CAPÍTULO I. O Mississippi merece ser lido.--É notável.--Em vez de alargar-se em direção à foz, estreita-se.--Despeja quatrocentos e seis milhões de toneladas de lodo.--Foi visto pela primeira vez em 1542.--É mais antigo do que algumas páginas da história europeia.--De Soto leva a melhor.--Mais antigo do que a Costa Atlântica.--Alguns mestiços dão o seu contributo.--La Salle pensa que vai dar uma mão.
CAPÍTULO II. La Salle aparece novamente, e assim também um peixe-gato.--Bisontes também.--Algumas pinturas indígenas são vistas nas rochas.--"O Pai das Águas" não desagua no Pacífico.--Mais história e indígenas.--Algumas apresentações curiosas--não do inglês antigo.--Natchez, ou o local onde se situava, é alcançado.
CAPÍTULO III. Um pouco de história.--Comércio antigo.--Frotas de carvão e jangadas de madeira.--Começamos uma viagem.--Procuro informação.--Alguma música.--O problema começa.--Conversa fiada.--O Filho da Calamidade.--Piruetas e saltos.--A lavagem.--Negócios e estatísticas.--Bando misterioso.--Trovões e relâmpagos.--O capitão fala.--Allbright chora.--O mistério resolvido.--Troça.--Sou descoberto.--Propõe-se algum trabalho artístico.--Dou conta de mim.--Libertado.
CAPÍTULO IV. A ambição dos rapazes.--Cenas da aldeia.--Imagens de barcos a vapor.--Um grande inchaço.--Um fugitivo.
CAPÍTULO V. Um viajante.--Um conversador animado.--Uma vítima de gato-do-mato.
CAPÍTULO VI. O cerco ao piloto.--Levado a bordo.--Estragando uma sesta.--Pescar uma plantação.--"Pontos" no rio.--Uma casa de piloto magnífica.
CAPÍTULO VII. Inspetores fluviais.--Choupos e Plum Point.--A travessia de Hat-Island.--Tocar e ir.--É um sucesso.--Um piloto relâmpago.
CAPÍTULO VIII. Uma arma pesada com muita carga.--Vistas aguçadas na escuridão.--Abandonado ao seu destino.--Roçando as margens.--Ensinar-lhe ou matá-lo.
CAPÍTULO IX. Sacudir o recife.--A razão destronada.--A face da água.--Uma cena fascinante.--Romance e beleza.
CAPÍTULO X. Armar-se em importante.--Um pouco humilhado.--Aprendê-lo como ele é.--O rio a subir.
CAPÍTULO XI. No negócio dos terrenos.--Efeitos da subida.-- Plantações desaparecidas.--Um mar imensurável.--Um piloto sonâmbulo.--Pilotagem sobrenatural.--Ninguém lá.--Todos salvos.
CAPÍTULO XII. Água baixa.--Sondagem com escaler.--Boias e lanternas.--Aprendizes e sondagens.--O barco afundado.--À procura dos náufragos.
CAPÍTULO XIII. A memória de um piloto.--Salários a subir.--Um alcance universal.--Habilidade e nervos.--Testando um "aprendiz".--"Recua-o pela vida".--Uma boa lição.
CAPÍTULO XIV. Pilotos e capitães.--Pilotos de alto preço.--Pilotos em demanda.--Um assobiador.--Um comércio barato.--Velocidade de duzentos e cinquenta dólares.
CAPÍTULO XV. Novos pilotos minando a Associação de Pilotos.--Muletas e salários.--Armar-se em importante.--Os capitães enfraquecem.--A associação ri-se.--O sinal secreto.--Um sistema admirável.--Duro para os de fora.--Um monopólio apertado.--Sem escapatória.--Os caminhos de ferro e a guerra.
CAPÍTULO XVI. Todos a bordo.--Um começo glorioso.--Carregados para vencer.--Bandas e cornetas.--Barcos e mais barcos.--Corredores e corridas.
CAPÍTULO XVII. Atalhos.--Escavações e disparos.--Mudanças no Mississippi.--Uma noite selvagem.--Pragas e palpites.--Stephen em dívida.--Ele confunde os seus credores.--Ele faz um novo negócio.--Pagará por ordem alfabética.
CAPÍTULO XVIII. Escolaridade rigorosa.--Sombras.--Sou inspecionado.--Onde arranjaste esses sapatos?--Puxa-a para baixo.--Quero matar o Brown.--Tento conduzi-la.--Sou elogiado.
CAPÍTULO XIX. Uma questão de veracidade.--Um pequeno desagrado.--Tenho uma audiência com o capitão.--O Sr. Brown retira-se.
CAPÍTULO XX. Torno-me passageiro.--Ouvimos as notícias.--Um estrondo trovejante.--Eles permanecem nos seus postos.--Sob o sol abrasador.--Um espetáculo pavoroso.--A sua hora soou.
CAPÍTULO XXI. Obtenho a minha licença.--A guerra começa.--Torno-me um faz-tudo.
CAPÍTULO XXII. Tento o negócio dos pseudónimos.--Região de barbas.--As botas começam a aparecer.--O homem do rio está desaparecido.--O jovem está desencorajado.--Água de amostra.--Uma bela qualidade de fumo.--Um erro supremo.--Inspecionamos a cidade.--Tráfego local de desolação.--Um depósito de lenha.
CAPÍTULO XXIII. Antigos assentamentos franceses.--Partimos para Memphis.--Jovens senhoras e bolsas de pele da Rússia.
CAPÍTULO XXIV. Recebo algumas informações.--Barcos crocodilo.--Conversa de crocodilo.--Ela era uma máquina a andar.--Sou descoberto.
CAPÍTULO XXV. O forno e a mesa do diabo.--Cai uma bomba.--Sem caiar.--Trinta anos no rio.--Uniformes do Mississippi.--Acidentes e baixas.--Duzentos naufrágios.--Uma perda para a literatura.--Escolas dominicais e pedreiros.
CAPÍTULO XXVI. Conversa de guerra.--Inclino-me para trás.--Quinze buracos de bala.--Uma história simples.--Guerras e feudos.--Darnell contra Watson.--Um bando e uma pilha de lenha.--Gramática ocidental.--Mudanças no rio.--New Madrid.--Cheias e quedas.
CAPÍTULO XXVII. Turistas e os seus cadernos.--Capitão Hall.--As emoções da Sra. Trollope.--O sentimento do Honorável Charles Augustus Murray.--As sensações do Capitão Marryat.--Os sentimentos de Alexander Mackay.--O Sr. Parkman relata.
CAPÍTULO XXVIII. Descendo o rio.--Nomeado por mim.--Plum Point novamente.--Luzes e barcos de remoção de troncos.--Mudanças infinitas.--Um rio sem lei.--Mudanças e molhes.--O tio Mumford testemunha.--Marcando o rio.--O que o governo faz.--A Comissão.--Homens e teorias.--"Apanhou-os em cheio".--Judeus e preços.
CAPÍTULO XXIX. O bando de Murel.--Um vilão consumado.--Livrar-se de testemunhas.--Stewart torna-se traidor.--Começo uma rebelião.--Recebo um fato novo.--Cobrimos os nossos rastos.--Coragem e capacidade.--Uma cidade bom samaritano.--O velho e o novo.
CAPÍTULO XXX. Um quadro melancólico.--Em movimento.--Mexericos do rio.--Ela passou faiscando.--Amenidades da vida.--Um mundo de desinformação.--Eloquência do silêncio.--Bater num tronco.--Fotograficamente exato.--Passeios de tábuas.
CAPÍTULO XXXI. Linguagem amotinada.--A casa dos mortos.--Alemão de ferro fundido e inglês flexível.--A confissão de um homem moribundo.--Estou amarrado e amordaçado.--Liberto-me.--Começo a minha busca.--O homem com um polegar.--Tinta vermelha e papel branco.--Ele caiu de joelhos.--Medo e gratidão.--Fugi pela floresta.--Um espetáculo horrível.--Grita, homem, grita.--Um olhar de surpresa e triunfo.--O gorgolejo abafado de uma risada trocista.--Como as coisas acontecem estranhamente.--O dinheiro escondido.
CAPÍTULO XXXII. A narrativa de Ritter.--Uma questão de dinheiro.--Napoleon.--Alguém está sério.--Onde costumava viver a rapariga mais bonita.
CAPÍTULO XXXIII. Uma questão de divisão.--Um lugar onde não havia licença.--A Calhoun Land Company.--A estimativa de um plantador de algodão.--Halifax e melancias.--Empregados de bar cobertos de joias.
CAPÍTULO XXXIV. Um homem austero.--Uma política de mosquitos.--Factos vestidos de collants.--Uma orelha esquerda inchada.
CAPÍTULO XXXV. Sinais e cicatrizes.--O trovão dos canhões ruge.-- Habitantes das cavernas.--Um domingo contínuo.--Uma tonelada de ferro e nenhum vidro.--O Ardent está salvo.--Carne de mula.--Um cemitério nacional.--Um cão e um obus.--Caminhos de ferro e riqueza.--Economia portuária.--Vicksburg contra o "Gold Dust".--Uma narrativa em antecipação.
CAPÍTULO XXXVI. O professor conta uma história.--Um entusiasta pelo gado.--Ele faz uma proposta.--Carregar bois em Acapulco.--Ele não foi criado para isso.--Ele é enlaçado.--Os seus olhos baços iluminaram-se.--Quatro ases, seu asno!--Ele não se importa com as chifradas.
CAPÍTULO XXXVII. Um desastre terrível.--O "Gold Dust" explode as suas caldeiras.--O fim de um bom homem.
CAPÍTULO XXXVIII. O Sr. Dickens tem uma palavra a dizer.--As melhores habitações e o seu mobiliário.--Álbuns e música.--Ceroulas e conchas.--Coelhos de açúcar e fotografias.--Sofás de crina de cavalo e apagadores de velas.--Tapetes de trapos e câmaras nupciais.
CAPÍTULO XXXIX. Arruaceiros e beleza.--Gelo como joalharia.--Fabrico de gelo.--Mais estatísticas.--Alguns caixeiros-viajantes.--Oleomargarina contra manteiga.--Azeite contra semente de algodão.--A resposta não foi captada.--Um episódio terrífico.--Um dossel sulfuroso.--Os demónios da guerra.--A terrível prova.
CAPÍTULO XL. Em flores, como uma noiva.--Um castelo caiado.--Um prospeto do Sul.--Imagens bonitas.--A refeição de um crocodilo.
CAPÍTULO XLI. Os acessos a Nova Orleães.--Uma rua movimentada.--Melhorias sanitárias.--Conquistas jornalísticas.--Cisternas e poços.
CAPÍTULO XLII. Belos cemitérios.--Camaleões e panaceias.--Inumação e infeção.--Mortalidade e epidemias.--O custo dos funerais.
CAPÍTULO XLIII. Encontro um conhecido.--Caixões e casas imponentes.--A Sra. O'Flaherty faz melhor.--Epidemias e embalsamamento.--Seiscentos por um bom caso.--Alegria e grande espírito.
CAPÍTULO XLIV. Partes francesas e espanholas da cidade.--O Sr. Cable e o bairro antigo.--Couves e bouquets.--Vacas e crianças.--A estrada de conchas. O West End.--Uma boa refeição farta.--O peixe Pompano.--A brigada da vassoura.--Pintura histórica.--Fala do Sul.--Lagniappe.
CAPÍTULO XLV. Conversa de guerra.--Combates de galos.--Demasiado para suportar.--Escrita fina.--Corridas de mulas.
CAPÍTULO XLVI. Mardi-Gras.--O Mystic Crewe.--Rex e relíquias.--Sir Walter Scott.--Um mundo atrasado.--Títulos e decorações.--Uma mudança.
CAPÍTULO XLVII. Uncle Remus.--As crianças desapontadas.--Lemos em voz alta.--O Sr. Cable e Jean au Poquelin.--Invasão involuntária.--A Idade Dourada.--Uma combinação impossível.--O proprietário materializa-se e protesta.
CAPÍTULO XLVIII. Caracóis apertados e passos saltitantes.--Arados a vapor.--Açúcar "Nº 1".--Uma risada de Frankenstein.--Correio espiritual.--Um lugar onde não há talhantes ou canalizadores.--Espasmos idióticos.
CAPÍTULO XLIX. Pilotos-agricultores.--Trabalho por quotas.--Consequências.--Homens que permanecem nos seus postos.--Ele viu o que faria.--Um dia depois da feira.
CAPÍTULO L. Um patriarca.--Folhas de um diário.--Um trava-línguas.--O marinheiro antigo.--Pelourinho na imprensa.--Verdade petrificada.
CAPÍTULO LI. Um "aprendiz" fresco ao leme.--Uma tempestade no vale.--Algumas observações sobre construção.--Comédia e tragédia.--O homem que nunca representou Hamlet.--Fiquei com sede.--Estatísticas de domingo.
CAPÍTULO LII. Agarro uma ideia.--Um graduado de Harvard.--Um ladrão penitente.--A sua história no púlpito.--Algo simétrico.--Um artista literário.--Uma epístola modelo.--Bombas a trabalhar novamente.--O cerne da nota.
CAPÍTULO LIII. Uma retirada magistral.--Uma cidade em descanso.--Travessuras de infância.--Amigos da minha juventude.--O refúgio para imbecis.--Sou presenteado com a minha medida.
CAPÍTULO LIV. Um julgamento especial.--Interesse celestial.--Uma noite de agonia.--Outro mau ataque.--Torno-me convalescente.--Dirijo-me a uma escola dominical.--Um rapaz modelo.
CAPÍTULO LV. Uma segunda geração.--Cem mil toneladas de selins.--Um segredo sombrio e terrível.--Uma família numerosa.--Uma querida de cabelos dourados.--A cruz misteriosa.--O meu ídolo está partido.--Uma má estação de arrepios e febres.--Uma gruta interessante.
CAPÍTULO LVI. História pervertida.--Uma consciência culpada.--Um caso suposto.--Um hábito a ser cultivado.--Larguei o meu fardo.--Diferença horária.
CAPÍTULO LVII. Uma cidade modelo.--Uma cidade que sobe para o sopro no verão.--O reitor espantalho.--Lançando fumo e chamas.--Uma atmosfera que sabe bem.--A terra do pôr do sol.
CAPÍTULO LVIII. Uma raça independente.--Cidades de vinte e quatro horas.--Paisagem encantadora.--O lar do arado.--Black Hawk.--Títulos flutuantes.--Um contraste.--Luzes elétricas.
CAPÍTULO LIX. Tradições indígenas e cascavéis.--Uma palavra de três toneladas.--Chimney Rock.--O homem do panorama.--Um bom salto.--A cabeça imortal.--Peboan e Seegwun.
CAPÍTULO LX. A cabeça da navegação.--De rosas a neve.--Vacinação climática.--Uma longa viagem.--Ossos da pobreza.--O pioneiro da civilização.--Jarro do império.--Gémeos siameses.--O bosque de açúcar.--Ele conquista a sua noiva.--O mistério sobre o cobertor.--Uma cidade que é sempre uma novidade.--De volta a casa.
APÊNDICE. A B C D
O 'CORPO DA NAÇÃO'
MAS a bacia do Mississippi é o Corpo da Nação. Todas as outras partes não passam de membros, importantes em si mesmos, mas mais importantes nas suas relações com este. Excluindo a bacia do Lago e 300.000 milhas quadradas no Texas e Novo México, que em muitos aspetos formam parte dela, esta bacia contém cerca de 1.250.000 milhas quadradas. Em extensão é o segundo grande vale do mundo, sendo excedido apenas pelo do Amazonas. O vale do gelado Obi aproxima-se dele em extensão; o do La Plata vem a seguir em espaço, e provavelmente em capacidade habitável, tendo cerca de oito nonos da sua área; depois vem o do Ienissei, com cerca de sete nonos; o Lena, Amoor, Hoang-ho, Yang-tse-kiang e Nilo, cinco nonos; o Ganges, menos de metade; o Indo, menos de um terço; o Eufrates, um quinto; o Reno, um quinze avos. Excede em extensão toda a Europa, excluindo a Rússia, Noruega e Suécia. _Conteria a austria quatro vezes, a alemanha ou a espanha cinco vezes, a frança seis vezes, as ilhas britânicas ou a itália dez vezes._ Conceções formadas a partir das bacias hidrográficas da Europa Ocidental são rudemente chocadas quando consideramos a extensão do vale do Mississippi; nem são aquelas formadas a partir das bacias estéreis dos grandes rios da Sibéria, os elevados planaltos da Ásia Central, ou a poderosa extensão do pantanoso Amazonas, mais adequadas. A latitude, a elevação e a pluviosidade combinam-se para tornar cada parte do Vale do Mississippi capaz de sustentar uma população densa. _Como lugar de habitação para o homem civilizado, é de longe o primeiro do nosso globo_.
MESA DO EDITOR, HARPER'S MAGAZINE, FEVEREIRO DE 1863
CAPÍTULO 1
O Rio e a Sua História
O Mississippi merece ser lido. Não é um rio comum, mas, pelo contrário, é de todas as formas notável. Considerando o Missouri o seu principal ramo, é o rio mais longo do mundo--quatro mil e trezentas milhas. Parece seguro dizer que é também o rio mais sinuoso do mundo, uma vez que, numa parte da sua jornada, utiliza mil e trezentas milhas para cobrir a mesma distância que o corvo sobrevoaria em seiscentos e setenta e cinco. Despeja três vezes mais água do que o São Lourenço, vinte e cinco vezes mais do que o Reno e trezentas e trinta e oito vezes mais do que o Tamisa. Nenhum outro rio tem uma bacia de drenagem tão vasta: retira o seu abastecimento de água de vinte e oito Estados e Territórios; de Delaware, na costa atlântica, e de todo o país entre este e Idaho na encosta do Pacífico--uma extensão de quarenta e cinco graus de longitude. O Mississippi recebe e transporta para o Golfo água de cinquenta e quatro rios subordinados que são navegáveis por barcos a vapor, e de algumas centenas que são navegáveis por chatas e barcos de quilha. A área da sua bacia de drenagem é tão grande como as áreas combinadas da Inglaterra, País de Gales, Escócia, Irlanda, França, Espanha, Portugal, Alemanha, Áustria, Itália e Turquia; e quase toda esta vasta região é fértil; o vale do Mississippi, propriamente dito, é excecionalmente fértil.
É um rio notável nisto: que em vez de se alargar em direção à foz, estreita-se; torna-se mais estreito e mais profundo. Da junção do Ohio até um ponto a meio caminho do mar, a largura média é de uma milha em águas altas: daí até ao mar a largura diminui constantemente, até que, nas 'Passagens', acima da foz, é pouco mais de meia milha. Na junção do Ohio, a profundidade do Mississippi é de oitenta e sete pés; a profundidade aumenta gradualmente, atingindo cento e vinte e nove logo acima da foz.
A diferença na subida e descida é também notável--não no rio superior, mas no rio inferior. A subida é toleravelmente uniforme até Natchez (trezentas e sessenta milhas acima da foz)--cerca de cinquenta pés. Mas em Bayou La Fourche o rio sobe apenas vinte e quatro pés; em Nova Orleães apenas quinze, e logo acima da foz apenas dois pés e meio.
Um artigo no 'Times-Democrat' de Nova Orleães, baseado em relatórios de engenheiros competentes, afirma que o rio despeja anualmente quatrocentos e seis milhões de toneladas de lodo no Golfo do México--o que traz à memória o nome rude do Capitão Marryat para o Mississippi--'o Grande Esgoto'. Este lodo, solidificado, faria uma massa de uma milha quadrada e duzentos e quarenta e um pés de altura.
O depósito de lodo estende gradualmente a terra--mas apenas gradualmente; estendeu-a pouco menos de um terço de milha nos duzentos anos que decorreram desde que o rio ocupou o seu lugar na história. A crença dos cientistas é que a foz costumava ser em Baton Rouge, onde as colinas terminam, e que as duzentas milhas de terra entre ali e o Golfo foram construídas pelo rio. Isto dá-nos a idade daquele pedaço de terra, sem qualquer problema--cento e vinte mil anos. No entanto, é o lote de terra mais jovem que existe por ali em qualquer lugar.
O Mississippi é notável ainda de outra forma--a sua disposição para dar saltos prodigiosos cortando através de estreitos istmos de terra, e assim endireitando-se e encurtando-se. Mais de uma vez encurtou-se trinta milhas num único salto! Estes atalhos tiveram efeitos curiosos: atiraram várias cidades ribeirinhas para as zonas rurais, e construíram bancos de areia e florestas à frente delas. A cidade de Delta costumava ficar três milhas abaixo de Vicksburg: um atalho recente mudou radicalmente a posição, e Delta fica agora duas milhas acima de Vicksburg.
Ambas estas cidades ribeirinhas foram retiradas para o campo por esse atalho. Um atalho faz estragos com linhas de fronteira e jurisdições: por exemplo, um homem vive no Estado do Mississippi hoje, um atalho ocorre durante a noite, e amanhã o homem encontra-se a si próprio e à sua terra do outro lado do rio, dentro das fronteiras e sujeito às leis do Estado da Luisiana! Tal coisa, acontecendo no rio superior nos velhos tempos, poderia ter transferido um escravo do Missouri para o Illinois e feito dele um homem livre.
O Mississippi não altera a sua localização apenas por atalhos: está sempre a mudar o seu habitat fisicamente--está sempre a mover-se fisicamente para o lado. Em Hard Times, La., o rio fica duas milhas a oeste da região que costumava ocupar. Como resultado, o local original daquele assentamento não fica agora na Luisiana, mas do outro lado do rio, no Estado do Mississippi. _Quase a totalidade daquelas mil e trezentas milhas do antigo rio mississippi por onde la salle flutuou nas suas canoas, há duzentos anos, é agora terra firme e sólida_. O rio situa-se à direita dela, em alguns lugares, e à esquerda dela noutros lugares.
Embora o lodo do Mississippi construa terra lentamente, lá na foz, onde as ondas do Golfo interferem com o seu trabalho, constrói suficientemente depressa em regiões melhor protegidas mais acima: por exemplo, Prophet's Island continha mil e quinhentos acres de terra há trinta anos; desde então o rio acrescentou-lhe setecentos acres.
Mas basta destes exemplos das excentricidades do poderoso curso de água por agora--darei alguns mais deles mais adiante no livro.
Deixemos a história física do Mississippi, e digamos uma palavra sobre a sua história histórica--por assim dizer. Podemos olhar brevemente para a sua sonolenta primeira época em dois capítulos curtos; para a sua segunda época, mais desperta, em mais dois; para a sua época mais próspera e mais desperta em muitos capítulos seguintes; e depois falar sobre a sua época presente, comparativamente tranquila, no que restar do livro.
O mundo e os livros estão tão habituados a usar, e a usar em demasia, a palavra 'novo' em relação ao nosso país, que cedo ficamos com a impressão e retemos permanentemente a ideia de que não há nada de antigo nele. Sabemos, naturalmente, que existem várias datas comparativamente antigas na história americana, mas os números por si só não transmitem às nossas mentes qualquer ideia justa, qualquer perceção distinta, do estiramento de tempo que representam. Dizer que De Soto, o primeiro homem branco que alguma vez viu o Rio Mississippi, viu-o em 1542, é uma observação que afirma um facto sem o interpretar: é algo como dar as dimensões de um pôr do sol por medidas astronómicas, e catalogar as cores pelos seus nomes científicos;--como resultado, obtém-se o facto seco do pôr do sol, mas não se vê o pôr do sol. Teria sido melhor pintar um quadro dele.
A data 1542, isolada, significa pouco ou nada para nós; mas quando se agrupam algumas datas e factos históricos vizinhos à sua volta, adiciona-se perspetiva e cor, e então percebe-se que esta é uma das datas americanas que é bastante respeitável pela idade.
Por exemplo, quando o Mississippi foi visto pela primeira vez por um homem branco, menos de um quarto de século tinha decorrido desde a derrota de Francisco I em Pavia; a morte de Rafael; a morte de Bayard, _Sans Peur Et Sans Reproche_; a expulsão dos Cavaleiros-Hospitalários de Rodes pelos Turcos; e a afixação das Noventa e Cinco Teses,--o ato que deu início à Reforma. Quando De Soto lançou o seu olhar sobre o rio, Inácio de Loyola era um nome obscuro; a ordem dos Jesuítas não tinha ainda um ano; a tinta de Miguel Ângelo ainda não estava seca no Juízo Final na Capela Sistina; Maria, Rainha dos Escoceses, ainda não tinha nascido, mas nasceria antes do ano terminar. Catarina de Médici era uma criança; Isabel de Inglaterra ainda não tinha chegado à adolescência; Calvino, Benvenuto Cellini e o Imperador Carlos V estavam no auge da sua fama, e cada um estava a fabricar história à sua própria maneira peculiar; Margarida de Navarra estava a escrever o 'Heptameron' e alguns livros religiosos,--o primeiro sobrevive, os outros estão esquecidos, sendo a inteligência e a indelicadeza por vezes melhores conservantes literários do que a santidade; a moral frouxa da corte e o absurdo negócio da cavalaria estavam em plena força, e a justa e o torneio eram o passatempo frequente de gentis-homens titulados que sabiam lutar melhor do que soletrar, enquanto a religião era a paixão das suas senhoras, e classificar a sua descendência em filhos de pleno direito e filhos por patente era o seu passatempo.
De facto, por toda a parte, a religião estava numa condição peculiarmente florescente: o Concílio de Trento estava a ser convocado; a Inquisição Espanhola estava a assar, a torturar e a queimar, com mão livre; noutros lugares no continente as nações estavam a ser persuadidas a uma vida santa pela espada e pelo fogo; na Inglaterra, Henrique VIII tinha suprimido os mosteiros, queimado Fisher e outro bispo ou dois, e estava a começar eficazmente a sua reforma inglesa e o seu harém. Quando De Soto estava nas margens do Mississippi, faltavam ainda dois anos para a morte de Lutero; onze anos para a queima de Serveto; trinta anos para o massacre de São Bartolomeu; Rabelais ainda não tinha sido publicado; 'D. Quixote' ainda não tinha sido escrito; Shakespeare ainda não tinha nascido; cem longos anos deveriam ainda decorrer antes que os ingleses ouvissem o nome de Oliver Cromwell.
Inquestionavelmente, a descoberta do Mississippi é um facto datável que suaviza e modifica consideravelmente a novidade brilhante do nosso país, e dá-lhe um aspeto exterior de ferrugem e antiguidade bastante respeitável.
De Soto apenas vislumbrou o rio, depois morreu e foi enterrado nele pelos seus padres e soldados. Esperar-se-ia que os padres e os soldados multiplicassem as dimensões do rio por dez--o costume espanhol da época--e assim movessem outros aventureiros a ir imediatamente explorá-lo. Pelo contrário, as suas narrativas, quando chegaram a casa, não excitaram essa quantidade de curiosidade. O Mississippi foi deixado por visitar pelos brancos durante um período de anos que parece incrível nos nossos dias energéticos. Pode-se 'sentir' o intervalo na mente, de certa forma, dividindo-o desta maneira: Depois de De Soto vislumbrar o rio, decorreu uma fração um pouco inferior a um quarto de século, e então Shakespeare nasceu; viveu um pouco mais de meio século, depois morreu; e quando ele estava na sua sepultura consideravelmente mais de meio século, o segundo homem branco viu o Mississippi. Nos nossos dias não permitimos que cento e trinta anos decorram entre vislumbres de uma maravilha. Se alguém descobrisse um riacho no condado ao lado daquele em que fica o Polo Norte, a Europa e a América iniciariam quinze expedições dispendiosas para lá: uma para explorar o riacho, e as outras catorze para caçarem-se umas às outras.
'I’m a man; I’m a man; I’m a man! I’m the biggest man in the world, and I’m a terror to my enemies! I’m a wild horse from the prairies, and I’m a lightning-bolt in a gale! I’m the screamer of the Mississippi, and I can whip any man who says I ain't! Whoop! I’m a man; I’m a man; I’m a man!'
Then he jumped up, and cracked his heels together, and says: 'I’m the king of the river, and I’m the king of the rafts! I can drink the river dry, and I can out-talk any man that ever lived! I’m the man that never was beat, and the man that never will be! I’m a hurricane, and I’m a earthquake, and I’m the boss of the whole wide world! Whoop!'
Then he got down on his all-fours and barked like a dog, and then he let out a yell that you could hear for a mile, and then he stood up and says: 'Now, I’m ready! Who wants a piece of me? Who wants a taste of my fist? Step up, step up, and get your medicine!'
But nobody stepped up. The man who had been singing sat down and looked at the fire, and didn't say a word. The big man stood there a minute, scowling and looking for trouble, and then he laughed—a big, deep, rumbling laugh—and said: 'Well, I reckon there ain't no fight in none of you. So I’ll just sit down and finish my drink.' And he did.
«Whoo-oop! Sou o legítimo fabricante de cadáveres, de mandíbula de ferro, montado em latão e de ventre de cobre, vindo das terras selvagens de Arkansaw! Olhem para mim! Sou o homem a quem chamam de Morte Súbita e Desolação Geral! Gerado por um furacão, parido por um terremoto, meio-irmão da cólera, parente próximo da varíola por parte de mãe! Olhem para mim! De café da manhã, quando estou com saúde de ferro, devoro dezenove jacarés e um barril de uísque, e quando estou adoentado, um alqueire de cascavéis e um cadáver! Fendo as rochas eternas com meu olhar e sufoco o trovão quando falo! Whoo-oop! Recuem e deem-me espaço de acordo com minha força! Sangue é minha bebida natural, e os lamentos dos moribundos são música para meus ouvidos! Lancem seus olhos sobre mim, cavalheiros! — e fiquem baixos e prendam a respiração, pois estou prestes a me soltar!»
Durante todo o tempo em que proferiu isso, ele sacudia a cabeça e mantinha um olhar feroz, inchando-se em um pequeno círculo, arregaçando as mangas e, de vez em quando, endireitando-se e batendo no peito com o punho, dizendo: «Olhem para mim, cavalheiros!» Quando terminou, deu um salto e bateu os calcanhares um no outro três vezes, soltando um rugido: «Whoo-oop! Sou o filho de uma gata selvagem mais sanguinário que existe!»
Então, o homem que começara a confusão inclinou seu velho chapéu de abas caídas sobre o olho direito; depois, inclinou-se para a frente, com as costas curvadas e a traseira bem empinada, com os punhos empurrando para fora e puxando para dentro à sua frente, e assim circulou umas três vezes, inflando-se e respirando com força. Então endireitou-se, saltou e bateu os calcanhares três vezes antes de aterrissar (o que os fez aplaudir), e começou a gritar assim:
«Whoo-oop! Curvem o pescoço e espalhem-se, pois o reino da tristeza está chegando! Segurem-me à terra, pois sinto meus poderes trabalhando! Whoo-oop! Sou um filho do pecado, não me deixem começar! Vidro fumê, aqui, para todos! Não tentem olhar para mim a olho nu, cavalheiros! Quando estou brincalhão, uso os meridianos de longitude e os paralelos de latitude como rede e arrasto o Oceano Atlântico em busca de baleias! Coço a cabeça com o raio e ronrono até dormir com o trovão! Quando sinto frio, fervo o Golfo do México e tomo banho nele; quando sinto calor, abano-me com uma tempestade equinocial; quando sinto sede, estico a mão e chupo uma nuvem até secá-la como uma esponja; quando percorro a terra com fome, a miséria segue meus passos! Whoo-oop! Curvem o pescoço e espalhem-se! Ponho a mão na face do sol e faço a noite sobre a terra; arranco um pedaço da lua e apresso as estações; sacudo-me e faço as montanhas desmoronarem! Contemplem-me através de couro — não usem o olho nu! Sou o homem de coração petrificado e entranhas de chapa de caldeira! O massacre de comunidades isoladas é o passatempo dos meus momentos de ócio, a destruição de nacionalidades, o negócio sério da minha vida! A vastidão ilimitada do grande deserto americano é minha propriedade privada, e enterro meus mortos em minhas próprias terras!» Ele saltou e bateu os calcanhares três vezes antes de aterrissar (aplaudiram-no novamente), e ao descer, gritou: «Whoo-oop! Curvem o pescoço e espalhem-se, pois o filho querido da calamidade está chegando!»
Então o outro começou a inchar-se e a fanfarronear novamente — o primeiro, o que chamavam de Bob; em seguida, o Filho da Calamidade entrou na conversa novamente, mais grandioso do que nunca; depois, ambos começaram ao mesmo tempo, inflando-se e girando um em torno do outro, esmurrando quase na cara um do outro, gritando e discutindo como índios; depois Bob chamou o Filho de nomes, e o Filho devolveu os nomes; depois, Bob chamou-o de nomes bem mais rudes e o Filho retrucou com o pior tipo de linguagem; em seguida, Bob derrubou o chapéu do Filho, e o Filho apanhou-o e chutou o chapéu de fitas de Bob a uns dois metros de distância; Bob foi buscá-lo e disse que não importava, que aquilo não seria o fim, porque ele era um homem que nunca esquecia e nunca perdoava, e que era melhor o Filho se cuidar, pois viria um tempo, tão certo quanto ser um homem vivo, em que ele teria de responder por isso com o melhor sangue de seu corpo. O Filho disse que nenhum homem estava mais disposto do que ele para que esse tempo chegasse, e daria a Bob um aviso justo, agora, para nunca mais cruzar seu caminho, pois ele nunca descansaria enquanto não vadeasse em seu sangue, pois essa era sua natureza, embora estivesse poupando-o agora por causa de sua família, se ele tivesse uma.
Ambos iam se afastando em direções diferentes, rosnando e balançando a cabeça, falando sobre o que pretendiam fazer; mas um sujeito de bigodes pretos saltou e disse:
«Voltem aqui, seus covardes de peito de frango, e eu darei uma surra nos dois!»
E ele fez isso mesmo. Ele os agarrou, sacudiu-os para lá e para cá, chutou-os de um lado para o outro, derrubou-os espalhados mais rápido do que conseguiam se levantar. Ora, não se passaram dois minutos e eles imploravam como cães — e como a outra turma gritava, ria e batia palmas durante todo o tempo, gritando: «Manda ver, Fabricante de Cadáveres!» «Ei! De novo nele, Filho da Calamidade!» «Parabéns para você, pequeno Davy!» Bem, foi uma verdadeira confusão por um tempo. Bob e o Filho estavam com narizes vermelhos e olhos negros quando terminaram. O pequeno Davy obrigou-os a admitir que eram patifes e covardes e que não mereciam comer com um cão ou beber com um negro; depois, Bob e o Filho apertaram as mãos um do outro, muito solenemente, e disseram que sempre se respeitaram e estavam dispostos a deixar as águas passadas passarem. Então lavaram o rosto no rio; e, nesse instante, houve uma ordem alta para preparar a travessia, e alguns foram para a frente manejar os remos, e o resto foi para a popa cuidar dos remos de trás.
Fiquei imóvel e esperei por quinze minutos, e fumei um cachimbo que um deles deixou ao meu alcance; então a travessia terminou, e eles voltaram pesadamente, beberam um pouco e voltaram a conversar e a cantar. Depois, tiraram uma velha rabeca, e um tocava enquanto outro batia o juba, e o resto se soltou num verdadeiro bailado de balsa à moda antiga. Não conseguiram manter aquilo por muito tempo sem ficarem sem fôlego, então logo se sentaram em torno do jarro novamente.
Cantaram «jolly, jolly raftman's the life for me» (a vida de alegre balseiro é para mim), com um coro retumbante, e depois começaram a falar sobre as diferenças entre porcos e seus diferentes hábitos; depois sobre mulheres e seus diferentes modos; depois sobre as melhores maneiras de apagar casas em chamas; depois sobre o que deveria ser feito com os índios; depois sobre o que um rei tinha de fazer e quanto recebia; depois sobre como fazer gatos brigarem; depois sobre o que fazer quando um homem tem convulsões; e depois sobre as diferenças entre rios de água clara e rios de água barrenta. O homem a quem chamavam de Ed disse que a água barrenta do Mississippi era mais saudável para beber do que a água clara do Ohio; ele disse que, se você deixasse uma caneca dessa água amarela do Mississippi decantar, teria cerca de um centímetro e meio a dois centímetros de lama no fundo, dependendo do nível do rio, e então ela não seria melhor do que a água do Ohio — o que você precisava fazer era mantê-la agitada — e quando o rio estava baixo, manter lama à mão para colocar e engrossar a água como deveria ser.
O Filho da Calamidade disse que era verdade; ele disse que havia nutrientes na lama, e um homem que bebesse água do Mississippi poderia cultivar milho no estômago se quisesse. Ele diz:
«Olhem para os cemitérios; isso conta a história. Árvores não crescem nada em um cemitério de Cincinnati, mas em um cemitério de Saint Louis elas crescem mais de duzentos metros de altura. É tudo por causa da água que as pessoas bebiam antes de serem enterradas. Um cadáver de Cincinnati não fertiliza solo nenhum.»
E conversaram sobre como a água do Ohio não gostava de se misturar com a do Mississippi. Ed disse que, se você pegar o Mississippi em uma cheia quando o Ohio está baixo, encontrará uma larga faixa de água clara por todo o lado leste do Mississippi por uns cento e sessenta quilômetros ou mais, e no minuto em que você sai a uns quatrocentos metros da margem e passa a linha, ela fica toda espessa e amarela pelo resto do caminho até o outro lado. Depois falaram sobre como impedir que o tabaco mofasse, e disso passaram para fantasmas e contaram um monte de coisas que outras pessoas tinham visto; mas Ed diz:
«Por que vocês não contam algo que vocês mesmos viram? Deixem-me falar. Cinco anos atrás, eu estava em uma balsa tão grande quanto esta, e bem por aqui era uma noite clara de luar, e eu estava de vigia e encarregado do remo de boreste à frente, e um dos meus companheiros era um homem chamado Dick Allbright, e ele veio até onde eu estava sentado, na frente — bocejando e se espreguiçando, ele estava — e inclinou-se na borda da balsa e lavou o rosto no rio, e veio sentar-se ao meu lado e pegou seu cachimbo, e tinha acabado de enchê-lo, quando olha para cima e diz:
«— Ora, olhe aqui — diz ele —, não é o sítio do Buck Miller, ali na curva?»
«— Sim — digo eu —, é. Por quê?» Ele pousou o cachimbo e apoiou a cabeça na mão, e diz:
«— Achei que estaríamos mais abaixo.» Eu digo:
«— Eu também achei, quando saí do turno — estávamos em turnos de seis horas — mas os rapazes me disseram — digo eu — que a balsa não parecia se mover quase nada na última hora — digo eu —, embora ela esteja deslizando bem agora — digo eu.» Ele soltou um gemido e diz:
«— Já vi uma balsa agir assim antes, por aqui — diz ele. — Parece-me que a corrente quase parou acima da cabeceira desta curva nos últimos dois anos — diz ele.»
«Bem, ele se levantou duas ou três vezes e olhou para longe e ao redor na água. Isso me fez começar também. A gente sempre faz o que vê alguém fazer, mesmo que não faça sentido. Logo depois vi algo preto flutuando na água, bem longe a boreste e atrás de nós. Vi que ele também estava olhando. Eu digo:
«— O que é aquilo?» Ele diz, meio irritado:
«— Não é nada além de um barril vazio.»
«— Um barril vazio! — digo eu. — Ora — digo eu —, um binóculo é uma piada perto dos seus olhos. Como você pode saber que é um barril vazio?» Ele diz:
«— Eu não sei; acho que não é um barril, mas pensei que pudesse ser — diz ele.»
«— Sim — digo eu —, assim como poderia ser qualquer outra coisa; a gente não pode dizer nada sobre isso, a tal distância — digo eu.»
«Não tínhamos mais nada para fazer, então continuamos observando. A pouco e pouco, digo:
«— Ora, olhe aqui, Dick Allbright, aquela coisa está nos alcançando, eu acho.»
«Ele não disse nada. A coisa se aproximava e se aproximava, e eu julguei que devia ser um cão que estava exausto. Bem, deslizamos para a travessia, e a coisa flutuou através da faixa brilhante do luar e, por George, era um barril. Digo:
«— Dick Allbright, o que fez você pensar que aquilo era um barril, quando estava a oitocentos metros de distância? — digo eu.» Ele diz:
«— Eu não sei.» Digo eu:
«— Você me diga, Dick Allbright.» Ele diz:
«— Bem, eu sabia que era um barril; já o vi antes; muitos já o viram; dizem que é um barril assombrado.»
«Chamei o resto da vigia, e eles vieram e ficaram ali, e eu contei a eles o que Dick disse. Flutuava bem ao nosso lado agora, e não ganhava mais terreno. Estava a uns seis metros. Alguns queriam trazê-lo a bordo, mas os outros não queriam. Dick Allbright disse que balsas que tinham mexido com ele tinham tido má sorte por causa disso. O capitão da vigia disse que não acreditava nisso. Disse que achava que o barril ganhava terreno porque estava em uma corrente um pouco melhor do que a nossa. Disse que ele iria embora logo, logo.»
«Então passamos a conversar sobre outras coisas, cantamos uma música e depois fizemos um bailado; e depois disso o capitão da vigia pediu outra música; mas o céu estava ficando nublado agora, e o barril ficou bem ali no mesmo lugar, e a música não parecia ter muita animação, de alguma forma, e então não a terminaram, e não houve aplausos, mas tudo meio que esfriou, e ninguém disse nada por um minuto. Então todos tentaram falar ao mesmo tempo, e um sujeito contou uma piada, mas não adiantou, eles não riram, e até o sujeito que contou a piada não riu, o que não é costume. Ficamos todos carrancudos e observamos o barril, e estávamos inquietos e desconfortáveis. Bem, senhor, o tempo fechou, escuro e parado, e então o vento começou a gemer, e em seguida o raio começou a brilhar e o trovão a resmungar. E logo houve uma tempestade de verdade, e no meio dela um homem que corria para a popa tropeçou e caiu e torceu o tornozelo, de modo que teve de parar. Isso fez os rapazes balançarem a cabeça. E toda vez que o raio brilhava, lá estava aquele barril, com luzes azuis piscando ao seu redor. Estávamos sempre à espreita dele. Mas, pouco antes do amanhecer, ele se foi. Quando o dia clareou, não podíamos vê-lo em lugar nenhum, e não ficamos tristes, também.»
«Mas na noite seguinte, por volta das nove e meia, quando havia canções e folia, eis que ele volta novamente e assume seu velho posto no lado de boreste. Não houve mais folia. Todos ficaram solenes; ninguém falava; você não conseguia fazer ninguém fazer nada além de sentar-se por ali, melancólico, e olhar para o barril. Começou a nublar novamente. Quando a vigia trocou, a vigia de folga ficou acordada, em vez de se deitar. A tempestade rasgou e rugiu a noite toda, e no meio dela outro homem tropeçou e torceu o tornozelo, e teve de parar. O barril foi embora perto do amanhecer, e ninguém o viu ir.»
«Todos ficaram sóbrios e abatidos o dia todo. Não quero dizer o tipo de sobriedade que vem de evitar a bebida — não isso. Eles estavam quietos, mas todos bebiam mais do que o costume — não juntos —, mas cada homem se afastava e bebia em particular, sozinho.»
«Depois de escurecer, a vigia de folga não se deitou; ninguém cantou, ninguém falou; os rapazes também não se espalharam; eles meio que se amontoaram, na frente; e por duas horas ficaram lá, perfeitamente imóveis, olhando fixamente na mesma direção, e soltando um suspiro de vez em quando. E então, lá vem o barril novamente. Ele assumiu seu lugar de sempre. Ficou lá a noite toda; ninguém se deitou. A tempestade veio de novo, depois da meia-noite. Ficou terrivelmente escuro; a chuva caía; granizo, também; o trovão estrondava, rugia e bramia; o vento soprava como um furacão; e o raio se espalhava sobre tudo em grandes clarões, e mostrava a balsa toda tão clara quanto o dia; e o rio batia, branco como leite, até onde você podia ver por quilômetros, e lá estava aquele barril, balançando, como sempre. O capitão ordenou que a vigia manejasse os remos da popa para uma travessia, e ninguém quis ir — nada de tornozelos torcidos para eles, disseram. Nem queriam caminhar para a popa. Bem, então, nesse instante, o céu se abriu com um estrondo, e o raio matou dois homens da vigia de popa e aleijou outros dois. Aleijou-os como, diz você? Ora, torceu seus tornozelos!»
«O barril foi embora no escuro entre os relâmpagos, perto do amanhecer. Bem, ninguém comeu um bocado no café da manhã naquela manhã. Depois disso, os homens ficavam à toa, em grupos de dois ou três, e falavam baixo uns com os outros. Mas nenhum deles se juntava a Dick Allbright. Todos lhe deram o gelo. Se ele chegava onde algum dos homens estava, eles se separavam e saíam de fininho. Eles não queriam manejar os remos com ele. O capitão mandou puxar todos os botes para cima da balsa, ao lado de sua cabana, e não deixou que os homens mortos fossem levados à terra para serem plantados; ele não acreditava que um homem que chegasse à terra voltaria; e ele tinha razão.»
«Depois que a noite chegou, dava para ver muito bem que ia haver confusão se aquele barril aparecesse novamente; havia um tal resmungo acontecendo. Muitos queriam matar Dick Allbright, porque ele tinha visto o barril em outras viagens, e aquilo tinha uma aparência feia. Alguns queriam colocá-lo em terra. Alguns disseram: vamos todos para terra de uma vez, se o barril aparecer novamente.»
«Este tipo de sussurro ainda estava acontecendo, com os homens reunidos na frente esperando pelo barril, quando, veja só você, lá vem ele novamente. Lá vem ele, lento e constante, e se instala em seu velho rastro. Dava para ouvir um alfinete cair. Então o capitão aparece e diz:»
«— Rapazes, não sejam um bando de crianças e tolos; eu não quero este barril nos perseguindo até Orleans, e vocês também não; bem, então, qual é a melhor maneira de pará-lo? Queimá-lo — essa é a maneira. Vou trazê-lo a bordo — diz ele. E antes que alguém pudesse dizer uma palavra, ele foi.»
«Ele nadou até ele, e enquanto o empurrava para a balsa, os homens se afastaram para um lado. Mas o velho homem trouxe-o a bordo e arrombou a tampa, e havia um bebê dentro! Sim, senhor, um bebê completamente nu. Era o bebê de Dick Allbright; ele admitiu e disse que era.»
«— Sim — diz ele, debruçando-se sobre ele —, sim, é o meu lamentado tesouro, meu pobre Charles William Allbright falecido — diz ele —, pois ele conseguia enrolar a língua nas palavras mais pomposas da língua quando queria, e apresentá-las a você sem quebrar o ritmo, em lugar nenhum. Sim, ele disse que costumava morar na cabeceira desta curva, e uma noite ele sufocou seu filho, que estava chorando, sem intenção de matá-lo — o que provavelmente era mentira —, e então ficou com medo e o enterrou em um barril, antes que sua esposa chegasse em casa, e ele foi embora, pegou a trilha do norte e foi trabalhar em balsas; e este era o terceiro ano que o barril o perseguia. Ele disse que a má sorte sempre começava leve e durava até que quatro homens fossem mortos, e então o barril não vinha mais depois disso. Ele disse que se os homens aguentassem mais uma noite — e continuou falando assim —, mas os homens já tinham tido o suficiente. Eles começaram a preparar um bote para levá-lo a terra e linchá-lo, mas ele agarrou o pequeno bebê de repente e pulou na água com ele abraçado ao peito, derramando lágrimas, e nunca mais o vimos nesta vida, pobre velha alma sofredora, nem Charles William também.»
«Quem estava derramando lágrimas?» diz Bob; «era Allbright ou o bebê?»
«Ora, Allbright, é claro; não lhe disse que o bebê estava morto? Morto há três anos — como poderia chorar?»
«Bem, não importa como poderia chorar — como poderia se manter todo esse tempo?» diz Davy. «Você me responda isso.»
«Não sei como ele fez isso», diz Ed. «Ele fez, no entanto — é tudo o que sei sobre isso.»
«Diga — o que fizeram com o barril?» diz o Filho da Calamidade.
«Ora, jogaram-no ao mar, e ele afundou como um pedaço de chumbo.»
«Edward, a criança parecia ter sido sufocada?» diz um.
«Ela estava de cabelo repartido?» diz outro.
«Qual era a marca daquele barril, Eddy?» diz um sujeito que chamavam de Bill.
«Você tem os papéis dessas estatísticas, Edmund?» diz Jimmy.
«Diga, Edwin, você foi um dos homens que foram mortos pelo raio?» diz Davy.
«Ele? Oh, não, ele foi os dois», diz Bob. Então todos caíram na gargalhada.
«Diga, Edward, você não acha melhor tomar uma pílula? Você parece mal — não se sente pálido?» diz o Filho da Calamidade.
«Oh, vamos lá, Eddy», diz Jimmy, «seja sincero; você deve ter guardado parte daquele barril para provar o ocorrido. Mostre-nos o orifício — vamos — e todos nós acreditaremos em você.»
«Diga, rapazes», diz Bill, «vamos dividir isso. Somos treze. Eu posso engolir um treze avos dessa história, se vocês conseguirem digerir o resto.»
Ed levantou-se furioso e disse que eles podiam ir para um lugar que ele mencionou de forma bastante selvagem, e então caminhou para a popa resmungando sozinho, enquanto eles gritavam e zombavam dele, rugindo e rindo de tal modo que dava para ouvi-los a uma milha de distância.
«Rapazes, vamos repartir uma melancia por causa disso», diz o Filho da Calamidade; e ele veio vasculhando o escuro entre os fardos de telhas onde eu estava, e pôs a mão em mim. Eu estava quente, macio e nu; então ele disse «Ai!» e deu um salto para trás.
«Tragam uma lanterna ou um tição de fogo aqui, rapazes — há uma cobra aqui do tamanho de uma vaca!»
Então eles correram para lá com uma lanterna, aglomeraram-se e olharam para mim.
«Saia daí, seu mendigo!» diz um.
«Quem é você?» diz outro.
«O que você está fazendo aqui? Fale logo, ou vai por cima da borda.»
«Arrastem-no para fora, rapazes. Puxem-no pelos calcanhares.»
Comecei a implorar e rastejei para fora entre eles, tremendo. Eles me examinaram, maravilhados, e o Filho da Calamidade diz —
«Um ladrão maldito! Dê uma mão e vamos jogá-lo ao mar!»
«Não», diz o Grande Bob, «vamos pegar o pote de tinta e pintá-lo de azul-celeste da cabeça aos pés, e depois jogá-lo fora!»
«Boa, é isso aí. Vá buscar a tinta, Jimmy.»
Quando a tinta chegou, e Bob pegou o pincel e estava prestes a começar, com os outros rindo e esfregando as mãos, eu comecei a chorar, e isso de certa forma mexeu com Davy, e ele diz —
«Parem aí! Ele não passa de um pirralho. Pintarei o homem que tocar nele!»
Então olhei ao redor para eles, e alguns resmungaram e rosnaram, e Bob colocou a tinta de lado, e os outros não a pegaram.
«Venha aqui para o fogo, e vamos ver o que você está tramando aqui», diz Davy. «Agora sente-se aí e dê conta de si mesmo. Há quanto tempo você está a bordo aqui?»
«Não faz nem um quarto de minuto, senhor», digo eu.
«Como ficou seco tão rápido?»
«Não sei, senhor. Sou sempre assim, na maior parte do tempo.»
«Ah, é, é? Qual é o seu nome?»
Eu não ia dizer meu nome. Não sabia o que dizer, então apenas disse —
«Charles William Allbright, senhor.»
Então eles rugiram — a multidão inteira; e eu fiquei muito feliz por ter dito aquilo, porque talvez rir os deixasse de melhor humor.
Quando terminaram de rir, Davy diz —
«Isso dificilmente cola, Charles William. Você não poderia ter crescido tanto em cinco anos, e você era um bebê quando saiu do barril, sabe, e morto ainda por cima. Vamos, agora, conte uma história verdadeira, e ninguém vai machucá-lo, se você não estiver tramando nada de errado. Qual é o seu nome?»
«Aleck Hopkins, senhor. Aleck James Hopkins.»
«Bem, Aleck, de onde você veio para estar aqui?»
«De uma balsa comercial. Ela está ancorada na curva ali adiante. Nasci nela. Papai negociou por aqui a vida toda; e ele me disse para nadar até aqui, porque quando vocês passassem, ele disse que gostaria que algum de vocês falasse com um tal de Sr. Jonas Turner, em Cairo, e dissesse a ele —»
«Ah, vá!»
«Sim, senhor; é a mais pura verdade; papai diz —»
«Ah, vá contar para a sua avó!»
Todos riram, e tentei falar novamente, mas eles me interromperam e me calaram.
«Agora, olhe aqui», diz Davy; «você está assustado, e por isso fala coisas sem sentido. Honestamente, agora, você mora em uma balsa, ou é mentira?»
«Sim, senhor, em uma balsa comercial. Ela está ancorada na cabeceira da curva. Mas eu não nasci nela. É a nossa primeira viagem.»
«Agora você está falando a verdade! Por que você veio a bordo aqui? Para roubar?»
«Não, senhor, eu não vim. — Foi só para conseguir uma carona na balsa. Todos os garotos fazem isso.»
«Bem, eu sei disso. Mas por que você se escondeu?»
«Às vezes eles espantam os garotos.»
«É verdade. Eles podem roubar. Olhe aqui; se nós deixarmos você ir desta vez, você vai ficar longe desse tipo de encrenca daqui em diante?»
«Com certeza vou, chefe. Pode me testar.»
«Tudo bem, então. Você não está longe da margem. Pule fora, e não faça papel de bobo outra vez desse jeito. — Droga, garoto, alguns balseiros o chicoteariam até você ficar roxo de tanto apanhar!»
Não esperei para me despedir, mas pulei fora e corri para a margem. Quando Jim apareceu logo depois, a grande balsa já estava longe, fora de vista, contornando a ponta. Nadei e subi a bordo, e fiquei muito feliz por ver meu lar novamente.
O garoto não obteve a informação que procurava, mas sua aventura forneceu o vislumbre do balseiro e do barqueiro do passado que desejo oferecer neste espaço.
Chego agora a uma fase da vida no Rio Mississippi dos tempos áureos da navegação a vapor, que me parece merecer um exame completo — a maravilhosa ciência da pilotagem, conforme exibida lá. Acredito que não houve nada parecido em nenhum outro lugar do mundo.
CAPÍTULO 4
A Ambição dos Rapazes
QUANDO eu era menino, havia apenas uma ambição permanente entre meus companheiros em nossa aldeia {nota de rodapé [1. Hannibal, Missouri]} na margem oeste do Rio Mississippi. Era ser um homem de barco a vapor. Tínhamos ambições passageiras de outros tipos, mas eram apenas passageiras. Quando um circo chegava e partia, deixava-nos todos ardendo pelo desejo de nos tornarmos palhaços; o primeiro show de menestréis negros que veio à nossa região deixou-nos todos sofrendo para experimentar aquele tipo de vida; de vez em quando, tínhamos a esperança de que, se vivêssemos e fôssemos bons, Deus nos permitiria ser piratas. Essas ambições desapareciam, cada uma a seu tempo; mas a ambição de ser um homem de barco a vapor sempre permanecia.
Uma vez por dia, um paquete barato e vistoso chegava subindo de St. Louis, e outro descendo de Keokuk. Antes desses eventos, o dia era glorioso de expectativa; depois deles, o dia era uma coisa morta e vazia. Não apenas os rapazes, mas a aldeia inteira sentia isso. Depois de todos esses anos, posso imaginar aquele tempo antigo para mim agora, exatamente como era então: a cidade branca cochilando sob o sol de uma manhã de verão; as ruas vazias, ou quase; um ou dois balconistas sentados em frente às lojas da Water Street, com suas cadeiras de assento de palha inclinadas contra a parede, queixos nos peitos, chapéus caídos sobre os rostos, dormindo — com lascas de madeira o suficiente ao redor para mostrar o que os deixou assim; uma porca e uma ninhada de leitões passeando pela calçada, fazendo um bom negócio com cascas e sementes de melancia; duas ou três pequenas pilhas de carga solitárias espalhadas pelo «cais»; uma pilha de pranchas na encosta do ancoradouro pavimentado com pedras, e o perfumado bêbado da cidade dormindo à sombra delas; duas ou três chatas de madeira na ponta do cais, mas ninguém para ouvir o bater pacífico das marolas contra elas; o grande Mississippi, o majestoso, o magnífico Mississippi, rolando sua corrente de uma milha de largura, brilhando ao sol; a densa floresta do outro lado; a «ponta» acima da cidade, e a «ponta» abaixo, delimitando o vislumbre do rio e transformando-o em uma espécie de mar, e, além disso, um mar muito quieto, brilhante e solitário. De repente, uma película de fumaça escura aparece acima de uma daquelas «pontas» remotas; instantaneamente, um carroceiro negro, famoso por seu olhar rápido e voz prodigiosa, levanta o grito: «V-a-p-o-r c-h-e-g-a-n-d-o!» e a cena muda! O bêbado da cidade se agita, os balconistas acordam, um barulho furioso de carroças se segue, cada casa e loja despeja uma contribuição humana, e tudo num piscar de olhos a cidade morta está viva e em movimento.
Carroças, carrinhos, homens, rapazes, todos correm de muitos cantos para um centro comum, o cais. Reunidas ali, as pessoas fixam os olhos no barco que se aproxima como se fosse uma maravilha que estivessem vendo pela primeira vez. E o barco também é uma visão bastante bela. Ele é longo, afiado, elegante e bonito; tem duas chaminés altas com topo ornamentado, com um dispositivo dourado de algum tipo oscilando entre elas; uma casa de comando fantasiosa, um vidro e «ornamentação», empoleirada no topo do convés superior atrás delas; as caixas das rodas de pás são esplêndidas com uma pintura ou com raios dourados acima do nome do barco; o convés das caldeiras, o convés do furacão e o convés superior são cercados e ornamentados com corrimãos brancos e limpos; há uma bandeira voando galhardamente no mastro de proa; as portas da fornalha estão abertas e os fogos brilhando bravamente; os conveses superiores estão pretos de passageiros; o capitão está junto ao grande sino, calmo, imponente, a inveja de todos; grandes volumes da fumaça mais negra estão rolando e saindo das chaminés — uma grandeza preservada, criada com um pouco de pinho resinoso logo antes de chegar a uma cidade; a tripulação está agrupada no convés de proa; a larga passarela é estendida para fora sobre a amurada de bombordo, e um marinheiro invejado está pitorescamente no final dela com uma bobina de corda na mão; o vapor contido está gritando através das torneiras de nível, o capitão levanta a mão, um sino toca, as rodas param; então elas giram para trás, batendo a água em espuma, e o vaporizador está em repouso. Então, que confusão há para embarcar, e para desembarcar, e para carregar carga e descarregar carga, tudo ao mesmo tempo; e que gritaria e xingamentos com que os imediatos facilitam tudo isso! Dez minutos depois, o vaporizador está em movimento novamente, sem bandeira no mastro de proa e sem fumaça preta saindo das chaminés. Após mais dez minutos, a cidade está morta novamente, e o bêbado da cidade dormindo junto às pranchas mais uma vez.
Meu pai era juiz de paz, e eu supunha que ele possuía o poder de vida e morte sobre todos os homens e podia enforcar qualquer um que o ofendesse. Isso era distinção suficiente para mim, de modo geral; mas o desejo de ser um homem de barco a vapor continuava a se intrometer, no entanto. Primeiro, eu queria ser um camareiro, para que pudesse sair com um avental branco e sacudir uma toalha de mesa sobre a borda, onde todos os meus velhos companheiros pudessem me ver; mais tarde, pensei que preferiria ser o marinheiro que ficava na ponta da prancha com a bobina de corda na mão, porque ele era particularmente visível. Mas esses eram apenas devaneios — eram celestiais demais para serem contemplados como possibilidades reais. Aos poucos, um de nossos garotos foi embora. Não se ouviu falar dele por um longo tempo. Finalmente, ele apareceu como aprendiz de engenheiro ou «ajudante» em um barco a vapor. Essa coisa sacudiu as bases de todos os meus ensinamentos da escola dominical. Aquele garoto tinha sido notoriamente mundano, e eu exatamente o oposto; ainda assim, ele foi elevado a essa eminência, e eu deixado na obscuridade e na miséria. Não havia nada de generoso neste sujeito em sua grandeza. Ele sempre dava um jeito de ter um parafuso enferrujado para esfregar enquanto seu barco parava em nossa cidade, e ele se sentava na proteção interna e o esfregava, onde todos nós pudéssemos vê-lo, invejá-lo e odiá-lo. E sempre que seu barco estava atracado, ele voltava para casa e desfilava pela cidade com suas roupas mais pretas e gordurosas, para que ninguém pudesse deixar de lembrar que ele era um homem de barco a vapor; e ele usava todos os tipos de terminologias técnicas de barco a vapor em sua fala, como se estivesse tão acostumado a elas que esquecia que as pessoas comuns não podiam entendê-las. Ele falava do lado «bombordo» de um cavalo de uma maneira fácil e natural que faria alguém desejar estar morto. E ele estava sempre falando de «St. Looy» como um velho cidadão; ele mencionava casualmente ocasiões em que «estava descendo a Quarta Rua», ou quando estava «passando pela Casa do Plantador», ou quando houve um incêndio e ele deu uma volta nos freios do «velho Big Missouri»; e então ele continuava mentindo sobre quantas cidades do tamanho da nossa foram queimadas lá naquele dia. Dois ou três dos rapazes há muito eram pessoas de consideração entre nós porque tinham ido a St. Louis uma vez e tinham um vago conhecimento geral de suas maravilhas, mas o dia de sua glória tinha acabado agora. Eles caíram em um silêncio humilde e aprenderam a desaparecer quando o implacável «ajudante» de engenheiro se aproximava. Este sujeito tinha dinheiro, também, e óleo de cabelo. Além disso, um relógio de prata ignorante e uma corrente de relógio de latão chamativa. Ele usava um cinto de couro e não usava suspensórios. Se algum dia um jovem foi cordialmente admirado e odiado por seus companheiros, este foi ele. Nenhuma garota podia resistir aos seus encantos. Ele «passava a perna» em todos os rapazes da aldeia. Quando seu barco explodiu finalmente, isso difundiu um contentamento tranquilo entre nós como não tínhamos conhecido por meses. Mas quando ele voltou para casa na semana seguinte, vivo, renomado, e apareceu na igreja todo machucado e enfaixado, um herói brilhante, encarado e admirado por todos, parecia-nos que a parcialidade da Providência por um réptil indigno tinha atingido um ponto onde era passível de crítica.
A carreira desta criatura não poderia produzir senão um resultado, e ele logo se seguiu. Rapaz após rapaz conseguiu entrar no rio. O filho do ministro tornou-se engenheiro. Os filhos do médico e do mestre dos correios tornaram-se «ajudantes de carga»; o filho do comerciante de bebidas por atacado tornou-se barman em um barco; quatro filhos do comerciante principal, e dois filhos do juiz do condado, tornaram-se pilotos. Piloto era a posição mais grandiosa de todas. O piloto, mesmo naqueles dias de salários triviais, tinha um salário principesco — de cento e cinquenta a duzentos e cinquenta dólares por mês, e sem comida para pagar. Dois meses de seu salário pagariam o salário de um pregador por um ano. Agora, alguns de nós ficamos inconsoláveis. Não conseguíamos entrar no rio — pelo menos nossos pais não nos deixavam.
Então, aos poucos, eu fugi. Eu disse que nunca mais voltaria para casa até ser um piloto e poder chegar em glória. Mas, de alguma forma, não consegui. Fui humildemente a bordo de alguns dos barcos que ficavam amontoados como sardinhas no longo cais de St. Louis, e muito humildemente perguntei pelos pilotos, mas recebi apenas um ombro frio e palavras curtas de imediatos e balconistas. Tive que tirar o melhor proveito desse tipo de tratamento por enquanto, mas tinha devaneios reconfortantes de um futuro em que eu seria um piloto grande e honrado, com muito dinheiro, e poderia matar alguns desses imediatos e balconistas e pagar por eles.
CAPÍTULO 5
Eu Quero ser um Aprendiz de Piloto
MESES depois, a esperança dentro de mim lutou até uma morte relutante, e me vi sem ambição. Mas eu estava com vergonha de ir para casa. Eu estava em Cincinnati, e comecei a trabalhar para traçar uma nova carreira. Eu andava lendo sobre a recente exploração do Rio Amazonas por uma expedição enviada pelo nosso governo. Dizia-se que a expedição, devido a dificuldades, não tinha explorado minuciosamente uma parte do país situada nas cabeceiras, a cerca de quatro mil milhas da foz do rio. Eram apenas cerca de mil e quinhentas milhas de Cincinnati a Nova Orleans, onde eu poderia, sem dúvida, conseguir um navio. Eu tinha trinta dólares restantes; eu iria e completaria a exploração do Amazonas. Esse foi todo o pensamento que dei ao assunto. Nunca fui grande em questões de detalhes. Fiz as malas e tomei passagem em uma velha banheira chamada «Paul Jones», para Nova Orleans. Pela soma de dezesseis dólares, tive os esplendores arranhados e manchados de «seu» salão principal principalmente para mim, pois ela não era uma criatura para atrair o olhar de viajantes mais sábios.
Quando logo partimos e fomos navegando pelo largo Ohio, tornei-me um novo ser, e o objeto da minha própria admiração. Eu era um viajante! Uma palavra nunca tinha tido um gosto tão bom na minha boca antes. Eu tinha um senso exultante de estar a caminho de terras misteriosas e climas distantes que nunca senti em um grau tão edificante desde então. Eu estava em uma condição tão glorificada que todos os sentimentos ignóbeis partiram de mim, e eu era capaz de olhar para baixo e sentir pena dos não viajantes com uma compaixão que quase não tinha vestígios de desprezo. Ainda assim, quando parávamos em aldeias e depósitos de madeira, eu não podia evitar de me recostar descuidadamente nos corrimãos do convés das caldeiras para desfrutar da inveja dos garotos do campo na margem. Se eles não pareciam me descobrir, eu logo espirrava para atrair sua atenção, ou me movia para uma posição onde eles não podiam evitar de me ver. E assim que eu sabia que eles me viam, eu bocejava e me espreguiçava, e dava outros sinais de estar terrivelmente entediado com a viagem.
Mantive meu chapéu fora o tempo todo, e fiquei onde o vento e o sol pudessem me atingir, porque eu queria obter o visual bronzeado e curtido pelo tempo de um velho viajante. Antes que o segundo dia estivesse na metade, experimentei uma alegria que me encheu com a mais pura gratidão; pois vi que a pele tinha começado a criar bolhas e descascar do meu rosto e pescoço. Eu desejava que os rapazes e garotas em casa pudessem me ver agora.
Chegamos a Louisville a tempo — pelo menos nas proximidades. Ficamos presos firmemente nas rochas no meio do rio, e ficamos lá quatro dias. Eu agora estava começando a sentir um forte senso de ser parte da família do barco, uma espécie de filho pequeno para o capitão e irmão mais novo dos oficiais. Não há como estimar o orgulho que tirei dessa grandeza, ou o afeto que começou a crescer em mim por aquelas pessoas. Eu não podia saber como o senhorial homem de barco a vapor despreza esse tipo de presunção em um mero homem da terra. Eu particularmente desejava adquirir a menor ponta de atenção do grande e tempestuoso imediato, e estava alerta para uma oportunidade de prestar-lhe um serviço com esse fim. Chegou finalmente. A algazarra revoltante de montar uma verga estava acontecendo lá no convés de proa, e eu fui lá embaixo e fiquei no caminho — ou principalmente pulando para fora dele — até que o imediato subitamente rugiu uma ordem geral para alguém trazer-lhe uma alavanca de cabrestante. Saltei para o lado dele e disse: «Diga-me onde está — eu vou buscá-la!»
Se um catador de trapos tivesse se oferecido para prestar um serviço diplomático para o Imperador da Rússia, o monarca não poderia ter ficado mais atônito do que o imediato ficou. Ele até parou de xingar. Ele ficou parado e olhou para baixo para mim. Levou dez segundos para recompor seus restos desarticulados novamente. Então ele disse de forma impressionante: «Bem, se isso não supera o inferno!» e voltou ao seu trabalho com o ar de um homem que tinha sido confrontado com um problema abstruso demais para uma solução.
Afastei-me sorrateiramente e busquei a solidão pelo restante do dia. Não fui jantar; evitei a ceia até que todos os outros tivessem terminado. Eu não me sentia mais como um membro da família do barco tanto quanto antes. Contudo, meu ânimo retornou, em prestações, à medida que seguíamos rio abaixo. Eu lamentava odiar tanto o imediato, porque não estava na natureza humana (jovem) não admirá-lo. Ele era enorme e musculoso, seu rosto era todo coberto por barba e bigodes; ele tinha uma mulher vermelha e uma mulher azul tatuadas em seu braço direito — uma de cada lado de uma âncora azul com uma corda vermelha nela; e, no que dizia respeito à profanação, ele era sublime. Quando ele estava descarregando carga em um atracadouro, eu estava sempre onde pudesse ver e ouvir. Ele sentia toda a majestade de sua grande posição e fazia o mundo senti-la também. Quando dava até a mais simples das ordens, ele a descarregava como um clarão de relâmpago e enviava um longo e reverberante estrondo de palavrões trovejando atrás dela. Eu não podia evitar comparar a maneira como o homem da terra comum daria uma ordem com a maneira do imediato fazê-lo. Se o homem da terra desejasse que a prancha de embarque fosse movida um pé mais para a frente, ele provavelmente diria: "James, ou William, um de vocês empurre aquela prancha para a frente, por favor"; mas coloque o imediato em seu lugar e ele rugiria: "Aqui, agora, movam essa prancha para a proa! Espertos, agora! O que estão fazendo! Agarrem-na! AGARREM-NA! Aí! aí! A ré novamente! a ré novamente! não me ouvem? Diabos aos diabos! vão dormir em cima dela! Parem de puxar. Parem de puxar, eu lhes digo! Vão jogá-la toda para a popa? Onde vocês vão com esse barril! Para a proa com ele antes que eu faça vocês engoli-lo, seus dash-dash-dash-dashados cruzamentos entre uma tartaruga-de-lama cansada e um cavalo de carro fúnebre aleijado!"
Eu desejava poder falar assim.
Quando a mágoa da minha aventura com o imediato tinha se atenuado um pouco, comecei timidamente a me aproximar do mais humilde funcionário ligado ao barco — o vigia noturno. Ele desprezou minhas investidas no início, mas logo me aventurei a oferecer-lhe um cachimbo de giz novo; e isso o amoleceu. Então ele me permitiu sentar com ele junto ao grande sino no convés superior, e com o tempo ele se derreteu em conversa. Ele dificilmente poderia ter evitado, eu pendia com tanta homenagem sobre suas palavras e mostrava tão claramente que me sentia honrado por sua atenção. Ele me contava os nomes de cabos sombrios e ilhas obscuras enquanto deslizávamos por eles na solenidade da noite, sob as estrelas cintilantes, e aos poucos começou a falar sobre si mesmo. Ele parecia sentimental demais para um homem cujo salário era de seis dólares por semana — ou melhor, ele poderia ter parecido assim para uma pessoa mais velha do que eu. Mas eu bebia suas palavras avidamente, e com uma fé que poderia ter movido montanhas se tivesse sido aplicada criteriosamente. O que importava para mim que ele fosse sujo, maltrapilho e cheirasse a gim? O que importava para mim que sua gramática fosse ruim, sua construção pior, e sua profanação tão desprovida de arte que era um elemento de fraqueza, e não de força, em sua conversa? Ele era um homem injustiçado, um homem que tinha visto problemas, e isso era o bastante para mim. À medida que ele se suavizava em sua história lamentável, suas lágrimas gotejavam sobre a lanterna em seu colo, e eu chorava também, por simpatia.
Ele disse que era filho de um nobre inglês — um conde ou um vereador, ele não conseguia se lembrar de qual, mas acreditava que era ambos; seu pai, o nobre, o amava, mas sua mãe o odiava desde o berço; e assim, enquanto ele ainda era um menino pequeno, foi enviado para "uma daquelas antigas faculdades" — ele não conseguia se lembrar de qual; e, logo, seu pai morreu e sua mãe tomou a propriedade e o "chutou", como ele dizia. Depois que sua mãe o chutou, membros da nobreza com quem ele era familiarizado usaram sua influência para lhe conseguir o cargo de "ajudante de convés em um navio"; e a partir desse ponto meu vigia se livrou de todos os entraves de data e localidade e se ramificou em uma narrativa que fervilhava por toda parte com aventuras incríveis; uma narrativa que era tão impregnada de derramamento de sangue e tão repleta de fugas por um triz e das mais envolventes e inconscientes vilanias pessoais, que eu ficava sem fala, desfrutando, estremecendo, maravilhando-me, adorando.
Foi uma amarga decepção descobrir mais tarde que ele era um impostor baixo, vulgar, ignorante, sentimental e meio idiota, um nativo dos confins de Illinois que nunca tinha viajado, que havia absorvido literatura de contos de gato selvagem e se apropriado de suas maravilhas, até que, com o tempo, teceu retalhos daquela confusão nesta história, e então continuou contando-a para novatos como eu, até que ele mesmo passou a acreditar nela.
CAPÍTULO 6
A experiência de um aprendiz de piloto
ENTRE ficar parado nas rochas por quatro dias em Louisville e alguns outros atrasos, o pobre e velho 'Paul Jones' perdeu cerca de duas semanas fazendo a viagem de Cincinnati a Nova Orleans. Isso me deu uma chance de conhecer um dos pilotos, e ele me ensinou a manejar o barco, e assim tornou o fascínio da vida no rio mais potente do que nunca para mim.
Também me deu uma chance de conhecer um jovem que tinha comprado passagem de convés — para piorar as coisas; pois ele facilmente me pediu emprestado seis dólares com a promessa de retornar ao barco e me pagar no dia seguinte ao que chegássemos. Mas ele provavelmente morreu ou esqueceu, pois nunca apareceu. Sem dúvida foi o primeiro caso, já que ele tinha dito que seus pais eram ricos, e que ele só viajava como passageiro de convés porque era mais fresco.
Logo descobri duas coisas. Uma era que um navio dificilmente sairia para a foz do Amazonas antes de dez ou doze anos; e a outra era que os nove ou dez dólares que ainda restavam no meu bolso não seriam suficientes para uma exploração tão imponente quanto a que eu tinha planejado, mesmo que eu pudesse esperar por um navio. Portanto, seguia-se que eu devia arquitetar uma nova carreira. O 'Paul Jones' agora estava a caminho de St. Louis. Planejei um cerco contra meu piloto e, ao fim de três dias difíceis, ele se rendeu. Concordou em me ensinar o Rio Mississippi, de Nova Orleans a St. Louis, por quinhentos dólares, pagáveis a partir do primeiro salário que eu recebesse após me formar. Entrei no pequeno empreendimento de "aprender" doze ou treze mil quilômetros do grande Rio Mississippi com a confiança fácil da minha época de vida. Se eu realmente soubesse o que estava prestes a exigir das minhas faculdades, não teria tido a coragem de começar. Eu supunha que tudo o que um piloto tinha a fazer era manter seu barco no rio, e eu não considerava que aquilo pudesse ser um grande truque, já que ele era tão largo.
O barco saiu de ré de Nova Orleans às quatro da tarde, e era "nossa vez" até as oito. O Sr. Bixby, meu superior, "alinhou-o", arou o caminho passando pelas popas dos outros barcos que estavam no cais e então disse: "Aqui, assuma; raspe esses navios a vapor tão perto quanto você descascaria uma maçã." Assumi o leme, e as batidas do meu coração dispararam para as centenas; pois parecia-me que estávamos prestes a raspar o lado de cada navio na linha, estávamos tão próximos. Prendi a respiração e comecei a arrastar o barco para longe do perigo; e eu tinha minha própria opinião sobre o piloto que não tinha sabido nada melhor do que nos colocar em tal perigo, mas eu era sábio demais para expressá-la. Em meio minuto, eu tinha uma ampla margem de segurança intervindo entre o 'Paul Jones' e os navios; e, em mais dez segundos, fui afastado em desgraça, e o Sr. Bixby estava entrando em perigo novamente e me esfolando vivo com insultos sobre minha covardia. Fiquei ferido, mas fui obrigado a admirar a confiança fácil com que meu superior relaxava de um lado para o outro do seu leme, e aparava os navios tão de perto que o desastre parecia incessantemente iminente. Quando ele se acalmou um pouco, ele me disse que a água calma ficava perto da margem e a correnteza do lado de fora, e, portanto, devíamos abraçar a margem, rio acima, para obter o benefício da primeira, e ficar bem afastados, rio abaixo, para tirar vantagem da segunda. Em minha própria mente, resolvi ser um piloto de rio abaixo e deixar o rio acima para pessoas desprovidas de prudência.
De vez em quando, o Sr. Bixby chamava minha atenção para certas coisas. Ele dizia: "Este é o Six-Mile Point." Eu concordava. Era uma informação agradável o suficiente, mas eu não conseguia ver o significado daquilo. Eu não estava consciente de que fosse uma questão de qualquer interesse para mim. Outra vez ele disse: "Este é o Nine-Mile Point." Mais tarde ele disse: "Este é o Twelve-Mile Point." Eles estavam todos quase no nível da beira da água; todos pareciam quase iguais para mim; eram monotonamente sem atrativos. Eu esperava que o Sr. Bixby mudasse de assunto. Mas não; ele se aproximava de um ponto, abraçando a margem com afeição, e então dizia: "A água parada termina aqui, em frente a este grupo de árvores-da-china; agora atravessamos." Então ele atravessava. Ele me deu o leme uma ou duas vezes, mas eu não tive sorte. Ou cheguei perto de lascar a borda de uma plantação de açúcar, ou guinei longe demais da margem, e assim caí de volta em desgraça e fui repreendido.
O turno terminou finalmente, jantamos e fomos para a cama. À meia-noite, o clarão de uma lanterna brilhou em meus olhos, e o vigia noturno disse--
"Vamos! Levante!"
E então ele saiu. Eu não conseguia entender esse procedimento extraordinário; então, logo desisti de tentar, e cochilei. Logo o vigia estava de volta, e desta vez ele foi grosseiro. Fiquei irritado. Eu disse:--
"O que você quer vindo incomodar aqui no meio da noite. Agora, provavelmente, não conseguirei dormir novamente esta noite."
O vigia disse--
"Bem, se isso não é bom, eu estou abençoado."
A "folga" estava apenas se deitando, e ouvi algumas risadas brutais deles, e comentários como "Olá, vigia! o novo aprendiz ainda não levantou? Ele é delicado, provavelmente. Dê a ele um pouco de açúcar em um trapo e mande chamar a camareira para cantar 'dorme neném' para ele."
Por volta dessa hora, o Sr. Bixby apareceu na cena. Cerca de um minuto depois, eu estava subindo os degraus da casa do piloto com algumas das minhas roupas vestidas e o resto em meus braços. O Sr. Bixby estava logo atrás, comentando. Aqui estava algo novo — essa coisa de levantar no meio da noite para ir trabalhar. Era um detalhe na pilotagem que nunca tinha me ocorrido. Eu sabia que os barcos corriam a noite toda, mas, de alguma forma, eu nunca tinha refletido que alguém tinha que levantar de uma cama quente para operá-los. Comecei a temer que pilotar não fosse tão romântico quanto eu imaginava; havia algo muito real e trabalhoso sobre essa nova fase disso.
Era uma noite bastante sombria, embora um bom número de estrelas estivesse visível. O imediato grandalhão estava no leme, e ele mantinha a velha banheira apontada para uma estrela e a segurava direto pelo meio do rio. As margens de ambos os lados não estavam a muito mais de oitocentos metros de distância, mas pareciam maravilhosamente distantes e muito vagas e indistintas. O imediato disse:--
"Temos que atracar na plantação do Jones, senhor."
O espírito vingativo em mim exultou. Disse a mim mesmo: desejo-lhe alegria com seu trabalho, Sr. Bixby; você terá um bom tempo encontrando a plantação do Sr. Jones em uma noite como esta; e espero que você nunca a encontre enquanto viver.
O Sr. Bixby disse ao imediato:--
"Extremidade superior da plantação, ou a inferior?"
"Superior."
"Não posso fazer isso. Os tocos lá estão fora da água nesta fase: Não é uma grande distância até a inferior, e você terá que se contentar com ela."
"Tudo bem, senhor. Se Jones não gostar, ele que engula, eu suponho."
E então o imediato saiu. Minha exultação começou a esfriar e meu espanto a surgir. Aqui estava um homem que não só propunha encontrar esta plantação em tal noite, mas encontrar qualquer extremidade dela que você preferisse. Eu desejava terrivelmente fazer uma pergunta, mas eu estava carregando tantas respostas curtas quanto meu porão de carga permitiria, então guardei silêncio. Tudo o que eu desejava perguntar ao Sr. Bixby era a simples pergunta se ele era burro o suficiente para realmente imaginar que ia encontrar aquela plantação em uma noite em que todas as plantações eram exatamente iguais e todas da mesma cor. Mas me contive. Eu costumava ter belas inspirações de prudência naqueles dias.
O Sr. Bixby seguiu para a margem e logo estava raspando-a, exatamente como se fosse dia. E não apenas isso, mas cantando--
"Pai no céu, o dia declina," etc.
Parecia-me que eu tinha colocado minha vida sob a guarda de um pária peculiarmente imprudente. Logo ele se virou para mim e disse:--
"Qual é o nome do primeiro ponto acima de Nova Orleans?"
Fiquei satisfeito por poder responder prontamente, e respondi. Disse que não sabia.
"Não sabe?"
Essa maneira me sacudiu. Eu estava de volta ao fundo do poço, em um momento. Mas tive que dizer exatamente o que tinha dito antes.
"Bem, você é um esperto," disse o Sr. Bixby. "Qual é o nome do próximo ponto?"
Mais uma vez, eu não sabia.
"Bem, isso supera tudo. Diga-me o nome de qualquer ponto ou lugar que eu te disse."
Estudei um pouco e decidi que não conseguia.
"Olha aqui! O que você toma como referência, acima do Twelve-Mile Point, para atravessar?"
"Eu... eu... não sei."
"Você... você... não sabe?" imitando meu modo de falar arrastado. "O que você sabe?"
"Eu... eu... nada, com certeza."
"Pelo fantasma do grande César, eu acredito em você! Você é o idiota mais estúpido que eu já vi ou ouvi falar, que me ajude Moisés! A ideia de você ser um piloto... você! Ora, você não sabe o suficiente para guiar uma vaca por um caminho."
Ah, mas a ira dele estava alta! Ele era um homem nervoso, e ele se arrastava de um lado para o outro do seu leme como se o chão estivesse quente. Ele fervia um pouco para si mesmo, e então transbordava e me escaldava novamente.
"Olha aqui! Por que você acha que eu te disse os nomes daqueles pontos?"
Considerei tremendo por um momento, e então o diabo da tentação me provocou a dizer:--
"Bem... para... para... ser divertido, eu pensei."
Isso foi como um pano vermelho para o touro. Ele enfureceu e tempestadeou tanto (ele estava atravessando o rio na época) que julgo que isso o deixou cego, porque ele passou por cima do remo de direção de uma chalana de comércio. É claro que os comerciantes enviaram uma saraivada de profanações em brasa. Nunca houve um homem tão grato quanto o Sr. Bixby: porque ele estava transbordando, e aqui estavam sujeitos que respondiam à altura. Ele abriu uma janela, enfiou a cabeça para fora, e uma erupção seguiu-se como eu nunca tinha ouvido antes. Quanto mais fracos e distantes os palavrões dos chalaneiros flutuavam, mais alto o Sr. Bixby elevava sua voz e mais pesados seus adjetivos se tornavam. Quando ele fechou a janela, ele estava vazio. Você poderia ter passado uma rede pelo seu sistema e não teria capturado palavrões suficientes para perturbar sua mãe. Logo ele disse para mim da maneira mais gentil--
"Meu rapaz, você deve comprar um pequeno caderno de anotações, e toda vez que eu te disser algo, anote imediatamente. Só existe um jeito de ser um piloto, e esse jeito é decorar todo este rio. Você tem que conhecê-lo exatamente como o A B C."
Aquela foi uma revelação sombria para mim; pois minha memória nunca foi carregada com nada além de cartuchos vazios. No entanto, não me senti desencorajado por muito tempo. Julguei que era melhor fazer algumas concessões, pois sem dúvida o Sr. Bixby estava "exagerando". Logo ele puxou uma corda e deu algumas badaladas no grande sino. As estrelas tinham desaparecido agora, e a noite estava escura como tinta. Eu conseguia ouvir as rodas baterem ao longo da margem, mas não estava inteiramente certo de que conseguia ver a margem. A voz do vigia invisível chamou do convés superior--
"O que é isto, senhor?"
"Plantação do Jones."
Disse a mim mesmo: desejo que eu pudesse me aventurar a oferecer uma pequena aposta que não é. Mas não pio. Apenas esperei para ver. O Sr. Bixby manipulou os sinos do motor, e no devido tempo a proa do barco chegou à terra, uma tocha brilhou do castelo de proa, um homem saltou para a margem, a voz de um negro na margem disse: "Dê-me a bolsa de carpete, Sr. Jones", e no momento seguinte estávamos subindo o rio novamente, tudo sereno. Refleti profundamente um pouco, e então disse — mas não em voz alta — "Bem, encontrar aquela plantação foi o acidente mais sortudo que já aconteceu; mas não poderia acontecer de novo em cem anos." E eu acreditava plenamente que era um acidente, também.
Por volta do momento em que tínhamos percorrido mil e duzentos ou mil e trezentos quilômetros rio acima, eu tinha aprendido a ser um timoneiro de rio acima toleravelmente corajoso, à luz do dia, e antes de chegarmos a St. Louis, eu tinha feito uma ninharia de progresso no trabalho noturno, mas apenas uma ninharia. Eu tinha um caderno que fervilhava de nomes de cidades, "pontos", bancos de areia, ilhas, curvas, trechos, etc.; mas a informação só podia ser encontrada no caderno — nada daquilo estava na minha cabeça. Doía-me o coração pensar que eu só tinha anotado metade do rio; pois como nosso turno era de quatro horas de folga e quatro horas de serviço, dia e noite, havia uma longa lacuna de quatro horas em meu livro para cada vez que eu tinha dormido desde que a viagem começou.
O meu chefe foi contratado pouco depois para seguir num grande barco de Nova Orleães, e eu fiz as malas e fui com ele. Era uma embarcação magnífica. Quando me punha na sua casa do leme, estava tão longe da água que parecia empoleirado numa montanha; e os seus conveses estendiam-se tão longe, à proa e à popa, abaixo de mim, que me questionava como poderia eu ter considerado o pequeno 'Paul Jones' uma embarcação grande. Havia outras diferenças, também. A casa do leme do 'Paul Jones' era um trambolho barato, sujo e batido, apertado de espaço; mas aqui estava um sumptuoso templo de vidro; espaço suficiente para dançar; cortinas de janela vistosas em vermelho e ouro; um sofá imponente; almofadas de couro e um encosto no banco alto onde os pilotos visitantes se sentam para contar histórias e 'olhar para o rio'; cuspidoras brilhantes e ornamentadas em vez de uma larga caixa de madeira cheia de serradura; um oleado novo e bonito no chão; um grande fogão hospitaleiro para o inverno; um leme tão alto como a minha cabeça, dispendioso com trabalhos embutidos; um cabo de leme de arame; botões de latão brilhante para os sinos; e um 'ajudante do texas' negro, asseado e de avental branco, para trazer tartes, gelados e café durante o turno do meio, dia e noite. Ora, isto era 'outra coisa', e por isso comecei a ganhar coragem mais uma vez para acreditar que pilotar era afinal uma ocupação romântica. No momento em que nos pusemos a caminho, comecei a vaguear pelo grande navio a vapor e a encher-me de alegria. Era tão limpo e tão delicado como uma sala de estar; quando olhava pelo seu longo salão dourado, era como olhar através de um túnel esplêndido; tinha um quadro a óleo, pintado por algum talentoso pintor de tabuletas, em cada porta de camarote; cintilava com infinitos candelabros orlados de prismas; o escritório do comissário era elegante, o bar era maravilhoso, e o barman tinha sido barbeado e vestido a um custo inacreditável. O convés das caldeiras (isto é, o segundo andar do barco, por assim dizer) era tão espaçoso como uma igreja, parecia-me; o mesmo acontecia com o castelo de proa; e não havia um punhado miserável de marinheiros, fogueiros e estivadores lá em baixo, mas um batalhão inteiro de homens. Os fogos ardiam ferozmente de uma longa fila de fornalhas, e sobre eles estavam oito caldeiras enormes! Isto era uma pompa indescritível. As máquinas poderosas... mas chega disto. Nunca me tinha sentido tão bem antes. E quando descobri que o regimento de servos elegantes me tratava respeitosamente por 'senhor', a minha satisfação ficou completa.
CAPÍTULO 7
Um Ato Audacioso
QUANDO regressei à casa do leme, St. Louis tinha desaparecido e eu estava perdido. Aqui estava um pedaço de rio que estava todo no meu livro, mas eu não conseguia entender nada dele: entenda-se, estava virado ao contrário. Tinha-o visto quando subia o rio, mas nunca me tinha virado para ver como parecia quando estava atrás de mim. O meu coração partiu-se novamente, pois era evidente que eu tinha de aprender este rio problemático nos dois sentidos.
A casa do leme estava cheia de pilotos, descendo para 'olhar para o rio'. O que é chamado de 'rio superior' (as duzentas milhas entre St. Louis e Cairo, onde o Ohio entra) estava baixo; e o Mississippi muda o seu canal tão constantemente que os pilotos costumavam achar sempre necessário descer até Cairo para dar uma nova vista de olhos, quando os seus barcos tinham de ficar no porto durante uma semana; isto é, quando a água estava num nível baixo. Muito deste 'olhar para o rio' era feito por pobres rapazes que raramente tinham um lugar, e cuja única esperança de o conseguir residia em estarem sempre atualizados e, portanto, prontos para ocupar o lugar de algum piloto reputado, para uma única viagem, devido à doença súbita desse piloto, ou alguma outra necessidade. E muitos deles subiam e desciam constantemente a inspecionar o rio, não porque esperassem realmente conseguir um lugar, mas porque (sendo convidados do barco) era mais barato 'olhar para o rio' do que ficar em terra e pagar alojamento. Com o tempo, estes indivíduos tornaram-se exigentes nos seus gostos, e apenas infestavam barcos que tinham uma reputação estabelecida de servir boas mesas. Todos os pilotos visitantes eram úteis, pois estavam sempre prontos e dispostos, no inverno ou no verão, de noite ou de dia, a sair no escaler e ajudar a boiar o canal ou assistir os pilotos do barco de qualquer forma que pudessem. Eram igualmente bem-vindos porque todos os pilotos são faladores incansáveis, quando reunidos, e como falam apenas sobre o rio, são sempre compreendidos e são sempre interessantes. O verdadeiro piloto não se importa com nada na terra a não ser o rio, e o seu orgulho na sua ocupação supera o orgulho dos reis.
Tínhamos uma excelente companhia destes inspetores de rio a bordo, nesta viagem. Eram oito ou dez; e havia abundância de espaço para eles na nossa grande casa do leme. Dois ou três deles usavam cartolas polidas, frentes de camisa elaboradas, alfinetes de peito com diamantes, luvas de pelica e botas de verniz. Eram refinados no seu inglês e portavam-se com uma dignidade própria de homens de meios sólidos e reputação prodigiosa como pilotos. Os outros estavam mais ou menos desleixadamente vestidos, e usavam nas cabeças cones altos de feltro que sugeriam os dias da Comunidade.
Eu era um zero nesta companhia augusta, e sentia-me subjugado, para não dizer entorpecido. Eu não era sequer de importância suficiente para ajudar no leme quando era necessário colocar o manche a fundo com pressa; o convidado que estava mais perto fazia isso quando a ocasião o exigia — e isto era praticamente o tempo todo, devido à sinuosidade do canal e à pouca água. Eu estava num canto; e a conversa que ouvia tirava-me toda a esperança. Um visitante disse ao outro—
'Jim, como passaste em Plum Point, a subir?'
'Foi de noite, lá, e passei como um dos rapazes no “Diana” me disse; comecei a cerca de cinquenta jardas acima da pilha de lenha no falso ponto, e mantive-me na cabine sob Plum Point até avistar o recife — um quarto menos dois — depois endireitei para o banco do meio até ficar bem a par do choupo de um só ramo na curva, depois pus a popa no choupo e a proa no lugar baixo acima do ponto, e passei a bombar — nove e meio.'
'Travessia bastante direta, não é?'
'Sim, mas o banco superior está a descer rapidamente.'
Outro piloto interveio e disse—
'Eu tinha mais água do que isso, e passei mais abaixo; comecei a partir do falso ponto — marca dois — avistei o segundo recife a par do grande tronco na curva, e tinha um quarto menos dois.'
Um dos pomposos comentou—
'Não quero encontrar defeito nos vossos sondadores, mas é muita água para Plum Point, parece-me.'
Houve um aceno de aprovação por toda a parte quando esta reprimenda silenciosa caiu sobre o fanfarrão e o 'acalmou'. E assim continuaram a falar-falar-falar. Entretanto, a coisa que me passava pela cabeça era: 'Ora, se os meus ouvidos ouvem bem, não só tenho de decorar os nomes de todas as cidades e ilhas e curvas, e por aí fora, mas tenho de criar uma relação pessoal calorosa com cada tronco velho e choupo de um só ramo e pilha de lenha obscura que adorna as margens deste rio por mil e duzentas milhas; e mais do que isso, tenho de saber exatamente onde estas coisas estão no escuro, a menos que estes convidados sejam dotados de olhos que possam perfurar duas milhas de escuridão sólida; oxalá o negócio da pilotagem estivesse em Jericó e eu nunca tivesse pensado nele.'
Ao anoitecer, o Sr. Bixby tocou três vezes o sino grande (o sinal para atracar), e o capitão emergiu da sua sala de estar na extremidade dianteira do texas, e olhou para cima interrogativamente. O Sr. Bixby disse—
'Vamos ficar aqui toda a noite, capitão.'
'Muito bem, senhor.'
Foi tudo. O barco chegou a terra e foi amarrado para a noite. Pareceu-me uma coisa excelente que o piloto pudesse fazer o que bem entendesse, sem pedir permissão a um capitão tão grandioso. Tomei o meu jantar e fui imediatamente para a cama, desencorajado pelas minhas observações e experiências do dia. As anotações da minha recente viagem não passavam de uma confusão de nomes sem sentido. Tinham-me deixado todo atado num nó cada vez que olhava para elas durante o dia. Esperava agora um descanso no sono; mas não, isso andou a girar por toda a minha cabeça até ao nascer do sol novamente, um pesadelo frenético e incansável.
Na manhã seguinte sentia-me bastante enferrujado e deprimido. Seguimos a bombar, correndo muitos riscos, pois estávamos ansiosos por 'sair do rio' (como era chamada a chegada a Cairo) antes que a noite nos alcançasse. Mas o parceiro do Sr. Bixby, o outro piloto, encalhou o barco pouco depois, e perdemos tanto tempo a desencalhá-lo que era evidente que a escuridão nos alcançaria bem longe acima da foz. Isto foi um grande infortúnio, especialmente para alguns dos nossos pilotos visitantes, cujos barcos teriam de esperar pelo seu regresso, independentemente de quanto tempo isso pudesse levar. Isso tornou a conversa na casa do leme bastante sóbria. Subindo o rio, os pilotos não se importavam com águas baixas ou qualquer tipo de escuridão; nada os parava a não ser o nevoeiro. Mas o trabalho a descer o rio era diferente; um barco ficava demasiado desamparado, com uma corrente forte a empurrá-lo por trás; por isso não era costume descer o rio à noite em águas baixas.
Parecia haver uma pequena esperança, contudo: se conseguíssemos passar a intrincada e perigosa travessia de Hat Island antes da noite, poderíamos aventurar-nos no resto, pois teríamos uma navegação mais clara e melhor água. Mas seria loucura tentar Hat Island à noite. Por isso houve muito olhar para os relógios durante o resto do dia, e um cálculo constante sobre a velocidade que estávamos a fazer; Hat Island era o assunto eterno; por vezes a esperança era alta e por vezes éramos atrasados numa má travessia, e lá ia ela abaixo novamente. Durante horas, todos ficaram sob o peso desta excitação reprimida; foi até comunicada a mim, e comecei a sentir-me tão zeloso acerca de Hat Island, e sob tal pressão terrível de responsabilidade, que desejei poder ter cinco minutos em terra para respirar um ar bom, cheio e aliviante, e começar de novo. Não estávamos a fazer turnos regulares. Cada um dos nossos pilotos corria as partes do rio que tinha percorrido ao subir, devido à sua maior familiaridade com ele; mas ambos permaneciam na casa do leme constantemente.
Uma hora antes do pôr do sol, o Sr. Bixby assumiu o leme e o Sr. W---- afastou-se. Durante os trinta minutos seguintes, cada homem segurava o seu relógio na mão e estava inquieto, silencioso e ansioso. Finalmente alguém disse, com um suspiro fatalista—
'Bem, lá está Hat Island — e não conseguiremos lá chegar.' Todos os relógios fecharam-se com um estalido, todos suspiraram e murmuraram algo sobre ser 'muito mau, muito mau — ah, se pudéssemos ter chegado aqui meia hora mais cedo!' e o lugar ficou denso com a atmosfera de desapontamento. Alguns começaram a sair, mas demoraram-se, não ouvindo o toque do sino para atracar. O sol mergulhou abaixo do horizonte, o barco seguiu em frente. Olhares interrogativos passaram de um convidado para outro; e um que tinha a mão no puxador da porta e o tinha virado, esperou, depois retirou a mão e deixou o puxador voltar à posição inicial. Seguimos firmemente pela curva. Mais olhares foram trocados, e acenos de admiração surpreendida — mas sem palavras. Insensivelmente os homens juntaram-se atrás do Sr. Bixby, à medida que o céu escurecia e uma ou duas estrelas ténues apareciam. O silêncio sepulcral e a sensação de espera tornaram-se opressivos. O Sr. Bixby puxou a corda, e duas notas profundas e suaves do sino grande flutuaram pela noite. Depois uma pausa, e mais uma nota foi batida. A voz do vigia seguiu-se, do convés do furacão—
'Sondagem a bombordo, aí! Sondagem a estibordo!'
Os gritos dos sondadores começaram a subir da distância, e eram repetidamente gritados pelos passadores de palavra no convés do furacão.
'M-a-r-c-a três!... M-a-r-c-a três!... Um quarto menos três!... Meio dois!... Um quarto dois!... M-a-r-c-a dois!... Um quarto menos—'
O Sr. Bixby puxou duas cordas de sino, e foi respondido por tinidos ténues muito abaixo na casa das máquinas, e a nossa velocidade diminuiu. O vapor começou a assobiar através das torneiras de nível. Os gritos dos sondadores continuaram — e é sempre um som estranho, à noite. Todos os pilotos no lote estavam a observar agora, com olhos fixos, e a falar em voz baixa. Ninguém estava calmo e à vontade a não ser o Sr. Bixby. Ele punha o leme a fundo e ficava sobre um raio, e à medida que o vapor girava para as suas marcas (para mim) totalmente invisíveis — pois parecíamos estar no meio de um mar vasto e sombrio — ele encontrava-o e prendia-o lá. Do murmúrio de conversa quase audível, apanhava-se uma frase coerente de vez em quando — tal como—
'Ali; ela passou o primeiro recife sem problemas!'
Após uma pausa, outra voz contida—
'A popa dela está a descer exatamente bem, por Deus!'
'Agora ela está nas marcas; lá vai ela!'
Alguém mais murmurou—
'Oh, foi feito de forma bela — bela!'
Agora as máquinas foram paradas completamente, e derivámos com a corrente. Não que eu pudesse ver o barco derivar, pois não conseguia, estando as estrelas todas escondidas a esta altura. Este derivar era o trabalho mais lúgubre; mantinha o coração de alguém imóvel. De repente descobri uma escuridão mais negra do que aquela que nos rodeava. Era a ponta da ilha. Estávamos a fechar em cima dela. Entrámos na sua sombra mais profunda, e tão iminente parecia o perigo que eu estava prestes a sufocar; e tive o impulso mais forte de fazer algo, qualquer coisa, para salvar a embarcação. Mas ainda assim o Sr. Bixby permanecia junto ao seu leme, silencioso, atento como um gato, e todos os pilotos estavam ombro a ombro nas suas costas.
'Ela não vai conseguir!' alguém sussurrou.
A água tornou-se cada vez mais rasa, pelos gritos do sondador, até baixar para—
'Oito e meio!... O-i-t-o pés!... O-i-t-o pés!... Sete e—'
O Sr. Bixby disse avisadoramente através do seu tubo acústico ao engenheiro—
'Prepare-se, agora!'
'Sim, senhor!'
'Sete e meio! Sete pés! Seis e—'
Tocámos no fundo! Instantaneamente o Sr. Bixby fez soar uma série de sinos, gritou pelo tubo, 'AGORA, dê-lhe com tudo — cada grama que tiver!' depois ao seu parceiro, 'Ponha-a a fundo! agarre-a! agarre-a!' O barco raspou e moeu o seu caminho através da areia, ficou pendurado no ápice do desastre por um único instante tremendo, e depois passou! E tal grito que se ergueu nas costas do Sr. Bixby nunca antes soltou o telhado de uma casa do leme!
Não houve mais problemas depois disso. O Sr. Bixby foi um herói naquela noite; e passou algum tempo, também, até que o seu feito deixasse de ser falado pelos homens do rio.
Para compreender totalmente a precisão maravilhosa necessária para colocar o grande navio a vapor nas suas marcas naquele desperdício de água turva, deve-se saber que não só ele tem de escolher o seu caminho intrincado através de troncos e recifes cegos, e depois barbear a ponta da ilha tão de perto que roça a folhagem suspensa com a sua popa, mas num lugar ele deve passar quase ao alcance do braço de um naufrágio submerso e invisível que arrancaria as madeiras do casco por baixo dele se ele lhe batesse, e destruiria um quarto de milhão de dólares em barco a vapor e carga em cinco minutos, e talvez cento e cinquenta vidas humanas de brinde.
O último comentário que ouvi naquela noite foi um elogio ao Sr. Bixby, proferido em solilóquio e com unção por um dos nossos convidados. Ele disse—
'Pela Sombra da Morte, ele é um piloto relâmpago!'
CAPÍTULO 8
Lições Perplexas
Ao fim do que parecia um tempo entediante, tinha conseguido encher a minha cabeça com ilhas, cidades, bancos, 'pontos' e curvas; e era uma massa curiosamente inanimada de madeira, também. No entanto, uma vez que eu podia fechar os olhos e recitar uma boa sequência destes nomes sem deixar de fora mais do que dez milhas de rio em cada cinquenta, comecei a sentir que poderia levar um barco até Nova Orleães se pudesse fazê-lo saltar esses pequenos intervalos. Mas, claro, a minha complacência dificilmente conseguia ganhar impulso suficiente para levantar o nariz um pouco para o ar, antes que o Sr. Bixby pensasse em algo para o fazer baixar novamente. Um dia ele virou-se para mim subitamente com este golpe final—
'Qual é a forma de Walnut Bend?'
Ele poderia muito bem ter-me perguntado a opinião da minha avó sobre o protoplasma. Refleti respeitosamente, e depois disse que não sabia que tinha qualquer forma em particular. O meu chefe pólvora disparou com um estrondo, claro, e depois continuou a carregar e a disparar até ficar sem adjetivos.
Eu tinha aprendido há muito tempo que ele só trazia tantas rondas de munição, e que de certeza se acalmaria num velho canhão muito amável e até remorso logo que estivessem todas esgotadas. Essa palavra 'velho' é meramente carinhosa; ele não tinha mais de trinta e quatro anos. Esperei. A pouco e pouco ele disse—
'Meu rapaz, tens de conhecer a forma do rio perfeitamente. É tudo o que resta para governar numa noite muito escura. Tudo o resto é apagado e desaparece. Mas olha, não tem a mesma forma à noite que tem de dia.'
'Como raio vou eu aprender isso, então?'
'Como segues um corredor em casa no escuro? Porque conheces a forma dele. Não o consegues ver.'
'Queres dizer que tenho de conhecer todas as milhões de variações triviais de forma nas margens deste rio interminável tão bem como conheço a forma do corredor da frente de casa?'
'Pela minha honra, tens de as conhecer melhor do que qualquer homem alguma vez conheceu as formas dos corredores da sua própria casa.'
'Quem me dera estar morto!'
'Ora, não quero desencorajar-te, mas—'
'Bem, despeja sobre mim; mais vale tê-lo agora do que noutra altura.'
'Vês, isto tem de ser aprendido; não há como contornar. Uma noite clara e estrelada projeta sombras tão pesadas que se não conhecesses a forma de uma margem perfeitamente, fugirias de cada grupo de árvores, porque tomarias a sombra negra dele por um cabo sólido; e vês, ficarias aterrorizado de quinze em quinze minutos pelo relógio. Estarias a cinquenta jardas da margem o tempo todo quando devias estar a cinquenta pés dela. Não consegues ver um tronco numa daquelas sombras, mas sabes exatamente onde está, e a forma do rio diz-te quando estás a chegar a ele. Depois tens a tua noite de breu; o rio tem uma forma muito diferente numa noite de breu da que tem numa noite estrelada. Todas as margens parecem ser linhas retas, então, e muito ténues, também; e seguirias por elas como linhas retas se não soubesses melhor. Conduzes audazmente o teu barco diretamente para o que parece ser uma parede sólida e reta (sabendo tu muito bem que na realidade há uma curva ali), e essa parede recua e abre caminho para ti. Depois tens o teu nevoeiro cinzento. Pegas numa noite em que há um destes nevoeiros cinzentos, lúgubres e chuviscantes, e então não há forma particular para uma margem. Um nevoeiro cinzento baralharia a cabeça do homem mais velho que alguma vez viveu. Bem, então, diferentes tipos de luar mudam a forma do rio de diferentes maneiras. Vês—'
'Oh, não digas mais nada, por favor! Tenho de aprender a forma do rio de acordo com todas estas quinhentas mil maneiras diferentes? Se tentasse carregar toda essa carga na minha cabeça, ficaria corcunda.'
'Não! Só aprendes a forma do rio, e aprendes com tal certeza absoluta que podes sempre governar pela forma que está na tua cabeça, e não te preocupes com aquela que está diante dos teus olhos.'
'Muito bem, vou tentar; mas depois de a ter aprendido posso confiar nela? Manterá a mesma forma e não andará a brincar?'
Antes que o Sr. Bixby pudesse responder, o Sr. W---- entrou para assumir o turno, e disse—
'Bixby, terás de estar atento à President's Island e a toda aquela região bem lá acima da Old Hen and Chickens. As margens estão a desmoronar e a forma das costas a mudar como tudo o resto. Ora, nem reconhecerias a ponta acima do marco 40. Podes subir pelo lado de dentro do velho tronco de sicómoro, agora.'
Assim, essa questão ficou respondida. Ali havia léguas de costa a mudar de forma. O meu ânimo estava de novo na lama. Duas coisas pareciam-me bastante evidentes. Uma era que, para ser piloto, um homem tinha de aprender mais do que qualquer homem deveria ter permissão para saber; e a outra era que ele tinha de aprender tudo de novo, de uma forma diferente, a cada vinte e quatro horas.
Naquela noite, tivemos o turno até às doze. Ora, era um costume fluvial antigo os dois pilotos conversarem um pouco quando o turno mudava. Enquanto o piloto que entrava calçava as luvas e acendia o charuto, o seu parceiro, o piloto que saía, dizia algo como isto—
'Julgo que o banco superior está a descer um pouco em Hale's Point; tive um quarto de duas braças com a sonda menor e marquei duas braças com a outra.'
'Sim, achei que estava a descer um pouco, na última viagem. Cruzaste-te com algum barco?'
'Cruzei-me com um a par da ponta do 21, mas ele estava lá longe, a roçar o banco, e não consegui distingui-lo inteiramente. Tomei-o pelo “Sunny South” — não tinha claraboias à frente das chaminés.'
E assim por diante. E, à medida que o piloto que entrava assumia o leme, o seu parceiro mencionava que estávamos em tal ou tal curva, e dizia que estávamos a par do estaleiro de madeira ou da plantação de tal homem. Isto era cortesia; eu supunha que fosse necessidade. Mas o Sr. W---- chegou ao turno com doze minutos de atraso nesta noite em particular — uma tremenda quebra de etiqueta; de facto, é o pecado imperdoável entre os pilotos. Portanto, o Sr. Bixby não lhe deu qualquer saudação, limitando-se a entregar o leme e a marchar para fora da casa do leme sem uma palavra. Fiquei horrorizado; era uma noite infame de tão escura, estávamos numa parte do rio particularmente larga e cega, onde não havia forma nem substância em nada, e parecia incrível que o Sr. Bixby tivesse deixado aquele pobre coitado a arriscar o barco tentando descobrir onde estava. Mas decidi que ficaria do lado dele de qualquer maneira. Ele haveria de ver que não estava totalmente desamparado. Por isso, fiquei por ali e esperei que me perguntassem onde estávamos. Mas o Sr. W---- mergulhou serenamente através do firmamento sólido de gatos pretos que servia de atmosfera, e nunca abriu a boca. Eis um diabo orgulhoso, pensei eu; eis um membro de Satanás que preferiria enviar-nos a todos para a destruição do que ficar em dívida para comigo, porque eu ainda não sou um dos eleitos da terra e não tenho o privilégio de tratar com desdém os capitães e mandar em tudo o que é vivo e morto num barco a vapor. Pouco depois subi para o banco; não achei que fosse seguro ir dormir enquanto aquele lunático estivesse de turno.
Contudo, devo ter adormecido com o passar do tempo, porque a coisa seguinte de que me apercebi foi o facto de o dia estar a romper, o Sr. W---- ter ido embora e o Sr. Bixby estar de novo ao leme. Portanto, eram quatro horas e estava tudo bem — exceto eu; sentia-me como uma pele cheia de ossos secos, e todos eles a tentarem doer ao mesmo tempo.
O Sr. Bixby perguntou-me por que razão tinha ficado ali em cima. Confessei que fora para fazer uma benevolência ao Sr. W---- — dizer-lhe onde ele estava. Demorou cinco minutos até que todo o absurdo da coisa se infiltrasse no sistema do Sr. Bixby, e depois julgo que o encheu quase até ao queixo; porque ele fez-me um elogio — e não foi grande coisa. Ele disse:
'Bem, avaliando-te de alto a baixo, pareces ser mais tipos diferentes de asno do que qualquer criatura que eu tenha visto antes. Para que é que supuseste que ele queria saber?'
Eu disse que achava que podia ser uma conveniência para ele.
'Conveniência! Maldição! Não te disse que um homem tem de conhecer o rio à noite da mesma forma que conhece o seu próprio corredor de entrada?'
'Bem, eu consigo seguir o corredor no escuro se souber que é o corredor; mas suponha que me deixa no meio dele no escuro e não me diz que corredor é; como hei de eu saber?'
'Bem, tens de saber, no rio!'
'Muito bem. Então ainda bem que não disse nada ao Sr. W----.'
'Eu bem diria. Ele ter-te-ia atirado pela janela e arruinado completamente cem dólares em caixilhos e coisas do género.'
Fiquei contente por esse dano ter sido evitado, pois ter-me-ia tornado impopular junto dos proprietários. Eles detestavam sempre qualquer pessoa que tivesse fama de ser descuidada e de estragar as coisas.
Comecei agora a trabalhar para aprender a forma do rio; e de todos os objetos esquivos e inalcançáveis que alguma vez tentei agarrar com a mente ou com as mãos, esse era o principal. Fixava os meus olhos numa ponta aguda e arborizada que se projetava para dentro do rio, a algumas milhas à minha frente, e punha-me a fotografar laboriosamente a sua forma no meu cérebro; e, precisamente quando começava a ser bem-sucedido, aproximávamo-nos e aquela coisa exasperante começava a derreter-se e a dobrar-se para dentro da margem! Se houvesse uma árvore morta conspícua na própria ponta do cabo, eu descobria que essa árvore se fundia discretamente na floresta geral, ocupando o meio de uma margem reta, quando chegava a par dela! Nenhuma colina proeminente mantinha a sua forma tempo suficiente para que eu me decidisse sobre qual era a sua forma real, mas era tão dissolvente e mutável como se fosse uma montanha de manteiga no canto mais quente dos trópicos. Nada tinha a mesma forma quando eu descia o rio que tinha tido quando eu subia. Mencionei estas pequenas dificuldades ao Sr. Bixby. Ele disse:
'Essa é precisamente a virtude principal da coisa. Se as formas não mudassem a cada três segundos, não seriam de utilidade nenhuma. Pega neste lugar onde estamos agora, por exemplo. Enquanto aquela colina ali ao longe for apenas uma colina, posso seguir em frente pelo caminho que vou; mas no momento em que ela se divide no topo e forma um V, sei que tenho de riscar para estibordo à pressa, ou esborracharei os miolos deste barco contra uma rocha; e então, no momento em que um dos ramos do V oscila para trás do outro, tenho de valsar para bombordo de novo, ou terei um desentendimento com um tronco que arrancaria a quilha deste barco a vapor tão facilmente como se fosse uma lasca na tua mão. Se aquela colina não mudasse a sua forma nas noites más, haveria um terrível cemitério de barcos a vapor aqui à volta dentro de um ano.'
Era evidente que eu tinha de aprender a forma do rio de todas as maneiras que se pudessem imaginar — de cabeça para baixo, do fim para o princípio, do avesso, de popa a proa e de través — e depois saber o que fazer nas noites cinzentas em que ele não tinha forma nenhuma. Por isso, pus mãos à obra. Com o passar do tempo, comecei a levar a melhor nesta lição espinhosa, e a minha complacência voltou a vir ao de cima. O Sr. Bixby estava pronto, e preparado para a mandar para o fundo outra vez. Ele começou comigo desta maneira:
'Quanta água tivemos na travessia central em Hole-in-the-Wall, na penúltima viagem?'
Considerei isto um ultraje. Disse:
'Em cada viagem, a descer e a subir, os sondadores estão a cantar através daquele lugar emaranhado durante três quartos de hora seguidos. Como é que acha que eu consigo lembrar-me de uma confusão dessas?'
'Meu rapaz, tens de te lembrar. Tens de te lembrar do local exato e das marcas exatas onde o barco estava quando tivemos a água mais baixa, em cada um dos quinhentos locais baixos entre St. Louis e Nova Orleães; e não te podes misturar as sondagens baixas e as marcas de uma viagem com as de outra, porque raramente são iguais duas vezes. Tens de as manter separadas.'
Quando voltei a mim, disse:
'Quando eu conseguir fazer isso, serei capaz de ressuscitar os mortos, e então não precisarei de pilotar um barco a vapor para ganhar a vida. Quero reformar-me deste negócio. Quero um balde de limpeza e uma escova; só sirvo para estivador. Não tenho miolos suficientes para ser piloto; e se os tivesse, não teria força para os carregar, a não ser que andasse de muletas.'
'Agora deixa-te disso! Quando digo que vou ensinar um homem a conhecer o rio, falo a sério. E podes contar com isto, ou eu ensino-o ou mato-o.'
CAPÍTULO 9
Perplexidades Contínuas
Não havia utilidade em discutir com uma pessoa destas. Impus imediatamente tal esforço à minha memória que, pouco a pouco, até a água baixa e as inúmeras marcas de travessia começaram a ficar comigo. Mas o resultado era exatamente o mesmo. Eu nunca conseguia aprender mais do que uma coisa complicada antes de outra se apresentar. Ora, eu tinha visto frequentemente pilotos a olhar para a água e a fingir lê-la como se fosse um livro; mas era um livro que não me dizia nada. Chegou finalmente um momento, no entanto, em que o Sr. Bixby pareceu achar-me suficientemente avançado para suportar uma lição sobre a leitura da água. Por isso, começou:
'Vês aquela linha longa e oblíqua na superfície da água? Ora, aquilo é um recife. Além disso, é um recife íngreme. Existe um banco de areia sólido por baixo dele que é quase tão vertical como a parede de uma casa. Há muita água perto dele, mas muito pouca por cima. Se fosses contra ele, esborracharias os miolos do barco. Vês onde a linha se desfaz na extremidade superior e começa a desaparecer?'
'Sim, senhor.'
'Bem, aquele é um local baixo; é a cabeça do recife. Podes passar por cima dali e não magoar nada. Atravessa agora e segue rente por baixo do recife — água calma ali — pouca corrente.'
Segui o recife até me aproximar da extremidade desfeita. Então o Sr. Bixby disse:
'Agora prepara-te. Espera até eu dar a palavra. Ela não vai querer montar o recife; um barco detesta água baixa. Prepara-te — espera — ESPERA — mantém-na bem na mão. AGORA vira tudo! Arrebata-a! arrebata-a!'
Ele agarrou no outro lado do leme e ajudou a girá-lo até ao fim, e depois mantivemo-lo assim. O barco resistiu e recusou-se a responder durante algum tempo, e depois veio impetuoso para estibordo, montou o recife e enviou uma longa e irritada crista de água a espumar para longe da sua proa.
'Agora vigia-a; vigia-a como um gato, ou ela escapa-te. Quando ela luta com força e o leme escorrega um pouco, de uma forma brusca e gordurosa, alivia um pouco; é a forma como ela te diz à noite que a água é demasiado baixa; mas continua a incliná-la, pouco a pouco, em direção à ponta. Estás bem em cima do banco, agora; há um banco sob cada ponta, porque a água que desce à volta forma um remoinho e permite que o sedimento se deposite. Vês aquelas linhas finas na superfície da água que se ramificam como as varetas de um leque? Bem, esses são pequenos recifes; tens de evitar apenas as pontas deles, mas passa-lhes bastante perto. Agora cuidado — cuidado! Não te aproximes daquele local de aspeto liso e gorduroso; não há lá nove pés; ela não aguenta. Ela começa a cheirá-lo; olha com atenção, digo-te! Oh, raios, lá vais tu! Para a roda de estibordo! Rápido! Manda recuar! Faz marcha atrás!'
Os sinos das máquinas tilintaram e as máquinas responderam prontamente, disparando colunas de vapor branco bem alto para fora dos tubos de escape, mas era demasiado tarde. O barco tinha "cheirado" o banco a sério; as cristas espumosas que irradiavam da sua proa desapareceram subitamente, uma grande vaga morta veio rolar para a frente e varreu à frente dela, ela adornou muito para bombordo e saiu a rasgar em direção à outra margem como se estivesse mortalmente assustada. Estávamos a uma boa milha de onde deveríamos estar, quando finalmente conseguimos tomar-lhe o controlo de novo.
Durante o turno da tarde do dia seguinte, o Sr. Bixby perguntou-me se eu sabia como percorrer as próximas milhas. Eu disse:
'Ir por dentro do primeiro tronco acima da ponta, por fora do seguinte, sair da extremidade inferior do estaleiro de madeira do Higgins, fazer uma travessia quadrada e...'
'Está bem. Voltarei antes de te aproximares da próxima ponta.'
Mas não voltou. Ele ainda estava abaixo quando eu contornei a ponta e entrei num pedaço de rio sobre o qual tinha algumas dúvidas. Eu não sabia que ele estava escondido atrás de uma chaminé para ver como eu me sairia. Segui alegremente, sentindo-me cada vez mais orgulhoso, pois ele nunca tinha deixado o barco sob a minha exclusiva responsabilidade por tanto tempo antes. Até cheguei a "ajustar" o barco e a largar o leme, completamente, enquanto, vaidosamente, virava as costas e inspecionava as marcas da proa e trauteava uma melodia, uma espécie de indiferença fácil que eu tinha prodigiosamente admirado em Bixby e noutros grandes pilotos. Uma vez inspecionei durante bastante tempo e, quando me virei para a frente de novo, o meu coração saltou-me à boca tão subitamente que, se não tivesse cerrado os dentes, tê-lo-ia perdido. Um daqueles terríveis recifes íngremes estendia o seu comprimento mortal mesmo através da nossa proa! A minha cabeça desapareceu num momento; não sabia em que extremidade estava; ofeguei e não conseguia recuperar o fôlego; rodei o leme com tanta rapidez que ele se entrelaçou como uma teia de aranha; o barco respondeu e virou-se bruscamente para longe do recife, mas o recife seguiu-o! Fugi, e ele continuou a seguir, continuou a manter-se — mesmo através da minha proa! Nunca olhei para ver para onde ia, apenas fugi. O choque terrível era iminente — porque é que aquele vilão não vinha! Se eu cometesse o crime de tocar um sino, podia ser atirado borda fora. Mas era melhor isso do que destruir o barco. Por isso, num desespero cego, iniciei um "shivaree" tão ruidoso lá em baixo como nunca tinha espantado um engenheiro neste mundo antes, imagino. Em meio ao frenesim dos sinos, as máquinas começaram a recuar e a encher de uma forma furiosa, e a minha razão abandonou o seu trono — estávamos prestes a chocar contra os bosques do outro lado do rio. Nesse momento, o Sr. Bixby apareceu calmamente no convés superior. A minha alma saiu-lhe ao encontro em gratidão. O meu sofrimento desapareceu; sentir-me-ia seguro no precipício do Niágara, com o Sr. Bixby no convés superior. Ele tirou suave e docemente o palito da boca entre os dedos, como se fosse um charuto — estávamos precisamente no ato de trepar uma grande árvore saliente, e os passageiros fugiam para a popa como ratos — e lançou-me estes comandos, tão suavemente:
'Para o estibordo. Para o bombordo. Faz marcha atrás em ambos.'
O barco hesitou, parou, pressionou o nariz entre os ramos por um instante crítico, depois começou relutantemente a recuar.
'Para o bombordo. Avança com ele. Para o estibordo. Avança com ele. Aponta para o banco.'
Naveguei tão serenamente como numa manhã de verão. O Sr. Bixby entrou e disse, com falsa simplicidade:
'Quando tiveres um sinal, meu rapaz, deves bater no sino grande três vezes antes de atracares, para que os engenheiros se possam preparar.'
Corei perante o sarcasmo e disse que não tinha tido nenhum sinal.
'Ah! Então era para madeira, suponho. O oficial de serviço dir-te-á quando quiser carregar lenha.'
Continuei a consumir-me e disse que não estava à procura de madeira.
'De facto? Ora, o que poderias querer aqui na curva, então? Alguma vez soubeste de um barco seguir uma curva rio acima nesta fase do rio?'
'Não, senhor, e não estava a tentar segui-la. Estava a fugir de um recife íngreme.'
'Não, não era um recife íngreme; não há nenhum a menos de três milhas de onde estavas.'
'Mas eu vi-o. Era tão íngreme como aquele ali.'
'Quase. Passa por cima dele!'
'Dá isso como uma ordem?'
'Sim. Passa por cima dele.'
'Se não passar, que eu morra.'
'Muito bem; estou a assumir a responsabilidade.' Estava agora tão ansioso por destruir o barco como tinha estado por salvá-lo antes. Imprimi as minhas ordens na minha memória, para serem usadas no inquérito, e fiz uma investida direta para o recife. À medida que este desaparecia sob a nossa proa, prendi a respiração; mas deslizamos por cima dele como óleo.
'Agora não vês a diferença? Não era nada mais do que um recife de vento. O vento faz isso.'
'Assim vejo. Mas é exatamente como um recife íngreme. Como hei de eu distinguir os dois?'
'Não te sei dizer. É um instinto. Pouco a pouco, saberás naturalmente distinguir um do outro, mas nunca serás capaz de explicar por que ou como os distingues.'
Acabou por ser verdade. A superfície da água, com o tempo, tornou-se um livro maravilhoso — um livro que era uma língua morta para o passageiro inculto, mas que me dizia a sua mente sem reservas, entregando os seus segredos mais queridos tão claramente como se os proferisse com uma voz. E não era um livro para ser lido uma vez e posto de parte, pois tinha uma história nova para contar todos os dias. Ao longo das longas mil e duzentas milhas, nunca houve uma página que fosse desprovida de interesse, nunca uma que pudesses deixar de ler sem perda, nunca uma que quisesses saltar, pensando que poderias encontrar um prazer maior noutra coisa qualquer. Nunca houve um livro tão maravilhoso escrito pelo homem; nunca um cujo interesse fosse tão absorvente, tão incessante, tão brilhantemente renovado a cada releitura. O passageiro que não o sabia ler ficava encantado com uma espécie peculiar de pequena covinha na sua superfície (nas raras ocasiões em que ele não a ignorava completamente); mas para o piloto aquilo era uma passagem em itálico; de facto, era mais do que isso, era uma lenda em grandes maiúsculas, com uma série de pontos de exclamação a gritar no fim; pois significava que um naufrágio ou uma rocha estavam enterrados ali, capazes de arrancar a vida da embarcação mais forte que alguma vez flutuou. É a expressão mais ténue e simples que a água alguma vez faz, e a mais medonha para o olho de um piloto. Na verdade, o passageiro que não sabia ler este livro não via nada senão todo o tipo de imagens bonitas pintadas pelo sol e sombreadas pelas nuvens, ao passo que para o olho treinado estas não eram imagens de todo, mas o mais sombrio e mais sério dos materiais de leitura.
Ora, quando eu tinha dominado a linguagem desta água e tinha passado a conhecer cada detalhe insignificante que margeava o grande rio tão familiarmente como conhecia as letras do alfabeto, tinha feito uma aquisição valiosa. Mas também tinha perdido algo. Tinha perdido algo que nunca me poderia ser restituído enquanto vivesse. Toda a graça, a beleza, a poesia tinham desaparecido do majestoso rio! Ainda guardo na memória um certo pôr do sol maravilhoso que presenciei quando o serviço de barcos a vapor era novo para mim. Uma vasta extensão do rio transformou-se em sangue; à distância média, o tom avermelhado iluminou-se em ouro, através do qual um tronco solitário vinha a flutuar, negro e notório; num lugar, uma marca longa e oblíqua jazia a cintilar sobre a água; noutro, a superfície era quebrada por anéis fervilhantes e revoltos, que tinham tantas tonalidades como uma opala; onde o rubor avermelhado era mais ténue, havia um ponto liso que estava coberto de círculos graciosos e linhas irradiantes, traçados com tanta delicadeza; a margem à nossa esquerda era densamente arborizada, e a sombra sombria que caía desta floresta era quebrada num ponto por um rasto longo e encrespado que brilhava como prata; e, bem acima da muralha da floresta, uma árvore morta de tronco limpo agitava um único ramo frondoso que brilhava como uma chama no esplendor desobstruído que fluía do sol. Havia curvas graciosas, imagens refletidas, alturas arborizadas, distâncias suaves; e sobre toda a cena, perto e longe, as luzes dissolventes derivavam constantemente, enriquecendo-a, a cada momento que passava, com novas maravilhas de coloração.
Eu estava ali como alguém enfeitiçado. Bebi a cena, num arrebatamento mudo. O mundo era novo para mim, e eu nunca tinha visto nada parecido em casa. Mas, como disse, chegou um dia em que comecei a deixar de notar as glórias e os encantos que a lua, o sol e o crepúsculo criavam sobre a face do rio; chegou outro dia em que deixei de os notar de todo. Então, se aquela cena do pôr do sol tivesse sido repetida, tê-la-ia contemplado sem arrebatamento e tê-la-ia comentado, interiormente, desta forma: este sol significa que vamos ter vento amanhã; aquele tronco a flutuar significa que o rio está a subir, com poucos agradecimentos a ele; aquela marca oblíqua na água refere-se a um recife escarpado que vai matar o barco a vapor de alguém numa destas noites, se continuar a estender-se assim; aqueles "fervores" revoltos mostram um banco de areia a dissolver-se e um canal a mudar ali; as linhas e círculos na água lisa ali adiante são um aviso de que aquele lugar problemático está a assorear perigosamente; aquele rasto prateado na sombra da floresta é a "quebra" de um novo tronco submerso, e ele colocou-se no melhor lugar que poderia ter encontrado para pescar barcos a vapor; aquela árvore alta e morta, com um único ramo vivo, não vai durar muito, e então como é que alguém vai conseguir passar por este lugar cego à noite sem o velho marco amigo.
Não, o romance e a beleza tinham desaparecido todos do rio. Todo o valor que qualquer detalhe dele tinha para mim agora era a quantidade de utilidade que podia fornecer para concretizar a pilotagem segura de um barco a vapor. Desde aqueles dias, tenho pena dos médicos de todo o coração. O que significa o adorável rubor na face de uma beleza para um médico senão uma "quebra" que ondula sobre alguma doença mortal? Não estão todos os seus encantos visíveis semeados densamente com o que são, para ele, os sinais e símbolos de uma decadência oculta? Será que ele vê a beleza dela de todo, ou não a observa simplesmente de forma profissional, comentando a sua condição pouco saudável apenas para si mesmo? E não se interroga ele, por vezes, se ganhou mais ou perdeu mais ao aprender o seu ofício?
CAPÍTULO 10
Completando a Minha Educação
QUEM quer que me tenha feito a cortesia de ler os meus capítulos que precederam este pode possivelmente maravilhar-se por eu tratar tão minuciosamente a pilotagem como ciência. Esse era o propósito principal desses capítulos; e ainda não acabei. Desejo mostrar, da forma mais paciente e diligente, que ciência maravilhosa é esta. Os canais de navegação são boiados e iluminados e, portanto, é um empreendimento comparativamente fácil aprender a percorrê-los; os rios de águas límpidas, com fundos de cascalho, mudam os seus canais muito gradualmente e, por isso, só é preciso aprendê-los uma vez; mas a pilotagem torna-se outro assunto quando a aplicamos a correntes vastas como o Mississippi e o Missouri, cujas margens aluviais desmoronam e mudam constantemente, cujos troncos submersos estão sempre à procura de novos aposentos, cujos bancos de areia nunca estão em repouso, cujos canais estão sempre a esquivar-se e a fugir, e cujas obstruções devem ser enfrentadas em todas as noites e em todos os climas sem a ajuda de um único farol ou de uma única boia; pois não há nem luz nem boia a encontrar em nenhures em todos estes três ou quatro mil quilómetros de rio vil.{nota de rodapé [Verdadeiro na altura a que se refere; não é verdade agora (1882).]} Sinto-me justificado em alargar-me sobre esta grande ciência pela razão de que tenho a certeza de que ninguém escreveu ainda um parágrafo sobre ela que tivesse pilotado um barco a vapor por si mesmo, e que, portanto, tivesse um conhecimento prático do assunto. Se o tema fosse banal, sentir-me-ia obrigado a lidar suavemente com o leitor; mas, como é totalmente novo, senti-me à vontade para ocupar um grau considerável de espaço com ele.
Quando aprendi o nome e a posição de cada detalhe visível do rio; quando dominei a sua forma de tal modo que podia fechar os olhos e traçá-lo de St. Louis até New Orleans; quando aprendi a ler a face da água como alguém leria as notícias no jornal da manhã; e, finalmente, quando treinei a minha memória lenta para guardar uma série infindável de sondagens e marcas de travessia, e mantê-las bem presentes, julguei que a minha educação estava completa: por isso, comecei a inclinar o boné para o lado da cabeça e a usar um palito na boca ao leme. O Sr. Bixby estava atento a estes ares. Um dia ele disse--
"Qual é a altura daquela margem ali, em Burgess's?"
"Como posso eu saber, senhor. Fica a três quartos de milha de distância."
"Olho muito pobre — muito pobre. Pegue no óculo."
Peguei no óculo e, pouco depois, disse: "Não consigo dizer. Suponho que essa margem tenha cerca de um pé e meio de altura."
"Um pé e meio! Aquilo é uma margem de seis pés. Qual era a altura da margem aqui na última viagem?"
"Não sei; nunca reparei."
"Não reparou? Bem, tem de o fazer sempre daqui em diante."
"Porquê?"
"Porque terá de saber muitas coisas que ela lhe diz. Por uma coisa, diz-lhe o nível do rio — diz-lhe se há mais ou menos água no rio aqui do que havia na última viagem."
"As sondas dizem-me isso." Pensei, por momentos, que tinha levado a melhor sobre ele.
"Sim, mas suponha que as sondas mentem? A margem dir-lhe-ia isso, e então você daria um puxão naqueles sondadores. Havia uma margem de dez pés aqui na última viagem, e agora só há uma margem de seis pés. O que significa isso?"
"Que o rio está quatro pés mais alto do que na última viagem."
"Muito bem. O rio está a subir ou a descer?"
"A subir."
"Não está, não."
"Creio que estou certo, senhor. Ali está algum madeira à deriva a descer a corrente."
"Uma subida faz com que a madeira à deriva comece a mover-se, mas depois continua a flutuar durante algum tempo depois de o rio ter parado de subir. Agora, a margem dir-lhe-á sobre isto. Espere até chegar a um lugar onde ela é um pouco inclinada. Agora aqui; vê esta faixa estreita de sedimentos finos? Isso foi depositado enquanto a água estava mais alta. Vê que a madeira à deriva também começa a ficar encalhada. A margem ajuda de outras formas. Vê aquele cepo no falso ponto?"
"Sim, senhor."
"Bem, a água está exatamente ao nível das raízes dele. Tem de tomar nota disso."
"Porquê?"
"Porque isso significa que há sete pés no canal de 103."
"Mas 103 ainda é um longo caminho rio acima."
"É aí que entra o benefício da margem. Há água suficiente em 103 agora, mas pode não haver quando lá chegarmos; mas a margem manter-nos-á informados ao longo de todo o caminho. Não se percorrem canais estreitos num rio a descer, rio acima, e há muito poucos deles que nos é permitido percorrer de todo, rio abaixo. Há uma lei dos Estados Unidos contra isso. O rio pode estar a subir quando chegarmos a 103 e, nesse caso, percorrê-lo-emos. Estamos com um calado de — quanto?"
"Seis pés a ré... seis e meio a vante."
"Bem, parece que sabe alguma coisa."
"Mas o que eu quero saber particularmente é se tenho de continuar uma medição eterna das margens deste rio, mil e duzentas milhas, mês após mês?"
"Claro!"
As minhas emoções foram demasiado profundas para palavras durante algum tempo. Pouco depois, disse:
"E quanto a estes canais? Há muitos deles?"
"Eu diria que sim. Imagino que não vamos percorrer nada do rio nesta viagem como você alguma vez o viu ser percorrido antes — por assim dizer. Se o rio começar a subir novamente, vamos passar por trás de bancos de areia que você sempre viu fora do rio, altos e secos como o telhado de uma casa; vamos cortar através de lugares baixos que você nunca notou de todo, mesmo através do meio de bancos de areia que cobrem trezentos acres de rio; vamos rastejar através de fendas onde você sempre pensou que era terra firme; vamos passar a correr através dos bosques e deixar vinte e cinco milhas de rio de lado; vamos ver o lado de trás de cada ilha entre New Orleans e Cairo."
"Então tenho de ir trabalhar e aprender tanto rio mais quanto o que já conheço."
"Cerca de duas vezes mais, tão perto quanto se pode calcular."
"Bem, vive-se para descobrir. Acho que fui um tolo quando entrei neste negócio."
"Sim, isso é verdade. E ainda é. Mas não o será quando o tiver aprendido."
"Ah, nunca poderei aprendê-lo."
"Eu tratarei de garantir que aprenda."
A pouco e pouco, aventurei-me de novo:
"Tenho de aprender toda esta coisa tal como conheço o resto do rio — as formas e tudo — para que possa percorrê-lo à noite?"
"Sim. E tem de ter boas marcas claras de uma ponta à outra do rio, que ajudarão a margem a dizer-lhe quando há água suficiente em cada um destes inúmeros lugares — como aquele cepo, sabe. Quando o rio começa a subir, pode percorrer meia dúzia dos mais profundos; quando sobe um pé a mais pode percorrer mais uma dúzia; o pé seguinte acrescentará um par de dúzias, e assim por diante: portanto, vê que tem de conhecer as suas margens e marcas com uma certeza moral absoluta, e nunca as confundir; pois quando começa a passar por uma daquelas fendas, não há como voltar atrás, como há no rio grande; tem de passar, ou ficar lá seis meses se for apanhado num rio a descer. Há cerca de cinquenta destas fendas que não pode percorrer de todo, exceto quando o rio está cheio até à borda e por cima das margens."
"Esta nova lição é uma perspetiva animadora."
"Bastante animadora. E lembre-se do que lhe acabei de dizer; quando começar a entrar num daqueles lugares tem de passar. São demasiado estreitos para dar a volta, demasiado sinuosos para recuar, e a água pouco profunda está sempre na entrada; nunca noutro lugar. E a entrada deles está sempre sujeita a encher-se, pouco a pouco, de modo que as marcas pelas quais calcula a profundidade, nesta estação, podem não servir para a próxima."
"Aprender um novo conjunto, então, todos os anos?"
"Exatamente. Pressione-a contra o banco! O que é que está a fazer a subir pelo meio do rio?"
Os meses seguintes mostraram-me coisas estranhas. No mesmo dia em que tivemos a conversa acima narrada, encontrámos uma grande subida a descer o rio. Toda a vasta face da corrente estava negra com troncos mortos à deriva, ramos partidos e grandes árvores que tinham desmoronado e sido levadas pela água. Era necessária a navegação mais precisa para escolher o caminho através desta jangada apressada, mesmo durante o dia, ao atravessar de ponto para ponto; e à noite a dificuldade aumentava imensamente; de vez em quando um tronco enorme, deitado profundamente na água, aparecia subitamente logo debaixo da nossa proa, vindo de frente; não adiantava tentar evitá-lo então; só podíamos parar os motores, e uma roda passava por cima desse tronco de uma ponta à outra, mantendo um barulho estrondoso e inclinando o barco de uma forma que era muito desconfortável para os passageiros. De vez em quando batíamos num destes troncos submersos com um estrondo ruidoso, bem no centro, com toda a potência de vapor, e isso atordoava o barco como se tivesse atingido um continente. Por vezes este tronco alojava-se e ficava mesmo atravessado no nosso nariz, e fazia o Mississippi recuar perante ele; tínhamos então de fazer um pouco de marcha-atrás para nos afastarmos da obstrução. Muitas vezes batíamos em troncos brancos, no escuro, pois não os podíamos ver até estarmos mesmo em cima deles; mas um tronco negro é um objeto bastante distinto à noite. Um tronco submerso branco é um cliente desagradável quando a luz do dia desaparece.
Claro que, na grande subida, vinha um enxame de prodigiosas jangadas de madeira das cabeceiras do Mississippi, barcaças de carvão de Pittsburgh, pequenas chatas de comércio de toda a parte, e barcos de fundo chato de "Posey County", Indiana, carregados de "fruta e mobiliário" — o termo habitual para descrevê-lo, embora em inglês simples o frete assim engrandecido fosse varas de arco e abóboras. Os pilotos nutriam um ódio mortal por estas embarcações; e era retribuído com usura. A lei exigia que todos esses comerciantes indefesos mantivessem uma luz acesa, mas era uma lei que era frequentemente quebrada. De repente, numa noite turva, uma luz saltava, quase logo debaixo da nossa proa, e uma voz agonizante, com o "toque" das terras recônditas, lamentava-se:
"Onde diabos é que vocês vão! Não conseguem ver nada, seus bastardos, chupadores de ovos, ladrões de ovelhas, filhos de uma macaca empalhada de um olho só!"
Então, por um instante, enquanto assobiávamos ao passar, o brilho vermelho das nossas fornalhas revelava a chata e a forma do orador a gesticular como se estivesse sob um relâmpago, e nesse instante os nossos fogueiros e marinheiros enviavam e recebiam uma tempestade de projéteis e profanidades, uma das nossas rodas levava consigo os fragmentos esmagados de um remo de direção, e a escuridão negra e morta voltava a fechar-se. E aquele barqueiro de fundo chato assegurava-se de ir a New Orleans e processar o nosso barco, jurando firmemente que tinha tido uma luz acesa o tempo todo, quando na verdade o seu grupo tinha a lanterna lá em baixo para cantar, mentir, beber e jogar, e não havia ninguém de vigia no convés.
Uma vez, à noite, numa daquelas fendas rodeadas de floresta (atrás de uma ilha) que os homens dos barcos a vapor descrevem intensamente com a frase "tão escuro como o interior de uma vaca", teríamos devorado uma família de Posey County, fruta, mobiliário e tudo, não fosse o facto de estarem a tocar violino lá em baixo, e nós termos apanhado o som da música a tempo de desviar, não causando danos graves, infelizmente, mas chegando tão perto que tivemos boas esperanças por um momento. Estas pessoas trouxeram a sua lanterna, então, claro; e enquanto fazíamos marcha-atrás e manobrávamos para nos afastarmos, a preciosa família ficou à luz dela — ambos os sexos e várias idades — e amaldiçoou-nos até tudo ficar azul. Uma vez, um barqueiro de carvão disparou uma bala através da nossa casa do piloto, quando lhe pedimos emprestado um remo de direção num lugar muito estreito.
CAPÍTULO 11
O Rio Sobe
DURANTE esta grande subida, estas embarcações de pequena dimensão eram um incómodo intolerável. Estávamos a percorrer canal após canal — um mundo novo para mim — e, se houvesse um lugar particularmente apertado num canal, teríamos quase a certeza de encontrar um barco de fundo chato lá; e se ele não estivesse lá, encontrá-lo-íamos num local ainda pior, nomeadamente, a entrada do canal, na água pouco profunda. E então não haveria fim para as cordialidades profanas trocadas.
Às vezes, no grande rio, quando percorríamos o nosso caminho cautelosamente através de um nevoeiro, o silêncio profundo era subitamente quebrado por gritos e um clamor de latas de estanho, e num instante uma jangada de troncos aparecia vagamente através do véu teia, perto de nós; e então não esperávamos para trocar facas, mas arrancávamos os nossos sinos de motor pelas raízes e acumulávamos todo o vapor que tínhamos, para nos despacharmos para fora do caminho! Não se bate numa rocha ou numa embarcação de troncos sólida com um barco a vapor quando se pode evitar.
Dificilmente acreditará, mas muitos escriturários de barcos a vapor carregavam sempre uma grande variedade de folhetos religiosos consigo naqueles velhos tempos idos de navegação a vapor. De facto, carregavam. Vinte vezes por dia estávamos a apertar a volta a um banco de areia, enquanto uma série destes pequenos patifes derivava para a entrada da curva muito acima e para além de nós, a um par de milhas. Agora, um esquife saltava de um deles e vinha lutar o seu caminho laborioso através do deserto de água. "Aliviava tudo", na sombra do nosso castelo de proa, e os remadores ofegantes gritavam: "Dá-me um jorna-a-l!" enquanto o esquife derivava rapidamente para a popa. O escriturário atirava uma pilha de jornais de New Orleans. Se estes fossem recolhidos sem comentários, poderia notar que agora uma dúzia de outros esquifes tinham estado a derivar sobre nós sem dizer nada. Entenda, eles tinham estado à espera para ver como o nº 1 se ia safar. O nº 1 não fazendo nenhum comentário, todos os outros curvavam-se aos remos e vinham agora; e assim que chegavam, o escriturário atirava maços limpos de folhetos religiosos, atados a ripas de madeira. A quantidade de juras pesadas que doze pacotes de literatura religiosa comandarão quando imparcialmente divididos entre doze tripulações de jangadeiros, que puxaram um esquife pesado durante duas milhas num dia quente para os obter, é simplesmente inacreditável.
Como disse, a grande subida trouxe um mundo novo à minha visão. Quando o rio estava por cima das suas margens, tínhamos abandonado os nossos velhos caminhos e estávamos a subir de hora a hora sobre bancos que tinham estado dez pés fora da água antes; estávamos a roçar margens cheias de cepos, como aquela ao pé de Madrid Bend, que eu tinha sempre visto ser evitada antes; estávamos a percorrer a clamar canais como o de 82, onde a abertura ao pé era uma parede ininterrupta de madeira até o nosso nariz estar quase no próprio local. Alguns destes canais eram solidões absolutas. A floresta densa e intocada debruçava-se sobre ambas as margens da pequena fenda sinuosa, e podia-se acreditar que criaturas humanas nunca tinham lá entrado antes. As videiras selvagens, os recantos relvados e vistas vislumbradas enquanto passávamos, as trepadeiras floridas a agitar as suas flores vermelhas do topo de troncos mortos, e toda a riqueza pródiga da folhagem da floresta, eram desperdiçadas e deitadas fora ali. Os canais eram lugares adoráveis para pilotar; eram profundos, exceto na entrada; a corrente era suave; debaixo dos "pontos" a água estava absolutamente morta, e as margens invisíveis tão escarpadas que, onde os espessos salgueiros tenros se projetavam, podia-se enterrar o costado do barco neles enquanto se passava a rasgar, e então parecia-se voar.
Atrás de outras ilhas, encontrámos pequenas fazendas miseráveis e cabanas de troncos ainda mais miseráveis; havia cercas de ripas, em estado precário, que sobressaiam um ou dois palmos acima da água, com um ou dois infelizes do sexo masculino, vestidos de brim, a tremer de febres, de rosto amarelado, empoleirados na ripa superior, com os cotovelos nos joelhos e os queixos nas mãos, a triturar tabaco e a disparar o resultado contra aparas flutuantes através das frestas deixadas por dentes perdidos; enquanto o resto da família e os poucos animais da quinta estavam amontoados numa chata de madeira vazia, ancorada ali perto. Nesta embarcação de fundo chato, a família teria de cozinhar, comer e dormir durante um número maior ou menor de dias (ou possivelmente semanas), até que o rio baixasse sessenta ou noventa centímetros e lhes permitisse regressar à sua cabana de troncos e às suas febres — sendo as febres uma providência misericordiosa de uma Providência omnisciente para lhes permitir fazer exercício sem esforço. E este tipo de acampamento aquático era algo a que estas pessoas estavam sujeitas a ser tratadas um par de vezes por ano: pela cheia de dezembro vinda do Ohio e pela cheia de junho vinda do Mississippi. E, no entanto, estas eram dispensações bondosas, pois pelo menos permitiam que os pobres seres se levantassem dos mortos de vez em quando e vissem a vida passar quando um barco a vapor seguia o seu caminho. Eles também apreciavam a bênção, pois abriam bem as bocas e os olhos e aproveitavam ao máximo essas ocasiões. Ora, o que poderiam estas criaturas banidas encontrar para fazer para não morrerem de melancolia durante a estação de águas baixas!
Certa vez, num destes adoráveis canais entre ilhas, encontrámos o nosso curso completamente bloqueado por uma grande árvore caída. Isto servirá para mostrar quão estreitos eram alguns dos canais. Os passageiros tiveram uma hora de recreio numa natureza virgem, enquanto os marinheiros cortavam a ponte; pois não havia nada que se pudesse fazer quanto a voltar para trás, entende-se.
De Cairo a Baton Rouge, quando o rio está acima das margens, não se tem qualquer dificuldade particular durante a noite, pois a muralha de floresta densa de mil milhas que guarda as duas margens durante todo o percurso só é interrompida por uma quinta ou um depósito de lenha em intervalos, pelo que não se consegue "sair do rio" muito mais facilmente do que se conseguiria sair de um caminho cercado; mas de Baton Rouge a Nova Orleães a questão é diferente. O rio tem mais de uma milha de largura e é muito profundo — até sessenta metros, em alguns lugares. Ambas as margens, ao longo de bem mais de cem milhas, estão despidas da sua madeira e ladeadas por plantações contínuas de açúcar, apenas com um ou outro rebento disperso ou fila de árvores-de-louça ornamentais. A madeira é cortada até ao limite posterior das plantações, a uma distância de duas a quatro milhas. Quando a primeira geada ameaça chegar, os plantadores colhem as suas culturas à pressa. Quando terminam de moer a cana, amontoam os resíduos dos caules (a que chamam bagaço) em grandes pilhas e ateiam-lhes fogo, embora noutros países produtores de açúcar o bagaço seja usado como combustível nas fornalhas dos engenhos de açúcar. Ora, as pilhas de bagaço húmido ardem lentamente e deitam fumo como a cozinha do próprio Satanás.
Um aterro de três a cinco metros de altura protege ambas as margens do Mississippi durante todo aquele extremo inferior do rio, e este aterro está recuado da linha da margem entre três a talvez trinta metros, consoante as circunstâncias; digamos, nove ou doze metros, como regra geral. Encha toda essa região com uma escuridão impenetrável de fumo proveniente de cem milhas de pilhas de bagaço a arder, quando o rio está acima das margens, e solte um barco a vapor por ali à meia-noite e veja como ele se sente. E veja como você se sente também! Dá por si no meio de um mar vago e ténue que não tem margens, que se desvanece e se perde nas distâncias sombrias; pois não consegue discernir a fina linha do aterro, e está sempre a imaginar que vê uma árvore dispersa quando não a vê. As próprias plantações são transformadas pelo fumo e parecem uma parte do mar. Durante toda a sua vigília, é torturado pela miséria requintada da incerteza. Espera estar a manter-se no rio, mas não sabe. Tudo o que sabe com certeza é que é provável que esteja a dois metros da margem e da destruição, quando pensa que está a uns bons oitocentos metros de terra. E tem a certeza, também, de que se por acaso embater subitamente contra o aterro e virar as chaminés borda fora, terá o pequeno conforto de saber que é aproximadamente o que esperava fazer. Um dos grandes navios de Vicksburg lançou-se para dentro de uma plantação de açúcar uma noite, numa altura dessas, e teve de lá ficar uma semana. Mas não havia novidade nisso; já tinha acontecido muitas vezes antes.
Pensei que tinha terminado este capítulo, mas desejo acrescentar uma coisa curiosa, enquanto a tenho em mente. É relevante apenas na medida em que está ligada à pilotagem. Costumava haver um excelente piloto no rio, um Sr. X., que era sonâmbulo. Dizia-se que, se a sua mente estivesse perturbada por causa de um trecho mau do rio, ele tinha quase a certeza de se levantar e andar a dormir e fazer coisas estranhas. Foi uma vez colega de pilotagem durante uma ou duas viagens com George Ealer, num grande navio de passageiros de Nova Orleães. Durante uma parte considerável da primeira viagem, George sentiu-se inquieto, mas acabou por superar isso, pois X. parecia contente por ficar na cama quando dormia. Tarde da noite, o barco aproximava-se de Helena, Arkansas; a água estava baixa e a travessia acima da cidade encontrava-se num estado muito confuso e intrincado. X. tinha visto a travessia depois de Ealer, e como a noite estava particularmente chuvosa, soturna e escura, Ealer ponderava se não seria melhor chamar X. para ajudar a navegar o local, quando a porta se abriu e X. entrou. Ora, em noites muito escuras, a luz é um inimigo mortal da pilotagem; sabe-se que, se estiver numa sala iluminada, numa noite dessas, não se consegue ver as coisas na rua com qualquer utilidade; mas se apagar as luzes e ficar na escuridão, consegue distinguir os objetos na rua muito bem. Por isso, em noites muito escuras, os pilotos não fumam; não permitem fogo na salamandra da casa do piloto se houver uma fresta por onde possa escapar o menor raio de luz; ordenam que as fornalhas sejam tapadas com grandes encerados e que as claraboias sejam bem tapadas. Então, nenhuma luz sai do barco. A forma indefinível que entrou agora na casa do piloto tinha a voz do Sr. X. Esta disse:
"Deixa-me levá-la, George; eu vi este lugar depois de ti, e é tão sinuoso que creio que posso navegá-lo eu mesmo mais facilmente do que te poderia dizer como o fazer."
"É gentil da tua parte, e juro que estou disposto. Não me resta outra gota de suor no corpo. Tenho andado a rodar e a rodar o leme como um esquilo. Está tão escuro que não consigo dizer para que lado ela está a oscilar até que ela comece a virar como um pião."
Então Ealer sentou-se no banco, ofegante e sem fôlego. O fantasma negro assumiu o leme sem dizer nada, estabilizou o navio a valsar com uma ou duas voltas, e depois ficou à vontade, mimando-a um pouco para este lado e depois para aquele, tão suave e docemente como se fosse meio-dia. Quando Ealer observou esta maravilha de direção, desejou não ter confessado! Ele ficou a olhar, maravilhado, e finalmente disse:
"Bem, pensei que sabia como guiar um barco a vapor, mas esse foi outro erro meu."
X. não disse nada, mas continuou serenamente com o seu trabalho. Ele tocou para as sondas; tocou para abrandar o vapor; manobrou o barco com cuidado e perícia para marcas invisíveis, depois ficou no centro do leme e perscrutou suavemente a escuridão, à proa e à popa, para verificar a sua posição; à medida que as sondas mostravam cada vez menos profundidade, ele parou os motores completamente, e seguiu-se o silêncio mortal e o suspense de "deixar à deriva"; quando a água mais rasa foi atingida, ele puxou pelo vapor, levou-a habilmente por cima e depois começou a manobrá-la cautelosamente para o sistema seguinte de marcas de baixio; seguiu-se o mesmo uso paciente e atento das sondas e motores, o barco deslizou sem tocar no fundo e entrou na terceira e última complexidade da travessia; impercetivelmente ela moveu-se através da escuridão, rastejou centímetro a centímetro para as suas marcas, derivou tediosamente até que a água mais rasa foi anunciada, e então, sob uma tremenda pressão de vapor, oscilou sobre o recife e seguiu para águas profundas e para a segurança!
Ealer deixou o seu fôlego há muito retido sair num grande suspiro de alívio e disse:
"Essa é a peça de pilotagem mais doce que alguma vez foi feita no Rio Mississippi! Não teria acreditado que pudesse ser feita, se não a tivesse visto."
Não houve resposta, e ele acrescentou:
"Aguenta-a apenas mais cinco minutos, parceiro, e deixa-me descer e ir tomar uma chávena de café."
Um minuto depois, Ealer estava a trincar uma tarte, lá em baixo na "texas", e a reconfortar-se com café. Nesse momento, o vigia noturno apareceu e estava prestes a sair novamente, quando reparou em Ealer e exclamou:
"Quem está ao leme, senhor?"
"X."
"Corra para a casa do piloto, mais depressa do que um relâmpago!"
No momento seguinte, ambos os homens voavam escada acima para a casa do piloto, de três em três degraus! Ninguém lá! O grande navio a vapor estava a navegar pelo meio do rio à sua própria vontade! O vigia disparou para fora do local novamente; Ealer agarrou no leme, pôs um motor a recuar com força e prendeu a respiração enquanto o barco oscilava relutantemente para longe de um banco de areia que estava prestes a enviar para o meio do Golfo do México!
Pouco depois, o vigia voltou e disse:
"Aquele lunático não lhe disse que estava a dormir, quando veio aqui acima pela primeira vez?"
"Não."
"Bem, estava. Encontrei-o a andar em cima dos corrimãos, tão despreocupado como outro homem caminharia num passeio; e deitei-o na cama; agora, mesmo neste minuto, ele estava lá outra vez, muito atrás, a fazer aquele tipo de diabrura de equilibrista tal como antes."
"Bem, acho que vou ficar por perto, da próxima vez que ele tiver um desses ataques. Mas espero que os tenha frequentemente. Devia ter visto como ele levou este barco pela travessia de Helena. Nunca vi nada tão vistoso antes. E se ele consegue fazer uma pilotagem tão dourada, delicada e com luvas de pelica quando está a dormir profundamente, o que não conseguiria fazer se estivesse morto!"
CAPÍTULO 12
Sondagem
QUANDO o rio está muito baixo e o barco a vapor de alguém está a "calar toda a água" que existe no canal — ou mais alguns centímetros, como acontecia frequentemente nos velhos tempos — é preciso ser dolorosamente circunspecto na pilotagem. Costumávamos ter de "sondar" vários locais particularmente maus quase todas as viagens quando o rio estava num nível muito baixo.
A sondagem é feita desta maneira. O barco atraca na margem, logo acima da travessia do baixio; o piloto que não está de serviço leva o seu "cub" ou timoneiro e uma tripulação escolhida de homens (por vezes um oficial também), e sai no escaler — desde que o barco não tenha esse luxo raro e sumptuoso, um "barco de sondagem" concebido para o efeito — e prossegue à procura da melhor água, enquanto o piloto de serviço observa os seus movimentos através de um óculo e, em alguns casos, auxilia com sinais do apito do barco, significando "tente mais acima" ou "tente mais abaixo"; pois a superfície da água, tal como uma pintura a óleo, é mais expressiva e inteligível quando inspecionada de uma certa distância do que muito de perto. Os sinais de apito raramente são necessários, contudo; talvez nunca, exceto quando o vento confunde as ondulações significativas na superfície da água. Quando o escaler chega ao local do baixio, a velocidade é reduzida, o piloto começa a sondar a profundidade com uma vara de três ou quatro metros de comprimento, e o timoneiro no leme obedece à ordem de "mantém-na a estibordo"; ou "deixa-a cair para bombordo"; ou "firme — firme como vais".
Quando as medições indicam que o escaler se está a aproximar da parte mais rasa do recife, é dada a ordem para "aliviar tudo!" Então os homens param de remar e o escaler deriva com a corrente. A ordem seguinte é: "Preparar a boia!" No momento em que o ponto mais raso é alcançado, o piloto profere a ordem: "Largar a boia!" e lá vai ela. Se o piloto não estiver satisfeito, sonda o local novamente; se encontrar melhor água mais acima ou mais abaixo, remove a boia para esse lugar. Sendo finalmente satisfeito, dá a ordem e todos os homens mantêm os remos direitos para cima, no ar, em linha; um sopro do apito do barco indica que o sinal foi visto; então os homens "reman com força" e encostam o escaler ao lado da boia; o vapor aproxima-se cautelosamente, é apontado diretamente para a boia, poupa a sua energia para o esforço que se avizinha e, presente, no momento crítico, liga todo o seu vapor e vai a ranger e a chapinhar por cima da boia e da areia, e ganha a água profunda mais à frente. Ou talvez não; talvez ela "bata e balance". Então tem de passar várias horas (ou dias) a libertar-se com mastros.
Por vezes, uma boia não é colocada de todo, mas o escaler vai à frente, à procura da melhor água, e o vapor segue na sua esteira. Frequentemente há muita diversão e entusiasmo na sondagem, especialmente se for um glorioso dia de verão ou uma noite agitada. Mas no inverno, o frio e o perigo retiram grande parte da diversão.
Uma boia não é mais do que uma tábua de um metro e meio de comprimento, com uma extremidade virada para cima; é um banco de escola invertido, com um dos suportes deixado e o outro removido. É ancorada na parte mais rasa do recife por uma corda com uma pedra pesada presa à extremidade. Se não fosse a resistência da extremidade virada para cima do banco invertido, a corrente puxaria a boia para debaixo de água. À noite, uma lanterna de papel com uma vela dentro é presa ao topo da boia, e isto pode ser visto a uma milha ou mais, uma pequena centelha cintilante no deserto da escuridão.
Nada deleita tanto um "cub" como a oportunidade de ir sondar. Há um ar de aventura nisso; muitas vezes há perigo; é tão vistoso e digno de um navio de guerra sentar-se na popa e guiar um escaler veloz; há algo de belo no salto exultante do barco quando uma tripulação de marinheiros experientes coloca as suas almas nos remos; é adorável ver a espuma branca afastar-se da proa; há música no correr da água; é deliciosamente revigorante, no verão, ir a toda a velocidade sobre as extensões ventosas do rio quando o mundo das pequenas ondas dança ao sol. É também uma tal grandeza, para o "cub", ter a oportunidade de dar uma ordem; pois muitas vezes o piloto dirá simplesmente: "Deixa-a virar!" e deixará o resto para o "cub", que instantaneamente grita, no seu tom de comando mais severo: "Aliviar estibordo! Com força a bombordo! Estibordo remem! Com vontade, homens!" O "cub" gosta de sondar pela razão adicional de que os olhos dos passageiros observam todos os movimentos do escaler com um interesse absorvente se for de dia; e se for de noite, ele sabe que esses mesmos olhos maravilhados estão fixos na lanterna do escaler à medida que esta desliza para a escuridão e se esbate na distância remota.
Numa viagem, uma rapariga bonita de dezasseis anos passou o seu tempo na nossa casa do piloto com o tio e a tia, todos os dias e o dia todo. Apaixonei-me por ela. O "cub" do Sr. Thornburg, Tom G----, também. Tom e eu tínhamos sido amigos íntimos até àquela altura; mas agora começou a surgir um certo distanciamento. Contei à rapariga muitas das minhas aventuras no rio e fiz-me passar por um grande herói; Tom tentou fazer-se passar por herói também, e conseguiu até certo ponto, mas ele sempre teve o hábito de exagerar. No entanto, a virtude é a sua própria recompensa, por isso eu estava ligeiramente à frente na contenda. Por esta altura, aconteceu algo que prometia bastante para mim: os pilotos decidiram sondar a travessia na cabeceira de 21. Isto ocorreria por volta das nove ou dez da noite, quando os passageiros ainda estariam acordados; seria, portanto, o turno do Sr. Thornburg, pelo que o meu chefe teria de fazer a sondagem. Tínhamos um barco de sondagem que era um encanto — longo, elegante, gracioso e tão veloz como um galgo; os seus bancos eram almofadados; transportava doze remadores; um dos oficiais era sempre enviado nele para transmitir ordens à tripulação, pois o nosso era um vapor onde se punha imenso "estilo".
Atracámos na margem acima de 21 e preparámo-nos. Era uma noite má, e o rio era tão largo ali que os olhos não treinados de um homem da terra não conseguiam discernir qualquer margem oposta através de tal escuridão. Os passageiros estavam atentos e interessados; tudo estava satisfatório. Enquanto me apressava através da casa das máquinas, pitorescamente equipado com trajes de tempestade, encontrei o Tom e não consegui deixar de proferir um comentário maldoso:
"Não estás contente por não teres de ir sondar?"
Tom estava a passar, mas virou-se rapidamente e disse:
"Pois agora, só por causa disso, podes ir buscar a vara de sondagem tu mesmo. Eu ia buscá-la, mas agora, antes de o fazer, preferia ver-te em Halifax."
"Quem quer que a vás buscar? Eu não. Ela está no barco de sondagem."
"Não está nada. Foi pintada de novo; e tem estado nos guardas da cabine das senhoras há dois dias, a secar."
Voei de volta e pouco depois cheguei ao meio da multidão de senhoras que observavam e se maravilhavam, a tempo de ouvir o comando:
"Com vontade, homens!"
Olhei para lá e lá estava o galante barco de sondagem a avançar, o inescrupuloso Tom a presidir ao leme e o meu chefe sentado ao lado dele com a vara de sondagem que eu tinha sido enviado numa missão tola para buscar. Então aquela jovem disse-me:
"Oh, quão terrível ter de ir naquele pequeno barco numa noite destas! Acha que há algum perigo?"
Preferia ter sido esfaqueado. Fui-me embora, cheio de veneno, para ajudar na casa do piloto. Pouco a pouco, a lanterna do barco desapareceu e, após um intervalo, uma pequena centelha brilhou na face da água a uma milha de distância. O Sr. Thornburg apitou, em reconhecimento, fez marcha-atrás com o vapor e dirigiu-se para ela. Voámos durante algum tempo, depois abrandámos o vapor e deslizámos cautelosamente em direção à centelha. De repente, o Sr. Thornburg exclamou:
"Olá, a lanterna da boia apagou-se!"
Ele parou os motores. Um momento ou dois depois, disse:
"Ora, lá está ela outra vez!"
Por isso, avançou novamente com os motores e tocou para as sondas. Gradualmente a água tornou-se mais rasa e depois começou a aprofundar-se novamente! O Sr. Thornburg murmurou:
"Bem, não percebo isto. Acredito que aquela boia derivou para fora do recife. Parece estar um pouco demasiado à esquerda. Não importa, é mais seguro passar por cima dela de qualquer maneira."
Assim, naquele mundo sólido de escuridão, fomos rastejando sobre a luz. No momento em que a nossa proa estava prestes a passar por cima dela, o Sr. Thornburg agarrou nas cordas do sino, tocou um toque surpreendente e exclamou:
"Minha alma, é o barco de sondagem!"
Um coro repentino de alarmes selvagens irrompeu lá em baixo — uma pausa — e depois seguiu-se o som de ranger e partir. O Sr. Thornburg exclamou:
"Ali! A roda de pás triturou o barco de sondagem em palitos de fósforo! Corram! Vejam quem foi morto!"
Eu estava no convés principal num abrir e fechar de olhos. O meu imediato, o terceiro oficial e quase todos os homens estavam a salvo. Tinham descoberto o perigo quando já era tarde demais para se afastarem; depois, quando os grandes guarda-corpos os ensombraram um momento mais tarde, estavam preparados e sabiam o que fazer; à ordem do meu imediato, saltaram no instante certo, agarraram o guarda-corpo e foram içados a bordo. No momento seguinte, o escaler de sondagem passou veloz pela popa em direção à roda de pás e foi atingido e despedaçado em átomos. Dois dos homens e o aprendiz Tom tinham desaparecido — um facto que se espalhou como fogo pelo barco. Os passageiros vieram a correr para a passagem de vante, senhoras e tudo, de olhos ansiosos e rostos pálidos, e falavam em vozes trémulas sobre o acontecimento terrível. E, vezes sem conta, ouvi-os dizer: "Coitados! Pobre rapaz, pobre rapaz!"
A esta altura, o escaler do barco já estava guarnecido e a caminho, para procurar os desaparecidos. Então, ouviu-se um grito ténue, vindo da esquerda. O escaler tinha desaparecido na outra direção. Metade das pessoas correu para um lado para encorajar o nadador com os seus gritos; a outra metade correu para o outro lado para gritar ao escaler que desse meia-volta. Pelos chamamentos, o nadador aproximava-se, mas alguns diziam que o som mostrava falta de forças. A multidão amontoou-se contra as grades do convés das caldeiras, debruçando-se e olhando fixamente para a escuridão; e cada grito, cada vez mais fraco, arrancava-lhes palavras como: "Ah, coitado, coitado! Não há forma de o salvar?"
Mas os gritos continuaram e aproximaram-se, e pouco depois a voz disse, com coragem:
"Eu consigo! Preparem uma corda!"
Que estrondosa ovação lhe deram! O imediato posicionou-se sob o brilho de um archote, com uma bobina de corda na mão e os seus homens agrupados à sua volta. No momento seguinte, o rosto do nadador apareceu no círculo de luz e, num outro, o seu dono foi içado a bordo, inanimado e encharcado, enquanto vivas e mais vivas se erguiam. Era aquele diabo do Tom.
A tripulação do escaler procurou por todo o lado, mas não encontrou sinal dos dois homens. Provavelmente não conseguiram agarrar o guarda-corpo, caíram para trás e foram atingidos pela roda de pás e mortos. Tom nunca tinha saltado para o guarda-corpo; tinha mergulhado de cabeça no rio e passado por baixo da roda. Não foi nada; eu teria conseguido fazê-lo facilmente, e disse-o; mas todos continuaram na mesma, fazendo um escândalo tremendo por causa daquele asno, como se ele tivesse feito algo grandioso. Aquela rapariga parecia não se cansar daquele "herói" lamentável durante o resto da viagem; mas eu pouco me importava; detestava-a, de qualquer forma.
A forma como confundimos a lanterna do barco de sondagem com a luz da boia foi a seguinte. O meu imediato disse que, depois de colocar a boia, afastou-se e observou-a até parecer estar segura; depois, posicionou-se a cem metros abaixo dela e um pouco para o lado do curso do vapor, apontou o barco de sondagem rio acima e esperou. Tendo de esperar algum tempo, ele e o oficial começaram a conversar; ele olhou para cima quando julgou que o vapor estava quase sobre o recife; viu que a boia tinha desaparecido, mas supôs que o vapor já tinha passado por cima dela; continuou a sua conversa; notou que o vapor se estava a aproximar muito, mas isso era o correto; era obrigação do vapor roçar-lhe de perto, para conveniência de o recolher a bordo; ele estava à espera que o vapor se desviasse, até ao último momento; então, passou-lhe pela cabeça que o vapor estava a tentar atropelá-lo, confundindo a sua lanterna com a luz da boia; por isso, gritou: "Preparem-se para saltar para o guarda-corpo, homens!" e no instante seguinte o salto foi dado.
CAPÍTULO 13
As Necessidades de um Piloto
MAS estou a desviar-me do que pretendia fazer, isto é, tornar mais claro do que talvez pareça nos capítulos anteriores, alguns dos requisitos peculiares da ciência da pilotagem. Em primeiro lugar, existe uma faculdade que um piloto deve cultivar incessantemente até a ter levado à perfeição absoluta. Nada menos do que a perfeição servirá. Essa faculdade é a memória. Ele não pode ficar apenas a pensar que uma coisa é de uma certa forma; ele tem de a saber; pois esta é, eminentemente, uma das ciências "exatas". Com que desdém um piloto era visto, nos velhos tempos, se alguma vez se aventurasse a usar a frase fraca "eu penso", em vez da vigorosa "eu sei"! Não se consegue facilmente compreender que coisa tremenda é saber cada detalhe trivial de mil e duzentas milhas de rio e sabê-lo com absoluta exatidão. Se pegar na rua mais comprida de Nova Iorque e a percorrer de cima a baixo, estudando as suas características pacientemente até saber de cor cada casa, janela, porta, poste de iluminação e sinal grande ou pequeno, e conhecê-los com tanta precisão que consiga nomear instantaneamente aquele em frente ao qual se encontra quando é deixado ao acaso nessa rua no meio de uma noite de breu, terá então uma noção tolerável da quantidade e da exatidão do conhecimento de um piloto que transporta o rio Mississippi na cabeça. E depois, se continuar até conhecer cada cruzamento de rua, a natureza, tamanho e posição das pedras de passagem e a profundidade variável da lama em cada um desses inúmeros lugares, terá alguma ideia do que o piloto deve saber para manter um vapor do Mississippi fora de problemas. A seguir, se pegar em metade dos sinais dessa rua comprida e *mudar os seus lugares* uma vez por mês, e ainda assim conseguir conhecer as suas novas posições com precisão nas noites escuras, e acompanhar estas mudanças repetidas sem cometer erros, compreenderá o que é exigido à memória inigualável de um piloto pelo inconstante Mississippi.
Penso que a memória de um piloto é talvez a coisa mais maravilhosa do mundo. Saber o Antigo e o Novo Testamento de cor, e ser capaz de os recitar fluentemente, de frente para trás ou de trás para a frente, ou começar ao acaso em qualquer parte do livro e recitar nas duas direções e nunca tropeçar ou cometer um erro, não é uma massa extravagante de conhecimento, nem uma facilidade maravilhosa, comparada com a massa de conhecimento de um piloto sobre o Mississippi e a sua maravilhosa facilidade em lidar com ela. Faço esta comparação deliberadamente e acredito que não estou a exagerar a verdade quando o faço. Muitos acharão a minha comparação demasiado forte, mas os pilotos não.
E quão fácil e confortavelmente a memória do piloto faz o seu trabalho; quão plácida e sem esforço é a sua forma de atuar; quão inconscientemente ela armazena as suas vastas reservas, hora a hora, dia a dia, e nunca perde ou extravia um único pacote valioso de todas elas! Tome um exemplo. Deixe um sondador gritar: "Meia braça! Meia braça! Meia braça! Meia braça! Meia braça!" até se tornar tão monótono como o tiquetaque de um relógio; deixe a conversa decorrer a todo o tempo, e o piloto estar a fazer a sua parte na conversa, e já não estar conscientemente a ouvir o sondador; e no meio desta interminável série de meias braças, deixe ser injetado um único "quarto de braça!", sem ênfase, e depois o grito de meia braça continuar de novo, exatamente como antes: duas ou três semanas mais tarde, esse piloto pode descrever com precisão a posição do barco no rio quando esse quarto de braça foi proferido, e dar-lhe uma série de marcas de proa, marcas de popa e marcas laterais para o guiar, que deveria ser capaz de levar o barco até lá e colocá-lo de novo nesse mesmo lugar você mesmo! O grito de "quarto de braça" não desviou realmente a sua mente da conversa, mas as suas faculdades treinadas fotografaram instantaneamente os rumos, notaram a mudança de profundidade e armazenaram os detalhes importantes para referência futura sem exigir qualquer assistência da sua parte no assunto. Se estivesse a caminhar e a falar com um amigo, e outro amigo ao seu lado mantivesse uma repetição monótona do som da vogal A, durante um par de quarteirões, e depois no meio injetasse um R, assim, A, A, A, A, A, R, A, A, A, etc., e não desse qualquer ênfase ao R, não seria capaz de declarar, duas ou três semanas depois, que o R tinha sido lá colocado, nem ser capaz de dizer que objetos estava a passar no momento em que isso foi feito. Mas conseguiria se a sua memória tivesse sido paciente e laboriosamente treinada para fazer esse tipo de coisa mecanicamente.
Dê a um homem uma memória razoavelmente boa para começar, e a pilotagem desenvolvê-la-á num verdadeiro colosso de capacidade. Mas *apenas nas matérias em que é diariamente exercitada*. Chegaria um momento em que as faculdades do homem não poderiam deixar de notar marcos e sondagens, e a sua memória não poderia deixar de os segurar com o aperto de um torno; mas se perguntasse a esse mesmo homem ao meio-dia o que tinha tomado ao pequeno-almoço, seriam dez hipóteses contra uma de que ele não o saberia dizer. Podem fazer-se coisas surpreendentes com a memória humana se a dedicar fielmente a um determinado ramo de negócio.
Na altura em que os salários subiram tanto no rio Missouri, o meu imediato, o Sr. Bixby, foi lá acima e aprendeu mais de mil milhas daquele curso de água com uma facilidade e rapidez que eram surpreendentes. Quando viu cada divisão uma vez de dia e uma vez de noite, a sua educação estava tão completa que obteve uma licença de "luz do dia"; algumas viagens depois, obteve uma licença completa e começou a pilotar de dia e de noite — e classificou-se como A 1, também.
O Sr. Bixby colocou-me como timoneiro durante algum tempo sob um piloto cujas proezas de memória eram uma maravilha constante para mim. No entanto, a sua memória nasceu nele, penso eu, não foi construída. Por exemplo, alguém mencionava um nome. Instantaneamente o Sr. Brown interrompia:
"Oh, eu conhecia-o. Sujeito de rosto amarelado, ruivo, com uma pequena cicatriz no lado da garganta, como uma lasca sob a pele. Ele só esteve no comércio do Sul durante seis meses. Isso foi há treze anos. Fiz uma viagem com ele. Havia cinco pés de água no rio superior então; o "Henry Blake" encalhou no sopé da Tower Island com um calado de quatro e meio; o "George Elliott" partiu o leme nos destroços do "Sunflower"..."
"Ora, o "Sunflower" não se afundou até..."
"Eu sei quando ele se afundou; foi três anos antes disso, a 2 de dezembro; o Asa Hardy era o capitão dele, e o seu irmão John era o primeiro escriturário; e foi a sua primeira viagem nele, também; o Tom Jones contou-me estas coisas uma semana depois em Nova Orleães; ele era o primeiro imediato do "Sunflower". O capitão Hardy espetou um prego no pé a 6 de julho do ano seguinte e morreu de tétano no dia 15. O seu irmão morreu dois anos depois, a 3 de março... erisipela. Nunca vi nenhum dos Hardy... eles eram homens do rio Alleghany... mas as pessoas que os conheciam contaram-me todas estas coisas. E disseram que o capitão Hardy usava meias de lã no inverno e no verão, exatamente da mesma forma, e o nome da sua primeira mulher era Jane Shook... ela era da Nova Inglaterra... e a sua segunda morreu num hospital psiquiátrico. Estava no sangue. Ela era de Lexington, Kentucky. O nome era Horton antes de se casar."
E assim por diante, durante horas, a língua do homem não parava. Ele não conseguia esquecer nada. Era simplesmente impossível. Os detalhes mais triviais permaneciam tão distintos e luminosos na sua cabeça, depois de lá estarem há anos, como os eventos mais memoráveis. A sua não era simplesmente uma memória de piloto; o seu alcance era universal. Se estivesse a falar sobre uma carta trivial que tinha recebido sete anos antes, era muito provável que lhe recitasse o texto completo de memória. E depois, sem observar que se estava a desviar da linha verdadeira da sua conversa, era mais do que provável que lançasse uma biografia parentética e longa do autor dessa carta; e você seria realmente sortudo se ele não pegasse nos parentes desse autor, um por um, e lhe desse as biografias deles também.
Tal memória como essa é um grande infortúnio. Para ela, todas as ocorrências têm a mesma importância. O seu possuidor não consegue distinguir uma circunstância interessante de uma desinteressante. Como orador, é obrigado a entupir a sua narrativa com detalhes cansativos e tornar-se um enfadonho insuportável. Além disso, não consegue cingir-se ao assunto. Ele apanha cada pequeno grão de memória que vislumbra no seu caminho, e assim é desviado. O Sr. Brown começava com a intenção honesta de lhe contar uma anedota vastamente engraçada sobre um cão. Ele ficava "tão cheio de riso" que mal conseguia começar; depois a sua memória começava com a raça e a aparência pessoal do cão; derivava para uma história do seu dono; da família do seu dono, com descrições de casamentos e enterros que tinham ocorrido nela, juntamente com recitais de versos de felicitação e poesia obituária provocados pelos mesmos: então esta memória recordava que um destes eventos ocorreu durante o célebre "inverno rigoroso" de tal e tal ano, e seguir-se-ia uma descrição detalhada desse inverno, juntamente com os nomes das pessoas que morreram congeladas e estatísticas mostrando os números elevados a que o porco e o feno subiram. O porco e o feno sugeririam milho e forragem; o milho e a forragem sugeririam vacas e cavalos; as vacas e os cavalos sugeririam o circo e certos célebres cavaleiros de pelo; a transição do circo para a menagerie era fácil e natural; do elefante para a África equatorial era apenas um passo; então, claro, os selvagens pagãos sugeririam religião; e ao fim de três ou quatro horas de tagarelice tediosa, a guarda mudaria, e Brown sairia da casa do piloto murmurando extratos de sermões que tinha ouvido anos antes sobre a eficácia da oração como meio de graça. E a menção original inicial seria tudo o que teria aprendido sobre aquele cão, depois de toda esta espera e ansiedade.
Um piloto deve ter memória; mas há duas qualidades superiores que ele também deve ter. Ele deve ter bom e rápido julgamento e decisão, e uma coragem fria e calma que nenhum perigo possa abalar. Dê a um homem o mais ínfimo traço de coragem para começar, e quando ele se torna piloto não pode ser desanimado por qualquer perigo em que um barco a vapor se possa meter; mas não se pode dizer o mesmo sobre o julgamento. O julgamento é uma questão de massa cinzenta, e um homem deve começar com um bom stock desse artigo ou nunca terá sucesso como piloto.
O crescimento da coragem na casa do piloto é constante o tempo todo, mas não atinge uma condição elevada e satisfatória até algum tempo depois de o jovem piloto estar a "fazer a sua própria guarda", sozinho e sob o peso esmagador de todas as responsabilidades ligadas à posição. Quando um aprendiz se torna bastante familiarizado com o rio, ele segue a fazer um barulho tremendo com o seu barco a vapor, noite ou dia, que presentemente começa a imaginar que é a sua coragem que o anima; mas a primeira vez que o piloto sai e o deixa entregue aos seus próprios dispositivos, ele descobre que era a do outro homem. Ele descobre que o artigo tinha sido deixado de fora da sua própria carga inteiramente. O rio inteiro está eriçado de exigências num momento; ele não está preparado para elas; ele não sabe como as enfrentar; todo o seu conhecimento abandona-o; e dentro de quinze minutos ele está branco como uma folha e assustado quase até à morte. Portanto, os pilotos treinam sabiamente estes aprendizes através de vários truques estratégicos para enfrentar o perigo um pouco mais calmamente. Uma forma favorita deles é pregar uma partida amigável ao candidato.
O Sr. Bixby serviu-me desta forma uma vez, e durante anos depois costumava corar mesmo durante o sono quando pensava nisso. Eu tinha-me tornado um bom timoneiro; tão bom, na verdade, que tinha todo o trabalho a fazer na nossa guarda, noite e dia; o Sr. Bixby raramente me dava uma sugestão; tudo o que ele fazia era assumir o leme em noites particularmente más ou em cruzamentos particularmente maus, atracar o barco quando ele precisava de ser atracado, fazer o papel de cavalheiro de lazer nove décimos da guarda, e recolher o salário. O rio inferior estava quase cheio até às margens, e se alguém tivesse questionado a minha capacidade de fazer qualquer cruzamento entre Cairo e Nova Orleães sem ajuda ou instrução, eu sentir-me-ia irremediavelmente ferido. A ideia de ter medo de qualquer cruzamento no lote, durante o dia, era uma coisa demasiado absurda para contemplação. Bem, num dia de verão incomparável, eu ia a descer a curva acima da ilha 66, cheio de presunção e a carregar o nariz tão alto como o de uma girafa, quando o Sr. Bixby disse:
"Vou lá abaixo um pouco. Suponho que conheces o próximo cruzamento?"
Isto foi quase um insulto. Era cerca do mais simples e básico cruzamento em todo o rio. Não se podia sofrer qualquer dano, quer se fizesse corretamente ou não; e quanto à profundidade, nunca tinha havido qualquer fundo ali. Eu sabia tudo isto, perfeitamente bem.
"Saber como o fazer? Ora, eu posso fazê-lo com os olhos fechados."
"Quanta água lá tem?"
"Bem, essa é uma pergunta estranha. Eu não conseguiria encontrar o fundo lá nem com um campanário de igreja."
"Tu pensas isso, pensas?"
O próprio tom da pergunta abalou a minha confiança. Era isso que o Sr. Bixby estava à espera. Ele saiu, sem dizer mais nada. Comecei a imaginar todo o tipo de coisas. O Sr. Bixby, sem eu saber, claro, enviou alguém ao convés de proa com algumas instruções misteriosas para os sondadores, outro mensageiro foi enviado para sussurrar entre os oficiais, e depois o Sr. Bixby foi esconder-se atrás de uma chaminé onde pudesse observar os resultados. Pouco depois, o capitão saiu para o convés superior; a seguir apareceu o imediato; depois um escriturário. De momento a momento um retardatário era adicionado à minha audiência; e antes de chegar à ponta da ilha eu tinha quinze ou vinte pessoas reunidas ali debaixo do meu nariz. Comecei a perguntar-me qual seria o problema. Quando comecei a atravessar, o capitão olhou lá para cima para mim e disse, com uma falsa inquietude na voz:
"Onde está o Sr. Bixby?"
"Foi lá abaixo, senhor."
Mas isso fez o serviço por mim. A minha imaginação começou a construir perigos a partir do nada, e multiplicaram-se mais depressa do que eu conseguia acompanhar. De repente, imaginei que via águas baixas à frente! A onda de agonia cobarde que surgiu através de mim então quase deslocou cada articulação em mim. Toda a minha confiança naquele cruzamento desapareceu. Agarrei a corda do sino; larguei-a, envergonhado; agarrei-a de novo; larguei-a mais uma vez; agarrei-a tremulamente uma vez mais, e puxei-a tão debilmente que mal conseguia ouvir o toque eu mesmo. Capitão e imediato gritaram instantaneamente, e ambos juntos:
"Boreste no prumo, aí! E rápido com isso!"
Este foi outro choque. Comecei a subir a roda de leme como um esquilo; mas mal conseguia pôr o barco a bombordo antes de ver novos perigos desse lado, e lá rodava eu para o outro; apenas para descobrir perigos a acumular-se a boreste, e ficar louco para chegar a bombordo de novo. Depois veio o grito sepulcral do sondador:
"Fundo quatro!"
Fundo quatro num cruzamento sem fundo! O terror disso tirou-me o fôlego.
"Marca três!... Marca três... Quarto menos três!... Meia braça!"
Isto era aterrador! Agarrei as cordas do sino e parei os motores.
"Quarto de braça! Quarto de braça! Marca dois!"
Eu estava indefeso. Não sabia o que fazer no mundo. Estava a tremer da cabeça aos pés, e podia ter pendurado o meu chapéu nos meus olhos, de tão salientes que estavam.
"Quarto menos braça! Nove e meio!"
Nós tínhamos um calado de nove! As minhas mãos estavam num tremor sem nervos. Eu não conseguia tocar um sino de forma inteligível com elas. Voei para o tubo acústico e gritei para o engenheiro:
"Oh, Ben, se me amas, faz marcha atrás! Rápido, Ben! Oh, faz marcha atrás com a alma imortal dela!"
Ouvi a porta fechar-se suavemente. Olhei em volta e lá estava o Sr. Bixby, a sorrir um sorriso brando e doce. Então, o público no convés superior soltou uma rajada de trovão de risos humilhantes. Vi tudo agora, e senti-me mais mesquinho do que o homem mais mesquinho da história da humanidade. Coloquei a sonda, ajustei o barco pelas suas marcas, avancei com as máquinas e disse—
"Foi um belo truque para pregar a um órfão, não foi? Suponho que nunca mais ouvirei o fim da história de como fui asno o suficiente para atirar a sonda à cabeça do 66."
"Bem, não, talvez não ouças. De facto, espero que não ouças; pois quero que aprendas algo com essa experiência. Não sabias que não havia fundo naquela travessia?"
"Sim, senhor, sabia."
"Muito bem, então. Não deverias ter permitido que eu ou qualquer outra pessoa abalasse a tua confiança nesse conhecimento. Tenta lembrar-te disso. E outra coisa: quando te encontrares num lugar perigoso, não sejas cobarde. Isso não vai ajudar em nada."
Foi uma lição suficientemente boa, mas aprendida de forma bastante dura. Contudo, a parte mais difícil foi que, durante meses, tive de ouvir tantas vezes uma frase pela qual concebi um desgosto particular. Era: "Oh, Ben, se me amas, faz marcha atrás!"
CAPÍTULO 14
Posto e Dignidade da Pilotagem
Nos meus capítulos anteriores, tentei, ao entrar nas minúcias da ciência da pilotagem, levar o leitor passo a passo a uma compreensão de em que consiste a ciência; e, ao mesmo tempo, tentei mostrar-lhe que é uma ciência muito curiosa e maravilhosa, também, e muito digna da sua atenção. Se pareci amar o meu assunto, não é uma coisa surpreendente, pois amava a profissão muito mais do que qualquer outra que tenha seguido desde então, e sentia um orgulho incomensurável nela. A razão é simples: um piloto, naqueles dias, era o único ser humano livre e inteiramente independente que vivia na Terra. Os reis não passam de servos tolhidos pelo parlamento e pelo povo; os parlamentos sentam-se em correntes forjadas pelos seus eleitores; o editor de um jornal não pode ser independente, mas tem de trabalhar com uma mão atada atrás das costas pelo partido e pelos patronos, e contentar-se em proferir apenas metade ou dois terços do que pensa; nenhum clérigo é um homem livre e pode dizer toda a verdade, independentemente das opiniões da sua paróquia; os escritores de todos os tipos são servos acorrentados do público. Escrevemos com franqueza e sem medo, mas depois "modificamos" antes de imprimir. Na verdade, cada homem, mulher e criança tem um mestre, e preocupa-se e aflige-se na servidão; mas nos dias de que escrevo, o piloto do Mississippi não tinha nenhum. O capitão podia estar no convés superior, na pompa de uma autoridade muito breve, e dar-lhe cinco ou seis ordens enquanto o navio recuava para a corrente, e então o reinado daquele comandante terminava.
No momento em que o barco estava a caminho no rio, ficava sob o controlo exclusivo e inquestionável do piloto. Ele podia fazer com o barco exatamente o que lhe aprouvesse, conduzi-lo quando e para onde escolhesse, e atá-lo à margem sempre que o seu critério ditasse que esse era o melhor curso. Os seus movimentos eram inteiramente livres; não consultava ninguém, não recebia ordens de ninguém, ressentia-se prontamente até da mais simples sugestão. De facto, a lei dos Estados Unidos proibia-o de ouvir ordens ou sugestões, considerando acertadamente que o piloto sabia necessariamente melhor como manusear o barco do que qualquer pessoa poderia dizer-lhe. Portanto, aqui estava a novidade de um rei sem guardião, um monarca absoluto que era absoluto na mais pura verdade e não por uma ficção de palavras. Já vi um rapaz de dezoito anos a levar um grande navio a vapor serenamente para o que parecia uma destruição quase certa, e o velho capitão a observar em silêncio, cheio de apreensão, mas impotente para intervir. A sua interferência, naquele caso específico, poderia ter sido uma excelente coisa, mas permiti-la teria sido estabelecer um precedente extremamente pernicioso. Adivinhar-se-á facilmente, considerando a autoridade ilimitada do piloto, que ele era uma grande personagem nos velhos tempos da navegação a vapor. Era tratado com marcada cortesia pelo capitão e com marcada deferência por todos os oficiais e criados; e este espírito deferente era rapidamente comunicado aos passageiros também. Penso que os pilotos foram quase as únicas pessoas que conheci que não demonstraram, em certo grau, embaraço na presença de príncipes estrangeiros em viagem. Mas, enfim, as pessoas do nosso próprio estrato social não são geralmente objetos embaraçosos.
Por longo hábito, os pilotos passaram a colocar todos os seus desejos sob a forma de ordens. "Rala-me", até hoje, colocar a minha vontade sob a forma fraca de um pedido, em vez de a lançar na linguagem direta de uma ordem. Naqueles velhos tempos, carregar um navio a vapor em St. Louis, levá-lo até New Orleans e voltar, e descarregar a carga, consumia cerca de vinte e cinco dias, em média. Sete ou oito desses dias o barco passava nos cais de St. Louis e New Orleans, e todas as almas a bordo estavam a trabalhar arduamente, exceto os dois pilotos; eles não faziam nada senão bancar o cavalheiro na cidade, e receber o mesmo salário por isso como se estivessem de serviço. No momento em que o barco tocava o cais em qualquer das cidades, eles estavam em terra; e não era provável que fossem vistos novamente até que o último sino tocasse e tudo estivesse pronto para outra viagem.
Quando um capitão conseguia um piloto de reputação particularmente elevada, esforçava-se por mantê-lo. Quando os salários eram de quatrocentos dólares por mês no Alto Mississippi, conheci um capitão que manteve tal piloto na ociosidade, com salário completo, durante três meses seguidos, enquanto o rio estava gelado. E deve-se lembrar que naqueles tempos baratos quatrocentos dólares eram um salário de um esplendor quase inconcebível. Poucos homens em terra recebiam tal pagamento, e quando recebiam, eram olhados com grande admiração. Quando os pilotos de qualquer extremidade do rio vagueavam pela nossa pequena aldeia do Missouri, eram procurados pelos melhores e mais belos, e tratados com respeito exaltado. Estar parado no porto a receber salário era uma coisa que muitos pilotos desfrutavam e valorizavam imenso; especialmente se pertencessem ao Rio Missouri no auge daquele comércio (tempos do Kansas), e ganhassem novecentos dólares por viagem, o que equivalia a cerca de mil e oitocentos dólares por mês. Eis uma conversa daquele dia. Um tipo do Rio Illinois, com um pequeno barco de roda de popa, aborda um par de ornamentados e dourados pilotos do Rio Missouri—
"Cavalheiros, tenho uma viagem muito boa para o interior e vou precisar de vocês durante um mês. Quanto será?"
"Mil e oitocentos dólares para cada um."
"Céus e terra! Fiquem com o meu barco, deixem-me ficar com o vosso salário, e eu divido!"
Vou notar, de passagem, que os homens dos barcos a vapor do Mississippi eram importantes aos olhos dos habitantes terrestres (e aos seus próprios, também, em certo grau) de acordo com a dignidade do barco em que estavam. Por exemplo, era motivo de orgulho pertencer à tripulação de embarcações imponentes como o 'Aleck Scott' ou o 'Grand Turk'. Fogueiros, marinheiros de convés e barbeiros negros pertencentes àqueles barcos eram personagens ilustres no seu estrato social, e eles também tinham plena consciência desse facto. Um negro robusto causou uma vez ofensa num baile de negros em New Orleans por se armar em importante. Finalmente, um dos organizadores aproximou-se dele e disse—
"Quem é você, afinal? Quem é você? é isso que eu quero saber!"
O infrator não ficou minimamente desconcertado, mas inchou o peito e lançou na voz algo que mostrava que ele sabia que não se estava a armar em importante com um capital limitado.
"Quem sou eu? Quem sou eu? Eu deixo-o saber bem depressa quem eu sou! Quero que vocês, negros, entendam que eu trato da porta do meio no “Aleck Scott”!"
Isso foi suficiente.
O barbeiro do 'Grand Turk' era um jovem negro elegante, que exibia a sua importância com uma complacência balsâmica, e era muito cortejado pelo círculo em que se movia. A jovem população de cor de New Orleans era muito dada a namoriscos, ao crepúsculo, nos passeios das ruas secundárias. Alguém viu e ouviu algo semelhante ao seguinte, certa noite, numa dessas localidades. Uma mulher negra de meia-idade projetou a cabeça através de um vidro partido e gritou (muito desejosa de que os vizinhos ouvissem e invejassem), "Tu, Mary Ann, entra em casa neste minuto! Aí parada a brincar com aquele lixo, e aqui está o barbeiro do “Gran' Turk” a querer conversar contigo!"
A minha referência, há um momento, ao facto de a posição oficial peculiar de um piloto o colocar fora do alcance da crítica ou de ordens, traz-me naturalmente à mente Stephen W----. Ele era um piloto talentoso, um bom companheiro, um falador incansável, e possuía tanto engenho como humor. Tinha também uma independência muito irreverente, e era deliciosamente despreocupado e confortável na presença da idade, da dignidade oficial e até da riqueza mais augusta. Tinha sempre trabalho, nunca poupava um centavo, era um mutuário muito persuasivo, estava em dívida para com todos os pilotos do rio, e para com a maioria dos capitães. Ele conseguia lançar um tipo de esplendor à volta de uma pilotagem temerária e descuidada que a tornava quase fascinante — mas não para todos. Ele fez uma viagem com o bom e velho Capitão Y---- uma vez, e foi "dispensado" do serviço quando o barco chegou a New Orleans. Alguém expressou surpresa com o despedimento. O Capitão Y---- estremeceu à mera menção de Stephen. Então a sua voz velha, fraca e fina, piou algo como isto:—
"Ora, Deus me livre! Eu não teria uma criatura tão selvagem no meu barco por nada neste mundo — nem por todo o mundo! Ele jura, ele canta, ele assobia, ele grita — nunca vi tal índio para gritar. A todas as horas da noite — nunca fez qualquer diferença para ele. Ele simplesmente gritava daquela maneira, não por nada em particular, mas apenas devido a uma espécie de conforto diabólico que tirava disso. Nunca conseguia ter um sono profundo sem que ele me tirasse da cama, todo a suar frio, com um daqueles gritos de guerra horríveis. Um ser estranho — ser muito estranho; nenhum respeito por nada nem por ninguém. Às vezes chamava-me “Johnny”. E mantinha um violino, e um gato. Ele tocava execravelmente. Isso parecia angustiar o gato, e então o gato uivava. Ninguém conseguia dormir onde aquele homem — e a sua família — estivesse. E imprudente. Nunca houve nada igual. Agora, pode acreditar ou não, mas tão certo como estou sentado aqui, ele trouxe o meu barco a inclinar-se através daqueles terríveis troncos em Chicot debaixo de uma pressão de vapor a chocalhar, e o vento a soprar como o próprio diabo, ainda por cima! Os meus oficiais dir-lhe-ão isso. Eles viram. E, senhor, enquanto ele vinha a rasgar através daqueles troncos, e eu a tremer nas minhas botas e a rezar, desejo não voltar a falar se ele não franziu a boca e começou a assobiar! Sim, senhor; a assobiar “Buffalo gals, can't you come out tonight, can't you come out to-night, can't you come out to-night;” e a fazê-lo tão calmamente como se estivéssemos a assistir a um funeral e não fôssemos parentes do cadáver. E quando eu o repreendi por causa disso, ele sorriu-me lá de cima como se eu fosse o seu filho, e disse-me para ir para dentro de casa e tentar ser bom, e não me meter com os meus superiores!"
Uma vez, um capitão bastante mesquinho apanhou Stephen em New Orleans sem trabalho e, como de costume, sem dinheiro. Cerrou um cerco constante a Stephen, que estava numa situação muito "apertada", e finalmente convenceu-o a trabalhar para ele por cento e vinte e cinco dólares por mês, exatamente metade do salário, concordando o capitão em não divulgar o segredo e, assim, atrair o desprezo de toda a corporação sobre o pobre homem. Mas o barco não estava a mais de um dia de New Orleans antes de Stephen descobrir que o capitão se gabava do seu feito, e que todos os oficiais tinham sido informados. Stephen estremeceu, mas não disse nada. A meio da tarde, o capitão saiu para o convés superior, lançou o olhar em volta e pareceu bastante surpreendido. Olhou de forma inquisitiva para cima, para Stephen, mas Stephen estava a assobiar placidamente, e a tratar do serviço. O capitão ficou por ali algum tempo em evidente desconforto, e uma ou duas vezes pareceu prestes a fazer uma sugestão; mas a etiqueta do rio ensinava-o a evitar esse tipo de imprudência, e assim conseguiu manter-se calado. Ele irritou-se e intrigou-se durante mais alguns minutos, depois retirou-se para os seus aposentos. Mas logo saiu de novo, e aparentemente mais perplexo do que nunca. Presentemente, arriscou-se a comentar, com deferência—
"Bom nível do rio agora, não é, senhor?"
"Bem, eu diria que sim! Margens cheias é um nível bastante generoso."
"Parece haver bastante corrente aqui."
"Bastante corrente não descreve! É pior do que um canal de moinho."
"Não é mais fácil junto à margem do que aqui no meio?"
"Sim, creio que é; mas não se pode ser demasiado cuidadoso com um barco a vapor. É bastante seguro aqui fora; não se pode bater em fundo nenhum aqui, podes contar com isso."
O capitão partiu, parecendo bastante pesaroso. A este ritmo, provavelmente morreria de velhice antes de o seu barco chegar a St. Louis. No dia seguinte, apareceu no convés e encontrou novamente Stephen fielmente a navegar a meio do rio, lutando contra toda a vasta força do Mississippi, e a assobiar a mesma melodia plácida. Esta coisa estava a tornar-se séria. Perto da margem, um barco mais lento avançava na água fácil e ganhava terreno constantemente; começou a dirigir-se para um canal de ilha; Stephen manteve-se no meio do rio. A fala foi arrancada ao capitão. Ele disse—
"Sr. W----, esse canal não corta uma boa distância?"
"Penso que sim, mas não sei."
"Não sabe! Bem, não há água suficiente nele agora para passar?"
"Espero que haja, mas não tenho a certeza."
"Pela minha palavra, isto é estranho! Ora, aqueles pilotos naquele barco ali adiante vão tentar. Quer dizer que não sabe tanto como eles?"
"Eles! Ora, eles são pilotos de duzentos e cinquenta dólares! Mas não fiques inquieto; eu sei tanto quanto qualquer homem se pode dar ao luxo de saber por cento e vinte e cinco!"
O capitão rendeu-se.
Cinco minutos depois, Stephen estava a seguir pelo canal e a mostrar ao barco rival um par de calcanhares de duzentos e cinquenta dólares.
CAPÍTULO 15
O Monopólio dos Pilotos
UM dia, a bordo do 'Aleck Scott', o meu chefe, Sr. Bixby, estava a rastejar cuidadosamente através de um lugar estreito em Cat Island, com as duas sondas a trabalhar, e toda a gente a suster a respiração. O capitão, um homem nervoso e apreensivo, manteve-se quieto enquanto pôde, mas finalmente cedeu e gritou do convés superior—
"Pelo amor de Deus, dá-lhe vapor, Sr. Bixby! dá-lhe vapor! Ela nunca passará pelo recife com este andamento!"
Para todo o efeito que foi produzido sobre o Sr. Bixby, ter-se-ia suposto que nenhum comentário tinha sido feito. Mas cinco minutos depois, quando o perigo passou e as sondas foram recolhidas, ele explodiu instantaneamente numa fúria consumidora, e deu ao capitão a mais admirável maldição que alguma vez ouvi. Não se seguiu derramamento de sangue; mas isso foi porque a causa do capitão era fraca; pois, habitualmente, ele não era um homem que aceitasse correções calmamente.
Tendo agora exposto em detalhe a natureza da ciência da pilotagem, e igualmente descrito o posto que o piloto detinha entre a fraternidade dos homens dos barcos a vapor, este parece um lugar adequado para dizer algumas palavras sobre uma organização que os pilotos formaram outrora para a proteção da sua corporação. Era curiosa e notável nisto, que era talvez a organização comercial mais compacta, a mais completa e a mais forte alguma vez formada entre homens.
Durante muito tempo, os salários tinham sido de duzentos e cinquenta dólares por mês; mas, curiosamente, à medida que os barcos a vapor se multiplicavam e o comércio aumentava, os salários começaram a cair pouco a pouco. Era fácil descobrir a razão disto. Estavam a ser "feitos" demasiados pilotos. Era bom ter um "cub", um timoneiro, para fazer todo o trabalho pesado durante um par de anos, de graça, enquanto o seu mestre se sentava num banco alto e fumava; todos os pilotos e capitães tinham filhos ou sobrinhos que queriam ser pilotos. A pouco e pouco aconteceu que quase todos os pilotos no rio tinham um timoneiro. Quando um timoneiro fazia um progresso que era satisfatório para dois pilotos quaisquer no ofício, podiam obter uma licença de piloto para ele assinando um requerimento dirigido ao Inspetor dos Estados Unidos. Nada mais era necessário; habitualmente não eram feitas perguntas, não eram exigidas provas de capacidade.
Muito bem, este enxame crescente de novos pilotos começou presentemente a minar os salários, a fim de conseguir postos. Tarde demais — aparentemente — os cavaleiros do leme perceberam o seu erro. Claramente, algo tinha de ser feito, e rapidamente; mas o que seria a coisa necessária. Uma organização fechada. Nada mais serviria. Conseguir isto parecia uma impossibilidade; por isso falou-se, falou-se, e depois abandonou-se. Era muito provável que arruinasse quem quer que se aventurasse a mover-se no assunto. Mas, finalmente, cerca de uma dúzia dos mais audazes — e alguns deles os melhores — pilotos do rio lançaram-se no empreendimento e assumiram todos os riscos. Obtiveram uma carta especial da legislatura, com amplos poderes, sob o nome de Associação Benevolente de Pilotos; elegeram os seus oficiais, completaram a sua organização, contribuíram com capital, aumentaram os salários da "associação" para duzentos e cinquenta dólares imediatamente — e depois retiraram-se para as suas casas, pois foram prontamente despedidos do emprego. Mas havia dois ou três detalhes despercebidos nos seus estatutos que tinham as sementes de propagação neles. Por exemplo, todos os membros ociosos da associação, em boa situação, tinham direito a uma pensão de vinte e cinco dólares por mês. Isto começou a atrair um retardatário após outro das fileiras dos pilotos recém-formados, na época morta (verão). É melhor ter vinte e cinco dólares do que morrer à fome; a taxa de iniciação era de apenas doze dólares, e não eram exigidas quotas aos desempregados.
Além disso, as viúvas dos membros falecidos em boa situação podiam receber vinte e cinco dólares por mês, e uma certa quantia por cada um dos seus filhos. Além disso, o referido falecido seria enterrado à custa da associação. Estas coisas ressuscitaram todos os pilotos superanualos e esquecidos no Vale do Mississippi. Vinham de quintas, vinham de aldeias do interior, vinham de toda a parte. Vinham em muletas, em carroças, em ambulâncias — de qualquer maneira, desde que chegassem lá. Pagavam os seus doze dólares e, imediatamente, começavam a levantar vinte e cinco dólares por mês, e a calcular as contas dos seus funerais.
Aos poucos, todos os pilotos inúteis e desamparados, e uma dúzia de primeira classe, estavam na associação, e nove décimos dos melhores pilotos fora dela, rindo-se da situação. Era motivo de chacota em todo o rio. Todos faziam piadas sobre o estatuto que exigia que os membros pagassem dez por cento dos seus salários, todos os meses, para a tesouraria, a fim de sustentar a associação, sendo que todos os membros estavam banidos e proscritos, e ninguém os empregava. Todos eram, com escárnio, gratos à associação por remover todos os pilotos inúteis do caminho e deixar o campo livre para os excelentes e merecedores; e todos não estavam apenas jocosamente gratos por isso, mas por um resultado que naturalmente se seguiu, a saber, o aumento gradual dos salários à medida que a época de maior movimento se aproximava. Os salários subiram do valor baixo de cem dólares por mês para cento e vinte e cinco, e em alguns casos para cento e cinquenta; e era muito divertido discorrer sobre o fato de que essa coisa encantadora fora realizada por um grupo de homens, nenhum dos quais recebia uma partícula de benefício disso. Alguns dos brincalhões costumavam visitar as salas da associação e divertir-se zombando dos membros e oferecendo-lhes a caridade de levá-los como timoneiros numa viagem, para que pudessem ver como era o rio esquecido. No entanto, a associação estava contente; ou pelo menos não dava sinais do contrário. De vez em quando, capturava um piloto que estava "com azar" e adicionava-o à sua lista; e essas adições posteriores eram muito valiosas, pois eram bons pilotos; os incompetentes já tinham sido todos absorvidos antes. À medida que os negócios melhoravam, os salários subiam gradualmente para duzentos e cinquenta dólares — o valor da associação — e fixavam-se firmemente aí; e ainda sem beneficiar um membro daquele corpo, pois nenhum membro era contratado. A hilaridade às custas da associação explodiu todos os limites, agora. Não havia fim para a diversão que aquele pobre mártir tinha de suportar.
No entanto, há males que vêm por bem. O inverno aproximou-se, os negócios duplicaram e triplicaram, e uma avalanche de barcos do Missouri, Illinois e do Alto Mississippi veio a correr para tentar a sorte no comércio de Nova Orleans. De repente, os pilotos eram muito procurados e, correspondentemente, escassos. Chegara a hora da vingança. Era uma pílula amarga ter de aceitar finalmente os pilotos da associação, mas os capitães e proprietários concordaram que não havia outro caminho. Mas nenhum desses proscritos se ofereceu! Então, havia uma pílula ainda mais amarga a ser engolida: eles tinham de ser procurados e os seus serviços solicitados. O Capitão ---- foi o primeiro homem que achou necessário tomar a dose, e ele tinha sido o mais estridente zombador da organização. Ele procurou um dos melhores pilotos da associação e disse:
"Bem, vocês rapazes levaram a melhor sobre nós por um tempinho, então vou ceder com a melhor graça que puder. Vim para contratá-lo; leve o seu baú a bordo imediatamente. Quero partir às doze horas."
"Não sei quanto a isso. Quem é o seu outro piloto?"
"Tenho o I. S----. Por quê?"
"Não posso ir com ele. Ele não pertence à associação."
"O quê!"
"É verdade."
"Quer dizer-me que não vai rodar uma roda com um dos melhores e mais antigos pilotos do rio porque ele não pertence à sua associação?"
"Sim, é isso mesmo."
"Bem, se isto não é ter ares de superioridade! Pensei que lhe estava a fazer um favor; mas começo a pensar que sou eu quem precisa que um favor seja feito. Está a agir sob uma lei da empresa?"
"Sim."
"Mostre-ma."
Então, entraram nas salas da associação, e o secretário logo satisfez o capitão, que disse:
"Bem, o que devo fazer? Contratei o Sr. S---- para toda a temporada."
"Eu tratarei de si", disse o secretário. "Designarei um piloto para ir consigo, e ele estará a bordo às doze horas."
"Mas se eu despedir o S----, ele virá cobrar-me o salário da temporada inteira."
"Claro que essa é uma questão entre si e o Sr. S----, capitão. Não nos podemos meter nos seus assuntos privados."
O capitão enfureceu-se, mas sem propósito. No fim, teve de despedir S----, pagar-lhe cerca de mil dólares e levar um piloto da associação no seu lugar. O riso estava a começar a mudar de lado agora. Todos os dias, a partir daí, uma nova vítima caía; todos os dias algum capitão ultrajado despedia um protegido não associado, com lágrimas e palavrões, e instalava um odiado homem da associação no seu lugar. Em pouco tempo, os não associados ociosos começaram a ser bastante numerosos, por muito bons que fossem os negócios e muito que os seus serviços fossem desejados. O riso estava a mudar para o outro lado das suas bocas de forma bem palpável. Essas vítimas, juntamente com os capitães e proprietários, cessaram de rir por completo e começaram a enfurecer-se com a vingança que tomariam quando o "surto" de negócios passageiro terminasse.
Logo, todos os que restavam a rir eram os proprietários e tripulações de barcos que tinham dois pilotos não associados. Mas o seu triunfo não durou muito. Por esta razão: era uma regra rígida da associação que os seus membros nunca, sob nenhuma circunstância, dessem informações sobre o canal a qualquer "estranho". Por esta altura, cerca de metade dos barcos não tinha senão pilotos da associação, e a outra metade não tinha senão estranhos. À primeira vista, supõe-se que, quando chegasse o momento de proibir informações sobre o rio, estas duas partes poderiam jogar igualmente esse jogo; mas não era assim. Em cada cidade de bom tamanho, de uma ponta do rio à outra, havia um "barco-cais" para atracar, em vez de um cais ou um píer. O frete era armazenado nele para transporte; os passageiros à espera dormiam nas suas cabines. Em cada um desses barcos-cais, os oficiais da associação colocavam uma caixa forte fechada com uma fechadura peculiar que não era usada em nenhum outro serviço senão um: o serviço de correio dos Estados Unidos. Era a fechadura da bolsa de correio, uma coisa governamental sagrada. À força de muita súplica, o governo fora persuadido a permitir que a associação usasse essa fechadura. Todo o homem da associação carregava uma chave que abria essas caixas. Essa chave, ou melhor, uma maneira peculiar de segurá-la na mão quando o seu dono era questionado por um estranho sobre informações do rio — pois o sucesso da associação de St. Louis e Nova Orleans tinha agora gerado filiais bastante prósperas numa dúzia de comércios de barcos a vapor vizinhos — era o sinal e diploma de membro do homem da associação; e se o estranho não respondesse produzindo uma chave semelhante e segurando-a de uma certa maneira devidamente prescrita, a sua pergunta era educadamente ignorada.
Do secretário da associação, cada membro recebia um pacote de formulários mais ou menos vistosos, impressos como uma fatura, em papel elegante, devidamente pautado em colunas; uma fatura redigida mais ou menos assim:
Esses formulários eram preenchidos, dia após dia, à medida que a viagem progredia, e depositados nas várias caixas dos barcos-cais. Por exemplo, assim que a primeira travessia, saindo de St. Louis, era completada, os itens seriam inseridos no formulário, sob os títulos apropriados, assim:
"St. Louis. Nove e meio (pés). Popa no tribunal, proa no choupo morto acima do pátio de madeira, até levantar o primeiro recife, depois siga em frente." Então sob o título de Observações: "Vá mesmo por fora dos destroços; isto é importante. Novo tronco submerso exatamente onde se endireita o caminho; passe por cima dele."
O piloto que depositava aquele formulário na caixa de Cairo (após adicionar a ele os detalhes de cada travessia desde St. Louis) retirava e lia meia dúzia de relatórios recentes (de vapores que subiam o rio) sobre o rio entre Cairo e Memphis, informava-se minuciosamente, devolvia-os à caixa e voltava a bordo do seu barco, armado contra acidentes de tal forma que não poderia possivelmente colocar o seu barco em apuros sem trazer a mais engenhosa negligência em seu auxílio.
Imagine os benefícios de um sistema tão admirável num pedaço de rio com doze ou treze mil quilômetros de extensão, cujo canal mudava todos os dias! O piloto que anteriormente fora obrigado a contentar-se em ver um lugar raso uma ou talvez duas vezes por mês, tinha agora cem olhos aguçados para vigiá-lo por ele, e alqueires de cérebros inteligentes para lhe dizer como percorrê-lo. A sua informação sobre isso raramente tinha vinte e quatro horas de idade. Se os relatórios na última caixa por acaso deixassem alguma dúvida na sua mente sobre uma travessia traiçoeira, ele tinha o seu remédio; ele soprava o seu apito a vapor de uma maneira peculiar assim que via um barco a aproximar-se; o sinal era respondido de uma maneira peculiar se os pilotos daquele barco fossem homens da associação; e então os dois vapores alinhavam-se lado a lado e todas as incertezas eram varridas por informações frescas fornecidas ao inquiridor por palavra de boca e em detalhes minuciosos.
A primeira coisa que um piloto fazia quando chegava a Nova Orleans ou St. Louis era levar o seu relatório final e elaborado às salas da associação e pendurá-lo lá; após o que ele estava livre para visitar a sua família. Nessas salas, uma multidão estava sempre reunida, discutindo mudanças no canal, e no momento em que havia uma chegada fresca, todos paravam de falar até que essa testemunha tivesse contado as últimas notícias e resolvido a última incerteza. Outros artesãos podem "esquecer a oficina", às vezes, e interessar-se por outros assuntos. Não é o caso de um piloto; ele deve dedicar-se inteiramente à sua profissão e não falar de outra coisa; pois seria um pequeno ganho ser perfeito um dia e imperfeito no seguinte. Ele não tem tempo ou palavras a perder se quiser manter-se "informado".
Mas os estranhos tinham uma vida difícil. Nenhum lugar específico para se encontrar e trocar informações, nenhuns relatórios de barcos-cais, nada além de meios casuais e insatisfatórios de obter notícias. A consequência era que um homem às vezes tinha de percorrer oitocentos quilômetros de rio com informações de uma semana ou dez dias atrás. Numa fase favorável do rio, isso poderia ter servido; mas quando a água chegava ao nível mais baixo, era destrutivo.
Agora vinha outro resultado perfeitamente lógico. Os estranhos começaram a encalhar barcos a vapor, a afundá-los e a entrar em todo o tipo de problemas, enquanto os acidentes pareciam manter-se inteiramente longe dos homens da associação. Por conseguinte, até os proprietários e capitães de barcos equipados exclusivamente com estranhos, e anteriormente considerados totalmente independentes da associação e livres para se confortarem com gabarolices e risos, começaram a sentir-se bastante desconfortáveis. Ainda assim, faziam uma demonstração de manter a gabarolice, até um dia negro em que todo capitão do lote foi formalmente ordenado a despedir imediatamente os seus estranhos e a levar pilotos da associação em seu lugar. E quem foi que teve a audácia ousada de fazer isso? Infelizmente, veio de um poder por trás do trono que era maior que o próprio trono. Eram os seguradores!
Não era altura de "trocar facas". Todo o estranho teve de levar o seu baú para terra imediatamente. Claro que se supunha que havia conluio entre a associação e os seguradores, mas isso não era verdade. Estes últimos tinham chegado a compreender a excelência do sistema de "relatórios" da associação e a segurança que ele proporcionava, e por isso tinham tomado a sua decisão entre si e com base em princípios de negócios simples.
Havia choro e ranger de dentes no campo dos estranhos agora. Mas não importava, havia apenas um caminho a seguir para eles, e seguiram-no. Apresentaram-se em pares e grupos, ofereceram os seus doze dólares e pediram a adesão. Ficaram surpreendidos ao saber que vários novos estatutos tinham sido acrescentados há muito tempo. Por exemplo, a taxa de iniciação tinha sido aumentada para cinquenta dólares; essa soma devia ser apresentada, e também dez por cento dos salários que o candidato tinha recebido a cada mês desde a fundação da associação. Em muitos casos, isso somava trezentos ou quatrocentos dólares. Ainda assim, a associação não consideraria o pedido até que o dinheiro estivesse presente. Mesmo assim, um único voto contrário matava o pedido. Cada membro tinha de votar "Sim" ou "Não" pessoalmente e diante de testemunhas; por isso levava semanas a decidir uma candidatura, porque muitos pilotos estavam ausentes por muito tempo em viagens. No entanto, os pecadores arrependidos juntaram as suas economias e, um a um, pelo nosso tedioso processo de votação, foram adicionados ao rebanho. Chegou um tempo, finalmente, em que apenas cerca de dez permaneceram de fora. Disseram que morreriam de fome antes de se candidatarem. Permaneceram ociosos por muito tempo, porque, claro, ninguém se podia arriscar a empregá-los.
Aos poucos, a associação publicou o fato de que, em uma certa data, os salários seriam aumentados para quinhentos dólares por mês. Todas as associações filiais tinham crescido fortes, agora, e a do Rio Vermelho tinha aumentado os salários para setecentos dólares por mês. Relutantemente, os dez estranhos cederam, em vista dessas coisas, e fizeram o pedido. Havia outro novo estatuto, por esta altura, que exigia que pagassem dívidas não apenas sobre todos os salários que tinham recebido desde que a associação nascera, mas também sobre o que teriam recebido se tivessem continuado a trabalhar até ao momento do seu pedido, em vez de se afastarem para fazer beicinho na ociosidade. Revelou-se uma questão difícil elegê-los, mas foi finalmente alcançado. O pecador mais virulento deste lote tinha ficado de fora e permitido que as "dívidas" se acumulassem contra si durante tanto tempo que teve de enviar seiscentos e vinte e cinco dólares com o seu pedido.
A associação tinha uma boa conta bancária agora e era muito forte. Já não havia um estranho. Um estatuto foi acrescentado proibindo a recepção de mais filhotes ou aprendizes por cinco anos; após esse tempo, um número limitado seria aceite, não por indivíduos, mas pela associação, nestes termos: o candidato não deve ter menos de dezoito anos, ser de família respeitável e bom caráter; deve passar por um exame quanto à educação, pagar mil dólares adiantados pelo privilégio de se tornar aprendiz, e deve permanecer sob as ordens da associação até que uma grande parte dos membros (mais de metade, creio eu) esteja disposta a assinar o seu pedido de licença de piloto.
Todos os aprendizes anteriormente contratados foram agora retirados dos seus mestres e adotados pela associação. O presidente e o secretário designavam-nos para serviço num barco ou noutro, conforme escolhiam, e mudavam-nos de barco para barco de acordo com certas regras. Se um piloto pudesse mostrar que estava com saúde debilitada e precisava de assistência, um dos filhotes seria ordenado a ir com ele.
A lista de viúvas e órfãos cresceu, mas também os recursos financeiros da associação. A associação comparecia aos seus próprios funerais com pompa e pagava por eles. Quando a ocasião exigia, enviava membros pelo rio abaixo em busca dos corpos de irmãos perdidos em acidentes de barcos a vapor; uma busca deste tipo custava às vezes mil dólares.
A associação obteve uma carta patente e entrou também no negócio de seguros. Não só assegurava as vidas dos seus membros, como também assumia riscos em barcos a vapor.
A organização parecia indestrutível. Era o monopólio mais apertado do mundo. Pela lei dos Estados Unidos, nenhum homem poderia tornar-se piloto a menos que dois pilotos devidamente licenciados assinassem o seu pedido; e agora não havia ninguém fora da associação competente para assinar. Consequentemente, a criação de pilotos chegou ao fim. Todos os anos alguns morriam e outros tornavam-se incapacitados pela idade e enfermidade; não haveria novos para ocupar os seus lugares. Com o tempo, a associação poderia subir os salários para qualquer valor que escolhesse; e enquanto fosse sábia o suficiente para não levar a coisa longe demais e provocar o governo nacional a alterar o sistema de licenciamento, os proprietários de barcos a vapor teriam de submeter-se, já que não haveria remédio.
Os proprietários e capitães eram o único obstáculo que se interpunha entre a associação e o poder absoluto; e finalmente este foi removido. Por incrível que pareça, os proprietários e capitães fizeram-no deliberadamente eles mesmos. Quando a associação de pilotos anunciou, meses antes, que no primeiro dia de setembro de 1861, os salários seriam aumentados para quinhentos dólares por mês, os proprietários e capitães aumentaram instantaneamente os fretes em alguns centavos e explicaram aos agricultores ao longo do rio a necessidade disso, chamando a sua atenção para a taxa onerosa de salários prestes a ser estabelecida. Era um argumento bastante fraco, mas os agricultores não pareceram detectá-lo. Parecia razoável para eles que adicionar cinco centavos de frete por um alqueire de milho fosse justificável nas circunstâncias, ignorando o fato de que este aumento numa carga de quarenta mil sacos era muito mais do que o necessário para cobrir os novos salários.
Portanto, imediatamente os capitães e proprietários criaram uma associação própria e propuseram aumentar também os salários dos capitães para quinhentos dólares e pedir outro aumento nos fretes. Era uma ideia nova, mas, claro, um efeito que fora produzido uma vez poderia ser produzido novamente. A nova associação decretou (pois isto foi antes de todos os estranhos terem sido levados para a associação de pilotos) que se qualquer capitão empregasse um piloto não associado, seria forçado a despedi-lo e também a pagar uma multa de quinhentos dólares. Várias destas multas pesadas foram pagas antes de a organização dos capitães crescer o suficiente para exercer autoridade total sobre os seus membros; mas tudo isso cessou, pouco depois. Os capitães tentaram fazer com que os pilotos decretassem que nenhum membro da sua corporação serviria sob um capitão não associado; mas esta proposta foi recusada. Os pilotos viram que seriam apoiados pelos capitães e pelos seguradores de qualquer maneira, e por isso abstiveram-se sabiamente de entrar em alianças embaraçosas.
Como observei, a associação de pilotos era agora o monopólio mais compacto do mundo, talvez, e parecia simplesmente indestrutível. E, no entanto, os dias da sua glória estavam contados. Primeiro, a nova ferrovia que se estendia pelo Mississippi, Tennessee e Kentucky até aos centros ferroviários do Norte começou a desviar o tráfego de passageiros dos vapores; depois veio a guerra e aniquilou quase inteiramente a indústria dos barcos a vapor durante vários anos, deixando a maioria dos pilotos ociosos e o custo de vida a aumentar o tempo todo; depois o tesoureiro da associação de St. Louis meteu a mão na caixa e saiu com cada dólar do fundo amplo; e finalmente, com as ferrovias a intrometerem-se por toda parte, havia pouco para os vapores fazerem, quando a guerra terminou, a não ser transportar fretes; então, imediatamente, algum gênio da costa do Atlântico introduziu o plano de rebocar uma dúzia de cargas de vapor para Nova Orleans na cauda de um vulgar pequeno rebocador; e eis que, num abrir e fechar de olhos, por assim dizer, a associação e a nobre ciência da pilotagem eram coisas de um passado morto e patético!
Era sempre costume os barcos partirem de Nova Orleans entre as quatro e as cinco da tarde. A partir das três horas, começavam a queimar resina e pinho bravo (o sinal de preparação), e assim se tinha o espetáculo pitoresco de uma fila, de uns três ou quatro quilômetros de extensão, de colunas altas e ascendentes de fumaça negra como carvão; uma colunata que sustentava um teto sombrio da mesma fumaça, misturada e espalhando-se sobre a cidade. Cada barco que partia levava sua bandeira hasteada no mastro de proa e, às vezes, uma duplicata no mastro de popa. Dois ou três quilômetros de imediatos comandavam e praguejavam com mais ênfase do que o habitual; incontáveis procissões de barris e caixas de carga giravam através do cais e voavam para bordo pelas passarelas; passageiros atrasados esquivavam-se e saltavam entre essas coisas frenéticas, na esperança de chegar vivos à escotilha do castelo de proa, mas com sérias dúvidas a respeito; mulheres com retículos e caixas de chapéus tentavam acompanhar os maridos carregados de sacolas de carpete e bebês chorosos, falhando na tentativa ao perderem a cabeça no turbilhão, no rugido e na distração geral; carroças e vans de bagagem chocalhavam de um lado para o outro em uma pressa selvagem, de vez em quando bloqueando-se e amontoando-se, e então, durante dez segundos, não se podia vê-las por causa dos palavrões, exceto de forma vaga e indistinta; cada guincho conectado a cada escotilha de proa, de uma ponta a outra daquela longa fileira de barcos a vapor, mantinha um zumbido e um ruído ensurdecedores, baixando carga para o porão, e as tripulações seminuas de negros suados que os operavam rugiam canções como 'De Las' Sack! De Las' Sack!' — inspiradas a uma exaltação inimaginável pelo caos da agitação e da algazarra que levavam todos os outros à loucura.
A essa altura, os conveses de furacão e das caldeiras dos vapores estariam lotados e escuros de passageiros. Os 'últimos sinos' começariam a badalar, por toda a linha, e então o alvoroço parecia dobrar; em um momento ou dois, vinha o aviso final — um estrondo simultâneo de gongos chineses, com o grito: 'Quem não vai, por favor, desça!' — e eis que o alvoroço quadruplicava! As pessoas vinham em enxame para terra, derrubando retardatários exaltados que tentavam subir a bordo. Um momento depois, uma longa fileira de passarelas estava sendo recolhida, cada uma com seu habitual passageiro de última hora agarrado à ponta com dentes, unhas e tudo o mais, e o habitual procrastinador de última hora dando um salto selvagem em direção à terra por cima de sua cabeça.
Agora, vários barcos deslizam de ré para a correnteza, deixando grandes lacunas na fila cerrada de vapores. Os cidadãos apinham-se nos conveses dos barcos que não vão partir, para ver o espetáculo. Vapor após vapor endireita-se, reúne toda a sua força e, em pouco tempo, passa balançando, sob uma tremenda pressão de vapor, com a bandeira hasteada, a fumaça negra rolando e toda a sua tripulação de fogueiros e marinheiros (geralmente negros de pele escura) amontoados no castelo de proa, com a melhor 'voz' do grupo elevando-se do meio (montado no cabrestante), agitando seu chapéu ou uma bandeira, e todos rugindo um coro poderoso, enquanto os canhões de despedida troam e os inúmeros espectadores agitam seus chapéus e gritam vivas! Vapor após vapor entra na linha, e a procissão majestosa segue voando rio acima.
Nos velhos tempos, sempre que dois barcos velozes começavam uma corrida, com uma grande multidão de pessoas assistindo, era inspirador ouvir as tripulações cantarem, especialmente se fosse ao cair da noite e o castelo de proa estivesse iluminado pelo brilho vermelho das cestas de tochas. Correr era uma diversão real. O público sempre teve a ideia de que as corridas eram perigosas; enquanto o oposto era o caso — isto é, depois que foram aprovadas as leis que restringiam cada barco a um número específico de libras de vapor por polegada quadrada. Nenhum engenheiro jamais estava sonolento ou descuidado quando seu coração estava em uma corrida. Ele estava constantemente alerta, testando as torneiras de medição e observando tudo. O lugar perigoso era nos barcos lentos e arrastados, onde os engenheiros cochilavam e permitiam que lascas entrassem no 'doutor' e cortassem o suprimento de água das caldeiras.
Nos 'tempos áureos' da navegação a vapor, uma corrida entre dois vapores notoriamente velozes era um evento de grande importância. A data era marcada com várias semanas de antecedência e, a partir de então, todo o Vale do Mississippi ficava em um estado de empolgação consumidora. A política e o clima eram deixados de lado, e as pessoas falavam apenas da corrida que se aproximava. À medida que o tempo se aproximava, os dois vapores se 'despojavam' e se preparavam. Todo estorvo que adicionasse peso, ou expusesse uma superfície resistente ao vento ou à água, era removido, se o barco pudesse de alguma forma passar sem ele. Os 'mastros' e, às vezes, até seus guindastes de suporte, eram enviados para terra, e nenhum meio restava para colocar o barco a flutuar caso ele encalhasse. Quando o 'Eclipse' e o 'A. L. Shotwell' realizaram sua grande corrida muitos anos atrás, dizia-se que se tomaram cuidados para raspar a douração do dispositivo extravagante que pendia entre as chaminés do 'Eclipse', e que, para aquela viagem, o capitão deixou de lado suas luvas de pelica e raspou a cabeça. Mas eu sempre duvidei dessas coisas.
Se o barco era conhecido por atingir sua melhor velocidade quando calava cinco pés e meio na proa e cinco pés na popa, ele era cuidadosamente carregado até aquele número exato — ele não aceitaria nem uma dose de pílulas homeopáticas em seu manifesto depois disso. Quase nenhum passageiro era levado, porque eles não apenas adicionam peso, mas nunca conseguem 'equilibrar o barco'. Eles sempre correm para o lado quando há algo para ver, ao passo que um homem de barco consciencioso e experiente ficaria no centro da embarcação e dividiria o cabelo ao meio com um nível de bolha.
Nenhum frete de trajeto e nenhum passageiro de trajeto eram permitidos, pois os competidores parariam apenas nas maiores cidades, e mesmo assim seria apenas 'tocar e partir'. Balsas de carvão e madeira eram contratadas com antecedência, e estas eram mantidas prontas para serem engatadas nos vapores voadores ao menor sinal. Tripulações duplas eram levadas, para que todo o trabalho pudesse ser feito rapidamente.
Chegada a data escolhida e tudo estando pronto, os dois grandes vapores dão ré para a correnteza e permanecem ali manobrando por um momento, aparentemente observando o menor movimento um do outro, como criaturas sencientes; bandeiras pendendo, o vapor contido gritando através das válvulas de segurança, a fumaça negra rolando e agitando-se das chaminés e escurecendo todo o ar. Pessoas, pessoas por toda parte; as margens, os telhados, os barcos a vapor, os navios, estão lotados delas, e você sabe que as margens do vasto Mississippi serão franjadas de humanidade dali para o norte por mil e duzentas milhas, para receber esses competidores.
Logo, altas colunas de vapor irrompem dos tubos de escape de ambos os vapores, dois canhões troam um adeus, dois heróis de camisa vermelha montados em cabrestantes agitam suas pequenas bandeiras acima das tripulações amontoadas nos castelos de proa, dois solos plangentes pairam no ar por alguns segundos de espera, dois coros poderosos irrompem — e lá vêm eles! Bandas de metais bramem Hail Columbia, viva após viva troa das margens, e as criaturas majestosas passam assobiando como o vento.
Esses barcos nunca pararão um momento entre Nova Orleans e St. Louis, exceto por um segundo ou dois em grandes cidades, ou para engatar barcos de madeira de trinta cordas ao lado. Você deveria estar a bordo quando eles rebocam um par desses barcos de madeira e despejam um enxame de homens em cada um; quando você tiver limpado seus óculos e colocado-os, estará se perguntando o que aconteceu com aquela madeira.
Dois vapores bem combinados permanecerão à vista um do outro dia após dia. Eles poderiam até ficar lado a lado, não fosse pelo fato de que os pilotos não são todos iguais, e os pilotos mais espertos vencerão a corrida. Se um dos barcos tem um piloto 'relâmpago', cujo 'parceiro' é um pouco inferior, você pode dizer qual deles está no turno observando se aquele barco ganhou terreno ou perdeu um pouco durante cada trecho de quatro horas. O piloto mais astuto pode atrasar um barco se não tiver um gênio refinado para pilotar. Pilotar é uma arte muito elevada. Não se deve manter um leme arrastando através da popa de um barco se quiser subir o rio rapidamente.
Há uma grande diferença entre os barcos, é claro. Por muito tempo estive em um barco que era tão lento que costumávamos esquecer em que ano partimos do porto. Mas, é claro, isso acontecia em intervalos raros. As balsas costumavam perder viagens valiosas porque seus passageiros envelheciam e morriam esperando por nós para passar. Isso era em intervalos ainda mais raros. Eu tinha os documentos para essas ocorrências, mas, por descuido, foram extraviados. Este barco, o 'John J. Roe', era tão lento que quando finalmente afundou em Madrid Bend, passaram-se cinco anos até que os proprietários soubessem disso. Esse foi sempre um fato confuso para mim, mas está de acordo com o registro, de qualquer forma. Ele era lamentavelmente lento; ainda assim, costumávamos ter momentos bem emocionantes correndo com ilhas, balsas e coisas do gênero. Uma viagem, no entanto, fomos muito bem. Fomos a St. Louis em dezesseis dias. Mas mesmo nesse ritmo acelerado, acho que trocamos de turno três vezes no trecho de Fort Adams, que tem cinco milhas de extensão. Um 'trecho' é um pedaço de rio reto, e é claro que a correnteza passa por tal lugar de uma maneira bem viva.
Naquela viagem, fomos a Grand Gulf, a partir de Nova Orleans, em quatro dias (trezentas e quarenta milhas); o 'Eclipse' e o 'Shotwell' fizeram em um. Estávamos há nove dias fora, no canal de 63 (setecentas milhas); o 'Eclipse' e o 'Shotwell' foram lá em dois dias. Há pouco mais de uma geração, um barco chamado 'J. M. White' foi de Nova Orleans a Cairo em três dias, seis horas e quarenta e quatro minutos. Em 1853, o 'Eclipse' fez a mesma viagem em três dias, três horas e vinte minutos. Em 1870, o 'R. E. Lee' fez em três dias e uma hora. Esta última é chamada de a viagem mais rápida registrada. Tentarei mostrar que não foi. Por esta razão: a distância entre Nova Orleans e Cairo, quando o 'J. M. White' a percorreu, era de cerca de mil, cento e seis milhas; consequentemente, sua velocidade média foi um pouco superior a quatorze milhas por hora. Na época do 'Eclipse', a distância entre os dois portos havia sido reduzida para mil e oitenta milhas; consequentemente, sua velocidade média foi um pouco inferior a quatorze milhas e três oitavos por hora. Na época do 'R. E. Lee', a distância havia diminuído para cerca de mil e trinta milhas; consequentemente, sua média foi de cerca de quatorze milhas e um oitavo por hora. Portanto, a do 'Eclipse' foi visivelmente o tempo mais rápido que já foi feito.
CAPÍTULO 17
Atalhos e Stephen
ESTES detalhes secos são de importância em um aspecto. Eles me dão a oportunidade de apresentar uma das peculiaridades mais estranhas do Mississippi — a de encurtar seu comprimento de tempos em tempos. Se você jogar uma casca de maçã longa e flexível sobre o ombro, ela tomará, de forma bem justa, a forma de uma seção média do Rio Mississippi; isto é, as nove ou dez centenas de milhas que se estendem de Cairo, Illinois, para o sul até Nova Orleans, sendo o mesmo maravilhosamente sinuoso, com um breve trecho reto aqui e ali em amplos intervalos. O trecho de duzentas milhas de Cairo para o norte até St. Louis não é de forma alguma tão sinuoso, sendo aquele um terreno rochoso que o rio não consegue cortar muito.
A água corta as margens aluviais do rio 'inferior' em profundas curvas de ferradura; tão profundas, na verdade, que em alguns lugares, se você desembarcasse em uma extremidade da ferradura e caminhasse pelo pescoço, meia ou três quartos de milha, poderia sentar-se e descansar algumas horas enquanto seu vapor estivesse contornando o longo cotovelo, a uma velocidade de dez milhas por hora, para pegá-lo de volta. Quando o rio está subindo rapidamente, algum canalha cuja plantação fica no interior, e, portanto, de valor inferior, só precisa observar sua chance, cortar uma pequena vala através do estreito pescoço de terra em uma noite escura e desviar a água para ela, e em um tempo maravilhosamente curto um milagre aconteceu: a saber, todo o Mississippi tomou posse daquela pequena vala e colocou a plantação do homem em sua margem (quadruplicando seu valor), e a plantação anteriormente valiosa daquele outro partido encontra-se lá longe em uma grande ilha; o antigo curso d'água ao redor dela logo assoreará, os barcos não poderão chegar a menos de dez milhas dela, e seu valor cai para um quarto do seu antigo preço. Mantêm-se vigias naqueles pescoços estreitos, nos momentos necessários, e se um homem for pego cortando uma vala através deles, as chances são todas contra ele ter outra oportunidade de cortar uma vala.
Por favor, observe alguns dos efeitos desse negócio de abrir valas. Uma vez havia um pescoço em frente a Port Hudson, Louisiana, que tinha apenas meia milha de largura em seu lugar mais estreito. Você poderia atravessar lá em quinze minutos; mas se fizesse a viagem ao redor do cabo em uma balsa, viajaria trinta e cinco milhas para realizar a mesma coisa. Em 1722, o rio disparou através daquele pescoço, abandonou seu antigo leito e, assim, encurtou-se em trinta e cinco milhas. Da mesma forma, encurtou-se em vinte e cinco milhas em Black Hawk Point em 1699. Abaixo de Red River Landing, o atalho de Raccourci foi feito (quarenta ou cinquenta anos atrás, eu acho). Isso encurtou o rio em vinte e oito milhas. Em nossos dias, se você viajar pelo rio do mais meridional desses três atalhos até o mais setentrional, você percorre apenas setenta milhas. Para fazer a mesma coisa há cento e setenta e seis anos, era preciso percorrer cento e cinquenta e oito milhas! — um encurtamento de oitenta e oito milhas naquela distância insignificante. Em algum momento esquecido no passado, atalhos foram feitos acima de Vidalia, Louisiana; na ilha 92; na ilha 84; e em Hale's Point. Estes encurtaram o rio, no total, em setenta e sete milhas.
Desde meus próprios dias no Mississippi, atalhos foram feitos em Hurricane Island; na ilha 100; em Napoleon, Arkansas; em Walnut Bend; e em Council Bend. Estes encurtaram o rio, no total, em sessenta e sete milhas. Em meu próprio tempo, um atalho foi feito em American Bend, que encurtou o rio em dez milhas ou mais.
Portanto, o Mississippi entre Cairo e Nova Orleans tinha mil duzentas e quinze milhas de extensão há cento e setenta e seis anos. Tinha mil cento e oitenta após o atalho de 1722. Tinha mil e quarenta após o atalho de American Bend. Perdeu sessenta e sete milhas desde então. Consequentemente, seu comprimento é de apenas novecentas e setenta e três milhas atualmente.
Agora, se eu quisesse ser uma daquelas pessoas científicas ponderadas, e 'fingir' provar o que ocorrera no passado remoto pelo que ocorrera em um dado tempo no passado recente, ou o que ocorrerá no futuro distante pelo que ocorreu nos últimos anos, que oportunidade está aqui! A geologia nunca teve tal chance, nem dados tão exatos para argumentar! Nem a 'evolução das espécies' também! As épocas glaciais são grandes coisas, mas são vagas — vagas. Por favor, observe:
No espaço de cento e setenta e seis anos, o Baixo Mississippi encurtou-se em duzentas e quarenta e duas milhas. Isso é uma média de um pouco mais de uma milha e um terço por ano. Portanto, qualquer pessoa calma, que não seja cega ou idiota, pode ver que no 'Período Siluriano Oolítico', há apenas um milhão de anos, no próximo novembro, o Rio Baixo Mississippi tinha mais de um milhão e trezentas mil outras milhas de comprimento, e projetava-se sobre o Golfo do México como uma vara de pescar. E pelo mesmo sinal, qualquer pessoa pode ver que, daqui a setecentos e quarenta e dois anos, o Baixo Mississippi terá apenas uma milha e três quartos de extensão, e Cairo e Nova Orleans terão unido suas ruas e estarão seguindo confortavelmente sob um único prefeito e um conselho de vereadores mútuo. Há algo fascinante na ciência. Obtém-se retornos tão vastos de conjectura a partir de um investimento tão insignificante de fatos.
Quando a água começa a fluir através de uma daquelas valas das quais estive falando, é hora das pessoas por ali se mudarem. A água fende as margens como uma faca. Quando a vala se torna doze ou quinze pés larga, a calamidade está praticamente consumada, pois nenhum poder na terra pode detê-la agora. Quando a largura atinge cem jardas, as margens começam a descascar em fatias de meio acre de largura. A correnteza que flui ao redor da curva viajava anteriormente apenas cinco milhas por hora; agora é tremendamente aumentada pelo encurtamento da distância. Eu estava a bordo do primeiro barco que tentou passar pelo atalho em American Bend, mas não conseguimos passar. Era quase meia-noite, e foi uma noite selvagem — trovões, relâmpagos e torrentes de chuva. Estimou-se que a correnteza no atalho estava fazendo cerca de quinze ou vinte milhas por hora; doze ou treze era o melhor que nosso barco conseguia fazer, mesmo em águas toleravelmente calmas, portanto talvez fôssemos tolos em tentar o atalho. No entanto, o Sr. Brown era ambicioso, e ele continuou tentando. O redemoinho subindo a margem, sob a 'ponta', era quase tão rápido quanto a correnteza no meio; então subiríamos voando pela margem como um trem expresso, conseguiríamos uma grande pressão de vapor e 'nos prepararíamos para um solavanco' quando atingíssemos a correnteza que passava pela ponta. Mas todos os nossos preparativos foram inúteis. No instante em que a corrente nos atingiu, ela nos girou como um pião, a água inundou o castelo de proa e o barco inclinou-se tanto que mal se conseguia manter os pés. No instante seguinte, estávamos rio abaixo, lutando com todas as forças para não cair na mata. Tentamos o experimento quatro vezes. Fiquei na escotilha do castelo de proa para ver. Foi surpreendente observar quão repentinamente o barco girava e virava a cauda no momento em que saía do redemoinho e a correnteza atingia seu nariz. A concussão sonora e o tremor teriam sido praticamente os mesmos se ele tivesse atingido em velocidade máxima um banco de areia. Sob os clarões dos relâmpagos, podia-se ver as cabanas das plantações e os bons acres caírem no rio; e o estrondo que faziam não era um esforço ruim de trovão. Uma vez, quando giramos, perdemos por apenas uns vinte pés uma casa que tinha uma luz acesa na janela; e no mesmo instante aquela casa foi para o mar. Ninguém podia ficar em nosso castelo de proa; a água varria-o em uma torrente toda vez que mergulhávamos através da correnteza. Ao final de nossa quarta tentativa, fomos parar na mata duas milhas abaixo do atalho; todo o campo ali estava inundado, é claro. Um dia ou dois depois, o atalho tinha três quartos de milha de largura, e os barcos passavam por ele sem muita dificuldade, economizando assim dez milhas.
O antigo atalho de Raccourci reduziu o comprimento do rio em vinte e oito milhas. Costumava haver uma tradição ligada a ele. Dizia-se que um barco apareceu por lá durante a noite e contornou o enorme cotovelo da maneira usual, os pilotos não sabendo que o atalho havia sido feito. Era uma noite medonha e horrível, e todas as formas eram vagas e distorcidas. A antiga curva já havia começado a assorear, e o barco começou a fugir de recifes misteriosos, ocasionalmente atingindo um. Os pilotos perplexos começaram a praguejar e, finalmente, expressaram o desejo totalmente desnecessário de nunca sair daquele lugar. Como sempre acontece nesses casos, aquela oração específica foi atendida, e as outras ignoradas. Assim, até hoje, aquele vapor fantasma ainda está dando cabeçadas por aquele rio deserto, tentando encontrar seu caminho para fora. Mais de um vigia sisudo jurou-me que, em noites chuvosas e sombrias, ele olhou com medo para aquele rio esquecido enquanto passava pela ponta da ilha, e viu o brilho fraco das luzes do vapor espectral flutuando através da penumbra distante, e ouviu a tosse abafada de seus tubos de escape e o grito plangente de seus sondadores.
Na ausência de mais estatísticas, peço permissão para encerrar este capítulo com mais uma reminiscência de 'Stephen'.
A maioria dos capitães e pilotos detinha notas de Stephen referentes a somas emprestadas, variando de duzentos e cinquenta dólares para cima. Stephen nunca pagou uma dessas notas, mas era muito pontual e zeloso em renová-las a cada doze meses.
Naturalmente, chegou um tempo, por fim, em que Stephen não pôde mais pedir emprestado aos seus antigos credores; então, foi obrigado a ficar à espreita de homens novos que não o conhecessem. Uma dessas vítimas foi o jovem Yates, de bom coração e natureza simples (uso um nome fictício, mas o nome real começava, como este, com um Y). O jovem Yates formou-se como piloto, conseguiu um posto e, quando o mês terminou e ele subiu ao escritório do escriturário e recebeu seus duzentos e cinquenta dólares em notas novas e crocantes, Stephen estava lá! Sua língua prateada começou a mexer-se e, em muito pouco tempo, os duzentos e cinquenta dólares de Yates haviam trocado de mãos. O fato logo foi conhecido no quartel-general dos pilotos, e a diversão e satisfação dos velhos credores foram grandes e generosas. Mas o inocente Yates nunca suspeitou que a promessa de Stephen de pagar prontamente no final da semana não valia nada. Yates pediu seu dinheiro no tempo estipulado; Stephen o amaciou e adiou por uma semana. Ele pediu então, de acordo com o combinado, e saiu novamente açucarado, mas sofrendo com outro adiamento. Assim a coisa continuou. Yates assombrou Stephen semana após semana, sem propósito, e finalmente desistiu. E então, imediatamente, Stephen começou a assombrar Yates! Onde quer que Yates aparecesse, lá estava o inevitável Stephen. E não apenas lá, mas radiante de afeição e esbanjando desculpas por não poder pagar. Aos poucos, sempre que o pobre Yates o via chegando, ele virava e fugia, e arrastava sua companhia consigo, se tivesse companhia; mas não adiantava; seu devedor o alcançava e encurralava. Ofegante e de rosto vermelho, Stephen vinha, com as mãos estendidas e olhos ávidos, invadia a conversa, sacudia ambos os braços de Yates até quase soltá-los das juntas e começava—
— Nossa, que corrida eu dei! Vi que você não me viu, então soltei todo o vapor por medo de perdê-lo completamente. E aqui está você! Pronto, fique parado assim e deixe-me olhar para você! A mesma nobre expressão de sempre. [Para o amigo de Yates:] Olhe só para ele! Olhe para ele! Não é bom olhar para ele? Não é agora? Ele não é um quadro? Alguns o chamam de quadro; eu o chamo de panorama! É o que ele é — um panorama completo. E agora lembrei-me! Como eu gostaria de ter visto você uma hora antes! Por vinte e quatro horas estive guardando aqueles duzentos e cinquenta dólares para você; estive procurando você por toda parte. Esperei no Planter’s das seis de ontem à tarde até as duas desta manhã, sem descanso ou comida; minha esposa diz: “Onde você esteve a noite toda?” Eu disse: “Esta dívida pesa em minha mente”. Ela diz: “Em todos os meus dias nunca vi um homem levar uma dívida tão a sério como você”. Eu disse: “É da minha natureza; como posso mudar?” Ela diz: “Bem, vá para a cama e descanse um pouco”. Eu disse: “Não até que aquele pobre e nobre jovem tenha recebido seu dinheiro”. Então fiquei acordado a noite toda e, esta manhã, saí disparado, e o primeiro homem que encontrei me disse que você tinha embarcado no “Grand Turk” e ido para Nova Orleans. Bem, senhor, tive que me encostar em um prédio e chorar. Que Deus me ajude, eu não pude evitar. O homem que era dono do lugar saiu limpando com um trapo e disse que não gostava de ter pessoas chorando contra seu prédio, e então me pareceu que o mundo inteiro tinha se voltado contra mim, e não valia mais a pena viver; e vindo há uma hora, sofrendo uma agonia que ninguém sabe, encontrei Jim Wilson e paguei-lhe os duzentos e cinquenta dólares por conta; e pensar que você está aqui, agora, e eu não tenho um centavo! Mas, tão certo quanto estou aqui em pé neste chão, neste tijolo específico — pronto, risquei uma marca no tijolo para me lembrar disso —, eu pedirei esse dinheiro emprestado e pagarei a você amanhã, pontualmente às doze horas! Agora, fique parado; deixe-me olhar para você só mais uma vez.
E assim por diante. A vida de Yates tornou-se um fardo para ele. Ele não podia escapar de seu devedor e dos terríveis sofrimentos de seu devedor por não poder pagar. Ele temia aparecer na rua, temendo encontrar Stephen à espreita por ele na esquina.
O salão de bilhar de Bogart era um grande refúgio para os pilotos naqueles dias. Eles se encontravam lá tanto para trocar notícias do rio quanto para jogar. Certa manhã, Yates estava lá; Stephen também estava lá, mas ficou fora de vista. Mas, aos poucos, quando quase todos os pilotos que estavam na cidade chegaram, Stephen apareceu subitamente no meio deles e correu para Yates como para um irmão há muito perdido.
— Oh, estou tão feliz em vê-lo! Oh, minha alma, a visão de você é um conforto para meus olhos! Cavalheiros, devo dinheiro a todos vocês; entre vocês, devo provavelmente quarenta mil dólares. Quero pagar; pretendo pagar até o último centavo. Todos vocês sabem, sem que eu precise dizer, que tristeza me custou permanecer por tanto tempo sob obrigações tão profundas para com amigos tão pacientes e generosos; mas a pontada mais aguda que sofro — de longe a mais aguda — é pela dívida que devo a este nobre jovem aqui; e vim a este lugar esta manhã especialmente para fazer o anúncio de que finalmente encontrei um método pelo qual posso pagar todas as minhas dívidas! E especialmente queria que ele estivesse aqui quando eu anunciasse. Sim, meu fiel amigo — meu benfeitor, encontrei o método! Encontrei o método para pagar todas as minhas dívidas, e você receberá seu dinheiro! A esperança surgiu nos olhos de Yates; então Stephen, radiante de benevolência e colocando a mão na cabeça de Yates, acrescentou: — Vou pagá-las em ordem alfabética!
Então ele se virou e desapareceu. O significado completo do “método” de Stephen não ocorreu à multidão perplexa e pensativa por uns dois minutos; e então Yates murmurou com um suspiro—
— Bem, os Y têm uma bela chance. Ele não chegará além dos C neste mundo, e imagino que, depois que uma boa parte da eternidade tiver se passado no próximo, ainda serei mencionado lá em cima como “aquele pobre piloto maltrapilho que veio aqui de St. Louis nos primeiros dias!”
CAPÍTULO 18
Tomo Algumas Aulas Extras
DURANTE os dois ou dois anos e meio do meu aprendizado, servi sob muitos pilotos e tive experiência com muitos tipos de homens de barcos a vapor e muitas variedades de barcos a vapor; pois nem sempre era conveniente para o Sr. Bixby me ter com ele, e nesses casos ele me enviava com outra pessoa. Até hoje, estou lucrando um pouco com essa experiência; pois, naquela breve e intensa escola, conheci pessoal e familiarmente quase todos os diferentes tipos de natureza humana que podem ser encontrados na ficção, biografia ou história. O fato é diariamente trazido a mim de que o emprego médio em terra requer até quarenta anos para equipar um homem com esse tipo de educação. Quando digo que ainda estou lucrando com isso, não quero dizer que isso me tornou um juiz de homens — não, não fez isso; pois juízes de homens nascem, não são feitos. Meu lucro é variado em tipo e grau; mas a característica dele que mais valorizo é o entusiasmo que aquela experiência inicial deu à minha leitura posterior. Quando encontro um personagem bem desenhado na ficção ou na biografia, geralmente tomo um interesse pessoal caloroso por ele, pelo motivo de que já o conhecia antes — encontrei-o no rio.
A figura que surge diante de mim com mais frequência, das sombras daquele tempo desaparecido, é a de Brown, do vapor 'Pennsylvania' — o homem mencionado em um capítulo anterior, cuja memória era tão boa e cansativa. Ele era um tirano de meia-idade, alto, magro, ossudo, barbeado, com cara de cavalo, ignorante, mesquinho, malicioso, resmungão, caçador de falhas e magnificador de cisco. Logo adquiri o hábito de entrar no turno com pavor em meu coração. Não importa quão bom fosse o tempo que eu estivesse passando com o turno de folga lá embaixo, e não importa quão elevado fosse meu ânimo quando eu subia, minha alma tornava-se chumbo no meu corpo no momento em que me aproximava da casa do piloto.
Ainda me lembro da primeira vez que entrei na presença daquele homem. O barco tinha saído de ré de St. Louis e estava “se endireitando”; subi para a casa do piloto em grande estilo, e muito orgulhoso de ser semi-oficialmente um membro da família executiva de um barco tão rápido e famoso. Brown estava no leme. Pausei no meio da sala, todo pronto para fazer minha reverência, mas Brown não olhou para trás. Pensei que ele tivesse lançado um olhar furtivo para mim pelo canto do olho, mas como nem mesmo esse aviso foi repetido, julguei que estava enganado. A essa altura, ele estava escolhendo seu caminho entre algumas “quebras” perigosas ao lado dos depósitos de madeira; portanto, não seria apropriado interrompê-lo; então caminhei suavemente até o banco alto e tomei um assento.
Houve silêncio por dez minutos; então meu novo chefe virou-se e inspecionou-me deliberada e minuciosamente da cabeça aos pés por cerca de — como me pareceu — um quarto de hora. Após o que ele removeu seu rosto e eu não o vi mais por alguns segundos; então ele se virou mais uma vez, e esta pergunta me cumprimentou—
— Você é o filhote de Horace Bigsby?
— Sim, senhor.
Depois disso houve uma pausa e outra inspeção. Então—
— Qual é o seu nome?
Eu disse a ele. Ele repetiu depois de mim. Provavelmente foi a única coisa que ele esqueceu; pois, embora eu estivesse com ele por muitos meses, ele nunca se dirigiu a mim de outra maneira que não fosse “Aqui!” e então sua ordem seguia.
— Onde você nasceu?
— Em Florida, Missouri.
Uma pausa. Então—
— Teria sido muito melhor se tivesse ficado lá!
Por meio de uma dúzia ou mais de perguntas bastante diretas, ele extraiu minha história familiar de mim.
As sondas estavam indo agora, na primeira travessia. Isso interrompeu o interrogatório. Quando as sondas foram recolhidas, ele retomou—
— Há quanto tempo você está no rio?
Eu disse a ele. Após uma pausa—
— Onde você conseguiu esses sapatos?
Eu lhe dei a informação.
— Levante o pé!
Eu o fiz. Ele deu um passo atrás, examinou o sapato minuciosamente e com desprezo, coçando a cabeça pensativamente, inclinando seu chapéu alto de açúcar bem para a frente para facilitar a operação, então exclamou: “Bem, serei amaldiçoado!” e voltou ao seu leme.
Que ocasião havia para ser amaldiçoado por isso é uma coisa que ainda é tanto um mistério para mim agora quanto era então. Deve ter sido pelo menos quinze minutos — quinze minutos de silêncio monótono e saudoso — antes que aquele rosto longo de cavalo se voltasse para mim novamente — e então, que mudança! Estava vermelho como fogo, e cada músculo nele estava trabalhando. Agora veio esse grito—
— Aqui! — Você vai ficar sentado aí o dia todo?
Eu pousei no meio do chão, disparado lá pela eletricidade repentina da surpresa. Assim que pude recuperar minha voz, disse, desculpando-me: — Não recebi ordens, senhor.
— Você não recebeu ordens! Nossa, que pássaro fino nós somos! Precisamos ter ordens! Nosso pai era um cavalheiro — possuía escravos — e nós fomos à escola. Sim, nós somos um cavalheiro também, e precisamos ter ordens! Ordens, é? Ordens é o que você quer! Amaldiçoada seja minha pele, vou ensinar você a se estufar e soprar por aqui sobre suas malditas ordens! Saia de perto do leme! (Eu tinha me aproximado dele sem saber).
Recuei um passo ou dois e fiquei como em um sonho, todos os meus sentidos entorpecidos por esse ataque frenético.
— O que você está fazendo parado aí? Leve aquele jarro de gelo para o atendente da texas — vamos, mova-se, e não demore o dia todo com isso!
No momento em que voltei para a casa do piloto, Brown disse—
— Aqui! O que você estava fazendo lá embaixo esse tempo todo?
— Não consegui encontrar o atendente da texas; tive que ir até a despensa.
— História muito provável! Encha o fogão.
Procedi a fazê-lo. Ele me observava como um gato. De repente, ele gritou—
— Abaixe essa pá! O bobalhão mais morto que já vi — não tem nem senso suficiente para carregar um fogão.
Durante todo o turno, esse tipo de coisa continuou. Sim, e os turnos subsequentes foram muito parecidos, durante um período de meses. Como eu disse, logo adquiri o hábito de entrar em serviço com pavor. No momento em que eu estava na presença, mesmo na noite mais escura, eu podia sentir aqueles olhos amarelos sobre mim, e sabia que seu dono estava vigiando por um pretexto para cuspir algum veneno em mim. Preliminarmente ele dizia—
— Aqui! Assuma o leme.
Dois minutos depois—
— Onde diabos você está indo? Puxe-a para baixo! Puxe-a para baixo!
Depois de outro momento—
— Ei! Você vai segurá-la o dia todo? Solte-a — encontre-a! Encontre-a!
Então ele pulava do banco, arrancava o leme de mim e encontrava-o ele mesmo, despejando ira sobre mim o tempo todo.
George Ritchie era o outro filhote de piloto. Ele estava se divertindo agora; pois seu chefe, George Ealer, era tão bondoso quanto Brown não era. Ritchie tinha estagiado para Brown na temporada anterior; consequentemente, ele sabia exatamente como se divertir e me atormentar, tudo pela mesma operação. Sempre que eu assumia o leme por um momento no turno de Ealer, Ritchie sentava-se no banco e interpretava Brown, com exclamações contínuas de “Agarre-a! Agarre-a! O bagre mais maldito que já vi!” “Aqui! Onde você está indo agora? Vai passar por cima daquele tronco?” “Puxe-a para baixo! Você não me ouve? Puxe-a para baixo!” “Lá vai ela! Exatamente como eu esperava! Eu disse para não apertar aquele recife. Saia de perto do leme!”
Então, eu sempre tive momentos difíceis, não importava de quem fosse o turno; e às vezes parecia-me que a provocação bem-humorada de Ritchie era quase tão agravante quanto o incômodo sério de Brown.
Eu muitas vezes queria matar Brown, mas isso não resolveria. Um filhote tinha que aceitar tudo o que seu chefe dava, em termos de comentários vigorosos e críticas; e todos nós acreditávamos que havia uma lei dos Estados Unidos tornando crime de penitenciária agredir ou ameaçar um piloto que estava em serviço. No entanto, eu podia imaginar-me matando Brown; não havia lei contra isso; e era a coisa que eu costumava fazer sempre no momento em que estava na cama. Em vez de repassar meu rio em minha mente, como era meu dever, eu deixava os negócios de lado pelo prazer e matava Brown. Eu matava Brown todas as noites por meses; não de maneiras antigas, obsoletas e banais, mas de maneiras novas e pitorescas; — maneiras que às vezes eram surpreendentes pela frescura do design e pela horrorosidade da situação e do ambiente.
Brown estava sempre vigiando por um pretexto para encontrar falhas; e se não conseguisse encontrar um pretexto plausível, inventaria um. Ele o repreenderia por raspar uma margem e por não raspá-la; por abraçar um banco de areia e por não abraçá-lo; por “puxar para baixo” quando não convidado e por não puxar para baixo quando não convidado; por aquecer sem ordens e por esperar por ordens. Em uma palavra, era sua regra invariável encontrar falhas em tudo o que você fazia; e outra regra invariável dele era lançar todos os seus comentários (para você) na forma de um insulto.
Um dia estávamos nos aproximando de New Madrid, descendo o rio e fortemente carregados. Brown estava de um lado do leme, dirigindo; eu estava do outro, pronto para “puxar para baixo” ou “empurrar para cima”. Ele lançava um olhar furtivo para mim de vez em quando. Eu já tinha aprendido há muito tempo o que isso significava; a saber, ele estava tentando inventar uma armadilha para mim. Eu me perguntava que forma ela ia tomar. Aos poucos, ele se afastou do leme e disse, em seu tom resmungão habitual—
— Aqui! — Veja se você tem inteligência suficiente para virar o barco.
Isso estava fadado a ser um sucesso; nada poderia impedi-lo; pois ele nunca tinha me permitido virar o barco antes; consequentemente, não importava como eu fizesse a coisa, ele poderia encontrar falhas livremente. Ele ficou ali atrás com seu olho ganancioso em mim, e o resultado foi o que poderia ter sido previsto: perdi a cabeça em um quarto de minuto e não sabia o que estava fazendo; comecei cedo demais para trazer o barco ao redor, mas detectei um brilho verde de alegria no olho de Brown e corrigi meu erro; comecei a girar mais uma vez enquanto estava muito alto, mas corrigi-me novamente a tempo; fiz outros movimentos falsos e ainda consegui me salvar; mas, finalmente, fiquei tão confuso e ansioso que caí na pior manobra de todas — fui longe demais antes de começar a trazer o barco ao redor. A chance de Brown tinha chegado.
Seu rosto ficou vermelho de paixão; ele deu um salto, arremessou-me através da cabine com um movimento de braço, girou o leme para baixo e começou a despejar um fluxo de insultos sobre mim que durou até ele ficar sem fôlego. No decorrer desse discurso, ele me chamou de todos os tipos de nomes difíceis que pôde pensar, e uma ou duas vezes pensei que ele até ia jurar — mas ele não o fez desta vez. “Maldito” foi o mais próximo que ele se aventurou ao luxo de jurar, pois tinha sido criado com um respeito saudável pelo fogo e enxofre futuros.
Aquela foi uma hora desconfortável; pois havia uma grande audiência no convés superior. Quando fui para a cama naquela noite, matei Brown de dezessete maneiras diferentes — todas elas novas.
CAPÍTULO 19
Brown e Eu Trocamos Elogios
Duas viagens depois, entrei em sérios problemas. Brown estava dirigindo; eu estava “puxando para baixo”. Meu irmão mais novo apareceu no convés superior e gritou para Brown parar em algum desembarque ou outro, a uma milha ou mais abaixo. Brown não deu sinal de que tinha ouvido nada. Mas esse era o seu jeito: ele nunca se dignava a notar um funcionário inferior. O vento estava soprando; Brown era surdo (embora ele sempre fingisse que não era), e eu duvidava muito se ele tivesse ouvido a ordem. Se eu tivesse duas cabeças, teria falado; mas como tinha apenas uma, parecia sensato cuidar dela; então fiquei quieto.
Logo depois, com certeza, passamos velejando por aquela plantação. O Capitão Klinefelter apareceu no convés e disse—
— Deixe-o vir ao redor, senhor, deixe-o vir ao redor. Henry não lhe disse para desembarcar aqui?
— Não, senhor!
— Eu o enviei para fazer isso.
— Ele veio; e foi só isso que adiantou, o maldito tolo. Ele nunca disse nada.
— Você não o ouviu? — perguntou o capitão para mim.
Claro que eu não queria estar envolvido neste negócio, mas não havia maneira de evitar; então eu disse—
— Sim, senhor.
Eu sabia qual seria o próximo comentário de Brown, antes que ele o pronunciasse; era—
— Feche a boca! Você nunca ouviu nada do tipo.
Fechei a boca de acordo com as instruções. Uma hora depois, Henry entrou na casa do piloto, sem saber o que estava acontecendo. Ele era um menino totalmente inofensivo, e lamentei vê-lo chegar, pois sabia que Brown não teria piedade dele. Brown começou, imediatamente—
— Aqui! Por que você não me disse que tínhamos que desembarcar naquela plantação?
— Eu disse a você, Sr. Brown.
— É mentira!
Eu disse—
— Você mente. Ele disse a você.
Brown olhou para mim com surpresa genuína; e por um momento ele ficou completamente sem fala; então ele gritou para mim—
— Cuidarei do seu caso em meio minuto! — então para Henry — E você saia da casa do piloto; fora com você!
Era lei de piloto, e devia ser obedecida. O rapaz começou a sair, e já tinha até o pé no degrau superior do lado de fora da porta, quando Brown, com um súbito acesso de fúria, apanhou um pedaço de carvão de dez libras e saltou atrás dele; mas eu estava entre os dois, com um banco pesado, e desferi em Brown um bom golpe honesto que o estirou no chão.
Eu havia cometido o crime dos crimes — eu havia levantado a mão contra um piloto em serviço! Supus que estava destinado à penitenciária com certeza, e não poderia estar mais certo disso se eu continuasse e acertasse minhas longas contas com essa pessoa enquanto tinha a chance; consequentemente, mantive-me junto dele e soquei-o por um tempo considerável — não sei por quanto tempo, o prazer disso provavelmente fez parecer mais longo do que realmente foi; — mas, no final, ele lutou para se libertar, levantou-se e saltou para o leme: uma solicitude muito natural, pois, durante todo esse tempo, lá estava este barco a vapor descendo o rio à velocidade de quinze milhas por hora e ninguém no comando! No entanto, Eagle Bend tinha três quilômetros de largura neste estágio em que o rio estava cheio, e correspondentemente longo e profundo; e o barco estava se guiando sozinho exatamente pelo meio, sem correr riscos. Ainda assim, isso foi apenas sorte — alguém poderia tê-lo encontrado investindo contra a mata.
Percebendo, de relance, que o 'Pennsylvania' não corria perigo, Brown apanhou a luneta grande, como se fosse um porrete de guerra, e ordenou que eu saísse da casa do piloto com mais do que a fanfarronice de um Comanche. Mas eu não estava mais com medo dele; então, em vez de sair, demorei-me e critiquei sua gramática; reformulei seus discursos ferozes para ele, e coloquei-os em bom inglês, chamando sua atenção para a vantagem do inglês puro sobre o dialeto bastardo das minas de carvão da Pensilvânia de onde ele fora extraído. Ele poderia ter feito a sua parte admiravelmente em um fogo cruzado de mera vituperação, é claro; mas não estava equipado para esse tipo de controvérsia; então, logo deixou de lado sua luneta e assumiu o leme, resmungando e balançando a cabeça; e eu me retirei para o banco. O alvoroço trouxera todos para o convés superior, e eu tremi ao ver o velho capitão olhando para cima, vindo do meio da multidão. Eu disse a mim mesmo: "Agora estou acabado!" — Pois, embora, como regra, ele fosse tão paternal e indulgente com a família do barco, e tão paciente com pequenas falhas, ele podia ser severo o suficiente quando a falta valia a pena.
Tentei imaginar o que ele faria com um aprendiz de piloto que tivesse sido culpado de um crime como o meu, cometido em um barco carregado até as guardas com carga valiosa e cheio de passageiros. Nosso turno estava quase no fim. Pensei em ir me esconder em algum lugar até ter a chance de deslizar para terra. Então, esgueirei-me para fora da casa do piloto, desci os degraus e contornei até a porta da texas — e estava prestes a entrar quando o capitão me confrontou! Abaixei a cabeça, e ele ficou parado sobre mim em silêncio por um momento ou dois, então disse de forma impressionante —
"Siga-me."
Caí em seu rastro; ele liderou o caminho até seu salão na extremidade dianteira da texas. Estávamos sozinhos, agora. Ele fechou a porta traseira; depois moveu-se lentamente para a da frente e fechou-a. Ele se sentou; eu fiquei diante dele. Ele olhou para mim por algum tempo, então disse —
"Então você tem lutado com o Sr. Brown?"
Respondi humildemente —
"Sim, senhor."
"Você sabe que isso é uma questão muito séria?"
"Sim, senhor."
"Você está ciente de que este barco estava arando o rio por cinco minutos completos sem ninguém no leme?"
"Sim, senhor."
"Você o atingiu primeiro?"
"Sim, senhor."
"Com o quê?"
"Um banco, senhor."
"Com força?"
"Mais ou menos, senhor."
"Isso o derrubou?"
"Ele... ele caiu, senhor."
"Você continuou? Fez algo mais?"
"Sim, senhor."
"O que você fez?"
"Soquei-o, senhor."
"Soqueu-o?"
"Sim, senhor."
"Você o socou muito? — isto é, severamente?"
"Poderia chamar assim, senhor, talvez."
"Estou maldizidamente contente com isso! Escute, nunca mencione que eu disse isso. Você foi culpado de um grande crime; e não ouse ser culpado disso novamente, neste barco. Mas... espere por ele em terra! Dê-lhe uma boa surra, está me ouvindo? Eu pagarei as despesas. Agora vá — e cuidado, nem uma palavra disso para ninguém. Dê o fora! Você foi culpado de um grande crime, seu filhote!"
Deslizei para fora, feliz com a sensação de ter escapado por pouco e de um poderoso livramento; e ouvi-o rir sozinho e bater nas coxas gordas depois que fechei a porta dele.
Quando Brown saiu do turno, foi direto ao capitão, que estava conversando com alguns passageiros no convés das caldeiras, e exigiu que eu fosse deixado em terra em Nova Orleans — e acrescentou —
"Nunca mais girarei um leme neste barco enquanto aquele filhote ficar."
O capitão disse —
"Mas ele não precisa chegar perto quando você estiver no turno, Sr. Brown."
"Não ficarei nem no mesmo barco que ele. Um de nós tem que ir para terra."
"Muito bem," disse o capitão, "que seja você;" e retomou sua conversa com os passageiros.
Durante o breve restante da viagem, soube como um escravo emancipado se sente; pois eu mesmo era um escravo emancipado. Enquanto estávamos atracados, eu ouvia a flauta de George Ealer; ou suas leituras de suas duas bíblias, isto é, Goldsmith e Shakespeare; ou eu jogava xadrez com ele — e teria vencido algumas vezes, se ele não sempre retirasse seu último movimento e conduzisse o jogo de forma diferente.
CAPÍTULO 20
Uma Catástrofe
FICAMOS três dias em Nova Orleans, mas o capitão não conseguiu encontrar outro piloto; então ele propôs que eu fizesse um turno diurno e deixasse os turnos noturnos para George Ealer. Mas eu estava com medo; nunca tinha feito um turno de qualquer tipo sozinho, e acreditava que certamente me meteria em problemas na entrada de algum canal, ou encalharia o barco em um atalho através de algum banco de areia ou outro. Brown permaneceu em seu lugar; mas ele não queria viajar comigo. Então o capitão me deu uma ordem para o capitão do 'A. T. Lacey' para uma passagem até St. Louis, e disse que encontraria um novo piloto lá e minha vaga de timoneiro poderia então ser retomada. O 'Lacey' deveria partir dois dias depois do 'Pennsylvania'.
Na noite anterior à partida do 'Pennsylvania', Henry e eu sentamos conversando em uma pilha de carga no cais até a meia-noite. O assunto da conversa, principalmente, era um que acho que não tínhamos explorado antes — desastres de barcos a vapor. Um estava a caminho de nós, por menos que suspeitássemos; a água que faria o vapor que deveria causá-lo estava passando por algum ponto a mil e quinhentas milhas rio acima enquanto conversávamos; — mas chegaria na hora certa e no lugar certo. Duvidávamos se pessoas não investidas de autoridade seriam de muita utilidade em casos de desastre e pânico consequente; ainda assim, poderiam ser de alguma utilidade; então decidimos que, se um desastre algum dia caísse em nossa experiência, pelo menos ficaríamos no barco e prestaríamos o pequeno serviço que o acaso pudesse colocar no caminho. Henry lembrou-se disso, depois, quando o desastre veio, e agiu de acordo.
O 'Lacey' começou a subir o rio dois dias atrás do 'Pennsylvania'. Paramos em Greenville, Mississippi, alguns dias depois de sair, e alguém gritou —
"O 'Pennsylvania' explodiu em Ship Island, e cento e cinquenta vidas perdidas!"
Em Napoleon, Arkansas, na mesma noite, conseguimos uma edição extra, publicada por um jornal de Memphis, que dava alguns detalhes. Mencionava meu irmão e dizia que ele não estava ferido.
Mais acima no rio, conseguimos uma edição extra mais recente. Meu irmão foi mencionado novamente; mas desta vez como estando ferido sem esperança. Não obtivemos detalhes completos da catástrofe até chegarmos a Memphis. Esta é a triste história —
Eran seis horas de uma manhã quente de verão. O 'Pennsylvania' estava rastejando, ao norte de Ship Island, cerca de sessenta milhas abaixo de Memphis, com meia carga de vapor, rebocando uma balsa de madeira que estava sendo rapidamente esvaziada. George Ealer estava na casa do piloto — sozinho, creio eu; o segundo engenheiro e um assistente faziam o turno na casa das máquinas; o segundo imediato estava de turno no convés; George Black, Sr. Wood e meu irmão, escriturários, estavam dormindo, assim como Brown e o engenheiro-chefe, o carpinteiro, o imediato principal e um assistente; o capitão Klinefelter estava na cadeira do barbeiro, e o barbeiro estava se preparando para barbeá-lo. Havia muitos passageiros de cabine a bordo, e trezentos ou quatrocentos passageiros de convés — assim foi dito na época — e não muitos deles estavam acordados. A madeira estando quase toda fora da balsa agora, Ealer tocou para "avançar" com vapor total, e no momento seguinte quatro das oito caldeiras explodiram com um estrondo trovejante, e todo o terço dianteiro do barco foi erguido em direção ao céu! A parte principal da massa, com as chaminés, caiu sobre o barco novamente, uma montanha de entulho esburacado e caótico — e então, depois de um tempo, o fogo começou.
Muitas pessoas foram lançadas a distâncias consideráveis e caíram no rio; entre elas estavam o Sr. Wood e meu irmão, e o carpinteiro. O carpinteiro ainda estava estendido em seu colchão quando atingiu a água a setenta e cinco pés do barco. Brown, o piloto, e George Black, escriturário-chefe, nunca foram vistos ou ouvidos novamente após a explosão. A cadeira do barbeiro, com o capitão Klinefelter nela e ileso, foi deixada com seu encosto pendendo sobre o vazio — tudo à frente dela, assoalho e tudo, havia desaparecido; e o barbeiro estupefato, que também estava ileso, ficou com um dedo do pé projetando-se sobre o espaço, ainda mexendo sua espuma inconscientemente, e não dizendo uma palavra.
Quando George Ealer viu as chaminés mergulhando no alto à sua frente, ele soube o que era o problema; então ele abafou o rosto nas lapelas de seu casaco e pressionou ambas as mãos ali firmemente para manter essa proteção em seu lugar, para que nenhum vapor pudesse chegar ao seu nariz ou boca. Ele teve tempo suficiente para cuidar desses detalhes enquanto subia e voltava. Ele pousou logo em seguida sobre as caldeiras que não explodiram, quarenta pés abaixo da antiga casa do piloto, acompanhado por seu leme e uma chuva de outras coisas, e envolto em uma nuvem de vapor escaldante. Todos os muitos que respiraram aquele vapor morreram; nenhum escapou. Mas Ealer não respirou nada dele. Ele abriu caminho para o ar livre o mais rápido que pôde; e quando o vapor se dissipou, ele voltou e subiu nas caldeiras novamente, e pacientemente caçou cada uma de suas peças de xadrez e as várias partes de sua flauta.
A essa altura, o fogo estava começando a ameaçar. Gritos e gemidos enchiam o ar. Muitas pessoas haviam sido escaldadas, muitas aleijadas; a explosão havia atravessado um pé de cabra de ferro através do corpo de um homem — creio que disseram que era um padre. Ele não morreu imediatamente, e seus sofrimentos foram muito terríveis. Um jovem cadete naval francês, de quinze anos, filho de um almirante francês, ficou terrivelmente escaldado, mas suportou suas torturas com bravura. Ambos os imediatos ficaram gravemente escaldados, mas permaneceram em seus postos, apesar disso. Eles puxaram o barco de madeira para a popa, e eles e o capitão lutaram contra o rebanho frenético de imigrantes assustados até que os feridos pudessem ser trazidos para lá e colocados em segurança primeiro.
Quando o Sr. Wood e Henry caíram na água, eles nadaram para a margem, que ficava a apenas algumas centenas de metros de distância; mas Henry logo disse que acreditava que não estava ferido (que erro inexplicável!), e, portanto, nadaria de volta ao barco e ajudaria a salvar os feridos. Então eles se separaram, e Henry voltou.
A essa altura, o fogo estava avançando ferozmente, e várias pessoas que estavam presas sob as ruínas imploravam piedosamente por ajuda. Todos os esforços para vencer o fogo mostraram-se infrutíferos; então os baldes foram logo deixados de lado e os oficiais atacaram com machados e tentaram cortar os prisioneiros para fora. Um assistente era um dos cativos; ele disse que não estava ferido, mas não conseguia se libertar; e quando viu que o fogo provavelmente afugentaria os trabalhadores, ele implorou que alguém o atirasse, e assim o salvasse da morte mais terrível. O fogo afugentou os homens dos machados, e eles tiveram que ouvir, impotentes, as súplicas desse pobre rapaz até que as chamas acabassem com suas misérias.
O fogo levou todos para a balsa de madeira que puderam ser acomodados lá; ela foi então solta, e ela e o vapor em chamas flutuaram rio abaixo em direção a Ship Island. Eles ancoraram a balsa na ponta da ilha, e lá, sem abrigo do sol escaldante, os ocupantes seminuos tiveram que permanecer, sem comida ou estimulantes, ou ajuda para seus ferimentos, durante o resto do dia. Um vapor apareceu, finalmente, e levou os desafortunados para Memphis, e lá a assistência mais generosa foi imediatamente disponibilizada. A essa altura, Henry estava inconsciente. Os médicos examinaram seus ferimentos e viram que eram fatais, e naturalmente voltaram sua atenção principal para os pacientes que podiam ser salvos.
Quarenta dos feridos foram colocados sobre macas no chão de um grande salão público, e entre eles estava Henry. Lá, as damas de Memphis vinham todos os dias, com flores, frutas e iguarias e guloseimas de todos os tipos, e lá permaneciam e cuidavam dos feridos. Todos os médicos faziam turnos lá, e todos os estudantes de medicina; e o resto da cidade fornecia dinheiro, ou qualquer outra coisa que fosse necessária. E Memphis sabia como fazer todas essas coisas bem; pois muitos desastres como o do 'Pennsylvania' haviam acontecido perto de suas portas, e ela era experiente, acima de todas as outras cidades no rio, no gracioso ofício do 'Bom Samaritano'.
A visão que vi quando entrei naquele grande salão era nova e estranha para mim. Duas longas filas de formas prostradas — mais de quarenta, ao todo — e cada rosto e cabeça um fardo informe de algodão cru solto. Era um espetáculo horrendo. Observei lá por seis dias e noites, e foi uma experiência muito melancólica. Havia um incidente diário que era peculiarmente deprimente: era a remoção dos condenados para uma câmara separada. Fazia-se isso para que o moral dos outros pacientes não fosse prejudicado por ver um de seus membros na agonia da morte. O condenado era sempre levado com o mínimo de alvoroço possível, e a maca era sempre escondida da vista por uma parede de assistentes; mas não importava: todos sabiam o que aquele aglomerado de formas curvadas, com seu passo abafado e movimento lento, significava; e todos os olhos observavam-no ansiosamente, e um arrepio passava por todos como uma onda.
Vi muitos pobres coitados serem removidos para a "sala da morte", e não os vi mais depois. Mas vi nosso imediato principal ser levado para lá mais de uma vez. Seus ferimentos eram terríveis, especialmente suas escaldaduras. Ele estava coberto de óleo de linhaça e algodão cru até a cintura, e não se parecia com nada humano. Ele estava frequentemente fora de si; e então suas dores o faziam delirar e gritar e às vezes berrar. Então, após um período de exaustão muda, sua imaginação desordenada transformava subitamente o grande apartamento em um convés de proa, e a multidão apressada de enfermeiros na tripulação; e ele se sentava e gritava: "Movam-se, movam-se, seus petrificados, barrigas de caramujo, carregadores de caixão! Vão levar o dia todo para tirar esse punhado de carga?" e complementava essa explosão com uma erupção de profanidade que obliterava o firmamento, a qual nada podia conter ou parar até que sua cratera estivesse vazia. E de vez em quando, enquanto esses frenesis o possuíam, ele arrancava punhados de algodão e expunha sua carne cozida à vista. Era horrível. Era ruim para os outros, é claro — esse barulho e essas exibições; então os médicos tentavam lhe dar morfina para acalmá-lo. Mas, em sã consciência ou fora dela, ele não a tomava. Ele dizia que sua esposa havia sido morta por aquela droga traiçoeira, e ele morreria antes de tomá-la. Ele suspeitava que os médicos a escondiam em seus remédios comuns e em sua água — então ele parou de levar qualquer um deles aos lábios. Uma vez, quando ele ficou sem água durante dois dias escaldantes, pegou a caneca na mão, e a visão do líquido límpido, e a miséria de sua sede, tentaram-no quase além de suas forças; mas ele dominou-se e jogou-a fora, e depois disso não permitiu mais que fosse trazida perto dele. Três vezes eu o vi ser levado para a sala da morte, inconsciente e supostamente morrendo; mas cada vez ele revivia, amaldiçoava seus assistentes e exigia ser levado de volta. Ele viveu para ser imediato de um barco a vapor novamente.
Mas ele foi o único que foi para a sala da morte e retornou vivo. Dr. Peyton, um médico principal, e rico em todos os atributos que constituem um caráter elevado e impecável, fez tudo o que o julgamento educado e a habilidade treinada poderiam fazer por Henry; mas, como os jornais disseram no início, seus ferimentos estavam além de qualquer ajuda. Na noite do sexto dia, sua mente errante ocupou-se de assuntos distantes, e seus dedos sem força "mexiam em sua colcha". Sua hora havia soado; levamo-lo para a sala da morte, pobre rapaz.
CAPÍTULO 21
Uma Seção na Minha Biografia
No devido tempo, recebi minha licença. Eu era um piloto agora, plenamente formado. Comecei a ter empregos ocasionais; nenhuma desgraça resultou disso, o trabalho intermitente deu lugar a compromissos estáveis e prolongados. O tempo passou suave e prosperamente, e eu supus — e esperava — que seguiria o rio pelo resto dos meus dias, e morreria ao leme quando minha missão terminasse. Mas, pouco depois, veio a guerra, o comércio foi suspenso, minha ocupação tinha ido embora.
Tive que buscar outro meio de subsistência. Então tornei-me um mineiro de prata em Nevada; depois, um repórter de jornal; depois, um mineiro de ouro, na Califórnia; depois, um repórter em São Francisco; depois, um correspondente especial nas Ilhas Sandwich; depois, um correspondente itinerante na Europa e no Oriente; depois, um portador de tocha educacional na plataforma de palestras; e, finalmente, tornei-me um escritor de livros, e uma instalação imóvel entre as outras rochas da Nova Inglaterra.
Em tão poucas palavras dispus dos vinte e um anos de deriva lenta que vieram e se foram desde a última vez que olhei pelas janelas de uma casa de piloto.
Vamos retomar, agora.
CAPÍTULO 22
Retorno às Minhas Ovelhas
APÓS vinte e um anos de ausência, senti um desejo muito forte de ver o rio novamente, e os barcos a vapor, e os rapazes que pudessem ter restado; então resolvi ir até lá. Recrutei um poeta para companhia, e um estenógrafo para "anotar tudo", e parti para o oeste por volta de meados de abril.
Como pretendia fazer anotações, com o objetivo de imprimir, pensei um pouco sobre os métodos de procedimento. Refleti que, se eu fosse reconhecido, no rio, não seria tão livre para ir e vir, conversar, perguntar e bisbilhotar como seria se fosse desconhecido; lembrei-me de que era costume dos homens de barco a vapor nos velhos tempos carregar o estranho confiante com as mentiras mais pitorescas e admiráveis, e afastar o amigo sofisticado com fatos enfadonhos e ineficazes: então concluí que, do ponto de vista comercial, seria uma vantagem disfarçar nosso grupo com nomes fictícios. A ideia era certamente boa, mas gerou um incômodo infinito; pois, embora Smith, Jones e Johnson sejam nomes fáceis de lembrar quando não há ocasião para lembrá-los, é quase impossível recordá-los quando são necessários. Como os criminosos conseguem manter um pseudônimo novo em mente? Este é um grande mistério. Eu era inocente; e, no entanto, raramente conseguia colocar a mão no meu novo nome quando era necessário; e parecia-me que se eu tivesse um crime na consciência para me confundir ainda mais, nunca teria conseguido manter o nome comigo.
Partimos pela Pennsylvania Railroad, às 8 da manhã de 18 de abril.
"NOITE. Falando de vestuário. A graça e o pitoresco caem gradualmente dele à medida que se viaja para longe de Nova York."
Encontro isso entre as minhas notas. Não faz diferença qual direção se toma, o fato permanece o mesmo. Quer se viaje para o norte, sul, leste ou oeste, não importa: pode-se levantar de manhã e adivinhar a que distância se veio, observando que grau de graça e pitoresco falta, a essa altura, nos trajes dos novos passageiros — não me refiro apenas às mulheres, mas a ambos os sexos. Pode ser que o porte esteja na raiz desta questão; e penso que está; pois há muitas senhoras e senhores nas cidades provincianas cujas vestimentas são todas feitas pelos melhores alfaiates e modistas de Nova York; contudo, isto não tem efeito perceptível sobre o grande fato: o olho educado nunca confunde essas pessoas com nova-iorquinos. Não, há uma graça ímpia, uma vivacidade e um estilo em um nova-iorquino nato e criado que a mera vestimenta não pode produzir.
'19 DE ABRIL. Esta manhã, entrei na região dos cavanhaques fartos — por vezes acompanhados de bigode, mas apenas ocasionalmente.'
Era estranho deparar com esta colheita densa de uma moda obsoleta e inestética; era como encontrar de repente um conhecido esquecido que se supunha morto há uma geração. O cavanhaque estende-se por uma vasta extensão de terra; e é acompanhado por uma crença inabalável em Adão e na história bíblica da criação, que não sofreu com os ataques dos cientistas.
'TARDE. Nas estações ferroviárias, os vadios carregam ambas as mãos nos bolsos das calças; era observável, até aqui, que uma mão estava por vezes de fora — aqui, nunca. Este é um fato importante na geografia.'
Se os vadios determinassem o caráter de um país, seria ainda mais importante, é claro.
'Até aqui, por todo o caminho, observou-se frequentemente que o vadio da estação coçava uma canela com o outro pé; aqui, estes vestígios de atividade estão ausentes. Isto tem um ar ameaçador.'
A pouco e pouco, entrámos na região do tabaco de mascar. Há cinquenta anos, a região do tabaco de mascar cobria a União. Está muito restringida agora.
A seguir, as botas começaram a aparecer. Não com muita força, no entanto. Mais tarde — bem abaixo no Mississippi — tornaram-se a regra. Desapareceram de outras secções da União com a lama; sem dúvida desaparecerão também das aldeias ribeirinhas, quando chegarem as calçadas apropriadas.
Chegámos a St. Louis às dez horas da noite. No balcão do hotel, apresentei um nome fictício inventado à pressa, com uma tentativa miserável de desembaraço despreocupado. O rececionista fez uma pausa e inspecionou-me da forma compassiva com que se inspeciona uma pessoa respeitável encontrada em circunstâncias duvidosas; depois disse—
'Está tudo bem; sei que tipo de quarto o senhor quer. Costumava ser rececionista no St. James, em Nova York.'
Um começo pouco promissor para uma carreira fraudulenta. Fomos para a sala de jantar e encontrámos dois outros homens que eu tinha conhecido noutro lugar. Como é estranho e injusto: impostores perversos andam por aí a dar palestras sob o meu *Nom De Guerre* e ninguém suspeita deles; mas quando um homem honesto tenta uma impostura, é exposto imediatamente.
Uma coisa parecia clara: tínhamos de descer o rio no dia seguinte, se pessoas que não podiam ser enganadas iam aparecer a este ritmo: uma desilusão desagradável, pois esperávamos passar uma semana em St. Louis. O Southern era um bom hotel, e poderíamos ter passado um tempo confortável lá. É grande, bem gerido, e as suas decorações não fazem ninguém chorar, como as do vasto Palmer House, em Chicago. É verdade que as mesas de bilhar eram do Antigo Período Siluriano, e os tacos e as bolas do Pós-Pleistoceno; mas havia renovo nisto, não desconforto; pois há descanso e cura na contemplação das antiguidades.
A ausência mais notável observável na sala de bilhar era a ausência do homem do rio. Se ele estava lá, tinha recolhido o seu sinal, estava disfarçado. Não vi lá nenhuns dos ares e graças de grandeza, nem exibições ostensivas de dinheiro, e gastos pomposos do mesmo, que costumavam distinguir a multidão dos barcos a vapor da multidão de terra firme nos tempos passados, nas lotadas salas de bilhar de St. Louis. Naqueles tempos, os principais salões estavam sempre povoados de homens do rio; dados cinquenta jogadores presentes, trinta ou trinta e cinco seriam provavelmente do rio. Mas suspeitei que as fileiras estavam rarefeitas agora, e os homens dos barcos a vapor já não eram uma aristocracia. Ora, no meu tempo costumavam chamar o 'empregado de balcão' de Bill, ou Joe, ou Tom, e dar-lhe palmadas no ombro; fiquei atento a isso. Mas nenhuma destas pessoas o fez. Manifestamente, uma glória que outrora existiu dissolveu-se e desapareceu nestes vinte e um anos.
Quando subi para o meu quarto, encontrei lá o jovem chamado Rogers, a chorar. Rogers não era o seu nome; nem Jones, Brown, Dexter, Ferguson, Bascom, nem Thompson; mas ele atendia por qualquer um destes que alguém achasse útil numa emergência; ou por qualquer outro nome, na verdade, se percebesse que se referiam a ele. Ele disse—
'O que é que uma pessoa deve fazer aqui quando quer um copo de água? — beber esta lama?'
'Não consegue bebê-la?'
'Conseguiria se tivesse outra água para a lavar.'
Aqui estava uma coisa que não tinha mudado; uma vintena de anos não tinha afetado minimamente a tez mulata desta água; uma vintena de séculos talvez não tivesse mais sucesso. Ela sai do turbulento Missouri, que derruba margens, e cada copo dela contém quase um acre de terra em solução. Obtive este fato do bispo da diocese. Se deixar o seu copo repousar meia hora, pode separar a terra da água tão facilmente como no Génesis; e então achá-las-á ambas boas: uma boa para comer, a outra boa para beber. A terra é muito nutritiva, a água é perfeitamente saudável. Uma satisfaz a fome; a outra, a sede. Mas os nativos não as tomam separadamente, mas juntas, como a natureza as misturou. Quando encontram uma polegada de lama no fundo de um copo, agitam-na e depois bebem o gole como fariam com uma papa. É difícil para um estranho habituar-se a esta massa, mas uma vez habituado a ela, preferi-la-á à água. Este é realmente o caso. É boa para o transporte fluvial, e boa para beber; mas é inútil para todos os outros fins, exceto para batizar.
Na manhã seguinte, demos uma volta pela cidade à chuva. A cidade parecia pouco mudada. Estava muito mudada, mas não parecia; porque em St. Louis, como em Londres e Pittsburgh, não se consegue persuadir uma coisa nova a parecer nova; o fumo do carvão transforma-a numa antiguidade no momento em que se retira a mão dela. O lugar tinha praticamente duplicado o seu tamanho desde que eu era residente lá, e era agora uma cidade de 400.000 habitantes; ainda assim, nas partes comerciais sólidas, parecia mais ou menos como parecia anteriormente. Contudo, estou certo de que não há tanto fumo em St. Louis agora como costumava haver. O fumo costumava acumular-se num denso e ondulante dossel negro sobre a cidade, e esconder o céu da vista. Este abrigo é muito mais fino agora; ainda assim, há fumo suficiente lá, creio eu. Não ouvi nenhuma queixa.
No entanto, nos arredores, as mudanças eram bastante aparentes; nomeadamente na arquitetura das casas. As belas casas novas são nobres, bonitas e modernas. Também estão isoladas, com relvados verdes à sua volta; ao passo que as habitações de um tempo anterior estão apinhadas em quarteirões, e são todas do mesmo padrão, com janelas todas iguais, inseridas numa estrutura em arco de pedra torcida; um tipo de casa que era bastante elegante quando era mais rara.
Houve outra mudança — o Forest Park. Isto era novo para mim. É bonito e muito extenso, e tem o excelente mérito de ter sido feito principalmente pela natureza. Há outros parques, e belos, nomeadamente o Tower Grove e os Jardins Botânicos; pois St. Louis interessou-se por tais melhorias mais cedo do que a maioria das nossas cidades.
A primeira vez que vi St. Louis, poderia tê-la comprado por seis milhões de dólares, e foi o erro da minha vida não o ter feito. Era amargo agora olhar para esta metrópole de cúpulas e torres, esta sólida extensão de tijolos e argamassa estendendo-se por todos os lados em distâncias vagas e imensuráveis, e lembrar-me de que tinha deixado passar essa oportunidade. Por que deveria ter deixado passar, parece, é claro, tolo e inexplicável hoje, à primeira vista; no entanto, havia razões na altura para justificar este curso.
Um escocês, o Exmo. Charles Augustus Murray, escrevendo há uns quarenta e cinco ou cinquenta anos, disse — 'As ruas são estreitas, mal pavimentadas e mal iluminadas.' Essas ruas continuam estreitas, é claro; muitas delas ainda estão mal pavimentadas; mas o estigma da má iluminação não pode ser repetido agora. A 'Igreja Nova Católica' era o único edifício notável então, e o Sr. Murray era convidado com confiança a admirá-la, com a sua 'espécie de pórtico grego, encimado por uma espécie de torre, demasiado diminuta nas suas proporções, e encimada por diversos ornamentos' que o escocês sem imaginação se viu 'incapaz de descrever'; e, portanto, ficou grato quando um turista alemão o ajudou com a exclamação — 'Pelos..., parecem exatamente postes de cama!' St. Louis está bem equipada com edifícios públicos imponentes e nobres agora, e a pequena igreja, de que as pessoas costumavam orgulhar-se tanto, perdeu a sua importância há muito tempo. Ainda assim, isto não surpreenderia o Sr. Murray, se ele pudesse voltar; pois ele profetizou a grandeza futura de St. Louis com forte confiança.
Quanto mais conduzíamos na nossa excursão de inspeção, mais sensivelmente eu percebia como a cidade tinha crescido desde a última vez que a vi; as mudanças nos detalhes tornavam-se também cada vez mais aparentes e frequentes do que no início: mudanças que evidenciavam uniformemente progresso, energia, prosperidade.
Mas a mudança das mudanças estava no 'cais'. Desta vez, um desvio da regra. Meia dúzia de barcos a vapor a dormir profundamente onde eu costumava ver uma milha sólida de barcos bem despertos! Isto era melancólico, isto era lamentável. A ausência do homem do barco a vapor, omnipresente e jovial, do salão de bilhar estava explicada. Ele estava ausente porque já não existe. A sua ocupação desapareceu, o seu poder passou, ele está absorvido pela manada comum, ele trabalha no moinho, um Sansão tosquiado e impercetível. Meia dúzia de barcos a vapor sem vida, uma milha de cais vazios, um negro fatigado pelo uísque estendido a dormir, numa vasta e silenciosa vacuidade, onde as hostes cerradas do comércio costumavam contender!{rodapé [O Cap. Marryat, escrevendo há quarenta e cinco anos, diz: 'St. Louis tem 20.000 habitantes. *O rio ao longo da cidade está repleto de barcos a vapor, dispostos em duas ou três camadas*']} Aqui estava a desolação, de facto.
'O velho, velho mar, como alguém em lágrimas, Vem murmurando, com lábios espumantes, E batendo nos cais vazios, Chama pela sua multidão de navios há muito perdida.'
O rebocador e o caminho de ferro tinham feito o seu trabalho, e fizeram-no bem e completamente. A poderosa ponte, estendendo-se sobre as nossas cabeças, tinha feito a sua parte no massacre e espoliação. Restos de antigos homens de barcos a vapor disseram-me, com uma satisfação pálida, que a ponte não rende. Ainda assim, não pode ser compensação suficiente para um cadáver saber que a dinamite que o abateu não era de tão boa qualidade como se supunha.
As calçadas ao longo da frente do rio eram más: os passeios estavam um tanto danificados; havia uma rica abundância de lama. Tudo isto era familiar e satisfatório; mas os antigos exércitos de carroças, e as multidões em luta de homens, e as montanhas de carga, tinham desaparecido; e o Sabbath reinava em seu lugar. A imemorial milha de tabernas baratas e imundas permanecia, mas o negócio estava fraco nelas; as multidões de irlandeses que bebiam veneno tinham partido, e nos seus lugares estavam alguns punhados dispersos de negros esfarrapados, alguns bebendo, alguns bêbados, alguns a cabecear, outros a dormir. St. Louis é uma cidade grande, próspera e avançada; mas a beira do rio parece morta, sem esperança de ressurreição.
O transporte fluvial no Mississippi nasceu por volta de 1812; ao fim de trinta anos, tinha crescido para proporções gigantescas; e em menos de trinta anos depois, estava morto! Uma vida estranhamente curta para uma criatura tão majestosa. É claro que não está absolutamente morta, nem um octogenário aleijado que outrora conseguia saltar seis metros e setenta em terreno plano; mas, em contraste com o que era no seu vigor, o transporte fluvial no Mississippi pode ser chamado de morto.
Matou o transporte por barcos de quilha à moda antiga, reduzindo a viagem de carga para Nova Orleães a menos de uma semana. Os caminhos de ferro mataram o tráfego de passageiros nos barcos a vapor, fazendo em dois ou três dias o que os barcos a vapor consumiam uma semana a fazer; e as frotas de reboque mataram o tráfego de carga de longo curso, arrastando seis ou sete carregamentos de mercadorias de uma só vez rio abaixo, a uma despesa tão trivial que a competição dos barcos a vapor estava fora de questão.
O tráfego de carga e passageiros de percurso permanece para os vapores. Isto está nas mãos — ao longo das três mil e duzentas milhas de rio entre St. Paul e Nova Orleães — de duas ou três corporações fechadas bem fortificadas com capital; e através de uma gestão e sistema capazes e totalmente profissionais, estas fazem dinheiro suficiente do que resta da outrora prodigiosa indústria de barcos a vapor. Suponho que St. Louis e Nova Orleães não tenham sofrido materialmente com a mudança, mas ai do homem do depósito de lenha!
Ele costumava cercar o rio por todo o caminho; a sua mercadoria em filas cerradas estendia-se de uma cidade à outra, ao longo das margens, e ele vendia incontáveis cordas de lenha todos os anos por dinheiro vivo; mas todos os barcos dispersos que restam queimam carvão agora, e o espetáculo mais raro no Mississippi hoje em dia é uma pilha de lenha. Onde está agora o outrora homem do depósito de lenha?
CAPÍTULO 23
Viajando Incógnito
A minha ideia era ficar algum tempo em cada cidade entre St. Louis e Nova Orleães. Para o fazer, seria necessário ir de lugar em lugar através das linhas de pequenos paquetes. Era um plano fácil de fazer, e teria sido fácil de seguir, há vinte anos — mas não agora. Há longos intervalos entre os barcos, nestes dias.
Eu queria começar pelos interessantes e antigos assentamentos franceses de St. Genevieve e Kaskaskia, a sessenta milhas abaixo de St. Louis. Havia apenas um barco anunciado para aquela secção — um paquete de Grand Tower. Ainda assim, um barco era suficiente; por isso fomos lá baixo vê-lo. Era uma pilha de ferro-velho venerável, e uma fraude para cúmulo; pois fazia-se passar por bem pessoal, enquanto a boa e honesta terra estava tão espessa e incrustada por toda ela que era justamente tributável como bem imobiliário. Há lugares na Nova Inglaterra onde o seu convés superior valeria cento e cinquenta dólares por acre. O solo no seu convés de proa era bastante bom — a nova colheita de trigo já estava a brotar das fendas em locais protegidos. A escada do convés era de natureza arenosa e seca, e teria sido bem adequada para uvas, com uma exposição a sul e um pouco de sub-solo. O solo do convés das caldeiras era fino e rochoso, mas suficientemente bom para fins de pastagem. Um rapaz de cor estava de vigia aqui — ninguém mais visível. Percebemos por ele que esta embarcação calma iria, como anunciado, 'se conseguisse a sua viagem'; se não a conseguisse, esperaria por ela.
'Ela conseguiu alguma parte da sua viagem?'
'Deus o livre, não, patrão. Ela nem sequer foi descarregada, ainda. Ela só chegou esta manhã.'
Ele não tinha certeza de quando ela poderia conseguir a sua viagem, mas pensava que poderia ser amanhã ou talvez no dia seguinte. Isto não servia de todo; por isso tivemos de desistir da novidade de navegar rio abaixo numa quinta. Tínhamos mais uma flecha na nossa aljava: um paquete de Vicksburg, o 'Gold Dust', ia partir às 17 horas. Embarcámos nele para Memphis, e abandonámos a ideia de parar aqui e ali, por ser impraticável. Era limpo, arrumado e confortável. Acampámos no convés das caldeiras e comprámos alguma literatura barata para matar o tempo. O vendedor era um irlandês venerável com um rosto benevolente e uma língua que funcionava facilmente no encaixe, e dele soubemos que tinha vivido em St. Louis trinta e quatro anos e nunca tinha atravessado o rio durante esse período. Depois, ele perdeu-se numa palestra muito fluida, cheia de nomes e alusões clássicas, que era bastante maravilhosa pela fluência até que o fato se tornou bastante aparente de que esta não era a primeira vez, nem talvez a quinquagésima, que o discurso tinha sido proferido. Ele era uma figura e tanto, e muito melhor companhia do que a literatura insípida que estava a vender. Um comentário casual, ligando irlandeses e cerveja, trouxe esta pepita de informação dele—
'Eles não a bebem, senhor. Eles não podem bebê-la, senhor. Dê a um irlandês cerveja clara durante um mês, e ele é um homem morto. Um irlandês é forrado a cobre, e a cerveja corrói-o. Mas o uísque polia o cobre e é a sua salvação, senhor.'
Às oito horas, pontualmente, recuámos e atravessámos o rio. Enquanto nos arrastávamos em direção à margem, na escuridão espessa, uma glória ofuscante de luz elétrica branca irrompeu subitamente do nosso convés de proa, e iluminou a água e os armazéns como com o clarão do meio-dia. Outra grande mudança, esta — chega de cestos de tochas vacilantes, fumegantes, pingando pez, ineficazes, agora: o seu dia passou. A seguir, em vez de chamar uma vintena de homens para guarnecer a rampa, um par de homens e um punhado de vapor baixaram-na da grua onde estava suspensa, lançaram-na, depositaram-na exatamente no lugar certo, e a coisa toda estava terminada antes que um imediato nos velhos tempos pudesse ter ajustado o seu moinho de profanidade para começar os serviços preparatórios. Por que este método novo e simples de manusear as rampas não foi pensado quando o primeiro barco a vapor foi construído, é um mistério que ajuda a perceber que criatura de mente lenta o ser humano médio é.
Finalmente partimos às duas da manhã, e quando me levantei às seis, estávamos a contornar um ponto rochoso onde havia um antigo armazém de pedra — de qualquer modo, as ruínas dele; duas ou três casas decadentes estavam nas proximidades, no abrigo das colinas frondosas; mas não havia evidências de vida humana ou de outro animal para ser vista. Perguntei-me se me tinha esquecido do rio; pois não tinha qualquer recordação deste lugar; a forma do rio, também, era desconhecida; não havia nada à vista, em lado nenhum, que eu pudesse lembrar-me de ter visto antes. Fiquei surpreendido, desapontado e irritado.
Desembarcámos uma senhora e um cavalheiro bem vestidos, e duas jovens bem vestidas e com aspeto de senhoras, juntamente com várias malas de couro da Rússia. Um lugar estranho para tal gente! Nenhuma carruagem estava à espera. O grupo afastou-se como se não esperasse nenhuma, e seguiu por uma estrada rural sinuosa a pé.
Mas o mistério foi explicado quando nos pusémos a caminho novamente; pois estas pessoas estavam evidentemente a dirigir-se para uma grande cidade que ficava fechada atrás de um banco de areia (isto é, uma nova ilha) a duas milhas abaixo deste local de desembarque. Não conseguia lembrar-me daquela cidade; não conseguia situá-la, não conseguia recordar o seu nome. Por isso perdi parte da minha paciência. Suspeitei que pudesse ser St. Genevieve — e assim se revelou ser. Observe o que este rio excêntrico tinha andado a fazer: tinha construído este enorme banco de areia inútil diretamente em frente a esta cidade, cortado as suas comunicações fluviais, isolado-a completamente, e feito dela uma cidade 'do campo'. É um belo lugar antigo, também, e merecia um destino melhor. Foi colonizado pelos franceses, e é uma relíquia de um tempo em que se podia viajar desde as fozes do Mississippi até Quebec e estar em território francês e sob domínio francês durante todo o caminho.
Imediatamente subi ao convés superior e lancei um olhar saudoso em direção à casa do leme.
CAPÍTULO 24
O meu Incógnito é Explodido
APÓS um estudo atento do rosto do piloto de serviço, convenci-me de que nunca o tinha visto antes; por isso, subi até lá. O piloto inspecionou-me; eu inspecionei o piloto de volta. Terminados estes preliminares habituais, sentei-me no banco alto, e ele virou-se e continuou o seu trabalho. Cada detalhe da casa do leme era-me familiar, com uma exceção: um tubo de boca larga sob a prancha do peito. Quebrei a cabeça com aquilo durante um tempo considerável; depois desisti e perguntei para que servia.
— Para ouvir os sinos das máquinas.
Era mais um bom dispositivo que deveria ter sido inventado meio século antes. Era o que eu pensava, quando o piloto perguntou:
— Sabe para que serve esta corda?
Consegui esquivar-me a esta pergunta, sem me comprometer.
— É a primeira vez que entra numa casa do leme?
Esgueirei-me por baixo dessa.
— De onde é?
— Da Nova Inglaterra.
— É a primeira vez que vem ao Oeste?
Pulei por cima dessa.
— Se tem interesse por tais coisas, posso dizer-lhe para que servem todas estas.
Disse que gostaria.
— Esta — colocando a mão numa corda de sino de marcha a ré —, é para soar o alarme de incêndio; esta — colocando a mão num sino de seguir em frente —, é para chamar o texas-tender; esta aqui — indicando a alavanca do apito —, é para chamar o capitão — e assim continuou, tocando num objeto após outro e desenrolando o seu tranquilo carretel de mentiras.
Nunca me tinha sentido tão passageiro antes. Agradeci-lhe, com emoção, cada novo facto, e escrevi-o no meu bloco de notas. O piloto animou-se com a oportunidade e prosseguiu carregando-me à boa maneira antiga. Por vezes, tive receio de que ele fosse romper a sua invenção; mas ela aguentou sempre a pressão, e ele safou-se bem. Ele derivou, por etapas fáceis, para revelações das maravilhosas excentricidades do rio de um tipo e de outro, e reforçou-as com alguns exemplos bastante gigantescos. Por exemplo:
— Vê aquele pequeno rochedo a sair da água ali? Bem, quando cheguei ao rio pela primeira vez, aquilo era uma crista sólida de rocha, com mais de sessenta pés de altura e duas milhas de comprimento. Tudo levado pela água, exceto aquilo. [Isto com um suspiro.]
Tive um impulso enorme de destruí-lo, mas pareceu-me que matá-lo, de qualquer forma comum, seria demasiado bom para ele.
Certa vez, quando uma embarcação de aspeto estranho, com uma vasta tremonha de carvão inclinada no ar na extremidade de uma viga, passava ao longe, ele indiferentemente chamou a atenção para ela, como se poderia fazer para um objeto tornado cansativo pela familiaridade, e observou que era um 'barco de jacarés'.
— Um barco de jacarés? Para que serve?
— Para dragar jacarés.
— São tão densos que se tornam problemáticos?
— Bem, agora não, porque o Governo mantém-nos controlados. Mas costumavam ser. Não em todo o lado; mas em lugares favoritos, aqui e ali, onde o rio é largo e raso — como Plum Point, e Stack Island, e por aí fora — lugares a que chamam camas de jacarés.
— Eles chegavam realmente a impedir a navegação?
— Anos atrás, sim, em águas muito baixas; dificilmente havia uma viagem, então, em que não encalhássemos em jacarés.
Pareceu-me que certamente teria de sacar do meu machado. No entanto, contive-me e disse:
— Deve ter sido terrível.
— Sim, era uma das principais dificuldades de pilotar. Era tão difícil saber qualquer coisa sobre a água; as malditas criaturas mudam de lugar constantemente — nunca ficam quietas cinco minutos seguidos. Consegue distinguir um banco de vento, logo à primeira, pelo aspeto; consegue distinguir uma quebra; consegue distinguir um banco de areia — isso é tudo fácil; mas um banco de jacarés não aparece, não vale nada. Nove vezes em dez, não consegue dizer onde está a água; e quando vê onde ela está, o mais provável é que não esteja lá quando lá chegar, os diabos trocaram de lugar, entretanto. Claro que havia alguns pilotos que conseguiam avaliar a água de jacarés quase tão bem como qualquer outro tipo, mas tinham de ter talento natural para isso; não era algo que alguém pudesse aprender, tinha de se nascer com isso. Deixe-me ver: havia Ben Thornburg, e Beck Jolly, e Squire Bell, e Horace Bixby, e Major Downing, e John Stevenson, e Billy Gordon, e Jim Brady, e George Ealer, e Billy Youngblood — todos pilotos de jacarés de primeira categoria. Eles conseguiam distinguir a água de jacarés tão bem quanto outro cristão qualquer distingue uísque. Lê-la? — Ah, não liam, não? Só queria ter tantos dólares quantos eles conseguiam ler a água de jacarés a uma milha e meia de distância. Sim, e compensava-os fazê-lo também. Um bom piloto de jacarés conseguia sempre ganhar quinze mil dólares por mês. À noite, outras pessoas tinham de parar por causa dos jacarés, mas esses tipos nunca paravam por causa dos jacarés; nunca paravam por nada, exceto nevoeiro. Eles conseguiam cheirar a melhor água de jacarés, dizia-se; não sei se era verdade ou não, e acho que uma pessoa já tem as mãos cheias se se limitar ao que sabe, sem andar por aí a apoiar o que os outros dizem, embora existam muitos que não se inibem de o fazer, desde que possam arranjar algo maravilhoso para contar. O que não é o estilo de Robert Styles, por uns três metros — talvez um quarto a menos.
[Meu Deus! Era este o Rob Styles? — Esta figura bigoduda e imponente? — Um novato bastante magro, no meu tempo. Como ele melhorou em beleza em vinte e cinco anos, e na nobre arte de inflar os seus factos.] Após estas reflexões, disse em voz alta:
— Eu pensaria que dragar os jacarés não teria feito muito bem, porque eles poderiam voltar logo a seguir.
— Se tivesse tido tanta experiência com jacarés como eu tive, não falaria assim. Draga-se um jacaré uma vez e ele fica convencido. É a última vez que ouve falar dele. Ele não voltaria nem por uma fatia de tarte. Se há uma coisa que um jacaré detesta mais do que outra, é ser dragado. Além disso, eles não eram apenas empurrados para fora do caminho; a maior parte da colheita era recolhida a bordo; esvaziavam-nos no porão; e quando tinham uma carga, levavam-nos a Orleans, às obras do Governo.
— Para quê?
— Ora, para fazer sapatos de soldado com as suas peles. Todos os sapatos do Governo são feitos de pele de jacaré. Faz os melhores sapatos do mundo. Duram cinco anos e não absorvem água. A pesca de jacarés é um monopólio do Governo. Todos os jacarés são propriedade do Governo — tal como os carvalhos-vivos. Se cortar um carvalho-vivo, o Governo multa-o em cinquenta dólares; se matar um jacaré, é preso por crime de traição — tem sorte se não o enforcarem também. E enforcam, se for um Democrata. O abutre é a ave sagrada do Sul, e não lhe pode tocar; o jacaré é a ave sagrada do Governo, e tem de o deixar em paz.
— Alguma vez encalha em jacarés agora?
— Oh, não! Isso não acontece há anos.
— Bem, então, por que razão ainda mantêm os barcos de jacarés ao serviço?
— Apenas por dever de polícia — nada mais. Eles apenas sobem e descem o rio de vez em quando. A geração atual de jacarés conhece-os tão facilmente como um ladrão conhece um agente de patrulha; quando veem um a chegar, levantam acampamento e vão para o bosque.
Após arredondar, finalizar e polir o assunto dos jacarés, ele caiu fácil e confortavelmente no veio histórico, e falou de algumas façanhas tremendas de meia dúzia de barcos a vapor antigos da sua amizade, insistindo com especial detalhe numa certa atuação extraordinária do seu favorito principal entre esta distinta frota — e acrescentando então:
— Esse barco era o "Cyclone", — a última viagem que ele fez — ele afundou-se, nessa mesma viagem — o capitão era Tom Ballou, o mentiroso mais imortal que já encontrei. Ele nunca parecia conseguir dizer a verdade, em qualquer tipo de tempo. Ora, ele fazia-o a um homem arrepiar-se. Ele era o mentiroso mais escandaloso! Deixei-o, finalmente; não conseguia aguentar. O provérbio diz: "tal mestre, tal criado"; e se ficar com esse tipo de homem, acabará por cair sob suspeita, tão certo como viver. Ele pagava salários de primeira classe; mas eu disse, que valem os salários quando a sua reputação está em perigo? Por isso, deixei os salários de lado e agarrei-me à minha reputação. E nunca me arrependi. A reputação vale tudo, não vale? É assim que eu vejo as coisas. Ele tinha mais órgãos de egoísmo do que sete homens no mundo — todos empilhados na parte de trás do seu crânio, claro, onde pertenciam. Eles pesavam na parte de trás da cabeça de tal forma que faziam o nariz dele inclinar-se para cima. As pessoas pensavam que era vaidade, mas não era, era malícia. Se visse apenas o pé dele, pensaria que ele tinha dezenove pés de altura, mas não tinha; era porque o pé dele estava fora de proporção. Ele foi destinado a ter dezenove pés de altura, sem dúvida, se o pé fosse feito primeiro, mas não chegou lá; ele tinha apenas cinco pés e dez polegadas. Era isso que ele era, e é isso que ele é. Tire-lhe as mentiras e ele encolherá para o tamanho do seu chapéu; tire-lhe a malícia e ele desaparecerá. Aquele "Cyclone" era uma máquina a andar, e a coisa mais doce de conduzir que alguma vez percorreu as águas. Coloque-a a meio, num rio grande, e deixe-a ir; era tudo o que tinha de fazer. Ela manter-se-ia numa estrela a noite toda, se a deixasse em paz. Nunca conseguia sentir o leme dela. Não dava mais trabalho conduzi-la do que contar os votos Republicanos numa eleição na Carolina do Sul. Uma manhã, ao romper do dia, a última viagem que ela alguma vez fez, levaram o leme dela a bordo para o consertar; eu não sabia de nada; fiz marcha a ré para sair do depósito de lenha e fui serpenteando pelo rio, todo sereno. Quando já tinha percorrido cerca de vinte e três milhas, e feito quatro travessias horrivelmente sinuosas —
— Sem leme?
— Sim — o velho Capitão Tom apareceu no convés superior e começou a criticar-me por navegar numa noite tão escura —
— Numa noite tão escura? — Ora, você disse —
— Não se importe com o que eu disse, — estava tão escuro como no Egito agora, embora pouco depois a lua começasse a nascer, e —
— Quer dizer o sol — porque começou logo ao romper do — olhe aqui! Isto foi antes de deixar o capitão por causa das mentiras dele, ou —
— Foi antes — oh, muito tempo antes. E como eu dizia, ele —
— Mas foi nesta viagem que ele se afundou, ou foi —
— Oh, não! — meses depois. E assim o velho, ele —
— Então ele fez duas últimas viagens, porque você disse —
Ele afastou-se do leme, enxugando o suor, e disse:
— Aqui! (chamando-me pelo nome), leve-o você e minta um pouco — você tem mais jeito para isso do que eu. A tentar passar-se por um estranho e um inocente! — ora, eu conhecia-o antes de ter dito sete palavras; e decidi descobrir qual era o seu joguinho. Era fazer-me falar. Bem, eu deixei, não deixei? Agora pegue no leme e termine o turno; e da próxima vez jogue limpo, e não terá de trabalhar para pagar a sua passagem.
Assim terminou o negócio do nome fictício. E a menos de seis horas de St. Louis! Mas eu tinha ganho um privilégio, de qualquer forma, pois andava ansioso por deitar as mãos ao leme, desde o princípio. Parecia ter esquecido o rio, mas não me tinha esquecido de como conduzir um barco a vapor, nem de como desfrutar disso.
CAPÍTULO 25
De Cairo a Hickman
O cenário, de St. Louis a Cairo — duzentas milhas — é variado e belo. As colinas estavam agora vestidas com a folhagem fresca da primavera, e eram um cenário gracioso e digno para o rio largo que corria entre elas. A nossa viagem começou auspiciosamente, com um dia perfeito, em termos de brisa e sol, e o nosso barco lançava as milhas para trás com satisfatório andamento.
Encontrámos uma linha férrea que se intrometia em Chester, Illinois; Chester tem agora também uma penitenciária, e de resto está a progredir. Em Grand Tower, também, havia uma linha férrea; e outra em Cape Girardeau. A primeira cidade recebe o nome de um enorme pilar de rocha, atarracado, que se ergue da água no lado do Missouri do rio — uma peça da obra imaginativa da natureza — e é uma das características mais pitorescas da paisagem daquela região. Como vizinhos mais próximos ou distantes, a Torre tem o Forno do Diabo — assim chamado, talvez, porque não se parece poderosamente com o forno de ninguém; e a Mesa de Chá do Diabo — esta última uma grande massa de rocha de superfície lisa, com uma haste de cálice de vinho a diminuir, empoleirada a uns cinquenta ou sessenta pés acima do rio, ao lado de um precipício florido e engalanado, e suficientemente parecida com uma mesa de chá para servir a qualquer um, Diabo ou Cristão. Rio abaixo temos o Cotovelo do Diabo e a Pista de Corridas do Diabo, e muitas outras propriedades dele que agora não me recordo.
A cidade de Grand Tower era evidentemente um lugar mais movimentado do que fora nos velhos tempos, mas parecia precisar de algumas reparações aqui e ali, e uma nova demão de cal em todo o lado. Ainda assim, foi agradável para mim ver a velha camada mais uma vez. O 'Tio' Mumford, o nosso segundo oficial, disse que o lugar tinha sofrido com a água alta e, consequentemente, não estava com o seu melhor aspeto agora. Mas disse que não era estranho que não desperdiçasse cal consigo mesma, pois ali fabricava-se mais cal, e de melhor qualidade, do que em qualquer outro lugar do Oeste; e acrescentou: "Numa fazenda de laticínios nunca se consegue leite para o café, nem açúcar para ele numa plantação de açúcar; e é contra o senso comum ir a uma cidade de cal procurar cal para caiar". Pela minha própria experiência, sabia que os dois primeiros itens eram verdadeiros; e também que as pessoas que vendem doces não se preocupam com doces; portanto, havia plausibilidade na observação final do Tio Mumford de que "as pessoas que fabricam cal dedicam-se mais à religião do que à cal". O Tio Mumford disse, ainda, que Grand Tower era um grande centro de carvão e um lugar próspero.
Cape Girardeau situa-se numa encosta e tem uma aparência elegante. Há uma grande escola Jesuíta para rapazes no sopé da cidade, junto ao rio. O Tio Mumford disse que tinha uma reputação de rigor tão elevada como qualquer instituição semelhante no Missouri! Havia outra faculdade mais acima, num cume arejado — um edifício brilhante e novo, pitoresca e peculiarmente provido de torres e pináculos — uma espécie de galheteiro gigante, com as garrafas todas completas. O Tio Mumford disse que Cape Girardeau era a Atenas do Missouri, e continha várias faculdades além das já mencionadas; e todas elas com uma base religiosa de um tipo ou de outro. Ele chamou a minha atenção para o que chamou de "aspeto religioso forte e penetrante da cidade", mas eu não consegui ver que parecesse mais religioso do que as outras cidades nas colinas com a mesma inclinação e construídas com o mesmo tipo de tijolos. As parcialidades fazem frequentemente com que as pessoas vejam mais do que realmente existe.
O Tio Mumford é, há trinta anos, um imediato no rio. É um homem de senso prático e cabeça equilibrada; observou; teve muita experiência de um tipo e de outro; tem opiniões; tem, também, um traço de poesia apenas percetível na sua composição, um dom fácil de fala, um rosnado espesso na voz, e um ou dois palavrões onde os consegue alcançar quando as exigências do seu cargo requerem um estímulo espiritual. Ele é um imediato do abençoado tipo antigo; e anda a praguejar gravemente por todo o lado, quando há trabalho pela frente, de uma forma que adoça o coração do ex-trabalhador de barcos a vapor com doces e suaves saudades dos dias desaparecidos que não voltarão mais. "Levanta-te daí! Vais demorar o dia todo? Porque não disseste que estavas petrificado nas pernas traseiras, antes de embarcares!"
Ele é um homem firme com a sua tripulação; gentil e justo, mas firme; por isso eles gostam dele, e ficam com ele. Ele ainda veste o traje desleixado da velha geração de imediatos; mas na próxima viagem a Anchor Line tê-lo-á de uniforme — um elegante uniforme naval azul, com botões de latão, juntamente com todos os oficiais da linha — e então ele será um tipo de cenário totalmente diferente do que é agora.
Uniformes no Mississippi! Supera todas as outras mudanças juntas, pela surpresa. Ainda assim, há outra surpresa — que não tenha sido feito há cinquenta anos. É tão manifestamente sensato que se poderia ter pensado nisso mais cedo, supor-se-ia. Durante cinquenta anos, ali, o passageiro inocente a precisar de ajuda e informação tem confundido o imediato com o cozinheiro, e o capitão com o barbeiro — e sendo rudemente tratado por isso, também. Mas os seus problemas acabaram agora. E o aspeto grandemente melhorado do pessoal do barco é outra vantagem alcançada pelo período da reforma do vestuário.
Naveguei pela curva abaixo de Cape Girardeau. Costumavam chamar-lhe "Curva do Timoneiro"; navegação fácil e muita água nela, sempre; praticamente o único lugar no Rio Superior que um novo novato podia levar um barco, em águas baixas.
Thebes, na cabeceira da Grand Chain, e Commerce no sopé, eram cidades facilmente memoráveis, pois não tinham sofrido alterações visíveis. Nem a Chain, também — na natureza das coisas; pois é uma cadeia de rochas submersas admiravelmente dispostas para capturar e matar barcos a vapor em noites más. Muitos cadáveres de barcos a vapor jazem ali enterrados, fora da vista; entre outros, o meu primeiro amigo, o "Paul Jones"; ele partiu o fundo, e afundou-se como um pote, segundo o historiador me disse — o Tio Mumford. Ele disse que tinha uma égua ruça a bordo, e um pregador. Para mim, isto explicava suficientemente o desastre; como explicava, claro, para Mumford, que acrescentou:
— Mas há muitas pessoas ignorantes que escarneceriam de tal assunto, e chamar-lhe-iam superstição. Mas notará sempre que são pessoas que nunca viajaram com uma égua ruça e um pregador. Desci o rio uma vez nessa companhia. Encalhámos em Bloody Island; encalhámos em Hanging Dog; encalhámos logo abaixo desta mesma Commerce; batemos na Beaver Dam Rock; atingimos uma das piores quebras no 'Cemitério' atrás de Goose Island; tivemos um estivador morto numa briga; queimámos uma caldeira; partimos um veio; colapsámos um tubo; e entrámos em Cairo com nove pés de água no porão — podem ter sido mais, podem ter sido menos. Lembro-me disso como se fosse ontem. Os homens perderam a cabeça de terror. Pintaram a égua de azul, à vista da cidade, e atiraram o pregador borda fora, ou não teríamos chegado de todo. O pregador foi pescado e salvo. Ele próprio reconheceu que tinha sido o culpado. Lembro-me de tudo, como se fosse ontem.
Que esta combinação — de pregador e égua ruça — deva gerar calamidade, parece estranho, e à primeira vista inacreditável; mas o facto é fortificado por tantas provas irrefutáveis que duvidar é desonrar a razão. Eu próprio recordo-me de um caso em que um capitão foi avisado por numerosos amigos para não levar uma égua ruça e um pregador consigo, mas persistiu no seu propósito apesar de tudo o que se podia dizer; e no mesmo dia — pode ter sido no dia seguinte, e alguns dizem que foi, embora eu pense que foi no mesmo dia — ele embebedou-se e caiu pela escotilha, e foi levado para casa como um cadáver. Isto é literalmente verdade.
Nenhum vestígio da Hat Island resta agora; cada pedaço dela foi levado pela água. Nem sequer me lembro em que parte do rio costumava ficar, exceto que era algures entre St. Louis e Cairo. Era uma região má — tudo à volta e perto da Hat Island, nos primeiros tempos. Um agricultor que vivia na margem do Illinois ali, disse que vinte e nove barcos a vapor tinham deixado os seus ossos espalhados à vista da sua casa. Entre St. Louis e Cairo os naufrágios de barcos a vapor têm uma média de um por milha; — duzentos naufrágios, ao todo.
Consegui reconhecer grandes mudanças de Commerce para baixo. A Beaver Dam Rock estava agora no meio do rio e a provocar uma "rebentação" prodigiosa; costumava ficar perto da margem e os barcos passavam por fora dela. Uma grande ilha que costumava ficar bem no meio do rio retirou-se para a margem do Missouri, e os barcos já não passam perto dela. A ilha chamada Jacket Pattern foi reduzida a uma cunha e está destinada a uma destruição próxima. A Goose Island desapareceu quase toda, restando apenas um pequeno bocado do tamanho de um barco a vapor. O perigoso "Graveyard", por entre cujos inúmeros destroços costumávamos abrir caminho tão lenta e cautelosamente, está agora muito longe do canal e não é um terror para ninguém. Uma das ilhas anteriormente chamadas de Two Sisters desapareceu por completo; a outra, que costumava ficar perto da margem do Illinois, encontra-se agora no lado do Missouri, a uma milha de distância; está ligada solidamente à margem e é preciso um olho atento para ver onde está a emenda — mas continua a ser terreno do Illinois, e as pessoas que lá vivem têm de se transportar por balsa e trabalhar nas estradas do Illinois e pagar impostos ao Illinois: um singular estado de coisas!
Perto da foz do rio, várias ilhas tinham desaparecido — levadas pela corrente. Cairo ainda lá estava — facilmente visível através da longa e plana ponta sobre cuja extremidade distante se ergue; mas tivemos de navegar uma longa volta para lá chegar. A noite caiu enquanto saíamos do "Upper River" e encontrávamos as cheias do Ohio. Avançávamos sem ansiedade; pois a rocha oculta que costumava ficar mesmo no caminho moveu-se rio acima, para longe do canal; ou melhor, cerca de um condado foi parar ao rio a partir da ponta do Missouri, e a ponta de Cairo "cresceu" e acrescentou-se à sua longa língua de território correspondentemente. O Mississippi é um rio justo e equitativo; nunca atira a quinta de um homem borda fora sem construir uma nova quinta, exatamente igual, para o vizinho desse homem. Isto evita ressentimentos.
Ao entrar em Cairo, estivemos quase a matar um barco a vapor que não prestou atenção ao nosso apito e tentou atravessar a nossa proa. Ao recuar com força, salvámo-lo; o que foi uma grande perda, pois ele teria dado uma boa peça de literatura.
Cairo é uma cidade ativa agora; e está construída de forma sólida, e tem um aspeto citadino que contrasta notavelmente com o seu estado anterior, conforme o retrato que o Sr. Dickens fez dela. Contudo, já se construía com tijolos quando a vi pela última vez — altura em que o Coronel (agora General) Grant exercitava o seu primeiro comando lá. O Tio Mumford diz que as bibliotecas e as escolas dominicais fizeram um bom trabalho em Cairo, tal como os pedreiros. Cairo tem um forte comércio ferroviário e fluvial, e a sua situação na junção dos dois grandes rios é tão vantajosa que não pode deixar de prosperar.
Quando saí, de manhã, tínhamos passado Columbus, Kentucky, e aproximávamo-nos de Hickman, uma bonita cidade, empoleirada numa bela colina. Hickman fica numa rica região de tabaco e, anteriormente, desfrutava de um grande e lucrativo comércio nesse produto, recolhendo-o lá nos seus armazéns de uma vasta área de campo e transportando-o por barco; mas o Tio Mumford diz que construíram uma linha férrea para facilitar um pouco mais este comércio, e ele acha que isso o facilitou da maneira errada — tirou a maior parte do comércio das mãos da cidade ao "apanhá-lo ao longo da linha sem o recolher às suas portas."
CAPÍTULO 26
Sob Fogo
A conversa começou a girar em torno da guerra, pois estávamos a chegar à extremidade superior do antigo teatro de batalhas por esta altura. Columbus ficava logo atrás de nós, por isso falou-se bastante sobre a famosa batalha de Belmont. Vários oficiais do barco tinham visto serviço ativo na frota de guerra do Mississippi. Percebi que, no início, se sentiam tristemente deslocados naquele tipo de atividade, mas depois acostumaram-se, reconciliaram-se com ela e sentiam-se mais ou menos em casa. Um dos nossos pilotos teve a sua primeira experiência de guerra no combate de Belmont, como piloto de um barco ao serviço dos Confederados. Tive muitas vezes a curiosidade de saber como se sentiria um novato, na sua primeira batalha, empoleirado solitário e sozinho no alto de uma casa do piloto, um alvo para quem quisesse, e sem ninguém ao seu lado para o envergonhar de mostrar medo quando as coisas ficavam quentes e perigosas à sua volta; portanto, para mim, a sua história foi valiosa — preencheu uma lacuna que todas as histórias tinham deixado vazia até aquele momento.
A PRIMEIRA BATALHA DO PILOTO
Ele disse —
Foi a 7 de novembro. O combate começou às sete da manhã. Eu estava no "R. H. W. Hill". Levei uma carga de tropas de Columbus. Voltei e levei uma bateria de artilharia. O meu parceiro disse que ia ver o combate; queria que eu fosse também. Disse que não, que não estava ansioso, que o veria da casa do piloto. Ele disse que eu era um cobarde e foi-se embora.
Aquele combate foi uma visão terrível. O General Cheatham fez os seus homens despirem os casacos e atirarem-nos para uma pilha, e disse: "Agora sigam-me para o inferno ou para a vitória!" Ouvi-o dizer isso da casa do piloto; e depois ele galopou lá para dentro, à frente das suas tropas. O velho General Pillow, com o seu cabelo branco, montado num cavalo branco, também avançou, liderando as suas tropas tão vivaz como um rapaz. De repente, os Federais perseguiram os rebeldes de volta, e lá vinham eles! a correr, cada um por si e que o Diabo leve o último! e por baixo da margem eles arrastaram-se e abrigaram-se. Eu estava sentado com as pernas penduradas na janela da casa do piloto. De repente, notei um som sibilante a passar pelo meu ouvido. Julguei que fosse uma bala. Não parei para pensar em nada, inclinei-me para trás e aterrei no chão, e fiquei lá. As balas vinham a rugir à volta. Três balas de canhão atravessaram a chaminé; uma bala levou o canto da casa do piloto; granadas assobiavam e explodiam por todo o lado. Tempos muito quentes — desejei não ter vindo.
Fiquei ali deitado no chão da casa do piloto, enquanto os tiros vinham cada vez mais depressa. Rastejei para trás do grande fogão, no meio da casa do piloto. Pouco depois, uma bala minie atravessou o fogão e roçou-me a cabeça, cortando-me o chapéu. Julguei que estava na hora de sair dali. O capitão estava no convés superior com um major ruivo de Memphis — um homem de boa aparência. Ouvi-o dizer que queria sair dali, mas que "aquele piloto foi morto". Rastejei para o lado de estibordo para puxar a corda do sino para a fazer recuar; levantei-me e dei uma olhadela, e vi cerca de quinze buracos de bala através dos vidros das janelas; tinham vindo tão depressa que não os tinha notado. Olhei para a água, e os salpicos dos tiros eram como uma chuva de granizo. Achei melhor sair daquele lugar. Desci pelo cabo da casa do piloto, de cabeça primeiro — não de pés, mas de cabeça primeiro — deslizei para baixo — antes de atingir o convés, o capitão disse que tínhamos de sair. Então subi pelo cabo e voltei para o chão. Por essa altura, apanharam o meu parceiro e traziam-no para a casa do piloto entre dois soldados. Alguém tinha dito que eu tinha morrido. Ele pôs a cabeça para dentro e viu-me no chão a tentar alcançar os sinos de marcha atrás. Ele disse: "Oh, raio, ele não foi atingido", e soltou-se dos homens que o seguravam pelo colarinho, e correu para baixo. Ficámos lá até às três da tarde, e depois conseguimos sair sem problemas.
Da próxima vez que vi o meu parceiro, disse: "Agora, aparece, sê honesto e diz-me a verdade. Onde foste tu quando foste ver essa batalha?" Ele diz: "Fui para o porão."
Durante todo aquele combate estive quase morto de medo. Mal sabia o que fazia, estava tão assustado; mas veja, ninguém sabia disso a não ser eu. No dia seguinte, o General Polk mandou chamar-me e elogiou-me pela minha bravura e conduta galante. Nunca disse nada, deixei ficar por isso mesmo. Julguei que não era verdade, mas não me competia a mim contradizer um oficial general.
Pouco depois disso fiquei doente, exausto, e tive de ir para Hot Springs. Quando lá estive, recebi muitas cartas de comandantes a dizer que queriam que eu voltasse. Recusei, porque não estava bem nem forte o suficiente; mas mantive-me calado e guardei a reputação que tinha feito.
Uma história simples, contada de forma direta; mas Mumford disse-me que aquele piloto "dourou aquele susto dele, em certos pontos"; que a sua carreira subsequente na guerra era a prova disso.
Descemos através do canal da Island No. 8, e eu fui para o convés de baixo e entrei em conversa com um passageiro, um homem bonito, com um porte descontraído e um rosto inteligente. Aproximávamo-nos da Island No. 10, um lugar tão célebre durante a guerra. A casa deste cavalheiro ficava na margem principal, nas redondezas. Tive alguma conversa com ele sobre os tempos da guerra; mas, pouco depois, o discurso caiu sobre as "vinganças", pois em nenhuma parte do Sul a *vendetta* floresceu mais vivamente, ou durou mais tempo entre famílias rivais, do que nesta região em particular. Este cavalheiro disse —
"Já houve mais do que uma vingança por aqui, nos velhos tempos, mas creio que a pior foi entre os Darnells e os Watsons. Ninguém sabe agora por que começou a primeira disputa, foi há tanto tempo; os Darnells e os Watsons não sabem, se é que algum deles ainda está vivo, o que não creio que esteja. Alguns dizem que foi por causa de um cavalo ou de uma vaca — de qualquer forma, foi uma questão pequena; o dinheiro envolvido não tinha importância nenhuma — nenhuma no mundo — ambas as famílias eram ricas. A coisa podia ter sido resolvida facilmente; mas não, isso não servia. Palavras rudes foram trocadas; e então, nada a não ser sangue podia resolver isso depois. Aquele cavalo ou vaca, fosse o que fosse, custou sessenta anos de mortes e ferimentos! De ano em ano alguém era baleado, de um lado ou de outro; e assim que uma geração era eliminada, os seus filhos retomavam a vingança e continuavam-na. E é exatamente como digo; continuaram a disparar uns contra os outros, ano após ano — fazendo disso uma espécie de religião, está a ver — até que se tinham esquecido, há muito tempo, do que era tudo aquilo. Onde quer que um Darnell apanhasse um Watson, ou um Watson apanhasse um Darnell, um deles ia ser ferido — a única questão era qual deles apanhava o outro primeiro. Eles disparavam uns contra os outros, mesmo na presença da família. Eles não andavam à caça uns dos outros, mas quando se encontravam por acaso, bufavam e começavam. Homens disparavam contra rapazes, rapazes disparavam contra homens. Um homem disparou contra um rapaz de doze anos — encontrou-o nos bosques e não lhe deu hipótese nenhuma. Se lhe tivesse dado uma hipótese, o rapaz tê-lo-ia baleado. Ambas as famílias pertenciam à mesma igreja (toda a gente por aqui é religiosa); durante todos estes cinquenta ou sessenta anos de zanga, ambas as tribos estavam lá todos os domingos, para adorar. Viviam de cada lado da linha, e a igreja ficava num ancoradouro chamado Compromise. Metade da igreja e metade do corredor ficava no Kentucky, a outra metade no Tennessee. Aos domingos, via-se as famílias a chegar, todas com as suas roupas de domingo, homens, mulheres e crianças, e a desfilar pelo corredor e a sentar-se, calma e ordenadamente, um grupo no lado do Tennessee da igreja e o outro no lado do Kentucky; e os homens e rapazes encostavam as suas armas à parede, à mão, e depois todos se juntavam na oração e louvor; embora digam que o homem junto ao corredor não se ajoelhava, juntamente com o resto da família; ficava de guarda, por assim dizer. Não sei; nunca estive nessa igreja na minha vida; mas lembro-me que era isso que se dizia.
"Vinte ou vinte e cinco anos atrás, uma das famílias da vingança apanhou um jovem de dezanove anos e matou-o. Não me lembro se foram os Darnells e os Watsons, ou uma das outras vinganças; mas, de qualquer forma, este jovem chegou a cavalo — um barco a vapor estava lá atracado na altura — e a primeira coisa que viu foi um bando inteiro do inimigo. Saltou para trás de uma pilha de lenha, mas eles rodearam-no e começaram o ataque, ele a disparar de volta, e eles a galopar e a saltar e a gritar e a disparar com toda a força. Acho que ele feriu um par deles; mas eles cercaram-no e perseguiram-no até ao rio; e enquanto ele nadava rio abaixo, eles seguiram pela margem e continuaram a disparar contra ele; e quando ele chegou à margem estava morto. O Windy Marshall contou-me sobre isso. Ele viu. Ele era o capitão do barco.
"Anos atrás, os Darnells ficaram tão reduzidos que o velho e os seus dois filhos decidiram que iam deixar o país. Começaram a apanhar o barco a vapor logo acima da No. 10; mas os Watsons souberam disso; e chegaram exatamente quando os dois jovens Darnells subiam a escada com as suas esposas nos braços. O combate começou então, e nunca chegaram a ir mais longe — ambos foram mortos. Depois disso, o velho Darnell meteu-se em sarilhos com o homem que geria a balsa, e o barqueiro levou a pior — e morreu. Mas os amigos dele dispararam contra o velho Darnell de lado a lado — encheram-no de balas e acabaram com ele."
O cavalheiro rural que me contou estas coisas tinha sido criado com facilidade e conforto, era um homem de bons princípios e com formação universitária. A sua gramática solta era fruto de um hábito descuidado, não de ignorância. Este hábito entre homens educados no Oeste não é universal, mas é prevalecente — prevalecente nas vilas, certamente, se não nas cidades; e a um grau que não se pode deixar de notar e admirar. Ouvi um habitante do Oeste que seria considerado um homem altamente educado em qualquer país dizer "não faz mal, não faz diferença nenhuma, de qualquer forma." Uma residente de longa data que estava presente ouviu, mas não causou qualquer impressão nela. Ela foi capaz de recordar o facto mais tarde, quando lembrada, mas confessou que as palavras não lhe tinham soado mal na altura — uma confissão que sugere que, se pessoas educadas podem ouvir tal gramática blasfema, de tal fonte, e estar inconscientes do ato, o crime deve ser toleravelmente comum — tão comum que o ouvido geral se tornou embotado pela familiaridade com ele, e já não está alerta, já não é sensível a tais afrontas.
Ninguém no mundo fala uma gramática imaculada; ninguém a escreveu alguma vez — ninguém, nem no mundo nem fora dele (tomando as Escrituras como prova neste último ponto); portanto, não seria justo exigir perfeição gramatical aos povos do Vale; mas pode-se justamente exigir que eles, e todos os outros povos, se abstenham de *deliberada e propositadamente* corromper a sua gramática.
Encontrei o rio muito mudado na Island No. 10. A ilha de que me lembrava tinha cerca de três milhas de comprimento e um quarto de milha de largura, densamente arborizada, e ficava perto da margem do Kentucky — a menos de duzentas jardas dela, diria eu. Agora, no entanto, tinha-se de a procurar com um binóculo. Não restava dela nada mais do que uma pequena mancha insignificante, e esta já não estava perto da margem do Kentucky; estava bem encostada à margem oposta, a uma milha de distância. Em tempos de guerra, a ilha tinha sido um lugar importante, pois dominava a situação; e, estando fortemente fortificada, não havia como passar por ela. Ficava entre as divisões superior e inferior das forças da União, e mantinha-as separadas, até que uma junção foi finalmente efetuada através da faixa de terra do Missouri; mas, estando a ilha agora ligada a essa faixa, o rio largo está sem obstrução.
Nesta região, o rio passa do Kentucky para o Tennessee, volta para o Missouri, depois volta para o Kentucky, e daí entra novamente no Tennessee. Portanto, uma ou duas milhas do Missouri estão dentro do Tennessee.
A cidade de New Madrid parecia estar muito mal; mas, de resto, inalterada da sua condição e aspeto anteriores. Os seus quarteirões de casas de madeira ainda estavam agrupados na mesma velha planície plana, e rodeados pelas mesmas velhas florestas. Estava tão tranquila como anteriormente, e aparentemente não tinha crescido nem diminuído de tamanho. Dizia-se que a recente subida das águas a tinha invadido e danificado a sua aparência. Esta foi uma notícia surpreendente; pois, em maré baixa, a margem do rio é muito alta ali (cinquenta pés), e no meu tempo uma inundação tinha sido sempre considerada uma impossibilidade. Esta cheia atual de 1882 será sem dúvida celebrada na história do rio por várias gerações antes que um dilúvio de magnitude semelhante seja visto. Colocou todas as terras baixas desprotegidas debaixo de água, desde Cairo até à foz; partiu os diques em muitos lugares, em ambos os lados do rio; e em algumas regiões a sul, quando a cheia estava no seu ponto máximo, o Mississippi tinha setenta milhas de largura! Perderam-se várias vidas, e a destruição de propriedade foi pavorosa. As colheitas foram destruídas, casas levadas pela corrente, e homens e gado sem abrigo forçados a refugiar-se em elevações dispersas aqui e ali nos campos e florestas, e esperar em perigo e sofrimento até que os barcos postos em serviço pelos governos nacional e local e pela iniciativa dos jornais pudessem vir e resgatá-los. As propriedades de multidões de pessoas ficaram debaixo de água durante meses, e os mais pobres teriam morrido de fome às centenas se o socorro não tivesse sido prontamente fornecido. A água tinha estado a baixar durante um tempo considerável, ainda assim, como regra, encontrámos as margens ainda debaixo de água.
CAPÍTULO 27
Alguns Artigos Importados
Encontrámos dois barcos a vapor em New Madrid. Dois barcos a vapor à vista ao mesmo tempo! um espetáculo pouco frequente agora no solitário Mississippi. A solidão deste solene e estupendo dilúvio é impressionante — e deprimente. Légua após légua, e ainda légua após légua, ele despeja a sua maré cor de chocolate, entre as suas sólidas paredes de floresta, as suas margens quase desabitadas, raramente com uma vela ou um objeto em movimento de qualquer espécie para perturbar a superfície e quebrar a monotonia da solitária e aquosa vastidão; e assim o dia passa, a noite vem, e novamente o dia — e ainda o mesmo, noite após noite e dia após dia — majestosa, inalterável mesmice de serenidade, repouso, tranquilidade, letargia, vacuidade — símbolo da eternidade, realização do céu pintado por padres e profetas, e ansiado pelos bons e pelos imprudentes!
Imediatamente após a guerra de 1812, turistas começaram a vir à América, vindos de Inglaterra; dispersos no início, depois uma espécie de procissão deles — uma procissão que manteve a sua marcha paciente e laboriosa através da terra durante muitos, muitos anos. Cada turista tomava notas, voltava para casa e publicava um livro — um livro que era habitualmente calmo, verdadeiro, razoável, gentil; mas que parecia exatamente o oposto para os nossos ancestrais de pés sensíveis. Um olhar sobre estes livros de turistas mostra-nos que, em certos aspetos, o Mississippi não sofreu qualquer mudança desde que esses estranhos o visitaram, mas permanece hoje quase como era então. As emoções produzidas nesses peitos estrangeiros por estes aspetos não foram todas formadas sobre um padrão, claro; tiveram de ser variadas, logo ao princípio, porque os turistas mais antigos eram obrigados a originar as suas emoções, enquanto que em países mais velhos se pode sempre pedir emprestadas emoções aos predecessores. E, note, as emoções estão entre as coisas mais difíceis no mundo de fabricar do nada; é mais fácil fabricar sete factos do que uma emoção. O Capitão Basil Hall, da Marinha Real, escrevendo há cinquenta e cinco anos, diz —
"Aqui vislumbrei pela primeira vez o objeto que há tanto tempo desejava contemplar, e senti-me amplamente recompensado naquele momento por todo o trabalho que tinha tido em vir tão longe; e fiquei a olhar para o rio a passar até estar demasiado escuro para distinguir qualquer coisa. Mas não foi até ter visitado o mesmo lugar uma dúzia de vezes que cheguei a uma compreensão correta da grandeza da cena."
O Mississippi! Era com emoções indescritíveis que eu me via pela primeira vez a flutuar nas suas águas. Quantas vezes, nos meus sonhos de rapazola e nas visões que se lhes seguiram quando desperto, a minha imaginação pintou para si própria o senhorial curso de água, rolando com corrente tumultuosa através da região sem limites à qual deu o seu nome, e reunindo em si, no seu caminho para o oceano, as águas tributárias de quase todas as latitudes na zona temperada! Ei-lo ali, pois, na sua realidade, e eu, finalmente, a navegar a vapor contra a sua maré. Contemplei-o com aquela reverência com que todos devem olhar para um grande traço da natureza exterior.
Tanto quanto às emoções. Os turistas, um e todos, comentam a profunda e opressiva solidão e desolação do vasto rio. O Capitão Basil Hall, que o viu em altura de cheias, diz —
"Por vezes passávamos ao longo de distâncias de vinte ou trinta milhas sem ver uma única habitação. Um artista, em busca de apontamentos para uma pintura do dilúvio, tê-los-ia encontrado aqui em abundância."
O primeiro será o último, etc. Apenas há duzentos anos, o velho e original primeiro e mais galante de todos os turistas estrangeiros, pioneiro, cabeça da procissão, terminou a sua cansativa e entediante viagem de descoberta pelos solenes trechos do grande rio — La Salle, cujo nome durará tanto quanto o próprio rio durará. Citamos o Sr. Parkman —
"E agora aproximavam-se do fim da sua jornada. No sexto dia de abril, o rio dividiu-se em três canais largos. La Salle seguiu o do oeste, e D'Autray o do leste; enquanto Tonty tomou a passagem central. À medida que derivava pela corrente turva, entre as margens baixas e pantanosas, a água salobra tornou-se salmoura, e a brisa tornou-se fresca com o hálito salgado do mar. Então, o largo seio do grande Golfo abriu-se à sua vista, agitando as suas vagas inquietas, sem limites, sem voz, solitário como quando nasceu do caos, sem uma vela, sem um sinal de vida."
Então, num pedaço de terra firme, La Salle ergueu uma coluna "ostentando as armas de França; os franceses foram reunidos sob armas; e enquanto os índios da Nova Inglaterra e as suas mulheres olhavam em silêncio de espanto, cantaram o Te Deum, o Exaudiat e o Domine Salvum Fac Regem."
Depois, enquanto a mosquetaria disparava e gritos de regozijo irrompiam, o vitorioso descobridor plantou a coluna e fez proclamação em voz alta, tomando posse formal do rio e das vastas terras por ele regadas, em nome do Rei. A coluna trazia esta inscrição —
LOUIS LE GRAND, ROY DE FRANCE ET DE NAVARRE, REGNE; LE NEUVIEME AVRIL, 1682.
Nova Orleães pretendia celebrar condignamente, neste presente ano, o bicentenário deste ilustre evento; mas quando chegou a altura, todas as suas energias e dinheiro excedente foram necessários noutras direções, pois a cheia estava então sobre a terra, causando estragos e devastação por toda a parte.
CAPÍTULO 28
O Tio Mumford Descarrega
DURANTE todo o dia oscilámos rio abaixo e tivemos a corrente quase inteiramente para nós. Antigamente, num tal estado das águas, teríamos passado por acres de jangadas de madeira e dezenas de grandes barcaças de carvão; também ocasionais pequenas chatas de comércio, vendendo de quinta em quinta, com a família do vendedor a bordo; possivelmente, uma chata ao acaso, transportando um humilde Hamlet e Ca. numa viagem dramática itinerante. Mas estes estavam todos ausentes. Muito tarde no dia, vimos um barco a vapor; apenas um, e nada mais. Estava a descansar à sombra, dentro da foz arborizada do Rio Obion. O telescópio revelou o facto de que tinha o meu nome — ou ele tinha o meu nome, conforme prefira. Como esta foi a primeira vez que encontrei esta espécie de honra, parece desculpável mencioná-la e, ao mesmo tempo, chamar a atenção das autoridades para a tardança do meu reconhecimento da mesma.
Notei uma grande mudança no rio, na Ilha 21. Era uma ilha muito grande, e costumava ficar em direção ao meio da corrente; mas está agora unida firmemente à margem principal, e retirou-se dos negócios como ilha.
À medida que nos aproximávamos do famoso e formidável Plum Point, caiu a escuridão, mas isso não era nada por que estremecer — nestes tempos modernos. Pois agora o governo nacional transformou o Mississippi numa espécie de procissão de tochas de duas mil milhas. Na cabeça de cada travessia, e no pé de cada travessia, o governo colocou uma lâmpada de brilho claro. Nunca se está inteiramente às escuras, agora; há sempre um farol à vista, quer à nossa frente, ou atrás, ou a par. Poder-se-ia quase dizer que as lâmpadas foram desperdiçadas ali. Dezenas de travessias estão iluminadas que não eram baixios quando foram criadas, e nunca foram baixios desde então; travessias tão simples, também, e tão direitas, que um barco a vapor pode passar por elas sem qualquer ajuda, depois de ter passado uma vez. Lâmpadas em tais lugares não são, claro, desperdiçadas; é muito mais conveniente e confortável para um piloto manter-se nelas do que numa extensão de escuridão informe que não se mantém quieta; e o dinheiro é poupado ao barco, ao mesmo tempo, pois ele pode, claro, fazer mais milhas com o leme ao centro do que com ele travado através da popa e a retê-lo.
Mas isto tirou o romance à pilotagem, em grande medida. Isto, e algumas outras coisas juntas, tiraram-lhe todo o romance. Por exemplo, o perigo dos troncos submersos não é agora o que outrora foi. Os barcos de limpeza de troncos do governo andam a patrulhar para cima e para baixo, nestes dias pragmáticos, a arrancar os dentes ao rio; eles erradicaram todos os velhos aglomerados que tornavam muitas localidades tão formidáveis; e não permitem que novos se acumulem. Antigamente, se o seu barco se soltasse, numa noite negra, e se lançasse para os bosques, era um momento de ansiedade para si; tal como também o era quando tateava o seu caminho através da escuridão solidificada num canal estreito; mas tudo isso está mudado agora — acende a sua luz elétrica, transforma a noite em dia num piscar de olhos, e os seus perigos e ansiedades chegam ao fim. Horace Bixby e George Ritchie cartografaram as travessias e estabeleceram os cursos com bússola; inventaram uma lâmpada para acompanhar a carta, e patentearam tudo. Com estas ajudas, pode-se agora navegar no nevoeiro, com segurança considerável, e com uma confiança desconhecida nos velhos tempos.
Com estes abundantes faróis, o banimento dos troncos, muita luz do dia numa caixa e pronta a ser ligada sempre que necessário, e uma carta e bússola para combater o nevoeiro, a pilotagem, num bom estado das águas, é agora quase tão segura e simples como conduzir uma diligência, e mal é três vezes mais romântica.
E agora nestes novos dias, estes dias de mudança infinita, a Linha Anchor elevou o capitão acima do piloto, dando-lhe o salário mais alto dos dois. Isto foi ir longe, mas não pararam por aí. Decretaram que o piloto deve permanecer no seu posto, e fazer a sua vigília até ao fim, quer o barco esteja a navegar ou amarrado à margem. Nós, que outrora fomos os aristocratas do rio, não podemos ir para a cama agora, como costumávamos fazer, e dormir enquanto cem toneladas de carga são puxadas a bordo; não, temos de nos sentar na casa do leme; e manter-nos acordados, também. Na verdade, estamos a ser tratados como um bando de marinheiros e engenheiros. O Governo tirou o romance à nossa profissão; a Companhia tirou-lhe o estatuto e a dignidade.
Plum Point parecia o que sempre tinha parecido à noite, com a exceção de que agora havia faróis para marcar as travessias, e também um monte de outras luzes na Ponta e ao longo da sua margem; estas últimas cintilando da frota da Comissão Fluvial dos Estados Unidos, e de uma aldeia que os funcionários construíram em terra para escritórios e para os empregados do serviço. Os engenheiros militares da Comissão assumiram sobre os seus ombros o trabalho de fazer o Mississippi de novo — um trabalho superado em tamanho apenas pelo trabalho original de o criar. Estão a construir diques laterais aqui e ali, para desviar a corrente; e diques para a confinar em limites mais estreitos; e outros diques para a fazer ficar lá; e por milhas inumeráveis ao longo do Mississippi, estão a abater a frente florestal por cinquenta jardas para trás, com o objetivo de rapar a margem até ao nível da maré baixa com a inclinação do telhado de uma casa, e lastrá-la com pedras; e em muitos lugares protegeram as margens em desmoronamento com filas de estacas. Quem conhece o Mississippi afirmará prontamente — não em voz alta, mas para si próprio — que dez mil Comissões Fluviais, com as minas do mundo por trás delas, não podem domar aquele rio sem lei, não podem contê-lo ou confiná-lo, não podem dizer-lhe, vai por aqui, ou vai por ali, e fazê-lo obedecer; não podem salvar uma margem que ele sentenciou; não podem barrar o seu caminho com uma obstrução que ele não destrua, dance por cima, e da qual se ria. Mas um homem discreto não colocará estas coisas em palavras faladas; pois os engenheiros de West Point não têm superiores em parte alguma; eles sabem tudo o que pode ser conhecido da sua ciência abstrusa; e assim, uma vez que concebem que podem algemar e acorrentar aquele rio e mandar nele, é apenas sabedoria para o homem não científico manter-se calado, não se pôr em evidência, e esperar até que o façam. O Capitão Eads, com os seus molhes, fez um trabalho na foz do Mississippi que parecia claramente impossível; por isso, não sentimos agora plena confiança para profetizar contra impossibilidades semelhantes. De outra forma, alguém diria que a Comissão poderia tão bem intimidar os cometas nos seus cursos e tentar fazê-los comportar-se, como tentar intimidar o Mississippi para uma conduta reta e razoável.
Consultei o Tio Mumford a respeito disto e de assuntos afins; e dou aqui o resultado, estenograficamente relatado, e por isso digno de confiança como sendo completo e correto; exceto que deixei aqui e ali observações que foram dirigidas aos homens, tais como "onde diabo vais com esse barril agora?", e que me pareceu que quebravam o fluxo da declaração escrita, sem compensar acrescentando à sua informação ou à sua clareza. Não que me tenha aventurado a riscar todas essas interjeições; removi apenas as que eram obviamente irrelevantes; sempre que ocorreu uma sobre a qual senti qualquer dúvida, julguei mais seguro deixá-la permanecer.
AS IMPRESSÕES DO TIO MUMFORD
O Tio Mumford disse —
"Tanto tempo quanto fui imediato de um barco a vapor — trinta anos — observei este rio e estudei-o. Talvez pudesse ter aprendido mais sobre ele em West Point, mas se acredito nisso oxalá eu seja — *porque estás a chupar os dedos aí? — apanha esse barril de pregos!* Quatro anos em West Point, e muitos livros e estudos, ensinarão a um homem um bom bocado, calculo eu, mas não lhe ensinarão o rio. Vocês entreguem um desses pequenos rios europeus a esta Comissão, com o seu fundo duro e água clara, e seria apenas um trabalho de férias para eles murá-lo, estacá-lo, diqueá-lo, domá-lo, mandar nele, e fazê-lo ir para onde queriam que ele fosse, e ficar onde o pusessem, e fazer exatamente o que diziam, sempre. Mas este não é esse tipo de rio. Eles começaram aqui com grande confiança, e as melhores intenções do mundo; mas vão ficar a ver navios. O que diz Eclesiastes 7:13? Diz o suficiente para deitar a sua pequena brincadeira por terra, não diz? Agora olhem para os métodos deles por um momento. Ali na Ilha do Diabo, no Rio Superior, eles queriam que a água fosse para um lado, a água queria ir para outro. Então puseram um muro de pedra. Mas o que quer o rio saber de um muro de pedra? Quando estava pronto, simplesmente rompeu-o. Talvez possam construir outro que fique; isto é, lá em cima — mas aqui em baixo não podem. Aqui em baixo, no Rio Inferior, eles cravam algumas estacas para desviar a água da margem e impedi-la de cortar a margem; muito bem, não vai ela diretamente sobre outra e corta a margem de alguém? Certamente. Vão eles cravar todas as margens? Bem, eles poderiam comprar terreno e construir um novo Mississippi mais barato. Eles estão a cravar Bulletin Tow-head agora. Não fará bem nenhum. Se o rio tem uma hipoteca sobre essa ilha, ele vai executá-la, de certeza, com ou sem estacas. Muito longe dali, eles cravaram duas filas de estacas através do meio de um banco seco de meia milha de comprimento, que fica a quarenta pés fora de água quando o rio está baixo. Para que calculam que é isso? Se eu sei, oxalá eu vá parar ao — *esforça-te, filho de um agente funerário! — despacha esse querosene, agora, vive, vive!* E olhem só para o que eles estão a tentar fazer lá em Milliken's Bend. Houve um corte nessa secção, e Vicksburg ficou fora do jogo. É uma cidade do interior agora. O rio ataca abaixo dela; e um barco não pode subir até à cidade exceto em águas altas. Bem, eles vão construir diques laterais na curva oposta ao pé da 103, e atirar a água para lá e cortar o pé da ilha e arar para dentro de um velho fosso onde o rio costumava estar em tempos antigos; e eles pensam que podem persuadir a água a contornar por aquele caminho, e fazê-la atacar acima de Vicksburg, como costumava fazer, e trazer a cidade de volta ao mundo outra vez. Isto é, eles vão pegar neste Mississippi inteiro, e torcê-lo e fazê-lo correr várias milhas rio acima. Bem, vocês têm de admirar homens que lidam com ideias desse tamanho e as podem carregar sem muletas; mas vocês não têm de acreditar que podem fazer tais milagres, pois não! E contudo, vocês não são absolutamente obrigados a acreditar que não podem. Calculo que a forma segura, onde um homem pode pagar, é apostar contra a operação, e ao mesmo tempo comprar propriedade suficiente em Vicksburg para se compensar no caso de eles ganharem. O Governo está a fazer um bocado pelo Mississippi, agora — a gastar cargas de dinheiro nela. Quando costumava haver quatro mil barcos a vapor e dez mil acres de barcaças de carvão, e jangadas e chatas de comércio, não havia uma lanterna de St. Paul a Nova Orleães, e os troncos eram mais grossos que cerdas nas costas de um porco; e agora, quando há três dúzias de barcos a vapor e nenhuma barcaça ou jangada, o Governo arrancou todos os troncos, e iluminou as margens como a Broadway, e um barco está tão seguro no rio como estaria no céu. E calculo que, pela altura em que não restarem barcos nenhuns, a Comissão terá a velha coisa toda reorganizada, e dragada, e cercada, e arrumada, a um ponto que tornará a navegação simplesmente perfeita, e absolutamente segura e lucrativa; e todos os dias serão domingos, e todos os imediatos serão mestres de escola dominical... *que raio andam vocês aí a fazer, seus filhos de injustiça, herdeiros da perdição! vão levar um ano a tirar esse barril para terra?'*
Durante a nossa viagem para Nova Orleães e de volta, tivemos muitas conversas com homens do rio, plantadores, jornalistas e oficiais da Comissão Fluvial — com resultados contraditórios e confusos. A saber: —
1. Alguns acreditavam no plano da Comissão de confinar (e, portanto, aprofundar) o canal de forma arbitrária e permanente, preservar margens ameaçadas, etc.
2. Alguns acreditavam que o dinheiro da Comissão deveria ser gasto apenas na construção e reparação do grande sistema de diques.
3. Alguns acreditavam que quanto mais alto se constrói o dique, mais alto o leito do rio se elevará; e que, consequentemente, o sistema de diques é um erro.
4. Alguns acreditavam no plano de aliviar o rio, em épocas de cheia, desviando as suas águas excedentes para o Lake Borgne, etc.
5. Alguns acreditavam no plano de reservatórios nos lagos do norte para reabastecer o Mississippi nas estações de águas baixas.
Onde quer que encontre um homem por aquelas bandas que acredite numa destas teorias, pode dirigir-se ao homem seguinte e basear a sua conversa na hipótese de que ele não acredita nessa teoria; e, depois de ter experiência, não toma este rumo com dúvidas ou hesitações, mas com a confiança de um assassino moribundo — convertido, quero eu dizer. Pois terá chegado a saber, com uma certeza profunda e tranquila, que não vai encontrar duas pessoas doentes da mesma teoria, uma logo a seguir à outra. Não, haverá sempre um ou dois com as outras doenças pelo meio. E, à medida que prossegue, descobrirá uma ou duas outras coisas. Descobrirá que não há indisposição no lote que não seja contagiosa; e não pode ir onde ela existe sem a apanhar. Pode vacinar-se com factos dissuasores o quanto quiser — não servirá de nada; parecerá que "pegou", mas não pega; no momento em que se roçar com qualquer um desses teóricos, mentalize-se de que é altura de içar a sua bandeira amarela.
Sim, é uma vítima certa dele: contudo, o seu trabalho não é todo para seu dano — apenas uma parte; pois ele é como o seu médico de família, que vem e cura as papeiras, mas deixa a escarlatina para trás. Se o seu interlocutor é um teórico do alívio pelo Lake Borgne, por exemplo, ele exalará uma nuvem de factos e estatísticas mortíferos que o deixarão prostrado com essa doença, com certeza; mas, ao mesmo tempo, curá-lo-á de qualquer outra das cinco teorias que possam ter entrado anteriormente no seu organismo.
Eu já tive as cinco; e tive-as "a valer"; mas não me peçam, em tons lúgubres, qual delas me atormentou mais, ou qual delas somou a maior lista de doentes, pois não sei. Na verdade, ninguém pode responder a esta última pergunta. A Melhoria do Mississippi é um tema grandioso, lá em baixo. Todos os homens nas margens do rio, a sul de Cairo, falam sobre isso todos os dias, durante os momentos que conseguem poupar das conversas sobre a guerra; e cada uma das diversas teorias principais tem o seu grupo de zelosos partidários; mas, como disse, não é possível determinar qual causa soma mais recrutas.
Todos estavam de acordo num ponto, no entanto: se o Congresso fizesse uma dotação suficiente, resultaria um benefício colossal. Muito bem; desde então a dotação foi feita — possivelmente uma suficiente, certamente não uma grande demais. Esperemos que a profecia seja amplamente cumprida.
Uma coisa será facilmente concedida pelo leitor: que uma opinião do Sr. Edward Atkinson, sobre qualquer vasta questão comercial nacional, aproxima-se tanto de ser considerada autoridade quanto a opinião de qualquer indivíduo na União. O que ele tem a dizer sobre a Melhoria do Rio Mississippi encontrar-se-á no Apêndice.
Às vezes, meia dúzia de números revelam, como um relâmpago, a importância de um assunto que dez mil palavras laboriosas, com o mesmo propósito em vista, tinham deixado, no final, apenas obscuro e incerto. Eis um caso desse género — um parágrafo do 'Cincinnati Commercial'—
'O rebocador “Jos. B. Williams” está a caminho de Nova Orleães com um reboque de trinta e duas barcaças, contendo seiscentas mil alqueires (setenta e seis libras por alqueire) de carvão, excluindo o seu próprio combustível, sendo o maior reboque alguma vez levado para Nova Orleães ou qualquer outro lugar do mundo. A sua fatura de frete, a 3 cêntimos por alqueire, monta a 18.000 dólares. Seriam necessários mil e oitocentos vagões, de trezentos e trinta e três alqueires por vagão, para transportar esta quantidade de carvão. A 10 dólares por tonelada, ou 100 dólares por vagão, que seria um preço justo para a distância por ferrovia, a fatura de frete montaria a 180.000 dólares, ou 162.000 dólares mais por ferrovia do que por rio. O reboque será levado de Pittsburg a Nova Orleães em catorze ou quinze dias. Seriam necessários cem comboios de dezoito vagões por comboio para transportar este único reboque de seiscentas mil alqueires de carvão, e mesmo que fizesse a velocidade habitual das linhas de carga rápida, levaria um verão inteiro para o transportar por ferrovia.'
Quando um rio em boas condições pode permitir poupar 162.000 dólares e um verão inteiro de tempo, numa única carga, a sabedoria de tomar medidas para manter o rio em boas condições torna-se evidente até para a mente não comercial.
CAPÍTULO 29
Alguns Exemplos de Tijolos
PASSÁMOS pela região de Plum Point, dobrámos Craighead's Point e deslizámos sem ser desafiados pelo que outrora foi o formidável Fort Pillow, memorável devido ao massacre perpetrado ali durante a guerra. Massacres estão salpicados com alguma frequência pelas histórias de várias nações cristãs, mas este é quase o único que se pode encontrar na história americana; talvez seja o único que ascende a um tamanho correspondente a esse título enorme e sombrio. Temos o 'Massacre de Boston', onde duas ou três pessoas foram mortas; mas temos de agrupar a história anglo-saxónica para encontrar o semelhante à tragédia de Fort Pillow; e, sem dúvida, mesmo assim teremos de recuar aos dias e aos feitos de Coeur de Lion, esse belo "herói", antes de o conseguirmos.
Mais sobre as aberrações do rio. Em tempos idos, o canal costumava passar acima da Island 37, junto a Brandywine Bar, e descer em direção à Island 39. Mais tarde, mudou o seu curso e passou de Brandywine através da Vogelman’s chute no Devil’s Elbow, para a Island 39 — parte deste curso invertendo a velha ordem; o rio correndo para cima durante quatro ou cinco milhas, em vez de para baixo, e encurtando, no geral, cerca de quinze milhas de distância. Isto em 1876. Toda essa região é agora chamada Centennial Island.
Existe uma tradição de que a Island 37 era um dos principais locais de permanência do outrora célebre 'Bando de Murel'. Esta era uma combinação colossal de ladrões, larápios de cavalos, traficantes de negros e falsificadores, envolvidos em negócios ao longo do rio há cerca de cinquenta ou sessenta anos. Enquanto a nossa viagem através do país em direção a St. Louis decorria, não tivemos fim de Jesse James e da sua história emocionante; pois ele tinha acabado de ser assassinado por um agente do Governador do Missouri e, por conseguinte, ocupava um bom espaço nos jornais. Histórias baratas sobre ele estavam à venda pelos vendedores dos comboios. Segundo estas, ele era a criatura mais maravilhosa do seu género que alguma vez existira. Era um erro. Murel era seu igual em audácia; em coragem; em rapacidade; em crueldade, brutalidade, falta de coração, traição, e em vileza e falta de vergonha geral e abrangente; e muito superior a ele nalguns aspetos maiores. James era um patife a retalho; Murel, por atacado. O génio modesto de James não sonhava com um voo mais alto do que o planeamento de assaltos a comboios, diligências e bancos rurais; Murel projetava insurreições de negros e a captura de Nova Orleães; e, além disso, ocasionalmente, este Murel conseguia subir a um púlpito e edificar a congregação. O que são James e a sua meia dúzia de patifes vulgares comparados com este imponente criminoso dos velhos tempos, com os seus sermões, as suas insurreições meditadas e capturas de cidades, e o seu majestoso séquito de mil homens, jurados a cumprir a sua vontade maligna!
Aqui está um ou dois parágrafos sobre este grande operador, de um livro agora esquecido que foi publicado há meio século —
Ele parece ter sido um vilão tão destro como consumado. Quando viajava, o seu disfarce habitual era o de um pregador itinerante; e diz-se que os seus discursos eram muito "comoventes" — interessando os ouvintes tanto que eles se esqueciam de vigiar os seus cavalos, que eram levados pelos seus confederados enquanto ele pregava. Mas o roubo de cavalos num Estado, e a sua venda noutro, era apenas uma pequena parte do seu negócio; o mais lucrativo era aliciar escravos a fugir dos seus senhores, para que os pudessem vender noutra parte. Isto era arranjado da seguinte forma; diziam a um negro que, se fugisse do seu senhor e lhes permitisse vendê-lo, ele receberia uma parte do dinheiro pago por ele, e que, após o seu regresso a eles uma segunda vez, enviá-lo-iam para um Estado livre, onde ele estaria seguro.
Os pobres desgraçados cumpriam este pedido, esperando obter dinheiro e liberdade; eram vendidos a outro senhor e fugiam novamente para os seus empregadores; por vezes eram vendidos desta maneira três ou quatro vezes, até que eles tivessem realizado três ou quatro mil dólares com eles; mas como, depois disto, havia medo de deteção, o costume habitual era livrarem-se da única testemunha que podia ser produzida contra eles, que era o próprio negro, assassinando-o e atirando o seu corpo para o Mississippi. Mesmo que ficasse estabelecido que tinham roubado um negro, antes de ele ser assassinado, estavam sempre preparados para evitar o castigo; pois escondiam o negro que tinha fugido até que ele fosse anunciado, e uma recompensa fosse oferecida a qualquer homem que o apanhasse. Um anúncio deste tipo garante à pessoa o direito de tomar a propriedade, se encontrada. E então o negro torna-se uma propriedade em custódia, quando, portanto, vendiam o negro, tornava-se apenas uma quebra de confiança, não um roubo; e por uma quebra de confiança, o proprietário da propriedade só pode ter reparação por uma ação cível, que era inútil, pois os danos nunca eram pagos. Pode perguntar-se como foi que Murel escapou à justiça de Lynch sob tais circunstâncias. Isto será facilmente compreendido quando se afirmar que ele tinha mais de mil confederados jurados, todos prontos a um momento de aviso para apoiar qualquer um do bando que pudesse estar em apuros. Os nomes de todos os principais confederados de Murel foram obtidos dele mesmo, de uma maneira que explicarei a seguir. O bando era composto por duas classes: os Chefes ou Conselho, como eram chamados, que planeavam e concertavam, mas raramente agiam; totalizavam cerca de quatrocentos. A outra classe eram os agentes ativos, e eram chamados de "strikers", e totalizavam cerca de seiscentos e cinquenta. Estes eram as ferramentas nas mãos dos outros; corriam todo o risco e recebiam apenas uma pequena parte do dinheiro; estavam ao poder dos líderes do bando, que os sacrificariam a qualquer momento entregando-os à justiça, ou afundando os seus corpos no Mississippi. O ponto de encontro geral deste bando de malfeitores era no lado de Arkansas do rio, onde escondiam os seus negros nos pântanos e canaviais.
As depredações desta extensa combinação foram severamente sentidas; mas tão bem organizados estavam os seus planos que, embora Murel, que era sempre ativo, fosse suspeito em toda a parte, não havia provas a obter. Aconteceu, porém, que um jovem chamado Stewart, que estava à procura de dois escravos que Murel tinha aliciado, encontrou-o e obteve a sua confiança, prestou o juramento e foi admitido no bando como um dos do Conselho Geral. Por este meio tudo foi descoberto; pois Stewart tornou-se traidor, embora tivesse prestado o juramento, e tendo obtido toda a informação, expôs todo o negócio, os nomes de todas as partes, e finalmente conseguiu trazer provas suficientes contra Murel para obter a sua condenação e sentença para a Penitenciária (Murel foi condenado a catorze anos de prisão); tantas pessoas que eram consideradas honestas, e carregavam um nome respeitável nos diferentes Estados, foram encontradas na lista do Grande Conselho conforme publicada por Stewart, que todas as tentativas foram feitas para lançar descrédito sobre as suas afirmações — o seu caráter foi vilipendiado, e mais do que uma tentativa foi feita para o assassinar. Ele foi obrigado a deixar os Estados do Sul como consequência. É, contudo, agora bem comprovado que tudo era verdade; e embora alguns culpem o Sr. Stewart por ter violado o seu juramento, eles já não tentam negar que as suas revelações eram corretas. Citarei uma ou duas partes das confissões de Murel ao Sr. Stewart, feitas a ele quando viajavam juntos. Deveria ter observado que as intenções finais de Murel e dos seus associados eram, segundo o seu próprio relato, numa escala muito alargada; não tendo menos objetivo em vista do que _levantar os negros contra os brancos, tomar posse e pilhar Nova Orleães, e tornar-se possuidores do território_. Seguem-se alguns extratos:--
'Reuni todos os meus amigos perto de Nova Orleães numa das casas dos nossos amigos naquele lugar, e sentámo-nos em conselho durante três dias até termos todos os nossos planos conforme o nosso desejo; então determinámo-nos a empreender a rebelião a todo o custo, e fazer tantos amigos quanto pudéssemos para esse propósito. Sendo o negócio de cada homem atribuído, parti para Natchez a pé, tendo vendido o meu cavalo em Nova Orleães — com a intenção de roubar outro depois de partir. Caminhei quatro dias, e não surgiu nenhuma oportunidade para eu obter um cavalo. No quinto dia, por volta das doze, tinha ficado cansado e parei num riacho para beber um pouco de água e descansar um pouco. Enquanto estava sentado num tronco, olhando para a estrada por onde tinha vindo, um homem apareceu à vista montado num cavalo de boa aparência. No preciso momento em que o vi, determinei ter o seu cavalo, se ele estivesse com o traje de um viajante. Ele aproximou-se, e vi pelo seu equipamento que era um viajante. Levantei-me e apontei-lhe uma elegante pistola de rifle e ordenei-lhe que desmontasse. Ele fê-lo, e peguei no seu cavalo pelas rédeas e apontei para baixo do riacho, e ordenei-lhe que caminhasse à minha frente. Ele andou algumas centenas de jardas e parou. Amarrei o seu cavalo, e fiz com que se despisse todo, ficando apenas com a camisa e as ceroulas, e ordenei-lhe que me desse as costas. Ele disse: "Se está determinado a matar-me, deixe-me ter tempo para rezar antes de morrer". Disse-lhe que não tinha tempo para o ouvir rezar. Ele virou-se e caiu de joelhos, e disparei sobre ele na parte de trás da cabeça.
Abri-lhe a barriga e tirei-lhe as entranhas, e afundei-o no riacho. Procurei então nos seus bolsos, e encontrei quatrocentos dólares e trinta e sete cêntimos, e um número de papéis que não tive tempo de examinar. Afundei a carteira, os papéis e o seu chapéu no riacho. As suas botas eram novas, e serviam-me maravilhosamente; e calcei-as e afundei os meus velhos sapatos no riacho, para compensar. Enrolei as suas roupas e coloquei-as na sua mala, pois eram de tecido novo da melhor qualidade. Montei num cavalo tão fino como nunca montei, e dirigi o meu caminho para Natchez em muito melhor estilo do que tinha estado nos últimos cinco dias.
'Eu e um sujeito chamado Crenshaw juntámos quatro bons cavalos e partimos para a Geórgia. Juntámo-nos a um jovem sul-caroliniano pouco antes de chegarmos a Cumberland Mountain, e Crenshaw logo soube tudo sobre os seus negócios. Ele tinha estado no Tennessee para comprar uma vara de porcos, mas quando lá chegou a carne de porco estava mais cara do que ele tinha calculado, e ele desistiu da compra. Concluímos que ele era um prémio. Crenshaw piscou-me o olho; entendi a sua ideia. Crenshaw tinha viajado pela estrada antes, mas eu nunca; tínhamos viajado várias milhas na montanha, quando ele passou perto de um grande precipício; pouco antes de o passarmos, Crenshaw pediu-me o chicote, que tinha uma libra de chumbo na ponta; entreguei-lho, e ele aproximou-se do lado do sul-caroliniano, e deu-lhe uma pancada no lado da cabeça e derrubou-o do seu cavalo; descemos dos nossos cavalos e revistámos os seus bolsos; obtivemos mil duzentos e sessenta e dois dólares. Crenshaw disse que conhecia um lugar para o esconder, e agarrou-o pelos braços, e eu pelos pés, e transportámo-lo para uma fenda profunda na crista do precipício, e atirámo-lo para dentro, e ele desapareceu da vista; então atirámos a sua sela, e levámos o seu cavalo connosco, que valia duzentos dólares.
'Fomos detidos por alguns dias, e durante esse tempo o nosso amigo foi a uma pequena aldeia nas redondezas e viu o negro anunciado (um negro em nossa posse), e uma descrição dos dois homens de quem tinha sido comprado, e dando as suas suspeitas sobre os homens. Foram tempos um tanto tempestuosos, mas qualquer porto serve numa tempestade: levámos o negro naquela noite à margem de um riacho que corre pela quinta do nosso amigo, e Crenshaw disparou sobre ele na cabeça. Tirámos as suas entranhas e afundámo-lo no riacho.
'Ele tinha vendido o outro negro pela terceira vez no Rio Arkansaw por mais de quinhentos dólares; e depois roubou-o e entregou-o nas mãos do seu amigo, que o conduziu para um pântano, e velou a cena trágica, e obteve as últimas sobras e o sagrado compromisso de segredo; pois um jogo desse tipo não resulta a menos que termine num mistério para todos, exceto para a fraternidade. Ele vendeu o negro, primeiro e último, por quase dois mil dólares, e depois colocou-o para sempre fora do alcance de todos os perseguidores; e eles nunca podem encontrar o rasto dele a menos que encontrem o negro; e isso eles não podem fazer, pois a sua carcaça alimentou muitas tartarugas e peixes-gato antes deste tempo, e os sapos cantaram estes muitos dias longos para o repouso silencioso do seu esqueleto.'
Aproximávamo-nos de Memphis, em frente da qual, e testemunhada pelo seu povo, foi travada a mais famosa das batalhas fluviais da Guerra Civil. Dois homens sob os quais servi, nos meus dias de rio, tomaram parte nessa luta: o Sr. Bixby, piloto principal da frota da União, e Montgomery, Comodoro da frota Confederada. Ambos viram muito serviço ativo durante a guerra, e alcançaram reputações elevadas de coragem e capacidade.
À medida que nos aproximávamos de Memphis, começámos a procurar uma desculpa para ficar com o 'Gold Dust' até ao fim do seu curso — Vicksburg. Estávamos tão agradavelmente situados que não queríamos fazer uma mudança. Eu tinha um recado de considerável importância para fazer em Napoleon, Arkansas, mas talvez pudesse geri-lo sem deixar o 'Gold Dust'. Disse tanto; por isso decidimos manter-nos nas instalações atuais.
O barco deveria ficar em Memphis até às dez da manhã seguinte. É uma bela cidade, nobremente situada sobre uma falésia imponente com vista para o rio. As ruas são retas e espaçosas, embora não pavimentadas de uma forma a incitar uma admiração perturbada. Não, a admiração deve ser reservada para o sistema de esgotos da cidade, que é chamado de perfeito; uma reforma recente, contudo, pois era exatamente o contrário, até há poucos anos — uma reforma resultante da lição ensinada por uma desoladora visitação da febre amarela. Naqueles dias terríveis, as pessoas foram varridas às centenas, aos milhares; e tão grande foi a redução causada pela fuga e pela morte, que a população diminuiu três quartos, e assim permaneceu por um tempo. O negócio ficou quase parado, e as ruas tinham um aspeto vazio de domingo.
Eis um retrato de Memphis, nessa época desastrosa, desenhado por um turista alemão que parece ter sido uma testemunha ocular das cenas que descreve. É do Capítulo VII, do seu livro, acabado de publicar, em Leipzig, 'Mississippi-Fahrten, von Ernst von Hesse-Wartegg.'--
'Em agosto, a febre amarela atingira o seu auge. Diariamente, centenas caíam como sacrifício da terrível epidemia. A cidade tornara-se um imenso cemitério; dois terços da população haviam abandonado o lugar, e apenas os pobres, os idosos e os enfermos restaram, uma presa certa para o insidioso inimigo. As casas estavam fechadas: pequenas lâmpadas ardiam diante de muitas — um sinal de que ali a morte entrara. Frequentemente, vários jaziam mortos numa única casa; das janelas pendiam crepes negros. As lojas estavam fechadas, pois os seus donos tinham partido ou morrido.
'Medonho mal! No mais breve espaço de tempo, abatia e varria até a vítima mais vigorosa. Uma ligeira indisposição, depois uma hora de febre, então o hediondo delírio, depois — a Morte Amarela! Nas esquinas das ruas e nas praças, jaziam homens doentes, subitamente colhidos pela doença; e até cadáveres, contorcidos e rígidos. O alimento escasseou. A carne apodrecia em poucas horas no ar fétido e pestilento, tornando-se negra.
'Clamores temerosos ecoam de muitas casas; depois, após um tempo, cessam, e tudo fica em silêncio: homens nobres e abnegados vêm com o caixão, pregam-no e levam-no para o cemitério. Na noite, reina a quietude. Apenas os médicos e os carros funerários apressam-se pelas ruas; e, ao longe, a intervalos, ouve-se o trovão abafado do comboio, que, com a velocidade do vento, e como se perseguido por fúrias, passa pela cidade pestilenta sem parar.'
Mas há vida que chegue ali agora. A população excede os quarenta mil habitantes e está a aumentar, e o comércio encontra-se em condições prósperas. Passeámos pela cidade; visitámos o parque e a sociável horda de esquilos que lá habita; vimos as belas residências, cobertas de rosas e, de outras formas, atraentes ao olhar; e tomámos um bom pequeno-almoço no hotel.
Um lugar próspero é a Cidade do Bom Samaritano do Mississippi: possui um grande comércio grossista; fundições, oficinas mecânicas; e fábricas de carroças, carruagens e óleo de semente de algodão; e em breve terá fábricas de algodão e elevadores de grão.
As suas receitas de algodão atingiram quinhentas mil balas no ano passado — um aumento de sessenta mil em relação ao ano anterior. Do seu saudável coração comercial partem cinco linhas ferroviárias principais; e uma sexta está a ser acrescentada.
Esta é uma Memphis muito diferente daquela que a desaparecida e esquecida procissão de turistas estrangeiros costumava colocar nos seus livros há muito tempo. Nos dias da agora esquecida, mas outrora famosa e vigorosamente odiada Sra. Trollope, Memphis parecia consistir principalmente numa longa rua de casas de troncos, com algumas cabanas isoladas espalhadas mais atrás, em direção aos bosques; e, de vez em quando, um porco, e lama sem fim. Isso foi há cinquenta e cinco anos. Ela hospedou-se no hotel. Claramente, não era o mesmo que nos serviu o pequeno-almoço. Ela diz —
'A mesa estava posta para cinquenta pessoas e estava quase cheia. Comeram em perfeito silêncio e com uma rapidez tão espantosa que o seu jantar terminou literalmente antes de o nosso ter começado; os únicos sons ouvidos eram os produzidos pelas facas e garfos, com o coro incessante de tosse, etc.'
'Tosse, etc.' O 'etc.' significa uma palavra desagradável ali, uma palavra que ela nem sempre cobre caridosamente, mas que, por vezes, imprime. Encontrá-la-á na seguinte descrição de um jantar num barco a vapor que ela tomou na companhia de um grupo de plantadores aristocráticos; eram fidalgos ricos, bem-nascidos e ignorantes, adornados com os habituais títulos militares e judiciais inofensivos daquele velho tempo de falsidades baratas e pretensões vãs —
'A total falta de todas as cortesias habituais à mesa; a rapidez voraz com que as iguarias eram agarradas e devoradas; as frases estranhas e grosseiras e a pronúncia; o cuspir repugnante, da contaminação do qual era absolutamente impossível proteger os nossos vestidos; a maneira horrível de comer com as facas, até que a lâmina inteira parecia entrar na boca; e a maneira ainda mais horrível de limpar os dentes depois com uma faca de bolso, forçou-nos logo a sentir que não estávamos rodeados pelos generais, coronéis e majores do velho mundo; e que a hora do jantar seria tudo menos uma hora de prazer.'
CAPÍTULO 30
Esboços pelo Caminho
ERA um grande rio, abaixo de Memphis; margens transbordantes, por toda a parte, e muito frequentemente mais do que cheias, as águas derramando-se sobre a terra, inundando os bosques e campos por quilómetros interior adentro; e, em alguns lugares, com uma profundidade de quinze pés; sinais, por toda a parte, do trabalho árduo dos homens reduzido a ruína, e tudo para ser feito novamente, com meios limitados e coragem enfraquecida. Um quadro melancólico, e contínuo; — centenas de quilómetros dele. Por vezes, os faróis de sinalização estavam em água com três pés de profundidade, na orla de florestas densas que se estendiam por quilómetros sem quinta, depósito de madeira, clareira ou interrupção de qualquer tipo; o que significava que o faroleiro tinha de vir num esquife de uma grande distância para cumprir o seu dever — e muitas vezes com mau tempo. No entanto, disseram-me que o trabalho é cumprido fielmente, em todas as condições meteorológicas; e nem sempre por homens, por vezes por mulheres, se o homem estiver doente ou ausente. O Governo fornece óleo e paga dez ou quinze dólares por mês pela iluminação e manutenção. Um barco do Governo distribui óleo e paga salários uma vez por mês.
A região de Ship Island estava tão arborizada e desabitada como sempre. A ilha deixou de ser uma ilha; juntou-se compactamente à costa principal, e as carroças circulam, agora, onde os barcos a vapor costumavam navegar. Não restam sinais do naufrágio do 'Pennsylvania'. Algum agricultor desenterrará os seus ossos com o arado um dia, sem dúvida, e ficará surpreendido.
Estávamos agora a chegar à região dos negros migrantes. Estas pobres pessoas nunca podiam viajar quando eram escravas; por isso, compensam agora a privação. Ficam numa plantação até que o desejo de viajar os apodera; então fazem as malas, chamam um barco a vapor e partem. Não para nenhum lugar específico; não, quase qualquer lugar serve; eles só querem estar em movimento. A quantidade de dinheiro em mãos resolverá o resto do enigma para eles. Se os levar a cinquenta milhas, muito bem; que sejam cinquenta. Se não, um voo mais curto servirá.
Durante um par de dias, respondemos frequentemente a estes apelos. Por vezes, havia um grupo de cabanas degradadas e manchadas pela cheia, populosas de gente de cor, e sem brancos à vista; com manchas de terra seca sem erva aqui e ali; algumas árvores abatidas, com gado, mulas e cavalos esqueléticos, comendo as folhas e roendo a casca — não havia outro alimento para eles na terra devastada pela cheia. Às vezes, havia uma única cabana de desembarque solitária; perto dela, a família de cor que nos chamara; pequenos e grandes, velhos e jovens, empoleirados na escassa pilha de bens domésticos; estes consistindo numa arma enferrujada, alguns colchões, baús, utensílios de folha de flandres, bancos, um espelho aleijado, uma cadeira de braços venerável e seis ou oito cães amarelos mestiços e sem espírito, presos à família por cordas. Eles têm de ter os seus cães; não podem partir sem os seus cães. Contudo, os cães nunca estão dispostos; protestam sempre; então, um após outro, numa procissão ridícula, são arrastados para bordo; todos os quatro pés presos e deslizando pela rampa, a cabeça com probabilidade de ser arrancada; mas o puxador marchando determinado para a frente, curvado ao seu trabalho, com a corda sobre o ombro para melhor apoio. Por vezes, uma criança é esquecida e deixada na margem; mas um cão, nunca.
A habitual conversa de rio desenrolando-se na casa do piloto. Ilha No. 63 — uma ilha com um encantador 'chute', ou passagem, por trás dela nos tempos antigos. Disseram que Jesse Jamieson, no 'Skylark', teve um piloto visitante consigo numa viagem — um pobre velho arruinado, superanulado — deixou-o ao leme, no sopé da 63, para cumprir o turno. O antigo marinheiro subiu pelo canal, desceu o rio pelo lado de fora; subiu o canal e desceu o rio novamente; e ainda mais uma vez e outra; e entregou o barco ao piloto que o rendia, ao fim de três horas de honesto esforço, no mesmo velho sopé da ilha onde tinha originalmente assumido o leme! Um negro em terra que observara o barco passar, umas treze vezes, disse: 'clar para o senhor, eu não ficaria surpreendido se eles fossem uma fila inteira daqueles Sk'ylarks!'
Anedota ilustrativa da influência da reputação na mudança de opinião. O 'Eclipse' era famoso pela sua rapidez. Um dia, passou por ali; um velho negro em terra, absorvido nos seus próprios assuntos, não reparou em que vapor era. Pouco depois, alguém perguntou —
'Algum barco subiu?'
'Sim, senhor.'
'Ia depressa?'
'Oh, assim-assim — a passear.'
'Agora, sabe que barco era aquele?'
'Não, senhor.'
'Ora, tio, aquele era o “Eclipse”.'
'Não! É assim? Bem, aposto que era — porque ele acabou de passar por aqui a faiscar!'
Pedaço de história ilustrativa do estilo violento de algumas das pessoas por aqui abaixo. Durante as primeiras semanas de cheias, as réguas da cerca de A foram lavadas para o terreno de B, e as réguas de B foram trazidas pelo remoinho e aterraram no terreno de A. A disse: 'Deixa a coisa ficar assim; eu usarei as tuas réguas, e tu usas as minhas.' Mas B opôs-se — não quis que fosse assim. Um dia, A veio ao terreno de B buscar as suas réguas. B disse: 'Vou matar-te!' e avançou para ele com o seu revólver. A disse: 'Não estou armado.' Então B, que desejava fazer apenas o que era correto, atirou o seu revólver para o chão; depois puxou uma faca e cortou a garganta de A por toda a volta, mas deu a sua principal atenção à frente, e assim falhou em cortar a jugular. Lutando, A conseguiu deitar as mãos ao revólver descartado e disparou sobre B, matando-o — e recuperou dos seus próprios ferimentos.
Mais conversa; — após o que, todos foram para baixo tomar o café da tarde, e deixaram-me ao leme, sozinho. Algo recordou-me a nossa última hora em St. Louis, parte da qual passei no convés superior deste barco, à ré. Fui acompanhado por um estranho, que entrou em conversa comigo — um jovem ágil, que disse ter nascido numa cidade do interior de Wisconsin, e nunca ter visto um barco a vapor até uma semana antes. Disse também que, na viagem de La Crosse para baixo, tinha inspecionado e examinado o seu barco tão diligentemente e com tal interesse apaixonado que dominou tudo, da proa ao leme. Perguntou-me de onde eu vinha. Respondi, Nova Inglaterra. 'Oh, um Yank!' disse ele; e continuou a conversar, sem esperar por assentimento ou negação. Propôs imediatamente levar-me por todo o barco e dizer-me os nomes das suas diferentes partes, e ensinar-me as suas utilidades. Antes que eu pudesse protestar ou desculpar-me, ele já estava a falar alegremente no seu trabalho benevolente; e quando percebi que ele estava a dar nomes errados às coisas, e inospitaleiramente a divertir-se à custa de um estranho inocente de um país distante, mantive-me calado e deixei-o seguir o seu caminho. Deu-me um mundo de desinformação; e quanto mais avançava, mais a sua imaginação se expandia, e mais ele desfrutava do seu cruel trabalho de engano. Às vezes, depois de me impingir uma mentira particularmente fantástica e ultrajante, ele ficava tão 'cheio de riso' que tinha de se afastar por um minuto, sob um pretexto ou outro, para evitar que eu suspeitasse. Fiquei fielmente com ele até que a sua comédia terminasse. Então, observou que se tinha comprometido a 'ensinar-me' tudo sobre um barco a vapor, e que o tinha feito; mas que, se se tivesse esquecido de algo, era só perguntar-lhe e ele supriria a falta. 'Qualquer coisa sobre este barco de que não saiba o nome ou a utilidade, venha ter comigo e eu dir-lhe-ei.' Disse que o faria, e parti; desapareci e aproximei-me dele por outro lado, de onde ele não me podia ver. Lá estava ele, todo sozinho, dobrando-se e contorcendo-se daqui para ali, nas dores de um riso incontrolável. Deve ter ficado doente; pois não foi visto publicamente durante vários dias. Entretanto, o episódio caiu-me no esquecimento.
A coisa que me recordou disso agora, quando eu estava sozinho ao leme, foi o espetáculo deste jovem parado à porta da casa do piloto, com o trinco na mão, inspecionando-me silenciosa e severamente. Não sei quando vi alguém parecer tão ofendido como ele. Não disse nada — simplesmente ficou ali e olhou; olhou com reprovação e ponderou. Finalmente fechou a porta e começou a afastar-se; parou no convés um minuto; voltou lentamente e ficou de novo na porta, com aquele olhar magoado no rosto; contemplou-me durante algum tempo em mansa repreensão, depois disse —
'Deixou-me ensinar-lhe tudo sobre um barco a vapor, não foi?'
'Sim', confessei.
'Sim, deixou — não deixou?'
'Sim.'
'Você é o tipo que — que —'
A linguagem falhou. Pausa — luta impotente por mais palavras — então ele desistiu, soltou um profundo e forte juramento e partiu para sempre. Depois, vi-o várias vezes em baixo durante a viagem; mas ele estava frio — não queria olhar para mim. Idiota, se ele não estivesse tão ansioso por pregar-me a sua partida estúpida no início, eu teria persuadido os seus pensamentos para outra direção e poupado-o de cometer aquela indiscrição gratuita e parva.
Eu fazia-me despertar com o turno das quatro da manhã, pois não se pode ver demasiados amanheceres de verão no Mississippi. São encantadores. Primeiro, há a eloquência do silêncio; pois um profundo sossego paira por toda a parte. Depois, há o sentido assombroso de solidão, isolamento, afastamento da preocupação e do bulício do mundo. O amanhecer rasteja furtivamente; as paredes sólidas da floresta negra suavizam-se para o cinzento, e vastas extensões do rio abrem-se e revelam-se; a água é lisa como vidro, emite guirlandas espetrais de névoa branca, não há o mais leve sopro de vento, nem movimento de folha; a tranquilidade é profunda e infinitamente satisfatória. Então, um pássaro começa a piar, outro segue-se, e em breve os pios transformam-se num tumulto jubilante de música. Não se vê nenhum dos pássaros; simplesmente move-se através de uma atmosfera de canção que parece cantar-se a si própria. Quando a luz se torna um pouco mais forte, tem-se um dos quadros mais belos e suaves que se possa imaginar. Tem-se o verde intenso da folhagem densa e acumulada perto; vê-se a esmorecer sombra por sombra à nossa frente; sobre o próximo cabo saliente, a uma milha de distância ou mais, o tom clareou para o tenro verde jovem da primavera; o cabo para além desse perdeu quase a cor, e o mais longínquo, a milhas de distância sob o horizonte, dorme sobre a água como um mero vapor ténue, mal separável do céu acima e à volta dele. E toda esta extensão de rio é um espelho, e temos os reflexos sombrios da folhagem e das margens curvas e dos cabos que se afastam retratados nele. Bem, isso é tudo belo; suave e rico e belo; e quando o sol sobe bem alto, e distribui um brilho rosado aqui e um pó de ouro acolá e uma névoa púrpura onde ela produzirá o melhor efeito, admitimos que vimos algo que vale a pena recordar.
Tivemos a região de Kentucky Bend de manhã cedo — cenário de um acidente estranho e trágico nos velhos tempos. O Capitão Poe tinha um pequeno barco de popa, por anos o lar dele e da sua esposa. Uma noite, o barco bateu num tronco na cabeça de Kentucky Bend e afundou-se com uma rapidez espantosa; a água já estava bem acima do chão da cabine quando o capitão chegou à ré. Então, cortou o camarote da esposa por cima com um machado; ela estava a dormir no beliche superior, o teto era mais frágil do que se supunha; o primeiro golpe caiu através das tábuas podres e partiu-lhe o crânio.
Esta curva está toda cheia agora — resultado de um corte; e o mesmo agente levou a grande e outrora muito frequentada Walnut Bend, e colocou-a longe, numa solidão afastada do caminho habitual dos barcos a vapor que passam.
Helena visitámo-la, e também uma cidade de que eu não tinha ouvido falar antes, sendo de nascimento recente — Arkansas City. Nasceu de uma ferrovia; a Little Rock, Mississippi River and Texas Railroad toca no rio ali. Perguntámos a um passageiro que era de lá que tipo de lugar era. 'Bem', disse ele, depois de considerar, e com o ar de quem quer levar tempo e ser preciso, 'É um lugar dos diabos.' Uma descrição que era fotográfica em exatidão. Havia várias filas e grupos de casas de madeira degradadas, e uma reserva de lama suficiente para garantir à cidade contra uma fome desse artigo por cem anos; pois a cheia tinha acabado de baixar. Havia lagoas estagnadas nas ruas, aqui e ali, e uma dúzia de barcaças rudimentares estavam espalhadas, encalhadas onde quer que estivessem quando as águas drenaram e as pessoas puderam fazer as suas visitas e compras a pé mais uma vez. Ainda assim, é um lugar próspero, com um país rico por trás, um elevador à frente, e também um grande e belo moinho para o fabrico de óleo de semente de algodão. Eu nunca tinha visto este tipo de moinho antes.
A semente de algodão era comparativamente sem valor no meu tempo; mas vale agora 12 ou 13 dólares a tonelada, e nada dela é deitado fora. O óleo feito a partir dela é incolor, insípido e quase, se não inteiramente, inodoro. Afirma-se que pode, por manipulação adequada, ser feito para se assemelhar e desempenhar a função de todos e quaisquer óleos, e ser produzido a um preço mais barato do que o mais barato dos originais. Pessoas sagazes enviavam-no para Itália, adulteravam-no, rotulavam-no e traziam-no de volta como azeite. Este comércio tornou-se tão formidável que a Itália foi obrigada a impor um imposto proibitivo sobre ele para evitar que causasse sérios danos à sua indústria de azeite.
Helena ocupa uma das posições mais bonitas no Mississippi. O seu poleiro é o último, o grupo mais a sul de colinas que se vê daquele lado do rio. Na sua condição normal, é uma cidade bonita; mas a cheia (ou possivelmente a infiltração) tinha-a recentemente devastado; ruas inteiras de casas tinham sido invadidas pela água lamacenta, e os exteriores dos edifícios ainda estavam cingidos com uma mancha larga que se estendia para cima a partir dos alicerces. Barcaças encalhadas e descartadas jaziam por toda a parte; passeios de tábuas em andares de quatro pés de altura ainda estavam de pé; os passeios de tábuas ao nível do solo estavam soltos e em ruínas — um par de homens a trotar por eles podia fazer um cego pensar que uma carga de cavalaria estava a chegar; por toda a parte a lama era negra e profunda, e em muitos lugares poças maláricas de água estagnada permaneciam. Uma inundação do Mississippi é a segunda mais devastadora e desoladora aflição depois de um incêndio.
Tivemos um tempo agradável aqui, neste domingo ensolarado: duas horas completas de liberdade em terra enquanto o barco descarregava carga. Nas ruas traseiras, poucas pessoas brancas eram visíveis, mas havia muitas pessoas de cor — principalmente mulheres e raparigas; e quase sem exceção vestidas com roupas novas e brilhantes de estilo e corte vistosos e elaborados — um contraste gritante e hilariante com a lama lúgubre e as poças pensativas.
Helena é a segunda cidade do Arkansas, em termos de população — que é fixada em cinco mil. O país à sua volta é excecionalmente produtivo. Helena tem um bom comércio de algodão; movimenta de quarenta a sessenta mil balas anualmente; possui um grande comércio de madeira e cereais; tem uma fundição, moinhos de óleo, oficinas mecânicas e fábricas de carroças — em suma, tem 1.000.000 de dólares investidos em indústrias transformadoras. Tem duas ferrovias e é o centro comercial de uma região vasta e próspera. As suas receitas brutas de dinheiro, anualmente, de todas as fontes, são colocadas pelo 'Times-Democrat' de Nova Orleães em 4.000.000 de dólares.
Estávamos nos aproximando de Napoleon, Arkansas. Por isso, comecei a pensar na minha tarefa ali. Era meio-dia; o tempo estava claro e ensolarado. Isso era ruim — ou, pelo menos, não era o ideal; pois a minha tarefa não era (preferencialmente) uma tarefa de meio-dia. Quanto mais eu pensava, mais esse fato se impunha a mim — ora de uma forma, ora de outra. Finalmente, assumiu a forma de uma pergunta clara: é sensato realizar a tarefa à luz do dia, quando, com um pequeno sacrifício de conforto e inclinação, pode-se ter a noite para isso, sem olhos curiosos por perto. Isso decidiu a questão. Uma pergunta clara e uma resposta clara constituem o caminho mais curto para sair da maioria das perplexidades.
Levei os meus amigos para a minha cabine e disse que sentia muito por causar aborrecimento e decepção, mas que, após reflexão, parecia realmente melhor desembarcarmos a nossa bagagem e fazermos uma parada em Napoleon. A desaprovação deles foi imediata e ruidosa; a sua linguagem, amotinada. O seu argumento principal era um que, desde o início dos tempos, sempre foi o primeiro a vir à tona em casos como este: "Mas você decidiu e concordou em permanecer neste barco, etc."; como se, tendo decidido fazer uma coisa insensata, alguém estivesse, por isso, obrigado a seguir em frente e cometer duas insensatezes ao levar essa determinação adiante.
Tentei várias táticas para acalmá-los, com um sucesso razoavelmente bom: sob esse incentivo, aumentei os meus esforços; e, para lhes mostrar que eu não tinha criado essa tarefa incômoda, e que de forma alguma era o culpado por ela, acabei por divagar sobre a sua história — essencialmente da seguinte forma:
Perto do fim do ano passado, passei alguns meses em Munique, na Baviera. Em novembro, eu morava na pensão da Fraulein Dahlweiner, na Karlstrasse, 1a; mas o meu local de trabalho ficava a uma milha dali, na casa de uma viúva que se sustentava recebendo hóspedes. Ela e os seus dois filhos pequenos costumavam aparecer todas as manhãs e falar alemão comigo — a meu pedido. Um dia, durante um passeio pela cidade, visitei um dos dois estabelecimentos onde o Governo mantém e vigia os cadáveres até que os médicos decidam que eles estão permanentemente mortos, e não em estado de transe. Era um lugar lúgubre, aquela sala espaçosa. Havia trinta e seis cadáveres de adultos à vista, estendidos de costas sobre pranchas ligeiramente inclinadas, em três longas fileiras — todos eles com rostos rígidos e brancos como cera, e todos envoltos em mortalhas brancas. Ao longo das paredes da sala havia nichos profundos, como janelas salientes; e em cada um deles jaziam vários bebês de semblante marmóreo, totalmente ocultos e enterrados sob montes de flores frescas, exceto pelos rostos e mãos cruzadas. Ao redor de um dos dedos de cada uma dessas cinquenta formas imóveis, tanto grandes quanto pequenas, havia um anel; e desse anel partia um fio até o teto, e de lá para uma campainha em uma sala de vigilância ali adiante, onde, dia e noite, um vigia senta-se sempre alerta e pronto para correr em auxílio de qualquer um daquela companhia pálida que, despertando da morte, fizesse um movimento — pois qualquer movimento, por menor que fosse, puxaria o fio e tocaria aquele sino aterrorizante. Imaginei-me como um sentinela da morte cochilando ali sozinho, longe, nas horas arrastadas de alguma noite lamuriosa e tempestuosa, e tendo, num piscar de olhos, todo o meu corpo transformado em gelatina trêmula pelo clamor repentino daquele chamado terrível! Então, perguntei sobre isso; indaguei o que costumava acontecer; se o vigia morria e o cadáver reanimado vinha e fazia o que podia para tornar seus últimos momentos fáceis. Mas fui repreendido por tentar alimentar uma curiosidade ociosa e frívola em um lugar tão solene e lúgubre; e segui o meu caminho com a crista abatida.
Na manhã seguinte, eu estava contando a minha aventura à viúva, quando ela exclamou:
— Venha comigo! Tenho um hóspede que lhe dirá tudo o que quer saber. Ele já foi vigia noturno lá.
Era um homem vivo, mas não parecia. Estava na cama, com a cabeça apoiada em travesseiros altos; o rosto estava definhado e sem cor, os olhos profundamente encovados estavam fechados; a mão, pousada sobre o peito, era como uma garra, de tão ossuda e de dedos longos. A viúva começou a me apresentar. Os olhos do homem abriram-se lentamente e brilharam perversamente na penumbra de suas cavernas; ele franziu o cenho sombriamente; levantou a mão magra e acenou-nos peremptoriamente para longe. Mas a viúva continuou, até ter revelado o fato de que eu era um estranho e um americano. O rosto do homem mudou imediatamente; iluminou-se, tornou-se até ansioso — e no momento seguinte ele e eu estávamos sozinhos.
Comecei num alemão de ferro; ele respondeu num inglês bastante flexível; a partir daí, demos um descanso permanente à língua alemã.
Este tuberculoso e eu tornamo-nos bons amigos. Eu visitava-o todos os dias, e conversávamos sobre tudo. Pelo menos, sobre tudo, exceto esposas e filhos. Que a esposa ou o filho de alguém fosse mencionado, e três coisas sempre se seguiam: a luz mais graciosa, amorosa e terna cintilava nos olhos do homem por um momento; desvanecia-se no momento seguinte, e em seu lugar vinha aquele olhar mortal que flamejara ali na primeira vez que vi suas pálpebras se abrirem; em terceiro lugar, ele parava de falar, ali mesmo e para aquele dia; ficava em silêncio, abstraído e absorto; aparentemente não ouvia nada do que eu dizia; não notava as minhas despedidas e, claramente, não sabia, nem pela visão nem pela audição, quando eu saía do quarto.
Quando eu já era o íntimo diário e único de Karl Ritter há dois meses, ele disse-me, abruptamente:
— Vou contar-lhe a minha história.
A CONFISSÃO DE UM HOMEM MORIBUNDO
Então, ele continuou da seguinte forma:
Nunca desisti, até agora. Mas agora desisti. Vou morrer. Decidi na noite passada que tem de ser, e muito em breve, também. Você diz que vai revisitar o seu rio, daqui a algum tempo, quando encontrar oportunidade. Muito bem; isso, juntamente com uma certa experiência estranha que me aconteceu na noite passada, determina-me a contar-lhe a minha história — pois você verá Napoleon, Arkansas; e, por mim, você parará lá e fará uma certa coisa — uma coisa que você empreenderá de bom grado depois de ter ouvido a minha narrativa.
Vamos abreviar a história onde pudermos, pois ela precisará disso, sendo longa. Você já sabe como fui parar na América e como fui morar naquela região solitária do Sul. Mas você não sabe que eu tinha uma esposa. Minha esposa era jovem, linda, amorosa e, oh, tão divinamente boa, irrepreensível e gentil! E nossa filhinha era sua mãe em miniatura. Era o mais feliz dos lares.
Uma noite — já perto do fim da guerra — acordei de uma letargia profunda e encontrei-me amarrado e amordaçado, e o ar impregnado de clorofórmio! Vi dois homens no quarto, e um dizia ao outro, num sussurro rouco: "Eu disse a ela que o faria, se ela fizesse barulho, e quanto à criança..."
O outro homem interrompeu com uma voz baixa, quase chorosa:
— Você disse que apenas os amordaçaríamos e os roubaríamos, não que os machucaríamos; ou eu não teria vindo.
— Cala a tua boca choramingona; tive de mudar o plano quando eles acordaram; fizeste tudo o que podias para protegê-los, agora deixa que isso te satisfaça; vamos, ajuda a revirar tudo.
Ambos os homens estavam mascarados e vestiam roupas grosseiras e esfarrapadas de "negro"; tinham uma lanterna, e pela sua luz notei que o ladrão mais gentil não tinha polegar na mão direita. Reviraram a minha pobre cabana por um momento; o chefe dos bandidos disse então, no seu sussurro teatral:
— É perda de tempo — ele dirá onde está escondido. Tirem a mordaça dele e reanimem-no.
O outro disse:
— Tudo bem — desde que não haja espancamentos.
— Sem espancamentos, então — desde que ele fique quieto.
Aproximaram-se de mim; exatamente nesse momento houve um som lá fora; um som de vozes e cascos a galopar; os ladrões prenderam a respiração e ouviram; os sons aproximaram-se lenta e gradualmente; então veio um grito:
— Olá, casa! Acendam uma luz, queremos água.
— A voz do capitão, por D--! — disse o rufião do sussurro teatral, e ambos os ladrões fugiram pela porta das traseiras, apagando a lanterna enquanto corriam.
Os estranhos gritaram mais algumas vezes e depois passaram a cavalo — pareciam ser uma dúzia de cavalos — e não ouvi mais nada.
Lutei, mas não consegui libertar-me das minhas amarras. Tentei falar, mas a mordaça era eficaz; não consegui emitir um som. Escutei a voz da minha esposa e a da minha filha — escutei longa e atentamente, mas nenhum som veio do outro lado do quarto onde ficava a cama delas. Esse silêncio tornou-se cada vez mais horrível, cada vez mais ameaçador a cada momento. Você teria aguentado uma hora disso, acha? Tenha pena de mim, então, que tive de aguentar três. Três horas... foram três eras! Sempre que o relógio batia, parecia que anos tinham se passado desde a última vez que o ouvira. Durante todo esse tempo, lutei contra as minhas amarras; e, finalmente, por volta do amanhecer, libertei-me, levantei-me e estiquei os meus membros rígidos. Consegui distinguir os detalhes muito bem. O chão estava coberto de coisas jogadas ali pelos ladrões durante a busca pelas minhas economias. O primeiro objeto que me chamou a atenção foi um documento meu, que eu vira o mais bruto dos dois rufiões olhar e depois jogar fora. Tinha sangue nele! Cambaleei até o outro lado do quarto. Oh, pobres, inofensivas e indefesas, lá estavam elas, seus sofrimentos encerrados, os meus começados!
Recorri à lei — eu? Será que a sede do indigente é saciada se o Rei beber por ele? Oh, não, não, não — eu não queria interferência impertinente da lei. As leis e a forca não poderiam pagar a dívida que me era devida! Deixem as leis deixar o assunto nas minhas mãos e não tenham medo: eu encontraria o devedor e cobraria a dívida. Como realizar isso, pergunta você? Como realizar isso e sentir-me tão seguro quanto a isso, quando eu não vira os rostos dos ladrões, nem ouvira as suas vozes naturais, nem tinha qualquer ideia de quem poderiam ser? No entanto, eu estava seguro — bastante seguro, bastante confiante. Eu tinha uma pista — uma pista que você não teria valorizado — uma pista que não teria ajudado muito nem um detetive, uma vez que lhe faltaria o segredo de como aplicá-la. Chegarei a isso, em breve... você verá. Vamos continuar, agora, colocando as coisas na sua devida ordem. Houve uma circunstância que me deu uma inclinação numa direção definida para começar: aqueles dois ladrões eram manifestamente soldados disfarçados de vagabundos; e não eram novos no serviço militar, mas velhos nele — regulares, talvez; eles não adquiriram sua atitude, gestos e porte militares num dia, nem num mês, nem sequer num ano. Foi o que pensei, mas não disse nada. E um deles dissera: "a voz do capitão, por D--!" — aquele cuja vida eu queria. A duas milhas de distância, vários regimentos estavam acampados, e duas companhias de cavalaria dos EUA. Quando soube que o Capitão Blakely, da Companhia C, passara pelo nosso caminho, naquela noite, com uma escolta, não disse nada, mas nessa companhia decidi procurar o meu homem. Na conversa, descrevi estudada e persistentemente os ladrões como vagabundos, seguidores de acampamento; e foi entre essa classe que o povo fez buscas inúteis, ninguém suspeitando dos soldados, exceto eu.
Trabalhando pacientemente, à noite, na minha casa desolada, fiz um disfarce para mim com vários restos de roupas; na aldeia mais próxima, comprei um par de óculos azuis. Mais tarde, quando o acampamento militar foi desativado e a Companhia C recebeu ordens para seguir cem milhas ao norte, para Napoleon, escondi meu pequeno pecúlio no cinto e parti durante a noite. Quando a Companhia C chegou a Napoleon, eu já estava lá. Sim, eu estava lá, com uma nova profissão — adivinho. Para não parecer parcial, fiz amigos e contei a sorte entre todas as companhias ali aquarteladas; mas dei à Companhia C a maior parte da minha atenção. Tornei-me infinitamente prestativo para com esses homens em particular; eles não podiam me pedir nenhum favor, não podiam me impor nenhum risco, que eu recusasse. Tornei-me o alvo voluntário das suas brincadeiras; isso aperfeiçoou a minha popularidade; tornei-me um favorito.
Logo encontrei um soldado que não tinha um polegar — que alegria foi para mim! E quando descobri que ele, sozinho, de toda a companhia, perdera um polegar, minha última dúvida desapareceu; eu tinha a certeza de que estava no caminho certo. O nome desse homem era Kruger, um alemão. Havia nove alemães na companhia. Observei para ver quem seriam os seus íntimos; mas ele parecia não ter íntimos especiais. Mas eu era o seu íntimo; e cuidei para que a intimidade crescesse. Às vezes eu ansiava tanto pela minha vingança que mal conseguia me conter de cair de joelhos e implorar-lhe que apontasse o homem que assassinara minha esposa e filha; mas consegui refrear a minha língua. Esperei pelo meu momento e continuei a dizer a sorte, conforme a oportunidade surgia.
O meu aparelho era simples: um pouco de tinta vermelha e um pedaço de papel branco. Pintava a polpa do polegar do cliente, tirava uma impressão no papel, estudava-a à noite e revelava a sua sorte no dia seguinte. Qual era a minha ideia com esse disparate? Era esta: quando eu era jovem, conheci um velho francês que fora carcereiro por trinta anos, e ele me disse que havia uma coisa numa pessoa que nunca mudava, do berço ao túmulo — as linhas na polpa do polegar; e ele disse que essas linhas nunca eram exatamente iguais nos polegares de dois seres humanos quaisquer. Hoje em dia, fotografamos o novo criminoso e penduramos a sua imagem na Galeria dos Canalhas para referência futura; mas aquele francês, no seu tempo, costumava tirar uma impressão da polpa do polegar de um novo prisioneiro e guardá-la para referência futura. Ele sempre dizia que as imagens não serviam para nada — disfarces futuros poderiam torná-las inúteis; "O polegar é a única coisa segura", dizia ele; "não se pode disfarçar isso". E ele costumava provar a sua teoria, também, nos meus amigos e conhecidos; sempre dava certo.
Continuei a contar a sorte. Todas as noites eu me trancava, sozinho, e estudava as impressões digitais do dia com uma lupa. Imagine a avidez devoradora com que eu examinava aquelas espirais vermelhas confusas, com aquele documento ao meu lado que trazia as marcas de polegar e dedo da mão direita daquele assassino desconhecido, impressas com o sangue mais querido — para mim — que jamais fora derramado nesta terra! E muitas e muitas vezes tive de repetir a mesma velha observação desapontada: "Será que eles nunca corresponderão!"
Mas a minha recompensa chegou finalmente. Foi a impressão do polegar do quadragésimo terceiro homem da Companhia C em quem eu experimentara — o soldado Franz Adler. Uma hora antes, eu não sabia o nome, a voz, a figura, o rosto ou a nacionalidade do assassino; mas agora eu sabia todas essas coisas! Acreditava que podia sentir-me seguro; as demonstrações repetidas do francês eram uma garantia tão boa. Ainda assim, havia uma maneira de ter a certeza. Eu tinha uma impressão do polegar esquerdo de Kruger. De manhã, levei-o de lado quando ele estava fora de serviço; e quando estávamos fora da vista e do alcance de testemunhas, disse, de forma impressionante:
— Parte da sua sorte é tão grave que achei que seria melhor para você se eu não a contasse em público. Você e outro homem, cuja sorte eu estava estudando na noite passada — o soldado Adler — assassinaram uma mulher e uma criança! Estão sendo seguidos: dentro de cinco dias ambos serão assassinados.
Ele caiu de joelhos, assustado fora de seus sentidos; e por cinco minutos ele continuou a despejar o mesmo conjunto de palavras, como uma pessoa demente, e da mesma maneira meio chorosa que era uma das minhas memórias daquela noite assassina na minha cabana:
— Eu não fiz isso; pela minha alma, eu não fiz isso; e tentei impedi-lo de fazê-lo; tentei, como Deus é minha testemunha. Ele fez isso sozinho.
Era tudo o que eu queria. E tentei livrar-me do tolo; mas não, ele agarrou-se a mim, implorando-me para salvá-lo do assassino. Ele disse:
— Tenho dinheiro — dez mil dólares — escondido, fruto de pilhagem e roubo; salve-me — diga-me o que fazer, e você terá tudo, cada centavo. Dois terços são do meu primo Adler; mas você pode levar tudo. Escondemo-lo quando chegamos aqui. Mas escondi-o num novo lugar ontem, e não contei a ele — não contarei. Eu ia desertar e fugir com tudo. É ouro, e muito pesado para carregar quando se está correndo e esquivando; mas uma mulher que já foi para o outro lado do rio há dois dias para preparar o meu caminho vai seguir-me com ele; e se eu não tivesse chance de descrever o esconderijo para ela, eu ia deslizar o meu relógio de prata para a mão dela, ou enviá-lo para ela, e ela entenderia. Há um pedaço de papel na parte de trás da caixa, que conta tudo. Aqui, pegue o relógio — diga-me o que fazer!
Ele estava tentando pressionar o seu relógio contra mim, e estava expondo o papel e explicando-o para mim, quando Adler apareceu no local, a cerca de uma dúzia de metros de distância. Eu disse ao pobre Kruger:
— Guarde o seu relógio, não o quero. Você não sofrerá nenhum mal. Vá agora; preciso contar a sorte de Adler. Mais tarde direi como escapar do assassino; entretanto, terei de examinar a marca do seu polegar novamente. Não diga nada a Adler sobre isso — não diga nada a ninguém.
Ele foi embora cheio de medo e gratidão, pobre diabo. Contei a Adler uma sorte longa — propositadamente tão longa que não pude terminá-la; prometi ir até ele na guarda, naquela noite, e contar-lhe a parte realmente importante dela — a parte trágica dela, eu disse — por isso devia estar fora do alcance de ouvintes. Eles sempre mantinham uma vigia de piquete fora da cidade — mera disciplina e cerimônia — sem necessidade disso, sem inimigo por perto.
Perto da meia-noite, parti, equipado com a senha, e escolhi o meu caminho em direção à região solitária onde Adler deveria manter a sua guarda. Estava tão escuro que tropecei numa figura sombria quase antes que pudesse proferir uma palavra de proteção. O sentinela chamou e eu respondi, ambos ao mesmo tempo. Acrescentei: "Sou apenas eu — o adivinho". Então esgueirei-me para o lado do pobre diabo e, sem uma palavra, cravei o meu punhal no seu coração! Ya wohl, ri-me, era a parte trágica da sorte dele, de fato! Quando ele caiu do cavalo, agarrou-se a mim, e os meus óculos azuis ficaram na sua mão; e a besta disparou arrastando-o, com o pé no estribo.
Fugi pela floresta e consegui escapar, deixando os óculos acusadores para trás, na mão daquele homem morto.
Isso foi há quinze ou dezesseis anos. Desde então, vagueei sem rumo pela terra, às vezes trabalhando, às vezes ocioso; às vezes com dinheiro, às vezes sem nada; mas sempre cansado da vida, e desejando que ela tivesse acabado, pois a minha missão aqui estava terminada com o ato daquela noite; e o único prazer, consolo e satisfação que tive, em todos esses anos tediosos, foi na reflexão diária: "Eu o matei!"
Há quatro anos, a minha saúde começou a deteriorar-se. Eu tinha vagueado por Munique, à minha maneira sem propósito. Sem dinheiro, procurei trabalho e consegui-o; cumpri o meu dever fielmente durante cerca de um ano e, então, deram-me o lugar de vigia noturno lá no necrotério que visitou recentemente. O lugar adequava-se ao meu estado de espírito. Eu gostava dele. Gostava de estar com os mortos — gostava de estar sozinho com eles. Costumava vaguear por entre aqueles cadáveres rígidos e perscrutar os seus rostos austeros, durante horas. Quanto mais tarde fosse, mais impressionante era; eu preferia a hora tardia. Às vezes, baixava as luzes: isto dava perspetiva, entende; e a imaginação podia fluir; as filas ténues e recuadas de mortos inspiravam-me sempre com fantasias estranhas e fascinantes. Há dois anos — eu estava lá há um ano, então — estava sentado, inteiramente só, na sala de vigia, numa noite de inverno tempestuosa, arrepiado, entorpecido, sem conforto; adormecendo gradualmente para a inconsciência; o soluçar do vento e o bater de portadas distantes soando cada vez mais fracos aos meus ouvidos entorpecidos a cada momento, quando, aguda e subitamente, aquele sino de defuntos tocou um alarme arrepiante sobre a minha cabeça! O choque quase me paralisou; pois era a primeira vez que o ouvia.
Recuperei-me e voei para a sala dos cadáveres. A meio da fila exterior, uma figura envolta em mortalha estava sentada, direita, abanando a cabeça lentamente de um lado para o outro — um espetáculo macabro! O seu lado estava voltado para mim. Apressei-me até ele e perscrutei o seu rosto. Céus, era Adler!
Consegue adivinhar qual foi o meu primeiro pensamento? Posto em palavras, foi este: "Parece, então, que me escapou uma vez: haverá um resultado diferente desta vez!"
Evidentemente, esta criatura estava a sofrer terrores inimagináveis. Pense no que deve ter sido acordar no meio daquele silêncio absoluto e olhar para aquela lúgubre congregação de mortos! Que gratidão brilhou no seu rosto magro e pálido quando viu uma forma viva diante de si! E como o fervor desta gratidão muda aumentou quando os seus olhos caíram sobre os cordiais vivificantes que eu levava nas mãos! Então, imagine o horror que surgiu naquele rosto contraído quando coloquei os cordiais atrás de mim e disse, zombeteiramente:
"Fala, Franz Adler — chama por estes mortos. Sem dúvida, eles ouvirão e terão pena; mas aqui não há mais ninguém que o faça."
Ele tentou falar, mas aquela parte da mortalha que lhe prendia os maxilares mantinha-se firme e não o permitia. Tentou levantar as mãos suplicantes, mas estavam cruzadas sobre o peito e atadas. Eu disse:
"Grita, Franz Adler; faz com que os que dormem nas ruas distantes te ouçam e tragam ajuda. Grita — e não percas tempo, pois há pouco a perder. O quê, não consegues? É uma pena; mas não importa — nem sempre traz ajuda. Quando tu e o teu primo assassinaram uma mulher e uma criança indefesas numa cabana no Arkansas — a minha mulher, era, e o meu filho! — eles gritaram por ajuda, lembras-te; mas não adiantou nada; lembras-te de que não adiantou nada, não é assim? Os teus dentes batem — então por que não podes gritar? Desaperta as ligaduras com as mãos — então poderás. Ah, já vejo — as tuas mãos estão atadas, não te podem ajudar. Como as coisas se repetem estranhamente, após longos anos; pois as minhas mãos estavam atadas, naquela noite, lembras-te? Sim, atadas tal como as tuas estão agora — que estranho que é. Eu não me conseguia soltar. Não te ocorreu desatar-me; não me ocorre desatar-te. Shh! há um passo tardio. Está a vir por este caminho. Escuta, quão perto está! Podem-se contar os passos — um — dois — três. Ali — está mesmo lá fora. Agora é a hora! Grita, homem, grita! — é a única hipótese entre ti e a eternidade! Ah, vês, demoraste demasiado — já passou. Ali — está a morrer. Já se foi! Pensa nisso — reflete sobre isso — ouviste um passo humano pela última vez. Quão curioso deve ser ouvir um som tão comum como esse e saber que nunca mais se ouvirá o seu semelhante."
Oh, meu amigo, a agonia naquele rosto envolto na mortalha era êxtase de ver! Pensei numa nova tortura e apliquei-a — ajudando-me com uma ninharia de invenção mentirosa:
"Aquele pobre Kruger tentou salvar a minha mulher e o meu filho, e fiz-lhe um favor grato por isso quando chegou a altura. Persuadi-o a roubar-te; e eu e uma mulher ajudámo-lo a desertar e tirámo-lo em segurança." Um olhar de surpresa e triunfo brilhou debilmente através da angústia no rosto da minha vítima. Fiquei perturbado, inquieto. Disse:
"O quê, então — ele não escapou?"
Um abanar negativo da cabeça.
"Não? O que aconteceu, então?"
A satisfação no rosto coberto pela mortalha estava ainda mais clara. O homem tentou murmurar algumas palavras — não conseguiu; tentou expressar algo com as mãos obstruídas — falhou; pausou um momento, depois inclinou debilmente a cabeça, de forma significativa, em direção ao cadáver que jazia mais perto dele.
"Morto?" perguntei. "Não conseguiu escapar? — apanhado em flagrante e alvejado?"
Abanar negativo da cabeça.
"Como, então?"
Novamente o homem tentou fazer algo com as mãos. Observei atentamente, mas não consegui adivinhar a intenção. Inclinei-me e observei ainda mais intensamente. Ele tinha torcido um polegar e estava debilmente a espetá-lo no peito. "Ah — esfaqueado, queres dizer?"
Aceno afirmativo, acompanhado por um sorriso espectral de uma diabólica peculiaridade, que lançou uma luz reveladora através do meu cérebro lento, e eu gritei:
"Eu esfaqueei-o, confundindo-o contigo? — pois aquele golpe não era para ninguém senão para ti."
O aceno afirmativo do patife que morria novamente foi tão alegre quanto a sua força decadente era capaz de colocar na sua expressão.
"Ó, miserável, miserável eu, abater a alma compassiva que foi amiga dos meus entes queridos quando estavam indefesos, e tê-los-ia salvo se pudesse! miserável, oh, miserável, miserável eu!"
Imaginei ouvir o gorgolejar abafado de uma risada zombeteira. Tirei o rosto das minhas mãos e vi o meu inimigo a afundar-se de volta na sua tábua inclinada.
Ele demorou um tempo satisfatório a morrer. Tinha uma vitalidade maravilhosa, uma constituição espantosa. Sim, foi um tempo agradavelmente longo. Arranjei uma cadeira e um jornal, sentei-me ao pé dele e li. Ocasionalmente, dava um gole de conhaque. Era necessário, por causa do frio. Mas fiz isso em parte porque vi que, no início, sempre que eu ia buscar a garrafa, ele pensava que eu lhe ia dar um pouco. Li em voz alta: principalmente relatos imaginários de pessoas arrebatadas do limiar da sepultura e restauradas à vida e ao vigor por algumas colheres de licor e um banho quente. Sim, ele teve uma morte longa e difícil — três horas e seis minutos, desde a altura em que tocou a sua campainha.
Acredita-se que em todos estes dezoito anos que decorreram desde a instituição da vigília dos cadáveres, nenhum ocupante envolto em mortalha dos necrotérios da Baviera tocou alguma vez a sua campainha. Bem, é uma crença inofensiva. Deixemos ficar assim.
O frio daquela sala da morte penetrou-me nos ossos. Reavivou e fixou em mim a doença que me vinha afligindo, mas que, até àquela noite, tinha estado a desaparecer constantemente. Aquele homem assassinou a minha mulher e o meu filho; e daqui a três dias ele ter-me-á adicionado à sua lista. Não importa — Deus! quão deliciosa é a memória disso! — apanhei-o a escapar da sua sepultura e empurrei-o de volta para dentro dela.
Depois daquela noite, fiquei confinado à cama durante uma semana; mas assim que pude mover-me, fui aos livros do necrotério e obtive o número da casa onde Adler morara. Era uma pensão miserável. A minha ideia era que ele teria naturalmente ficado com os bens de Kruger, sendo seu primo; e eu queria obter o relógio de Kruger, se pudesse. Mas enquanto estive doente, as coisas de Adler tinham sido vendidas e espalhadas, exceto algumas cartas antigas e algumas quinquilharias sem valor. No entanto, através dessas cartas, encontrei um filho de Kruger, o único parente que restava. Ele é um homem de trinta anos agora, sapateiro de profissão, e vive no n.º 14 da Konigstrasse, em Mannheim — viúvo, com vários filhos pequenos. Sem lhe explicar o porquê, tenho financiado dois terços do seu sustento, desde então.
Agora, quanto a esse relógio — veja como as coisas acontecem estranhamente! Rasteiei-o pela Alemanha durante mais de um ano, com um custo considerável em dinheiro e aborrecimentos; e, finalmente, consegui-o. Consegui-o e fiquei indescritivelmente contente; abri-o e não encontrei nada lá dentro! Ora, eu poderia ter sabido que aquele pedaço de papel não ia ficar lá todo este tempo. É claro que desisti daqueles dez mil dólares então; desisti e esqueci-os: e muito tristemente, pois eu queria-os para o filho de Kruger.
Ontem à noite, quando consenti finalmente que tinha de morrer, comecei a preparar-me. Procedi a queimar todos os papéis inúteis; e, com certeza, de um lote de Adler, não examinado anteriormente com rigor, caiu aquele pedaço tão desejado! Reconheci-o num momento. Aqui está — vou traduzi-lo:
"Estábulos de tijolo, fundação de pedra, meio da cidade, esquina de Orleans e Market. Esquina voltada para o Tribunal. Terceira pedra, quarta fila. Cola o aviso lá, dizendo quantos devem vir."
Ali — pegue nele e preserve-o. Kruger explicou que aquela pedra era removível; e que ficava na parede norte da fundação, quarta fila a partir do topo e terceira pedra a partir do oeste. O dinheiro está escondido atrás dela. Ele disse que a frase final era um engodo, para induzir em erro caso o papel caísse em mãos erradas. Provavelmente desempenhou essa função para Adler.
Agora quero pedir que, quando fizer a sua pretendida viagem pelo rio, procure esse dinheiro escondido e envie-o a Adam Kruger, aos cuidados do endereço em Mannheim que mencionei. Fá-lo-á um homem rico, e eu dormirei mais tranquilamente na minha sepultura por saber que fiz o que pude pelo filho do homem que tentou salvar a minha mulher e o meu filho — embora a minha mão o tenha derrubado por ignorância, enquanto o impulso do meu coração teria sido protegê-lo e servi-lo.
CAPÍTULO 32
O Destino de uma Bonança
"TAL foi a narrativa de Ritter", disse eu aos meus dois amigos. Houve um silêncio profundo e impressionante, que durou um tempo considerável; então, ambos os homens irromperam numa saraivada de exclamações excitantes e admiradoras sobre os estranhos incidentes da história; e isto, juntamente com um fogo cerrado de perguntas, manteve-se até que todos estivessem quase sem fôlego. Então, os meus amigos começaram a acalmar-se e a retirar-se, sob a cobertura de descargas ocasionais, para o silêncio e um devaneio abissal. Por dez minutos, houve quietude. Então Rogers disse, sonhadoramente:
"Dez mil dólares."
Acrescentando, após uma pausa considerável:
"Dez mil. É uma montanha de dinheiro."
Presentemente, o poeta perguntou:
"Vai enviá-lo para ele imediatamente?"
"Sim", disse eu. "É uma pergunta estranha."
Nenhuma resposta. Após um pouco, Rogers perguntou, hesitante:
"Tudo isso? — Isto é — quero dizer —"
"Certamente, tudo isso."
Eu ia dizer mais, mas parei — fui parado por um fio de pensamento que surgiu em mim. Thompson falou, mas a minha mente estava ausente e não captei o que ele disse. Mas ouvi Rogers responder:
"Sim, parece-me que sim. Deve ser mais do que suficiente; pois não vejo que ele tenha feito nada."
Presentemente, o poeta disse:
"Quando olhamos para isso, é mais do que suficiente. Basta olhar para isso — cinco mil dólares! Ora, ele não os conseguiria gastar numa vida inteira! E prejudicá-lo-ia também; talvez arruiná-lo-ia — tem de olhar para isso. Em pouco tempo, ele desperdiçaria o último que lhe restasse, fecharia a sua oficina, talvez começasse a beber, maltrataria os seus filhos sem mãe, seguiria outros caminhos maus, iria gradualmente de mal a pior —"
"Sim, é isso", interrompeu Rogers, fervorosamente, "já vi isso cem vezes — sim, mais de cem. Coloca dinheiro nas mãos de um homem como esse, se quiseres destruí-lo, é só isso; basta colocar dinheiro nas mãos dele, é tudo o que tens de fazer; e se isso não o derrubar e não lhe tirar toda a utilidade, todo o autorrespeito e tudo mais, então não conheço a natureza humana — não é assim, Thompson? E mesmo que lhe déssemos um terço disso; ora, em menos de seis meses —"
"Menos de seis semanas, seria melhor dizer!" disse eu, aquecendo-me e interrompendo. "A menos que ele tivesse aqueles três mil dólares em mãos seguras onde não pudesse tocar, ele não duraria seis semanas mais do que —"
"É claro que não duraria", disse Thompson; "editei livros para esse tipo de pessoas; e no momento em que deitam as mãos aos direitos de autor — talvez sejam três mil, talvez dois mil —"
"Que negócio tem aquele sapateiro com dois mil dólares, gostaria eu de saber?" interrompeu Rogers, seriamente. "Um homem talvez perfeitamente contente agora, ali em Mannheim, rodeado pela sua própria classe, comendo o seu pão com o apetite que a indústria laboriosa apenas pode dar, desfrutando da sua vida humilde, honesto, íntegro, puro de coração; e abençoado! — sim, digo eu, abençoado! abençoado acima de todas as miríades que andam vestidas de seda e percorrem a ronda artificial e vazia da loucura social — mas basta colocar essa tentação diante dele uma vez! basta colocar mil e quinhentos dólares diante de um homem como esse, e dizer —"
"Quinze mil demónios!" gritei eu, "quinhentos apodreceriam os seus princípios, paralisariam a sua indústria, arrastá-lo-iam para a taberna, dali para a sarjeta, dali para o asilo, dali para..."
"Por que nos impomos este crime, cavalheiros?" interrompeu o poeta, séria e apelativamente. "Ele é feliz onde está, e como está. Cada sentimento de honra, cada sentimento de caridade, cada sentimento de alta e sagrada benevolência avisa-nos, suplica-nos, ordena-nos que o deixemos em paz. Isso é amizade real, isso é amizade verdadeira. Poderíamos seguir outros caminhos que seriam mais vistosos; mas nenhum que fosse tão verdadeiramente bondoso e sábio, acreditem."
Após alguma conversa adicional, tornou-se evidente que cada um de nós, no fundo do seu coração, sentia algumas dúvidas sobre este desfecho do assunto. Era manifesto que todos sentíamos que devíamos enviar algo ao pobre sapateiro. Houve uma longa e pensativa discussão sobre este ponto; e decidimos finalmente enviar-lhe um cromo.
Bem, agora que tudo parecia estar arranjado satisfatoriamente para todos os envolvidos, um novo problema surgiu: transpirou que estes dois homens esperavam partilhar igualmente o dinheiro comigo. Essa não era a minha ideia. Disse que se eles recebessem metade entre eles, poderiam considerar-se sortudos. Rogers disse:
"Quem teria tido algum se não fosse por mim? Eu lancei a primeira dica — se não fosse por isso, tudo teria ido para o sapateiro."
Thompson disse que estava a pensar na mesma coisa no exato momento em que Rogers tinha falado originalmente.
Retorqui que a ideia me teria ocorrido suficientemente cedo, e sem a ajuda de ninguém. Eu era lento a pensar, talvez, mas era seguro.
Este assunto aqueceu para uma discussão; depois para uma luta; e cada homem ficou bastante maltratado. Assim que me recompus de certa forma, subi para o convés superior com um humor bastante azedo. Encontrei o Capitão McCord lá e disse, tão agradavelmente quanto o meu humor permitia:
"Vim dizer adeus, capitão. Desejo desembarcar em Napoleon."
"Desembarcar onde?"
"Napoleon."
O capitão riu-se; mas, vendo que eu não estava num estado de espírito jovial, parou e disse:
"Mas está a falar a sério?"
"Sério? Certamente que estou."
O capitão olhou para a cabine do piloto e disse:
"Ele quer sair em Napoleon!"
"Napoleon?"
"É o que ele diz."
"Fantasma do grande César!"
O tio Mumford aproximou-se ao longo do convés. O capitão disse:
"Tio, aqui está um amigo seu que quer sair em Napoleon!"
"Bem, pelo...?"
Eu disse:
"Vamos lá, o que é tudo isto? Um homem não pode desembarcar em Napoleon se quiser?"
"Ora, diabo, não sabe? Não existe mais Napoleon. Não existe há anos e anos. O Rio Arkansas irrompeu por ele, rasgou-o todo em farrapos e despejou-o no Mississippi!"
"Levou a cidade toda? — margens, igrejas, prisões, redações de jornais, tribunal, teatro, corpo de bombeiros, estábulos — tudo?"
"Tudo. Trabalho de quinze minutos, ou coisa que o valha. Não deixou pele nem pelo, farrapo nem telha, exceto o resto de uma barraca e uma chaminé de tijolo. Este barco está a navegar agora mesmo onde costumava ser o centro morto daquela cidade; ali está a chaminé de tijolo — tudo o que resta de Napoleon. Estes bosques densos à direita costumavam ficar a uma milha atrás da cidade. Dê uma vista de olhos atrás de si — rio acima — agora começa a reconhecer este país, não é?"
"Sim, reconheço-o agora. É a coisa mais maravilhosa que já ouvi; de longe a mais maravilhosa — e inesperada."
O Sr. Thompson e o Sr. Rogers tinham chegado, entretanto, com sacos e guarda-chuvas, e tinham ouvido silenciosamente as notícias do capitão. Thompson colocou meio dólar na minha mão e disse suavemente:
"Pela minha parte do cromo."
Rogers seguiu o exemplo.
Sim, foi uma coisa espantosa ver o Mississippi a rolar entre margens despovoadas e diretamente sobre o local onde eu costumava ver uma cidade grande e autocomplacente há vinte anos. Cidade que era sede de um condado grande e importante; cidade com um grande hospital da marinha dos Estados Unidos; cidade de inúmeras lutas — um inquérito todos os dias; cidade onde eu costumava conhecer a rapariga mais bonita e mais talentosa de todo o Vale do Mississippi; cidade onde nos foram entregues as primeiras notícias impressas do desastroso naufrágio do 'Pennsylvania' há um quarto de século; uma cidade que já não existe — engolida, desaparecida, comida pelos peixes; nada restando senão um fragmento de uma barraca e uma chaminé de tijolo a desmoronar-se!
CAPÍTULO 33
Refrescos e Ética
EM relação à Ilha 74, que está situada não longe da antiga Napoleon, um capricho do rio aqui deixou as leis dos homens severamente perplexas e tornou-as uma vaidade e uma piada. Quando o Estado do Arkansas foi fundado, ele controlava "até ao centro do rio" — uma linha muito instável. O Estado do Mississippi reivindicava "até ao canal" — outra linha instável e incerta. A n.º 74 pertencia ao Arkansas. A pouco e pouco, um corte lançou esta grande ilha para fora do Arkansas e, ainda assim, não dentro do Mississippi. "Centro do rio" de um lado, "canal" do outro. É assim que entendo o problema. Se acertei nos detalhes ou não, este facto permanece: que aqui está esta grande e extremamente valiosa ilha de quatro mil acres, lançada ao frio e não pertencendo nem a um Estado nem ao outro; não pagando impostos a nenhum, não devendo lealdade a nenhum. Um homem é dono de toda a ilha e, por direito, é "o homem sem país".
A Ilha 92 pertence ao Arkansas. O rio moveu-a e juntou-a ao Mississippi. Um tipo estabeleceu lá uma loja de uísque, sem licença do Mississippi, e enriqueceu com a clientela do Mississippi sob proteção do Arkansas (onde não era exigida licença naqueles dias).
Deslizámos constantemente rio abaixo na habitual privacidade — barco a vapor ou outra coisa em movimento raramente vista. Cenário como sempre: extensão após extensão de floresta quase ininterrupta, em ambos os lados do rio; solidão silenciosa. Aqui e ali uma ou duas cabanas, de pé em pequenas aberturas nas margens cinzentas e sem relva — cabanas que anteriormente tinham ficado a um quarto ou meia milha mais à frente e gradualmente tinham sido puxadas cada vez mais para trás à medida que as margens cediam. Como em Pilcher's Point, por exemplo, onde as cabanas tinham sido movidas para trás trezentos metros em três meses, como nos disseram; mas as margens que cediam já as tinham alcançado, e estavam a ser transportadas para a retaguarda mais uma vez.
Napoleon tinha pouca opinião sobre Greenville, no Mississippi, nos velhos tempos; mas veja, Napoleon foi-se para os peixes-gato, e aqui está Greenville cheia de vida e atividade, e fazendo um sucesso considerável no Vale; tendo três mil habitantes, diz-se, e fazendo um comércio bruto de 2.500.000 dólares anualmente. Uma cidade em crescimento.
Muito se falou no barco sobre a Calhoun Land Company, um empreendimento do qual se esperam resultados salutares. O Coronel Calhoun, neto do estadista, foi a Boston e formou um sindicato que adquiriu uma grande extensão de terra à beira do rio, no Condado de Chicot, Arkansas — cerca de dez mil acres — para o cultivo de algodão. O objetivo é trabalhar à base de dinheiro vivo: comprar de primeira mão e manipular o próprio produto; fornecer aos seus trabalhadores negros provisões e necessidades a um lucro irrisório, digamos 8 ou 10 por cento; mobiliar-lhes alojamentos confortáveis, etc., e encorajá-los a poupar dinheiro e permanecer no local. Se isso provar ser um sucesso financeiro, como parece bastante certo, pretendem estabelecer uma casa bancária em Greenville e emprestar dinheiro a uma taxa de juros não onerosos — fala-se em 6 por cento.
O problema até agora tem sido — estou citando observações de plantadores e homens de barcos a vapor — que os plantadores, embora possuindo a terra, estavam sem capital em dinheiro; tinham de hipotecar tanto a terra quanto a colheita para levar adiante o negócio. Consequentemente, o comissário que fornece o dinheiro assume algum risco e exige juros altos — geralmente 10 por cento, e 2 ½ por cento para negociar o empréstimo. O plantador também tem de comprar seus suprimentos através do mesmo negociante, pagando comissões e lucros. Então, quando ele despacha sua colheita, o negociante adiciona suas comissões, seguro, etc. Assim, olhando por alto, e do início ao fim, a parte do negociante nessa colheita é de cerca de 25 por cento. {Nota de rodapé: "Mas o que pode o Estado fazer onde as pessoas estão sob sujeição a taxas de juros que variam de 18 a 30 por cento, e estão também sob a necessidade de comprar suas colheitas antes mesmo de plantar, a essas taxas, pelo privilégio de comprar todos os seus suprimentos com 100 por cento de lucro?" — Edward Atkinson.}
A estimativa de um plantador de algodão sobre a margem média de lucro no plantio, em sua seção: um homem e uma mula criarão dez acres de algodão, rendendo dez fardos de algodão, valendo, digamos, 500 dólares; custo de produção, digamos 350 dólares; lucro líquido, 150 dólares, ou 15 dólares por acre. Há também um lucro agora proveniente da semente de algodão, que antigamente tinha pouco valor — nenhum onde muito transporte era necessário. Em mil e seiscentas libras de algodão bruto, quatrocentas são de pluma, valendo, digamos, dez centavos a libra; e mil e duzentas libras de semente, valendo 12 ou 13 dólares por tonelada. Talvez no futuro nem mesmo os talos sejam jogados fora. O Sr. Edward Atkinson diz que para cada fardo de algodão há mil e quinhentas libras de talos, e que estes são muito ricos em fosfato de cal e potássio; que quando moída e misturada com silagem ou farelo de semente de algodão (que é rico demais para uso como forragem em grandes quantidades), a mistura de talos faz um alimento superior, rico em todos os elementos necessários para a produção de leite, carne e osso. Até agora, os talos eram considerados um incômodo.
Queixa-se que o plantador permanece hostil para com o antigo escravo, desde a guerra; não terá nada além de uma fria relação de negócios com ele, nenhum sentimento permitido intrometer-se, não manterá uma "venda" ele mesmo, e suprirá as necessidades do negro e assim protegerá o bolso do negro e o tornará capaz e disposto a ficar no local e uma vantagem para ele fazê-lo, mas cede esse privilégio a algum israelita poupado, que encoraja o negro impensado e sua esposa a comprar todo tipo de coisas das quais poderiam prescindir — comprar a crédito, a preços altos, mês após mês, crédito baseado na parte do negro da colheita em crescimento; e ao fim da estação, a parte do negro pertence ao israelita, o negro está em dívida além disso, está desanimado, insatisfeito, inquieto, e tanto ele quanto o plantador são prejudicados; pois ele tomará o barco a vapor e migrará, e o plantador deve conseguir um estranho em seu lugar que não o conhece, não se importa com ele, engordará o israelita por uma estação, e seguirá seu predecessor via barco a vapor.
Espera-se que a Calhoun Company demonstre, pelo seu tratamento humano e protetor aos seus trabalhadores, que o seu método é o mais rentável tanto para o plantador quanto para o negro; e acredita-se que uma adoção geral desse método seguirá então.
E onde tantos estão dizendo o que pensam, não deveria o barman testemunhar? Ele é pensativo, observador, nunca bebe; esforça-se para ganhar seu salário, e o ganharia se houvesse clientela suficiente. Ele diz que as pessoas por aqui no Mississippi e na Louisiana enviarão rio acima para comprar vegetais em vez de cultivá-los, e virão a bordo nos ancoradouros e comprarão frutas do barman. Acha que "não sabem nada além de algodão"; acredita que não sabem como cultivar vegetais e frutas — "pelo menos a maioria deles". Diz que "um negro irá até o inferno por uma melancia" ["H" é tudo o que encontro no relatório do estenógrafo — significa Halifax provavelmente, embora pareça um longo caminho para ir por uma melancia]. O barman compra melancias por cinco centavos rio acima, traz para baixo e as vende por cinquenta. "Por que ele mistura bebidas tão elaboradas e pitorescas para os ajudantes negros no barco?" Porque eles não querem nenhuma outra. "Eles querem uma bebida grande; não faz diferença do que você a faz, eles querem o valor do seu dinheiro. Você dá a um negro um gole simples de conhaque de meio dólar por cinco centavos — ele tocará nele? Não. Não tem tamanho suficiente para isso. Mas você prepara uma caneca de todo tipo de lixo sem valor, e joga um pouco de coisa vermelha para torná-la bonita — vermelho é a coisa principal — e ele não pousaria aquele copo nem para ir a um circo."
Todos os bares nesta Anchor Line são alugados e pertencem a uma única firma. Eles fornecem os licores do seu próprio estabelecimento, e contratam os barmans "por salário". Bons licores? Sim, em alguns dos barcos, onde há o tipo de passageiro que os quer e pode pagar por eles. Nos outros barcos? Não. Ninguém além dos ajudantes de convés e bombeiros para bebê-los. "Conhaque? Sim, eu tenho conhaque, muito dele; mas você não quer nada disso a menos que tenha feito seu testamento." Não é como costumava ser nos velhos tempos. Então todo mundo viajava de barco a vapor, todo mundo bebia, e todo mundo pagava bebidas para todo mundo. "Agora quase todo mundo vai de ferrovia, e o resto não bebe." Nos velhos tempos o barman possuía o bar ele mesmo, "e era alegre e inteligente e falante e todo adornado de joias, e era o aristocrata mais elegante do barco; costumava ganhar 2.000 dólares em uma viagem. Um pai que deixava ao filho um bar de barco a vapor, deixava-lhe uma fortuna. Agora deixa-lhe comida e alojamento; sim, e lavagem, se uma camisa por viagem servir. Sim, com certeza, os tempos mudaram. Ora, você sabia que, na principal linha de barcos no Alto Mississippi, eles não têm bar nenhum! Soa como poesia, mas é a verdade petrificada."
CAPÍTULO 34
Histórias de Pescador
STACK Island. Eu me lembrava de Stack Island; também de Lake Providence, Louisiana — que é a primeira cidade de aparência distintamente sulista a que se chega, descendo o rio; situa-se nivelada e baixa, árvores de sombra penduradas com veneráveis barbas cinzentas de musgo espanhol; "aspecto repousante, pensativo, de domingo sobre o lugar", comenta o Tio Mumford, com sentimento — e também com verdade.
Um Sr. H. forneceu alguns detalhes menores de fato concernentes a esta região que eu teria hesitado em acreditar se não soubesse que ele era um imediato de barco a vapor. Ele era um passageiro nosso, residente de Arkansas City, e a caminho de Vicksburg para se juntar ao seu barco, um pequeno paquete de Sunflower. Ele era um homem austero, e tinha a reputação de ser singularmente desapegado do mundo, para um homem do rio. Entre outras coisas, ele disse que o Arkansas havia sido prejudicado e contido por gerações de exageros concernentes aos mosquitos daqui. Pode-se sorrir, disse ele, e ignorar o assunto como sendo uma coisa pequena; mas quando você passa a observar os efeitos produzidos, no que diz respeito ao desencorajamento da imigração e valores diminuídos da propriedade, era exatamente o oposto de uma coisa pequena, ou coisa de qualquer modo a ser ignorada ou ridicularizada. Esses mosquitos tinham sido persistentemente representados como sendo formidáveis e sem lei; enquanto "a verdade é, eles são débeis, insignificantes em tamanho, tímidos ao extremo, sensíveis" — e assim por diante, e assim por diante; você teria suposto que ele estava falando de sua família. Mas se ele era mole com os mosquitos do Arkansas, ele era duro o suficiente com os mosquitos de Lake Providence para compensar — "aqueles colossos de Lake Providence", como ele chamou-os elegantemente. Ele disse que dois deles poderiam surrar um cachorro, e que quatro deles poderiam segurar um homem no chão; e a menos que viesse ajuda, eles o matariam — "açougui-lo-iam", como ele se expressou. Referiu-se de uma maneira casual — e ainda assim significativa — ao "fato de que a apólice de vida na sua forma mais simples é desconhecida em Lake Providence — eles fazem uma apólice contra mosquitos além disso". Ele contou muitas coisas notáveis sobre aqueles insetos sem lei. Entre outras, disse que os tinha visto tentar votar. Notando que esta declaração parecia ser um grande esforço para nós, ele a modificou um pouco: disse que poderia ter se enganado quanto a esse detalhe, mas sabia que os vira ao redor das urnas "fazendo campanha".
Havia outro passageiro — amigo de H. — que apoiava as evidências duras contra aqueles mosquitos, e detalhou algumas aventuras estimulantes que ele teve com eles. As histórias eram bastante volumosas, apenas bastante volumosas; ainda assim o Sr. H. estava continuamente interrompendo com um frio, inexorável "Espere — corte vinte e cinco por cento disso; agora continue"; ou, "Espere — você está tornando isso forte demais; corte, corte — você coloca um pouco de fantasia demais em suas declarações: sempre vista um fato com malhas, nunca com um sobretudo"; ou, "Perdão, mais uma vez: se você vai carregar algo mais nessa declaração, você precisa de um par de alijadores e rebocar o resto, porque já está calando toda a água que há no rio; atenha-se aos fatos — apenas atenha-se aos fatos frios; o que esses cavalheiros querem para um livro é a verdade nua e crua — não é assim, cavalheiros?". Ele explicou privadamente que era necessário observar esse homem o tempo todo, e mantê-lo dentro dos limites; não seria bom negligenciar essa precaução, pois ele, Sr. H., "sabia para seu pesar". Disse ele, "Não vou enganá-los; ele contou-me uma mentira tão monstruosa uma vez, que inchou minha orelha esquerda, e esticou-a de modo que eu estava realmente incapaz de ver em volta dela; permaneceu assim por meses, e as pessoas vinham de milhas para ver-me abanar-me com ela".
CAPÍTULO 35
Vicksburg Durante o Problema
Costumávamos navegar passando pela cidade elevada no morro, Vicksburg, descendo o rio; mas não podemos fazer isso agora. Um corte tornou-a uma cidade do interior, como Osceola, St. Genevieve, e várias outras. Há águas sem correnteza — também uma grande ilha — em frente a Vicksburg agora. Você desce o rio pelo outro lado da ilha, então vira e sobe até a cidade; isto é, em águas altas: em águas baixas você não pode subir, mas deve desembarcar a certa distância abaixo dela.
Sinais e cicatrizes ainda permanecem, como lembretes das tremendas experiências de guerra de Vicksburg; trabalhos de terra, árvores aleijadas pelas balas de canhão, refúgios em cavernas nos precipícios de argila, etc. As cavernas prestaram um bom serviço durante as seis semanas de bombardeio da cidade — 8 de maio a 4 de julho de 1863. Foram usadas pelos não combatentes — principalmente pelas mulheres e crianças; não para viver constantemente, mas para fugir em busca de segurança em ocasião. Eram meros buracos, túneis, cavados no barranco de argila perpendicular, depois ramificados em forma de Y, dentro do morro. A vida em Vicksburg, durante as seis semanas, foi talvez — mas espere; aqui estão alguns materiais a partir dos quais reproduzi-la: —
População, vinte e sete mil soldados e três mil não combatentes; a cidade totalmente isolada do mundo — murada solidamente, a fachada por canhoneiras, a retaguarda por soldados e baterias; portanto, sem compra e venda com o exterior; sem passar de um lado para o outro; sem desejar boa viagem a um convidado que parte, sem dar as boas-vindas a um que chega; sem acres impressos de notícias de todo o mundo para serem lidos no café da manhã, pela manhã — uma tediosa ausência de tal matéria, em vez disso; portanto, também, sem correr para ver barcos a vapor fumegando à vista à distância rio acima ou rio abaixo, e arando em direção à cidade — pois nenhum vinha, o rio jazia vazio e imperturbado; sem correria e tumulto ao redor da estação ferroviária, sem lutar sobre enxames atordoados de passageiros por turbas barulhentas de cocheiros — tudo quieto lá; farinha a duzentos dólares o barril, açúcar a trinta, milho a dez dólares o alqueire, bacon a cinco dólares a libra, rum a cem dólares o galão; outras coisas na proporção: consequentemente, sem rugido e barulho de carroças e carruagens rasgando as ruas; nada para eles fazerem, entre aquele punhado de não combatentes de recursos exauridos; às três horas da manhã, silêncio; silêncio tão morto que o passo medido de um sentinela pode ser ouvido a uma distância aparentemente impossível; fora do alcance deste som solitário, talvez a quietude seja absoluta: tudo em um momento vêm trovões de artilharia que sacodem o chão, o céu é coberto de teias de aranha com as linhas vermelhas cruzadas emanando de bombas que voam, e uma chuva de fragmentos de ferro desce sobre a cidade; desce sobre as ruas vazias: ruas que não estão vazias um momento depois, mas manchadas com figuras vagas de mulheres e crianças frenéticas correndo de casa e da cama em direção às masmorras das cavernas — encorajadas pela soldadesca sombriamente humorística, que grita "Ratos, para os seus buracos!" e ri.
O trovão dos canhões ruge, as granadas gritam e colidem acima, a chuva de ferro cai, uma hora, duas horas, três, possivelmente seis, então para; o silêncio segue, mas as ruas ainda estão vazias; o silêncio continua; daqui a pouco uma cabeça projeta-se de uma caverna aqui, acolá e ali, e reconhece, cautelosamente; o silêncio ainda continuando, corpos seguem cabeças, e criaturas exaustas, meio sufocadas, agrupam-se, esticam seus membros cãibros, inalam goles profundos do grato ar fresco, fofocam com os vizinhos da próxima caverna; talvez vagueiem para casa em breve, ou deem um passeio pela cidade, se a quietude continuar; e correrão para os buracos novamente, daqui a pouco, quando a tempestade de guerra irromper mais uma vez.
Sendo apenas três mil esses habitantes de cavernas — meramente a população de uma aldeia — não passariam a conhecer uns aos outros, após uma semana ou duas, e familiarmente; de modo que as experiências afortunadas ou infortunadas de um seriam de interesse para todos?
Esses são os materiais fornecidos pela história. A partir deles, não poderia quase qualquer um reproduzir para si mesmo a vida daquela época em Vicksburg? Poderia você, que não a experimentou, chegar mais perto de reproduzi-la à imaginação de outro não participante do que poderia um habitante de Vicksburg que a experimentou? Parece impossível; e ainda assim há razões pelas quais poderia não ser realmente. Quando alguém faz sua primeira viagem em um navio, é uma experiência que ressoa multitudinalmente com novidades impressionantes; novidades que estão em contraste tão nítido com todas as experiências anteriores desta pessoa que elas tomam um aperto aparentemente imortal sobre sua imaginação e memória. Pela língua ou pena, ele pode fazer um habitante da terra viver aquela viagem estranha e estimulante com ele; fazê-lo ver tudo e sentir tudo. Mas se ele esperar? Se ele fizer dez viagens sucessivas — o que então? Bem, a coisa perdeu cor, vivacidade, surpresa; e tornou-se comum. O homem não teria nada a dizer que acelerasse o pulso de um habitante da terra.
Anos atrás, conversei com alguns dos não combatentes de Vicksburg — um homem e sua esposa. Deixados para contar sua história à sua própria maneira, aquelas pessoas contaram-na sem fogo, quase sem interesse.
Uma semana de sua vida maravilhosa lá teria tornado suas línguas eloquentes para sempre talvez; mas eles tiveram seis semanas disso, e isso desgastou toda a novidade; eles se acostumaram a serem bombardeados para fora de casa e para dentro do chão; a matéria tornou-se comum. Depois disso, a possibilidade de eles serem surpreendentemente interessantes em suas conversas sobre isso havia desaparecido. O que o homem disse foi neste sentido: —
"Passou a ser domingo o tempo todo. Sete domingos na semana — para nós, de qualquer modo. Não tínhamos nada para fazer, e o tempo passava devagar. Sete domingos, e todos eles quebrados em um momento ou outro, no dia ou na noite, por algumas horas da terrível tempestade de fogo e trovão e ferro. No início, costumávamos correr para os buracos bem mais rápido do que fazíamos depois. Na primeira vez, esqueci as crianças, e Maria trouxe ambas. Quando ela estava toda segura na caverna, desmaiou. Duas ou três semanas depois, quando ela estava correndo para os buracos, certa manhã, através de uma chuva de granadas, uma grande granada explodiu perto dela, e cobriu-a toda de terra, e um pedaço de ferro levou embora seu acessório de cabelo falso da parte de trás da cabeça. Bem, ela parou para pegar aquele acessório antes de seguir em frente novamente! Já estava se acostumando com as coisas, você vê. Todos nós ficamos de modo que podíamos dizer muita coisa sobre granadas; e depois disso não íamos sempre para sob abrigo se fosse uma chuva leve. Nós, homens, ficávamos por aí e conversávamos; e um homem dizia, 'Lá vai ela!', e nomeava o tipo de granada pelo som dela, e continuava conversando — se não houvesse perigo dela. Se uma granada estava explodindo perto de nós, parávamos de falar e ficávamos parados; — desconfortável, sim, mas não era seguro mover-se. Quando ela explodia, continuávamos conversando novamente, se ninguém estivesse ferido — talvez dizendo, 'Aquela foi uma estrondosa!' ou algum comentário comum semelhante antes de retomarmos; ou, talvez, víssemos uma granada pairando bem alto no ar acima. Nesse caso, cada um apenas soltava um súbito, 'Vejo vocês novamente, cavalheiros!', e corria. Muitas e muitas vezes vi grupos de senhoras passeando pelas ruas, parecendo tão alegres quanto você gostaria, e mantendo um olho voltado para cima observando as granadas; e eu as vi parar quando estavam incertas sobre o que uma granada ia fazer, e esperar e ter certeza; e depois disso elas passeavam novamente, ou disparavam para o abrigo, de acordo com o veredito. Ruas em algumas cidades têm uma sujeira de pedaços de papel, e restos de um tipo ou outro por aí. As nossas não tinham; elas tinham sujeira de ferro. Às vezes um homem juntava todos os fragmentos de ferro e granadas não explodidas em sua vizinhança, e empilhava-os em uma espécie de monumento em seu jardim da frente — uma tonelada disso, às vezes. Nenhum vidro restava; vidro não podia suportar tal bombardeio; estava todo estilhaçado. Janelas das casas vazias — pareciam buracos de olhos em um crânio. Vidraças inteiras eram tão escassas quanto notícias.
"Tínhamos igreja aos domingos. Não muitos lá, no início; mas daqui a pouco boas frequências. Já vi o serviço parar um minuto, e todos ficarem quietos — nenhuma voz ouvida, bem fúnebre então — e tanto mais por conta do terrível estrondo e colisão acontecendo lá fora e acima; e daqui a pouco, quando uma voz podia ser ouvida, o serviço continuava novamente. Órgãos e música de igreja misturados com um bombardeio é uma combinação poderosamente estranha — no início. Saindo da igreja, certa manhã, tivemos um acidente — o único que aconteceu ao meu redor em um domingo. Eu estava apenas tendo um aperto de mão caloroso com um amigo que não via há algum tempo, e dizendo, 'Passe na nossa caverna esta noite, depois do bombardeio; conseguimos uma caneca de um uísque de primeira...'. Uísque, eu ia dizer, você sabe, mas uma granada interrompeu. Um pedaço dela cortou o braço do homem, e deixou-o pendurado em minha mão. E você sabe a coisa que vai ficar por mais tempo na minha memória, e durar mais do que qualquer outra coisa, pequena ou grande, eu acho, é o pensamento mesquinho que tive então? Foi 'o uísque está salvo'. E ainda assim, você não sabe, foi meio que desculpável; porque era tão escasso quanto diamantes, e tínhamos apenas aquele pouco; nunca provamos outro durante o cerco.
"Às vezes as cavernas estavam desesperadamente lotadas, e sempre quentes e abafadas. Às vezes uma caverna tinha vinte ou vinte e cinco pessoas empilhadas nela; nenhum espaço de virar para ninguém; ar tão sujo, às vezes, que você não poderia ter feito uma vela queimar nele. Uma criança nasceu em uma daquelas cavernas uma noite. Pense nisso; ora, foi como nascer em um baú."
"Duas vezes tivemos dezesseis pessoas em nossa caverna; e várias vezes tivemos uma dúzia. Bastante sufocante lá dentro. Sempre tínhamos oito; oito pertenciam ali. A fome, a miséria, a doença, o susto e a tristeza, e não sei mais o que, ficaram tão sobrecarregados neles que nenhum deles foi exatamente o mesmo depois do cerco. Todos morreram, exceto três de nós, dentro de um par de anos. Uma noite, um projétil explodiu em frente ao buraco, derrubou-o e obstruiu-o. Foram momentos animados, por um tempo, cavando para sair. Alguns de nós quase sufocamos. Depois disso, fizemos duas aberturas — deveríamos ter pensado nisso desde o início.
"Carne de mula. Não, só chegamos a isso no último dia ou dois. É claro que era boa; qualquer coisa é boa quando se está morrendo de fome."
Este homem mantinha um diário durante — seis semanas? Não, apenas os primeiros seis dias. O primeiro dia, oito páginas fechadas; o segundo, cinco; o terceiro, uma — escrita de forma desleixada; o quarto, três ou quatro linhas; uma linha ou duas no quinto e sexto dias; sétimo dia, diário abandonado; a vida na terrível Vicksburg tendo se tornado agora comum e natural.
A história da guerra de Vicksburg tem mais o que interessar ao leitor comum do que a de qualquer outra cidade ribeirinha. É cheia de variedade, cheia de incidentes, cheia de pitoresco. Vicksburg resistiu mais tempo do que qualquer outra cidade ribeirinha importante e viu a guerra em todas as suas fases, tanto em terra quanto na água — o cerco, a mina, o assalto, a repulsa, o bombardeio, a doença, o cativeiro, a fome.
O mais belo de todos os cemitérios nacionais fica aqui. Sobre o grande portal está esta inscrição:
“AQUI DESCANSAM EM PAZ 16.600 QUE MORRERAM POR SEU PAÍS NOS ANOS DE 1861 A 1865.”
Os terrenos estão nobremente situados; sendo muito altos e comandando uma ampla vista da terra e do rio. São dispostos com bom gosto em terraços largos, com estradas e caminhos sinuosos; e há um adorno profuso na forma de arbustos e flores semitropicais, e em uma parte há um pedaço de mata nativa, deixada exatamente como cresceu e, portanto, perfeita em seu encanto. Tudo neste cemitério sugere a mão do Governo nacional. O trabalho do Governo é sempre notável pela excelência, solidez, meticulosidade e limpeza. O Governo faz seu trabalho bem em primeiro lugar e, depois, cuida dele.
Por estradas sinuosas — que muitas vezes eram cortadas a tal profundidade entre paredes perpendiculares que eram meros túneis sem teto — dirigimos uma milha ou duas e visitamos o monumento que se ergue no local da rendição de Vicksburg ao General Grant pelo General Pemberton. Seu metal o preservará dos golpes e lascas que tanto desfiguraram seu predecessor, que era de mármore; mas as fundações de tijolos estão desmoronando, e ele cairá daqui a pouco. Ele domina uma região pitoresca de colinas arborizadas e ravinas; e não é ele mesmo nada pitoresco, estando bem sufocado por ervas daninhas floridas. O resto danificado do monumento de mármore foi removido para o Cemitério Nacional.
Na estrada, a um quarto de milha em direção à cidade, um homem idoso de cor mostrou-nos, com orgulho, uma bomba não explodida que jazia em seu quintal desde o dia em que caiu ali durante o cerco.
"Eu estava de pé aqui, e o cachorro estava de pé aqui; o cachorro foi para a bomba, tencionando arranjar uma briga com ela; mas eu não; eu disse: 'Apenas sinta-se em casa aqui; fique parado onde está, ou exploda o lugar, como bem entender, mas eu tenho negócios lá nos bosques, eu tenho!'"
Vicksburg é uma cidade de ruas comerciais sólidas e residências agradáveis; ela domina o comércio dos rios Yazoo e Sunflower; está impulsionando ferrovias em várias direções, através de ricas regiões agrícolas, e tem um futuro promissor de prosperidade e importância.
Aparentemente, quase todas as cidades ribeirinhas, grandes e pequenas, decidiram que devem recorrer principalmente às ferrovias para riqueza e desenvolvimento, de agora em diante. Eles estão agindo com base nessa ideia. Os sinais são de que os próximos vinte anos trarão algumas mudanças notáveis no Vale, na direção de aumento populacional e riqueza, e no avanço intelectual e na liberalização da opinião que acompanham naturalmente essas coisas. E, no entanto, se alguém pode julgar pelo passado, as cidades ribeirinhas conseguirão encontrar e usar uma chance, aqui e ali, para prejudicar e retardar seu progresso. Elas se mantiveram atrasadas nos dias da supremacia do transporte a vapor, por um sistema de taxas de atracação tão estupidamente graduadas a ponto de proibir o que se pode chamar de pequeno comércio varejista de fretes e passageiros. Os barcos eram cobrados com taxas tão pesadas que não podiam se dar ao luxo de atracar para um ou dois passageiros ou uma pequena carga de frete. Em vez de incentivar a vinda de comércio para suas portas, as cidades diligente e eficazmente desencorajaram-no. Elas poderiam ter tido muitos barcos e taxas baixas; mas sua política tornou obrigatórios poucos barcos e taxas altas. Era uma política que se estendia — e se estende — de Nova Orleans a St. Paul.
Tínhamos um forte desejo de fazer uma viagem pelo Yazoo e o Sunflower — uma região interessante em qualquer época, mas adicionalmente interessante neste momento, porque lá em cima a grande inundação ainda podia ser vista em vigor — mas tínhamos quase certeza de ter que esperar um dia ou mais por um barco de Nova Orleans em nosso retorno; então fomos obrigados a desistir do projeto.
Aqui está uma história que peguei a bordo do barco naquela noite. Eu a insiro neste lugar apenas porque é uma boa história, não porque ela pertença aqui — pois não pertence. Foi contada por um passageiro — um professor universitário — e foi trazida à tona no curso de uma conversa geral que começou com papo sobre cavalos, derivou para papo sobre astronomia, depois para papo sobre o linchamento dos jogadores em Vicksburg há meio século, depois para papo sobre sonhos e superstições; e terminou, após a meia-noite, em uma disputa sobre livre comércio e protecionismo.
CAPÍTULO 36
O Conto do Professor
FOI nos primeiros dias. Eu não era um professor universitário naquela época. Eu era um humilde jovem agrimensor, com o mundo à minha frente — para pesquisar, caso alguém quisesse que fosse feito. Eu tinha um contrato para pesquisar uma rota para um grande canal de mineração na Califórnia, e estava a caminho de lá, por mar — uma viagem de três ou quatro semanas. Havia muitos passageiros, mas eu tinha muito pouco a dizer a eles; ler e sonhar eram minhas paixões, e eu evitava conversas para satisfazer esses apetites. Havia três jogadores profissionais a bordo — sujeitos rudes e repulsivos. Nunca conversei com eles, mas não pude deixar de vê-los com certa frequência, pois jogavam em uma cabine do convés superior todos os dias e noites, e em meus passeios frequentemente tinha vislumbres deles através de sua porta, que ficava um pouco entreaberta para deixar sair o excesso de fumaça de tabaco e profanidade. Eles eram uma presença maligna e odiosa, mas eu tinha que suportar, é claro.
Havia um outro passageiro que caiu sob minha visão muito, pois ele parecia determinado a ser amigável comigo, e eu não poderia ter me livrado dele sem correr algum risco de ferir seus sentimentos, e eu estava longe de querer fazer isso. Além disso, havia algo envolvente em sua simplicidade provinciana e sua bondade radiante. A primeira vez que vi este Sr. John Backus, adivinhei, por suas roupas e sua aparência, que ele era um criador de gado ou fazendeiro dos confins de algum Estado ocidental — sem dúvida Ohio — e depois, quando ele entrou em sua história pessoal e descobri que ele era um criador de gado do interior de Ohio, fiquei tão satisfeito com minha própria penetração que me aproximei dele por verificar meu instinto.
Ele começou a caminhar ao meu lado todos os dias, após o café da manhã, para me ajudar a fazer meu passeio; e assim, com o passar do tempo, seu maxilar de funcionamento fácil tinha me contado tudo sobre seus negócios, suas perspectivas, sua família, seus parentes, sua política — na verdade, tudo o que dizia respeito a um Backus, vivo ou morto. E, entretanto, acho que ele conseguiu extrair de mim tudo o que eu sabia sobre meu comércio, minha tribo, meus propósitos, minhas perspectivas e a mim mesmo. Ele era um gênio gentil e persuasivo, e isso mostrava; pois eu não era dado a falar sobre meus assuntos. Eu disse algo sobre triangulação, uma vez; a palavra imponente agradou seu ouvido; ele perguntou o que significava; expliquei; depois disso, ele silenciosa e inofensivamente ignorou meu nome e sempre me chamava de Triângulo.
Que entusiasta ele era por gado! Ao mero nome de um touro ou uma vaca, seu olho brilhava e sua língua eloquente se soltava. Enquanto eu caminhasse e ouvisse, ele caminharia e falaria; ele conhecia todas as raças, ele amava todas as raças, ele acariciava todas elas com sua língua afetuosa. Eu caminhava em miséria silenciosa enquanto a questão do gado estava em pauta; quando eu não podia mais suportar, eu costumava inserir habilmente um tópico científico na conversa; então meu olho brilhava e o dele desbotava; minha língua tremulava, a dele parava; a vida era uma alegria para mim, e uma tristeza para ele.
Um dia ele disse, um pouco hesitante, e com um tanto de timidez:
— Triângulo, você se importaria de vir ao meu camarote por um minuto e ter uma pequena conversa sobre um certo assunto?
Fui com ele imediatamente. Chegando lá, ele colocou a cabeça para fora, olhou cautelosamente para cima e para baixo no salão, depois fechou a porta e trancou-a. Ele sentou-se no sofá e disse:
— Vou fazer uma pequena proposta a você, e se ela lhe parecer favorável, será uma coisa razoavelmente boa para nós dois. Você não está indo para a Califórnia por diversão, nem eu — é negócio, não é? Bem, você pode me fazer um favor, e eu posso fazer um a você, se acharmos conveniente. Eu juntei, raspei e economizei por muitos anos, e tenho tudo aqui. — Ele destrancou um velho baú de couro, jogou um caos de roupas surradas de lado e tirou uma bolsa curta e robusta para ver por um momento, depois enterrou-a novamente e trancou o baú. Baixando a voz para um tom cauteloso e baixo, ele continuou: — Ela está toda aqui — uns bons dez mil dólares em moedas de ouro; agora, esta é minha pequena ideia: O que eu não sei sobre criação de gado não vale a pena saber. Há montes de dinheiro nisso, na Califórnia. Bem, eu sei, e você sabe, que ao longo de uma linha que está sendo pesquisada, há pequenas porções de terra que eles chamam de “gores”, que caem para o agrimensor grátis, de graça. Tudo o que você tem a fazer, do seu lado, é pesquisar de tal forma que os “gores” caiam em boa terra fértil, então você os passa para mim, eu os estoco com gado, o dinheiro entra, eu pago regularmente sua parte dos dólares, direto, e...
Eu lamento ter murchado seu entusiasmo florescente, mas não pôde ser evitado. Interrompi e disse severamente:
— Eu não sou esse tipo de agrimensor. Vamos mudar de assunto, Sr. Backus.
Foi lamentável ver sua confusão e ouvir suas desculpas desajeitadas e envergonhadas. Fiquei tão angustiado quanto ele — especialmente porque ele parecia estar longe de ter suspeitado que havia algo impróprio em sua proposta. Então, apressei-me a consolá-lo e levá-lo a esquecer seu contratempo em uma orgia conversacional sobre gado e açougue. Estávamos ancorados em Acapulco; e, enquanto subíamos ao convés, aconteceu felizmente que a tripulação estava apenas começando a içar alguns bois a bordo em estilingues. A melancolia de Backus desapareceu instantaneamente, e com ela a memória de seu erro recente.
— Agora, apenas olhe para isso! — gritou ele. — Meu Deus, Triângulo, o que diriam disso em Ohio? Os olhos deles não saltariam para fora ao vê-los sendo tratados assim? — não saltariam, não é?
Todos os passageiros estavam no convés para olhar — até mesmo os jogadores — e Backus conhecia todos eles, e os tinha afligido todos com seu tópico favorito. Enquanto eu me afastava, vi um dos jogadores se aproximar e abordá-lo; depois outro deles; depois o terceiro. Parei; esperei; observei; a conversa continuou entre os quatro homens; tornou-se séria; Backus afastou-se gradualmente; os jogadores seguiram e ficaram em seu cotovelo. Fiquei desconfortável. No entanto, enquanto passavam por mim pouco depois, ouvi Backus dizer, com um tom de incômodo perseguido:
— Mas não adianta, senhores; digo-lhes novamente, como já lhes disse meia dúzia de vezes antes, não fui criado para isso, e não vou arriscar.
Senti-me aliviado. "Sua cabeça equilibrada será sua proteção suficiente", disse a mim mesmo.
Durante a viagem de quinze dias de Acapulco a San Francisco, vi várias vezes os jogadores conversando seriamente com Backus, e uma vez lancei um aviso gentil para ele. Ele riu confortavelmente e disse:
— Oh, sim! Eles ficam atrás de mim consideravelmente — querem que eu jogue um pouco, apenas por diversão, dizem eles — mas, céus, se minha família me disse uma vez para tomar cuidado com esse tipo de gado, eles me disseram mil vezes, eu calculo.
Mais tarde, no devido tempo, estávamos nos aproximando de San Francisco. Era uma noite negra e feia, com um vento forte soprando, mas não havia muito mar. Eu estava no convés, sozinho. Perto das dez horas, comecei a descer. Uma figura saiu do covil dos jogadores e desapareceu na escuridão. Experimentei um choque, pois tinha certeza de que era Backus. Voei escada abaixo, procurei por ele, não pude encontrá-lo, depois voltei ao convés bem a tempo de vislumbrá-lo enquanto ele reentrava naquele ninho confuso de vilania. Ele tinha cedido finalmente? Eu temia que sim. Por que ele tinha descido? — Sua bolsa de moedas? Possivelmente. Aproximei-me da porta, cheio de pressentimentos. Estava entreaberta, e olhei para dentro e vi uma cena que me fez desejar amargamente ter dado minha atenção para salvar meu pobre amigo do gado, em vez de ler e sonhar meu tempo tolo. Ele estava jogando. Pior ainda, ele estava sendo abastecido com champanhe e já estava mostrando algum efeito disso. Ele elogiava a "sidra", como ele chamava, e disse que agora que tinha provado, quase acreditava que beberia se fosse destilado, era tão boa e tão superior a tudo com que já tinha se deparado antes. Sorrisos furtivos, com isso, passaram de um canalha para outro, e eles encheram todos os copos, e enquanto Backus honestamente esvaziava o seu até o fim, eles fingiam fazer o mesmo, mas jogavam o vinho sobre os ombros.
Eu não suportava a cena, então vaguei para a frente e tentei me interessar pelo mar e pelas vozes do vento. Mas não, meu espírito inquieto continuava me arrastando de volta em intervalos de quinze minutos; e sempre eu via Backus bebendo seu vinho — de forma justa e direta, e os outros jogando o deles fora. Foi a noite mais dolorosa que já passei.
A única esperança que eu tinha era que pudéssemos chegar ao nosso ancoradouro com rapidez — isso terminaria o jogo. Ajudei o navio o quanto pude com minhas orações. Finalmente passamos estrondosamente pelo Golden Gate, e meu pulso saltou de alegria. Corri de volta para aquela porta e olhei para dentro. Ai de mim, havia pouco espaço para esperança — os olhos de Backus estavam pesados e injetados de sangue, seu rosto suado estava carmesim, sua fala era sentimental e arrastada, seu corpo balançava bêbado com o movimento oscilante do navio. Ele esvaziou outro copo até o fim, enquanto as cartas estavam sendo distribuídas.
Ele pegou sua mão, olhou para ela, e seus olhos opacos brilharam por um momento. Os jogadores observaram isso e mostraram sua satisfação por sinais quase imperceptíveis.
— Quantas cartas?
— Nenhuma! — disse Backus.
Um vilão — chamado Hank Wiley — descartou uma carta, os outros três cada um. As apostas começaram. Até então as apostas tinham sido triviais — um dólar ou dois; mas Backus começou com uma moeda de ouro agora, Wiley hesitou um momento, depois "pagou" e "aumentou dez dólares". Os outros dois desistiram de suas mãos.
Backus aumentou vinte. Wiley disse:
— Pago isso, e aumento cem! — então sorriu e estendeu a mão para o dinheiro.
— Deixe isso quieto — disse Backus, com gravidade de bêbado.
— O quê! Você quer dizer que vai cobrir?
— Cobrir? Bem, calculo que sim — e colocar mais cem em cima disso também.
Ele alcançou dentro de seu sobretudo e produziu a quantia exigida.
— Oh, esse é o seu pequeno jogo, é? Eu cubro seu aumento, e aumento quinhentos! — disse Wiley.
— Quinhentos a mais — disse o tolo boiadeiro, e puxou a quantia e a despejou na pilha. Os três conspiradores mal tentaram esconder sua exultação.
Toda a diplomacia e pretexto foram abandonados agora, e as exclamações agudas vieram rápidas e frequentes, e a pirâmide amarela crescia cada vez mais. Finalmente, dez mil dólares estavam à vista. Wiley lançou uma bolsa de moedas sobre a mesa e disse com gentileza zombeteira:
— Cinco mil dólares a mais, meu amigo dos distritos rurais — o que você diz agora?
— Eu pago! — disse Backus, jogando sua bolsa de ouro na pilha. — O que você tem?
— Quatro reis, seu maldito tolo! — e Wiley jogou suas cartas e cercou as apostas com os braços.
— Quatro ases, seu idiota! — trovejou Backus, cobrindo seu homem com um revólver engatilhado. — _Eu mesmo sou um jogador profissional, e estive esperando por vocês, trapaceiros, durante toda esta viagem!_
A âncora desceu, com um estrondo! e a longa viagem terminou.
Bem — bem, é um mundo triste. Um dos três jogadores era o "parceiro" de Backus. Foi ele quem distribuiu as mãos fatídicas. De acordo com um entendimento com as duas vítimas, ele deveria ter dado a Backus quatro damas, mas, infelizmente, ele não o fez.
Uma semana depois, deparei-me com Backus — vestido com a última moda — na Montgomery Street. Ele disse, alegremente, enquanto nos despedíamos:
— Ah, a propósito, não precisa se preocupar com aqueles “gores”. Eu realmente não sei nada sobre gado, exceto o que consegui aprender em um aprendizado de uma semana em Jersey, logo antes de partirmos. Minha cultura de gado e entusiasmo por gado serviram ao seu propósito — não precisarei mais deles.
No dia seguinte, relutantemente nos despedimos do "Gold Dust" e de seus oficiais, esperando ver aquele barco e todos aqueles oficiais novamente, algum dia. Uma coisa que o destino tornaria tragicamente impossível!
CAPÍTULO 37
O Fim do "Gold Dust"
POIS, três meses depois, 8 de agosto, enquanto eu escrevia um destes capítulos anteriores, os jornais de Nova York trouxeram este telegrama —
UM TERRÍVEL DESASTRE.
DEZESSETE PESSOAS MORTAS POR UMA EXPLOSÃO NO VAPOR "GOLD DUST".
"NASHVILLE, 7 de ago. — Um despacho de Hickman, Ky., diz —
'O vapor “Gold Dust” explodiu suas caldeiras às três horas de hoje, logo após deixar Hickman. Quarenta e sete pessoas foram escaldadas e dezessete estão desaparecidas. O barco foi ancorado no redemoinho logo acima da cidade, e através dos esforços dos cidadãos, os passageiros da cabine, oficiais e parte da tripulação e passageiros do convés foram levados para a costa e removidos para os hotéis e residências. Vinte e quatro dos feridos estavam deitados na loja de tecidos de Holcomb ao mesmo tempo, onde receberam toda a atenção antes de serem removidos para locais mais confortáveis.'"
Seguiu-se uma lista de nomes, pela qual parecia que, dos dezessete mortos, um era o barman; e entre os quarenta e sete feridos estavam o capitão, o imediato, o segundo imediato, e o segundo e terceiro escriturários; também o Sr. Lem S. Gray, piloto, e vários membros da tripulação.
Em resposta a um telegrama particular, soubemos que nenhum deles estava gravemente ferido, exceto o Sr. Gray. Cartas recebidas posteriormente confirmaram esta notícia e disseram que o Sr. Gray estava melhorando e que ficaria bem. Cartas posteriores falaram com menos esperança sobre seu caso; e finalmente chegou uma anunciando sua morte. Um bom homem, um homem muito companheiro e viril, e digno de um destino mais gentil.
CAPÍTULO 38
A Casa Bela
TOMAMOS passagem em um barco de Cincinnati para Nova Orleans; ou em um barco de Cincinnati — qualquer um está correto; o primeiro é a forma oriental de dizer, o último a ocidental.
O Sr. Dickens recusou-se a concordar que os vapores do Mississippi fossem "magníficos", ou que fossem "palácios flutuantes" — termos que sempre lhes foram aplicados; termos que não expressavam excessivamente a admiração com que o povo os via.
A posição do Sr. Dickens era inatacável, possivelmente; a posição do povo era certamente inatacável. Se o Sr. Dickens estava comparando esses barcos com as joias da coroa; ou com o Taj, ou com o Matterhorn; ou com alguma outra coisa inestimável ou maravilhosa que ele tivesse visto, eles não eram magníficos — ele estava certo. O povo comparava-os com o que eles tinham visto; e, assim medidos, assim julgados, os barcos eram magníficos — o termo era o correto, não era de forma alguma forte demais. O povo estava tão certo quanto o Sr. Dickens. Os vapores eram mais refinados do que qualquer coisa em terra. Comparados com as residências superiores e hotéis de primeira classe no Vale, eles eram indubitavelmente magníficos, eram "palácios". Para algumas poucas pessoas vivendo em Nova Orleans e St. Louis, eles não eram magníficos, talvez; não eram palácios; mas para a grande maioria daquelas populações, e para as populações inteiras espalhadas por ambas as margens entre Baton Rouge e St. Louis, eles eram palácios; eles coincidiam com o sonho do cidadão do que era a magnificência, e o satisfaziam.
Cada cidade e vilarejo ao longo daquela vasta extensão de frente fluvial dupla tinha uma melhor residência, a residência mais fina, mansão — o lar do seu cidadão mais rico e mais notável. É fácil descrevê-la: quintal grande e gramado, com cerca de ripas pintada de branco — em bom estado de conservação; caminho de tijolos do portão até a porta; casa grande, quadrada, de dois andares, estilo "frame", pintada de branco e com pórtico como um templo grego — com esta diferença, que as imponentes colunas caneladas e capitéis coríntios eram uma farsa patética, sendo feitos de pinho branco, e pintados; aldrava de ferro; maçaneta de latão — descolorida, por falta de polimento. Por dentro, um saguão sem carpete, de tábuas aplainadas; abrindo-se a partir dele, uma sala de estar, de quatro metros e meio por quatro metros e meio — em alguns casos cinco ou dez metros maior; carpete de tecido tingido na fibra; mesa central de mogno; lâmpada sobre ela, com cúpula de papel verde — apoiada sobre uma grade, por assim dizer, feita de fios de cores vivas, pelas jovens da casa, e chamada de descanso de lâmpada; vários livros, empilhados e dispostos, com exatidão de ferro fundido, de acordo com um plano herdado e imutável; entre eles, Tupper, muito riscado a lápis; também "Friendship's Offering" e "Affection's Wreath", com suas inanidades sentimentais ilustradas em mezzotintos desbotados; também Ossian; "Alonzo and Melissa"; talvez "Ivanhoe"; também "Álbum", cheio de "poesia" original da linhagem Tu-feriste-o-espírito-que-te-amava; dois ou três trabalhos moralistas — "Shepherd of Salisbury Plain", etc.; número corrente do casto e inócuo "Lady's Book" de Godey, com gravura de moda colorida de mulheres com aparência de bonecas de cera, com bocas todas iguais — lábios e pálpebras do mesmo tamanho — cada mulher de um metro e meio com uma cunha de cinco centímetros saindo debaixo de seu vestido e fingindo ser metade de seu pé. Fogão hermético polido (invenção nova e mortal), com cano passando através de uma tábua que fecha a descartada boa e velha lareira. Em cada extremidade da cornija de madeira, sobre a lareira, uma cesta grande de pêssegos e outras frutas, em tamanho natural, tudo feito em gesso, rudemente, ou em cera, e pintado para se assemelhar aos originais — o que não fazem. Sobre o meio da cornija, gravura — Washington Cruzando o Delaware; na parede junto à porta, cópia da mesma feita em lãs de cores berrantes por uma das jovens — obra de arte que teria feito Washington hesitar sobre cruzar, se ele pudesse ter previsto que proveito seria tirado disso. Piano — chaleira disfarçada — com partituras, encadernadas e soltas, empilhadas sobre ele, e em um suporte próximo: Battle of Prague; Bird Waltz; Arkansas Traveler; Rosin the Bow; Marseilles Hymn; On a Lone Barren Isle (St. Helena); The Last Link is Broken; She wore a Wreath of Roses the Night when last we met; Go, forget me, Why should Sorrow o'er that Brow a Shadow fling; Hours there were to Memory Dearer; Long, Long Ago; Days of Absence; A Life on the Ocean Wave, a Home on the Rolling Deep; Bird at Sea; e aberto no suporte, onde a cantora plangente o deixou, ro-holl on, silver moo-hoon, guide the trav-el-lerr his way, etc. Inclinado pensativamente contra o piano, um violão — violão capaz de tocar o Fandango Espanhol por si só, se você o iniciar. Obra de arte frenética na parede — lema piedoso, feito no local, às vezes em fios coloridos, às vezes em gramas desbotadas: progenitor do "Deus Abençoe Nosso Lar" do comércio moderno. Emoldurados em molduras pretas na parede, outras obras de arte, concebidas e cometidas no local, pelas jovens; sendo desenhos sombrios a giz preto e branco; paisagens, na maioria: lago, veleiro solitário, nuvens petrificadas, árvores pré-geológicas na margem, precipício de antracito; nome do criminoso conspícuo no canto. Litografia, Napoleão Cruzando os Alpes. Litografia, O Túmulo em St. Helena. Placas de aço, Batalha de Bunker Hill de Trumbull, e a Sally from Gibraltar. Placas de cobre, Moisés Ferindo a Rocha, e o Retorno do Filho Pródigo. Em grande moldura dourada, calúnia da família a óleo: papai segurando um livro ("Constituição dos Estados Unidos"); violão encostado na mamãe, fitas azuis tremulando de seu pescoço; as jovens, quando crianças, em chinelos e calças com babados, uma abraçando um cavalo de brinquedo, a outra atraindo um gatinho com um novelo de lã, e ambas sorrindo para a mamãe, que sorri de volta. Essas pessoas todas frescas, cruas e vermelhas — aparentemente esfoladas. Em frente, em moldura dourada, vovô e vovó, aos trinta e vinte e dois anos, rígidos, antiquados, de gola alta, mangas bufantes, olhando palidamente de um fundo de noite egípcia sólida. Sob uma redoma de vidro de relógio francês, grande buquê de flores rígidas feito em cera de cor cadavérica. Prateleira piramidal no canto, as prateleiras ocupadas principalmente por bibelôs da época, dispostos com um olho para o melhor efeito: concha, com a Oração do Senhor esculpida nela; outra concha — do tipo oval longo, orifício estreito e reto, de sete centímetros de comprimento, indo de ponta a ponta — retrato de Washington esculpido nela; não bem feito; a concha tinha a boca de Washington, originalmente — o artista deveria ter construído a partir disso. Estes dois são memoriais da viagem de núpcias de longa data a Nova Orleans e ao Mercado Francês. Outros bibelôs: "espécimes" californianos — quartzo, com verruga de ouro aderida; medalhão de ouro da Guiné antigo, com círculo de cabelo ancestral nele; pontas de flecha indígenas, de sílex; par de mocassins de miçangas, de um tio que cruzou as Planícies; três cestas de "alúmen" de várias cores — sendo armação esqueleto de arame, revestida com cubos de alúmen cristalizado no estilo de bala de rocha — obras de arte que foram alcançadas pelas jovens; seus duplos e duplicatas a serem encontrados sobre todas as prateleiras na terra; convenção de insetos e borboletas dessecadas alfinetadas em um cartão; cão de brinquedo pintado, sentado sobre um dispositivo de fole — solta a mandíbula inferior e guincha quando pressionado; coelho de bala de açúcar — membros e feições fundidos, não fortemente definidos; medalha de campanha presidencial de estanho; serreador de madeira de papelão em miniatura, para ser anexado ao cano do fogão e operado pelo calor; pequeno Napoleão, feito em cera; daguerreótipos abertos de crianças indistintas, pais, primos, tias e amigos, em todas as atitudes menos as habituais; sem pórtico de templos ao fundo, e paisagem fabricada estendendo-se à distância — isso veio mais tarde, com a fotografia; todas essas figuras vagas profusamente acorrentadas e aneladas — metal indicado e garantido contra dúvidas por listras e salpicos de bronze dourado vívido; todos eles muito penteados, muito arrumados; e todos eles desconfortáveis em roupas de domingo inflexíveis de um padrão que o espectador não consegue imaginar que pudesse ter estado na moda; marido e mulher geralmente agrupados — marido sentado, mulher em pé, com a mão em seu ombro — e ambos preservando, todos esses anos que se desvanecem, algum efeito traçável do rápido "Agora sorria, por favor!" do daguerreotipista. Pendurado sobre a prateleira — lugar de especial sacralidade — um ultraje em aquarela, feito pela jovem sobrinha que veio para uma visita há muito tempo, e morreu. Uma pena, também; pois ela poderia ter se arrependido disso a tempo. Cadeiras de crina de cavalo, sofá de crina de cavalo que continua escorregando debaixo de você. Persianas de janela, de material oleoso, com leiteiras e castelos em ruínas estencilados nelas em cores ferozes. Lambrequins dependentes de caixas vistosas de estanho batido, dourado. Quartos com carpetes de retalhos; estrados do tipo "encordoados", com uma curvatura no meio, as cordas precisando de aperto; colchão de penas cheirando a rapé — não arejado com frequência suficiente; cadeiras de assento de palha, cadeira de balanço de fundo de talagarça; espelho na parede, tamanho de lousa escolar, moldura folheada; cômoda herdada; bacia e jarro, possivelmente — mas não certamente; castiçal de latão, vela de sebo, apagador. Nada mais no quarto. Nem um banheiro na casa; e nenhum visitante provável de aparecer que já tenha visto um.
Essa era a residência do cidadão principal, por todo o caminho desde os subúrbios de Nova Orleans até a beira de St. Louis. Quando ele embarcava em um grande e belo barco a vapor, ele entrava em um mundo novo e maravilhoso: topos de chaminé cortados para imitar uma coroa de plumas — e talvez pintados de vermelho; casa do piloto, convés do furacão, guardas do convés das caldeiras, tudo adornado com trabalho de filigrana de madeira branca de padrões fantasiosos; bolotas douradas no topo dos guindastes; chifres de veado dourados sobre o sino grande; imagem simbólica vistosa na caixa da roda de pás, possivelmente; convés das caldeiras grande e espaçoso, pintado de azul, e mobiliado com poltronas Windsor; por dentro, uma "cabine" branca como a neve que se afastava; maçaneta de porcelana e imagem a óleo em cada porta de cabine; padrões curvos de trabalho de filigrana realçados com douramento, estendendo-se acima da cabeça por toda a vista convergente; grandes candelabros a cada pouco, cada um uma chuva de abril de gotas de vidro cintilantes; adorável luz de arco-íris caindo em toda parte do envidraçamento colorido das claraboias; o todo um túnel longo e resplandecente, um espetáculo desconcertante e que satisfaz a alma! Na cabine das senhoras, um carpete Wilton rosa e branco, tão macio quanto purê, e glorificado com um padrão arrebatador de flores gigantescas. Então a Câmara Nupcial — o animal que inventou essa ideia ainda estava vivo e não enforcado, naquele dia — Câmara Nupcial cuja pomposidade pretensiosa era necessariamente intimidadora para o intelecto agora vacilante daquele cidadão hosanante. Cada cabine tinha seu par de beliches aconchegantes e limpos, e talvez um espelho e um armário confortável; e às vezes havia até uma bacia e um jarro, e parte de uma toalha que poderia ser distinguida de rede de mosquito por um especialista — embora geralmente essas coisas estivessem ausentes, e os passageiros de mangas de camisa se limpassem em uma longa fileira de bacias fixas na barbearia, onde também havia toalhas públicas, pentes públicos e sabão público.
Pegue o barco a vapor que acabei de descrever, e você o tem em seu estado mais alto, mais fino, mais agradável, confortável e satisfatório. Agora cubra-o com uma camada de sujeira antiga e obstinada, e você tem o vapor de Cincinnati mencionado há pouco. Não todo — apenas por dentro; pois ele era bem servido em todos os departamentos, exceto no do despenseiro.
Mas lave esse barco e repinte-o, e ele seria quase o equivalente ao barco mais elogiado dos velhos tempos de abundância: pois a arquitetura de barcos a vapor do Oeste não sofreu nenhuma mudança; tampouco a mobília e a ornamentação dos barcos a vapor sofreram.
CAPÍTULO 39
Manufaturas e Malfeitores
ONDE o rio, na região de Vicksburg, costumava ser sinuoso, ele agora é comparativamente reto — feito assim por um corte; uma distância anterior de setenta milhas é reduzida para trinta e cinco. É uma mudança que jogou o vizinho de Vicksburg, Delta, Louisiana, para o campo e encerrou sua carreira como uma cidade fluvial. Sua frente fluvial inteira agora é ocupada por um vasto banco de areia, densamente coberto com árvores jovens — um crescimento que se ampliará em uma floresta densa logo mais, e esconderá completamente a cidade exilada.
No devido tempo, passamos por Grand Gulf e Rodney, de fama de guerra, e chegamos a Natchez, a última das belas cidades nas colinas — pois Baton Rouge, ainda por vir, não fica em uma colina, mas apenas em terreno alto. A famosa Natchez-under-the-hill não mudou notavelmente em vinte anos; em aspecto externo — a julgar pelas descrições da antiga procissão de turistas estrangeiros — não mudou em sessenta; pois ainda é pequena, espalhada e surrada. Tinha uma reputação desesperada, moralmente, nos velhos tempos de barcos de quilha e início de barcos a vapor — muita bebida, farra, briga e matança lá, entre a ralé do rio, naqueles dias. Mas Natchez-on-top-of-the-hill é atraente; sempre foi atraente. Até a Sra. Trollope (1827) teve que confessar seus encantos:
"Em um ou dois pontos a cansativa linha de nível é aliviada por despenhadeiros, como chamam os curtos intervalos de terreno alto. A cidade de Natchez é lindamente situada em um desses pontos altos. O contraste que sua colina verdejante forma com a linha sombria de floresta negra que se estende por todos os lados, o crescimento abundante de pawpaw, palmeira e laranja, a cópia variedade de flores perfumadas que florescem lá, tudo a faz parecer um oásis no deserto. Natchez é o ponto mais distante ao norte em que as laranjas amadurecem ao ar livre, ou suportam o inverno sem abrigo. Com a exceção deste doce ponto, achei todas as pequenas cidades e vilarejos pelos quais passamos com um aspecto miserável ao extremo."
Natchez, como suas vizinhas fluviais próximas e distantes, tem ferrovias agora, e está adicionando a elas — empurrando-as para cá e para lá em todas as ricas regiões periféricas que são naturalmente tributárias dela. E como Vicksburg e Nova Orleans, ela tem sua fábrica de gelo: ela faz trinta toneladas de gelo por dia. Em Vicksburg e Natchez, no meu tempo, gelo era joia; ninguém, exceto os ricos, podia usá-lo. Mas qualquer um e todos podem tê-lo agora. Visitei uma das fábricas de gelo em Nova Orleans, para ver como as regiões polares poderiam parecer quando arrastadas para a borda dos trópicos. Mas não havia nada de impressionante no aspecto do lugar. Era meramente uma casa espaçosa, com algum maquinário a vapor inocente em uma extremidade e alguns grandes canos de porcelana correndo aqui e ali. Não, não porcelana — eles apenas pareciam ser; eram de ferro, mas a amônia que estava sendo respirada através deles os havia revestido com a espessura da sua mão com gelo sólido branco como leite. Deveria ter derretido; pois não se precisava de roupas de inverno naquela atmosfera: mas não derreteu; o interior do cano estava frio demais.
Afundadas no chão estavam inúmeras caixas de estanho, com trinta centímetros quadrados e sessenta centímetros de comprimento, abertas na extremidade superior. Estas estavam cheias de água limpa; e ao redor de cada caixa, sal e outras substâncias apropriadas eram compactadas; também, os gases de amônia eram aplicados à água de alguma maneira que sempre permanecerá um segredo para mim, porque não fui capaz de entender o processo. Enquanto a água nas caixas congelava gradualmente, homens davam-lhe uma mexida ou duas com um bastão ocasionalmente — para liberar as bolhas de ar, creio eu. Outros homens estavam continuamente retirando caixas cujo conteúdo tinha se tornado congelado. Eles davam à caixa um único mergulho em um tanque de água fervente, para derreter o bloco de gelo livre de seu caixão de estanho, então eles disparavam o bloco para fora em um carro de plataforma, e ele estava pronto para o mercado. Esses grandes blocos eram duros, sólidos e claros como cristal. Em certos deles, grandes buquês de flores tropicais frescas e brilhantes haviam sido congelados dentro; em outros, belas bonecas francesas vestidas de seda, e outros objetos bonitos. Esses blocos deviam ser colocados em pé em uma travessa, no centro das mesas de jantar, para resfriar o ar tropical; e também para serem ornamentais, pois as flores e coisas aprisionadas neles podiam ser vistas como através de vidro de placa. Disseram-me que esta fábrica podia vender seu gelo no varejo, por carroça, por toda Nova Orleans, nas quantidades das mais humildes residências, a seis ou sete dólares a tonelada, e obter um lucro suficiente. Sendo este o caso, há negócio para fábricas de gelo no Norte; pois não conseguimos gelo nesses termos lá, se alguém levar menos de cento e cinquenta quilos por entrega.
A Rosalie Yarn Mill, de Natchez, tem uma capacidade de 6.000 fusos e 160 teares, e emprega 100 mãos. A Natchez Cotton Mills Company começou as operações quatro anos atrás em um edifício de dois andares de 15 x 58 metros, com 4.000 fusos e 128 teares; capital de $105.000, tudo subscrito na cidade. Dois anos depois, os mesmos acionistas aumentaram seu capital para $225.000; adicionaram um terceiro andar à fábrica, aumentaram seu comprimento para 96 metros; adicionaram maquinário para aumentar a capacidade para 10.300 fusos e 304 teares. A empresa agora emprega 250 operários, muitos dos quais são cidadãos de Natchez. "A fábrica trabalha 5.000 fardos de algodão anualmente e fabrica a melhor qualidade padrão de tecidos de algodão cru e lençóis e brim, produzindo 5.000.000 de jardas desses bens por ano." Uma empresa de capital fechado — ações mantidas a $5.000 por ação, mas nenhuma no mercado.
As mudanças no Rio Mississippi são grandes e estranhas, ainda assim eram de se esperar; mas eu não esperava viver para ver Natchez e essas outras cidades fluviais se tornarem fortalezas de manufatura e centros ferroviários.
Falar de manufaturas me lembra de uma conversa sobre esse tópico que ouvi — que ouvi por acaso — a bordo do barco de Cincinnati. Acordei de um sono agitado, com uma confusão surda de vozes em meus ouvidos. Escutei — dois homens estavam conversando; assunto, aparentemente, a grande inundação. Olhei através da bandeira aberta. Os dois homens estavam tomando um café da manhã tardio; sentados um em frente ao outro; ninguém mais por perto. Eles encerraram a inundação com algumas palavras — tendo-a usado, evidentemente, como um mero quebra-gelo e criador de conhecimento — então caíram nos negócios. Logo transpareceu que eles eram caixeiros-viajantes — um pertencente a Cincinnati, o outro a Nova Orleans. Homens ágeis, enérgicos de movimento e fala; o dólar seu deus, como consegui-lo sua religião.
"Agora quanto a este artigo," disse Cincinnati, cortando a suposta manteiga e segurando à frente uma fatia dela na lâmina de sua faca, "é da nossa casa; olhe para ela — cheire-a — prove-a. Coloque qualquer teste nela que você quiser. Tome seu próprio tempo — sem pressa — faça ser minucioso. Pronto — o que você diz? manteiga, não é. Nem de longe — é oleomargarina! Sim, senhor, é isso que é — oleomargarina. Você não consegue distinguir de manteiga; por George, um especialista não consegue. É da nossa casa. Nós fornecemos a maioria dos barcos no Oeste; quase não há um quilo de manteiga em um deles. Estamos engatinhando direto — pulando direto é a palavra. Vamos ter todo esse comércio. Sim, e o comércio de hotéis, também. Você vai ver o dia, bem cedo, quando você não conseguirá encontrar uma onça de manteiga para se benzer, em qualquer hotel nos Vales do Mississippi e Ohio, fora das maiores cidades. Por que, estamos produzindo oleomargarina agora aos milhares de toneladas. E podemos vendê-la tão barato que o país inteiro tem que aceitá-la — não pode evitar, você vê. Manteiga não tem chance — não há chance para competição. A manteiga teve seu dia — e de agora em diante, a manteiga vai para a parede. Há mais dinheiro na oleomargarina do que — por que, você não consegue imaginar o negócio que fazemos. Parei em cada cidade de Cincinnati a Natchez; e enviei para casa grandes pedidos de cada uma delas."
E assim por diante, por dez minutos mais, no mesmo tom fervoroso. Então Nova Orleans apitou e disse —
"Sim, é uma imitação de primeira, isso é uma certeza; mas não é a única por aí que é de primeira. Por exemplo, eles fazem azeite de oliva a partir de óleo de semente de algodão, hoje em dia, de modo que você não consegue distinguir um do outro."
"Sim, é verdade," respondeu Cincinnati, "e foi um negócio de primeira por um tempo. Eles enviavam para lá e traziam de volta da França e Itália, com a marca da alfândega dos Estados Unidos nele para endossá-lo como genuíno, e não havia fim de dinheiro nisso; mas a França e a Itália acabaram com o jogo — claro que naturalmente acabariam. Impuseram tal imposto que o azeite de oliva de semente de algodão não conseguia suportar o aumento; teve que fechar e desistir."
"Oh, foi, foi? Você espera aqui um minuto."
Vai para sua cabine, traz de volta um par de garrafas longas, e tira as rolhas — diz:
"Pronto, cheire-as, prove-as, examine as garrafas, inspecione os rótulos. Uma delas é da Europa, a outra nunca saiu deste país. Uma é azeite de oliva europeu, a outra é azeite de oliva de semente de algodão americano. Distingui-las? Claro que você não consegue. Ninguém consegue. Pessoas que querem, podem ir à despesa e ao trabalho de enviar seus óleos para a Europa e voltar — é seu privilégio; mas nossa firma conhece um truque que vale seis desses. Nós produzimos a coisa toda — limpo desde o início — em nossa fábrica em Nova Orleans: rótulos, garrafas, óleo, tudo. Bem, não, não os rótulos: estivemos comprando-os no exterior — conseguimos barato lá. Você vê, há apenas uma pequena mancha, essência, ou o que quer que seja, em um galão de óleo de semente de algodão, que lhe dá um cheiro, ou um sabor, ou algo — tire isso, e você está bem — perfeitamente fácil então transformar o óleo em qualquer tipo de óleo que você queira, e não há ninguém que consiga detectar o verdadeiro do falso. Bem, nós sabemos como tirar aquela pequena partícula — e somos a única firma que faz isso. E produzimos um azeite de oliva que é simplesmente perfeito — indetectável! Estamos fazendo um negócio arrebatador, também — como eu poderia facilmente mostrar a você pelo meu livro de pedidos desta viagem. Talvez você passe manteiga no pão de todo mundo bem cedo, mas nós passaremos semente de algodão na salada dele do Golfo ao Canadá, e isso é uma coisa certa."
Cincinnati brilhava e irradiava admiração. Os dois patifes trocaram cartões de visita e levantaram-se. Ao deixarem a mesa, Cincinnati disse:
"Mas vocês precisam ter selos da alfândega, não precisam? Como vocês dão um jeito nisso?"
Não captei a resposta.
Passamos por Port Hudson, cenário de dois dos episódios mais terríveis da guerra: a batalha noturna ali entre a frota de Farragut e as baterias terrestres confederadas, em 14 de abril de 1863; e a memorável batalha terrestre, dois meses depois, que durou oito horas — oito horas de combates excepcionalmente ferozes e obstinados — e terminou, finalmente, na repulsa das forças da União com grande carnificina.
CAPÍTULO 40
Castelos e Cultura
BATON ROUGE estava vestida de flores, como uma noiva — não, muito mais; como uma estufa. Pois estávamos no Sul absoluto agora — sem modificações, sem concessões, sem medidas paliativas. As magnólias nos terrenos do Capitólio eram adoráveis e perfumadas, com sua folhagem densa e rica e suas enormes flores em forma de bola de neve. O perfume da flor é muito doce, mas é preciso mantê-lo a distância, pois é muito potente. Não são boas flores para quartos — poderiam sufocar alguém durante o sono. Estávamos certamente no Sul, enfim; pois aqui começa a região do açúcar, e as plantações — vastas planícies verdes, com o engenho de açúcar e as senzalas agrupados na distância média — estavam à vista. E havia um sol tropical acima e um abafamento tropical no ar.
E neste ponto, também, começa o paraíso do piloto: um rio largo daqui até New Orleans, abundância de água de margem a margem, e sem bancos de areia, troncos, árvores submersas ou destroços em seu caminho.
Sir Walter Scott é provavelmente o responsável pelo edifício do Capitólio; pois não é concebível que este pequeno castelo de fachada jamais tivesse sido construído se ele não tivesse deixado as pessoas loucas, há algumas gerações, com seus romances medievais. O Sul ainda não se recuperou da influência debilitante de seus livros. A admiração por seus heróis fantásticos e suas grotescas ações de "cavalaria" e juvenilidades românticas ainda sobrevive aqui, em uma atmosfera na qual já é perceptível o cheiro saudável e prático do século XIX das fábricas de algodão e locomotivas; e traços de sua linguagem inflada e outras imposturas grandiloquentes sobrevivem junto com ele. É patético o suficiente que um castelo caiado de branco, com torres e tais coisas — materiais todos sem autenticidade por dentro e por fora, fingindo ser o que não são — tenha sido construído neste lugar, de outra forma honroso; mas é muito mais patético ver essa falsidade arquitetônica passando por restauração e perpetuação em nossos dias, quando teria sido tão fácil deixar a dinamite terminar o que um incêndio caridoso começou, e então devotar esse dinheiro da restauração à construção de algo genuíno.
Baton Rouge não tem patente sobre castelos de imitação, no entanto, e nem o monopólio deles. Eis uma imagem do anúncio do "Female Institute" de Columbia, Tennessee. A seguinte observação é do mesmo anúncio:
"O edifício do Instituto é há muito famoso como um modelo de arquitetura impressionante e bela. Os visitantes ficam encantados com sua semelhança com os velhos castelos das canções e contos, com suas torres, muralhas ameadas e alpendres cobertos de hera."
Manter uma escola em um castelo é uma coisa romântica; tão romântico quanto manter um hotel em um castelo.
Por si só, o castelo de imitação é sem dúvida inofensivo, e até que bom; mas como símbolo, criador e mantenedor de um romantismo piegas da Idade Média aqui, em meio ao mais simples, robusto e infinitamente maior e mais digno de todos os séculos que o mundo já viu, é necessariamente uma coisa prejudicial e um erro.
Eis um trecho do prospecto de um "Female College" do Kentucky. Colégio feminino soa bem o suficiente; mas já que formular isso dessa maneira injustificável foi feito puramente em interesse da brevidade, parece-me que colégio-de-fêmeas teria sido ainda melhor — porque é mais curto, e significa a mesma coisa: isto é, se alguma das frases significa algo afinal:
"O presidente é sulista por nascimento, por criação, por educação e por sentimento; os professores são todos sulistas em sentimento e, com exceção daqueles nascidos na Europa, nasceram e foram criados no Sul. Acreditando que o sulista seja o tipo mais elevado de civilização que este continente já viu, as jovens são treinadas de acordo com as ideias sulistas de delicadeza, refinamento, feminilidade, religião e decoro; portanto, oferecemos um colégio feminino de primeira classe para o Sul e solicitamos o patrocínio sulista."
{nota de rodapé}
Que, guarda, olá! O homem que pode soprar um alarde tão complacente quanto esse, provavelmente o sopra de um castelo.
De Baton Rouge a New Orleans, as grandes plantações de açúcar margeiam ambos os lados do rio por todo o caminho, e estendem seus níveis de uma légua de largura até as sombrias paredes da floresta de ciprestes barbudos na retaguarda. Margens solitárias não mais. Abundância de habitações por todo o caminho, em ambas as margens — situadas tão próximas umas das outras, por longas distâncias, que o rio largo que jaz entre as duas fileiras se torna uma espécie de rua espaçosa. Uma região que parece muito acolhedora e feliz. E de vez em quando você vê uma grande casa senhorial com pilares e pórticos, envolta em árvores. Eis o testemunho de um ou dois da procissão de turistas estrangeiros que desfilaram por aqui meio século atrás. A Sra. Trollope diz:
"A planície ininterrupta das margens do Mississippi continuou sem variação por muitas milhas acima de New Orleans; mas o gracioso e luxuriante palmito, a escura e nobre azinheira e a brilhante laranja podiam ser vistos em toda parte, e passaram-se muitos dias antes que nos cansássemos de olhar para eles."
O Capitão Basil Hall:
"O distrito do país que fica adjacente ao Mississippi, nas partes baixas da Louisiana, é em toda parte densamente povoado por plantadores de açúcar, cujas casas vistosas, pátios alegres, jardins ordenados e numerosas vilas de escravos, todos limpos e arrumados, davam um ar extremamente próspero à paisagem do rio."
Toda a procissão pinta o quadro atraente da mesma maneira. As descrições de cinquenta anos atrás não precisam ter uma palavra mudada para descrever exatamente a mesma região como ela aparece hoje — exceto quanto à "ordem" das casas. O caiado de branco se foi das cabanas dos negros agora; e muitas, possivelmente a maioria, das grandes mansões, outrora tão brancas e brilhantes, gastaram sua tinta e têm uma aparência decadente e negligenciada. É a praga da guerra. Vinte e um anos atrás, tudo era arrumado, ordenado e brilhante ao longo da "costa", exatamente como tinha sido em 1827, conforme descrito por aqueles turistas.
Turistas infelizes! As pessoas os enganaram com mentiras estúpidas e tolas, e depois riram deles por acreditarem e imprimirem o mesmo. Disseram à Sra. Trollope que os jacarés — ou crocodilos, como ela os chama — eram criaturas terríveis; e apoiaram a declaração com um relato de arrepiar os cabelos sobre como um desses répteis caluniados entrou na cabana de um posseiro certa noite e devorou uma mulher e cinco crianças. A mulher, por si só, teria satisfeito qualquer jacaré ordinariamente impossível; mas não, esses mentirosos tinham que fazê-lo engolir as cinco crianças também. Não se imaginaria que brincalhões dessa estirpe robusta fossem sensíveis — mas eles eram. É difícil, nos dias de hoje, entender, e impossível justificar, a recepção que o livro do grave, honesto, inteligente, gentil, cavalheiro, caridoso e bem-intencionado Capitão Basil Hall recebeu.
CAPÍTULO 41
A Metrópole do Sul
AS aproximações de New Orleans eram familiares; os aspectos gerais estavam inalterados. Quando se voa por Londres ao longo de uma ferrovia sustentada no ar por altos arcos, pode-se inspecionar milhas de quartos de dormir superiores através das janelas abertas, mas a metade inferior das casas está abaixo do nível da visão e fora de vista. Da mesma forma, em nível de rio alto, na região de New Orleans, a água está no topo da borda da margem que a encerra, o país plano atrás dela jaz baixo — representando o fundo de um prato — e, à medida que o barco navega, alto na enchente, olha-se para baixo, para as casas e para dentro das janelas superiores. Não há nada além daquela frágil defesa de terra entre as pessoas e a destruição.
Os antigos armazéns de sal de tijolo agrupados na extremidade superior da cidade pareciam como sempre tinham parecido; armazéns que tiveram uma espécie de experiência com a lâmpada de Aladdin, no entanto, desde que eu os vira; pois quando a guerra eclodiu, o proprietário foi para a cama certa noite deixando-os cheios de milhares de sacos de sal vulgar, valendo um par de dólares por saco, e levantou-se de manhã e encontrou sua montanha de sal transformada em uma montanha de ouro, por assim dizer, tão repentina e vertiginosa fora a altura a que as notícias da guerra elevaram o preço do artigo.
A vasta extensão de cais de madeira permanecia inalterada, e havia tantos navios como sempre: mas a longa fileira de barcos a vapor havia desaparecido; não inteiramente, é claro, mas não restava muito dela.
A cidade em si não tinha mudado — aos olhos. Havia aumentado muito em extensão e população, mas a aparência da cidade não foi alterada. A poeira, cheia de papéis descartados, ainda era profunda nas ruas; as sarjetas profundas e semelhantes a calhas ao longo dos meios-fios ainda estavam meio cheias de água repousante com uma superfície poeirenta; as calçadas ainda estavam — na região do açúcar e do bacon — obstruídas por barris, tonéis e grandes tonéis; os grandes quarteirões de casas comerciais austeramente simples eram tão poeirentos como sempre.
A Canal Street era mais refinada, mais atraente e agitada do que antigamente, com suas multidões errantes de pessoas, suas várias procissões de bondes apressados e — ao anoitecer — suas amplas varandas de segundo andar lotadas de cavalheiros e damas vestidos de acordo com a última moda.
Não que exista qualquer "arquitetura" na Canal Street: para falar em termos amplos e gerais, não há arquitetura em New Orleans, exceto nos cemitérios. Parece uma coisa estranha a dizer de uma cidade rica, clarividente e enérgica de um quarto de milhão de habitantes, mas é verdade. Há um enorme edifício de granito da Alfândega dos EUA — caro o suficiente, genuíno o suficiente, mas como decoração é inferior a um gasômetro. Parece uma prisão estadual. Mas foi construído antes da guerra. Pode-se dizer que a arquitetura na América nasceu depois da guerra. New Orleans, creio eu, teve a sorte — e, em certo sentido, o azar — de não ter tido nenhum grande incêndio nos últimos anos. Deve ser assim. Se o oposto tivesse sido o caso, creio que se poderia identificar o "distrito queimado" pela melhoria radical em sua arquitetura sobre as velhas formas. Pode-se fazer isso em Boston e Chicago. O "distrito queimado" de Boston era comum antes do incêndio; mas agora não há distrito comercial em nenhuma cidade do mundo que possa superá-lo — ou talvez até rivalizá-lo — em beleza, elegância e bom gosto.
No entanto, New Orleans começou — exatamente neste momento, pode-se dizer. Quando concluída, a nova Bolsa de Algodão será um edifício majestoso e belo; maciço, substancial, cheio de graças arquitetônicas; sem farsas, falsas pretensões ou feiuras em lugar algum. Para a cidade, valerá muitas vezes o seu custo, pois criará sua espécie. O que faltava até agora era um modelo para se construir; algo para educar o olho e o gosto; um sugestor, por assim dizer.
A cidade está bem equipada com homens progressistas — homens pensantes, sagazes e de visão. O contraste entre o espírito da cidade e a arquitetura da cidade é como o contraste entre o despertar e o sono. Aparentemente, há um "boom" em tudo, exceto naquela característica morta. A água nas sarjetas costumava ser estagnada e viscosa, e um potente criadouro de doenças; mas as sarjetas são limpas agora, duas ou três vezes ao dia, por máquinas potentes; em muitas das sarjetas a água nunca fica parada, mas tem uma corrente constante. Outras melhorias sanitárias foram feitas; e com tal efeito que New Orleans afirma ser (durante os longos intervalos entre os ocasionais ataques de febre amarela) uma das cidades mais saudáveis da União. Há bastante gelo agora para todos, fabricado na cidade. É um lugar movimentado comercialmente e tem um grande negócio fluvial, oceânico e ferroviário. Na data de nossa visita, era a cidade mais bem iluminada da União, eletricamente falando. As luzes elétricas de New Orleans eram mais numerosas do que as de Nova York, e muito melhores. Tinha-se este meio-dia modificado não apenas na Canal e em algumas das principais ruas vizinhas, mas ao longo de uma extensão de cinco milhas de frente para o rio. Há bons clubes na cidade agora — vários deles organizados recentemente — e atraentes locais de lazer de estilo moderno em West End e Spanish Fort. O telefone está em toda parte. Um dos avanços mais notáveis está no jornalismo. Os jornais, como me lembro deles, não eram uma característica marcante. Agora são. Dinheiro é gasto neles com mãos livres. Eles conseguem as notícias, custe o que custar. O trabalho editorial não é um trabalho braçal, mas literatura. Como exemplo da conquista jornalística de New Orleans, pode-se mencionar que o "Times-Democrat" de 26 de agosto de 1882 continha um relatório dos negócios do ano das cidades do Vale do Mississippi, desde New Orleans até St. Paul — duas mil milhas. Aquela edição do jornal consistia em quarenta páginas; sete colunas por página; duzentas e oitenta colunas ao todo; mil e quinhentas palavras por coluna; um total de quatrocentas e vinte mil palavras. Ou seja, pouco menos do que três vezes o número de palavras que existem neste livro. Pode-se, com tristeza, contrastar isso com a arquitetura de New Orleans.
Tenho falado apenas da arquitetura pública. O artigo doméstico em New Orleans é irrepreensível, apesar de permanecer como sempre foi. Todas as habitações são de madeira — na parte americana da cidade, quero dizer — e todas têm um aspecto confortável. Aquelas no bairro rico são espaçosas; pintadas de branco como a neve, geralmente, e costumam ter varandas largas, ou varandas duplas, sustentadas por colunas ornamentais. Essas mansões ficam no centro de grandes terrenos e erguem-se, guirlandadas com rosas, em meio a massas inchadas de folhagem verde brilhante e flores multicoloridas. Nenhuma casa poderia estar em melhor harmonia com seus arredores, ou ser mais agradável à vista, ou parecer mais acolhedora e confortável.
A pessoa até se reconcilia com a cisterna eventualmente; este é um grande tonel, pintado de verde, e às vezes com dois andares de altura, que é escorado no canto da casa sobre estacas. Há uma sugestão de mansão e cervejaria sobre a combinação que parece muito incongruente no início. Mas as pessoas não podem ter poços, então usam água da chuva. Nem podem ter convenientemente porões ou túmulos,{nota de rodapé [Os israelitas são enterrados em túmulos — por permissão, creio eu, não por requisito; mas ninguém mais, exceto os indigentes, que são enterrados às custas do público. Os túmulos têm apenas três ou quatro pés de profundidade.]} sendo a cidade construída sobre solo "aterrado"; então eles passam sem ambos, e poucos dos vivos reclamam, e nenhum dos outros.
CAPÍTULO 42
Higiene e Sentimento
ELES enterram seus mortos em jazigos, acima do solo. Esses jazigos têm uma semelhança com casas — às vezes com templos; são construídos de mármore, geralmente; são arquitetonicamente graciosos e bem formados; eles dão para as calçadas e vias de acesso do cemitério; e quando alguém se move pelo meio de mil ou mais deles e vê seus telhados brancos e empenas estendendo-se à distância de todos os lados, a frase "cidade dos mortos" ganha de repente um significado para ele. Muitos dos cemitérios são belos e são mantidos em perfeita ordem. Quando alguém vai do cais ou das ruas comerciais próximas a ele para um cemitério, observa para si mesmo que, se aquelas pessoas lá embaixo vivessem tão ordenadamente enquanto estão vivas quanto vivem depois de mortas, encontrariam muitas vantagens nisso; e, além disso, seu bairro seria a maravilha e admiração do mundo empresarial. Flores frescas, em vasos com água, podem ser vistas nos portais de muitos dos jazigos: colocadas lá pelas mãos piedosas de pais e filhos, maridos e esposas enlutados, e renovadas diariamente. Uma forma mais branda de tristeza encontra seu lembrador barato e duradouro na grosseira e feia, porém indestrutível, "immortelle" — que é uma coroa ou cruz ou algum emblema semelhante, feito de rosetas de linho preto, com às vezes uma roseta amarela na junção das barras da cruz — uma espécie de broche de luto, por assim dizer. A immortelle não requer atenção: você simplesmente a pendura, e pronto; deixe-a sozinha, ela cuidará do seu pesar por você, e o manterá em mente melhor do que você pode; resiste muito bem ao clima e dura como ferro de caldeira.
Nos dias de sol, pequenos camaleões bonitinhos — os mais graciosos dos répteis com patas — rastejam ao longo das frentes de mármore dos jazigos e pegam moscas. Suas mudanças de cor — quanto à variedade — não fazem jus à reputação da criatura. Eles mudam de cor quando uma pessoa aparece e pendura uma immortelle; mas isso não é nada: qualquer réptil com bons sentimentos faria isso.
Vou abandonar gradualmente este assunto de cemitérios. Tenho tentado tudo o que pude para chegar à parte sentimental disso, mas não consigo. Acho que não há parte genuinamente sentimental nisso. É tudo grotesco, horrível, horripilante. Os cemitérios podem ter sido justificáveis nas eras passadas, quando ninguém sabia que para cada corpo morto colocado no solo, para saciar a terra e as raízes das plantas, e o ar com germes de doenças, cinco ou cinquenta, ou talvez cem pessoas devem morrer antes do seu tempo devido; mas eles dificilmente são justificáveis agora, quando até as crianças sabem que um santo morto entra em uma carreira de assassinato de um século assim que a terra se fecha sobre seu cadáver. É um tipo de pensamento sombrio. As relíquias de Santa Ana, lá no Canadá, agora, depois de mil e novecentos anos, passaram a curar os doentes aos montes. Mas é a coisa mais natural do mundo que essas mesmas relíquias, dentro de uma geração após a morte e enterro de Santa Ana, tenham deixado várias milhares de pessoas doentes. Portanto, esses desempenhos de milagres são simplesmente compensação, nada mais. Santa Ana é um pouco lenta no pagamento, para uma Santa, é verdade; mas é melhor uma dívida paga após mil e novecentos anos, e proscrita pelo estatuto de limitações, do que não ser paga de forma alguma; e a maioria dos cavaleiros do halo não paga de forma alguma. Onde você encontra um que paga — como Santa Ana — você encontra cento e cinquenta que se aproveitam do estatuto. E nenhum deles paga mais do que o principal do que deve — eles não pagam nenhum dos juros, nem simples nem compostos. Um Santo nunca pode devolver totalmente o principal, no entanto; pois seu corpo morto mata as pessoas, enquanto suas relíquias apenas curam — elas nunca restauram os mortos à vida. Essa parte da conta é sempre deixada sem solução.
"O Dr. F. Julius Le Moyne, após cinquenta anos de prática médica, escreveu: 'A inumação de corpos humanos, mortos por doenças infecciosas, resulta em carregar constantemente a atmosfera, e poluir as águas, não apenas com os germes que surgem da simples putrefação, mas também com os germes específicos das doenças das quais a morte resultou.'
'Os gases (de cadáveres enterrados) subirão à superfície através de oito ou dez pés de cascalho, assim como o gás de carvão fará, e praticamente não há limite para seu poder de escape.'
'Durante a epidemia em New Orleans em 1853, o Dr. E. H. Barton relatou que no Quarto Distrito a mortalidade foi de quatrocentos e cinquenta e dois por mil — mais do que o dobro de qualquer outro. Neste distrito havia três grandes cemitérios, nos quais durante o ano anterior mais de três mil corpos haviam sido enterrados. Em outros distritos, a proximidade de cemitérios parecia agravar a doença.'
'Em 1828, o Professor Bianchi demonstrou como o terrível reaparecimento da praga em Modena foi causado por escavações em solo onde, três séculos antes, as vítimas da peste haviam sido enterradas. O Sr. Cooper, ao explicar as causas de algumas epidemias, observa que a abertura dos cemitérios da praga em Eyam resultou em um surto imediato de doença.' — North American Review, No. 3, Vol. 135."
Em um discurso perante a Sociedade Médica de Chicago, em defesa da cremação, o Dr. Charles W. Purdy fez algumas comparações impressionantes para mostrar que fardo é imposto à sociedade pelo enterro dos mortos:
"Anualmente, é gasta nos Estados Unidos uma vez e um quarto mais dinheiro em funerais do que o Governo despende para fins de ensino público. Os funerais custaram a este país em 1880 dinheiro suficiente para pagar os passivos de todas as falências comerciais nos Estados Unidos durante o mesmo ano, e dar a cada falido um capital de 8.630 dólares com o qual retomar os negócios. Os funerais custam anualmente mais dinheiro do que o valor do rendimento combinado de ouro e prata dos Estados Unidos no ano de 1880! Estes números não incluem as somas investidas em cemitérios e gastas em túmulos e monumentos, nem a perda pela desvalorização de propriedades nas proximidades de cemitérios."
Para os ricos, a cremação serviria tão bem quanto o enterro; pois as cerimônias a ela ligadas poderiam ser feitas tão dispendiosas e ostentosas quanto um suttee hindu; ao passo que para os pobres, a cremação seria melhor que o enterro, por ser tão barata {nota de rodapé [Quatro ou cinco dólares é o custo mínimo.]}--tão barata até que os pobres começassem a imitar os ricos, o que fariam logo mais. A adoção da cremação nos livraria de uma infinidade de chistes surrados sobre enterros; mas, por outro lado, ressuscitaria uma porção de piadas antigas e mofadas sobre cremação que tiveram um descanso por dois mil anos.
Tenho um conhecido de cor que ganha a vida com biscates e trabalho manual pesado. Ele nunca ganha mais de quatrocentos dólares por ano e, como tem esposa e vários filhos pequenos, a mais rigorosa economia é necessária para que ele chegue ao fim dos doze meses sem dívidas. Para um homem desses, um funeral é um desastre financeiro colossal. Enquanto eu escrevia um dos capítulos anteriores, este homem perdeu um filho pequeno. Ele percorreu a cidade inteira com um amigo, tentando encontrar um caixão que estivesse dentro de suas posses. Comprou o mais barato que conseguiu encontrar, de madeira simples, tingida. Custou-lhe vinte e seis dólares. Teria custado menos de quatro, provavelmente, se tivesse sido construído para colocar algo útil dentro. Ele e sua família sentirão essa despesa por muitos meses.
CAPÍTULO 43
A Arte da Inumação
POR volta da mesma época, encontrei um homem na rua, a quem não via há seis ou sete anos; e seguiu-se algo como esta conversa. Eu disse--
"Mas você costumava parecer triste e meio velho; agora não parece. Onde conseguiu toda essa juventude e alegria contagiante? Dê-me o endereço."
Ele riu alegremente, tirou seu chapéu brilhante, apontou para um círculo de papel rosa recortado colado na copa, com algo escrito nele, e continuou rindo enquanto eu lia: "J. B----, Agente Funerário". Então, ele colocou o chapéu na cabeça, deu-lhe uma inclinação irreverente para o lado e exclamou--
"É isso que acontece! Costumava ser difícil para mim quando você me conhecia--negócio de agência de seguros, sabe; muito irregular. Grande incêndio, tudo bem--comércio movimentado por dez dias enquanto as pessoas estão assustadas; depois disso, negócio de apólices parado até o próximo incêndio. Cidade como esta não tem incêndios com frequência suficiente--um sujeito enfrenta tantas semanas paradas seguidas que fica desanimado. Mas pode apostar, este é o negócio! As pessoas não esperam por exemplos para morrer. Não, senhor, elas vão partindo assim mesmo--não existem pontos parados no ramo funerário. Eu comecei apenas com dois ou três caixões velhos e um carro funerário alugado, e agora olhe para a coisa! Desenvolvi um negócio aqui que satisfaria qualquer homem, não importa quem seja. Cinco anos atrás, morava num sótão; moro numa casa elegante agora, com teto mansarda e todas as inconveniências modernas."
"Um caixão rende tão bem? Existe muito lucro num caixão?"
"Ora, vá! Como você fala!" Então, com uma piscadela confidencial, uma queda na voz e um toque impressionante de sua mão em meu braço: "Olhe aqui; existe uma coisa neste mundo que nunca é barata. Isso é um caixão. Existe uma coisa neste mundo na qual uma pessoa nunca tenta pechinchar com você. Isso é um caixão. Existe uma coisa neste mundo sobre a qual uma pessoa não diz: 'Vou dar uma olhada por aí e, se eu achar que não consigo algo melhor, voltarei e levarei'. Isso é um caixão. Existe uma coisa neste mundo que uma pessoa não aceita em pinho se puder optar por nogueira; e não aceita em nogueira se puder optar por mogno; e não aceita em mogno se puder optar por um esquife de ferro com placa de porta de prata e alças de bronze. Isso é um caixão. E existe uma coisa neste mundo pela qual você não precisa ficar correndo atrás da pessoa para que ela pague. E isso é um caixão. Agência funerária?--por que é o negócio mais garantido na cristandade, e o mais nobre."
"Ora, olhe só. Um homem rico não aceita nada que não seja o seu melhor; e você pode simplesmente carregar nas tintas também--carregar nas tintas e cobrar caro dele--ele nunca vai chiar. E você pega um homem pobre, e se você lidar bem com ele, ele se arruína em um único funeral. Ou especialmente uma mulher. Por exemplo: a Sra. O'Flaherty entra--viúva--enxugando os olhos e meio que gemendo. Deslença um olho, vira-o lacrimosamente sobre o estoque; diz--"
"'E quanto a senhora poderia pedir por aquele lá?'"
"'Trinta e nove dólares, madame', digo eu."
"'É um belo preço alto, com certeza, mas Pat será enterrado como um cavalheiro, como ele era, mesmo que eu tenha que trabalhar até os dedos sangrarem por isso. Ficarei com aquele, senhor.'"
"'Sim, madame', digo eu, 'e é muito bom também; não é dispendioso, certamente, mas nesta vida devemos esticar as pernas conforme o lençol, como diz o ditado'. E, enquanto ela começa a sair, eu lanço, meio casualmente: 'Este com o forro de cetim branco é uma beleza, mas receio--bem, sessenta e cinco dólares é um tanto--um tanto--mas não importa, senti-me obrigado a dizer à Sra. O'Shaughnessy--'"
"'Quer dizer que Bridget O'Shaughnessy comprou o par daquela caixa de joias para despachar aquele diabo bêbado para o Purgatório?'"
"'Sim, madame.'"
"'Então Pat irá para o céu no gêmeo dele, mesmo que custe o último centavo que os O'Flaherty puderem levantar; e lembre-se, acrescente alguns extras também, e lhe darei outro dólar.'"
"E como eu tenho parceria com as cocheiras, é claro que não me esqueço de mencionar que a Sra. O'Shaughnessy alugou cinquenta e quatro dólares em carruagens e exibiu tanto estilo no funeral de Dennis como se ele tivesse sido um duque ou um assassino. E é claro que ela entra na jogada e supera a O'Shaughnessy em umas quatro carruagens e um ônibus. Isso costumava ser, mas agora tudo acabou; isto é, nesta cidade em particular. Os irlandeses começaram a acumular tantas carruagens em seus funerais que um funeral os deixava maltrapilhos e famintos por dois anos depois; então o padre interveio e acabou com tudo. Ele não permite que eles tenham mais que duas carruagens agora, e às vezes apenas uma."
"Bem", disse eu, "se você é tão alegre e jovial em tempos comuns, como deve ser em uma epidemia?"
Ele balançou a cabeça.
"Não, aí você se enganou. Não gostamos de ver uma epidemia. Epidemia não rende. Bem, é claro que não quero dizer exatamente isso; mas não rende na proporção do movimento normal. Não lhe ocorre o porquê?"
Não.
"Pense."
"Não consigo imaginar. O que é?"
"São apenas duas coisas."
"Bem, o que são elas?"
"Uma é o Embalsamamento."
"E qual é a outra?"
"Gelo."
"Como assim?"
"Bem, em tempos normais, uma pessoa morre e nós a colocamos no gelo; um dia, dois dias, talvez três, para esperar os amigos chegarem. Consome muito dele--derrete rápido. Cobramos preços de joalheria por esse gelo, e preços de guerra pelo atendimento. Bem, você não sabe? Quando há uma epidemia, eles os levam às pressas para o cemitério no momento em que o fôlego acaba. Não há mercado para gelo em uma epidemia. O mesmo acontece com o Embalsamamento. Você pega uma família que tem condições de embalsamar e você tem uma mina de ouro. Você pode mencionar dezesseis maneiras diferentes de fazer isso--embora não existam mais do que uma ou duas maneiras, quando você chega aos fatos concretos--e eles escolherão a maneira mais cara, sempre. É a natureza humana--a natureza humana no luto. Ela não raciocina, entende. Por ora, ela não está nem aí para o dinheiro. Tudo o que ela quer é a imortalidade física para o falecido, e eles estão dispostos a pagar por isso. Tudo o que você tem a fazer é ficar calmo e empilhar a conta--eles aguentam o tranco. Ora, homem, você pode pegar um defunto que ninguém queria de graça, colocar seus apetrechos de embalsamamento em volta e começar a trabalhar; e em algumas horas ele vale uns bons seiscentos dólares--é quanto ele vale. Não há nada igual a isso, a não ser trocar ratos por diamantes em tempos de fome. Bem, não percebe? Quando há uma epidemia, as pessoas não esperam para embalsamar. Não, de fato não esperam; e isso prejudica o negócio terrivelmente--prejudica terrivelmente--nossa pequena piada no ramo. Bem, preciso ir. Ligue-me sempre que precisar de algum--quero dizer, quando estiver passando por aqui, algum dia."
Em seu espírito alegre e elevado, ele mesmo fez o exagero, se é que houve algum. Não aumentei nada sobre ele.
Com as breves referências acima à inumação, deixemos o assunto. Quanto a mim, espero ser cremado. Fiz esse comentário ao meu pastor uma vez, que disse, com o que ele pareceu achar ser uma maneira impressionante--
"Eu não me preocuparia com isso, se tivesse suas chances." Muito ele sabia sobre isso--a família toda tão oposta a isso.
CAPÍTULO 44
Vistas da Cidade
A velha parte francesa de Nova Orleans--antigamente a parte espanhola--não guarda semelhança com o lado americano da cidade: o lado americano que fica além do centro comercial de tijolos que os separa. As casas são agrupadas em quarteirões; são austeramente simples e dignas; uniformes no padrão, com aqui e ali uma variação com efeito agradável; todas são rebocadas por fora, e quase todas têm longas varandas com grades de ferro percorrendo os vários andares. Sua principal beleza é a mancha profunda, quente e multicolorida com que o tempo e o clima enriqueceram o reboco. Harmoniza-se com todo o entorno e tem uma aparência tão natural de pertencer ali quanto o rubor nas nuvens ao pôr do sol. Esta decoração encantadora não pode ser imitada com sucesso; nem é encontrada em outro lugar na América.
As grades de ferro são uma especialidade também. O padrão é muitas vezes extremamente leve, delicado, aéreo e gracioso--com uma grande cifra ou monograma no centro, uma teia de aranha delicada de formas desconcertantes e intrincadas, trabalhadas em aço. As grades antigas são feitas à mão e agora são comparativamente raras e proporcionalmente valiosas. Tornaram-se bibelôs.
O grupo teve o privilégio de passear por este antigo bairro de Nova Orleans com o maior gênio literário do Sul, o autor de "The Grandissimes". Nele, o Sul encontrou um retratista magistral de sua vida interior e de sua história. Na verdade, descubro por experiência que o olho destreinado e a mente vazia podem inspecioná-lo, aprender sobre ele e julgá-lo de forma mais clara e proveitosa em seus livros do que pelo contato pessoal com ele.
Com o Sr. Cable ao lado para ver por você, descrever, explicar e iluminar, um passeio por aquele antigo bairro é um prazer vívido. E você tem uma sensação vívida como de coisas invisíveis ou vagamente vistas--vívida, e ainda assim intermitente e sombria; você vislumbra características marcantes, mas perde as sutilezas ou as capta imperfeitamente através da visão da imaginação: um caso, por assim dizer, de um estranho ignorante e míope atravessando a borda de vastos horizontes vagos dos Alpes com um nativo inspirado, esclarecido e de visão de longo alcance.
Visitamos o antigo St. Louis Hotel, agora ocupado por escritórios municipais. Não há nada notavelmente notável nele; mas pode-se dizer dele, como da Academia de Música em Nova York, que se uma vassoura ou uma pá foi usada nele, não há evidência circunstancial que sustente o fato. É curioso que repolhos, feno e coisas do gênero não cresçam na Academia de Música; mas sem dúvida é devido à interrupção da luz pelos bancos e à impossibilidade de capinar a colheita, exceto nos corredores. O fato de os porteiros cultivarem seus buquês de lapela nas dependências mostra o que poderia ser feito se eles tivessem o tipo certo de cabeça agrícola para o estabelecimento.
Visitamos também a venerável Catedral e a bela praça em frente a ela; uma sombria com luz religiosa, a outra brilhante com o tipo mundano, e adorável com laranjeiras e arbustos floridos; depois dirigimos sob o sol quente através da selva de casas e saímos para o vasto nível morto além, onde ficam as vilas, as rodas d'água para drenar a cidade e os terrenos baldios povoados de vacas e crianças; passando por um antigo cemitério onde nos disseram que jazem as cinzas de um antigo pirata; mas nós o tomamos por fé e não o visitamos. Ele era um pirata com uma história tremenda e sanguinária; e enquanto preservou imaculada, na aposentadoria, a dignidade de seu nome e a grandeza de sua antiga vocação, homenagem e reverência eram dele, vindas de altos e baixos; mas quando, finalmente, ele desceu à política e se tornou um mísero vereador, o público o "rejeitou" e virou o rosto e chorou. Quando ele morreu, ergueram um monumento sobre ele; e pouco a pouco ele voltou a ser respeitado; mas é respeito pelo pirata, não pelo vereador. Hoje, os leais e generosos lembram-se apenas do que ele foi, e caridosamente esquecem o que ele se tornou.
De lá, dirigimos alguns quilômetros através de um pântano, ao longo de uma estrada elevada de conchas, com um canal de um lado e uma floresta densa do outro; e aqui e ali, à distância, um cipreste esfarrapado e de membros angulares, barbudo de musgo, com o topo se destacando, nítido contra o céu, e tão peculiar de forma quanto as macieiras nas pinturas japonesas--tal foi nosso curso e o que o cercava. Havia um crocodilo ocasional nadando confortavelmente ao longo do canal, e uma pessoa de cor pitoresca ocasional na margem, lançando seu reflexo rígido como uma estátua sobre a água parada e observando à espera de uma fisgada.
E logo chegamos ao West End, uma coleção de hotéis do padrão habitual de veraneio leve, com varandas largas ao redor e as ondas do vasto e azul Lago Pontchartrain lambendo os limiares. Jantamos em uma varanda térrea sobre a água--o prato principal o renomado peixe chamado pompano, delicioso como as formas menos criminosas de pecado.
Milhares de pessoas vêm de trem e carruagem ao West End e ao Forte Espanhol todas as noites, jantam, ouvem as bandas, dão passeios ao ar livre sob as luzes elétricas, passeiam de barco no lago e divertem-se de várias outras maneiras.
Tivemos oportunidades em outros dias e em outros lugares de experimentar o pompano. Notavelmente, em um jantar editorial em um dos clubes da cidade. Ele estava em sua última perfeição possível lá, e justificou sua fama. Em seu séquito havia uma pirâmide alta de lagostins escarlates--grandes; tão grandes quanto o polegar de alguém--delicados, saborosos, apetitosos. Também peixinhos brancos apimentados; também camarões de escolha qualidade; e um prato de pequenos caranguejos de casca mole de uma raça superior. Os outros pratos eram o que se poderia obter no Delmonico's ou no Palácio de Buckingham; aqueles de que falei podem ser obtidos com perfeição semelhante apenas em Nova Orleans, suponho.
No Oeste e no Sul, eles têm uma nova instituição--a Brigada da Vassoura. É composta por jovens senhoras que se vestem com um traje uniforme e fazem o exercício de infantaria, com uma vassoura no lugar do mosquete. É uma visão muito bonita, em exibição privada. Quando se apresentam no palco de um teatro, sob o brilho de luzes coloridas, deve ser um espetáculo belo e fascinante. Eu as vi realizar seu complexo manual com graça, espírito e precisão admirável. Eu as vi fazer tudo o que um ser humano pode possivelmente fazer com uma vassoura, exceto varrer. Eu não as vi varrer. Mas sei que elas poderiam aprender. O que elas já aprenderam prova isso. E se elas algum dia aprendessem, e seguissem o caminho de guerra pela Tchoupitoulas ou algumas daquelas outras ruas por ali, essas vias teriam uma aparência muito melhorada em poucos minutos. Mas as próprias garotas não teriam; então nada seria realmente ganho, afinal.
O exercício foi no edifício da Artilharia de Washington. Neste edifício vimos muitas relíquias interessantes da guerra. Também uma bela pintura a óleo representando a última entrevista de Stonewall Jackson com o General Lee. Ambos os homens estão a cavalo. Jackson acaba de chegar a cavalo e está interpelando Lee. O quadro é muito valioso, devido aos retratos, que são autênticos. Mas, como muitos outros quadros históricos, não significa nada sem sua etiqueta. E uma etiqueta servirá tão bem quanto outra--
Primeira entrevista entre Lee e Jackson.
Última entrevista entre Lee e Jackson.
Jackson se apresentando a Lee.
Jackson aceitando o convite de Lee para jantar.
Jackson recusando o convite de Lee para jantar--com agradecimentos.
Jackson pedindo desculpas por uma derrota pesada.
Jackson relatando uma grande vitória.
Jackson pedindo um fósforo a Lee.
Ele conta uma história, e uma história suficiente; pois diz de forma bastante clara e satisfatória: "Aqui estão Lee e Jackson juntos". O artista teria feito com que contasse que esta é a última entrevista de Lee e Jackson, se pudesse tê-lo feito. Mas não pôde, pois não havia maneira de fazê-lo. Uma boa etiqueta legível geralmente vale, para fins de informação, uma tonelada de atitude e expressão significativa em uma pintura histórica. Em Roma, pessoas com naturezas finas e simpáticas levantam-se e choram diante da célebre "Beatrice Cenci no dia anterior à sua execução". Isso mostra o que uma etiqueta pode fazer. Se não conhecessem o quadro, inspecioná-lo-iam impassíveis e diriam: "Jovem moça com febre do feno; jovem moça com a cabeça dentro de um saco".
Achei as entonações e elisões sulistas, quase esquecidas, tão agradáveis ao meu ouvido quanto tinham sido anteriormente. Um sulista fala música. Pelo menos é música para mim, mas, afinal, nasci no Sul. O sulista educado não tem uso para um 'r', exceto no início de uma palavra. Ele diz 'honah', e 'dinnah', e 'Gove'nuh', e 'befo' the waw', e assim por diante. As palavras podem não ter charme para o olho, na impressão, mas têm para o ouvido. Quando o 'r' desapareceu da fala sulista, e como ele desapareceu? O costume de abandoná-lo não foi emprestado do Norte, nem herdado da Inglaterra. Muitos sulistas--a maioria dos sulistas--colocam um 'y' em palavras ocasionais que começam com o som de 'k'. Por exemplo, eles dizem Mr. K'yahtah (Carter) e falam sobre jogar k'yahds ou andar nos k'yahs. E eles têm o costume agradável--há muito tempo caído em desuso no Norte--de empregar frequentemente o respeitoso "Senhor". Em vez do curto Sim, e do abrupto Não, eles dizem "Yes, Suh", "No, Suh".
Mas existem algumas infelicidades. Como "like" no lugar de "as", e a adição de um "at" onde não é necessário. Ouvi um cavalheiro educado dizer: "Like the flag-officer did". Seu cozinheiro ou seu mordomo teria dito: "Like the flag-officer done". Você ouve cavalheiros dizerem: "Where have you been at?". E aqui está a forma agravada--ouvi um árabe de rua maltrapilho dizer a um companheiro: "I was a-ask'n' Tom whah you was a-sett'n' at". Os próprios eleitos dizem descuidadamente "will" quando querem dizer "shall"; e muitos deles dizem: "I didn't go to do it", querendo dizer "I didn't mean to do it". A palavra do Norte "guess"--importada da Inglaterra, onde costumava ser comum, e agora considerada por ingleses satíricos como um original ianque--é pouco usada entre os sulistas. Eles dizem "reckon". Eles não têm nenhum "doesn't" em sua língua; eles dizem "don't" em vez disso. Os não polidos frequentemente usam "went" para "gone". É quase tão ruim quanto o "hadn't ought" do Norte. Isso me lembra que um comentário de natureza muito peculiar foi feito aqui na minha vizinhança (no Norte) alguns dias atrás: "He hadn't ought to have went". Como é isso? Não é um grande triunfo? Conhece-se as ordens combinadas na arquitetura deste mestiço sem perguntar: um progenitor do Norte, o outro do Sul. Hoje ouvi uma professora perguntar: "Where is John gone?". Esta forma é tão comum--tão quase universal, de fato--que se ela tivesse usado "whither" em vez de "where", acho que teria soado como uma afetação.
Nós apanhamos uma excelente palavra — uma palavra que vale a viagem até Nova Orleans para obter; uma palavra agradável, flexível, expressiva, útil — "lagniappe". Eles pronunciam-na lanny-yap. É espanhola — ou assim disseram. Descobrimo-la no topo de uma coluna de variedades no Picayune, no primeiro dia; ouvimos vinte pessoas usá-la no segundo; perguntámos o que significava no terceiro; adotamo-la e ganhámos facilidade em manejá-la no quarto. Tem um significado restrito, mas penso que as pessoas o alargam um pouco quando querem. É o equivalente à décima terceira unidade numa "dúzia de padeiro". É algo atirado para dentro, de graça, para boa medida. O costume originou-se no bairro espanhol da cidade. Quando uma criança ou um criado compra algo numa loja — ou até mesmo o presidente da câmara ou o governador, tanto quanto sei — termina a operação dizendo:
"Dê-me algo de lagniappe."
O lojista responde sempre; dá à criança um bocado de raiz de alcaçuz, dá ao criado um charuto barato ou um carretel de linha, dá ao governador — não sei o que dá ao governador; apoio, provavelmente.
Quando é convidado a beber, e isso acontece de vez em quando em Nova Orleans — e diz: "O quê, outra vez? — não, já bebi o suficiente"; a outra parte diz: "Mas só mais esta vez — isto é de lagniappe". Quando o galanteador percebe que está a empilhar os seus elogios um pouco alto demais, e vê pela expressão da jovem que o edifício teria ficado melhor se o último elogio tivesse sido omitido, ele coloca o seu "peço perdão — não houve intenção de ofensa" na forma mais breve de "Oh, isso é de lagniappe". Se o empregado no restaurante tropeça e entorna um pouco de café pelo seu pescoço abaixo, ele diz "De lagniappe, senhor", e traz-lhe outra chávena sem custo adicional.
CAPÍTULO 45
Desportos do Sul
NO Norte ouve-se a guerra mencionada, em conversas sociais, uma vez por mês; por vezes tão frequentemente como uma vez por semana; mas como assunto distinto para conversa, há muito que foi dispensada do serviço. Existem razões suficientes para isto. Numa companhia de jantar de seis cavalheiros hoje, pode facilmente acontecer que quatro deles — e possivelmente cinco — não tenham estado no campo de batalha de todo. Por isso, as probabilidades são de quatro para dois, ou cinco para um, que a guerra não se tornará, em momento algum da noite, o tópico de conversa; e as probabilidades são ainda maiores de que, se se tornar o tópico, permanecerá assim apenas por pouco tempo. Se acrescentar seis senhoras à companhia, acrescentou seis pessoas que viram tão pouco das realidades terríveis da guerra que ficaram sem conversa sobre elas há anos, e agora ficariam logo cansadas do tópico da guerra se o trouxesse à baila.
O caso é muito diferente no Sul. Lá, cada homem que encontra esteve na guerra; e cada senhora que encontra viu a guerra. A guerra é o grande tópico principal de conversa. O interesse nela é vívido e constante; o interesse noutros tópicos é fugaz. A menção à guerra acordará uma companhia aborrecida e fará as suas línguas mexerem-se, quando quase qualquer outro tópico falharia. No Sul, a guerra é o que o D.C. é noutros lugares: eles datam a partir dela. Durante todo o dia ouve coisas "situadas" como tendo acontecido depois da guerra; ou durante a guerra; ou antes da guerra; ou logo após a guerra; ou cerca de dois anos ou cinco anos ou dez anos antes da guerra ou depois da guerra. Mostra quão intimamente cada indivíduo foi visitado, na sua própria pessoa, por esse tremendo episódio. Dá ao estranho inexperiente uma ideia melhor do que é uma calamidade vasta e abrangente a invasão do que ele alguma vez pode obter lendo livros ao pé da lareira.
Num clube, certa noite, um cavalheiro virou-se para mim e disse, num aparte:
"Note, claro, que estamos quase sempre a falar da guerra. Não é porque não tenhamos mais nada de que falar, mas porque nada mais tem um interesse tão forte para nós. E há outra razão: na guerra, cada um de nós, na sua própria pessoa, parece ter provado todas as diferentes variedades da experiência humana; como consequência, não pode mencionar um assunto externo de qualquer tipo sem que isso recorde certamente a algum ouvinte algo que aconteceu durante a guerra — e lá sai ele com isso. Claro que isso traz a conversa de volta para a guerra. Pode tentar tudo o que quiser para manter outros assuntos perante a casa, e podemos todos juntar-nos e ajudar, mas só pode haver um resultado: o tópico mais aleatório carregaria cada homem com reminiscências de guerra, e calá-lo-ia também; e a conversa provavelmente pararia em breve, porque não se pode falar de pálidas inconsequências quando se tem um facto ou fantasia carmesim na cabeça que se está a arder para deixar sair."
O poeta estava sentado a alguma distância; e, pouco depois, começou a falar — sobre a lua.
O cavalheiro que tinha estado a falar comigo comentou num "aparte": "Lá está, a lua está longe o suficiente do teatro de guerra, mas verá que isso sugerirá algo a alguém sobre a guerra; dentro de dez minutos a lua, como tópico, será arquivada."
O poeta dizia que tinha notado algo que era uma surpresa para ele; tinha tido a impressão de que aqui em baixo, em direção ao equador, o luar era muito mais forte e mais brilhante do que lá em cima no Norte; tinha tido a impressão de que quando visitou Nova Orleans, há muitos anos, a lua...
Interrupção da outra extremidade da sala:
"Deixe-me explicar isso. Faz-me lembrar uma anedota. Tudo mudou desde a guerra, para melhor ou para pior; mas encontrará pessoas aqui em baixo que nasceram resmungonas, que não veem mudança nenhuma exceto a mudança para pior. Havia uma velha negra deste tipo. Um jovem nova-iorquino disse na presença dela: 'Que lua maravilhosa vocês têm aqui em baixo!' Ela suspirou e disse: 'Ah, abençoado o seu coração, querido, deveria ter visto essa lua antes da guerra!'"
O novo tópico já estava morto. Mas o poeta ressuscitou-o, e deu-lhe um novo começo.
Seguiu-se uma breve disputa, sobre se a diferença entre o luar do Norte e do Sul existia realmente ou era apenas imaginada. A conversa sobre o luar derivou facilmente para conversa sobre métodos artificiais de dissipar a escuridão. Depois, alguém lembrou-se de que quando Farragut avançou sobre Port Hudson numa noite escura — e não queria facilitar a pontaria dos artilheiros confederados — não levou lanternas de batalha, mas pintou os conveses dos seus navios de branco, e assim criou uma luz ténue mas valiosa, que permitiu aos seus próprios homens tatearem o seu caminho com considerável facilidade. Neste ponto, a guerra voltou a ter a palavra — os dez minutos ainda não tinham acabado.
Não fiquei triste, pois a conversa sobre guerra por homens que estiveram numa guerra é sempre interessante; ao passo que a conversa sobre a lua por um poeta que não esteve na lua tende a ser aborrecida.
Fomos a uma arena de galos em Nova Orleans numa tarde de sábado. Nunca tinha visto uma luta de galos antes. Havia homens e rapazes lá de todas as idades e todas as cores, e de muitas línguas e nacionalidades. Mas notei uma ausência bastante conspícua e surpreendente: as tradicionais caras brutais. Não havia caras brutais. Sem luta de galos a decorrer, poderia ter passado o grupo a um estranho como uma reunião de oração; e depois de começar, como um reavivamento — desde que vendasse o seu estranho — pois a gritaria era algo prodigioso.
Um negro e um homem branco estavam no ringue; todos os outros fora. Os galos foram trazidos em sacos; e quando foi dado o sinal, foram retirados pelos dois tratadores, acariciados, provocados um contra o outro, e finalmente libertados. O grande galo preto investiu instantaneamente contra o pequeno cinzento e atingiu-o na cabeça com a espora. O cinzento respondeu com espírito. Então a Babel de gritos de muitas línguas irrompeu, e não cessou daí em diante. Quando os galos lutavam há algum tempo, esperava que caíssem mortos a cada momento, pois ambos estavam cegos, vermelhos de sangue, e tão exaustos que frequentemente caíam. No entanto, não desistiam, nem morriam. O negro e o homem branco apanhavam-nos a cada poucos segundos, limpavam-nos, sopravam água fria sobre eles num spray fino, e levavam as suas cabeças às bocas e mantinham-nas lá por um momento — talvez para aquecer de volta a vida que perecia; não sei. Depois, sendo colocados de volta, as criaturas moribundas cambaleavam tateando por aí, com as asas a arrastar, encontravam-se, desferiam um ou dois golpes incertos, e caíam exaustas mais uma vez.
Não vi o fim da batalha. Forcei-me a aguentá-lo tanto quanto podia, mas era uma visão demasiado piedosa; por isso fiz uma confissão franca nesse sentido, e retirámo-nos. Ouvimos mais tarde que o galo preto morreu no ringue, e lutando até ao fim.
Evidentemente, há uma fascinação abundante sobre este "desporto" para aqueles que tiveram um grau de familiaridade com ele. Nunca vi pessoas desfrutarem de algo mais do que este grupo desfrutou desta luta. O caso era o mesmo com homens de cabelos grisalhos e com rapazes de dez anos. Perdiam-se em frenesis de deleite. A "luta de galos" é um tipo de entretenimento desumano, não há dúvida sobre isso; ainda assim, parece um desporto muito mais respeitável e muito menos cruel do que a caça à raposa — pois os galos gostam disso; eles experimentam, bem como conferem prazer; o que não é o caso da raposa.
Assistimos — no sentido francês — a uma corrida de mulas, um dia. Acredito que desfrutei deste concurso mais do que qualquer outra mula lá. Desfrutei-o mais do que me lembro de ter desfrutado de qualquer outra corrida de animais que alguma vez vi. A bancada principal estava bem cheia com a beleza e a cavalaria de Nova Orleans. Essa frase não é original minha. É do repórter do Sul. Ele usou-a durante duas gerações. Ele usa-a vinte vezes por dia, ou vinte mil vezes por dia; ou um milhão de vezes por dia — conforme as exigências. Ele é obrigado a usá-la um milhão de vezes por dia, se tiver ocasião de falar de homens e mulheres respeitáveis tantas vezes; pois ele não tem outra frase para tal serviço exceto essa única. Ele nunca se cansa dela; ela tem sempre um som fino para ele. Há uma espécie de inchaço medieval e ouropel nela que agrada à sua alma bárbara e vistosa. Se ele tivesse estado na Palestina nos tempos antigos, não teríamos referências a "muita gente" da parte dele. Não, ele teria dito "a beleza e a cavalaria da Galileia" reunidas para ouvir o Sermão da Montanha. É provável que os homens e as mulheres do Sul estejam fartos o suficiente dessa frase a esta altura, e gostariam de uma mudança, mas não há perspetiva imediata de a obterem.
O editor de Nova Orleans tem um estilo forte, compacto, direto, sem floreados; não desperdiça palavras, e não se emociona. Não é o caso com o seu correspondente comum. No Apêndice citei uma boa carta, escrita por uma mão treinada; mas o correspondente comum lança um estilo que difere disso. Por exemplo:
O 'Times-Democrat' enviou um barco a vapor de socorro por um dos bayous, em abril passado. Este barco a vapor ancorou numa aldeia, lá em cima em qualquer lado, e o Capitão convidou algumas das senhoras da aldeia para fazerem uma pequena viagem com ele. Elas aceitaram e vieram a bordo, e o barco a vapor seguiu rio acima pelo riacho. Isso era tudo o que havia "sobre isso". E isso é tudo o que o editor do 'Times-Democrat' teria tirado disso. Não havia nada na coisa a não ser estatísticas, e ele não teria tirado mais nada disso. Ele provavelmente tê-las-ia até tabulado, em parte para assegurar perfeita clareza de exposição, e em parte para poupar espaço. Mas o seu correspondente especial conhece outros métodos de lidar com estatísticas. Ele simplesmente liberta-se de toda a contenção e chafurda nelas:
"No sábado, cedo pela manhã, a beleza do lugar agraciou a nossa cabine, e orgulhoso da sua bela carga o pequeno barco galante deslizou pelo bayou."
Vinte e duas palavras para dizer que as senhoras vieram a bordo e o barco seguiu rio acima pelo riacho, é um desperdício puro de dez boas palavras, e é também destrutivo da compacidade da exposição.
O problema com o repórter do Sul são as Mulheres. Elas desequilibram-no; elas tiram-no do seu eixo. Ele é simples, e sensato, e satisfatório, até que uma mulher aparece no horizonte. Então ele desfaz-se todo; a sua mente vacila, ele torna-se floreado e idiota. Ao ler o excerto acima, imaginaria que este estudante de Sir Walter Scott é um aprendiz, e não sabe quase nada sobre manusear uma caneta. Pelo contrário, ele fornece provas abundantes, na sua longa carta, de que sabe muito bem como a manusear quando as mulheres não estão por perto para lhe dar a queixa das flores artificiais. Por exemplo:
"Às 4 horas nuvens ominosas começaram a reunir-se no sudeste, e pouco depois do Golfo veio um sopro que aumentou em severidade a cada momento. Não era seguro deixar o ancoradouro então, e houve um atraso. Os carvalhos sacudiram longas tranças das suas barbas de musgo ao puxão do vento, e o bayou na sua ambição vestiu ondas em miniatura em zombaria de corpos de água muito maiores. Uma acalmia permitiu um início, e a vapor regressámos a casa, um céu de tinta acima e um vento forte a soprar. À medida que a escuridão avançava, poucos a bordo não desejavam estar mais perto de casa."
Não há nada de errado com isso. É uma boa descrição, colocada de forma compacta. No entanto, havia uma grande tentação, ali, de cair na escrita sensacionalista.
Mas regressemos à mula. Desde que a deixei, remexi por aí e encontrei um relatório completo da corrida. Nele encontro confirmação da teoria que avancei agora mesmo — a saber, que o problema com o repórter do Sul são as Mulheres: Mulheres, suplementadas por Walter Scott e os seus cavaleiros e beleza e cavalaria, e assim por diante. Este é um excelente relatório, desde que as mulheres fiquem fora dele. Mas quando elas se intrometem, temos este resultado frenético:
"Provavelmente demorará muito tempo até que a bancada das senhoras apresente tal mar de formosura como espuma como apresentou ontem. As mulheres de Nova Orleans são sempre encantadoras, mas nunca tanto como nesta época do ano, quando nos seus delicados trajes de primavera trazem consigo um sopro de frescura balsâmica e um odor de santidade inexprimível. A bancada estava tão cheia delas que, caminhando aos seus pés e não vendo possibilidade de aproximação, muitos homens apreciaram como nunca antes o sentimento da Peri às Portas do Paraíso, e imaginaram qual seria o dom inestimável que os admitiria à sua presença sagrada. Cintilando nos seus peitos ou ombros vestidos de branco estavam as cores dos seus cavaleiros favoritos, e não fosse pelo facto de que os heróis valorosos apareceram em mulas pouco românticas, teria sido fácil imaginar um dos dias de gala do Rei Artur."
Havia treze mulas na primeira série; todo o tipo de mulas, eram; todo o tipo de compleições, andamentos, disposições, aspetos. Algumas eram criaturas bonitas, outras não; algumas eram lustrosas, algumas não tinham tido o pelo escovado ultimamente; algumas eram inocentemente alegres e brincalhonas; algumas estavam cheias de malícia e toda a injustiça; a julgar pelo aspeto, algumas pensavam que o assunto em mãos era a guerra, outras pensavam que era uma brincadeira, as restantes tomavam-no por uma ocasião religiosa. E cada mula agiu de acordo com as suas convicções. O resultado foi uma ausência de harmonia bem compensada por uma presença conspícua de variedade — variedade de um tipo pitoresco e divertido.
Todos os cavaleiros eram jovens cavalheiros da sociedade elegante. Se o leitor se tem perguntado por que razão as senhoras de Nova Orleans assistem a uma orgia tão humilde como uma corrida de mulas, a coisa está explicada agora. É uma mania da moda; todos os ligados a ela são pessoas da moda.
É uma grande diversão, e cordialmente apreciada. A corrida de mulas é uma das ocasiões marcantes do ano. Trouxe algumas mulas bastante rápidas para a frente. Uma delas teve de ser excluída, porque era tão rápida que transformou a coisa num concurso de uma única mula, e roubou-lhe uma das suas melhores características — a variedade. Mas de vez em quando alguém disfarça-a com um novo nome e uma nova compleição, e mete-a lá outra vez.
Os cavaleiros vestem-se com trajes completos de jóquei de sedas, cetins e veludos de cores brilhantes.
As treze mulas arrancaram em conjunto, depois de um par de falsas partidas, e escaparam-se com espírito prodigioso. Como cada mula e cada cavaleiro tinha uma opinião distinta sobre como a corrida deveria ser feita, e que lado da pista era melhor em certas circunstâncias, e quantas vezes a pista deveria ser atravessada, e quando uma colisão deveria ser realizada, e quando deveria ser evitada, estas vinte e seis opiniões conflituosas criaram uma confusão fantástica e pitoresca, e o espetáculo resultante era mortalmente cómico.
Série de uma milha; tempo 2:22. Oito das treze mulas distanciadas. Fiz uma aposta numa mula que teria ganho se a procissão tivesse sido invertida. A segunda série foi uma boa diversão; e também a "corrida de consolação para mulas derrotadas", que se seguiu mais tarde; mas a primeira série foi a melhor nesse aspeto.
Penso que a mais agradável de todas as corridas é uma corrida de barcos a vapor; mas, a seguir a essa, prefiro a alegre e jubilosa corrida de mulas. Dois barcos a vapor a ferver a correr, lado a lado, a esforçar cada nervo — isto é, cada rebite nas caldeiras — a tremer e a sacudir e a gemer de proa a popa, a lançar vapor branco pelos tubos, a deitar fumo preto pelas chaminés, a chover faíscas, a separar o rio em longas quebras de espuma sibilante — este é um desporto que faz o próprio fígado de alguém curvar-se de prazer. Uma corrida de cavalos é bastante monótona e incolor em comparação. Ainda assim, uma corrida de cavalos poderia ser aceitável, à sua maneira, talvez, se não fosse pelas cansativas falsas partidas. Mas, por outro lado, ninguém é morto. Pelo menos, nunca ninguém foi morto quando estive numa corrida de cavalos. Têm ficado aleijados, é verdade; mas isto é pouco para o propósito.
CAPÍTULO 46
Encantamentos e Encantadores
O maior evento anual em Nova Orleans é algo que chegámos demasiado tarde para provar — as festividades do Mardi-Gras. Vi a procissão da Tripulação Mística de Comus lá, há vinte e quatro anos — com cavaleiros e nobres e assim por diante, vestidos em grandiosidades de seda e ouro feitas em Paris, planeadas e compradas para o uso dessa única noite; e no seu cortejo todo o tipo de gigantes, anões, monstruosidades, e outras grotescarias divertidas — um tipo de espetáculo surpreendente e maravilhoso, enquanto desfilava solene e silenciosamente pela rua à luz das suas tochas fumegantes e tremeluzentes; mas diz-se que nestes últimos dias o espetáculo é poderosamente aumentado, em custo, esplendor e variedade. Há uma personagem principal — "Rex"; e se bem me lembro, nem este rei nem nenhum do seu grande séquito de subordinados é conhecido por qualquer estranho. Todas estas pessoas são cavalheiros de posição e consequência; e é uma coisa orgulhosa pertencer à organização; por isso o mistério em que escondem a sua personalidade é meramente por causa do romance, e não por causa da polícia.
O Mardi-Gras é naturalmente uma relíquia da ocupação francesa e espanhola; mas julgo que a característica religiosa foi bastante bem removida dele agora. Sir Walter obteve a vantagem sobre os cavalheiros do hábito e do rosário, e ele ficará. O seu negócio medieval, suplementado pelos monstros e as estranhezas, e as criaturas agradáveis do país das fadas, é mais fino de se ver do que as pobres invenções e desempenhos fantásticos da ralé festiva do dia do padre, e serve tão bem, talvez, para enfatizar o dia e admoestar os homens de que a linha da graça entre a estação mundana e a santa foi alcançada.
Este desfile de Mardi-Gras era posse exclusiva de Nova Orleans até recentemente. Mas agora espalhou-se por Memphis, St. Louis e Baltimore. Provavelmente atingiu o seu limite. É algo que dificilmente poderia existir no Norte prático; duraria certamente apenas um período muito breve; tão breve quanto duraria em Londres. Pois a sua alma é o romântico, não o engraçado e o grotesco. Retirem os mistérios românticos, os reis e cavaleiros e os títulos de som grandioso, e o Mardi-Gras morreria, lá embaixo no Sul. A própria característica que o mantém vivo no Sul — o romance feminino — mataria o evento no Norte ou em Londres. Puck e Punch, e a imprensa universal, cairiam sobre ele e fariam troça impiedosa, e a sua primeira exibição seria também a última.
Contra os crimes da Revolução Francesa e de Bonaparte podem ser postas duas benfeitorias compensatórias: a Revolução quebrou as correntes do ancien régime e da Igreja, e fez de uma nação de escravos abjetos uma nação de homens livres; e Bonaparte instituiu a colocação do mérito acima do nascimento, e também despiu tão completamente a divindade da realeza que, enquanto as cabeças coroadas na Europa eram deuses antes, desde então são apenas homens, e nunca mais poderão ser deuses, mas apenas figuras de proa, responsáveis pelos seus atos como o comum dos mortais. Tais benfeitorias como estas compensam o dano temporário que Bonaparte e a Revolução causaram, e deixam o mundo em dívida para com eles por estes grandes e permanentes serviços à liberdade, à humanidade e ao progresso.
Então surge Sir Walter Scott com os seus encantamentos, e pelo seu poder solitário trava esta onda de progresso, e até a faz retroceder; faz o mundo apaixonar-se por sonhos e fantasmas; por formas decaídas e suínas de religião; por sistemas de governo decaídos e degradados; pelas tolices e vacuidade, falsas grandezas, falsos enfeites e falsas cavalarias de uma sociedade sem cérebro, sem valor e há muito desaparecida. Ele causou um dano incomensurável; talvez um dano mais real e duradouro do que qualquer outro indivíduo que já tenha escrito. A maior parte do mundo já superou boa parte destes danos, embora de modo algum todos eles; mas no nosso Sul eles florescem ainda com bastante força. Talvez não tão vigorosamente como há meia geração, mas ainda assim com força. Lá, a civilização genuína e sã do século XIX está curiosamente confusa e misturada com a civilização falsa da Idade Média de Walter Scott; e assim temos ideias práticas, de bom senso, progressistas, e obras progressistas; misturadas com o duelo, o discurso inflado e o romantismo jejuno de um passado absurdo que está morto e, por caridade, deveria ser enterrado. Se não fosse a doença de Sir Walter, o caráter do sulista — ou Southron, de acordo com a maneira mais rígida de se expressar de Sir Walter — seria totalmente moderno, em vez de moderno e medieval misturado, e o Sul estaria plenamente uma geração mais avançado do que está. Foi Sir Walter quem fez de cada cavalheiro no Sul um Major, ou um Coronel, ou um General ou um Juiz, antes da guerra; e foi ele, também, que fez com que estes cavalheiros valorizassem estas decorações falsas. Pois foi ele quem criou a posição e a casta lá embaixo, e também a reverência pela posição e pela casta, e o orgulho e o prazer nelas. Já se atribui o suficiente à escravidão, sem lhe acrescentar estas criações e contribuições de Sir Walter.
Sir Walter teve uma participação tão grande na formação do caráter sulista, tal como existia antes da guerra, que ele é, em grande medida, responsável pela guerra. Parece um pouco duro para com um homem morto dizer que nunca teríamos tido guerra se não fosse por Sir Walter; e, no entanto, talvez se pudesse apresentar um argumento algo plausível em apoio a essa proposição selvagem. O sulista da Revolução Americana possuía escravos; o mesmo acontecia com o sulista da Guerra Civil: mas o primeiro assemelha-se ao último como um inglês se assemelha a um francês. A mudança de caráter pode ser atribuída mais facilmente à influência de Sir Walter do que à de qualquer outra coisa ou pessoa.
Pode-se observar, por um ou dois sinais, quão profundamente essa influência penetrou e quão fortemente ela se mantém. Se alguém pegar num periódico literário do Norte ou do Sul de quarenta ou cinquenta anos atrás, encontrá-lo-á cheio de "eloquência" prolixa, vazia, florida, romantismo, sentimentalismo — tudo imitado de Sir Walter, e bastante mal feito, também — inocentes paródias do seu estilo e métodos, de fato. Sendo este tipo de literatura a moda em ambas as seções do país, havia oportunidade para a mais justa competição; e, como consequência, o Sul era capaz de exibir tantos nomes literários conhecidos, proporcionalmente à população, quanto o Norte poderia.
Mas uma mudança ocorreu, e não há oportunidade agora para uma competição justa entre o Norte e o Sul. Pois o Norte descartou aquele antigo estilo inflado, enquanto o escritor sulista ainda se agarra a ele — agarra-se a ele e, como consequência, tem um mercado restrito para os seus produtos. Há tanto talento literário no Sul, agora, como sempre houve, claro; mas o seu trabalho pode obter apenas uma circulação ligeira sob as condições presentes; os autores escrevem para o passado, não para o presente; usam formas obsoletas e uma língua morta. Mas quando um sulista de génio escreve inglês moderno, o seu livro não anda mais de muletas, mas sobre asas; e elas levam-no rapidamente por toda a América e Inglaterra, e através das grandes editoras de reimpressão inglesa da Alemanha — como testemunha a experiência do Sr. Cable e do Uncle Remus, dois dos raros autores sulistas que não escrevem no estilo sulista. Em vez de três ou quatro nomes literários amplamente conhecidos, o Sul deveria ter uma dúzia ou duas — e tê-los-á quando o tempo de Sir Walter acabar.
Uma curiosa exemplificação do poder de um único livro para o bem ou para o mal é mostrada nos efeitos provocados por 'Don Quixote' e naqueles provocados por 'Ivanhoe'. O primeiro varreu do mundo a admiração pela tolice da cavalaria medieval, eliminando-a; e o outro restaurou-a. No que diz respeito ao nosso Sul, o bom trabalho feito por Cervantes é praticamente letra morta, tão efetivamente o trabalho pernicioso de Scott o minou.
CAPÍTULO 47
Uncle Remus e o Sr. Cable
O SR. JOEL CHANDLER HARRIS ('Uncle Remus') deveria chegar de Atlanta às sete horas da manhã de domingo; por isso levantámo-nos e recebemo-lo. Conseguimos detetá-lo entre a multidão de chegadas no balcão do hotel pela sua correspondência com uma descrição dele que nos tinha sido fornecida por uma fonte fidedigna. Dizia-se que era de estatura baixa, ruivo e um tanto sardento. Ele era o único homem no grupo cujo exterior batia com esta lista de detalhes. Dizia-se que era muito tímido. Ele é um homem tímido. Disso não há dúvida. Pode não aparecer à superfície, mas a timidez está lá. Após dias de intimidade, um surpreende-se ao ver que ela ainda está quase tão forte como sempre. Há uma natureza fina e bela escondida por trás dela, como todos sabem que leram o livro Uncle Remus; e um génio fino, também, como todos sabem pelo mesmo sinal. Parece que estou a falar bastante livremente sobre este vizinho; mas ao falar com o público, não estou senão a falar com os seus amigos pessoais, e estas coisas são permissíveis entre amigos.
Ele dececionou profundamente várias crianças que tinham corrido ansiosamente para a casa do Sr. Cable para obter um vislumbre do ilustre sábio e oráculo dos berçários da nação. Elas disseram—
'Ora, ele é branco!'
Ficaram tristes com isso. Então, para as consolar, o livro foi trazido, para que pudessem ouvir a história do Tar-Baby de Uncle Remus dos lábios do próprio Uncle Remus — ou o que, aos seus olhos ultrajados, restava dele. Mas descobriu-se que ele nunca tinha lido em voz alta para pessoas, e estava demasiado tímido para arriscar a tentativa agora. O Sr. Cable e eu lemos dos nossos próprios livros, para lhe mostrar que era um truque fácil; mas a sua timidez imortal foi à prova até mesmo contra esta estratégia sagaz, por isso tivemos de ler sobre Brer Rabbit nós mesmos.
O Sr. Harris deveria ser capaz de ler o dialeto negro melhor do que qualquer outra pessoa, pois em matéria de o escrever, ele é o único mestre que o país produziu. O Sr. Cable é o único mestre na escrita de dialetos franceses que o país produziu; e ele lê-os com perfeição. Foi um grande deleite ouvi-lo ler sobre Jean-ah Poquelin, e sobre Innerarity e o seu famoso 'pigshoo' representando 'Louisihanna rif-fusing to Hanter the Union,' juntamente com passagens de dialeto alemão sutilmente sombreado de um romance que ainda estava em manuscrito.
Descobriu-se na conversa que, em dois casos diferentes, o Sr. Cable entrou em problemas grotescos por usar, nos seus livros, nomes franceses quase impossíveis que, no entanto, eram portados por cidadãos vivos e sensíveis de Nova Orleans. Os seus nomes eram invenções ou foram emprestados do passado antigo e obsoleto, não me lembro agora qual; mas, de qualquer forma, portadores vivos deles apareceram, e ficaram bastante magoados por terem a atenção dirigida a si mesmos e aos seus assuntos de uma maneira excessivamente pública.
O Sr. Warner e eu tivemos uma experiência do mesmo tipo quando escrevemos o livro chamado 'The Gilded Age'. Há nele uma personagem chamada 'Sellers'. Não me lembro qual era o seu primeiro nome, no início; mas, de qualquer forma, o Sr. Warner não gostou dele e queria que fosse melhorado. Ele perguntou-me se eu era capaz de imaginar uma pessoa chamada 'Eschol Sellers'. Claro que disse que não podia, sem estimulantes. Ele disse que, algures no Oeste, uma vez, tinha conhecido, contemplado e apertado a mão a um homem que portava aquele nome impossível — 'Eschol Sellers'. Ele acrescentou—
'Foi há vinte anos; o seu nome provavelmente já o levou antes disto; e se não levou, ele nunca verá o livro de qualquer maneira. Vamos confiscar o seu nome. O nome que está a usar é comum e, portanto, perigoso; provavelmente há mil Sellerses com ele, e a horda inteira virá atrás de nós; mas Eschol Sellers é um nome seguro — é uma rocha.'
Então emprestamos esse nome; e quando o livro já estava publicado há cerca de uma semana, um dos homens brancos mais imponentes, bonitos e de aspeto aristocrático que já existiu apareceu, com o processo de difamação mais formidável no bolso que alguma vez... bem, em suma, obtivemos a sua permissão para suprimir uma edição de dez milhões {nota de rodapé [Números tirados da memória, e provavelmente incorretos. Creio que eram mais.]} de exemplares do livro e mudar esse nome para 'Mulberry Sellers' em futuras edições.
CAPÍTULO 48
Açúcar e Correio
UM dia, na rua, encontrei o homem que, de todos os homens, eu mais desejava ver — Horace Bixby; anteriormente piloto sob o meu comando — ou melhor, acima de mim — agora capitão do grande vapor 'City of Baton Rouge', a última e mais rápida adição à Anchor Line. A mesma figura esguia, os mesmos caracóis apertados, o mesmo passo elástico, o mesmo estado de alerta, a mesma decisão no olhar e a decisão correspondente na mão, o mesmo porte militar ereto; nem uma polegada ganha ou perdida na circunferência, nem uma onça ganha ou perdida no peso, nem um fio de cabelo mudado. É uma coisa curiosa, deixar um homem de trinta e cinco anos e voltar ao fim de vinte e um anos e encontrá-lo ainda com apenas trinta e cinco. Creio que não tive uma experiência deste tipo antes. Havia alguns pés de galinha, mas contavam quase para nada, uma vez que eram impercetíveis.
O seu barco tinha acabado de chegar. Eu esperava por ele há vários dias, com o intuito de regressar a St. Louis nele. O capitão e eu juntámo-nos a um grupo de senhoras e senhores, convidados do Major Wood, e descemos o rio cinquenta e quatro milhas, num rebocador veloz, até à plantação de açúcar do ex-governador Warmouth. Espalhados ao longo do rio, abaixo da cidade, estavam vários vapores antigos, decrépitos, em ruínas, superanunciados, nenhum dos quais eu tinha visto antes. Tinham sido todos construídos, gastos e postos de lado desde a última vez que estive aqui. Isto dá-nos uma noção da fragilidade de um barco do Mississippi e da brevidade da sua vida.
Seis milhas abaixo da cidade, uma chaminé de tijolo gorda e maltratada, sobressaindo acima das magnólias e dos carvalhos, foi apontada como o monumento erguido por uma nação agradecida para celebrar a batalha de Nova Orleans — a vitória de Jackson sobre os britânicos, em 8 de janeiro de 1815. A guerra tinha acabado, as duas nações estavam em paz, mas a notícia ainda não tinha chegado a Nova Orleans. Se tivéssemos tido o telégrafo por cabo naqueles dias, este sangue não teria sido derramado, essas vidas não teriam sido desperdiçadas; e, melhor ainda, Jackson provavelmente nunca teria sido presidente. Superámos os danos que nos foram causados pela guerra de 1812, mas não alguns daqueles causados pela presidência de Jackson.
A plantação Warmouth cobre uma vasta extensão de terra, e a hospitalidade da mansão Warmouth é graduada na mesma escala larga. Vimos charruas a vapor a trabalhar, aqui, pela primeira vez. O motor de tração viaja sobre as suas próprias rodas até chegar ao local necessário; depois fica parado e, por meio de um cabo de aço, puxa a enorme charrua em sua direção, por duzentas ou trezentas jardas através do campo, entre as fileiras de cana. A coisa corta o solo negro a um pé e meio de profundidade. A charrua parece um suporte de proa e popa de um vapor do rio Hudson, invertido. Quando o timoneiro negro se senta numa extremidade, essa extremidade inclina-se perto do solo, enquanto a outra fica espetada no alto. Esta grande gangorra vai rolando e oscilando como um navio no mar, e não é qualquer cavaleiro de circo que conseguiria manter-se nela.
A plantação contém dois mil e seiscentos acres; seiscentos e cinquenta são de cana; e há um pomar frutífero de laranjeiras com cinco mil árvores. A cana é cultivada seguindo uma moda moderna, complexa e científica, demasiado trabalhosa para eu tentar descrever; mas perdeu 40.000 dólares no ano passado. Esqueço-me dos outros detalhes. Contudo, a colheita deste ano atingirá dez ou doze mil toneladas de açúcar; consequentemente, o prejuízo do ano passado não importará. Estes métodos científicos problemáticos e dispendiosos alcançam um rendimento de uma tonelada e meia e, a partir daí, até duas toneladas por acre; o que é três ou quatro vezes o que o rendimento de um acre era no meu tempo.
As valas de drenagem estavam por toda a parte vivas com pequenos caranguejos — 'fiddlers'. Via-se-os a correr de lado em todas as direções sempre que ouviam um ruído perturbador. Pragas dispendiosas, estes caranguejos; pois eles escavam nos diques e arruínam-nos.
A grande fábrica de açúcar era um deserto de banheiras, tanques, cubas, filtros, bombas, tubos e maquinaria. O processo de fazer açúcar é extremamente interessante. Primeiro, atira-se a cana para as centrífugas e espreme-se o sumo; depois passa-se pelo tacho de evaporação para extrair a fibra; depois pelo filtro de ossos para remover o álcool; depois pelos tanques de clarificação para libertar o melaço; depois pelo tubo de granulação para o condensar; depois pelo tacho de vácuo para extrair o vácuo. Está agora pronto para o mercado. Anotei estes detalhes de memória. A coisa parece simples e fácil. Não se engane. Fazer açúcar é realmente uma das coisas mais difíceis do mundo. E fazê-lo bem é quase impossível. Se examinar o seu próprio suprimento de vez em quando por um período de anos, e tabular o resultado, descobrirá que nem dois em cada vinte homens conseguem fazer açúcar sem deixar cair areia nele.
Poderíamos ter descido até à foz do rio e visitado o grande trabalho do Capitão Eads, os 'molhes', onde o rio foi comprimido entre paredes e, assim, aprofundado para vinte e seis pés; mas foi votado como inútil ir, uma vez que nesta fase da água tudo estaria coberto e invisível.
Poderíamos ter visitado aquele burgo antigo e singular, 'Pilot-town', que se ergue sobre palafitas na água — assim dizem; onde quase toda a comunicação é feita por esquife e canoa, até mesmo para ir a casamentos e funerais; e onde os rapazes e raparigas mais pequenos são tão habilidosos com o remo quanto crianças não anfíbias são com o velocípede.
Poderíamos ter feito várias outras coisas; mas devido ao tempo limitado, regressámos a casa. A navegação rio acima, com a brisa e o brilho, foi uma experiência encantadora, e teria sido satisfatoriamente sentimental e romântica se não fossem as interrupções do papagaio de estimação do rebocador, cujos comentários incansáveis sobre a paisagem e os convidados eram sempre mundanos, e frequentemente profanos. Ele tinha também uma superabundância do riso metálico, discordante e ensurdecedor, comum à sua raça — um riso feito à máquina, um riso de Frankenstein, com a alma deixada de fora. Ele aplicava-o a cada observação sentimental e a cada canção patética. Ele grasnava-o com uma energia hedionda após 'Home again, home again from a foreign shore', e dizia que 'não daria um tostão por um rebocador cheio de tal lixo'. O romance e o sentimento não podem sobreviver por muito tempo a este tipo de desencorajamento; por isso o canto e a conversa cessaram em breve; o que encantou tanto o papagaio que ele amaldiçoou-se até ficar rouco de alegria.
Então, os membros masculinos do grupo moveram-se para o convés de vante, para fumar e conversar. Havia vários antigos homens de barco presentes, e aprendi com eles muito do que tinha acontecido aos meus antigos amigos do rio durante a minha longa ausência. Soube que um piloto para quem eu costumava manobrar tornou-se espírita e, há mais de quinze anos, tem recebido uma carta todas as semanas de um parente falecido, através de um médium espírita de Nova Iorque chamado Manchester — portes graduados pela distância: da agência postal local no Paraíso para Nova Iorque, cinco dólares; de Nova Iorque para St. Louis, três centavos. Lembro-me muito bem do Sr. Manchester. Visitei-o uma vez, há dez anos, com um par de amigos, um dos quais desejava indagar sobre um tio falecido. Este tio tinha perdido a vida de uma maneira peculiarmente violenta e invulgar, meia dúzia de anos antes: um ciclone soprou-o por cerca de três milhas e derrubou uma árvore com ele que tinha quatro pés de espessura na base e sessenta e cinco pés de altura. Ele não sobreviveu a este triunfo. Na sessão espírita a que me refiro, o meu amigo questionou o seu falecido tio, através do Sr. Manchester, e o falecido tio escreveu as suas respostas, usando a mão e o lápis do Sr. Manchester para esse propósito. O seguinte é um exemplo justo das perguntas feitas, e também da palermice desleixada das respostas, fornecidas por Manchester sob o pretexto de que vinha do espectro. Se este homem não é a fraude mais desprezível que existe, devo-lhe um pedido de desculpas—
PERGUNTA. Onde está você?
RESPOSTA. No mundo espiritual.
P. Você está feliz?
R. Muito feliz. Perfeitamente feliz.
P. Como se diverte?
R. Conversando com amigos e outros espíritos.
P. O que mais?
R. Nada mais. Nada mais é necessário.
P. Sobre o que conversam?
R. Sobre o quão felizes somos; e sobre os amigos deixados para trás na terra, e como influenciá-los para o seu bem.
P. Quando todos os seus amigos na terra chegarem à terra espiritual, sobre o que terão para conversar então? — nada além de quão felizes todos vocês estão?
Sem resposta. Explica-se que os espíritos não responderão a perguntas frívolas.
P. Como é que os espíritos que estão contentes em passar uma eternidade em empregos frívolos, e aceitam isso como felicidade, são tão exigentes quanto a perguntas frívolas sobre o assunto?
Sem resposta.
P. Gostaria de voltar?
R. Não.
P. Diria isso sob juramento?
R. Sim.
P. O que come aí?
R. Nós não comemos.
P. O que bebe?
R. Nós não bebemos.
P. O que fuma?
R. Nós não fumamos.
P. O que lê?
R. Nós não lemos.
P. Todas as boas pessoas vão para o seu lugar?
R. Sim.
P. Você conhece o meu modo de vida atual. Pode sugerir algum acréscimo a ele, em termos de crime, que assegure razoavelmente que eu vá para algum outro lugar?
R. Sem resposta.
P. Quando morreu?
R. Eu não morri, eu desencarnei.
P. Muito bem, então, quando desencarnou? Há quanto tempo está na terra espiritual?
R. Nós não temos medidas de tempo aqui.
P. Embora você possa estar indiferente e incerto quanto às datas e horas em sua condição e ambiente atuais, isso não tem nada a ver com a sua condição anterior. Você tinha datas então. Uma delas é a que eu peço. Você partiu em um certo dia de um certo ano. Não é verdade?
R. Sim.
P. Então diga o dia do mês.
(Muito atrapalho com o lápis, por parte do médium, acompanhado por violentos espasmos espasmódicos de sua cabeça e corpo, por algum tempo. Finalmente, uma explicação no sentido de que os espíritos muitas vezes esquecem as datas, sendo tais coisas sem importância para eles.)
P. Então este aqui realmente esqueceu a data de sua translação para a terra espiritual?
Isso foi admitido como sendo o caso.
P. Isto é muito curioso. Bem, então, que ano foi?
(Mais atrapalho, espasmos, contrações idiotas, por parte do médium. Finalmente, uma explicação no sentido de que o espírito esqueceu o ano.)
P. Isto é de fato estupendo. Deixe-me fazer mais uma pergunta, uma última pergunta, antes de nos separarmos para nunca mais nos encontrarmos; pois mesmo que eu não consiga evitar o seu asilo, um encontro lá não valerá como encontro, já que a essa altura você terá facilmente esquecido de mim e do meu nome: você teve uma morte natural, ou foi interrompido por uma catástrofe?
R. (Após longa hesitação e muitas dores e espasmos.) Morte natural.
Isso encerrou a entrevista. Meu amigo disse ao médium que, quando seu parente estava neste mundo miserável, ele era dotado de um intelecto extraordinário e de uma memória absolutamente sem defeitos, e parecia uma grande pena que não lhe tivessem permitido guardar algum fragmento desses dons para sua diversão nos reinos do contentamento eterno, e para o espanto e admiração do resto da população de lá.
Este homem tinha muitos clientes — ainda tem muitos. Ele recebe cartas de espíritos localizados em todas as partes do mundo espiritual, e as entrega por todo este país através do correio dos Estados Unidos. Essas cartas são cheias de conselhos — conselhos de 'espíritos' que não sabem tanto quanto um girino — e esses conselhos são religiosamente seguidos pelos receptores. Um desses clientes era um homem a quem os espíritos (se se pode descrever assim, no plural, o engenhoso Manchester) estavam ensinando como criar uma roda de vagão ferroviário aprimorada. É um emprego grosseiro para um espírito, mas é uma atividade mais elevada e mais salutar do que falar para sempre sobre 'quão felizes nós somos'.
CAPÍTULO 49
Episódios na Vida de Piloto
NO decorrer das fofocas nos rebocadores, descobriu-se que, de cada cinco dos meus antigos amigos que haviam deixado o rio, quatro haviam escolhido a agricultura como ocupação. É claro que isso não era porque eles fossem particularmente talentosos, agriculturalmente, e assim mais propensos a ter sucesso como agricultores do que em outras indústrias: a razão de sua escolha deve ser buscada em alguma outra fonte. Sem dúvida, eles escolheram a agricultura porque essa vida é privada e isolada de irrupções de estranhos indesejáveis — como o eremitério da casa do piloto. E, sem dúvida, eles também a escolheram porque, em mil noites de tempestade negra e perigo, haviam notado as luzes cintilantes de fazendas solitárias, enquanto o barco passava, e imaginado para si mesmos a serenidade, a segurança e o aconchego de tais refúgios em tais momentos, e assim, aos poucos, passaram a sonhar com aquela vida retirada e pacífica como a única coisa desejável pela qual ansiar, antecipar, conquistar e, finalmente, desfrutar.
Mas não soube que nenhum desses pilotos-agricultores tenha surpreendido ninguém com seus sucessos. Suas fazendas não os sustentam: eles é que sustentam suas fazendas. O piloto-agricultor desaparece do rio anualmente, por volta do início da primavera, e não é mais visto até a geada seguinte. Então ele aparece novamente, em tecidos caseiros danificados, penteia as sementes de feno de seu cabelo e assume um posto na casa do piloto para o inverno. Dessa forma, ele paga as dívidas que sua agricultura acumulou durante a estação agrícola. Assim, seu cativeiro no rio está apenas pela metade quebrado; ele ainda é escravo do rio durante a parte mais difícil do ano.
Um desses homens comprou uma fazenda, mas não se retirou para ela. Ele sabia um truque que valia por dois. Ele não pretendia empobrecer sua fazenda aplicando sua ignorância pessoal para trabalhá-la. Não, ele colocou a fazenda nas mãos de um especialista agrícola para ser trabalhada em parceria — de cada três cargas de milho, o especialista ficaria com duas e o piloto com a terceira. Mas, no final da temporada, o piloto não recebeu milho algum. O especialista explicou que sua parte não foi alcançada. A fazenda produziu apenas duas cargas.
Alguns dos pilotos que eu conhecera tiveram aventuras — o resultado foi afortunado, às vezes, mas não em todos os casos. O Capitão Montgomery, para quem eu fui timoneiro quando ele era piloto, comandou a frota confederada na grande batalha diante de Memphis; quando seu navio afundou, ele nadou até a margem, lutou para abrir caminho através de um esquadrão de soldados e escapou de forma galante e por um triz. Ele era sempre um homem calmo; nada podia perturbar sua serenidade. Certa vez, quando ele era capitão do 'Crescent City', eu estava trazendo o barco para o porto em Nova Orleans e esperando ordens do convés superior a cada momento, mas não recebi nenhuma. Eu havia parado as rodas, e ali minha autoridade e responsabilidade cessavam. Era noite — crepúsculo fraco — o chapéu do capitão estava empoleirado sobre o sino grande, e eu supus que a parte intelectual do capitão estava dentro dele, mas esse não era o caso. O capitão era muito rigoroso; portanto, eu sabia que não devia tocar em um sino sem ordens. Meu dever era manter o barco firmemente em seu curso calamitoso e deixar que as consequências cuidassem de si mesmas — o que eu fiz. Então seguimos arando além da popa dos barcos a vapor e chegando cada vez mais perto — o acidente estava destinado a acontecer muito em breve — e ainda assim aquele chapéu não se moveu; pois, infelizmente, o capitão estava cochilando no texas... As coisas estavam ficando extremamente nervosas e desconfortáveis. Parecia-me que o capitão não apareceria a tempo de ver o entretenimento. Mas ele apareceu. Bem quando estávamos entrando na popa de um barco a vapor, ele saiu para o convés e disse, com serenidade celestial: 'Recue-o em ambos' — o que eu fiz; mas um pouco tarde, no entanto, pois no momento seguinte atravessamos esmagando as frágeis obras externas daquele outro barco com um estrondo prodigioso. O capitão nunca me disse uma palavra sobre o assunto depois, exceto para observar que eu tinha feito a coisa certa e que ele esperava que eu não hesitasse em agir da mesma maneira novamente em circunstâncias semelhantes.
Um dos pilotos que eu conhecera quando estava no rio teve uma morte muito honrosa. Seu barco pegou fogo e ele permaneceu ao leme até levá-lo em segurança para a terra. Então ele saiu pelo parapeito com suas roupas em chamas, e foi a última pessoa a chegar à terra. Ele morreu devido aos ferimentos no decorrer de duas ou três horas, e a sua foi a única vida perdida.
A história da pilotagem no Mississippi oferece seis ou sete casos desse tipo de martírio, e meia centena de casos de fugas de um destino semelhante que ficaram a um segundo ou dois de serem fatalmente tardias; _mas não há nenhum caso de um piloto desertar seu posto para salvar sua vida enquanto, ao permanecer e sacrificá-la, ele pudesse garantir outras vidas da destruição._ Vale muito a pena registrar este nobre fato, e vale muito a pena colocá-lo em itálico, também.
O piloto 'cub' é logo admoestado a desprezar todos os perigos relacionados à vocação de um piloto, e a preferir qualquer tipo de morte à profunda desonra de desertar seu posto enquanto houver qualquer possibilidade de ser útil nele. E tão eficazmente essas admoestações são incutidas, que até pilotos jovens e apenas meio testados podem ser contados para permanecerem no leme, e morrerem lá quando a ocasião exige. Em um cemitério de Memphis está enterrado um jovem rapaz que pereceu ao leme há muitos anos, no White River, para salvar a vida de outros homens. Ele disse ao capitão que, se o fogo lhe desse tempo para chegar a um banco de areia, a alguma distância, todos poderiam ser salvos, mas que pousar contra a margem íngreme do rio garantiria a perda de muitas vidas. Ele alcançou o banco de areia e encalhou o barco em águas rasas; mas a essa altura as chamas já o haviam cercado, e ao escapar através delas ele foi fatalmente queimado. Ele havia sido instado a fugir mais cedo, mas respondeu como convinha a um piloto responder —
'Eu não vou. Se eu for, ninguém será salvo; se eu ficar, ninguém será perdido exceto eu. Eu ficarei.'
Havia duzentas pessoas a bordo, e nenhuma vida foi perdida exceto a do piloto. Costumava haver um monumento a este jovem rapaz, naquele cemitério de Memphis. Enquanto permanecemos em Memphis em nossa viagem de descida, comecei a procurá-lo, mas nosso tempo era tão curto que fui obrigado a voltar antes que meu objetivo fosse alcançado.
A fofoca do rebocador me informou que Dick Kennet estava morto — explodido, perto de Memphis, e morto; que vários outros que eu conhecera haviam caído na guerra — um ou dois deles abatidos ao leme; que outro e muito especial amigo, para quem eu tinha sido timoneiro em muitas viagens, havia saído de sua casa em Nova Orleans, uma noite anos atrás, para coletar algum dinheiro em uma parte remota da cidade, e nunca mais fora visto — foi assassinado e jogado no rio, pensava-se; que Ben Thornburgh estava morto há muito tempo; também seu 'cub' selvagem com quem eu costumava discutir, durante todo o turno da luz do dia. Uma criatura descuidada e imprudente ele era, e sempre em apuros, sempre aprontando travessuras. Um passageiro do Arkansas trouxe um urso enorme a bordo, um dia, e acorrentou-o a um bote salva-vidas no convés superior. O 'cub' de Thornburgh não pôde descansar até ter ido lá e soltado o urso, para 'ver o que ele faria'. Ele foi prontamente gratificado. O urso perseguiu-o ao redor do convés por quilômetros e quilômetros, com duzentas faces ansiosas sorrindo através das grades como plateia, e finalmente arrancou a cauda do casaco do rapaz e entrou no texas para mastigá-la. O turno de folga saiu com presteza e deixou o urso em posse exclusiva. Ele logo ficou solitário e saiu em busca de recreação. Ele percorreu todo o barco — visitou todas as partes dele, com uma guarda avançada de pessoas fugindo à sua frente e um vazio silencioso atrás dele; e quando seu dono o capturou finalmente, aqueles dois eram os únicos seres visíveis em qualquer lugar; todos os outros estavam escondidos, e o barco era uma solidão.
Disseram-me que um dos meus amigos pilotos caiu morto ao leme, devido a uma doença cardíaca, em 1869. O capitão estava no teto na época. Ele viu o barco indo em direção à margem; gritou e não obteve resposta; correu e encontrou o piloto caído morto no chão.
O Sr. Bixby havia sido explodido, em Madrid Bend; não se feriu, mas o outro piloto foi perdido.
George Ritchie havia sido explodido perto de Memphis — soprado para dentro do rio a partir do leme, e incapacitado. A água estava muito fria; ele se agarrou a um fardo de algodão — principalmente com os dentes — e flutuou até ficar quase exausto, quando foi resgatado por alguns marinheiros que estavam em um pedaço dos destroços. Eles rasgaram o fardo e o envolveram no algodão, e aqueceram a vida de volta nele, e o levaram em segurança para Memphis. Ele é um dos pilotos de Bixby no 'Baton Rouge' agora.
Na vida de um escrivão de barco a vapor, agora morto, havia caído um pouco de romance — romance um tanto grotesco, mas romance de qualquer maneira. Quando eu o conheci, ele era um jovem perdulário desleixado, barulhento, de bom coração, cheio de generosidades descuidadas e prometendo de forma bastante conspícua desperdiçar suas possibilidades cedo e não dar em nada. Em uma cidade do Oeste vivia um estrangeiro velho, rico e sem filhos, e sua esposa; e na família deles havia uma moça jovem e bonita — uma espécie de amiga, uma espécie de serva. O jovem escrivão de quem eu tenho falado — cujo nome não era George Johnson, mas que será chamado de George Johnson para os propósitos desta narrativa — conheceu esta moça, e eles pecaram; e o velho estrangeiro os descobriu e os repreendeu. Envergonhados, eles mentiram e disseram que eram casados; que haviam se casado secretamente. Então a mágoa do velho estrangeiro foi curada, e ele os perdoou e os abençoou. Depois disso, eles foram capazes de continuar seu pecado sem ocultação. Aos poucos, a esposa do estrangeiro morreu; e logo ele a seguiu. Amigos da família reuniram-se para lamentar; e entre os que lamentavam sentavam-se os dois jovens pecadores. O testamento foi aberto e lido solenemente. Ele legava cada centavo da grande riqueza daquele velho homem à _Sra. George Johnson!_
E não havia tal pessoa. Os jovens pecadores fugiram então e fizeram uma coisa muito tola: casaram-se perante um obscuro Juiz de Paz e conseguiram que ele antedatasse o documento. Isso não serviu de nada. Os parentes distantes afluíram e expuseram a data fraudulenta com extrema rapidez e facilidade surpreendente, e levaram a fortuna, deixando os Johnsons muito legítima, legal e irrevogavelmente acorrentados um ao outro em um casamento honroso, mas sem sequer um centavo para se abençoarem. Tais são os fatos reais; e nem todos os romances têm como base uma situação tão reveladora.
CAPÍTULO 50
O 'Original Jacobs'
TIVEMOS alguma conversa sobre o Capitão Isaiah Sellers, morto há muitos anos. Ele era um homem fino, um homem de mente elevada, e muito respeitado tanto em terra quanto no rio. Ele era muito alto, bem constituído e bonito; e em sua velhice — como eu me lembro dele — seu cabelo era preto como o de um indígena, e seus olhos e mãos eram tão fortes e firmes e seu nervo e julgamento tão firmes e claros quanto os de qualquer um, jovem ou velho, entre a fraternidade de pilotos. Ele era o patriarca da classe; ele tinha sido um piloto de barcos de quilha antes da época dos barcos a vapor; e um piloto de barco a vapor antes que qualquer outro piloto de barco a vapor, ainda sobrevivente na época de que falo, tivesse sequer girado uma roda. Consequentemente, seus irmãos o mantinham naquele tipo de reverência em que ilustres sobreviventes de uma era passada são sempre mantidos por seus associados. Ele sabia como era visto, e talvez esse fato tenha adicionado algum detalhe de rigidez à sua dignidade natural, que já tinha sido suficientemente rígida em seu estado original.
Ele deixou um diário para trás; mas aparentemente não datava de sua primeira viagem de barco a vapor, que se dizia ser 1811, o ano em que o primeiro barco a vapor perturbou as águas do Mississippi. Na época de sua morte, um correspondente do 'St. Louis Republican' selecionou os seguintes itens do diário —
'Em fevereiro de 1825, ele embarcou no vapor “Rambler”, em Florence, Alabama, e fez durante aquele ano três viagens a Nova Orleans e de volta — isto no “Gen. Carrol”, entre Nashville e Nova Orleans. Foi durante sua permanência neste barco que o Capitão Sellers introduziu o toque do sino como sinal para lançar a sonda, tempo antes do qual era costume o piloto falar com os homens abaixo quando sondagens eram necessárias. A proximidade do convés de proa à casa do piloto, sem dúvida, tornava isso uma questão fácil; mas quão diferente em um de nossos palácios dos dias de hoje.
'Em 1827 encontramo-lo a bordo do “President”, um barco de duzentas e oitenta e cinco toneladas de arqueação, e navegando entre Smithland e Nova Orleans. De lá ele se juntou ao “Jubilee” em 1828, e neste barco ele fez sua primeira pilotagem no comércio de St. Louis; seu primeiro turno estendendo-se de Herculaneum a St. Genevieve. Em 26 de maio de 1836, ele completou e deixou Pittsburgh no comando do vapor “Prairie”, um barco de quatrocentas toneladas, e o primeiro vapor com cabine de aposentos já visto em St. Louis. Em 1857, ele introduziu o sinal para cruzar barcos, que tem sido, com alguma pequena mudança, o costume universal deste dia; de fato, é tornado obrigatório por ato do Congresso.
'Como itens gerais da história do rio, citamos as seguintes notas marginais de seu registro geral —
'Em março de 1825, o Gen. Lafayette deixou Nova Orleans para St. Louis no vapor de baixa pressão “Natchez”.
'Em janeiro de 1828, vinte e um vapores deixaram o cais de Nova Orleans para celebrar a ocasião da visita do Gen. Jackson àquela cidade.
'Em 1830, o “North American” fez o percurso de Nova Orleans a Memphis em seis dias — melhor tempo registrado até aquela data. Desde então, foi feito em dois dias e dez horas.
'Em 1831, formou-se o corte do Red River.
'Em 1832, o vapor “Hudson” fez o percurso do White River a Helena, uma distância de setenta e cinco milhas, em doze horas. Esta foi a fonte de muita conversa e especulação entre as partes diretamente interessadas.
'Em 1839, formou-se o corte Great Horseshoe.
'Até o presente momento, um período de trinta e cinco anos, verificamos, por referência ao diário, que ele fez quatrocentas e sessenta viagens de ida e volta a Nova Orleans, o que dá uma distância de um milhão cento e quatro mil milhas, ou uma média de oitenta e seis milhas por dia.'
Sempre que o Capitão Sellers se aproximava de um grupo de pilotos fofoqueiros, um calafrio caía ali, e a conversa cessava. Por esta razão: sempre que seis pilotos estavam reunidos, sempre haveria um ou dois recém-formados no grupo, e os mais velhos estariam sempre 'se exibindo' diante desses pobres rapazes; fazendo-os sentir dolorosamente quão imaturos eles eram, quão recente sua nobreza, e quão humilde seu grau, falando de forma grandiosa e vaporosa de experiências antigas no rio; sempre fazendo questão de datar tudo o mais atrás que pudessem, de modo a fazer os novos homens sentirem sua novidade no grau mais agudo possível, e invejarem os veteranos na mesma medida. E como esses carecas complacentes inchavam, e gabavam-se, e mentiam, e datavam dez, quinze, vinte anos atrás — e como eles desfrutavam do efeito produzido sobre os jovens maravilhados e invejosos!
E talvez bem neste estágio feliz dos procedimentos, a figura imponente do Capitão Isaiah Sellers, aquele verdadeiro e único genuíno Filho da Antiguidade, derivaria solenemente para o meio deles. Imagine o tamanho do silêncio que resultaria no instante. E imagine os sentimentos daqueles carecas, e a exultação de seu público recente quando o antigo capitão começasse a deixar cair observações casuais e indiferentes de natureza reminiscente — sobre ilhas que haviam desaparecido, e cortes que haviam sido feitos, uma geração antes que o careca mais velho na companhia tivesse sequer colocado seu pé em uma casa de piloto!
Muitas e muitas vezes este antigo marinheiro apareceu na cena da maneira acima, e espalhou desastre e humilhação ao seu redor. Se alguém pudesse acreditar nos pilotos, ele sempre datava suas ilhas até o amanhecer nebuloso da história do rio; e ele nunca usava a mesma ilha duas vezes; e nunca empregava uma ilha que ainda existisse, ou dava a uma um nome que qualquer um presente tivesse idade suficiente para ter ouvido antes. Se você pudesse acreditar nos pilotos, ele era sempre conscientemente meticuloso sobre pequenos detalhes; nunca falava do 'Estado do Mississippi', por exemplo — não, ele diria: 'Quando o Estado do Mississippi estava onde o Arkansas agora está', e nunca falaria da Louisiana ou do Missouri de uma maneira geral, e deixaria uma impressão incorreta em sua mente — não, ele diria: 'Quando a Louisiana estava rio acima mais longe', ou 'Quando o Missouri estava no lado de Illinois'.
O velho cavalheiro não tinha inclinação ou capacidade literária, mas costumava rabiscar breves parágrafos de informação prática e simples sobre o rio, assiná-los como 'Mark Twain' e entregá-los ao 'New Orleans Picayune'. Relacionavam-se ao nível e à condição do rio, eram precisos e valiosos; e, até aí, não continham veneno algum. Mas, ao falar do nível do rio naquele dia, em um determinado ponto, o capitão era bem propenso a incluir um pequeno comentário sobre aquela ser a primeira vez em quarenta e nove anos que via a água tão alta ou tão baixa naquele ponto específico; e, de vez em quando, mencionava a Ilha Tal e, em seguida, entre parênteses, acrescentava alguma observação como 'desapareceu em 1807, se bem me lembro'. Nessas interjeições antigas residiam veneno e amargura para os outros velhos pilotos, e eles costumavam zombar dos parágrafos de 'Mark Twain' com escárnio impiedoso.
Aconteceu que um desses parágrafos — {nota de rodapé [O manuscrito original, de próprio punho do capitão, foi-me enviado de Nova Orleans. Diz o seguinte:
VICKSBURG, 4 de maio de 1859.
'Minha opinião para o benefício dos cidadãos de Nova Orleans: A água está mais alta aqui em cima do que esteve desde o ano 8. Minha opinião é que a água terá pés de profundidade na Canal Street antes do primeiro de junho próximo. A plantação da Sra. Turner, na cabeceira da Big Black Island, está toda debaixo d'água, e não estava desde 1815.
'I. Sellers.']}
tornou-se o texto para o meu primeiro artigo de jornal. Eu o parodiei amplamente, muito amplamente, estendendo minhas fantasias por cerca de oitocentas ou mil palavras. Eu era um 'novato' na época. Mostrei meu desempenho a alguns pilotos, e eles apressadamente o enviaram para impressão no 'New Orleans True Delta'. Foi uma grande pena; pois não prestou nenhum serviço digno a ninguém, e enviou uma pontada profunda ao coração de um bom homem. Não havia malícia em meu lixo; mas ele ria do capitão. Ria de um homem para quem tal coisa era nova, estranha e terrível. Eu não sabia então, embora saiba agora, que não há sofrimento comparável ao que uma pessoa privada sente quando é pela primeira vez exposta ao escárnio público nos jornais.
O capitão Sellers fez-me a honra de me detestar profundamente a partir daquele dia. Quando digo que ele me fez a honra, não estou usando palavras vazias. Era uma honra muito real estar nos pensamentos de um homem tão grande quanto o capitão Sellers, e eu tinha inteligência suficiente para apreciar isso e me orgulhar. Era uma distinção ser amado por tal homem; mas era uma distinção muito maior ser odiado por ele, porque ele amava dezenas de pessoas; mas ele não perdia noites odiando ninguém, exceto a mim.
Ele nunca mais publicou outro parágrafo enquanto viveu, e nunca mais assinou 'Mark Twain' em nada. Na época em que o telégrafo trouxe a notícia de sua morte, eu estava na costa do Pacífico. Eu era um jornalista novato e precisava de um nom de guerre; então confisquei o pseudônimo descartado do antigo marinheiro e tenho feito o meu melhor para que ele permaneça o que era em suas mãos — um sinal, símbolo e garantia de que tudo o que for encontrado em sua companhia pode ser apostado como a verdade petrificada; como fui bem-sucedido, não seria modesto da minha parte dizer.
O capitão tinha um orgulho honroso em sua profissão e um amor constante por ela. Ele encomendou seu monumento antes de morrer e manteve-o perto de si até que morreu, de fato. Ele está sobre seu túmulo agora, no cemitério Bellefontaine, em St. Louis. É a sua imagem, em mármore, de serviço ao leme do piloto; e digna de permanecer e enfrentar a crítica, pois representa um homem que, em vida, teria permanecido ali até queimar-se até as cinzas, se o dever o exigisse.
A coisa mais bela que vimos em toda a nossa viagem pelo Mississippi, vimos ao nos aproximarmos de Nova Orleans no rebocador. Era a fachada curva da cidade crescente iluminada pelo brilho branco de oito quilômetros de luzes elétricas. Foi uma visão maravilhosa e muito bonita.
CAPÍTULO 51
Reminiscências
Partimos para St. Louis no 'City of Baton Rouge', em um dia deliciosamente quente, mas com o objetivo principal da minha visita apenas parcialmente alcançado. Eu esperava encontrar e conversar com uma centena de homens de barcos a vapor, mas me envolvi tão agradavelmente na vida social da cidade que não consegui mais do que meras conversas de cinco minutos com cerca de duas dúzias da classe.
Eu estava no banco da casa do piloto quando demos marcha à ré e nos 'alinhamo' para a partida — o barco pausando para um 'preparar-se', à moda antiga, e a fumaça preta saindo das chaminés da mesma maneira antiga. Então começamos a ganhar impulso e, logo, estávamos em pleno andamento, seguindo a todo vapor. Era tudo tão natural e familiar — assim como as vistas da margem — como se não houvesse interrupção na minha vida no rio. Havia um 'novato', e julguei que ele assumiria o leme agora; e foi o que aconteceu. O capitão Bixby entrou na casa do piloto. Logo o novato aproximou-se da fila de navios a vapor. Ele me deixou nervoso, pois permitiu que muita água aparecesse entre o nosso barco e os navios. Eu sabia muito bem o que ia acontecer, porque podia voltar no tempo em minha própria vida e inspecionar o registro. O capitão observou, durante um meio minuto silencioso, então assumiu o leme e aproximou o barco, até que ele roçasse a uma distância de um palmo dos navios. Foi exatamente o favor que ele me fizera, cerca de um quarto de século antes, naquele mesmo lugar, a primeira vez que saí do porto de Nova Orleans. Foi um prazer muito grande e sincero para mim ver a coisa repetida — com outra pessoa como vítima.
Chegamos a Natchez (trezentas milhas) em vinte e duas horas e meia — a passagem mais rápida que já fiz sobre aquele trecho de água.
Na manhã seguinte, assumi o turno das quatro horas e vi Ritchie realizar com sucesso meia dúzia de cruzamentos em um nevoeiro, usando como guia o mapa marcado, concebido e patenteado por Bixby e por ele mesmo. Isso comprovou suficientemente o grande valor do mapa.
Mais tarde, quando o nevoeiro começou a se dissipar, notei que o reflexo de uma árvore na água calma de uma margem inundada, a seiscentos metros de distância, era mais forte e mais negro do que a própria árvore fantasmagórica. As árvores espectrais fracas, vagamente vislumbradas através do nevoeiro que se desfazia, eram coisas muito bonitas de se ver.
Tivemos uma forte tempestade em Natchez, outra em Vicksburg e ainda outra a cerca de oitenta quilômetros abaixo de Memphis. Elas tinham uma energia à moda antiga que há muito tempo não me era familiar. Esta terceira tempestade foi acompanhada por um vento furioso. Atracamos na margem quando vimos a tempestade chegando, e todos deixaram a casa do piloto, exceto eu. O vento curvou as árvores jovens, expondo o lado pálido das folhas; e rajada após rajada seguiu-se, em rápida sucessão, açoitando os ramos violentamente para cima e para baixo, e para um lado e outro, criando ondas rápidas de verde e branco alternados, dependendo do lado da folha que era exposto, e essas ondas corriam umas atrás das outras como as de sua espécie sobre um campo de aveia agitado pelo vento. Nenhuma cor visível em lugar algum era totalmente natural — todos os tons estavam carregados com uma tonalidade de chumbo vinda da sólida camada de nuvens acima. O rio estava cor de chumbo; todas as distâncias eram iguais; e até as extensas fileiras de ondas de cristas brancas eram sombreadas de forma opaca pela atmosfera escura e rica através da qual suas legiões fervilhantes marchavam. Os trovões eram constantes e ensurdecedores; explosão seguia explosão com intervalos insignificantes, e os estrondos tornavam-se cada vez mais agudos e de tom mais alto, e mais irritantes para o ouvido; o relâmpago era tão diligente quanto o trovão e produzia efeitos que encantavam o olho e enviavam êxtases elétricos de prazer e apreensão misturados, percorrendo cada nervo do corpo em procissão ininterrupta. A chuva caía em volume surpreendente; os trovões ensurdecedores irrompiam cada vez mais perto; o vento aumentou em fúria e começou a arrancar ramos e copas de árvores, enviando-os a navegar pelo espaço; a casa do piloto começou a balançar, esticar, rachar e oscilar, e eu desci ao porão para ver que horas eram.
As pessoas se gabam muito das tempestades alpinas; mas as tempestades que tive a sorte de ver nos Alpes não eram iguais a algumas que vi no Vale do Mississippi. Pode ser que eu não tenha visto o melhor que os Alpes podem oferecer, é claro, e se eles podem superar o Mississippi, não desejo vê-lo.
Nesta viagem de subida, vi um pequeno banco de areia (ilha infantil) de oitocentos metros de comprimento, que se formou nos últimos dezenove anos. Já que havia tanto tempo de sobra que dezenove anos dele poderiam ser dedicados à construção de um simples banco de areia, qual era a utilidade, originalmente, de apressar este globo inteiro em seis dias? É provável que, se mais tempo tivesse sido tomado, em primeiro lugar, o mundo teria sido feito corretamente, e esse melhoramento e reparo incessantes não seriam necessários agora. Mas se você apressa um mundo ou uma casa, você quase certamente descobrirá, pouco depois, que deixou de fora um banco de areia, ou um armário de vassouras, ou alguma outra pequena conveniência, aqui e ali, que precisa ser fornecida, não importa quanto gasto e vexame possa custar.
Tivemos uma sucessão de noites escuras subindo o rio, e era notável que, sempre que atracávamos e inundávamos repentinamente as árvores com a intensa explosão solar da luz elétrica, um certo efeito curioso era sempre produzido: centenas de pássaros reuniam-se instantaneamente fora das massas de folhagem verde brilhante e saíam disparados para lá e para cá através dos raios brancos, e muitas vezes um pássaro canoro afinava e começava a cantar. Julgamos que eles confundiam esse magnífico dia artificial com o genuíno. Tivemos uma viagem deliciosa naquele vapor perfeitamente bem organizado e lamentamos que tenha sido concluída tão rapidamente. Por meio de diligência e atividade, conseguimos encontrar quase todos os velhos amigos. Um estava faltando, no entanto; ele foi para sua recompensa, seja ela qual fosse, há dois anos. Mas descobri tudo sobre ele. Seu caso ajudou-me a perceber quão duradouro pode ser o efeito de um acontecimento muito trivial. Quando ele era aprendiz de ferreiro em nossa aldeia, e eu um estudante, um par de jovens ingleses veio à cidade e permaneceu por um tempo; e um dia eles se vestiram com trajes reais baratos e encenaram a luta de espadas de Ricardo III com energia maníaca e alarido prodigioso, na presença dos meninos da aldeia. Este aprendiz de ferreiro estava lá, e o veneno histriônico entrou em seus ossos. Este grandalhão, desajeitado, ignorante e de raciocínio lento estava apaixonado pelo teatro, irremediavelmente. Ele desapareceu e logo apareceu em St. Louis. Encontrei-o lá, pouco tempo depois. Ele estava parado, meditando em uma esquina de rua, com a mão esquerda no quadril, o polegar da direita apoiando o queixo, o rosto curvado e franzido, chapéu desleixado puxado sobre a testa — imaginando-se ser Otelo ou algum personagem semelhante, e imaginando que a multidão que passava notava seu comportamento trágico e ficava impressionada.
Juntei-me a ele e tentei trazê-lo de volta das nuvens, mas não consegui. No entanto, ele casualmente informou-me, pouco depois, que era membro da companhia de teatro da Walnut Street — e tentou dizer isso com indiferença, mas a indiferença era tênue, e uma enorme exultação transparecia. Ele disse que foi escalado para um papel em Júlio César, para aquela noite, e se eu fosse, eu o veria. Se eu fosse! Disse que não perderia por nada, nem que estivesse morto.
Fui embora estupefato de espanto e dizendo a mim mesmo: 'Como é estranho! Sempre pensamos que este sujeito era um tolo; ainda assim, no momento em que chega a uma grande cidade, onde a inteligência e a apreciação abundam, o talento escondido neste guardanapo puído é imediatamente descoberto e prontamente bem-vindo e honrado.'
Mas saí do teatro naquela noite desapontado e ofendido; pois não tive nenhum vislumbre do meu herói, e seu nome não estava nos cartazes. Encontrei-o na rua na manhã seguinte e, antes que eu pudesse falar, ele perguntou—
'Você me viu?'
'Não, você não estava lá.'
Ele pareceu surpreso e desapontado. Ele disse—
'Sim, eu estava. De fato, eu estava. Eu era um soldado romano.'
'Qual deles?'
'Por que você não viu aqueles soldados romanos que ficaram lá atrás em uma fileira, e às vezes marchavam em procissão pelo palco?'
'Você quer dizer o exército romano? — aqueles seis ajudantes de sandálias em camisolas, com escudos e capacetes de lata, que marchavam pisando nos calcanhares uns dos outros, sob o comando de um tuberculoso de pernas de aranha vestido como eles?'
'É isso! É isso! Eu era um daqueles soldados romanos. Eu era o penúltimo. Há meio ano eu sempre era o último; mas fui promovido.'
Bem, disseram-me que aquele pobre coitado permaneceu um soldado romano até o fim — por cerca de trinta e quatro anos. Às vezes, escalavam-no para um 'papel falado', mas não um elaborado. Podiam confiar nele para ir e dizer: 'Meu senhor, a carruagem espera', mas se se aventurassem a adicionar uma frase ou duas a isso, sua memória sentia a tensão e era provável que ele falhasse. Ainda assim, pobre diabo, ele estava pacientemente estudando o papel de Hamlet por mais de trinta anos, e viveu e morreu na crença de que um dia seria convidado para interpretá-lo!
E foi isso que resultou daquela visita passageira daqueles jovens ingleses à nossa aldeia, há tanto, tanto tempo! Que ferraduras nobres este homem poderia ter feito, se não fossem aqueles ingleses; e que soldado romano inadequado ele acabou sendo!
Um ou dois dias depois de chegarmos a St. Louis, eu caminhava pela Fourth Street quando um homem de cabeça grisalha deu um solavanco ao passar por mim, depois parou, voltou, inspecionou-me de perto, com a testa franzida, e finalmente disse com profunda aspereza —
'Olha aqui, você já tomou aquela bebida?'
Um maníaco, julguei, a princípio. Mas num instante reconheci-o. Fiz um esforço para corar que tensionou cada músculo meu e respondi tão docemente e de forma cativante quanto sabia —
'Fui um pouco lento, mas estou exatamente neste minuto chegando perto do lugar onde eles a guardam. Venha e ajude.'
Ele suavizou e disse para pedir uma garrafa de champanhe e ele estaria de acordo. Disse que tinha visto meu nome nos jornais e tinha deixado todos os seus assuntos de lado e saído, decidido a me encontrar ou morrer; e me fazer responder àquela pergunta satisfatoriamente, ou me matar; embora a maior parte de sua recente aspereza tenha sido mais fingida do que qualquer outra coisa.
Este encontro trouxe de volta à minha memória os distúrbios de St. Louis de cerca de trinta anos atrás. Passei uma semana lá, na época, em uma pensão, e tive este jovem como vizinho do outro lado do corredor. Vimos algumas brigas e mortes; e, pouco tempo depois, fomos uma noite a um arsenal onde duzentos jovens homens se reuniram, mediante convocação, para serem armados e saírem contra os desordeiros, sob o comando de um militar. Treinamos até cerca de dez horas da noite; então veio a notícia de que a multidão estava em grande força na parte baixa da cidade e estava varrendo tudo pela frente. Nossa coluna moveu-se imediatamente. Era uma noite muito quente, e meu mosquete era muito pesado. Marchamos e marchamos; e quanto mais nos aproximávamos do teatro de guerra, mais quente eu ficava e mais sedento eu sentia. Eu estava atrás do meu amigo; então, finalmente, pedi-lhe que segurasse meu mosquete enquanto eu me afastava para beber algo. Então, desviei-me e fui para casa. Não sentia nenhuma preocupação com ele, é claro, porque sabia que ele estava tão bem armado, agora, que podia cuidar de si mesmo sem problemas. Se eu tivesse tido alguma dúvida sobre isso, teria emprestado outro mosquete para ele. Deixei a cidade bem cedo na manhã seguinte, e se este homem grisalho não tivesse encontrado meu nome nos jornais outro dia em St. Louis, e se sentisse movido a me procurar, eu teria levado para o meu túmulo uma incerteza torturante sobre se ele tinha conseguido sair dos distúrbios bem ou não. Eu deveria ter perguntado, trinta anos atrás; eu sei disso. E teria perguntado, se tivesse os mosquetes; mas, nas circunstâncias, ele parecia melhor preparado para conduzir as investigações do que eu.
Em uma segunda-feira, perto da época de nossa visita a St. Louis, o 'Globe-Democrat' publicou algumas páginas de estatísticas de domingo, onde aparecia que 119.448 pessoas de St. Louis compareceram aos cultos religiosos da manhã e da noite no dia anterior, e 23.102 crianças frequentaram a escola dominical. Assim, 142.550 pessoas, do total de 400.000 habitantes da cidade, respeitaram o dia de forma religiosa. Encontrei essas estatísticas, em forma condensada, em um telegrama da Associated Press, e preservei-as. Elas tornaram evidente que St. Louis estava em um estado de graça mais elevado do que poderia ter afirmado estar na minha época. Mas agora que examino os números de perto, suspeito que o telégrafo os mutilou. Não pode ser que haja mais de 150.000 católicos na cidade; os outros 250.000 devem ser classificados como protestantes. Desses 250.000, de acordo com este telegrama questionável, apenas 26.362 frequentaram a igreja e a escola dominical, enquanto dos 150.000 católicos, 116.188 foram à igreja e à escola dominical.
CAPÍTULO 52
Um Tição Ardente
De repente, o pensamento veio à minha mente: 'Eu não procurei o Sr. Brown.'
Sobre esse texto, desejo desviar-me da linha direta do meu assunto e fazer uma pequena excursão. Desejo revelar um segredo que carrego comigo há nove anos e que se tornou oneroso.
Em uma certa ocasião, há nove anos, eu tinha dito, com forte sentimento: 'Se algum dia eu vir St. Louis novamente, procurarei o Sr. Brown, o grande comerciante de grãos, e pedirei a ele o privilégio de apertar-lhe a mão.'
A ocasião e as circunstâncias foram as seguintes. Um amigo meu, um clérigo, veio uma noite e disse —
'Tenho aqui uma carta notável, a qual desejo ler para vocês, se puder fazê-lo sem desabar. Devo, contudo, prefaciá-la com algumas explicações. A carta foi escrita por um ex-ladrão e ex-vagabundo da mais baixa origem e da mais vil criação, um homem todo manchado pelo crime e mergulhado na ignorância; mas, graças a Deus, com uma mina de ouro puro escondida dentro de si, como verão. Sua carta é dirigida a um arrombador chamado Williams, que cumpre uma pena de nove anos em uma certa penitenciária estadual por arrombamento. Williams era um arrombador particularmente ousado, e exerceu esse ofício durante vários anos; mas acabou sendo capturado e preso, para aguardar julgamento em uma cidade onde havia invadido uma casa à noite, pistola em punho, e forçado o proprietário a entregar-lhe 8.000 dólares em títulos do governo. Williams não era, de modo algum, uma pessoa comum; ele era formado pela Universidade de Harvard e vinha de uma boa linhagem da Nova Inglaterra. Seu pai era clérigo. Enquanto estava na cadeia, sua saúde começou a falhar e ele foi ameaçado de tuberculose. Esse fato, somado à oportunidade de reflexão proporcionada pelo confinamento solitário, teve seu efeito — seu efeito natural. Ele mergulhou em pensamentos sérios; sua formação inicial afirmou-se com vigor e exerceu uma forte influência sobre sua mente e seu coração. Ele deixou sua vida antiga para trás e tornou-se um cristão fervoroso. Algumas senhoras da cidade souberam disso, visitaram-no e, com suas palavras encorajadoras, apoiaram-no em suas boas resoluções e fortaleceram-no para continuar em sua nova vida. O julgamento terminou com sua condenação à penitenciária estadual pelo período de nove anos, como mencionei antes. Na prisão, ele conheceu o pobre infeliz referido no início da minha fala, Jack Hunt, o autor da carta que vou ler. Vocês verão que o conhecimento rendeu frutos para Hunt. Quando o tempo de Hunt terminou, ele vagou até St. Louis; e daquele lugar escreveu sua carta para Williams. A carta não passou da secretaria do diretor da prisão, é claro; prisioneiros raramente têm permissão para receber cartas de fora. As autoridades prisionais leram esta carta, mas não a destruíram. Não tiveram coragem. Leram-na para várias pessoas e, eventualmente, ela caiu nas mãos daquelas senhoras de quem falei há pouco. Outro dia, cruzei com um velho amigo meu — um clérigo — que tinha visto esta carta e estava tomado por ela. A mera lembrança dela o comovia tanto que ele não conseguia falar a respeito sem que sua voz falhasse. Ele prometeu conseguir uma cópia para mim; e aqui está ela — uma cópia exata, com todas as imperfeições do original preservadas. Ela contém muitas expressões de gíria — jargão de ladrões —, mas o significado delas foi inserido nas entrelinhas, entre parênteses, pelas autoridades prisionais'—
St. Louis, 9 de junho de 1872.
Sr. W---- amigo Charlie se posso chamá-lo assim: sei que você está surpreso ao receber uma carta minha, mas espero que não fique bravo por eu lhe escrever. Quero lhe agradecer pelo modo como falou comigo quando eu estava na prisão — isso me levou a tentar ser um homem melhor; acho que você pensou que eu não me importava com o que dizia, e no começo eu não me importava, mas eu sabia que você era um homem que tinha feito grandes trabalhos com bons homens e não era um otário, nem ficava com conversa fiada e todos os rapazes sabiam disso.
Eu costumava pensar à noite no que você dizia, e por causa disso parei de falar palavrões meses antes de meu tempo acabar, pois vi que aquilo não levava a nada, de jeito nenhum — no dia em que meu tempo acabou, você me disse que se eu largasse a vida do crime (parasse de roubar) e vivesse honestamente por meses, seria o melhor trabalho que eu já teria feito em minha vida. O agente do estado me deu uma passagem para cá, e no trem pensei mais no que você me disse, mas não me decidi. Quando chegamos a Chicago, nos trens de lá para cá, eu puxei a carteira de uma velha;
(Roubei sua bolsa) não tinha nem acabado de tirá-la quando desejei não ter feito isso, pois um pouco antes disso eu tinha decidido ser um sujeito honesto, por meses conforme sua palavra, mas esqueci quando vi que a carteira estava fácil (fácil de pegar) — mas fiquei perto dela e quando ela desceu do trem em um lugar qualquer eu disse, senhora a senhora perdeu alguma coisa? & ela descobriu (percebeu) que a carteira tinha sumido (ido embora) — é esta?, digo eu, entregando-a para ela — bem, se você não é honesto, diz ela, mas eu não tive coragem para suportar aquele tipo de conversa, então deixei-a apressado. Quando cheguei aqui eu tinha 1 dólar e 25 centavos restantes e não consegui trabalho por 3 dias, pois não sou forte o suficiente para carregador em um barco a vapor (_para um marinheiro de convés_) — Na tarde do 3º dia, gastei meus últimos 10 centavos com biscoitos (grandes, redondos biscoitos do mar) e queijo e me senti muito mal e pensava que teria que voltar a roubar (furtar carteiras) novamente, quando pensei no que você disse uma vez sobre um sujeito recorrer ao Senhor quando estivesse em má situação, e pensei que tentaria uma vez de qualquer jeito, mas quando tentei fiquei travado logo no início, e tudo o que consegui dizer foi, Senhor dê a um pobre sujeito uma chance de ser honesto por 3 meses pelo amor de Cristo, amém; e continuei pensando nisso, repetidas vezes enquanto caminhava — cerca de uma hora depois, eu estava na 4th St. e foi isso o que aconteceu & é a causa de eu estar onde estou agora & sobre o que lhe contarei antes de terminar de escrever. Enquanto caminhava, ouvi um barulho alto e vi um cavalo fugindo com uma carruagem com 2 crianças dentro, e agarrei um pedaço de tampa de caixa da calçada e corri para o meio da rua, e quando o cavalo chegou perto eu o golpeei na cabeça o mais forte que pude — a tábua se partiu em pedaços e o cavalo diminuiu um pouco e eu agarrei as rédeas e puxei sua cabeça para baixo até que ele parou — o cavalheiro que era dono dele veio correndo e, assim que viu que as crianças estavam bem, apertou minha mão e me deu uma nota de 50 dólares, e meu pedido ao Senhor para me ajudar veio à minha cabeça, e eu fiquei tão pasmo que não consegui soltar as rédeas nem dizer nada — ele viu que algo estava acontecendo, e
voltando para mim disse, meu rapaz você está ferido? & veio à minha cabeça naquele momento pedir-lhe trabalho; e pedi-lhe para pegar a nota de volta e me dar um emprego — diz ele, suba aqui e vamos conversar sobre isso, mas fique com o dinheiro — ele me perguntou se eu sabia cuidar de cavalos e eu disse que sim, pois costumava ficar perto de estábulos e muitas vezes ajudava a limpar e conduzir cavalos, ele me disse que queria um homem para esse trabalho, e me daria 16 dólares por mês e moradia. Pode apostar que aceitei aquela chance na hora. Naquela noite, em meu pequeno quarto sobre o estábulo, sentei-me por um longo tempo pensando sobre minha vida passada e sobre o que tinha acabado de acontecer e me ajoelhei e agradeci ao Senhor pelo emprego e para que me ajudasse a ser honesto, e para abençoar você por ter me incentivado, e na manhã seguinte fiz o mesmo e comprei roupas novas e uma bíblia, pois decidi depois do que o Senhor tinha feito por mim que leria a bíblia toda noite e manhã, e pediria que ele cuidasse de mim. Quando eu estava lá havia cerca de uma semana, o Sr. Brown (esse é o nome dele) entrou em meu quarto uma noite e me viu lendo a bíblia — ele me perguntou se eu era cristão e eu disse que não — ele me perguntou como era que eu lia a bíblia em vez de jornais e livros — Bem Charlie, pensei que era melhor ser honesto com ele desde o início, então contei tudo sobre eu ter estado na prisão e sobre você, e como eu quase tinha desistido de procurar trabalho e como o Senhor me deu o emprego quando pedi a Ele; e o único jeito que eu tinha de retribuir era lendo a bíblia e sendo honesto, e pedi-lhe para me dar uma chance por 3 meses — ele falou comigo como um pai por muito tempo, e me disse que eu podia ficar e então me senti melhor do que jamais tinha me sentido na vida, pois tinha dado ao Sr. Brown um começo justo comigo e agora eu não temia ninguém me difamando (expondo sua vida passada) e me expulsando do emprego — na manhã seguinte ele me chamou na biblioteca e teve outra conversa franca comigo, e me aconselhou a estudar um pouco todo dia, e ele me ajudaria 1 ou 2 horas toda noite, e ele me deu uma Aritmética, um livro de ortografia, uma Geografia e um caderno de caligrafia, e ele me ouve toda noite — ele me deixa entrar na casa para as orações toda manhã, e me colocou em uma classe bíblica na Escola Dominical, o que eu gosto muito pois me ajuda a entender melhor minha bíblia.
Agora, Charlie, os 3 meses sendo honesto acabaram há 2 meses, e como você disse, é o melhor trabalho que já fiz na minha vida, e comecei outro do mesmo tipo logo em seguida, só que é para Deus me ajudando a durar a vida toda Charlie — escrevi esta carta para lhe dizer que realmente acho que Deus perdoou meus pecados e ouviu suas orações, pois você me disse que rezaria por mim — sei que amo ler Sua palavra e contar a Ele todos os meus problemas e Ele me ajuda eu sei, pois tenho muitas chances de roubar, mas não sinto vontade como sentia antes e agora sinto mais prazer em ir à igreja do que ao teatro e isso não era assim antes — nosso ministro e outros conversam frequentemente comigo e um mês atrás eles queriam que eu me juntasse à igreja, mas eu disse não, não agora, posso estar enganado em meus sentimentos, esperarei um pouco, mas agora sinto que Deus me chamou e no primeiro domingo de julho eu me juntarei à igreja — querido amigo, queria poder escrever-lhe como me sinto, mas ainda não consigo — você sabe que aprendi a ler e escrever enquanto estava na prisão e não cheguei a um nível bom o suficiente para escrever como falaria; sei que não soletrei todas as palavras corretamente nisto e muitos outros erros, mas você vai desculpar, eu sei, pois você sabe que fui criado em uma casa de caridade até fugir, e que nunca soube quem era meu pai e minha mãe e não sei meu nome verdadeiro, e espero que você não fique bravo comigo, mas tenho tanto direito a um nome quanto a outro e tomei o seu nome, pois você não o usará quando sair, eu sei, e você é o homem que mais considero no mundo; então espero que não fique bravo — Estou indo bem, coloco 10 dólares por mês no banco com 25 dos 50 dólares — se você algum dia quiser parte ou tudo, me avise, e é seu. Queria que você deixasse eu lhe enviar algo agora. Envio-lhe com esta um recibo para um ano da Littles Living Age, eu não sabia o que você gostaria e contei ao Sr. Brown e ele disse que achava que você gostaria — queria estar perto de você para poder lhe enviar comida (refrescos) nos feriados; estragaria com este tempo daqui, mas enviarei uma caixa para você no próximo dia de ação de graças de qualquer maneira — na próxima semana o Sr. Brown me levará para sua loja como carregador leve e me promoverá assim que eu souber um pouco mais — ele mantém uma grande loja de grãos, atacado — esqueci de lhe falar da minha classe de escola dominical da missão — a escola é no domingo à tarde, fui dois domingos à tarde e peguei sete crianças (meninos pequenos) e consegui que eles viessem. Dois deles sabiam tanto quanto eu e eu fiz com que fossem colocados em uma classe onde pudessem aprender algo. Eu mesmo não sei muito, mas como essas crianças não sabem ler, eu me dou bem com eles. Garanto a presença deles indo buscá-los toda hora de domingo antes do horário da escola, também consegui que 4 meninas viessem. Diga ao Mack e ao Harry sobre mim, se eles vierem para cá quando o tempo deles acabar, conseguirei empregos para eles imediatamente. Espero que você desculpe esta longa carta e todos os erros, queria poder vê-lo, pois não consigo escrever como falaria — espero que o tempo quente esteja fazendo bem aos seus pulmões — eu estava com medo de que quando você estava sangrando, você morresse — dê meus respeitos a todos os rapazes e diga-lhes como estou indo — estou indo bem e todos aqui me tratam com a maior gentileza que podem — o Sr. Brown vai lhe escrever algum dia — espero que algum dia você me escreva, esta carta é do seu amigo muito verdadeiro
C---- W----
que você conhece como Jack Hunt.
Envio-lhe o cartão do Sr. Brown. Envie minha carta para ele.
Essa carta chegou alguns dias depois de ter sido escrita — e as ações do Sr. Williams subiram novamente. A suspeita sórdida do Sr. Warner foi depositada na fria, fria sepultura, onde aparentemente pertencia. Era uma suspeita baseada apenas em evidências internas, de qualquer modo; e quando se trata de evidências internas, é um campo vasto e um jogo que dois podem jogar: como testemunha esta outra evidência interna, descoberta pelo autor do bilhete acima citado, de que "é uma carta maravilhosa — que nenhum gênio cristão, muito menos um não santificado, jamais poderia ter escrito".
Eu tinha permissão agora para publicar — desde que suprimisse nomes e lugares e enviasse minha narrativa para fora do país. Então escolhi uma revista australiana como veículo, por estar longe o suficiente do país, e pus-me a trabalhar no meu artigo. E os pastores puseram as bombas a funcionar novamente, com a carta a mover as alavancas.
Mas, entretanto, o irmão Page andava a agitar as coisas. Ele não tinha visitado a penitenciária, mas tinha enviado uma cópia da ilustre carta ao capelão daquela instituição, acompanhando-a com — aparentemente — inquéritos. Ele obteve uma resposta, datada de quatro dias depois da epístola tranquilizadora daquele outro irmão; e antes que o meu artigo estivesse completo, ela foi parar às minhas mãos. O original está diante de mim, agora, e aqui o anexo. Está bastante carregado de evidências internas da descrição mais sólida —
PRISÃO ESTADUAL, GABINETE DO CAPELÃO, 11 de julho de 1873.
Caro irmão Page, — Queira encontrar anexa a carta gentilmente emprestada. Temo que sua autenticidade não possa ser estabelecida. Ela pretende ser endereçada a algum prisioneiro aqui. Nenhuma carta desse tipo jamais chegou a um prisioneiro aqui. Todas as cartas recebidas são lidas cuidadosamente pelos oficiais da prisão antes de chegarem às mãos dos condenados, e tal carta não poderia ser esquecida. Além disso, Charles Williams não é um homem cristão, mas um filho pródigo dissoluto e astuto, cujo pai é um ministro do evangelho. Seu nome é um pseudônimo. Fico feliz por ter feito sua amizade. Estou preparando uma palestra sobre a vida vista através das grades da prisão, e gostaria de proferi-la em sua vizinhança.
E assim terminou aquele pequeno drama. O meu pobre artigo foi para a fogueira; pois, embora os materiais para ele fossem agora mais abundantes e infinitamente mais ricos do que tinham sido anteriormente, havia partes à minha volta que, embora ansiassem pela publicação antes, estavam de acordo quanto à supressão nesta fase e configuração do jogo. Eles disseram: "Espere — a ferida ainda está muito fresca". Todas as cópias da famosa carta, exceto a minha, desapareceram subitamente; e a partir desse momento, a mesma seca de outrora instalou-se nas igrejas. Como regra, a cidade manteve um sorriso amplo por um tempo, mas havia lugares nela onde o sorriso não aparecia, e onde era perigoso referir-se à carta do ex-condenado.
Uma palavra de explicação. "Jack Hunt", o suposto autor da carta, era uma pessoa imaginária. O ladrão Williams — formado em Harvard, filho de um ministro — escreveu a carta ele mesmo, para si mesmo: conseguiu que ela fosse contrabandeada para fora da prisão; conseguiu que fosse transmitida a pessoas que o tinham apoiado e encorajado na sua conversão — onde ele sabia que duas coisas aconteceriam: a autenticidade da carta não seria duvidada nem questionada; e o ponto crucial seria notado, e teria um efeito valioso — o efeito, na verdade, de iniciar um movimento para obter o perdão do Sr. Williams e a sua saída da prisão.
Esse "ponto crucial" é atirado de forma tão engenhosa, tão casual, e deixado imediatamente ali na cauda da carta, sem ser comentado, que um leitor indiferente nunca suspeitaria que fosse o coração e o núcleo da epístola, se é que o notaria. Este é o "ponto crucial" —
"espero que o tempo quente esteja a fazer bem aos seus pulmões — eu estava com medo de que, quando você estava sangrando, você morresse — dê meus respeitos", etc.
Isso é tudo o que há — apenas um toque de passagem — sem se deter nisso. No entanto, destinava-se a um olho que seria rápido a vê-lo; e visava mover um coração bondoso a tentar efetuar a libertação de um pobre rapaz reformado e purificado, deitado nas garras terríveis da tuberculose.
Quando ouvi pela primeira vez essa carta ser lida, há nove anos, senti que era a mais notável que já tinha encontrado. E ela aqueceu-me tanto em relação ao Sr. Brown de St. Louis que eu disse que, se alguma vez visitasse aquela cidade novamente, procuraria aquele excelente homem e beijaria a bainha da sua veste se ela fosse nova. Bem, visitei St. Louis, mas não procurei o Sr. Brown; pois, ai de mim! As investigações de muito tempo atrás tinham provado que o benevolente Brown, tal como "Jack Hunt", não era uma pessoa real, mas uma pura invenção daquele patife talentoso, Williams — ladrão, formado em Harvard, filho de um clérigo.
CAPÍTULO 53
O Lar da Minha Infância
TOMAMOS passagem num dos barcos rápidos da St. Louis and St. Paul Packet Company e começamos a subir o rio.
Quando eu, ainda rapaz, vi pela primeira vez a foz do rio Missouri, ficava a vinte e duas ou vinte e três milhas acima de St. Louis, segundo a estimativa dos pilotos; o desgaste das margens moveu-a oito milhas para baixo desde então; e os pilotos dizem que, dentro de cinco anos, o rio cortará e moverá a foz mais cinco milhas para baixo, o que a deixará a dez milhas de St. Louis.
Ao cair da noite passamos pela grande e florescente cidade de Alton, Illinois; e antes do amanhecer da manhã seguinte, pela cidade de Louisiana, Missouri, uma vila sonolenta no meu tempo, mas agora um centro ferroviário movimentado; no entanto, todas as cidades por ali são centros ferroviários agora. Não consegui reconhecer claramente o lugar. Isto pareceu-me estranho, pois quando me retirei do exército rebelde em 61, retirei-me para Louisiana em boa ordem; pelo menos em ordem suficientemente boa para uma pessoa que ainda não tinha aprendido a retirar-se de acordo com as regras da guerra, e tinha de confiar no génio nativo. Pareceu-me que, para uma primeira tentativa de retirada, não foi mal feita. Não tinha feito nenhum avanço em toda aquela campanha que fosse, de todo, igual a ela.
Havia uma ponte ferroviária a atravessar o rio ali, bem salpicada de luzes brilhantes, e era uma visão muito bela.
Às sete da manhã chegamos a Hannibal, Missouri, onde passei a minha infância. Tive um vislumbre dela há quinze anos, e outro vislumbre seis anos antes disso, mas ambos foram tão breves que mal contaram. A única noção da cidade que permanecia na minha mente era a memória dela tal como a conhecia quando a deixei pela primeira vez, há vinte e nove anos. Essa imagem dela ainda era tão clara e vívida para mim como uma fotografia. Pisei em terra firme com o sentimento de quem regressa de uma geração morta e enterrada. Tive uma espécie de sensação real do que os prisioneiros da Bastilha devem ter sentido quando costumavam sair e olhar para Paris após anos de cativeiro, e notar como o familiar e o estranho estavam curiosamente misturados diante deles. Vi as casas novas — vi-as claramente o suficiente — mas não afetaram a imagem mais antiga na minha mente, pois através dos seus tijolos e argamassa sólidos, eu via as casas desaparecidas, que tinham estado ali anteriormente, com perfeita nitidez.
Era domingo de manhã, e toda a gente ainda estava na cama. Por isso, passei pelas ruas vazias, vendo ainda a cidade tal como era, e não como é, e reconhecendo e apertando a mão metaforicamente a uma centena de objetos familiares que já não existem; e finalmente subi a Holiday’s Hill para obter uma vista abrangente. Toda a cidade estava estendida abaixo de mim então, e eu podia marcar e fixar cada localidade, cada detalhe. Naturalmente, fiquei bastante comovido. Disse: "Muitas das pessoas que conheci outrora neste refúgio tranquilo da minha infância estão agora no céu; algumas, confio, estão no outro lugar". As coisas à minha volta e diante de mim faziam-me sentir como um rapaz novamente — convenceram-me de que eu era um rapaz novamente, e que tinha apenas estado a sonhar um sonho invulgarmente longo; mas as minhas reflexões estragaram tudo isso; pois forçaram-me a dizer: "Vejo cinquenta casas velhas ali em baixo, em cada uma das quais eu poderia entrar e encontrar um homem ou uma mulher que era um bebé ou nem tinha nascido quando reparei nessas casas pela última vez, ou uma avó que era uma noiva jovem e rechonchuda nessa altura".
Deste ponto vantajoso, a vista extensiva rio acima e rio abaixo, e vastamente sobre as extensões arborizadas de Illinois, é muito bela — uma das mais belas do Mississippi, creio eu; o que é uma observação arriscada de se fazer, pois as oitocentas milhas de rio entre St. Louis e St. Paul oferecem uma sucessão ininterrupta de quadros adoráveis. Pode ser que o meu afeto pela em questão influencie o meu julgamento a seu favor; não posso dizer quanto a isso. Não importa, era satisfatoriamente bela para mim, e tinha esta vantagem sobre todos os outros amigos que eu estava prestes a saudar novamente: não tinha sofrido qualquer mudança; era tão jovem, fresca, atraente e graciosa como sempre tinha sido; ao passo que os rostos dos outros estariam velhos, e cicatrizados pelas campanhas da vida, e marcados pelas suas tristezas e derrotas, e não me dariam elevações de espírito.
Um cavalheiro idoso, a passear de manhã cedo, apareceu, e discutimos o tempo, e depois derivamos para outros assuntos. Não consegui lembrar-me do seu rosto. Ele disse que vivia ali há vinte e oito anos. Portanto, ele tinha vindo depois do meu tempo, e eu nunca o tinha visto antes. Fiz-lhe várias perguntas; primeiro sobre um companheiro meu da escola dominical — o que aconteceu com ele?
"Ele formou-se com distinção numa faculdade do Leste, vagueou pelo mundo em algum lugar, não obteve sucesso em nada, desapareceu do conhecimento e da memória há anos, e supõe-se que tenha ido para o lixo."
"Ele era inteligente, e prometia bem quando era rapaz."
"Sim, mas a coisa que aconteceu é o que aconteceu com tudo isso."
Perguntei por outro rapaz, de longe o mais inteligente na nossa escola da aldeia quando eu era rapaz.
"Ele também se formou com distinção, numa faculdade do Leste; mas a vida derrotou-o em todas as batalhas, diretamente, e ele morreu num dos Territórios, há anos, um homem derrotado."
Perguntei por outro dos rapazes inteligentes.
"Ele é um sucesso, sempre foi, sempre será, creio eu."
Perguntei por um jovem que veio à cidade para estudar uma das profissões quando eu era rapaz.
"Ele foi para outra coisa antes de terminar — passou da medicina para o direito, ou do direito para a medicina — depois para alguma outra coisa nova; foi-se embora por um ano, voltou com uma esposa jovem; começou a beber, depois a jogar atrás da porta; finalmente levou a esposa e os dois filhos pequenos para casa do pai dela, e foi para o México; foi de mal a pior, e finalmente morreu lá, sem um centavo para comprar uma mortalha, e sem um amigo para comparecer ao funeral."
"Pena, pois ele era o jovem mais bem-humorado, mais alegre e esperançoso que já existiu."
Nomeei outro rapaz.
"Oh, ele está bem. Vive aqui ainda; tem esposa e filhos, e está a prosperar."
O mesmo veredito sobre outros rapazes.
Nomeei três raparigas da escola.
"As duas primeiras vivem aqui, são casadas e têm filhos; a outra morreu há muito tempo — nunca se casou."
Nomeei, com emoção, uma das minhas primeiras namoradas.
"Ela está bem. Já foi casada três vezes; enterrou dois maridos, divorciou-se do terceiro, e ouvi dizer que ela se está a preparar para casar com um homem idoso no Colorado em algum lugar. Ela tem filhos espalhados por aqui e ali, em quase toda a parte."
A resposta a várias outras perguntas foi breve e simples —
"Morto na guerra."
Nomeei outro rapaz.
"Bem, agora, o caso dele é curioso! Não havia um ser humano nesta cidade que não soubesse que aquele rapaz era um perfeito idiota; um perfeito manequim; apenas um burro estúpido, como se pode dizer. Toda a gente sabia disso, e toda a gente dizia isso. Bem, se esse mesmo rapaz não é o primeiro advogado no Estado de Missouri hoje, eu sou um democrata!"
"É mesmo?"
"É mesmo a verdade. Estou a dizer-lhe a verdade."
"Como explica isso?"
"Explicar isso? Não há explicação para isso, exceto que se enviar um maldito idiota para St. Louis, e não lhes disser que ele é um maldito idiota, eles nunca o descobrirão. Há uma coisa certa — se eu tivesse um maldito idiota, eu saberia o que fazer com ele: enviá-lo para St. Louis — é o mercado mais nobre do mundo para esse tipo de propriedade. Bem, quando se olha para tudo isso, e se reflete e pensa sobre isso, não é algo que supera tudo o que já ouviu?"
"Bem, sim, parece que sim. Mas não acha que talvez fossem as pessoas de Hannibal que estavam enganadas sobre o rapaz, e não as pessoas de St. Louis?"
"Oh, disparates! As pessoas aqui conhecem-no desde o berço — conheciam-no cem vezes melhor do que os idiotas de St. Louis poderiam tê-lo conhecido. Não, se tem alguns malditos idiotas nos quais quer tirar proveito, siga o meu conselho — envie-os para St. Louis."
Mencionei um grande número de pessoas que tinha conhecido anteriormente. Algumas estavam mortas, algumas tinham ido embora, algumas tinham prosperado, algumas tinham dado em nada; mas quanto a uma dúzia ou mais do grupo, a resposta era reconfortante:
"Prósperos — vivem aqui ainda — cidade cheia de filhos deles."
Perguntei sobre a Srta. ----.
"Morreu no hospício há três ou quatro anos — nunca saiu de lá desde o momento em que entrou; e estava sempre a sofrer, também; nunca recuperou um pedaço da sua mente."
Se ele falava a verdade, aqui estava uma tragédia pesada, de facto. Trinta e seis anos num hospício, para que alguns jovens tolos pudessem divertir-se! Eu era um rapaz pequeno, na altura; e vi aquelas jovens tontas entrarem na ponta dos pés no quarto onde a Srta. ---- estava sentada a ler à meia-noite à luz de um candeeiro. A rapariga à frente da fila usava uma mortalha e uma máscara de farinha, ela rastejou atrás da vítima, tocou-lhe no ombro, e ela olhou para cima e gritou, e depois caiu em convulsões. Ela não recuperou do susto, mas enlouqueceu. Nestes dias parece inacreditável que as pessoas acreditassem em fantasmas há tão pouco tempo. Mas acreditavam.
Depois de perguntar por outras pessoas de quem me conseguia lembrar, finalmente perguntei sobre mim mesmo:
"Oh, ele teve sucesso suficiente — outro caso de maldito idiota. Se o tivessem enviado para St. Louis, ele teria tido sucesso mais cedo."
Foi com grande satisfação que reconheci a sabedoria de ter dito a este cavalheiro sincero, no início, que o meu nome era Smith.
CAPÍTULO 54
Passado e Presente
Deixado entregue a mim mesmo, lá em cima, continuei a escolher casas velhas na cidade distante, e a chamar de volta os seus antigos habitantes do passado bolorento. Entre eles, reconheci de imediato a casa do pai de Lem Hackett (nome fictício). Levou-me de volta mais de uma geração num instante, e colocou-me no meio de uma época em que os acontecimentos da vida não eram os resultados naturais e lógicos de grandes leis gerais, mas de ordens especiais, e estavam carregados de propósitos muito precisos e distintos — em parte punitivos na intenção, em parte admoestadores; e habitualmente locais na aplicação.
Quando eu era um rapaz pequeno, Lem Hackett afogou-se — num domingo. Ele caiu de um barco chato vazio, onde estava a brincar. Estando carregado de pecado, foi ao fundo como uma bigorna. Ele foi o único rapaz na aldeia que dormiu naquela noite. Nós, os outros, ficamos todos acordados, arrependidos. Não precisávamos da informação, dada do púlpito naquela noite, de que o caso de Lem era de um julgamento especial — já o sabíamos. Houve uma tempestade feroz, naquela noite, e ela enfureceu-se continuamente até perto do amanhecer. Os ventos sopravam, as janelas chocalhavam, a chuva varria o telhado em lençóis açoitantes e, nos mais breves intervalos, a escuridão negra da noite desaparecia, as casas do outro lado brilhavam brancas e ofuscantes por um instante trémulo, depois a escuridão sólida fechava-se novamente e seguia-se um trovão estridente, que parecia rasgar tudo na vizinhança em pedaços e estilhaços. Sentei-me na cama a tremer e a arrepiar-me, esperando a destruição do mundo, e à espera dela. Para mim, não havia nada de estranho ou incongruente no facto de o céu fazer tal barulho por causa de Lem Hackett. Aparentemente era a coisa certa e adequada a fazer. Nem uma dúvida entrou na minha mente de que todos os anjos estavam agrupados, a discutir o caso deste rapaz e a observar o terrível bombardeamento da nossa pequena e miserável aldeia com satisfação e aprovação. Havia uma coisa que me perturbava da maneira mais séria; era o pensamento de que esta concentração do interesse celestial na nossa aldeia não poderia deixar de atrair a atenção dos observadores para pessoas entre nós que, de outra forma, poderiam ter escapado à atenção durante anos. Senti que não era apenas uma dessas pessoas, mas a própria pessoa mais provável de ser descoberta. Essa descoberta não poderia ter outro resultado: eu estaria no fogo com Lem antes que o frio do rio tivesse sido devidamente aquecido fora dele. Sabia que isso seria apenas justo e correto. Eu estava a aumentar as probabilidades contra mim o tempo todo, sentindo uma amargura secreta contra Lem por ter atraído esta atenção fatal para mim, mas não podia evitá-lo — este pensamento pecaminoso persistia em infestar o meu peito apesar de mim mesmo. Cada vez que o relâmpago brilhava, eu prendia a respiração e julgava que estava perdido. No meu terror e miséria, comecei mesquinhamente a sugerir outros rapazes, e a mencionar atos deles que eram mais perversos do que os meus, e que precisavam particularmente de punição — e tentei fingir para mim mesmo que estava apenas a fazer isto de uma forma casual, e sem intenção de desviar a atenção celestial para eles com o propósito de me livrar dela eu mesmo. Com profunda sagacidade, coloquei estas menções sob a forma de recordações pesarosas e súplicas falsas de mão esquerda para que os pecados daqueles rapazes pudessem ser deixados passar despercebidos — "Possivelmente eles podem arrepender-se". "É verdade que Jim Smith partiu uma janela e mentiu sobre isso — mas talvez ele não quisesse fazer mal nenhum. E embora Tom Holmes diga mais palavras más do que qualquer outro rapaz na aldeia, ele provavelmente pretende arrepender-se — embora nunca tenha dito que o faria. E embora seja um facto que John Jones pescou um pouco ao domingo, uma vez, ele não apanhou realmente nada, apenas um pequeno peixe-gato inútil; e talvez isso não tivesse sido tão terrível se ele o tivesse atirado de volta — como ele diz que fez, mas não fez. Pena que eles não se arrependessem destas coisas terríveis — e talvez ainda o façam."
Mas enquanto eu tentava vergonhosamente chamar a atenção para estes pobres rapazes — que estavam sem dúvida a dirigir a atenção celestial para mim ao mesmo tempo, embora eu nunca tivesse suspeitado disso — tinha deixado descuidadamente a minha vela acesa. Não era altura para negligenciar precauções, mesmo as mais triviais. Não havia ocasião para adicionar nada às facilidades para atrair a atenção para mim — por isso apaguei a luz.
Foi uma longa noite para mim, e talvez a mais angustiante que alguma vez passei. Sofri agonias de remorso por pecados que sabia ter cometido, e por outros sobre os quais não tinha certeza, mas tinha a certeza de que tinham sido registados contra mim num livro por um anjo que era mais sábio do que eu e não confiava tais assuntos importantes à memória. Ocorreu-me, a dada altura, que eu tinha cometido um erro mais tolo e calamitoso, num aspeto: sem dúvida que não só tinha tornado a minha própria destruição certa ao dirigir a atenção para aqueles outros rapazes, como já tinha realizado a deles! — Sem dúvida que o relâmpago os tinha estendido a todos mortos nas suas camas a esta hora! A angústia e o susto que este pensamento me deu fizeram os meus sofrimentos anteriores parecerem triviais em comparação.
As coisas tinham-se tornado verdadeiramente graves. Resolvi virar uma nova página instantaneamente; também resolvi ligar-me à igreja no dia seguinte, se sobrevivesse para ver o seu sol aparecer. Resolvi deixar de pecar em todas as suas formas e levar uma vida elevada e irrepreensível para todo o sempre. Seria pontual na igreja e na escola dominical; visitaria os doentes; levaria cestos de víveres aos pobres (simplesmente para cumprir as condições regulamentares, embora soubesse que não tínhamos entre nós ninguém tão pobre que não me partisse o cesto na cabeça pelo trabalho); instruiria outros rapazes nos caminhos certos e aceitaria as sovas resultantes com humildade; subsistiria inteiramente de folhetos; invadiria a taberna e avisaria o bêbado — e, finalmente, se escapasse ao destino daqueles que cedo se tornam demasiado bons para viver, tornar-me-ia missionário.
A tempestade acalmou ao romper do dia e adormeci gradualmente com um sentido de obrigação para com Lem Hackett por ter partido para o sofrimento eterno daquela forma abrupta, evitando assim um desastre muito mais terrível: a minha própria perda.
Mas quando me levantei revigorado, pouco depois, e descobri que os outros rapazes ainda estavam vivos, tive a vaga noção de que talvez tudo aquilo não passasse de um falso alarme; que toda a agitação tinha sido por causa do Lem e de mais ninguém. O mundo parecia tão brilhante e seguro que não parecia haver qualquer motivo real para virar uma nova página. Fiquei um pouco contido durante esse dia, e talvez no seguinte; depois disso, o meu propósito de me reformar saiu lentamente da minha mente e voltei a ter um tempo pacífico e confortável, até à tempestade seguinte.
Essa tempestade veio cerca de três semanas depois; e foi a mais inexplicável, para mim, que alguma vez experimentara; pois, na tarde desse dia, o "Dutchy" afogou-se. O Dutchy pertencia à nossa escola dominical. Era um rapaz alemão que não sabia o suficiente para se abrigar da chuva; mas era irritantemente bom e tinha uma memória prodigiosa. Certo domingo, tornou-se a inveja de toda a juventude e o assunto de toda a aldeia admirada ao recitar três mil versículos das Escrituras sem falhar uma palavra; depois, partiu logo no dia seguinte e afogou-se.
As circunstâncias deram à sua morte uma impressividade peculiar. Estávamos todos a banhar-nos num riacho lamacento que tinha um buraco fundo, e nesse buraco os tanoeiros tinham afundado uma pilha de varas de nogueira verde para demolhar, a uns três metros e meio debaixo de água. Estávamos a mergulhar e a "ver quem conseguia ficar mais tempo debaixo de água". Conseguíamos permanecer lá em baixo segurando-nos nas varas. O Dutchy teve tão pouco sucesso que era saudado com risos e escárnio sempre que a sua cabeça aparecia acima da água. Por fim, pareceu magoado com os insultos e pediu-nos que ficássemos parados na margem, fôssemos justos com ele e fizéssemos uma contagem honesta — "que fôssemos amigáveis e gentis apenas desta vez, e não contássemos mal apenas pelo prazer de nos rirmos dele". Trocaram-se piscadelas traiçoeiras e todos disseram: "Está bem, Dutchy — força, vamos jogar limpo."
O Dutchy mergulhou, mas os rapazes, em vez de começarem a contar, seguiram o exemplo de um deles e correram para um matagal de amoras ali perto, escondendo-se atrás dele. Imaginavam a humilhação do Dutchy, quando este emergisse após um esforço sobre-humano e encontrasse o local silencioso e vazio, sem ninguém para aplaudir. Estavam "tão cheios de riso" com a ideia que rebentavam continuamente em cacarejos abafados. O tempo passou e, pouco depois, um deles, que espreitava através dos espinhos, disse, com surpresa:
"Olha, ele ainda não subiu!"
O riso parou.
"Rapazes, é um mergulho esplêndido", disse um.
"Não te preocupes com isso", disse outro, "a piada sobre ele é ainda melhor por causa disso."
Houve mais um ou dois comentários, e depois uma pausa. A conversa cessou e todos começaram a espreitar através das videiras. Pouco tempo depois, os rostos dos rapazes começaram a parecer inquietos, depois ansiosos, depois aterrorizados. Ainda assim, não havia qualquer movimento na água plácida. Os corações começaram a bater depressa e os rostos a empalidecer. Deslizámos todos para fora, silenciosamente, e ficámo-nos na margem, com os nossos olhos horrorizados a vaguear de um rosto para o outro e para a água.
"Alguém tem de ir lá abaixo ver!"
Sim, isso era claro; mas ninguém queria aquela tarefa macabra.
"Tirem a sorte!"
E assim o fizemos, com mãos que tremiam tanto que mal sabíamos o que estávamos a fazer. A sorte caiu-me a mim e fui lá abaixo. A água estava tão lamacenta que não conseguia ver nada, mas apalpei por entre as varas e, pouco depois, agarrei um pulso flácido que não me deu qualquer resposta — e, se tivesse dado, eu não teria percebido, pois larguei-o com uma subita surpresa assustada.
O rapaz tinha ficado preso entre as varas e emaranhado nelas, impotente. Fugi para a superfície e contei a terrível notícia. Alguns de nós sabiam que se o rapaz fosse puxado para fora imediatamente poderia possivelmente ser reanimado, mas nunca pensámos nisso. Não pensámos em nada; não sabíamos o que fazer, por isso não fizemos nada — exceto os rapazes mais novos, que choravam penosamente, e todos nós lutámos freneticamente para vestir a roupa, vestindo a de quem estivesse à mão, e colocando-a geralmente do avesso ou de trás para a frente. Depois corremos para dar o alerta, mas nenhum de nós voltou para ver o fim da tragédia. Tínhamos algo mais importante com que nos ocupar: voámos todos para casa e não perdemos um momento a prepararmo-nos para levar uma vida melhor.
A noite caiu pouco depois. Então veio aquela tempestade tremenda e absolutamente inexplicável. Eu estava perfeitamente atordoado; não conseguia compreendê-la. Parecia-me que devia haver algum erro. Os elementos soltaram-se e chocalharam, estrondearam e brilharam da maneira mais cega e frenética. Todo o coração e esperança saíram de mim, e o pensamento lúgubre continuava a flutuar no meu cérebro: "Se um rapaz que sabe três mil versículos de cor não é satisfatório, que hipótese tem alguém?"
Claro que nunca questionei por um momento que a tempestade fosse por causa do Dutchy, ou que ele ou qualquer outro animal inconsequente fosse digno de tal demonstração majestosa vinda do alto; a lição disso era a única coisa que me perturbava; pois convenceu-me de que, se o Dutchy, com todas as suas perfeições, não era um deleite, seria vão eu tentar virar uma nova página, pois eu falharia infalivelmente de forma desesperada em relação àquele rapaz, não importava o quanto tentasse. No entanto, virei-a — um medo altamente educado obrigou-me a fazê-lo —, mas os dias seguintes de alegria e sol vieram incomodar-me e, no prazo de um mês, tinha recuado tanto que estava novamente tão perdido e confortável como sempre.
A hora do pequeno-almoço aproximou-se enquanto eu meditava nestas reflexões e trazia estes acontecimentos antigos à memória; por isso, voltei ao presente e desci a colina.
No meu caminho pela cidade até ao hotel, vi a casa que foi o meu lar quando era rapaz. Às taxas atuais, as pessoas que a ocupam agora não têm mais valor do que eu; mas no meu tempo, não teriam valido menos de quinhentos dólares cada uma. São pessoas de cor.
Depois do pequeno-almoço, saí novamente sozinho, com a intenção de procurar algumas das escolas dominicais e ver como esta geração de alunos se comparava com os seus progenitores que se tinham sentado comigo naqueles lugares e que provavelmente me tinham tomado como modelo — embora não me lembre disso agora. Perto da praça pública, existia no meu tempo uma pequena igreja de tijolo, decadente, chamada a "Velha Nau de Sião", que eu frequentara como aluno da escola dominical; e encontrei o local facilmente, mas não a velha igreja; tinha desaparecido e um edifício novo, elegante e bastante hilariante, estava no seu lugar. Os alunos estavam mais bem vestidos e com melhor aspeto do que os do meu tempo; consequentemente, não se pareciam com os seus antepassados; e, consequentemente, não havia nada de familiar para mim nos seus rostos. Ainda assim, contemplei-os com um interesse profundo e um desejo nostálgico, e se eu fosse uma rapariga teria chorado; pois eram a descendência, representavam e ocupavam os lugares de rapazes e raparigas que eu tinha adorado amar e outros que tinha adorado odiar, mas todos eles queridos para mim por um motivo ou por outro, há tantos anos — e, Senhor, onde estarão eles agora!
Fiquei imensamente comovido e teria ficado grato se me tivessem permitido permanecer sem ser incomodado e olhar até me fartar; mas um superintendente de crânio calvo, que fora um companheiro de escola dominical de cabelos claros naqueles tempos antigos, reconheceu-me, e eu disse uma enxurrada de disparates selvagens àquelas crianças para esconder os pensamentos que estavam em mim e que não poderiam ter sido ditos sem uma traição de sentimentos que teria sido reconhecida como fora de caráter para mim.
Fazer discursos sem preparação não é um dom meu; e eu estava resolvido a evitar qualquer nova oportunidade, mas na escola dominical seguinte, maior, encontrei-me na retaguarda da assembleia; por isso, estava muito disposto a subir ao palco por um momento para conseguir ver bem os alunos. No calor do momento, não consegui recordar nenhum dos velhos discursos idiotas com que os visitantes costumavam insultar-me quando eu era aluno lá; e lamentei isto, uma vez que me teria dado tempo e desculpa para vaguear por ali e dar uma vista de olhos longa e satisfatória ao que me sinto à vontade para dizer ser uma disposição de frescura juvenil não igualável noutra escola dominical do mesmo tamanho. Como falei apenas para ter a oportunidade de inspecionar, e como alinhei o lixo aleatório apenas para prolongar a inspeção, julguei decente confessar estes motivos baixos, e assim o fiz.
Se o Rapaz Modelo estava em alguma destas escolas dominicais, não o vi. O Rapaz Modelo do meu tempo — nunca tivemos mais do que um — era perfeito: perfeito nas maneiras, perfeito no vestir, perfeito na conduta, perfeito na piedade filial, perfeito na piedade exterior; mas, no fundo, era um presunçoso; e quanto ao conteúdo do seu crânio, poderiam ter trocado de lugar com o conteúdo de uma empada e ninguém teria ficado pior com isso, exceto a empada. A irrepreensibilidade deste tipo era uma censura constante a cada rapaz da aldeia. Ele era a admiração de todas as mães e a detestação de todos os seus filhos. Disseram-me o que aconteceu com ele, mas como foi uma desilusão para mim, não entrarei em detalhes. Ele teve sucesso na vida.
CAPÍTULO 55
Uma Vendeta e Outras Coisas
DURANTE a minha estadia de três dias na cidade, acordava todas as manhãs com a impressão de que era um rapaz — pois, nos meus sonhos, os rostos eram todos jovens de novo e pareciam como tinham parecido nos velhos tempos —, mas ia para a cama com cem anos de idade, todas as noites — pois, entretanto, tinha estado a ver aqueles rostos como são agora.
Claro que sofri algumas surpresas, logo no início, antes de me ter ajustado ao estado mudado das coisas. Conheci jovens que não pareciam ter mudado nada; mas revelaram ser as filhas das jovens que eu tinha em mente — por vezes as suas netas. Quando lhe dizem que uma estranha de cinquenta anos é avó, não há nada de surpreendente nisso; mas se, pelo contrário, ela é uma pessoa que conheceu quando era uma menina pequena, parece impossível. Diz a si próprio: "Como pode uma menina ser avó?" É preciso algum tempo para aceitar e compreender o facto de que, enquanto você tem envelhecido, os seus amigos não têm estado parados, nesse aspeto.
Notei que as maiores mudanças observáveis eram nas mulheres, não nos homens. Vi homens que trinta anos tinham mudado apenas ligeiramente; mas as suas esposas tinham envelhecido. Eram boas mulheres; é muito desgastante ser bom.
Havia um seleiro que eu desejava ver; mas ele tinha partido. Morto, há muitos anos, disseram eles. Uma ou duas vezes por dia, o seleiro costumava correr pela rua abaixo, vestindo o casaco enquanto ia; e então todos sabiam que um barco a vapor estava a chegar. Todos sabiam, também, que John Stavely não estava à espera de ninguém pelo barco — nem de carga, também; e Stavely devia saber que todos sabiam disto, mas não fazia qualquer diferença para ele; ele gostava de parecer a si próprio estar à espera de cem mil toneladas de selins por este barco, e assim continuou toda a sua vida, a desfrutar de estar fielmente presente para receber e passar recibo desses selins, caso, por milagre, eles viessem. Um jornal malicioso de Quincy costumava referir-se sempre a esta cidade, com escárnio, como "o Cais do Stavely". Stavely era uma das minhas primeiras admirações; invejava-lhe a pressa de negócios imaginários e a exibição que conseguia fazer disso, perante estranhos, enquanto voava pela rua abaixo a lutar com o seu casaco agitado.
Mas havia um carpinteiro que era o meu principal herói. Ele era um grande mentiroso, mas eu não sabia disso; acreditava em tudo o que ele dizia. Era um impostor romântico, sentimental e melodramático, e o seu comportamento impressionava-me com temor. Lembro-me vividamente da primeira vez que ele me confiou a sua confiança. Estava a aplainar uma tábua e, de vez em quando, parava e soltava um suspiro profundo; e ocasionalmente murmurava frases partidas — confusas e ininteligíveis — mas, no meio delas, escapava-se por vezes uma exclamação que me fazia estremecer e me fazia bem: uma era, "Ó Deus, é o sangue dele!" Eu sentava-me no baú das ferramentas e admirava-o humilde e tremulamente; pois julgava que ele estava cheio de crimes. Por fim, disse em voz baixa:
"Meu pequeno amigo, sabes guardar um segredo?"
Disse avidamente que sim.
"Um segredo sombrio e terrível?"
Satisfiz-o nesse ponto.
"Então vou contar-te algumas passagens da minha história; pois, oh, eu tenho de aliviar a minha alma carregada, ou morrerei!"
Ele advertiu-me mais uma vez para ser "tão silencioso como a sepultura"; depois contou-me que era um "assassino de mãos vermelhas". Pousou o seu plaino, estendeu as mãos à sua frente, contemplou-as tristemente e disse:
"Olha — com estas mãos tirei a vida a trinta seres humanos!"
O efeito que isto teve em mim foi uma inspiração para ele, e ele lançou-se ao seu assunto com interesse e energia. Deixou de generalizar e entrou em detalhes — começou pelo seu primeiro homicídio; descreveu-o, contou que medidas tinha tomado para evitar suspeitas; depois passou ao seu segundo homicídio, ao terceiro, ao quarto, e assim por diante. Tinha cometido sempre os seus assassínios com uma faca bowie, e fez-me arrepiar todos os cabelos ao retirá-la subitamente e mostrar-ma.
No final desta primeira sessão, fui para casa com seis dos seus segredos terríveis na minha bagagem, e descobri que foram uma grande ajuda para os meus sonhos, que tinham estado lentos ultimamente. Procurei-o repetidamente, nos meus feriados de sábado; na verdade, passei o verão com ele — tudo o que foi valioso para mim. Os seus encantos nunca diminuíram, pois ele lançava algo novo e emocionante, em termos de horror, em cada homicídio sucessivo. Dava sempre nomes, datas, locais — tudo. Isto, pouco depois, permitiu-me notar duas coisas: que ele tinha morto as suas vítimas em todos os cantos do globo, e que essas vítimas se chamavam sempre Lynch. A destruição dos Lynches prosseguiu serenamente, sábado após sábado, até que os trinta originais se tinham multiplicado para sessenta — e ainda havia mais por vir; então a minha curiosidade venceu a minha timidez e perguntei como acontecia que estas pessoas justamente punidas tivessem todas o mesmo nome.
O meu herói disse que nunca tinha revelado esse segredo sombrio a nenhum ser vivo; mas sentia que podia confiar em mim e, portanto, exporia diante de mim a história da sua vida triste e arruinada. Ele tinha amado uma "demasiado bela para a terra", e ela tinha correspondido "com todo o doce afeto da sua natureza pura e nobre". Mas ele tinha um rival, um "vil mercenário" chamado Archibald Lynch, que disse que a rapariga seria dele, ou "tingiria as suas mãos no sangue mais puro do coração dela". O carpinteiro, "inocente e feliz no sonho jovem do amor", não deu peso à ameaça, mas levou a sua "querida de cabelos dourados ao altar" e lá, os dois tornaram-se um; lá também, exatamente quando as mãos do ministro foram estendidas em bênção sobre as suas cabeças, o ato cruel foi cometido — com uma faca — e a noiva caiu cadáver aos pés do seu marido. E o que fez o marido? Arrancou essa faca e, ajoelhado junto ao corpo da sua amada perdida, jurou "consagrar a sua vida ao extermínio de toda a escória humana que carregasse o odiado nome de Lynch".
Era isso. Tinha estado a caçar os Lynches e a massacrá-los, desde aquele dia até hoje — vinte anos. Tinha usado sempre a mesma faca consagrada; com ela tinha assassinado a sua longa série de Lynches, e com ela tinha deixado na testa de cada vítima uma marca peculiar — uma cruz, profundamente incisa. Disse ele:
"A cruz do Vingador Misterioso é conhecida na Europa, na América, na China, no Sião, nos Trópicos, nos Mares Polares, nos desertos da Ásia, em toda a terra. Onde quer que, nas partes mais remotas do globo, um Lynch tenha penetrado, aí foi vista a Cruz Misteriosa, e aqueles que a viram estremeceram e disseram: 'É a marca dele, ele esteve aqui.' Ouviste falar do Vingador Misterioso — olha para ele, pois diante de ti não está menos do que essa pessoa! Mas cuidado — não respires uma palavra a nenhuma alma. Fica em silêncio e espera. Nalguma manhã, esta cidade acorrerá horrorizada para ver um cadáver sangrento; na sua testa ver-se-á o sinal terrível, e os homens tremerão e sussurrarão: 'Ele esteve aqui — é a marca do Vingador Misterioso!' Tu virás aqui, mas eu terei desaparecido; não me verás mais."
Este asno tinha estado a ler o 'Jibbenainosay', sem dúvida, e tinha tido a sua pobre cabeça romântica voltada por ele; mas como eu ainda não tinha visto o livro na altura, tomei as suas invenções como verdade e não suspeitei que ele fosse um plagiador.
No entanto, tínhamos um Lynch a viver na cidade; e quanto mais refletia sobre a sua desgraça iminente, mais não conseguia dormir. Parecia ser o meu dever claro salvá-lo, e um dever ainda mais claro e importante conseguir dormir um pouco, por isso, por fim, aventurei-me a ir ter com o Sr. Lynch e contar-lhe o que estava prestes a acontecer-lhe — sob estrito segredo. Aconselhei-o a "fugir" e esperava certamente que ele o fizesse. Mas ele riu-se de mim; e não parou por aí; levou-me até à oficina do carpinteiro, deu ao carpinteiro uma lição zombeteira e desdenhosa sobre as suas pretensões tolas, deu-lhe uma bofetada, obrigou-o a pôr-se de joelhos e a implorar — depois foi-se embora e deixou-me a contemplar a ruína barata e lamentável do que, aos meus olhos, tinha sido tão recentemente um herói majestoso e incomparável.
O carpinteiro fanfarroneou, brandiu a sua faca e condenou este Lynch no seu estilo vulcânico habitual, sem que o tamanho das suas palavras fatais diminuísse; mas foi tudo em vão para mim; ele já não era um herói, mas apenas um impostor pobre, tolo e exposto. Tive vergonha dele e de mim mesmo; não voltei a interessar-me por ele e nunca mais fui à sua oficina. Ele foi uma perda pesada para mim, pois era o maior herói que eu tinha conhecido. O indivíduo devia ter algum talento; pois alguns dos seus homicídios imaginários eram tão vividamente e dramaticamente descritos que ainda me lembro de todos os seus detalhes.
O povo de Hannibal não mudou mais do que a própria cidade. Já não é uma aldeia; é uma cidade, com presidente de câmara, conselho, sistema de abastecimento de água e, provavelmente, dívidas. Tem quinze mil habitantes, é um lugar próspero e enérgico, e está pavimentado como o resto do oeste e do sul — onde uma rua bem pavimentada e um bom passeio são coisas tão raramente vistas que se duvida delas quando se vêem. A habitual meia dúzia de linhas ferroviárias converge agora em Hannibal, e há uma nova estação que custou cem mil dólares. No meu tempo, a cidade não tinha especialidade, nem grandeza comercial; o paquete diário costumava desembarcar um passageiro e comprar um peixe-gato, e levava outro passageiro e uma mão-cheia de carga; mas agora surgiu um enorme comércio de madeira e um vasto comércio variado é um dos resultados. Uma grande quantidade de dinheiro muda de mãos ali agora.
Bear Creek — assim chamado, talvez, porque sempre foi particularmente desprovido de ursos — está escondido agora, sob ilhas e continentes de madeira empilhada, e ninguém, a não ser um especialista, o consegue encontrar. Eu costumava afogar-me nele todos os verões, regularmente, e ser drenado, insuflado e posto a funcionar novamente por algum inimigo ocasional; mas já não há espaço suficiente nele para afogar uma pessoa. Era um famoso criador de arrepios e febres no seu tempo. Lembro-me de um verão em que toda a gente na cidade teve esta doença ao mesmo tempo. Muitas chaminés foram derrubadas e todas as casas ficaram tão abaladas que a cidade teve de ser reconstruída. O abismo ou garganta entre o Lover's Leap e a colina a oeste é suposto, pelos cientistas, ter sido causado pela ação glacial. Isto é um erro.
Existe uma gruta interessante a uma ou duas milhas abaixo de Hannibal, entre as falésias. Teria gostado de a revisitar, mas não tive tempo. No meu tempo, a pessoa que a possuía transformou-a num mausoléu para a sua filha, de catorze anos. O corpo desta pobre criança foi colocado num cilindro de cobre cheio de álcool, e este foi suspenso numa das avenidas lúgubres da gruta. A parte superior do cilindro era removível; e dizia-se ser uma coisa comum, entre a ordem mais baixa de turistas, arrastar o rosto morto para a vista, examiná-lo e comentá-lo.
CAPÍTULO 56
Uma Questão de Direito
O matadouro desapareceu da foz de Bear Creek e o mesmo aconteceu com a pequena prisão (ou "calaboose") que outrora existiu nas suas imediações. Um cidadão perguntou: "Lembras-te de quando Jimmy Finn, o bêbado da cidade, foi queimado até à morte na calaboose?"
Observem, agora, como a história se contamina, com o passar do tempo e a ajuda das más memórias dos homens. Jimmy Finn não foi queimado na calaboose, mas morreu de morte natural num tanque de curtimento, de uma combinação de delirium tremens e combustão espontânea. Quando digo morte natural, quero dizer que foi uma morte natural para Jimmy Finn morrer. A vítima da calaboose não era um cidadão; era um pobre estranho, um vagabundo inofensivo e embebido em uísque. Sei mais sobre o seu caso do que qualquer outra pessoa; sabia demasiado sobre ele, naquele tempo passado, para gostar de falar disso. Aquele vagabundo andava a vaguear pelas ruas numa noite fria, com um cachimbo na boca, a pedir um fósforo; não obteve nem fósforos nem cortesia; pelo contrário, um grupo de rapazes maus seguiu-o e divertiu-se a importuná-lo e a irritá-lo. Eu ajudei; mas, finalmente, um apelo que o viandante fez por clemência, acompanhando-o com uma referência patética à sua condição desolada e sem amigos, tocou o sentido de vergonha e o resto de bom sentimento que restavam em mim, e eu fui buscar-lhe alguns fósforos, e depois apressei-me para casa e para a cama, pesadamente carregado na consciência e sem ânimo. Uma ou duas horas depois, o homem foi preso e trancado na calaboose pelo marechal — um grande nome para um agente da autoridade, mas esse era o seu título. Às duas da manhã, os sinos da igreja tocaram a fogo, e toda a gente saiu, claro — eu com o resto. O vagabundo tinha usado os seus fósforos de forma desastrosa: tinha pegado fogo à sua cama de palha, e o revestimento de carvalho da sala tinha pegado fogo. Quando cheguei ao local, duzentos homens, mulheres e crianças estavam amontoados, petrificados de horror, a olhar para as janelas gradeadas da prisão. Atrás das grades de ferro, puxando-as freneticamente e gritando por ajuda, estava o vagabundo; parecia um objeto negro contra um sol, tão branca e intensa era a luz nas suas costas. Aquele marechal não pôde ser encontrado, e ele tinha a única chave. Um aríete foi rapidamente improvisado, e o trovão dos seus golpes na porta tinha um som tão encorajador que os espectadores começaram a aplaudir desvairadamente, acreditando que a batalha misericordiosa tinha sido ganha. Mas não foi assim. As madeiras eram demasiado fortes; não cederam. Dizia-se que o aperto mortal do homem ainda se mantinha nas barras depois de ele estar morto; e que, nesta posição, as chamas envolveram-no e consumiram-no. Quanto a isto, não sei. O que foi visto depois de eu reconhecer o rosto que suplicava através das barras foi visto por outros, não por mim.
Vi aquele rosto, naquela situação, todas as noites durante muito tempo depois; e acreditei ser tão culpado da morte do homem como se lhe tivesse dado os fósforos propositadamente para que ele pudesse queimar-se com eles. Não tive dúvidas de que seria enforcado se a minha ligação a esta tragédia fosse descoberta. Os acontecimentos e as impressões daquela época estão gravados na minha memória, e o estudo deles diverte-me tanto agora como eles próprios me angustiaram então. Se alguém falava daquela matéria macabra, eu ficava todo ouvidos num instante, e alerta para ouvir o que pudesse ser dito, pois estava sempre receoso e à espera de descobrir que era suspeito; e tão fina e delicada era a perceção da minha consciência culpada que detetava frequentemente suspeitas nas observações mais sem propósito, e em olhares, gestos, relances de olhos que não tinham significado, mas que me faziam fugir a tremer num pânico de medo, da mesma forma. E como me deixava doente quando alguém soltava, por mais descuidadamente e sem intenção, a observação de que "o crime acaba sempre por se descobrir!" Para um rapaz de dez anos, eu estava a carregar uma carga bastante pesada.
Durante todo este tempo, eu estava abençoadamente a esquecer uma coisa — o facto de ser um falador inveterado durante o sono. Mas uma noite acordei e encontrei o meu companheiro de quarto — o meu irmão mais novo — sentado na cama e a contemplar-me à luz da lua. Eu disse:
"O que se passa?"
"Tu falas tanto que não consigo dormir."
Assumi uma posição sentada num instante, com os rins na garganta e o cabelo em pé.
"O que é que eu disse? Rápido — solta-o — o que é que eu disse?"
"Nada de especial."
"É mentira — tu sabes tudo."
"Tudo sobre o quê?"
"Tu sabes bem. Sobre aquilo."
"Sobre o quê? — Não sei do que estás a falar. Acho que estás doente ou louco ou algo assim. Mas, de qualquer forma, estás acordado, e eu vou dormir enquanto tenho oportunidade."
Ele adormeceu e eu fiquei ali num suor frio, a revolver este novo terror no caos rodopiante que servia de minha mente. O peso do meu pensamento era: Quanto é que eu divulguei? Quanto é que ele sabe? — que angústia é esta incerteza! Mas, pouco depois, desenvolvi uma ideia — acordaria o meu irmão e sondá-lo-ia com um caso supositivo. Abanei-o e disse:
"Supõe que um homem vinha ter contigo bêbado..."
"Isto é estúpido — eu nunca fico bêbado."
"Não estou a falar de ti, idiota — estou a falar do homem. Supõe que um homem vinha ter contigo bêbado, e pedia emprestada uma faca, ou um machado, ou uma pistola, e tu esquecias-te de lhe dizer que estava carregada, e..."
"Como podias carregar um machado?"
"Não me refiro ao machado, e não disse o machado; disse a pistola. Agora não fiques a interromper dessa maneira, porque isto é sério. Houve um homem morto."
"O quê! nesta cidade?"
"Sim, nesta cidade."
"Bem, continua — não direi uma única palavra."
"Bem, então, supõe que te esquecias de lhe dizer para ter cuidado com ela, porque estava carregada, e ele foi-se embora e disparou sobre si próprio com essa pistola — a brincar com ela, sabes, e provavelmente a fazê-lo por acidente, estando bêbado. Bem, seria homicídio?"
"Não — suicídio."
"Não, não. Não me refiro ao ato dele, refiro-me ao teu: serias um homicida por o teres deixado ter essa pistola?"
Após uma profunda reflexão veio esta resposta:
"Bem, eu acho que seria culpado de alguma coisa — talvez homicídio — sim, provavelmente homicídio, mas não sei bem."
Isto deixou-me muito desconfortável. No entanto, não foi um veredito decisivo. Teria de expor o caso real — parecia não haver outra maneira. Mas fá-lo-ia cautelosamente, e estaria atento a efeitos suspeitos. Eu disse:
"Eu estava a supor um caso, mas estou a chegar ao real agora. Sabes como é que o homem foi queimado na calaboose?"
"Não."
"Não tens a menor ideia?"
"Nem a menor."
"Juras que não tens?"
"Sim, juro."
"Bem, a forma como foi é esta. O homem queria alguns fósforos para acender o cachimbo. Um rapaz arranjou-lhos. O homem pegou fogo à calaboose com esses mesmos fósforos, e queimou-se."
"É verdade?"
"Sim, é. Agora, esse rapaz é um homicida, achas?"
"Deixa-me ver. O homem estava bêbado?"
"Sim, estava bêbado."
"Muito bêbado?"
"Sim."
"E o rapaz sabia?"
"Sim, ele sabia."
Houve uma longa pausa. Depois veio este pesado veredito:
"Se o homem estava bêbado, e o rapaz sabia, o rapaz assassinou esse homem. Isto é certo."
Sensações fracas e nauseantes rastejaram ao longo de todas as fibras do meu corpo, e pareceu-me saber como se sente uma pessoa que ouve a sua sentença de morte pronunciada pelo tribunal. Esperei para ouvir o que o meu irmão diria a seguir. Acreditava saber o que seria, e tinha razão. Ele disse:
"Eu conheço o rapaz."
Eu não tinha nada a dizer; por isso não disse nada. Simplesmente estremeci. Depois acrescentou:
"Sim, antes de teres acabado de contar a coisa, sabia perfeitamente quem era o rapaz; era o Ben Coontz!"
Saí do meu colapso como alguém que ressuscita dos mortos. Disse, com admiração:
"Ora, como é que tu adivinhaste?"
"Tu disseste-o enquanto dormias."
Disse para comigo: "Como isso é esplêndido! Este é um hábito que deve ser cultivado."
O meu irmão continuou inocentemente:
"Quando estavas a falar a dormir, continuavas a murmurar algo sobre 'fósforos', que eu não conseguia perceber; mas agora, quando começaste a contar-me sobre o homem e a calaboose e os fósforos, lembrei-me de que, enquanto dormias, mencionaste o Ben Coontz duas ou três vezes; por isso juntei uma coisa à outra, vês, e logo soube que foi o Ben que queimou aquele homem."
Elogiei a sua sagacidade efusivamente. Pouco depois, ele perguntou:
"Vais entregá-lo à lei?"
"Não," disse eu; "acredito que isto será uma lição para ele. Vou ficar de olho nele, claro, pois isso é o correto; mas se ele parar onde está e se reformar, nunca se dirá que o traí."
"Como és bom!"
"Bem, tento ser. É tudo o que uma pessoa pode fazer num mundo como este."
E agora, com o meu fardo transferido para outros ombros, os meus terrores desapareceram rapidamente.
No dia antes de deixarmos Hannibal, uma coisa curiosa chamou a minha atenção — a surpreendente dispersão que o tempo longitudinal sofre ali. Aprendi isso com um dos mais despretensiosos dos homens — o cocheiro de cor de um amigo meu, que vive a três milhas da cidade. Ele deveria passar por mim no Park Hotel às 19h30 e levar-me. Mas falhou consideravelmente — não chegou até às dez. Desculpou-se dizendo:
"O tempo é quase uma hora e meia mais atrasado no campo do que o que é na cidade; o senhor chegará com tempo de sobra. Às vezes saímos cedo para a igreja, ao domingo, e chegamos lá mesmo no meio do sermão. Diferença de tempo. Um corpo não pode fazer cálculos sobre isso."
Eu tinha perdido duas horas e meia; mas tinha aprendido um facto que valia quatro.
CAPÍTULO 57
Um Arcanjo
De St. Louis para norte, há todos os sinais animadores da presença de populações ativas, enérgicas, inteligentes, prósperas e práticas do século XIX. As pessoas não sonham, trabalham. O resultado feliz é manifesto em toda a parte no aspeto exterior substancial das coisas, e nas sugestões de vida saudável e conforto que aparecem por todo o lado.
Quincy é um exemplo notável — uma cidade viva, bonita e bem organizada; e agora, como antigamente, interessada na arte, letras e outras coisas elevadas.
Mas Marion City é uma exceção. Marion City regrediu de uma forma inexplicável. Esta metrópole prometia tanto que os projetistas acrescentaram "cidade" ao seu nome logo no início, com total confiança; mas foi uma má profecia. Quando vi Marion City pela primeira vez, há trinta e cinco anos, continha uma rua e quase ou exatamente seis casas. Contém apenas uma casa agora, e esta, em estado de ruína, prepara-se para seguir as cinco anteriores para o rio. Sem dúvida, Marion City estava demasiado perto de Quincy. Tinha outra desvantagem: estava situada num fundo de lama plano, abaixo do nível da maré alta, enquanto Quincy se situa no alto da encosta de uma colina.
No início, Quincy tinha o aspeto e os costumes de uma cidade modelo da Nova Inglaterra: e ainda os tem: ruas largas e limpas, habitações e relvados arrumados e cuidados, mansões finas, quarteirões imponentes de edifícios comerciais. E há amplos recintos de feiras, um parque bem cuidado e muitos passeios atrativos; biblioteca, salas de leitura, um par de faculdades, algumas igrejas bonitas e dispendiosas, e um grande tribunal, com terrenos que ocupam uma praça. A população da cidade é de trinta mil habitantes. Há algumas grandes fábricas aqui, e o fabrico, de muitos tipos, é feito em grande escala.
La Grange e Canton são cidades em crescimento, mas perdi Alexandria; disseram-me que estava debaixo de água, mas que viria à superfície para respirar no verão.
Keokuk era facilmente reconhecível. Vivi lá em 1857 — um ano extraordinário lá em assuntos imobiliários. O "boom" foi algo maravilhoso. Toda a gente comprava, toda a gente vendia — exceto viúvas e pregadores; eles mantêm-se sempre; e quando a maré baixa, ficam para trás. Qualquer coisa com a aparência de um lote de terreno, não importava onde estivesse situado, era vendável, e a um preço que ainda teria sido alto se o solo tivesse sido relvado com notas de dólar.
A cidade tem agora uma população de quinze mil habitantes e está a progredir com um crescimento saudável. Era noite, e não pudemos ver os detalhes, o que lamentámos, pois Keokuk tem a reputação de ser uma cidade bonita. Era uma cidade agradável de se viver há muito tempo, e sem dúvida que avançou, não regrediu, nesse aspeto.
Uma obra poderosa que estava em curso lá no meu tempo está agora terminada. Trata-se do canal sobre os Rápidos. Tem oito milhas de comprimento, trezentos pés de largura, e não tem em nenhum ponto menos de seis pés de profundidade. A sua alvenaria é do género majestoso com que o Departamento de Guerra lida habitualmente, e durará como um aqueduto romano. A obra custou quatro ou cinco milhões.
Depois de uma ou duas horas passadas com antigos amigos, partimos rio acima novamente. Keokuk, há muito tempo, era um local de vadiagem ocasional daquele génio errático, Henry Clay Dean. Creio que nunca o vi senão uma vez; mas falava-se muito dele quando lá vivi. Eis o que se dizia dele:
Começou a vida pobre e sem educação. Mas educou-se sozinho — nos passeios de Keokuk. Sentava-se num passeio com o seu livro, descuidado ou inconsciente do barulho do comércio e do passo das multidões que passavam, e enterrava-se nos seus estudos durante horas, nunca mudando de posição a não ser para encolher os joelhos de vez em quando para deixar passar uma carroça sem obstruções; e quando o seu livro terminava, o seu conteúdo, por mais abstruso que fosse, tinha sido gravado na sua memória, e era a sua posse permanente. Desta forma, adquiriu um vasto tesouro de todo o tipo de conhecimentos, e guardou-o em gavetas na sua cabeça onde podia pôr a sua mão intelectual sempre que fosse necessário.
As suas roupas não diferiam em nada das de um "rato de cais", exceto que eram mais esfarrapadas, mais mal sortidas e desarmoniosas (e, portanto, mais extravagantemente pitorescas), e várias camadas mais sujas. Ninguém poderia inferir a mente superior no topo daquele edifício a partir do próprio edifício.
Ele era um orador — por natureza, em primeiro lugar, e mais tarde pelo treino da experiência e da prática. Quando estava numa campanha, o seu nome era um íman que atraía os agricultores para o seu palanque de cinquenta milhas em redor. O seu tema era sempre a política. Não usava notas, pois um vulcão não precisa de notas. Em 1862, um filho do falecido distinto cidadão de Keokuk, o Sr. Claggett, deu-me este incidente sobre Dean:
O sentimento de guerra estava em alta em Keokuk (em '61), e uma grande reunião de massas deveria realizar-se num certo dia no novo Athenaeum. Um distinto estranho iria dirigir-se à casa. Depois de o edifício ter sido enchido até à sua capacidade máxima com gente suada de ambos os sexos, o palco ainda permanecia vazio — o distinto estranho não tinha conseguido comparecer. A multidão tornou-se impaciente, e pouco depois indignada e rebelde. Por esta altura, um gerente angustiado descobriu Dean num passeio, explicou-lhe o dilema, tirou-lhe o livro, levou-o a correr para o edifício pela parte de trás, e disse-lhe para se dirigir ao palco e salvar o seu país.
Pouco depois, um silêncio repentino caiu sobre a audiência rabugenta, e os olhos de todos procuraram um único ponto — o palco largo, vazio e sem tapetes. Apareceu ali uma figura cujo aspeto era familiar a quase doze pessoas presentes. Era o espantalho Dean — em sapatos gastos, desfeitos nos calcanhares; meias de cores estranhas, também "caídas"; calças danificadas, relíquias da antiguidade, e um mundo demasiado curtas, expondo alguns centímetros de tornozelo nu; um colete desabotoado, também demasiado curto, e expondo uma zona de linho sujo e enrugado entre ele e o cós; peitilho da camisa aberto; lenço preto comprido, enrolado à volta do pescoço como uma ligadura; casaco azul de cauda curta, chegando até à base das costas, com mangas que deixavam quatro polegadas de antebraço desprotegidas; um pequeno chapéu de soldado de aba rígida pendurado num canto da protuberância da — qualquer que fosse a protuberância. Esta figura moveu-se gravemente para o palco e, com passo calmo e medido, até à frente, onde parou, e inspecionou sonhadoramente a casa, sem dizer uma palavra. O silêncio da surpresa manteve-se por um momento, depois foi quebrado por uma ondulação de alegria apenas audível que varreu o mar de rostos como a lavagem de uma onda. A figura permaneceu como antes, inspecionando pensativamente. Outra onda começou — risos, desta vez. Foi seguida por outra, depois uma terceira — esta última ruidosa.
E agora o estranho deu um passo atrás, tirou o seu quepe de soldado, atirou-o para as coxias e começou a falar, com ponderação, sem ninguém a ouvir, todos a rir e a sussurrar. O orador continuou imperturbável e, pouco depois, disparou uma frase que atingiu o alvo, resultando em silêncio e atenção. Seguiu-a, rápida e velozmente, com outras tiradas certeiras; aqueceu no seu trabalho e começou a verter as palavras, em vez de as gotejar; tornou-se cada vez mais caloroso e pôs-se a descarregar raios e trovões — e agora a sala começou a romper em aplausos, aos quais o orador não prestou atenção, continuando a martelar incessantemente; desenrolou a sua ligadura preta e lançou-a para longe, ainda trovejando; pouco depois, descartou o casaco curto e atirou-o para o lado, aquecendo cada vez mais a cada momento; finalmente, atirou o colete atrás do casaco; e então, por um período indeterminado, permaneceu ali, como outro Vesúvio, expelindo fumo e chama, lava e cinzas, fazendo chover pedra-pomes e brasas, sacudindo a terra moral com estrondo intelectual atrás de estrondo, explosão após explosão, enquanto a multidão em delírio se punha de pé, em bloco, respondendo com um furacão incessante de vivas, através de uma tempestade de neve fustigante de lenços agitados.
"Quando Dean chegou", disse Claggett, "as pessoas pensaram que ele era um lunático fugido; mas quando partiu, pensaram que era um arcanjo fugido."
Burlington, lar do cintilante Burdette, é outra cidade de colinas; e também uma bela cidade; inquestionavelmente; uma cidade fina e próspera, com uma população de vinte e cinco mil habitantes, e cingida por fábricas atarefadas de quase todas as descrições imagináveis. Era uma cidade muito sóbria, também — por enquanto — pois um projeto de lei bastante sóbrio estava pendente; um projeto para proibir o fabrico, exportação, importação, compra, venda, empréstimo, cedência, roubo, consumo, cheiro ou posse, por conquista, herança, intenção, acidente ou de outra forma, no Estado de Iowa, de toda e qualquer bebida deletéria conhecida pela raça humana, exceto água. Esta medida foi aprovada por todas as pessoas racionais do Estado; mas não pelos juízes.
Burlington possui o equipamento completo de dispositivos de uma cidade moderna e progressista para um governo correto e inteligente; incluindo um corpo de bombeiros remunerado, algo que a grande cidade de Nova Orleães não possui, empregando ainda aquele relicário da antiguidade, o sistema independente.
Em Burlington, como em todas estas cidades do Alto Rio, respira-se uma atmosfera de progresso que sabe bem às narinas. Um teatro de ópera foi recentemente construído ali, o qual contrasta fortemente com os antros decadentes que habitualmente servem de teatros em cidades do tamanho de Burlington.
Não tivemos tempo para desembarcar em Muscatine, mas tivemos uma visão diurna da cidade a partir do barco. Vivi lá durante algum tempo, há muitos anos, mas o lugar, agora, tinha um aspeto algo estranho; por isso suponho que tenha superado largamente a cidade que eu costumava conhecer. De facto, sei que superou; pois lembro-me dela como um lugar pequeno — o que já não é. Mas lembro-me dela sobretudo por causa de um lunático que me apanhou nos campos, num domingo, e extraiu uma faca de talho da sua bota e propôs-se a esquartejar-me com ela, a menos que eu reconhecesse que ele era o único filho do Diabo. Tentei chegar a um compromisso reconhecendo que ele era o único membro da família que eu tinha conhecido; mas isso não o satisfez; ele não queria meias medidas; eu tinha de dizer que ele era o único e exclusivo filho do Diabo — ele amolou a faca na bota. Não me pareceu que valesse a pena criar problemas por causa de uma pequena coisa como aquela; por isso, aderi ao seu ponto de vista e salvei a minha pele inteira. Pouco depois, ele foi visitar o pai; e como não apareceu desde então, confio que ele ainda esteja lá.
E lembro-me de Muscatine — ainda mais agradavelmente — pelos seus pores do sol de verão. Nunca vi nenhuns, em nenhum dos lados do oceano, que os igualassem. Eles usavam o rio largo e suave como uma tela, e pintavam nele todo o sonho imaginável de cor, desde as delicadezas mosqueadas e subtilezas da opala, subindo através de intensidades cumulativas, até às ofuscantes conflagrações púrpuras e carmesins que eram encantadoras para o olhar, mas que o punham à prova severamente ao mesmo tempo. Toda a região do Alto Mississippi tem estes extraordinários pores do sol como um espetáculo familiar. É a verdadeira Terra do Pôr do Sol: estou certo de que nenhum outro país pode demonstrar um direito tão legítimo ao nome. Diz-se também que os amanheceres são extremamente belos. Não sei.
CAPÍTULO 58
No Alto Rio
AS grandes cidades surgem, densas e rápidas, agora: e entre elas estendem-se procissões de quintas prósperas, não uma solidão desolada. Hora a hora, o barco sulca mais e mais profundamente o grande e populoso Noroeste; e com cada secção sucessiva que é revelada, a nossa surpresa e respeito ganham ênfase e aumentam. Tal povo, e tais feitos como os seus, impõem homenagem. Esta é uma raça independente que pensa por si própria, e que é competente para o fazer, porque são educados e esclarecidos; leem, mantêm-se a par do melhor e mais recente pensamento, fortificam cada ponto fraco na sua terra com uma escola, uma faculdade, uma biblioteca e um jornal; e vivem sob a lei. A solicitude pelo futuro de uma raça como esta não é necessária.
Esta região é nova; tão nova que se pode dizer que ainda está na infância. Pelo que realizou enquanto ainda está a nascer a dentição, pode-se prever que maravilhas fará na força da sua maturidade. É tão nova que o turista estrangeiro ainda não ouviu falar dela; e não a visitou. Durante sessenta anos, o turista estrangeiro navegou a vapor pelo rio entre St. Louis e Nova Orleães, e depois foi para casa e escreveu o seu livro, acreditando ter visto tudo o que o rio tinha de digno de ser visto ou que tinha algo para ver. Em nem seis de todos esses livros existe menção a estas cidades do Alto Rio — pela razão de que os cinco ou seis turistas que penetraram nesta região fizeram-no antes destas cidades serem projetadas. O mais recente turista de todos (1878) fez a mesma velha viagem regulamentar — ele não tinha ouvido dizer que havia algo a norte de St. Louis.
No entanto, havia. Havia esta região espantosa, repleta de grandes cidades, projetadas anteontem, por assim dizer, e construídas na manhã seguinte. Uma vintena delas conta entre mil e quinhentos a cinco mil habitantes. Depois temos Muscatine, dez mil; Winona, dez mil; Moline, dez mil; Rock Island, doze mil; La Crosse, doze mil; Burlington, vinte e cinco mil; Dubuque, vinte e cinco mil; Davenport, trinta mil; St. Paul, cinquenta e oito mil, Minneapolis, sessenta mil e mais.
O turista estrangeiro nunca ouviu falar destas; não há nota delas nos seus livros. Elas surgiram na noite, enquanto ele dormia. Tão nova é esta região, que eu, que sou comparativamente jovem, sou contudo mais velho do que ela. Quando nasci, St. Paul tinha uma população de três pessoas, Minneapolis tinha apenas um terço disso. A então população de Minneapolis morreu há dois anos; e quando morreu, tinha visto a si próprio sofrer um aumento, em quarenta anos, de cinquenta e nove mil novecentos e noventa e nove pessoas. Ele tinha a fertilidade de um sapo.
Devo explicar que os números apresentados acima, como a população de St. Paul e Minneapolis, têm vários meses. Estas cidades são muito maiores agora. De facto, acabo de ver uma estimativa jornalística que dá à primeira setenta e um mil, e à segunda setenta e oito mil. Este livro ainda não chegará ao público por seis ou sete meses; nenhum dos números valerá muito então.
Tivemos um vislumbre de Davenport, que é outra bela cidade, coroando uma colina — uma frase que se aplica a todas estas cidades; pois são todas formosas, todas bem construídas, limpas, ordenadas, agradáveis ao olhar e animadoras para o espírito; e estão todas situadas em colinas. Portanto, vamos dar um descanso a essa frase. Os índios têm uma tradição de que Marquette e Joliet acamparam onde Davenport agora se situa, em 1673. O próximo homem branco que ali acampou, fê-lo cerca de cento e setenta anos depois — em 1834. Davenport reuniu os seus trinta mil habitantes nos últimos trinta anos. Ela envia mais crianças para as suas escolas agora do que a sua população total contava há vinte e três anos. Tem a quota habitual do Alto Rio de fábricas, jornais e instituições de ensino; tem telefones, telégrafos locais, um alarme elétrico e um admirável corpo de bombeiros remunerado, consistindo em seis companhias de ganchos e escadas, quatro máquinas de incêndio a vapor e trinta igrejas. Davenport é a residência oficial de dois bispos — episcopal e católico.
Em frente a Davenport está a próspera cidade de Rock Island, que jaz no sopé dos Rápidos Superiores. Uma grande ponte ferroviária liga as duas cidades — uma das treze que irritam o Mississippi e os pilotos, entre St. Louis e St. Paul.
A encantadora ilha de Rock Island, com três milhas de comprimento e meia milha de largura, pertence aos Estados Unidos, e o Governo transformou-a num parque maravilhoso, realçando os seus atrativos naturais pela arte, e enfiando as suas belas florestas com muitas milhas de caminhos. Perto do centro da ilha, vislumbram-se, através das árvores, dez vastos edifícios de pedra de quatro andares, cada um dos quais cobre um acre de terreno. Estes são os armazéns do Governo; pois o estabelecimento de Rock Island é um arsenal e armaria nacional.
Subimos o rio — sempre através de paisagens encantadoras, não havendo outro tipo no Alto Mississippi — e passamos por Moline, um centro de vastas indústrias de manufatura; e Clinton e Lyons, grandes centros de madeira; e chegamos pouco depois a Dubuque, que está situada numa rica região mineral. As minas de chumbo são muito produtivas e de grande extensão. Dubuque tem um grande número de estabelecimentos de manufatura; entre eles uma fábrica de arados que tem como clientes toda a cristandade em geral. Pelo menos foi o que me disse um agente da empresa que estava no barco. Ele disse:
"Mostre-me qualquer país debaixo do sol onde eles saibam realmente como arar, e se eu não lhe mostrar a nossa marca no arado que eles usam, eu como esse arado; e não pedirei nenhum molho Woostershyre para lhe dar sabor, também não."
Toda esta parte do rio é rica em história e tradições indígenas. Black Hawk foi outrora um nome possante aqui; tal como Keokuk, mais abaixo. Algumas milhas abaixo de Dubuque fica o Tête de Mort — rochedo ou penhasco da Cabeça da Morte — para cujo topo os franceses conduziram um bando de índios, em tempos remotos, e encurralaram-nos lá, com a morte como uma certeza, e apenas a forma dela como questão de escolha — morrer de fome, ou saltar e matar-se. Black Hawk adotou os costumes do povo branco, perto do fim da sua vida; e quando morreu foi enterrado, perto de Des Moines, à maneira cristã, modificada pelo costume indígena; isto é, vestido com um uniforme militar cristão, e com uma bengala cristã na mão, mas depositado na sepultura numa postura sentada. Antigamente, um cavalo era sempre enterrado com um chefe. A substituição pela bengala mostra que a natureza altiva de Black Hawk estava realmente humilhada, e ele esperava caminhar quando chegasse ao outro lado.
Notámos que acima de Dubuque a água do Mississippi era verde-azeitona — rica e bela e semitransparente, com o sol sobre ela. É claro que a água não estava em parte alguma tão clara ou de uma tez tão fina como é noutras estações do ano; pois agora estava na fase de cheia, e portanto obscurecida e embaciada pela lama fabricada a partir das margens em derrocada.
Os majestosos penhascos que dominam o rio, ao longo desta região, encantam-nos com a graça e variedade das suas formas, e a beleza suave do seu adorno. O declive verdejante e íngreme, cuja base está à beira da água, é coroado por um altivo baluarte de rochas quebradas e ameadas, que são requintadamente ricas e suaves na cor — principalmente castanhos escuros e verdes baços, mas salpicados com outros tons. E depois temos o rio brilhante, serpenteando aqui e ali e acolá, o seu curso interrompido a intervalos por grupos de ilhas arborizadas enfiadas por canais prateados; e temos vislumbres de aldeias distantes, adormecidas sobre cabos; e de jangadas furtivas deslizando ao longo da sombra das muralhas da floresta; e de vapores brancos desaparecendo em torno de pontos remotos. E tudo é tão tranquilo e repousante como uma terra de sonhos, e não tem nada de mundano — nada onde pendurar uma preocupação ou um incómodo.
Até que o comboio profano vem a rasgar — o que acontece pouco depois, rasgando a sagrada solidão em farrapos com o seu grito de guerra do diabo e o rugido e trovão das suas rodas apressadas — e imediatamente está de volta a este mundo, e com um dos seus incómodos à mão para o seu entretenimento: pois lembra-se de que esta é a própria estrada cujas ações descem sempre depois de as comprar, e sobem sempre novamente assim que as vende. Faz-me estremecer até hoje, lembrar-me de que uma vez estive quase a não me livrar das minhas ações de todo. Deve ser uma coisa terrível ter uma ferrovia nas mãos.
A locomotiva é visível do convés do barco a vapor quase todo o caminho de St. Louis a St. Paul — oitocentas milhas. Estas ferrovias causaram estragos no comércio dos barcos a vapor. O empregado do nosso barco era empregado de barco a vapor antes destas estradas serem construídas. Naquela época, o afluxo de população era tão grande, e o negócio de carga tão pesado, que os barcos não conseguiam acompanhar as exigências feitas à sua capacidade de transporte; consequentemente, os capitães eram muito independentes e arrogantes — bastante "presunçosos", como diria o Tio Remus. O empregado resumiu o contraste entre o passado e o presente, assim:
"O barco costumava atracar — capitão no teto do convés superior — muito rígido e direito — vareta de ferro como espinha dorsal — luvas de pelica, chapéu de coco, cabelo repartido atrás — o homem em terra tira o chapéu e diz:
"“Tenho vinte e oito toneladas de trigo, capitão — seria um grande favor se as pudesse levar.”
"O capitão diz:
"“Levo duas delas” — e nem sequer se digna a olhar para ele.
"Mas hoje em dia o capitão tira o seu velho chapéu desleixado, e sorri até às orelhas, e faz uma vénia que não tem qualquer vareta de ferro para interferir, e diz:
"“Contente por vê-lo, Smith, contente por vê-lo — parece bem — não o via tão bem há anos — o que tem para nós?”
"“Nada”, diz Smith; e mantém o chapéu posto, e vira as costas e vai falar com outra pessoa.
"Oh, sim, há oito anos, o capitão estava por cima; mas agora é a vez do Smith. Há oito anos, um barco costumava subir o rio com todos os camarotes cheios, e pessoas empilhadas cinco e seis vezes no chão da cabine; e uma carga de convés sólida de imigrantes e ceifeiros lá em baixo, para completar. Para conseguir um camarote de primeira classe, tinha de provar dezasseis quartéis de nobreza e quatrocentos anos de linhagem, ou ser pessoalmente conhecido do negro que engraxava as botas do capitão. Mas está tudo mudado agora; muitos camarotes em cima, nenhuns ceifeiros em baixo — há agora um atador automático patenteado, e eles já não têm ceifeiros; eles foram para onde a madressilva se enrosca — e não foram de barco a vapor, também; foram de comboio."
Lá em cima, nesta região, encontrámos acres massivos de jangadas de madeira a descer — mas não flutuando calmamente, à moda antiga, tripuladas por alegres e imprudentes tripulações de patifes a tocar violino, a cantar, a beber uísque e a dançar; não, a coisa toda era empurrada velozmente por um poderoso barco de popa, à moda moderna, e as pequenas tripulações eram homens quietos e ordenados, de aspeto sóbrio e comercial, sem qualquer sugestão de romance sobre eles.
Por aqui, algures, numa noite negra, percorremos alguns canais de ilhas extremamente estreitos e intrincados com a ajuda da luz elétrica. Atrás estava a escuridão sólida — uma margem sem fendas dela; à frente, uma curva estreita de água, curvando entre paredes densas de folhagem que quase tocavam as nossas proas em ambos os lados; e aqui cada folha individual, e cada ondulação individual, destacava-se na sua cor natural, e inundada com um brilho como o do meio-dia intensificado. O efeito era estranho, e belo, e muito marcante.
Passámos por Prairie du Chien, outro dos locais de acampamento do Padre Marquette; e após algumas horas de progresso através de uma paisagem variada e bela, chegámos a La Crosse. Aqui temos uma cidade de doze ou treze mil habitantes, com ruas iluminadas por eletricidade, e com blocos de edifícios que são suficientemente majestosos, e também suficientemente belos arquitetonicamente, para impor respeito em qualquer cidade. É uma cidade de eleição, e fizemos uso satisfatório da hora que nos foi concedida, vagueando por ela, embora o tempo estivesse mais chuvoso do que o necessário.
CAPÍTULO 59
Lendas e Paisagem
ADICIONÁMOS vários passageiros à nossa lista, em La Crosse; entre outros, um velho cavalheiro que tinha vindo para esta região noroeste com os primeiros colonos, e estava familiarizado com cada parte dela. E justificadamente orgulhoso dela também. Ele disse:
"Encontrará paisagens entre aqui e St. Paul que podem dar pontos ao Hudson. Terá o Queen's Bluff — setecentos pés de altura, e um espetáculo tão imponente quanto possa encontrar em qualquer lugar; e a ilha de Trempeleau, que não é como nenhuma outra ilha na América, creio eu, pois é uma montanha gigantesca, com lados precipícios, e está cheia de tradições indígenas, e costumava estar cheia de cascavéis; se apanhar o sol exatamente da forma certa ali, terá um quadro que ficará consigo. E acima de Winona terá pradarias adoráveis; e depois vêm as Mil Ilhas, demasiado belas para qualquer coisa; verdes? pois nunca viu folhagem tão verde, nem tão densa; é como mil almofadas de pelúcia a flutuar num espelho — quando a água está calma; e depois os monstruosos penhascos em ambos os lados do rio — esfarrapados, rugosos, de tez escura — exatamente a moldura que é necessária; precisa sempre de uma moldura forte, sabe, para destacar os pontos finos de um quadro delicado e fazê-los sobressair."
O velho cavalheiro também nos contou uma ou duas lendas indígenas comoventes — mas não muito poderosas.
Após esta excursão pela história, ele voltou à paisagem, e descreveu-a, detalhe por detalhe, desde as Mil Ilhas até St. Paul; nomeando os seus nomes com tal facilidade, saltitando pelo seu tema com tal agilidade e facilidade confiante, atirando uma palavra de três toneladas, aqui e ali, com tal ar complacente de "não-é-nada,-consigo-fazê-lo-sempre-que-quiser", e lançando belas surpresas de eloquência vívida a intervalos tão judiciosos, que comecei pouco depois a suspeitar...
Mas não importa o que comecei a suspeitar. Ouça-o:
"Dez milhas acima de Winona chegamos a Fountain City, aninhando-se docemente aos pés de penhascos que levantam as suas frentes terríveis, como Júpiter, em direção às profundezas azuis do céu, banhando-as em atmosferas virgens que não conheceram outro contacto senão o das asas dos anjos.
"E depois deslizamos através de águas prateadas, em meio a aspetos adoráveis e estupendos da natureza que afinam os nossos corações para uma admiração adorante, cerca de doze milhas, e atingimos o Monte Vernon, seiscentos pés de altura, com ruínas românticas de um hotel outrora de primeira classe empoleirado longe entre as sombras das nuvens que salpicam as suas alturas vertiginosas — único remanescente do outrora próspero Monte Vernon, cidade dos primeiros dias, agora desolado e totalmente deserto.
"E assim avançamos. Passamos por Chimney Rock — nobre fuste de seiscentos pés; depois, pouco antes de desembarcar em Minnieska, a nossa atenção é atraída por um promontório muito marcante que se eleva a mais de quinhentos pés — a pirâmide montanhosa ideal. A sua forma cónica — superfície densamente arborizada que cinge os seus lados, e o seu ápice como o de um cone, levam o espectador a maravilhar-se com os trabalhos da natureza. Das suas alturas vertiginosas, vistas soberbas das florestas, riachos, penhascos, colinas e vales abaixo e além, por milhas, são trazidas para o seu foco. Que cenário de rio mais grandioso pode ser concebido, enquanto contemplamos esta paisagem encantadora, do ponto mais alto destes penhascos sobre os vales abaixo? A selvajaria primeva e a solidão terrível destas criações sublimes da natureza e do Deus da natureza, excitam sentimentos de admiração ilimitada, cuja recordação nunca pode ser apagada da memória, enquanto as observamos em qualquer direção."
"A seguir temos a Cabeça do Leão e a Cabeça da Leoa, esculpidas pela mão da natureza para adornar e dominar o belo curso d'água; e então, pouco depois, o rio alarga-se, e uma vista magnífica e encantadora do vale diante de nós irrompe subitamente em nossa visão; colinas acidentadas, vestidas de florestas verdejantes do cume à base, planícies de pradaria niveladas, segurando em seu colo a bela Wabasha, Cidade das Águas Curativas, poderosa inimiga da doença de Bright, e aquela concepção mais grandiosa das obras da natureza, o incomparável Lago Pepin — estes constituem um quadro sobre o qual o olho do turista pode fitar por incontáveis horas, com um arrebatamento não aplacado e inaplacável.
'E assim deslizamos; em devido tempo encontrando aquelas cúpulas majestosas, o imponente Sugar Loaf, e a sublime Maiden's Rock — a qual, a superstição romântica investiu de uma voz; e muitas vezes, à medida que a canoa de bétula desliza perto, ao crepúsculo, o remador de pele escura imagina ouvir a música suave e doce da há muito partida Winona, querida do canto e da história indígena.
'Então Frontenac surge em nossa visão, delicioso refúgio de turistas de verão exaustos; depois a progressista Red Wing; e Diamond Bluff, impressionante e preponderante em sua sublimidade solitária; então Prescott e o St. Croix; e logo vemos irromper sobre nós as cúpulas e torres de St. Paul, jovem chefe gigante do Norte, marchando com passos de sete léguas na vanguarda do progresso, portador da bandeira da mais alta e mais nova civilização, esculpindo seu caminho beneficente com o machado da empresa comercial, soando o grito de guerra da cultura cristã, arrancando o escalpo fumegante da preguiça e da superstição para plantar ali o arado a vapor e a escola — sempre à sua frente estendem-se a anarquia árida, a ignorância, o crime, o desespero; sempre em seu rastro florescem a cadeia, a forca e o púlpito; e sempre —'
'Você já viajou com um panorama?'
'Eu servia anteriormente nessa capacidade.'
Minha suspeita foi confirmada.
'Você ainda viaja com ele?'
'Não, ele está guardado até que a temporada de outono comece. Estou ajudando agora a preparar os materiais para um Guia do Turista que a St. Louis and St. Paul Packet Company vai publicar neste verão em benefício dos viajantes que seguem por essa linha.'
'Quando você falava da Maiden's Rock, mencionou a há muito partida Winona, querida do canto e da história indígena. Ela é a donzela da rocha? — e as duas estão ligadas por uma lenda?'
'Sim, e uma muito trágica e dolorosa. Talvez a mais célebre, bem como a mais patética, de todas as lendas do Mississippi.'
Pedimos-lhe que a contasse. Ele saiu de seu veio de conversa e voltou ao seu tom de palestra sem esforço, e continuou da seguinte forma —
'A uma pequena distância acima de Lake City há um ponto famoso conhecido como Maiden's Rock, que não é apenas um local pitoresco, mas está cheio de interesse romântico devido ao evento que lhe deu o nome. Não faz muitos anos que esta localidade era um refúgio favorito para os índios Sioux, devido à excelente pesca e caça que ali se podiam encontrar, e um grande número deles era sempre visto nesta localidade. Entre as famílias que costumavam frequentar este lugar, havia uma pertencente à tribo de Wabasha. We-no-na (primogênita) era o nome de uma donzela que havia prometido seu amor a um amante pertencente ao mesmo bando. Mas seus pais severos haviam prometido sua mão a outro, um guerreiro famoso, e insistiam que ela se casasse com ele. O dia foi marcado por seus pais, para grande pesar dela. Ela pareceu aceitar a proposta e acompanhá-los até a rocha, com o propósito de colher flores para a festa. Ao chegar à rocha, We-no-na correu para o cume e, parando na borda, censurou seus pais que estavam abaixo, por sua crueldade, e então, cantando um canto fúnebre, jogou-se do precipício e despedaçou-os contra a rocha abaixo.'
'Despedaçou quem — seus pais?'
'Sim.'
'Bem, certamente foi um negócio trágico, como você diz. E, além disso, há um tipo surpreendente de surpresa dramática nisso que eu não estava esperando. É uma melhoria distinta sobre a forma surrada da lenda indígena. Há cinquenta Saltos do Amante ao longo do Mississippi de cujos cumes garotas indígenas desapontadas pularam, mas este é o único salto do lote que terminou da maneira correta e satisfatória. O que aconteceu com Winona?'
'Ela ficou bastante sacudida e trêmula: mas recompos-se e desapareceu antes que o legista chegasse ao local fatal; e dizem que ela procurou e casou-se com seu verdadeiro amor, e vagou com ele para algum clima distante, onde viveu feliz para sempre, seu espírito gentil suavizado e purificado pelo incidente romântico que a privara tão cedo da doce orientação do amor de uma mãe e do braço protetor de um pai, e a lançara, totalmente desamparada, à fria caridade de um mundo censor.'
Fiquei feliz em ouvir a descrição do cenário feita pelo palestrante, pois isso ajudou na minha apreciação do que vi dele, e me permitiu imaginar o que perdemos pela intrusão da noite.
Como o palestrante observou, toda esta região está coberta de contos e tradições indígenas. Mas lembrei-o de que as pessoas geralmente apenas mencionam este fato — fazendo-o de uma maneira que deixa a boca de qualquer um cheia de água — e, judiciosamente, param por aí. Por quê? Porque a impressão deixada era a de que esses contos eram cheios de incidentes e imaginação — uma impressão agradável que seria prontamente dissipada se os contos fossem contados. Mostrei-lhe uma porção desse tipo de literatura que eu vinha colecionando, e ele confessou que era material pobre, lixo extremamente lamentável; e arrisquei acrescentar que as lendas que ele mesmo nos contara eram desse caráter, com a única exceção da admirável história de Winona. Ele admitiu esses fatos, mas disse que se eu procurasse o livro do Sr. Schoolcraft, publicado há quase cinquenta anos e agora sem dúvida esgotado, encontraria nele algumas invenções indígenas que estavam muito longe de serem desprovidas de incidentes e imaginação; que os contos em Hiawatha eram desse tipo, e provinham do livro de Schoolcraft; e que havia outros no mesmo livro que o Sr. Longfellow poderia ter transformado em verso com bom efeito. Por exemplo, havia a lenda de 'A Cabeça Imortal'. Ele não podia contá-la, pois muitos dos detalhes haviam se tornado indistintos em sua memória; mas ele me recomendaria encontrá-la e ampliar meu respeito pela imaginação indígena. Ele disse que este conto, e a maioria dos outros no livro, eram comuns entre os índios ao longo desta parte do Mississippi quando ele chegou aqui pela primeira vez; e que os colaboradores do livro de Schoolcraft os obtiveram diretamente dos lábios indígenas, e os escreveram com estrita exatidão, e sem adornos próprios.
Encontrei o livro. O palestrante tinha razão. Há várias lendas nele que confirmam o que ele disse. Oferecerei duas delas — 'A Cabeça Imortal', e 'Peboan e Seegwun, uma Alegoria das Estações'. Esta última é usada em Hiawatha; mas vale a pena ler na forma original, nem que seja para que alguém veja quão eficaz um poema genuíno pode ser sem as ajudas e graças da métrica e do ritmo poéticos —
PEBOAN E SEEGWUN.
Um velho estava sentado sozinho em sua tenda, ao lado de um riacho congelado. Era o fim do inverno, e seu fogo estava quase apagado. Ele parecia muito velho e muito desolado. Suas madeixas eram brancas pela idade, e ele tremia em cada articulação. Dia após dia passava em solidão, e ele não ouvia nada além do som da tempestade, varrendo diante de si a neve recém-caída.
Um dia, enquanto seu fogo estava morrendo, um belo jovem aproximou-se e entrou em sua habitação. Suas bochechas estavam vermelhas com o sangue da juventude, seus olhos brilhavam com animação, e um sorriso brincava em seus lábios. Ele caminhava com um passo leve e rápido. Sua testa estava cingida com uma coroa de grama doce, em lugar do diadema de um guerreiro, e ele carregava um punhado de flores na mão.
'Ah, meu filho', disse o velho, 'estou feliz em vê-lo. Entre. Venha e conte-me de suas aventuras, e que terras estranhas você foi ver. Passemos a noite juntos. Contar-lhe-ei sobre minha proeza e feitos, e o que posso realizar. Você fará o mesmo, e nos divertiremos.'
Ele então tirou de seu saco um cachimbo antigo curiosamente trabalhado e, tendo-o enchido com tabaco, tornado suave por uma mistura de certas folhas, entregou-o ao seu hóspede. Quando esta cerimônia foi concluída, começaram a falar.
'Eu sopro meu hálito', disse o velho, 'e o riacho para. A água torna-se rígida e dura como pedra clara.'
'Eu respiro', disse o jovem, 'e flores brotam sobre a planície.'
'Eu balanço minhas madeixas', retrucou o velho, 'e a neve cobre a terra. As folhas caem das árvores ao meu comando, e meu hálito as sopra para longe. Os pássaros levantam-se da água e voam para uma terra distante. Os animais escondem-se do meu hálito, e o próprio solo torna-se duro como sílex.'
'Eu balanço meus cachos', replicou o jovem, 'e chuvas quentes de chuva suave caem sobre a terra. As plantas erguem suas cabeças para fora da terra, como os olhos das crianças brilhando de deleite. Minha voz chama os pássaros. O calor do meu hálito desbloqueia os riachos. A música enche os bosques onde quer que eu caminhe, e toda a natureza rejubila.'
Por fim, o sol começou a nascer. Um calor suave veio sobre o lugar. A língua do velho tornou-se silenciosa. O tordo e o passarinho-azul começaram a cantar no topo da tenda. O riacho começou a murmurar perto da porta, e a fragrância das ervas e flores crescentes veio suavemente na brisa primaveril.
A luz do dia revelou totalmente ao jovem o caráter de seu anfitrião. Quando ele olhou para ele, ele tinha o semblante gelado de Peboan.{nota de rodapé [Inverno.]} Riachos começaram a fluir de seus olhos. À medida que o sol aumentava, ele crescia menos e menos em estatura, e logo havia derretido completamente. Nada permaneceu no lugar de sua fogueira na tenda, exceto o miskodeed,{nota de rodapé [O arbutus rasteiro.]} uma pequena flor branca, com uma borda rosa, que é uma das primeiras espécies de plantas do norte.
'A Cabeça Imortal' é um conto um tanto longo, mas compensa em conceitos estranhos, prodígios de contos de fadas, variedade de incidentes e energia de movimento, o que lhe falta em brevidade.{nota de rodapé [Ver apêndice D.]}
CAPÍTULO 60
Especulações e Conclusões
Chegamos a St. Paul, na cabeceira da navegação do Mississippi, e lá nossa viagem de duas mil milhas de Nova Orleans terminou. É uma viagem de cerca de dez dias a vapor. Provavelmente pode ser feita mais rapidamente por trem. Julgo assim porque sei que se pode ir de trem de St. Louis a Hannibal — uma distância de pelo menos cento e vinte milhas — em sete horas. Isso é melhor do que caminhar; a menos que se esteja com pressa.
Sendo a estação muito avançada quando estávamos em Nova Orleans, as rosas e as flores de magnólia estavam caindo; mas aqui em St. Paul era a neve. Em Nova Orleans, tínhamos sentido um sopro ocasional e devastador vindo de cima de uma cratera, aparentemente; aqui em St. Paul, sentimos um frequente sopro entorpecente vindo de cima de uma geleira, aparentemente.
Mas divago do meu tema. St. Paul é uma cidade maravilhosa. É montada em blocos sólidos de tijolo e pedra honestos, e tem o ar de pretender ficar. Seu correio foi estabelecido trinta e seis anos atrás; e logo, quando o mestre dos correios recebia uma carta, ele a levava a Washington, a cavalo, para perguntar o que deveria ser feito com ela. Tal é a lenda. Duas casas de madeira foram construídas naquele ano, e várias pessoas foram adicionadas à população. Uma edição recente do principal jornal de St. Paul, o 'Pioneer Press', fornece algumas estatísticas que oferecem um contraste vívido com aquele antigo estado de coisas, a saber: População, outono do presente ano (1882), 71.000; número de cartas processadas, primeiro semestre do ano, 1.209.387; número de casas construídas durante três trimestres do ano, 989; seu custo, $ 3.186.000. O aumento de cartas em relação aos seis meses correspondentes do ano passado foi de cinquenta por cento. No ano passado, os novos edifícios adicionados à cidade custaram acima de $ 4.500.000. A força de St. Paul reside em seu comércio — quero dizer, seu comércio. Ele é uma cidade manufatureira, é claro — todas as cidades daquela região são — mas ele é particularmente forte na questão do comércio. No ano passado, seu comércio atacadista atingiu mais de $ 52.000.000.
Ele tem uma alfândega, e está construindo um capitólio caro para substituir o que foi recentemente queimado — pois ele é a capital do Estado. Ele tem igrejas sem fim; e não do tipo barato e pobre, mas do tipo que o rico protestante ergue, do tipo que a pobre 'empregada' irlandesa se deleita em construir. Que paixão pela construção de igrejas majestosas a empregada irlandesa tem. É uma coisa fina para a nossa arquitetura, mas muitas vezes desfrutamos de seus templos imponentes sem lhe dar um pensamento grato. De fato, em vez de refletir que 'cada tijolo e cada pedra neste belo edifício representa uma dor ou um sofrimento, e um punhado de suor, e horas de pesado cansaço, contribuídos pelas costas e testa e ossos da pobreza', é nosso hábito esquecer essas coisas inteiramente, e meramente glorificar o poderoso templo em si, sem conceder um pensamento de louvor ao seu humilde construtor, cujo coração rico e bolsa murcha ele simboliza.
Esta é uma terra de bibliotecas e escolas. St. Paul tem três bibliotecas públicas, e elas contêm, no total, cerca de quarenta mil livros. Ele tem cento e dezesseis prédios escolares, e paga mais de setenta mil dólares por ano em salários de professores.
Há uma estação ferroviária excepcionalmente boa; tão grande é ela, de fato, que parecia um tanto exagerada, em termos de tamanho, no início; mas, ao fim de alguns meses, percebeu-se que o erro era distintamente o contrário. O erro deve ser corrigido.
A cidade fica em terreno elevado; está cerca de setecentos pés acima do nível do mar. É tão alta que uma ampla visão do rio e das terras baixas é oferecida de suas ruas.
É uma cidade muito maravilhosa, de fato, e ainda não está terminada. Todas as ruas estão obstruídas com material de construção, e isso está sendo compactado em casas o mais rápido possível, para abrir espaço para mais — pois outras pessoas estão ansiosas para construir, assim que puderem usar as ruas para empilhar seus tijolos e materiais.
Quão solene e belo é o pensamento de que o pioneiro mais antigo da civilização, o líder da vanguarda da civilização, nunca é o barco a vapor, nunca a ferrovia, nunca o jornal, nunca a escola dominical, nunca o missionário — mas sempre o uísque! Esse é o caso. Observe a história; você verá. O missionário vem depois do uísque — quero dizer, ele chega depois que o uísque chegou; em seguida vem o pobre imigrante, com machado, enxada e rifle; em seguida, o comerciante; em seguida, a correria miscelânea; em seguida, o jogador, o desesperado, o salteador de estrada, e todos os seus parentes no pecado de ambos os sexos; e em seguida, o sujeito esperto que comprou uma concessão antiga que cobre todas as terras; isso traz a tribo dos advogados; o comitê de vigilância traz o agente funerário. Todos esses interesses trazem o jornal; o jornal inicia a política e uma ferrovia; todos unem as mãos e constroem uma igreja e uma cadeia — e eis que a civilização está estabelecida para sempre na terra. Mas o uísque, você vê, foi o líder da vanguarda neste trabalho beneficente. Sempre é. Era como um estrangeiro — e justificável em um estrangeiro — ignorar esta grande verdade, e divagar para a astronomia para tomar emprestado um símbolo. Mas se ele estivesse familiarizado com os fatos, ele teria dito —
Para o oeste o Jarro do Império segue seu caminho.
Este grande líder da vanguarda chegou ao terreno que St. Paul agora ocupa, em junho de 1837. Sim, naquela data, Pierre Parrant, um canadense, construiu a primeira cabana, abriu seu jarro e começou a vender uísque aos índios. O resultado está diante de nós.
Tudo o que eu disse sobre a novidade, vivacidade, progresso rápido, riqueza, inteligência, arquitetura fina e substancial, e o ritmo geral e energia de St. Paul, aplicar-se-á ao seu vizinho próximo, Minneapolis — com o acréscimo de que este último é o maior das duas cidades.
Essas cidades extraordinárias estavam a dez milhas de distância, alguns meses atrás, mas estavam crescendo tão rápido que podem possivelmente estar unidas agora, e se dando bem sob um único prefeito. De qualquer forma, dentro de cinco anos a partir de agora haverá pelo menos tal ligamento substancial de edifícios se estendendo entre elas e unindo-as que um estranho não será capaz de dizer onde termina um gêmeo siamês e começa o outro. Combinadas, elas então contarão com uma população de duzentos e cinquenta mil habitantes, se continuarem a crescer como estão crescendo agora. Assim, este centro de população na cabeceira da navegação do Mississippi começará então uma rivalidade quanto a números com aquele centro de população no sopé dele — Nova Orleans.
Minneapolis está situada nas quedas de St. Anthony, que se estendem através do rio, mil e quinhentos pés, e têm uma queda de oitenta e dois pés — uma força hidráulica que, pela arte, tornou-se de valor inestimável, comercialmente falando, embora um tanto em detrimento das Quedas como espetáculo, ou como um pano de fundo contra o qual tirar sua fotografia.
Trinta moinhos de farinha produzem dois milhões de barris da mais refinada farinha todos os anos; vinte serrarias produzem duzentos milhões de pés de madeira anualmente; depois há moinhos de lã, moinhos de algodão, fábricas de papel e óleo; e fábricas de caixilhos, pregos, móveis, barris e outras, sem número, por assim dizer. Os grandes moinhos de farinha aqui e em St. Paul usam o 'novo processo' e amassam o trigo por rolagem, em vez de moê-lo.
Dezesseis ferrovias se encontram em Minneapolis, e sessenta e cinco trens de passageiros chegam e partem diariamente. Neste lugar, como em St. Paul, o jornalismo prospera. Aqui há três grandes diários, dez semanais e três mensais.
Há uma universidade, com quatrocentos estudantes — e, melhor ainda, seus bons esforços não se limitam a esclarecer um sexo. Há dezesseis escolas públicas, com edifícios que custaram $ 500.000; há seis mil alunos e cento e vinte e oito professores. Há também setenta igrejas existentes, e muitas mais projetadas. Os bancos totalizam um capital de $ 3.000.000, e o comércio atacadista da cidade chega a $ 50.000.000 por ano.
Perto de St. Paul e Minneapolis há vários pontos de interesse — Fort Snelling, uma fortaleza que ocupa um penhasco de rio de cem pés de altura; as quedas de Minnehaha, o Lago White-bear, e assim por diante. As belas quedas de Minnehaha são suficientemente célebres — elas não precisam de uma ajuda minha, nessa direção. O Lago White-bear é menos conhecido. É um lindo lençol de água, e está sendo utilizado como um refúgio de verão pela riqueza e moda do Estado. Tem seu clube, e seu hotel, com as melhorias e conveniências modernas; suas finas residências de verão; e muita pesca, caça e passeios agradáveis. Há uma dúzia de refúgios de verão menores ao redor de St. Paul e Minneapolis, mas o Lago White-bear é o refúgio. Ligado ao Lago White-bear está uma lenda indígena muito idiota. Eu resistiria à tentação de imprimi-la aqui, se pudesse, mas a tarefa está além da minha força. O guia menciona o preservador da lenda, e elogia sua 'pena fácil'. Sem mais comentários ou demora, então, vamos soltar a dita pena fácil sobre o leitor —
UMA LENDA DO LAGO WHITE-BEAR.
Toda primavera, talvez por um século, ou há tanto tempo quanto existe uma nação de homens vermelhos, uma ilha no meio do Lago White-bear tem sido visitada por um bando de índios com o propósito de fazer açúcar de bordo.
A tradição diz que, muitas primaveras atrás, enquanto nesta ilha, um jovem guerreiro amou e cortejou a filha de seu chefe, e diz-se, também, que a donzela amava o guerreiro. Ele havia sido repetidas vezes recusado por seus pais, o velho chefe alegando que ele não era um bravo, e sua velha consorte chamou-o de mulher!"
O sol tinha novamente se posto sobre o "bosque de açúcar", e a lua brilhante erguia-se alta nos céus azul-brilhantes, quando o jovem guerreiro baixou sua flauta e saiu sozinho, mais uma vez para cantar a história de seu amor; a brisa suave movia delicadamente as duas penas alegres em seu cocar, e, ao subir no tronco de uma árvore inclinada, a neve úmida caiu de seus pés pesadamente. Enquanto erguia a flauta aos lábios, seu cobertor escorregou de seus ombros bem formados e pousou parcialmente sobre a neve abaixo. Ele começou sua estranha e selvagem canção de amor, mas logo sentiu que estava com frio, e, ao estender a mão para trás em busca do cobertor, uma mão invisível colocou-o gentilmente sobre seus ombros; era a mão de seu amor, seu anjo da guarda. Ela tomou seu lugar ao lado dele, e, por ora, estavam felizes; pois o índio tem um coração para amar, e neste orgulho ele é tão nobre quanto em sua própria liberdade, o que faz dele o filho da floresta. Como reza a lenda, um grande urso-branco, pensando, talvez, que as neves polares e o clima lúgubre de inverno se estendiam por toda parte, iniciou sua jornada para o sul. Por fim, aproximou-se da margem norte do lago que agora leva seu nome, caminhou pela margem e abriu caminho silenciosamente através da neve profunda e pesada em direção à ilha. Foi na primavera seguinte que os amantes se encontraram. Haviam deixado seu primeiro refúgio e agora estavam sentados entre os galhos de um grande olmo que pendia muito sobre o lago. (A mesma árvore ainda permanece de pé e desperta curiosidade e interesse universais.) Por medo de serem descobertos, falavam quase em sussurros, e agora, para que pudessem voltar ao acampamento a tempo e, assim, evitar suspeitas, estavam apenas se levantando para retornar, quando a donzela soltou um grito que foi ouvido no acampamento, e, saltando em direção ao jovem bravo, agarrou seu cobertor, mas calculou mal a direção de seu pé e caiu, levando o cobertor consigo para os grandes braços do monstro feroz. Instantaneamente, cada homem, mulher e criança do bando estava na margem, mas todos desarmados. Gritos e lamentos brotaram de todas as bocas. O que deveria ser feito? Enquanto isso, essa besta branca e selvagem segurava a donzela sem fôlego em seu aperto enorme e acariciava sua preciosa presa como se estivesse acostumado a cenas como esta. Um grito ensurdecedor do guerreiro amante é ouvido acima dos lamentos de centenas de sua tribo, e, correndo para sua cabana, ele agarra sua faca fiel, retorna quase em um único salto ao cenário de medo e pavor, corre ao longo da árvore inclinada até o local onde seu tesouro caiu e, saltando com a fúria de uma pantera louca, atacou sua presa. O animal virou-se e, com um golpe de sua pata enorme, uniu os corações dos amantes, mas, no momento seguinte, o guerreiro, com um mergulho da lâmina de sua faca, abriu as comportas carmesins da morte, e o urso moribundo relaxou seu aperto.
Naquela noite, não houve mais sono para o bando ou para os amantes, e enquanto os jovens e os velhos dançavam ao redor da carcaça do monstro morto, o galante guerreiro foi presenteado com outra pluma, e antes que outra lua tivesse se posto, ele tinha um tesouro vivo adicionado ao seu coração. Seus filhos, por muitos anos, brincaram sobre a pele do urso-branco — de onde o lago deriva seu nome — e a donzela e o bravo lembraram-se por muito tempo da cena aterrorizante e do resgate que os tornou um só, pois Kis-se-me-pa e Ka-go-ka jamais poderiam esquecer seu encontro assustador com o enorme monstro que esteve tão perto de enviá-los para o feliz campo de caça.
É um negócio desconcertante. Primeiro, ela caiu da árvore — ela e o cobertor; e o urso a pegou e a acariciou — ela e o cobertor; depois ela caiu de volta na árvore — deixando o cobertor; enquanto isso, o amante vai para casa dando gritos de guerra e volta "armado", escala a árvore, pula em cima do urso, a garota pula atrás dele — aparentemente, pois ela estava na árvore — retoma seu lugar nos braços do urso junto com o cobertor, o amante enfia sua faca no urso e salva — quem, o cobertor? Não — nada disso. Você fica todo agitado e entusiasmado com aquele cobertor, e então, de repente, justamente quando um final feliz parece iminente, você é decepcionado — nada salvo além da garota. Ao passo que ninguém se interessa pela garota; ela não é o elemento proeminente da lenda. No entanto, lá você é deixado, e lá você deve permanecer; pois se você viver mil anos, nunca saberá quem ficou com o cobertor. Um homem morto poderia criar uma lenda melhor do que esta. Não quero dizer um homem recém-morto também; quero dizer um homem que está morto há semanas e semanas.
Seguimos agora pela trilha de casa e, em poucas horas, estávamos naquela surpreendente Chicago — uma cidade onde eles estão sempre esfregando a lâmpada, evocando os gênios e inventando e realizando novas impossibilidades. É inútil para o visitante ocasional tentar acompanhar Chicago — ela supera suas profecias mais rápido do que ele pode fazê-las. Ela é sempre uma novidade; pois nunca é a Chicago que você viu quando passou por lá da última vez. A ferrovia Pennsylvania nos apressou para Nova York sem atrasar o horário em dez minutos em qualquer parte do percurso; e ali terminou uma das jornadas de cinco mil milhas mais agradáveis que já tive a boa sorte de fazer.
APÊNDICE
APÊNDICE A
(DO NEW ORLEANS TIMES DEMOCRAT DE 29 DE MARÇO DE 1882.)
VIAGEM DO BARCO DE SOCORRO DO TIMES-DEMOCRAT ATRAVÉS DAS REGIÕES INUNDADAS
ERAM nove horas da manhã de quinta-feira quando o 'Susie' deixou o Mississippi e entrou no Old River, ou o que é agora chamado de foz do Red. Subindo pela esquerda, uma enchente jorrava através e sobre os diques na plantação Chandler, o ponto mais ao norte na paróquia de Pointe Coupee. A água cobriu completamente o local, embora os diques tivessem cedido apenas há pouco tempo. O gado havia sido reunido em uma grande balsa, onde, sem comida, enquanto passávamos, os animais estavam amontoados, esperando que um barco os rebocasse. No lado direito do rio fica a Turnbull's Island, e nela há uma grande plantação que anteriormente era considerada uma das mais férteis do Estado. A água, até então, permitira que ela escapasse ilesa em enchentes comuns, mas agora extensas lâminas de água indicavam apenas onde ficavam os campos. O topo do dique de proteção podia ser visto aqui e ali, mas quase tudo estava submerso.
As árvores adquiriram uma folhagem mais verde desde que a água jorrou, e os bosques parecem brilhantes e frescos, mas esse aspecto agradável ao olho é neutralizado pelo interminável desperdício de água. Passamos milha após milha, e não é nada além de árvores em pé até seus galhos na água. Um pássaro-cobra levanta voo de vez em quando e voa à frente na longa avenida de silêncio. Uma piroga às vezes passa rapidamente por entre os arbustos e cruza o Red River a caminho do Mississippi, mas os remadores de semblante triste nunca viram a cabeça para olhar nosso barco. O bufar do barco é música nesta penumbra, que afeta a pessoa de forma muito curiosa. Não é a penumbra de florestas profundas ou cavernas escuras, mas um tipo peculiar de silêncio solene e reverência impressionante que mantém a pessoa forçosamente sob seu reconhecimento. Passamos por duas famílias negras em uma balsa amarrada nos salgueiros esta manhã. Eles eram evidentemente da classe abastada, pois tinham um suprimento de farinha e três ou quatro porcos com eles. Suas balsas tinham cerca de vinte pés quadrados, e em frente a um abrigo improvisado havia sido colocada terra, sobre a qual eles faziam seu fogo.
A correnteza descendo o Atchafalaya estava muito veloz, o Mississippi mostrando uma predileção nessa direção, que só precisa ser vista para reforçar a opinião sobre os esforços desesperados daquele rio para encontrar um caminho curto para o Golfo. Barcos pequenos, escaleres, pirogas, etc., estão em grande demanda, e muitos foram roubados por negros piratas, que os levam para onde conseguirão o maior preço. Pelo que me foi dito pelo Sr. C. P. Ferguson, um plantador perto do Red River Landing, cuja propriedade acabou de ser submersa, há muito sofrimento na retaguarda daquele local. Os negros haviam abandonado todos os pensamentos de uma ruptura ali, já que o dique superior resistira por tanto tempo, e quando ela veio, eles estavam à sua mercê. Na quinta-feira, vários foram retirados de árvores e telhados de cabanas e trazidos, com muitos ainda permanecendo lá.
Não se valoriza a visão da terra até que se viaje através de uma enchente. No mar, não se espera ou procura por ela, mas aqui, com folhas tremulantes, corredores sombrios de floresta, telhados mal visíveis, ela é esperada. De fato, um cemitério, se os montes estivessem acima da água, seria apreciado. O rio aqui é conhecido apenas porque há uma abertura entre as árvores, e é só isso. Tem uma largura, de Fort Adams na margem esquerda do Mississippi até a margem da paróquia de Rapides, de cerca de sessenta milhas. Uma grande parte disso estava sob cultivo, particularmente ao longo do Mississippi e atrás do Red. Quando o Red River propriamente dito foi alcançado, uma correnteza forte corria diretamente através dele, seguindo a mesma direção da do Mississippi.
Após algumas horas de navegação, o Black River foi alcançado. Mal tínhamos entrado nele e sinais de sofrimento tornaram-se visíveis. Todos os salgueiros ao longo das margens estavam despidos de suas folhas. Um homem, com quem seu correspondente falou, disse que tinha cento e cinquenta cabeças de gado e cem cabeças de porcos. Ao primeiro sinal de água, ele começou a conduzi-los para as terras altas de Avoyelles, a trinta e cinco milhas de distância, mas perdeu cinquenta cabeças do gado bovino e sessenta porcos. O Black River é bastante pitoresco, mesmo que suas margens estejam sob a água. Um crescimento denso de freixos, carvalhos, gomas e nogueiras torna as margens quase impenetráveis, e onde se pode ter uma visão ao longo de alguma avenida entre as árvores, apenas os contornos tênues de troncos distantes podem ser mal distinguidos na penumbra.
Algumas milhas rio acima, a profundidade da água nas margens era de quase oito pés, e por todos os lados podiam ser vistos, ainda resistindo contra a forte correnteza, os topos das cabanas. Aqui e ali, uma virada estava cercada por troncos arrastados, formando o núcleo de possivelmente alguma futura ilha.
Para economizar carvão, já que era impossível obter esse combustível em qualquer ponto a ser visitado durante a expedição, manteve-se uma busca por uma pilha de lenha. Ao contornar uma ponta, uma piroga, habilmente remada por um jovem, saiu disparada, e em sua proa estava uma menina de quinze anos, de rosto claro, lindos olhos negros e modos recatados. O rapaz pediu um jornal, que lhe foi jogado, e o casal empurrou sua pequena embarcação para fora, na ondulação do barco.
Logo depois, uma menina, certamente com não mais de doze anos, remou em uma canoa bem pequena e a manuseou com toda a destreza de um velho viajante. A pequena parecia mais uma índia do que uma criança branca, e riu quando perguntada se estava com medo. Ela havia sido criada em uma piroga e podia ir a qualquer lugar. Ela estava indo colher folhas de salgueiro para o gado, e apontou para uma casa ali perto com água de três polegadas de profundidade nos pisos. Em sua porta dos fundos estava amarrada uma balsa de cerca de trinta pés quadrados, com um tipo de cerca construída nela, e dentro dela cerca de dezesseis vacas e vinte porcos estavam de pé. A família não reclamou, exceto pela perda de seu gado, e prontamente trouxe um suprimento de lenha em uma balsa.
Deste ponto até o Mississippi River, quinze milhas, não há um pedaço de terra acima da água, e para o oeste por trinta e cinco milhas não há nada além da cheia do rio. O Black River havia subido durante a quinta-feira, dia 23, 1 polegada e três quartos, e continuava subindo à noite. À medida que avançamos rio acima, as habitações tornam-se mais frequentes, mas ainda estão separadas por milhas. Quase todas estão desertas, e as dependências flutuaram para longe. Para somar à penumbra, quase todos os seres vivos parecem ter partido, e nem um assobio de pássaro ou o latido de um esquilo pode ser ouvido nesta solidão. Às vezes, um peixe-jacaré carrancudo lança sua cauda para o alto e desaparece no rio, mas além disso tudo está quieto — o silêncio da dissolução. Rio abaixo flutua agora um galinheiro cuidadosamente caiado, depois um aglomerado de trilhos de cerca cuidadosamente cortados, ou uma porta e uma carcaça inchada, solenemente vigiada por um par de urubus, o único pássaro a ser visto, que se banqueteiam na carcaça enquanto ela os carrega. Uma moldura de quadro na qual havia uma litografia barata de um soldado a cavalo, enquanto flutuava, contava sobre algum lar invadido pela água e despojado deste ornamento.
Ao anoitecer, como não era prudente navegar, procurou-se um local ao lado da floresta e, a uma alta árvore de goma, o barco foi amarrado para a noite.
Um quarto de lua bonito lançava uma luz agradável sobre a floresta e o rio, criando uma imagem que seria uma parte deliciosa de estudo de paisagem, se um artista pudesse apenas mantê-la em sua tela. O movimento dos motores havia cessado, o bufar do vapor que escapava estava silenciado, e o silêncio envolvente fechou-se sobre nós, e que silêncio era aquele! Normalmente, em uma floresta à noite, pode-se ouvir o coaxar dos sapos, o zumbido dos insetos ou a queda de galhos; mas aqui a natureza estava muda. Os recessos escuros, aqueles corredores para esta catedral, não emitiam nenhum som, e até mesmo as ondulações da correnteza morriam.
Ao amanhecer de sexta-feira, todos estavam de pé, e subimos o Black. A manhã estava linda, e o rio, que é notavelmente reto, vestiu seu traje mais adorável. As flores do espinheiro perfumavam o ar deliciosamente, e alguns pássaros assobiavam alegremente ao longo das margens. As árvores eram maiores, e a floresta parecia de um crescimento mais antigo do que abaixo. Mais campos foram passados do que perto da foz, mas a mesma cena se apresentava — casas de fumo à deriva nos pastos, alojamentos de negros ancorados em confusão contra algum carvalho, e a residência modesta mostrando apenas seus beirais acima da água. O sol surgiu em uma glória de carmesim, e as árvores estavam brilhantes em seus tons variados de verde. Nem um pé de solo é visto em lugar nenhum, e a água aparentemente está ficando cada vez mais profunda, pois alcança os galhos das árvores maiores. Por toda parte, os salgueiros limítrofes foram despidos de folhas, mostrando há quanto tempo as pessoas trabalham colhendo esse forragem para seus animais. Perguntou-se a um velho em uma piroga como as folhas de salgueiro caíam bem para seu gado. Ele parou em seu trabalho e, com um movimento ominoso de cabeça, respondeu: "Bem, senhor, é o suficiente para manter o calor em seus corpos e é tudo o que esperamos, mas é difícil para os porcos, particularmente os pequenos. Eles estão morrendo rapidamente. Mas o que você pode fazer? É tudo o que temos."
A trinta milhas acima da foz do Black River, a água se estende de Natchez no Mississippi até as colinas de pinheiros da Louisiana, uma distância de setenta e três milhas, e quase não há um ponto que não esteja dez pés sob ela. A tendência da correnteza subindo o Black é para o oeste. De fato, é tão assim que as águas do Red River foram empurradas para baixo a partir da região de Calcasieu, e as águas do Black entram no Red uns quinze milhas acima da foz do primeiro, uma coisa nunca vista antes nem pelos barqueiros a vapor mais velhos. A água agora à nossa vista é inteiramente do Mississippi.
Até Trinity, ou melhor, Troy, que fica a uma curta distância abaixo, as pessoas quase todas se mudaram, sendo que as que restaram têm o suficiente para suas necessidades pessoais atuais. Seu gado, no entanto, está sofrendo e morrendo rapidamente, já que o confinamento em balsas e a comida que obtêm gera doenças.
Após uma curta parada, começamos a navegar, e logo chegamos a uma seção onde havia muitos campos abertos e cabanas espalhadas densamente. Aqui foram vistas mais imagens de angústia. Dentro das casas, os ocupantes haviam construído sobre caixas um andaime onde colocaram os móveis. As colunas das camas foram cerradas no topo, já que o teto não estava a mais de quatro pés do piso improvisado. As construções pareciam muito inseguras e ameaçavam a cada momento flutuar. Perto das casas havia gado parado com a água pela altura do peito, perfeitamente impassível. Eles não se moviam em seus lugares, mas permaneciam pacientemente esperando a ajuda chegar. A visão era angustiante, e as pobres criaturas certamente morrerão a menos que sejam rapidamente resgatadas. O gado difere dos cavalos nesta qualidade peculiar. Um cavalo, depois de não encontrar alívio, nada para longe em busca de comida, enquanto um boi permanece em suas pegadas até que, com exaustão, cai na água e se afoga.
Às doze e meia, um chamado foi dado de uma balsa dentro da linha da margem. Contornando, navegamos lado a lado, e o General York subiu a bordo. Ele estava justamente engajado em retirar o gado e deu as boas-vindas ao barco do 'Times-Democrat' calorosamente, pois disse que havia muita necessidade dele. Ele disse que o sofrimento não era exagerado minimamente. As pessoas estavam em uma condição que era difícil até para alguém imaginar. A água estava tão alta que havia grande perigo de suas casas serem levadas. Ela já havia subido tanto que estava se aproximando dos beirais, e quando atinge este ponto, há sempre risco iminente de serem arrastadas. Se isso ocorrer, haverá grande perda de vidas. O General falou do trabalho galante de muitas das pessoas em suas tentativas de salvar seu gado, mas pensou que pelo menos vinte e cinco por cento haviam perecido. Já duas mil e quinhentas pessoas haviam recebido rações de Troy, no Black River, e ele havia rebocado muitas cabeças de gado, mas uma quantidade muito grande permanecia e estava em terrível necessidade. A água estava agora dezoito polegadas mais alta do que em 1874, e não havia terra entre Vidalia e as colinas de Catahoula.
Às duas horas, o 'Susie' chegou a Troy, sessenta e cinco milhas acima da foz do Black River. Aqui, à esquerda, entra o Little River; logo além dele, o Ouachita, e à direita, o Tensas. Estes três rios formam o Black River. Troy, ou uma parte dele, está situada sobre e ao redor de três grandes montes indígenas, de forma circular, que se elevam acima da água atual cerca de doze pés. Eles têm cerca de cento e cinquenta pés de diâmetro e estão a cerca de duzentas jardas de distância um do outro. As casas são todas construídas entre esses montes e, portanto, estão todas inundadas a uma profundidade de dezoito polegadas em seus pisos.
Essas elevações, construídas pelos aborígenes há centenas de anos, são os únicos pontos de refúgio por milhas. Quando chegamos, encontramos os montes cheios de gado, todos magros e mal conseguindo ficar de pé. Estavam misturados, ovelhas, porcos, cavalos, mulas e gado. Um desses montes tem sido usado por muitos anos como cemitério, e hoje vimos vacas debilitadas deitadas contra as lápides de mármore, ruminando com contentamento, após uma refeição de milho fornecida pelo General York. Aqui, como abaixo, notou-se a habilidade notável das mulheres e meninas no manejo das pirogas menores. Crianças remavam nessas embarcações tão arriscadas com toda a despreocupação de especialistas.
O General York estabeleceu um sistema perfeito no que diz respeito ao fornecimento de socorro. Ele faz uma inspeção pessoal do local onde o auxílio é solicitado, verifica o que é necessário fazer e, então, tendo fretado dois barcos, com chatas, envia-os prontamente ao local, onde o gado é embarcado e rebocado para as colinas de pinheiros e terras altas de Catahoula. Ele fez de Troy seu quartel-general, e é para este ponto que os barcos vêm buscar suprimentos de ração para o gado. No lado oposto do Little River, que se ramifica à esquerda a partir do Black, e entre este e o Ouachita, está situada a cidade de Trinity, que é ameaçada de destruição a cada hora. É muito mais baixa que Troy, e a água atinge de oito a nove pés de profundidade dentro das casas. Uma correnteza forte passa por ela, e é notável que todas as suas casas ainda não tenham sido levadas. Os residentes tanto de Troy quanto de Trinity foram atendidos, ainda que parte de seu rebanho precise ser provida de alimento.
Assim que o 'Susie' chegou a Troy, foi entregue ao General York e colocado à sua disposição para realizar o trabalho de socorro mais rapidamente. Quase todos os seus suprimentos foram desembarcados em um dos montes para aliviar o peso, e o barco seguiu rio abaixo para socorrer os que estavam mais adiante. Na propriedade de Tom Hooper, a poucos quilômetros de Troy, uma chata grande, com cerca de cinquenta cabeças de gado a bordo, foi levada a reboque. Os animais foram alimentados e logo recuperaram alguma força. Hoje, seguiremos pelo Little River, onde o sofrimento é maior.
DESCENDO O RIO BLACK
Sábado à noite, 25 de março.
Começamos a descer o Rio Black bem cedo, sob a direção do General York, para resgatar o máximo de gado que pudesse ser alcançado. Ao descer o rio, uma chata a reboque foi deixada em uma localidade central, e de lá os homens a conduziram com varas para trás das plantações, recolhendo os animais onde quer que fossem encontrados. No sótão de uma casa de descaroçamento de algodão, foram encontradas dezessete cabeças e, após a construção de uma rampa, foram conduzidas para a chata sem dificuldade. Tomando um esquife com o General, seu repórter foi levado até uma pequena casa de dois cômodos, nos quais a água estava a dois pés de altura sobre o piso. Em um dos cômodos grandes estavam amontoados os cavalos e vacas do local, enquanto no outro a Viúva Taylor e seu filho estavam sentados em um estrado elevado sobre o chão. Uma ou duas canoas à deriva flutuavam pelo cômodo, prontas para serem colocadas em serviço a qualquer momento. Quando a chata se aproximou, a lateral da casa foi cortada como único meio de retirar os animais, e o gado foi conduzido para dentro do barco. O General York, neste caso, como em todos os outros, perguntou se a família desejava partir, informando-os de que o Major Burke, do 'The Times-Democrat', havia enviado o 'Susie' para esse propósito. A Sra. Taylor disse que agradecia ao Major Burke, mas que tentaria resistir. A tenacidade notável do povo daqui por seus lares está além de qualquer compreensão. Logo abaixo, em um ponto a dezesseis milhas de Troy, recebeu-se a informação de que a casa do Sr. Tom Ellis estava em perigo, e sua família estava toda nela. Seguimos imediatamente para lá, e um quadro triste se apresentou. Olhando pela metade da janela que restava acima da água, estava a Sra. Ellis, que está com a saúde debilitada, enquanto à porta estavam seus sete filhos, o mais velho com menos de quatorze anos. Um lado da casa foi cedido aos animais de trabalho, cerca de doze cabeças, além de porcos. No cômodo ao lado, a família vivia, com a água chegando a dois polegadas da borda da cama. O fogão estava submerso, e o cozimento era feito sobre uma fogueira acesa no topo dele. A casa ameaçava ceder a qualquer momento: uma extremidade estava afundando e, de fato, a construção parecia apenas uma carcaça. À medida que o barco se aproximava, o Sr. Ellis saiu em uma canoa, e o General York disse-lhe que viera em seu socorro; que o barco do 'The Times-Democrat' estava a seu serviço e removeria sua família imediatamente para as colinas, e que na segunda-feira uma chata levaria seu rebanho, já que, até aquele momento, estariam ocupados. Apesar da situação deplorável em que ele e sua família se encontravam, o Sr. Ellis não queria partir. Ele disse que achava que esperaria até segunda-feira e correria o risco de sua casa cair. As crianças ao redor da porta pareciam perfeitamente contentes, parecendo importar-se pouco com o perigo em que estavam. Estes são apenas dois exemplos de muitos. Após semanas de privação e sofrimento, as pessoas ainda se agarram às suas casas e partem apenas quando não há espaço entre a água e o teto para construir um estrado sobre o qual ficar de pé. Parecia incompreensível, contudo, o amor pelo velho lar era mais forte do que o pela segurança.
Após deixar a propriedade de Ellis, o próximo ponto visitado foi a propriedade Oswald. Aqui, a chata foi rebocada para o lado da casa de descaroçamento, onde havia quinze cabeças em pé na água; e, ainda assim, como estavam sobre estrados, suas cabeças estavam acima do topo da entrada. Descobriu-se impossível retirá-los sem cortar uma parte da frente; então, machados foram trazidos e uma abertura foi feita. Após muito trabalho, os cavalos e mulas foram colocados com segurança na chata.
Em cada lugar onde paramos, há sempre três, quatro ou mais canoas chegando, trazendo informações de gado em outros locais que precisam de ajuda. Apesar do fato de que muitos já haviam levado parte de seu gado para as colinas algum tempo atrás, ainda resta uma grande quantidade, que o General York, que trabalha com energia indomável, conseguirá colocar nas colinas de pinheiros até terça-feira.
Por todo o Rio Black, o 'Susie' tem sido visitado por dezenas de plantadores, cujas histórias são a repetição daquelas já ouvidas sobre sofrimento e perda. Um velho plantador, que vive no rio desde 1844, disse que nunca houve tal cheia, e ele estava satisfeito por mais de um quarto do gado ter sido perdido. Felizmente, as pessoas cuidaram primeiro de seus animais de trabalho, e quando podiam encontrá-los, cavalos e mulas eram alojados em um lugar seguro. A cheia, que ainda continua e subiu dois polegadas na noite passada, obriga-os a levá-los para as colinas; daí o motivo de o trabalho do General York ser de tão grande valor. Do amanhecer até tarde da noite, ele vai de um lado para o outro, animando com suas palavras gentis e dirigindo com julgamento calmo o que deve ser feito. Uma história desagradável, sobre um certo comerciante em Nova Orleans, é contada por todo o rio. Parece que, por alguns anos, os plantadores têm negociado com esse indivíduo, e muitos deles tinham saldos em suas mãos. Quando a inundação veio, eles escreveram pedindo café, farinha e, de fato, por pequenas necessidades que eram exigidas. Nenhuma resposta a essas cartas veio, e outras foram escritas, e ainda assim esses antigos clientes, com plantações submersas, tiveram negado até o que era necessário para sustentar a vida. É desnecessário dizer que ele não é popular agora no Rio Black.
As colinas mencionadas como o local de refúgio para as pessoas e o gado no Rio Black ficam na paróquia de Catahoula, a vinte e quatro milhas do Rio Black.
Após encher a chata com gado, levamos a bordo a família de T. S. Hooper, composta por sete pessoas, que não podiam mais permanecer em sua moradia, e agora os estamos levando pelo Little River para as colinas.
A INUNDAÇÃO AINDA SOBE
Troy: 27 de março de 1882, meio-dia.
A inundação aqui está subindo cerca de três polegadas e meia a cada vinte e quatro horas, e as chuvas começaram, o que aumentará isso. O General York sente agora que nossos esforços deveriam ser direcionados para salvar vidas, já que o aumento da água colocou em risco muitas casas. Pretendemos subir o Tensas em alguns minutos e, depois, retornaremos e desceremos o Rio Black para retirar famílias. Há uma falta de transporte a vapor aqui para enfrentar a emergência. O General tem três barcos fretados, com chatas a reboque, mas a demanda por eles para rebocar o gado é maior do que podem atender prontamente. Todos estão trabalhando dia e noite, e o 'Susie' mal para por mais de uma hora em qualquer lugar. A cheia colocou Trinity em uma situação perigosa, e espera-se a qualquer momento que algumas das casas flutuem para longe. Troy é um pouco mais alta, contudo todos estão na água. Chegaram relatos de que uma mulher e uma criança foram levadas pela água abaixo daqui, e duas cabanas flutuaram. Seus ocupantes são os mesmos que se recusaram a sair anteontem. Não se acreditaria na passividade absoluta das pessoas.
Até o momento, nenhuma notícia foi recebida do vapor 'Delia', que se supõe ser o que afundou na tempestade de ontem no Lago Catahoula. Ele é esperado aqui agora, mas não chegou. Até o correio aqui é muito incerto, e este envio por esquife para Natchez para que chegue até vocês. É impossível obter dados precisos sobre colheitas passadas, etc., pois aqueles que sabem muito sobre o assunto partiram, e os que permanecem não conhecem bem a produção desta seção.
O General York deseja que eu diga que a quantidade de rações enviadas anteriormente deve ser duplicada e enviada imediatamente. É impossível fazer qualquer estimativa, pois as pessoas estão fugindo para as colinas, tão rápida é a subida da água. Os residentes aqui estão em um estado de comoção que só pode ser apreciado quando visto, e uma desmoralização completa se instalou.
Se as rações forem destinadas a qualquer seção específica aqui perto, não seria certo que fossem distribuídas, então tudo deve ser enviado para Troy como centro, e o General fará com que seja devidamente distribuído. Ele enviou um pedido por cem tendas, e, se todos os que estão em movimento agora forem para as colinas, duzentas serão necessárias.
APÊNDICE B
A COMISSÃO DO RIO MISSISSIPPI
A condição deste rico vale do Baixo Mississippi, imediatamente após e desde a guerra, constituiu um dos efeitos desastrosos da guerra mais a lamentar. A propriedade fictícia em escravos não foi apenas justamente destruída, mas muito do trabalho que dependia do trabalho escravo também foi destruído ou muito prejudicado, especialmente o sistema de diques.
Poderia ter sido esperado por aqueles que não investigaram o assunto que melhorias tão importantes como a construção e manutenção dos diques teriam sido assumidas imediatamente pelos vários Estados. Mas o que pode fazer o Estado onde as pessoas estão sob sujeição a taxas de juros que variam de 18 a 30 por cento, e também estão sob a necessidade de penhorar suas colheitas antes mesmo do plantio, a essas taxas, pelo privilégio de comprar todos os seus suprimentos com 100 por cento de lucro?
Foi necessária pouca atenção para tornar perfeitamente óbvio que o controle do Rio Mississippi, se empreendido, deve ser empreendido pelo governo nacional e não pode ser realizado pelos Estados. O rio deve ser tratado como uma unidade; seu controle não pode ser realizado sob um sistema de administração dividido ou separado.
Nem os Estados especialmente interessados são competentes para se combinar entre si para as operações necessárias. O trabalho deve começar bem acima no rio; pelo menos até Cairo, se não além; e deve ser conduzido sob um plano geral consistente por todo o curso do rio.
Não é necessário conhecimento técnico ou científico para compreender os elementos do caso se alguém dedicar um pouco de tempo e atenção ao assunto, e quando uma comissão do Rio Mississippi foi constituída, como a comissão existente, por homens totalmente capazes de diferentes esferas da vida, não se pode sugerir que seu veredito no caso deveria ser aceito como conclusivo, na medida em que qualquer teoria a priori de construção ou controle pode ser considerada conclusiva?
Deve-se lembrar que neste conselho estão o General Gilmore, o General Comstock e o General Suter, dos Engenheiros dos Estados Unidos; o Professor Henry Mitchell (a autoridade mais competente na questão da hidrografia), do Levantamento Costeiro dos Estados Unidos; B. B. Harrod, o Engenheiro Estadual da Louisiana; Jas. B. Eads, cujo sucesso com os molhes em Nova Orleans é uma garantia de sua competência, e o Juiz Taylor, de Indiana.
Seria presunção por parte de qualquer homem, por mais habilidoso que fosse, contestar o julgamento de um conselho como este.
O método de melhoria proposto pela comissão está de acordo, ao mesmo tempo, com os resultados da experiência de engenharia e com as observações da natureza onde ela atende às nossas necessidades. Assim como na natureza o crescimento das árvores e sua propensão, quando minadas, a cair através da encosta e apoiar a margem garante em alguns pontos uma profundidade razoável de canal e certo grau de permanência, assim, no projeto do engenheiro, o uso de madeira e arbustos e o incentivo ao crescimento florestal são as principais características. Propõe-se reduzir a largura onde excessiva por meio de diques de arbustos, no início baixos, mas elevados cada vez mais à medida que a lama do rio se assenta sob sua proteção, e finalmente incliná-los de volta no ângulo sobre o qual os salgueiros crescerão livremente. Neste trabalho, há muitos detalhes relacionados às formas desses diques de proteção, seus arranjos de modo a apresentar uma série de bacias de decantação, etc., cuja descrição apenas complicaria a concepção. Na maior parte do rio, obras de contração não serão necessárias, mas quase todas as margens no lado côncavo dos leitos devem ser mantidas contra o desgaste da correnteza, e muitas das margens opostas defendidas em pontos críticos. As obras que visam a esse objetivo conservador podem ser geralmente designadas como obras de revestimento; e estas também serão em grande parte de arbustos, tecidos em tapetes contínuos ou entrelaçados em redes de arame. Esse processo de folheamento tem sido empregado com sucesso no Rio Missouri; e, em alguns casos, cobriram-se tanto com sedimentos e ficaram tão cobertos de salgueiros que podem ser considerados permanentes. Na fixação dessas esteiras, pedras britadas devem ser usadas em pequenas quantidades e, em alguns casos, a encosta preparada entre o rio alto e o baixo terá que ser mais ou menos pavimentada com pedra.
Qualquer pessoa que tenha estado no Reno terá observado operações não muito diferentes daquelas às quais acabamos de nos referir; e, de fato, a maioria dos rios da Europa que fluem entre seus próprios aluviões exigiu tratamento semelhante no interesse da navegação e da agricultura.
O dique é a obra de coroamento do revestimento da margem, embora não necessariamente em conexão imediata. Pode ser colocado a uma curta distância da margem revestida; mas é, na verdade, o parapeito necessário. O rio de cheia e o rio baixo não podem ser colocados em registro e forçados a se unir na escavação de um único canal permanente sem um controle completo de todos os estágios; e até mesmo a subida anormal deve ser prevenida, porque isso colocaria em perigo o dique e, uma vez em vigor atrás das obras de revestimento, também as arrancaria.
Sob o princípio geral de que a inclinação local de um rio é o resultado e a medida da resistência de seu leito, é evidente que um curso d'água estreito e profundo deve ter menos inclinação, porque tem menos superfície de atrito em proporção à capacidade; ou seja, menos perímetro em proporção à área da seção transversal. O efeito final dos diques e revestimentos que confinam as cheias e colocam todos os estágios do rio em registro é aprofundar o canal e reduzir a inclinação. O primeiro efeito dos diques é elevar a superfície; mas isso, ao induzir maior velocidade de fluxo, causa inevitavelmente um aumento da seção, e se esse aumento for impedido de ser feito às custas das margens, o fundo deve ceder e a forma do canal deve ser melhorada de tal forma a permitir esse fluxo com menos subida. A experiência real com diques no Rio Mississippi, sem qualquer tentativa de segurar as margens, tem sido favorável, e ninguém pode duvidar, com base nas evidências fornecidas nos relatórios da comissão, que, se os primeiros diques tivessem sido acompanhados pelo revestimento das margens e tivessem sido completados, teríamos hoje um rio navegável em águas baixas e um país adjacente a salvo de inundações.
É claro que seria ilógico concluir que o rio contido pode baixar sua inclinação de cheia de modo a tornar os diques desnecessários, mas acredita-se que, por essa restrição lateral, o rio como conduto possa ser melhorado em sua forma de tal modo que até mesmo aquelas cheias raras que resultam da subida coincidente de muitos afluentes encontrarão vazão sem destruir diques de altura comum. Que a capacidade real de um canal através de aluvião depende de seu serviço durante as cheias, tem sido frequentemente demonstrado, mas essa capacidade não inclui cheias anômalas, mas recorrentes.
Dificilmente vale a pena considerar os projetos para aliviar as inundações do Rio Mississippi criando novas saídas, uma vez que essas propostas sensacionalistas se recomendaram apenas a mentes irrefletidas e não têm apoio entre os engenheiros. Se o leito do rio fosse de ferro fundido, o recurso a aberturas para águas excedentes poderia ser uma necessidade; mas como o fundo é flexível e a melhor forma de saída é um único canal profundo, por realizar a menor proporção de perímetro para área de seção transversal, não poderia haver um método de tratamento mais ineficiente do que a multiplicação de vias de escape.
Na declaração anterior, tentou-se condensar, no espaço mais limitado que a importância do assunto permitiria, os elementos gerais do problema e as características gerais do método de melhoria proposto que foi adotado pela Comissão do Rio Mississippi.
O escritor não pode deixar de sentir que é um tanto presunçoso de sua parte tentar apresentar os fatos relacionados a um empreendimento que exige a mais alta habilidade científica; mas é um assunto que interessa a todo cidadão dos Estados Unidos e é um dos métodos de reconstrução que deveria ser aprovado. É uma reivindicação de guerra que não implica ganho privado e nenhuma compensação, exceto para um dos casos de destruição incidentes à guerra, que pode muito bem ser reparado pelo povo de todo o país.
EDWARD ATKINSON.
Boston: 14 de abril de 1882.
APÊNDICE C
RECEPÇÃO DO LIVRO DO CAPITÃO BASIL HALL NOS ESTADOS UNIDOS
Tendo agora chegado quase ao fim de nossas viagens, sinto-me induzido, antes de concluir, a mencionar novamente o que considero como um dos traços mais notáveis no caráter nacional dos americanos; a saber, sua sensibilidade requintada e suscetibilidade em relação a tudo o que é dito ou escrito sobre eles. Disso, talvez, o exemplo mais notável que posso dar seja o efeito produzido em quase todas as classes de leitores pelo surgimento das 'Viagens na América do Norte' do Capitão Basil Hall. De fato, foi uma espécie de terremoto moral, e a vibração que ele causou através dos nervos da república, de um canto da União ao outro, não havia de forma alguma terminado quando deixei o país em julho de 1831, um par de anos após o choque.
Eu estava em Cincinnati quando esses volumes foram lançados, mas foi apenas em julho de 1830 que obtive uma cópia deles. Um livreiro a quem solicitei disse-me que tinha tido algumas cópias antes de entender a natureza da obra, mas que, depois de conhecê-la, nada o induziria a vender outra. Outras pessoas de sua profissão devem, no entanto, ter sido menos escrupulosas; pois o livro foi lido em cidades, vilas, povoados e aldeias, barcos a vapor e diligências, e uma espécie de grito de guerra foi emitido, perfeitamente sem precedentes em minha memória em qualquer ocasião.
Um desejo ardente de aprovação e uma sensibilidade delicada sob censura sempre foram, acredito, considerados como traços amáveis de caráter; mas a condição em que o surgimento da obra do Capitão Hall lançou a república mostra claramente que esses sentimentos, se levados ao excesso, produzem uma fraqueza que equivale à imbecilidade.
Era perfeitamente espantoso ouvir homens que, em outros assuntos, possuíam algum discernimento, expressarem suas opiniões sobre este. Jamais ouvi qualquer caso em que o senso comum, geralmente encontrado na crítica nacional, tenha sido tão subvertido pela paixão. Não falo da falta de justiça, ou de uma interpretação justa e liberal: estas, talvez, mal pudessem ser esperadas. Outras nações foram chamadas de suscetíveis, mas os cidadãos da União, aparentemente, não têm pele alguma; estremecem se uma brisa sopra sobre eles, a menos que seja temperada com adulação. Não foi, portanto, muito surpreendente que as observações agudas e contundentes de um viajante que eles sabiam que seria ouvido fossem recebidas com irritação. Os aspectos extraordinários do caso foram, primeiro, o excesso da fúria na qual se lançaram; e, segundo, a puerilidade das invenções pelas quais tentaram explicar a severidade com a qual imaginavam ter sido tratados.
Não contente em declarar que os volumes não continham uma palavra de verdade, do início ao fim (o que é uma afirmação que ouvi ser feita quase tão frequentemente quanto eles eram mencionados), o país inteiro pôs-se a descobrir as razões pelas quais o Capitão Hall havia visitado os Estados Unidos, e por que havia publicado seu livro.
Ouvi dizer, com tanta precisão e gravidade como se a declaração tivesse sido transmitida por um relatório oficial, que o Capitão Hall fora enviado pelo Governo Britânico expressamente com o propósito de refrear a crescente admiração da Inglaterra pelo Governo dos Estados Unidos — que fora por uma comissão do tesouro que ele viera, e que foi apenas em obediência a ordens que ele encontrou algo a objetar.
Não apresento isso como a fofoca de um grupo restrito; estou persuadida de que é a crença de uma porção muito considerável do país. Tão profunda é a convicção desse povo singular de que não podem ser vistos sem serem admirados, que não admitem a possibilidade de que alguém possa, honesta e sinceramente, encontrar algo a desaprovar neles ou em seu país.
As revistas americanas são, muitas delas, acredito, bem conhecidas na Inglaterra; não preciso, portanto, citá-las aqui, mas por vezes me perguntei por que nenhuma delas pensou em traduzir a maldição de Obadiah para o americano clássico; se o tivessem feito, ao colocar (ele, Basil Hall) entre parênteses, em vez de (ele, Obadiah), teria lhes poupado um mundo de problemas.
Dificilmente posso descrever a curiosidade com a qual me sentei, finalmente, para perscrutar esses volumes tremendos; ainda menos posso fazer justiça à minha surpresa com seu conteúdo. Dizer que não encontrei uma única afirmação exagerada em toda a obra não é, de forma alguma, dizer o suficiente. É impossível para qualquer um que conheça o país não ver que o Capitão Hall procurou sinceramente coisas para admirar e elogiar. Quando ele elogia, é com evidente prazer; e quando encontra defeitos, é com evidente relutância e contenção, exceto onde motivos puramente patrióticos o incitam a declarar francamente o que é para o bem de seu país que seja conhecido.
De fato, o Capitão Hall viu o país da melhor maneira possível. Provido, é claro, de cartas de apresentação para os indivíduos mais distintos, e com a recomendação ainda mais influente de sua própria reputação, ele foi recebido em pleno estilo e pompa de salão de um extremo ao outro da União. Ele viu o país em traje de gala e teve pouca ou nenhuma oportunidade de julgá-lo sem ornamentos, sem unção, sem preparação, com todas as suas imperfeições à mostra, como eu e minha família tivemos com frequência demais.
O Capitão Hall teve, certamente, excelentes oportunidades de se familiarizar com a forma de governo e as leis; e de receber, além disso, o melhor comentário oral sobre elas, em conversas com os cidadãos mais distintos. Dessas oportunidades ele fez excelente uso; nada de importante passou por seus olhos que não recebesse aquele tipo de atenção analítica que apenas um viajante experiente e filosófico pode dar. Isso tornou seus volumes altamente interessantes e valiosos; mas estou profundamente persuadida de que, se um homem de igual penetração visitasse os Estados Unidos sem outros meios de se familiarizar com o caráter nacional além do convívio cotidiano comum da vida, ele conceberia uma ideia infinitamente inferior da atmosfera moral do país do que o Capitão Hall parece ter concebido; e a convicção interna em minha mente é forte de que, se o Capitão Hall não tivesse imposto uma firme contenção a si mesmo, ele teria dado expressão a uma indignação muito mais profunda do que qualquer uma que tenha manifestado contra muitos pontos do caráter americano, com os quais ele demonstra, por outras circunstâncias, estar bem familiarizado. Sua regra parece ter sido declarar apenas o tanto da verdade que deixasse na mente de seus leitores uma impressão correta, ao menor custo de dor para as pessoas sensíveis sobre as quais ele estava escrevendo. Ele declara suas próprias opiniões e sentimentos, e deixa que se infira que ele tem bons fundamentos para adotá-los; mas poupa aos americanos a amargura que um detalhamento das circunstâncias teria produzido.
Se alguém optar por dizer que alguma antipatia perversa por doze milhões de estranhos é a origem da minha opinião, devo suportá-lo; e se a questão fosse de mera especulação ociosa, certamente eu não buscaria o abuso que devo enfrentar por declará-la. Mas não é assim.
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A franqueza que ele expressa, e evidentemente sente, eles confundem com ironia, ou desconfiam totalmente; sua falta de disposição para causar dor a pessoas de quem recebeu gentilezas, eles rejeitam com desprezo como afetação, e embora devam saber muito bem, em seus próprios corações secretos, o quanto mais eles estão à mercê dele do que ele escolheu trair; eles fingem, até para si mesmos, que ele exagerou os pontos ruins de seu caráter e instituições; enquanto a verdade é que ele os deixou escapar com um grau de ternura que pode ser bastante adequado para ele exercer, por menos merecido que seja; enquanto, ao mesmo tempo, ele magnificou com a maior diligência os méritos deles, sempre que pôde encontrar algo favorável.
APÊNDICE D
A CABEÇA IMORTAL
Em uma parte remota do Norte viviam um homem e sua irmã, que nunca tinham visto um ser humano. Raramente, ou nunca, o homem teve motivo para sair de casa; pois, conforme suas necessidades exigiam alimento, ele só precisava ir a uma curta distância do abrigo e ali, em algum ponto particular, colocar suas flechas, com as pontas cravadas no chão. Dizendo à irmã onde tinham sido colocadas, todas as manhãs ela ia procurar, e nunca deixava de encontrar cada uma atravessada no coração de um cervo. Ela então só precisava arrastá-las para dentro do abrigo e preparar o alimento. Assim ela viveu até atingir a idade adulta, quando um dia seu irmão, cujo nome era Iamo, disse-lhe: "Irmã, o tempo está próximo em que você ficará doente. Ouça meu conselho. Se não o fizer, será provavelmente a causa da minha morte. Pegue os utensílios com os quais acendemos nossas fogueiras. Vá a certa distância de nosso abrigo e construa uma fogueira separada. Quando precisar de alimento, eu lhe direi onde encontrá-lo. Você deve cozinhar para si mesma, e eu para mim. Quando estiver doente, não tente se aproximar do abrigo, nem traga nenhum dos utensílios que usa. Certifique-se sempre de prender ao seu cinto os utensílios de que necessita, pois você não sabe quando o tempo chegará. Quanto a mim, devo fazer o melhor que puder." Sua irmã prometeu obedecê-lo em tudo o que ele dissera.
Pouco tempo depois, seu irmão teve motivo para sair de casa. Ela estava sozinha em seu abrigo, penteando o cabelo. Ela tinha acabado de desamarrar o cinto ao qual os utensílios estavam presos, quando subitamente o evento, ao qual seu irmão aludira, ocorreu. Ela correu para fora do abrigo, mas em sua pressa esqueceu o cinto. Com medo de voltar, ela ficou por algum tempo pensando. Finalmente, decidiu entrar no abrigo e pegá-lo. Pois, pensou ela, meu irmão não está em casa, e ficarei apenas um momento para pegá-lo. Ela voltou. Correndo para dentro subitamente, ela o pegou e estava saindo quando seu irmão apareceu à vista. Ele sabia o que estava acontecendo. "Oh," disse ele, "eu não lhe disse para ter cuidado? Mas agora você me matou." Ela estava seguindo seu caminho, mas seu irmão disse-lhe: "O que você pode fazer lá agora? O acidente aconteceu. Entre e fique onde sempre esteve. E o que será de você? Você me matou."
Ele então deixou de lado suas vestes e apetrechos de caça, e logo depois ambos os seus pés começaram a ficar pretos, de modo que ele não podia se mover. Ainda assim, ele orientava sua irmã sobre onde colocar as flechas, para que ela pudesse sempre ter alimento. A inflamação continuou a aumentar e agora atingira sua primeira costela; e ele disse: "Irmã, meu fim está próximo. Você deve fazer como eu lhe digo. Você vê minha bolsa de remédios e meu porrete de guerra amarrado a ela. Contém todos os meus remédios, e minhas plumas de guerra, e minhas tintas de todas as cores. Assim que a inflamação atingir meu peito, você pegará meu porrete de guerra. Ele tem uma ponta afiada, e você cortará minha cabeça. Quando estiver livre do meu corpo, pegue-a, coloque seu pescoço na bolsa, que você deve abrir em uma extremidade. Então pendure-a em seu lugar anterior. Não se esqueça do meu arco e flechas. Uma das últimas você pegará para obter alimento. O restante, amarre em minha bolsa e, então, pendure-a, para que eu possa olhar para a porta. De vez em quando falarei com você, mas não com frequência." Sua irmã prometeu novamente obedecer.
Em pouco tempo seu peito foi afetado. "Agora," disse ele, "pegue o porrete e corte minha cabeça." Ela estava com medo, mas ele lhe disse para reunir coragem. "Golpeie," disse ele, e um sorriso estava em seu rosto. Reunindo toda a sua coragem, ela deu o golpe e cortou a cabeça. "Agora," disse a cabeça, "coloque-me onde eu lhe disse." E, temerosamente, ela obedeceu a todos os seus comandos. Retendo sua animação, a cabeça olhava ao redor do abrigo como de costume, e ordenava à sua irmã que fosse a tais lugares onde achava que ela conseguiria a carne de diferentes animais de que precisava. Um dia, a cabeça disse: "O tempo não está distante em que serei libertado desta situação, e terei que passar por muitos males dolorosos. Assim decreta o manito superior, e devo suportar tudo pacientemente." Nessa situação, devemos deixar a cabeça.
Em certa parte do país havia uma aldeia habitada por um numeroso e guerreiro bando de índios. Nesta aldeia havia uma família de dez jovens — irmãos. Foi na primavera do ano que o mais jovem deles pintou o rosto de preto e jejuou. Seus sonhos foram propícios. Tendo terminado seu jejum, ele foi secretamente buscar seus irmãos à noite, para que ninguém na aldeia pudesse ouvir ou descobrir a direção que pretendiam tomar. Embora seu tambor fosse ouvido, isso era um acontecimento comum. Tendo terminado as formalidades usuais, ele contou quão favoráveis foram seus sonhos, e que os chamara para saber se o acompanhariam em uma excursão de guerra. Todos responderam que sim. O terceiro irmão a partir do mais velho, conhecido por suas excentricidades, aproximando-se com seu porrete de guerra quando seu irmão terminou de falar, deu um salto. "Sim," disse ele, "eu irei, e esta será a maneira como tratarei aqueles que vou combater;" e ele golpeou o poste no centro do abrigo e deu um grito. Os outros falaram com ele, dizendo: "Devagar, devagar, Mudjikewis, quando você estiver nos abrigos de outras pessoas." Então ele se sentou. Depois, por sua vez, eles pegaram o tambor, cantaram suas canções e terminaram com um banquete. O mais jovem disse-lhes para não sussurrarem suas intenções às suas esposas, mas para se prepararem secretamente para a viagem. Todos prometeram obediência, e Mudjikewis foi o primeiro a dizer isso.
O tempo para a partida deles se aproximava. Foi dada a ordem para se reunirem em uma certa noite, quando partiriam imediatamente. Mudjikewis exigia ruidosamente seus mocassins. Várias vezes sua esposa perguntou-lhe o motivo. "Além disso," disse ela, "você está com um bom par." "Rápido, rápido," disse ele, "já que você deve saber, estamos indo em uma excursão de guerra; então seja rápida." Ele revelou assim o segredo. Naquela noite eles se encontraram e partiram. A neve estava no chão, e eles viajaram a noite toda, para que outros não os seguissem. Quando amanheceu, o líder pegou neve e fez uma bola com ela, então, lançando-a ao ar, disse: "Foi desta forma que vi a neve cair em um sonho, para que eu não pudesse ser rastreado." E ele disse-lhes para ficarem próximos um do outro por medo de se perderem, pois a neve começou a cair em flocos muito grandes. Por mais perto que caminhassem, era com dificuldade que podiam ver um ao outro. A neve continuou caindo durante todo aquele dia e a noite seguinte, de modo que era impossível rastreá-los.
Eles caminhavam agora há vários dias, e Mudjikewis estava sempre na retaguarda. Um dia, correndo repentinamente para frente, ele deu o saw-saw-quan{nota [Grito de guerra.]} e golpeou uma árvore com seu porrete de guerra, e ela se quebrou em pedaços como se atingida por um raio. "Irmãos," disse ele, "esta será a maneira como servirei aqueles que vamos combater." O líder respondeu: "Devagar, devagar, Mudjikewis, aquele para quem eu os levo não deve ser pensado tão levianamente." Novamente ele recuou e pensou consigo mesmo: "O quê! o quê! quem pode ser este para quem ele está nos levando?" Ele sentiu medo e ficou em silêncio. Dia após dia eles viajaram, até chegarem a uma extensa planície, em cujas bordas ossos humanos estavam branquejando ao sol. O líder falou: "Eles são os ossos daqueles que vieram antes de nós. Ninguém jamais voltou para contar a triste história de seu destino." Novamente Mudjikewis ficou inquieto e, correndo para frente, deu o grito costumeiro. Avançando para uma grande rocha que se erguia do chão, ele a golpeou, e ela se partiu em pedaços. "Vejam, irmãos," disse ele, "assim tratarei aqueles que vamos combater." "Calma, calma," disse mais uma vez o líder; "aquele para quem eu os levo não deve ser comparado à rocha."
Mudjikewis recuou pensativo, dizendo consigo mesmo: "Eu me pergunto quem pode ser este que ele vai atacar;" e ele estava com medo. Ainda assim, eles continuaram a ver os restos de antigos guerreiros que estiveram no lugar para onde eles estavam indo agora, alguns dos quais haviam recuado até o lugar onde viram os ossos pela primeira vez, além do qual ninguém jamais escapara. Por fim, chegaram a um terreno elevado, de onde distinguiram claramente, dormindo em uma montanha distante, um urso gigantesco.
A distância entre eles era muito grande, mas o tamanho do animal fazia com que fosse visto claramente. "Ali", disse o líder, "é ele a quem vos conduzo; aqui nossos problemas começarão, pois ele é um mishemokwa e um manito. É ele quem tem aquilo que prezamos tanto (isto é, wampum), para obter o qual os guerreiros cujos ossos vimos sacrificaram suas vidas. Não deveis ser temerosos: sede varonis. Nós o encontraremos dormindo." Então o líder seguiu em frente e tocou o cinturão em volta do pescoço do animal. "Isto", disse ele, "é o que devemos obter. Ele contém o wampum." Então pediram ao mais velho que tentasse deslizar o cinturão sobre a cabeça do urso, que parecia estar em sono profundo, pois não se perturbou nem um pouco com a tentativa de obter o cinturão. Todos os seus esforços foram em vão, até que chegou a vez do penúltimo mais novo. Ele tentou, e o cinturão moveu-se quase até passar pela cabeça do monstro, mas não conseguiu levá-lo mais adiante. Então o mais novo, e o líder, fizeram sua tentativa, e obtiveram êxito. Colocando-o nas costas do mais velho, ele disse: "Agora devemos correr", e eles partiram. Quando um se cansava com seu peso, outro o aliviava. Assim correram até passarem pelos ossos de todos os guerreiros anteriores, e estavam a alguma distância além, quando, olhando para trás, viram o monstro levantando-se lentamente. Ele permaneceu algum tempo antes de notar a falta de seu wampum. Logo ouviram seu uivo tremendo, como um trovão distante, enchendo lentamente todo o céu; e então ouviram-no falar e dizer: "Quem pode ter ousado roubar meu wampum? A terra não é tão grande que eu não possa encontrá-los"; e ele desceu a colina em perseguição. Como se convulsionada, a terra tremia a cada salto que ele dava. Muito rapidamente ele se aproximou do grupo. Eles, entretanto, mantiveram o cinturão, trocando-o de um para o outro e encorajando-se mutuamente; mas ele ganhava terreno rapidamente. "Irmãos", disse o líder, "algum de vós, ao jejuar, jamais sonhou com algum espírito amigo que vos auxiliasse como guardião?" Um silêncio mortal seguiu-se. "Bem", disse ele, "jejuando, sonhei que estava em perigo de morte imediata, quando vi uma pequena cabana, com fumaça saindo do topo. Um velho vivia nela, e sonhei que ele me ajudava; e que isso se verifique logo", disse ele, correndo à frente e dando o grito peculiar, e um uivo como se os sons viessem das profundezas de seu estômago, o que é chamado de checaudum. Chegando a uma elevação do terreno, eis que uma cabana, com fumaça saindo de seu topo, apareceu. Isso deu a todos nova força, e eles correram para frente e entraram nela. O líder falou ao velho que estava sentado na cabana, dizendo: "Nemesho, ajuda-nos; reivindicamos tua proteção, pois o grande urso nos matará." "Sentai-vos e comei, meus netos", disse o velho. "Quem é um grande manito?", disse ele. "Não há ninguém além de mim; mas deixai-me olhar", e ele abriu a porta da cabana, quando, veja!, a uma curta distância ele viu o animal enfurecido aproximando-se, com saltos lentos, mas poderosos. Ele fechou a porta. "Sim", disse ele, "ele é de fato um grande manito: meus netos, vós sereis a causa de eu perder minha vida; pedistes minha proteção, e eu a concedi; então agora, aconteça o que acontecer, eu vos protegerei. Quando o urso chegar à porta, deveis correr pela outra porta da cabana." Então, levando a mão ao lado da cabana onde estava sentado, ele trouxe para fora uma bolsa que abriu. Tirando dois pequenos cães pretos, ele os colocou diante de si. "Estes são os que uso quando luto", disse ele; e começou a acariciar com ambas as mãos os lados de um deles, e ele começou a inchar, de modo que logo encheu a cabana com seu volume; e ele tinha dentes grandes e fortes. Quando atingiu seu tamanho total, ele rosnou e, a partir daquele momento, como por instinto, saltou pela porta e encontrou o urso, que em mais um salto teria alcançado a cabana. Um combate terrível se seguiu. Os céus ecoaram com os uivos dos monstros ferozes. O outro cão logo entrou em campo. Os irmãos, no início, seguiram o conselho do velho e escaparam pelo lado oposto da cabana. Não tinham avançado muito quando ouviram o grito de morte de um dos cães, e logo depois do outro. "Bem", disse o líder, "o velho compartilhará o destino deles: então correi; ele logo estará atrás de nós." Eles partiram com vigor renovado, pois tinham recebido alimento do velho: mas muito em breve o urso surgiu à vista e, novamente, ganhava terreno rapidamente sobre eles. Novamente o líder perguntou aos irmãos se nada poderiam fazer por sua segurança. Todos ficaram em silêncio. O líder, correndo à frente, fez como antes. "Sonhei", gritou ele, "que, estando em grande dificuldade, um velho me ajudou, um que era um manito; logo veremos sua cabana." Ganhando coragem, eles continuaram. Após percorrer uma curta distância, viram a cabana do velho manito. Entraram imediatamente e reivindicaram sua proteção, dizendo-lhe que um manito os perseguia. O velho, colocando comida diante deles, disse: "Comei! Quem é um manito? Não há manito senão eu; não há ninguém a quem eu tema"; e a terra tremeu enquanto o monstro avançava. O velho abriu a porta e viu-o chegando. Ele a fechou lentamente e disse: "Sim, meus netos, vós trouxestes problemas para mim." Obtendo seu saco de medicina, tirou seus pequenos porretes de guerra de pedra preta e disse aos jovens que corressem pelo outro lado da cabana. À medida que ele manuseava os porretes, eles tornaram-se muito grandes, e o velho saiu exatamente quando o urso alcançou a porta. Então, golpeando-o com um dos porretes, ele se partiu em pedaços; o urso tropeçou. Renovando a tentativa com o outro porrete de guerra, esse também foi quebrado, mas o urso caiu sem sentidos. Cada golpe que o velho lhe dava soava como um estrondo de trovão, e os uivos do urso ecoavam até encherem os céus.
Os jovens tinham agora corrido uma certa distância, quando olharam para trás. Podiam ver que o urso estava se recuperando dos golpes. Primeiro ele moveu as patas, e logo o viram levantar-se sobre os pés. O velho compartilhou o destino do primeiro, pois ouviram agora seus gritos enquanto era despedaçado. Novamente o monstro estava em perseguição, e alcançando-os rapidamente. Ainda não desencorajados, os jovens continuaram seu caminho; mas o urso estava agora tão perto que o líder recorreu mais uma vez aos seus irmãos, mas eles não podiam fazer nada. "Bem", disse ele, "meus sonhos logo estarão esgotados; depois deste, só me resta mais um." Ele avançou, invocando seu espírito guardião para ajudá-lo. "Certa vez", disse ele, "sonhei que, estando duramente pressionado, cheguei a um grande lago, em cuja margem havia uma canoa, parcialmente fora da água, tendo dez remos todos prontos. Não temais", gritou ele, "logo a obteremos." E assim foi, exatamente como ele dissera. Chegando ao lago, viram a canoa com dez remos e embarcaram imediatamente. Mal tinham alcançado o centro do lago, quando viram o urso chegar às suas margens. Erguendo-se nas patas traseiras, ele olhou em volta. Então ele entrou na água; depois, perdendo o equilíbrio, ele voltou atrás e começou a contornar o lago. Enquanto isso, o grupo permaneceu estacionário no centro para observar seus movimentos. Ele viajou por toda a volta, até que finalmente chegou ao local de onde partira. Então começou a beber a água, e eles viram a correnteza dirigindo-se rapidamente para sua boca aberta. O líder encorajou-os a remar com força em direção à margem oposta. Quando estavam a apenas uma curta distância de terra, a correnteza havia aumentado tanto que eles eram puxados de volta por ela, e todos os seus esforços para alcançá-la foram em vão.
Então o líder falou novamente, dizendo-lhes para enfrentar seus destinos com coragem. "Agora é a hora, Mudjikewis", disse ele, "de mostrar sua bravura. Ganhe coragem e sente-se na proa da canoa; e quando ela se aproximar da boca dele, tente ver que efeito seu porrete terá na cabeça dele." Ele obedeceu e ficou pronto para dar o golpe; enquanto o líder, que guiava, direcionou a canoa para a boca aberta do monstro.
Avançando rapidamente, eles estavam prestes a entrar em sua boca quando Mudjikewis desferiu-lhe um golpe tremendo na cabeça e deu o saw-saw-quan. Os membros do urso dobraram-se sob ele, e ele caiu, atordoado pelo golpe. Mas antes que Mudjikewis pudesse renová-lo, o monstro expeliu toda a água que havia bebido, com uma força que enviou a canoa com grande velocidade para a margem oposta. Deixando a canoa instantaneamente, eles fugiram novamente, e continuaram até estarem completamente exaustos. A terra tremeu novamente, e logo viram o monstro em seu encalço. Seus espíritos definharam, e sentiram-se desencorajados. O líder esforçou-se, por ações e palavras, para animá-los; e mais uma vez perguntou-lhes se não pensavam em nada, ou se não podiam fazer nada pelo seu resgate; e, como antes, todos permaneceram em silêncio. "Então", disse ele, "esta é a última vez que posso recorrer ao meu espírito guardião. Agora, se não tivermos êxito, nossos destinos estarão decididos." Ele correu para a frente, invocando seu espírito com grande seriedade, e deu o grito. "Logo chegaremos", disse ele aos seus irmãos, "ao lugar onde reside meu último espírito guardião. Nele deposito grande confiança. Não, não tenhais medo, ou vossos membros ficarão paralisados pelo pavor. Logo alcançaremos sua cabana. Correi, correi", gritou ele.
Retornando agora a Iamo, ele tinha passado todo o tempo na mesma condição em que o deixáramos, a cabeça orientando sua irmã, a fim de obter comida, onde colocar as flechas mágicas, e falando em longos intervalos. Um dia a irmã viu os olhos da cabeça brilharem, como se estivessem satisfeitos. Finalmente ele falou. "Oh, irmã", disse ele, "em que situação lamentável você tem sido a causa de me colocar! Logo, muito logo, um grupo de jovens chegará e me pedirá ajuda; mas ai! Como posso dar o que teria feito com tanto prazer? No entanto, pegue duas flechas e coloque-as onde você tem o costume de colocar as outras, e tenha carne preparada e cozida antes que eles cheguem. Quando ouvi-los chegar e chamar meu nome, saia e diga: 'Ai! faz muito tempo que um acidente lhe aconteceu. Eu fui a causa disso.' Se eles ainda se aproximarem, convide-os para entrar e sirva comida diante deles. E agora você deve seguir minhas instruções estritamente. Quando o urso estiver perto, vá ao encontro dele. Você pegará meu saco de medicina, arcos e flechas, e minha cabeça. Você deve então desamarrar o saco e espalhar diante de você minhas tintas de todas as cores, minhas penas de águia guerreira, meus tufos de cabelo seco, e tudo o mais que ele contém. À medida que o urso se aproxima, você pegará todos esses artigos, um por um, e dirá a ele: 'Esta é a tinta do meu falecido irmão', e assim por diante com todos os outros artigos, jogando cada um deles o mais longe que puder. As virtudes neles contidas o farão cambalear; e, para completar sua destruição, você pegará minha cabeça, e essa também você lançará o mais longe que puder, gritando bem alto: 'Veja, esta é a cabeça do meu falecido irmão.' Ele cairá então sem sentidos. A essa altura, os jovens terão comido, e você os chamará para sua assistência. Você deve então cortar a carcaça em pedaços, sim, em pequenos pedaços, e espalhá-los aos quatro ventos; pois, a menos que você faça isso, ele reviverá novamente." Ela prometeu que tudo seria feito como ele disse. Ela só teve tempo de preparar a carne quando a voz do líder foi ouvida chamando Iamo por ajuda. A mulher saiu e disse como seu irmão havia instruído. Mas o grupo de guerra, sendo perseguido de perto, chegou à cabana. Ela os convidou para entrar e colocou a carne diante deles. Enquanto comiam, ouviram o urso se aproximando. Desamarrando o saco de medicina e pegando a cabeça, ela estava com tudo pronto para a aproximação dele. Quando ele chegou, ela fez como lhe fora dito; e, antes que ela tivesse gasto as tintas e penas, o urso começou a cambalear, mas, ainda avançando, chegou perto da mulher. Dizendo como lhe fora ordenado, ela então pegou a cabeça e a lançou o mais longe que pôde. Enquanto rolava pelo chão, o sangue, excitado pelos sentimentos da cabeça nesta cena terrível, jorrava do nariz e da boca. O urso, cambaleando, logo caiu com um ruído tremendo. Então ela pediu ajuda, e os jovens vieram correndo, tendo recuperado parcialmente sua força e espírito.
Mudjikewis, aproximando-se, deu um grito e desferiu-lhe um golpe na cabeça. Ele repetiu isso, até que parecesse uma massa de miolos, enquanto os outros, tão rápido quanto possível, cortaram-no em pedaços muito pequenos, que então espalharam em todas as direções. Enquanto assim empregados, acontecendo de olharem ao redor para onde tinham jogado a carne, maravilhoso de se ver, eles viram brotando e correndo em todas as direções pequenos ursos pretos, tais como são vistos nos dias de hoje. O país logo foi coberto por esses animais pretos. E foi desse monstro que a atual raça de ursos derivou sua origem.
Tendo assim superado seu perseguidor, eles retornaram à cabana. Enquanto isso, a mulher, reunindo os implementos que usara e a cabeça, colocou-os novamente no saco. Mas a cabeça não falou novamente, provavelmente devido ao seu grande esforço para superar o monstro.
Tendo gasto tanto tempo e atravessado um país tão vasto em sua fuga, os jovens desistiram da ideia de um dia retornar ao seu próprio país, e, como a caça era abundante, decidiram permanecer onde estavam. Um dia, eles se afastaram um pouco da cabana com o objetivo de caçar, tendo deixado o wampum com a mulher. Eles tiveram muito sucesso e divertiram-se, como todos os jovens fazem quando estão sozinhos, conversando e brincando uns com os outros. Um deles falou e disse: "Temos toda esta diversão apenas para nós; vamos pedir à nossa irmã se ela não nos deixa trazer a cabeça para este lugar, já que ela ainda está viva. Pode ser que ela goste de nos ouvir conversar e de estar em nossa companhia. Enquanto isso, leve comida para nossa irmã." Eles foram e pediram a cabeça. Ela lhes disse para levá-la, e eles a levaram para seus campos de caça e tentaram diverti-la, mas apenas por vezes viam seus olhos brilharem de prazer. Um dia, enquanto ocupados em seu acampamento, foram inesperadamente atacados por índios desconhecidos. A escaramuça foi longa, contestada e sangrenta; muitos de seus inimigos foram mortos, mas ainda assim eles eram trinta para um. Os jovens lutaram desesperadamente até que todos foram mortos. O grupo atacante então recuou para uma elevação de terra para reunir seus homens e contar o número de desaparecidos e mortos. Um de seus jovens havia se mantido afastado e, ao tentar alcançá-los, chegou ao lugar onde a cabeça estava pendurada. Vendo que aquela coisa sozinha mantinha animação, ele a observou por algum tempo com medo e surpresa. No entanto, ele a tirou de lá e abriu o saco, e ficou muito satisfeito ao ver as belas penas, uma das quais ele colocou em sua cabeça.
Partindo, ela balançava graciosamente sobre ele até que alcançou seu grupo, quando jogou a cabeça e o saco no chão, e contou-lhes como a havia encontrado, e que o saco estava cheio de tintas e penas. Todos olharam para a cabeça e fizeram piada dela. Vários dos jovens pegaram a tinta e pintaram-se, e um do grupo pegou a cabeça pelo cabelo e disse--
"Olhe, sua coisa feia, e veja suas tintas nos rostos dos guerreiros."
Mas as penas eram tão bonitas que vários deles também as colocaram em suas cabeças. Então, novamente, eles usaram todo tipo de indignidade contra a cabeça, pela qual foram, por sua vez, pagos com a morte daqueles que usaram as penas. Então o chefe ordenou que jogassem fora tudo, exceto a cabeça. "Veremos", disse ele, "quando chegarmos em casa, o que podemos fazer com ela. Tentaremos fazê-la fechar os olhos."
Quando chegaram às suas casas, levaram-na para a cabana do conselho e penduraram-na diante do fogo, prendendo-a com couro cru embebido, que encolheria e se tornaria apertado pela ação do fogo. "Veremos então", disseram eles, "se não podemos fazê-la fechar os olhos."
Enquanto isso, por vários dias, a irmã esperava que os jovens trouxessem a cabeça de volta; até que, finalmente, ficando impaciente, ela foi em busca dela. Encontrou os jovens caídos a curtas distâncias uns dos outros, mortos e cobertos de ferimentos. Vários outros corpos jaziam espalhados em diferentes direções ao redor deles. Ela procurou pela cabeça e pelo saco, mas eles não estavam em lugar nenhum. Ela elevou sua voz e chorou, e enegreceu seu rosto. Então ela caminhou em direções diferentes, até chegar ao lugar de onde a cabeça fora tirada. Então ela encontrou o arco e as flechas mágicas, onde os jovens, ignorantes de suas qualidades, os tinham deixado. Ela pensou consigo mesma que encontraria a cabeça de seu irmão, e chegou a uma elevação de terra, e lá viu algumas de suas tintas e penas. Essas ela guardou cuidadosamente e pendurou no galho de uma árvore até seu retorno.
Ao anoitecer ela chegou à primeira cabana de uma aldeia muito extensa. Aqui ela usou um encanto, comum entre os índios quando desejam encontrar uma recepção gentil. Ao recorrer ao velho e à velha da cabana, foi gentilmente recebida. Ela deu a conhecer seu objetivo. O velho prometeu ajudá-la, e disse-lhe que a cabeça estava pendurada diante do fogo do conselho, e que os chefes da aldeia, com seus jovens guerreiros, mantinham guarda sobre ela continuamente. Os primeiros são considerados manitos. Ela disse que apenas desejava vê-la, e ficaria satisfeita se pudesse chegar à porta da cabana. Ela sabia que não tinha poder suficiente para tomá-la pela força. 'Venha comigo', disse o índio, 'eu a levarei lá.' Eles foram, e tomaram seus lugares perto da porta. A cabana do conselho estava cheia de guerreiros, divertindo-se com jogos, e mantendo constantemente um fogo para defumar a cabeça, como diziam, para fazer carne seca. Eles viram a cabeça mover-se, e não sabendo o que pensar disso, um falou e disse: 'Há! há! Está começando a sentir os efeitos da fumaça.' A irmã olhou para cima da porta, e seus olhos encontraram os do irmão, e lágrimas rolaram pelas faces da cabeça. 'Bem', disse o chefe, 'pensei que finalmente faríamos você fazer algo. Olhem! olhem para ela — derramando lágrimas', disse ele aos que estavam ao redor; e todos riram e fizeram suas piadas sobre isso. O chefe, olhando em volta, e observando a mulher, após algum tempo disse ao homem que viera com ela: 'Quem você trouxe aí? Nunca vi essa mulher antes em nossa aldeia.' 'Sim', respondeu o homem, 'você a viu; ela é uma parente minha, e raramente sai. Ela fica na minha cabana, e pediu-me para permitir que viesse comigo a este lugar.' No centro da cabana sentava-se um daqueles jovens que são sempre atrevidos, e gostam de se gabar e exibir-se diante dos outros. 'Ora', disse ele, 'eu a vi muitas vezes, e é a esta cabana que venho quase todas as noites para cortejá-la.' Todos os outros riram e continuaram seus jogos. O jovem não sabia que estava contando uma mentira em benefício da mulher, que por esse meio escapou.
Ela retornou à cabana do homem, e imediatamente partiu para sua própria terra. Chegando ao local onde jaziam os corpos de seus irmãos adotivos, ela os colocou juntos, com os pés voltados para o leste. Então, pegando um machado que tinha, ela o lançou para o alto no ar, gritando: 'Irmãos, levantem-se debaixo dele, ou ele cairá sobre vocês.' Isso ela repetiu três vezes, e na terceira vez todos os irmãos se ergueram e ficaram de pé.
Mudjikewis começou a esfregar os olhos e a espreguiçar-se. 'Ora', disse ele, 'eu dormi demais.' 'Não, de fato', disse um dos outros, 'você não sabe que fomos todos mortos, e que é nossa irmã quem nos trouxe de volta à vida?' Os jovens pegaram os corpos de seus inimigos e os queimaram. Pouco depois, a mulher foi procurar esposas para eles, em uma terra distante, eles não sabiam onde; mas ela retornou com dez jovens mulheres, as quais entregou aos dez jovens, começando pelo mais velho. Mudjikewis andava de um lado para o outro, inquieto por medo de não conseguir aquela de quem gostava. Mas ele não ficou desapontado, pois ela coube a ele. E eles eram bem combinados, pois ela era uma maga. Então todos se mudaram para uma cabana muito grande, e sua irmã disse-lhes que as mulheres deviam agora revezar-se para ir à cabeça de seu irmão todas as noites, tentando desatá-la. Todos disseram que o fariam com prazer. A mais velha fez a primeira tentativa, e com um ruído impetuoso ela voou através do ar.
Ao amanhecer ela retornou. Ela não fora bem-sucedida, pois conseguira desatar apenas um dos nós. Todas fizeram seus turnos regularmente, e cada uma conseguiu desatar apenas um nó de cada vez. Mas quando a mais nova foi, ela começou o trabalho assim que chegou à cabana; embora estivesse sempre ocupada, ainda assim os índios nunca podiam ver ninguém. Por dez noites agora, a fumaça não subira, mas encheu a cabana e os expulsou. Nesta última noite todos foram expulsos, e a jovem mulher levou a cabeça embora.
Os jovens e a irmã ouviram a jovem mulher vindo alto através do ar, e ouviram-na dizendo: 'Preparem o corpo de nosso irmão.' E assim que ouviram, foram a uma pequena cabana onde jazia o corpo negro de Iamo. Sua irmã começou a cortar a parte do pescoço, de onde o pescoço fora decepado. Ela cortou tão fundo a ponto de fazê-lo sangrar; e os outros que estavam presentes, esfregando o corpo e aplicando remédios, expulsaram a escuridão. Enquanto isso, aquela que a trouxe, ao cortar o pescoço da cabeça, fez com que este também sangrasse.
Assim que ela chegou, eles colocaram a cabeça perto do corpo, e, com a ajuda de remédios e vários outros meios, conseguiram restaurar Iamo a toda a sua antiga beleza e virilidade. Todos se regozijaram com o feliz término de suas aflições, e eles haviam passado algum tempo alegremente juntos, quando Iamo disse: 'Agora vou dividir o wampum', e pegando o cinturão que o continha, ele começou pelo mais velho, dando em porções iguais. Mas o mais novo recebeu o mais esplêndido e belo, pois a parte inferior do cinturão continha o mais rico e raro.
Foi-lhes dito que, uma vez que todos tinham morrido e foram restaurados à vida, eles não eram mais mortais, mas espíritos, e foram-lhes atribuídas diferentes estações no mundo invisível. Apenas o lugar de Mudjikewis, porém, foi nomeado. Ele deveria dirigir o vento oeste, por isso geralmente chamado Kebeyun, lá para permanecer para sempre. Eles foram ordenados, como tinham o poder, a fazer o bem aos habitantes da terra, e, esquecendo seus sofrimentos na obtenção do wampum, a dar todas as coisas com mão liberal. E também foram ordenados que ele deveria ser mantido por eles como sagrado; aqueles grãos ou conchas de matiz pálido seriam emblemáticos da paz, enquanto aqueles de matiz mais escuro levariam ao mal e à guerra.
Os espíritos então, entre canções e gritos, alçaram voo para suas respectivas moradas nas alturas; enquanto Iamo, com sua irmã Iamoqua, desceu às profundezas abaixo.