou o relvado e desapareceu no lado oposto do pátio, onde havia um portão gótico que comunicava com as cavalariças. Lamento dizer que a filha de Sir Michael Audley foi procurar consolo junto da sua cadela Caesar e da sua égua castanha Atalanta, cuja baia a jovem senhora tinha o hábito de visitar todos os dias.

"Vem ao passeio das tílias, Lady Audley?" disse Robert, quando a sua prima deixou o jardim. "Desejo falar consigo sem medo de interrupções ou observações. Creio que não poderíamos escolher lugar mais seguro do que esse. Virá comigo?"

"Se faz favor", respondeu a minha senhora. O Sr. Audley pôde ver que ela tremia e que olhava de um lado para o outro, como se procurasse alguma saída por onde pudesse escapar-lhe.

"Está a tremer, Lady Audley", disse ele.

"Sim, tenho muito frio. Preferiria falar consigo noutro dia, por favor. Que seja amanhã, se quiser. Tenho de me vestir para o jantar e quero ver Sir Michael; não o vejo desde as dez horas desta manhã. Por favor, que seja amanhã."

Havia uma lastimável dor no seu tom. O céu sabe quão doloroso para o coração de Robert. O céu sabe que imagens horríveis surgiram na sua mente quando olhou para aquele rosto jovem e belo e pensou na tarefa que tinha pela frente.

"Tenho de falar consigo, Lady Audley", disse ele. "Se sou cruel, foi a senhora quem me tornou cruel. Poderia ter escapado a este suplício. Poderia ter-me evitado. Dei-lhe um aviso justo. Mas escolheu desafiar-me e é a sua própria insensatez a culpada se eu já não a poupar. Venha comigo. Digo-lhe novamente que tenho de falar consigo."

Havia uma determinação fria no seu tom que silenciou as objeções da minha senhora. Ela seguiu-o submissamente até ao pequeno portão de ferro que comunicava com o longo jardim atrás da casa — o jardim onde uma pequena ponte rústica de madeira conduzia, através do tranquilo lago dos peixes, ao passeio das tílias.

O crepúsculo do início do inverno aproximava-se, e o intrincado traçado dos ramos despidos que formavam um arco sobre o caminho solitário parecia negro contra o cinzento frio do céu vespertino. O passeio das tílias parecia um claustro nesta luz incerta.

"Porque me traz a este lugar horrível para me assustar até perder o juízo?" exclamou a minha senhora, com azedume. "Deveria saber quão nervosa sou."

"Está nervosa, minha senhora?"

"Sim, terrivelmente nervosa. Valho uma fortuna para o pobre Sr. Dawson. Ele está sempre a enviar-me cânfora, sal volátil, lavanda vermelha e toda a espécie de misturas abomináveis, mas não me consegue curar."

"Lembra-se do que Macbeth diz ao seu médico, minha senhora?" perguntou Robert, gravemente. "O Sr. Dawson pode ser muito mais inteligente do que o médico escocês, mas duvido que sequer ele consiga ministrar remédio a uma mente doente."

"Quem disse que a minha mente estava doente?" exclamou Lady Audley.

"Eu digo-o, minha senhora", respondeu Robert. "Diz-me que está nervosa e que todos os medicamentos que o seu médico pode receitar são apenas remédios que poderiam muito bem ser atirados aos cães. Deixe-me ser o médico a atacar a raiz da sua enfermidade, Lady Audley. O céu sabe que desejo ser misericordioso — que a pouparia tanto quanto está no meu poder poupá-la ao fazer justiça aos outros — mas a justiça tem de ser feita. Devo dizer-lhe porque é que está nervosa nesta casa, minha senhora?"

"Se puder", respondeu ela, com uma pequena risada.

"Porque, para si, esta casa está assombrada."

"Assombrada?"

"Sim, assombrada pelo fantasma de George Talboys."

Robert Audley ouviu a respiração acelerada da minha senhora; imaginou que podia quase ouvir o bater forte do seu coração enquanto ela caminhava ao seu lado, tremendo de vez em quando e com a sua capa de zibelina bem apertada em torno de si.

"O que quer dizer?" exclamou ela subitamente, após uma pausa de alguns momentos. "Porque me atormenta com este George Talboys, que por acaso decidiu manter-se longe de si por uns meses? Está a enlouquecer, Sr. Audley, e escolhe-me como a vítima da sua monomania? O que é George Talboys para mim para que me deva preocupar com ele?"

"Ele era um estranho para si, minha senhora, não era?"

"Claro!" respondeu Lady Audley. "O que haveria de ser senão um estranho?"

"Devo contar-lhe a história do desaparecimento do meu amigo tal como eu a leio, minha senhora?" perguntou Robert.

"Não", exclamou Lady Audley; "não desejo saber nada do seu amigo. Se ele está morto, lamento por ele. Se ele vive, não tenho qualquer desejo de o ver ou de ouvir falar dele. Deixe-me entrar para ver o meu marido, se faz favor, Sr. Audley, a menos que deseje deter-me neste lugar sombrio até que eu morra de frio."

"Desejo detê-la até que tenha ouvido o que tenho a dizer, Lady Audley", respondeu Robert, resolutamente. "Não a deterei mais tempo do que o necessário e, quando me tiver ouvido, poderá seguir o seu próprio caminho."

"Muito bem, então; por favor, não perca tempo a dizer o que tem a dizer", replicou a minha senhora, despreocupadamente. "Prometo-lhe ouvir com muita paciência."

"Quando o meu amigo, George Talboys, regressou a Inglaterra", começou Robert, gravemente, "o pensamento que estava mais presente na sua mente era o pensamento da sua esposa."

"A quem ele tinha abandonado", disse a minha senhora, rapidamente. "Pelo menos", acrescentou, mais deliberadamente, "lembro-me de que nos disse algo nesse sentido quando nos contou a história do seu amigo pela primeira vez."

Robert Audley não reparou nesta observação.

"O pensamento que estava mais presente na sua mente era o pensamento da sua esposa", repetiu ele. "A sua esperança mais bela no futuro era a esperança de a fazer feliz e de prodigalizar nela a ninharia que tinha ganho pela força do seu próprio braço forte nos campos de ouro da Austrália. Vi-o poucas horas depois de ter chegado a Inglaterra e fui testemunha do orgulho alegre com que ele esperava o seu reencontro com a esposa. Fui também testemunha do golpe que o atingiu no próprio coração — que o transformou, do homem que tinha sido, numa criatura tão diferente desse antigo eu quanto um ser humano pode ser diferente de outro. O golpe que provocou essa mudança cruel foi o anúncio da morte da sua esposa no jornal Times. Acredito agora que esse anúncio foi uma mentira negra e amarga."

"De facto!" disse a minha senhora; "e que razão teria alguém para anunciar a morte da Sra. Talboys, se a Sra. Talboys estivesse viva?"

"A própria senhora poderia ter tido uma razão", respondeu Robert, calmamente.

"Que razão?"

"E se ela tivesse tirado partido da ausência de George para conquistar um marido mais rico? E se ela tivesse casado novamente e desejado despistar o meu pobre amigo com este falso anúncio?"

Lady Audley encolheu os ombros.

"As suas suposições são bastante ridículas, Sr. Audley", disse ela; "é de esperar que tenha motivos razoáveis para elas."

"Examinei uma coleção de todos os jornais publicados em Chelmsford e Colchester", continuou Robert, sem responder à última observação da minha senhora, "e encontrei num dos jornais de Colchester, datado de 2 de julho de 1857, um breve parágrafo entre inúmeros fragmentos diversos de informação copiados de outros jornais, dando conta de que um Sr. George Talboys, um cavalheiro inglês, tinha chegado a Sydney vindo dos campos de ouro, trazendo consigo pepitas e pó de ouro no valor de vinte mil libras, e que tinha realizado os seus bens e embarcado para Liverpool no rápido clipper Argus. Este é um facto muito pequeno, claro, Lady Audley, mas é suficiente para provar que qualquer pessoa que residisse em Essex em julho do ano cinquenta e sete estaria provavelmente a par do regresso de George Talboys da Austrália. Acompanha-me?"

"Não muito claramente", disse a minha senhora. "O que têm os jornais de Essex a ver com a morte da Sra. Talboys?"

"Chegaremos a isso daqui a pouco, Lady Audley. Digo que acredito que o anúncio no Times foi um anúncio falso e parte da conspiração que foi levada a cabo por Helen Talboys e pelo Tenente Maldon contra o meu pobre amigo."

"Uma conspiração!"

"Sim, uma conspiração arquitetada por uma mulher astuta, que tinha especulado sobre as possibilidades da morte do seu marido e tinha garantido uma posição esplêndida sob o risco de cometer um crime; uma mulher audaz, minha senhora, que pensou em representar a sua comédia até ao fim sem medo de ser descoberta; uma mulher perversa, que não se importava com a miséria que podia infligir ao coração honesto do homem que traiu; mas uma mulher insensata, que olhava para a vida como um jogo de azar, no qual o melhor jogador tinha mais probabilidades de ter as cartas vencedoras, esquecendo-se de que há uma Providência acima dos especuladores miseráveis e que nunca é permitido que os segredos perversos permaneçam ocultos por muito tempo. Se esta mulher de quem falo nunca tivesse sido culpada de qualquer pecado mais negro do que a publicação desse anúncio mentiroso no jornal Times, eu tê-la-ia ainda assim como a mais detestável e desprezível do seu sexo — a mais impiedosa e calculista das criaturas humanas. Essa mentira cruel foi um golpe vil e cobarde na escuridão; foi a punhalada traiçoeira de um assassino infame."

"Mas como sabe que o anúncio foi falso?" perguntou a minha senhora. "Disse-nos que tinha estado em Ventnor com o Sr. Talboys para ver o túmulo da sua esposa. Quem foi que morreu em Ventnor se não foi a Sra. Talboys?"

"Ah, Lady Audley", disse Robert, "essa é uma pergunta que apenas duas ou três pessoas podem responder, e uma ou outra dessas pessoas responder-me-á antes de muito tempo. Digo-lhe, minha senhora, que estou determinado a desvendar o mistério da morte de George Talboys. Pensa que me deixarei dissuadir por tergiversações femininas — por artimanhas de mulher? Não! Elo por elo, montei a corrente de provas, que só precisa de um elo aqui e ali para ficar completa na sua força terrível. Pensa que sofrerei ser frustrado? Pensa que falharei em descobrir esses elos em falta? Não, Lady Audley, não falharei, pois sei onde procurar por eles! Há uma mulher de cabelos claros em Southampton — uma mulher chamada Plowson, que tem alguma parte nos segredos do pai da esposa do meu amigo. Tenho a ideia de que ela me pode ajudar a descobrir a história da mulher que jaz sepultada no cemitério de Ventnor, e não pouparei esforços para fazer essa descoberta, a menos que..."

"A menos que o quê?" perguntou a minha senhora, ansiosamente.

"A menos que a mulher que desejo salvar da degradação e do castigo aceite a misericórdia que lhe ofereço e aceite o aviso enquanto ainda há tempo."

A minha senhora encolheu os seus ombros graciosos e lançou um desafio brilhante dos seus olhos azuis.

"Ela seria uma mulher muito insensata se se deixasse influenciar por tal absurdo", disse ela. "Está hipocondríaco, Sr. Audley, e deve tomar cânfora, ou lavanda vermelha, ou sal volátil. O que pode ser mais ridículo do que esta ideia que lhe meteu na cabeça? Perde o seu amigo George Talboys de uma forma um tanto misteriosa — isto é, o cavalheiro escolhe deixar Inglaterra sem lhe dar aviso prévio. Que tem isso? Confessa que ele se tornou um homem alterado depois da morte da esposa. Tornou-se excêntrico e misantropo; passou a afetar uma total indiferença sobre o que lhe aconteceria. O que é mais provável, então, do que ele se ter cansado da monotonia da vida civilizada e fugido para esses campos de ouro selvagens para encontrar uma distração para a sua dor? É uma história bastante romântica, mas de modo algum incomum. Mas não está satisfeito com esta interpretação simples do desaparecimento do seu amigo e constrói alguma teoria absurda de uma conspiração que não tem existência senão no seu próprio cérebro sobreaquecido. Helen Talboys está morta. O jornal Times declara que ela está morta. O seu próprio pai diz-lhe que ela está morta. A lápide do túmulo no cemitério de Ventnor regista a sua morte. Por que direito", exclamou a minha senhora, a sua voz subindo para aquele tom estridente e penetrante peculiar a ela quando afetada por qualquer agitação intensa — "por que direito, Sr. Audley, vem até mim e atormenta-me sobre George Talboys — por que direito ousa dizer que a sua esposa ainda está viva?"

"Pelo direito da prova circunstancial, Lady Audley", respondeu Robert — "pelo direito dessa prova circunstancial que por vezes fixará a culpa do homicídio de um homem sobre aquela pessoa que, ao ouvir o caso pela primeira vez, parece, de entre todos os outros, a menos suscetível de ser culpada."

"Que prova circunstancial?"

"A prova do tempo e do lugar. A prova da caligrafia. Quando Helen Talboys deixou a casa do pai em Wildernsea, ela deixou uma carta para trás — uma carta na qual declarava que estava cansada da sua velha vida e que desejava procurar um novo lar e uma nova fortuna. Essa carta está na minha posse."

"De facto."

"Devo dizer-lhe cuja caligrafia se assemelha tanto à de Helen Talboys, que o perito mais destemido não poderia perceber qualquer distinção entre as duas?"

"Uma semelhança entre a caligrafia de duas mulheres não é uma circunstância muito incomum nos dias de hoje", replicou a minha senhora despreocupadamente. "Poderia mostrar-lhe as caligrafias de meia dúzia de correspondentes femininas e desafiá-lo a descobrir qualquer grande diferença entre elas."

"Mas e se a caligrafia for uma muito incomum, apresentando particularidades marcantes pelas quais pode ser reconhecida entre cem?"

"Bem, nesse caso a coincidência é bastante curiosa", respondeu a minha senhora; "mas não é mais do que uma coincidência. Não pode negar o facto da morte de Helen Talboys com base em que a sua caligrafia se assemelha à de alguma pessoa sobrevivente."

"Mas se uma série de tais coincidências conduzir ao mesmo ponto", disse Robert. "Helen Talboys deixou a casa do seu pai, de acordo com a declaração na sua própria caligrafia, porque estava cansada da sua velha vida e desejava começar uma nova. Sabe o que infiro disto?"

A minha senhora encolheu os ombros.

"Não faço a mínima ideia", disse ela; "e como me deteve neste lugar sombrio durante quase meia hora, devo pedir que me liberte e me deixe ir vestir para o jantar."

"Não, Lady Audley", respondeu Robert, com uma frieza severa que lhe era tão estranha que o transformava noutra criatura — uma personificação impiedosa da justiça, um instrumento cruel de retribuição — "não, Lady Audley", repetiu ele, "eu disse-lhe que a tergiversação de mulher não a ajudará; digo-lhe agora que o desafio não a servirá. Agi com justiça para consigo e dei-lhe um aviso justo. Dei-lhe um aviso indireto do seu perigo há dois meses."

"O que quer dizer?" perguntou a minha senhora, subitamente.

"Não escolheu aceitar esse aviso, Lady Audley", continuou Robert, "e chegou a altura em que tenho de falar muito claramente consigo. Pensa que os dons que jogou contra a fortuna a manterão isenta de retribuição? Não, minha senhora, a sua juventude e beleza, a sua graça e refinamento, apenas tornam o segredo horrível da sua vida mais horrível. Digo-lhe que a prova contra si necessita apenas de um elo para ser forte o suficiente para a sua condenação, e esse elo será acrescentado. Helen Talboys nunca regressou à casa do seu pai. Quando abandonou aquele pobre velho pai, ela partiu da sua humilde proteção com a intenção declarada de lavar as mãos daquela velha vida. O que fazem as pessoas geralmente quando desejam começar uma nova existência — começar pela segunda vez na corrida da vida, livres dos embaraços que tinham acorrentado a sua primeira jornada? Elas mudam os seus nomes, Lady Audley. Helen Talboys abandonou o seu filho pequeno — ela partiu de Wildernsea com a predeterminação de apagar a sua identidade. Ela desapareceu como Helen Talboys no dia 16 de agosto de 1854, e no dia 17 desse mês reapareceu como Lucy Graham, a rapariga sem amigos que assumiu um dever sem proveito em consideração a um lar onde não lhe eram feitas perguntas."

"Está louco, Sr. Audley!" exclamou a minha senhora. "Está louco e o meu marido proteger-me-á da sua insolência. E se esta Helen Talboys fugiu de casa num dia e eu entrei na casa do meu empregador no seguinte, o que é que isso prova?"

"Por si só, muito pouco", replicou Robert Audley; "mas com a ajuda de outras provas..."

"Que provas?"

"A prova de duas etiquetas, coladas uma sobre a outra, numa caixa deixada por si na posse da Sra. Vincent, a etiqueta superior com o nome de Miss Graham, a inferior com o de Sra. George Talboys."

A minha senhora ficou em silêncio. Robert Audley não conseguia ver o rosto dela no crepúsculo, mas podia ver que as suas duas mãos pequenas estavam cerradas convulsivamente sobre o peito, e ele sabia que o tiro tinha atingido o alvo.

"Deus a ajude, pobre e miserável criatura", pensou ele. "Ela sabe agora que está perdida. Pergunto-me se os juízes da terra se sentem como eu agora quando colocam a touca preta e proferem a sentença de morte sobre algum pobre miserável a tremer, que nunca lhes fez qualquer mal. Sentem eles um fervor heroico de indignação virtuosa, ou sofrem esta angústia surda que rói as minhas entranhas enquanto falo com esta mulher indefesa?"

Ele caminhou ao lado da minha senhora, silenciosamente, durante alguns minutos. Tinham estado a percorrer a avenida sombria e aproximavam-se agora do arbustal desfolhado numa das extremidades do passeio das tílias — o arbustal onde o poço em ruínas abrigava a sua decadência negligenciada entre as massas emaranhadas de silvado.

Um caminho sinuoso, negligenciado e meio sufocado por ervas daninhas, conduzia a este poço. Robert deixou o passeio das tílias e entrou neste caminho. Havia mais luz no arbustal do que na avenida, e o Sr. Audley desejava ver o rosto da minha senhora.

Ele não falou até chegarem ao pedaço de erva viçosa junto ao poço. A alvenaria maciça tinha caído aqui e ali, e fragmentos soltos de alvenaria jaziam enterrados entre ervas daninhas e silvas. Os postes pesados que tinham suportado o rolo de madeira ainda lá estavam, mas o eixo de ferro tinha sido arrancado do seu encaixe e jazia a alguns passos do poço, enferrujado, descolorado e esquecido.

Robert Audley apoiou-se num dos postes cobertos de musgo e olhou para o rosto da minha senhora, muito pálido no frio crepúsculo de inverno. A lua tinha acabado de nascer, um crescente debilmente luminoso nos céus cinzentos, e uma luz fraca e fantasmagórica misturava-se com as sombras enevoadas do dia que declinava. O rosto da minha senhora parecia aquele rosto que Robert Audley tinha visto nos seus sonhos a olhar das espumas brancas nas ondas verdes do mar e a atrair o seu tio para a destruição.

"Essas duas etiquetas estão na minha posse, Lady Audley", continuou ele. "Tirei-as da caixa deixada por si em Crescent Villas. Tirei-as na presença da Sra. Vincent e de Miss Tonks. Tem alguma prova a oferecer contra esta evidência? Diz-me: 'Eu sou Lucy Graham e não tenho absolutamente nada a ver com Helen Talboys'. Nesse caso, produzirá testemunhas que declararão os seus antecedentes. Onde tinha vivido antes do seu aparecimento em Crescent Villas? Deve ter amigos, relações, conexões, que possam apresentar-se para provar tanto quanto isto por si? Se fosse a criatura mais desolada sobre esta terra, seria capaz de apontar alguém que a pudesse identificar com o passado."

"Sim", gritou a minha senhora, "se eu estivesse colocada no banco dos réus, poderia, sem dúvida, apresentar testemunhas para refutar a sua acusação absurda. Mas não estou no banco dos réus, Sr. Audley, e não escolho fazer outra coisa senão rir-me da sua loucura ridícula. Digo-lhe que é louco! Se lhe agrada dizer que Helen Talboys não está morta, e que eu sou Helen Talboys, pode fazê-lo. Se escolhe andar a vaguear pelos lugares em que vivi, e pelos lugares em que esta Sra. Talboys viveu, deve seguir a inclinação da sua própria vontade, mas aviso-o de que tais fantasias conduziram por vezes pessoas, aparentemente tão sãs quanto o senhor, ao encarceramento vitalício num manicómio privado."

Robert Audley sobressaltou-se e recuou alguns passos por entre as ervas daninhas e os arbustos enquanto a minha senhora dizia isto.

"Ela seria capaz de qualquer novo crime para se proteger das consequências do antigo", pensou ele. "Ela seria capaz de usar a sua influência junto do meu tio para me colocar num hospício."

Não digo que Robert Audley fosse um cobarde, mas admitirei que um arrepio de horror, algo semelhante ao medo, o gelou até ao coração ao recordar as coisas horríveis que foram feitas pelas mulheres desde aquele dia em que Eva foi criada para ser companheira e auxiliadora de Adão no jardim do Éden. "E se o poder infernal de dissimulação desta mulher fosse mais forte do que a verdade, e o esmagasse? Ela não poupou George Talboys quando ele se atravessou no seu caminho e a ameaçou com um perigo certo; poupar-me-ia a mim que a ameaço com um perigo muito maior? Serão as mulheres misericordiosas, ou amorosas, ou gentis na proporção da sua beleza e graça? Não houve um certo Monsieur Mazers de Latude, que teve o azar de ofender a toda-poderosa Madam de Pompadour, que expiou a sua indiscrição juvenil com uma prisão vitalícia; que escapou duas vezes da prisão, para ser duas vezes atirado de volta ao cativeiro; que, confiando na tardia generosidade da sua bela inimiga, se traiu perante um demónio implacável?" Robert Audley olhou para o rosto pálido da mulher que estava ao seu lado; aquele rosto formoso e belo, iluminado por olhos azul-estrelados, que tinham neles uma luz estranha e certamente perigosa; e lembrando-se de cem histórias de perfídia feminina, estremeceu ao pensar quão desigual poderia ser a luta entre si e a esposa do seu tio.

"Mostrei-lhe as minhas cartas", pensou ele, "mas ela manteve as dela escondidas de mim. A máscara que ela usa não pode ser arrancada. O meu tio preferiria pensar que sou louco a acreditar que ela é culpada."

O rosto pálido de Clara Talboys — aquele rosto grave e sério, tão diferente no seu carácter da frágil beleza da minha senhora — surgiu diante dele.

"Que cobarde sou eu ao pensar em mim ou no meu próprio perigo", pensou. "Quanto mais vejo esta mulher, mais razões tenho para temer a sua influência sobre os outros; mais razões para desejar que ela esteja longe desta casa."

Ele olhou à sua volta na obscuridade crepuscular. O jardim solitário era tão silencioso como um cemitério isolado, murado e escondido do mundo dos vivos.

"Foi algures neste jardim que ela encontrou George Talboys no dia do seu desaparecimento", pensou. "Imagino onde terá sido que se encontraram; imagino onde terá sido que ele olhou para o seu rosto cruel e a confrontou com a sua falsidade?"

A minha senhora, com a sua pequena mão pousada levemente no poste oposto àquele contra o qual Robert se apoiava, brincava com o seu pé delicado por entre as ervas altas, mas mantinha uma vigilância furtiva sobre o rosto do seu inimigo.

"É um duelo até à morte, então, minha senhora", disse Robert Audley, solenemente. "Recusa-se a aceitar o meu aviso. Recusa-se a fugir e a arrepender-se da sua maldade num lugar estrangeiro, longe do cavalheiro generoso que enganou e ludibriou com as suas falsas bruxarias. Escolhe permanecer aqui e desafiar-me."

"Escolho", respondeu Lady Audley, levantando a cabeça e olhando fixamente para o jovem advogado. "Não é culpa minha se o sobrinho do meu marido enlouquece e me escolhe como vítima da sua monomania."

"Que assim seja, então, minha senhora", respondeu Robert. "O meu amigo George Talboys foi visto pela última vez a entrar nestes jardins pelo pequeno portão de ferro pelo qual entrámos esta noite. Foi ouvido pela última vez a perguntar por si. Foi visto a entrar nestes jardins, mas nunca foi visto a sair deles. Acredito que encontrou a morte dentro dos limites destas propriedades; e que o seu corpo jaz escondido debaixo de alguma água silenciosa, ou em algum canto esquecido deste lugar. Farei com que se realize uma busca tal que derrubará aquela casa até ao chão e arrancará cada árvore nestes jardins, antes que eu falhe em encontrar a sepultura do meu amigo assassinado."

Lucy Audley soltou um grito longo, baixo e lamentoso, e lançou os braços acima da cabeça com um gesto selvagem de desespero, mas não deu resposta à acusação macabra do seu acusador. Os seus braços caíram lentamente, e ela ficou a olhar para Robert Audley, o seu rosto branco a brilhar através da penumbra, os seus olhos azuis cintilantes e dilatados.

"Nunca viverás para fazer isto", disse ela. "Eu matar-te-ei primeiro. Porque me atormentaste tanto? Porque não me podias deixar em paz? Que mal te fiz eu alguma vez para que te tornasses o meu perseguidor, e seguisses os meus passos, e vigiasses os meus olhares, e fosses espião de mim? Queres levar-me à loucura? Sabes o que é lutar com uma mulher louca? Não", gritou a minha senhora, com uma risada, "não sabes, ou nunca terias..."

Ela parou abruptamente e ergueu-se subitamente para toda a sua altura. Foi o mesmo gesto que Robert tinha visto no velho tenente meio embriagado; e tinha essa mesma dignidade — a sublimidade da miséria extrema.

"Vá-se embora, Sr. Audley", disse ela. "Está louco, digo-lhe, o senhor está louco."

"Vou-me embora, minha senhora", respondeu Robert, calmamente. "Teria perdoado os seus crimes por piedade da sua desdita. Recusou aceitar a minha misericórdia. Eu queria ter piedade dos vivos. De agora em diante, apenas me lembrarei do meu dever para com os mortos."

Ele afastou-se do poço solitário sob a sombra das tílias. A minha senhora seguiu-o lentamente por aquela longa e sombria alameda, e através da ponte rústica até ao portão de ferro. Quando ele passou pelo portão, Alicia saiu de uma pequena porta semi-envidraçada que dava para uma sala de pequeno-almoço com painéis de carvalho num dos ângulos da casa, e encontrou o seu primo no limiar da entrada.

"Procurei-te por toda a parte, Robert", disse ela. "O papá desceu à biblioteca e ficará contente por te ver."

O jovem sobressaltou-se ao som da voz fresca e jovem da sua prima. "Santo Céu!", pensou ele, "podem estas duas mulheres ser da mesma argila? Pode esta rapariga franca e de coração generoso, que não consegue esconder nenhum impulso da sua natureza inocente, ser da mesma carne e sangue que aquela criatura miserável cuja sombra cai sobre o caminho ao meu lado!"

Ele olhou da sua prima para Lady Audley, que estava perto do portão, à espera que ele se pusesse de lado e a deixasse passar.

"Não sei o que aconteceu ao seu primo, minha querida Alicia", disse a minha senhora. "Ele está tão distraído e excêntrico que escapa completamente à minha compreensão."

"Na verdade", exclamou a Srta. Audley; "e, no entanto, imagino, pela duração da vossa tête-à-tête, que tenha feito algum esforço para o compreender."

"Oh, sim", disse Robert, calmamente, "a minha senhora e eu compreendemo-nos muito bem; mas como está a ficar tarde, desejo-lhes uma boa noite, senhoras. Dormirei esta noite em Mount Stanning, pois tenho alguns assuntos para tratar por lá, e virei ver o meu tio amanhã."

"Como, Robert", gritou Alicia, "certamente não vais embora sem ver o papá?"

"Sim, minha querida", respondeu o jovem. "Estou um pouco perturbado por causa de alguns assuntos desagradáveis nos quais estou muito envolvido, e preferiria não ver o meu tio. Boa noite, Alicia. Virei ou escreverei amanhã."

Ele apertou a mão da sua prima, fez uma vénia a Lady Audley e caminhou sob as sombras negras da arcada, saindo para a alameda silenciosa para lá do Court.

A minha senhora e Alicia ficaram a observá-lo até que ele desapareceu de vista.

"O que é que, pelo amor de Deus, se passa com o meu primo Robert?", exclamou a Srta. Audley, impacientemente, enquanto o advogado desaparecia. "O que ele quer dizer com estas manias absurdas? Alguns assuntos desagradáveis que o perturbam, de facto! Suponho que a criatura infeliz tenha tido um processo forçado sobre si por algum advogado mal-afortunado, e esteja a afundar-se num estado de imbecilidade a partir de uma vaga consciência da sua própria incompetência."

"Já alguma vez estudou o carácter do seu primo, Alicia?", perguntou a minha senhora, muito seriamente, após uma pausa.

"Estudar o seu carácter! Não, Lady Audley. Porque haveria eu de estudar o seu carácter?", disse Alicia. "É preciso muito pouco estudo para convencer alguém de que ele é um sibarita preguiçoso e egoísta, que não se importa com nada no mundo excepto com o seu próprio conforto e descanso."

"Mas nunca o achou excêntrico?"

"Excêntrico!", repetiu Alicia, franzindo os seus lábios vermelhos e encolhendo os ombros. "Bem, sim — acredito que essa seja a desculpa geralmente dada para tais pessoas. Suponho que o Bob seja excêntrico."

"Nunca a ouvi falar do seu pai e da sua mãe", disse a minha senhora, pensativa. "Lembra-se deles?"

"Nunca vi a sua mãe. Ela era uma tal Srta. Dalrymple, uma rapariga muito impetuosa, que fugiu com o meu tio e, por consequência, perdeu uma fortuna muito considerável. Ela morreu em Nice quando o pobre Bob tinha cinco anos."

"Já alguma vez ouviu algo de especial sobre ela?"

"O que quer dizer com 'especial'?", perguntou Alicia.

"Já alguma vez ouviu dizer que ela era excêntrica — o que as pessoas chamam de 'estranha'?"

"Oh, não", disse Alicia, rindo. "A minha tia era uma mulher muito sensata, acredito, embora tenha casado por amor. Mas deve lembrar-se de que ela morreu antes de eu nascer e, por isso, não senti muita curiosidade sobre ela."

"Mas lembra-se do seu tio, suponho."

"O meu tio Robert?", disse Alicia. "Oh, sim, lembro-me muito bem dele, de facto."

"Ele era excêntrico — quero dizer, peculiar nos seus hábitos, como o seu primo?"

"Sim, acredito que o Robert herdou todas as suas excentricidades do pai. O meu tio expressava a mesma indiferença pelos seus semelhantes que o meu primo, mas como era um bom marido, um pai afetuoso e um senhor bondoso, ninguém nunca contestou as suas opiniões."

"Mas ele era excêntrico?"

"Sim; suponho que fosse geralmente considerado um pouco excêntrico."

"Ah", disse a minha senhora, gravemente, "eu bem pensava. Sabe, Alicia, que a loucura é transmitida mais frequentemente de pai para filha, e de mãe para filha, do que de mãe para filho? O seu primo, Robert Audley, é um jovem muito bonito e, acredito, um jovem de muito bom coração, mas tem de ser vigiado, Alicia, porque ele é louco!"

"Louca!", gritou a Srta. Audley, indignada; "a senhora está a sonhar, ou... ou... está a tentar assustar-me", acrescentou a jovem, com considerável alarme.

"Só quero pô-la de sobreaviso, Alicia", respondeu a minha senhora. "O Sr. Audley pode ser, como diz, meramente excêntrico; mas falou-me esta noite de uma maneira que me encheu de terror absoluto, e acredito que ele está a enlouquecer. Falarei muito seriamente com Sir Michael ainda esta noite."

"Falar com o papá", exclamou Alicia; "certamente não vai afligir o papá sugerindo tal possibilidade!"

"Apenas o porei de sobreaviso, minha querida Alicia."

"Mas ele nunca acreditará na senhora", disse a Srta. Audley; "ele rir-se-á de tal ideia."

"Não, Alicia; ele acreditará em tudo o que eu lhe disser", respondeu a minha senhora, com um sorriso sereno.

CAPÍTULO XXX.

PREPARANDO O TERRENO.

Lady Audley foi do jardim para a biblioteca, um apartamento agradável, apainelado a carvalho, acolhedor, no qual Sir Michael gostava de se sentar a ler ou a escrever, ou a tratar dos negócios da sua herdade com o seu administrador, um camponês robusto, meio agricultor, meio advogado, que arrendava uma pequena quinta a algumas milhas do Court.

O barão estava sentado numa poltrona espaçosa perto da lareira. O brilho intenso do fogo subia e descia, lampejando agora sobre as esculturas polidas da estante de carvalho negro, agora sobre as lombadas de ouro e escarlate dos livros; brilhando por vezes sobre o capacete ateniense de uma Palas de mármore, por vezes iluminando a testa de Sir Robert Peel.

O candeeiro sobre a mesa de leitura ainda não tinha sido aceso, e Sir Michael estava sentado à luz do fogo à espera da chegada da sua jovem esposa.

É-me impossível transmitir a pureza do seu amor generoso — é impossível descrever aquele afeto que era tão terno como o amor de uma jovem mãe pelo seu primogénito, tão corajoso e cavalheiresco como a paixão heroica de um Bayard pela sua senhora soberana.

A porta abriu-se enquanto ele pensava nesta esposa ternamente amada e, ao olhar para cima, o barão viu a figura esguia parada à porta.

"Ora, minha querida!", exclamou ele, enquanto a minha senhora fechava a porta atrás de si e se dirigia para a sua poltrona, "estive a pensar em ti e à tua espera durante uma hora. Onde estiveste e o que estiveste a fazer?"

A minha senhora, parada mais na sombra do que na luz, hesitou alguns momentos antes de responder a esta pergunta.

"Estive em Chelmsford", disse ela, "a fazer compras; e..."

Ela hesitou — torcendo as fitas da sua capota nos seus dedos brancos e finos com um ar de gracioso embaraço.

"E o quê, minha querida?", perguntou o barão — "o que estiveste a fazer desde que vieste de Chelmsford? Ouvi uma carruagem parar à porta há uma hora. Era a tua, não era?"

"Sim, cheguei a casa há uma hora", respondeu a minha senhora, com o mesmo ar de embaraço.

"E o que estiveste a fazer desde que chegaste a casa?"

Sir Michael Audley fez esta pergunta com um tom ligeiramente reprovador. A presença da sua jovem esposa era o sol da sua vida; e embora ele não pudesse suportar acorrentá-la ao seu lado, entristecia-o pensar que ela pudesse ficar voluntariamente ausente dele sem necessidade, desperdiçando o seu tempo em alguma conversa infantil ou ocupação frívola.

"O que estiveste a fazer desde que chegaste a casa, minha querida?", repetiu ele. "O que te manteve tanto tempo longe de mim?"

"Estive — a falar — com — o Sr. Robert Audley."

Ela continuava a torcer a fita da capota à volta dos dedos.

Ela continuava a falar com o mesmo ar de embaraço.

"Robert!", exclamou o barão; "o Robert está aqui?"

"Ele esteve aqui há pouco tempo."

"E ainda está aqui, suponho?"

"Não, ele foi-se embora."

"Foi-se embora!", gritou Sir Michael. "O que queres dizer, minha querida?"

"Quero dizer que o seu sobrinho veio ao Court esta tarde. A Alicia e eu encontrámo-lo a vaguear pelos jardins. Ficou aqui até há cerca de um quarto de hora a falar comigo, e depois apressou-se a sair sem uma palavra de explicação; exceto, na verdade, alguma desculpa ridícula sobre negócios em Mount Stanning."

"Negócios em Mount Stanning! Mas que negócios poderá ele ter naquele lugar fora de mão? Ele foi dormir a Mount Stanning, então, suponho?"

"Sim; creio que ele disse algo nesse sentido."

"Pela minha palavra", exclamou o barão, "acho que aquele rapaz é meio louco."

O rosto da minha senhora estava tão envolto em sombra que Sir Michael Audley não se apercebeu da mudança brilhante que se operou na sua palidez doentia quando ele fez esta observação tão comum. Um sorriso triunfante iluminou o rosto de Lucy Audley, um sorriso que dizia claramente: "Está a chegar — está a chegar; posso manipulá-lo da maneira que eu quiser. Posso pôr-lhe o preto diante dos olhos e, se eu disser que é branco, ele acreditará em mim."

Mas Sir Michael Audley, ao declarar que o juízo do seu sobrinho estava perturbado, apenas proferiu aquele comentário comum que se sabe ter muito pouco significado. O barão tinha, é verdade, uma opinião não muito elevada sobre a faculdade de Robert para os negócios da vida quotidiana. Ele tinha o hábito de ver o seu sobrinho como uma nulidade de bom carácter — um homem cujo coração tinha sido amplamente abastecido pela Natureza liberal com todas as melhores coisas que a deusa generosa tinha para dar, mas cujo cérebro tinha sido algo negligenciado na distribuição de dons intelectuais. Sir Michael Audley cometeu aquele erro que é muito cometido por observadores despreocupados e abastados, que não têm ocasião de olhar para além da superfície. Ele confundiu preguiça com incapacidade. Ele pensava que, porque o sobrinho era ocioso, teria necessariamente de ser estúpido. Ele concluiu que, se Robert não se distinguia, era porque não podia.

Ele esqueceu-se dos Milton mudos e inglórios, que morrem sem voz e inarticulados por falta daquela perseverança obstinada, daquela coragem cega, que o poeta deve possuir antes de conseguir encontrar um editor; esqueceu-se dos Cromwell, que veem os nobres vasos do estado a debater-se num mar de confusão, e a afundarem-se numa tempestade de ruído e perplexidade, e que, contudo, são impotentes para chegar ao leme; proibidos até de enviar um barco salva-vidas para o navio que se afunda. Certamente é um erro julgar o que um homem pode fazer pelo que ele tem feito.

O Valhala do mundo é um burgo fechado, e talvez os maiores homens sejam aqueles que perecem silenciosamente longe do portal sagrado. Talvez os espíritos mais puros e brilhantes sejam aqueles que se encolhem perante o tumulto da pista de corrida — o tumulto e a confusão da luta. O jogo da vida é algo semelhante ao jogo de écarte, e pode ser que as melhores cartas sejam por vezes deixadas no baralho.

A minha senhora tirou a capota e sentou-se num banco forrado a veludo aos pés de Sir Michael. Não havia nada de estudado ou afetado neste gesto juvenil. Era tão natural para Lucy Audley ser infantil, que ninguém teria desejado vê-la de outra forma. Teria parecido tão tolo esperar reserva digna ou gravidade feminina desta sereia de cabelos âmbar, como desejar graves ricos no meio do claro soprano do canto de uma cotovia.

Ela sentou-se com o seu rosto pálido virado para longe da luz do fogo, e com as mãos entrelaçadas sobre o braço da poltrona do seu marido. Eram muito inquietas, estas mãos brancas e esguias. A minha senhora retorcia os dedos adornados de joias um dentro do outro enquanto falava com o marido.

"Eu queria ter vindo ter contigo, sabes, querido", disse ela — "eu queria ter vindo ter contigo assim que cheguei a casa, mas o Sr. Audley insistiu que eu ficasse a falar com ele."

"Mas sobre o quê, meu amor?", perguntou o barão. "O que teria o Robert para te dizer?"

A minha senhora não respondeu a esta pergunta. A sua bela cabeça tombou sobre o joelho do marido, os seus caracóis amarelos e ondulantes caíram sobre o seu rosto.

Sir Michael levantou aquela bela cabeça com as suas mãos fortes, e ergueu o rosto da minha senhora. A luz do fogo a brilhar naquele rosto pálido iluminou os olhos grandes e suaves, azuis, e mostrou-os banhados em lágrimas.

"Lucy, Lucy!", gritou o barão, "o que significa isto? Meu amor, meu amor! O que aconteceu para te deixar angustiada desta maneira?"

Lady Audley tentou falar, mas as palavras morreram inarticuladas nos seus lábios trémulos. Uma sensação de sufoco na garganta parecia estrangular aquelas palavras falsas e plausíveis, a sua única armadura contra os seus inimigos. Ela não conseguia falar. A agonia que ela tinha suportado silenciosamente no lúgubre caminho das tílias tinha-se tornado demasiado forte para ela, e ela desfez-se numa tempestade de soluços histéricos. Não era uma dor simulada que abalava o seu corpo esguio e a rasgava como alguma besta voraz que a teria despedaçado com a sua força horrível. Era uma tempestade de angústia e terror reais, de remorso e miséria. Era o único grito selvagem, no qual a natureza mais frágil da mulher levava a melhor sobre a arte da sereia.

Não era assim que ela pretendia travar o seu terrível duelo com Robert Audley. Aquelas não eram as armas que ela tencionava usar; mas talvez nenhum artifício que pudesse ter engendrado lhe servisse tão bem como esta súbita explosão de dor natural. Ela abalou o marido até à alma. Deixou-o confuso e aterrorizado. Reduziu o intelecto forte daquele homem a uma perplexidade e confusão impotentes. Atingiu o único ponto fraco na natureza de um homem bom. Apelou diretamente ao afeto de Sir Michael Audley pela sua esposa.

Ah, que o Céu ajude a terna fraqueza de um homem forte pela mulher que ama! Que o Céu tenha piedade dele quando a criatura culpada o enganou e vem com as suas lágrimas e lamentações lançar-se aos seus pés em abandono e remorso; torturando-o com a visão da sua agonia; rasgando-lhe o coração com os seus soluços, lacerando-lhe o peito com os seus gemidos — multiplicando os seus sofrimentos numa grande angústia para ele suportar! Multiplicando-os vinte vezes; multiplicando-os na proporção da capacidade de resistência de um homem valente. Que o Céu o perdoe se, enlouquecido por essa agonia cruel, o seu equilíbrio vacilar por um momento e ele estiver pronto a perdoar tudo; pronto a levar este ser miserável para o abrigo do seu peito e a perdoar aquilo que a voz severa da honra masculina insiste que não deve ser perdoado. Tenham piedade dele, tenham piedade! O pior remorso da esposa, quando ela permanece fora do limiar da casa onde nunca mais poderá entrar, não é igual à agonia do marido que fecha o portal àquela face familiar e suplicante. A angústia da mãe que nunca mais poderá olhar para os seus filhos é menor do que o tormento do pai que tem de dizer àqueles pequeninos: "Meus queridos, a partir de agora estais órfãos de mãe."

Sir Michael Audley levantou-se da sua cadeira, tremendo de indignação e pronto para entrar em batalha imediata com a pessoa que causara a dor da sua esposa.

"Lucy", disse ele, "Lucy, insisto que me digas o que e quem te angustiou. Insisto nisso. Quem quer que te tenha incomodado responder-me-á pela tua dor. Vamos, meu amor, diz-me imediatamente o que é."

Ele sentou-se e inclinou-se sobre a figura prostrada aos seus pés, acalmando a sua própria agitação no desejo de apaziguar a aflição da esposa.

"Diz-me o que é, minha querida", sussurrou ele, ternamente.

O paroxismo agudo passara e a minha senhora levantou os olhos. Uma luz cintilante brilhava através das lágrimas nos seus olhos, e as linhas em redor da sua boca bonita e rosada, aquelas linhas duras e cruéis que Robert Audley tinha observado no retrato pré-rafaelita, eram claramente visíveis à luz do fogo.

"Sou muito tola", disse ela; "mas, na verdade, ele deixou-me completamente histérica."

"Quem — quem te deixou histérica?"

"O teu sobrinho — o Sr. Robert Audley."

"Robert", exclamou o baronete. "Lucy, o que queres dizer?"

"Disse-te que o Sr. Audley insistiu para que eu fosse ao caminho das tílias, querido", disse a minha senhora. "Ele queria falar comigo, disse ele, e eu fui, e ele disse coisas tão horríveis que..."

"Que coisas horríveis, Lucy?"

Lady Audley estremeceu e agarrou-se com dedos convulsivos à mão forte que repousava carinhosamente sobre o seu ombro.

"O que é que ele disse, Lucy?"

"Oh, meu querido amor, como posso dizer-te?", exclamou a minha senhora. "Sei que te vou angustiar — ou tu vais rir-te de mim, e então..."

"Rir-me de ti? Não, Lucy."

Lady Audley ficou em silêncio por um momento. Sentou-se a olhar fixamente para o fogo, com os dedos ainda entrelaçados na mão do marido.

"Meu querido", disse ela, lentamente, hesitando aqui e ali entre as palavras, como se quase receasse pronunciá-las, "já alguma vez — tenho tanto medo de te aborrecer — já alguma vez pensaste que o Sr. Audley é um pouco... um pouco..."

"Um pouco o quê, minha querida?"

"Um pouco fora do seu juízo?", balbuciou Lady Audley.

"Fora do seu juízo!", exclamou Sir Michael. "Minha querida rapariga, o que estás a pensar?"

"Disseste há pouco, querido, que achavas que ele estava meio louco."

"Disse, meu amor?", disse o baronete, rindo. "Não me lembro de o ter dito, e foi apenas uma façon de parler, que não significava rigorosamente nada. O Robert pode ser um pouco excêntrico — um pouco estúpido, talvez — pode não ser sobrecarregado de inteligência, mas não creio que ele tenha massa cinzenta para a loucura. Acredito que, geralmente, são os grandes intelectos que se desequilibram."

"Mas a loucura é por vezes hereditária", disse a minha senhora. "O Sr. Audley pode ter herdado..."

"Ele não herdou nenhuma loucura da família do seu pai", interrompeu Sir Michael. "Os Audleys nunca povoaram manicómios privados nem alimentaram médicos de loucos."

"Nem da família da sua mãe?"

"Não que eu saiba."

"As pessoas geralmente mantêm estas coisas em segredo", disse a minha senhora, gravemente. "Pode ter havido loucura na família da tua cunhada."

"Não creio, minha querida", respondeu Sir Michael. "Mas, Lucy, diz-me o que, em nome do Céu, te pôs esta ideia na cabeça."

"Tenho tentado encontrar uma explicação para a conduta do teu sobrinho. Não a consigo explicar de outra maneira. Se tivesses ouvido as coisas que ele me disse esta noite, Sir Michael, tu também poderias tê-lo achado louco."

"Mas o que é que ele disse, Lucy?"

"Mal consigo dizer-te. Podes ver o quanto ele me estupefactou e desconcertou. Acredito que ele viveu demasiado tempo sozinho naquelas solitárias câmaras de Temple. Talvez leia demasiado, ou fume demasiado. Sabes que alguns médicos declaram que a loucura é uma mera doença do cérebro — uma doença à qual qualquer pessoa está sujeita, e que pode ser produzida por causas dadas e curada por meios dados."

Os olhos de Lady Audley ainda estavam fixos nos carvões a arder na ampla lareira. Ela falava como se estivesse a discutir um assunto que ouvira discutir muitas vezes antes. Falava como se a sua mente quase se tivesse desviado do pensamento sobre o sobrinho do marido para a questão mais ampla da loucura em abstrato.

"Porque é que ele não haveria de estar louco?", retomou a minha senhora. "As pessoas estão insanas durante anos e anos antes de a sua insanidade ser descoberta. Elas sabem que estão loucas, mas sabem como guardar o seu segredo; e, talvez, por vezes guardem-no até morrerem. Por vezes um paroxismo apodera-se delas e, numa hora má, traem-se a si mesmas. Cometem um crime, talvez. A tentação horrível da oportunidade assalta-as; a faca está na sua mão e a vítima inconsciente ao seu lado. Podem vencer o demónio inquieto e ir embora e morrer inocentes de qualquer ato violento; mas podem ceder à tentação horrível — ao desejo assustador, apaixonado e voraz pela violência e pelo horror. Por vezes cedem e estão perdidas."

A voz de Lady Audley elevou-se à medida que argumentava esta questão terrível. A excitação histérica da qual ela acabara de recuperar deixara os seus efeitos, mas ela controlou-se, e o seu tom tornou-se mais calmo à medida que retomava:

"Robert Audley está louco", disse ela, decisivamente. "Qual é um dos diagnósticos mais estranhos da loucura — qual é o primeiro sinal terrível de aberração mental? A mente torna-se estacionária; o cérebro estagna; a corrente uniforme da reflexão é interrompida; o poder de pensamento do cérebro resolve-se num monótono. Como as águas de uma piscina sem marés apodrecem devido à sua estagnação, a mente torna-se turva e corrupta por falta de ação; e a reflexão perpétua sobre um assunto resolve-se em monomania. Robert Audley é um monomaníaco. O desaparecimento do seu amigo, George Talboys, entristeceu-o e desconcertou-o. Ele remoeu esta ideia única até perder o poder de pensar em qualquer outra coisa. A ideia única, observada perpetuamente, tornou-se distorcida para a sua visão mental. Repete a palavra mais comum na língua inglesa vinte vezes e, antes da vigésima repetição, terás começado a perguntar-te se a palavra que repetes é realmente a palavra que queres proferir. Robert Audley pensou no desaparecimento do seu amigo até que a ideia única fez o seu trabalho fatal e pouco saudável. Ele olha para um evento comum com uma visão doentia e distorce-o num horror sombrio engendrado pela sua própria monomania. Se não queres tornar-me tão louca quanto ele, nunca me deixes vê-lo outra vez. Ele declarou esta noite que George Talboys foi assassinado neste lugar, e que ele irá arrancar cada árvore do jardim e derrubar cada tijolo da casa em busca de..."

A minha senhora pausou. As palavras morreram nos seus lábios. Ela tinha-se exaurido com a estranha energia com que falara. Tinha-se transformado de uma beleza frívola e infantil numa mulher, forte para argumentar a sua própria causa e defender a sua própria defesa.

"Derrubar esta casa?", exclamou o baronete. "George Talboys assassinado em Audley Court! Foi o Robert que disse isto, Lucy?"

"Ele disse algo desse género — algo que me assustou muito."

"Então ele deve estar louco", disse Sir Michael, gravemente. "Estou desconcertado com o que me dizes. Ele disse mesmo isto, Lucy, ou tu compreendeste-o mal?"

"Eu... eu... não creio que tenha compreendido", balbuciou a minha senhora. "Viste como fiquei assustada quando entrei. Não teria ficado tão agitada se ele não tivesse dito algo horrível."

Lady Audley tinha-se aproveitado dos argumentos mais fortes com que podia ajudar a sua causa.

"Com certeza, minha querida, com certeza", respondeu o baronete. "O que poderia ter metido uma fantasia tão horrível na cabeça do pobre rapaz? Este Sr. Talboys — um completo estranho para todos nós — assassinado em Audley Court! Vou a Mount Stanning esta noite e ver o Robert. Conheço-o desde que era um bebé e não posso ser enganado por ele. Se há realmente algo errado, ele não será capaz de o esconder de mim."

A minha senhora encolheu os ombros.

"Essa é uma questão algo aberta", disse ela. "É geralmente um estranho que é o primeiro a observar qualquer peculiaridade psicológica."

As palavras difíceis soavam estranhas nos lábios rosados da minha senhora; mas a sua sabedoria recém-adotada tinha uma certa doçura pitoresca que encantava e desconcertava o seu marido.

"Mas tu não deves ir a Mount Stanning, meu querido amor", disse ela, ternamente. "Lembra-te de que estás sob ordens estritas de ficar dentro de casa até que o tempo esteja mais ameno e o sol brilhe sobre este cruel país gelado."

Sir Michael Audley recuou na sua espaçosa cadeira com um suspiro de resignação.

"É verdade, Lucy", disse ele; "devemos obedecer ao Sr. Dawson. Suponho que o Robert virá ver-me amanhã."

"Sim, querido. Acho que ele disse que viria."

"Então temos de esperar até amanhã, minha querida. Não consigo acreditar que haja realmente algo errado com o pobre rapaz — não consigo acreditar nisso, Lucy."

"Então, como explicas este delírio extraordinário sobre este Sr. Talboys?", perguntou a minha senhora.

Sir Michael abanou a cabeça.

"Não sei, Lucy — não sei", respondeu ele. "É sempre tão difícil acreditar que qualquer uma das calamidades que acontecem continuamente aos nossos semelhantes nos acontecerá a nós. Não consigo acreditar que a mente do meu sobrinho esteja prejudicada — não consigo acreditar nisso. Eu... eu vou fazer com que ele fique aqui, Lucy, e vou observá-lo de perto. Garanto-te, meu amor, que se houver algo errado, tenho a certeza de que o descobrirei. Não posso enganar-me num jovem que sempre foi para mim como o meu próprio filho. Mas, minha querida, porque é que ficaste tão assustada com a conversa louca do Robert? Isso não te poderia afetar."

A minha senhora suspirou penosamente.

"Deves achar-me muito forte de espírito, Sir Michael", disse ela, com um ar algo ofendido, "se imaginas que posso ouvir este tipo de coisas indiferentemente. Sei que nunca serei capaz de ver o Sr. Audley outra vez."

"E não verás, minha querida — não verás."

"Disseste há pouco que o terias aqui", murmurou Lady Audley.

"Mas não o terei, minha querida rapariga, se a sua presença te incomoda. Santo Céu! Lucy, podes imaginar por um momento que tenho algum desejo maior do que promover a tua felicidade? Consultarei algum médico de Londres sobre o Robert e deixarei que ele descubra se há realmente algo de errado com o único filho do meu pobre irmão. Não serás incomodada, Lucy."

"Deves achar-me muito indelicada, querido", disse a minha senhora, "e sei que não deveria ficar incomodada com o pobre rapaz; mas ele parece ter tomado alguma noção absurda na cabeça sobre mim."

"Sobre ti, Lucy!", exclamou Sir Michael.

"Sim, querido. Ele parece ligar-me de uma forma vaga — que não consigo compreender bem — ao desaparecimento deste Sr. Talboys."

"Impossível, Lucy! Deves tê-lo compreendido mal."

"Não creio."

"Então ele deve estar louco", disse o baronete — "ele deve estar louco. Vou esperar até ele regressar à cidade e depois enviarei alguém às suas câmaras para falar com ele. Santo Céu! Que negócio misterioso é este."

"Receio ter-te angustiado, querido", murmurou Lady Audley.

"Sim, minha querida, estou muito angustiado com o que me contaste; mas fizeste muito bem em falar-me francamente sobre este negócio terrível. Tenho de pensar nisso, minha querida, e tentar decidir o que é melhor fazer."

A minha senhora levantou-se do otomano baixo onde estivera sentada. O fogo tinha-se reduzido e havia apenas um brilho ténue de luz vermelha na sala. Lucy Audley inclinou-se sobre a cadeira do marido e pousou os lábios na sua testa larga.

"Como tens sido sempre bom para mim, querido", sussurrou ela suavemente. "Nunca deixarias ninguém influenciar-te contra mim, deixarias, querido?"

"Influenciar-me contra ti?", repetiu o baronete. "Não, meu amor."

"Porque sabes, querido", prosseguiu a minha senhora, "existem pessoas malvadas assim como pessoas loucas no mundo, e pode haver algumas pessoas a cujo interesse seria prejudicar-me."

"É melhor que não tentem, então, minha querida", respondeu Sir Michael; "elas descobririam estar numa posição bastante perigosa se o fizessem."

Lady Audley riu-se alto, com uma gargalhada alegre, triunfante e prateada que vibrou pela sala silenciosa.

"Meu querido amor", disse ela, "eu sei que me amas. E agora tenho de fugir, querido, pois já passam das sete. Estava comprometida para jantar em casa da Sra. Montford, mas tenho de enviar um cavalariço com uma mensagem de desculpa, pois o Sr. Audley deixou-me completamente inapta para companhia. Ficarei em casa para cuidar de ti, querido. Irás para a cama muito cedo, não irás, e terás muito cuidado contigo?"

"Sim, querida."

A minha senhora saiu da sala a correr para dar as suas ordens sobre a mensagem que deveria ser levada à casa onde deveria ter jantado. Ela hesitou por um momento enquanto fechava a porta da biblioteca — ela hesitou e colocou a mão sobre o peito para verificar a pulsação rápida do seu coração.

"Tenho tido medo de si, Sr. Robert Audley", pensou ela; "mas talvez chegue o dia em que terá motivos para ter medo de mim."

CAPÍTULO XXXI.

A PETIÇÃO DE PHOEBE.

A divisão entre Lady Audley e a sua enteada não se tinha tornado mais estreita nos dois meses que tinham decorrido desde que o agradável período de férias de Natal tinha sido passado em Audley Court. Não havia uma guerra aberta entre as duas mulheres; havia apenas uma neutralidade armada, interrompida aqui e ali por breves escaramuças femininas e tempestades passageiras de palavras. Lamento dizer que Alicia teria preferido muito mais uma batalha campal aberta a esta desunião silenciosa e não demonstrativa; mas não era muito fácil discutir com a minha senhora. Ela tinha respostas suaves para afastar a ira. Ela conseguia sorrir de forma encantadora à petulância aberta da enteada e rir alegremente do mau génio da jovem dama. Talvez, se ela fosse menos amável, se fosse mais parecida com Alicia em disposição, as duas senhoras poderiam ter gasto a sua inimizade numa discussão tremenda e poderiam ter sido, desde então, afetuosas e amigas. Mas Lucy Audley não queria fazer guerra. Ela levava por diante a soma da sua aversão e colocava-a a render a uma taxa constante de juros, até que a brecha entre a sua enteada e ela própria, alargando-se um pouco todos os dias, se tornou um grande abismo, totalmente intransponível por pombas portadoras de ramos de oliveira de ambos os lados do abismo. Não pode haver reconciliação onde não há guerra aberta. Tem de haver uma batalha, uma batalha valente e ruidosa, com flâmulas a ondular e canhões a rugir, antes que possa haver tratados de paz e apertos de mão entusiásticos. Talvez a união entre a França e a Inglaterra deva a sua maior força à lembrança de Crécy e Waterloo, Navarino e Trafalgar. Nós odiamo-nos e vencemo-nos e discutimos tudo, como diz a frase comum; e podemos agora dar-nos ao luxo de cair nos braços uns dos outros e prometer amizade eterna e fraternidade duradoura. Esperemos que, quando o "Yankeedom" do Norte tiver dizimado e sido dizimado, o fanfarrão Jonathan possa lançar-se ao peito do seu irmão do Sul, perdoando e perdoado.

Alicia Audley e a bonita esposa do seu pai tinham bastante espaço para a indulgência confortável da sua aversão na espaçosa mansão antiga. A minha senhora tinha os seus próprios aposentos, como sabemos — câmaras luxuosas, nas quais todas as elegâncias concebíveis tinham sido reunidas para o conforto da sua ocupante. Alicia tinha os seus próprios quartos noutra parte da grande casa. Ela tinha a sua égua favorita, o seu cão Terra-Nova e os seus materiais de desenho, e tornava-se toleravelmente feliz. Ela não era muito feliz, esta rapariga franca e de coração generoso, pois era quase impossível que ela pudesse estar totalmente à vontade na atmosfera constrangida da Court. O seu pai estava mudado; aquele querido pai sobre quem ela outrora reinara suprema com a autoridade ilimitada de uma criança mimada, tinha aceitado outra governante e submetido-se a uma nova dinastia. Pouco a pouco, o pequeno poder da minha senhora fazia-se sentir naquele agregado familiar restrito; e Alicia via o seu pai ser gradualmente atraído para o outro lado do abismo que dividia Lady Audley da sua enteada, até que ele se encontrou, finalmente, completamente do outro lado do abismo, e olhava friamente para a sua única filha através daquele fosso que se alargava.

Alicia sentia que ele estava perdido para ela. Os sorrisos radiantes da minha senhora, as palavras cativantes da minha senhora, os olhares radiantes e as graças encantadoras da minha senhora tinham feito o seu trabalho de encanto, e Sir Michael tinha passado a ver a sua filha como uma jovem um pouco voluntariosa e caprichosa que se tinha comportado com deliberada indelicadeza para com a esposa que ele amava.

A pobre Alicia via tudo isto e suportava o seu fardo da melhor forma que podia. Parecia muito difícil ser uma herdeira bonita, de olhos cinzentos, com cães, cavalos e criados ao seu comando, e ainda assim estar tão sozinha no mundo a ponto de não conhecer um único ouvido amigo em quem pudesse despejar as suas mágoas.

"Se o Bob servisse para alguma coisa, eu poderia ter-lhe dito o quão infeliz sou", pensava a Srta. Audley; "mas poderia muito bem contar as minhas mágoas ao César, dada a consolação que obteria do primo Robert."

Sir Michael Audley obedeceu à sua bonita enfermeira e foi para a cama pouco depois das nove horas nesta sombria noite de março. Talvez o quarto do baronete fosse o refúgio mais agradável que um doente poderia ter escolhido num tempo tão frio e desolador. As cortinas de veludo verde-escuro estavam fechadas diante das janelas e em torno da pesada cama. O fogo de lenha ardia de forma avermelhada na ampla lareira. O candeeiro de leitura estava aceso numa deliciosa mesinha perto da almofada de Sir Michael, e uma pilha de revistas e jornais tinha sido arrumada pelas próprias mãos delicadas da minha senhora para o prazer do doente.

Lady Audley sentou-se à cabeceira da cama durante cerca de dez minutos, a falar com o marido, a falar muito seriamente, sobre esta questão estranha e terrível — a loucura de Robert Audley; mas, ao fim desse tempo, ela levantou-se e deu as boas-noites ao marido.

Ela baixou a sombra de seda verde diante do candeeiro de leitura, ajustando-a cuidadosamente para o repouso dos olhos do baronete.

"Vou deixar-te, querido", disse ela. "Se conseguires dormir, tanto melhor. Se quiseres ler, os livros e jornais estão perto de ti. Deixarei as portas entre os quartos abertas e ouvirei a tua voz se me chamares."

Lady Audley passou pelo seu quarto de vestir em direção ao boudoir, onde estivera sentada com o marido desde o jantar.

Cada evidência de requinte feminino era visível na elegante câmara. O piano da minha senhora estava aberto, coberto por folhas de música espalhadas e coleções primorosamente encadernadas de cenas e fantasias que nenhum mestre precisaria ter desdenhado estudar. O cavalete da minha senhora permanecia perto da janela, dando testemunho do talento artístico da minha senhora na forma de um esboço em aguarela da Corte e dos jardins. Os bordados de renda e musselina, semelhantes a fadas, da minha senhora, sedas com matizes de arco-íris e lãs de tons delicados atulhavam o luxuoso apartamento; enquanto os espelhos, engenhosamente colocados em ângulos e cantos opostos por um estofador artístico, multiplicavam a imagem da minha senhora e, nessa imagem, refletiam o objeto mais belo na câmara encantada.

Em meio a toda esta luz de lamparina, dourados, cor, riqueza e beleza, Lucy Audley sentou-se num assento baixo junto ao fogo para pensar.

Se o Sr. Holman Hunt pudesse ter espreitado o bonito boudoir, creio que a imagem teria sido fotografada no seu cérebro para ser reproduzida mais tarde num retrato de meio corpo de um bispo, para a glorificação da irmandade pré-rafaelita. A minha senhora naquela atitude semideitada, com o cotovelo apoiado num joelho e o queixo perfeito sustentado pela mão, as ricas dobras da cortina caindo em longas linhas ondulantes a partir do contorno requintado da sua figura, e a luz do fogo luminosa, cor de rosa, envolvendo-a numa névoa suave, apenas quebrada pelo brilho dourado do seu cabelo amarelo — bela em si mesma, mas tornada estonteantemente bela pelos cenários sumptuosos que adornam o santuário da sua formosura. Taças de beber de ouro e marfim, cinzeladas por Benvenuto Cellini; armários de buhl e porcelana, ostentando a cifra da austríaca Maria Antonieta, entre desenhos de botões de rosa e nós de amor, pássaros e borboletas, cupidos e pastoras, deusas, cortesãos, camponeses e leiteiras; estatuetas de mármore de Parian e porcelana de biscuit; cestos dourados de flores de estufa; cofres fantásticos de filigrana indiana; chávenas frágeis de porcelana turquesa, adornadas por miniaturas em medalhão de Luís o Grande e Luís o Bem-Amado, Louise de la Valliere, Athenais de Montespan e Marie Jeanne Gomard de Vaubernier: quadros de gabinete e espelhos dourados, cetim cintilante e renda diáfana; tudo o que o ouro pode comprar ou a arte inventar tinha sido reunido para o embelezamento desta câmara silenciosa em que a minha senhora se sentava, escutando o lamento do vento agudo de março e o bater das folhas de hera contra as janelas, e olhando para os abismos vermelhos nas brasas ardentes.

Eu estaria a pregar um sermão muito gasto e a bater na mesma tecla de uma moral muito familiar se aproveitasse esta oportunidade para declamar contra a arte e a beleza, porque a minha senhora era mais miserável neste apartamento elegante do que muitas costureiras esfomeadas no seu sótão sombrio. Ela era miserável devido a uma ferida que jazia demasiado profunda para a possibilidade de qualquer consolo de emplastros como a riqueza e o luxo; mas a sua miséria era de natureza anormal, e não vejo ocasião para me aproveitar do facto da sua desgraça como argumento a favor da pobreza e do desconforto em oposição à opulência. As esculturas de Benvenuto Cellini e a porcelana de Sèvres não lhe podiam dar felicidade, porque ela tinha saído da sua região. Ela já não era inocente; e o prazer que tiramos da arte e da formosura, sendo um prazer inocente, tinha passado para além do seu alcance. Seis ou sete anos antes, ela teria sido feliz na posse deste pequeno palácio de Aladino; mas ela tinha vagueado para fora do círculo de criaturas descuidadas, em busca de prazer, tinha-se perdido longe num labirinto desolado de culpa e traição, terror e crime, e todos os tesouros que tinham sido recolhidos para ela não lhe poderiam ter dado prazer algum, exceto um: o prazer de os atirar para um monte debaixo dos seus pés, pisá-los e destruí-los no seu cruel desespero.

Havia algumas coisas que a teriam inspirado com uma alegria terrível, um regozijo horrível. Se Robert Audley, o seu inimigo implacável, o seu perseguidor incansável, jazesse morto na câmara contígua, ela teria exultado sobre o seu caixão.

Que prazeres poderiam ter restado para Lucrécia Bórgia e Catarina de Médici, quando a terrível linha divisória entre a inocência e a culpa era ultrapassada, e as criaturas perdidas permaneciam no lado exterior solitário? Apenas alegrias horríveis e vingativas, e deleites traiçoeiros restavam para estas mulheres miseráveis. Com que amargura desdenhosa elas devem ter observado as vaidades frívolas, os pequenos enganos, os pecados mesquinhos dos infratores comuns. Talvez elas sentissem um orgulho horrível na enormidade da sua maldade; nesta "Divindade do Inferno", que as tornava as maiores entre as criaturas pecadoras.

A minha senhora, meditando junto ao fogo na sua câmara solitária, com os seus olhos grandes, claros e azuis fixos nos abismos boquiabertos de carmesim lívido nas brasas ardentes, pode ter pensado em muitas coisas muito distantes da luta terrivelmente silenciosa em que estava envolvida. Pode ter pensado nos longínquos anos de inocência infantil, tolices e egoísmos infantis, de pecados femininos frívolos que tinham pesado muito levemente na sua consciência. Talvez nessa divagação retrospectiva ela recordasse aquele tempo antigo em que olhou pela primeira vez ao espelho e descobriu que era bela; aquele tempo fatal e precoce em que começou a ver a sua formosura como um direito divino, uma posse sem limites que seria uma compensação contra todas as faltas de rapariga, um contrapeso de cada pecado juvenil. Lembrar-se-ia do dia em que aquele dote de fada da beleza a ensinou pela primeira vez a ser egoísta e cruel, indiferente às alegrias e tristezas dos outros, de coração frio e caprichosa, gananciosa de admiração, exigente e tirânica com aquela pequena tirania feminina que é o pior dos despotismos? Teria ela traçado cada pecado da sua vida até à sua verdadeira fonte? E teria descoberto essa fonte envenenada na sua própria estimativa exagerada do valor de um rosto bonito? Certamente, se os seus pensamentos vaguearam tão longe ao longo da corrente retroativa da sua vida, ela deve ter-se arrependido com amargura e desespero daquele primeiro dia em que as paixões dominantes da sua vida se tinham tornado as suas governantes, e os três demónios da Vaidade, do Egoísmo e da Ambição tinham dado as mãos e dito: "Esta mulher é nossa escrava, vejamos o que ela se tornará sob a nossa orientação."

Como pareciam pequenos aqueles primeiros erros juvenis enquanto a minha senhora olhava para trás, naquela longa divagação junto à lareira solitária! Que pequenas vaidades, que crueldades mesquinhas! Um triunfo sobre uma colega de escola; um namorico com o amante de uma amiga; uma afirmação do direito divino investido em olhos azuis e cabelos de tom dourado cintilante. Mas como terrivelmente esse caminho estreito se tinha alargado para a estrada larga do pecado, e como os passos se tinham tornado rápidos no agora familiar caminho!

A minha senhora torceu os dedos nos seus caracóis soltos cor de âmbar, e fez como se os fosse arrancar da cabeça. Mas, mesmo naquele momento de desespero mudo, o domínio inabalável da beleza afirmou-se, e ela libertou o pobre brilho emaranhado de caracóis, deixando-os formar uma auréola em torno da sua cabeça na luz fraca do fogo.

"Eu não era má quando era jovem", pensou ela, enquanto olhava sombriamente para o fogo, "eu era apenas imprudente. Nunca fiz mal a ninguém — pelo menos, voluntariamente. Terei sido alguma vez realmente má, pergunto-me?" meditou ela. "As minhas piores maldades foram o resultado de impulsos selvagens, e não de conspirações profundamente arquitetadas. Não sou como as mulheres sobre as quais li, que jaziam noite após noite na escuridão e no silêncio horríveis, planeando atos traiçoeiros e organizando todas as circunstâncias de um crime marcado. Pergunto-me se elas sofriam — essas mulheres — se alguma vez sofreram como..."

Os seus pensamentos perderam-se num labirinto cansativo de confusão. De repente, ela endireitou-se com um gesto orgulhoso e desafiante, e os seus olhos brilharam com uma luz que não era inteiramente refletida pelo fogo.

"O senhor é louco, Sr. Robert Audley", disse ela, "o senhor é louco, e as suas fantasias são fantasias de um louco. Eu sei o que é a loucura. Conheço os seus sinais e indícios, e digo que o senhor é louco."

Ela levou a mão à cabeça, como se pensasse em algo que a confundia e perturbava, e que achava difícil contemplar com calma.

"Ouso desafiá-lo?" murmurou ela. "Ouso? ouso? Será que ele parará, agora que foi tão longe? Parará por medo de mim? Parará por medo de mim, quando o pensamento do que o seu tio deve sofrer não o deteve? Haverá algo que o pare — senão a morte?"

Ela pronunciou as últimas palavras num sussurro terrível; e com a cabeça inclinada para a frente, os olhos dilatados e os lábios ainda entreabertos como tinham estado na sua pronúncia daquela palavra final "morte", ela sentou-se a olhar fixamente para o fogo.

"Não consigo conspirar coisas horríveis", murmurou ela, pouco depois; "o meu cérebro não é forte o suficiente, ou não sou suficientemente má, ou corajosa. Se eu encontrasse Robert Audley naqueles jardins solitários, como eu..."

O fluxo dos seus pensamentos foi interrompido por uma batida cautelosa à porta. Ela levantou-se subitamente, sobressaltada por qualquer som no silêncio do seu quarto. Levantou-se e atirou-se para uma cadeira baixa perto do fogo. Atirou a sua bela cabeça para trás, sobre as almofadas macias, e pegou num livro da mesa perto dela. Insignificante como esta ação era, ela falava muito claramente. Falava muito claramente de medos recorrentes — de necessidades fatais de ocultação — de uma mente que, nas suas agonias silenciosas, estava sempre viva para a importância do efeito exterior. Dizia mais claramente do que qualquer outra coisa poderia ter dito quão completa atriz a minha senhora tinha sido tornada pela necessidade terrível da sua vida.

O toque modesto na porta foi repetido.

"Entre", gritou Lady Audley, no seu tom mais vivo.

A porta foi aberta com aquela ausência de ruído respeitosa peculiar a um criado bem-educado, e uma jovem, vestida de forma simples, e trazendo alguns dos ventos frios de março nas dobras das suas vestes, cruzou o limiar do apartamento e ficou perto da porta, esperando permissão para se aproximar das regiões interiores do refúgio da minha senhora.

Era Phoebe Marks, a esposa de rosto pálido do estalajadeiro de Mount Stanning.

"Peço perdão, minha senhora, por entrar sem licença", disse ela; "mas pensei que poderia aventurar-me a vir direto, sem esperar por permissão."

"Sim, sim, Phoebe, com certeza. Tira o chapéu, criatura infeliz e com aspeto frio, e vem sentar-te aqui."

Lady Audley apontou para o otomano baixo sobre o qual ela própria estivera sentada alguns minutos antes. A criada da senhora sentara-se frequentemente nele a ouvir a tagarelice da sua patroa nos velhos tempos, quando ela era a principal companhia e confidente da minha senhora.

"Senta-te aqui, Phoebe", repetiu Lady Audley; "senta-te aqui e fala comigo; estou muito contente por teres vindo aqui esta noite. Estava horrivelmente solitária neste lugar sombrio."

A minha senhora estremeceu e olhou em redor para a brilhante coleção de bricabraque, como se o Sèvres e o bronze, o buhl e o ormolu fossem os ornamentos bolorentos de algum castelo em ruínas. A miséria sombria dos seus pensamentos tinha-se comunicado a cada objeto ao seu redor, e todas as coisas exteriores tiravam a sua cor daquela vida interior cansada que seguia o seu curso lento de angústia secreta no seu peito. Ela tinha dito a pura verdade ao dizer que estava contente com a visita da sua criada. A sua natureza frívola agarrava-se a este fraco abrigo na hora do seu medo e sofrimento. Havia simpatias entre ela e esta rapariga, que era como ela, interiormente tanto quanto exteriormente — como ela, egoísta, fria e cruel, ansiosa pelo seu próprio avanço, e gananciosa de opulência e elegância; zangada com a sorte que lhe tinha sido destinada, e cansada da dependência monótona. A minha senhora odiava Alicia pela sua natureza franca, apaixonada, generosa e audaz; ela odiava a sua enteada e agarrava-se a esta rapariga de rosto pálido e cabelos pálidos, que ela pensava não ser melhor nem pior do que ela própria.

Phoebe Marks obedeceu às ordens da sua antiga patroa e tirou o chapéu antes de se sentar no otomano aos pés de Lady Audley. As suas faixas lisas de cabelo claro não estavam desgrenhadas pelos ventos de março; o seu vestido castanho-claro bem talhado e o colarinho de linho estavam tão bem arranjados como teriam estado se ela tivesse acabado de completar a sua toalete naquele momento.

"Sir Michael está melhor, espero, minha senhora", disse ela.

"Sim, Phoebe, muito melhor. Ele está a dormir. Podes fechar aquela porta", acrescentou Lady Audley, com um movimento da cabeça em direção à porta de comunicação entre os quartos, que tinha sido deixada aberta.

A Sra. Marks obedeceu submissamente e depois regressou ao seu assento.

"Estou muito, muito infeliz, Phoebe", disse a minha senhora, irritadiça; "miseravelmente infeliz."

"Sobre o... segredo?" perguntou a Sra. Marks, num meio sussurro.

A minha senhora não notou essa pergunta. Ela recomeçou no mesmo tom de queixa. Estava contente por poder queixar-se, mesmo a esta criada. Tinha meditado sobre os seus medos e sofrido em segredo durante tanto tempo que era um alívio inexprimível para ela lamentar o seu destino em voz alta.

"Sou cruelmente perseguida e assediada, Phoebe Marks", disse ela. "Sou perseguida e atormentada por um homem a quem nunca fiz mal, a quem nunca desejei fazer mal. Nunca me é permitido descansar por este perseguidor implacável, e..."

Ela fez uma pausa, olhando novamente para o fogo, como tinha feito na sua solidão. Perdida novamente nas intrincadas trevas de pensamentos que vagueavam de um lado para o outro num caos terrível de perplexidades aterrorizadas, ela não conseguia chegar a qualquer conclusão fixa.

Phoebe Marks observava o rosto da minha senhora, olhando para cima, para a sua antiga patroa, com olhos pálidos e ansiosos, que só relaxavam a sua vigilância quando o olhar de Lady Audley encontrava o da sua companheira.

"Acho que sei a quem se refere, minha senhora", disse a esposa do estalajadeiro, após uma pausa; "penso que sei quem é que é tão cruel para consigo."

"Oh, claro", respondeu a minha senhora, amargamente; "os meus segredos são os segredos de toda a gente. Sabes tudo sobre isso, sem dúvida."

"A pessoa é um cavalheiro, não é, minha senhora?"

"Sim."

"Um cavalheiro que veio ao Castle Inn há dois meses, quando a avisei..."

"Sim, sim", respondeu a minha senhora, impacientemente.

"Pensei que sim. O mesmo cavalheiro está no nosso estabelecimento esta noite, minha senhora."

Lady Audley levantou-se da sua cadeira — levantou-se como se tivesse feito algo desesperado na sua fúria desesperante; mas ela recaiu novamente com um suspiro cansado e queixoso. Que guerra poderia uma criatura tão fraca travar contra o seu destino? O que poderia ela fazer senão serpentear como uma lebre caçada até encontrar o caminho de volta ao ponto de partida da perseguição cruel, para ser ali pisoteada pelos seus perseguidores?

"No Castle Inn?" gritou ela. "Eu poderia ter adivinhado. Ele foi lá para arrancar os meus segredos ao teu marido. Tolo!" exclamou ela, voltando-se subitamente para Phoebe Marks num transporte de raiva, "queres destruir-me, deixando esses dois homens juntos?"

A Sra. Marks juntou as mãos piedosamente.

"Não vim embora por vontade própria, minha senhora", disse ela; "ninguém poderia ter estado mais relutante em deixar a casa do que eu esta noite. Fui enviada para cá."

"Quem te enviou para cá?"

"Luke, minha senhora. Não pode imaginar quão duro ele pode ser comigo se eu for contra ele."

"Por que te enviou ele?"

A esposa do estalajadeiro baixou as pálpebras sob os olhares zangados de Lady Audley e hesitou confusamente antes de responder a esta pergunta.

"Na verdade, minha senhora", gaguejou ela, "eu não queria vir. Disse ao Luke que era demasiado mau para nós preocupá-la, pedindo primeiro este favor e depois aquele, e nunca a deixando em paz durante um mês seguido; mas... mas... ele venceu-me com a sua conversa alta e fanfarrona, e fez-me vir."

"Sim, sim", gritou Lady Audley, impacientemente. "Eu sei disso. Quero saber por que vieste."

"Bem, como sabe, minha senhora", respondeu Phoebe, meio relutante, "Luke é muito extravagante; e por mais que eu lhe diga, não consigo levá-lo a ser cuidadoso ou sensato. Ele não é sóbrio; e quando está a beber com um grupo de homens brutos do campo, e a beber, talvez, ainda mais do que eles, não é provável que a sua cabeça esteja muito clara para contas. Se não fosse por mim, já estaríamos arruinados; e por mais que eu tenha tentado, não consegui evitar a ruína. Lembra-se de me dar o dinheiro para a conta do cervejeiro, minha senhora?"

"Sim, lembro-me muito bem", respondeu Lady Audley, com uma risada amarga, "pois eu queria esse dinheiro para pagar as minhas próprias contas."

"Eu sei que queria, minha senhora, e foi muito, muito difícil para mim ter de vir pedir-lho, depois de tudo o que tínhamos recebido da senhora antes. Mas isso não é o pior: quando Luke me mandou aqui pedir o favor dessa ajuda, ele nunca me disse que a renda de Natal ainda estava em dívida; mas estava, minha senhora, e está em dívida agora, e... e há um oficial de justiça em casa esta noite, e seremos despejados amanhã, a menos que..."

"A menos que eu pague a tua renda, suponho", gritou Lucy Audley. "Eu poderia ter adivinhado o que vinha a seguir."

"Na verdade, na verdade, minha senhora, eu não teria pedido", soluçou Phoebe Marks, "mas ele fez-me vir."

"Sim", respondeu a minha senhora, amargamente, "ele fez-te vir; e ele far-te-á vir sempre que lhe apetecer, e sempre que ele quiser dinheiro para a gratificação dos seus vícios vis; e tu e ele são meus pensionistas enquanto eu viver, ou enquanto eu tiver algum dinheiro para dar; pois suponho que, quando a minha bolsa estiver vazia e o meu crédito arruinado, tu e o teu marido se virarão contra mim e me venderão ao maior licitante. Sabes, Phoebe Marks, que a minha caixa de joias foi esvaziada a meio para satisfazer as tuas exigências? Sabes que o meu dinheiro de bolso, que eu pensava ser uma mesada principesca quando o meu contrato de casamento foi feito, e quando eu era uma pobre governanta no Sr. Dawson, ajude-me o Céu! o meu dinheiro de bolso foi gasto em metade de um ano para satisfazer as tuas exigências? O que posso fazer para te apaziguar? Devo vender o meu armário de Maria Antonieta, ou a minha porcelana de Pompadour, os relógios de ormolu de Leroy e Benson, ou as minhas cadeiras e otomanos de tapeçaria Gobelin? Como te satisfarei a seguir?"

"Oh, minha senhora, minha senhora", gritou Phoebe, piedosamente, "não seja tão cruel comigo; a senhora sabe, a senhora sabe que não sou eu que quero impor-me a si."

"Não sei de nada", exclamou Lady Audley, "exceto que sou a mais miserável das mulheres. Deixa-me pensar", gritou ela, silenciando os murmúrios de consolação de Phoebe com um gesto imperioso. "Cala a boca, rapariga, e deixa-me pensar neste assunto, se puder."

Ela levou as mãos à testa, cruzando os dedos delgados sobre as sobrancelhas, como se quisesse controlar a ação do seu cérebro pela sua pressão convulsiva.

"Robert Audley está com o teu marido", disse ela, lentamente, falando para si mesma mais do que para a sua companheira. "Estes dois homens estão juntos, e há oficiais de justiça na casa, e o teu marido brutal está, sem dúvida, brutalmente bêbado a esta hora, e brutalmente obstinado e feroz na sua embriaguez. Se eu me recusar a pagar este dinheiro, a sua ferocidade será multiplicada cem vezes. Há pouca utilidade em discutir esse assunto. O dinheiro deve ser pago."

"Mas se a senhora pagar", disse Phoebe, seriamente, "espero que insista com Luke que este é o último dinheiro que a senhora alguma vez lhe dará enquanto ele permanecer naquela casa."

"Porquê?" perguntou Lady Audley, deixando as mãos cair no colo e olhando interrogativamente para a Sra. Marks.

"Porque quero que Luke deixe o Castle."

"Mas por que queres que ele saia?"

"Oh, por tantas razões, minha senhora", respondeu Phoebe. "Ele não é apto para ser o estalajadeiro de uma casa pública. Eu não sabia disso quando me casei com ele, ou teria ido contra o negócio e tentado persuadi-lo a dedicar-se à agricultura. Não que eu suponha que ele teria desistido do seu próprio capricho, também; pois ele é suficientemente obstinado, como sabe, minha senhora. Ele não é apto para o seu negócio atual. Ele quase nunca está sóbrio depois de escurecer; e quando está bêbado, torna-se quase selvagem e parece não saber o que faz. Já tivemos dois ou três escapes por pouco com ele."

"Escapes por pouco!" repetiu Lady Audley. "O que queres dizer?"

"Bem, corremos o risco de sermos queimados nas nossas camas por causa do seu descuido."

"Queimados nas vossas camas por causa do seu descuido! Ora, como foi isso?", perguntou a minha senhora, com certo desinteresse. Ela era demasiado egoísta e estava demasiado absorta nos seus próprios problemas para demonstrar grande interesse por qualquer perigo que tivesse sobrevindo à sua antiga camareira.

"A senhora sabe que lugar estranho e antigo é o Castelo, minha senhora; tudo em madeira a cair aos pedaços, vigas podres e coisas do género. A Companhia de Seguros de Chelmsford não o quer segurar; pois dizem que, se o lugar por acaso se incendiasse numa noite de vento, arderia como se fosse palha, e nada neste mundo o poderia salvar. Pois bem, Luke sabe disto; e o senhorio já o avisou vezes sem conta, pois ele vive bem perto de nós e vigia de perto todos os movimentos do meu marido; mas, quando Luke está ébrio, não sabe o que faz e, há apenas uma semana, deixou uma vela acesa numa das dependências, e a chama apanhou uma das vigas do telhado inclinado. Se não tivesse sido por eu ter dado conta quando fui dar a última volta à casa, talvez tivéssemos morrido todos queimados. E essa é a terceira vez que o mesmo tipo de coisa acontece nos seis meses que lá estamos, e a senhora não se pode admirar de que eu esteja assustada, pois não, minha senhora?"

A minha senhora não se tinha admirado, não tinha pensado absolutamente nada sobre o assunto. Mal tinha ouvido esses detalhes triviais; por que razão haveria ela de se preocupar com os perigos e problemas desta criada de origem humilde? Não teria ela os seus próprios terrores, as suas próprias perplexidades absorventes para usurpar cada pensamento de que o seu cérebro era capaz?

Ela não fez qualquer comentário sobre aquilo que a pobre Phoebe lhe acabara de contar; mal compreendeu o que tinha sido dito, até alguns momentos depois de a rapariga ter parado de falar, quando as palavras assumiram o seu pleno significado, como algumas palavras fazem depois de terem sido ouvidas sem serem atendidas.

"Queimados nas vossas camas", disse a jovem senhora, finalmente. "Teria sido uma coisa boa para mim se essa criatura preciosa, o seu marido, tivesse sido queimado na sua cama antes desta noite."

Uma imagem vívida tinha-lhe passado pelo espírito enquanto falava. A imagem daquela frágil construção de madeira, o Castle Inn, reduzido a um caos de ripas e reboco sem telhado, vomitando chamas pela sua boca negra e cuspindo faíscas incandescentes em direção ao céu frio da noite.

Ela soltou um suspiro de cansaço ao afastar essa imagem do seu cérebro inquieto. Ela não ficaria melhor nem que este inimigo fosse silenciado para sempre. Tinha outro inimigo, muito mais perigoso — um inimigo que não podia ser subornado ou comprado, ainda que ela fosse tão rica como uma imperatriz.

"Vou dar-te o dinheiro para mandares embora este oficial de justiça", disse a minha senhora, após uma pausa. "Tenho de te dar a última libra que tenho na minha bolsa, mas que importa isso? Sabes tão bem como eu que não me atrevo a recusar-te."

Lady Audley levantou-se e pegou na lâmpada acesa da sua secretária. "O dinheiro está no meu quarto de vestir", disse ela; "vou buscá-lo."

"Oh, minha senhora", exclamou Phoebe, de repente, "esqueci-me de uma coisa; estava tão perturbada com este negócio que me esqueci completamente."

"Esqueceste-te de quê?"

"De uma carta que me deram para lhe trazer, minha senhora, pouco antes de eu sair de casa."

"Que carta?"

"Uma carta do Sr. Audley. Ele ouviu o meu marido mencionar que eu vinha para aqui e pediu-me para trazer esta carta."

Lady Audley pousou a lâmpada na mesa mais próxima e estendeu a mão para receber a carta. Phoebe Marks dificilmente poderia deixar de notar que a pequena mão adornada com joias tremia como uma folha.

"Dá-ma — dá-ma", gritou ela; "deixa-me ver o que mais ele tem a dizer."

Lady Audley quase arrancou a carta da mão de Phoebe na sua impaciência selvagem. Ela rasgou o envelope e atirou-o para longe; mal conseguia desdobrar a folha de papel de carta na sua excitação febril.

A carta era muito breve. Continha apenas estas palavras:

"Caso a Sra. George Talboys tenha realmente sobrevivido à data da sua suposta morte, tal como registado na imprensa pública e na lápide no cemitério de Ventnor, e caso ela exista na pessoa da senhora suspeita e acusada pelo autor desta, não poderá haver grande dificuldade em encontrar alguém capaz e disposto a identificá-la. A Sra. Barkamb, proprietária de North Cottages, em Wildernsea, sem dúvida consentiria em lançar alguma luz sobre este assunto; seja para dissipar um delírio ou para confirmar uma suspeita.

"ROBERT AUDLEY.

"3 de março de 1859.

"The Castle Inn, Mount Stanning."

CAPÍTULO XXXII.

A LUZ VERMELHA NO CÉU.

A minha senhora amarrotou a carta ferozmente na mão e atirou-a para as chamas.

"Se ele estivesse diante de mim agora, e eu pudesse matá-lo", murmurou ela num sussurro estranho e interior, "eu fá-lo-ia — eu fá-lo-ia!" Ela agarrou na lâmpada e correu para o quarto contíguo. Fechou a porta atrás de si. Não suportava qualquer testemunha do seu horrível desespero — não suportava nada, nem a si própria nem o que a rodeava.

A porta entre o quarto de vestir da minha senhora e o quarto onde dormia Sir Michael tinha sido deixada aberta. O baronete dormia pacificamente, o seu rosto nobre claramente visível sob a luz suave da lâmpada. A sua respiração era baixa e regular, os seus lábios curvados num meio sorriso — um sorriso de ternura feliz que ele usava frequentemente quando olhava para a sua bela esposa, o sorriso de um pai extremamente indulgente, que olha com admiração para a sua filha predileta.

Algum toque de sentimento feminino, algum sentimento de compaixão suavizou o olhar de Lady Audley quando este recaiu sobre aquela figura nobre e repousante. Por um momento, o horrível egoísmo da sua própria miséria cedeu perante a sua ternura piedosa por outro. Talvez fosse apenas uma ternura semi-egoísta, afinal, na qual a pena por si própria era tão poderosa como a pena pelo seu marido; mas, por uma vez, os seus pensamentos fugiram do sulco estreito dos seus próprios terrores e problemas para habitar, com uma mágoa profética, as futuras tristezas de outrem.

"Se o fizerem acreditar, quão miserável ele ficará", pensou ela. Mas, misturado com esse pensamento, havia outro — havia o pensamento do seu rosto adorável, da sua maneira fascinante, do seu sorriso malicioso, da sua gargalhada baixa e musical, que era como um repicar de sinos prateados a soar através de uma vasta extensão de prados planos e de um rio ondulante na névoa de uma noite de verão. Ela pensou em todas estas coisas com um frémito fugaz de triunfo, que era ainda mais forte do que o seu terror.

Se Sir Michael Audley vivesse até aos cem anos, o que quer que ele aprendesse a acreditar sobre ela, por muito que ele pudesse passar a desprezá-la, seria ele alguma vez capaz de a dissociar destes atributos? Não; mil vezes não. Até à última hora da sua vida, a sua memória apresentá-la-ia investida da beleza que primeiro conquistara a sua admiração entusiasta, o seu afeto devoto. Os seus piores inimigos não a poderiam roubar daquele dote de fada que fora tão fatal na sua influência sobre a sua mente frívola.

Ela andava de um lado para o outro no quarto de vestir, à luz prateada da lâmpada, ponderando sobre a estranha carta que recebera de Robert Audley. Caminhou para a frente e para trás naquele andar monótono durante algum tempo antes de conseguir serenar os seus pensamentos — antes de conseguir concentrar as forças dispersas do seu intelecto limitado no único assunto de suma importância: a ameaça contida na carta do advogado.

"Ele vai fazê-lo", disse ela, entre os dentes cerrados — "ele vai fazê-lo, a menos que eu o meta primeiro num manicómio; ou a menos que..."

Ela não terminou o pensamento em palavras. Nem sequer pensou na frase até ao fim; mas um impulso novo e antinatural no seu coração parecia bater cada sílaba contra o seu peito.

O pensamento era este: "Ele vai fazê-lo, a menos que uma estranha calamidade lhe suceda e o silencie para sempre." O sangue vermelho subiu ao rosto da minha senhora com um brilho tão súbito e fugaz como a chama bruxuleante de um fogo, e extinguiu-se tão subitamente quanto aparecera, deixando-a mais pálida do que a neve do inverno. As suas mãos, que antes estavam cerradas convulsivamente, soltaram-se e caíram pesadamente ao longo do corpo. Ela parou no seu caminhar rápido — parou como a mulher de Lot terá parado, após aquele fatal olhar para trás sobre a cidade em ruínas — com todas as pulsações a abrandarem, com cada gota de sangue a gelar nas suas veias, no terrível processo que a transformaria de mulher em estátua.

Lady Audley ficou imóvel durante cerca de cinco minutos naquela atitude estranhamente estatuária, a cabeça erguida, os olhos a olhar fixamente em frente — a olhar muito para lá do limite estreito da parede do seu quarto, para distâncias sombrias de perigo e horror.

Mas, pouco depois, ela sobressaltou-se daquela atitude rígida quase tão abruptamente como nela caíra. Despertou daquela semi-letargia. Caminhou rapidamente até à sua toucador e, sentando-se à frente dele, afastou a confusão de frascos de tampa dourada e delicadas caixas de porcelana, e olhou para o seu reflexo no grande espelho oval. Estava muito pálida; mas não havia qualquer outro vestígio de agitação visível no seu rosto de menina. As linhas dos seus lábios, esculpidos com requinte, eram tão belas que apenas um observador muito atento poderia ter notado uma certa rigidez que lhes era incomum. Ela própria viu isto e tentou sorrir para afastar aquela imobilidade de estátua: mas, esta noite, os lábios rosados recusavam-se a obedecer-lhe; estavam firmemente bloqueados e já não eram escravos da sua vontade e prazer. Todas as forças latentes do seu caráter concentraram-se nesta característica. Ela podia comandar os olhos, mas não podia controlar os músculos da boca. Levantou-se do toucador, tirou uma capa de veludo escuro e um chapéu do interior do seu guarda-roupa e vestiu-se para sair. O pequeno relógio de metal dourado na cornija da lareira marcou as onze e um quarto enquanto Lady Audley se ocupava desta forma; cinco minutos depois, ela reentrou na sala onde deixara Phoebe Marks.

A mulher do taberneiro estava sentada diante da lareira baixa, muito na mesma atitude em que a sua antiga patroa estivera a meditar junto àquele lar solitário no início da noite. Phoebe reabastecera o fogo e voltara a colocar o seu chapéu e xale. Estava ansiosa por voltar para casa, para aquele marido brutal, que era dado a meter-se em sarilhos na sua ausência. Ela olhou para cima quando Lady Audley entrou na sala e soltou uma exclamação de surpresa ao ver a sua antiga patroa num traje de passeio.

"Minha senhora", exclamou ela, "a senhora não vai sair esta noite?"

"Sim, vou, Phoebe", respondeu Lady Audley, muito calmamente. "Vou a Mount Stanning consigo para ver esse oficial de justiça, e para pagar e despedi-lo eu mesma."

"Mas, minha senhora, a senhora esquece-se das horas que são; não pode sair a esta hora."

Lady Audley não respondeu. Ficou parada, com o dedo pousado levemente sobre a campainha, a meditar silenciosamente.

"As cavalariças estão sempre trancadas e os homens na cama às dez horas", murmurou ela, "quando estamos em casa. Será um alarido terrível preparar uma carruagem; mas ainda assim, suponho que um dos criados possa tratar do assunto discretamente por mim."

"Mas por que é que a senhora tem de ir esta noite?", gritou Phoebe Marks. "Amanhã serve perfeitamente. Daqui a uma semana também serve. O nosso senhorio levaria o homem embora se tivesse a sua promessa de saldar a dívida."

Lady Audley não prestou atenção a esta interrupção. Entrou apressadamente no quarto de vestir, despiu o chapéu e a capa, e regressou ao boudoir com o seu simples traje de jantar, com os caracóis escovados descuidadamente para longe do rosto.

"Agora, Phoebe Marks, escute-me", disse ela, agarrando o pulso da sua confidente e falando com uma voz baixa e séria, mas com um certo ar imperioso que desafiava a contradição e exigia obediência. "Escute-me, Phoebe", repetiu ela. "Vou ao Castle Inn esta noite; se é cedo ou tarde é de pouca importância para mim; decidi que vou e irei. A senhora perguntou-me porquê, e eu disse-lhe. Vou para pagar eu mesma esta dívida; e para ver, com os meus próprios olhos, que o dinheiro que dou é aplicado ao fim para o qual o dou. Não há nada fora do curso comum da vida no que faço. Vou fazer o que outras mulheres na minha posição fazem muitas vezes. Vou ajudar uma criada de quem gosto."

"Mas já se aproxima da meia-noite, minha senhora", insistiu Phoebe.

Lady Audley franziu a testa, impaciente com esta interrupção.

"Se a minha ida a sua casa para pagar a este homem vier a saber-se", continuou ela, mantendo ainda o seu aperto no pulso de Phoebe, "estou pronta a responder pela minha conduta; mas preferiria que o negócio fosse mantido em segredo. Acho que posso sair desta casa sem ser vista por criatura alguma, se fizer o que lhe digo."

"Farei tudo o que a senhora desejar, minha senhora", respondeu Phoebe, submissa.

"Então, desejar-me-á boa noite daqui a pouco, quando a minha criada entrar na sala, e permitir-lhe-á que a acompanhe até à saída da casa. Atravessará o pátio e esperar-me-á na alameda do outro lado do arco. Pode levar meia hora até que eu possa juntar-me a si, pois não devo deixar o meu quarto até que os criados se tenham ido todos deitar, mas pode esperar por mim pacientemente, pois venha o que vier, eu juntar-me-ei a si."

O rosto de Lady Audley já não estava pálido. Um brilho antinatural cintilava nos seus grandes olhos azuis. Ela falava com uma rapidez antinatural. Tinha, no conjunto, a aparência e a maneira de uma pessoa que se rendeu à influência dominante de uma excitação avassaladora. Phoebe Marks olhou para a sua antiga patroa num pasmo mudo. Começou a recear que a minha senhora estivesse a enlouquecer.

A campainha que Lady Audley tocou foi atendida pela elegante criada de quarto, que usava fitas cor-de-rosa, vestidos de seda preta e outros adornos que eram desconhecidos das humildes pessoas que se sentavam abaixo do sal nos bons velhos tempos, quando os criados usavam lãs grosseiras.

"Não sabia que era tão tarde, Martin", disse a minha senhora, naquele tom gentil que sempre lhe garantia o serviço de boa vontade dos seus inferiores. "Tenho estado a conversar com a Sra. Marks e deixei o tempo passar. Não vou precisar de nada esta noite, por isso pode ir deitar-se quando quiser."

"Obrigada, minha senhora", respondeu a rapariga, que parecia muito sonolenta e tinha alguma dificuldade em conter um bocejo, mesmo na presença da patroa, pois a criadagem de Audley costumava deitar-se muito cedo. "É melhor eu acompanhar a Sra. Marks até à saída, minha senhora, não é?", perguntou a criada, "antes de ir para a cama?"

"Oh, sim, certamente; pode deixar a Phoebe sair. Todos os outros criados já se foram deitar, suponho?"

"Sim, minha senhora."

Lady Audley riu-se ao olhar para o relógio.

"Temos estado terrivelmente dissipadas aqui em cima, Phoebe", disse ela. "Boa noite. Pode dizer ao seu marido que a sua renda será paga."

"Muito obrigada, minha senhora, e boa noite", murmurou Phoebe enquanto recuava para fora da sala, seguida pela criada.

Lady Audley escutou à porta, esperando até que os sons abafados dos seus passos morressem na câmara octogonal e na escadaria alcatifada.

"A Martin dorme no topo da casa", disse ela, "a meio quilómetro de distância desta sala. Em dez minutos posso escapar-me com segurança."

Ela voltou ao seu quarto de vestir e pôs a capa e o chapéu pela segunda vez. A cor antinatural ainda ardia como uma chama nas suas faces; a luz antinatural ainda cintilava nos seus olhos. A excitação em que vivia mantinha-a sob um feitiço tão forte que nem a sua mente nem o seu corpo pareciam ter qualquer consciência de fadiga. Por mais prolixa que eu seja na minha descrição dos seus sentimentos, nunca poderei descrever uma décima parte dos seus pensamentos ou dos seus sofrimentos. Ela sofreu agonias que preencheriam volumes de letra miúda, volumosos com mil páginas, naquela única noite horrível. Suportou volumes de angústia, dúvida e perplexidade; por vezes repetindo os mesmos capítulos dos seus tormentos vezes sem conta; por vezes atravessando mil páginas da sua miséria sem uma pausa, sem um momento de respiro. Ela estava de pé junto à lareira baixa no seu boudoir, observando o ponteiro dos minutos do relógio e esperando até que chegasse a hora de sair de casa em segurança.

"Esperarei dez minutos", disse ela, "nem um momento mais, antes de iniciar o meu novo perigo."

Ela escutou o rugido selvagem do vento de março, que parecia ter surgido com a quietude e a escuridão da noite.

O ponteiro fez o seu caminho inevitável até aos algarismos que indicavam que os dez minutos tinham passado. Eram exatamente onze e três quartos quando a minha senhora pegou na sua lâmpada e saiu suavemente da sala. Os seus passos eram tão leves como os de algum animal selvagem e gracioso, e não havia perigo de aquele passo aéreo despertar qualquer eco nos corredores de pedra e escadaria alcatifados. Ela não parou até chegar ao vestíbulo no andar térreo. Várias portas abriam-se para o vestíbulo, que era octogonal, como a antecâmara da minha senhora. Uma dessas portas dava para a biblioteca, e foi essa porta que Lady Audley abriu suave e cautelosamente.

Tentar sair de casa secretamente por qualquer das saídas principais teria sido pura loucura, pois a governanta supervisionava pessoalmente o bloqueio das grandes portas, da frente e das traseiras. Os segredos dos ferrolhos, trincos, correntes e sinos que prendiam estas portas, e asseguravam a segurança da sala de pratas de Sir Michael Audley, cuja porta era revestida de chapa de ferro, eram conhecidos apenas pelos criados que tinham de lidar com eles. Mas, embora todas estas precauções fossem tomadas com as entradas principais da cidadela, uma veneziana de madeira e uma barra de ferro fina, leve o suficiente para ser levantada por uma criança, eram consideradas salvaguarda suficiente para a porta de vidro que abria da sala de pequeno-almoço para o caminho de gravilha e relvado plano no pátio.

Foi por esta saída que Lady Audley pretendia escapar. Ela podia facilmente remover a barra e soltar a veneziana, e poderia aventurar-se com segurança a deixar a janela entreaberta enquanto estivesse ausente. Havia pouco receio de Sir Michael acordar durante algum tempo, pois ele era um dorminhoco pesado na primeira parte da noite e tinha dormido mais profundamente do que o habitual desde a sua doença.

Lady Audley atravessou a biblioteca e abriu a porta da sala de pequeno-almoço, que comunicava com ela. Este último compartimento era uma das adições mais recentes à Corte. Era uma sala simples e alegre, com paredes de papel de parede vivo e móveis bonitos de bordo, e era mais ocupada por Alicia do que por qualquer outra pessoa. O equipamento das atividades preferidas da jovem senhora estava espalhado pela sala — materiais de desenho, restos de trabalhos inacabados, novelos de seda emaranhados e todos os outros sinais da presença de uma donzela descuidada; enquanto o retrato da Srta. Audley — um bonito esboço a giz de uma rapariga de rosto rosado com um hábito de montaria e chapéu — pendia sobre os ornamentos curiosos de Wedgewood na cornija da lareira. A minha senhora olhou para estes objetos familiares com um ódio desdenhoso a arder nos seus olhos azuis.

"Como ela ficará contente se alguma desgraça me acontecer", pensou ela; "como ela se regozijará se eu for expulsa desta casa!"

Lady Audley pousou a lâmpada sobre uma mesa perto da lareira e foi até à janela. Removeu a barra de ferro e a veneziana de madeira leve, e depois abriu a porta de vidro. A noite de março era negra e sem luar, e uma lufada de vento entrou ao abrir a porta, enchendo a sala com o seu hálito gelado, extinguindo a lâmpada sobre a mesa.

"Não importa", murmurou a minha senhora, "eu não poderia ter deixado a lâmpada acesa. Saberei como encontrar o meu caminho pela casa quando voltar. Deixei todas as portas entreabertas."

Ela saiu apressadamente para o cascalho liso e fechou a porta de vidro atrás de si. Ela temia que aquele vento traiçoeiro fizesse a porta que dava para a biblioteca bater, e assim a traísse.

Ela estava no pátio agora, com aquele vento frio varrendo-a e agitando suas roupas de seda em torno dela com um ruído estridente e farfalhante, como o assobio de uma brisa forte contra as velas de um iate. Ela atravessou o pátio e olhou para trás — olhou para trás por um momento para a luz do fogo que brilhava entre as cortinas de tom rosado em seu boudoir, e o brilho tênue da lâmpada através das janelas com vigas de pedra no quarto onde Sir Michael Audley jazia adormecido.

"Sinto como se estivesse fugindo", pensou ela; "sinto como se estivesse fugindo secretamente na calada da noite, para me perder e ser esquecida. Talvez fosse mais sensato da minha parte fugir, aceitar o aviso deste homem e escapar do seu poder para sempre. Se eu fugisse e desaparecesse como... como George Talboys desapareceu. Mas para onde eu poderia ir? O que seria de mim? Não tenho dinheiro; minhas joias não valem um par de centenas de libras, agora que me livrei da melhor parte delas. O que eu poderia fazer? Teria que voltar à vida antiga, à vida velha, dura, cruel e miserável — a vida de pobreza, humilhação, vexame e descontentamento. Teria que voltar e me consumir nessa longa luta, e morrer — como minha mãe morreu, talvez!"

Minha senhora permaneceu imóvel por um momento no gramado liso entre o pátio e o arco, com a cabeça pendida sobre o peito e as mãos entrelaçadas, debatendo essa questão na atividade antinatural de sua mente. Sua atitude refletia o estado daquela mente — expressava irresolução e perplexidade. Mas logo uma mudança repentina tomou conta dela; ela ergueu a cabeça — ergueu-a com um gesto de desafio e determinação.

"Não! Sr. Robert Audley", disse ela, em voz alta, em um tom baixo e claro; "eu não voltarei — eu não voltarei. Se a luta entre nós deve ser um duelo até a morte, você não me verá largar minha arma."

Ela caminhou com passo firme e rápido sob o arco. À medida que passava sob aquele arco maciço, parecia que ela desaparecia em algum abismo negro que estivera aberto à sua espera. O relógio estúpido bateu doze vezes, e todo o arco pareceu vibrar sob suas batidas pesadas, enquanto Lady Audley surgia do outro lado e se juntava a Phoebe Marks, que esperara por sua ex-patroa bem perto do portão do Court.

"Agora, Phoebe", disse ela, "são três milhas daqui até Mount Stanning, não são?"

"Sim, minha senhora."

"Então podemos percorrer a distância em uma hora e meia."

Lady Audley não parara para dizer isso; ela caminhava rapidamente pela alameda com sua humilde companheira ao lado. Frágil e delicada como era na aparência, ela era uma ótima caminhante. Ela tinha o hábito de fazer longas caminhadas pelo campo com os filhos do Sr. Dawson em seus antigos dias de dependência, e ela dava pouca importância a uma distância de três milhas.

"Seu belo marido ficará acordado esperando por você, suponho, Phoebe?", disse ela, enquanto atravessavam um campo aberto que era usado como um atalho de Audley Court para a estrada principal.

"Oh, sim, minha senhora; ele certamente ficará acordado. Ele estará bebendo com o homem, eu imagino."

"O homem! Que homem?"

"O homem que está na posse, minha senhora."

"Ah, certamente", disse Lady Audley, com indiferença.

Era estranho que os problemas domésticos de Phoebe parecessem tão distantes de seus pensamentos no momento em que ela dava um passo tão extraordinário para consertar as coisas no Castle Inn.

As duas mulheres atravessaram o campo e entraram na estrada principal. O caminho para Mount Stanning era todo de subida, e a longa estrada parecia negra e lúgubre na noite escura; mas minha senhora caminhava com uma coragem desesperada, que não era um componente comum em sua natureza egoísta e sensual, mas uma estranha faculdade nascida de seu grande desespero. Ela não falou novamente com sua companheira até estarem perto das luzes cintilantes no topo da colina. Uma dessas luzes da aldeia, brilhando intensamente através de uma cortina carmesim, marcava a janela específica atrás da qual era provável que Luke Marks estivesse sentado, cochilando com sonolência sobre sua bebida, à espera da chegada de sua esposa.

"Ele não foi para a cama, Phoebe", disse minha senhora, ansiosamente. "Mas não há outra luz acesa na estalagem. Suponho que o Sr. Audley esteja na cama e dormindo."

"Sim, minha senhora, suponho que sim."

"Você tem certeza de que ele ficaria no Castle esta noite?"

"Oh, sim, minha senhora. Eu ajudei a moça a preparar o quarto dele antes de eu vir embora."

O vento, turbulento em toda parte, era ainda mais estridente e impiedoso nas vizinhanças daquele topo de colina desolado sobre o qual o Castle Inn erguia suas paredes bambas. As rajadas cruéis rugiam violentamente em torno daquela frágil construção. Divertiam-se com o pombal destruído, o cata-vento quebrado, as telhas soltas e as chaminés disformes; batiam nas vidraças e assobiavam nas frestas; zombavam do edifício fraco da base ao telhado, e espancavam, batiam e atormentavam-no em seus jogos ferozes, até que ele tremesse e oscilasse com a força de sua brincadeira bruta.

O Sr. Luke Marks não se dera ao trabalho de trancar a porta de sua habitação antes de se sentar para beber com o homem que detinha a posse provisória de seus bens e móveis. O estalajadeiro do Castle Inn era um bruto preguiçoso e sensual, que não tinha pensamento mais elevado do que uma preocupação egoísta com seus próprios prazeres e um ódio virulento por qualquer pessoa que estivesse no caminho de sua gratificação.

Phoebe empurrou a porta com a mão e entrou na casa, seguida pela minha senhora. O gás ardia intensamente no bar, enfumaçando o teto baixo de gesso. A porta da sala do bar estava entreaberta, e Lady Audley ouviu a risada brutal do Sr. Marks ao cruzar a soleira da estalagem.

"Vou avisá-lo de que a senhora está aqui, minha senhora", sussurrou Phoebe para sua ex-patroa. "Eu sei que ele estará bêbado. A senhora... a senhora não vai se ofender, minha senhora, se ele disser algo rude? A senhora sabe que não foi meu desejo que viesse."

"Sim, sim", respondeu Lady Audley, impacientemente, "eu sei disso. O que me importa a grosseria dele! Deixe que ele diga o que quiser."

Phoebe Marks empurrou a porta da sala, deixando minha senhora no bar bem atrás dela.

Luke estava sentado com suas pernas desajeitadas esticadas sobre a lareira. Ele segurava um copo de gim com água em uma mão e o atiçador na outra. Ele acabara de enfiar o atiçador em uma pilha de carvões negros e estava espalhando-os para fazer uma chama, quando sua esposa apareceu na soleira da sala.

Ele arrancou o atiçador de entre as grades e fez um movimento meio bêbado, meio ameaçador com ele ao vê-la.

"Então você se dignou a voltar para casa finalmente, senhora", disse ele; "achei que você nunca mais voltaria."

Ele falou com uma voz pastosa e embriagada, e não era nada inteligível. Ele estava imerso até os lábios em álcool. Seus olhos estavam baços e lacrimejantes; suas mãos, trêmulas; sua voz, sufocada e abafada pela bebida. Um bruto, mesmo quando mais sóbrio; um bruto, mesmo em seu melhor comportamento, ele era dez vezes mais brutal em sua embriaguez, quando as poucas restrições que mantinham sua brutalidade ignorante e cotidiana sob controle eram lançadas de lado na negligência indolente da intoxicação.

"Eu... eu me demorei mais do que pretendia, Luke", respondeu Phoebe, da maneira mais conciliadora; "mas eu vi minha senhora, e ela foi muito gentil, e... e ela resolverá este assunto para nós."

"Ela foi muito gentil, foi?", murmurou o Sr. Marks, com uma risada embriagada; "agradeça a ela por nada. Eu conheço o valor da gentileza dela. Ela seria incomumente gentil, eu diria, se não fosse obrigada a ser."

O homem na posse, que caíra em um estado de embriaguez piegas e semiconsciente após cerca de um terço da bebida que o Sr. Marks consumira, apenas olhava com um espanto fraco para seu anfitrião e anfitriã. Ele estava sentado perto da mesa. Na verdade, ele tinha se enganchado nela com os cotovelos, como uma salvaguarda contra escorregar para baixo dela, e estava fazendo tentativas imbecis de acender seu cachimbo na chama de uma vela de sebo que pingava perto dele.

"Minha senhora prometeu resolver o assunto para nós, Luke", Phoebe repetiu, sem notar os comentários de Luke. Ela conhecia a natureza obstinada de seu marido bem o suficiente a essa altura para saber que era pior do que inútil tentar impedi-lo de fazer ou dizer qualquer coisa que sua própria vontade teimosa o levasse a fazer ou dizer. "Minha senhora resolverá isso", disse ela, "e ela veio até aqui para tratar disso esta noite", acrescentou.

O atiçador caiu da mão do estalajadeiro e caiu fazendo barulho entre as cinzas na lareira.

"Minha Lady Audley veio aqui esta noite!" disse ele.

"Sim, Luke."

Minha senhora apareceu na soleira da porta enquanto Phoebe falava.

"Sim, Luke Marks", disse ela, "eu vim para pagar este homem e enviá-lo para tratar de seus negócios."

Lady Audley disse essas palavras de uma maneira estranha e semi-mecânica; muito como se ela tivesse aprendido a frase de cor e estivesse repetindo-a sem saber o que dizia.

O Sr. Marks deu um rosnado de descontentamento e colocou seu copo vazio sobre a mesa com um gesto impaciente.

"Você poderia ter dado o dinheiro a Phoebe", disse ele, "tanto quanto tê-lo trazido você mesma. Não queremos damas finas aqui, bisbilhotando e metendo seus narizes preciosos em tudo."

"Luke, Luke!" censurou Phoebe, "quando minha senhora tem sido tão gentil!"

"Oh, dane-se a gentileza dela!" gritou o Sr. Marks; "não é a gentileza dela que queremos, garota, é o dinheiro dela. Ela não receberá nenhuma gratidão chorosa da minha parte. O que quer que ela faça por nós, ela faz porque é obrigada; e se ela não fosse obrigada, ela não faria..."

Deus sabe quanto mais Luke Marks poderia ter dito, se minha senhora não tivesse se voltado para ele de repente e o silenciado com o brilho sobrenatural de sua beleza. Seu cabelo tinha sido soprado para longe de seu rosto e, sendo de uma qualidade leve e plumosa, espalhara-se em uma massa emaranhada que envolvia sua testa como uma chama amarela. Havia outra chama em seus olhos — uma luz esverdeada, tal como poderia brilhar das órbitas de matizes mutáveis de uma sereia zangada.

"Pare", gritou ela. "Eu não vim aqui na calada da noite para ouvir sua insolência. Quanto é essa dívida?"

"Nove libras."

Lady Audley tirou sua bolsa — um brinquedo de marfim, prata e turquesa — tirou dela uma nota e quatro soberanos. Ela os colocou sobre a mesa.

"Que esse homem me dê um recibo pelo dinheiro", disse ela, "antes que eu vá."

Levou algum tempo até que o homem pudesse ser despertado para a consciência suficiente para o desempenho deste simples dever, e foi apenas mergulhando uma pena na tinta e empurrando-a entre seus dedos desajeitados que ele foi finalmente levado a compreender que seu autógrafo era necessário no final do recibo que fora feito por Phoebe Marks. Lady Audley pegou o documento assim que a tinta secou e se virou para sair da sala. Phoebe a seguiu.

"A senhora não deve ir para casa sozinha, minha senhora", disse ela. "A senhora vai me deixar ir com você?"

"Sim, sim; você virá para casa comigo."

As duas mulheres estavam paradas perto da porta da estalagem enquanto minha senhora dizia isso. Phoebe olhava com admiração para sua patrona. Ela esperava que Lady Audley tivesse pressa em voltar para casa depois de resolver este assunto que ela caprichosamente assumira para si mesma; mas não foi assim; minha senhora permaneceu encostada na porta da estalagem e olhando para o vazio, e novamente a Sra. Marks começou a temer que o problema tivesse levado sua ex-patroa à loucura.

Um pequeno relógio holandês no bar bateu duas horas enquanto Lady Audley permanecia naquela maneira irresoluta e ausente. Ela sobressaltou-se com o som e começou a tremer violentamente.

"Acho que vou desmaiar, Phoebe", disse ela; "onde posso conseguir um pouco de água fria?"

"A bomba fica na lavanderia, minha senhora; vou correr e buscar um copo de água fria para a senhora."

"Não, não, não", gritou minha senhora, segurando o braço de Phoebe enquanto ela estava prestes a sair correndo nesta tarefa; "eu mesma vou buscar. Tenho que mergulhar minha cabeça em uma bacia de água se quiser evitar desmaiar. Em que quarto o Sr. Audley dorme?"

Havia algo tão irrelevante nesta pergunta que Phoebe Marks olhou estupefata para sua patroa antes de respondê-la.

"Foi o número três que preparei, minha senhora — o quarto da frente — o quarto ao lado do nosso", respondeu ela, após aquela pausa de espanto.

"Dê-me uma vela", disse minha senhora. "Vou ao seu quarto e pegar um pouco de água para minha cabeça; fique onde está e veja que aquele bruto do seu marido não me siga!"

Ela arrancou a vela que Phoebe acendera da mão da moça e correu pela escada bamba e sinuosa que levava ao corredor estreito no andar superior. Cinco quartos abriam-se a partir deste corredor de teto baixo e cheiro fechado; os números desses quartos eram indicados por figuras pretas e atarracadas pintadas nos painéis das portas. Lady Audley tinha ido de carro até Mount Stanning para inspecionar a casa quando comprou o negócio para o noivo de sua serva, e ela sabia o caminho por aquele lugar antigo e dilapidado; ela sabia onde encontrar o quarto de Phoebe, mas parou diante da porta daquele outro cômodo que fora preparado para o Sr. Robert Audley.

Ela parou e olhou para o número na porta. A chave estava na fechadura, e sua mão caiu sobre ela como se inconscientemente. Mas, logo, ela começou a tremer de repente novamente, como tremia alguns minutos antes com o bater do relógio. Ela ficou por alguns momentos tremendo assim, com a mão ainda sobre a chave; então uma expressão horrível tomou conta de seu rosto, e ela girou a chave na fechadura. Ela a girou duas vezes, trancando a porta com chave dupla.

Não houve som vindo de dentro; o ocupante do quarto não deu sinal de ter ouvido aquele rangido sinistro da chave enferrujada na fechadura enferrujada.

Lady Audley apressou-se para o quarto ao lado. Ela colocou a vela na penteadeira, tirou o chapéu e jogou-o frouxamente sobre o braço; então ela foi até o lavatório e encheu a bacia com água. Ela mergulhou seu cabelo dourado nesta água e depois ficou por alguns momentos no centro do quarto olhando ao seu redor, com um rosto branco e sério, e um olhar ansioso que parecia captar cada objeto no cômodo mal mobiliado. O quarto de Phoebe era certamente muito pobremente mobiliado; ela fora forçada a selecionar todas as coisas mais decentes para aqueles quartos melhores que eram reservados para qualquer viajante casual que pudesse parar para uma pernoite no Castle Inn; mas Phoebe Marks fizera o seu melhor para compensar a falta de móveis substanciais em seu apartamento com uma superabundância de cortinas. Cortinas frescas de chita barata pendiam da cama de dossel; cortinas festonadas do mesmo material cobriam a janela estreita, bloqueando a luz do dia e proporcionando um porto agradável para tribos de moscas e bandos predatórios de aranhas. Até o espelho, uma construção miseravelmente barata que distorcia cada rosto cujo dono tivesse a coragem de olhar para ele, ficava sobre um altar drapeado de musselina engomada e chita rosa, e era adornado com babados de renda e trabalhos de tricô.

Minha senhora sorriu ao olhar para os festões e babados que encontravam seus olhos por todos os lados. Ela tinha motivos, talvez, para sorrir, lembrando-se da elegância dispendiosa de seus próprios apartamentos; mas havia algo naquele sorriso sardônico que parecia ter um significado mais profundo do que qualquer desprezo natural pelas tentativas de Phoebe na decoração. Ela foi até a penteadeira, alisou seu cabelo molhado diante do espelho e depois colocou o chapéu. Ela foi obrigada a colocar a vela de sebo flamejante muito perto dos babados de renda ao redor do vidro; tão perto que a musselina engomada parecia atrair a chama para si por algum poder de atração em seu tecido frágil.

Phoebe esperava ansiosamente pela porta da estalagem pela vinda de minha senhora. Ela observava o ponteiro dos minutos do pequeno relógio holandês, maravilhada com a lentidão de seu progresso. Eram apenas dez minutos passados das duas quando Lady Audley desceu as escadas, com seu chapéu posto e seu cabelo ainda molhado, mas sem a vela.

Phoebe ficou imediatamente ansiosa sobre essa vela perdida.

"A luz, minha senhora", disse ela, "a senhora a deixou lá em cima!"

"O vento a apagou quando eu estava saindo do seu quarto", respondeu Lady Audley, calmamente. "Eu a deixei lá."

"No meu quarto, minha senhora?"

"Sim."

"E ela estava completamente apagada?"

"Sim, eu lhe disse; por que você me preocupa com sua vela? São mais de duas horas. Venha."

Ela pegou o braço da moça e meio que a guiou, meio que a arrastou da casa. A pressão convulsiva de sua mão leve segurava-a tão firmemente quanto um torno de ferro a teria segurado. O feroz vento de março bateu a porta da casa e deixou as duas mulheres do lado de fora. A longa estrada negra estendia-se sombria e desolada diante delas, fracamente visível entre linhas retas de sebes sem folhas.

Uma caminhada de três milhas em uma estrada rural solitária, entre as horas de duas e quatro de uma fria manhã de inverno, dificilmente é uma tarefa agradável para uma mulher delicada — uma mulher cujas inclinações tendem ao conforto e ao luxo. Mas minha senhora apressou-se pela estrada dura e seca, arrastando sua companheira consigo como se tivesse sido impelida por alguma força demoníaca horrível que não conhecia alívio. Com a noite negra acima delas — com o vento feroz uivando ao redor delas, varrendo uma vasta extensão de campo oculto, soprando como se tivesse surgido simultaneamente de todos os pontos da bússola, e fazendo daquelas errantes o foco de sua ferocidade — as duas mulheres caminharam através da escuridão colina abaixo sobre a qual Mount Stanning se situava, ao longo de uma milha e meia de estrada plana, e depois subiram outra colina, no lado oeste da qual Audley Court jazia naquele vale protegido, que parecia fechar a casa antiga de todo o clamor e alvoroço do mundo cotidiano.

Minha senhora parou no cume desta colina para recuperar o fôlego e para cruzar as mãos sobre o coração, na vã esperança de que pudesse acalmar sua batida cruel. Elas estavam agora a três quartos de milha do Court, e caminhavam há quase uma hora desde que haviam deixado o Castle Inn.

Lady Audley parou para descansar, com o rosto ainda voltado para o lugar de seu destino. Phoebe Marks, parando também, e muito grata por um momento de pausa naquela jornada apressada, olhou para trás, para a escuridão distante sob a qual jazia aquele abrigo sombrio que lhe causara tanta inquietação. E ao fazê-lo, ela soltou um grito estridente de horror e agarrou-se violentamente ao manto de sua companheira.

O céu noturno não estava mais todo escuro. A espessa escuridão era quebrada por uma mancha de luz lívida.

"Minha senhora, minha senhora!" gritou Phoebe, apontando para essa mancha lívida; "a senhora está vendo?"

"Sim, criança, estou vendo", respondeu Lady Audley, tentando sacudir as mãos que se agarravam às suas roupas. "O que há de errado?"

"É um incêndio — um incêndio, minha senhora!"

"Sim, temo que seja um incêndio. Em Brentwood, provavelmente. Deixe-me ir, Phoebe; não é nada conosco."

"Sim, sim, minha senhora; é mais perto que Brentwood — muito mais perto; é em Mount Stanning."

Lady Audley não respondeu. Ela estava tremendo novamente, com o frio talvez, pois o vento tinha arrancado seu manto pesado de seus ombros e deixara sua figura esguia exposta à rajada.

"Está em Mount Stanning, minha senhora!", gritou Phoebe Marks. "É o Castelo que está em chamas — eu sei que está, eu sei que está! Pensei em fogo esta noite, e fiquei inquieta e apreensiva, pois sabia que isso aconteceria um dia. Eu não me importaria se fosse apenas aquele lugar miserável, mas haverá perda de vidas, haverá perda de vidas!", soluçou a moça, transtornada. "Há Luke, bêbado demais para se ajudar, a menos que outros o ajudem; há o Sr. Audley dormindo..."

Phoebe Marks parou subitamente ao mencionar o nome de Robert, e caiu de joelhos, entrelaçando as mãos erguidas e apelando desesperadamente para Lady Audley.

"Oh, meu Deus!", ela gritou. "Diga que não é verdade, minha senhora, diga que não é verdade! É horrível demais, é horrível demais, é horrível demais!"

"O que é horrível demais?"

"O pensamento que está em minha mente; o pensamento terrível que está em minha mente."

"O que você quer dizer, garota?", gritou minha senhora, ferozmente.

"Oh, Deus me perdoe se estou enganada!", a mulher ajoelhada ofegou em frases desconexas, "e Deus permita que eu esteja. Por que a senhora foi ao Castelo, minha senhora? Por que estava tão decidida a ir contra tudo o que eu podia dizer — a senhora que é tão amarga contra o Sr. Audley e contra Luke, e que sabia que ambos estavam sob aquele teto? Oh, diga-me que lhe faço uma injustiça cruel, minha senhora; diga-me isso — diga-me! Pois, tão certo como há um Céu acima de mim, acho que a senhora foi àquele lugar esta noite com o propósito de incendiá-lo. Diga-me que estou enganada, minha senhora; diga-me que estou lhe fazendo uma injustiça perversa."

"Não lhe direi nada, exceto que você é uma mulher louca", respondeu Lady Audley, com uma voz fria e dura. "Levante-se; tola, idiota, covarde! O seu marido é um espécime tão precioso que você deveria estar rastejando aí, lamentando e gemendo por ele? O que é Robert Audley para você, que você se comporta como uma maníaca porque acha que ele está em perigo? Como você sabe que o incêndio é em Mount Stanning? Você vê uma mancha vermelha no céu e grita imediatamente que seu próprio casebre miserável está em chamas, como se não houvesse outro lugar no mundo que pudesse queimar além daquele. O incêndio pode ser em Brentwood, ou mais longe — em Romford, ou ainda mais longe, no lado leste de Londres, talvez. Levante-se, mulher louca, e volte para cuidar de seus bens e móveis, e de seu marido e seu inquilino. Levante-se e vá: eu não quero você."

"Oh! minha senhora, minha senhora, perdoe-me", soluçou Phoebe; "não há nada que a senhora possa me dizer que seja duro o suficiente por eu ter-lhe feito tal injustiça, mesmo em meus pensamentos. Não me importo com suas palavras cruéis — não me importo com nada se estiver enganada."

"Volte e veja por si mesma", respondeu Lady Audley, severamente. "Digo-lhe novamente, não quero você."

Ela caminhou para longe na escuridão, deixando Phoebe Marks ainda ajoelhada na estrada dura, onde ela se atirara em sua agonia de súplica. A esposa de Sir Michael caminhou em direção à casa na qual seu marido dormia, com o clarão vermelho iluminando os céus atrás dela, e sem nada além da escuridão da noite à sua frente.

CAPÍTULO XXXIII.

O PORTADOR DAS NOTÍCIAS.

Era muito tarde na manhã seguinte quando Lady Audley emergiu de seu quarto de vestir, primorosamente trajada em uma roupa matinal de musselina delicada, rendas e bordados delicados; mas com um rosto muito pálido e com meias-luas de sombras arroxeadas sob os olhos. Ela explicou este rosto pálido e estes olhos encovados declarando que havia ficado acordada lendo até uma hora muito tardia na noite anterior.

Sir Michael e sua jovem esposa tomaram o café da manhã na biblioteca, em uma confortável mesa redonda, puxada para perto da lareira acesa; e Alicia foi compelida a compartilhar esta refeição com sua madrasta, por mais que ela evitasse aquela dama no longo intervalo entre o café da manhã e o jantar.

A manhã de março estava desolada e sombria, e uma chuva fina caía incessantemente, obscurecendo a paisagem e apagando a distância. Houve pouquíssimas cartas pelo correio da manhã; os jornais diários não chegaram até o meio-dia; e, faltando tais auxílios à conversação, houve muito pouca conversa à mesa do café.

Alicia olhou para a chuva fina que derivava contra as largas vidraças.

"Nada de cavalgar hoje", disse ela; "e nenhuma chance de visitas para nos animar, a menos que aquele ridículo Bob venha rastejando através da umidade desde Mount Stanning."

Você já ouviu alguém, a quem você sabia estar morto, ser mencionado de uma maneira leve e despreocupada por outra pessoa que não sabia de sua morte — mencionado como fazendo isto ou aquilo, como realizando alguma operação trivial e cotidiana — quando você sabe que ele desapareceu da face desta terra, e separou-se para sempre de todas as criaturas vivas e de suas ocupações comuns na solenidade terrível da morte? Tal alusão casual, insignificante embora possa ser, tende a enviar um estranho calafrio de dor através da mente. O comentário ignorante soa dissonante no cérebro hipersensível; o Rei dos Terrores é profanado por aquele desrespeito involuntário. O Céu sabe que razão oculta minha senhora pode ter tido para experimentar tal repulsa ao ouvir a menção repentina do nome do Sr. Audley, mas seu rosto pálido descorou para um branco doentio quando Alicia Audley falou de seu primo.

"Sim, ele virá aqui na umidade, talvez", continuou a jovem, "com seu chapéu liso e brilhante como se tivesse sido escovado com uma porção de manteiga fresca, e com vapores brancos saindo de suas roupas, fazendo-o parecer um gênio desajeitado que acabou de sair de sua garrafa. Ele virá aqui e imprimirá marcas de suas botas enlameadas por todo o tapete, e ele se sentará em sua tapeçaria Gobelin, minha senhora, em seu sobretudo molhado; e ele abusará da senhora se você protestar, e perguntará por que as pessoas têm cadeiras que não devem ser ocupadas, e por que você não mora em Figtree Court, e..."

Sir Michael Audley observou sua filha com um semblante pensativo enquanto ela falava de seu primo. Ela frequentemente falava dele, ridicularizando-o e invectivando contra ele em termos não muito comedidos. Mas talvez o baronete pensasse em uma certa Signora Beatrice que tratava muito cruelmente um cavalheiro chamado Benedick, mas que era, talvez, apaixonada por ele ao mesmo tempo.

"O que você acha que o Major Melville me disse quando esteve aqui ontem, Alicia?", perguntou Sir Michael, logo depois.

"Não tenho a menor ideia", respondeu Alicia, com certo desdém. "Talvez ele tenha lhe dito que teremos outra guerra em breve, por Deus, senhor; ou talvez tenha lhe dito que teremos um novo ministério, por Deus, senhor, porque aqueles sujeitos estão se metendo em encrenca, senhor; ou que aqueles outros sujeitos estavam reformando isso, cortando aquilo e alterando aquilo outro no exército, até que, por Deus, senhor, não teremos mais exército, daqui a pouco — nada além de um bando de garotos, senhor, empanturrados até os olhos com um monte de lixo sem sentido de mestres-escola, e vestidos com jaquetas e capacetes de algodão. Sim, senhor, eles estão lutando em Oudh com capacetes de algodão neste exato dia, senhor."

"Você é uma atrevida, senhorita", respondeu o baronete. "O Major Melville não me disse nada do tipo; mas ele me disse que um admirador muito dedicado seu, um certo Sir Harry Towers, abandonou sua propriedade em Hertfordshire e seu estábulo de caça, e foi para o continente para uma viagem de doze meses."

A senhorita Audley corou subitamente ao mencionar seu antigo adorador, mas recuperou-se muito rapidamente.

"Ele foi para o continente, foi?", disse ela com indiferença. "Ele me disse que pretendia fazê-lo — se — se ele não conseguisse tudo do seu jeito. Pobre coitado! ele é uma criatura querida, de bom coração e estúpida, e vinte vezes melhor do que aquele refrigerador ambulante e patenteado, o Sr. Robert Audley."

"Eu gostaria, Alicia, que você não fosse tão apegada a ridicularizar Bob", disse Sir Michael, gravemente. "Bob é um bom sujeito, e sou tão apegado a ele como se fosse meu próprio filho; e — e — tenho ficado muito desconfortável em relação a ele ultimamente. Ele mudou muito nos últimos dias, e tomou todo tipo de ideias absurdas na cabeça, e minha senhora me alarmou sobre ele. Ela acha..."

Lady Audley interrompeu seu marido com um balanço grave de cabeça.

"É melhor não dizer muito sobre isso por enquanto", disse ela; "Alicia sabe o que penso."

"Sim", respondeu a senhorita Audley, "minha senhora acha que Bob está ficando louco, mas eu sei melhor do que isso. Ele não é de forma alguma o tipo de pessoa para enlouquecer. Como poderia um intelecto tão lento, como uma vala de esgoto, como o dele, jamais se transformar em uma tempestade? Ele pode andar pelo resto de sua vida, talvez, em um estado tranquilo de semi-idiotice, compreendendo imperfeitamente quem ele é, para onde vai e o que está fazendo — mas ele nunca enlouquecerá."

Sir Michael não respondeu a isso. Ele havia ficado muito perturbado com sua conversa com minha senhora na noite anterior e, desde então, discutia silenciosamente a penosa questão em sua mente.

Sua esposa — a mulher que ele mais amava e em quem mais acreditava — havia lhe dito, com toda a aparência de arrependimento e agitação, sua convicção da insanidade de seu sobrinho. Ele tentou em vão chegar à conclusão que mais ansiava alcançar; tentou em vão pensar que minha senhora estava enganada por suas próprias fantasias e não tinha fundamento para o que dizia. Mas, então, novamente, ocorreu-lhe subitamente que pensar isso era chegar a uma conclusão pior; era transferir a horrível suspeita de seu sobrinho para sua esposa. Ela parecia possuída por uma convicção real da insanidade de Robert. Imaginar que ela estava errada era imaginar alguma fraqueza em sua própria mente. Quanto mais ele pensava sobre o assunto, mais isso o importunava e o deixava perplexo. Era muito certo que o jovem sempre fora excêntrico. Ele era sensato, era toleravelmente inteligente, era honrado e cavalheiresco em seus sentimentos, embora talvez um pouco descuidado no desempenho de certos deveres sociais menores; mas havia algumas pequenas diferenças, não facilmente definíveis, que o separavam de outros homens de sua idade e posição. Então, novamente, era igualmente verdade que ele havia mudado muito no período que sucedeu ao desaparecimento de George Talboys. Ele se tornara mal-humorado e pensativo, melancólico e distraído. Ele se mantivera afastado da sociedade, ficara horas sem falar; falava em outros momentos por acessos e arranques; e excitara-se inusitadamente na discussão de assuntos que aparentemente jaziam muito longe da região de sua própria vida e interesses. Então havia ainda outra região que parecia fortalecer o caso de minha senhora contra este jovem infeliz. Ele havia sido criado na companhia frequente de sua prima, Alicia — sua prima bonita e genial — a quem o interesse, e poder-se-ia pensar que o afeto, naturalmente apontavam como sua noiva mais adequada. Mais do que isso, a moça lhe havia mostrado, na inocente candura de uma natureza transparente, que, de seu lado pelo menos, o afeto não faltava; e, no entanto, apesar de tudo isso, ele se mantivera afastado, e permitira que outros pedissem sua mão, e fossem rejeitados por ela, e ainda assim não dera nenhum sinal.

Ora, o amor é uma essência tão sutil, uma maravilha metafísica tão indefinível, que sua força devida, embora sentida muito cruelmente pelo próprio sofredor, nunca é claramente compreendida por aqueles que observam seus tormentos e se perguntam por que ele pega a febre comum tão mal. Sir Michael argumentava que, como Alicia era uma moça bonita e amável, era, portanto, extraordinário e antinatural que Robert Audley não tivesse se apaixonado por ela como se devia. Este baronete, que perto de seu sexagésimo aniversário, encontrou pela primeira vez aquela única mulher que, entre todas as mulheres do mundo, tinha o poder de acelerar as pulsações de seu coração, perguntava-se por que Robert não pegava a febre desde o primeiro sopro de contágio que soprava em sua direção. Ele esquecia que há homens que seguem seus caminhos incólumes entre legiões de mulheres adoráveis e generosas, para sucumbir finalmente diante de alguma megera de traços duros, que conhece o segredo daquele único filtro que pode embriagá-lo e enfeitiçá-lo. Ele esquecia que há certos Jacks que passam pela vida sem encontrar a Jill designada para eles pela Nêmesis, e morrem velhos solteirões, talvez, com a pobre Jill definhando como uma velha solteirona do outro lado da parede divisória. Ele esquecia que o amor, que é uma loucura, um flagelo, uma febre, uma ilusão e uma armadilha, é também um mistério, e muito imperfeitamente compreendido por todos, exceto pelo indivíduo sofredor que se contorce sob suas torturas. Jones, que está perdidamente apaixonado pela Srta. Brown, e que fica acordado à noite até detestar seu travesseiro confortável e amassar seus lençóis em dois trapos retorcidos de linho em suas agonias, como se fosse um prisioneiro e quisesse transformá-los em cordas improvisadas; este mesmo Jones que pensa que Russell Square é um lugar mágico porque sua divindade habita lá, que pensa que as árvores naquele recinto e o céu acima dele são mais verdes e azuis do que outras árvores ou céus, e que sente uma pontada, sim, uma pontada real de esperança, alegria, expectativa e terror misturados quando emerge de Guilford Street, descendo das alturas de Islington para aqueles recintos sagrados; este mesmo Jones é duro e insensível aos tormentos de Smith, que adora a Srta. Robinson, e não consegue imaginar o que o infatuado sujeito pode ver na moça. Assim era com Sir Michael Audley. Ele olhava para seu sobrinho como um exemplo de uma classe muito grande de jovens, e sua filha como um exemplo de uma classe igualmente extensa de bens femininos, e não conseguia ver por que os dois exemplos não poderiam formar um par muito respeitável. Ele ignorava todas aquelas diferenças infinitesimais na natureza que fazem da comida saudável de um homem o veneno mortal de outro. Como é difícil acreditar às vezes que um homem não gosta de tal ou qual prato favorito. Se em um jantar, um convidado de aparência humilde recusa salmão fresco e pepinos, ou ervilhas verdes em fevereiro, nós o consideramos um parente pobre cujos instintos o afastam daqueles pratos caros. Se um vereador declarasse que não gosta de gordura verde, ele seria visto como um mártir social, um Marcus Curtius da mesa de jantar, que se imolava para o benefício de seu tipo. Seus colegas vereadores acreditariam em qualquer coisa, exceto em um desgosto herético pela ambrosia da sopeira da cidade. Mas há pessoas que não gostam de salmão, de peixe-branco, de patinhos da primavera e de todo tipo de iguarias consagradas pelo tempo, e há outras pessoas que apreciam pratos excêntricos e desprezíveis, geralmente estigmatizados como nojentos.

Ai, minha linda Alicia, seu primo não a amava! Ele admirava seu rosto rosado inglês e tinha um terno afeto por você que poderia talvez ter se expandido aos poucos em algo suficientemente quente para o matrimônio, aquela espécie de união cotidiana e rotineira que não exige uma devoção muito apaixonada, mas por um obstáculo repentino que havia recebido em Dorsetshire. Sim, o crescente afeto de Robert Audley por sua prima, uma planta de crescimento muito lento, confesso, fora repentinamente atrofiado e interrompido naquele amargo dia de fevereiro em que ele estivera sob os pinheiros conversando com Clara Talboys. Desde aquele dia, o jovem experimentara uma sensação desagradável ao pensar na pobre Alicia. Ele a via como sendo de alguma maneira vaga um incômodo para a liberdade de seus pensamentos; ele tinha um medo persistente de que estava de alguma forma tácita comprometido com ela; que ela tinha uma espécie de reivindicação sobre ele, que lhe proibia o direito de pensar em outra mulher. Acredito que foi a imagem da Srta. Audley apresentada a ele sob esta luz que levou o jovem advogado àqueles acessos de raiva esplenética contra o sexo feminino aos quais ele estava sujeito em certos momentos. Ele era estritamente honrado, tão honrado que teria preferido imolar-se no altar da verdade e de Alicia do que ter-lhe feito a menor injustiça, embora, ao fazê-lo, pudesse ter garantido seu próprio conforto e felicidade.

"Se a pobre garotinha me ama", pensava ele, "e se ela pensa que eu a amo, e foi levada a pensar assim por qualquer palavra ou ato meu, tenho o dever de deixá-la pensar assim até o fim dos tempos, e cumprir qualquer promessa tácita que eu possa ter feito inconscientemente. Pensei uma vez — pretendi uma vez — fazer-lhe uma oferta daqui a pouco, quando este terrível mistério sobre George Talboys tivesse sido esclarecido e tudo estivesse pacificamente resolvido — mas agora..."

Seus pensamentos normalmente divagavam neste ponto de suas reflexões, levando-o para onde ele nunca pretendera ir; levando-o de volta para debaixo dos pinheiros em Dorsetshire, e colocando-o mais uma vez face a face com a irmã de seu amigo desaparecido, e era geralmente uma jornada muito trabalhosa pela qual ele viajava de volta ao ponto de onde se desviara. Era tão difícil para ele se afastar do gramado atrofiado e dos pinheiros.

"Pobre garotinha!", ele pensava ao voltar para Alicia. "Como é bom da parte dela me amar, e quão grato devo ser por sua ternura. Quantos sujeitos achariam um coração tão generoso e amoroso a maior dádiva que a terra poderia dar-lhes. Aí está Sir Harry Towers, atingido pelo desespero com sua rejeição. Ele me daria metade de sua propriedade, toda sua propriedade, duas vezes sua propriedade, se a tivesse, para estar no lugar que estou ansioso por sacudir de meus pés ingratos. Por que não a amo? Por que é que, embora eu saiba que ela é bonita, pura, boa e verdadeira, eu não a amo? Sua imagem nunca me assombra, exceto de forma reprovadora. Nunca a vejo em meus sonhos. Nunca acordo subitamente no meio da noite com seus olhos brilhando sobre mim e seu hálito quente em minha bochecha, ou com os dedos de sua mão macia agarrados à minha. Não, não estou apaixonado por ela, não consigo me apaixonar por ela."

Ele enfurecia-se e rebelava-se contra sua ingratidão. Ele tentou argumentar consigo mesmo para um apego apaixonado por sua prima, mas falhou ignominiosamente, e quanto mais tentava pensar em Alicia, mais pensava em Clara Talboys. Estou falando agora de seus sentimentos no período que decorreu entre seu retorno de Dorsetshire e sua visita a Grange Heath.

Sir Michael sentou-se junto à lareira da biblioteca após o café da manhã nesta miserável manhã chuvosa, escrevendo cartas e lendo os jornais. Alicia trancou-se em seu próprio apartamento para ler o terceiro volume de um romance. Lady Audley trancou a porta da antecâmara octogonal e vagou pelo conjunto de quartos, do dormitório ao boudoir, durante toda aquela manhã cansativa.

Ela trancara a porta para se precaver contra a possibilidade de alguém entrar repentinamente e observá-la antes que ela estivesse ciente — antes que tivesse recebido aviso suficiente para permitir-lhe enfrentar o escrutínio deles. Seu rosto pálido parecia ficar mais pálido à medida que a manhã avançava. Uma pequena caixa de remédios estava aberta sobre a mesa de toucador, e pequenos frascos com rolha de lavanda vermelha, sal-volátil, clorofórmio, clorodina e éter estavam espalhados por ali. Uma vez, minha senhora parou diante desta caixa de remédios e retirou os frascos restantes, talvez de forma meio distraída, até chegar a um que estava cheio de um líquido espesso e escuro, rotulado "ópio — veneno".

Ela brincou por um longo tempo com este último frasco; erguendo-o contra a luz e até removendo a rolha e cheirando o líquido doentio. Mas ela afastou-o de si subitamente com um calafrio. "Se eu pudesse!", murmurou ela, "se eu pudesse apenas fazê-lo! E, no entanto, por que deveria agora?"

Ela cerrou suas pequenas mãos enquanto pronunciava as últimas palavras e caminhou até a janela do quarto de vestir, que dava diretamente para aquele arco coberto de hera sob o qual qualquer um deveria passar se viesse de Mount Stanning para a Mansão.

Havia portões menores nos jardins que levavam aos prados atrás da Mansão, mas não havia outra maneira de vir de Mount Stanning ou Brentwood do que pela entrada principal.

"Eu tenho as provas de sua identidade, Lucy Graham, ou seja lá qual for o seu verdadeiro nome. Eu tenho as provas de que você é a esposa de George Talboys, o homem que desapareceu em circunstâncias tão misteriosas, e de que você é, portanto, uma bígama e uma criminosa. Eu não preciso de mais nada. Minha busca terminou."

"O que você pretende fazer?" perguntou ela, com a voz tão alterada que ele mal a reconheceu.

"Eu pretendo que você confesse tudo", respondeu ele. "Eu pretendo que você escreva, de seu próprio punho, uma narrativa de sua vida, desde o momento em que deixou a escola até o dia em que se casou com Sir Michael Audley, e, acima de tudo, que me diga o destino do meu amigo."

Ela se levantou e ficou diante dele. O calor do fogo tinha devolvido um pouco da cor ao seu rosto, mas seus olhos ainda estavam fixos e vidrados, como os de uma sonâmbula.

"Você me pede uma confissão?" disse ela. "Você pede que eu escreva minha própria condenação? Você é muito insensato, Robert Audley, se pensa que eu farei isso."

"Eu não sou insensato", respondeu ele, "e você não é tão poderosa quanto imagina. Se você se recusar a confessar, eu não terei outra escolha a não ser entregar a prova que possuo às autoridades competentes. Eu preferiria mil vezes que você mesma me contasse a verdade, para que eu pudesse, na medida do possível, proteger aqueles que você enganou. Mas, se isso for impossível, a justiça seguirá seu curso."

"A justiça!" exclamou ela, com um riso amargo. "Você fala de justiça como se fosse algo que pudesse ser medido e pesado. O que é a justiça para mim? O que você sabe sobre a vida, para vir aqui, com sua calma arrogante, e decidir o destino de uma mulher cuja alma você nem consegue conceber?"

"Eu não desejo conceber sua alma", disse ele. "Eu desejo apenas a verdade. Onde está George Talboys?"

Ela não respondeu imediatamente. Ela caminhou até o centro da sala e parou, com o olhar perdido em algum ponto invisível além da parede. Quando ela finalmente falou, foi com uma voz desprovida de qualquer emoção.

"Ele foi embora", disse ela. "Ele foi embora para o exterior, para a Austrália, para qualquer lugar. Ele nunca mais voltará. Ele esqueceu o passado, assim como eu esqueci."

"Você está mentindo", disse Robert, friamente. "Ele nunca saiu desta casa da maneira que você descreve. Eu investiguei, eu segui suas pegadas. Você o atraiu para uma armadilha, e ele nunca mais foi visto."

"Se você sabe tanto, por que me pergunta?" ela retrucou, com um brilho de desafio nos olhos.

"Porque eu quero ouvir de seus lábios", disse ele. "Eu quero a confirmação final."

Ela deu um passo em direção a ele, e por um momento ele temeu que ela fosse atacá-lo. Mas ela apenas parou a poucos centímetros de distância, seus dedos nervosos entrelaçados.

"Você quer a verdade?" ela disse, com uma intensidade que o fez recuar. "Muito bem. Você quer a verdade, e você a terá. Mas, quando você a souber, você desejará nunca ter nascido, pois o peso dessa verdade destruirá a paz de todos que você ama, inclusive a sua própria."

"Eu quero a verdade", respondeu ele, com uma voz que, embora firme, soava estranhamente oca aos seus próprios ouvidos. "Seja ela qual for, eu a ouvirei."

"Então, ouça", disse ela, e sua voz, antes trêmula, tornou-se repentinamente gélida e desprovida de qualquer emoção. "Quando George Talboys partiu, ele não me deixou apenas com um nome que se tornara um fardo, mas com a convicção absoluta de que eu estava destinada a seguir o mesmo caminho de minha mãe. A pobreza que ele me impôs era uma prisão, e a ideia de que eu teria de suportá-la para sempre, enquanto minha mente lentamente se esvaía na mesma escuridão que a dela, tornou-se insuportável. Eu não o amava mais; eu o odiava pelo que ele havia feito comigo, pela vida que ele me condenara a levar. E então, o acaso — ou o destino, como você prefere chamar — colocou-me no caminho de Sir Michael."

Ela fez uma pausa, seus olhos fixos em um ponto invisível no horizonte da sala, antes de continuar com uma frieza que causava calafrios.

"Eu vi em Sir Michael não apenas um homem bom, mas uma saída. Eu vi a segurança, o conforto, a posição que eu nunca poderia ter tido com George. Eu não o enganei por maldade deliberada no início, mas por uma necessidade desesperada de sobrevivência. Eu criei uma nova identidade, uma nova história, uma nova vida. E quando soube da morte de George na Austrália — ou do que eu acreditava ser sua morte — senti-me, pela primeira vez, verdadeiramente livre. Aquele era o meu momento de ascensão, o momento em que eu finalmente escapava da sombra da loucura e da miséria."

Robert Audley observava-a com uma mistura de horror e fascínio, incapaz de proferir uma única palavra.

"Você me chama de demônio", continuou ela, dirigindo-se agora a ele com um sorriso amargo, "mas o que é o demônio senão alguém que se recusa a ser destruído pelas circunstâncias? George Talboys retornou. Ele não estava morto. Ele apareceu em minha vida como um fantasma do passado, ameaçando desmoronar tudo o que eu havia construído com tanto esforço. Ele veio até mim, não como um marido, mas como um carrasco. Ele me chantageou, ele me pressionou, ele me levou ao limite. E foi ali, naquele momento, que a sombra que sempre perseguiu minha mente finalmente me alcançou."

Ela deu um passo à frente, aproximando-se de Robert, seus olhos faiscando com uma luz febril.

"Eu não planejei matá-lo. Eu apenas vi a escuridão fechar-se sobre mim. A mesma escuridão que tomou minha mãe. Naquela noite, no Castelo, tudo o que eu vi foi o fim de tudo o que eu conquistara. Eu não sou uma assassina por escolha, Robert Audley; eu sou uma vítima da herança de sangue que carrego. Eu matei George Talboys porque, naquele instante, eu não era eu mesma. Eu era o reflexo do que sempre temi ser."

Sir Michael, que até então permanecera imóvel como uma estátua, deu um passo trêmulo para frente, suas mãos estendidas como se quisesse protegê-la, ou talvez como se buscasse apoio.

"Lucy", murmurou ele, sua voz um sussurro de dor profunda, "diga-me que isso não é verdade. Diga-me que você ainda é a mulher que eu conheci e amei."

Ela virou-se para ele, e por um breve momento, algo que poderia ter sido remorso brilhou em seu olhar.

"Eu fui essa mulher, Sir Michael. Mas essa mulher nunca existiu de verdade. Ela foi apenas uma ilusão que eu criei para esconder o monstro que crescia dentro de mim. Agora a ilusão acabou. A verdade é que você casou com uma estranha, uma estranha que, para se manter viva, teria destruído o mundo inteiro."

Ela caiu novamente de joelhos, não em súplica, mas em uma completa exaustão de espírito. O silêncio que se seguiu na biblioteca foi absoluto, interrompido apenas pelo estalar das brasas na lareira, que pareciam zombar da tragédia que ali se desenrolava. Robert Audley sentiu o peso do que havia descoberto, um peso que ele sabia que nunca deixaria de carregar. O destino estava selado, e a sombra de Lady Audley, a sombra da loucura e da culpa, pairava sobre eles, tornando o ar irrespirável e o futuro, uma página em branco manchada pelo sangue e pelo desespero.

"Encarei isso como um abandono e ressenti-me amargamente — ressenti-me odiando o homem que me deixara sem nenhum protetor além de um pai fraco e dado à bebida, e com uma criança para sustentar. Tive de trabalhar arduamente para o meu sustento, e em cada hora de labuta — e que labuta é mais cansativa do que a escravidão monótona de uma governanta? — eu reconhecia uma ofensa distinta feita a mim por George Talboys. O pai dele era rico, a irmã vivia no luxo e na respeitabilidade, e eu, sua esposa e mãe de seu filho, era uma escrava aliada à miséria e à obscuridade. As pessoas tinham pena de mim, e eu as odiava por essa pena. Não amava a criança, pois ela fora deixada como um fardo em minhas mãos. A mancha hereditária que corria em meu sangue nunca, até aquele momento, se manifestara por qualquer sinal ou indício; mas, naquela época, tornei-me sujeita a ataques de violência e desespero. Acho que foi nessa altura que a minha mente perdeu o equilíbrio pela primeira vez, e, pela primeira vez, cruzei aquela linha invisível que separa a razão da loucura. Vi os olhos de meu pai fixos em mim com horror e alarme. Soube que ele me acalmava como apenas os loucos e as crianças são acalmados, e irritei-me com seus pequenos estratagemas; ressenti-me até mesmo de sua indulgência.

"Por fim, esses ataques de desespero transformaram-se em um propósito desesperado. Decidi fugir daquela casa miserável que minha escravidão sustentava. Decidi abandonar aquele pai que tinha mais medo de mim do que amor por mim. Decidi ir para Londres e perder-me naquele grande caos da humanidade.

"Eu vira um anúncio no Times enquanto estava em Wildernsea, e apresentei-me à Sra. Vincent, a anunciante, sob um nome falso. Ela aceitou-me, dispensando todas as perguntas sobre meus antecedentes. Você sabe o resto. Vim para cá, e você me fez uma proposta, cuja aceitação me elevaria imediatamente à esfera para a qual minha ambição apontava desde que eu era uma colegial e ouvi pela primeira vez que era bonita.

"Três anos tinham passado e eu não recebera qualquer sinal da existência do meu marido; pois, argumentei comigo mesma, se ele tivesse regressado à Inglaterra, teria conseguido encontrar-me sob qualquer nome e em qualquer lugar. Eu conhecia a energia do seu caráter o suficiente para saber disso.

"Disse: 'Tenho o direito de pensar que ele está morto, ou que deseja que eu acredite que ele está morto, e a sua sombra não ficará entre mim e a prosperidade'. Disse isso e tornei-me sua esposa, Sir Michael, com toda a resolução de ser a melhor esposa que estivesse na minha natureza ser. As tentações comuns que assaltam e destroem algumas mulheres não tinham terror para mim. Teria sido sua esposa fiel e pura até o fim dos tempos, mesmo que estivesse cercada por uma legião de tentadores. A loucura insensata que o mundo chama de amor nunca teve qualquer parte na minha loucura, e aqui, pelo menos, os extremos se encontraram, e o vício da insensibilidade tornou-se a virtude da constância.

"Fui muito feliz no primeiro triunfo e na grandeza da minha nova posição, muito grata à mão que me elevou a ela. No brilho da minha própria felicidade, senti, pela primeira vez na vida, as misérias dos outros. Eu própria fora pobre, e agora era rica, e podia dar-me ao luxo de ter pena e aliviar a pobreza dos meus vizinhos. Encontrava prazer em atos de bondade e benevolência. Descobri o endereço do meu pai e enviei-lhe grandes somas de dinheiro, anonimamente, pois não queria que ele descobrisse o que tinha acontecido comigo. Aproveitei ao máximo o privilégio que a sua generosidade me proporcionou. Espalhei felicidade por todos os lados. Vi-me amada e admirada, e penso que poderia ter sido uma boa mulher pelo resto da minha vida, se o destino tivesse permitido.

"Creio que, nessa época, minha mente recuperou seu justo equilíbrio. Observei-me muito atentamente desde que saí de Wildernsea; mantive um controle sobre mim mesma. Perguntei-me frequentemente, enquanto estava sentada no tranquilo círculo familiar do cirurgião, se alguma suspeita daquela mancha hereditária invisível teria ocorrido ao Sr. Dawson.

"O destino não me permitiu ser boa. O meu destino obrigou-me a ser uma miserável. Um mês após o meu casamento, li em um dos jornais de Essex o regresso de um certo Sr. Talboys, um afortunado buscador de ouro, da Austrália. O navio tinha zarpado na altura em que li o parágrafo. O que havia a fazer?

"Disse há pouco que conhecia a energia do caráter de George. Eu sabia que o homem que fora aos antípodas e conquistara uma fortuna para sua esposa não deixaria pedra sobre pedra em seus esforços para encontrá-la. Era inútil pensar em esconder-me dele.

"A menos que ele pudesse ser levado a acreditar que eu estava morta, ele nunca cessaria a sua busca por mim.

"Meu cérebro ficou atordoado ao pensar no meu perigo. Novamente o equilíbrio tremeu, novamente a fronteira invisível foi ultrapassada, novamente eu estava louca.

"Fui até Southampton e encontrei meu pai, que vivia lá com o meu filho. Você se lembra de como o nome da Sra. Vincent foi usado como desculpa para esta viagem apressada, e como foi planejado que eu fosse sem outra escolta além de Phoebe Marks, a quem deixei no hotel enquanto ia à casa do meu pai.

"Confiei ao meu pai todo o segredo do meu perigo. Ele não ficou muito chocado com o que fiz, pois a pobreza talvez tivesse embotado o seu sentido de honra e princípio. Ele não ficou muito chocado, mas ficou assustado, e prometeu fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para me ajudar na minha terrível emergência.

"Ele recebera uma carta dirigida a mim em Wildernsea, por George, e encaminhada de lá para o meu pai. Esta carta fora escrita poucos dias antes da partida do Argus, e anunciava a data provável da chegada do navio a Liverpool. Esta carta dava-nos, portanto, dados sobre os quais agir.

"Decidimos imediatamente o primeiro passo. Este consistia em que, na data da provável chegada do Argus, ou alguns dias depois, um anúncio da minha morte fosse inserido no Times.

"Mas quase imediatamente após decidirmos sobre isso, vimos que havia dificuldades temíveis na execução de um plano tão simples. A data da morte e o local onde morri teriam de ser anunciados, assim como a própria morte. George correria imediatamente para esse local, por mais distante que fosse, por mais relativamente inacessível que fosse, e a falsidade superficial seria descoberta.

"Eu conhecia o suficiente do seu temperamento otimista, da sua coragem e determinação, da sua prontidão em esperar contra toda a esperança, para saber que, a menos que ele visse o túmulo em que eu estava enterrada e o registro da minha morte, ele nunca acreditaria que eu estava perdida para ele.

"O meu pai estava completamente atônito e desamparado. Ele só conseguia derramar lágrimas infantis de desespero e terror. Ele não me serviu de nada nesta crise.

"Eu não tinha esperança de qualquer saída para as minhas dificuldades. Comecei a pensar que deveria confiar no acaso e esperar que, entre outros cantos obscuros da terra, Audley Court pudesse ser algo com que o meu marido nem sonhasse.

"Sentei-me com o meu pai, tomando chá com ele na sua miserável choupana, e brincando com a criança, que estava satisfeita com o meu vestido e minhas joias, mas totalmente inconsciente de que eu não passava de uma estranha para ele. Eu tinha o menino nos meus braços, quando uma mulher que cuidava dele veio buscá-lo para que ela pudesse deixá-lo mais apresentável para a senhora, como ela disse.

"Eu estava ansiosa para saber como o menino era tratado, e detive essa mulher em conversa comigo enquanto o meu pai cochilava sobre a mesa do chá.

"Ela era uma mulher de rosto pálido e cabelos cor de areia, de cerca de quarenta e cinco anos, e parecia muito contente por ter a chance de falar comigo o tempo que eu quisesse permitir. Ela logo parou de falar do menino, no entanto, para me contar sobre os seus próprios problemas. Ela estava em muitos apuros, disse-me ela. Sua filha mais velha fora obrigada a deixar o seu emprego por motivos de saúde; de fato, o médico disse que a menina estava com tuberculose; e era uma coisa difícil para uma pobre viúva que vira dias melhores ter uma filha doente para sustentar, além de uma família de filhos pequenos.

"Deixei a mulher falar durante muito tempo desta maneira, contando-me as doenças da menina, e a idade da menina, e os remédios do médico da menina, e a piedade, e os sofrimentos, e muito mais. Mas eu não a ouvi nem prestei atenção. Ouvi-a, mas apenas de uma maneira distante, como ouvia o tráfego na rua, ou a ondulação do riacho no fundo dela. O que eram os problemas daquela mulher para mim? Eu tinha as minhas próprias misérias, e misérias piores do que a sua natureza grosseira poderia algum dia suportar. Este tipo de pessoas tinha sempre maridos doentes ou filhos doentes, e esperava ser ajudado na sua doença pelos ricos. Não era nada fora do comum. Eu estava pensando nisso, e estava prestes a despedir a mulher com uma libra para sua filha doente, quando uma ideia me ocorreu com uma rapidez tão dolorosa que fez o sangue subir ao meu cérebro e fez meu coração bater, como só bate quando estou louca.

"Perguntei à mulher o seu nome. Ela era a Sra. Plowson, e mantinha uma pequena loja de conveniência, disse ela, e só vinha de vez em quando para olhar o Georgey, e para ver se a pequena empregada tomava conta dele. O nome da sua filha era Matilda. Fiz-lhe várias perguntas sobre essa menina Matilda, e verifiquei que ela tinha vinte e quatro anos, que sempre fora tuberculosa, e que estava agora, como dizia o médico, a definhar rapidamente. Ele declarara que ela não duraria muito mais de uma quinzena.

"Era em três semanas que o navio que transportava George Talboys deveria ancorar no Mersey.

"Não preciso me deter neste assunto. Visitei a menina doente. Ela era clara e esguia. A descrição dela, dada descuidadamente, poderia coincidir quase o suficiente com a minha, embora ela não carregasse nenhuma sombra de semelhança comigo, exceto nestes dois detalhes. Fui recebida pela menina como uma senhora rica que desejava fazer-lhe um favor. Comprei a mãe, que era pobre e gananciosa, e que, por uma oferta de dinheiro, mais dinheiro do que alguma vez recebera, consentiu em submeter-se a tudo o que eu desejasse. No segundo dia após a minha introdução a essa Sra. Plowson, o meu pai foi até Ventnor e alugou alojamentos para a sua filha inválida e o seu filho pequeno. Na manhã seguinte, bem cedo, ele levou a menina moribunda e o Georgey, que fora subornado para chamá-la de 'mamãe'. Ela entrou na casa como Sra. Talboys; foi atendida por um médico de Ventnor como Sra. Talboys; ela morreu, e a sua morte e enterro foram registrados com esse nome.

"O anúncio foi inserido no Times, e no segundo dia após a sua inserção, George Talboys visitou Ventnor e encomendou a lápide que, a esta hora, registra a morte de sua esposa, Helen Talboys."

Sir Michael Audley levantou-se lentamente e com um movimento rígido e contido, como se todo sentido físico tivesse sido entorpecido por aquele único sentimento de miséria.

"Não posso ouvir mais nada", disse ele, num sussurro rouco; "se há algo mais a ser dito, não posso ouvir. Robert, é você quem provocou esta descoberta, pelo que entendo. Não quero saber de mais nada. Você assumirá o dever de garantir a segurança e o conforto desta senhora que pensei ser minha esposa? Não preciso pedir-lhe que se lembre, em tudo o que fizer, de que a amei muito profunda e verdadeiramente. Não posso despedir-me dela. Não o direi até que possa pensar nela sem amargura — até que possa ter pena dela, como agora rezo para que Deus tenha pena dela esta noite."

Sir Michael saiu lentamente da sala. Ele não se sentiu capaz de olhar para aquela figura encolhida. Ele não desejava ver a criatura que tinha acalentado. Dirigiu-se diretamente ao seu quarto de vestir, chamou o seu criado e ordenou-lhe que fizesse as malas e tomasse todas as providências necessárias para acompanhar o seu amo no último comboio para a capital.

CAPÍTULO XXXV.

A CALMARIA QUE SE SEGUE À TEMPESTADE.

Robert Audley seguiu o tio para o vestíbulo depois de Sir Michael ter proferido aquelas poucas palavras silenciosas que soaram como o dobre fúnebre da sua esperança e do seu amor. O céu sabe o quanto o jovem temera a chegada deste dia. Ele chegara; e embora não tivesse havido nenhuma grande explosão de desespero, nenhum turbilhão de luto tempestuoso, nenhuma tempestade ruidosa de angústia e lágrimas, Robert não tirou nenhum pensamento reconfortante daquela quietude antinatural. Ele sabia o suficiente para saber que Sir Michael Audley partia com a flecha farpada, que a mão do seu sobrinho enviara ao seu alvo, a latejar no seu coração torturado; ele sabia que esta calma estranha e gélida era o primeiro entorpecimento de um coração atingido por uma dor tão inesperada que, por um momento, se tornara quase incompreensível num estupor vazio de espanto; ele sabia que, quando essa quietude monótona passasse, quando pouco a pouco, e um a um, cada aspecto horrível da tristeza do sofredor se tornasse primeiro vagamente aparente e depois terrivelmente familiar para ele, a tempestade irromperia em fúria fatal, e tempestades de lágrimas e cruéis trovões de agonia rasgariam aquele coração generoso.

Robert ouvira falar de casos em que homens da idade do seu tio suportaram alguma grande dor, como Sir Michael suportara esta, com uma estranha quietude; e afastaram-se daqueles que os teriam confortado, e cujas ansiedades foram aliviadas por esta quietude paciente, para cair no chão e morrer sob o golpe que, a princípio, apenas o deixara atordoado. Ele lembrou-se de casos em que a paralisia e a apoplexia atingiram homens tão fortes como o seu tio na primeira hora da horrível aflição; e ele permaneceu no vestíbulo iluminado pelas lâmpadas, perguntando-se se não era seu dever estar com Sir Michael — estar perto dele, em caso de qualquer emergência, e acompanhá-lo onde quer que ele fosse.

No entanto, seria sensato impor-se àquele sofredor de cabelos grisalhos nesta hora cruel, em que fora despertado da única ilusão de uma vida irrepreensível para descobrir que fora o bobo de um rosto falso, e o tolo de uma natureza que era friamente mercenária demais, cruelmente insensível demais, para ser sensível à sua própria infâmia?

"Não", pensou Robert Audley, "não me intrometerei na angústia deste coração ferido. Há humilhação misturada com esta amarga dor. É melhor que ele lute a batalha sozinho. Fiz o que acredito ter sido o meu solene dever, contudo, mal me surpreenderia se me tivesse tornado para sempre odioso para ele. É melhor que ele lute a batalha sozinho. Não posso fazer nada para tornar a luta menos terrível. É melhor que seja travada sozinho."

Enquanto o jovem permanecia com a mão na porta da biblioteca, ainda meio hesitante sobre se deveria seguir o seu tio ou voltar a entrar na sala onde deixara aquela criatura mais miserável que fora seu dever desmascarar, Alicia Audley abriu a porta da sala de jantar e revelou-lhe o antigo apartamento de painéis de carvalho, a longa mesa coberta com damasco vistoso e brilhante com um brilho alegre de vidro e prata.

"O papai vem jantar?" perguntou a Srta. Audley. "Estou com tanta fome; e o pobre Tomlins já mandou avisar três vezes que o peixe vai estragar. Já deve estar reduzido a uma espécie de sopa de gelatina, a esta altura, eu acho", acrescentou a jovem, enquanto saía para o vestíbulo com o jornal Times na mão.

Ela estivera sentada perto da lareira lendo o jornal e esperando que os mais velhos se juntassem a ela na mesa de jantar.

"Ah, é você, Sr. Robert Audley", observou ela, indiferente. "Você janta conosco, é claro. Por favor, vá encontrar o papai. Já devem ser quase oito horas, e supõe-se que jantamos às seis."

O Sr. Audley respondeu à sua prima de forma bastante severa. O seu comportamento frívolo irritava-o, e ele esqueceu-se, no seu desagrado irracional, que a Srta. Audley nada sabia do terrível drama que se desenrolava há tanto tempo debaixo do seu próprio nariz.

"Seu pai acaba de suportar uma dor muito grande, Alicia", disse o jovem, gravemente.

O rosto arqueado e risonho da jovem mudou num momento para um olhar ternamente sincero de tristeza e ansiedade. Alicia Audley amava muito o seu pai.

"Uma dor?" exclamou ela; "papai triste! Oh! Robert, o que aconteceu?"

"Não posso te dizer nada ainda, Alicia", respondeu Robert em voz baixa.

Ele pegou a prima pelo pulso e levou-a para a sala de jantar enquanto falava. Fechou a porta cuidadosamente atrás de si antes de continuar:

"Alicia, posso confiar em você?" perguntou ele, seriamente.

"Confiar em mim para fazer o quê?"

"Para ser um conforto e uma amiga para o seu pobre pai sob uma aflição muito pesada."

"Sim!" gritou Alicia, apaixonadamente. "Como você pode me fazer tal pergunta? Você acha que há algo que eu não faria para aliviar qualquer dor do meu pai? Você acha que há algo que eu não sofreria se o meu sofrimento pudesse aliviar o dele?"

As lágrimas brotaram nos olhos cinzentos e brilhantes da Srta. Audley enquanto ela falava.

"Oh, Robert! Robert! você poderia pensar tão mal de mim a ponto de achar que eu não tentaria ser um conforto para o meu pai em sua dor?" disse ela, em tom de reprovação.

"Não, não, minha querida", respondeu o jovem, calmamente; "nunca duvidei do seu afeto, apenas duvidei da sua discrição. Posso contar com isso?"

"Pode, Robert", disse Alicia, resolutamente.

"Muito bem, então, minha querida, vou confiar em você. Seu pai vai deixar o Court, pelo menos por um tempo. A dor que ele acabou de suportar — uma dor repentina e inesperada, lembre-se — sem dúvida tornou este lugar detestável para ele. Ele vai embora; mas não deve ir sozinho, deve, Alicia?"

"Sozinho? não! não! Mas suponho que minha lady..."

"Lady Audley não irá com ele", disse Robert, gravemente; "ele está prestes a separar-se dela."

"Por um tempo?"

"Não, para sempre."

"Separar-se dela para sempre!" exclamou Alicia. "Então esta dor..."

"Está ligada a Lady Audley. Lady Audley é a causa da dor do seu pai."

O rosto de Alicia, que antes estava pálido, corou carmesim. Uma dor, da qual minha lady era a causa — uma dor que separaria Sir Michael para sempre da sua esposa! Não tinha havido nenhuma briga entre eles — nunca tinha havido nada além de harmonia e sol entre Lady Audley e o seu generoso marido. Esta dor devia, certamente, ter surgido de alguma descoberta repentina; era, sem dúvida, uma dor associada à desgraça. Robert Audley compreendeu o significado daquele rubor vívido.

"Você oferecerá acompanhar seu pai para onde quer que ele escolha ir, Alicia", disse ele. "Você é a sua consoladora natural em um momento como este, mas você o ajudará melhor nesta hora de provação evitando qualquer intrusão na sua dor. A sua própria ignorância dos detalhes dessa dor será uma segurança para a sua discrição. Não diga ao seu pai nada que não pudesse ter dito a ele há dois anos, antes de ele se casar com uma segunda esposa. Tente ser para ele o que você era antes da mulher na sala ali adiante ter se colocado entre você e o amor do seu pai."

"Eu serei", murmurou Alicia, "eu serei."

"Você, naturalmente, evitará qualquer menção ao nome de Lady Audley. Se seu pai estiver frequentemente silencioso, seja paciente; se lhe parecer, por vezes, que a sombra desta grande dor jamais passará de sua vida, seja paciente ainda; e lembre-se de que não pode haver melhor esperança de cura para o seu pesar do que a esperança de que a devoção de sua filha o leve a lembrar-se de que há uma mulher sobre esta terra que o amará verdadeira e puramente até o fim."

"Sim — sim, Robert, querido primo, eu me lembrarei."

O Sr. Audley, pela primeira vez desde que era um estudante, tomou sua prima nos braços e beijou sua testa larga.

"Minha querida Alicia", disse ele, "faça isso e você me fará feliz. Fui, em certa medida, o meio de trazer este pesar ao seu pai. Deixe-me esperar que não seja um pesar duradouro. Tente devolver a felicidade ao meu tio, Alicia, e eu a amarei mais carinhosamente do que um irmão jamais amou uma irmã de coração nobre; e uma afeição fraternal pode valer a pena, talvez, afinal, minha querida, embora seja muito diferente da adoração entusiasta do pobre Sir Harry."

A cabeça de Alicia estava baixa e seu rosto oculto de seu primo enquanto ele falava, mas ela ergueu a cabeça quando ele terminou e olhou-o bem no rosto com um sorriso que era ainda mais brilhante pelo fato de seus olhos estarem cheios de lágrimas.

"Você é um bom sujeito, Bob", disse ela; "e eu fui muito tola e perversa ao me sentir irritada com você porque..."

A jovem parou subitamente.

"Porque o quê, minha querida?" perguntou o Sr. Audley.

"Porque sou uma boba, primo Robert", disse Alicia, rapidamente; "não se importe com isso, Bob, farei tudo o que você deseja, e não será minha culpa se meu querido pai não esquecer suas aflições antes de muito tempo. Eu iria até o fim do mundo com ele, pobre querido, se pensasse que havia algum conforto a ser encontrado para ele na jornada. Vou me preparar imediatamente. Você acha que papai partirá esta noite?"

"Sim, minha querida; não creio que Sir Michael passará outra noite sob este teto por algum tempo."

"O correio parte às nove e vinte", disse Alicia; "precisamos deixar a casa em uma hora se quisermos viajar nele. Verei você novamente antes de partirmos, Robert?"

"Sim, querida."

Miss Audley correu para seu quarto para chamar sua criada e fazer todos os preparativos necessários para a viagem repentina, cujo destino final ela ainda ignorava completamente.

Ela se dedicou de corpo e alma ao cumprimento do dever que Robert lhe ditara. Ajudou a arrumar seus baús e deixou sua criada irremediavelmente confusa ao enfiar vestidos de seda em suas caixas de chapéu e sapatos de cetim em sua maleta de toucador. Ela vagou por seus aposentos, reunindo materiais de desenho, livros de música, trabalhos de agulha, escovas de cabelo, joias e frascos de perfume, muito como teria feito se estivesse prestes a navegar para algum país selvagem, desprovido de todos os recursos civilizados. Ela pensava o tempo todo no pesar desconhecido de seu pai, e talvez um pouco no rosto sério e na voz sincera que, naquela noite, revelaram seu primo Robert a ela sob uma nova faceta.

O Sr. Audley subiu atrás de sua prima e encontrou o caminho para o quarto de vestir de Sir Michael. Bateu à porta e escutou, Deus sabe com que ansiedade, pela resposta esperada. Houve um momento de pausa, durante o qual o coração do jovem bateu forte e rápido, e então a porta foi aberta pelo próprio barão. Robert viu que o criado de seu tio já estava trabalhando arduamente nos preparativos para a apressada viagem de seu amo.

Sir Michael saiu para o corredor.

"Você tem algo mais a me dizer, Robert?" perguntou ele, calmamente.

"Vim apenas para saber se poderia ajudar em algum de seus preparativos. O senhor vai para Londres pelo correio?"

"Sim."

"Tem alguma ideia de onde ficará?"

"Sim, ficarei no Clarendon; sou conhecido lá. É só isso que você tem a dizer?"

"Sim; exceto que Alicia irá acompanhá-lo?"

"Alicia!"

"Ela não poderia muito bem ficar aqui, sabe, agora. Seria melhor para ela deixar o Court até que..."

"Sim, sim, eu entendo", interrompeu o barão; "mas não há outro lugar para onde ela pudesse ir — ela precisa estar comigo?"

"Ela não poderia ir a nenhum outro lugar tão imediatamente, e não seria feliz em nenhum outro lugar."

"Que ela venha, então", disse Sir Michael, "que ela venha."

Ele falou com uma voz estranha e contida, e com um esforço aparente, como se lhe fosse doloroso ter que falar; como se todo este negócio comum da vida fosse uma tortura cruel para ele, e colidisse tanto com seu pesar a ponto de ser quase pior de suportar do que o próprio pesar.

"Muito bem, meu caro tio, então tudo está arranjado; Alicia estará pronta para partir às nove horas."

"Muito bem, muito bem", murmurou o barão; "deixe-a vir se quiser, pobre criança, deixe-a vir."

Ele suspirou profundamente ao falar naquele tom de piedade por sua filha. Ele pensava em quão comparativamente indiferente fora em relação àquela única filha por causa da mulher agora trancada na sala iluminada pelo fogo, lá embaixo.

"Verei o senhor novamente antes de partir", disse Robert; "deixarei o senhor até lá."

"Espere!" disse Sir Michael, subitamente; "você contou a Alicia?"

"Não lhe contei nada, exceto que o senhor está prestes a deixar o Court por algum tempo."

"Você é muito bom, meu rapaz, você é muito bom", murmurou o barão com uma voz embargada.

Ele estendeu a mão. Seu sobrinho a tomou com as duas suas e pressionou-a contra os lábios.

"Oh, senhor! como poderei algum dia me perdoar?" disse ele; "como poderei algum dia deixar de odiar a mim mesmo por ter trazido este pesar sobre o senhor?"

"Não, não, Robert, você fez o certo; gostaria que Deus tivesse sido tão misericordioso a ponto de tirar minha vida miserável antes desta noite; mas você fez o certo."

Sir Michael reentrou em seu quarto de vestir, e Robert retornou lentamente ao vestíbulo. Ele parou no limiar daquela câmara na qual deixara Lucy — Lady Audley, ou melhor, Helen Talboys, a esposa de seu amigo perdido.

Ela estava deitada no chão, no exato ponto onde se agachara aos pés de seu marido contando sua história culpada. Se ela estava em um desmaio, ou se jazia ali na total impotência de sua miséria, Robert mal se importava em saber. Ele saiu para o vestíbulo e enviou um dos criados para procurar sua criada, a moça esperta e cheia de fitas que estava em alto espanto e consternação ao ver sua patroa.

"Lady Audley está muito doente", disse ele; "leve-a para o seu quarto e veja que ela não saia dele esta noite. Você terá a bondade de permanecer perto dela, mas não fale com ela nem permita que ela se excite falando."

Minha senhora não desmaiara; ela permitiu que a moça a ajudasse e levantou-se do chão onde se prostrara. Seu cabelo dourado caía em massas soltas e despenteadas sobre seu pescoço e ombros de marfim, seu rosto e lábios estavam descorados, seus olhos terríveis em seu brilho antinatural.

"Leve-me embora", disse ela, "e deixe-me dormir! Deixe-me dormir, pois meu cérebro está em chamas!"

Enquanto saía da sala com sua criada, ela se virou e olhou para Robert. "Sir Michael partiu?" perguntou ela.

"Ele partirá em meia hora."

"Não houve vidas perdidas no incêndio em Mount Stanning?"

"Nenhuma."

"Fico feliz com isso."

"O proprietário da casa, Marks, foi terrivelmente queimado e encontra-se em estado precário na casa de sua mãe; mas ele pode se recuperar."

"Fico feliz com isso — fico feliz que nenhuma vida tenha sido perdida. Boa noite, Sr. Audley."

"Pedirei para vê-la para uma conversa de meia hora no decorrer de amanhã, minha senhora."

"Quando quiser. Boa noite."

"Boa noite."

Ela se foi calmamente, apoiando-se no ombro de sua criada, deixando Robert com uma sensação de estranho desnorteamento que lhe era muito dolorosa.

Ele sentou-se junto à ampla lareira onde as brasas vermelhas estavam se apagando, e maravilhou-se com a mudança naquela casa antiga que, até o dia do desaparecimento de seu amigo, fora um lar tão agradável para todos que se abrigavam sob seu teto hospitaleiro. Ele sentou-se meditando sobre a lareira desolada, tentando decidir o que deveria ser feito nesta crise repentina. Sentou-se impotente e incapaz de determinar qualquer curso de ação, perdido em um devaneio opaco, do qual foi despertado pelo som de rodas de carruagem aproximando-se da pequena entrada da torre.

O relógio no vestíbulo bateu nove horas quando Robert abriu a porta da biblioteca. Alicia acabara de descer as escadas com sua criada; uma moça do campo de rosto rosado.

"Adeus, Robert", disse Miss Audley, estendendo a mão ao primo; "adeus, e que Deus o abençoe! Você pode confiar em mim para cuidar de papai."

"Tenho certeza de que posso. Que Deus a abençoe, minha querida."

Pela segunda vez naquela noite, Robert Audley pressionou seus lábios contra a testa cândida de sua prima, e pela segunda vez o abraço foi de caráter fraternal ou paternal, em vez do procedimento arrebatador que teria sido se Sir Harry Towers fosse o privilegiado.

Eram nove e cinco quando Sir Michael desceu as escadas, seguido por seu criado, grave e de cabelos grisalhos como ele mesmo. O barão estava pálido, mas calmo e controlado. A mão que deu ao sobrinho estava fria como gelo, mas foi com voz firme que ele se despediu do jovem.

"Deixo tudo em suas mãos, Robert", disse ele, ao virar-se para deixar a casa em que vivera por tanto tempo. "Posso não ter ouvido o fim, mas ouvi o suficiente. O céu sabe que não preciso ouvir mais. Deixo tudo com você, mas você não será cruel — você se lembrará de quanto eu amei..."

Sua voz quebrou-se roucamente antes que ele pudesse terminar a frase.

"Eu me lembrarei do senhor em tudo, senhor", respondeu o jovem. "Farei tudo pelo melhor."

Uma névoa traiçoeira de lágrimas cegou-o e ocultou o rosto de seu tio, e em mais um minuto a carruagem partiu, e Robert Audley sentou-se sozinho na biblioteca escura, onde apenas uma faísca vermelha brilhava entre as cinzas cinzentas e pálidas. Sentou-se sozinho, tentando pensar no que deveria fazer, e com a terrível responsabilidade do destino de uma mulher perversa sobre seus ombros.

"Bom Deus!" pensou ele; "certamente este deve ser o julgamento de Deus sobre a vida sem propósito e vacilante que levei até o sétimo dia do último setembro. Certamente esta terrível responsabilidade foi imposta a mim para que eu possa me humilhar perante uma Providência ofendida, e confessar que um homem não pode escolher sua própria vida. Ele não pode dizer: 'Levarei a existência levemente e me manterei fora do caminho das criaturas infelizes, enganadas e enérgicas que lutam tão sinceramente na grande batalha'. Ele não pode dizer: 'Ficarei nas tendas enquanto a luta é travada, e rirei dos tolos que são pisoteados na luta inútil'. Ele não pode fazer isso. Ele só pode fazer, humilde e temerosamente, aquilo que o Criador que o formou designou para que ele fizesse. Se ele tem uma batalha a lutar, que a lute fielmente; mas ai dele se se esquivar quando seu nome for chamado na poderosa lista de convocação, ai dele se se esconder nas tendas quando o toque de reunir o convocar para o cenário da guerra!"

Um dos criados trouxe velas para a biblioteca e reacendeu o fogo, mas Robert Audley não se moveu de seu assento junto à lareira. Ele sentou-se como frequentemente sentara em seus aposentos em Figtree Court, com os cotovelos apoiados nos braços da cadeira e o queixo sobre a mão.

Mas ele levantou a cabeça quando o criado estava prestes a sair da sala.

"Posso enviar uma mensagem daqui para Londres?" perguntou ele.

"Pode ser enviada de Brentwood, senhor — não daqui."

O Sr. Audley olhou para seu relógio pensativamente.

"Um dos homens pode cavalgar até Brentwood, senhor, se o senhor desejar que alguma mensagem seja enviada."

"Desejo, sim, enviar uma mensagem; você pode cuidar disso para mim, Richards?"

"Certamente, senhor."

"Você pode esperar, então, enquanto escrevo a mensagem."

"Sim, senhor."

O homem trouxe materiais de escrita de uma das mesas laterais e colocou-os diante do Sr. Audley.

Robert mergulhou uma pena na tinta e encarou pensativamente uma das velas por alguns momentos antes de começar a escrever.

A mensagem dizia assim:

"De Robert Audley, de Audley Court, Essex, para Francis Wilmington, de Paper-buildings, Temple.

"CARO WILMINGTON — Se você conhece algum médico experiente em casos de mania, e digno de confiança para guardar um segredo, seja tão bondoso a ponto de me enviar seu endereço por telégrafo."

O Sr. Audley selou este documento em um envelope resistente e entregou-o ao homem, com uma libra.

"Você verá que isto seja entregue a uma pessoa de confiança, Richards", disse ele, "e peça ao homem que espere na estação pela mensagem de retorno. Ele deve obtê-la em uma hora e meia."

O Sr. Richards, que conhecera Robert Audley de casacos e golas viradas, partiu para executar sua comissão. Que o céu nos livre de segui-lo até a confortável sala dos criados no Court, onde os membros da casa sentavam-se ao redor do fogo ardente, discutindo em total perplexidade os eventos do dia.

Nada poderia estar mais longe da verdade do que as especulações destas dignas pessoas. Que pista teriam eles do mistério daquela sala iluminada pelo fogo na qual uma mulher culpada se ajoelhara aos pés de seu senhor para contar a história de sua vida pecaminosa? Eles apenas sabiam o que o criado de Sir Michael lhes contara sobre esta viagem repentina. Como seu amo estava pálido como um lençol e falava com uma voz estranha que não soava como a dele, de alguma forma, e como se poderia ter derrubado ele — o Sr. Parsons, o criado — com uma pena, se você estivesse disposto a prostrá-lo com a ajuda de uma arma tão fraca.

Os cabeças da sala dos criados decidiram que Sir Michael recebera notícias repentinas através do Sr. Robert — eles eram inteligentes o suficiente para conectar o jovem com a catástrofe — seja da morte de algum parente próximo e querido — os criados mais velhos dizimaram a família Audley em seus esforços para encontrar um parente provável — ou de alguma queda alarmante nos fundos, ou da falência de alguma especulação ou banco no qual a maior parte do dinheiro do barão estava investida. A inclinação geral era para a falência de um banco, e cada membro da assembleia parecia ter um prazer sombrio e corvineo na fantasia, embora tal suposição envolvesse sua própria ruína na destruição geral daquela casa liberal.

Robert sentou-se junto à lareira lúgubre, que parecia lúgubre mesmo agora quando o clarão de um grande fogo de lenha rugia na larga chaminé, e ouviu o baixo lamento do vento de março gemendo ao redor da casa e levantando a hera trêmula das paredes que ela abrigava. Ele estava cansado e exausto, pois lembre-se de que fora acordado de seu sono às duas da manhã pelo sopro quente da madeira em chamas e pelo estalo agudo da marcenaria ardente. Não fosse por sua presença de espírito e decisão calma, o Sr. Luke Marks teria morrido de uma morte terrível. Ele ainda trazia os vestígios do perigo da noite, pois o cabelo escuro fora chamuscado de um lado de sua testa, e sua mão esquerda estava vermelha e inflamada, pelo efeito da atmosfera abrasadora de onde arrastara o proprietário do Castle Inn. Ele estava completamente exausto de fadiga e emoção, e caiu em um sono pesado em sua poltrona diante do fogo brilhante, do qual só foi despertado pela entrada do Sr. Richards com a mensagem de retorno.

Esta mensagem de retorno foi muito breve.

"CARO AUDLEY — Sempre feliz em ajudar. Alwyn Mosgrave, M.D., 12 Saville Row. Seguro."

Isso, com nomes e endereços, era tudo o que continha.

"Precisarei que outra mensagem seja levada a Brentwood amanhã de manhã, Richards", disse o Sr. Audley, enquanto dobrava o telegrama. "Ficaria feliz se o homem pudesse cavalgar com ela antes do café da manhã. Ele terá meia libra pelo trabalho."

O Sr. Richards fez uma reverência.

"Obrigado, senhor — não é necessário, senhor; mas como o senhor desejar, é claro, senhor", murmurou ele. "A que horas o senhor desejaria que o homem fosse?"

O Sr. Audley desejava que o homem fosse o mais cedo que pudesse, então decidiu-se que ele iria às seis.

"Meu quarto está pronto, suponho, Richards?" disse Robert.

"Sim, senhor — seu antigo quarto."

"Muito bem. Vou para a cama imediatamente. Traga-me um copo de conhaque com água o mais quente que puder fazer, e espere pelo telegrama."

Esta segunda mensagem era apenas um pedido muito sincero ao Dr. Mosgrave para fazer uma visita imediata a Audley Court sobre um assunto de momento sério.

Tendo escrito esta mensagem, o Sr. Audley sentiu que fizera tudo o que podia fazer. Bebeu seu conhaque com água. Ele tinha necessidade real do álcool diluído, pois fora resfriado até os ossos por suas aventuras durante o incêndio. Ele tomou pequenos goles do líquido dourado pálido e pensou em Clara Talboys, naquela moça sincera cuja memória do irmão agora estava vingada, cujo destruidor do irmão estava humilhado no pó. Teria ela ouvido falar do incêndio no Castle Inn? Como poderia ela ter deixado de ouvir falar disso em um lugar como Mount Stanning? Mas teria ela ouvido que ele estivera em perigo, e que ele se distinguira pelo resgate de um bêbado? Receio que, mesmo sentado junto àquela lareira desolada, e sob o teto cujo nobre era um exilado de sua própria casa, Robert Audley fosse fraco o suficiente para pensar nessas coisas — fraco o suficiente para deixar sua fantasia vagar para os lúgubres pinheiros sob o céu frio de março, e os olhos castanhos escuros que eram tão parecidos com os olhos de seu amigo perdido.

CAPÍTULO XXXVI.

O CONSELHO DO DR. MOSGRAVE.

Minha senhora dormiu. Durante aquela longa noite de inverno, ela dormiu profundamente. Criminosos muitas vezes dormiram assim seu último sono sobre a terra; e foram encontrados na manhã cinzenta dormindo pacificamente, pelo carcereiro que viera despertá-los.

O jogo fora jogado e perdido. Não creio que minha senhora tenha descartado uma carta ou perdido a oportunidade de fazer uma jogada que ela pudesse, de qualquer possibilidade, ter feito; mas a mão de seu oponente fora poderosa demais para ela, e ele vencera.

Ela via a si mesma como uma espécie de prisioneira de estado, que teria de ser bem cuidada. Uma segunda Máscara de Ferro, que devia ser providenciada em algum lugar confortável de confinamento. Ela se entregou a uma indiferença opaca. Ela vivera cem vidas dentro do espaço dos últimos dias de sua existência, e esgotara sua capacidade de sofrer — por um tempo, pelo menos.

Ela tomou seu café da manhã, e tomou seu banho matinal, e emergiu, com cabelos perfumados e na mais requintada negligência das toaletes matinais, de seu luxuoso quarto de vestir. Ela olhou para si mesma no espelho de corpo inteiro antes de deixar o quarto. Um longo descanso noturno trouxera de volta os delicados tons de rosa de sua tez e o brilho natural de seus olhos azuis. Aquele brilho antinatural que queimara tão terrivelmente no dia anterior desaparecera, e minha senhora sorriu triunfante ao contemplar o reflexo de sua beleza. Os dias se foram em que seus inimigos poderiam tê-la marcado com ferros em brasa, e queimado a formosura que fizera tanto mal. O que quer que fizessem com ela, teriam de deixá-la sua beleza, pensou ela. Na pior das hipóteses, eles eram impotentes para roubá-la disso.

Robert Audley, contudo, não se deixou enganar pelo rosto sereno de sua tia. Ele a acompanhou até a carruagem com a frieza de um oficial de justiça que conduz uma prisioneira. Ele não lhe dirigiu a palavra durante o curto trajeto até a casa de saúde, e ela, por sua vez, permaneceu em um silêncio obstinado, observando as sombras das árvores que passavam, como se estivesse memorizando cada detalhe do mundo que estava prestes a perder.

O estabelecimento de Monsieur Val era uma construção vasta e sombria, cercada por muros altos cobertos por hera seca, que pareciam isolá-la do resto da cidade de Villebrumeuse. O portão de ferro rangeu de forma lúgubre ao se abrir, e o cocheiro estacionou a carruagem em um caminho de cascalho que levava à entrada principal. Robert desceu e ajudou a dama a sair; ela tremia ligeiramente, não se sabe se pelo frio da noite ou pelo terror do destino que a aguardava.

Um homem de aparência séria, com uma barba grisalha e olhos penetrantes, recebeu-os no vestíbulo. Era o próprio Monsieur Val. Ele leu a carta de Dr. Mosgrave com uma atenção meticulosa, sem desviar os olhos do papel por um segundo sequer. Ao terminar, ele dobrou a missiva com um movimento preciso e inclinou-se diante de Robert Audley, antes de lançar um olhar clínico para a mulher que o acompanhava.

"Monsieur Audley", disse ele em um francês impecável, "a carta do meu estimado colega é clara. A senhora será tratada com toda a dignidade que sua condição requer, mas aqui, as leis do mundo exterior não têm vigência. Ela está sob minha tutela agora."

Robert sentiu um peso esmagador cair de seus ombros. Ele olhou para sua tia uma última vez; ela parecia uma boneca de cera, desprovida de qualquer emoção ou resistência. Não houve despedida. Ela apenas o fitou com aqueles olhos neutros, desprovidos de qualquer brilho, e permitiu que uma enfermeira a conduzisse para o interior da casa.

Ele caminhou de volta ao pátio, ouvindo o som do portão se fechando atrás dele com um estrondo final. A tarefa estava cumprida. A justiça, ou o que ele acreditava ser a justiça, havia sido feita. Enquanto a carruagem o levava de volta para a estação, Robert olhou para o céu escuro de Villebrumeuse e sentiu, pela primeira vez em meses, que poderia respirar sem o espectro de uma forca pairando sobre sua consciência. Ele havia enterrado Lady Audley viva, e com ela, as terríveis verdades que ameaçavam destruir o nome de sua família.

O médico francês, Monsieur Val, esperava na antessala, com o rosto iluminado por uma expressão de solicitude profissional que beirava o caricato. Ao ver Robert surgir do quarto, ele fez uma pequena mesura, como se estivesse diante de um homem que acabara de realizar um ato de caridade suprema.

"M'sieu está satisfeito?" perguntou o francês, com uma voz aveludada. "A paciente encontra-se em repouso?"

"A paciente", respondeu Robert, com o tom de voz vazio e monossilábico, "está onde deve estar. Não a perturbe. Ela me disse tudo o que eu precisava saber."

O médico inclinou a cabeça, aceitando a resposta como se fosse o desfecho natural de um tratamento bem iniciado. Ele acompanhou Robert pelo salão, cujas cortinas de veludo pesado pareciam absorver o som de seus passos, até o patamar da escadaria de madeira encerada. O ar da mansão era denso, impregnado de um aroma de cera de abelha e de uma quietude estagnada que o tempo parecia não tocar.

Ao chegarem à porta da entrada, o homem de cabelos grisalhos que os recebera surgiu das sombras, pronto para abrir a pesada grade de ferro. O ar da noite, cortante e úmido, atingiu Robert como um veredito. Ele saiu para o pátio de pedra, onde o cocheiro, alheio à tragédia que acabara de ser selada, aguardava com uma paciência mecânica.

Robert não olhou para trás. Não dirigiu um último olhar às janelas onde a sombra da mulher que ele conhecera como Lady Audley agora definhava. Ele subiu no veículo e ordenou ao cocheiro que partisse. Enquanto as rodas rangiam sobre o cascalho do boulevard, ele sentiu o peso do segredo que carregava — o segredo de um poço seco em uma propriedade distante, o segredo de um crime que a terra de Audley Court ocultava sob as raízes das árvores.

A carruagem ganhou velocidade, deixando para trás os muros altos e os portões de ferro de Villebrumeuse. Robert encostou a cabeça no estofado gasto e fechou os olhos. O som dos cascos dos cavalos ecoava na noite como uma contagem regressiva, mas, ao contrário do que ele esperava, não encontrou paz. A confissão daquela mulher, a frieza com que ela descrevera o fim de George Talboys, colava-se à sua mente como uma mancha indelével. Ele havia feito a justiça dos homens, mas, naquele instante de solidão sob as estrelas frias, o tribunal da sua própria consciência parecia exigir um veredito muito mais severo.

O silêncio do campo francês envolvia a carruagem, uma mortalha de trevas que parecia sussurrar o nome do amigo perdido. Robert Audley, o homem que buscara a verdade com uma obstinação incansável, percebeu agora que a verdade era um fardo mais pesado do que a própria ignorância. O caminho de volta seria longo, e, embora a "dama" estivesse trancada em seu túmulo de pedra, a memória daquela voz sibilante, confessando o horror, viajaria com ele para sempre.

"Vê que não temo fazer-lhe a minha confissão", disse Helen Talboys; "por dois motivos. O primeiro é que não se atreve a usá-la contra mim, porque sabe que mataria o seu tio ver-me no banco dos réus; o segundo é que a lei não poderia pronunciar sentença pior do que esta: uma prisão perpétua num manicómio. Vê que não lhe agradeço a sua clemência, Sr. Robert Audley, pois sei exatamente o que ela vale."

Ela afastou-se da porta, e Robert passou por ela sem uma palavra, sem um olhar.

Meia hora depois, encontrava-se num dos principais hotéis de Villebrumeuse, sentado a uma mesa de jantar cuidadosamente arrumada, sem forças para comer; sem forças para desviar o pensamento, nem por um momento, da imagem daquele amigo perdido que fora traiçoeiramente assassinado no bosque de Audley Court.

CAPÍTULO XXXVIII.

ASSOMBRADO POR FANTASMAS.

Nenhum sonhador febril, a viajar num sonho estranho, olhou jamais com tanto espanto para um mundo que parecia irreal como Robert Audley, enquanto fitava, ausente, os pântanos planos e os choupos lúgubres entre Villebrumeuse e Bruxelas. Seria possível que estivesse a regressar à casa do seu tio sem a mulher que nela reinara durante quase dois anos como rainha e senhora? Sentia como se tivesse levado a minha senhora, dando cabo dela secreta e sombriamente, e tivesse agora de prestar contas a Sir Michael sobre o destino daquela mulher, a quem o barão tanto amara.

"O que lhe direi?", pensou. "Direi a verdade — a verdade horrível e macabra? Não; isso seria demasiado cruel. O seu espírito generoso sucumbiria perante a revelação hedionda. Contudo, na sua ignorância quanto à extensão da maldade desta mulher miserável, poderá pensar, talvez, que fui duro com ela."

Refletindo assim, o Sr. Robert Audley observava ausente a paisagem desolada a partir do lugar no coupé gasto da diligência, e pensava em quão grande folha fora arrancada da sua vida, agora que a história sombria de George Talboys estava terminada.

O que deveria fazer a seguir? Uma multidão de pensamentos horríveis precipitou-se na sua mente ao lembrar-se da história que ouvira dos lábios pálidos de Helen Talboys. O seu amigo — o seu amigo assassinado — jazia escondido entre as ruínas em decomposição do antigo poço em Audley Court. Jazera ali durante seis longos meses, insepulto, desconhecido; escondido na escuridão do antigo poço do convento. O que deveria ser feito?

Instaurar uma busca pelos restos mortais do homem assassinado implicaria inevitavelmente a realização de um inquérito judicial. Se tal inquérito fosse realizado, era quase impossível que a história do crime da minha senhora não viesse a lume. Provar que George Talboys encontrara a morte em Audley Court era provar, quase com a mesma certeza, que a minha senhora fora o instrumento daquela morte misteriosa; pois sabia-se que o jovem a seguira até ao caminho das tílias no dia do seu desaparecimento.

"Meu Deus!", exclamou Robert, à medida que todo o horror da sua situação se tornava evidente para ele; "o meu amigo deve repousar neste lugar de sepultura profano porque eu condonei as ofensas da mulher que o assassinou?"

Sentia que não havia saída para esta dificuldade. Por vezes pensava que pouco importava ao seu amigo morto se ele jazia sepultado sob um monumento de mármore, cuja execução deveria ser o assombro do universo, ou naquele esconderijo obscuro no bosque de Audley Court. Noutras ocasiões, era tomado por um horror súbito perante o mal que fora feito ao homem assassinado, e teria viajado ainda mais rapidamente do que o expresso entre Bruxelas e Paris o podia levar, na sua ânsia por chegar ao fim da viagem, para que pudesse reparar essa crueldade.

Estava em Londres ao anoitecer do segundo dia após aquele em que deixara Audley Court, e dirigiu-se diretamente ao Clarendon, para saber do seu tio. Não tinha intenção de ver Sir Michael, pois ainda não decidira quanto ou quão pouco lhe deveria contar, mas estava muito ansioso por verificar como o velho suportara o choque cruel que sofrera tão recentemente.

"Verei Alicia", pensou, "ela dir-me-á tudo sobre o seu pai. Faz apenas dois dias que ele deixou Audley. Dificilmente poderei esperar ouvir falar de qualquer mudança favorável."

Mas o Sr. Audley não estava destinado a ver a sua prima naquela noite, pois os criados no Clarendon disseram-lhe que Sir Michael e a sua filha tinham partido no correio da manhã para Paris, a caminho de Viena.

Robert ficou muito satisfeito por receber esta notícia; proporcionava-lhe uma pausa bem-vinda, pois seria decididamente melhor não dizer nada ao barão sobre a sua esposa culpada até que ele regressasse a Inglaterra, com a saúde restabelecida e o espírito recuperado, era de esperar.

O Sr. Audley dirigiu-se ao Temple. As dependências, que lhe tinham parecido desoladoras desde o desaparecimento de George Talboys, estavam duplamente assim esta noite. Pois aquilo que fora apenas uma suspeita sombria tornara-se agora uma certeza horrível. Já não havia lugar para o mais ténue raio, o mais transitório vislumbre de esperança. Os seus piores terrores estavam demasiado bem fundamentados.

George Talboys fora cruel e traiçoeiramente assassinado pela mulher que ele amara e por quem chorara.

Havia três cartas à espera do Sr. Audley nas suas dependências. Uma era de Sir Michael, e outra de Alicia. A terceira estava endereçada com uma letra que o jovem advogado conhecia demasiado bem, embora a tivesse visto apenas uma vez antes. O seu rosto corou intensamente ao ver o sobrescrito, e ele pegou na carta com a mão, cuidadosa e ternamente, como se fosse um ser vivo, sensível ao seu toque. Voltou-a e revirou-a nas mãos, olhando para o brasão no envelope, para o carimbo, para a cor do papel, e depois guardou-a no seio do seu colete com um sorriso estranho no rosto.

"Que tolo miserável e sem consciência eu sou!", pensou. "Ri-me das loucuras de homens fracos durante toda a minha vida, e serei eu mais tolo do que o mais fraco deles, afinal? A bela criatura de olhos castanhos! Porque a vi eu alguma vez? Porque apontou a minha Nemesis implacável o caminho para aquela casa desoladora em Dorsetshire?"

Abriu as duas primeiras cartas. Foi suficientemente tolo para guardar a última como um delicioso acepipe — uma sobremesa de fadas após as substancialidades triviais de um jantar.

A carta de Alicia dizia-lhe que Sir Michael suportara a sua agonia com tal tranquilidade perseverante que ela se tornara, por fim, muito mais alarmada pela sua calma paciente do que por qualquer manifestação tempestuosa de desespero. Nesta dificuldade, ela recorrera secretamente ao médico que atendia a casa de Audley em quaisquer casos de doença grave, e pedira a este cavalheiro que fizesse a Sir Michael uma visita aparentemente acidental. Ele assim o fizera e, após passar meia hora com o barão, dissera a Alicia que não havia perigo imediato de qualquer consequência grave daquele grande pesar, mas que era necessário que todos os esforços fossem feitos para despertar Sir Michael, e forçá-lo, por mais relutante que estivesse, à ação.

Alicia agira imediatamente de acordo com este conselho, retomara o seu antigo império de criança mimada e lembrara ao pai uma promessa que ele fizera de a levar pela Alemanha. Com considerável dificuldade, induziu-o a consentir em cumprir essa antiga promessa e, uma vez ganho o seu objetivo, conseguiu que deixassem a Inglaterra assim que possível, e disse a Robert, em conclusão, que não traria o pai de volta à sua antiga casa até que o tivesse ensinado a esquecer as mágoas a ela associadas.

A carta do barão era muito breve. Continha meia dúzia de cheques em branco sobre os banqueiros londrinos de Sir Michael Audley.

"Precisará de dinheiro, meu caro Robert", escreveu ele, "para as disposições que achar por bem tomar para o futuro conforto da pessoa que confiei aos seus cuidados. Dificilmente preciso dizer-lhe que essas disposições não podem ser demasiado liberais. Mas talvez seja melhor que lhe diga agora, pela primeira e única vez, que é o meu desejo sincero nunca mais ouvir o nome dessa pessoa. Não tenho o desejo de ser informado sobre a natureza das disposições que poderá tomar para ela. Tenho a certeza de que agirá com consciência e misericórdia. Não procuro saber mais nada. Sempre que precisar de dinheiro, passará um cheque por mim por quaisquer quantias que necessite; mas não terá ocasião de me dizer para uso de quem quer esse dinheiro."

Robert Audley soltou um longo suspiro de alívio ao dobrar esta carta. Libertava-o de um dever que teria sido extremamente penoso cumprir, e decidia para sempre o seu curso de ação em relação ao homem assassinado.

George Talboys teria de repousar em paz no seu túmulo desconhecido, e Sir Michael Audley nunca deveria saber que a mulher que amara trazia a marca vermelha do assassínio na alma.

Robert tinha apenas a terceira carta para abrir — a carta que colocara no seu seio enquanto lia as outras; rasgou o envelope, manuseando-o cuidadosa e ternamente como fizera antes.

A carta era tão breve como a de Sir Michael. Continha apenas estas poucas linhas:

"CARO SR. AUDLEY — O reitor deste lugar esteve duas vezes a ver Marks, o homem que salvou no incêndio na Castle Inn. Ele encontra-se num estado muito precário na casa da mãe, perto de Audley Court, e não se espera que viva muitos dias. A sua esposa está a cuidar dele, e tanto ele como ela expressaram o desejo mais sincero de que o veja antes de morrer. Por favor, venha sem demora.

"Sinceramente sua,

"CLARA TALBOYS.

"Mount Stanning Rectory, 6 de março."

Robert Audley dobrou esta carta muito reverentemente e colocou-a debaixo daquela parte do seu colete que se poderia supor cobrir a região do coração. Tendo feito isto, sentou-se na sua poltrona favorita, encheu e acendeu um cachimbo e fumou-o até ao fim, olhando reflexivamente para o fogo enquanto durou o tabaco. "O que pode aquele homem, Marks, querer de mim", pensou o advogado. "Ele tem medo de morrer antes de se confessar, talvez. Deseja contar-me o que eu já sei — a história do crime da minha senhora. Eu sabia que ele estava no segredo. Tive a certeza disso mesmo na noite em que o vi pela primeira vez. Ele conhecia o segredo e lucrou com ele."

Robert Audley recuou estranhamente perante a ideia de regressar a Essex. Como encontraria Clara Talboys agora que sabia o segredo do destino do seu irmão? Quantas mentiras teria de dizer, ou quanta tergiversação teria de usar para lhe ocultar a verdade? Contudo, haveria alguma misericórdia em contar aquela história horrível, cujo conhecimento lançaria uma mágoa sobre a sua juventude e apagaria todas as esperanças que ela, mesmo secretamente, acalentara? Ele sabia, pela sua própria experiência, quão possível era esperar contra a esperança, e esperar inconscientemente; e não suportava que o seu coração fosse esmagado como o dele fora pelo conhecimento da verdade. "Melhor que ela espere em vão até ao fim", pensou; "melhor que ela atravesse a vida à procura do fio condutor para o destino do seu irmão perdido, do que eu colocar esse fio nas suas mãos e dizer: 'Os nossos piores medos concretizaram-se. O irmão que amava foi cobardemente assassinado na promessa precoce da sua juventude.'"

Mas Clara Talboys escrevera-lhe, implorando-lhe que regressasse a Essex sem demora. Poderia ele recusar-se a cumprir o seu pedido, por mais dolorosa que fosse a sua execução? E, além disso, o homem estava a morrer, talvez, e implorara para o ver. Não seria cruel recusar ir — atrasar uma hora desnecessariamente? Olhou para o seu relógio. Faltavam apenas cinco minutos para as nove. Não havia comboio para Audley depois do correio de Ipswich, que deixava Londres às oito e meia; mas havia um comboio que deixava Shoreditch às onze e parava em Brentwood entre as doze e a uma. Robert decidiu ir neste comboio e percorrer a pé a distância entre Brentwood e Audley, que era superior a seis milhas.

Fleet Street estava silenciosa e solitária a esta hora tardia, e Robert Audley, estando num estado de espírito propenso a ver fantasmas, dificilmente se teria admirado se visse o grupo de Johnson a caminho do oeste, em alarido à luz dos candeeiros, ou o cego John Milton a tatear o seu caminho pelos degraus diante da Igreja de Saint Bride.

O Sr. Audley chamou um hansom na esquina de Farrington Street e foi levado rapidamente através do mercado deserto de Smithfield, entrando num labirinto de ruas sombrias que o levaram à ampla grandeza de Finsbury Pavement.

O hansom subiu a íngreme e pedregosa aproximação à estação de Shoreditch e deixou Robert às portas daquele templo pouco atraente. Havia muito poucas pessoas a viajar naquele comboio da meia-noite, e Robert caminhou ao longo da longa plataforma de madeira, lendo os anúncios enormes cujas letras descarnadas pareciam pálidas e macabras sob a luz fraca dos candeeiros.

Tinha a carruagem em que se sentava só para si. Só para si, disse eu? Não tinha ele recentemente convocado para o seu lado aquela companhia fantasmagórica que, de todas as companhias, é a mais tenaz? A sombra de George Talboys perseguia-o, mesmo na confortável carruagem de primeira classe, e estava atrás dele quando ele olhava pela janela, e ainda estava muito à frente dele e da locomotiva apressada, naquele bosque para onde o comboio se dirigia, ao lado do esconderijo profano em que os restos mortais do homem morto jaziam, negligenciados e sem cuidados.

"Devo dar ao meu amigo perdido um enterro decente", pensou Robert, enquanto o vento frio varria a paisagem plana e o atingia com um hálito tão gelado como aquele que poderia ter emanado dos lábios dos mortos. "Devo fazê-lo; ou morrerei de algum pânico como este que se apoderou de mim esta noite. Devo fazê-lo; a qualquer preço; a qualquer custo. Mesmo ao preço daquela revelação que trará a mulher louca de volta do seu esconderijo seguro e a colocará num banco dos réus." Ficou contente quando o comboio parou em Brentwood, poucos minutos depois da meia-noite.

Era uma hora e meia da manhã quando o errante noturno entrou na aldeia de Audley, e foi apenas aí que se lembrou de que Clara Talboys omitira dar-lhe qualquer indicação pela qual pudesse encontrar a casa onde Luke Marks jazia.

"Foi Dawson quem recomendou que a pobre criatura fosse levada para a casa da sua mãe", pensou Robert, pouco depois, "e, suponho, Dawson tem-no tratado desde o incêndio. Ele saberá dizer-me o caminho para a casa."

Agindo de acordo com esta ideia, o Sr. Audley parou na casa em que Helen Talboys vivera antes do seu segundo casamento. A porta da pequena clínica estava entreaberta e havia uma luz acesa no interior. Robert empurrou a porta e espreitou. O cirurgião estava junto ao balcão de mogno, a misturar um tónico num copo graduado, com o chapéu mesmo ao lado. Tarde como era, ele tinha evidentemente acabado de chegar. O ressonar harmonioso do seu assistente soava de uma pequena sala dentro da clínica.

"Lamento incomodá-lo, Sr. Dawson", disse Robert, em tom de desculpa, quando o cirurgião levantou os olhos e o reconheceu, "mas vim ver Marks, que, ouvi dizer, está muito mal, e quero que me indique o caminho para a casa da mãe dele."

"Eu mostrar-lhe-ei o caminho, Sr. Audley", respondeu o cirurgião, "vou para lá neste momento."

"O homem está muito mal, então?"

"Tão mal que não pode estar pior. A mudança que pode acontecer é aquela que o levará para além do alcance de qualquer sofrimento terreno."

"Estranho!", exclamou Robert. "Não parecia estar muito queimado."

"Não estava muito queimado. Se estivesse, eu nunca teria recomendado a sua remoção de Mount Stanning. É o choque que fez o estrago. Ele tem estado com uma febre furiosa nos últimos dois dias; mas esta noite está muito mais calmo, e receio que, antes de amanhã à noite, teremos visto o fim dele."

"Ele pediu para me ver, disseram-me", disse o Sr. Audley.

"Sim", respondeu o cirurgião, casualmente. "Uma fantasia de homem doente, sem dúvida. O senhor tirou-o de casa e fez o que pôde para salvar a sua vida. Suponho que, por mais rude e grosseiro que o pobre rapaz seja, ele dá muito valor a isso."

Tinham deixado a clínica, cuja porta o Sr. Dawson trancara atrás de si. Havia dinheiro na caixa, talvez, pois certamente o boticário da aldeia não teria receado que o mais ousado ladrão de casas arriscasse a sua liberdade em busca de pílulas azuis e colocíntida, de sais e sene.

O cirurgião abriu caminho ao longo da rua silenciosa e, pouco depois, virou para um beco ao fundo do qual Robert Audley viu o brilho pálido de uma luz; uma luz que anunciava a vigília que se mantém junto dos doentes e moribundos; uma luz pálida e melancólica, que tem sempre um aspeto lúgubre quando observada nesta hora silenciosa entre a noite e a manhã. Brilhava da janela da casa em que Luke Marks jazia, vigiado pela sua esposa e pela sua mãe.

O Sr. Dawson levantou a tranca e entrou na sala comum da pequena habitação, seguido por Robert Audley. Estava vazia, mas uma vela de sebo fraca, com as costas partidas e um pavio comprido em forma de couve, crepitava sobre a mesa. O homem doente jazia na sala acima.

"Quer que eu lhe diga que o senhor está aqui?", perguntou o Sr. Dawson.

"Sim, sim, por favor. Mas tenha cuidado ao dizer-lho, se achar que a notícia o pode agitar. Não tenho pressa. Posso esperar. Pode chamar-me quando achar que posso subir com segurança."

O cirurgião assentiu e subiu suavemente as estreitas escadas de madeira que conduziam ao quarto superior.

Robert Audley sentou-se numa cadeira Windsor junto à lareira fria e olhou desolado à sua volta. Mas foi, por fim, aliviado pela voz baixa do cirurgião, que olhou do topo da pequena escadaria para lhe dizer que Luke Marks estava acordado e teria todo o gosto em vê-lo.

Robert obedeceu imediatamente a este chamado. Subiu as escadas suavemente e tirou o chapéu antes de baixar a cabeça para entrar pela porta baixa do humilde quarto rústico. Tirou o chapéu na presença daquele homem camponês comum, porque sabia que havia outra presença, mais terrível, a pairar pelo quarto e ansiosa por ser admitida.

Phoebe Marks estava sentada ao pé da cama, com os olhos fixos no rosto do marido — não com qualquer expressão muito terna à luz pálida, mas com uma ansiedade aguda e aterrorizada, que mostrava que era a própria chegada da morte que ela temia, mais do que a perda do marido. A velha estava ocupada junto à lareira, arejando roupa e preparando um caldo que dificilmente o paciente chegaria a comer. O homem doente jazia com a cabeça apoiada por almofadas, o seu rosto grosseiro mortalmente pálido e as suas grandes mãos a vaguear inquietas pela colcha. Phoebe estivera a ler-lhe, pois um Testamento aberto jazia entre os frascos de medicina e loção sobre a mesa perto da cama. Todos os objetos no quarto eram arrumados e ordenados, e testemunhavam aquela precisão delicada que sempre fora uma característica distintiva de Phoebe.

A jovem levantou-se quando Robert Audley cruzou o limiar e apressou-se na sua direção.

"Deixe-me falar-lhe por um momento, senhor, antes de falar com o Luke", disse ela, num sussurro ávido. "Por favor, deixe-me falar-lhe primeiro."

"O que é que a rapariga está a dizer aí?" perguntou o doente num rugido contido, que se extinguiu roucamente nos seus lábios. Ele era fracamente selvagem, mesmo na sua fraqueza. O brilho baço da morte acumulava-se nos seus olhos, mas estes ainda observavam Phoebe com um olhar afiado de insatisfação. "O que é que ela está a tramar ali?" disse ele. "Não quero conspirações nem planos contra mim. Quero falar com o Sr. Audley eu próprio; e seja o que for que eu tenha feito, vou responder por isso. Se fiz algum mal, vou tentar desfazê-lo. O que é que ela está a dizer?"

"Ela não está a dizer nada, meu querido", respondeu a velha, aproximando-se da cabeceira do filho, que, mesmo quando se tornava mais interessante do que o habitual devido à doença, não parecia um sujeito muito adequado para este termo carinhoso.

"Ela apenas está a contar ao cavalheiro o quão mal tu tens estado, meu lindo."

"O que vou contar, só o vou contar a ele, lembra-te", rosnou o Sr. Mark; "e apanha-me a contar-lho se não fosse pelo que ele fez por mim na outra noite."

"Claro que não, meu querido", respondeu a velha de forma apaziguadora.

Phoebe Marks tinha levado o Sr. Audley para fora do quarto e para o patamar estreito no topo da pequena escadaria. Este patamar era uma plataforma de cerca de um metro quadrado, e já era um custo para ambos conseguirem manter-se lá em cima sem se empurrarem contra a parede caiada ou caírem escada abaixo.

"Oh, senhor, eu precisava tanto de falar consigo", respondeu Phoebe, ansiosamente; "sabe o que lhe disse quando o encontrei são e salvo na noite do incêndio?"

"Sim, sim."

"Disse-lhe o que suspeitava; o que ainda penso."

"Sim, recordo-me."

"Mas nunca sussurrei uma palavra sobre isso a ninguém a não ser ao senhor, e penso que o Luke se esqueceu completamente daquela noite; penso que o que aconteceu antes do incêndio lhe saiu da cabeça por completo. Ele estava embriagado, sabe, quando a minha se—quando ela veio ao Castelo; e penso que ele ficou tão atordoado e assustado com o incêndio que tudo se apagou da sua memória. Ele não suspeita do que eu suspeito, de qualquer modo, ou teria falado disso a alguém ou a toda a gente; mas ele está terrivelmente ressentido contra a minha senhora, pois diz que se ela o tivesse deixado ter um lugar em Brentwood ou Chelmsford, isto não teria acontecido. Por isso, o que eu queria pedir-lhe, senhor, é que não deixe escapar uma palavra à frente do Luke."

"Sim, sim, compreendo; serei cuidadoso."

"A minha senhora deixou o Court, ouvi dizer, senhor?"

"Sim."

"Para nunca mais voltar, senhor?"

"Para nunca mais voltar."

"Mas ela não foi para onde será cruelmente tratada; onde será maltratada?"

"Não: ela será muito bem tratada."

"Fico feliz com isso, senhor; peço-lhe perdão por incomodá-lo com a pergunta, senhor, mas a minha senhora foi uma patroa gentil para mim."

A voz de Luke, rouca e fraca, ouviu-se no interior do pequeno quarto nesta fase da conversa, exigindo zangadamente saber quando é que "aquela rapariga acabaria de tagarelar"; ao que Phoebe levou o dedo aos lábios e conduziu o Sr. Audley de volta ao quarto do doente.

"Não te quero aqui", disse o Sr. Marks, decisivamente, à medida que a sua mulher reentrava no quarto — "não te quero aqui; não tens nada que ouvir o que tenho a dizer — só quero o Sr. Audley, e quero falar com ele sozinho, sem nenhuma das tuas escutas furtivas atrás das portas, ouves? Por isso podes ir lá para baixo e ficar lá até seres necessária; e podes levar a mãe — não, a mãe pode ficar, vou precisar dela daqui a pouco."

A mão fraca do homem doente apontou para a porta, pela qual a sua mulher partiu muito submissamente.

"Não tenho qualquer desejo de ouvir nada, Luke", disse ela, "mas espero que não digas nada contra aqueles que foram bons e generosos contigo."

"Direi o que me apetecer", respondeu o Sr. Marks, ferozmente, "e não vou ser mandado por ti. Tu não és a pastora, que eu saiba; nem a advogada também."

O proprietário do Castle Inn não tinha passado por nenhuma transformação moral através dos seus sofrimentos no leito de morte, por mais ferozes e rápidos que tivessem sido. Talvez algum ténue vislumbre de uma luz que estivera muito longe da sua vida agora lutasse fracamente através das negras obscuridades da ignorância que obscureciam a sua alma. Talvez uma penitência meio zangada, meio carrancuda, o impelisse a fazer algum esforço rude para expiar uma vida que fora egoísta, ébria e perversa. Seja como for, ele limpou os seus lábios brancos e, voltando os seus olhos extenuados, com sinceridade, para Robert Audley, apontou para uma cadeira junto à cabeceira.

"O senhor troçou de mim de uma forma geral, Sr. Audley", disse ele, pouco depois, "e o senhor puxou por mim, e lançou-me e atirou-me de um lado para o outro de uma forma cavalheiresca, até eu não ser nada ou ser tudo nas suas mãos; e olhou através de mim e virou-me do avesso até pensar que sabia tanto quanto eu sabia. Não tinha qualquer necessidade particular de lhe ser grato, não antes do incêndio no Castelo na outra noite. Mas estou-lhe grato por isso. Não sou grato às pessoas de uma forma geral, talvez, porque as coisas que os gentis deram foram quase sempre as coisas que eu não queria. Deram-me sopa, e tratados, e flanela, e carvão; mas, Deus, fizeram tanto barulho por causa disso que eu teria preferido enviá-los todos de volta para eles. Mas quando um cavalheiro vai e coloca a sua própria vida em perigo para salvar um bruto ébrio como eu, o bruto mais ébrio que jamais existiu sente-se grato a esse cavalheiro, e deseja dizer antes de morrer — o que ele vê na cara do médico que não lhe resta muito tempo de vida — 'Obrigado, senhor, estou-lhe agradecido'."

Luke Marks estendeu a sua mão esquerda — a mão direita tinha sido ferida pelo incêndio e estava envolta em linho — e tateou fracamente a de Robert Audley.

O jovem pegou na mão grosseira, mas encolhida, com ambas as suas, e apertou-a cordialmente.

"Não preciso de agradecimentos, Luke Marks", disse ele; "fiquei muito contente por poder ser-lhe útil."

O Sr. Marks não falou imediatamente. Ele estava deitado silenciosamente de lado, olhando de forma reflexiva para Robert Audley.

"O senhor era extraordinariamente afeiçoado àquele cavalheiro que desapareceu no Court, não era, senhor?" disse ele finalmente.

Robert sobressaltou-se com a menção do seu amigo morto.

"O senhor era extraordinariamente afeiçoado àquele Sr. Talboys, ouvi dizer, senhor", repetiu Luke.

"Sim, sim", respondeu Robert, um tanto impacientemente, "ele era o meu querido amigo."

"Ouvi os criados no Court dizerem como o senhor ficou quando não o conseguiu encontrar. Ouvi o estalajadeiro do Sun Inn dizer quão devastado o senhor ficou quando deu pela falta dele pela primeira vez. 'Se os dois cavalheiros fossem irmãos', disse o estalajadeiro, 'o nosso cavalheiro', referindo-se a si, senhor, 'não poderia ter ficado mais devastado quando perdeu o outro'."

"Sim, sim, eu sei, eu sei", disse Robert; "por favor, não fale mais sobre este assunto. Não lhe posso dizer o quanto isso me aflige."

Seria ele assombrado para sempre pelo fantasma do seu amigo insepulto? Veio ali para confortar o doente, e mesmo ali era perseguido por esta sombra implacável; mesmo ali era lembrado do crime secreto que tinha obscurecido a sua vida.

"Escute-me, Marks", disse ele, seriamente; "acredite que aprecio as suas palavras de gratidão e que estou muito contente por ter sido útil. Mas, antes de dizer mais alguma coisa, deixe-me fazer-lhe um pedido muito solene. Se me chamou para que me possa contar algo sobre o destino do meu amigo perdido, rogo-lhe que poupe a si mesmo e que me poupe dessa história horrível. Não me pode dizer nada que eu já não saiba. O pior que me pode contar sobre a mulher que esteve outrora sob o seu poder, já me foi revelado pelos seus próprios lábios. Por favor, então, silencie-se sobre este assunto; digo-lhe de novo, não me pode dizer nada que eu não saiba."

Luke Marks olhou pensativo para o rosto sério do seu visitante, e alguma expressão sombria, que era quase como um sorriso, passou fracamente pelas feições extenuadas do homem doente.

"Não lhe posso dizer nada que não saiba?" perguntou ele.

"Nada."

"Então não serve de nada tentar", disse o doente, pensativo. "Ela contou-lhe?" perguntou ele, após uma pausa.

"Tenho de pedir-lhe, Marks, que abandone o assunto", respondeu Robert, quase severamente. "Já lhe disse que não desejo ouvir falar disso. Quaisquer descobertas que tenha feito, fê-las para o seu próprio proveito. Quaisquer segredos culpados dos quais tenha tomado posse, foi pago para manter silêncio. É melhor manter o silêncio até ao fim."

"Será?" gritou Luke Marks, num sussurro ávido. "Será realmente melhor eu manter a língua calada até ao fim?"

"Penso que sim, decididamente. O senhor negociou o seu segredo e foi pago para o guardar. Seria mais honesto manter o seu acordo e guardá-lo ainda."

"Seria?" disse o Sr. Marks com um sorriso macabro; "mas suponha que a minha senhora tinha um segredo e eu outro. Como seria então?"

"O que quer dizer?"

"Suponha que eu poderia ter dito alguma coisa durante todo o tempo; e tê-lo-ia dito, talvez, se tivesse sido um pouco melhor tratado; se o que me foi dado tivesse sido dado de forma um pouco mais liberal, e não atirado para cima de mim como se eu fosse um cão, e apenas me fosse dado para ser impedido de morder. Suponha que eu pudesse ter dito alguma coisa, e tê-lo-ia dito se não fosse por isso? Como seria então?"

Era impossível descrever a macabra expressão do sorriso triunfante que iluminou o rosto extenuado do homem doente.

"O espírito dele está a divagar", pensou Robert; "preciso de ser paciente com ele, pobre coitado. Seria estranho se eu não conseguisse ser paciente com um homem moribundo."

Luke Marks ficou deitado a olhar para o Sr. Audley durante alguns momentos com aquele sorriso triunfante no rosto. A velha, exausta de vigiar o seu filho moribundo, tinha caído num cochilo e estava sentada a cabecear com o seu queixo pontiagudo sobre o punhado de lume, sobre o qual o caldo, que nunca seria comido, ainda borbulhava e fervia.

O Sr. Audley esperou muito pacientemente até que fosse do agrado do homem doente falar. Cada som era dolorosamente distinto naquela hora morta da noite. A queda das cinzas na lareira, o estalido ameaçador do carvão a arder, o tiquetaque lento e pesado do relógio embirrento no quarto de baixo, o gemido baixo do vento de Março (que poderia ter sido a voz de uma Banshee inglesa, gritando o seu aviso lúgubre aos vigilantes dos moribundos), a respiração rouca do doente — cada som mantinha-se à parte de todos os outros sons, e tornava-se uma voz separada, alta com um presságio sombrio na quietude solene da casa.

Robert sentou-se com o rosto sombreado pelas mãos, pensando no que seria dele agora que o segredo do destino do seu amigo tinha sido contado, e a história sombria de George Talboys e da sua perversa mulher tinha terminado no manicómio belga. O que seria dele?

Ele não tinha qualquer pretensão sobre Clara Talboys; pois tinha resolvido guardar o segredo horrível que lhe fora contado. Como poderia então atrever-se a encontrá-la com esse segredo escondido dela? Como poderia alguma vez olhar para os seus olhos sérios e ainda assim ocultar a verdade? Ele sentia que todo o poder de reserva falharia perante o olhar perscrutador daqueles calmos olhos castanhos. Se ele iria realmente guardar este segredo, nunca mais a poderia ver. Revelá-lo seria amargurar a sua vida. Poderia ele, por qualquer motivo egoísta seu, contar-lhe esta história terrível? — ou poderia ele pensar que, se lho contasse, ela suportaria deixar o seu irmão assassinado por vingar e esquecido na sua sepultura profana?

Cercado por todos os lados por dificuldades que pareciam totalmente insuperáveis; com o temperamento fácil que lhe era natural amargurado pelo fardo sombrio que carregara durante tanto tempo, Robert Audley olhou desesperadamente para a vida que se estendia à sua frente, e pensou que teria sido melhor para ele se tivesse perecido entre as ruínas em chamas do Castle Inn.

"Quem teria pena de mim? Ninguém, exceto a minha pobre Alicia", pensou ele, "e a dela teria sido apenas uma tristeza de Abril. Teria Clara Talboys pena? Não! Ela apenas lamentar-me-ia como um elo perdido no mistério da morte do seu irmão. Ela apenas..."

CAPÍTULO XXXIX.

O QUE O HOMEM MORIBUNDO TINHA A DIZER.

O céu sabe para onde os pensamentos do Sr. Audley poderiam ter divagado se ele não tivesse sido sobressaltado por um movimento súbito do homem doente, que se ergueu na sua cama e chamou pela mãe.

A velha acordou com um solavanco e virou-se com sonolência para olhar para o seu filho.

"O que foi, Luke, meu querido?" perguntou ela de forma apaziguadora. "Ainda não é altura para o remédio do médico. O Sr. Dawson disse que não o devias tomar senão duas horas depois de ele ter ido embora, e ele ainda não foi embora há uma hora."

"Quem disse que era o remédio do médico que eu queria?" gritou o Sr. Marks, impacientemente. "Quero perguntar-te uma coisa, mãe. Lembras-te do sete de Setembro passado?"

Robert sobressaltou-se e olhou ansiosamente para o homem doente. Por que insistia ele neste assunto proibido? Por que insistia ele em recordar a data do assassínio de George? A velha abanou a cabeça numa fraca confusão de espírito.

"Deus, Luke", disse ela, "como me podes fazer tais perguntas? A minha memória tem-me falhado nestes últimos oito ou nove anos; e nunca fui de me lembrar dos dias do mês, ou de qualquer coisa desse género. Como poderia uma pobre mulher trabalhadora lembrar-se de tais coisas?"

Luke Marks encolheu os ombros impacientemente.

"Tu és boa a fazer o que te é pedido, mãe", disse ele, irritado. "Não te disse eu para te lembrares desse dia? Não te disse eu que o tempo poderia chegar em que serias chamada para dar testemunho sobre isso, e jurar pela tua Bíblia sobre isso? Não te disse eu isso, mãe?"

A velha abanou a cabeça desesperadamente.

"Se tu dizes, não tenho dúvidas de que o fizeste, Luke", disse ela, com um sorriso conciliatório; "mas não me consigo lembrar, meu querido. A minha memória tem-me falhado nestes nove anos, senhor", acrescentou ela, virando-se para Robert Audley, "e não sou mais do que uma pobre criatura."

O Sr. Audley colocou a mão no braço do homem doente.

"Marks", disse ele, "digo-lhe de novo, não tem motivos para se preocupar com este assunto. Não lhe faço perguntas, não tenho qualquer desejo de ouvir nada."

"Mas, suponha que eu quero contar alguma coisa", gritou Luke, com energia febril, "suponha que sinto que não posso morrer com um segredo na minha consciência, e pedi para o ver propositadamente para lhe poder contar; suponha isso, e não suporá nada a não ser a verdade. Teria sido queimado vivo antes de lho ter contado." Ele proferiu estas palavras entre os dentes cerrados e lançou um olhar selvagem enquanto as pronunciava. "Teria sido queimado vivo primeiro. Fiz com que ela pagasse pelas suas modos bonitos e insolentes; fiz com que ela pagasse pelos seus ares e graças; nunca lho teria contado — nunca, nunca! Tive o meu poder sobre ela, e guardei-o; tive o meu segredo e fui pago por ele; e não houve um pequeno desprezo que ela alguma vez tenha lançado sobre mim ou sobre os meus que eu não lhe tenha retribuído vinte vezes mais!"

"Marks, Marks, pelo amor de Deus, mantenha a calma", disse Robert, seriamente. "De que está a falar? O que é que poderia ter contado?"

"Vou contar-lhe", respondeu Luke, limpando os lábios. "Dá-nos uma bebida, mãe."

A velha deitou alguma bebida refrescante numa caneca e levou-a ao filho.

Ele bebeu-a com uma pressa ávida, como se sentisse que o breve resto da sua vida teria de ser uma corrida contra o impiedoso pedestre, o Tempo.

"Fica onde estás", disse ele à mãe, apontando para uma cadeira ao pé da cama.

A velha obedeceu e sentou-se humildemente em frente ao Sr. Audley.

"Vou perguntar-te outra coisa, mãe", disse Luke, "e acho que será estranho se não a puderes responder. Lembras-te de quando eu trabalhava na quinta do Atkinson; antes de eu me casar, sabes, e quando vivia aqui em baixo contigo?"

"Sim, sim", respondeu a Sra. Marks, acenando triunfantemente, "lembro-me disso, meu querido. Foi no outono passado, exatamente quando as maçãs estavam a ser colhidas no pomar do outro lado da nossa rua, e por volta da altura em que tiveste o teu novo colete florido. Lembro-me, Luke, lembro-me."

O Sr. Audley perguntava-se onde é que tudo isto iria levar, e quanto tempo teria de ficar sentado junto à cama do homem doente, a ouvir uma conversa que não tinha qualquer significado para ele.

"Se te lembras de tanto, talvez te lembres de mais, mãe", disse Luke. "Consegues recordar-te de eu trazer alguém para casa aqui uma noite, enquanto os Atkinson estavam a empilhar o último do seu milho?"

Mais uma vez o Sr. Audley sobressaltou-se violentamente, e desta vez olhou ansiosamente para o rosto do orador e ouviu, com um estranho interesse sem fôlego que ele próprio mal compreendia, o que Luke Marks estava a dizer.

"Recordo-me de tu trazeres a Phoebe para casa", respondeu a velha, com grande animação. "Recordo-me de tu trazeres a Phoebe para casa para tomar uma chávena de chá, ou um pequeno lanche de ceia, um monte de vezes."

"Aborrece-me a Phoebe", gritou o Sr. Marks, "quem é que está a falar da Phoebe? O que é a Phoebe, para que alguém se deva preocupar com ela? Lembras-te de eu trazer um cavalheiro para casa depois das dez horas, numa noite de Setembro; um cavalheiro que estava ensopado até aos ossos, e coberto de lama e lodo, e lodo verde e lama negra, da coroa da cabeça à planta dos pés, e tinha o braço partido, e o ombro inchado terrivelmente; e era tal objeto que ninguém o teria reconhecido; um cavalheiro que teve de ter a roupa cortada nalguns sítios, e que se sentou junto ao lume da cozinha, a olhar para as brasas como se tivesse ficado louco ou estúpido, e não soubesse onde estava, ou quem era; e que teve de ser cuidado como um bebé, e vestido, e seco, e lavado, e alimentado às colheradas com brandy, que teve de ser forçado entre os seus dentes trancados, antes que se conseguisse que voltasse à vida? Lembras-te disso, mãe?"

A velha assentiu e murmurou algo no sentido de que se lembrava de todas essas circunstâncias muito vividamente, agora que Luke as mencionava.

Robert Audley soltou um grito selvagem e caiu de joelhos junto à cama do homem doente.

"Meu Deus!" exclamou ele, "Agradeço-Te pelas Tuas maravilhosas misericórdias. George Talboys está vivo!"

"Espere um pouco", disse o Sr. Marks, "não seja tão apressado. Mãe, dê-nos aquela caixa de lata na prateleira em frente à cómoda, quer?"

A velha obedeceu e, depois de remexer entre chávenas partidas e leiteiras, caixas de algodão de madeira sem tampa, e uma mistura variada de trapos e loiça, produziu uma caixa de rapé de lata com uma tampa deslizante; uma caixa gasta e de aspeto sujo.

Robert Audley ainda estava de joelhos junto à cama com o rosto escondido pelas mãos unidas. Luke Marks abriu a caixa de lata.

"Não há dinheiro nela, para grande pena", disse ele, "ou se houvesse, não teria ficado cá muito tempo. Mas há algo nela que talvez considere tão valioso como dinheiro, e é isso que lhe vou dar como prova de que um bruto ébrio pode sentir-se grato àqueles que são gentis com ele."

Ele retirou dois papéis dobrados, que entregou nas mãos de Robert Audley.

Eram duas folhas arrancadas de um bloco de notas, escritas a lápis, e com uma letra que era totalmente estranha ao Sr. Audley — uma letra apertada, rígida, e no entanto garranchosa, tal como um lavrador poderia ter escrito.

"Não conheço esta letra", disse Robert, enquanto desdobrava ansiosamente o primeiro dos dois papéis. "O que tem isto a ver com o meu amigo? Por que me mostra isto?"

"Suponha que os lê primeiro", disse o Sr. Marks, "e que me faz perguntas sobre eles depois."

O primeiro papel que Robert Audley tinha desdobrado continha as seguintes linhas, escritas naquela letra apertada e, contudo, garranchosa que lhe era tão estranha:

"MEU CARO AMIGO — Escrevo-lhe num estado de confusão mental tão profundo como talvez nenhum homem tenha sofrido antes. Não lhe posso dizer o que me aconteceu, apenas lhe posso dizer que algo aconteceu que me levará a partir de Inglaterra como um homem de coração destroçado, a procurar algum canto do mundo onde eu possa viver e morrer desconhecido e esquecido. Só lhe peço que me esqueça. Se a sua amizade me pudesse ter feito algum bem, ter-lhe-ia recorrido. Se o seu conselho me pudesse ter sido de alguma ajuda, ter-lhe-ia confiado o segredo. Mas nem a amizade nem o conselho me podem ajudar; e tudo o que lhe posso dizer é isto: que Deus o abençoe pelo passado e o ensine a esquecer-me no futuro. G.T."

O segundo papel era endereçado a outra pessoa, e o seu conteúdo era mais breve do que o do primeiro.

"HELEN — Que Deus tenha piedade de si e a perdoe pelo que fez hoje, tão verdadeiramente como eu tenho. Descanse em paz. Nunca mais ouvirá falar de mim; para si e para o mundo serei, a partir de agora, aquilo que desejava que eu fosse hoje. Não precisa de temer qualquer importunação da minha parte. Deixo Inglaterra para nunca mais voltar.

"G.T."

Robert Audley ficou a fitar estas linhas num atordoamento desesperado. Não estavam na letra familiar do seu amigo e, contudo, pretendiam ter sido escritas por ele e estavam assinadas com as suas iniciais.

Ele olhou de forma perscrutadora para o rosto de Luke Marks, pensando que talvez estivesse a ser vítima de algum truque.

"Isto não foi escrito por George Talboys", disse ele.

"Foi", respondeu Luke Marks, "foi escrito pelo Sr. Talboys, cada linha dele. Ele escreveu-o com a sua própria mão; mas foi com a mão esquerda, porque não podia usar a direita por causa do braço partido."

Robert Audley olhou para cima subitamente, e a sombra de suspeita dissipou-se do seu rosto.

"Compreendo", disse ele, "compreendo. Conte-me tudo; conte-me como foi que o meu pobre amigo se salvou."

"Eu estava a trabalhar na quinta do Atkinson, em setembro passado", disse Luke Marks, "a ajudar a empilhar o resto do milho, e como o caminho mais próximo da quinta para a casa da minha mãe era através dos prados atrás da Court, eu costumava vir por ali, e a Phoebe costumava estar no muro do jardim para lá do caminho das tílias, às vezes, para dar um dedo de conversa comigo, sabendo a hora a que eu vinha para casa.

"Não sei o que a Phoebe estava a fazer na noite de sete de setembro — recordo-me da data porque o agricultor Atkinson pagou-me o meu salário todo de uma vez nesse dia, e tive de assinar um recibo pelo dinheiro que ele me deu — não sei o que ela estava a fazer, mas ela não estava no portão junto ao caminho das tílias, por isso fui dar a volta ao outro lado dos jardins e saltei sobre a vala seca, pois queria falar com ela particularmente naquela noite, uma vez que ia partir para trabalhar numa quinta para além de Chelmsford no dia seguinte. O relógio da igreja de Audley bateu as nove quando eu atravessava os prados entre a casa do Atkinson e a Court, e deve ter sido por volta das nove e um quarto quando cheguei à horta.

"Atravessei o jardim e entrei no caminho das tílias; o caminho mais próximo para a sala dos criados levava-me através do bosque e por trás do poço seco. Era uma noite escura, mas eu conhecia bem o caminho por aquele lugar antigo, e a luz na janela da sala dos criados parecia vermelha e confortável através da escuridão. Eu estava perto da boca do poço seco quando ouvi um som que me fez arrepiar o sangue. Era um gemido — o gemido de um homem com dores, que estava deitado em algum lugar escondido entre os arbustos. Eu não tinha medo de fantasmas e, de um modo geral, não tinha medo de nada, mas havia algo em ouvir aquele gemido que me gelou até ao coração, e durante um minuto fiquei paralisado e não sabia o que fazer. Mas ouvi o gemido novamente, e então comecei a procurar entre os arbustos. Encontrei um homem deitado, escondido debaixo de um monte de loureiros, e pensei a princípio que ele não estivesse ali para nada de bom, e estava prestes a agarrá-lo para o levar para a casa, quando ele me agarrou pelo pulso sem se levantar do chão, olhando para mim muito seriamente, como pude ver pela forma como o seu rosto estava virado para mim na escuridão, e perguntou-me quem eu era, o que era e o que tinha a ver com as pessoas da Court.

"Havia algo na maneira como ele falava que me dizia que ele era um cavalheiro, embora eu não o conhecesse de lado nenhum e não pudesse ver o seu rosto; e respondi às suas perguntas educadamente.

"'Quero sair deste lugar', disse ele, 'sem ser visto por nenhuma criatura viva, lembre-se disso. Estou deitado aqui desde as quatro horas de hoje e estou meio morto, mas quero sair sem ser visto, entenda isso.'

"Disse-lhe que isso era bastante fácil, mas comecei a pensar que os meus primeiros pensamentos a seu respeito podiam estar certos, afinal de contas, e que ele não podia estar ali para nada de bom para querer fugir tão discretamente.

"'Pode levar-me a algum lugar onde eu possa arranjar uma muda de roupa seca', diz ele, 'sem que meia dúzia de pessoas o saiba?'

"Ele tinha-se levantado para uma posição sentada a esta altura, e eu pude ver que o seu braço direito pendia junto ao corpo e que ele estava com dores.

"Apontei para o seu braço e perguntei-lhe o que se passava com ele; mas ele apenas respondeu, muito calmamente: 'Partido, meu rapaz, partido. Não que isso seja muito', diz ele noutro tom, falando para si mesmo, mais do que para mim. 'Há corações partidos assim como membros partidos, e não são tão fáceis de remendar.'

"Disse-lhe que o podia levar para a casa da minha mãe e que ele podia secar a roupa lá e seria bem-vindo.

"'A sua mãe consegue guardar um segredo?', perguntou ele.

"'Bem, ela poderia guardar um bem, se se conseguisse lembrar dele', disse-lhe eu; 'mas podia dizer-lhe todos os segredos dos maçons, dos Foresters, dos Buffalos e dos Oddfellows que existem, esta noite: e ela tê-los-ia esquecido todos amanhã de manhã.'

"Ele pareceu satisfeito com isto, e levantou-se agarrando-se a mim, pois parecia que os seus membros estavam cãibrados, o uso deles tinha quase desaparecido. Senti, quando ele encostou a mim, que a sua roupa estava molhada e suja.

"'O senhor não caiu na lagoa dos peixes, pois não, senhor?', perguntei.

"Ele não respondeu à minha pergunta; nem sequer parecia ter ouvido. Podia ver agora, ao vê-lo de pé, que ele era um homem alto e bem constituído, uma cabeça e ombros mais alto do que eu.

"'Leve-me para a casa da sua mãe', disse ele, 'e arranje-me roupa seca se puder; pagarei bem pelo seu trabalho.'

"Eu sabia que a chave era quase sempre deixada no portão de madeira no muro do jardim, por isso levei-o por esse caminho. Ele mal conseguia andar a princípio, e foi apenas por se apoiar pesadamente no meu ombro que conseguiu seguir. Levei-o pelo portão, deixando-o destrancado atrás de mim, e confiando na sorte de isso não ser notado pelo ajudante de jardineiro, que tinha o cuidado da chave e era um tipo bastante descuidado. Levei-o através dos prados e trouxe-o até aqui, continuando a evitar a aldeia e ficando pelos campos, onde não havia uma alma para nos ver àquela hora da noite; e assim levei-o para o quarto no andar de baixo, onde a mãe estava sentada ao lume a preparar o meu jantar.

"Sentei o estranho numa cadeira junto ao lume e, pela primeira vez, observei-o bem. Nunca vi ninguém num estado daqueles antes. Ele estava todo coberto de limo verde e sujidade, e as suas mãos estavam arranhadas e cortadas em pedaços. Tirei-lhe a roupa como pude, pois ele era como uma criança nas minhas mãos, e sentou-se a fitar o lume tão indefeso como um bebé; apenas dando um longo e pesado suspiro de vez em quando, como se o seu coração estivesse prestes a rebentar. Finalmente ele caiu numa espécie de torpor, um tipo de sono estúpido, e começou a cabecear junto ao lume, por isso corri e busquei um cobertor e embrulhei-o nele, e levei-o a deitar-se na cama dobrável no quarto debaixo deste. Mandei a mãe para a cama, e sentei-me junto ao lume e vigiei-o, e mantive o lume aceso até ser quase o romper do dia, quando ele acordou de repente com um sobressalto e disse que tinha de ir, imediatamente, naquele minuto.

"Implorei-lhe que não pensasse em tal coisa e disse-lhe que ele não estava em condições de se mover, mas ele disse que tinha de ir, e levantou-se, e embora cambaleasse e a princípio mal conseguisse manter-se de pé dois minutos seguidos, não se deu por vencido, e levou-me a vesti-lo com as roupas que eu tinha secado e limpo o melhor que pude enquanto ele dormia. Consegui fazê-lo finalmente, mas as roupas estavam terrivelmente estragadas, e ele parecia uma visão terrível, com o seu rosto pálido e um grande corte na testa que eu tinha lavado e ligado com um lenço. Ele só conseguiu vestir o casaco abotoando-o à volta do pescoço, pois não conseguia enfiar uma manga no seu braço partido. Mas ele aguentou-se contra tudo, embora gemesse de vez em quando; e entre os arranhões e nódoas negras nas mãos, o corte na testa, os membros rígidos e o braço partido, ele tinha muitas razões para gemer; e quando já era dia claro, ele estava vestido e pronto para partir.

"'Qual é a cidade mais próxima daqui na estrada de Londres?', perguntou-me.

"Disse-lhe que a cidade mais próxima era Brentwood.

"'Muito bem, então', diz ele, 'se vier comigo até Brentwood e me levar a algum cirurgião que me ponha o braço, dar-lhe-ei uma nota de cinco libras por isso e por todo o seu outro trabalho.'

"Disse-lhe que estava pronto e disposto a fazer tudo o que ele quisesse; e perguntei-lhe se não deveria ir ver se conseguia pedir emprestada uma carroça a algum dos vizinhos para o levar, pois disse-lhe que eram uns bons seis quilómetros a pé.

"Ele abanou a cabeça. Não, não, não, disse ele, não queria que ninguém soubesse nada sobre ele; preferia ir a pé.

"Ele foi mesmo a pé; e caminhou como um valente, também; embora eu saiba que cada passo que deu daqueles seis quilómetros foi em dor; mas ele aguentou-se como se tinha aguentado antes; nunca vi um tipo tão resistente em toda a minha bendita vida. Ele teve de parar às vezes e apoiar-se num portão para recuperar o fôlego; mas aguentou-se sempre, até que finalmente chegámos a Brentwood, e então ele diz: 'Leve-me ao cirurgião mais próximo', e eu esperei enquanto ele punha o braço em talas, o que levou um tempo precioso. O cirurgião queria que ele ficasse em Brentwood até melhorar, mas ele disse que não era possível, tinha de chegar a Londres sem um minuto de perda de tempo; por isso o cirurgião tornou-o tão confortável quanto possível, considerando, e amarrou-lhe o braço numa tipóia."

Robert Audley estremeceu. Uma circunstância ligada à sua visita a Liverpool voltou-lhe subitamente à memória. Lembrou-se do funcionário que o tinha chamado para dizer que havia um passageiro que reservara o seu lugar a bordo do Victoria Regia cerca de uma hora ou pouco mais antes da partida da embarcação; um homem jovem com o braço numa tipóia, que se tinha identificado com um nome comum, que Robert tinha esquecido.

"Quando o braço foi tratado", continuou Luke, "ele diz ao cirurgião: 'Pode dar-me um lápis para escrever algo antes de eu ir embora?' O cirurgião sorri e abana a cabeça: 'Nunca será capaz de escrever com essa mão hoje', diz ele, apontando para o braço que acabara de ser tratado. 'Talvez não', responde o jovem, bastante calmo, 'mas posso escrever com a outra'. 'Não posso escrever por si?', diz o cirurgião. 'Não, obrigado', responde o outro; 'o que tenho a escrever é privado. Se me puder dar um par de envelopes, ficarei grato.'

"Com isso, o cirurgião vai buscar os envelopes, e o jovem tira um bloco de notas do bolso do casaco com a mão esquerda; a capa estava molhada e suja, mas o interior estava bastante limpo, e ele arranca um par de folhas e começa a escrever nelas como vê; e ele escreve terrivelmente desajeitado com a mão esquerda, e escreve devagar, mas consegue terminar o que vê, e então coloca os dois pedaços de escrita nos envelopes que o cirurgião lhe traz, e sela-os, e coloca uma cruz de lápis num deles, e nada no outro: e então paga ao cirurgião pelo seu trabalho, e o cirurgião pergunta se não há nada mais que possa fazer por ele, e se não pode persuadi-lo a ficar em Brentwood até o braço melhorar; mas ele diz não, não, não é possível; e então diz-me: 'Venha comigo até à estação de comboios e dar-lhe-ei o que prometi'.

"Por isso fui à estação com ele. Chegámos a tempo de apanhar o comboio que para em Brentwood às oito e meia, e tínhamos cinco minutos de sobra. Então ele leva-me a um canto da plataforma e diz: 'Quero que entregue estas cartas por mim', ao que eu disse que estava disposto. 'Muito bem, então', diz ele; 'olhe aqui; conhece a Audley Court?' 'Sim', digo eu, 'devia conhecer, pois a minha namorada é lá criada de quarto'. 'Criada de quarto de quem?', diz ele. Então digo-lhe: 'Da minha senhora, a nova senhora que era governanta em casa do Sr. Dawson'. 'Muito bem, então', diz ele; 'esta carta com a cruz no envelope é para Lady Audley, mas tem de se certificar de que a entrega nas suas próprias mãos; e lembre-se de ter cuidado para que ninguém o veja a entregá-la'. Prometo fazer isto, e ele entrega-me a primeira carta. E então diz: 'Conhece o Sr. Audley, que é sobrinho de Sir Michael?' e eu disse: 'Sim, já ouvi falar dele, e ouvi dizer que era um cavalheiro de primeira, mas afável e de fala livre' (pois ouvi-os falar do senhor, sabe)", acrescentou Luke, parenteticamente. "'Agora olhe aqui', diz o jovem, 'vai entregar esta outra carta ao Sr. Robert Audley, que está hospedado na Sun Inn, na aldeia'; e digo-lhe que está tudo bem, pois conheço a Sun desde que era bebé. Então ele entrega-me a segunda carta, que não tem nada escrito no envelope, e dá-me uma nota de cinco libras, conforme a promessa; e depois diz: 'Bom dia, e obrigado por todo o seu trabalho', e entra numa carruagem de segunda classe; e a última coisa que vejo dele é um rosto tão branco como uma folha de papel de escrita, e um grande penso adesivo cruzado na sua testa."

"Pobre George! Pobre George!"

"Voltei para Audley, e fui direto à Sun Inn, e perguntei pelo senhor, pretendendo entregar ambas as cartas fielmente, que Deus me ajude! então; mas o senhorio disse-me que o senhor tinha partido naquela manhã para Londres, e ele não sabia quando voltaria, e não sabia o nome do lugar onde o senhor vivia em Londres, embora dissesse que achava que era num daqueles tribunais, como Westminster Hall ou Doctors' Commons, ou algo parecido. Então, o que ia eu fazer? Não podia enviar uma carta pelo correio, não sabendo para onde endereçar, e não a podia entregar nas suas próprias mãos, e tinham-me dito particularmente para não deixar ninguém mais saber disso; por isso não tinha nada a fazer senão esperar e ver se o senhor voltava, e aguardar o meu momento para lha dar.

"Pensei em ir à Court à noite e ver a Phoebe, e descobrir por ela quando haveria uma possibilidade de ver a sua senhora, pois sabia que ela podia tratar disso se quisesse. Por isso não fui trabalhar nesse dia, embora devesse ter ido, e andei a vaguear e a vadiar até quase escurecer, e então vou até aos prados atrás da Court, e lá encontro a Phoebe, certamente, à espera junto à porta de madeira no muro, à minha procura.

"Não estava a falar com ela há muito tempo quando vi que havia algo de errado com ela e disse-lhe tanto.

"'Bem', diz ela, 'não estou muito bem esta noite, pois tive um desgosto ontem, e ainda não o superei.'

"'Um desgosto', digo eu. 'Tiveste uma discussão com a patroa, suponho.'

"Ela não me respondeu diretamente, mas sorriu o sorriso mais estranho que alguma vez vi, e pouco depois diz:

"'Não, Luke, não foi nada desse género; e mais, ninguém poderia ser mais amigável comigo do que a minha senhora. Acho que ela faria quase tudo por mim; e acho que, quer se tratasse de um pouco de gado e mobiliário ou algo do género, ou se fosse o trespasse de uma taberna, ela não me recusaria nada do que eu lhe pedisse.'

"Não conseguia perceber isto, pois tinha sido apenas alguns dias antes que ela me tinha dito que a patroa era egoísta e extravagante, e que poderíamos esperar muito tempo antes de conseguir o que queríamos dela.

"Por isso digo-lhe: 'Ora, isto é bastante repentino, Phoebe'; e ela diz: 'Sim, é repentino'; e volta a sorrir, exatamente com o mesmo tipo de sorriso de antes. Com isto, viro-me para ela bruscamente e digo:

"'Vou dizer-te o que é, minha rapariga, estás a esconder-me algo; algo que te foi dito, ou algo que descobriste; e se achas que vais tentar esse jogo comigo, vais descobrir que estás muito enganada; e por isso aviso-te'."

"Mas ela riu-se disso, como quem diz, e diz: 'Ora, Luke, o que é que te pôs essas fantasias na cabeça?'

"'Talvez outras pessoas saibam guardar segredos tão bem como tu', disse eu, 'e talvez outras pessoas saibam fazer amigos tão bem como tu. Houve um cavalheiro que veio aqui ver a tua patroa ontem, não houve — um cavalheiro jovem e alto com uma barba castanha?'

"Em vez de me responder como uma cristã, a minha prima Phoebe desata a chorar, e torce as mãos, e comporta-se de forma terrível, até que eu, raio, não consigo perceber o que ela está a fazer.

"Mas pouco a pouco tirei-lho, pois não ia tolerar disparates; e ela contou-me como tinha estado sentada a trabalhar à janela do seu pequeno quarto, que ficava no topo da casa, mesmo num dos telhados, e dava para o caminho das tílias, e para o bosque e para o poço, quando viu a minha senhora a caminhar com um cavalheiro estranho, e caminharam juntos durante muito tempo, até que, pouco depois, eles..."

"Pára!", gritou Robert, "eu sei o resto."

"Bem, a Phoebe contou-me tudo sobre o que viu, e disse-me que tinha encontrado a sua senhora quase logo a seguir, e que algo tinha passado entre elas, não muito, mas o suficiente para que a sua patroa soubesse que a criada a quem ela olhava de cima tinha descoberto aquilo que a colocaria sob o poder dessa criada até ao último dia da sua vida.

"E ela está sob o meu poder, Luke", diz a Phoebe; "e fará qualquer coisa no mundo por nós se guardarmos o seu segredo."

"Portanto, veja bem, tanto a minha Lady Audley como a sua criada pensavam que o cavalheiro que eu tinha visto partir em segurança no comboio de Londres estava morto no fundo do poço. Se eu entregasse a carta, elas descobririam o contrário disto; e se eu entregasse a carta, a Phoebe e eu perderíamos a oportunidade de começar a vida graças à sua patroa.

"Por isso, guardei a carta e guardei o meu segredo, e a minha senhora guardou o dela. Mas pensei que, se ela agisse de forma generosa comigo e me desse o dinheiro que eu queria, de boa vontade, eu contar-lhe-ia tudo e deixá-la-ia descansada.

"Mas ela não o fez. Tudo o que me dava, atirava-mo como se eu fosse um cão. Sempre que falava comigo, falava como se pudesse ter falado a um cão; e um cão era algo que ela não suportava ver. Não havia palavra na sua boca que fosse demasiado má para mim; não havia gesto de desprezo que ela pudesse fazer com a cabeça que fosse demasiado orgulhoso ou desdenhoso para mim; e o meu sangue fervia contra ela, e guardei o meu segredo, e deixei-a guardar o dela. Abri as duas cartas e li-as, mas não consegui tirar muito sentido delas, e escondi-as; e nenhuma criatura, a não ser eu, as viu até esta noite."

Luke Marks tinha terminado a sua história e jazia bastante quieto, exausto por ter falado durante tanto tempo. Observava o rosto de Robert Audley, esperando, em pleno, alguma repreensão, alguma palestra grave; pois tinha uma vaga consciência de que tinha agido mal.

Mas Robert não o repreendeu; não tinha qualquer gosto por um cargo que não considerava apto a desempenhar.

Robert Audley sentou-se até muito depois do romper do dia com o homem doente, que caiu num sono profundo pouco tempo depois de ter terminado a sua história. A velha senhora tinha adormecido confortavelmente durante a confissão do filho. A Phoebe estava a dormir na cama de pressão no quarto de baixo; por isso, o jovem advogado era o único vigilante.

Não conseguia dormir; apenas conseguia pensar na história que tinha ouvido. Apenas conseguia agradecer a Deus pela preservação do seu amigo e rezar para que pudesse ir ter com Clara Talboys e dizer: "O seu irmão ainda vive e foi encontrado."

A Phoebe subiu as escadas às oito horas, pronta para ocupar o seu lugar junto ao leito do doente, e Robert Audley partiu para conseguir um quarto na Sun Inn. Estava quase a escurecer quando acordou de um longo sono sem sonhos e se vestiu antes de jantar na pequena sala de estar, na qual ele e George se tinham sentado juntos alguns meses antes.

O proprietário serviu-o ao jantar e disse-lhe que Luke Marks tinha morrido às cinco horas daquela tarde. "Ele partiu de uma forma algo repentina", disse o homem, "mas muito tranquilamente."

Robert Audley escreveu uma longa carta nessa noite, dirigida à Madame Taylor, aos cuidados do Monsieur Val, Villebrumeuse; uma longa carta na qual contou àquela mulher miserável que tinha usado tantos nomes, e que iria usar um falso para o resto da sua vida, a história que o homem moribundo lhe tinha contado.

"Pode ser algum conforto para ela ouvir que o seu marido não pereceu na sua juventude pela sua mão perversa", pensou ele, "se a sua alma egoísta puder albergar qualquer sentimento de piedade ou tristeza pelos outros."

CAPÍTULO XL.

RESTITUÍDO.

Clara Talboys regressou a Dorsetshire para dizer ao seu pai que o seu único filho tinha partido para a Austrália no dia 9 de setembro e que era muito provável que ele ainda vivesse e que regressasse para reclamar o perdão do pai a quem nunca tinha prejudicado de forma muito particular, exceto na questão de ter cometido aquele terrível erro matrimonial que exercera uma influência tão fatal sobre a sua juventude.

O Sr. Harcourt-Talboys ficou completamente perplexo. Junius Brutus nunca tinha sido colocado numa posição como esta e, não vendo forma de sair deste dilema agindo segundo o seu modelo favorito, o Sr. Talboys foi forçado a ser natural, pela primeira vez na sua vida, e a confessar que tinha sofrido muito desconforto e dor de espírito acerca do seu único filho desde a sua conversa com Robert Audley, e que ficaria sinceramente contente por acolher o seu pobre rapaz nos seus braços, sempre que este regressasse a Inglaterra. Mas quando seria provável que ele regressasse? E como seria possível comunicar com ele? Essa era a questão. Robert Audley recordou os anúncios que tinha mandado inserir nos jornais de Melbourne e Sydney. Se George tivesse reentrado em qualquer uma das cidades vivo, como era possível que não tivesse tomado conhecimento desse anúncio? Seria provável que o seu amigo fosse indiferente ao seu desconforto? Mas, por outro lado, era possível que George Talboys não tivesse tido a oportunidade de ver esse anúncio; e, como tinha viajado sob um nome falso, nem os seus companheiros de viagem nem o capitão do navio teriam sido capazes de o identificar com a pessoa procurada no anúncio. O que havia a fazer? Teriam de esperar pacientemente até que George se cansasse do seu exílio e regressasse aos seus amigos que o amavam? Ou haveria algum meio de acelerar o seu regresso? Robert Audley estava bloqueado! Talvez, no indizível alívio de espírito que experimentara após a descoberta da fuga do seu amigo, fosse incapaz de olhar para além do facto daquela preservação providencial.

Neste estado de espírito, foi a Dorsetshire fazer uma visita ao Sr. Talboys, que tinha cedido a uma torrente perfeita de impulsos generosos e tinha chegado ao ponto de convidar o amigo do seu filho a partilhar a rígida hospitalidade da mansão quadrada de tijolo vermelho.

O Sr. Talboys tinha apenas dois sentimentos sobre o assunto da história de George; um era um alívio e uma felicidade naturais pelo pensamento de que o seu filho tinha sido salvo, o outro era um desejo sincero de que a minha senhora tivesse sido sua esposa e que ele pudesse, assim, ter tido o prazer de fazer dela um exemplo notável.

"Não me cabe a mim culpá-lo, Sr. Audley", disse ele, "por ter contrabandeado esta mulher culpada para fora do alcance da justiça e, assim, por assim dizer, ter brincado com as leis do seu país. Apenas posso observar que, se a senhora tivesse caído nas minhas mãos, teria sido tratada de forma muito diferente."

Estava-se em meados de abril quando Robert Audley se encontrou mais uma vez sob aqueles abetos negros sob os quais os seus pensamentos errantes tinham tantas vezes permanecido desde o seu primeiro encontro com Clara Talboys. Havia prímulas e violetas precoces nas sebes agora, e os riachos, que, na sua primeira visita, tinham estado duros e gelados como o coração de Harcourt Talboys, tinham derretido, tal como aquele cavalheiro, e corriam alegremente sob os arbustos de espinheiro-negro sob o caprichoso sol de abril.

Robert tinha um quarto de dormir austero e um vestiário inflexível que lhe foram atribuídos na casa quadrada, e acordava todas as manhãs sobre um colchão de molas metálicas, que lhe dava sempre a ideia de dormir sobre algum instrumento musical, para ver o sol a brilhar através das persianas brancas quadradas e a iluminar as duas urnas envernizadas que adornavam o pé da cama de ferro azul, até que brilhassem como duas minúsculas lâmpadas de latão do período romano. Ele emulava o Sr. Harcourt Talboys na questão dos duches e da água fria, e emergia austero e azulado como o próprio cavalheiro, quando o relógio no hall batia as sete, para se juntar ao dono da casa na sua caminhada matinal sob os abetos na plantação rígida.

Mas havia geralmente uma terceira pessoa que participava nos passeios, e essa terceira pessoa era Clara Talboys, que costumava caminhar ao lado do seu pai, mais bela do que a manhã — pois esta era por vezes baça e nublada, enquanto ela era sempre fresca e brilhante — num chapéu de palha de abas largas e fitas azuis esvoaçantes, um quarto de polegada das quais o Sr. Audley teria estimado como uma decoração mais orgulhosa do que qualquer uma que tenha adornado a casa de botão de uma criatura favorecida.

No início, eram muito cerimoniais um para com o outro e apenas eram familiares e amigos sobre o único assunto das aventuras de George; mas, pouco a pouco, surgiu uma intimidade agradável entre eles e, antes que as primeiras três semanas da visita de Robert tivessem decorrido, a Srta. Talboys fê-lo feliz ao tratá-lo seriamente e a repreendê-lo pela vida sem propósito que ele tinha levado durante tanto tempo, e pelo pouco uso que tinha feito dos talentos e oportunidades que lhe tinham sido dados.

Como era agradável ser repreendido pela mulher que amava! Como era agradável humilhar-se e depreciar-se perante ela! Como era delicioso obter oportunidades tão esplêndidas de sugerir que, se a sua vida tivesse sido santificada por um objetivo, ele poderia, de facto, ter-se esforçado por ser algo melhor do que um flâneur ocioso nos caminhos suaves que não têm um objetivo particular; que, abençoado pelos laços que teriam dado um propósito solene a cada hora da sua existência, ele poderia, de facto, ter lutado a batalha de forma séria e inabalável. Ele terminava geralmente com uma insinuação sombria no sentido de que era apenas provável que ele se deixasse cair silenciosamente sobre a orla dos Temple Gardens numa tarde qualquer, quando o rio estivesse brilhante e plácido sob a luz baixa do sol e as crianças tivessem ido para casa para o seu chá.

"Acha que posso ler romances franceses e fumar tabaco turco suave até aos setenta anos, Srta. Talboys?", perguntou ele. "Acha que não virá um dia em que as minhas espumas de espuma do mar estarão sujas, e os romances franceses mais estúpidos do que o habitual, e a vida, no geral, uma monotonia tão sombria que quererei livrar-me dela de uma forma ou de outra?"

Lamento dizer que, enquanto este jovem advogado hipócrita dissertava de forma tão desanimada, ele tinha vendido mentalmente os seus bens de solteiro, incluindo todas as publicações de Michel Levy e meia dúzia de cachimbos de espuma do mar montados em prata maciça; tinha reformado a Sra. Maloney e investido duas ou três mil libras na compra de alguns acres de arbustos verdejantes e relvado inclinado, em cujo seio deveria existir uma fairy cottage ornée, cujas janelas rústicas deveriam brilhar por entre caramanchões de murta e clematis para se verem refletidas no seio púrpura do lago.

Clara Talboys estava, naturalmente, longe de descobrir o sentido destas lamentações melancólicas. Ela recomendou ao Sr. Audley que estudasse muito e pensasse seriamente na sua profissão, e que começasse a vida a sério. Era um tipo de existência dura e seca, talvez, a que ela recomendava; uma vida de trabalho sério e aplicação, na qual ele deveria esforçar-se por ser útil aos seus semelhantes e ganhar uma reputação para si próprio.

"Eu faria tudo isso", pensou ele, "e fá-lo-ia a sério, se pudesse ter a certeza de uma recompensa pelo meu trabalho. Se ela aceitasse a minha reputação quando esta fosse conquistada e me apoiasse na luta através da sua amada companhia. Mas e se ela me enviar para lutar a batalha e se casar com algum proprietário rural corpulento enquanto eu estiver de costas?"

Sendo naturalmente de uma disposição vacilante e dilatória, não se pode dizer durante quanto tempo o Sr. Audley teria guardado o seu segredo, receoso de falar e quebrar o encanto daquela incerteza que, embora nem sempre esperançosa, era muito raramente de desespero total, não tivesse ele sido apressado pelo impulso de um momento de descuido para uma confissão completa da verdade.

Ele tinha ficado cinco semanas em Grange Heath e sentiu que não podia, por uma questão de decência, ficar mais tempo; por isso, tinha feito as malas numa agradável manhã de maio e tinha anunciado a sua partida.

O Sr. Talboys não era o tipo de homem que proferisse lamentações apaixonadas perante a perspetiva de perder o seu hóspede, mas expressou-se com uma cordialidade fria que servia, para ele, como a demonstração mais forte de amizade.

"Demos-nos muito bem, Sr. Audley", disse ele, "e teve o prazer de parecer suficientemente feliz na rotina calma da nossa casa ordenada; mais ainda, conformou-se com os nossos pequenos regulamentos domésticos de uma forma que não posso deixar de dizer que tomo como um elogio especial a mim próprio."

Robert fez uma vénia. Quão grato estava à boa sorte que nunca o tinha deixado adormecer para além do sinal do sino estridente, ou que o levou para além do alcance dos relógios à hora do almoço do Sr. Talboys.

"Espero que, uma vez que nos demos tão extraordinariamente bem", continuou o Sr. Talboys, "me faça a honra de repetir a sua visita a Dorsetshire sempre que se sentir inclinado. Encontrará bastante desporto nas minhas quintas e encontrará toda a cortesia e atenção dos meus arrendatários, se quiser trazer a sua arma consigo."

Robert respondeu da forma mais calorosa a estas aberturas amigáveis. Declarou que não havia ocupação terrena que lhe fosse mais agradável do que a caça à perdiz, e que ficaria apenas demasiado encantado por aproveitar o privilégio tão gentilmente oferecido. Não pôde evitar lançar um olhar na direção de Clara enquanto dizia isto. As pálpebras perfeitas baixaram-se um pouco sobre os olhos castanhos, e a sombra mais ténue de um rubor iluminou o belo rosto.

Mas este era o último dia do jovem advogado em Elísio, e teria de haver um intervalo monótono de dias e noites e semanas e meses antes que o primeiro de setembro lhe desse uma desculpa para regressar a Dorsetshire; um intervalo monótono que jovens proprietários de cores frescas ou viúvos gordos de quarenta e oito anos poderiam usar em seu desfavor. Não era de admirar, portanto, que ele contemplasse esta perspetiva sombria com um desespero melancólico e que fosse uma má companhia para a Srta. Talboys naquela manhã.

Mas, à noite, depois do jantar, quando o sol estava baixo no oeste, e Harcourt Talboys estava encerrado na sua biblioteca em algum assunto judicial com o seu advogado e um agricultor, o Sr. Audley tornou-se um pouco mais agradável. Ficou ao lado de Clara numa das longas janelas da sala de estar, observando as sombras que se aprofundavam no céu e a luz rosada que se tornava a cada momento mais rosada à medida que o sol morria. Não podia deixar de desfrutar daquele tête-à-tête calmo, embora a sombra do expresso da manhã seguinte, que o levaria para Londres, pairasse sombriamente sobre o caminho da sua alegria. Não podia deixar de ser feliz na presença dela; esquecido do passado, imprudente quanto ao futuro.

Conversaram sobre o único assunto que era sempre um laço de união entre eles. Conversaram sobre o seu irmão perdido, George. Ela falou dele num tom muito melancólico naquela noite. Como poderia ela deixar de estar triste, lembrando-se de que, se ele vivesse — e ela nem sequer tinha a certeza disso — ele era um errante solitário longe de todos os que o amavam, e carregando a memória de uma vida arruinada por onde quer que fosse.

"Não consigo compreender como o papá pode estar tão resignado à ausência do meu pobre irmão", disse ela, "pois ele ama-o, Sr. Audley; até o senhor deve ter visto ultimamente que ele o ama. Mas não consigo compreender como ele pode submeter-se tão calmamente à sua ausência. Se eu fosse um homem, iria à Austrália, encontrá-lo-ia e trá-lo-ia de volta; se ele ainda pudesse ser encontrado entre os vivos", acrescentou, em voz mais baixa.

Ela desviou o rosto de Robert e olhou para o céu que escurecia. Ele colocou a mão sobre o braço dela. Ela tremeu, apesar de si própria, e a voz dele também tremeu enquanto falava com ela.

"Deverei ir à procura do seu irmão?", disse ele.

"O senhor!" Ela virou a cabeça e olhou para ele seriamente através das suas lágrimas. "O senhor, Sr. Audley! Acha que eu poderia pedir-lhe que fizesse tal sacrifício por mim, ou por aqueles que amo?"

"E acha, Clara, que eu consideraria qualquer sacrifício demasiado grande se fosse feito por si? Acha que há alguma viagem que eu me recusaria a fazer, se soubesse que a senhora me daria as boas-vindas quando eu voltasse para casa, e me agradeceria por o ter servido fielmente? Irei de uma ponta à outra do continente da Austrália à procura do seu irmão, se a senhora quiser, Clara; e nunca voltarei vivo a menos que o traga comigo, e arriscarei a sorte sobre a recompensa que a senhora me der pelo meu trabalho."

A cabeça dela estava baixa, e passaram-se alguns momentos até que ela lhe respondesse.

"O senhor é muito bom e generoso, Sr. Audley", disse ela, finalmente, "e sinto esta oferta demasiado para ser capaz de lhe agradecer. Mas aquilo de que fala nunca poderia acontecer. Por que direito poderia eu aceitar tal sacrifício?"

"Pelo direito que me faz seu escravo obrigado para todo o sempre, quer a senhora queira quer não. Pelo direito do amor que lhe dedico, Clara", gritou o Sr. Audley, caindo de joelhos — de forma algo desajeitada, deve confessar-se — e cobrindo de beijos apaixonados uma mãozinha suave que ele tinha encontrado meio escondida entre as dobras de um vestido de seda.

"Eu amo-a, Clara", disse ele, "eu amo-a. Pode chamar o seu pai e pedir que me expulsem da casa neste momento, se quiser; mas eu continuarei a amá-la da mesma forma; e amá-la-ei para todo o sempre, quer a senhora queira quer não."

A pequena mão foi retirada da dele, mas não com um gesto súbito ou zangado, e repousou por um momento, leve e trémula, sobre o seu cabelo escuro.

"Clara, Clara!", murmurou ele, com uma voz baixa e suplicante, "deverei ir à Austrália à procura do seu irmão?"

Não houve resposta. Não sei como é, mas quase nada é mais delicioso do que o silêncio em tais casos. Cada momento de hesitação é uma anuência tácita; cada pausa é uma confissão terna.

"Deveremos ir ambos, minha querida? Deveremos ir como marido e mulher? Deveremos ir juntos, meu querido amor, e trazer o nosso irmão de volta entre nós?"

O Sr. Harcourt Talboys, entrando na sala iluminada pelas lâmpadas um quarto de hora depois, encontrou Robert Audley sozinho e teve de ouvir uma revelação que o surpreendeu muito. Como todas as pessoas autossuficientes, ele era toleravelmente cego a tudo o que acontecia debaixo do seu nariz, e acreditava plenamente que a sua própria companhia, e a regularidade espartana da sua casa, tinham sido os atrativos que tinham tornado Dorsetshire deliciosa para o seu hóspede.

Ficou, portanto, algo desapontado; mas suportou a sua desilusão bastante bem e expressou uma satisfação plácida e algo estoica com o rumo que os assuntos tinham tomado.

Assim, Robert Audley regressou a Londres para entregar as suas câmaras em Figtree Court e para fazer todas as perguntas necessárias sobre os navios que partiam de Liverpool para Sydney no mês de junho.

Ele tinha demorado até depois do almoço em Grange Heath, e foi no crepúsculo escuro que entrou nos sombrios pátios de Temple e encontrou o caminho para as suas câmaras. Encontrou a Sra. Maloney a esfregar as escadas, como era o seu costume na noite de sábado, e teve de abrir caminho para cima no meio de uma atmosfera de vapor de sabão, que tornava os balaústres gordurosos sob o seu toque.

"Há montes de cartas, senhor", disse a lavadeira, enquanto se levantava dos joelhos e se encostava à parede para permitir que Robert passasse por ela, "e há alguns pacotes, e há um cavalheiro que chamou muitas vezes e que está à espera esta noite, pois eu disse-lhe que o senhor me tinha escrito para dizer que os seus quartos deviam ser arejados."

Ele abriu a porta da sua sala de estar e entrou. Os canários cantavam o seu adeus ao sol poente, e a luz fraca e amarelada tremeluzia sobre as folhas dos gerânios. O visitante, fosse ele quem fosse, estava sentado de costas para a janela e com a cabeça pendida sobre o peito. Mas sobressaltou-se quando Robert Audley entrou no quarto, e o jovem soltou um grande grito de alegria e surpresa, e abriu os braços ao seu amigo perdido, George Talboys.

Sabemos quanto Robert tinha para contar. Abordou de forma leve e terna o assunto que sabia ser cruelmente doloroso para os seus amigos; disse muito pouco sobre a desgraçada mulher que estava a consumir o resto da sua vida perversa no subúrbio tranquilo da esquecida cidade belga.

George Talboys falou muito brevemente daquele solarengo sete de setembro, no qual deixara o seu amigo a dormir junto ao riacho das trutas enquanto ia acusar a sua falsa esposa daquela conspiração que quase lhe partira o coração.

"Deus sabe que, a partir do momento em que me afundei no poço negro, conhecendo a mão traiçoeira que me enviara para o que poderia ter sido a minha morte, o meu pensamento principal foi a segurança da mulher que me tinha traído. Caí de pé sobre uma massa de lodo e lama, mas o meu ombro estava contundido e o meu braço partido contra a parede do poço. Fiquei atordoado e confuso por alguns minutos, mas forcei-me a reagir, pois sentia que a atmosfera que respirava era mortal. Tinha as minhas experiências australianas para me ajudar no meu perigo; conseguia subir como um gato. As pedras com que o poço foi construído eram ásperas e irregulares, e consegui subir apoiando os pés nas frestas das pedras, e descansando as costas, por vezes, contra o lado oposto do poço, ajudando-me o melhor que podia com as mãos, embora um braço estivesse inutilizado. Foi um trabalho árduo, Bob, e parece estranho que um homem que há muito se dizia cansado da vida, tivesse tanto trabalho para a preservar. Penso que devo ter estado a subir durante mais de meia hora antes de chegar ao topo; sei que o tempo pareceu uma eternidade de dor e perigo. Era-me impossível deixar o local antes de anoitecer sem ser visto, por isso escondi-me atrás de um grupo de loureiros e deitei-me na relva, fraco e exausto, à espera que a noite caísse. O homem que me encontrou lá contou-te o resto, Robert."

"Sim, meu pobre velho amigo... sim, ele contou-me tudo."

George nunca tinha regressado à Austrália, afinal. Tinha embarcado no Victoria Regia, mas depois trocara a sua cabine por uma noutro navio pertencente aos mesmos proprietários, e fora para Nova Iorque, onde ficara tanto tempo quanto pôde suportar a solidão de uma existência que o separava de todos os amigos que alguma vez conhecera.

"Jonathan foi muito gentil comigo, Bob", disse ele; "Eu tinha dinheiro suficiente para me permitir viver bastante bem à minha maneira tranquila e pretendia ter partido para os campos de ouro da Califórnia para conseguir mais quando aquele acabasse. Poderia ter feito muitos amigos se tivesse querido, mas trazia a velha bala no meu peito; e que simpatia poderia eu ter por homens que nada sabiam do meu sofrimento? Ansiava pelo aperto forte da tua mão, Bob; o toque amigável da mão que me tinha guiado através da passagem mais sombria da minha vida."

CAPÍTULO XLI.

EM PAZ.

Dois anos se passaram desde o crepúsculo de maio em que Robert encontrou o seu velho amigo; e o sonho do Sr. Audley de uma casa de fadas concretizou-se entre Teddington Locks e Hampton Bridge, onde, no meio de uma pequena floresta de folhagem, existe uma habitação fantástica de madeira rústica, cujas janelas de treliça dão para o rio. Aqui, entre os lírios e os juncos na margem inclinada, um rapaz corajoso de oito anos brinca com um bebé que começa a andar, que espreita com admiração dos braços da ama para aquele outro bebé na profundidade púrpura da água tranquila.

O Sr. Audley é, a esta altura, um homem em ascensão no circuito doméstico, tendo-se distinguido no grande caso de quebra de promessa de Hobbs vs. Nobbs, e convulsionado o tribunal com a sua interpretação deliciosamente cómica da correspondência amorosa do infiel Nobbs. O belo rapaz de olhos escuros é o Mestre George Talboys, que recusa a musa em Eton e pesca girinos na água clara sob a sombra extensa para lá das paredes cobertas de hera da academia. Mas ele vem muito frequentemente à casa de fadas para ver o seu pai, que vive lá com a sua irmã e o marido dela; e ele é muito feliz com o seu tio Robert, a sua tia Clara e o lindo bebé que começou agora a dar os primeiros passos no relvado suave que desce até à margem da água, onde há uma pequena casa de barcos suíça e um ancoradouro onde Robert e George amarram os seus barcos esguios.

Outras pessoas vêm à casa perto de Teddington. Uma rapariga alegre e de coração leve, e um cavalheiro de barba grisalha, que sobreviveu ao problema da sua vida e lutou contra ele como um cristão deve fazer.

Passou mais de um ano desde que uma carta com margem preta, escrita em papel estrangeiro, chegou a Robert Audley para anunciar a morte de uma certa Madame Taylor, que tinha expirado pacificamente em Villebrumeuse, morrendo após uma longa doença, que o Monsieur Val descreve como uma maladie de langueur.

Outro visitante vem à casa neste verão brilhante de 1861 — um jovem franco e de coração generoso, que atira o bebé para o ar e brinca com Georgey, sendo especialmente hábil na gestão dos barcos, que nunca estão parados quando Sir Harry Towers está em Teddington.

Existe uma bonita sala de fumo rústica sobre a casa de barcos suíça, na qual os cavalheiros se sentam e fumam nas noites de verão, e de onde são chamados por Clara e Alicia para tomar chá e comer morangos com natas no relvado.

Audley Court está fechado, e uma governanta velha e severa reina suprema na mansão que o riso cristalino da minha senhora outrora tornou musical. Uma cortina pende diante do retrato pré-rafaelita; e o bolor azul que os artistas temem acumula-se sobre os Wouvermans e Poussins, os Cuyps e Tintorettos. A casa é frequentemente mostrada a visitantes curiosos, embora o baronete não seja informado desse facto, e as pessoas admiram os aposentos da minha senhora e fazem muitas perguntas sobre a bonita mulher de cabelos claros que morreu no estrangeiro.

Sir Michael não tem vontade de regressar ao lugar familiar onde outrora sonhou um breve sonho de felicidade impossível. Ele permanece em Londres até que Alicia seja Lady Towers, altura em que se mudará para uma casa que comprou recentemente em Hertfordshire, nos limites da propriedade do seu genro. George Talboys é muito feliz com a sua irmã e o seu velho amigo. Lembrem-se de que ele ainda é um homem jovem, e não é de todo impossível que ele possa, mais tarde, encontrar alguém que o console pelo passado. Aquela história sombria do passado desvanece-se pouco a pouco todos os dias, e pode chegar um momento em que a sombra que a maldade da minha senhora lançou sobre a vida do jovem desaparecerá completamente.

A espuma de meerschaum e os romances franceses foram oferecidos a um jovem templário com quem Robert Audley tinha sido amigo nos seus tempos de solteiro; e a Sra. Maloney tem uma pequena pensão, paga trimestralmente, pelo seu cuidado com os canários e os gerânios.

Espero que ninguém se oponha à minha história porque o final dela deixa as pessoas boas todas felizes e em paz. Se a minha experiência de vida não foi muito longa, foi pelo menos múltipla; e posso subscrever com segurança aquilo que um rei poderoso e um grande filósofo declarou, quando disse que nem a experiência da sua juventude nem da sua velhice lhe tinham mostrado "o justo abandonado, nem a sua descendência a mendigar o pão".

O FIM.

Public-domain source text from Project Gutenberg, translated into Portuguese by AI under our editorial direction. Machine translation of a whole book is not flawless — this exists so you can read a book otherwise closed to you, not as a scholarly edition. How this is made.