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Life and Letters of Charles Darwin

by Charles Darwin · in Portuguese

A VIDA E CARTAS DE CHARLES DARWIN

Por Charles Darwin

Incluindo um Capítulo Autobiográfico

Editado pelo seu filho Francis Darwin

VOLUME I

PREFÁCIO

Ao escolher as cartas para publicação, fui amplamente orientado pelo desejo de ilustrar o caráter pessoal de meu pai. Contudo, a sua vida foi tão essencialmente uma vida de trabalho que uma história do homem não poderia ser escrita sem seguir de perto a carreira do autor. Assim, acontece que a parte principal do livro se divide em capítulos cujos títulos correspondem aos nomes dos seus livros.

Ao organizar as cartas, aderi o máximo possível à sequência cronológica, mas o caráter e a variedade das suas pesquisas tornam uma ordem estritamente cronológica impossível. Era seu hábito trabalhar mais ou menos simultaneamente em vários assuntos. O trabalho experimental era muitas vezes realizado como um refresco ou variedade, enquanto eram escritos livros que implicavam raciocínio e a organização de grandes corpos de factos. Além disso, muitas das suas pesquisas eram deixadas de lado e retomadas apenas após um intervalo de anos. Assim, uma série de cartas rigidamente cronológica apresentaria uma colcha de retalhos de assuntos, cada um dos quais seria difícil de seguir. O Índice mostrará a forma como tentei evitar este resultado.

Ao imprimir as cartas, segui (exceto em poucos casos) o plano habitual de indicar a existência de omissões ou inserções. As cartas de meu pai dão provas frequentes de terem sido escritas quando ele estava cansado ou apressado, e ostentam as marcas dessa circunstância. Ao escrever a um amigo, ou a um membro da sua família, ele omitia frequentemente os artigos: estes foram inseridos sem as indicações habituais, exceto em poucos casos, onde é de especial interesse preservar intacto o caráter apressado da carta. Outras pequenas palavras, como "de", "para", etc., foram inseridas habitualmente entre parênteses. Não segui os originais no que diz respeito à ortografia dos nomes, ao uso de maiúsculas ou à pontuação. Meu pai sublinhou muitas palavras nas suas cartas; estas nem sempre foram apresentadas em itálico — uma reprodução que exageraria injustamente o seu efeito.

O Diário ou Caderno de Bolso, do qual ocorrem citações nas páginas seguintes, foi valioso por fornecer uma estrutura de factos em torno da qual as cartas podem ser agrupadas. Infelizmente, é escrito com grande brevidade, a história de um ano sendo comprimida numa página ou menos; e contém pouco mais do que as datas dos principais acontecimentos da sua vida, juntamente com anotações sobre o seu trabalho e sobre a duração das suas doenças mais graves. Ele raramente datava as suas cartas, pelo que, não fosse pelo Diário, teria sido quase impossível desvendar a história dos seus livros. Permitiu-me também atribuir datas a muitas cartas que, de outra forma, teriam sido privadas de metade do seu valor.

Das cartas dirigidas ao meu pai, não fiz grande uso. Era seu costume arquivar todas as cartas recebidas, e quando o seu pequeno estoque de arquivos ("espetos", como ele os chamava) se esgotava, ele queimava as cartas de vários anos, a fim de poder fazer uso dos "espetos" libertados. Este processo, levado a cabo durante anos, destruiu quase todas as cartas recebidas antes de 1862. Após essa data, foi persuadido a guardar as cartas mais interessantes, e estas encontram-se preservadas de forma acessível.

Tentei dar, no Capítulo III, algum relato da sua maneira de trabalhar. Durante os últimos oito anos da sua vida, atuei como seu assistente e, assim, tive a oportunidade de conhecer algo dos seus hábitos e métodos.

Recebi muita ajuda dos meus amigos no decorrer do meu trabalho. A alguns estou em dívida por reminiscências do meu pai, a outros por informações, críticas e conselhos. A todos estes gentis colaboradores reconheço com prazer a minha dívida. Os nomes de alguns ocorrem em conexão com as suas contribuições, mas não nomeio aqueles a quem estou em dívida por críticas ou correções, porque desejaria suportar sozinho o peso das minhas falhas, em vez de deixar que qualquer parte dele recaísse sobre aqueles que fizeram o seu melhor para as aliviar.

Ver-se-á o quanto estou em dívida para com Sir Joseph Hooker pelos meios de ilustrar a vida de meu pai. Os leitores destas páginas ficarão, creio eu, gratos a Sir Joseph pelo cuidado com que preservou a sua valiosa coleção de cartas, e eu desejaria acrescentar o meu reconhecimento da generosidade com que a colocou à minha disposição, e pelo amável encorajamento dado ao longo do meu trabalho.

Ao Sr. Huxley devo uma dívida de gratidão, não apenas por muita ajuda gentil, mas pela sua vontade em cumprir o meu pedido de que contribuísse com um capítulo sobre a receção da 'Origem das Espécies'.

Finalmente, é um prazer reconhecer a cortesia dos editores da 'Century Magazine', que me cederam livremente o uso das suas ilustrações. Aos Srs. Maull e Fox e aos Srs. Elliott e Fry estou também em dívida pela sua gentileza em permitir-me o uso de reproduções das suas fotografias.

FRANCIS DARWIN.

Cambridge, outubro de 1887.

ÍNDICE.

VOLUME I.

CAPÍTULO 1.I.—A Família Darwin.

CAPÍTULO 1.II.—Autobiografia.

CAPÍTULO 1.III.—Reminiscências.

CARTAS.

CAPÍTULO 1.IV.—Vida em Cambridge—1828-1831.

CAPÍTULO 1.V.—A Nomeação para o 'Beagle'—1831.

CAPÍTULO 1.VI.—A Viagem—1831-1836.

CAPÍTULO 1.VII.—Londres e Cambridge—1836-1842.

CAPÍTULO 1.VIII.—Religião.

CAPÍTULO 1.IX.—Vida em Down—1842-1854.

CAPÍTULO 1.X.—O Crescimento da 'Origem das Espécies'.

CAPÍTULO 1.XI.—O Crescimento da 'Origem das Espécies'—Cartas—1843-1856.

CAPÍTULO 1.XII.—O Livro Inacabado—Maio de 1856-Junho de 1858.

CAPÍTULO 1.XIII.—A Escrita da 'Origem das Espécies'—18 de junho de 1858—novembro de 1859.

CAPÍTULO 1.XIV.—Professor Huxley sobre a Receção da 'Origem das Espécies'.

VIDA E CARTAS DE CHARLES DARWIN.

VOLUME I.

CAPÍTULO 1.I. — A FAMÍLIA DARWIN.

Os primeiros registos da família mostram que os Darwins eram proprietários rurais abastados que residiam nas fronteiras norte de Lincolnshire, perto de Yorkshire. O nome é hoje muito incomum em Inglaterra, mas creio que não é desconhecido nas redondezas de Sheffield e em Lancashire. Até ao ano 1600, encontramos o nome escrito de várias maneiras—Derwent, Darwen, Darwynne, etc. É possível, portanto, que a família tenha migrado numa data desconhecida de Yorkshire, Cumberland ou Derbyshire, onde Derwent ocorre como o nome de um rio.

O primeiro antepassado de quem temos conhecimento foi um William Darwin, que viveu, por volta do ano 1500, em Marton, perto de Gainsborough. O seu bisneto, Richard Darwyn, herdou terras em Marton e noutros locais, e no seu testamento, datado de 1584, "legou a soma de 3s. 4d. para a colocação das armas de Sua Majestade a Rainha sobre a porta do coro na igreja paroquial de Marton". (Devemos o conhecimento destes primeiros membros da família a pesquisas entre os testamentos em Lincoln, feitas pelo conhecido genealogista, Coronel Chester.)

O filho deste Richard, chamado William Darwin, e descrito como "cavalheiro", parece ter sido um homem bem-sucedido. Ao mesmo tempo que mantinha a sua terra ancestral em Marton, adquiriu através da sua esposa e por compra uma propriedade em Cleatham, na paróquia de Manton, perto de Kirton Lindsey, e fixou lá a sua residência. Esta propriedade permaneceu na família até ao ano de 1760. Uma casa de campo com paredes grossas, alguns tanques de peixes e árvores antigas mostram agora apenas onde o "Old Hall" outrora se ergueu, e um campo é ainda conhecido localmente como a "Darwin Charity", por estar sujeito a um encargo a favor dos pobres de Marton. William Darwin deve, pelo menos em parte, ter devido a sua ascensão de estatuto à sua nomeação em 1613 pelo Rei Jaime I para o cargo de Yeoman da Real Armaria de Greenwich. O cargo parece ter valido apenas 33 libras por ano, e as funções eram provavelmente quase nominais; ele manteve o cargo até à sua morte durante as Guerras Civis.

O facto de este William ter sido um servidor real pode explicar por que razão o seu filho, também chamado William, serviu quando quase um rapaz pelo Rei, como "Capitão-Tenente" na tropa de cavalaria de Sir William Pelham. Aquando da dispersão parcial dos exércitos reais, e da retirada dos remanescentes para a Escócia, as propriedades do rapaz foram sequestradas pelo Parlamento, mas foram redimidas após ele assinar a Solene Liga e Aliança, e após pagar uma multa que deve ter afetado gravemente as suas finanças; pois, numa petição a Carlos II, ele fala da sua quase completa ruína por ter aderido à causa real.

Durante a Comunidade, William Darwin tornou-se um advogado de Lincoln's Inn, e esta circunstância levou provavelmente ao seu casamento com a filha de Erasmus Earle, sargento-advogado; daqui, o seu bisneto, Erasmus Darwin, o Poeta, derivou o seu nome próprio. Acabou por se tornar Juiz de Direito da cidade de Lincoln.

O filho mais velho do Juiz, novamente chamado William, nasceu em 1655 e casou-se com a herdeira de Robert Waring, um membro de uma boa família de Staffordshire. Esta senhora herdou da família de Lassells, ou Lascelles, a mansão e o solar de Elston, perto de Newark, que permaneceu desde então na família. (O Capitão Lassells, ou Lascelles, de Elston foi secretário militar de Monk, Duque de Albemarle, durante as Guerras Civis. Um grande volume de livros de contas, contrainiciado em muitos locais por Monk, está hoje na posse do meu primo Francis Darwin. As contas poderiam possivelmente ser de interesse para o antiquário ou historiador. Um retrato do Capitão Lassells com armadura, embora utilizado a certa altura como alvo de arco e flecha por alguns rapazes do nosso nome, não foi irremediavelmente arruinado.) Um retrato deste William Darwin em Elston mostra-o como um jovem de boa aparência com uma peruca de fundo cheio.

Este terceiro William teve dois filhos, William, e Robert, que foi educado como advogado. A propriedade de Cleatham foi deixada a William, mas com o fim da sua linhagem em filhas, reverteu para o irmão mais novo, que tinha recebido Elston. Com a morte da sua mãe, Robert abandonou a sua profissão e residiu sempre depois em Elston Hall. Sobre este Robert, Charles Darwin escreve (O que se segue é citado da biografia de Charles Darwin sobre o seu avô, formando o aviso preliminar ao interessante ensaio de Ernst Krause, 'Erasmus Darwin', Londres, 1879, página 4.):--

"Ele parece ter tido algum gosto pela ciência, pois foi um dos primeiros membros do conhecido Spalding Club; e o célebre antiquário Dr. Stukeley, em 'Um Relato do Esqueleto quase inteiro de um Grande Animal', etc., publicado nas 'Transações Filosóficas', abril e maio de 1719, começa o artigo da seguinte forma: 'Tendo um relato do meu amigo Robert Darwin, Esq., de Lincoln's Inn, uma pessoa de curiosidade, sobre um esqueleto humano impresso em pedra, encontrado ultimamente pelo reitor de Elston', etc. Stukeley fala depois disso como uma grande raridade, 'do género da qual não foi observado antes nesta ilha, tanto quanto é do meu conhecimento'. A julgar por uma espécie de ladainha escrita por Robert, e transmitida na família, ele era um forte defensor da temperança, que o seu filho sempre depois defendeu tão fortemente:--

De uma manhã que brilha, De um rapaz que bebe vinho, De uma esposa que fala latim, Bom Senhor, livrai-me!

"Suspeita-se que a terceira linha possa ser explicada pela sua esposa, a mãe de Erasmus, ter sido uma senhora muito instruída. O filho mais velho de Robert, batizado Robert Waring, sucedeu à propriedade de Elston e morreu lá com a idade de noventa e dois anos, solteiro. Ele tinha um forte gosto pela poesia, tal como o seu irmão mais novo Erasmus. Robert também cultivava a botânica e, quando já um homem idoso, publicou os seus 'Principia Botanica'. Este livro em manuscrito estava belissimamente escrito, e o meu pai [Dr. R.W. Darwin] declarou que acreditava que tinha sido publicado porque o seu velho tio não podia suportar que tal caligrafia fosse desperdiçada. Mas isto era pouco justo, pois a obra contém muitas notas curiosas sobre biologia — um assunto totalmente negligenciado em Inglaterra no século passado. O público, aliás, apreciou o livro, pois o exemplar na minha posse é a terceira edição."

O segundo filho, William Alvey, herdou Elston e transmitiu-o à sua neta, a falecida Sra. Darwin, de Elston e Creskeld. Um terceiro filho, John, tornou-se reitor de Elston, sendo o cargo de livre nomeação da família. O quarto filho, o mais novo, era Erasmus Darwin, o poeta e filósofo.

TABELA DE PARENTESCO. (Uma lista incompleta de membros da família.)

ROBERT DARWIN de Elston, 1682-1754, teve três filhos, William Alvey Darwin, 1726-1783, Robert Waring Darwin, 1724-1816, e Erasmus Darwin, 1731-1802.

William Alvey Darwin, 1726-1783, teve um filho, William Brown Darwin, 1774-1841, e uma filha, Anne Darwin.

William Brown Darwin, 1774-1841, teve duas filhas, Charlotte Darwin e Sarah Darwin.

Charlotte Darwin casou-se com Francis Rhodes, agora Francis Darwin de Creskeld e Elston.

Sarah Darwin casou-se com Edward Noel.

Anne Darwin casou-se com Samuel Fox e teve um filho, William Darwin Fox.

ERASMUS DARWIN, 1731-1802, casou-se (1) com MARY HOWARD, 1740-1770, com quem teve dois filhos, Charles Darwin, 1758-1778, e ROBERT WARING DARWIN, e (2) com Eliz. Chandos-Pole, 1747-1832, com quem teve uma filha, Violetta Darwin, e um filho, Francis Sacheverel Darwin.

ROBERT WARING DARWIN, 1767-1848, casou-se com SUSANNAH WEDGWOOD e teve um filho, CHARLES ROBERT DARWIN, n. 12 de fevereiro de 1809, m. 19 de abril de 1882.

Violetta Darwin casou-se com Samuel Tertius Galton e teve um filho, Francis Galton.

Francis Sacheverel Darwin, 1786-1859, teve dois filhos, Reginald Darwin e Edward Darwin, "High Elms".

A tabela acima mostra a ascendência de Charles Darwin a partir de Robert, e o seu parentesco com alguns outros membros da família, cujos nomes ocorrem na sua correspondência. Entre estes estão incluídos William Darwin Fox, um dos seus primeiros correspondentes, e Francis Galton, com quem manteve uma amizade calorosa durante muitos anos. Aqui ocorre também o nome de Francis Sacheverel Darwin, que herdou o amor pela história natural de Erasmus e o transmitiu ao seu filho Edward Darwin, autor (sob o nome de "High Elms") de um 'Manual do Guarda-Caça' (4.ª Edição, 1863), que mostra uma observação aguçada dos hábitos de vários animais.

É sempre interessante ver até que ponto as características pessoais de um homem podem ser traçadas nos seus antepassados. Charles Darwin herdou a estatura alta, mas não a figura volumosa de Erasmus; mas nos seus traços não há semelhança traçável com os do seu avô. Nem, ao que parece, Erasmus tinha o amor pelo exercício e pelos desportos de campo, tão característicos de Charles Darwin quando jovem, embora tivesse, como o seu neto, um amor indomável pelo trabalho mental árduo. A benevolência e a simpatia pelos outros, e um grande charme pessoal de modos, eram comuns aos dois. Charles Darwin possuía, no mais alto grau, aquela "vivacidade de imaginação" da qual ele fala como sendo fortemente característica de Erasmus, e como levando "à sua tendência avassaladora para teorizar e generalizar". Esta tendência, no caso de Charles Darwin, era totalmente mantida sob controlo pela determinação de testar as suas teorias ao máximo. Erasmus tinha um forte amor por todos os tipos de mecanismos, pelos quais Charles Darwin não tinha gosto. Nem Charles Darwin tinha o temperamento literário que fez de Erasmus um poeta, bem como um filósofo. Ele escreve sobre Erasmus ('Vida de Erasmus Darwin', página 68): "Ao longo das suas cartas, fiquei impressionado com a sua indiferença pela fama, e a completa ausência de todos os sinais de qualquer superestimação das suas próprias capacidades, ou do sucesso das suas obras." Estas, de facto, parecem indicações de traços mais surpreendentemente proeminentes no seu próprio caráter. Contudo, não obtemos provas em Erasmus da intensa modéstia e simplicidade que marcaram toda a natureza de Charles Darwin. Mas, pelas rápidas explosões de raiva provocadas em Erasmus à vista de qualquer desumanidade ou injustiça, somos novamente lembrados dele.

No geral, contudo, parece-me que não sabemos o suficiente sobre o tom pessoal essencial do caráter de Erasmus Darwin para tentar mais do que uma comparação superficial; e fico com a impressão de que, apesar de muitas semelhanças, os dois homens eram de um tipo diferente. Foi demonstrado que a Srta. Seward e a Sra. Schimmelpenninck deturparam o caráter de Erasmus Darwin. (Ibid., páginas 77, 79, etc.) É, contudo, extremamente provável que as falhas que elas exageram fossem, até certo ponto, características do homem; e isto leva-me a pensar que Erasmus tinha uma certa acidez ou severidade de temperamento que não existia no seu neto.

Os filhos de Erasmus Darwin herdaram, em certo grau, os seus gostos intelectuais, pois Charles Darwin escreve sobre eles o seguinte:

"O seu filho mais velho, Charles (nascido a 3 de setembro de 1758), era um jovem de promessa extraordinária, mas morreu (15 de maio de 1778) antes de ter vinte e um anos, devido aos efeitos de um ferimento recebido enquanto dissecava o cérebro de uma criança. Ele herdou do seu pai um forte gosto por vários ramos da ciência, por escrever versos e por mecânica... Ele herdou também a gaguez. Com a esperança de o curar, o seu pai enviou-o para França, quando tinha cerca de oito anos (1766-'67), com um tutor privado, pensando que, se ele não tivesse permissão para falar inglês durante algum tempo, o hábito da gaguez poderia ser perdido; e é um facto curioso que, em anos posteriores, ao falar francês, ele nunca gaguejou. Com uma idade muito precoce, ele colecionou espécimes de todos os tipos. Quando tinha dezasseis anos, foi enviado por um ano para [Christ Church] Oxford, mas ele não gostou do lugar, e pensou (nas palavras do seu pai) que o 'vigor da sua mente definhava na busca da elegância clássica como Hércules à roca, e suspirava por ser removido para o exercício mais robusto da escola de medicina de Edimburgo'. Ele permaneceu três anos em Edimburgo, trabalhando arduamente nos seus estudos médicos, e atendendo 'com diligência todos os doentes pobres da paróquia de Waterleith, e fornecendo-lhes os medicamentos necessários'. A Sociedade Aesculapiana premiou-o com a sua primeira medalha de ouro por uma investigação experimental sobre o pus e o muco. Avisos sobre ele apareceram em vários jornais; e todos os escritores concordam sobre a sua energia e capacidades incomuns. Ele parece, como o seu pai, ter excitado o afeto caloroso dos seus amigos. O Professor Andrew Duncan... falou... sobre ele com o afeto mais caloroso quarenta e sete anos após a sua morte, quando eu era um jovem estudante de medicina em Edimburgo...

"Sobre o caráter do seu segundo filho, Erasmus (nascido em 1759), tenho pouco a dizer, pois embora ele escrevesse poesia, parece não ter tido nenhum dos outros gostos do seu pai. Ele tinha, contudo, os seus próprios gostos peculiares, a saber, genealogia, a coleção de moedas e estatísticas. Quando rapaz, ele contou todas as casas na cidade de Lichfield, e descobriu o número de habitantes em tantas quantas pôde; ele fez assim um censo, e quando um verdadeiro foi feito pela primeira vez, a sua estimativa revelou-se quase exata. A sua disposição era tranquila e recatada. O meu pai tinha uma opinião muito elevada das suas capacidades, e isto era provavelmente justo, pois de outra forma ele não teria sido convidado a viajar com, e a fazer longas visitas a, homens tão distintos de diferentes formas como Boulton, o engenheiro, e Day, o moralista e romancista." A sua morte por suicídio, em 1799, parece ter ocorrido num estado de loucura incipiente.

Robert Waring, o pai de Charles Darwin, nasceu a 30 de maio de 1766, e entrou na profissão médica como o seu pai. Ele estudou durante alguns meses em Leyden, e obteve o seu doutoramento (Devo esta informação à gentileza do Professor Rauwenhoff, Diretor dos Arquivos em Leyden. Ele cita do catálogo de doutores que "Robertus Waring Darwin, Anglo-britannus", defendeu (26 de fevereiro de 1785) no Senado uma Dissertação sobre as imagens coloridas vistas após olhar para um objeto brilhante, e "Medicinae Doctor creatus est a clar. Paradijs." Os arquivos da Universidade de Leyden são tão completos que o Professor Rauwenhoff é capaz de me dizer que o meu avô viveu juntamente com um certo "Petrus Crompton, Anglus", em alojamentos no Apothekersdijk. A dissertação de Leyden do Dr. Darwin foi publicada nas 'Transações Filosóficas', e o meu pai costumava dizer que o trabalho era, de facto, devido a Erasmus Darwin.—F.D.) nessa Universidade a 26 de fevereiro de 1785. "O seu pai" (Erasmus) "trouxe-o ('Vida de Erasmus Darwin', página 85) para Shrewsbury antes de ele ter vinte e um anos (1787), e deixou-lhe 20 libras, dizendo: 'Diz-me quando precisares de mais, e eu enviar-tas-ei'. O seu tio, o reitor de Elston, enviou-lhe depois também 20 libras, e esta foi a única ajuda pecuniária que ele alguma vez recebeu... Erasmus diz ao Sr. Edgeworth que o seu filho Robert, após estar estabelecido em Shrewsbury há apenas seis meses, 'já tinha entre quarenta e cinquenta pacientes'. No segundo ano ele tinha uma prática considerável, e sempre depois muito grande."

Robert Waring Darwin casou-se (18 de abril de 1796) com Susannah, filha do amigo de seu pai, Josiah Wedgwood, de Etruria, então com trinta e dois anos de idade. Temos uma miniatura dela, com um rosto notavelmente doce e feliz, que guarda alguma semelhança com o retrato de seu pai feito por Sir Joshua Reynolds; uma fisionomia expressiva da natureza gentil e compreensiva que a Srta. Meteyard lhe atribui. ('A Group of Englishmen', pela Srta. Meteyard, 1871.) Ela faleceu a 15 de julho de 1817, trinta e dois anos antes do marido, cuja morte ocorreu a 13 de novembro de 1848. O Dr. Darwin viveu antes do seu casamento durante dois ou três anos em St. John's Hill; depois no Crescent, onde nasceu a sua filha mais velha, Marianne; por último no "Mount", na parte de Shrewsbury conhecida como Frankwell, onde nasceram os outros filhos. Esta casa foi construída pelo Dr. Darwin por volta de 1800, encontra-se agora na posse do Sr. Spencer Phillips e sofreu poucas alterações. É uma casa grande, simples, quadrada, de tijolo vermelho, cuja característica mais atraente é a bonita estufa que se abre a partir da sala de estar.

A casa está encantadoramente situada no topo de uma margem íngreme que desce até ao Severn. A margem em socalcos é atravessada por um longo caminho, de uma ponta à outra, ainda chamado de "o Caminho do Doutor". Num ponto deste caminho cresce um castanheiro-bravo, cujos ramos se curvam para trás paralelamente a si mesmos de uma forma curiosa, e esta era a árvore favorita de Charles Darwin quando rapaz, onde ele e a sua irmã Catherine tinham cada um o seu lugar especial.

O Doutor sentia um grande prazer no seu jardim, plantando-o com árvores e arbustos ornamentais, e sendo especialmente bem-sucedido com árvores de fruto; e este amor pelas plantas era, penso eu, o único gosto semelhante à história natural que ele possuía. Sobre os "pombos do Mount", que a Srta. Meteyard descreve como ilustrativos do gosto do Dr. Darwin pela história natural, não consegui obter informações junto daqueles mais capazes de saber. O relato da Srta. Meteyard sobre ele não é inteiramente preciso em alguns pontos. Por exemplo, é incorreto descrever o Dr. Darwin como tendo uma mente filosófica; a dele era uma mente especialmente voltada para o detalhe, e não para a generalização. Por outro lado, aqueles que o conheciam intimamente descrevem-no como alguém que comia notavelmente pouco, pelo que não era "um grande comedor, que comia um ganso ao jantar tão facilmente como outros homens comem uma perdiz". ('A Group of Englishmen', página 263.) Em matéria de vestuário, era conservador, e usou até ao fim da sua vida calções de joelho e polainas castanhas, que, no entanto, certamente não abotoavam acima do joelho, como diz a Srta. Meteyard — uma forma de traje conhecida principalmente por nós nos granadeiros do tempo da Rainha Ana, e nos lenhadores e rapazes de lavoura modernos.

Charles Darwin tinha o mais forte sentimento de amor e respeito pela memória de seu pai. A sua recordação de tudo o que estava relacionado com ele era singularmente distinta, e falava dele frequentemente; geralmente começando uma anedota com uma frase do tipo: "O meu pai, que foi o homem mais sábio que alguma vez conheci, etc...". Era espantoso quão claramente se lembrava das opiniões do seu pai, de modo que era capaz de citar algumas máximas ou conselhos dele na maioria dos casos de doença. Por norma, depositava pouca fé nos médicos, e por isso a sua fé ilimitada no instinto médico e nos métodos de tratamento do Dr. Darwin era tanto mais notável.

A sua veneração por ele era ilimitada e muito comovente. Teria desejado julgar tudo o resto no mundo imparcialmente, mas qualquer coisa que o seu pai tivesse dito era recebida com uma fé quase implícita. A sua filha, a Sra. Litchfield, recorda-o a dizer que esperava que nenhum dos seus filhos acreditasse em algo só porque ele o dissera, a menos que eles próprios estivessem convencidos da sua veracidade — um sentimento em contraste notável com o seu próprio modo de fé.

Uma visita que Charles Darwin fez a Shrewsbury em 1869 deixou na mente da filha que o acompanhou uma forte impressão do seu amor pela sua antiga casa. O inquilino do Mount na altura mostrou-lhes a casa, etc., e, com hospitalidade equivocada, permaneceu com o grupo durante toda a visita. Ao saírem, Charles Darwin disse, com um olhar patético de pesar: "Se me tivessem deixado sozinho naquela estufa durante cinco minutos, sei que teria sido capaz de ver o meu pai na sua cadeira de rodas tão vividamente como se ele estivesse ali à minha frente".

Talvez este incidente mostre o que penso ser a verdade, que a memória do seu pai que ele mais amava era a dele como um homem idoso. A Sra. Litchfield anotou algumas palavras que ilustram bem o seu sentimento para com o seu pai. Ela descreve-o a dizer, com o mais terno respeito: "Penso que o meu pai foi um pouco injusto comigo quando eu era jovem, mas depois, agradeço a Deus por pensar que me tornei um dos seus favoritos". Ela guarda uma recordação vívida da expressão de devaneio feliz que acompanhava estas palavras, como se ele estivesse a rever toda a relação, e a lembrança deixasse uma profunda sensação de paz e gratidão.

O que se segue foi acrescentado por Charles Darwin às suas 'Recollexões' autobiográficas, e foi escrito por volta de 1877 ou 1878.

"Posso aqui acrescentar algumas páginas sobre o meu pai, que foi, em muitos aspetos, um homem notável.

"Ele tinha cerca de 1 metro e 88 centímetros de altura, ombros largos e era muito corpulento, pelo que era o homem maior que alguma vez vi. Quando se pesou pela última vez, tinha 152 quilos, mas depois aumentou muito de peso. As suas principais características mentais eram o seu poder de observação e a sua simpatia, nenhum dos quais vi alguma vez excedido ou mesmo igualado. A sua simpatia não era apenas para com as aflições dos outros, mas, em maior grau, para com os prazeres de todos à sua volta. Isto levava-o a estar sempre a planear formas de dar prazer aos outros e, embora odiasse a extravagância, a realizar muitas ações generosas. Por exemplo, o Sr. B--, um pequeno fabricante em Shrewsbury, veio ter com ele um dia e disse que iria à falência a menos que pudesse pedir emprestadas, de imediato, 10 000 libras, mas que não podia dar qualquer garantia legal. O meu pai ouviu as suas razões para acreditar que poderia, em última análise, reembolsar o dinheiro e, pela [sua] perceção intuitiva do caráter, sentiu-se seguro de que ele era de confiança. Então, adiantou-lhe esta quantia, que era muito elevada para ele enquanto jovem, e foi, passado algum tempo, reembolsado.

"Suponho que foi a sua simpatia que lhe conferiu um poder ilimitado de conquistar confiança e, consequentemente, o tornou altamente bem-sucedido como médico. Começou a exercer antes de ter vinte e um anos, e os seus honorários durante o primeiro ano pagaram o sustento de dois cavalos e de um criado. No ano seguinte, a sua prática era grande, e assim continuou durante cerca de sessenta anos, altura em que deixou de atender qualquer pessoa. O seu grande sucesso como médico era tanto mais notável quanto ele me disse que, ao princípio, odiava tanto a sua profissão que, se tivesse a certeza da mais pequena ninharia, ou se o seu pai lhe tivesse dado alguma escolha, nada o teria levado a segui-la. Até ao fim da sua vida, o pensamento de uma operação quase o deixava enjoado, e mal conseguia suportar ver uma pessoa a ser sangrada — um horror que ele transmitiu a mim — e lembro-me do horror que senti enquanto estudante ao ler sobre Plínio (penso eu) a sangrar até à morte num banho quente...

"Devido ao poder do meu pai de conquistar confiança, muitos pacientes, especialmente senhoras, consultavam-no quando sofriam de qualquer angústia, como uma espécie de Pai-Confessor. Disse-me que começavam sempre por se queixar de uma forma vaga sobre a sua saúde e, com a prática, ele adivinhava logo o que se passava realmente. Sugeria então que tinham estado a sofrer nas suas mentes, e elas desabafavam as suas preocupações, e ele não ouvia mais nada sobre o corpo... Devido à habilidade do meu pai em conquistar confiança, ele recebeu muitas confissões estranhas de miséria e culpa. Comentava frequentemente quantas esposas infelizes tinha conhecido. Em vários casos, maridos e esposas tinham convivido razoavelmente bem durante vinte a trinta anos, e depois odiavam-se amargamente; isto ele atribuía ao facto de terem perdido um vínculo comum quando os seus filhos pequenos cresceram.

"Mas o poder mais notável que o meu pai possuía era o de ler os caracteres, e até os pensamentos, daqueles que via mesmo por um curto espaço de tempo. Tivemos muitos exemplos desse poder, alguns dos quais pareciam quase sobrenaturais. Isso salvou o meu pai de alguma vez fazer (com uma exceção, e o caráter desse homem foi logo descoberto) um amigo indigno. Um clérigo estranho veio a Shrewsbury e parecia ser um homem rico; toda a gente o visitou e ele foi convidado para muitas casas. O meu pai visitou-o e, ao regressar a casa, disse às minhas irmãs para, de forma alguma, convidarem-no a ele ou à sua família para a nossa casa; pois sentia-se seguro de que o homem não era de confiança. Passados alguns meses, ele fugiu subitamente, estando fortemente endividado, e descobriu-se que não passava de um vigarista habitual. Eis um caso de confiança que não muitos homens teriam arriscado. Um cavalheiro irlandês, um completo estranho, visitou o meu pai um dia e disse que tinha perdido a sua carteira, e que seria um grave inconveniente para ele esperar em Shrewsbury até que pudesse receber uma remessa da Irlanda. Pediu então ao meu pai para lhe emprestar 20 libras, o que foi imediatamente feito, pois o meu pai sentia-se certo de que a história era verdadeira. Assim que uma carta pôde chegar da Irlanda, chegou uma com os agradecimentos mais profusos, e incluindo, como ele disse, uma nota de 20 libras do Banco de Inglaterra, mas nenhuma nota estava incluída. Perguntei ao meu pai se isto não o abalou, mas ele respondeu 'de modo algum'. No dia seguinte, chegou outra carta com muitos pedidos de desculpa por ter esquecido (como um verdadeiro irlandês) de colocar a nota na sua carta do dia anterior... (Um cavalheiro) trouxe o seu sobrinho, que era insano mas bastante gentil, ao meu pai; e a insanidade do jovem levava-o a acusar-se de todos os crimes debaixo do céu. Quando o meu pai falou mais tarde sobre o assunto com o tio, disse: 'Estou certo de que o seu sobrinho é realmente culpado de... um crime hediondo'. Ao que [o cavalheiro] disse: 'Bom Deus, Dr. Darwin, quem lhe disse; pensávamos que nenhum ser humano conhecia o facto exceto nós!'. O meu pai contou-me a história muitos anos depois do acontecimento, e eu perguntei-lhe como distinguia as verdadeiras das falsas autoacusações; e foi muito característico do meu pai que ele dissesse que não podia explicar como era.

"A história seguinte mostra que boas suposições o meu pai conseguia fazer. Lord Shelburne, mais tarde o primeiro Marquês de Lansdowne, era famoso (como Macaulay algures nota) pelo seu conhecimento dos assuntos da Europa, nos quais se orgulhava muito. Consultou o meu pai clinicamente e, depois, discursou-lhe sobre o estado da Holanda. O meu pai tinha estudado medicina em Leyden, e um dia [enquanto lá estava] foi dar um longo passeio pelo campo com um amigo que o levou à casa de um clérigo (digamos o Rev. Sr. A--, pois esqueci-me do seu nome), que tinha casado com uma inglesa. O meu pai estava com muita fome, e havia pouco para o almoço exceto queijo, que ele nunca conseguia comer. A velha senhora ficou surpreendida e triste com isto, e assegurou ao meu pai que era um excelente queijo, e que lhe tinha sido enviado de Bowood, a residência de Lord Shelburne. O meu pai perguntou-se por que razão um queijo lhe seria enviado de Bowood, mas não pensou mais nisso até que lhe veio à mente muitos anos depois, enquanto Lord Shelburne falava sobre a Holanda. Então ele respondeu: 'Eu diria, pelo que vi do Rev. Sr. A--, que ele era um homem muito capaz e bem familiarizado com o estado da Holanda'. O meu pai viu que o Conde, que mudou imediatamente de conversa, ficou muito surpreendido. Na manhã seguinte, o meu pai recebeu uma nota do Conde, dizendo que tinha atrasado o início da sua viagem e desejava particularmente ver o meu pai. Quando ele o visitou, o Conde disse: 'Dr. Darwin, é da maior importância para mim e para o Rev. Sr. A-- aprender como descobriu que ele é a fonte da minha informação sobre a Holanda'. Assim, o meu pai teve de explicar o estado da questão, e supôs que Lord Shelburne ficou muito impressionado com a sua habilidade diplomática em adivinhar, pois durante muitos anos depois recebeu muitas mensagens gentis dele através de vários amigos. Penso que ele deve ter contado a história aos seus filhos; pois Sir C. Lyell perguntou-me há muitos anos por que razão o Marquês de Lansdowne (o filho ou neto do primeiro marquês) sentia tanto interesse por mim, a quem nunca tinha visto, e pela minha família. Quando quarenta novos membros (os quarenta ladrões, como eram chamados na altura) foram adicionados ao Athenaeum Club, houve muita angariação para ser um deles; e, sem eu ter pedido a ninguém, Lord Lansdowne propôs-me e conseguiu a minha eleição. Se estou certo na minha suposição, foi uma estranha concatenação de eventos que o facto de o meu pai não comer queijo meio século antes na Holanda tenha levado à minha eleição como membro do Athenaeum.

"A agudeza da sua observação levava-o a prever com habilidade notável o curso de qualquer doença, e ele sugeria infinitos pequenos detalhes de alívio. Disseram-me que um jovem médico em Shrewsbury, que não gostava do meu pai, costumava dizer que ele era totalmente não científico, mas admitia que o seu poder de prever o fim de uma doença era inigualável. Antigamente, quando pensava que eu seria médico, ele falava-me muito dos seus pacientes. Nos velhos tempos, a prática de sangrar largamente era universal, mas o meu pai sustentava que muito mais mal era causado do que bem feito; e aconselhou-me, se alguma vez eu próprio estivesse doente, a não permitir que nenhum médico tirasse mais do que uma quantidade extremamente pequena de sangue. Muito antes de a febre tifoide ser reconhecida como distinta, o meu pai disse-me que dois tipos de doença totalmente distintos eram confundidos sob o nome de febre tifo. Ele era veemente contra o consumo de álcool, e estava convencido dos efeitos malignos diretos e herdados do álcool quando tomado habitualmente, mesmo em quantidade moderada, na grande maioria dos casos. Mas ele admitia e avançava exemplos de certas pessoas que podiam beber largamente durante toda a sua vida sem aparentemente sofrer quaisquer efeitos malignos, e acreditava que podia muitas vezes prever quem não sofreria. Ele próprio nunca bebeu uma gota de qualquer fluido alcoólico. Esta observação faz-me lembrar um caso que mostra como uma testemunha, nas condições mais favoráveis, pode estar totalmente enganada. Um agricultor-proprietário foi fortemente aconselhado pelo meu pai a não beber, e foi encorajado por saber que ele próprio nunca tocava em qualquer bebida espirituosa. Ao que o cavalheiro disse: 'Vamos, vamos, Doutor, isto não serve — embora seja muito gentil da sua parte dizer isso por mim — pois eu sei que o senhor toma um copo muito grande de gim quente com água todas as noites depois do jantar'. (Esta crença ainda sobrevive, e foi mencionada ao meu irmão em 1884 por um antigo habitante de Shrewsbury.—F.D.) Então o meu pai perguntou-lhe como sabia disto. O homem respondeu: 'A minha cozinheira foi a sua criada de cozinha durante dois ou três anos, e ela via o mordomo todos os dias preparar e levar-lhe o gim com água'. A explicação era que o meu pai tinha o hábito estranho de beber água quente num copo muito alto e grande depois do jantar; e o mordomo costumava primeiro pôr um pouco de água fria no copo, que a rapariga tomava por gim, e depois enchia-o com água a ferver da caldeira da cozinha.

"O meu pai costumava contar-me muitas pequenas coisas que tinha achado úteis na sua prática médica. Assim, as senhoras choravam muitas vezes enquanto lhe contavam as suas preocupações, e causavam assim muita perda do seu precioso tempo. Descobriu logo que implorar-lhes para se controlarem e refrearem, fazia-as sempre chorar ainda mais, pelo que, mais tarde, ele encorajava-as sempre a continuar a chorar, dizendo que isso as aliviaria mais do que qualquer outra coisa, e com o resultado invariável de que elas paravam logo de chorar, e ele podia ouvir o que tinham a dizer e dar o seu conselho. Quando os pacientes que estavam muito doentes ansiavam por algum alimento estranho e não natural, o meu pai perguntava-lhes o que lhes tinha metido tal ideia na cabeça; se respondessem que não sabiam, ele permitia-lhes experimentar o alimento, e muitas vezes com sucesso, pois confiava que elas tinham uma espécie de desejo instintivo; mas se respondessem que tinham ouvido dizer que o alimento em questão tinha feito bem a outra pessoa, ele recusava firmemente o seu consentimento.

"Ele deu um dia um estranho pequeno espécime da natureza humana. Quando era muito jovem, foi chamado para consultar o médico da família no caso de um cavalheiro de grande distinção em Shropshire. O velho médico disse à esposa que a doença era de tal natureza que tinha de terminar fatalmente. O meu pai teve um ponto de vista diferente e sustentou que o cavalheiro iria recuperar: provou estar totalmente errado em todos os aspetos (penso que por autópsia) e admitiu o seu erro. Estava então convencido de que nunca mais seria consultado por esta família; mas, passados alguns meses, a viúva mandou chamá-lo, tendo despedido o velho médico da família. O meu pai ficou tão surpreendido com isto que pediu a um amigo da viúva para descobrir por que razão era ele novamente consultado. A viúva respondeu ao seu amigo que 'nunca mais veria o odioso velho médico que disse desde o princípio que o seu marido iria morrer, enquanto o Dr. Darwin sustentava sempre que ele iria recuperar!'. Noutro caso, o meu pai disse a uma senhora que o seu marido iria certamente morrer. Alguns meses depois, viu a viúva, que era uma mulher muito sensata, e ela disse: 'O senhor é um homem muito jovem, e permita-me aconselhá-lo a dar sempre, durante o máximo de tempo que puder, esperança a qualquer parente próximo que cuide de um paciente. O senhor fez-me desesperar, e a partir desse momento perdi as forças'. O meu pai disse que tinha visto, muitas vezes desde então, a importância primordial, pelo bem do paciente, de manter a esperança e, com ela, a força do cuidador encarregado. Isto, ele achava por vezes difícil de fazer de forma compatível com a verdade. Um velho cavalheiro, no entanto, não lhe causou tal perplexidade. Foi mandado chamar pelo Sr. P--, que disse: 'De tudo o que vi e ouvi sobre si, acredito que é o tipo de homem que dirá a verdade, e se eu perguntar, dir-me-á quando eu estiver a morrer. Agora, desejo muito que me atenda, se prometer, qualquer que seja o que eu possa dizer, declarar sempre que não vou morrer'. O meu pai aquiesceu, no entendimento de que as suas palavras não teriam, de facto, qualquer significado."

"O meu pai possuía uma memória extraordinária, especialmente para datas, de modo que sabia, quando já era muito idoso, o dia do nascimento, casamento e morte de uma infinidade de pessoas em Shropshire; e disse-me uma vez que essa faculdade o aborrecia, pois se ouvisse uma data, não a conseguia esquecer; e, assim, a morte de muitos amigos era frequentemente recordada na sua mente. Devido à sua memória vigorosa, conhecia um número extraordinário de histórias curiosas, que gostava de contar, pois era um grande conversador. Estava geralmente bem-disposto e ria-se e brincava com todos — frequentemente com os seus criados — com a maior liberdade; contudo, possuía a arte de fazer com que todos lhe obedecessem à risca. Muitas pessoas tinham muito medo dele. Lembro-me de o meu pai nos contar um dia, com uma gargalhada, que várias pessoas lhe tinham perguntado se a Srta. --, uma distinta senhora idosa em Shropshire, o tinha visitado, de modo que, finalmente, ele perguntou por que razão o questionavam; e disseram-lhe que a Srta. --, a quem o meu pai tinha, de alguma forma, ofendido mortalmente, andava a dizer a toda a gente que o iria visitar e dizer àquele 'médico gordo e velho, muito claramente, o que pensava dele'. Ela já o tinha visitado, mas a coragem falhara-lhe, e ninguém poderia ter sido mais cortês e amigável. Quando rapaz, fui passar uns tempos a casa de --, cuja esposa era demente; e a pobre criatura, assim que me viu, entrou no estado de terror mais abjeto que alguma vez presenciei, chorando amargamente e perguntando-me repetidamente: 'O seu pai vem aí?', mas logo foi acalmada. No meu regresso a casa, perguntei ao meu pai por que razão ela estava tão assustada, e ele respondeu que ficara muito contente ao ouvi-lo, pois tinha-a assustado de propósito, sentindo-se seguro de que ela seria mantida em segurança e muito mais feliz sem qualquer restrição, se o marido pudesse influenciá-la, sempre que ela se tornasse minimamente violenta, propondo chamar o Dr. Darwin; e estas palavras surtiram efeito perfeitamente durante o resto da sua longa vida.

"O meu pai era muito sensível, de modo que muitos pequenos acontecimentos o aborreciam ou magoavam profundamente. Perguntei-lhe uma vez, quando era velho e não conseguia andar, por que razão não passeava de carro para fazer exercício; e ele respondeu: 'Cada estrada que sai de Shrewsbury está associada na minha mente a algum acontecimento doloroso'. Contudo, estava geralmente bem-disposto. Ficava facilmente muito zangado, mas a sua bondade era ilimitada. Era amplamente e profundamente amado.

"Era um homem de negócios cauteloso e bom, pelo que dificilmente perdia dinheiro num investimento, e deixou aos seus filhos uma propriedade muito grande. Lembro-me de uma história que mostra quão facilmente crenças totalmente falsas se originam e se espalham. O Sr. E --, um proprietário de uma das famílias mais antigas de Shropshire, e sócio principal de um banco, suicidou-se. O meu pai foi mandado chamar como uma questão de formalidade, e encontrou-o morto. Posso mencionar, a propósito, para mostrar como as questões eram geridas naqueles velhos tempos, que, porque o Sr. E -- era um homem algo importante, e universalmente respeitado, não foi realizada qualquer investigação sobre o seu corpo. O meu pai, ao regressar a casa, achou por bem passar pelo banco (onde tinha uma conta) para informar os sócios gerentes do acontecimento, uma vez que não era improvável que causasse uma corrida ao banco. Ora, a história espalhou-se por toda a parte, que o meu pai entrou no banco, levantou todo o seu dinheiro, saiu do banco, voltou a entrar e disse: 'Posso apenas dizer-vos que o Sr. E -- se matou', e depois partiu. Parece que era então uma crença comum que o dinheiro levantado de um banco não estava seguro até que a pessoa tivesse passado pela porta do banco. O meu pai não ouviu esta história até algum tempo depois, quando o sócio gerente disse que tinha quebrado a sua regra invariável de nunca permitir que ninguém visse a conta de outro homem, ao ter mostrado o livro-razão com a conta do meu pai a várias pessoas, pois isto provava que o meu pai não tinha levantado um tostão naquele dia. Teria sido desonroso para o meu pai ter usado o seu conhecimento profissional para a sua vantagem privada. Não obstante, o suposto ato foi muito admirado por algumas pessoas; e, muitos anos depois, um cavalheiro comentou: 'Ah, Doutor, que magnífico homem de negócios o senhor foi ao conseguir retirar habilmente todo o seu dinheiro desse banco!'

"A mente do meu pai não era científica, e ele não tentava generalizar o seu conhecimento sob leis gerais; contudo, formava uma teoria para quase tudo o que acontecia. Não creio ter ganho muito com ele intelectualmente; mas o seu exemplo deveria ter sido de grande serviço moral para todos os seus filhos. Uma das suas regras de ouro (uma regra difícil de seguir) era: 'Nunca te tornes amigo de alguém que não possas respeitar'."

O Dr. Darwin teve seis filhos (Destes, a Sra. Wedgwood é agora a única sobrevivente.): Marianne, casou com o Dr. Henry Parker; Caroline, casou com Josiah Wedgwood; Erasmus Alvey; Susan, morreu solteira; Charles Robert; Catherine, casou com o Rev. Charles Langton.

O filho mais velho, Erasmus, nasceu em 1804 e morreu solteiro com a idade de setenta e sete anos.

Ele, tal como o seu irmão, foi educado na Shrewsbury School e no Christ's College, em Cambridge. Estudou medicina em Edimburgo e em Londres, e obteve o grau de Bacharel em Medicina em Cambridge. Nunca fingiu exercer como médico e, após deixar Cambridge, viveu uma vida tranquila em Londres.

Havia algo de patético no afeto de Charles Darwin pelo seu irmão Erasmus, como se ele recordasse sempre a sua vida solitária, e a paciência e doçura comoventes da sua natureza. Referia-se frequentemente a ele como "Pobre velho Ras", ou "Pobre e querido velho Philos" — imagino que Philos (Filósofo) fosse uma relíquia dos dias em que trabalhavam em química no barracão das ferramentas em Shrewsbury — um tempo do qual ele guardou sempre uma memória agradável. Sendo Erasmus pouco mais de quatro anos mais velho que Charles Darwin, não estiveram muito tempo juntos em Cambridge, mas anteriormente, em Edimburgo, viveram no mesmo alojamento e, após a Viagem, viveram durante algum tempo juntos na casa de Erasmus, em Great Marlborough Street. Também nesta altura, ele fala frequentemente com muito afeto de Erasmus nas suas cartas a Fox, usando palavras como "meu querido e bom velho irmão". Em anos posteriores, Erasmus Darwin ia ocasionalmente a Down, ou juntava-se à família do seu irmão durante umas férias de verão. Mas, gradualmente, aconteceu que ele não conseguia, devido à saúde fraca, decidir-se a deixar Londres, e então apenas se viam quando Charles Darwin ia durante uma semana de cada vez à casa do seu irmão, em Queen Anne Street.

A seguinte nota sobre o caráter do seu irmão foi escrita por Charles Darwin por volta da mesma altura em que o esboço do seu pai foi acrescentado às 'Recollections.':--

"O meu irmão Erasmus possuía uma mente notavelmente clara, com gostos e conhecimentos extensos e diversificados em literatura, arte e até em ciência. Durante pouco tempo, colecionou e secou plantas e, durante um tempo algo mais longo, fez experiências em química. Era extremamente agradável, e o seu engenho lembrava-me frequentemente o das cartas e obras de Charles Lamb. Era muito bondoso... A sua saúde, desde a infância, fora fraca e, consequentemente, faltava-lhe energia. O seu ânimo não era elevado, por vezes baixo, mais especialmente durante o início e o meio da idade adulta. Lia muito, mesmo enquanto rapaz, e na escola encorajava-me a ler, emprestando-me livros. As nossas mentes e gostos eram, contudo, tão diferentes, que não creio dever-lhe muito intelectualmente. Inclino-me a concordar com Francis Galton ao acreditar que a educação e o ambiente produzem apenas um pequeno efeito na mente de alguém, e que a maioria das nossas qualidades são inatas."

O nome de Erasmus Darwin, embora não conhecido do público em geral, pode ser recordado pelo esboço do seu caráter nas 'Reminiscências' de Carlyle, que aqui reproduzo em parte:--

"Erasmus Darwin, um tipo de mortal muito diverso, veio procurar-nos muito cedo ('tinha ouvido falar de Carlyle na Alemanha, etc.') e continua desde então a ser um amigo da casa tranquilo, honestamente ligado; embora as suas visitas tenham sido, ultimamente, cada vez mais raras, saúde tão fraca, eu tão ocupado, etc., etc. Ele tinha algo de original e sarcasticamente engenhoso nele, um dos homens mais sinceros, naturalmente mais verdadeiros e mais modestos; irmão mais velho de Charles Darwin (o famoso Darwin sobre as Espécies destes dias) a quem prefiro, em termos de intelecto, não fosse a sua saúde tê-lo condenado completamente ao silêncio e à ociosidade paciente... A minha querida tinha sempre uma grande estima por este honesto Darwin; muitas vezes, por caminhos para lojas e similares, ele conduzia-a no seu táxi (Darwingium Cabbum comparável a Georgium Sidus) naqueles primeiros dias em que até o custo dos autocarros era uma consideração, e as suas escassas expressões, frequentemente sardónicas, eram um grande divertimento para ela. 'Um perfeito cavalheiro', ela percebeu imediatamente que ele era, e de valor sólido e bondade na forma mais despretensiosa." (Carlyle's 'Reminiscences,' vol. ii. página 208.)

Charles Darwin não apreciou este esboço do seu irmão; achou que Carlyle tinha falhado a essência da sua natureza mais amável.

Sinto-me tentado pelo desejo de ilustrar melhor o caráter de alguém tão sinceramente amado por todos os filhos de Charles Darwin, em reproduzir uma carta ao "Spectator" (3 de setembro de 1881) da sua prima, a Srta. Julia Wedgwood.

"Um retrato do portefólio do Sr. Carlyle, que não é lamentado por nenhum daqueles que amaram o original, confere seguramente distinção suficiente para justificar algumas palavras de nota, quando o caráter que retrata é retirado do olhar mortal. Erasmus, o único irmão de Charles Darwin, e o fiel e afetuoso velho amigo de ambos os Carlyle, deixou um círculo de enlutados que não precisam de tributo de pena ilustre para embalsamar a memória tão querida aos seus corações; mas um círculo mais vasto deve ter sentido algum interesse despertado por esse tributo, e pode receber com certa atenção o registo de uma impressão única e indelével, ainda que feita apenas nos corações daqueles que a não podem legar, e com quem, portanto, deve rapidamente desaparecer. Recordam-na com a mesma clareza com que recordam uma criação de génio; de igual modo, enriqueceu e adoçou a vida, formou um ponto de encontro comum para aqueles que não tinham outro; e, na sua forte fragrância de individualidade, impôs esse respeito pelas idiossincrasias do caráter humano sem o qual o julgamento moral é sempre duro e superficial, e frequentemente injusto. Carlyle era alguém que encontrava um prazer peculiar na combinação de vivacidade e repouso que dava à sociedade do seu amigo uma influência simultaneamente estimulante e calmante, e o calor da sua apreciação não foi conhecido primeiro na sua expressão póstuma; as suas cartas de ansiedade de há quase trinta anos, quando a vida frágil que foi prolongada até à velhice estava ameaçada por doença grave, ainda estão frescas na minha memória. A amizade era igualmente calorosa com ambos, marido e mulher. Lembro-me bem de uma pequena e patética censura feita por ela, provocada por uma confissão de Erasmus Darwin de que preferia gatos a cães, o que ela sentiu como um insulto ao seu pequeno 'Nero'; e os tons em que disse: 'Oh, mas você gosta de cães! você é demasiado gentil para não gostar', falavam de uma longa sucessão de pequenas e graciosas bondades, recordadas com uma ternura grata. Ele era também íntimo de uma pessoa cujos amigos, como os do Sr. Carlyle, nem sempre tiveram motivos para se congratularem com o seu lugar na sua galeria — Harriet Martineau. Ouvi-o mais do que uma vez chamar-lhe uma amiga fiel, e sempre me pareceu um tributo curioso a algo na amizade que só ele fornecia; mas se ela tivesse escrito sobre ele, creio que a menção, na sua cordialidade de apreciação, teria proporcionado um ponto de encontro raro e curioso com as outras 'Reminiscências', tão semelhantes e ainda assim tão diferentes. Não é possível transferir a impressão de um caráter; apenas a podemos sugerir através de alguma semelhança; e é uma ilustração singular dessa ironia que refreia ou direciona as nossas simpatias, que ao tentar dar alguma noção do homem que, entre aqueles que não eram seus parentes, Carlyle parece ter amado mais, não posso dizer nada mais descritivo do que o facto de ele me parecer ter algo em comum com o homem que Carlyle menos apreciou. A sociedade de Erasmus Darwin tinha, na minha opinião, muito do mesmo encanto que os escritos de Charles Lamb. Havia o mesmo tipo de brincadeira, a mesma leveza de toque, a mesma ternura, talvez as mesmas limitações. Por outro lado da sua natureza, fui frequentemente lembrada dele pelo humor peculiar e delicado, a intolerância superficial, as fontes profundas de piedade, a mistura peculiar de algo patético com uma espécie de escárnio alegre, inteiramente remoto do desprezo, que distinguem o Ellesmere dos primeiros diálogos de Sir Arthur Helps. Talvez recordemos tais naturezas mais distintamente quando tal semelhança é tudo o que resta delas. O caráter não se funde na criação; e o que perdemos no poder de comunicar a nossa impressão, parecemos ganhar na sua vivacidade. Erasmus Darwin partiu na velhice, contudo a sua memória retém algo de uma fragrância juvenil; a sua influência proporcionou muita felicidade, de um tipo geralmente associado à juventude, a muitas vidas para além da ilustre cujos registos justificam, embora certamente não inspirem, o desejo de colocar esta grinalda desvanecida no seu túmulo."

As páginas anteriores dão, de uma forma fragmentária, tanto quanto talvez precise de ser dito sobre a família da qual Charles Darwin veio, e podem servir como uma introdução ao capítulo autobiográfico que se segue.

CAPÍTULO 1.II. -- AUTOBIOGRAFIA.

[As recordações autobiográficas do meu pai, dadas no presente capítulo, foram escritas para os seus filhos — e escritas sem qualquer pensamento de que alguma vez seriam publicadas. Para muitos isto pode parecer uma impossibilidade; mas aqueles que conheceram o meu pai compreenderão como não era apenas possível, mas natural. A autobiografia tem o título, 'Recollections of the Development of my Mind and Character', e termina com a seguinte nota:--

"3 de agosto de 1876. Este esboço da minha vida foi começado por volta de 28 de maio em Hopedene (a casa do Sr. Hensleigh Wedgwood em Surrey), e desde então escrevi durante quase uma hora na maioria das tardes." Será facilmente compreendido que, numa narrativa de um tipo pessoal e íntimo escrita para a sua esposa e filhos, possam ocorrer passagens que devem aqui ser omitidas; e não achei necessário indicar onde tais omissões são feitas. Verificou-se ser necessário fazer algumas correções de lapsos verbais óbvios, mas o número de tais alterações foi mantido no mínimo. -- F.D.]

Tendo um editor alemão escrito a pedir-me um relato do desenvolvimento da minha mente e caráter com algum esboço da minha autobiografia, pensei que a tentativa me divertiria, e poderia possivelmente interessar os meus filhos ou os seus filhos. Sei que me teria interessado muito ter lido mesmo um esboço tão curto e monótono da mente do meu avô, escrito por ele próprio, e o que ele pensou e fez, e como trabalhou. Tentei escrever o seguinte relato sobre mim, como se eu fosse um homem morto noutro mundo a olhar para trás para a minha própria vida. Nem achei isto difícil, pois a vida está quase no fim para mim. Não tive qualquer cuidado com o meu estilo de escrita.

Nasci em Shrewsbury a 12 de fevereiro de 1809, e a minha recordação mais antiga remonta apenas a quando tinha alguns meses mais de quatro anos, quando fomos para perto de Abergele para banhos de mar, e recordo alguns acontecimentos e lugares lá com alguma nitidez.

A minha mãe morreu em julho de 1817, quando eu tinha pouco mais de oito anos, e é estranho que eu quase não consiga lembrar-me de nada sobre ela, exceto o seu leito de morte, o seu vestido de veludo preto e a sua mesa de trabalho de construção curiosa. Na primavera deste mesmo ano fui enviado para uma escola diurna em Shrewsbury, onde fiquei um ano. Disseram-me que eu era muito mais lento a aprender do que a minha irmã mais nova, Catherine, e acredito que era, em muitos aspetos, um rapaz traquina.

Pela altura em que fui para esta escola diurna (mantida pelo Rev. G. Case, ministro da Capela Unitária na High Street. A Sra. Darwin era unitária e frequentava a capela do Sr. Case, e o meu pai, como rapazinho, ia lá com as suas irmãs mais velhas. Mas tanto ele como o seu irmão foram batizados e pretendia-se que pertencessem à Igreja de Inglaterra; e após a sua primeira infância parece ter ido habitualmente à igreja e não à do Sr. Case. Parece ("St. James' Gazette", 15 de dezembro de 1883) que uma placa mural foi erigida à sua memória na capela, que é agora conhecida como a 'Free Christian Church'.) o meu gosto pela história natural, e mais especialmente pela colheita, estava bem desenvolvido. Tentava descobrir os nomes das plantas (o Rev. W.A. Leighton, que foi colega de escola do meu pai na escola do Sr. Case, recorda-o trazendo uma flor para a escola e dizendo que a mãe lhe tinha ensinado como, ao olhar para o interior da flor, o nome da planta podia ser descoberto. O Sr. Leighton continua: "Isto despertou grandemente a minha atenção e curiosidade, e perguntei-lhe repetidamente como isto podia ser feito?" — mas a sua lição era, naturalmente, não transmissível. -- F.D.), e colecionava todo o tipo de coisas, conchas, selos, assinaturas, moedas e minerais. A paixão pela colheita que leva um homem a ser um naturalista sistemático, um virtuoso ou um avarento, era muito forte em mim, e era claramente inata, uma vez que nenhuma das minhas irmãs ou irmão teve alguma vez este gosto.

Um pequeno acontecimento durante este ano fixou-se muito firmemente na minha mente, e espero que o tenha feito por a minha consciência ter sido depois dolorosamente perturbada por isso; é curioso como mostrando que, aparentemente, eu estava interessado nesta tenra idade na variabilidade das plantas! Disse a outro rapazinho (creio que foi Leighton, que mais tarde se tornou um bem conhecido liquenologista e botânico), que eu conseguia produzir prímulas e poliantos de várias cores regando-os com certos fluidos coloridos, o que era, claro, uma fábula monstruosa, e nunca tinha sido tentado por mim. Posso aqui também confessar que, como rapazinho, tinha muita tendência para inventar falsidades deliberadas, e isto era sempre feito em prol de causar entusiasmo. Por exemplo, uma vez colhi muita fruta valiosa das árvores do meu pai e escondi-a no arbusto, e depois corri com pressa ofegante para espalhar a notícia de que tinha descoberto um tesouro de fruta roubada.

Devo ter sido um rapazinho muito simples quando fui para a escola pela primeira vez. Um rapaz com o nome de Garnett levou-me a uma loja de bolos um dia, e comprou alguns bolos pelos quais não pagou, pois o lojista confiava nele. Quando saímos, perguntei-lhe por que razão não pagou por eles, e ele respondeu instantaneamente: "Ora, não sabes que o meu tio deixou uma grande soma de dinheiro à cidade com a condição de que cada comerciante devesse dar o que fosse preciso sem pagamento a qualquer um que usasse o seu chapéu velho e o movesse [ele] de uma maneira particular?", e mostrou-me depois como era movido. Foi então a outra loja onde tinha crédito, e pediu algum pequeno artigo, movendo o seu chapéu da maneira correta, e claro que o obteve sem pagamento. Quando saímos, ele disse: "Agora, se quiseres ir sozinho àquela loja de bolos (como me lembro bem da sua posição exata) emprestar-te-ei o meu chapéu, e podes obter o que quiseres se moveres o chapéu na tua cabeça corretamente." Aceitei alegremente a oferta generosa, entrei e pedi alguns bolos, movi o chapéu velho e estava a sair da loja, quando o lojista se lançou sobre mim, por isso deixei cair os bolos e corri pela minha vida, e fiquei espantado por ser recebido com gritos de riso pelo meu falso amigo Garnett."

Posso dizer, em minha defesa, que, quando menino, eu era humano, mas devia isso inteiramente à instrução e ao exemplo de minhas irmãs. Duvido, na verdade, que a humanidade seja uma qualidade natural ou inata. Eu gostava muito de colecionar ovos, mas nunca tirei mais do que um único ovo do ninho de um pássaro, exceto em uma única ocasião, em que peguei todos, não pelo seu valor, mas por uma espécie de bravata.

Eu tinha um gosto forte pela pesca e ficava por incontáveis horas na margem de um rio ou lagoa observando a boia; quando estava em Maer (a casa de meu tio, Josiah Wedgwood), disseram-me que eu poderia matar os vermes com sal e água, e a partir daquele dia nunca mais espetei um verme vivo, embora provavelmente ao custo de alguma perda de sucesso.

Uma vez, quando era muito pequeno e ainda estava na escola primária, ou antes desse tempo, agi com crueldade, pois bati num cachorrinho, creio eu, simplesmente por desfrutar da sensação de poder; mas o espancamento não deve ter sido severo, pois o filhote não uivou, do que tenho certeza, já que o local era perto de casa. Este ato pesou sobre a minha consciência, como se demonstra pelo fato de eu me lembrar do local exato onde o crime foi cometido. Provavelmente pesou ainda mais pelo fato de o meu amor pelos cães ser, então e por muito tempo depois, uma paixão. Os cães pareciam saber disso, pois eu era um adepto em roubar o amor deles aos seus donos.

Lembro-me claramente de apenas um outro incidente durante este ano, enquanto estava na escola diária do Sr. Case — nomeadamente, o funeral de um soldado dragão; e é surpreendente quão claramente ainda consigo ver o cavalo com as botas vazias do homem e a carabina suspensa na sela, e o disparo sobre a sepultura. Esta cena despertou profundamente qualquer fantasia poética que houvesse em mim.

No verão de 1818, fui para a grande escola do Dr. Butler em Shrewsbury, e permaneci lá por sete anos até o solstício de verão de 1825, quando tinha dezesseis anos de idade. Eu era interno nesta escola, de modo que tive a grande vantagem de viver a vida de um verdadeiro estudante; mas, como a distância era pouco mais de uma milha até minha casa, corria lá muitas vezes nos intervalos mais longos entre as chamadas e antes de fecharem as portas à noite. Isso, creio eu, foi de muitas maneiras vantajoso para mim, ao manter os afetos e interesses familiares. Lembro-me, no início da minha vida escolar, de que muitas vezes tinha de correr muito depressa para chegar a tempo e, por ser um corredor veloz, geralmente era bem-sucedido; mas quando estava em dúvida, rezava fervorosamente a Deus para me ajudar, e lembro-me bem de que atribuía o meu sucesso às orações e não à minha rapidez, e maravilhava-me com a frequência com que era ajudado.

Ouvi o meu pai e a minha irmã mais velha dizerem que eu tinha, quando menino muito novo, um gosto forte por longas caminhadas solitárias; mas no que eu pensava, não sei. Muitas vezes ficava completamente absorto e, uma vez, enquanto regressava à escola no cume das antigas fortificações em torno de Shrewsbury, que tinham sido convertidas num caminho público para peões sem parapeito de um dos lados, caminhei para fora e caí no chão, mas a altura era de apenas sete ou oito pés. No entanto, o número de pensamentos que passaram pela minha mente durante esta queda muito curta, mas súbita e totalmente inesperada, foi espantoso, e parece dificilmente compatível com o que os fisiologistas, creio eu, provaram sobre cada pensamento exigir uma quantidade de tempo bastante apreciável.

Nada poderia ter sido pior para o desenvolvimento da minha mente do que a escola do Dr. Butler, uma vez que era estritamente clássica, não se ensinando mais nada, exceto um pouco de geografia e história antigas. A escola como meio de educação para mim foi simplesmente um vazio. Durante toda a minha vida, fui singularmente incapaz de dominar qualquer língua. Foi dada especial atenção à composição de versos, e isto eu nunca consegui fazer bem. Tinha muitos amigos e reuni uma boa coleção de versos antigos, que, ao juntá-los, por vezes ajudado por outros rapazes, conseguia adaptar a qualquer assunto. Muita atenção foi dada a aprender de cor as lições do dia anterior; isto eu conseguia realizar com grande facilidade, aprendendo quarenta ou cinquenta versos de Virgílio ou Homero enquanto estava na capela da manhã; mas este exercício era totalmente inútil, pois cada verso era esquecido em quarenta e oito horas. Eu não era preguiçoso e, com exceção da versificação, geralmente trabalhava conscienciosamente nos meus clássicos, sem usar cábulas. O único prazer que recebi de tais estudos foi o de algumas das odes de Horácio, que admirava muito.

Quando deixei a escola, não estava nem no topo nem no fim para a minha idade; e creio que fui considerado por todos os meus mestres e pelo meu pai como um rapaz muito comum, um pouco abaixo do padrão intelectual habitual. Para minha profunda mortificação, o meu pai disse-me uma vez: "Tu não te importas com nada a não ser caçar, cães e caçar ratos, e serás uma vergonha para ti mesmo e para toda a tua família." Mas o meu pai, que foi o homem mais bondoso que alguma vez conheci e cuja memória amo com todo o meu coração, deve ter estado zangado e um pouco injusto quando usou tais palavras.

Olhando para trás, tanto quanto posso, para o meu caráter durante a minha vida escolar, as únicas qualidades que nesta época prometiam bem para o futuro eram o facto de eu ter gostos fortes e diversificados, muito zelo por tudo o que me interessava e um prazer profundo em compreender qualquer assunto ou coisa complexa. Aprendi Euclides com um tutor particular e lembro-me distintamente da intensa satisfação que as claras demonstrações geométricas me deram. Lembro-me, com igual clareza, do prazer que o meu tio me deu (o pai de Francis Galton) ao explicar o princípio do vernier de um barômetro; em relação aos gostos diversificados, independentemente da ciência, eu gostava de ler vários livros e costumava sentar-me durante horas a ler as peças históricas de Shakespeare, geralmente numa janela antiga nas paredes grossas da escola. Li também outra poesia, como 'As Estações' de Thomson e os poemas recentemente publicados de Byron e Scott. Menciono isto porque, mais tarde na vida, perdi totalmente, para meu grande pesar, todo o prazer por poesia de qualquer tipo, incluindo Shakespeare. Em relação ao prazer da poesia, posso acrescentar que, em 1822, um prazer vívido pela paisagem foi despertado pela primeira vez na minha mente durante uma viagem a cavalo nas fronteiras do País de Gales, e isto durou mais do que qualquer outro prazer estético.

No início dos meus dias de escola, um rapaz tinha um exemplar de 'As Maravilhas do Mundo', que li frequentemente e sobre o qual discuti com outros rapazes a veracidade de algumas das afirmações; e creio que este livro me deu pela primeira vez o desejo de viajar por países remotos, o que foi finalmente concretizado pela viagem do "Beagle". Na última parte da minha vida escolar, tornei-me apaixonadamente fã de tiro; não acredito que alguém pudesse ter mostrado mais zelo pela causa mais sagrada do que eu pelo tiro aos pássaros. Como me lembro bem de matar a minha primeira narceja, e a minha excitação era tão grande que tive muita dificuldade em recarregar a minha arma devido ao tremor das minhas mãos. Este gosto continuou por muito tempo, e tornei-me um atirador muito bom. Quando estava em Cambridge, costumava praticar levar a espingarda ao ombro diante de um espelho para ver se a levava a direito. Outro plano, e melhor, era pedir a um amigo para agitar uma vela acesa e, depois, disparar contra ela com uma espoleta no bico, e se a pontaria fosse precisa, o pequeno sopro de ar apagaria a vela. A explosão da espoleta causava um estalido agudo, e disseram-me que o tutor da faculdade comentou: "Que coisa extraordinária, o Sr. Darwin parece passar horas a estalar um chicote no seu quarto, pois ouço frequentemente o estalido quando passo debaixo das suas janelas."

Tive muitos amigos entre os estudantes, a quem amava profundamente, e penso que a minha disposição era então muito afetuosa.

Em relação à ciência, continuei a colecionar minerais com muito zelo, mas de forma totalmente não científica — tudo o que me interessava era um mineral com um NOVO nome, e dificilmente tentava classificá-los. Devo ter observado insetos com algum cuidado, pois quando tinha dez anos (1819) fui durante três semanas para Plas Edwards, na costa marítima do País de Gales, e fiquei muito interessado e surpreendido ao ver um grande inseto Hemíptero preto e escarlate, muitas traças (Zygaena) e uma Cicindela, que não se encontram em Shropshire. Quase tomei a decisão de começar a colecionar todos os insetos que pudesse encontrar mortos, pois, ao consultar a minha irmã, concluí que não era correto matar insetos para fazer uma coleção. Ao ler 'Selborne' de White, tive muito prazer em observar os hábitos das aves e até tomei notas sobre o assunto. Na minha simplicidade, lembro-me de me perguntar por que razão todo o cavalheiro não se tornava um ornitólogo.

Perto do final da minha vida escolar, o meu irmão trabalhou arduamente em química e fez um laboratório razoável com aparelhos apropriados na casa das ferramentas no jardim, e foi-me permitido ajudá-lo como criado na maioria das suas experiências. Ele fabricava todos os gases e muitos compostos, e eu lia com muito cuidado vários livros sobre química, tais como o 'Catecismo Químico' de Henry e Parkes. O assunto interessava-me imenso e costumávamos trabalhar até bastante tarde da noite. Esta foi a melhor parte da minha educação na escola, pois mostrou-me praticamente o significado da ciência experimental. O fato de trabalharmos em química tornou-se de alguma forma conhecido na escola e, como era um fato sem precedentes, fui apelidado de "Gás". Também fui uma vez publicamente repreendido pelo diretor, Dr. Butler, por desperdiçar assim o meu tempo em assuntos tão inúteis; e ele chamou-me, muito injustamente, um "poco curante", e como eu não compreendia o que ele queria dizer, pareceu-me uma reprovação terrível.

Como eu não estava a tirar proveito da escola, o meu pai, sabiamente, tirou-me de lá com uma idade um pouco mais cedo do que o habitual e enviou-me (outubro de 1825) para a Universidade de Edimburgo com o meu irmão, onde fiquei durante dois anos ou sessões. O meu irmão estava a concluir os seus estudos de medicina, embora eu não acredite que ele tivesse alguma vez a intenção de praticar, e eu fui enviado para lá para os começar. Mas, pouco depois deste período, convenci-me, por várias pequenas circunstâncias, de que o meu pai me deixaria bens suficientes para subsistir com algum conforto, embora nunca tenha imaginado que seria um homem tão rico como sou; mas a minha crença foi suficiente para verificar quaisquer esforços extenuantes para aprender medicina.

A instrução em Edimburgo era feita inteiramente por palestras, e estas eram intoleravelmente monótonas, com exceção das de química de Hope; mas, na minha opinião, não há vantagens e há muitas desvantagens nas palestras em comparação com a leitura. As palestras do Dr. Duncan sobre Matéria Médica às 8 horas de uma manhã de inverno são algo terrível de recordar. O Dr. --- tornou as suas palestras sobre anatomia humana tão monótonas como ele próprio, e o assunto causou-me nojo. Provou ser um dos maiores males da minha vida não ter sido incentivado a praticar dissecção, pois rapidamente teria superado o meu nojo; e a prática teria sido inestimável para todo o meu trabalho futuro. Este tem sido um mal irremediável, assim como a minha incapacidade de desenhar. Também frequentei regularmente as alas clínicas do hospital. Alguns dos casos angustiaram-me bastante e ainda tenho imagens vívidas de alguns deles; mas não fui tão tolo ao ponto de permitir que isto diminuísse a minha frequência. Não consigo compreender por que razão esta parte do meu curso de medicina não me interessou em maior grau; pois, durante o verão antes de vir para Edimburgo, comecei a atender algumas das pessoas pobres, principalmente crianças e mulheres em Shrewsbury: escrevi um relato tão completo quanto pude do caso com todos os sintomas e li-os em voz alta para o meu pai, que sugeriu mais investigações e me aconselhou sobre que medicamentos dar, que eu próprio preparava. A certa altura, tive pelo menos uma dúzia de pacientes e senti um grande interesse pelo trabalho. O meu pai, que era de longe o melhor juiz de caráter que alguma vez conheci, declarou que eu seria um médico de sucesso — querendo dizer com isto alguém que conseguiria muitos pacientes. Ele sustentava que o principal elemento do sucesso era incutir confiança; mas o que ele viu em mim que o convenceu de que eu criaria confiança, não sei. Também assisti em duas ocasiões ao teatro de operações no hospital em Edimburgo e vi duas operações muito más, uma delas numa criança, mas fugi antes de estarem concluídas. Nem voltei a assistir, pois dificilmente qualquer incentivo teria sido suficientemente forte para me fazer fazê-lo; isto muito antes dos dias abençoados do clorofórmio. Os dois casos perseguiram-me durante muitos longos anos.

O meu irmão ficou apenas um ano na Universidade, pelo que, durante o segundo ano, fui deixado aos meus próprios recursos; e isto foi uma vantagem, pois fiquei bem familiarizado com vários jovens que gostavam de ciências naturais. Um deles foi Ainsworth, que mais tarde publicou as suas viagens na Assíria; ele era um geólogo werneriano e sabia um pouco sobre muitos assuntos. O Dr. Coldstream era um jovem muito diferente, recatado, formal, altamente religioso e de coração muito bondoso; mais tarde, publicou alguns bons artigos zoológicos. Um terceiro jovem era Hardie, que, creio eu, teria sido um bom botânico, mas morreu cedo na Índia. Por último, o Dr. Grant, alguns anos mais velho do que eu, mas como me tornei conhecido dele não consigo recordar; ele publicou alguns artigos zoológicos de primeira classe, mas depois de vir para Londres como professor na University College, não fez mais nada na ciência, um fato que sempre foi inexplicável para mim. Conhecia-o bem; era seco e formal no trato, com muito entusiasmo sob essa crosta exterior. Um dia, quando caminhávamos juntos, irrompeu em alta admiração por Lamarck e pelas suas opiniões sobre a evolução. Escutei em silêncio de espanto e, tanto quanto posso julgar, sem qualquer efeito na minha mente. Eu tinha lido anteriormente a 'Zoonomia' do meu avô, na qual são defendidas opiniões semelhantes, mas sem produzir qualquer efeito em mim. No entanto, é provável que ouvir, ainda cedo na vida, tais opiniões defendidas e elogiadas possa ter favorecido a minha defesa das mesmas sob uma forma diferente na minha 'Origem das Espécies'. Nessa altura, admirava muito a 'Zoonomia'; mas ao lê-la uma segunda vez, após um intervalo de dez ou quinze anos, fiquei muito desapontado; a proporção de especulação era muito grande em relação aos fatos apresentados.

Os Drs. Grant e Coldstream dedicaram-se muito à zoologia marinha, e eu acompanhava frequentemente o primeiro para recolher animais nas poças das marés, os quais dissecava o melhor que podia. Também me tornei amigo de alguns dos pescadores de Newhaven e, por vezes, acompanhava-os quando pescavam ostras, e assim consegui muitos espécimes. Mas, por não ter tido qualquer prática regular de dissecção e por possuir apenas um microscópio miserável, as minhas tentativas foram muito fracas. No entanto, fiz uma pequena descoberta interessante e li, por volta do início do ano de 1826, um pequeno artigo sobre o assunto perante a Sociedade Pliniana. Era que os chamados óvulos da Flustra tinham o poder de movimento independente por meio de cílios e eram, de fato, larvas. Num outro pequeno artigo, mostrei que os pequenos corpos globulares que se supunha serem o estado jovem do Fucus loreus eram as cápsulas de ovos do verme Pontobdella muricata.

A Sociedade Pliniana era incentivada e, creio eu, fundada pelo Professor Jameson: consistia em estudantes e reunia-se numa sala subterrânea na Universidade com o objetivo de ler artigos sobre ciências naturais e discuti-los. Eu costumava frequentar regularmente e as reuniões tiveram um bom efeito em mim, estimulando o meu zelo e dando-me novos conhecidos afins. Uma noite, um jovem pobre levantou-se e, depois de gaguejar durante um tempo prodigioso, corando carmesim, conseguiu finalmente pronunciar lentamente as palavras: "Sr. Presidente, esqueci-me do que ia dizer." O pobre rapaz parecia completamente sobrecarregado e todos os membros ficaram tão surpreendidos que ninguém conseguia pensar numa palavra para dizer para cobrir a sua confusão. Os artigos que foram lidos na nossa pequena sociedade não foram impressos, pelo que não tive a satisfação de ver o meu artigo impresso; mas creio que o Dr. Grant mencionou a minha pequena descoberta na sua excelente memória sobre a Flustra.

Também fui membro da Royal Medical Society e frequentava-a com bastante regularidade; mas, como os assuntos eram exclusivamente médicos, não me interessavam muito. Discutia-se muito lixo lá, mas havia alguns bons oradores, dos quais o melhor era o atual Sir J. Kay-Shuttleworth. O Dr. Grant levava-me ocasionalmente às reuniões da Sociedade Werneriana, onde vários artigos sobre história natural eram lidos, discutidos e depois publicados nas 'Transactions'. Ouvi Audubon proferir lá alguns discursos interessantes sobre os hábitos das aves da América do Norte, zombando um pouco injustamente de Waterton. A propósito, um negro vivia em Edimburgo, que tinha viajado com Waterton e ganhava a vida a empalhar pássaros, o que fazia de forma excelente: ele dava-me lições a troco de pagamento, e eu costumava sentar-me frequentemente com ele, pois era um homem muito agradável e inteligente.

O Sr. Leonard Horner também me levou uma vez a uma reunião da Royal Society de Edimburgo, onde vi Sir Walter Scott na cadeira de Presidente, e ele pediu desculpa à reunião por não se sentir apto para tal posição. Olhei para ele e para toda a cena com algum receio e reverência, e penso que foi graças a esta visita durante a minha juventude e ao fato de ter frequentado a Royal Medical Society que senti a honra de ser eleito, há alguns anos, membro honorário de ambas estas Sociedades, mais do que qualquer outra honra semelhante. Se me tivessem dito nessa altura que um dia seria assim honrado, declaro que teria achado tão ridículo e improvável como se me tivessem dito que seria eleito Rei de Inglaterra.

Durante o meu segundo ano em Edimburgo, frequentei as palestras de Geologia e Zoologia de ---, mas eram incrivelmente monótonas. O único efeito que produziram em mim foi a determinação de nunca, enquanto vivesse, ler um livro sobre Geologia ou estudar a ciência de qualquer forma. No entanto, sinto-me seguro de que estava preparado para um tratamento filosófico do assunto; pois um velho Sr. Cotton em Shropshire, que sabia muito sobre rochas, tinha-me apontado, dois ou três anos antes, um conhecido grande bloco errático na cidade de Shrewsbury, chamado "pedra do sino"; ele disse-me que não havia rocha do mesmo tipo mais perto do que Cumberland ou Escócia, e assegurou-me solenemente que o mundo chegaria ao fim antes que alguém fosse capaz de explicar como esta pedra chegou onde agora jazia. Isto produziu uma profunda impressão em mim, e meditei sobre esta pedra maravilhosa. De modo que senti o maior prazer quando li pela primeira vez sobre a ação dos icebergs no transporte de blocos, e gloriei-me com o progresso da Geologia. Igualmente marcante é o fato de eu, embora agora com apenas sessenta e sete anos de idade, ter ouvido o Professor, numa palestra de campo em Salisbury Craigs, a discursar sobre um dique de trap, com margens amigdaloidais e estratos endurecidos de cada lado, com rochas vulcânicas à nossa volta, dizer que era uma fissura cheia de sedimentos de cima, acrescentando com um escárnio que havia homens que mantinham que tinha sido injetado de baixo num estado fundido. Quando penso nesta palestra, não me admira que tenha determinado nunca mais prestar atenção à Geologia.

Ao frequentar as palestras de --, tornei-me conhecido do curador do museu, o Sr. Macgillivray, que mais tarde publicou um livro extenso e excelente sobre as aves da Escócia. Tive com ele muitas conversas interessantes sobre história natural, e ele foi muito gentil comigo. Deu-me algumas conchas raras, pois eu, naquela época, colecionava moluscos marinhos, embora sem grande zelo.

As minhas férias de verão durante estes dois anos foram totalmente dedicadas a divertimentos, embora tivesse sempre algum livro à mão, que lia com interesse. Durante o verão de 1826, fiz uma longa caminhada a pé com dois amigos, com mochilas às costas, através do Norte do País de Gales. Caminhávamos trinta milhas na maioria dos dias, incluindo, num deles, a ascensão de Snowdon. Também fiz com a minha irmã uma viagem a cavalo pelo Norte do País de Gales, com um criado a transportar a nossa bagagem em alforjes. Os outonos eram dedicados à caça, principalmente na propriedade do Sr. Owen, em Woodhouse, e na do meu tio Jos (Josiah Wedgwood, filho do fundador da Etruria Works), em Maer. O meu zelo era tão grande que costumava deixar as minhas botas de caça abertas ao lado da cama quando me deitava, para não perder meio minuto a calçá-las de manhã; e, numa ocasião, cheguei a uma parte distante da propriedade de Maer, no dia 20 de agosto, para a caça ao galo-lírio, antes de conseguir ver um palmo à frente: depois, lutei durante todo o dia com o guarda-caça através de urzes densas e jovens pinheiros escoceses.

Mantive um registo exato de todas as aves que abati durante toda a época. Um dia, enquanto caçava em Woodhouse com o Capitão Owen, o filho mais velho, e o Major Hill, seu primo, mais tarde Lord Berwick, ambos de quem eu gostava muito, achei que estava a ser vergonhosamente tratado, pois, de cada vez que eu disparava e pensava ter abatido uma ave, um dos dois agia como se estivesse a carregar a sua arma e gritava: "Não podes contar essa ave, pois eu disparei ao mesmo tempo", e o guarda-caça, percebendo a partida, apoiava-os. Passadas algumas horas, contaram-me a partida, mas para mim não teve graça, pois eu tinha abatido um grande número de aves, mas não sabia quantas, e não conseguia adicioná-las à minha lista, o que costumava fazer dando um nó num pedaço de guita atado a uma casa de botão. Isto os meus amigos malvados tinham percebido.

Como eu gostava de caçar! Mas creio que devo ter sentido uma vergonha meio consciente do meu zelo, pois tentava persuadir-me de que a caça era quase uma ocupação intelectual; exigia tanta perícia julgar onde encontrar mais caça e guiar bem os cães.

Uma das minhas visitas de outono a Maer, em 1827, foi memorável por ter conhecido lá Sir J. Mackintosh, que foi o melhor conversador que alguma vez ouvi. Ouvi mais tarde, com um brilho de orgulho, que ele tinha dito: "Há algo naquele jovem que me interessa." Isto deveu-se, principalmente, a ele ter percebido que eu ouvia com muito interesse tudo o que ele dizia, pois eu era ignorante como uma porta sobre os seus temas de história, política e filosofia moral. Ouvir elogios de uma pessoa eminente, embora sem dúvida apta ou destinada a despertar vaidade, é, creio eu, bom para um jovem, pois ajuda a mantê-lo no caminho certo.

As minhas visitas a Maer durante estes dois ou três anos seguintes foram absolutamente encantadoras, independentemente da caça de outono. A vida lá era perfeitamente livre; o campo era muito agradável para caminhar ou andar a cavalo; e, à noite, havia conversas muito agradáveis, não tão pessoais como geralmente são em grandes reuniões de família, juntamente com música. No verão, toda a família sentava-se frequentemente nos degraus do antigo pórtico, com o jardim de flores à frente, e com a margem íngreme e arborizada em frente à casa refletida no lago, com um ou outro peixe a saltar ou uma ave aquática a nadar. Nada deixou uma imagem mais vívida na minha mente do que estas noites em Maer. Eu também era afeiçoado ao meu tio Jos e venerava-o imenso; ele era silencioso e reservado, ao ponto de ser um homem um tanto temível; mas, por vezes, falava abertamente comigo. Ele era o próprio exemplo de um homem íntegro, com o juízo mais claro. Não creio que qualquer poder na terra o pudesse ter feito desviar um milímetro do que considerava ser o caminho certo. Costumava aplicar-lhe na minha mente a conhecida ode de Horácio, agora esquecida por mim, na qual surgem as palavras "nec vultus tyranni, etc.". (Justum et tenacem propositi virum Non civium ardor prava jubentium Non vultus instantis tyranni Mente quatit solida.)

CAMBRIDGE 1828-1831.

Depois de ter passado duas sessões em Edimburgo, o meu pai percebeu, ou ouviu das minhas irmãs, que eu não gostava da ideia de ser médico, por isso propôs que eu me tornasse clérigo. Ele opôs-se, muito acertadamente, a que eu me tornasse um ocioso desportista, que era então o meu destino provável. Pedi algum tempo para considerar, pois, pelo pouco que tinha ouvido ou pensado sobre o assunto, tinha escrúpulos em declarar a minha crença em todos os dogmas da Igreja da Inglaterra; embora, de resto, gostasse da ideia de ser um clérigo rural. Consequentemente, li com atenção 'Pearson on the Creed', e alguns outros livros de teologia; e, como na altura não duvidava minimamente da verdade estrita e literal de cada palavra da Bíblia, persuadi-me rapidamente de que o nosso Credo devia ser plenamente aceite.

Considerando o quão ferozmente fui atacado pelos ortodoxos, parece ridículo que eu tenha tido a intenção de ser clérigo. Nem esta intenção e o desejo do meu pai foram formalmente abandonados, mas morreram de morte natural quando, ao deixar Cambridge, me juntei ao "Beagle" como naturalista. Se os frenologistas forem de confiança, eu era, num aspeto, bem talhado para ser clérigo. Há alguns anos, os secretários de uma sociedade psicológica alemã pediram-me seriamente, por carta, uma fotografia minha; e algum tempo depois recebi as atas de uma das reuniões, nas quais parecia que o formato da minha cabeça tinha sido objeto de discussão pública, e um dos oradores declarou que eu tinha a protuberância da veneração desenvolvida o suficiente para dez padres.

Como ficou decidido que eu deveria ser clérigo, era necessário que eu frequentasse uma das universidades inglesas e obtivesse um grau; mas, como nunca tinha aberto um livro clássico desde que deixei a escola, descobri, para meu desalento, que nos dois anos intermédios tinha, de facto, esquecido, por incrível que pareça, quase tudo o que tinha aprendido, até mesmo algumas das letras gregas. Por isso, não fui para Cambridge na altura habitual, em outubro, mas trabalhei com um tutor privado em Shrewsbury e fui para Cambridge após as férias de Natal, no início de 1828. Recuperei rapidamente o meu nível escolar de conhecimento e conseguia traduzir livros gregos fáceis, como Homero e o Testamento Grego, com moderada facilidade.

Durante os três anos que passei em Cambridge, o meu tempo foi desperdiçado, no que diz respeito aos estudos académicos, tão completamente como em Edimburgo e na escola. Tentei matemática e cheguei até a ir, durante o verão de 1828, com um tutor privado (um homem muito aborrecido) para Barmouth, mas avancei muito lentamente. O trabalho era-me repugnante, principalmente pelo facto de não conseguir ver qualquer significado nos primeiros passos da álgebra. Esta impaciência foi muito tola e, anos mais tarde, lamentei profundamente não ter avançado o suficiente, pelo menos para compreender algo dos grandes princípios fundamentais da matemática, pois os homens assim dotados parecem possuir um sentido extra. Mas não creio que alguma vez tivesse tido sucesso além de um nível muito baixo. No que respeita aos Clássicos, não fiz nada, exceto assistir a algumas aulas obrigatórias da faculdade, e a frequência foi quase nominal. No meu segundo ano, tive de trabalhar durante um ou dois meses para passar o Little-Go, o que fiz facilmente. De novo, no meu último ano, trabalhei com alguma seriedade para o meu grau final de B.A. e refresquei os meus Clássicos, juntamente com um pouco de Álgebra e Euclides, o que me deu muito prazer, tal como na escola. Para passar no exame de B.A., era também necessário estudar as 'Evidences of Christianity' e a 'Moral Philosophy' de Paley. Isto foi feito de uma forma minuciosa, e estou convencido de que poderia ter escrito a totalidade das 'Evidences' com perfeita exatidão, mas não, claro, na linguagem clara de Paley. A lógica deste livro e, devo acrescentar, da sua 'Natural Theology', deu-me tanto prazer como Euclides. O estudo cuidadoso destas obras, sem tentar aprender qualquer parte de cor, foi a única parte do curso académico que, como senti na altura e como ainda hoje acredito, me foi da mínima utilidade na educação da minha mente. Não me preocupei na altura com as premissas de Paley; e, aceitando-as como verdadeiras, fiquei encantado e convencido pela longa linha de argumentação. Ao responder bem às questões do exame sobre Paley, ao fazer bem Euclides e ao não falhar miseravelmente nos Clássicos, ganhei um bom lugar entre os oi polloi ou a multidão de homens que não concorrem a distinções. Curiosamente, não me lembro de quão bem classificado fiquei, e a minha memória flutua entre o quinto, décimo ou décimo segundo lugar na lista. (Décimo na lista de janeiro de 1831.)

Eram dadas aulas públicas sobre diversos ramos na Universidade, sendo a frequência totalmente voluntária; mas eu estava tão farto de aulas em Edimburgo que nem sequer assisti às palestras eloquentes e interessantes de Sedgwick. Se o tivesse feito, provavelmente ter-me-ia tornado geólogo mais cedo do que o fiz. Assisti, contudo, às aulas de Botânica de Henslow e gostei muito delas pela sua extrema clareza e pelas ilustrações admiráveis; mas não estudei botânica. Henslow costumava levar os seus alunos, incluindo vários dos membros mais velhos da Universidade, em excursões de campo, a pé ou de carruagem, a lugares distantes, ou numa barcaça rio abaixo, e dava lições sobre as plantas e animais mais raros que eram observados. Estas excursões eram encantadoras.

Embora, como veremos de seguida, houvesse alguns aspetos positivos na minha vida em Cambridge, o meu tempo foi tristemente desperdiçado lá, e pior do que desperdiçado. Devido à minha paixão pela caça e pela montaria, e, quando isto falhava, por cavalgar através do campo, envolvi-me num grupo de desportistas, incluindo alguns jovens dissipados e de espírito baixo. Costumávamos jantar juntos com frequência à noite, embora estes jantares incluíssem muitas vezes homens de um calibre superior, e por vezes bebíamos demasiado, com cantares alegres e jogos de cartas depois. Sei que deveria sentir vergonha dos dias e serões assim passados, mas, como alguns dos meus amigos eram muito agradáveis e estávamos todos com o espírito mais elevado, não posso evitar olhar para estes tempos com muito prazer.

Mas fico contente por pensar que tive muitos outros amigos de uma natureza amplamente diferente. Fui muito íntimo de Whitley (Rev. C. Whitley, Cónego Honorário de Durham, anteriormente Leitor em Filosofia Natural na Universidade de Durham), que foi mais tarde Senior Wrangler, e costumávamos fazer continuamente longas caminhadas juntos. Ele inoculou-me um gosto por quadros e boas gravuras, das quais comprei algumas. Fui frequentemente à Galeria Fitzwilliam, e o meu gosto deve ter sido razoavelmente bom, pois certamente admirava os melhores quadros, que discutia com o velho curador. Li também com muito interesse o livro de Sir Joshua Reynolds. Este gosto, embora não fosse natural em mim, durou vários anos, e muitos dos quadros da National Gallery em Londres deram-me muito prazer; o de Sebastian del Piombo despertou em mim um sentido de sublimidade.

Também entrei num grupo de música, creio que por intermédio do meu amigo de coração caloroso, Herbert (o falecido John Maurice Herbert, Juiz do Tribunal de Recurso de Cardiff e do Circuito de Monmouth), que obteve um grau elevado de wrangler. Ao conviver com estes homens e ouvi-los tocar, adquiri um forte gosto pela música e costumava marcar as minhas caminhadas muitas vezes para ouvir, nos dias de semana, o hino na Capela do King's College. Isto dava-me um prazer intenso, ao ponto de a minha espinha dorsal por vezes estremecer. Tenho a certeza de que não havia qualquer afetação ou mera imitação neste gosto, pois costumava ir geralmente sozinho ao King's College, e por vezes contratava os rapazes do coro para cantarem nos meus quartos. No entanto, sou tão completamente desprovido de ouvido que não consigo perceber uma dissonância, nem manter o ritmo e cantarolar uma melodia corretamente; e é um mistério como pude, possivelmente, ter derivado prazer da música.

Os meus amigos músicos cedo perceberam o meu estado e, por vezes, divertiam-se fazendo-me passar por um exame, que consistia em verificar quantas melodias eu conseguia reconhecer quando eram tocadas um pouco mais rápida ou lentamente do que o habitual. 'God save the King', quando tocado assim, era um enigma doloroso. Havia outro homem com um ouvido quase tão mau quanto o meu e, estranhamente, ele tocava um pouco de flauta. Uma vez tive o triunfo de vencê-lo num dos nossos exames musicais.

Mas nenhuma ocupação em Cambridge foi seguida com tanta avidez ou me deu tanto prazer como a recolha de escaravelhos. Era a pura paixão por colecionar, pois eu não os dissecava e raramente comparava as suas características externas com as descrições publicadas, mas conseguia que os nomeassem de qualquer maneira. Darei uma prova do meu zelo: um dia, ao arrancar alguma casca velha, vi dois escaravelhos raros e agarrei um em cada mão; depois vi um terceiro e novo tipo, que não suportava perder, de modo que enfiei o que segurava na mão direita na boca. Ai! Ele projetou algum fluido intensamente acre, que me queimou a língua de tal forma que fui forçado a cuspir o escaravelho, que se perdeu, assim como o terceiro.

Tive muito sucesso na recolha e inventei dois novos métodos; empreguei um trabalhador para raspar, durante o inverno, musgo de árvores velhas e colocá-lo num saco grande, e também para recolher o lixo no fundo das barcaças em que os juncos são trazidos dos pântanos, e assim obtive algumas espécies muito raras. Nenhum poeta sentiu maior prazer ao ver o seu primeiro poema publicado do que eu ao ver, nas 'Illustrations of British Insects' de Stephens, as palavras mágicas: "capturado por C. Darwin, Esq.". Fui introduzido à entomologia pelo meu primo em segundo grau W. Darwin Fox, um homem inteligente e muito agradável, que estava então no Christ's College, e com quem me tornei extremamente íntimo. Mais tarde, conheci bem e fui colecionar com Albert Way, de Trinity, que anos mais tarde se tornou um conhecido arqueólogo; e também com H. Thompson, da mesma faculdade, mais tarde um agricultor de relevo, presidente de uma grande ferrovia e Membro do Parlamento. Parece, portanto, que o gosto por colecionar escaravelhos é algum indício de sucesso futuro na vida!

Surpreende-me a impressão indelével que muitos dos escaravelhos que apanhei em Cambridge deixaram na minha mente. Consigo lembrar-me da aparência exata de certos postes, árvores velhas e margens onde fiz uma boa captura. O bonito Panagaeus crux-major era um tesouro naqueles dias, e aqui em Down vi um escaravelho a correr através de um caminho e, ao apanhá-lo, percebi instantaneamente que diferia ligeiramente do P. crux-major, e revelou-se ser o P. quadripunctatus, que é apenas uma variedade ou espécie estreitamente aliada, diferindo dele muito ligeiramente no contorno. Eu nunca tinha visto, naqueles velhos tempos, um Licinus vivo, que para um olho não educado dificilmente difere de muitos dos escaravelhos Carabídeos pretos; mas os meus filhos encontraram aqui um espécime e reconheci instantaneamente que era novo para mim; contudo, não olhava para um escaravelho britânico há vinte anos.

Ainda não mencionei uma circunstância que influenciou toda a minha carreira mais do que qualquer outra. Foi a minha amizade com o Professor Henslow. Antes de vir para Cambridge, tinha ouvido falar dele pelo meu irmão como um homem que conhecia todos os ramos da ciência, e estava, portanto, preparado para o venerar. Ele mantinha a casa aberta uma vez por semana, quando todos os estudantes universitários e alguns membros mais velhos da Universidade, que se dedicavam à ciência, se costumavam encontrar à noite. Cedo consegui, por intermédio de Fox, um convite e ia lá regularmente. Pouco depois, tornei-me bem conhecido de Henslow e, durante a segunda metade do meu tempo em Cambridge, fiz longas caminhadas com ele na maioria dos dias; de tal forma que fui chamado por alguns dos professores de "o homem que caminha com Henslow"; e, à noite, era muitas vezes convidado a juntar-me ao jantar da sua família. O seu conhecimento era vasto em botânica, entomologia, química, mineralogia e geologia. O seu gosto mais forte era tirar conclusões de observações minuciosas e contínuas. O seu juízo era excelente e toda a sua mente bem equilibrada; mas não suponho que alguém diria que ele possuía muito génio original. Ele era profundamente religioso e tão ortodoxo que me disse um dia que ficaria entristecido se uma única palavra dos Trinta e Nove Artigos fosse alterada. As suas qualidades morais eram em todos os aspetos admiráveis. Estava livre de qualquer vestígio de vaidade ou outro sentimento mesquinho; e nunca vi um homem que pensasse tão pouco sobre si próprio ou sobre os seus próprios interesses. O seu temperamento era imperturbavelmente bom, com as maneiras mais cativantes e corteses; no entanto, como vi, ele podia ser despertado por qualquer má ação para a mais calorosa indignação e ação pronta.

Vi uma vez, na sua companhia, nas ruas de Cambridge, uma cena quase tão horrível como a que poderia ter sido presenciada durante a Revolução Francesa. Dois profanadores de sepulturas tinham sido presos e, enquanto eram levados para a prisão, tinham sido arrancados ao agente da autoridade por uma multidão dos homens mais grosseiros, que os arrastaram pelas pernas ao longo da estrada lamacenta e pedregosa. Estavam cobertos de lama da cabeça aos pés, e os seus rostos sangravam, quer por terem sido pontapeados, quer pelas pedras; pareciam cadáveres, mas a multidão era tão densa que só apanhei vislumbres momentâneos dos desgraçados. Nunca na minha vida vi tamanha ira pintada no rosto de um homem como a demonstrada por Henslow nesta cena horrível. Ele tentou repetidamente penetrar na multidão; mas era simplesmente impossível. Ele correu então para o presidente da câmara, dizendo-me para não o seguir, mas para ir buscar mais polícias. Esqueço-me do desfecho, exceto que os dois homens foram levados para a prisão sem serem mortos.

A benevolência de Henslow era ilimitada, como provou pelos seus muitos excelentes planos para os seus paroquianos pobres, quando, anos mais tarde, exerceu o cargo em Hitcham. A minha intimidade com um tal homem deveria ter sido, e espero que tenha sido, um benefício inestimável. Não posso resistir a mencionar um incidente trivial, que mostrou a sua amável consideração. Enquanto examinava alguns grãos de pólen numa superfície húmida, vi os tubos exsertados e corri instantaneamente para comunicar a minha descoberta surpreendente a ele. Ora, não suponho que qualquer outro professor de botânica se pudesse ter contido de rir da minha pressa em fazer tal comunicação. Mas ele concordou sobre o quão interessante era o fenómeno e explicou o seu significado, mas fez-me compreender claramente quão bem conhecido era; por isso deixei-o, não minimamente mortificado, mas muito satisfeito por ter descoberto por mim próprio um facto tão notável, mas determinado a não ter tanta pressa em comunicar as minhas descobertas outra vez.

O Dr. Whewell era um dos homens mais velhos e distintos que por vezes visitavam Henslow, e em diversas ocasiões voltei a pé para casa com ele à noite. A seguir a Sir J. Mackintosh, foi o melhor conversador sobre assuntos graves a que alguma vez ouvi. Leonard Jenyns (O conhecido Soame Jenyns era primo do pai do Sr. Jenyns), que mais tarde publicou alguns bons ensaios em História Natural (O Sr. Jenyns (agora Blomefield) descreveu os peixes para a Zoologia do "Beagle"; e é autor de uma longa série de artigos, principalmente Zoológicos), hospedava-se frequentemente com Henslow, que era seu cunhado. Visitei-o na sua reitoria nos limites dos Fens [Swaffham Bulbeck], e tive muitas boas caminhadas e conversas com ele sobre História Natural. Tornei-me também conhecido de vários outros homens mais velhos do que eu, que não se importavam muito com a ciência, mas que eram amigos de Henslow. Um era um escocês, irmão de Sir Alexander Ramsay, e tutor do Jesus College: era um homem encantador, mas não viveu muitos anos. Outro era o Sr. Dawes, mais tarde Deão de Hereford, e famoso pelo seu sucesso na educação dos pobres. Estes homens e outros da mesma posição, juntamente com Henslow, costumavam por vezes fazer excursões distantes pelo campo, às quais me era permitido juntar-me, e eram mais do que agradáveis.

Olhando para trás, deduzo que devia haver em mim algo um pouco superior ao comum dos jovens, caso contrário os homens acima mencionados, muito mais velhos do que eu e mais elevados na posição académica, nunca me teriam permitido associar-me a eles. Certamente que eu não tinha consciência de tal superioridade, e lembro-me de um dos meus amigos desportistas, Turner, que me viu a trabalhar com os meus escaravelhos, dizer que eu seria um dia membro da Royal Society, e a noção pareceu-me absurda.

Durante o meu último ano em Cambridge, li com cuidado e profundo interesse a "Narrativa Pessoal" de Humboldt. Esta obra, e a "Introdução ao Estudo da Filosofia Natural" de Sir J. Herschel, despertaram em mim um zelo ardente para acrescentar até a mais humilde contribuição à nobre estrutura da Ciência Natural. Nenhum outro livro, ou uma dúzia deles, influenciou-me tanto como estes dois. Copiei de Humboldt longas passagens sobre Tenerife, e li-as em voz alta numa das excursões acima mencionadas, para (penso eu) Henslow, Ramsay e Dawes, pois numa ocasião anterior tinha falado sobre as glórias de Tenerife, e alguns do grupo declararam que se esforçariam por ir lá; mas penso que falavam apenas a meio gás. Eu, contudo, falava muito a sério, e obtive uma carta de apresentação para um comerciante em Londres para perguntar sobre navios; mas o plano foi, naturalmente, posto de parte pela viagem do "Beagle".

As minhas férias de verão eram dedicadas a colecionar escaravelhos, a alguma leitura e a pequenas excursões. No outono, todo o meu tempo era dedicado à caça, principalmente em Woodhouse e Maer, e por vezes com o jovem Eyton de Eyton. No geral, os três anos que passei em Cambridge foram os mais alegres da minha vida feliz; pois gozava então de excelente saúde, e quase sempre de grande disposição.

Como inicialmente tinha chegado a Cambridge no Natal, fui forçado a frequentar dois trimestres após ter passado o meu exame final, no início de 1831; e Henslow convenceu-me então a começar o estudo da geologia. Por isso, no meu regresso a Shropshire, examinei cortes geológicos e colori um mapa de zonas em torno de Shrewsbury. O Professor Sedgwick pretendia visitar o Norte do País de Gales no início de agosto para prosseguir as suas famosas investigações geológicas entre as rochas mais antigas, e Henslow pediu-lhe que me permitisse acompanhá-lo. (Em relação a esta viagem, o meu pai costumava contar uma história sobre Sedgwick: tinham partido da estalagem uma manhã, e tinham caminhado uma milha ou duas, quando Sedgwick parou de repente, e jurou que voltaria para trás, estando certo de que "aquele maldito patife" (o empregado de mesa) não tinha dado à criada de quarto os seis pence que lhe foram confiados para esse fim. Acabou por ser convencido a abandonar o projeto, ao ver que não havia razão para suspeitar de especial perfídia por parte do empregado.--F.D.) Consequentemente, ele veio e dormiu na casa do meu pai.

Uma breve conversa com ele durante essa noite produziu uma forte impressão na minha mente. Enquanto examinava uma antiga cascalheira perto de Shrewsbury, um trabalhador disse-me que tinha encontrado nela uma grande concha de Voluta tropical gasta, como as que se podem ver nas cornijas das chaminés das casas de campo; e como ele não quis vender a concha, fiquei convencido de que ele a tinha realmente encontrado na cova. Contei o facto a Sedgwick, e ele disse imediatamente (sem dúvida corretamente) que devia ter sido atirada por alguém para dentro da cova; mas depois acrescentou que, se estivesse realmente lá incrustada, seria o maior infortúnio para a geologia, pois derrubaria tudo o que sabemos sobre os depósitos superficiais dos Midland Counties. Estas camadas de cascalho pertencem, de facto, ao período glacial, e anos mais tarde encontrei nelas conchas árticas partidas. Mas fiquei então totalmente espantado por Sedgwick não ficar encantado com um facto tão maravilhoso como o de uma concha tropical ser encontrada perto da superfície no meio de Inglaterra. Nada antes me tinha feito compreender profundamente, embora tivesse lido vários livros científicos, que a ciência consiste em agrupar factos de modo a que leis gerais ou conclusões possam ser extraídas deles.

Na manhã seguinte partimos para Llangollen, Conway, Bangor e Capel Curig. Esta excursão foi de decidida utilidade para me ensinar um pouco a como determinar a geologia de um país. Sedgwick enviava-me frequentemente numa linha paralela à sua, dizendo-me para trazer amostras das rochas e marcar a estratificação num mapa. Tenho poucas dúvidas de que ele fez isto para meu bem, pois eu era demasiado ignorante para o ter ajudado. Nesta viagem, tive um exemplo notável de como é fácil ignorar fenómenos, por mais conspícuos que sejam, antes de terem sido observados por alguém. Passámos muitas horas em Cwm Idwal, examinando todas as rochas com extremo cuidado, pois Sedgwick estava ansioso por encontrar fósseis nelas; mas nenhum de nós viu um vestígio dos maravilhosos fenómenos glaciais à nossa volta; não notámos as rochas claramente estriadas, os blocos erráticos, as morenas laterais e terminais. No entanto, estes fenómenos são tão conspícuos que, como declarei num artigo publicado muitos anos depois na "Philosophical Magazine" ("Philosophical Magazine", 1842.), uma casa ardida pelo fogo não contava a sua história mais claramente do que este vale. Se ainda estivesse preenchido por um glaciar, os fenómenos seriam menos distintos do que agora são.

Em Capel Curig deixei Sedgwick e segui em linha reta por bússola e mapa através das montanhas até Barmouth, nunca seguindo qualquer trilho a menos que coincidisse com o meu rumo. Deparei assim com alguns lugares estranhos e selvagens, e desfrutei muito deste modo de viajar. Visitei Barmouth para ver alguns amigos de Cambridge que lá estavam a estudar, e daí regressei a Shrewsbury e a Maer para caçar; pois naquela altura ter-me-ia considerado louco se tivesse deixado os primeiros dias da caça às perdizes pela geologia ou qualquer outra ciência.

"VIAGEM DO 'BEAGLE' DE 27 DE DEZEMBRO DE 1831 A 2 DE OUTUBRO DE 1836."

Ao regressar a casa da minha curta viagem geológica no Norte do País de Gales, encontrei uma carta de Henslow, informando-me de que o Capitão Fitz-Roy estava disposto a ceder parte da sua própria cabine a qualquer jovem que se voluntariasse para ir com ele sem pagamento como naturalista na Viagem do "Beagle". Dei, como creio, no meu Diário manuscrito um relato de todas as circunstâncias que então ocorreram; direi apenas aqui que fiquei imediatamente ansioso por aceitar a oferta, mas o meu pai opôs-se fortemente, acrescentando as palavras, afortunadas para mim: "Se conseguires encontrar um homem de bom senso que te aconselhe a ir, darei o meu consentimento." Por isso, escrevi nessa noite e recusei a oferta. Na manhã seguinte, fui a Maer para estar pronto para o dia 1 de setembro e, enquanto caçava, o meu tio (Josiah Wedgwood.) mandou chamar-me, oferecendo-se para me levar de carro até Shrewsbury e falar com o meu pai, pois o meu tio achava que seria sensato da minha parte aceitar a oferta. O meu pai sempre defendeu que ele era um dos homens mais sensatos do mundo, e consentiu imediatamente da forma mais gentil. Eu tinha sido um tanto extravagante em Cambridge, e para consolar o meu pai, disse: "que teria de ser terrivelmente esperto para gastar mais do que a minha mesada enquanto estivesse a bordo do 'Beagle';" mas ele respondeu com um sorriso: "Mas dizem-me que és muito esperto."

No dia seguinte parti para Cambridge para ver Henslow, e de lá para Londres para ver Fitz-Roy, e tudo ficou rapidamente arranjado. Mais tarde, ao tornar-me muito íntimo de Fitz-Roy, ouvi dizer que correra um risco muito grande de ser rejeitado, por causa da forma do meu nariz! Ele era um ardente discípulo de Lavater, e estava convencido de que podia julgar o caráter de um homem pelo contorno das suas feições; e duvidava se alguém com o meu nariz poderia possuir energia e determinação suficientes para a viagem. Mas penso que ele ficou depois bem satisfeito por o meu nariz ter mentido.

O caráter de Fitz-Roy era singular, com muitos traços nobres: era dedicado ao seu dever, generoso até à falha, audaz, determinado e indomavelmente enérgico, e um ardente amigo de todos os que estavam sob o seu comando. Ele assumiria qualquer tipo de incómodo para ajudar aqueles que achava que mereciam ajuda. Era um homem bonito, notavelmente parecido com um cavalheiro, com modos altamente corteses, que se assemelhavam aos do seu tio materno, o famoso Lord Castlereagh, como me foi dito pelo Ministro no Rio. Não obstante, ele deve ter herdado muito na sua aparência de Carlos II, pois o Dr. Wallich deu-me uma coleção de fotografias que tinha feito, e fiquei impressionado com a semelhança de uma delas com Fitz-Roy; e ao olhar para o nome, descobri que era Ch. E. Sobieski Stuart, Conde d'Albanie, um descendente do mesmo monarca.

O temperamento de Fitz-Roy era muito infeliz. Era geralmente pior no início da manhã, e com o seu olho de águia conseguia geralmente detetar algo de errado no navio, e era então implacável na sua crítica. Ele foi muito gentil comigo, mas era um homem muito difícil de conviver nos termos íntimos que necessariamente se seguiram por comermos sozinhos na mesma cabine. Tivemos várias discussões; por exemplo, no início da viagem na Baía, no Brasil, ele defendeu e elogiou a escravatura, que eu abominava, e disse-me que tinha acabado de visitar um grande proprietário de escravos, que tinha chamado muitos dos seus escravos e perguntado se eram felizes, e se desejavam ser livres, e todos responderam "Não". Perguntei-lhe então, talvez com um sorriso de escárnio, se ele pensava que a resposta dos escravos na presença do seu mestre valia alguma coisa? Isto deixou-o excessivamente zangado, e ele disse que, como eu duvidava da sua palavra, não podíamos viver mais tempo juntos. Pensei que teria sido forçado a deixar o navio; mas assim que a notícia se espalhou, o que aconteceu rapidamente, pois o capitão mandou chamar o primeiro-tenente para acalmar a sua ira abusando de mim, fiquei profundamente grato por receber um convite de todos os oficiais da messe para comer com eles. Mas, passadas algumas horas, Fitz-Roy mostrou a sua habitual magnanimidade enviando-me um oficial com um pedido de desculpas e um pedido para que eu continuasse a viver com ele.

O seu caráter era, em vários aspetos, um dos mais nobres que alguma vez conheci.

A viagem do "Beagle" foi, de longe, o evento mais importante da minha vida, e determinou toda a minha carreira; contudo, dependeu de uma circunstância tão pequena como o meu tio oferecer-se para me levar trinta milhas até Shrewsbury, o que poucos tios teriam feito, e de uma ninharia como a forma do meu nariz. Sempre senti que devo à viagem a primeira formação ou educação real da minha mente; fui levado a prestar muita atenção a vários ramos da história natural, e assim as minhas capacidades de observação foram melhoradas, embora estivessem sempre razoavelmente desenvolvidas.

A investigação da geologia de todos os lugares visitados foi muito mais importante, pois o raciocínio entra aqui em jogo. Ao examinar pela primeira vez um novo distrito, nada pode parecer mais desesperador do que o caos de rochas; mas ao registar a estratificação e a natureza das rochas e fósseis em muitos pontos, raciocinando sempre e prevendo o que será encontrado noutros locais, a luz começa rapidamente a raiar sobre o distrito, e a estrutura do todo torna-se mais ou menos inteligível. Tinha trazido comigo o primeiro volume dos "Princípios de Geologia" de Lyell, que estudei atentamente; e o livro foi da maior utilidade para mim de muitas formas. O primeiro lugar que examinei, nomeadamente St. Jago nas ilhas de Cabo Verde, mostrou-me claramente a maravilhosa superioridade da maneira de tratar a geologia de Lyell, comparada com a de qualquer outro autor, cujas obras tinha comigo ou alguma vez li mais tarde.

Outra das minhas ocupações era colecionar animais de todas as classes, descrevendo brevemente e dissecando grosseiramente muitos dos marinhos; mas por não ser capaz de desenhar, e por não ter conhecimentos anatómicos suficientes, uma grande pilha de manuscritos que fiz durante a viagem revelou-se quase inútil. Perdi assim muito tempo, com exceção do tempo gasto a adquirir algum conhecimento dos Crustáceos, pois isto foi útil quando, anos mais tarde, empreendi uma monografia dos Cirripedia.

Durante parte do dia escrevia o meu Diário, e esforçava-me muito por descrever cuidadosa e vividamente tudo o que tinha visto; e esta foi uma boa prática. O meu Diário servia também, em parte, como cartas para casa, e partes eram enviadas para Inglaterra sempre que havia oportunidade.

Os vários estudos especiais acima referidos, contudo, não tinham importância comparados com o hábito de indústria enérgica e de atenção concentrada em tudo o que eu estava envolvido, que adquiri então. Tudo sobre o que pensava ou lia era feito para incidir diretamente sobre o que tinha visto ou estava propenso a ver; e este hábito mental foi continuado durante os cinco anos da viagem. Tenho a certeza de que foi este treino que me permitiu fazer tudo o que fiz na ciência.

Olhando para trás, consigo agora perceber como o meu amor pela ciência preponderou gradualmente sobre qualquer outro gosto. Durante os primeiros dois anos, a minha antiga paixão pela caça sobreviveu com quase toda a força, e eu próprio abatia todas as aves e animais para a minha coleção; mas gradualmente fui deixando a minha espingarda cada vez mais, e finalmente por completo, ao meu criado, pois a caça interferia com o meu trabalho, mais especialmente com a determinação da estrutura geológica de um país. Descobri, embora inconscientemente e insensivelmente, que o prazer de observar e raciocinar era muito superior ao da habilidade e do desporto. Que a minha mente se desenvolveu através das minhas ocupações durante a viagem é tornado provável por uma observação feita pelo meu pai, que era o observador mais agudo que alguma vez vi, de uma disposição cética, e longe de ser um crente na frenologia; pois, ao ver-me pela primeira vez após a viagem, virou-se para as minhas irmãs e exclamou: "Ora, a forma da cabeça dele está completamente alterada."

Para regressar à viagem. A 11 de setembro (1831), fiz uma visita relâmpago com Fitz-Roy ao "Beagle" em Plymouth. Depois, para Shrewsbury para desejar ao meu pai e irmãs um longo adeus. A 24 de outubro instalei-me em Plymouth, e permanecei lá até 27 de dezembro, quando o "Beagle" deixou finalmente as costas de Inglaterra para a sua circum-navegação do mundo. Fizemos duas tentativas anteriores para navegar, mas fomos repelidos de cada vez por fortes vendavais. Estes dois meses em Plymouth foram os mais miseráveis que alguma vez passei, embora me tenha esforçado de várias formas. Estava desanimado com o pensamento de deixar toda a minha família e amigos por tanto tempo, e o tempo parecia-me inexprimivelmente sombrio. Estava também preocupado com palpitações e dores no coração, e como muitos jovens ignorantes, especialmente um com uns conhecimentos médicos superficiais, estava convencido de que tinha doença cardíaca. Não consultei nenhum médico, pois esperava ouvir o veredito de que não estava apto para a viagem, e estava resolvido a ir a todo o custo.

Não preciso de me referir aqui aos eventos da viagem - onde fomos e o que fizemos - pois dei um relato suficientemente completo no meu Diário publicado. As glórias da vegetação dos Trópicos erguem-se perante a minha mente no tempo presente mais vividamente do que qualquer outra coisa; embora a sensação de sublimidade, que os grandes desertos da Patagónia e as montanhas cobertas de florestas da Terra do Fogo excitaram em mim, tenha deixado uma impressão indelével na minha mente. A visão de um selvagem nu na sua terra natal é um evento que nunca pode ser esquecido. Muitas das minhas excursões a cavalo através de países selvagens, ou nos barcos, algumas das quais duraram várias semanas, foram profundamente interessantes: o seu desconforto e algum grau de perigo eram naquela altura dificilmente um inconveniente, e de todo nenhum mais tarde. Reflito também com grande satisfação sobre alguns dos meus trabalhos científicos, como a resolução do problema das ilhas de coral, e a determinação da estrutura geológica de certas ilhas, por exemplo, Santa Helena. Nem devo omitir a descoberta das relações singulares dos animais e plantas que habitam as várias ilhas do arquipélago das Galápagos, e de todas elas com os habitantes da América do Sul.

Na medida em que posso julgar-me a mim próprio, trabalhei ao máximo durante a viagem pelo mero prazer da investigação, e pelo meu forte desejo de acrescentar alguns factos à grande massa de factos na Ciência Natural. Mas também tinha a ambição de ocupar um lugar justo entre os homens de ciência – se mais ambicioso ou menos do que a maioria dos meus colegas de trabalho, não posso formar uma opinião.

A geologia de St. Jago é muito impressionante, contudo simples: uma corrente de lava fluiu outrora sobre o leito do mar, formado por conchas e corais recentes triturados, que cozeu numa rocha branca dura. Desde então, toda a ilha foi erguida. Mas a linha de rocha branca revelou-me um facto novo e importante, nomeadamente, que tinha havido depois uma subsidência em torno das crateras, que tinham estado desde então em atividade, e tinham expelido lava. Foi então que me ocorreu pela primeira vez que poderia talvez escrever um livro sobre a geologia dos vários países visitados, e isto fez-me vibrar de prazer. Essa foi uma hora memorável para mim, e quão claramente consigo recordar a baixa falésia de lava sob a qual descansei, com o sol a brilhar intensamente, algumas plantas estranhas do deserto a crescer perto, e com corais vivos nas poças de maré aos meus pés. Mais tarde na viagem, Fitz-Roy pediu-me para ler parte do meu Diário, e declarou que valeria a pena publicar; por isso, aqui estava um segundo livro em perspetiva!

Perto do final da nossa viagem, recebi uma carta enquanto estava em Ascension, na qual as minhas irmãs me diziam que Sedgwick tinha visitado o meu pai e dito que eu deveria ocupar um lugar entre os principais homens de ciência. Na altura, não consegui compreender como ele poderia ter sabido algo sobre as minhas atividades, mas ouvi (penso que mais tarde) que Henslow tinha lido algumas das cartas que lhe escrevi perante a Sociedade Filosófica de Cambridge (Lidas na reunião realizada a 16 de novembro de 1835 e impressas num panfleto de 31 páginas para distribuição entre os membros da Sociedade), e que as tinha impresso para distribuição privada. A minha coleção de ossos fósseis, que tinha sido enviada a Henslow, também despertou considerável atenção entre os paleontólogos. Após ler esta carta, subi penosamente as montanhas de Ascension com um passo saltitante e fiz as rochas vulcânicas ressoar sob o meu martelo geológico. Tudo isto mostra o quão ambicioso eu era; mas penso que posso dizer com verdade que, em anos posteriores, embora me importasse ao mais alto grau com a aprovação de homens como Lyell e Hooker, que eram meus amigos, não me importava muito com o público em geral. Não quero dizer que uma crítica favorável ou uma grande venda dos meus livros não me agradasse imenso, mas o prazer era passageiro, e estou certo de que nunca me desviei um centímetro do meu curso para ganhar fama.

DO MEU REGRESSO A INGLATERRA (2 DE OUTUBRO DE 1836) AO MEU CASAMENTO (29 DE JANEIRO DE 1839.)

Estes dois anos e três meses foram os mais ativos que alguma vez passei, embora estivesse ocasionalmente indisposto e, por isso, perdesse algum tempo. Depois de ir e vir várias vezes entre Shrewsbury, Maer, Cambridge e Londres, instalei-me em alojamentos em Cambridge (Na Fitzwilliam Street.) a 13 de dezembro, onde todas as minhas coleções ficaram sob os cuidados de Henslow. Fiquei aqui três meses e examinei os meus minerais e rochas com a ajuda do Professor Miller.

Comecei a preparar o meu 'Diário de Viagens', o que não foi um trabalho árduo, pois o meu Diário em manuscrito tinha sido escrito com cuidado, e o meu principal esforço foi fazer um resumo dos meus resultados científicos mais interessantes. Enviei também, a pedido de Lyell, um breve relato das minhas observações sobre a elevação da costa do Chile à Sociedade Geológica. ('Geolog. Soc. Proc.' ii. 1838, páginas 446-449.)

A 7 de março de 1837, aluguei alojamentos em Great Marlborough Street, em Londres, e permaneci lá durante quase dois anos, até me casar. Durante estes dois anos, terminei o meu Diário, li vários artigos perante a Sociedade Geológica, comecei a preparar o manuscrito para as minhas 'Observações Geológicas' e tratei da publicação da 'Zoologia da Viagem do "Beagle"'. Em julho, abri o meu primeiro caderno para factos relacionados com a Origem das Espécies, sobre o qual há muito refletia, e nunca deixei de trabalhar durante os vinte anos seguintes.

Durante estes dois anos, também participei um pouco na vida social e atuei como um dos secretários honorários da Sociedade Geológica. Vi muito Lyell. Uma das suas principais características era a sua simpatia pelo trabalho dos outros, e fiquei tão espantado quanto encantado com o interesse que ele demonstrou quando, no meu regresso a Inglaterra, lhe expliquei as minhas opiniões sobre os recifes de coral. Isto encorajou-me imenso, e o seu conselho e exemplo tiveram muita influência sobre mim. Durante este período, vi também bastante Robert Brown; costumava chamá-lo e sentar-me com ele durante o seu pequeno-almoço nas manhãs de domingo, e ele vertia um rico tesouro de observações curiosas e comentários agudos, mas estes relacionavam-se quase sempre com pontos minuciosos, e ele nunca discutiu comigo questões grandes ou gerais em ciência.

Durante estes dois anos, fiz várias pequenas excursões como forma de relaxamento, e uma mais longa às Estradas Paralelas de Glen Roy, um relato das quais foi publicado nas 'Philosophical Transactions'. (1839, páginas 39-82.) Este artigo foi um grande fracasso e envergonho-me dele. Tendo ficado profundamente impressionado com o que vira da elevação da terra na América do Sul, atribuí as linhas paralelas à ação do mar; mas tive de abandonar esta opinião quando Agassiz propôs a sua teoria dos lagos glaciares. Como nenhuma outra explicação era possível no nosso estado de conhecimento de então, argumentei a favor da ação do mar; e o meu erro foi uma boa lição para nunca confiar na ciência ao princípio da exclusão.

Como não conseguia trabalhar o dia todo em ciência, li bastante durante estes dois anos sobre vários assuntos, incluindo alguns livros metafísicos; mas não estava bem adaptado para tais estudos. Por esta altura, encontrei muito prazer na poesia de Wordsworth e Coleridge; e posso gabar-me de ter lido a 'Excursion' duas vezes. Antigamente, o 'Paraíso Perdido' de Milton tinha sido o meu principal favorito, e nas minhas excursões durante a viagem do "Beagle", quando só podia levar um único volume, escolhia sempre Milton.

DO MEU CASAMENTO, 29 DE JANEIRO DE 1839, E RESIDÊNCIA EM UPPER GOWER STREET, À NOSSA PARTIDA DE LONDRES E FIXAÇÃO EM DOWN, 14 DE SETEMBRO DE 1842.

(Depois de falar da sua feliz vida de casado e dos seus filhos, continua:--)

Durante os três anos e oito meses em que residimos em Londres, fiz menos trabalho científico, embora trabalhasse o mais arduamente possível, do que durante qualquer outro período de igual duração na minha vida. Isto deveu-se a indisposições frequentemente recorrentes e a uma longa e grave doença. A maior parte do meu tempo, quando conseguia fazer algo, era dedicado ao meu trabalho sobre 'Recifes de Coral', que tinha começado antes do meu casamento, e do qual a última prova de impressão foi corrigida a 6 de maio de 1842. Este livro, embora pequeno, custou-me vinte meses de trabalho árduo, pois tive de ler todas as obras sobre as ilhas do Pacífico e consultar muitas cartas náuticas. Foi muito apreciado pelos homens de ciência, e a teoria nele apresentada está, penso eu, agora bem estabelecida.

Nenhum outro trabalho meu foi começado com um espírito tão dedutivo como este, pois toda a teoria foi pensada na costa oeste da América do Sul, antes de eu ter visto um verdadeiro recife de coral. Tive, portanto, apenas de verificar e alargar as minhas opiniões através de um exame cuidadoso de recifes vivos. Mas deve observar-se que eu tinha, durante os dois anos anteriores, estado incessantemente a prestar atenção aos efeitos nas costas da América do Sul da elevação intermitente da terra, juntamente com a denudação e a deposição de sedimentos. Isto levou-me necessariamente a refletir muito sobre os efeitos da subsidência, e foi fácil substituir na imaginação a deposição contínua de sedimentos pelo crescimento ascendente dos corais. Fazer isto foi formar a minha teoria sobre a formação de recifes de barreira e atóis.

Além do meu trabalho sobre recifes de coral, durante a minha residência em Londres, li perante a Sociedade Geológica artigos sobre os Blocos Erráticos da América do Sul ('Geolog. Soc. Proc.' iii. 1842.), sobre Terramotos ('Geolog. Trans.' v. 1840.), e sobre a Formação de Húmus pela Agência das Minhocas. ('Geolog. Soc. Proc.' ii. 1838.) Continuei também a supervisionar a publicação da 'Zoologia da Viagem do "Beagle"'. Nem deixei de colecionar factos relacionados com a origem das espécies; e podia, por vezes, fazê-lo quando não conseguia fazer mais nada devido à doença.

No verão de 1842, estava mais forte do que estivera durante algum tempo e fiz uma pequena excursão sozinho pelo Norte do País de Gales, com o intuito de observar os efeitos dos antigos glaciares que outrora preencheram todos os vales maiores. Publiquei um breve relato do que vi na 'Philosophical Magazine'. ('Philosophical Magazine', 1842.) Esta excursão interessou-me imenso, e foi a última vez que estive suficientemente forte para escalar montanhas ou fazer longas caminhadas como as necessárias para o trabalho geológico.

Durante a primeira parte da nossa vida em Londres, estive suficientemente forte para frequentar a sociedade em geral e vi bastante vários homens de ciência e outros homens mais ou menos distintos. Darei as minhas impressões a respeito de alguns deles, embora tenha pouco a dizer que valha a pena dizer.

Vi mais Lyell do que qualquer outro homem, tanto antes como depois do meu casamento. A sua mente era caracterizada, tal como me parecia, pela clareza, prudência, bom senso e bastante originalidade. Quando eu lhe fazia algum comentário sobre Geologia, ele nunca descansava enquanto não visse o caso todo claramente, e muitas vezes fazia-me vê-lo mais claramente do que eu o fizera antes. Ele apresentava todas as objeções possíveis à minha sugestão e, mesmo depois de estas estarem esgotadas, permanecia longamente duvidoso. Uma segunda característica era a sua calorosa simpatia pelo trabalho de outros homens de ciência. (A ligeira repetição aqui observável explica-se pelo facto de as notas sobre Lyell, etc., terem sido acrescentadas em abril de 1881, alguns anos depois de o resto das 'Recollections' terem sido escritas.)

No meu regresso da viagem do "Beagle", expliquei-lhe as minhas opiniões sobre os recifes de coral, que diferiam das dele, e fiquei muito surpreendido e encorajado pelo vívido interesse que ele demonstrou. O seu prazer na ciência era ardente, e ele sentia o mais profundo interesse pelo progresso futuro da humanidade. Era de bom coração e totalmente liberal nas suas crenças religiosas, ou melhor, descrenças; mas era um teísta convicto. A sua franqueza era altamente notável. Demonstrou-o ao tornar-se um convertido à teoria da Descendência, embora tivesse ganho muita fama ao opor-se às opiniões de Lamarck, e isto depois de ter envelhecido. Lembrou-me que eu lhe tinha dito, muitos anos antes, quando discutíamos a oposição da velha escola de geólogos às suas novas visões: "Que coisa boa seria se cada homem de ciência morresse aos sessenta anos, pois depois disso teria a certeza de se opor a todas as novas doutrinas." Mas ele esperava que agora lhe fosse permitido viver.

A ciência da Geologia está enormemente em dívida para com Lyell — mais, creio eu, do que para com qualquer outro homem que alguma vez viveu. Quando [eu estava] a começar a viagem do "Beagle", o perspicaz Henslow, que, como todos os outros geólogos, acreditava na altura em sucessivos cataclismos, aconselhou-me a obter e estudar o primeiro volume dos 'Principles', que tinha acabado de ser publicado, mas a não aceitar de modo algum as opiniões nele defendidas. Quão diferentemente falaria alguém agora dos 'Principles'! Orgulho-me de recordar que o primeiro lugar, nomeadamente, St. Jago, no arquipélago de Cabo Verde, onde fiz geologia, me convenceu da infinita superioridade das opiniões de Lyell sobre as defendidas em qualquer outra obra que eu conhecesse.

Os poderosos efeitos das obras de Lyell podiam outrora ser vistos claramente no progresso diferente da ciência em França e em Inglaterra. O atual esquecimento total das hipóteses desenfreadas de Elie de Beaumont, tais como as suas 'Crateras de Elevação' e 'Linhas de Elevação' (hipótese esta última que ouvi Sedgwick, na Sociedade Geológica, louvar até aos céus), pode ser amplamente atribuído a Lyell.

Vi bastante Robert Brown, "facile Princeps Botanicorum", como era chamado por Humboldt. Pareceu-me ser principalmente notável pela minúcia das suas observações e pela sua perfeita precisão. O seu conhecimento era extraordinariamente grande, e muito morreu com ele, devido ao seu medo excessivo de cometer um erro. Ele vertia o seu conhecimento sobre mim da forma mais desinibida, ainda assim era estranhamente ciumento em alguns pontos. Visitei-o duas ou três vezes antes da viagem do "Beagle", e numa ocasião ele pediu-me para olhar através de um microscópio e descrever o que via. Fi-lo, e acredito agora que eram as maravilhosas correntes de protoplasma em alguma célula vegetal. Perguntei-lhe então o que tinha visto; mas ele respondeu-me: "Esse é o meu pequeno segredo."

Ele era capaz das ações mais generosas. Quando velho, muito doente e totalmente incapaz de qualquer esforço, visitava diariamente (como me disse Hooker) um velho criado, que vivia longe (e a quem ele sustentava), e lia-lhe em voz alta. Isto é suficiente para compensar qualquer grau de parcimónia ou ciúme científico.

Posso aqui mencionar alguns outros homens eminentes, que vi ocasionalmente, mas tenho pouco a dizer sobre eles que valha a pena dizer. Sentia uma grande reverência pelo Sir J. Herschel, e fiquei encantado por jantar com ele na sua encantadora casa no Cabo da Boa Esperança, e depois na sua casa em Londres. Vi-o, também, noutras poucas ocasiões. Ele nunca falava muito, mas cada palavra que proferia valia a pena ser ouvida.

Encontrei uma vez, ao pequeno-almoço na casa de Sir R. Murchison, o ilustre Humboldt, que me honrou ao expressar o desejo de me ver. Fiquei um pouco desapontado com o grande homem, mas as minhas expectativas eram provavelmente demasiado elevadas. Não consigo recordar-me de nada distintamente sobre o nosso encontro, exceto que Humboldt era muito alegre e falava muito.

--lembra-me Buckle, que conheci uma vez em casa de Hensleigh Wedgwood. Fiquei muito contente por aprender com ele o seu sistema de recolha de factos. Disse-me que comprava todos os livros que lia e fazia um índice completo, para cada um, dos factos que pensava poderem vir a ser-lhe úteis, e que conseguia sempre lembrar-se em que livro tinha lido qualquer coisa, pois a sua memória era maravilhosa. Perguntei-lhe como conseguia, a princípio, julgar que factos seriam úteis, e ele respondeu que não sabia, mas que uma espécie de instinto o guiava. Graças a este hábito de fazer índices, pôde fornecer o número espantoso de referências sobre todo o tipo de assuntos, que se podem encontrar na sua 'História da Civilização'. Achei este livro interessantíssimo e li-o duas vezes, mas duvido que as suas generalizações valham alguma coisa. Buckle era um grande conversador, e eu ouvia-o sem dizer quase uma palavra, nem de facto o poderia ter feito, pois ele não deixava lacunas. Quando a Sra. Farrer começou a cantar, levantei-me e disse que tinha de a ouvir; depois de me ter afastado, ele virou-se para um amigo e disse (como foi ouvido pelo meu irmão): "Bem, os livros do Sr. Darwin são muito melhores do que a sua conversa."

De outros grandes homens de letras, conheci uma vez Sydney Smith em casa do Deão Milman. Havia algo de inexplicavelmente divertido em cada palavra que ele proferia. Talvez isto se devesse, em parte, à expectativa de ser divertido. Ele falava da Lady Cork, que era então extremamente velha. Esta era a senhora que, como ele dizia, foi uma vez tão tocada por um dos seus sermões de caridade que PEDIU EMPRESTADA uma guiné a um amigo para a colocar no prato. Ele disse agora: "É geralmente acreditado que a minha querida velha amiga Lady Cork foi ignorada", e disse isto de tal maneira que ninguém podia por um momento duvidar que ele queria dizer que a sua querida velha amiga tinha sido ignorada pelo diabo. Como ele conseguiu expressar isto, não sei.

Conheci igualmente uma vez Macaulay em casa de Lord Stanhope (o historiador), e como havia apenas mais um homem ao jantar, tive uma grande oportunidade de o ouvir conversar, e ele foi muito agradável. Ele não falava nada de mais; nem de facto tal homem poderia falar demasiado, desde que permitisse aos outros desviar o curso da sua conversa, e isto ele permitia.

Lord Stanhope deu-me uma vez uma pequena prova curiosa da precisão e plenitude da memória de Macaulay: muitos historiadores costumavam encontrar-se frequentemente em casa de Lord Stanhope, e ao discutir vários assuntos por vezes discordavam de Macaulay, e antigamente recorriam frequentemente a algum livro para ver quem tinha razão; mas ultimamente, como notou Lord Stanhope, nenhum historiador se dava ao trabalho, e o que Macaulay dissesse era final.

Noutra ocasião, encontrei em casa de Lord Stanhope um dos seus grupos de historiadores e outros literatos, e entre eles estavam Motley e Grote. Após o almoço, caminhei por Chevening Park durante quase uma hora com Grote, e fiquei muito interessado pela sua conversa e satisfeito pela simplicidade e ausência de qualquer pretensão nas suas maneiras.

Há muito tempo, jantei ocasionalmente com o velho Conde, o pai do historiador; ele era um homem estranho, mas o pouco que sabia dele agradou-me muito. Ele era franco, jovial e agradável. Tinha traços fortemente marcados, com uma tez morena, e as suas roupas, quando o vi, eram todas castanhas. Parecia acreditar em tudo o que era para os outros totalmente inacreditável. Disse-me um dia: "Porque não desistes dessa tua treta de geologia e zoologia, e te voltas para as ciências ocultas!" O historiador, então Lord Mahon, pareceu chocado com tal discurso para comigo, e a sua encantadora esposa muito divertida.

O último homem que mencionarei é Carlyle, visto por mim várias vezes em casa do meu irmão, e duas ou três vezes em minha casa. A sua fala era muito viva e interessante, tal como os seus escritos, mas por vezes alongava-se demasiado no mesmo assunto. Lembro-me de um jantar divertido em casa do meu irmão, onde, entre alguns outros, estavam Babbage e Lyell, ambos os quais gostavam de falar. Carlyle, no entanto, silenciou todos ao discursar durante todo o jantar sobre as vantagens do silêncio. Depois do jantar, Babbage, da forma mais sombria, agradeceu a Carlyle pela sua interessantíssima palestra sobre o silêncio.

Carlyle zombava de quase todos: um dia, em minha casa, chamou à 'História' de Grote "um pântano fétido, sem nada de espiritual". Pensei sempre, até que as suas 'Reminiscências' apareceram, que os seus escárnios eram em parte piadas, mas isto parece agora algo duvidoso. A sua expressão era a de um homem deprimido, quase desanimado, mas benevolente; e é notório quão calorosamente ele ria. Acredito que a sua benevolência era real, embora manchada por não pouco ciúme. Ninguém pode duvidar do seu extraordinário poder de desenhar quadros de coisas e homens — muito mais vívidos, como me parece, do que quaisquer desenhados por Macaulay. Se os seus quadros de homens eram verdadeiros é outra questão.

Ele tem sido todo-poderoso em imprimir algumas grandes verdades morais nas mentes dos homens. Por outro lado, as suas opiniões sobre a escravatura eram revoltantes. Aos seus olhos, a força era o direito. A sua mente pareceu-me muito estreita; mesmo se todos os ramos da ciência, que ele desprezava, forem excluídos. É espantoso para mim que Kingsley tenha falado dele como um homem bem adaptado para fazer avançar a ciência. Ele riu-se com desdém da ideia de que um matemático, como Whewell, pudesse julgar, como eu defendia que ele podia, as opiniões de Goethe sobre a luz. Ele achava uma coisa muito ridícula que alguém se importasse se um glaciar se movia um pouco mais depressa ou um pouco mais devagar, ou se se movia de todo. Tanto quanto pude julgar, nunca conheci um homem com uma mente tão mal adaptada para a investigação científica.

Enquanto vivia em Londres, assisti tão regularmente quanto podia às reuniões de várias sociedades científicas e atuei como secretário da Sociedade Geológica. Mas tal assistência, e a sociedade comum, adequavam-se tão mal à minha saúde que decidimos viver no campo, o que ambos preferíamos e de que nunca nos arrependemos.

RESIDÊNCIA EM DOWN DESDE 14 DE SETEMBRO DE 1842, ATÉ AO PRESENTE, 1876.

Após várias buscas infrutíferas em Surrey e noutros lugares, encontrámos esta casa e comprámo-la. Agradou-me o aspeto diversificado da vegetação própria de um distrito calcário, e tão diferente do que eu estava habituado nos condados centrais; e ainda mais agradado com a extrema tranquilidade e rusticidade do lugar. Não é, contudo, um lugar tão isolado como um escritor num periódico alemão o faz parecer, que diz que a minha casa só pode ser acedida por um caminho de mulas! O nosso estabelecimento aqui resultou admiravelmente de uma forma que não previmos, nomeadamente, por ser muito conveniente para visitas frequentes dos nossos filhos.

Poucas pessoas terão vivido uma vida mais retirada do que a nossa. Além de breves visitas às casas de parentes, e ocasionalmente ao litoral ou a outros lugares, não fomos a lugar nenhum. Durante a primeira parte da nossa residência, participámos um pouco na sociedade e recebíamos alguns amigos aqui; mas a minha saúde sofria quase sempre com a agitação, sendo assim provocados ataques violentos de tremores e vómitos. Fui, portanto, obrigado durante muitos anos a renunciar a todos os jantares; e isso foi, de certa forma, uma privação para mim, já que tais festas sempre me deixavam com o espírito elevado. Pela mesma causa, pude convidar para cá muito poucos conhecidos da área científica.

O meu principal prazer e única ocupação ao longo da vida foi o trabalho científico; e a agitação desse trabalho faz-me esquecer por momentos, ou afasta completamente, o meu desconforto diário. Não tenho, pois, nada a registar durante o resto da minha vida, exceto a publicação dos meus vários livros. Talvez valha a pena dar alguns detalhes sobre como surgiram.

AS MINHAS VÁRIAS PUBLICAÇÕES.

No início de 1844, foram publicadas as minhas observações sobre as ilhas vulcânicas visitadas durante a viagem do "Beagle". Em 1845, esforcei-me muito na correção de uma nova edição do meu 'Journal of Researches', que fora originalmente publicado em 1839 como parte da obra de Fitz-Roy. O sucesso deste, o meu primeiro filho literário, faz sempre mais cócegas à minha vaidade do que o de qualquer dos meus outros livros. Até hoje, vende-se de forma constante em Inglaterra e nos Estados Unidos, e foi traduzido pela segunda vez para alemão, e para francês e outras línguas. Este sucesso de um livro de viagens, especialmente de um livro científico, tantos anos após a sua primeira publicação, é surpreendente. Dez mil exemplares foram vendidos em Inglaterra da segunda edição. Em 1846, foram publicadas as minhas 'Geological Observations on South America'. Registo num pequeno diário, que sempre mantive, que os meus três livros geológicos (incluindo 'Coral Reefs') consumiram quatro anos e meio de trabalho constante; "e agora fazem dez anos desde o meu regresso a Inglaterra. Quanto tempo perdi por doença?" Não tenho nada a dizer sobre estes três livros, exceto que, para minha surpresa, foram recentemente solicitadas novas edições. ('Geological Observations', 2ª Edição, 1876. 'Coral Reefs', 2ª Edição, 1874.)

Em outubro de 1846, comecei a trabalhar em 'Cirripedia'. Quando estava na costa do Chile, encontrei uma forma muito curiosa, que escavava as conchas de Concholepas, e que diferia tanto de todos os outros Cirripedia que tive de formar uma nova subordem apenas para a sua inclusão. Recentemente, foi encontrado um género escavador aliado nas costas de Portugal. Para compreender a estrutura do meu novo Cirripede, tive de examinar e dissecar muitas das formas comuns; e isso levou-me gradualmente a ocupar-me de todo o grupo. Trabalhei de forma constante neste assunto durante os oito anos seguintes e, por fim, publiquei dois volumes espessos (Publicados pela Ray Society), descrevendo todas as espécies vivas conhecidas, e dois volumes em quarto pequenos sobre as espécies extintas. Não duvido que Sir E. Lytton Bulwer tivesse pensado em mim quando introduziu num dos seus romances um Professor Long, que tinha escrito dois volumes enormes sobre lapas.

Embora tenha estado ocupado durante oito anos neste trabalho, registo no meu diário que cerca de dois anos desse tempo foram perdidos por doença. Por esta razão, fui em 1848 durante alguns meses a Malvern para tratamento hidropático, o que me fez muito bem, de modo que, ao regressar a casa, pude retomar o trabalho. Estava tão debilitado que, quando o meu querido pai faleceu a 13 de novembro de 1848, fui incapaz de comparecer ao seu funeral ou de atuar como um dos seus executores.

O meu trabalho sobre os Cirripedia possui, penso eu, um valor considerável, pois além de descrever várias formas novas e notáveis, determinei as homologias das várias partes — descobri o aparelho de cimentação, embora tenha cometido erros terríveis sobre as glândulas de cimento — e, por último, provei a existência, em certos géneros, de machos minúsculos complementares e parasitas dos hermafroditas. Esta última descoberta foi finalmente totalmente confirmada; embora, a dada altura, um escritor alemão se tenha comprazido em atribuir toda a descrição à minha fértil imaginação. Os Cirripedia formam um grupo de espécies altamente variável e difícil de classificar; e o meu trabalho foi-me de considerável utilidade quando tive de discutir, em 'Origin of Species', os princípios de uma classificação natural. No entanto, duvido que o trabalho tenha valido o consumo de tanto tempo.

Desde setembro de 1854, dediquei todo o meu tempo a organizar a minha enorme pilha de notas, a observar e a fazer experiências em relação à transmutação das espécies. Durante a viagem do "Beagle", tinha ficado profundamente impressionado ao descobrir na formação pampeana grandes animais fósseis cobertos por uma armadura semelhante à dos tatus existentes; em segundo lugar, pela forma como animais intimamente aliados substituem uns aos outros ao seguir para sul através do Continente; e, em terceiro lugar, pelo caráter sul-americano da maioria das produções do arquipélago das Galápagos e, mais especialmente, pela forma como diferem ligeiramente em cada ilha do grupo; nenhuma das ilhas parecendo ser muito antiga num sentido geológico.

Era evidente que tais factos como estes, bem como muitos outros, só podiam ser explicados sob a suposição de que as espécies se tornam gradualmente modificadas; e o assunto perseguia-me. Mas era igualmente evidente que nem a ação das condições circundantes, nem a vontade dos organismos (especialmente no caso das plantas) poderiam explicar os inúmeros casos em que organismos de todo o tipo estão maravilhosamente adaptados aos seus hábitos de vida — por exemplo, um pica-pau ou uma rã-das-árvores para trepar árvores, ou uma semente para dispersão por ganchos ou plumas. Sempre me impressionaram muito tais adaptações, e até que estas pudessem ser explicadas, parecia-me quase inútil tentar provar por provas indiretas que as espécies foram modificadas.

Após o meu regresso a Inglaterra, pareceu-me que, seguindo o exemplo de Lyell na Geologia e recolhendo todos os factos que se relacionavam de alguma forma com a variação dos animais e plantas sob domesticação e na natureza, alguma luz poderia talvez ser lançada sobre todo o assunto. O meu primeiro caderno de notas foi aberto em julho de 1837. Trabalhei segundo os verdadeiros princípios baconianos e, sem qualquer teoria, recolhi factos numa escala por grosso, especialmente no que diz respeito às produções domesticadas, através de inquéritos impressos, de conversas com criadores e jardineiros habilidosos e de uma leitura extensiva. Quando vejo a lista de livros de todos os tipos que li e resumi, incluindo séries completas de Jornais e Transações, fico surpreendido com a minha diligência. Percebi rapidamente que a seleção era a pedra angular do sucesso do homem na criação de raças úteis de animais e plantas. Mas como a seleção poderia ser aplicada a organismos que vivem em estado natural permaneceu por algum tempo um mistério para mim.

Em outubro de 1838, isto é, quinze meses depois de ter começado a minha investigação sistemática, aconteceu-me ler por diversão 'Malthus on Population', e estando bem preparado para apreciar a luta pela existência que ocorre por toda a parte a partir da observação de longa data dos hábitos dos animais e plantas, ocorreu-me imediatamente que, nestas circunstâncias, as variações favoráveis tenderiam a ser preservadas e as desfavoráveis a ser destruídas. O resultado disto seria a formação de novas espécies. Aqui, então, tinha finalmente obtido uma teoria pela qual trabalhar; mas estava tão ansioso por evitar preconceitos que determinei não escrever, durante algum tempo, nem o mais breve esboço da mesma. Em junho de 1842, permiti-me pela primeira vez a satisfação de escrever um resumo muito breve da minha teoria a lápis em 35 páginas; e este foi ampliado durante o verão de 1844 para um de 230 páginas, que mandei passar a limpo e ainda possuo.

Mas, nessa altura, negligenciei um problema de grande importância; e é surpreendente para mim, exceto pelo princípio de Colombo e o seu ovo, como pude tê-lo negligenciado e à sua solução. Este problema é a tendência dos seres orgânicos descendentes do mesmo tronco para divergirem em caráter à medida que se tornam modificados. Que divergiram muito é óbvio pela forma como as espécies de todos os tipos podem ser classificadas sob géneros, géneros sob famílias, famílias sob subordens, e assim por diante; e consigo recordar-me do local exato na estrada, enquanto estava na minha carruagem, quando, para minha alegria, a solução me ocorreu; e isto foi muito tempo depois de ter chegado a Down. A solução, creio eu, é que os descendentes modificados de todas as formas dominantes e crescentes tendem a tornar-se adaptados a muitos e altamente diversificados lugares na economia da natureza.

No início de 1856, Lyell aconselhou-me a escrever as minhas opiniões de forma bastante completa, e comecei imediatamente a fazê-lo numa escala três ou quatro vezes mais extensa do que aquela que foi posteriormente seguida em 'Origin of Species'; contudo, era apenas um resumo dos materiais que tinha recolhido, e completei cerca de metade do trabalho nesta escala. Mas os meus planos foram derrubados, pois, no início do verão de 1858, o Sr. Wallace, que estava então no arquipélago malaio, enviou-me um ensaio "On the Tendency of Varieties to depart indefinitely from the Original Type"; e este ensaio continha exatamente a mesma teoria que a minha. O Sr. Wallace expressou o desejo de que, se eu tivesse uma boa opinião do seu ensaio, o enviasse a Lyell para leitura.

As circunstâncias sob as quais consenti, a pedido de Lyell e Hooker, em permitir que um resumo do meu manuscrito, juntamente com uma carta a Asa Gray, datada de 5 de setembro de 1857, fosse publicado ao mesmo tempo que o Ensaio de Wallace, estão dadas no 'Journal of the Proceedings of the Linnean Society', 1858, página 45. Fiquei inicialmente muito relutante em consentir, pois pensei que o Sr. Wallace poderia considerar o meu ato injustificável, pois eu não conhecia então quão generosa e nobre era a sua disposição. O extrato do meu manuscrito e a carta a Asa Gray não tinham sido destinados à publicação e estavam mal escritos. O ensaio do Sr. Wallace, por outro lado, estava admiravelmente expresso e muito claro. No entanto, as nossas produções conjuntas suscitaram muito pouca atenção, e a única menção publicada das mesmas de que me consigo recordar foi do Professor Haughton de Dublin, cujo veredito foi que tudo o que era novo nelas era falso, e o que era verdadeiro era velho. Isto mostra quão necessário é que qualquer nova visão seja explicada com considerável extensão, a fim de despertar a atenção pública.

Em setembro de 1858, comecei a trabalhar, por forte conselho de Lyell e Hooker, na preparação de um volume sobre a transmutação das espécies, mas fui frequentemente interrompido por má saúde e breves visitas ao delicioso estabelecimento hidropático do Dr. Lane em Moor Park. Resumi o manuscrito começado numa escala muito maior em 1856 e completei o volume na mesma escala reduzida. Custou-me treze meses e dez dias de trabalho árduo. Foi publicado sob o título 'Origin of Species', em novembro de 1859. Embora consideravelmente acrescentado e corrigido nas edições posteriores, permaneceu substancialmente o mesmo livro.

É, sem dúvida, a principal obra da minha vida. Foi desde o início altamente bem-sucedida. A primeira pequena edição de 1250 exemplares foi vendida no dia da publicação, e uma segunda edição de 3000 exemplares pouco depois. Dezasseis mil exemplares foram agora (1876) vendidos em Inglaterra; e, considerando quão denso é o livro, esta é uma grande venda. Foi traduzido para quase todas as línguas europeias, até mesmo para línguas como o espanhol, o boémio, o polaco e o russo. Foi também, de acordo com a Srta. Bird, traduzido para japonês (a Srta. Bird está enganada, conforme aprendi com o Prof. Mitsukuri — F.D.), e é lá muito estudado. Até apareceu um ensaio em hebraico sobre ele, mostrando que a teoria está contida no Antigo Testamento! As críticas foram muito numerosas; durante algum tempo, recolhi tudo o que apareceu sobre a 'Origin' e sobre os meus livros relacionados, e estes ascendem (excluindo as críticas de jornais) a 265; mas, passado algum tempo, desisti da tentativa em desespero. Muitos ensaios e livros separados sobre o assunto apareceram; e, na Alemanha, um catálogo ou bibliografia sobre "Darwinismus" tem aparecido a cada um ou dois anos.

O sucesso da 'Origin' pode, creio eu, ser atribuído em grande parte ao facto de eu ter escrito muito antes dois esboços condensados, e de ter finalmente resumido um manuscrito muito maior, que era ele próprio um resumo. Por este meio, fui capaz de selecionar os factos e conclusões mais marcantes. Tinha também, durante muitos anos, seguido uma regra de ouro, a saber, que sempre que um facto publicado, uma nova observação ou pensamento me surgia, que fosse oposto aos meus resultados gerais, fazer um memorando do mesmo sem falta e de imediato; pois tinha descoberto pela experiência que tais factos e pensamentos eram muito mais propensos a escapar da memória do que os favoráveis. Devido a este hábito, foram levantadas muito poucas objeções contra as minhas visões que eu não tivesse pelo menos notado e tentado responder.

Tem-se dito por vezes que o sucesso da 'Origin' provou "que o assunto estava no ar", ou "que as mentes dos homens estavam preparadas para ele". Não penso que isto seja estritamente verdade, pois sondei ocasionalmente não poucos naturalistas e nunca me aconteceu encontrar um único que parecesse duvidar da permanência das espécies. Mesmo Lyell e Hooker, embora me ouvissem com interesse, nunca pareceram concordar. Tentei uma ou duas vezes explicar a homens capazes o que queria dizer com Seleção Natural, mas falhei redondamente. O que creio ser estritamente verdade é que inúmeros factos bem observados estavam armazenados nas mentes dos naturalistas, prontos a ocupar os seus devidos lugares assim que qualquer teoria que os recebesse fosse suficientemente explicada. Outro elemento no sucesso do livro foi o seu tamanho moderado; e isto devo-o ao aparecimento do ensaio do Sr. Wallace; se tivesse publicado na escala em que comecei a escrever em 1856, o livro teria sido quatro ou cinco vezes maior do que a 'Origin', e muito poucos teriam tido a paciência de o ler.

Ganhei muito com o meu atraso na publicação desde cerca de 1839, quando a teoria foi claramente concebida, até 1859; e não perdi nada com isso, pois importava-me muito pouco se os homens atribuíam mais originalidade a mim ou a Wallace; e o seu ensaio, sem dúvida, ajudou na receção da teoria. Fui antecipado em apenas um ponto importante, o que a minha vaidade sempre me fez lamentar, a saber, a explicação por meio do período Glacial da presença da mesma espécie de plantas e de alguns poucos animais em cumes de montanhas distantes e nas regiões árticas. Esta visão agradou-me tanto que a escrevi in extenso, e creio que foi lida por Hooker alguns anos antes de E. Forbes ter publicado a sua célebre memória ('Geolog. Survey Mem.', 1846) sobre o assunto. Nos raros pontos em que diferíamos, continuo a pensar que eu estava no caminho certo. Nunca, claro, aludi na imprensa ao facto de ter trabalhado de forma independente nesta visão.

Dificilmente qualquer ponto me deu tanta satisfação quando estava a trabalhar na 'Origin' como a explicação da vasta diferença em muitas classes entre o embrião e o animal adulto, e da semelhança estreita dos embriões dentro da mesma classe. Nenhuma atenção foi dada a este ponto, tanto quanto me recordo, nas primeiras críticas da 'Origin', e recordo-me de expressar a minha surpresa a este respeito numa carta a Asa Gray. Nos últimos anos, vários críticos deram todo o crédito a Fritz Muller e Haeckel, que indubitavelmente o desenvolveram de forma muito mais completa e, em alguns aspetos, mais corretamente do que eu. Tinha materiais para um capítulo inteiro sobre o assunto e devia ter tornado a discussão mais longa; pois é claro que falhei em impressionar os meus leitores; e aquele que consegue fazê-lo merece, na minha opinião, todo o crédito.

Isto leva-me a notar que tenho sido quase sempre tratado honestamente pelos meus críticos, ignorando aqueles sem conhecimento científico por não serem dignos de nota. As minhas visões foram frequentemente grosseiramente deturpadas, amargamente opostas e ridicularizadas, mas isto foi geralmente feito, creio eu, de boa-fé. No geral, não duvido que os meus trabalhos tenham sido repetidamente muito sobreavaliados. Regozijo-me por ter evitado controvérsias, e isto devo-o a Lyell, que há muitos anos, em referência às minhas obras geológicas, me aconselhou vivamente a nunca me envolver numa controvérsia, pois raramente fazia algum bem e causava uma perda miserável de tempo e de paciência.

Sempre que descobri que cometi erros, ou que o meu trabalho foi imperfeito, e quando fui criticado com desprezo, e até mesmo quando fui sobreavaliado, de modo que me senti mortificado, o meu maior conforto foi dizer centenas de vezes a mim próprio que "trabalhei o mais arduamente e o melhor que pude, e nenhum homem pode fazer mais do que isto". Recordo-me de, quando estava em Good Success Bay, na Terra do Fogo, pensar (e, creio eu, escrevi para casa nesse sentido) que não poderia empregar a minha vida melhor do que acrescentando um pouco à Ciência Natural. Isto fi-lo de acordo com as minhas melhores capacidades, e os críticos podem dizer o que quiserem, mas não podem destruir esta convicção.

Durante os dois últimos meses de 1859, estive totalmente ocupado na preparação de uma segunda edição da 'Origin' e com uma correspondência enorme. A 1 de janeiro de 1860, comecei a organizar as minhas notas para o meu trabalho sobre a 'Variation of Animals and Plants under Domestication'; mas não foi publicado até ao início de 1868; o atraso tendo sido causado em parte por frequentes doenças, uma das quais durou sete meses, e em parte por ter sido tentado a publicar sobre outros assuntos que, na altura, me interessavam mais.

A 15 de maio de 1862, foi publicado o meu pequeno livro sobre a 'Fertilisation of Orchids', que me custou dez meses de trabalho: a maioria dos factos tinha sido lentamente acumulada durante vários anos anteriores. Durante o verão de 1839, e, creio eu, durante o verão anterior, fui levado a prestar atenção à fertilização cruzada de flores com a ajuda de insetos, por ter chegado à conclusão, nas minhas especulações sobre a origem das espécies, de que o cruzamento desempenhava um papel importante na manutenção das formas específicas constantes. Prestei atenção ao assunto mais ou menos durante cada verão subsequente; e o meu interesse pelo mesmo foi grandemente realçado por ter obtido e lido, em novembro de 1841, através do conselho de Robert Brown, um exemplar do maravilhoso livro de C.K. Sprengel, 'Das entdeckte Geheimniss der Natur'. Durante alguns anos antes de 1862, tinha prestado atenção especial à fertilização das nossas orquídeas britânicas; e pareceu-me o melhor plano preparar um tratado tão completo sobre este grupo de plantas quanto pudesse, em vez de utilizar a grande massa de matéria que tinha lentamente recolhido no que respeita a outras plantas.

A minha decisão provou ser sensata; pois, desde o aparecimento do meu livro, um número surpreendente de artigos e obras separadas sobre a fertilização de todo o tipo de flores apareceu: e estas estão muito melhor feitas do que eu poderia possivelmente ter conseguido. Os méritos do velho e pobre Sprengel, tão longamente ignorados, são agora totalmente reconhecidos muitos anos após a sua morte.

Durante o mesmo ano, publiquei no 'Journal of the Linnean Society' um artigo "Sobre as Duas Formas, ou Condição Dimórfica da Primula", e durante os cinco anos seguintes, cinco outros artigos sobre plantas dimórficas e trimórficas. Não creio que algo na minha vida científica me tenha dado tanta satisfação como desvendar o significado da estrutura destas plantas. Eu tinha notado em 1838 ou 1839 o dimorfismo da Linum flavum, e a princípio pensara que se tratava apenas de um caso de variabilidade sem sentido. Mas, ao examinar a espécie comum de Primula, descobri que as duas formas eram demasiado regulares e constantes para serem vistas dessa maneira. Fiquei, portanto, quase convencido de que a cowslip e a primrose comuns estavam no bom caminho para se tornarem dioicas; de que o pistilo curto numa das formas, e os estames curtos na outra, tendiam para a atrofia. As plantas foram, por conseguinte, submetidas a ensaios sob este ponto de vista; mas assim que as flores com pistilos curtos fertilizadas com pólen dos estames curtos se revelaram produzir mais sementes do que qualquer outra das quatro uniões possíveis, a teoria da atrofia foi por terra. Após alguma experimentação adicional, tornou-se evidente que as duas formas, embora ambas fossem hermafroditas perfeitas, guardavam quase a mesma relação uma com a outra que os dois sexos de um animal comum. Com a Lythrum, temos o caso ainda mais maravilhoso de três formas que guardam uma relação semelhante entre si. Descobri mais tarde que a descendência do cruzamento de duas plantas pertencentes às mesmas formas apresentava uma analogia estreita e curiosa com os híbridos do cruzamento de duas espécies distintas.

No outono de 1864, terminei um longo artigo sobre 'Plantas Trepadeiras' e enviei-o à Linnean Society. A redação deste trabalho custou-me quatro meses; mas eu estava tão indisposto quando recebi as provas de impressão que fui forçado a deixá-las muito mal e muitas vezes obscuramente expressas. O artigo foi pouco notado, mas quando em 1875 foi corrigido e publicado como um livro separado, vendeu bem. Fui levado a dedicar-me a este assunto pela leitura de um pequeno artigo de Asa Gray, publicado em 1858. Ele enviou-me sementes e, ao cultivar algumas plantas, fiquei tão fascinado e perplexo com os movimentos rotativos das gavinhas e dos caules — movimentos que são, na verdade, muito simples, embora pareçam à primeira vista muito complexos — que adquiri vários outros tipos de plantas trepadeiras e estudei todo o assunto. Senti-me ainda mais atraído por ele por não estar nada satisfeito com a explicação que Henslow nos deu nas suas aulas sobre plantas que se enrolam, a saber, que tinham uma tendência natural para crescer em espiral. Esta explicação provou ser completamente errada. Algumas das adaptações exibidas pelas Plantas Trepadeiras são tão belas como as das Orquídeas para garantir a fertilização cruzada.

O meu livro 'Variação dos Animais e Plantas sob Domesticação' foi começado, como já foi dito, no início de 1860, mas só foi publicado no início de 1868. Era um livro grande e custou-me quatro anos e dois meses de trabalho árduo. Apresenta todas as minhas observações e um número imenso de factos recolhidos de várias fontes sobre as nossas produções domésticas. No segundo volume, as causas e as leis da variação, hereditariedade, etc., são discutidas até onde o nosso estado atual de conhecimento o permite. Perto do fim da obra, apresento a minha tão criticada hipótese da Pangénese. Uma hipótese não verificada tem pouco ou nenhum valor; mas se alguém for levado no futuro a fazer observações pelas quais tal hipótese possa ser estabelecida, terei prestado um bom serviço, pois um número surpreendente de factos isolados pode ser assim ligado e tornado inteligível. Em 1875, foi lançada uma segunda edição, largamente corrigida, que me custou bastante trabalho.

O meu 'A Descendência do Homem' foi publicado em fevereiro de 1871. Assim que me convenci, no ano de 1837 ou 1838, de que as espécies eram produções mutáveis, não pude evitar a crença de que o homem devia estar sujeito à mesma lei. Em conformidade, recolhi notas sobre o assunto para minha própria satisfação, e não durante muito tempo com qualquer intenção de publicar. Embora na 'Origem das Espécies' a derivação de qualquer espécie em particular nunca seja discutida, achei melhor, para que nenhum homem honrado me acusasse de ocultar as minhas opiniões, acrescentar que pela obra "seria lançada luz sobre a origem do homem e a sua história". Teria sido inútil e prejudicial para o sucesso do livro ter alardeado, sem apresentar qualquer prova, a minha convicção relativamente à sua origem.

Mas quando descobri que muitos naturalistas aceitavam plenamente a doutrina da evolução das espécies, pareceu-me aconselhável compilar as notas que possuía e publicar um tratado especial sobre a origem do homem. Fiquei tanto mais satisfeito por o fazer quanto isso me deu a oportunidade de discutir plenamente a seleção sexual — um assunto que sempre me interessara muito. Este assunto, e o da variação das nossas produções domésticas, juntamente com as causas e leis da variação, hereditariedade e o cruzamento de plantas, são os únicos temas sobre os quais pude escrever na íntegra, de modo a utilizar todos os materiais que recolhi. O 'A Descendência do Homem' levou-me três anos a escrever, mas, como de costume, parte deste tempo perdeu-se devido a problemas de saúde, e outra parte foi consumida na preparação de novas edições e outras obras menores. Uma segunda edição, largamente corrigida, da 'Descendência' apareceu em 1874.

O meu livro sobre a 'Expressão das Emoções no Homem e nos Animais' foi publicado no outono de 1872. Eu pretendia incluir apenas um capítulo sobre o assunto no 'A Descendência do Homem', mas assim que comecei a reunir as minhas notas, vi que seria necessário um tratado separado.

O meu primeiro filho nasceu a 27 de dezembro de 1839, e comecei imediatamente a tomar notas sobre o primeiro despontar das várias expressões que ele exibia, pois sentia-me convencido, mesmo nesta fase inicial, de que os matizes mais complexos e subtis da expressão deviam ter tido todos uma origem gradual e natural. Durante o verão do ano seguinte, 1840, li a admirável obra do Sir C. Bell sobre a expressão, e isto aumentou muito o interesse que eu sentia pelo assunto, embora eu não pudesse de modo algum concordar com a sua crença de que vários músculos tinham sido especialmente criados para fins de expressão. A partir desse momento, dediquei-me ocasionalmente ao assunto, tanto no que diz respeito ao homem como aos nossos animais domesticados. O meu livro vendeu-se largamente; 5267 exemplares foram adquiridos no dia da publicação.

No verão de 1860, eu estava a descansar perto de Hartfield, onde abundam duas espécies de Drosera; e notei que numerosos insetos tinham sido aprisionados pelas folhas. Levei algumas plantas para casa e, ao dar-lhes insetos, vi os movimentos dos tentáculos, o que me fez pensar ser provável que os insetos fossem capturados para algum propósito especial. Felizmente, ocorreu-me um teste crucial, o de colocar um grande número de folhas em vários fluidos azotados e não azotados de igual densidade; e assim que descobri que apenas os primeiros excitavam movimentos energéticos, tornou-se óbvio que ali estava um belo campo novo para investigação.

Durante os anos seguintes, sempre que tinha lazer, prossegui com as minhas experiências, e o meu livro sobre 'Plantas Insectívoras' foi publicado em julho de 1875 — isto é, dezasseis anos após as minhas primeiras observações. O atraso neste caso, como em todos os meus outros livros, foi uma grande vantagem para mim; pois um homem, após um longo intervalo, pode criticar o seu próprio trabalho quase tão bem como se fosse o de outra pessoa. O facto de uma planta secretar, quando devidamente excitada, um fluido contendo um ácido e um fermento, estreitamente análogo ao fluido digestivo de um animal, foi certamente uma descoberta notável.

Durante este outono de 1876, publicarei sobre os 'Efeitos da Fertilização Cruzada e Auto-Fertilização no Reino Vegetal'. Este livro formará um complemento ao da 'Fertilização das Orquídeas', no qual mostrei quão perfeitos eram os meios para a fertilização cruzada, e aqui mostrarei quão importantes são os resultados. Fui levado a realizar, durante onze anos, as numerosas experiências registadas neste volume por uma mera observação acidental; e, de facto, foi necessário que o acidente se repetisse para que a minha atenção fosse totalmente despertada para o facto notável de que as plântulas de ascendência auto-fertilizada são inferiores, mesmo na primeira geração, em altura e vigor às plântulas de ascendência fertilizada cruzadamente. Espero também republicar uma edição revista do meu livro sobre as Orquídeas, e mais tarde os meus artigos sobre plantas dimórficas e trimórficas, juntamente com algumas observações adicionais sobre pontos afins que nunca tive tempo de organizar. As minhas forças estarão então provavelmente esgotadas, e estarei pronto para exclamar "Nunc dimittis".

ESCRITO A 1 DE MAIO DE 1881.

Os 'Efeitos da Fertilização Cruzada e Auto-Fertilização' foram publicados no outono de 1876; e os resultados aí alcançados explicam, creio eu, os infinitos e maravilhosos estratagemas para o transporte de pólen de uma planta para outra da mesma espécie. Agora creio, contudo, principalmente devido às observações de Hermann Muller, que deveria ter insistido mais fortemente do que fiz nas muitas adaptações para a auto-fertilização; embora eu estivesse bem ciente de muitas dessas adaptações. Uma edição muito aumentada da minha 'Fertilização das Orquídeas' foi publicada em 1877.

Neste mesmo ano, apareceu 'As Diferentes Formas de Flores, etc.', e em 1880 uma segunda edição. Este livro consiste principalmente nos vários artigos sobre flores heterostiladas originalmente publicados pela Linnean Society, corrigidos, com muito material novo acrescentado, juntamente com observações sobre alguns outros casos em que a mesma planta possui dois tipos de flores. Como observado anteriormente, nenhuma descoberta minha me deu tanto prazer como a de desvendar o significado das flores heterostiladas. Os resultados do cruzamento de tais flores de uma maneira ilegítima, creio serem muito importantes, no que diz respeito à esterilidade dos híbridos; embora estes resultados tenham sido notados por apenas algumas pessoas.

Em 1879, mandei publicar uma tradução da 'Vida de Erasmus Darwin', do Dr. Ernst Krause, e acrescentei um esboço do seu caráter e hábitos a partir de material que possuía. Muitas pessoas ficaram muito interessadas por esta pequena vida, e estou surpreendido por apenas 800 ou 900 cópias terem sido vendidas.

Em 1880, publiquei, com a ajuda [do meu filho] Frank, o nosso 'Poder de Movimento nas Plantas'. Este foi um trabalho árduo. O livro guarda uma relação um tanto semelhante com o meu pequeno livro sobre 'Plantas Trepadeiras' do que a 'Fertilização Cruzada' teve com a 'Fertilização das Orquídeas'; pois, de acordo com o princípio da evolução, era impossível explicar que as plantas trepadeiras tivessem sido desenvolvidas em tantos grupos amplamente diferentes, a menos que todos os tipos de plantas possuíssem algum ligeiro poder de movimento de um tipo análogo. Provou-se que este era o caso; e fui ainda levado a uma generalização bastante vasta, a saber, que as grandes e importantes classes de movimentos, excitados pela luz, a atração da gravidade, etc., são todas formas modificadas do movimento fundamental da circumnutação. Sempre me aprouve elevar as plantas na escala dos seres organizados; e senti, por isso, um prazer especial em mostrar quantos e que movimentos admiravelmente bem adaptados a ponta de uma raiz possui.

Tenho agora (1 de maio de 1881) enviado para a tipografia o manuscrito de um pequeno livro sobre 'A Formação de Terra Vegetal, através da Ação das Minhocas'. Este é um assunto de pequena importância; e não sei se interessará a algum leitor (Entre novembro de 1881 e fevereiro de 1884, foram vendidas 8500 cópias.), mas interessou-me a mim. É a conclusão de um pequeno artigo lido perante a Sociedade Geológica há mais de quarenta anos, e reavivou velhos pensamentos geológicos.

Já mencionei todos os livros que publiquei, e estes foram os marcos da minha vida, pelo que pouco resta a dizer. Não tenho consciência de qualquer mudança na minha mente durante os últimos trinta anos, exceto num ponto a mencionar de seguida; nem, na verdade, se poderia esperar qualquer mudança, a menos que fosse de uma deterioração geral. Mas o meu pai viveu até ao seu octogésimo terceiro ano com a mente tão viva como sempre, e todas as suas faculdades sem obscurecimento; e espero morrer antes que a minha mente falhe num grau percetível. Penso que me tornei um pouco mais habilidoso a adivinhar as explicações corretas e a conceber testes experimentais; mas isto poderá ser provavelmente o resultado de pura prática e de um maior depósito de conhecimento. Tenho tanta dificuldade como sempre em expressar-me clara e concisamente; e esta dificuldade causou-me uma perda de tempo muito grande; mas teve a vantagem compensatória de me obrigar a pensar longa e intensamente sobre cada frase, e assim fui levado a ver erros no raciocínio e nas minhas próprias observações ou nas de outros.

Parece haver uma espécie de fatalidade na minha mente que me leva a colocar, de início, a minha declaração ou proposição numa forma errada ou estranha. Antigamente, eu costumava pensar nas minhas frases antes de as escrever; mas há vários anos que descobri que poupa tempo rabiscar com uma letra terrível páginas inteiras o mais rapidamente que posso, contraindo metade das palavras; e depois corrigir deliberadamente. As frases assim rabiscadas são frequentemente melhores do que aquelas que eu teria escrito deliberadamente.

Tendo dito tanto sobre o meu modo de escrever, acrescentarei que, com os meus grandes livros, passo muito tempo com a organização geral da matéria. Faço primeiro o esboço mais rudimentar em duas ou três páginas, e depois um maior em várias páginas, com algumas palavras ou uma palavra a representar uma discussão inteira ou uma série de factos. Cada um destes cabeçalhos é novamente ampliado e muitas vezes transferido antes de eu começar a escrever extensivamente. Como em vários dos meus livros os factos observados por outros foram muito extensivamente utilizados, e como tive sempre vários assuntos bastante distintos em mãos ao mesmo tempo, posso mencionar que guardo de trinta a quarenta grandes pastas, em armários com prateleiras etiquetadas, nas quais posso imediatamente colocar uma referência ou memorando destacado. Comprei muitos livros e, nos seus finais, faço um índice de todos os factos que dizem respeito ao meu trabalho; ou, se o livro não for meu, escrevo um resumo separado, e desses resumos tenho uma gaveta grande cheia. Antes de começar qualquer assunto, olho para todos os pequenos índices e faço um índice geral e classificado, e ao pegar na pasta ou pastas apropriadas, tenho toda a informação recolhida durante a minha vida pronta a utilizar.

Disse que, num aspeto, a minha mente mudou durante os últimos vinte ou trinta anos. Até à idade de trinta anos, ou mais, a poesia de muitos tipos, como as obras de Milton, Gray, Byron, Wordsworth, Coleridge e Shelley, dava-me grande prazer, e mesmo como estudante, sentia um prazer intenso com Shakespeare, especialmente nas peças históricas. Também disse que, antigamente, as pinturas me davam um prazer considerável e a música um prazer muito grande. Mas agora, há muitos anos, não consigo suportar ler um verso de poesia: tentei ultimamente ler Shakespeare e achei-o tão intoleravelmente aborrecido que me causou náuseas. Também perdi quase todo o gosto por quadros ou música. A música geralmente leva-me a pensar demasiado energeticamente naquilo em que estive a trabalhar, em vez de me dar prazer. Conservo algum gosto por paisagens bonitas, mas não me causa o prazer requintado que me causava anteriormente. Por outro lado, os romances, que são obras de imaginação, embora não de uma ordem muito elevada, têm sido durante anos um maravilhoso alívio e prazer para mim, e abençoo frequentemente todos os romancistas. Um número surpreendente deles foi-me lido em voz alta, e gosto de todos se forem moderadamente bons, e se não terminarem de forma infeliz — contra o que deveria ser aprovada uma lei. Um romance, segundo o meu gosto, não entra na primeira categoria a menos que contenha alguma pessoa que se possa amar profundamente, e se for uma mulher bonita, tanto melhor.

Esta curiosa e lamentável perda dos gostos estéticos superiores é tanto mais estranha quanto os livros de história, biografias e viagens (independentemente de quaisquer factos científicos que possam conter), e os ensaios sobre todo o tipo de assuntos me interessam tanto como sempre interessaram. A minha mente parece ter-se tornado uma espécie de máquina para extrair leis gerais de grandes coleções de factos, mas por que razão isto deveria ter causado a atrofia daquela parte do cérebro apenas, da qual dependem os gostos superiores, não consigo conceber. Um homem com uma mente mais altamente organizada ou melhor constituída do que a minha não teria, suponho, sofrido assim; e se eu tivesse de viver a minha vida novamente, teria feito uma regra de ler um pouco de poesia e ouvir um pouco de música pelo menos uma vez por semana; pois talvez as partes do meu cérebro agora atrofiadas tivessem sido mantidas ativas pelo uso. A perda destes gostos é uma perda de felicidade, e pode possivelmente ser prejudicial para o intelecto, e mais provavelmente para o caráter moral, ao debilitar a parte emocional da nossa natureza.

Os meus livros venderam-se largamente em Inglaterra, foram traduzidos para muitas línguas e passaram por várias edições em países estrangeiros. Ouvi dizer que o sucesso de uma obra no estrangeiro é o melhor teste do seu valor duradouro. Duvido que isto seja de alguma forma digno de confiança; mas, julgado por este critério, o meu nome deveria durar por alguns anos. Portanto, pode valer a pena tentar analisar as qualidades mentais e as condições das quais o meu sucesso dependeu; embora esteja consciente de que nenhum homem pode fazer isto corretamente.

Não tenho uma grande rapidez de apreensão ou sagacidade, que é tão notável em alguns homens inteligentes, por exemplo, Huxley. Sou, portanto, um fraco crítico: um artigo ou livro, quando lido pela primeira vez, geralmente excita a minha admiração, e é apenas após considerável reflexão que percebo os pontos fracos. O meu poder para seguir um encadeamento de pensamentos longo e puramente abstrato é muito limitado; e, por isso, nunca poderia ter tido sucesso com a metafísica ou a matemática. A minha memória é extensa, mas nebulosa: basta para me tornar cauteloso, dizendo-me vagamente que observei ou li algo oposto à conclusão que estou a tirar, ou, por outro lado, a favor dela; e, após algum tempo, consigo geralmente recordar onde procurar a minha autoridade. Tão fraca é, num sentido, a minha memória, que nunca fui capaz de recordar durante mais de alguns dias uma única data ou um verso de poesia.

Alguns dos meus críticos disseram: "Oh, ele é um bom observador, mas não tem poder de raciocínio!" Não creio que isto possa ser verdade, pois a 'Origem das Espécies' é um longo argumento do princípio ao fim, e convenceu não poucos homens capazes. Ninguém poderia tê-la escrito sem ter algum poder de raciocínio. Tenho uma dose razoável de invenção e de senso comum ou julgamento, tal como qualquer advogado ou médico bastante bem-sucedido deve ter, mas não, creio, num grau superior.

No lado favorável da balança, penso que sou superior ao comum dos homens a notar coisas que escapam facilmente à atenção, e a observá-las cuidadosamente. A minha indústria tem sido quase tão grande quanto poderia ter sido na observação e recolha de factos. O que é muito mais importante, o meu amor pela ciência natural tem sido constante e ardente.

Este amor puro, contudo, tem sido muito auxiliado pela ambição de ser estimado pelos meus colegas naturalistas. Desde a minha tenra juventude, tive o desejo mais forte de compreender ou explicar tudo o que observava — isto é, agrupar todos os factos sob algumas leis gerais. Estas causas combinadas deram-me a paciência para refletir ou ponderar, durante qualquer número de anos, sobre qualquer problema inexplicado. Tanto quanto posso julgar, não sou propenso a seguir cegamente a liderança de outros homens. Esforcei-me constantemente por manter a minha mente livre, de modo a abandonar qualquer hipótese, por muito acarinhada que fosse (e não consigo resistir a formar uma sobre qualquer assunto), logo que os factos se mostrassem contrários a ela. De facto, não tive outra escolha senão agir desta maneira, pois, com a exceção dos Recifes de Coral, não consigo recordar-me de uma única hipótese formada inicialmente que não tivesse, após algum tempo, de ser abandonada ou grandemente modificada. Isto levou-me naturalmente a desconfiar muito do raciocínio dedutivo nas ciências mistas. Por outro lado, não sou muito cético — um estado de espírito que acredito ser prejudicial ao progresso da ciência. Uma boa dose de ceticismo num homem de ciência é aconselhável para evitar muita perda de tempo, mas encontrei não poucos homens que, estou certo, foram muitas vezes dissuadidos por este meio de realizar experiências ou observações que teriam sido direta ou indiretamente úteis.

Como ilustração, darei o caso mais estranho que conheci. Um cavalheiro (que, como soube mais tarde, é um bom botânico local) escreveu-me dos condados do Leste a dizer que as sementes ou favas da fava-comum tinham, este ano, crescido em toda a parte do lado errado da vagem. Respondi-lhe, pedindo mais informações, pois não compreendia o que se queria dizer; mas não recebi qualquer resposta durante muito tempo. Vi então em dois jornais, um publicado em Kent e o outro em Yorkshire, parágrafos afirmando que era um facto notabilíssimo que "as favas este ano tinham crescido todas do lado errado". Pensei, pois, que devia haver algum fundamento para uma afirmação tão geral. Consequentemente, fui ter com o meu jardineiro, um velho homem de Kent, e perguntei-lhe se tinha ouvido algo a esse respeito, ao que ele respondeu: "Oh, não, senhor, deve ser um engano, pois as favas só crescem do lado errado em ano bissexto, e este não é um ano bissexto." Perguntei-lhe então como cresciam nos anos comuns e como nos anos bissextos, mas depressa descobri que ele não sabia absolutamente nada sobre como cresciam em qualquer altura, mas manteve a sua crença.

Passado algum tempo, recebi notícias do meu primeiro informador, que, com muitas desculpas, disse que não me teria escrito se não tivesse ouvido a afirmação de vários agricultores inteligentes; mas que, desde então, tinha falado novamente com cada um deles, e nenhum deles sabia minimamente o que tinha querido dizer. De modo que aqui uma crença — se é que uma afirmação sem qualquer ideia definida a ela associada pode ser chamada de crença — se tinha espalhado por quase toda a Inglaterra sem qualquer vestígio de prova.

Conheci, no decurso da minha vida, apenas três afirmações intencionalmente falsificadas, e uma delas pode ter sido uma partida (e houve várias partidas científicas) que, contudo, enganou um Jornal Agrícola Americano. Relacionava-se com a formação na Holanda de uma nova raça de bois através do cruzamento de espécies distintas de Bos (algumas das quais, por acaso, sei que são estéreis entre si), e o autor teve a audácia de afirmar que tinha correspondido comigo e que eu tinha ficado profundamente impressionado com a importância do seu resultado. O artigo foi-me enviado pelo editor de um Jornal Agrícola inglês, pedindo a minha opinião antes de o voltar a publicar.

Um segundo caso foi o relato de várias variedades, criadas pelo autor a partir de várias espécies de Primula, que tinham produzido espontaneamente uma quota completa de sementes, embora as plantas progenitoras tivessem sido cuidadosamente protegidas do acesso de insetos. Este relato foi publicado antes de eu ter descoberto o significado da heterostilia, e toda a afirmação deve ter sido fraudulenta, ou então houve uma negligência na exclusão dos insetos tão grosseira que é quase inacreditável.

O terceiro caso foi mais curioso: o Sr. Huth publicou no seu livro 'Consanguineous Marriage' alguns longos extratos de um autor belga, que afirmava ter cruzado coelhos da maneira mais próxima durante muitas gerações, sem os mínimos efeitos nocivos. O relato foi publicado num jornal muito respeitável, o da Royal Society da Bélgica; mas não pude evitar sentir dúvidas — dificilmente sei porquê, exceto pelo facto de não haver acidentes de qualquer tipo, e a minha experiência na criação de animais fez-me achar isto muito improvável.

Por isso, com muita hesitação, escrevi ao Professor Van Beneden, perguntando-lhe se o autor era um homem de confiança. Depressa recebi como resposta que a Sociedade tinha ficado muito chocada ao descobrir que todo o relato era uma fraude. (A falsidade das afirmações publicadas nas quais o Sr. Huth se baseou foi assinalada pelo próprio num folheto inserido em todos os exemplares do seu livro que restavam por vender.) O escritor tinha sido publicamente desafiado no Jornal a dizer onde tinha residido e mantido o seu grande stock de coelhos enquanto realizava as suas experiências, que devem ter consumido vários anos, e não foi possível extrair dele qualquer resposta.

Os meus hábitos são metódicos, e isto tem sido de não pouca utilidade para a minha linha de trabalho específica. Por último, tive um amplo lazer por não ter de ganhar o meu próprio pão. Mesmo a má saúde, embora tenha aniquilado vários anos da minha vida, salvou-me das distrações da sociedade e do divertimento.

Portanto, o meu sucesso como homem de ciência, qualquer que tenha sido o seu alcance, foi determinado, tanto quanto posso julgar, por qualidades e condições mentais complexas e diversificadas. Destas, as mais importantes foram: o amor pela ciência — paciência ilimitada ao refletir longamente sobre qualquer assunto — diligência na observação e recolha de factos — e uma quota razoável de invenção, bem como de senso comum. Com capacidades tão moderadas como as que possuo, é verdadeiramente surpreendente que eu tenha influenciado, em larga medida, a crença dos homens de ciência em alguns pontos importantes.

CAPÍTULO 1.III. — REMINISCÊNCIAS DA VIDA QUOTIDIANA DO MEU PAI.

É meu desejo, no presente capítulo, dar alguma ideia da vida quotidiana do meu pai. Pareceu-me que poderia levar a cabo este objetivo sob a forma de um esboço aproximado de um dia de vida em Down, intercalado com as recordações que o registo desperta. Muitas destas recordações, que têm um significado para aqueles que conheceram o meu pai, parecerão incoloras ou triviais aos estranhos. Contudo, dou-as com a esperança de que possam ajudar a preservar aquela impressão da sua personalidade que permanece nas mentes daqueles que o conheceram e amaram — uma impressão simultaneamente tão vívida e tão intraduzível em palavras.

Quanto à sua aparência pessoal (nestes dias de fotografias multiplicadas), dificilmente é necessário dizer muito. Ele tinha cerca de um metro e oitenta de altura, mas dificilmente parecia tão alto, pois curvava-se bastante; nos seus últimos anos, cedeu a essa curvatura; mas consigo lembrar-me de o ver, há muito tempo, a balançar os braços para trás para expandir o peito e a manter-se direito com um solavanco. Dava a ideia de ter sido ativo em vez de forte; os seus ombros não eram largos para a sua altura, embora certamente não fossem estreitos. Como jovem, deve ter tido muita resistência, pois, numa das excursões à costa do "Beagle", quando todos sofriam de falta de água, ele foi um dos dois que melhor conseguiram lutar para continuar a procurá-la. Em rapaz, era ativo e conseguia saltar uma barra colocada à altura do "pomo de Adão" no seu pescoço.

Caminhava com um movimento oscilante, usando uma bengala fortemente guarnecida de ferro, que batia ruidosamente contra o chão, produzindo, enquanto percorria o "Sand-walk" em Down, um clique rítmico que é, para todos nós, uma recordação muito distinta. Ao regressar do passeio do meio-dia, muitas vezes carregando o impermeável ou a capa que se tinha revelado demasiado quente, podia ver-se que o passo oscilante era mantido à custa de algum esforço. Dentro de casa, o seu passo era muitas vezes lento e laborioso, e, ao subir as escadas durante a tarde, podia ouvi-lo subir com um passo pesado, como se cada degrau fosse um esforço. Quando interessado no seu trabalho, movia-se com rapidez e facilidade suficientes, e, muitas vezes, a meio de um ditado, ia ansiosamente até ao hall para tomar uma pitada de rapé, deixando a porta do escritório aberta e gritando as últimas palavras da sua frase enquanto se afastava. Dentro de casa, usava por vezes uma bengala de carvalho como um pequeno bordão de alpinista, e isso era um sinal de que sentia tonturas.

Apesar da sua força e atividade, penso que deve ter tido sempre uma falta de jeito nos movimentos. Era naturalmente desajeitado com as mãos e era incapaz de desenhar de todo bem. (A figura que representa os conteúdos celulares agregados em 'Insectivorous Plants' foi desenhada por ele.) Ele lamentou sempre muito isto e instava frequentemente a necessidade primordial de um jovem naturalista se tornar um bom desenhador.

Conseguia dissecar bem sob o microscópio simples, mas penso que era à força da sua grande paciência e cuidado. Era caraterístico dele considerar muitos pequenos pedaços de dissecação habilidosa como algo quase sobre-humano. Costumava falar com admiração da destreza com que viu Newport dissecar uma abelha, retirando o sistema nervoso com alguns cortes de um par de tesouras finas, seguradas, como o meu pai costumava mostrar, com o cotovelo levantado, e numa atitude que certamente tornaria necessária uma grande firmeza. Costumava considerar o corte de secções uma grande proeza e, no último ano da sua vida, com uma energia maravilhosa, deu-se ao trabalho de aprender a cortar secções de raízes e folhas. A sua mão não era suficientemente firme para segurar o objeto a ser cortado, e ele empregava um micrótomo comum, no qual a medula para segurar o objeto era presa, e a navalha deslizava sobre uma superfície de vidro ao fazer as secções. Ele costumava rir-se de si mesmo e da sua própria habilidade no corte de secções, sobre a qual dizia ficar "sem palavras de admiração". Por outro lado, deve ter tido precisão de olho e poder de coordenar os seus movimentos, uma vez que era um bom atirador com espingarda em jovem e, em rapaz, era habilidoso a atirar. Certa vez, matou uma lebre, sentada no jardim de flores em Shrewsbury, ao atirar-lhe uma berlinde e, já homem, matou uma vez um bico-cruz com uma pedra. Ficou tão infeliz por ter matado inutilmente o bico-cruz que não o mencionou durante anos, e depois explicou que nunca teria atirado se não se sentisse seguro de que a sua antiga habilidade o tinha abandonado.

Ao caminhar, tinha um movimento de inquietação com os dedos, que descreveu num dos seus livros como o hábito de um velho. Quando se sentava quieto, segurava frequentemente um pulso com a outra mão; sentava-se com as pernas cruzadas e, por ser tão magro, podiam ser cruzadas muito para cima, como se pode ver numa das fotografias. Tinha a sua cadeira no escritório e na sala de estar elevada de modo a ser muito mais alta do que as cadeiras comuns; isto era feito porque sentar-se numa cadeira baixa ou mesmo numa cadeira comum causava-lhe algum desconforto. Costumávamos rir-nos dele por tornar a sua alta cadeira da sala de estar ainda mais alta ao colocar-lhe bancos para os pés, e depois neutralizar o resultado ao descansar os seus pés noutra cadeira.

A sua barba era cheia e quase não aparada, sendo o pelo grisalho e branco, fino em vez de grosso, e ondulado ou frisado. O seu bigode estava um pouco desfigurado por ser cortado curto e a direito. Ficou muito calvo, tendo apenas uma franja de cabelo escuro atrás.

O seu rosto era de cor avermelhada, e isto talvez fizesse as pessoas pensarem nele como menos doente do que era. Escreveu ao Dr. Hooker (13 de junho de 1849): "Toda a gente me diz que pareço bastante corado e bonito; e a maioria pensa que estou a fingir, mas tu nunca foste um desses." E deve recordar-se que, nesta altura, ele estava miseravelmente doente, muito pior do que em anos posteriores. Os seus olhos eram cinzento-azulados sob sobrancelhas profundas e salientes, com sobrancelhas espessas, arbustivas e projetadas. A sua testa alta estava muito enrugada, mas, fora isso, o seu rosto não estava muito marcado ou vincado. A sua expressão não mostrava sinais do desconforto contínuo que sofria.

Quando estava entusiasmado com uma conversa agradável, toda a sua maneira era maravilhosamente brilhante e animada, e o seu rosto participava plenamente na animação geral. O seu riso era um estrondo livre e sonoro, como o de um homem que se entrega simpaticamente e com prazer à pessoa e à coisa que o divertiram. Muitas vezes usava algum tipo de gesto com o seu riso, levantando as mãos ou baixando uma delas com uma palmada. Penso que, de um modo geral, ele era propenso a gesticular e frequentemente usava as mãos para explicar qualquer coisa (por exemplo, a fertilização de uma flor) de uma forma que parecia mais uma ajuda para si mesmo do que para o ouvinte. Fazia isto em ocasiões em que a maioria das pessoas ilustraria as suas explicações através de um esboço a lápis rudimentar.

Usava roupas escuras, de um corte largo e confortável. Nos últimos anos, deixou de usar o chapéu alto mesmo em Londres, e usava um macio e preto no inverno, e um grande chapéu de palha no verão. O seu vestuário habitual ao ar livre era a capa curta na qual a fotografia de Elliot e Fry o representa a apoiar-se contra o pilar da varanda. Duas particularidades do seu vestuário interior eram o facto de usar quase sempre um xale sobre os ombros e de ter grandes botas de pano largas, forradas com pele, que podia calçar sobre os seus sapatos de interior. Como a maioria das pessoas delicadas, sofria tanto do calor como da frieza; era como se não conseguisse encontrar o equilíbrio entre o demasiado quente e o demasiado frio; muitas vezes, uma causa mental tornava-o demasiado quente, de modo que ele tirava o casaco se algo corresse mal durante o seu trabalho.

Levantava-se cedo, principalmente porque não conseguia ficar na cama, e penso que teria gostado de se levantar mais cedo do que fazia. Dava uma curta volta antes do pequeno-almoço, um hábito que começou quando foi pela primeira vez a um estabelecimento de cura pela água. Este hábito manteve-o até quase ao fim da sua vida. Eu costumava, quando pequeno, gostar de sair com ele, e tenho uma sensação vaga do vermelho do nascer do sol de inverno, e uma recordação do companheirismo agradável, e uma certa honra e glória nisso. Ele costumava deleitar-me, quando rapaz, contando-me como, em passeios ainda mais antigos, nas manhãs escuras de inverno, tinha encontrado uma ou duas vezes raposas a trotar para casa ao amanhecer.

Depois de tomar o pequeno-almoço sozinho por volta das 7h45, ia trabalhar de imediato, considerando a hora e meia entre as 8h e as 9h30 um dos seus melhores tempos de trabalho. Às 9h30, vinha à sala de estar para as suas cartas — regozijando-se se o correio fosse leve e ficando, por vezes, muito preocupado se não o fosse. Ouvia então quaisquer cartas da família lidas em voz alta enquanto estava deitado no sofá.

A leitura em voz alta, que incluía também parte de um romance, durava até cerca das dez e meia, altura em que voltava ao trabalho até ao meio-dia ou um pouco depois. Por esta altura, considerava o seu dia de trabalho terminado e dizia muitas vezes, com uma voz satisfeita: "Fiz um bom dia de trabalho." Ia então para o exterior, estivesse tempo chuvoso ou bom; Polly, a sua terrier branca, ia com ele com bom tempo, mas à chuva ela recusava-se ou podia ser vista a hesitar na varanda, com uma expressão mista de desgosto e vergonha pela sua própria falta de coragem; geralmente, porém, a sua consciência vencia, e assim que ele partia, ela não suportava ficar para trás.

O meu pai sempre gostou de cães e, em jovem, tinha o poder de roubar as afeições dos animais de estimação da sua irmã; em Cambridge, ganhou o amor do cão do seu primo W.D. Fox, e este pode talvez ter sido o animalzinho que costumava rastejar para dentro da sua cama e dormir aos pés todas as noites. O meu pai teve um cão rude, que lhe era dedicado, mas hostil a toda a gente, e quando ele regressou da viagem do "Beagle", o cão reconheceu-o, mas de uma forma curiosa, que o meu pai gostava de contar. Ele entrou no pátio e gritou à sua maneira antiga; o cão correu para fora e partiu com ele para o seu passeio, não mostrando mais emoção ou entusiasmo do que se a mesma coisa tivesse acontecido no dia anterior, em vez de há cinco anos. Esta história é utilizada em 'Descent of Man', 2ª Edição, página 74.

Na minha memória, houve apenas dois cães que tiveram muita ligação com o meu pai. Um era um grande retriever preto e branco de raça cruzada, chamado Bob, ao qual nós, como crianças, éramos muito dedicados. Ele era o cão de quem a história da "face de estufa" é contada em 'Expression of the Emotions'.

Mas o cão mais estreitamente associado ao meu pai era a já mencionada Polly, uma fox-terrier branca e de pelo áspero. Era uma cadela perspicaz e afetuosa; quando o seu dono ia viajar, ela descobria sempre o facto pelos sinais de arrumação no escritório e ficava, por isso, abatida. Começava também a ficar entusiasmada ao ver o escritório preparado para o seu regresso a casa. Era uma criaturinha astuta e costumava tremer ou exibir um ar de miséria quando o meu pai passava, enquanto esperava pelo jantar, como se soubesse que ele diria (como muitas vezes dizia) que "ela estava a morrer de fome". O meu pai costumava fazê-la apanhar biscoitos com o focinho e tinha uma forma afetuosa e simuladamente solene de explicar-lhe antecipadamente que ela tinha de "ser uma menina muito boa". Ela tinha uma marca nas costas onde tinha sido queimada, e onde o pelo tinha crescido de novo vermelho em vez de branco, e o meu pai costumava elogiar aquele tufo de pelo como estando de acordo com a sua teoria da pangénese; o pai dela tinha sido um bull-terrier vermelho, pelo que o pelo vermelho que apareceu após a queimadura mostrava a presença de gémulas vermelhas latentes. Ele era deliciosamente terno com a Polly e nunca mostrava qualquer impaciência com as atenções que ela requeria, tais como ser deixada entrar pela porta, ou sair pela janela da varanda, para ladrar às "pessoas malvadas", um dever autoinfligido que ela apreciava muito. Ela morreu, ou melhor, teve de ser morta, alguns dias após a morte dele. (O cesto onde ela geralmente se deitava enrolada perto do lume no escritório dele está fielmente representado no desenho do Sr. Parson, "The Study at Down".)

O passeio do meio-dia do meu pai começava geralmente por uma visita à estufa, onde ele observava quaisquer sementes em germinação ou plantas experimentais que exigissem uma observação casual, mas quase nunca fazia qualquer observação séria nesta altura. Depois, continuava para a sua caminhada — ou à volta do "Sand-walk", ou fora das suas propriedades, nas imediações da casa. O "Sand-walk" era uma estreita faixa de terra com cerca de meio hectare, com um caminho de gravilha à volta. De um lado, havia um largo e velho caminho com carvalhos de tamanho considerável, o que tornava o passeio abrigado e sombrio; o outro lado era separado de um campo de erva vizinho por uma sebe baixa, sobre a qual se podia contemplar a vista que existia, um vale pequeno e tranquilo que se perdia na paisagem elevada em direção à margem da colina de Westerham, com bosque de aveleiras e floresta de lariços, os restos do que outrora fora um grande bosque, estendendo-se até à estrada de Westerham. Ouvi o meu pai dizer que o encanto deste pequeno e simples vale ajudou a que ele se fixasse em Down.

O Sand-walk foi plantado pelo meu pai com uma variedade de árvores, tais como aveleiras, amieiros, tílias, carpinos, bétulas, ligustros e cornos, e com uma longa fila de azevinhos ao longo de todo o lado exposto. Nos primeiros tempos, ele dava um certo número de voltas todos os dias e costumava contá-las por meio de um monte de sílex, dos quais chutava um para o caminho cada vez que passava. Nos últimos anos, creio que ele não se cingia a nenhum número fixo de voltas, mas dava tantas quantas a sua força lhe permitia. O Sand-walk era o nosso recreio quando crianças, e aqui víamos continuamente o meu pai enquanto ele caminhava às voltas. Ele gostava de ver o que estávamos a fazer e estava sempre pronto a simpatizar com qualquer diversão que estivesse a decorrer. É curioso pensar como, no que diz respeito ao Sand-walk em relação ao meu pai, as minhas primeiras recordações coincidem com as minhas últimas; isso mostra o quão invariáveis foram os seus hábitos.

Por vezes, quando estava sozinho, ficava parado ou caminhava furtivamente para observar aves ou animais. Foi numa destas ocasiões que alguns esquilos jovens subiram pelas suas costas e pernas, enquanto a mãe ladrava para eles em agonia a partir da árvore. Ele encontrava sempre ninhos de aves, mesmo até aos últimos anos da sua vida, e nós, enquanto crianças, considerávamos que ele tinha um génio especial para isto. Nas suas rondas silenciosas, ele deparava-se com as aves menos comuns, mas imagino que costumava esconder isso de mim, enquanto rapaz pequeno, porque observava a agonia de espírito que eu sofria por não ter visto o lugre ou o pintassilgo, ou o que quer que fosse. Ele costumava contar-nos como, quando se arrastava silenciosamente pelos "Big-Woods", encontrou uma raposa a dormir durante o dia, a qual ficou tão surpreendida que o observou fixamente antes de fugir. Um cão Spitz que o acompanhava não mostrou qualquer sinal de excitação perante a raposa, e ele costumava terminar a história perguntando-se como podia o cão ter sido tão cobarde.

Outro lugar favorito era "Orchis Bank", acima do tranquilo vale de Cudham, onde cresciam orquídeas-mosca e orquídeas-almíscar entre os zimbros, e Cephalanthera e Neottia sob os ramos das faias; o pequeno bosque "Hangrove", logo acima, também era um lugar de que ele gostava, e aqui lembro-me de ele colecionar ervas, quando lhe deu para descobrir os nomes de todas as espécies comuns. Ele gostava de citar o ditado de um dos seus filhos pequenos que, tendo encontrado uma erva que o pai ainda não tinha visto, a deixou junto ao seu próprio prato durante o jantar, comentando: "Eu sou um extraordinário descobridor de ervas!"

O meu pai gostava muito de passear lentamente no jardim com a minha mãe ou com alguns dos seus filhos, ou de fazer parte de um grupo, sentado num banco no relvado; ele geralmente sentava-se, contudo, na relva, e lembro-me de o ver frequentemente deitado sob uma das grandes tílias, com a cabeça no monte verde aos pés dela. Nos dias secos de verão, quando muitas vezes nos sentávamos lá fora, ouvia-se habitualmente o grande volante do poço a girar, e assim o som ficou associado àqueles dias agradáveis. Ele costumava gostar de nos ver a jogar ténis de relvado e, muitas vezes, devolvia-nos uma bola perdida com o cabo curvo da sua bengala.

Embora não participasse pessoalmente na gestão do jardim, ele sentia um grande prazer na beleza das flores — por exemplo, na massa de Azáleas que geralmente se encontrava na sala de estar. Penso que ele fundia, por vezes, a sua admiração pela estrutura de uma flor com a sua beleza intrínseca; por exemplo, no caso das grandes flores pendentes cor-de-rosa e brancas da Dielytra. Da mesma forma, tinha um afeto, meio artístico, meio botânico, pela pequena Lobelia azul. Ao admirar as flores, ele ria-se muitas vezes das cores baças do "high-art" e contrastava-as com os tons brilhantes da natureza. Eu gostava de o ouvir admirar a beleza de uma flor; era uma espécie de gratidão para com a flor em si, e um amor pessoal pela sua forma e cor delicadas. Parece-me recordar-me dele a tocar suavemente numa flor de que gostava; era a mesma admiração simples que uma criança poderia ter.

Ele não conseguia evitar personificar as coisas naturais. Este sentimento manifestava-se tanto no abuso como no louvor — p. ex., de algumas plântulas: "Os pequenos malandros estão a fazer exatamente o que eu não quero." Ele falava de uma forma meio provocada, meio admirada, da engenhosidade de uma folha de Mimosa ao desenroscar-se de uma bacia com água na qual ele tinha tentado fixá-la. É preciso ver o mesmo espírito na sua forma de falar da Drosera, das minhocas, etc. (Cf. 'Swift', de Leslie Stephen, 1882, página 200, onde a inspeção de Swift aos modos e costumes dos criados é comparada com as observações do meu pai sobre as minhocas: "A diferença", diz o Sr. Stephen, "é que Darwin não tinha nada além de sentimentos gentis pelas minhocas.")

Na minha memória, o seu único recreio ao ar livre, além de caminhar, era andar a cavalo, ao qual se dedicou por recomendação do Dr. Bence Jones, e tivemos a sorte de encontrar para ele o pónei mais fácil e calmo do mundo, chamado "Tommy". Ele desfrutava imensamente destes passeios e concebeu uma série de circuitos curtos que o traziam a casa a tempo do almoço. O nosso terreno é bom para este propósito, devido ao número de pequenos vales que dão variedade ao que, num terreno plano, seria um caminho monótono. Ele não era, creio, naturalmente afeiçoado a cavalos, nem tinha uma opinião elevada sobre a sua inteligência, e o Tommy era muitas vezes alvo de riso pelo alarme que mostrava ao passar e repassar pelo mesmo monte de aparas de sebe enquanto contornava o campo. Penso que ele se sentia surpreendido consigo mesmo quando se lembrava de quão audaz cavaleiro tinha sido e de como, totalmente, a velhice e a má saúde lhe tinham tirado a coragem. Ele dizia que andar a cavalo impedia-o de pensar de forma muito mais eficaz do que caminhar — que ter de prestar atenção ao cavalo dava-lhe ocupação suficiente para evitar qualquer pensamento realmente profundo. E a mudança de cenário que isso lhe proporcionava era boa para o seu espírito e saúde.

Infelizmente, o Tommy caiu um dia pesadamente com ele em Keston Common. Isto, e um acidente com outro cavalo, perturbou-lhe os nervos, e foi aconselhado a deixar de montar.

Se for além da minha própria experiência e recordar o que o ouvi dizer sobre o seu amor pelo desporto, etc., posso pensar em muitas coisas, mas muito disso seria uma repetição do que está contido nas suas 'Recollections'. Na escola, ele gostava de "bat-fives", e este era o único jogo em que era habilidoso. Ele gostava da sua arma de fogo ainda muito jovem e tornou-se um bom atirador; costumava contar como, na América do Sul, matou vinte e três narcejas em vinte e quatro tiros. Ao contar a história, ele tinha o cuidado de acrescentar que achava que elas não eram tão bravas como as narcejas inglesas.

O almoço em Down vinha depois da sua caminhada do meio-dia; e aqui posso dizer uma ou duas palavras sobre as suas refeições em geral. Ele tinha um amor infantil pelos doces, infelizmente para ele, uma vez que estava constantemente proibido de os comer. Ele não era particularmente bem-sucedido a manter os "votos", como lhes chamava, que fazia contra o consumo de doces, e nunca os considerava vinculativos, a menos que os fizesse em voz alta.

Ele bebia muito pouco vinho, mas apreciava, e sentia-se revigorado, pelo pouco que bebia. Tinha horror à bebida e avisava constantemente os seus rapazes de que qualquer um podia ser levado a beber demasiado. Lembro-me, na minha inocência de rapaz pequeno, de lhe perguntar se alguma vez tinha ficado ébrio; e ele respondeu muito gravemente que tinha vergonha de dizer que uma vez bebeu demasiado em Cambridge. Fiquei muito impressionado, de modo que sei agora o lugar onde a pergunta foi feita.

Depois do almoço, lia o jornal, deitado no sofá na sala de estar. Penso que o jornal era o único assunto não científico que ele lia para si próprio. Tudo o resto, romances, viagens, história, era-lhe lido em voz alta. Ele interessava-se tanto pela vida que havia muito que o ocupasse nos jornais, embora se risse da prolixidade dos debates; lendo-os, creio, apenas em resumo. O seu interesse pela política era considerável, mas a sua opinião sobre estes assuntos era formada mais ao acaso do que com qualquer quantidade séria de reflexão.

Depois de ler o seu jornal, vinha a hora de escrever cartas. Estas, assim como o manuscrito dos seus livros, eram escritas por ele enquanto se sentava numa enorme cadeira de crina junto à lareira, com o papel apoiado numa tábua que descansava nos braços da cadeira. Quando tinha muitas ou longas cartas para escrever, ditava-as a partir de um rascunho; estes rascunhos eram escritos nas costas de manuscritos ou provas de impressão, e eram quase ilegíveis, por vezes até para ele próprio. Ele tinha o hábito de guardar TODAS as cartas que recebia; este era um hábito que tinha aprendido com o pai e que ele dizia ter-lhe sido de grande utilidade.

Ele recebia muitas cartas de pessoas tolas e sem escrúpulos, e todas elas recebiam respostas. Ele costumava dizer que, se não lhes respondesse, isso ficaria na sua consciência mais tarde, e não há dúvida de que foi em grande medida a cortesia com que respondia a todos que produziu o sentido universal e generalizado da sua bondade de natureza, que foi tão evidente na sua morte.

Ele era atencioso para com os seus correspondentes noutras coisas, mais pequenas, por exemplo, quando ditava uma carta a um estrangeiro, dificilmente deixava de me dizer: "É melhor tentares escrever bem, pois é para um estrangeiro." As suas cartas eram geralmente escritas sob o pressuposto de que seriam lidas descuidadamente; assim, quando ditava, tinha o cuidado de me dizer para fazer com que uma cláusula importante começasse num parágrafo óbvio "para lhe chamar a atenção", como ele dizia frequentemente. O quanto ele pensava no trabalho que dava aos outros ao fazer perguntas ficará suficientemente demonstrado pelas suas cartas. É difícil dizer algo sobre o tom geral das suas cartas, elas falarão por si mesmas. A cortesia invariável nelas é muito marcante. Tive uma prova desta qualidade no sentimento com que o Sr. Hacon, o seu advogado, o considerava. Ele nunca tinha visto o meu pai, mas tinha um sentimento sincero de amizade por ele, e falava especialmente das suas cartas como sendo tais que um homem raramente recebe em termos de negócios: — "Tudo o que eu fazia estava certo, e tudo era profusamente agradecido."

Ele tinha um formulário impresso para ser usado ao responder a correspondentes problemáticos, mas quase nunca o usava; suponho que nunca encontrou uma ocasião que parecesse exatamente adequada. Lembro-me de uma ocasião em que poderia ter sido usado com vantagem. Ele recebeu uma carta de um estranho afirmando que o autor se tinha comprometido a defender a Evolução numa sociedade de debate e que, sendo um jovem ocupado, sem tempo para ler, desejava ter um esboço das opiniões do meu pai. Até este jovem maravilhoso obteve uma resposta civil, embora ache que não obteve muito material para o seu discurso. A sua regra era agradecer aos doadores de livros, mas não aos de folhetos. Ele expressava por vezes surpresa por tão poucas pessoas lhe agradecerem pelos livros que ele distribuía generosamente; as cartas que recebia davam-lhe muito prazer, porque habitualmente formava uma estimativa tão humilde do valor de todas as suas obras que ficava geralmente surpreendido com o interesse que elas suscitavam.

Em questões de dinheiro e negócios, ele era notavelmente cuidadoso e exato. Mantinha as contas com grande cuidado, classificando-as e fazendo o balanço no final do ano como um comerciante. Lembro-me da forma rápida como ele estendia a mão para o seu livro de contas para registar cada cheque pago, como se tivesse pressa em registá-lo antes de se esquecer dele. O seu pai deve ter-lhe permitido acreditar que ele seria mais pobre do que realmente era, pois alguma da dificuldade sentida em encontrar uma casa no campo deve ter surgido da quantia modesta que ele se sentia preparado para dar. No entanto, ele sabia, é claro, que estaria em condições confortáveis, pois nas suas 'Recollections' ele menciona isto como uma das razões para não ter trabalhado na medicina com tanto zelo como o teria feito se fosse obrigado a ganhar a sua vida.

Ele tinha uma economia de estimação com o papel, mas era mais um passatempo do que uma economia real. Todas as folhas em branco das cartas recebidas eram guardadas numa pasta para serem usadas na feitura de notas; era o seu respeito pelo papel que o fazia escrever tanto nas costas dos seus manuscritos antigos e, desta forma, infelizmente, ele destruiu grandes partes do manuscrito original dos seus livros. O seu sentimento sobre o papel estendia-se ao papel de rascunho, e ele opunha-se, meio a brincar, ao hábito descuidado de atirar um rolo de papel para o fogo depois de ter sido usado para acender uma vela.

O meu pai era maravilhosamente liberal e generoso para com todos os seus filhos em matéria de dinheiro, e tenho razões especiais para me lembrar da sua bondade quando penso na forma como ele pagou algumas dívidas minhas de Cambridge — fazendo quase parecer uma virtude da minha parte ter-lhe falado delas. Nos seus últimos anos, ele tinha o plano gentil e generoso de dividir o seu excedente no fim do ano entre os seus filhos.

Ele tinha um grande respeito pela capacidade empresarial pura e falava frequentemente com admiração de um parente que tinha duplicado a sua fortuna. E, sobre si próprio, dizia frequentemente a brincar que o que o orgulhava realmente era o dinheiro que tinha poupado. Ele também sentia satisfação com o dinheiro que ganhava com os seus livros. A sua ansiedade em poupar vinha em grande medida dos seus receios de que os seus filhos não tivessem saúde suficiente para ganhar a sua própria vida, um pressentimento que o assombrou de facto durante muitos anos. E tenho uma vaga recordação de ele dizer: "Graças a Deus, vocês terão pão e queijo", quando eu era tão novo que estava mais inclinado a levá-lo à letra.

Quando as cartas terminavam, por volta das três da tarde, ele descansava no seu quarto, deitado no sofá e fumando um cigarro, e ouvindo um romance ou outro livro não científico. Ele só fumava quando descansava, enquanto o rapé era um estimulante, e era tomado durante as horas de trabalho. Ele tomou rapé durante muitos anos da sua vida, tendo aprendido o hábito em Edimburgo como estudante. Ele tinha uma bonita tabaqueira de prata que lhe foi dada pela Sra. Wedgwood de Maer, que ele valorizava muito — mas raramente a transportava, porque o tentava a tomar demasiadas pitadas. Numa das suas primeiras cartas, ele fala de ter deixado o rapé por um mês e descreve-se como sentindo-se "o mais letárgico, estúpido e melancólico". O nosso antigo vizinho e clérigo, o Sr. Brodie Innes, diz-me que, a certa altura, o meu pai tomou a resolução de não tomar rapé exceto quando estava fora de casa, "um arranjo muito satisfatório para mim", acrescenta ele, "pois eu guardava uma caixa no meu escritório à qual havia acesso pelo jardim sem convocar criados, e tive mais frequentemente, do que poderia ter sido o caso de outra forma, o privilégio de alguns minutos de conversa com o meu querido amigo". Ele geralmente tomava rapé de um frasco na mesa do corredor, porque ter de percorrer esta distância para uma pitada era um ligeiro controlo; o tilintar da tampa do frasco de rapé era um som muito familiar. Por vezes, quando ele estava na sala de estar, ocorria-lhe que o fogo do escritório devia estar a arder fracamente, e quando algum de nós se oferecia para tratar disso, acabava por se descobrir que ele também desejava ir buscar uma pitada de rapé.

O fumo ele só o adotou permanentemente nos últimos anos, embora nos seus passeios nas Pampas tenha aprendido a fumar com os gaúchos, e ouvi-o falar do grande conforto de uma chávena de mate e um cigarro quando ele parava depois de um longo passeio e não conseguia obter comida durante algum tempo.

A leitura em voz alta fazia-o muitas vezes adormecer, e ele costumava lamentar perder partes de um romance, pois a minha mãe continuava firmemente para que a cessação do som não o acordasse. Ele descia às quatro horas para se vestir para o seu passeio, e era tão regular que se podia ter a certeza de que faltavam poucos minutos para as quatro quando os seus passos a descer eram ouvidos.

Desde cerca das quatro e meia até às cinco e meia ele trabalhava; depois vinha para a sala de estar e ficava ocioso até à hora (por volta das seis) de subir para outro descanso com leitura de romance e um cigarro.

Mais tarde, ele deixou o jantar tardio e tomava um chá simples às sete e meia (enquanto nós jantávamos), com um ovo ou um pequeno pedaço de carne. Depois do jantar, ele nunca ficava na sala e costumava desculpar-se dizendo que era uma velha, que devia ser autorizada a sair com as senhoras. Este era um dos muitos sinais e resultados da sua constante fraqueza e má saúde. Meia hora mais ou menos de conversa fazia-lhe a diferença de uma noite sem dormir e da perda, talvez, de metade do trabalho do dia seguinte.

Depois do jantar, ele jogava gamão com a minha mãe, sendo jogados dois jogos todas as noites; durante muitos anos, era mantida uma contagem dos jogos que cada um ganhava, e nesta contagem ele tinha o maior interesse. Ele tornava-se extremamente animado com estes jogos, lamentando amargamente a sua má sorte e explodindo com uma raiva fingida e exagerada pela boa sorte da minha mãe.

Depois do gamão, ele lia algum livro científico para si próprio, quer na sala de estar, quer, se houvesse muita conversa, no escritório.

À noite, isto é, depois de ter lido tanto quanto a sua força permitia, e antes de a leitura em voz alta começar, ele deitava-se frequentemente no sofá e ouvia a minha mãe a tocar piano. Ele não tinha bom ouvido, mas, apesar disso, tinha um verdadeiro amor pela boa música. Ele costumava lamentar que o seu prazer pela música se tivesse tornado embotado com a idade, mas, na minha memória, o seu amor por uma boa melodia era forte. Nunca o ouvi cantarolar mais do que uma melodia, a canção galesa "Ar hyd y nos", que ele cantava corretamente; ele também costumava, creio eu, cantarolar uma pequena canção taitiana. Devido à sua falta de ouvido, ele era incapaz de reconhecer uma melodia quando a ouvia novamente, mas mantinha-se fiel ao que gostava e dizia frequentemente, quando uma favorita antiga era tocada: "Isso é uma coisa fina; o que é?" Ele gostava especialmente de partes das sinfonias de Beethoven e trechos de Handel. Ele fez uma pequena lista de todas as peças de que gostava especialmente entre as que a minha mãe tocava — dando em poucas palavras a impressão que cada uma lhe causava —, mas estas notas estão, infelizmente, perdidas. Ele era sensível a diferenças de estilo e apreciava intensamente a forma de tocar da falecida Sra. Vernon Lushington, e em junho de 1881, quando Hans Richter fez uma visita a Down, ele foi levado a um forte entusiasmo pela sua magnífica atuação ao piano. Ele apreciava muito um bom canto e era levado quase às lágrimas por canções grandiosas ou patéticas. O canto da sua sobrinha Lady Farrer de "Will he come", de Sullivan, era um prazer constante para ele. Ele era extremamente humilde quanto ao seu próprio gosto e, correspondentemente, ficava satisfeito quando descobria que outros concordavam com ele.

Ele ficava muito cansado ao fim do dia, especialmente nos últimos anos, quando deixava a sala de estar por volta das dez, indo para a cama às dez e meia. As suas noites eram geralmente más, e ele ficava muitas vezes acordado ou sentado na cama durante horas, sofrendo muito desconforto. Ele era perturbado à noite pela atividade dos seus pensamentos e ficava exausto pelo facto de a sua mente trabalhar num problema que ele teria voluntariamente descartado. À noite, também, qualquer coisa que o tivesse aborrecido ou perturbado durante o dia assombrá-lo-ia, e penso que era então que ele sofria se não tivesse respondido à carta de alguma pessoa problemática.

As leituras regulares, que mencionei, continuaram por tantos anos que lhe permitiram atravessar uma grande quantidade de literatura de carácter mais ligeiro. Ele gostava imensamente de romances, e lembro-me bem da forma como antecipava o prazer de ouvir lerem-lhe um romance, enquanto se deitava ou acendia o seu cigarro. Interessava-se vivamente tanto pelo enredo como pelas personagens, e de modo algum queria saber de antemão como terminava uma história; considerava o facto de espreitar o fim de um romance um vício feminino. Não conseguia apreciar qualquer história com um final trágico; por esta razão, não apreciava profundamente George Eliot, embora muitas vezes falasse com entusiasmo em louvor de 'Silas Marner'. Walter Scott, Miss Austen e Mrs. Gaskell eram lidos e relidos até que já não pudessem ser lidos mais. Tinha dois ou três livros em mãos ao mesmo tempo — um romance e, talvez, uma biografia e um livro de viagens. Não lia frequentemente livros invulgares ou clássicos antigos, mas mantinha-se geralmente nos livros do dia, obtidos numa biblioteca circulante.

Não creio que os seus gostos e opiniões literárias estivessem ao nível do resto da sua mente. Ele próprio, embora tivesse clareza quanto ao que considerava bom, achava que, em matéria de gosto literário, estava completamente fora do círculo, e falava frequentemente do que os que estavam dentro dele gostavam ou detestavam, como se formassem uma classe à qual ele não tinha direito de pertencer.

Em todas as questões de arte, estava inclinado a rir-se dos críticos profissionais e a dizer que as suas opiniões eram formadas pela moda. Assim, em pintura, dizia como no seu tempo todos admiravam mestres que são agora negligenciados. O seu amor pela pintura, quando jovem, é quase uma prova de que deve ter tido uma apreciação por um retrato enquanto obra de arte, e não como uma semelhança. No entanto, falava frequentemente, rindo-se, do pouco valor dos retratos, e dizia que uma fotografia valia qualquer número de quadros, como se estivesse cego para a qualidade artística de um retrato pintado. Mas isto era geralmente dito nas suas tentativas de nos persuadir a desistir da ideia de mandar pintar o seu retrato, uma operação muito incómoda para ele.

Esta forma de se ver como um ignorante em todas as questões de arte era reforçada pela ausência de pretensão, que fazia parte do seu carácter. Em relação a questões de gosto, bem como a coisas mais sérias, ele tinha sempre a coragem das suas opiniões. Lembro-me, contudo, de um exemplo que soa a contradição disto: quando ele estava a olhar para os Turners no quarto de Mr. Ruskin, não confessou, como fez depois, que não conseguia perceber absolutamente nada do que Mr. Ruskin via neles. Mas esta pequena pretensão não foi por causa de si próprio, mas por causa da cortesia para com o seu anfitrião. Ficou satisfeito e divertido quando, posteriormente, Mr. Ruskin lhe trouxe algumas fotografias de quadros (penso que retratos de Vandyke) e, cortesemente, pareceu valorizar a opinião do meu pai sobre eles.

Grande parte da sua leitura científica era em alemão, e isto era um grande esforço para ele; ao ler um livro depois dele, ficava muitas vezes impressionado ao ver, pelas marcas de lápis feitas a cada dia onde ele parava, quão pouco ele conseguia ler de cada vez. Ele costumava chamar ao alemão o "Verdammte", pronunciado como se fosse em inglês. Estava especialmente indignado com os alemães, porque estava convencido de que eles poderiam escrever de forma simples se quisessem, e elogiava frequentemente o Dr. F. Hildebrand por escrever um alemão que era tão claro como o francês. Por vezes, dava uma frase em alemão a uma amiga, uma senhora alemã patriótica, e costumava rir-se dela se ela não a traduzisse fluentemente. Ele próprio aprendeu alemão simplesmente martelando com um dicionário; dizia que a sua única maneira era ler uma frase muitas vezes, e que, finalmente, o significado lhe ocorria. Quando começou o alemão, há muito tempo, gabou-se do facto (como costumava contar) perante Sir J. Hooker, que respondeu: "Ah, meu caro amigo, isso não é nada; eu já comecei muitas vezes."

Apesar da sua falta de gramática, conseguiu entender-se maravilhosamente com o alemão, e as frases que ele não conseguia compreender eram geralmente as realmente difíceis. Nunca tentou falar alemão correctamente, mas pronunciava as palavras como se fossem inglesas; e isto tornava não pouco difícil ajudá-lo, quando ele lia uma frase em alemão e pedia uma tradução. Certamente que tinha um mau ouvido para sons vocais, pelo que achava impossível perceber pequenas diferenças na pronúncia.

O seu vasto interesse em ramos da ciência que não eram especificamente os seus era notável. Nas ciências biológicas, as suas doutrinas fazem-se sentir tão amplamente que havia algo de interessante para ele na maioria dos seus departamentos. Lia bastante de muitas obras bastante especializadas, e grandes partes de manuais, tais como a 'Anatomia dos Invertebrados' de Huxley, ou um livro como a 'Embriologia' de Balfour, onde o detalhe, pelo menos, não era especificamente da sua área. E no caso de livros elaborados do tipo monografia, embora não fizesse um estudo deles, sentia a maior admiração por eles.

Nas ciências não biológicas, sentia uma profunda simpatia por trabalhos sobre os quais não podia realmente julgar. Por exemplo, costumava ler quase toda a 'Nature', embora grande parte dela trate de matemática e física. Ouvi-o muitas vezes dizer que obtinha uma espécie de satisfação ao ler artigos que (segundo ele próprio) não conseguia compreender. Quem me dera poder reproduzir a forma como ele se ria de si mesmo por isso.

Era notável, também, como ele mantinha o seu interesse em assuntos nos quais tinha trabalhado anteriormente. Este era o caso, de forma marcante, com a geologia. Numa das suas cartas a Mr. Judd, ele implora-lhe que o visite, dizendo que, desde a morte de Lyell, quase nunca consegue ter uma conversa geológica. As suas observações, feitas apenas alguns anos antes da sua morte, sobre os seixos verticais nos sedimentos glaciais em Southampton, e discutidas numa carta a Mr. Geikie, fornecem outro exemplo. Novamente, nas cartas ao Dr. Dohrn, ele mostra como o seu interesse pelos cracas permanecia vivo. Penso que tudo se devia à vitalidade e persistência da sua mente — uma qualidade de que o ouvi falar como se sentisse que era fortemente dotado nesse aspecto. Não que ele usasse tais frases sobre si próprio, mas dizia que tinha o poder de manter um assunto ou questão mais ou menos presente diante de si durante muitos anos. A extensão em que ele possuía este poder aparece quando consideramos o número de diferentes problemas que resolveu, e o período inicial em que alguns deles começaram a ocupá-lo.

Era um sinal seguro de que ele não estava bem quando estava ocioso em qualquer altura que não fosse a das suas horas regulares de descanso; pois, enquanto permanecia moderadamente bem, não havia quebra na regularidade da sua vida. Os dias de semana e os domingos passavam-se da mesma forma, cada um com os seus intervalos estabelecidos de trabalho e descanso. É quase impossível, excepto para aqueles que observavam a sua vida diária, compreender quão essencial para o seu bem-estar era a rotina regular que descrevi: e com quanta dor e dificuldade qualquer coisa além dela era tentada. Qualquer aparição pública, mesmo da mais modesta espécie, era um esforço para ele. Em 1871, foi à pequena igreja da aldeia para o casamento da sua filha mais velha, mas quase não suportou a fadiga de estar presente durante o curto serviço. O mesmo pode ser dito das poucas outras ocasiões em que esteve presente em cerimónias semelhantes.

Lembro-me dele há muitos anos num baptizado; uma memória que permaneceu comigo, porque para nós, crianças, parecia um acontecimento extraordinário e anormal. Lembro-me do seu olhar muito distintamente no funeral do seu irmão Erasmus, enquanto ele estava de pé na queda de neve, envolto num longo manto funerário preto, com um olhar grave de triste devaneio.

Quando, após um intervalo de muitos anos, voltou a assistir a uma reunião da Linnean Society, sentiu-se que era, e foi de facto, um empreendimento sério; um que não podia ser decidido sem muito aperto no coração, e dificilmente levado a efeito sem pagar a pena de um sofrimento subsequente. Da mesma forma, um pequeno-almoço na casa de Sir James Paget, com alguns dos ilustres visitantes do Congresso Médico (1881), foi para ele um esforço severo.

O início da manhã era a única altura em que ele podia fazer qualquer esforço do género, com relativa impunidade. Assim aconteceu que as visitas que ele fazia aos seus amigos cientistas em Londres eram, de preferência, feitas logo às dez da manhã. Pela mesma razão, ele começava as suas viagens no comboio mais cedo possível, e costumava chegar às casas dos parentes em Londres quando eles estavam a começar o seu dia.

Ele mantinha um diário preciso dos dias em que trabalhava e daqueles em que a sua má saúde o impedia de trabalhar, de modo que seria possível dizer quantos foram os dias de inactividade em qualquer ano dado. Neste diário — um pequeno Lett's Diary amarelo, que ficava aberto na sua lareira, empilhado sobre os diários dos anos anteriores — ele também registava o dia em que partia para férias e o do seu regresso.

As férias mais frequentes eram visitas de uma semana a Londres, quer à casa do seu irmão (6 Queen Anne Street), quer à da sua filha (4 Bryanston Street). Ele era geralmente persuadido pela minha mãe a tirar estas curtas férias, quando se tornava claro, pela frequência dos "dias maus", ou pelo nadar da cabeça, que ele estava a ser sobrecarregado de trabalho. Ele ia de má vontade, e tentava fazer acordos difíceis, estipulando, por exemplo, que deveria voltar para casa em cinco dias em vez de seis. Mesmo que estivesse a sair de casa por não mais de uma semana, a preparação das malas tinha de ser começada cedo no dia anterior, e a parte principal faria ele próprio. O desconforto de uma viagem para ele era, pelo menos ultimamente, principalmente na antecipação, e na miserável sensação de esvaziamento de que sofria imediatamente antes da partida; mesmo uma viagem razoavelmente longa, tal como a de Coniston, cansava-o maravilhosamente pouco, considerando o quanto ele era um inválido; e ele certamente desfrutava-a de uma maneira quase infantil, e numa extensão curiosa.

Embora, como ele disse, alguns dos seus gostos estéticos tivessem sofrido uma decadência gradual, o seu amor pela paisagem permanecia fresco e forte. Cada caminhada em Coniston era um novo deleite, e ele nunca se cansava de elogiar a beleza do campo acidentado e montanhoso na cabeceira do lago.

Uma das memórias felizes deste tempo [1879] é a de uma visita deliciosa a Grasmere: "O dia perfeito", escreve a minha irmã, "e o prazer vívido e o fluxo de espírito do meu pai, formam um quadro na minha mente que gosto de recordar. Ele mal conseguia sentar-se quieto na carruagem de tanto se virar e levantar para admirar a vista de cada novo ponto, e mesmo no regresso ele estava cheio da beleza de Rydal Water, embora não quisesse admitir que Grasmere igualasse de todo o seu querido Coniston."

Além destas férias mais longas, havia visitas mais curtas a vários parentes — à casa do seu cunhado, perto de Leith Hill, e ao seu filho perto de Southampton. Ele gostava sempre particularmente de passear por campo aberto e acidentado, como as charnecas perto de Leith Hill e Southampton, os baldios cobertos de urze da Floresta de Ashdown, ou o delicioso "Rough" perto da casa do seu amigo Sir Thomas Farrer. Ele nunca estava completamente ocioso mesmo nestas férias, e encontrava coisas para observar. Em Hartfield, observou a Drosera a apanhar insectos, etc.; em Torquay, observou a fertilização de uma orquídea (Spiranthes), e também descobriu as relações dos sexos no Tomilho.

Ele ficava sempre radiante por chegar a casa depois das suas férias; costumava desfrutar imenso das boas-vindas que recebia da sua cadela Polly, que ficava louca de excitação, ofegando, ganindo, correndo à volta da sala e saltando para cima e para baixo das cadeiras; e ele costumava baixar-se, pressionando a cara dela contra a sua, deixando-a lamber-se, e falando com ela com uma voz peculiarmente terna e carinhosa.

O meu pai tinha o poder de dar a estas férias de Verão um encanto que era fortemente sentido por toda a sua família. A pressão do seu trabalho em casa mantinha-o no limite máximo das suas capacidades de resistência, e quando libertado dela, ele entrava em férias com uma juventude de prazer que tornava a sua companhia deliciosa; sentíamos que víamos mais dele numa semana de férias do que num mês em casa.

Algumas destas ausências de casa, contudo, tinham um efeito depressivo sobre ele; quando ele tinha estado anteriormente muito sobrecarregado de trabalho, parecia que a ausência da tensão habitual lhe permitia cair numa condição peculiar de saúde miserável.

Além das férias que mencionei, havia as suas visitas a estabelecimentos de cura pela água. Em 1849, quando muito doente, sofrendo de náuseas constantes, foi instado por um amigo a experimentar a cura pela água, e acabou por concordar em ir ao estabelecimento do Dr. Gully em Malvern. As suas cartas a Mr. Fox mostram o quanto de bem o tratamento lhe fez; ele parece ter pensado que tinha encontrado uma cura para os seus problemas, mas, como todos os outros remédios, teve apenas um efeito transitório sobre ele. Contudo, achou-o, a princípio, tão bom para ele que, quando chegou a casa, construiu para si um duche, e o mordomo aprendeu a ser o seu banhista.

Fez muitas visitas a Moor Park, o estabelecimento de cura pela água do Dr. Lane em Surrey, não longe de Aldershot. Estas visitas foram agradáveis, e ele recordava-as sempre com prazer. O Dr. Lane deu as suas recordações sobre o meu pai na 'Conferência sobre Charles Darwin' do Dr. Richardson, a 22 de Outubro de 1882, da qual cito:--

"Numa instituição pública como a minha, ele estava rodeado, é claro, por multifacetados tipos de carácter, por pessoas de ambos os sexos, na sua maioria muito diferentes dele — pessoas comuns, em suma, como a maioria é em toda a parte, mas semelhantes a ele, pelo menos nisto, que eram seus semelhantes e companheiros de sofrimento. E nunca ninguém foi mais genial, mais atencioso, mais amigável, mais totalmente encantador do que ele universalmente era."... Ele "nunca aspirou, como muitas vezes acontece com os bons conversadores, a monopolizar a conversa. Era o seu prazer, antes, dar e receber, e ele era um ouvinte tão bom como um orador. Nunca pregou nem discursou, mas a sua conversa, quer grave ou alegre (e era cada uma por sua vez), estava cheia de vida e sal — picante, brilhante e animada."

Alguma ideia da sua relação com a sua família e os seus amigos pode ser colhida do que ficou dito anteriormente; seria impossível tentar um relato completo destas relações, mas um esboço ligeiramente mais completo pode não estar fora de lugar. Da sua vida de casado não posso falar, excepto da maneira mais breve. Na sua relação com a minha mãe, a sua natureza terna e empática foi mostrada no seu aspecto mais belo. Na presença dela, ele encontrou a sua felicidade, e através dela, a sua vida — que poderia ter sido obscurecida pela tristeza — tornou-se uma vida de contentamento e calma alegria.

A 'Expressão das Emoções' mostra quão atentamente ele observava os seus filhos; era característico dele que (como o ouvi contar), embora estivesse tão ansioso por observar com precisão a expressão de uma criança a chorar, a sua simpatia pelo sofrimento estragava a sua observação. O seu caderno de notas, no qual estão registados ditos dos seus filhos pequenos, mostra o seu prazer neles. Ele parecia reter uma espécie de memória pesarosa das infâncias que se tinham desvanecido, e assim escreveu nas suas 'Recordações':--"Quando eram muito jovens, era o meu deleite brincar com todos vós, e penso com um suspiro que tais dias nunca podem voltar."

Posso citar, como demonstrando a ternura da sua natureza, algumas frases de um relato sobre a sua filhinha Annie, escrito poucos dias após a sua morte:--

"A nossa pobre criança, Annie, nasceu em Gower Street, a 2 de Março de 1841, e expirou em Malvern ao meio-dia de 23 de Abril de 1851.

"Escrevo estas poucas páginas, pois penso que em anos futuros, se vivermos, as impressões aqui registadas recordarão mais vividamente as suas principais características. De qualquer ponto que olhe para trás, para ela, a característica principal da sua disposição que imediatamente se levanta diante de mim é a sua alegria exuberante, temperada por duas outras características, nomeadamente, a sua sensibilidade, que poderia facilmente ter sido negligenciada por um estranho, e o seu forte afecto. A sua alegria e espírito vital irradiavam de todo o seu semblante, e tornavam cada movimento elástico e cheio de vida e vigor. Era delicioso e alegre contemplá-la. O seu querido rosto levanta-se agora diante de mim, como ela costumava, por vezes, vir a correr escada abaixo com uma pitada de rapé roubada para mim, com toda a sua forma radiante com o prazer de dar prazer. Mesmo quando brincava com os seus primos, quando a sua alegria quase passava a turbulência, um único olhar do meu olho, não de desagrado (pois agradeço a Deus por quase nunca ter lançado um sobre ela), mas de falta de simpatia, alterava por alguns minutos todo o seu semblante.

"O outro ponto do seu carácter, que tornava a sua alegria e espírito tão deliciosos, era o seu forte afecto, que era de uma natureza muito apegada e carinhosa. Quando ainda bebé, isto manifestava-se em nunca estar confortável sem tocar na mãe, quando na cama com ela; e ainda há pouco tempo, quando se sentia mal, ela acariciava durante qualquer período de tempo um dos braços da mãe. Quando muito indisposta, a mãe deitar-se ao lado dela parecia acalmá-la de uma forma completamente diferente do que teria feito a qualquer dos nossos outros filhos. Assim, também, ela passava quase a qualquer momento meia hora a arranjar o meu cabelo, 'a torná-lo', como ela dizia, 'bonito', ou a alisar, a pobre querida, o meu colarinho ou punhos — em suma, a acariciar-me.

"Além da sua alegria assim temperada, ela era nos seus modos notavelmente cordial, franca, aberta, directa, natural e sem qualquer sombra de reserva. Toda a sua mente era pura e transparente. Sentia-se que a conhecíamos profundamente e que podíamos confiar nela. Pensei sempre que, acontecesse o que acontecesse, teríamos tido na nossa velhice pelo menos uma alma amorosa que nada poderia ter mudado. Todos os seus movimentos eram vigorosos, activos e geralmente graciosos. Quando dava a volta ao Sand-walk comigo, embora eu andasse depressa, ela muitas vezes ia à frente, fazendo piruetas da maneira mais elegante, o seu querido rosto brilhante a todo o tempo com os mais doces sorrisos. Ocasionalmente, ela tinha uma maneira bonita e sedutora para comigo, cuja memória é encantadora. Ela usava frequentemente linguagem exagerada, e quando eu a provocava exagerando o que ela tinha dito, quão claramente posso agora ver o pequeno movimento da cabeça e a exclamação de 'Oh, papá, que vergonha da tua parte!' Na última curta doença, a sua conduta foi, em verdade simples, angelical. Nunca se queixou uma vez; nunca se tornou rabugenta; estava sempre atenta aos outros, e agradecia da maneira mais gentil e patética por tudo o que era feito por ela. Quando tão exausta que mal conseguia falar, elogiava tudo o que lhe era dado, e dizia que um pouco de chá 'estava maravilhosamente bom'. Quando lhe dei um pouco de água, ela disse: 'Agradeço-lhe muito'; e estas, creio eu, foram as últimas palavras preciosas dirigidas pelos seus queridos lábios a mim.

"Perdemos a alegria da casa e o conforto da nossa velhice. Ela deve ter sabido o quanto a amávamos. Oh, que ela pudesse agora saber o quão profunda, o quão ternamente, ainda amamos e amaremos para sempre o seu querido rosto alegre! Bênçãos sobre ela!

"30 de Abril de 1851."

Nós, os seus filhos, todos tirávamos especial prazer nos jogos que ele brincava connosco, mas não creio que ele brincasse muito fisicamente connosco; suponho que a sua saúde impedia qualquer brincadeira brusca. Ele costumava contar-nos histórias, que eram consideradas especialmente deliciosas, em parte devido à sua raridade.

A maneira como ele nos criou é ilustrada por uma pequena história sobre o meu irmão Leonard, que o meu pai gostava de contar. Ele entrou na sala de estar e encontrou Leonard a saltar no sofá, o que era proibido, por causa das molas, e disse: "Oh, Lenny, Lenny, isso é contra todas as regras", ao que recebeu como resposta: "Então acho que é melhor saíres da sala." Não creio que ele alguma vez tenha dito uma palavra de zanga a qualquer um dos seus filhos durante a sua vida; mas tenho a certeza de que nunca nos passou pela cabeça desobedecer-lhe. Lembro-me bem de uma ocasião em que o meu pai me repreendeu por um gesto de descuido; e ainda consigo recordar a sensação de depressão que me invadiu, e o cuidado que ele teve em dissipá-la ao falar comigo pouco tempo depois com especial bondade. Ele manteve a sua maneira encantadora e carinhosa para connosco durante toda a sua vida. Por vezes pergunto-me como é que ele o conseguia fazer, com uma raça tão pouco demonstrativa como a nossa; mas espero que ele soubesse o quanto nos deleitávamos com as suas palavras e maneiras amorosas. Quantas vezes, já adulto, desejei, quando o meu pai estava atrás da minha cadeira, que ele passasse a mão pelo meu cabelo, como costumava fazer quando eu era um rapaz. Ele permitia que os seus filhos crescidos rissem com ele e dele, e estava, de um modo geral, em pé de perfeita igualdade connosco.

Ele estava sempre cheio de interesse pelos planos ou sucessos de cada um. Costumávamos rir-nos dele e dizer que ele não acreditava nos seus filhos porque, por exemplo, hesitava um pouco quando eles aceitavam algum trabalho para o qual ele não tinha a certeza de que eles tivessem conhecimentos suficientes. Por outro lado, ele tinha uma inclinação excessiva para ter uma visão favorável do nosso trabalho. Quando eu pensava que ele tinha dado um valor demasiado elevado a algo que eu tinha feito, ele costumava ficar indignado e inclinado a explodir numa zanga fingida. As suas dúvidas faziam parte da sua humildade em relação a tudo o que estivesse de alguma forma ligado a ele; a sua visão demasiado favorável do nosso trabalho devia-se à sua natureza empática, que o tornava indulgente para com todos.

Ele manteve para com os seus filhos a sua forma encantadora de expressar os seus agradecimentos; e eu nunca escrevi uma carta, nem li uma página em voz alta para ele, sem receber algumas palavras gentis de reconhecimento. O seu amor e bondade para com o seu netinho Bernard eram grandes; e ele falava frequentemente do prazer que sentia ao ver "a sua carinha à sua frente" à hora de almoço. Ele e Bernard costumavam comparar os seus gostos; por exemplo, preferirem açúcar mascavado ao branco, etc.; sendo o resultado: "Nós concordamos sempre, não concordamos?"

A minha irmã escreve:--

"As minhas primeiras recordações do meu pai são das delícias das suas brincadeiras connosco. Ele era apaixonadamente ligado aos seus próprios filhos, embora não fosse um amante de crianças indiscriminado. Para todos nós, ele foi o companheiro de brincadeiras mais encantador e o mais perfeito confidente. De facto, é impossível descrever adequadamente quão encantadora era a sua relação com a família, quer quando éramos crianças, quer na vida adulta.

"É uma prova da relação que tínhamos, e também de quanto ele era valorizado como companheiro de brincadeiras, o facto de um dos seus filhos, quando tinha cerca de quatro anos, ter tentado suborná-lo com seis pence para que ele viesse brincar durante as horas de trabalho. Todos nós conhecíamos a sacralidade do tempo de trabalho, mas que alguém pudesse resistir a seis pence parecia uma impossibilidade.

"Ele deve ter sido o mais paciente e encantador dos enfermeiros. Lembro-me do refúgio de paz e conforto que me parecia, quando eu não estava bem, ficar aconchegada no sofá do escritório, a contemplar ociosamente o antigo mapa geológico pendurado na parede. Isto devia ter sido durante as suas horas de trabalho, pois imagino-o sempre sentado na poltrona de crina de cavalo no canto da lareira.

"Outra marca da sua paciência ilimitada era a forma como éramos autorizados a fazer incursões no escritório quando tínhamos uma necessidade absoluta de adesivo, fio, alfinetes, tesouras, selos, fita métrica ou martelo. Estes e outros artigos necessários encontravam-se sempre no escritório, e era o único lugar onde isso era uma certeza. Costumávamos sentir que era errado entrar durante o tempo de trabalho; ainda assim, quando a necessidade era grande, fazíamo-lo. Lembro-me do seu olhar paciente quando disse uma vez: 'Não achas que podias não voltar a entrar? Tenho sido interrompido muitas vezes.' Costumávamos ter medo de entrar para pedir adesivo, porque ele não gostava de ver que nos tínhamos cortado, tanto por nós como por causa da sua sensibilidade aguda à visão de sangue. Lembro-me bem de ficar à espreita no corredor até ele estar em segurança fora de lá, e depois esgueirar-me para buscar o adesivo.

"A vida parece-me, ao olhar para trás, ter sido muito regular naqueles primeiros dias e, exceto parentes (e alguns amigos íntimos), não creio que mais ninguém viesse a casa. Depois das lições, éramos sempre livres de ir onde queríamos, e isso era principalmente na sala de estar e pelo jardim, pelo que estávamos muito com o meu pai e a minha mãe. Costumávamos achar muito encantador quando ele nos contava histórias sobre o 'Beagle', ou sobre os primeiros tempos em Shrewsbury-- pequenos pedaços sobre a vida escolar e os seus gostos de rapaz. Por vezes, também lia em voz alta para os seus filhos livros como os romances de Scott, e lembro-me de algumas pequenas palestras sobre a máquina a vapor.

"Estive mais ou menos doente durante os cinco anos entre os meus treze e dezoito anos, e durante muito tempo (anos, parece-me) ele costumava jogar um par de partidas de gamão comigo todas as tardes. Ele jogava-as com o maior entusiasmo, e lembro-me de que a certa altura costumávamos manter o registo das partidas, e como este registo saía a favor dele, mantínhamos uma lista dos duplos lançados por cada um, pois eu estava convencida de que ele jogava melhor do que eu.

"A sua paciência e empatia eram ilimitadas durante esta cansativa doença e, por vezes, quando me sentia mais miserável, sentia a sua empatia como sendo quase demasiado intensa. Quando estava no meu pior, fomos para a casa da minha tia em Hartfield, em Sussex, e assim que fizemos a mudança em segurança, ele seguiu para Moor Park para uma cura pelas águas de quinze dias. Consigo recordar agora como, no seu regresso, mal conseguia suportar tê-lo no quarto; a expressão de terna empatia e emoção no seu rosto era demasiado agitante, chegando-me fresca após a sua pequena ausência.

"Ele preocupava-se com todas as nossas atividades e interesses, e viveu as nossas vidas connosco de uma forma que muito poucos pais fazem. Mas tenho a certeza de que nenhum de nós sentiu que esta intimidade interferisse minimamente com o nosso respeito ou obediência. Tudo o que ele dizia era verdade absoluta e lei para nós. Ele colocava sempre toda a sua mente a responder a qualquer uma das nossas perguntas. Um exemplo trivial faz-me sentir como ele se preocupava com o que nós nos preocupávamos. Ele não tinha um gosto especial por gatos, embora admirasse os jeitos bonitos de um gatinho. Mas, ainda assim, ele conhecia e lembrava-se das individualidades dos meus muitos gatos, e falava sobre os hábitos e caracteres dos mais notáveis anos depois de terem morrido.

"Outra característica do seu tratamento dos seus filhos era o seu respeito pela sua liberdade e pela sua personalidade. Mesmo ainda muito rapariga, lembro-me de me regozijar com este sentido de liberdade. O meu pai e a minha mãe nem sequer queriam saber o que estávamos a fazer ou a pensar, a menos que quiséssemos contar. Ele fazia-nos sempre sentir que éramos, cada um de nós, criaturas cujas opiniões e pensamentos eram valiosos para ele, de modo que tudo o que havia de melhor em nós surgia ao sol da sua presença.

"Não creio que o seu sentido exagerado das nossas qualidades, intelectuais ou morais, nos tornasse presunçosos, como talvez se pudesse esperar, mas sim mais humildes e gratos para com ele. A razão sendo, sem dúvida, que a influência do seu caráter, da sua sinceridade e grandeza de natureza, teve um efeito muito mais profundo e duradouro do que qualquer pequena exaltação que os seus elogios ou admiração pudessem ter causado à nossa vaidade."

Como chefe de família, ele era muito amado e respeitado; falava sempre com os criados com polidez, usando a expressão "teria a bondade de", ao pedir qualquer coisa. Ele quase nunca se zangava com os seus criados; prova de quão raramente isto ocorria é o facto de, quando, ainda pequeno rapaz, ouvi um criado a ser repreendido, e o meu pai a falar com raiva, isso impressionou-me como uma circunstância aterradora, e lembro-me de correr escadas acima devido a um sentimento geral de receio. Ele não se preocupava com a gestão do jardim, vacas, etc. Ele considerava os cavalos tão pouco da sua conta, que costumava perguntar, hesitante, se poderia ter um cavalo e uma carroça para enviar a Keston para buscar Drosera, ou aos viveiros de Westerham para buscar plantas, ou algo do género.

Como anfitrião, o meu pai tinha um charme peculiar: a presença de visitantes excitava-o e fazia-o aparecer na sua melhor forma. Em Shrewsbury, costumava dizer, era desejo do seu pai que os convidados fossem atendidos constantemente, e numa das cartas a Fox ele fala da impossibilidade de escrever uma carta enquanto a casa estava cheia de companhia. Penso que ele se sentia sempre inquieto por não fazer mais pelo entretenimento dos seus convidados, mas o resultado era bem-sucedido; e, para compensar qualquer perda, havia o ganho de que os convidados se sentiam perfeitamente livres para fazer o que quisessem. Os visitantes mais habituais eram aqueles que ficavam de sábado a segunda-feira; os que permaneciam mais tempo eram geralmente parentes, e eram considerados mais um assunto da minha mãe do que dele.

Para além destes visitantes, havia estrangeiros e outros estranhos, que vinham almoçar e iam-se embora à tarde. Ele costumava, conscienciosamente, representar-lhes a enorme distância de Down a Londres, e o trabalho que seria vir até lá, pressupondo inconscientemente que eles achariam a viagem tão penosa quanto ele próprio. Se, no entanto, não se deixassem dissuadir, ele organizava-lhes as viagens, dizendo-lhes quando vir, e praticamente quando ir. Era agradável ver a forma como ele apertava a mão a um convidado que estava a ser recebido pela primeira vez; a sua mão costumava disparar de uma forma que dava a sensação de que se apressava a encontrar as mãos do convidado. Com os velhos amigos, a sua mão descia com um balanço caloroso sobre a outra mão, de uma forma que sempre me dava satisfação ver. O seu adeus caracterizava-se principalmente pela forma agradável como ele agradecia aos seus convidados, enquanto estava à porta, por terem vindo visitá-lo.

Estes almoços eram entretenimentos muito bem-sucedidos, não havia arrastamento ou desânimo neles, o meu pai estava brilhante e excitado durante toda a visita. O Professor De Candolle descreveu uma visita a Down, no seu admirável e empático esboço sobre o meu pai. ('Darwin considere au point de vue des causes de son succes.'--Geneva, 1882.) Ele fala da sua maneira como assemelhando-se à de um "savant" de Oxford ou Cambridge. Isto não me parece uma comparação muito boa; na sua descontração e naturalidade havia mais da maneira de alguns soldados; uma maneira que surgia da total ausência de pretensão ou afetação. Era esta ausência de pose, e a forma natural e simples como ele começava a falar com os seus convidados, de modo a levá-los para os seus próprios temas, que o tornava um anfitrião tão encantador para um estranho. A sua feliz escolha de assuntos de conversa parecia fluir da sua natureza empática, e do seu humilde e vívido interesse pelo trabalho dos outros.

Para alguns, creio que ele causava uma dor real pela sua modéstia; vi o falecido Francis Balfour ficar completamente desorientado por ter conhecimentos atribuídos a si próprio sobre um ponto em relação ao qual o meu pai afirmava ser totalmente ignorante.

É difícil captar as características da conversação do meu pai.

Ele tinha mais receio do que a maioria das pessoas de repetir as suas histórias, e dizia continuamente: "Deves ter-me ouvido contar", ou "Atrevo-me a dizer que já te contei." Ele tinha uma peculiaridade que dava um efeito curioso à sua conversação. As primeiras palavras de uma frase lembravam-lhe frequentemente alguma exceção a, ou alguma razão contra, o que ele ia dizer; e isto, por sua vez, trazia à baila algum outro ponto, de modo que a frase se tornava um sistema de parênteses dentro de parênteses, e era muitas vezes impossível compreender o sentido do que ele estava a dizer até chegar ao fim da sua frase. Ele costumava dizer de si próprio que não era suficientemente rápido para sustentar um argumento com ninguém, e penso que isto era verdade. A menos que fosse um assunto sobre o qual estivesse a trabalhar naquele momento, ele não conseguia colocar o fio de raciocínio em ordem de funcionamento com rapidez suficiente. Isto mostra-se mesmo nas suas cartas; assim, no caso de duas cartas ao Prof. Semper sobre o efeito do isolamento, ele não recordou a série de factos que queria até alguns dias depois de a primeira carta ter sido enviada.

Quando ficava confuso ao falar, tinha um gaguejo peculiar na primeira palavra de uma frase. Só me recordo de isto acontecer com palavras começadas por w; possivelmente ele tinha uma dificuldade especial com esta letra, pois ouvi-o dizer que, quando rapaz, não conseguia pronunciar w, e que lhe ofereceram seis pence se conseguisse dizer "white wine", que ele pronunciava "rite rine". Possivelmente ele pode ter herdado esta tendência de Erasmus Darwin, que gaguejava. (O meu pai relatou uma resposta johnsoniana de Erasmus Darwin: "Não acha muito inconveniente gaguejar, Dr. Darwin?" "Não, senhor, porque tenho tempo para pensar antes de falar, e não faço perguntas impertinentes.")

Ele combinava por vezes as suas metáforas de uma forma curiosa, usando uma expressão como "aguentar-se como a vida" -- uma mistura de "aguentar-se pela sua vida" e "aguentar-se como uma morte sombria". Vinha da sua forma impetuosa de dar ênfase ao que estava a dizer. Isto dava por vezes um ar de exagero onde não era pretendido; mas dava, também, um ar nobre de convicção forte e generosa; como, por exemplo, quando deu o seu testemunho perante a Comissão Real sobre vivissecção e saiu com as suas palavras sobre a crueldade: "Merece detestação e abominação." Quando ele sentia algo fortemente sobre qualquer questão semelhante, mal conseguia confiar em si próprio para falar, pois então tornava-se facilmente zangado, uma coisa que ele detestava excessivamente. Ele tinha consciência de que a sua zanga tinha tendência a multiplicar-se na expressão e, por esta razão, temia (por exemplo) ter de repreender um criado.

Era uma grande prova da modéstia do seu estilo de falar que, quando, por exemplo, um grupo de visitantes vinha de casa de Sir John Lubbock para uma visita de domingo à tarde, ele nunca parecia estar a pregar ou a dar lições, embora tivesse muito da conversa para si próprio. Ele era particularmente encantador quando "provocava" alguém, e estava bem-disposto com isso. A sua maneira nesses momentos era alegre e jovial, e o seu refinamento de natureza transparecia com mais força. Assim, quando falava com uma senhora que o agradava e divertia, a combinação de galhofa e deferência na sua maneira era encantadora de ver.

Quando o meu pai tinha vários convidados, ele geria-os bem, conseguindo conversar com cada um, ou juntando dois ou três à volta da sua cadeira. Nestas conversas havia sempre uma boa dose de diversão e, falando de um modo geral, havia ou um toque de humor na sua conversa, ou uma cordialidade ensolarada que servia de substituto. Talvez a minha recordação de um elemento de humor predominante seja mais vívida, porque as melhores conversas eram com o Sr. Huxley, em quem existe a aptidão que é semelhante ao humor, mesmo quando o próprio humor não está presente. O meu pai apreciava imensamente o humor do Sr. Huxley, e dizia frequentemente: "Que diversão esplêndida é o Huxley!" Penso que ele provavelmente teve mais argumentos científicos (da natureza de uma luta) com Lyell e Sir Joseph Hooker.

Ele costumava dizer que o entristecia descobrir que para os amigos da sua vida posterior ele não tinha o afeto caloroso da sua juventude. Certamente, nas suas primeiras cartas de Cambridge, ele dá provas de uma amizade muito forte por Herbert e Fox; mas ninguém, exceto ele próprio, teria dito que o seu afeto pelos amigos não era, ao longo da vida, da espécie mais calorosa possível. Ao servir um amigo, ele não se poupava, e o tempo e as forças preciosas eram voluntariamente dados. Ele tinha, sem dúvida, em grau invulgar, o poder de prender os seus amigos a si. Ele teve muitas amizades calorosas, mas a Sir Joseph Hooker estava ligado por laços de afeto mais fortes do que aqueles que vemos frequentemente entre homens. Ele escreveu nas suas 'Recollections': "Não conheci quase nenhum homem mais adorável do que Hooker."

A sua relação com as pessoas da aldeia era agradável; ele tratava-as, a todas, com cortesia, quando entrava em contacto com elas, e interessava-se por tudo o que dizia respeito ao seu bem-estar. Algum tempo depois de ter ido viver para Down, ajudou a fundar um Clube de Amigos, e serviu como tesoureiro durante trinta anos. Ele tinha muito trabalho com o clube, mantendo as suas contas com uma exatidão minuciosa e escrupulosa, e sentindo prazer na sua condição próspera. Todas as segundas-feiras de Pentecostes, o clube costumava marchar por ali com banda e estandarte, e desfilava no relvado em frente da casa. Lá, ele encontrava-os e explicava-lhes a sua posição financeira num pequeno discurso temperado com algumas piadas bem gastas. Ele estava frequentemente doente o suficiente para fazer com que até esta pequena cerimónia fosse um esforço, mas penso que nunca deixou de os encontrar.

Ele também era tesoureiro do Clube do Carvão, o que lhe dava algum trabalho, e exerceu durante alguns anos como Magistrado do Condado.

Relativamente ao interesse do meu pai pelos assuntos da aldeia, o Sr. Brodie Innes teve a bondade de me dar as suas recordações:--

"Ao tornar-me Vigário de Down em 1846, tornámo-nos amigos, e assim continuámos até à sua morte. A sua conduta para comigo e para com a minha família foi de uma bondade inalterável, e nós retribuímo-la com um afeto caloroso.

"Em todos os assuntos paroquiais ele era um assistente ativo; em assuntos ligados às escolas, caridades e outros negócios, a sua contribuição liberal estava sempre pronta, e nas diferenças que por vezes ocorriam nessa, como noutras paróquias, eu tinha sempre a certeza do seu apoio. Ele defendia que, onde não houvesse realmente nenhuma objeção importante, a sua assistência deveria ser dada ao clérigo, que deveria conhecer melhor as circunstâncias e que era o principal responsável."

O seu convívio com estranhos era marcado por uma polidez escrupulosa e um tanto formal, mas, de facto, ele tinha poucas oportunidades de encontrar estranhos.

O Dr. Lane descreveu (Palestra do Dr. B.W. Richardson, no St. George's Hall, 22 de outubro de 1882.) como, na rara ocasião em que o meu pai assistiu a uma palestra (do Dr. Sanderson) na Royal Institution, "toda a assembleia... se levantou para o receber", enquanto ele parecia "mal consciente de que tal explosão de aplausos pudesse possivelmente ser destinada a si próprio". A vida tranquila que levava em Down fazia com que se sentisse confuso numa grande sociedade; por exemplo, nas reuniões da Royal Society sentia-se oprimido pelos números. O sentimento de que deveria conhecer as pessoas, e a dificuldade que tinha em lembrar-se dos rostos nos seus últimos anos, também aumentavam o seu desconforto em tais ocasiões. Ele não se apercebia de que seria reconhecido pelas suas fotografias, e lembro-me de ele se sentir inquieto por ser obviamente reconhecido por um estranho no Aquário do Crystal Palace.

A sua vida em Down era, em grande parte, determinada pela sua saúde, que sempre foi precária. Ele costumava dizer que não tinha tido um dia de verdadeira saúde desde que regressou da viagem no "Beagle". A sua doença era de natureza crónica, manifestando-se por náuseas, frequentemente acompanhadas de vómitos, e por um profundo mal-estar que o deixava num estado de exaustão tal que era incapaz de qualquer esforço mental ou físico. O início de um ataque era, muitas vezes, súbito, mas por vezes era precedido por uma sensação de fraqueza. Em épocas em que a doença era particularmente severa, ele era forçado a abandonar todo o trabalho, e estes períodos de inatividade eram para ele uma fonte de grande aflição, pois a sua mente, que nunca estava em repouso, procurava sempre ocupar-se.

A causa exata da sua saúde debilitada nunca foi devidamente esclarecida, apesar das numerosas consultas médicas e tratamentos a que se submeteu ao longo de muitos anos. Ele próprio, contudo, acreditava que a sua condição era um legado das tensões físicas e mentais sofridas durante as suas explorações e estudos. A rotina em Down era, por isso, rigorosamente adaptada às suas necessidades físicas. O seu dia começava cedo, geralmente com uma breve caminhada pelo jardim, que ele considerava essencial para manter as suas faculdades. Após o pequeno-almoço, retirava-se para o seu estudo, onde trabalhava durante cerca de duas horas, antes de ser obrigado a interromper por causa do cansaço.

Este padrão de trabalho, interrompido e retomado, permitia-lhe, apesar de tudo, realizar uma quantidade extraordinária de investigação. Era notável a forma como, após um período de repouso forçado num quarto escuro ou num sofá, ele conseguia retomar o fio condutor dos seus pensamentos com uma clareza renovada. A sua família desempenhava um papel vital no apoio à sua rotina, criando um ambiente que minimizava as interrupções e as exigências sociais que ele tanto evitava. O silêncio da casa era, para ele, o ambiente necessário para a concentração profunda, e qualquer ruído inesperado ou perturbação da ordem estabelecida podia causar-lhe uma irritação que, dado o seu temperamento habitualmente paciente e gentil, demonstrava bem o quanto a sua energia estava concentrada no trabalho.

Quando o livro passava pela fase de "prova", ele ficava satisfeito em receber correções e sugestões de outros. Assim, a minha mãe revia as provas de 'A Origem'. Em algumas das obras posteriores, a minha irmã, a Sra. Litchfield, fez grande parte da correção. Após o casamento da minha irmã, talvez a maior parte do trabalho tenha recaído sobre mim.

A minha irmã, Sra. Litchfield, escreve:--

"Este trabalho era muito interessante por si só, e era inexprimivelmente estimulante trabalhar para ele. Ele estava sempre tão pronto a ser convencido de que qualquer alteração sugerida era uma melhoria, e tão cheio de gratidão pelo trabalho tido. Não creio que ele alguma vez se tenha esquecido de me dizer que melhoria ele achava que eu tinha feito, e quase costumava desculpar-se se não concordasse com alguma correção. Penso que senti a singular modéstia e amabilidade da sua natureza ao trabalhar assim para ele, de uma forma que nunca teria sentido de outra maneira.

"Ele não escrevia com facilidade e tendia a inverter as suas frases tanto ao escrever como ao falar, colocando a cláusula qualificativa antes de ficar claro o que ela devia qualificar. Ele corrigia muito e estava ansioso por se expressar tão bem quanto possível."

Talvez as correções mais comuns fossem as de obscuridades devidas à omissão de um elo necessário no raciocínio, algo que ele tinha evidentemente omitido devido à familiaridade com o assunto. Não que houvesse qualquer falha na sequência dos pensamentos, mas sim que, devido à familiaridade com o seu argumento, ele não notava quando as palavras falhavam em reproduzir o seu pensamento. Ele também colocava frequentemente demasiada matéria numa única frase, pelo que esta tinha de ser dividida em duas.

No geral, penso que o esforço que o meu pai dedicava à parte literária do trabalho era muito notável. Ele frequentemente ria-se ou queixava-se de si próprio pela dificuldade que encontrava em escrever inglês, dizendo, por exemplo, que se uma má organização de uma frase fosse possível, ele certamente a adotaria. Certa vez, divertiu-se e satisfez-se muito com a dificuldade que um dos membros da família encontrou ao escrever uma pequena circular. Ele teve o prazer de corrigir e de se rir de obscuridades, frases confusas e outros defeitos, e assim vingou-se de todas as críticas que ele próprio teve de suportar. Ele costumava citar com espanto o conselho da Srta. Martineau aos jovens autores, de escreverem diretamente e enviarem o manuscrito para o impressor sem correção. Mas, em alguns casos, ele agia de uma forma um tanto semelhante. Quando uma frase ficava irremediavelmente confusa, ele perguntava a si mesmo: "agora, o que é que QUERES dizer?", e a sua resposta, escrita, muitas vezes desfazia a confusão.

O seu estilo tem sido muito elogiado; por outro lado, pelo menos um bom juiz observou-me que não é um bom estilo. É, acima de tudo, direto e claro; e é característico dele próprio na sua simplicidade, que roça a ingenuidade, e na sua ausência de pretensão. Ele tinha a maior descrença na ideia comum de que um estudioso clássico deve escrever um bom inglês; de facto, ele pensava que o contrário era o caso. Ao escrever, mostrava por vezes a mesma tendência para expressões fortes que mostrava na conversação. Assim, em 'A Origem', página 440, há uma descrição de um cirrípede larvar, "com seis pares de pernas natatórias belamente construídas, um par de magníficos olhos compostos e antenas extremamente complexas." Costumávamos rir-nos dele por causa desta frase, que comparávamos a um anúncio. Esta tendência para se entregar ao rumo entusiástico do seu pensamento, sem medo de ser ridículo, aparece noutros pontos dos seus escritos.

O seu tom cortês e conciliador para com o leitor é notável, e deve ser em parte esta qualidade que revelou a sua doçura pessoal de caráter a tantos que nunca o tinham visto. Sempre senti ser um facto curioso que aquele que alterou a face da Biologia, e que é, a este respeito, o chefe dos modernos, devesse ter escrito e trabalhado num espírito e maneira essencialmente não modernos. Ao ler os seus livros, recordamo-nos dos naturalistas mais antigos em vez da escola moderna de escritores. Ele era um Naturalista no sentido antigo da palavra, isto é, um homem que trabalha em muitos ramos da ciência, não apenas um especialista num só. É assim que, embora tenha fundado divisões inteiras de assuntos especiais -- tais como a fertilização das flores, plantas insetívoras, dimorfismo, etc. --, mesmo ao tratar destes mesmos assuntos ele não impressiona o leitor como um especialista. O leitor sente-se como um amigo a quem um cavalheiro cortês se dirige, não como um aluno a quem um professor dá uma aula. O tom de um livro como 'A Origem' é encantador e quase patético; é o tom de um homem que, convencido da verdade das suas próprias opiniões, dificilmente espera convencer os outros; é exatamente o oposto do estilo de um fanático, que quer forçar as pessoas a acreditar. O leitor nunca é desprezado por qualquer quantidade de dúvida que se possa imaginar que sinta, e o seu ceticismo é tratado com um respeito paciente. Um leitor cético, ou talvez até um leitor irracional, parece ter estado geralmente presente nos seus pensamentos. Foi em consequência deste sentimento, talvez, que ele teve muito trabalho com pontos que imaginou que impressionariam o leitor, ou que lhe poupariam trabalho, tentando-o assim a ler.

Pela mesma razão, ele interessava-se muito pelas ilustrações dos seus livros, e penso que avaliava um pouco demasiado o seu valor. As ilustrações para os seus livros anteriores foram desenhadas por artistas profissionais. Este foi o caso em 'Animais e Plantas', 'A Descendência do Homem' e 'A Expressão das Emoções'. Por outro lado, 'Plantas Trepadeiras', 'Plantas Insetívoras', 'Os Movimentos das Plantas' e 'Formas das Flores' foram, em grande parte, ilustrados por alguns dos seus filhos -- tendo o meu irmão George desenhado a grande maioria. Era encantador desenhar para ele, pois ele era entusiástico no elogio de desempenhos muito moderados. Lembro-me bem da sua maneira encantadora de receber os desenhos de uma das suas noras, e de como terminava as suas palavras de louvor dizendo: "Diz à A--, Miguel Ângelo não é nada comparado com isto." Embora elogiasse tão generosamente, ele olhava sempre atentamente para o desenho e detetava facilmente erros ou descuido.

Ele tinha horror a ser prolixo, e parece ter ficado realmente muito aborrecido e angustiado quando viu como 'Variações de Animais e Plantas' crescia sob as suas mãos. Lembro-me de ele concordar cordialmente com as palavras de 'Tristram Shandy': "Que ninguém diga: 'Vou escrever um in-duodécimo'."

A sua consideração pelos outros autores era uma característica tão marcante como o seu tom para com o leitor. Ele fala de todos os outros autores como pessoas que merecem respeito. Nos casos em que, como no caso das experiências de -- sobre a Drosera, ele tinha uma opinião pouco elevada do autor, fala dele de tal maneira que ninguém o suspeitaria. Noutros casos, trata os escritos confusos de pessoas ignorantes como se a culpa fosse dele próprio por não os apreciar ou compreender. Para além deste tom geral de respeito, ele tinha uma maneira agradável de expressar a sua opinião sobre o valor de uma obra citada, ou a sua obrigação por uma informação privada.

O seu sentimento respeitoso não era apenas moralmente belo, mas penso que era de utilidade prática ao torná-lo pronto a considerar as ideias e observações de todo o tipo de pessoas. Ele quase se desculpava por isso e dizia que, a princípio, estava inclinado a avaliar tudo demasiado bem.

Era um grande mérito da sua mente que, apesar de ter um sentimento tão fortemente respeitoso em relação ao que lia, ele tinha os instintos mais apurados sobre se um homem era ou não de confiança. Ele parecia formar uma opinião muito definida sobre a precisão dos homens cujos livros lia; e utilizava este julgamento na sua escolha de factos para uso em argumentos ou como ilustrações. Ganhei a impressão de que ele sentia que este poder de julgar a fiabilidade de um homem era de muito valor.

Ele tinha um sentido apurado do sentido de honra que deveria reinar entre os autores, e tinha horror a qualquer tipo de laxismo ao citar. Ele tinha desprezo pelo amor à honra e à glória, e, nas suas cartas, muitas vezes censura-se pelo prazer que sentia no sucesso dos seus livros, como se estivesse a afastar-se do seu ideal -- um amor pela verdade e indiferença pela fama. Muitas vezes, ao escrever ao Sir J. Hooker o que ele chama de carta gabarola, ri-se de si mesmo pela sua vaidade e falta de modéstia. Existe uma carta maravilhosamente interessante que ele escreveu à minha mãe, legando-lhe, em caso de morte, o cuidado de publicar o manuscrito do seu primeiro ensaio sobre a evolução. Esta carta parece-me cheia do desejo intenso de que a sua teoria tivesse sucesso como uma contribuição para o conhecimento, e à parte qualquer desejo de fama pessoal. Ele tinha, certamente, o desejo saudável de sucesso que um homem de sentimentos fortes deveria ter. Mas na altura da publicação de 'A Origem', é evidente que ele estava avassaladoramente satisfeito com a adesão de homens como Lyell, Hooker, Huxley e Asa Gray, e não sonhava nem desejava qualquer fama tão vasta e geral como aquela que alcançou.

Ligado ao seu desprezo pelo amor indevido à fama, estava uma aversão igualmente forte por todas as questões de prioridade. As cartas a Lyell, na altura de 'A Origem', mostram a raiva que ele sentia consigo próprio por não conseguir reprimir um sentimento de desapontamento com o que ele pensava ser o facto de o Sr. Wallace ter antecipado todos os seus anos de trabalho. O seu sentido de honra literária transparece fortemente nestas cartas; e o seu sentimento sobre prioridade é novamente mostrado na admiração expressa nas suas 'Recordações' pelo autoaniquilamento do Sr. Wallace.

O seu sentimento sobre reclamações, incluindo respostas a ataques e todo o tipo de discussões, era forte. Está simplesmente expresso numa carta a Falconer (1863?): "Se eu alguma vez me sentisse zangado consigo, por quem tenho uma amizade sincera, começaria a suspeitar que estava um pouco louco. Lamentei muito a sua reclamação, pois penso que é em todos os casos um erro e deveria ser deixada aos outros. Se eu próprio agiria assim sob provocação, é uma questão diferente." Era um sentimento ditado em parte por uma delicadeza instintiva e em parte por um forte sentido de desperdício de tempo, energia e temperamento assim causado. Ele dizia que devia a sua determinação de não entrar em discussões (Ele afastou-se da sua regra na sua "Nota sobre os Hábitos do Pica-pau dos Pampas, Colaptes campestris", 'Proc. Zool. Soc.', 1870, página 705: também numa carta publicada no 'Athenaeum' (1863, página 554), caso em que ele mais tarde se arrependeu de não ter permanecido em silêncio. As suas respostas a críticas, nas edições posteriores de 'A Origem', dificilmente podem ser classificadas como infrações à sua regra.) ao conselho de Lyell -- conselho que ele transmitia àqueles entre os seus amigos que eram dados à guerra por escrito.

Se o caráter da vida profissional do meu pai deve ser compreendido, as condições de má saúde, sob as quais ele trabalhava, devem ser constantemente tidas em mente. Ele suportava a sua doença com uma paciência tão pouco queixosa que, acredito, nem mesmo os seus filhos podem avaliar a extensão do seu sofrimento habitual. No caso deles, a dificuldade é aumentada pelo facto de, desde os dias das suas primeiras recordações, o terem visto com má saúde constante -- e terem-no visto, apesar disso, cheio de prazer no que lhes dava prazer. Assim, na vida adulta, a sua perceção do que ele suportava teve de ser separada da impressão produzida na infância pela constante bondade genial sob condições de dificuldade não reconhecida. Ninguém, de facto, exceto a minha mãe, conhece a quantidade total de sofrimento que ele suportou, ou a quantidade total da sua maravilhosa paciência. Durante todos os últimos anos da sua vida, ela nunca o deixou por uma noite; e os seus dias eram planeados de modo a que todas as suas horas de descanso pudessem ser partilhadas com ela. Ela protegeu-o de todo o aborrecimento evitável, e não omitiu nada que pudesse poupar-lhe trabalho, ou impedi-lo de ficar demasiado cansado, ou que pudesse aliviar os muitos desconfortos da sua má saúde. Hesito em falar tão livremente de algo tão sagrado como a devoção de uma vida inteira que inspirou todo este cuidado constante e terno. Mas é, repito, um traço principal da sua vida que, durante quase quarenta anos, ele nunca conheceu um dia da saúde dos homens comuns, e que, assim, a sua vida foi uma longa luta contra o cansaço e a tensão da doença. E isto não pode ser contado sem falar da única condição que lhe permitiu suportar a tensão e lutar na luta até ao fim.

CARTAS.

As primeiras cartas a que tenho acesso são as escritas pelo meu pai quando era estudante em Cambridge.

A história da sua vida, tal como contada na sua correspondência, deve, portanto, começar por este período.

CAPÍTULO 1.IV. -- VIDA EM CAMBRIDGE.

[A vida de Cambridge do meu pai compreende o tempo entre o Termo da Quaresma, 1828, quando ele entrou como Caloiro, e o final do Termo de Maio, 1831, quando ele se licenciou e deixou a Universidade.]

Consta dos registos da Faculdade que o meu pai "admissus est pensionarius minor sub Magistro Shaw" a 15 de outubro de 1827. Ele não entrou em residência até ao Termo da Quaresma, 1828, pelo que, embora tenha passado o seu exame na devida altura, não pôde licenciar-se no tempo habitual -- o início do Termo da Quaresma, 1831. Em tal caso, um homem habitualmente licenciava-se antes da Quarta-feira de Cinzas, altura em que era chamado "Baccalaureus ad Diem Cinerum", e contava com os bacharéis do ano. O nome do meu pai, contudo, ocorre na lista de Bacharéis "ad Baptistam", ou aqueles admitidos entre a Quarta-feira de Cinzas e o Dia de São João Batista (24 de junho); ("Na terça-feira passada Charles Darwin, do Christ's College, foi admitido bacharel." -- "Cambridge Chronicle", sexta-feira, 29 de abril de 1831.) ele assumiu, portanto, o seu lugar entre os bacharéis de 1832.

Ele "viveu" durante um ou dois termos em alojamentos, por cima da tabacaria de Bacon; não, contudo, por cima da loja na Praça do Mercado, agora tão bem conhecida pelos homens de Cambridge, mas na Sidney Street. Durante o resto do seu tempo, teve quartos agradáveis no lado sul do primeiro pátio do Christ's. (Os quartos ficam no primeiro andar, no lado oeste da escadaria do meio. Um medalhão (oferecido pelo meu irmão) foi recentemente colocado na parede da sala de estar.)

O que determinou a escolha desta faculdade para o seu irmão Erasmus e para ele próprio, não tenho meios de saber. Erasmus, o mais velho, o seu avô, tinha estado em St. John's, e esta faculdade poderia ter sido razoavelmente selecionada para eles, por estar ligada à Shrewsbury School. Mas a vida de um estudante em St. John's parece, naqueles dias, ter sido conturbada, se posso julgar pelo facto de um parente meu ter migrado de lá para o Christ's para escapar à disciplina torturante do lugar. Uma história contada pelo Sr. Herbert ilustra o mesmo estado de coisas:--

"No início do Termo de outubro de 1830, ocorreu um incidente que teve consequências algo desagradáveis, embora ridículas, para mim. Darwin pediu-me para fazer uma longa caminhada com ele nos Fens, para procurar alguns objetos naturais que ele desejava ter. Após um longo e fatigante dia de trabalho, jantámos juntos, tarde da noite, nos seus quartos no Christ's College; e assim que o nosso jantar terminou, atirámo-nos para cadeirões e adormecemos profundamente. Fui o primeiro a acordar, por volta das três da manhã, quando, tendo olhado para o meu relógio e sabendo da regra estrita de St. John's, que exigia que os homens em statu pupillari viessem para a faculdade antes da meia-noite, corri para casa à velocidade máxima, com medo das consequências, mas esperando que o Deão aceitasse a desculpa como suficiente quando eu lhe contasse os factos reais. Ele, contudo, foi inexorável e recusou-se a aceitar as minhas explicações, ou qualquer prova que eu pudesse trazer; e embora durante o meu tempo de estudante nunca tivesse sido denunciado por chegar tarde à Faculdade, agora, quando eu era um bacharel trabalhador, e tinha cinco ou seis alunos, ele sentenciou-me ao confinamento nas muralhas da Faculdade pelo resto do termo. A indignação de Darwin não conhecia limites, e a estúpida injustiça e tirania do Deão causaram não só um perfeito fermento entre os meus amigos, como foram objeto de expostulação por parte de alguns dos principais membros da Universidade."

O meu pai parece não ter encontrado dificuldade em viver em paz com todos os homens, dentro e fora de cargos, na outra fundação de Lady Margaret. A impressão de um contemporâneo do meu pai é que o Christ's, no seu tempo, era uma faculdade agradável e bastante tranquila, com alguma tendência para a "cavalaria"; muitos dos homens tinham o hábito de ir a Newmarket durante as corridas, embora as apostas não fossem uma prática regular. Nisto, não eram de modo algum desencorajados pelo Tutor Sénior, o Sr. Shaw, que ele próprio era geralmente visto no Heath nessas ocasiões. Havia uma proporção um tanto elevada de Fellow-Commoners -- oito ou nove, para sessenta ou setenta Pensioners --, e isto indicaria que não era uma faculdade desagradável para homens com dinheiro para gastar e sem grande amor pela disciplina estrita.

A forma como o serviço era conduzido na capela mostra que o Deão, pelo menos, não era demasiado zeloso. Ouvi o meu pai contar como na capela da tarde o Deão costumava ler versículos alternados dos Salmos, sem fazer sequer uma pretensão de esperar que a congregação fizesse a sua parte. E quando a Lição era longa, ele levantava-se e prosseguia com os Cânticos depois de o estudante ter lido quinze ou vinte versículos.

É curioso que o meu pai falasse frequentemente da sua vida em Cambridge como se tivesse sido tanto tempo desperdiçado, esquecendo-se de que, embora os estudos obrigatórios do lugar fossem bastante estéreis para ele, ele ainda obteve, no mais alto grau, as melhores vantagens de uma vida universitária -- o contacto com homens e uma oportunidade para a sua mente crescer vigorosamente. É verdade que ele valorizava ao máximo as vantagens que obteve ao associar-se ao Professor Henslow e a alguns outros, mas parecia considerar isto como um resultado casual da sua vida em Cambridge, não uma vantagem pela qual a Alma Mater pudesse reclamar qualquer crédito. Um dos amigos de Cambridge do meu pai foi o falecido Sr. J.M. Herbert, Juiz do Tribunal de Comarca para o Sul do País de Gales, de quem tive a sorte de obter algumas notas que nos ajudam a ter uma ideia de como o meu pai impressionava os seus contemporâneos. O Sr. Herbert escreve: "Penso que foi na primavera de 1828 que conheci Darwin, quer nos quartos do meu primo Whitley em St. John's, quer nos quartos de algum outro dos seus antigos colegas de escola de Shrewsbury, com muitos dos quais eu mantinha uma grande intimidade. Mas foi certamente no verão desse ano que o nosso conhecimento amadureceu para a intimidade, quando nos encontrámos por acaso em Barmouth, para as Férias Grandes, a estudar com tutores privados -- ele com Batterton de St. John's, o seu tutor de Clássicos e Matemática, e eu com Yate de St. John's."

O convívio entre eles cessou praticamente em 1831, quando o meu pai se despediu de Herbert em Cambridge, ao partir na sua viagem no "Beagle". Conheci o Sr. Herbert, então quase um velho, e fiquei muito impressionado com a evidente calor e frescura do afeto com que ele se recordava do meu pai. As notas de onde cito terminam com este elogio caloroso: "Seria fútil da minha parte falar dos seus vastos poderes intelectuais... mas não posso terminar este esboço cursivo e divagante sem testemunhar, e não duvido que todos os seus amigos de faculdade sobreviventes concordariam comigo, que ele era o mais genial, caloroso, generoso e afetuoso dos amigos; que as suas simpatias estavam com tudo o que era bom e verdadeiro; e que ele tinha um ódio cordial por tudo o que era falso, ou vil, ou cruel, ou mesquinho, ou desonroso. Ele não era apenas grande, mas preeminentemente bom, justo e adorável."

Duas anedotas contadas pelo Sr. Herbert mostram que o sentimento do meu pai pelo sofrimento, fosse do homem ou da besta, era tão forte nele quando jovem quanto foi nos anos posteriores: "Antes de deixar Cambridge, ele disse-me que tinha tomado a decisão de não caçar mais; que tinha passado dois dias a caçar em casa do seu amigo, o Sr. Owen de Woodhouse; e que, no segundo dia, ao passar por parte do terreno que tinham batido no dia anterior, apanhou um pássaro que não estava morto, mas que definhava devido a um tiro que recebera no dia anterior; e que isso causou e deixou uma impressão tão dolorosa na sua mente que ele não conseguiu reconciliar com a sua consciência continuar a tirar prazer de um desporto que infligia tal sofrimento cruel."

Para compreender a força do sentimento que levou a esta resolução, devemos lembrar-nos de quão apaixonado era o seu amor pelo desporto. Devemos recordar o rapaz que abateu a sua primeira narceja ('Recollections.'), e que tremia de excitação de tal modo que mal conseguia recarregar a sua arma. Ou pensar numa frase como: "Pela minha alma, falta apenas cerca de uma quinzena para o 'Primeiro' [dia da época de caça], se existe uma felicidade na terra, é essa." (Carta de C. Darwin para W.D. Fox.)

Outra anedota contada pelo Sr. Herbert ilustra, novamente, a sua ternura de coração:--

"Quando estávamos em Barmouth, ele e eu fomos a uma exibição de 'cães doutos'. A meio do entretenimento, um dos cães falhou na execução do truque que o seu mestre lhe ordenou fazer. Ao homem repreendê-lo, o cão assumiu uma expressão muito piedosa, como se tivesse medo do chicote. Darwin, ao ver aquilo, pediu-me para sair com ele, dizendo: 'Anda, não suporto mais isto; como aqueles pobres cães devem ter sido fustigados'."

É curioso que o mesmo sentimento tenha ocorrido ao meu pai mais de cinquenta anos depois, ao ver alguns cães de espetáculo no Westminster Aquarium; nesta ocasião, ele ficou tranquilizado pelo gerente, que lhe disse que os cães eram ensinados mais por recompensa do que por punição. O Sr. Herbert continua:--"Comovia o mais profundo sentimento ouvir os seus discursos e ver os seus lamentos sobre os horrores do tráfico de escravos, ou as crueldades a que os sofredores polacos eram sujeitos em Varsóvia... Estas, e outras provas semelhantes, deixaram na minha mente a convicção de que nunca viveu um homem mais humano ou de coração mais terno."

Os seus antigos amigos da faculdade concordam ao falar com calor afetuoso sobre o seu temperamento agradável e genial quando jovem. Do que me puderam contar, ganho a impressão de um jovem transbordante de vitalidade — levando uma vida variada e saudável — não demasiado diligente no conjunto de estudos do lugar, mas cheio de outras ocupações, seguidas com um entusiasmo jubilante. Entomologia, equitação, caça nos pântanos, ceias e jogos de cartas, música na King's Chapel, gravuras no Fitzwilliam Museum, passeios com o Professor Henslow — tudo se combinava para preencher uma vida feliz. Parece ter contagiado os outros com o seu entusiasmo. O Sr. Herbert relata como, durante o mesmo verão em Barmouth, foi recrutado para o serviço da "ciência" — como o meu pai chamava à recolha de escaravelhos. Faziam os seus passeios diários juntos entre as colinas atrás de Barmouth, ou andavam de barco no estuário de Mawddach, ou navegavam até Sarn Badrig para desembarcar ali na maré baixa, ou iam à pesca com mosca nos lagos de Cors-y-gedol. "Nestas ocasiões, Darwin entomologizava com a maior diligência, apanhando criaturas enquanto caminhava e ensacando tudo o que parecia digno de ser perseguido ou de exame posterior. E, muito cedo, armou-me com um frasco de álcool, no qual eu tinha de deixar cair qualquer escaravelho que me parecesse não ser de um tipo comum. Cumpri este dever com alguma diligência nos meus passeios constitucionais; mas, ai de mim! as minhas capacidades de discriminação raramente me permitiam garantir um prémio — sendo o resultado habitual, ao examinar o conteúdo do meu frasco, uma exclamação: 'Bem, velho Cherbury' (Sem dúvida em alusão ao título de Lord Herbert of Cherbury) (a alcunha que me deu e pela qual me chamava habitualmente), 'nenhum destes serve'." Mais uma vez, o Rev. T. Butler, que fazia parte do grupo de leitura de Barmouth em 1828, diz: "Ele inoculou-me um gosto pela Botânica que me acompanhou toda a vida."

O Arquidiácono Watkins, outro antigo amigo de faculdade do meu pai, lembra-se dele a desenterrar escaravelhos nos salgueiros entre Cambridge e Grantchester, e fala de um certo escaravelho cuja lembrança do nome é "Crux major." (Panagaeus crux-major.) Com que entusiasmo o meu pai deve ter exultado com este escaravelho para ter gravado o seu nome num companheiro de tal forma que ele se lembra dele após meio século! O Arquidiácono Watkins continua: "Não me esqueço das longas e muito interessantes conversas que tivemos sobre a paisagem brasileira e a vegetação tropical de todos os tipos. Nem me esqueço da forma e da veemência com que ele esfregava o queixo quando se excitava com tais assuntos, e discorria eloquentemente sobre lianas, orquídeas, etc."

Tornou-se íntimo de Henslow, o Professor de Botânica, e através dele de alguns outros membros mais velhos da Universidade. "Mas", escreve o Sr. Herbert, "ele manteve sempre a ligação mais estreita com os amigos do seu próprio nível; e nas nossas frequentes reuniões sociais — ao pequeno-almoço, em festas de vinho ou ceias — ele era sempre um dos mais alegres, dos mais populares e dos mais bem-vindos."

O meu pai formava parte de um clube para jantar uma vez por semana, chamado o Clube Gourmet (O Sr. Herbert menciona o nome como 'The Glutton Club'.), sendo os membros, além dele próprio e do Sr. Herbert (de quem cito), Whitley de St. John's, agora Cónego Honorário de Durham (Anteriormente Leitor em Filosofia Natural na Universidade de Durham.); Heaviside de Sidney, agora Cónego de Norwich; Lovett Cameron de Trinity, agora vigário de Shoreham; Blane de Trinity, que ocupou um cargo elevado durante a guerra da Crimeia; H. Lowe (Irmão de Lord Sherbrooke.) (Agora Sherbrooke) de Trinity Hall; e Watkins de Emmanuel, agora Arquidiácono de York. A origem do nome do clube parece já ter caído na obscuridade. O Sr. Herbert diz que foi escolhido em escárnio de outro "grupo de homens que se intitulavam por um longo nome grego que significava 'gostador de iguarias', mas que falseavam a sua pretensão a tal designação pela sua prática semanal de jantar em alguma estalagem de beira de estrada, a seis milhas de Cambridge, à base de costeletas de carneiro ou feijão com bacon." Outro antigo membro do clube diz-me que o nome surgiu porque os membros eram dados a fazer experiências com "pássaros e bestas que eram antes desconhecidos ao paladar humano." Diz que foram experimentados falcão e bitorno, e que o seu zelo esmoreceu perante um velho mocho, "que era indescritível." De qualquer forma, as reuniões pareciam ter sido bem-sucedidas e ter terminado com "um jogo de um suave vingt-et-un."

O Sr. Herbert dá um relato divertido das audições musicais descritas pelo meu pai nas suas "Recollections." O Sr. Herbert fala enfaticamente do seu amor pela música e acrescenta: "O que lhe dava o maior prazer era alguma grande sinfonia ou abertura de Mozart ou Beethoven, com as suas harmonias completas." Numa ocasião, Herbert lembra-se de "o acompanhar ao serviço da tarde na King's, quando ouvimos um hino muito bonito. No final de uma das partes, que era extremamente impressionante, ele virou-se para mim e disse, com um suspiro profundo: 'Como está a tua espinha dorsal?'" Ele falava frequentemente de uma sensação de frio ou arrepios nas costas ao ouvir música bonita.

Além do amor pela música, ele tinha certamente, nesta altura, um amor pela boa literatura; e o Sr. Cameron diz-me que costumava ler Shakespeare ao meu pai nos seus aposentos em Christ's, que tirava muito prazer disso. Fala também do seu "grande gosto pelas gravuras de primeira classe, especialmente as de Raphael Morghen e Muller; e ele passava horas no Fitzwilliam Museum a observar as gravuras naquela coleção."

As cartas do meu pai a Fox mostram quão oprimido ele se sentia com a leitura para um exame: "Estou a ler muito, e não tenho ânimo para nada. Na verdade, não espetei um único escaravelho este trimestre." O seu desespero com a matemática deve ter sido profundo, quando expressou a esperança de que o silêncio de Fox se devesse a "estares dez braças mergulhado na Matemática; e se estiveres, que Deus te ajude, pois eu também estou, só que com esta diferença: eu estou preso na lama do fundo, e lá permanecerei." O Sr. Herbert diz: "Ele não tinha, imagino eu, qualquer inclinação natural para a matemática, e abandonou a sua leitura matemática antes de ter dominado a primeira parte da Álgebra, tendo tido um desentendimento especial com os Radicais e o Teorema do Binómio."

Obtemos algumas provas, pelas suas cartas a Fox, da intenção do meu pai de entrar para a Igreja. "Fico contente", escreve ele (18 de março de 1829.), "por saber que estás a ler teologia. Gostaria de saber que livros estás a ler, e as tuas opiniões sobre eles; não precisas de ter medo de me pregar prematuramente." O esboço do Sr. Herbert mostra como surgiram dúvidas na mente do meu pai quanto à possibilidade de ele receber as Ordens. Ele escreve: "Tivemos uma conversa séria sobre entrar para as Ordens Sagradas; e lembro-me de ele me perguntar, com referência à questão colocada pelo Bispo no serviço de ordenação, 'Confias que és interiormente movido pelo Espírito Santo, etc.', se eu poderia responder afirmativamente, e ao dizer-lhe que não podia, ele disse: 'Nem eu, e, portanto, não posso receber ordens'." Esta conversa parece ter ocorrido em 1829 e, se assim foi, as dúvidas aqui expressas devem ter sido acalmadas, pois em maio de 1830 ele fala de ter algumas ideias de ler teologia com Henslow.

[O maior número das cartas seguintes é endereçado pelo meu pai ao seu primo, William Darwin Fox. O parentesco do Sr. Fox com o meu pai é mostrado na árvore genealógica dada no Capítulo I. O grau de parentesco parece ter permanecido um problema para o meu pai, pois ele assina numa carta como "primo/n à potência 2." A sua amizade deveu-se, de facto, ao facto de serem ambos estudantes universitários na mesma altura. As cartas do meu pai mostram claramente o quão genuína era a amizade. Em anos posteriores, a distância, famílias numerosas e a má saúde de ambos limitaram o convívio; mas um sentimento caloroso de amizade permaneceu. A correspondência nunca foi totalmente interrompida e continuou até à morte do Sr. Fox em 1880. O Sr. Fox recebeu ordens e trabalhou como clérigo rural até ser forçado pela má saúde a deixar o seu cargo na Floresta de Delamare. O seu amor pela história natural permaneceu forte, e tornou-se um criador especializado de muitos tipos de pássaros, etc. O índice de 'Animals and Plants', e a correspondência posterior do meu pai, mostram quanta ajuda ele recebeu do seu antigo amigo de faculdade.]

CHARLES DARWIN PARA J.M. HERBERT. Sábado à noite [14 de setembro de 1828]. (O carimbo de Derby parece mostrar que a carta foi escrita em casa do seu primo, W.D. Fox, Osmaston, perto de Derby.)

Meu caro velho Cherbury,

Estou prestes a cumprir a minha promessa de te escrever, mas lamento acrescentar que existe um motivo muito egoísta por trás. Vou pedir-te um grande favor, e não podes imaginar quanto me obrigarás ao conseguir mais alguns espécimes de alguns insetos que, arrisco dizer, consigo descrever. Em primeiro lugar, devo informar-te que capturei alguns dos mais raros Insetos britânicos, e o facto de serem encontrados perto de Barmouth é totalmente desconhecido no mundo entomológico: penso que escreverei a informar alguns dos entomologistas de topo.

Mas agora, ao que interessa. MAIS ALGUNS espécimes, se os conseguires obter sem grande incómodo, dos seguintes insetos:--O escaravelho de cor preto-violeta, encontrado em Craig Storm (O topo da colina imediatamente atrás de Barmouth era chamado Craig-Storm, uma palavra híbrida câmbro-inglesa.), debaixo de pedras, também um grande escaravelho liso e preto muito parecido; um escaravelho do estrume de cor metálica azulada, que é MUITO comum nas encostas das colinas; também, se FOSSES tão amável ao ponto de atravessar a balsa, encontrarás um grande número sob as pedras, em terreno baldio, de um escaravelho comprido, liso e preto como o azeviche (muitos destes); também, na mesma situação, um inseto muito pequeno e rosado, com manchas pretas, com um tórax curvo projetando-se além da cabeça; também, no terreno pantanoso sobre a balsa, perto do mar, debaixo de algas antigas, pedras, etc., encontrarás um pequeno escaravelho amarelado e transparente, com duas ou quatro marcas enegrecidas nas costas. Debaixo destas pedras há dois tipos, um muito mais escuro do que o outro; o de cor mais clara é o que eu quero. Estes dois últimos insetos são EXCESSIVAMENTE RAROS, e tu obrigar-me-ás REALMENTE E EXTREMAMENTE ao teres todo este trabalho bastante cedo; dá as minhas mais calorosas lembranças a Butler, conta-lhe do meu sucesso, e arrisco dizer que ambos reconhecereis facilmente estes insetos. Espero que as suas lagartas corram bem. Penso que muitas das crisálidas valem bem a pena guardar. Estou realmente envergonhado por uma carta tão longa toda sobre os meus próprios assuntos; mas retribui o mal com o bem, e envia-me um longo relato de todos os teus procedimentos.

Na primeira semana abati setenta e cinco cabeças de caça -- um número muito desprezível -- mas há muito poucos pássaros. Abati, contudo, um par de galos-pretos. Desde então, tenho estado em casa dos Fox, perto de Derby; é uma casa muito agradável, e o encontro musical correu muito bem. Quero saber como é que o Yates gosta da sua arma, e que uso ele fez dela.

Se o frasco não for grande, podes comprar outro para mim, e quando passares por Shrewsbury podes deixar estes tesouros, e espero que, se possivelmente puderes, fiques um dia ou dois comigo, pois espero não precisar de dizer o quão feliz ficarei por te ver novamente. Fox comentou que rapazes de bom trato os teus amigos em Barmouth devem ser; e se eu não soubesse como tu e Butler o sois, não pensaria em dar-vos tanto trabalho.

Acredita em mim, meu caro Herbert, Teu, mais sinceramente, CHARLES DARWIN. Dá as minhas lembranças a todos os amigos.

[Em janeiro seguinte, encontramo-lo a aguardar com prazer o início de outro ano da sua vida em Cambridge: ele escreve a Fox--

"Esperei até hoje pela possibilidade de uma carta, mas não esperarei mais. Devo felicitar-te, mais sincera e cordialmente, por teres terminado todos os teus trabalhos. Penso que o teu lugar é MUITO BOM, considerando o quanto superaste muitos homens que tiveram vantagem sobre ti na leitura. Desejaria tanto estar agora em Cambridge (um desejo muito egoísta, contudo, já que não estive contigo em todos os teus problemas e miséria), para me juntar a toda a glória e felicidade que os perigos passados podem dar. Como falaríamos, caminharíamos e entomologizaríamos! Sappho deveria ser a melhor das cadelas, e Dash, dos cães: então haveria 'paz na terra, boa vontade aos homens' -- que, diga-se de passagem, penso ser sempre a descrição mais perfeita da felicidade que as palavras podem dar."]

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Cambridge, quinta-feira [26 de fevereiro de 1829].

Meu caro Fox,

Quando cheguei aqui na terça-feira, encontrei, para meu grande pesar e surpresa, uma carta sobre a minha mesa que te tinha escrito há cerca de uma quinzena; o porteiro estúpido nunca se deu ao trabalho de encaminhar a carta. Suponho que me tenhas estado a insultar como um miserável muito ingrato; mas tenho a certeza de que me vais compadecer agora, pois nada é tão vexatório como ter escrito uma carta em vão.

Na quinta-feira passada deixei Shrewsbury para Londres, e lá fiquei até terça-feira, dia em que vim para cá pelo 'Times'. Os dois primeiros dias passei-os inteiramente com o Sr. Hope (Fundador da Cátedra de Zoologia em Oxford.), e fiz pouco mais do que falar sobre insetos e observá-los; a sua coleção é magnífica, e ele próprio é o mais generoso dos entomologistas; deu-me cerca de 160 espécies novas e, na verdade, muitas vezes queria dar-me os insetos mais raros dos quais ele só tinha dois espécimes. Fez muitos discursos gentis e esperava que o visitasses alguma vez comigo, sempre que por acaso estivéssemos em Londres. Ele elogia muito os nossos esforços em Entomologia e diz que capturámos um número maravilhosamente grande de bons insetos. No domingo passei o dia com Holland, que me emprestou um cavalo para andar no Parque.

Na segunda-feira à noite tomei chá com Stephens (J.F. Stephens, autor de 'A Manual of British Coleoptera', 1839, e outras obras.); o seu gabinete é mais magnífico do que o entomologista mais zeloso poderia sonhar; parece ser um homenzinho muito bem-humorado e agradável. Enquanto estive na cidade, fui à Royal Institution, à Linnean Society, aos Jardins Zoológicos e a muitos outros lugares onde os naturalistas são gregários. Se tivesses estado comigo, acho que Londres seria um lugar muito encantador; tal como as coisas estavam, foi muito mais agradável do que eu poderia ter suposto que tal deserto sombrio de casas fosse.

Abati, enquanto estive em Shrewsbury, um merganso-de-poupa (fêmea, como suponho que saibas). Shaw empalhou-o e, quando tiver oportunidade, enviá-lo-ei para Osmaston. Foram também abatidos cinco cedrelas, três dos quais Shaw tem para venda; gostarias de comprar um espécime? Ainda não te agradeci pela tua última carta, muito longa e agradável. Teria sido ainda mais agradável se tivesse contido a notícia alegre de que virias para cá; os meus dois pequenos-almoços solitários já me fizeram perceber o quanto, muito, muito mesmo, sentirei a tua falta.

...

Acredita em mim, meu caro velho Fox, Mais sinceramente teu, C. DARWIN.

[Mais tarde, no período da Quaresma, ele escreve a Fox:--

"Estou a levar um tipo de vida calmo e quotidiano; um pouco da História de Gibbon pela manhã, e uma boa dose de "Van John" à noite; isto, com um passeio ocasional a cavalo com Simcox e uma caminhada constitucional com Whitley, compõe a rotina regular dos meus dias. Vejo muito tanto o Herbert como o Whitley, e quanto mais os vejo, mais aumenta todos os dias o respeito que tenho pelos seus excelentes entendimentos e disposições. Têm dado algumas festas muito alegres, quase sessenta homens lá em ambas as noites."]

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Christ's College [Cambridge], 1 de abril [1829].

Meu caro Fox,

Na tua carta a Holden, tens a amabilidade de observar "que, de todos os tratantes que alguma vez conheceste, eu sou o maior." Sobre esta observação não farei comentários, exceto que te devo dar todo o crédito por agires de acordo com ela de forma mais rigorosa. E agora, gostaria de saber em que particular és tu menos tratante do que eu? Seu velho ocioso, porque não respondeste à minha última carta, que tenho a certeza de que encaminhei para Clifton há quase três semanas? Se eu não estivesse realmente muito ansioso por saber o que estás a fazer, ter-te-ia deixado ficar até achares que valia a pena tratar-me como um cavalheiro. E agora, tendo extravasado o meu fel ao ralhar contigo, e tendo-te dito, o que deves saber, o quanto e quão ansiosamente quero saber como tu e a tua família estão a passar em Clifton, o propósito desta carta está terminado. Se soubesses quantas vezes penso em ti, e quantas vezes lamento a tua ausência, tenho a certeza de que teria tido notícias tuas há muito tempo.

Acho Cambridge um tanto estúpida e, como mal conheço alguém que ande a pé, e isto, juntamente com o facto de os meus lábios não estarem muito bem, reduziu-me a uma espécie de hibernação... Apanhei o Sr. Harbour a deixar -- ter a primeira escolha dos besouros; consequentemente, despedimo-nos definitivamente, a minha parte na cena comovente consistiu em dizer-lhe que ele era um maldito patife e em dar a entender que o chutaria escada abaixo se ele aparecesse nos meus aposentos novamente. O jovem cavalheiro pareceu-me extremamente surpreendido com tudo isto. Não tenho novidades para lhe contar; de facto, quando uma correspondência é interrompida como a nossa foi, é difícil dar o primeiro passo novamente. Na noite passada, houve um incêndio terrível em Linton, a onze milhas de Cambridge. Vendo o reflexo tão claramente no céu, Hall, Woodyeare, Turner e eu pensámos em ir a cavalo vê-lo. Partimos às nove e meia, cavalgámos como demónios encarnados até lá e só regressámos às duas da manhã. No geral, foi um espetáculo terrível. Não posso terminar sem lhe dizer que, de todos os patifes que já conheci, tu és o maior e o melhor.

C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. [Cambridge, quinta-feira, 23 de abril de 1829.]

Meu caro Fox,

Atrasei a resposta à tua última carta por estes poucos dias, pois achei que, em circunstâncias tão melancólicas, a minha escrita provavelmente só te causaria incómodo. Esta manhã recebi uma carta de Catherine informando-me desse acontecimento (A morte da irmã de Fox, Sra. Bristowe), o qual, de facto, pela tua carta, eu mal tinha ousado esperar que tivesse acontecido de outra forma. Sinto-me, sincera e profundamente, por ti e por toda a tua família; mas, ao mesmo tempo, na medida em que alguém pode ser apoiado por seus bons princípios e religião face a tal infortúnio, estou certo de que saberás onde procurar esse apoio. E, após um conforto tão puro e santo como o que a Bíblia proporciona, estou igualmente certo de quão inútil a simpatia de todos os amigos deve parecer, embora seja tão sentida e sincera quanto espero que acredites que sou capaz de sentir. Num momento de tão profunda angústia, não direi mais nada, exceto que espero que o teu pai e a Sra. Fox suportem este golpe tão bem quanto, nestas circunstâncias, se pode esperar.

Receio que demorará muito tempo, meu caro Fox, até nos encontrarmos; até lá, acredita em mim, sempre,

Teu afetuosíssimo, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Shrewsbury, sexta-feira [4 de julho de 1829].

Meu caro Fox,

Deveria ter-te escrito antes, só que, enquanto a nossa expedição durou, estive demasiado ocupado, e a conclusão foi tão infeliz que estive demasiado infeliz para te escrever até ao sossego desta semana em casa. Os pensamentos sobre Woodhouse para a próxima semana deram-me finalmente coragem para relatar o meu caso infeliz.

Parti deste lugar há cerca de quinze dias para fazer uma viagem entomológica com o Sr. Hope por todo o Norte do País de Gales; e Barmouth foi o nosso primeiro destino. Nos dois primeiros dias correu-me tudo bem, apanhando vários insetos bons; mas, durante o resto da semana, os meus lábios ficaram subitamente tão maus (Provavelmente com eczema, do qual ele sofria frequentemente) e eu próprio não muito bem, que fiquei impossibilitado de sair do quarto e, na segunda-feira, retirei-me com dor e tristeza de volta para Shrewsbury. Nos dois primeiros dias apanhei alguns insetos bons... Mas nos dias em que não pude sair, o Sr. Hope fez maravilhas... e hoje recebi outro pacote de insetos dele, tais Colymbetes, tais Carabi e tais magníficos Elaters (duas espécies do tipo escarlate brilhante). Tenho a certeza de que compreenderás devidamente a minha situação infeliz: estou determinado a percorrer o mesmo terreno que ele antes que o outono chegue, e se trabalhar arduamente conseguir insetos, trarei para casa um lote glorioso....

Meu caro Fox, Teu mais sinceramente, CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Shrewsbury, 18 de julho de 1829.

Vou a Maer na próxima semana para entomologizar e ficarei lá uma semana, e pelo resto deste verão pretendo levar uma vida perfeitamente ociosa e errante... Vês que estou muito no mesmo estado em que tu estás, com esta diferença: tu fazes boas resoluções e nunca as cumpres; eu nunca as faço, por isso não as posso cumprir; tudo isto é muito bonito de escrever, mas tenho de ler para o meu "Little-go". Graham sorriu e fez uma vénia tão educadamente, quando me disse que era um dos seis nomeados para tornar o exame mais rigoroso e que estavam determinados a que isto fosse algo muito diferente de qualquer exame anterior, que, com tudo isto, tenho a certeza de que será o diabo para todos os homens ociosos e entomologistas. Esperamos Erasmus em casa dentro de algumas semanas: ele pretende passar o próximo inverno em Paris. Não te esqueças de encomendar as duas listas de insetos publicadas por Stephens, uma impressa em ambos os lados e a outra apenas num; acharás que são muito úteis sob muitos pontos de vista.

Caro velho Fox, teu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Christ's College, quinta-feira [16 de outubro de 1829].

Meu caro Fox,

Receio que fiques muito zangado comigo por não ter escrito durante o Encontro de Música, mas a verdade é que trabalhei tanto que não tive tempo; cheguei aqui na segunda-feira e encontrei os meus aposentos numa confusão terrível, pois estiveram a levantar o chão, e podes imaginar que tive muito que fazer durante estes dois dias. O Encontro de Música (Em Birmingham) foi a coisa mais gloriosa que alguma vez experienciei; e quanto a Malibran, as palavras não a podem elogiar o suficiente, ela é simplesmente a pessoa mais encantadora que alguma vez vi. Tivemos excertos de várias das melhores óperas, representados com caracterização, e não podes imaginar o quanto isso tornou os concertos muito superiores a quaisquer outros que alguma vez ouvi. J. de Begnis (O nome próprio de De Begnis era Giuseppe) representou 'Il Fanatico' com caracterização; estar vestido com uma figura extraordinária dá um efeito muito maior à sua representação. Ele manteve todo o teatro às gargalhadas. Gostei muito da Madame Blasis, mas nada serve depois de Malibran, que cantou algumas canções cómicas, e o coração de uma pessoa teria de ser de pedra para não se perder por ela. Alojai-me muito perto dos Wedgwood e vivi inteiramente com eles, o que foi muito agradável, e se lá estivesses teria sido absolutamente perfeito. Deixou-me exausto de uma forma terrível, e nunca mais tentarei fazer duas coisas no mesmo dia.

...

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. [Cambridge] quinta-feira [março de 1830].

Meu caro Fox,

Passei no meu "Little-Go"!!! Estou exaltado demais para me humilhar a pedir desculpa por não ter escrito antes. Mas garanto-te que antes de entrar, e quando os meus nervos estavam num estado frágil e debilitado, a tua pessoa ferida surgia frequentemente diante dos meus olhos e provocava-me com a minha ociosidade. Mas passei, passei, passei. Poderia escrever a folha toda com esta palavra deliciosa. Fiz o exame ontem e acabei de receber a alegre notícia. Não saberei durante uma semana em que classe estou. Todo o exame é realizado num sistema diferente. Tem uma grande vantagem: acabar num só dia. Eles são bastante rigorosos e fazem um número maravilhoso de perguntas.

E agora quero saber algo sobre os teus planos; claro que pretendes vir até aqui: que diversão teremos juntos; que besouros apanharemos; fará bem ao meu coração irmos mais uma vez juntos a alguns dos nossos antigos locais. Tenho dois alunos muito promissores em Entomologia, e faremos campanhas regulares aos Fens. Que o Céu proteja os besouros e o Sr. Jenyns, pois não lhe deixaremos um par em todo o condado. O meu novo armário chegou e é um pequeno objeto alegre.

E agora quanto ao tempo: acho que vou passar uns dias à cidade para ouvir uma ópera e ver o Sr. Hope; para não mencionar o meu irmão também, a quem não me importaria de ver. Se eu for brevemente, tu podes vir depois, mas se resolveres os teus planos definitivamente, eu arranjarei os meus, por isso envia-me uma carta com a resposta pelo correio. E encarrego-te de que seja favorável, isto é, vem diretamente. Holden foi ordenado e conduziu a carruagem na segunda-feira. Não acho que ele pareça muito bem. Chapman quer que tu e eu o visitemos quando vieres, e pede que te envie lembranças. Deves desculpar esta carta curta, pois não tenho fim de coisas para enviar pelo correio de hoje. Anseio por ver-te novamente e, até lá,

Meu caro bom velho Fox, teu mais sinceramente, CHARLES DARWIN.

[Em agosto, ele esteve no Norte do País de Gales e escreveu a Fox:--

"Tenho tido a intenção de escrever a cada hora nas últimas duas semanas, mas REALMENTE não tive tempo. Deixei Shrewsbury há quinze dias e, desde essa altura, tenho trabalhado de manhã à noite a apanhar peixe ou besouros. Este é literalmente o primeiro dia ocioso que tive só para mim; pois nos dias de chuva vou pescar, nos bons vou entomologizar. Podes lembrar-te de que, nas duas semanas anteriores a tudo isto, me disseste para não escrever, por isso espero ter construído algum tipo de defesa por não ter respondido mais cedo às tuas duas longas e muito agradáveis cartas."]

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. [Cambridge, 5 de novembro de 1830.]

Meu caro Fox,

Tenho tão pouco tempo presentemente e estou tão enojado com a leitura que não tenho ânimo para escrever a ninguém. Só escrevi uma vez para casa desde que cheguei. Isto deve desculpar-me por não ter respondido às tuas três cartas, pelas quais estou realmente muito agradecido...

Não espetei um único inseto este semestre e mal abri uma caixa. Se tivesse tempo, enviar-te-ia os insetos que há tanto tempo prometi; mas realmente não tenho ânimo ou tempo para fazer nada. A leitura deixa-me bastante desesperado; a praga de ter de preparar todas as minhas matérias é quase intolerável. Henslow é o meu tutor, e faz um trabalho ADMIRÁVEL; a hora com ele é a mais agradável de todo o dia. Acho que ele é, sem dúvida, o homem mais perfeito que já conheci. Estive em algumas festas muito agradáveis lá, este semestre. A sua bondade é ilimitada.

Tenho a certeza de que ficarás triste ao saber que o pai do pobre velho Whitley morreu. Do ponto de vista mundano, é de grande importância para ele, pois impedi-lo-á de ir para a Ordem dos Advogados durante algum tempo. --(Certifica-te de responder a isto:) Quanto pagaste pelo aro de ferro que mandaste fazer em Shrewsbury? Porque não tenciono pagar a totalidade da conta do homem de Cambridge. Não precisas de te preocupar com o Phallus, pois comprei ambas as espécies. Ouvi homens dizerem que Henslow tem algumas opiniões religiosas curiosas. Nunca percebi nada disso, tu percebeste? Fico muito contente por ouvir, depois de todos os teus atrasos, que ouviste falar de uma cura onde podes ler todos os mandamentos sem pôr a tua garganta em perigo. Fico também ainda mais contente por saber que a tua mãe continua a melhorar constantemente. Confio que não terás mais motivos para inquietação. Com todos os desejos pela tua felicidade, meu caro velho Fox,

Acredita em mim, teu mais sinceramente, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Cambridge, domingo, 23 de janeiro de 1831.

Meu caro Fox,

Espero mesmo que desculpes não ter escrito antes de me licenciar. Senti uma aversão inexplicável a escrever a qualquer pessoa. Mas agora felicito-te de todo o coração por teres passado no teu exame e espero que consideres a tua cura confortável. Mesmo que seja o meu último xelim (não tenho muitos), virei visitar-te.

Não sei por que razão a licenciatura deve deixar alguém tão miserável, tanto antes como depois. Lembro-me de que estavas suficientemente infeliz antes, e posso garantir-te que estou agora, e o que torna isto ainda mais ridículo é que não sei porquê. Acredito que é uma bela providência da natureza fazer-nos lamentar menos o facto de deixar um lugar tão agradável como Cambridge; e entre todos os seus prazeres -- digo-o de uma vez por todas -- nenhum é tão grande como a minha amizade contigo. Enviei-te um jornal ontem, no qual verás que bom lugar [10.º] obtive no "Poll". Quanto ao Christ's, já alguma vez viste tal faculdade para produzir Capitães e Apóstolos? (O "Capitão" está no topo do "Poll": os "Apóstolos" são os últimos doze no Tripos Matemático.) Não houve homens nem no Emmanuel nem no Christ's reprovados. Cameron foi "gulfed", juntamente com outros três estudantes do Trinity! Os meus planos não estão de todo definidos. Acho que vou manter este semestre e depois ir economizar em Shrewsbury, regressar e tirar a minha licenciatura.

Um homem pode ser desculpado por escrever tanto sobre si mesmo quando acaba de passar no exame; por isso deves desculpar-me. E, pelo mesmo princípio, escreve tu uma carta cheia de ti e dos teus planos. Quero saber algo sobre o teu exame. Conta-me sobre o estado dos teus nervos; que livros preparaste e quão perfeito estavas. Interesso-me por esse tipo de coisas, pois chegará o momento em que terei de sofrer. O teu tutor, Thompson, pediu que te enviasse lembranças, e o Whitley também. Se responderes a isto, enviar-te-ei tantas respostas estúpidas quantas desejares.

Acredita em mim, caro Fox, CHAS. DARWIN.

CAPÍTULO 1.V. -- A NOMEAÇÃO PARA O 'BEAGLE.'

[Numa carta endereçada ao Capitão Fitz-Roy, antes de o "Beagle" zarpar, o meu pai escreveu: "Que dia glorioso o 4 de novembro (O "Beagle" não fez, contudo, a sua partida final e bem-sucedida até 27 de dezembro) será para mim -- a minha segunda vida começará então, e será como um aniversário para o resto da minha vida."]

As circunstâncias que levaram a este segundo nascimento -- muito mais importante do que o meu pai imaginava então -- estão ligadas à sua vida em Cambridge, mas podem ser mais apropriadamente contadas no presente capítulo. No topo da cadeia de circunstâncias que levaram à sua nomeação para o "Beagle" estava a amizade do meu pai com o Professor Henslow. Ele escreveu num caderno de notas ou diário, que contém um breve registo de datas, etc., ao longo da sua vida: --

"1831. NATAL. -- Passei no meu exame para a licenciatura em B.A. e mantive os dois semestres seguintes.

"Durante estes meses vivi muito com o Professor Henslow, jantando frequentemente com ele e caminhando com ele; tornei-me ligeiramente conhecido de vários dos homens eruditos em Cambridge, o que acelerou muito o zelo que os jantares e a caça não tinham destruído.

"Na primavera fiz uma visita ao Sr. Dawes com Ramsay e Kirby, e falámos sobre uma excursão a Tenerife. Na primavera, Henslow persuadiu-me a pensar em Geologia e apresentou-me a Sedgwick. Durante o solstício de verão geologizei um pouco em Shropshire.

"AGOSTO. -- Fui numa excursão geológica (Mencionada por Sedgwick no seu prefácio ao 'Catalogue of Cambrian and Silurian Fossils' de Salter, 1873) por Llangollen, Ruthin, Conway, Bangor e Capel Curig, onde deixei o Professor Sedgwick e atravessei a montanha até Barmouth."

Numa carta a Fox (maio de 1831), o meu pai escreve: -- "Estou muito ocupado... e vejo muito o Henslow, a quem não sei se amo ou respeito mais." O seu sentimento por este homem admirável é expressivamente manifestado numa carta que escreveu ao Reverendo L. Blomefield (então Reverendo L. Jenyns), quando este último estava empenhado no seu 'Memoir of Professor Henslow' (publicado em 1862). A passagem ('Memoir of the Rev. John Stevens Henslow, M.A.', pelo Reverendo Leonard Jenyns. 8vo. Londres, 1862, página 51) foi utilizada no primeiro dos avisos memoriais escritos para a 'Nature', e o Sr. Romanes salienta que o meu pai, "ao descrever o caráter de outro, está inconscientemente a dar uma descrição muito precisa do seu próprio": --

"Fui para Cambridge no início do ano de 1828 e logo fiquei conhecido, através de alguns dos meus colegas entomologistas, do Professor Henslow, pois todos os que se interessavam por qualquer ramo da história natural eram igualmente encorajados por ele. Nada poderia ser mais simples, cordial e despretensioso do que o incentivo que ele dava a todos os jovens naturalistas. Tornei-me rapidamente íntimo dele, pois ele tinha um poder notável de fazer com que os jovens se sentissem completamente à vontade ao seu lado; embora estivéssemos todos maravilhados com a extensão do seu conhecimento. Antes de o conhecer, ouvi um jovem resumir os seus dotes dizendo simplesmente que ele sabia tudo. Quando reflito sobre a rapidez com que nos sentíamos perfeitamente à vontade com um homem mais velho e, em todos os aspetos, tão imensamente superior a nós, penso que se deveu tanto à transparência da sinceridade do seu caráter quanto à sua bondade de coração; e, talvez, ainda mais, a uma notável ausência nele de toda a autoconsciência. Percebia-se imediatamente que ele nunca pensava no seu próprio conhecimento variado ou intelecto claro, mas apenas no assunto em mãos. Outro encanto, que deve ter impressionado a todos, era que a sua maneira de tratar pessoas idosas e distintas e o estudante mais jovem era exatamente a mesma: e a todos mostrava a mesma cortesia cativante. Ele recebia com interesse a observação mais trivial em qualquer ramo da história natural; e por muito absurdo que fosse um erro que se cometesse, ele apontava-o tão clara e gentilmente, que saíamos dele de forma alguma desencorajados, mas apenas determinados a ser mais precisos da próxima vez. Em suma, nenhum homem poderia ser mais bem formado para ganhar a inteira confiança dos jovens e encorajá-los nas suas ocupações.

"As suas aulas de Botânica eram universalmente populares e claras como a luz do dia. Tão populares eram que vários dos membros mais velhos da Universidade frequentavam cursos sucessivos. Uma vez por semana, ele mantinha a casa aberta à noite, e todos os que se interessavam por história natural frequentavam estas festas, que, ao favorecerem assim a intercomunicação, faziam o mesmo bem em Cambridge, de uma forma muito agradável, que as Sociedades Científicas fazem em Londres. Nestas festas, muitos dos membros mais distintos da Universidade compareciam ocasionalmente; e quando apenas alguns estavam presentes, ouvi os grandes homens daqueles dias a conversar sobre todos os tipos de assuntos, com os mais variados e brilhantes poderes. Esta não era uma pequena vantagem para alguns dos homens mais jovens, pois estimulava a sua atividade mental e ambição. Duas ou três vezes por sessão, ele fazia excursões com a sua turma de botânica; ou uma longa caminhada até ao habitat de alguma planta rara, ou numa barcaça rio abaixo até aos pântanos, ou em carruagens até algum lugar mais distante, como Gamlingay, para ver o lírio do vale selvagem e para apanhar na charneca o raro sapo-corredor. Estas excursões deixaram uma impressão deliciosa na minha mente. Ele estava, nessas ocasiões, com um espírito tão bom como um rapaz, e ria-se tão cordialmente como um rapaz das desventuras daqueles que perseguiam as esplêndidas borboletas cauda-de-andorinha através dos pântanos quebrados e traiçoeiros. Ele costumava parar de vez em quando para dar uma palestra sobre alguma planta ou outro objeto; e algo ele podia dizer-nos sobre cada inseto, concha ou fóssil recolhido, pois ele tinha prestado atenção a todos os ramos da história natural. Após o nosso dia de trabalho, costumávamos jantar numa estalagem ou casa, e éramos muito alegres. Acredito que todos os que participaram nestas excursões concordarão comigo que deixaram uma impressão duradoura de prazer nas nossas mentes.

"Com o passar do tempo em Cambridge, tornei-me muito íntimo do Professor Henslow, e a sua bondade foi ilimitada; ele convidava-me continuamente para a sua casa e permitia-me acompanhá-lo nos seus passeios. Ele falava sobre todos os assuntos, incluindo o seu profundo sentido de religião, e era inteiramente aberto. Devo mais do que consigo expressar a este homem excelente..."

Durante os anos em que me associei tanto ao Professor Henslow, nunca vi o seu temperamento sequer alterado. Nunca teve uma visão mal-intencionada do caráter de ninguém, embora estivesse muito longe de ser cego às fraquezas dos outros. Sempre me pareceu que a sua mente não podia ser tocada sequer por qualquer sentimento mesquinho de vaidade, inveja ou ciúme. Com toda esta equanimidade de temperamento e notável benevolência, não havia insipidez de caráter. Um homem teria de ser cego para não perceber que, sob aquele exterior plácido, existia uma vontade vigorosa e determinada. Quando os princípios entravam em jogo, nenhum poder na Terra o teria desviado um milímetro...

"Refletindo sobre o seu caráter com gratidão e reverência, os seus atributos morais elevam-se, como deveriam elevar-se no caráter mais elevado, em preeminência sobre o seu intelecto."

Numa carta ao Rev. L. Blomefield (Jenyns), de 24 de maio de 1862, o meu pai escreveu com os mesmos sentimentos que tinha expressado nas suas cartas trinta anos antes:--

"Agradeço-lhe muito sinceramente o seu amável presente do seu Memorial de Henslow. Li cerca de metade e interessou-me muito. Não creio que pudesse tê-lo venerado mais do que venerava; mas o seu livro exaltou ainda mais o seu caráter aos meus olhos. Folheando as páginas da segunda metade, penso que o seu relato seria inestimável para qualquer clérigo que desejasse seguir o nobre exemplo do pobre e querido Henslow. Que homem admirável ele era."

O trabalho geológico mencionado na citação do bloco de notas do meu pai era sem dúvida de importância por lhe proporcionar alguma experiência prática, e talvez de maior importância por ajudar a dar-lhe alguma confiança em si mesmo. Em julho do mesmo ano, 1831, ele estava a "trabalhar como um tigre" em Geologia e a tentar fazer um mapa de Shropshire, mas não o achava "tão fácil como esperava".

Ao escrever a Henslow por volta da mesma altura, ele dá conta do seu trabalho:--

"Deveria ter-lhe escrito há algum tempo, mas estava determinado a esperar pelo clinómetro, e estou muito contente por dizer que penso que funcionará admiravelmente. Coloquei todas as mesas no meu quarto em todos os ângulos e direções concebíveis. Ouso dizer que as medi como qualquer geólogo em atividade o faria... Tenho estado a trabalhar em tantas coisas que não avancei muito com a geologia. Suspeito que a primeira expedição que fizer, com o clinómetro e o martelo na mão, me fará regressar pouco mais sábio e um pouco mais confuso do que quando parti. Até agora, apenas me entreguei a hipóteses, mas são tão poderosas que suponho que, se fossem postas em prática apenas por um dia, o mundo acabaria."

Ele estava evidentemente muito interessado em começar a trabalhar com Sedgwick, pois escreveu a Henslow: "Não tive notícias do Professor Sedgwick, por isso temo que ele não visite as formações de Severn. Espero e confio que tenha feito o seu melhor para o incitar."

O meu pai deu nas suas Recordações algum relato desta Excursão.

Lá também lemos sobre a projetada excursão às Canárias, da qual ocorre uma ligeira menção nas cartas a Fox e Henslow.

Em abril de 1831, ele escreve a Fox: "Neste momento falo, penso e sonho com um esquema que quase tramei de ir às Ilhas Canárias. Há muito que tenho o desejo de ver paisagens e vegetação tropicais e, segundo Humboldt, Tenerife é um espécime muito bonito." E novamente em maio: "Quanto ao meu esquema das Canárias, é imprudente da tua parte fazer perguntas; os meus outros amigos desejam sinceramente que eu esteja lá, de tanto que os maço a falar sobre paisagens tropicais, etc. Eyton irá no próximo verão e estou a aprender espanhol."

Mais tarde, no verão, o esquema tomou uma forma mais definida e a data parece ter sido fixada para junho de 1832. Ele obteve informações em Londres sobre o preço da passagem e, em julho, estava a trabalhar no espanhol e a chamar a Fox "un grandisimo lebron", como prova do seu conhecimento da língua; que, no entanto, achou "intensamente estúpida". Mas mesmo nessa altura parece ter tido algumas dúvidas sobre o zelo dos seus companheiros, pois escreve a Henslow (27 de julho de 1831): "Espero que continue a atiçar o seu ardor pelas Canárias. Leio e releio Humboldt; faz o mesmo? Tenho a certeza de que nada nos impedirá de ver o Grande Dragoeiro."

O trabalho geológico e os sonhos com Tenerife levaram-no através do verão, até que, ao regressar de Barmouth para o sagrado 1.º de setembro, recebeu a oferta de nomeação como Naturalista para o "Beagle".

O seguinte extrato do bloco de notas será uma ajuda na leitura das cartas:--

"Regressei a Shrewsbury no final de agosto. Recusei a oferta de viagem.

"Setembro.--Fui a Maer, regressei com o Tio Jos. a Shrewsbury, de lá para Cambridge. Londres.

"Dia 11.--Fui com o Capitão Fitz-Roy no barco a vapor para Plymouth para ver o "Beagle".

"Dia 22.--Regressei a Shrewsbury, passando por Cambridge.

"2 de outubro.--Despedi-me da minha casa. Fiquei em Londres.

"Dia 24.--Cheguei a Plymouth.

"Outubro e novembro.--Estes meses foram muito miseráveis.

"10 de dezembro.--Partimos, mas fomos obrigados a voltar para trás.

"Dia 21.--Fizemo-nos de novo ao mar e fomos repelidos.

"Dia 27.--Partimos de Inglaterra na nossa Circunavegação."

GEORGE PEACOCK (Antigo Deão de Ely e Professor Lowndean de Astronomia em Cambridge.) PARA J.S. HENSLOW. 7 Suffolk Street, Pall Mall East. [1831.]

Meu caro Henslow,

O Capitão Fitz-Roy vai sair para explorar a costa sul da Terra do Fogo e, depois, visitar muitas das Ilhas do Mar do Sul e regressar pelo Arquipélago Indiano. O navio está equipado expressamente para fins científicos, combinados com a exploração; proporcionará, portanto, uma oportunidade rara para um naturalista, e seria uma grande infelicidade se fosse perdida.

Foi-me feita uma oferta para recomendar uma pessoa adequada para ir como naturalista nesta expedição; será tratada com toda a consideração. O Capitão é um jovem de modos muito agradáveis (um sobrinho do Duque de Grafton), de grande zelo na sua profissão e de quem se fala muito bem; se Leonard Jenyns pudesse ir, que tesouros poderia ele trazer consigo, uma vez que o navio seria colocado à sua disposição sempre que as suas investigações o tornassem necessário ou desejável. Na ausência de um naturalista tão talentoso, existe alguma pessoa que pudesse recomendar vivamente? Tem de ser alguém que honre a nossa recomendação. Pense neste assunto, seria uma perda séria para a causa das ciências naturais se esta excelente oportunidade fosse perdida....

O navio parte por volta do final de setembro.

Escreva imediatamente e diga-me o que pode ser feito.

Acredite em mim, meu caro Henslow, o seu muito sinceramente, GEORGE PEACOCK.

J.S. HENSLOW PARA C. DARWIN. Cambridge, 24 de agosto de 1831.

Meu caro Darwin,

Antes de entrar no assunto imediato desta carta, lamentemos juntos a perda do nosso inestimável amigo, o pobre Ramsay, de cuja morte sem dúvida ouviu falar muito antes disto.

Não me vou alongar agora sobre este assunto doloroso, pois espero vê-lo em breve, esperando plenamente que aceite com entusiasmo a oferta que provavelmente lhe será feita de uma viagem à Terra do Fogo, regressando pelas Índias Orientais. Fui solicitado por Peacock, que lerá e lhe enviará isto de Londres, a recomendar-lhe um Naturalista como companheiro do Capitão Fitz-Roy, empregado pelo Governo para explorar a extremidade sul da América. Afirmei que o considero a pessoa mais qualificada que conheço que provavelmente empreenderá tal situação. Afirmo isto não na suposição de ser um naturalista ACABADO, mas como amplamente qualificado para recolher, observar e anotar qualquer coisa digna de ser anotada em História Natural. Peacock tem a nomeação à sua disposição e, se ele não encontrar um homem disposto a assumir o cargo, a oportunidade será provavelmente perdida. O Capitão Fitz-Roy quer um homem (compreendo) mais como um companheiro do que como um mero colecionador, e não levaria ninguém, por melhor naturalista que fosse, que não lhe fosse também recomendado como um CAVALHEIRO. Sobre pormenores de salário, etc., não sei nada. A viagem deve durar dois anos e, se levar muitos livros consigo, poderá fazer tudo o que quiser. Terá amplas oportunidades ao seu dispor. Em suma, suponho que nunca houve uma oportunidade melhor para um homem de zelo e espírito; o Capitão Fitz-Roy é um homem jovem. O que quero que faça é vir imediatamente consultar Peacock (no n.º 7 da Suffolk Street, Pall Mall East, ou então no University Club) e saber mais pormenores. Não apresente dúvidas ou medos modestos sobre as suas desqualificações, pois garanto-lhe que penso que é exatamente o homem que eles procuram; por isso, considere-se tocado no ombro pelo seu meirinho e amigo afetuoso,

J.S. HENSLOW.

A expedição deve partir a 25 de setembro (no mais cedo), por isso não há tempo a perder.

G. PEACOCK PARA C. DARWIN. [1831.]

Meu caro Senhor,

Recebi a carta de Henslow ontem à noite demasiado tarde para a enviar para si pelo correio; uma circunstância que não lamento, pois deu-me a oportunidade de ver o Capitão Beaufort no Almirantado (o Hidrógrafo) e de lhe expor a oferta que tenho para lhe fazer. Ele aprova-a inteiramente e pode considerar a situação à sua absoluta disposição. Confio que a aceitará, pois é uma oportunidade que não deve ser perdida, e aguardo com grande interesse o benefício que as nossas coleções de História Natural podem receber dos seus trabalhos.

As circunstâncias são estas;--

O Capitão Fitz-Roy (um sobrinho do Duque de Grafton) parte no final de setembro, num navio para explorar, em primeira instância, a Costa Sul da Terra do Fogo, depois para visitar as Ilhas do Mar do Sul e regressar pelo Arquipélago Indiano a Inglaterra. A expedição é inteiramente para fins científicos e o navio esperará geralmente pelo seu tempo livre para pesquisas em História Natural, etc. O Capitão Fitz-Roy é um oficial de espírito público e zeloso, de modos encantadores e muito amado por todos os seus colegas oficiais. Ele foi com o Capitão Beechey (Para 'Beechey' leia-se 'King'. Não encontro o nome Fitz-Roy na lista de oficiais de Beechey. Os fueguinos foram trazidos da viagem do Capitão King.) e gastou 1500 libras para trazer e educar, a expensas próprias, três nativos da Patagónia. Ele contrata, a expensas próprias, um artista por 200 libras por ano para ir com ele. Pode ter a certeza, portanto, de ter um companheiro muito agradável, que entrará de bom grado em todos os seus pontos de vista.

O navio parte por volta do final de setembro e não deve perder tempo em comunicar a sua aceitação ao Capitão Beaufort, Hidrógrafo do Almirantado. Tenho tido bastante correspondência sobre este assunto [com Henslow?], que sente, tal como eu, a maior ansiedade de que o senhor vá. Espero que nenhuns outros arranjos interfiram com isso....

O Almirantado não está disposto a dar um salário, embora lhe forneça uma nomeação oficial e todas as acomodações. Se, no entanto, for necessário um salário, estou inclinado a pensar que seria concedido.

Acredite em mim, meu caro Senhor, muito sinceramente seu, GEORGE PEACOCK.

CHARLES DARWIN PARA J.S. HENSLOW. Shrewsbury, terça-feira [30 de agosto?, 1831].

Meu caro Senhor,

A carta do Sr. Peacock chegou no sábado e recebi-a ontem à noite. No que diz respeito à minha própria mente, penso que, CERTAMENTE, teria aceite com a maior alegria a oportunidade que tão gentilmente me ofereceu. Mas o meu pai, embora não me recuse decididamente, dá um conselho tão forte contra ir que eu não me sentiria confortável se não o seguisse.

As objeções do meu pai são estas: tornar-me inapto para me estabelecer como Clérigo, o meu pouco hábito de marinharia, A CURTEZA DO TEMPO e a possibilidade de não servir ao Capitão Fitz-Roy. É certamente uma objeção muito séria o tempo muito curto para todos os meus preparativos, pois não só o corpo, mas a mente precisa de ser preparada para tal empreendimento. Mas se não fosse pelo meu pai, teria corrido todos os riscos. Qual foi a razão para que um Naturalista não tenha sido escolhido há muito tempo? Estou muito agradecido pelo trabalho que teve com isso; certamente não poderia ter havido melhor oportunidade....

A minha viagem com Sedgwick correu da melhor maneira. Não ouvi falar da perda do pobre Sr. Ramsay até alguns dias antes da sua carta. Tenho tido sorte até agora em nunca perder ninguém por quem tivesse qualquer estima ou afeição. O meu conhecimento, embora muito curto, foi suficiente para me dar esses sentimentos em grande grau. Mal posso acreditar que ele já não existe. Ele era o melhor caráter que alguma vez conheci.

O seu muito sinceramente, meu caro Senhor, CH. DARWIN.

Escrevi ao Sr. Peacock e mencionei que lhe pedi para enviar uma linha na hipótese de ele não receber a minha carta. Também lhe pedi para comunicar com o Capitão Fitz-Roy. Mesmo que eu fosse, o desagrado do meu pai tiraria toda a energia, e eu precisaria de uma boa dose dela. Mais uma vez tenho de lhe agradecer, isso acrescenta um pouco ao pesado mas agradável fardo de gratidão que lhe devo.

CHARLES DARWIN PARA R.W. DARWIN. [Maer] 31 de agosto, [1831].

Meu caro Pai,

Receio que vou deixá-lo novamente muito desconfortável. Mas, ponderando, penso que me desculpará mais uma vez por expor as minhas opiniões sobre a oferta da viagem. A minha desculpa e razão é a forma diferente como todos os Wedgwood veem o assunto, ao contrário do senhor e das minhas irmãs.

Entreguei ao Tio Jos (Josiah Wedgwood.) o que ferventemente confio ser uma lista precisa e completa das suas objeções, e ele tem a bondade de dar as suas opiniões sobre todas. A lista e as suas respostas estarão anexadas. Mas posso pedir-lhe um favor, seria fazer-me a maior das gentilezas, se me enviasse uma resposta decidida, sim ou não? Se a segunda, seria muito ingrato se não cedesse implicitamente ao seu melhor julgamento e à mais gentil indulgência que me mostrou durante toda a minha vida; e pode confiar que nunca mais mencionarei o assunto. Se a sua resposta for sim, irei diretamente a Henslow e consultá-lo-ei deliberadamente, e depois virei a Shrewsbury.

O perigo parece-me a mim e a todos os Wedgwood não ser grande. A despesa não pode ser séria, e o tempo, de qualquer modo, não penso que seria mais desperdiçado do que se ficasse em casa. Mas, por favor, não considere que estou tão determinado a ir que hesitaria por um ÚNICO MOMENTO se pensasse que, após um curto período, continuaria desconfortável.

Devo repetir que não posso pensar que isso me tornaria inapto para uma vida estável no futuro. Espero que esta carta não lhe cause muito incómodo. Envio-a pela carroça amanhã de manhã; se se decidir imediatamente, enviar-me-á uma resposta no dia seguinte pelo mesmo meio? Se esta carta não o encontrar em casa, espero que responda assim que convenientemente puder.

Não sei o que dizer sobre a bondade do Tio Jos; nunca poderei esquecer como ele se interessa por mim.

Acredite em mim, meu caro pai, o seu filho afetuoso, CHARLES DARWIN.

[Segue-se a lista de objeções a que se refere a carta seguinte:--

1. Desonroso para o meu caráter como Clérigo no futuro.

2. Um esquema selvagem.

3. Que devem ter oferecido a muitos outros antes de mim o lugar de Naturalista.

4. E, por não ser aceite, deve haver alguma objeção séria ao navio ou à expedição.

5. Que eu nunca me estabeleceria numa vida estável no futuro.

6. Que as minhas acomodações seriam muito desconfortáveis.

7. Que o senhor [i.e. Dr. Darwin] consideraria isso como mudar novamente a minha profissão.

8. Que seria um empreendimento inútil.]

JOSIAH WEDGWOOD PARA R.W. DARWIN. Maer, 31 de agosto de 1831. [Leia isto em último.] (Na letra de C. Darwin.)

Meu caro Doutor,

Sinto a responsabilidade da sua aplicação a mim sobre a oferta que foi feita a Charles como sendo pesada, mas, como pediu a Charles para me consultar, não posso recusar dar o resultado da consideração que fui capaz de lhe dar.

Charles anotou o que concebe serem as suas principais objeções e penso que a melhor forma que posso tomar será declarar o que me ocorre sobre cada uma delas.

1. Não pensaria que seria de qualquer modo desonroso para o seu caráter como Clérigo. Pelo contrário, pensaria que a oferta é honrosa para ele; e a busca da História Natural, embora certamente não profissional, é muito adequada a um clérigo.

2. Dificilmente sei como responder a esta objeção, mas ele teria objetivos definidos sobre os quais se empregar e poderia adquirir e fortalecer hábitos de aplicação, e penso que seria tão provável que o fizesse como de qualquer forma em que provavelmente passará os próximos dois anos em casa.

3. A ideia não me ocorreu ao ler as cartas; e ao lê-las novamente com esse objetivo em mente, não vejo fundamento para tal.

4. Não consigo conceber que o Almirantado enviasse um mau navio para um tal serviço. Quanto a objeções à expedição, elas diferirão no caso de cada homem e nada seria, penso eu, inferido no caso de Charles, se se soubesse que outros tinham objetado.

5. O senhor é um juiz muito melhor do caráter de Charles do que eu posso ser. Se, comparando este modo de passar os próximos dois anos com a forma como ele provavelmente os passará, se ele não aceitar esta oferta, o senhor pensa que ele é mais provável de se tornar instável e incapaz de se estabelecer, é sem dúvida uma objeção pesada. Não será o caso de os marinheiros serem propensos a estabelecerem-se em hábitos domésticos e calmos?

6. Não posso formar qualquer opinião sobre isto além de que, se nomeado pelo Almirantado, ele terá direito a ser tão bem acomodado quanto o navio permitir.

7. Se visse Charles agora absorvido em estudos profissionais, provavelmente pensaria que não seria aconselhável interrompê-los; mas este não é, e penso que não será, o caso dele. A sua atual busca de conhecimento está no mesmo caminho que ele teria de seguir na expedição.

8. O empreendimento seria inútil no que diz respeito à sua profissão, mas olhando para ele como um homem de curiosidade alargada, oferece-lhe tal oportunidade de ver homens e coisas como acontece a poucos.

O senhor terá em mente que tive muito pouco tempo para consideração e que o senhor e Charles são as pessoas que devem decidir.

Sou, meu caro Doutor, afetuosamente seu, JOSIAH WEDGWOOD.

CHARLES DARWIN PARA J.S. HENSLOW. Cambridge, Red Lion [2 de setembro], 1831.

Meu caro Senhor,

Acabei de chegar; adivinhará a razão. O meu pai mudou de ideias. Confio que o lugar não foi entregue.

Estou muito fatigado e vou para a cama.

Suponho que ainda não tenha recebido a minha segunda carta.

Quão cedo virei ter consigo de manhã? Envie uma resposta verbal.

Boa noite, seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA A SRTA. SUSAN DARWIN. Cambridge, Domingo de manhã [4 de setembro].

Minha querida Susan,

Como uma carta não teria seguido ontem, adiei a escrita até hoje. Tive uma viagem um tanto cansativa, mas cheguei a Cambridge sentindo-me muito bem. Passei todo o dia de ontem com Henslow, pensando no que deve ser feito, e vejo que é muita coisa. Por muita sorte, conheço um homem chamado Wood, sobrinho de Lord Londonderry. Ele é um grande amigo do Capitão Fitz-Roy e escreveu-lhe a meu respeito. Ouvi uma parte da carta do Capitão Fitz-Roy, datada de algum tempo atrás, na qual ele diz: "Tenho um grupo de oficiais muito bom, e a maioria dos meus homens já esteve lá antes". Parece que ele esteve lá nos últimos anos; na altura, era o segundo no comando da mesma embarcação que escolheu agora. Ele tem apenas vinte e três anos, mas já viu muito serviço e ganhou a medalha de ouro em Portsmouth. O Almirantado diz que os seus mapas são perfeitos. Ele teve a escolha de duas embarcações, e escolheu a menor. Henslow dar-me-á cartas para todos os viajantes na cidade que ele acha que me podem ajudar.

Peacock tem a nomeação exclusiva de Naturalista. A primeira pessoa a quem foi oferecido foi Leonard Jenyns, que esteve tão perto de aceitar que fez as malas. Mas, tendo um benefício eclesiástico, não achou correto deixá-lo — para grande pesar de toda a sua família. O próprio Henslow não esteve muito longe de aceitar, pois a Sra. Henslow, muito generosamente e sem ser pedida, deu o seu consentimento; mas ela parecia tão infeliz que Henslow resolveu a questão imediatamente...

Receio que haverá muitas despesas no início. Henslow é muito contra levar muitas coisas; é o erro em que todos os jovens viajantes caem. Escrevo como se estivesse decidido, mas Henslow diz-me para DE MANEIRA NENHUMA me decidir antes de ter longas conversas com os Capitães Beaufort e Fitz-Roy. Adeus. Terá notícias minhas constantemente. Dirija para 17 Spring Gardens. NÃO DIGA A NINGUÉM em Shropshire ainda. Certifique-se disso.

C. DARWIN.

Estava tão cansado naquela noite em que estive em Shrewsbury que não agradeci a nenhum de vocês pela vossa bondade nem metade do que senti.

Lembranças ao meu pai.

A razão pela qual não quero que digam às pessoas em Shropshire: no caso de eu não ir, será mais dececionante.

CHARLES DARWIN PARA A SRTA. S. DARWIN. 17 Spring Gardens, segunda-feira [5 de setembro de 1831].

Tenho tão pouco tempo de sobra que não tenho nenhum para desperdiçar reescrevendo cartas, pelo que terá de me desculpar por trazer a outra comigo e alterá-la. A última carta foi escrita de manhã. A meio do dia, Wood recebeu uma carta do Capitão Fitz-Roy, que devo dizer que foi MUITO direta e CAVALHEIRESTA, mas tão contra a minha ida que desisti imediatamente do projeto; e Henslow fez o mesmo, dizendo que achava que Peacock tinha agido MUITO MAL ao deturpar tanto as coisas.

Quase não pensei em ir à cidade, mas aqui estou; e agora, mais detalhes, e muito mais promissores. O Capitão Fitz-Roy está na cidade, e eu vi-o; não vale a pena tentar elogiá-lo tanto quanto me sinto inclinado a fazer, pois não acreditaria em mim. Uma coisa é certa, nada poderia ser mais aberto e gentil do que ele foi comigo. Parece que ele tinha prometido levar um amigo consigo, que está em funções e não pode ir, e ele só recebeu a carta cinco minutos antes de eu entrar; e isto torna as coisas muito melhores para mim, já que a falta de espaço era uma das maiores objeções de Fitz-Roy. Ele oferece-me partilhar tudo na sua cabine se eu quiser ir, e todo o tipo de acomodação que puder ter, mas não serão numerosas. Ele diz que nada seria tão miserável para ele como ter-me consigo se eu estivesse desconfortável, já que numa pequena embarcação temos de estar juntos, e achou que era seu dever expor tudo sob o pior ponto de vista. Acho que irei no domingo a Plymouth ver a embarcação.

Há algo de extremamente atraente nos seus modos e na sua maneira de ir direto ao assunto. Se eu viver com ele, diz que devo viver pobremente — sem vinho e com os jantares mais simples. O plano não é certamente tão bom como Peacock descreve. O Capitão Fitz-Roy aconselha-me a não me decidir ainda, mas que, seriamente, acha que será muito mais prazeroso do que doloroso para mim. A embarcação não parte até 10 de outubro. Contém sessenta homens, cinco ou seis oficiais, etc., mas é uma embarcação pequena. Provavelmente estará fora quase três anos. Pagarei pela alimentação o mesmo que o próprio Capitão, 30 libras por ano; e Fitz-Roy diz que se eu gastar, incluindo o meu equipamento, 500 libras, será além do extremo. Mas agora, notícias ainda piores. A volta ao mundo não é CERTA, mas a probabilidade é excelente. Até que esse ponto seja decidido, não estarei. E pode acreditar, após as muitas mudanças que fiz, que nada senão a minha razão me decidirá.

Fitz-Roy diz que o mar tempestuoso é exagerado; que se eu não escolher ficar com eles, posso a qualquer momento voltar para Inglaterra, tantos navios navegam por aquele caminho, e que durante o mau tempo (provavelmente dois meses), se eu quiser, serei deixado em algum país saudável, seguro e agradável; que terei sempre assistência; que ele tem muitos livros, todos os instrumentos, armas, ao meu dispor; que quanto menos e mais baratas forem as roupas que levar, melhor. A forma de proceder adequar-se-á perfeitamente a mim. Eles ancoram o navio e depois permanecem por quinze dias num lugar. Fiz com que o Capitão Beaufort me entendesse perfeitamente. Ele diz que se eu partir e não der a volta ao mundo, terei boas razões para me sentir enganado. Devo ligar depois de amanhã e, se possível, receber instruções mais certas. A falta de espaço é decididamente a objeção mais séria; mas o Capitão Fitz-Roy (provavelmente devido à carta de Wood) parece determinado a tornar-me o mais confortável que puder. Gosto da sua maneira de proceder. Perguntou-me imediatamente: "Suportará ser avisado de que quero a cabine só para mim — quando quiser estar sozinho? Se nos tratarmos desta maneira, espero que nos demos bem; se não, provavelmente desejar-nos-emos um ao outro para o diabo".

Paramos uma semana nas Ilhas da Madeira e veremos a maioria das grandes cidades na América do Sul. O Capitão Beaufort está a traçar o caminho através do Mar do Sul. Estou a escrever com muita pressa; não sei se tem interesse suficiente para desculpar o porte triplo. Espero estar a julgar razoavelmente, e não por preconceito, sobre o Capitão Fitz-Roy; se for assim, tenho a certeza de que nos daremos bem. Janto com ele hoje. Poderia escrever muito mais se achasse que gostava, e se tivesse tempo no momento. Existe, de facto, uma maré nos assuntos dos homens, e eu experimentei-a, e tinha DESISTIDO TOTALMENTE disso até à uma de hoje.

Lembranças ao meu pai. Queridíssima Susan, adeus.

CH. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.S. HENSLOW. Londres, segunda-feira, [5 de setembro de 1831].

Meu caro Senhor,

Gloria in excelsis é o início mais moderado que consigo imaginar. As coisas estão mais prósperas do que eu teria pensado ser possível. O Capitão Fitz-Roy é tudo o que há de encantador. Se eu elogiasse metade do que me sinto inclinado, diria que é absurdo, vendo-o apenas uma vez. Acho que ele realmente deseja ter-me. Oferece-me partilhar a mesa com ele, e tratará de que eu tenha o espaço possível. Mas quanto aos caixotes, diz que me devo limitar; mas ele pensa como um marinheiro sobre o tamanho. O Capitão Beaufort diz que estarei nos quadros, e então só me custará como aos outros oficiais. O navio parte a 10 de outubro. Passa uma semana nas Ilhas da Madeira; e depois Rio de Janeiro. Todos acham extremamente provável o regresso pelo arquipélago indiano; mas até que isso seja decidido, não estarei.

O que levou o Capitão Fitz-Roy a ter uma visão melhor do caso é que o Sr. Chester, que ia como amigo, não pode ir, pelo que terei o seu lugar em todos os aspetos.

O Capitão Fitz-Roy tem um bom stock de livros, muitos dos quais estavam na minha lista, e espingardas, etc., pelo que o equipamento será muito menos dispendioso do que supus.

A embarcação estará fora três anos. Eu não me oponho, desde que o meu pai não se oponha. Na quarta-feira tenho outra entrevista com o Capitão Beaufort, e no domingo, muito provavelmente, irei com o Capitão Fitz-Roy para Plymouth. Por isso, espero que continue a pensar no assunto e apenas tome notas do que lhe ocorrer. Provavelmente visitarei o Sr. Burchell e apresentar-me-ei. Estou alojado em 17 Spring Gardens. Não pode imaginar nada mais agradável, gentil e aberto do que os modos do Capitão Fitz-Roy foram comigo. Tenho a certeza de que será culpa minha se não nos dermos bem.

Que mudanças eu tive. Até à uma de hoje, estava a construir castelos no ar sobre caçar raposas em Shropshire, agora lamas na América do Sul.

Existe, de facto, uma maré nos assuntos dos homens. Se vir o Sr. Wood, lembre-me a ele muito gentilmente.

Adeus. Meu caro Henslow, seu amigo mais sincero, CHAS. DARWIN.

Desculpe esta carta com tanta pressa.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. 17 Spring Gardens, Londres, 6 de setembro de 1831....

A sua carta deu-me grande prazer. Não pode imaginar o quanto a sua carta anterior me aborreceu e magoou. (Ele tinha mal-interpretado uma carta de Fox como implicando uma acusação de falsidade.) Mas, graças aos céus, acredito firmemente que foi minha PRÓPRIA INTEIRA culpa ao interpretar a sua carta dessa forma. Perdi um amigo outro dia, e duvido se a morte moral (como então maldosamente supus) da nossa amizade não me magoou tanto quanto a morte real e repentina do pobre Ramsay. Conhecemo-nos há tempo demais para precisar, confio, de mais explicações. Mas mencionarei apenas uma coisa — que no meu leito de morte, acho que poderia dizer que nunca proferi uma expressão insincera (que na altura não sentisse plenamente) sobre a minha consideração por si. Mais uma coisa — o envio IMEDIATO dos insetos, por minha honra, foi uma coincidência infeliz. Esqueci-me de como naturalmente os receberia. Quando olhar para eles agora, espero que não surjam sentimentos hostis na sua mente, e que acredite que sempre teve em mim um amigo sincero, e acrescento, grato. Os muitos minutos agradáveis que passámos juntos em Cambridge surgiram como espíritos falecidos em julgamento contra mim. Que possamos ter muitos mais desses, será um dos meus últimos desejos ao deixar a Inglaterra. Deus o abençoe, querido velho Fox. Que seja sempre feliz.

Seu verdadeiramente, CHAS. DARWIN.

Deixei a sua carta para trás, por isso não sei se estou a enviar para o endereço correto.

CHARLES DARWIN PARA A SRTA. SUSAN DARWIN. 17 Spring Gardens, terça-feira, [6 de setembro de 1831.]

Minha querida Susan,

Mais uma vez vou incomodá-la. Suspeito que, se continuar a este ritmo, desejar-me-á sinceramente na Terra do Fogo, ou qualquer outra Terra, exceto Inglaterra. Primeiro darei as minhas incumbências. Diga à Nancy para me fazer umas doze camisas em vez de oito. Diga ao Edward para me enviar na minha mala de viagem (ele pode meter a chave na mala presa a um cordel), as minhas pantufas, um par de sapatos de caminhar um pouco leves, os meus livros de espanhol, o meu novo microscópio (cerca de seis polegadas de comprimento e três ou quatro de profundidade), que deve ter algodão acolchoado por dentro; a minha bússola geológica; o meu pai sabe disso; um pequeno livro, se o tiver no meu quarto — 'Taxidermia'. Pergunte ao meu pai se ele acha que haveria alguma objeção em eu tomar arsénico por um curto período, já que as minhas mãos não estão muito bem, e sempre observei que se as curar uma vez e mudar o meu modo de vida ao mesmo tempo, geralmente permanecem bem. Qual é a dose? Diga ao Edward que a minha espingarda está suja. Qual é a morada de Erasmus? Diga-me se acha que há tempo para escrever e receber uma resposta antes de eu partir, pois gostaria particularmente de saber o que ele pensa sobre isto. Suponho que não sabe a morada de Sir J. Mackintosh?

Escrevo tudo isto como se estivesse decidido, mas não está mais do que estava, exceto que, pelo facto de o Capitão Fitz-Roy desejar tanto que eu vá, e pela sua gentileza, sinto uma predestinação de que partirei. Passei uma noite muito agradável com ele ontem. Ele deve ter mais de vinte e três anos; tem uma figura esguia, e é uma edição morena, mas bonita, do Sr. Kynaston e, segundo as minhas noções, modos eminentemente bons. Ele é todo a favor da economia, exceto num ponto — a saber, armas de fogo. Recomenda-me fortemente que compre um estojo de pistolas como as dele, que custam 60 libras!! e que nunca vá a terra em lado nenhum sem pistolas carregadas, e está a duvidar sobre uma espingarda; diz que não posso apreciar o luxo de carne fresca aqui. É claro que não comprarei nada até que tudo esteja decidido; mas trabalho o dia todo nas minhas listas, inserindo e riscando artigos. Este é o primeiro dia realmente alegre que passei desde que recebi a carta, e tudo se deve ao tipo de confiança involuntária que deposito no meu beau ideal de Capitão.

Paramos em Tenerife. O seu objetivo é parar no maior número de lugares possível. Ele leva vinte cronómetros, e será um "pecado" não determinar a longitude. Ele diz-me para obter por escrito no Almirantado que tenho a livre escolha de sair assim que e sempre que quiser. Atrevo-me a dizer que espera que eu volte atrás na Madeira; se me restar um bocadinho de estômago, não desistirei. Desculpe eu incomodá-la e escrever tão frequentemente: a primeira é de grande utilidade, a outra um grande divertimento para mim. Muito provavelmente escreverei amanhã. Responda pelo correio de retorno. Lembranças ao meu pai, queridíssima Susan.

C. DARWIN.

Como os meus instrumentos precisam de ser alterados, envie as minhas coisas pelo 'Oxonian' na mesma noite.

CHARLES DARWIN PARA A SRTA. SUSAN DARWIN. Londres, sexta-feira de manhã, 9 de setembro de 1831.

Minha querida Susan,

Acabei de receber o pacote. Suponho que não foi entregue ontem devido à Coroação. Estou muito grato ao meu pai e a todos os outros. Tudo está feito perfeitamente bem. Suponho que a esta hora tenha recebido a minha carta escrita no dia seguinte, e espero que envie as coisas. Os meus assuntos permanecem em statu quo. O Capitão Beaufort diz que estou nos livros para as provisões, e ele acha que não terei dificuldade com as minhas coleções quando voltar para casa. Mas ele é um peixe demasiado profundo para eu o perceber. A única coisa que agora me impede de me decidir finalmente é a falta de certeza sobre as Ilhas do Mar do Sul; embora moralmente não tenha dúvidas de que iremos lá, quer esteja ou não nas instruções. O Capitão Fitz-Roy diz que faço bem em aborrecer o Capitão Beaufort, isso agita-o com uma vara longa. O Capitão Fitz-Roy diz que tem certeza de que tem influência suficiente (especialmente se esta Administração não for eterna — em breve tornar-me-ei Tory!), de qualquer forma, mesmo quando fora, para conseguir que o navio seja ordenado de volta por qualquer caminho que ele deseje. Pelo que Wood diz, presumo que os Duques de Grafton e Richmond se interessam por ele. A propósito, Wood tem sido da maior utilidade para mim; e tenho a certeza de que a sua apresentação pessoal de mim inclinou o Capitão Fitz-Roy a aceitar-me.

Para explicar as coisas desde o início: o Capitão Fitz-Roy primeiro desejou ter um Naturalista, e depois parece ter tido um horror súbito às possibilidades de ter alguém a bordo que não lhe agradasse. Ele confessa que a sua carta para Cambridge era para deitar água fria no projeto. Não acho que discutiremos sobre política, embora Wood (como se poderia esperar de um Londonderry) tenha avisado solenemente Fitz-Roy de que eu era um Whig. O Capitão Fitz-Roy estava antes do Tio Jos., ele disse: "agora os seus amigos dir-lhe-ão que um capitão de mar é o maior bruto à face da criação. Não sei como ajudá-lo neste caso, exceto esperando que me dê uma oportunidade". Como se muda! Até desejo agora que a viagem fosse mais longa antes de tocarmos terra. Sinto o sangue gelar com a quantidade de coisas que tenho de fazer. Todos parecem prontos para me ajudar. A Sociedade Zoológica quer fazer-me membro correspondente. Tudo isto posso construir sem atravessar o Equador. Mas um amigo é bastante inestimável, a saber, um Sr. Yarrell, um papeliro e excelente naturalista. (William Yarrell, bem conhecido pela sua 'História das Aves Britânicas' e 'História dos Peixes Britânicos', nasceu em 1784. Herdou do pai um negócio de jornais, ao qual se manteve fiel até à sua morte, "no seu 73º ano". Era um homem de caráter inteiramente amável e honrado, e foi um valorizado membro da direção de várias Sociedades eruditas.) Ele vai às lojas comigo e intimida quanto aos preços (não que eu compre ainda): que me enforquem se der 60 libras por pistolas.

Ontem todas as lojas estavam fechadas, por isso não pude fazer nada; e fui criança o suficiente para dar 1 libra e 1 xelim por um excelente lugar para ver a Procissão. (A Coroação de Guilherme IV.) E certamente valeu muito a pena ver. Fiquei surpreendido que qualquer quantidade de ouro pudesse fazer uma longa fila de pessoas brilhar completamente. Era como apenas o que se vê nos livros de figuras de procissões orientais. O Rei parecia muito bem e parecia popular, mas houve muito pouco entusiasmo; tão pouco que dificilmente penso que haverá uma coroação daqui a cinquenta anos.

A Guarda Real agradou-me tanto como qualquer outra coisa — são absolutamente magníficos; e é belo vê-los limpar uma multidão. Pensa-se que devem matar pelo menos vinte, e aparentemente não magoam ninguém realmente, mas assustam-nos terrivelmente. Sempre que uma multidão era tão densa que as pessoas eram forçadas a sair do caminho, um destes cavalheiros de seis pés, num cavalo preto, cavalgava diretamente para o local, fazendo o seu cavalo empinar muito alto e cair no ponto mais denso. Suporia que os homens eram feitos de esponja ao vê-los recuar.

À noite houve uma iluminação, e muito mais grandiosa do que a do Projeto de Lei da Reforma. Todas as principais ruas estavam lotadas tal como um campo de corridas. As carruagens geralmente estavam seis lado a lado, e arrisco-me a dizer que não iam a uma milha por hora. O Duque de Northumberland aprendeu a lição da última vez, pois a sua casa estava muito grandiosa; muito mais do que a da outra grande nobreza, e de muito melhor gosto; cada janela na sua casa estava cheia de linhas retas de luzes brilhantes, e devido à sua extrema regularidade e número tiveram um efeito belo. A escassez de invenção era muito marcante, coroas, âncoras e "W.R.'s" eram repetidos em sucessão infinita. Os mais bonitos eram tubos de gás com pequenos orifícios; eram quase dolorosamente brilhantes. Escrevi tanto sobre a Coroação que acho que não terá ocasião de ler o "Morning Herald".

Pela primeira vez na minha vida, acho Londres muito agradável; a pressa, a agitação e o barulho estão todos em uníssono com os meus sentimentos. E tenho muito que fazer nos momentos livres. Dedico-me à Astronomia, pois suponho que um marinheiro ficaria espantado se alguém não soubesse encontrar a Latitude e a Longitude. Agora vou ter com o Capitão Fitz-Roy e manterei [esta] carta aberta até à noite para qualquer coisa que possa ocorrer. Dar-vos-ei uma prova de que Fitz-Roy é um bom oficial — todos os oficiais são os mesmos de antes; dois terços da sua tripulação e os oito fuzileiros que foram anteriormente ofereceram-se todos para vir de novo, por isso o serviço não pode ser assim tão mau. O Almirantado acaba de emitir ordens para um grande stock de carne em conserva e sumo de limão, etc., etc. Acabo de regressar de passar um longo dia com o Capitão Fitz-Roy, a passear no seu escaler e a fazer compras. Esta carta chega tarde para o correio de hoje. Podem considerar como certo que vou. Contudo, há margem para mudanças caso aconteça algum acidente imprevisto; não vejo razão para esperar tal coisa. Sinto-me convencido de que nada mais alterará o meu desejo de ir. Comecei a encomendar as coisas. Arrumei um estojo de boas pistolas fortes e uma excelente espingarda por 50 libras, eis uma poupança; um bom telescópio, com bússola, 5 libras, e estes são quase os únicos instrumentos dispendiosos de que precisarei. O Capitão Fitz-Roy tem tudo. Nunca vi um homem tão (o que eu chamaria, ele diz que não) extravagante, no que diz respeito a si próprio, mas tão económico para comigo. Como ele encomendou as coisas! As suas armas de fogo custarão pelo menos 400 libras. Encontrei a mala de viagem quando cheguei, tudo bem, e muito obrigado. Não creio que levarei arsénico; enviarei perdizes ao Sr. Yarrell; muito obrigado. Peçam ao Edward para NEGOCIAR COM o Clemson a feitura para a minha espingarda de — DOIS cães ou percutores suplentes, duas molas mestras, duas molas de gatilho, quatro escorvas ou bujões — quero dizer um para cada cano, exceto as escorvas, das quais tem de haver duas para cada, todos de excelente qualidade, e que comece a trabalhar neles imediatamente; digam ao Edward para se informar sobre os preços. Vou no domingo pelo paquete para Plymouth, ficarei um ou dois dias, depois regressarei, e espero encontrar uma carta vossa; alguns dias em Londres; depois Cambridge, Shrewsbury, Londres, Plymouth, Madeira, é o meu itinerário. É uma grande maçada eu escrever tanto sobre a Coroação; poderia encher outra folha. Acabo de estar com o Capitão King, oficial superior de Fitz-Roy na última expedição; ele acha que a expedição me convirá. Sem que lho pedissem, disse que o temperamento de Fitz-Roy era perfeito. Ele envia o seu próprio filho com ele como aspirante. A chave do meu microscópio foi esquecida; não tem importância. Amor para todos.

CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. 17 Spring Gardens (e aqui permanecerei até partir) [19 de setembro de 1831].

Meu caro Fox,

Regressei da minha expedição para ver o "Beagle" em Plymouth no sábado, e encontrei a vossa carta, a mais bem-vinda, sobre a minha mesa. É absolutamente ridículo o período tão longo que estes últimos vinte dias me pareceram, certamente muito mais do que outras tantas semanas em ocasiões normais; isto explicará por que não me lembro de quanto vos disse sobre os meus planos...

Mas, no geral, é uma oportunidade grandiosa e afortunada; haverá tantas coisas para me interessar — paisagens belas e uma ocupação e diversão sem fim nos diferentes ramos da História Natural; depois, ainda, a navegação e a meteorologia divertir-me-ão durante a viagem, aliadas ao grande requisito de haver um grupo agradável de oficiais e, tanto quanto posso julgar, isto é certo. Por outro lado, há um risco muito considerável para a vida e a saúde de alguém, e partir por tanto tempo de tantas pessoas a quem amo ternamente é, muitas vezes, um sentimento tão doloroso que requer toda a minha determinação para o superar. Mas tudo está agora decidido, e antes de 20 de outubro espero estar em mar aberto. A minha objeção ao navio é a sua pequenez, o que nos aperta tanto quanto ao espaço para empacotar o meu próprio corpo e todas as minhas caixas, etc., etc. Quanto à sua segurança, espero que o Almirantado seja o melhor juiz; aos olhos de um leigo, parece muito pequeno. É um brigue de dez canhões e três mastros, mas, creio, uma excelente embarcação. Tanto quanto aos meus planos futuros, e agora quanto aos presentes. Vou esta noite pelo correio para Cambridge, e de lá, após resolver os meus assuntos, prossigo para Shrewsbury (muito provavelmente na sexta-feira, dia 23, ou talvez antes); lá ficarei alguns dias, estarei em Londres até 1 de outubro, e partirei para Plymouth no dia 9.

E agora para a parte principal da minha carta. Não sei como vos dizer o quão gentil considero a vossa oferta de vir ver-me antes de deixar a Inglaterra. De facto, gostaria muito; mas devo dizer-vos decididamente que terei muito pouco tempo livre, e esse pouco tempo será quase estragado pelo facto de ter tanto em que pensar; e, em segundo lugar, mal posso pensar que valha a pena deixardes a vossa paróquia por tal motivo. Mas nunca esquecerei tamanha generosidade. Agora sei que agireis exatamente como achardes correto; mas não venhais por mim. Qualquer altura é igual para mim. Penso que, a partir desta carta, sabereis tanto dos meus planos como eu mesmo, e julgareis em conformidade onde e quando escrever-me. De vez em quando, tenho momentos de glorioso entusiasmo, quando penso na tâmara e nos coqueiros, as palmeiras e fetos tão altos e belos, tudo novo, tudo sublime. E se eu viver para ver anos na vida futura, quão grandiosas devem ser tais recordações! Conheceis Humboldt? (Se não, fazei-o diretamente.) Com que prazer intenso ele parece olhar sempre para os dias passados nos países tropicais. Espero que, quando escreverdes da próxima vez a Osmaston, [lhe] conteis o meu plano, e lhes transmitais as minhas mais amáveis saudações e despedidas.

Adeus, meu caro Fox, Vosso sempre sinceramente, CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA R. FITZ-ROY. 17 Spring Gardens [17 de outubro? 1831].

Caro Fitz-Roy,

Muitíssimos agradecimentos pela vossa carta; tornou-me o mais confortável possível, pois teria sido de partir o coração deixar algo completamente para trás, e eu nunca teria pensado em enviar as coisas por outro navio. Esta carta, espero, acompanhará algum talco. Li a vossa carta sem prestar atenção ao nome. Mas agora consegui algum do Jones, que parece muito bom, e enviá-lo-ei esta noite pelo correio. Ficareis surpreendido por não me verem propria persona em vez da minha escrita. Mas tinha acabado de descobrir que o grande paquete a vapor não pretendia partir no domingo, e estava a imaginar-me numa cabina pequena e suja, com a proporção de 39/40 dos passageiros muito doentes, quando o Sr. Earl entrou e me disse que o "Beagle" não partiria até ao início de novembro. Isto, claro, resolveu a questão; de modo que permaneço em Londres mais uma semana. Enviarei então os bens pesados por navio a vapor e partirei eu mesmo na carruagem no domingo à noite.

Tendes um bom conjunto de barómetros de montanha? Vários pesos-pesados no mundo científico disseram-me alguns pontos sobre geologia a verificar, que dependem inteiramente da sua altura relativa. Se não tiverdes um bom stock, acrescentarei mais um à lista. Devia envergonhar-me de vos incomodar tanto, mas querereis ENVIAR UMA LINHA para me informar? Estou a ficar diariamente mais ansioso por partir, e, se eu estou assim, vós deveis estar em febre. Que dia glorioso será o 4 de novembro para mim! A minha segunda vida começará então, e será como um aniversário para o resto da minha vida.

Acreditai em mim, caro Fitz-Roy, Vosso mais sinceramente, CHAS. DARWIN.

SEGUNDA-FEIRA. — Espero não vos ter causado muito inconveniente por ter ordenado que o quarto estivesse pronto.

CHARLES DARWIN PARA J.S. HENSLOW. Devonport, 15 de novembro de 1831.

Meu caro Henslow,

As ordens chegaram do Almirantado e tudo está finalmente resolvido. Partimos positivamente no último dia deste mês, e penso que antes desse tempo o navio estará pronto. Ela parece belíssima, até um leigo tem de a admirar. TODOS nós a achamos a embarcação mais perfeita que alguma vez saiu do estaleiro. Uma coisa é certa, nenhum navio foi equipado tão dispendiosamente, e com tanto cuidado. Tudo o que pode ser feito assim é de mogno, e nada pode exceder a limpeza e beleza de todas as acomodações. As instruções são muito gerais, e deixam muito à discrição e juízo do Capitão, prestando-lhe um elogio substancial, bem como verbal...

Nenhum navio deixou a Inglaterra com tal conjunto de Cronómetros, isto é, vinte e quatro, todos muito bons. Em suma, tudo está bem, e só me resta rezar para que o enjoo modere a sua ferocidade, e eu passarei muito bem. Contudo, não deveria chamar-lhe uma das melhores oportunidades para a história natural que alguma vez ocorreu. A absoluta falta de espaço é um mal que nada pode superar. Penso que L. Jenyns agiu muito sabiamente ao não vir, isto julgando pelos meus próprios sentimentos, pois tenho a certeza de que, se tivesse deixado a faculdade há alguns anos, ou se fosse alguns anos mais velho, NUNCA teria podido suportá-lo. Os oficiais (excetuando o Capitão) são como os mais frescos caloiros, isto é, nos seus modos, em tudo o resto amplamente diferentes. Lembrem-me muito gentilmente dele, e digam-lhe que, se alguma vez sonhar à noite com palmeiras, pode de manhã consolar-se com a garantia de que a viagem não lhe teria convindo.

Estou muito grato pelo vosso conselho, de Mathematicis. Suspeito que, quando estiver a lutar com um triângulo, desejarei muitas vezes estar no vosso quarto, e quanto a esses maus e rabugentos surdos, não sei o que farei sem vós para os conjurar. O meu tempo passa muito agradavelmente. Conheço uma ou duas pessoas agradáveis, a principal das quais é o Sr. Trovão-e-relâmpago Harris (William Snow Harris, o Eletricista.), de quem suponho que já ouvistes falar. A minha ocupação principal é ir a bordo do "Beagle" e tentar parecer tanto quanto posso um marinheiro. Não tenho provas de ter enganado homem, mulher ou criança.

Vou pedir-vos para fazer mais uma incumbência, e espero que seja a última. Quando estava em Cambridge, escrevi ao Sr. Ash, pedindo-lhe para enviar a minha conta da Faculdade ao meu pai, depois de ter subtraído cerca de 30 libras para a minha mobília. Ele esqueceu-se de o fazer, e o meu pai pagou a conta, e eu quero que o dinheiro da mobília seja transmitido ao meu pai. Talvez tivésseis a gentileza de falar com o Sr. Ash. Custei tanto dinheiro ao meu pai que me sinto bastante envergonhado.

Escreverei mais uma vez antes de zarpar, e talvez escrevais para mim antes disso.

Lembrem-me ao Professor Sedgwick e ao Sr. Peacock.

Acreditai em mim, vosso afetuosamente, CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.S. HENSLOW. Devonport, 3 de dezembro de 1831.

Meu caro Henslow,

É agora tarde da noite, e esta noite vou dormir a bordo. Na segunda-feira partimos certamente, por isso podeis adivinhar o estado desesperado de confusão em que todos estamos. Se ouvísseis as várias exclamações dos oficiais, suporíeis que mal tínhamos tido uma semana de aviso. Estou exatamente da mesma maneira, apanhado DE SURPRESA, e com tanta agitação mal sei o que fazer. O número de coisas a fazer é infinito. Espero até pelo enjoo com algo parecido com satisfação, qualquer coisa deve ser melhor do que este estado de ansiedade. Estou muito grato pela vossa última carta gentil e afetuosa. Gosto sempre de conselhos vossos, e ninguém que eu tenha a sorte de conhecer é mais capaz de os dar do que vós mesmo. Lembrai-vos, quando escreverdes, de que sou uma espécie de protegido vosso, e que é vosso dever obrigatório dar-me lições.

Dar-vos-ei agora o meu endereço; é, primeiro, Rio; mas se me enviardes uma carta na primeira terça-feira (quando o paquete parte) de fevereiro, dirigida a Montevidéu, dar-me-eis um prazer muito grande; desfrutarei muito de ouvir algumas notícias de Cambridge. Pobre e querida Alma Mater! Sou um filho muito digno no que toca ao afeto. Tenho pouco mais sobre que escrever... Não posso terminar isto sem vos dizer o quão cordialmente me sinto grato pela gentileza que me mostrastes durante a minha vida em Cambridge. Muito do prazer e da utilidade que posso ter derivado dela deve-se a vós. Anseio pelo momento em que nos encontraremos novamente, e até lá acreditai em mim, meu caro Henslow,

Vosso afetuoso e grato amigo, CH. DARWIN.

Lembrem-me muito gentilmente daqueles que têm algum interesse por mim.

CAPÍTULO 1.VI. -- A VIAGEM.

"Há uma energia natural e bem-humorada nas suas cartas, tal como ele é." — De uma carta do Dr. R.W. Darwin para o Prof. Henslow.

[O objetivo da viagem do "Beagle" é brevemente descrito no 'Diário de Pesquisas' do meu pai, página 1, como sendo "completar a Pesquisa da Patagónia e da Terra do Fogo, iniciada sob o Capitão King em 1826 a 1830; pesquisar as costas do Chile, Peru e algumas ilhas no Pacífico; e realizar uma cadeia de medições cronométricas à volta do mundo."]

O "Beagle" é descrito como uma pequena embarcação bem construída, de 235 toneladas, aparelhada como galera e transportando seis canhões. Pertencia à antiga classe dos brigues de dez canhões, que eram apelidados de "caixões", devido à sua propensão para se afundarem em tempo severo. Eram muito "de cintura baixa", isto é, as suas amuradas eram altas em proporção ao seu tamanho, de modo que um mar pesado a rebentar sobre elas podia ser altamente perigoso. No entanto, sobreviveu aos cinco anos de trabalho, nas regiões mais tempestuosas do mundo, sob o comando dos Comandantes Stokes e Fitz-Roy, sem um acidente grave. Quando reequipado em 1831 para a sua segunda viagem, verificou-se (como aprendi com o Almirante Sir James Sulivan) que estava tão podre que teve praticamente de ser reconstruído, e foi isto que causou o longo atraso na reparação. O convés superior foi elevado, tornando-o muito mais seguro em tempo pesado, e dando-lhe uma acomodação muito mais confortável abaixo. Por estas alterações e pelo forte forro adicionado ao seu fundo, foi elevado para 242 toneladas de porte. É uma prova da esplêndida mestria marítima do Capitão Fitz-Roy e dos seus oficiais que tenha regressado sem ter partido um mastro, e que apenas numa das pesadas tempestades que enfrentou tenha corrido grande perigo.

Foi equipada para a expedição com todo o cuidado possível, sendo fornecida com mastros e cordames cuidadosamente escolhidos, seis botes e um "escaler"; para-raios, "inventados pelo Sr. Harris, foram fixados em todos os mastros, nos gurupés e até no pau da bujarrona". Para citar a descrição do meu pai, escrita de Devonport, a 17 de novembro de 1831: "Toda a gente, que pode julgar, diz que é uma das viagens mais grandiosas que quase alguma vez foi enviada. Tudo está numa escala grandiosa. Vinte e quatro cronómetros. Todo o navio está equipado com mogno; ele é a admiração de todo o lugar. Em suma, tudo é tão próspero quanto os meios humanos podem torná-lo."

Devido à pequenez do navio, todos a bordo estavam apertados de espaço, e a acomodação do meu pai parece ter sido bastante reduzida: "Tenho apenas espaço para me virar", escreve ele a Henslow, "e isso é tudo." O Almirante Sir James Sulivan escreve-me: "O espaço estreito no final da mesa de cartas era a sua única acomodação para trabalhar, vestir-se e dormir; a rede ficava pendurada sobre a sua cabeça durante o dia, quando o mar estava de algum modo agitado, para que ele pudesse deitar-se nela com um livro na mão quando já não podia estar sentado à mesa. A sua única arrumação para a roupa eram várias gavetas pequenas no canto, que iam de convés a convés; a de cima era retirada quando a rede era pendurada, sem o que não havia comprimento para ela, por isso então os cabos de suspensão ocupavam o lugar da gaveta superior. Para espécimes, tinha uma cabina muito pequena sob o castelo de proa."

No entanto, sobre este espaço estreito escreveu ele entusiasticamente, a 17 de setembro de 1831: --

"Quando escrevi da última vez estava em grande alarme sobre a minha cabina. As cabinas não estavam então marcadas, mas quando parti estavam, e a minha é uma excelente, certamente a seguir à do Capitão e notavelmente luminosa. O meu companheiro, por sorte, creio, revelar-se-á o oficial de quem mais gostarei. O Capitão Fitz-Roy diz que se certificará de que um canto seja equipado de modo a que eu me sinta confortável nele e o considere o meu lar, mas que também terei livre acesso à dele. A minha cabina é a de desenho; e no meio há uma mesa grande, na qual nós dois dormimos em redes. Mas durante os primeiros dois meses não haverá desenho a fazer, de modo que será uma sala bastante luxuosa, e um pouco maior do que a cabina do Capitão."

O meu pai costumava dizer que era a absoluta necessidade de limpeza no espaço apertado do "Beagle" que ajudou 'a dar-lhe os seus hábitos metódicos de trabalho.' No "Beagle", também, diria ele, que aprendeu o que considerava a regra de ouro para poupar tempo; isto é, cuidar dos minutos.

Sir James Sulivan diz-me que a principal falha no equipamento da expedição foi a falta de um segundo navio mais pequeno para servir de apoio. Esta falta foi tão sentida pelo Capitão Fitz-Roy que ele alugou dois botes com convés para pesquisar a costa da Patagónia, a um custo de 1100 libras, uma quantia que ele teve de fornecer, embora os botes tivessem poupado vários milhares de libras ao país. Comprou depois uma escuna para servir de apoio, poupando assim ao país uma quantia adicional grande. Foi finalmente ordenado a vender a escuna, e foi forçado a suportar ele mesmo a perda, e só após a sua morte foi feita alguma compensação inadequada por todas as perdas que sofreu devido ao seu zelo.

Por falta de um apoio adequado, muito do trabalho teve de ser feito em pequenos botes baleeiros abertos, que eram enviados para longe do navio durante semanas seguidas, e isto num clima onde as tripulações estavam expostas a severas dificuldades devido às chuvas quase constantes, que por vezes continuavam durante semanas seguidas. A completude do equipamento deveu-se também, noutros aspetos, em grande parte ao espírito público do Capitão Fitz-Roy. Ele providenciou a seu próprio custo um artista e um fabricante de instrumentos qualificado para cuidar dos cronómetros. (Um ou ambos estavam nos registos para rações.) O desejo do Capitão Fitz-Roy era levar "alguma pessoa bem educada e científica" como seu convidado privado, mas esta oferta generosa só foi aceite pelo meu pai sob a condição de lhe ser permitido pagar uma parte justa da despesa da mesa do Capitão; ele estava, aliás, nos registos do navio para rações.

Numa carta à sua irmã (julho de 1832) ele escreve com satisfação sobre o seu modo de vida no mar:--"Não creio ter-vos dado alguma vez uma descrição de como o dia passa. Tomamos o pequeno-almoço às oito horas. A máxima invariável é pôr de parte toda a polidez — isto é, nunca esperar uns pelos outros, e sair a correr no minuto em que se acaba de comer, etc. No mar, quando o tempo está calmo, trabalho com animais marinhos, dos quais o oceano inteiro abunda. Se o mar está agitado, ou fico enjoado ou arranjo maneira de ler alguma viagem ou relatos de viagens. À uma hora jantamos. Vós, gente que vive em terra, estais lamentavelmente enganados sobre o modo de viver a bordo. Nunca jantámos (nem jantaremos) carne salgada. Arroz, ervilhas e feijões-frade são vegetais excelentes e, com bom pão, quem poderia querer mais? O Juiz Alderson não poderia ser mais temperante, pois nada além de água chega à mesa. Às cinco tomamos o chá. A camarata dos aspirantes a guarda-marinha faz todas as suas refeições uma hora antes de nós, e a câmara dos oficiais uma hora depois."

A tripulação do "Beagle" consistia no Capitão Fitz-Roy, "Comandante e Agrimensor", dois tenentes, um dos quais (o primeiro-tenente) foi o falecido Capitão Wickham, Governador de Queensland; o atual Almirante Sir James Sulivan, K.C.B., era o segundo-tenente. Além do mestre e de dois oficiais subalternos, havia um agrimensor-assistente, o atual Almirante Lort Stokes. Havia também um cirurgião, um cirurgião-assistente, dois aspirantes a guarda-marinha, um oficial mestre, um voluntário (1.ª classe), comissário, carpinteiro, escrivão, contramestre, oito fuzileiros, trinta e quatro marinheiros e seis rapazes.

Não restam agora (1882) muitos sobreviventes dos antigos companheiros de navio do meu pai. O Almirante Mellersh, o Sr. Hammond e o Sr. Philip King, do Conselho Legislativo de Sydney, e o Sr. Usborne estão entre o número. O Almirante Johnson morreu quase na mesma altura que o meu pai.

Ele guardou até ao fim uma recordação muito agradável da viagem do "Beagle" e dos amigos que fez a bordo. Para os seus filhos, os nomes deles eram familiares, devido às suas muitas histórias da viagem, e nós herdámos o seu sentimento de amizade por muitos que, para nós, não eram mais do que nomes.

É agradável saber com que afeto os seus antigos companheiros se lembravam dele.

Sir James Sulivan permaneceu, durante toda a vida do meu pai, um dos seus melhores e mais verdadeiros amigos. Ele escreve:--"Posso expressar com confiança a minha crença de que, durante os cinco anos no 'Beagle', nunca foi conhecido por se descontrolar, ou por dizer uma palavra cruel ou precipitada SOBRE ou A quem quer que fosse. Compreenderão, portanto, prontamente como isto, combinado com a admiração pela sua energia e capacidade, nos levou a dar-lhe o nome de 'o querido e velho Filósofo'." (A sua outra alcunha era "O Caçador de Moscas". Ouvi o meu pai contar como ouviu o contramestre do "Beagle" a mostrar o navio a outro contramestre e a apontar os oficiais: "Aquele é o nosso primeiro-tenente; aquele é o nosso médico; aquele é o nosso caçador de moscas".) O Almirante Mellersh escreve-me:--"O vosso pai está tão vivamente na minha mente como se só tivesse passado uma semana desde que estive no 'Beagle' com ele; o seu sorriso genial e a sua conversa nunca poderão ser esquecidos por quem os viu e ouviu. Fui enviado em duas ou três ocasiões num barco com ele em algumas das suas excursões científicas, e aguardava sempre estas viagens com grande prazer, uma antecipação que, ao contrário de muitas outras, era sempre realizada. Penso que ele foi o único homem que alguma vez conheci contra quem nunca ouvi dizer uma palavra; e como as pessoas, quando fechadas num navio durante cinco anos, tendem a irritar-se umas com as outras, isso quer dizer muito. Certamente, estávamos sempre tão atarefados que não tínhamos tempo para discutir, mas se o tivéssemos feito, sinto-me seguro de que o vosso pai teria tentado (e teria sido bem-sucedido) deitar óleo sobre as águas agitadas."

O Almirante Stokes, o Sr. King, o Sr. Usborne e o Sr. Hamond, todos falam da sua amizade com ele da mesma forma calorosa.

Sobre a vida a bordo e em terra, as suas cartas dão alguma ideia. O Capitão Fitz-Roy era um oficial rigoroso e fazia-se respeitar profundamente tanto pelos oficiais como pelos homens. A severidade ocasional da sua maneira era tolerada porque todos a bordo sabiam que o seu primeiro pensamento era o dever, e que ele sacrificaria qualquer coisa pelo verdadeiro bem-estar do navio. O meu pai escreve, em julho de 1834: "Todos nos damos muito bem, não há discussões a bordo, o que já é algo a dizer. O Capitão mantém tudo suave ao dar uma reprimenda a cada um, por sua vez." A melhor prova de que Fitz-Roy era valorizado como comandante é dada pelo facto de que muitos ('Voyage of the "Adventure" and "Beagle"', vol. ii. página 21.) da tripulação tinham navegado com ele na viagem anterior do "Beagle", e havia alguns oficiais, bem como marinheiros e fuzileiros, que tinham servido na "Adventure" ou no "Beagle" durante toda essa expedição.

O meu pai fala dos oficiais como um grupo de homens determinado e distinto, e especialmente de Wickham, o primeiro-tenente, como um "sujeito glorioso". Sendo este último responsável pela elegância e aparência do navio, opunha-se fortemente a que ele espalhasse tralha pelos conveses, referindo-se aos espécimes como "maldita imundície bestial", e costumava acrescentar: "Se eu fosse o capitão, depressa vos punha a ti e a toda a tua maldita tralha fora daqui."

Uma espécie de aura de santidade foi conferida ao meu pai pelo facto de ele jantar na cabine do Capitão, de modo que os aspirantes a guarda-marinha, a princípio, o tratavam por "Senhor", uma formalidade, no entanto, que não o impediu de se tornar amigo íntimo dos oficiais mais jovens. Ele escreveu por volta do ano 1861 ou 1862 ao Sr. P.G. King, M.L.C., Sydney, que, como anteriormente referido, foi aspirante a guarda-marinha a bordo do "Beagle":--"A lembrança dos velhos tempos, quando costumávamos sentar-nos e conversar nas vergas do 'Beagle', far-me-á sempre, até ao dia da minha morte, sentir alegria ao ouvir falar da vossa felicidade e prosperidade." O Sr. King descreve o prazer que o meu pai parecia sentir "ao apontar-me, enquanto jovem, as delícias das noites tropicais, com as suas brisas suaves a rodopiar das velas acima de nós, e o mar iluminado pela passagem do navio através dos intermináveis fluxos de animalículos fosforescentes."

Tem-se assumido que a sua má saúde nos anos posteriores se deveu ao facto de ter sofrido tanto de enjoo. Ele próprio não acreditava nisto, atribuindo antes a sua má saúde à falha hereditária que se manifestou como gota em algumas das gerações passadas. Não estou totalmente certo sobre o quanto ele sofreu realmente de enjoo; a minha impressão é clara de que, segundo a sua própria memória, ele não esteve realmente doente após as primeiras três semanas, mas constantemente desconfortável sempre que o navio oscilava de forma um pouco mais forte. Mas, a julgar pelas suas cartas e pelo testemunho de alguns dos oficiais, pareceria que, nos anos posteriores, ele esqueceu a extensão do desconforto que sofreu. Escrevendo a 3 de junho de 1836, a partir do Cabo da Boa Esperança, diz ele: "É uma sorte para mim que a viagem esteja a chegar ao fim, pois sofro positivamente mais de enjoo agora do que há três anos." O Almirante Lort Stokes escreveu ao "Times", a 25 de abril de 1883:--

"Posso pedir um espaço para o meu humilde testemunho da maravilhosa e perseverante resistência, pela causa da ciência, daquele grande naturalista, o meu antigo e saudoso amigo, o Sr. Charles Darwin, cujos restos mortais vão ser muito justamente honrados com um lugar de descanso na Abadia de Westminster?

"Talvez ninguém possa testemunhar melhor os seus primeiros e mais penosos trabalhos do que eu. Trabalhámos juntos durante vários anos na mesma mesa, na cabine da popa do 'Beagle', durante a sua célebre viagem, ele com o seu microscópio e eu com as cartas náuticas. Era frequentemente uma extremidade muito viva da pequena embarcação, e angustiantemente para o meu velho amigo, que sofria imenso de enjoo. Após talvez uma hora de trabalho, ele dizia-me: 'Velho amigo, tenho de me deitar na horizontal', sendo essa a melhor posição de alívio contra o movimento do navio; esticar-se de um lado da mesa durante algum tempo permitir-lhe-ia retomar os seus trabalhos por um período, quando tinha de se deitar novamente.

"Era angustiante testemunhar este sacrifício precoce da saúde do Sr. Darwin, que para sempre sentiu seriamente os efeitos nefastos da viagem do 'Beagle'."

O Sr. A.B. Usborne escreve: "Ele sofria terrivelmente de enjoo e, por vezes, quando eu era o oficial de serviço e reduzia as velas, tornando o navio mais estável e, assim, aliviando-o, ele dizia que eu era 'um bom oficial', e retomava as suas observações microscópicas na cabine da popa." A quantidade de trabalho que ele realizou no "Beagle" mostra que ele estava habitualmente em pleno vigor; teve, no entanto, uma doença grave, na América do Sul, quando foi acolhido na casa de um inglês, o Sr. Corfield, que o tratou com cuidadosa bondade. Ouvi-o dizer que, nesta doença, todas as secreções do corpo foram afetadas e que, quando descreveu os sintomas ao seu pai, o Dr. Darwin não conseguiu fazer qualquer palpite sobre a natureza da doença. O meu pai estava por vezes inclinado a pensar que o colapso da sua saúde se devia, em certa medida, a este ataque.

As cartas do "Beagle" dão provas amplas do seu forte amor pelo lar e por tudo o que a ele estava ligado, desde o seu pai até à Nancy, a sua antiga ama, a quem ele enviava por vezes o seu carinho.

O seu deleite pelas cartas de casa é demonstrado em passagens como:--"Mas se soubesses o deleite ardente e indescritível que senti ao ter a certeza de que o meu pai e todos vós estáveis bem, há apenas quatro meses, não lamentarias o trabalho perdido em manter a série regular de cartas."

Ou ainda — o seu desejo de regressar em palavras como estas:--"É demasiado delicioso pensar que verei as folhas cair e ouvirei o pintarroxo cantar no próximo outono em Shrewsbury. Os meus sentimentos são os de um rapaz de escola até ao ponto mais ínfimo; duvido que algum rapaz tenha desejado tanto as suas férias como eu desejo ver-vos a todos novamente. Estou atualmente, embora quase metade do mundo esteja entre mim e o lar, a começar a organizar o que farei, para onde irei durante a primeira semana."

Outra característica nas suas cartas é a surpresa e o deleite com que ouve que as suas coleções e observações estão a ser de alguma utilidade. Parece ter-lhe ocorrido apenas gradualmente que ele seria mais do que um colecionador de espécimes e factos, dos quais os grandes homens fariam uso. E mesmo quanto ao valor das suas coleções, parece ter tido muitas dúvidas, pois escreveu a Henslow em 1834:--"Comecei realmente a pensar que as minhas coleções eram tão pobres que ficaste intrigado sobre o que dizer; o caso está agora exatamente no rumo oposto, pois és culpado de excitar todos os meus sentimentos de vaidade até um grau muito confortável; se o trabalho árduo puder expiar estes pensamentos, juro que não será poupado."

Após o seu regresso e instalação em Londres, começou a compreender o valor do que tinha feito e escreveu ao Capitão Fitz-Roy--"Por mais que outros possam olhar para trás para a viagem do 'Beagle', agora que as pequenas partes desagradáveis estão quase esquecidas, penso que é, de longe, A CIRCUNSTÂNCIA MAIS AFORTUNADA DA MINHA VIDA que a oportunidade oferecida pela tua proposta de levar um Naturalista tenha recaído sobre mim. Muitas vezes passam-me diante dos olhos as mais vivas e deliciosas imagens do que vi a bordo do 'Beagle'. Estas recordações, e o que aprendi sobre História Natural, não as trocaria por duas vezes dez mil por ano."

[Ao selecionar a seguinte série de cartas, fui guiado pelo desejo de dar tantos detalhes pessoais quanto possível. Incluí apenas algumas cartas científicas, para ilustrar a forma como ele trabalhava e como encarava os seus próprios resultados. No seu 'Journal of Researches', ele dá incidentalmente alguma ideia do seu caráter pessoal; as cartas apresentadas no presente capítulo servem para ampliar, com palavras mais frescas e espontâneas, essa impressão da sua personalidade que o 'Journal' deu a tantos leitores.]

CHARLES DARWIN PARA R.W. DARWIN. Bahia, ou São Salvador, Brasil [8 de fevereiro de 1832].

Descubro, após a primeira página, que tenho estado a escrever para as minhas irmãs.

Meu caro Pai,

Escrevo isto no dia 8 de fevereiro, um dia de navegação após St. Jago (Cabo Verde), e pretendo arriscar a oportunidade de encontrar um navio com destino a casa algures perto do equador. A data, contudo, dirá isto sempre que a oportunidade ocorrer. Vou agora começar a partir do dia em que deixámos Inglaterra e dar uma breve descrição do nosso progresso. Partimos, como sabes, no dia 27 de dezembro, e tivemos a sorte de ter, desde esse momento até ao presente, uma brisa favorável e moderada. Mais tarde verificou-se que tínhamos escapado a um forte vendaval no Canal, outro na Madeira, e outro na Costa de África. Mas, ao escapar ao vendaval, sentimos as suas consequências — um mar pesado. No Golfo da Biscaia houve uma ondulação longa e contínua, e a miséria que suportei por causa do enjoo está muito além do que alguma vez imaginei. Creio que tens curiosidade sobre isso. Dar-te-ei toda a minha experiência duramente adquirida. Ninguém que tenha estado apenas vinte e quatro horas no mar tem o direito de dizer que o enjoo é sequer desconfortável. A verdadeira miséria só começa quando se está tão exausto que um pequeno esforço provoca uma sensação de desmaio. Não descobri nada que não fosse deitar-me na minha rede que me fizesse bem. Devo excetuar especialmente a tua receita de passas, que é o único alimento que o estômago tolera.

A 4 de janeiro não estávamos a muitas milhas da Madeira, mas como o mar estava agitado e a ilha ficava a barlavento, não se considerou que valesse a pena navegar contra o vento até lá. Acabou por revelar-se uma sorte termos poupado a nós próprios o incómodo. Eu estava demasiado enjoado até para me levantar para ver o contorno distante. No dia 6, à noite, navegámos para o porto de Santa Cruz. Senti-me agora, pela primeira vez, moderadamente bem, e estava a imaginar todos os deleites dos frutos frescos a crescer em belos vales, e a ler as descrições de Humboldt das gloriosas vistas da ilha, quando talvez possas adivinhar a nossa desilusão, quando um homem pequeno e pálido nos informou de que tínhamos de cumprir uma quarentena rigorosa de doze dias. Houve um silêncio mortal no navio até que o Capitão gritou "içar giba", e deixámos este lugar tão ansiosamente desejado.

Ficámos sem vento durante um dia entre Tenerife e a Grande Canária, e aqui experimentei pela primeira vez algum prazer. A vista era gloriosa. O Pico de Tenerife via-se entre as nuvens como outro mundo. O nosso único senão foi o extremo desejo de visitar esta gloriosa ilha. DIZ A EYTON PARA NUNCA ESQUECER NEM AS ILHAS CANÁRIAS NEM A AMÉRICA DO SUL; que tenho a certeza de que compensará bem o trabalho necessário, mas que ele deve preparar-se para encontrar uma boa dose deste último. Sinto-me certo de que ele se arrependerá se não fizer a tentativa. De Tenerife até St. Jago a viagem foi extremamente agradável. Eu tinha uma rede à popa da embarcação que apanhava grandes quantidades de animais curiosos, e ocupava plenamente o meu tempo na minha cabine, e no convés o tempo estava tão delicioso e claro que o céu e a água juntos faziam uma pintura. No dia 16 chegámos a Port Praya, a capital de Cabo Verde, e lá permanecemos vinte e três dias, isto é, até ontem, 7 de fevereiro. O tempo voou de forma mais deliciosa, de facto nada pode ser mais agradável; extremamente ocupado, e essa ocupação sendo tanto um dever como um grande prazer. Não creio ter passado uma meia hora ociosamente desde que deixei Tenerife. St. Jago proporcionou-me uma colheita extremamente rica em vários ramos da História Natural. Acho as descrições de muitos dos animais mais comuns que habitam os Trópicos dificilmente valiosas para alguma coisa. Refiro-me, claro, aos das classes inferiores.

Geologizar num país vulcânico é o mais delicioso; além do interesse que lhe está associado, leva-nos aos locais mais belos e recônditos. Ninguém, exceto uma pessoa apaixonada pela História Natural, pode imaginar o prazer de passear debaixo de coqueiros num arvoredo de bananas e cafeeiros, e um sem número de flores silvestres. E esta ilha, que me deu tanta instrução e deleite, é considerada o lugar mais desinteressante em que talvez tocaremos durante a nossa viagem. É certamente, em geral, muito árida, mas os vales são mais requintadamente belos, pelo próprio contraste. É totalmente inútil dizer qualquer coisa sobre a paisagem; seria tão proveitoso explicar cores a um cego como explicar, a uma pessoa que não saiu da Europa, a total dissimilaridade de uma vista tropical. Sempre que desfruto de algo, penso sempre em escrevê-lo, seja no meu diário de bordo (que aumenta de volume), seja numa carta; por isso deves desculpar os arrebatamentos, e esses arrebatamentos mal expressos. Descubro que as minhas coleções estão a aumentar maravilhosamente, e creio que do Rio serei obrigado a enviar um carregamento para casa.

Todos os intermináveis atrasos que experimentámos em Plymouth foram muito afortunados, pois creio verdadeiramente que ninguém saiu melhor preparado para colecionar e observar nos diferentes ramos da História Natural. Numa multidão de conselheiros encontrei certamente o bem. Descubro, para minha grande surpresa, que um navio é singularmente confortável para todo o tipo de trabalho. Tudo está tão à mão, e o estar apertado torna-nos tão metódicos que, no fim, saí a ganhar. Já comecei a olhar para a ida para o mar como um lugar regular e calmo, como voltar para casa depois de estar fora dela. Em suma, acho que um navio é uma casa muito confortável, com tudo o que se precisa, e se não fosse pelo enjoo, o mundo inteiro seria marinheiro. Não creio que haja muito perigo de Erasmus seguir o exemplo, mas, caso isso aconteça, ele pode estar certo de que não conhece um décimo dos sofrimentos do enjoo.

Gosto dos oficiais muito mais do que gostava ao princípio, especialmente de Wickham, do jovem King e de Stokes, e de facto de todos eles. O Capitão continua firmemente muito gentil e faz tudo o que está ao seu alcance para me ajudar. Vemo-nos muito pouco quando estamos no porto; as nossas atividades levam-nos por caminhos tão diferentes. Nunca conheci na minha vida um homem que pudesse suportar uma parte tão grande de fadiga. Ele trabalha incessantemente e, quando aparentemente não está empregado, está a pensar. Se não se matar, fará durante esta viagem uma quantidade maravilhosa de trabalho. Descubro que estou muito bem e suporto o pouco calor que tivemos até agora tão bem como qualquer outra pessoa. Em breve tê-lo-emos a sério. Estamos agora a navegar para Fernando de Noronha, ao largo da costa do Brasil, onde não ficaremos muito tempo, e depois examinaremos os baixios entre lá e o Rio, tocando talvez na Bahia. Terminarei esta carta quando surgir uma oportunidade de a enviar.

26 DE FEVEREIRO.

A cerca de 280 milhas da Bahia. No dia 10, falamos com o paquete "Lyra", em sua viagem para o Rio. Enviei por ele uma carta curta, para ser remetida à Inglaterra na primeira oportunidade. Temos sido singularmente desafortunados em não encontrar quaisquer navios em viagem de regresso à pátria, mas suponho que na Bahia certamente seremos capazes de escrever para a Inglaterra. Desde que escrevi a primeira parte desta carta, nada ocorreu, exceto a travessia do Equador e o ser barbeado. Esta operação tão desagradável consiste em ter o rosto esfregado com tinta e alcatrão, que formam uma espuma para uma serra que representa a navalha, e depois ser meio afogado numa vela cheia de água salgada. Cerca de 50 milhas a norte da linha, tocamos nos rochedos de St. Paul; esta pequena mancha (cerca de 1/4 de milha de largura) no Atlântico raramente tem sido visitada. É totalmente estéril, mas está coberta por multidões de aves; estavam tão pouco habituadas aos homens que descobrimos que podíamos matar muitas com pedras e paus. Após permanecermos algumas horas na ilha, regressamos a bordo com o barco carregado com a nossa presa. Daqui fomos para Fernando Noronha, uma pequena ilha onde os brasileiros enviam os seus exilados. O desembarque ali foi acompanhado de tanta dificuldade, devido a uma forte rebentação, que o Capitão decidiu zarpar no dia seguinte à chegada. O meu único dia em terra foi extremamente interessante; toda a ilha é um bosque único, tão emaranhado por trepadeiras que é muito difícil sair do caminho batido. Acho a História Natural de todos estes locais pouco frequentados absolutamente interessante, especialmente a geologia. Escrevi tanto para poupar tempo na Bahia.

Decididamente, a coisa mais marcante nos Trópicos é a novidade das formas vegetais. Poder-se-ia imaginar os cocos a partir de desenhos, se lhes acrescentássemos uma leveza graciosa da qual nenhuma árvore europeia partilha. As bananas e os plátanos são exatamente iguais aos das estufas; as acácias ou tamarindos são marcantes pela azulado da sua folhagem; mas quanto às gloriosas laranjeiras, nenhuma descrição, nenhum desenho, dará qualquer ideia justa; em vez do verde doentio das nossas laranjeiras, as nativas superam o loureiro de Portugal na escuridão do seu tom, e superam-no infinitamente na beleza da forma. Cocos, mamões, as bananas verde-claras e as laranjeiras, carregadas de frutos, rodeiam geralmente as aldeias mais luxuriantes. Ao observar tais cenas, sente-se a impossibilidade de qualquer descrição chegar perto da marca, muito menos ser exagerada.

1 DE MARÇO.

Bahia, ou San Salvador. Cheguei a este lugar a 28 de fevereiro, e estou agora a escrever esta carta depois de ter passeado, a sério, nas florestas do novo mundo. Ninguém poderia imaginar algo tão belo como a antiga cidade da Bahia; está verdadeiramente aninhada num bosque luxuriante de belas árvores, situada numa margem íngreme, e debruçada sobre as águas calmas da grande baía de Todos os Santos. As casas são brancas e altas e, como as janelas são estreitas e compridas, têm um aspeto muito leve e elegante. Conventos, pórticos e edifícios públicos variam a uniformidade das casas; a baía está espalhada com grandes navios; em suma, e o que mais se pode dizer, é uma das vistas mais belas do Brasil. Mas o prazer requintado e glorioso de caminhar entre tais flores e tais árvores não pode ser compreendido senão por aqueles que o experimentaram. Embora numa latitude tão baixa, a localidade não é desagradavelmente quente, mas atualmente está muito húmida, pois é a estação das chuvas. Acho que o clima, até agora, me cai admiravelmente bem; faz-me desejar viver tranquilamente durante algum tempo num país assim. Se realmente quer ter uma ideia dos países tropicais, estude Humboldt. Salte as partes científicas e comece depois de deixar Tenerife. Os meus sentimentos aproximam-se da admiração quanto mais o leio. Diga a Eyton (descubro que estou a escrever para as minhas irmãs!) o quanto desfruto da América e que tenho a certeza de que será uma grande pena se ele não se decidir a partir.

Esta carta sairá no dia 5, e receio que demore algum tempo até chegar a vocês; deve ser um aviso de como, noutras partes do mundo, se pode estar muito tempo sem ter notícias. Um ano poderia, por acaso, passar assim. Por volta do dia 12 partimos para o Rio, mas permaneceremos algum tempo pelo caminho a sondar os baixios dos Abrolhos. Diga a Eyton que, até onde vai a minha experiência, que ele estude espanhol, francês, desenho e Humboldt. Espero sinceramente ouvir falar dele (se não o vir) na América do Sul. Aguardo as cartas no Rio — até que cada uma seja confirmada, mencione a sua data na próxima.

Superámos todos os navios em manobras, tanto que o oficial comandante diz que não precisamos de seguir o seu exemplo, porque fazemos tudo melhor do que o seu grande navio. Começo a interessar-me muito por questões navais, mais especialmente agora, pois vejo que todos dizem que somos o n.º 1 na América do Sul. Suponho que o Capitão seja um oficial excelente. Foi verdadeiramente glorioso hoje a forma como superámos o "Samarang" a recolher as velas. É uma novidade completa um "navio de sondagem" superar um navio de guerra regular; e, no entanto, o "Beagle" não é de modo algum um navio especial. Erasmus perceberá claramente quando ouvir dizer que, durante a noite, eu me sentei realmente nos recintos sagrados do convés de comando. Devem desculpar estas cartas estranhas e lembrar-se de que são geralmente escritas à noite, após o meu dia de trabalho. Esforço-me mais com o meu diário de bordo, de modo que, eventualmente, terão um bom relato de todos os lugares que visito. Até agora, a viagem tem correspondido ADMIRAVELMENTE para mim e, no entanto, estou agora mais plenamente consciente da vossa sabedoria ao lançar um balde de água fria em todo o plano; as probabilidades de o resultado ser exatamente o oposto são tão numerosas; a tal ponto sinto isto que, se o meu conselho fosse pedido por qualquer pessoa numa ocasião semelhante, seria muito cauteloso ao encorajá-la. Não tenho tempo para escrever a mais ninguém, por isso envie a Maer para que saibam que, no meio da gloriosa paisagem tropical, não me esqueço de quão fundamentais foram em colocar-me lá. Não voltarei a entrar em êxtase, mas dou-me muito crédito por não estar louco de puro deleite.

Dê o meu carinho a todas as almas em casa e aos Owens.

Penso que as afeições de alguém, tal como outras coisas boas, florescem e aumentam nestas regiões tropicais.

A convicção de que estou a caminhar no Novo Mundo é, ainda agora, maravilhosa aos meus próprios olhos, e atrevo-me a dizer que é pouco menos para vocês, receber uma carta de um filho vosso num lugar como este.

Acredite, meu querido Pai, que sou o seu filho mais afetuoso, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN A W.D. FOX. Baía de Botafogo, perto do Rio de Janeiro, maio de 1832.

Meu caro Fox,

Atrasei a escrita para ti e para todos os meus outros amigos até chegar aqui e ter algum tempo livre. O meu espírito tem estado, desde que deixei a Inglaterra, num verdadeiro FURACÃO de deleite e espanto, e até hoje quase não passou um minuto em ociosidade...

Em St. Jago, a minha história natural e os trabalhos mais deliciosos começaram. Durante as três semanas, recolhi uma multidão de animais marinhos e desfrutei de muitos bons passeios geológicos. Tocando em algumas ilhas, navegámos para a Bahia e de lá para o Rio, onde já estou há algumas semanas. As minhas coleções correm admiravelmente em quase todos os ramos. Quanto aos insetos, confio que enviarei uma multidão de espécies não descritas para a Inglaterra. Acredito que não têm pequenas nas coleções, e aqui, esta manhã, capturei Hydropori, Noterus, Colymbetes, Hydrophilus, Hydrobius, Gromius, etc., etc., minúsculos, como exemplares de besouros de água doce. Estou inteiramente ocupado com animais terrestres, já que a praia é apenas areia. As aranhas e as tribos adjacentes deram-me, talvez pela sua novidade, o maior prazer. Penso que já capturei vários géneros novos.

Mas a Geologia ganha o dia: é como o prazer do jogo. Especulando, ao chegar, sobre o que podem ser as rochas, grito frequentemente, mentalmente, 3 para 1 em favor do terciário contra o primitivo; mas este último ganhou até agora todas as apostas. Tanto sobre o grande objetivo da minha viagem; noutros aspetos, as coisas estão igualmente florescentes. A minha vida, quando no mar, é tão tranquila que, para uma pessoa que se consegue ocupar, nada pode ser mais agradável; a beleza do céu e o brilho do oceano, juntos, formam um quadro. Mas quando em terra, e a vaguear nas florestas sublimes, rodeado de vistas mais deslumbrantes do que aquelas que até Claude imaginou, desfruto de um deleite que ninguém, exceto aqueles que o experimentaram, pode compreender. Se é para ser feito, deve ser estudando Humboldt. Nos nossos antigos pequenos-almoços, em Cambridge, pouco pensava que o vasto Atlântico nos separaria algum dia; mas é um raro privilégio que, com o corpo, os sentimentos e a memória não sejam divididos. Pelo contrário, as cenas mais agradáveis da minha vida, muitas das quais foram em Cambridge, surgem do contraste do presente, de forma mais vívida na minha imaginação. Achas que algum besouro-diamante me dará algum dia tanto prazer como o nosso velho amigo crux major?... É um dos meus divertimentos mais constantes desenhar retratos do passado; e neles vejo frequentemente a ti e ao pobre pequeno Fran. Oh, Senhor, e depois o velho Dash, o coitado! Lembras-te de como todos me atormentavam por causa da sua bela cauda?

...Pensa, quando estiveres a apanhar insetos numa sebe de espinheiro num belo dia de maio (miseravelmente frio, não tenho dúvida), pensa em mim a colecionar entre ananases e laranjeiras; enquanto manchas os teus dedos com amoras sujas, pensa e sente inveja das laranjas maduras. Esta é uma bela peça de bravata, pois eu percorreria muitas milhas de granizo, neve ou chuva para apertar a tua mão. Meu velho e querido Fox, que Deus te abençoe. Acredita em mim,

Teu afetuosamente, CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.S. HENSLOW. Rio de Janeiro, 18 de maio de 1832.

Meu caro Henslow,...

Até chegar a Tenerife (não tocámos na Madeira), quase não saí da minha rede e, na verdade, sofri mais do que podes imaginar com tal causa. Em Santa Cruz, enquanto procurava entre as nuvens o Pico e repetia para mim mesmo as sublimes descrições de Humboldt, foi anunciado que tínhamos de cumprir doze dias de quarentena rigorosa. Tínhamos feito uma viagem curta, por isso "Içar o estai", e em frente para St. Jago. Dirás que tudo isto soa muito mal, e assim foi; mas desde então até ao presente momento, tem sido quase uma cena de prazer contínuo. Uma rede na popa manteve-me em pleno trabalho até chegarmos a St. Jago. Aqui passámos três semanas das mais deliciosas. A geologia era preeminentemente interessante e, creio eu, inteiramente nova; há alguns factos em grande escala de costa elevada (o que é uma época excelente para todas as rochas vulcânicas datarem), que interessariam o Sr. Lyell.

Uma grande fonte de perplexidade para mim é uma completa ignorância sobre se tomo nota dos factos certos e se são de importância suficiente para interessar os outros. Na única coisa, colecionar, não me posso enganar. St. Jago é singularmente estéril e produz poucas plantas ou insetos, de modo que o meu martelo era o meu companheiro habitual, e na sua companhia passei horas das mais deliciosas. Na costa, recolhi muitos animais marinhos, principalmente gastrópodes (penso que alguns novos). Examinei com bastante precisão um Caryophyllia e, se os meus olhos não estão enfeitiçados, as descrições anteriores não têm a mínima semelhança com o animal. Capturei vários exemplares de um Octopus que possuía um poder maravilhoso de mudar as suas cores, igualando qualquer camaleão, e adaptando evidentemente as mudanças à cor do solo sobre o qual passava. Amarelo-esverdeado, castanho-escuro e vermelho eram as cores predominantes; este facto parece ser novo, tanto quanto consigo descobrir. A geologia e os animais invertebrados serão o meu principal objeto de perseguição durante toda a viagem.

Depois, navegámos para a Bahia e tocámos no rochedo de St. Paul. Esta é uma formação serpentínica. Não será a única ilha no Atlântico que não é vulcânica? Também ficámos algumas horas em Fernando Noronha; uma rebentação tremenda corria, de tal modo que um barco foi inundado e o Capitão não quis esperar. Acho a minha vida a bordo, quando estamos em mar alto, muito deliciosa, tão confortável e sossegada — é quase impossível estar ocioso, e isso, para mim, já é dizer muito. Ninguém poderia estar melhor adaptado em todos os aspetos para colecionar do que eu; muitos cozinheiros não estragaram o caldo desta vez. As pequenas dicas do Sr. Brown sobre microscópios, etc., têm sido inestimáveis. Estou bem servido de livros, o 'Dictionnaire Classique' É MUITO ÚTIL. Se pensares em algo ou em algum livro que me fosse útil, se escrevesses uma linha, E. Darwin, Wyndham Club, St. James's Street, ele obtê-los-á e enviá-los-á com outras coisas para Montevidéu, que durante o próximo ano será o meu quartel-general.

Tocando nos Abrolhos, chegámos aqui a 4 de abril, quando, entre outros, recebi a tua amabilíssima carta. Podes acreditar que, durante a noite, pensei nas muitas horas felicíssimas que passei contigo em Cambridge. Vivo agora em Botafogo, uma aldeia a cerca de uma légua da cidade, e poderei permanecer mais um mês. O "Beagle" regressou à Bahia e apanhar-me-á no seu regresso. Há um erro muito importante na longitude da América do Sul, para resolver o qual esta segunda viagem foi empreendida. Os nossos cronómetros, pelo menos dezasseis deles, estão a funcionar soberbamente; nenhum registado funcionou alguma vez como eles.

Poucos dias depois de chegar, parti numa expedição de 150 milhas até Rio Macao, que durou dezoito dias. Aqui vi pela primeira vez uma floresta tropical em toda a sua grandeza sublime — nada, senão a realidade, pode dar uma ideia de quão maravilhosa, quão magnífica é a cena. Se tivesse de especificar uma única coisa, daria a primazia à multidão de plantas parasitas. A tua gravura é exatamente verdadeira, mas desvaloriza em vez de exagerar o luxo. Nunca experimentei um deleite tão intenso. Antes admirava Humboldt, agora quase o adoro; só ele dá alguma noção dos sentimentos que se elevam na mente ao entrar pela primeira vez nos Trópicos. Estou agora a colecionar animais de água doce e terrestres; se o que me disseram em Londres for verdade, a saber, que não há pequenos insetos nas coleções dos Trópicos, digo aos entomologistas para terem cuidado e as suas canetas prontas para descrever. Capturei tão minuciosos (se não mais) como em Inglaterra: Hydropori, Hygroti, Hydrobii, Pselaphi, Staphylini, Curculio, etc., etc. É extremamente interessante observar a diferença de géneros e espécies daquelas que conheço; é, contudo, muito menos do que esperava. Estou atualmente em brasa com as aranhas; são muito interessantes e, se não me engano, já capturei alguns géneros novos. Terei uma caixa grande para enviar muito em breve para Cambridge, e com ela mencionarei mais alguns pormenores de história natural.

O Capitão faz tudo o que está ao seu alcance para me ajudar e damo-nos muito bem, mas agradeço à minha melhor sorte o facto de ele não me ter feito um renegado dos princípios Whig. Não seria um Tory, nem que fosse apenas por causa dos seus corações frios em relação a esse escândalo para as nações cristãs — a Escravatura. Sou muito amigo de todos os oficiais.

Acabei de regressar de um passeio e, como exemplo, quão pouco conhecidos são os insetos. Noterus, de acordo com o 'Dictionnaire Classique', contém apenas três espécies europeias. Eu, num único lance da minha rede, capturei cinco espécies distintas; não será isto extraordinário?...

Diga ao Professor Sedgwick que ele não sabe o quanto lhe estou grato pela Expedição ao País de Gales; deu-me um interesse pela Geologia que eu não trocaria por nada. Não penso que alguma vez tenha passado três semanas mais deliciosas do que a bater nas Montanhas do Noroeste. Aguardo com expectativa a geologia em torno de Montevidéu, pois ouvi dizer que há xistos lá, por isso presumo que, nesse distrito, encontrarei as junções dos Pampas e a enorme formação granítica do Brasil. Na Bahia, o pegmatite e o gnaisse em camadas tinham a mesma direção, como observado por Humboldt, predominando sobre a Colúmbia, a 1300 milhas de distância — não é maravilhoso? Montevidéu será, durante muito tempo, o meu endereço. Espero que voltes a escrever-me; não há ninguém de quem goste tanto de receber conselhos como de ti... Desculpa esta carta quase ininteligível e acredita em mim, meu caro Henslow, com os mais calorosos sentimentos de respeito e amizade,

Teu afetuosamente, CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.M. HERBERT. Baía de Botafogo, Rio de Janeiro, junho de 1832.

Meu velho e caro Herbert,

A tua carta chegou aqui quando já tinha perdido todas as esperanças de receber outra, deu-me, por isso, um grau adicional de prazer. Com tal intervalo de tempo e espaço, aprende-se a sentir verdadeiramente grato por aqueles que não se esquecem de nós. A memória, ao recordar cenas passadas, proporciona a nós, EXILADOS, um dos maiores prazeres. Frequentemente, muitas vezes, enquanto vago por estas colinas, penso em Barmouth e, posso acrescentar, com a mesma frequência desejo um companheiro assim. Que contraste oferece um passeio nestes dois lugares; aqui, picos abruptos e pedregosos estão, até ao cume, encerrados por florestas luxuriantes; toda a superfície do país, exceto onde limpa pelo homem, é uma floresta impenetrável. Quão diferente do País de Gales, com as suas colinas inclinadas cobertas de relva e os seus vales abertos. Eu não tinha consciência anterior de quão intimamente o que se pode chamar de parte moral está ligada ao desfrute da paisagem. Refiro-me a ideias como a história do país, a utilidade dos produtos e, mais especialmente, a felicidade das pessoas que vivem com eles. Transforme o trabalhador inglês num pobre escravo, a trabalhar para outro, e dificilmente reconhecerá a mesma vista. Tenho a certeza de que ficarás contente por saber quão bem toda a parte (Deus nos livre, exceto o enjoo) da expedição tem correspondido. Já vimos Tenerife e a Grande Canária; St. Jago, onde passei três semanas das mais deliciosas, a banhar-me nos prazeres de naturalizar pela primeira vez uma ilha vulcânica tropical e, além de outras ilhas, os dois célebres portos do Brasil, a saber, a Bahia e o Rio.

Estive na minha rede até chegarmos às Canárias, e nunca esquecerei a impressão sublime que a primeira vista de Tenerife causou no meu espírito. A primeira chegada ao tempo quente foi luxuosamente agradável; o céu azul claro dos Trópicos não foi uma mudança comum depois daquelas malditas tempestades de sudoeste em Plymouth. Perto da Linha, tornou-se abafadoramente quente. Passámos um dia em St. Paul, um pequeno grupo de rochedos com cerca de um quarto de milha de circunferência, espreitando no meio do Atlântico. Houve tal cena aqui. Wickham (1.º Tenente) e eu fomos os únicos dois que desembarcaram com espingardas e martelos geológicos, etc. As aves, aos milhares, estavam demasiado perto para disparar; tentámos então pedras, mas, por fim, proh pudor! o meu martelo geológico foi o instrumento de morte. Rapidamente carregámos o barco com aves e ovos. Enquanto estávamos assim ocupados, os homens no barco lutavam verdadeiramente com os tubarões por peixes tão magníficos como não se poderiam ver no mercado de Londres. O nosso barco teria sido um belo tema para Snyders, tal era a mistura de caça que continha. Estamos aqui há dez semanas e partirei agora para Montevidéu, onde espero muitos galopes pelos Pampas. Tenho vergonha de enviar uma carta tão atrapalhada, mas se visses a pilha de cartas na minha mesa, compreenderias o motivo...

...estávamos assim ocupados, os homens no barco lutavam verdadeiramente com os tubarões por peixes tão magníficos como não se poderiam ver no mercado de Londres. O nosso barco teria sido um belo tema para Snyders, tal era a mistura de caça que continha. Estamos aqui há dez semanas e partirei agora para Montevidéu, onde espero muitos galopes pelos Pampas. Tenho vergonha de enviar uma carta tão atrapalhada, mas se visses a pilha de cartas na minha mesa, compreenderias o motivo...

Estou contente por saber que a música floresce tão bem em Cambridge; mas é tão bárbaro falar-me de "concertos celestiais" como falar de água fresca a uma pessoa na Arábia. Numa viagem deste género, se se ganham muitos e grandes prazeres novos, por outro lado a perda não é desprezível. Como gostaria de ser subitamente impedido de ver todas as pessoas e lugares que alguma vez conheceu e amou, durante cinco anos? Asseguro-lhe que fico ocasionalmente "desconcertado" com esta reflexão; e então, para homem ou navio, não é tão fácil endireitar-se novamente. Lembre-me da forma mais sincera ao remanescente dos excelentes rapazes que tenho a sorte de conhecer em Cambridge — refiro-me a Whitley e Watkins. Diga a Lowe que estou até abaixo do seu desprezo. Posso comer carne salgada e biscoitos bolorentos ao jantar. Veja a que queda o homem pode chegar!

A minha morada para o próximo ano e meio será Monte Video.

Deus o abençoe, meu muito querido velho Herbert. Que seja sempre feliz e próspero é o meu desejo mais cordial.

Afetuosamente seu, CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA F. WATKINS. Monte Video, Rio da Prata, agosto de 1832.

Meu caro Watkins,

Não sinto muita segurança de que achará que uma carta de alguém tão distante valerá a pena ter; escrevo, portanto, com o princípio egoísta de obter uma resposta. Nos diferentes países que visitamos, a novidade total e a diferença em relação à Inglaterra só servem para tornar mais viva a recordação das suas cenas e deleites. Consequentemente, o prazer de pensar nos seus antigos amigos e de ouvir falar deles torna-se, de facto, grande. Lembre-se disto e, numa longa noite de inverno, sente-se e envie-me um longo relato sobre si e os nossos amigos; tanto o que tem como o que pretende fazer; de outra forma, dentro de mais três ou quatro anos, quando eu regressar, ser-lhe-ei um estranho. Considerando quantos meses passaram, não fizemos muito caminho à volta do mundo no "Beagle". Até agora, tudo compensou bem o incómodo e a perda de conforto necessários. Ficámos três semanas em Cabo Verde; não foi um prazer comum vaguear pelas planícies de lava sob um sol tropical, mas quando entrei e contemplei pela primeira vez a vegetação luxuriante no Brasil, foi como realizar as visões das "Mil e Uma Noites". O brilho da paisagem atira alguém para um delírio de prazer, e um caçador de besouros não é provável que desperte dele tão cedo, quando para onde quer que se vire, novos tesouros se deparam aos seus olhos. No Rio de Janeiro, três meses passaram-se como se fossem outras tantas semanas. Fiz uma excursão muito agradável durante este tempo, de 150 milhas pelo interior. Fiquei numa propriedade que é a última das terras desbravadas; atrás, estende-se uma vasta floresta impenetrável. É quase impossível imaginar a quietude de tal vida. Nem um ser humano num raio de algumas milhas interrompe a solidão. Sentar-se no meio da penumbra de tal floresta, num tronco em decomposição, e depois pensar em casa, é um prazer pelo qual vale a pena passar algum trabalho.

Estamos atualmente num país muito menos interessante. Um simples passeio pela planície ondulante de erva mostra tudo o que há para ver. Não é de todo diferente de Cambridgeshire, apenas com a diferença de que cada sebe, árvore e colina teria de ser nivelada, e a terra arável transformada em pasto. Toda a América do Sul está num estado tão instável que não entrámos num único porto sem algum tipo de distúrbio. Em Buenos Aires, um tiro passou a assobiar por cima das nossas cabeças; é um ruído que nunca tinha ouvido antes, mas descobri que tinha um conhecimento instintivo do que significava. No outro dia, desembarcámos os nossos homens aqui e tomámos posse, a pedido dos habitantes, do forte central. Nós, filósofos, não contamos com este tipo de trabalho, e espero que não haja mais. Partiremos no espaço de um ou dois dias para cartografar a costa da Patagónia; como é totalmente desconhecida, espero um bom nível de interesse. Mas já percebo a penosa diferença entre navegar nestes mares e no oceano equinocial. No "Golfo das Damas", como os espanhóis lhe chamam, é tão luxuoso sentar-se no convés e desfrutar da frescura da noite, e admirar as novas constelações do Sul... Pergunto-me quando nos voltaremos a encontrar; mas seja quando for, poucas coisas me darão maior prazer do que vê-lo novamente e conversar sobre o longo tempo que passámos juntos.

Se me encontrasse agora, certamente seria olhado como uma besta selvagem; uma grande barba grisalha e um casaco de marinheiro desfigurariam um anjo. Acredite em mim, meu caro Watkins, com os mais calorosos sentimentos de amizade.

Sempre seu, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.S. HENSLOW. 11 de abril de 1833.

Meu caro Henslow,

Estamos agora a subir das Ilhas Falkland para o Rio Negro (ou Colorado). O "Beagle" prosseguirá para Monte Video; mas se for possível, pretendo ficar no primeiro local. Já passaram alguns meses desde que estivemos num porto civilizado; quase todo este tempo foi passado na parte mais a sul da Terra do Fogo. É um lugar detestável; as tempestades sucedem-se com intervalos tão curtos que é difícil fazer seja o que for. Estivemos vinte e três dias ao largo do Cabo Horn e de modo algum conseguimos seguir para oeste. A última e derradeira tempestade antes de desistirmos da tentativa foi invulgarmente severa. O mar destruiu um dos botes, e havia tanta água no convés que tudo flutuava; quase todo o papel para secar plantas está estragado, e metade desta curiosa coleção.

Finalmente entrámos no porto e, nos botes, conseguimos ir para oeste pelos canais interiores. Como eu fazia parte deste grupo, fiquei muito contente com isso. Com dois botes, percorremos cerca de 300 milhas e, assim, tive uma excelente oportunidade de fazer geologia e de ver muito dos selvagens. Os fueguinos encontram-se num estado de barbárie mais miserável do que alguma vez esperei ver num ser humano. Neste clima inclemente, estão absolutamente nus, e as suas casas temporárias são como as que as crianças fazem no verão com ramos de árvores. Não creio que algum espetáculo possa ser mais interessante do que a primeira visão do homem na sua selvajaria primitiva. É um interesse que não se pode imaginar bem até ser experimentado. Nunca me esquecerei disto ao entrar na Baía Good Success — o grito com que um grupo nos recebeu. Estavam sentados num ponto rochoso, rodeados pela floresta escura de faias; enquanto lançavam os braços freneticamente à volta das cabeças, com o seu longo cabelo a esvoaçar, pareciam os espíritos perturbados de outro mundo. O clima, em certos aspetos, é uma mistura curiosa de severidade e brandura; no que diz respeito ao reino animal, o primeiro caráter prevalece; consequentemente, não acrescentei muito às minhas coleções.

A geologia desta parte da Terra do Fogo foi, como de facto acontece com todos os lugares, muito interessante para mim. O país é não fossilífero, e uma sucessão comum de rochas graníticas e xistos; tentar compreender a relação da clivagem, estratos, etc., etc., foi o meu principal passatempo. A mineralogia, contudo, de algumas das rochas será, penso eu, curiosa pela sua semelhança com as de origem vulcânica...

Depois de deixar a Terra do Fogo, navegámos para as Falklands. Esqueci-me de mencionar o destino dos fueguinos que levámos de volta ao seu país. Tinham-se tornado inteiramente europeus nos seus hábitos e desejos, tanto que o mais novo tinha esquecido a sua própria língua, e os seus compatriotas prestaram-lhes muito pouca atenção. Construímos casas para eles e plantámos jardins, mas quando voltarmos de novo na nossa passagem pelo Horn, penso que será muito duvidoso quanto da sua propriedade restará sem ser roubada.

...Quando estou enjoado e miserável, uma das minhas maiores consolações é imaginar o futuro em que estaremos novamente a percorrer juntos as estradas à volta de Cambridge. Esse dia está a uma distância cansativa. Temos outro cruzeiro a fazer à Terra do Fogo no próximo verão, e então a nossa viagem à volta do mundo começará realmente. O Capitão Fitz-Roy comprou uma escuna grande de 170 toneladas. Em muitos aspetos, será uma grande vantagem ter um consorte — talvez possa encurtar um pouco o nosso cruzeiro, o que espero muito cordialmente que aconteça. Confio, no entanto, que os Recifes de Coral e os vários animais do Pacífico possam manter a minha resolução. Lembre-me muito gentilmente à Sra. Henslow e a todos os outros amigos; sou um verdadeiro amante da Alma Mater e de todos os seus habitantes.

Acredite em mim, meu caro Henslow, seu afetuoso e muito obrigado amigo, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA MISS C. DARWIN. Maldonado, Rio da Prata, 22 de maio de 1833.

...O seguinte assunto profissional é para o meu pai. Ter um criado próprio seria uma grande melhoria para o meu conforto. Por estas duas razões: atualmente o Capitão designou um dos homens para estar sempre comigo, mas não acho justo tirar assim um marinheiro do navio; e, em segundo lugar, quando estou no mar, estou um pouco mal servido de alguém que me atenda. O homem está disposto a ser meu criado, e todas as despesas ficariam abaixo de 60 libras por ano. Ensinei-o a disparar e a esfolar aves, pelo que, no meu objetivo principal, ele é muito útil. Deixei a Inglaterra há quase um ano e meio e verifico que as minhas despesas não ultrapassam as 200 libras por ano; por isso, sendo impossível (devido ao tempo) escrever a pedir permissão, cheguei à conclusão de que me permitiriam esta despesa. Mas ainda não decidi perguntar ao Capitão, e as probabilidades são iguais de que ele não estaria disposto a ter um homem adicional no navio. Mencionei isto porque tenho pensado nisto há muito tempo.

JUNHO.

Acabei de receber mais um molho de cartas. Não sei como vos agradecer a todos o suficiente. Uma de Catherine, de 8 de fevereiro, outra de Susan, de 3 de março, juntamente com notas de Caroline e do meu pai; dê o meu melhor amor ao meu pai. Quase chorei de prazer ao recebê-las; foi muito gentil da vossa parte pensarem em escrever-me. As minhas cartas são poucas, curtas e estúpidas em troca de todas as vossas; mas alivio sempre a minha consciência considerando o Diário como uma carta longa. Se conseguir, enviarei o resto antes de dobrar o Horn. Estou encantado por verificar que a pele do Megatherium vos despertou a todos algum interesse nas minhas ocupações. Estes fragmentos, contudo, não são de modo algum os mais valiosos dos vestígios geológicos. Confio e acredito que o tempo passado nesta viagem, se for deitado fora em todos os outros aspetos, produzirá todo o seu valor na História Natural; e parece-me que fazer o POUCO que podemos para aumentar o fundo geral de conhecimento é um objetivo de vida tão respeitável quanto se pode, com toda a probabilidade, seguir. É mais o resultado dessas reflexões (como já disse) do que muito prazer imediato que agora me faz continuar a viagem, juntamente com a gloriosa perspetiva do futuro, quando, ao passar o Estreito de Magalhães, tivermos, na verdade, o mundo diante de nós. Pense nos Andes, na floresta luxuriante de Guayaquil, nas ilhas do Mar do Sul e na Nova Gales do Sul. Quantas vistas magníficas e características, quantas tribos de homens curiosos veremos! Que excelentes oportunidades para a geologia e para estudar a hoste infinita de seres vivos! Não é esta uma perspetiva para manter o espírito mais desanimado? Se eu a deitasse fora, não creio que descansaria em paz na minha sepultura. Certamente seria um fantasma e assombraria o Museu Britânico.

Como os Ministros parecem estar a portar-se de forma célebre. Gosto sempre muito de mexericos políticos e do que vocês em casa pensam que acontecerá, etc., etc. Leio constantemente o jornal semanal, mas não é suficiente para guiar a opinião de alguém; e acho um estado muito doloroso não ser tão obstinado como um porco em política. Observei como o sentimento geral, tal como demonstrado nas eleições, tem subido constantemente contra a Escravatura. Que coisa orgulhosa para a Inglaterra se ela for a primeira nação europeia que a abole completamente! Disseram-me antes de deixar a Inglaterra que, depois de viver em países escravistas, todas as minhas opiniões mudariam; a única alteração de que tenho consciência é formar uma estimativa muito mais elevada do caráter negro. É impossível ver um negro e não sentir afeição por ele; expressões tão alegres, abertas e honestas, e corpos musculosos tão belos. Nunca vi nenhum dos diminutos portugueses, com os seus semblantes assassinos, sem quase desejar que o Brasil seguisse o exemplo do Haiti; e, considerando a enorme população negra de aspeto saudável, será maravilhoso se, num futuro dia, isso não acontecer. Há no Rio um homem (não sei o seu título) que tem um grande salário para impedir (acredito) o desembarque de escravos; ele vive em Botafogo, e ainda assim essa era a baía onde, durante a minha residência, o maior número de escravos contrabandeados era desembarcado. Algumas das pessoas do movimento Anti-Escravatura deveriam questionar sobre o seu cargo; era o assunto de conversa no Rio entre os ingleses de classe baixa...

CHARLES DARWIN PARA J.M. HERBERT. Maldonado, Rio da Prata, 2 de junho de 1833.

Meu caro Herbert,

Estive confinado durante os últimos três dias num quarto miserável e escuro, numa antiga casa espanhola, devido aos torrentes de chuva; não estou, portanto, em muito boa disposição para escrever; mas, desafiando os demónios, enviar-lhe-ei algumas linhas, nem que seja apenas para lhe agradecer muito sinceramente por me escrever. Recebi a sua carta, datada de 1 de dezembro, há pouco tempo. Estamos agora a passar parte do inverno no Rio da Prata, depois de termos tido um duro trabalho de verão para sul. A Terra del Fuego é, de facto, um lugar miserável; a fúria incessante das tempestades é verdadeiramente tremenda. Uma noite vimos o velho Cabo Horn e, três semanas depois, estávamos apenas a trinta milhas a barlavento dele. É um espetáculo grandioso ver toda a natureza assim a enfurecer-se; mas o Céu sabe que todos no "Beagle" viram o suficiente neste único verão para durar as suas vidas naturais.

O primeiro lugar onde desembarcámos foi a Baía Good Success. Foi aqui que Banks e Solander encontraram tais desastres ao subir uma das montanhas. O tempo estava toleravelmente bom, e desfrutei de alguns passeios num país selvagem, como aquele atrás de Barmouth. Os vales são impenetráveis devido aos bosques emaranhados, mas as partes mais altas, perto dos limites da neve perpétua, são despidas. De algumas destas colinas, a paisagem, pelo seu caráter selvagem e solitário, era a mais sublime. O único habitante destas alturas é o guanaco, e com o seu relinchar agudo quebra frequentemente o silêncio. A consciência de que nenhum pé europeu tinha alguma vez pisado muito deste solo aumentava o deleite destes passeios. Quantas vezes e quão vividamente muitas das horas passadas em Barmouth me vieram ao espírito! Olho para esse tempo com um prazer não comum; neste momento, posso vê-lo sentado na colina atrás da estalagem, quase tão claramente como se lá estivesse realmente. É necessário estar separado de tudo a que se está habituado para saber como guardar devidamente tais recordações e, a esta distância, posso acrescentar, como estimar devidamente alguém como si, meu caro velho Herbert. Pergunto-me quando o voltarei a ver. Espero que possa ser, como diz, rodeado de montes de pergaminho; mas então tem de haver, mais tarde ou mais cedo, uma querida pequena dama para cuidar de si e da sua casa. Tal visão deliciosa deixa-me bastante invejoso. Esta é uma vida curiosa para uma pessoa habituada à costa como eu; a pior parte é a sua extrema duração. Há certamente uma grande dose de elevado prazer e, pelo contrário, uma parte tolerável de vexação de espírito. Tudo, no entanto, dobrar-se-á ao prazer de escavar ossos antigos e cativar novos animais. A propósito, classifica os meus trabalhos de História Natural demasiado alto. Não sou nada mais do que um provedor de leões: não sinto de todo a segurança de que eles não rosnarão e finalmente me destruirão.

Faz bem ao coração ouvir como as coisas estão a correr em Inglaterra. Viva para os honestos Whigs! Confio que atacarão em breve essa mancha monstruosa na nossa apregoada liberdade, a Escravatura Colonial. Já vi o suficiente da Escravatura e das disposições dos negros para ficar completamente enojado com as mentiras e disparates que se ouvem sobre o assunto em Inglaterra. Graças a Deus, os Tories de coração frio, que, como J. Mackintosh costumava dizer, não têm entusiasmo, exceto contra o entusiasmo, fizeram por enquanto a sua corrida. Lamento, pela sua carta, saber que não tem estado bem, e que o atribui em parte à falta de exercício. Gostaria que estivesse aqui entre as planícies verdes; faríamos caminhadas que rivalizariam com as de Dolgelly, e você contaria histórias, nas quais eu acreditaria, até a um CÚBICO FÁDO DE PUDIM. Em vez disso, tenho de fazer o meu passeio solitário, pensar nos dias de Cambridge e apanhar cobras, besouros e sapos. Desculpe esta curta carta (sabe que nunca estudei 'O Escritor de Cartas Completo'), e acredite em mim, meu caro Herbert,

Seu afetuoso amigo, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.S. HENSLOW. East Falkland Island, março de 1834.

...Estou completamente encantado com a Geologia, mas como o animal sábio entre dois fardos de feno, não sei qual gostar mais; o antigo grupo cristalino de rochas, ou as camadas mais macias e fossilíferas. Quando ando a quebrar a cabeça com estratificações, etc., sinto vontade de gritar "uma figa para as vossas ostras grandes, e para os vossos megatheriums maiores." Mas depois, quando desenterro alguns ossos belos, pergunto-me como pode algum homem cansar os braços a martelar granito. A propósito, não tenho uma ideia clara sobre clivagem, estratificação, linhas de levantamento. Não tenho livros que me digam muito, e o que eles dizem não consigo aplicar ao que vejo. Consequentemente, tiro as minhas próprias conclusões, e conclusões gloriosamente ridículas elas são, às vezes imagino... Pode lançar alguma luz na minha mente dizendo-me que relação a clivagem e os planos de deposição têm uns com os outros?

E agora para a minha segunda SEÇÃO, Zoologia. Tenho estado principalmente empregado em preparar-me para o Mar do Sul, examinando os pólipos dos Corais menores nestas latitudes. Muitos são, em si mesmos, muito curiosos, e penso que estão completamente por descrever; havia um aterrador, aparentado a uma Flustra, que creio ter mencionado ter encontrado a norte, onde as células têm um órgão móvel (semelhante à cabeça de um abutre, com um bico dilatável), fixado na extremidade. Mas o que é de interesse mais geral é a inquestionável (como me parece) existência de outra espécie de avestruz, além da Struthio rhea. Todos os Gaúchos e Índios afirmam que é esse o caso, e deposito a maior fé nas suas observações. Tenho a cabeça, o pescoço, um pedaço de pele, penas e patas de um deles. As diferenças residem principalmente na cor das penas e das escamas nas patas, sendo emplumadas abaixo dos joelhos, na nidificação e na distribuição geográfica. Tanto sobre o que tenho feito ultimamente; a perspectiva que tenho diante de mim está cheia de luz do sol, bom tempo, cenários gloriosos, a geologia dos Andes, planícies abundantes em restos orgânicos (que talvez eu tenha a sorte de apanhar no próprio ato de se moverem) e, por último, um oceano, cujas margens abundam em vida, de modo que, se nada de imprevisto acontecer, permanecerei na viagem, embora, pelo que vejo, isto possa durar até que regressemos como um belo conjunto de velhos cavalheiros de cabelos brancos. Tenho de lhe agradecer muito cordialmente o envio dos livros. Estou agora a ler o 'Relatório' de Oxford (A segunda reunião da Associação Britânica realizou-se em Oxford em 1832, no ano seguinte foi em Cambridge.); todo o relato dos vossos procedimentos é gloriosíssimo; vós que permaneceis em Inglaterra não podeis imaginar quão excessivamente interessante considero os relatórios. Tenho a certeza, pelas minhas próprias sensações arrepiantes ao lê-los, de que não podem deixar de ter um efeito excelente sobre todos aqueles que residem em colónias distantes e que têm pouca oportunidade de ver os periódicos. O meu martelo voou com força redobrada sobre os blocos devotados; enquanto refletia sobre a eloquência do Presidente de Cambridge, desferi golpes cada vez mais fortes. Espero dar aos meus braços força para as Cordilheiras. Enviar-me-á através do Capitão Beaufort uma cópia do 'Relatório' de Cambridge.

Esqueci-me de mencionar que, desde há algum tempo, e para o futuro, porei uma cruz a lápis nas caixas de comprimidos que contêm insetos, uma vez que estas, por si sós, exigirão ser mantidas particularmente secas; talvez lhe poupe algum trabalho. Quando esta carta partir, não sei, pois este pequeno foco de discórdia foi ultimamente envolvido por uma terrível cena de homicídio e, neste momento, há mais prisioneiros do que habitantes. Se um navio mercante for fretado para os levar para o Rio, enviarei alguns espécimes (especialmente as minhas poucas plantas e sementes). Lembre-me a todos os meus amigos de Cambridge. Amo e guardo cada recordação da querida e velha Cambridge. Estou-lhe muito grato por ter inscrito o meu nome no monumento do pobre Ramsay; nunca penso nele sem a maior admiração. Adeus, meu caro Henslow.

Acredite que sou o seu muito grato e afetuoso amigo, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA A SRTA. C. DARWIN. Ilha Falkland Oriental, 6 de abril de 1834.

Minha querida Catherine,

Quando esta carta chegar até si, não sei, mas provavelmente algum navio de guerra passará por aqui antes que, no curso normal dos acontecimentos, eu tivesse outra oportunidade de escrever...

Depois de visitar algumas das ilhas do sul, subimos através do cenário magnífico do Canal Beagle até ao país de Jemmy Button. (Jemmy Button, York Minster e Fuegia Basket eram nativos da Terra do Fogo, trazidos para Inglaterra pelo Capitão Fitz-Roy na sua viagem anterior, e devolvidos ao seu país por ele em 1832.) Dificilmente reconheceríamos o pobre Jemmy. Em vez do rapaz robusto, limpo e bem vestido que deixámos, encontrámo-lo um selvagem nu, magro e sórdido. York e Fuegia tinham-se mudado para a sua própria terra há alguns meses, tendo o primeiro roubado toda a roupa de Jemmy. Agora, ele não tinha nada a não ser um pedaço de cobertor à volta da cintura. O pobre Jemmy ficou muito contente por nos ver e, com o seu habitual bom sentimento, trouxe vários presentes (peles de lontra, que são valiosíssimas para eles) para os seus velhos amigos. O Capitão ofereceu-se para o levar para Inglaterra, mas isto, para nossa surpresa, ele recusou de imediato. À noite, a sua jovem esposa veio ao lado do navio e mostrou-nos a razão. Ele estava completamente contente. No ano passado, no auge da sua indignação, ele dizia que "os seus compatriotas não sabiam nada — uns estúpidos malditos" — agora eles eram pessoas muito boas, com MUITO para comer e todos os luxos da vida. Jemmy e a sua esposa remaram na sua canoa carregada de presentes, e muito felizes. A coisa mais curiosa é que Jemmy, em vez de recuperar a sua própria língua, ensinou um pouco de inglês a todos os seus amigos. "Canoa do J. Button" e "A esposa do Jemmy vem", "Dá-me a faca", etc., era dito por vários deles.

Seguimos então para esta ilha — este pequeno e miserável foco de discórdia. Descobrimos que os Gaúchos, sob o pretexto de uma revolução, tinham assassinado e saqueado todos os ingleses que conseguiram apanhar, e alguns dos seus próprios compatriotas. Toda a economia em casa torna os movimentos externos de Inglaterra muito desprezíveis. Quão diferente da velha Espanha. Aqui, à moda do cão que não come nem deixa comer, tomamos uma ilha e deixamos para a proteger uma Union Jack; o possuidor foi, naturalmente, assassinado; enviamos agora um tenente com quatro marinheiros, sem autoridade ou instruções. Um navio de guerra, contudo, aventurou-se a deixar um destacamento de fuzileiros e, com a sua assistência e a traição de alguns do grupo, os assassinos foram todos capturados, havendo agora tantos prisioneiros como habitantes. Esta ilha deve um dia tornar-se um importante ponto de escala no mar mais turbulento do mundo. Fica a meio caminho entre a Austrália e o Mar do Sul para Inglaterra; entre o Chile, Peru, etc., e o Rio da Prata e o Rio de Janeiro. Há portos excelentes, muita água doce e boa carne de vaca. Produziria, sem dúvida, os vegetais mais grosseiros. Em outros aspetos, é um lugar miserável. Há pouco tempo, atravessei a ilha a cavalo e regressei em quatro dias. A minha excursão teria sido mais longa, mas durante todo o tempo soprou uma ventania, com granizo e neve. Não há lenha maior do que urze, e todo o país é, mais ou menos, um pântano de turfa elástico. Dormir fora à noite era um trabalho demasiado miserável para o suportar por todas as rochas da América do Sul.

Deixaremos este cenário de iniquidade em dois ou três dias e iremos para o Rio da Santa Cruz. Um dos objetivos é observar o fundo do navio. Batemos violentamente numa rocha desconhecida ao largo de Port Desire e parte do seu cobre foi arrancado. Depois de reparado, o Capitão tem um plano glorioso; é ir até à própria nascente deste rio, isto é, provavelmente, até aos Andes. É completamente desconhecido; os Índios dizem-nos que tem duzentos ou trezentos metros de largura e que os cavalos não conseguem vadear em parte alguma. Não consigo imaginar nada mais interessante. Os nossos planos são então ir para o Forte Fome, onde nos encontraremos com o "Adventure", que está empregado a fazer a Carta das Falklands. Isto será a meio do inverno, por isso verei a Terra do Fogo com o seu traje branco. Deixamos os estreitos para entrar no Pacífico pelo Canal de Barbara, muito pouco conhecido, e que passa perto do sopé do Monte Sarmiento (a montanha mais alta do sul, excetuando o Monte!! Darwin!!). Partiremos então para a Conceição, no Chile. Acredito que o navio terá de se dirigir novamente para sul, mas se alguém me apanhar lá novamente, dar-lhe-ei permissão para me pendurar como um espantalho para todos os futuros naturalistas. Anseio por trabalhar nas Cordilheiras; a geologia deste lado, que compreendo muito bem, está tão intimamente ligada a períodos de violência nessa grande cadeia de montanhas. O futuro é, de facto, para mim uma perspetiva brilhante. Diz que o seu próprio brilho a assusta; mas, na verdade, sou muito cuidadoso; posso mencionar como prova que, em todas as minhas deambulações, nunca tive um único acidente ou sarilho... Continue com o seu bom hábito de escrever muitas notícias; gosto muito de ouvir tudo sobre todas as coisas. Lembre-me amavelmente ao Tio Jos e a todos os Wedgwoods. Diga à Charlotte (os seus nomes de casada soam absolutamente antinaturais) que eu gostaria de lhe ter escrito, de lhe ter dito como tudo está a correr bem; mas seria apenas uma transcrição desta carta, e tenho uma multidão de animais neste preciso momento a rodear-me que exigem todos ser embalsamados e numerados. Não me esqueci do conforto que recebi naquele dia em Maer, quando a minha mente era como um pêndulo oscilante. Dê o meu melhor amor ao meu pai. Espero que ele perdoe toda a minha extravagância, mas não como cristão, pois então suponho que não me enviaria mais dinheiro.

Adeus, querida, a si e a toda a sua bondosa irmandade.

Seu afetuoso irmão, CHAS. DARWIN.

O meu amor para a Nancy (A sua antiga ama.); diga-lhe que, se ela me visse agora com a minha grande barba, pensaria que eu era um digno Salomão, chegado para vender as bugigangas.

CHARLES DARWIN PARA C. WHITLEY. Valparaíso, 23 de julho de 1834.

Meu caro Whitley,

Há muito que pretendo escrever, apenas para o lembrar de que ainda existe um certo caçador de besouros e triturador de rochas. Por que não o fiz antes, não sei, mas será merecido se se esqueceu completamente de mim. Já há muito tempo que não recebo notícias de Cambridge; não sei onde mora nem o que está a fazer. Vi o seu nome como um dos infatigáveis guardiães dos mil e oitocentos filósofos. Fiquei encantado por ver isto, pois quando deixámos Cambridge pela última vez, estava em triste desacordo com a pobre ciência; parecia pensar nela como uma prostituta pública a trabalhar para a popularidade. Se as suas opiniões são as mesmas de antes, concordaria admiravelmente com o Capitão Fitz-Roy — o objeto da sua mais devota abominação é um dos malditos Whigs científicos. Como os capitães de navios de guerra são os maiores homens que existem, muito maiores do que reis ou diretores de escola, sou obrigado a dizer-lhe tudo a meu favor. Muitas vezes disse que tive outrora um excelente amigo, um Tory convicto, e conseguíamos dar-nos muito bem. Mas ele está muito inclinado a duvidar se alguma vez fui tão honrado; atualmente, mal ouvimos falar de política; isto poupa muito trabalho, pois todos nos mantemos nas nossas opiniões anteriores um pouco mais obstinadamente do que antes, e podemos dar um pouco menos de razões para o fazermos.

Espero mesmo que me escreva: (o 'H.M.S. "Beagle", Estação da América do Sul' encontrar-me-á). Gostaria muito de saber em que estado está, tanto de corpo como de mente. ¿Quien sabe?, como dizem as pessoas aqui (e Deus sabe que bem podem, pois sabem muito pouco), se não é um homem casado e se não estará a acalentar, como diz a Srta. Austen, pequenos rebentos de oliveira, pequenos penhores de afeição mútua. Eheu! Eheu! isto faz-me lembrar visões passadas de vislumbres do futuro, onde imaginava ver retiros, casas de campo verdes e saias brancas. O que será de mim daqui para a frente, não sei; sinto-me como um homem arruinado, que não vê nem se importa com a forma de se libertar. A minha razão diz-me que esta viagem deve chegar ao fim, mas, de resto, não vejo fim para ela. É impossível não lamentar amargamente os amigos e outras fontes de prazer que se deixam para trás em Inglaterra; em troca, há muito gozo sólido, algum presente, mas mais na antecipação, quando as ideias adquiridas durante a viagem puderem ser comparadas com as novas. Encontro na Geologia um interesse que nunca falha; como foi observado, cria as mesmas ideias grandiosas a respeito deste mundo que a Astronomia cria para o universo. Vimos muito cenário belo; o dos Trópicos na sua glória e luxúria excede até a linguagem de Humboldt para descrever. Um escritor persa seria o único capaz de lhe fazer justiça e, se tivesse sucesso, em Inglaterra seria chamado o 'Avô de todos os mentirosos'.

Mas não vi nada que me tenha surpreendido mais completamente do que a primeira visão de um selvagem. Era um fueguiano nu, com o seu cabelo comprido ao vento, o rosto besuntado de tinta. Há nas suas fisionomias uma expressão que acredito, para aqueles que não a viram, deve ser inconcebivelmente selvagem. De pé sobre uma rocha, ele emitia tons e fazia gesticulações, em comparação com os quais os gritos dos animais domésticos são muito mais inteligíveis.

Quando regressar a Inglaterra, tem de me tomar a seu cargo no que respeita às belas-artes. Ainda me recordo de que havia um homem chamado Raffaelle Sanctus. Quão delicioso será ver, uma vez mais, no Fitzwilliam, a Vénus de Ticiano. Quão muito mais que delicioso será ir a um bom concerto ou a uma bela ópera. Estas recordações não servirão. Não serei capaz, amanhã, de retirar as entranhas de algum animal pequeno com metade do meu gosto habitual. Por favor, conte-me algumas notícias sobre Cameron, Watkins, Marindin, os dois Thompsons de Trinity, Lowe, Heaviside, Matthew. Recebi notícias de Herbert. Como está Henslow a passar? E todos os outros bons amigos da querida Cambridge? Muitas e muitas vezes penso naquelas horas passadas, tantas das quais passei na sua companhia. Tais horas nunca mais voltarão, mas a sua recordação nunca poderá morrer.

Deus o abençoe, meu caro Whitley, acredite que sou o seu mais sincero amigo, CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA A SRTA. C. DARWIN. Valparaíso, 8 de novembro de 1834.

Minha querida Catherine,

A minha última carta foi um pouco sombria, pois não estava muito bem quando a escrevi. Agora, tudo está tão brilhante como a luz do sol. Estou perfeitamente bem outra vez depois de ter estado pela segunda vez na cama durante quinze dias. O Capitão Fitz-Roy, muito generosamente, atrasou o navio dez dias por minha conta, e sem na altura me dizer por que razão.

Tivemos alguns procedimentos estranhos a bordo do "Beagle", mas que terminaram da melhor forma para todos os envolvidos. O Capitão Fitz-Roy tem trabalhado EXTREMAMENTE arduamente nos últimos dois meses e, ao mesmo tempo, tem sido constantemente incomodado por interrupções de oficiais de outros navios; a venda da escuna e as suas consequências foram muito vexatórias; a forma fria como o Almirantado (unicamente creio porque ele é um Tory) o tratou, e um milhar de outros, etc., etc., tornaram-no muito magro e indisposto. Isto foi acompanhado por uma depressão mórbida de espírito e uma perda de toda a decisão e resolução... Tudo o que Bynoe [o Cirurgião] podia dizer, que era meramente o efeito da saúde corporal e da exaustão após tal aplicação, não resolvia; ele pediu a reforma por invalidez e Wickham foi nomeado para o comando. Pelas instruções, Wickham só poderia terminar o levantamento da parte sul e teria então sido obrigado a regressar diretamente a Inglaterra. O pesar a bordo do "Beagle" pela decisão do Capitão foi universal e profundamente sentido; uma grande fonte do seu aborrecimento era o sentimento de ser impossível cumprir as instruções na totalidade; pelo seu estado de espírito, nunca lhe ocorreu que as próprias instruções lhe ordenavam fazer o máximo da costa Oeste QUE TIVESSE TEMPO PARA, e depois proceder através do Pacífico.

Wickham (desinteressadamente abrindo mão da sua própria promoção) insistiu nisto muito fortemente, declarou que quando assumisse o comando nada o induziria a ir para a Terra do Fogo novamente; e perguntou então ao Capitão o que se ganharia com a sua demissão? Por que não fazer a parte mais útil e regressar como ordenado pelo Pacífico. O Capitão, finalmente, para alegria de todos, consentiu e a demissão foi retirada.

Hurra! Hurra! está decidido que o "Beagle" não irá uma milha a sul do Cabo Tres Montes (cerca de 200 milhas a sul de Chiloe) e, desse ponto até Valparaíso, terminará em cerca de cinco meses. Examinaremos o Arquipélago de Chonos, inteiramente desconhecido, e o curioso mar interior atrás de Chiloe. Para mim é glorioso. O Cabo Tres Montes é o ponto mais a sul onde há muito interesse geológico, pois lá terminam os leitos modernos. O Capitão fala então em atravessar o Pacífico; mas penso que o persuadiremos a terminar a Costa do Peru, onde o clima é delicioso, o país é horrivelmente estéril, mas abundante no maior interesse para um geólogo. Pela primeira vez desde que deixei Inglaterra, vejo agora uma perspetiva clara e não tão distante de regressar para junto de vós todos: atravessar o Pacífico e, de Sydney para casa, não levará muito tempo.

Assim que o Capitão pediu a reforma, decidi logo deixar o "Beagle", mas foi absolutamente absurdo o que uma revolução de cinco minutos efetuou em todos os meus sentimentos. Há muito que me sinto entristecido e muito pesaroso com o comprimento interminável da viagem (embora nunca a tivesse abandonado); mas, no minuto em que tudo terminou, não consegui decidir-me a regressar. Não podia desistir de todos os castelos geológicos no ar que tinha estado a construir nos últimos dois anos. Durante uma noite inteira, tentei pensar no prazer de ver Shrewsbury novamente, mas as planícies áridas do Peru levaram a melhor. Fiz o seguinte plano (sei que me vai insultar, e talvez se o tivesse posto em execução, o meu pai tivesse enviado um mandado atrás de mim); era examinar as Cordilheiras do Chile durante este verão e, no inverno, ir de porto em porto na costa do Peru até Lima, regressando por esta altura no próximo ano a Valparaíso, atravessar as Cordilheiras para Buenos Aires e tomar um navio para Inglaterra. Não teria sido esta uma bela excursão, e em dezasseis meses estaria convosco? Ter suportado a Terra do Fogo e não ter visto o Pacífico teria sido miserável...

Vou para bordo amanhã; estive nas últimas seis semanas em casa de Corfield. Não pode imaginar que tipo de amigo encontrei nele. Ele é universalmente apreciado e respeitado pelos nativos e estrangeiros. Várias senhoritas chilenas estão muito obrigadoramente ansiosas por se tornarem as senhoras desta casa. Diga ao meu pai que cumpri a minha promessa de ser extravagante no Chile. Sacei uma letra de 100 libras (não seria melhor que fosse notificado aos Srs. Robarts & Co.?); 50 libras vão para o Capitão para o ano seguinte, e 30 libras levo para o mar para os pequenos portos; de modo que, de boa fé, não gastei 180 libras durante estes últimos quatro meses. Espero não sacar outra letra em seis meses. Todos os pormenores precedentes foram resolvidos apenas ontem. Fez-me mais bem do que um litro de remédio, e não tenho estado tão feliz no último ano. Se não fosse pela minha doença, estes quatro meses no Chile teriam sido muito agradáveis. Tive azar, contudo, por ter acontecido apenas um pequeno terramoto. Estava deitado na cama quando havia um grupo a jantar na casa; de repente, ouvi um tal tumulto na sala de jantar; sem uma palavra ser dita, foi o diabo que leve o último a sair primeiro; no mesmo momento senti a minha cama VIBRAR LIGEIRAMENTE numa direção lateral. O grupo eram veteranos e ouviram o ruído que precede sempre um choque; e nenhum veterano olha para um terramoto com olhos filosóficos...

Adeus a todos vós; não terá outra carta por algum tempo.

Minha querida Catherine, sua afetuosamente, CHAS. DARWIN.

O meu melhor amor ao meu pai e a todos vós. Amor para a Nancy.

CHARLES DARWIN PARA A SRTA. S. DARWIN. Valparaíso, 23 de abril de 1835.

Minha querida Susan,

Recebi, há poucos dias, a sua carta de novembro; as três cartas que mencionei anteriormente ainda não apareceram, mas não duvido que venham à luz. Regressei há uma semana da minha excursão através dos Andes até Mendoza. Desde que deixei a Inglaterra, nunca fiz uma viagem tão bem-sucedida; foi, contudo, muito dispendiosa. Tenho a certeza de que o meu pai não se arrependeria se pudesse saber quão profundamente a desfrutei: foi algo mais do que prazer; não consigo expressar o deleite que senti com um desfecho tão célebre de toda a minha geologia na América do Sul. Literalmente, mal conseguia dormir à noite por pensar no trabalho do meu dia. A paisagem era tão nova e tão majestosa; tudo a uma altitude de 12.000 pés tem um aspeto tão diferente do que num país de baixa altitude. Vi muitas vistas mais belas, mas nenhuma com um carácter tão fortemente marcado. Para um geólogo, também, existem provas tão manifestas de violência excessiva; os estratos dos pináculos mais elevados estão revolvidos como a crosta de uma tarte partida.

Atravessei pelo Passo de Portillo, que nesta altura do ano tende a ser perigoso, por isso não me podia dar ao luxo de lá me atrasar. Depois de passar um dia na estúpida cidade de Mendoza, iniciei o meu regresso por Uspallata, o que fiz com muita calma. Toda a minha viagem ocupou apenas vinte e dois dias. Viajei, para mim, com um conforto invulgar, pois levava uma CAMA! O meu grupo consistia em dois Peones e dez mulas, duas das quais carregavam bagagem, ou melhor, comida, para o caso de ficarmos bloqueados pela neve. Tudo, no entanto, me favoreceu; nem sequer uma mancha da neve deste ano tinha caído na estrada. Não suponho que algum de vós possa estar muito interessado em detalhes geológicos, mas apenas mencionarei os meus principais resultados:--Para além de compreender, até certo ponto, a descrição e a natureza da força que elevou esta grande linha de montanhas, posso demonstrar claramente que uma parte da linha dupla é de uma era muito posterior à outra. Na linha mais antiga, que é a verdadeira cadeia dos Andes, posso descrever o tipo e a ordem das rochas que a compõem. Estas são principalmente notáveis por conterem uma camada de gesso com quase 2.000 pés de espessura--uma quantidade desta substância que eu diria ser inigualável no mundo. O que é de muito maior consequência, obtive conchas fósseis (de uma altitude de 12.000 pés). Penso que um exame destas dará uma idade aproximada a estas montanhas, em comparação com os estratos da Europa. Na outra linha das Cordilheiras, há uma forte presunção (na minha própria mente, convicção) de que a enorme massa de montanhas, cujos picos se elevam a 13.000 e 14.000 pés, são tão modernas que são contemporâneas das planícies da Patagónia (ou mais ou menos com os estratos SUPERIORES da Ilha de Wight). Se este resultado for considerado provado (A importância destes resultados foi plenamente reconhecida pelos geólogos.), é um facto muito importante na teoria da formação do mundo; porque, se mudanças tão maravilhosas ocorreram tão recentemente na crosta do globo, não pode haver razão para supor épocas anteriores de violência excessiva. Estes estratos modernos são muito notáveis por estarem entrelaçados com veios metálicos de prata, ouro, cobre, etc.; até agora, estes eram considerados como pertencentes a formações mais antigas. Nestas mesmas camadas, e perto de uma mina de ouro, encontrei um grupo de árvores petrificadas, de pé, verticais, com camadas de arenito fino depositadas à sua volta, ostentando a impressão da sua casca. Estas árvores estão cobertas por outros arenitos e fluxos de lava até à espessura de vários milhares de pés. Estas rochas foram depositadas debaixo de água; contudo, é claro que o local onde as árvores cresceram deve ter estado uma vez acima do nível do mar, pelo que é certo que a terra deve ter baixado pelo menos tantos milhares de pés quanto a espessura dos depósitos subaquáticos sobrejacentes. Mas receio que me digam que sou fastidioso com as minhas descrições e teorias geológicas...

O seu relato da visita de Erasmus a Cambridge fez-me ansiar por voltar lá. Não consigo imaginar nada mais delicioso do que a sua ronda de domingo por King's, Trinity e aqueles gigantes falantes, Whewell e Sedgwick; espero que os seus gostos musicais continuem com a devida força. Ficarei esfomeado pelo pianoforte...

Ainda não decidi se dormirei no 'Lion' na primeira noite quando chegar pelo 'Wonder', ou se vos perturbarei a todos a meio da noite; tudo o que não seja isso está absolutamente planeado. Tudo o que diz respeito a Shrewsbury está a crescer na minha mente, maior e mais bonito; tenho a certeza de que a acácia e a faia-roxa são duas árvores soberbas; conhecerei cada arbusto, e darei o trabalho a vós, jovens senhoras, quando cada uma cortar a sua árvore, que poupem algumas. Quanto à vista atrás da casa, não vi nada igual. O mesmo se passa com o Norte do País de Gales; Snowdon, na minha opinião, parece muito mais alto e muito mais bonito do que qualquer pico nas Cordilheiras. Assim direis, com as minhas faculdades obscurecidas, que está na hora de regressar, e assim está, e anseio por estar convosco. Quaisquer que sejam as árvores, sei o que encontrarei em todas vós. Estou a escrever disparates, por isso adeus. O meu amor mais afetuoso para todos, e peço perdão ao meu pai.

Vosso muito afetuosamente, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Lima, julho de 1835.

Meu caro Fox,

Recebi ultimamente duas das suas cartas, uma datada de junho e a outra de novembro de 1834 (chegaram-me, contudo, numa ordem invertida). Fiquei muito contente por receber uma história deste ano tão importante da sua vida. Anteriormente, apenas tinha ouvido o facto simples de que se tinha casado. É um verdadeiro cristão e retribui o bem com o mal, ao enviar duas cartas destas a um correspondente tão mau como eu tenho sido. Deus o abençoe por escrever de forma tão gentil e afetuosa; se é um prazer ter amigos na Inglaterra, é duplamente prazeroso pensar e saber que não somos esquecidos por estarmos ausentes. Esta viagem é terrivelmente longa. Desejo tão sinceramente regressar, contudo mal me atrevo a olhar para o futuro, pois não sei o que será de mim. A sua situação está acima da inveja: não me atrevo sequer a construir visões tão felizes. Para uma pessoa apta a assumir o cargo, a vida de um clérigo é um modelo de tudo o que é respeitável e feliz. Tenta-me ao falar da sua lareira, enquanto é um tipo de cena em que nunca deveria pensar. Vi no outro dia um navio zarpar para a Inglaterra; foi bastante perigoso saber quão facilmente poderia tornar-me um desertor. Quanto a uma senhora inglesa, quase me esqueci do que ela é--algo muito angelical e bom. Quanto às mulheres nestes países, usam toucas e saias, e muito poucas têm rostos bonitos, e então está tudo dito. Mas se não naufragarmos em algum recife azarado, sentar-me-ei junto a essa mesma lareira em Vale Cottage e contarei algumas das histórias maravilhosas que parece antecipar e, presumo, não está muito pronto a acreditar. Gracias a dios, a perspetiva de tais tempos é um pouco mais curta do que anteriormente.

Desta miserável 'Cidade dos Reis' partiremos dentro de quinze dias, de lá para Guayaquil, Galápagos, Marquesas, Ilhas da Sociedade, etc., etc. Aguardo as Galápagos com mais interesse do que qualquer outra parte da viagem. Abundam em vulcões ativos e, espero, contêm estratos Terciários. Fico contente por saber que tem algumas ideias de começar a Geologia. Espero que o faça; há um campo de pensamento muito maior do que nos outros ramos da História Natural. Tornei-me um discípulo zeloso das visões do Sr. Lyell, tal como conhecidas no seu livro admirável. Ao estudar geologia na América do Sul, sinto-me tentado a levar as partes a uma extensão ainda maior do que ele. A Geologia é uma ciência excelente para começar, pois não requer nada além de um pouco de leitura, pensamento e martelar. Tenho um corpo considerável de notas reunidas; mas é um assunto constante de perplexidade para mim se são de valor suficiente para todo o tempo que gastei nelas, ou se os animais não teriam sido de valor mais certo.

Ficarei realmente contente por o ver mais uma vez e dizer-lhe o quão grato me sinto pela sua amizade constante. Deus o abençoe, meu muito caro Fox.

Acredite em mim, Vosso afetuosamente, CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.S. HENSLOW. Sydney, janeiro de 1836.

Meu caro Henslow,

Esta é a última oportunidade de comunicar consigo antes daquele dia alegre em que chegarei a Cambridge. Tenho muito pouco a dizer: mas devo escrever ainda que seja apenas para expressar a minha alegria por o último ano ter terminado, e que o presente, no qual o "Beagle" regressará, está a decorrer. Todos nós ficámos desapontados aqui por não encontrar uma única carta; estamos, de facto, um pouco antes do nosso tempo esperado, caso contrário, atrevo-me a dizer, teria visto a sua caligrafia. Devo alimentar-me do futuro, e é imensamente delicioso sentir a certeza de que dentro de oito meses estarei a residir mais uma vez muito tranquilamente em Cambridge. Certamente, nunca fui destinado a ser um viajante; os meus pensamentos estão sempre a divagar por cenas passadas ou futuras; não consigo desfrutar da felicidade presente por antecipar o futuro, o que é quase tão tolo como o cão que deixou o osso real pela sua sombra....

Na nossa passagem através do Pacífico, apenas tocámos no Tahiti e na Nova Zelândia; em nenhum destes lugares ou no mar tive muita oportunidade de trabalhar. O Tahiti é um local encantador. Tudo o que os navegadores anteriores escreveram é verdade. 'Uma nova Cytheraea ergueu-se do oceano.' Cenário delicioso, clima, costumes das pessoas, tudo está em harmonia. É, além disso, admirável contemplar o que os missionários, tanto aqui como na Nova Zelândia, efetuaram. Acredito firmemente que são homens bons a trabalhar em prol de uma boa causa. Suspeito muito que aqueles que abusaram ou zombaram dos missionários foram geralmente aqueles que não estavam muito ansiosos por encontrar nos nativos seres morais e inteligentes. Durante o resto da nossa viagem, visitaremos apenas lugares geralmente reconhecidos como civilizados, e quase todos sob a bandeira britânica. Estes serão um campo pobre para a História Natural, e sem ele descobri recentemente que o prazer de ver novos lugares não é nada. Devo voltar ao meu antigo recurso e pensar no futuro, mas para que não me torne mais fastidioso, direi adeus até ao dia chegar, em que verei o meu Mestre em História Natural, e poderei dizer-lhe o quão grato me sinto pela sua bondade e amizade.

Acredite em mim, caro Henslow, Sempre seu, muito fielmente, CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA A SRTA. S. DARWIN. Baía, Brasil, 4 de agosto [1836].

Minha querida Susan,

Escreverei apenas algumas linhas para explicar a causa desta carta estar datada na costa da América do Sul. Algumas divergências singulares nas longitudes deixaram o Capitão Fitz-Roy ansioso por completar o círculo no hemisfério sul, e depois refazer os nossos passos pela nossa primeira linha até Inglaterra. Esta forma de proceder em ziguezague é muito penosa; deu o golpe final nos meus sentimentos. Detesto, abomino o mar e todos os navios que nele navegam. Mas ainda acredito que chegaremos a Inglaterra na segunda metade de outubro. Em Ascensão recebi a carta da Catherine de outubro, e a sua de novembro; a carta no Cabo era de uma data mais recente, mas cartas de todos os tipos são tesouros inestimáveis, e agradeço a ambas por elas. O deserto, as rochas vulcânicas e o mar selvagem de Ascensão, assim que soube que havia notícias de casa, assumiram subitamente um aspeto agradável, e pus-me a trabalhar com boa vontade na minha antiga tarefa de Geologia. Ficaria surpreendida ao saber o quanto o prazer em chegar a um novo lugar depende inteiramente das cartas. Apenas ficámos quatro dias em Ascensão, e depois fizemos uma viagem muito boa para a Baía.

Pouco pensei que voltaria a pôr o pé na costa sul-americana. Tem sido quase doloroso descobrir quanto entusiasmo bom se evaporou durante os últimos quatro anos. Posso agora caminhar sobriamente por uma floresta brasileira; não que não seja primorosamente bela, mas agora, em vez de procurar contrastes esplêndidos, comparo as majestosas mangueiras com as castanheiras da Inglaterra. Embora este ziguezague nos tenha custado pelo menos uma quinzena, em alguns aspetos estou contente com isso. Penso que serei capaz de levar comigo uma imagem vívida do cenário intertropical. Vamos daqui para Cabo Verde; isto é, se os ventos ou as calmarias equatoriais nos permitirem. Tenho algumas ténues esperanças de que um vento contrário constante possa induzir o Capitão a seguir direto para os Açores. Pelo que rezo sinceramente por esse acontecimento tão infeliz.

Ambas as suas cartas estavam cheias de boas notícias; especialmente as expressões que me diz que o Professor Sedgwick usou sobre as minhas coleções. Confesso que são profundamente gratificantes--confio que uma parte pelo menos se tornará verdadeira, e que agirei como agora penso--pois um homem que se atreve a desperdiçar uma hora de tempo não descobriu o valor da vida. O Professor Sedgwick mencionar o meu nome dá-me esperanças de que me ajudará com os seus conselhos, dos quais, nas minhas questões geológicas, necessito muito. É inútil dizer-lhe, pelo estado vergonhoso deste rabisco, que estou a escrever contra o tempo, tendo estado fora toda a manhã, e agora há alguns estranhos a bordo a quem tenho de descer e falar com civilidade. Além disso, como esta carta vai por um navio estrangeiro, é duvidoso se alguma vez chegará. Adeus, minha muito querida Susan e todos vós. Adeus.

C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.S. HENSLOW. Santa Helena, 9 de julho de 1836.

Meu caro Henslow,

Vou pedir-lhe que me faça um favor. Estou muito ansioso por pertencer à Sociedade Geológica. Não sei, mas suponho que seja necessário ser proposto algum tempo antes de ser votado; se for esse o caso, teria a bondade de tomar as medidas preparatórias adequadas? O Professor Sedgwick ofereceu-se muito gentilmente para me propor antes de deixar a Inglaterra, se por acaso estivesse em Londres. Atrevo-me a dizer que ainda o faria.

Tenho muito pouco para escrever. Não vimos, fizemos ou ouvimos nada de especial há muito tempo; e, de facto, se presentemente as maravilhas de outro planeta nos pudessem ser exibidas, acredito que exclamaríamos unanimemente, que praga consumada. Nenhum rapaz de escola cantou a melodia meio sentimental e meio jovial de 'dulce domum' com mais fervor do que todos nós nos sentimos inclinados a fazer. Mas todo o assunto de 'dulce domum', e o deleite de ver os nossos amigos, é muito perigoso; deve infalivelmente tornar-nos muito fastidiosos ou muito ruidosos. Oh, o grau em que anseio por viver uma vez mais tranquilamente sem um único objeto novo perto de mim! Ninguém pode imaginar até ter sido girado à volta do mundo durante cinco longos anos num brigue de dez canhões. Atualmente vivo numa pequena casa (entre as nuvens) no centro da ilha, e a um tiro de pedra do túmulo de Napoleão. Está a soprar uma tempestade com chuva forte e um frio miserável; se o fantasma de Napoleão assombra o seu lugar de confinamento sombrio, esta seria uma noite excelente para tais espíritos errantes. Se o tempo decidir permitir-me, espero ver um pouco da Geologia (tão frequentemente descrita parcialmente) da ilha. Suspeito que, diferentemente da maioria das ilhas vulcânicas, a sua estrutura é bastante complicada. Parece estranho que este pequeno centro de uma criação distinta deva, como se afirma, ostentar marcas de elevação recente.

O "Beagle" segue deste lugar para Ascensão, depois para Cabo Verde (que lugares miseráveis!) para os Açores, para Plymouth, e depois para casa. Esse dia, o mais glorioso de todos na minha vida, não chegará, contudo, até meados de outubro. Algures nesse mês ver-me-á em Cambridge, onde devo ir diretamente para me apresentar a si, como o meu primeiro Lorde do Almirantado. No Cabo da Boa Esperança, todos nós a bordo sofremos uma amarga desilusão por perder nove meses de cartas, que nos estão a perseguir de um lado ao outro do globo. Atrevo-me a dizer que entre elas estava uma carta sua; faz tempo que não vejo a sua caligrafia, mas em breve ver-me-ei consigo, o que é muito melhor. Como sou seu aluno, está obrigado a empreender a tarefa de me criticar e repreender por todas as coisas mal feitas e não feitas, o que receio que necessitarei muito; mas espero pelo melhor, e estou certo de que tenho um bom, se não demasiado fácil, mestre.

No Cabo, o Capitão Fitz-Roy e eu desfrutámos de uma memorável sorte ao encontrar Sir J. Herschel. Jantámos em sua casa e vimo-lo algumas vezes mais. Foi extraordinariamente bem-intencionado, mas as suas maneiras pareceram-me inicialmente um tanto assustadoras. Vive numa casa de campo muito confortável, rodeada por abetos e carvalhos, que sozinhos, num país tão aberto, dão um ar muito encantador de isolamento e conforto. Parece encontrar tempo para tudo; mostrou-nos um jardim bonito cheio de bolbos do Cabo da sua própria colheita, e entendi depois que tudo era trabalho das suas próprias mãos... Estou muito estúpido, e não tenho mais nada a dizer; o vento está a assobiar tão tristemente sobre as colinas áridas, que vou deitar-me e sonhar com a Inglaterra.

Boa noite, meu caro Henslow, Vosso muito verdadeiramente obrigado e afetuosamente, CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.S. HENSLOW. Shrewsbury, quinta-feira, 6 de outubro [1836].

Meu caro Henslow,

Tenho a certeza de que me dará os parabéns pelo deleite de estar novamente em casa. O "Beagle" chegou a Falmouth na noite de domingo, e eu cheguei a Shrewsbury ontem de manhã. Estou extremamente ansioso por o ver, e como será necessário daqui a quatro ou cinco dias regressar a Londres para tirar os meus bens e pertences do "Beagle", parece-me o meu melhor plano passar por Cambridge. Quero o seu conselho sobre muitos pontos; de facto, estou nas nuvens, e não sei o que fazer nem para onde ir. O meu principal enigma é sobre os espécimes geológicos--quem terá a caridade de me ajudar a descrever a sua natureza mineralógica? Teria a gentileza de me escrever uma linha por RETORNO DE CORREIO, dizendo se está agora em Cambridge? Estou na dúvida até ouvir o Capitão Fitz-Roy se não serei obrigado a partir antes que a resposta possa chegar, mas por favor tente a sorte. Meu caro Henslow, anseio por o ver; tem sido o amigo mais gentil para mim que algum homem possuiu. Não posso escrever mais, pois estou tonto de alegria e confusão.

Adeus por agora, Vosso muito verdadeiramente obrigado, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA R. FITZ-ROY. Shrewsbury, quinta-feira de manhã, 6 de outubro [1836].

Meu caro Fitz-Roy,

Cheguei aqui ontem à hora do pequeno-almoço e, graças a Deus, encontrei todas as minhas queridas e boas irmãs e o meu pai muito bem. O meu pai parece mais alegre e muito pouco mais velho do que quando parti. As minhas irmãs asseguram-me que não pareço minimamente diferente, e posso devolver o cumprimento. De facto, toda a Inglaterra parece mudada, exceto a boa velha cidade de Shrewsbury e os seus habitantes, que, por tudo o que posso ver em contrário, podem continuar como estão até ao Juízo Final. Desejo com todo o meu coração estar a escrever-lhe no meio dos seus amigos em vez de nesse horrível Plymouth. Mas o dia chegará em breve, e será tão feliz como eu sou agora. Asseguro-lhe que sou um homem muito grande em casa; a viagem de cinco anos certamente aumentou-me cem por cento. Receio que tal grandeza deva sofrer uma queda.

Estou profundamente envergonhado de mim mesmo pelo estado de morte-viva em que passei os últimos dias a bordo; a minha única desculpa é que, certamente, não estava muito bem. O primeiro dia no correio cansou-me, mas à medida que me aproximava de Shrewsbury, tudo parecia mais belo e alegre. Ao passar por Gloucestershire e Worcestershire, desejei muito que estivesse comigo para admirar os campos, bosques e pomares. As pessoas estúpidas na carruagem não pareciam achar os campos um pouco mais verdes do que o habitual; mas tenho a certeza de que teríamos concordado plenamente que o vasto mundo não contém uma perspectiva tão feliz como a terra rica e cultivada da Inglaterra.

Espero que não se esqueça de me enviar um bilhete a dizer como vão as coisas. Espero, de facto, que todas as suas contrariedades e problemas com respeito à nossa viagem, que agora sabemos TER um fim, tenham chegado ao termo. Se não receber grande satisfação por toda a energia mental e física que despendeu ao serviço de Sua Majestade, será tratado da forma mais dura. Deixei as minhas irmãs radicais em alvoroço por causa de alguns dos procedimentos prudentes (se não fossem Whigs honestos, eu diria desprezíveis) do nosso Governo. A propósito, devo dizer-lhe, para honra e glória da família, que o meu pai tem uma grande gravura do Rei Jorge IV colocada na sua sala de estar. Mas não sou um renegado, e, quando nos encontrarmos, a minha política será tão firmemente fixada e tão sabiamente fundamentada como sempre foi.

Pensei, ao começar esta carta, que o convenceria de que estava num estado de espírito sóbrio e sensato. Mas vejo que estou a escrever a mais preciosa tolice. Dois ou três dos nossos trabalhadores puseram-se ontem imediatamente a trabalhar e ficaram excessivamente ébrios em honra da chegada do Mestre Charles. Quem poderá, então, contestar se o próprio Mestre Charles decidir fazer-se de tolo. Adeus. Deus o abençoe! Espero que esteja tão feliz, mas muito mais sábio, do que o seu mais sincero, embora indigno, filósofo,

CHAS. DARWIN.

CAPÍTULO 1.VII. -- LONDRES E CAMBRIDGE.

1836-1842.

[O período ilustrado pelas cartas seguintes inclui os anos entre o regresso do meu pai da viagem do "Beagle" e o seu estabelecimento em Down. É marcado pelo aparecimento gradual daquela debilidade de saúde que, por fim, o forçou a deixar Londres e a fixar residência pelo resto da sua vida numa tranquila casa de campo.]

Em junho de 1841, escreve a Lyell: "O meu pai quase não parece esperar que eu me torne forte durante alguns anos; tem sido uma amarga humilhação para mim digerir a conclusão de que a 'corrida é para os fortes', e que provavelmente farei pouco mais do que contentar-me em admirar os passos que outros dão na ciência."

Não há provas de qualquer intenção de ingressar numa profissão após o seu regresso da viagem, e no início de 1840 escreveu a Fitz-Roy: "Não tenho nada que desejar, a não ser uma saúde mais forte para continuar com os assuntos aos quais determinei, alegremente, dedicar a minha vida."

Estas duas condições — saúde permanentemente debilitada e um amor apaixonado pelo trabalho científico pelo seu próprio valor — determinaram, logo no início da sua carreira, o carácter de toda a sua vida futura. Impeliram-no a levar uma vida retirada de trabalho constante, levada até aos limites extremos da sua força física, uma vida que falsificou de forma notável a sua melancólica profecia.

O final do último capítulo viu o meu pai chegar em segurança a Shrewsbury a 4 de outubro de 1836, "após uma ausência de cinco anos e dois dias". Escreveu a Fox: "Não podes imaginar quão gloriosamente deliciosa foi a minha primeira visita a casa; valeu o banimento." Mas foi um prazer que não pôde desfrutar por muito tempo, pois nos últimos dias de outubro estava em Greenwich a desembalar espécimes do "Beagle". Quanto ao destino das colecções, escreve, algo desalentado, a Henslow:--

"Não fiz grandes progressos com os grandes homens. Descobri, como me disseste, que estão todos assoberbados com os seus próprios negócios. O Sr. Lyell entrou, da maneira MAIS bem-intencionada, e quase sem ser solicitado, em todos os meus planos. Diz-me, contudo, a mesma história, de que tenho de fazer tudo sozinho. O Sr. Owen parece ansioso por dissecar alguns dos animais em álcool e, além destes dois, quase não encontrei ninguém que pareça querer possuir qualquer dos meus espécimes. Devo exceptuar o Dr. Grant, que está disposto a examinar alguns dos corais. Vejo que é completamente irracional esperar, por um minuto que seja, que qualquer homem assuma o exame de uma ordem inteira. É claro que os coleccionadores superam em número os verdadeiros naturalistas de tal forma que estes últimos não têm tempo a perder.

"Nem sequer acho que as Colecções se interessem por receber os espécimes sem nome. O Museu Zoológico (O Museu da Sociedade Zoológica, então na Bruton Street, 33. A colecção foi, alguns anos mais tarde, desmantelada e dispersa.) está quase cheio, e mais de mil espécimes permanecem por montar. Suponho que o Museu Britânico os receberia, mas não consigo, por tudo o que ouço, sentir grande respeito sequer pelo estado actual desse estabelecimento. O teu plano não será apenas o melhor, mas o único, a saber: vir a Cambridge, organizar e agrupar as diferentes famílias e depois esperar até que as pessoas, que já estão a trabalhar em diferentes ramos, possam precisar de espécimes. Mas parece-me [que] para fazer isto será quase necessário residir em Londres. Pelo que posso ver até agora, o meu melhor plano será passar vários meses em Cambridge e, depois, quando, com a tua assistência, souber em que terreno piso, emigrar para Londres, onde poderei completar a minha Geologia e tentar impulsionar a Zoologia. Garanto-te que me entristece descobrir quantas coisas me fazem ver a necessidade de viver durante algum tempo nesta Londres suja e odiosa. Pois mesmo na Geologia suspeito que muita assistência e comunicação serão necessárias nestas paragens, por exemplo, em ossos fósseis, dos quais nenhum, exceptuando os fragmentos de Megatherium, foi observado, e vejo claramente que, sem a minha presença, nunca o seriam....

"Só desejo ter sabido que os Botânicos se importavam tanto com espécimes (Uma passagem numa carta subsequente mostra que as suas plantas também lhe causaram alguma ansiedade. "Encontrei o Sr. Brown alguns dias depois de o teres visitado; perguntou-me, de uma forma bastante ominosa, o que pretendia fazer com as minhas plantas. No decurso da conversa, o Sr. Broderip, que estava presente, comentou com ele: 'Esquece-se de quanto tempo passou desde a expedição do Capitão King.' Ele respondeu: 'De facto, tenho algo na forma das plantas não descritas do Capitão King para me fazer recordar disso.' Poderia ter sido dada uma razão melhor, se me tivessem perguntado, por mim, para não dar as plantas ao Museu Britânico?") e os Zoólogos tão pouco; o número proporcional de espécimes nos dois ramos deveria ter tido um aspecto muito diferente. Estou sem paciência para com os Zoólogos, não porque estejam sobrecarregados de trabalho, mas pelo seu espírito mesquinho e briguento. Fui na outra noite à Sociedade Zoológica, onde os oradores rosnavam uns para os outros de uma maneira nada parecida com a de cavalheiros. Graças aos Céus! enquanto eu permanecer em Cambridge não haverá qualquer perigo de cair em tais disputas desprezíveis, enquanto em Londres não vejo como evitá-lo. Dos Naturalistas, F. Hope está fora de Londres; Westwood não vi, por isso sobre os meus insectos não sei nada. Vi o Sr. Yarrell duas vezes, mas ele está tão evidentemente oprimido de trabalho que é demasiado egoísta importuná-lo com os meus assuntos. Convidou-me para jantar com a Linnean na terça-feira, e na quarta-feira janto com a Geological, de modo que verei todos os grandes homens. O Sr. Bell, ouvi dizer, está tão ocupado que não há hipótese de ele desejar espécimes de répteis. Esqueci-me de mencionar o Sr. Lonsdale (William Lonsdale, 1794-1871, era originalmente do exército e serviu nas batalhas de Salamanca e Waterloo. Após a guerra, deixou o serviço e dedicou-se à ciência. Actuou como secretário assistente da Sociedade Geológica de 1829-42, quando se demitiu por motivos de saúde.), que me deu uma recepção muito cordial e com quem tive muita conversa interessantíssima. Se eu não estivesse muito mais inclinado para a geologia do que para os outros ramos da História Natural, tenho a certeza de que a bondade do Sr. Lyell e de Lonsdale deveria prender-me. Não podes conceber nada mais genuinamente bem-intencionado do que a forma, de corpo e alma, como ele se colocou no meu lugar e pensou no que seria melhor fazer. Ao princípio, ele estava todo a favor de Londres versus Cambridge, mas acabei por fazê-lo confessar que, pelo menos durante algum tempo, este último seria para mim o melhor. Não há outra alma a quem eu pudesse pedir, exceptuando tu, que percorresse e criticasse alguns desses artigos que deixei contigo. O Sr. Lyell admitiu que, a seguir a Londres, não havia lugar na Inglaterra tão bom para um Naturalista como Cambridge. Pela minha palavra, tenho vergonha de escrever tantos detalhes tolos, nenhuma jovem descreveu o seu primeiro baile com mais minúcia."

Poucos dias depois, escreve mais alegremente: "Fiquei a conhecer o Sr. Bell (T. Bell, F.R.S., anteriormente Prof. de Zoologia no King's College, Londres, e durante algum tempo secretário da Royal Society. Descreveu depois os répteis para a zoologia da viagem do "Beagle".) que, para minha surpresa, expressou um grande interesse pelos meus crustáceos e répteis, e parece disposto a trabalhar neles. Também soube que o Sr. Broderip ficaria contente por observar as conchas sul-americanas, de modo que as coisas florescem bem comigo."

Sobre as suas plantas, escreve com a franqueza característica quanto à sua própria ignorância: "Fizeste-me conhecido entre os botânicos, mas senti-me muito tolo quando o Sr. Don comentou o aspecto belo de alguma planta com um nome estupendamente longo e me perguntou sobre o seu habitat. Alguém pareceu bastante surpreendido por eu não saber nada sobre um Carex de não sei onde. Fui finalmente forçado a alegar a mais absoluta inocência, e que não sabia mais sobre as plantas que tinha coleccionado do que o homem da lua."

Quanto a parte da sua Colecção Geológica, pôde logo escrever: "Dispus da parte mais importante das minhas colecções, dando todos os ossos fósseis ao Colégio de Cirurgiões; serão distribuídos moldes deles e publicadas descrições. São muito curiosos e valiosos; uma cabeça pertenceu a algum animal roedor, mas do tamanho de um Hipopótamo! Outra a um tamanduá do tamanho de um cavalo!"

Vale a pena notar que, nesta altura, os únicos mamíferos extintos da América do Sul que tinham sido descritos eram o Mastodonte (três espécies) e o Megatherium. Os restos dos outros Edentados extintos da colecção de Sir Woodbine Parish não tinham sido descritos. Os espécimes do meu pai incluíam (além dos supramencionados Toxodon e Scelidotherium) os restos de Mylodon, Glossotherium, outro animal gigantesco aliado ao tamanduá, e Macrauchenia. A sua descoberta destes restos é uma questão de interesse em si mesma, mas tem uma importância especial como ponto na sua própria vida, uma vez que foi a impressão vívida

ouvi-o falar do desespero com que teve de partir a extremidade saliente de um osso enorme, parcialmente escavado, quando o barco que o esperava não esperaria mais.) que formou um dos principais pontos de partida da sua especulação sobre a origem das espécies. Isto é mostrado na seguinte extracção do seu Bloco de Notas para este ano (1837): "Em julho, abri o primeiro bloco de notas sobre a Transmutação das Espécies. Tinha ficado grandemente impressionado, desde cerca do mês de março anterior, com o carácter dos fósseis sul-americanos e das espécies no Arquipélago das Galápagos. Estes factos (especialmente os últimos), a origem de todas as minhas opiniões."]

1836-1837.

CHARLES DARWIN A W.D. FOX. 43 Great Marlborough Street, 6 de novembro [1836].

Meu caro Fox,

Levei um tempo vergonhosamente longo a responder à tua carta. Mas o tempo mais ocupado de toda a viagem foi a própria tranquilidade comparado com este último mês. Depois de pagar uma visita curta mas muito agradável a Henslow, vim para a cidade aguardar a chegada do "Beagle". Finalmente, retirei todos os meus bens a bordo e enviei os espécimes de História Natural para Cambridge, de modo que agora sou um homem livre. A minha visita a Londres foi bastante ociosa no que toca à História Natural, mas foi passada na mais excitante dissipação entre os Dons da ciência. Todos os meus assuntos, de facto, estão muito prósperos; descobri que há muitos que se encarregarão da descrição de tribos inteiras de animais, das quais não sei nada. De modo que, por volta deste dia daqui a um mês, espero pôr mãos à obra com afinco na Geologia, que publicarei separadamente.

É bastante ridículo o período imensamente longo que me parece ter passado desde o desembarque em Falmouth. O facto é que falei e ri o suficiente para anos em vez de semanas, pelo que a minha memória está completamente confundida com o ruído. Estou encantado por ouvir que te tornaste geólogo: quando fizer uma visita à Ilha de Wight, que estou determinado a que, de alguma forma, aconteça, serás um excelente cicerone para a famosa linha de deslocação. Suponho realmente que existam poucas partes do mundo mais interessantes para um geólogo do que a tua ilha. Entre os grandes homens de ciência, ninguém foi tão amigável e gentil como Lyell. Vi-o várias vezes e sinto-me inclinado a gostar muito dele. Não podes imaginar com quanta boa vontade ele entrou em todos os meus planos. Falo agora apenas dos homens de Londres, pois Henslow foi exactamente como o seu eu anterior e, portanto, um amigo muito cordial e afectuoso. Quando fizeres uma visita a Londres, terei muito orgulho em levar-te à Sociedade Geológica, pois fica sabendo que fui proposto para ser F.G.S. na última terça-feira. É, contudo, uma grande pena que estas e as outras cartas, especialmente F.R.S., sejam tão dispendiosas.

Não me escuso de te pedir que me escrevas dentro de uma semana para Shrewsbury, pois és um bom escritor de cartas, e se as pessoas querem ter tão bons caracteres, devem pagar a penalidade. Adeus, caro Fox.

Teu, C.D.

[Estando os seus assuntos, assim, tão prósperamente geridos, pôde pôr em execução o seu plano de viver em Cambridge, onde se estabeleceu a 10 de dezembro de 1836. Foi, ao princípio, hóspede na casa confortável dos Henslow, mas depois, para o bem de um trabalho sem interrupções, mudou-se para alojamentos.]

Escreve assim a Fox, a 13 de março de 1837, de Londres:--

"A minha residência em Cambridge foi um pouco mais longa do que eu esperava, devido a um trabalho que determinei terminar lá, a saber, observar todos os meus espécimes geológicos. Cambridge continua a ser um lugar muito agradável, mas não metade tão alegre como dantes. Caminhar através dos pátios do Christ's College, e não conhecer um habitante de uma única sala, dava a uma pessoa um sentimento meio melancólico. O único mal que encontrei em Cambridge foi o facto de ser agradável demais: havia sempre uma festa ou outra interessante todas as noites, e não se pode dizer que se está ocupado com tanta impunidade lá como nesta grande cidade."

Um registo trivial da presença do meu pai em Cambridge ocorre no livro mantido na sala de convívio do Christ's College, onde as multas e apostas eram registadas, sendo que as entradas anteriores dão uma impressão curiosa do estado de espírito dos membros após o jantar. As apostas não podiam ser feitas em dinheiro, mas eram, tal como as multas, pagas em vinho. A aposta que o meu pai fez e perdeu é assim registada:--

"23 DE FEVEREIRO DE 1837."

Sr. Darwin contra Sr. Baines, que a sala de convívio mede do tecto ao chão mais de (x) pés. 1 Garrafa paga no mesmo dia.

"N.B. O Sr. Darwin pode medir em qualquer parte da sala que deseje."

Além de organizar os espécimes geológicos e mineralógicos, tinha o seu 'Diário de Pesquisas' para trabalhar, o que ocupava as suas noites em Cambridge. Leu também um pequeno artigo na Sociedade Zoológica ("Notas sobre Rhea Americana", 'Zool. Soc. Proc.' v. 1837, páginas 35, 36.) e outro na Sociedade Geológica ('Geol. Soc. Proc.' ii. 1838, páginas 446-449.), sobre a recente elevação da costa do Chile.

No início da primavera de 1837 (6 de março) deixou Cambridge para Londres e, uma semana depois, estava instalado em alojamentos na Great Marlborough Street, 36; e, exceptuando uma "curta visita a Shrewsbury" em junho, trabalhou até setembro, sendo quase inteiramente empregado no seu 'Diário'. Encontrou tempo, contudo, para dois artigos na Sociedade Geológica. ("Um esboço dos depósitos que contêm mamíferos extintos nas vizinhanças do Plata", 'Geol. Soc. Proc.' ii. 1838, páginas 542-544; e "Sobre certas áreas de elevação e subsidência nos oceanos Pacífico e Índico, como deduzido do estudo das formações de coral." 'Geol. Soc. Proc' ii. 1838, páginas 552-554.)

Escreve sobre o seu trabalho a Fox (março de 1837):--

"Na tua última carta, exortas-me a preparar O livro. Estou agora a trabalhar arduamente e desisto de tudo o resto por ele. O nosso plano é o seguinte: o Capitão Fitz-Roy escreve dois volumes a partir dos materiais recolhidos durante a última viagem sob o comando do Cap. King à Terra do Fogo, e durante a nossa circum-navegação. Eu fico com o terceiro volume, no qual pretendo apresentar uma espécie de diário de um naturalista, não seguindo, contudo, sempre a ordem do tempo, mas antes a ordem da posição. Os hábitos dos animais ocuparão uma grande parte, esboços da geologia, o aspecto do país e detalhes pessoais tornarão o cozido completo. Depois, escreverei um relato da geologia em detalhe e redigirei alguns artigos zoológicos. De modo que tenho muito trabalho para o próximo ano ou dois, e até que isso esteja terminado não terei férias."

Outra carta a Fox (julho) dá conta do progresso do seu trabalho:--

"Dei a mim próprio umas férias e uma visita a Shrewsbury [em junho], pois tinha terminado o meu Diário. Estarei agora muito ocupado a preencher lacunas e a deixá-lo pronto para a imprensa até ao dia 1 de agosto. Sentirei sempre respeito por qualquer pessoa que tenha escrito um livro, seja ele qual for, pois não tinha ideia do trabalho que tentar escrever inglês comum podia custar a alguém. E, infelizmente, ainda resta a pior parte de tudo, corrigir a imprensa. Assim que isso estiver feito, devo pôr mãos à obra e começar a Geologia. Li alguns artigos curtos para a Sociedade Geológica, e foram recebidos favoravelmente pelas grandes figuras, e isto dá-me muita confiança, e espero que não uma quantidade muito grande de vaidade, embora confesse que me sinto, muitas vezes, como um pavão a admirar a sua cauda. Nunca esperei que a minha Geologia fosse digna da consideração de homens como Lyell, que tem sido para mim, desde o meu regresso, um amigo muito activo. A minha vida é muito ocupada actualmente, e espero que assim permaneça; embora o Céu saiba que há muitos inconvenientes sérios para uma vida assim, e o principal deles é o pouco tempo que permite para ver os nossos amigos naturais. Durante os últimos três anos, tenho ansiado e ansiado por viver em Shrewsbury e, afinal, agora, no decurso de vários meses, vejo o meu querido bom povo de Shrewsbury por uma semana. Susan e Catherine, contudo, estiveram alojadas com o meu irmão aqui durante algumas semanas, mas tinham regressado a casa antes da minha visita."

[Além do trabalho já mencionado, teve muito que o ocupar a fazer arranjos para a publicação da 'Zoologia da Viagem do "Beagle"'. As cartas seguintes ilustram este assunto.]

CHARLES DARWIN A L. JENYNS. (Agora Rev. L. Blomefield.) 36 Great Marlborough Street, 10 de abril de 1837.

Caro Jenyns,

Durante a última semana, vários dos zoólogos deste lugar têm me instado a considerar a possibilidade de publicar a 'Zoologia da Viagem do "Beagle"' segundo um plano uniforme. O Sr. Macleay (William Sharp Macleay era filho de Alexander Macleay, outrora Secretário Colonial da Nova Gales do Sul e, durante muitos anos, Secretário da Sociedade Lineana. O filho, que era um naturalista muito zeloso e herdara do pai uma vasta coleção geral de insetos, fez da Entomologia o seu principal estudo e alcançou grande notoriedade pelo seu "Sistema Quinário", hoje esquecido, exposto na Segunda Parte da sua 'Horae Entomologicae', publicada em 1821.--[Estou em dívida para com o Rev. L. Blomefield pela nota precedente.]) tem demonstrado grande interesse pelo assunto e sustenta que tal publicação é muito desejável, porque mantém reunida uma série de observações feitas a respeito de animais que habitam a mesma parte do mundo, permitindo que qualquer viajante futuro as leve consigo. Até que ponto esta facilidade de consulta tem qualquer importância, estou muito em dúvida; mas se for esse o caso, seria mais satisfatório para mim ver as espigas colhidas pelas minhas mãos, depois de terem passado pelos cérebros de outros naturalistas, reunidas numa única obra. Mas tais considerações não deveriam ter muito peso. Todo o esquema está atualmente apenas flutuando no ar; mas decidi deixar-lhe saber, pois gostaria muito de saber o que pensa sobre isso e se se oporia a fornecer descrições dos peixes para tal obra em vez de o fazer para as 'Transações'. Receio que tudo seja impraticável, a menos que o Governo ajude na gravação das placas, e isso temo que seja uma mera possibilidade, embora pense que posso apresentar um pedido forte e conseguir ser bem apoiado pelos naturalistas deste lugar, que quase todos se interessam bastante pelas minhas coleções. Pretendo amanhã ver o Sr. Yarrell; se ele aprovar, começarei a tomar medidas mais ativas; pois ouço dizer que ele é muito prudente e muito sensato. É quase inútil especular sobre qualquer plano, mas pensei em angariar subscritores e publicar a obra em partes (enquanto os fundos durarem, pois eu próprio não perderei dinheiro com isso). Nesse caso, quem tivesse a sua própria parte pronta em qualquer ordem poderia publicá-la separadamente (e, em última análise, as partes poderiam ser vendidas separadamente), para que ninguém fosse atrasado pelo outro. O plano assemelhar-se-ia, numa escala humilde, ao 'Atlas' de Ruppel ou à 'Zoologie' de Humboldt, onde Latreille, Cuvier, etc., escreveram partes diferentes. Eu próprio teria pouco a ver com isso, exceto em algumas ordens acrescentando hábitos e áreas de distribuição, etc., e esboços geográficos, e talvez mais tarde algumas descrições de animais invertebrados...

Estou a trabalhar no meu Diário; progride lentamente, embora eu não esteja ocioso. Pensei que Cambridge fosse um lugar mau devido aos bons jantares e outras tentações, mas acho que Londres não é melhor, e temo que possa tornar-se pior. Tenho um excelente amigo em Lyell, e vejo-o muito, o que é muito vantajoso para mim na discussão de muita geologia sul-americana. Sinto muito a falta de uma caminhada no campo; esta Londres é um lugar vil e esfumaçado, onde um homem perde uma grande parte dos melhores prazeres da vida. Mas não vejo possibilidade de escapar, nem por uma semana, desta prisão por muito tempo. Receio que demorará algum tempo até nos encontrarmos; pois suponho que não virá aqui durante a primavera, e não creio que poderei ir a Cambridge. Como eu gostaria de fazer uma boa caminhada ao longo da estrada de Newmarket amanhã, mas Oxford Street terá de servir em vez disso. Detesto as ruas de Londres. Dirá ao Henslow para ter cuidado com os fungos COMESTÍVEIS da Terra do Fogo, pois precisarei de alguns espécimes para o Sr. Brown, que parece PARTICULARMENTE interessado neles. Diga ao Henslow que penso que a minha madeira silicificada desempedrou o coração do Sr. Brown, pois ele foi muito gracioso comigo e falou sobre as plantas das Galápagos; mas antes ele nunca diria uma palavra. Acaba de dar doze horas; por isso desejo-lhe uma muito boa noite.

Meu caro Jenyns, Seu muito sinceramente, CHARLES DARWIN.

[Algumas semanas mais tarde, o plano parece ter amadurecido e a ideia de procurar ajuda do Governo ter sido adotada.]

CHARLES DARWIN A J.S. HENSLOW. 36 Great Marlborough Street, [18 de maio de 1837].

Meu caro Henslow,

Fiquei muito contente por receber a sua carta. Queria muito saber como estava a progredir com os seus múltiplos trabalhos. De facto, não me admira que a sua cabeça tenha começado a doer; é quase um milagre que ainda lhe reste alguma cabeça. O seu relato da expedição de Gamlingay foi cruelmente tentador, mas não posso de modo algum deixar Londres. Queria visitar o meu bom e querido povo em Shrewsbury por alguns dias, mas descobri que não conseguia gerir isso; neste momento estou à espera das assinaturas do Duque de Somerset, como Presidente da Lineana, e de Lord Derby e Whewell, para uma declaração do valor da minha coleção; assim que a obtiver, solicitarei ao Governo assistência para a gravação e, assim, publicarei a 'Zoologia' segundo um plano uniforme. É bastante ridículo o tempo que qualquer operação requer quando depende de muitas pessoas.

Tenho trabalhado com muita constância, mas só consegui concluir dois terços da parte do Diário. Descubro que, embora permaneça diariamente muitas horas a trabalhar, o progresso é muito lento: é uma coisa terrível dizer a si próprio, cada tolo e cada homem inteligente em Inglaterra, se assim o desejar, pode fazer tantos comentários de má índole quanto quiser sobre esta frase infeliz....

Em agosto escreve a Henslow para anunciar o sucesso do esquema para a publicação da 'Zoologia da Viagem do "Beagle"', através da promessa de uma subvenção de 1000 libras do Tesouro: "Atrasou-me a escrever-lhe, para lhe agradecer sinceramente por ter gerido tão eficazmente o meu assunto. Esperei até ter uma entrevista com o Chanceler do Tesouro (T. Spring Rice.). Ele marcou encontrar-me esta manhã, e tive uma longa conversa com ele, estando presente o Sr. Peacock. Nada poderia ser mais perfeitamente prestável e gentil do que toda a sua atitude. Ele não fez qualquer tipo de restrição, apenas me disse para tirar o melhor partido do dinheiro, o que, naturalmente, estou muito disposto a fazer.

"Esperava uma entrevista bastante terrível, mas nunca encontrei nada menos terrível na minha vida. Será culpa minha se não fizer uma boa obra; mas às vezes dou por mim com um medo terrível de não ter materiais suficientes. Será excessivamente satisfatório, ao fim de uns dois anos, constatar que todos os materiais foram aproveitados ao máximo das suas possibilidades."

Mais tarde, no outono, escreveu a Henslow: "Não tenho estado muito bem ultimamente, com uma palpitação desconfortável do coração, e os meus médicos insistem FORTEMENTE para que eu abandone todo o trabalho e vá viver para o campo por algumas semanas." Em conformidade, tirou férias de cerca de um mês em Shrewsbury e Maer, e fez uma visita à Ilha de Wight. Foi, creio eu, durante esta visita, na casa do Sr. Wedgwood em Maer, que ele fez as suas primeiras observações sobre o trabalho realizado pelas minhocas, e no final do outono leu um artigo sobre o assunto na Sociedade Geológica. ("Sobre a formação do húmus", 'Geol. Soc. Proc.' ii. 1838, páginas 574-576.) Durante estes dois meses, esteve também ocupado a preparar o esquema da 'Zoologia da Viagem do "Beagle"' e a começar a reunir os resultados geológicos das suas viagens.

A carta seguinte refere-se à proposta de que ele deveria assumir a Secretaria da Sociedade Geológica.]

CHARLES DARWIN A J.S. HENSLOW. 14 de outubro, [1837].

Meu caro Henslow,

...Estou-lhe muito grato pela sua mensagem sobre a Secretaria. Estou extremamente ansioso por que ouça o meu lado da questão e terá a gentileza de, depois, me dar o seu parecer justo. O assunto perseguiu-me durante todo o verão. Não estou disposto a assumir o cargo pelas seguintes razões: Primeiro, a minha total ignorância da Geologia inglesa, um conhecimento que seria quase necessário para abreviar muitos dos artigos antes de os ler perante a Sociedade, ou melhor, para saber que partes saltar. Além disso, o meu desconhecimento de todas as línguas, e não saber como pronunciar UMA ÚNICA palavra de francês — uma língua tão perpetuamente citada. Seria vergonhoso para a Sociedade ter um Secretário que não soubesse ler francês. Em segundo lugar, a perda de tempo; peço-lhe que considere que teria de cuidar dos artistas, supervisionar e fornecer materiais para o trabalho do Governo, que sairá em partes e que tem de aparecer regularmente. Todas as minhas notas geológicas estão num estado muito rudimentar; nenhuma das minhas conchas fósseis foi trabalhada; e tenho muito para ler. Tive esperanças, abandonando a sociedade e não desperdiçando uma hora, de terminar a minha Geologia num ano e meio, altura em que a descrição dos animais superiores por outros estaria concluída, e todo o meu tempo seria então necessariamente exigido para completar eu próprio a descrição dos invertebrados. Se este plano falhar, como o trabalho do Governo tem de continuar, a Geologia seria necessariamente adiada até provavelmente pelo menos três anos a partir desta data. No estado atual da ciência, grande parte da utilidade do pouco que fiz perder-se-ia, e toda a frescura e prazer ser-me-iam completamente retirados.

Sei por experiência o tempo necessário para fazer resumos ATÉ dos meus próprios artigos para as 'Atas'. Se eu fosse Secretário e tivesse de fazer resumos duplos de cada artigo, estudando-os antes de os ler, a assistência custar-me-ia PELO MENOS três dias (e muitas vezes mais) por quinzena. Existem também outras perdas de tempo acidentais e contingentes; sei que o Dr. Royle achou que o cargo consumia muito do seu tempo. Se, apenas abandonando qualquer diversão ou trabalhando mais arduamente do que tenho feito, pudesse poupar tempo, assumiria a Secretaria; mas apelo a si se, com a minha forma lenta de escrever, com duas obras em mãos e com a certeza de que, se não puder completar a parte Geológica dentro de um período fixo, a sua publicação terá de ser retardada por um período muito longo — se alguma Sociedade, seja ela qual for, tem qualquer direito sobre mim por três dias de trabalho desagradável a cada quinzena. Não posso concordar que seja um dever da minha parte, como seguidor da ciência, enquanto me dedico à conclusão do trabalho que tenho em mãos, atrasá-lo, assumindo o que pode ser feito por qualquer pessoa que por acaso tenha mais tempo livre do que eu atualmente. Além disso, tão cedo na minha vida científica, com tanto que tenho para aprender, o cargo, embora sem dúvida uma grande honra, etc., para mim, seria ainda mais oneroso. O Sr. Whewell (eu sei muito bem), julgando por si próprio, pensará que exagero o tempo que a Secretaria exigiria; mas eu sei absolutamente o tempo que, comigo, a escrita mais simples consome. Não gosto nada de parecer tão egoísta a ponto de recusar o Sr. Whewell, especialmente porque ele sempre demonstrou, da forma mais gentil, um interesse pelos meus assuntos. Mas não consigo vislumbrar com um conforto sequer tolerável assumir um cargo sem entrar nele de corpo e alma, e isso seria impossível com o trabalho do Governo e a Geologia em mãos.

A minha última objeção é que duvido até que ponto a minha saúde suportará o confinamento do que tenho de fazer, sem qualquer trabalho adicional. Apenas repito, para que saiba que não estou a falar em vão, que quando consultei o Dr. Clark na cidade, ele instou-me primeiro a abandonar completamente toda a escrita e até a correção de provas durante algumas semanas. Ultimamente, qualquer coisa que me deixe agitado deixa-me completamente exausto depois e provoca-me uma violenta palpitação do coração. Ora, a Secretaria seria uma fonte periódica de problemas mais irritantes para mim do que todo o resto da quinzena somado. De facto, até que eu regresse à cidade e veja como me saio, mesmo que eu quisesse o cargo o mais possível, NÃO poderia dizer que assumiria positivamente. Peço-lhe que desculpe esta prosa tão longa toda sobre mim mesmo, mas o ponto é de grande interesse. Não suporto pensar em mim mesmo como muito egoísta e rabugento, nem consigo ver a possibilidade de assumir a Secretaria sem fazer um sacrifício de todos os meus planos e de uma boa dose de conforto.

Se vir o Whewell, dir-lhe-ia a substância desta carta; ou, se ele se der ao trabalho, pode lê-la. Meu caro Henslow, apelo a si in loco parentis. Peço-lhe que me diga o que pensa? Mas não me julgue pela agilidade de espírito que você e alguns outros possuem, pois nesse caso quanto mais difíceis as coisas em mãos, mais agradável o trabalho; mas, embora espere nunca estar ocioso, não é esse o meu caso.

Sempre, caro Henslow, Seu muito sinceramente, C. DARWIN.

[Acabou por aceitar o cargo e ocupou-o durante três anos — de 16 de fevereiro de 1838 a 19 de fevereiro de 1841.

Após a garantia da Subvenção para a publicação da 'Zoologia da Viagem do "Beagle"', houve muito a fazer na organização do esquema de publicação, e isto ocupou-o durante parte de outubro e novembro.]

CHARLES DARWIN A J.S. HENSLOW. [4 de novembro de 1837.]

Meu caro Henslow,

...Peço-lhe que diga ao Leonard (Rev. L. Jenyns.) que o meu trabalho do Governo está a correr sem problemas e espero que seja próspero. Ele verá no Prospecto o seu nome associado aos peixes; coloquei os meus ombros ao trabalho com bom ânimo. Estou muito melhor do que estava durante o último mês antes da minha visita a Shrewsbury. Temo que a Geologia me leve muito tempo; estive a ver um conjunto de notas e a quantidade que descobri que tinha de ler para aquele lugar era assustadora. Se eu viver até aos oitenta anos, não deixarei de me maravilhar por me encontrar autor; no verão antes de partir, se alguém me tivesse dito que eu teria sido um anjo por esta altura, teria considerado uma impossibilidade igual. Esta transformação maravilhosa deve-se toda a si.

Lamento verificar que um bom número de erratas ficou na parte do meu volume que está impressa. Durante a minha ausência, o Sr. Colburn empregou algum ganso para rever, e ele multiplicou, em vez de diminuir, os meus descuidos; mas, apesar de tudo, o papel liso e o tipo claro têm um aspeto encantador, e sentei-me na outra noite a olhar em admiração silenciosa para a primeira página do meu próprio volume, quando o recebi da tipografia!

Adeus, meu caro Henslow, C. DARWIN.

1838.

[Desde o início deste ano até quase ao fim de junho, esteve atarefado com os resultados zoológicos e geológicos da sua viagem. Este período de trabalho foi interrompido apenas por uma visita de três dias a Cambridge, em maio; e mesmo este curto período de descanso foi tirado em consequência de problemas de saúde, como podemos presumir pela entrada no seu diário: "1 de maio, indisposto", e de uma carta à sua irmã (16 de maio de 1838), quando escreveu:--

"A minha viagem de três dias a Cambridge fez-me um bem maravilhoso e encheu os meus membros de tal elasticidade que tenho de tirar um pouco de trabalho do meu corpo antes de outro descanso." Este descanso parece ter sido plenamente aproveitado; escreveu à irmã:--

"Agora sobre Cambridge: fiquei na casa de Henslow e desfrutei imensamente da minha visita. Os meus amigos deram-me uma receção muito cordial. De facto, fui um verdadeiro leão lá. A Sra. Henslow, infelizmente, foi obrigada a partir na sexta-feira para uma visita ao campo. Nessa noite, tivemos em casa de Henslow uma festa brilhante com todos os génios de Cambridge, e um grupo de homens mais notável eles são, com toda a certeza. No sábado, fui a cavalo até casa de L. Jenyns e passei a manhã com ele. Encontrei-o muito alegre, mas a queixar-se amargamente da sua solidão. No sábado à noite, jantei num dos Colégios, joguei à bola no Relvado do Colégio depois do jantar e fiquei ensurdecido com os rouxinois a cantar. Domingo, jantei em Trinity; excelente jantar, e fiquei muito contente por me sentar ao lado do Professor Lee (Samuel Lee, de Queens', foi Professor de Árabe de 1819 a 1831, e Professor Regius de Hebraico de 1831 a 1848.)...; acho-o um homem muito agradável para conversar, e de bom humor como um rapaz, por ter regressado recentemente de uma paróquia ou curato, durante sete anos em Somersetshire, para a sociedade civilizada e para os manuscritos orientais. Tinha trocado a sua paróquia por uma a catorze milhas de Cambridge e parecia perfeitamente feliz. À noite, assisti à Capela de Trinity e ouvi 'The Heavens are telling the Glory of God', num estilo magnífico; o último coro parecia abalar as próprias paredes do Colégio. Depois da capela, uma grande festa nos quartos de Sedgwick. Tanto para os meus Anais."

Partiu, perto do fim de junho, na sua expedição a Glen Roy, sobre a qual escreve a Fox: "Não tenho estado muito bem ultimamente, o que me determinou subitamente a deixar Londres mais cedo do que tinha previsto. Vou no barco a vapor para Edimburgo, dou uma caminhada solitária em Salisbury Craigs e recordo velhos pensamentos de tempos passados, depois sigo para Glasgow e para o grande vale de Inverness, perto do qual pretendo parar uma semana para geologizar as estradas paralelas de Glen Roy, de lá para Shrewsbury, Maer por um dia, e Londres para o fumo, a má saúde e o trabalho árduo."

Passou "oito bons dias" sobre as Estradas Paralelas. O seu Ensaio sobre este assunto foi redigido durante o mesmo verão e publicado pela Royal Society. ('Phil. Trans.' 1839, páginas 39-82.) Escreveu no seu Caderno de Bolso: "6 de setembro [1838]. Terminei o artigo sobre 'Glen Roy', uma das tarefas mais difíceis e instrutivas em que alguma vez me envolvi." Recordar-se-á que, nas suas 'Recollexões', ele fala deste artigo como um fracasso, do qual se envergonhava.

Na época em que escreveu, a teoria mais recente da formação das Estradas Paralelas era a de Sir Lauder Dick e do Dr. Macculloch, que acreditavam que lagos tinham existido antigamente em Glen Roy, causados por barragens de rocha ou aluvião. Ao argumentar contra esta teoria, ele concebeu ter refutado a admissibilidade de qualquer teoria de lago, mas neste ponto estava enganado. Ele escreveu (artigo sobre Glen Roy, página 49) "a conclusão é inevitável, de que nenhuma hipótese baseada na suposta existência de uma massa de água confinada por BARREIRAS, isto é, um lago, pode ser admitida como resolvendo a origem problemática das estradas paralelas de Lochaber."

O Sr. Archibald Geikie teve a bondade de me permitir citar uma passagem de uma carta que me dirigiu (19 de novembro de 1884) em resposta ao meu pedido da sua opinião sobre o carácter do trabalho do meu pai em Glen Roy:--

"O artigo do Sr. Darwin sobre 'Glen Roy', não preciso de dizer, é marcado por toda a sua acuidade característica de observação e determinação em considerar todas as objeções possíveis. É um exemplo curioso, contudo, do perigo de raciocinar por um método de exclusão na Ciência Natural. Descobrindo que as águas que formaram os terraços na região de Glen Roy não poderiam possivelmente ter sido represadas por barreiras de rocha ou detritos, ele não viu alternativa senão considerá-las como obra do mar. Se a ideia de barreiras transitórias de gelo glacial lhe tivesse ocorrido, teria visto as dificuldades desaparecerem da teoria do lago a que se opunha, e não teria sido inconscientemente levado a minimizar as objeções absolutamente esmagadoras à suposição de que os terraços são de origem marinha."

Pode acrescentar-se que a ideia de as barreiras serem formadas por glaciares dificilmente lhe poderia ter ocorrido, considerando qual era o estado do conhecimento na época, e tendo em mente a sua falta de oportunidades de observar a ação glacial numa grande escala.

A segunda metade de julho foi passada em Shrewsbury e Maer. O único apontamento de qualquer interesse é o de estar "muito ocioso" em Shrewsbury, e de abrir "um caderno ligado a investigações metafísicas". Em agosto, registra que leu "uma boa quantidade de livros variados e divertidos, e dedicou alguma atenção a assuntos metafísicos".

O trabalho realizado durante o restante do ano compreende o livro sobre recifes de coral (iniciado em outubro) e algum trabalho sobre os fenômenos de elevação na América do Sul.]

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. 36 Great Marlborough Street, 9 de agosto [1838].

Meu caro Lyell,

Não lhe escrevo para Norwich, pois pensei que teria mais a dizer se esperasse mais alguns dias. Muitíssimas graças pelo presente dos seus 'Elements', que recebi (e creio ser a PRIMEIRA cópia distribuída), juntamente com o seu bilhete. Li-o palavra por palavra, estou cheio de admiração por ele e, como agora não vejo nenhum geólogo, devo conversar consigo a respeito. Não há prazer em ler um livro se não se pode ter uma boa conversa sobre ele; repito, estou cheio de admiração, é claro como a luz do dia; de fato, senti em muitas partes certa mortificação ao pensar em como os geólogos trabalharam e lutaram para provar o que parece, como o senhor expôs, tão evidentemente provável. Li com muito interesse o seu esboço dos depósitos secundários; o senhor conseguiu torná-lo bastante "suculento", como costumávamos dizer em crianças sobre uma boa história. Havia também muita coisa nova para mim, e tenho de copiar cerca de cinquenta notas e referências. Tem de fazer bem, os hereges contra o bom senso devem ceder... A propósito, recorda-se de eu lhe dizer o quanto detestava a maneira como -- se referia às suas outras obras, tanto quanto a dizer: "O senhor deve, tem de e comprará tudo o que escrevi". Na minha opinião, o senhor de alguma forma evitou isso completamente; as suas referências apenas parecem dizer: "Não lhe posso contar tudo nesta obra, senão fá-lo-ia, por isso tem de ir aos 'Principles'"; e a muitos, espero, o senhor enviará para lá, e fará deles, como eu, adoradores da boa ciência da quebra de rochas. Verá que estou num acesso de entusiasmo, e tenho bons motivos para estar, quando descubro que o senhor fez um uso infinitamente maior do meu Diário do que eu poderia ter previsto. Não direi mais nada sobre o livro, pois é só elogios. Devo, contudo, admirar a honestidade elaborada com que cita as palavras de todos os geólogos vivos e mortos.

A minha expedição escocesa correu brilhantemente; a minha viagem no navio a vapor foi absolutamente agradável, e gozei o espetáculo, miserável que sou, de duas senhoras e algumas crianças pequenas completamente enjoadas, estando eu bem. Além disso, no meu regresso de Glasgow para Liverpool, triunfei de forma semelhante sobre alguns homens adultos. Fiquei um dia inteiro em Edimburgo, ou mais precisamente em Salisbury Craigs; quero ouvir algum dia o que pensa sobre aquele terreno clássico--a estrutura era para mim nova e bastante curiosa--isto é, se a compreendi bem. Atravessei de Edimburgo em charretes e carroças (e carroças sem molas, como nunca esquecerei) até Loch Leven. Fiquei desapontado com a paisagem e cheguei a Glen Roy no sábado à noite, uma semana depois de deixar Marlborough Street. Aqui desfrutei de cinco [?] dias do tempo mais belo, com pores do sol deslumbrantes e toda a natureza parecendo tão feliz quanto eu me sentia. Vagueei pelas montanhas em todas as direções e examinei aquele distrito extraordinário. Penso que, sem exceções, nem mesmo a primeira ilha vulcânica, a primeira praia elevada ou a passagem da Cordilheira, foram tão interessantes para mim como esta semana. É de longe a área mais notável que alguma vez examinei. Convenci-me plenamente (após alguma dúvida inicial) de que as prateleiras são praias marinhas, embora não tenha conseguido encontrar um vestígio de uma concha; e creio que posso explicar a maior parte, se não todas, as dificuldades. Encontrei um pedaço de uma estrada noutro vale, não observado até agora, o que é importante; e tenho alguns fatos curiosos sobre blocos erráticos, um dos quais estava empoleirado num pico a 2200 pés acima do mar. Estou agora empregado a escrever um artigo sobre o assunto, o que acho um trabalho muito divertido, exceto pelo fato de não conseguir, de modo algum, condensá-lo em limites razoáveis. Num futuro próximo, espero conversar consigo sobre algumas das conclusões a que o exame de Glen Roy me levou. Agora que já falei, estou muito mais aliviado, pois posso assegurar-lhe que Glen Roy me deixou espantado.

Estou a viver muito tranquilamente, e por isso agradavelmente, e estou a avançar lenta mas firmemente com o meu trabalho. Cheguei a uma conclusão, que o senhor pensará que prova que sou um homem muito sensato, a saber: que tudo o que o senhor diz prova estar correto; e como prova disso, estou a adotar o seu método de trabalhar apenas cerca de duas horas de cada vez; depois saio e trato dos meus negócios nas ruas, volto e ponho-me a trabalhar novamente, e assim faço dois dias separados de um. O novo plano funciona maravilhosamente; depois de terminado o segundo meio dia, vou jantar ao Athenaeum como um cavalheiro, ou melhor, como um lorde, pois tenho a certeza de que na primeira noite em que me sentei naquela grande sala de estar, todo num sofá sozinho, me senti exatamente como um duque. Estou cheio de admiração pelo Athenaeum, encontram-se lá tantas pessoas que se gosta de ver. Logo na primeira vez que lá jantei (isto é, na semana passada) encontrei o Dr. Fitton (W.H. Fitton (1780-1861) foi médico e geólogo, e por algum tempo presidente da Sociedade Geológica. Estabeleceu os 'Proceedings', um modo de publicação posteriormente adotado por outras sociedades.) à porta, e ele juntou um grupo--Robert Brown, que foi para Paris e Auvergne, Macleay [?] e o Dr. Boott. (Francis Boott (1792-1863) é conhecido principalmente como botânico pelo seu trabalho sobre o gênero Carex. Era também bem conhecido em relação à Sociedade Lineana, da qual foi durante muitos anos membro da direção. É descrito (num esboço biográfico publicado na "Gardener's Chronicle", 1864) como tendo sido um dos primeiros médicos em Londres que deixou o habitual casaco preto, calções e meias de seda, e adotou o vestuário comum da época, um casaco azul com botões de latão e um colete amarelo, um traje que continuou a usar até ao fim. Depois de abandonar a prática, o que fez cedo na vida, passou grande parte do seu tempo em atos de filantropia sem pretensões.) A sua ajuda para entrar no Athenaeum não foi em vão, e desfruto-o mais porque esperava plenamente detestá-lo.

Estou a escrever-lhe uma carta impiedosa, mas pedirei ao Owen que a leve a Newcastle. Se tiver vontade de ser um homem muito generoso, escrever-me-á de Kinnordy (A casa do pai de Lyell.), e contar-me-á algumas notícias de Newcastle, bem como sobre o Craig, sobre si próprio e a Sra. Lyell, e tudo o resto no mundo. Enviarei pelo Hall as 'Entomological Transactions', que tomei emprestadas para o senhor; ficará desapontado com os artigos de --, isto é, se supõe que o meu caro amigo tem uma única ideia clara sobre qualquer assunto. Ele envolveu tanto os insetos recentes e os verdadeiros insetos fósseis numa única tabela que temo que não tire muito partido disso, embora seja um assunto que penso que deveria entrar nos 'Principles'. O senhor divertir-se-á com algumas das passagens ridículo-sublimes nos artigos, e sem dúvida sentirá agudamente um escárnio que há sobre si próprio. Ouvi de mais de uma fonte que se esperam conflitos em Newcastle (Na reunião da Associação Britânica.); lamento ouvi-lo. Encontrei o velho -- esta noite no Athenaeum, e ele murmurou algo sobre escrever-lhe ou a alguém sobre o assunto; estou, contudo, às escuras. Suponho, no entanto, que serei iluminado, pois vou jantar com ele dentro de alguns dias, uma vez que as minhas capacidades inventivas falharam ao dar qualquer desculpa. Um amigo meu jantou com ele outro dia, um grupo de quatro, e acabaram dez garrafas de vinho--uma perspetiva agradável para mim; mas estou determinado a nem sequer provar o seu vinho, em parte pela diversão de ver o seu infinito desgosto e surpresa...

Lamento a imposição desta carta mais impiedosa. Por favor, lembre-se de mim com a maior amabilidade à Sra. Lyell quando chegar a Kinnordy. Vi o nome dela no livro do proprietário de Inverorum. Diga à Sra. Lyell para ler a segunda série de 'Mr. Slick of Slickville's Sayings.'... Ele quase supera o "Samivel", esse príncipe dos heróis. Boa noite, meu caro Lyell; pensará que bebi alguma bebida forte para escrever tantos disparos, mas hoje nem sequer provei a cerveja fraca de Minerva.

Seu muito sinceramente, CHAS. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Sexta-feira à noite, 13 de setembro [1838].

Meu caro Lyell,

Fiquei espantado e encantado com a sua gloriosamente longa carta, e tenho a certeza de que estou muito grato à Sra. Lyell por ter tido o trabalho de escrever tanto. (Lyell ditava grande parte da sua correspondência.) Pretendo ter uma boa hora de prazer e rabiscar para si, que tem tanta simpatia geológica que não me importo de escrever de forma tão egoísta...

Tenho tanto para dizer sobre todo o tipo de coisas triviais que mal sei por onde começar. Não preciso dizer o quão satisfeito estou por saber que o Sr. Lyell (Pai do geólogo.) gosta do meu Diário. Ouvir tais notícias é uma espécie de ressurreição, pois sinto em relação ao meu filho primogênito como se há muito tivesse morrido, sido enterrado e esquecido; mas o passado não é nada e o futuro é tudo para nós geólogos, como o senhor mostra no seu lema capital para os 'Elements'. A propósito, já leu o artigo, na 'Edinburgh Review', sobre M. Comte, 'Cours de la Philosophie' (ou algo desse título)? É excelente; há algumas frases belas sobre a própria essência da ciência ser a previsão, que me lembraram "a sua lei ser o progresso".

Vou agora começar e percorrer a sua carta seriatim. Atrevo-me a dizer que o seu plano de colocar o capítulo de Elie de Beaumont separadamente e logo no início será muito bom; de qualquer forma, é mostrar uma frente corajosa na primeira edição que será traduzida para francês. Será um ponto curioso para os geólogos futuramente notar por quanto tempo o nome de um homem sustentará uma teoria tão completamente exposta como a de De Beaumont tem sido por si; o senhor diz que "começa a ter esperança de que os grandes princípios aí insistidos resistirão ao teste do tempo". COMEÇA A TER ESPERANÇA: por que, a POSSIBILIDADE de uma dúvida nunca me passou pela cabeça durante muitos dias. Isto pode ser muito in-filosófico, mas a minha salvação geológica está em jogo nisso. Depois de ter acabado de regressar de Glen Roy, e ter descoberto como as dificuldades desaparecem sob os seus princípios, deixa-me bastante indignado que o senhor fale em TER ESPERANÇA. Com relação à questão, até que ponto a minha teoria dos corais se relaciona com a teoria de De Beaumont, penso que seria prudente citar-me com grande cautela até que todo o meu relato seja publicado, e então o senhor (e outros) poderá julgar até que ponto existe fundamento para tal generalização. Atenção, não duvido da sua verdade; mas a extensão de qualquer visão sobre espaços tão grandes, a partir de relativamente poucos fatos, deve ser recebida com muita cautela. Eu próprio não duvido minimamente que dentro do período recente (ou como o senhor, muito para meu aborrecimento, chamaria, "Plioceno Novo"), bandas tortuosas--nem todas as bandas paralelas entre si--tenham sido elevadas e as correspondentes tenham sofrido subsidência, embora dentro do mesmo período algumas partes provavelmente tenham permanecido por um tempo estacionárias, ou mesmo sofrido subsidência. Não acredito que pudesse ter sido inventada uma visão mais totalmente falsa do que grandes linhas retas serem subitamente erguidas.

Quando o meu livro sobre Vulcões e Recifes de Coral será publicado, dificilmente sei; receio que seja pelo menos dentro de quatro ou cinco meses; embora, atenção, a maior parte esteja escrita. Acho que se perde muito tempo a corrigir detalhes e a verificar a sua exatidão. O trabalho Zoológico do Governo é uma mó de moinho à volta do meu pescoço, e o artigo de Glen Roy custou-me seis semanas. Não direi, no entanto, perdido; pois, supondo que possa provar a satisfação dos outros o que convenci a mim mesmo ser o caso, a inferência penso que o senhor admitirá ser importante. Não posso duvidar que a matéria fundida sob a crosta terrestre possui um alto grau de fluidez, quase como o mar sob o gelo em bloco. A propósito, espero que me dê algum caso sueco para citar, de conchas sendo preservadas na superfície, mas não em leitos contemporâneos de cascalho...

Lembre-se do que muitas vezes o ouvi dizer: o campo é muito mau para o intelecto; as névoas escocesas apagarão algumas especulações vulcânicas. Vê que estou a fingir tornar-me muito urbano, e a desprezar os pobres camponeses, que respiram ar fresco em vez de fumaça, e veem os bons campos em vez das casas de tijolo em Marlborough Street, cuja visão confesso que detesto. Fico contente por ouvir o relatório tão favorável que dá da Associação Britânica. Fico mais contente porque tenho estado a travar as suas batalhas com Basil Hall, Stokes e vários outros, tendo decidido, pelo relatório na "Athenaeum", que deve ter sido uma reunião excelente. Diverti-me muito com um relato que recebi das guerras de Don Roderick (Murchison.) e Babbage. Que pena tão grande que o último seja tão implacável... Esta é uma carta muito confusa, pois após cada frase tomo fôlego, e o senhor precisará dele para a ler...

Desejo com todo o meu coração que o meu livro Geológico estivesse publicado. Tenho todos os motivos para trabalhar arduamente, e trabalharei, seguindo os seus passos, trabalhar apenas aquele grau de dureza para me manter bem. Gostaria que o meu volume estivesse publicado antes que a sua nova edição de 'Principles' apareça. Além da teoria dos Corais, os capítulos sobre vulcões, penso, conterão alguns fatos novos. Tenho estado ultimamente tristemente tentado a ser ocioso--isto é, no que diz respeito à geologia pura--pela quantidade deliciosa de novas visões que têm chegado espessa e firmemente--sobre a classificação, afinidades e instintos dos animais--relacionando-se com a questão das espécies. Caderno após caderno foi preenchido com fatos que começam a agrupar-se CLARAMENTE sob sub-leis.

Boa noite, meu caro Lyell. Enchi a minha carta e desfrutei da minha conversa consigo tanto quanto posso sem tê-lo in propria persona. Pense nos maus efeitos do campo--então mais uma vez boa noite.

Sempre seu, CHAS. DARWIN.

Por favor, dê novamente os meus melhores agradecimentos à Sra. Lyell.

[O registro do que ele escreveu durante o ano não dá um índice verdadeiro do trabalho mais importante que estava em curso--o lançamento das pedras fundamentais do que viria a ser a realização da sua vida. Isto é mostrado na carta anterior a Lyell, onde ele fala em estar "ocioso", e o seguinte extrato de uma carta a Fox, escrita em junho, é de interesse neste ponto de vista:

"Estou encantado por ouvir que é um homem tão bom a ponto de não ter esquecido as minhas perguntas sobre o cruzamento de animais. É o meu passatempo principal, e penso realmente que algum dia serei capaz de fazer algo nesse assunto tão intrincado, espécies e variedades."]

1839-1841.

[No inverno de 1839 (29 de janeiro) o meu pai casou-se com a sua prima, Emma Wedgwood. (Filha de Josiah Wedgwood de Maer, e neta do fundador das Olarias de Etruria.) A casa em que viveram durante os primeiros anos da sua vida de casados, n.º 12 Upper Gower Street, era uma pequena casa londrina comum, com uma sala de estar à frente e uma sala pequena atrás, onde viviam por causa da tranquilidade. Nos anos posteriores, o meu pai costumava rir-se da beleza superlativa do mobiliário, tapetes, etc., da casa de Gower Street. A única característica redentora era um jardim melhor do que a maioria das casas de Londres tem, uma faixa tão larga como a casa e trinta metros de comprimento. Mesmo este pequeno espaço de relva suja tornou a sua casa londrina mais tolerável para os seus dois habitantes criados no campo.

Da sua vida em Londres, ele escreve a Fox (outubro de 1839): "Estamos a viver uma vida de extrema tranquilidade; Delamere em si, que descreve como um local tão isolado, é, garanto-lhe, bastante dissipada em comparação com Gower Street. Desistimos de todas as festas, pois não convêm a nenhum de nós; e se se está tranquilo em Londres, não há nada como a sua tranquilidade--há uma grandiosidade nas suas névoas esfumaçadas e nos sons distantes e abafados de táxis e carruagens; de fato, pode perceber que me estou a tornar um londrino de gema, e gloria-me pensar que estarei aqui durante os próximos seis meses."

As entradas de problemas de saúde no Diário aumentam em número durante estes anos e, consequentemente, as férias tornam-se mais longas e frequentes. De 26 de abril a 13 de maio de 1839, esteve em Maer e Shrewsbury. Novamente, de 23 de agosto a 2 de outubro, esteve fora de Londres, em Maer, Shrewsbury e em Birmingham para a reunião da Associação Britânica.

A entrada em agosto de 1839 é: "Durante a minha visita a Maer, li um pouco, senti-me muito mal e escandalosamente ocioso. Tirei este bom proveito, que NADA é tão intolerável quanto a ociosidade."

No final de 1839 nasceu o seu filho mais velho, e foi então que começou as suas observações, posteriormente publicadas em 'Expression of the Emotions'. O seu livro sobre este assunto, e o breve artigo publicado em 'Mind' (julho de 1877), mostram quão atentamente observou o seu filho. Parece ter ficado surpreendido com os seus próprios sentimentos por um bebê, pois escreveu a Fox (julho de 1840): "Ele [i.e. o bebê] é tão encantador que não posso pretender qualquer modéstia. Desafio qualquer pessoa a adular-nos sobre o nosso bebê, pois desafio qualquer um a dizer algo em seu louvor de que não estejamos plenamente conscientes... Não tinha a menor concepção de que houvesse tanto num bebê de cinco meses. Perceberá por isto que tenho um bom grau de fervor paternal."

Durante estes anos trabalhou de forma intermitente em 'Coral Reefs', sendo constantemente interrompido por problemas de saúde. Assim, fala em "recomeçar" o assunto em fevereiro de 1839, e novamente em outubro do mesmo ano, e mais uma vez em julho de 1841, "após mais de treze meses de intervalo". O seu outro trabalho científico consistiu numa contribuição para a Sociedade Geológica ('Geol. Soc. Proc.' iii. 1842, e 'Geol. Soc. Trans.' vi), sobre os pedregulhos e o "till" da América do Sul, bem como alguns outros artigos menores sobre assuntos geológicos. Trabalhou também ativamente na parte ornitológica da Zoologia do "Beagle", i.e., a nota sobre os hábitos e áreas de distribuição das aves que foram descritas por Gould.]

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Quarta-feira de manhã [fevereiro de 1840].

Meu caro Lyell,

Muito obrigado pela sua amável nota. Mandarei buscar o "Scotsman". O Dr. Holland acha que descobriu o que há de errado comigo e agora espera que possa me colocar em movimento novamente. Não é mortificante? Já se passaram nove semanas desde que fiz um dia inteiro de trabalho, e não mais do que quatro meios-dias. Mas não vou mais reclamar, embora seja um esforço árduo evitar fazê-lo. Desde que recebi sua nota, li meu capítulo sobre corais e concluo que estou pronto para defender quase tudo; ele está escrito de forma muito mais cautelosa e precisa do que eu pensava. Eu havia colocado meu coração em ter meu volume concluído antes da sua nova edição, mas, pode acreditar, não para que você notasse algo novo nele (pois há muito pouco além de detalhes), mas você é o único homem na Europa cuja opinião sobre a veracidade geral de um argumento um tanto difícil eu estaria sempre muito ansioso para ouvir. Meu manuscrito está em tal confusão, caso contrário, tenho certeza de que você teria olhado de bom grado, se tivesse valido a pena, para qualquer parte que escolhesse...

[Em uma carta a Fox (janeiro de 1841), ele mostra que seu "trabalho sobre as Espécies" ainda ocupava sua mente:--

"Se você se interessa de alguma forma pela História Natural, envio-lhe este P.S. como um lembrete de que continuo a coletar todos os tipos de fatos sobre 'Variedades e Espécies', para o meu trabalho de um dia que terá esse título; as menores contribuições são aceitas com gratidão; descrições da prole de todos os cruzamentos entre todas as aves e animais domésticos, cães, gatos, etc., etc., são muito valiosas. Não se esqueça, se seu gato africano mestiço morrer, de que ficaria muito grato se sua carcaça fosse enviada em uma pequena cesta para o esqueleto; ele, ou quaisquer pombos, aves, patos, etc., etc., cruzados, serão mais aceitáveis do que a melhor perna de veado, ou a melhor tartaruga."]

Mais tarde, naquele ano (setembro), ele escreve a Fox sobre sua saúde e também com referência ao seu plano de mudar-se para o campo:--

"Tenho recuperado terreno constantemente e realmente acredito agora que um dia serei bastante forte. Escrevo diariamente por algumas horas em meu volume sobre corais e faço uma pequena caminhada ou passeio a cavalo todos os dias. Fico muito cansado à noite e não consigo sair nesse horário, ou quase não consigo receber meus parentes mais próximos; mas minha vida deixa de ser um fardo agora que posso fazer algo. Estamos tomando medidas para deixar Londres e morar a cerca de vinte milhas de distância, em alguma ferrovia."]

1842.

[O registro de trabalho inclui seu volume sobre 'Recifes de Coral' (Um aviso sobre o trabalho de Recifes de Coral apareceu no Geograph. Soc. Journal, xii., página 115.), cujo manuscrito foi finalmente enviado aos impressores em janeiro deste ano, e a última prova corrigida em maio. Ele escreve assim sobre o trabalho em seu diário:--

"Comecei este trabalho há três anos e sete meses. Desse período, cerca de vinte meses (além do trabalho durante a viagem do "Beagle") foram gastos nele, e além disso, compilei apenas a parte das Aves da Zoologia; o Apêndice do Diário, artigo sobre Pedregulhos, e corrigi artigos sobre Glen Roy e terremotos, leitura sobre espécies, e o resto todo perdido por doença."]

Em maio e junho ele esteve em Shrewsbury e Maer, de onde partiu para fazer a pequena viagem pelo País de Gales, da qual falou em suas 'Recordações', e cujos resultados foram publicados como "Notas sobre os efeitos produzidos pelas antigas geleiras de Caernarvonshire, e sobre os Pedregulhos transportados por gelo flutuante." ('Philosophical Magazine', 1842, página 352.)

O Sr. Archibald Geikie fala deste artigo como estando "quase no topo da longa lista de contribuições inglesas para a história da Idade do Gelo." (Charles Darwin, série 'Nature', página 23.)

A última parte deste ano pertence ao período que inclui o assentamento em Down e, portanto, é tratada em outro capítulo.]

CAPÍTULO 1.VIII. -- RELIGIÃO.

[A história desta parte da vida de meu pai pode justamente incluir alguma menção às suas visões religiosas. Pois embora, como ele aponta, não tenha dado pensamento sistemático contínuo às questões religiosas, sabemos por suas próprias palavras que, por volta desta época (1836-39), o assunto estava muito presente em sua mente.]

Em suas obras publicadas, ele foi reticente sobre a questão da religião, e o que ele deixou sobre o assunto não foi escrito com o intuito de publicação. (Como exceção, pode-se mencionar algumas palavras de concordância com o livro 'Truths for the Times' do Dr. Abbot, que meu pai permitiu que fossem publicadas no "Index".)

Acredito que sua reticência decorreu de várias causas. Ele sentia fortemente que a religião de um homem é uma questão essencialmente privada, e que diz respeito apenas a ele mesmo. Isso é indicado pelo seguinte trecho de uma carta de 1879:-- (Endereçada ao Sr. J. Fordyce e publicada por ele em seu 'Aspects of Scepticism', 1883.)

"Quais possam ser minhas próprias visões é uma questão de nenhuma consequência para ninguém além de mim mesmo. Mas, como você pergunta, posso declarar que meu julgamento frequentemente flutua... Em minhas flutuações mais extremas, nunca fui um ateu no sentido de negar a existência de um Deus. Acho que, geralmente (e cada vez mais à medida que envelheço), mas nem sempre, que agnóstico seria a descrição mais correta do meu estado de espírito."

Ele naturalmente evitava ferir as sensibilidades dos outros em questões religiosas, e também era influenciado pela consciência de que um homem não deveria publicar sobre um assunto ao qual não dedicou pensamento especial e contínuo. Que ele sentia que essa cautela se aplicava a si mesmo na questão da religião é mostrado em uma carta ao Dr. F.E. Abbot, de Cambridge, EUA (6 de setembro de 1871). Depois de explicar que a fraqueza decorrente de sua má saúde o impedia de se sentir "à altura de uma reflexão profunda sobre o assunto mais profundo que pode preencher a mente de um homem", ele continua dizendo: "Com relação às minhas notas anteriores para você, esqueci completamente o seu conteúdo. Tenho que escrever muitas cartas e posso refletir pouco sobre o que escrevo; mas acredito e espero plenamente que nunca tenha escrito uma palavra que, na época, eu não pensasse; mas acho que você concordará comigo que qualquer coisa que deva ser dada ao público deve ser maduramente ponderada e cautelosamente colocada. Nunca me ocorreu que você desejaria imprimir qualquer trecho das minhas notas: se tivesse ocorrido, eu teria guardado uma cópia. Coloquei 'privado' por hábito, apenas parcialmente adquirido, pelo fato de algumas notas apressadas minhas terem sido impressas, as quais não valiam minimamente a pena serem impressas, embora não fossem de outra forma censuráveis. É simplesmente ridículo supor que minha nota anterior para você valeria a pena ser enviada de volta para mim, com qualquer parte marcada que você deseje imprimir; mas se você quiser fazê-lo, direi imediatamente se teria alguma objeção. Sinto-me, em certo grau, relutante em me expressar publicamente sobre assuntos religiosos, pois não sinto que tenha pensado profundamente o suficiente para justificar qualquer publicidade."

Posso também citar outra carta ao Dr. Abbot (16 de novembro de 1871), na qual meu pai apresenta mais detalhadamente suas razões para não se sentir competente para escrever sobre assuntos religiosos e morais:--

"Posso dizer com total verdade que me sinto honrado pelo seu pedido de que eu me torne um colaborador do "Index", e sou muito grato pelo rascunho. Subscrevo também, plenamente, a proposição de que é dever de todos espalhar o que acreditam ser a verdade; e o honro por fazê-lo com tanta devoção e zelo. Mas não posso atender ao seu pedido pelas seguintes razões; e perdoe-me por apresentá-las com alguns detalhes, pois eu ficaria muito triste se parecesse indelicado aos seus olhos. Minha saúde é muito fraca: NUNCA passo 24 horas sem muitas horas de desconforto, quando não posso fazer absolutamente nada. Assim, perdi também dois meses inteiros consecutivos nesta temporada. Devido a essa fraqueza, e à minha cabeça estar frequentemente zonza, sou incapaz de dominar novos assuntos que exijam muito pensamento, e só posso lidar com materiais antigos. Em nenhum momento sou um pensador ou escritor rápido: tudo o que fiz na ciência foi unicamente através de longas ponderações, paciência e indústria.

"Ora, nunca pensei muito sistematicamente sobre religião em relação à ciência, ou sobre moral em relação à sociedade; e sem manter constantemente minha mente sobre tais assuntos por um LONGO período, sou realmente incapaz de escrever qualquer coisa que valha a pena enviar ao 'Index'."

Ele foi convidado mais de uma vez a dar suas opiniões sobre religião e, via de regra, não tinha objeções em fazê-lo em uma carta particular. Assim, em resposta a um estudante holandês, escreveu (2 de abril de 1873):--

"Tenho certeza de que você desculpará minha longa escrita quando lhe disser que há muito tempo não tenho boa saúde e agora estou longe de minha casa para descansar.

"É impossível responder à sua pergunta brevemente; e não tenho certeza de que conseguiria fazê-lo, mesmo que escrevesse longamente. Mas posso dizer que a impossibilidade de conceber que este universo grandioso e maravilhoso, com nossos eus conscientes, tenha surgido por acaso, parece-me o principal argumento para a existência de Deus; mas se este é um argumento de valor real, nunca fui capaz de decidir. Estou ciente de que, se admitirmos uma causa primeira, a mente ainda anseia por saber de onde ela veio e como surgiu. Nem posso ignorar a dificuldade da imensa quantidade de sofrimento no mundo. Sou, também, levado a ceder até certo ponto ao julgamento dos muitos homens capazes que acreditaram plenamente em Deus; mas aqui, novamente, vejo quão pobre é esse argumento. A conclusão mais segura parece-me ser que todo o assunto está além do alcance do intelecto humano; mas o homem pode cumprir seu dever."

Novamente em 1879, foi procurado por um estudante alemão, de maneira semelhante. A carta foi respondida por um membro da família de meu pai, que escreveu:--

"O Sr. Darwin pede-me para dizer que ele recebe tantas cartas que não consegue responder a todas.

"Ele considera que a teoria da Evolução é perfeitamente compatível com a crença em um Deus; mas que você deve lembrar que diferentes pessoas têm diferentes definições do que querem dizer com Deus."

Isso, no entanto, não satisfez o jovem alemão, que escreveu novamente para meu pai e recebeu dele a seguinte resposta:--

"Estou muito ocupado, sou um homem velho e com a saúde debilitada, e não posso dispor de tempo para responder às suas perguntas detalhadamente – nem, na verdade, podem ser respondidas. A ciência não tem nada a ver com Cristo, exceto na medida em que o hábito da pesquisa científica torna um homem cauteloso ao admitir evidências. Por mim, não acredito que tenha havido qualquer revelação. Quanto a uma vida futura, cada homem deve julgar por si mesmo entre probabilidades vagas e conflitantes."

As passagens que se seguem são trechos, um tanto abreviados, de uma parte da Autobiografia, escrita em 1876, na qual meu pai dá a história de suas visões religiosas:--

"Durante estes dois anos (outubro de 1836 a janeiro de 1839) fui levado a pensar muito sobre religião. Enquanto estava a bordo do 'Beagle', eu era bastante ortodoxo, e lembro-me de ser sinceramente ridicularizado por vários oficiais (embora eles próprios ortodoxos) por citar a Bíblia como uma autoridade inquestionável em algum ponto de moralidade. Suponho que foi a novidade do argumento que os divertiu. Mas eu tinha chegado gradualmente a essa altura, isto é, de 1836 a 1839, a ver que não se podia confiar no Antigo Testamento mais do que nos livros sagrados dos hindus. A questão então surgiu continuamente diante da minha mente e não podia ser banida – é crível que, se Deus fosse agora fazer uma revelação aos hindus, Ele permitiria que ela fosse conectada com a crença em Vishnu, Siva, etc., como o Cristianismo é conectado com o Antigo Testamento? Isso me pareceu totalmente inacreditável.

"Refletindo ainda que a evidência mais clara seria necessária para fazer qualquer homem são acreditar nos milagres pelos quais o Cristianismo é sustentado – e que quanto mais sabemos das leis fixas da natureza, mais inacreditáveis se tornam os milagres – que os homens daquela época eram ignorantes e crédulos a um grau quase incompreensível para nós – que os Evangelhos não podem ser provados como tendo sido escritos simultaneamente com os eventos – que eles diferem em muitos detalhes importantes, importantes demais, como me parecia, para serem admitidos como as imprecisões usuais de testemunhas oculares; – por reflexões como estas, que apresento não como tendo a menor novidade ou valor, mas como me influenciaram, gradualmente deixei de acreditar no Cristianismo como uma revelação divina. O fato de que muitas religiões falsas se espalharam por grandes partes da terra como fogo em palha teve algum peso comigo.

"Mas eu estava muito relutante em desistir da minha crença; sinto certeza disso, pois posso muito bem me lembrar de, muitas e muitas vezes, inventar devaneios de antigas cartas entre romanos distintos, e manuscritos sendo descobertos em Pompeia ou em outro lugar, que confirmavam da maneira mais impressionante tudo o que estava escrito nos Evangelhos. Mas achei cada vez mais difícil, com liberdade dada à minha imaginação, inventar evidências que bastassem para me convencer. Assim, a descrença rastejou sobre mim a uma taxa muito lenta, mas foi, por fim, completa. A taxa foi tão lenta que não senti nenhuma aflição.

"Embora eu não tenha pensado muito sobre a existência de um Deus pessoal até um período consideravelmente mais tardio da minha vida, darei aqui as conclusões vagas às quais fui conduzido. O antigo argumento do design na Natureza, como apresentado por Paley, que anteriormente me parecia tão conclusivo, falha agora que a lei da seleção natural foi descoberta. Não podemos mais argumentar que, por exemplo, a bela dobradiça de uma concha bivalve deve ter sido feita por um ser inteligente, como a dobradiça de uma porta pelo homem. Parece não haver mais design na variabilidade dos seres orgânicos, e na ação da seleção natural, do que no curso que o vento sopra. Mas discuti este assunto no final do meu livro sobre as 'Variações de Animais e Plantas Domesticados' (Meu pai pergunta se devemos acreditar que as formas são preordenadas dos fragmentos quebrados de rocha que caíram de um precipício e que são ajustados pelo homem para construir suas casas. Se não, por que deveríamos acreditar que as variações dos animais ou plantas domésticas são preordenadas para o benefício do criador? "Mas se abandonamos o princípio em um caso... nenhuma sombra de razão pode ser atribuída à crença de que as variações, semelhantes na natureza e resultado das mesmas leis gerais, que têm sido a base através da seleção natural da formação dos animais mais perfeitamente adaptados do mundo, o homem incluído, foram intencional e especialmente guiadas."-- 'The Variation of Animals and Plants', 1ª Edição, volume ii, página 431.--F.D.), e o argumento ali apresentado nunca foi, até onde vejo, respondido.

"Mas deixando de lado as infinitas adaptações belas que encontramos em toda parte, pode-se perguntar como o arranjo geralmente benéfico do mundo pode ser explicado? Alguns escritores, de fato, ficam tão impressionados com a quantidade de sofrimento no mundo que duvidam, se olharmos para todos os seres sencientes, se há mais miséria ou felicidade; se o mundo como um todo é bom ou mau. De acordo com meu julgamento, a felicidade prevalece decididamente, embora isso fosse muito difícil de provar. Se a verdade desta conclusão for concedida, ela se harmoniza bem com os efeitos que poderíamos esperar da seleção natural. Se todos os indivíduos de qualquer espécie sofressem habitualmente em um grau extremo, negligenciariam propagar sua espécie; mas não temos razão para acreditar que isso tenha ocorrido, ou pelo menos não frequentemente. Algumas outras considerações, aliás, levam à crença de que todos os seres sencientes foram formados de modo a desfrutar, como regra geral, da felicidade.

"Todo aquele que acredita, como eu, que todos os órgãos corpóreos e mentais (exceto aqueles que não são nem vantajosos nem desvantajosos para o possuidor) de todos os seres foram desenvolvidos através da seleção natural, ou a sobrevivência do mais apto, juntamente com o uso ou hábito, admitirá que esses órgãos foram formados para que seus possuidores possam competir com sucesso com outros seres, e assim aumentar em número. Ora, um animal pode ser levado a seguir o curso de ação que é mais benéfico para a espécie pelo sofrimento, como dor, fome, sede e medo; ou pelo prazer, como no comer e beber, e na propagação da espécie, etc.; ou por ambos os meios combinados, como na busca por alimento. Mas a dor ou o sofrimento de qualquer tipo, se continuado por muito tempo, causa depressão e diminui o poder de ação, embora seja bem adaptado para fazer uma criatura proteger-se contra qualquer mal grande ou súbito. Sensações prazerosas, por outro lado, podem ser prolongadas sem qualquer efeito depressivo; pelo contrário, estimulam todo o sistema para uma ação aumentada. Daí aconteceu que a maioria ou todos os seres sencientes foram desenvolvidos de tal maneira, através da seleção natural, que sensações prazerosas servem como seus guias habituais. Vemos isso no prazer do esforço, mesmo ocasionalmente do grande esforço do corpo ou da mente – no prazer de nossas refeições diárias, e especialmente no prazer derivado da sociabilidade e de amar nossas famílias. A soma de prazeres como estes, que são habituais ou frequentemente recorrentes, confere, como dificilmente posso duvidar, à maioria dos seres sencientes um excesso de felicidade sobre a miséria, embora muitos sofram muito ocasionalmente. Tal sofrimento é perfeitamente compatível com a crença na Seleção Natural, que não é perfeita em sua ação, mas tende apenas a tornar cada espécie tão bem-sucedida quanto possível na batalha pela vida com outras espécies, em circunstâncias maravilhosamente complexas e mutáveis.

"Que há muito sofrimento no mundo, ninguém contesta. Alguns tentaram explicar isso com referência ao homem, imaginando que serve para seu aperfeiçoamento moral. Mas o número de homens no mundo é nada comparado com o de todos os outros seres sencientes, e eles frequentemente sofrem muito sem qualquer aperfeiçoamento moral. Este argumento muito antigo da existência do sofrimento contra a existência de uma Causa Primeira inteligente parece-me um argumento forte; ao passo que, como acabei de observar, a presença de muito sofrimento concorda bem com a visão de que todos os seres orgânicos foram desenvolvidos através da variação e da seleção natural.

"Hoje em dia, o argumento mais comum para a existência de um Deus inteligente é extraído da profunda convicção interior e dos sentimentos experimentados pela maioria das pessoas."

"Anteriormente, eu era levado por sentimentos como os que acabo de mencionar (embora não creia que o sentimento religioso tenha sido alguma vez fortemente desenvolvido em mim) à firme convicção da existência de Deus e da imortalidade da alma. No meu Diário, escrevi que, ao encontrar-me em meio à grandeza de uma floresta brasileira, "não é possível dar uma ideia adequada dos sentimentos mais elevados de assombro, admiração e devoção que preenchem e elevam a mente". Recordo-me bem da minha convicção de que existe no homem algo mais do que o mero sopro do seu corpo. Mas, agora, as cenas mais grandiosas não fariam tais convicções e sentimentos surgir na minha mente. Pode dizer-se, verdadeiramente, que sou como um homem que se tornou daltónico, e a crença universal dos homens na existência do vermelho faz com que a minha atual perda de perceção não tenha o menor valor como evidência. Este argumento seria válido se todos os homens de todas as raças tivessem a mesma convicção interior da existência de um só Deus; mas sabemos que isso está muito longe de ser o caso. Portanto, não consigo ver que tais convicções e sentimentos interiores tenham qualquer peso como evidência do que realmente existe. O estado de espírito que as cenas grandiosas outrora despertavam em mim, e que estava intimamente ligado a uma crença em Deus, não diferia essencialmente daquele que é frequentemente chamado de sentido do sublime; e por mais difícil que seja explicar a génese deste sentido, dificilmente pode ser apresentado como um argumento a favor da existência de Deus, tanto quanto os poderosos, embora vagos e semelhantes sentimentos despertados pela música.

"No que diz respeito à imortalidade, nada me mostra [tão claramente] quão forte e quase instintiva é tal crença, como a consideração da visão atualmente sustentada pela maioria dos físicos, a saber, a de que o sol, com todos os planetas, acabará por se tornar demasiado frio para a vida, a menos, é claro, que algum grande corpo colida com o sol, dando-lhe assim nova vida. Acreditando, como acredito, que o homem num futuro distante será uma criatura muito mais perfeita do que é agora, é um pensamento intolerável que ele e todos os outros seres sencientes estejam condenados à aniquilação completa após um progresso tão longo e lento. Para aqueles que admitem plenamente a imortalidade da alma humana, a destruição do nosso mundo não parecerá tão terrível.

"Outra fonte de convicção na existência de Deus, ligada à razão e não aos sentimentos, impressiona-me como tendo muito mais peso. Isto decorre da extrema dificuldade, ou melhor, impossibilidade, de conceber este imenso e maravilhoso universo, incluindo o homem com a sua capacidade de olhar muito para trás e muito para o futuro, como o resultado de um acaso cego ou da necessidade. Ao refletir assim, sinto-me compelido a olhar para uma Causa Primeira que possua uma mente inteligente, em algum grau análoga à do homem; e mereço ser chamado de Teísta. Esta conclusão era forte na minha mente por volta da época, tanto quanto me lembro, em que escrevi a 'Origem das Espécies'; e foi desde essa altura que, muito gradualmente, com muitas flutuações, se tornou mais fraca. Mas então surge a dúvida: pode a mente do homem, que, como acredito piamente, foi desenvolvida a partir de uma mente tão baixa quanto a possuída pelos animais mais inferiores, ser de confiança quando tira conclusões tão grandiosas?

"Não posso pretender lançar a mínima luz sobre problemas tão abstrusos. O mistério do começo de todas as coisas é insolúvel para nós; e eu, pela minha parte, devo contentar-me em permanecer um Agnóstico."

[As cartas seguintes repetem, até certo ponto, o que foi apresentado na Autobiografia. A primeira refere-se a 'Os Limites da Ciência, um Diálogo', publicado na 'Macmillan's Magazine', de julho de 1861.]

CHARLES DARWIN PARA A SRTA. JULIA WEDGWOOD. 11 de julho [1861].

Alguém nos enviou a 'Macmillan'; e devo dizer-lhe o quanto admiro o seu Artigo; embora, ao mesmo tempo, deva confessar que não consegui seguir claramente o seu raciocínio em algumas partes, o que provavelmente se deve, em grande parte, ao facto de eu não estar nada habituado a linhas de pensamento metafísico. Penso que compreende o meu livro (A 'Origem das Espécies') perfeitamente, o que considero um acontecimento muito raro com os meus críticos. As ideias na última página cruzaram vagamente a minha mente várias vezes. Graças a vários correspondentes, fui levado ultimamente a pensar, ou melhor, a tentar pensar, sobre alguns dos pontos principais discutidos por si. Mas o resultado foi, para mim, um labirinto — algo semelhante a pensar sobre a origem do mal, a que alude. A mente recusa-se a olhar para este universo, sendo o que é, sem ter sido projetado; contudo, onde mais se esperaria um projeto, isto é, na estrutura de um ser senciente, quanto mais penso sobre o assunto, menos provas de um projeto consigo ver. Asa Gray e alguns outros encaram cada variação, ou pelo menos cada variação benéfica (que A. Gray compararia com as gotas de chuva (A metáfora da gota de chuva do Dr. Gray ocorre no Ensaio 'Darwin e os seus Críticos' ('Darwiniana', página 157): "Toda a vida animada de um país depende absolutamente da vegetação, a vegetação da chuva. A humidade é fornecida pelo oceano, é elevada pelo calor do sol da superfície do oceano e é levada para o interior pelos ventos. Mas quantas gotas de chuva não caem de volta ao oceano — estão tão sem uma causa final quanto as variações incipientes que não dão em nada! Segue-se, portanto, que as chuvas que são concedidas ao solo com tal regra e regularidade média não foram projetadas para sustentar a vida vegetal e animal?") que não caem no mar, mas na terra para a fertilizar) como tendo sido providencialmente projetadas. Contudo, quando lhe pergunto se ele encara cada variação no pombo-das-rochas, através da qual o homem criou, por acumulação, um pombo-papa-vento ou um pombo-cauda-de-leque, como providencialmente projetada para o divertimento do homem, ele não sabe o que responder; e se ele, ou qualquer outro, admite [que] estas variações são acidentais, no que diz respeito ao propósito (claro, não acidentais quanto à sua causa ou origem); então não vejo razão pela qual ele deva classificar as variações acumuladas pelas quais o pica-pau, maravilhosamente adaptado, foi formado, como providencialmente projetadas. Pois seria fácil imaginar o papo aumentado do papa-vento, ou a cauda do cauda-de-leque, como tendo alguma utilidade para as aves, num estado de natureza, com hábitos de vida peculiares. Estas são as considerações que me perplexam sobre o projeto; mas se se interessará por ouvi-las, não sei...

[Sobre o assunto do projeto, ele escreveu (julho de 1860) ao Dr. Gray:

"Mais uma palavra sobre 'leis projetadas' e 'resultados não projetados'. Vejo uma ave que quero para comida, pego na minha arma e mato-a; faço isto PROJETADAMENTE. Um homem inocente e bom está sob uma árvore e é morto por um relâmpago. Acredita (e eu gostaria realmente de saber) que Deus matou este homem PROJETADAMENTE? Muitas ou a maioria das pessoas acredita nisto; eu não posso nem acredito. Se acredita nisso, acredita que quando uma andorinha apanha um mosquito, Deus projetou que aquela andorinha específica apanhasse aquele mosquito específico naquele instante específico? Acredito que o homem e o mosquito estão na mesma situação. Se a morte nem do homem nem do mosquito é projetada, não vejo qualquer boa razão para acreditar que o seu PRIMEIRO nascimento ou produção deva ser necessariamente projetado."]

CHARLES DARWIN PARA W. GRAHAM. Down, 3 de julho de 1881.

Caro Senhor,

Espero que não considere intrusivo da minha parte agradecer-lhe sinceramente pelo prazer que obtive ao ler o seu admiravelmente escrito 'Credo da Ciência', embora ainda não o tenha terminado completamente, pois, agora que estou velho, leio muito lentamente. Há muito tempo que nenhum outro livro me interessava tanto. A obra deve ter-lhe custado vários anos e muito trabalho árduo, com total lazer para o trabalho. Provavelmente não esperaria que alguém concordasse totalmente consigo em tantos assuntos abstrusos; e há alguns pontos no seu livro que não consigo digerir. O principal é que a existência das chamadas leis naturais implica um propósito. Não consigo ver isso. Sem mencionar que muitos esperam que as várias grandes leis sejam, um dia, inevitavelmente deduzidas de uma única lei, ainda assim, tomando as leis como as conhecemos agora, e olhando para a lua, onde a lei da gravitação — e sem dúvida a da conservação da energia, a da teoria atómica, etc. etc. — se mantém válida, não consigo ver que exista então, necessariamente, qualquer propósito. Haveria propósito se apenas os organismos mais baixos, desprovidos de consciência, existissem na lua? Mas não tenho prática em raciocínio abstrato, e posso estar totalmente enganado. No entanto, expressou a minha convicção interior, embora de forma muito mais vívida e clara do que eu poderia ter feito, de que o Universo não é o resultado do acaso. (O Duque de Argyll ('Good Words', abril de 1885, página 244) registou algumas palavras sobre este assunto, ditas pelo meu pai no último ano da sua vida. "...no decorrer dessa conversa, disse ao Sr. Darwin, referindo-me a algumas das suas notáveis obras sobre a 'Fertilização das Orquídeas', sobre as 'Minhocas' e várias outras observações que ele fez acerca dos engenhos maravilhosos para certos propósitos na natureza — disse que era impossível olhar para estes sem ver que eram o efeito e a expressão de uma mente. Nunca esquecerei a resposta do Sr. Darwin. Ele olhou para mim com muita firmeza e disse: 'Bem, isso ocorre-me frequentemente com força avassaladora; mas, noutras ocasiões', e abanou a cabeça vagamente, acrescentando, 'parece desaparecer'.) Mas, então, surge sempre em mim a terrível dúvida se as convicções da mente humana, que foi desenvolvida a partir da mente dos animais inferiores, têm qualquer valor ou são, de todo, fiáveis. Alguém confiaria nas convicções da mente de um macaco, se é que existem convicções nessa mente? Em segundo lugar, penso que poderia construir um caso contra a importância enorme que atribui aos nossos maiores homens; habituei-me a pensar que homens de segunda, terceira e quarta categoria têm uma importância muito elevada, pelo menos no caso da Ciência. Por último, poderia lutar pelo facto de a seleção natural ter feito e estar a fazer mais pelo progresso da civilização do que parece inclinado a admitir. Lembre-se do risco que as nações da Europa correram, não faz tantos séculos, de serem subjugadas pelos Turcos, e quão ridícula tal ideia é agora! As raças chamadas caucasianas, mais civilizadas, derrotaram completamente as turcas na luta pela existência. Olhando para o mundo num futuro não muito distante, que número infinito de raças inferiores terá sido eliminado pelas raças civilizadas superiores em todo o mundo. Mas não escreverei mais, e nem mencionarei os muitos pontos da sua obra que me interessaram muito. Tenho, de facto, motivos para pedir desculpa por incomodá-lo com as minhas impressões, e a minha única desculpa é a agitação na minha mente que o seu livro despertou.

Peço licença para permanecer, Caro Senhor, O seu fiel e obrigado, CHARLES DARWIN.

[O meu pai falava pouco sobre estes assuntos, e nada posso contribuir, da minha própria memória da sua conversa, que possa acrescentar à impressão aqui dada da sua atitude perante a Religião. Alguma ideia adicional das suas opiniões pode, contudo, ser deduzida de observações ocasionais nas suas cartas.] (O Dr. Aveling publicou um relato de uma conversa com o meu pai. Penso que os leitores deste panfleto ('As Opiniões Religiosas de Charles Darwin', Free Thought Publishing Company, 1883) podem ser induzidos em erro ao ver mais semelhança do que realmente existia entre as posições do meu pai e as do Dr. Aveling: e digo isto apesar da minha convicção de que o Dr. Aveling apresenta de forma bastante justa as suas impressões sobre as opiniões do meu pai. O Dr. Aveling tentou mostrar que os termos "Agnóstico" e "Ateu" eram praticamente equivalentes — que um ateu é alguém que, sem negar a existência de Deus, está sem Deus, na medida em que não está convencido da existência de uma Divindade. As respostas do meu pai implicavam a sua preferência pela atitude não agressiva de um Agnóstico. O Dr. Aveling parece (página 5) considerar a ausência de agressividade nas opiniões do meu pai como distinguindo-as de uma forma não essencial das suas próprias. Mas, a meu ver, são precisamente diferenças deste tipo que o distinguem tão completamente da classe de pensadores a que o Dr. Aveling pertence.)

CAPÍTULO 1.IX. -- VIDA EM DOWN.

1842-1854.

"A minha vida decorre como um relógio, e estou fixado no lugar onde a terminarei."

Carta ao Capitão Fitz-Roy, outubro de 1846.

[Com o objetivo de dar, nos capítulos seguintes, uma conta ligada do crescimento da 'Origem das Espécies', retirei as cartas mais importantes relativas a esse assunto da sua posição cronológica correta aqui, e coloquei-as com o restante da correspondência referente ao mesmo tema; de modo que, no presente grupo de cartas, apenas obtemos dicas ocasionais do crescimento das opiniões do meu pai, e podemos supor que estamos a olhar para a sua vida, tal como ela poderia ter sido vista por aqueles que não tinham conhecimento do desenvolvimento silencioso da sua teoria da evolução durante este período.]

A 14 de setembro de 1842, o meu pai deixou Londres com a sua família e estabeleceu-se em Down. (Não devo omitir mencionar um membro do agregado familiar que o acompanhou. Tratava-se do seu mordomo, Joseph Parslow, que permaneceu na família, um amigo e criado valorizado, durante quarenta anos, e tornou-se, como Sir Joseph Hooker comentou uma vez comigo, "parte integrante da família, e sentido como tal por todos os visitantes da casa".) No capítulo Autobiográfico, os seus motivos para dar este passo no campo são brevemente apresentados. Ele fala da frequência de sociedades científicas e dos deveres sociais comuns como se adequando tão "mal à sua saúde que resolvemos viver no campo, o que ambos preferíamos e de que nunca nos arrependemos". A sua intenção de acompanhar a vida científica em Londres é expressa numa carta a Fox (dezembro de 1842):--

"Espero, indo à cidade por uma noite a cada quinzena ou três semanas, manter a minha comunicação com os homens de ciência e o meu próprio zelo, e assim não me transformar num completo porco de Kent."

Visitas a Londres deste tipo foram mantidas durante alguns anos à custa de muito esforço da sua parte. Ouvi-o falar frequentemente das cansativas viagens de dez milhas de ou para Croydon ou Sydenham — as estações mais próximas — com um velho jardineiro a servir de cocheiro, que conduzia com grande cautela e lentidão para cima e para baixo das muitas colinas. Em anos posteriores, todo o contacto científico regular com Londres tornou-se, como mencionado antes, uma impossibilidade.

A escolha de Down foi mais o resultado do desespero do que de uma preferência real; o meu pai e a minha mãe estavam cansados de procurar casa, e os pontos atrativos sobre o local pareciam-lhes, assim, contrabalançar os seus defeitos um pouco mais óbvios. Tinha pelo menos um desiderato, nomeadamente o sossego. De facto, teria sido difícil encontrar um lugar mais retirado tão perto de Londres. Em 1842, uma viagem de coche de cerca de vinte milhas era o único meio de acesso a Down; e mesmo agora, que os caminhos-de-ferro se aproximaram, está singularmente fora do mundo, sem nada que sugira a vizinhança de Londres, a não ser a névoa baça de fumo que por vezes tolda o céu. A aldeia situa-se num ângulo entre duas das maiores estradas do país, uma que leva a Tunbridge e a outra a Westerham e Edenbridge. Está separada de Weald por uma linha de colinas íngremes de giz a sul, e uma colina abrupta, agora suavizada por um corte e aterro, deve ter sido, outrora, uma espécie de barreira contra as incursões do lado de Londres. Em tal situação, uma aldeia, comunicando com as principais linhas de tráfego apenas por vielas pedregosas e sinuosas, pode bem ter conseguido preservar o seu caráter retirado. Nem é difícil acreditar nos contrabandistas e nas suas filas de cavalos de carga a abrirem caminho a partir das velhas aldeias sem lei de Weald, cuja memória ainda existia quando o meu pai se estabeleceu em Down. A aldeia situa-se numa paisagem de terras altas solitárias, 500 a 600 pés acima do mar — um campo com pouca beleza natural, mas possuindo um certo charme nos bosques dispersos, ou faixas irregulares de madeira, coroando as margens calcárias e olhando para as tranquilas terras lavradas dos vales. A aldeia, de trezentos ou quatrocentos habitantes, consiste em três pequenas ruas de casas que se encontram em frente à pequena igreja construída de sílex. É um lugar onde os recém-chegados são raramente vistos, e os nomes que aparecem muito atrás nos antigos registos da igreja ainda são bem conhecidos na aldeia. A bata de trabalho não está ainda totalmente extinta, embora usada principalmente como traje cerimonial pelos "portadores" nos funerais: mas, quando rapaz, recordo-me das batas roxas ou verdes dos homens na igreja.

A casa situa-se a um quarto de milha da aldeia e é construída, como tantas casas do século passado, o mais perto possível da estrada — uma viela estreita que serpenteia até à estrada principal de Westerham. Em 1842, era bastante monótona e pouco atrativa: um edifício quadrado de tijolo de três andares, coberto com caiado de má aparência e telhas pendentes. O jardim não tinha nenhum dos arbustos ou muros que agora dão abrigo; era visto da viela, e era aberto, desolado e deserto. Um dos primeiros empreendimentos do meu pai foi baixar a viela cerca de dois pés e construir um muro de sílex ao longo da parte dela que margeava o jardim. A terra assim escavada foi usada na criação de margens e montes à volta do relvado: estes foram plantados com plantas perenes, que agora dão ao jardim o seu caráter retirado e abrigado.

A casa foi feita para parecer mais arrumada ao ser coberta com estuque, mas a principal melhoria efetuada foi a construção de uma grande arcada que se estendia por três andares. Esta arcada ficou coberta com um emaranhado de trepadeiras e variava agradavelmente o lado sul da casa. A sala de estar, com a sua varanda aberta para o jardim, bem como o escritório onde o meu pai trabalhou durante os últimos anos da sua vida, foram adicionados em datas subsequentes.

Dezoito acres de terra foram vendidos com a casa, dos quais doze acres no lado sul da casa formavam um campo agradável, salpicado de carvalhos e freixos de bom porte. Deste campo foi cortada uma faixa e convertida numa horta, onde se situava a parcela experimental de terreno, e onde as estufas foram finalmente erguidas.

A carta seguinte ao Sr. Fox (28 de março de 1843) dá, entre outras coisas, as primeiras impressões do meu pai sobre Down:--

"Contar-lhe-ei todos os pormenores triviais sobre mim que me vierem à cabeça. Estamos agora extremamente ocupados com o primeiro tijolo assentado ontem para um anexo à nossa casa; com isto, com a quase criação de uma nova horta e vários outros projetos delineados, os meus dias estão muito preenchidos. Acho tudo isto muito mau para a geologia, mas estou a progredir muito lentamente com um volume, ou melhor, um panfleto, sobre as ilhas vulcânicas que visitámos: consigo apenas dedicar-lhe um par de horas por dia e nem isso de forma muito regular. É um trabalho árduo escrever livros, que custam dinheiro a publicar e que nem sequer são lidos pelos geólogos. Esqueço-me se alguma vez descrevi este lugar: é uma casa boa, muito feia, com 18 acres, situada numa planície de giz, a 560 pés acima do nível do mar. Há vislumbres de campo distante e a paisagem é moderadamente bonita: o seu principal mérito é a sua extrema ruralidade. Creio que nunca estive num campo mais perfeitamente sossegado. Três milhas a sul de nós, a grande escarpa de giz separa-nos completamente da zona baixa de Kent, e entre nós e a escarpa não há aldeia nem casa de cavalheiro, apenas grandes bosques e campos aráveis (estes últimos em número tristemente preponderante), de modo que estamos absolutamente no extremo limite do mundo. Todo o campo é atravessado por caminhos pedonais; mas a superfície sobre o giz é argilosa e pegajosa, o que é o pior aspeto da nossa aquisição. As ravinas e as margens lembram-me frequentemente Cambridgeshire e os passeios consigo até Cherry Hinton e outros locais, embora o aspeto geral do campo seja muito diferente. Estava a rever o meu gabinete organizado (o único remanescente que preservei de todos os meus insetos ingleses) e a admirar o Panagaeus Crux-major: é curioso o modo vívido como este inseto me traz à mente a sua aparência, com a pequena Fan a trotar atrás, quando fui apresentado a si. Aqueles dias entomológicos foram muito agradáveis. Estou MUITO mais forte fisicamente, mas pouco melhor no que toca a suportar a fadiga mental, ou melhor, a excitação, pelo que não posso jantar fora nem receber visitas, exceto parentes com quem possa passar algum tempo após o jantar em silêncio."

Poderia ter desejado dar aqui alguma ideia da posição que, nesta época da sua vida, o meu pai ocupava entre os homens de ciência e o público leitor em geral. Mas as notícias contemporâneas são poucas e de nenhum valor particular para o meu propósito — o qual, portanto, tem de permanecer, apesar de muito esforço, por cumprir.

O seu 'Journal of Researches' era então o único dos seus livros que tinha alguma hipótese de ser geralmente conhecido. Mas o facto de ter sido publicado com as 'Voyages' dos Capitães King e Fitz-Roy provavelmente prejudicou a sua popularidade geral. Assim, Lyell escreveu-lhe em 1838 ('Lyell's Life', ii. página 43): "Garanto-lhe que o meu pai é bastante entusiasta acerca do seu diário... e concorda comigo que teria uma grande venda se fosse publicado separadamente. Ficou desapontado ao ouvir que ia ser acorrentado aos outros volumes, pois, embora o comprasse na mesma, receava que muitos do público se sentissem desencorajados de o fazer." Numa nota sobre as três viagens no 'Edinburgh Review' (julho de 1839), não há nada que leve um leitor a acreditar que o acharia mais atraente do que os volumes companheiros. E, de facto, não se tornou amplamente conhecido até ser publicado separadamente em 1845. Pode notar-se, contudo, que o 'Quarterly Review' (dezembro de 1839) chamou a atenção dos seus leitores para os méritos do 'Journal' como um livro de viagens. O crítico fala do "encanto que nasce da frescura de coração que é lançada sobre estas páginas virgens de um homem de intelecto forte e um observador agudo e profundo."

A tradução alemã (1844) do 'Journal' recebeu uma nota favorável no n.º 12 do 'Heidelberger Jahrbucher der Literatur', 1847 — onde o crítico fala da "tela variada do autor, na qual ele esboça com cores vivas os estranhos costumes daquelas regiões distantes com a sua notável fauna, flora e peculiaridades geológicas." Aludindo à tradução, o meu pai escreve: "O Dr. Dieffenbach... traduziu o meu 'Journal' para alemão, e devo, com imperdoável vaidade, gabar-me de que foi por instigação de Liebig e Humboldt."

O trabalho geológico de que fala na carta acima ao Sr. Fox ocupou-o durante todo o ano de 1843 e foi publicado na primavera do ano seguinte. Intitulava-se 'Geological Observations on the Volcanic Islands, visited during the voyage of H.M.S. "Beagle", together with some brief notices on the geology of Australia and the Cape of Good Hope': formava a segunda parte da 'Geology of the Voyage of the "Beagle"', publicada "com a Aprovação dos Lordes Comissários do Tesouro de Sua Majestade." O volume sobre 'Coral Reefs' constitui a Parte I da série e foi publicado, como vimos, em 1842. Em prol do leitor não geólogo, posso aqui citar as palavras do Professor Geikie (Charles Darwin, série 'Nature', 1882) sobre estes dois volumes — que eram até à data as principais obras geológicas do meu pai. Falando dos 'Coral Reefs', ele diz: página 17, "Este tratado bem conhecido, o mais original de todas as memórias geológicas do seu autor, tornou-se um dos clássicos da literatura geológica. A origem daqueles notáveis anéis de rocha coralífera em pleno oceano deu azo a muita especulação, mas nenhuma solução satisfatória para o problema tinha sido proposta. Após visitar muitos deles, e examinar também recifes de coral que marginam ilhas e continentes, ele ofereceu uma teoria que, pela sua simplicidade e grandeza, assombra qualquer leitor. É agradável, após o passar de muitos anos, recordar o prazer com que se leu pela primeira vez os 'Coral Reefs'; como se observou os factos a serem organizados nos seus lugares, nada sendo ignorado ou tratado superficialmente; e como, passo a passo, se foi levado à grande conclusão da vasta subsidência oceânica. Não foi dado ao mundo exemplo mais admirável de método científico, e mesmo que não tivesse escrito mais nada, o tratado, só por si, teria colocado Darwin na linha da frente dos investigadores da natureza."

É interessante ver no seguinte extrato de uma das cartas de Lyell (para Sir John Herschel, 24 de maio de 1837. 'Life of Sir Charles Lyell', vol. ii., página 12) quão calorosa e prontamente ele abraçou a teoria. O extrato também dá incidentalmente alguma ideia da própria teoria.

"Estou muito cheio da nova teoria de Darwin sobre as Ilhas de Coral, e instei Whewell para que o faça lê-la na nossa próxima reunião. Tenho de desistir da minha teoria da cratera vulcânica para sempre, embora me tenha custado uma angústia no início, pois explicava tanta coisa: a forma anular, a lagoa central, a subida repentina de uma montanha isolada num mar profundo; tudo se encaixava tão bem com a noção de vulcões submersos, crateriformes e cónicos... e depois o facto de que no Pacífico Sul quase não tínhamos rochas nas regiões das ilhas de coral, exceto dois tipos, calcário coralífero e vulcânico! Contudo, apesar de tudo isto, a teoria toda é deitada por terra, e a forma anular e a lagoa central nada têm a ver com vulcões, nem sequer com um fundo crateriforme. Talvez Darwin lhe tenha dito quando esteve no Cabo o que ele considera a verdadeira causa? Deixe que qualquer montanha seja submersa gradualmente, e que o coral cresça no mar em que ela se afunda, e haverá um anel de coral, e finalmente apenas uma lagoa no centro. Porquê? Pela mesma razão que um recife de barreira de coral cresce ao longo de certas costas: Austrália, etc. As ilhas de coral são os últimos esforços de continentes que se afogam para erguerem as suas cabeças acima da água. Regiões de elevação e subsidência no oceano podem ser rastreadas pelo estado dos recifes de coral." Há pouco a dizer quanto à crítica contemporânea publicada. O livro não foi revisto no 'Quarterly Review' até 1847, altura em que foi dada uma nota favorável. O crítico fala do carácter "ousado e surpreendente" da obra, mas parece reconhecer o facto de que as opiniões são geralmente aceites pelos geólogos. Por essa altura, as mentes dos homens estavam a tornar-se mais preparadas para receber a geologia deste tipo. Mesmo dez anos antes, em 1837, Lyell ('Life of Sir Charles Lyell', vol. ii., página 6) diz: "as pessoas estão agora muito mais preparadas para acreditar em Darwin quando ele apresenta provas da lenta subida dos Andes, do que estavam em 1830, quando eu as surpreendi pela primeira vez com essa doutrina." Esta frase refere-se à teoria elaborada nas observações geológicas do meu pai sobre a América do Sul (1846), mas a mudança gradual na recetividade da mente geológica deve ter sido favorável a todo o seu trabalho geológico. No entanto, Lyell parece a princípio não ter esperado qualquer aceitação pronta da teoria do Coral; assim, escreveu ao meu pai em 1837: "Não consegui pensar em nada durante dias após a sua lição sobre recifes de coral, a não ser nos topos de continentes submersos. É tudo verdade, mas não se lisonjeie pensando que será acreditado até estar a ficar careca como eu, com trabalho árduo e vexame perante a incredulidade do mundo."

A segunda parte da 'Geology of the Voyage of the "Beagle"', i.e., o volume sobre as Ilhas Vulcânicas, que nos interessa especialmente agora, não pode ser melhor descrita do que citando novamente o Professor Geikie (página 18):

"Cheia de observações detalhadas, esta obra permanece ainda a melhor autoridade sobre a estrutura geológica geral da maioria das regiões que descreve. Na época em que foi escrita, a 'teoria da cratera de elevação', embora oposta por Constant Prevost, Scrope e Lyell, era geralmente aceite, pelo menos no Continente. Darwin, contudo, não a podia aceitar como uma explicação válida dos factos; e embora não partilhasse a visão dos seus principais opositores, mas se aventurasse a propor uma hipótese própria, as observações imparcialmente feitas e descritas por ele neste volume devem ser consideradas como tendo contribuído para a solução final da dificuldade." O Professor Geikie continua (página 21): "Ele é um dos primeiros escritores a reconhecer a magnitude da denudação a que até as acumulações geológicas recentes foram sujeitas. Uma das lições mais impressionantes a aprender com o seu relato das 'Volcanic Islands' é a prodigiosa extensão a que foram denudadas... Ele estava disposto a atribuir mais deste trabalho ao mar do que a maioria dos geólogos admitiria hoje; mas viveu para modificar as suas próprias opiniões originais, e sobre este assunto as suas últimas afirmações estão perfeitamente a par do seu tempo."

Um extrato de uma carta do meu pai para Lyell mostra a sua avaliação do seu próprio trabalho. "Deixou-me muito satisfeito ao dizer que pretende dar uma vista de olhos nas minhas 'Volcanic Islands': custou-me dezoito meses!!! e ouvi falar de muito poucos que a tenham lido. Agora sentirei que, o pouco (e é pouco) que há de confirmatório de trabalho antigo, ou novo, produzirá o seu efeito e não se perderá."

O terceiro dos seus livros geológicos, 'Geological Observations on South America', pode ser mencionado aqui, embora não tenha sido publicado até 1846. "Nesta obra, o autor incorporou todos os materiais recolhidos por ele para a ilustração da Geologia Sul-Americana, exceto alguns que foram publicados noutros locais. Uma das características mais importantes do livro foi a prova que trouxe à luz para provar a lenta e interrompida elevação do Continente Sul-Americano durante um período geológico recente." (Geikie, loc. cit.)

Sobre este livro, o meu pai escreveu a Lyell: "O meu volume terá cerca de 240 páginas, terrivelmente enfadonhas, embora muito condensadas. Penso que, sempre que tiver tempo para o percorrer, achará a coleção de factos sobre a elevação da terra e a formação de terraços bastante boa."

Sobre o seu trabalho geológico especial como um todo, o Professor Geikie, ao salientar que não foi "do mesmo género de marco histórico que as suas investigações biológicas", observa que ele "deu um impulso poderoso" à receção geral do ensino de Lyell "pela forma como reuniu de todas as partes do mundo factos em seu apoio."

TRABALHO DO PERÍODO DE 1842 A 1854.

O trabalho destes anos pode ser grosseiramente dividido num período de geologia de 1842 a 1846, e um de zoologia de 1846 em diante.

Extraio do seu diário notas do tempo despendido nos seus livros geológicos e no seu 'Journal'.

'Volcanic Islands'. Verão de 1842 a janeiro de 1844.

'Geology of South America'. Julho de 1844 a abril de 1845.

Segunda Edição do 'The Journal', outubro de 1845 a outubro de 1846.

O tempo entre outubro de 1846 e outubro de 1854 foi praticamente dedicado ao trabalho com os Cirripedia (cracas); os resultados foram publicados em dois volumes pela Ray Society em 1851 e 1854. Os seus volumes sobre os Cirripedes Fósseis foram publicados pela Palaeontographical Society em 1851 e 1854.

Algum relato destes volumes será dado mais tarde.

As obras menores podem ser colocadas juntas, independentemente do tema.

"Observations on the Structure, etc., of the genus Sagitta", Ann. Nat. Hist. xiii., 1844, páginas 1-6.

"Brief descriptions of several Terrestrial Planariae, etc.", Ann. Nat. Hist. xiv., 1844, páginas 241-251.

"An Account of the Fine Dust (Uma frase ocorre neste artigo de interesse, por mostrar que o autor estava atento à importância de todos os meios de distribuição: -- "O facto de partículas deste tamanho terem sido trazidas pelo menos a 330 milhas da terra é interessante por se relacionar com a distribuição das plantas Criptogâmicas.") which often Falls on Vessels in the Atlantic Ocean", Geol. Soc. Journ. ii., 1846, páginas 26-30.

"On the Geology of the Falkland Islands", Geol. Soc. Journ. ii., 1846, páginas 267-274.

"On the Transportal of Erratic Boulders, etc.", Geol. Soc. Journ. iv., 1848, páginas 315-323. (Um extrato de uma carta para Lyell, 1847, é de interesse em ligação com este ensaio: -- "Seria tão amável (se o souber) de colocar a morada de Maclaren na carta em anexo e enviá-la. É principalmente para perguntar em que artigo ele descreveu os Blocos em Arthur's Seat. O Sr. D. Milne no último 'New Phil. Journal' de Edimburgo [1847] tem um longo artigo sobre isso. Ele diz: 'Alguns glacialistas aventuraram-se a explicar o transporte de blocos mesmo na situação daqueles agora referidos, imaginando que foram transportados em blocos de gelo', etc. Ele trata esta visão, e o arranhamento de rochas por icebergues, como quase absurdo... ele finalmente irritou-me tanto, que (a menos que você lhe responda) penso que enviarei um artigo em oposição para o mesmo Journal. Posso assim introduzir algumas observações antigas minhas, e algumas novas, e insisto nas suas excelentes observações na América do Norte. É um incómodo parar o trabalho, mas ele deixou-me bastante irritado.")

O artigo "Geology", no 'Admiralty Manual of Scientific Enquiry' (1849), páginas 156-195. Isto foi escrito na primavera de 1848.

"On British Fossil Lepadidae", 'Geol. Soc. Journ.' vi., 1850, páginas 439-440.

"Analogy of the structure of some Volcanic Rocks with that of Glaciers", 'Edin. Roy. Soc. Proc.' ii., 1851, páginas 17-18.

O Professor Geikie foi tão amável que me deu (numa carta datada de novembro de 1885) as suas impressões sobre o artigo do meu pai no 'Admiralty Manual'. Ele menciona os seguintes pontos como característicos do trabalho: --

"1. Grande amplitude de visão. Ninguém que não tivesse estudado na prática e refletido profundamente sobre as questões discutidas poderia tê-lo escrito.

"2. A perceção tão notável em tudo o que o Sr. Darwin alguma vez fez. A forma como ele aponta linhas de investigação que elucidariam problemas geológicos é eminentemente típica dele. Algumas destas linhas nunca foram adequadamente seguidas; por isso, em relação a elas, ele estava à frente do seu tempo.

"3. Tratamento interessante e compreensivo. O autor coloca imediatamente os seus leitores em harmonia consigo. Ele dá-lhes informação suficiente para mostrar quão delicioso é o campo para o qual os convida, e quanto poderiam realizar nele. Há um esboço amplo do assunto que todos podem seguir, e há detalhe suficiente para instruir e guiar um principiante e colocá-lo no caminho certo.

"Claro que a geologia deu grandes passos desde 1849, e o artigo, se fosse escrito agora, precisaria de tomar nota de outros ramos de investigação e de modificar afirmações que não são agora totalmente precisas; mas a maior parte do conselho que o Sr. Darwin dá é tão necessário e valioso agora como quando foi dado. É curioso ver com que instinto infalível ele parece ter-se agarrado aos princípios que resistiriam ao teste do tempo."

Numa carta a Lyell (1853) o meu pai escreveu: "Fui ver um artigo do Dr. Sutherland, da expedição ao Ártico, sobre a ação do gelo, lido apenas em resumo, mas julgo que com muita matéria boa. Foi muito agradável ouvir que foi escrito devido ao Admiralty Manual."

Para dar alguma ideia da vida retirada que começou agora para o meu pai em Down, anotei do seu diário os curtos períodos durante os quais esteve fora de casa entre o outono de 1842, quando chegou a Down, e o final de 1854.

1843 julho. -- Semana em Maer e Shrewsbury. outubro. -- Doze dias em Shrewsbury.

1844 abril. -- Semana em Maer e Shrewsbury. julho. -- Doze dias em Shrewsbury.

1845 15 de setembro. -- Seis semanas, "Shrewsbury, Lincolnshire, York, o Deão de Manchester, Waterton, Chatsworth."

1846 fevereiro. -- Onze dias em Shrewsbury. julho. -- Dez dias em Shrewsbury. setembro. -- Dez dias em Southampton, etc., para a Associação Britânica.

1847 fevereiro. -- Doze dias em Shrewsbury. junho. -- Dez dias em Oxford, etc., para a Associação Britânica. outubro. -- Quinze dias em Shrewsbury.

1848 maio. -- Quinze dias em Shrewsbury. julho. -- Semana em Swanage. outubro. -- Quinze dias em Shrewsbury. novembro. -- Onze dias em Shrewsbury.

1849 março a junho. -- Dezasseis semanas em Malvern. setembro. -- Onze dias em Birmingham para a Associação Britânica.

1850 junho. -- Semana em Malvern. agosto. -- Semana em Leith Hill, casa de um parente. outubro. -- Semana na casa de outro parente.

1851 março. -- Semana em Malvern. abril. -- Nove dias em Malvern. julho. -- Doze dias em Londres.

1852 março. -- Semana em Rugby e Shrewsbury. setembro. -- Seis dias na casa de um parente.

1853 julho. -- Três semanas em Eastbourne. agosto. -- Cinco dias no campo militar em Chobham.

1854 março. -- Cinco dias na casa de um parente. julho. -- Três dias na casa de um parente. outubro. -- Seis dias na casa de um parente.

Ver-se-á que esteve ausente de casa durante sessenta semanas em doze anos. Mas deve lembrar-se que muito do tempo restante passado em Down foi perdido devido à saúde debilitada.]

CARTAS.

CHARLES DARWIN PARA R. FITZ-ROY. Down [31 de março de 1843].

Caro Fitz-Roy,

Li ontem com surpresa e o maior interesse a sua nomeação como Governador da Nova Zelândia. Não sei se o devo felicitar por isso, mas tenho a certeza de que posso felicitar a Colónia por possuir o seu zelo e energia. Estou muito ansioso por saber se o relato é verdadeiro, pois não suporto a ideia de partir do país sem o ver mais uma vez; o passado está frequentemente na minha memória, e sinto que lhe devo muito gozo passado, e todo o destino da minha vida, que (tivesse a minha saúde sido mais forte) teria sido uma vida cheia de satisfação para mim. Durante os últimos três meses nunca fui a Londres sem tencionar visitar-vos, na esperança de ver a Sra. Fitz-Roy e a si; mas descobri, muito infelizmente para mim, que a pequena excitação de sair da minha rotina mais tranquila me esgota geralmente tanto, que mal consigo fazer nada quando estou em Londres, e nem sequer consegui assistir a uma reunião noturna da Sociedade Geológica. De resto, estou muito bem, tal como, graças a Deus, a minha esposa e dois filhos. A extrema reclusão deste lugar convém-nos muito bem, e desfrutamos muito da nossa vida no campo. Mas estou a escrever trivialidades sobre mim, quando a sua mente e tempo devem estar totalmente ocupados. O meu objetivo ao escrever é implorar-lhe, a si ou à Sra. Fitz-Roy, que tenham a bondade de me enviar uma linha a dizer se é verdade, e se partem em breve. Irei lá na próxima semana por um ou dois dias; poderia ver-me por cinco minutos, se eu passasse cedo na quinta-feira de manhã, isto é, às nove ou dez horas, ou à hora que (se mantiver os horários marítimos) terminar o seu pequeno-almoço. Por favor, lembre-me muito amavelmente à Sra. Fitz-Roy, que espero que seja capaz de olhar para a sua longa viagem com audácia.

Acredite, caro Fitz-Roy, seu sempre verdadeiramente obrigado, CHARLES DARWIN.

[Poderá valer a pena incluir uma citação de outra carta (1846) a Fitz-Roy, por mostrar a recordação afetuosa que o meu pai guardava do seu antigo Capitão.

"Adeus, caro Fitz-Roy, penso frequentemente nos seus muitos atos de bondade para comigo, e não poucas vezes no momento, sem dúvida já esquecido por si, em que, antes de chegarmos à Madeira, veio e arrumou a minha rede com as suas próprias mãos, o que, como soube mais tarde, levou lágrimas aos olhos do meu pai."]

CHARLES DARWIN A W.D. FOX. [Down, 5 de setembro de 1843.] Segunda-feira de manhã.

Meu caro Fox,

Quando enviei o artigo sobre os glaciares, estava de saída e, por isso, não tive tempo de escrever. Espero que o seu amigo desfrute (e oxalá fosse consigo) da sua viagem tanto como eu. Foi uma espécie de romance geológico. Mas o seu amigo terá de ter paciência, pois não obterá um bom OLHAR GLACIAL em poucos dias. Murchison e o Conde Keyserling ATRAVESSARAM o Norte do País de Gales no mesmo outono e não conseguiram ver nada, exceto os efeitos da chuva a escorrer pelas rochas! Interroguei Murchison um pouco e vi, evidentemente, que ele não tinha observado nada com atenção. Sinto-me CERTO quanto aos efeitos glaciares no Norte do País de Gales. Ganhe ânimo, se este tempo durar, e faça uma caminhada no País de Gales; a sua paisagem gloriosa deve fazer bem ao coração e ao corpo de qualquer pessoa. Quem me dera ter energia para ir a Delamere e acompanhá-lo; mas, como observa, seria o mesmo que pedir pela Catedral de S. Paulo. Sempre que me oferecer uma viagem, penso que será à Escócia, para procurar mais estradas paralelas. A minha teoria marinha para estas estradas foi, durante algum tempo, posta de parte pelo trabalho de gelo de Agassiz, mas está agora a reavivar-se...

Adeus — estamos quase a terminar — quase todos os operários foram-se embora e o cascalho está a ser colocado nos caminhos. Ave Maria! Como o dinheiro voa. Há duas vezes mais tentações para a extravagância no campo do que em Londres. Adios.

Seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down [1844?].

...Li também os 'Vestígios' ('Os Vestígios da História Natural da Criação' foi publicado anonimamente em 1844 e acredita-se convictamente ter sido escrito pelo falecido Robert Chambers. O exemplar do meu pai mostra sinais de ter sido lido cuidadosamente, com uma longa lista de passagens marcadas presa no fim. Uma lição útil parece ter ele aprendido com o livro. Escreve: "A ideia de um peixe que se transforma num réptil, monstruosa. Não especificarei quaisquer genealogias — muito pouco conhecidas atualmente.") mas diverti-me um pouco menos com ele do que o senhor parece ter-se divertido: a escrita e a organização são certamente admiráveis, mas a sua geologia parece-me má, e a sua zoologia ainda pior. Ficar-lhe-ia muito grato se, em qualquer altura futura ou de lazer, me pudesse dizer em que baseia a sua crença duvidosa na afetação da descendência pela imaginação da mãe. (Isto refere-se ao caso de uma parente de Sir J. Hooker, que insistia que um sinal que apareceu num dos seus filhos era o efeito de um susto que ela própria apanhara ao ter, antes do nascimento da criança, manchado com sépia um exemplar do 'Liber Studiorum' de Turner, que lhe fora emprestado com ordens especiais para ter cuidado.) Tenho prestado atenção às várias afirmações dispersas, mas não acredito em nada mais do que coincidências acidentais. W. Hunter disse ao meu pai, que se encontrava então numa maternidade, que em muitos milhares de casos perguntou à mãe, ANTES DO PARTO, se algo tinha afetado a sua imaginação, e registou as respostas; e absolutamente nenhum caso se confirmou, embora, quando a criança tinha algo de notável, inventassem depois a explicação. A reprodução parece ser governada por leis tão semelhantes em todo o reino animal, que estou muito relutante [em acreditar]...

CHARLES DARWIN A J.M. HERBERT. Down [1844 ou 1845].

Meu caro Herbert,

Fiquei muito contente por ver a sua letra e saber um pouco de notícias suas. Embora não possa vir aqui este outono, espero que o senhor e a Sra. Herbert venham no inverno, e teremos muitas conversas sobre os velhos tempos e muito Beethoven.

Tenho pouco ou, melhor dizendo, nada a dizer sobre mim; vivemos como um relógio e da maneira que a maioria das pessoas consideraria a mais monótona possível. Ultimamente tenho trabalhado arduamente, para grande desconforto dos meus míseros órgãos digestivos, na América do Sul e, graças a todos os destinos, terminei três quartos do trabalho. Escrever um inglês simples torna-se para mim cada vez mais difícil, e nunca atingível. Quanto a pretender que lerá algo tão aborrecido como as minhas puras descrições geológicas, não me aplique tal pomada lisonjeira na alma (Sobre o mesmo assunto escreveu a Fitz-Roy: "Enviei a minha 'Geologia da América do Sul' para Dover Street, e recebê-la-á, sem dúvida, com o decorrer do tempo. Não sabe o que ameaça quando se propõe a lê-la — é puramente geológica. Disse ao meu irmão: 'Tu vais, naturalmente, lê-la', e a resposta dele foi: 'Pela minha vida, preferiria até comprá-la'.") pois é inacreditável. Descobri há muito que os geólogos nunca leem os trabalhos uns dos outros e que o único objetivo de escrever um livro é provar seriedade, e que não se formam opiniões sem passar por um trabalho de algum tipo. A geologia é atualmente muito oral, e o que digo aqui é, em grande medida, verdade. Mas estou a dar-lhe uma discussão tão longa como um capítulo do próprio livro detestável.

Fui ultimamente a Shrewsbury e encontrei o meu pai surpreendentemente bem e alegre.

Acredite em mim, meu caro velho amigo, sempre seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, segunda-feira [10 de fevereiro de 1845].

Meu caro Hooker,

Estou-lhe muito grato pela sua carta muito agradável; foi muito gentil, no meio da sua dissipação científica e teatral, pensar em escrever-me uma carta tão longa. Estou estupefacto com as suas notícias e devo condolências pela sua ATUAL perspetiva da Cátedra (Sir J.D. Hooker era candidato à Cátedra de Botânica na Universidade de Edimburgo.), e lamento-o de todo o coração por minha própria conta. Há algo tão arrepiante numa separação de tantas centenas de milhas, embora não nos víssemos muito quando estávamos mais perto. Dificilmente acreditará o quanto lamento por MIM as suas atuais perspetivas. Eu esperava que nos víssemos muito durante as nossas vidas. É uma desilusão pesada; e, num ponto de vista meramente egoísta, como ajuda no meu trabalho, a sua perda é, de facto, irreparável. Mas, por outro lado, não posso duvidar de que tem atualmente uma visão desalentadora, em vez de brilhante, das suas perspetivas: certamente há grandes vantagens, bem como desvantagens. O lugar é de eminência; e, na verdade, parece-me que há tantos trabalhadores indiferentes e tão poucos leitores, que é uma grande vantagem, num ponto de vista puramente científico, que um bom trabalhador detenha um cargo que leve os outros a prestar atenção ao seu trabalho. Esqueço-me se frequentou Edimburgo como estudante, mas no meu tempo havia um grupo de homens que estavam longe de ser os ouvintes indiferentes e aborrecidos que espera para o seu público. Reflita que satisfação e honra seria TORNAR-SE um bom botânico — com a sua disposição, será para muitos o que Henslow foi em Cambridge para mim e para outros, um amigo e guia muito gentil. Depois, que belo jardim e que boa Biblioteca Pública! Por que haveria Forbes de lamentar sempre as vantagens de Edimburgo para o trabalho? Pense na vantagem inestimável de ficar a uma curta caminhada daquelas rochas nobres, colinas e margens arenosas perto de Edimburgo! De facto, não o posso lamentar muito, embora lamente imenso a mim próprio a sua perda. Certamente que dar aulas tornar-se-á, dentro de um ano ou dois, com a sua GRANDE capacidade de trabalho (o que quer que lhe apraza dizer em contrário), fácil, e terá tempo suficiente para a sua Flora Antártica e visões gerais da distribuição. Se eu pensasse que a sua Cátedra interromperia o seu trabalho, desejar-lhe-ia a si e a todas as boas consequências mundanas el Diavolo. Sei que viverei para o ver como a primeira autoridade na Europa sobre esse grande assunto, essa quase pedra angular das leis da criação, a Distribuição Geográfica. Bem, há um consolo: estará em Kew, sem dúvida, todos os anos, por isso terminarei por forçá-lo a aceitar os meus sinceros parabéns. Obrigado por todas as suas notícias. Lamento saber que Humboldt está a falhar; não se pode deixar de sentir, embora erradamente, que tal fim é humilhante: mesmo quando o vi, ele falava para lá de toda a razão. Se o vir de novo, peço-lhe que lhe transmita os meus mais respeitosos e gentis cumprimentos, e diga-lhe que nunca me esqueço de que todo o curso da minha vida se deve ao facto de ter lido e relido, na juventude, a sua 'Narrativa Pessoal'. Quão verdadeiras e agradáveis são todas as suas observações sobre a sua bondade; pense em quantas oportunidades terá, no seu novo lugar, de ser um Humboldt para os outros. Pergunte-lhe sobre o rio no N.E. da Europa, com a Flora muito diferente nas suas margens opostas. Recebi e li o seu Wilkes; que livro fraco em matéria e estilo, e que esplendidamente editado! Escreva-me uma linha de Berlim. Obrigado também pelas provas de impressão. Não me refiro, contudo, às estampas de prova; valorizo-as por me pouparem a cópia de excertos. Adeus, meu caro Hooker, com o coração pesado desejo-lhe alegria pelas suas perspetivas.

Seu amigo sincero,

C. DARWIN.

[A segunda edição do 'Journal', à qual a seguinte carta se refere, foi concluída entre 25 de abril e 25 de agosto. Foi publicada pelo Sr. Murray na 'Colonial and Home Library' e, nesta forma mais acessível, teve rapidamente uma grande venda.

Até ao momento das suas primeiras negociações com o Sr. Murray para a sua publicação nesta forma, ele tinha recebido pagamento apenas sob a forma de um grande número de exemplares de oferta, e parece ter ficado contente por vender os direitos de autor da segunda edição ao Sr. Murray por 150 libras.

Os pontos de diferença entre esta e a primeira edição são de interesse principalmente em relação ao crescimento das opiniões do autor sobre a evolução, e serão considerados mais tarde.]

CHARLES DARWIN A C. LYELL. Down [julho de 1845].

Meu caro Lyell,

Envio-lhe a primeira parte (Sem dúvida provas de impressão.) da nova edição [do 'Journal of Researches'], que lhe devo inteiramente. Verá que me aventurei a dedicá-la a si (A dedicatória da segunda edição do 'Journal of Researches' é a seguinte: "A Charles Lyell, Esq., F.R.S., esta segunda edição é dedicada com grato prazer — como um reconhecimento de que a parte principal de qualquer mérito científico que este Journal e as outras obras do Autor possam possuir, foi derivada do estudo dos bem conhecidos e admiráveis 'Princípios de Geologia'."), e confio que isto não poderá ser desagradável. Há muito que desejava, não tanto por si, mas pelos meus próprios sentimentos de honestidade, reconhecer mais claramente do que por uma simples referência, o quanto lhe devo geologicamente. Aqueles autores, contudo, que, como o senhor, educam as mentes das pessoas, bem como lhes ensinam factos específicos, nunca, penso eu, poderão ter plena justiça feita a eles, exceto pela posteridade, pois a mente assim insensivelmente melhorada dificilmente pode perceber a sua própria ascensão. Tinha a intenção de incluir o presente reconhecimento na terceira parte da minha Geologia, mas a sua venda é tão excessivamente pequena que não teria tido a satisfação de pensar que, tanto quanto estava ao meu alcance, reconheci, embora imperfeitamente, a minha dívida. Por favor, não pense que sou tão tolo ao ponto de supor que a minha dedicatória possa de alguma forma gratificá-lo, exceto na medida em que confio que a receberá como uma marca mais sincera da minha gratidão e amizade. Penso que melhorei esta edição, especialmente a segunda parte, que acabei de terminar. Acrescentei muito sobre os Fuegians e cortei pela metade a discussão impiedosamente longa sobre o clima e os glaciares, etc. Não me recordo de nada acrescentado à primeira parte que seja longo o suficiente para chamar a sua atenção; há uma página de descrição de uma raça muito curiosa de bois na Banda Oriental. Gostaria que lesse as poucas últimas páginas; há uma pequena discussão sobre a extinção, que talvez não lhe pareça nova, embora me tenha parecido a mim, e colocou na minha mente todas as dificuldades relativas às causas da extinção na mesma classe que outras dificuldades que são geralmente ignoradas e subestimadas pelos naturalistas; deveria, contudo, ter tornado a minha discussão mais longa e mostrado através de factos, como facilmente poderia, quão estavelmente cada espécie deve ser verificada nos seus números.

Recebi as suas Viagens ('Viagens na América do Norte', 2 volumes, 1845.) ontem; e gosto imenso da sua aparência externa e interna; li apenas cerca de uma dúzia de páginas na noite passada (pois estava cansado de fazer feno), mas vi o suficiente para perceber o QUANTO me interessará, e quantas passagens serão sublinhadas. Fico contente por encontrar uma boa dose de História Natural; ficarei estupefacto se não vender muito amplamente...

Quanto lamento pensar que não o veremos aqui novamente por tanto tempo; desejo que consiga esgotar-se um pouco antes de partir e necessite de um dia de ar fresco, antes que as brisas do oceano soprem sobre si...

Sempre seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A C. LYELL. Down, sábado [1 de agosto de 1845].

Meu caro Lyell,

Tenho desejado escrever-lhe há uma semana, mas cada cinco minutos de força foram gastos na conclusão da minha segunda parte. (Da segunda edição do 'Journal of Researches'.) A sua nota agradou-me muito mais, ouso dizer, do que a minha dedicatória a si, e agradeço-lhe muito por ela. O seu trabalho interessou-me muito, e dar-lhe-ei as minhas impressões, embora, como nunca pensei que se preocupasse em saber o que pensava das partes não científicas, não tomei notas, nem me esforcei por recordar qualquer impressão particular de dois terços do primeiro volume. A primeira impressão que diria ser a da maioria (embora literalmente não tenha visto vivalma desde que o li) seria de lamento por não haver mais das [partes] não científicas. Não sou um bom juiz, pois não li nada, isto é, não científico, sobre a América do Norte, mas o todo pareceu-me muito novo, fresco e interessante. As suas discussões traziam à minha mente a marca evidente de um pensamento amadurecido e de conclusões retiradas de factos observados por si próprio, e não das opiniões das pessoas que conheceu; e suspeito que isto seja comparativamente raro.

A sua discussão sobre a escravatura perturbou-me muito; mas como não se importaria mais com a minha opinião a este respeito do que com as cinzas desta carta, não direi nada, exceto que me proporcionou algumas horas sem sono, muito desconfortáveis. O seu relato sobre o estado religioso dos Estados interessou-me particularmente; estou surpreendido, do princípio ao fim, com a sua audácia muito apropriada contra o Clero. No seu capítulo sobre a Universidade, o Clero, e não o Estado da Educação, é tratado de forma mais severa e justa, e penso que isto é muito audaz, pois imagino que se poderia esmagar um Don velho e de cabeça pesada, enquanto Don, com mais segurança do que tocar no dedo desse Animal Corporativo, o Clero. Que contraste na Educação mostra a Inglaterra! A sua apologia (usando o termo, como os velhos religionistas que significavam tudo menos uma apologia) para as aulas, pareceu-me muito inteligente; mas todos os argumentos do mundo do seu lado não equivalem a um curso de aulas de Jamieson do outro lado, que outrora, pelos meus pecados, experimentei. Embora tivesse lido sobre os 'Campos de Carvão na América do Norte', nunca compreendi realmente, no mais pequeno grau, a sua área, a sua espessura e a sua posição favorável; quase nada me espantou mais no seu livro.

Algumas poucas partes pareceram-me bastante heterogéneas, mas não sei se ao ponto de significar alguma coisa. Senti falta, contudo, de um pouco mais, de algum cabeçalho geral para os capítulos, tal como os dois ou três locais principais visitados. Não se tem o direito de esperar que um autor escreva ao nível do zero de ignorância geográfica do leitor; mas eu, não conhecendo um único lugar, fui ocasionalmente bastante atormentado a seguir o seu percurso. Por vezes, no início de um capítulo, num parágrafo, o seu percurso era traçado através de meia dúzia de lugares; qualquer pessoa, tão ignorante como eu, se pudesse ser encontrada, preferiria que tal parágrafo perturbador fosse omitido. Soltei o seu mapa e achei isso um grande conforto; não consegui seguir o seu traçado gravado. Penso que numa segunda edição, espaços aqui e ali de uma linha aberta seriam uma melhoria. A propósito, dou crédito a mim próprio por dar ao meu Journal um ar menos científico ao ter impresso todos os nomes de espécies e géneros em caracteres romanos; a impressão parece, também, melhor. Todas as ilustrações parecem-me excelentes, e o mapa é um volume admirável por si só. Se os seus 'Princípios' não tivessem tido tal admiração universal, ter-me-ia receado que houvesse demasiada geologia aqui para o leitor comum; certamente tudo o que o estilo mais claro e leve poderia fazer, foi feito. Para mim, a geologia foi um excelente resumo, bem condensado e bem digerido, de tudo o que foi apurado na América do Norte, e todo o geólogo deveria estar-lhe grato. O resumo do capítulo sobre o Niagara pareceu-me a parte mais grandiosa; fiquei também profundamente interessado pela sua discussão sobre a origem das formações silurianas. Fiz dezenas de DEZENAS de marcas em passagens que me serão úteis futuramente.

Toda a teoria do carvão pareceu-me muito boa; mas não adianta continuar a enumerar desta maneira. Quem me dera que houvesse mais História Natural; gostei de TODOS os fragmentos dispersos. Dei-lhe agora uma transcrição exata dos meus pensamentos, mas dificilmente valem a pena a sua leitura...

CHARLES DARWIN A C. LYELL. Down, 25 de agosto [1845].

Meu caro Lyell,

Este é literalmente o primeiro dia em que tive tempo de sobra; e divertir-me-ei começando uma carta para si...

Fiquei encantado com a sua carta na qual toca no tema da Escravatura; oxalá os mesmos sentimentos tivessem sido aparentes na sua discussão publicada. Mas não escreverei sobre este assunto, talvez o aborrecesse e, certamente, a mim próprio. Exalei-me com um parágrafo ou dois no meu Journal sobre o pecado da escravatura brasileira; talvez pense que é em resposta a si; mas não é esse o caso. Não comentei nada que não tivesse ouvido na costa da América do Sul. As minhas poucas frases, contudo, são apenas uma explosão de sentimento. Como pôde relatar tão placidamente aquele sentimento atroz (Na passagem referida, Lyell não dá as suas próprias opiniões, mas as de um proprietário de terras.) sobre separar crianças dos seus pais; e na página seguinte falar de estar angustiado por os brancos não terem prosperado; asseguro-lhe que o contraste me fez exclamar. Mas quebrei a minha intenção e, por isso, chega deste detestável e mortal assunto.

Há uma crítica favorável, mas não suficientemente forte, sobre o senhor, na "Gardeners' Chronicle". Lamento ver que Lindley se mantém fiel à teoria do gás ácido carbónico. A propósito, fiquei muito satisfeito por Lindley ter escolhido os meus parágrafos sobre a extinção e tê-los publicado sem cortes. Para o meu espírito, colocar a raridade comparativa das espécies existentes na mesma categoria que a extinção removeu um grande peso; embora, naturalmente, não explique nada, mostra que, até podermos explicar a raridade comparativa, não devemos sentir qualquer surpresa por não explicarmos a extinção...

Sinto-me muito satisfeito ao ouvir falar do anúncio de uma nova edição dos 'Princípios': que bem glorioso esse trabalho tem feito. Receio que desta vez você não estará entre as antigas rochas; como me regozijarei se viver para o ver publicar e descobrir outro estrato abaixo do Siluriano — penso que esse seria o passo mais grandioso possível. Fico muito contente ao saber do progresso que Bunbury está a fazer na Botânica fóssil; há aí um belo hiato para ele preencher neste país. Irei certamente visitá-lo este inverno... Do pouco que vi dele, posso acreditar plenamente em tudo o que você diz sobre os seus talentos...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Shrewsbury [1845?].

Meu caro Hooker,

Acabo de receber a sua nota, que me deixou atónito e me entristeceu verdadeiramente. Nunca, por um minuto que fosse, duvidei do seu sucesso, pois imaginei, de forma muito errónea, que o mérito teria a garantia de triunfar. Sinto-me muito seguro de que chegará em breve o dia em que aqueles que votaram contra si, se tiverem alguma vergonha ou consciência, sentir-se-ão envergonhados por terem permitido que a política lhes toldasse a visão quanto às suas qualificações, e essas qualificações atestadas por Humboldt e Brown! Bem, esses testemunhos devem ser um consolo para si. Proh pudor! Sinto-me, alternadamente, vexado e indignado. Nem sequer consigo encontrar conforto em pensar que o verei mais vezes e extrairei mais conhecimento do seu estoque bem organizado. Agrada-me pensar que, após ter lido algumas das suas cartas, nunca duvidei da posição que virá a ocupar entre os Botânicos europeus. Não consigo pensar noutra coisa, caso contrário gostaria de discutir o 'Cosmos' (Uma tradução do 'Kosmos' de Humboldt.) consigo. Confio que me fará uma visita, a mim e à minha esposa, este outono em Down. Estarei em Down no dia 24 e, até lá, estarei de um lado para o outro.

Meu caro Hooker, permita-me que me intitule seu amigo muito verdadeiro, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. 8 de outubro [1845], Shrewsbury.

...Recentemente, fiz uma pequena digressão para ver uma quinta que comprei em Lincolnshire (Ele fala da sua quinta em Lincolnshire numa carta a Henslow (4 de julho):--"Comprei uma quinta em Lincolnshire e, quando for lá este outono, pretendo ver o que posso fazer para fornecer jardins a qualquer casa de campo na minha pequena propriedade. É uma coisa desesperante de se olhar, mas creio que poucas coisas fariam mais bem a este país nas épocas futuras do que a destruição da primogenitura, de modo a diminuir a diferença na riqueza fundiária e criar mais pequenos proprietários. Quão atrozmente injustas são as leis do selo, que tornam tão dispendioso para o homem pobre comprar o seu quarto de acre; faz com que o sangue de um ferva de indignação.") e depois a York, onde visitei o Deão de Manchester (Hon. e Rev. W. Herbert. A visita é mencionada numa carta ao Dr. Hooker:--"Fiz uma pequena digressão, em parte por negócios, visitei o Deão de Manchester e tive conversas muito interessantes com ele sobre híbridos, esterilidade e variação, etc., etc. Ele está cheio de conhecimento adquirido por conta própria, mas sabe surpreendentemente pouco sobre o que outros fizeram nos mesmos assuntos. Ele é muito heterodoxo quanto às 'espécies': não muito melhor, como a maioria dos naturalistas consideraria, do que o pobre Sr. Vestígios.") o grande criador de Híbridos, que me deu muitas informações curiosas. Visitei também Waterton em Walton Hall e diverti-me imenso com a minha visita lá. Ele é um sujeito estranho e divertido; no nosso jantar cedo, o nosso grupo consistia em dois padres católicos e duas mulatas! Ele tem mais de sessenta anos e, no dia anterior, correu atrás e apanhou uma lebre num campo de nabos. É uma bela casa antiga, e o lago fervilha de aves aquáticas. Vi depois Chatsworth e fiquei em transporte com a grande estufa; é um fragmento perfeito de uma floresta tropical, e a visão fez-me pensar com deleite em antigas recordações. A minha pequena digressão de dez dias fez-me sentir maravilhosamente forte na altura, mas os bons efeitos não duraram. A minha esposa, lamento dizer, não se torna muito forte, e as crianças são a esperança da família, pois são todas felicidade, vida e ânimo. Tenho estado muito interessado na recensão de Sedgwick (A recensão de Sedgwick sobre os 'Vestígios da Criação' na 'Edinburgh Review', julho de 1845.), embora ache que está longe de ser popular entre os nossos leitores científicos. Penso que algumas passagens cheiram ao dogmatismo do púlpito, em vez da filosofia da Cátedra do Professor; e alguma da perspicácia parece-me apenas digna do — na 'Quarterly'. Não obstante, é uma grandiosa peça de argumentação contra a mutabilidade das espécies, e li-a com medo e tremor, mas fiquei muito satisfeito por verificar que não tinha negligenciado nenhum dos argumentos, embora os tivesse apresentado a mim mesmo de forma tão débil como leite e água. Já leu o 'Cosmos'? A tradução inglesa é miserável, e as descrições semimetafísico-políticas na primeira parte são dificilmente inteligíveis; mas penso que a discussão vulcânica merece a sua atenção, surpreendeu-me pelo seu vigor e informação. Lamento encontrar Humboldt como um adorador de Von Buch, com a sua classificação de vulcões, crateras de elevação, etc., etc., e atmosfera de gás ácido carbónico. Ele é, de facto, um homem maravilhoso.

Espero chegar a casa dentro de quinze dias e dedicar-me à minha penosa América do Sul até a terminar. Ficarei muito ansioso por saber como vão as coisas convosco pelos Horner, mas não deve pensar em desperdiçar o seu tempo a escrever-me. Sentiremos, de facto, a falta das suas visitas a Down, e sentir-me-ei um homem perdido em Londres sem o meu "ponto de encontro" matinal em Hart Street...

Creia-me, meu caro Lyell, sempre seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, Farnborough, Kent. Quinta-feira, setembro de 1846.

Meu caro Hooker,

Espero que esta carta o apanhe em Clifton, mas fui impedido de escrever por não me sentir bem e por ter tido os Horner aqui como visitantes, o que, com o meu abominável trabalho de imprensa, ocupou totalmente o meu tempo. É, de facto, muito tempo desde que escrevemos um ao outro; embora, peço-lhe que saiba, eu escrevi por último, mas não me lembro sobre o quê, exceto que sei que foi após ler os seus últimos números (Botânica Antártica, de Sir J.D. Hooker.), e enviar-lhe uma epístola unicamente laudatória, considerando que era de um homem que mal distingue uma Margarida de um Dente-de-leão para um Botânico professo...

Não me lembro que artigos me deram a impressão, mas tenho, fixamente na minha mente, aquilo que afirma ser o caso, a saber, a pouca importância química do solo para a sua vegetação. Que facto forte é, como R. Brown observou uma vez para mim, certas plantas serem calcárias aqui, as quais não o são sob um clima mais favorável no Continente, ou o inverso, pois esqueço-me de qual; mas você, sem dúvida, saberá a que me refiro. A propósito, há alguns desses casos no artigo de Herbert no 'Horticultural Journal'. ('Journal of the Horticultural Society', 1846.) Já o leu: pareceu-me extremamente original e incide DIRETAMENTE nas suas pesquisas atuais. (Sir J.D. Hooker estava nesta altura a dedicar-se ao polimorfismo, variabilidade, etc.) Para um NÃO-BOTÂNICO, o giz tem o aspeto mais peculiar de qualquer flora em Inglaterra; porque não vem aqui fazer as suas observações? NÓS vamos a Southampton, se a minha coragem e estômago não falharem, para a Brit. Assoc. (Não considera ser seu dever estar lá?) E porque não pode vir aqui depois e TRABALHAR?...

A MONOGRAFIA DOS CIRRÍPEDES,

Outubro de 1846 a outubro de 1854.

[Escrevendo a Sir J.D. Hooker em 1845, o meu pai diz: "Espero terminar no próximo verão a minha Geologia da América do Sul, depois concluir um pouco de Zoologia e, vivas para o meu trabalho sobre as espécies..." Esta passagem serve para mostrar que ele não tinha, nesta altura, qualquer intenção de fazer um estudo exaustivo dos Cirrípedes. De facto, pareceria que a sua intenção original era, conforme aprendi com Sir J.D. Hooker, meramente resolver um problema específico. Isto está perfeitamente de acordo com a seguinte passagem na Autobiografia: "Quando estava na costa do Chile, encontrei uma forma muito curiosa, que escavava as conchas de Concholepas, e que diferia tanto de todos os outros Cirrípedes que tive de formar uma nova subordem para a sua exclusiva receção... Para compreender a estrutura do meu novo Cirrípede, tive de examinar e dissecar muitas das formas comuns; e isto levou-me gradualmente a ocupar-me de todo o grupo." Em anos posteriores, parece ter sentido alguma dúvida quanto ao valor destes oito anos de trabalho — por exemplo, quando escreveu na sua Autobiografia — "O meu trabalho foi de considerável utilidade para mim, quando tive de discutir, na 'Origem das Espécies', os princípios de uma classificação natural. Não obstante, duvido se o trabalho valeu o consumo de tanto tempo." Contudo, aprendi com Sir J.D. Hooker que ele reconheceu certamente, na altura, o seu valor para si próprio como treino sistemático. Sir Joseph escreve-me: "O seu pai reconheceu três fases na sua carreira como biólogo: o mero colecionador em Cambridge; o colecionador e observador no "Beagle", e durante alguns anos depois; e o naturalista treinado depois, e só depois, do trabalho sobre os Cirrípedes. Que ele foi um pensador durante todo o tempo, é bem verdade, e há uma vasta quantidade nos seus escritos anteriores aos Cirrípedes que um naturalista treinado só poderia emular... Ele aludia frequentemente a isso como uma disciplina valorizada, e acrescentava que até o trabalho 'odioso' de escavar sinónimos, e de descrever, não só melhorou os seus métodos como lhe abriu os olhos para as dificuldades e méritos das obras dos mais enfadonhos catalogadores. Um resultado foi que ele nunca permitiria que uma observação depreciativa passasse sem contestação sobre a classe mais pobre de trabalhadores científicos, desde que o seu trabalho fosse honesto e bom no seu género. Sempre considerei isto como um dos traços mais nobres do seu caráter — esta generosa apreciação dos serventes da ciência e dos seus labores... e foi a monografia das Cracas que o proporcionou."]

O Professor Huxley permite-me citar a sua opinião sobre o valor dos oito anos dedicados aos Cirrípedes:--

"Na minha opinião, o seu sagaz pai nunca fez coisa mais sensata do que quando se dedicou aos anos de trabalho paciente que o livro sobre os Cirrípedes lhe custou.

"Como o resto de nós, ele não teve formação adequada em ciência biológica, e sempre me impressionou como um exemplo notável da sua intuição científica o facto de ele ter visto a necessidade de se dar a si próprio tal formação, e da sua coragem, o facto de não ter evitado o trabalho de a obter.

"O grande perigo que assedia todos os homens de vasta faculdade especulativa é a tentação de lidar com as afirmações aceites de factos na ciência natural como se não fossem apenas corretas, mas exaustivas; como se pudessem ser tratadas dedutivamente, da mesma forma que as proposições em Euclides podem ser tratadas. Na realidade, cada afirmação desse tipo, por mais verdadeira que possa ser, é verdadeira apenas relativamente aos meios de observação e ao ponto de vista daqueles que a enunciaram. Até esse ponto, pode-se confiar nela. Mas se suportará toda a conclusão especulativa que possa ser logicamente deduzida dela, é uma questão bem diferente.

"O seu pai estava a construir uma vasta superestrutura sobre as fundações fornecidas pelos factos reconhecidos da ciência geológica e biológica. Na Geografia Física, na Geologia propriamente dita, na Distribuição Geográfica e na Paleontologia, ele tinha adquirido um vasto treino prático durante a viagem do "Beagle". Ele conhecia, por experiência própria, a forma como as matérias-primas destes ramos da ciência são adquiridas e era, portanto, um juiz muito competente do esforço especulativo que elas suportariam. O que ele precisava, após o seu regresso a Inglaterra, era de um conhecimento correspondente com a Anatomia e o Desenvolvimento, e a sua relação com a Taxonomia — e ele adquiriu isto pelo seu trabalho sobre os Cirrípedes.

"Assim, no meu entender, o valor da monografia dos Cirrípedes reside não apenas no facto de ser uma obra muito admirável e ter constituído um grande acréscimo ao conhecimento positivo, mas ainda mais na circunstância de ter sido uma peça de autodisciplina crítica, cujo efeito se manifestou em tudo o que o seu pai escreveu posteriormente, e o salvou de infindáveis erros de detalhe.

"Tão longe de tal trabalho ser uma perda de tempo, creio que teria valido bem a pena, caso fosse praticável, tê-lo suplementado por um estudo especial de embriologia e fisiologia. As suas mãos teriam sido muito fortalecidas por isso quando chegou a escrever vários capítulos da 'Origem das Espécies'. Mas, naturalmente, naqueles tempos, era quase impossível para ele encontrar meios para tal trabalho."

Ninguém pode olhar para os dois volumes sobre os Cirrípedes recentes, de 399 e 684 páginas respetivamente (sem falar dos volumes sobre as espécies fósseis), sem ficar impressionado com a imensa quantidade de trabalho detalhado que contêm. As quarenta pranchas, algumas delas com trinta figuras, e as catorze páginas de índice nos dois volumes em conjunto, dão uma ideia aproximada do labor gasto na obra. (O leitor não familiarizado com a Zoologia encontrará algum relato dos resultados mais interessantes no artigo do Sr. Romanes sobre "Charles Darwin" (Série 'Nature', 1882).) O estado do conhecimento, no que diz respeito aos Cirrípedes, era muito insatisfatório na altura em que o meu pai começou a trabalhar neles. Como ilustração deste facto, pode mencionar-se que ele teve até de reorganizar a nomenclatura do grupo, ou, como ele expressou, "involuntariamente achou indispensável dar nomes a várias válvulas, e a algumas poucas das partes mais macias dos Cirrípedes." (Vol. i. página 3.) É interessante aprender pelo seu diário a quantidade de tempo que dedicou a diferentes géneros. Assim, o género Chthamalus, cuja descrição ocupa vinte e duas páginas, ocupou-o durante trinta e seis dias; Coronula levou dezanove dias e está descrita em vinte e sete páginas. Escrevendo a Fitz-Roy, ele fala de estar "durante a última quinzena diariamente a trabalhar arduamente na dissecação de um pequeno animal do tamanho da cabeça de um alfinete, do arquipélago de Chonos, e eu poderia passar outro mês, e ver diariamente uma estrutura mais bela."

Embora se tenha tornado excessivamente cansado do trabalho antes do fim dos oito anos, ele teve muito prazer intenso no decurso dele. Assim, escreveu a Sir J.D. Hooker (1847?):--"Como diz, há um prazer extraordinário na observação pura; não que eu suspeite que o prazer neste caso deriva antes das comparações que se formam na mente com estruturas afins. Depois de ter estado tanto tempo empregue a escrever as minhas antigas observações geológicas, é delicioso usar os olhos e os dedos novamente." Foi, de facto, um regresso ao trabalho que ocupou muito do seu tempo quando estava no mar durante a sua viagem. As suas notas zoológicas desse período dão uma impressão de trabalho vigoroso, tolhido pela ignorância e falta de aparelhos. E a sua incansável indústria na dissecação de animais marinhos, especialmente de Crustáceos, deve ter sido de valor para ele como treino para o seu trabalho sobre os Cirrípedes. A maior parte do seu trabalho foi feito com o microscópio de dissecação simples — mas foi a necessidade que ele encontrou de ampliações maiores que o levou, em 1846, a comprar um microscópio composto. Escreveu a Hooker:--"Quando estava a desenhar com L., fiquei tão encantado com o aspeto dos objetos, especialmente com a sua perspetiva, vista através das fracas ampliações de um bom microscópio composto, que vou encomendar um; de facto, tenho frequentemente estruturas em que a de 1/30 não é ampliação suficiente."

Durante parte do tempo abrangido pelo presente capítulo, o meu pai sofreu talvez mais de problemas de saúde do que em qualquer outra altura da sua vida. Sentiu severamente a influência deprimente destes longos anos de doença; assim, logo em 1840, escreveu a Fox: "Tornei-me um cão estúpido, velho e sem espírito comparado com o que costumava ser. Acho que um indivíduo torna-se mais estúpido à medida que envelhece." Não é de admirar que tenha escrito assim; é antes de admirar que o seu espírito tenha resistido a um esforço tão grande e constante. Escreveu a Sir J.D. Hooker em 1845: "É muito gentil nas suas indagações sobre a minha saúde; não tenho nada a dizer sobre ela, estando sempre muito igual, alguns dias melhor e outros pior. Acredito que não tive um dia inteiro, ou melhor, uma noite, sem que o meu estômago tenha estado muito desarranjado, durante os últimos três anos, e na maioria dos dias uma grande prostração de forças: obrigado pela sua bondade; muitos dos meus amigos, creio, consideram-me um hipocondríaco."

Novamente, em 1849, anota no seu diário:--"1 de janeiro a 10 de março. -- Saúde muito má, com muitos enjoos e falha de forças. Trabalhei em todos os dias bons." Isto foi escrito pouco antes da sua primeira visita ao Estabelecimento de Cura pela Água do Dr. Gully em Malvern. Em abril do mesmo ano, escreveu:--"Creio que estou a correr muito bem, mas estou um pouco cansado da minha atual vida inativa, e a cura pela água tem o efeito mais extraordinário em produzir indolência e estagnação de espírito: até o experienciar, não poderia ter acreditado que fosse possível. Agora aumento de peso, escapei aos enjoos durante trinta dias." Regressou em junho, após dezasseis semanas de ausência, muito melhor de saúde e, como já descrito, continuou a cura pela água em casa durante algum tempo.]

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down [outubro de 1846].

Meu caro Hooker,

Não tenho notícias de Sulivan (Almirante Sir B.J. Sulivan, anteriormente oficial do "Beagle".) ultimamente; quando escreveu pela última vez, indicou de dia 8 a 10 como a altura mais provável. Imediatamente que souber, enviar-lhe-ei umas linhas, pela possibilidade de poder vir. Esqueço-me se o conhece, mas suponho que sim; ele é um sujeito muito bom. De qualquer modo, se não vier nessa altura, fico muito contente por propor vir pouco tempo depois...

Vou começar alguns artigos sobre os animais marinhos inferiores, que me ocuparão alguns meses, talvez um ano, e depois começarei a rever a minha acumulação de dez anos de notas sobre espécies e variedades, o que, com a escrita, arrisco dizer que me levará cinco anos, e depois, quando publicado, arrisco dizer que ficarei infinitamente baixo na opinião de todos os Naturalistas sensatos — portanto, esta é a minha perspetiva para o futuro.

É habilidoso a inventar nomes? Tenho um género de Craca completamente novo e curioso, que quero nomear, e saber como inventar um nome deixa-me completamente perplexo.

A propósito, nada lhe disse sobre Southampton. Desfrutámos (a minha esposa e eu) da nossa semana imensamente: os artigos eram todos aborrecidos, mas encontrei tantos amigos e fiz tantos novos conhecimentos (especialmente alguns dos naturalistas irlandeses), e fiz tantas excursões agradáveis. Oxalá tivesse estado lá. No domingo, fizemos uma excursão tão agradável a Winchester com Falconer (Hugh Falconer, 1809-1865. Conhecido principalmente como paleontólogo, embora empregado como botânico durante toda a sua carreira na Índia, onde foi também oficial médico ao serviço da H.E.I.C.; foi superintendente do jardim da Companhia, primeiro em Saharunpore e depois em Calcutá. Foi um dos primeiros exploradores botânicos da Caxemira. As descobertas de Falconer de restos de mamíferos do Mioceno nas colinas Sewalik foram, na altura, talvez os maiores "achados" que tinham sido feitos. O seu livro sobre o assunto, 'Fauna Antiqua Sivalensis', permaneceu inacabado na altura da sua morte.), o Coronel Sabine (O falecido Sir Edward Sabine, outrora Presidente da Sociedade Real e autor de uma longa série de memórias sobre o Magnetismo Terrestre.) e o Dr. Robinson (O falecido Dr. Thomas Romney Robinson, do Observatório de Armagh.), entre outros. Nunca desfrutei tanto de um dia na minha vida. Perdi a oportunidade de ver H. Watson. (O falecido Hewett Cottrell Watson, autor da 'Cybele Britannica', uma das séries mais valiosas de obras sobre a topografia e a distribuição geográfica das plantas das Ilhas Britânicas.) Suponho que tenha ouvido dizer que ele encontrou Forbes e lhe disse que tinha um artigo severo na Imprensa. Entendi que Forbes lhe explicou que não tinha motivos para se queixar, mas, como o artigo estava impresso, não o retiraria, oferecendo-o, porém, a Forbes para que este lhe acrescentasse notas, o que Forbes naturalmente recusou...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 7 de abril [1847?].

Meu caro Hooker,

Deveria ter escrito antes, se não tivesse estado quase continuamente indisposto, e atualmente sofro de quatro furúnculos e inchaços, um dos quais quase não me permite usar o braço direito, tendo interrompido todo o meu trabalho e esmorecido todo o meu ânimo. Fiquei muito desapontado por perder a minha viagem a Kew, e tanto mais quanto me tinha esquecido de que estaria fora durante todo este mês; mas não tive escolha, e estive na cama quase toda a sexta-feira e sábado. Congratulo-o pelas suas melhores perspetivas sobre a Índia (Sir J. Hooker deixou Inglaterra em 11 de novembro de 1847, para a sua viagem aos Himalaias e Tibete. A expedição foi apoiada por um pequeno subsídio do Tesouro, assumindo assim o carácter de uma missão do Governo.), mas, ao mesmo tempo, tenho de gemer sinceramente com isso. Sentir-me-ei completamente perdido sem si para discutir muitos pontos, e para apontar (azar o seu) dificuldades e objeções às minhas hipóteses sobre as espécies. Será uma vergonha terrível se o dinheiro impedir a sua expedição; mas o Governo certamente ajudá-lo-á até certo ponto... A sua atual viagem, com as suas novas visões, entre as plantas do carvão, será muito interessante. Se tiver tempo livre, MAS NÃO SEM ISSO, eu apreciaria ter algumas notícias do seu progresso. A sua viagem atual encaixar-se-á bem, se for a algum dos distritos carboníferos da Índia. Não seria este um bom objeto para exibir perante o Governo; as almas utilitaristas compreenderiam isto. A propósito, extrairei algum trabalho de si, sobre as raças domésticas de animais na Índia...

CHARLES DARWIN PARA L. JENYNS (BLOMEFIELD). Down [1847].

Caro Jenyns,

("Esta carta refere-se a um pequeno Almanaque publicado pela primeira vez em 1843, sob o nome de 'The Naturalists' Pocket Almanack', pelo Sr. Van Voorst, e que eu editei para ele. Destinava-se especialmente àqueles que se interessam pelos fenómenos periódicos dos animais e plantas, dos quais era dada uma lista selecionada sob cada mês do ano.

"O Pocket Almanack continha, além disso, informações diversas relacionadas com a Zoologia e a Botânica; com a História Natural e outras sociedades científicas; com Museus e Jardins públicos, para além dos fenómenos celestes comuns encontrados na maioria dos outros Almanaques. Continuou a ser publicado até 1847, ano após o qual a publicação foi abandonada." - De uma carta do Rev. L. Blomefield para F. Darwin.)

Estou muito grato pelo excelente pequeno Almanaque; aconteceu que eu desejava um para guardar no meu portefólio. Nunca tinha visto este género antes e certamente obterei um para o futuro. Acho muito divertido ter uma lista diante dos olhos da ordem de aparecimento das plantas e animais ao nosso redor; dá um novo interesse a cada dia bonito. Há um ponto que gostaria de ver um pouco melhorado, a saber, a correção para o relógio em intervalos mais curtos. A maioria das pessoas, suspeito, que, como eu, tem mostradores, desejará ser mais precisa do que com uma margem de três minutos. Compro sempre um almanaque de um xelim para este ÚNICO fim. A propósito, o SEU, isto é, o Almanaque de Van Voorst, é muito caro; deveria, pelo menos, ser anunciado com portes pagos pelo xelim. Não acha que uma tabela (não regras) de conversão de medidas francesas para inglesas, e talvez pesos, seria extremamente útil; também centígrado para Fahrenheit — potências de ampliação de acordo com as distâncias focais? — de facto, poderia torná-lo a publicação mais útil da época. Sei o que eu gostaria mais do que tudo, nomeadamente, observações meteorológicas correntes para cada mês, com a indicação do curso médio dos ventos e a previsão do tempo, de acordo com os movimentos do barómetro. As pessoas, creio eu, divertem-se sempre ao conhecer os extremos e as médias de temperatura para tempos correspondentes noutros anos.

Espero que continue com ele outro ano. Com muitos agradecimentos, meu caro Jenyns,

Seu muito sinceramente, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, domingo [18 de abril de 1847].

Meu caro Hooker,

Devolvo com muitos agradecimentos a carta de Watson, da qual fiz uma cópia. É uma carta excelente, e estou extremamente grato por me ter obtido informações tão valiosas. Certamente ele tem um pouco de pressa quando diz que as variedades intermédias devem ser quase necessariamente raras, caso contrário seriam tomadas como os tipos das espécies; pois ele ignora a frequência numérica como um elemento. Certamente, se A, B, C fossem três variedades, e se A fosse bastante a mais comum (portanto, também, a primeira conhecida), seria tomada como o tipo, sem considerar se B era ou não intermédio, ou se era raro ou não. Que excelentes ensaios escreveria W; mas suponho que já escreveu bastante no 'Phytologist'. Deveria encorajá-lo a publicar sobre a variação; é uma vergonha que factos como os da sua carta permaneçam por publicar. Tenho de fazer com que mo apresente; seria ele um homem bom e sociável para Dropmore? (Uma expedição muito apreciada feita a partir de Oxford — quando a Associação Britânica se reuniu lá em 1847.) embora se ele vier, Forbes não deve vir (e creio que falou em convidar Forbes), ou teremos uma batalha gloriosa. Gostaria de ver algum dia a correspondência de guerra. Tem o 'Phytologist', e poderia dispensá-lo algum dia? Eu percorrê-lo-ia rapidamente... Li os seus últimos cinco números (Da Botânica da 'Viagem Antártica' de Hooker.), e, como de costume, interessei-me muito por vários pontos, especialmente pelas suas discussões sobre a faia e a batata. Vejo que introduziu várias frases contra nós, Transmutacionistas. Tenho também estado a consultar os últimos volumes dos 'Annals of Natural History', e li dois artigos tão desalmados e pomposos de —, bem dignos do autor... O contraste dos artigos nos "Annals" com os dos "Annales" é um tanto humilhante; tantos artigos nos primeiros, com breves descrições de espécies, sem uma palavra sobre as suas afinidades, estrutura interna, alcance ou hábitos. Estou agora a ler —, e escolhi algumas coisas que me interessaram; mas ele parece-me um tanto aborrecido, e com toda a sua Matéria Médica cheira à farmácia do médico. Odiar-se-ei para sempre o nome de Matéria Médica, desde que ouvi as aulas de Duncan às oito horas numa manhã de inverno — uma hora inteira, fria e sem pequeno-almoço, sobre as propriedades do ruibarbo!

Espero que a sua viagem seja muito próspera. Acredite-me, meu caro Hooker,

Sempre seu, C. DARWIN.

P.S. — Creio que só fiz um novo conhecimento ultimamente, que é R. Chambers; e acabei de receber um exemplar de oferta da sexta edição do 'Vestiges'. De alguma forma, sinto-me agora perfeitamente convencido de que ele é o autor. Ele está em França, e escreveu-me de lá.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down [1847?].

...Estou encantado por saber que Brongniart pensava que a Sigillaria era aquática, e que Binney considera o carvão uma espécie de turfa submarina. Apostaria 5 para 1 que, dentro de vinte anos, isto será geralmente admitido (Uma profecia não cumprida.); e não me importa quais sejam as dificuldades ou impossibilidades botânicas. Se pudesse apenas persuadir-me de que a Sigillaria e companhia tinham um bom alcance de profundidade, isto é, que podiam viver de 5 a 100 braças debaixo de água, todas as dificuldades de quase todos os géneros seriam removidas (pois o simples facto de lama marítima rasa comum implica a proximidade de terra). [N.B. — Estou a rir-me ao pensar em como está a escarnecer todo este tempo.] Não é uma grande dificuldade o facto de não haver conchas no carvão, considerando o quão desfavorável a lama profunda é para a maioria dos Moluscos, e que as conchas provavelmente se decomporiam devido ao ácido húmico, como parece acontecer na turfa e nos solos PRETOS (como Lyell me diz) do Mississippi. Portanto, questão do carvão resolvida — Q.E.D. Escarneça à vontade!

Muito obrigado pela sua nota de boas-vindas de Cambridge, e fico contente por gostar da minha alma mater, a qual desprezo sinceramente como local de educação, mas amo por muitas recordações agradabilíssimas...

Obrigado pela sua oferta do 'Phytologist'; ficarei muito grato por isso, pois não suponho que conseguisse pedi-lo emprestado a qualquer outro lado. Não me deixarei levar demasiado pelo seu elogio, mas não creio que alguma vez tenha perdido um livro ou esquecido de o devolver durante um longo lapso de tempo. O seu 'Webb' está bem embrulhado, e com o seu nome em letras grandes DO LADO DE FORA.

O meu novo microscópio chegou a casa (um "brinquedo esplêndido", como lhe chamava o velho R. Brown), e estou encantado com ele; é realmente um brinquedo esplêndido. Estive em Londres durante três dias e vi muitos dos nossos amigos. Fiquei extremamente triste ao ouvir um relato não muito bom sobre Sir William. Adeus, meu caro Hooker, e seja um bom rapaz, e faça da Sigillaria uma alga submarina.

Sempre seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down [6 de maio de 1847].

Meu caro Hooker,

Fez um ataque selvagem, e devo tentar defender-me. Mas, primeiro, deixe-me dizer que nunca lhe escrevo senão pelo meu próprio prazer; agora temo que me responda quando ocupado e sem inclinação (e tenho a certeza de que eu não teria nenhuma se estivesse tão ocupado como o senhor). Por favor, não o faça, e se eu pensasse que o meu escrever implicava uma resposta da sua parte nolens volens, destruiria todo o meu prazer em escrever. Em primeiro lugar, não considerei a minha carta como RACIOCÍNIO, ou mesmo como ESPECULAÇÃO, mas simplesmente como um motim mental; e como estava a enviar o artigo de Binney, despejei sobre si o resultado da sua leitura. Em segundo lugar, tem razão, de facto, ao pensar que sou louco, se supõe que classificaria quaisquer fetos como plantas marinhas; mas certamente há uma grande distinção entre as plantas encontradas na vertical nas camadas de carvão e aquelas que não estão na vertical, e que poderiam ter sido arrastadas. Não será possível que as mesmas circunstâncias que preservaram a vegetação in situ, pudessem ter preservado plantas arrastadas? Sei que a Calamites é encontrada na vertical; mas imaginava que as suas afinidades eram muito obscuras, como a Sigillaria. Quanto à Lepidodendron, esqueci-me da sua existência, como acontece quando alguém entra em motim, e agora não sei nem o que é, nem se está na vertical. Se estas plantas, isto é, Calamites e Lepidodendron, têm RELAÇÕES MUITO CLARAS com vegetais terrestres, como os fetos têm, e se encontram na vertical in situ, naturalmente tenho de desistir. Mas certamente a Sigillaria é a principal planta vertical, e sobre as suas afinidades obscuras já o ouvi alargar-se.

Em terceiro lugar, nunca me passou pela cabeça desvalorizar a evidência botânica em relação à zoológica; exceto na medida em que pensei que era admitido que a estrutura vegetativa raramente produzia qualquer evidência de afinidade mais próxima do que a de famílias, e nem sempre tanto. E não é perigoso, nas plantas, tal como é certamente nos animais, julgar os hábitos sem uma afinidade muito próxima? Poderia um Botânico dizer apenas pela estrutura que a família dos Mangues, quase ou totalmente sozinha nas Dicotiledóneas, poderia viver no mar, e a família Zostera quase sozinha entre as Monocotiledóneas? É um argumento seguro, que porque as algas são quase as únicas, ou as únicas plantas marinhas submersas, que antigamente outros grupos não tinham membros com tais hábitos? Com animais, tal argumento não seria conclusivo, como poderia ilustrar com muitos exemplos; mas estou a esquecer-me de mim próprio; quero apenas, até certo ponto, defender-me, e não queimar os dedos atacando-o. O fundamento da minha carta, e o que é a minha opinião deliberada, embora receio que a considere absurda, é que eu preferiria confiar, caeteris paribus, numa evidência geológica pura do que numa evidência zoológica ou botânica. Não digo que confiaria mais depressa numa POBRE evidência geológica do que numa BOA evidência orgânica. Penso que a base do raciocínio geológico puro é mais simples (consistindo principalmente na ação da água sobre a crosta terrestre, e nos seus movimentos de subida e descida) do que uma base retirada do difícil assunto das afinidades e da estrutura em relação aos hábitos. Mal consigo analisar os factos sobre os quais cheguei a esta conclusão; mas posso ilustrá-la. O relato de Pallas levaria qualquer um a supor que os estratos siberianos, com as carcaças congeladas, tinham sido rapidamente depositados, e que, por conseguinte, os animais ali embutidos tinham vivido nas redondezas; mas o nosso conhecimento zoológico de há trinta anos levou toda a gente, falsamente, a rejeitar esta conclusão.

Diga-me que um feto vertical in situ ocorre com Sigillaria e Stigmaria, ou que as afinidades de Calamites e Lepidodendron (supondo que se encontram in situ com Sigillaria) são tão CLARAS, que não poderiam ter sido marinhas, como, mas num grau maior, o mangue e as algas, e eu pedir-lhe-ei humildemente desculpa, a si e a todos os Botânicos, por ter deixado a minha mente entrar em motim sobre um assunto sobre o qual, certamente, nada sei. Mas até ouvir isto, manter-me-ei privadamente na minha própria opinião com a mesma pertinácia e, como pensará, com o mesmo espírito filosófico com que Koenig mantém que as pegadas de Cheirotherium são algas.

Se esta carta me fará afundar mais na sua opinião, ou me corrigirá um pouco, não sei, mas espero o segundo. De qualquer modo, vinguei-me importunando-o com uma epístola muito longa. Adeus, e seja indulgente. Sempre seu,

C. DARWIN.

P.S. — Quando voltará a Kew? Esqueci-me de um objetivo principal da minha carta, agradecer-lhe MUITO pela sua oferta do 'Hort. Journal', mas encomendei os dois números.

[Os dois extratos seguintes [1847] dão a continuação e conclusão da batalha do carvão.

"A propósito, como o carvão submarino o deixou tão irado, pensei em fazer experiências com Falconer e Bunbury (O falecido Sir C. Bunbury, bem conhecido como paleobotânico.) juntos, e isso deixou-[os] ainda mais selvagens; 'tal absurdo infernal deveria ser arrancado de mim'. Bunbury foi mais educado e desprezador. Portanto, agora sei como provocar e exibir qualquer Botânico. Pergunto-me se os Zoólogos e Geólogos têm os seus pontos sensíveis; gostaria de os poder descobrir."

"Não posso deixar de lhe agradecer pela sua nota muito gentil. Por favor, não pense que me aborreci com a sua carta: percebi que tinha estado a pensar com vivacidade e, consequentemente, expressou-se com veemência, e assim o entendi. Livrai-me de um homem que pesa cada expressão com prudência escocesa. Desejo-lhe sinceramente todo o sucesso no seu nobre problema, e estarei muito curioso por ter uma conversa consigo e ouvir o seu ultimato."]

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. (Partes de duas cartas.) Down [outubro de 1847].

Congratulo-o sinceramente por ter os seus arranjos concluídos, com alguma perspetiva para o futuro. Será uma nobre viagem e jornada, mas oxalá já tivesse terminado, sentir-lhe-ei a falta egoisticamente e de todas as formas num grau terrível... Estou numa grande perplexidade sobre como nos havemos de encontrar... Compreendo bem o quão terrivelmente ocupado deve estar. Se NÃO PODE vir aqui, TEM de me deixar ir ter consigo por uma noite; pois tenho de ter mais uma conversa e mais uma discussão consigo sobre o carvão.

A propósito, tentei incitar Lyell (que tem estado aqui alojado alguns dias comigo) a teorizar sobre o carvão: as suas Equisetums VERTICAIS oolíticas são terríveis para a minha flora submarina. Morreria muito mais tranquilamente se alguém me resolvesse a questão do carvão. Às vezes penso que não poderia ter sido formada de todo. O velho Sir Anthony Carlisle disse-me uma vez, gravemente, que supunha que o Megatherium e tal gado foram simplesmente enviados do céu para ver se a terra os sustentaria; e suponho que o carvão foi feito chover para confundir os mortais. Tem de trabalhar bem o carvão na Índia.

Sempre seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. [6 de novembro de 1847.]

Meu caro Hooker,

Acabo de receber a sua nota com pesar sincero: não há remédio. Verei sempre a sua intenção de vir aqui, nessas circunstâncias, como a maior prova de amizade que já recebi de um mortal. A minha consciência ter-me-ia censurado por não ter ido ter consigo na quinta-feira, mas, como se viu, não pude, pois fui completamente incapaz de deixar Shrewsbury antes desse dia, e cheguei a casa apenas ontem à noite, muito exausto. Se não tiver notícias amanhã (o que é quase impossível), e se me sentir bastante bem, irei de carro até Kew na segunda-feira de manhã, apenas para me despedir. Ficarei apenas uma hora...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. [Novembro de 1847.]

Meu caro Hooker,

Estou muito indisposto e incapaz de fazer qualquer coisa. Espero sinceramente não o ter incomodado. Estive tão indisposto todo o dia de ontem, que me alegrava por não estar aqui; pois teria sido uma amarga humilhação para mim tê-lo aqui e não desfrutar do seu último dia. Não o verei agora. Adeus, e que Deus o abençoe.

Seu afetuoso amigo, C. DARWIN.

Escrever-lhe-ei para a Índia.

[Em 1847 apareceu um artigo do Sr. D. Milne (Agora Sr. Milne Home. O ensaio foi publicado nas Transactions of the Edinburgh Royal Society, vol. xvi.), no qual o trabalho do meu pai sobre Glen Roy é criticado, e ao qual se faz referência no seguinte extrato característico de uma carta para Sir J. Hooker:] "Tenho estado bastante mal nestes últimos dias, tendo tido de pensar e escrever demasiado sobre Glen Roy... O Sr. Milne atacou a minha teoria, o que me deixou horrivelmente doente." Não consegui encontrar qualquer resposta publicada ao Sr. Milne, pelo que imagino que o "escrever" mencionado se limitou a cartas. O artigo do Sr. Milne não foi destrutivo para o artigo de Glen Roy, e isto o meu pai reconhece no seguinte extrato de uma carta para Lyell (março de 1847). A referência a Chambers é explicada pelo facto de ele ter acompanhado o Sr. Milne na sua visita a Glen Roy. "Pedi a R. Chambers que me desse um esboço das visões de Milne sobre Glen Roy, e reli o meu artigo, e estou, agora que ouvi o que havia a dizer, nem sequer abalado. É provocador e humilhante descobrir que Chambers não só não tinha lido com qualquer cuidado o meu artigo sobre este assunto, ou mesmo olhado para o mapa colorido, pelo que a nova prateleira descrita por mim não tinha sido procurada, e os meus argumentos e factos de detalhe não foram minimamente atendidos. Desisti completamente, e estava bastante cobarde na Sociedade Geológica, até que me tranquilizou e me lembrou dos factos principais em todo o caso."

As duas cartas seguintes a Lyell, embora de data posterior (junho de 1848), versam sobre o mesmo assunto:--

"Estive na reunião noturna [da Sociedade Geológica], mas não consegui chegar ao seu alcance. Que tolo (embora deva dizer que um muito divertido) — fez de si mesmo. O seu discurso foi refrescante depois disso, e foi bem caracterizado por Fox (meu primo) em três palavras — 'Que contraste!' Isso pareceu-me uma excelente especulação sobre o afundamento do Continente Wealden. Não ouvi o que decidiram no Conselho; estava completamente exausto e atordoado. Descobri que Smith, de Jordan Hill, tem uma opinião muito pior do livro de R. Chambers do que até eu próprio tenho. Chambers picou-me um pouco ('Ancient Sea Margins, 1848.' As palavras citadas pelo meu pai deveriam ser "a mobilidade da terra era uma ideia ascendente."); ele diz que eu 'proponho' e 'professo a minha crença' de que Glen Roy é marinho, e que a ideia foi aceite porque a 'mobilidade da terra era a ideia ascendente da época.' Ele acrescenta algumas linhas SUPERIORES muito ténues em Glen Spean (vistas, aliás, por Agassiz), e mostrou que Milne e Kemp têm razão quanto à existência de marcas aquosas horizontais (NÃO a níveis coincidentes com as de Glen Roy) noutras partes da Escócia a grandes altitudes, e acrescenta vários outros casos. Este é todo o seu contributo para os dados. Ele não só retoma a minha linha de argumentação a partir dos contrafortes e terraços abaixo da prateleira inferior e outros argumentos (sem qualquer reconhecimento), como também zomba de todos os seus antecessores por não terem percebido a importância das curtas porções de linhas intermédias entre as principais em Glen Roy; enquanto que eu começo a descrição delas dizendo que, 'percebendo a sua importância, examinei-as com escrupuloso cuidado,' e expando-me bastante sobre elas. Disse-lhe indiretamente que não creio que ele tenha razões para considerar que foi o único (o que ele afirma de forma bastante direta) a resolver o problema de Glen Roy. Relativamente aos terraços a níveis inferiores coincidentes em altura por toda a Escócia e Inglaterra, inclino-me a acreditar que ele demonstra alguma pequena probabilidade de existirem alguns principais coincidentes, mas é necessária uma prova muito mais exata. Acreditaria ser crível? Ele avança como uma solução provável para explicar a elevação da Grã-Bretanha que, num grande oceano, um vigésimo do fundo de toda a superfície aquosa do globo afundou (ele não diz onde o coloca) numa espessura de meia milha, e isto ele calculou que faria uma subida aparente de 130 pés."

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down [junho de 1848].

Meu caro Lyell,

Por justiça a Chambers, devo incomodá-lo com uma linha para dizer que, no que me diz respeito pessoalmente em Glen Roy, ele fez o amende honorable, e declara-se culpado por inadvertência ao tomar as minhas duas linhas de argumentos e factos sem reconhecimento. Concluiu dizendo que "chegou ao mesmo ponto por um caminho independente de investigação, o que em pequena medida desculpa esta inadvertência." A sua carta, no geral, mostra uma disposição muito boa, e diz que está "muito gratificado com a aprovação MEDIDA que você concede, etc." Estou sinceramente contente por ter podido dizer, em verdade, que achei que ele prestou um bom serviço ao chamar mais atenção para o assunto dos terraços. Ele protesta que é injusto chamar ao afundamento do mar a sua teoria, pois ele, com cuidado, fala sempre de mera mudança de nível, e isto é perfeitamente verdade; mas a única secção em que ele mostra como concebe que o mar poderia afundar-se é tão espantosa que acredito que, para os outros, tal como para mim, irá mais do que contrabalançar a sua cautela anterior. Espero que possa pensar melhor sobre o livro do que eu.

O seu muito sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. 6 de outubro de 1848.

...Tenho tentado ultimamente promover uma agitação (mas não terei sucesso, e na verdade duvido que tenha tempo e força para continuar com ela), contra a prática dos Naturalistas de acrescentarem a perpetuidade o nome do PRIMEIRO descritor às espécies. Encaro isto como um prémio direto ao trabalho apressado, ao NOMEAR em vez de DESCREVER. Uma espécie deveria ter um nome tão bem conhecido que a adição do nome do autor seria supérflua, e um [pedaço] de vaidade vazia. (O seu desprezo pelo espírito autocentrado num naturalista é ilustrado por uma anedota, pela qual estou em dívida para com o Rev. L. Blomefield. Depois de falar do amor do meu pai pela Entomologia em Cambridge, o Sr. Blomefield continua:--"Ele vinha ocasionalmente de Cambridge à minha Vigararia em Swaffham Bulbeck, e saíamos juntos para colecionar insetos nos bosques em Bottisham Hall, ali perto, ou fazíamos excursões mais longas nos Fens. Numa ocasião, capturou numa rede de saco grande, com a qual costumava varrer vigorosamente as ervas daninhas e a relva alta, um raro inseto coleóptero, um dos Lepturidae, que eu próprio nunca tinha apanhado em Cambridgeshire. Ficou satisfeito com a sua captura e, claro, levou-o para casa em triunfo. Alguns anos depois, tendo a viagem do 'Beagle' ocorrido no intervalo, falando de velhos tempos com ele, voltei a este facto e perguntei se ele se lembrava. 'Oh, sim,' (disse ele,) 'lembro-me bem; e fui suficientemente egoísta para guardar o espécime, quando tu estavas a recolher materiais para uma Fauna de Cambridgeshire, e para um museu local na Sociedade Filosófica.' Ele seguiu isto com algumas observações sobre a pequenez dos colecionadores, que não visavam nada além de encher os seus armários com coisas raras.") Atualmente, não seria viável dar meros nomes específicos; mas penso que os Zoólogos poderiam abrir o caminho para a omissão, referindo-se a bons escritores sistemáticos em vez de aos primeiros descritores. A Botânica, imagino, não sofreu tanto como a Zoologia com o mero NOMEAR; os caracteres, felizmente, são mais obscuros. Já pensou sobre este ponto? Porque deveriam os Naturalistas acrescentar os seus próprios nomes a novas espécies, quando os Mineralogistas e Químicos não o fazem a novas substâncias? Quando escrever a Falconer, por favor, lembre-me afetuosamente a ele. Lamento muito sinceramente ouvir que ele tem estado doente, meu caro Hooker, Deus o abençoe, e passe bem.

O seu amigo sincero, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA HUGH STRICKLAND. (Hugh Edwin Strickland, M.A., F.R.S., nasceu a 2 de março de 1811, e educado em Rugby, sob Arnold, e no Oriel College, Oxford. Em 1835 e 1836 viajou pela Europa até ao Levante com W.J. Hamilton, o geólogo, passando o inverno na Ásia Menor. Em 1841 apresentou o assunto da Nomenclatura de História Natural perante a Associação Britânica, e preparou o Código de Regras para a Nomenclatura Zoológica, agora conhecido pelo seu nome — cujos princípios são muito geralmente adotados. Em 1843 foi um dos fundadores (se não o projetista original) da Sociedade Ray. Em 1845 casou-se com a segunda filha de Sir William Jardine, Bart. Em 1850 foi nomeado, em consequência da doença de Buckland, Leitor Adjunto de Geologia em Oxford. A sua carreira promissora foi subitamente interrompida a 14 de setembro de 1853, quando, enquanto geologizava num corte ferroviário entre Retford e Gainsborough, foi atropelado por um comboio e morto instantaneamente. Um memorial seu e uma reimpressão das suas principais contribuições para revistas foi publicado por Sir William Jardine em 1858; mas ele foi também o autor de 'The Dodo and its Kindred' (1848); 'Bibliographia Zoologiae' (esta última em conjunto com Louis Agassiz, e editada pela Sociedade Ray); 'Ornithological Synonyms' (apenas um volume publicado, e esse postumamente). Um catálogo da sua coleção ornitológica, oferecido pela sua viúva à Universidade de Cambridge, foi compilado pelo Sr. Salvin, e publicado em 1882. (Estou em dívida para com o Prof. Newton pela nota acima.)) Down, 29 de janeiro [1849].

...Que trabalho empreendeu, eu HONRO o seu zelo devoto na boa causa da Ciência Natural. Por acaso tem uma cópia SOBRESSALENTE das regras de Nomenclatura publicadas nas 'Transações da Associação Britânica?' se tiver, e a desse a mim, ficaria verdadeiramente grato, pois custa-me comprar o volume por causa disso. Achei as regras muito úteis, é um verdadeiro conforto ter algo em que me apoiar no oceano turbulento da nomenclatura (e estou correspondentemente grato a si), embora ache muito difícil obedecer sempre. Eis um caso (e penso que deveria ter sido notado nas regras), Coronula, Cineras e Otion, são nomes adotados por Cuvier, Lamarck, Owen, e quase TODOS os escritores bem conhecidos, mas descubro que todos os três nomes foram antecipados por um alemão: ora, creio que se eu seguisse a regra estrita de prioridade, far-se-ia mais mal do que bem, especialmente porque sinto que os nomes recém-pescados não seriam adotados. Quase me decidi a rejeitar a regra de prioridade neste caso; importaria-se com o trabalho de me enviar a sua opinião? Fui levado ultimamente a refletir muito sobre o assunto de nomear, e cheguei a uma opinião fixa de que o plano de o nome do primeiro descritor ser acrescentado a perpetuidade a uma espécie tem sido a maior maldição para a História Natural. Há alguns meses, escrevi o documento anexo, mal elaborado, pensando que talvez agitasse o assunto; mas o impulso passou, e não suponho que alguma vez o farei; envio-lho pela OPORTUNIDADE de lhe interessar ver as minhas noções. Fiquei surpreendido ao descobrir, em conversa, que vários naturalistas pensavam quase da mesma forma que eu. Sinto-me certo de que, enquanto os negociantes de espécies tiverem a sua vaidade acariciada por verem os seus próprios nomes acrescentados a uma espécie, porque a descreveram miseravelmente em duas ou três linhas, teremos a mesma VASTA quantidade de mau trabalho que temos atualmente, o que é suficiente para desencorajar qualquer homem que esteja disposto a trabalhar qualquer ramo com cuidado e tempo. Descobri que cada género de Cirripedia tem meia dúzia de nomes, e nem uma descrição cuidadosa de qualquer espécie em qualquer género. Não creio que este teria sido o caso se cada homem soubesse que a memória do seu próprio nome dependia de fazer bem o seu trabalho, e não apenas de acrescentar um nome com algumas linhas miseráveis indicando apenas alguns caracteres externos proeminentes. Mas não o cansarei com mais tiradas. Leia o meu documento ou NÃO, como quiser, e devolva-o quando lhe aprouver.

O seu muito sinceramente, C. DARWIN.

HUGH STRICKLAND PARA CHARLES DARWIN. The Lodge, Tewkesbury, 31 de janeiro de 1849.

...Tenho a seguir de notar a sua segunda objeção — que reter o nome do PRIMEIRO descritor in perpetuum juntamente com o da espécie, é um prémio ao trabalho apressado e descuidado. Esta é uma questão bastante diferente da da lei da prioridade em si, e nunca me ocorreu antes, embora pareça altamente provável que o reconhecimento geral dessa lei possa produzir tal resultado. Devemos tentar contrariar este mal de outra forma.

O objetivo de acrescentar o nome de um homem ao nome de uma espécie não é gratificar a vaidade do homem, mas indicar mais precisamente a espécie. Por vezes, dois homens darão, por acidente, o mesmo nome (independentemente) a duas espécies do mesmo género. Mais frequentemente, um autor posterior aplicará mal o nome específico de um anterior. Assim, a Helix putris de Montagu não é a H. putris de Linnaeus, embora Montagu supusesse que fosse. Em tal caso, não podemos definir a espécie apenas por Helix putris, mas devemos acrescentar o nome do autor que citamos. Mas quando uma espécie nunca teve mais do que um nome (como Corvus frugilegus), e nenhuma outra espécie de Corvus teve o mesmo nome, é, claro, desnecessário acrescentar o nome do autor. No entanto, mesmo aqui gosto da forma Corvus frugilegus, Linn., pois lembra-nos que esta é uma das espécies antigas, conhecida há muito, e a ser encontrada no 'Systema Naturae', etc. Temo, portanto, que (pelo menos até que a nossa nomenclatura esteja mais definitivamente estabelecida) será impossível indicar espécies com precisão científica, sem acrescentar o nome do seu primeiro autor. Pode, na verdade, fazê-lo como propõe, dizendo em Lam. An. Invert., etc., mas então isto seria incompatível com a lei da prioridade, pois onde Lamarck violou essa lei, não se pode adotar o seu nome. É, no entanto, altamente conducente a uma indicação precisa acrescentar ao (mais antigo) nome específico UMA boa referência a uma obra padrão, especialmente a uma FIGURA, com um sinónimo acompanhante se necessário. Este método pode ser pesado, mas o peso é um mal muito menor do que a incerteza.

Parece, além disso, dificilmente possível levar a cabo o princípio da PRIORIDADE, sem a ajuda histórica proporcionada pela adição do nome do autor ao nome específico. Se eu, um HOMEM DA PRIORIDADE, chamasse uma espécie C.D., isso implica que C.D. é o nome mais antigo de que tenho conhecimento; mas para que você e outros possam julgar a propriedade desse nome, deve verificar quando, e por quem, o nome foi cunhado pela primeira vez. Ora, se ao nome específico C.D., acrescentar o nome A.B., do seu primeiro descritor, forneço-lhe imediatamente a pista para as datas em que, e o livro no qual, esta descrição foi dada, e ajudo-o assim a determinar se C.D. é realmente a mais antiga, e portanto a designação correta.

Admito, contudo, que o princípio da prioridade (excelente como é) tem uma tendência, quando o nome do autor é acrescentado, para encorajar a vaidade e o trabalho desleixado. Penso, porém, que muito poderia ser feito para desencorajar essas definições obscuras e insatisfatórias das quais você se queixa tão justamente, ESCREVENDO A PRÁTICA. Que os naturalistas mais bem dispostos se combinem para fazer um protesto formal contra todas as definições vagas, soltas e inadequadas de (supostas) novas espécies. Que um comité (digamos da Associação Britânica) seja nomeado para preparar uma espécie de LISTA DE CLASSE das várias obras modernas em que são descritas novas espécies, dispostas por ordem de mérito. A classe mais baixa conteria os piores exemplos do género, e os seus autores seriam assim expostos ao opróbrio que merecem, e seriam expostos in terrorem para a edificação daqueles que hão de vir depois.

Afirmei assim candidamente os meus pontos de vista (espero que de forma inteligível) sobre o que parece ser o melhor a fazer no atual estado de transição e perigo da zoologia sistemática. Inumeráveis trabalhadores, muitos deles excêntricos e meio instruídos, estão a precipitar-se para o campo, e depende, penso eu, da geração atual se a ciência deve descer à posteridade como uma massa caótica, ou possuída de alguns vestígios de lei e organização. Se pudéssemos apenas conseguir um congresso de delegados dos principais corpos científicos da Europa e América, algo poderia ser feito, mas, como o caso se apresenta, confesso que não vejo claramente o meu caminho, para além de tentar humildemente reformar o NÚMERO UM.

O seu de sempre, H.E. STRICKLAND.

CHARLES DARWIN PARA HUGH STRICKLAND. Down, domingo [4 de fevereiro de 1849].

Meu caro Strickland,

Estou, na verdade, ENORMEMENTE grato pela sua longa, interessantíssima e clara carta, e pelo Relatório. Considerarei os seus argumentos, que são do maior peso, mas confesso que ainda não me consigo levar a rejeitar nomes muito BEM CONHECIDOS, não num país, mas em todo o mundo, por outros obscuros, — simplesmente com base no facto de que não acredito que seria seguido. Por favor, acredite que eu quebraria a lei da prioridade apenas em casos raros; quer ler o anexo (e devolvê-lo), e dizer-me se não o faz vacilar? (N.B. PROMETO que não lhe darei mais nenhum trabalho.) Quero respostas simples, e não que você desperdice o seu tempo com razões; estou curioso pela sua resposta no que diz respeito a Balanus. Coloquei o caso de Otion, etc., a W. Thompson, que é feroz pela lei da prioridade, e ele desistiu dela em nomes tão bem conhecidos. Estou num labirinto perfeito de dúvida sobre nomenclatura. Em nenhum grande género de Cirripedia foi ALGUMA espécie definida corretamente; é pura suposição (ser guiado pela distribuição, comunalidade e hábitos) reconhecer qualquer espécie: assim, mal consigo distinguir, a partir de placas ou descrições, qualquer dos cirrípedes sésseis britânicos. Não suporto dar nomes novos a todas as espécies, e ainda assim talvez faça mal ao atribuir nomes antigos por pouco mais do que suposição; não consigo atualmente dizer minimamente qual das duas espécies todos os escritores quiseram dizer com a comum Anatifera laevis; dei, portanto, esse nome àquela que é um pouco a mais comum. Literalmente, não há uma única espécie definida corretamente; nenhum naturalista se deu ao trabalho de abrir a carapaça de qualquer espécie para a descrever cientificamente, e ainda assim todos os géneros têm meia dúzia de sinónimos. Pelo amor do ARGUMENTO, suponha que eu faço o meu trabalho minuciosamente bem, qualquer um que por acaso tenha os espécimes originais nomeados, direi por Chenu, que figurou e nomeou centenas de espécies, será capaz de derrubar todos os meus nomes de acordo com a lei da prioridade (pois ele pode manter que as suas descrições são suficientes), pensa que é vantajoso para a ciência que isto seja feito: penso que não, e que a conveniência e o alto mérito (aqui posto como mero argumento) deveriam entrar em jogo. O assunto é de partir o coração.

Espero que ocasionalmente pondere o meu argumento sobre o mal causado pelo "mihi" ligado aos nomes específicos; consigo ver muito claramente o EXCESSO de mal que ele tem causado; em mineralogia descobri eu próprio que não há fúria por nomear apenas; uma pessoa não se dedica ao assunto a menos que pretenda completá-lo, pois sabe que a sua ÚNICA pretensão a mérito reside no seu trabalho ser bem feito, e não tem relação alguma com NOMEAR. Desisto de um ponto, e concedo que a referência ao nome do primeiro descritor deveria ser dada em todas as obras sistemáticas, mas penso que algo seria ganho se uma referência fosse dada sem o nome do autor ser realmente acrescentado como parte do nome binomial, e penso que, exceto em obras sistemáticas, uma referência, tal como proponho, abafaria muito a vaidade. Penso que um espírito muito errado percorre toda a História Natural, como se algum mérito fosse devido a um homem por apenas nomear e definir uma espécie; penso que quase nenhum, ou nenhum, é devido; se ele trabalha MINUCIOSA e anatomicamente qualquer espécie, ou sistematicamente um grupo inteiro, o crédito é devido, mas devo pensar que a mera definição de uma espécie não é nada, e que nenhuma INJUSTIÇA lhe é feita se for ignorada, embora seja assim causada uma grande inconveniência à História Natural. Não penso que seja devido mais crédito a um homem por definir uma espécie do que a um carpinteiro por fazer uma caixa. Mas sou tolo e raivoso contra os negociantes de espécies, ou melhor, contra a sua vaidade; é trabalho útil e necessário que deve ser feito; mas eles agem como se tivessem realmente feito a espécie, e esta fosse a sua própria propriedade.

Uso o nomenclator de Agassiz; pelo menos dois terços das datas nas Cirripedia estão grosseiramente erradas.

Farei o que puder em Cirripedia fósseis, e ficaria muito grato por espécimes; mas não acredito que espécies (e dificilmente géneros) possam ser definidas por válvulas isoladas; pois em cada espécie recente já examinada as suas formas variam muito: descrever uma espécie apenas por válvulas é o mesmo que descrever um caranguejo apenas por PEQUENAS porções da sua carapaça, sendo estas porções altamente variáveis, e não, como nos Crustáceos, modeladas sobre as vísceras. Peço desculpa sinceramente pelo trabalho que lhe dei, mas, na verdade, não darei mais.

O seu muito sinceramente, C. DARWIN.

P.S.--Em conversa descobri que Owen e Andrew Smith estão muito inclinados a abandonar a prática de acrescentar os nomes dos autores; acredito que se agitasse, poderia conseguir um grande grupo para se juntar. W. Thompson concordou em certa medida comigo, mas não estava preparado para ir tão longe quanto eu.

Tenho novamente de lhe agradecer cordialmente pela sua carta. As suas observações hão de frutificar até certo ponto, e tentarei ser mais fiel à virtude rígida e à prioridade; mas quanto a chamar "Lepas" a Balanus (o que não me tinha ocorrido), não o posso fazer, a minha pena não o escreverá — é IMPOSSÍVEL. Tenho grandes esperanças de que algumas das minhas dificuldades desapareçam, devido a datas erradas em Agassiz, e ao facto de ter de fundir vários géneros num só, pois, até agora, só em poucos casos recorri às fontes originais. No que respeita a adotar as minhas próprias noções no meu livro sobre Cirripedia, não gostaria de o fazer sem que descobrisse que outros as aprovam, e de alguma forma pública — nem, na verdade, é bem adaptado, pois nunca consigo reconhecer uma espécie sem ter o espécime original, o que, felizmente, tenho em muitos casos no British Museum. Até aqui, pretendo adotar a minha noção de nunca colocar mihi ou "Darwin" depois das minhas próprias espécies e, no texto anatómico, não dar nomes de autores de todo, pois a Parte sistemática servirá para aqueles que quiserem conhecer a História de uma espécie tanto quanto eu puder imperfeitamente trabalhá-la...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. [The Lodge, Malvern, 28 de março de 1849.]

Meu caro Hooker,

A sua carta de 13 de outubro permaneceu sem resposta até este dia! Que retorno ingrato para uma carta que tanto me interessou e que continha tanta e curiosa informação. Mas tive um mau inverno.

No dia 13 de novembro, morreu o meu pobre e querido pai, e ninguém que não o conhecesse acreditaria que um homem com mais de oitenta e três anos pudesse ter conservado uma disposição tão terna e afetuosa, com toda a sua sagacidade sem nuvens até ao fim. Eu estava na altura tão indisposto que não conseguia viajar, o que aumentou a minha miséria. De facto, durante todo este inverno estive bastante mal... e o meu sistema nervoso começou a ser afetado, de modo que as minhas mãos tremiam e a cabeça estava frequentemente a girar. Não conseguia fazer nada um dia em cada três e sentia-me demasiado desanimado para lhe escrever, ou para fazer qualquer coisa que não fosse o que era obrigado. Pensei que estava rapidamente a seguir o caminho de toda a carne. Tendo ouvido, por acaso, falar de duas pessoas que tinham recebido muito benefício da cura pela água, arranjei o livro do Dr. Gully, fiz mais perguntas e, finalmente, vim para aqui, com a esposa, os filhos e todos os nossos criados. Alugámos uma casa por dois meses e estamos aqui há quinze dias. Já estou um pouco mais forte... O Dr. Gully sente-se bastante seguro de que me pode fazer bem, o que certamente os médicos regulares não conseguiram... Sinto-me certo de que a cura pela água não é charlatanismo.

Como desfrutarei de voltar para Down com a saúde renovada, se tal for a minha boa sorte, e retomar as amadas Cracas. Agora, espero que me perdoe pela minha negligência em não ter respondido mais cedo à sua carta. Fiquei extraordinariamente interessado pelo esboço que dá da sua pretendida grande expedição, da qual suponho que em breve regressará. Como espero sinceramente que se revele, em todos os aspetos, bem-sucedida...

[Quando o meu pai esteve no Estabelecimento de Cura pela Água em Malvern, foi posto em contacto com a clarividência, sobre a qual escreve no seguinte extrato de uma carta a Fox, setembro de 1850.

"Fala sobre Homeopatia, que é um assunto que me causa mais ira do que a própria Clarividência. A Clarividência transcende tanto a crença que as faculdades comuns de alguém são postas de parte, mas na homeopatia o senso comum e a observação comum entram em jogo, e ambos devem ir para o diabo, se as doses infinitesimais tiverem qualquer efeito. Quão verdadeira é uma observação que vi no outro dia de Quetelet, a respeito da evidência de processos curativos, a saber, que ninguém sabe na doença qual é o resultado simples de nada se fazer, como um padrão com o qual comparar a homeopatia e todas as outras coisas do género. É uma falha triste, não posso deixar de pensar, no meu amado Dr. Gully, o facto de ele acreditar em tudo. Quando a Srta. -- estava muito doente, ele teve uma rapariga clarividente para relatar as mudanças internas, um mesmerizador para a adormecer — um homeopata, a saber, o Dr. --, e ele próprio como hidropata! e a rapariga recuperou."

Uma passagem de uma carta anterior a Fox (dezembro de 1844) mostra que ele era igualmente cético sobre o assunto do mesmerismo: "No que respeita ao mesmerismo, todo o país ressoa com factos ou contos maravilhosos... Acabei de ouvir falar de uma criança, de três ou quatro anos (cujos pais e a própria eu conhecia bem), mesmerizada pelo seu pai, o que é o primeiro facto que me deixou perplexo. Não acreditarei totalmente até ver ou ouvir de boa evidência de animais (como foi declarado ser possível), não drogados, serem postos em estupor; é claro que a impossibilidade não provaria que o mesmerismo é falso; mas é a única experimentum crucis clara, e estou espantado por não ter sido sistematicamente tentada. Se o mesmerismo fosse investigado, como uma ciência, isto não poderia ter sido deixado até aos dias de hoje por FAZER SATISFATORIAMENTE, como acredito ter sido deixado. Tenha alguns gatos consigo e tente que algum mesmerizador o tente. Um homem disse-me que tinha conseguido, mas as suas experiências foram muito vagas, e como era de esperar de um homem que dizia que os gatos eram mais facilmente feitos do que outros animais, porque eram tão elétricos!"]

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down, 4 de dezembro [1849].

Meu caro Lyell,

Esta carta não requer resposta, e escrevo por exuberância de vaidade. Dana enviou-me a Geologia da Expedição dos Estados Unidos, e acabei de ler a parte sobre Corais. Para começar com um discurso modesto, ESTOU ESPANTADO COM A MINHA PRÓPRIA PRECISÃO!! Se eu tivesse de reescrever agora o meu livro sobre Corais, quase não haveria uma frase que tivesse de alterar, exceto que deveria ter atribuído mais efeito à recente ação vulcânica no controlo do crescimento do coral. Quando digo tudo isto, devo acrescentar que as CONSEQUÊNCIAS da teoria sobre áreas de subsidência são tratadas num capítulo separado ao qual não cheguei, e neste, suspeito, diferiremos mais. Dana fala em concordar com a minha teoria EM MUITOS PONTOS; não consigo encontrar um único em que ele discorde. Considerando o quanto ele viu de Recifes de Coral infinitamente mais do que eu, isto é maravilhosamente satisfatório para mim. Ele trata-me com a maior cortesia. Pronto, a minha vaidade está bastante satisfeita...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Malvern, 9 de abril de 1849.

Meu caro Hooker,

Logo na manhã seguinte após enviar a minha última carta (penso que no dia 23 de março), recebi as suas duas cartas interessantes, tagarelas e geológicas; e a última troquei-a desde então com Lyell pela dele. Escreverei à toa, conforme os assuntos me ocorrerem. Vi a Crítica no 'Athenaeum', foi escrita com um espírito indelicado; mas todo o vírus consistia em dizer que não havia novidade suficiente nas suas observações para publicação. Ninguém, hoje em dia, se importa com críticas. Posso apenas mencionar que o meu Diário obteve um REAL BOM abuso, "presunção", etc. — terminou dizendo que o volume parecia "feito dos restos e lixo do portefólio do autor". Entendo muito verdadeiramente o que diz, e acredito inteiramente em si que só se importa com a crítica no que respeita ao seu pai; e que isto APENAS o faria gostar de ver extratos das suas cartas mais devidamente notados nesta mesma publicação. Considerei, com o melhor do meu discernimento, se alguma parte das suas cartas atuais está adaptada para o 'Athenaeum' (no qual não tenho interesse; os animais nem sequer NOTARAM os meus três volumes geológicos que lhes tinha enviado), e cheguei à conclusão de que é melhor não os enviar. Tenho a certeza, considerando todas as circunstâncias, de que sem que se esforçasse e escrevesse COM CUIDADO um esboço condensado e acabado de algum aspeto marcante das suas viagens, é melhor não enviar nada. Estas duas cartas são, além disso, demasiado geológicas para o 'Athenaeum' e quase requerem xilogravuras. Por outro lado, quase não há detalhes suficientes para uma comunicação à Sociedade Geológica. Não tenho a MENOR DÚVIDA de que os seus factos são do mais alto interesse no que diz respeito à ação glacial no Himalaia; mas ocorreu tanto ao Lyell como a mim que a sua evidência deveria ter sido dada de forma mais distinta...

Escrevi tão recentemente que não tenho nada a dizer sobre mim; a minha saúde impediu-me de continuar uma cruzada contra "mihi" e "nobis", cujos perigos me avisa. Mostrei o meu artigo a três ou quatro Naturalistas, e todos concordaram comigo até certo ponto: com saúde e vigor, não teria mostrado bandeira branca, [e] com a ajuda de meia dúzia de Naturalistas realmente bons, acredito que algo poderia ter sido feito contra a paixão miserável e degradante de apenas dar nomes a espécies. Na sua carta, pergunta-se o que tem a "Aves Ornamentais" a ver com Cracas; mas não se lisonjeie que eu não viverei ainda para terminar as Cracas, e depois fazer de mim um tolo sobre o assunto das espécies, sob cuja categoria as Aves Ornamentais são muito interessantes...

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. The Lodge, Malvern [junho de 1849].

...Recebi o seu livro ('A Second Visit to the United States.') e li todo o primeiro e uma pequena parte do segundo volume (ler é o trabalho mais árduo permitido aqui), e fiquei grandemente interessado por ele. Faz-me desejar ser um Ianque. E. deseja que eu diga que ela ficou bastante "satisfeita" com a verdade das suas observações sobre o progresso religioso... Deleito-me a pensar em como irá enojar alguns dos fanáticos e donos da educação. Até agora não houve MUITA Geologia ou História Natural, pelo que espero que se sinta um pouco envergonhado. As suas observações sobre todos os assuntos sociais parecem-me dignas do autor dos 'Principles'. E contudo (sei que é preconceito e orgulho) se eu tivesse escrito os Principles, nunca teria escrito quaisquer viagens; mas acredito que sou mais ciumento quanto à honra e glória dos Principles do que você próprio...

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. 14 de setembro de 1849.

...Continuo com os meus processos aquosos e ganho saúde e força de forma muito constante, mas lenta. Contra todas as regras, jantei em Chevening com Lord Mahon, que me deu a grande honra de me visitar, e como ele ouviu falar de mim, não consigo adivinhar. Fiquei encantado com Lady Mahon, e qualquer um poderia ter ficado orgulhoso com os pedaços de amabilidade que saíram dos seus belos lábios a seu respeito. Gosto muito do velho Lord Stanhope; embora ele tenha abusado da Geologia e da Zoologia de todo o coração. "Supor que o Deus Omnipotente fez um mundo, considerou-o um fracasso, e quebrou-o, e depois fez tudo de novo, e voltou a quebrá-lo, como dizem os Geólogos, é tudo tretas. Descrever Espécies de aves e conchas, etc., é tudo tretas..."

Fico sinceramente contente por nos encontrarmos em Birmingham, como espero que nos encontremos, se a minha saúde se mantiver. Trabalho agora todos os dias na Cirripedia durante 2 horas e meia, e assim avanço um pouco, mas muito lentamente. Às vezes, depois de estar uma semana inteira empregado e ter descrito talvez apenas duas espécies, concordo mentalmente com Lord Stanhope que é tudo tretas; contudo, no outro dia, obtive um caso curioso de um cirrípede unissexual, em vez de hermafrodita, no qual a fêmea tinha o caráter cirripedial comum, e em duas valvas da sua concha tinha dois pequenos bolsos, em CADA um dos quais mantinha um pequeno marido; não conheço qualquer outro caso em que uma fêmea invariavelmente tenha dois maridos. Tenho um facto ainda mais estranho, comum a várias espécies, a saber, que embora sejam hermafroditas, têm pequenos machos adicionais, ou como lhes chamarei, complementares; um espécime em si hermafrodita tinha nada menos que SETE destes machos complementares ligados a ele. Verdadeiramente, os esquemas e maravilhas da Natureza são ilimitados. Mas estou a falar tão mal das minhas cirripedia como da Geologia; faz-me gemer pensar que provavelmente nunca mais terei o prazer requintado de descobrir algum novo distrito, de desenvolver luz geológica a partir de alguma região escura e perturbada. Por isso, devo tirar o melhor partido das minhas Cirripedia...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 12 de outubro de 1849.

...A propósito, uma das partes mais agradáveis da Associação Britânica foi a minha viagem a Birmingham com a Sra. Sabine, a Sra. Reeve e o Coronel; também o Cel. Sykes e Porter. A Sra. Sabine e eu concordámos maravilhosamente em muitos pontos, e em nenhum mais sinceramente do que sobre si. Falámos sobre as suas cartas do Erebus; e ela concordou inteiramente comigo, que você e o AUTOR (O Sir J. Hooker escreveu a descrição espirituosa da caça ao gado no 'Voyage of Discovery in the Southern Regions', de Sir J. Ross, 1847, vol. ii., página 245.), da descrição da caça ao gado nas Falklands, teriam feito um livro excelente juntos! Ela é uma mulher muito simpática, e também o é a sua mãe perspicaz e sagaz... Birmingham foi muito monótona comparada com Oxford, embora eu tivesse a minha esposa comigo. Vimos muito os Lyells e Horners e Robinsons (o Presidente); mas o lugar era lúgubre, e fui impedido, por estar indisposto, de ir a Warwick, embora isso, isto é, a festa, segundo todos os relatos, fosse maravilhosamente inferior a Blenheim, para não falar daquele dia celestial em Dropmore. Um cansa-se de toda a tagarelice...

Pergunta sobre a minha cura pela água fria; estou a ir muito bem, e certamente estou um pouco melhor a cada mês, as minhas noites melhoram muito mais lentamente do que os meus dias. Construí um duche e vou continuar durante todo o inverno, com ou sem geada. O meu tratamento agora é lâmpada cinco vezes por semana, e banho raso durante cinco minutos depois; duche diário durante cinco minutos e lençol a pingar diariamente. O tratamento é maravilhosamente tónico, e tive mais dias consecutivos melhores este mês do que em quaisquer anteriores... Tenho permissão para trabalhar agora duas horas e meia diariamente, e acho que é tanto quanto consigo fazer, pois a cura pela água fria, juntamente com três caminhadas curtas, é curiosamente exaustiva; e estou na verdade OBRIGADO a ir para a cama às oito horas completamente cansado. Ganho peso de forma constante, como imenso e nunca me sinto oprimido com a comida. Perdi o tremor involuntário do músculo, e todas as sensações de desmaio, etc. — pontos negros perante os olhos, etc. O Dr. Gully pensa que me curará completamente em mais seis ou nove meses.

O maior incómodo que encontro na cura pela água é ter sido obrigado a desistir de toda a leitura, exceto os jornais; pois as minhas duas horas e meia diárias nas Cracas é tanto quanto consigo fazer de qualquer coisa que ocupe a mente; estou consequentemente terrivelmente atrasado em todos os livros científicos. Tenho trabalhado ultimamente na mera descrição de espécies, o que é muito mais difícil do que esperava, e tem o mesmo tipo de interesse que um puzzle; mas confesso que muitas vezes me sinto cansado com o trabalho e não posso deixar de me perguntar por vezes qual é o bem de passar uma semana ou quinze dias a verificar que certas diferenças apenas percetíveis se misturam e constituem variedades e não espécies. Enquanto estou na anatomia, nunca me sinto com aquele humor nojento, horrível, cui bono, de questionar. Que trabalho miserável, de novo, é procurar a prioridade de nomes. Acabei de terminar duas espécies, que possuem sete nomes genéricos e vinte e quatro nomes específicos! O meu maior conforto é que o trabalho tem de ser feito algum dia, e tanto posso fazê-lo eu como qualquer outra pessoa.

Desisti da minha agitação contra mihi e nobis; o meu artigo é demasiado longo para lhe enviar, por isso terá de o ver, se se importar de o fazer, no seu regresso. A propósito, diz na sua carta que se importa mais com o meu trabalho de espécies do que com as Cracas; agora, isto é demasiado da sua parte, pois declaro que a sua decidida aprovação do meu trabalho simples sobre Cracas em relação ao trabalho teórico de espécies, teve uma influência muito grande em decidir-me a continuar com o primeiro e adiar o meu artigo sobre espécies...

[A carta seguinte refere-se à morte da sua filhinha, que teve lugar em Malvern a 24 de abril de 1851:]

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Down, 29 de abril [1851].

Meu caro Fox,

Não suponho que tenha ouvido falar da nossa amarga e cruel perda. A pobre e querida pequena Annie, quando ia muito bem em Malvern, foi acometida por um ataque de vómitos, que a princípio se pensou ser da menor importância; mas rapidamente assumiu a forma de uma febre baixa e terrível, que a levou em dez dias. Graças a Deus, ela quase não sofreu e expirou tão tranquilamente como um anjinho. O nosso único consolo é que ela passou uma vida curta, embora alegre. Ela era a minha filha favorita; a sua cordialidade, abertura, alegria contagiante e fortes afeições tornavam-na muito adorável. Pobre pequena alma querida. Bem, está tudo acabado...

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Down, 7 de março [1852].

Meu caro Fox,

Faz, de fato, uma era desde que tivemos qualquer comunicação, e fiquei muito contente ao receber o seu bilhete. O nosso longo silêncio ocorreu-me há algumas semanas, e pensei então em escrever, mas fui ocioso. Parabenizo-o e condoo-me pelo seu DÉCIMO filho; mas, por favor, observe que quando eu tiver um décimo, envie-me apenas condolências. Temos agora sete filhos, todos bem, graças a Deus, assim como a mãe deles; destes sete, cinco são rapazes; e o meu pai costumava dizer que era certo que um rapaz dava tanto trabalho quanto três raparigas; de modo que, bona fide, temos dezassete filhos. Sinto-me enjoado sempre que penso em profissões; todas parecem irremediavelmente más, e até agora não consigo ver um raio de luz. Gostaria muito de conversar sobre isto (a propósito, os meus três pavores são o ouro da Califórnia e da Austrália, que me empobrecem ao tornar o meu dinheiro em hipotecas sem valor; os franceses vindo pelas estradas de Westerham e Sevenoaks, e, portanto, cercando Down; e, em terceiro lugar, profissões para os meus rapazes), e gostaria de falar sobre educação, sobre a qual me pergunta o que estamos a fazer. Ninguém pode desprezar mais sinceramente a antiga e estúpida educação clássica estereotipada do que eu; mas, ainda assim, não tive coragem de romper as peias. Após muitas dúvidas, acabámos de enviar o nosso filho mais velho para Rugby, onde, para a sua idade, foi muito bem colocado... Honro, admiro e invejo-o por educar os seus filhos em casa. O que, pelo amor de Deus, fará com os seus rapazes? Perto do fim deste mês vamos ver o W. em Rugby, e daí por cinco ou seis dias visitar a Susan (a irmã dele) em Shrewsbury; depois regresso a casa para cuidar dos bebés, e a E. vai para casa de F. Wedgwood, em Etruria, por uma semana. Muitíssimas graças pelo seu amabilíssimo e generoso convite para Delamere, mas temo que dificilmente consigamos concretizá-lo. Receio ir a qualquer lugar, devido ao meu estômago falhar tão facilmente sob qualquer excitação. Raramente vou a Londres, mesmo agora; não que eu esteja de todo pior, talvez até um pouco melhor, e levo uma vida muito confortável com as minhas três horas de trabalho diário, mas é a vida de um eremita. As minhas noites são SEMPRE más, e isso impede-me de me tornar vigoroso. Pergunta sobre a hidroterapia. Faço, em intervalos de dois ou três meses, cinco ou seis semanas de tratamento MODERADAMENTE severo, e sempre com bom efeito. Venha aqui, eu rezo e suplico, sempre que puder encontrar tempo; não pode imaginar quanto prazer daria a mim e à E. Terminei o 1.º volume para a Ray Society sobre os Cirrípedes Pedunculados, o qual, como penso que é membro, receberá em breve. Leia o que descrevo sobre os sexos da Ibla e do Scalpellum. Estou agora a trabalhar nos Cirrípedes Sésseis, e estou maravilhosamente cansado do meu trabalho: um homem, para ser um naturalista sistemático, deveria trabalhar pelo menos oito horas por dia. Viu através de mim quando disse que eu devia ter desejado ver os efeitos do [palavra ilegível] Debacle, pois eu dizia há uma semana à E. que, se eu fosse como era nos velhos tempos, certamente teria partido naquela hora. Pergunta pelo Erasmus; ele está mais ou menos como de costume, e constantemente mais ou menos indisposto. A Susan (a irmã dele) está muito melhor, e muito próspera e feliz. A Catherine (outra irmã) está em Roma, e tem-na desfrutado num grau que é bastante espantoso para os meus ossos secos e velhos. E agora penso que lhe disse o suficiente, e mais do que suficiente, sobre a casa de Darwin; por isso, meu caro velho amigo, adeus. Que tempos agradáveis tivemos a beber café nos seus aposentos no Christ's College, e pense nas glórias da Crux major. (O escaravelho Panagaeus crux-major.) Ah, naqueles dias não havia profissões para os filhos, nem má saúde a temer por eles, nem ouro da Califórnia, nem invasões francesas. Como o futuro é predominante sobre o presente quando se está rodeado de filhos. O meu pavor é a má saúde hereditária. Até a morte é melhor para eles.

Meu caro Fox, o seu amigo sincero, C. DARWIN.

P.S.--A Susan tem trabalhado ultimamente de uma forma que considero verdadeiramente heroica sobre a escandalosa violação da Lei contra crianças a subir chaminés. Estabelecemos uma pequena Sociedade em Shrewsbury para processar aqueles que violam a lei. É tudo obra da Susan. Ela tem recebido cartas muito simpáticas de Lord Shaftesbury e do Duque de Sutherland, mas os brutais escudeiros de Shropshire são tão duros como pedras para mover. A Lei fora de Londres parece ser a mais comummente violada. Faz-nos estremecer imaginar um dos nossos próprios filhos, com sete anos de idade, sendo forçado a subir uma chaminé — para não falar da consequente doença repugnante, dos membros ulcerados e da completa degradação moral. Se pensa seriamente sobre este assunto, faça algumas perguntas; adicione às suas muitas boas obras esta outra, e tente incitar os magistrados. Há várias pessoas a agitar-se em diferentes partes da Inglaterra sobre este assunto. Não é muito provável que deseje tais coisas, mas eu poderia enviar-lhe alguns ensaios e informações se assim o desejasse, quer para si, quer para distribuir.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Down [24 de outubro de 1852].

Meu caro Fox,

Recebi a sua longa e muito bem-vinda carta esta manhã, e responderei esta noite, pois estarei muito ocupado com um artista, desenhando Cirripedia, e muito sobrecarregado de trabalho durante a próxima quinzena. Mas primeiro merece ser bem insultado — e por favor considere-se bem insultado — por pensar ou escrever que eu poderia, por um minuto que fosse, estar aborrecido com qualquer quantidade de detalhes sobre si e os seus. É exatamente o que gosto de ouvir; acredite-me que penso frequentemente nos velhos tempos passados consigo, e por vezes mal consigo acreditar que tipo de indivíduo alegre e despreocupado eu era naqueles velhos tempos. Uma noite clara de outono traz frequentemente à memória alguma excursão de caça de Osmaston. Lamento, de facto, que vivamos tão longe um do outro, e que eu seja tão pouco dado a viajar. Tenho estado invulgarmente bem ultimamente (sem hidroterapia), mas não acho que consiga suportar qualquer mudança melhor do que antigamente... No outro dia fui a Londres e voltei, e o cansaço, embora tão insignificante, trouxe a minha má forma de vómitos. Fico triste ao saber que o seu peito tem estado a queixar-se, e espero, muito sinceramente, que sejam apenas os músculos; com que frequência a voz falha no clero. Compreendo perfeitamente a sua relutância em separar o seu grande e feliz grupo e ir para o estrangeiro; mas a sua vida é muito valiosa, pelo que deve ser muito cauteloso a tempo. Pergunta sobre todos nós, agora cinco rapazes (oh! as profissões; oh! o ouro; e oh! os franceses — estes três oh's classificam-se todos como pavores terríveis) e duas raparigas... mas outro, e o pior dos meus pavores, é a fraqueza hereditária. Todas as minhas irmãs estão bem, exceto a Sra. Parker, que está com a saúde muito debilitada; e o mesmo acontece com o Erasmus, na sua pobre média: ele mudou-se recentemente para Queen Anne Street. Eu tinha ouvido falar do casamento pretendido (com o Rev. J. Hughes) da sua irmã Frances. Creio que a vi desde então, mas a minha memória leva-me a uns vinte e cinco anos atrás, quando ela estava deitada. Lembro-me bem da expressão deliciosa do seu semblante. Desejo-lhe, muito sinceramente, toda a felicidade.

Vejo que não respondi a metade das suas perguntas. Gostamos muito de tudo o que vimos e ouvimos sobre Rugby, e nunca nos arrependemos de enviar o [W.] para lá. Tenho a certeza de que as escolas melhoraram muito desde os nossos tempos; mas detesto as escolas e todo o sistema de romper com as afeições da família ao separar os rapazes tão cedo na vida; mas não vejo outra alternativa, e não me atrevo a correr o risco de um jovem ser exposto às tentações do mundo sem ter passado pela provação mais suave de uma grande escola.

Vejo que até pergunta sobre as nossas peras. Temos montes de Beurrees d'Aremberg, Winter Nelis, Marie Louise e "Ne plus Ultra", mas todas fora da parede; os anões padrão deram algumas, mas não tenho espaço para mais árvores, por isso os seus nomes seriam inúteis para mim. Tem mesmo de tirar férias e fazer-nos uma visita algum dia; em lugar nenhum poderia ser mais calorosamente bem-vindo. Estou a trabalhar no segundo volume dos Cirripedia, de cujas criaturas estou maravilhosamente cansado. Detesto uma craca como nenhum homem detestou antes, nem mesmo um marinheiro num navio de navegação lenta. O meu primeiro volume saiu; a única parte que vale a pena olhar é sobre os sexos da Ibla e do Scalpellum. Espero, até ao próximo verão, ter terminado o meu trabalho tedioso. Adeus — venha sempre que puder.

Não posso deixar de esperar que o carbúnculo possa, possivelmente, fazer-lhe bem: já ouvi falar de todo o tipo de fraquezas que desaparecem após um carbúnculo. Suponho que a dor seja terrível. Concordo inteiramente, que descoberta abençoada é o clorofórmio. Quando se pensa nos próprios filhos, faz toda a diferença na felicidade de alguém. No outro dia, arranquei cinco molares (dois pelo elevador) numa sessão sob esta substância maravilhosa, e quase não senti nada.

Meu caro velho amigo, seu muito afetuosamente, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Down, 29 de janeiro [1853].

Meu caro Fox,

O seu último relato, há alguns meses, foi tão pouco satisfatório que tenho pensado frequentemente em si, e ficaria realmente grato se me escrevesse algumas linhas e me dissesse como estão a sua voz e o seu peito. Espero, muito sinceramente, que o seu relatório seja bom... O nosso segundo filho tem um forte pendor mecânico, e pensamos em torná-lo engenheiro. Tentarei encontrar para ele alguma escola menos clássica, talvez Bruce Castle. Certamente que gostaria de ver mais diversidade na educação do que aquela que existe em qualquer escola comum — nenhum exercício das faculdades de observação ou raciocínio, nenhum conhecimento geral adquirido — tenho de considerar um sistema miserável. Por outro lado, um rapaz que aprendeu a insistir no latim e a conquistar as suas dificuldades, deveria ser capaz de insistir em qualquer trabalho. Ficarei sempre contente por ouvir qualquer coisa sobre escolas ou educação da sua parte. Estou no meu velho e interminável assunto, mas confio que irei realmente para a imprensa dentro de alguns meses com o meu segundo volume sobre Cirrípedes. Fiquei muito satisfeito por descobrir que alguns factos estranhos no meu primeiro volume são acreditados pelo Owen e por alguns outros, cuja boa opinião considero final... Escreva em breve, e diga-me tudo o que puder sobre si e a sua família; e confio que o seu relatório sobre si mesmo possa ser muito melhor do que o último.

...Tenho estado muito pouco em Londres ultimamente, e não vi o Lyell desde o seu regresso da América; que sorte ele teve ao exumar com a sua própria mão partes de três esqueletos de répteis dos estratos CARBONÍFEROS, e do interior de um tronco fóssil, que estava oco por dentro.

Adeus, meu caro Fox, seu afetuosamente, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. 13 Sea Houses, Eastbourne [15 de julho? 1853].

Meu caro Fox,

Aqui estamos num estado de profunda ociosidade, o que para mim é um luxo; e todos nós, creio, teríamos estado num estado de grande prazer, se não fossem os detestáveis ventos frios e muita chuva, que sempre dão muito tédio às crianças longe de casa. Recebi a sua carta de 13 de junho, quando trabalhava como um escravo com o Sr. Sowerby em desenhos para o meu segundo volume, e por isso adiei a resposta para quando soubesse que estaria livre. Fiquei extremamente contente por receber a sua carta. Eu tinha tido a intenção, há um par de meses, de lhe enviar um sermão selvagem ou suplicante para saber como estava, quando encontrei o Sir P. Egerton, que me disse que estava bem e, como de costume, expressou a sua admiração pelos seus feitos, especialmente pela sua agricultura e pelo número de animais, incluindo crianças, que mantinha nas suas terras. Onze filhos, ave Maria! é uma perspetiva séria para si. De facto, olho para os meus cinco rapazes como algo assustador, e detesto a própria ideia de profissões, etc. Se se pudesse garantir uma saúde moderada para eles, não importaria tanto, pois não posso deixar de esperar que, com a enorme emigração, as profissões melhorem um pouco. Mas o meu pavor é a fraqueza hereditária. Gosto particularmente de ouvir tudo o que possa dizer sobre educação, e merece ser ralhado por dizer que "não tinha a intenção de me TORMENTAR com uma longa lengalenga". Pergunta sobre Rugby. Gosto muito dela, pelo mesmo princípio que o meu vizinho, Sir J. Lubbock, gosta de Eton, a saber, que não é pior do que qualquer outra escola; a despesa, COM TUDO O RESTO, ETC., incluindo alguma roupa, despesas de viagem, etc., é de 110 a 120 libras por ano. Não acho que as escolas sejam tão más como eram, e muito mais industriosas. Os rapazes, penso eu, vivem demasiado isolados nos seus estudos separados; e duvido que obtenham tanto conhecimento de caráter como os rapazes costumavam obter; e esta, na minha opinião, é a ÚNICA vantagem das escolas públicas sobre as pequenas escolas. Eu pensaria que a única superioridade de uma escola pequena sobre o lar era a regularidade forçada no seu trabalho, que os seus rapazes talvez obtenham no seu lar, mas que não acredito que os meus rapazes obtenham no meu lar. Caso contrário, é lamentável enviar rapazes tão cedo na vida para longe de casa.

...Para regressar às escolas. A minha principal objeção a elas, como locais de educação, é a enorme proporção de tempo gasto com os clássicos. Imagino (embora talvez seja apenas imaginação) que consigo perceber o efeito nocivo e restritivo na mente do meu filho mais velho, ao impedir o interesse por qualquer coisa em que o raciocínio e a observação entrem em jogo. Parece que apenas a memória é exercitada. Procurarei certamente alguma escola com estudos mais diversificados para os meus rapazes mais novos. Estava a falar ultimamente com o Deão de Hereford, que partilha fortemente desta opinião; e ele diz-me que há uma escola em Hereford a começar com este plano; e que o Dr. Kennedy, em Shrewsbury, vai começar vigorosamente a modificar aquela escola...

Estou EXTREMAMENTE contente por saber que aprovou o meu volume sobre cirrípedes. Gastei uma quantidade quase ridícula de trabalho sobre o assunto, e certamente nunca o teria empreendido se tivesse previsto o que seria. Espero ter terminado até ao fim do ano. Escreva novamente antes de muito tempo; é um prazer real para mim ter notícias suas. Adeus, com as mais calorosas lembranças da minha esposa para si e para a Sra. Fox.

Meu caro velho amigo, seu afetuosamente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Down, 10 de agosto [1853].

Meu caro Fox,

Agradeço-lhe sinceramente por me escrever tão cedo após a sua gravíssima desventura. A sua carta afetou-me tanto. Nós ambos simpatizamos muito sinceramente consigo e com a Sra. Fox. Nós também perdemos, como deve recordar-se, não há muito tempo, uma criança muito querida, de quem mal consigo pensar tranquilamente; contudo, como deve saber pela sua própria experiência mais dolorosa, o tempo suaviza e amortece, de uma maneira verdadeiramente maravilhosa, os sentimentos e arrependimentos de alguém. No início é, de facto, amargo. Só posso esperar que a sua saúde e a da pobre Sra. Fox sejam preservadas, e que o tempo faça o seu trabalho suavemente, e vos traga a todos juntos, mais uma vez, como a família feliz que, como bem posso acreditar, formavam tão recentemente.

Meu caro Fox, seu amigo afetuoso, CHARLES DARWIN.

[A carta seguinte refere-se à Medalha da Royal Society, que lhe foi atribuída em novembro de 1853:]

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 5 de novembro [1853].

Meu caro Hooker,

Entre as minhas cartas recebidas esta manhã, abri primeiro uma do Coronel Sabine; o conteúdo surpreendeu-me certamente muito, mas, embora a carta fosse MUITO GENTIL, por alguma razão, importei-me muito pouco com o anúncio que continha. Depois abri a sua, e tal é o efeito do calor, da amizade e da bondade de alguém que se ama, que o próprio facto, contado como o contou, me fez brilhar de prazer até ao ponto de o meu próprio coração palpitar. Acredite-me, não esquecerei tão cedo o prazer da sua carta. Tanta simpatia afetuosa e sincera vale mais do que todas as medalhas que foram ou serão cunhadas. Mais uma vez, meu caro Hooker, agradeço-lhe. Espero que o Lindley (John Lindley, 1799-1865, filho de um viveirista perto de Norwich, através de cuja falência nos negócios foi atirado aos vinte anos para os seus próprios recursos. Foi ajudado por Sir W. Hooker, e empregado como bibliotecário assistente por Sir J. Banks. Parece ter tido uma capacidade enorme de trabalho, e diz-se que traduziu a 'Analyse du Fruit' de Richard numa única sessão de dois dias e três noites. Tornou-se Secretário-Assistente da Sociedade de Horticultura, e em 1829 foi nomeado Professor de Botânica no University College, um posto que ocupou por mais de trinta anos. Os seus escritos são numerosos: sendo talvez o mais conhecido o seu 'Vegetable Kingdom', publicado em 1846. A sua influência em ajudar a introduzir o sistema natural de classificação foi considerável, e trouxe "todo o peso do seu ensino e toda a força dos seus poderes controversos para o apoiar", face ao sistema lineano universalmente ensinado na parte anterior da sua carreira. Sachs aponta (Geschichte der Botanik, 1875, página 161), que embora Lindley tenha adotado, em geral, uma classificação sólida das plantas, só o fez abandonando o seu próprio princípio teórico de que a importância fisiológica de um órgão é uma medida do seu valor classificatório.) nunca ouça dizer que foi um competidor contra mim; pois, na verdade, é quase RIDÍCULO (claro que nunca repetiria que eu disse isto, pois seria considerado por outros, embora não, creio eu, por si, como afetação) ele não ter recebido a medalha muito antes de mim; devo sentir a CERTEZA de que fez muito bem em propô-lo; e que bom, caro e gentil companheiro é, apesar de tudo, por se regozijar com esta honra ser-me concedida.

O prazer que senti na ocasião, devo-o quase inteiramente a si.

Adeus, meu caro Hooker, seu afetuosamente, C. DARWIN.

P.S. — Pode acreditar que surpresa foi, pois nunca tinha ouvido dizer que as medalhas pudessem ser dadas exceto para artigos nas 'Transactions'. Tudo isto me fará trabalhar com melhor ânimo para terminar o segundo volume.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down, 18 de fevereiro [1854].

Meu caro Lyell,

Deveria ter escrito antes, se não tivesse parecido duvidoso se iria para Tenerife, mas agora estou extremamente contente por saber que o seu progresso posterior é certo; não que eu tenha muito de qualquer tipo para dizer, como bem pode acreditar quando ouvir que só estive uma vez em Londres desde que partiu. Fiquei particularmente contente por ver, há dois dias, a sua carta para o Sr. Horner, com as suas notícias geológicas; que sorte para si que os seus joelhos tenham recuperado. Estou espantado com o que diz da beleza, embora eu a imaginasse grande. Faz-me sentir bastante inveja pensar em si a subir e a descer aqueles vales íngremes. E que grupo agradável no seu regresso das suas expedições. Penso frequentemente no deleite que senti ao examinar ilhas vulcânicas, e consigo lembrar-me até de rochas específicas que bati, e do cheiro das falésias quentes, pretas e escoriáceas; mas desses cheiros QUENTES não parece ter tido muitos. Eu sinto mesmo inveja de si. Como gostaria de estar consigo, e especular sobre os vales profundos e estreitos.

Como é singular o facto que menciona sobre a inclinação dos estratos ser maior em torno da circunferência do que no meio da ilha; supõe que a elevação teve a forma de uma cúpula plana? Lembro-me de na Cordilheira ter ficado FREQUENTEMENTE impressionado com a maior abruptude dos estratos nas cadeias exteriores BAIXAS E EXTREMAS, em comparação com a grande massa de montanhas interiores. Atrevo-me a dizer que terá pensado em medir exatamente a largura de quaisquer diques no topo e no fundo de qualquer grande penhasco (o que foi feito pelo Sr. Searle [?] em Santa Helena), pois muitas vezes pareceu-me MUITO ESTRANHO que as fissuras não desaparecessem MAIS FREQUENTEMENTE para cima. Dificilmente consigo pensar em notícias para lhe contar, pois não vi ninguém desde que estive em Londres, quando fiquei encantado por ver Forbes com tão bom aspeto, bastante grande e robusto. Vi no Museu alguns dos surpreendentemente ricos minérios de ouro do Norte do País de Gales. Ramsay disse-me também que ultimamente transformou uma boa quantidade de Novo Arenito Vermelho em Pérmico, juntamente com o Labyrinthodon. Sem dúvida que lê os jornais e sabe que E. de Beaumont é Secretário perpétuo e, suponho, será mais poderoso do que nunca; e Le Verrier ocupa o lugar de Arago no Observatório. Houve uma reunião recentemente na Sociedade Geológica, na qual Prestwich (a julgar pelo que R. Jones me disse) apresentou a sua teoria exata, a saber: que toda a argila vermelha e sílex sobre o planalto de giz desta zona é o resíduo da lenta dissolução do giz!

Quanto a nós, não temos notícias e estamos todos bem. Os Hooker, há algum tempo, passaram quinze dias connosco e, para nosso extremo deleite, Henslow veio cá abaixo e esteve muito tranquilo e confortável aqui. Faz bem ver um semblante tão composto, benevolente e intelectual. Houve grandes receios de que o seu coração esteja afetado; mas, espero por Deus, sem fundamento. O livro de Hooker (o 'Diário do Himalaia' do Sir J. Hooker) foi publicado e está MUITO BELAMENTE composto. Honrou-me sem medida ao dedicar-mo! Quanto a mim, cheguei à página 112 dos Cracas, e esse é o total da minha história. A propósito, como se interessa tanto pela América do Norte, posso mencionar que recebi uma longa carta de um companheiro de navio na Austrália, que diz que a Colónia se está a tornar decididamente republicana devido ao afluxo de americanos, e que todos os grandes e novos esquemas para a exploração do ouro são planeados e executados por estes homens. Que nação progressista que é! Dê as minhas mais gentis lembranças a Lady Lyell, à Sra. Bunbury e ao Bunbury. Desejo sinceramente que as Canárias sejam dez vezes mais interessantes do que a Madeira e que tudo corra da forma mais próspera com todo o seu grupo.

Meu caro Lyell, Seu muito sincera e afetuosamente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 1 de março [1854].

Meu caro Hooker,

Terminei ontem à noite o primeiro volume e felicito-o muito sinceramente por ter produzido um livro DE PRIMEIRA CLASSE ('Diário do Himalaia') — um livro que certamente perdurará. Não posso duvidar de que ocupará o seu lugar como uma obra de referência, não tanto porque contém matéria real e sólida, mas porque dá um retrato de todo o país. Pode sentir-se que se viu (e senti-me desesperadamente desconfortável ao atravessar algumas das pontes e encostas íngremes), e COMPREENDE-SE todas as grandes características físicas. Tem, na verdade, motivos para estar orgulhoso; considere quão poucos viajantes houve com um conhecimento profundo de um assunto, e que pudessem, além disso, fazer um mapa (que, a propósito, é um dos mais distintos que alguma vez vi, pelo que bênçãos caiam sobre a sua cabeça), e estudar geologia e meteorologia! Pensava que o conhecia muito bem, mas não fazia a menor ideia de que as suas Viagens eram o seu passatempo; mas estou sinceramente contente com isso, pois sinto-me seguro de que nunca chegará o dia em que o senhor e a Sra. Hooker não se orgulharão de olhar para trás para o trabalho dedicado a estes belos volumes.

A sua carta, recebida esta manhã, interessou-me EXTREMAMENTE, e agradeço-lhe sinceramente por me contar os seus antigos pensamentos e aspirações. Tudo o que diz torna-me ainda mais profundamente grato pela Dedicatória; mas o senhor, homem mau, lembra-se de me perguntar como pensava que Lyell gostaria que a obra lhe fosse dedicada? Lembro-me de quão fortemente respondi, e presumo que queria saber o que eu sentiria; quem teria sonhado que seria tão astuto? Estou contente por ter mostrado um pouco de ambição quanto ao seu Diário, pois deve saber que muitas vezes o critiquei por não se preocupar mais com a fama, embora, ao mesmo tempo, deva confessar que o invejei e honrei por ser tão livre (demasiado livre, como sempre pensei) desta "última enfermidade de, etc." Não diga: "nunca houve um passado até agora para mim — o fantasma estava sempre à vista", pois em breve encontrará outros fantasmas à vista. Como conheço bem este sentimento, e conhecia-o no passado ainda mais vividamente; mas penso que o meu estômago embotou muito o meu antigo entusiasmo puro pela ciência e pelo conhecimento.

Estou a escrever uma carta incomportavelmente longa, mas tenho de voltar aos Diários, sobre os quais mal disse algo em detalhe. Em primeiro lugar, as ilustrações e mapas parecem-me os melhores que alguma vez vi; o estilo parece-me em toda a parte perfeitamente claro (que virtude rara), e algumas passagens realmente eloquentes. Como descreveu excelentemente os vales superiores, e como o seu clima é detestável; senti-me bastante ansioso nas encostas de Kinchin naquela terrível noite de neve. Nada me surpreendeu mais do que a sua força física; e todas aquelas pontes diabólicas! Bem, graças a Deus! Não é MUITO provável que eu vá alguma vez ao Himalaia. Muito, do ponto de vista científico, me interessou, especialmente tudo sobre aquelas maravilhosas moreias. Certamente penso que compreendo os vales, talvez mais vividamente por ter visto os vales de Tahiti. Não posso duvidar de que o Himalaia deve quase todo o seu contorno à água corrente, e que foi submetido a tal ação durante mais tempo do que quaisquer montanhas (até agora descritas) no mundo. Que contraste com os Andes!

Talvez gostasse de ouvir o muito pouco que posso dizer per contra, e isto aplica-se apenas ao início, no qual (como me pareceu) não havia FLUXO suficiente até chegar a Mirzapore, no Ganges (mas os Thugs foram MUITO interessantes), onde o fluxo parecia arrastá-lo mais equitativamente com frases mais longas e fatos e discussões mais longos, etc. Numa outra edição (e fico encantado ao saber que Murray esgotou tudo), ponderaria se esta parte não poderia ser condensada. Mesmo que a meteorologia fosse colocada em notas de rodapé, penso que seria uma melhoria. O mundo inteiro está contra mim, mas faz-me muito infeliz ver os nomes latinos todos em itálico, e todos misturados com nomes ingleses em letra romana; mas tenho de carregar este fardo, pois todos os homens de Ciência parecem pensar que corromperia o Latim vesti-lo com o mesmo tipo de letra que o pobre e velho Inglês. Bem, estou muito orgulhoso do MEU livro; mas há um incómodo: não gosto muito de perguntar às pessoas se o viram, e se gostaram dele, pois sinto-me tão identificado com ele que tais perguntas se tornam um tanto pessoais. Consequentemente, não lhe posso dizer a opinião dos outros. Terá visto uma análise bastante boa no 'Athenaeum.'

Que ótimas notícias da Tasmânia: é realmente um facto muito notável e louvável para a Colónia. (Isto refere-se a uma subvenção não solicitada pelo Governo Colonial para as despesas da 'Flora da Tasmânia' do Sir J. Hooker.) Estou sempre a construir verdadeiros castelos no ar sobre emigrar, e a Tasmânia tem sido o meu quartel-general ultimamente; pelo que me sinto muito orgulhoso do meu país adotivo: é realmente um facto muito singular e delicioso, contrastado com a leve apreciação da ciência no velho país. Agradeço-lhe sinceramente a sua carta desta manhã, e por toda a gratificação que a sua Dedicatória me deu; não pude deixar de pensar em como -- o desprezaria por não a ter dedicado a algum grande homem, que lhe teria feito algum bem a si e a ela aos olhos do mundo. Ah, meu caro Hooker, foi muito mole neste aspeto, e justifica o que digo sobre não se preocupar o suficiente com a sua própria fama. Oxalá eu fosse em todos os aspetos mais digno da sua boa opinião. Adeus. Como a Sra. Hooker e o senhor devem descansar agradavelmente de um dos seus muitos trabalhos...

Novamente adeus: escrevi uma carta maravilhosamente longa. Adios, e que Deus o abençoe.

Meu caro Hooker, sempre seu, C. DARWIN.

P.S. — Acabei de rever a minha carta divagante; vejo que não expressei de todo a minha forte admiração pela quantidade de trabalho científico, em tantos ramos, que efetuou. É realmente grandioso. Tem o direito de descansar sobre os remos; ou até de dizer, se lhe aprouver, que "o seu meridiano passou"; mas sinto-me bem assegurado de que o dia da sua reputação e reconhecimento geral apenas começou agora a amanhecer.

[Em setembro de 1854, o seu trabalho sobre os Cirrípedes estava praticamente terminado, e escreveu ao Dr. Hooker:

"Tenho desperdiçado o meu tempo nas últimas semanas de uma forma cansativa, em parte ociosidade, e ninharias, e a enviar dez mil cracas para fora de casa por todo o mundo. Mas agora, dentro de um ou dois dias, começarei a rever as minhas antigas notas sobre espécies. Que muito terei de discutir consigo; terei de ter cuidado para não 'progredir' para um dos maiores incómodos da vida, para os poucos como o senhor com tanto conhecimento."]

CAPÍTULO 1.X. — O CRESCIMENTO DA 'ORIGEM DAS ESPÉCIES.'

[O crescimento da 'Origem das Espécies' foi brevemente descrito nas palavras do meu pai (acima). As cartas apresentadas nos presentes e seguintes capítulos ilustrarão e ampliarão a história assim delineada.]

É claro que na parte inicial da viagem do "Beagle" ele não considerava inconsistente com as suas visões expressar-se em linguagem totalmente ortodoxa quanto à génese de novas espécies. Assim, em 1834, escreveu (Diários MS., página 468.) em Valparaíso: "Já encontrei leitos de conchas recentes que ainda retêm a sua cor a uma altitude de 1300 pés, e por baixo, o terreno plano está coberto por elas. Parece não ser uma conjectura muito improvável que a falta de animais possa dever-se ao facto de nenhum ter sido criado desde que este país foi elevado do mar."

Esta passagem não ocorre no 'Diário' publicado, cuja última prova foi terminada em 1837; e este facto harmoniza-se com a mudança que sabemos ter estado a ocorrer nas suas opiniões. Mas no 'Diário' publicado encontramos passagens que mostram um ponto de vista mais de acordo com a história natural teológica ortodoxa do que com as suas opiniões posteriores. Assim, ao falar dos pássaros Synallaxis e Scytalopus (1.ª edição página 353; 2.ª edição página 289), ele diz: "Ao encontrar, como neste caso, qualquer animal que parece desempenhar um papel tão insignificante no grande esquema da natureza, é-se levado a perguntar por que deveria ter sido criada uma espécie distinta."

Uma comparação das duas edições do 'Diário' é instrutiva, por dar alguma ideia do desenvolvimento das suas opiniões sobre a evolução. Não nos dá um verdadeiro índice da massa de conjectura que estava a ganhar forma na sua mente, mas mostra-nos que ele se sentia suficientemente seguro da verdade da sua crença para permitir que uma faceta mais forte de evolução aparecesse na segunda edição. Ele mencionou na Autobiografia que não foi até ler Malthus que obteve uma visão clara da potência da seleção natural. Isto foi em 1838 — um ano depois de terminar a primeira edição (não foi publicada até 1839), e cinco anos antes de a segunda edição ter sido escrita (1845). Assim, o ponto de viragem na formação da sua teoria ocorreu entre a escrita das duas edições.

Darei primeiro algumas passagens que são praticamente as mesmas nas duas edições, e que são, portanto, principalmente de interesse como ilustração do seu estado de espírito em 1837.

O caso das duas espécies de Molothrus (1.ª edição página 61; 2.ª edição página 53) deve ter sido um dos primeiros exemplos notados por ele da existência de espécies representativas — um fenómeno que sabemos ('Autobiografia',) que o impressionou profundamente. A discussão sobre animais introduzidos (1.ª edição página 139; 2.ª edição página 120) mostra quão impressionado ele ficou pela complicada interdependência dos habitantes de uma dada área.

Um ponto de vista análogo é dado na discussão (1.ª edição página 98; 2.ª edição página 85) da crença errónea de que os grandes animais requerem, para o seu sustento, uma vegetação luxuriante; a incorreção desta visão é ilustrada pela comparação da fauna da África do Sul e da América do Sul, e a vegetação dos dois continentes. O interesse da discussão é que mostra claramente a nossa ignorância a priori das condições de vida adequadas a qualquer organismo.

Existe uma passagem que foi mais de uma vez citada como tendo impacto sobre a origem das suas opiniões. É onde ele discute a impressionante diferença entre as espécies de ratos a leste e a oeste dos Andes (1.ª edição página 399): "A menos que suponhamos que a mesma espécie tenha sido criada em dois países diferentes, não deveríamos esperar qualquer semelhança mais próxima entre os seres orgânicos nos lados opostos dos Andes do que em costas separadas por um largo estreito de mar." Na 2.ª edição, página 327, a passagem é quase verbalmente idêntica, e é praticamente a mesma.

Existem outras passagens novamente que são mais fortemente evolucionistas na 2.ª edição, mas de resto são semelhantes às passagens correspondentes na 1.ª edição. Assim, ao descrever o Tuco-tuco cego (1.ª edição página 60; 2.ª edição página 52), na primeira edição ele não faz alusão ao que Lamarck poderia ter pensado, nem o caso é usado como um exemplo de modificação, como na edição de 1845.

Uma passagem impressionante ocorre na 2.ª edição (página 173) sobre a relação entre os "edentados extintos e as preguiças, tamanduás e tatus vivos."

"Esta maravilhosa relação no mesmo continente entre os mortos e os vivos, sem dúvida, lançará mais luz futuramente sobre o aparecimento de seres orgânicos na nossa terra, e o seu desaparecimento dela, do que qualquer outra classe de factos."

Esta frase não ocorre na 1.ª edição, mas ele estava evidentemente profundamente impressionado com o desaparecimento dos gigantescos precursores dos animais atuais. A diferença entre as discussões nas duas edições é extremamente instrutiva. Em ambas, insiste-se na nossa ignorância das condições de vida, mas na segunda edição, a discussão é feita para conduzir a uma forte declaração da intensidade da luta pela vida. Segue-se então uma comparação entre raridade (Na segunda edição, página 146, a destruição do gado Niata por secas é dada como um bom exemplo da nossa ignorância das causas da raridade ou extinção. A passagem não ocorre na primeira edição.) e extinção, o que introduz a ideia de que a preservação e o domínio das espécies existentes dependem do grau em que estão adaptadas às condições envolventes. Na primeira edição, ele apenas se sente "tentado a acreditar em relações tão simples como a variação do clima e do alimento, ou a introdução de inimigos, ou o aumento do número de outras espécies, como a causa da sucessão de raças." Mas finalmente (1.ª edição) termina o capítulo comparando a extinção de uma espécie ao esgotamento e desaparecimento de variedades de árvores de fruto: como se pensasse que um misterioso termo de vida estava impresso em cada espécie na sua criação.

A diferença de tratamento do problema das Galápagos é de algum interesse. No livro anterior, o tipo americano das produções das ilhas é notado, assim como o facto de as diferentes ilhas possuírem formas especialmente suas, mas a importância de todo o problema não é tão fortemente apresentada. Assim, na primeira edição, ele diz apenas:

"Esta semelhança de tipo entre ilhas e continentes distantes, enquanto as espécies são distintas, dificilmente tem sido suficientemente notada. A circunstância seria explicada, de acordo com as visões de alguns autores, dizendo que o poder criativo tinha agido de acordo com a mesma lei sobre uma vasta área." — (1.ª edição página 474.)

Esta passagem não é dada na segunda edição, e as generalizações sobre a distribuição geográfica são muito mais amplas e completas. Assim, ele pergunta:

"Por que foram os seus habitantes aborígenes, associados... em proporções diferentes tanto em espécie como em número das do Continente, e portanto agindo uns sobre os outros de uma maneira diferente — por que foram criados sobre tipos americanos de organização?" — (2.ª edição página 393.)

A mesma diferença de tratamento é mostrada noutros locais neste capítulo. Assim, a gradação na forma do bico apresentada pelas treze espécies aliadas de tentilhão é descrita na primeira edição (página 461) sem comentários. Enquanto na segunda edição (página 380) ele conclui:

"Poder-se-ia realmente imaginar que a partir de uma escassez original de pássaros neste Arquipélago, uma espécie foi tomada e modificada para fins diferentes."

No geral, parece-me notável que a diferença entre as duas edições não seja maior; é outra prova da cautela e autocontrolo do autor no tratamento da sua teoria. Após ler a segunda edição do 'Diário', descobrimos com um forte sentido de surpresa quão desenvolvidas eram as suas visões em 1837. Somos capazes de formar uma opinião sobre este ponto a partir dos cadernos de notas em que ele escreveu pensamentos e questões isoladas. Citarei o primeiro caderno, completado entre julho de 1837 e fevereiro de 1838: e isto vale a pena fazer, pois dá-nos uma visão do estado dos seus pensamentos antes da leitura de Malthus. As notas são escritas no seu estilo mais apressado, sendo tantas as palavras omitidas, que é muitas vezes difícil chegar ao significado. Com algumas exceções (indicadas por parênteses retos) (Nos extratos do caderno de notas, parênteses comuns representam os parênteses do meu pai.) imprimi os extratos como foram escritos; a pontuação, contudo, foi alterada, e alguns lapsos óbvios corrigidos onde parecia necessário. Os extratos não estão impressos por ordem, mas estão aproximadamente classificados. (Na primeira página do caderno de notas, está escrito "Zoonomia"; isto parece referir-se às primeiras páginas em que a reprodução por gemulação é discutida, e onde a "Zoonomia" é mencionada. Muitas páginas foram cortadas do caderno de notas, provavelmente para uso na escrita do Esboço de 1844, e estas teriam sem dúvida contido os extratos mais interessantes.)

"A propagação explica por que os animais modernos do mesmo tipo que os extintos, o que é lei, quase provado."

"Podemos ver por que a estrutura é comum em certos países quando dificilmente podemos acreditar ser necessária, mas se fosse necessária a um antepassado, o resultado seria como é. Daí os antílopes no Cabo da Boa Esperança; marsupiais na Austrália."

"Países separados há mais tempo maiores diferenças — se separados por submersão, possivelmente dois tipos distintos, mas cada um tendo os seus representantes — como na Austrália."

"Aplicar-se-á isto a todo o reino orgânico quando o nosso planeta arrefeceu pela primeira vez?"

Os dois extratos seguintes mostram que ele aplicou a teoria da evolução a "todo o reino orgânico" desde as plantas ao homem.

"Se escolhermos deixar a conjectura correr solta, então os animais, os nossos colegas irmãos na dor, doença, morte, sofrimento e fome — os nossos escravos nos trabalhos mais laboriosos, os nossos companheiros nas nossas diversões — eles podem participar [da?] nossa origem num antepassado comum — podemos estar todos fundidos."

"Os diferentes intelectos do homem e dos animais não tão grandes como entre seres vivos sem pensamento (plantas), e seres vivos com pensamento (animais)."

Os extratos seguintes estão novamente relacionados com uma visão a priori da probabilidade da origem das espécies por descendência ["propagação", chamou-lhe ele.].

"A árvore da vida deveria talvez ser chamada o coral da vida, base de ramos morta; de modo que as passagens não podem ser vistas."

"Nunca pode ter havido gradação entre o porco e a anta, ainda que de algum progenitor comum. Ora, se as classes intermédias tivessem produzido espécies infinitas, provavelmente a série teria sido mais perfeita."

Noutro lugar, falando de formas intermédias, diz ele:--

"Cuvier opõe-se à propagação das espécies dizendo: porque não foram descobertas algumas formas intermédias entre o Palaeotherium, o Megalonyx, o Mastodon e as espécies que vivem atualmente? Ora, segundo o meu ponto de vista (na América do Sul), o progenitor de todos os tatus poderia ser irmão do Megatherium--tio agora morto."

Falando noutros lugares de formas intermédias, ele observa:--

"Os opositores dirão: 'mostra-mas'. Eu responderei: sim, se me mostrares cada passo entre o bulldog e o galgo."

Aqui vemos que o caso dos animais domésticos já estava presente no seu espírito como algo que influenciava a produção das espécies naturais. O desaparecimento das formas intermédias conduz naturalmente ao tema da extinção, com o qual começa o extrato seguinte.

"É um facto maravilhoso o cavalo, o elefante e o mastodonte extinguirem-se quase ao mesmo tempo em quadrantes tão diferentes.

"Dirá o Sr. Lyell que alguma [mesma?] circunstância os matou ao longo de uma extensão desde Espanha até à América do Sul?--(Nunca).

"Morrem, sem que mudem, como as maçãs golden pippins; é uma GERAÇÃO DE ESPÉCIES como a geração DE INDIVÍDUOS.

"Por que morre o indivíduo? Para perpetuar certas peculiaridades (portanto, adaptação), e obliterar variedades acidentais, e para se acomodar à mudança (pois, naturalmente, a mudança, mesmo nas variedades, é uma acomodação). Ora, este argumento aplica-se às espécies.

"Se o indivíduo não pode propagar-se, não tem descendência--o mesmo acontece com as espécies.

"Se as ESPÉCIES geram outras ESPÉCIES, a sua raça não é totalmente cortada:--como as golden pippins, se produzidas por semente, continuam--caso contrário, todas morrem.

"O cavalo fóssil gerou, na África do Sul, a zebra--e continuou--pereceu na América.

"Todos os animais da mesma espécie estão ligados entre si exatamente como os gomos das plantas, que morrem ao mesmo tempo, embora produzidos mais cedo ou mais tarde. Prova que os animais são como as plantas--traça a gradação entre animais associados e não associados--e a história estará completa."

Aqui temos a visão, já aludida, de um termo de vida impresso numa espécie.

Mas na nota seguinte encontramos a extinção ligada a variações desfavoráveis, e assim é dado um indício da seleção natural:

"No que diz respeito à extinção, podemos ver facilmente que [uma] variedade de avestruz (Petise) pode não estar bem adaptada e, assim, perecer; ou, por outro lado, tal como o Orpheus [uma ave das Galápagos], sendo favorável, muitas poderiam ser produzidas. Isto requer [o] princípio de que as variações permanentes produzidas pela reprodução confinada e pelas circunstâncias em mudança são continuadas e produzidas de acordo com a adaptação a tal circunstância, e que, portanto, a morte da espécie é uma consequência (contrariamente ao que pareceria a partir da América) da não adaptação às circunstâncias."

A primeira parte do extrato seguinte tem um alcance semelhante. O final da passagem é de grande interesse, por mostrar que ele tinha, nesta data precoce, visões do caráter de largo alcance da teoria da evolução:--

"Com a crença na transmutação e no agrupamento geográfico, somos levados a tentar descobrir as CAUSAS da mudança; o modo de adaptação (desejo dos pais??), o instinto e a estrutura tornam-se repletos de especulação e linhas de observação. A visão da geração como condensação (imagino que ele queira dizer que cada geração é 'condensada' para um pequeno número dos indivíduos melhor organizados), teste da organização mais elevada inteligível... A minha teoria daria entusiasmo à anatomia comparada recente e fóssil; levaria ao estudo dos instintos, da hereditariedade e da hereditariedade mental, a toda a metafísica.

"Levaria ao exame mais minucioso da hibridismo e da geração, das causas da mudança, a fim de saber de onde viemos e para onde tendemos--quais as circunstâncias que favorecem o cruzamento e quais o impedem--isto, e o exame direto das passagens diretas de estrutura nas espécies, poderia levar às leis da mudança, que seriam então [o] principal objeto de estudo, para guiar as nossas especulações."

Os dois extratos seguintes têm um interesse semelhante; o segundo é especialmente interessante, pois contém o germe da frase final da 'Origem das Espécies': ('Origem das Espécies' (1.ª edição), página 490:-- "Há grandeza nesta visão da vida, com os seus vários poderes, tendo sido originalmente insuflada em poucas formas ou numa só; e enquanto este planeta continua a girar de acordo com a lei fixa da gravidade, a partir de um começo tão simples, formas infindáveis, belíssimas e maravilhosíssimas, evoluíram e estão a evoluir.")--

"Antes da atração da gravidade ser descoberta, poderia ter-se dito que era tão grande dificuldade explicar o movimento de todos [os planetas] por uma lei, como explicar cada um separadamente; assim, dizer que todos os mamíferos nasceram de um tronco, e desde então distribuídos por meios que podemos reconhecer, pode pensar-se que não explica nada.

"Os astrónomos poderiam outrora ter dito que Deus preordenou cada planeta para se mover no seu destino particular. Da mesma maneira, Deus ordena que cada animal seja criado com certas formas em certos países, mas quão mais simples e sublime [é o] poder--deixar a atração agir de acordo com certa lei, tais são as consequências inevitáveis--deixar os animais serem criados, então, pelas leis fixas da geração, tais serão os seus sucessores.

"Deixemos que os poderes de transporte sejam tais, e assim serão as formas de um país para outro--deixemos que as mudanças geológicas avancem a tal ritmo, assim será o número e a distribuição das espécies!!"

Os três extratos seguintes são de interesse variado:--

"Quando se vê o mamilo no peito do homem, não se diz que tem algum uso, mas que o sexo não foi determinado--o mesmo acontece com as asas inúteis sob os élitros dos besouros--nascidos de besouros com asas, e modificados--se fosse criação simples apenas, teriam nascido sem elas."

"Numa população em diminuição, a qualquer momento há menos indivíduos estreitamente relacionados (poucas espécies de géneros); ultimamente poucos géneros (pois de outro modo a relação convergiria mais cedo), e por último, talvez, algum único. Não explicará isto os estranhos géneros com poucas espécies que se interpõem entre grandes grupos, que somos obrigados a considerar como os crescentes?"

O último extrato que citarei dá o germe da sua teoria da relação entre plantas alpinas em várias partes do mundo, na publicação da qual foi antecipado por E. Forbes (ver volume i., página 72). Ele diz, no caderno de notas de 1837, que as plantas alpinas, "outrora desciam mais baixo, portanto [são] espécies de géneros inferiores alteradas, ou plantas do norte."

Quando voltamos ao Esboço da sua teoria, escrito em 1844 (ainda, portanto, antes de a segunda edição do 'Journal' estar concluída), encontramos um enorme avanço em relação ao caderno de notas de 1837. O Esboço é, na verdade, uma apresentação surpreendentemente completa do argumento depois familiar para nós na 'Origem das Espécies'. Existe alguma obscuridade quanto à data do curto Esboço que formou a base do Ensaio de 1844. Sabemos pelas suas próprias palavras (volume i., página 68) que foi em junho de 1842 que ele escreveu pela primeira vez um curto esboço das suas opiniões. (Esta versão não a consigo encontrar, e foi provavelmente destruída, como muito do seu manuscrito, depois de ter sido ampliada e copiada de novo em 1844.) Esta afirmação é dada com tanto pormenor que é quase impossível supor que contenha um erro de data. Concorda também com o seguinte extrato do seu Diário.

1842. 18 de maio. Fui a Maer.

"15 de junho para Shrewsbury, e a 18 para Capel Curig. Durante a minha estadia em Maer e Shrewsbury (cinco anos após o início) escrevi o esboço a lápis da teoria das espécies."

Novamente na introdução da 'Origem', página 1, ele escreve: "após um intervalo de cinco anos de trabalho" [desde 1837, i.e., em 1842], "permiti-me especular sobre o assunto e redigi algumas notas curtas."

No entanto, na carta assinada pelo Sr. C. Lyell e pelo Sr. J. D. Hooker, que serve de introdução ao trabalho conjunto dos Srs. C. Darwin e A. Wallace sobre a 'Tendência das Espécies para formar Variedades' ('Linn. Soc. Journal', 1858, página 45), diz-se que o ensaio de 1844 (extratos do qual formam parte do artigo) foi "esboçado em 1839, e copiado em 1844." Esta afirmação é obviamente feita sob a autoridade de uma nota escrita pela mão do meu pai através do Índice do Ensaio de 1844. É do seguinte teor: "Isto foi esboçado em 1839, e copiado na íntegra, conforme aqui escrito e lido por ti em 1844." Concluo que esta nota foi acrescentada em 1858, quando o manuscrito foi enviado ao Sr. J. D. Hooker (ver Carta de 29 de junho de 1858, página 476). Existe também alguma prova adicional deste lado da questão. Escrevendo ao Sr. Wallace (25 de janeiro de 1859), o meu pai diz:-- "Todos os que vi acharam o teu artigo muito bem escrito e interessante. Deita por terra os meus extratos (escritos em 1839, agora há apenas vinte anos!), que devo dizer, em desculpa, que nunca foram, nem por um instante, destinados à publicação." A afirmação de que o esboço mais antigo foi escrito em 1839 tem sido feita frequentemente nas notas biográficas sobre o meu pai, sem dúvida sob a autoridade do 'Linnean Journal', mas deve, penso eu, ser considerada errónea. O erro pode possivelmente ter surgido desta forma. Ao escrever no Índice do manuscrito de 1844 que foi esboçado em 1839, penso que o meu pai pode ter querido dar a entender que a estrutura da teoria foi claramente pensada por ele nessa data. Na Autobiografia, ele fala do tempo, "cerca de 1839, quando a teoria foi claramente concebida", significando, sem dúvida, o final de 1838 e o início de 1839, quando a leitura de Malthus lhe deu a chave para a ideia da seleção natural. Mas esta explicação não se aplica à carta ao Sr. Wallace; e no que diz respeito à passagem (O meu pai certamente viu as provas do artigo, pois acrescentou uma nota de rodapé a pedir desculpa pelo estilo dos extratos, alegando que o "trabalho nunca foi destinado à publicação") no 'Linnean Journal', é difícil compreender como se permitiu que permanecesse como se encontra agora, transmitindo, como claramente faz, a impressão de que 1839 foi a data do seu esboço escrito mais antigo.

O esboço de 1844 está escrito com letra de amanuense, em duzentas e trinta e uma páginas de fólio, com folhas em branco alternadas com o manuscrito com vista à ampliação. O texto foi revisto e corrigido, tendo as críticas sido anotadas a lápis pelo próprio na margem. Está dividido em duas partes: I. "Sobre a variação dos Seres Orgânicos sob Domesticação e no seu Estado Natural." II. "Sobre as Evidências favoráveis e opostas à visão de que as Espécies são raças naturalmente formadas descendentes de Troncos comuns." A primeira parte contém o argumento principal da 'Origem das Espécies'. Fundamenta-se, tal como o argumento daquela obra, no estudo dos animais domésticos, e tanto o Esboço como a 'Origem' abrem com um capítulo sobre a variação sob domesticação e sobre a seleção artificial. A isto seguem-se, em ambos os ensaios, discussões sobre a variação na natureza, sobre a seleção natural e sobre a luta pela vida. Aqui, qualquer semelhança estreita entre os dois ensaios no que diz respeito à disposição termina. O Capítulo III. do Esboço, que conclui a primeira parte, trata das variações que ocorrem nos instintos e hábitos dos animais, e assim corresponde até certo ponto ao Capítulo VII. da 'Origem' (1.ª edição). Forma, assim, um complemento aos capítulos que lidam com a variação na estrutura. Parece ter sido colocado tão cedo no Ensaio para evitar a rejeição apressada de toda a teoria por um leitor para quem a ideia de seleção natural a atuar sobre os instintos pudesse parecer impossível. Isto é tanto mais provável quanto o Capítulo sobre o Instinto na 'Origem' é especialmente mencionado (Introdução, página 5) como uma das "dificuldades mais aparentes e graves da teoria." Além disso, o capítulo no Esboço termina com uma discussão sobre "se quaisquer estruturas corporais particulares... são tão maravilhosas que justifiquem a rejeição prima facie da nossa teoria." Sob este título vem a discussão do olho, que na 'Origem' encontra o seu lugar no Capítulo VI. sob "Dificuldades da Teoria." A segunda parte parece ter sido planeada de acordo com o seu ponto de vista favorito em relação à sua teoria. Isto é brevemente exposto numa carta ao Dr. Asa Gray, 11 de novembro de 1859: "Não posso possivelmente acreditar que uma teoria falsa explicasse tantas classes de factos, como penso que certamente explica. Nestes fundamentos, lanço a minha âncora e acredito que as dificuldades desaparecerão lentamente." Com base neste princípio, tendo exposto a teoria na primeira parte, ele prossegue para mostrar em que medida várias séries amplas de factos podem ser explicadas por esse meio.

Assim, a segunda parte do Esboço corresponde, grosseiramente, aos nove Capítulos finais da Primeira Edição da 'Origem'. Mas devemos excluir o Capítulo VII. ('Origem') sobre o Instinto, que forma um capítulo na primeira parte do Esboço, e o Capítulo VIII. ('Origem') sobre o Hibridismo, um assunto tratado no Esboço com a 'Variação sob a Natureza' na primeira parte.

A seguinte lista dos capítulos da segunda parte do Esboço ilustrará a sua correspondência com os capítulos finais da 'Origem'.

Capítulo I. "Sobre o tipo de intermédio necessário, e o número de tais formas intermédias." Isto inclui uma discussão geológica e corresponde a partes dos Capítulos VI. e IX. da 'Origem'.

Capítulo II. "O aparecimento e desaparecimento gradual dos seres orgânicos." Corresponde ao Capítulo X. da 'Origem'.

Capítulo III. "Distribuição Geográfica." Corresponde aos Capítulos XI. e XII. da 'Origem'.

Capítulo IV. "Afinidades e Classificação dos Seres Orgânicos."

Capítulo V. "Unidade de Tipo", Morfologia, Embriologia.

Capítulo VI. Órgãos Rudimentares.

Estes três capítulos correspondem ao Capítulo XII. da 'Origem'.

Capítulo VII. Recapitulação e Conclusão. A frase final do Esboço, que vimos na sua primeira forma rudimentar no Caderno de Notas de 1837, assemelha-se de perto à frase final da 'Origem', sendo grande parte dela idêntica. A 'Origem' não está dividida em duas "Partes", mas vemos vestígios de tal divisão ter estado presente no espírito do autor, nesta semelhança entre a segunda parte do Esboço e os capítulos finais da 'Origem'. O facto de ele falar ('Origem', Introdução, página 5) dos capítulos sobre a transição, sobre o instinto, sobre o hibridismo e sobre o registo geológico, como formando um grupo, pode dever-se à divisão do seu manuscrito inicial em duas partes.

O Sr. Huxley, que teve a gentileza de ler o Esboço a meu pedido, ao notar que as "linhas principais de argumentação" e as ilustrações empregues são as mesmas, aponta que no Ensaio de 1844, "é atribuído muito mais peso à influência das condições externas na produção de variação, e à hereditariedade dos hábitos adquiridos do que na 'Origem'."

É extremamente interessante encontrar no Esboço a primeira menção de princípios familiares para nós na 'Origem das Espécies'. Entre estes, pode mencionar-se o princípio da Seleção Sexual, que é claramente enunciado. A forma importante de seleção conhecida como "inconsciente" também é apresentada. Aqui ocorre também uma afirmação da lei de que as peculiaridades tendem a aparecer na descendência numa idade correspondente àquela em que ocorreram no progenitor.

O Professor Newton, que teve a amabilidade de examinar o Esboço de 1844, diz-me que as observações do meu pai sobre a migração das aves, dadas incidentalmente em mais de uma passagem, mostram que ele tinha antecipado as visões de alguns escritores posteriores.

Relativamente ao estilo geral do Esboço, não é de esperar que tenha todas as características da 'Origem', e não encontramos, de facto, aquele equilíbrio e controlo, aquela concentração e alcance, que são tão marcantes na obra de 1859.

Na Autobiografia (página 68, volume 1), o meu pai declarou o que lhe parecia ser a principal falha do Esboço de 1844; ele tinha negligenciado "um problema de grande importância", o problema da divergência de caráter. Este ponto é discutido na 'Origem das Espécies', mas, como poderá não ser familiar a todos os leitores, darei uma breve explicação da dificuldade e da sua solução. O autor começa por afirmar que as variedades diferem umas das outras menos do que as espécies, e depois continua: "No entanto, segundo a minha visão, as variedades são espécies em processo de formação... Como, então, a menor diferença entre as variedades se torna aumentada na maior diferença entre as espécies?" ('Origem', 1.ª edição, página 111.) Ele mostra como uma divergência análoga ocorre sob domesticação, onde um tronco originalmente uniforme de cavalos foi dividido em cavalos de corrida, cavalos de tiro, etc., e depois continua a explicar como o mesmo princípio se aplica às espécies naturais. "Pelo simples facto de que quanto mais diversificados se tornam os descendentes de qualquer espécie em estrutura, constituição e hábitos, tanto melhor serão capazes de se apoderar de muitos e amplamente diversificados lugares na política da natureza, e assim serem capazes de aumentar em números."

O princípio é exemplificado pelo facto de que se num terreno for semeada uma única variedade de trigo, e noutro uma mistura de variedades, no último caso a produção é maior. Mais indivíduos puderam existir porque não eram todos da mesma variedade. Um organismo torna-se mais perfeito e mais apto a sobreviver quando, pela divisão do trabalho, as diferentes funções da vida são desempenhadas por diferentes órgãos. Da mesma forma, uma espécie torna-se mais eficiente e mais apta a sobreviver quando diferentes secções da espécie se tornam diferenciadas de modo a preencher diferentes estações.

Ao ler o Esboço de 1844, achei difícil reconhecer a ausência de qualquer declaração definitiva do princípio da divergência como uma falha no Ensaio. A descendência com modificação implica divergência, e tornamo-nos tão habituados a uma crença na descendência, e portanto na divergência, que não notamos a ausência de prova de que a divergência é em si mesma uma vantagem. Como mostrado na Autobiografia, o meu pai em 1876 achava quase inacreditável que tivesse negligenciado o problema e a sua solução.

A carta seguinte estará mais no seu lugar aqui do que na sua posição cronológica, uma vez que mostra qual era o sentimento do meu pai quanto ao valor do Esboço no momento da sua conclusão.]

CHARLES DARWIN PARA A SRA. DARWIN. Down, 5 de julho de 1844.

Acabei de terminar o meu esboço da minha teoria das espécies. Se, como acredito, a minha teoria for com o tempo aceite até mesmo por um juiz competente, será um passo considerável na ciência.

Escrevo, pois, isto em caso de morte súbita, como o meu mais solene e último pedido, que tenho a certeza de que considerarás como se estivesse legalmente inscrito no meu testamento, que dediques 400 libras à sua publicação e, além disso, que tu própria, ou através de Hensleigh (Sr. H. Wedgwood), te dês ao trabalho de a promover. Desejo que o meu esboço seja entregue a alguma pessoa competente, com esta soma para o induzir a dar-se ao trabalho da sua melhoria e ampliação. Dou-lhe todos os meus livros sobre História Natural, que estão ou sublinhados ou têm referências no final para as páginas, pedindo-lhe que examine cuidadosamente e considere tais passagens como tendo, ou podendo possivelmente ter, relação com este assunto. Desejo que faças uma lista de todos esses livros como uma tentação para um editor. Peço também que lhe entregues todos aqueles papéis divididos grosseiramente em oito ou dez pastas de papel pardo. Os papéis, com citações copiadas de várias obras, são aqueles que podem ajudar o meu editor. Peço também que tu, ou algum amanuense, ajudes a decifrar qualquer dos papéis que o editor possa considerar possivelmente de utilidade. Deixo ao critério do editor se deve interpolar estes factos no texto, ou como notas, ou sob apêndices. Como o exame das referências e papéis será um longo trabalho, e como CORRIGIR, ampliar e alterar o meu esboço também levará um tempo considerável, deixo esta soma de 400 libras como alguma remuneração, e quaisquer lucros da obra. Considero que, por isto, o editor é obrigado a conseguir que o esboço seja publicado, seja por conta de uma editora, seja por sua própria conta e risco. Muitos dos papéis nas pastas contêm meras sugestões rudimentares e visões antigas, agora inúteis, e muitos dos factos provavelmente revelar-se-ão como não tendo qualquer relação com a minha teoria.

Quanto aos editores, o Sr. Lyell seria o melhor se quisesse encarregar-se disso; creio que acharia o trabalho agradável e aprenderia alguns factos novos para si. Como o editor deve ser geólogo, bem como naturalista, o segundo melhor editor seria o Professor Forbes, de Londres. O seguinte (e, em muitos aspetos, o melhor de todos) seria o Professor Henslow. O Dr. Hooker seria MUITO bom. O seguinte, o Sr. Strickland. (Após o nome do Sr. Strickland segue-se a seguinte frase, que foi apagada, mas que permaneceu legível: "O Professor Owen seria muito bom; mas presumo que não se encarregaria de tal trabalho.") Se nenhum destes quiser encarregar-se disso, pedir-lhe-ia que consultasse o Sr. Lyell, ou outro homem capaz, para encontrar um editor, um geólogo e naturalista. Caso mais cem libras fizessem a diferença para conseguir um bom editor, peço encarecidamente que aumente a quantia para 500 libras.

As minhas coleções restantes de História Natural podem ser entregues a qualquer pessoa ou a qualquer museu onde sejam aceites...

[A nota seguinte parece ter feito parte da carta original, mas poderá ser de data posterior:

"Lyell, especialmente com a ajuda de Hooker (e de qualquer boa ajuda zoológica), seria o melhor de todos. Sem um editor que se comprometa a dedicar-lhe tempo, não valeria a pena pagar tal quantia.

"Se houver alguma dificuldade em encontrar um editor que se aprofunde totalmente no assunto e pense na importância das passagens marcadas nos livros e copiadas de pedaços de papel, então que o meu esboço seja publicado tal como está, afirmando que foi feito há vários anos (As palavras "há vários anos e" parecem ter sido acrescentadas numa data posterior) e de memória, sem consultar quaisquer obras, e sem qualquer intenção de publicação na sua forma atual."]

A ideia de que o Esboço de 1844 pudesse permanecer, no caso da sua morte, como o único registo do seu trabalho, parece ter estado muito tempo na sua mente, pois em agosto de 1854, quando tinha terminado com os Cirrípedes e pensava em começar o seu "trabalho sobre as espécies", acrescentou no verso da carta acima: "Hooker, de longe, o melhor homem para editar o meu volume sobre as espécies. Agosto de 1854."]

CAPÍTULO 1.XI. -- O CRESCIMENTO DA 'ORIGEM DAS ESPÉCIES'.

CARTAS, 1843-1856.

[A história da vida do meu pai é contada mais completamente na sua correspondência com Sir J.D. Hooker do que em qualquer outra série de cartas; e isto é especialmente verdade no que diz respeito à história do crescimento da 'Origem das Espécies'. Este, portanto, parece ser o lugar apropriado para as notas seguintes, que Sir Joseph Hooker me facultou amavelmente. Elas oferecem, além disso, um retrato interessante da sua amizade inicial com o meu pai:--

"O meu primeiro encontro com o Sr. Darwin foi em 1839, em Trafalgar Square. Eu estava a passear com um oficial que fora seu companheiro de navio durante um curto período no "Beagle", sete anos antes, mas que, creio eu, não se tinha encontrado com ele desde então. Fui apresentado; a entrevista foi, naturalmente, breve, e a memória que dele levei e que ainda guardo era a de um homem bastante alto e de ombros bastante largos, com uma ligeira curvatura, uma expressão agradável e animada ao falar, sobrancelhas cerradas e uma voz profunda, mas suave; e que a sua saudação ao seu antigo conhecido foi ao estilo de marinheiro — isto é, deliciosamente franca e cordial. Observei-o bem, pois já estava a par das suas realizações e trabalhos, que conhecia por ter lido várias provas do seu então inédito 'Diário'. Estas tinham sido submetidas ao Sr. (mais tarde Sir Charles) Lyell pelo Sr. Darwin, e por ele enviadas ao seu pai, Ch. Lyell, Esq., de Kinnordy, que (sendo um amigo muito antigo do meu pai e tendo um interesse bondoso na minha carreira projetada como naturalista) me permitiu examiná-las. Nesta altura, eu estava a apressar os meus estudos, de modo a tirar o meu diploma antes de me voluntariar para acompanhar Sir James Ross na Expedição à Antártida, que tinha acabado de ser decidida pelo Almirantado; e estava tão pressionado pelo tempo que costumava dormir com as folhas do 'Diário' debaixo da almofada, para poder lê-las entre o acordar e o levantar. Elas impressionaram-me profundamente, poderia dizer que desesperadamente, com a variedade de conhecimentos, mentais e físicos, exigidos a um naturalista que devesse seguir os passos de Darwin, ao mesmo tempo que me estimularam ao entusiasmo pelo desejo de viajar e observar.

"Tem sido uma fonte permanente de felicidade para mim saber tanto sobre o trabalho científico do Sr. Darwin tantos anos antes de a intimidade ter começado, a qual amadureceu em sentimentos tão próximos da reverência pela sua vida, obras e carácter quanto é razoável e adequado. Resta apenas acrescentar a este pequeno episódio que recebi um exemplar do 'Diário' completo — um presente do Sr. Lyell — alguns dias antes de deixar a Inglaterra.

"Muito pouco depois do regresso da Expedição à Antártida, a minha correspondência com o Sr. Darwin começou (dezembro de 1843) com o envio de uma longa carta, felicitando-me calorosamente pelo meu regresso à família e aos amigos, e expressando o desejo de saber mais sobre os resultados da expedição, dos quais tinha obtido algum conhecimento através de cartas minhas privadas (escritas ao Sr. Lyell ou comunicadas através dele). Depois, mergulhando imediatamente em assuntos científicos, chamou a minha atenção para a importância de correlacionar a Flora da Terra do Fogo com a da Cordilheira e da Europa, e convidou-me a estudar as coleções botânicas que tinha feito nas Ilhas Galápagos, bem como as suas plantas da Patagónia e da Terra do Fogo.

"Isto levou-me a enviar-lhe um esboço das conclusões a que tinha chegado relativamente à distribuição das plantas nas regiões austrais, e a necessidade de assumir a destruição de consideráveis áreas de terra para explicar as relações da flora das chamadas Ilhas Antárticas. Não suponho que qualquer destas ideias fosse nova para ele, mas levaram a uma correspondência animada e longa, cheia de instrução."

Segue-se aqui a carta (1843) para Sir J.D. Hooker acima referida.]

Meu caro Senhor,

Esperava antes desta altura ter tido o prazer de o ver e de o felicitar pelo seu regresso em segurança da sua longa e gloriosa viagem. Mas como raramente vou a Londres, talvez não nos encontremos tão cedo — a menos que se sinta inclinado a comparecer às Reuniões Geológicas.

Estou ansioso por saber o que pretende fazer com todos os seus materiais — tive tanto prazer em ler partes de algumas das suas cartas, que ficarei muito triste se eu, como parte do público, não tiver oportunidade de ler muito mais. Suponho que esteja muito ocupado agora e cheio de alegria: quão bem me lembro da felicidade dos meus primeiros meses em Inglaterra — valeu todos os desconfortos de muitas tempestades! Mas desviei-me do assunto que me levou a escrever, que era o de expressar o meu prazer pelo facto de Henslow (como me informou por carta há poucos dias) lhe ter enviado a minha pequena coleção de plantas. Não imagina o quanto estou satisfeito, pois temia que se tivessem perdido todas, e, poucas como são, custaram-me bastante trabalho. Há algumas notas muito curtas, que creio que Henslow tem, descrevendo os habitats, etc., de algumas das plantas mais notáveis. Prestei atenção especial às flores alpinas da Terra do Fogo, e tenho a certeza de que obtive todas as plantas que estavam em flor na Patagónia nas estações em que lá estivemos. Há muito que penso que um esboço geral da Flora do ponto de terra que se estende tão longe nos mares austrais seria muito curioso. Faça observações comparativas sobre as espécies afins das espécies europeias, para proveito de ignorantes botânicos como eu. Frequentemente ocorreu-me como um ponto curioso descobrir se existem muitos géneros europeus na Terra do Fogo que não se encontram ao longo da crista da Cordilheira; a separação, nesse caso, seria enorme. Indique, em qualquer esboço que redija, que géneros são americanos e quais europeus, e quão grandes são as diferenças das espécies quando os géneros são europeus, para o bem dos ignorantes.

Espero que Henslow lhe envie as minhas plantas das Galápagos (sobre as quais até Humboldt me manifestou considerável curiosidade) — tive muito cuidado em colecionar tudo o que pude. Uma Flora deste arquipélago, suspeito, ofereceria um caso quase paralelo ao de Santa Helena, que há tanto tempo desperta interesse. Por favor, desculpe este longo bilhete confuso, e acredite, meu caro senhor, ser o seu muito sinceramente,

C. DARWIN.

Seria tão amável que apresentasse os meus respeitosos cumprimentos a Sir W. Hooker.

[Referindo-se ao trabalho de Sir J.D. Hooker sobre a Flora das Galápagos, o meu pai escreveu em 1846:

"Não lhe sei dizer o quão encantado e espantado estou com os resultados da sua análise; quão maravilhosamente apoiam a minha afirmação sobre as diferenças nos animais das diferentes ilhas, sobre as quais sempre tive receio."

Escreveu novamente (1849):--

"Recebi há poucas semanas os seus artigos sobre as Galápagos (Estes artigos incluem os resultados da análise de Sir J.D. Hooker às plantas das Galápagos do meu pai, e foram publicados pela Sociedade Lineana em 1849.), e li-os desde que estou aqui. Realmente, não posso expressar com demasiada ênfase a minha admiração pela discussão geográfica: para o meu julgamento, é um modelo perfeito do que tal artigo deve ser; levei quatro dias a ler e a refletir sobre ele. Quão interessante parece ser a Flora das Ilhas Sandwich; como eu gostaria que existissem materiais para que pudesse tratar a sua flora como fez com a das Galápagos. No artigo Sistemático, fiquei um pouco desapontado por não encontrar observações gerais sobre afinidades, estruturas, etc., como as que frequentemente dá na conversa, e como De Candolle e St. Hilaire introduziram em quase todos os seus artigos, e que os tornam interessantes mesmo para um não botânico."

"Muito pouco depois [continua Sir J.D. Hooker], numa carta datada de janeiro de 1844, o assunto da 'Origem das Espécies' foi trazido a lume por ele, e creio que fui o primeiro a quem comunicou as suas então novas ideias sobre o assunto, e que, sendo de interesse como contributo para a história da Evolução, aqui transcrevo da sua carta":--]

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. [11 de janeiro de 1844.]

Além de um interesse geral pelas terras austrais, tenho estado, desde o meu regresso, empenhado num trabalho muito presunçoso, e não conheço um único indivíduo que não dissesse que é muito insensato. Fiquei tão impressionado com a distribuição dos organismos das Galápagos, etc. etc., e com o carácter dos mamíferos fósseis americanos, etc. etc., que determinei colecionar cegamente todo o tipo de factos que pudessem ter qualquer relação com o que são as espécies. Li montes de livros de agricultura e horticultura, e nunca deixei de colecionar factos. Finalmente, surgiram lampejos de luz, e estou quase convencido (totalmente ao contrário da opinião com que comecei) de que as espécies não são (é como confessar um crime) imutáveis. Que o Céu me livre do disparate de Lamarck sobre uma "tendência à progressão", "adaptações a partir da vontade lenta dos animais", etc.! Mas as conclusões a que chego não são muito diferentes das dele; embora os meios de mudança o sejam totalmente. Creio que descobri (aqui está a presunção!) a forma simples pela qual as espécies se tornam primorosamente adaptadas a vários fins. Irá agora gemer e pensar para consigo: "sobre que homem andei eu a desperdiçar o meu tempo e a escrever". Eu, há cinco anos, teria pensado o mesmo...

[A carta seguinte, escrita em 23 de fevereiro de 1844, mostra que o conhecimento com Sir J.D. Hooker estava, então, a transformar-se rapidamente em amizade. A carta é principalmente interessante por mostrar o tipo de problemas que então ocupavam a mente do meu pai:]

Caro Hooker,

Espero que desculpe a liberdade da minha abordagem, mas sinto que, como co-vagueadores e como colegas de trabalho (embora eu próprio seja muito fraco), podemos deixar de lado um pouco da formalidade do velho mundo... Acabei de terminar um pequeno volume sobre as ilhas vulcânicas que visitámos. Não sei até que ponto se interessa por geologia seca e simples, mas espero que me deixe enviar-lhe um exemplar. Suponho que possa enviá-lo de Londres por transporte comum de diligência.

... Vou pedir-lhe mais algumas perguntas, embora suponha que, sem as pedir, verei as respostas no seu trabalho, quando publicado, o que será tempo suficiente para os meus propósitos. Primeiro, quanto às Galápagos, verá no meu Diário que as Aves, embora sejam espécies peculiares, têm um aspeto sul-americano muito óbvio: acabei de verificar que o mesmo se aplica às conchas marinhas. O mesmo acontece com as plantas que são peculiares a este arquipélago; o senhor afirma que as suas proporções numéricas são continentais (não é este um facto muito curioso?), mas será que estão relacionadas em formas com a América do Sul? Conhece algum outro caso de um arquipélago com as ilhas separadas a possuírem espécies representativas distintas? Sempre pretendi (mas ainda não o fiz) examinar Webb e Berthelot sobre as Ilhas Canárias para este objetivo. Conversando com o Sr. Bentham, ele disse-me que as ilhas separadas do Arquipélago Sandwich possuíam espécies representativas distintas dos mesmos géneros de Labiatae: não valeria a pena a sua investigação? Como é com os Açores? É certo que as fortes tempestades de oeste tenderiam a difundir as mesmas espécies por esse grupo.

Espero que (atrevo-me a dizer que a minha esperança é totalmente supérflua) preste atenção a este tipo geral de afinidade em ilhas isoladas, embora suponha que seja mais difícil perceber este tipo de relação em plantas do que em aves ou quadrúpedes, cujos grupos estão, creio, um pouco mais confinados. Pode Santa Helena ser classificada, embora remotamente, com a África ou com a América do Sul? A partir de alguns factos que recolhi, fui levado a concluir que a fauna das montanhas é OU notavelmente semelhante (por vezes na presença das mesmas espécies e outras vezes dos mesmos géneros), OU notavelmente diferente; e ocorreu-me que possivelmente parte desta peculiaridade das floras de Santa Helena e das Galápagos possa ser atribuída ao facto de grande parte destas duas Floras serem Floras de montanha. Receio que as minhas notas mal sirvam para distinguir muito dos habitats das plantas das Galápagos, mas podem servir em alguns casos; a maior parte, se não todas, as plantas verdes e folhosas vêm dos cumes das ilhas, e as plantas castanhas finas sem folhas vêm das partes áridas mais baixas: seria tão amável de ter esta observação em mente ao analisar a minha coleção?

Vou incomodá-lo com apenas uma outra pergunta. Em discussão com o Sr. Gould, descobri que, na maior parte dos géneros de aves que se espalham por todo ou pela maior parte do mundo, as espécies individuais têm áreas de distribuição mais amplas; assim, a Coruja é mundana, e muitas das espécies têm áreas muito amplas. Assim creio que acontece com as conchas terrestres e de água doce — e poderia aduzir outros casos. Não será assim com as plantas criptogâmicas; não têm a maioria das espécies áreas amplas, nos géneros que são mundanos? Não suponho que o inverso se verifique, isto é, que quando uma espécie tem uma área ampla, o seu género também se espalha amplamente. Far-me-á o favor de pensar nisto ocasionalmente? Custar-me-ia um trabalho vasto obter uma lista de géneros fanerogâmicos mundanos e depois investigar até que ponto as espécies destes géneros tendem a espalhar-se amplamente nos seus respetivos países; mas o senhor poderia ocasionalmente, no decorrer das suas atividades, ter isto em mente, embora talvez o ponto já lhe tenha ocorrido a si ou a outros Botânicos há muito tempo. A geologia está a trazer à luz factos interessantes relativos às áreas de distribuição das conchas; creio que está bastante bem estabelecido que, conforme a área geográfica de uma espécie é ampla, assim é a sua persistência e duração no tempo. Espero que tente não se queixar, tanto quanto puder, do incómodo das minhas cartas, e por favor acredite ser muito verdadeiramente seu,

C. DARWIN.

P.S. Sentir-me-ia extremamente grato pela sua gentil oferta do esboço de Humboldt; venero-o, e depois de ter tido o prazer de conversar com ele em Londres, gostaria ainda mais de ter qualquer retrato dele.

[O que se segue é citado das notas de Sir J. Hooker. "O ato seguinte no drama das nossas vidas abre-se com o convívio pessoal. Isto começou com um convite para tomar o pequeno-almoço com ele na casa do seu irmão (Erasmus Darwin) na Park Street; que foi pouco depois seguido por um convite para Down para conhecer alguns colegas Naturalistas. Nos curtos intervalos de boa saúde que se seguiram às longas doenças que muitas vezes tornavam a vida um fardo para ele, entre 1844 e 1847, recebi muitos convites deste género, e foram deliciosos. Um lar mais hospitaleiro e mais atraente sob todos os pontos de vista não poderia ser imaginado — da Sociedade faziam parte, na maioria das vezes, o Dr. Falconer, Edward Forbes, o Professor Bell e o Sr. Waterhouse — havia longas caminhadas, brincadeiras com as crianças de mãos e joelhos, música que ainda me persegue. A própria maneira cordial de Darwin, a sua gargalhada profunda e o seu total gozo da vida familiar com amigos; passeios com ele todos juntos, e entrevistas connosco um a um no seu escritório, para discutir questões em qualquer ramo do conhecimento biológico ou físico que tivéssemos seguido; e que eu, pelo menos, deixava sempre com a sensação de que não tinha transmitido nada e levado mais do que aquilo que conseguia suportar. Mais tarde, à medida que a sua saúde se tornou mais seriamente afetada, fui durante dias e semanas o único visitante, trazendo o meu trabalho comigo e desfrutando da sua companhia sempre que a oportunidade surgia. Era uma regra estabelecida que ele me bombardeava, como ele dizia, durante meia hora ou mais depois do pequeno-almoço no seu escritório, quando trazia primeiro uma pilha de folhas com perguntas botânicas, geográficas, etc., para eu responder, e concluía contando-me o progresso que tinha feito no seu próprio trabalho, pedindo a minha opinião sobre vários pontos. Não voltava a vê-lo até perto do meio-dia, quando ouvia a sua voz suave e sonora a chamar o meu nome debaixo da minha janela — era para me juntar a ele na sua caminhada diária da manhã à volta do sand-walk. Ao juntar-me a ele, encontrava-o de casaco de tiro cinzento e áspero no verão, e com uma capa grossa sobre os ombros no inverno, e um cajado robusto na mão; lá íamos nós, atravessando o jardim, onde havia sempre alguma experiência para visitar, e seguíamos para o sand-walk, à volta do qual se dava um número fixo de voltas, durante as quais a nossa conversa corria geralmente sobre terras e mares estrangeiros, velhos amigos, velhos livros e coisas distantes tanto para a mente quanto para o olho.

"À tarde havia outro passeio semelhante, após o qual ele se retirava novamente até ao jantar se estivesse bem o suficiente para se juntar à família; caso contrário, conseguia geralmente aparecer na sala de estar, onde, sentado na sua cadeira alta, com os pés em enormes chinelos de carpete, apoiados num banco alto, ele desfrutava da música ou da conversa da sua família."

Segue-se aqui uma série de cartas ilustrando o crescimento das visões do meu pai e a natureza do seu trabalho durante este período.]

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down [1844].

A conclusão a que cheguei é que aquelas áreas em que as espécies são mais numerosas foram, frequentemente, divididas e isoladas de outras áreas, reunidas e de novo divididas; um processo que implica antiguidade e certas mudanças nas condições externas. Isto soará, justificadamente, muito hipotético. Não posso apresentar as minhas razões em detalhe; mas a conclusão mais geral, que a distribuição geográfica de todos os seres orgânicos me parece indicar, é que o isolamento é o principal concomitante ou causa do aparecimento de NOVAS formas (bem sei que existem algumas exceções gritantes). Em segundo lugar, ao ver a frequência com que as plantas e os animais se multiplicam num país, quando nele introduzidos, e ao ver o vasto número de plantas que vivem, por exemplo, em Inglaterra, se mantidas LIVRES DE ERVAS DANINHAS E PLANTAS NATIVAS, fui levado a considerar que a propagação e o número de seres orgânicos de qualquer país dependem menos das suas características externas do que do número de formas que aí foram originalmente criadas ou produzidas. Duvido muito que ache possível explicar o número de formas por diferenças proporcionais de exposição; e não posso duvidar de que, se metade das espécies de qualquer país fosse destruída ou não tivesse sido criada, esse país nos pareceria, ainda assim, totalmente povoado. Relativamente à criação original ou produção de novas formas, disse que o isolamento parece ser o elemento principal. Daí que, no que respeita às produções terrestres, uma extensão de terra que, nos últimos períodos geológicos, tenha frequentemente sofrido subsidência e sido convertida em ilhas, e depois reunida, eu esperaria que contivesse a maioria das formas.

Mas tais especulações só divertem quem as faz e, neste caso, são inúteis, pois não mostram qualquer linha direta de observação: se eu tivesse visto quão hipotético é o pouco que escrevi de forma pouco clara, não o teria incomodado com a leitura. Acredite em mim — pelo menos não hipoteticamente,

Seu muito sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 1844.

...Esqueço-me da minha última carta, mas deve ter sido muito tola, pois parece que expus a minha noção de que o número de espécies é, em grande medida, governado pelo grau em que a área foi frequentemente isolada e dividida; devo ter estado louco para a ter escrito, pois não tenho provas, a menos que uma pessoa esteja disposta a admitir todos os meus pontos de vista, e então sim, segue-se; mas nos meus momentos mais otimistas, tudo o que espero é ser capaz de mostrar, mesmo a Naturalistas sensatos, que há dois lados na questão da imutabilidade das espécies; — que os factos podem ser vistos e agrupados sob a noção de que espécies afins descendem de linhagens comuns. No que respeita a livros sobre este assunto, não conheço nenhum que seja sistemático, exceto o de Lamarck, que é um verdadeiro disparate; mas há muitos, como Lyell, Pritchard, etc., sobre a visão da imutabilidade. Agassiz trouxe recentemente o argumento mais forte a favor da imutabilidade. Isidore G. St. Hilaire escreveu alguns bons ensaios, tendentes para o lado da mutabilidade, nas 'Suites a Buffon', intitulados "Zoolog. Generale". Não é estranho que o autor de um livro como 'Animaux sans Vertebres' tenha escrito que os insetos, que nunca veem os seus ovos, deveriam QUERER (e as plantas, as suas sementes) ser de formas particulares, de modo a fixarem-se em objetos particulares? A outra noção comum (especialmente germânica) dificilmente é menos absurda, a saber: que o clima, os alimentos, etc., deveriam tornar um Pediculus formado para subir pelo pelo, ou um pica-pau, para subir pelas árvores. Acredito que todas estas visões absurdas surgem de ninguém, tanto quanto sei, ter abordado o assunto pelo lado da variação sob domesticação, e ter estudado tudo o que se sabe sobre a domesticação. Fiquei muito contente por ouvir a sua crítica sobre as floras insulares e sobre a não difusão das plantas: o assunto é demasiado longo para uma carta: poderia defender-me até certo ponto, mas duvido que com sucesso aos seus olhos, ou mesmo aos meus...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down [julho de 1844].

...Estou agora a ler um livro maravilhoso sobre factos de variação — 'Geschichte der Natur', de Bronn. É um alemão difícil: antecipa-me, por vezes penso que de forma deliciosa, e por vezes cruelmente. Você ficará, futuramente, dez vezes mais horrorizado comigo do que com H. Watson. Detesto argumentos baseados em resultados, mas, sobre as minhas visões de descendência, a História Natural torna-se realmente um assunto sublimemente grandioso e produtor de resultados (agora pode troçar de mim por um escape de boca tão tolo)... Tenho de deixar esta carta para amanhã, pois estou cansado; mas gosto tanto de lhe escrever, que tenho de o incomodar um pouco mais.

Tem alguma boa prova da ausência de insetos em pequenas ilhas? Encontrei treze espécies no Atol Keeling. As moscas são boas fertilizadoras, e vi um Thrips microscópico e uma Cecidomya levantarem voo de uma flor na direção de outra com pólen aderido a elas. Nos países árticos, uma abelha parece ir tão para Norte quanto qualquer flor...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Shrewsbury [setembro de 1845].

Meu caro Hooker,

Escrevo apenas uma linha para dizer que o Cosmos (uma tradução do 'Kosmos' de Humboldt) chegou em segurança [N.B. Uma folha soltou-se na Parte I.], e para lhe agradecer a sua simpática nota. Acabei de começar a introdução e lamento o estilo, que em tais partes é metade da batalha. Como são verdadeiras muitas das observações (isto é, na medida em que consigo entender o miserável inglês) sobre a paisagem; é uma expressão exata dos nossos próprios pensamentos.

Quem me dera ter sempre livros para lhe emprestar em troca dos muitos que me emprestou...

Tudo o que gentilmente diz sobre o meu trabalho sobre espécies não altera nem um iota a minha presunção, há muito reconhecida por mim mesmo, de acumular factos e especular sobre o assunto da variação, sem ter realizado a minha quota-parte de trabalho sobre as espécies. Mas, há nove anos, tem sido, de qualquer modo, a minha maior diversão.

Adeus, meu caro Hooker, lamento mais do que pode acreditar a nossa perspetiva de nos encontrarmos tão raramente.

Nunca percebi senão um defeito em si, e esse tem-no gravemente, a saber: a modéstia; você forma uma exceção ao aforismo de Sydney Smith, de que o mérito e a modéstia não têm outra ligação senão a da sua primeira letra.

Adeus, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA L. JENYNS (BLOMEFIELD). Down, 12 de outubro de [1845].

Meu caro Jenyns,

Obrigado pela sua nota. Lamento dizer que não tenho nem o rabo de um facto em Zoologia inglesa para comunicar. Descobri que até observações triviais exigem, no meu caso, algum lazer e energia, ingredientes dos quais não tive nenhum de sobra, já que escrever a minha Geologia consome ambos completamente. Sempre pensei que manteria um diário e registaria tudo, mas, da forma como vivo agora, descubro que não observo nada para registar. Cuidar do meu jardim e das árvores, e ocasionalmente uma caminhada muito curta num estado de espírito ocioso, preenche todas as tardes da mesma maneira. Fico surpreendido por, com todos os seus assuntos paroquiais, ter tido tempo para fazer tudo o que fez. Ficarei muito contente por ver o seu pequeno trabalho (As 'Observations in Natural History' do Sr. Jenyns. É prefaciado por uma Introdução sobre "Hábitos de observação relacionados com o estudo da História Natural", e seguido por um "Calendário de Fenómenos Periódicos em História Natural", com "Observações sobre a importância de tais Registos". O meu pai parece estar a aludir a este Registo no P.S. da carta datada de 17 de outubro de 1846.) (e orgulhoso teria ficado se pudesse ter acrescentado um único facto ao mesmo). O meu trabalho sobre a questão das espécies impressionou-me muito fortemente com a importância de todas as obras como a sua, que contêm o que as pessoas geralmente gostam de chamar factos triviais. Estes são os factos que nos fazem entender o funcionamento ou a economia da natureza. Há um assunto sobre o qual estou muito curioso, e sobre o qual talvez possa lançar alguma luz, se alguma vez pensou nele; a saber, quais são os controlos e quais os períodos de vida pelos quais o aumento de qualquer espécie é limitado. Basta calcular o aumento de qualquer ave, se assumirmos que apenas metade das crias é criada, e que estas se reproduzem: dentro da vida NATURAL (isto é, se livre de acidentes) dos pais, o número de indivíduos tornar-se-á enorme, e fiquei muito surpreendido ao pensar em quão grande destruição DEVE, anual ou ocasionalmente, estar a abater-se sobre cada espécie, contudo, os meios e o período de tal destruição são dificilmente percebidos por nós.

Continuei constantemente a ler e a colecionar factos sobre a variação de animais e plantas domésticos, e sobre a questão do que são as espécies. Tenho um corpo grandioso de factos, e penso que posso tirar algumas conclusões sensatas. A conclusão geral a que fui lentamente conduzido, a partir de uma convicção diretamente oposta, é a de que as espécies são mutáveis, e que as espécies afins são descendentes comuns de linhagens comuns. Sei o quanto me exponho à censura por tal conclusão, mas cheguei a ela, pelo menos, honesta e deliberadamente. Não publicarei sobre este assunto durante vários anos. De momento, estou na Geologia da América do Sul. Espero recolher do seu livro alguns factos sobre pequenas variações na estrutura ou nos instintos dos animais que conhece.

Acredite em mim, sempre seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA L. JENYNS (REV. L. BLOMEFIELD). Down, [1845?].

Meu caro Jenyns,

Estou-lhe muito grato pelo trabalho que teve ao escrever-me uma nota tão longa. A questão de onde, quando e como o controlo do aumento de uma determinada espécie ocorre parece-me particularmente interessante, e a nossa dificuldade em respondê-la mostra quão realmente ignorantes somos sobre as vidas e hábitos das nossas espécies mais familiares. Eu estava ciente do simples facto de as aves velhas afugentarem as suas crias, mas nunca tinha pensado no efeito que tão claramente aponta, de as lacunas locais no número serem assim imediatamente preenchidas. Mas a dificuldade original permanece; pois, se os seus agricultores não matassem os seus pardais e corvos, o que aconteceria àqueles que agora imigram para a sua paróquia? no centro de Inglaterra, estamos demasiado distantes dos limites naturais do corvo e do pardal para supor que as crias são expulsas de Cambridgeshire para tão longe. O controlo deve incidir fortemente em algum momento da vida de cada espécie; pois, se se calcular que apenas metade da descendência é criada e se reproduz, quão enorme é o aumento! Não se tem, contudo, o direito de sentir tanta surpresa pela própria ignorância, quando se sabe quão impossível é, sem estatísticas, conjeturar a duração da vida e a percentagem de mortes em relação aos nascimentos na humanidade. Se se pudesse demonstrar que, aparentemente, as aves de passagem QUE SE REPRODUZEM AQUI e aumentam, regressam nos anos seguintes em número aproximadamente igual, enquanto aquelas que vêm aqui para a sua estação de inverno e não reprodutora vêm anualmente com os mesmos números, mas regressam com números muito reduzidos, saber-se-ia (como de facto parece provável) que o controlo incidia principalmente nas aves adultas na estação de inverno, e não nos ovos e nas aves muito jovens, o que me pareceu muitas vezes o período mais provável. Se, em qualquer altura, lhe ocorrerem observações sobre este assunto, ficar-lhe-ia muito grato pelo benefício das mesmas.

No que respeita ao meu trabalho longínquo sobre as espécies, devo ter-me expressado com singular imprecisão se o levei a supor que queria dizer que as minhas conclusões eram inevitáveis. Tornaram-se assim, após anos a ponderar enigmas, para mim SOZINHO; mas, no meu devaneio mais louco, nunca espero mais do que ser capaz de mostrar que há dois lados na questão da imutabilidade das espécies, isto é, se as espécies são DIRETAMENTE criadas ou por leis intermédias (como acontece com a vida e a morte dos indivíduos). Não abordei o assunto pelo lado da dificuldade em determinar o que são espécies e o que são variedades, mas (embora seja difícil dizer por que lhe devo dar tal história dos meus feitos) a partir de factos como a relação entre os mamíferos vivos e extintos na América do Sul, e entre os que vivem no Continente e nas ilhas adjacentes, tais como as Galápagos. Ocorreu-me que uma recolha de todos esses factos análogos lançaria luz a favor ou contra a visão de que as espécies relacionadas são descendentes de uma linhagem comum. Uma longa pesquisa entre livros de agricultura e horticultura e entre pessoas faz-me acreditar (bem sei quão absurdamente presunçoso isto deve parecer) que vejo a forma como as novas variedades se tornam requintadamente adaptadas às condições externas de vida e a outros seres circundantes. Sou um homem audaz por me expor a ser considerado um completo tolo, e um tolo muito deliberado. Pela natureza dos fundamentos que me levam a acreditar que as espécies são mutáveis na forma, estes fundamentos não podem restringir-se às espécies mais afins; mas até onde se estendem não posso dizer, pois as minhas razões desaparecem gradualmente quando aplicadas a espécies cada vez mais remotas umas das outras. Por favor, não pense que sou tão cego a ponto de não ver que existem numerosas dificuldades imensas nas minhas noções, mas elas parecem-me menores do que na visão comum. Preparei um esboço e mandei-o copiar (em 200 páginas) das minhas conclusões; e se pensasse, num futuro próximo, que o acharia digno de leitura, ficaria, naturalmente, muito grato por ter a crítica de um crítico tão competente. Desculpe esta carta muito longa, egoísta e mal escrita, na qual as suas observações me levaram a incorrer, e acredite em mim,

Seu muito sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA L. JENYNS (BLOMEFIELD). Down, 17 de outubro de 1846.

Caro Jenyns,

Levei um tempo muito ingrato a agradecer-lhe o seu muito gentil presente das suas 'Observations'. Mas aconteceu que tive em mãos vários outros livros, e só terminei o seu há poucos dias. Achei uma leitura muito agradável, e muitos dos seus factos interessaram-me bastante. Penso que fiquei mais interessado, o que é estranho, com as suas notas sobre alguns dos animais inferiores do que com as dos superiores. A introdução pareceu-me muito boa; mas isto é o que eu esperava, pois lembro-me bem de ter ficado encantado com um ensaio preliminar para o primeiro número dos 'Annals of Natural History'. Senti a falta de uma discussão, e sinto-me mal tratado, pois lembro-me de ter dito que faria algumas observações sobre o tempo e o barómetro, como guia para os ignorantes na previsão. Também esperava ter encontrado, talvez, algumas observações sobre a quantidade de variação nas nossas espécies comuns. Andrew Smith declarou uma vez que obteria algumas centenas de espécimes de cotovias e pardais de todas as partes da Grã-Bretanha, e veria se, com as medidas mais precisas, poderia detetar quaisquer variações proporcionais em bicos ou membros, etc. Este ponto interessa-me por ter andado ultimamente a folhear as conclusões absurdamente opostas de Gloger e Brehm; um fazendo meia dúzia de espécies de cada ave comum, e o outro transformando tantas espécies reputadas numa só. Já alguma vez fez algo deste género, ou alguma vez estudou as obras de Gloger ou Brehm? Fiquei interessado no seu relato sobre as andorinhas, pois tinha acabado de ficar totalmente perplexo ao notar exatamente o procedimento que descreve: contei sete, num dia recente, a visitar um único ninho e a colar lama na parede adjacente. Posso mencionar que vi uma vez alguns esquilos a abrir avidamente aquelas pequenas galhas esféricas semitransparentes nas costas das folhas de carvalho para apanhar a larva no interior; pelo que eles são insetívoros. Um Cychrus rostratus esguichou uma vez para os meus olhos e causou-me uma dor extrema; e tenho de lhe contar o que me aconteceu nas margens do Cam, nos meus primeiros dias de entomologia: debaixo de um pedaço de casca encontrei dois Carabi (esqueço-me de quais), e apanhei um em cada mão, quando eis que vi um Panagaeus crux major sagrado! Não suportava desistir de nenhum dos meus Carabi, e perder o Panagaeus estava fora de questão; pelo que, em desespero, agarrei gentilmente um dos Carabi entre os dentes, quando, para o meu indescritível nojo e dor, o pequeno animal inconsiderado esguichou o seu ácido pela minha garganta abaixo, e perdi tanto o Carabi como o Panagaeus! Fiquei bastante surpreendido ao ouvir falar de uma Planaria terrestre; pois, há cerca de um ano ou dois, descrevi nos 'Annals of Natural History' várias espécies terrestres de cores belíssimas do Hemisfério Sul, e pensei que fosse um facto totalmente novo. A propósito, fala de uma ovelha com uma perna partida que não tinha fascíolas: ouvi o meu pai afirmar que uma febre, ou qualquer ACIDENTE GRAVE, como um membro partido, fará com que num homem todos os vermes intestinais sejam evacuados. Não poderia ter sido este o caso das fascíolas no seu estado inicial?

Espero que não tenha ficado mal de Southampton (A reunião da Associação Britânica.); quem me dera tê-lo visto com um aspeto um pouco mais gordo. Desfrutei imenso da minha semana, e fez-me bem. Senti a sua falta nos últimos dias, e nunca conseguimos ver-nos muito; mas havia tanta gente lá, que eu, pelo menos, quase não vi ninguém. Mais uma vez, agradeço-lhe muito cordialmente pelo seu gentil presente, e pelo prazer que me deu, e acredite em mim,

Sempre seu, verdadeiramente, C. DARWIN.

P.S.--Esqueci-me completamente de dizer quão imensamente interessado fiquei com a sua discussão sobre as estatísticas dos animais: quando será a História Natural tão perfeita que pontos como os que discute serão perfeitamente conhecidos sobre qualquer animal?

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Malvern, 13 de junho [1849].

...Finalmente vou imprimir um pequeno e pobre primeiro fruto dos meus malditos Cirripedia, a saber, os cirripedia pedunculados fósseis. Pergunta que efeito o estudo das espécies teve nas minhas teorias de variação; não penso que muito — senti algumas dificuldades acrescidas. Por outro lado, fiquei impressionado (e provavelmente injustamente devido à classe) com a variabilidade de cada parte, em algum grau ligeiro, de cada espécie. Quando o mesmo órgão é RIGOROSAMENTE comparado em muitos indivíduos, encontro sempre alguma pequena variabilidade, e consequentemente que o diagnóstico de espécies a partir de diferenças minuciosas é sempre perigoso. Eu tinha pensado que as mesmas partes da mesma espécie se assemelhavam mais (do que de facto se assemelham, de qualquer modo em Cirripedia) a objetos moldados no mesmo molde. O trabalho sistemático seria fácil se não fosse por esta maldita variação, que, contudo, é agradável para mim como especulador, embora odiosa para mim como sistemata. As suas observações sobre a distinção (tão desagradável para mim) dos Rubi, salgueiros, etc., dos Himalaias, comparados com os do norte da [Europa?], etc., são muito interessantes; se o meu rude esboço de espécies teve qualquer PEQUENA parte em levá-lo a estas observações, já prestou um serviço bom e amplo, e pode repousar os seus ossos na terra em paz. Nunca ouvi nada tão estranho como o descuido de Falconer pelas suas cartas; estou extremamente contente por estar de novo em cordialidade com ele, embora deva ter-lhe custado um esforço. Falconer é um homem que se tem de amar... Que prospere em tudo, meu caro Hooker.

Seu afetuoso amigo, C. DARWIN.

...Muitas graças pela sua carta recebida ontem, que, como sempre, me pôs a pensar: ri-me do seu ataque à minha avareza nas mudanças de nível em relação a Forbes (Edward Forbes, 1815-1854, nascido na Ilha de Man. A sua obra mais conhecida foi o seu Relatório sobre a distribuição de animais marinhos a diferentes profundidades no Mediterrâneo. Um importante memorial seu é mencionado na 'Autobiografia' do meu pai. Ocupou sucessivamente os cargos de Curador do Museu da Sociedade Geológica e de Professor de História Natural no Museu de Geologia Prática; pouco antes de morrer, foi nomeado Professor de História Natural na Universidade de Edimburgo. Parece ter impressionado os seus contemporâneos como um homem de mente extraordinariamente versátil e vigorosa. A alusão acima a mudanças de nível refere-se à tendência de Forbes para explicar os factos da distribuição geográfica por meio de uma imaginação geológica ativa.), sendo tão liberal para comigo próprio; mas devo manter que nunca rebaixei nem elevei a superfície da nossa mãe-terra por causa de explicar qualquer fenómeno, e confio que muito raramente o fiz sem alguma evidência distinta. Por isso, ainda devo considerar um passo ousado (talvez um muito verdadeiro) fazer afundar nas profundezas do oceano, dentro do período das espécies existentes, uma tão grande extensão de superfície. Mas não há quantidade ou extensão de mudança de nível que eu não esteja totalmente preparado para admitir, mas devo dizer que gostaria de melhores provas do que a identidade de algumas plantas, que POSSIVELMENTE (não digo provavelmente) poderiam ter sido transportadas de outra forma. Agradecimentos especiais pela sua tentativa de me conseguir um exemplar de 'L'Espece' (Provavelmente o ensaio de Godron, publicado pela Academia de Nancy em 1848-49, e posteriormente como livro separado em 1859.), e quase iguais agradecimentos pelas suas críticas sobre ele: eu suspeitava bastante dele e não me sentia muito inclinado a tomar os seus factos como verdades absolutas. Acho esta uma das minhas maiores dificuldades com autores estrangeiros, a saber, julgar a sua credibilidade. Quão dolorosamente (para mim) verdadeira é a sua observação de que quase ninguém tem o direito de examinar a questão das espécies se não tiver descrito minuciosamente muitas. Fiquei, contudo, satisfeito por ouvir de Owen (que se opõe veementemente a qualquer mutabilidade nas espécies) que ele achava ser um assunto muito justo, e que havia uma massa de factos a serem trazidos para a questão, não coligidos até então. O meu único conforto é (como pretendo tentar o assunto) que me envolvi em vários ramos da História Natural, e vi bons especialistas em espécies trabalharem nas minhas, e sei algo de geologia (uma união indispensável); e embora receba mais pontapés do que moedas, se a vida servir, tentarei o meu trabalho. Lamarck é a única exceção, que me ocorra, de um descritor preciso de espécies, pelo menos no Reino dos Invertebrados, que não acreditou em espécies permanentes, mas ele, na sua obra absurda embora inteligente, fez mal ao assunto, tal como o Sr. Vestiges, e, como (algum futuro naturalista desleixado que tente as mesmas especulações dirá talvez) fez o Sr. D...

C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 25 de setembro [1853].

Meu caro Hooker,

Li o seu artigo com grande interesse; parece tudo muito claro e formará uma introdução admirável para a Flora da Nova Zelândia, ou para qualquer Flora do mundo. Quão poucos generalizadores existem entre os sistematas; suspeito realmente que existe algo absolutamente oposto entre si e hostil nos dois estados de espírito necessários para sistematizar e raciocinar sobre grandes coleções de factos. Muitos dos seus argumentos parecem-me muito bem colocados e, tanto quanto vai a minha experiência, a forma franca como discute o assunto é única. O todo ser-me-á muito útil sempre que empreender o meu volume, embora algumas partes tirem o vento das minhas velas muito completamente; será tudo proveitoso para mim... pois decidi há algum tempo apresentar os argumentos de AMBOS os lados (tanto quanto pude), em vez de argumentar apenas pelo lado da mutabilidade.

No meu próprio trabalho sobre Cirripedia (a propósito, obrigado pela dose de elogios; faz-me — ou pelo menos a mim — muito bem) — no meu próprio trabalho, não me senti consciente de que não acreditar na mera PERMANÊNCIA das espécies tenha feito grande diferença num sentido ou noutro; em alguns poucos casos (se publicasse declaradamente sobre a doutrina da não permanência), NÃO teria aposto nomes, e em alguns poucos casos teria aposto nomes a variedades notáveis. Certamente senti-me humilhado, discutindo e duvidando, e examinando repetidamente, quando na minha própria mente a única dúvida era se a forma variava HOJE OU ONTEM (para não ser demasiado preciso, como diria Snagsby (Em 'Bleak House.')). Depois de descrever um conjunto de formas como espécies distintas, rasgar o meu manuscrito e torná-las uma única espécie, rasgar isso e torná-las separadas, e depois torná-las uma novamente (o que me aconteceu), ranger os dentes, amaldiçoei as espécies e perguntei que pecado cometi para ser assim punido. Mas devo confessar que talvez quase a mesma coisa me teria acontecido em qualquer esquema de trabalho.

Fico sinceramente contente por saber que o seu Diário (O 'Diário do Himalaia' do Sir J.D. Hooker.) está tão adiantado; quão magnificamente parece estar ilustrado! Um "Naturalista Oriental", com muita imaginação e não muita consideração pelos factos, é exatamente o homem para discutir espécies! Acho o seu título de 'Um Diário de um Naturalista no Oriente' muito bom; mas duvidei se "no Himalaia" não seria melhor, pois Oriente soa um pouco vago...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. [1853].

Meu caro Hooker,

Não tenho observações que valha a pena enviar-lhe, nem, na verdade, era provável que tivesse, considerando quão perfeito e elaborado é o ensaio. ('Flora da Nova Zelândia', 1853.) Tanto quanto vai o meu julgamento, é a discussão mais importante sobre os pontos em questão alguma vez publicada. Não posso dizer mais. Concordo com quase tudo o que diz; mas necessito de muito tempo para digerir um ensaio de tal qualidade. Quase me deixou sombrio, em parte por sentir que não conseguia responder a alguns pontos que, teoricamente, teria gostado que fossem diferentes, e em parte por ver TÃO MELHOR FEITAS do que EU PODERIA ter feito, discussões sobre alguns pontos que eu pretendia ter abordado...

Apreciei muito as estocadas que deu aos traficantes de espécies provincianos. Oxalá pudesse ter sido da mínima utilidade: fiquei profundamente interessado por todo o ensaio e dou-lhe os parabéns por ter produzido um memorial que creio que será memorável. Estava imerso nele quando chegou a sua nota tão atenciosa, pedindo-me para não ter pressa. Agradeço à Sra. Hooker e a si, muito sinceramente, pelo seu desejo de me ver. Não deixarei passar outro verão sem o ver em Kew, pois, na verdade, apreciá-lo-ia muito...

Faz-me realmente mais honra do que aquela a que tenho direito, colocando-me depois de Lyell sobre altos e baixos. Daqui a um ou dois anos, quando estiver no meu livro sobre espécies (se não colapsar), ranger-lhes-ei os dentes e insultá-lo-ei por ter colocado tantos factos hostis tão confusamente bem.

Sempre seu afetuosamente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 26 de março [1854].

Meu caro Hooker,

Esperava que tivesse tido um pouco de tempo para respirar depois do seu Diário, mas isto parece estar muito longe de ser o caso; e fico mais agradecido (e algo contrito) pela longa carta recebida esta manhã, MÁXIMAMENTE suculenta de novidades e MÁXIMAMENTE interessante para mim de muitas formas. Fico realmente muito contente por ouvir falar das reformas, etc., na Royal Society. Com respeito ao Clube (O Clube Filosófico, ao qual o meu pai foi eleito (conforme o Professor Bonney tem a bondade de me informar) a 24 de abril de 1854. Ele renunciou à sua filiação em 1864. O Clube foi fundado em 1847. O número de membros sendo limitado a 47, foi proposto batizá-lo de "o Clube dos 47", mas o nome nunca foi adotado. A natureza do Clube pode ser deduzida da sua primeira regra: "O propósito do Clube é promover tanto quanto possível os objetivos científicos da Royal Society; facilitar o intercâmbio entre aqueles Membros que estão ativamente envolvidos no cultivo dos vários ramos da Ciência Natural e que contribuíram para o seu progresso; aumentar a assistência às reuniões noturnas e encorajar a contribuição e discussão de documentos." O Clube encontrava-se para jantar (a princípio) às 6, e a presidência devia ser abandonada às 8:15, esperando-se que os membros fossem para a Royal Society. Nos últimos anos, o jantar tem sido às 6:30, reunindo-se a Sociedade à tarde.), estou profundamente interessado; há apenas dois ou três dias, lamentava-me para com a minha esposa sobre como estava a deixar cair e a ser deixado cair por quase todos os meus conhecidos, e que me esforçaria por ir mais vezes a Londres; não estava então a pensar no Clube, o que, tanto quanto qualquer coisa pode ir, responderia ao meu objetivo exato de manter velhos e fazer alguns novos conhecidos. Irei, portanto, a Londres para todos (com raras exceções) os dias de Clube, e então a minha cabeça, creio, permitir-me-á em média ir a todas as outras reuniões. Mas é penoso quão frequentemente qualquer mudança me prostra. Prometo ainda, como disse a Lyell, demitir-me após um ano, se não comparecesse com bastante frequência, de modo que, NA PIOR DAS HIPÓTESES, sobrecarregaria o Clube temporariamente. Se puder conseguir que me elejam, ficarei certamente muito satisfeito. Muitas graças pelas respostas sobre Geleiras. Fico muito contente por ouvir falar da segunda Edição (Do Diário do Himalaia.) tão cedo; mas não me surpreende, pois ouvi vários, no nosso pequeno círculo, a lê-lo com muito prazer. Ficarei curioso por saber o que dirá Humboldt: penso que o deleitará e encontrará mais louvores da parte dele do que qualquer outro livro de Viagens, pois não me consigo lembrar de um que tenha tantos assuntos em comum com ele. Que homem velho maravilhoso ele é... A propósito, espero que, quando for a Hitcham, no final de maio, seja forçado a descansar um pouco. Fico triste por saber que todos os sintomas maus não deixaram Henslow; é tão estranho e novo sentir qualquer inquietação sobre a sua saúde. Estou particularmente grato por me ter enviado a carta de Asa Gray; como ele escreve de forma muito agradável. Ver a cautela dele e a sua sobre a questão das espécies deveria sobrecarregar-me de confusão e vergonha; faz-me sentir terrivelmente desconfortável... É delicioso ouvir tudo o que ele diz sobre Agassiz: quão singular é que um homem tão EMINENTEMENTE inteligente, com tanto IMENSO conhecimento em muitos ramos da História Natural, deva escrever como o faz. Lyell disse-me que ficou tão encantado com uma das suas (Agassiz) palestras sobre desenvolvimento progressivo, etc., etc., que foi ter com ele depois e disse-lhe "que era tão delicioso que não podia evitar, durante todo o tempo, desejar que fosse verdade." Raramente vejo um artigo Zoológico da América do Norte sem observar a marca das doutrinas de Agassiz — outra prova, a propósito, de quão grande homem ele é. Fiquei satisfeito e surpreendido ao ver as observações de A. Gray sobre o cruzamento, obliterando variedades, sobre as quais, como sabe, tenho vindo a coligir factos durante uma dúzia de anos. Quão terrivelmente insípido me sentirei se, quando eu juntar as minhas notas sobre espécies, etc., etc., a coisa toda explodir como uma bola de sopro vazia. Não trabalhe até morrer.

Sempre seu, sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 5 de novembro [1854].

Meu caro Hooker,

Fiquei encantado por receber a sua nota ontem. Dou-lhe os parabéns de todo o coração (Pela atribuição da Medalha da Royal Society.), e quer se importe muito ou pouco, regozijo-me por ver o mais alto tribunal de julgamento científico da Grã-Bretanha reconhecer as suas pretensões. Espero realmente que a Sra. Hooker esteja satisfeita, e E. pede-me particularmente para lhe enviar cordiais congratulações... Tenho pena, do fundo do meu coração, do seu discurso após o jantar, que receio não ouvir. A menos que tenha uma alma muito maior do que a minha (e creio que tem), achará a medalha um pequeno estímulo agradável, quando o trabalho corre mal, e um reflete que tudo é vaidade, é agradável ter alguma prova tangível de que outros pensaram algo das nossas labutas.

Adeus, meu caro Hooker, posso assegurar-[lhe] que ambos apreciámos verdadeiramente a sua visita e a da Sra. Hooker aqui. Adeus.

Meu caro Hooker, o seu amigo sincero, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. 7 de março [1855].

...Acabei de trabalhar bem no 'Insecta Maderensia' de Wollaston (Thomas Vernon Wollaston morreu (no seu quinquagésimo sétimo ano, creio eu) a 4 de janeiro de 1878. A sua saúde forçando-o, na idade adulta jovem, a passar o inverno no sul, dedicou-se ao estudo dos Coleoptera da Madeira, Cabo Verde e Santa Helena, de onde deduziu provas em apoio da crença no continente submerso da 'Atlântida'. Num obituário pelo Sr. Rye ('Nature', 1878) é descrito como trabalhando persistentemente "sobre uma vasta conceção da ciência à qual se dedicou", sendo ao mesmo tempo "preciso, elaborado e exato ad punctum, e naturalmente de um hábito minuciosamente crítico." O seu primeiro artigo científico foi escrito quando era estudante no Jesus College, Cambridge. Enquanto estava na Universidade, foi Associado e depois Membro do Clube Ray: esta é uma pequena sociedade que ainda se reúne uma vez por semana, e onde os membros estudantes, ou Associados, recebem muito encorajamento gentil dos seus mais velhos.): é uma obra ADMIRÁVEL. Há um ponto muito curioso na proporção espantosa de Coleoptera que são ápteros; e penso que adivinhei a razão, a saber, que os poderes de voo seriam prejudiciais aos insetos que habitam uma localidade confinada e expô-los-iam a serem soprados para o mar: para testar isto, descubro que os insetos que habitam a Deserta Grande, uma ilhota bastante pequena, seriam ainda mais expostos a este perigo, e aqui a proporção de insetos ápteros é ainda consideravelmente maior do que na Madeira propriamente dita. Wollaston fala da Madeira e dos outros Arquipélagos como sendo "testemunhas seguras e certas do velho continente de Forbes", e, claro, o mundo Entomológico segue implicitamente este ponto de vista. Mas aos meus olhos seria difícil imaginar factos mais opostos a tal ponto de vista. É realmente repugnante e humilhante ver conclusões diretamente opostas retiradas dos mesmos factos.

Tenho mantido alguma correspondência com Wollaston sobre este e outros assuntos, e descubro que ele assume friamente (1) que antigamente os insetos possuíam maiores poderes migratórios do que agora, (2) que a terra antiga era ESPECIALMENTE rica em centros de criação, (3) que a terra que os unia foi destruída antes que as criações especiais tivessem tempo de se difundir, e (4) que a terra foi derrubada antes que certas famílias e géneros tivessem tempo de chegar da Europa ou África aos pontos de terra em questão. Não são estas um conjunto engraçado de suposições? e ainda assim verei, durante a próxima dúzia ou vintena de anos, Wollaston ser citado como provando a existência anterior da Atlântida do pobre Forbes.

Espero não o ter cansado, mas pensei que gostaria de saber sobre este livro, que me parece EXCELENTE nos seus factos, e o autor um homem muito simpático e modesto.

Sinceramente seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Down, 19 de março [1855].

Meu caro Fox,

Há tanto tempo que não temos comunicação, e quero realmente saber como vai o mundo consigo; mas o meu objetivo imediato é pedir-lhe para observar um ponto para mim, e como sei agora que é um homem muito ocupado com demasiado que fazer, terei uma boa hipótese de conseguir o que quero, pois seria inútil pedir a um homem completamente ocioso. Como tem uma Arca de Noé, não duvido que tenha pombos. (Como eu gostaria que, por qualquer acaso, fossem leques!) Agora, o que quero saber é com que idade os pombos juvenis têm as penas da cauda suficientemente desenvolvidas para serem contadas. Não creio que alguma vez tenha visto um pombo jovem. Estou a trabalhar arduamente nas minhas notas, coligindo-as e comparando-as, a fim de, daqui a dois ou três anos, escrever um livro com todos os factos e argumentos que puder coligir, A FAVOR E CONTRA a imutabilidade das espécies. Quero obter os jovens das nossas raças domésticas para ver quão cedo, e em que grau, as diferenças aparecem. Tenho de criar eu próprio (o que não é distração, mas um tédio horrível para mim) os pombos ou comprar os seus jovens; e antes de ir a um vendedor, de quem ouvi falar por Yarrell, estou realmente ansioso por saber algo sobre o seu desenvolvimento, para não expor a minha ignorância excessiva e, portanto, estar excessivamente sujeito a ser enganado e ludibriado. Com respeito ao ÚNICO ponto das penas da cauda, é, claro, em relação ao desenvolvimento maravilhoso das penas da cauda no leque adulto. Se tivesse alguma raça de aves puras, pedir-lhe-ia um pinto com a idade exata declarada, com cerca de uma semana ou quinzena de idade! Para ser enviado numa caixa pelo correio, se tivesse coragem para matar um; e, em segundo lugar, se me deixasse pagar o porte... Na verdade, ficaria muito contente por ter um pombo juvenil comum enviado, pois pretendo fazer esqueletos, e já comecei a comparar patos selvagens e domésticos. E penso que os resultados são bastante curiosos ("Acabei de testar na prática o que o desuso faz na redução de partes; fiz um esqueleto de um pato selvagem e um doméstico (oh, o cheiro de pato bem cozido e estragado!!) e descubro que a asa do pato doméstico deveria, de acordo com a escala do protótipo selvagem, ter as suas duas asas com 360 grãos de peso, mas apenas tem 317." — Uma carta ao Sir J. Hooker, 1855.), pois ao pesar os vários ossos muito cuidadosamente, quando perfeitamente limpos, os pesos proporcionais dos dois variaram muito, tendo o pé do doméstico aumentado significativamente. Como eu gostaria de conseguir um pequeno pato selvagem com uma semana de idade, mas isso sei que é quase impossível.

Quanto a nós, não tenho muito a dizer; temos agora uma casa terrivelmente barulhenta com tosse convulsa, mas, fora isso, estamos todos bem. De longe, o maior facto sobre mim é que finalmente acabei com as eternas cracas. No fim do ano, tivemos dois dos nossos filhotes muito doentes com febre e bronquite, e todo o tipo de doenças. Em parte por diversão, e em parte por mudança de ares, fomos para Londres e alugámos uma casa por um mês, mas revelou-se um grande fracasso, pois aquele gelo terrível começou exatamente quando fomos, e todos os nossos filhos ficaram indispostos, e E. e eu tivemos tosses e resfriados e reumatismo durante quase todo o tempo. Tínhamos colocado primeiro na nossa lista de coisas a fazer ir ver a Sra. Fox, mas, literalmente, depois de esperar algum tempo para ver se o tempo melhorava, não tivemos um dia em que ambos pudéssemos sair.

Espero que antes de muito tempo consiga arranjar forma de nos fazer uma visita. O tempo está a passar e estamos a ficar um pouco velhos. Fale-nos sobre si e sobre a sua grande família.

Sei que me ajudará SE PUDER com informações sobre os pombos jovens; e, de qualquer forma, escreva antes de muito tempo.

Meu caro Fox, o seu velho amigo sincero, C. DARWIN.

P.S. — Entre todo o tipo de coisas, com as quais me distraio, estou a comparar as sementes das variações das plantas. Eu tinha antigamente algumas sementes de couve selvagem, que dei a alguém, foi a si? É MIL para um que tenha sido deitada fora, se não, ficaria muito contente com uma pitada dela.

[O seguinte excerto de uma carta ao Sr. Fox (27 de março de 1855) refere-se ao mesmo assunto da última carta e dá conta do "trabalho com espécies": "A forma como matarei os seres jovens será colocando-os sob um copo com uma colher de chá de éter ou clorofórmio, sendo o copo pressionado contra uma superfície flexível, e deixá-los por uma ou duas horas, os jovens têm tal poder de revivificação. (Já matei assim traças e borboletas.) A melhor maneira seria enviá-los à medida que os obtiver, numa caixa de cartão pelo correio, na qual poderia escrever e apenas atar com um cordel; e far-me-á REALMENTE mais feliz permitindo-me manter um registo dos portes, etc. Pela minha palavra, mal posso acreditar que ALGUÉM pudesse ser tão bondoso a ponto de ter tal trabalho e fazer uma coisa tão desagradável como matar bebés; e tenho a certeza de que não conheço uma única alma que, exceto você, o faria. Vou pedir mais uma coisa; se galinhas velhas de qualquer das aves de capoeira acima mencionadas (não pato) morrerem ou se tornarem tão velhas a ponto de serem INÚTEIS, desejo que ma envie por comboio, endereçada a C. Darwin, aos cuidados do Sr. Acton, Post-office, Bromley, Kent." Guardará este endereço? como a forma mais curta para encomendas. Mas não me importo tanto com isto, pois poderia comprar as aves velhas mortas a Baily para fazer esqueletos. Eu teria escrito imediatamente, mesmo que não tivesse tido notícias suas, para lhe pedir que não se desse ao trabalho com pombos, pois Yarrell persuadiu-me a tentar, e agora estou a montar um lugar, e escrevi a Baily sobre preços, etc., etc. ALGUMA ALTURA (quando estiver melhor) gostaria muito de ouvir um pouco sobre o seu "Pato-real pequeno"; por que assim chamado? E onde o obteve? E como é?... Eu era tão ignorante que nem sabia que existiam três variedades de galinha Dorking: como diferem?...

Esqueço-me se alguma vez lhe disse qual é o objeto do meu trabalho atual — é observar todos os factos que consigo dominar (eheu, eheu, como me descubro ignorante) na História Natural (como na distribuição geográfica, paleontologia, classificação, hibridismo, animais e plantas domésticos, etc., etc., etc.) para ver até que ponto favorecem ou se opõem à noção de que as espécies selvagens são mutáveis ou imutáveis: pretendo com todo o meu poder dar todos os argumentos e factos de ambos os lados. Tenho um NÚMERO de pessoas a ajudar-me de todas as formas, e a dar-me uma assistência valiosíssima; mas duvido frequentemente se o assunto não me dominará por completo.

Tanto para a parte quase comercial da minha carta. Lamento muito, muito ouvir uma notícia tão indiferente da sua saúde: com a sua família numerosa a sua vida é muito preciosa, e tenho a certeza de que com toda a sua atividade e bondade deveria ser uma vida feliz, ou tão feliz quanto se pode razoavelmente esperar com todos os cuidados do futuro sobre alguém.

Não se pode esperar que o presente seja como os velhos tempos de Crux-major ao pé daqueles nobres tocos de salgueiro, cuja memória reverencio. Acho agora que a minha pequena entomologia, que lhe devo inteiramente, se torna muito útil. Fico muito contente por saber que se deu um descanso dos deveres de domingo. Quanta doença teve na sua vida! Adeus, meu caro Fox. Asseguro-lhe que lhe agradeço de coração pela sua assistência oferecida.]

CHARLES DARWIN A W.D. FOX. Down, 7 de maio [1855].

Meu caro Fox,

A minha correspondência deu-lhe um trabalhão, embora este bilhete não o dê. Encontrei o seu no meu regresso a casa no sábado, após uma semana de trabalho em Londres. Enquanto lá estive, vi Yarrell, que me disse ter examinado cuidadosamente todos os pontos do Pato-real, e não ter tido qualquer dúvida sobre ser especificamente idêntico, e que se tinha cruzado livremente com variedades comuns no St. James's Park. Ficaria, portanto, muito contente por um patinho de sete dias e por uma das aves velhas, caso alguma morra de morte natural. Yarrell disse-me que Sabine tinha colecionado quarenta variedades do pato comum!... Bem, voltando ao assunto; ninguém, tenho a certeza, poderia fixar melhor para mim do que você a idade característica dos pintainhos; quanto aos esqueletos, receei que fosse impossível fazê-los, mas suponho que serei capaz de medir membros, etc., sentindo as articulações. O que diz sobre os galos velhos confirma apenas o que eu pensava, e farei os meus esqueletos de galos velhos. Caso um peru selvagem velho morra alguma vez, por favor lembre-se de mim; não me interessa um bebé peru, nem um mastim. Muitas, muitas graças pela sua oferta. Tenho cachorros de buldogues e galgos em sal, e tive potros jovens de cavalo de tiro e de corrida cuidadosamente medidos. Se farei algum bem, duvido. Estou a ficar fora da minha profundidade.

Muito sinceramente seu, C. DARWIN.

[Um excerto de uma carta ao Sr. Fox pode encontrar aqui um lugar, embora de data posterior, i.e., julho de 1855]:

"Muitas graças pelo Dorking branco de sete dias, e pelos outros prometidos. Estou a ficar com uma verdadeira 'câmara dos horrores', aprecio a sua bondade ainda mais do que antes; pois cometi o ato negro e assassinei um angelical pequeno leque e papo aos dez dias de idade. Experimentei clorofórmio e éter para o primeiro, e embora visivelmente uma morte perfeitamente fácil, foi prolongada; e para o segundo experimentei colocar pedaços de cianeto de potássio numa garrafa húmida muito grande, meia hora antes de colocar o pombo, e o gás de ácido prússico assim gerado foi muito rapidamente fatal."

Uma carta ao Sr. Fox (23 de maio de 1855) dá a primeira menção ao trabalhoso trabalho do meu pai sobre a criação de pombos:

"Escrevo agora para dizer que estive a observar alguns dos nossos frangos mestiços, e diria que UMA SEMANA DE IDADE serviria muito bem. Os pontos principais sobre os quais sou, e tenho sido durante anos, muito curioso, é verificar se os JOVENS das nossas raças domésticas diferem tanto uns dos outros como os seus pais, e não tenho fé em nada que não seja a medição real e a Regra de Três. Espero e acredito que não estou a dar tanto trabalho sem um motivo de valor suficiente. Tenho os meus leques e papos (aves de eleição, espero, pois paguei 20 xelins por cada par a Baily) numa gaiola grande e pombal, e são uma diversão decidida para mim, e um prazer para H."

No decurso da iniciativa de criação de pombos do meu pai, ele tornou-se necessariamente conhecedor de criadores, e gostava de relatar as suas experiências como membro dos clubes Columbarian e Philoperistera, onde conheceu os mais puros entusiastas da "criação", e aprendeu muito dos mistérios da sua arte. Ao escrever ao Sr. Huxley alguns anos depois, cita um livro sobre 'Pombos' do Sr. J. Eaton, em ilustração da "extrema atenção e observação próxima" necessária para ser um bom criador.

"No seu [Sr. Eaton] tratado, dedicado APENAS ao Almond Tumbler, que é uma subvariedade da variedade de cara curta, que é uma variedade do Tumbler, tal como este é do Pombo-das-rochas, o Sr. Eaton diz: 'Há alguns dos criadores jovens que são demasiado cobiçosos, que vão atrás de todas as cinco propriedades de uma vez [i.e., os cinco pontos característicos aos quais se presta atenção principalmente,--C.D.], têm a sua recompensa por não obterem nada'. Em suma, está quase para lá do intelecto humano atender a TODAS as excelências do Almond Tumbler!

"Para ser um bom criador, e ter sucesso na melhoria de qualquer raça, é necessário, acima de tudo, entusiasmo. O Sr. Eaton ganhou imensos prémios, ouça-o.

"'Se fosse possível aos nobres e cavalheiros saber a incrível quantidade de consolo e prazer derivado do Almond Tumbler, quando começam a compreender as suas (i.e., do tumbler) propriedades, julgo que dificilmente algum nobre ou cavalheiro estaria sem os seus viveiros de Almond Tumblers'."

O meu pai gostava de citar esta passagem, e sempre com um tom de empatia pelo autor, embora, sem dúvida, tivesse esquecido as suas próprias interrogações em criança de que "todo o cavalheiro não se tornava um ornitólogo".—('Autobiografia', página 32.)

Ao Sr. W.B. Tegetmeier, o conhecido escritor sobre aves de capoeira, etc., ele estava em dívida por conselhos e cooperação constantes. A sua correspondência começou em 1855, e durou até 1881, quando o meu pai escreveu: "Posso assegurar-lhe que olho muitas vezes para trás com prazer para os velhos tempos em que me ocupava com pombos, aves, etc., e quando me deu uma assistência tão valiosa. Não raro lamento ter tido tão pouca força que não fui capaz de manter velhos conhecimentos e amizades." As cartas do meu pai ao Sr. Tegetmeier consistem quase inteiramente em séries de perguntas relacionadas com as diferentes raças de aves, pombos, etc., e não são, portanto, interessantes. Ao ler a pilha de cartas, ficamos muito impressionados com a diligência da busca do escritor por factos, e torna-se claro que o conhecimento e o julgamento do Sr. Tegetmeier eram completamente confiados e altamente valorizados por ele. Inúmeras frases, tais como "a sua nota é uma mina de riqueza para mim", ocorrem, expressando o seu sentido do valor da ajuda do Sr. Tegetmeier, assim como palavras expressando a sua calorosa apreciação pelo zelo e bondade incansáveis do Sr. Tegetmeier, ou o seu "puro e desinteressado amor pela ciência". Sobre o assunto das abelhas e os seus favos, a ajuda do Sr. Tegetmeier foi também valorizada pelo meu pai, que escreveu: "o seu artigo sobre 'Células de Abelhas', lido perante a Associação Britânica, foi altamente útil e sugestivo para mim."

Para resolver os problemas sobre as Distribuições Geográficas de animais e plantas segundo princípios evolucionistas, ele teve de estudar os meios pelos quais as sementes, ovos, etc., podem ser transportados através de vastos espaços de oceano. Foi esta necessidade que deu interesse à classe de experiências a que as cartas seguintes aludem.]

CHARLES DARWIN A W.D. FOX. Down, 17 de maio [1855].

Meu caro Fox,

Vai odiar a própria visão da minha caligrafia; mas depois desta vez prometo que não pedirei mais nada, pelo menos durante muito tempo. Como vive em solo arenoso, tem lagartos de todo comuns? Se tiver, acharia demasiado ridículo oferecer uma recompensa por mim por ovos de lagarto aos rapazes da sua escola; um xelim por cada meia dúzia, ou mais se forem raros, até conseguir duas ou três dúzias e enviar-mos? Se fossem trazidos ovos de cobra por engano, seria muito bom, pois também quero desses; e não temos lagartos nem cobras por aqui. O meu objetivo é ver se tais ovos flutuam na água do mar, e se se mantêm vivos assim a flutuar durante um mês ou dois na minha cave. Estou a tentar experiências no transporte de todos os seres orgânicos que posso; e lagartos são encontrados em todas as ilhas, e portanto estou muito ansioso por ver se os seus ovos resistem à água do mar. Naturalmente, este bilhete não precisa de resposta, a menos que, por uma estranha e favorável coincidência, possa um dia respondê-lo com os ovos.

O seu amigo mais incómodo, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. 13 de abril [1855].

...Tive uma experiência há algum tempo em curso, que será, penso, interessante, nomeadamente, sementes em água salgada imersas em água de 32-33 graus, que tenho e terei por muito tempo, pois enchi um grande tanque com neve. Quando escrevi pela última vez, ia triunfar sobre si, pois a minha experiência tinha tido sucesso em pequeno grau; mas isto, com infinita baixeza, não contei, na esperança de que dissesse que comeria todas as plantas que eu pudesse cultivar após a imersão. É muito agravante que não consiga de todo lembrar-me do que disse antigamente que me fez pensar que escarnecia vastamente das experiências; pois agora parece ver a experiência como um bom cristão. Tenho em garrafas pequenas ao ar livre, expostas à variação de temperatura, agrião, rabanete, couves, alfaces, cenouras, aipo e sementes de cebola--quatro grandes famílias. Estas, após imersão durante exatamente uma semana, germinaram todas, o que de todo não esperava (e pensei em como escarneceria de mim); pois a água de quase todas, e especialmente a do agrião, cheirava muito mal, e a semente de agrião emitiu uma quantidade maravilhosa de muco (os 'Vestígios' teriam esperado que se transformassem em girinos), de modo a aderir numa massa; mas estas sementes germinaram e cresceram esplendidamente. A germinação de todas (especialmente agrião e alfaces) foi acelerada, exceto a das couves, que cresceram muito irregularmente, e um bom número, penso, morto. Dir-se-ia, pelo seu habitat nativo, que a couve teria resistido bem. As Umbelliferae e cebolas parecem resistir bem ao sal. Lavo a semente antes de as plantar. Escrevi à "Gardeners' Chronicle" (Umas poucas palavras a pedir informação. Os resultados foram publicados na 'Gardeners' Chronicle', 26 de maio, 24 de novembro de 1855. No mesmo ano (página 789) enviou um P.S. ao seu antigo artigo, corrigindo um erro de impressão e acrescentando umas poucas palavras sobre as sementes das Leguminosae. Um artigo mais completo sobre a germinação de sementes após tratamento em água salgada, apareceu no 'Linnaean Soc. Journal', 1857, página 130.), embora duvide se valeu a pena. Se o meu sucesso parecer fazer com que valha a pena, enviarei uma lista de sementes, para o levar a marcar algumas classes diferentes de sementes. Hoje replanto as mesmas sementes de acima após catorze dias de imersão. Como muitas correntes marítimas vão a uma milha por hora, mesmo numa semana poderiam ser transportadas 168 milhas; diz-se que a Corrente do Golfo vai a cinquenta e sessenta milhas por dia. Tanto e demasiado sobre este ponto; mas os meus gansos são sempre cisnes...

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. [14 de abril de 1855.]

...É um bom homem por confessar que esperava que o agrião fosse morto numa semana, pois isto dá-me um bom pequeno triunfo. As crianças no início estavam tremendamente ansiosas, e perguntavam-me frequentemente, "se eu ganharia ao Dr. Hooker!" O agrião e a alface acabaram de vegetar bem após vinte e um dias de imersão. Mas não escreverei mais, o que é uma grande virtude em mim; pois é para mim um prazer muito grande contar-lhe tudo o que faço.

...Se soubesse algumas das experiências (se é que se lhes pode chamar assim) que estou a tentar, teria um bom direito a escarnecer, pois são tão ABSURDAS mesmo na MINHA opinião que não me atrevo a contar-lhe.

Não têm alguns homens uma boa noção de experimentar? Recebi uma carta a dizer-me que as sementes DEVEM ter GRANDE poder de resistir à água salgada, pois de outra forma como poderiam chegar às ilhas? Esta é a verdadeira forma de resolver um problema!

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down [1855].

Meu caro Hooker,

Tem sido um homem muito bom por exalar um pouco da sua satisfação ao escrever-me dois bilhetes; não poderia ter tomado um caminho melhor na minha opinião; mas quanto a mostrar a sua satisfação ao confundir as minhas experiências, garanto-lhe que estou suficientemente confundido--aquelas sementes horríveis, que, como observa verdadeiramente, se se afundam não flutuam.

Escrevi a Scoresby e tive uma resposta um tanto seca, mas muito objetiva, e não me dando esperanças de qualquer lei que me fosse desconhecida que pudesse deter a sua eterna descida para as profundezas mais profundas do oceano. A propósito, foi muito estranho, mas falei com o Coronel Sabine durante meia hora sobre o assunto, e não consegui fazê-lo ver, em relação ao transporte, a dificuldade da questão do afundamento! O chato é, se as sementes malditas se afundam, estive a ter todo este trabalho a salgar os ingratos patifes por nada.

Tudo tem corrido mal comigo ultimamente; os peixes na Sociedade Zoológica comeram imensas sementes embebidas, e na imaginação tinham sido engolidas na minha mente, peixes e tudo, por uma garça, tinham sido transportados cem milhas, sido evacuadas nas margens de algum outro lago e germinaram esplendidamente, quando eis que, o peixe ejetou veementemente, e com desgosto igual ao meu, TODAS as sementes das suas bocas. (Ao descrever estes problemas ao Sr. Fox, o meu pai escreveu:--"Toda a natureza é perversa e não quer fazer como eu desejo; e mesmo neste momento gostaria de ter os meus velhos percebes com que trabalhar, e nada de novo." A experiência acabou por ter sucesso, e escreveu ao Sir J. Hooker:--"Descobri que os peixes comem avidamente sementes de ervas aquáticas, e que semente de milho posta em peixes e dada a uma cegonha, e depois evacuada, germinará. Portanto, esta é a rima de 'este é o pau que bate no porco', etc., etc.,")

Mas não vou desistir da flutuação ainda: em primeiro lugar tenho de experimentar sementes frescas, embora naturalmente pareça muito mais provável que se afundem; e em segundo lugar, como último recurso, tenho de acreditar na vagem ou mesmo na planta inteira ou ramo a ser lavado para o mar; com cheias e deslizamentos e terramotos; isto deve estar continuamente a acontecer, e se mantidas húmidas, imagino que as vagens, etc. etc., não abririam e perderiam as suas sementes. Tente a sua semente de Mimosa em Kew.

Eu pretendia ter-lhe perguntado se a Mimosa scandens e a Guilandina bonduc crescem em Kew, para experimentar sementes frescas. R. Brown diz-me que acredita que quatro sementes das Índias Ocidentais foram lavadas para as costas da Europa. Fui assegurado na Ilha Keeling de que as sementes não eram raramente lavadas na costa: portanto flutuar têm de flutuar! Que longa conversa tenho estado a fiar.

Se tiver várias das sementes de Loffoden, embeba algumas em água tépida, e ponha a plantar com o maior cuidado: esta é uma experiência que me agrada, com probabilidades de 1000 para 1 contra o seu sucesso.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 11 de maio [1855].

Meu caro Hooker,--Acabo de receber o seu bilhete. Estou mais sincera e cordialmente contente com a notícia (A nomeação de Sir J.D. Hooker como Diretor Assistente dos Jardins Reais em Kew.) que contém, e a minha mulher também. Embora o rendimento seja pouco, contudo a certeza, espero, é satisfatória para si e para a Sra. Hooker. Como deve levar em anos futuros à Direção, espero que a veja como uma peça de boa sorte. Para o meu próprio gosto não consigo imaginar uma posição mais agradável do que a chefia de um lugar tão nobre e esplêndido; muito melhor, deveria pensar, do que uma Professora numa grande cidade. Quanto mais penso nisso, mais contente fico. Mas não direi mais; exceto que espero que a Sra. Hooker esteja bastante satisfeita...

Como a "Gardeners' Chronicle" incluiu a minha pergunta, e tomou conhecimento dela, penso que sou obrigado a enviar, o que tinha pensado fazer na próxima semana, o meu primeiro relatório a Lindley para lhe dar a opção de o inserir; mas penso que é provável que ele não o considere adequado para um periódico de Jardinagem. Quando as minhas experiências terminarem (caso os resultados pareçam dignos) e caso o 'Linnean Journal' não se oponha à publicação prévia de relatórios imperfeitos e provisórios, ficaria ENCANTADO por inserir o relatório final lá; pois custou-me tanto trabalho, que julgaria que provavelmente o resultado era digno de registo mais permanente do que um jornal; mas penso que sou obrigado a enviá-lo primeiro a Lindley.

Começo a pensar na questão da flutuação como mais séria do que a da germinação; e estou a fazer todas as averiguações que posso sobre o assunto, e espero obter alguma luz sobre o mesmo...

Espero que tenha conseguido uma boa reunião no Clube. A Tesouraria deve ser uma praga para si, e espero que não seja Tesoureiro por muito tempo: sei que eu preferiria muito mais desistir do Clube do que ser o seu Tesoureiro.

Adeus, Sr. Diretor Assistente e caro amigo, C. DARWIN.

...A Sr.ª Thorley (uma senhora que foi durante muitos anos governanta na família) e eu estamos a realizar UM PEQUENO TRABALHO BOTÂNICO! para nossa diversão, e diverte-me imenso, a saber, fazer uma coleção de todas as plantas que crescem num campo que foi deixado ao abandono durante quinze anos, mas que antes disso fora cultivado desde tempos imemoriais; e estamos também a recolher todas as plantas num campo adjacente e SEMELHANTE, mas cultivado; apenas pela graça de ver que plantas sobreviveram ou se extinguiram. Mais tarde, precisaremos de um pouco de ajuda para nomear os enigmas. Quão terrivelmente difícil é nomear plantas.

Que carta NOTAVELMENTE simpática e amável o Dr. A. Gray me enviou em resposta às minhas incómodas questões; guardei a sua cópia do seu 'Manual' até ter notícias dele e, quando tiver respondido à sua carta, devolvê-la-ei.

Agradeço-lhe imenso o Hedysarum: espero mesmo que não seja muito precioso, pois, como lhe disse, serve para um propósito provavelmente MUITO tolo. Li algures que nenhuma planta fecha as suas folhas tão prontamente na escuridão, e quero cobri-la diariamente durante meia hora, para ver se a consigo ensinar a fechar-se sozinha, ou mais facilmente do que à primeira na escuridão... Não consigo perceber porque preferiria uma transmissão continental, como julgo que prefere, à via marítima. Teria pensado que ficaria satisfeito com o maior número possível de meios de transmissão. Para as minhas próprias noções teóricas favoritas, é totalmente indiferente se são transmitidas por mar ou por terra, desde que se mostre um caminho toleravelmente provável. Mas choca a minha filosofia criar terra, sem qualquer outra evidência independente. Sempre que nos encontrarmos, com apenas algumas palavras, penso que compreenderei mais claramente os seus pontos de vista...

Acabei de identificar a minha primeira gramínea, viva! viva! Devo confessar que a sorte favorece os audazes, pois, por boa fortuna, era a fácil Anthoxanthum odoratum: contudo, é uma grande descoberta; nunca esperei identificar uma gramínea em toda a minha vida, por isso, viva! Fez um bem surpreendente ao meu estômago...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 15 de [junho?], [1855].

Meu caro Hooker,

Escrevo apenas uma linha para dizer que o Hedysarum chegou EM TOTAL SEGURANÇA, e agradeço-lho.

Não imagina que diversão me proporcionou ao nomear aquelas três gramíneas: acabei de arranjar papel para secar e colecionar todas as gramíneas. Se alguma vez apanhar um principiante absoluto e quiser dar-lhe um gosto pela Botânica, diga-lhe para fazer uma lista completa de um pequeno campo ou bosque. Tanto a Sr.ª Thorley como eu concordamos que isso confere um interesse realmente invulgar ao trabalho, ter um pequeno mundo definido sobre o qual trabalhar, em vez do terrível abismo e imensidão de todas as Plantas Britânicas.

Adios. Fui realmente consumadamente insolente ao expressar a minha opinião "sobre o passo retrógrado" ("Imaginar tais mudanças geológicas enormes dentro do período da existência dos seres vivos atuais, sem qualquer outra base a não ser para justificar a sua distribuição, parece-me, no nosso atual estado de ignorância sobre os meios de transporte, um passo quase retrógrado na ciência."--Excerto do artigo sobre 'Água Salgada e Sementes' no "Gardeners' Chronicle", 26 de maio de 1855.), e mereci uma boa repreensão, e, após reflexão, estou muito contente por não me ter respondido no "Gardeners' Chronicle".

Fiquei MUITO interessado com a Florula. (Florula Juvenalis, de Godron, que fornece um relato interessante das plantas introduzidas na lã importada.)

[Escrevendo a 5 de junho ao Sir J.D. Hooker, o meu pai menciona uma carta do Dr. Asa Gray. A carta referida foi uma resposta à seguinte:]

CHARLES DARWIN PARA ASA GRAY. (O conhecido Botânico Americano. A amizade do meu pai com o Dr. Gray começou com a correspondência da qual a presente é a primeira carta. Um excerto de uma carta para Sir J. Hooker, 1857, mostra que a forte consideração pessoal do meu pai pelo Dr. Gray teve uma origem precoce: "Fiquei contente por ver as cartas de A. Gray; há sempre algo nelas que mostra que ele é um homem muito amável.") Down, 25 de abril [1855].

Meu caro Senhor,

Espero que se lembre de que tive o prazer de lhe ser apresentado em Kew. Quero pedir-lhe um grande favor, pelo qual bem sei que não posso oferecer desculpas. Mas o favor não causará, penso eu, muitos incómodos e obrigar-me-á imenso. Como não sou botânico, parecerá tão absurdo para si o facto de eu colocar questões botânicas; que posso premissa que, há vários anos, tenho recolhido factos sobre a "variação", e, quando verifico que alguma observação geral parece ser válida entre os animais, tento testá-la nas Plantas. [Segue-se um pedido de informações sobre plantas alpinas americanas e uma sugestão quanto à publicação sobre o assunto.] Posso assegurar-lhe que percebo quão presunçoso é da minha parte, não sendo botânico, fazer a mais trivial das sugestões a um botânico como o senhor; mas, pelo que vi e ouvi a seu respeito do nosso querido e amável amigo Hooker, espero e penso que me perdoará, e acreditará em mim, com muito respeito,

Caro senhor, seu muito fielmente, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA ASA GRAY. Down, 8 de junho [1855].

Meu caro Senhor,

Agradeço-lhe cordialmente a sua notavelmente amável carta do dia 22 do mês passado, e pela maneira extremamente agradável e prestável com que acolheu as minhas questões um tanto incómodas. Dificilmente lhe posso dizer o quanto a sua lista de plantas alpinas me interessou, e posso agora, em certa medida, imaginar as plantas dos seus cumes alpinos. A nova edição do seu Manual é uma EXCELENTE notícia para mim. Sei, pelo seu prefácio, quão pressionado está por falta de espaço, mas não ocuparia espaço nenhum acrescentar (Eu) entre parênteses a qualquer planta europeia e, no que me diz respeito, isto serviria perfeitamente ao propósito. (Esta sugestão foi adotada pelo Dr. Gray em edições subsequentes.) Pela minha própria experiência, enquanto identificava plantas inglesas nos nossos manuais, ocorreu-me muitas vezes quão interessante seria se fosse dada alguma noção da sua distribuição; e, portanto, não posso duvidar de que os seus investigadores e principiantes americanos gostariam muito de saber quais das suas plantas eram indígenas e quais europeias. Não seria bom, nas plantas alpinas, acrescentar exatamente a mesma adenda que me enviou agora em manuscrito? embora aqui, graças à sua amabilidade, não fale de forma egoísta, mas apenas pro bono Americano publico. Presumo que seria demasiado incómodo indicar no seu manual os habitats das plantas encontradas a oeste das Montanhas Rochosas, e igualmente as encontradas no Leste Asiático, tomando o Ienissei (?), que, se bem me lembro, segundo Gmelin, é a principal linha divisória da Sibéria. Talvez a Sibéria diga mais respeito à Flora setentrional da América do Norte. A distribuição das plantas a leste e a oeste, a saber, se a maioria se encontra na Gronelândia e na Europa Ocidental, ou no Leste Asiático, parece-me um ponto muito interessante por tender a mostrar se a migração foi para leste ou para oeste. Peço-lhe que acredite que estou inteiramente consciente de que a ÚNICA UTILIDADE destas observações é mostrar a um botânico que pontos um não botânico tem curiosidade de aprender; pois penso que todos os que estudam profundamente um assunto se tornam muitas vezes inconscientes dos pontos sobre os quais os ignorantes necessitam de informação. Estou muito contente por pensar em elaborar algum aviso sobre a sua distribuição geográfica, pois o ar do Manual parece-me, em alguns pontos, mais adaptado para comparação com a Europa do que o de toda a América do Norte. Pede-me que declare definidamente alguns dos pontos sobre os quais desejo vivamente obter informação; mas, na verdade, dificilmente o consigo, pois são tão vagos; e prefiro ver que resultados surgirão de comparações, em vez de ter, por enquanto, objetos definidos. Presumo que, como outros botânicos, daria, para a sua área, a proporção (deixando de fora as plantas introduzidas) para o conjunto das grandes famílias principais: este é um ponto que eu pretendia (e, na verdade, fiz grosseiramente) tabular a partir do seu livro, mas, claro, só o poderia ter feito MUITO IMPERFEITAMENTE. Deveria também, naturalmente, ter verificado a proporção, em relação a toda a Flora, das plantas europeias (deixando de fora as introduzidas) E DAS GRANDES FAMÍLIAS SEPARADAS, a fim de especular sobre os meios de transporte. A propósito, aventurei-me a enviar há poucos dias um exemplar do "Gardeners' Chronicle" com um breve relatório meu de algumas experiências triviais que tenho estado a tentar sobre o poder das sementes de resistir à água do mar. Não sei se lhe ocorreu, mas a mim ocorreu, que seria aconselhável que os botânicos dessem em NÚMEROS INTEIROS, bem como na fração mais reduzida, os números proporcionais das famílias, assim, deduzo do seu Manual que, das plantas INDÍGENAS, a proporção das Umbelliferae é 36/1798 = 1/49; pois, sem conhecer os números INTEIROS, não se pode julgar quão próximos são realmente os números das plantas da mesma família em dois países distantes; mas é muito provável que considere isto supérfluo. Ao mencionar estes números proporcionais, posso dar-lhe um exemplo do tipo de pontos, e quão vagos e fúteis são muitas vezes, que TENTO elaborar...; refletindo sobre a observação de R. Brown e Hooker, de que a quase identidade de números proporcionais das grandes famílias em dois países mostra provavelmente que estiveram outrora continuamente unidos, pensei que calcularia as proporções, por exemplo, das Compositae INTRODUZIDAS na Grã-Bretanha para todas as plantas introduzidas, e o resultado foi 10/92 = 1/9,2. Na nossa flora ABORIGENE ou indígena, a proporção é 1/10; e, em muitos outros casos, encontrei uma correspondência igualmente impressionante. Peguei então no seu Manual e elaborei a mesma questão; aqui encontro nas Compositae uma correspondência quase igualmente impressionante, a saber, 24/206 = 1/8 nas plantas introduzidas, e 223/1798 = 1/8 nas indígenas; mas, quando cheguei às outras famílias, descobri que a proporção era completamente diferente, mostrando que as coincidências na Flora Britânica eram provavelmente acidentais!

Presumo que dará a proporção das espécies para os géneros, isto é, mostrará em média quantas espécies cada género contém; embora eu o tenha feito para mim próprio.

Se não fosse demasiado incómodo, não acha que seria muito interessante, e daria uma ideia muito boa da sua Flora, dividir as espécies em três grupos, a saber: (a) espécies comuns ao velho mundo, declarando os números comuns à Europa e à Ásia; (b) espécies indígenas, mas pertencentes a géneros encontrados no velho mundo; e (c) espécies pertencentes a géneros confinados à América ou ao Novo Mundo. Para tornar (de acordo com as minhas ideias) a perfeição perfeita, dever-se-ia dizer se existem outros casos, como Erica, de géneros comuns na Europa ou no Velho Mundo não encontrados na sua área. Mas honestamente sinto que é completamente ridículo estar a escrever-lhe com tanta extensão sobre o assunto; mas, como me pediu, faço-o com gratidão, e escrevo-lhe como escreveria a Hooker, que se ri muitas vezes de mim impiedosamente, e estou certo de que o senhor tem melhores razões para o fazer.

Há um ponto sobre o qual estou MUITO ansioso por obter informação, e menciono-o com a maior hesitação, e apenas na PLENA CRENÇA de que acreditará que não tenho a loucura e presunção de esperar por um segundo que o faça, a menos que o possa fazer com muito pouco esforço. O ponto não pode, de momento, interessar a ninguém a não ser a mim, o que torna o caso totalmente diferente da distribuição geográfica. A única maneira pela qual, penso eu, possivelmente o poderia fazer com pouco esforço, seria ter em mente, enquanto corrige as suas provas do Manual, a minha questão e colocar uma cruz ou marca na espécie, e, sempre que enviar um volume para Hooker, deixar-me ter essas folhas antigas. Mas isto dar-lhe-ia o trabalho de se lembrar da minha questão, e dificilmente posso esperar que o faça. Mas mencionarei apenas o que quero; é ter marcadas as "espécies próximas" numa Flora, de modo a comparar em DIFERENTES Floras se os mesmos géneros têm "espécies próximas", e para outros fins demasiado vagos para enumerar. Tentei, com a ajuda de Hooker, verificar de uma forma semelhante se as diferentes espécies dos mesmos géneros em cantos distantes do globo são variáveis ou apresentam variedades. A definição que daria de uma "ESPÉCIE PRÓXIMA" seria aquela que O SENHOR pensasse ser especificamente distinta, mas que pudesse conceber que algum outro BOM botânico pudesse pensar ser apenas uma raça ou variedade; ou, então, uma espécie que teve dificuldade, embora tendo oportunidades de a conhecer bem, em distinguir de alguma outra espécie. Supondo que estivesse inclinado a ser tão amável a ponto de fazer isto, e pudesse (o que não espero) dispensar o tempo, como disse, uma simples cruz para cada espécie dessas em quaisquer folhas de prova inúteis dar-me-ia a informação desejada, a qual, acrescento, sei que deve ser vaga.

Como posso pedir desculpa o suficiente por toda a minha presunção e pela extrema extensão desta carta? A grande natureza bondosa da sua carta para mim foi parcialmente a causa, de modo que, como acontece demasiado frequentemente neste mundo, o senhor é punido pelas suas boas ações. Com sinceros agradecimentos, acredite que sou,

Seu muito verdadeira e gratamente, CH. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 18 de [julho, 1855].

...Penso que estou a ter um caso LIGEIRO sobre a semente de mostarda-dos-campos (No "Gardeners' Chronicle", 1855, página 758, apareceu um aviso (com meia coluna de comprimento) do meu pai sobre a "Vitalidade das Sementes." Os factos relacionados referem-se ao "Sand-walk"; o bosque foi plantado em 1846 numa parcela de terra de pastagem estabelecida como relvado em 1840. Em 1855, ao ser escavado o solo em vários locais, a mostarda-dos-campos (Brassica sinapistrum) brotou livremente. O assunto continuou a interessá-lo, e encontro uma nota datada de 2 de julho de 1874, na qual o meu pai registou que quarenta e seis plantas de mostarda-dos-campos brotaram nesse ano sobre um espaço (14 x 7 pés) que fora escavado a uma profundidade considerável.); mas, tal como sobre a salga, azar do que lhe toca, não me consigo lembrar de quantos anos permitiria que a semente de mostarda-dos-campos pudesse viver no solo. Da próxima vez que escrever, mostre um rosto audaz, e diga em quantos anos, pensa, a semente de mostarda-dos-campos provavelmente estaria toda morta. Um homem contou-me outro dia um exemplo, como pensei, esplêndido -- e ESPLÊNDIDO foi, pois, segundo o seu testemunho, a semente brotou viva da PARTE INFERIOR DA ARGILA DE LONDRES!! Desgostei-o ao dizer-lhe que deveriam ter brotado Palmeiras.

Pergunta até que ponto vou ao atribuir organismos a uma descendência comum; respondo que não sei; a forma como pretendo tratar o assunto é mostrar (NA MEDIDA DO QUE POSSO) os factos e argumentos a favor e contra a descendência comum das espécies do mesmo género; e depois mostrar até que ponto os mesmos argumentos contam a favor ou contra formas, cada vez mais amplamente diferentes: e quando chegamos a formas de diferentes ordens e classes, restam apenas alguns argumentos como aqueles que talvez possam ser deduzidos de estruturas rudimentares semelhantes, e muito rapidamente não resta um argumento.

[O seguinte excerto de uma carta ao Sr. Fox [outubro de 1855 (Neste ano publicou ('Phil. Mag.' x.) um artigo 'Sobre o poder dos icebergs de criar sulcos retilíneos uniformemente dirigidos através de uma superfície ondulatória submarina.'") dá uma breve menção à última reunião da Associação Britânica a que assistiu:] "Realmente não tenho novidades: a única coisa que fizemos durante muito tempo foi ir a Glasgow; mas o cansaço foi para mim mais do que aquilo que valia, e E. apanhou uma constipação terrível. No nosso regresso, ficámos um único dia em Shrewsbury, e gostámos de ver o antigo lugar. Vi um pouco do Sir Philip (Sir P. Egerton era um vizinho do Sr. Fox.) (de quem gostei muito), e ele perguntou-me "porque raio instiguei-te a roubar o seu galinheiro?' A reunião foi boa, e o Duque de Argyll falou excelentemente."]

CAPÍTULO 1.XII. -- O LIVRO INACABADO.

MAIO DE 1856 A JUNHO DE 1858.

[No capítulo Autobiográfico (página 69), o meu pai escreveu:--"No início de 1856, Lyell aconselhou-me a escrever os meus pontos de vista bastante exaustivamente, e comecei imediatamente a fazê-lo numa escala três ou quatro vezes mais extensa do que aquela que foi posteriormente seguida na minha 'Origem das Espécies'; contudo, era apenas um resumo dos materiais que tinha recolhido." As cartas no presente capítulo dizem respeito principalmente à preparação deste livro inacabado.

O trabalho foi iniciado a 14 de maio, e continuado firmemente até junho de 1858, quando foi interrompido pela chegada do manuscrito do Sr. Wallace. Durante os dois anos que estamos agora a considerar, ele escreveu dez capítulos (isto é, cerca de metade) do livro projetado. Permaneceu na maior parte do tempo em casa, mas fez várias visitas ao Estabelecimento de Hidroterapia do Dr. Lane em Moor Park, durante uma das quais fez uma peregrinação ao santuário de Gilbert White em Selborne.]

CARTAS.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL, 3 de maio [1856].

...Com respeito à sua sugestão de um esboço dos meus pontos de vista, dificilmente sei o que pensar, mas refletirei sobre isso, mas vai contra os meus preconceitos. Dar um esboço justo seria absolutamente impossível, pois cada proposição requer tal arranjo de factos. Se eu fizesse alguma coisa, apenas poderia referir-me à principal agência de mudança -- a seleção -- e talvez apontar algumas poucas características principais, que favorecem tal ponto de vista, e algumas poucas das principais dificuldades. Mas não sei o que pensar; detesto bastante a ideia de escrever por uma questão de prioridade, mas certamente ficaria aborrecido se alguém publicasse as minhas doutrinas antes de mim. De qualquer forma, agradeço-lhe cordialmente a sua simpatia. Estarei em Londres na próxima semana, e chamar-lhe-ei na quinta-feira de manhã por uma hora precisamente, para não perder muito do seu tempo nem do meu; mas permitir-me-á desta vez chegar logo às 9 horas, pois tenho muito que devo fazer de manhã, no meu tempo de maior vigor? Adeus, meu caro e velho patrono.

Seu, C. DARWIN.

A propósito, TRÊS plantas brotaram da terra, perfeitamente encerradas nas raízes das árvores. E vinte e nove plantas na colher de sopa de lama, do pequeno lago; Hooker ficou surpreendido com isto, e impressionado, quando lhe mostrei quanta lama eu tinha raspado dos pés de um pato.

Se eu publicasse um breve esboço, onde raio deveria publicá-lo?

Se NÃO tiver notícias, entenderei que posso vir das 9 às 10 na quinta-feira.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. 9 de maio [1856].

...Desejo muito um conselho e um consolo VERDADEIRO, se mo puder dar. Tive uma boa conversa com Lyell sobre o meu trabalho sobre as espécies, e ele exorta-me vivamente a publicar algo. Estou determinado contra qualquer periódico ou Jornal, pois não me exponho de forma alguma a um Editor ou a um Conselho, permitindo uma publicação pela qual possam ser insultados. Se publicar algo, terá de ser um volume MUITO FINO e pequeno, dando um esboço das minhas visões e dificuldades; mas é realmente terrivelmente infilosófico dar um resumo, sem referências exatas, de um trabalho não publicado. Mas Lyell pareceu achar que eu poderia fazer isto, por sugestão de amigos, e com o fundamento, que eu poderia declarar, de que trabalho há dezoito (O intervalo de dezoito anos, desde 1837, quando começou a recolher factos, levaria a data desta carta a 1855, não 1856, contudo, esta última parece ser a data mais provável.) anos, e ainda assim não poderia publicar durante vários anos, e especialmente porque poderia apontar dificuldades que me pareciam requerer uma investigação especial. Ora, o que pensa? Ficaria realmente grato pelo conselho. Pensei em dedicar um par de meses e escrever tal esboço, e tentar manter o meu juízo aberto sobre se hei de publicá-lo ou não quando concluído. Será simplesmente impossível para mim dar referências exatas; qualquer coisa importante eu declararia sob a autoridade do autor em geral; e em vez de dar todos os factos nos quais baseio a minha opinião, poderia dar de memória apenas um ou dois. No Prefácio, declararia que o trabalho não poderia ser considerado estritamente científico, mas um mero esboço ou traço de um trabalho futuro no qual seriam dadas referências completas, etc. Eheu, eheu, acredito que eu desprezaria qualquer outra pessoa que fizesse isto, e o meu único consolo é que eu VERDADEIRAMENTE nunca sonhei com isso, até Lyell o sugerir, e parecer deliberadamente achar que é aconselhável.

Estou num monte de problemas e peço que me perdoe por o incomodar.

Afetuosamente seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. 11 de maio [1856].

...Agora para um assunto MAIS IMPORTANTE!, a saber, eu próprio: fico extremamente contente por achar bem um "Ensaio Preliminar" separado (isto é, se algo for publicado; pois Lyell parecia duvidar um pouco sobre este ponto) (O significado da frase entre parênteses é obscuro.); mas não suporto a ideia de IMPLORAR a algum Editor e Conselho que publiquem, e depois, talvez, ter de PEDIR DESCULPAS humildemente por os ter levado a um sarilho. Neste único respeito, estou no estado que, segundo um ditado muito sábio do meu pai, é o único estado apto para pedir conselhos, a saber, com a minha mente firmemente decidida, e então, como o meu pai costumava dizer, um BOM conselho era muito reconfortante, e era fácil rejeitar um mau conselho. Mas o Céu sabe que não estou neste estado em relação a publicar de todo qualquer ensaio preliminar. Ainda me parece bastante infilosófico publicar resultados sem os detalhes completos que levaram a tais resultados.

É uma visão melancólica, e espero que não inteiramente verdadeira, a sua de que os factos provam tudo, e são, portanto, supérfluos! Mas vejo que exagerei um pouco a sua doutrina. Não temo ficar preso ao erro, isto é, sinto-me bastante seguro de que abandonaria qualquer coisa falsa publicada no ensaio preliminar, no meu trabalho maior; mas posso, assim, é muito verdade, causar danos ao espalhar o erro, o que, como já o ouvi dizer muitas vezes, é muito mais fácil de espalhar do que de corrigir. Confesso que me inclino cada vez mais a, pelo menos, tentar e elaborar um esboço e tentar manter o meu juízo, sobre se hei de publicar, aberto. Mas volto sempre à minha ideia fixa de que é terrivelmente infilosófico publicar sem detalhes completos. Penso certamente que o meu trabalho futuro na íntegra beneficiaria de ouvir o que os meus amigos ou críticos (se revisto) pensavam do esboço.

A qualquer pessoa que não fosse você, pediria desculpas por tal longa discussão sobre um assunto tão pessoal; mas acredito, e de facto você provou-o pelo trabalho que teve, que isto seria supérfluo.

Seu verdadeiramente obrigado, CH. DARWIN.

P.S. O que diz (pois acabei de reler a sua carta) que o Ensaio poderia substituir e retirar toda a novidade e valor a qualquer Livro maior futuro, é muito verdade; e isso entristecer-me-ia mais do que tudo. Por outro lado (novamente pelo conselho urgente de Lyell), publiquei um esboço preliminar da Teoria dos Corais, e isso não fez nem bem nem mal. Começo A DESEJAR MUITO DO FUNDO DO CORAÇÃO que Lyell nunca tivesse posto esta ideia de um Ensaio na minha cabeça.

DE UMA CARTA PARA SIR C. LYELL [julho de 1856].

"Estou encantado por poder dizer (com absoluta verdade) que o meu ensaio é publicado por sua sugestão, mas espero que não precise de tantas desculpas como pensei inicialmente; pois resolvi torná-lo quase tão completo quanto os meus materiais atuais permitem. Não posso colocar tudo o que sugere, pois pareceria demasiado presunçoso."

DE UMA CARTA PARA W.D. FOX. Down, 14 de junho [1856].

"...O que diz sobre o meu Ensaio, suponho que seja muito verdade; e deu-me outro ataque de nervos: espero conseguir torná-lo modesto. Um grande motivo é obter informações sobre os muitos pontos nos quais as quero. Mas tremo por causa disso, o que não faria se deixasse passar uns três ou quatro anos antes de publicar qualquer coisa..."

[Os extratos seguintes de cartas ao Sr. Fox valem a pena ser dados, como mostra quão grande era a acumulação de material com o qual agora tinha de se lidar.

14 de junho [1856].

"Muito obrigado pela excelente informação sobre gatos; vejo que me tinha enganado imenso, mas sei que tinha algures as suas notas originais; mas as minhas notas são tão numerosas durante deanove anos de recolha, que me levaria pelo menos um ano a percorrê-las e classificá-las."

Novembro de 1856.

"Por vezes temo que vou colapsar, pois o meu assunto torna-se maior e maior a cada mês de trabalho."]

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down, 16 [de junho de 1856].

Meu caro Lyell,

Vou fazer a coisa mais insolente do mundo. Mas o meu sangue ferve de paixão e fica frio alternadamente com os passos geológicos que muitos dos seus discípulos estão a dar.

Aqui, o pobre Forbes criou um continente até [isto é, estendendo-se até] à América do Norte e outro (ou o mesmo) até à sargaço; Hooker cria um desde a Nova Zelândia até à América do Sul e à volta do Mundo até à Terra de Kerguelen. Aqui está Wollaston a falar da Madeira e de P. Santo "como as testemunhas certas e seguras de um antigo continente". Aqui está Woodward a escrever-me, se concede um continente sobre 200 ou 300 milhas de profundidades oceânicas (como se isso não fosse nada), por que não estender um continente a todas as ilhas nos Oceanos Pacífico e Atlântico? E tudo isto dentro da existência de espécies recentes! Se não impedir isto, se houver uma região inferior para o castigo dos geólogos, acredito, meu grande mestre, que irá para lá. Ora, os seus discípulos, de uma forma lenta e rastejante, superam todos os velhos Catastrofistas que alguma vez viveram. Viverá para ser o grande chefe dos Catastrofistas.

Pronto, fiz muito bem a mim próprio e explodi a minha paixão.

Portanto, meu mestre, perdoe-me, e acredite, sempre seu, C. DARWIN.

P.S. Não responda a isto, fiz isto para me aliviar.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 17 [de junho] de 1856.

...Tenho estado profundamente interessado pelo livro de Wollaston ('A Variação das Espécies', 1856.), embora difira MUITO de muitas das suas doutrinas. Alguma vez leu algo tão rico, considerando quão longe ele vai, como as suas denúncias contra aqueles que vão mais longe: "Muito pernicioso", "absurdo", "pouco sólido". A Teologia está na base de parte disto. Disse-lhe que ele era como Calvino a queimar um herege. É um livro muito valioso e inteligente na minha opinião. Leu evidentemente muito pouco fora da sua própria linha. Exortei-o a ler o ensaio sobre a Nova Zelândia. A sua Geologia também é bastante eocénica, como lhe disse. De facto, escrevi com toda a franqueza; ele diz que tem a certeza de que a ultra-honestidade é a minha característica: não sei se o disse como um escárnio; espero que não. Falando de geologia eocénica, fiquei tão furioso com o continente atlântico, mais especialmente por causa de uma nota de Woodward (que publicou um excelente livro sobre conchas), que não parece duvidar de que todas as ilhas no Pacífico e no Atlântico são os restos de continentes, submersos dentro do período das espécies existentes, que explodi francamente, e escrevi a Lyell para protestar, e resumi todos os continentes criados nos últimos anos por Forbes (o principal pecador!), VOCÊ PRÓPRIO, Wollaston e Woodward, e formam, todos juntos, uma extensão de terra bastante simpática! Estou francamente raivoso com a questão e, portanto, se já não estiver errado, tenho quase a certeza de que o serei...

Gostei muito da sua nota. Adios, C. DARWIN.

P.S. 18 [de junho]. Lyell escreveu-me uma carta EXCELENTE do seu lado, que deveria derrubar-me inteiramente, mas não posso dizer que o faça totalmente.

Embora deva tentar deixar de estar raivoso e tentar sentir-me humilde, e permitir que todos vocês criem continentes, tão facilmente como um cozinheiro faz panquecas.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down, 25 de junho [1856].

Meu caro Lyell,

Mandarei copiar a seguinte carta tremenda para facilitar a leitura, e como quero guardar uma cópia.

Como diz que gostaria de ouvir as minhas razões para estar muito relutante em acreditar nas extensões continentais dos autores recentes, escrevo-as com prazer, pois, a menos que esteja convencido do meu erro, terei de as apresentar condensadas no meu ensaio, quando discutir a criação simples e múltipla; ficarei, portanto, particularmente grato por ter a sua opinião geral sobre elas. POSSIVELMENTE terei persuadido a mim próprio na minha ira de que há nelas mais do que realmente existe. Se houvesse muito mais razão para admitir uma extensão continental num ou dois casos (como na Madeira) do que noutros casos, não sentiria qualquer dificuldade. Mas se por causa das plantas europeias, e conchas marinhas litorais, se pensa ser necessário juntar a Madeira ao continente, Hooker tem toda a razão em juntar a Nova Holanda à Nova Zelândia, e à Ilha Auckland (e à Ilha Raoul a NE), e estas à América do Sul e às Malvinas, e estas a Tristão da Cunha, e estas à Terra de Kerguelen; criando assim, estritamente ao mesmo tempo, ou em períodos diferentes, mas todos dentro da vida dos seres recentes, uma faixa de terra quase circumpolar. Assim também as Galápagos e Juan Fernández devem ser ligadas à América; e se confiarmos nas conchas marinhas litorais, as Galápagos devem ter sido ligadas às Ilhas do Pacífico (a 2400 milhas de distância), bem como à América, e como Woodward parece pensar, todas as ilhas no Pacífico num magnífico continente; também as ilhas no Oceano Índico Sul noutro continente, com Madagáscar e a África, e talvez a Índia. No Atlântico Norte, a Europa estender-se-á a meio do caminho através do oceano até aos Açores, e mais a norte, atravessando-o. Em suma, devemos supor provavelmente que metade do oceano atual era terra dentro do período dos organismos vivos. O Globo dentro deste período deve ter tido um aspeto bastante diferente. Ora, a única forma de testar isto, que vejo, é considerar se os continentes sofreram dentro deste mesmo período permutações tão maravilhosas. Em toda a América do Norte, do Sul e Central, temos conchas recentes e miocénicas (ou eocénicas), bastante distintas nos lados opostos, e por isso não posso duvidar que, FUNDAMENTALMENTE, a América manteve o seu lugar desde, pelo menos, o período miocénico. Na África, quase todas as conchas vivas são distintas nos lados opostos das regiões intertropicais, curta que seja a distância comparada com o alcance dos moluscos marinhos, em mares ininterruptos; por isso infiro que a África existe desde que as nossas espécies atuais foram criadas. Até o istmo de Suez e a bacia Aralo-Caspiana tiveram uma grande antiguidade. Assim imagino, pelos depósitos terciários, que a Índia também a teve. Na Austrália, a grande fauna de marsupiais extintos mostra que, antes de os mamíferos atuais aparecerem, a Austrália era um continente separado. Não duvido nem por um segundo que partes muito grandes de todos estes continentes sofreram GRANDES mudanças de nível dentro deste período, mas ainda assim concluo que, fundamentalmente, se mantiveram como barreiras no mar, onde estão agora; e, portanto, exigiria a evidência mais pesada para me fazer acreditar em tais mudanças imensas dentro do período dos organismos vivos nos nossos oceanos, onde, aliás, devido às grandes profundidades, as mudanças devem ter sido mais vastas num sentido vertical.

SEGUNDO.

Submerja os nossos continentes atuais, deixando alguns picos de montanhas como ilhas, e qual será o caráter das ilhas? Considere que os Pirenéus, Serra Nevada, Apeninos, Alpes, Cárpatos, não são vulcânicos, o Etna e o Cáucaso, vulcânicos. Na Ásia, o Altai e os Himalaias, creio que não vulcânicos. No Norte de África os não vulcânicos, como imagino, Alpes da Abissínia e do Atlas. No Sul de África, as Montanhas de Neve. Na Austrália, os Alpes não vulcânicos. Na América do Norte, as White Mountains, Alleghanies e Montanhas Rochosas — creio que apenas algumas destas últimas são vulcânicas. Na América do Sul, a leste, a [Silla?] de Caracas não vulcânica, e Itacolumi do Brasil, mais a sul a Sierra Ventanas, e nas Cordilheiras, muitas vulcânicas mas nem todas. Agora compare estes picos com as ilhas oceânicas; tanto quanto se sabe, todas são vulcânicas, exceto S. Paulo (uma rocha estranha e possuída), e as Seicheles, se esta última puder ser chamada de oceânica, na linha de Madagáscar; as Malvinas, a apenas 500 milhas de distância, são apenas um banco pouco profundo; a Nova Caledónia, dificilmente oceânica, é outra exceção. Este argumento tem para mim um grande peso. Compare num mapa Geográfico as ilhas que, temos VÁRIAS razões para supor, foram ligadas ao continente, como a Sardenha, e quão diferente parece. Acreditando, como estou inclinado, que continentes como continentes, e oceanos como oceanos, são de imensa antiguidade — diria que se alguma das ilhas oceânicas existentes tem alguma relação de qualquer tipo com continentes, elas estão a formar continentes; e que, quando pudessem formar um continente, os vulcões estariam denudados até aos seus núcleos, deixando picos de sienito, diorito ou pórfiro. Mas não temos em parte alguma qualquer último destroço de um continente, no meio do oceano? A Rocha de S. Paulo, e ilhas vulcânicas antigas e maltratadas como Santa Helena, podem sê-lo; mas penso que podemos ver alguma razão pela qual deveríamos ter menos evidência de continentes a afundar do que de continentes a subir (se a minha visão no meu volume sobre Corais tem alguma verdade, a saber: que as erupções vulcânicas acompanham as áreas de subida), pois durante a subsidência não haverá agente compensatório a trabalhar, nas áreas de subida haverá o elemento ADICIONAL de matéria vulcânica derramada.

TERCEIRO.

Considerando a profundidade do oceano, eu estava, antes de receber a sua carta, inclinado veementemente a disputar a vasta quantidade de subsidência, mas tenho de baixar as armas. Em relação aos recifes de coral, guardei-me cuidadosamente de supor que um continente era indicado pelos grupos de atóis. É difícil adivinhar, como me parece, a quantidade de subsidência indicada pelos recifes de coral; mas em áreas tão grandes como o Arquipélago de Low, o Arquipélago Marshall, e o grupo das Laquedivas, seria estranho, julgando pelas alturas dos arquipélagos oceânicos existentes, que alguns picos de 8000 a 10 000 pés não tivessem sido enterrados. Mesmo após a sua carta, passou-me pela cabeça uma suspeita de se seria justo argumentar a partir de subsidências no meio dos maiores oceanos para continentes; mas refrescando a minha memória ao falar com Ramsay em relação à espessura provável numa linha vertical da formação siluriana e carbonífera, parece que deve ter havido PELO MENOS 10 000 pés de subsidência durante estas formações na Europa e América do Norte, e portanto durante a continuação de quase o mesmo conjunto de seres orgânicos. Mas mesmo 12 000 pés não seriam suficientes para os Açores, ou para o continente de Hooker; acredito que Hooker não infere um continente contínuo, mas grupos aproximados de ilhas, com, se pudermos julgar pelos continentes existentes, mar não PROFUNDAMENTE profundo entre eles; mas o argumento da natureza vulcânica de quase todas as ilhas oceânicas existentes depõe contra tais grupos de ilhas supostos — pois presumo que ele não suponha uma mera cadeia de ilhas vulcânicas a cingir o hemisfério sul.

QUARTO.

As supostas extensões continentais não me parecem explicar perfeitamente todos os fenómenos de distribuição nas ilhas; como a ausência de mamíferos e Batráquios; a ausência de certos grandes grupos de insetos na Madeira, e de Acácias e Banksias, etc., na Nova Zelândia; a escassez de plantas em alguns casos, etc. Não que aqueles que acreditam em vários meios acidentais de dispersão possam explicar a maioria destes casos; mas podem pelo menos dizer que estes factos parecem dificilmente compatíveis com terra contínua anterior.

FINALMENTE.

Por estas várias razões, e especialmente considerando certo (no que concordará) que somos extremamente ignorantes quanto aos meios de dispersão, não posso evitar pensar que a 'Atlântida' de Forbes foi um desserviço à ciência, ao travar um estudo próximo dos meios de disseminação. Ficarei realmente grato por ouvir, tão brevemente quanto quiser, se estes argumentos têm algum peso para si, colocando-se na posição de um juiz honesto. Disse a Hooker que ia escrever-lhe sobre este assunto; e gostaria que ele lesse isto; mas se ele ou você achar que vale o tempo e o porte, resta provar.

Seu muito sinceramente, CHARLES DARWIN.

[A 8 de julho escreveu a Sir Charles Lyell.

"Lamento que não possa dar qualquer veredito sobre extensões Continentais; e infiro que acha que o meu argumento não tem muito peso contra tais extensões. Sei que gostaria de poder acreditar nisso."]

CHARLES DARWIN PARA ASA GRAY. Down, 20 de julho [1856].

...Não é pouco egoísta, mas eu gostaria de lhe dizer (e NÃO CREIO tê-lo feito) como vejo o meu trabalho. Dezanove anos (!) atrás ocorreu-me que, enquanto ocupado noutros assuntos de História Natural, talvez pudesse fazer algo de bom se anotasse qualquer tipo de factos relacionados com a questão da origem das espécies, e é isso que tenho feito desde então. Ou as espécies foram criadas independentemente, ou descendem de outras espécies, como variedades de uma espécie. Penso que se pode demonstrar ser provável que o homem obtém as suas variedades mais distintas preservando aquelas que surgem mais dignas de serem mantidas e destruindo as outras, mas eu encheria um caderno se continuasse. Para ser breve, PRESSUPOHO que as espécies surgem como as nossas variedades domésticas com MUITA extinção; e depois testo esta hipótese por comparação com tantas proposições gerais e bastante bem estabelecidas quanto consigo encontrar — na distribuição geográfica, história geológica, afinidades, etc., etc. E parece-me que, SUPONDO que tal hipótese explicasse tais proposições gerais, deveríamos, de acordo com a forma comum de seguir todas as ciências, admiti-la até que uma hipótese melhor seja encontrada. Pois, na minha opinião, dizer que as espécies foram criadas assim e assado não é uma explicação científica, apenas uma forma reverente de dizer que é assim e assado. Mas é um disparate tentar mostrar como tento proceder no âmbito de uma nota. Mas, como homem honesto, devo dizer-lhe que cheguei à conclusão heterodoxa de que não existem coisas como espécies criadas independentemente — que as espécies são apenas variedades fortemente definidas. Sei que isto o fará desprezar-me. Não subestimo muito as muitas ENORMES dificuldades nesta visão, mas ainda assim parece-me explicar demasiado, caso contrário inexplicável, para ser falsa. Apenas para aludir a um ponto na sua última nota, a saber, sobre espécies do mesmo género GERALMENTE terem uma área comum ou contínua; se são descendentes lineares reais de uma espécie, este seria, naturalmente, o caso; e as lamentavelmente demasiadas exceções (para mim) têm de ser explicadas por mudanças climáticas e geológicas. A fortiori, nesta visão (mas exatamente nas mesmas bases), todos os indivíduos da mesma espécie deveriam ter uma distribuição contínua. Sobre este último ramo do assunto, organizei um capítulo, e Hooker leu-o gentilmente. Pensei que as exceções e dificuldades eram tão grandes que, no geral, o equilíbrio pesava contra as minhas noções, mas fiquei muito satisfeito por descobrir que parecia ter um peso considerável para Hooker, que disse nunca ter ficado tão abalado quanto à permanência das espécies.

Devo dizer mais uma palavra em justificação (pois sinto-me certo de que a sua tendência será desprezar-me a mim e às minhas manias), que todas as minhas noções sobre COMO as espécies mudam derivam de um estudo longo e contínuo dos trabalhos de (e conversas com) agricultores e horticultores; e creio ver o meu caminho bastante claramente nos meios usados pela natureza para mudar as suas espécies e ADAPTÁ-LAS às contingências maravilhosas e requintadamente belas a que todo ser vivo está exposto...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 30 de julho de 1856.

Meu caro Hooker,

A sua carta é de MUITO valor para mim. Não consegui obter uma resposta definitiva de Lyell (Sobre as extensões continentais de Forbes e outros), como verá nas cartas anexas, embora tenha inferido que ele não acha nada dos meus argumentos. Se não fosse por esta correspondência, ter-me-ia expressado lamentavelmente com demasiada força. Pode confiar que apresentarei as minhas dúvidas moderadamente. Nunca houve um dilema como o meu: aqui vocês, expansionistas continentais, removeriam dificuldades enormes que se me opõem, e ainda assim não posso honestamente admitir a doutrina, e devo, portanto, dizê-lo. Não consigo superar o facto de que nem um fragmento de rocha secundária ou paleozoica foi encontrado em qualquer ilha a mais de 500 ou 600 milhas de uma terra firme. Entende-me mal quando pensa que duvido da POSSIBILIDADE de uma subsidência de 20.000 ou 30.000 pés; é apenas a probabilidade, considerando tais evidências como temos independentemente da distribuição. Ainda não elaborei em detalhe completo a distribuição dos mamíferos, tanto IDÊNTICOS quanto aliados, com respeito ao ÚNICO ELEMENTO DA PROFUNDIDADE DO MAR; mas, até onde cheguei, os resultados são para mim surpreendentemente concordantes com a minha crença, a mais problemática de todas, em não haver mudanças geográficas tão grandes quanto acredita; e nos mamíferos certamente sabemos mais sobre MEIOS de distribuição do que em qualquer outra classe. Nada é tão vexatório para mim quanto encontrar-me constantemente a tirar conclusões diferentes de juízes melhores do que eu, a partir dos mesmos factos.

Imagino que ultimamente removi muitas (não geográficas) grandes dificuldades opostas às minhas noções, mas Deus sabe que pode ser tudo alucinação.

Por favor, devolva as cartas de Lyell.

Que carta excelente a de Lyell para si, e que homem maravilhoso ele é. Discordo dele grandemente ao pensar que aqueles que acreditam que as espécies NÃO são fixas multiplicarão os nomes específicos: sei, no meu próprio caso, que a minha fonte mais frequente de dúvida era se outros não pensariam que isto ou aquilo era uma craca criada por Deus, e certamente merecia um nome. Caso contrário, teria apenas pensado se a quantidade de diferença e permanência era suficiente para justificar um nome: estou, também, surpreendido por ele achar irrelevante se as espécies são absolutas ou não: sempre que for provado que todas as espécies são produzidas pela geração, por leis de mudança, que boa evidência teremos das lacunas nas formações. E que ciência será a História Natural, quando estivermos nas nossas sepulturas, quando todas as leis da mudança forem consideradas uma das partes mais importantes da História Natural.

Não consigo conceber por que Lyell pensa que noções como as minhas ou as de 'Vestiges' invalidarão centros específicos. Mas não devo continuar e ocupar o seu tempo. O meu manuscrito não será, temo, copiado antes de partir para o estrangeiro. Com sinceros agradecimentos.

Sempre seu, C. DARWIN.

P.S. — Depois de dar muito condensado, o meu argumento versus extensões continentais, acrescentarei uma frase do género que dois juízes melhores do que eu consideraram estes argumentos e não lhes atribuem peso.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 5 de agosto [1856].

...Concordo plenamente sobre as cartas de Lyell para mim, que, embora interessantes para mim, não me trouxeram nova luz. As suas cartas, sob o ponto de vista GEOLÓGICO, têm sido mais valiosas para mim. Não pode imaginar com que seriedade desejo poder engolir a extensão continental, mas não consigo; quanto mais penso (e não consigo tirar o assunto da cabeça), mais difícil a considero. Se houvesse apenas meia dúzia de casos, não sentiria a menor dificuldade; mas a generalidade dos factos de todas as ilhas (exceto uma ou duas) terem uma parte considerável das suas produções em comum com uma ou mais terras firmes atordoa-me completamente. Que caso maravilhoso o das Epacridae! É também muito vexatório, além de humilhante, para mim não conseguir seguir e subscrever a forma como coloca de modo marcante a sua visão do caso. Olho para os seus factos (sobre Eucalyptus, etc.) como CONDENATÓRIOS contra a extensão continental e, se quiser, também condenatórios contra a migração, ou pelo menos de dificuldade ENORME. Vejo que a base da nossa diferença (numa carta devo colocar-me em pé de igualdade na argumentação) reside, na minha opinião, no facto de que quase nada se sabe sobre os meios de distribuição. Concordo plenamente com a opinião de A. De Candolle (e presumo que a sua) de que é um trabalho pobre juntar os meios apenas POSSÍVEIS de distribuição; mas não vejo outra forma de atacar o assunto, pois penso que o argumento de A. De Candolle, de que nenhuma planta foi introduzida na Inglaterra exceto pela agência humana, [não] tem peso. Não posso deixar de pensar que a teoria da extensão continental faz algum pequeno dano ao impedir a investigação dos meios de dispersão, que, quer NEGATIVOS quer positivos, me parecem valiosos; quando negados, então todos os que acreditam em centros únicos terão de admitir extensões continentais.

...Vejo pelas suas observações que não entende as minhas noções (valham ou não alguma coisa) sobre modificação; atribuo muito pouco à ação direta do clima, etc. Suponho que, no que diz respeito aos centros específicos, estamos a falar de coisas diferentes; eu chamaria à horta onde o repolho roxo foi produzido, ou à quinta onde Bakewell criou o gado Shorthorn, o centro específico destas ESPÉCIES! E certamente isto é centralização suficiente!

Agradeço-lhe mais sinceramente por toda a sua assistência; e quer o meu livro seja miserável ou não, fez o seu melhor para torná-lo menos miserável. Às vezes estou de muito bom humor e outras vezes muito em baixo por causa disso. A minha própria mente está decidida sobre a questão da origem das espécies; mas, meu Deus, quão pouco isso vale!...

[No que diz respeito a "centros específicos", uma passagem de uma carta datada de 25 de julho de 1856, de Sir Charles Lyell para Sir J.D. Hooker ('Life' ii. página 216) é de interesse:

"Temo muito que, se Darwin argumentar que as espécies são fantasmas, terá também de admitir que centros únicos de dispersão são fantasmas também, e isso privar-me-ia de muito do valor que atribuo às atuais províncias de animais e plantas, como ilustradoras de mudanças modernas e terciárias na geografia física."

Ele parece ter reconhecido, contudo, que a doutrina dos fantasmas logo teria de ser enfrentada, pois escreveu na mesma carta: "Quer Darwin convença a si e a mim a renunciar à nossa fé nas espécies (quando as épocas geológicas são consideradas) ou não, prevejo que muitos passarão para a doutrina da modificabilidade indefinida."]

No outono, o meu pai ainda trabalhava na distribuição geográfica e procurou novamente a ajuda de Sir J.D. Hooker.

UMA CARTA PARA SIR J.D. HOOKER [Setembro de 1856].

"No decorrer de algumas semanas, seu infeliz, terá o meu manuscrito sobre um ponto da Distribuição Geográfica. Nunca mais pedirei tal favor; mas, no que diz respeito a esta parte do manuscrito, é de infinita importância para mim que a veja; pois nunca na minha vida senti tal dificuldade sobre o que fazer, e desejo sinceramente poder passar por cima de todo o assunto."

Numa carta para Sir J.D. Hooker (junho de 1856), ocorre a seguinte passagem característica, sugerida, sem dúvida, pelo tipo de trabalho que o seu capítulo sobre Distribuição Geográfica implicava:

"Há uma lógica maravilhosa e errada na sua [de E. Forbes] famosa e admirável memória sobre distribuição, como me parece, agora que a preparei para dar os pontos principais numa página. Dependa disto, o meu ditado é verdadeiro, a saber, que um compilador é um GRANDE homem, e um homem original um homem comum. Qualquer tolo pode generalizar e especular; mas, oh, meu Deus! Obter EM SEGUNDA MÃO uma Flora da Nova Zelândia, isso é trabalho."

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. 3 de outubro [1856].

...Lembro-me de que protestou contra o conselho de Lyell de escrever um ESBOÇO das minhas doutrinas sobre espécies. Bem, quando comecei, achei um trabalho tão insatisfatório que desisti, e agora estou a elaborar o meu trabalho tão perfeito quanto os meus materiais de dezanove anos de recolha permitem, mas não pretendo parar para aperfeiçoar qualquer linha de investigação além do trabalho corrente. Até aqui e não mais longe seguirei o conselho urgente de Lyell. As suas observações pesaram consideravelmente em mim. Descubro, para meu pesar, que se tornará um livro bastante grande. Achei o meu trabalho cuidadoso com pombos realmente inestimável, ao esclarecer-me sobre muitos pontos da variação sob domesticação. A copiosa literatura antiga, pela qual posso traçar as mudanças graduais nas raças de pombos, tem sido extraordinariamente útil para mim. Acabei de receber pombos e aves VIVOS da Gâmbia! Coelhos e patos estou a acompanhar bastante cuidadosamente, mas menos do que os pombos. Encontro diferenças mais notáveis nos esqueletos dos coelhos. Alguma vez manteve raças estranhas de coelhos, e pode dar-me alguns detalhes? Uma outra questão: costumava manter falcões; sabe de todo, depois de comerem uma ave, quanto tempo depois regurgitam a pelota?

Nenhum assunto me dá tanto trabalho, dúvida e dificuldade quanto os meios de dispersão das mesmas espécies de produções terrestres nas ilhas oceânicas. Os moluscos terrestres levam-me à loucura, e de forma alguma consigo obter os seus ovos para experimentar o seu poder de flutuação e resistência à ação prejudicial da água salgada. Não pedirei desculpa por escrever tanto sobre os meus próprios feitos, pois acredito que gostará de ouvir. Deixe-me ouvir, peço-lhe, como vai de saúde; e SE ESTIVER INCLINADO, deixe-me ter algumas palavras sobre patos-reais.

Meu caro Fox, afetuosamente seu, CH. DARWIN.

[No que diz respeito ao seu livro, escreveu (10 de novembro) para Sir Charles Lyell]:

"Estou a trabalhar muito constantemente no meu livro grande; achei completamente impossível publicar qualquer ensaio ou esboço preliminar; mas estou a fazer o meu trabalho tão completamente quanto os meus materiais atuais permitem, sem esperar para os aperfeiçoar. E esta aceleração devo-a a si."

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, domingo [Outubro de 1856].

Meu caro Hooker,

As sementes chegaram todas a salvo, muitos agradecimentos por elas. Senti muito por fugir tão cedo e perder qualquer parte da minha MAIS agradável noite; e fugi como um Godo e Vândalo sem me despedir da Sra. Hooker; mas cheguei mesmo a tempo, pois assim que cheguei à plataforma o comboio tinha chegado.

Fiquei particularmente contente com a nossa discussão depois do jantar, travar uma batalha consigo limpa sempre a minha mente maravilhosamente. Gemo ao ouvir que A. Gray concorda consigo sobre a condição da Geografia Botânica. Tudo o que sei é que, se tivesse de procurar luz na Geografia Zoológica, por contraste, respeitaria o seu próprio assunto muito mais do que faz agora. Os falcões comportaram-se como cavalheiros e regurgitaram pelotas com muitas sementes nelas; e acabei de receber um pacote de patas de perdiz bem cobertas de lama!!! (A lama em tais casos contém frequentemente sementes, pelo que as plantas são assim transportadas.) Adios.

O seu amigo insano e perverso, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 4 de novembro [1856].

Meu caro Hooker,

Agradeço-lhe mais CORDIALMENTE do que achará provável, pela sua nota. O seu veredito (Sobre o manuscrito relacionado com a distribuição geográfica) foi um grande alívio. Na minha honra, não fazia ideia se diria ou não que era (e sabia que o diria muito gentilmente) tão mau que me teria implorado para queimar tudo. Na minha própria mente, o meu manuscrito aliviou-me de algumas dificuldades, e as dificuldades pareciam-me bastante bem expostas, mas tinha ficado tão confuso com factos, evidências, raciocínios e opiniões conflitantes, que sentia ter perdido todo o discernimento. O seu veredito geral é INCOMPARAVELMENTE mais favorável do que eu tinha antecipado...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 23 de novembro [1856].

Meu caro Hooker,

Temo que o canse com cartas, mas não responda a esta, pois em verdade e sem adulação, valorizo tanto as suas cartas, que depois de um lote pesado, como ultimamente, sinto que fui extravagante e saquei demasiado dinheiro, e terei, portanto, de me conter noutra ocasião.

Quando enviei o meu manuscrito, senti fortemente que algumas questões preliminares sobre as causas da variação deveriam ter-lhe sido enviadas. Se estou certo ou errado nestes pontos é uma questão bastante separada, mas a conclusão a que cheguei, completamente independente da distribuição geográfica, é que as condições externas (a que os naturalistas tão frequentemente apelam) fazem por si mesmas MUITO POUCO. O quanto fazem é o ponto de todos os outros em que me sinto muito fraco. Julgo pelos factos da variação sob domesticação, e ainda posso obter mais luz. Mas, por agora, depois de elaborar uma cópia rudimentar sobre este assunto, a minha conclusão é que as condições externas fazem EXTREMAMENTE pouco, exceto ao causar mera variabilidade. Esta mera variabilidade (causando que a criança NÃO se assemelhe estreitamente ao seu progenitor) vejo-a como MUITO diferente da formação de uma variedade marcada ou nova espécie. (Sem dúvida, a variabilidade é governada por leis, algumas das quais estou a tentar rastrear muito obscuramente.) A formação de uma variedade forte ou espécie vejo-a como quase inteiramente devida à seleção do que pode ser incorretamente chamado de variações ou variabilidade do ACASO. Este poder de seleção está na relação mais direta com o tempo, e no estado da natureza só pode ser excessivamente lento. Novamente, as ligeiras diferenças selecionadas, pelas quais uma raça ou espécie é finalmente formada, estão, como penso que pode ser demonstrado (mesmo com plantas, e obviamente com animais), numa relação muito mais importante com os seus associados do que com as condições externas. Portanto, de acordo com os meus princípios, estejam certos ou errados, não posso concordar com a sua proposição de que o tempo, e as condições alteradas, e os associados alterados, são 'termos convertíveis'. Vejo o primeiro e o último como MUITO mais importantes: sendo o tempo importante apenas na medida em que dá margem à seleção. Deus sabe se perceberá ao que quero chegar. Terei de discutir e pensar mais sobre a sua dificuldade das formas temperadas e subárticas no hemisfério S. do que fiz até agora. Mas estou inclinado a pensar que estou certo (se os meus princípios gerais estão certos), que haveria pouca tendência para a formação de uma nova espécie, durante o período de migração, quer mais curto ou mais longo, embora uma variabilidade considerável possa ter sobrevindo...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. 24 de dezembro [1856].

...Como desejo viver perto de si para discutir assuntos. Acabei de comparar definições de espécies, e expor brevemente como os naturalistas sistemáticos desenvolvem os seus assuntos. Aquilegia na Flora Indica foi um exemplo excelente para mim. É realmente risível ver que ideias diferentes são proeminentes nas mentes de vários naturalistas, quando falam de "espécie"; em alguns, a semelhança é tudo e a descendência de pouco peso — em alguns, a semelhança parece não contar para nada, e a Criação é a ideia reinante — em alguns, a descendência é a chave — em alguns, a esterilidade é um teste infalível, com outros não vale um centavo. Tudo isto vem, acredito, de tentar definir o indefinível. Suponho que perdeu a estranha semente preta das fezes das aves, que germinou — de qualquer forma, não vale a pena ter trabalho com isso. Agora tenho cerca de uma dúzia de sementes das fezes de pequenas aves. Adios,

Meu caro Hooker, sempre seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA ASA GRAY. Down, 1 de janeiro [1857?].

Meu caro Dr. Gray,

Recebi a segunda parte do seu artigo ('Statistics of the Flora of the Northern United States.', "Silliman's Journal", 1857.), e embora não tenha nada em particular a dizer, devo enviar-lhe os meus agradecimentos e sincera admiração. O artigo inteiro causa-me a impressão de esgotar completamente o assunto, e gosto de imaginar e lisonjeio-me por acreditar que agora compreendo o caráter da sua Flora. Que diferença em relação à Europa a sua observação sobre os géneros faz! Fiquei extremamente satisfeito por ver a sua conclusão em relação às espécies de grandes géneros que possuem ampla distribuição; está em estrita conformidade com os resultados que obtive por vários meios. É de grande importância para as minhas noções. A propósito, fez-me um GRANDE elogio ("De algumas investigações suas, este sagaz naturalista inclina-se a pensar que [as espécies de] grandes géneros distribuem-se por uma área maior do que as espécies de pequenos géneros." — Asa Gray, loc. cit.): ser SIMPLESMENTE mencionado até mesmo num tal artigo considero uma honra muito grande. Uma das suas conclusões faz-me gemer, a saber, que a linha de ligação das plantas estritamente alpinas é através da Gronelândia. Gostaria EXTREMAMENTE de ver as suas razões publicadas em detalhe, pois isso "irrita-me" (esta é uma expressão apropriada, não é?) terrivelmente. Lyell disse-me que Agassiz, tendo uma teoria sobre quando os Saurianos foram criados pela primeira vez, ao ouvir algumas observações cuidadosas opostas a isto, disse que não acreditava, "pois a Natureza nunca mentiu". Estou exatamente nesta situação, e repito-lhe que "a Natureza nunca mente", logo, os teorizadores estão sempre certos...

Sobrecarregado como está, aposto que dirá que sou uma praga odiosa; mas aqui vai outra sugestão! Fui levado por uma das minhas especulações selvagens a concluir (embora não tenha nada a ver com distribuição geográfica, tem, contudo, com as suas estatísticas) que as árvores teriam uma forte tendência a ter flores com estrutura dioica, monoica ou polígama. Vendo que isto parecia ser assim em Persoon, tomei uma pequena Flora Britânica e, distinguindo árvores de arbustos de acordo com Loudon, descobri que o resultado era, em espécies, géneros e famílias, como eu previa. Por isso, enviei as minhas noções a Hooker para lhe pedir que tabulasse a Flora da Nova Zelândia para este fim, e ele achou o meu resultado suficientemente curioso para o fazer; e a concordância com a Grã-Bretanha é muito notável, e ainda mais, uma vez que ele fez três classes de árvores, arbustos e plantas herbáceas. (Ele diz ainda que irá trabalhar a Flora da Tasmânia segundo o mesmo princípio.) Os arbustos ocupam uma posição intermédia entre as outras duas classes. Parece-me uma relação curiosa por si só, e muito mais se a minha teoria e explicação estiverem corretas. (Ver 'Origin', Edição i., página 100.)

Com sinceros agradecimentos, o seu amigo mais problemático, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 12 de abril [1857].

Meu caro Hooker,

A sua carta agradou-me muito, pois nunca consigo tirar da cabeça que tiro partido injusto da sua bondade, uma vez que recebo tudo e não dou nada. Que esplêndida discussão poderia escrever sobre todo o assunto da variação! Os casos discutidos na sua última nota são valiosos para mim (embora odiosos e condenáveis), por mostrarem quão profundamente ignorantes somos sobre as causas da variação. Farei apenas uma alusão a estes casos, como uma espécie de subdivisão do polimorfismo um pouco mais definida, imagino, do que a variação, por exemplo, dos Rubi, e igualmente ou mais desconcertante.

Acabei de juntar as minhas notas sobre variações APARENTEMENTE devidas à ação imediata e direta de causas externas; e fiquei impressionado com um resultado. Os mais firmes defensores da criação independente admitem que o pelo da MESMA espécie é mais fino em direção ao sul da área de distribuição da mesma espécie do que ao norte — que as MESMAS conchas são de cor mais brilhante para o sul do que para o norte; que a mesma [concha] é de cor mais pálida em águas profundas — que os insetos são menores e mais escuros nas montanhas — mais lívidos e testáceos perto do mar — que as plantas são menores e mais peludas e com flores mais brilhantes nas montanhas: agora, em todos esses e outros casos, espécies distintas nas duas zonas seguem a mesma regra, o que me parece ser mais simplesmente explicado por espécies serem apenas variedades fortemente marcadas e, portanto, seguirem as mesmas leis que variedades reconhecidas e admitidas. Menciono tudo isto devido à variação das plantas ao subir montanhas; citei a observação anterior apenas de forma geral, sem exemplos, pois acrescento que existe tanta dúvida e disputa sobre o que chamar de variedades; mas, contudo, deparei-me com tantas observações casuais sobre VARIEDADES de plantas nas montanhas serem assim caracterizadas, que presumo que haja alguma verdade nisso. O que pensa? Acredita que existe ALGUMA tendência nas VARIEDADES, como GERALMENTE chamadas, de plantas se tornarem mais peludas e com flores proporcionalmente maiores e de cor mais brilhante ao subir uma montanha?

Tenho estado interessado no meu "jardim de ervas daninhas", de 3 x 2 pés quadrados: marco cada plântula à medida que aparece, e fico espantado com o número que nasce, e ainda mais com o número morto por lesmas, etc. Já 59 foram mortas dessa forma; esperava um bom número, mas tinha imaginado que este era um controlo menos potente do que parece ser, e atribuía quase exclusivamente ao mero sufocamento a destruição das plântulas. As plântulas de gramíneas parecem sofrer muito menos do que as exógenas...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Moor Park, Farnham [Abril (?) 1857].

Meu caro Hooker,

A sua carta foi-me reencaminhada para aqui, onde estou a submeter-me à hidropatia durante quinze dias, estando aqui há uma semana, e tendo já recebido uma quantidade de bem que é completamente incrível para mim e absolutamente inexplicável. Posso caminhar e comer como um cristão robusto, e até as minhas noites são boas. Não consigo de modo algum compreender como a hidropatia pode agir como certamente faz sobre mim. Entorpece o cérebro de forma esplêndida; não pensei numa única espécie de qualquer tipo desde que saí de casa. A sua nota apanhou-me de surpresa; eu pensava que a pilosidade, etc., das ESPÉCIES alpinas era geralmente admitida; tenho a certeza de que a vi mencionada vinte vezes. Falconer estava a discursar sobre isso outro dia para mim. Meyen ou Gay, ou algum sujeito desse género (a quem desprezaria), recordo-me, faz alguma observação sobre as plantas da Cordilheira Chilena. Wimmer escreveu um pequeno livro seguindo as mesmas linhas, e sobre VARIEDADES serem assim caracterizadas nos Alpes. Mas, depois de lhe escrever, confesso que fiquei perplexo ao encontrar um homem (Moquin-Tandon, penso eu) a dizer que as flores alpinas são fortemente inclinadas a serem brancas, e Lineu a dizer que o frio torna as plantas APÉTALAS, mesmo a mesma espécie! As plantas árticas são frequentemente apétalas? A minha crença geral do meu trabalho de compilação é concordar plenamente com o que diz sobre a pouca influência direta do clima; e acabei de aludir à pilosidade das plantas alpinas como uma EXCEÇÃO. A odoríferação seria um bom caso para mim se soubesse de VARIEDADES sendo mais odoríferas em habitats secos.

Receio ter encarado a pilosidade das plantas alpinas como tão geralmente reconhecida que não marquei passagens, para de todo ver que tipo de evidência os autores apresentam. Devo confessar, outro dia, quando perguntei a Falconer se ele tinha conhecimento de plantas INDIVIDUAIS que perdiam ou adquiriam pilosidade quando transportadas, ele não sabia. Mas agora, NESTE SEGUNDO, a minha memória ilumina-se, e tenho a certeza de que algures marquei um caso de plantas peludas dos Pirenéus que perderam pelos quando cultivadas em Montpellier. Irá achar-me muito insolente se lhe disser que por vezes pensei que (completamente independente do caso presente), é um pouco demasiado duro com maus observadores; que uma observação feita por um mau observador NÃO PODE estar correta; um observador que merece ser condenado, o senhor condenaria totalmente. Sinto total deferência por qualquer observação que faça da sua própria cabeça; mas quando em oposição a algum pobre diabo, de alguma forma involuntariamente sinto não tanta, mas ainda assim muita deferência pela sua opinião. Não sei de todo se existe alguma verdade nesta minha crítica contra o senhor, mas muitas vezes pensei que lho diria.

Estou realmente muito grato pela sua carta, pois, embora pretendesse colocar apenas uma frase e de forma vaga, provavelmente tê-la-ia colocado muito forte demais.

Sempre, meu caro Hooker, seu muito sinceramente, C. DARWIN.

P.S. Esta nota, como vê, não tem nada que exija resposta.

A distribuição dos moluscos de água doce tem sido um pesadelo horrível para mim, mas penso que agora sei o caminho; quando acabam de eclodir são muito ativos, e tive trinta ou quarenta a rastejar no pé de um pato morto; e não podem ser sacudidos, e viverão quinze e até vinte e quatro horas fora da água.

[A carta seguinte refere-se à expedição da fragata austríaca "Novara"; Lyell tinha pedido ao meu pai sugestões.]

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down, 11 de fevereiro [1857].

Meu caro Lyell,

Fiquei contente por ver nos jornais sobre a Expedição Austríaca. Não tenho nada a acrescentar geologicamente às minhas notas no Manual. (O artigo "Geologia" no Manual de Inquérito Científico do Almirantado.) Não sei se a Expedição está limitada a chamar apenas a locais fixos. Mas se houver qualquer escolha ou poder nos homens de ciência para influenciar os locais — isto seria muito desejável. É a minha mais deliberada convicção de que nada ajudaria mais a História Natural do que a recolha e investigação cuidadosa de TODAS AS PRODUÇÕES das ilhas mais isoladas, especialmente do hemisfério sul. Exceto Tristan d'Acunha e a Terra de Kerguelen, são muito imperfeitamente conhecidas; e mesmo na Terra de Kerguelen, quanto há para descobrir sobre as camadas de lenhite, e se existem sinais de antiga ação Glacial. Cada concha marinha, inseto e planta é de valor de tais locais. Alguém na Expedição deveria especialmente ter o Ensaio sobre a Nova Zelândia de Hooker. Que grande trabalho explorar Rodriguez, com as suas aves fósseis e produções pouco conhecidas de todo o tipo. Novamente as Seychelles, que, com as Cocos tão perto, devem ser um vestígio de alguma terra mais antiga. A ilha exterior de Juan Fernandez é pouco conhecida. A investigação destes pequenos locais por um grupo de naturalistas seria grandiosa; St. Paul e Amesterdão seriam gloriosas, botânica e geologicamente. Não pode recomendar-lhes que obtenham o meu 'Diário' e 'Ilhas Vulcânicas' por causa das Galápagos. Se vêm do norte, será uma vergonha e um pecado se não chamarem no Ilhéu Cocos, um dos Galápagos. Lamentei sempre não ter conseguido examinar as grandes crateras na Ilha Albemarle, uma dos Galápagos. Na Nova Zelândia insista para que procurem por pedregulhos erráticos e marcas de antigos glaciares.

Insista no uso da draga nos Trópicos; quão pouco ou nada sabemos do limite da vida para baixo nos mares quentes?

O meu trabalho atual leva-me a perceber quão negligenciados têm sido os animais domésticos em países recônditos.

A Ilha Revillagigedo ao largo do México, creio, nunca foi pisada pelo pé de um naturalista.

Se a expedição se limitar a locais como Rio, Cabo da Boa Esperança, Ceilão e Austrália, etc., não fará muito.

Sempre seu muito sinceramente, C. DARWIN.

[A passagem seguinte ocorre numa carta ao Sr. Fox, 22 de fevereiro de 1857, e refere-se ao livro sobre Evolução no qual ele ainda estava a trabalhar. O restante da carta é composto por detalhes sem interesse:

"Estou profundamente interessado no meu assunto; embora desejasse poder dar menos valor à bugiganga da fama, seja presente ou póstuma, do que dou, mas não creio que a um grau extremo: contudo, se me conheço, trabalharia tão arduamente, embora com menos gosto, se soubesse que o meu livro seria publicado para sempre anonimamente."]

CHARLES DARWIN PARA A.R. WALLACE. Moor Park, 1 de maio de 1857.

Meu caro Senhor,

Estou muito grato pela sua carta de 10 de outubro, das Celebes, recebida há poucos dias; num empreendimento laborioso, a simpatia é um encorajamento valioso e real. Pela sua carta e ainda mais pelo seu artigo ('On the law that has regulated the introduction of new species.'--Ann. Nat. Hist., 1855.) nos Anais, há um ano ou mais, posso ver claramente que pensámos de forma muito semelhante e, até certo ponto, chegámos a conclusões similares. Em relação ao Artigo nos Anais, concordo com a verdade de quase cada palavra do seu artigo; e aposto que concordará comigo que é muito raro encontrar-se a concordar bastante de perto com qualquer artigo teórico; pois é lamentável como cada homem tira as suas próprias conclusões diferentes dos mesmos factos. Este verão fará o 20º ano (!) desde que abri o meu primeiro caderno, sobre a questão de como e de que forma as espécies e variedades diferem umas das outras. Estou agora a preparar o meu trabalho para publicação, mas acho o assunto tão vasto que, embora tenha escrito muitos capítulos, não suponho que irei para a prensa antes de dois anos. Nunca soube quanto tempo pretende ficar no Arquipélago Malaio; gostaria de poder beneficiar da publicação das suas Viagens lá antes que o meu trabalho apareça, pois sem dúvida colherá uma grande colheita de factos. Já agi de acordo com o seu conselho de manter as variedades domésticas, e aquelas que aparecem num estado de natureza, distintas; mas por vezes duvidei da sabedoria disto, e por isso fico feliz por ser apoiado pela sua opinião. Devo confessar, contudo, que duvido um pouco da verdade da doutrina agora muito prevalecente de que todos os nossos animais domésticos descendem de vários troncos selvagens; embora não duvide que assim seja em alguns casos. Penso que há provas um pouco melhores sobre a esterilidade de animais híbridos do que parece admitir: e em relação às plantas, a recolha de factos cuidadosamente registados por Kolreuter e Gaertner (e Herbert,) é ENORME. Concordo inteiramente consigo sobre os poucos efeitos das "condições climáticas", que se veem referidas ad nauseam em todos os livros: suponho que algum efeito muito pequeno deva ser atribuído a tais influências, mas acredito plenamente que são muito ligeiros. É realmente IMPOSSÍVEL explicar as minhas opiniões (no âmbito de uma carta), sobre as causas e meios de variação num estado de natureza; mas adotei lentamente uma ideia distinta e tangível — se verdadeira ou falsa, outros devem julgar; pois a convicção mais firme da verdade de uma doutrina pelo seu autor, parece, infelizmente, não ser a menor garantia de verdade!...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, sábado [2 de maio de 1857].

Meu caro Hooker,

Raspou o pelo das plantas alpinas de forma bastante eficaz. O caso da Anthyllis fará um "empate" com o caso acreditado das plantas dos Pirenéus se tornarem glabras em níveis baixos. Se EU descobrir que marquei tais factos, apresentarei a evidência perante o senhor. Pergunto-me como a crença pode ter-se originado! Foi através de causas finais para manter as plantas quentes? Falconer na conversa acoplou os dois factos das plantas alpinas lanosas e dos mamíferos. Quão sincera e mansamente aceitou o meu Jeremiad sobre a sua severidade com homens de segunda classe. Depois de o ter enviado, uma vozinha feia perguntou-me, uma ou duas vezes, quanto da minha nobre defesa dos pobres de espírito e de facto, se devia ao facto de o senhor ter não poucas vezes esmagado noções favoritas minhas. Silenciei a vozinha feia com desprezo, mas ela sussurraria de novo e de novo. Por vezes desprezo-me a mim mesmo como um mau compilador tão sinceramente como o senhor poderia fazer, embora NÃO despreze todo o meu trabalho, pois penso que há o suficiente conhecido para lançar uma base para a discussão sobre a origem das espécies. Fui levado a desprezar e rir-me de mim mesmo como um compilador, por ter escrito que "as plantas alpinas têm flores grandes", e agora talvez possa escrever sobre estas mesmas palavras: "as plantas alpinas têm flores pequenas ou apétalas!"...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, [16 de maio] [1857].

Meu caro Hooker,

Disse — espero que honestamente — que não se importava que eu fizesse perguntas sobre pontos gerais, o senhor, claro, respondendo ou não conforme o tempo ou a inclinação servisse. Descobri no reino animal que a proposição de que qualquer parte ou órgão desenvolvido normalmente (isto é, não uma monstruosidade) numa espécie em qualquer grau ELEVADO ou INUSUAL, comparado com a mesma parte ou órgão em espécies aliadas, tende a ser ALTAMENTE VARIÁVEL. Não posso duvidar disto a partir da minha massa de factos recolhidos. Para dar um exemplo, o Cross-bill é muito anormal na estrutura do seu bico comparado com outros Fringillidae aliados, e o bico é EMINENTEMENTE VARIÁVEL. O Himantopus, notável pela maravilhosa extensão das suas pernas, é MUITO variável no comprimento das pernas. Poderia dar MUITAS ilustrações mais notáveis e curiosas em todas as classes; tantas que penso que não pode ser obra do acaso. Mas não tenho NENHUMA no reino vegetal, devido, como acredito, à minha ignorância. Se Nepenthes consistisse numa ou duas espécies num grupo com um jarro desenvolvido, então teria esperado que fosse muito variável; mas não considero Nepenthes um caso relevante, pois quando um género ou grupo inteiro tem um órgão, por mais anómalo que seja, não espero que seja variável — é apenas quando uma ou poucas espécies diferem grandemente em alguma parte ou órgão das formas ESTRITAMENTE ALIADAS a ela em todos os outros aspetos, que acredito que tal parte ou órgão seja altamente variável. Quer pensar nisto? É uma importante LEI aparente (!) para mim.

Sempre seu, C. DARWIN.

P.S. — Não sei até que ponto se importará de ouvir, mas descobri que Moquin-Tandon trata na sua 'Teratologie' da vilosidade das plantas, e parece atribuir mais à secura do que à altitude; mas parece pensar que deve ser admitido que as plantas de montanha são vilosas, e que esta vilosidade é apenas em parte explicada pela observação de De Candolle de que a condição anã das plantas de montanha condensaria os pelos, e assim dar-lhes-ia a APARÊNCIA de serem mais peludas. Ele cita Senebier, 'Physiologie Vegetale', como autoridade — suponho que a primeira autoridade, para as plantas de montanha serem peludas.

Se eu pudesse mostrar positivamente que as espécies endémicas eram mais peludas em distritos secos, então o caso das variedades se tornarem mais peludas em solo seco seria um facto para mim.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 3 de junho [1857].

Meu caro Hooker,

Vou divertir-me escrevendo-lhe prosa sobre os meus próprios temas, e isto é para mim um prazer maior do que facilmente compreenderá, uma vez que, por meses a fio, não abro a boca sobre História Natural. A sua carta é de grande valor para mim, e deixa-me hesitante quanto à minha proposição. Ouso dizer que a ausência de factos botânicos pode, em parte, ser explicada pela dificuldade de medir ligeiras variações. De facto, depois de escrever, isto ocorreu-me; pois tenho a *Crucianella stylosa* a começar a florescer, e o pistilo deveria ser muito variável em comprimento, e ao pensar nisto senti imediatamente como se poderia julgar se era variável em qualquer grau elevado. Quão diferente, por exemplo, do bico de um pássaro! Mas não estou satisfeito com esta explicação, e estou hesitante. Contudo, penso que há algo na lei; tive tantos exemplos, como o seguinte: escrevi a Wollaston para lhe pedir que analisasse os escaravelhos da Madeira e me dissesse se algum apresentava algo de muito anómalo em relação aos seus aliados. Ele deu-me um caso único de uma cabeça enorme numa fêmea, e então encontrei no seu livro, já declarado, que o tamanho da cabeça era ESPANTOSAMENTE variável. Parte da diferença com as plantas pode ser explicada pelo facto de muitos dos meus casos serem caracteres sexuais secundários masculinos ou FEMININOS, mas, ainda assim, tenho casos impressionantes com Cirripédios hermafroditas. Os casos parecem-me demasiado numerosos para serem coincidências acidentais, de grande variabilidade e desenvolvimento anormal. Presumo que não se oporá a que eu coloque uma nota dizendo que o senhor refletiu sobre o caso, e que, embora um ou dois casos parecessem apoiar, tantos ou mais pareciam totalmente contraditórios. Esta falta de evidência é-me ainda mais surpreendente, pois geralmente acho qualquer proposição mais facilmente testável por observações em obras botânicas, que fui colecionando, do que em obras zoológicas. Nunca sonhei que tivesse mantido o assunto de todo presente na sua mente. No geral, o caso é mais um dos meus MUITOS quebra-cabeças horríveis. As minhas observações, embora numa escala infinitamente pequena, sobre a luta pela existência, começam a fazer-me ver um pouco mais claramente como a luta prossegue. De dezasseis tipos de sementes semeadas no meu prado, quinze germinaram, mas agora estão a perecer a tal ritmo que duvido que mais do que uma floresça. Aqui temos o sufocamento que ocorreu também numa grande escala, com plantas que não são plântulas, num pedaço do meu relvado deixado crescer. Por outro lado, num pedaço de terra, de 2 por 3 pés, marquei diariamente cada erva daninha plântula conforme aparecia durante março, abril e maio, e 357 surgiram, e destas 277 já foram mortas principalmente por lesmas. A propósito, em Moor Park, vi um caso bastante bonito dos efeitos dos animais na vegetação: existem enormes baldios com grupos de velhos pinheiros-silvestres nas colinas, e há cerca de oito ou dez anos alguns destes baldios foram vedados, e à volta dos grupos surgem belas árvores jovens aos milhões, parecendo exatamente como se tivessem sido plantadas, tantas são da mesma idade. Noutras partes do baldio, ainda não vedadas, procurei por quilómetros e nem UMA árvore jovem pôde ser vista. Fui então para perto (a menos de um quarto de milha dos grupos) e olhei atentamente para a urze, e lá encontrei dezenas de milhares de jovens pinheiros-silvestres (trinta num metro quadrado) com os topos roídos pelo pouco gado que ocasionalmente vagueia por estas charnecas miseráveis. Uma pequena árvore, de três polegadas de altura, pelos anéis parecia ter vinte e seis anos, com um caule curto quase tão grosso quanto um pau de cera de lacre. Que problema maravilhoso é este, que jogo de forças, a determinar o tipo e a proporção de cada planta num metro quadrado de relvado! É, para mim, verdadeiramente maravilhoso. E, no entanto, temos o prazer de nos admirar quando algum animal ou planta se extingue.

Sinto muito que não esteja no Clube. Vejo que a Sra. Hooker vai para Yarmouth; espero que a saúde dos seus filhos não seja o motivo. Adeus.

Meu caro Hooker, sempre seu, C. DARWIN.

P.S.--Creio que tem medo de me enviar uma vagem madura de *Edwardsia*, por medo de que eu a faça flutuar da Nova Zelândia para o Chile!!!

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 5 de junho [1857].

Meu caro Hooker,

Honro o seu cuidado consciencioso quanto às medalhas. (As medalhas da Royal Society.) Graças a Deus! Sou apenas um amador (embora muito interessado) no assunto.

É uma velha noção minha que se faz mais bem dando medalhas a homens mais jovens no início da sua carreira, do que como uma mera recompensa a homens cuja carreira científica está quase terminada. Se as medalhas fazem algum bem é uma questão que não nos diz respeito, pois lá estão as medalhas. Estou quase inclinado a pensar que preferiria baixar o padrão, e dar medalhas a jovens trabalhadores do que a velhos sem reivindicações ESPECIAIS. Relativamente a reivindicações especiais, penso que merece a sua atenção o facto de que, se as reivindicações gerais forem uma vez admitidas, abre-se a porta a uma grande negligência na sua atribuição. Pense no caso de um homem muito rico, que ajudou APENAS com o seu dinheiro, mas numa extensão grandiosa -- ou tal prodígio inconcebível como um ministro da Coroa que realmente se interessasse pela ciência. Daria medalhas a tais homens? Talvez as medalhas não pudessem ser melhor aplicadas do que EXCLUSIVAMENTE a tais homens. Confesso que, presentemente, inclino-me a manter-me nas reivindicações especiais que podem ser colocadas no papel...

Estou muito confuso por me mostrar que não há exemplos óbvios da minha (ou melhor, de Waterhouse) lei de desenvolvimentos anormais serem altamente variáveis. Tenho pensado mais na sua observação sobre a dificuldade de julgar ou comparar a variabilidade nas plantas devido à grande variabilidade geral das partes. Eu veria a lei como mais completamente esmagada se o senhor meditasse por um pouco sobre casos de grande variabilidade de um órgão, e me dissesse se é moderadamente fácil escolher tais casos; Pois SE ELES PUDEREM SER ESCOLHIDOS, e, não obstante, não coincidirem com grande ou anormal desenvolvimento, seria um golpe fatal. É apenas começar na sua mente pela extremidade da variabilidade da questão em vez de pela extremidade da anormalidade. TALVEZ os casos em que uma parte é altamente variável em todas as espécies de um grupo devam ser excluídos, como possivelmente sendo algo distinto, e ligado ao assunto desconcertante do polimorfismo. Quer aperfeiçoar a sua assistência considerando mais um pouco o assunto desta forma?

Tenho estado muito interessado esta manhã em comparar todas as minhas notas sobre a variação das várias espécies do género *Equus* e os resultados dos seus cruzamentos. Tomando como guia factos estritamente análogos entre os abençoados pombos, acredito que posso ver claramente a coloração e as marcas do avô do Burro, Cavalo, Quagga, Hemionus e Zebra, há alguns milhões de gerações! Não deveria eu [ter] zombado de qualquer um que me fizesse tal observação há alguns anos; mas a minha evidência parece-me tão boa que publicarei a minha visão no fim da minha pequena discussão sobre este género.

Tenho-o ultimamente inundado com as minhas noções, o melhor dos amigos e filósofos.

Adeus, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Moor Park, Farnham, 25 de junho [1857].

Meu caro Hooker,

Isto não requer resposta, mas perguntar-lhe-ei sempre que nos encontrarmos. Veja as plântulas de tojo anexas, especialmente uma com o topo arrancado. As folhas que sucedem aos cotilédones serem quase semelhantes ao trevo na forma parece-me fracamente análogo às semelhanças embrionárias em animais jovens, como, por exemplo, o leão jovem ser riscado. Perguntar-lhe-ei se é assim...(Veja 'Power of Movement in Plants', página 414.)

O Dr. Lane (O médico em Moor Park.) e a esposa, e a sogra, Lady Drysdale, são algumas das pessoas mais simpáticas que já conheci.

Regresso a casa no dia 30. Adeus, meu caro Hooker.

Sempre seu, C. DARWIN.

[Segue-se aqui um grupo de cartas, de várias datas, sobre a questão de grandes géneros a variar.]

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. 11 de março [1858].

Fui levado a todo este trabalho por uma observação de Fries, de que as espécies em grandes géneros estavam mais estreitamente relacionadas entre si do que em pequenos géneros; e se isto fosse assim, vendo que as variedades e espécies são tão dificilmente distinguíveis, concluí que encontraria mais variedades nos grandes géneros do que nos pequenos... Algum dia espero que leia a minha curta discussão sobre todo o assunto. Fez-me um serviço infinito, qualquer que seja a opinião a que chegue, ao chamar a minha atenção para pelo menos a possibilidade ou a probabilidade de os botânicos registarem mais variedades nos grandes do que nos pequenos géneros. Será um trabalho árduo para mim ser sincero ao chegar à minha conclusão.

Sempre seu, muito sinceramente, C. DARWIN.

P.S.--Estarei várias semanas no meu trabalho atual. O trabalho tem-se revelado mau para mim esta manhã, e sinto-me doente de espírito; e, oh! como eu odeio espécies e variedades.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. 14 de julho [1857?].

...Escrevo agora para suplicar muito seriamente um favor, a saber, o empréstimo de "Boreau, Flore du centre de la France", 1.ª ou 2.ª edição, a última é a melhor; também "Flora Ratisbonensis", pelo Dr. Furnrohr, em 'Naturhist. Topographie von Regensburg, 1839'. Se POSSIVELMENTE puder dispensá-los, enviá-los-á imediatamente para o endereço anexo. Se não os tiver, enviará uma linha por correio de retorno: pois devo tentar se Kippist (O falecido Sr. Kippist estava nesta altura encarregado da Biblioteca da Sociedade Lineana.) pode de alguma forma encontrá-los, o que temo que será quase impossível na Biblioteca Lineana, onde sei que eles estão.

Tenho feito alguns cálculos sobre variedades, etc., e falando ontem com Lubbock, ele apontou-me o erro mais grosseiro que cometi em princípio, e que implica duas ou três semanas de trabalho perdido; e estou num impasse até ter estes livros para rever, e ver qual é o resultado do cálculo sobre o princípio correto. Sou o cão mais miserável, atordoado e estúpido de toda a Inglaterra, e estou pronto a chorar de vexame pela minha cegueira e presunção.

Sempre seu, muito miseravelmente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA JOHN LUBBOCK. Down, [julho] 14 [1857].

Meu caro Lubbock,

Fez-me o maior serviço possível ao ajudar-me a clarificar os meus miolos. Se estou tão confuso em todos os assuntos como estou em proporção e acaso--que livro produzirei!

Dividi a Flora da Nova Zelândia como sugeriu, há 329 espécies em géneros de 4 e mais, e 323 em géneros de 3 e menos.

As 339 espécies têm 51 espécies apresentando uma ou mais variedades. As 323 espécies têm apenas 37. Proporcionalmente (339: 323:: 51: 48,5) deveriam ter tido 48 1/2 espécies apresentando variedades. De modo que o caso segue como eu quero, mas não suficientemente forte, a menos que seja geral, para eu ter muita confiança nele. Estou totalmente convencido de que o seu é o caminho certo; eu tinha pensado nisso, mas nunca o teria feito se não fosse pela minha conversa mais fortuita consigo.

Fiquei chocado ao descobrir quão facilmente fico atordoado, pois eu tinha antes pensado muito sobre o assunto, e concluído que o meu caminho era justo. É terrivelmente erróneo.

De que erro vergonhoso me salvou. Agradeço-lhe sinceramente.

Sempre seu, C. DARWIN.

P.S.--É o suficiente para me fazer rasgar todo o meu manuscrito e desistir em desespero.

Levar-me-á várias semanas rever todos os meus materiais. Mas oh, se soubesse quão grato lhe sou!

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, agosto [1857].

Meu caro Hooker,

É uma chatice horrível não poder vir em breve, e recrimino-me por não ter escrito antes. Quão ocupado deve estar! com tal monte de botânicos em Kew. Pense só, acabei de receber uma carta de Henslow, a dizer que virá aqui entre o dia 11 e o 15! Não é grandioso? Muitos agradecimentos sobre Furnrohr. Devo suplicar humildemente a Kippist que o procure: ele, muito gentilmente, obteve Boreau para mim.

Fiquei extremamente interessado em tabular, de acordo com o mero tamanho dos géneros, as espécies que têm quaisquer variedades marcadas por letras gregas ou de outra forma: o resultado (até onde fui até agora) parece-me um dos argumentos mais importantes que já encontrei, de que as variedades são apenas pequenas espécies--ou espécies são apenas variedades fortemente marcadas. O assunto é de muitas formas tão importante para mim; desejo muito que pense em quaisquer Floras bem trabalhadas com 1000-2000 espécies, com as variedades marcadas. É bom ter divisores de cabelos e agrupadores. (Aqueles que fazem muitas espécies são os "splitters", e aqueles que fazem poucas são os "lumpers".) Eu fiz, ou estou a fazer:--

Babington....................... Henslow......................... British Flora. London Catalogue. H.C. Watson...

Boreau.......................... França.

Miquel.......................... Holanda.

Asa Gray........................ N.U. States.

Hooker.......................... Nova Zelândia. Fragmento da Flora Indiana.

Wollaston....................... Insetos da Madeira.

Não terá Koch publicado uma boa Flora Alemã? Ele marca variedades? Poderia enviar-ma? Não haverá alguma Flora Russa grandiosa, que talvez tenha variedades marcadas? As Floras deveriam ser bem conhecidas.

Não tenho pressa por algumas semanas. Irá pensar nisto quando, se alguma vez, tiver lazer? O assunto é muito importante para o meu trabalho, embora veja claramente MUITAS causas de erro...

CHARLES DARWIN PARA ASA GRAY. Down, 21 de fevereiro [1859].

Meu caro Gray,

A minha última carta não pedia nenhum favor, esta pede: mas realmente custar-lhe-á muito pouco trabalho responder-me, e será de muito GRANDE serviço para mim, devido a uma observação feita a mim por Hooker, que não posso acreditar, e que lhe foi sugerida por uma das minhas cartas. Ele sugeriu que eu lhe perguntasse, e eu disse-lhe que não daria a menor pista do que ele pensava. Geralmente acredito em Hooker implicitamente, mas ele é por vezes, penso eu, e ele confessa-o, um pouco excessivamente crítico, e a sua engenhosidade em descobrir falhas parece-me admirável. Aqui está a minha pergunta:--"Pensa que os bons botânicos ao elaborar uma Flora local, seja pequena ou grande, ou ao fazer um *Prodromus* como o de De Candolle, tenderiam quase universalmente, mas involuntária e inconscientemente, a registar (isto é, marcar com letras gregas e dar caracteres curtos) variedades nos grandes ou nos pequenos géneros? Ou a tendência seria registar as variedades aproximadamente igualmente em géneros de todos os tamanhos? Está o senhor próprio consciente, após reflexão, de que prestou atenção e registou mais cuidadosamente as variedades em géneros grandes ou pequenos, ou muito pequenos?"

Sei quão fugazes e triviais são as variedades muitas vezes; mas a minha questão aplica-se àquelas que foram consideradas dignas de ser marcadas e registadas. Se pudesse arranjar tempo para me enviar uma resposta, por mais breve que seja, bastante cedo, seria um grande serviço para mim.

Seu muito sinceramente obrigado, CH. DARWIN.

P.S.--Sabe se alguém publicou alguma vez quaisquer observações sobre a distribuição geográfica de variedades de plantas em comparação com as espécies a que se supõe que pertencem? Tentei em vão obter alguma ideia vaga, e com exceção de uma pequena informação sobre este aspeto dada por Mr. Watson num artigo sobre Conchas Terrestres nos Estados Unidos, falhei completamente; mas talvez fosse difícil para o senhor dar-me até uma breve resposta sobre este aspeto, e se assim for, não sou tão irracional, GARANTO-LHE, como para a esperar.

Se estiver a escrever para Inglaterra em breve, poderia incluir outras cartas [para] mim encaminhar.

Por favor, note que a questão não é se há mais ou menos variedades em géneros maiores ou menores, mas se há uma tendência mais forte ou mais fraca nas mentes dos botânicos para REGISTAR tais em géneros grandes ou pequenos.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 6 de maio [1858].

...Envio por este correio o meu manuscrito sobre a "comum", "alcance" e "variação" de espécies em grandes e pequenos géneros. O senhor assumiu um trabalho horrível ao oferecer-se tão gentilmente para o ler, e agradeço-lhe calorosamente. Acabei de corrigir a cópia, e estou desapontado por descobrir quão árdua e obscura ela é; não consigo torná-la mais clara, e presentemente detesto a própria visão dela. O estilo, claro, requer correção posterior, e se publicado devo tentar, mas até agora não vejo como, torná-lo mais claro.

Se tem muito a dizer e pode ter paciência para considerar todo o assunto, encontrar-me-ia em Londres no dia do Clube Phil., de modo a poupar-lhe o trabalho de escrever. Pelo amor de Deus, seu juiz severo e terrível e cético, lembre-se de que as minhas conclusões podem ser verdadeiras, não obstante o facto de que os Botânicos podem ter registado mais variedades em grandes do que em pequenos géneros. Parece-me um mero equilíbrio de probabilidades. Mais uma vez agradeço-lhe sinceramente, mas temo que achará um trabalho horrível.

Sempre seu, C. DARWIN.

P.S.--Como de costume, a Hidropatia fez de mim um homem por pouco tempo: espero que o mar faça muito bem à Sra. Hooker.

CHARLES DARWIN PARA A.R. WALLACE. Down, 22 de dezembro de 1857.

Meu caro Senhor,

Agradeço-lhe a sua carta de 27 de setembro. Fico extremamente contente por ouvir como está a prestar atenção à distribuição de acordo com ideias teóricas. Sou um firme crente de que sem especulação não há observação boa e original. Poucos viajantes prestaram atenção a tais pontos como o senhor está agora a trabalhar; e, de facto, todo o assunto da distribuição dos animais está terrivelmente atrasado em relação ao das plantas. O senhor diz que ficou um tanto surpreendido por não ter sido tomado conhecimento do seu artigo nos *Annals*. ('On the law that has regulated the introduction of New Species.' Ann. Nat. Hist., 1855.) Não posso dizer que fiquei, pois tão poucos naturalistas se importam com algo para além da mera descrição de espécies. Mas não deve supor que o seu artigo não foi atendido: dois homens muito bons, Sir C. Lyell e o Sr. E. Blyth em Calcutá, chamaram especialmente a minha atenção para ele. Embora concordando consigo nas suas conclusões nesse artigo, creio que vou muito mais longe que o senhor; mas é um assunto demasiado longo para entrar nas minhas noções especulativas. Ainda não vi o seu artigo sobre a distribuição dos animais nas Ilhas Aru. Lê-lo-ei com o máximo interesse; pois penso que esse é o quadrante mais interessante de todo o globo no que diz respeito à distribuição, e há muito que tenho tentado, de forma muito imperfeita, recolher dados para o Arquipélago Malaio. Estarei totalmente preparado para subscrever a sua doutrina de subsidência; de facto, pela evidência bastante independente dos Recifes de Coral, colori o meu mapa original (no meu volume sobre Corais) das Ilhas Aru como uma de subsidência, mas assustei-me e deixei-o sem cor. Mas posso ver que o senhor está inclinado a ir muito mais longe do que eu no que diz respeito à ligação anterior de ilhas oceânicas com continentes. Desde que o pobre E. Forbes propôs esta doutrina tem sido avidamente seguida; e Hooker discute elaboradamente a ligação anterior de todas as Ilhas Antárticas e Nova Zelândia e América do Sul. Há cerca de um ano discuti este assunto muito com Lyell e Hooker (pois terei de tratar dele), e escrevi os meus argumentos em oposição; mas ficará contente por saber que nem Lyell nem Hooker pensaram muito nos meus argumentos. No entanto, uma vez na minha vida, ouso resistir à sagacidade quase sobrenatural de Lyell.

Você pergunta sobre moluscos terrestres em ilhas muito distantes dos continentes: a Madeira possui alguns idênticos aos da Europa, e aqui a evidência é realmente boa, uma vez que alguns deles são subfósseis. Nas Ilhas do Pacífico existem casos de identidade que, no momento, não consigo me convencer a atribuir à introdução por meio da ação humana; embora o Dr. Aug. Gould tenha demonstrado de forma conclusiva que muitos moluscos terrestres foram distribuídos pelo Pacífico dessa maneira pela ação do homem. Esses casos de introdução são muito atormentadores. Você não achou o mesmo no Arquipélago Malaio? Tem me parecido, nas listas de mamíferos de Timor e de outras ilhas, que VÁRIOS, com toda a probabilidade, foram naturalizados...

Você pergunta se discutirei o "homem". Penso que evitarei todo o assunto, por estar tão cercado de preconceitos; embora admita plenamente que é o problema mais elevado e interessante para o naturalista. Meu trabalho, no qual estou empenhado há mais ou menos vinte anos, não fixará nem resolverá nada; mas espero que ajude ao fornecer uma grande coleção de fatos, com um fim definido. Avanço muito lentamente, em parte por problemas de saúde, em parte por ser um trabalhador muito lento. Já escrevi cerca de metade; mas não suponho que publicarei antes de uns dois anos. Estou há três meses inteiros em um único capítulo sobre Hibridismo!

Fico espantado ao ver que você espera permanecer fora por mais três ou quatro anos. Que quantidade maravilhosa você terá visto, e que áreas interessantes — o grandioso Arquipélago Malaio e as partes mais ricas da América do Sul! Admiro e honro infinitamente seu zelo e coragem na boa causa da Ciência Natural; e você tem meus votos mais sinceros e cordiais de sucesso de todos os tipos, e que todas as suas teorias tenham sucesso, exceto aquela sobre as Ilhas Oceânicas, assunto sobre o qual lutarei até a morte.

Por favor, acredite em mim, meu caro senhor, seu muito sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. 8 de fevereiro [1858].

...Estou trabalhando muito no meu livro, talvez demais. Ficará muito grande, e tornei-me profundamente interessado na maneira como os fatos se agrupam. Sou como Creso, sobrecarregado com minhas riquezas de fatos, e pretendo tornar meu livro o mais perfeito que puder. Não irei para a prensa antes de, no mínimo, dois anos...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. 23 de fevereiro [1858].

...Não fiquei muito impressionado com o grande Buckle, e admirei a maneira como você se manteve firme sobre dedução e indução. Estou lendo seu livro ('A História da Civilização'), que, com muita sofística, como me parece, é MARAVILHOSAMENTE inteligente e original, e com um conhecimento assombroso.

Vi que você admirou completamente a 'Questa tomba' de Beethoven de Mrs. Farrer; há algo de grandioso em seus tons suaves.

Adeus. Escrevi esta nota em parte para expulsar células de abelha da minha cabeça; pois estou meio louco com o assunto, tentando descobrir alguns passos simples dos quais todos os ângulos maravilhosos possam resultar. (Ele teve muita correspondência sobre este assunto com o falecido Professor Miller de Cambridge.)

Fiquei muito contente em ver Mrs. Hooker na sexta-feira; quão bem ela parece estar e aparenta.

Perdoe seu intolerável, mas afetuoso amigo, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Down, 16 de abril [1858].

Meu caro Fox,

Quero que observe um ponto para mim, no qual estou extremamente interessado, e que não lhe dará nenhum trabalho além de manter os olhos abertos, e esse é um hábito que sei muito bem que você tem.

Descobri que cavalos de várias cores frequentemente têm uma faixa espinhal ou risca de tonalidade diferente e mais escura do que o resto do corpo; raramente barras transversais nas pernas, geralmente na parte inferior das pernas dianteiras, ainda mais raramente uma faixa de ombro transversal muito tênue como a de um asno.

Existe alguma raça de pôneis da floresta de Delamere? Descobri pouco sobre pôneis a este respeito. Sir P. Egerton tem, creio eu, alguns cavalos castanhos de puro-sangue; algum deles tem a faixa espinhal? Pôneis cor de rato, ou melhor, cavalos pequenos, frequentemente têm barras espinhais e nas pernas. Assim como os cavalos baios (por baio, refiro-me à cor real de creme misturada com marrom, castanho ou alazão). Assim têm, às vezes, os alazões, mas ainda não encontrei um caso de faixa espinhal em alazão, cavalo de corrida ou em cavalo de carga muito pesado. Qualquer fato desta natureza sobre tais faixas em cavalos seria ÚTIL para mim. Existe um caso paralelo nas pernas do jumento, e coletei alguns casos muito curiosos de faixas aparecendo em vários animais equinos cruzados. Tenho também uma grande massa de fatos paralelos nas raças de pombos sobre as barras das asas. SUSPEITO que lançará luz sobre a cor do cavalo primitivo. Portanto, ajude-me se a ocasião surgir... Minha saúde tem estado muito ruim ultimamente por excesso de trabalho, e na terça-feira vou para uma quinzena de hidroterapia. Meu trabalho é eterno. Adeus.

Meu caro Fox, espero que você esteja bem. Adeus, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Moor Park, Farnham [26 de abril de 1858].

...Acabei de ter as partes mais íntimas do meu coração alegradas por uma carta de Lyell. Eu disse a ele (ou ele a mim) que acreditava, pelo caráter da flora dos Açores, que icebergs devem ter encalhado lá; e que esperava que blocos erráticos fossem detectados embutidos entre os leitos de lava elevados; e consegui que Lyell escrevesse a Hartung para perguntar, e agora H. diz que minha pergunta explica o que o havia assombrado, isto é, grandes blocos (e alguns polidos) de micaxisto, quartzo, arenito, etc., alguns embutidos e alguns a 40 e 50 pés acima do nível do mar, de modo que ele havia inferido que não tinham sido trazidos como lastro. Não é lindo?

A cura pela água me fez algum bem, mas hoje não [estou] nada de especial, então adeus.

Meu caro amigo, seu, C.D.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Moor Park, Farnham, 26 de abril [1858].

Meu caro Lyell,

Vim para cá para uma quinzena de hidroterapia, já que meu estômago, por causa do trabalho constante, tinha ficado em um estado horrível. Sou extremamente grato a você por me enviar a interessante carta de Hartung. Os blocos erráticos são esplêndidos. É um grande caso de gelo flutuante versus geleiras. Ele deveria ter comparado as costas norte e sul das ilhas. É eminentemente interessante para mim, pois escrevi um capítulo muito longo sobre o assunto, reunindo brevemente toda a evidência geológica da ação glacial em diferentes partes do mundo, e então, com grande extensão (sobre a teoria da mudança das espécies), discuti a migração e modificação de plantas e animais, no mar e na terra, sobre uma grande parte do mundo. Para mim, isso lança uma luz imensa sobre todo o assunto da distribuição, se combinado com a modificação das espécies. De fato, aventuro-me a falar com um pouco de confiança sobre isso, pois Hooker, há cerca de um ano, leu gentilmente meu capítulo, e embora ele tenha objetado gravemente à conclusão geral, fiquei encantado ao ouvir, há uma ou duas semanas, que ele estava inclinado a se aproximar fortemente das minhas visões de distribuição e mudança durante o período glacial. Recebi uma carta de Thompson, de Calcutá, outro dia, que me ajuda muito, pois ele está descobrindo para mim que calor nossas plantas temperadas podem suportar. Mas é um assunto longo demais para uma nota; e escrevi assim apenas porque a nota de Hartung colocou todo o assunto em movimento novamente na minha mente. Mas não escreverei mais, pois meu objetivo aqui é não pensar em nada, banhar-me muito, caminhar muito, comer muito e ler muitos romances. Adeus, com muitos agradecimentos e lembranças muito gentis à Lady Lyell.

Sempre seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA MRS. DARWIN. Moor Park, quarta-feira, abril [1858].

O tempo está delicioso. Ontem, depois de escrever para você, passei um pouco além da clareira por uma hora e meia e me diverti — o verde fresco, porém escuro, dos grandiosos pinheiros escoceses, o marrom dos amentilhos das velhas bétulas, com seus troncos brancos, e uma franja de verde distante dos lärches compunham uma vista excessivamente bonita. Finalmente, caí em sono profundo na grama e acordei com um coro de pássaros cantando ao meu redor, esquilos correndo pelas árvores e alguns pica-paus rindo, e foi uma cena tão agradável e rural quanto qualquer outra que já vi, e eu não me importava nem um centavo sobre como qualquer uma das bestas ou pássaros havia sido formada. Sentei-me na sala de estar até depois das oito, depois fui ler o resumo do Presidente do Tribunal e pensei que Bernard (Simon Bernard foi julgado em abril de 1858 como cúmplice da tentativa de Orsini contra a vida do Imperador dos Franceses. O veredito foi "não culpado".) fosse culpado, e então li um pouco do meu romance, que é feminino, virtuoso, clerical, filantrópico e todo esse tipo de coisa, mas muito decididamente monótono. Digo feminino, pois a autora é ignorante sobre questões financeiras e não é muito uma dama — pois faz seus homens dizerem "Minha Senhora". Gosto muito da Miss Craik, embora tenhamos algumas batalhas e discordemos sobre todos os assuntos. Gosto também do húngaro; um perfeito cavalheiro, anteriormente adido em Paris e depois na cavalaria austríaca, e agora um exilado perdoado, com saúde debilitada. Ele não parece gostar de Kossuth, mas diz ter certeza de que [ele] é um patriota sincero, muito inteligente e eloquente, mas fraco, sem determinação de caráter...

CAPÍTULO 1. XIII. -- A ESCRITA DA 'ORIGEM DAS ESPÉCIES'.

18 DE JUNHO DE 1858 A NOVEMBRO DE 1859.

[As cartas apresentadas no presente capítulo contam sua história com clareza suficiente e precisam apenas de algumas palavras de explicação. O Ensaio do Sr. Wallace, referido na primeira carta, tinha o subtítulo 'Sobre a Tendência das Variedades de se Afastarem Indefinidamente do Tipo Original', foi publicado no Jornal da Sociedade Lineana (1858, volume iii, página 53) como parte do artigo conjunto dos "Srs. C. Darwin e A. Wallace", cujo título completo era 'Sobre a Tendência das Espécies de Formar Variedades; e sobre a Perpetuação de Variedades e Espécies por Meios Naturais de Seleção'.

A contribuição do meu pai para o artigo consistiu em (1) Extratos do esboço de 1844; (2) parte de uma carta endereçada ao Dr. Asa Gray, datada de 5 de setembro de 1857, e que foi dada acima. O artigo foi "comunicado" à Sociedade por Sir Charles Lyell e Sir Joseph Hooker, em cuja carta prefacial uma explicação clara das circunstâncias do caso é fornecida.

Referindo-se ao Ensaio do Sr. Wallace, eles escreveram:

"O Sr. Darwin apreciou tão altamente o valor das visões ali expostas que propôs, em uma carta a Sir Charles Lyell, obter o consentimento do Sr. Wallace para permitir que o Ensaio fosse publicado o mais rápido possível. Aprovamos muito esse passo, contanto que o Sr. Darwin não retivesse do público, como estava fortemente inclinado a fazer (em favor do Sr. Wallace), o memorial que ele mesmo havia escrito sobre o mesmo assunto e que, como declarado anteriormente, um de nós havia lido em 1844, e cujo conteúdo ambos conhecíamos há muitos anos. Ao representar isso ao Sr. Darwin, ele nos deu permissão para fazer o uso que achássemos adequado de seu memorial, etc.; e, ao adotar nosso curso atual de apresentá-lo à Sociedade Lineana, explicamos a ele que não estamos considerando apenas as reivindicações relativas de prioridade dele e de seu amigo, mas os interesses da ciência em geral."]

CARTAS.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down, 18 [junho de 1858].

Meu caro Lyell,

Há cerca de um ano, você me recomendou ler um artigo de Wallace nos 'Annals' ('Annals and Magazine of Natural History', 1855.), que o interessara, e, como eu estava escrevendo para ele, sabia que isso o agradaria muito, então eu disse a ele. Ele me enviou hoje o anexo e pediu-me para encaminhá-lo a você. Parece-me que vale a pena ler. Suas palavras tornaram-se realidade com força — que eu seria superado. Você disse isso quando expliquei a você aqui, muito brevemente, minhas visões da 'Seleção Natural' dependendo da luta pela existência. Nunca vi uma coincidência mais notável; se Wallace tivesse meu esboço em MS escrito em 1842, ele não poderia ter feito um resumo melhor! Até seus termos agora servem como cabeçalhos dos meus capítulos. Por favor, devolva-me o MS, que ele não diz que deseja que eu publique, mas eu, é claro, escreverei imediatamente e oferecerei para enviar a qualquer jornal. Então, toda a minha originalidade, qualquer que seja o seu valor, será esmagada, embora meu livro, se algum dia tiver algum valor, não será deteriorado; já que todo o trabalho consiste na aplicação da teoria.

Espero que você aprove o esboço de Wallace, para que eu possa dizer a ele o que você diz.

Meu caro Lyell, seu muito sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down, sexta-feira [25 de junho de 1858].

Meu caro Lyell,

Sinto muito em incomodá-lo, ocupado como você está, em um assunto tão puramente pessoal; mas se você me der sua opinião deliberada, far-me-á um serviço tão grande quanto qualquer homem jamais fez, pois tenho total confiança em seu julgamento e honra...

Não há nada no esboço de Wallace que não esteja escrito de forma muito mais completa no meu esboço, copiado em 1844 e lido por Hooker há uns doze anos. Há cerca de um ano, enviei um breve esboço, do qual tenho uma cópia, das minhas visões (devido à correspondência sobre vários pontos) para Asa Gray, de modo que eu poderia muito verdadeiramente dizer e provar que não tiro nada de Wallace. Eu ficaria extremamente contente agora em publicar um esboço das minhas visões gerais em cerca de doze páginas ou mais; mas não consigo me convencer de que posso fazê-lo honrosamente. Wallace não diz nada sobre publicação, e anexo sua carta. Mas, como eu não pretendia publicar nenhum esboço, posso fazê-lo honrosamente, porque Wallace me enviou um esboço de sua doutrina? Eu preferiria queimar meu livro inteiro do que ele ou qualquer outro homem pensar que me comportei de forma mesquinha. Você não acha que o fato de ele ter me enviado este esboço me amarra as mãos?... Se eu pudesse publicar honrosamente, eu afirmaria que fui induzido agora a publicar um esboço (e ficaria muito contente em ter permissão para dizer, para seguir seu conselho dado há muito tempo) pelo fato de Wallace ter me enviado um resumo das minhas conclusões gerais. Diferimos apenas [em] que fui levado às minhas visões pelo que a seleção artificial fez pelos animais domésticos. Eu enviaria a Wallace uma cópia da minha carta a Asa Gray, para mostrar a ele que não roubei sua doutrina. Mas não posso dizer se publicar agora não seria baixo e mesquinho. Essa foi minha primeira impressão, e certamente teria agido de acordo se não fosse pela sua carta.

Este é um assunto insignificante para incomodá-lo, mas você não pode dizer o quanto eu ficaria grato pelo seu conselho.

A propósito, você se oporia a enviar isto e sua resposta para Hooker para serem encaminhados a mim, pois então terei a opinião dos meus dois melhores e mais gentis amigos. Esta carta está miseravelmente escrita, e eu a escrevo agora para que possa por um tempo banir todo o assunto; e estou exausto de tanto pensar...

Meu bom e caro amigo, perdoe-me. Esta é uma carta insignificante, influenciada por sentimentos insignificantes.

Seu muito sinceramente, C. DARWIN.

Nunca mais incomodarei você ou Hooker sobre o assunto.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down, 26 [junho de 1858].

Meu caro Lyell,

Perdoe-me por adicionar um P.S. para tornar o caso o mais forte possível contra mim mesmo.

Wallace poderia dizer: "Você não pretendia publicar um resumo de suas visões até receber minha comunicação. É justo tirar vantagem de eu ter livremente, embora não solicitado, comunicado a você minhas ideias, e assim me impedir de superá-lo?" A vantagem que eu tiraria sendo que sou induzido a publicar por saber privadamente que Wallace está no campo. Parece difícil para mim que eu seja assim compelido a perder minha prioridade de muitos anos, mas não consigo ter certeza de que isso altera a justiça do caso. As primeiras impressões geralmente estão certas, e eu a princípio pensei que seria desonroso para mim publicar agora.

Seu muito sinceramente, C. DARWIN.

P.S. — Sempre pensei que você faria um excelente Lorde Chanceler; e agora apelo a você como um Lorde Chanceler.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, terça-feira [29 de junho de 1858].

...Recebi suas cartas. Não posso pensar agora (Tão logo após a morte, por escarlatina, de seu filho pequeno.) sobre o assunto, mas em breve pensarei. Mas posso ver que você agiu com mais gentileza, e assim fez Lyell, do que eu poderia ter esperado de ambos, muito gentis como vocês são.

Posso facilmente conseguir que minha carta a Asa Gray seja copiada, mas é curta demais.

...Deus te abençoe. Você saberá em breve, assim que eu puder pensar.

Seu afetuosamente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Noite de terça-feira [29 de junho de 1858].

Meu caro Hooker,

Acabei de ler sua carta e vejo que você quer os papéis imediatamente. Estou completamente prostrado e não posso fazer nada, mas envio Wallace e o resumo ("Resumo" é usado aqui no sentido de "extrato"; neste sentido também ocorre no 'Jornal Lineano', onde as fontes do artigo de meu pai são descritas.) da minha carta a Asa Gray, que dá de forma muito imperfeita apenas os meios de mudança, e não toca nas razões para acreditar que as espécies realmente mudam. Ouso dizer que tudo é tarde demais. Mal me importo com isso. Mas você é generoso demais para sacrificar tanto tempo e gentileza. É muito generoso, muito gentil. Envio meu esboço de 1844 apenas para que você possa ver, pela sua própria caligrafia, que você o leu. Realmente não consigo suportar olhar para ele. Não perca muito tempo. É miserável da minha parte me importar com a prioridade.

O índice mostrará o que é.

Eu faria um esboço semelhante, mas mais curto e preciso, para o 'Jornal Lineano'.

Farei qualquer coisa. Deus te abençoe, meu caro e gentil amigo.

Não posso escrever mais. Envio isto pelo meu criado para Kew.

Seu, C. DARWIN.

[A carta a seguir é aquela já referida como formando parte do artigo conjunto publicado no 'Jornal' da Sociedade Lineana, 1858]:--

CHARLES DARWIN PARA ASA GRAY. Down, 5 de setembro [1857]. (A data é dada como outubro no 'Jornal Lineano'. Os extratos foram impressos a partir de uma cópia duplicada sem data em posse de meu pai, na qual ele havia escrito: "Isto foi enviado a Asa Gray há 8 ou 9 meses, creio que em outubro de 1857.")

Meu caro Gray,

Esqueço as palavras exatas que usei na minha carta anterior, mas ouso dizer que afirmei que pensava que você me desprezaria totalmente quando lhe contasse a que pontos de vista eu tinha chegado, o que fiz porque achava que, como um homem honesto, era meu dever fazê-lo. Teria sido um mortal estranho, vendo o quanto devo à sua gentileza extraordinária, se, ao dizer isto, tivesse a intenção de atribuir a você o menor sentimento ruim. Permita-me dizer-lhe que, antes mesmo de ter correspondido com você, Hooker me mostrou várias de suas cartas (não de natureza privada), e estas me deram o mais caloroso sentimento de respeito por você; e eu seria, de fato, ingrato se suas cartas para mim, e tudo o que ouvi a seu respeito, não tivessem realçado fortemente este sentimento. Mas não me senti nem um pouco seguro de que, quando você soubesse para onde eu estava tendendo, você não pudesse me achar tão selvagem e tolo em minhas opiniões (Deus sabe, chegadas a elas lentamente o suficiente, e espero que conscientemente), que você não me acharia digno de mais nenhuma atenção ou assistência. Para dar um exemplo: a última vez que vi meu querido e velho amigo Falconer, ele me atacou vigorosamente, mas de forma muito gentil, e me disse: "Você fará mais mal do que qualquer dez naturalistas farão de bem. Posso ver que você já CORROMPEU e quase estragou Hooker!!". Agora, quando vejo tal sentimento forte nos meus amigos mais antigos, você não precisa se admirar que eu sempre espere que minhas opiniões sejam recebidas com desprezo. Mas chega, e é demais sobre isto.

Agradeço-lhe muito sinceramente pelo espírito gentil de sua última carta. Concordo com cada palavra nela, e acho que vou tão longe quanto quase qualquer um ao ver as graves dificuldades contra minha doutrina. Com respeito à extensão em que vou, todos os argumentos a favor de minhas noções caem RAPIDAMENTE, quanto maior o escopo das formas consideradas. Mas nos animais, a embriologia me leva a um alcance enorme e assustador. Os fatos que me mantiveram cientificamente ortodoxo por mais tempo são aqueles da adaptação — as massas de pólen em asclepias — o visco, com seu pólen transportado por insetos, e semente por pássaros — o pica-pau, com seus pés e cauda, bico e língua, para subir na árvore e garantir insetos. Falar de clima ou hábito lamarckiano produzindo tais adaptações a outros seres orgânicos é fútil. Esta dificuldade creio ter superado. Como você parece interessado no assunto, e como é uma vantagem IMENSA para mim escrever para você e ouvir, por mais brevemente que seja, o que você pensa, anexarei (copiado, para poupar-lhe o trabalho de leitura) o mais breve resumo de minhas noções sobre os meios pelos quais a Natureza faz suas espécies. Por que penso que as espécies realmente mudaram, depende de fatos gerais nas afinidades, embriologia, órgãos rudimentares, história geológica e distribuição geográfica dos seres orgânicos. Em relação ao meu Resumo, você deve aceitar imensamente por fé, cada parágrafo ocupando um ou dois capítulos no meu livro. Você, talvez, achará mesquinho da minha parte, quando lhe peço para não mencionar minha doutrina; a razão é que, se alguém, como o autor de 'Vestiges', ouvisse falar delas, poderia facilmente incorporá-las, e então eu teria que citar uma obra talvez desprezada pelos naturalistas, e isso prejudicaria muito qualquer chance de minhas visões serem recebidas apenas por aqueles cujas opiniões eu valorizo. [Aqui segue uma discussão sobre "grandes gêneros variando", que não tem conexão direta com o restante da carta.]

I. É maravilhoso o que o princípio da Seleção pelo Homem, isto é, a escolha de indivíduos com qualquer qualidade desejada, e a criação a partir deles, e novamente a escolha, pode fazer. Mesmo os criadores ficaram espantados com seus próprios resultados. Eles podem agir sobre diferenças inapreciáveis para um olho não educado. A seleção tem sido METODICAMENTE seguida na Europa apenas no último meio século. Mas tem sido ocasionalmente, e até certo ponto metodicamente, seguida nos tempos mais antigos. Deve ter havido também uma espécie de seleção inconsciente desde os tempos mais antigos, a saber, na preservação dos animais individuais (sem qualquer pensamento sobre sua prole) mais úteis a cada raça de homem em suas circunstâncias particulares. A "roguing", como os viveiristas chamam a destruição das variedades que se desviam do seu tipo, é um tipo de seleção. Estou convencido de que a seleção intencional e ocasional tem sido o principal agente na criação de nossas raças domésticas. Mas, seja como for, seu grande poder de modificação tem sido indiscutivelmente mostrado nos últimos tempos. A seleção age apenas pela acumulação de variações muito leves ou maiores, causadas por condições externas, ou pelo simples fato de que, na geração, o filho não é absolutamente semelhante ao seu pai. O homem, por este poder de acumular variações, adapta os seres vivos às suas necessidades — PODE-SE DIZER que ele faz a lã de uma ovelha boa para tapetes, e a de outra para pano, etc.

II. Agora, suponha que houvesse um ser, que não julgasse pela mera aparência externa, mas pudesse estudar toda a organização interna — que nunca fosse caprichoso — que continuasse selecionando para um fim durante milhões de gerações, quem dirá o que ele não poderia efetuar! Na natureza, temos algumas LEVES variações, ocasionalmente em todas as partes: e acho que pode ser demonstrado que uma mudança nas condições de existência é a causa principal de o filho não se assemelhar exatamente aos seus pais; e na natureza, a geologia nos mostra que mudanças ocorreram, e estão ocorrendo. Temos tempo quase ilimitado: ninguém, exceto um geólogo prático, pode apreciar isso plenamente: pense no período Glacial, durante todo o qual as mesmas espécies de conchas pelo menos existiram; deve ter havido durante este período, milhões e milhões de gerações.

III. Acho que pode ser demonstrado que existe um tal poder infalível em ação, ou SELEÇÃO NATURAL (o título do meu livro), que seleciona exclusivamente para o bem de cada ser orgânico. O velho De Candolle, W. Herbert e Lyell escreveram fortemente sobre a luta pela vida; mas mesmo eles não escreveram fortemente o suficiente. Reflita que cada ser (até mesmo o elefante) se reproduz a tal taxa que, em poucos anos, ou no máximo em poucos séculos ou milhares de anos, a superfície da terra não comportaria a prole de qualquer espécie. Achei difícil manter constantemente em mente que o aumento de cada espécie individual é controlado durante alguma parte de sua vida, ou durante alguma geração recorrente. Apenas alguns daqueles que nascem anualmente podem viver para propagar sua espécie. Que diferença trivial deve determinar frequentemente qual sobreviverá e qual perecerá.

IV. Agora, considere o caso de um país passando por alguma mudança; isso tenderá a fazer com que alguns de seus habitantes variem ligeiramente; não que eu acredite que a maioria dos seres varia o tempo todo o suficiente para que a seleção aja sobre eles. Alguns de seus habitantes serão exterminados, e os restantes serão expostos à ação mútua de um conjunto diferente de habitantes, o que acredito ser mais importante para a vida de cada ser do que o mero clima. Considerando as formas infinitamente variadas que os seres têm para obter alimento lutando com outros seres, para escapar do perigo em vários momentos da vida, para ter seus ovos ou sementes disseminados, etc., etc., não posso duvidar que, durante milhões de gerações, indivíduos de uma espécie nascerão com alguma variação leve vantajosa para alguma parte de sua economia; tais terão uma chance melhor de sobreviver, propagando esta variação, que por sua vez será lentamente aumentada pela ação cumulativa da seleção natural; e a variedade assim formada coexistirá com, ou mais comumente, exterminará sua forma ancestral. Um ser orgânico como o pica-pau, ou o visco, pode assim chegar a ser adaptado a uma série de contingências; a seleção natural, acumulando aquelas leves variações em todas as partes de sua estrutura que são de alguma forma úteis para ele, durante qualquer parte de sua vida.

V. Dificuldades multiformes ocorrerão a todos nesta teoria. A maioria pode, creio eu, ser satisfatoriamente respondida. — "Natura non facit saltum" responde a algumas das mais óbvias. A lentidão da mudança, e apenas um número muito pequeno passando por mudança de cada vez, responde a outras. As extremas imperfeições dos nossos registros geológicos respondem a outras.

VI. Um outro princípio, que pode ser chamado de princípio da divergência, desempenha, acredito, um papel importante na origem das espécies. O mesmo local suportará mais vida se ocupado por formas muito diversas: vemos isso nas muitas formas genéricas em um metro quadrado de gramado (eu contei vinte espécies pertencentes a dezoito gêneros), ou nas plantas e insetos, em qualquer pequena ilhota uniforme, pertencentes a quase tantos gêneros e famílias quanto espécies. Podemos entender isso com os animais superiores, cujos hábitos entendemos melhor. Sabemos que foi demonstrado experimentalmente que um terreno renderá um peso maior, se plantado com várias espécies de gramíneas, do que com duas ou três espécies. Agora, cada ser orgânico individual, ao se propagar rapidamente, pode ser dito estar se esforçando ao máximo para aumentar em número. Assim será com a prole de qualquer espécie depois que ela se dividiu em variedades, ou subespécies, ou espécies verdadeiras. E segue-se, penso eu, dos fatos anteriores, que a prole variante de cada espécie tentará (apenas alguns conseguirão) tomar posse de tantos e tão diversos lugares na economia da natureza quanto possível. Cada nova variedade ou espécie, quando formada, geralmente ocupará o lugar de, e assim exterminará, seu ancestral menos bem adaptado. Esta, acredito, ser a origem da classificação ou arranjo de todos os seres orgânicos em todos os tempos. Estes sempre PARECEM se ramificar e se sub-ramificar como uma árvore a partir de um tronco comum; os galhos florescentes destruindo os menos vigorosos — os galhos mortos e perdidos representando rudemente gêneros e famílias extintas.

Este esboço é IMENSAMENTE imperfeito; mas em um espaço tão curto não posso torná-lo melhor. Sua imaginação deve preencher muitas lacunas amplas. Sem alguma reflexão, parecerá tudo lixo; talvez pareça assim após a reflexão.

C.D.

P.S. — Este pequeno resumo toca apenas no poder cumulativo da seleção natural, que considero, de longe, o elemento mais importante na produção de novas formas. As leis que regem a variação incipiente ou primordial (sem importância, exceto como a base para a seleção agir, aspecto em que é tudo importante), discutirei sob várias rubricas, mas só posso chegar, como você bem pode acreditar, a conclusões muito parciais e imperfeitas.

[O artigo conjunto do Sr. Wallace e de meu pai foi lido na Sociedade Lineana na noite de 1º de julho. Sir Charles Lyell e Sir J.D. Hooker estavam presentes, e ambos, acredito, fizeram algumas observações, principalmente com o intuito de impressionar os presentes sobre a necessidade de dar a consideração mais cuidadosa ao que tinham ouvido. Não houve, contudo, qualquer semblante de discussão. Sir Joseph Hooker escreve-me: "O interesse despertado foi intenso, mas o assunto era novo demais e sinistro demais para a velha escola entrar na disputa, antes de se armar. Após a reunião, comentou-se com a respiração suspensa: a aprovação de Lyell, e talvez em pequena escala a minha, como seu tenente no assunto, intimidou um pouco os Membros, que de outra forma teriam se voltado contra a doutrina. Tínhamos, também, a vantagem de estar familiarizados com os autores e seu tema."]

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 5 de julho [1858].

Meu caro Hooker,

Tornamo-nos mais felizes e menos aterrorizados, agora que mandamos embora de casa todas as crianças, e removeremos H. assim que ela puder se mover. A primeira enfermeira adoeceu com garganta ulcerada e angina, e a segunda está agora doente com escarlatina, mas, graças a Deus, está se recuperando. Você pode imaginar o quanto ficamos assustados. Tem sido uma quinzena muito miserável. Muito obrigado por sua nota, dizendo-me que tudo correu prosperamente na Sociedade Lineana. Você deve deixar-me dizer-lhe mais uma vez o quanto sinto sua generosa gentileza e a de Lyell nesta ocasião. Mas, na verdade, envergonha-me que você tenha perdido tempo com uma mera questão de prioridade. Estarei curioso para ver as provas. Não entendo de forma alguma se minha carta para A. Gray deve ser impressa; suponho que não, apenas sua nota; mas sou completamente indiferente, e coloco-me absolutamente nas suas mãos e nas de Lyell.

Posso facilmente preparar um resumo de todo o meu trabalho, mas dificilmente vejo como pode ser tornado científico para um Jornal, sem dar fatos, o que seria impossível. De fato, um mero resumo não pode ser muito curto. Poderia me dar alguma ideia de quantas páginas do Jornal poderiam ser provavelmente poupadas para mim?

Logo após meu retorno para casa, começaria e cortaria meu tecido de acordo com minha medida. Se os Árbitros o rejeitassem por não ser estritamente científico, eu poderia, talvez, publicá-lo como um panfleto.

Com relação ao meu grande resumo intercalado (O Esboço de 1844), você enviaria a qualquer momento antes de deixar a Inglaterra, para o endereço anexo? Se você não for até 7-10 de agosto, eu preferiria que ficasse com você. Espero que você tenha anotado críticas no meu manuscrito sobre grandes Gêneros, etc., o suficiente para fazer você se lembrar de suas observações, pois eu ficaria infinitamente triste em perdê-las. E não vejo chance de nos encontrarmos se você for logo para o exterior. Agradecemos-lhe cordialmente pelo convite para nos juntarmos a você: não consigo imaginar nada que eu desfrutasse mais; mas nossos filhos são delicados demais para deixarmos; eu seria apenas um estorvo vivo.

Por último, você disse que escreveria para Wallace; eu certamente gostaria muito disso, pois isso me exoneraria completamente: se você me enviasse sua nota, selada, eu a encaminharia com a minha, pois sei o endereço, etc.

Você me responderá alguma hora sobre suas noções do comprimento do meu resumo.

Se você vir Lyell, diga a ele o quanto me sinto verdadeiramente grato pelo seu interesse gentil neste meu caso. Você deve saber que considero isso, como muito importante, para a recepção da visão de que as espécies não são imutáveis, o fato de o maior Geólogo e Botânico da Inglaterra tomar QUALQUER TIPO DE INTERESSE no assunto: tenho certeza de que fará muito para derrubar preconceitos.

Atenciosamente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Miss Wedgwood's, Hartfield, Tunbridge Wells, [13 de julho de 1858].

Meu caro Hooker,

Sua carta para Wallace me parece perfeita, muito clara e muito cortês. Não acho que pudesse ser melhorada, e hoje a encaminhei com uma carta minha. Sempre achei muito possível que eu pudesse ser superado, mas imaginei que tinha uma alma grande o suficiente para não me importar; mas descobri que estava enganado e punido; eu, no entanto, tinha me resignado completamente, e tinha escrito metade de uma carta para Wallace para abrir mão de toda prioridade para ele, e certamente não teria mudado se não fosse pela gentileza extraordinária de Lyell e sua. Garanto-lhe que a sinto, e não a esquecerei. Estou MAIS do que satisfeito com o que aconteceu na Sociedade Lineana. Eu tinha pensado que sua carta e a minha para Asa Gray seriam apenas um apêndice ao artigo de Wallace.

Vamos daqui em poucos dias para o litoral, provavelmente para a Ilha de Wight, e no meu retorno (após uma batalha com esqueletos de pombos) começarei a trabalhar no resumo, embora como na terra farei algo de um resumo em trinta páginas do Jornal, não sei, mas tentarei o meu melhor. Vou encomendar Bentham; não é uma pena que você perca tempo tabulando variedades? pois posso conseguir que o mestre-escola de Down o faça no meu retorno, e posso lhe dizer todos os resultados.

Devo tentar vê-lo antes de sua viagem; mas não pense que estou pescando para pedir que você venha a Down, pois você não terá tempo para isso.

Você não pode imaginar como estou satisfeito que a noção de Seleção Natural tenha agido como um purgativo em suas entranhas de imutabilidade. Sempre que os naturalistas puderem ver as espécies mudando como certas, que campo magnífico será aberto, — sobre todas as leis da variação, — sobre a genealogia de todos os seres vivos, — sobre suas linhas de migração, etc., etc. Por favor, agradeça à Sra. Hooker por sua pequena nota muito gentil, e por favor, diga o quanto estou verdadeiramente obrigado, e na verdade envergonhado de pensar que ela tenha tido o trabalho de copiar meu manuscrito feio. Foi extraordinariamente gentil da parte dela. Adeus, meu querido e gentil amigo.

Atenciosamente, C. DARWIN.

P.S. — Tive um pouco de diversão aqui observando uma formiga fazedora de escravas; pois não pude evitar duvidar um pouco das histórias maravilhosas, mas agora vi um grupo de pilhagem derrotado, e vi uma migração de um ninho para outro das fazedoras de escravas, carregando seus escravos (que são CASA, e não escravos de campo) em suas bocas!

Estou inclinado a pensar que é uma verdadeira generalização que, quando o mel é secretado em um ponto do círculo da corola, se o pistilo se dobra, ele sempre se dobra na linha da passagem para o mel. A Espora-de-cavaleiro é um bom exemplo, em contraste com a Columbina, — se você pensar nisso, preste atenção neste pequeno ponto.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. King's Head Hotel, Sandown, Ilha de Wight, 18 de julho [1858].

...Estamos estabelecidos aqui por dez dias, e depois seguiremos para Shanklin, o que parece mais divertido para alguém, como eu, que não pode andar. Esperamos muito que o mar faça bem a H. e L. E se fizer, nossa expedição responderá, mas não de outra forma.

Nunca agradeci pela metade por todo o trabalho extraordinário e gentileza que você me mostrou sobre o caso de Wallace. Hooker me contou o que foi feito na Sociedade Lineana, e estou muito mais do que satisfeito, e não acho que Wallace possa pensar que minha conduta é injusta ao permitir que você e Hooker façam o que acharam justo. Certamente fiquei um pouco irritado por perder toda a prioridade, mas tinha me resignado ao meu destino. Vou preparar um resumo mais longo; mas é realmente impossível fazer justiça ao assunto, exceto dando os fatos nos quais cada conclusão se baseia, e isso será, é claro, absolutamente impossível. Seu nome e o nome de Hooker aparecendo como minimamente interessados no meu trabalho terá, tenho certeza, a influência mais importante em levar as pessoas a considerar o assunto sem preconceito. Considero isso tão importante, que estou quase feliz pelo artigo de Wallace ter levado a isso.

Meu caro Lyell, muito grato, CH. DARWIN.

[A seguinte carta refere-se às provas de impressão do artigo Lineano. A 'introdução' significa a carta prefatória assinada por Sir C. Lyell e Sir J.D. Hooker.]

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. King's Head Hotel, Sandown, Ilha de Wight, 21 de julho [1858].

Meu caro Hooker,

Recebi apenas ontem as provas de impressão, que agora devolvo. Acho que sua introdução não pode ser melhorada.

Estou desgostoso com minha escrita ruim. Não pude melhorá-la, sem reescrever tudo, o que não seria justo ou valeria a pena, já que comecei um resumo melhor para a Sociedade Lineana. Minha desculpa é que NUNCA foi destinada à publicação. Fiz apenas algumas correções no estilo; mas não posso torná-la decente, mas espero que moderadamente inteligível. Suponho que alguém corrigirá a revisão. (Eu farei?)

Poderia ter uma prova limpa para enviar a Wallace?

Ainda não considerei totalmente suas observações sobre grandes gêneros (mas sua concordância geral é de interesse da MAIS ALTA POSSÍVEL importância para mim); nem serei capaz até reler meu manuscrito; mas você pode confiar que nunca faz uma observação para mim que seja perdida por DESATENÇÃO. Estou particularmente satisfeito por você não objetar que eu declare suas objeções de forma modificada, pois elas sempre me pareceram muito importantes, e como tendo muito valor inerente, fossem ou não fatais para minhas noções. Vou considerar e reconsiderar todas as suas observações...

Encomendei Bentham, pois, como diz —, será muito curioso ver uma Flora escrita por um homem que não conhece nada das plantas britânicas!!

Estou muito contente com o que você diz sobre meu Resumo, mas pode confiar que condensarei ao máximo. Eu ajudaria com dinheiro se ele estiver longo demais. (Isto é, ele ajudaria a pagar a impressão, se provasse ser longo demais para a Sociedade Lineana.) De quantas maneiras você me ajudou!

Afetuosamente seu, C. DARWIN.

[O 'Resumo' mencionado na última frase da carta precedente era, de fato, a 'Origem das Espécies', na qual ele agora começava a trabalhar. Em sua 'Autobiografia', ele fala de começar a escrever em setembro, mas em seu Diário ele escreveu: "20 de julho a 12 de agosto, em Sandown, comecei o Resumo do livro das Espécies". "16 de setembro, Recomecei o Resumo". O livro foi iniciado com a ideia de que seria publicado como um artigo, ou série de artigos, pela Sociedade Lineana, e foi apenas no final do outono que ficou claro que deveria assumir a forma de um volume independente.]

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Norfolk House, Shanklin, Ilha de Wight, sexta-feira [30 de julho de 1858].

Meu caro Hooker,

Você poderia entregar o bilhete anexo a Sir William para agradecê-lo por sua gentileza; e isso me dá uma desculpa para me divertir escrevendo-lhe uma nota, que não requer resposta.

Este é um lugar muito encantador, e conseguimos uma casa muito confortável. Mas, infelizmente, não posso dizer que o mar fez muito bem a H. ou L. Nem meu estômago se recuperou de todos os nossos problemas. Fico muito feliz por termos saído de casa, pois seis crianças morreram agora de escarlatina em Down. Retornamos no dia 14 de agosto.

Peguei Bentham ('British Flora') e estou encantado com ele, e William (que acabou de partir para uma viagem ao exterior) tem identificado todos os tipos de plantas novas (para mim) de forma brilhante. Os pequenos fragmentos de informação são tão excelentes... Os nomes em inglês nas chaves analíticas nos deixam loucos: coloque-os, sem dúvida, mas por que raios [não] torná-los subordinados aos latinos; isso me deixa furioso. W. investiu contra as Compositae e Umbelliferae como um herói, e demoliu muitas delas em grande estilo.

Passo meu tempo fazendo diariamente algumas horas do meu Resumo, e acho um trabalho divertido e enriquecedor. Estou agora muito sinceramente grato a você e a Lyell por terem me colocado nisso; pois, quando estiver terminado, poderei concluir meu trabalho com maior facilidade e lazer. Confesso que odiava a ideia da tarefa; e agora acho muito insatisfatório não ser capaz de apresentar minhas razões para cada conclusão.

Serei mais longo do que esperava; levará trinta e cinco das minhas páginas de manuscrito para dar um resumo apenas sobre a variação sob domesticação; mas tentarei não incluir nada que não me pareça de algum interesse, e que já foi novo para mim. Parece um plano estranho dar um resumo de uma obra não publicada; no entanto, repito, estou extremamente feliz por ter começado a sério.

Espero que você e a Sra. Hooker tenham uma viagem muito, muito agradável. Adeus, meu caro Hooker.

Afetuosamente seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Norfolk House, Shanklin, Ilha de Wight, quinta-feira [5 de agosto de 1858].

Meu caro Hooker,

Eu acharia que a nota apologética sobre o estilo do resumo seria melhor como uma nota... Mas escrevo agora para pedir que me envie pelo correio o manuscrito sobre os grandes gêneros, para que eu possa fazer um resumo de um par de páginas. Presumo que você já tenha terminado com ele, caso contrário, eu não gostaria de recebê-lo de volta por nada. Se você amarrá-lo com um barbante e marcá-lo como MS. para impressão, não custará, creio eu, mais do que 4 pence. Eu gostaria muito de dizer que você leu este manuscrito e concorda; mas você ouvirá a frase antes de eu lê-la para a Sociedade.

O que você me diz depois de falar com Busk sobre o tamanho do Resumo é um ALÍVIO IMENSO para mim; tornará o trabalho bem menor, não tendo que encurtar tanto cada assunto; mas tentarei não ser difuso demais. Temo que isso estrague todo o interesse em meu livro (O livro maior, iniciado em 1856.), quando for publicado. O Resumo funcionará muito bem para ser dividido em várias partes: assim, acabei de terminar "Variação sob Domesticação", em quarenta e quatro páginas de manuscrito, e isso serviria para uma noite; mas eu ficaria extremamente triste se tudo não pudesse ser publicado junto.

O que mais você diz sobre meu Resumo me agrada muito, mas me assusta, pois temo que nunca serei capaz de torná-lo bom o suficiente. Mas como eu falo sobre meus próprios assuntos com você!

Fiquei surpreso ao ver o cartão de Sir W. Hooker aqui há dois ou três dias: infelizmente, eu estava passeando. Henslow também me escreveu, propondo vir a Down no dia 9, mas, infelizmente, não retorno até o dia 13, e minha esposa não antes de uma semana depois; então, também lamento muito pensar que não o verei, pois não gostaria de sair de casa tão cedo. Eu tinha pensado em ir a Londres e dar um pulo por uma ou duas horas em Kew...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Norfolk House, Shanklin, Ilha de Wight, [agosto] [1858].

Meu caro Hooker,

Escrevo apenas para dizer que o manuscrito chegou em segurança há dois ou três dias. Fico muito grato pela correção do estilo: acho inefavelmente difícil escrever claramente. Quando nos encontrarmos, preciso conversar sobre alguns pontos do assunto.

Você fala em ir para o litoral em algum lugar; achamos este o lugar de praia mais agradável que já vimos, e gostamos de Shanklin mais do que de outros pontos na costa sul da ilha, embora muitos sejam charmosos e mais bonitos, por isso sugeriria que pensasse neste lugar. Estamos na costa propriamente dita; mas os gostos variam muito quanto aos lugares.

Se você for a Broadstairs, quando houver um vento forte vindo da costa da França e em tempo bom, seco e quente, fique atento, e você PROVAVELMENTE (!) verá sementes de cardo sopradas através do Canal. Outro dia vi uma sendo soprada para o interior, e então, em poucos minutos, uma segunda e depois uma terceira; e eu disse a mim mesmo: Deus me abençoe, quantos cardos deve haver na França; e escrevi uma carta na imaginação para você. Mas então olhei para as nuvens BAIXAS e notei que não vinham para o interior, então temi que algo estivesse errado. Então caminhei além de um promontório e descobri que o vento era paralelo à costa, e, neste mesmo promontório, um nobre canteiro de cardos, que por cada redemoinho largo eram soprados para longe, para o mar, e depois voltavam em ângulo reto para a margem! Um dia, um número tão grande de insetos foi trazido pela maré, e trouxe à vida treze espécies de Coleoptera; não que eu suponha que estes vieram da França. Mas observe as sementes de cardo enquanto caminha ao longo da costa...

CHARLES DARWIN PARA ASA GRAY. 11 de agosto [1858].

Meu caro Gray,

Sua nota de 27 de julho acaba de chegar a mim na Ilha de Wight. É um prazer real e grande para mim escrever-lhe sobre minhas noções; e mesmo que não fosse, eu seria um cão muito ingrato, depois de toda a assistência inestimável que você me prestou, se eu não fizesse algo que você pediu.

Discuti em meu longo manuscrito as mudanças climáticas posteriores e o efeito na migração, e darei aqui um RESUMO de um RESUMO (que este último estou preparando de toda a minha obra para a Sociedade Lineana). Não posso lhe dar fatos, e devo escrever dogmaticamente, embora não me sinta assim sobre nenhum ponto. Posso apenas mencionar, para que você possa acreditar que tenho ALGUMA base para meus pontos de vista, que Hooker leu meu manuscrito, e embora a princípio tenha hesitado quanto ao meu ponto principal, desde então me disse que uma reflexão posterior e novos fatos fizeram dele um convertido.

Na era Pliocênica mais antiga, ou talvez mais recente, (um pouco ANTES da época Glacial), a temperatura era mais alta; disso pode haver pouca dúvida; a terra, em GRANDE ESCALA, mantinha quase sua disposição atual: as espécies eram principalmente, a julgar pelas conchas, o que são agora. Neste período, quando todos os animais e plantas vagavam 10 ou 15 graus mais perto dos polos, acredito que a parte norte da Sibéria e da América do Norte, sendo quase CONTÍNUA, foram povoadas (é bem possível, considerando a água rasa, que o Estreito de Behring estivesse unido, talvez um pouco mais ao sul) por uma fauna e flora quase uniformes, assim como as regiões árticas são agora. O clima então tornou-se gradualmente mais frio até se tornar o que é hoje; e então as partes temperadas da Europa e da América seriam separadas, no que diz respeito à migração, exatamente como são agora. Então veio o período Glacial, empurrando para muito longe, para o sul, todas as coisas vivas; a Europa média ou mesmo a do sul sendo povoada com produções Árticas; à medida que o calor retornava, as produções Árticas rastejavam lentamente pelas montanhas à medida que elas ficavam desprovidas de neve; e agora vemos em seus cumes os remanescentes de uma flora e fauna outrora contínuas. Esta é a teoria de E. Forbes, a qual, no entanto, posso acrescentar, eu havia escrito quatro anos antes de ele publicar.

Alguns fatos me fizeram vagamente SUSPEITAR que entre a temperatura glacial e a atual houve um período de calor LIGEIRAMENTE maior. De acordo com minhas doutrinas de modificação, vejo muitas das espécies da América do Norte que representam ESTREITAMENTE as da Europa como tendo se tornado modificadas desde o período Pliocênico, quando na parte norte do mundo havia uma comunicação quase livre entre o velho e o novo mundo. Mas agora vem uma consideração mais importante; há um conjunto considerável de evidências geológicas de que durante a época Glacial o mundo inteiro estava mais frio; deduzi isso, muitos anos atrás, a partir de fenômenos de blocos erráticos observados cuidadosamente por mim em ambas as costas leste e oeste da América do Sul. Agora, sou ousado o suficiente para acreditar que, no auge da época Glacial, E QUANDO TODAS AS PRODUÇÕES TROPICAIS DEVEM TER SIDO CONSIDERAVELMENTE AFLIGIDAS, várias formas temperadas viajaram lentamente para o coração dos Trópicos, e até chegaram ao hemisfério sul; e algumas poucas formas do sul penetraram em uma direção reversa para o norte. (Alturas de Bornéu com formas australianas, Abissínia com formas do Cabo.) Onde quer que houvesse terra ALTA quase contínua, essa migração teria sido imensamente facilitada; daí o caráter europeu das plantas da Terra do Fogo e cumes das Cordilheiras; daí o mesmo no Himalaia. À medida que a temperatura subia, todos os intrusos temperados rastejavam pelas montanhas. Daí as formas europeias nos Nilgiris, Ceilão, cume de Java, Serra dos Órgãos do Brasil. Mas esses intrusos, sendo cercados por novas formas, estariam muito sujeitos a serem melhorados ou modificados pela seleção natural, para adaptá-los às novas formas com as quais tinham que competir; daí a maioria das formas nas montanhas dos Trópicos não serem idênticas, mas formas REPRESENTATIVAS das plantas temperadas do Norte.

Existem classes semelhantes de fatos em produções marinhas. Tudo isso parecerá muito imprudente para você, e imprudente pode ser; mas tenho certeza de que não tão imprudente quanto parecerá a você à primeira vista: Hooker não conseguiu aceitar nada disso no início, mas tornou-se em grande parte um convertido. A partir dos mamíferos e do mar raso, acredito que o Japão esteve unido ao continente da China em um período não remoto; e então a migração norte e sul antes, durante e depois da época Glacial agiria sobre o Japão, como na latitude correspondente da China e dos Estados Unidos.

Eu gostaria, acima de tudo, de saber se você tem alguma coleção alpina do Japão, e qual é o seu caráter. Esta carta está miseravelmente expressa, mas talvez seja suficiente para mostrar o que acredito terem sido as últimas grandes migrações e mudanças de temperatura...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. [Down] 6 de outubro de 1858.

...Se você tiver ou puder arranjar tempo, eu gostaria muito de ouvir notícias da Sra. Hooker, de você mesmo e das crianças. Onde você foi, e o que você fez e está fazendo? Há um texto abrangente.

Você não pode imaginar como apreciei sua pequena visita aqui, fez-me muito bem. Se Harvey ainda estiver com você, por favor, lembre-me de forma muito gentil dele.

...Estou trabalhando o mais firmemente possível no meu Resumo, mas ele cresce para um comprimento exorbitante; ainda assim, para tornar minha visão clara (e nunca dando brevemente mais do que um fato ou dois, e passando por cima das dificuldades), não consigo torná-lo mais curto. Levará ainda três ou quatro meses; tão lentamente trabalho, embora nunca esteja ocioso. Você não pode imaginar que serviço me prestou ao me fazer fazer este Resumo; pois, embora eu pensasse que tinha deixado tudo claro, isso esclareceu muito meu cérebro, ao me fazer pesar a importância relativa dos vários elementos.

Tenho lido com muito interesse sua (como acredito ser) excelente memória de R. Brown na "Gardeners' Chronicle"...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 12 de outubro de [1858].

...Enviei oito cópias (Do artigo conjunto de C. Darwin e A.R. Wallace.) pelo correio para Wallace, e guardarei as outras para ele, pois não consegui pensar em ninguém para enviar.

Peço-lhe que não se pronuncie muito fortemente contra a Seleção Natural, até que tenha lido meu resumo, pois embora eu suponha que você eliminará MUITAS dificuldades, que nunca ocorreram a mim; ainda assim, você não pode ter pensado tão plenamente sobre o assunto quanto eu.

Espero que meu Resumo se torne um pequeno volume, que terá que ser publicado separadamente...

Que quantidade esplêndida de trabalho você tem em mãos.

Sempre seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 13 de outubro de [1858].

...Fiquei um pouco irritado comigo mesmo por ter pedido que você não "se pronunciasse muito fortemente contra a Seleção Natural". Sinto muito por tê-lo incomodado, embora eu tenha ficado muito interessado pela sua nota em resposta. Escrevi a frase sem reflexão. Mas a verdade é que eu me acostumei tanto, em parte por ser provocado por meus parentes não naturalistas, a esperar oposição e até desprezo, que esqueci por um momento que você é a única alma viva de quem recebi constantemente simpatia. Acredite [em mim] que nunca esqueço, nem por um minuto, quanta assistência recebi de você. Você está absolutamente correto ao dizer que nunca suspeitei que minhas especulações fossem um "pote de geleia" para você; na verdade, eu pensava, até bem pouco tempo atrás, que meu manuscrito não tinha produzido nenhum efeito em você, e isso muitas vezes me deixou perplexo. Nem eu sabia que você havia falado em termos gerais sobre meu trabalho para nossos amigos, exceto para o querido e velho Falconer, que há alguns anos me disse uma vez que eu faria mais mal do que dez outros naturalistas fariam de bem, [e] que eu já tinha estragado você pela metade! Tudo isso é uma bobagem egoísta e estúpida, e escrevo apenas porque você pode me considerar ingrato por não ter valorizado e entendido sua simpatia; o que Deus sabe que não é o caso. É um mal maldito para um homem tornar-se tão absorto em qualquer assunto como eu estou no meu.

Estive em Londres ontem por algumas horas com Falconer, e ele me deu uma palestra magnífica sobre a idade do homem. Não somos arrivistas; podemos nos gabar de uma linhagem que remonta ao passado, contemporânea de espécies extintas. Ele tem um fato grandioso de um dente molar grande no Triássico.

Estou completamente exausto e vou na próxima segunda-feira me recuperar sob o tratamento de água em Moor Park.

Meu caro Hooker, afetuosamente seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Novembro de 1858.

...Eu havia jurado não mencionar meu eterno Resumo para você novamente, pois tenho certeza de que o incomodei muito mais do que o suficiente sobre ele; mas, como você alude à sua publicação anterior, posso dizer que tenho os capítulos sobre Instinto e Hibridismo para resumir, o que pode levar quinze dias cada; e meus materiais para Paleontologia, Distribuição Geográfica e Afinidades, sendo menos trabalhados, arrisco dizer que cada um levará três semanas, então não terminarei, no mínimo, até abril, e então meu Resumo, em volume, formará um pequeno livro. Nunca dou mais do que um ou dois exemplos, e passo brevemente por todas as dificuldades, e ainda assim não consigo tornar meu Resumo mais curto, para ser satisfatório, do que estou fazendo agora, e ainda assim ele se expandirá para um pequeno volume...

[Por volta desta época, meu pai reviveu seu antigo conhecimento sobre besouros ao ajudar seus filhos em suas coleções. Ele enviou um curto aviso ao 'Entomologist's Weekly Intelligencer', 25 de junho de 1859, registrando a captura de Licinus silphoides, Clytus mysticus, Panagaeus 4-pustulatus. O aviso começa com as palavras: "Nós três, colecionadores muito jovens, tendo recentemente capturado na paróquia de Down", etc., e é assinado por três de seus meninos, mas claramente não foi escrito por eles. Tenho uma lembrança vívida do prazer de esvaziar meu frasco de besouros mortos para meu pai nomear, e a empolgação, na qual ele participava plenamente, quando qualquer um deles se mostrava incomum. As seguintes cartas ao Sr. Fox (13 de novembro de 1858) e a Sir John Lubbock ilustram este ponto:]

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Down, 13 de novembro de [1858].

...W., meu filho, está agora no Christ's College, nos quartos acima dos seus. Meu antigo servo, Impey, ficou pasmo ao ouvir que ele era meu filho, e perguntou de forma muito ingênua: "Ora, ele é casado há muito tempo?" Que horas agradáveis eram aquelas em que eu costumava vir tomar café com você diariamente! Lembro-me dos velhos tempos por meu terceiro filho ter acabado de começar a colecionar besouros, e ele capturou outro dia o Brachinus crepitans, de imortal memória de Whittlesea Mere. Meu sangue ferveu com o antigo ardor quando ele capturou um Licinus — um prêmio desconhecido para mim...

CHARLES DARWIN PARA JOHN LUBBOCK. Quinta-feira [antes de 1857].

Caro Lubbock,

Não sei se você se importa com besouros, mas pela chance envio este em um frasco, que não me lembro de ter visto; embora seja excessivamente imprudente falar de uma lembrança de vinte e cinco anos atrás. Sempre que nos encontrarmos, você pode me dizer se o conhece...

Sinto-me como um velho cavalo de guerra ao som da trombeta, quando leio sobre a captura de besouros raros — não é este um símile magnânimo para um entomologista decadente? — Isso realmente quase me faz desejar começar a colecionar novamente. Adios.

"Floreat Entomologia"! — brinde ao qual, em Cambridge, bebi muitos copos de vinho. Então, novamente, "Floreat Entomologia". N.B. Não estive bebendo copos cheios de vinho agora.

Seu, C.D.

CHARLES DARWIN PARA HERBERT SPENCER. Down, 25 de novembro de [1858].

Caro senhor,

Peço permissão para agradecer sinceramente pelo seu presente muito gentil de seus Ensaios. ('Essays, Scientific, Political, and Speculative', por Herbert Spencer, 1858-74.) Já li vários deles com muito interesse. Suas observações sobre o argumento geral da chamada teoria do desenvolvimento parecem-me admiráveis. Estou atualmente preparando um Resumo de um trabalho maior sobre as mudanças das espécies; mas trato o assunto simplesmente como um naturalista, e não de um ponto de vista geral, caso contrário, na minha opinião, seu argumento não poderia ter sido melhorado, e poderia ter sido citado por mim com grande vantagem. Seu artigo sobre Música também me interessou muito, pois eu tinha pensado frequentemente no assunto, e cheguei a quase a mesma conclusão que você, embora incapaz de apoiar a noção em qualquer detalhe. Além disso, por uma coincidência curiosa, a expressão tem sido durante anos um assunto persistente comigo para especulação LIVRE, e devo concordar inteiramente com você que toda expressão tem algum significado biológico. Espero lucrar com sua crítica sobre o estilo, e com meus melhores agradecimentos, peço permissão para permanecer, caro senhor,

Atenciosamente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 24 de dezembro [1858].

Meu caro Hooker,

A sua notícia sobre o seu salário e casa não solicitados é alegre e louvável da parte do Governo. O meu quarto (28 x 19 pés), com um cômodo dividido acima, com TODAS AS INSTALAÇÕES (e pintado), não mobiliado, e rebocado por fora, custou cerca de 500 libras. Fico sinceramente contente com esta notícia.

Os seus fatos sobre a distribuição são, de fato, muito impressionantes. Lembro-me bem de que nenhum dos seus muitos fatos maravilhosos, em suas diversas obras, me deixou mais perplexo, durante anos, do que a migração ter sido principalmente de norte para sul, e não na direção inversa. Agora, finalmente, convenci a MIM MESMO (mas isso é muito diferente de convencer os outros) a este respeito; mas seria necessário um pequeno volume para me explicar completamente. Não percebi por muito tempo o alcance de uma conclusão a que havia chegado com relação a este assunto. É que as espécies que habitam uma área muito grande, e, portanto, existentes em grande número, e que foram submetidas à competição mais severa com muitas outras formas, terão chegado, através da seleção natural, a um estágio superior de perfeição do que os habitantes de uma área pequena. Assim, explico o fato de tantas anomalias, ou o que pode ser chamado de "fósseis vivos", habitarem agora apenas água doce, tendo sido expulsos e exterminados no mar por formas mais aprimoradas; assim, todos os peixes Ganoides existentes são de água doce, como [são] Lepidosiren e Ornithorhynchus, etc. As plantas da Europa e da Ásia, por constituírem o maior território, considero como as mais "aprimoradas" e, portanto, capazes de resistir às plantas australianas menos aperfeiçoadas; [enquanto] estas não puderam resistir às indianas. Veja como todas as produções da Nova Zelândia cedem às da Europa. Ouso dizer que você achará tudo isso uma tolice absoluta, mas acredito ser a mais pura verdade.

Você, penso eu, admitirá que o fato de as plantas australianas florescerem tanto na Índia não é argumento de que poderiam manter-se contra as dez mil contingências naturais de outras plantas, insetos, animais, etc., etc. Com relação ao Sudoeste da Austrália e ao Cabo, estou de mãos atadas e só posso amaldiçoar todo o caso.

...Você diz que gostaria de ver o meu manuscrito, mas você leu e aprovou o meu longo capítulo Glacial, e ainda não escrevi o meu Resumo sobre toda a Distribuição Geográfica, nem o começarei por duas ou três semanas. Mas, seja o Resumo ou o antigo manuscrito, eu ficaria ENCANTADO em lhe enviar, especialmente o capítulo do Resumo...

Já escrevi 330 páginas em fólio do meu resumo, e serão necessárias 150-200 [mais]; de modo que resultará em um volume impresso de 400 páginas, e deve ser impresso separadamente, o que penso ser melhor em muitos aspectos. O assunto realmente me parece vasto demais para discussão em qualquer Sociedade, e creio que a religião seria introduzida por homens que conheço.

Estou pensando em um volume em 12mo, como a quarta ou quinta edição dos 'Princípios' de Lyell...

Escrevi-lhe uma nota escandalosamente longa. Então, agora, adeus, meu caro Hooker,

Sempre seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 20 de janeiro de 1859.

Meu caro Hooker,

Eu gostaria muito de tomar Heer emprestado em algum momento futuro, pois não quero ler nada desconcertante no momento, até que meu Resumo esteja concluído. A sua última carta, muito instrutiva, fará com que eu seja muito cauteloso quanto aos pontos hiper-especulativos que temos discutido.

Quando você diz que não consegue dominar o encadeamento de pensamentos, sei muito bem que eles são duvidosos e obscuros demais para serem dominados. Frequentemente experimentei o que você chama de sentimento humilhante de ficar cada vez mais envolvido em dúvidas quanto mais se pensa nos fatos e no raciocínio sobre pontos duvidosos. Mas sempre me conforto pensando no futuro, e na plena crença de que os problemas nos quais estamos apenas começando a entrar serão um dia resolvidos; e se apenas abrirmos o caminho, teremos prestado algum serviço, mesmo que não colhamos nenhuma colheita.

Concordo plenamente que só diferimos em GRAU sobre os meios de dispersão, e isso, penso eu, é uma quantidade satisfatória de concordância. Você coloca de uma maneira muito impressionante a mutação dos nossos continentes, e concordo plenamente; duvido apenas quanto aos nossos oceanos.

Também concordo (estou em um estado de espírito muito concordante) com o seu argumentum ad hominem sobre a superioridade da Flora Australiana devido ao número de espécies e gêneros; mas aqui entra um elemento de dúvida superlativo e incômodo, a saber, o efeito do isolamento.

O único ponto em que PRESUNÇOSAMENTE discordo um pouco é sobre o status das plantas naturalizadas na Austrália. Acho que Muller fala sobre elas terem se espalhado amplamente para além do solo cultivado; e dificilmente posso acreditar que as nossas plantas europeias ocupariam estações tão áridas que as plantas nativas não pudessem viver nelas. Eu exigiria muitas evidências para me fazer acreditar nisso. Escrevi esta nota apenas para agradecê-lo, pois, como verá, não requer resposta.

Ouvi, para meu espanto, esta manhã de Phillips, que o Conselho Geológico me concedeu a Medalha Wollaston!!!

Sempre seu, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 23 de janeiro de 1859.

...Envio cartas de Wallace para você e para mim. Admiro extremamente o espírito com que foram escritas. Nunca me senti muito seguro sobre o que ele diria. Ele deve ser um homem amável. Por favor, devolva-me isso, e Lyell deve ser informado de quão satisfeito ele está. Estas cartas trouxeram vividamente diante de mim o quanto devo à conduta muito gentil e generosa sua e de Lyell em todo este assunto.

...Como ficarei contente quando o Resumo estiver terminado e eu puder descansar!...

CHARLES DARWIN A A.R. WALLACE. Down, 25 de janeiro [1859].

Meu caro Senhor,

Fiquei extremamente satisfeito ao receber, há três dias, a sua carta para mim e a dirigida ao Dr. Hooker. Permita-me dizer o quanto admiro sinceramente o espírito com que foram escritas. Embora eu não tenha tido absolutamente nada a ver em levar Lyell e Hooker ao que consideraram um curso de ação justo, naturalmente não pude deixar de me sentir ansioso para ouvir qual seria a sua impressão. Devo indiretamente muito a você e a eles; pois quase penso que Lyell teria se mostrado certo, e eu nunca teria completado a minha obra maior, pois achei o meu Resumo difícil o suficiente com a minha saúde precária, mas agora, graças a Deus, estou no meu penúltimo capítulo. O meu Resumo formará um pequeno volume de 400 ou 500 páginas. Sempre que for publicado, enviarei, naturalmente, uma cópia para você, e então você verá o que quero dizer sobre o papel que acredito que a seleção desempenhou nas produções domésticas. É um papel muito diferente, como você supõe, daquele desempenhado pela "Seleção Natural". Enviei, pelo mesmo endereço desta nota, uma cópia do 'Journal of the Linnean Society', e posteriormente enviei cerca de meia dúzia de cópias do artigo. Tenho muitas outras cópias à sua disposição...

Fico contente em saber que você tem se dedicado aos ninhos de pássaros. Eu o fiz, embora quase exclusivamente sob um ponto de vista, a saber, para mostrar que os instintos variam, para que a seleção pudesse atuar sobre eles e melhorá-los. Poucos outros instintos, por assim dizer, podem ser preservados em um Museu.

Muito obrigado pela sua oferta de cuidar das listras dos cavalos; se houver algum burro, por favor, adicione-os. Fico encantado ao saber que você colecionou favos de abelhas... Este é um passatempo especial meu, e acho que posso lançar uma luz sobre o assunto. Se você puder coletar duplicatas, sem grandes despesas, eu ficaria feliz com alguns espécimes para mim, com algumas abelhas de cada tipo. Favos jovens, em crescimento e irregulares, e aqueles que não tiveram pupas, são os mais valiosos para medições e exame. Suas bordas devem ser bem protegidas contra abrasão.

Todos com quem falei acharam o seu artigo muito bem escrito e interessante. Ele coloca os meus extratos (escritos em 1839, agora há apenas vinte anos!), que devo dizer em desculpa que nunca, por um instante, foram destinados à publicação, na sombra.

Você pergunta sobre o estado de espírito de Lyell. Acho que ele está um pouco atordoado, mas não se rende, e fala com horror, muitas vezes para mim, sobre que coisa seria, e que trabalho seria para a próxima edição de 'Os Princípios', se ele fosse "PERvertido". Mas ele é muito franco e honesto, e acho que acabará sendo PERvertido. O Dr. Hooker tornou-se quase tão heterodoxo quanto você ou eu, e considero Hooker, DE LONGE, o juiz mais capaz da Europa.

Desejo-lhe, de todo o coração, saúde e sucesso total em todas as suas buscas e, Deus sabe, se zelo e energia admiráveis merecem sucesso, você os merece amplamente. Considero a minha própria carreira quase terminada. Se eu conseguir publicar o meu Resumo e talvez a minha obra maior sobre o mesmo assunto, considerarei o meu curso concluído.

Acredite em mim, meu caro senhor, seu muito sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 2 de março [1859].

Meu caro Hooker,

Aqui está um fato estranho, embora muito pequeno. Acho que seria quase impossível nomear um pássaro que aparentemente pudesse ter menos a ver com a distribuição do que um Petrel. Sir W. Milner, em St. Kilda, abriu alguns Petréis recém-nascidos e encontrou nozes grandes e curiosas em seus papos; suspeito que tenham sido recolhidas pelos pássaros pais da corrente do Golfo. Ele parece valorizar essas nozes excessivamente. Pedi-lhe (embora duvide que o fará) para enviar uma noz a Sir William Hooker (dei este endereço por uma questão de grandeza) para ver se algum de vocês pode nomeá-la e ao seu país de origem. Por favor, MENCIONE isso a Sir William Hooker e, se a noz chegar, você me faria o favor de devolvê-la a "Sir W. Milner, Bart., Nunappleton, Tadcaster", em uma carta registrada, e eu lhe reembolsarei o porte postal. Inclua um pedaço de papel com o nome e o país, se puder, e me informe posteriormente. Perdoe-me por lhe pedir que se dê a esse trabalho; pois é um fato engraçado e pequeno, muito do meu agrado.

Agora para outro assunto. Terminei o meu Resumo do capítulo sobre Distribuição Geográfica, conforme se relaciona ao meu assunto. Eu gostaria muito que você o lesse; mas digo isso acreditando que você não o fará se, como acredito ser o caso, você estiver extremamente ocupado. Em minha honra, não ficarei mortificado, e peço-lhe seriamente que não o faça se isso o incomodar. Quero que o faça porque aqui me sinto especialmente inseguro, e erros podem ter se infiltrado. Além disso, eu gostaria muito de saber a quais partes você se oporá MAIS VEEMENTEMENTE. Sei que diferimos, e devemos diferir, amplamente em vários pontos. Por último, gostaria particularmente de saber se tomei algo de você que você gostaria de reter para uma primeira publicação; mas penso que tomei principalmente de suas obras publicadas e, embora tenha várias vezes, neste capítulo e em outros lugares, reconhecido a sua assistência, estou ciente de que não é possível para mim, no Resumo, fazê-lo suficientemente. ("Eu nunca roubei o bolso de ninguém, mas enquanto escrevia o meu capítulo atual, continuo sentindo (mesmo quando discordo mais de você) como se estivesse roubando de você, tanto devo aos seus escritos e conversas, muito mais do que simples reconhecimentos demonstram." -- Carta a Sir J.D. Hooker, 1859.) Mas, novamente, deixe-me dizer que você não deve se oferecer para lê-lo se for muito penoso. É longo — cerca de noventa páginas, espero, quando totalmente copiado.

Espero que estejam todos bem. Moor Park me fez algum bem.

Afetuosamente seu, C. DARWIN.

P.S. — Que o céu me perdoe, aqui está outra pergunta: Até que ponto estou certo ao supor que, com as plantas, os caracteres mais importantes para as divisões principais são os Embriológicos? A semente em si não pode ser considerada como tal, suponho, nem os albuminas, etc. Mas suponho que os Cotilédones e a sua posição, e a posição da plúmula e da radícula, e a posição e forma de todo o embrião na semente sejam embriológicos, e até que ponto são estes muito importantes? Desejo citar as plantas como um caso de alta importância dos caracteres embriológicos na classificação. No Reino Animal, não há, naturalmente, dúvida disso.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 5 de março [1859].

Meu caro Hooker,

Muito obrigado sobre a semente... é curioso. Petréis em St. Kilda aparentemente sendo alimentados por sementes criadas nas Índias Ocidentais. Deve-se notar se é uma noz alguma vez importada para a Inglaterra. Fico MUITO contente por você ler o meu manuscrito Geográfico; ele está sendo copiado agora, e levará (presumo) uns dez dias para ser terminado; será enviado assim que estiver pronto...

Ficarei muito feliz em ver as suas ideias embriológicas sobre as plantas; pela frase que lhe enviei, você verá que só quero uma frase; se os fatos forem, de alguma forma, como suponho, e verei isso da sua nota, pela qual envio muitos agradecimentos.

Tenho estado tão mal, nos últimos três dias, que às vezes duvido se algum dia terminarei o meu pequeno volume, embora esteja tão perto de ser concluído...

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 15 de março [1859].

Meu caro Hooker,

Fico CONTENTE com o que você diz sobre o meu capítulo. Você não o atacou nem de longe tanto quanto eu temia que o faria. Você não parece ter detectado MUITOS erros. Foi quase tudo escrito de memória, e por isso eu estava particularmente receoso; teria sido melhor se tudo tivesse sido cuidadosamente escrito primeiro, e resumido depois. Considero moralmente certo que ele deva incluir muito erro em algumas das suas visões gerais. Vou apenas passar por alguns pontos da sua nota, mas não se incomode em responder a menos que tenha algo importante a dizer...

...Eu gostaria de saber se o caso de morcegos endêmicos em ilhas lhe chamou a atenção; a mim chamou, especialmente; talvez até fortemente demais.

Com sinceros agradecimentos, sempre seu, C. DARWIN.

P.S. Você não pode imaginar que alívio foi para mim você ter dado uma olhada neste capítulo, pois me senti muito instável quanto a ele.

Amanhã terminarei o meu último capítulo (exceto uma recapitulação) sobre Afinidades, Homologias, Embriologia, etc., e os fatos parecem-me bastante FORTES para a mutabilidade das espécies.

Fiquei muito interessado em elaborar o capítulo.

Agora, graças a Deus, começarei a revisar os primeiros capítulos antigos para a impressão.

Mas a minha saúde está agora tão precária que mesmo isso me levará muito tempo.

CHARLES DARWIN A W.D. FOX. Down, [24 de] março [1859].

Meu caro Fox,

Foi muito bom da sua parte escrever-me em meio a todos os seus problemas, embora você pareça ter superado alguns deles, na recuperação da saúde de sua esposa e na sua própria. Eu não tinha ouvido falar recentemente sobre a saúde da sua mãe, e lamento ouvir um relato tão ruim. Mas como ela não sofre muito, isso é o que importa; pois a mera vida não creio que seja muito valorizada pelos idosos. Que tempo você deve ter tido, quando teve que ir para frente e para trás.

Estamos todos bem, e a nossa filha mais velha está melhorando. Posso ver a luz no fim do meu trabalho, e estou agora finalmente corrigindo os meus capítulos para a impressão; e espero em um mês ou seis semanas ter as provas. Estou cansado do meu trabalho. É uma coisa muito estranha que eu não tenha a sensação de que sobrecarrego o meu cérebro; mas os fatos me obrigam a concluir que o meu cérebro nunca foi formado para pensar muito. Estamos decididos a ir por dois ou três meses, quando eu terminar, para Ilkley, ou algum lugar semelhante, para ver se consigo, de alguma forma, dar um bom começo à minha saúde, pois certamente tem sido miserável ultimamente, e me incapacitou para tudo. Você me faz uma injustiça quando pensa que trabalho pela fama; valorizo-a até certo ponto; mas, se me conheço, trabalho por uma espécie de instinto para tentar descobrir a verdade. Como ficaria contente se você pudesse vir a Down algum dia; especialmente quando eu melhorar um pouco, como ainda espero. Montamos uma mesa de bilhar, e acho que me faz muito bem, e expulsa as horríveis espécies da minha cabeça. Adeus, meu caro e velho amigo.

Afetuosamente seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A C. LYELL. Down, 28 de março [1859].

Meu caro Lyell,

Se eu me mantiver razoavelmente bem, espero ser capaz de ir para a impressão com o meu volume no início de maio. Sendo assim, quero muito pedir um conselho seu. De uma expressão na nota de Lady Lyell, imagino que você tenha falado com Murray. É assim? E ele está disposto a publicar o meu Resumo? Se você me disser se aconteceu algo, e o que aconteceu, então escreverei para ele. Ele sabe alguma coisa sobre o assunto do livro? Em segundo lugar, pode me aconselhar se seria melhor eu declarar quais termos de publicação eu preferiria, ou primeiro pedir que ele proponha os termos? E o que você acha que seriam termos justos para uma edição? Compartilhar lucros, ou o quê?

Por último, você seria tão gentil a ponto de olhar para o título anexo e me dar a sua opinião e quaisquer críticas; você deve lembrar que, se eu tiver saúde e parecer valer a pena, tenho um livro muito maior e completo sobre o mesmo assunto quase pronto.

O meu Resumo terá cerca de quinhentas páginas do tamanho da sua primeira edição dos 'Elementos de Geologia'.

Por favor, perdoe-me por incomodá-lo com as perguntas acima; e você não terá mais trabalho sobre o assunto. Espero que o mundo corra bem com você, e que esteja progredindo com as suas várias obras.

Estou trabalhando muito para os meus padrões, e anseio terminar e ficar livre e tentar recuperar um pouco da saúde.

Meu caro Lyell, sempre seu, C. DARWIN.

Muito sinceros agradecimentos por servir de meu procurador para a Medalha Wollaston.

P.S. Você me aconselharia a dizer a Murray que o meu livro não é mais NÃO-ortodoxo do que o assunto torna inevitável? Que não discuto a origem do homem? Que não trago qualquer discussão sobre o Gênesis, etc., etc., e apenas dou fatos, e conclusões deles que me parecem justas.

Ou seria melhor eu NÃO dizer NADA a Murray, e assumir que ele não pode se opor a esta dose de heterodoxia, que na verdade não é maior do que qualquer Tratado Geológico que contraria diretamente o Gênesis.

ANEXO.

UM RESUMO DE UM ENSAIO

SOBRE A

ORIGEM

DAS

ESPÉCIES E VARIEDADES

ATRAVÉS DA SELEÇÃO NATURAL

POR

CHARLES DARWIN, M.A.

Membro das Sociedades Reais Geológica e Lineana...

LONDRES:

etc., etc., etc., etc.

1859.

CHARLES DARWIN A C. LYELL. Down, 30 de março [1859].

Meu caro Lyell,

Você tem sido incomumente gentil em tudo o que fez. Você não apenas me poupou muito trabalho e alguma ansiedade, mas fez tudo incomparavelmente melhor do que eu poderia ter feito. Fiquei muito satisfeito com tudo o que você diz sobre Murray. Escreverei para ele hoje ou amanhã, e enviarei em breve um grande pacote de manuscritos, mas infelizmente não posso por uma semana, pois os três primeiros capítulos estão nas mãos dos copistas.

Lamento que Murray se oponha ao termo Resumo, pois considero-o como a única desculpa possível para NÃO dar referências e fatos na íntegra, mas vou ceder a ele e a você. Também lamento o termo "seleção natural". Espero mantê-lo com uma explicação um pouco como esta--

"Através da seleção natural, ou da preservação das Raças favorecidas."

A razão pela qual gosto do termo é que ele é constantemente usado em todas as obras sobre reprodução, e estou surpreso que não seja familiar a Murray; mas estudei tais obras por tanto tempo que deixei de ser um juiz competente.

Agradeço mais uma vez, de forma muito verdadeira e cordial, pela sua assistência realmente valiosa.

Seu muito sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 2 de abril [1859].

...Escrevi-lhe [ao Sr. Murray] e dei-lhe os títulos dos capítulos, e disse-lhe que não poderia ter o manuscrito durante uns dez dias; e esta manhã recebi uma carta, oferecendo-me termos generosos e concordando em publicar sem ver o manuscrito! Portanto, ele está bastante ansioso; creio que eu deveria ter sido cauteloso, de qualquer modo, mas, devido à sua carta, disse-lhe muito EXPLICITAMENTE que aceito a sua oferta apenas sob a condição de que, depois de ele ter visto parte ou a totalidade do manuscrito, tenha plenos poderes para se retratar. Irá achar-me presunçoso, mas penso que o meu livro será popular até certo ponto (o suficiente para garantir [contra] uma grande perda) entre homens científicos e semicientíficos; a razão pela qual penso assim é porque encontrei na conversação um interesse tão grande e surpreendente entre tais homens, e alguns homens não científicos sobre este assunto, e todos os meus capítulos não são NEM DE PERTO tão secos e monótonos como aquele que leu sobre distribuição geográfica. De qualquer modo, Murray deveria ser o melhor juiz, e se ele decidir publicá-lo, penso que posso lavar as mãos de toda a responsabilidade. Tenho a certeza de que os meus amigos, i.e., Lyell e você, têm sido EXTRAORDINARIAMENTE gentis ao se incomodarem com o assunto.

Ficarei encantado por vê-lo no dia anterior à Sexta-feira Santa; haveria uma vantagem para você em qualquer outro dia — como creio que ambos os meus rapazes chegam a casa nesse dia — e seria quase impossível eu enviar a carruagem para o buscar. Acredito que haverá alguns parentes em casa — mas espero que não se importe com isso, pois facilmente conversaremos o tanto que o meu ESTADO IMBECIL permite. Terei um prazer profundo em vê-lo.

...Estou cansado, por isso nada mais.

Meu caro Hooker, o seu afetuoso, C. DARWIN.

P.S. — Por favor, envie, bem ATADO com cordel forte, o meu manuscrito Geográfico, por volta da segunda metade da próxima semana — i.e., dia 7 ou 8 — para que eu o possa enviar com mais alguns para o Murray; e que Deus o ajude se ele tentar lê-lo.

...Não posso deixar de duvidar um pouco se Lyell se daria ao trabalho de induzir Murray a publicar o meu livro; isto não foi feito a meu pedido, e fere um pouco o meu orgulho.

Sei que Lyell tem sido INFINITAMENTE gentil quanto ao meu assunto, mas o seu "INDUZIR" tracejado (i.e., sublinhado) dá a ideia de que Lyell pressionou injustamente Murray.

CHARLES DARWIN A ASA GRAY. 4 de abril [1859].

...Você pede para ver as minhas folhas à medida que forem impressas; garanto-lhe que será a MAIOR satisfação para mim fazê-lo: encaro o pedido como um grande elogio. Pode ter a certeza de que não esquecerei um pedido que encaro como um favor. Mas (e é um "mas" pesado para mim) levará muito tempo até que eu vá para a tipografia; posso dizer verdadeiramente que NUNCA estou ocioso; de facto, trabalho demasiado para a minha saúde muito debilitada; ainda assim, só consigo trabalhar três horas diariamente, e não consigo de todo ver quando terei terminado: fiz onze capítulos longos, mas tenho alguns outros muito difíceis: como paleontologia, classificações e embriologia, etc., e tenho de corrigir e acrescentar largamente a todos os que estão feitos. Descubro, ai de mim!, que cada capítulo me leva em média três meses, tão lento que sou. Não há fim para as digressões necessárias. Acabei de terminar um capítulo sobre Instinto, e aqui descobri que lutar com um assunto como o das células das abelhas, e comparar todas as minhas notas feitas ao longo de vinte anos, ocupou um tempo desesperante.

Mas estou a divagar sobre mim mesmo num estilo mais egoísta. Ainda assim, devo dizer apenas o quão úteis achei as suas cartas, que tenho lido e citado ultimamente! mas não precisa de temer que eu cite algo de que não gostasse, pois tento ser muito cauteloso a este respeito. Espero de todo o coração que consiga ver-se livre do seu "íncubo" de trabalho antigo e seja, em certa medida, um homem livre...

Deixe-me dizer novamente que me sinto, de facto, grato a você...

CHARLES DARWIN A J. MURRAY. Down, 5 de abril [1859].

Meu caro Senhor,

Envio por este correio o Título (com algumas observações numa página separada) e os três primeiros capítulos. Se tiver paciência para ler todo o Capítulo I, penso honestamente que terá uma ideia justa do interesse de todo o livro. Pode ser presunção, mas creio que o assunto interessará o público, e tenho a certeza de que os pontos de vista são originais. Se pensa de outra forma, devo repetir o meu pedido de que rejeite livremente o meu trabalho; e, embora fique um pouco desapontado, não serei de modo algum prejudicado.

Se optar por ler os Capítulos II e III, terá um capítulo monótono e bastante abstruso, e um simples e interessante, na minha opinião.

Assim que terminar com o manuscrito, por favor, envie-o por MENSAGEIRO CUIDADOSO, E CLARAMENTE ENDEREÇADO, à Srta. G. Tollett, 14, Queen Anne Street, Cavendish Square.

Esta senhora, sendo uma excelente juíza de estilo, vai procurar erros para mim.

Deve levar o seu tempo, mas quanto mais cedo terminar, mais cedo ela terminará, e mais cedo eu irei para a tipografia, o que desejo tão ardentemente.

Presumo que desejará ver o Capítulo IV, a pedra angular do meu arco, e os Capítulos X e XI, mas por favor informe-me a este respeito.

Meu caro Senhor, seu sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 11 de abril [1859].

...Escrevo uma linha para dizer que recebi notícias de Murray ontem, e ele diz que leu os três primeiros capítulos de um manuscrito (e isto inclui um muito monótono), e mantém a sua oferta. Portanto, ele não quer mais manuscritos, e você pode enviar o meu capítulo Geográfico quando lhe aprouver...

[Parte do manuscrito parece ter-se perdido no caminho de volta para o meu pai; ele escreveu (14 de abril) ao Sir J.D. Hooker:]

"Tenho o manuscrito antigo, caso contrário, a perda ter-me-ia matado! O pior agora é que causará atraso na ida para a tipografia e, PIOR DE TUDO, perderá toda a vantagem de ter revisto o meu capítulo, exceto a terceira parte devolvida. Lamento muito que a Sra. Hooker tenha tido o trabalho de copiar as duas páginas."

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. [Abril ou maio de 1859].

...Por favor, não diga a ninguém que pensei que o meu livro sobre Espécies seria razoavelmente popular e teria uma venda razoavelmente remunerada (o que era o auge da minha ambição), pois se se revelar um fracasso total, tornar-me-ia ainda mais ridículo.

Anexo uma crítica, um sabor do futuro--

DISCURSO DO REV. S. HAUGHTON À SOCIEDADE GEOLÓGICA DE DUBLIN. (9 de fevereiro de 1859.)

"Esta especulação dos Srs. Darwin e Wallace não seria digna de nota se não fosse pelo peso da autoridade dos nomes (i.e., de Lyell e o seu), sob cujos auspícios foi apresentada. Se significa o que diz, é uma verdade óbvia; se significa algo mais, é contrário aos factos."

Q.E.D.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 11 de maio [1859].

Meu caro Hooker,

Obrigado por me falar sobre a obscuridade de estilo. Mas, pela minha vida, nenhum negro com um chicote sobre ele poderia ter trabalhado mais arduamente na clareza do que eu. Mas a própria dificuldade, para mim, leva por si só à probabilidade de eu falhar. No entanto, uma senhora que leu todo o meu manuscrito encontrou apenas duas ou três frases obscuras, mas a Sra. Hooker tê-lo achado assim faz-me tremer. Farei o meu melhor nas provas. Você é um bom homem por se dar ao trabalho de escrever sobre isso.

Com relação à nossa confusão mútua ("Quando rever o capítulo, verei o que posso fazer, mas dificilmente sei como sou obscuro, e penso que estamos de alguma forma numa confusão mútua em relação um ao outro, por partirmos de algumas noções fundamentalmente diferentes." — Carta de 6 de maio de 1859), nunca pensei por um momento que não pudéssemos tornar as nossas ideias claras um ao outro através de conversa, ou se algum de nós tivesse tempo para escrever *in extenso*.

Imagino, por algumas expressões (mas se me perguntar quais, não saberia responder), que você encara a variabilidade como alguma contingência necessária nos organismos, e ainda que existe alguma tendência necessária na variabilidade para continuar a divergir em caráter ou grau. SE VOCÊ O FAZ, eu não concordo. A "reversão" novamente (uma forma de hereditariedade), encaro-a como não estando de modo algum diretamente ligada à Variação, embora, claro, a hereditariedade seja de importância fundamental para nós, pois se uma variação não for herdada, não tem significado para nós. Foi sobre pontos como estes que IMAGINEI que talvez tivéssemos começado de forma diferente.

Temo que o meu livro não mereça de todo as coisas agradáveis que diz sobre ele; e meu Deus, como anseio por acabar com ele!

Desde que o que precede foi escrito, recebi e fiquei MUITO INTERESSADO por A. Gray. Estou encantado com a sua nota sobre o meu artigo e o de Wallace. Ele acabará por mudar de ideias, pois é fútil desistir de muitas espécies e parar numa linha arbitrária noutras. É o que o meu avô chamava de Unitarianismo, "uma almofada de penas para apanhar um cristão em queda"...

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 18 de maio [1859].

Meu caro Hooker,

A minha saúde faliu completamente. Parto amanhã para uma semana de Hidroterapia. Lamento muito, muito mesmo, dizer que não posso rever quaisquer provas (da Introdução do Sir J. Hooker à 'Flora da Austrália') durante a semana, pois o meu objetivo é expulsar o assunto da minha cabeça. Regressarei na próxima semana. Se valer a pena, o que provavelmente não vale, você poderia reter quaisquer provas até ao meu regresso a casa.

À pressa, sempre seu, C. DARWIN.

[Dez dias depois escreveu ao Sir J.D. Hooker:

"...Escrevo uma palavra para dizer que regressarei no sábado, e se tiver algumas provas de impressão para enviar, terei todo o gosto em fazer o meu melhor em quaisquer críticas. Tive... uma grande prostração de mente e corpo, mas o descanso completo, o duche e 'Adam Bede' fizeram-me um mundo de bem."]

CHARLES DARWIN A J. MURRAY. Down, 14 de junho [1859].

Meu caro Senhor,

O diagrama ficará muito bem, e enviá-lo-ei brevemente ao Sr. West para fazer algumas correções triviais.

Avanço muito lentamente com as provas. Lembro-me de lhe escrever que pensava que não haveria muitas correções. Escrevi honestamente o que pensava, mas estava muito gravemente enganado. Acho o estilo incrivelmente mau e muito difícil de tornar claro e fluido. Lamento imensamente dizer, por causa da despesa e da perda de tempo para mim, que as correções são muito pesadas, tão pesadas quanto possível. Mas, por olhares casuais, ainda espero que os capítulos posteriores não estejam tão mal escritos. Como pude ter escrito tão mal é totalmente inconcebível, mas suponho que se deveu a toda a minha atenção estar fixada na linha geral de argumentação, e não nos detalhes. Tudo o que posso dizer é que lamento muito.

Seu muito sinceramente, C. DARWIN.

P.S. Estive a ver as correções e a ponderá-las. Parece-me que lhe causarei uma despesa totalmente injusta. Se quiser, gostaria de chegar a um acordo como o seguinte: quando o trabalho estiver concluído, o senhor permite na conta um encargo razoavelmente pesado para correções, e todo o excesso sobre esse valor será deduzido dos meus lucros, ou pago por mim individualmente.

CHARLES DARWIN A C. LYELL. Down, 21 de junho [1859].

Estou a trabalhar muito arduamente, mas avanço lentamente, pois descubro que as minhas correções são terrivelmente pesadas, e o trabalho é muito difícil para mim. Corrigi 130 páginas, e o volume terá cerca de 500. Tentei o meu melhor para o tornar claro e marcante, mas temo muito ter falhado — tantas discussões são e devem ser muito confusas. Fiz o meu melhor. Se tivesse todos os meus materiais, tenho a certeza de que teria feito um livro esplêndido. Anseio por terminar, pois estou quase exausto.

Meu caro Lyell, sempre seu muito sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 22 [de junho de 1859].

Meu caro Hooker,

Não respondi à sua nota agradável, com muitas novidades para mim, de 30 de maio, pois tenho estado à espera de provas suas. Mas agora, não tendo nada de particular para fazer, escreverei uma nota, embora não tenha nada de particular para dizer ou pedir. De facto, como pode um homem ter algo a dizer, que passa todos os dias a corrigir provas malditas; e tais provas! Tenho de as enegrecer completamente e prender tiras de papel, tão miserável achei o estilo. Você diz que sonhou que o meu livro era ENTRETIDO; esse sonho acabou quase de vez para mim, e começo a temer que o público o ache intoleravelmente seco e confuso. Mas nunca desistirei da ideia de que um homem melhor poderia ter feito um livro esplêndido a partir dos materiais. Fiquei contente por saber do artigo de Prestwich. (O Sr. Prestwich escreveu sobre a ocorrência de instrumentos de sílex associados aos restos de animais extintos em França. — (Proc. R. Soc., 1859.)) A minha dúvida tem sido (e vejo que Wright inseriu o mesmo na 'Athenaeum') se os pedaços de sílex são realmente ferramentas; os seus números fazem-me duvidar, e quando outrora olhei para os desenhos de Boucher de Perthes, cheguei à conclusão de que eram fragmentos angulares partidos pela ação do gelo.

O cruzamento da Acácia deu algum resultado? Estou tão sobrecarregado de trabalho que não consigo fazer experiências. Só cheguei às 150 páginas na primeira prova.

Adeus, meu caro Hooker, sempre seu, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN A J. MURRAY. Down, 25 de julho [1859].

Meu caro Senhor,

Escrevo para dizer que cinco folhas foram devolvidas aos impressores prontas a imprimir, e apenas duas folhas mais requerem uma revisão; por isso presumo que em breve terá de decidir quantos exemplares imprimir.

Sou totalmente incapaz de formar uma opinião. Penso que consegui o estilo RAZOAVELMENTE bom e claro, com um esforço infinito. Mas se o livro será bem-sucedido a um grau que o satisfaça, realmente não posso conjeturar. Espero sinceramente que sim.

Meu caro Senhor, seu muito sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A A.R. WALLACE. Down, 9 de agosto de 1859.

Meu caro Sr. Wallace,

Recebi a sua carta e memória (Isto parece referir-se ao artigo do Sr. Wallace, "On the Zoological Geography of the Malay Archipelago", 'Linn. Soc. Journ', 1860.) no dia 7, e enviá-la-ei amanhã para a Sociedade Lineana. Mas saberá que não há reunião até ao início de novembro. O seu artigo parece-me ADMIRÁVEL em matéria, estilo e raciocínio; e agradeço-lhe por me permitir lê-lo. Se o tivesse lido há alguns meses, teria tirado proveito dele para o meu volume próximo. Mas os meus dois capítulos sobre este assunto estão compostos e, embora ainda não corrigidos, estou tão exausto e fraco de saúde, que estou totalmente decidido a não acrescentar uma única palavra, e apenas melhorar o estilo. Por isso, verá que os meus pontos de vista são quase os mesmos que os seus, e pode confiar que nem uma palavra será alterada devido a ter lido as suas ideias. Sabe que o Sr. W. Earl (Provavelmente o artigo do Sr. W. Earle, Geographical Soc. Journal, 1845.) publicou há vários anos a visão da distribuição dos animais no Arquipélago Malaio, em relação à profundidade do mar entre as ilhas? Fiquei muito impressionado com isto, e tenho o hábito de anotar todos os factos sobre a distribuição nesse arquipélago, e noutros lugares, a este respeito. Fui levado a concluir que houve uma boa dose de naturalização nas diferentes ilhas malaias, o que pensei, até certo ponto, que explicaria as anomalias. Timor tem sido o meu maior enigma. O que diz sobre o Felis peculiar que lá existe? Gostaria que tivesse visitado Timor; foi afirmado que um dente de mastodonte ou elefante fóssil (esqueço-me qual) foi encontrado lá, o que seria um facto grandioso. Estava ciente de que Celebes era muito peculiar; mas a relação com a África é totalmente nova para mim, e maravilhosa, e quase ultrapassa a crença. É tão anómala como a relação das PLANTAS no Sudoeste da Austrália com o Cabo da Boa Esperança. Difero TOTALMENTE de si sobre a colonização das ilhas oceânicas, mas terá TODOS os outros do seu lado. Concordo plenamente no que diz respeito a todas as ilhas não situadas longe no oceano. Concordo plenamente sobre a pouca intermigração ocasional entre terras [ilhas?] quando uma vez bem povoadas de habitantes, mas penso que isto não se aplica a ilhas em ascensão e mal povoadas. Sabe que ANUALMENTE as aves são levadas pelo vento para a Madeira, os Açores (e para as Bermudas vindas da América). Gostaria de ter dado um resumo mais completo das minhas razões para não acreditar nas grandes extensões continentais de Forbes; mas é demasiado tarde, pois não alterarei nada — estou exausto e preciso de descanso. Owen, não duvido, opor-se-á amargamente a nós... Hooker está a publicar uma grande introdução à Flora da Austrália, e vai até ao fim. Vi provas de cerca de metade. Com todos os melhores votos.

Acredite em mim, seu muito sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Down, 1 de setembro [1859].

...Não me surpreende que ache a sua Introdução muito difícil. Mas não lamente o esforço, e não diga que "queimou as pestanas", e que está "atolado na lama"; pois sinto-me seguro de que o resultado valerá bem o esforço. A menos que eu seja um tolo, devo ser um juiz, até certo ponto, do valor de tais ensaios gerais, e estou plenamente convencido de que os seus são os mais valiosos alguma vez publicados.

Corrigi todos, exceto os dois últimos capítulos do meu livro, e espero ter terminado as revisões e tudo em cerca de três semanas, e depois eu (ou todos nós) partiremos para alguns meses de hidroterapia; a minha saúde tem estado muito má, e estou a tornar-me fraco como uma criança, e incapaz de fazer absolutamente nada, exceto as minhas três horas diárias de trabalho nas provas. Deus sabe se algum dia voltarei a ser bom para alguma coisa, talvez um longo descanso e a hidroterapia possam fazer algo.

Não tive o Ensaio de A. Gray, e não me sentiria capaz de o criticar, mesmo que tivesse a impertinência e a coragem. Acreditará que digo estritamente a verdade quando digo que o seu Ensaio Australiano é EXTREMAMENTE interessante para mim, talvez demasiado. Gosto de o ler de novo, e se acha que as minhas críticas valem alguma coisa para si, rogo-lhe que envie as folhas (se me puder dar tempo para dias bons); mas a menos que eu possa prestar-lhe alguma pequena, por menor que seja, assistência, preferiria ler o ensaio quando publicado. Por favor, entenda que ficaria VERDADEIRAMENTE aborrecido por não os ler, se você o desejar para seu próprio bem.

Tive um ataque de doença terrivelmente longo ontem, o que torna o mundo um pouco mais sombrio hoje, e tenho um desejo insanamente forte de terminar o meu livro maldito; tais correções cada página exigiu como nunca vi antes. É tão cansativo, matar a tarde toda, depois das 12 horas não fazer nada. Mas não me queixarei mais. Então adeus, encontraremos-nos no inverno, espero.

Adeus, meu caro Hooker, seu amigo afetuoso, C. DARWIN.

... Estou muito contente que deseje ver as minhas provas limpas: deveria tê-las oferecido, mas não sabia se o aborreceria; escrevi esta manhã, pelo correio, a Murray para lhas enviar. Infelizmente, ainda não cheguei à parte que penso o interessar mais, e que mais favorece o meu ponto de vista, a saber: Sucessão Geológica, Distribuição Geográfica e, especialmente, Morfologia, Embriologia e Órgãos Rudimentares. Certificar-me-ei de que as folhas restantes, quando impressas, lhe sejam enviadas. Mas gostaria que eu lhe enviasse as últimas e perfeitas revisões das folhas à medida que as corrijo? Se sim, envie-me o seu endereço num envelope em branco. Espero que leia tudo, quer seja maçador (especialmente a última parte do Capítulo II.) ou não, pois estou convencido de que não há uma única frase que não tenha influência em todo o argumento. Considerará o Capítulo IV. desconcertante e ininteligível sem a ajuda do estranho diagrama anexo (O diagrama ilustra a descendência com divergência.), do qual envio uma prova antiga e inútil. Fiz, como diz Murray, tantas correções, a ponto de quase ter reescrito tudo; mas ainda temo que esteja mal escrito. Algumas partes são intrincadas; e não penso que mesmo você as pudesse tornar inteiramente claras. Não se apresse, rogo-lhe, a comprometer-se (como tantos naturalistas) a ir até certo ponto e não mais além; pois estou profundamente convencido de que é absolutamente necessário ir até ao fim, ou ater-se à criação de cada espécie separada; defendo este ponto brevemente no último capítulo. Lembre-se de que o seu veredito terá provavelmente mais influência do que o meu livro na decisão de saber se pontos de vista como os meus serão admitidos ou rejeitados presentemente; no futuro, não posso duvidar da sua admissão, e a nossa posteridade maravilhar-se-á tanto com a crença atual como nós nos maravilhamos com o facto de se ter pensado que as conchas fósseis foram criadas tal como as vemos agora. Mas perdoe-me por continuar a falar do meu cavalo de batalha...

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Down, 11 de [setembro] [1859].

Meu caro Hooker,

Corrigi ontem a última prova, e tenho agora as minhas revisões, índice, etc., que me levarão quase até ao fim do mês. De modo que o mais difícil do meu trabalho, graças a Deus, está feito.

Escrevo agora para dizer que me sinto inquieto na consciência por ter hesitado em rever as suas provas, mas sentia-me miseravelmente doente e destroçado quando escrevi. Não suponho que pudesse ser de quase utilidade alguma, mas se pudesse, por favor envie-me quaisquer provas. Seria (e temo ter sido) o homem mais ingrato se hesitasse em fazer qualquer coisa por si após uns quinze anos ou mais de ajuda vinda da sua parte.

Assim que terminar, partirei para Ilkley, ou algum outro estabelecimento hidropático. Mas ainda demorarei algum tempo, pois as minhas provas têm sido tão obscurecidas com correções, que tenho de corrigir pesadamente nas revisões.

Murray propõe publicar na primeira semana de novembro. Oh, bons céus, que alívio para a minha cabeça e corpo banir todo o assunto da minha mente!

Espero em Deus que não me considere um bruto por causa das suas provas.

Adeus, seu afetuosamente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down, 20 de setembro [1859].

Meu caro Lyell,

Você deu-me uma vez um prazer intenso, ou melhor, um deleite, pela forma como se interessou, de um modo que nunca esperei, pelas minhas noções sobre Recifes de Coral, e agora deu-me novamente prazer semelhante pela forma como notou o meu trabalho sobre as espécies. (Sir Charles foi Presidente da seção Geológica na reunião da Associação Britânica em Aberdeen em 1859. A seguinte passagem ocorre no discurso: "Sobre este difícil e misterioso assunto, uma obra aparecerá muito brevemente pelo Sr. Charles Darwin, o resultado de vinte anos de observações e experiências em Zoologia, Botânica e Geologia, pelos quais ele foi levado à conclusão de que esses poderes da natureza que dão origem a raças e variedades permanentes em animais e plantas são os mesmos que, em períodos muito mais longos, produzem espécies, e numa série de eras ainda mais longa dão origem a diferenças de categoria genérica. Ele parece-me ter conseguido, através das suas investigações e raciocínios, lançar uma luz abundante sobre muitas classes de fenómenos relacionados com as afinidades, distribuição geográfica e sucessão geológica dos seres orgânicos, para os quais nenhuma outra hipótese foi capaz, ou sequer tentou explicar.") Nada poderia ser mais satisfatório para mim, e agradeço-lhe por mim mesmo, e ainda mais pelo bem do assunto, pois sei bem que a frase fará com que muitos considerem o assunto de forma justa, em vez de o ridicularizarem. Embora as suas dúvidas previamente sentidas sobre a imutabilidade das espécies possam ter mais influência em convertê-lo (se é que será convertido) do que o meu livro; contudo, como considero o seu veredito muito mais importante aos meus olhos, e acredito que aos olhos do mundo do que o de quaisquer outros doze homens, estou naturalmente muito ansioso a esse respeito. Portanto, permita-me implorar-lhe que mantenha a sua mente aberta até receber (talvez daqui a quinze dias) os meus capítulos finais, que são os mais importantes de todos no lado favorável. O último capítulo, que resume e equilibra em massa todos os argumentos contra e a favor, será, penso eu, útil para si. Não posso expressar com demasiada força a minha convicção da verdade geral das minhas doutrinas, e Deus sabe que nunca me esquivei a uma dificuldade. Estou tolamente ansioso pelo seu veredito, não que ficarei desapontado se não for convertido; pois recordo-me dos longos anos que levei até mudar de opinião; mas ficarei profundamente encantado se o fizer, especialmente se eu tiver uma quota-parte justa nessa conversão. Sentirei então que a minha carreira está completa, e pouco me importará se voltarei a ser útil para alguma coisa nesta vida.

Muito obrigado por me permitir inserir a frase sobre a sua grave dúvida. (Quanto à imutabilidade das espécies, 'Origin', Edição i., página 310.) Tanto e demasiado sobre mim.

Li com extremo interesse no jornal de Aberdeen sobre as ferramentas de sílex; tornou-me todo o caso muito mais claro; suponho que não considerou a evidência suficiente sobre o período Glacial.

Com cordiais agradecimentos pela sua esplêndida menção ao meu livro.

Acredite-me, meu caro Lyell, seu afetuoso discípulo, CHARLES DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA W.D. FOX. Down, 23 de setembro [1859].

Meu caro Fox,

Fiquei muito contente por receber a sua carta há poucos dias. Eu desejava ter notícias suas, mas tenho estado num estado tão absorvido, servil e sobrecarregado, que não tive ânimo, sem compulsão, para escrever a ninguém ou fazer qualquer coisa além do meu trabalho diário. Embora o seu relato sobre si mesmo seja melhor, não o considero nada satisfatório, e gostaria que fosse brevemente a Malvern novamente. O meu pai costumava acreditar muito num velho ditado de que, se um homem emagrecesse entre os cinquenta e os sessenta anos de idade, a sua hipótese de vida longa era fraca, e que, pelo contrário, era um sinal muito bom se engordasse; de modo que a sua corpulência, vejo-a como um excelente presságio. A minha saúde esteve tão má quanto possível durante todo este verão; e só me mantive de pé indo a curtos intervalos a Moor Park; mas tenho estado melhor ultimamente e, graças ao Céu, finalmente terminei quase por completo o meu livro, tendo apenas o índice e duas ou três revisões para fazer. Será publicado na primeira semana de novembro, e enviar-lhe-ei um exemplar. Lembre-se de que é apenas um Resumo (mas custou-me mais de treze meses a escrever!!), e os factos e autoridades estão longe de ser dados na íntegra. Estarei curioso para ouvir o que pensa dele, mas não sou tão tolo ao ponto de esperar convertê-lo. Lyell leu cerca de metade do volume em provas limpas, e dá-me muitos elogios. Ele está tão hesitante sobre a imutabilidade das espécies que espero que mude de opinião. Hooker mudou de opinião e publicará em breve a sua crença. Tanto sobre o meu abominável volume, que me custou tanto trabalho que quase o odeio. No dia 3 de outubro parto para Ilkley, mas levarei três dias na viagem! É tão tarde que não alugaremos uma casa; mas irei para lá sozinho durante três ou quatro semanas, depois regressarei a casa durante uma semana e irei a Moor Park durante três ou quatro semanas, e então terei um período moderado de hidroterapia: e pretendo, se conseguir manter a minha resolução, ficar ocioso este inverno. Mas temo que o tédio seja tão mau quanto um mau estômago...

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down, 25 de setembro [1859].

Meu caro Lyell,

Envio por este correio quatro folhas corrigidas. Alterei a frase sobre a fauna do Eoceno ser batida pela recente, graças à sua observação. Mas eu imaginava que teria ficado claro que eu supunha que o clima seria quase semelhante; você não duvida, imagino eu, que o clima do Eoceno e dos períodos recentes em DIFERENTES partes do mundo pudesse ser correspondente. Não que eu pense que o clima seja tão importante quanto a maioria dos naturalistas parece pensar. Na minha opinião, nenhum erro é mais nocivo do que este.

Fiquei muito contente ao verificar que Hooker, que leu em manuscrito os meus capítulos Geográficos, concordou plenamente com a visão da maior importância das relações orgânicas. Gostaria que considerasse a página 77 e refletisse sobre o caso de qualquer organismo no meio da sua área de distribuição.

Ficarei curioso no futuro por ouvir o que pensa da distribuição durante o período glacial e os períodos anteriores mais quentes. Estou tão contente que não considere o Capítulo sobre a Imperfeição do Registo Geológico exagerado; eu estava com mais receio deste capítulo do que de qualquer outra parte.

A Embriologia no Capítulo VIII. é um dos meus pontos mais fortes, penso eu. Mas não devo aborrecê-lo continuando a falar. A minha mente está tão cansativamente cheia do assunto.

Agradeço-lhe pelo seu elogio em Aberdeen. Tenho estado tão cansado e exausto ultimamente que durante meses duvidei se não estaria a desperdiçar tempo e trabalho por nada. Mas agora não me importa o que o mundo inteiro diga; sempre o achei correto, e certamente nesta ocasião não vou duvidar pela primeira vez. Quer vá longe, quer vá apenas um pouco comigo e com outros que acreditam como eu, estou contente, pois o meu trabalho não pode ser em vão. Rir-se-ia se soubesse quantas vezes li o seu parágrafo, e ele agiu como um pequeno tónico...

Adeus, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Down, 30 de setembro [1859].

Meu caro Lyell,

Enviei esta manhã as últimas folhas, mas sem o índice, que não está composto. Considero-o como o meu Lorde Alto Chanceler em Ciência Natural, e, portanto, solicito-lhe, depois de terminar, que apenas REVEJA as cabeçalhos na parte da Recapitulação do último capítulo. Ficarei profundamente ansioso por ouvir o que decide (se for capaz de decidir) sobre o equilíbrio dos prós e contras dados no meu volume, e de outros prós e contras que lhe possam ocorrer. Espero que pense que expus as dificuldades de forma justa. Sinto uma convicção total de que, se agora estiver vacilante até certo ponto moderado, mudará cada vez mais de opinião quanto mais tempo mantiver o assunto perante a sua mente. Lembro-me bem de quantos longos anos foram necessários até que eu pudesse olhar para algumas das dificuldades e não me sentir completamente perturbado. Eu baixei as armas perante o caso dos insetos neutros.

Suponho que sou um pensador muito lento, pois ficaria surpreendido com o número de anos que levei para ver claramente quais eram alguns dos problemas que tinham de ser resolvidos, tais como a necessidade do princípio da divergência de caráter, a extinção de variedades intermédias, numa área contínua, com condições graduadas; o problema duplo dos primeiros cruzamentos estéreis e híbridos estéreis, etc., etc.

Olhando para trás, penso que foi mais difícil ver quais eram os problemas do que resolvê-los, na medida em que consegui fazê-lo, e isto parece-me bastante curioso. Bem, bom ou mau, o meu trabalho, graças a Deus, terminou; e trabalho árduo, posso assegurar-lhe, tive eu, e muito trabalho que nunca deu frutos. Pode ver, pela forma como estou a rabiscar, que tenho uma tarde ociosa e chuvosa. Não consegui partir para Ilkley ontem porque estava demasiado doente; mas espero chegar lá na terça ou quarta-feira. Por favor, rogo-lhe, quando terminar o meu livro e tiver pensado um pouco sobre ele, deixe-me ter notícias suas. Não se importe e ataque-me, se achar necessário; num dia futuro, possivelmente em Londres, poderá dar-me algumas críticas em detalhe, isto é, se tiver rabiscado algumas notas na margem, para a hipótese de uma segunda edição.

Murray imprimiu 1250 exemplares, o que me parece uma edição um pouco grande demais, mas espero que ele não perca dinheiro.

Faço tanto alarido sobre o meu livro como se fosse o meu primeiro. Perdoe-me, e acredite, meu caro Lyell,

Seu mais sinceramente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA J.D. HOOKER. Ilkley, Yorkshire, 15 de outubro [1859].

Meu caro Hooker,

Seja um bom homem e arranje tempo suficiente para me escrever uma nota e contar-me um pouco sobre si, as suas atividades e os seus.

A sua Introdução está bem terminada? Sei que vai abusar dela, e sei bem o quanto eu gostarei dela. Estou aqui há quase quinze dias, e fez-me muito bem, embora tenha torcido o tornozelo no último domingo, o que impediu totalmente as minhas caminhadas. Toda a minha família vem para cá na segunda-feira para ficar três ou quatro semanas, e depois regressarei ao grande estabelecimento, e ficarei quinze dias; de modo que, se conseguir manter o meu ânimo, ficarei oito semanas aqui, e assim darei à hidroterapia uma oportunidade justa. Antes de partir para aqui, estava num estado terrível de estômago, força, temperamento e ânimo. O meu livro foi completamente terminado há algum tempo; assim que os exemplares estiverem prontos, claro que lhe será enviado um. Espero que marque o seu exemplar com riscos, para que eu possa tirar partido de quaisquer críticas. Gostaria de ouvir a sua impressão geral. Pelas cartas de Lyell, ele pensa favoravelmente sobre ele, mas parece vacilante quanto ao ponto a que eu chego. Mas se você for uma distância considerável na admissão da modificação, não vejo qualquer meio possível de traçar o limite e dizer que aqui deve parar. Lyell vai reler o meu livro, e ainda mantenho esperanças de que ele seja convertido, ou pervertido, como ele diz. Lyell tem sido EXTREMAMENTE gentil ao escrever-me três cartas do tamanho de volumes; mas ele não diz nada sobre a dispersão durante o período glacial. Gostaria de saber o que ele pensa a este respeito. Tenho uma pergunta a fazer: Seria de alguma utilidade enviar um exemplar do meu livro a Decaisne? e conhece algum botânico filosófico no Continente, que leia inglês e se interesse por tais assuntos? se sim, dê-me os seus endereços. E quanto a Andersson na Suécia? Não pode imaginar como é refrescante ficar ocioso o dia todo, e quase nunca pensar minimamente no meu livro maldito que quase me matou. Gostaria muito de ouvir que está a descansar verdadeiramente. Sei o quão forte é, mentalmente, mas nunca acreditarei que possa continuar a trabalhar como tem trabalhado ultimamente impunemente. Um dia esticará a corda demasiado. Adeus, meu bom, e gentil, e caro amigo,

Seu afetuosamente, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA T.H. HUXLEY. Ilkley, Otley, Yorkshire, 15 de outubro [1859].

Meu caro Huxley,

Estou aqui a hidroterapiar e a voltar à vida, depois de ter terminado o meu livro maldito, que teria sido trabalho fácil para qualquer outra pessoa, mas quase me matou. Pensei que me daria uma informação, e não sei a quem mais recorrer; a saber, os endereços de Barrande, Von Siebold, Keyserling (suponho que Sir Roderick saberia o último).

Pode falar-me de algum estrangeiro bom e ESPECULATIVO a quem valeria a pena enviar exemplares do meu livro, sobre a 'Origem das Espécies'? Duvido que valha a pena enviar a Siebold. Gostaria de enviar alguns exemplares, mas quantos posso pagar ainda não sei, até ouvir que preço Murray fixa.

Não preciso de dizer que enviarei, claro, um para si, na primeira semana de novembro. Espero enviar exemplares para o estrangeiro imediatamente. Ficarei INTENSAMENTE curioso para ouvir que efeito o livro produz em si. Sei que haverá muito nele a que se oporá, e não duvido que contenha muitos erros. Estou muito longe de esperar convertê-lo a muitas das minhas heresias; mas se, no geral, você e dois ou três outros pensarem que estou no caminho certo, não me importarei com o que a multidão de naturalistas pensa. O penúltimo capítulo (O Capítulo XIII. é sobre Classificação, Morfologia, Embriologia e Órgãos Rudimentares.), embora eu acredite que inclua a verdade, temo muito que o deixe selvagem. Não aja e diga, como Macleay versus Fleming, "Escrevo com água-forte para morder o latão."

Sempre seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN PARA C. LYELL. Ilkley, Yorkshire, 20 de outubro [1859].

Meu caro Lyell,

Tenho lido todas as suas cartas consecutivamente, e não sinto que lhe tenha agradecido o suficiente pelo prazer extremo que me deram, e pela sua utilidade. Vejo nelas evidência de flutuação no grau de crédito que dá à teoria; nem me surpreendo com isso, pois muitas e muitas flutuações sofri eu.

Há um ponto na sua carta que não notei, sobre os animais (e muitas plantas) naturalizados na Austrália, que pensa não poderem suportar sem a ajuda do homem. Não vejo como o homem ajuda o gado selvagem. Mas, deixando isso de lado, parece pensar que, porque sofrem uma destruição prodigiosa durante as secas, todos seriam destruídos. Nos "gran secos" de La Plata, os animais indígenas, como o veado americano, morrem aos milhares, e sofrem aparentemente tanto quanto o gado. Em partes da Índia, após uma seca, leva dez ou mais anos até que os mamíferos indígenas voltem a atingir o seu número completo. O seu argumento aplicar-se-ia, penso eu, tanto aos aborígenes como aos selvagens.

Um animal ou planta que se torna selvagem num pequeno território poderia ser destruído pelo clima, mas dificilmente posso acreditar nisso, uma vez selvagem em vários grandes territórios. Novamente, sinto-me inclinado a praguejar contra o clima: não me considere insolente por atacá-lo sobre o clima. Diz que duvida se o homem poderia ter existido sob o clima do Eoceno, mas o homem pode agora suportar o clima da terra dos Esquimós e da África Equatorial Ocidental; e certamente não pensa que o clima do Eoceno diferia do atual em toda a Europa, tanto quanto as regiões Árticas diferem da África Equatorial?

Quanto aos organismos serem criados no tipo americano na América, poderia, penso eu, dizer-se que foram assim criados para evitar que fossem criados demasiado bem, de modo a bater os aborígenes; mas isto parece-me, de alguma forma, uma doutrina monstruosa.

Refleti bastante sobre o que diz acerca da necessidade de uma intervenção contínua de poder criativo. Não consigo ver essa necessidade; e a sua admissão, creio, tornaria a teoria da Seleção Natural destituída de valor. Conceda-me uma criatura Arquetípica simples, como o peixe-lama ou Lepidosiren, com os cinco sentidos e algum vestígio de mente, e acredito que a seleção natural explicará a produção de cada animal vertebrado.

Adeus; perdoe-me por me entregar a esta prosa, e acredite-me, com cordiais agradecimentos,

Seu discípulo sempre apegado, C. DARWIN.

P.S. — Quando, e se, reler, suplico-lhe que escreva na margem a palavra "expandir", quando estiver demasiado condensado, ou "não claro", ou "?". Tais marcas custar-lhe-iam pouco trabalho, e eu poderia copiá-las e refletir sobre elas, e o seu valor seria infinito para mim.

O meu livro maior terá de ser totalmente reescrito, e não apenas o presente volume expandido; de modo que quero desperdiçar o menos tempo possível com este volume, caso uma nova edição seja solicitada; mas receio que o assunto seja demasiado complexo, da forma como o tratei, para o público em geral.

CHARLES DARWIN A J.D. HOOKER. Ilkley, Yorkshire, domingo [23 de outubro de 1859].

Meu caro Hooker,

Parabenizo-o pela sua 'Introdução' ("Flora Australiana") estar, de fato, terminada. Tenho a certeza, pelo que li dela (e ficarei profundamente interessado em lê-la do princípio ao fim), que deve ter custado uma quantidade prodigiosa de trabalho e reflexão. Gostarei muito de ver a folha que deseja que eu examine. Agora, sou tão completamente um cavalheiro que por vezes tenho alguma dificuldade em passar o dia; mas é espantoso quão ociosas foram as três semanas que passei. Se lhe serve de consolo, por favor, iluda-se dizendo que pretende "ater-se à ciência monótona". Mas acredito nisso tanto quanto se uma planta dissesse: "Tenho crescido toda a minha vida e, por Júpiter, vou parar de crescer". Não se pode evitar; não é suficientemente esperto para isso. Nem sequer poderia permanecer ocioso, como eu fiz, por três semanas! O que diz sobre Lyell agrada-me imensamente; não tinha de todo inferido das suas cartas que ele tivesse mudado tanto de opinião. Lembro-me de pensar, há mais de um ano, que se algum dia vivesse para ver Lyell, você mesmo e Huxley mudarem de opinião, em parte devido ao meu livro e em parte devido às suas próprias reflexões, sentiria que o assunto estaria a salvo, e todo o mundo poderia criticar, mas que, em última análise, a teoria da Seleção Natural (embora, sem dúvida, imperfeita na sua condição atual e contendo muitos erros) prevaleceria. Nada me convencerá de que três homens como esses, com conhecimentos tão diversificados e tão bem acostumados a procurar a verdade, pudessem errar grandemente. Tenho falado de si aqui como um convertido feito por mim; mas sei bem quão maior tem sido a parte do seu próprio pensamento. Estou intensamente curioso por ouvir a opinião de Huxley sobre o meu livro. Receio que a minha longa discussão sobre Classificação o desagrade; pois é muito oposta ao que ele me disse uma vez.

Mas, como estou a divagar. Vê como estou ocioso; mas apreciei tanto a sua carta que tem de me perdoar. Com respeito à migração durante o período glacial: creio que Lyell compreende perfeitamente, pois deu-me um fato de apoio. Mas, talvez, ele odeie inconscientemente (não lhe diga isso) a visão, por o deixar ligeiramente atordoado quanto à sua teoria favorita de que todas as mudanças climáticas se devem a alterações na posição relativa da terra e da água.

Enviarei cópias do meu livro a todos os homens especificados por si;... seria tão amável de acrescentar o título, como Doutor, ou Professor, ou Monsieur, ou Von, e as iniciais (quando necessárias), e os endereços aos nomes na lista anexa, e envie-ma BEM CEDO, pois Murray diz que, perto do final desta semana, as cópias para o estrangeiro estarão prontas. Estou ansioso por ver a minha visão geralmente conhecida, e não, espero e creio, por mera vaidade pessoal...

CHARLES DARWIN A C. LYELL. Ilkley, Yorkshire, 25 de outubro [1859].

...A nossa divergência sobre o "princípio de melhoramento" e o "poder de adaptação" é demasiado profunda para discussão por carta. Se estou enganado, estou totalmente cego para o meu erro. Se estou certo, a nossa divergência só será superada se reler cuidadosamente e refletir sobre os meus quatro primeiros capítulos. Suplico-lhe que os leia de novo cuidadosamente. O chamado melhoramento do nosso gado Shorthorn, pombos, etc., não pressupõe nem requer qualquer "poder de adaptação" aborígene, ou "princípio de melhoramento"; requer apenas variabilidade diversificada e o homem para selecionar ou tirar proveito daquelas modificações que lhe são úteis; assim, na natureza, qualquer ligeira modificação que surja por ACASO, e que seja útil a qualquer criatura, é selecionada ou preservada na luta pela vida; qualquer modificação que seja prejudicial é destruída ou rejeitada; qualquer uma que não seja nem útil nem prejudicial será deixada como um elemento flutuante. Quando contrapõe a seleção natural e o "melhoramento", parece ignorar sempre (pois não vejo como possa negar) que cada passo na seleção natural de cada espécie implica melhoramento nessa espécie em relação às suas condições de vida. Nenhuma modificação pode ser selecionada sem que seja um melhoramento ou vantagem. Melhoramento implica, suponho, que cada forma obtenha muitas partes ou órgãos, todos excelentemente adaptados às suas funções. À medida que cada espécie é melhorada, e como o número de formas terá aumentado, se olharmos para todo o curso do tempo, a condição orgânica de vida para outras formas tornar-se-á mais complexa, e haverá uma necessidade de outras formas serem melhoradas, ou serão exterminadas; e não consigo ver limite para este processo de melhoramento, sem a intervenção de qualquer outro princípio direto de melhoramento. Tudo isto me parece perfeitamente compatível com certas formas adaptadas a condições simples, permanecendo inalteradas ou sendo degradadas.

Se tiver uma segunda edição, reiterarei a "Seleção Natural" e, como consequência geral, o "Melhoramento Natural".

À medida que avança, tanto quanto vai, começo fortemente a pensar, julgando por mim mesmo, que irá muito mais longe. Quão lentamente os geólogos mais velhos admitiram as suas grandiosas visões sobre as causas geológicas existentes de mudança!

Se a qualquer momento achar que posso responder a alguma pergunta, é um verdadeiro prazer para mim escrever.

Afetuosamente seu, C. DARWIN.

CHARLES DARWIN A J. MURRAY. Ilkley, Yorkshire [1859].

Meu caro Senhor,

Recebi a sua amável nota e a cópia; estou infinitamente satisfeito e orgulhoso com a aparência do meu filho.

Concordo inteiramente com tudo o que propõe sobre o preço. Mas é realmente demasiado generoso quanto às, para mim, escandalosamente pesadas correções. Não estará a agir injustamente para consigo mesmo? Não seria melhor, pelo menos, dividir as 72 libras e 8 xelins? Ficarei plenamente satisfeito, pois não tinha o direito de enviar, embora de forma totalmente não intencional e inesperada, um manuscrito tão mal composto aos impressores.

Obrigado pela sua amável oferta de distribuir as cópias aos meus amigos e colaboradores assim que possível. Não se incomode muito com os estrangeiros, pois os senhores Williams e Norgate ofereceram-se muito amavelmente para fazer o seu melhor, e estão habituados a enviar para todas as partes do mundo.

Pagarei pelas minhas cópias quando quiser. Estou tão contente por ter sido tão bom a ponto de assumir a publicação do meu livro.

Meu caro Senhor, seu muito sinceramente, CHARLES DARWIN.

P.S. — Por favor, não se esqueça de me avisar cerca de dois dias antes de as cópias serem distribuídas.

Não sei quando deixarei este lugar, certamente não antes de várias semanas. Sempre que estiver em Londres, visitá-lo-ei.

CAPÍTULO 1.XIV. — PELO PROFESSOR HUXLEY.

SOBRE A RECEPÇÃO DA 'ORIGEM DAS ESPÉCIES'.

Para a geração presente, isto é, as pessoas com poucos anos aquém ou além dos trinta, o nome de Charles Darwin coloca-se ao lado dos de Isaac Newton e Michael Faraday; e, como eles, evoca o grande ideal de um buscador da verdade e intérprete da Natureza. Pensam naquele que o ostentou como uma rara combinação de génio, indústria e veracidade inabalável, que conquistou o seu lugar entre os homens mais famosos da época por puro poder nativo, contra um vendaval de preconceito popular, e sem o incentivo de um sinal de favor ou apreciação das fontes oficiais de honra; como alguém que, apesar de uma sensibilidade aguda ao louvor e à censura, e não obstante provocações que poderiam ter desculpado qualquer explosão, manteve-se livre de toda a inveja, ódio e malícia, nem lidou de outra forma senão justa e corretamente com a injustiça e parcialidade que lhe foram lançadas; enquanto, até ao fim dos seus dias, estava pronto a ouvir com paciência e respeito o mais insignificante dos opositores razoáveis.

E com respeito àquela teoria da origem das formas de vida que povoam o nosso globo, com a qual o nome de Darwin está ligado tão estreitamente como o de Newton com a teoria da gravitação, nada parece estar mais longe da mente da geração presente do que qualquer tentativa de a sufocar com ridículo ou de a esmagar pela veemência da denúncia. "A luta pela existência" e a "Seleção natural" tornaram-se palavras familiares e conceitos do dia a dia. A realidade e a importância dos processos naturais nos quais Darwin fundamenta as suas deduções não são mais duvidadas do que as do crescimento e multiplicação; e, quer a plena potência que lhes é atribuída seja admitida ou não, ninguém duvida do seu significado vasto e de longo alcance. Onde quer que as ciências biológicas sejam estudadas, a 'Origem das Espécies' ilumina os caminhos do investigador; onde quer que sejam ensinadas, permeia o curso de instrução. Nem a influência das ideias Darwinianas tem sido menos profunda além dos reinos da Biologia. A mais antiga de todas as filosofias, a da Evolução, foi atada de mãos e pés e lançada na escuridão profunda durante o milénio da escolástica teológica. Mas Darwin derramou sangue novo no antigo quadro; os laços rebentaram, e o pensamento revivificado da Grécia antiga provou ser uma expressão mais adequada da ordem universal das coisas do que qualquer dos esquemas que foram aceites pela credulidade e acolhidos pela superstição de setenta gerações posteriores de homens.

Para qualquer um que estude os sinais dos tempos, o surgimento da filosofia da Evolução, na atitude de pretendente ao trono do mundo do pensamento, a partir do limbo de coisas odiadas e, como muitos esperavam, esquecidas, é o evento mais portentoso do século dezanove. Mas as armas mais eficazes dos modernos campeões da Evolução foram fabricadas por Darwin; e a 'Origem das Espécies' alistou um corpo formidável de combatentes, treinados na severa escola da Ciência Física, cujos ouvidos poderiam ter permanecido surdos às especulações dos filósofos a priori.

Não creio que qualquer pessoa cândida ou instruída negue a verdade do que acaba de ser afirmado. Pode odiar o próprio nome da Evolução, e pode negar as suas pretensões tão veementemente como um Jacobita negava as de Jorge Segundo. Mas lá está ela — não só tão solidamente assentada como a dinastia Hanoveriana, mas felizmente independente da sanção Parlamentar — e os antagonistas mais obtusos chegaram a ver que têm de lidar com um adversário cujos ossos não serão quebrados por nenhuma quantidade de palavras más.

Até os teólogos cessaram quase de opor o significado claro do Génesis ao significado não menos claro da Natureza. Os seus representantes mais cândidos, ou mais cautelosos, desistiram de lidar com a Evolução como se fosse uma heresia condenável, e refugiaram-se num de dois cursos. Ou negam que o Génesis pretendesse ensinar verdade científica, e assim salvam a veracidade do registo à custa da sua autoridade; ou gastam as suas energias a conceber as cruéis engenhosidades do reconciliador, e torturam textos na vã esperança de os fazer confessar o credo da Ciência. Mas quando o peine forte et dure termina, a antiga sinceridade do venerável sofredor reafirma-se sempre. O Génesis é honesto até ao núcleo, e professa não ser mais do que é, um repositório de veneráveis tradições de origem desconhecida, não reivindicando qualquer autoridade científica e não possuindo nenhuma.

À medida que a minha caneta termina estas passagens, não posso deixar de me divertir ao pensar em que terrível alvoroço teria sido feito (na verdade, foi feito) sobre quaisquer expressões de opinião semelhantes há um quarto de século. De fato, o contraste entre a condição atual da opinião pública sobre a questão Darwiniana; entre a estima em que as visões de Darwin são agora tidas no mundo científico; entre a aquiescência, ou pelo menos quiescência, dos teólogos da ordem que se preza nos dias de hoje e o surto de antagonismo de todos os lados em 1858-9, quando a nova teoria sobre a origem das espécies se tornou conhecida pela geração mais velha à qual pertenço, é tão surpreendente que, exceto por evidência documental, eu estaria por vezes inclinado a pensar que as minhas memórias são sonhos. Tenho um grande respeito pela geração mais nova (eles podem escrever as nossas vidas, e desfiar todas as nossas loucuras, se escolherem ter o trabalho, daqui a algum tempo), e ficaria contente por ser assegurado de que o sentimento é recíproco; mas temo que a história das nossas relações com Darwin possa provar ser um grande obstáculo para essa veneração pela nossa sabedoria que eu gostaria que eles exibissem. Não temos sequer a desculpa de que, há trinta anos, o Sr. Darwin era um novato obscuro, que não tinha pretensões à nossa atenção. Pelo contrário, as suas notáveis investigações zoológicas e geológicas tinham-lhe dado há muito uma posição assegurada entre os mais eminentes e originais investigadores do dia; enquanto a sua encantadora 'Viagem de um Naturalista' lhe tinha merecido justamente uma reputação generalizada entre o público em geral. Duvido que houvesse qualquer homem então vivo que tivesse melhor direito a esperar que qualquer coisa que ele pudesse escolher dizer sobre uma questão como a Origem das Espécies fosse ouvida com profunda atenção, e discutida com respeito; e certamente não havia homem cujo caráter pessoal devesse ter proporcionado uma melhor salvaguarda contra ataques, instintivos de malignidade e temperados com impertinências descaradas.

No entanto, essa foi a porção de um dos homens mais gentis e verdadeiros que tive a boa sorte de conhecer; e anos tiveram de passar até que a deturpação, o ridículo e a denúncia deixassem de ser os constituintes mais notáveis da maioria das multitudinosas críticas ao seu trabalho que jorraram da imprensa. Reluto em remover qualquer um destes antigos escândalos do seu esquecimento bem merecido; mas devo confirmar uma declaração que pode parecer exagerada para a geração presente, e não há peça justificativa mais apta para o propósito, ou mais digna de tal desonra, do que o artigo na 'Quarterly Review' de julho de 1860. (Eu não sabia, quando escrevi estas passagens, que a autoria do artigo tinha sido publicamente reconhecida. A confissão desacompanhada de penitência, contudo, não oferece fundamento para a mitigação do julgamento; e a gentileza com que o Sr. Darwin fala do seu agressor, Bispo Wilberforce (vol. ii.), é uma exemplificação tão marcante da sua singular doçura e modéstia, que aumenta a indignação contra a presunção do seu crítico.) Desde que Lord Brougham atacou o Dr. Young, o mundo não viu tal espécime de insolência de um pretendente superficial a um Mestre em Ciência como esta notável produção, na qual um dos mais exatos dos observadores, mais cautelosos dos raciocinadores e mais cândidos dos expositores, desta ou de qualquer outra era, é ridicularizado como uma pessoa "volúvel", que se esforça "para sustentar o seu tecido totalmente podre de suposição e especulação", e cujo "modo de lidar com a natureza" é reprovado como "totalmente desonroso para a Ciência Natural". E toda esta conversa altiva e poderosa, que teria sido indecente num dos pares do Sr. Darwin, procede de um escritor cuja falta de inteligência, ou de consciência, ou de ambas, é tão grande que, a título de objeção às visões do Sr. Darwin, pode perguntar: "É credível que todas as variedades favoráveis de nabos tendam a tornar-se homens?"; que é tão ignorante em paleontologia, que pode falar das "flores e frutos" das plantas da época carbonífera; em anatomia comparada, que pode afirmar gravemente que o aparelho de veneno das serpentes peçonhentas é "totalmente separado das leis ordinárias da vida animal, e peculiar a elas próprias"; em rudimentos de fisiologia, que pode perguntar: "que vantagem de vida poderia alterar a forma dos corpúsculos nos quais o sangue pode ser evaporado?". Nem o revisor deixa de temperar esta efusão de incapacidade absurda com um pouco de estimulação do odium theologicum. Alguma noção da história dos conflitos entre a Astronomia, a Geologia e a Teologia, leva-o a manter uma retirada aberta pela provisão de que não pode "consentir em testar a verdade da Ciência Natural pela palavra da Revelação"; mas, apesar de tudo, dedica páginas à exposição da sua convicção de que a teoria do Sr. Darwin "contradiz a relação revelada da criação com o seu Criador", e é "inconsistente com a plenitude da sua glória".

Se eu limitar a minha retrospetiva da receção da 'Origem das Espécies' a um ano, ou por aí, a partir do momento da sua publicação, não me lembro de nada tão tolo e indelicado como o artigo da 'Quarterly Review', a menos, talvez, que o discurso de um Reverendo Professor à Sociedade Geológica de Dublin pudesse entrar em competição com ele. Mas uma grande proporção dos críticos do Sr. Darwin tinha uma semelhança lamentável com o revisor da 'Quarterly', na medida em que lhes faltava a vontade, ou o engenho, para se tornarem mestres da sua doutrina; quase ninguém possuía o conhecimento necessário para o seguir através da imensa gama de ciência biológica e geológica que a 'Origem' cobria; enquanto, demasiado frequentemente, tinham prejudicado o caso por razões teológicas, e, como parece ser inevitável quando isto acontece, compensavam a falta de razão com a superfluidade de insultos.

Mas será mais agradável e mais proveitoso considerar aquelas críticas que foram reconhecidas por escritores de autoridade científica, ou que traziam evidência interna da maior ou menor competência e, frequentemente, da boa fé dos seus autores. Limitando a minha pesquisa a um ano, ou por aí, após a publicação da 'Origem', encontro entre tais críticos Louis Agassiz ("Os argumentos apresentados por Darwin em favor de uma derivação universal a partir de uma forma primária de todas as peculiaridades existentes agora entre os seres vivos não fizeram a mais leve impressão na minha mente."

"Até que os fatos da Natureza sejam demonstrados como tendo sido mal compreendidos por aqueles que os coletaram, e que tenham um significado diferente daquele que agora lhes é geralmente atribuído, considerarei, portanto, a teoria da transmutação como um erro científico, falso nos seus fatos, não científico no seu método e nocivo na sua tendência." — 'Journal' de Silliman, julho de 1860, páginas 143, 154. Extrato do 3.º volume de 'Contribuições para a História Natural dos Estados Unidos.'); Murray, um excelente entomologista; Harvey, um botânico de reputação considerável; e o autor de um artigo na 'Edinburgh Review', todos fortemente adversos a Darwin. Pictet, o distinto e amplamente erudito paleontologista de Genebra, trata o Sr. Darwin com um respeito que forma um contraste agradável com o tom de alguns dos escritores precedentes, mas consente em acompanhá-lo apenas por um caminho muito curto. ("Não vejo objeções sérias à formação de variedades por seleção natural no mundo existente, e que, no que diz respeito a épocas anteriores, esta lei possa ser assumida para explicar a origem de espécies intimamente relacionadas, supondo para este fim um período de tempo muito longo."

"Com relação a variedades simples e espécies estreitamente aliadas, acredito que a teoria do Sr. Darwin possa explicar muitas coisas e lançar uma grande luz sobre numerosas questões." -- 'Sur l'Origine de l'Espece. Par Charles Darwin.' ('Archives des Sc. de la Bibliotheque Universelle de Geneve', páginas 242, 243, março de 1860.) Por outro lado, Lyell, até aquele momento um pilar dos antitransmutacionistas (que o consideravam, desde então, como Pallas Atena pode ter olhado para Diana, após o caso de Endimião), declarou-se um darwinista, embora não sem apresentar uma séria ressalva. Não obstante, ele era uma torre de força, e sua corajosa defesa da verdade em oposição à consistência, trouxe-lhe infinito honra. Como evolucionistas, sans phrase, não me recordo entre os biólogos de mais ninguém além de Asa Gray, que travou a batalha esplendidamente nos Estados Unidos; Hooker, que não foi menos vigoroso aqui; o atual Sir John Lubbock e eu mesmo. Wallace estava longe, no Arquipélago Malaio; mas, além de sua participação direta na promulgação da teoria da seleção natural, nenhuma enumeração das influências em ação, no momento de que falo, estaria completa sem a menção de seu poderoso ensaio 'On the Law which has regulated the Introduction of New Species', que foi publicado em 1855. Ao lê-lo novamente, fiquei espantado ao recordar quão pequena foi a impressão que causou.

Na França, a influência de Elie de Beaumont e de Flourens — o primeiro dos quais diz-se ter "condenado a si mesmo à fama eterna" ao inventar o apelido de "la science moussante" para o Evolucionismo (recorda-se o efeito de outro pequeno epigrama acadêmico. Diz-se que a chamada teoria vertebral do crânio foi abortada na França pelo sussurro de um acadêmico ao seu vizinho de que, nesse caso, a cabeça de alguém seria uma "vertebre pensante."), — para não mencionar a má vontade de outros membros poderosos do Institut, produziu por muito tempo o efeito de uma conspiração do silêncio; e muitos anos se passaram antes que a Academia se redimisse da reprovação de que o nome de Darwin não se encontrava na lista de seus membros. Contudo, um escritor distinto, fora do alcance das influências acadêmicas, M. Laugel, deu uma excelente e apreciativa nota sobre a 'Origin' na 'Revue des Deux Mondes'. A Alemanha tomou seu tempo para considerar; Bronn produziu uma tradução ligeiramente expurgada da 'Origin'; e o 'Kladderadatsch' fez suas piadas sobre a origem do homem a partir do macaco; mas não me recordo de que qualquer notabilidade científica tenha se declarado publicamente em 1860. (Todavia, o homem que ocupa o lugar ao lado de Darwin em sua influência sobre os biólogos modernos, K.E. von Baer, escreveu-me, em agosto de 1860, expressando sua concordância geral com as visões evolucionistas. Sua frase, "J'ai enonce les memes idees...que M. Darwin" (volume ii.), é mostrada por seus escritos subsequentes como não significando mais do que isso.) Nenhum de nós sonhava que, no decorrer de alguns anos, a força (e talvez eu possa acrescentar a fraqueza) do "Darwinismus" teria suas ilustrações mais extensas e brilhantes na terra do saber. Se um estrangeiro pode presumir especular sobre a causa deste curioso intervalo de silêncio, imagino que foi porque uma metade dos biólogos alemães era ortodoxa a qualquer preço, e a outra metade tão distintamente heterodoxa. Estes últimos eram evolucionistas, a priori, desde o início, e devem ter sentido o desgosto natural aos filósofos dedutivos por receberem uma base indutiva e experimental para uma convicção à qual haviam chegado por um caminho mais curto. É indubitavelmente penoso aprender que, embora suas conclusões possam estar corretas, suas razões para elas estão todas erradas, ou, no mínimo, insuficientes.

No geral, então, os defensores das visões do Sr. Darwin em 1860 eram numericamente insignificantes. Não há a menor dúvida de que, se um conselho geral da Igreja científica tivesse sido realizado naquela época, teríamos sido condenados por uma maioria esmagadora. E há pouca dúvida de que, se tal conselho se reunisse agora, o decreto seria de natureza exatamente contrária. Indicaria uma falta de bom senso, bem como de modéstia, atribuir aos homens daquela geração menos capacidade ou menos honestidade do que possuem seus sucessores. Quais, então, são as causas que levaram homens instruídos e de julgamento justo daquela época a chegar a um juízo tão diferente daquele que parece justo e correto para aqueles que os sucedem? Essa é realmente uma das questões mais interessantes de todas as ligadas à história da ciência, e tentarei respondê-la. Receio que, para fazê-lo, devo correr o risco de parecer egoísta. Entretanto, se conto minha própria história é apenas porque a conheço melhor do que a de outras pessoas.

Penso que devo ter lido os 'Vestiges' antes de deixar a Inglaterra em 1846; mas, se o fiz, o livro causou pouquíssima impressão em mim, e não fui colocado em contato sério com a questão das 'Espécies' até depois de 1850. Naquela época, eu já havia terminado há muito com a cosmogonia pentateúca, que fora impressa em meu entendimento infantil como verdade divina, com toda a autoridade de pais e instrutores, e da qual me custara muitas lutas libertar-me. Mas minha mente estava isenta de preconceitos em relação a qualquer doutrina que se apresentasse, se professasse basear-se em raciocínio puramente filosófico e científico. Parecia-me então (como parece agora) que a "criação", no sentido comum da palavra, é perfeitamente concebível. Não encontro dificuldade em imaginar que, em algum período anterior, este universo não existia; e que ele fez sua aparição em seis dias (ou instantaneamente, se preferirem), em consequência da volição de algum Ser preexistente. Então, como agora, os chamados argumentos a priori contra o Teísmo; e, admitindo-se uma Divindade, contra a possibilidade de atos criativos, pareciam-me destituídos de fundamento razoável. Eu não tinha então, e não tenho agora, a menor objeção a priori a levantar contra o relato da criação de animais e plantas dado em 'Paraíso Perdido', no qual Milton incorpora tão vividamente o sentido natural do Gênesis. Longe de mim dizer que é falso porque é impossível. Limito-me ao que deve ser considerado um pedido modesto e razoável por alguma partícula de evidência de que as espécies existentes de animais e plantas originaram-se dessa maneira, como condição para minha crença em uma declaração que me parece altamente improvável.

E, para ser perfeitamente justo, eu tinha exatamente a mesma resposta a dar aos evolucionistas de 1851-8. Dentro das fileiras dos biólogos, naquela época, não encontrei ninguém, exceto o Dr. Grant, do University College, que tivesse uma palavra a dizer a favor da Evolução — e sua defesa não foi calculada para promover a causa. Fora dessas fileiras, a única pessoa conhecida por mim cujo conhecimento e capacidade impunham respeito, e que era, ao mesmo tempo, um evolucionista convicto, era o Sr. Herbert Spencer, cuja amizade fiz, creio, em 1852, e então entrei nos laços de uma amizade que, fico feliz em pensar, não conheceu interrupção. Muitas e prolongadas foram as batalhas que travamos sobre este tópico. Mas nem mesmo a rara habilidade dialética e a abundância de ilustrações aptas do meu amigo puderam me tirar da minha posição agnóstica. Assentei-me sobre dois fundamentos: primeiro, que até aquele momento, a evidência a favor da transmutação era totalmente insuficiente; e segundo, que nenhuma sugestão a respeito das causas da transmutação assumida, que tivesse sido feita, era de alguma forma adequada para explicar os fenômenos. Olhando para trás, para o estado do conhecimento naquela época, realmente não vejo que qualquer outra conclusão fosse justificável.

Naqueles dias, eu nunca tinha sequer ouvido falar da 'Biologie' de Treviranus. Entretanto, eu tinha estudado Lamarck atentamente e lido os 'Vestiges' com o devido cuidado; mas nenhum deles me forneceu qualquer bom fundamento para mudar minha atitude negativa e crítica. Quanto aos 'Vestiges', confesso que o livro simplesmente me irritou pela prodigiosa ignorância e pelo hábito de mente completamente anticientífico manifestado pelo escritor. Se teve alguma influência sobre mim, foi a de me colocar contra a Evolução; e a única resenha sobre a qual tenho remorsos de consciência, por causa de selvageria desnecessária, é uma que escrevi sobre os 'Vestiges' enquanto estava sob essa influência.

Com respeito à 'Philosophie Zoologique', não é uma reprovação a Lamarck dizer que a discussão da questão das Espécies naquela obra, o que quer que se pudesse dizer a seu favor em 1809, estava miseravelmente abaixo do nível do conhecimento de meio século depois. Nesse intervalo de tempo, a elucidação da estrutura dos animais e plantas inferiores dera origem a concepções totalmente novas de suas relações; a histologia e a embriologia, no sentido moderno, haviam sido criadas; a fisiologia fora reconstituída; os fatos da distribuição, geológica e geográfica, haviam sido prodigiosamente multiplicados e reduzidos à ordem. Para qualquer biólogo cujos estudos o tivessem levado além do simples comércio de espécies em 1850, metade dos argumentos de Lamarck estava obsoleta e a outra metade errônea, ou defeituosa, em virtude de omitir lidar com as várias classes de evidência que haviam sido trazidas à luz desde sua época. Além disso, sua única sugestão quanto à causa da modificação gradual das espécies — o esforço excitado pela mudança das condições — era, à primeira vista, inaplicável a todo o mundo vegetal. Não creio que qualquer juiz imparcial que leia a 'Philosophie Zoologique' agora, e que depois tome a crítica incisiva e eficaz de Lyell (publicada ainda em 1830), estará disposto a atribuir a Lamarck um lugar muito superior no estabelecimento da evolução biológica do que aquele que Bacon atribui a si mesmo em relação à ciência física em geral — buccinator tantum. (Erasmus Darwin promulgou primeiro as concepções fundamentais de Lamarck, e, com maior consistência lógica, aplicou-as às plantas. Mas os defensores de suas reivindicações não conseguiram mostrar que ele, em qualquer aspecto, antecipou a ideia central da 'Origin of Species'.)

Mas, por uma curiosa ironia do destino, a mesma influência que me levou a depositar tão pouca fé nas especulações modernas sobre este assunto, quanto nas veneráveis tradições registradas nos dois primeiros capítulos do Gênesis, foi talvez mais potente do que qualquer outra em manter viva uma espécie de convicção piedosa de que a Evolução, afinal, acabaria por ser verdadeira. Li recentemente, de novo, a primeira edição dos 'Principles of Geology'; e quando considero que este livro notável estivera por quase trinta anos nas mãos de todos, e que traz a qualquer leitor de inteligência comum um grande princípio e um grande fato — o princípio de que o passado deve ser explicado pelo presente, a menos que boa causa seja mostrada em contrário; e o fato de que, até onde vai nosso conhecimento da história passada da vida em nosso globo, tal causa não pode ser mostrada (O mesmo princípio e o mesmo fato guiam o resultado de toda investigação histórica sólida. A 'History of Greece' de Grote é um produto do mesmo movimento intelectual que os 'Principles' de Lyell.) — não posso deixar de acreditar que Lyell, para os outros, assim como para mim, foi o principal agente para suavizar o caminho para Darwin. Pois o uniformitarismo consistente postula a evolução tanto no mundo orgânico quanto no inorgânico. A origem de uma nova espécie por outras que não as agências ordinárias seria uma "catástrofe" vastamente maior do que qualquer uma daquelas que Lyell eliminou com sucesso da especulação geológica sóbria.

De fato, ninguém estava melhor ciente disso do que o próprio Lyell. (Lyell, com perfeito direito, reivindica esta posição para si mesmo. Ele fala de ter "defendido uma lei de continuidade mesmo no mundo orgânico, tanto quanto possível, sem adotar a teoria de transmutação de Lamarck"...)

"Mas, enquanto eu ensinava que, tão frequentemente quanto certas formas de animais e plantas desapareciam, por razões bastante inteligíveis para nós, outras tomavam seu lugar em virtude de uma causalidade que estava além de nossa compreensão; restava a Darwin acumular provas de que não há interrupção entre as espécies que entram e as que saem, que elas são obra da evolução, e não da criação especial...

"Eu certamente havia preparado o caminho neste país, em seis edições de minha obra antes que os 'Vestiges of Creation' aparecessem em 1842 [1844], para a recepção da evolução gradual e insensível das espécies de Darwin." — ('Life and Letters', Carta a Haeckel, volume ii., página 436. 23 de novembro de 1868.) Se alguém lê qualquer das edições anteriores dos 'Principles' cuidadosamente (especialmente à luz da interessante série de cartas recentemente publicada pelo biógrafo de Sir Charles Lyell), é fácil ver que, com toda a sua oposição enérgica a Lamarck, por um lado, e ao quase-progressismo ideal de Agassiz, por outro, Lyell, em sua própria mente, estava fortemente disposto a explicar a originação de todas as espécies passadas e presentes de seres vivos por causas naturais. Mas ele teria gostado, ao mesmo tempo, de manter o nome de criação para um processo natural que ele imaginava ser incompreensível.

Em uma carta endereçada a Mantell (datada de 2 de março de 1827), Lyell fala de ter acabado de ler Lamarck; expressa seu deleite com as teorias de Lamarck, e sua liberdade pessoal de qualquer objeção baseada em fundamentos teológicos. E embora esteja evidentemente alarmado com a origem pitecoide do homem envolvida na doutrina de Lamarck, ele observa:

"Mas, afinal, que mudanças as espécies podem realmente sofrer! Quão impossível será distinguir e estabelecer uma linha, além da qual algumas das assim chamadas espécies extintas nunca passaram para as recentes."

Novamente, a seguinte passagem notável ocorre no pós-escrito de uma carta endereçada a Sir John Herschel em 1836:

"Com relação à originação de novas espécies, fico muito contente em descobrir que você pensa que é provável que possa ser realizada através da intervenção de causas intermediárias. Deixei isso mais para ser inferido, não achando que valia a pena ofender certa classe de pessoas ao incorporar em palavras o que seria apenas uma especulação." (No mesmo sentido, veja a carta a Whewell, 7 de março de 1837, volume ii., página 5):

"Com relação a este último assunto [as mudanças de um conjunto de espécies animais e vegetais para outro]... você lembra o que Herschel disse em sua carta para mim. Se eu tivesse declarado tão claramente quanto ele fez a possibilidade de a introdução ou originação de espécies frescas ser um processo natural, em contradistinção a um milagroso, eu teria levantado uma hoste de preconceitos contra mim, que são infelizmente opostos a cada passo a qualquer filósofo que tente se dirigir ao público sobre esses assuntos misteriosos." Veja também a carta a Sedgwick, 12 de janeiro de 1838, ii., página 35.) Ele continua a referir-se às críticas que foram dirigidas contra ele sob o fundamento de que, ao deixar as espécies serem originadas por milagre, ele é inconsistente com sua própria doutrina de uniformitarismo; e ele deixa entender que não tinha respondido, com base em sua objeção geral à controvérsia.

Os contemporâneos de Lyell não estavam sem alguma noção de sua doutrina esotérica. A 'History of the Inductive Sciences' de Whewell, qualquer que seja seu valor filosófico, sempre vale a pena ler e é sempre interessante, se não sob outro aspecto, pelo menos como uma evidência dos limites especulativos dentro dos quais um clérigo de alta posição poderia, naquela época, vagar com segurança. No decorrer de sua discussão sobre o uniformitarismo, o enciclopédico Mestre do Trinity observa:

"O Sr. Lyell, de fato, falou de uma hipótese de que 'a criação sucessiva de espécies pode constituir uma parte regular da economia da natureza', mas ele não descreveu este processo em lugar nenhum, creio eu, de modo a fazer parecer em que departamento da ciência devemos colocar a hipótese. Essas novas espécies são criadas pela produção, em longos intervalos, de uma prole diferente em espécie dos pais? Ou as espécies assim criadas são produzidas sem pais? Elas são gradualmente evoluídas a partir de alguma substância embrionária? Ou elas saltam repentinamente do chão, como na criação do poeta?...

"Alguma seleção de uma dessas formas da hipótese, em vez das outras, com evidências para a seleção, é necessária para nos dar o direito de colocá-la entre as causas conhecidas de mudança, que neste capítulo estamos considerando. A mera convicção de que uma criação de espécies ocorreu, seja uma ou muitas vezes, enquanto não estiver conectada com nossas ciências orgânicas, é um princípio da Teologia Natural mais do que da Filosofia Física." (Whewell's 'History', volume iii., página 639-640 (Edição 2, 1847.))

A parte anterior desta crítica parece perfeitamente justa e apropriada; mas, a partir do parágrafo final, Whewell evidentemente imagina que por "criação" Lyell significa uma intervenção preternatural da Divindade; enquanto a carta a Herschel mostra que, em sua própria mente, Lyell significava causalidade natural; e não vejo razão para duvidar (As seguintes passagens nas cartas de Lyell parecem-me decisivas neste ponto):

Para Darwin, 3 de outubro de 1859 (ii, 325), na primeira leitura da 'Origin'.

"Há muito vejo com a maior clareza que se qualquer concessão for feita, tudo o que você reivindica em suas páginas finais se seguirá.

"É isso que me fez hesitar por tanto tempo, sentindo sempre que o caso do Homem e suas Raças, e de outros animais, e o das plantas, é um só e o mesmo, e que se uma vera causa for admitida por um instante, [em vez] de uma puramente desconhecida e imaginária, tal como a palavra 'criação', todas as consequências devem seguir."

Para Darwin, 15 de março de 1863 (volume ii., página 365).

"Lembro-me de que foi a conclusão a que ele [Lamarck] chegou sobre o homem que me fortaleceu trinta anos atrás contra a grande impressão que seus argumentos a princípio causaram em minha mente, tudo o mais porque Constant Prevost, um aluno de Cuvier quarenta anos atrás, me disse sua convicção 'de que Cuvier pensava que as espécies não eram reais, mas que a ciência não poderia avançar sem assumir que elas o fossem'."

Para Hooker, 9 de março de 1863 (volume ii., página 361), em referência ao sentimento de Darwin sobre a 'Antiquity of Man'.

"Ele [Darwin] parece muito desapontado por eu não ir mais longe com ele, ou não falar mais abertamente. Só posso dizer que falei abertamente até o limite total de minhas convicções atuais, e mesmo além do meu estado de SENTIMENTO quanto à descendência ininterrupta do homem a partir dos brutos, e descubro que estou meio convertendo não poucos que estavam em armas contra Darwin, e estão mesmo agora contra Huxley." Ele fala de ter tido que abandonar "ideias velhas e longamente acariciadas, que constituíam o charme para mim da parte teórica da ciência em meus dias anteriores, quando eu acreditava com Pascal na teoria, como Hallam a chama, do 'anjo arcanjo arruinado'."

Veja o mesmo sentimento na carta a Darwin, 11 de março de 1863, página 363:

"Acho que a velha 'criação' é quase tão necessária quanto sempre, mas é claro que assume uma nova forma se as visões de Lamarck melhoradas pelas suas forem adotadas." que, se Sir Charles pudesse ter evitado o corolário inevitável da origem pitecoide do homem — pelo qual, até o fim de sua vida, nutriu uma profunda antipatia — ele teria defendido a eficiência das causas agora em operação para produzir a condição do mundo orgânico, tão firmemente quanto defendeu essa doutrina em referência à natureza inorgânica.

O fato é que um olho perspicaz poderia ter visto que alguma forma ou outra da doutrina da transmutação era inevitável, desde o momento em que a verdade enunciada por William Smith de que estratos sucessivos são caracterizados por diferentes tipos de restos fósseis tornou-se uma lei da natureza firmemente estabelecida. Ninguém expôs as consequências especulativas desta generalização melhor do que o historiador das 'Inductive Sciences':

"Mas o estudo da geologia abre diante de nós o espetáculo de muitos grupos de espécies que, no curso da história da Terra, sucederam-se em vastos intervalos de tempo; um conjunto de animais e plantas desaparecendo, ao que parece, da face do nosso planeta, e outros, que antes não existiam, tornando-se os únicos ocupantes do globo. E o dilema apresenta-se então a nós de novo: ou devemos aceitar a doutrina da transmutação das espécies, e devemos supor que as espécies organizadas de uma época geológica foram transmutadas nas de outra por alguma agência de causas naturais de longa duração; ou, então, devemos acreditar em muitos atos sucessivos de criação e extinção de espécies, fora do curso comum da natureza; atos que, portanto, podemos chamar apropriadamente de milagrosos." (History of the Inductive Sciences, de Whewell. Edição ii., 1847, volume iii. páginas 624-625. Veja o veredito do autor, páginas 638-39.)

O Dr. Whewell decide-se em favor da última conclusão. E se alguém o tivesse importunado com as quatro perguntas que ele dirige a Lyell na passagem já citada, tudo o que se pode dizer agora é que ele certamente teria rejeitado a primeira. Mas teria ele realmente tido a coragem de dizer que um Rhinoceros tichorhinus, por exemplo, "foi produzido sem pais"; ou que foi "evoluído a partir de alguma substância embrionária"; ou que ele subitamente saltou do chão como o leão de Milton, "patinhando para libertar suas partes traseiras". Permito-me duvidar se até mesmo a coragem bem provada do Mestre do Trinity — física, intelectual e moral — teria sido igual a este feito. Sem dúvida, a concorrência súbita de meia tonelada de moléculas inorgânicas em um rinoceronte vivo é concebível e, portanto, pode ser possível. Mas será que tal evento reside suficientemente dentro dos limites da probabilidade para justificar a crença em sua ocorrência com base em qualquer evidência alcançável ou, de fato, imaginável?

Diante da afirmação (frequentemente repetida nos primeiros dias da oposição a Darwin) de que ele nada havia acrescentado a Lamarck, é muito interessante observar que a possibilidade de uma quinta alternativa, além das quatro que ele declarou, não surgiu na mente do Dr. Whewell. A sugestão de que novas espécies podem resultar da ação seletiva de condições externas sobre as variações, em relação ao seu tipo específico, que os indivíduos apresentam — e que chamamos de "espontâneas" porque ignoramos sua causalidade — é tão inteiramente desconhecida para o historiador das ideias científicas quanto era para os especialistas biológicos antes de 1858. Mas essa sugestão é a ideia central da 'Origin of Species' e contém a quintessência do Darwinismo.

Assim, olhando para o passado, parece-me que minha própria posição de expectativa crítica era justa e razoável, e deve ter sido adotada, pelos mesmos fundamentos, por muitas outras pessoas. Se Agassiz me dissesse que as formas de vida que sucessivamente habitaram o globo eram as encarnações de pensamentos sucessivos da Divindade; e que Ele havia eliminado um conjunto dessas encarnações por uma terrível catástrofe geológica tão logo Suas ideias assumiram uma forma mais avançada, eu me vi não apenas incapaz de admitir a precisão das deduções a partir dos fatos da paleontologia, sobre os quais essa hipótese espantosa foi fundada, mas tive de confessar minha falta de quaisquer meios de testar a correção de sua explicação sobre eles. E, além disso, eu de modo algum podia ver o que a explicação explicava. Tampouco me ajudou ser informado por um eminente anatomista que as espécies haviam sucedido umas às outras no tempo, em virtude de "uma lei criacional continuamente operativa". Isso me pareceu não ser mais do que dizer que as espécies haviam sucedido umas às outras, na forma de uma resolução para angariar votos, com "lei" para agradar ao homem de ciência, e "criacional" para atrair os ortodoxos. Então, refugiei-me naquela "thätige Skepsis" que Goethe definiu tão bem; e, invertendo o preceito apostólico de ser tudo para todos os homens, eu geralmente defendia a sustentabilidade das doutrinas recebidas quando tinha de lidar com os transmutacionistas; e defendia a possibilidade da transmutação entre os ortodoxos — aumentando, sem dúvida, uma reputação já corrente, mas totalmente imerecida, de combatividade desnecessária.

Lembro-me, durante minha primeira entrevista com o Sr. Darwin, de expressar minha crença na nitidez das linhas de demarcação entre os grupos naturais e na ausência de formas de transição, com toda a confiança da juventude e do conhecimento imperfeito. Eu não estava ciente, naquela época, de que ele estava há muitos anos ruminando sobre a questão das espécies; e o sorriso bem-humorado que acompanhou sua resposta gentil, de que essa não era inteiramente a sua visão, por muito tempo me perseguiu e me deixou intrigado. Mas parece que quatro ou cinco anos de trabalho árduo me permitiram entender o que isso significava; pois Lyell ('Life and Letters', volume ii, página 212), escrevendo a Sir Charles Bunbury (sob a data de 30 de abril de 1856), diz:

"Quando Huxley, Hooker e Wollaston estiveram com Darwin na semana passada, eles (todos os quatro) lançaram-se contra as espécies — mais longe, acredito, do que estão preparados para ir."

Não me recordo de nada disso além do fato de ter encontrado o Sr. Wollaston; e, exceto pela garantia distinta de Sir Charles quanto aos "todos os quatro", eu teria pensado que minha "outrecuidance" era provavelmente um contra-ataque ao conservadorismo de Wollaston. Com relação a Hooker, ele já era, como o Habacuque de Voltaire, "capable du tout" no que diz respeito a defender a Evolução.

Como já disse, imagino que a maioria dos meus contemporâneos que pensaram seriamente sobre o assunto estivesse muito no meu próprio estado de espírito — inclinados a dizer tanto aos mosaístas quanto aos evolucionistas: "uma praga sobre ambas as vossas casas!" e dispostos a desviar-se de uma discussão interminável e aparentemente infrutífera para trabalhar nos campos férteis dos fatos averiguáveis. E posso, portanto, supor ainda que a publicação dos artigos de Darwin e Wallace em 1858, e ainda mais a da 'Origin' em 1859, teve sobre eles o efeito de um lampejo de luz que, para um homem que se perdeu em uma noite escura, revela subitamente um caminho que, quer o leve direto para casa ou não, certamente segue o seu rumo. Aquilo que procurávamos, e não conseguíamos encontrar, era uma hipótese a respeito da origem das formas orgânicas conhecidas, que não pressupusesse a operação de causas que não pudessem ser provadas como estando realmente em ação. Não queríamos depositar nossa fé nessa ou em qualquer outra especulação, mas obter conceitos claros e definidos que pudessem ser confrontados com os fatos e ter sua validade testada. A 'Origin' nos forneceu a hipótese de trabalho que buscávamos. Além disso, prestou o imenso serviço de nos libertar para sempre do dilema — recuse-se a aceitar a hipótese da criação e o que você tem a propor que possa ser aceito por qualquer raciocinador cauteloso? Em 1857, eu não tinha nenhuma resposta pronta, e não creio que ninguém mais tivesse. Um ano depois, repreendemo-nos pela nossa lentidão em sermos perplexos por tal indagação. Minha reflexão, quando me tornei mestre da ideia central da 'Origin', foi: "Que estupidez extrema não ter pensado nisso!". Suponho que os companheiros de Colombo disseram muito o mesmo quando ele fez o ovo ficar em pé. Os fatos da variabilidade, da luta pela existência, da adaptação às condições, eram notórios o suficiente; mas nenhum de nós suspeitara que o caminho para o coração do problema das espécies jazia através deles, até que Darwin e Wallace dissiparam a escuridão, e o farol da 'Origin' guiou os perdidos.

Se a forma particular que a doutrina da evolução, conforme aplicada ao mundo orgânico, tomou nas mãos de Darwin, provaria ser definitiva ou não, era, para mim, uma questão de indiferença. Em minhas primeiras críticas à 'Origin', aventurei-me a apontar que sua base lógica era insegura enquanto experimentos em reprodução seletiva não tivessem produzido variedades que fossem mais ou menos inférteis; e essa insegurança permanece até o presente momento. Mas, com toda e qualquer dúvida crítica que minha engenhosidade cética pudesse sugerir, a hipótese darwiniana permaneceu incomparavelmente mais provável do que a hipótese da criação. E se nenhum de nós tivesse sido capaz de discernir o significado primordial de alguns dos mais patentes e notórios fatos naturais, até que fossem, por assim dizer, empurrados sob nossos narizes, que força restava no dilema — criação ou nada? Era óbvio que, doravante, a probabilidade seria imensamente maior de que os elos da causalidade natural estivessem escondidos de nossos olhos míopes do que a de que a causalidade natural fosse incompetente para produzir todos os fenômenos da natureza. O único caminho racional para aqueles que não tinham outro objetivo além da obtenção da verdade era aceitar o "Darwinismo" como uma hipótese de trabalho e ver o que se poderia fazer com ele. Ou ele provaria sua capacidade de elucidar os fatos da vida orgânica, ou entraria em colapso sob a pressão. Este era certamente o ditame do bom senso; e, por uma vez, o bom senso prevaleceu. O resultado foi aquela completa volte-face de todo o mundo científico, que deve parecer tão surpreendente para a geração atual. Não quero dizer que todos os líderes da ciência biológica tenham se declarado darwinistas; mas não creio que exista um único zoólogo, botânico ou paleontólogo, entre a multidão de trabalhadores ativos desta geração, que não seja um evolucionista, profundamente influenciado pelas visões de Darwin. Seja qual for o destino final da teoria particular apresentada por Darwin, arrisco-me a afirmar que, até onde vai meu conhecimento, toda a engenhosidade e toda a erudição dos críticos hostis não lhes permitiram apresentar um fato solitário do qual se possa dizer: isto é irreconciliável com a teoria darwiniana. Na prodigiosa variedade e complexidade da natureza orgânica, há multidões de fenômenos que não são dedutíveis de quaisquer generalizações que tenhamos alcançado até agora. Mas o mesmo pode ser dito de qualquer outra classe de objetos naturais. Acredito que os astrônomos ainda não conseguiram colocar os movimentos da Lua em perfeita concordância com a teoria da gravitação.

Seria inapropriado, mesmo que fosse possível, discutir as dificuldades e problemas não resolvidos que até agora encontraram o evolucionista, e que provavelmente continuarão a confundi-lo por gerações, no curso desta breve história da recepção da grande obra do Sr. Darwin. Mas há duas ou três objeções de caráter mais geral, baseadas, ou supostamente baseadas, em fundamentos filosóficos e teológicos, que foram expressas ruidosamente nos primeiros dias da controvérsia darwiniana e que, embora tenham sido respondidas repetidas vezes, surgem aqui e ali até os dias atuais.

A mais singular dessas falácias, talvez imortais, que sobrevivem, como Titono, quando o sentido e a força as abandonaram há muito tempo, é a que acusa o Sr. Darwin de ter tentado restabelecer a velha deusa pagã, o Acaso. Diz-se que ele supõe que as variações ocorrem "por acaso", e que os mais aptos sobrevivem aos "acasos" da luta pela existência, e assim o "acaso" é substituído pelo design providencial.

Não é pouco maravilhoso que tal acusação como esta seja trazida contra um escritor que, repetidas vezes, advertiu seus leitores de que, quando usa a palavra "espontâneo", ele meramente significa que é ignorante da causa daquilo que é assim denominado; e cuja teoria inteira desmorona se a uniformidade e a regularidade da causalidade natural por eras passadas ilimitadas forem negadas. Mas, provavelmente, a melhor resposta para aqueles que falam que o Darwinismo significa o reinado do "acaso" é perguntar-lhes o que eles mesmos entendem por "acaso"? Eles acreditam que algo neste universo acontece sem razão ou sem uma causa? Eles realmente concebem que qualquer evento não tem causa, e não poderia ter sido previsto por ninguém que tivesse uma visão suficiente da ordem da Natureza? Se acreditam, são eles os herdeiros da superstição e da ignorância antigas, e cujas mentes nunca foram iluminadas por um raio de pensamento científico. O único ato de fé no convertido à ciência é a confissão da universalidade da ordem e da validade absoluta, em todos os tempos e sob todas as circunstâncias, da lei da causalidade. Esta confissão é um ato de fé porque, pela natureza do caso, a verdade de tais proposições não é suscetível de prova. Mas tal fé não é cega, mas razoável; porque é invariavelmente confirmada pela experiência e constitui o único fundamento confiável para toda ação.

Se uma dessas pessoas, em quem a adoração ao acaso de nossos ancestrais mais remotos sobrevive tão estranhamente, estiver ao alcance do mar quando um vendaval forte estiver soprando, que ela se dirija à costa e observe a cena. Que note a infinita variedade de forma e tamanho das ondas revoltas no mar; ou das curvas de suas cristas espumantes, enquanto colidem contra as rochas; que escute o rugido e o grito do cascalho enquanto é lançado para cima e arrancado da praia; ou olhe para os flocos de espuma enquanto são conduzidos de um lado para o outro pelo vento; ou note o jogo de cores que responde a um brilho de sol quando cai sobre as miríades de bolhas. Certamente aqui, se em algum lugar, ele dirá que o acaso é supremo, e dobrará o joelho como alguém que entrou no âmago da sua divindade. Mas o homem de ciência sabe que aqui, como em toda parte, a ordem perfeita se manifesta; que não há uma curva das ondas, não há uma nota no coro uivante, não há um brilho de arco-íris em uma bolha, que não seja uma consequência necessária das leis averiguadas da natureza; e que, com um conhecimento suficiente das condições, uma habilidade físico-matemática competente poderia explicar, e de fato prever, cada um desses eventos de "acaso".

Uma segunda objeção muito comum às visões do Sr. Darwin era (e é) que elas aboliriam a Teleologia e esvaziariam o argumento do design. Faz quase vinte anos que me aventurei a oferecer algumas observações sobre este assunto, e como meus argumentos até agora não receberam refutação, espero que me seja permitido reproduzi-los. Observei "que a doutrina da Evolução é a oponente mais formidável de todas as formas mais comuns e grosseiras de Teleologia. Mas talvez o serviço mais notável à Filosofia da Biologia prestado pelo Sr. Darwin seja a reconciliação da Teleologia e da Morfologia, e a explicação dos fatos de ambas, que suas visões oferecem. A teleologia que supõe que o olho, tal como o vemos no homem, ou em um dos vertebrados superiores, foi feito com a estrutura precisa que exibe, com o propósito de permitir ao animal que o possui enxergar, recebeu indubitavelmente o seu golpe de misericórdia. No entanto, é necessário lembrar que existe uma teleologia mais ampla que não é tocada pela doutrina da Evolução, mas que é realmente baseada na proposição fundamental da Evolução. Esta proposição é que o mundo inteiro, vivo e não vivo, é o resultado da interação mútua, de acordo com leis definidas, das forças (eu agora gostaria de substituir a palavra forças por 'poderes') possuídas pelas moléculas das quais a nebulosidade primitiva do universo era composta. Se isso for verdade, não é menos certo que o mundo existente jazia potencialmente no vapor cósmico, e que uma inteligência suficiente poderia, a partir de um conhecimento das propriedades das moléculas daquele vapor, ter previsto, digamos, o estado da fauna da Grã-Bretanha em 1869, com tanta certeza quanto se pode dizer o que acontecerá com o vapor do hálito em um dia frio de inverno...

...As visões teleológica e mecânica da natureza não são, necessariamente, mutuamente exclusivas. Pelo contrário, quanto mais puramente mecanicista for o especulador, mais firmemente ele assume um arranjo molecular primordial do qual todos os fenômenos do universo são as consequências, e mais completamente ele fica, assim, à mercê do teleologista, que sempre pode desafiá-lo a refutar que este arranjo molecular primordial não tinha a intenção de evoluir os fenômenos do universo." (A "Genealogia dos Animais" ('The Academy', 1869), reimpresso em 'Critiques and Addresses'.)

O arguto campeão da Teleologia, Paley, não viu dificuldade em admitir que a "produção das coisas" pode ser o resultado de trens de disposições mecânicas fixadas de antemão por designação inteligente e mantidas em ação por um poder no centro ('Natural Theology', capítulo xxiii), isto é, ele aceitou prolepticamente a doutrina moderna da Evolução; e seus sucessores fariam bem em seguir seu líder, ou, pelo menos, em atender aos seus ponderosos raciocínios, antes de correr para um antagonismo que não tem fundamento razoável.

Tendo nos livrado da crença no acaso e da descrença no design, como não sendo de modo algum apêndices da Evolução, o terceiro libelo contra essa doutrina, o de que ela é anti-teísta, talvez pudesse ser deixado por conta própria. Mas a persistência com que muitas pessoas se recusam a tirar as consequências mais simples das proposições que professam aceitar, torna aconselhável observar que a doutrina da Evolução não é nem Anti-teísta nem Teísta. Ela simplesmente não tem mais a ver com o Teísmo do que o primeiro livro de Euclides tem. É perfeitamente certo que um ovo normal recém-posto não contém nem galo nem galinha; e é também tão certo quanto qualquer proposição na física ou na moral que, se tal ovo for mantido sob condições adequadas durante três semanas, um frango ou uma galinha será encontrado nele. É também perfeitamente certo que, se a casca fosse transparente, seríamos capazes de observar a formação da ave jovem, dia após dia, por um processo de evolução, de um germe celular microscópico até seu tamanho total e complexidade de estrutura. Portanto, a Evolução, no sentido mais estrito, está realmente acontecendo neste e em análogos milhões e milhões de casos, onde quer que criaturas vivas existam. Portanto, para pedir emprestado um argumento de Butler, como aquilo que agora acontece deve ser consistente com os atributos da Divindade, se tal Ser existe, a Evolução deve ser consistente com esses atributos. E, se assim for, a evolução do universo, que não é nem mais nem menos explicável do que a de um frango, deve também ser consistente com eles. A doutrina da Evolução, portanto, nem sequer entra em contato com o Teísmo, considerado como uma doutrina filosófica. Aquilo com que ela colide, e com o que é absolutamente inconsistente, é a concepção de criação, que os especuladores teológicos basearam na história narrada na abertura do livro de Gênesis.

Há muita conversa e não pouca lamentação sobre as chamadas dificuldades religiosas que a ciência física criou. Na ciência teológica, como questão de fato, ela não criou nenhuma. Nem um problema solitário se apresenta ao Teísta filosófico, nos dias atuais, que não tenha existido desde o momento em que os filósofos começaram a pensar nos fundamentos lógicos e nas consequências lógicas do Teísmo. Todas as perplexidades reais ou imaginárias que fluem da concepção do universo como um mecanismo determinado estão igualmente envolvidas na suposição de uma Divindade Eterna, Onipotente e Onisciente. O equivalente teológico da concepção científica de ordem é a Providência; e a doutrina do determinismo segue tão seguramente dos atributos de presciência assumidos pelo teólogo quanto da universalidade da causalidade natural assumida pelo homem de ciência. Os anjos em 'Paradise Lost' teriam achado a tarefa de esclarecer Adão sobre os mistérios do "Destino, Presciência e Livre-arbítrio" não um pouco mais difícil, se seu pupilo tivesse sido educado em uma "Real-schule" e treinado em todos os laboratórios de uma universidade moderna. Com respeito aos grandes problemas da Filosofia, a geração pós-darwiniana está, em um sentido, exatamente onde as gerações pré-darwinianas estavam. Eles permanecem insolúveis. Mas a geração atual tem a vantagem de estar melhor provida de meios para libertar-se da tirania de certas soluções falsas.

O conhecido é finito, o desconhecido infinito; intelectualmente, encontramo-nos em uma ilhota no meio de um oceano ilimitável de inexplicabilidade. A nossa tarefa em cada geração é recuperar um pouco mais de terra, acrescentar algo à extensão e à solidez das nossas posses. E mesmo um olhar superficial sobre a história das ciências biológicas durante o último quarto de século é suficiente para justificar a afirmação de que o instrumento mais potente para a extensão do domínio do conhecimento natural que chegou às mãos dos homens, desde a publicação dos 'Principia' de Newton, é a 'Origem das Espécies' de Darwin.

Foi mal recebida pela geração à qual foi primeiramente endereçada, e o derramamento de disparates raivosos que provocou é triste de se pensar. Mas a geração atual provavelmente se comportará tão mal quanto se outro Darwin surgir e lhes infligir aquilo que a generalidade da humanidade mais odeia: a necessidade de revisar as suas convicções. Que sejam, pois, caridosos para conosco, os antigos; e se não se comportarem melhor do que os homens do meu tempo perante algum novo benfeitor, que se recordem de que, afinal, a nossa ira não deu em grande coisa e desabafou-se principalmente na má linguagem de censores santimoniais. Que realizem o mais rapidamente possível uma reviravolta estratégica e sigam a verdade onde quer que ela conduza. Os oponentes da nova verdade descobrirão, como os de Darwin estão fazendo, que, afinal, as teorias não alteram os fatos e que o universo permanece inalterado mesmo que os textos se desfaçam. Ou talvez, como a história se repete, a sua feliz engenhosidade também descobrirá que o vinho novo é exatamente da mesma safra que o antigo, e que (corretamente vistos) os odres velhos provam ter sido feitos expressamente para contê-lo.

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