MULHERZINHAS.
MULHERZINHAS OU Meg, Jo, Beth e Amy
DE LOUISA M. ALCOTT
AUTORA DE "HOMENZINHOS", "UMA MOÇA À MODA ANTIGA", "HISTÓRIAS DA RODA DE FIAR", ETC.
_Com mais de 200 ilustrações de Frank T. Merrill e uma imagem do Lar das Mulherzinhas por Edmund H. Garrett_
BOSTON LITTLE, BROWN, AND COMPANY
Registado de acordo com o Ato do Congresso, nos anos de 1868 e 1869, por LOUISA M. ALCOTT, Na secretaria do Tribunal Distrital do Distrito de Massachusetts.
Direitos de autor, 1880, POR LOUISA M. ALCOTT.
Direitos de autor, 1896, POR JOHN S. P. ALCOTT.
BOSTON ALFRED MUDGE & SON INC. IMPRESSORES
"_Vai, então, meu pequeno Livro, e mostra a todos Que te receberem e te derem as boas-vindas, O que guardas bem fechado no teu peito; E deseja que o que lhes mostras possa ser abençoado Para o bem deles, possa fazê-los escolher ser Peregrinos melhores, de longe, do que tu ou eu. Fala-lhes de Misericórdia; ela é alguém Que cedo começou a sua peregrinação. Sim, que as jovens donzelas aprendam com ela a valorizar O mundo que está por vir, e assim sejam sábias; Pois pequenas donzelas podem seguir a Deus Pelos caminhos que os pés dos santos trilharam._"
Adaptado de JOHN BUNYAN.
Primeira Parte.
CAPÍTULO
I. A BRINCAR AOS PEREGRINOS
II. UM FELIZ NATAL
III. O RAPAZ LAURENCE
IV. FARDOS
V. SER VIZINHO
VI. BETH ENCONTRA O PALÁCIO BELO
VII. O VALE DA HUMILHAÇÃO DE AMY
VIII. JO ENCONTRA APOLIÃO
IX. MEG VAI À FEIRA DAS VAIDADES
X. O P. C. E O P. O.
XI. EXPERIÊNCIAS
XII. ACAMPAMENTO LAURENCE
XIII. CASTELOS NO AR
XIV. SEGREDOS
XV. UM TELEGRAMA
XVI. CARTAS
XVII. A PEQUENA FIEL
XVIII. DIAS SOMBRIOS
XIX. O TESTAMENTO DE AMY
XX. CONFIDENCIAL
XXI. LAURIE CRIA CONFUSÃO, E JO FAZ AS PAZES
XXII. PRADOS AGRADÁVEIS
XXIII. A TIA MARCH RESOLVE A QUESTÃO
Segunda Parte.
XXIV. FOFOCAS
XXV. O PRIMEIRO CASAMENTO
XXVI. TENTATIVAS ARTÍSTICAS
XXVII. LIÇÕES LITERÁRIAS
XXVIII. EXPERIÊNCIAS DOMÉSTICAS
XXIX. VISITAS
XXX. CONSEQUÊNCIAS
XXXI. O NOSSO CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO
XXXII. AFLIÇÕES TERNAS
XXXIII. O DIÁRIO DE JO
XXXIV. UM AMIGO
XXXV. DOR DE CORAÇÃO
XXXVI. O SEGREDO DE BETH
XXXVII. NOVAS IMPRESSÕES
XXXVIII. NA PRATELEIRA
XXXIX. O PREGUIÇOSO LAURENCE
XL. O VALE DA SOMBRA
XLI. APRENDER A ESQUECER
XLII. TÃO SOZINHA
XLIII. SURPRESAS
XLIV. O MEU SENHOR E A MINHA SENHORA
XLV. DAISY E DEMI
XLVI. DEBAIXO DO GUARDA-CHUVA
XLVII. TEMPO DE COLHEITA
[As ilustrações, desenhadas por FRANK T. MERRILL, desenhadas, gravadas, e impressas sob a supervisão de GEORGE T. ANDREW.]
PÁGINA
Todas se aproximaram do lume, a mãe na cadeira grande, com Beth aos seus pés
Prefácio
Índice
Remate do Índice
Lista de ilustrações
Remate das ilustrações
O Natal não será Natal sem presentes
Beth pôs um par de chinelos a aquecer
Eu costumava ficar tão assustada quando era a minha vez de me sentar na cadeira grande
Faz desta maneira, cruza as mãos assim
Era uma carta alegre e esperançosa
Como costumáveis brincar ao Peregrino
Ninguém além de Beth conseguia tirar muita música daquele piano velho
Às nove pararam o trabalho e cantaram como de costume
Feliz Natal
A procissão partiu
Saiu Meg com crina de cavalo cinzenta pendurada à volta do rosto
Uma pequena figura em branco nebuloso
Os amantes ajoelhados para receber a bênção de D. Pedro
Falámos sobre a vedação
Remate
Comendo maçãs e chorando pelo "Herdeiro de Redclyffe"
Jo encarregou-se de prender os caracóis com papel
A Sra. Gardiner cumprimentou-as
Face a face com o rapaz Laurence
Sentaram-se nas escadas
Conta sobre a festa
O gatinho ficou preso como um carrapicho, mesmo fora de alcance
Enroscando-se na cadeira grande
Lendo aquele eterno Belsham
Ele puxou-a pela orelha! Pela orelha!
O Sr. Laurence pescou um peixe grande
Remate
Ser vizinho
Laurie abriu a janela
Poll puxou a sua peruca
Colocando o dedo sob o seu queixo
Por favor, dê isto à sua mãe
Remate
Oh senhor, eles importam-se muito
O Sr. Laurence abria frequentemente a porta do seu escritório
Ela passou os dois braços à volta do pescoço dele e beijou-o
O Ciclope
Amy suportou sem vacilar vários golpes formigantes
Tu conheces a rapariga
Meninas, onde vão?
Eu queimei-o
Segurou Amy pelos braços e hóquei
Fazendo as malas para a viagem ao estrangeiro
O par de Meg apareceu
Pediu para ser apresentado
Eu não faria isso, Meg
Segurando a mão de cada uma, a Sra. March disse, etc.
Sr. Pickwick
Jo abriu de um golpe a porta do armário
Jo passou a manhã no rio
Amy sentou-se para desenhar
Oh Pip! Oh Pip!
A Srta. Crocker fez uma careta
Trabalharemos como abelhas
Beth era a chefe dos correios
Amy completou o auge colocando uma mola de roupa no nariz 151
O Sr. Laurence a acenar o seu chapéu
Agora, Srta. Jo, vou resolver o seu caso
Foi um almoço muito alegre
Ele ia a trotar por uma rua silenciosa
"Oh, levanta-te", disse ela
Um golpe atordoante do grande léxico grego
Ele espirrou
O português caminhou na prancha
Dar-me-á uma rosa?
A Srta. Kate colocou os seus óculos
Ellen Tree
Remate
Balançando para trás e para a frente na sua rede
Era um pequeno quadro bastante bonito
Abanou um feto em frente ao seu rosto
Vejo-o inclinar-se e sorrir
Remate
Jo estava muito ocupada
Hurra pela Srta. March
Jo disparou
Jo deitou-se no sofá e fingiu ler
Novembro é o mês mais desagradável do ano
Uma daquelas coisas horríveis de telégrafo
Ela encontrou subitamente o Sr. Brooke
O homem cortou
Remate
Cartas
Ela rolou para longe
Eu dou corda ao relógio
Respeitosamente sua, Hannah Mullet
Remate
Não se mexeu, e eu soube que estava morto
Ele sentou-se ao lado dela
O que queres agora?
Beth apanhou mesmo a febre
Afagando suavemente a cabeça dela como a sua mãe costumava fazer
O Testamento de Amy
Polir as colheres e o bule de prata gordo
De costas, com todas as pernas no ar
Eu escolheria isto
Passeava gravemente para trás e para a frente
O Testamento de Amy
Remate
A Sra. March não queria deixar o lado de Beth
Remate
Cartas
Jo e a sua mãe estavam a ler o bilhete
Levanta-te e não sejas tonta
"Cala a boca!" gritou Jo, tapando os ouvidos
Ele estava ao pé da cama, como um leão no caminho
Beth logo pôde ficar deitada no sofá do escritório todo o dia
A Jungfrau
Espreitando a cabeça de vez em quando
Ele sentou-se na cadeira grande ao lado do sofá de Beth com as outras três bem perto
Queres que te conte como?
Valha-me Deus, o que é tudo isto?
Para a Sra. John Brooke
Lar das Mulherzinhas
O Pombal
Um pequeno chocalho de vigia
Remate
O Primeiro Casamento
Tentativas Artísticas
O seu pé ficou preso num tacho cheio de gesso
Por favor não, é meu
Remate
Lições Literárias
Um cheque de cem dólares
Remate
Experiências Domésticas
Ambas sentiram-se desesperadamente desconfortáveis
Um negócio, garanto-lhe, minha senhora
Laurie heroicamente fechou os olhos enquanto algo era colocado nos seus braços
Visitas
Ela levou a sela para o cavalo
Podia ter sido pior
A visita à tia March
Remate
Terá outra mesa
Comprou os ramos
Remate
Flo e eu pedimos um carro de praça
Todos foram muito gentis, especialmente os oficiais
Já vi a família imperial várias vezes
Tentando desenhar a cabeça de leão de pedra cinzenta na parede
Ela inclinou a cabeça sobre as mãos
Ora, isto é que satisfaz pelo preço
Com os gorros de Bonnie Dundee
Entretive-me a deixar cair bolachas de gengibre sobre o assento
Tu terás o teu Bhaer
Ele acenou a mão, meia e tudo
Isto é o meu elefante
Sentei-me no chão e li e olhei e comi
Remate
Na presença de três cavalheiros
Um simpósio selecionado
Ele não se arranja ao espelho antes de vir
Jo enfiou o embrulho todo no fogão
Ele colocou as irmãs na carruagem
Ele deitou a cabeça no poste coberto de musgo
Oh Jo, não podes?
Remate
Com a cabeça no colo de Jo, enquanto o vento soprava salutiferamente sobre ela
Remate
Ele apressou-se a ir ao encontro dela
Aqui estão as tuas flores
Demi e Daisy
Manhã agora
Meu caro homem, é um chapéu
Remate
Sentou-se a tocar flauta numa pedra enquanto as suas cabras saltavam
Laurie atirou-se para o relvado
Um esboço rápido de Laurie a domar um cavalo
O Vale da Sombra
Remate
Sentou-se a olhar fixamente para os bustos
Rodando o anel pensativamente no dedo
Oh Laurie, Laurie, eu sabia que virias
Como puxamos bem juntos
Jo e o seu pai
Jo deitou a cabeça num saco de trapos confortável e chorou
Um fantasma substancial e realista inclinado sobre ela
O tio alto procedeu a mexer e a despentear o pequeno sobrinho
Oh Sr. Bhaer, estou tão contente por vê-lo
O Sr. Bhaer cantou calorosamente
A Sra. Laurence sentada no colo da sua mãe
Começaram a andar de um lado para o outro
Remate
Eu amo toda a gente
O que faz as minhas pernas mexerem, vovô?
Vovô, é uma Nós
Remate
O Sr. Bhaer e Jo estavam a desfrutar de passeios
Olhando para cima, viu o Sr. Bhaer
Isto serve-lhe, Sr. Bhaer?
Debaixo do guarda-chuva
Remate
Tempo de colheita
Teddy tinha uma vida protegida
Deixando a Sra. March e as suas filhas debaixo da árvore de festival
Remate
I.
A BRINCAR AOS PEREGRINOS.
"O Natal não será Natal sem presentes", resmungou Jo, deitada no tapete.
"É tão horrível ser pobre!", suspirou Meg, olhando para o seu vestido velho.
"Não acho justo que algumas raparigas tenham muitas coisas bonitas, e outras raparigas nada", acrescentou a pequena Amy, com um bufo de indignação.
"Temos o pai e a mãe e umas às outras", disse Beth, contente, do seu canto.
Os quatro rostos jovens, iluminados pelo brilho do lume, alegraram-se com as palavras animadoras, mas voltaram a ensombrar-se quando Jo disse tristemente:
"Não temos o pai, e não o teremos por muito tempo." Ela não disse "talvez nunca", mas cada uma acrescentou-o em silêncio, pensando no pai longe, onde se travava a luta.
Ninguém falou durante um minuto; depois Meg disse num tom diferente:
"Sabem a razão pela qual a mãe propôs não termos presentes neste Natal foi porque vai ser um inverno difícil para todos; e ela acha que não devemos gastar dinheiro com prazer, quando os nossos homens estão a sofrer tanto no exército. Não podemos fazer muito, mas podemos fazer os nossos pequenos sacrifícios, e devemos fazê-lo com alegria. Mas receio que não o faça"; e Meg abanou a cabeça, ao pensar com pesar em todas as coisas bonitas que queria.
"Mas não creio que o pouco que gastaríamos fizesse algum bem. Cada uma de nós tem um dólar, e o exército não seria muito ajudado se o déssemos. Concordo em não esperar nada da mãe ou de ti, mas quero comprar *Undine* e *Sintram* para mim; quero-o há tanto tempo", disse Jo, que era uma devoradora de livros.
"Eu planeava gastar o meu em música nova", disse Beth, com um pequeno suspiro, que ninguém ouviu, exceto a escova da lareira e o suporte da chaleira.
"Vou comprar uma caixa bonita de lápis de desenho Faber; preciso mesmo deles", disse Amy com decisão.
"A mãe não disse nada sobre o nosso dinheiro, e ela não vai querer que desistamos de tudo. Vamos cada uma comprar o que queremos, e divertir-nos um pouco; tenho a certeza de que trabalhamos o suficiente para o ganhar", exclamou Jo, examinando os calcanhares dos seus sapatos de uma maneira masculina.
"Sei que trabalho - ensinando aquelas crianças cansativas quase o dia todo, quando estou desejosa de me divertir em casa", começou Meg, no tom de queixa novamente.
"Não tens nem metade do trabalho que eu tenho", disse Jo. "Como gostarias de estar fechada durante horas com uma senhora velha, nervosa e rabugenta, que te põe a correr, nunca está satisfeita, e te preocupa até estares pronta para saltar pela janela ou chorar?"
"É feio resmungar; mas acho que lavar a loiça e manter as coisas arrumadas é o pior trabalho do mundo. Deixa-me rabugenta; e as minhas mãos ficam tão rígidas que não consigo praticar nada bem"; e Beth olhou para as suas mãos ásperas com um suspiro que qualquer um podia ouvir daquela vez.
"Não acredito que nenhuma de vós sofra como eu", exclamou Amy; "pois não têm de ir para a escola com raparigas insolentes, que te atormentam se não sabes as lições, e se riem dos teus vestidos, e rotulam o teu pai se ele não é rico, e te insultam quando o teu nariz não é bonito."
"Se queres dizer difamar, diria isso, e não falaria de rótulos, como se o papá fosse um frasco de picles", aconselhou Jo, rindo.
"Eu sei o que quero dizer, e não precisas de ser satírica a esse respeito. É correto usar boas palavras, e melhorar o teu vocabulário", retorquiu Amy, com dignidade.
"Não biquem umas nas outras, crianças. Não desejam que tivéssemos o dinheiro que o papá perdeu quando éramos pequenas, Jo? Valha-me Deus! Como seríamos felizes e boas, se não tivéssemos preocupações!", disse Meg, que se lembrava de tempos melhores.
"Disseste no outro dia que achavas que éramos muito mais felizes do que as crianças King, pois elas estavam sempre a lutar e a resmungar, apesar do seu dinheiro."
"Disse, pois, Beth. Bem, acho que somos; pois, embora tenhamos de trabalhar, criamos diversão para nós mesmas, e somos um grupo bastante alegre, como diria Jo."
"A Jo usa palavras de calão!", observou Amy, com um olhar de reprovação para a figura comprida estendida no tapete. Jo sentou-se imediatamente, meteu as mãos nos bolsos e começou a assobiar.
"Não, Jo; é tão masculino!"
"É por isso que o faço."
"Detesto raparigas rudes e pouco femininas!"
"Odeio miúdas afetadas e melindrosas!"
"'Os passarinhos nos seus ninhos concordam'", cantou Beth, a pacificadora, com uma cara tão engraçada que ambas as vozes agudas suavizaram-se num riso, e a "bicada" terminou por aquela vez.
"Realmente, meninas, ambas têm culpa", disse Meg, começando a dar lições à sua maneira de irmã mais velha. "Já são crescidas o suficiente para deixar de lado as partidas masculinas, e comportarem-se melhor, Josephine. Não importava tanto quando eras uma menina pequena; mas agora que és tão alta, e prendes o cabelo, deves lembrar-te de que és uma jovem senhora."
"Não sou! E se prender o cabelo faz de mim uma, vou usá-lo em duas tranças até aos vinte anos", exclamou Jo, tirando a sua rede e soltando uma juba castanha. "Odeio pensar que tenho de crescer, e ser a Srta. March, e usar vestidos compridos, e parecer tão formal como uma áster-da-china! Já é suficientemente mau ser rapariga, de qualquer maneira, quando gosto de jogos, trabalhos e maneiras de rapazes! Não consigo superar a minha decepção por não ser um rapaz; e é pior do que nunca agora, pois morro de vontade de ir lutar com o papá, e só posso ficar em casa a tricotar, como uma velha rabugenta!" E Jo abanou a meia azul do exército até as agulhas soarem como castanholas, e o seu novelo saltou pela sala.
"Pobre Jo! É uma pena, mas não há nada a fazer; por isso deves tentar contentar-te com tornar o teu nome masculino, e fazer de irmão para nós, raparigas", disse Beth, acariciando a cabeça áspera no seu joelho com uma mão que todas as lavagens de loiça e limpezas do mundo não podiam tornar bruta no seu toque.
"Quanto a ti, Amy", continuou Meg, "és demasiado exigente e formal. Os teus ares são engraçados agora; mas vais tornar-te uma gansinha afetada, se não tiveres cuidado. Gosto das tuas boas maneiras e modos refinados de falar, quando não tentas ser elegante; mas as tuas palavras absurdas são tão más como o calão da Jo."
"Se a Jo é uma maria-rapaz e a Amy uma gansa, o que sou eu, por favor?", perguntou Beth, pronta a partilhar a lição.
"Tu és uma querida, e nada mais", respondeu Meg calorosamente; e ninguém a contradisse, pois a "Ratinha" era a mascote da família.
Como os jovens leitores gostam de saber "como as pessoas são", vamos aproveitar este momento para lhes dar um pequeno esboço das quatro irmãs, que se sentaram a tricotar no crepúsculo, enquanto a neve de dezembro caía silenciosamente lá fora, e o lume estalava alegremente lá dentro. Era um quarto velho e confortável, embora o tapete estivesse desbotado e a mobília fosse muito simples; pois um ou dois quadros bons pendiam nas paredes, livros enchiam os recantos, crisântemos e rosas de Natal floresciam nas janelas, e uma atmosfera agradável de paz doméstica invadia-o.
Margaret, a mais velha das quatro, tinha dezasseis anos, e era muito bonita, sendo rechonchuda e clara, com olhos grandes, muito cabelo castanho e macio, uma boca doce e mãos brancas, das quais era um pouco vaidosa. Jo, de quinze anos, era muito alta, magra e morena, e lembrava um potro; pois nunca parecia saber o que fazer com os seus membros longos, que estavam muito no seu caminho. Tinha uma boca decidida, um nariz cómico e olhos cinzentos e aguçados, que pareciam ver tudo, e eram alternadamente ferozes, engraçados ou pensativos. O seu cabelo longo e espesso era a sua única beleza; mas era geralmente embrulhado numa rede, para não atrapalhar. Ombros redondos tinha Jo, mãos e pés grandes, um aspeto desleixado nas suas roupas, e a aparência desconfortável de uma rapariga que estava rapidamente a disparar para mulher, e não gostava disso. Elizabeth -- ou Beth, como todos lhe chamavam -- era uma rapariga de treze anos, rosada, de cabelo liso e olhos brilhantes, com um modo tímido, uma voz acanhada e uma expressão pacífica, que raramente era perturbada. O pai chamava-lhe "Pequena Tranquilidade", e o nome assentava-lhe perfeitamente; pois ela parecia viver num mundo feliz só seu, aventurando-se apenas para encontrar os poucos em quem confiava e amava. Amy, embora a mais nova, era uma pessoa muito importante -- na sua própria opinião, pelo menos. Uma verdadeira donzela-da-neve, com olhos azuis e cabelo amarelo, encaracolado sobre os ombros, pálida e esguia, e sempre a comportar-se como uma jovem senhora atenta às suas maneiras. Que caracteres as quatro irmãs tinham, deixaremos para ser descoberto.
O relógio bateu as seis; e, tendo varrido a lareira, Beth pôs um par de chinelos a aquecer. De alguma forma, a visão dos sapatos velhos teve um bom efeito sobre as raparigas; pois a mãe estava a chegar, e todas se alegraram para a receber. Meg parou a lição e acendeu o candeeiro, Amy levantou-se da poltrona sem lhe ser pedido, e Jo esqueceu o quão cansada estava ao sentar-se para segurar os chinelos mais perto da chama.
"Estão completamente gastos; a mamã tem de ter um par novo."
"Pensei em comprar-lhe alguns com o meu dólar", disse Beth.
"Não, eu vou!" exclamou Amy.
"Sou a mais velha", começou Meg, mas Jo interrompeu com um decidido:
"Sou o homem da família agora que o papá está fora, e vou providenciar os chinelos, pois ele disse-me para cuidar especialmente da mãe enquanto ele estivesse fora."
"Vou dizer o que vamos fazer", disse Beth; "vamos cada uma comprar-lhe algo para o Natal, e não comprar nada para nós mesmas."
"Isso é a tua cara, querida! O que vamos comprar?", exclamou Jo.
Cada uma pensou sobriamente por um minuto; depois Meg anunciou, como se a ideia tivesse sido sugerida pela visão das suas próprias mãos bonitas: "Vou dar-lhe um bom par de luvas."
"Botas de exército, as melhores que se puderem arranjar", gritou Jo.
"Alguns lenços, todos com bainha", disse Beth.
"Vou comprar um pequeno frasco de colónia; ela gosta, e não custará muito, por isso sobrará algum para comprar os meus lápis", acrescentou Amy.
"Como vamos dar as coisas?", perguntou Meg.
"Pomo-las na mesa, e trazemo-la para dentro para a vermos abrir os embrulhos. Não se lembram de como costumávamos fazer nos nossos aniversários?", respondeu Jo.
"Eu costumava ficar tão assustada quando era a minha vez de me sentar na cadeira grande com a coroa, e ver-vos a todas marcharem à volta para me dar os presentes, com um beijo. Gostava das coisas e dos beijos, mas era terrível ter-vos sentadas a olhar para mim enquanto eu abria os embrulhos", disse Beth, que estava a torrar o rosto e o pão para o chá, ao mesmo tempo.
"Deixem a mamã pensar que vamos comprar coisas para nós, e depois surpreendemo-la. Temos de ir às compras amanhã à tarde, Meg; há tanto para fazer sobre a peça para a noite de Natal", disse Jo, marchando de um lado para o outro, com as mãos atrás das costas e o nariz no ar.
"Não tenciono representar mais depois desta vez; estou a ficar velha demais para tais coisas", observou Meg, que era tão criança como sempre sobre as brincadeiras de "vestir-se".
"Tu não vais parar, eu sei, enquanto puderes andar por aí arrastando um vestido branco, com o cabelo solto e a usar joias de papel dourado. Tu és a melhor atriz que temos, e será o fim de tudo se deixares o palco", disse Jo. "Devemos ensaiar hoje à noite. Vem cá, Amy, e faz a cena do desmaio, pois estás tão rígida como um pau nisso."
"Não posso evitar; nunca vi ninguém desmaiar, e não me apetece ficar toda negra e azul, a cair de chapa como tu fazes. Se eu conseguir descer com jeito, cairei; se não conseguir, vou cair numa cadeira e ser graciosa; não me importa se o Hugo vier contra mim com uma pistola", retorquiu Amy, que não era dotada de talento dramático, mas fora escolhida por ser suficientemente pequena para ser levada aos gritos pelo vilão da peça.
"Faz desta maneira; cruza as mãos assim e cambaleia pela sala, gritando freneticamente: 'Roderigo! salva-me! salva-me!'" e lá foi Jo, com um grito melodramático que era verdadeiramente arrepiante.
Amy seguiu-a, mas espetou as mãos rigidamente à frente e avançou aos solavancos como se fosse movida a corda; e o seu "Ai!" era mais sugestivo de espetadelas de alfinetes do que de medo e angústia. Jo soltou um gemido de desespero, e Meg riu-se às gargalhadas, enquanto Beth deixava o pão queimar enquanto observava a diversão com interesse.
"Não vale a pena! Faz o melhor que puderes quando chegar a altura, e se o público se rir, não me culpes. Vamos lá, Meg."
Depois as coisas correram bem, pois Don Pedro desafiou o mundo num discurso de duas páginas sem uma única pausa; Hagar, a bruxa, entoou um encantamento terrível sobre o seu caldeirão de sapos a ferver, com um efeito estranho; Roderigo rompeu as suas correntes varonilmente, e Hugo morreu em agonias de remorso e arsénico, com um selvagem "Há! há!"
"É a melhor que fizemos até agora", disse Meg, enquanto o vilão morto se sentava e esfregava os cotovelos.
"Não percebo como consegues escrever e representar coisas tão esplêndidas, Jo. Tu és uma verdadeira Shakespeare!" exclamou Beth, que acreditava firmemente que as suas irmãs eram dotadas de génio maravilhoso em tudo.
"Não exatamente", respondeu Jo modestamente. "Eu acho que 'A Maldição da Bruxa, uma Tragédia Operática', é uma coisa bastante interessante; mas gostaria de tentar Macbeth, se tivéssemos um alçapão para Banquo. Sempre quis fazer a parte do assassinato. 'Será isto uma adaga que vejo diante de mim?'" murmurou Jo, revirando os olhos e agarrando o ar, como vira um famoso tragediante fazer.
"Não, é o garfo de tostar, com o sapato da mãe em vez do pão. A Beth está enfeitiçada pelo teatro!" gritou Meg, e o ensaio terminou numa explosão geral de risos.
"Fico feliz por vos encontrar tão alegres, minhas meninas", disse uma voz alegre à porta, e as atrizes e a audiência voltaram-se para receber uma senhora alta e maternal, com um ar de "posso ajudar-te" que era verdadeiramente delicioso. Não estava vestida de forma elegante, mas era uma mulher de aspeto nobre, e as raparigas achavam que o manto cinzento e o chapéu antiquado cobriam a mãe mais esplêndida do mundo.
"Bem, queridas, como correram as coisas hoje? Havia tanto para fazer, preparando as caixas para enviar amanhã, que não vim a casa para o jantar. Alguém telefonou, Beth? Como está a tua constipação, Meg? Jo, pareces estar morta de cansaço. Vem beijar-me, querida."
Enquanto fazia estas perguntas maternais, a Sra. March despia as coisas húmidas, calçava os chinelos quentes e, sentando-se na poltrona, puxou Amy para o seu colo, preparando-se para desfrutar da hora mais feliz do seu dia atarefado. As raparigas corriam de um lado para o outro, tentando tornar as coisas confortáveis, cada uma à sua maneira. Meg arranjou a mesa do chá; Jo trouxe lenha e arrumou as cadeiras, deixando cair, virando e fazendo barulho com tudo o que tocava; Beth trotava de um lado para o outro entre a sala e a cozinha, quieta e ocupada; enquanto Amy dava ordens a toda a gente, sentada com as mãos cruzadas.
Ao reunirem-se à volta da mesa, a Sra. March disse, com uma expressão particularmente feliz: "Tenho um presente para vocês depois do jantar."
Um sorriso rápido e brilhante percorreu o grupo como um raio de sol. Beth bateu palmas, sem se importar com a bolacha que segurava, e Jo atirou o seu guardanapo para o ar, gritando: "Uma carta! uma carta! Três vivas para o pai!"
"Sim, uma carta longa e agradável. Ele está bem e pensa que conseguirá passar a estação fria melhor do que temíamos. Ele envia todos os votos carinhosos de Natal e uma mensagem especial para vocês, raparigas", disse a Sra. March, dando palmadinhas no bolso como se tivesse lá um tesouro.
"Apressa-te e acaba! Não pares para torcer o dedo mindinho e sorrir para o prato, Amy", gritou Jo, engasgando-se no chá e deixando cair o seu pão, com a manteiga virada para baixo, no tapete, na sua pressa para chegar ao presente.
Beth não comeu mais, mas afastou-se, para se sentar no seu canto sombrio e meditar sobre o deleite que estava para vir, até que as outras estivessem prontas.
"Acho que foi tão esplêndido da parte do pai ir como capelão quando era demasiado velho para ser recrutado e não era suficientemente forte para ser soldado", disse Meg calorosamente.
"Não gostava eu de poder ir como tamborileira, uma vivan... como se chama? ou como enfermeira, para poder estar perto dele e ajudá-lo", exclamou Jo, com um gemido.
"Deve ser muito desagradável dormir numa tenda, comer todo o tipo de coisas de mau sabor e beber de uma caneca de lata", suspirou Amy.
"Quando é que ele voltará a casa, Marmee?" perguntou Beth, com um pequeno tremor na voz.
"Não nos próximos meses, querida, a menos que ele esteja doente. Ele ficará e fará o seu trabalho fielmente enquanto puder, e não pediremos que ele volte um minuto antes de poder ser dispensado. Agora venham ouvir a carta."
Todas se aproximaram do lume, a mãe na poltrona com Beth aos seus pés, Meg e Amy empoleiradas em cada braço da cadeira, e Jo inclinada nas costas, onde ninguém veria qualquer sinal de emoção se a carta fosse comovente.
Poucas cartas foram escritas naqueles tempos difíceis que não fossem comoventes, especialmente as que os pais enviavam para casa. Nesta, pouco se disse sobre as dificuldades enfrentadas, os perigos encarados ou as saudades vencidas; era uma carta alegre e esperançosa, cheia de descrições vivas da vida no campo, marchas e notícias militares; e só no fim o coração do escritor transbordou de amor paterno e saudades pelas meninas em casa.
"Dá-lhes todo o meu querido amor e um beijo. Diz-lhes que penso nelas de dia, rezo por elas de noite e encontro o meu melhor conforto no seu afeto em todos os momentos. Um ano parece muito longo para esperar antes de as ver, mas lembra-as de que, enquanto esperamos, podemos todos trabalhar, para que estes dias difíceis não sejam desperdiçados. Sei que elas se lembrarão de tudo o que lhes disse, que serão filhas amorosas para ti, cumprirão o seu dever fielmente, combaterão os seus inimigos íntimos corajosamente e vencerão a si mesmas tão belamente que, quando eu voltar para elas, poderei estar mais carinhoso e orgulhoso do que nunca das minhas pequenas mulheres."
Toda a gente fungou quando chegaram a essa parte; Jo não se envergonhou da grande lágrima que caiu da ponta do seu nariz, e Amy não se importou com o amachucar dos seus caracóis enquanto escondia o rosto no ombro da mãe e soluçava: "Sou uma rapariga egoísta! mas vou tentar verdadeiramente ser melhor, para que ele não fique desiludido comigo daqui a pouco."
"Todas nós vamos!" gritou Meg. "Penso demasiado na minha aparência e odeio trabalhar, mas não voltarei a fazê-lo, se puder evitar."
"Vou tentar ser o que ele gosta de me chamar, 'uma pequena mulher', e não ser rude e selvagem; mas fazer o meu dever aqui em vez de querer estar noutro lugar", disse Jo, pensando que manter a calma em casa era uma tarefa muito mais difícil do que enfrentar um ou dois rebeldes no Sul.
Beth nada disse, mas limpou as lágrimas com a meia de exército azul e começou a tricotar com todas as suas forças, sem perder tempo em cumprir o dever que lhe estava mais próximo, enquanto resolvia na sua pequena alma quieta ser tudo o que o pai esperava encontrar quando o ano trouxesse o feliz regresso a casa.
A Sra. March quebrou o silêncio que se seguiu às palavras de Jo, dizendo com a sua voz alegre: "Lembram-se de como costumavam brincar ao Peregrino quando eram pequeninas? Nada vos deliciava mais do que eu atar os meus sacos de retalhos às vossas costas como fardos, dar-vos chapéus e varas e rolos de papel, e deixar-vos viajar pela casa desde a cave, que era a Cidade da Destruição, até ao telhado, onde tinham todas as coisas adoráveis que podiam reunir para fazer uma Cidade Celestial."
"Que divertido que era, especialmente passar pelos leões, lutar contra Apollyon e passar pelo Vale onde estavam os duendes!" disse Jo.
"Gostava da parte onde os fardos caíam e rebolavam escada abaixo", disse Meg.
"A minha parte favorita era quando saíamos para o telhado plano onde estavam as nossas flores e caramanchões e coisas bonitas, e ficávamos todas a cantar de alegria lá em cima ao sol", disse Beth, sorrindo, como se aquele momento agradável tivesse voltado para ela.
"Não me lembro muito disso, exceto que tinha medo da cave e da entrada escura, e gostava sempre do bolo e leite que tínhamos lá em cima. Se não fosse demasiado velha para essas coisas, até gostaria de brincar a isso outra vez", disse Amy, que começou a falar de renunciar às coisas infantis com a idade madura de doze anos.
"Nunca somos demasiado velhas para isto, minha querida, porque é uma brincadeira que estamos a fazer a toda a hora de uma forma ou de outra. Os nossos fardos estão aqui, o nosso caminho está diante de nós, e o desejo de bondade e felicidade é o guia que nos conduz através de muitas dificuldades e erros até à paz que é uma verdadeira Cidade Celestial. Agora, minhas pequenas peregrinas, suponham que recomeçam, não a brincar, mas a sério, e vejam até onde conseguem chegar antes que o pai volte para casa."
"A sério, mãe? Onde estão os nossos fardos?" perguntou Amy, que era uma jovem muito literal.
"Cada uma de vocês disse qual era o seu fardo agora mesmo, exceto a Beth; penso que ela não tem nenhum", disse a mãe.
"Sim, tenho; o meu são os pratos e os espanadores, e ter inveja das raparigas com bons pianos, e ter medo das pessoas."
O fardo da Beth era tão engraçado que toda a gente queria rir; mas ninguém o fez, pois teria magoado muito os seus sentimentos.
"Vamos fazê-lo", disse Meg pensativa. "É apenas outro nome para tentar ser boa, e a história pode ajudar-nos; pois embora queiramos ser boas, é um trabalho difícil, e esquecemo-nos, e não fazemos o nosso melhor."
"Estávamos no Pântano do Desespero hoje à noite, e a mãe veio e tirou-nos de lá como a Ajuda fez no livro. Devíamos ter o nosso rolo de instruções, como o Cristão. O que faremos quanto a isso?" perguntou Jo, encantada com a fantasia que dava um pouco de romance à tarefa muito monótona de cumprir o seu dever.
"Procurem debaixo das vossas almofadas, na manhã de Natal, e encontrarão o vosso guia", respondeu a Sra. March.
Conversaram sobre o novo plano enquanto a velha Hannah arrumava a mesa; depois saíram os quatro pequenos cestos de costura, e as agulhas voaram enquanto as raparigas faziam lençóis para a tia March. Era uma costura desinteressante, mas esta noite ninguém se queixou. Adotaram o plano de Jo de dividir as longas costuras em quatro partes, chamando aos quartos Europa, Ásia, África e América, e dessa forma avançaram magnificamente, especialmente quando falavam sobre os diferentes países enquanto costuravam o seu caminho através deles.
Às nove pararam de trabalhar e cantaram, como de costume, antes de se deitarem. Ninguém exceto Beth conseguia tirar muita música do velho piano; mas ela tinha uma maneira de tocar suavemente nas teclas amarelas, fazendo um acompanhamento agradável para as canções simples que cantavam. Meg tinha uma voz como uma flauta, e ela e a sua mãe lideravam o pequeno coro. Amy chilreava como um grilo, e Jo vagueava pelas melodias à sua própria vontade, saindo sempre no lugar errado com um grasnido ou um tremor que estragava a melodia mais pensativa. Elas sempre tinham feito isto desde o tempo em que conseguiam balbuciar
"Brilha, brilha, estrelinha",
e tornou-se um costume doméstico, pois a mãe era uma cantora nata. O primeiro som da manhã era a sua voz, enquanto andava pela casa a cantar como uma cotovia; e o último som à noite era o mesmo som alegre, pois as raparigas nunca se tornaram demasiado velhas para aquela canção de embalar familiar.
II.
UM FELIZ NATAL.
Jo foi a primeira a acordar no cinzento amanhecer da manhã de Natal. Não havia meias penduradas na lareira e, por um momento, sentiu-se tão desapontada como há muito tempo, quando a sua pequena meia caiu porque estava tão cheia de guloseimas. Depois lembrou-se da promessa da mãe e, deslizando a mão debaixo da almofada, tirou um pequeno livro de capa carmesim. Conhecia-o muito bem, pois era aquela bela história antiga da melhor vida que alguma vez se viveu, e Jo sentiu que era um verdadeiro guia para qualquer peregrino que fizesse a longa viagem. Acordou Meg com um "Feliz Natal" e pediu-lhe para ver o que estava debaixo da almofada. Apareceu um livro de capa verde, com a mesma imagem no interior e algumas palavras escritas pela mãe, o que tornou o seu único presente muito precioso aos seus olhos. Pouco depois, Beth e Amy acordaram para procurar e encontrar também os seus pequenos livros — um cor de pomba, o outro azul; e todas sentaram-se a olhar para eles e a falar sobre eles, enquanto o leste se tornava rosado com o dia que chegava.
Apesar das suas pequenas vaidades, Margaret tinha uma natureza doce e piedosa, que influenciava inconscientemente as suas irmãs, especialmente Jo, que a amava muito ternamente e lhe obedecia porque o seu conselho era dado tão suavemente.
"Raparigas", disse Meg seriamente, olhando da cabeça despenteada ao seu lado para as duas pequenas de touca no quarto ao lado, "a mãe quer que leiamos, amemos e obedeçamos a estes livros, e temos de começar imediatamente. Costumávamos ser fiéis nisso; mas desde que o pai partiu e toda esta confusão da guerra nos transtornou, negligenciámos muitas coisas. Podem fazer como quiserem; mas eu vou manter o meu livro na mesa aqui e ler um pouco todas as manhãs assim que acordar, pois sei que me fará bem e me ajudará ao longo do dia."
Depois abriu o seu novo livro e começou a ler. Jo pôs o braço à volta dela e, encostando face a face, leu também, com a expressão quieta tão raramente vista no seu rosto inquieto.
"Como a Meg é boa! Vamos, Amy, façamos como elas. Eu ajudo-te com as palavras difíceis, e elas explicam as coisas se não entendermos", sussurrou Beth, muito impressionada com os livros bonitos e o exemplo das irmãs.
"Estou contente por o meu ser azul", disse Amy; e depois os quartos ficaram muito silenciosos enquanto as páginas eram viradas suavemente e o sol de inverno entrava para tocar as cabeças brilhantes e os rostos sérios com uma saudação de Natal.
"Onde está a mãe?" perguntou Meg, enquanto ela e Jo corriam para lhe agradecer pelos presentes, meia hora depois.
"Só Deus sabe. Uma pobre criatura veio pedir, e a vossa mãe foi logo ver o que era preciso. Nunca houve tal mulher para dar comida e bebida, roupa e lume", respondeu Hannah, que vivia com a família desde que Meg nascera e era considerada por todas mais como uma amiga do que como uma serva.
"Ela voltará em breve, penso eu; por isso fritem os bolos e tenham tudo pronto", disse Meg, examinando os presentes que estavam reunidos num cesto e guardados debaixo do sofá, prontos para serem produzidos na altura certa. "Ora, onde está o frasco de colónia da Amy?" acrescentou ela, ao ver que o pequeno frasco não aparecia.
"Ela tirou-o há um minuto e foi-se embora com ele para pôr uma fita ou alguma ideia desse género", respondeu Jo, dançando pela sala para tirar a rigidez inicial aos novos chinelos de exército.
"Como os meus lenços parecem bonitos, não parecem? A Hannah lavou-os e passou-os a ferro para mim, e eu marquei-os todos sozinha", disse Beth, olhando orgulhosamente para as letras um pouco irregulares que lhe tinham custado tanto trabalho.
"Deus abençoe a criança! ela foi e pôs 'Mãe' neles em vez de 'M. March'. Que engraçado!" gritou Jo, pegando num.
"Não está certo? Pensei que era melhor fazê-lo assim, porque as iniciais da Meg são 'M. M.', e não quero que ninguém use estes exceto a Marmee", disse Beth, parecendo preocupada.
"Está tudo bem, querida, e é uma ideia muito bonita — bastante sensata também, pois ninguém se pode enganar agora. Vai agradar-lhe muito, eu sei", disse Meg, com um franzir de sobrolho para Jo e um sorriso para Beth.
"Lá está a mãe. Escondam o cesto, rápido!" gritou Jo, quando uma porta bateu e passos soaram no corredor.
Amy entrou apressadamente e pareceu um pouco embaraçada quando viu as suas irmãs todas à sua espera.
"Onde estiveste e o que escondes atrás de ti?" perguntou Meg, surpreendida ao ver, pelo seu capuz e manto, que a preguiçosa Amy tinha saído tão cedo.
"Não se riam de mim, Jo! Não queria que ninguém soubesse até chegar a altura. Só queria trocar o frasco pequeno por um grande, e dei todo o meu dinheiro para o conseguir, e estou a tentar verdadeiramente não ser mais egoísta."
Enquanto falava, Amy mostrou o frasco elegante que substituíra o barato; e parecia tão séria e humilde no seu pequeno esforço para esquecer-se de si mesma que Meg abraçou-a imediatamente, e Jo declarou que ela era "um trunfo", enquanto Beth corria para a janela e colhia a sua rosa mais bonita para ornamentar o frasco imponente.
"Vêem, senti-me envergonhada do meu presente, depois de ler e falar sobre ser boa esta manhã, por isso corri até à esquina e troquei-o no minuto em que me levantei: e estou tão contente, porque o meu é o mais bonito agora."
Outra batida da porta da rua mandou o cesto para debaixo do sofá, e as raparigas para a mesa, ansiosas pelo pequeno-almoço.
"Feliz Natal, Marmee! Muitos deles! Obrigado pelos nossos livros; lemos um pouco e tencionamos fazê-lo todos os dias", gritaram elas, em coro.
"Feliz Natal, minhas pequenas filhas! Estou contente por terem começado logo, e espero que continuem. Mas quero dizer uma palavra antes de nos sentarmos. Não muito longe daqui jaz uma mulher pobre com um bebé recém-nascido. Seis crianças estão amontoadas numa cama para não congelarem, pois não têm lume. Não há nada para comer ali; e o filho mais velho veio dizer-me que estavam a sofrer fome e frio. Minhas raparigas, vão dar-lhes o vosso pequeno-almoço como presente de Natal?"
Todas estavam invulgarmente famintas, tendo esperado quase uma hora, e por um minuto ninguém falou; apenas um minuto, pois Jo exclamou impetuosamente:
"Estou tão contente por teres vindo antes de começarmos!"
"Posso ir ajudar a levar as coisas para as pobres criancinhas?" perguntou Beth, ansiosamente.
"Eu levarei as natas e os bolinhos", acrescentou Amy, sacrificando heroicamente os artigos de que mais gostava.
Meg já estava a tapar os bolos de trigo mourisco e a empilhar o pão num prato grande.
"Eu sabia que o fariam", disse a Sra. March, sorrindo como se estivesse satisfeita. "Vão todas ajudar-me, e quando voltarmos tomaremos pão e leite ao pequeno-almoço, e compensaremos à hora do jantar."
Estavam prontas em pouco tempo, e o cortejo partiu. Felizmente era cedo, e passaram por ruas secundárias, por isso poucas pessoas as viram, e ninguém se riu daquele grupo estranho.
Era um quarto pobre, nu e miserável, com janelas partidas, sem lume, roupa de cama esfarrapada, uma mãe doente, um bebé a chorar e um grupo de crianças pálidas e famintas amontoadas debaixo de uma colcha velha, a tentar manterem-se quentes.
Como os olhos grandes arregalaram e os lábios azuis sorriram quando as raparigas entraram!
"Ach, mein Gott! são anjos bons que vieram até nós!" disse a pobre mulher, chorando de alegria.
"Anjos engraçados de capuz e luvas," disse Jo, e pô-las a rir.
Em poucos minutos, parecia mesmo que espíritos bondosos tinham estado a trabalhar ali. Hannah, que tinha carregado lenha, fez um lume e tapou as vidraças partidas com chapéus velhos e o seu próprio manto. A Sra. March deu à mãe chá e papas, e consolou-a com promessas de ajuda, enquanto vestia o bebé tão ternamente como se fosse seu. As raparigas, entretanto, puseram a mesa, sentaram as crianças à volta do lume e deram-lhes de comer como se fossem passarinhos esfomeados — rindo, falando e tentando compreender o inglês engraçado e quebrado.
"Das ist gut!" "Die Engel-kinder!" gritavam as pobres criaturas, enquanto comiam e aqueciam as suas mãos roxas na chama confortável.
As raparigas nunca tinham sido chamadas de crianças-anjos antes, e acharam muito agradável, especialmente Jo, que tinha sido considerada um "Sancho" desde que nascera. Aquele foi um pequeno-almoço muito feliz, embora elas não tenham comido nada dele; e quando se foram embora, deixando conforto para trás, creio que não havia em toda a cidade quatro pessoas mais alegres do que as raparigas esfomeadas que deram os seus pequenos-almoços e se contentaram com pão e leite na manhã de Natal.
"Isso é amar o próximo melhor do que a nós mesmas, e eu gosto disso," disse Meg, enquanto dispunham os seus presentes, enquanto a mãe estava lá em cima a recolher roupa para os pobres Hummel.
Não era uma exibição muito esplêndida, mas havia muito amor embrulhado naqueles poucos pequenos pacotes; e o jarro alto de rosas vermelhas, crisântemos brancos e trepadeiras, que estava no meio, deu um ar bastante elegante à mesa.
"Ela está a vir! Toca, Beth! Abre a porta, Amy! Três vivas para a Marmee!" gritou Jo, saltitando, enquanto Meg ia conduzir a mãe ao lugar de honra.
Beth tocou a sua marcha mais alegre, Amy abriu a porta de par em par e Meg desempenhou o papel de escolta com grande dignidade. A Sra. March ficou surpreendida e comovida; e sorriu com os olhos cheios enquanto examinava os seus presentes e lia os pequenos bilhetes que os acompanhavam. As chinelas foram calçadas de imediato, um lenço novo foi metido no seu bolso, bem perfumado com a colónia da Amy, a rosa foi presa no seu peito e as luvas bonitas foram declaradas como um "ajuste perfeito".
Houve muitas risadas, beijos e explicações, da maneira simples e amorosa que torna estes festivais caseiros tão agradáveis no momento, tão doces de recordar muito tempo depois, e então todas puseram mãos à obra.
As caridades e cerimónias da manhã ocuparam tanto tempo que o resto do dia foi dedicado aos preparativos para as festividades da noite. Sendo ainda demasiado jovens para ir muitas vezes ao teatro, e não sendo suficientemente ricas para permitir grandes gastos com espetáculos privados, as raparigas puseram a sua engenhosidade a trabalhar e — sendo a necessidade a mãe da invenção — fizeram tudo o que precisavam. Muito engenhosas foram algumas das suas produções — guitarras de cartão, candeeiros antigos feitos de manteigueiras antiquadas cobertas com papel de prata, trajes magníficos de algodão velho, brilhando com lantejoulas de estanho de uma fábrica de conservas, e armaduras cobertas com os mesmos úteis pedaços em forma de diamante, deixados em folhas quando as tampas das latas de conservas eram cortadas. O mobiliário estava habituado a ser virado do avesso, e o grande quarto era o cenário de muitas folias inocentes.
Não eram admitidos cavalheiros; por isso Jo representou papéis masculinos conforme quis, e sentiu uma imensa satisfação com um par de botas de couro castanho oferecidas por uma amiga, que conhecia uma senhora que conhecia um ator. Estas botas, uma espada antiga e um gibão com fendas, usado uma vez por um artista para algum quadro, eram os principais tesouros de Jo e apareciam em todas as ocasiões. A pequenez da companhia tornava necessário que os dois atores principais assumissem vários papéis cada um; e certamente mereciam algum crédito pelo trabalho árduo que tiveram ao aprender três ou quatro papéis diferentes, entrando e saindo de vários trajes e gerindo o palco também. Foi um excelente exercício para as suas memórias, um divertimento inofensivo, e ocupou muitas horas que, de outra forma, teriam sido ociosas, solitárias ou passadas em sociedades menos proveitosas.
Na noite de Natal, uma dúzia de raparigas amontoou-se na cama que servia de plateia, e sentou-se diante das cortinas de chita azul e amarela num estado de expectativa muito lisonjeiro. Houve muito farfalhar e sussurros atrás da cortina, um pouco de fumo de candeeiro e uma risadinha ocasional da Amy, que tinha tendência a ficar histérica na excitação do momento. Momentos depois, soou uma campainha, as cortinas abriram-se e a Tragédia Operática começou.
"Um bosque sombrio", de acordo com o único cartaz da peça, era representado por alguns arbustos em vasos, baeta verde no chão e uma caverna ao longe. Esta caverna foi feita com um estendal para telhado, cómodas para paredes; e nela havia um pequeno forno em pleno funcionamento, com um pote preto em cima e uma velha bruxa curvada sobre ele. O palco estava escuro e o brilho do forno produzia um efeito excelente, especialmente quando vapor real saía da chaleira quando a bruxa tirava a tampa. Foi concedido um momento para que a primeira emoção diminuísse; então Hugo, o vilão, entrou com uma espada a tilintar ao lado, um chapéu descaído, barba preta, manto misterioso e as botas. Depois de andar de um lado para o outro com grande agitação, bateu na testa e explodiu numa melodia selvagem, cantando sobre o seu ódio por Roderigo, o seu amor por Zara e a sua agradável resolução de matar um e conquistar a outra. Os tons roucos da voz de Hugo, com um grito ocasional quando os seus sentimentos o superavam, eram muito impressionantes, e o público aplaudia no momento em que ele pausava para respirar. Inclinando-se com o ar de quem está habituado aos elogios públicos, ele esgueirou-se para a caverna e ordenou a Hagar que saísse com um comando: "O que é isto, lacaio! Preciso de ti!"
Saiu Meg, com crina de cavalo cinzenta a pender à volta do rosto, um manto vermelho e preto, um cajado e sinais cabalísticos sobre a capa. Hugo exigiu uma poção para fazer com que Zara o adorasse, e outra para destruir Roderigo. Hagar, numa bela melodia dramática, prometeu ambos e procedeu a invocar o espírito que traria o filtro de amor:--
"Vem, vem, da tua casa, Espírito etéreo, ordeno-te que venhas! Nascido de rosas, alimentado de orvalho, Podes preparar encantos e poções? Traze-me aqui, com rapidez élfica, O filtro perfumado de que preciso; Torna-o doce e veloz e forte, Espírito, responde agora à minha canção!"
Um som suave de música soou, e então, no fundo da caverna, apareceu uma pequena figura em branco nublado, com asas brilhantes, cabelo dourado e uma grinalda de rosas na cabeça. Agitando uma varinha, cantou:--
"Aqui venho eu, Da minha casa etérea, Longe na lua prateada. Toma o feitiço mágico, E usa-o bem, Ou o seu poder desaparecerá em breve!"
E, deixando cair um pequeno frasco dourado aos pés da bruxa, o espírito desapareceu. Outro canto de Hagar produziu outra aparição — não uma adorável; pois, com um estrondo, um duende preto e feio apareceu e, tendo coaxado uma resposta, atirou um frasco escuro a Hugo e desapareceu com uma risada trocista. Tendo gorjeado os seus agradecimentos e colocado as poções nas suas botas, Hugo partiu; e Hagar informou o público que, como ele tinha matado alguns dos seus amigos em tempos passados, ela amaldiçoou-o e pretende frustrar os seus planos e vingar-se dele. Então a cortina caiu, e o público descansou e comeu doces enquanto discutia os méritos da peça.
Houve muito martelar antes de a cortina subir novamente; mas quando se tornou evidente que obra-prima de carpintaria de palco tinha sido montada, ninguém murmurou com o atraso. Era verdadeiramente soberbo! Uma torre erguia-se até ao teto; a meio caminho apareceu uma janela, com um candeeiro aceso nela, e atrás da cortina branca apareceu Zara num adorável vestido azul e prata, à espera de Roderigo. Ele veio em trajes magníficos, com chapéu de plumas, capa vermelha, madeixas castanhas, uma guitarra e as botas, claro. Ajoelhando-se ao pé da torre, cantou uma serenata em tons enternecedores. Zara respondeu e, após um diálogo musical, consentiu em fugir. Depois veio o grande efeito da peça. Roderigo produziu uma escada de corda, com cinco degraus, atirou uma extremidade para cima e convidou Zara a descer. Timidamente, ela rastejou da sua gelosia, pôs a mão no ombro de Roderigo e estava prestes a saltar graciosamente, quando, "Ai! ai de Zara!" ela esqueceu-se da cauda do vestido — prendeu-se na janela; a torre oscilou, inclinou-se para a frente, caiu com um estrondo e enterrou os infelizes amantes nas ruínas!
Um grito universal surgiu quando as botas de couro castanho agitavam-se descontroladamente entre os destroços, e uma cabeça dourada emergiu, exclamando: "Eu bem vos disse! Eu bem vos disse!" Com uma presença de espírito maravilhosa, Don Pedro, o pai cruel, precipitou-se, arrastou a sua filha, com um aparte apressado:--
"Não se riam! Ajam como se estivesse tudo bem!" — e, ordenando a subida de Roderigo, baniu-o do reino com ira e desprezo. Embora decididamente abalado pela queda da torre sobre ele, Roderigo desafiou o velho cavalheiro e recusou-se a mexer-se. Este exemplo destemido inflamou Zara: ela também desafiou o seu pai, e ele ordenou que ambos fossem para as masmorras mais profundas do castelo. Um pequeno retentor robusto entrou com correntes e levou-os embora, parecendo muito assustado e esquecendo-se evidentemente do discurso que deveria ter feito.
O quarto ato era o salão do castelo; e aqui Hagar apareceu, tendo vindo libertar os amantes e acabar com Hugo. Ela ouve-o vir e esconde-se; vê-o pôr as poções em dois copos de vinho e ordenar ao tímido pequeno servo: "Leva-os aos cativos nas suas celas e diz-lhes que virei em breve." O servo leva Hugo de lado para lhe dizer algo, e Hagar troca os copos por outros dois que são inofensivos. Ferdinando, o "lacaio", leva-os embora, e Hagar repõe o copo que contém o veneno destinado a Roderigo. Hugo, ficando com sede após um longo gorjeio, bebe-o, perde o juízo e, depois de muito agarrar e bater o pé, cai estatelado e morre; enquanto Hagar informa-o do que ela fez numa canção de poder e melodia requintados.
Esta foi uma cena verdadeiramente emocionante, embora algumas pessoas pudessem ter pensado que o súbito desmoronamento de uma quantidade de cabelo comprido prejudicou um pouco o efeito da morte do vilão. Ele foi chamado à frente da cortina e, com grande propriedade, apareceu, guiando Hagar, cujo canto foi considerado mais maravilhoso do que todo o resto do espetáculo junto.
O quarto ato exibia o desesperado Roderigo prestes a apunhalar-se, porque lhe disseram que Zara o tinha abandonado. No momento em que o punhal está junto ao seu coração, uma canção adorável é cantada sob a sua janela, informando-o de que Zara é fiel, mas está em perigo, e ele pode salvá-la, se quiser. Uma chave é atirada para dentro, que abre a porta, e num espasmo de arrebatamento ele arranca as suas correntes e corre para encontrar e resgatar a sua amada.
O quinto ato abriu com uma cena tempestuosa entre Zara e Don Pedro. Ele deseja que ela vá para um convento, mas ela não quer ouvir falar disso; e, após um apelo comovente, está prestes a desmaiar, quando Roderigo entra precipitadamente e exige a sua mão. Don Pedro recusa, porque ele não é rico. Eles gritam e gesticulam tremendamente, mas não conseguem chegar a acordo, e Roderigo está prestes a levar a exausta Zara, quando o servo tímido entra com uma carta e um saco de Hagar, que desapareceu misteriosamente. Esta última informa ao grupo que lega uma fortuna incalculável ao jovem par, e um destino terrível a Don Pedro, se ele não os fizer felizes. O saco é aberto, e vários litros de dinheiro de estanho caem sobre o palco, até que ele fica totalmente glorificado com o brilho. Isto suaviza completamente o "pai severo": ele consente sem um murmúrio, todos juntam-se num coro alegre, e a cortina cai sobre os amantes ajoelhados para receber a bênção de Don Pedro em atitudes da mais romântica graça.
Seguiram-se aplausos tumultuosos, mas receberam um contratempo inesperado; pois a cama de campanha, sobre a qual a "plateia" foi construída, fechou-se subitamente e extinguiu o público entusiasta. Roderigo e Don Pedro voaram para o resgate, e todos foram retirados ilesos, embora muitos estivessem mudos de tanto rir. A excitação mal tinha diminuído quando Hannah apareceu, com "os cumprimentos da Sra. March, e será que as senhoras queriam descer para o jantar."
Isto foi uma surpresa, mesmo para os atores; e, quando viram a mesa, olharam uns para os outros num espanto arrebatador. Era bem do estilo da Marmee preparar um pequeno mimo para elas; mas algo tão bom como aquilo era inaudito desde os tempos passados da fartura. Havia gelado — na verdade, dois pratos dele, cor-de-rosa e branco — e bolo, fruta e tentadores bombons franceses, e, no meio da mesa, quatro grandes ramos de flores de estufa!
Isso deixou-as sem fôlego; e olharam primeiro para a mesa e depois para a mãe, que parecia apreciar aquilo imensamente.
"São fadas?" perguntou Amy.
"É o Pai Natal", disse Beth.
"A mãe fez isto"; e Meg sorriu da sua forma mais doce, apesar da sua barba cinzenta e sobrancelhas brancas.
"A Tia March teve um bom dia e enviou o jantar", gritou Jo, com uma inspiração súbita.
"Tudo errado. O velho Sr. Laurence enviou-o", respondeu a Sra. March.
"O avô do rapaz Laurence? O que raio lhe pôs tal coisa na cabeça? Nós não o conhecemos!" exclamou Meg.
"A Hannah contou a um dos seus servos sobre a vossa festa de pequeno-almoço. Ele é um velho cavalheiro estranho, mas isso agradou-lhe. Ele conheceu o meu pai, há anos; e enviou-me um bilhete educado esta tarde, dizendo que esperava que eu lhe permitisse expressar o seu sentimento amigável para com as minhas filhas, enviando-lhes algumas pequenas lembranças em honra do dia. Não pude recusar; e por isso vocês têm um pequeno banquete à noite para compensar o pequeno-almoço de pão e leite."
"Aquele rapaz pôs-lho na cabeça, eu sei que pôs! Ele é um rapaz excelente, e eu gostaria que nos pudéssemos conhecer. Ele parece querer conhecer-nos; mas é tímido, e a Meg é tão afetada que não me deixa falar com ele quando passamos", disse Jo, à medida que os pratos passavam e o gelado começava a derreter, com "Ohs!" e "Ahs!" de satisfação.
"Referes-te às pessoas que vivem na casa grande ao lado, não é?" perguntou uma das raparigas. "A minha mãe conhece o velho Sr. Laurence; mas diz que ele é muito orgulhoso e não gosta de se misturar com os vizinhos. Mantém o neto fechado, quando não está a andar a cavalo ou a passear com o seu tutor, e obriga-o a estudar muito. Convidámo-lo para a nossa festa, mas ele não veio. A minha mãe diz que ele é muito simpático, embora nunca fale connosco, raparigas."
"A nossa gata fugiu uma vez, e ele trouxe-a de volta, e falámos por cima da vedação, e estávamos a dar-nos maravilhosamente — tudo sobre críquete e por aí fora — quando ele viu a Meg a vir e foi-se embora. Tenho a intenção de o conhecer um dia; pois ele precisa de diversão, tenho a certeza de que precisa", disse Jo decididamente.
"Gosto das maneiras dele, e ele parece um pequeno cavalheiro; por isso não tenho objeções a que o conheças, se surgir uma oportunidade adequada. Ele trouxe as flores pessoalmente; e eu tê-lo-ia convidado a entrar, se tivesse a certeza do que se estava a passar lá em cima. Ele parecia tão nostálgico ao ir-se embora, ao ouvir a folia, e evidentemente sem nenhuma sua."
"Ainda bem que não convidaste, mãe!" riu-se Jo, olhando para as suas botas. "Mas teremos outra peça, um dia, que ele possa ver. Talvez ele ajude a representar; não seria divertido?"
"Nunca tive um ramo tão bonito antes! Como é bonito!" E Meg examinou as suas flores com grande interesse.
"São adoráveis! Mas as rosas da Beth são mais doces para mim", disse a Sra. March, cheirando o ramo meio morto no seu cinto.
Beth aconchegou-se a ela e sussurrou suavemente: "Gostaria de poder enviar o meu ramo ao pai. Receio que ele não esteja a ter um Natal tão alegre quanto nós."
III.
O RAPAZ LAURENCE.
"Jo! Jo! onde estás?" gritou Meg, ao fundo das escadas do sótão.
"Aqui!" respondeu uma voz rouca lá de cima; e, subindo, Meg encontrou a sua irmã a comer maçãs e a chorar sobre o "Heir of Redclyffe", embrulhada num cobertor num velho sofá de três pernas junto à janela ensolarada. Este era o refúgio favorito de Jo; e aqui ela adorava retirar-se com meia dúzia de maçãs e um bom livro, para desfrutar da quietude e da companhia de um rato de estimação que vivia perto e que não se importava nada com ela. Quando Meg apareceu, Scrabble saltou para o seu buraco. Jo sacudiu as lágrimas das bochechas e esperou para ouvir as notícias.
"Que divertido! vê só! um bilhete de convite formal da Sra. Gardiner para a noite de amanhã!" gritou Meg, agitando o precioso papel e procedendo então a lê-lo, com deleite juvenil.
"'A Sra. Gardiner ficaria feliz por ver a Srta. March e a Srta. Josephine num pequeno baile na Véspera de Ano Novo.' A Marmee está disposta a deixar-nos ir; agora, o que vamos vestir?"
"Qual é a utilidade de perguntar isso, quando sabes que vamos vestir os nossos popelines, porque não temos mais nada?" respondeu Jo, com a boca cheia.
"Se ao menos eu tivesse uma seda!" suspirou Meg. "A mãe diz que talvez possa quando tiver dezoito anos; mas dois anos é um tempo eterno para esperar."
"Tenho a certeza de que os nossos popelines parecem seda, e são suficientemente bons para nós. O teu está como novo, mas esqueci-me da queimadura e do rasgão no meu. O que hei de fazer? a queimadura nota-se muito e não consigo disfarçá-la."
"Tens de te sentar o mais quieta que puderes e manter as costas fora de vista; a frente está bem. Eu terei uma fita nova para o meu cabelo, e a Marmee vai emprestar-me o seu pequeno alfinete de pérola, e as minhas chinelas novas são adoráveis, e as minhas luvas servem, embora não sejam tão bonitas como eu gostaria."
"As minhas estão estragadas com limonada e não consigo arranjar umas novas, por isso vou ter de ir sem elas", disse Jo, que nunca se preocupou muito com vestidos.
"Tens de ter luvas, ou eu não vou", gritou Meg decididamente. "As luvas são mais importantes do que qualquer outra coisa; não podes dançar sem elas, e se não fores, ficaria tão mortificada."
"Então ficarei sentada. Não me importo muito com danças de companhia; não tem graça andar a rodopiar; gosto de voar por aí e fazer diabruras."
"Não podes pedir umas novas à mãe, são tão caras, e tu és tão descuidada. Ela disse, quando estragaste as outras, que não te ia arranjar mais nenhuma este inverno. Não podes arranjar maneira de elas servirem?" perguntou Meg ansiosamente.
"Posso segurá-las amachucadas na mão, para que ninguém saiba o quão manchadas estão; é tudo o que posso fazer. Não! vou dizer-te como podemos fazer — cada uma usa uma boa e leva uma má; não percebes?"
"As tuas mãos são maiores do que as minhas, e vais esticar terrivelmente a minha luva", começou Meg, cujas luvas eram um ponto sensível para ela.
"Então vou sem elas. Não me importa o que as pessoas digam!" gritou Jo, pegando no seu livro.
"Podes tê-la, podes! apenas não a manches e comporta-te bem. Não ponhas as mãos atrás das costas, nem fiques a olhar fixamente, nem digas 'Christopher Columbus!', está bem?"
"Não te preocupes comigo; serei o mais afetada que puder e não me meterei em sarilhos, se puder evitar. Agora vai responder ao teu bilhete e deixa-me acabar esta história esplêndida."
Então Meg foi-se embora para "aceitar com agradecimentos", ver o seu vestido e cantar alegremente enquanto arranjava o seu único folho de renda verdadeiro; enquanto Jo terminava a sua história, as suas quatro maçãs e fazia uma brincadeira com Scrabble.
Na Véspera de Ano Novo, a sala estava deserta, pois as duas raparigas mais novas faziam de criadas e as duas mais velhas estavam absorvidas no negócio importantíssimo de "preparar-se para a festa". Por mais simples que fossem os trajes, houve muito correr de um lado para o outro, rir e falar, e a certa altura um cheiro forte a cabelo queimado invadiu a casa. Meg queria alguns caracóis à volta do rosto e Jo encarregou-se de prender as madeixas com papel com um par de tenazes quentes.
"Deviam estar a fumegar assim?" perguntou Beth, do seu poleiro na cama.
"É a humidade a secar", respondeu Jo.
"Que cheiro estranho! Parece penas queimadas", observou Amy, alisando os seus próprios caracóis bonitos com um ar de superioridade.
"Pronto, agora vou tirar os papéis e vais ver uma nuvem de pequenos caracóis", disse Jo, pousando as tenazes.
Ela tirou de facto os papéis, mas nenhuma nuvem de caracóis apareceu, pois o cabelo veio com os papéis, e a cabeleireira horrorizada pousou uma fila de pequenos molhos chamuscados sobre a cómoda, diante da sua vítima.
"Oh, oh, oh! O que é que fizeste? Estou estragada! Não posso ir! O meu cabelo, oh, o meu cabelo!", lamentou Meg, olhando com desespero para o frisado irregular na sua testa.
"Logo a minha sorte! Não devias ter-me pedido para o fazer; estrago sempre tudo. Sinto muito, mas as tenazes estavam demasiado quentes e, por isso, fiz uma asneira", gemeu a pobre Jo, olhando para as panquecas pretas com lágrimas de arrependimento.
"Não está estragado; basta frisá-lo e atar a fita de modo a que as pontas venham um pouco para a testa, e ficará como a última moda. Já vi muitas raparigas fazerem assim", disse Amy, consoladora.
"Bem merecido por tentar ser elegante. Quem me dera ter deixado o meu cabelo em paz", exclamou Meg, de forma rabugenta.
"A mim também, estava tão liso e bonito. Mas em breve voltará a crescer", disse Beth, aproximando-se para beijar e consolar a ovelha tosquiada.
Após vários contratempos menores, Meg ficou finalmente pronta e, graças aos esforços conjuntos da família, o cabelo de Jo foi arranjado e o seu vestido vestido. Estavam muito bem nos seus trajes simples: Meg em cinzento-prateado, com uma fita de veludo azul, folhos de renda e o alfinete de pérolas; Jo em bordeaux, com um colarinho de linho rígido, ao estilo masculino, e um ou dois crisântemos brancos como seu único ornamento. Cada uma calçou uma luva clara e bonita e carregou uma suja, e ambas declararam que o efeito era "bastante descontraído e elegante". As pantufas de salto alto de Meg estavam muito apertadas e magoavam-na, embora ela não o quisesse admitir, e os dezanove ganchos de cabelo de Jo pareciam estar todos espetados diretamente na sua cabeça, o que não era exatamente confortável; mas, valha-me Deus, sejamos elegantes ou morramos!
"Divirtam-se, queridas!", disse a Sra. March, enquanto as irmãs desciam delicadamente pelo caminho. "Não comam muito ao jantar e venham embora às onze, quando eu enviar a Hannah para vos buscar." Quando o portão bateu atrás delas, uma voz gritou de uma janela:
"Meninas, meninas! Têm as duas bons lenços de bolso?"
"Sim, sim, impecáveis, e a Meg tem água de colónia no dela", gritou Jo, acrescentando, com uma gargalhada, enquanto seguiam caminho: "Até acredito que a Marmee perguntaria isso mesmo se estivéssemos todas a fugir de um terramoto."
"É um dos seus gostos aristocráticos, e muito apropriado, pois uma verdadeira senhora conhece-se sempre pelos sapatos, luvas e lenço impecáveis", respondeu Meg, que tinha muitos pequenos "gostos aristocráticos" seus.
"Agora não te esqueças de manter a parte estragada fora da vista, Jo. A minha faixa está bem? E o meu cabelo parece muito mau?", disse Meg, enquanto se virava do espelho no quarto de vestir da Sra. Gardiner, após um prolongado arranjo.
"Sei que me vou esquecer. Se me vires a fazer algo errado, avisa-me com uma piscadela, sim?", respondeu Jo, dando um puxão ao seu colarinho e uma escovadela apressada ao cabelo.
"Não, piscar o olho não é próprio de uma senhora; eu levantarei as sobrancelhas se algo estiver errado e farei um sinal afirmativo se estiveres bem. Agora mantém os ombros direitos, dá passos curtos e não dês a mão se fores apresentada a alguém: não é o que se faz."
"Como é que aprendes todas as maneiras corretas? Eu nunca consigo. Aquela música não é alegre?"
Desceram, sentindo-se um pouco tímidas, pois raramente iam a festas e, por mais informal que fosse aquele pequeno convívio, era um evento para elas. A Sra. Gardiner, uma senhora imponente e idosa, cumprimentou-as gentilmente e entregou-as à mais velha das suas seis filhas. Meg conhecia a Sallie e sentiu-se à vontade muito depressa; mas Jo, que não se importava muito com raparigas ou com conversas femininas, ficou por ali, com as costas cuidadosamente encostadas à parede, e sentiu-se tão deslocada como um potro num jardim de flores. Meia dúzia de rapazes joviais falavam sobre patins noutra parte da sala, e ela desejava ir juntar-se a eles, pois patinar era uma das alegrias da sua vida. Transmitiu o seu desejo a Meg, mas as sobrancelhas desta levantaram-se de forma tão alarmante que ela não se atreveu a mexer. Ninguém veio falar com ela, e, um a um, o grupo perto dela dispersou-se, até que ficou sozinha. Não podia andar de um lado para o outro a divertir-se, pois a parte queimada do vestido ver-se-ia, por isso olhava para as pessoas de forma algo desolada até que a dança começou. Meg foi convidada de imediato, e as pantufas apertadas saltitaram tão vivamente que ninguém teria adivinhado a dor que quem as calçava sofria sorrindo. Jo viu um rapaz alto de cabelo ruivo a aproximar-se do seu canto e, temendo que ele a quisesse convidar, esgueirou-se para um nicho com cortinas, com a intenção de espreitar e divertir-se em paz. Infelizmente, outra pessoa tímida tinha escolhido o mesmo refúgio; pois, quando a cortina caiu atrás dela, encontrou-se face a face com o "rapaz Laurence".
"Valha-me Deus, não sabia que estava aqui alguém!", gaguejou Jo, preparando-se para recuar tão rapidamente como tinha saltado para dentro.
Mas o rapaz riu-se e disse agradavelmente, embora parecesse um pouco sobressaltado:
"Não se preocupe comigo; fique, se quiser."
"Não a incomodarei?"
"Nem um pouco; só vim para aqui porque não conheço muitas pessoas e senti-me um pouco estranho ao início, sabe."
"Eu também. Não vá embora, por favor, a menos que prefira."
O rapaz sentou-se novamente e olhou para os seus sapatos, até que Jo disse, tentando ser educada e descontraída:
"Acho que já tive o prazer de o ver antes; vive perto de nós, não vive?"
"Ao lado"; e ele olhou para cima e riu-se abertamente, pois a maneira afetada de Jo era bastante engraçada quando se lembrava de como tinham conversado sobre râguebi quando ele levou o gato para casa.
Isso deixou Jo à vontade; e ela riu-se também, ao dizer, da sua forma mais calorosa:
"Nós divertimo-nos tanto com a sua simpática prenda de Natal."
"Foi o avô que a enviou."
"Mas foi você quem lho pôs na cabeça, não foi?"
"Como está o seu gato, Srta. March?", perguntou o rapaz, tentando parecer sério, enquanto os seus olhos negros brilhavam de diversão.
"Muito bem, obrigada, Sr. Laurence; mas eu não sou a Srta. March, sou apenas a Jo", respondeu a jovem.
"Eu não sou o Sr. Laurence, sou apenas o Laurie."
"Laurie Laurence... que nome estranho!"
"O meu primeiro nome é Theodore, mas não gosto dele, porque os rapazes chamavam-me Dora, por isso obriguei-os a chamar-me Laurie."
"Eu também odeio o meu nome... tão sentimental! Quem me dera que todos me chamassem Jo, em vez de Josephine. Como é que fez os rapazes pararem de lhe chamar Dora?"
"Dei-lhes uma tareia."
"Eu não posso dar uma tareia à Tia March, por isso suponho que terei de aguentar"; e Jo resignou-se com um suspiro.
"Não gosta de dançar, Srta. Jo?", perguntou Laurie, parecendo achar que o nome lhe assentava bem.
"Gosto bastante, se houver espaço suficiente e se toda a gente for animada. Num lugar como este, com certeza vou entornar qualquer coisa, pisar os pés às pessoas ou fazer algo terrível, por isso mantenho-me longe de sarilhos e deixo a Meg andar por aí. Você não dança?"
"Às vezes; sabe, estive no estrangeiro durante muitos anos e ainda não frequentei companhia suficiente para saber como vocês fazem as coisas aqui."
"No estrangeiro!", exclamou Jo. "Oh, conte-me tudo! Adoro ouvir as pessoas a descreverem as suas viagens."
Laurie parecia não saber por onde começar; mas as perguntas ansiosas de Jo logo o puseram a falar, e ele contou-lhe como tinha andado na escola em Vevey, onde os rapazes nunca usavam chapéu, tinham uma frota de barcos no lago e, para diversão nas férias, faziam viagens a pé pela Suíça com os seus professores.
"Quem me dera ter estado lá!", exclamou Jo. "Foi a Paris?"
"Passámos lá o inverno passado."
"Sabe falar francês?"
"Não nos era permitido falar outra coisa em Vevey."
"Diga alguma coisa! Eu sei ler, mas não sei pronunciar."
"Quel nom a cette jeune demoiselle en les pantoufles jolis?", disse Laurie, de boa vontade.
"Como o diz bem! Deixe-me ver... disse: 'Quem é a jovem nas pantufas bonitas', não foi?"
"Oui, mademoiselle."
"É a minha irmã Margaret, e você sabia que era! Acha que ela é bonita?"
"Sim; faz-me lembrar as raparigas alemãs, parece tão fresca e tranquila, e dança como uma senhora."
Jo brilhou de prazer com este elogio juvenil da sua irmã e guardou-o para repetir à Meg. Ambos espreitaram, criticaram e conversaram, até se sentirem velhos conhecidos. A timidez de Laurie logo desapareceu; pois o comportamento cavalheiresco de Jo divertiu-o e deixou-o à vontade, e Jo voltou a ser ela própria, alegre, porque se tinha esquecido do vestido e ninguém levantava as sobrancelhas para ela. Gostou do "rapaz Laurence" mais do que nunca e observou-o atentamente várias vezes, para que o pudesse descrever às irmãs; pois elas não tinham irmãos, pouquíssimos primos rapazes, e os rapazes eram criaturas quase desconhecidas para elas.
"Cabelo preto encaracolado; pele morena; olhos grandes e pretos; nariz bonito; dentes finos; mãos e pés pequenos; mais alto do que eu; muito educado, para um rapaz, e totalmente divertido. Gostava de saber quantos anos tem."
Esteve na ponta da língua de Jo perguntar; mas conteve-se a tempo e, com um tato invulgar, tentou descobrir por via indireta.
"Suponho que vá para a universidade em breve? Vejo-o a esforçar-se nos estudos... não, quero dizer, a estudar muito"; e Jo corou com o terrível "esforçar-se" que lhe tinha escapado.
Laurie sorriu, mas não pareceu chocado, e respondeu, com um encolher de ombros:
"Só daqui a um ano ou dois; de qualquer forma, não irei antes dos dezassete."
"Não tem apenas quinze anos?", perguntou Jo, olhando para o rapaz alto, que ela já imaginava ter dezassete.
"Faço dezasseis no próximo mês."
"Quem me dera ir para a universidade! Não parece que goste muito."
"Detesto! Não é nada além de esforço ou galhofa. E também não gosto da maneira como os outros rapazes agem neste país."
"Do que é que você gosta?"
"De viver em Itália e de me divertir à minha própria maneira."
Jo queria muito perguntar qual era a sua própria maneira; mas as suas sobrancelhas pretas pareciam algo ameaçadoras enquanto ele as franzia; por isso ela mudou de assunto dizendo, enquanto o pé marcava o ritmo: "Essa polca é esplêndida! Porque não vai experimentá-la?"
"Se você vier também", respondeu ele, com uma pequena vénia galante.
"Não posso; porque disse à Meg que não o faria, porque..." Jo parou e ficou indecisa entre contar ou rir-se.
"Porque quê?", perguntou Laurie, curioso.
"Não vai contar a ninguém?"
"Nunca!"
"Bem, tenho o mau hábito de ficar de pé diante da lareira e, por isso, queimo os meus vestidos, e chamusquei este; e, embora esteja bem remendado, nota-se, e a Meg disse-me para ficar quieta, para que ninguém o visse. Pode rir-se, se quiser; é engraçado, eu sei."
Mas Laurie não se riu; apenas olhou para baixo por um momento, e a expressão do seu rosto intrigou Jo, quando ele disse muito gentilmente:
"Não se preocupe com isso; dir-lhe-ei como podemos resolver: há um corredor comprido ali fora, e podemos dançar magnificamente, e ninguém nos verá. Venha, por favor?"
Jo agradeceu-lhe e foi de bom grado, desejando ter duas luvas impecáveis quando viu as bonitas luvas cor de pérola que o seu par usava. O corredor estava vazio e dançaram uma polca grandiosa; pois Laurie dançava bem e ensinou-lhe o passo alemão, o que encantou Jo, por ser cheio de balanço e impulso. Quando a música parou, sentaram-se nas escadas para recuperar o fôlego; e Laurie estava a meio do relato de um festival de estudantes em Heidelberg, quando Meg apareceu à procura da irmã. Ela fez um sinal e Jo seguiu-a relutantemente para uma sala ao lado, onde a encontrou num sofá, a segurar o pé e a parecer pálida.
"Torci o tornozelo. Aquele salto alto estúpido virou-se e deu-me uma torcedura terrível. Dói tanto que mal consigo estar de pé, e não sei como hei de chegar a casa", disse ela, balançando-se de um lado para o outro com dor.
"Eu sabia que ias magoar os pés com esses sapatos disparatados. Lamento. Mas não vejo o que possas fazer, a não ser arranjar uma carruagem ou ficar aqui a noite toda", respondeu Jo, esfarrando suavemente o pobre tornozelo enquanto falava.
"Não posso arranjar uma carruagem sem que custe uma fortuna. Duvido que consiga arranjar uma; pois a maioria das pessoas vem na sua própria, o estábulo fica longe e não há ninguém para enviar."
"Eu vou."
"Não, de todo! Já passou das nove e está escuro como o Egito. Não posso ficar aqui, pois a casa está cheia. A Sallie tem algumas raparigas a ficar com ela. Vou descansar até a Hannah chegar e depois farei o melhor que puder."
"Vou pedir ao Laurie; ele vai", disse Jo, sentindo-se aliviada ao ter-lhe ocorrido a ideia.
"Piedade, não! Não peças nem contes a ninguém. Vai buscar as minhas galochas e põe estas pantufas com as nossas coisas. Não posso dançar mais; mas assim que o jantar acabar, fica atenta à Hannah e diz-me no minuto em que ela chegar."
"Eles vão jantar agora. Vou ficar contigo; prefiro."
"Não, querida, vai lá e traz-me um café. Estou tão cansada que não me consigo mexer!"
Então Meg reclinou-se, com as galochas bem escondidas, e Jo foi tropeçando até à sala de jantar, que encontrou depois de entrar num armário de loiça e abrir a porta de uma sala onde o velho Sr. Gardiner estava a tomar um pequeno refresco privado. Lançando-se para a mesa, conseguiu o café, que imediatamente entornou, tornando a frente do seu vestido tão má como a parte de trás.
"Oh, céus, que desastrada que eu sou!", exclamou Jo, terminando a luva de Meg ao esfregar o seu vestido com ela.
"Posso ajudar?" disse uma voz amigável; e lá estava Laurie, com uma chávena cheia numa mão e um prato de gelado na outra.
"Estava a tentar levar algo para a Meg, que está muito cansada, e alguém me abanou; e aqui estou, num estado lastimável", respondeu Jo, olhando com desânimo da saia manchada para a luva cor de café.
"Que pena! Estava à procura de alguém para dar isto. Posso levá-lo à sua irmã?"
"Oh, obrigada! Vou mostrar-lhe onde ela está. Não me ofereço para o levar eu mesma, pois só me meteria noutro sarilho se o fizesse."
Jo indicou o caminho; e, como se estivesse habituado a servir senhoras, Laurie puxou uma pequena mesa, trouxe uma segunda dose de café e gelado para Jo, e foi tão prestável que até a exigente Meg o considerou um "rapaz simpático". Divertiram-se com os bombons e os lemas, e estavam a meio de um jogo silencioso de "Buzz", com dois ou três outros jovens que tinham aparecido, quando a Hannah apareceu. Meg esqueceu-se do pé e levantou-se tão rapidamente que foi forçada a agarrar-se a Jo, com uma exclamação de dor.
"Shiu! Não digas nada", sussurrou ela, acrescentando em voz alta: "Não é nada. Torci um pouco o pé, só isso"; e mancando subiu as escadas para se vestir.
Hannah resmungou, Meg chorou e Jo estava no fim da sua paciência, até que decidiu tomar as rédeas da situação. Esgueirando-se, correu para baixo e, encontrando um criado, perguntou se ele lhe podia arranjar uma carruagem. Por acaso era um empregado contratado, que não conhecia nada da vizinhança; e Jo estava a olhar à volta à procura de ajuda, quando Laurie, que tinha ouvido o que ela disse, aproximou-se e ofereceu a carruagem do seu avô, que tinha acabado de chegar para ele, disse ele.
"É tão cedo! Não pode pretender ir já?", começou Jo, parecendo aliviada, mas hesitante em aceitar a oferta.
"Vou sempre cedo... vou, a sério! Por favor, deixe-me levá-las a casa? É caminho para mim, sabe, e dizem que vai chover."
Isso resolveu a questão; e, contando-lhe o contratempo de Meg, Jo aceitou com gratidão e subiu a correr para trazer o resto do grupo. Hannah detestava a chuva tanto quanto um gato; por isso não criou problemas, e seguiram na luxuosa carruagem fechada, sentindo-se muito festivas e elegantes. Laurie foi no banco do cocheiro; assim Meg pôde manter o pé elevado, e as raparigas falaram sobre a sua festa em liberdade.
"Diverti-me imenso. E tu?", perguntou Jo, despenteando o cabelo e pondo-se confortável.
"Sim, até me ter magoado. A amiga da Sallie, Annie Moffat, gostou de mim e convidou-me para passar uma semana com ela, quando a Sallie for. Ela vai na primavera, quando a ópera vier; e será perfeitamente esplêndido, se a mãe me deixar ir", respondeu Meg, animando-se com o pensamento.
"Vi-te a dançar com o homem de cabelo ruivo de quem eu fugi. Foi simpático?"
"Oh, muito! O cabelo dele é acaju, não é ruivo; e ele foi muito educado, e dancei um redowa delicioso com ele."
"Ele parecia um gafanhoto num ataque de nervos quando fazia o passo novo. O Laurie e eu não conseguimos evitar o riso. Ouviste-nos?"
"Não; mas foi muito indelicado. O que estiveram vocês a fazer todo aquele tempo, escondidos ali?"
Jo contou as suas aventuras e, quando terminou, já tinham chegado a casa. Com muitos agradecimentos, disseram "boa noite" e entraram sorrateiramente, esperando não incomodar ninguém; mas, no instante em que a porta rangeu, duas toucas de dormir apareceram e duas vozes sonolentas mas ansiosas gritaram:
"Conta sobre a festa! Conta sobre a festa!"
Com o que Meg chamou de "uma grande falta de maneiras", Jo tinha guardado alguns bombons para as irmãs mais novas; e elas logo se acalmaram, depois de ouvirem os acontecimentos mais emocionantes da noite.
"Declaro que parece mesmo uma fine young lady, chegar a casa da festa numa carruagem e sentar-me com o meu roupão, com uma criada para me servir", disse Meg, enquanto Jo ligava o pé com arnica e escovava o cabelo.
"Não acredito que as fine young ladies se divirtam mais do que nós, apesar do nosso cabelo queimado, vestidos velhos, uma luva para cada uma e pantufas apertadas que nos torcem os tornozelos quando somos estúpidas o suficiente para as usar." E penso que a Jo tinha toda a razão.
IV.
FARDOS.
"Oh, céus, como parece difícil pegar nas nossas trouxas e continuar", suspirou Meg, na manhã seguinte à festa; pois, agora que as férias tinham acabado, a semana de folia não a preparou para continuar facilmente com a tarefa de que nunca gostou.
"Quem me dera que fosse Natal ou Ano Novo a toda a hora; não seria divertido?", respondeu Jo, bocejando de forma lúgubre.
"Não nos divertiríamos nem metade do que nos divertimos agora. Mas parece tão bom ter pequenos jantares e ramos de flores, ir a festas, voltar para casa de carro, ler e descansar, e não trabalhar. É como as outras pessoas, sabes, e invejo sempre as raparigas que fazem essas coisas; gosto tanto de luxo", disse Meg, tentando decidir qual dos dois vestidos gastos era o menos gasto.
"Bem, não podemos tê-lo, por isso não nos queixemos, mas coloquemos as nossas trouxas aos ombros e caminhemos tão alegremente como a Marmee. Tenho a certeza de que a Tia March é um verdadeiro 'Velho do Mar' para mim, mas suponho que, quando eu aprender a carregá-la sem me queixar, ela cairá ou tornar-se-á tão leve que não me importarei com ela."
Esta ideia fez cócegas na imaginação de Jo e pô-la bem disposta; mas Meg não se animou, pois o seu fardo, composto por quatro crianças mimadas, parecia mais pesado do que nunca. Não tinha ânimo sequer para se tornar bonita, como de costume, colocando uma fita azul no pescoço e penteando o cabelo da forma mais elegante.
"Para que serve estar bonita, quando ninguém me vê a não ser aqueles anões rabugentos, e ninguém se importa se sou bonita ou não?", murmurou ela, fechando a gaveta com um puxão. "Terei de trabalhar e penar todos os meus dias, apenas com pequenos bocadinhos de diversão de vez em quando, e ficar velha, feia e amargurada, porque sou pobre e não posso gozar a minha vida como as outras raparigas. É uma vergonha!"
Então Meg desceu, com um ar ofendido, e não estava nada agradável à hora do pequeno-almoço. Todos pareciam um pouco indispostos e inclinados a resmungar. Beth tinha uma dor de cabeça e estava deitada no sofá, tentando consolar-se com a gata e os três gatinhos; Amy estava aborrecida porque as suas lições não estavam aprendidas e não conseguia encontrar as suas galochas; Jo assobiava e fazia um grande barulho enquanto se preparava; a Sra. March estava muito ocupada a tentar terminar uma carta, que tinha de seguir imediatamente; e Hannah estava mal-humorada, pois o facto de se ter deitado tarde não lhe agradava.
"Nunca houve uma família tão rabugenta!", exclamou Jo, perdendo a paciência quando entornou um tinteiro, partiu os dois atacadores das botas e se sentou em cima do seu chapéu.
"Tu és a pessoa mais rabugenta que há nela!", retorquiu Amy, apagando a conta, que estava toda errada, com as lágrimas que tinham caído sobre a sua ardósia.
"Beth, se não manténs estas gatas horríveis na cave, mando afogá-las", exclamou Meg irritada, enquanto tentava livrar-se da gatinha, que lhe tinha subido pelas costas e ficado presa como um carrapicho, fora do seu alcance.
Jo riu-se, Meg ralhou, Beth implorou e Amy choramingou, porque não se conseguia lembrar de quanto era nove vezes doze.
"Meninas, meninas, sosseguem um minuto! Tenho de enviar isto pelo correio da manhã, e vocês deixam-me distraída com as vossas preocupações", gritou a Sra. March, riscando a terceira frase estragada na sua carta.
Houve uma pausa momentânea, quebrada por Hannah, que entrou a passos largos, pôs duas empadas quentes sobre a mesa e saiu a passos largos novamente. Estas empadas eram uma instituição; e as meninas chamavam-lhes "manguitos", pois não tinham outros, e achavam as empadas quentes muito reconfortantes para as mãos nas manhãs frias. Hannah nunca se esquecia de as fazer, não importava o quão ocupada ou mal-humorada pudesse estar, pois o caminho era longo e desolado; as pobres raparigas não recebiam outro almoço e raramente estavam em casa antes das duas.
"Acaricia as tuas gatas e livra-te dessa dor de cabeça, Bethy. Adeus, Marmee; somos um bando de tratantes esta manhã, mas voltaremos para casa como verdadeiros anjos. Agora, Meg!", e Jo marchou, sentindo que as peregrinas não estavam a partir como deveriam.
Elas olhavam sempre para trás antes de virar a esquina, pois a mãe estava sempre à janela, para acenar, sorrir e dizer adeus com a mão. De alguma forma, parecia que não teriam conseguido passar o dia sem isso; pois, qualquer que fosse o seu estado de espírito, o último vislumbre daquele rosto maternal era certo de as afetar como o sol.
"Se a Marmee abanasse o punho em vez de nos beijar a mão, seria merecido, pois nunca se viram miseráveis mais ingratos do que nós", exclamou Jo, sentindo uma satisfação remota no passeio nevado e no vento amargo.
"Não uses expressões tão terríveis", disse Meg, do fundo do véu em que se tinha envolto como uma freira enjoada do mundo.
"Gosto de palavras fortes e boas, que significam alguma coisa", respondeu Jo, apanhando o seu chapéu enquanto este dava um salto da sua cabeça, preparando-se para voar de vez.
"Chama-te aos nomes que quiseres; mas eu não sou nem uma tratante nem uma miserável, e não quero ser tratada assim."
"Tu és um ser arruinado, e decididamente rabugenta hoje porque não podes estar sentada no colo do luxo a toda a hora. Coitadinha, espera só até eu fazer a minha fortuna, e tu deliciar-te-ás em carruagens, gelados, chinelos de salto alto, flores e rapazes ruivos para dançar."
"Como és ridícula, Jo!", mas Meg riu-se do disparate e sentiu-se melhor, apesar de si mesma.
"Sorte a tua que eu sou; porque se eu tivesse ares deprimidos e tentasse ser lúgubre, como tu fazes, estaríamos num belo estado. Graças a Deus, consigo sempre encontrar algo divertido para me manter animada. Não resmungues mais, volta para casa alegre, minha querida."
Jo deu à irmã uma palmada encorajadora no ombro quando se separaram para o dia, cada uma seguindo o seu caminho, cada uma agarrada à sua pequena empada quente, e cada uma tentando estar animada apesar do tempo invernal, do trabalho árduo e dos desejos insatisfeitos da juventude amante do prazer.
Quando o Sr. March perdeu os seus bens ao tentar ajudar um amigo infeliz, as duas raparigas mais velhas pediram para lhes ser permitido fazer algo para o seu próprio sustento, pelo menos. Acreditando que não podiam começar demasiado cedo a cultivar a energia, a indústria e a independência, os seus pais consentiram, e ambas começaram a trabalhar com a boa vontade que, apesar de todos os obstáculos, é certo ter sucesso no final. Margaret encontrou um lugar como governanta de crianças, e sentia-se rica com o seu pequeno salário. Como ela dizia, ela era "aficionada pelo luxo", e o seu principal problema era a pobreza. Ela achava mais difícil de suportar do que as outras, porque se conseguia lembrar de um tempo em que o lar era belo, a vida cheia de conforto e prazer, e a necessidade de qualquer tipo desconhecida. Tentou não ser invejosa ou descontente, mas era muito natural que a jovem rapariga desejasse coisas bonitas, amigos alegres, prendas e uma vida feliz. Na casa dos Kings, ela via diariamente tudo o que desejava, pois as irmãs mais velhas das crianças tinham acabado de entrar na sociedade, e Meg via frequentemente vislumbres de vestidos de baile delicados e bouquets, ouvia mexericos animados sobre teatros, concertos, passeios de trenó e festas de todo o tipo, e via dinheiro desperdiçado em ninharias que teriam sido tão preciosas para ela. A pobre Meg raramente se queixava, mas um sentido de injustiça tornava-a amarga para com todos, por vezes, pois ainda não tinha aprendido a saber quão rica era nas bênçãos que, por si sós, podem tornar a vida feliz.
Jo por acaso serviu para a Tia March, que era coxa e precisava de uma pessoa ativa para a servir. A velha senhora sem filhos tinha-se oferecido para adotar uma das raparigas quando os problemas surgiram, e ficou muito ofendida porque a sua oferta foi recusada. Outros amigos disseram aos March que tinham perdido toda a hipótese de serem lembrados no testamento da rica velha senhora; mas os March, que não eram mundanos, apenas disseram:
"Não podemos desistir das nossas filhas por uma dúzia de fortunas. Ricas ou pobres, manter-nos-emos unidas e seremos felizes umas com as outras."
A velha senhora não lhes falou durante algum tempo, mas, ao encontrar Jo em casa de um amigo, algo na sua cara cómica e maneiras diretas chamou a atenção da velha senhora, e ela propôs levá-la como companhia. Isto não agradou nada a Jo; mas ela aceitou o lugar, uma vez que nada melhor aparecia e, para surpresa de todos, deu-se notavelmente bem com a sua irascível parente. Havia uma tempestade ocasional, e uma vez Jo marchou para casa, declarando que já não o conseguia suportar mais; mas a Tia March limpava-se sempre rapidamente e mandava chamá-la de volta com tal urgência que ela não podia recusar, pois, no fundo, até gostava da picante velha senhora.
Suspeito que a verdadeira atração fosse uma grande biblioteca de belos livros, que estava entregue ao pó e às aranhas desde que o Tio March morreu. Jo lembrava-se do amável velho cavalheiro, que a deixava construir caminhos-de-ferro e pontes com os seus grandes dicionários, contar-lhe histórias sobre as estranhas imagens nos seus livros em latim e comprar-lhe cartões de pão de mel sempre que a encontrava na rua. O quarto escuro e empoeirado, com os bustos a olhar para baixo das altas estantes, as cadeiras confortáveis, os globos e, o melhor de tudo, a selva de livros onde podia vaguear onde quisesse, faziam da biblioteca uma região de felicidade para ela. No momento em que a Tia March fazia a sua sesta, ou estava ocupada com visitas, Jo corria para este lugar sossegado e, enrolando-se na cadeira de braços, devorava poesia, romance, história, viagens e imagens, como uma verdadeira devoradora de livros. Mas, como toda a felicidade, não durou muito; pois, tão certo como ela ter chegado ao coração da história, ao verso mais doce da canção, ou à aventura mais perigosa do seu viajante, uma voz estridente chamava, "Josy-phine! Josy-phine!" e ela tinha de deixar o seu paraíso para enrolar fio, lavar o caniche ou ler os Ensaios de Belsham durante horas seguidas.
A ambição de Jo era fazer algo muito esplêndido; o que seria, ela ainda não fazia ideia, mas deixou para o tempo lhe dizer; e, entretanto, encontrava a sua maior aflição no facto de não poder ler, correr e cavalgar tanto quanto queria. Um temperamento rápido, uma língua afiada e um espírito inquieto estavam sempre a metê-la em apuros, e a sua vida era uma série de altos e baixos, que eram simultaneamente cómicos e patéticos. Mas a formação que recebeu na casa da Tia March era exatamente o que ela precisava; e o pensamento de que estava a fazer algo para se sustentar tornava-a feliz, apesar do perpétuo "Josy-phine!"
Beth era demasiado tímida para ir à escola; tinha sido tentado, mas ela sofria tanto que a ideia foi abandonada, e ela fazia as suas lições em casa, com o pai. Mesmo quando ele ia embora, e a sua mãe era chamada a dedicar a sua perícia e energia às Sociedades de Ajuda aos Soldados, Beth continuava fielmente sozinha e fazia o melhor que podia. Era uma criatura caseira e ajudava a Hannah a manter a casa arrumada e confortável para os trabalhadores, nunca pensando em qualquer recompensa além de ser amada. Passava longos dias sossegados, nem solitária nem ociosa, pois o seu pequeno mundo era povoado por amigos imaginários, e ela era, por natureza, uma abelha ocupada. Havia seis bonecas para serem levantadas e vestidas todas as manhãs, pois Beth era ainda uma criança e amava os seus animais de estimação como sempre. Nem uma inteira ou bonita entre elas; todas eram párias até Beth as acolher; pois, quando as suas irmãs deixavam de brincar com estes ídolos, passavam para ela, porque a Amy não queria nada de velho ou feio. Beth acalentava-as ainda mais ternamente por esse mesmo motivo, e montou um hospital para bonecas inválidas. Nunca foram espetados alfinetes nas suas entranhas de algodão; nunca lhes foram ditas palavras duras ou dados golpes; nenhuma negligência entristecia o coração da mais repugnante: mas todas eram alimentadas e vestidas, cuidadas e acariciadas, com um afeto que nunca falhava. Um fragmento desolado de boneca pertencera a Jo; e, tendo levado uma vida tempestuosa, ficou um destroço no saco de trapos, de onde foi resgatado por Beth e levado para o seu refúgio. Não tendo topo na cabeça, ela atou-lhe um pequeno gorro arrumado e, como ambos os braços e pernas tinham desaparecido, ela escondeu essas deficiências envolvendo-a num cobertor e dedicando a sua melhor cama a este inválido crónico. Se alguém soubesse o cuidado dispensado àquela boneca, creio que lhes teria tocado o coração, mesmo enquanto se riam. Ela trazia-lhe bocadinhos de bouquets; lia-lhe, levava-a a respirar o ar, escondida debaixo do seu casaco; cantava-lhe cantigas de embalar e nunca ia para a cama sem beijar a sua cara suja e sussurrar ternamente: "Espero que passes uma boa noite, minha pobre querida."
Beth tinha as suas preocupações tal como as outras; e não sendo um anjo, mas uma menina muito humana, chorava frequentemente "um pequeno choro", como dizia Jo, porque não podia ter aulas de música e ter um bom piano. Ela amava tanto a música, tentava tanto aprender e praticava tão pacientemente no velho instrumento estridente, que parecia mesmo que alguém (sem querer aludir à Tia March) deveria ajudá-la. Ninguém o fez, contudo, e ninguém viu a Beth limpar as lágrimas das teclas amarelas, que não se queriam manter afinadas, quando ela estava sozinha. Ela cantava como uma pequena cotovia durante o seu trabalho, nunca estava cansada demais para tocar para a Marmee e para as irmãs, e dia após dia dizia esperançosamente para si mesma: "Sei que hei de conseguir a minha música algum dia, se for boazinha."
Há muitas Beths no mundo, tímidas e sossegadas, sentadas nos cantos até serem necessárias, e vivendo para os outros tão alegremente que ninguém vê os sacrifícios até que o pequeno grilo no lar pare de chilrear, e a doce e ensolarada presença desapareça, deixando silêncio e sombra para trás.
Se alguém tivesse perguntado à Amy qual era a maior provação da sua vida, ela teria respondido de imediato: "O meu nariz." Quando ela era bebé, Jo tinha-a deixado cair acidentalmente no balde do carvão, e Amy insistia que a queda tinha arruinado o seu nariz para sempre. Não era grande, nem vermelho, como o da pobre "Petrea"; era apenas um pouco achatado, e todo o beliscão do mundo não lhe podia dar uma ponta aristocrática. Ninguém ligava a isso senão ela mesma, e ele estava a fazer o seu melhor para crescer, mas Amy sentia profundamente a falta de um nariz grego, e desenhava folhas inteiras de narizes bonitos para se consolar.
A "pequena Rafael", como as suas irmãs lhe chamavam, tinha um talento decidido para o desenho, e nunca estava tão feliz como quando copiava flores, desenhava fadas ou ilustrava histórias com estranhos espécimes de arte. Os seus professores queixavam-se de que, em vez de fazer as suas contas, ela cobria a sua ardósia com animais; as páginas em branco do seu atlas eram usadas para copiar mapas; e caricaturas da descrição mais caricata vinham esvoaçando de todos os seus livros em momentos infelizes. Ela passava pelas suas lições tão bem quanto podia, e conseguia escapar a repreensões por ser um modelo de comportamento. Ela era uma grande favorita entre os seus colegas, sendo de bom temperamento e possuindo a feliz arte de agradar sem esforço. Os seus pequenos ares e graças eram muito admirados, assim como os seus talentos; pois, além do desenho, sabia tocar doze melodias, fazer crochet e ler francês sem pronunciar mal mais de dois terços das palavras. Ela tinha uma forma plangente de dizer: "Quando o papá era rico, fazíamos isto e aquilo", o que era muito comovente; e as suas palavras longas eram consideradas "perfeitamente elegantes" pelas raparigas.
Amy estava no caminho certo para ser estragada; pois todos a mimalhavam, e as suas pequenas vaidades e egoísmos estavam a crescer bem. Uma coisa, contudo, abafava um pouco as vaidades; ela tinha de usar as roupas da sua prima. Ora, a mãe da Florence não tinha um pingo de gosto, e a Amy sofria profundamente por ter de usar um chapéu vermelho em vez de um azul, vestidos que não lhe assentavam bem e aventais cheios de folhos que não serviam. Tudo era bom, bem feito e pouco usado; mas os olhos artísticos da Amy estavam muito aflitos, especialmente este inverno, quando o seu vestido de escola era de um roxo baço, com pontos amarelos, e sem adornos.
"O meu único conforto", dizia ela a Meg, com lágrimas nos olhos, "é que a mãe não faz bainhas nos meus vestidos sempre que sou mal comportada, como faz a mãe da Maria Parks. Minha querida, é realmente terrível; pois, por vezes, ela porta-se tão mal que o vestido lhe fica pelo joelho, e ela não pode vir à escola. Quando penso nesta degradação, sinto que consigo suportar até o meu nariz achatado e o meu vestido roxo, com foguetes amarelos nele."
Meg era a confidente e monitora da Amy, e, por alguma estranha atração dos opostos, Jo era a da gentil Beth. Só a Jo é que a tímida criança contava os seus pensamentos; e, sobre a sua grande e atabalhoada irmã, Beth exercia inconscientemente mais influência do que qualquer outra pessoa na família. As duas raparigas mais velhas eram muito uma para a outra, mas cada uma tomava uma das mais novas sob a sua alçada, e vigiava-a à sua maneira; "brincar às mães", chamavam-lhe, e punham as suas irmãs no lugar das bonecas descartadas, com o instinto maternal de pequenas mulheres.
"Alguém tem alguma coisa para contar? Tem sido um dia tão lúgubre que estou mesmo a morrer por algum entretenimento", disse Meg, enquanto se sentavam a coser juntas nessa noite.
"Tive um tempo estranho com a tia hoje, e, como levei a melhor, vou contar-vos", começou Jo, que adorava contar histórias. "Eu estava a ler aquele eterno Belsham, e a resmungar como faço sempre, pois a tia adormece logo, e então tiro um bom livro, e leio como uma louca até ela acordar. Até me pus com sono; e, antes de ela começar a cabecear, dei um tal bocejo que ela me perguntou o que queria dizer ao abrir a boca o suficiente para levar o livro todo de uma vez.
"'Quem me dera poder, e acabar com isso', disse eu, tentando não ser insolente.
"Depois deu-me um longo sermão sobre os meus pecados, e disse-me para me sentar e pensar neles enquanto ela se 'perdia' por um momento. Ela nunca se encontra muito depressa; por isso, no minuto em que o seu gorro começou a balançar, como uma dália pesada, chicoteei o 'Vigário de Wakefield' para fora do meu bolso, e li, com um olho nele e outro na tia. Tinha acabado de chegar à parte em que eles caem todos à água, quando me esqueci e ri-me alto. A tia acordou; e, estando mais bem-disposta depois da sua sesta, disse-me para ler um pouco, e mostrar que trabalho frívolo eu preferia ao digno e instrutivo Belsham. Fiz o meu melhor, e ela gostou, embora só tenha dito:
"'Não percebo nada disto. Volta atrás e começa, menina.'
"Voltei atrás, e tornei os Primrose tão interessantes quanto podia. Uma vez fui suficientemente malvada para parar num lugar emocionante e dizer humildemente: 'Receio que a canse, senhora; não devo parar agora?'
"Ela apanhou o seu tricot, que lhe tinha caído das mãos, lançou-me um olhar aguçado através dos seus óculos, e disse, à sua maneira curta:
"'Termina o capítulo, e não sejas impertinente, menina.'"
"Ela confessou que gostou?", perguntou Meg.
"Oh, abençoada sejas, não! mas deixou o velho Belsham descansar; e, quando corri de volta para buscar as minhas luvas esta tarde, lá estava ela, tão compenetrada no Vigário que não me ouviu rir enquanto dançava uma giga no corredor, por causa dos bons tempos que aí vêm. Que vida agradável ela poderia ter, se apenas quisesse. Não a invejo muito, apesar do seu dinheiro, pois, afinal, as pessoas ricas têm quase tantas preocupações como as pobres, penso eu", acrescentou Jo.
"Isso lembra-me", disse Meg, "que tenho algo para contar. Não é divertido, como a história da Jo, mas pensei muito nisso enquanto vinha para casa. Na casa dos Kings, hoje, encontrei toda a gente num alvoroço, e uma das crianças disse que o seu irmão mais velho tinha feito algo terrível, e que o papá o tinha mandado embora. Ouvi a Sra. King a chorar e o Sr. King a falar muito alto, e a Grace e a Ellen viraram as caras quando passaram por mim, para que eu não visse quão vermelhos estavam os seus olhos. Não fiz perguntas, claro; mas senti-me tão triste por eles, e fiquei bastante contente por não ter irmãos selvagens para fazer coisas malvadas e desonrar a família."
"Penso que ser desonrado na escola é muito mais cansativo do que qualquer coisa que os rapazes maus possam fazer", disse Amy, abanando a cabeça, como se a sua experiência de vida tivesse sido profunda. "A Susie Perkins veio à escola hoje com um anel de cornalina vermelho adorável; eu queria-o terrivelmente, e desejei ser ela com todas as minhas forças. Bem, ela desenhou um retrato do Sr. Davis, com um nariz monstruoso e uma corcunda, e as palavras, 'Jovens senhoras, o meu olho está sobre vós!', a sair da sua boca num balão. Estávamos a rir disso, quando de repente o olho dele estava sobre nós, e ele ordenou à Susie que trouxesse a sua ardósia. Ela estava paralisada de susto, mas foi, e oh, o que acham que ele fez? Pegou nela pela orelha, pela orelha! imaginem quão horrível! – e levou-a para a plataforma de recitação, e fê-la ficar lá meia hora, a segurar aquela ardósia para que todos pudessem ver."
"As raparigas não se riram do retrato?", perguntou Jo, que apreciava o sarilho.
"Rir? Nem uma! Ficaram tão quietas como ratos; e a Susie chorou aos litros, sei que chorou. Não a invejei então; pois senti que milhões de anéis de cornalina não me teriam feito feliz, depois daquilo. Nunca, nunca teria superado tal mortificação agonizante." E Amy continuou com o seu trabalho, na orgulhosa consciência da virtude, e na bem-sucedida pronunciação de duas palavras longas de uma assentada.
"Vi uma coisa de que gostei esta manhã e tencionava contá-la ao jantar, mas esqueci-me", disse Beth, pondo em ordem o cesto desarrumado de Jo enquanto falava. "Quando fui buscar umas ostras para a Hannah, o Sr. Laurence estava na peixaria; mas ele não me viu, porque me mantive atrás de um barril, e ele estava ocupado com o Sr. Cutter, o peixeiro. Uma mulher pobre entrou, com um balde e uma esfregona, e perguntou ao Sr. Cutter se a deixava fazer uma limpeza em troca de um pouco de peixe, porque não tinha almoço para os filhos e tinha ficado sem um dia de trabalho. O Sr. Cutter estava com pressa e disse 'Não', de forma bastante ríspida; por isso ela estava a ir-se embora, com um ar faminto e triste, quando o Sr. Laurence puxou um peixe grande com a ponta curva da sua bengala e estendeu-lho. Ela ficou tão contente e surpreendida, que o tomou logo nos braços e agradeceu-lhe vezes sem conta. Ele disse-lhe para 'ir tratar de o cozinhar', e ela apressou-se a sair, tão feliz! Não foi bondoso da parte dele? Oh, ela tinha um ar tão engraçado, a abraçar o peixe grande e escorregadio, e a desejar que a cama do Sr. Laurence no céu fosse 'confortável'."
Quando se riram da história de Beth, pediram uma à mãe; e, após um momento de reflexão, ela disse seriamente:
"Enquanto estava a cortar casacos de flanela azul hoje, nas salas, senti-me muito ansiosa pelo pai e pensei em quão sós e indefesas estaríamos se algo lhe acontecesse. Não foi uma atitude sensata; mas continuei a preocupar-me, até que um velho entrou com uma encomenda de roupa. Sentou-se perto de mim e comecei a falar com ele; pois parecia pobre, cansado e ansioso.
"'Tem filhos no exército?', perguntei; pois o bilhete que ele trazia não era para mim.
"'Sim, senhora. Tinha quatro, mas dois foram mortos, um é prisioneiro e vou ter com o outro, que está muito doente num hospital de Washington', respondeu ele calmamente.
"'Fez muito pelo seu país, senhor', disse eu, sentindo agora respeito, em vez de pena.
"'Nem um pouco mais do que devia, senhora. Eu próprio iria, se tivesse alguma utilidade; como não tenho, dou os meus rapazes, e dou-os de bom grado.'
"Ele falou tão alegremente, parecia tão sincero e parecia tão feliz por dar tudo o que tinha, que me senti envergonhada de mim mesma. Eu tinha dado um homem e achado que era muito, enquanto ele dera quatro, sem os lamentar. Eu tinha todas as minhas filhas para me consolarem em casa; e o seu último filho estava à espera, a milhas de distância, para lhe dizer 'adeus', talvez! Senti-me tão rica, tão feliz, a pensar nas minhas bênçãos, que lhe fiz um bom embrulho, dei-lhe algum dinheiro e agradeci-lhe do fundo do coração pela lição que me tinha dado."
"Conte outra história, mãe; uma com uma moral, como esta. Gosto de pensar nelas depois, se forem reais e não muito moralistas", disse Jo, após um minuto de silêncio.
A Sra. March sorriu e começou imediatamente; pois contava histórias a esta pequena audiência há muitos anos e sabia como agradar-lhes.
"Era uma vez quatro raparigas, que tinham o suficiente para comer, beber e vestir, muitos confortos e prazeres, amigos amáveis e pais que as adoravam profundamente, e, no entanto, não estavam contentes." (Aqui as ouvintes trocaram olhares astutos e começaram a coser diligentemente.) "Estas raparigas estavam ansiosas por ser boas e fizeram muitas resoluções excelentes; mas não as cumpriram muito bem e estavam constantemente a dizer: 'Se tivéssemos apenas isto' ou 'Se pudéssemos apenas fazer aquilo', esquecendo-se completamente de quanto já tinham e de quantas coisas agradáveis podiam realmente fazer. Por isso, perguntaram a uma velha que feitiço podiam usar para serem felizes, e ela disse: 'Quando se sentirem descontentes, pensem nas vossas bênçãos e sejam gratas'." (Aqui Jo olhou para cima rapidamente, como se fosse falar, mas mudou de ideias, ao ver que a história ainda não tinha acabado.)
"Sendo raparigas sensatas, decidiram seguir o seu conselho e, em breve, ficaram surpreendidas ao ver quão bem estavam. Uma descobriu que o dinheiro não podia impedir a vergonha e a tristeza de entrar nas casas das pessoas ricas; outra, que, embora fosse pobre, era muito mais feliz, com a sua juventude, saúde e boa disposição, do que uma certa senhora idosa, rabugenta e fraca, que não conseguia desfrutar dos seus confortos; uma terceira, que, por muito desagradável que fosse ajudar a preparar o jantar, era ainda mais difícil ter de ir pedi-lo; e a quarta, que nem sequer os anéis de cornalina eram tão valiosos como o bom comportamento. Por isso, concordaram em parar de se queixar, em desfrutar das bênçãos já possuídas e em tentar merecê-las, para que não fossem retiradas por completo, em vez de aumentadas; e acredito que nunca ficaram desapontadas, nem arrependidas de terem seguido o conselho da velha."
"Ora, mamã, foi muito matreiro da sua parte virar as nossas próprias histórias contra nós e dar-nos um sermão em vez de um romance!", exclamou Meg.
"Gosto desse tipo de sermão. É o tipo que o pai costumava contar-nos", disse Beth pensativamente, alinhando as agulhas na almofada de Jo.
"Eu não me queixo nem de perto tanto como as outras, e vou ter mais cuidado do que nunca agora; pois recebi um aviso com a queda da Susie", disse Amy moralmente.
"Precisávamos dessa lição e não a esqueceremos. Se esquecermos, diga-nos apenas, como a velha Chloe no 'Uncle Tom': 'Tink ob yer marcies, chillen! tink ob yer marcies!'", acrescentou Jo, que, por nada deste mundo, conseguia evitar tirar um bocado de diversão do pequeno sermão, embora o tenha levado a peito tanto como qualquer uma delas.
V.
SER VIZINHO.
"O que é que vais fazer agora, Jo?", perguntou Meg, numa tarde de neve, enquanto a irmã entrava a passos pesados pelo corredor, com botas de borracha, um casaco velho e capuz, com uma vassoura numa mão e uma pá na outra.
"Vou sair para fazer exercício", respondeu Jo, com um brilho maroto nos olhos.
"Eu diria que duas longas caminhadas esta manhã teriam sido suficientes! Está frio e sombrio lá fora; e aconselho-te a ficar, quente e seca, ao pé da lareira, como eu", disse Meg, com um estremecimento.
"Nunca aceito conselhos! Não consigo estar parada o dia todo e, não sendo uma gatinha, não gosto de dormitar ao pé da lareira. Gosto de aventuras e vou encontrar algumas."
Meg voltou para aquecer os pés e ler "Ivanhoe"; e Jo começou a abrir caminhos com grande energia. A neve era leve e, com a sua vassoura, depressa varreu um caminho à volta de todo o jardim, para Beth passear quando o sol saísse; e as bonecas inválidas precisavam de ar. Ora, o jardim separava a casa das March da casa do Sr. Laurence. Ambas ficavam num subúrbio da cidade, que ainda era semelhante ao campo, com bosques e relvados, jardins grandes e ruas tranquilas. Uma sebe baixa separava as duas propriedades. De um lado, havia uma casa velha e castanha, com um aspeto bastante despido e gasto, roubada das trepadeiras que no verão cobriam as suas paredes e das flores que então a rodeavam. Do outro lado, havia uma mansão de pedra imponente, que revelava claramente todo o tipo de conforto e luxo, desde a grande cocheira e os terrenos bem cuidados até ao conservatório e aos vislumbres de coisas adoráveis que se apanhavam entre as cortinas ricas. No entanto, parecia uma casa solitária e sem vida; pois nenhuma criança brincava no relvado, nenhum rosto maternal sorria nunca às janelas, e poucas pessoas entravam e saíam, exceto o velho cavalheiro e o seu neto.
Para a imaginação viva de Jo, esta casa fina parecia uma espécie de palácio encantado, cheio de esplendores e delícias, que ninguém desfrutava. Ela há muito que queria contemplar estas glórias escondidas e conhecer o "rapaz Laurence", que parecia alguém que gostaria de ser conhecido, se apenas soubesse como começar. Desde a festa, ela estava mais ansiosa do que nunca e tinha planeado muitas formas de fazer amizade com ele; mas ele não tinha sido visto ultimamente, e Jo começava a pensar que ele tinha ido embora, quando um dia avistou um rosto castanho numa janela do andar superior, a olhar melancolicamente para o jardim delas, onde Beth e Amy estavam a atirar bolas de neve uma à outra.
"Aquele rapaz está a sofrer por falta de companhia e diversão", disse ela para si mesma. "O avô dele não sabe o que é bom para ele e mantém-no fechado, completamente sozinho. Ele precisa de um grupo de rapazes alegres com quem brincar, ou de alguém jovem e animado. Estou com muita vontade de ir lá e dizer isso ao velho cavalheiro!"
A ideia divertiu Jo, que gostava de fazer coisas ousadas e estava sempre a escandalizar Meg com as suas atuações estranhas. O plano de "ir lá" não foi esquecido; e, quando chegou a tarde de neve, Jo resolveu tentar ver o que se podia fazer. Viu o Sr. Laurence sair de carro e depois saiu para abrir caminho até à sebe, onde parou e deu uma vista de olhos. Tudo tranquilo; cortinas baixadas nas janelas de baixo; criados fora de vista e nada de humano visível, exceto uma cabeça de caracóis pretos apoiada numa mão fina na janela superior.
"Ali está ele", pensou Jo, "pobre rapaz! Todo sozinho e doente neste dia sombrio. É uma vergonha! Vou atirar uma bola de neve e fazê-lo olhar, e depois dizer-lhe uma palavra simpática."
Lá foi um punhado de neve macia, e a cabeça virou-se imediatamente, revelando um rosto que perdeu o seu aspeto apático num minuto, à medida que os olhos grandes brilhavam e a boca começava a sorrir. Jo acenou e riu-se, e brandiu a sua vassoura enquanto gritava:
"Como estás? Estás doente?"
Laurie abriu a janela e coaxou, tão rouco como um corvo:
"Melhor, obrigado. Tive uma constipação forte e estive fechado durante uma semana."
"Lamento. Com que te divertes?"
"Com nada; é tão aborrecido como um túmulo aqui em cima."
"Não lês?"
"Não muito; não me deixam."
"Alguém não pode ler para ti?"
"O avô faz isso, às vezes; mas os meus livros não o interessam, e detesto estar sempre a pedir ao Brooke."
"Manda alguém vir ver-te, então."
"Não há ninguém que eu gostasse de ver. Os rapazes fazem uma algazarra tão grande, e a minha cabeça está fraca."
"Não há alguma rapariga simpática que lesse e te divertisse? As raparigas são sossegadas e gostam de fazer de enfermeiras."
"Não conheço nenhuma."
"Conheces-nos", começou Jo, depois riu-se e parou.
"Pois é! Queres vir, por favor?", gritou Laurie.
"Não sou sossegada e simpática; mas irei, se a mãe me deixar. Vou perguntar-lhe. Fecha essa janela, como um bom rapaz, e espera até eu vir."
Com isto, Jo pôs a sua vassoura ao ombro e marchou para casa, perguntando-se o que é que diriam dela. Laurie estava num turbilhão de entusiasmo com a ideia de ter companhia, e voou de um lado para o outro para se preparar; pois, como a Sra. March dizia, ele era "um pequeno cavalheiro" e fazia honras à hóspede que chegava, escovando a sua cabeça de caracóis, pondo um colarinho fresco e tentando arrumar o quarto, que, apesar de meia dúzia de criados, estava tudo menos limpo. Pouco depois, ouviu-se uma campainha alta, depois uma voz decidida a perguntar pelo "Sr. Laurie", e um criado com aspeto surpreendido veio a correr anunciar uma jovem dama.
"Está bem, deixa-a subir, é a menina Jo", disse Laurie, indo até à porta da sua pequena sala para receber Jo, que apareceu, com um ar rosado, amável e bastante à vontade, com um prato coberto numa mão e os três gatinhos de Beth na outra.
"Aqui estou eu, com armas e bagagens", disse ela vivamente. "A mãe mandou um beijinho e ficou contente por eu poder fazer alguma coisa por ti. A Meg queria que eu trouxesse um pouco do seu *blanc-mange*; ela fá-lo muito bem, e a Beth achou que os seus gatinhos seriam reconfortantes. Eu sabia que te ririas deles, mas não podia recusar, ela estava tão ansiosa por fazer alguma coisa."
Aconteceu que o empréstimo engraçado de Beth foi precisamente o que era preciso; pois, ao rir-se dos gatinhos, Laurie esqueceu a sua timidez e tornou-se sociável imediatamente.
"Isso parece bonito demais para comer", disse ele, sorrindo de prazer, enquanto Jo destapava o prato e mostrava o *blanc-mange*, rodeado por uma grinalda de folhas verdes e pelas flores escarlates do gerânio de estimação de Amy.
"Não é nada, apenas todas se sentiram amáveis e queriam mostrá-lo. Diz à rapariga para o guardar para o teu chá: é tão simples que podes comê-lo; e, sendo macio, descerá sem magoar a tua garganta inflamada. Que sala acolhedora esta!"
"Poderia ser, se fosse bem mantida; mas as criadas são preguiçosas e eu não sei como fazê-las obedecer. Contudo, isso preocupa-me."
"Eu arrumo isto em dois minutos; pois só precisa de ter a lareira escovada, assim... e as coisas postas direitas na lareira, assim... e os livros postos aqui, e as garrafas ali, e o teu sofá virado para longe da luz, e as almofadas um pouco mais cheias. Agora sim, estás pronto."
E assim estava; pois, enquanto ria e falava, Jo tinha despachado as coisas para o seu lugar e dado um ar completamente diferente à sala. Laurie observou-a em silêncio respeitoso; e, quando ela lhe fez sinal para o sofá, ele sentou-se com um suspiro de satisfação, dizendo com gratidão:
"Como és bondosa! Sim, era isso que faltava. Agora, por favor, ocupa a cadeira grande e deixa-me fazer algo para divertir a minha companhia."
"Não; eu vim para te divertir. Queres que leia em voz alta?", e Jo olhou carinhosamente para alguns livros convidativos ali perto.
"Obrigado; já li todos esses e, se não te importares, preferia falar", respondeu Laurie.
"Nem um pouco; eu falo o dia todo se tu apenas me puseres a andar. A Beth diz que eu nunca sei quando parar."
"A Beth é a rapariga rosada, que fica muito em casa e, por vezes, sai com um cestinho?", perguntou Laurie, com interesse.
"Sim, essa é a Beth; ela é a minha rapariga, e é uma rapariga verdadeiramente boa."
"A bonita é a Meg, e a de cabelo encaracolado é a Amy, creio eu?"
"Como descobriste isso?"
Laurie corou, mas respondeu francamente: "Bem, vês, oiço-vos muitas vezes a chamar umas pelas outras, e quando estou sozinho aqui em cima, não consigo evitar olhar para a vossa casa, vocês parecem estar sempre a divertir-se tanto. Peço desculpa por ser tão rude, mas, por vezes, esquecem-se de baixar a cortina na janela onde estão as flores; e quando os candeeiros estão acesos, é como olhar para um quadro ver o fogo, e vocês todas à volta da mesa com a vossa mãe; o rosto dela está mesmo em frente e parece tão doce atrás das flores, que não consigo evitar observá-lo. Eu não tenho mãe, sabes;" e Laurie mexeu no fogo para esconder um pequeno tremor nos lábios que não conseguia controlar.
O aspeto solitário e faminto nos seus olhos foi direto ao coração caloroso de Jo. Ela tinha sido educada de forma tão simples que não havia disparates na sua cabeça, e aos quinze anos era tão inocente e franca como qualquer criança. Laurie estava doente e solitário; e, sentindo o quão rica ela era em amor familiar e felicidade, tentou alegremente partilhá-lo com ele. O seu rosto estava muito amigável e a sua voz aguda, invulgarmente suave, quando disse:
"Nunca mais puxaremos essa cortina, e dou-te permissão para olhares o quanto quiseres. Mas gostava que, em vez de espreitares, viesses ter connosco. A mãe é tão esplêndida, far-te-ia imenso bem, a Beth cantaria para ti se eu lhe pedisse, e a Amy dançaria; a Meg e eu far-te-íamos rir com os nossos adereços de teatro engraçados, e divertir-nos-íamos imenso. O teu avô não te deixaria?"
"Acho que ele deixaria, se a tua mãe lho pedisse. Ele é muito bondoso, embora não pareça; e deixa-me fazer o que quero, mais ou menos, apenas tem medo que eu possa ser um incómodo para estranhos", começou Laurie, ficando cada vez mais radiante.
"Nós não somos estranhas, somos vizinhas, e não precisas de pensar que serias um incómodo. Queremos conhecer-te, e eu tenho tentado fazê-lo há tanto tempo. Não estamos aqui há muito tempo, sabes, mas já conhecemos todos os nossos vizinhos, menos tu."
"Vês, o avô vive entre os seus livros e não se importa muito com o que acontece lá fora. O Sr. Brooke, o meu tutor, não fica aqui, sabes, e não tenho ninguém para sair comigo, por isso fico simplesmente em casa e vou andando como posso."
"Isso é mau. Devias fazer um esforço e ir visitar todos os sítios onde és convidado; então terás muitos amigos e lugares agradáveis para ir. Não te importes de ser tímido; não durará muito se continuares a sair."
Laurie ficou vermelho de novo, mas não se sentiu ofendido por ser acusado de timidez; pois havia tanta boa vontade em Jo, que era impossível não levar os seus discursos diretos tão amavelmente como foram pretendidos.
"Gostas da tua escola?", perguntou o rapaz, mudando de assunto, após uma pequena pausa, durante a qual olhou para o fogo e Jo olhou à sua volta, bem satisfeita.
"Não vou à escola; sou uma mulher de negócios... rapariga, quero dizer. Vou servir a minha tia-avó, e ela é uma alma velha, querida e rabugenta", respondeu Jo.
Laurie abriu a boca para fazer outra pergunta; mas, lembrando-se a tempo de que não era educado fazer demasiadas perguntas sobre os assuntos das pessoas, fechou-a novamente e pareceu desconfortável. Jo gostou da sua boa educação e não se importou de rir da tia March, por isso deu-lhe uma descrição viva da senhora idosa e agitada, do seu caniche gordo, do papagaio que falava espanhol e da biblioteca onde ela se deleitava. Laurie divertiu-se imenso com isso; e quando ela contou sobre o velho cavalheiro antiquado que apareceu uma vez para cortejar a tia March e, no meio de um belo discurso, como Poll lhe tinha arrancado a peruca para o seu grande desânimo, o rapaz recostou-se e riu-se até as lágrimas lhe correrem pelas faces, e uma criada espreitou para ver o que se passava.
"Oh! Isso faz-me um bem sem fim. Continua, por favor", disse ele, tirando o rosto da almofada do sofá, vermelho e a brilhar de alegria.
Muito eufórica com o seu sucesso, Jo "continuou", sobre as suas peças e planos, as suas esperanças e medos pelo pai, e os acontecimentos mais interessantes do pequeno mundo em que as irmãs viviam. Depois começaram a falar de livros; e, para alegria de Jo, descobriu que Laurie os amava tanto como ela, e tinha lido até mais do que ela própria.
"Se gostas tanto deles, desce e vê os nossos. O avô está fora, por isso não precisas de ter medo", disse Laurie, levantando-se.
"Não tenho medo de nada", respondeu Jo, com um aceno de cabeça.
"Não acredito que tenhas!", exclamou o rapaz, olhando para ela com muita admiração, embora pensasse em privado que ela teria boas razões para ter um pouco de medo do velho cavalheiro, se o encontrasse em alguns dos seus estados de espírito.
Sendo a atmosfera de toda a casa semelhante ao verão, Laurie abriu caminho de sala em sala, deixando Jo parar para examinar tudo o que lhe despertava a imaginação; e assim, finalmente, chegaram à biblioteca, onde ela bateu palmas e saltitou, como fazia sempre que estava especialmente encantada. Estava forrada de livros, e havia quadros e estátuas, e pequenos armários distrativos cheios de moedas e curiosidades, e cadeiras profundas, e mesas estranhas, e bronzes; e, o melhor de tudo, uma grande lareira aberta, com azulejos pitorescos à sua volta.
"Que riqueza!", suspirou Jo, afundando-se na profundidade de uma cadeira de veludo e olhando à sua volta com um ar de imensa satisfação. "Theodore Laurence, devias ser o rapaz mais feliz do mundo", acrescentou ela de forma impressionante.
"Um tipo não pode viver de livros", disse Laurie, abanando a cabeça, enquanto se empoleirava numa mesa em frente.
Antes que pudesse dizer mais, uma campainha tocou e Jo levantou-se, exclamando com alarme: "Meu Deus! É o teu avô!"
"Bem, e se for? Tu não tens medo de nada, sabes", respondeu o rapaz, com um olhar maroto.
"Creio que tenho um pouco de medo dele, mas não sei por que deveria ter. Marmee disse que eu podia vir, e não creio que estejas pior por isso", disse Jo, compondo-se, embora mantivesse os olhos na porta.
"Estou muito melhor por isso, e imensamente grato. Só receio que estejas muito cansada de falar comigo; era tão agradável que não me conseguia conter", disse Laurie com gratidão.
"O médico para o ver, senhor", e a criada fez um gesto ao falar.
"Importar-te-ias se te deixasse por um minuto? Suponho que tenho de o ver", disse Laurie.
"Não te preocupes comigo. Estou tão feliz como um grilo aqui", respondeu Jo.
Laurie saiu, e a sua convidada entreteve-se à sua própria maneira. Estava diante de um belo retrato do velho cavalheiro quando a porta se abriu novamente e, sem se virar, disse decididamente: "Tenho a certeza agora de que não deveria ter medo dele, pois tem olhos bondosos, embora a sua boca seja severa e ele pareça ter uma vontade tremenda. Não é tão bonito como o meu avô, mas gosto dele."
"Obrigado, minha senhora", disse uma voz rouca atrás dela; e ali, para seu grande desalento, estava o velho Sr. Laurence.
A pobre Jo corou até não poder corar mais, e o seu coração começou a bater de forma desconfortavelmente rápida ao pensar no que tinha dito. Por um momento, um desejo louco de fugir apoderou-se dela; mas isso seria cobardia, e as raparigas rir-se-iam dela: por isso, resolveu ficar e sair do apuro como pudesse. Um segundo olhar mostrou-lhe que os olhos vivos, sob as espessas sobrancelhas cinzentas, eram ainda mais bondosos do que os pintados; e havia neles um brilho matreiro que diminuiu bastante o seu medo. A voz rouca estava mais rouca do que nunca quando o velho cavalheiro disse abruptamente, após aquela pausa terrível: "Portanto, não tens medo de mim, hã?"
"Não muito, senhor."
"E não me achas tão bonito como o teu avô?"
"Não exatamente, senhor."
"E eu tenho uma vontade tremenda, é isso?"
"Eu só disse que achava que sim."
"Mas gostas de mim, apesar disso?"
"Sim, gosto, senhor."
Aquela resposta agradou ao velho cavalheiro; ele deu uma curta gargalhada, apertou-lhe a mão e, colocando o dedo sob o queixo dela, virou-lhe o rosto, examinou-o seriamente e soltou-o, dizendo, com um aceno: "Tens o espírito do teu avô, se não tens o seu rosto. Ele era um bom homem, minha querida; mas, o que é melhor, era um homem corajoso e honesto, e eu orgulhava-me de ser seu amigo."
"Obrigada, senhor"; e Jo sentiu-se muito à vontade depois disso, pois aquilo adequava-se-lhe perfeitamente.
"O que tens feito a este meu rapaz, hã?" foi a pergunta seguinte, feita bruscamente.
"Apenas a tentar ser vizinha, senhor"; e Jo contou como a sua visita aconteceu.
"Achas que ele precisa de ser um pouco animado, achas?"
"Sim, senhor; parece um pouco solitário, e gente jovem far-lhe-ia bem, talvez. Somos apenas raparigas, mas ficaríamos contentes por ajudar se pudéssemos, pois não esquecemos a magnífica prenda de Natal que nos enviou", disse Jo ansiosamente.
"Tcham, tcham, tcham! Isso foi assunto do rapaz. Como está a pobre mulher?"
"Está a recuperar bem, senhor"; e Jo partiu, falando muito depressa, enquanto contava tudo sobre os Hummel, em quem a sua mãe tinha interessado amigos mais ricos do que eles.
"Exatamente a maneira do pai dela de fazer o bem. Hei de ir ver a tua mãe um dia destes. Diz-lhe isso. Aí está a campainha para o chá; servimo-lo cedo, por causa do rapaz. Desce e continua a ser vizinha."
"Se o senhor quiser que eu vá."
"Não te pediria, se não quisesse"; e o Sr. Laurence ofereceu-lhe o braço com uma cortesia à moda antiga.
"O que diria Meg a isto?", pensou Jo, enquanto era conduzida, enquanto os seus olhos dançavam de diversão ao imaginar-se a contar a história em casa.
"Ei! Ora, o que diabo aconteceu ao rapaz?", disse o velho cavalheiro, quando Laurie desceu as escadas a correr e parou com um sobressalto de surpresa à vista espantosa de Jo de braço dado com o seu temível avô.
"Não sabia que tinha vindo, senhor", começou ele, enquanto Jo lhe lançava um pequeno olhar triunfante.
"Isso é evidente, pela forma como desceste as escadas a correr. Vem tomar o teu chá, rapaz, e comporta-te como um cavalheiro"; e, tendo puxado o cabelo ao rapaz como forma de carícia, o Sr. Laurence seguiu em frente, enquanto Laurie executava uma série de evoluções cómicas pelas costas deles, o que quase provocou uma explosão de riso em Jo.
O velho cavalheiro não disse muito enquanto bebia as suas quatro chávenas de chá, mas observava os jovens, que logo conversavam como velhos amigos, e a mudança no seu neto não lhe escapou. Havia cor, luz e vida no rosto do rapaz agora, vivacidade na sua maneira e alegria genuína no seu riso.
"Ela tem razão; o rapaz está solitário. Hei de ver o que estas meninas podem fazer por ele", pensou o Sr. Laurence, enquanto olhava e ouvia. Ele gostava de Jo, pois os seus modos estranhos e diretos agradavam-lhe; e ela parecia compreender o rapaz quase tão bem como se fosse um deles.
Se os Laurence fossem o que Jo chamava de "fúteis e certinhos", ela não se teria dado nada bem, pois essas pessoas faziam-na sempre sentir-se tímida e desajeitada; mas, achando-os livres e descontraídos, ela também o foi e causou uma boa impressão. Quando se levantaram, ela propôs ir embora, mas Laurie disse que tinha mais alguma coisa para lhe mostrar e levou-a ao jardim de inverno, que tinha sido iluminado para benefício dela. Parecia algo saído de um conto de fadas para Jo, enquanto subia e descia os caminhos, desfrutando das paredes floridas de ambos os lados, da luz suave, do ar húmido e doce e das maravilhosas trepadeiras e árvores que pendiam acima dela — enquanto o seu novo amigo cortava as flores mais belas até ter as mãos cheias; depois, amarrou-as, dizendo, com o olhar feliz que Jo gostava de ver: "Por favor, dá estas à tua mãe e diz-lhe que gostei muito do remédio que ela me enviou."
Encontraram o Sr. Laurence de pé diante da lareira na grande sala de estar, mas a atenção de Jo estava inteiramente absorvida por um piano de cauda, que estava aberto.
"Tu tocas?", perguntou ela, voltando-se para Laurie com uma expressão respeitosa.
"Às vezes", respondeu ele modestamente.
"Por favor, toca agora. Quero ouvir, para poder contar à Beth."
"Não queres tu primeiro?"
"Não sei como; sou demasiado estúpida para aprender, mas adoro música."
Então, Laurie tocou e Jo ouviu, com o nariz luxuosamente enterrado no heliotrópio e nas rosas-de-chá. O seu respeito e consideração pelo "rapaz Laurence" aumentaram muito, pois ele tocava muito bem e não se armava em importante. Desejou que a Beth pudesse ouvi-lo, mas não o disse; apenas o elogiou até ele ficar bastante embaraçado, e o seu avô veio em seu auxílio. "Já chega, já chega, minha jovem. Demasiados elogios não lhe fazem bem. A música dele não é má, mas espero que ele se saia tão bem em coisas mais importantes. Vais embora? Bem, estou muito agradecido e espero que voltes. Os meus respeitos à tua mãe. Boa noite, Doutora Jo."
Ele apertou-lhe a mão gentilmente, mas parecia que algo não o agradava. Quando chegaram ao corredor, Jo perguntou a Laurie se tinha dito algo de errado. Ele abanou a cabeça.
"Não, fui eu; ele não gosta de me ouvir tocar."
"Por que não?"
"Um dia conto-te. O John vai levar-te a casa, já que eu não posso."
"Não é preciso; não sou uma menina fina, e é só um passo. Cuida de ti, está bem?"
"Sim; mas voltarás, espero?"
"Se prometeres vir visitar-nos depois de estares bom."
"Prometo."
"Boa noite, Laurie!"
"Boa noite, Jo, boa noite!"
Quando todas as aventuras da tarde foram contadas, a família sentiu vontade de ir visitar em grupo, pois cada uma encontrou algo muito atraente na casa grande do outro lado da sebe. A Sra. March queria falar do seu pai com o velho que não o tinha esquecido; Meg ansiava por caminhar no jardim de inverno; Beth suspirava pelo piano de cauda; e Amy estava ansiosa por ver as belas pinturas e estátuas.
"Mãe, porque é que o Sr. Laurence não gostou de ter o Laurie a tocar?", perguntou Jo, que tinha uma disposição inquisitiva.
"Não tenho a certeza, mas creio que foi porque o seu filho, o pai de Laurie, casou com uma senhora italiana, uma musicista, o que desagradou ao velho, que é muito orgulhoso. A senhora era boa, adorável e talentosa, mas ele não gostou dela e nunca mais viu o filho depois de ele se casar. Ambos morreram quando Laurie era uma criança pequena, e então o avô levou-o para casa. Imagino que o rapaz, que nasceu em Itália, não seja muito forte, e o velho tem medo de o perder, o que o torna tão cuidadoso. Laurie herdou naturalmente o seu amor pela música, pois é parecido com a sua mãe, e atrevo-me a dizer que o avô teme que ele queira ser músico; de qualquer forma, a sua habilidade lembra-lhe a mulher de quem não gostou e, por isso, ele 'lançou um olhar fulminante', como disse a Jo."
"Valha-me Deus, que romântico!", exclamou Meg.
"Que parvoíce!", disse Jo. "Deixem-no ser músico, se ele quiser, e não o atormentem enviando-o para a universidade, quando ele detesta ir."
"É por isso que ele tem uns olhos pretos tão bonitos e modos delicados, suponho. Os italianos são sempre simpáticos", disse Meg, que era um pouco sentimental.
"O que sabes tu sobre os olhos dele e os seus modos? Mal falaste com ele", gritou Jo, que não era sentimental.
"Vi-o na festa, e o que tu contas mostra que ele sabe comportar-se. Aquele foi um bonito pequeno discurso sobre o remédio que a mãe lhe enviou."
"Ele referia-se ao manjar branco, suponho."
"Que estúpida que és, menina! Ele referia-se a ti, claro."
"Referia-se?", e Jo arregalou os olhos como se nunca lhe tivesse ocorrido antes.
"Nunca vi tal rapariga! Não reconheces um elogio quando o recebes", disse Meg, com o ar de uma jovem que sabia tudo sobre o assunto.
"Acho que são grandes disparates, e agradecia que não fosses parva e não estragasses a minha diversão. Laurie é um bom rapaz, gosto dele, e não quero saber de coisas sentimentais sobre elogios e tal lixo. Seremos todos bons para ele, porque ele não tem mãe, e ele pode vir visitar-nos, pode não pode, Marmee?"
"Sim, Jo, o teu pequeno amigo é muito bem-vindo, e espero que a Meg se lembre de que as crianças devem ser crianças enquanto puderem."
"Não me considero uma criança, e ainda não cheguei à adolescência", observou Amy. "O que dizes, Beth?"
"Estava a pensar no nosso 'O Peregrino'", respondeu Beth, que não tinha ouvido uma palavra. "Como saímos do Pântano e passámos pela Porta Estreita por resolvermos ser boas, e subimos a colina íngreme por tentarmos; e que talvez a casa ali, cheia de coisas magníficas, seja o nosso Palácio Formoso."
"Temos de passar pelos leões primeiro", disse Jo, como se gostasse bastante da perspetiva.
VI.
BETH ENCONTRA O PALÁCIO FORMOSO.
A casa grande provou ser mesmo um Palácio Formoso, embora tenha levado algum tempo para todas entrarem, e Beth achou muito difícil passar pelos leões. O velho Sr. Laurence era o maior; mas depois de ele ter chamado e dito algo de divertido ou gentil a cada uma das raparigas, e falado dos velhos tempos com a mãe delas, ninguém sentiu muito medo dele, exceto a tímida Beth. O outro leão era o facto de serem pobres e Laurie rico; pois isso tornava-as tímidas em aceitar favores que não podiam retribuir. Mas, passado algum tempo, descobriram que ele as considerava as benfeitoras e não se cansava de mostrar o quão grato estava pelo acolhimento maternal da Sra. March, pela companhia alegre delas e pelo conforto que encontrava naquele lar humilde. Assim, logo esqueceram o seu orgulho e trocaram gentilezas sem parar para pensar qual era a maior.
Todo o tipo de coisas agradáveis aconteceu naquela altura; pois a nova amizade floresceu como a erva na primavera. Todos gostavam de Laurie, e ele informou o seu tutor, em privado, de que "as March eram raparigas verdadeiramente magníficas". Com o entusiasmo delicioso da juventude, acolheram o rapaz solitário no seu meio e fizeram muito por ele, e ele encontrou algo muito encantador na companhia inocente destas raparigas de coração simples. Nunca tendo conhecido mãe ou irmãs, sentiu rapidamente as influências que elas traziam para a sua vida; e as suas maneiras atarefadas e vivas faziam-no sentir vergonha da vida indolente que levava. Estava farto de livros e achava as pessoas tão interessantes agora que o Sr. Brooke era obrigado a fazer relatórios muito insatisfatórios; pois Laurie estava sempre a faltar às aulas e a correr para casa das March.
"Não faz mal; deixa-o tirar férias e compensar depois", disse o velho cavalheiro. "A boa senhora ao lado diz que ele está a estudar demasiado e precisa de companhia jovem, diversão e exercício. Suspeito que ela tenha razão e que eu tenha estado a mimar o rapaz como se fosse a sua avó. Deixem-no fazer o que quiser, desde que seja feliz. Ele não se pode meter em sarilhos naquele pequeno convento ali ao lado; e a Sra. March está a fazer mais por ele do que nós."
Que bons tempos eles tiveram, sem dúvida! Tais peças de teatro e quadros vivos, tais passeios de trenó e festas de patinagem, tais noites agradáveis na velha sala de estar e, de vez em quando, tais pequenas festas alegres na casa grande. Meg podia passear no jardim de inverno sempre que quisesse e deleitar-se com ramos de flores; Jo devorava a nova biblioteca e convulsionava o velho cavalheiro com as suas críticas; Amy copiava pinturas e desfrutava da beleza à vontade do seu coração; e Laurie desempenhava o papel de "senhor da herdade" da maneira mais deliciosa.
Mas Beth, embora ansiando pelo piano de cauda, não conseguia ganhar coragem para ir à "Mansão da Felicidade", como Meg lhe chamava. Foi uma vez com a Jo; mas o velho cavalheiro, não estando a par da sua enfermidade, olhou para ela tão fixamente debaixo das suas sobrancelhas pesadas e disse "Ei!" tão alto que a assustou tanto que os seus "pés bateram no chão", como contou à mãe; e ela fugiu, declarando que nunca mais lá voltaria, nem sequer pelo querido piano. Nenhuma persuasão ou aliciamento conseguia vencer o seu medo, até que, o facto chegando aos ouvidos do Sr. Laurence de alguma forma misteriosa, ele pôs-se a remediar as coisas. Durante uma das breves visitas que fez, ele conduziu astutamente a conversa para a música e falou sobre grandes cantores que tinha visto, grandes órgãos que tinha ouvido, e contou anedotas tão encantadoras que Beth achou impossível ficar no seu canto distante, mas aproximou-se cada vez mais, como se estivesse fascinada. Atrás da cadeira dele, ela parou e ficou a ouvir, com os seus grandes olhos bem abertos e as bochechas vermelhas com a excitação daquela atuação invulgar. Não prestando mais atenção a ela do que se fosse uma mosca, o Sr. Laurence continuou a falar sobre as lições e os professores de Laurie; e, pouco depois, como se a ideia lhe tivesse acabado de ocorrer, disse à Sra. March:
"O rapaz descura a música agora, e estou contente com isso, pois ele estava a tornar-se demasiado afeiçoado a ela. Mas o piano sofre com a falta de uso. Alguma das vossas raparigas não gostaria de vir aqui dar um salto e praticar de vez em quando, só para o manter afinado, sabe, minha senhora?"
Beth deu um passo em frente e apertou as mãos com força para não bater palmas, pois aquela era uma tentação irresistível; e o pensamento de praticar naquele instrumento magnífico tirou-lhe o fôlego. Antes que a Sra. March pudesse responder, o Sr. Laurence continuou com um aceno e um sorriso estranhos:
"Não precisam de ver ou falar com ninguém, podem entrar a qualquer altura; pois eu fico fechado no meu escritório na outra ponta da casa, o Laurie está fora muitas vezes e os criados nunca estão perto da sala de estar depois das nove horas."
Aqui ele levantou-se, como se fosse sair, e Beth decidiu falar, pois aquele último arranjo não deixava nada a desejar. "Por favor, diga às jovens o que eu disse; e se não quiserem vir, bem, não faz mal." Aqui uma mãozinha deslizou para dentro da dele, e Beth olhou para ele com um rosto cheio de gratidão, enquanto dizia, da sua maneira sincera mas tímida:
"Oh, senhor, elas querem, muito, muito mesmo!"
"Tu és a rapariga musical?", perguntou ele, sem qualquer "Ei!" assustador, enquanto olhava para ela muito gentilmente.
"Eu sou a Beth. Adoro música, e virei, se tiver a certeza de que ninguém me ouvirá — e ficará incomodado", acrescentou ela, temendo ser rude e tremendo com a sua própria ousadia ao falar.
"Nem uma alma, minha querida. A casa fica vazia metade do dia; por isso vem e toca o quanto quiseres, e ficarei grato."
"Como é bondoso, senhor!"
Beth corou como uma rosa sob o olhar amigável que ele usava; mas não estava assustada agora e deu à mão grande um aperto de gratidão, porque não tinha palavras para lhe agradecer o presente precioso que ele lhe tinha dado. O velho cavalheiro acariciou suavemente o cabelo da testa dela e, inclinando-se, beijou-a, dizendo, num tom que poucas pessoas alguma vez ouviram:
"Eu tive uma menina uma vez, com olhos como estes. Que Deus te abençoe, minha querida! Bom dia, senhora"; e lá foi ele, com muita pressa.
Beth teve um momento de êxtase com a mãe e depois correu para transmitir as notícias gloriosas à sua família de inválidos, já que as raparigas não estavam em casa. Quão alegremente ela cantou naquela noite, e como todos se riram dela, porque ela acordou Amy durante a noite a tocar piano na cara dela enquanto dormia. No dia seguinte, tendo visto tanto o velho como o jovem cavalheiro sair de casa, Beth, após dois ou três recuos, entrou finalmente pela porta lateral e dirigiu-se, tão silenciosamente como qualquer rato, à sala de estar, onde o seu ídolo estava. Por puro acaso, claro, alguma música bonita e fácil estava em cima do piano; e, com dedos trémulos e paragens frequentes para ouvir e olhar à volta, Beth tocou finalmente o grande instrumento e, de imediato, esqueceu o seu medo, a si mesma e tudo o resto, exceto o deleite indescritível que a música lhe proporcionava, pois era como a voz de um amigo querido.
Ela ficou até Hannah vir buscá-la para jantar; mas não tinha apetite e apenas conseguia sentar-se e sorrir para todos num estado geral de beatitude.
Depois disso, o pequeno capuz castanho deslizava pela sebe quase todos os dias, e a grande sala de estar era assombrada por um espírito melodioso que ia e vinha sem ser visto. Ela nunca soube que o Sr. Laurence abria frequentemente a porta do seu escritório para ouvir as melodias antigas de que gostava; ela nunca viu Laurie montar guarda no corredor para avisar os criados; ela nunca suspeitou que os livros de exercícios e as novas canções que encontrava na estante eram colocados lá para seu especial benefício; e quando ele falava com ela sobre música em casa, ela apenas pensava no quão gentil ele era por dizer coisas que a ajudavam tanto. Assim, ela desfrutou de coração e descobriu, o que nem sempre é o caso, que o seu desejo realizado era tudo o que esperava. Talvez tenha sido porque ela era tão grata por esta bênção que outra maior lhe foi concedida; de qualquer forma, ela merecia ambas.
"Mãe, vou fazer uns chinelos para o Sr. Laurence. Ele é tão gentil comigo, tenho de lhe agradecer e não conheço outra maneira. Posso fazê-lo?", perguntou Beth, algumas semanas depois daquela visita memorável dele.
"Sim, querida. Irá agradar-lhe muito e será uma bela maneira de lhe agradecer. As raparigas ajudar-te-ão com eles, e eu pagarei a confeção", respondeu a Sra. March, que sentia um prazer peculiar em atender aos pedidos de Beth, porque ela raramente pedia algo para si própria.
Após muitas discussões sérias com Meg e Jo, o modelo foi escolhido, os materiais comprados e os chinelos começados. Um grupo de amores-perfeitos, sóbrios e ao mesmo tempo alegres, sobre um fundo de um roxo mais profundo, foi considerado muito apropriado e bonito; e Beth trabalhou neles de manhã à noite, com ocasionais ajudas nas partes difíceis. Ela era uma pequena costureira ágil e eles foram terminados antes que alguém se cansasse deles. Depois, ela escreveu um bilhete muito curto e simples e, com a ajuda de Laurie, conseguiu que fossem contrabandeados para a mesa de estudo numa manhã, antes que o velho cavalheiro estivesse de pé.
Quando esta agitação passou, Beth esperou para ver o que aconteceria. Todo aquele dia passou, e parte do seguinte, antes que chegasse qualquer reconhecimento, e ela começava a temer ter ofendido o seu rabugento amigo. Na tarde do segundo dia, ela saiu para fazer uma recado e dar à pobre Joanna, a boneca inválida, o seu exercício diário. Ao subir a rua, no seu regresso, viu três, sim, quatro cabeças a espreitar pelas janelas da sala de estar e, no momento em que a viram, várias mãos foram acenadas e várias vozes alegres gritaram:
— Aqui está uma carta do velho cavalheiro! Vem depressa e lê-a!
— Ó Beth, ele enviou-te... — começou Amy, gesticulando com uma energia imprópria; mas não foi mais longe, pois Jo silenciou-a fechando a janela com força.
Beth apressou-se num turbilhão de suspense. À porta, as suas irmãs agarraram-na e levaram-na para a sala de estar num cortejo triunfal, todas a apontar e a dizer ao mesmo tempo: "Olha ali! Olha ali!" Beth olhou e empalideceu de encanto e surpresa; pois ali estava um pequeno piano de armário, com uma carta pousada na tampa lustrosa, dirigida, como uma placa, à "Srta. Elizabeth March".
— Para mim? — ofegou Beth, agarrando-se a Jo e sentindo como se fosse desmaiar, era algo tão avassalador.
— Sim; tudo para ti, minha querida! Não é esplêndido da parte dele? Não achas que ele é o velho mais querido do mundo? Aqui está a chave na carta. Nós não a abrimos, mas estamos a morrer de vontade de saber o que ele diz — exclamou Jo, abraçando a irmã e oferecendo o bilhete.
— Lê tu! Eu não consigo, sinto-me tão estranha! Oh, é demasiado adorável! — e Beth escondeu o rosto no avental de Jo, bastante perturbada com o seu presente.
Jo abriu o papel e começou a rir, pois as primeiras palavras que viu foram:
"SRTA. MARCH:
"Prezada Senhora..."
— Como soa bem! Quem me dera que alguém me escrevesse assim! — disse Amy, que achava o tratamento antiquado muito elegante.
"'Tive muitos pares de chinelos na minha vida, mas nunca tive nenhuns que me servissem tão bem como os teus'", continuou Jo. "'O amor-perfeito é a minha flor favorita e estes lembrar-me-ão sempre da gentil doadora. Gosto de pagar as minhas dívidas; por isso, sei que permitirás que "o velho cavalheiro" te envie algo que outrora pertenceu à neta que perdi. Com sinceros agradecimentos e os melhores votos, permaneço,
"'O teu grato amigo e humilde servo,
"'JAMES LAURENCE.'"
— Pronto, Beth, isso é uma honra de que te podes orgulhar, tenho a certeza! Laurie contou-me o quanto o Sr. Laurence gostava da criança que morreu e como guardava todas as suas pequenas coisas cuidadosamente. Pensa só, ele deu-te o piano dela. Isso é o que dá ter grandes olhos azuis e amar a música — disse Jo, tentando acalmar Beth, que tremia e parecia mais agitada do que alguma vez estivera.
— Vê os suportes astutos para segurar velas, e a bonita seda verde, franzida, com uma rosa de ouro no meio, e a bonita estante e o banco, tudo completo — acrescentou Meg, abrindo o instrumento e exibindo as suas belezas.
"'O teu humilde servo, James Laurence'; só de pensar que ele escreveu isso para ti. Vou contar às raparigas. Elas vão achar esplêndido — disse Amy, muito impressionada com o bilhete.
— Experimenta-o, querida. Deixa-nos ouvir o som do pianinho — disse Hannah, que participava sempre das alegrias e tristezas da família.
Então Beth experimentou-o; e todos declararam que era o piano mais notável que já tinham ouvido. Tinha sido, evidentemente, afinado de novo e posto em perfeitas condições; mas, por mais perfeito que fosse, penso que o verdadeiro encanto residia nas faces mais felizes de todas as faces felizes que se inclinavam sobre ele, enquanto Beth tocava amorosamente as belas teclas pretas e brancas e carregava nos pedais brilhantes.
— Vais ter de ir agradecer-lhe — disse Jo, como uma brincadeira; pois a ideia de a criança ir realmente lá nunca lhe passou pela cabeça.
— Sim, pretendo fazê-lo. Acho que vou agora, antes que me assuste a pensar nisso. — E, para total espanto da família reunida, Beth caminhou deliberadamente pelo jardim, através da sebe e entrou pela porta dos Laurence.
— Bem, que eu morra se isto não é a coisa mais estranha que já vi! O piano virou-lhe a cabeça! Ela nunca teria ido se estivesse no seu juízo perfeito — gritou Hannah, olhando fixamente atrás dela, enquanto as raparigas ficavam sem fala com o milagre.
Teriam ficado ainda mais espantadas se tivessem visto o que Beth fez a seguir. Se me querem acreditar, ela foi e bateu à porta do escritório antes de se dar tempo para pensar; e quando uma voz rouca gritou "Entre!", ela entrou, mesmo até ao Sr. Laurence, que pareceu bastante apanhado de surpresa, e estendeu a mão, dizendo, com apenas um pequeno tremor na voz: "Vim agradecer-lhe, senhor, por..." Mas ela não terminou; pois ele parecia tão amigável que ela esqueceu o seu discurso e, lembrando-se apenas que ele tinha perdido a menina que amava, colocou ambos os braços à volta do pescoço dele e beijou-o.
Se o telhado da casa tivesse voado subitamente, o velho cavalheiro não teria ficado mais espantado; mas ele gostou... oh, meu Deus, sim, ele gostou imenso! — e ficou tão tocado e satisfeito com aquele beijo confiante que toda a sua aspereza desapareceu; e ele simplesmente sentou-a no seu colo e encostou a sua face enrugada à dela, corada, sentindo como se tivesse recuperado a sua própria neta. Beth deixou de o temer a partir daquele momento e sentou-se ali a conversar com ele tão aconchegadamente como se o conhecesse durante toda a vida; pois o amor expulsa o medo e a gratidão pode vencer o orgulho. Quando ela foi para casa, ele caminhou com ela até ao seu portão, apertou-lhe a mão cordialmente e tocou no seu chapéu enquanto marchava de volta, parecendo muito imponente e ereto, como um belo e marcial velho cavalheiro, como ele era.
Quando as raparigas viram aquele desempenho, Jo começou a dançar uma giga, como forma de expressar a sua satisfação; Amy quase caiu da janela de surpresa; e Meg exclamou, com as mãos levantadas: "Bem, eu acredito que o mundo está a chegar ao fim!"
VII.
O VALE DA HUMILHAÇÃO DE AMY.
— Aquele rapaz é um perfeito Ciclope, não é? — disse Amy, um dia, enquanto Laurie passava a trote a cavalo, com um floreado do seu chicote ao passar.
— Como te atreves a dizer isso, quando ele tem ambos os olhos? E muito bonitos, por sinal — gritou Jo, que se ressentia de quaisquer comentários depreciativos sobre o seu amigo.
— Não disse nada sobre os olhos dele e não vejo por que tens de te irritar quando admiro a forma como ele cavalga.
— Oh, meu Deus! aquela pequena gansa quer dizer centauro, e chamou-lhe Ciclope — exclamou Jo, com uma gargalhada.
— Não precisas de ser tão rude; é apenas um 'lapsus linguae', como diz o Sr. Davis — retorquiu Amy, derrotando Jo com o seu latim. — Eu só queria ter um pouco do dinheiro que o Laurie gasta naquele cavalo — acrescentou ela, como que para si própria, mas esperando que as irmãs ouvissem.
— Porquê? — perguntou Meg amavelmente, pois Jo tinha começado a rir outra vez com o segundo erro de Amy.
— Preciso tanto dele; estou terrivelmente endividada e não será a minha vez de ter o dinheiro dos trapos durante um mês.
— Endividada, Amy? O que queres dizer? — e Meg parecia séria.
— Bem, devo pelo menos uma dúzia de limas em conserva, e não as posso pagar, sabes, até ter dinheiro, pois a Mamã proibiu-me de ter qualquer coisa pendurada na conta da loja.
— Conta-me tudo sobre isso. As limas estão na moda agora? Costumava ser picar pedaços de borracha para fazer bolas — e Meg tentou manter a compostura, Amy parecia tão grave e importante.
— Bem, vês, as raparigas estão sempre a comprá-las e, a menos que queiras ser considerada mesquinha, tens de o fazer também. Não é nada além de limas agora, pois toda a gente as está a chupar nas suas carteiras durante o tempo de escola, e a trocá-las por lápis, anéis de missangas, bonecas de papel, ou outra coisa qualquer, no recreio. Se uma rapariga gosta de outra, dá-lhe uma lima; se está zangada com ela, come uma à frente dela e nem sequer oferece uma chupadela. Elas tratam por turnos; e eu já tive tantas, mas não as retribui; e deveria, pois são dívidas de honra, sabes.
— Quanto pagará essas dívidas e restaurará o teu crédito? — perguntou Meg, tirando a carteira.
— Vinte e cinco cêntimos seriam mais do que suficientes e deixariam alguns cêntimos de sobra para um mimo para ti. Não gostas de limas?
— Não muito; podes ficar com a minha parte. Aqui tens o dinheiro. Faz com que dure o máximo que puderes, pois não é muito abundante, sabes.
— Oh, obrigada! Deve ser tão bom ter dinheiro de bolso! Vou fazer um grande banquete, pois não provei uma lima esta semana. Sentia-me delicada em aceitar alguma, já que não podia retribuir, e estou realmente a sofrer por uma.
No dia seguinte, Amy chegou um pouco atrasada à escola; mas não conseguiu resistir à tentação de exibir, com um orgulho perdoável, um pacote de papel castanho húmido, antes de o consignar aos recessos mais profundos da sua carteira. Durante os poucos minutos seguintes, o boato de que Amy March tinha vinte e quatro limas deliciosas (ela comeu uma pelo caminho), e ia oferecer, circulou pelo seu "grupo", e as atenções das suas amigas tornaram-se bastante avassaladoras. Katy Brown convidou-a para a sua próxima festa no momento; Mary Kingsley insistiu em emprestar-lhe o seu relógio até ao recreio; e Jenny Snow, uma jovem satírica, que tinha zombado vilmente de Amy pelo seu estado de falta de limas, enterrou prontamente o machado de guerra e ofereceu-se para fornecer respostas a certos somas terríveis. Mas Amy não tinha esquecido as observações cortantes da Srta. Snow sobre "algumas pessoas cujos narizes não eram demasiado chatos para cheirar as limas dos outros, e pessoas convencidas, que não eram demasiado orgulhosas para as pedir"; e ela esmagou instantaneamente as esperanças da "rapariga Snow" com o telegrama devastador: "Não precisas de ser tão educada de repente, pois não vais receber nenhuma."
Uma personagem distinta aconteceu visitar a escola naquela manhã, e os mapas desenhados de forma bonita de Amy receberam elogios, honra essa para a sua inimiga que irritou a alma da Srta. Snow e fez com que a Srta. March assumisse os ares de um pavão jovem e estudioso. Mas, ai, ai! o orgulho precede a queda, e a vingativa Snow virou o jogo com sucesso desastroso. Assim que o convidado pagou os habituais elogios gastos e se curvou para sair, Jenny, sob o pretexto de fazer uma pergunta importante, informou o Sr. Davis, o professor, de que Amy March tinha limas em conserva na sua carteira.
Ora, o Sr. Davis tinha declarado as limas um artigo de contrabando e jurado solenemente punir publicamente a primeira pessoa que fosse apanhada a infringir a lei. Este homem de grande paciência tinha conseguido banir a pastilha elástica após uma guerra longa e tempestuosa, tinha feito uma fogueira com os romances e jornais confiscados, tinha suprimido uma estação de correios privada, tinha proibido distorções da face, alcunhas e caricaturas, e feito tudo o que um homem podia fazer para manter meia centena de raparigas rebeldes em ordem. Os rapazes são suficientemente cansativos para a paciência humana, Deus sabe! mas as raparigas são infinitamente mais, especialmente para cavalheiros nervosos, com temperamentos tirânicos e sem mais talento para ensinar do que o Dr. Blimber. O Sr. Davis sabia qualquer quantidade de grego, latim, álgebra e "ologias" de todo o tipo, por isso era chamado de um bom professor; e maneiras, moral, sentimentos e exemplos não eram considerados de qualquer importância particular. Foi um momento muito infeliz para denunciar Amy, e Jenny sabia-o. O Sr. Davis tinha evidentemente tomado o seu café demasiado forte naquela manhã; havia um vento de leste, que afetava sempre a sua neuralgia; e os seus alunos não lhe tinham dado o crédito que ele sentia merecer: portanto, para usar a linguagem expressiva, se não elegante, de uma rapariga da escola, "ele estava nervoso como uma bruxa e zangado como um urso". A palavra "limas" foi como fogo na pólvora; a sua cara amarela corou e ele bateu na sua mesa com uma energia que fez Jenny saltar para o seu lugar com uma rapidez invulgar.
— Senhoras, atenção, se fazem favor!
À ordem severa, o zumbido cessou e cinquenta pares de olhos azuis, pretos, cinzentos e castanhos foram fixados obedientemente na sua face terrível.
— Srta. March, venha à mesa.
Amy levantou-se para obedecer com compostura exterior, mas um medo secreto oprimia-a, pois as limas pesavam na sua consciência.
— Traga consigo as limas que tem na sua carteira — foi o comando inesperado que a deteve antes que ela saísse do seu lugar.
— Não leves todas — sussurrou a sua vizinha, uma jovem senhora de grande presença de espírito.
Amy sacudiu apressadamente meia dúzia e pousou o resto perante o Sr. Davis, sentindo que qualquer homem que possuísse um coração humano cederia quando aquele perfume delicioso encontrasse o seu nariz. Infelizmente, o Sr. Davis detestava particularmente o odor do picle da moda, e o nojo somou-se à sua ira.
— É tudo?
— Não inteiramente — gaguejou Amy.
— Traga o resto imediatamente.
Com um olhar desesperado para o seu grupo, ela obedeceu.
— Tens a certeza de que não há mais?
— Eu nunca minto, senhor.
— Já vejo. Agora pegue nestas coisas nojentas, duas a duas, e atire-as pela janela fora.
Houve um suspiro simultâneo, que criou uma pequena rajada, enquanto a última esperança fugia e o mimo era arrebatado dos seus lábios ansiosos. Escarlate de vergonha e raiva, Amy foi e veio seis vezes terríveis; e enquanto cada par condenado — parecendo, oh! tão gordo e suculento — caía das suas mãos relutantes, um grito da rua completava a angústia das raparigas, pois dizia-lhes que o seu banquete estava a ser festejado pelas crianças irlandesas, que eram as suas inimigas declaradas. Isto... isto era demasiado; todas lançaram olhares indignados ou suplicantes ao inexorável Davis, e uma apaixonada amante de limas desatou a chorar.
Quando Amy regressou da sua última viagem, o Sr. Davis deu um "Hum!" portentoso e disse, da sua forma mais impressionante:
— Senhoras, lembram-se do que vos disse há uma semana. Lamento que isto tenha acontecido, mas nunca permito que as minhas regras sejam infringidas e nunca quebro a minha palavra. Srta. March, estenda a mão.
Amy sobressaltou-se e colocou ambas as mãos atrás das costas, virando para ele um olhar implorante que suplicava por ela melhor do que as palavras que ela não podia proferir. Ela era bastante favorita do "velho Davis", como, claro, ele era chamado, e é a minha crença privada que ele teria quebrado a sua palavra se a indignação de uma jovem irreprimível não tivesse encontrado saída num silvo. Esse silvo, fraco como era, irritou o cavalheiro irascível e selou o destino da culpada.
— A sua mão, Srta. March! — foi a única resposta que o seu apelo mudo recebeu; e, demasiado orgulhosa para chorar ou suplicar, Amy cerrou os dentes, atirou a cabeça para trás desafiadoramente e suportou sem vacilar vários golpes formigantes na sua pequena palma. Não foram muitos nem pesados, mas isso não fazia diferença para ela. Pela primeira vez na sua vida, ela tinha sido atingida; e a desgraça, aos seus olhos, era tão profunda como se ele a tivesse derrubado.
— Agora ficará na plataforma até ao recreio — disse o Sr. Davis, decidido a fazer a coisa minuciosamente, já que tinha começado.
Isso era terrível. Teria sido suficientemente mau voltar ao seu lugar e ver as caras piedosas das suas amigas, ou as satisfeitas dos seus poucos inimigos; mas enfrentar toda a escola, com aquela vergonha fresca sobre ela, parecia impossível, e por um segundo ela sentiu como se pudesse apenas cair onde estava e partir o coração a chorar. Um amargo sentido de injustiça e o pensamento de Jenny Snow ajudaram-na a suportar; e, ocupando o lugar ignominioso, ela fixou os olhos no funil do fogão acima do que agora parecia um mar de caras, e ficou ali, tão imóvel e branca que as raparigas acharam muito difícil estudar, com aquela figura patética diante delas.
Durante os quinze minutos que se seguiram, a pequena rapariga orgulhosa e sensível sofreu uma vergonha e uma dor que nunca esqueceu. Para outros, poderia parecer um assunto ridículo ou trivial, mas para ela foi uma experiência dura; pois durante os doze anos da sua vida ela tinha sido governada apenas pelo amor, e um golpe daquele género nunca a tinha tocado antes. O ardor da sua mão e a dor do seu coração foram esquecidos na picada do pensamento:
"Vou ter de contar em casa, e eles ficarão tão desapontados comigo!"
Os quinze minutos pareceram uma hora; mas chegaram ao fim, finalmente, e a palavra "Recreio!" nunca lhe tinha parecido tão bem-vinda antes.
— Pode ir, Srta. March — disse o Sr. Davis, parecendo, como se sentia, desconfortável.
Ele não esqueceu tão cedo o olhar reprovador que Amy lhe lançou enquanto ela ia, sem uma palavra para ninguém, diretamente para a antecâmara, agarrou as suas coisas e deixou o lugar "para sempre", como ela declarou apaixonadamente a si própria. Ela estava num estado triste quando chegou a casa; e quando as raparigas mais velhas chegaram, algum tempo depois, uma reunião de indignação foi realizada de imediato. A Sra. March não disse muito, mas parecia perturbada e confortou a sua pequena filha aflita da sua maneira mais terna. Meg banhou a mão insultada com glicerina e lágrimas; Beth sentiu que até os seus amados gatinhos falhariam como um bálsamo para sofrimentos como este; Jo propôs iradamente que o Sr. Davis fosse preso sem demora; e Hannah sacudiu o punho para o "vilão" e bateu nas batatas para o jantar como se o tivesse sob o seu almofariz.
Nenhum aviso foi dado à fuga de Amy, exceto pelos seus colegas; mas as demoiselles de olhos aguçados descobriram que o Sr. Davis estava bastante benigno à tarde, também invulgarmente nervoso. Pouco antes de a escola fechar, Jo apareceu, ostentando uma expressão sombria, enquanto caminhava até à mesa e entregava uma carta da sua mãe; depois recolheu os pertences de Amy e partiu, raspando cuidadosamente a lama das suas botas no capacho, como se sacudisse o pó do lugar dos seus pés.
— Sim, podes ter férias da escola, mas quero que estudes um pouco todos os dias, com a Beth — disse a Sra. March, naquela noite. — Não aprovo o castigo corporal, especialmente para raparigas. Não gosto da maneira de ensinar do Sr. Davis e não acho que as raparigas com quem te associas te estejam a fazer algum bem, por isso pedirei o conselho do teu pai antes de te enviar para qualquer outro lugar.
— Isso é bom! Quem me dera que todas as raparigas saíssem e estragassem a sua velha escola. É perfeitamente enlouquecedor pensar naquelas limas adoráveis — suspirou Amy, com o ar de uma mártir.
— Não lamento que as tenhas perdido, pois quebraste as regras e mereceste algum castigo por desobediência — foi a resposta severa, que desapontou bastante a jovem senhora, que não esperava nada senão simpatia.
— Queres dizer que estás contente por eu ter sido desgraçada perante toda a escola? — gritou Amy.
— Não teria escolhido essa maneira de corrigir uma falta — respondeu a sua mãe; — mas não tenho a certeza de que não te fará mais bem do que um método mais suave. Estás a tornar-te bastante presunçosa, minha querida, e é tempo de começares a corrigir isso. Tens muitos pequenos dons e virtudes, mas não há necessidade de os exibir, pois a presunção estraga o génio mais fino. Não há muito perigo de que o talento ou a bondade reais sejam ignorados durante muito tempo; mesmo que sejam, a consciência de possuí-los e usá-los bem deve satisfazer-nos, e o grande encanto de todo o poder é a modéstia.
— Pois é! — gritou Laurie, que jogava xadrez num canto com Jo. — Conheci uma rapariga, uma vez, que tinha um talento realmente notável para a música, e ela não o sabia; nunca adivinhou que coisas doces e pequenas ela compunha quando estava sozinha, e não teria acreditado se alguém lho tivesse dito.
— Quem me dera ter conhecido essa rapariga simpática; talvez ela me tivesse ajudado, sou tão estúpida — disse Beth, que estava ao lado dele, a ouvir com avidez.
— Tu conheces essa rapariga, e ela ajuda-te melhor do que qualquer outra pessoa poderia — respondeu Laurie, olhando para ela com um significado tão maroto nos seus alegres olhos negros, que Beth ficou subitamente muito vermelha e escondeu o rosto na almofada do sofá, completamente confundida por tal descoberta inesperada.
Jo deixou Laurie ganhar o jogo, para pagar aquele elogio à sua Beth, que não pôde ser convencida a jogar por eles depois do seu cumprimento. Por isso, Laurie esforçou-se ao máximo e cantou de forma encantadora, estando num humor particularmente vivo, pois raramente mostrava o lado melancólico do seu caráter aos March. Quando ele se foi embora, Amy, que estivera pensativa durante toda a noite, disse de repente, como se estivesse ocupada com alguma ideia nova:
— O Laurie é um rapaz talentoso?
— Sim; ele teve uma excelente educação e tem muito talento; ele tornar-se-á um homem notável, se não for estragado por excesso de mimos — respondeu a mãe.
— E ele não é presunçoso, pois não? — perguntou Amy.
— Nem um pouco; é por isso que ele é tão encantador e todos nós gostamos tanto dele.
— Percebo; é bom ter talentos e ser elegante; mas não é bom exibir-se ou ficar convencido — disse Amy, pensativa.
— Estas coisas são sempre vistas e sentidas nos modos e na conversa de uma pessoa, se usadas com modéstia; mas não é necessário exibi-las — disse a Sra. March.
— Nem é apropriado usar todos os chapéus, vestidos e fitas de uma só vez, para que as pessoas saibam que os temos — acrescentou Jo; e a lição terminou com uma risada.
VIII.
JO ENCONTRA APOLIÃO.
— Meninas, onde é que vão? — perguntou Amy, entrando no quarto delas numa tarde de sábado e encontrando-as a preparar-se para sair, com um ar de segredo que despertou a sua curiosidade.
— Não interessa; as meninas não devem fazer perguntas — respondeu Jo, bruscamente.
Ora, se há algo mortificante para os nossos sentimentos, quando somos jovens, é ouvir isso; e ser mandado "ir brincar, querida", é ainda mais penoso para nós. Amy irritou-se com este insulto e decidiu descobrir o segredo, nem que tivesse de insistir durante uma hora. Virando-se para Meg, que nunca lhe recusava nada por muito tempo, disse de forma persuasiva: — Conta-me! Acho que podias deixar-me ir também; porque a Beth está entretida com o seu piano, e eu não tenho nada que fazer, e sinto-me tão sozinha.
— Não posso, querida, porque não foste convidada — começou Meg; mas Jo interrompeu impacientemente: — Agora, Meg, fica quieta, ou vais estragar tudo. Tu não podes ir, Amy; por isso, não sejas uma bebé e não te queixes.
— Vão sair com o Laurie, eu sei que vão; estavam a sussurrar e a rir-se juntas, no sofá, ontem à noite, e pararam quando eu entrei. Não vão com ele?
— Sim, vamos; agora fica quieta e para de chatear.
Amy calou-se, mas usou os olhos e viu Meg enfiar um leque no bolso.
— Eu sei! Eu sei! Vão ao teatro ver os "Sete Castelos!" — gritou ela; acrescentando resolutamente: — e eu vou, porque a mãe disse que eu podia vê-lo; e eu tenho o dinheiro dos meus trapos, e foi maldoso não me avisarem a tempo.
— Ouve-me um minuto e sê uma boa menina — disse Meg, num tom apaziguador. — A mãe não quer que vás esta semana, porque os teus olhos ainda não estão suficientemente bons para suportar a luz desta peça de fantasia. Na próxima semana podes ir com a Beth e a Hannah e divertires-te.
— Não gosto disso nem metade do que gostaria de ir convosco e com o Laurie. Por favor, deixa-me ir; estou doente com esta constipação há tanto tempo, e fechada em casa, que estou a morrer por um pouco de diversão. Deixa-me, Meg! Serei muito boazinha — implorou Amy, com o ar mais patético que conseguiu.
— E se a levássemos? Não creio que a mãe se importasse, se a agasalhássemos bem — começou Meg.
— Se ela for, eu não vou; e se eu não for, o Laurie não vai gostar; e seria muito indelicado, depois de ele ter convidado apenas nós, aparecer com a Amy a reboque. Acho que ela devia ter vergonha de se meter onde não é chamada — disse Jo, irritada, pois detestava o trabalho de supervisionar uma criança inquieta quando queria divertir-se.
O seu tom e a sua atitude irritaram Amy, que começou a calçar as botas, dizendo, da sua forma mais exasperante: — Eu vou; a Meg diz que posso; e se eu pagar o meu lugar, o Laurie não tem nada que ver com isso.
— Tu não podes sentar-te connosco, porque os nossos lugares estão reservados, e não podes sentar-te sozinha; por isso, ou o Laurie te dá o seu lugar, e isso estragará o nosso prazer; ou ele arranja outro lugar para ti, e isso não é correto, quando não foste convidada. Não vais dar um passo; por isso, podes ficar onde estás — ralhou Jo, mais rabugenta do que nunca, por se ter picado no dedo com a pressa.
Sentada no chão, com uma bota calçada, Amy começou a chorar, e Meg a tentar argumentar com ela, quando Laurie chamou de baixo, e as duas raparigas correram para lá, deixando a irmã a lamuriar-se; pois, de vez em quando, ela esquecia-se dos seus modos de gente grande e agia como uma criança mimada. Logo quando o grupo se preparava para partir, Amy gritou pelo corrimão, num tom de ameaça: — Vais arrepender-te disto, Jo March; espera para ver.
— Asneiras! — respondeu Jo, batendo a porta.
Passaram um tempo encantador, pois "Os Sete Castelos do Lago de Diamante" eram tão brilhantes e maravilhosos como qualquer coração poderia desejar. Mas, apesar dos cómicos diabinhos vermelhos, dos elfos cintilantes e dos príncipes e princesas sumptuosos, o prazer de Jo tinha uma gota de amargura; os caracóis amarelos da rainha das fadas faziam-na lembrar a Amy; e entre os atos ela distraía-se a imaginar o que a sua irmã faria para a fazer "arrepender-se". Ela e Amy tinham tido muitas escaramuças animadas ao longo das suas vidas, pois ambas tinham temperamentos irascíveis e eram propensas a ser violentas quando realmente provocadas. Amy provocava Jo, e Jo irritava Amy, e ocorriam explosões semi-ocasionais, das quais ambas se envergonhavam muito depois. Embora fosse a mais velha, Jo tinha o menor autocontrolo e passava por maus bocados a tentar domar o espírito impetuoso que a metia continuamente em sarilhos; a sua raiva nunca durava muito e, tendo confessado humildemente a sua culpa, ela arrependia-se sinceramente e tentava melhorar. As suas irmãs costumavam dizer que até gostavam de pôr a Jo furiosa, porque ela se tornava um anjo depois. A pobre Jo tentava desesperadamente ser boa, mas a sua inimiga íntima estava sempre pronta a inflamar-se e a derrotá-la; e foram precisos anos de esforço paciente para a subjugar.
Quando chegaram a casa, encontraram Amy a ler na sala. Ela assumiu um ar de ofendida quando elas entraram; não levantou os olhos do livro, nem fez uma única pergunta. Talvez a curiosidade tivesse vencido o ressentimento, se Beth não estivesse lá para perguntar e receber uma descrição vibrante da peça. Ao subir para guardar o seu melhor chapéu, o primeiro olhar de Jo foi para a cómoda; pois, na sua última discussão, Amy tinha acalmado os seus sentimentos virando a gaveta de cima da Jo de pernas para o ar no chão. Estava tudo no seu lugar, contudo; e após um olhar apressado pelos seus vários armários, sacos e caixas, Jo decidiu que Amy tinha perdoado e esquecido os seus erros.
Aí Jo enganou-se; pois, no dia seguinte, fez uma descoberta que provocou uma tempestade. Meg, Beth e Amy estavam sentadas juntas, ao fim da tarde, quando Jo irrompeu pelo quarto, com um ar agitado, perguntando sem fôlego: — Alguém levou o meu livro?
Meg e Beth disseram "Não", de imediato, e pareceram surpreendidas; Amy mexeu na lareira e não disse nada. Jo viu a cor subir-lhe ao rosto e caiu em cima dela num minuto.
— Amy, tu tens o livro?
— Não, não tenho.
— Então sabes onde ele está?
— Não, não sei.
— Isso é mentira! — gritou Jo, agarrando-a pelos ombros e parecendo suficientemente feroz para assustar uma criança muito mais corajosa do que Amy.
— Não é. Não o tenho, não sei onde está agora, e não me interessa.
— Tu sabes alguma coisa sobre ele, e é melhor contares de uma vez, ou farei com que contes — e Jo deu-lhe um ligeiro abanão.
— Ralha o quanto quiseres, nunca mais verás o teu livro estúpido — gritou Amy, ficando agitada por sua vez.
— Por que não?
— Queimei-o.
— O quê! O meu livrinho de que eu tanto gostava, e no qual trabalhei tanto, e que pretendia terminar antes de o pai chegar a casa? Queimaste-o mesmo? — disse Jo, ficando muito pálida, enquanto os seus olhos se incendiavam e as suas mãos agarravam Amy nervosamente.
— Sim, queimei! Disse-te que te faria pagar por teres sido tão rabugenta ontem, e fi-lo, por isso...
Amy não conseguiu dizer mais nada, pois o temperamento exaltado de Jo dominou-a, e ela sacudiu Amy até que os seus dentes chocalharam na cabeça; gritando, numa paixão de dor e raiva:
— Tu és uma rapariga perversa, perversa! Nunca mais o poderei escrever, e nunca te perdoarei enquanto viver.
Meg correu para salvar Amy, e Beth para acalmar Jo, mas Jo estava completamente fora de si; e, com uma bofetada final na orelha da irmã, ela correu para fora do quarto em direção ao velho sofá no sótão, e terminou a sua luta sozinha.
A tempestade acalmou lá em baixo, pois a Sra. March chegou a casa e, tendo ouvido a história, logo levou Amy a compreender o mal que fizera à irmã. O livro de Jo era o orgulho do seu coração e era considerado pela família como um rebento literário de grande promessa. Eram apenas meia dúzia de pequenos contos de fadas, mas Jo tinha trabalhado neles pacientemente, colocando todo o seu coração na obra, na esperança de criar algo suficientemente bom para imprimir. Tinha acabado de os copiar com grande cuidado e tinha destruído o manuscrito antigo, de modo que a fogueira de Amy consumira o trabalho carinhoso de vários anos. Parecia uma pequena perda para os outros, mas para Jo era uma calamidade terrível, e ela sentia que nunca poderia ser compensada. Beth chorava como se fosse por um gatinho perdido, e Meg recusou-se a defender a sua protegida; a Sra. March parecia grave e pesarosa, e Amy sentia que ninguém a amaria até que pedisse perdão pelo ato que agora lamentava mais do que qualquer um deles.
Quando o sino do chá tocou, Jo apareceu, com um ar tão sombrio e inacessível que foi preciso toda a coragem de Amy para dizer, docemente:
— Por favor, perdoa-me, Jo; estou muito, muito arrependida.
— Nunca te perdoarei — foi a resposta severa de Jo; e, a partir daquele momento, ela ignorou Amy completamente.
Ninguém falou do grande problema — nem mesmo a Sra. March —, pois todas tinham aprendido por experiência que, quando Jo estava naquele estado de espírito, as palavras eram desperdiçadas; e o caminho mais sensato era esperar até que algum pequeno acidente, ou a sua própria natureza generosa, suavizasse o ressentimento de Jo e curasse a brecha. Não foi uma noite feliz; pois, embora costurassem como de costume, enquanto a mãe lia em voz alta Bremer, Scott ou Edgeworth, faltava qualquer coisa, e a doce paz do lar estava perturbada. Sentiram isto sobretudo quando chegou a hora de cantar; pois a Beth apenas podia tocar, a Jo estava muda como uma pedra, e a Amy desfez-se em lágrimas, pelo que a Meg e a mãe cantaram sozinhas. Mas, apesar dos seus esforços para serem alegres como cotovias, as vozes, que costumavam ser como flautas, não pareciam harmonizar-se tão bem como de costume, e todas se sentiam desafinadas.
Ao receber o beijo de boa noite, a Sra. March sussurrou gentilmente:
— Minha querida, não deixes que o sol se ponha sobre a tua raiva; perdoem-se umas às outras, ajudem-se umas às outras e recomecem amanhã.
Jo queria encostar a cabeça naquele seio maternal e chorar toda a sua mágoa e raiva; mas as lágrimas eram uma fraqueza pouco viril, e sentia-se tão profundamente magoada que realmente não conseguia perdoar ainda. Por isso, piscou os olhos com força, abanou a cabeça e disse, com aspereza porque Amy estava a ouvir:
— Foi uma coisa abominável, e ela não merece ser perdoada.
Com isto, marchou para a cama, e não houve mexericos alegres ou confidenciais naquela noite.
Amy ficou muito ofendida por as suas tentativas de paz terem sido repelidas e começou a desejar não se ter humilhado, a sentir-se mais magoada do que nunca e a vangloriar-se da sua superior virtude de uma forma que era particularmente exasperante. Jo continuava com um ar de trovoada, e nada correu bem durante todo o dia. Estava um frio cortante de manhã; ela deixou cair a sua preciosa empada na sarjeta, a tia March teve um ataque de nervos, Meg estava pensativa, Beth olhava com ar triste e nostálgico quando chegava a casa, e Amy não parava de fazer comentários sobre pessoas que falavam sempre em serem boas, mas que não se esforçavam por o ser, quando outros lhes davam um exemplo virtuoso.
— Toda a gente é tão detestável, vou pedir ao Laurie para ir patinar. Ele é sempre amável e divertido, e vai pôr-me as ideias no lugar, eu sei — disse Jo para si mesma, e lá foi ela.
Amy ouviu o choque dos patins e olhou para fora com uma exclamação impaciente:
— Pronto! Ela prometeu que eu iria da próxima vez, pois este é o último gelo que teremos. Mas não adianta pedir a uma rabugenta daquelas para me levar.
— Não digas isso; tu foste muito traquina, e é difícil perdoar a perda do seu precioso livrinho; mas penso que ela poderia fazê-lo agora, e acho que o fará, se a tentares no momento certo — disse Meg. — Vai atrás delas; não digas nada até que a Jo esteja bem-disposta com o Laurie, depois aproveita um minuto de sossego e dá-lhe um beijo, ou faz alguma coisa carinhosa, e tenho a certeza de que voltarão a ser amigas, de todo o coração.
— Vou tentar — disse Amy, pois o conselho agradou-lhe; e, depois de um alvoroço para se preparar, correu atrás dos amigos, que estavam prestes a desaparecer sobre a colina.
Não era longe até ao rio, mas ambos estavam prontos antes que Amy os alcançasse. Jo viu-a a aproximar-se e virou-lhe as costas; Laurie não viu, pois patinava cuidadosamente ao longo da margem, sondando o gelo, pois um período de tempo ameno precedera a vaga de frio.
— Vou até à primeira curva e vejo se está tudo bem, antes de começarmos a correr — ouviu Amy dizer, enquanto ele se lançava, parecendo um jovem russo, com o seu casaco e gorro debruados a pele.
Jo ouviu Amy a ofegar após a corrida, a bater com os pés e a soprar nos dedos, enquanto tentava calçar os patins; mas Jo nunca se virou e continuou lentamente a ziguezaguear pelo rio, sentindo uma satisfação amarga e infeliz com os problemas da irmã. Ela tinha nutrido a sua raiva até ela se tornar forte e tomar conta dela, como os maus pensamentos e sentimentos fazem sempre, a menos que sejam expulsos de imediato. Quando Laurie contornou a curva, gritou de volta:
— Fiquem perto da margem; não é seguro no meio.
Jo ouviu, mas Amy estava apenas a esforçar-se para se pôr de pé e não apanhou uma palavra. Jo olhou por cima do ombro, e o pequeno demónio que ela albergava disse-lhe ao ouvido:
— Não importa se ela ouviu ou não, deixa-a cuidar de si própria.
Laurie tinha desaparecido por detrás da curva; Jo estava mesmo na viragem, e Amy, muito atrás, a dirigir-se para o gelo mais liso no meio do rio. Por um minuto, Jo ficou imóvel, com um sentimento estranho no coração; depois, resolveu seguir em frente, mas algo a deteve e a fez virar-se, a tempo de ver Amy levantar as mãos e cair, com o estalo repentino do gelo podre, o mergulho na água e um grito que fez o coração de Jo parar de medo. Tentou chamar o Laurie, mas a voz faltou-lhe; tentou avançar, mas os seus pés pareciam não ter força; e, por um segundo, ela só pôde ficar imóvel, a olhar, com um rosto aterrorizado, para o pequeno capuz azul acima da água negra. Algo passou rapidamente por ela, e a voz de Laurie gritou:
— Tragam uma tábua; depressa, depressa!
Como o fez, nunca soube; mas durante os minutos seguintes trabalhou como se estivesse possuída, obedecendo cegamente ao Laurie, que estava bastante controlado e, deitado de bruços, segurou Amy pelo braço e pelo stick de hóquei até que Jo arrastou uma tábua da cerca, e juntos tiraram a criança, mais assustada do que ferida.
— Agora, temos de a levar para casa o mais depressa que pudermos; coloquem as nossas coisas em cima dela, enquanto eu me livro destes patins malditos — gritou Laurie, envolvendo Amy no seu casaco e puxando as correias, que nunca tinham parecido tão intrincadas.
A tremer, a pingar e a chorar, levaram Amy para casa; e, depois de um momento de agitação, ela adormeceu, enrolada em cobertores, perante uma lareira quente. Durante o alvoroço, Jo mal tinha falado; mas correu de um lado para o outro, parecendo pálida e fora de si, com as roupas meio despídas, o vestido rasgado e as mãos cortadas e feridas pelo gelo, pelas tábuas e pelas fivelas rebeldes. Quando Amy estava confortavelmente a dormir, a casa em silêncio e a Sra. March sentada ao lado da cama, ela chamou Jo para junto de si e começou a ligar as mãos feridas.
— Tens a certeza de que ela está bem? — sussurrou Jo, olhando com remorso para a cabeça dourada, que poderia ter sido levada da sua vista para sempre sob o gelo traiçoeiro.
— Muito bem, querida; ela não está ferida e penso que nem se constipará, foste tão sensata ao cobri-la e a trazê-la depressa para casa — respondeu a mãe, alegremente.
— Foi o Laurie que fez tudo; eu apenas a deixei ir. Mãe, se ela morresse, seria culpa minha — e Jo caiu junto da cama, numa paixão de lágrimas penitentes, contando tudo o que tinha acontecido, condenando amargamente a dureza do seu coração e soluçando a sua gratidão por ter sido poupada ao pesado castigo que poderia ter caído sobre ela.
— É o meu temperamento terrível! Tento curá-lo; penso que o consegui, e depois rebenta pior do que nunca. Oh mãe, o que hei de fazer? O que hei de fazer? — chorou a pobre Jo, em desespero.
— Vigia e reza, querida; nunca te canses de tentar; e nunca penses que é impossível vencer o teu defeito — disse a Sra. March, puxando a cabeça despenteada para o seu ombro e beijando a face molhada tão ternamente que Jo chorou ainda mais.
— Tu não sabes, não podes imaginar como é mau! Parece que sou capaz de fazer qualquer coisa quando estou furiosa; fico tão selvagem, que poderia magoar alguém e ter prazer nisso. Tenho medo de fazer algo terrível um dia, estragar a minha vida e fazer com que todos me odeiem. Oh mãe, ajuda-me, ajuda-me!
— Ajudarei, minha filha, ajudarei. Não chores tão amargamente, mas lembra-te deste dia e resolve, com toda a tua alma, que nunca mais conhecerás outro igual. Jo, querida, todas nós temos as nossas tentações, algumas muito maiores do que as tuas, e muitas vezes levamos a vida toda a vencê-las. Tu pensas que o teu temperamento é o pior do mundo; mas o meu costumava ser exatamente igual.
— O teu, mãe? Mas tu nunca ficas zangada! — e, por um momento, Jo esqueceu o remorso na surpresa.
— Tenho tentado curá-lo durante quarenta anos e só consegui controlá-lo. Fico zangada quase todos os dias da minha vida, Jo; mas aprendi a não o mostrar; e ainda espero aprender a não o sentir, embora possa levar-me outros quarenta anos a consegui-lo.
A paciência e a humildade do rosto que ela tanto amava foi uma lição melhor para Jo do que a mais sábia das lições ou a mais dura das repreensões. Ela sentiu-se reconfortada de imediato pela simpatia e confiança que lhe foram dadas; o conhecimento de que a sua mãe tinha um defeito como o dela e tentava corrigi-lo tornava o seu mais fácil de suportar e fortaleceu a sua resolução de o curar; embora quarenta anos parecessem um tempo bastante longo para vigiar e rezar, para uma rapariga de quinze anos.
— Mãe, tu ficas zangada quando fechas os lábios com força e sais do quarto, por vezes, quando a tia March ralha ou as pessoas te chateiam? — perguntou Jo, sentindo-se mais próxima e mais querida da sua mãe do que nunca.
— Sim, aprendi a conter as palavras apressadas que me vêm aos lábios; e quando sinto que elas querem rebentar contra a minha vontade, saio apenas por um minuto e sacudo-me um pouco, por ser tão fraca e perversa — respondeu a Sra. March, com um suspiro e um sorriso, enquanto alisava e prendia o cabelo despenteado de Jo.
"Como aprendeste a manter a calma? É isso que me atormenta — pois as palavras afiadas escapam-me antes que eu saiba o que estou a fazer; e quanto mais falo, pior fico, até que se torna um prazer magoar os sentimentos das pessoas e dizer coisas terríveis. Diz-me como fazes, querida Marmee."
"A minha boa mãe costumava ajudar-me..."
"Como tu fazes connosco..." interrompeu Jo, com um beijo grato.
"Mas perdi-a quando era um pouco mais velha do que tu és agora, e durante anos tive de lutar sozinha, pois era demasiado orgulhosa para confessar a minha fraqueza a qualquer outra pessoa. Tive momentos difíceis, Jo, e derramei muitas lágrimas amargas pelos meus fracassos; pois, apesar dos meus esforços, parecia nunca conseguir progredir. Depois veio o teu pai, e eu estava tão feliz que achei fácil ser boa. Mas, pouco a pouco, quando tive quatro filhinhas à minha volta e éramos pobres, então o velho problema recomeçou; pois não sou paciente por natureza, e custava-me muito ver as minhas filhas a precisarem de qualquer coisa."
"Pobre mãe! O que te ajudou então?"
"O teu pai, Jo. Ele nunca perde a paciência — nunca duvida nem se queixa —, mas tem sempre esperança, trabalha e espera tão alegremente que uma pessoa sente vergonha de agir de outra forma perante ele. Ele ajudou-me e consolou-me, e mostrou-me que eu devia tentar praticar todas as virtudes que queria que as minhas filhinhas possuíssem, pois eu era o exemplo delas. Era mais fácil tentar pelo vosso bem do que pelo meu próprio; um olhar de sobressalto ou surpresa de uma de vós, quando eu falava de forma ríspida, repreendia-me mais do que quaisquer palavras poderiam ter feito; e o amor, o respeito e a confiança das minhas filhas eram a recompensa mais doce que eu podia receber pelos meus esforços para ser a mulher que eu queria que elas imitassem."
"Oh, mãe, se eu for apenas metade tão boa quanto tu, ficarei satisfeita", exclamou Jo, muito comovida.
"Espero que sejas muito melhor, querida; mas tens de vigiar a tua 'inimiga íntima', como o pai lhe chama, ou ela pode entristecer, se não arruinar, a tua vida. Tiveste um aviso; lembra-te dele e tenta, com todo o coração e alma, dominar este temperamento impulsivo, antes que ele te traga mais tristeza e arrependimento do que aqueles que conheceste hoje."
"Vou tentar, mãe; juro que vou. Mas tens de me ajudar, recordar-me e impedir-me de explodir. Costumava ver o pai, por vezes, colocar o dedo nos lábios e olhar para ti com uma expressão muito gentil, mas sóbria, e tu fechavas sempre os lábios com firmeza ou retiravas-te: ele estava a lembrar-te disso então?" perguntou Jo suavemente.
"Sim; pedi-lhe que me ajudasse assim, e ele nunca se esqueceu, salvando-me de muitas palavras afiadas com aquele pequeno gesto e olhar bondoso."
Jo viu que os olhos da mãe se encheram e os seus lábios tremeram enquanto ela falava; e, receando ter dito demasiado, sussurrou ansiosamente: "Foi errado observar-te e falar sobre isso? Não tive a intenção de ser indelicada, mas é tão reconfortante dizer tudo o que penso a ti, e sentir-me tão segura e feliz aqui."
"Minha Jo, podes dizer qualquer coisa à tua mãe, pois é a minha maior felicidade e orgulho sentir que as minhas filhas confiam em mim e sabem o quanto as amo."
"Pensei que te tinha magoado."
"Não, querida; mas falar do pai lembrou-me o quanto sinto a falta dele, o quanto lhe devo e o quão fielmente devo vigiar e trabalhar para manter as suas filhinhas seguras e boas para ele."
"No entanto, disseste-lhe para ir, mãe, e não choraste quando ele partiu, e nunca te queixas agora, nem pareces precisar de ajuda", disse Jo, admirada.
"Dei o que tinha de melhor ao país que amo e guardei as minhas lágrimas até ele partir. Por que haveria de me queixar, quando ambos fizemos apenas o nosso dever e certamente seremos mais felizes por isso no final? Se não pareço precisar de ajuda, é porque tenho um amigo melhor, até do que o pai, para me confortar e sustentar. Minha filha, as dificuldades e tentações da tua vida estão a começar, e podem ser muitas; mas podes superá-las e sobreviver a todas elas se aprenderes a sentir a força e a ternura do teu Pai Celestial tal como sentes a do teu pai terreno. Quanto mais O amares e confiares n’Ele, mais perto d’Ele te sentirás e menos dependerás do poder e da sabedoria humanos. O Seu amor e cuidado nunca se cansam nem mudam, nunca podem ser-te retirados, mas podem tornar-se a fonte de uma paz, felicidade e força para toda a vida. Acredita nisto de todo o coração e vai ter com Deus com todas as tuas pequenas preocupações, esperanças, pecados e tristezas, tão livre e confiantemente como vens ter com a tua mãe."
A única resposta de Jo foi abraçar a mãe com força e, no silêncio que se seguiu, a oração mais sincera que alguma vez tinha feito saiu do seu coração sem palavras; pois, naquela hora triste, mas feliz, ela tinha aprendido não apenas a amargura do remorso e do desespero, mas a doçura da abnegação e do autocontrolo; e, guiada pela mão da mãe, aproximara-se do Amigo que acolhe cada criança com um amor mais forte do que o de qualquer pai, mais terno do que o de qualquer mãe.
Amy mexeu-se e suspirou no sono; e, como se estivesse ansiosa por começar logo a corrigir a sua falta, Jo olhou para cima com uma expressão no rosto que nunca antes ali estivera.
"Deixei o sol pôr-se sobre a minha ira; não a quis perdoar, e hoje, se não fosse pelo Laurie, poderia ter sido tarde demais! Como pude ser tão má?" disse Jo, quase em voz alta, enquanto se inclinava sobre a irmã, acariciando suavemente o cabelo húmido espalhado na almofada.
Como se a ouvisse, Amy abriu os olhos e estendeu os braços, com um sorriso que foi direto ao coração de Jo. Nenhuma disse uma palavra, mas abraçaram-se com força, apesar dos cobertores, e tudo foi perdoado e esquecido num beijo carinhoso.
IX.
MEG VAI À FEIRA DAS VAIDADES.
"Penso mesmo que foi a coisa mais afortunada do mundo que aquelas crianças apanhassem sarampo precisamente agora", disse Meg, num dia de abril, enquanto estava de pé a arrumar o baú de "viagem" no seu quarto, rodeada pelas suas irmãs.
"E foi tão simpático da parte da Annie Moffat não se esquecer da sua promessa. Quinze dias inteiros de diversão vão ser absolutamente esplêndidos", respondeu Jo, parecendo um moinho de vento enquanto dobrava saias com os seus braços compridos.
"E um tempo tão lindo; estou tão contente com isso", acrescentou Beth, arrumando de forma organizada as fitas do pescoço e do cabelo na sua melhor caixa, emprestada para a grande ocasião.
"Gostaria de estar a ir para me divertir e usar todas estas coisas bonitas", disse Amy, com a boca cheia de alfinetes, enquanto reabastecia artisticamente a almofada da irmã.
"Gostaria que vocês todas fossem; mas, como não podem, guardarei as minhas aventuras para vos contar quando voltar. Tenho a certeza de que é o mínimo que posso fazer, já que foram tão gentis, emprestando-me coisas e ajudando-me a preparar", disse Meg, lançando um olhar pelo quarto para o traje muito simples, que parecia quase perfeito aos olhos delas.
"O que é que a mãe te deu da caixa dos tesouros?" perguntou Amy, que não tinha estado presente na abertura de certo baú de cedro, no qual a Sra. March guardava algumas relíquias de esplendor passado, como presentes para as suas filhas quando chegasse o momento apropriado.
"Um par de meias de seda, aquele bonito leque esculpido e uma linda faixa azul. Queria a seda violeta; mas não há tempo para a alterar, por isso tenho de me contentar com o meu velho tarlatão."
"Ficará bem sobre a minha nova saia de musselina, e a faixa vai realçá-lo lindamente. Gostaria de não ter partido a minha pulseira de coral, pois podias tê-la levado", disse Jo, que adorava dar e emprestar, mas cujas posses eram geralmente demasiado débeis para serem de grande utilidade.
"Há um lindo conjunto de pérolas antiquado na caixa dos tesouros; mas a mãe disse que as flores verdadeiras eram o adorno mais bonito para uma jovem, e o Laurie prometeu enviar-me todas as que eu quiser", respondeu Meg. "Agora, deixa-me ver; aqui está o meu novo conjunto cinzento para passeio — enrola a pena no meu chapéu, Beth —, depois a minha popelina, para domingo e para a pequena festa — parece pesada para a primavera, não parece? A seda violeta seria tão agradável; oh, céus!"
"Não faz mal; tens o tarlatão para a grande festa, e pareces sempre um anjo de branco", disse Amy, contemplando o pequeno estoque de elegância em que a sua alma se deliciava.
"Não é decotado e não tem roda suficiente, mas terá de servir. O meu vestido azul de casa parece tão bem, virado e acabado de guarnecer, que me sinto como se tivesse um novo. O meu casaco de seda não está nada na moda, e o meu chapéu não parece o da Sallie; não gostei de dizer nada, mas fiquei tristemente desapontada com o meu guarda-chuva. Disse à mãe que o queria preto, com um cabo branco, mas ela esqueceu-se e comprou um verde, com um cabo amarelado. É forte e arrumado, por isso não me devo queixar, mas sei que me sentirei envergonhada dele ao lado do de seda da Annie com uma ponta de ouro", suspirou Meg, observando o pequeno guarda-chuva com grande desaprovação.
"Troca-o", aconselhou Jo.
"Não serei tão tola, nem magoarei os sentimentos da Marmee, quando ela teve tanto trabalho para arranjar as minhas coisas. É uma ideia absurda minha, e não vou ceder a ela. As minhas meias de seda e dois pares de luvas novas são o meu conforto. És uma querida por me emprestares as tuas, Jo. Sinto-me tão rica, e uma espécie de elegante, com dois pares novos e os velhos limpos para usar no dia a dia"; e Meg deu uma vista de olhos revigorante à sua caixa de luvas.
"A Annie Moffat tem laços azuis e cor-de-rosa nas suas toucas de dormir; será que podias pôr alguns nas minhas?" perguntou ela, à medida que Beth trazia uma pilha de musselinas imaculadas, acabadas de sair das mãos da Hannah.
"Não, não punha; pois as toucas elegantes não combinariam com os vestidos simples, sem nenhum enfeite neles. Gente pobre não deve ostentar", disse Jo decididamente.
"Gostaria de saber se algum dia serei feliz o suficiente para ter rendas verdadeiras na minha roupa e laços nas minhas toucas?" disse Meg impacientemente.
"Disseste no outro dia que serias perfeitamente feliz se pudesses apenas ir a casa da Annie Moffat", observou Beth, à sua maneira calma.
"Pois disse! Bem, estou feliz e não me vou preocupar; mas parece que quanto mais se tem, mais se quer, não é? Pronto, agora os tabuleiros estão prontos, e tudo arrumado, exceto o meu vestido de baile, que deixarei para a mãe arrumar", disse Meg, animando-se, enquanto olhava do baú meio cheio para o tarlatão branco, muitas vezes passado a ferro e remendado, a que ela chamava o seu "vestido de baile", com um ar importante.
O dia seguinte estava bom, e Meg partiu, em grande estilo, para quinze dias de novidade e prazer. A Sra. March tinha consentido na visita de forma relutante, temendo que Margaret voltasse mais descontente do que partiu. Mas ela tinha suplicado tanto, e Sallie tinha prometido cuidar bem dela, e um pouco de prazer parecia tão delicioso após um inverno de trabalho penoso, que a mãe cedeu, e a filha foi provar o seu primeiro sabor da vida mundana.
Os Moffat eram muito elegantes, e a simples Meg sentiu-se um tanto intimidada, no início, pelo esplendor da casa e pela elegância dos seus ocupantes. Mas eram pessoas gentis, apesar da vida frívola que levavam, e logo deixaram a sua convidada à vontade. Talvez Meg sentisse, sem compreender porquê, que eles não eram pessoas particularmente cultas ou inteligentes, e que todo o seu dourado não conseguia esconder totalmente o material comum de que eram feitos. Certamente era agradável comer de forma suntuosa, andar num coche fino, usar o seu melhor vestido todos os dias e não fazer nada senão divertir-se. Adequava-se-lhe exatamente; e logo começou a imitar os modos e a conversação daqueles que a rodeavam; a adotar pequenos ares e graças, usar frases em francês, encrespar o cabelo, ajustar os vestidos e falar sobre a moda tão bem quanto podia. Quanto mais via as coisas bonitas da Annie Moffat, mais a invejava e suspirava por ser rica. A casa parecia agora despida e sombria quando pensava nela, o trabalho tornou-se mais árduo do que nunca, e ela sentia que era uma rapariga muito desamparada e muito injuriada, apesar das luvas novas e das meias de seda.
Ela não teve muito tempo para se lamentar, no entanto, pois as três jovens estavam ocupadas a "divertir-se". Faziam compras, passeavam, andavam a cavalo e faziam visitas durante todo o dia; iam a teatros e óperas, ou divertiam-se em casa durante a noite; pois a Annie tinha muitos amigos e sabia como os entreter. As suas irmãs mais velhas eram jovens senhoras muito finas, e uma delas estava noiva, o que era extremamente interessante e romântico, pensava Meg. O Sr. Moffat era um cavalheiro gordo e alegre, que conhecia o seu pai; e a Sra. Moffat, uma senhora gorda e alegre, que tomou um gosto pela Meg tão grande quanto o da sua filha. Todos a mimavam; e "Daisy", como lhe chamavam, estava no bom caminho para perder a cabeça.
Quando a noite da "pequena festa" chegou, ela percebeu que a popelina não serviria de todo, pois as outras raparigas estavam a vestir vestidos finos e a arranjarem-se muito bem, na verdade; por isso saiu o tarlatão, parecendo mais velho, mais mole e mais gasto do que nunca ao lado do novo e estaladiço vestido da Sallie. Meg viu as raparigas olharem para ele e depois umas para as outras, e as suas faces começaram a arder, pois, com toda a sua doçura, ela era muito orgulhosa. Ninguém disse uma palavra sobre isso, mas a Sallie ofereceu-se para lhe pentear o cabelo, e a Annie para lhe atar a faixa, e Belle, a irmã noiva, elogiou os seus braços brancos; mas, na sua gentileza, Meg viu apenas piedade pela sua pobreza, e o seu coração sentiu-se muito pesado enquanto ela estava sozinha, enquanto as outras riam, tagarelavam e voavam como borboletas de gaze. O sentimento duro e amargo estava a tornar-se bastante mau, quando a criada trouxe uma caixa de flores. Antes que ela pudesse falar, a Annie tinha tirado a tampa, e todas exclamavam sobre as lindas rosas, urzes e fetos lá dentro.
"É para a Belle, é claro; o George envia-lhe sempre, mas estas são totalmente arrebatadoras", exclamou a Annie, com um grande fungar.
"São para a Menina March, disse o homem. E aqui está um bilhete", disse a criada, segurando-o para a Meg.
"Que divertido! De quem são? Não sabia que tinhas um namorado", gritaram as raparigas, agitando-se em torno da Meg num estado de grande curiosidade e surpresa.
"O bilhete é da mãe, e as flores são do Laurie", disse Meg simplesmente, embora muito grata por ele não se ter esquecido dela.
"Oh, a sério!" disse a Annie, com um olhar engraçado, enquanto a Meg enfiava o bilhete no bolso, como uma espécie de talismã contra a inveja, a vaidade e o falso orgulho; pois as poucas palavras amorosas tinham-lhe feito bem, e as flores animaram-na pela sua beleza.
Sentindo-se quase feliz de novo, ela guardou alguns fetos e rosas para si e rapidamente fez o resto em ramos delicados para o peito, cabelo ou saias das suas amigas, oferecendo-os tão graciosamente que a Clara, a irmã mais velha, disse-lhe que ela era "a coisinha mais doce que alguma vez viu"; e elas pareciam encantadas com a sua pequena atenção. De alguma forma, o gesto gentil terminou com o seu desânimo; e quando todas as outras foram mostrar-se à Sra. Moffat, ela viu um rosto feliz e de olhos brilhantes no espelho, enquanto colocava os seus fetos contra o seu cabelo ondulado e prendia as rosas no vestido que não lhe parecia tão gasto agora.
Ela divertiu-se muito naquela noite, pois dançou ao seu bel-prazer; todos foram muito gentis e ela recebeu três elogios. A Annie fê-la cantar, e alguém disse que ela tinha uma voz extraordinariamente fina; o Major Lincoln perguntou quem era "a rapariga fresca, com os olhos bonitos"; e o Sr. Moffat insistiu em dançar com ela, porque ela "não se arrastava, mas tinha vivacidade", como ele graciosamente expressou. Assim, no geral, ela passou um tempo muito agradável, até que ouviu um pouco de uma conversa que a perturbou extremamente. Ela estava sentada mesmo dentro do jardim de inverno, à espera que o seu par lhe trouxesse um gelado, quando ouviu uma voz perguntar, do outro lado da parede florida,—
"Quantos anos tem ele?"
"Dezasseis ou dezassete, diria eu", respondeu outra voz.
"Seria uma grande coisa para uma daquelas raparigas, não seria? A Sallie diz que elas são muito íntimas agora, e o velho gosta bastante delas."
"A Sra. M. fez os seus planos, suponho, e jogará bem as suas cartas, por muito cedo que seja. A rapariga, evidentemente, ainda não pensa nisso", disse a Sra. Moffat.
"Ela disse aquela mentira sobre a sua mamã, como se soubesse, e corou quando as flores chegaram, de forma bem bonita. Coitada! Ela seria tão simpática se apenas se arranjasse com estilo. Acham que ela se ofenderia se nos oferecêssemos para lhe emprestar um vestido para quinta-feira?" perguntou outra voz.
"Ela é orgulhosa, mas não creio que se importasse, pois aquele tarlatão piroso é tudo o que ela tem. Ela pode rasgá-lo esta noite, e essa será uma boa desculpa para oferecer um decente."
"Vamos ver. Vou convidar o jovem Laurence, como um elogio a ela, e depois divertimo-nos com isso."
Aqui apareceu o par da Meg, encontrando-a muito corada e um tanto agitada. Ela era orgulhosa, e o seu orgulho foi útil naquele momento, pois ajudou-a a esconder a sua mortificação, raiva e desgosto pelo que acabara de ouvir; pois, inocente e desprevenida como era, ela não pôde deixar de compreender a bisbilhotice das suas amigas. Ela tentou esquecer, mas não conseguiu, e continuou a repetir para si mesma: "A Sra. M. fez os seus planos", "aquela mentira sobre a sua mamã" e "tarlatão piroso", até que estava pronta para chorar e correr para casa para contar as suas mágoas e pedir conselhos. Como isso era impossível, ela fez o seu melhor para parecer alegre; e, estando bastante excitada, conseguiu tão bem que ninguém imaginou o esforço que ela estava a fazer. Ela ficou muito contente quando tudo terminou e ela estava sossegada na sua cama, onde podia pensar, maravilhar-se e enfurecer-se até que a sua cabeça doesse e as suas faces quentes fossem arrefecidas por algumas lágrimas naturais. Aquelas palavras tolas, mas bem-intencionadas, tinham aberto um novo mundo para a Meg e perturbado muito a paz do antigo, no qual, até agora, ela tinha vivido tão feliz como uma criança. A sua amizade inocente com o Laurie foi estragada pelos discursos disparatados que ela tinha ouvido; a sua fé na mãe foi um pouco abalada pelos planos mundanos atribuídos a ela pela Sra. Moffat, que julgava os outros por si mesma; e a resolução sensata de se contentar com o guarda-roupa simples que convinha à filha de um homem pobre foi enfraquecida pela piedade desnecessária das raparigas que achavam um vestido gasto uma das maiores calamidades debaixo do céu.
A pobre Meg teve uma noite inquieta e levantou-se de olhos pesados, infeliz, meio ressentida com as suas amigas e meio envergonhada de si mesma por não ter falado francamente e resolvido tudo. Todas se arrastaram naquela manhã, e era meio-dia antes que as raparigas encontrassem energia suficiente até para pegar nos seus trabalhos de agulha. Algo na maneira das suas amigas impressionou a Meg de imediato; trataram-na com mais respeito, pensou ela; mostraram um interesse bastante terno no que ela dizia e olharam para ela com olhos que traíam claramente a curiosidade. Tudo isto a surpreendeu e lisonjeou, embora ela não o compreendesse até que a Menina Belle olhou para cima da sua escrita e disse, com um ar sentimental,—
"Daisy, querida, enviei um convite para o teu amigo, o Sr. Laurence, para quinta-feira. Gostaríamos de o conhecer, e é apenas um elogio apropriado a ti."
Meg corou, mas um capricho travesso de provocar as raparigas fê-la responder recatadamente,—
"São muito gentis, mas receio que ele não venha."
"Por que não, chérie?" perguntou a Menina Belle.
"Ele é demasiado velho."
"Minha filha, o que queres dizer? Qual é a idade dele, peço que me digas!" exclamou a Menina Clara.
"Quase setenta, creio eu", respondeu Meg, contando os pontos, para esconder a alegria nos seus olhos.
"Sua criatura astuta! É claro que nos referíamos ao jovem", exclamou a Menina Belle, rindo.
"Não existe nenhum; Laurie é apenas um rapazinho", e Meg riu também do olhar estranho que as irmãs trocaram quando ela descreveu assim o seu suposto pretendente.
"Da tua idade", disse Nan.
"Mais perto da idade da minha irmã Jo; farei dezassete em agosto", retorquiu Meg, erguendo a cabeça.
"É muito gentil da parte dele enviar-te flores, não é?" disse Annie, parecendo sábia sobre nada.
"Sim, ele fá-lo frequentemente, a todas nós; pois a casa deles está cheia, e nós gostamos muito deles. A minha mãe e o velho Sr. Laurence são amigos, sabes, por isso é bastante natural que nós, crianças, brinquemos juntas"; e Meg esperava que elas não dissessem mais nada.
"É evidente que a Daisy ainda não entrou na sociedade", disse a Menina Clara a Belle, com um aceno.
"Um estado de inocência pastoral por todos os lados", retorquiu a Menina Belle, com um encolher de ombros.
"Vou sair para comprar algumas pequenas coisas para as minhas raparigas; posso fazer algo por vocês, meninas?" perguntou a Sra. Moffat, entrando pesadamente, como um elefante, em seda e rendas.
"Não, obrigada, senhora", respondeu Sallie. "Já tenho a minha seda cor-de-rosa nova para quinta-feira e não preciso de nada."
"Nem eu...", começou Meg, mas parou, porque lhe ocorreu que precisava de várias coisas e não podia tê-las.
"O que vais vestir?" perguntou Sallie.
"O meu velho vestido branco outra vez, se eu conseguir remendá-lo para que seja apresentável; ficou terrivelmente rasgado ontem à noite", disse Meg, tentando falar com naturalidade, mas sentindo-se muito desconfortável.
"Porque não mandas vir outro de casa?" disse Sallie, que não era uma jovem observadora.
"Não tenho nenhum outro." Custou a Meg o esforço de dizer aquilo, mas Sallie não percebeu e exclamou, com uma amabilidade surpreendida:
"Só esse? Que engraçado..." Ela não terminou a frase, pois Belle abanou a cabeça para ela e interrompeu, dizendo gentilmente:
"De modo algum; que utilidade tem ter muitos vestidos quando ela ainda não entrou na sociedade? Não há necessidade de mandar vir de casa, Daisy, mesmo que tivesses uma dúzia, pois tenho uma seda azul amorosa guardada, que já não me serve, e tu vais usá-la, para me agradar, não vais, querida?"
"És muito gentil, mas não me importo com o meu vestido velho, se tu não te importas; serve perfeitamente para uma rapariguinha como eu", disse Meg.
"Agora, deixa-me agradar-me vestindo-te com estilo. Adoro fazê-lo, e tu serias uma verdadeira pequena beldade, com um toque aqui e ali. Não deixarei que ninguém te veja até estares pronta, e depois apareceremos como a Cinderela e a sua fada madrinha, indo ao baile", disse Belle, no seu tom persuasivo.
Meg não conseguiu recusar a oferta tão gentilmente feita, pois o desejo de ver se seria "uma pequena beldade" depois dos retoques fê-la aceitar e esquecer todos os seus sentimentos desconfortáveis anteriores em relação aos Moffat.
Na quinta-feira à noite, Belle fechou-se com a sua criada; e, entre as duas, transformaram Meg numa fina senhora. Frisaram e encaracolaram-lhe o cabelo, poliram-lhe o pescoço e os braços com um pó perfumado, tocaram-lhe nos lábios com pomada de coralina, para os tornar mais vermelhos, e Hortense teria acrescentado "um soupçon de rouge", se Meg não se tivesse rebelado. Apertaram-na num vestido azul-celeste, que estava tão justo que ela mal conseguia respirar, e tão decotado que a modesta Meg corou ao ver-se no espelho. Um conjunto de filigrana de prata foi acrescentado, pulseiras, colar, broche e até brincos, pois Hortense prendeu-os com um pouco de fita de seda cor-de-rosa, que não se via. Um ramo de botões de rosa de chá no peito e um folho reconciliaram Meg com a exibição dos seus belos ombros brancos, e um par de botas de seda azul de salto alto satisfez o último desejo do seu coração. Um lenço de renda, um leque com plumas e um bouquet num suporte de prata deram o toque final; e a Menina Belle observou-a com a satisfação de uma menina com uma boneca recém-vestida.
"Mademoiselle está charmante, très jolie, não está?" exclamou Hortense, juntando as mãos num arrebatamento afetado.
"Vem mostrar-te", disse a Menina Belle, liderando o caminho para a sala onde os outros esperavam.
Enquanto Meg ia atrás, a farfalhar, com as suas longas saias a arrastar, os seus brincos a tilintar, os seus caracóis a ondular e o seu coração a bater, sentiu como se a sua "diversão" tivesse finalmente começado, pois o espelho dissera-lhe claramente que ela era "uma pequena beldade". As suas amigas repetiram a frase agradável com entusiasmo; e, durante vários minutos, ela ficou ali, como a gralha da fábula, a desfrutar das suas penas emprestadas, enquanto as outras tagarelavam como um bando de pegas.
"Enquanto eu me visto, treina-a, Nan, no manejo da saia e daqueles saltos franceses, ou ela vai tropeçar. Pega na tua borboleta de prata e prende aquele caracol comprido no lado esquerdo da cabeça dela, Clara, e não perturbem o trabalho encantador das minhas mãos", disse Belle, enquanto se apressava a sair, parecendo muito satisfeita com o seu sucesso.
"Tenho medo de descer, sinto-me tão estranha, rígida e meio despida", disse Meg a Sallie, quando a campainha tocou e a Sra. Moffat mandou pedir às jovens que aparecessem imediatamente.
"Não pareces nada tu mesma, mas estás muito bem. Eu não sou nada ao pé de ti, pois a Belle tem imenso gosto, e estás muito francesa, garanto-te. Deixa as tuas flores pendentes; não sejas tão cuidadosa com elas e certifica-te de que não tropeças", retorquiu Sallie, tentando não se importar que Meg estivesse mais bonita do que ela.
Mantendo esse aviso cuidadosamente em mente, Margaret conseguiu descer as escadas em segurança e entrou nos salões, onde os Moffat e alguns convidados chegados cedo estavam reunidos. Rapidamente descobriu que há um encanto nas roupas finas que atrai uma certa classe de pessoas e assegura o seu respeito. Várias jovens, que não tinham reparado nela antes, mostraram-se subitamente muito afetuosas; vários jovens, que apenas a tinham olhado fixamente na outra festa, agora não só olhavam, como pediam para ser apresentados e diziam todo o tipo de coisas tolas, mas agradáveis; e várias senhoras idosas, que se sentavam em sofás e criticavam o resto da festa, perguntavam quem ela era, com um ar de interesse. Ela ouviu a Sra. Moffat responder a uma delas:
"Daisy March — o pai é coronel no exército — uma das nossas famílias de primeira linha, mas contratempos de fortuna, sabe; amigas íntimas dos Laurence; criatura doce, garanto-lhe; o meu Ned está completamente louco por ela."
"Ora, ora!" disse a senhora idosa, levantando o seu óculo para outra observação de Meg, que tentou parecer como se não tivesse ouvido e ter ficado bastante chocada com as mentiras da Sra. Moffat.
O "sentimento estranho" não passou, mas ela imaginou-se a representar o novo papel de fina senhora e, por isso, saiu-se bastante bem, embora o vestido justo lhe desse uma dor de lado, a cauda estivesse sempre a meter-se debaixo dos pés e ela estivesse com medo constante de que os seus brincos voassem e se perdessem ou partissem. Ela estava a abanar o leque e a rir das piadas fracas de um jovem que tentava ser espirituoso, quando subitamente parou de rir e pareceu confusa; pois, exatamente à sua frente, viu Laurie. Ele olhava para ela com uma surpresa não disfarçada, e desaprovação também, pensou ela; pois, embora ele fizesse uma vénia e sorrisse, algo nos seus olhos honestos fê-la corar e desejar ter o seu vestido velho. Para completar a sua confusão, viu Belle dar um toque a Annie, e ambas olharam dela para Laurie, que, para sua satisfação, parecia invulgarmente infantil e tímido.
"Criaturas tolas, por porem tais pensamentos na minha cabeça! Não me vou importar, nem deixar que isso me mude um pouco", pensou Meg, e atravessou a sala a farfalhar para apertar a mão ao seu amigo.
"Estou contente por teres vindo, tinha medo que não viesses", disse ela, com o seu ar mais adulto.
"A Jo queria que eu viesse e lhe dissesse como estavas, por isso vim", respondeu Laurie, sem desviar os olhos dela, embora sorrisse a meio para o seu tom maternal.
"O que lhe vais dizer?" perguntou Meg, cheia de curiosidade para saber a opinião dele sobre ela, mas sentindo-se inquieta com ele, pela primeira vez.
"Vou dizer que não te reconheci; pois pareces tão adulta e tão diferente de ti mesma, que tenho medo de ti", disse ele, mexendo no botão da luva.
"Que absurdo o teu! As raparigas vestiram-me por brincadeira e eu até gosto. A Jo não ficaria boquiaberta se me visse?" disse Meg, determinada em fazê-lo dizer se achava que ela estava melhor ou não.
"Sim, creio que ficaria", retorquiu Laurie gravemente.
"Não gostas de mim assim?" perguntou Meg.
"Não, não gosto", foi a resposta direta.
"Por que não?" num tom ansioso.
Ele olhou para a cabeça frisada dela, para os ombros nus e para o vestido fantasticamente enfeitado, com uma expressão que a envergonhou mais do que a sua resposta, que não tinha uma partícula da sua cortesia habitual.
"Não gosto de folhos e penas."
Isso era demasiado vindo de um rapaz mais novo do que ela; e Meg afastou-se, dizendo com petulância:
"Tu és o rapaz mais rude que alguma vez vi."
Sentindo-se muito perturbada, ela foi e ficou junto a uma janela tranquila, para arrefecer as bochechas, pois o vestido justo lhe dava uma cor brilhante desconfortável. Enquanto estava ali, o Major Lincoln passou; e, um minuto depois, ouviu-o dizer à sua mãe:
"Estão a fazer daquela rapariguinha uma tola; queria que a visses, mas estragaram-na completamente; ela não passa de uma boneca, esta noite."
"Oh, céus!" suspirou Meg; "quem me dera ter sido sensata e usado as minhas próprias coisas; assim não teria enojado as outras pessoas, nem me sentido tão desconfortável e envergonhada."
Ela encostou a testa ao vidro frio e ficou meio escondida pelas cortinas, sem se importar que a sua valsa favorita tivesse começado, até que alguém lhe tocou; e, ao virar-se, viu Laurie, parecendo arrependido, ao dizer, com a sua melhor vénia e a mão estendida:
"Por favor, perdoa a minha rudeza e vem dançar comigo."
"Receio que seja demasiado desagradável para ti", disse Meg, tentando parecer ofendida, e falhando completamente.
"Nem um pouco; estou a morrer de vontade de o fazer. Vamos, eu vou portar-me bem; não gosto do teu vestido, mas acho que estás... simplesmente esplêndida"; e ele acenou com as mãos, como se as palavras não chegassem para expressar a sua admiração.
Meg sorriu e cedeu, e sussurrou, enquanto esperavam para apanhar o tempo:
"Tem cuidado para que a minha saia não te faça tropeçar; é a praga da minha vida, e eu fui uma tonta por a usar."
"Prende-a à volta do pescoço, e então será útil", disse Laurie, olhando para as botinhas azuis, que ele evidentemente aprovava.
Lá foram eles, velozes e graciosos; pois, tendo praticado em casa, combinavam bem, e o par jovem e alegre era um espetáculo agradável de se ver, enquanto rodopiavam alegremente, sentindo-se mais amigos do que nunca após a sua pequena zanga.
"Laurie, quero que me faças um favor; farás?" disse Meg, enquanto ele estava de pé, abanando-a com o leque, quando o fôlego dela acabou, o que aconteceu muito cedo, embora ela não quisesse admitir o porquê.
"Se farei!" disse Laurie, com prontidão.
"Por favor, não lhes contes em casa sobre o meu vestido esta noite. Elas não vão entender a piada e isso vai preocupar a mãe."
"Então porque é que o fizeste?" disseram os olhos de Laurie, tão claramente que Meg apressou-se a acrescentar:
"Eu própria lhes contarei tudo sobre isso e confessarei à mãe como fui tola. Mas prefiro fazê-lo eu mesma; por isso não vais contar, pois não?"
"Dou-te a minha palavra de que não contarei; só não sei o que dizer quando me perguntarem."
"Diz apenas que eu parecia estar bem e que me estava a divertir."
"Direi a primeira parte, de todo o coração; mas e a outra? Não pareces estar a divertir-te; estás?" e Laurie olhou para ela com uma expressão que a fez responder, num sussurro:
"Não; não exatamente agora. Não penses que sou horrível; só queria um pouco de diversão, mas este tipo não compensa, descobri, e estou a cansar-me dele."
"Aí vem o Ned Moffat; o que é que ele quer?" disse Laurie, franzindo as sobrancelhas negras, como se não considerasse o seu jovem anfitrião como um complemento agradável para a festa.
"Ele pôs o nome dele para três danças e suponho que vem buscá-las. Que maçada!" disse Meg, assumindo um ar languido, o que divertiu imenso Laurie.
Ele não voltou a falar com ela até à hora da ceia, quando a viu a beber champanhe com Ned e o seu amigo Fisher, que se estavam a portar "como um par de tolos", como Laurie disse para si mesmo, pois sentia um direito fraternal de vigiar as March e lutar as suas batalhas sempre que um defensor fosse necessário.
"Vais ter uma dor de cabeça terrível amanhã, se beberes muito disso. Eu não beberia, Meg; a tua mãe não gosta, sabes", sussurrou ele, inclinando-se sobre a cadeira dela, enquanto Ned se virava para encher o copo dela e Fisher se baixava para apanhar o leque.
"Eu não sou a Meg, esta noite; sou 'uma boneca', que faz todo o tipo de coisas loucas. Amanhã guardarei os meus 'folhos e penas' e serei desesperadamente boa outra vez", respondeu ela, com um riso afetado.
"Oxalá amanhã já estivesse aqui, então", murmurou Laurie, afastando-se, pouco satisfeito com a mudança que via nela.
Meg dançou e namoriscou, tagarelou e riu, como as outras raparigas faziam; depois da ceia encarregou-se da dança alemã e atrapalhou-se, quase derrubando o seu par com a sua longa saia, e comportando-se de uma maneira que escandalizou Laurie, que olhava e meditava numa lição. Mas ele não teve hipótese de a dar, pois Meg manteve-se longe dele até que ele veio dizer boa noite.
"Lembra-te!" disse ela, tentando sorrir, pois a dor de cabeça terrível já tinha começado.
"Silêncio à la mort", respondeu Laurie, com um floreado melodramático, enquanto se afastava.
Este pequeno momento de ação secundária excitou a curiosidade de Annie; mas Meg estava demasiado cansada para fofocas e foi para a cama, sentindo-se como se tivesse estado num baile de máscaras e não se tivesse divertido tanto quanto esperava. Ela esteve doente todo o dia seguinte e, no sábado, foi para casa, completamente exausta da sua quinzena de diversão e sentindo que já tinha "sentado no colo do luxo" durante tempo suficiente.
"Parece agradável estar sossegada e não ter de estar sempre com modos de sociedade. A casa é um lugar agradável, embora não seja esplêndida", disse Meg, olhando à sua volta com uma expressão de descanso, enquanto se sentava com a mãe e a Jo na noite de domingo.
"Estou contente por ouvir-te dizer isso, querida, pois tinha medo que a casa te parecesse aborrecida e pobre, depois das tuas finas acomodações", respondeu a sua mãe, que lhe lançara muitos olhares ansiosos naquele dia; pois os olhos maternos são rápidos a ver qualquer mudança nos rostos dos filhos.
Meg tinha contado as suas aventuras alegremente e dito vezes sem conta que tempo encantador tinha passado; mas algo ainda parecia pesar no seu espírito e, quando as raparigas mais novas foram para a cama, ela sentou-se pensativamente a olhar para o fogo, dizendo pouco e parecendo preocupada. Quando o relógio bateu as nove e a Jo propôs ir para a cama, Meg deixou subitamente a sua cadeira e, pegando no banco da Beth, apoiou os cotovelos no joelho da mãe, dizendo corajosamente:
"Marmee, quero 'confessar'."
"Eu bem me parecia; o que é, querida?"
"Devo ir embora?" perguntou a Jo discretamente.
"Claro que não; não te conto sempre tudo? Tinha vergonha de falar disso à frente das crianças, mas quero que saibam todas as coisas terríveis que fiz na casa dos Moffat."
"Estamos preparadas", disse a Sra. March, sorrindo, mas parecendo um pouco ansiosa.
"Contei-vos que me vestiram, mas não vos contei que me puseram pó, que me apertaram e frisaram, e me fizeram parecer uma capa de revista de moda. O Laurie achou que eu não estava adequada; eu sei que achou, embora não o tenha dito, e um homem chamou-me 'uma boneca'. Eu sabia que era tolo, mas eles elogiaram-me e disseram que eu era uma beldade, e montes de disparates, por isso deixei que fizessem de mim uma tola."
"É só isso?" perguntou a Jo, enquanto a Sra. March olhava silenciosamente para o rosto cabisbaixo da sua bonita filha e não conseguia encontrar no seu coração vontade de a censurar pelas suas pequenas loucuras.
"Não; bebi champanhe e andei aos saltos e tentei namoriscar, e fui absolutamente abominável", disse Meg com remorso.
"Há mais alguma coisa, creio eu"; e a Sra. March alisou a bochecha macia, que subitamente ficou rosada, enquanto Meg respondia lentamente:
"Sim; é muito tolo, mas quero contá-lo, porque detesto que as pessoas digam e pensem tais coisas sobre nós e sobre o Laurie."
Depois, ela contou os vários pedaços de fofocas que tinha ouvido na casa dos Moffat; e, enquanto falava, a Jo viu a sua mãe apertar os lábios, como se estivesse descontente por tais ideias serem postas na mente inocente da Meg.
"Bem, se isso não é o maior lixo que alguma vez ouvi", gritou a Jo indignada. "Porque é que não apareceste e lhes disseste isso, no momento?"
"Não consegui, foi tão embaraçoso para mim. Não pude evitar ouvir, a princípio, e depois fiquei tão zangada e envergonhada que não me lembrei que devia ter ido embora."
"Espera só até ver a Annie Moffat, e mostrar-te-ei como resolver coisas tão ridículas. A ideia de ter 'planos' e ser gentil com o Laurie, porque ele é rico e nos pode casar daqui a pouco! Ele não vai rir, quando eu lhe disser o que aquelas criaturas tolas dizem sobre nós, pobres crianças?" e a Jo riu, como se, a bem dizer, a coisa lhe parecesse uma boa piada.
"Se contares ao Laurie, nunca te perdoarei! Ela não deve, pois não, mãe?" disse Meg, parecendo perturbada.
"Não; nunca repitas essas fofocas tolas e esquece-as assim que puderes", disse a Sra. March gravemente. "Fui muito imprudente ao deixar-te ir para o meio de pessoas de quem sei tão pouco... gentis, suponho, mas mundanas, mal-educadas e cheias destas ideias vulgares sobre jovens. Sinto mais do que posso expressar pelo mal que esta visita te pode ter feito, Meg."
"Não fiques triste, não deixarei que isso me magoe; esquecerei todo o mal e lembrarei apenas o bem; pois diverti-me imenso e obrigada por me teres deixado ir. Não serei sentimental nem insatisfeita, mãe; sei que sou uma rapariguinha tola e ficarei contigo até estar apta a cuidar de mim própria. Mas é agradável ser elogiada e admirada, e não posso evitar dizer que gosto", disse Meg, parecendo meio envergonhada da confissão.
"Isso é perfeitamente natural e bastante inofensivo, se o gostar não se tornar uma paixão e levar alguém a fazer coisas tolas ou pouco adequadas. Aprende a conhecer e a valorizar o elogio que merece a pena, e a suscitar a admiração de pessoas excelentes sendo modesta, além de bonita, Meg."
Margaret ficou a pensar um momento, enquanto a Jo estava de pé com as mãos atrás das costas, parecendo interessada e um pouco perplexa; pois era uma coisa nova ver a Meg a corar e a falar de admiração, pretendentes e coisas desse género; e a Jo sentiu como se, durante aquela quinzena, a sua irmã tivesse crescido imenso e estivesse a afastar-se dela para um mundo onde ela não podia seguir.
"Mãe, tu tens 'planos', como disse a Sra. Moffat?" perguntou Meg timidamente.
"Sim, minha querida, tenho muitos; todas as mães têm, mas os meus diferem um pouco dos da Sra. Moffat, suspeito. Vou contar-te alguns deles, pois chegou o momento em que uma palavra pode pôr esta tua cabecinha e coração românticos no caminho certo, sobre um assunto muito sério. És jovem, Meg, mas não demasiado jovem para me entenderes; e os lábios das mães são os mais aptos para falar de tais coisas a raparigas como tu. Jo, a tua vez chegará a seu tempo, talvez, por isso ouve os meus 'planos' e ajuda-me a levá-los a cabo, se forem bons."
A Jo foi e sentou-se num dos braços da cadeira, parecendo pensar que estavam prestes a participar num assunto muito solene. Segurando uma mão de cada uma e observando os dois rostos jovens com saudade, a Sra. March disse, da sua forma séria mas alegre:
"Desejo que as minhas filhas sejam belas, prendadas e boas; que sejam admiradas, amadas e respeitadas; que tenham uma juventude feliz, que casem bem e com sensatez, e que levem vidas úteis e agradáveis, com o menor número possível de preocupações e tristezas a testá-las, na medida em que Deus julgar adequado enviá-las. Ser amada e escolhida por um bom homem é a melhor e mais doce coisa que pode acontecer a uma mulher; e espero sinceramente que as minhas raparigas possam conhecer esta bela experiência. É natural pensar nela, Meg; é justo esperar por ela e ansiar por ela, e é sensato preparar-se para ela; de modo a que, quando chegar o momento feliz, te sintas pronta para os deveres e digna da alegria. Minhas queridas filhas, sou ambiciosa por vós, mas não para que façam um brilharete no mundo — casando com homens ricos apenas porque são ricos, ou tendo casas esplêndidas que não são lares porque falta o amor. O dinheiro é algo necessário e precioso — e, quando bem usado, algo nobre —, mas nunca quero que pensem que é o primeiro ou o único prémio pelo qual lutar. Preferiria ver-vos casadas com homens pobres, se fossem felizes, amadas e contentes, do que rainhas em tronos, sem amor-próprio e sem paz."
"As raparigas pobres não têm hipótese nenhuma, diz a Belle, a menos que se exponham", suspirou Meg.
"Então seremos velhas solteironas", disse Jo, resoluta.
"Certo, Jo; mais vale ser velhas solteironas felizes do que esposas infelizes, ou raparigas sem decoro, a correr por aí à procura de maridos", disse a Sra. March, decidida. "Não te preocupes, Meg; a pobreza raramente intimida um amante sincero. Algumas das mulheres melhores e mais honradas que conheço foram raparigas pobres, mas tão dignas de amor que não lhes foi permitido serem velhas solteironas. Deixa estas coisas para o tempo; torna este lar feliz, para que possas estar apta para lares teus, se te forem oferecidos, e contente aqui, se não o forem. Lembra-te de uma coisa, minhas filhas: a mãe está sempre pronta para ser a vossa confidente, o pai para ser o vosso amigo; e ambos confiamos e esperamos que as nossas filhas, casadas ou solteiras, sejam o orgulho e o conforto das nossas vidas."
"Seremos, mamã, seremos!" exclamaram ambas, com todo o coração, quando ela lhes deu as boas-noites.
X.
O C. P. E O C. C.
À medida que a primavera avançava, um novo conjunto de diversões tornou-se moda, e os dias cada vez mais longos proporcionavam tardes compridas para o trabalho e para todo o tipo de jogos. O jardim tinha de ser posto em ordem, e cada irmã tinha uma parte do pequeno terreno para fazer o que bem entendesse. A Hannah costumava dizer: "Eu saberia a quem pertencia cada um daqueles jardins, mesmo que os visse na China"; e bem poderia saber, pois os gostos das raparigas diferiam tanto quanto os seus caracteres. O de Meg tinha rosas e heliotrópios, murta e uma pequena laranjeira. O canteiro de Jo nunca era igual duas estações seguidas, pois ela estava sempre a fazer experiências; este ano seria uma plantação de girassóis, cujas sementes daquela planta alegre e ambiciosa serviriam para alimentar a "Tia Cockle-top" e a sua família de pintainhos. Beth tinha flores antigas e perfumadas no seu jardim — ervilhas-de-cheiro e resedas, esporinhas, cravos, amores-perfeitos e absinto, com morugem para o pássaro e erva-gateira para os gatinhos. Amy tinha um caramanchão no seu — algo pequeno e cheio de tesourinhas, mas muito bonito de se ver —, com madressilvas e glórias-da-manhã a pendurar as suas trombetas e campainhas coloridas em grinaldas graciosas por todo ele; lírios brancos altos, fetos delicados e tantas plantas brilhantes e pitorescas quanto as que consentiam em florescer ali.
Jardinagem, passeios, remadas no rio e caça às flores ocupavam os dias bons; e para os chuvosos, tinham diversões caseiras — algumas antigas, outras novas —, todas mais ou menos originais. Uma destas era o "C. P."; pois, como as sociedades secretas estavam na moda, achou-se adequado ter uma; e, como todas as raparigas admiravam Dickens, chamaram a si próprias de Clube Pickwick. Com algumas interrupções, tinham mantido isto durante um ano e reuniam-se todos os sábados à noite no sótão grande, ocasiões em que as cerimónias eram as seguintes: três cadeiras eram dispostas em fila diante de uma mesa, sobre a qual estava um candeeiro, além de quatro crachás brancos, com um grande "C. P." em cores diferentes em cada um, e o jornal semanal, chamado "O Portefólio Pickwick", para o qual todas contribuíam com alguma coisa; enquanto Jo, que se deliciava com canetas e tinta, era a editora. Às sete horas, os quatro membros subiam para a sala do clube, atavam os seus crachás à volta da cabeça e sentavam-se com grande solenidade. Meg, como a mais velha, era Samuel Pickwick; Jo, tendo uma inclinação literária, Augustus Snodgrass; Beth, por ser redonda e rosada, Tracy Tupman; e Amy, que estava sempre a tentar fazer o que não conseguia, era Nathaniel Winkle. Pickwick, o presidente, lia o jornal, que era preenchido com contos originais, poesia, notícias locais, anúncios engraçados e sugestões, nos quais recordavam bondosamente umas às outras as suas falhas e insuficiências.
Certa vez, o Sr. Pickwick colocou um par de óculos sem lentes, bateu na mesa, pigarreou e, depois de olhar fixamente para o Sr. Snodgrass, que estava inclinado para trás na sua cadeira, até que ele se ajeitou devidamente, começou a ler:
O Portefólio Pickwick.
20 DE MAIO DE 18--
Canto do Poeta.
O DA ANIVERSÁRIO.
Reunimo-nos de novo para celebrar Com crachá e rito solene, O nosso quinquagésimo segundo aniversário, No Salão Pickwick, esta noite.
Estamos todos aqui com saúde perfeita, Ninguém partiu do nosso pequeno bando; Vemos de novo cada rosto bem conhecido, E apertamos cada mão amiga.
O nosso Pickwick, sempre no seu posto, Com reverência saudamos, Enquanto, óculos no nariz, ele lê A nossa folha semanal bem preenchida.
Embora sofra de uma constipação, Alegra-nos ouvi-lo falar, Pois palavras de sabedoria dele caem, Apesar do rouco ou do ganido.
O velho Snodgrass de seis pés paira no alto, Com graça elefântica, E irradia sobre a companhia, Com o seu rosto castanho e jovial.
Fogo poético ilumina o seu olhar, Ele luta contra o seu destino. Contemplai a ambição na sua testa, E no seu nariz uma mancha!
Segue-se o nosso pacífico Tupman, Tão rosado, gordo e doce. Que se engasga com o riso nas partidas, E cai da sua cadeira.
O pequeno e zeloso Winkle também está aqui, Com cada cabelo no lugar, Um modelo de propriedade, Embora deteste lavar a cara.
O ano passou, ainda nos unimos Para brincar, rir e ler, E trilhar o caminho da literatura Que conduz à glória.
Que o nosso jornal prospere por muito tempo, Que o nosso clube permaneça unido, E que os anos vindouros derramem as suas bênçãos Sobre o útil e alegre "C. P."
A. SNODGRASS.
O CASAMENTO MASCARADO.
UM CONTO DE VENEZA.
Gôndola após gôndola deslizava até aos degraus de mármore e deixava a sua adorável carga para aumentar a multidão brilhante que enchia os salões imponentes do Conde de Adelon. Cavaleiros e damas, elfos e pajens, monges e vendedoras de flores, todos se misturavam alegremente na dança. Vozes doces e melodias ricas enchiam o ar; e assim, com alegria e música, o baile de máscaras prosseguia.
"A Vossa Alteza viu a Lady Viola esta noite?" perguntou um galante trovador à rainha das fadas que flutuava pelo salão no seu braço.
"Sim; não é ela adorável, embora tão triste! O seu vestido também é bem escolhido, pois dentro de uma semana ela casa com o Conde Antonio, a quem ela odeia apaixonadamente."
"Pela minha fé, invejo-o. Lá vem ele, vestido como um noivo, exceto pela máscara preta. Quando esta for retirada, veremos como ele encara a bela donzela cujo coração ele não consegue conquistar, embora o seu pai severo lhe conceda a mão", retorquiu o trovador.
"Sussurra-se que ela ama o jovem artista inglês que persegue os seus passos e é desprezado pelo velho conde", disse a dama, enquanto se juntavam à dança.
A folia estava no seu auge quando um padre apareceu e, conduzindo o jovem par para uma alcova forrada com veludo púrpura, fez-lhes sinal para se ajoelharem. Um silêncio instantâneo caiu sobre a multidão alegre; e nem um som, a não ser o bater das fontes ou o sussurrar dos laranjais a dormir ao luar, quebrava a quietude, enquanto o Conde de Adelon falava assim:
"Meus lordes e damas, perdoem o estratagema pelo qual vos reuni aqui para testemunhar o casamento da minha filha. Padre, aguardamos os vossos serviços."
Todos os olhares se voltaram para o grupo nupcial, e um murmúrio baixo de espanto percorreu a multidão, pois nem a noiva nem o noivo removeram as suas máscaras. A curiosidade e a maravilha possuíram todos os corações, mas o respeito conteve todas as línguas até que o rito sagrado terminasse. Então, os espetadores ávidos reuniram-se à volta do conde, exigindo uma explicação.
"Com prazer a daria se pudesse; mas apenas sei que foi um capricho da minha tímida Viola, e eu cedi a ele. Agora, meus filhos, que a peça termine. Desmascarem-se e recebam a minha bênção."
Mas nenhum dobrou o joelho; pois o jovem noivo respondeu, num tom que sobressaltou todos os ouvintes, enquanto a máscara caía, revelando o rosto nobre de Ferdinand Devereux, o artista apaixonado; e, apoiada no peito onde agora brilhava a estrela de um conde inglês, estava a adorável Viola, radiante de alegria e beleza.
"Meu lorde, vós desdenhosamente ordenastes-me que reclamasse a vossa filha quando pudesse ostentar um nome tão alto e uma fortuna tão vasta quanto a do Conde Antonio. Posso fazer mais; pois nem a vossa alma ambiciosa pode recusar o Conde de Devereux e De Vere, quando ele oferece o seu nome antigo e riqueza sem limites em troca da mão amada desta bela dama, agora minha esposa."
O conde ficou como alguém transformado em pedra; e, voltando-se para a multidão atónita, Ferdinand acrescentou, com um sorriso alegre de triunfo: "A vós, meus galantes amigos, só posso desejar que o vosso namoro prospere como o meu prosperou; e que todos conquisteis uma noiva tão bela quanto a minha, através deste casamento mascarado."
S. PICKWICK.
* * * * *
Porque é que o C. P. é como a Torre de Babel? Está cheio de membros indisciplinados.
* * * * *
A HISTÓRIA DE UMA ABÓBORA.
Era uma vez um agricultor que plantou uma pequena semente no seu jardim e, passado algum tempo, ela brotou e tornou-se uma videira, que deu muitas abóboras. Um dia de outubro, quando estavam maduras, ele colheu uma e levou-a ao mercado. Um merceeiro comprou-a e colocou-a na sua loja. Nessa mesma manhã, uma menina, de chapéu castanho e vestido azul, com cara redonda e nariz arrebitado, foi lá e comprou-a para a sua mãe. Ela carregou-a para casa, cortou-a e ferveu-a na panela grande; esmagou uma parte com sal e manteiga para o jantar; e ao resto juntou um litro de leite, dois ovos, quatro colheres de açúcar, noz-moscada e algumas bolachas; colocou tudo num prato fundo e assou até ficar dourado e delicioso; e no dia seguinte foi comida por uma família chamada March. T. TUPMAN.
* * * * *
SR. PICKWICK, Senhor:--
Dirijo-me a vós sobre o assunto do pecado; o pecador, quero dizer, é um homem chamado Winkle que causa problemas no seu clube por se rir e, por vezes, não quer escrever o seu texto neste belo jornal. Espero que perdoeis a sua maldade e o deixeis enviar uma fábula francesa, porque ele não consegue escrever de cabeça, já que tem muitas lições para fazer e não tem miolos. No futuro, tentarei agarrar o tempo pelo tufo e preparar algum trabalho que será todo "commy la fo", o que significa tudo bem. Tenho pressa, pois está quase na hora da escola.
Respeitosamente, N. WINKLE.
[O que precede é um reconhecimento masculino e elegante de faltas passadas. Se o nosso jovem amigo estudasse pontuação, seria bom.]
UM ACIDENTE TRISTE.
Na passada sexta-feira, fomos sobressaltados por um choque violento na nossa cave, seguido de gritos de aflição. Correndo, em grupo, para a cave, descobrimos o nosso amado Presidente prostrado no chão, tendo tropeçado e caído enquanto ia buscar lenha para fins domésticos. Uma cena perfeita de ruína encontrou os nossos olhos; pois, na sua queda, o Sr. Pickwick tinha mergulhado a cabeça e os ombros num alguidar de água, entornado um barril de sabão mole sobre a sua forma viril e rasgado gravemente as suas roupas. Ao ser removido desta situação perigosa, descobriu-se que ele não tinha sofrido qualquer ferimento além de várias nódoas negras; e, temos o prazer de acrescentar, está agora a recuperar bem. ED.
*************************************************************** * * * O LUTO PÚBLICO. * * * * É nosso dever doloroso registar o desaparecimento súbito e * * misterioso da nossa estimada amiga, Sra. Snowball Pat Paw. * * Esta gata adorável e amada era o animal de estimação de um * * vasto círculo de amigos calorosos e admiradores; pois a sua * * beleza atraía todos os olhares, as suas graças e virtudes * * cativavam todos os corações, e a sua perda é profundamente * * sentida por toda a comunidade. * * * * Quando vista pela última vez, ela estava sentada ao portão, * * a observar a carroça do talhante; e teme-se que algum vilão, * * tentado pelos seus encantos, a tenha roubado cobardemente. * * Passaram-se semanas, mas nenhum rasto dela foi descoberto; e * * abandonamos toda a esperança, atamos uma fita preta ao seu * * cesto, pomos de lado o seu prato e choramos por ela como * * alguém perdido para sempre. * * * ***************************************************************
* * * * *
Um amigo solidário envia a seguinte joia:--
UM LAMENTO
PELA S. B. PAT PAW.
Lamentamos a perda da nossa pequena mascote, E suspiramos pelo seu destino infeliz, Pois nunca mais junto ao lume se sentará, Nem brincará junto ao velho portão verde.
A pequena sepultura onde a sua cria dorme, Fica sob o castanheiro; Mas sobre a sua sepultura não podemos chorar, Não sabemos onde poderá estar.
A sua cama vazia, a sua bola ociosa, Nunca mais a verão; Nenhum toque suave, nenhum ronronar amoroso Se ouve à porta da sala.
Outra gata vem atrás dos seus ratos, Uma gata de cara suja; Mas ela não caça como a nossa querida fazia, Nem brinca com a sua graça aérea.
As suas patas furtivas percorrem o mesmo salão Onde Snowball costumava brincar, Mas ela apenas sibila aos cães que a nossa mascote Tão galhardamente afastava.
Ela é útil e mansa, e faz o seu melhor, Mas não é bela de se ver; E não podemos dar-lhe o teu lugar, querida, Nem adorá-la como te adoramos a ti. A. S.
ANÚNCIOS.
MISS ORANTHY BLUGGAGE, a talentosa Conferencista de Espírito Forte, fará a sua famosa Conferência sobre "A MULHER E A SUA POSIÇÃO", no Salão Pickwick, no próximo sábado à noite, após as representações habituais.
UMA REUNIÃO SEMANAL será realizada no Kitchen Place, para ensinar as jovens senhoras a cozinhar. Hannah Brown presidirá; e todas estão convidadas a comparecer.
A SOCIEDADE DO APANHADOR DE PÓ reunir-se-á na próxima quarta-feira e desfilará no andar superior da Casa do Clube. Todos os membros devem comparecer de uniforme e empunhar as suas vassouras pontualmente às nove.
A SRA. BETH BOUNCER inaugurará o seu novo sortido de Chapelaria para Bonecas na próxima semana. Chegaram as últimas modas de Paris e solicitam-se respeitosamente as encomendas.
UMA NOVA PEÇA estreará no Teatro de Barnville, no decorrer de algumas semanas, que superará tudo o que já se viu no palco americano. "A ESCRAVA GREGA, ou Constantino o Vingador" é o nome deste drama emocionante!!!
SUGESTÕES.
Se S. P. não usasse tanto sabão nas mãos, não chegaria sempre atrasado ao pequeno-almoço. Pede-se a A. S. que não assobie na rua. T. T., por favor, não te esqueças do guardanapo da Amy. N. W. não deve irritar-se porque o seu vestido não tem nove pregas.
RELATÓRIO SEMANAL.
Meg--Bom. Jo--Mau. Beth--Muito bom. Amy--Razoável.
Quando o Presidente terminou de ler o jornal (que peço autorização para assegurar aos meus leitores ser uma cópia autêntica de um escrito por raparigas autênticas, há muito tempo), seguiu-se uma salva de palmas e, então, o Sr. Snodgrass levantou-se para fazer uma proposta.
"Sr. Presidente e cavalheiros", começou ele, assumindo uma atitude e um tom parlamentares, "desejo propor a admissão de um novo membro — alguém que merece muito a honra, que lhe seria profundamente grato e que acrescentaria imenso ao espírito do clube, ao valor literário do jornal, e que seria incrivelmente divertido e simpático. Proponho o Sr. Theodore Laurence como membro honorário do C. P. Vamos lá, aceitem-no."
A mudança repentina de tom de Jo fez as raparigas rir; mas todas pareciam algo ansiosas e ninguém disse uma palavra, enquanto Snodgrass se sentava.
"Vamos pôr à votação", disse o Presidente. "Todos os que estiverem a favor desta moção, por favor, manifestem-no dizendo 'Sim'."
Uma resposta alta de Snodgrass, seguida, para surpresa de todos, por uma tímida de Beth.
"Os que forem contra, digam 'Não'."
Meg e Amy foram contra e o Sr. Winkle levantou-se para dizer, com grande elegância: "Não queremos rapazes; eles só fazem piadas e saltam por aí. Este é um clube de senhoras e queremos ser privadas e recatadas."
"Tenho medo que ele se ria do nosso jornal e que depois goze connosco", observou Pickwick, puxando o pequeno caracol na sua testa, como fazia sempre que estava em dúvida.
Snodgrass levantou-se, muito a sério. "Senhor, dou-vos a minha palavra de cavalheiro, o Laurie não fará nada desse género. Ele gosta de escrever, dará um tom às nossas contribuições e evitará que sejamos sentimentais, não percebem? Nós podemos fazer tão pouco por ele, e ele faz tanto por nós, que penso que o mínimo que podemos fazer é oferecer-lhe um lugar aqui e recebê-lo de braços abertos se ele vier."
Esta alusão astuta aos benefícios conferidos trouxe Tupman para o seu lado, parecendo que tinha tomado uma decisão.
"Sim, devemos fazê-lo, mesmo que tenhamos medo. Eu digo que ele pode vir, e o avô dele também, se quiser."
Esta explosão espirituosa de Beth eletrizou o clube e Jo deixou o seu lugar para apertar a mão em sinal de aprovação. "Agora, então, votem de novo. Lembrem-se todos de que é o nosso Laurie, e digam 'Sim'!", gritou Snodgrass, entusiasmado.
"Sim! Sim! Sim!" responderam três vozes ao mesmo tempo.
"Bom! Abençoados sejam! Agora, como não há nada como 'agarrar o tempo pelo tufo', como observa caracteristicamente o Winkle, permitam-me apresentar o novo membro"; e, para desânimo do resto do clube, Jo abriu a porta do armário e exibiu Laurie sentado num saco de trapos, corado e a brilhar com o riso contido.
"Seu patife! Seu traidor! Jo, como pudeste?" gritaram as três raparigas, enquanto Snodgrass conduzia o seu amigo triunfantemente para fora; e, trazendo uma cadeira e um crachá, instalou-o num instante.
"A frieza de vocês os dois é espantosa", começou o Sr. Pickwick, tentando fazer uma expressão de zanga terrível e conseguindo apenas um sorriso amável. Mas o novo membro esteve à altura da ocasião; e, levantando-se, com uma saudação grata à Presidência, disse, da maneira mais cativante: "Sr. Presidente e senhoras — peço perdão, cavalheiros — permitam-me apresentar-me como Sam Weller, o muito humilde servo do clube."
"Bom! Bom!" gritou Jo, batendo com o cabo da antiga trempe de aquecer a cama em que se apoiava.
"O meu fiel amigo e nobre patrono", continuou Laurie, com um gesto de mão, "que tão lisonjeiramente me apresentou, não deve ser culpado pelo estratagema de hoje. Eu planeei-o e ela só cedeu depois de muito me importunar."
"Vamos lá, não ponhas tudo em ti; sabes que fui eu que propus o armário", interrompeu Snodgrass, que estava a apreciar a piada imenso.
"Não te importes com o que ela diz. Eu sou o miserável que o fez, senhor", disse o novo membro, com um aceno à Weller para o Sr. Pickwick. "Mas, pela minha honra, nunca mais o farei e, doravante, dedicar-me-ei aos interesses deste clube imortal."
"Ouçam! Ouçam!" gritou Jo, batendo com a tampa da trempe como se fosse um prato.
"Continua, continua!" acrescentaram Winkle e Tupman, enquanto o Presidente se inclinava benevolamente.
"Desejo apenas dizer que, como um ligeiro sinal da minha gratidão pela honra que me fizeram, e como meio de promover relações amigáveis entre nações vizinhas, instalei um posto de correio na sebe, no canto inferior do jardim; um edifício fino e espaçoso, com cadeados nas portas e todas as comodidades para o correio — e também para as fêmeas, se me permitem a expressão. É a antiga casa dos andorinhões; mas tapei a porta e fiz o telhado abrir, de modo a que comporte todo o tipo de coisas e poupe o nosso tempo precioso. Cartas, manuscritos, livros e pacotes podem ser passados por ali; e, como cada nação tem uma chave, será extraordinariamente agradável, imagino. Permitam-me apresentar a chave do clube; e, com muitos agradecimentos pelo vosso favor, tomo o meu lugar."
Grandes aplausos quando o Sr. Weller depositou uma pequena chave sobre a mesa e aquietou-se; o abafador de brasas chocou-se e agitou-se violentamente, e levou algum tempo até que a ordem pudesse ser restaurada. Seguiu-se uma longa discussão, e todas revelaram-se surpreendentes, pois cada uma deu o seu melhor; portanto, foi uma reunião invulgarmente animada, que não se encerrou até tarde, quando se desfez com três vivas estridentes para o novo membro.
Ninguém jamais se arrependeu da admissão de Sam Weller, pois um membro mais devotado, bem-comportado e jovial um clube não poderia ter. Ele certamente acrescentou "espírito" às reuniões e "um tom" ao jornal; pois as suas orações convulsionavam os seus ouvintes, e as suas contribuições eram excelentes, sendo patrióticas, clássicas, cómicas ou dramáticas, mas nunca sentimentais. Jo considerava-as dignas de Bacon, Milton ou Shakespeare; e remodelou as suas próprias obras com bom efeito, pensava ela.
O correio era uma pequena instituição de primeira, e prosperava maravilhosamente, pois quase tantas coisas estranhas passavam por ele como pelo gabinete real. Tragédias e gravatas, poesia e picles, sementes de jardim e longas cartas, música e pão de mel, borrachas, convites, repreensões e cachorros. O velho cavalheiro gostava da diversão e divertia-se enviando embrulhos estranhos, mensagens misteriosas e telegramas engraçados; e o seu jardineiro, que estava apaixonado pelos encantos de Hannah, enviou, na verdade, uma carta de amor aos cuidados de Jo. Como riram quando o segredo veio a lume, sem nunca sonharem quantas cartas de amor aquele pequeno correio guardaria nos anos vindouros!
XI.
EXPERIÊNCIAS.
"O primeiro de junho! Os Kings partem para a beira-mar amanhã, e eu estou livre. Três meses de férias... como vou aproveitar!" exclamou Meg, chegando a casa num dia quente para encontrar Jo estendida no sofá num estado invulgar de exaustão, enquanto Beth tirava as suas botas poeirentas e Amy fazia limonada para o refresco de todo o grupo.
"A tia March foi-se hoje, e por isso, oh, sejamos alegres!" disse Jo. "Eu estava mortalmente receosa de que ela me pedisse para ir com ela; se o tivesse feito, sentiria que deveria ir; mas Plumfield é quase tão alegre como um cemitério, sabem, e eu preferia ser dispensada. Tivemos uma agitação para fazer a velha senhora partir, e eu sentia um susto cada vez que ela falava comigo, pois tinha tanta pressa em acabar que fui extraordinariamente prestável e doce, e temi que ela achasse impossível separar-se de mim. Tremi até que ela estivesse devidamente na carruagem, e tive um susto final, pois, à medida que partia, ela pôs a cabeça de fora, dizendo: 'Josy-phine, não queres...?' Não ouvi mais nada, pois, cobardemente, virei-me e fugi; corri mesmo, e contornei a esquina, onde me senti segura."
"Pobre Jo! Entrou a parecer que ursos a perseguiam", disse Beth, enquanto acariciava os pés da irmã com um ar maternal.
"A tia March é uma verdadeira samphire, não é?" observou Amy, provando a sua mistura criticamente.
"Ela quer dizer vampira, não erva-marinha; mas não importa; está calor demais para ser exigente com as partes do discurso", murmurou Jo.
"O que vais fazer durante as tuas férias?" perguntou Amy, mudando de assunto com tato.
"Vou deitar-me tarde e não fazer nada", respondeu Meg, das profundezas da cadeira de balanço. "Fui obrigada a levantar-me cedo durante todo o inverno e tive de passar os meus dias a trabalhar para outras pessoas; por isso agora vou descansar e deliciar-me o quanto quiser."
"Não", disse Jo; "esse modo sonolento não me serviria. Preparei uma pilha de livros e vou aproveitar as minhas horas brilhantes lendo no meu poleiro na velha macieira, quando não estiver a fazer... l------"
"Não digas 'larks!'" suplicou Amy, como um revide pela correção da "samphire".
"Direi 'rouxinóis', então, com Laurie; isso é próprio e apropriado, já que ele é um cantor."
"Não tenhamos lições, Beth, por enquanto, mas brinquemos o tempo todo e descansemos, como as raparigas tencionam fazer", propôs Amy.
"Bem, farei isso, se a mãe não se importar. Quero aprender algumas canções novas, e as minhas crianças precisam de ser arranjadas para o verão; estão terrivelmente desarrumadas e realmente a sofrer por falta de roupa."
"Podemos, mãe?" perguntou Meg, voltando-se para a Sra. March, que estava sentada a costurar, no que elas chamavam de "canto da Marmee".
"Podem tentar a vossa experiência por uma semana e ver se gostam. Penso que, no sábado à noite, descobrirão que só brincar e não trabalhar é tão mau como só trabalhar e não brincar."
"Oh, querida, não! Será delicioso, tenho a certeza", disse Meg complacentemente.
"Proponho agora um brinde, como diz a minha 'amiga e parceira, Sairy Gamp'. Diversão para sempre, e nada de trabalho pesado!" gritou Jo, levantando-se, copo na mão, enquanto a limonada circulava.
Todas beberam alegremente e começaram a experiência por descansar durante o resto do dia. Na manhã seguinte, Meg não apareceu até às dez horas; o seu pequeno-almoço solitário não sabia bem, e a sala parecia solitária e desarrumada; pois Jo não tinha enchido os vasos, Beth não tinha espanado, e os livros de Amy jaziam espalhados. Nada estava limpo e agradável, exceto o "canto da Marmee", que parecia como de costume; e ali Meg sentou-se, para "descansar e ler", o que significava bocejar e imaginar que vestidos de verão bonitos compraria com o seu salário. Jo passou a manhã no rio, com Laurie, e a tarde a ler e a chorar sobre "The Wide, Wide World", lá no alto da macieira. Beth começou por remexer tudo para fora do grande armário, onde a sua família residia; mas, cansando-se antes de estar a meio, deixou o seu estabelecimento de pernas para o ar e foi para a sua música, regozijando-se por não ter pratos para lavar. Amy arranjou o seu caramanchão, vestiu o seu melhor vestido branco, alisou os seus caracóis e sentou-se a desenhar, debaixo das madressilvas, esperando que alguém visse e perguntasse quem era a jovem artista. Como ninguém apareceu senão um curioso bicho-pau, que examinou o seu trabalho com interesse, ela foi passear, foi apanhada por um aguaceiro e chegou a casa encharcada.
À hora do chá compararam as notas, e todas concordaram que tinha sido um dia delicioso, embora invulgarmente longo. Meg, que foi às compras durante a tarde e comprou um "doce musselina azul", tinha descoberto, depois de ter cortado as larguras, que não se podia lavar, contratempo que a deixou ligeiramente irritada. Jo tinha queimado a pele do nariz a andar de barco e apanhou uma dor de cabeça terrível de tanto ler. Beth estava preocupada com a confusão do seu armário e com a dificuldade de aprender três ou quatro canções de uma vez; e Amy lamentou profundamente o dano feito ao seu vestido, pois a festa de Katy Brown seria no dia seguinte; e agora, como Flora McFlimsey, ela não tinha "nada para vestir". Mas estas eram meras ninharias; e garantiram à mãe que a experiência estava a funcionar lindamente. Ela sorriu, não disse nada e, com a ajuda de Hannah, fez o trabalho negligenciado delas, mantendo a casa agradável e o mecanismo doméstico a funcionar suavemente. Era surpreendente o estado de coisas peculiar e desconfortável que se tornava
mais e mais longo; o tempo estava invulgarmente variável, e o mesmo acontecia com os temperamentos; um sentimento de instabilidade possuía todos, e Satanás encontrava muitas travessuras para as mãos ociosas fazerem. Como auge do luxo, Meg mandou fazer parte da sua costura e, depois, achou que o tempo passava tão lentamente que se pôs a cortar e a estragar as suas roupas, nas suas tentativas de as enfeitar à la Moffat. Jo leu até que os seus olhos cederam, e ela estava farta de livros; ficou tão inquieta que até o bondoso Laurie teve uma discussão com ela, e tão desanimada que desejou desesperadamente ter ido com a tia March. Beth safou-se bastante bem, pois esquecia-se constantemente de que era para ser tudo diversão e nada de trabalho, e recaía nos seus velhos hábitos de vez em quando; mas algo no ar afetava-a e, mais de uma vez, a sua tranquilidade foi muito perturbada; tanto que, numa ocasião, ela abanou a pobre e querida Joanna e disse-lhe que ela era "um susto". Amy saiu-se pior que todas, pois os seus recursos eram pequenos; e quando as suas irmãs a deixaram para se divertir e cuidar de si mesma, ela logo descobriu que aquele seu pequeno eu, importante e talentoso, era um grande fardo. Ela não gostava de bonecas, os contos de fadas eram infantis, e não se podia desenhar o tempo todo; as festas de chá não davam para muito, nem os piqueniques, a menos que fossem muito bem organizados. "Se se pudesse ter uma casa bonita, cheia de raparigas simpáticas, ou viajar, o verão seria delicioso; mas ficar em casa com três irmãs egoístas e um rapaz crescido era o suficiente para testar a paciência de um Boaz", queixou-se a Srta. Malaprop, após vários dias dedicados ao prazer, à inquietação e ao tédio.
Ninguém queria admitir que estava cansada da experiência; mas, na noite de sexta-feira, cada uma reconheceu para consigo mesma que estava contente por a semana estar quase a terminar. Esperando imprimir a lição mais profundamente, a Sra. March, que tinha um bom sentido de humor, resolveu terminar a experiência de uma maneira apropriada; por isso deu a Hannah um dia de folga e deixou as raparigas desfrutarem do efeito total do sistema de diversão.
Quando se levantaram no sábado de manhã, não havia fogo na cozinha, não havia pequeno-almoço na sala de jantar, e não se via a mãe em parte alguma.
"Valha-nos Deus! O que aconteceu?" gritou Jo, olhando em volta, consternada.
Meg correu para o andar de cima e logo voltou, parecendo aliviada, mas bastante perplexa e um pouco envergonhada.
"A mãe não está doente, apenas muito cansada, e diz que vai ficar sossegada no seu quarto o dia todo e deixar-nos fazer o melhor que pudermos. É uma coisa muito estranha para ela fazer, não age nada como ela mesma; mas diz que foi uma semana difícil para ela, por isso não devemos resmungar, mas cuidar de nós próprias."
"Isso é bastante fácil, e gosto da ideia; estou desejosa de ter algo para fazer... isto é, alguma diversão nova, sabem", acrescentou Jo rapidamente.
De facto, foi um imenso alívio para todas terem um pouco de trabalho, e puseram mãos à obra com vontade, mas logo perceberam a verdade do ditado de Hannah: "Cuidar da casa não é nenhuma brincadeira." Havia comida em abundância na despensa e, enquanto Beth e Amy punham a mesa, Meg e Jo preparavam o pequeno-almoço, perguntando-se, enquanto o faziam, por que é que os criados falavam sempre em trabalho árduo.
"Vou levar um pouco para a mãe, embora ela dissesse que não devíamos pensar nela, pois ela cuidaria de si mesma", disse Meg, que presidia e sentia-se bastante maternal atrás do bule de chá.
Por isso, um tabuleiro foi preparado antes de alguém começar e levado para cima, com os cumprimentos da cozinheira. O chá fervido estava muito amargo, a omeleta queimada e as bolachas salpicadas de fermento; mas a Sra. March recebeu a sua refeição com agradecimentos e riu-se de coração depois de Jo ter saído.
"Pobrezinhas, receio que vão ter um momento difícil; mas não sofrerão, e far-lhes-á bem", disse ela, tirando as iguarias mais palatáveis com que se tinha provido e descartando o mau pequeno-almoço, para que os sentimentos delas não fossem feridos — um pequeno engano maternal, pelo qual elas ficaram gratas.
Muitas foram as queixas lá em baixo e grande o desgosto da cozinheira principal pelas suas falhas. "Não importa, eu farei o jantar e serei a criada; tu sê a dona da casa, mantém as tuas mãos limpas, recebe visitas e dá ordens", disse Jo, que sabia ainda menos que Meg sobre assuntos culinários.
Esta oferta solícita foi alegremente aceite; e Margaret retirou-se para a sala de estar, que ela arrumou apressadamente, varrendo o lixo para debaixo do sofá e fechando as persianas, para poupar o trabalho de espanar. Jo, com perfeita fé nos seus próprios poderes e um desejo amigável de acabar com a discussão, colocou imediatamente um bilhete no correio, convidando Laurie para jantar.
"É melhor veres o que tens antes de pensares em ter visitas", disse Meg, quando informada do ato hospitaleiro, mas precipitado.
"Oh, há carne de vaca salgada e bastantes batatas; e vou buscar espargos e uma lagosta, 'para dar gosto', como diz a Hannah. Teremos alface e faremos uma salada. Não sei como, mas o livro explica. Terei gelatina de leite e morangos para a sobremesa; e café, também, se quiseres ser elegante."
"Não tentes demasiadas misturas, Jo, pois não consegues fazer nada além de pão de mel e rebuçados de melaço, dignos de serem comidos. Lavo as minhas mãos quanto ao jantar; e, uma vez que pediste a Laurie por tua conta e risco, podes tratar dele."
"Não quero que faças nada a não ser ser educada com ele e ajudar a servir o pudim. Dar-me-ás o teu conselho se eu me atrapalhar, não vais?" perguntou Jo, bastante magoada.
"Sim; mas não sei muito, exceto sobre pão e algumas ninharias. É melhor pedires licença à mãe antes de encomendares o que quer que seja", respondeu Meg prudentemente.
"Claro que vou; não sou tola", e Jo saiu num acesso de raiva devido às dúvidas expressas sobre os seus poderes.
"Arranja o que quiseres e não me incomodes; vou jantar fora e não me posso preocupar com as coisas em casa", disse a Sra. March, quando Jo falou com ela. "Nunca gostei de cuidar da casa e vou tirar férias hoje, e ler, escrever, ir visitar alguém e divertir-me."
O espetáculo invulgar da sua mãe ocupada a balançar-se confortavelmente e a ler, logo de manhã, fez Jo sentir como se algum fenómeno natural tivesse ocorrido, pois um eclipse, um terramoto ou uma erupção vulcânica dificilmente teriam parecido mais estranhos.
"Está tudo fora de ordem, de alguma maneira", disse ela para si mesma, descendo as escadas. "A Beth está a chorar; esse é um sinal certo de que algo está errado com esta família. Se a Amy estiver a chatear, vou abaná-la."
Sentindo-se ela própria muito fora de si, Jo apressou-se a entrar na sala de estar para encontrar Beth a soluçar por Pip, o canário, que jazia morto na gaiola, com as suas pequenas garras pateticamente estendidas, como se implorando a comida por cuja falta morrera.
"É tudo culpa minha... esqueci-me dele... não há uma semente ou uma gota que restasse. Oh, Pip! Oh, Pip! como pude ser tão cruel para ti?" chorou Beth, pegando na pobre criatura nas suas mãos e tentando reanimá-lo.
Jo espreitou para o seu olho semicerrado, sentiu o seu pequeno coração e, encontrando-o rígido e frio, abanou a cabeça e ofereceu a sua caixa de dominó para caixão.
"Põe-no no forno, e talvez ele aqueça e reviva", disse Amy esperançosa.
"Ele morreu de fome, e não será cozido agora que está morto. Vou fazer-lhe uma mortalha, e ele será enterrado no jardim; e nunca mais terei outro pássaro, nunca, o meu Pip! pois sou demasiado má para possuir um", murmurou Beth, sentada no chão com o seu animal de estimação dobrado nas suas mãos.
"O funeral será esta tarde, e todas iremos. Agora, não chores, Bethy; é uma pena, mas nada corre bem esta semana, e o Pip teve o pior da experiência. Faz a mortalha e coloca-o na minha caixa; e, depois do jantar, teremos um belo funeral", disse Jo, começando a sentir que tinha assumido muita coisa.
Deixando as outras a consolar Beth, ela partiu para a cozinha, que estava num estado de confusão muito desencorajador. Vestindo um avental grande, pôs-se ao trabalho e empilhou a loiça pronta para lavar, quando descobriu que o fogo se tinha apagado.
"Aqui está uma bela perspetiva!" murmurou Jo, batendo com a porta do fogão e remexendo vigorosamente entre as cinzas.
Tendo reacendido o fogo, pensou que iria ao mercado enquanto a água aquecia. A caminhada reanimou o seu espírito; e, lisonjeando-se por ter feito bons negócios, ela caminhou de volta para casa, depois de ter comprado uma lagosta muito jovem, alguns espargos muito velhos e duas caixas de morangos ácidos. Quando ela acabou de arrumar, o jantar chegou e o fogão estava em brasa. Hannah tinha deixado uma panela de pão a levedar, Meg tinha trabalhado nele cedo, colocou-o na lareira para uma segunda levedura e esqueceu-se dele. Meg estava a entreter Sallie Gardiner na sala de estar, quando a porta se abriu e uma figura enfarinhada, suja de fuligem, corada e desgrenhada apareceu, exigindo rispidamente:
"Digo, o pão não está 'levedado' o suficiente quando sai pelas bordas das formas?"
Sallie começou a rir; mas Meg assentiu e ergueu as sobrancelhas o mais alto que pôde, o que fez com que a aparição desaparecesse e colocasse o pão azedo no forno sem mais demoras. A Sra. March saiu, depois de espreitar aqui e ali para ver como as coisas corriam, dizendo também uma palavra de conforto a Beth, que estava sentada a fazer um sudário, enquanto o querido defunto jazia em câmara ardente na caixa de dominó. Um estranho sentimento de impotência abateu-se sobre as raparigas à medida que o chapéu cinzento desaparecia na esquina; e o desespero apoderou-se delas quando, alguns minutos depois, a Srta. Crocker apareceu e disse que tinha vindo para o jantar. Agora, esta senhora era uma solteirona magra e amarelada, com um nariz afiado e olhos inquisitivos, que via tudo e falava de tudo o que via. Elas não gostavam dela, mas tinham sido ensinadas a ser gentis para com ela, simplesmente porque era velha, pobre e tinha poucos amigos. Por isso, Meg deu-lhe a poltrona e tentou entretê-la, enquanto ela fazia perguntas, criticava tudo e contava histórias sobre as pessoas que conhecia.
A linguagem não consegue descrever as ansiedades, experiências e esforços que Jo sofreu naquela manhã; e o jantar que ela serviu tornou-se uma anedota constante. Com medo de pedir mais conselhos, ela fez o seu melhor sozinha e descobriu que algo mais do que energia e boa vontade é necessário para fazer uma cozinheira. Ela ferveu os espargos durante uma hora e ficou triste ao descobrir que as pontas estavam cozidas e os talos mais duros do que nunca. O pão queimou até ficar preto; pois o molho da salada agravou-a de tal forma que ela deixou tudo o resto correr até se convencer de que não o conseguiria fazer digno de ser comido. A lagosta era um mistério escarlate para ela, mas ela martelou e remexeu até que ficou descascada, e as suas escassas proporções escondidas num bosque de folhas de alface. As batatas tiveram de ser apressadas, para não deixar os espargos à espera, e não ficaram prontas no final. A gelatina de leite estava cheia de grumos, e os morangos não estavam tão maduros como pareciam, tendo sido habilmente "batizados".
"Bem, eles podem comer carne e pão com manteiga, se tiverem fome; apenas é humilhante ter de passar a manhã inteira para nada", pensou Jo, enquanto tocava a campainha meia hora mais tarde do que o habitual e ficava, quente, cansada e desanimada, a observar o banquete servido para Laurie, acostumado a todo o tipo de elegância, e para a Srta. Crocker, cujos olhos curiosos marcariam todas as falhas, e cuja língua mexeriqueira as relataria por toda a parte.
A pobre Jo teria gostado de desaparecer debaixo da mesa, à medida que uma coisa após outra era provada e deixada; enquanto Amy ria, Meg parecia angustiada, a Srta. Crocker franzia os lábios, e Laurie falava e ria com todas as suas forças, para dar um tom alegre à cena festiva. O único ponto forte de Jo era a fruta, pois ela tinha-a açucarado bem e tinha um jarro de natas ricas para comer com ela. As suas faces quentes arrefeceram um pouco, e ela respirou fundo, quando os bonitos pratos de vidro circularam, e todos olharam graciosamente para as pequenas ilhas rosadas flutuando num mar de natas. A Srta. Crocker provou primeiro, fez uma careta e bebeu água apressadamente. Jo, que tinha recusado, pensando que talvez não houvesse o suficiente, pois diminuíram tristemente depois da seleção, olhou para Laurie, mas ele comia corajosamente, embora houvesse uma ligeira contração à volta da sua boca, e ele mantinha o olho fixo no seu prato. Amy, que gostava de iguarias delicadas, tomou uma colherada cheia, engasgou-se, escondeu o rosto no guardanapo e deixou a mesa precipitadamente.
"Oh, o que é?" exclamou Jo tremendo.
"Sal em vez de açúcar, e as natas estão azedas", respondeu Meg, com um gesto trágico.
Jo soltou um gemido e caiu para trás na sua cadeira; lembrando-se de que tinha dado uma última polvilhada apressada às bagas de uma das duas caixas sobre a mesa da cozinha, e tinha negligenciado colocar o leite no frigorífico. Ficou escarlate e estava à beira de chorar, quando encontrou os olhos de Laurie, que pareciam divertidos apesar dos seus esforços heroicos; o lado cómico do assunto atingiu-a de repente, e ela riu-se até que as lágrimas escorreram pelas suas faces. O mesmo fizeram todos os outros, até mesmo "Croaker", como as raparigas chamavam à velha senhora; e o infeliz jantar terminou alegremente, com pão e manteiga, azeitonas e diversão.
"Não tenho força de espírito suficiente para arrumar tudo agora, por isso vamos ficar sóbrios com um funeral", disse Jo, à medida que se levantavam; e a Srta. Crocker preparou-se para partir, ansiosa por contar a nova história na mesa de jantar de outra amiga.
Ficaram sóbrios, por causa de Beth; Laurie cavou uma sepultura sob as fetas no bosque, o pequeno Pip foi depositado lá, com muitas lágrimas, pela sua dona de coração terno, e coberto com musgo, enquanto uma coroa de violetas e morugem era pendurada na pedra que ostentava o seu epitáfio, composto por Jo enquanto ela lutava com o jantar:--
"Aqui jaz Pip March, Que morreu a 7 de junho; Amado e lamentado amargamente, E não esquecido tão cedo."
No final das cerimónias, Beth retirou-se para o seu quarto, vencida pela emoção e pela lagosta; mas não havia lugar de repouso, pois as camas não estavam feitas, e ela achou o seu pesar muito atenuado ao sacudir as almofadas e colocar as coisas em ordem. Meg ajudou Jo a limpar os restos do banquete, o que ocupou metade da tarde e as deixou tão cansadas que concordaram em contentar-se com chá e torradas ao jantar. Laurie levou Amy a passear, o que foi um ato de caridade, pois as natas azedas pareciam ter tido um efeito negativo no seu temperamento. A Sra. March chegou a casa e encontrou as três filhas mais velhas a trabalhar arduamente a meio da tarde; e um olhar para o armário deu-lhe uma ideia do sucesso de uma parte da experiência.
Antes que as donas de casa pudessem descansar, várias pessoas fizeram visitas, e houve uma correria para se prepararem para as receber; depois, o chá teve de ser feito, recados cumpridos; e um ou dois pedaços de costura necessários foram negligenciados até ao último minuto. À medida que o crepúsculo caía, orvalhado e silencioso, uma a uma reuniram-se no alpendre onde as rosas de junho desabrochavam maravilhosamente, e cada uma gemia ou suspirava ao sentar-se, como se estivesse cansada ou preocupada.
"Que dia terrível tem sido este!" começou Jo, geralmente a primeira a falar.
"Pareceu mais curto do que o habitual, mas tão desconfortável", disse Meg.
"Nem um pouco como em casa", acrescentou Amy.
"Não pode parecer, sem a mamã e o pequeno Pip", suspirou Beth, olhando, com os olhos cheios, para a gaiola vazia acima da sua cabeça.
"Aqui está a mãe, querida, e amanhã terás outro pássaro, se quiseres."
Enquanto falava, a Sra. March aproximou-se e tomou o seu lugar entre elas, parecendo que o seu feriado não tinha sido muito mais agradável do que o delas.
"Estão satisfeitas com a vossa experiência, raparigas, ou querem mais uma semana disto?" perguntou ela, enquanto Beth se aconchegava a ela, e as outras se viravam para ela com rostos iluminados, como as flores se viram para o sol.
"Eu não!" exclamou Jo decididamente.
"Nem eu", fizeram eco as outras.
"Pensam, então, que é melhor ter alguns deveres e viver um pouco para os outros, não é?"
"Vadiar e brincar não compensa", observou Jo, abanando a cabeça. "Estou cansada disso e pretendo começar a trabalhar em algo imediatamente."
"Suponho que aprendam culinária básica; é uma competência útil, sem a qual nenhuma mulher deveria estar", disse a Sra. March, rindo inaudivelmente à lembrança do jantar de Jo; pois tinha encontrado a Srta. Crocker e ouvido o seu relato.
"Mãe, tu foste embora e deixaste tudo estar, só para ver como nos desenrascávamos?" gritou Meg, que tivera suspeitas todo o dia.
"Sim; queria que vissem como o conforto de todas depende de cada uma fazer a sua parte fielmente. Enquanto a Hannah e eu fizemos o vosso trabalho, desenrascaram-se bastante bem, embora não ache que estivessem muito felizes ou amáveis; por isso pensei, como uma pequena lição, mostrar-vos o que acontece quando cada uma pensa apenas em si mesma. Não sentem que é mais agradável ajudarmo-nos umas às outras, ter deveres diários que tornam o lazer doce quando ele chega, e suportar e contemporizar, para que o lar possa ser confortável e adorável para todas nós?"
"Sentimos, mãe, sentimos!" gritaram as raparigas.
"Então deixem-me aconselhar-vos a retomar os vossos pequenos fardos; pois, embora pareçam pesados por vezes, são bons para nós e tornam-se leves à medida que aprendemos a carregá-los. O trabalho é saudável, e há muito para todas; mantém-nos longe do tédio e das travessuras, é bom para a saúde e para o espírito, e dá-nos um sentido de poder e independência melhor do que o dinheiro ou a moda."
"Trabalharemos como abelhas, e adoraremos isso também; vejam se não!" disse Jo. "Vou aprender culinária básica como minha tarefa de férias; e o próximo jantar que eu der será um sucesso."
"Vou fazer o conjunto de camisas para o pai, em vez de deixar que tu o faças, mamã. Eu posso e vou, embora não aprecie costurar; será melhor do que andar a arranjar as minhas próprias coisas, que já são suficientemente boas como estão", disse Meg.
"Farei as minhas lições todos os dias e não passarei tanto tempo com a minha música e bonecas. Sou uma rapariga estúpida e deveria estar a estudar, não a brincar", foi a resolução de Beth; enquanto Amy seguiu o exemplo delas, declarando heroicamente: "Vou aprender a fazer casas de botão e a prestar atenção às minhas partes do discurso."
"Muito bem! Então estou bastante satisfeita com a experiência e imagino que não teremos de a repetir; apenas não vão para o outro extremo e trabalhem como escravas. Tenham horas regulares para o trabalho e para o lazer; tornem cada dia útil e agradável, e provem que compreendem o valor do tempo ao empregá-lo bem. Então a juventude será deliciosa, a velhice trará poucos arrependimentos, e a vida tornar-se-á um sucesso maravilhoso, apesar da pobreza."
"Lembrar-nos-emos, mãe!" e lembraram-se.
XII.
ACAMPAMENTO LAURENCE.
Beth era a chefe dos correios, pois, estando mais em casa, podia tratar disso regularmente, e adorava a tarefa diária de abrir a portinha e distribuir a correspondência. Num dia de julho, ela entrou com as mãos cheias e andou pela casa deixando cartas e pacotes, como o carteiro.
"Aqui tens o teu ramo, mãe! O Laurie nunca se esquece disso", disse ela, colocando o ramo fresco no vaso que ficava no "canto da mamã" e que era mantido abastecido pelo rapaz afetuoso.
"Srta. Meg March, uma carta e uma luva", continuou Beth, entregando os artigos à sua irmã, que estava sentada perto da mãe, a coser punhos.
"Ora, eu deixei um par ali, e aqui só está uma", disse Meg, olhando para a luva de algodão cinzenta.
"Não deixaste cair a outra no jardim?"
"Não, tenho a certeza que não; pois só havia uma no escritório."
"Odeio ter luvas desencontradas! Não faz mal, a outra pode aparecer. A minha carta é apenas uma tradução da canção alemã que eu queria; penso que foi o Sr. Brooke quem a fez, pois esta não é a letra do Laurie."
A Sra. March olhou para Meg, que parecia muito bonita no seu vestido de manhã de guingão, com os pequenos caracóis a esvoaçarem na testa, e muito feminina, sentada a coser na sua pequena mesa de trabalho, cheia de rolos brancos e arrumados; tão inconsciente do pensamento na mente da sua mãe enquanto cosia e cantava, com os dedos a voar e os pensamentos ocupados com fantasias de rapariga tão inocentes e frescas como os amores-perfeitos no seu cinto, que a Sra. March sorriu e ficou satisfeita.
"Duas cartas para a Dra. Jo, um livro e um chapéu engraçado e velho, que cobria todo o correio, colado do lado de fora", disse Beth, rindo, enquanto entrava no escritório, onde Jo estava sentada a escrever.
"Que tipo astuto é o Laurie! Eu disse que desejava que chapéus maiores estivessem na moda, porque queimo a cara em todos os dias quentes. Ele disse: 'Por que te preocupas com a moda? Usa um chapéu grande e sê confortável!' Eu disse que o faria se tivesse um, e ele enviou-me este, para me testar. Vou usá-lo, por diversão, e mostrar-lhe que não me importo com a moda"; e, pendurando a aba larga e antiga num busto de Platão, Jo leu as suas cartas.
Uma vinda da sua mãe fez as suas bochechas brilharem e os seus olhos encherem-se, pois dizia-lhe:--
"MINHA QUERIDA:
Escrevo uma pequena palavra para te dizer com quanta satisfação observo os teus esforços para controlar o teu temperamento. Não dizes nada sobre as tuas provações, falhas ou sucessos, e pensas, talvez, que ninguém os vê, exceto o Amigo cuja ajuda pedes diariamente, se posso confiar na capa gasta do teu guia. Eu, também, vi-os todos, e acredito sinceramente na sinceridade da tua resolução, uma vez que começa a dar frutos. Continua, querida, paciente e corajosamente, e acredita sempre que ninguém simpatiza mais ternamente contigo do que a tua amorosa
MÃE."
"Isto faz-me bem! Isto vale milhões de dinheiro e montes de elogios. Oh, mamã, eu tento! Vou continuar a tentar e não me cansar, uma vez que te tenho a ti para me ajudar."
Apoiando a cabeça nos braços, Jo molhou o seu pequeno romance com algumas lágrimas felizes, pois pensara que ninguém via e apreciava os seus esforços para ser boa; e esta garantia era duplamente preciosa, duplamente encorajadora, porque inesperada e vinda da pessoa cuja recomendação ela mais valorizava. Sentindo-se mais forte do que nunca para enfrentar e subjugar o seu Apoliom, ela prendeu o bilhete dentro do seu vestido, como um escudo e um lembrete, para não ser apanhada desprevenida, e prosseguiu a abrir a outra carta, pronta para notícias boas ou más. Com uma caligrafia grande e arrojada, Laurie escreveu:--
"QUERIDA JO, Olá!
Algumas raparigas e rapazes ingleses vêm visitar-me amanhã e quero que nos divirtamos muito. Se estiver bom tempo, vou montar a minha tenda em Longmeadow e levar todo o grupo a remar para almoçar e jogar croquet; fazer uma fogueira, preparar confusões, ao estilo cigano, e todo o tipo de brincadeiras. São pessoas simpáticas e gostam destas coisas. O Brooke irá, para nos manter aos rapazes sossegados, e a Kate Vaughn será a dama de companhia das raparigas. Quero que todas venham; não posso deixar a Beth de fora, de maneira nenhuma, e ninguém a irá incomodar. Não se preocupem com as rações; eu trato disso, e de tudo o resto; apenas venham, sejam boas companheiras!
Com muita pressa, Teu sempre, LAURIE."
"Isto é que é riqueza!" gritou Jo, correndo para dar a notícia a Meg.
"Claro que podemos ir, mãe? Será de grande ajuda para o Laurie, pois eu sei remar, a Meg pode tratar do almoço, e as crianças serem úteis de alguma forma."
"Espero que os Vaughn não sejam pessoas sofisticadas e adultas. Sabes alguma coisa sobre eles, Jo?" perguntou Meg.
"Apenas que são quatro. A Kate é mais velha que tu, o Fred e o Frank (gémeos) têm a minha idade, e uma menina pequena (Grace), que tem nove ou dez anos. O Laurie conheceu-os no estrangeiro e gostou dos rapazes; imaginei, pela forma como ele contraía a boca ao falar dela, que ele não admirava muito a Kate."
"Estou tão contente por o meu estampado francês estar limpo; é exatamente o que serve, e fica-me tão bem!" observou Meg, satisfeita. "Tens alguma coisa decente, Jo?"
"Fato de barco escarlate e cinzento, bom o suficiente para mim. Vou remar e caminhar por aí, por isso não quero engomados com que me preocupar. Vens, Bethy?"
"Se não deixares nenhum dos rapazes falar comigo."
"Nem um rapaz!"
"Gosto de agradar ao Laurie; e não tenho medo do Sr. Brooke, ele é tão gentil; mas não quero brincar, nem cantar, nem dizer nada. Vou trabalhar arduamente e não incomodarei ninguém; e tu vais cuidar de mim, Jo, por isso vou."
"Essa é a minha boa rapariga; tu tentas lutar contra a tua timidez, e eu amo-te por isso. Lutar contra os defeitos não é fácil, como eu sei; e uma palavra alegre dá uma espécie de impulso. Obrigada, mãe", e Jo deu à face fina um beijo de gratidão, mais precioso para a Sra. March do que se lhe tivesse devolvido a redondeza rosada da sua juventude.
"Tinha uma caixa de bombons de chocolate, e a imagem que queria copiar", disse Amy, mostrando a sua correspondência.
"E recebi um bilhete do Sr. Laurence, a pedir-me para ir lá a casa tocar para ele esta noite, antes de as luzes serem acesas, e eu vou", acrescentou Beth, cuja amizade com o velho senhor prosperava muito bem.
"Agora vamos correr e fazer o dobro do trabalho hoje, para que possamos brincar amanhã com a mente livre", disse Jo, preparando-se para substituir a sua caneta por uma vassoura.
Quando o sol espreitou para o quarto das raparigas na manhã seguinte, cedo, para lhes prometer um dia agradável, viu uma visão cómica. Cada uma tinha feito tal preparação para a festa como parecia necessário e adequado. Meg tinha uma fila extra de pequenos papéis de caracóis na testa, Jo tinha ungido copiosamente a sua face aflita com creme frio, Beth tinha levado a Joanna para a cama com ela para compensar a separação iminente, e Amy tinha superado o auge ao colocar uma mola da roupa no nariz, para elevar a característica ofensiva. Era um dos tipos que os artistas usam para prender o papel nas suas pranchetas, portanto bastante apropriado e eficaz para o propósito a que agora era colocado. Este espetáculo engraçado pareceu divertir o sol, pois ele irrompeu com tal luminosidade que Jo acordou e despertou todas as suas irmãs com uma gargalhada sincera pelo adorno de Amy.
O sol e o riso eram bons presságios para uma festa de lazer, e logo uma agitação viva começou em ambas as casas. Beth, que foi a primeira a estar pronta, ia relatando o que acontecia na casa ao lado, e animava a toalete das suas irmãs com telegramas frequentes da janela.
"Lá vai o homem com a tenda! Vejo a Sra. Barker a preparar o almoço numa cesta e num cesto grande. Agora o Sr. Laurence está a olhar para o céu e para o cata-vento; quem me dera que ele também fosse. Ali está o Laurie, a parecer um marinheiro; bom rapaz! Oh, valha-me Deus! aqui está uma carruagem cheia de pessoas; uma senhora alta, uma menina pequena e dois rapazes horríveis. Um é coxo; o pobre, tem uma muleta. O Laurie não nos disse isso. Depressa, raparigas! está a ficar tarde. Ora, ali está o Ned Moffat, garanto-vos. Olha, Meg, não é aquele o homem que te fez uma vénia um dia, quando estávamos às compras?"
"É ele mesmo. Que estranho que ele venha. Pensei que ele estivesse nas Montanhas. Ali está a Sallie; estou contente que ela tenha voltado a tempo. Estou bem, Jo?" gritou Meg, agitada.
"Uma verdadeira margarida. Levanta o teu vestido e põe o chapéu direito; parece sentimental inclinado dessa maneira, e vai voar à primeira lufada. Agora, vamos, despachem-se!"
"Oh Jo, não vais usar esse chapéu horrível? É demasiado absurdo! Não te vais tornar um espantalho", protestou Meg, enquanto Jo atava, com uma fita vermelha, o chapéu de palha de abas largas e antiquado que o Laurie enviara como uma brincadeira.
"Vou usar, sim, porque é excelente; tão sombreado, leve e grande. Vai dar para rir; e não me importo de ser um espantalho se estiver confortável." Com isto, Jo marchou diretamente, e as restantes seguiram; um pequeno bando brilhante de irmãs, todas a parecerem o melhor que podiam, em fatos de verão, com rostos felizes sob as abas dos chapéus elegantes.
Laurie correu para as encontrar e apresentá-las aos seus amigos, da forma mais cordial. O relvado era a sala de receção, e durante vários minutos uma cena animada desenrolou-se ali. Meg ficou grata por ver que a Srta. Kate, embora com vinte anos, estava vestida com uma simplicidade que as raparigas americanas fariam bem em imitar; e ela ficou muito lisonjeada com as garantias do Sr. Ned de que ele viera especialmente para a ver. Jo percebeu por que razão o Laurie "contraía a boca" ao falar da Kate, pois aquela jovem tinha um ar de "afastem-se-não-me-toquem", que contrastava fortemente com o comportamento livre e fácil das outras raparigas. Beth observou os novos rapazes e decidiu que o coxo não era "horrível", mas gentil e frágil, e ela seria gentil com ele por esse motivo. Amy achou a Grace uma pessoa pequena, bem-educada e alegre; e depois de se olharem fixamente em silêncio durante alguns minutos, tornaram-se subitamente muito boas amigas.
Tendo as tendas, o almoço e os utensílios de croquet sido enviados com antecedência, o grupo embarcou rapidamente, e os dois barcos afastaram-se juntos, deixando o Sr. Laurence a acenar com o chapéu na margem. Laurie e Jo remavam um barco; o Sr. Brooke e Ned o outro; enquanto Fred Vaughn, o gémeo turbulento, fazia o seu melhor para virar ambos ao remar num bote como um percevejo perturbado. O chapéu engraçado de Jo merecia um voto de agradecimento, pois era de utilidade geral; quebrou o gelo no início, ao provocar uma gargalhada; criava uma brisa refrescante, abanando para um lado e para o outro, enquanto ela remava, e seria um excelente guarda-chuva para todo o grupo, caso surgisse uma chuvada, dizia ela. Kate parecia bastante surpreendida com os procedimentos de Jo, especialmente quando ela exclamou "Cristóvão Colombo!" quando perdeu o remo; e Laurie disse: "Meu caro amigo, magoei-te?", quando tropeçou nos pés dela ao ocupar o seu lugar. Mas, depois de colocar o seu monóculo para examinar a rapariga estranha várias vezes, a Srta. Kate decidiu que ela era "estranha, mas bastante inteligente", e sorriu-lhe à distância.
Meg, no outro barco, estava maravilhosamente situada, cara a cara com os remadores, que admiravam a vista e manuseavam os remos com uma "habilidade e destreza" incomuns. O Sr. Brooke era um jovem grave e silencioso, com belos olhos castanhos e uma voz agradável. Meg gostava dos seus modos tranquilos e considerava-o uma enciclopédia ambulante de conhecimento útil. Ele nunca falava muito com ela; mas olhava para ela com frequência, e ela sentia-se segura de que ele não a via com aversão. Ned, estando na faculdade, naturalmente assumia todos os ares que os caloiros pensam ser o seu dever assumir; ele não era muito sábio, mas muito bem-humorado, e, ao todo, uma excelente pessoa para levar num piquenique. Sallie Gardiner estava absorta em manter o seu vestido de piqué branco limpo e em tagarelar com o omnipresente Fred, que mantinha Beth em constante terror com as suas partidas.
Não era longe até Longmeadow; mas a tenda estava montada e os arcos no chão quando chegaram. Um campo verde agradável, com três carvalhos de copa larga no meio, e uma faixa lisa de relva para croquet.
"Bem-vindos ao Acampamento Laurence!" disse o jovem anfitrião, à medida que desembarcavam, com exclamações de delírio.
"O Brooke é o comandante-em-chefe; eu sou o comissário-geral; os outros rapazes são oficiais de estado-maior; e vocês, senhoras, são a companhia. A tenda é para o vosso benefício especial, e aquele carvalho é a vossa sala de estar; esta é a sala de refeições, e a terceira é a cozinha de campanha. Agora, vamos fazer um jogo antes que fique quente, e depois trataremos do jantar."
Frank, Beth, Amy e Grace sentaram-se para observar o jogo disputado pelos outros oito. O Sr. Brooke escolheu Meg, Kate e Fred; Laurie escolheu Sallie, Jo e Ned. Os ingleses jogavam bem; mas os americanos jogavam melhor, e contestaram cada centímetro do terreno com tanta força como se o espírito de '76 os inspirasse. Jo e Fred tiveram várias escaramuças, e uma vez escaparam por pouco de palavras rudes. Jo estava a passar o último arco, e tinha falhado a tacada, o que a deixou bastante irritada. Fred estava logo atrás dela, e a vez dele veio antes da dela; ele deu uma tacada, a bola bateu no arco e parou a uma polegada do lado errado. Ninguém estava muito perto; e correndo para examinar, ele deu-lhe um empurrão astuto com a ponta do pé, que a colocou apenas a uma polegada do lado certo.
"Passei! Agora, Srta. Jo, vou tratar de si e entrar primeiro", gritou o jovem, balançando o seu martelo para outra pancada.
"Empurraste-a; eu vi-te; agora é a minha vez", disse Jo bruscamente.
"Pela minha palavra, não a movi; rolou um pouco, talvez, mas isso é permitido; por isso afasta-te, por favor, e deixa-me tentar o espigão."
"Nós não fazemos batota na América, mas tu podes, se quiseres", disse Jo, irritada.
"Os ianques são muito mais trapaceiros, toda a gente sabe. Lá vais tu!" retorquiu Fred, levando a bola dela para longe.
Jo abriu os lábios para dizer algo rude, mas conteve-se a tempo, corou até à testa e ficou um minuto, a martelar um arco com toda a sua força, enquanto Fred atingia o espigão e se declarava fora com muita exultação. Ela foi buscar a sua bola e demorou muito tempo a encontrá-la, entre os arbustos; mas voltou, parecendo calma e serena, e esperou pacientemente pela sua vez. Demorou várias tacadas a recuperar o lugar que tinha perdido; e, quando lá chegou, o outro lado tinha quase ganho, pois a bola de Kate era a penúltima e estava perto do espigão.
"Por Deus, estamos perdidos! Adeus, Kate. A Srta. Jo está me devendo uma, então vocês acabaram," exclamou Fred, animado, enquanto todos se aproximavam para ver o final.
"Os ianques têm o hábito de serem generosos com seus inimigos," disse Jo, com um olhar que fez o rapaz corar, "especialmente quando os vencem," acrescentou ela, enquanto, deixando a bola de Kate intocada, vencia o jogo com uma tacada inteligente.
Laurie jogou seu chapéu para o alto; depois lembrou-se de que não seria apropriado exultar com a derrota de seus convidados e parou no meio de um brado para sussurrar ao seu amigo:
"Muito bem, Jo! Ele trapaceou, eu o vi; não podemos dizer isso a ele, mas ele não fará de novo, acredite em mim."
Meg a puxou de lado, sob o pretexto de prender uma trança solta, e disse, com aprovação:
"Foi terrivelmente provocante; mas você manteve a calma, e estou tão contente, Jo."
"Não me elogie, Meg, pois eu poderia esbofeteá-lo agora mesmo. Eu certamente teria fervido se não tivesse ficado entre as urtigas até conseguir controlar minha raiva o suficiente para segurar a língua. Agora está apenas em fogo brando, então espero que ele fique fora do meu caminho," respondeu Jo, mordendo os lábios enquanto fulminava Fred com o olhar por baixo de seu chapéu grande.
"Hora do almoço," disse o Sr. Brooke, olhando para o relógio. "Comissário-geral, você fará o fogo e buscará água, enquanto a Srta. March, a Srta. Sallie e eu arrumamos a mesa? Quem sabe fazer um bom café?"
"Jo sabe," disse Meg, feliz por recomendar a irmã. Então Jo, sentindo que suas recentes lições de culinária a honrariam, foi presidir o bule de café, enquanto as crianças recolhiam gravetos secos e os rapazes faziam uma fogueira e buscavam água em uma fonte próxima. A Srta. Kate desenhava, e Frank conversava com Beth, que estava fazendo pequenos tapetes de juncos trançados para servirem de pratos.
O comandante-em-chefe e seus ajudantes logo espalharam a toalha de mesa com uma convidativa variedade de comestíveis e bebidas, graciosamente decorada com folhas verdes. Jo anunciou que o café estava pronto, e todos se acomodaram para uma refeição farta; pois a juventude raramente sofre de dispepsia, e o exercício desenvolve apetites saudáveis. Foi um almoço muito alegre; pois tudo parecia fresco e divertido, e frequentes gargalhadas assustavam um cavalo venerável que pastava ali perto. Havia uma desigualdade agradável na mesa, o que causava muitos acidentes com copos e pratos; bolotas caíam no leite, formigas pretas participavam do banquete sem serem convidadas, e lagartas peludas desciam das árvores para ver o que estava acontecendo. Três crianças de cabelos brancos espiaram por cima da cerca, e um cachorro desagradável latiu para eles do outro lado do rio com todas as suas forças.
"Há sal aqui, se você preferir," disse Laurie, enquanto entregava a Jo um pires de frutas silvestres.
"Obrigada, prefiro aranhas," ela respondeu, pescando duas incautas que haviam tido um fim cremoso. "Como você ousa me lembrar daquele jantar horrível, quando o seu é tão agradável em todos os sentidos?" acrescentou Jo, enquanto ambos riam e comiam do mesmo prato, já que a louça havia acabado.
"Eu me diverti extraordinariamente naquele dia e ainda não superei. Isto não é mérito meu, sabe; eu não faço nada; são você, Meg e Brooke que fazem tudo acontecer, e sou imensamente grato a vocês. O que faremos quando não pudermos comer mais nada?" perguntou Laurie, sentindo que sua carta na manga havia sido jogada quando o almoço terminou.
"Jogar, até que esfrie. Eu trouxe 'Autores', e aposto que a Srta. Kate conhece algo novo e agradável. Vá perguntar a ela; ela é uma convidada, e você deveria ficar mais com ela."
"Você não é uma convidada também? Achei que ela combinaria com Brooke; mas ele fica conversando com Meg, e Kate apenas os encara através daquele óculos ridículo. Eu vou, então não tente pregar decoro, pois você não consegue, Jo."
A Srta. Kate conhecia vários jogos novos; e como as moças não queriam, e os rapazes não podiam comer mais, todos se dirigiram à sala de estar para jogar "Rigmarole".
"Uma pessoa começa uma história, qualquer bobagem que você quiser, e conta pelo tempo que desejar, apenas cuidando para parar em um ponto emocionante, quando o próximo assume e faz o mesmo. É muito engraçado quando bem feito, e cria uma mistura perfeita de coisas trágicas e cômicas para rir. Por favor, comece, Sr. Brooke," disse Kate, com um ar de comando que surpreendeu Meg, que tratava o tutor com tanto respeito quanto qualquer outro cavalheiro.
Deitado na grama aos pés das duas jovens, o Sr. Brooke começou obedientemente a história, com os belos olhos castanhos fixos no rio ensolarado.
"Era uma vez, um cavaleiro que saiu pelo mundo para buscar fortuna, pois não tinha nada além de sua espada e seu escudo. Ele viajou por muito tempo, quase vinte e oito anos, e passou por maus bocados até chegar ao palácio de um bom rei idoso, que ofereceu uma recompensa a quem conseguisse domar e treinar um potro fino, porém indomado, de quem ele gostava muito. O cavaleiro concordou em tentar, e avançou lenta, mas seguramente; pois o potro era um animal valente e logo aprendeu a amar seu novo mestre, embora fosse caprichoso e selvagem. Todos os dias, quando dava lições a esse favorito do rei, o cavaleiro o montava pela cidade; e, enquanto cavalgava, procurava em toda parte por um certo rosto belo, que vira muitas vezes em seus sonhos, mas nunca encontrara. Um dia, enquanto trotava por uma rua tranquila, viu na janela de um castelo em ruínas o rosto adorável. Ele ficou encantado, perguntou quem vivia naquele castelo antigo e foi informado de que várias princesas cativas eram mantidas lá por um feitiço, e fiavam o dia todo para economizar dinheiro e comprar sua liberdade. O cavaleiro desejava intensamente libertá-las; mas era pobre e só podia passar por lá todos os dias, vigiando o rosto doce e ansiando por vê-lo sob a luz do sol. Finalmente, decidiu entrar no castelo e perguntar como poderia ajudá-las. Ele foi e bateu; a grande porta se abriu, e ele contemplou—"
"Uma dama arrebatadoramente adorável, que exclamou, com um grito de êxtase: 'Finalmente! Finalmente!'" continuou Kate, que lia romances franceses e admirava o estilo. "'É ela!' gritou o Conde Gustave, e caiu a seus pés em um êxtase de alegria. 'Oh, levante-se!' ela disse, estendendo uma mão de brancura marmórea. 'Nunca! Até que me diga como posso resgatá-la,' jurou o cavaleiro, ainda ajoelhado. 'Infelizmente, meu destino cruel me condena a permanecer aqui até que meu tirano seja destruído.' 'Onde está o vilão?' 'No salão malva. Vá, coração corajoso, e salve-me do desespero.' 'Obedeço, e retornarei vitorioso ou morto!' Com essas palavras emocionantes ele correu, e abrindo a porta do salão malva, estava prestes a entrar, quando recebeu—"
"Um golpe atordoante do grande léxico de grego, que um velho de toga preta atirou nele," disse Ned. "Instantaneamente, o Sir Fulano de Tal se recuperou, jogou o tirano pela janela e virou-se para se juntar à dama, vitorioso, mas com um galo na testa; encontrou a porta trancada, rasgou as cortinas, fez uma escada de corda, estava na metade do caminho quando a escada quebrou, e ele caiu de cabeça no fosso, a sessenta pés de profundidade. Sabia nadar como um pato, remou ao redor do castelo até chegar a uma pequena porta guardada por dois sujeitos robustos; bateu as cabeças deles uma na outra até que estalassem como um par de nozes, então, com um esforço trivial de sua força prodigiosa, arrombou a porta, subiu um par de degraus de pedra cobertos por uma camada de poeira de um pé de espessura, sapos do tamanho do seu punho e aranhas que a deixariam histérica, Srta. March. No topo desses degraus, ele deu de cara com uma visão que lhe tirou o fôlego e gelou o sangue—"
"Uma figura alta, toda de branco com um véu sobre o rosto e uma lamparina em sua mão definhada," continuou Meg. "Ela acenou, deslizando silenciosamente à frente dele por um corredor tão escuro e frio quanto qualquer tumba. Efígies sombrias em armadura estavam de ambos os lados, um silêncio mortal reinava, a lamparina queimava azul, e a figura fantasmagórica virava o rosto de tempos em tempos para ele, revelando o brilho de olhos terríveis através de seu véu branco. Eles alcançaram uma porta com cortinas, atrás da qual soava uma música adorável; ele saltou para entrar, mas o espectro o puxou de volta e agitou ameaçadoramente diante dele uma—"
"Caixa de rapé," disse Jo, em um tom sepulcral, que convulsionou a plateia. "'Obrigado,' disse o cavaleiro educadamente, enquanto tomava uma pitada e espirrava sete vezes tão violentamente que sua cabeça caiu. 'Ha! ha!' riu o fantasma; e tendo espiado pela fechadura as princesas fiando desesperadamente, o espírito maligno pegou sua vítima e a colocou em uma grande caixa de lata, onde havia outros onze cavaleiros amontoados sem suas cabeças, como sardinhas, que se levantaram e começaram a—"
"Dançar um hornpipe," interrompeu Fred, enquanto Jo parava para respirar; "e, enquanto dançavam, o castelo velho e imprestável transformou-se em um navio de guerra em plena vela. 'Icem o estai, encurtem as adriças do cesto da gávea, leme a sotavento, e ocupem os canhões!' rugiu o capitão, quando um pirata português surgiu no horizonte, com uma bandeira preta como tinta tremulando em seu mastro. 'Avante e vençam, meus corações!' diz o capitão; e uma luta tremenda começou. Claro que os britânicos venceram; eles sempre vencem."
"Não, eles não vencem!" gritou Jo, à parte.
"Tendo feito o capitão pirata prisioneiro, navegaram por cima da escuna, cujos conveses estavam empilhados com mortos e cujos trincanizes corriam sangue, pois a ordem havia sido 'Cimitarra, e morram lutando!' 'Contramestre, pegue uma volta na escota do estai de voo, e faça esse vilão falar se ele não confessar seus pecados rapidamente,' disse o capitão britânico. O português manteve a boca fechada como uma rocha e caminhou na prancha, enquanto os marinheiros alegres gritavam como loucos. Mas o cão astuto mergulhou, apareceu sob o navio de guerra, abriu buracos nele, e ele afundou, com todas as velas içadas, 'Para o fundo do mar, mar, mar,' onde—"
"Oh, céus! o que devo dizer?" gritou Sallie, quando Fred terminou seu *rigmarole*, no qual ele havia misturado, de forma confusa, termos náuticos e fatos de um de seus livros favoritos. "Bem, eles foram para o fundo, e uma bela sereia os deu as boas-vindas, mas ficou muito triste ao encontrar a caixa dos cavaleiros sem cabeça, e gentilmente os conservou em salmoura, esperando descobrir o mistério sobre eles; pois, sendo mulher, ela era curiosa. Logo depois, um mergulhador desceu, e a sereia disse: 'Eu lhe darei esta caixa de pérolas se você conseguir levá-la para cima;' pois ela queria restaurar a vida dos pobres coitados e não conseguia levantar a carga pesada sozinha. Então o mergulhador içou a caixa e ficou muito desapontado, ao abri-la, por não encontrar pérolas. Ele a deixou em um campo grande e solitário, onde foi encontrada por uma—"
"Pequena pastora de gansos, que cuidava de cem gansos gordos no campo," disse Amy, quando a invenção de Sallie se esgotou. "A garotinha sentiu pena deles e perguntou a uma velha o que deveria fazer para ajudá-los. 'Seus gansos lhe dirão, eles sabem de tudo,' disse a velha. Então ela perguntou o que deveria usar como novas cabeças, já que as velhas haviam se perdido, e todos os gansos abriram suas cem bocas e gritaram—"
"'Repolhos!'" continuou Laurie prontamente. "'Exatamente o que faltava,' disse a menina, e correu para pegar doze belos repolhos em sua horta. Ela os colocou, os cavaleiros reviveram imediatamente, agradeceram-lhe e seguiram seu caminho alegrando-se, sem nunca notar a diferença, pois havia tantas outras cabeças como aquelas no mundo que ninguém deu importância. O cavaleiro em quem estou interessado voltou para encontrar o rosto bonito e soube que as princesas haviam fiado o suficiente para se libertar e todas haviam ido se casar, exceto uma. Ele ficou muito perturbado com isso; e montando o potro, que esteve com ele em todas as horas, correu para o castelo para ver qual delas restara. Espiando por cima da sebe, viu a rainha de suas afeições colhendo flores em seu jardim. 'Você me daria uma rosa?' disse ele. 'Você deve vir buscá-la. Eu não posso ir até você; não é apropriado,' disse ela, doce como mel. Ele tentou escalar a sebe, mas ela parecia crescer cada vez mais; então tentou atravessá-la à força, mas ela crescia cada vez mais espessa, e ele estava em desespero. Então, pacientemente, ele quebrou galho por galho, até ter feito um pequeno buraco, através do qual espiou, dizendo suplicante: 'Deixe-me entrar! Deixe-me entrar!' Mas a linda princesa não parecia entender, pois colhia suas rosas calmamente e o deixava lutar para entrar. Se ele conseguiu ou não, Frank dirá a vocês."
"Eu não posso; não estou jogando, eu nunca jogo," disse Frank, consternado com a situação sentimental da qual ele deveria resgatar o casal absurdo. Beth havia desaparecido atrás de Jo, e Grace estava dormindo.
"Então o pobre cavaleiro deve ser deixado preso na sebe, é isso?" perguntou o Sr. Brooke, ainda observando o rio e brincando com a rosa silvestre na lapela.
"Acho que a princesa lhe deu uma flor e abriu o portão, depois de um tempo," disse Laurie, sorrindo para si mesmo, enquanto jogava bolotas em seu tutor.
"Que bobagem nós fizemos! Com prática, poderíamos fazer algo muito inteligente. Vocês conhecem 'Verdade'?" perguntou Sallie, depois que riram da história.
"Espero que sim," disse Meg seriamente.
"O jogo, quero dizer?"
"O que é?" disse Fred.
"Bem, você empilha as mãos, escolhe um número, e tira uma por vez, e a pessoa que tirar no número tem que responder verdadeiramente a quaisquer perguntas feitas pelos outros. É muito divertido."
"Vamos tentar," disse Jo, que gostava de novas experiências.
A Srta. Kate e o Sr. Brooke, Meg e Ned recusaram, mas Fred, Sallie, Jo e Laurie empilharam e tiraram; e a sorte caiu para Laurie.
"Quem são seus heróis?" perguntou Jo.
"O avô e Napoleão."
"Qual destas damas aqui você acha mais bonita?" disse Sallie.
"Margaret."
"De qual você gosta mais?" perguntou Fred.
"Jo, é claro."
"Que perguntas bobas vocês fazem!" e Jo deu um encolher de ombros desdenhoso enquanto os outros riam do tom pragmático de Laurie.
"Tente de novo; Verdade não é um jogo ruim," disse Fred.
"É um jogo muito bom para você," retrucou Jo, em voz baixa.
A vez dela chegou em seguida.
"Qual é o seu maior defeito?" perguntou Fred, para testar nela a virtude que lhe faltava.
"Um gênio forte."
"O que você mais deseja?" disse Laurie.
"Um par de cadarços," respondeu Jo, adivinhando e frustrando seu objetivo.
"Não é uma resposta verdadeira; você deve dizer o que realmente deseja mais."
"Gênio; você não gostaria de poder me dar, Laurie?" e ela sorriu maliciosamente para o rosto decepcionado dele.
"Que virtudes você mais admira em um homem?" perguntou Sallie.
"Coragem e honestidade."
"Agora é minha vez," disse Fred, quando sua mão foi a última.
"Vamos dar o troco," sussurrou Laurie para Jo, que concordou e perguntou imediatamente:
"Você não trapaceou no críquete?"
"Bem, sim, um pouquinho."
"Muito bem! Você não tirou sua história de 'O Leão do Mar'?" disse Laurie.
"Mais ou menos."
"Você não acha a nação inglesa perfeita em todos os aspectos?" perguntou Sallie.
"Eu teria vergonha de mim mesmo se não achasse."
"Ele é um verdadeiro John Bull. Agora, Srta. Sallie, você terá uma chance sem precisar esperar para tirar. Vou primeiro atormentar seus sentimentos perguntando se você não acha que é um pouco namoradeira," disse Laurie, enquanto Jo acenava para Fred como sinal de que a paz estava selada.
"Seu garoto impertinente! é claro que não sou," exclamou Sallie, com um ar que provava o contrário.
"O que você mais odeia?" perguntou Fred.
"Aranhas e pudim de arroz."
"Do que você gosta mais?" perguntou Jo.
"Dançar e luvas francesas."
"Bem, acho que Verdade é uma brincadeira muito boba; vamos jogar um jogo sensato de Autores, para refrescar nossas mentes," propôs Jo.
Ned, Frank e as meninas juntaram-se a eles e, enquanto o jogo prosseguia, os três mais velhos sentaram-se à parte, conversando. A Srta. Kate pegou seu desenho novamente, e Margaret observava, enquanto o Sr. Brooke deitava-se na grama com um livro que não lia.
"Como você faz isso lindamente! Eu queria saber desenhar," disse Meg, com uma mistura de admiração e arrependimento na voz.
"Por que você não aprende? Acho que você teria gosto e talento para isso," respondeu a Srta. Kate graciosamente.
"Não tenho tempo."
"Sua mamãe prefere outras atividades, imagino. A minha também; mas provei a ela que tinha talento fazendo algumas aulas particulares, e então ela ficou muito disposta a me deixar continuar. Você não pode fazer o mesmo com sua governanta?"
"Eu não tenho nenhuma."
"Esqueci; as jovens na América vão mais à escola do que nós. São escolas muito boas, também, meu pai diz. Você vai a uma particular, suponho?"
"Eu não vou a nenhuma; eu mesma sou governanta."
"Oh, entendo!" disse a Srta. Kate; mas ela poderia muito bem ter dito: "Meu Deus, que horror!", pois seu tom implicava isso, e algo em seu rosto fez Meg corar e desejar não ter sido tão franca.
O Sr. Brooke levantou os olhos e disse rapidamente: "As jovens na América amam a independência tanto quanto seus ancestrais, e são admiradas e respeitadas por se sustentarem."
"Oh, sim; claro que é muito bom e apropriado que elas façam isso. Temos muitas jovens muito respeitáveis e dignas que fazem o mesmo e são empregadas pela nobreza, porque, sendo filhas de cavalheiros, são bem educadas e cultas, sabe," disse a Srta. Kate, em um tom condescendente que feriu o orgulho de Meg e fez seu trabalho parecer não apenas mais desagradável, mas degradante.
"A canção alemã serviu, Srta. March?" perguntou o Sr. Brooke, interrompendo uma pausa desconfortável.
"Oh, sim! foi muito doce, e sou muito grata a quem a traduziu para mim;" e o rosto cabisbaixo de Meg iluminou-se ao falar.
"Você não lê alemão?" perguntou a Srta. Kate, com um olhar de surpresa.
"Não muito bem. Meu pai, que me ensinou, está longe, e não avanço muito rápido sozinha, pois não tenho ninguém para corrigir minha pronúncia."
"Tente um pouco agora; aqui está 'Maria Stuart' de Schiller, e um tutor que adora ensinar," e o Sr. Brooke colocou o livro no colo dela, com um sorriso convidativo.
"É tão difícil que tenho medo de tentar," disse Meg, grata, mas tímida na presença da jovem talentosa ao seu lado.
"Vou ler um trecho para encorajá-la;" e a Srta. Kate leu uma das passagens mais bonitas, de uma maneira perfeitamente correta, mas perfeitamente inexpressiva.
O Sr. Brooke não fez comentários quando ela devolveu o livro a Meg, que disse inocentemente:
"Eu pensei que fosse poesia."
"Alguma parte é. Tente esta passagem."
Havia um sorriso estranho na boca do Sr. Brooke enquanto ele abria no lamento da pobre Maria.
Meg, seguindo obedientemente a longa lâmina de grama que seu novo tutor usava para apontar, leu lenta e timidamente, transformando inconscientemente as palavras difíceis em poesia pela entonação suave de sua voz musical. A guia verde percorria a página e, aos poucos, esquecendo-se de seu ouvinte na beleza da cena triste, Meg leu como se estivesse sozinha, dando um toque de tragédia às palavras da infeliz rainha. Se ela tivesse visto os olhos castanhos naquele momento, teria parado imediatamente; mas ela nunca levantou os olhos, e a lição não foi estragada para ela.
"Muito bem, de fato!" disse o Sr. Brooke, quando ela parou, ignorando completamente seus muitos erros e parecendo como se, de fato, "adorasse ensinar".
A Srta. Kate colocou os óculos e, depois de ter feito uma varredura do pequeno quadro à sua frente, fechou seu caderno de desenho, dizendo, com condescendência:
"Você tem um sotaque agradável e, com o tempo, será uma leitora inteligente. Aconselho-a a aprender, pois o alemão é uma habilidade valiosa para professores. Preciso cuidar de Grace, ela está fazendo algazarra"; e a Srta. Kate afastou-se, acrescentando para si mesma, com um encolher de ombros: "Não vim para servir de acompanhante a uma governanta, embora ela seja jovem e bonita. Que gente estranha esses ianques; temo que Laurie fique completamente mimado entre eles."
"Esqueci-me de que os ingleses torcem um pouco o nariz para governantas e não as tratam como nós", disse Meg, observando a figura que se afastava com uma expressão de aborrecimento.
"Tutores, também, passam por momentos difíceis por lá, como sei por experiência própria. Não há lugar como a América para nós, trabalhadores, Srta. Margaret"; e o Sr. Brooke parecia tão contente e alegre que Meg sentiu vergonha de lamentar sua difícil sorte.
"Fico feliz por viver nela, então. Não gosto do meu trabalho, mas, afinal, obtenho uma boa dose de satisfação com ele, por isso não vou reclamar; só gostaria de gostar de ensinar como você."
"Acho que gostaria se tivesse Laurie como aluno. Ficarei muito triste em perdê-lo no próximo ano", disse o Sr. Brooke, ocupado em fazer furos no gramado.
"Vai para a faculdade, suponho?" Os lábios de Meg fizeram a pergunta, mas seus olhos acrescentaram: "E o que será de você?"
"Sim; já é tempo de ele ir, pois está pronto; e, assim que ele partir, tornar-me-ei soldado. Sou necessário."
"Fico feliz com isso!" exclamou Meg. "Eu acharia que todo jovem gostaria de ir; embora seja difícil para as mães e irmãs que ficam em casa", acrescentou ela tristemente.
"Não tenho nem uma nem outra, e poucos amigos para se importarem se vivo ou morro", disse o Sr. Brooke, um tanto amargurado, enquanto colocava distraidamente a rosa morta no buraco que havia feito e a cobria, como se fosse uma pequena sepultura.
"Laurie e seu avô se importariam muito, e todos nós ficaríamos muito tristes se algo de mal lhe acontecesse", disse Meg calorosamente.
"Obrigado; isso soa agradável", começou o Sr. Brooke, parecendo alegre novamente; mas, antes que pudesse terminar sua fala, Ned, montado no velho cavalo, veio trotando pesadamente para exibir sua habilidade equestre diante das jovens, e não houve mais sossego naquele dia.
"Você não adora cavalgar?" perguntou Grace a Amy, enquanto estavam paradas descansando, após uma corrida pelo campo com os outros, liderados por Ned.
"Eu adoro; minha irmã Meg costumava cavalgar quando papai era rico, mas não temos cavalos agora, exceto Ellen Tree", acrescentou Amy, rindo.
"Conte-me sobre Ellen Tree; é um burro?" perguntou Grace curiosa.
"Ora, você vê, Jo é louca por cavalos, e eu também, mas só temos uma sela de lado velha e nenhum cavalo. Lá no nosso jardim há uma macieira que tem um galho baixo e bom; então Jo coloca a sela nele, prende umas rédeas na parte que se vira para cima, e nós saltamos em Ellen Tree sempre que queremos."
"Que engraçado!" riu Grace. "Tenho um pônei em casa e cavalgo quase todos os dias no parque com Fred e Kate; é muito bom, porque meus amigos também vão, e o Row fica cheio de damas e cavalheiros."
"Deus, que encantador! Espero viajar para o exterior algum dia; mas eu preferiria ir a Roma do que ao Row", disse Amy, que não tinha a menor ideia do que fosse o Row e não teria perguntado por nada neste mundo.
Frank, sentado logo atrás das meninas, ouviu o que elas diziam e empurrou sua muleta para longe de si com um gesto impaciente, enquanto observava os rapazes ativos realizando todo tipo de ginástica cômica. Beth, que estava recolhendo as cartas de autores espalhadas, olhou para cima e disse, de seu jeito tímido, porém amigável:
"Receio que você esteja cansado; posso fazer algo por você?"
"Converse comigo, por favor; é tedioso ficar sozinho", respondeu Frank, que evidentemente estava acostumado a ser muito paparicado em casa.
Se ele tivesse pedido que ela fizesse uma oração em latim, não teria parecido uma tarefa mais impossível para a tímida Beth; mas não havia lugar para onde correr, nem Jo para se esconder atrás agora, e o pobre rapaz olhava tão melancolicamente para ela que ela bravamente resolveu tentar.
"Sobre o que você gosta de conversar?" perguntou ela, tateando as cartas e deixando cair metade enquanto tentava amarrá-las.
"Bem, gosto de ouvir sobre críquete, remo e caça", disse Frank, que ainda não tinha aprendido a adequar suas diversões à sua força.
"Meu Deus! O que farei? Não sei nada sobre isso", pensou Beth; e, esquecendo-se da desventura do rapaz em seu nervosismo, ela disse, esperando fazê-lo falar: "Nunca vi nenhuma caçada, mas suponho que você saiba tudo a respeito."
"Já soube um dia; mas nunca mais poderei caçar, pois me machuquei ao saltar um maldito portão de cinco barras; portanto, nada de cavalos e cães de caça para mim", disse Frank, com um suspiro que fez Beth odiar a si mesma por sua gafe inocente.
"Seus cervos são muito mais bonitos do que nossos búfalos feios", disse ela, recorrendo às pradarias em busca de ajuda e sentindo-se feliz por ter lido um dos livros dos rapazes nos quais Jo se deliciava.
Os búfalos mostraram-se calmantes e satisfatórios; e, em sua ânsia de divertir o outro, Beth esqueceu-se de si mesma e ficou totalmente alheia à surpresa e ao deleite de suas irmãs diante do espetáculo incomum de Beth conversando com um dos garotos terríveis, contra os quais ela havia implorado proteção.
"Deus a abençoe! Ela tem pena dele, por isso é gentil com ele", disse Jo, irradiando para ela a partir do campo de críquete.
"Sempre disse que ela era uma santinha", acrescentou Meg, como se não pudesse haver mais dúvidas sobre isso.
"Não ouço Frank rir tanto há muito tempo", disse Grace a Amy, enquanto se sentavam para discutir bonecas e fazer jogos de chá de casotas de bolota.
"Minha irmã Beth é uma garota muito exigente quando quer ser", disse Amy, muito satisfeita com o sucesso de Beth. Ela queria dizer "fascinante", mas como Grace não sabia o significado exato de nenhuma das palavras, "exigente" soou bem e causou uma boa impressão.
Um circo improvisado, jogo de raposa e gansos e uma partida amistosa de críquete terminaram a tarde. Ao pôr do sol, a barraca foi desmontada, as cestas arrumadas, os arcos retirados, os barcos carregados, e todo o grupo flutuou rio abaixo, cantando a plenos pulmões. Ned, tornando-se sentimental, entoou uma serenata com o refrão melancólico:
"Sozinho, sozinho, ah! mágoa, sozinho,"
e nos versos:
"Somos todos jovens, cada um tem um coração, Oh, por que deveríamos ficar assim tão friamente separados?"
ele olhou para Meg com uma expressão tão apática que ela riu abertamente e estragou sua canção.
"Como pode ser tão cruel comigo?" sussurrou ele, sob a cobertura de um coro animado. "Você ficou grudada naquela inglesa engomada o dia todo, e agora me despreza."
"Não tive a intenção; mas você parecia tão engraçado que realmente não pude evitar", respondeu Meg, ignorando a primeira parte de sua reprovação; pois era bem verdade que ela o evitara, lembrando-se da festa dos Moffat e da conversa após ela.
Ned ficou ofendido e virou-se para Sallie em busca de consolo, dizendo-lhe de forma um tanto irritada: "Não há um pingo de flerte naquela garota, há?"
"Nem uma partícula; mas ela é uma querida", devolveu Sallie, defendendo a amiga mesmo confessando suas falhas.
"Ela não é um cervo ferido, de qualquer maneira", disse Ned, tentando ser espirituoso, e conseguindo tanto quanto os jovens cavalheiros geralmente conseguem.
No gramado, onde se reunira, o pequeno grupo separou-se com cordiais "boa-noite" e "adeus", pois os Vaughn estavam indo para o Canadá. Enquanto as quatro irmãs voltavam para casa pelo jardim, a Srta. Kate olhou para elas, dizendo, sem o tom condescendente na voz: "Apesar de seus modos expansivos, as garotas americanas são muito agradáveis quando se as conhece."
"Concordo plenamente com você", disse o Sr. Brooke.
XIII.
CASTELOS NO AR.
Laurie estava deitado, balançando-se luxuosamente em sua rede, em uma tarde quente de setembro, imaginando o que seus vizinhos estariam fazendo, mas preguiçoso demais para ir descobrir. Ele estava em um de seus humores; pois o dia fora ao mesmo tempo improdutivo e insatisfatório, e ele desejava poder vivê-lo novamente. O tempo quente o deixava indolente, e ele negligenciara seus estudos, testara a paciência do Sr. Brooke ao máximo, desagradara seu avô ao praticar quase a tarde toda, assustara as criadas quase até perderem o juízo ao sugerir maliciosamente que um de seus cães estava ficando louco e, após uma discussão acalorada com o cavalariço sobre algum suposto descuido com seu cavalo, ele se jogara na rede para se enfurecer com a estupidez do mundo em geral, até que a paz do dia adorável o acalmasse apesar de si mesmo. Olhando para a penumbra verde das castanheiras acima dele, ele sonhava sonhos de todo tipo, e estava justamente imaginando-se balançando no oceano, em uma viagem ao redor do mundo, quando o som de vozes o trouxe de volta à terra num flash. Espiando através das tramas da rede, ele viu as March saindo, como se estivessem destinadas a alguma expedição.
"O que diabos essas garotas estão fazendo agora?" pensou Laurie, abrindo seus olhos sonolentos para dar uma boa olhada, pois havia algo de bastante peculiar na aparência de suas vizinhas. Cada uma usava um chapéu grande e flexível, uma bolsa de linho marrom a tiracolo e carregava um cajado longo. Meg tinha uma almofada, Jo um livro, Beth uma cesta e Amy um portfólio. Todas caminharam silenciosamente pelo jardim, saíram pelo pequeno portão dos fundos e começaram a subir a colina que ficava entre a casa e o rio.
"Bem, isso é legal!" disse Laurie para si mesmo, "fazer um piquenique e nunca me convidar. Elas não podem estar indo de barco, pois não têm a chave. Talvez tenham esquecido; vou levá-la até elas e ver o que está acontecendo."
Embora possuísse meia dúzia de chapéus, levou algum tempo para encontrar um; depois houve uma busca pela chave, que finalmente foi descoberta em seu bolso; de modo que as garotas já estavam fora de vista quando ele saltou a cerca e correu atrás delas. Pegando o caminho mais curto para o galpão dos barcos, ele esperou que elas aparecessem: mas ninguém veio, e ele subiu a colina para fazer uma observação. Um bosque de pinheiros cobria uma parte dela, e do coração deste local verde vinha um som mais claro do que o suspiro suave dos pinheiros ou o chilrear sonolento dos grilos.
"Que paisagem!" pensou Laurie, espiando através dos arbustos e parecendo já bem desperto e bem-humorado.
Era um quadro pequeno e bastante bonito; pois as irmãs sentavam-se juntas no recanto sombreado, com o sol e a sombra tremeluzindo sobre elas, o vento aromático levantando seus cabelos e refrescando suas faces quentes, e todas as pequenas criaturas da floresta seguindo seus negócios como se estas não fossem estranhas, mas velhas amigas. Meg sentava-se sobre sua almofada, costurando delicadamente com suas mãos brancas e parecendo tão fresca e doce quanto uma rosa, em seu vestido rosa, entre o verde. Beth estava separando as pinhas que jaziam espessas sob a cicuta nas proximidades, pois ela fazia coisas bonitas com elas. Amy estava esboçando um grupo de samambaias, e Jo tricotava enquanto lia em voz alta. Uma sombra passou pelo rosto do rapaz enquanto ele as observava, sentindo que deveria ir embora, pois não fora convidado; mas permanecendo, pois a casa parecia muito solitária, e aquele grupo tranquilo nos bosques era muito atraente para seu espírito inquieto. Ele ficou tão imóvel que um esquilo, ocupado com sua colheita, desceu de um pinheiro logo ao lado dele, viu-o de repente e saltou de volta, ralhando tão estridentemente que Beth olhou para cima, avistou o rosto melancólico por trás das bétulas e acenou com um sorriso tranquilizador.
"Posso entrar, por favor? Ou serei um incômodo?" perguntou ele, avançando lentamente.
Meg arqueou as sobrancelhas, mas Jo franziu a testa para ela desafiadoramente e disse, de imediato: "Claro que pode. Teríamos convidado você antes, apenas achamos que não gostaria de um jogo de meninas como este."
"Sempre gostei de seus jogos; mas se Meg não me quer, irei embora."
"Não tenho objeções, se você fizer algo; é contra as regras ficar ocioso aqui", respondeu Meg, grave mas graciosamente.
"Muito obrigado; farei qualquer coisa se me deixarem ficar um pouco, pois lá embaixo é tão tedioso quanto o Deserto do Saara. Devo costurar, ler, juntar pinhas, desenhar ou fazer tudo ao mesmo tempo? Traga seus ursos; estou pronto", e Laurie sentou-se, com uma expressão submissa deliciosa de se ver.
"Termine esta história enquanto eu cerzo meu calcanhar", disse Jo, entregando-lhe o livro.
"Sim, senhora", foi a resposta mansa, enquanto ele começava, fazendo o seu melhor para provar sua gratidão pelo favor de ser admitido na "Sociedade das Abelhas Trabalhadoras".
A história não era longa e, quando terminou, ele se aventurou a fazer algumas perguntas como recompensa de mérito.
"Por favor, senhora, poderia perguntar se esta instituição altamente instrutiva e encantadora é nova?"
"Você vai contar a ele?" perguntou Meg às irmãs.
"Ele vai rir", disse Amy em tom de aviso.
"Quem se importa?" disse Jo.
"Acho que ele vai gostar", acrescentou Beth.
"Claro que vou! Dou minha palavra de que não vou rir. Conte logo, Jo, e não tenha medo."
"A ideia de ter medo de você! Bem, você vê, costumávamos brincar de 'O Peregrino', e temos continuado com isso a sério, durante todo o inverno e verão."
"Sim, eu sei", disse Laurie, acenando sabiamente.
"Quem te contou?" exigiu Jo.
"Espíritos."
"Não, fui eu; eu queria diverti-lo uma noite quando vocês estavam todas fora, e ele estava bastante triste. Ele gostou, então não brigue, Jo", disse Beth docilmente.
"Você não consegue guardar segredo. Não importa; agora poupa o trabalho."
"Continue, por favor", disse Laurie, enquanto Jo ficava absorta em seu trabalho, parecendo um pouco descontente.
"Oh, ela não te contou sobre este nosso novo plano? Bem, temos tentado não desperdiçar nosso feriado, mas cada uma teve uma tarefa e trabalhou nela com vontade. As férias estão quase acabando, as tarefas estão todas feitas, e estamos muito felizes por não termos vadiado."
"Sim, imagino que sim"; e Laurie pensou com pesar em seus próprios dias ociosos.
"Mamãe gosta de nos ter ao ar livre tanto quanto possível; então trazemos nosso trabalho para cá e nos divertimos. Pela diversão, trazemos nossas coisas nestas bolsas, usamos os chapéus velhos, usamos varas para subir a colina e brincamos de peregrinos, como fazíamos anos atrás. Chamamos esta colina de 'Monte Deleitoso', pois podemos olhar para longe e ver o país onde esperamos viver algum dia."
Jo apontou, e Laurie sentou-se para examinar; pois através de uma abertura no bosque era possível ver o largo rio azul, os prados do outro lado, muito além dos arredores da grande cidade, até as colinas verdes que se erguiam para encontrar o céu. O sol estava baixo, e os céus sulcados pelo esplendor de um pôr do sol de outono. Nuvens douradas e púrpuras jaziam sobre os topos das colinas; e, elevando-se alto na luz avermelhada, havia picos brancos prateados, que brilhavam como as agulhas aéreas de alguma Cidade Celestial.
"Como isso é lindo!" disse Laurie suavemente, pois ele era rápido em ver e sentir beleza de qualquer tipo.
"Muitas vezes é assim; e gostamos de observar, pois nunca é o mesmo, mas sempre esplêndido", respondeu Amy, desejando poder pintá-lo.
"Jo fala sobre o país onde esperamos viver algum dia... o país real, ela quer dizer, com porcos, galinhas e colheita de feno. Seria bom, mas eu gostaria que o belo país lá em cima fosse real, e pudéssemos ir até ele algum dia", disse Beth pensativamente.
"Há um país ainda mais adorável do que esse, para onde iremos, mais tarde, quando formos boas o suficiente", respondeu Meg, com sua voz doce.
"Parece tão longo para esperar, tão difícil de fazer; quero voar para longe imediatamente, como aquelas andorinhas voam, e entrar por aquele portão esplêndido."
"Você chegará lá, Beth, mais cedo ou mais tarde; não tenha medo disso", disse Jo; "Sou eu quem terá que lutar, trabalhar, escalar e esperar, e talvez nunca entre, afinal."
"Você terá a mim como companhia, se isso for algum consolo. Terei que viajar muito antes de avistar sua Cidade Celestial. Se eu chegar tarde, você dirá uma boa palavra por mim, não dirá, Beth?"
Algo no rosto do rapaz preocupou sua pequena amiga; mas ela disse alegremente, com seus olhos tranquilos nas nuvens em mudança: "Se as pessoas realmente quiserem ir e realmente tentarem por toda a vida, acho que entrarão; pois não acredito que haja trancas naquela porta, ou guardas no portão. Sempre imagino que seja como na pintura, onde os seres brilhantes estendem as mãos para dar as boas-vindas ao pobre Cristão enquanto ele sai do rio."
"Não seria divertido se todos os castelos no ar que construímos pudessem se tornar realidade e pudéssemos viver neles?" disse Jo, após uma pequena pausa.
"Eu construí tantos que seria difícil escolher qual eu teria", disse Laurie, deitando-se de costas e jogando pinhas no esquilo que o havia traído.
"Você teria que escolher o seu favorito. Qual é?" perguntou Meg.
"Se eu contar o meu, vocês contarão os seus?"
"Sim, se as garotas também contarem."
"Nós contaremos. Agora, Laurie."
"Depois de ter visto o mundo tanto quanto quero, gostaria de me estabelecer na Alemanha e ter toda a música que eu quiser. Quero ser um músico famoso, e toda a criação correrá para me ouvir; e nunca serei incomodado com dinheiro ou negócios, mas apenas aproveitarei a vida e viverei para o que gosto. Esse é meu castelo favorito. Qual é o seu, Meg?"
Margaret pareceu achar um pouco difícil contar o seu e abanou uma samambaia diante do rosto, como se para dispersar mosquitos imaginários, enquanto dizia lentamente: "Eu gostaria de uma casa adorável, cheia de todo tipo de coisas luxuosas... comida boa, roupas bonitas, móveis elegantes, pessoas agradáveis e montes de dinheiro. Serei a dona dela e a administro como quiser, com muitos criados, para que nunca precise trabalhar um pouco sequer. Como eu aproveitaria! Pois eu não seria ociosa, mas faria o bem e faria com que todos me amassem profundamente."
"Você não teria um senhor para seu castelo no ar?" perguntou Laurie astutamente.
"Eu disse 'pessoas agradáveis', sabe;" e Meg amarrou cuidadosamente seu sapato enquanto falava, de modo que ninguém visse seu rosto.
"Por que você não diz que teria um marido esplêndido, sábio e bom, e alguns filhinhos angelicais? Você sabe que seu castelo não seria perfeito sem isso", disse a direta Jo, que ainda não tinha fantasias ternas e desprezava o romance, exceto nos livros.
"Você não teria nada além de cavalos, tinteiros e romances no seu", respondeu Meg petulantemente.
"Não teria, é? Eu teria um estábulo cheio de corcéis árabes, quartos empilhados com livros, e eu escreveria com um tinteiro mágico, de modo que minhas obras fossem tão famosas quanto a música de Laurie. Quero fazer algo esplêndido antes de entrar no meu castelo... algo heroico ou maravilhoso, que não será esquecido depois que eu morrer. Não sei o quê, mas estou à espreita, e pretendo surpreender a todas vocês, um dia. Acho que escreverei livros e ficarei rica e famosa: isso me serviria, então esse é meu sonho favorito."
"O meu é ficar em casa a salvo com papai e mamãe e ajudar a cuidar da família", disse Beth contentemente.
"Você não deseja mais nada?" perguntou Laurie.
"Desde que ganhei meu pequeno piano, estou perfeitamente satisfeita. Só desejo que todas possamos nos manter bem e estar juntas; nada mais."
"Tenho muitos desejos; mas o predileto é ser uma artista, ir a Roma, fazer belas pinturas e ser a melhor artista do mundo inteiro", foi o desejo modesto de Amy.
"Somos um grupo ambicioso, não somos? Cada um de nós, exceto Beth, quer ser rico e famoso, e magnífico em todos os aspectos. Fico a imaginar se algum de nós um dia alcançará seus desejos", disse Laurie, mastigando grama como um bezerro meditativo.
"Eu tenho a chave do meu castelo no ar; mas se serei capaz de abrir a porta, ainda está por se ver", observou Jo misteriosamente.
"Eu tenho a chave do meu, mas não tenho permissão para experimentá-la. Ao diabo com a faculdade!" murmurou Laurie, com um suspiro impaciente.
"Aqui está a minha!" e Amy agitou seu lápis.
"Eu não tenho nenhuma", disse Meg, desolada.
"Sim, você tem", disse Laurie imediatamente.
"Onde?"
"No seu rosto."
"Tolice; isso não serve para nada."
"Espere e veja se não lhe traz algo que valha a pena ter", respondeu o rapaz, rindo ao pensar em um pequeno segredo encantador que ele imaginava conhecer.
Meg corou atrás da samambaia, mas não fez perguntas e olhou através do rio com a mesma expressão expectante que o Sr. Brooke tivera quando contou a história do cavaleiro.
"Se estivermos todos vivos daqui a dez anos, vamos nos encontrar e ver quantos de nós alcançaram seus desejos, ou quão mais perto estamos agora do que antes", disse Jo, sempre pronta com um plano.
"Valha-me Deus! Quão velha eu estarei... vinte e sete!" exclamou Meg, que já se sentia adulta, tendo acabado de completar dezessete anos.
"Você e eu teremos vinte e seis, Teddy, Beth vinte e quatro e Amy vinte e dois. Que grupo venerável!" disse Jo.
"Espero ter feito algo de que me orgulhe até lá; mas sou um cão tão preguiçoso que temo que vou 'vadiar', Jo."
"Você precisa de um motivo, diz a mamãe; e quando você o tiver, ela tem certeza de que trabalhará esplendidamente."
"Ela tem? Por Júpiter, eu trabalharei, se ao menos tiver a chance!" gritou Laurie, sentando-se com energia repentina. "Eu deveria estar satisfeito em agradar ao avô, e eu tento, mas é trabalhar contra a maré, sabe, e torna-se difícil. Ele quer que eu seja um comerciante de especiarias na Índia, como ele foi, e eu prefiro ser baleado. Odeio chá, seda, especiarias e todo tipo de lixo que seus velhos navios trazem, e não me importo quão cedo eles vão para o fundo do mar quando forem meus. Ir para a faculdade deveria satisfazê-lo, pois se eu lhe der quatro anos, ele deveria me liberar dos negócios; mas ele é obstinado, e eu tenho que fazer exatamente como ele fez, a menos que eu me liberte e faça a minha vontade, como meu pai fez. Se restasse alguém para ficar com o velho senhor, eu faria isso amanhã."
Laurie falava com entusiasmo e parecia pronto para colocar sua ameaça em execução sob a menor provocação; pois ele estava crescendo muito rápido e, apesar de seus modos indolentes, tinha o ódio de um jovem pela sujeição, o desejo inquieto de um jovem de experimentar o mundo por si mesmo.
"Aconselho-o a partir em um de seus navios e nunca mais voltar para casa até ter tentado o seu próprio caminho", disse Jo, cuja imaginação era inflamada pelo pensamento de tal façanha ousada, e cuja simpatia era despertada pelo que ela chamava de "injustiças de Teddy".
"Isso não está certo, Jo; você não deve falar desse jeito, e Laurie não deve aceitar seus maus conselhos. Você deve fazer exatamente o que seu avô deseja, meu caro rapaz", disse Meg, em seu tom mais maternal. "Dê o seu melhor na faculdade e, quando ele vir que você tenta agradá-lo, tenho certeza de que ele não será duro ou injusto com você. Como você disse, não há mais ninguém para ficar com ele e amá-lo, e você nunca se perdoaria se o deixasse sem permissão. Não fique sombrio ou preocupado, mas cumpra o seu dever; e você receberá sua recompensa, como o bom Sr. Brooke, sendo respeitado e amado."
"O que você sabe sobre ele?" perguntou Laurie, grato pelo bom conselho, mas objetando à palestra e feliz por desviar a conversa de si mesmo após seu desabafo incomum.
"Apenas o que seu avô nos contou sobre ele... como ele cuidou bem de sua própria mãe até ela falecer e não quis ir para o exterior como tutor de alguma pessoa agradável, porque não queria deixá-la; e como ele provê agora para uma velha que cuidou de sua mãe; e nunca conta a ninguém, mas é tão generoso, paciente e bom quanto pode ser."
"Ele é mesmo, o bom e velho sujeito!" disse Laurie cordialmente, enquanto Meg fazia uma pausa, parecendo corada e sincera com sua história. "É típico do vovô descobrir tudo sobre ele, sem que ele saiba, e contar toda a sua bondade aos outros, para que eles possam gostar dele. Brooke não conseguia entender por que sua mãe era tão gentil com ele, convidando-o para vir comigoe tratando-o de sua maneira linda e amigável. Ele achava que ela era simplesmente perfeita, e falava sobre isso por dias e dias, e não parava de elogiar vocês todas de forma inflamada. Se algum dia eu alcançar meu desejo, você verá o que farei por Brooke."
"Comece a fazer algo agora, não atormentando a vida dele", disse Meg asperamente.
"Como você sabe que eu faço, senhorita?"
"Eu sempre percebo pelo rosto dele quando ele vai embora. Se você foi bom, ele parece satisfeito e caminha com vivacidade; se você o atormentou, ele fica sóbrio e caminha lentamente, como se quisesse voltar e fazer seu trabalho melhor."
"Bem, eu gostei disso! Então você mantém uma contabilidade dos meus pontos bons e ruins no rosto de Brooke, é isso? Eu o vejo se curvar e sorrir quando ele passa pela sua janela, mas não sabia que você tinha montado um telégrafo."
"Nós não montamos; não fique bravo, e oh, não diga a ele que eu disse alguma coisa! Foi apenas para mostrar que eu me importo com o seu progresso, e o que é dito aqui é dito em confiança, você sabe", gritou Meg, muito alarmada com o pensamento do que poderia resultar de seu discurso descuidado.
"Eu não conto histórias", respondeu Laurie, com seu ar "altivo e poderoso", como Jo chamava certa expressão que ele ocasionalmente usava. "Apenas se Brooke vai ser um termômetro, devo tomar cuidado para ter bom tempo para ele relatar."
"Por favor, não fique ofendido. Eu não quis pregar sermões, contar histórias ou ser boba; eu apenas pensei que Jo estava encorajando você em um sentimento pelo qual você se arrependeria, logo mais. Você é tão gentil conosco, sentimos como se você fosse nosso irmão, e dizemos exatamente o que pensamos. Perdoe-me, eu disse isso por bondade." E Meg ofereceu a mão com um gesto afetuoso e tímido.
Envergonhado por seu momento de irritação, Laurie apertou a mãozinha gentil e disse francamente: "Eu sou o que deve ser perdoado; estou mal-humorado e indisposto o dia todo. Gosto que você me diga meus defeitos e seja fraterna, então não se importe se eu estiver ranzinza às vezes; agradeço-lhe do mesmo jeito."
Determinado a mostrar que não estava ofendido, ele se tornou o mais agradável possível — enrolou algodão para Meg, recitou poesia para agradar Jo, derrubou pinhas para Beth e ajudou Amy com suas samambaias, provando ser uma pessoa apta a pertencer à "Sociedade da Abelha Ocupada". No meio de uma discussão animada sobre os hábitos domésticos das tartarugas (uma daquelas criaturas amáveis tendo passeado rio acima), o som fraco de um sino avisou-os de que Hannah tinha posto o chá "para infusionar", e eles teriam apenas tempo de chegar em casa para o jantar.
"Posso vir de novo?" perguntou Laurie.
"Sim, se você for bom e amar seu livro, como os meninos na cartilha são instruídos a fazer", disse Meg, sorrindo.
"Vou tentar."
"Então você pode vir, e eu lhe ensinarei a tricotar como fazem os escoceses; há uma demanda por meias agora mesmo", acrescentou Jo, agitando as suas, como uma grande bandeira de lã azul, enquanto se separavam no portão.
Naquela noite, quando Beth tocou para o Sr. Laurence no crepúsculo, Laurie, parado na sombra da cortina, ouvia o pequeno Davi, cuja música simples sempre acalmava seu espírito instável, e observava o velho, que se sentava com a cabeça grisalha sobre a mão, pensando pensamentos ternos sobre a criança morta que ele amara tanto. Lembrando-se da conversa da tarde, o rapaz disse a si mesmo, com a resolução de fazer o sacrifício alegremente: "Vou deixar meu castelo ir e ficar com o querido velho senhor enquanto ele precisar de mim, pois eu sou tudo o que ele tem."
XIV.
SEGREDOS.
Jo estava muito ocupada no sótão, pois os dias de outubro começavam a ficar frios e as tardes eram curtas. Por duas ou três horas, o sol incidia calorosamente na janela alta, mostrando Jo sentada no sofá velho, escrevendo ativamente, com seus papéis espalhados sobre um baú diante dela, enquanto Scrabble, o rato de estimação, passeava pelas vigas acima, acompanhado por seu filho mais velho, um belo jovem que era evidentemente muito orgulhoso de seus bigodes. Completamente absorta em seu trabalho, Jo rabiscava até que a última página estivesse preenchida, quando assinou seu nome com um floreio e jogou a caneta, exclamando:
"Pronto, fiz o meu melhor! Se isso não servir, terei que esperar até poder fazer melhor."
Deitando-se no sofá, ela leu o manuscrito cuidadosamente, fazendo traços aqui e ali, e colocando muitos pontos de exclamação, que pareciam pequenos balões; então ela o amarrou com uma fita vermelha elegante e ficou um minuto olhando para ele com uma expressão sóbria e melancólica, que mostrava claramente quão sério fora seu trabalho. A escrivaninha de Jo ali em cima era uma velha cozinha de lata, que pendia na parede. Nela, ela guardava seus papéis e alguns livros, protegidos de Scrabble, que, sendo também de inclinação literária, gostava de transformar os livros que ficavam em seu caminho em uma biblioteca circulante, comendo as folhas. Desse receptáculo de lata, Jo produziu outro manuscrito; e, colocando ambos no bolso, desceu silenciosamente as escadas, deixando seus amigos roerem suas canetas e provarem sua tinta.
Ela colocou seu chapéu e jaqueta o mais silenciosamente possível e, indo até a janela da entrada dos fundos, saiu para o telhado de uma varanda baixa, balançou-se até o banco gramado e tomou um caminho indireto para a estrada. Uma vez lá, ela se recompôs, chamou um ônibus que passava e partiu para a cidade, parecendo muito alegre e misteriosa.
Se alguém a estivesse observando, teria achado seus movimentos decididamente peculiares; pois, ao descer, ela saiu em grande velocidade até chegar a um certo número em uma certa rua movimentada; tendo encontrado o lugar com certa dificuldade, entrou na porta, olhou para as escadas sujas e, depois de ficar parada um minuto, mergulhou repentinamente na rua e saiu caminhando tão rapidamente quanto viera. Essa manobra ela repetiu várias vezes, para grande diversão de um jovem de olhos negros que descansava na janela de um prédio em frente. Ao retornar pela terceira vez, Jo se sacudiu, puxou o chapéu sobre os olhos e subiu as escadas, parecendo que ia arrancar todos os seus dentes.
Havia uma placa de dentista, entre outras, que adornava a entrada e, depois de olhar um momento para o par de mandíbulas artificiais que se abriam e fechavam lentamente para chamar a atenção para um belo conjunto de dentes, o jovem colocou seu casaco, pegou seu chapéu e foi postar-se na porta oposta, dizendo, com um sorriso e um calafrio:
"É típico dela vir sozinha, mas se ela passar por um mau momento, precisará de alguém para ajudá-la a voltar para casa."
Em dez minutos, Jo desceu as escadas correndo com o rosto muito vermelho e a aparência geral de uma pessoa que acabara de passar por uma provação difícil de algum tipo. Quando viu o jovem, ela não pareceu nada satisfeita e passou por ele com um aceno; mas ele a seguiu, perguntando com um ar de simpatia:
"Você passou por um mau momento?"
"Não muito."
"Você terminou rapidamente."
"Sim, graças a Deus!"
"Por que você foi sozinha?"
"Não queria que ninguém soubesse."
"Você é a criatura mais estranha que já vi. Quantos você tirou?"
Jo olhou para seu amigo como se não o entendesse; então começou a rir, como se estivesse muito divertida com algo.
"Há dois que eu quero tirar, mas devo esperar uma semana."
"Do que você está rindo? Você está tramando alguma travessura, Jo", disse Laurie, parecendo confuso.
"Você também. O que você estava fazendo, senhor, naquele salão de bilhar?"
"Peço perdão, senhorita, não era um salão de bilhar, mas um ginásio, e eu estava tendo uma aula de esgrima."
"Fico feliz com isso."
"Por quê?"
"Você pode me ensinar, e então, quando encenarmos Hamlet, você pode ser Laertes, e faremos uma bela cena de esgrima."
Laurie soltou uma risada saudável de rapaz, que fez vários transeuntes sorrirem apesar de si mesmos.
"Eu vou te ensinar, quer encenemos Hamlet ou não; é muito divertido e vai endireitá-la perfeitamente. Mas não acredito que essa foi sua única razão para dizer 'fico feliz' daquela maneira decidida; foi, ou não?"
"Não, eu fiquei feliz por você não estar no salão, porque espero que você nunca vá a esses lugares. Você vai?"
"Não com frequência."
"Eu gostaria que você não fosse."
"Não há mal nenhum, Jo. Tenho bilhar em casa, mas não tem graça a menos que você tenha bons jogadores; então, como gosto disso, venho às vezes e jogo uma partida com Ned Moffat ou alguns dos outros rapazes."
"Oh, céus, sinto muito, pois você vai começar a gostar cada vez mais, e vai perder tempo e dinheiro, e ficar parecido com aqueles meninos terríveis. Eu esperava que você continuasse respeitável e fosse uma satisfação para seus amigos", disse Jo, balançando a cabeça.
"Um rapaz não pode ter um pouco de diversão inocente de vez em quando sem perder sua respeitabilidade?" perguntou Laurie, parecendo irritado.
"Isso depende de como e onde ele a tem. Eu não gosto de Ned e seu grupo, e gostaria que você ficasse longe deles. A mamãe não nos deixa recebê-lo em nossa casa, embora ele queira vir; e se você ficar parecido com ele, ela não estará disposta a nos deixar brincar juntos como fazemos agora."
"Não estará?" perguntou Laurie ansiosamente.
"Não, ela não suporta jovens da moda, e ela nos fecharia em caixas de chapéu em vez de nos deixar associar a eles."
"Bem, ela não precisa tirar suas caixas de chapéu ainda; eu não sou um membro da turma da moda, e não pretendo ser; mas eu gosto de brincadeiras inofensivas de vez em quando, você não gosta?"
"Sim, ninguém se importa com elas, então brinque à vontade, mas não fique selvagem, tá bom? Ou haverá um fim para todos os nossos bons momentos."
"Serei um santo destilado em dobro."
"Eu não suporto santos: apenas seja um rapaz simples, honesto e respeitável, e nós nunca o abandonaremos. Não sei o que eu faria se você agisse como o filho do Sr. King; ele tinha muito dinheiro, mas não sabia como gastá-lo, ficou bêbado, jogou, fugiu, falsificou o nome do pai, acredito eu, e era totalmente horrível."
"Você acha que é provável que eu faça o mesmo? Muito obrigada."
"Não, eu não acho — oh, céus, não! — mas ouço as pessoas falando sobre o dinheiro ser uma tentação tão grande, e às vezes gostaria que você fosse pobre; eu não me preocuparia então."
"Você se preocupa comigo, Jo?"
"Um pouco, quando você parece mal-humorado ou descontente, como às vezes parece; pois você tem uma vontade tão forte, se uma vez começar errado, temo que seria difícil impedi-lo."
Laurie caminhou em silêncio por alguns minutos, e Jo o observou, desejando ter segurado a língua, pois seus olhos pareciam zangados, embora seus lábios ainda sorrissem como se estivessem diante de suas advertências.
"Você vai fazer palestras durante todo o caminho para casa?" ele perguntou logo depois.
"Claro que não; por quê?"
"Porque se for, pegarei um ônibus; se não for, eu gostaria de caminhar com você e lhe contar algo muito interessante."
"Não vou mais pregar sermões, e adoraria ouvir as novidades."
"Muito bem, então; venha. É um segredo, e se eu lhe contar, você deve me contar o seu."
"Eu não tenho nenhum", começou Jo, mas parou de repente, lembrando-se de que tinha.
"Você sabe que tem... você não consegue esconder nada; então confesse, ou eu não vou contar", gritou Laurie.
"Seu segredo é bom?"
"Oh, não é! É tudo sobre pessoas que você conhece, e tão divertido! Você deveria ouvir, e estou morrendo de vontade de contar isso há muito tempo. Vamos, comece você."
"Você não vai dizer nada sobre isso em casa, vai?"
"Nem uma palavra."
"E você não vai me provocar em particular?"
"Eu nunca provoco."
"Sim, você provoca; você consegue tudo o que quer das pessoas. Não sei como você faz isso, mas você é um sedutor nato."
"Obrigada; despeje."
"Bem, deixei duas histórias com um homem de jornal, e ele dará sua resposta na próxima semana", sussurrou Jo no ouvido de seu confidente.
"Viva a Srta. March, a célebre escritora americana!" gritou Laurie, jogando seu chapéu para cima e pegando-o novamente, para grande deleite de dois patos, quatro gatos, cinco galinhas e meia dúzia de crianças irlandesas; pois já estavam fora da cidade.
"Shiu! Não vai dar em nada, creio eu; mas eu não conseguia descansar até ter tentado, e não disse nada sobre isso, porque não queria que mais ninguém ficasse desapontado."
"Não vai falhar. Ora, Jo, suas histórias são obras de Shakespeare, comparadas a metade do lixo que é publicado todos os dias. Não será divertido vê-las impressas; e não nos sentiremos orgulhosos de nossa escritora?"
Os olhos de Jo brilharam, pois é sempre agradável ser acreditada; e o elogio de um amigo é sempre mais doce do que uma dúzia de notas de jornal.
"Onde está seu segredo? Jogue limpo, Teddy, ou nunca mais acreditarei em você", disse ela, tentando extinguir as esperanças brilhantes que explodiam com uma palavra de encorajamento.
"Posso me meter em uma enrascada por contar; mas não prometi não contar, então contarei, pois nunca me sinto tranquilo até ter lhe contado qualquer novidade interessante que recebo. Eu sei onde está a luva de Meg."
"É só isso?" disse Jo, parecendo desapontada, enquanto Laurie assentia e brilhava, com um rosto cheio de inteligência misteriosa.
"É o suficiente por enquanto, como você concordará quando eu lhe disser onde ela está."
"Conte, então."
Laurie inclinou-se e sussurrou três palavras no ouvido de Jo, o que produziu uma mudança cômica. Ela ficou parada e olhou para ele por um minuto, parecendo surpresa e descontente, então seguiu caminhando, dizendo asperamente: "Como você sabe?"
"Vi."
"Onde?"
"No bolso."
"Todo esse tempo?"
"Sim; não é romântico?"
"Não, é horrível."
"Você não gostou?"
"Claro que não. É ridículo; isso não será permitido. Pela minha paciência! o que Meg diria?"
"Você não deve contar a ninguém; lembre-se disso."
"Eu não prometi."
"Isso estava implícito, e eu confiei em você."
"Bem, eu não vou por enquanto, de qualquer maneira; mas estou desgostosa e gostaria que você não tivesse me contado."
"Pensei que você ficaria satisfeita."
"Com a ideia de alguém vir para levar Meg embora? Não, obrigada."
"Você se sentirá melhor sobre isso quando alguém vier para levar você embora."
"Eu gostaria de ver alguém tentar", gritou Jo ferozmente.
"Eu também!" e Laurie riu da ideia.
"Não acho que segredos combinam comigo; sinto-me perturbada desde que você me contou isso", disse Jo, um tanto ingrata.
"Corra esta colina comigo, e você ficará bem", sugeriu Laurie.
Ninguém estava à vista; a estrada suave declinava convidativamente diante dela; e achando a tentação irresistível, Jo disparou, logo deixando chapéu e pente para trás e espalhando grampos de cabelo enquanto corria. Laurie chegou ao objetivo primeiro, e ficou bastante satisfeito com o sucesso de seu tratamento; pois sua Atalanta veio ofegante, com cabelos ao vento, olhos brilhantes, bochechas rosadas e nenhum sinal de insatisfação em seu rosto.
"Eu queria ser um cavalo; então eu poderia correr por milhas neste ar esplêndido e não perder o fôlego. Foi ótimo; mas veja que figura isso me fez. Vá, pegue minhas coisas, como o querubim que você é", disse Jo, deixando-se cair sob uma árvore de bordo, que forrava o banco com folhas carmesim.
Laurie partiu calmamente para recuperar o objeto perdido, e Jo prendeu suas tranças, esperando que ninguém passasse por ali até que estivesse apresentável novamente. Mas alguém passou, e quem haveria de ser senão Meg, parecendo particularmente elegante em seu traje de gala e passeio, pois estivera fazendo visitas.
"O que, em nome dos céus, você está fazendo aqui?" perguntou ela, observando sua irmã desgrenhada com uma surpresa bem-educada.
"Apanhando folhas", respondeu Jo docilmente, separando o punhado rosado que acabara de juntar.
"E grampos de cabelo", acrescentou Laurie, jogando meia dúzia no colo de Jo. "Eles crescem nesta estrada, Meg; assim como pentes e chapéus de palha marrom."
"Você esteve correndo, Jo; como pôde? Quando você vai parar com essas maneiras de moleca?" disse Meg em tom de censura, enquanto ajeitava os punhos e alisava o cabelo, com o qual o vento tomara liberdades.
"Nunca, até que eu esteja rígida e velha, e precise usar uma muleta. Não tente me fazer crescer antes da hora, Meg: já é difícil o bastante ter você mudando de repente; deixe-me ser uma garotinha enquanto puder."
Enquanto falava, Jo curvou-se sobre as folhas para esconder o tremor de seus lábios; pois ultimamente sentia que Margaret estava rapidamente tornando-se uma mulher, e o segredo de Laurie a fazia temer a separação que certamente viria algum dia, e que agora parecia muito próxima. Ele viu a aflição no rosto dela e desviou a atenção de Meg perguntando rapidamente: "Onde você esteve visitando, tão elegante?"
"Na casa dos Gardiner, e Sallie esteve me contando tudo sobre o casamento de Belle Moffat. Foi muito esplêndido, e eles foram passar o inverno em Paris. Pense só em como deve ser encantador!"
"Você a inveja, Meg?" disse Laurie.
"Receio que sim."
"Fico feliz com isso!" murmurou Jo, amarrando o chapéu com um puxão.
"Por quê?" perguntou Meg, parecendo surpresa.
"Porque se você se importa tanto com riquezas, nunca irá se casar com um homem pobre", disse Jo, franzindo a testa para Laurie, que a avisava silenciosamente para ter cuidado com o que dizia.
"Eu nunca 'irei me casar' com ninguém", observou Meg, caminhando com grande dignidade, enquanto os outros a seguiam, rindo, sussurrando, saltando pedras e "comportando-se como crianças", como Meg dizia a si mesma, embora pudesse ter ficado tentada a juntar-se a eles se não estivesse com seu melhor vestido.
Por uma ou duas semanas, Jo comportou-se de forma tão estranha que suas irmãs ficaram completamente intrigadas. Ela corria para a porta quando o carteiro tocava; era grosseira com o Sr. Brooke sempre que se encontravam; sentava-se a olhar para Meg com um rosto desolado, ocasionalmente levantando-se para sacudi-la, e depois beijá-la, de uma maneira muito misteriosa; Laurie e ela estavam sempre fazendo sinais um ao outro e falando sobre "Águias Abertas", até que as moças declararam que ambos haviam perdido o juízo. No segundo sábado depois que Jo saiu pela janela, Meg, enquanto estava sentada costurando em sua janela, ficou escandalizada ao ver Laurie perseguindo Jo por todo o jardim e, finalmente, capturando-a no caramanchão de Amy. O que aconteceu lá, Meg não pôde ver; mas gritos de riso foram ouvidos, seguidos pelo murmúrio de vozes e um grande agitar de jornais.
"O que vamos fazer com essa menina? Ela nunca vai se comportar como uma jovem dama", suspirou Meg, enquanto observava a perseguição com um rosto de desaprovação.
"Espero que não; ela é tão engraçada e querida como é", disse Beth, que nunca revelara que se sentia um pouco magoada por Jo ter segredos com qualquer pessoa que não fosse ela.
"É muito cansativo, mas nunca conseguiremos torná-la *comme il faut*", acrescentou Amy, que estava sentada fazendo alguns babados novos para si mesma, com seus cachos presos de uma maneira muito atraente — duas coisas agradáveis que a faziam sentir-se incomumente elegante e distinta.
Em poucos minutos, Jo saltou para dentro, deitou-se no sofá e fingiu ler.
"Você tem algo interessante aí?" perguntou Meg, com condescendência.
"Nada além de uma história; não deve ser grande coisa, eu acho", respondeu Jo, mantendo cuidadosamente o nome do jornal fora de vista.
"É melhor você ler em voz alta; isso nos divertirá e manterá você longe de travessuras", disse Amy, em seu tom mais adulto.
"Qual é o nome?" perguntou Beth, imaginando por que Jo mantinha o rosto atrás da folha.
"Os Pintores Rivais."
"Isso soa bem; leia", disse Meg.
Com um sonoro "Hem!" e um longo suspiro, Jo começou a ler muito rápido. As irmãs ouviram com interesse, pois o conto era romântico e um tanto patético, já que a maioria dos personagens morria no final.
"Gostei daquela parte sobre o quadro esplêndido", foi o comentário de aprovação de Amy, quando Jo fez uma pausa.
"Prefiro a parte do romance. Viola e Angelo são dois de nossos nomes favoritos; não é estranho?" disse Meg, enxugando os olhos, pois a "parte do romance" era trágica.
"Quem escreveu?" perguntou Beth, que dera uma espiada no rosto de Jo.
A leitora sentou-se de repente, jogou o jornal de lado, exibindo um rosto corado e, com uma mistura engraçada de solenidade e excitação, respondeu em voz alta: "Sua irmã."
"Você?" gritou Meg, deixando o trabalho cair.
"É muito bom", disse Amy criticamente.
"Eu sabia! Eu sabia! Oh, minha Jo, estou tão orgulhosa!" e Beth correu para abraçar a irmã e exultar com este esplêndido sucesso.
Meu Deus, como todas ficaram encantadas, com certeza! Como Meg não acreditou até ver as palavras, "Srta. Josephine March", realmente impressas no jornal; como Amy criticou graciosamente as partes artísticas da história e ofereceu sugestões para uma continuação, o que infelizmente não poderia ser realizado, já que o herói e a heroína estavam mortos; como Beth ficou excitada, saltou e cantou de alegria; como Hannah entrou para exclamar "Santo Deus, eu nunca!", com grande espanto com "as coisas daquela Jo"; como a Sra. March ficou orgulhosa quando soube; como Jo riu, com lágrimas nos olhos, ao declarar que ela poderia muito bem ser um pavão e acabar logo com isso; e como o "Spread Eagle" poderia ser dito agitar suas asas triunfalmente sobre a Casa March, enquanto o jornal passava de mão em mão.
"Conte-nos tudo sobre isso." "Quando apareceu?" "Quanto você ganhou por isso?" "O que o papai vai dizer?" "Laurie não vai rir?" gritava a família, toda ao mesmo tempo, enquanto se reuniam em torno de Jo; pois essas pessoas tolas e afetuosas faziam um jubileu de cada pequena alegria doméstica.
"Parem de tagarelar, meninas, e eu contarei tudo", disse Jo, imaginando se a Srta. Burney se sentia mais grandiosa com sua "Evelina" do que ela com seus "Pintores Rivais". Tendo contado como dispôs de seus contos, Jo acrescentou: "E quando fui buscar minha resposta, o homem disse que gostou de ambos, mas não pagava a iniciantes, apenas deixava que publicassem em seu jornal e comentava as histórias. Era um bom treino, ele disse; e quando os iniciantes melhorassem, qualquer um pagaria. Então deixei que ele ficasse com as duas histórias, e hoje isto me foi enviado, e Laurie me pegou com ele, e insistiu em ver, então deixei; e ele disse que era bom, e eu vou escrever mais, e ele vai conseguir pagamento pela próxima, e estou tão feliz, pois com o tempo poderei me sustentar e ajudar as meninas."
O fôlego de Jo acabou aqui; e, envolvendo sua cabeça no jornal, ela banhou sua pequena história com algumas lágrimas naturais; pois ser independente e ganhar o elogio daqueles que amava eram os desejos mais profundos de seu coração, e este parecia ser o primeiro passo em direção a esse fim feliz.
XV.
UM TELEGRAMA.
"Novembro é o mês mais desagradável de todo o ano", disse Margaret, parada à janela em uma tarde monótona, olhando para o jardim castigado pela geada.
"Essa é a razão pela qual nasci nele", observou Jo pensativamente, totalmente inconsciente da mancha em seu nariz.
"Se algo muito agradável acontecesse agora, acharíamos que é um mês encantador", disse Beth, que via tudo com esperança, até mesmo novembro.
"Eu diria que sim; mas nunca acontece nada agradável nesta família", disse Meg, que não estava de bom humor. "Vivemos labutando dia após dia, sem uma pitada de mudança, e com muito pouca diversão. Poderíamos muito bem estar em uma roda de moinho."
"Paciência, como estamos tristes!" gritou Jo. "Não me admira muito, pobre querida, pois você vê outras garotas tendo momentos esplêndidos, enquanto você rala, rala, ano após ano. Oh, será que não queria que eu pudesse gerenciar as coisas para você como faço para minhas heroínas? Você já é bonita o suficiente e boa o suficiente, então eu faria com que algum parente rico lhe deixasse uma fortuna inesperadamente; então você sairia como uma herdeira, desprezaria a todos que a menosprezaram, iria para o exterior e voltaria como minha Lady Alguma Coisa, em um brilho de esplendor e elegância."
"As pessoas não recebem fortunas deixadas para elas nesse estilo hoje em dia; os homens precisam trabalhar, e as mulheres se casar por dinheiro. É um mundo terrivelmente injusto", disse Meg amargamente.
"Jo e eu vamos fazer fortunas para todas vocês; espere apenas dez anos, e veja se não vamos", disse Amy, que estava sentada em um canto, fazendo tortas de lama, como Hannah chamava seus pequenos modelos de barro de pássaros, frutas e rostos.
"Não posso esperar, e receio não ter muita fé em tinta e sujeira, embora seja grata por suas boas intenções."
Meg suspirou e voltou-se para o jardim castigado pela geada novamente; Jo gemeu e apoiou ambos os cotovelos na mesa em uma atitude desanimada, mas Amy batia no barro energeticamente; e Beth, que estava sentada na outra janela, disse, sorrindo: "Duas coisas agradáveis vão acontecer logo: Marmee está vindo pela rua, e Laurie está marchando pelo jardim como se tivesse algo bom a contar."
Ambos entraram, a Sra. March com sua pergunta habitual: "Alguma carta do papai, meninas?" e Laurie para dizer em seu jeito persuasivo: "Alguma de vocês virá para um passeio? Tenho trabalhado em matemática até que minha cabeça está uma confusão, e vou refrescar meu juízo com uma volta rápida. É um dia monótono, mas o ar não está ruim, e vou levar Brooke para casa, então será alegre lá dentro, se não for lá fora. Vamos, Jo, você e Beth irão, não vão?"
"Claro que iremos."
"Muito obrigada, mas estou ocupada"; e Meg pegou seu cesto de costura, pois concordara com a mãe que era melhor, pelo menos para ela, não passear com frequência com o jovem cavalheiro.
"Nós três estaremos prontas em um minuto", gritou Amy, correndo para lavar as mãos.
"Posso fazer algo pela senhora, Mamãe?" perguntou Laurie, debruçando-se sobre a cadeira da Sra. March, com o olhar e o tom afetuosos que sempre lhe dedicava.
"Não, obrigada, exceto passar no escritório, se for tão gentil, querido. É o nosso dia de receber carta, e o carteiro não passou. Papai é tão regular quanto o sol, mas talvez haja algum atraso no caminho."
Um toque agudo interrompeu-a, e um minuto depois Hannah entrou com uma carta.
"É uma daquelas coisas horríveis de telegrama, madame", disse ela, entregando-a como se tivesse medo de que explodisse e causasse algum dano.
Ao ouvir a palavra "telegrama", a Sra. March agarrou-a, leu as duas linhas que continha e caiu de volta em sua cadeira tão branca como se o pequeno papel tivesse enviado uma bala ao seu coração. Laurie correu escada abaixo em busca de água, enquanto Meg e Hannah a sustentavam, e Jo leu em voz alta, com uma voz assustada:
"SRA. MARCH:
"Seu marido está muito doente. Venha imediatamente. "S. HALE, "Hospital Blank, Washington"
Como o quarto ficou silencioso enquanto ouviam sem fôlego, como o dia escureceu estranhamente lá fora, e como o mundo inteiro pareceu mudar subitamente, enquanto as garotas se reuniam em torno de sua mãe, sentindo como se toda a felicidade e apoio de suas vidas estivessem prestes a ser tirados delas. A Sra. March logo recuperou a compostura; leu a mensagem novamente e estendeu os braços para suas filhas, dizendo, em um tom que elas nunca esqueceram: "Vou imediatamente, mas pode ser tarde demais. Oh, crianças, crianças, ajudem-me a suportar isso!"
Por vários minutos não houve nada além do som de soluços no quarto, misturado com palavras interrompidas de conforto, ternas garantias de ajuda e sussurros esperançosos que morriam em lágrimas. A pobre Hannah foi a primeira a se recuperar e, com sabedoria inconsciente, deu um bom exemplo a todas as outras; pois, para ela, o trabalho era a panaceia para a maioria das aflições.
"Que o Senhor guarde o homem querido! Não vou perder tempo chorando, mas vou deixar suas coisas prontas imediatamente, madame", disse ela, calorosamente, enquanto limpava o rosto em seu avental, deu à sua patroa um aperto de mão caloroso com sua própria mão calejada e saiu para trabalhar como três mulheres em uma.
"Ela tem razão; não há tempo para lágrimas agora. Fiquem calmas, meninas, e deixem-me pensar."
Elas tentaram ficar calmas, as pobres, enquanto sua mãe se sentava, parecendo pálida, mas firme, e deixava de lado sua dor para pensar e planejar por elas.
"Onde está Laurie?" perguntou ela logo depois, quando reuniu seus pensamentos e decidiu sobre os primeiros deveres a serem feitos.
"Aqui, senhora. Oh, deixe-me fazer algo!" gritou o rapaz, apressando-se do quarto ao lado, para onde se retirara, sentindo que o primeiro sofrimento delas era sagrado demais para até mesmo seus olhos amigos verem.
"Envie um telegrama dizendo que irei imediatamente. O próximo trem sai cedo pela manhã. Vou pegar esse."
"O que mais? Os cavalos estão prontos; posso ir a qualquer lugar, fazer qualquer coisa", disse ele, parecendo pronto para voar até os confins da terra.
"Deixe um bilhete na casa da Tia March. Jo, dê-me aquele papel e caneta."
Rasgando o lado em branco de uma de suas páginas recém-copiadas, Jo puxou a mesa para perto de sua mãe, sabendo muito bem que o dinheiro para a longa e triste viagem precisava ser emprestado, e sentindo como se pudesse fazer qualquer coisa para acrescentar um pouco à quantia para seu pai.
"Agora vá, querido; mas não se mate dirigindo em um ritmo desesperado; não há necessidade disso."
O aviso da Sra. March foi evidentemente desperdiçado; pois, cinco minutos depois, Laurie passou pela janela em seu próprio cavalo veloz, cavalgando como se fosse por sua vida.
"Jo, corra aos quartos e diga à Sra. King que não posso ir. No caminho, pegue estas coisas. Vou anotá-las; serão necessárias, e devo ir preparada para enfermagem. Os estoques do hospital nem sempre são bons. Beth, vá pedir ao Sr. Laurence algumas garrafas de vinho antigo: não sou orgulhosa demais para mendigar pelo papai; ele terá o melhor de tudo. Amy, diga a Hannah para tirar o baú preto; e, Meg, venha me ajudar a encontrar minhas coisas, pois estou meio confusa."
Escrever, pensar e dirigir, tudo ao mesmo tempo, poderia muito bem confundir a pobre senhora, e Meg implorou que ela se sentasse calmamente em seu quarto por um tempo e as deixasse trabalhar. Todas se espalharam como folhas diante de uma rajada de vento; e o lar quieto e feliz foi desfeito tão repentinamente como se o papel tivesse sido um feitiço maligno.
O Sr. Laurence veio correndo de volta com Beth, trazendo todo conforto que o bom e velho cavalheiro pôde imaginar para o inválido, e as promessas mais amigáveis de proteção para as meninas durante a ausência da mãe, o que a confortou muito. Não houve nada que ele não ofereceu, desde seu próprio roupão de banho até ele mesmo como escolta. Mas isso último era impossível. A Sra. March não quis ouvir falar de o velho cavalheiro empreender a longa viagem; no entanto, uma expressão de alívio era visível quando ele falava sobre isso, pois a ansiedade não combina com alguém para viajar. Ele viu o olhar, franziu as sobrancelhas pesadas, esfregou as mãos e marchou abruptamente, dizendo que voltaria logo. Ninguém teve tempo de pensar nele novamente até que, enquanto Meg corria pelo corredor, com um par de galochas em uma mão e uma xícara de chá na outra, ela se deparou subitamente com o Sr. Brooke.
"Sinto muito ao saber disso, Srta. March", disse ele, no tom gentil e calmo que soava muito agradavelmente ao seu espírito perturbado. "Vim oferecer-me como escolta para sua mãe. O Sr. Laurence tem comissões para mim em Washington, e me dará real satisfação ser de serviço a ela lá."
As galochas caíram, e o chá quase seguiu o mesmo destino, quando Meg estendeu a mão, com um rosto tão cheio de gratidão que o Sr. Brooke teria se sentido recompensado por um sacrifício muito maior do que o insignificante de tempo e conforto que estava prestes a fazer.
"Como vocês todos são gentis! Mamãe aceitará, tenho certeza; e será um grande alívio saber que ela tem alguém para cuidar dela. Obrigada, muito, muito obrigada!"
Meg falou seriamente e esqueceu-se completamente de si mesma até que algo nos olhos castanhos olhando para ela a fez lembrar do chá esfriando, e guiar o caminho para a sala, dizendo que chamaria sua mãe.
Tudo estava arranjado quando Laurie retornou com um bilhete da Tia March, incluindo a quantia desejada, e algumas linhas repetindo o que ela já dissera muitas vezes antes — que sempre lhes dissera que era um absurdo March ir para o exército, sempre previra que nada de bom viria disso, e esperava que elas seguissem seu conselho na próxima vez. A Sra. March colocou o bilhete no fogo, o dinheiro na bolsa e continuou com seus preparativos, com os lábios cerrados, de uma maneira que Jo teria entendido se estivesse lá.
A curta tarde passou; todas as outras tarefas foram feitas, e Meg e sua mãe ocupadas com algum trabalho de agulha necessário, enquanto Beth e Amy preparavam o chá, e Hannah terminava de passar a ferro com o que ela chamava de um "tapa e um estrondo", mas Jo ainda não aparecia. Começaram a ficar ansiosas; e Laurie saiu para procurá-la, pois ninguém nunca sabia que estranheza poderia passar pela cabeça de Jo. Ele a perdeu, porém, e ela entrou caminhando com uma expressão de rosto muito estranha, pois havia uma mistura de diversão e medo, satisfação e arrependimento, que intrigava a família tanto quanto o rolo de notas que ela colocou diante de sua mãe, dizendo, com um pequeno nó na garganta: "Essa é minha contribuição para tornar o papai confortável e trazê-lo para casa!"
"Minha querida, onde você conseguiu isso? Vinte e cinco dólares! Jo, espero que você não tenha feito nada imprudente?"
"Não, é meu honestamente; não mendiguei, peguei emprestado nem roubei. Eu ganhei; e não acho que você vai me culpar, pois apenas vendi o que era meu."
Enquanto falava, Jo tirou o chapéu, e um clamor geral surgiu, pois todo o seu cabelo abundante estava cortado curto.
"Seu cabelo! Seu lindo cabelo!" "Oh Jo, como você pôde? Sua única beleza." "Minha querida menina, não havia necessidade disso." "Ela não parece mais minha Jo, mas eu a amo muito por isso!"
Como todas exclamavam, e Beth abraçava a cabeça cortada ternamente, Jo assumiu um ar indiferente, que não enganou ninguém nem um pouco, e disse, bagunçando o arbusto castanho e tentando parecer que gostava, "Não afeta o destino da nação, então não lamente, Beth. Será bom para minha vaidade; eu estava ficando orgulhosa demais da minha cabeleira. Fará bem ao meu cérebro ter aquele esfregão removido; minha cabeça parece deliciosamente leve e fresca, e o barbeiro disse que logo terei um corte cacheado, que será jovial, atraente e fácil de manter em ordem. Estou satisfeita; então, por favor, pegue o dinheiro e vamos jantar."
"Conte-me tudo sobre isso, Jo. Não estou totalmente satisfeita, mas não posso culpá-la, pois sei com que boa vontade você sacrificou sua vaidade, como você a chama, pelo seu amor. Mas, minha querida, não era necessário, e receio que você vá se arrepender, um desses dias", disse a Sra. March.
"Não, não vou!" respondeu Jo firmemente, sentindo-se muito aliviada por sua travessura não ter sido totalmente condenada.
"O que a fez fazer isso?" perguntou Amy, que teria pensado tanto em cortar sua própria cabeça quanto seu lindo cabelo.
"Bem, eu estava desesperada para fazer algo pelo papai", respondeu Jo, enquanto se reuniam em torno da mesa, pois jovens saudáveis conseguem comer mesmo em meio aos problemas. "Detesto pedir emprestado tanto quanto a mamãe faz, e eu sabia que a tia March iria resmungar; ela sempre faz isso se você pede um centavo que seja. Meg deu todo o seu salário trimestral para o aluguel, e eu só consegui comprar algumas roupas com o meu, então me senti uma malvada e estava decidida a conseguir algum dinheiro, mesmo que tivesse de vender o nariz do meu rosto para isso."
"Você não precisa se sentir malvada, minha filha: você não tinha agasalhos para o inverno e comprou o mais simples com o seu próprio suado trabalho", disse a Sra. March, com um olhar que aqueceu o coração de Jo.
"Não tive a menor ideia de vender meu cabelo a princípio, mas, enquanto caminhava, ficava pensando no que poderia fazer, sentindo como se quisesse mergulhar em algumas daquelas lojas ricas e ajudar a mim mesma. Na vitrine de um barbeiro, vi rabos de cabelo com os preços marcados; e um rabo preto, não tão espesso quanto o meu, custava quarenta dólares. De repente, ocorreu-me que eu tinha uma coisa com a qual ganhar dinheiro e, sem parar para pensar, entrei, perguntei se compravam cabelo e quanto dariam pelo meu."
"Não vejo como você teve coragem de fazer isso", disse Beth, em um tom de espanto.
"Ah, ele era um homenzinho que parecia viver apenas para passar óleo no cabelo. Ele ficou meio boquiaberto, a princípio, como se não estivesse acostumado a ter moças entrando de supetão em sua loja pedindo para ele comprar seus cabelos. Ele disse que não se interessava pelo meu, que não era a cor da moda e que, de qualquer modo, ele nunca pagava muito por isso; o trabalho investido nele o tornava caro, e assim por diante. Estava ficando tarde e eu temia que, se não fosse feito imediatamente, eu não o faria de jeito nenhum, e vocês sabem que, quando começo a fazer uma coisa, detesto desistir; então implorei que ele aceitasse e contei por que estava com tanta pressa. Foi uma tolice, eu bem sei, mas isso mudou a opinião dele, pois fiquei um pouco agitada e contei a história do meu jeito confuso, e a esposa dele ouviu e disse tão gentilmente:
"'Aceite, Thomas, e faça esse favor à jovem; eu faria o mesmo pelo nosso Jimmy qualquer dia, se tivesse um fio de cabelo que valesse a pena vender.'"
"Quem era Jimmy?" perguntou Amy, que gostava de ter as coisas explicadas conforme elas iam acontecendo.
"O filho dela, ela disse, que estava no exército. Como essas coisas fazem com que estranhos se sintam próximos, não é? Ela não parou de falar enquanto o homem cortava, e isso desviou minha atenção muito bem."
"Você não se sentiu apavorada quando o primeiro corte veio?" perguntou Meg, com um arrepio.
"Dei uma última olhada no meu cabelo enquanto o homem pegava suas ferramentas, e isso foi o fim. Nunca choro por ninharias como essa; confessarei, porém, que me senti estranha quando vi o querido e velho cabelo estendido sobre a mesa e senti apenas as pontas curtas e ásperas na minha cabeça. Parecia quase como se eu tivesse arrancado um braço ou uma perna. A mulher viu-me olhar para ele e separou uma mecha longa para eu guardar. Vou dar a você, mamãe, só para lembrar de glórias passadas; pois um corte curto é tão confortável que não creio que voltarei a ter uma juba novamente."
A Sra. March dobrou a mecha castanha e ondulada e guardou-a junto com uma curta e grisalha em sua escrivaninha. Ela apenas disse "Obrigada, querida", mas algo em seu rosto fez com que as moças mudassem de assunto e conversassem tão alegremente quanto podiam sobre a bondade do Sr. Brooke, a perspectiva de um dia bonito no dia seguinte e os tempos felizes que teriam quando o papai voltasse para casa para ser cuidado.
Ninguém queria ir para a cama quando, às dez horas, a Sra. March deixou de lado o último trabalho concluído e disse: "Vamos, meninas". Beth foi ao piano e tocou o hino favorito do pai; todas começaram corajosamente, mas desmoronaram uma a uma, até que Beth ficou sozinha, cantando com todo o seu coração, pois para ela a música sempre foi uma doce conselheira.
"Vão para a cama e não conversem, pois precisamos acordar cedo e precisaremos de todo o sono que pudermos conseguir. Boa noite, minhas queridas", disse a Sra. March, assim que o hino terminou, pois ninguém tinha coragem de tentar outro.
Elas a beijaram silenciosamente e foram para a cama tão quietas como se a querida enferma estivesse no quarto ao lado. Beth e Amy logo adormeceram, apesar do grande problema, mas Meg ficou acordada, pensando nos pensamentos mais sérios que já conhecera em sua curta vida. Jo estava imóvel, e sua irmã imaginou que ela estivesse dormindo, até que um soluço abafado a fez exclamar, enquanto tocava uma bochecha molhada:
"Jo, querida, o que foi? Você está chorando pelo papai?"
"Não, não agora."
"Então o que é?"
"Meu... meu cabelo!" desabafou a pobre Jo, tentando inutilmente abafar sua emoção no travesseiro.
Não soou nada cômico para Meg, que beijou e acariciou a heroína aflita da maneira mais terna.
"Não estou arrependida", protestou Jo, com um nó na garganta. "Eu faria de novo amanhã, se pudesse. É apenas a parte vaidosa e egoísta de mim que chora desse jeito tolo. Não conte a ninguém, já passou. Achei que você estava dormindo, então apenas fiz um pequeno lamento particular pela minha única beleza. Como você veio a estar acordada?"
"Não consigo dormir, estou tão ansiosa", disse Meg.
"Pense em algo agradável e logo você cairá no sono."
"Tentei, mas me senti mais acordada do que nunca."
"Em que você pensou?"
"Rostos bonitos... olhos, particularmente", respondeu Meg, sorrindo para si mesma, na escuridão.
"Qual cor você gosta mais?"
"Castanhos... isto é, às vezes; os azuis são adoráveis."
Jo riu, e Meg ordenou asperamente que ela não falasse, depois prometeu amavelmente fazer o cabelo dela cachear e adormeceu para sonhar em viver em seu castelo no ar.
Os relógios batiam meia-noite e os cômodos estavam muito silenciosos, enquanto uma figura deslizava calmamente de cama em cama, alisando uma colcha aqui, ajeitando um travesseiro ali, e parando para olhar longa e ternamente para cada rosto inconsciente, para beijar cada um com lábios que abençoavam silenciosamente e para orar as orações fervorosas que apenas as mães pronunciam. Ao levantar a cortina para olhar para a noite lúgubre, a lua surgiu subitamente de trás das nuvens e brilhou sobre ela como um rosto brilhante e benigno, que parecia sussurrar no silêncio: "Consolai-vos, alma querida! Há sempre luz por trás das nuvens."
XVI.
CARTAS.
Na fria aurora cinzenta, as irmãs acenderam sua lamparina e leram seu capítulo com uma seriedade nunca antes sentida; pois agora a sombra de um problema real chegara, os livrinhos estavam cheios de ajuda e consolo; e, enquanto se vestiam, concordaram em dizer adeus alegre e esperançosamente, e enviar sua mãe em sua jornada ansiosa sem ser entristecida por lágrimas ou reclamações delas. Tudo parecia muito estranho quando desceram... tão escuro e quieto lá fora, tão cheio de luz e agito lá dentro. O café da manhã àquela hora parecia estranho, e até o rosto familiar de Hannah parecia não natural enquanto ela voava pela cozinha com sua touca de dormir. O grande baú estava pronto no corredor, a capa e o chapéu da mamãe estavam sobre o sofá, e a própria mamãe sentava-se tentando comer, mas parecia tão pálida e desgastada pela falta de sono e pela ansiedade que as meninas achavam muito difícil manter sua resolução. Os olhos de Meg continuavam a encher-se, apesar de si mesma; Jo foi obrigada a esconder o rosto no pano de prato da cozinha mais de uma vez; e as meninas mais novas tinham uma expressão grave e preocupada, como se a tristeza fosse uma experiência nova para elas.
Ninguém falou muito, mas quando o tempo chegou bem perto, e elas se sentaram esperando pela carruagem, a Sra. March disse às meninas, que estavam todas ocupadas ao seu redor, uma dobrando seu xale, outra alisando as fitas de seu chapéu, uma terceira calçando seus sapatos de borracha e uma quarta fechando sua bolsa de viagem:
"Crianças, deixo vocês aos cuidados de Hannah e sob a proteção do Sr. Laurence. Hannah é a própria fidelidade, e nosso bom vizinho as protegerá como se fossem suas. Não tenho receios quanto a vocês, mas estou ansiosa para que enfrentem esse problema da maneira certa. Não se entristeçam e se preocupem quando eu me for, ou pensem que podem se confortar ficando ociosas e tentando esquecer. Continuem com seu trabalho como de costume, pois o trabalho é um consolo abençoado. Tenham esperança e mantenham-se ocupadas; e aconteça o que acontecer, lembrem-se de que nunca estarão sem pai."
"Sim, mamãe."
"Meg, querida, seja prudente, cuide de suas irmãs, consulte Hannah e, em qualquer perplexidade, vá ao Sr. Laurence. Seja paciente, Jo, não fique desanimada nem faça coisas precipitadas; escreva-me com frequência e seja minha menina corajosa, pronta para ajudar e alegrar a todas nós. Beth, console-se com sua música e seja fiel aos pequenos deveres domésticos; e você, Amy, ajude no que puder, seja obediente e mantenha-se feliz e segura em casa."
"Nós seremos, mamãe! Nós seremos!"
O barulho de uma carruagem que se aproximava fez com que todas se sobressaltassem e ouvissem. Aquele foi o minuto difícil, mas as meninas aguentaram bem: ninguém chorou, ninguém fugiu ou proferiu um lamento, embora seus corações estivessem muito pesados enquanto enviavam mensagens amorosas ao pai, lembrando-se, enquanto falavam, de que poderia ser tarde demais para entregá-las. Beijaram sua mãe silenciosamente, agarraram-se a ela ternamente e tentaram acenar alegremente quando ela partiu.
Laurie e seu avô vieram vê-la partir, e o Sr. Brooke parecia tão forte, sensato e gentil que as meninas o batizaram de "Sr. Coração-Valente" na hora.
"Adeus, minhas queridas! Deus nos abençoe e nos proteja!" sussurrou a Sra. March, enquanto beijava um rostinho querido após o outro, e apressava-se para entrar na carruagem.
Enquanto ela partia, o sol apareceu e, olhando para trás, ela o viu brilhando sobre o grupo no portão, como um bom presságio. Elas também viram e sorriram e acenaram; e a última coisa que ela viu, ao virar a esquina, foram os quatro rostos brilhantes e, atrás deles, como uma guarda-costas, o velho Sr. Laurence, a fiel Hannah e o dedicado Laurie.
"Como todos são gentis conosco!" disse ela, voltando-se para encontrar novas provas disso na simpatia respeitosa do rosto do jovem.
"Não vejo como poderiam ser diferentes", respondeu o Sr. Brooke, rindo de forma tão contagiante que a Sra. March não pôde deixar de sorrir; e assim a longa jornada começou com os bons presságios do sol, sorrisos e palavras alegres.
"Sinto como se tivesse havido um terremoto", disse Jo, enquanto seus vizinhos voltavam para casa para tomar o café da manhã, deixando-as para descansar e se refrescar.
"Parece que metade da casa se foi", acrescentou Meg, desolada.
Beth abriu a boca para dizer algo, mas só pôde apontar para a pilha de meias cuidadosamente remendadas que jazia sobre a mesa da mamãe, mostrando que, mesmo em seus últimos momentos de pressa, ela havia pensado e trabalhado por elas. Foi uma pequena coisa, mas atingiu diretamente seus corações; e, apesar de suas bravas resoluções, todas desmoronaram e choraram amargamente.
Hannah, sabiamente, permitiu que elas aliviassem seus sentimentos e, quando a chuva mostrou sinais de parar, ela veio ao resgate, armada com um bule de café.
"Agora, minhas queridas senhoritas, lembrem-se do que sua mãe disse e não se preocupem. Venham tomar uma xícara de café todas, e depois vamos ao trabalho, e sejamos um crédito para a família."
O café era um presente, e Hannah mostrou grande tato ao prepará-lo naquela manhã. Ninguém conseguia resistir aos seus acenos persuasivos ou ao convite perfumado que emanava do bico do bule. Elas se aproximaram da mesa, trocaram seus lenços por guardanapos e, em dez minutos, estavam bem novamente.
"'Tenham esperança e mantenham-se ocupadas'; esse é o lema para nós, então vamos ver quem se lembrará melhor dele. Irei à tia March, como de costume. Ah, será que ela não vai dar sermão!" disse Jo, enquanto tomava seu gole com um espírito renovado.
"Irei aos meus Kings, embora preferisse muito mais ficar em casa e cuidar das coisas aqui", disse Meg, desejando não ter deixado seus olhos tão vermelhos.
"Não há necessidade disso; Beth e eu podemos cuidar da casa perfeitamente bem", acrescentou Amy, com um ar importante.
"Hannah nos dirá o que fazer; e deixaremos tudo arrumado quando você voltar para casa", acrescentou Beth, pegando seu esfregão e bacia de lavar louça sem demora.
"Acho que a ansiedade é muito interessante", observou Amy, comendo açúcar, pensativa.
As meninas não puderam deixar de rir, e sentiram-se melhor por isso, embora Meg balançasse a cabeça para a jovem que conseguia encontrar consolo em uma açucareira.
A visão das empadas deixou Jo sóbria novamente; e quando as duas saíram para suas tarefas diárias, olharam pesarosamente para a janela onde costumavam ver o rosto de sua mãe. Ele se fora; mas Beth se lembrara da pequena cerimônia doméstica, e lá estava ela, acenando para elas como uma mandarim de rosto rosado.
"Isso é tão a cara da minha Beth!" disse Jo, acenando com seu chapéu, com um rosto agradecido. "Adeus, Meggy; espero que os Kings não treinem hoje. Não se preocupe com o papai, querida", acrescentou ela, enquanto se separavam.
"E eu espero que a tia March não resmungue. Seu cabelo é atraente e parece muito jovial e bonito", retrucou Meg, tentando não sorrir para a cabeça cacheada, que parecia comicamente pequena nos ombros de sua irmã alta.
"Esse é o meu único conforto;" e, tocando seu chapéu à la Laurie, lá se foi Jo, sentindo-se como uma ovelha tosquiada em um dia de inverno.
Notícias de seu pai confortaram muito as meninas; pois, embora estivesse perigosamente doente, a presença da melhor e mais terna das enfermeiras já lhe fizera bem. O Sr. Brooke enviava um boletim todos os dias e, como chefe da família, Meg insistia em ler os despachos, que se tornavam cada vez mais animadores à medida que a semana passava. A princípio, todas estavam ansiosas para escrever, e envelopes gordinhos eram cuidadosamente colocados na caixa de correio por uma ou outra das irmãs, que se sentiam bastante importantes com sua correspondência de Washington. Como um desses pacotes continha notas características do grupo, roubaremos um correio imaginário e as leremos:--
"MINHA QUERIDÍSSIMA MÃE,--
"É impossível dizer o quanto sua última carta nos deixou felizes, pois as notícias eram tão boas que não pudemos deixar de rir e chorar com elas. Como o Sr. Brooke é gentil, e que sorte o Sr. Laurence ter negócios que o detêm perto de você por tanto tempo, já que ele é tão útil para você e para o papai. As meninas estão todas boas como ouro. Jo me ajuda com a costura e insiste em fazer todo tipo de trabalho difícil. Eu teria medo de que ela se sobrecarregasse, se eu não soubesse que seu 'ataque moral' não duraria muito. Beth é tão regular em suas tarefas quanto um relógio, e nunca esquece o que você lhe disse. Ela sofre pelo papai e fica sóbria, exceto quando está em seu pequeno piano. Amy me obedece muito bem, e eu cuido muito bem dela. Ela mesma arruma seu cabelo, e estou ensinando-a a fazer casas de botão e a remendar suas meias. Ela se esforça muito, e sei que você ficará satisfeita com seu progresso quando voltar. O Sr. Laurence cuida de nós como uma galinha maternal, como diz Jo; e Laurie é muito gentil e prestativo. Ele e Jo nos mantêm alegres, pois às vezes ficamos bem tristes e nos sentimos órfãs, com você tão longe. Hannah é uma santa completa; ela não reclama nada, e sempre me chama de Srta. 'Margaret', o que é bastante adequado, você sabe, e me trata com respeito. Estamos todas bem e ocupadas; mas ansiamos, dia e noite, tê-la de volta. Dê meu mais profundo amor ao papai, e acredite, sempre sua própria "MEG."
Esta nota, lindamente escrita em papel perfumado, era um grande contraste com a seguinte, que foi rabiscada em uma grande folha de papel fino estrangeiro, ornamentada com borrões e todo tipo de floreios e letras de cauda encaracolada:--
"MINHA PRECIOSA MAMÃE,--
"Três vivas para o querido papai! Brooke foi um trunfo ao telegrafar logo de imediato e nos avisar no minuto em que ele estava melhor. Corri para o sótão quando a carta chegou e tentei agradecer a Deus por ser tão bom para nós; mas só consegui chorar e dizer: 'Estou feliz! Estou feliz!' Isso não valeu tanto quanto uma oração regular? pois senti muitas em meu coração. Temos momentos tão engraçados; e agora posso aproveitá-los, pois todos são tão desesperadamente bons, é como viver em um ninho de rolinhas. Você riria ao ver Meg à frente da mesa tentando ser maternal. Ela fica mais bonita a cada dia, e às vezes me apaixono por ela. As crianças são verdadeiros arcanjos, e eu... bem, eu sou Jo e nunca serei nada além disso. Oh, devo lhe contar que quase tive uma briga com Laurie. Desabafei sobre uma coisinha boba, e ele ficou ofendido. Eu estava certa, mas não falei como deveria, e ele marchou para casa, dizendo que não viria novamente até que eu pedisse perdão. Declarei que não pediria e fiquei furiosa. Durou o dia todo; senti-me mal e senti muito a sua falta. Laurie e eu somos tão orgulhosos que é difícil pedir perdão; mas achei que ele cederia, pois eu estava com a razão. Ele não veio; e logo à noite me lembrei do que você disse quando Amy caiu no rio. Li meu livrinho, senti-me melhor, resolvi não deixar o sol se pôr sobre minha raiva e corri para dizer a Laurie que eu estava arrependida. Encontrei-o no portão, vindo para a mesma coisa. Nós dois rimos, pedimos perdão um ao outro e nos sentimos todos bem e confortáveis novamente.
"Fiz um 'poema' ontem, quando estava ajudando Hannah a lavar; e, como o papai gosta das minhas coisinhas bobas, coloquei-o para diverti-lo. Dê nele o abraço mais amoroso que já existiu, e beije a si mesma uma dúzia de vezes por sua "JO CONFUSA."
"UMA CANÇÃO DO SABÃO.
"Rainha da minha tina, canto alegremente, Enquanto a espuma branca sobe alto; E com vigor lavo, enxáguo e torço, E prendo as roupas para secar; Depois, ao ar livre e fresco, elas balançam, Sob o céu ensolarado.
"Desejo que pudéssemos lavar de nossos corações e almas As manchas da semana, E deixar que a água e o ar, por sua magia, nos façam Tão puros quanto eles; Então, na terra, haveria de fato Um glorioso dia de lavagem!
"Ao longo do caminho de uma vida útil, Sempre florescerá o amor-perfeito; A mente ocupada não tem tempo para pensar Em tristeza, cuidado ou melancolia; E pensamentos ansiosos podem ser varridos, Enquanto manejamos bravamente uma vassoura.
"Estou feliz por ter uma tarefa, Para trabalhar dia após dia; Pois ela me traz saúde, força e esperança, E aprendo alegremente a dizer:-- 'Cabeça, podes pensar; Coração, podes sentir, Mas, Mão, trabalharás sempre!'
"QUERIDA MÃE,--
"Há apenas espaço para eu enviar meu amor e alguns amores-perfeitos prensados da raiz que venho mantendo segura em casa para o papai ver. Leio todas as manhãs, tento ser boa o dia todo e canto para dormir com a melodia do papai. Não consigo cantar 'Land of the Leal' agora; isso me faz chorar. Todos são muito gentis, e estamos tão felizes quanto podemos sem você. Amy quer o resto da página, então preciso parar. Não esqueci de cobrir os pegadores, e dou corda no relógio e arejo os quartos todos os dias.
"Beije o querido papai na bochecha que ele chama de minha. Oh, venha logo para sua amorosa "PEQUENA BETH."
"MA CHÈRE MAMMA,--
"Estamos todos bem, faço minhas lições sempre e nunca corroboro as meninas — Meg diz que quero dizer contradizer, então coloco as duas palavras e você pode escolher a mais apropriada. Meg é um grande conforto para mim e deixa-me comer geleia toda noite no chá, é tão bom para mim, diz Jo, porque me mantém de bom humor. Laurie não é tão respeitoso quanto deveria ser agora que estou quase na adolescência, ele me chama de Pintinha e fere meus sentimentos falando francês comigo muito rápido quando digo Merci ou Bon jour, como faz Hattie King. As mangas do meu vestido azul estavam todas gastas, e Meg colocou novas, mas a parte da frente franzida ficou errada e elas estão mais azuis que o vestido. Senti-me mal, mas não reclamei, suporto bem minhas aflições, mas bem que gostaria que Hannah colocasse mais goma nos meus aventais e fizesse panquecas de trigo sarraceno todos os dias. Ela não pode? Não fiz aquele ponto de interrogação bem bonito? Meg diz que minha pontuação e ortografia são vergonhosas e fico mortificada, mas, céus, tenho tantas coisas a fazer, não posso parar. Adieu, envio montes de amor para o Papai. "Sua afetuosa filha, "AMY CURTIS MARCH."
"CARA SRTA. MARCH, —
"Apenas deixo umas linhas para dizer que vamos muito bem. As meninas são espertas e dão conta do recado direitinho. A Srta. Meg vai ser uma ótima dona de casa; ela gosta disso e pega o jeito das coisas surpreendentemente rápido. Jo supera todas em iniciativa, mas não para para calcular primeiro, e nunca se sabe onde ela vai parar. Ela lavou uma tina de roupas na segunda-feira, mas engomou antes de torcer e deixou o vestido de chita rosa tão azulado que achei que fosse morrer de rir. Beth é a melhor das criaturinhas e uma grande ajuda para mim, sendo tão prevenida e confiável. Ela tenta aprender tudo e realmente vai ao mercado além de sua idade; da mesma forma, mantém as contas, com minha ajuda, de modo bastante maravilhoso. Temos sido muito econômicas até agora; não deixo as meninas tomarem café senão uma vez por semana, de acordo com seu desejo, e as mantenho com comida simples e saudável. Amy faz bem em não reclamar, usando suas melhores roupas e comendo doces. O Sr. Laurie está cheio de travessuras como de costume e vira a casa de cabeça para baixo frequentemente; mas ele anima as meninas, e então deixo que façam o que quiserem. O velho cavalheiro envia montes de coisas e é um tanto cansativo, mas tem boas intenções, e não cabe a mim dizer nada. Meu pão cresceu, então nada mais por ora. Envio meus cumprimentos ao Sr. March e espero que ele já tenha se livrado de sua pneumonia. "Atenciosamente, "HANNAH MULLET."
"ENFERMEIRA-CHEFE DA ALA Nº 2, —
"Tudo sereno no Rappahannock, tropas em excelente condição, departamento de suprimentos bem conduzido, a Guarda Nacional sob o comando do Coronel Teddy sempre de serviço, o Comandante-em-chefe General Laurence revisa o exército diariamente, o Intendente Mullett mantém a ordem no acampamento e o Major Lion faz o serviço de piquete à noite. Uma salva de vinte e quatro tiros foi disparada ao recebermos boas notícias de Washington, e um desfile de gala ocorreu no quartel-general. O Comandante-em-chefe envia os melhores votos, aos quais se junta de todo o coração o "CORONEL TEDDY."
"CARA MADAME, —
"As meninas estão todas bem; Beth e meu garoto dão notícias diariamente; Hannah é uma serva modelo e guarda a linda Meg como um dragão. Fico feliz que o bom tempo dure; por favor, faça Brooke ser útil e recorra a mim para fundos se as despesas excederem sua estimativa. Não deixe seu marido precisar de nada. Agradeça a Deus por ele estar melhorando. "Seu sincero amigo e servo, "JAMES LAURENCE."
XVII.
A PEQUENA FIEL.
Por uma semana, a quantidade de virtude na velha casa teria sido suficiente para todo o bairro. Era realmente surpreendente, pois todos pareciam estar em um estado de espírito celestial, e a abnegação estava na moda. Aliviadas de sua primeira ansiedade com relação ao pai, as meninas relaxaram imperceptivelmente um pouco seus esforços louváveis e começaram a voltar aos velhos hábitos. Não esqueceram seu lema, mas ter esperança e manter-se ocupadas parecia tornar-se mais fácil; e, após tais esforços tremendos, sentiram que o Esforço merecia um feriado, e deram-lhe vários.
Jo pegou um resfriado forte por negligência ao não cobrir a cabeça raspada o suficiente, e foi obrigada a ficar em casa até melhorar, pois a Tia March não gostava de ouvir pessoas lerem com resfriados na cabeça. Jo gostou disso e, após uma busca enérgica do sótão ao porão, instalou-se no sofá para cuidar de seu resfriado com arsenicum e livros. Amy descobriu que o trabalho doméstico e a arte não combinavam muito bem, e voltou aos seus bolinhos de lama. Meg ia diariamente às suas lições e costurava, ou achava que costurava, em casa, mas muito tempo era gasto escrevendo longas cartas para a mãe ou lendo os despachos de Washington repetidamente. Beth continuou, com apenas leves recaídas em momentos de ociosidade ou tristeza. Todos os pequenos deveres eram cumpridos fielmente a cada dia, e muitos dos de suas irmãs também, pois elas eram esquecidas, e a casa parecia um relógio cujo pêndulo tinha ido viajar. Quando seu coração ficava pesado com saudades da mãe ou medos pelo pai, ela se afastava para um certo armário, escondia o rosto nas dobras de um certo vestido velho e querido, e fazia seu pequeno lamento e rezava sua pequena oração quietamente sozinha. Ninguém sabia o que a animava após um momento de tristeza, mas todas sentiam quão doce e prestativa Beth era, e adquiriram o hábito de procurá-la para conforto ou conselho em seus pequenos problemas.
Todas estavam inconscientes de que essa experiência era um teste de caráter; e, quando a primeira agitação passou, sentiram que tinham se saído bem e mereciam elogios. E de fato mereciam; mas o erro delas foi parar de fazer o bem, e aprenderam essa lição através de muita ansiedade e arrependimento.
"Meg, gostaria que você fosse ver os Hummel; você sabe que a mamãe nos disse para não esquecê-los", disse Beth, dez dias após a partida da Sra. March.
"Estou cansada demais para ir esta tarde", respondeu Meg, balançando-se confortavelmente enquanto costurava.
"Você não pode, Jo?", perguntou Beth.
"Está tempestuoso demais para mim com meu resfriado."
"Pensei que estivesse quase bom."
"Está bom o suficiente para eu sair com Laurie, mas não bom o suficiente para ir aos Hummel", disse Jo, rindo, mas parecendo um pouco envergonhada de sua inconsistência.
"Por que você não vai você mesma?", perguntou Meg.
"Eu tenho ido todos os dias, mas o bebê está doente e não sei o que fazer por ele. A Sra. Hummel sai para trabalhar e Lottchen cuida dele; mas ele fica cada vez mais doente, e acho que você ou a Hannah deveriam ir."
Beth falou seriamente, e Meg prometeu que iria amanhã.
"Peça a Hannah uma comidinha boa e leve para lá, Beth; o ar lhe fará bem", disse Jo, acrescentando em tom de desculpa: "Eu iria, mas quero terminar minha escrita."
"Minha cabeça dói e estou cansada, então pensei que talvez alguma de vocês fosse", disse Beth.
"Amy chegará logo, e ela dará uma passada lá para nós", sugeriu Meg.
"Bem, vou descansar um pouco e esperar por ela."
Então Beth deitou-se no sofá, as outras voltaram ao trabalho, e os Hummel foram esquecidos. Uma hora se passou: Amy não veio; Meg foi para seu quarto experimentar um vestido novo; Jo estava absorta em sua história, e Hannah estava profundamente adormecida diante do fogo da cozinha, quando Beth colocou silenciosamente seu capuz, encheu sua cesta com retalhos para as crianças pobres e saiu para o ar frio, com a cabeça pesada e um olhar entristecido em seus olhos pacientes. Já era tarde quando ela voltou, e ninguém a viu subir as escadas sorrateiramente e fechar-se no quarto da mãe. Meia hora depois, Jo foi ao "armário da mamãe" buscar algo e lá encontrou Beth sentada sobre a caixa de remédios, parecendo muito grave, com os olhos vermelhos e uma garrafa de cânfora na mão.
"Cristóvão Colombo! O que houve?", exclamou Jo, enquanto Beth estendia a mão como se para avisá-la a se afastar, e perguntou rapidamente:
"Você já teve escarlatina, não já?"
"Anos atrás, quando a Meg teve. Por quê?"
"Então eu lhe direi. Oh, Jo, o bebê morreu!"
"Que bebê?"
"O da Sra. Hummel; morreu no meu colo antes de ela chegar em casa", chorou Beth, com um soluço.
"Minha pobre querida, que terrível para você! Eu deveria ter ido", disse Jo, tomando a irmã nos braços enquanto sentava-se na poltrona da mãe, com o rosto cheio de remorso.
"Não foi terrível, Jo, apenas tão triste! Vi num instante que ele estava pior, mas Lottchen disse que sua mãe tinha ido buscar um médico, então peguei o bebê e deixei Lotty descansar. Ele parecia estar dormindo, mas de repente deu um pequeno grito, tremeu e então ficou muito quieto. Tentei aquecer seus pés e Lotty deu-lhe um pouco de leite, mas ele não se moveu, e eu soube que estava morto."
"Não chore, querida! O que você fez?"
"Fiquei apenas sentada segurando-o suavemente até que a Sra. Hummel chegasse com o médico. Ele disse que estava morto e olhou para Heinrich e Minna, que estão com dor de garganta. 'Escarlatina, senhora. Deveria ter me chamado antes', disse ele com rispidez. A Sra. Hummel disse-lhe que era pobre e tentou curar o bebê ela mesma, mas agora era tarde demais, e ela só pôde pedir-lhe que ajudasse os outros e confiar na caridade pelo pagamento. Ele sorriu então e foi mais gentil; mas foi muito triste, e eu chorei com eles até que ele se virou, de repente, e me disse para ir para casa e tomar beladona imediatamente, ou eu teria a febre."
"Não, você não terá!", exclamou Jo, abraçando-a forte, com um olhar assustado. "Oh, Beth, se você ficar doente, nunca poderei me perdoar! O que faremos?"
"Não fique assustada, acho que não terei gravemente. Procurei no livro da mamãe e vi que começa com dor de cabeça, dor de garganta e sensações estranhas como as minhas, então tomei um pouco de beladona e me sinto melhor", disse Beth, colocando as mãos frias na testa quente e tentando parecer bem.
"Se a mamãe estivesse em casa!", exclamou Jo, pegando o livro e sentindo que Washington era imensamente longe. Ela leu uma página, olhou para Beth, apalpou sua cabeça, espiou sua garganta e então disse gravemente: "Você esteve debruçada sobre o bebê todos os dias por mais de uma semana, e entre os outros que estão prestes a pegá-la; então temo que você vá pegá-la, Beth. Vou chamar Hannah, ela entende tudo de doenças."
"Não deixe a Amy vir; ela nunca teve, e eu odiaria passar para ela. Vocês e Meg não podem ter de novo?", perguntou Beth, ansiosamente.
"Acho que não; não me importo se tiver; seria bem feito para mim, porca egoísta, deixar você ir e ficar escrevendo bobagens!", murmurou Jo, enquanto ia consultar Hannah.
A boa alma estava bem acordada em um minuto e assumiu o comando imediatamente, garantindo a Jo que não havia motivo para se preocupar; todo mundo tinha escarlatina e, se tratada corretamente, ninguém morria — tudo o que Jo acreditou, sentindo-se muito aliviada enquanto subiam para chamar Meg.
"Agora, direi o que vamos fazer", disse Hannah, quando examinou e questionou Beth; "vamos chamar o Dr. Bangs, só para dar uma olhada em você, querida, e ver se começamos certo; depois mandaremos Amy para a casa da Tia March por um tempo, para mantê-la longe do perigo, e uma de vocês pode ficar em casa e distrair Beth por um dia ou dois."
"Eu ficarei, é claro; sou a mais velha", começou Meg, parecendo ansiosa e cheia de remorso.
"Eu ficarei, porque é minha culpa ela estar doente; eu disse à mamãe que faria as tarefas e não fiz", disse Jo decididamente.
"Qual delas você quer, Beth? Não há necessidade de mais de uma", disse Hannah.
"Jo, por favor"; e Beth encostou a cabeça na irmã, com um olhar satisfeito, o que resolveu efetivamente a questão.
"Vou contar a Amy", disse Meg, sentindo-se um pouco ferida, mas bastante aliviada, no geral, pois não gostava de ser enfermeira, e Jo gostava.
Amy rebelou-se completamente e declarou apaixonadamente que preferia ter a febre a ir para a Tia March. Meg argumentou, suplicou e ordenou: tudo em vão. Amy protestou que não iria; e Meg a deixou em desespero para perguntar a Hannah o que deveria ser feito. Antes que ela voltasse, Laurie entrou na sala para encontrar Amy soluçando, com a cabeça nas almofadas do sofá. Ela contou sua história, esperando ser consolada; mas Laurie apenas colocou as mãos nos bolsos e caminhou pela sala, assobiando suavemente enquanto franzia as sobrancelhas em profunda reflexão. Logo ele sentou-se ao lado dela e disse, em seu tom mais persuasivo: "Agora seja uma mocinha sensata e faça o que elas dizem. Não, não chore, mas ouça que plano legal eu tenho. Você vai para a casa da Tia March, e eu irei buscá-la todos os dias, para passear de charrete ou a pé, e nos divertiremos muito. Não será melhor do que ficar aqui se lamentando?"
"Não quero ser mandada embora como se estivesse atrapalhando", começou Amy, em tom de mágoa.
"Deus te abençoe, criança, é para mantê-la bem. Você não quer ficar doente, quer?"
"Não, tenho certeza que não; mas receio que ficarei, pois estive com Beth o tempo todo."
"Essa é a própria razão pela qual você deve ir embora imediatamente, para que possa escapar. Mudança de ares e cuidados a manterão bem, eu arrisco dizer; ou, se não totalmente, você terá a febre mais levemente. Aconselho você a sair o mais rápido que puder, pois escarlatina não é brincadeira, senhorita."
"Mas é monótono na casa da Tia March, e ela é tão ranzinza", disse Amy, parecendo um tanto assustada.
"Não será monótono comigo aparecendo todo dia para lhe dizer como Beth está e levá-la para passear. A velha senhora gosta de mim, e serei tão doce quanto possível com ela, para que ela não nos importune, não importa o que façamos."
"Você vai me levar para passear na charrete com o Puck?"
"Sob minha honra como cavalheiro."
"E vir todo santo dia?"
"Veja se não virei."
"E me trazer de volta no minuto em que Beth estiver bem?"
"No minuto exato."
"E ir ao teatro, de verdade?"
"Uma dúzia de teatros, se pudermos."
"Bem... acho que... eu vou", disse Amy lentamente.
"Boa garota! Chame Meg e diga a ela que você cedeu", disse Laurie, com um tapinha de aprovação, o que irritou Amy mais do que o "ceder".
Meg e Jo vieram correndo para contemplar o milagre que havia sido operado; e Amy, sentindo-se muito valiosa e autossacrificada, prometeu ir, se o médico dissesse que Beth ia ficar doente.
"Como está a querida?", perguntou Laurie; pois Beth era sua protegida especial, e ele se sentia mais ansioso por ela do que gostava de mostrar.
"Ela está deitada na cama da mamãe e sente-se melhor. A morte do bebê a perturbou, mas arrisco dizer que ela só pegou um resfriado. Hannah diz que acha que sim; mas ela parece preocupada, e isso me deixa inquieta", respondeu Meg.
"Que mundo difícil é este!", disse Jo, despenteando o cabelo de uma forma irritada. "Assim que nos livramos de um problema, cai outro. Não parece haver nada em que se segurar quando a mamãe se vai; sinto-me completamente à deriva."
"Bem, não se transforme em um porco-espinho, não fica bem. Arrume seu cabelo, Jo, e me diga se devo telegrafar para sua mãe ou fazer algo?", perguntou Laurie, que nunca tinha se conformado com a perda da única beleza de sua amiga.
"É isso que me preocupa", disse Meg. "Acho que deveríamos contar a ela se Beth estiver realmente doente, mas Hannah diz que não devemos, pois a mamãe não pode deixar o papai, e isso só os deixará ansiosos. Beth não ficará doente por muito tempo, e Hannah sabe exatamente o que fazer, e a mamãe disse que deveríamos obedecê-la, então suponho que devamos, mas não me parece bem."
"Hum, bem, não sei dizer; suponha que você pergunte ao seu avô depois que o médico tiver vindo."
"Vamos. Jo, vá buscar o Dr. Bangs imediatamente", ordenou Meg; "não podemos decidir nada até que ele venha."
"Fique onde está, Jo; eu sou o mensageiro deste estabelecimento", disse Laurie, pegando seu boné.
"Temo que você esteja ocupado", começou Meg.
"Não, terminei minhas lições do dia."
"Você estuda nas férias?", perguntou Jo.
"Sigo o bom exemplo que meus vizinhos me dão", foi a resposta de Laurie, enquanto ele saltava para fora da sala.
"Tenho grandes esperanças no meu garoto", observou Jo, observando-o pular a cerca com um sorriso de aprovação.
"Ele vai muito bem... para um garoto", foi a resposta um tanto desdenhosa de Meg, pois o assunto não a interessava.
O Dr. Bangs veio, disse que Beth tinha sintomas da febre, mas achava que ela teria de forma leve, embora tenha ficado sério com a história dos Hummel. Amy foi mandada embora imediatamente e, provida de algo para afastar o perigo, partiu com grande pompa, com Jo e Laurie como escolta.
A Tia March recebeu-os com sua hospitalidade habitual.
"O que vocês querem agora?", perguntou ela, olhando fixamente por cima dos óculos, enquanto o papagaio, sentado no encosto da sua cadeira, gritava:
"Vá embora. Não são permitidos garotos aqui."
Laurie retirou-se para a janela e Jo contou sua história.
"Nada mais do que eu esperava, se vocês têm permissão para ficar por aí mexendo com gente pobre. Amy pode ficar e ser útil se não estiver doente, o que não duvido que ela vá ficar... parece que está agora. Não chore, criança, me irrita ouvir as pessoas fungarem."
Amy estava prestes a chorar, mas Laurie puxou sorrateiramente a cauda do papagaio, o que fez Polly soltar um grasnido de espanto e gritar:
"Benditas sejam minhas botas!" de uma forma tão engraçada, que ela riu em vez disso.
"O que vocês ouvem de sua mãe?", perguntou a velha senhora asperamente.
"O papai está muito melhor", respondeu Jo, tentando manter-se sóbria.
"Ah, está? Bem, isso não vai durar muito, suponho; March nunca teve resistência", foi a resposta alegre.
"Ha, ha! nunca diga que vai morrer, tome uma pitada de rapé, adeus, adeus!", gritou Polly, dançando em seu poleiro e arranhando o chapéu da velha senhora enquanto Laurie o puxava por trás.
"Cale a boca, seu pássaro desrespeitoso! E, Jo, é melhor você ir imediatamente; não é apropriado ficar por aí tão tarde com um garoto de cabeça oca como..."
"Cale a boca, seu pássaro desrespeitoso!", gritou Polly, caindo da cadeira com um salto e correndo para bicar o garoto "de cabeça oca", que tremia de tanto rir com a última frase.
"Não acho que possa suportar, mas vou tentar", pensou Amy, enquanto era deixada sozinha com a Tia March.
"Vá embora, seu espantalho!", gritou Polly; e com esse comentário grosseiro, Amy não conseguiu conter um fungado.
Beth estava de fato com febre e muito mais doente do que qualquer um, exceto Hannah e o médico, suspeitava. As meninas não entendiam nada de doenças, e o Sr. Laurence não tinha permissão para vê-la, então Hannah fazia tudo do seu próprio jeito; o ocupado Dr. Bangs fazia o que podia, mas deixava uma boa parte a cargo da excelente enfermeira. Meg ficava em casa, para não infectar os Kings, e cuidava da casa, sentindo-se muito ansiosa e um pouco culpada ao escrever cartas nas quais não se fazia menção à doença de Beth. Ela não achava correto enganar a mãe, mas fora instruída a obedecer a Hannah, e Hannah não queria nem ouvir falar em "a Sra. March ser avisada e ficar preocupada por uma ninharia dessas". Jo dedicava-se a Beth dia e noite; não era uma tarefa difícil, pois Beth era muito paciente e suportava sua dor sem se queixar enquanto conseguia manter o controle. Mas chegou um momento em que, durante os acessos de febre, ela começou a falar com uma voz rouca e entrecortada, a tocar na colcha como se fosse seu querido pianinho, e a tentar cantar com a garganta tão inchada que não restava música alguma; um momento em que ela não reconhecia os rostos familiares ao seu redor, mas os chamava por nomes errados e pedia implorando pela mãe. Então Jo ficou assustada, Meg implorou para que lhe permitissem escrever a verdade, e até mesmo Hannah disse que "pensaria no assunto, embora ainda não houvesse perigo". Uma carta de Washington aumentou o problema, pois o Sr. March tivera uma recaída e não poderia pensar em voltar para casa por um longo tempo.
Quão sombrios pareciam os dias agora, quão triste e solitária a casa, e quão pesados eram os corações das irmãs enquanto trabalhavam e esperavam, enquanto a sombra da morte pairava sobre o lar antes feliz! Foi então que Margaret, sentada sozinha com lágrimas caindo frequentemente sobre seu trabalho, sentiu quão rica fora em coisas mais preciosas do que qualquer luxo que o dinheiro pudesse comprar — em amor, proteção, paz e saúde, as verdadeiras bênçãos da vida. Foi então que Jo, vivendo no quarto escurecido, com aquela irmãzinha sofrendo sempre diante de seus olhos e aquela voz patética soando em seus ouvidos, aprendeu a ver a beleza e a doçura da natureza de Beth, a sentir quão profundo e terno era o lugar que ela ocupava em todos os corações, e a reconhecer o valor da ambição altruísta de Beth, de viver para os outros e tornar o lar feliz pelo exercício daquelas virtudes simples que todos podem possuir, e que todos deveriam amar e valorizar mais do que o talento, a riqueza ou a beleza. E Amy, em seu exílio, ansiava ardentemente estar em casa, para que pudesse trabalhar por Beth, sentindo agora que nenhum serviço seria difícil ou enfadonho, e lembrando-se, com pesarosa tristeza, de quantas tarefas negligenciadas aquelas mãos dispostas haviam feito por ela. Laurie rondava a casa como um fantasma inquieto, e o Sr. Laurence trancava o piano de cauda, porque não suportava ser lembrado da jovem vizinha que costumava tornar o crepúsculo agradável para ele. Todos sentiam falta de Beth. O leiteiro, o padeiro, o merceeiro e o açougueiro perguntavam como ela estava; a pobre Sra. Hummel veio pedir perdão por sua falta de consideração e buscar uma mortalha para Minna; os vizinhos enviaram todo tipo de conforto e bons votos, e até mesmo aqueles que a conheciam melhor ficaram surpresos ao descobrir quantos amigos a tímida Beth havia conquistado.
Enquanto isso, ela estava deitada em sua cama com a velha Joanna ao seu lado, pois mesmo em seus delírios não se esquecia de sua protegida abandonada. Ela ansiava por seus gatos, mas não queria que os trouxessem, para que não adoecessem; e, em suas horas de calma, ela ficava cheia de ansiedade por Jo. Enviou mensagens carinhosas a Amy, pediu que dissessem à mãe que escreveria em breve; e frequentemente pedia lápis e papel para tentar dizer uma palavra, para que o pai não pensasse que ela o havia negligenciado. Mas logo até mesmo esses intervalos de consciência terminaram, e ela ficou hora após hora, revirando-se de um lado para o outro, com palavras incoerentes nos lábios, ou afundando em um sono pesado que não lhe trazia refresco. O Dr. Bangs vinha duas vezes ao dia, Hannah ficava acordada à noite, Meg mantinha um telegrama em sua escrivaninha pronto para ser enviado a qualquer minuto, e Jo nunca se afastava do lado de Beth.
O primeiro de dezembro foi um dia de inverno, de fato, para elas, pois um vento cortante soprava, a neve caía rapidamente, e o ano parecia preparar-se para sua morte. Quando o Dr. Bangs chegou naquela manhã, olhou longamente para Beth, segurou a mão quente com as duas suas por um minuto e a pousou suavemente, dizendo, em tom baixo, para Hannah:
"Se a Sra. March puder deixar o marido, seria melhor chamá-la."
Hannah assentiu sem falar, pois seus lábios tremiam nervosamente; Meg caiu em uma cadeira, pois a força parecia abandonar seus membros ao som daquelas palavras; e Jo, após ficar com o rosto pálido por um minuto, correu para a sala, pegou o telegrama e, vestindo seu agasalho, saiu correndo para a tempestade. Ela logo estava de volta e, enquanto tirava silenciosamente sua capa, Laurie entrou com uma carta, dizendo que o Sr. March estava melhorando novamente. Jo leu com gratidão, mas o peso não parecia ter sido retirado de seu coração, e seu rosto estava tão cheio de miséria que Laurie perguntou rapidamente:
"O que houve? Beth está pior?"
"Mandei chamar a mamãe", disse Jo, puxando suas botas de borracha com uma expressão trágica.
"Muito bem, Jo! Você fez isso por sua própria conta e risco?", perguntou Laurie, enquanto a sentava na cadeira do corredor e tirava as botas rebeldes, vendo como suas mãos tremiam.
"Não, o médico nos mandou."
"Oh, Jo, não está tão ruim assim?", exclamou Laurie, com o rosto assustado.
"Sim, está; ela não nos reconhece, nem sequer fala sobre os bandos de pombas verdes, como ela chama as folhas da trepadeira na parede; ela não parece a minha Beth, e não há ninguém para nos ajudar a suportar isso; mamãe e papai foram embora, e Deus parece tão distante que não consigo encontrá-Lo."
Enquanto as lágrimas escorriam rapidamente pelas bochechas da pobre Jo, ela estendeu a mão de um jeito impotente, como se estivesse tateando no escuro, e Laurie a pegou na sua, sussurrando, o melhor que podia, com um nó na garganta:
"Eu estou aqui. Segure-se em mim, querida Jo!"
Ela não conseguia falar, mas "segurou-se", e o aperto caloroso da mão humana amiga consolou seu coração dolorido e pareceu levá-la para mais perto do braço Divino que, sozinho, poderia sustentá-la em seu problema. Laurie desejava dizer algo terno e reconfortante, mas nenhuma palavra adequada lhe ocorria, então ele ficou em silêncio, acariciando suavemente a cabeça curvada dela como a mãe costumava fazer. Foi a melhor coisa que ele poderia ter feito; muito mais reconfortante do que as palavras mais eloquentes, pois Jo sentiu a simpatia não dita e, no silêncio, aprendeu o doce consolo que o afeto administra à tristeza. Logo ela secou as lágrimas que a haviam aliviado e olhou para cima com um rosto grato.
"Obrigada, Teddy, estou melhor agora; não me sinto tão abandonada e tentarei suportar se acontecer."
"Continue esperando pelo melhor; isso vai te ajudar, Jo. Em breve sua mãe estará aqui, e então tudo ficará bem."
"Estou tão feliz que o papai está melhor; agora ela não se sentirá tão mal por deixá-lo. Ai de mim! Parece que todos os problemas vieram de uma vez, e eu fiquei com a parte mais pesada nos meus ombros", suspirou Jo, espalhando seu lenço molhado sobre os joelhos para secar.
"Meg não está ajudando?", perguntou Laurie, parecendo indignado.
"Ah, sim; ela tenta, mas não consegue amar a Bethy como eu; e ela não sentirá falta dela como eu sentirei. Beth é a minha consciência, e não posso desistir dela. Eu não posso! Eu não posso!"
O rosto de Jo mergulhou no lenço molhado, e ela chorou desesperadamente; pois ela havia se mantido corajosa até agora e nunca derramara uma lágrima. Laurie passou a mão pelos olhos, mas não conseguiu falar até ter subjugado o sentimento sufocante em sua garganta e estabilizado os lábios. Poderia ser pouco masculino, mas ele não pôde evitar, e estou contente por isso. Logo, quando os soluços de Jo se acalmaram, ele disse esperançoso: "Não acho que ela vá morrer; ela é tão boa, e todos nós a amamos tanto, que não acredito que Deus a levará embora ainda."
"As pessoas boas e queridas sempre morrem", gemeu Jo, mas ela parou de chorar, pois as palavras de seu amigo a animaram, apesar de suas próprias dúvidas e medos.
"Pobre menina, você está exausta. Não é do seu feitio estar assim abandonada. Espere um pouco; vou te animar num instante."
Laurie subiu dois degraus de uma vez, e Jo pousou sua cabeça cansada no pequeno capuz marrom de Beth, que ninguém pensara em tirar da mesa onde ela o deixara. Deve ter possuído alguma magia, pois o espírito submisso de sua gentil dona pareceu entrar em Jo; e, quando Laurie desceu correndo com uma taça de vinho, ela a tomou com um sorriso e disse corajosamente: "Eu bebo — à saúde da minha Beth! Você é um bom médico, Teddy, e um amigo tão reconfortante; como poderei algum dia te retribuir?", acrescentou ela, enquanto o vinho revigorava seu corpo, assim como as palavras gentis haviam feito com sua mente perturbada.
"Enviarei minha conta, mais tarde; e esta noite vou te dar algo que aquecerá os corações mais do que litros de vinho", disse Laurie, brilhando para ela com um rosto de satisfação contida por algo.
"O que é?", exclamou Jo, esquecendo suas dores por um minuto, em sua maravilha.
"Enviei um telegrama para sua mãe ontem, e Brooke respondeu que ela viria imediatamente, e ela estará aqui esta noite, e tudo ficará bem. Você não está feliz por eu ter feito isso?"
Laurie falou muito rápido e ficou vermelho e excitado em um minuto, pois mantivera seu plano em segredo, por medo de decepcionar as meninas ou prejudicar Beth. Jo ficou pálida, voou de sua cadeira e, no momento em que ele parou de falar, ela o eletrizou ao envolver seu pescoço com os braços e exclamar, com um grito alegre: "Oh, Laurie! Oh, mamãe! Estou tão feliz!" Ela não chorou novamente, mas riu histericamente, tremeu e se agarrou ao amigo como se estivesse um pouco confusa com a notícia repentina. Laurie, embora decididamente surpreso, comportou-se com grande presença de espírito; ele acariciou as costas dela de forma tranquilizadora e, descobrindo que ela estava se recuperando, seguiu com um beijo tímido ou dois, o que trouxe Jo de volta imediatamente. Segurando-se no corrimão, ela o afastou suavemente, dizendo ofegante: "Oh, não! Eu não quis dizer isso; foi terrível da minha parte; mas você foi tão querido ao ir e fazer isso apesar de Hannah que não pude evitar avançar em você. Conte-me tudo sobre isso, e não me dê vinho novamente; isso me faz agir assim."
"Eu não me importo", riu Laurie, enquanto ajeitava sua gravata. "Bem, você vê, eu fiquei inquieto, e o vovô também. Achamos que Hannah estava exagerando na autoridade, e sua mãe deveria saber. Ela nunca nos perdoaria se Beth... bem, se algo acontecesse, você sabe. Então, fiz o vovô dizer que era hora de fazermos algo, e saí disparado para o escritório ontem, pois o médico parecia sóbrio, e Hannah quase arrancou minha cabeça quando propus um telegrama. Eu nunca suporto ser 'dominado'; então isso definiu minha mente, e eu fiz. Sua mãe virá, eu sei, e o trem noturno chega às duas da manhã. Eu irei buscá-la; e você só precisa guardar sua alegria e manter Beth quieta até que aquela abençoada senhora chegue aqui."
"Laurie, você é um anjo! Como poderei algum dia te agradecer?"
"Avance em mim novamente; eu até gosto", disse Laurie, parecendo travesso — algo que ele não fazia há quinze dias.
"Não, obrigada. Farei isso por procuração, quando seu vovô vier. Não brinque comigo, mas vá para casa e descanse, pois você ficará acordado metade da noite. Deus te abençoe, Teddy, Deus te abençoe!"
Jo havia recuado para um canto; e, ao terminar seu discurso, desapareceu precipitadamente na cozinha, onde se sentou em uma cômoda e disse aos gatos reunidos que estava "feliz, oh, tão feliz!", enquanto Laurie partia, sentindo que havia feito um bom trabalho.
"Esse é o sujeito mais intrometido que já vi; mas eu o perdoo, e espero que a Sra. March venha logo", disse Hannah, com um ar de alívio, quando Jo contou a boa notícia.
Meg teve um êxtase silencioso e depois ficou pensativa sobre a carta, enquanto Jo arrumava o quarto da doente e Hannah "preparava um par de tortas caso houvesse companhia inesperada". Um sopro de ar fresco pareceu soprar pela casa, e algo melhor do que a luz do sol iluminou os quartos silenciosos. Tudo parecia sentir a mudança esperançosa; o pássaro de Beth começou a gorjear novamente, e uma rosa semiaberta foi descoberta no arbusto de Amy na janela; as lareiras pareciam queimar com uma vivacidade incomum; e toda vez que as meninas se encontravam, seus rostos pálidos abriam-se em sorrisos enquanto se abraçavam, sussurrando encorajadoramente: "A mamãe está chegando, querida! A mamãe está chegando!" Todos se alegravam, exceto Beth; ela jazia naquele torpor pesado, inconsciente tanto da esperança quanto da alegria, da dúvida e do perigo. Era uma visão piedosa — o rosto antes rosado tão mudado e vazio, as mãos antes ocupadas tão fracas e abatidas, os lábios antes sorridentes tão mudos, e o cabelo antes bonito e bem cuidado espalhado, áspero e emaranhado no travesseiro. O dia todo ela ficou assim, apenas despertando de vez em quando para murmurar, "Água!", com lábios tão ressecados que mal conseguiam formar a palavra; o dia todo Jo e Meg pairavam sobre ela, observando, esperando, confiando em Deus e na mamãe; e o dia todo a neve caía, o vento cortante rugia, e as horas se arrastavam lentamente. Mas a noite chegou, enfim; e toda vez que o relógio batia, as irmãs, ainda sentadas de cada lado da cama, olhavam uma para a outra com olhos brilhantes, pois cada hora trazia a ajuda mais perto. O médico esteve lá para dizer que alguma mudança, para melhor ou para pior, provavelmente ocorreria por volta da meia-noite, momento em que ele retornaria.
Hannah, completamente exausta, deitou-se no sofá aos pés da cama e caiu em um sono profundo; o Sr. Laurence marchava de um lado para o outro na sala de estar, sentindo que preferiria enfrentar uma bateria rebelde do que o semblante ansioso da Sra. March ao entrar; Laurie deitava-se no tapete, fingindo descansar, mas olhando para o fogo com o olhar pensativo que tornava seus olhos negros maravilhosamente suaves e claros.
As meninas nunca esqueceram aquela noite, pois nenhum sono veio a elas enquanto faziam sua vigília, com aquele terrível sentimento de impotência que nos atinge em horas como essas.
"Se Deus poupar Beth, nunca mais vou reclamar", sussurrou Meg sinceramente.
"Se Deus poupar Beth, tentarei amá-Lo e servi-Lo por toda a minha vida", respondeu Jo, com igual fervor.
"Queria não ter coração, dói tanto", suspirou Meg, após uma pausa.
"Se a vida é frequentemente tão difícil quanto isso, não vejo como conseguiremos passar por ela", acrescentou sua irmã, desanimada.
Aqui o relógio bateu doze vezes, e ambas se esqueceram de si mesmas ao observar Beth, pois imaginaram que uma mudança passara pelo seu rosto pálido. A casa estava quieta como a morte, e nada além do lamento do vento quebrava o profundo silêncio. A exausta Hannah dormia, e ninguém, exceto as irmãs, viu a pálida sombra que parecia cair sobre a pequena cama. Uma hora se passou, e nada aconteceu, exceto a partida silenciosa de Laurie para a estação. Outra hora — ainda ninguém veio; e medos ansiosos de atraso na tempestade, ou acidentes no caminho, ou, pior de tudo, uma grande tristeza em Washington, assombravam as pobres meninas.
Passava das duas horas, quando Jo, que estava na janela pensando em quão sombrio o mundo parecia em sua mortalha de neve, ouviu um movimento perto da cama e, virando-se rapidamente, viu Meg ajoelhada diante da poltrona da mãe, com o rosto escondido. Um medo terrível passou friamente sobre Jo, enquanto ela pensava: "Beth está morta, e Meg tem medo de me contar."
Ela estava de volta ao seu posto em um instante e, para seus olhos excitados, uma grande mudança parecia ter ocorrido. O rubor da febre e a expressão de dor haviam desaparecido, e o pequeno rosto amado parecia tão pálido e sereno em seu repouso absoluto, que Jo não sentiu desejo de chorar ou lamentar. Inclinando-se baixo sobre esta mais querida de suas irmãs, ela beijou a testa úmida com o coração nos lábios e sussurrou suavemente: "Adeus, minha Beth; adeus!"
Como se despertada pela agitação, Hannah começou a sair de seu sono, apressou-se até a cama, olhou para Beth, sentiu suas mãos, ouviu sua respiração nos lábios e, então, jogando seu avental sobre a cabeça, sentou-se para balançar de um lado para o outro, exclamando, em voz baixa: "A febre passou; ela está dormindo naturalmente; sua pele está úmida e ela respira facilmente. Louvado seja Deus! Oh, minha nossa senhora!"
Antes que as meninas pudessem acreditar na feliz verdade, o médico veio para confirmá-la. Ele era um homem simples, mas elas acharam seu rosto bastante angelical quando ele sorriu e disse, com um olhar paternal para elas: "Sim, minhas queridas, acho que a garotinha vai se recuperar desta vez. Mantenham a casa silenciosa; deixem-na dormir e, quando ela acordar, dêem-lhe..."
O que elas deveriam dar, nenhuma ouviu; pois ambas se arrastaram para o corredor escuro e, sentadas na escada, abraçaram-se fortemente, regozijando-se com corações cheios demais para palavras. Quando voltaram para serem beijadas e acariciadas pela fiel Hannah, encontraram Beth deitada, como costumava fazer, com a bochecha apoiada na mão, a palidez terrível desaparecida, e respirando calmamente, como se tivesse acabado de adormecer.
"Se a mamãe pudesse vir agora!", disse Jo, enquanto a noite de inverno começava a minguar.
"Veja", disse Meg, aproximando-se com uma rosa branca, entreaberta, "eu pensei que isso dificilmente estaria pronto para ser colocado na mão de Beth amanhã se ela... partisse de nós. Mas floresceu durante a noite, e agora pretendo colocá-la no meu vaso aqui, para que, quando a querida acordar, a primeira coisa que ela veja seja a pequena rosa e o rosto da mamãe."
Nunca o sol nascera tão lindamente, e nunca o mundo parecera tão adorável, como parecia para os olhos pesados de Meg e Jo, ao olharem para fora no início da manhã, quando sua longa e triste vigília terminara.
"Parece um mundo de contos de fadas", disse Meg, sorrindo para si mesma, enquanto estava atrás da cortina, observando a visão deslumbrante.
"Escute!", gritou Jo, levantando-se.
Sim, havia um som de sinos na porta lá embaixo, um grito de Hannah e, então, a voz de Laurie dizendo, em um sussurro alegre: "Meninas, ela chegou! ela chegou!"
Enquanto essas coisas aconteciam em casa, Amy passava por momentos difíceis na casa de Aunt March. Ela sentia profundamente seu exílio e, pela primeira vez na vida, percebeu o quanto era amada e mimada em casa. Aunt March nunca mimava ninguém; ela não aprovava tal coisa; mas tinha a intenção de ser gentil, pois a garotinha bem-educada a agradava muito, e Aunt March guardava um lugar carinhoso em seu velho coração para os filhos de seu sobrinho, embora não achasse apropriado confessá-lo. Ela realmente fazia o seu melhor para tornar Amy feliz, mas, céus, que erros ela cometia! Algumas pessoas idosas mantêm o coração jovem apesar das rugas e dos cabelos brancos, conseguem simpatizar com os pequenos cuidados e alegrias das crianças, fazem com que se sintam em casa e conseguem esconder lições sábias sob brincadeiras agradáveis, dando e recebendo amizade da maneira mais doce. Mas Aunt March não tinha esse dom, e ela preocupava Amy muito com suas regras e ordens, seus modos puritanos e suas conversas longas e enfadonhas. Achando a criança mais dócil e amável do que sua irmã, a velha senhora sentia ser seu dever tentar neutralizar, tanto quanto possível, os maus efeitos da liberdade e da indulgência domésticas. Então, ela tomou Amy sob sua tutela e a ensinou como ela mesma havia sido ensinada sessenta anos atrás — um processo que trazia consternação à alma de Amy e a fazia sentir-se como uma mosca na teia de uma aranha muito rigorosa.
Ela tinha que lavar as xícaras todas as manhãs e polir as colheres antiquadas, o bule de prata gordo e os copos, até que brilhassem. Depois, devia tirar o pó da sala, e que tarefa exaustiva era aquela! Nem um grão escapava ao olhar de Aunt March, e todos os móveis tinham pés de garra e muitas entalhes, que nunca eram limpos de maneira a satisfazê-la. Então, Polly precisava ser alimentado, o cão de colo penteado, e uma dúzia de viagens escada acima e abaixo para buscar coisas ou entregar ordens, pois a velha senhora era muito manca e raramente deixava sua poltrona. Após esses trabalhos cansativos, ela devia fazer suas lições, o que era um teste diário de cada virtude que possuía. Depois, ela recebia uma hora para exercício ou brincadeira, e ela não aproveitava? Laurie vinha todos os dias e convencia Aunt March, até que Amy recebia permissão para sair com ele, quando caminhavam e cavalgavam, e tinham momentos excelentes. Após o jantar, ela tinha que ler em voz alta e ficar sentada quieta enquanto a velha senhora dormia, o que ela geralmente fazia por uma hora, já que cochilava na primeira página. Então, retalhos ou toalhas apareciam, e Amy costurava com mansidão externa e rebelião interna até o anoitecer, quando lhe era permitido divertir-se como quisesse até a hora do chá. As noites eram as piores de todas, pois Aunt March começava a contar longas histórias sobre sua juventude, que eram tão inefavelmente entediantes que Amy sempre estava pronta para ir para a cama, pretendendo chorar por seu destino cruel, mas geralmente adormecendo antes de ter conseguido soltar mais do que uma ou duas lágrimas.
Se não fosse por Laurie e pela velha Esther, a empregada, ela sentia que jamais teria conseguido atravessar aquele período terrível. O papagaio, por si só, era suficiente para deixá-la distraída, pois ele logo sentiu que ela não o admirava e se vingava sendo o mais travesso possível. Ele puxava o cabelo dela sempre que ela se aproximava, virava sua comida para aborrecê-la quando ela tinha acabado de limpar a gaiola, fazia Mop latir ao bicar o animal enquanto a patroa cochilava; chamava-a de nomes na frente de visitas e comportava-se em todos os aspectos como um pássaro velho repreensível. Depois, ela não suportava o cachorro — um animal gordo e rabugento, que rosnava e gania para ela quando ela cuidava de sua higiene, e que deitava de costas, com todas as patas no ar e uma expressão de semblante a mais idiota possível quando queria algo para comer, o que era cerca de uma dúzia de vezes ao dia. A cozinheira era de temperamento ruim, o cocheiro velho era surdo, e Esther era a única que prestava qualquer atenção à jovem dama.
Esther era uma francesa que vivera com "Madame", como chamava sua patroa, por muitos anos, e que de certa forma tiranizava a velha senhora, que não conseguia se virar sem ela. Seu nome real era Estelle, mas Aunt March ordenou que ela o mudasse, e ela obedeceu, com a condição de que nunca lhe pedissem para mudar sua religião. Ela tomou afeição por Mademoiselle e a divertia muito com histórias estranhas de sua vida na França, quando Amy sentava-se com ela enquanto a empregada passava as rendas de Madame. Ela também permitia que Amy vagasse pela casa grande e examinasse as coisas curiosas e bonitas guardadas nos grandes guarda-roupas e nos baús antigos; pois Aunt March acumulava coisas como uma pega. O maior deleite de Amy era um gabinete indiano, cheio de gavetinhas estranhas, pequenos nichos e lugares secretos, nos quais eram guardados todos os tipos de ornamentos, alguns preciosos, outros meramente curiosos, todos mais ou menos antigos. Examinar e organizar essas coisas dava a Amy grande satisfação, especialmente as caixas de joias, nas quais, sobre almofadas de veludo, repousavam os ornamentos que haviam adornado uma beldade quarenta anos atrás. Havia o conjunto de granadas que Aunt March usou quando foi apresentada à sociedade, as pérolas que seu pai lhe dera no dia de seu casamento, os diamantes de seu amante, os anéis e alfinetes de luto de azeviche, os relicários estranhos com retratos de amigos mortos e salgueiros chorões feitos de cabelo no interior; as pulseiras de bebê que sua única filha pequena havia usado; o grande relógio de Uncle March, com o selo vermelho que tantas mãos infantis haviam tocado, e em uma caixa, toda sozinha, repousava a aliança de casamento de Aunt March, pequena demais agora para seu dedo gordo, mas guardada cuidadosamente, como a joia mais preciosa de todas.
"O que Mademoiselle escolheria se tivesse vontade?", perguntou Esther, que sempre sentava por perto para vigiar e trancar os objetos de valor.
"Gosto mais dos diamantes, mas não há nenhum colar entre eles, e gosto de colares, eles ficam tão bem. Eu escolheria este se pudesse", respondeu Amy, olhando com grande admiração para um cordão de contas de ouro e ébano, do qual pendia uma pesada cruz do mesmo material.
"Eu, também, cobiço isso, mas não como um colar; ah, não! Para mim é um rosário, e como tal eu o usaria como uma boa católica", disse Esther, observando a bela peça com melancolia.
"É para ser usado como você usa o cordão de contas de madeira cheirosas que fica pendurado sobre seu espelho?", perguntou Amy.
"Certamente, sim, para rezar. Seria agradável aos santos se alguém usasse um rosário tão fino como este, em vez de usá-lo como uma bijuteria vã."
"Você parece encontrar muito consolo em suas orações, Esther, e sempre desce parecendo calma e satisfeita. Eu gostaria de poder."
"Se Mademoiselle fosse católica, encontraria verdadeiro conforto; mas, como isso não é possível, seria bom que você se retirasse a cada dia, para meditar e rezar, como fazia a boa patroa a quem servi antes de Madame. Ela tinha uma pequena capela, e nela encontrava alívio para muitas aflições."
"Seria certo eu fazer o mesmo?", perguntou Amy, que, em sua solidão, sentia a necessidade de algum tipo de ajuda e descobriu que tendia a esquecer seu livrinho, agora que Beth não estava lá para lembrá-la disso.
"Seria excelente e encantador; e terei prazer em arrumar o pequeno vestiário para você, se desejar. Não diga nada a Madame, mas, quando ela dormir, vá e sente-se sozinha por um tempo para pensar bons pensamentos e rezar ao querido Deus para preservar sua irmã."
Esther era verdadeiramente piedosa e muito sincera em seu conselho; pois tinha um coração afetuoso e sentia muito pelas irmãs em sua ansiedade. Amy gostou da ideia e deu-lhe permissão para arrumar o pequeno armário ao lado de seu quarto, esperando que isso lhe fizesse bem.
"Eu gostaria de saber para onde irão todas essas coisas bonitas quando Aunt March morrer", disse ela, enquanto recolocava lentamente o rosário brilhante e fechava as caixas de joias uma por uma.
"Para você e suas irmãs. Eu sei disso; Madame confia em mim; fui testemunha do testamento dela, e será assim", sussurrou Esther, sorrindo.
"Que bom! Mas eu gostaria que ela nos deixasse tê-las agora. Pro-cras-ti-na-ção não é agradável", observou Amy, dando uma última olhada nos diamantes.
"Ainda é cedo para as jovens senhoras usarem essas coisas. A primeira que for noiva terá as pérolas — Madame disse isso; e tenho a impressão de que o pequeno anel de turquesa será dado a você quando for embora, pois Madame aprova seu bom comportamento e maneiras encantadoras."
"Você acha? Oh, serei um cordeiro, se puder apenas ter aquele lindo anel! É muito mais bonito do que o de Kitty Bryant. Eu gosto de Aunt March, afinal de contas", e Amy experimentou o anel azul com um rosto encantado e uma firme resolução de merecê-lo.
A partir daquele dia, ela foi um modelo de obediência, e a velha senhora admirava complacente o sucesso de seu treinamento. Esther arrumou o armário com uma mesinha, colocou um banquinho diante dela e, sobre ele, um quadro retirado de um dos quartos fechados. Ela achava que não era de grande valor, mas, sendo apropriado, ela o pegou emprestado, sabendo muito bem que Madame nunca saberia, nem se importaria se soubesse. Era, no entanto, uma cópia muito valiosa de um dos quadros famosos do mundo, e os olhos de Amy, amantes da beleza, nunca se cansavam de olhar para o rosto doce da mãe divina, enquanto pensamentos ternos sobre a sua própria mãe ocupavam seu coração. Sobre a mesa, ela colocou seu pequeno Novo Testamento e hinário, mantinha um vaso sempre cheio das melhores flores que Laurie lhe trazia e ia todos os dias para "sentar-se sozinha, pensando bons pensamentos e rezando ao querido Deus para preservar sua irmã". Esther lhe dera um rosário de contas pretas, com uma cruz de prata, mas Amy pendurou-o e não o usou, sentindo dúvidas quanto à sua adequação para orações protestantes.
A menina era muito sincera em tudo isso, pois, sendo deixada sozinha fora do ninho seguro de casa, sentia a necessidade de alguma mão bondosa para segurar tão intensamente, que instintivamente se voltava para o Amigo forte e terno, cujo amor paternal envolve mais estreitamente seus filhinhos. Ela sentia falta da ajuda de sua mãe para entender e governar a si mesma, mas, tendo sido ensinada onde procurar, ela fazia o seu melhor para encontrar o caminho e caminhar nele com confiança. Mas Amy era uma jovem peregrina, e agora seu fardo parecia muito pesado. Ela tentava esquecer-se de si mesma, manter-se alegre e estar satisfeita em fazer o que era certo, embora ninguém a visse ou a elogiasse por isso. Em seu primeiro esforço para ser muito, muito boa, ela decidiu fazer seu testamento, como Aunt March havia feito; para que, se ela adoecesse e morresse, seus pertences pudessem ser divididos de forma justa e generosa. Custou-lhe uma dor até mesmo pensar em abrir mão dos pequenos tesouros que, aos seus olhos, eram tão preciosos quanto as joias da velha senhora.
Durante uma de suas horas de brincadeira, ela escreveu o importante documento tão bem quanto pôde, com alguma ajuda de Esther quanto a certos termos jurídicos, e, quando a francesa de bom coração assinou seu nome, Amy sentiu-se aliviada e guardou-o para mostrar a Laurie, a quem ela queria como segunda testemunha. Como era um dia chuvoso, ela subiu para se divertir em um dos grandes aposentos e levou Polly consigo para fazer companhia. Neste quarto havia um guarda-roupa cheio de trajes à moda antiga, com os quais Esther a deixava brincar, e era seu passatempo favorito vestir-se com os brocados desbotados e desfilar diante do espelho comprido, fazendo cortesias imponentes e arrastando sua cauda com um farfalhar que deleitava seus ouvidos. Tão ocupada ela estava naquele dia que não ouviu o chamado de Laurie, nem viu seu rosto espreitando-a enquanto ela caminhava gravemente de um lado para o outro, agitando seu leque e balançando a cabeça, na qual usava um grande turbante rosa, contrastando estranhamente com seu vestido de brocado azul e anágua acolchoada amarela. Ela era obrigada a andar com cuidado, pois estava com sapatos de salto alto, e, como Laurie disse a Jo mais tarde, era uma visão cômica vê-la caminhar de miudezas em seu traje alegre, com Polly andando de lado logo atrás dela, imitando-a tão bem quanto podia e ocasionalmente parando para rir ou exclamar: "Não estamos elegantes? Siga em frente, sua assombração! Cale a boca! Beije-me, querida! Ha! ha!"
Tendo dificuldade em conter uma explosão de riso, para não ofender sua majestade, Laurie bateu e foi recebido graciosamente.
"Sente-se e descanse enquanto guardo estas coisas; depois, quero consultá-lo sobre um assunto muito sério", disse Amy, quando mostrou seu esplendor e encurralou Polly em um canto. "Aquele pássaro é a provação da minha vida", continuou ela, removendo a montanha rosa de sua cabeça, enquanto Laurie se sentava a cavalo em uma cadeira. "Ontem, quando tia estava dormindo e eu tentava ficar quieta como um camundongo, Polly começou a gritar e a bater as asas na gaiola; então fui soltá-lo e encontrei uma aranha grande lá. Eu a cutuquei e ela correu para debaixo da estante; Polly marchou direto atrás dela, abaixou-se e espiou debaixo da estante, dizendo, à sua maneira engraçada, com um inclinar de cabeça: 'Saia e dê um passeio, querida'. Não pude evitar rir, o que fez o Poll praguejar, e a tia acordou e nos deu uma bronca nos dois."
"A aranha aceitou o convite do velho sujeito?", perguntou Laurie, bocejando.
"Sim; ela saiu, e Polly saiu correndo, assustado até a morte, e subiu na cadeira da tia, gritando: 'Pegue ela! pegue ela! pegue ela!', enquanto eu perseguia a aranha."
"Isso é mentira! Oh céus!", gritou o papagaio, bicando os dedos dos pés de Laurie.
"Eu torceria seu pescoço se você fosse meu, seu velho tormento", gritou Laurie, sacudindo o punho para o pássaro, que inclinou a cabeça para o lado e grasnou gravemente: "Aleluia! abençoe seus botões, querido!"
"Agora estou pronta", disse Amy, fechando o guarda-roupa e tirando um papel do bolso. "Quero que leia isso, por favor, e me diga se é legal e correto. Senti que deveria fazer isso, pois a vida é incerta e não quero nenhum ressentimento sobre meu túmulo."
Laurie mordeu os lábios e, virando-se um pouco da oradora pensativa, leu o seguinte documento com uma gravidade louvável, considerando a ortografia:
"MEU ÚLTIMO TESTAMENTO.
"Eu, Amy Curtis March, estando em minha mente sã, dou e legar toda a minha propriedade terrena -- viz.: a saber: -- nomeadamente
"Ao meu pai, meus melhores quadros, esboços, mapas e obras de arte, incluindo molduras. Também meus $100, para fazer o que ele quiser com eles.
"À minha mãe, todas as minhas roupas, exceto o avental azul com bolsos -- também meu retrato e minha medalha, com muito amor.
"À minha querida irmã Margaret, dou meu anel de turquesa (se eu o conseguir), também minha caixa verde com as pombas nela, também meu pedaço de renda verdadeira para seu pescoço e meu esboço dela como um memorial de sua 'garotinha'.
"Para Jo deixo meu broche, aquele consertado com cera de lacre, também meu tinteiro de bronze -- ela perdeu a tampa -- e meu coelho de gesso mais precioso, porque sinto muito por ter queimado sua história.
"Para Beth (se ela viver depois de mim) dou minhas bonecas e a pequena cômoda, meu leque, meus colarinhos de linho e meus chinelos novos se ela puder usá-los, sendo magros quando ela ficar boa. E aqui também deixo meu pesar por ter zombado da velha Joanna.
"Para meu amigo e vizinho Theodore Laurence, lego meu portfólio de papel machê, meu modelo de argila de um cavalo, embora ele tenha dito que não tinha pescoço. Também, em troca de sua grande bondade na hora da aflição, qualquer uma de minhas obras artísticas que ele goste, Noter Dame é a melhor.
"Para nosso venerável benfeitor Sr. Laurence, deixo minha caixa roxa com um espelho na tampa, que será boa para suas canetas e o lembrará da garota que partiu, que lhe agradece por seus favores à sua família, especialmente a Beth.
"Desejo que minha companheira de brincadeiras favorita, Kitty Bryant, tenha o avental de seda azul e meu anel de contas de ouro com um beijo.
"Para Hannah, dou a caixa de chapéu que ela queria e todo o trabalho de retalhos deixo esperando que ela 'se lembre de mim, quando o vir'.
"E agora, tendo disposto da minha propriedade mais valiosa, espero que todos fiquem satisfeitos e não culpem a morta. Perdoo a todos e confio que possamos nos encontrar quando a trombeta soar. Amém.
"A este testamento, coloco minha mão e selo neste 20º dia de nov. Anni Domino 1861. "AMY CURTIS MARCH.
{ESTELLE VALNOR, "Testemunhas: { {THEODORE LAURENCE."
O último nome foi escrito a lápis, e Amy explicou que ele deveria reescrevê-lo a tinta e selá-lo para ela corretamente.
"O que colocou isso na sua cabeça? Alguém lhe contou sobre Beth dar suas coisas?", perguntou Laurie sobriamente, enquanto Amy colocava um pedaço de fita vermelha, com cera de lacre, uma vela e um tinteiro diante dele.
Ela explicou; e então perguntou ansiosamente: "O que há com Beth?"
"Lamento ter falado; mas como o fiz, vou lhe contar. Ela se sentiu tão mal um dia que disse a Jo que queria dar seu piano para Meg, seus gatos para você, e a pobre boneca velha para Jo, que a amaria por causa dela. Ela lamentava ter tão pouco para dar e deixou mechas de cabelo para o resto de nós, e seu melhor amor para o vovô. Ela nunca pensou em um testamento."
Laurie estava assinando e selando enquanto falava, e não levantou os olhos até que uma grande lágrima caiu sobre o papel. O rosto de Amy estava cheio de preocupação; mas ela apenas disse: "As pessoas não colocam uma espécie de posfácio em seus testamentos, às vezes?"
"Sim; 'codicilos', eles os chamam."
"Coloque um no meu então -- que desejo que todos os meus cachos sejam cortados e dados aos meus amigos. Esqueci disso; mas quero que seja feito, embora vá estragar minha aparência."
Laurie adicionou, sorrindo com o último e maior sacrifício de Amy. Depois, ele a divertiu por uma hora e interessou-se muito por todas as suas provações. Mas quando ele foi embora, Amy o deteve para sussurrar, com lábios trêmulos: "Há realmente algum perigo com Beth?"
"Temo que haja; mas devemos esperar pelo melhor, então não chore, querida"; e Laurie colocou o braço em volta dela com um gesto fraternal que foi muito reconfortante.
Quando ele se foi, ela foi para sua pequena capela e, sentada no crepúsculo, rezou por Beth, com lágrimas escorrendo e um coração dolorido, sentindo que um milhão de anéis de turquesa não a consolariam pela perda de sua gentil irmãzinha.
XX.
CONFIDENCIAL.
Não creio ter palavras para descrever o encontro da mãe com as filhas; tais horas são belas de viver, mas muito difíceis de descrever, por isso deixarei à imaginação dos meus leitores, apenas dizendo que a casa estava cheia de felicidade genuína, e que a esperança terna de Meg foi realizada; pois, quando Beth acordou daquele longo sono curativo, os primeiros objetos em que seus olhos pousaram foram a pequena rosa e o rosto da mãe. Fraca demais para se admirar com qualquer coisa, ela apenas sorriu e aninhou-se perto dos braços amorosos ao seu redor, sentindo que o desejo faminto estava finalmente satisfeito. Então, ela dormiu novamente, e as meninas cuidaram da mãe, pois ela não soltava a mão fina que se agarrava à sua mesmo durante o sono. Hannah havia "servido" um café da manhã surpreendente para a viajante, achando impossível expressar sua empolgação de qualquer outra forma; e Meg e Jo alimentaram a mãe como jovens cegonhas obedientes, enquanto ouviam seu relato sussurrado sobre o estado do pai, a promessa do Sr. Brooke de ficar e cuidar dele, os atrasos que a tempestade causou na viagem de volta e o conforto indescritível que o rosto esperançoso de Laurie lhe dera quando ela chegou, exausta de fadiga, ansiedade e frio.
Que dia estranho, porém agradável, foi aquele! Tão brilhante e alegre lá fora, pois o mundo inteiro parecia estar ao relento para dar as boas-vindas à primeira neve; tão calmo e repousante lá dentro, pois todos dormiam, exaustos de tanto vigiar, e um silêncio de sábado reinava pela casa, enquanto Hannah, cochilando, montava guarda à porta. Com uma sensação beatífica de fardos retirados, Meg e Jo fecharam os olhos cansados e ficaram em repouso, como barcos fustigados pela tempestade, seguros na âncora em um porto tranquilo. A Sra. March não quis deixar o lado de Beth, mas descansou na poltrona grande, despertando frequentemente para olhar, tocar e velar por sua filha, como um avarento sobre algum tesouro recuperado.
Laurie, enquanto isso, partiu apressado para confortar Amy, e contou sua história tão bem que a Tia March na verdade "fungou" a si mesma, e nem uma única vez disse: "Eu bem que avisei". Amy saiu-se tão bem nesta ocasião que penso que os bons pensamentos na pequena capela realmente começaram a dar frutos. Ela enxugou as lágrimas rapidamente, conteve sua impaciência para ver a mãe e nem sequer pensou no anel de turquesa, quando a velha senhora concordou sinceramente com a opinião de Laurie, de que ela se comportara "como uma pequena mulher exemplar". Até Polly parecia impressionado, pois chamou-a de "boa menina", abençoou seus botões e implorou que ela "viesse dar um passeio, querida", em seu tom mais afável. Ela teria ido muito alegremente desfrutar do tempo invernal brilhante; mas, descobrindo que Laurie estava caindo de sono, apesar dos esforços varonis para esconder o fato, ela o persuadiu a descansar no sofá, enquanto escrevia um bilhete para a mãe. Ela demorou bastante tempo; e, quando retornou, ele estava estirado, com ambos os braços sob a cabeça, profundamente adormecido, enquanto a Tia March descera as cortinas e sentara-se sem fazer nada, num surto incomum de benevolência.
Depois de algum tempo, começaram a achar que ele não acordaria até a noite, e não tenho certeza se o faria, não tivesse sido efetivamente despertado pelo grito de alegria de Amy ao ver sua mãe. Provavelmente havia muitas garotinhas felizes na cidade e arredores naquele dia, mas é minha opinião particular que Amy era a mais feliz de todas, quando sentou no colo da mãe e contou suas provações, recebendo consolo e compensação na forma de sorrisos de aprovação e carícias afetuosas. Elas estavam sozinhas na capela, à qual a mãe não se opôs quando seu propósito lhe foi explicado.
"Pelo contrário, gosto muito disso, querida", disse, olhando do rosário empoeirado para o livrinho bem gasto, e para a linda imagem com sua guirlanda de folhagens perenes. "É um plano excelente ter algum lugar onde possamos ir para ficar quietas, quando as coisas nos aborrecem ou entristecem. Há muitos momentos difíceis nesta nossa vida, mas sempre podemos suportá-los se pedirmos ajuda da maneira certa. Acho que minha menina está aprendendo isso?"
"Sim, mamãe; e quando eu for para casa pretendo ter um canto no armário grande para colocar meus livros e a cópia daquela imagem que tentei fazer. O rosto da mulher não ficou bom — é belo demais para eu desenhar —, mas o bebê ficou melhor, e eu o amo muito. Gosto de pensar que Ele foi uma criancinha um dia, pois então não me pareço tão distante, e isso me ajuda."
Enquanto Amy apontava para o Menino Jesus sorridente no colo da mãe, a Sra. March viu algo na mão erguida que a fez sorrir. Ela não disse nada, mas Amy compreendeu o olhar e, após uma pausa de um minuto, acrescentou seriamente:
"Eu queria falar com você sobre isso, mas esqueci. Tia me deu o anel hoje; ela me chamou, beijou-me, colocou-o no meu dedo e disse que eu era um orgulho para ela, e que gostaria de me manter sempre por perto. Ela deu aquele aparador engraçado para segurar a turquesa, já que é grande demais. Gostaria de usá-los, mamãe; posso?"
"São muito bonitos, mas acho que você é um pouco jovem demais para tais ornamentos, Amy", disse a Sra. March, olhando para a mãozinha rechonchuda, com a faixa de pedras azul-celeste no dedo indicador e o aparador peculiar, formado por duas mãos minúsculas de ouro entrelaçadas.
"Tentarei não ser vaidosa", disse Amy. "Não acho que gosto dele apenas por ser tão bonito; mas quero usá-lo como a garota da história usava sua pulseira, para me lembrar de algo."
"Você quer dizer a Tia March?", perguntou a mãe, rindo.
"Não, para me lembrar de não ser egoísta." Amy parecia tão séria e sincera a respeito disso que sua mãe parou de rir e ouviu respeitosamente o pequeno plano.
"Tenho pensado muito ultimamente sobre meu 'fardo de travessuras', e ser egoísta é a maior delas; então, vou tentar arduamente curá-lo, se puder. Beth não é egoísta, e é por isso que todos a amam e se sentem tão mal só de pensar em perdê-la. As pessoas não se sentiriam nem metade tão mal por mim se eu estivesse doente, e não mereço que elas se sintam; mas gostaria de ser amada e que sentissem minha falta, por muitos amigos, então vou tentar ser como Beth o quanto puder. Costumo esquecer minhas resoluções; mas se eu tivesse algo sempre comigo para me lembrar, acho que me sairia melhor. Posso tentar desta maneira?"
"Sim; mas tenho mais fé no canto do armário grande. Use seu anel, querida, e faça o seu melhor; acho que você prosperará, pois o desejo sincero de ser boa é metade da batalha. Agora preciso voltar para Beth. Mantenha o ânimo, pequena filha, e logo teremos você de volta em casa."
Naquela noite, enquanto Meg escrevia ao pai para relatar a chegada segura do viajante, Jo subiu furtivamente para o quarto de Beth e, encontrando a mãe em seu lugar habitual, ficou um minuto torcendo os dedos nos cabelos, com um gesto preocupado e um olhar indeciso.
"O que foi, querida?", perguntou a Sra. March, estendendo a mão, com um rosto que convidava à confiança.
"Quero lhe contar uma coisa, mamãe."
"Sobre Meg?"
"Como você adivinhou rápido! Sim, é sobre ela, e embora seja uma coisa pequena, isso me inquieta."
"Beth está dormindo; fale baixo e conte-me tudo a respeito. Aquele Moffat não esteve aqui, espero?", perguntou a Sra. March com um tom um tanto ríspido.
"Não, eu teria batido a porta na cara dele se tivesse estado", disse Jo, acomodando-se no chão aos pés da mãe. "No verão passado, Meg esqueceu um par de luvas lá nos Laurence, e apenas uma foi devolvida. Nós esquecemos tudo sobre isso, até que Teddy me disse que o Sr. Brooke a tinha. Ele a guardava no bolso do colete, e certa vez ela caiu, e Teddy brincou com ele sobre isso, e o Sr. Brooke confessou que gostava de Meg, mas não ousava dizer, por ela ser tão jovem e ele tão pobre. Agora, não é um estado de coisas terrível?"
"Você acha que Meg se importa com ele?", perguntou a Sra. March, com um olhar ansioso.
"Valha-me Deus! Não sei nada sobre amor e essas tolices!", exclamou Jo, com uma mistura engraçada de interesse e desprezo. "Nos romances, as garotas mostram isso começando a corar, desmaiando, emagrecendo e agindo como tolas. Ora, Meg não faz nada desse tipo: ela come, bebe e dorme como uma criatura sensata: ela olha direto nos meus olhos quando falo sobre aquele homem, e apenas cora um pouquinho quando Teddy brinca sobre namorados. Eu o proíbo de fazer isso, mas ele não me ouve como deveria."
"Então você imagina que Meg não está interessada em John?"
"Quem?", exclamou Jo, arregalando os olhos.
"Sr. Brooke. Eu o chamo de 'John' agora; pegamos o jeito de fazê-lo no hospital, e ele gosta."
"Oh, céus! Eu sabia que você ficaria do lado dele: ele foi bom com o papai, e você não o mandará embora, mas deixará Meg se casar com ele, se ela quiser. Coisa mesquinha! ir mimar o papai e ajudar você, só para te manipular a gostar dele"; e Jo puxou o cabelo novamente com um puxão colérico.
"Minha querida, não se zangue com isso, e eu lhe direi como aconteceu. John foi comigo a pedido do Sr. Laurence, e foi tão dedicado ao pobre papai que não pudemos deixar de nos afeiçoar a ele. Ele foi perfeitamente aberto e honrado a respeito de Meg, pois nos disse que a amava, mas que ganharia um lar confortável antes de pedir que ela se casasse com ele. Ele só queria nossa permissão para amá-la e trabalhar por ela, e o direito de fazer com que ela o amasse, se pudesse. Ele é um jovem verdadeiramente excelente, e não poderíamos nos recusar a ouvi-lo; mas não consentirei que Meg se comprometa sendo tão jovem."
"Claro que não; seria idiota! Eu sabia que havia confusão no ar; eu senti; e agora é pior do que imaginei. Eu só queria poder me casar com Meg eu mesma, e mantê-la segura na família."
Esse arranjo estranho fez a Sra. March sorrir; mas ela disse seriamente: "Jo, confio em você e não quero que diga nada a Meg ainda. Quando John voltar, e eu os vir juntos, poderei julgar melhor os sentimentos dela por ele."
"Ela verá os sentimentos dele naqueles olhos bonitos de que ela fala, e então estará tudo acabado para ela. Ela tem um coração tão mole, que derreterá como manteiga ao sol se alguém olhar sentimentalmente para ela. Ela leu os breves relatos que ele enviou mais do que as suas cartas, e me beliscou quando falei disso, e gosta de olhos castanhos, e não acha John um nome feio, e ela vai acabar se apaixonando, e fim da paz, da diversão e dos momentos aconchegantes juntos. Eu vejo tudo! eles andarão namorando pela casa, e nós teremos que nos esquivar; Meg ficará absorta e não me servirá mais para nada; Brooke arranjará uma fortuna de alguma forma, levará ela embora e fará um buraco na família; e eu ficarei com o coração partido, e tudo ficará abominavelmente desconfortável. Oh, meu Deus! por que não fomos todos meninos, então não haveria incômodo algum."
Jo apoiou o queixo nos joelhos, numa atitude desconsolada, e balançou o punho para o repreensível John. A Sra. March suspirou, e Jo olhou para cima com um ar de alívio.
"Você não gosta disso, mamãe? Fico feliz com isso. Vamos mandá-lo cuidar da vida dele, e não contar uma palavra disso a Meg, mas sermos todas felizes juntas como sempre fomos."
"Fiz mal em suspirar, Jo. É natural e correto que todas vocês busquem lares próprios, com o tempo; mas quero manter minhas filhas o quanto puder; e lamento que isso tenha acontecido tão cedo, pois Meg tem apenas dezessete anos, e levará alguns anos até que John possa fazer um lar para ela. Seu pai e eu concordamos que ela não se comprometerá de forma alguma, nem se casará, antes dos vinte. Se ela e John se amam, podem esperar, e testar o amor fazendo isso. Ela é conscienciosa, e não tenho medo de que ela o trate com desdém. Minha linda e sensível menina! Espero que as coisas corram bem para ela."
"Você não preferiria que ela se casasse com um homem rico?", perguntou Jo, enquanto a voz da mãe vacilava um pouco nas últimas palavras.
"Dinheiro é uma coisa boa e útil, Jo; e espero que minhas filhas nunca sintam sua falta amargamente demais, nem sejam tentadas por excesso dele. Gostaria de saber que John estava firmemente estabelecido em algum bom negócio, que lhe desse uma renda grande o suficiente para se manter livre de dívidas e tornar Meg confortável. Não sou ambiciosa por uma fortuna esplêndida, uma posição social elegante ou um grande nome para minhas filhas. Se a posição e o dinheiro vierem com o amor e a virtude, também, eu os aceitaria com gratidão e desfrutaria da sua boa sorte; mas sei, por experiência, quanta felicidade genuína pode ser obtida em uma casa simples e pequena, onde o pão de cada dia é ganho, e algumas privações dão doçura aos poucos prazeres. Estou contente em ver Meg começar humildemente, pois, se não me engano, ela será rica com a posse do coração de um bom homem, e isso é melhor do que uma fortuna."
"Entendo, mamãe, e concordo plenamente; mas estou desapontada com Meg, pois planejei que ela se casasse com Teddy daqui a algum tempo, e vivesse no colo do luxo todos os seus dias. Não seria legal?", perguntou Jo, olhando para cima, com o rosto mais brilhante.
"Ele é mais jovem que ela, você sabe", começou a Sra. March; mas Jo a interrompeu:
"Só um pouco; ele é maduro para a idade, e alto; e pode ser bem adulto em suas maneiras se quiser. Além disso, ele é rico, generoso e bom, e nos ama a todas; e eu digo que é uma pena que meu plano esteja arruinado."
"Receio que Laurie ainda não seja maduro o suficiente para Meg, e, no momento, seja um cata-vento instável demais para que alguém dependa dele. Não faça planos, Jo; mas deixe que o tempo e os corações deles unam seus amigos. Não podemos interferir com segurança em tais assuntos, e é melhor não colocar 'lixo romântico', como você chama, em nossas cabeças, para que isso não estrague nossa amizade."
"Bem, não farei; mas odeio ver as coisas ficando todas cruzadas e se emaranhando, quando um puxão aqui e um corte ali as endireitariam. Gostaria que usar ferros de passar nas nossas cabeças nos impedisse de crescer. Mas os botões serão rosas, e os gatinhos, gatos — ainda bem que não!"
"O que é isso sobre ferros de passar e gatos?", perguntou Meg, enquanto entrava furtivamente no quarto, com a carta terminada na mão.
"Apenas um dos meus discursos estúpidos. Vou para a cama; venha, Peggy", disse Jo, desenrolando-se como um quebra-cabeça animado.
"Muito correto, e lindamente escrito. Por favor, acrescente que envio meu carinho a John", disse a Sra. March, enquanto dava uma olhada na carta e a devolvia.
"Você o chama de 'John'?", perguntou Meg, sorrindo, com seus olhos inocentes olhando para os da mãe.
"Sim; ele tem sido como um filho para nós, e gostamos muito dele", respondeu a Sra. March, retribuindo o olhar com um agudo.
"Fico feliz com isso, ele é tão solitário. Boa noite, mamãe querida. É inexpressivamente reconfortante tê-la aqui", foi a resposta tranquila de Meg.
O beijo que sua mãe lhe deu foi muito terno; e, enquanto ela se afastava, a Sra. March disse, com uma mistura de satisfação e arrependimento: "Ela ainda não ama John, mas logo aprenderá a amar".
XXI.
LAURIE FAZ CONFUSÃO, E JO FAZ A PAZ.
O rosto de Jo foi um estudo no dia seguinte, pois o segredo pesava um pouco sobre ela, e ela achou difícil não parecer misteriosa e importante. Meg observou isso, mas não se preocupou em fazer perguntas, pois aprendera que a melhor maneira de lidar com Jo era pela lei dos contrários, então sentia-se segura de que lhe contariam tudo se não perguntasse. Ficou, portanto, um tanto surpresa quando o silêncio permaneceu ininterrupto, e Jo assumiu um ar de superioridade, o que decididamente agravou Meg, que por sua vez assumiu um ar de reserva digna e dedicou-se à mãe. Isso deixou Jo entregue à própria sorte; pois a Sra. March assumira seu lugar como enfermeira e lhe ordenara que descansasse, se exercitasse e se divertisse após seu longo confinamento. Com Amy ausente, Laurie era seu único refúgio; e, por mais que gostasse da companhia dele, ela o temia um pouco naquele momento, pois ele era um provocador incorrigível, e ela temia que ele arrancasse seu segredo.
Ela tinha toda a razão, pois o rapaz adorador de travessuras, assim que suspeitou de um mistério, empenhou-se em descobri-lo e tornou a vida de Jo difícil. Ele persuadiu, subornou, ridicularizou, ameaçou e repreendeu; fingiu indiferença, para que pudesse surpreender a verdade dela; declarou que sabia, depois que não se importava; e, por fim, à força de perseverança, convenceu-se de que envolvia Meg e o Sr. Brooke. Sentindo-se indignado por não ter sido incluído na confiança de seu tutor, ele pôs sua inteligência para trabalhar a fim de arquitetar alguma retaliação adequada pelo desprezo.
Meg, enquanto isso, aparentemente esquecera o assunto e estava absorta nos preparativos para o retorno do pai; mas, de repente, uma mudança pareceu ocorrer nela e, por um dia ou dois, ela ficou bem diferente de si mesma. Ela sobressaltava-se quando falavam com ela, corava quando olhavam para ela, era muito quieta e sentava-se sobre sua costura, com um olhar tímido e perturbado no rosto. Às perguntas da mãe, ela respondia que estava muito bem, e às de Jo, ela silenciou implorando para ser deixada em paz.
"Ela sente isso no ar — amor, quero dizer — e ela está indo muito rápido. Ela tem a maioria dos sintomas — está trêmula e irritadiça, não come, fica acordada à noite e definha pelos cantos. Eu a peguei cantando aquela música que ele lhe deu, e certa vez ela disse 'John', como você faz, e então ficou vermelha como uma papoula. O que faremos?", disse Jo, parecendo pronta para quaisquer medidas, por mais violentas que fossem.
"Nada, apenas esperar. Deixe-a em paz, seja gentil e paciente, e a chegada do pai resolverá tudo", respondeu sua mãe.
"Aqui está um bilhete para você, Meg, todo selado. Que estranho! Teddy nunca sela os meus", disse Jo, no dia seguinte, enquanto distribuía o conteúdo da pequena caixa de correio.
A Sra. March e Jo estavam profundamente imersas em seus próprios assuntos, quando um som vindo de Meg as fez olhar para cima e vê-la encarando seu bilhete, com um rosto assustado.
"Minha filha, o que é isso?", exclamou a mãe, correndo para ela, enquanto Jo tentava pegar o papel que causara a confusão.
"É tudo um erro — ele não enviou isso. Oh, Jo, como você pôde fazer isso?" e Meg escondeu o rosto nas mãos, chorando como se seu coração estivesse completamente partido.
"Eu! Não fiz nada! Do que ela está falando?", gritou Jo, perplexa.
Os olhos suaves de Meg incendiaram-se de raiva enquanto ela puxava um bilhete amassado do bolso e o jogava para Jo, dizendo com tom de reprovação:
"Você escreveu isso, e aquele garoto mau a ajudou. Como você pôde ser tão rude, tão mesquinha e cruel com nós dois?"
Jo mal a ouviu, pois ela e a mãe estavam lendo o bilhete, que fora escrito com uma caligrafia peculiar.
"MINHA QUERIDA MARGARET, —
"Não posso mais conter minha paixão, e preciso saber meu destino antes de retornar. Não ouso contar aos seus pais ainda, mas acho que eles consentiriam se soubessem que nos adoramos. O Sr. Laurence me ajudará a conseguir um bom lugar e, então, minha doce garota, você me fará feliz. Imploro que não diga nada à sua família ainda, mas envie uma palavra de esperança através de Laurie ao seu "Devotado JOHN."
"Oh, o pequeno vilão! essa é a maneira que ele encontrou para me pagar por manter minha palavra à mamãe. Vou lhe dar uma bela bronca e trazê-lo aqui para pedir perdão", exclamou Jo, ardendo para executar justiça imediata. Mas sua mãe a conteve, dizendo, com um olhar que raramente usava:
"Pare, Jo, você deve se inocentar primeiro. Você pregou tantas peças que temo que tenha tido participação nisso."
"Pela minha palavra, mamãe, não tive! Eu nunca vi esse bilhete antes, e não sei nada sobre ele, tão verdadeiro quanto vivo!", disse Jo, com tanta sinceridade que elas acreditaram nela. "Se eu tivesse participado, teria feito melhor do que isso, e escrito um bilhete sensato. Acho que você deveria ter sabido que o Sr. Brooke não escreveria tais bobagens", acrescentou ela, jogando o papel de lado com desprezo.
"É parecido com a letra dele", vacilou Meg, comparando-o com o bilhete que tinha na mão.
"Oh, Meg, você respondeu?", perguntou a Sra. March rapidamente.
"Sim, eu respondi!" e Meg escondeu o rosto novamente, vencida pela vergonha.
"Que enrascada! Deixe-me trazer aquele menino perverso para explicar e levar uma bronca. Não consigo descansar até colocar as mãos nele"; e Jo dirigiu-se à porta novamente.
"Silêncio! Deixe-me resolver isso, pois é pior do que eu pensava. Margaret, conte-me toda a história", ordenou a Sra. March, sentando-se ao lado de Meg, mas mantendo Jo por perto, para que ela não saísse voando.
"Recebi a primeira carta de Laurie, que não parecia saber nada sobre o assunto", começou Meg, sem levantar os olhos. "Fiquei preocupada a princípio e tencionava contar à senhora; depois, lembrei-me de quanto a senhora gostava do Sr. Brooke, então pensei que não se importaria se eu guardasse meu pequeno segredo por alguns dias. Sou tão boba que gostava de pensar que ninguém sabia; e, enquanto decidia o que dizer, sentia-me como as moças dos livros, que têm tais coisas para fazer. Perdoe-me, mãe, estou sendo castigada pela minha tolice agora; nunca mais poderei olhar para ele."
"O que você disse a ele?" perguntou a Sra. March.
"Apenas disse que eu era jovem demais para tomar qualquer decisão a respeito; que não desejava ter segredos da senhora e que ele deveria falar com o papai. Fiquei muito grata por sua gentileza e seria sua amiga, mas nada além disso, por um longo tempo."
A Sra. March sorriu, como se estivesse satisfeita, e Jo bateu palmas, exclamando, com uma risada:
"Você é quase igual a Caroline Percy, que era um modelo de prudência! Continue, Meg. O que ele disse a isso?"
"Ele escreve de uma maneira inteiramente diferente, dizendo-me que nunca enviou carta de amor alguma e que lamenta muito que minha irmã travessa, Jo, tenha tomado tais liberdades com nossos nomes. É muito gentil e respeitoso, mas pense em quão horrível é para mim!"
Meg inclinou-se contra a mãe, parecendo a imagem do desespero, e Jo caminhava de um lado para o outro pelo quarto, chamando Laurie de nomes. De repente, ela parou, pegou as duas notas e, após observá-las atentamente, disse decididamente: "Não acredito que Brooke tenha visto qualquer uma dessas cartas. Teddy escreveu ambas e guarda a sua para zombar de mim, porque eu não quis contar-lhe meu segredo."
"Não tenha segredos, Jo; conte para a mãe e mantenha-se longe de problemas, como eu deveria ter feito", disse Meg, advertindo-a.
"Deus te abençoe, menina! A mãe me contou."
"Isso basta, Jo. Vou confortar Meg enquanto você vai buscar Laurie. Vou investigar o assunto até o fim e dar um basta em tais brincadeiras imediatamente."
Jo saiu correndo, e a Sra. March gentilmente revelou a Meg os verdadeiros sentimentos do Sr. Brooke. "Agora, querida, quais são os seus? Você o ama o suficiente para esperar até que ele possa construir um lar para você, ou pretende manter-se completamente livre por enquanto?"
"Fiquei tão assustada e preocupada que não quero ter nada a ver com pretendentes por um longo tempo — talvez nunca", respondeu Meg, irritada. "Se John não sabe nada sobre essa bobagem, não lhe conte, e faça com que Jo e Laurie mantenham a boca fechada. Não quero ser enganada, importunada e feita de tola — é uma vergonha!"
Vendo que o temperamento geralmente gentil de Meg estava alterado e seu orgulho ferido por essa brincadeira travessa, a Sra. March a acalmou com promessas de silêncio absoluto e grande discrição para o futuro. No instante em que os passos de Laurie foram ouvidos no corredor, Meg fugiu para o escritório, e a Sra. March recebeu o culpado sozinha. Jo não lhe dissera por que ele era esperado, temendo que ele não viesse; mas ele soube no minuto em que viu o rosto da Sra. March e ficou girando o chapéu, com um ar culpado que o condenou imediatamente. Jo foi dispensada, mas preferiu marchar de um lado para o outro no corredor como uma sentinela, com receio de que o prisioneiro pudesse escapar. O som das vozes na sala subiu e desceu por meia hora; mas o que aconteceu durante aquela entrevista as meninas nunca souberam.
Quando foram chamadas, Laurie estava de pé ao lado da mãe delas, com um rosto tão penitente que Jo o perdoou na hora, mas não achou sábio revelar o fato. Meg recebeu seu humilde pedido de desculpas e ficou muito confortada com a garantia de que Brooke não sabia nada da brincadeira.
"Nunca contarei a ele até o dia da minha morte — cavalos selvagens não arrancarão isso de mim; então me perdoe, Meg, e farei qualquer coisa para mostrar o quanto estou profundamente arrependido", acrescentou ele, parecendo muito envergonhado de si mesmo.
"Vou tentar; mas foi uma coisa muito pouco cavalheiresca a se fazer. Não achei que pudesse ser tão astuto e maldoso, Laurie", respondeu Meg, tentando esconder sua confusão de donzela sob um ar gravemente reprovador.
"Foi completamente abominável, e não mereço que falem comigo por um mês; mas você falará, não vai?" e Laurie uniu as mãos com um gesto tão implorante, enquanto falava em seu tom irresistivelmente persuasivo, que era impossível franzir a testa para ele, apesar de seu comportamento escandaloso. Meg o perdoou, e o rosto grave da Sra. March relaxou, apesar de seus esforços para manter a seriedade, quando o ouviu declarar que expiaria seus pecados com todo tipo de penitência e se humilharia como um verme diante da donzela ofendida.
Jo permaneceu à parte, enquanto isso, tentando endurecer seu coração contra ele, conseguindo apenas franzir o rosto em uma expressão de total desaprovação. Laurie olhou para ela uma ou duas vezes, mas, como ela não mostrava sinal de ceder, ele se sentiu ofendido e virou as costas para ela até que os outros terminassem com ele, quando fez uma profunda reverência e saiu sem dizer uma palavra.
Assim que ele se foi, ela desejou ter sido mais indulgente; e, quando Meg e sua mãe subiram as escadas, ela se sentiu solitária e desejou a presença de Teddy. Após resistir por algum tempo, ela cedeu ao impulso e, armada com um livro para devolver, foi até a casa grande.
"O Sr. Laurence está?", perguntou Jo a uma empregada que descia as escadas.
"Sim, senhorita; mas não acredito que ele possa ser visto agora."
"Por que não? Ele está doente?"
"Ora, não, senhorita, mas ele teve uma cena com o Sr. Laurie, que está em um de seus acessos de raiva por algo, o que irrita o velho cavalheiro, então não ouso chegar perto dele."
"Onde está Laurie?"
"Trancado em seu quarto, e ele não responde, embora eu tenha batido. Não sei o que será do jantar, pois está pronto e não há ninguém para comê-lo."
"Vou ver o que está acontecendo. Não tenho medo de nenhum dos dois."
Jo subiu e bateu energicamente na porta do pequeno escritório de Laurie.
"Pare com isso, ou eu abrirei a porta e farei você parar!", gritou o jovem cavalheiro, em tom ameaçador.
Jo bateu novamente imediatamente; a porta se abriu e ela entrou saltitando, antes que Laurie pudesse se recuperar da surpresa. Vendo que ele estava realmente irritado, Jo, que sabia como lidar com ele, assumiu uma expressão contrita e, ajoelhando-se artisticamente, disse humildemente: "Por favor, perdoe-me por ser tão ranzinza. Vim para fazer as pazes e não posso ir embora até que eu consiga."
"Está tudo bem. Levante-se e não seja boba, Jo", foi a resposta cavalheiresca ao seu pedido.
"Obrigada; eu farei isso. Poderia perguntar o que houve? Você não parece exatamente tranquilo."
"Fui sacudido e não vou tolerar isso!", rosnou Laurie indignado.
"Quem fez isso?", exigiu Jo.
"O vovô; se tivesse sido qualquer outro, eu teria..." e o jovem ofendido terminou a frase com um gesto enérgico do braço direito.
"Isso não é nada; eu frequentemente sacudo você e você não se importa", disse Jo, tentando acalmá-lo.
"Ora! Você é uma menina e é uma brincadeira; mas não permitirei que nenhum homem me sacuda."
"Não creio que alguém se atreveria a tentar, se você parecesse tão tempestuoso como agora. Por que você foi tratado assim?"
"Apenas porque não quis dizer o que sua mãe queria de mim. Prometi não contar e, é claro, não quebraria minha palavra."
"Você não poderia satisfazer seu avô de outra maneira?"
"Não; ele queria a verdade, toda a verdade e nada além da verdade. Eu teria contado minha parte na confusão, se pudesse sem envolver Meg. Como não pude, fiquei calado e suportei a bronca até que o velho cavalheiro me segurasse pelo colarinho. Então fiquei com raiva e fugi, com medo de me esquecer."
"Não foi legal, mas ele está arrependido, eu sei; então desça e faça as pazes. Eu vou te ajudar."
"Que me enforquem se eu fizer isso! Não vou ser repreendido e esmurrado por qualquer um, só por causa de uma pequena travessura. Eu estava arrependido por causa de Meg e pedi perdão como um homem; mas não farei isso de novo, quando não estava errado."
"Ele não sabia disso."
"Ele deveria confiar em mim e não agir como se eu fosse um bebê. Não adianta, Jo; ele tem que aprender que sou capaz de cuidar de mim mesmo e não preciso das barras da saia de ninguém para me segurar."
"Que cabeça-quente vocês são!", suspirou Jo. "Como você pretende resolver esse assunto?"
"Bem, ele deveria pedir perdão e acreditar em mim quando digo que não posso contar sobre o que é a confusão."
"Deus te abençoe! Ele não fará isso."
"Não descerei até que ele faça."
"Agora, Teddy, seja sensato; deixe passar e eu explicarei o que puder. Você não pode ficar aqui, então qual é a utilidade de ser melodramático?"
"Não pretendo ficar aqui por muito tempo, de qualquer maneira. Vou escapar e fazer uma viagem para algum lugar, e quando o vovô sentir minha falta, ele mudará de ideia rapidamente."
"Eu imagino; mas você não deveria ir e preocupá-lo."
"Não pregue. Vou para Washington ver Brooke; é alegre lá, e vou me divertir depois dos problemas."
"Que diversão você teria! Eu gostaria de poder fugir também", disse Jo, esquecendo seu papel de Mentora em visões vívidas da vida marcial na capital.
"Venha então! Por que não? Você vai e surpreende seu pai, e eu agito o velho Brooke. Seria uma piada gloriosa; vamos fazer isso, Jo. Deixaremos uma carta dizendo que estamos bem e partiremos imediatamente. Tenho dinheiro suficiente; fará bem a você e não causará mal, já que você vai ver seu pai."
Por um momento, Jo pareceu que concordaria; pois, por mais louco que fosse o plano, ele simplesmente a agradava. Ela estava cansada de cuidados e confinamento, ansiava por mudanças, e pensamentos sobre seu pai se misturavam tentadoramente aos encantos novos dos acampamentos e hospitais, liberdade e diversão. Seus olhos brilharam ao se voltarem melancolicamente para a janela, mas eles caíram sobre a casa antiga do outro lado, e ela balançou a cabeça com uma decisão triste.
"Se eu fosse um menino, fugiríamos juntos e nos divertiríamos muito; mas como sou uma menina miserável, devo ser comportada e ficar em casa. Não me tente, Teddy, é um plano louco."
"É aí que está a diversão", começou Laurie, que estava com um ataque de teimosia e possuído pela vontade de quebrar as regras de alguma forma.
"Cale a boca!", gritou Jo, cobrindo os ouvidos. "'Ameixas e prismas' são meu destino, e é melhor eu me conformar com isso. Vim aqui para moralizar, não para ouvir sobre coisas que me fazem querer fugir só de pensar."
"Eu sei que Meg jogaria um balde de água fria em tal proposta, mas pensei que você tivesse mais espírito", começou Laurie, insinuante.
"Menino mau, fique quieto! Sente-se e pense em seus próprios pecados, não me faça adicionar aos meus. Se eu conseguir que seu avô peça desculpas pela sacudida, você desiste de fugir?", perguntou Jo seriamente.
"Sim, mas você não conseguirá", respondeu Laurie, que desejava "fazer as pazes", mas sentia que sua dignidade ultrajada precisava ser aplacada primeiro.
"Se eu consigo lidar com o jovem, consigo com o velho", murmurou Jo, enquanto se afastava, deixando Laurie curvado sobre um mapa ferroviário, com a cabeça apoiada em ambas as mãos.
"Entre!" e a voz ríspida do Sr. Laurence soou mais ríspida do que nunca, enquanto Jo batia em sua porta.
"Sou apenas eu, senhor, vim devolver um livro", disse ela suavemente, ao entrar.
"Quer mais algum?", perguntou o velho cavalheiro, parecendo severo e irritado, mas tentando não demonstrar.
"Sim, por favor. Gostei tanto do velho Sam que acho que vou tentar o segundo volume", retrucou Jo, esperando apaziguá-lo aceitando uma segunda dose do "Johnson" de Boswell, já que ele havia recomendado aquela obra animada.
As sobrancelhas espessas se relaxaram um pouco, enquanto ele empurrava a escada em direção à prateleira onde a literatura johnsoniana estava colocada. Jo saltou e, sentando-se no degrau mais alto, fingiu estar procurando seu livro, mas na verdade estava imaginando a melhor maneira de introduzir o perigoso objeto de sua visita. O Sr. Laurence parecia suspeitar que algo estava sendo tramado em sua mente; pois, após dar várias voltas rápidas pelo quarto, ele se virou para ela, falando tão abruptamente que "Rasselas" caiu de rosto para baixo no chão.
"O que aquele menino andou fazendo? Não tente protegê-lo. Sei que ele andou aprontando pelo modo como agiu quando chegou em casa. Não consigo tirar uma palavra dele; e quando ameacei sacudir a verdade para fora dele, ele correu para o andar de cima e se trancou no quarto."
"Ele errou, mas nós o perdoamos e todos prometemos não dizer uma palavra a ninguém", começou Jo relutantemente.
"Isso não serve; ele não deve se esconder atrás de uma promessa de vocês, meninas de coração mole. Se ele fez algo errado, deve confessar, pedir perdão e ser punido. Desembucha, Jo, não serei mantido no escuro."
O Sr. Laurence parecia tão alarmante e falava tão bruscamente que Jo teria fugido alegremente, se pudesse, mas ela estava empoleirada no alto da escada, e ele estava ao pé dela, um leão no caminho, então ela teve que ficar e enfrentar.
"Na verdade, senhor, não posso contar; a mãe proibiu. Laurie confessou, pediu perdão e foi punido o suficiente. Não mantemos silêncio para protegê-lo, mas sim outra pessoa, e causará mais problemas se o senhor interferir. Por favor, não o faça; a culpa foi parcialmente minha, mas está tudo bem agora; então vamos esquecer isso e falar sobre o 'Rambler', ou algo agradável."
"Que se dane o 'Rambler!' Desça e me dê sua palavra de que esse menino inconsequente meu não fez nada de ingrato ou impertinente. Se fez, depois de toda a sua bondade para com ele, vou surrá-lo com minhas próprias mãos."
A ameaça soou horrível, mas não alarmou Jo, pois ela sabia que o velho cavalheiro irascível nunca levantaria um dedo contra seu neto, não importando o que pudesse dizer em contrário. Ela obedeceu, descendo e minimizando a travessura o máximo que pôde, sem trair Meg ou esquecer a verdade.
"Hum... há... bem, se o menino ficou calado porque prometeu, e não por obstinação, eu o perdoarei. Ele é um sujeito teimoso e difícil de lidar", disse o Sr. Laurence, esfregando o cabelo até que parecesse ter estado em uma ventania, e suavizando a carranca da testa com um ar de alívio.
"Eu também sou; mas uma palavra gentil me governará quando todos os cavalos do rei e todos os homens do rei não conseguiriam", disse Jo, tentando dizer uma palavra gentil para seu amigo, que parecia sair de um problema apenas para cair em outro.
"Você acha que não sou gentil com ele, hein?", foi a resposta afiada.
"Oh, não, senhor; o senhor é até gentil demais às vezes, e então apenas um pouco precipitado quando ele testa sua paciência. O senhor não acha?"
Jo estava determinada a resolver isso agora e tentou parecer bem plácida, embora tremesse um pouco após seu discurso ousado. Para seu grande alívio e surpresa, o velho cavalheiro apenas jogou seus óculos sobre a mesa com um ruído e exclamou francamente:
"Você tem razão, menina, eu sou! Eu amo o menino, mas ele testa minha paciência além do suportável, e não sei como isso terminará, se continuarmos assim."
"Eu lhe direi, ele fugirá." Jo se arrependeu desse discurso no minuto em que foi feito; ela pretendia avisá-lo de que Laurie não suportaria muita restrição e esperava que ele fosse mais tolerante com o rapaz.
O rosto avermelhado do Sr. Laurence mudou repentinamente, e ele se sentou, com um olhar perturbado para o retrato de um homem bonito que pendia sobre sua mesa. Era o pai de Laurie, que fugira em sua juventude e se casara contra a vontade do velho homem imperioso. Jo imaginou que ele se lembrava e lamentava o passado, e desejou ter ficado calada.
"Ele não fará isso a menos que esteja muito preocupado, e apenas ameaça às vezes, quando se cansa de estudar. Muitas vezes penso que gostaria de fazê-lo, especialmente desde que cortei meu cabelo; então, se o senhor sentir nossa falta, pode anunciar por dois meninos e procurar entre os navios com destino à Índia."
Ela riu enquanto falava, e o Sr. Laurence pareceu aliviado, evidentemente tratando tudo como uma brincadeira.
"Sua atrevida, como se atreve a falar dessa maneira? Onde está seu respeito por mim e sua boa criação? Deus abençoe os meninos e meninas! Que tormentos eles são; ainda assim, não podemos viver sem eles", disse ele, beliscando as bochechas dela com bom humor. "Vá e traga aquele menino para o jantar, diga-lhe que está tudo bem e aconselhe-o a não fazer cenas trágicas com seu avô. Não vou tolerar isso."
"Ele não virá, senhor; ele se sente mal porque o senhor não acreditou nele quando disse que não podia contar. Acho que a sacudida feriu muito seus sentimentos."
Jo tentou parecer patética, mas deve ter falhado, pois o Sr. Laurence começou a rir, e ela soube que o dia estava ganho.
"Lamento por isso e deveria agradecê-lo por não me sacudir, suponho. O que diabos o sujeito espera?" e o velho cavalheiro pareceu um pouco envergonhado de sua própria irritabilidade.
"Se eu fosse o senhor, escreveria um pedido de desculpas, senhor. Ele diz que não descerá até ter um, fala sobre Washington e continua de uma maneira absurda. Um pedido de desculpas formal fará com que ele veja o quão tolo ele é e o fará descer bem amável. Tente; ele gosta de diversão, e essa maneira é melhor do que conversar. Eu levarei lá em cima e ensinarei seu dever."
O Sr. Laurence deu-lhe um olhar penetrante e colocou os óculos, dizendo lentamente: "Você é uma gata astuta, mas não me importo de ser manipulado por você e Beth. Aqui, dê-me um pedaço de papel e vamos acabar com essa bobagem."
A nota foi escrita nos termos que um cavalheiro usaria com outro após oferecer algum insulto profundo. Jo deu um beijo no topo da cabeça careca do Sr. Laurence e correu para colocar o pedido de desculpas sob a porta de Laurie, aconselhando-o, pelo buraco da fechadura, a ser submisso, decoroso e algumas outras impossibilidades agradáveis. Encontrando a porta trancada novamente, ela deixou a nota fazer seu trabalho e estava se afastando silenciosamente quando o jovem cavalheiro deslizou pelo corrimão e esperou por ela lá embaixo, dizendo, com sua expressão de virtude mais pura: "Que boa pessoa você é, Jo! Você foi repreendida?" acrescentou ele, rindo.
"Não; ele foi bastante brando, no geral."
"Ah! Eu recebi de todos os lados; até você me abandonou lá, e eu me senti pronto para ir para o diabo", começou ele, desculpando-se.
"Não fale dessa maneira; vire uma nova página e comece de novo, Teddy, meu filho."
"Eu continuo virando novas páginas e estragando-as, como costumava estragar meus cadernos de caligrafia; e faço tantos começos que nunca haverá um fim", disse ele tristemente.
"Vá comer seu jantar; você se sentirá melhor depois. Homens sempre reclamam quando estão com fome", e Jo saiu pela porta da frente depois disso.
"Isso é um 'rótulo' na minha 'seita'", respondeu Laurie, citando Amy, enquanto ia participar da humildade de forma obediente com seu avô, que estava bastante santificado em temperamento e esmagadoramente respeitoso em maneiras pelo resto do dia.
Todos pensaram que o assunto tinha acabado e a pequena nuvem passado; mas o mal estava feito, pois, embora outros esquecessem, Meg se lembrava. Ela nunca aludiu a uma certa pessoa, mas pensava muito nele, sonhava sonhos mais do que nunca; e, certa vez, Jo, remexendo a escrivaninha de sua irmã em busca de selos, encontrou um pedaço de papel rabiscado com as palavras "Sra. John Brooke"; ao que ela gemeu tragicamente e lançou-o ao fogo, sentindo que a brincadeira de Laurie havia apressado o dia mau para ela.
"Não, não, fique," disse John, detendo-a com um gesto, e sentando-se com a sua habitual calma, embora os seus olhos traíssem uma certa ansiedade. "Eu não quero incomodar a sua mãe; apenas queria saber como vocês estão. E, se não for pedir demais, queria conversar um pouco com a Meg."
Meg sentiu o coração bater com força, mas, lembrando-se da sua digna despedida, sentou-se novamente, com o rosto subitamente sério.
"Estou à disposição, Sr. Brooke," disse ela, com uma voz que soou um pouco mais aguda do que pretendia.
"Eu... eu recebi uma carta hoje," começou ele, hesitante, "de um amigo que me oferece um cargo em outra cidade. É um bom emprego, com um salário que me permitiria... bem, que me permitiria pensar em ter uma casa própria. Mas não posso aceitá-lo, a menos que saiba se há alguma esperança para mim aqui."
Meg sentiu o ar faltar-lhe, mas, lembrando-se de Jo, endireitou as costas e disse, com a voz que havia ensaiado:
"Sr. Brooke, eu... eu agradeço muito a sua gentileza, mas concordo com o meu pai que sou jovem demais para qualquer compromisso no momento. Por favor, não diga mais nada, e sejamos amigos, como sempre fomos."
O Sr. Brooke empalideceu, e por um momento ficou em silêncio.
"Eu entendo," disse ele, com uma voz rouca. "Eu tinha esperança de que, talvez, com o passar do tempo... mas eu não deveria ter apressado as coisas."
Nesse momento, a porta abriu-se e a Tia March entrou, com o seu habitual ruído de sedas e um olhar severo que varreu a sala.
"O que é isto?" exclamou ela, olhando de John para a Meg, que parecia prestes a chorar. "Onde está o seu pai, Margaret? E quem é este jovem? Ah, o tutor, presumo. Ouvi dizer que ele tem a audácia de cortejar a minha sobrinha sem a minha permissão!"
"Tia March, por favor," começou Meg, mas a velha senhora não a deixou falar.
"Silêncio! Eu vim aqui para saber se é verdade que esta menina pretende jogar a sua vida fora casando-se com um homem sem fortuna, um simples preceptor, quando poderia ter um futuro brilhante e seguro! Eu não permitirei tal loucura."
O Sr. Brooke levantou-se, com os olhos brilhando de uma indignação contida.
"Com licença, senhora," disse ele, com uma dignidade que surpreendeu a todos. "Não pretendo discutir a minha situação com a senhora, nem aceitar ordens sobre o que devo ou não fazer. O meu respeito pela família March é o que me impede de responder como a sua grosseria merece. Meg, eu já disse o que tinha a dizer. Com licença."
E, sem olhar para a Tia March, ele virou-se e saiu da sala.
"Muito bem!" exclamou a Tia March, batendo a bengala no chão. "Um homem orgulhoso, não há dúvida. Mas, Margaret, ouça-me bem: se você se casar com ele, não espere um centavo da minha herança. Eu não tolero desobediência!"
Meg, que até aquele momento estava sob o efeito do choque, sentiu uma estranha força surgir dentro de si. A humilhação que o Sr. Brooke sofrera por sua causa, e a arrogância da tia, fizeram com que o medo desaparecesse.
"Tia," disse ela, com a voz firme, "o Sr. Brooke não pediu a minha mão por dinheiro, nem eu o aceitaria por ele. O que o senhor meu pai pensa é o que me importa, e não o que a senhora ou a sua fortuna ditam. Se o amor dele for tão verdadeiro quanto acredito, nem o seu dinheiro nem a sua reprovação mudarão o que sinto."
A Tia March olhou para ela, estupefata, por alguns segundos.
"Ora, ora," murmurou ela, parecendo quase impressionada. "Parece que a pequena Meg tem mais fibra do que eu pensava. Pois bem, faça como quiser, mas não diga que não a avisei."
Dito isto, ela saiu da sala, deixando Meg sozinha, trêmula, mas, pela primeira vez, absolutamente certa do que queria.
"Não vá; tem medo de mim, Margaret?" e o Sr. Brooke pareceu tão magoado que Meg pensou ter cometido alguma grosseria. Ela corou até aos pequenos caracóis na testa, pois ele nunca a chamara de Margaret antes, e surpreendeu-se ao descobrir quão natural e doce parecia ouvi-lo dizê-lo. Ansiosa por parecer amigável e à vontade, estendeu a mão com um gesto de confiança e disse, agradecida:
"Como poderia ter medo quando foi tão bondoso para com o meu pai? Só desejo poder agradecer-lhe por isso."
"Quer que eu lhe diga como?" perguntou o Sr. Brooke, segurando a mão pequena firmemente entre as suas e olhando para Meg com tanto amor nos olhos castanhos que o coração dela começou a palpitar, e ela sentiu vontade tanto de fugir como de ficar e ouvir.
"Oh, não, por favor, não — prefiro que não," disse ela, tentando retirar a mão e parecendo assustada, apesar da sua recusa.
"Não a incomodarei, só quero saber se gosta um pouco de mim, Meg. Amo-a tanto, querida," acrescentou o Sr. Brooke, ternamente.
Este era o momento para o discurso calmo e adequado, mas Meg não o fez; esqueceu cada palavra, baixou a cabeça e respondeu: "Não sei", tão suavemente que John teve de se inclinar para captar a resposta tolinha.
Ele pareceu achar que valia a pena o esforço, pois sorriu para si mesmo como se estivesse plenamente satisfeito, apertou a mão roliça com gratidão e disse, no seu tom mais persuasivo: "Tentarás descobrir? Quero tanto saber; pois não consigo trabalhar com ânimo enquanto não souber se hei de ter a minha recompensa no fim ou não."
"Sou muito nova," balbuciou Meg, perguntando-se por que estava tão agitada, embora, no fundo, gostasse daquilo.
"Eu esperarei; e, entretanto, poderás aprender a gostar de mim. Seria uma lição muito difícil, querida?"
"Não, se eu escolhesse aprendê-la, mas..."
"Por favor, escolhe aprender, Meg. Adoro ensinar, e isto é mais fácil do que alemão," interrompeu John, apoderando-se da outra mão, para que ela não tivesse como esconder o rosto, enquanto ele se inclinava para olhar para ela.
O seu tom era devidamente suplicante; mas, lançando-lhe um olhar tímido, Meg viu que os olhos dele eram alegres, além de ternos, e que ele ostentava o sorriso satisfeito de alguém que não tinha dúvidas quanto ao seu sucesso. Isto irritou-a; as lições tolas de coqueteria de Annie Moffat vieram-lhe à mente, e o amor pelo poder, que dorme no peito das melhores das pequenas mulheres, despertou de repente e apoderou-se dela. Sentiu-se excitada e estranha e, sem saber o que mais fazer, seguiu um impulso caprichoso e, retirando as mãos, disse com petulância: "Não escolho. Por favor, vá embora e deixe-me em paz!"
O pobre Sr. Brooke parecia que o seu adorável castelo no ar estava a desmoronar-se sobre as suas cabeças, pois nunca tinha visto Meg naquele estado antes, e aquilo deixou-o bastante confuso.
"Fala a sério?" perguntou ele, ansioso, seguindo-a enquanto ela se afastava.
"Sim, falo; não quero ser incomodada com essas coisas. O pai diz que não preciso; é muito cedo e prefiro que não."
"Não posso esperar que mude de ideias mais tarde? Esperarei e não direi nada até que tenha tido mais tempo. Não brinque comigo, Meg. Não pensei isso de si."
"Não pense em mim de todo. Preferia que não pensasse," disse Meg, sentindo uma satisfação travessa ao testar a paciência do seu amado e o seu próprio poder.
Ele estava sério e pálido agora, e parecia decididamente mais com os heróis dos romances que ela admirava; mas não esbofeteou a própria testa nem caminhou pesadamente pela sala, como eles faziam; apenas ficou a olhá-la tão melancolicamente, tão ternamente, que ela sentiu o seu coração ceder, apesar de si mesma. O que teria acontecido a seguir não sei dizer, se a Tia March não tivesse entrado, claudicando, neste momento interessante.
A velha senhora não conseguiu resistir ao desejo de ver o seu sobrinho; pois tinha encontrado Laurie enquanto passeava e, ao saber da chegada do Sr. March, foi diretamente lá vê-lo. A família estava toda ocupada na parte de trás da casa, e ela tinha entrado silenciosamente, esperando surpreendê-los. Surpreendeu dois deles tanto que Meg sobressaltou-se como se tivesse visto um fantasma, e o Sr. Brooke desapareceu para o escritório.
"Valha-me Deus, o que é isto?" gritou a velha senhora, com uma batida da sua bengala, enquanto olhava do jovem pálido para a jovem escarlate.
"É um amigo do pai. Estou tão surpreendida por vê-la!" gaguejou Meg, sentindo que estava prestes a levar uma descompostura.
"É evidente," retorquiu a Tia March, sentando-se. "Mas o que está o amigo do pai a dizer para a fazer parecer uma peónia? Há algo de errado a acontecer, e insisto em saber o que é," com outra batida.
"Estávamos apenas a conversar. O Sr. Brooke veio buscar o guarda-chuva," começou Meg, desejando que o Sr. Brooke e o guarda-chuva estivessem em segurança fora da casa.
"Brooke? O tutor daquele rapaz? Ah! Já entendo. Sei tudo sobre isso. Jo atrapalhou-se com uma mensagem errada numa das cartas do seu pai, e eu obriguei-a a contar-me. Não foi e aceitou-o, criança?" gritou a Tia March, parecendo escandalizada.
"Shh! Ele vai ouvir. Não vou chamar a mãe?" disse Meg, muito perturbada.
"Ainda não. Tenho algo a dizer-lhe, e preciso de aliviar a minha mente imediatamente. Diga-me, pretende casar com este Cook? Se o fizer, nem um centavo do meu dinheiro irá para si. Lembre-se disso e seja uma rapariga sensata," disse a velha senhora, de forma impressionante.
Ora, a Tia March possuía na perfeição a arte de despertar o espírito de oposição nas pessoas mais gentis, e gostava de o fazer. Os melhores de nós têm uma pitada de perversidade, especialmente quando somos jovens e estamos apaixonados. Se a Tia March tivesse implorado a Meg que aceitasse John Brooke, ela provavelmente teria declarado que não podia pensar nisso; mas, como foi peremptoriamente proibida de gostar dele, imediatamente decidiu que iria. A inclinação, assim como a perversidade, tornaram a decisão fácil e, estando já muito excitada, Meg opôs-se à velha senhora com um espírito invulgar.
"Hei de casar com quem eu quiser, Tia March, e pode deixar o seu dinheiro a quem bem entender," disse ela, abanando a cabeça com um ar resoluto.
"Ora, ora! É assim que aceita o meu conselho, menina? Arrepender-se-á disso, mais tarde, quando tiver experimentado o amor numa cabana e descobrir que é um fracasso."
"Não pode ser pior do que o que algumas pessoas encontram em casas grandes," retorquiu Meg.
A Tia March colocou os seus óculos e deu uma olhada na rapariga, pois não a reconhecia neste novo estado. Meg dificilmente se reconhecia a si mesma, sentia-se tão corajosa e independente — tão feliz por defender John e afirmar o seu direito de amá-lo, se assim o desejasse. A Tia March viu que tinha começado mal e, após uma pequena pausa, recomeçou, dizendo, tão suavemente quanto podia: "Agora, Meg, minha querida, seja razoável e aceite o meu conselho. Digo-o com bondade, e não quero que estrague toda a sua vida cometendo um erro logo no início. Deveria casar bem e ajudar a sua família; é o seu dever fazer um casamento rico, e isso deveria ser-lhe incutido."
"O pai e a mãe não pensam assim; eles gostam do John, embora ele seja pobre."
"Os seus pais, minha querida, não têm mais sabedoria mundana do que dois bebés."
"Ainda bem," gritou Meg, resolutamente.
A Tia March não deu ouvidos, mas continuou com a sua lição. "Este Rook é pobre e não tem parentes ricos, pois não?"
"Não; mas tem muitos amigos calorosos."
"Não se pode viver de amigos; experimente e veja como eles se tornarão frios. Ele não tem ocupação, não é?"
"Ainda não; o Sr. Laurence vai ajudá-lo."
"Isso não durará muito. James Laurence é um velho excêntrico e não é de confiança. Então, pretende casar com um homem sem dinheiro, posição ou ocupação, e continuar a trabalhar mais arduamente do que faz agora, quando poderia estar confortável todos os seus dias se me desse ouvidos e fizesse melhor? Pensava que tinha mais juízo, Meg."
"Não poderia fazer melhor se esperasse metade da minha vida! John é bom e sábio; tem montes de talento; está disposto a trabalhar e certamente terá sucesso, pois é tão enérgico e corajoso. Todos gostam e o respeitam, e tenho orgulho em pensar que ele se importa comigo, embora eu seja tão pobre, jovem e tola," disse Meg, parecendo mais bonita do que nunca na sua sinceridade.
"Ele sabe que você tem parentes ricos, criança; esse é o segredo do seu gosto, suspeito."
"Tia March, como se atreve a dizer tal coisa? John está acima de tal baixeza, e não a ouvirei um minuto se falar assim," gritou Meg, indignada, esquecendo tudo, exceto a injustiça das suspeitas da velha senhora. "O meu John não casaria por dinheiro, assim como eu não casaria. Estamos dispostos a trabalhar e pretendemos esperar. Não tenho medo de ser pobre, pois fui feliz até agora, e sei que serei com ele, porque ele ama-me, e eu..."
Meg parou por aí, lembrando-se de repente de que não tinha tomado uma decisão; que tinha dito ao "seu John" para ir embora, e que ele poderia estar a ouvir os seus comentários inconsistentes.
A Tia March estava muito zangada, pois tinha decidido que a sua bela sobrinha faria um bom casamento, e algo no rosto feliz da jovem fazia a velha e solitária mulher sentir-se triste e amarga.
"Bem, lavo as minhas mãos de todo este caso! És uma criança voluntariosa e perdeste mais do que sabes por causa desta tolice. Não, não ficarei; estou dececionada contigo e não tenho ânimo para ver o teu pai agora. Não esperes nada de mim quando estiveres casada; os amigos do teu Sr. Book que cuidem de ti. Acabei contigo para sempre."
E, batendo a porta na cara de Meg, a Tia March partiu em grande fúria. Ela pareceu levar toda a coragem da rapariga consigo; pois, quando deixada sozinha, Meg ficou um momento, indecisa entre rir ou chorar. Antes que pudesse decidir-se, foi tomada pelo Sr. Brooke, que disse, tudo num fôlego: "Não pude evitar ouvir, Meg. Obrigado por me defenderes, e à Tia March por provar que te importas comigo um pouquinho."
"Não sabia o quanto, até ela te insultar," começou Meg.
"E não preciso de ir embora, mas posso ficar e ser feliz, não posso, querida?"
Aqui estava outra excelente oportunidade para fazer o discurso esmagador e a saída elegante, mas Meg nem pensou em fazer qualquer uma das coisas, e desonrou-se para sempre aos olhos de Jo ao sussurrar humildemente: "Sim, John," e escondendo o rosto no colete do Sr. Brooke.
Quinze minutos após a partida da Tia March, Jo desceu suavemente as escadas, parou um instante à porta da sala de estar e, não ouvindo som algum lá dentro, acenou e sorriu, com uma expressão satisfeita, dizendo para si mesma: "Ela mandou-o embora como planeámos, e esse assunto está resolvido. Vou ouvir a diversão e rir-me um pouco disto."
Mas a pobre Jo nunca chegou a rir, pois ficou paralisada no limiar por um espetáculo que a reteve ali, a olhar de boca quase tão aberta quanto os olhos. Entrando para se vangloriar sobre um inimigo derrotado e para elogiar uma irmã de espírito forte pelo banimento de um pretendente censurável, foi certamente um choque contemplar o dito inimigo sentado serenamente no sofá, com a irmã de espírito forte entronizada no seu colo, e ostentando uma expressão de submissão da mais abjeta. Jo deu uma espécie de arquejo, como se um duche de água fria tivesse caído subitamente sobre ela — pois tal reviravolta inesperada dos acontecimentos tirou-lhe o fôlego. Com o som estranho, os amantes voltaram-se e viram-na. Meg saltou, parecendo orgulhosa e tímida ao mesmo tempo; mas "aquele homem", como Jo lhe chamava, riu-se, de facto, e disse calmamente, enquanto beijava a recém-chegada atónita: "Irmã Jo, congratula-nos!"
Isso era adicionar insulto à injúria — era demasiado — e, fazendo uma demonstração selvagem com as mãos, Jo desapareceu sem uma palavra. Correndo escadas acima, assustou os doentes ao exclamar tragicamente, enquanto irrompia no quarto: "Oh, alguém que vá lá abaixo depressa; John Brooke está a comportar-se de forma terrível, e a Meg gosta!"
O Sr. e a Sra. March deixaram o quarto à pressa; e, atirando-se para a cama, Jo chorou e repreendeu tempestuosamente enquanto contava as notícias terríveis a Beth e Amy. As meninas, no entanto, consideraram-no um evento muito agradável e interessante, e Jo obteve pouco conforto delas; então, ela subiu para o seu refúgio no sótão e confiou as suas mágoas aos ratos.
Ninguém nunca soube o que se passou na sala de estar naquela tarde; mas falou-se muito, e o silencioso Sr. Brooke surpreendeu os seus amigos pela eloquência e espírito com que defendeu a sua causa, contou os seus planos e os convenceu a organizar tudo exatamente como ele queria.
O sino do chá tocou antes que ele tivesse terminado de descrever o paraíso que pretendia conquistar para Meg, e ele orgulhosamente levou-a para a ceia, ambos parecendo tão felizes que Jo não teve coragem de ser ciumenta ou sombria. Amy ficou muito impressionada com a devoção de John e a dignidade de Meg. Beth sorria-lhes à distância, enquanto o Sr. e a Sra. March observavam o jovem casal com tanta satisfação terna que era perfeitamente evidente que a Tia March estava certa ao chamá-los de "tão alheios ao mundo como um par de bebés". Ninguém comeu muito, mas todos pareciam muito felizes, e a velha sala pareceu iluminar-se surpreendentemente quando o primeiro romance da família começou ali.
"Não podes dizer que nunca acontece nada de agradável agora, pois não, Meg?" disse Amy, tentando decidir como agruparia os amantes no esboço que planeava fazer.
"Não, tenho a certeza de que não posso. Quanto aconteceu desde que disse isso! Parece ter sido há um ano," respondeu Meg, que estava num sonho feliz, elevada muito acima de coisas comuns como pão e manteiga.
"As alegrias seguem-se de perto às tristezas desta vez, e acho que as mudanças começaram," disse a Sra. March. "Na maioria das famílias, surge, de vez em quando, um ano cheio de eventos; este foi um deles, mas acaba bem, afinal."
"Espero que o próximo acabe melhor," murmurou Jo, que achava muito difícil ver Meg absorvida por um estranho diante dos seus olhos; pois Jo amava algumas pessoas muito carinhosamente e temia ter o seu afeto perdido ou diminuído de qualquer forma.
"Espero que o terceiro ano a partir deste acabe melhor; pretendo que seja assim, se eu viver para realizar os meus planos," disse o Sr. Brooke, sorrindo para Meg, como se tudo tivesse se tornado possível para ele agora.
"Não parece muito tempo para esperar?" perguntou Amy, que estava com pressa para o casamento.
"Tenho tanto para aprender antes de estar pronto, que me parece um tempo curto," respondeu Meg, com uma doçura grave no rosto, nunca vista lá antes.
"Tu só tens de esperar; eu é que tenho de fazer o trabalho," disse John, começando os seus labores por apanhar o guardanapo de Meg, com uma expressão que fez Jo abanar a cabeça e, depois, dizer para si mesma, com um ar de alívio, enquanto a porta da frente batia: "Lá vem o Laurie. Agora teremos uma conversa sensata."
Mas Jo estava enganada; pois Laurie entrou a saltitar, transbordando de ânimo, carregando um grande ramo de flores com aspeto nupcial para a "Sra. John Brooke", e evidentemente a sofrer da ilusão de que todo o caso tinha sido provocado pela sua excelente gestão.
"Eu sabia que o Brooke conseguiria levar a sua avante, ele sempre consegue; pois quando ele decide realizar algo, está feito, mesmo que o céu caia," disse Laurie, quando apresentou a sua oferta e as suas felicitações.
"Muito obrigado por essa recomendação. Aceito-a como um bom presságio para o futuro e convido-o para o meu casamento imediatamente," respondeu o Sr. Brooke, que se sentia em paz com toda a humanidade, até com o seu travesso aluno.
"Irei se estiver nos confins da terra; pois o espetáculo da cara da Jo, apenas nessa ocasião, valeria uma longa viagem. Não parece festiva, senhora; o que se passa?" perguntou Laurie, seguindo-a para um canto da sala de estar, para onde todos se tinham retirado para cumprimentar o Sr. Laurence.
"Não aprovo o casamento, mas decidi suportá-lo e não direi uma palavra contra," disse Jo solenemente. "Não pode saber o quanto é difícil para mim renunciar à Meg," continuou ela, com um pequeno tremor na voz.
"Não renuncias a ela. Apenas ficas com metade," disse Laurie, consoladoramente.
"Nunca poderá ser a mesma coisa outra vez. Perdi a minha amiga mais querida," suspirou Jo.
"Tens-me a mim, de qualquer forma. Não sirvo para muito, eu sei; mas estarei ao teu lado, Jo, todos os dias da minha vida; dou a minha palavra!" e Laurie queria dizer o que dizia.
"Eu sei que estarás, e estou muito agradecida; és sempre um grande conforto para mim, Teddy," retorquiu Jo, agradecida, apertando-lhe a mão.
"Bem, agora, não sejas sombria, sê uma boa companheira. Está tudo bem, vês? A Meg está feliz; o Brooke apressar-se-á e instalar-se-á imediatamente; o avô tratará dele, e será muito divertido ver a Meg na sua própria casinha. Teremos tempos excelentes depois que ela for embora, pois terminarei a faculdade em breve, e então iremos para o estrangeiro, ou faremos alguma viagem agradável ou outra. Isso não te consolaria?"
"Acho que sim; mas nunca se sabe o que pode acontecer em três anos," disse Jo, pensativa.
"É verdade. Não gostarias de poder dar uma vista de olhos no futuro e ver onde estaremos todos então? Eu gostava," retorquiu Laurie.
"Acho que não, pois poderia ver algo triste; e todos parecem tão felizes agora, que não acredito que pudessem ser muito melhorados," e os olhos de Jo percorreram lentamente a sala, iluminando-se à medida que olhavam, pois a perspetiva era agradável.
O pai e a mãe sentavam-se juntos, revivendo silenciosamente o primeiro capítulo do romance que para eles começou há cerca de vinte anos. Amy desenhava os amantes, que se sentavam à parte num belo mundo só deles, cuja luz tocava os seus rostos com uma graça que a pequena artista não conseguia copiar. Beth deitava-se no seu sofá, conversando alegremente com o seu velho amigo, que segurava a sua pequena mão como se sentisse que ela possuía o poder de guiá-lo pelo caminho pacífico que ela percorria. Jo recostava-se no seu assento baixo favorito, com o olhar grave e tranquilo que melhor lhe ficava; e Laurie, debruçado sobre as costas da sua cadeira, com o queixo ao nível da sua cabeça encaracolada, sorria com o seu aspeto mais amigável e acenava-lhe no longo espelho que os refletia a ambos.
* * * * *
Assim agrupada, a cortina cai sobre Meg, Jo, Beth e Amy. Se ela alguma vez se voltará a erguer, depende da receção dada ao primeiro ato do drama doméstico chamado "LITTLE WOMEN".
Segunda Parte
XXIV.
Fofocas.
Para que possamos começar de novo e ir ao casamento de Meg com as mentes livres, será bom começar com um pouco de fofoca sobre os March. E aqui deixem-me prometer, que se algum dos mais velhos pensar que há demasiado "namoricos" na história, como temo que possam pensar (não tenho medo de que os jovens façam essa objeção), só posso dizer com a Sra. March: "O que podem esperar quando tenho quatro raparigas alegres em casa e um vizinho jovem e impetuoso do outro lado?"
Os três anos que passaram trouxeram poucas mudanças à família tranquila. A guerra acabou e o Sr. March está em segurança em casa, ocupado com os seus livros e a pequena paróquia que encontrou nele um ministro tanto por natureza como por graça — um homem calmo e estudioso, rico na sabedoria que é melhor que o saber, a caridade que chama a toda a humanidade "irmão", a piedade que floresce em caráter, tornando-o augusto e adorável.
Estes atributos, apesar da pobreza e da estrita integridade que o mantinham afastado dos sucessos mais mundanos, atraíam a ele muitas pessoas admiráveis, tão naturalmente quanto as ervas doces atraem as abelhas, e tão naturalmente ele lhes dava o mel no qual cinquenta anos de árdua experiência não haviam destilado uma gota amarga. Jovens fervorosos achavam o erudito de cabelos grisalhos tão jovem de coração quanto eles; mulheres pensativas ou perturbadas traziam instintivamente as suas dúvidas e tristezas a ele, certas de encontrar a mais gentil simpatia, o mais sábio conselho; pecadores contavam os seus pecados ao homem de coração puro e eram, ao mesmo tempo, repreendidos e salvos; homens dotados encontravam nele um companheiro; homens ambiciosos vislumbravam ambições mais nobres do que as suas; e até os mundanos confessavam que as suas crenças eram belas e verdadeiras, embora "não dessem lucro".
Para os de fora, as cinco mulheres enérgicas pareciam governar a casa, e assim o faziam em muitas coisas; mas o erudito silencioso, sentado entre os seus livros, ainda era o chefe da família, a consciência, a âncora e o conforto do lar; pois a ele as mulheres atarefadas e ansiosas recorriam sempre em tempos de aflição, encontrando-o, no sentido mais verdadeiro dessas palavras sagradas, marido e pai.
As raparigas entregavam os seus corações aos cuidados da mãe, as suas almas às do pai; e a ambos os pais, que viviam e trabalhavam tão fielmente por elas, dedicavam um amor que crescia com o seu crescimento e as unia ternamente pelo laço mais doce que abençoa a vida e sobrevive à morte.
A Sra. March está tão viva e alegre, embora um pouco mais grisalha do que quando a vimos pela última vez, e precisamente agora tão absorvida nos assuntos de Meg que os hospitais e as casas, ainda cheios de "rapazes" feridos e viúvas de soldados, sentem decididamente a falta das visitas da missionária maternal.
John Brooke cumpriu o seu dever varonilmente durante um ano, foi ferido, enviado para casa e não lhe foi permitido regressar. Não recebeu estrelas ou barras, mas merecia-as, pois arriscou alegremente tudo o que tinha; e a vida e o amor são muito preciosos quando ambos estão em plena floração. Perfeitamente resignado à sua dispensa, dedicou-se a recuperar a saúde, a preparar-se para o trabalho e a ganhar um lar para Meg. Com o bom senso e a robusta independência que o caracterizavam, recusou as ofertas mais generosas do Sr. Laurence e aceitou o lugar de guarda-livros, sentindo-se mais satisfeito por começar com um salário honestamente ganho do que por correr quaisquer riscos com dinheiro emprestado.
Meg passara o tempo a trabalhar assim como a esperar, tornando-se mulher no caráter, sábia nas artes domésticas e mais bonita do que nunca; pois o amor é um grande embelezador. Tinha as suas ambições e esperanças de rapariga e sentia alguma desilusão pela forma humilde como a nova vida teria de começar. Ned Moffat tinha acabado de se casar com Sallie Gardiner, e Meg não conseguia evitar comparar a sua casa fina e carruagem, os muitos presentes e o esplêndido enxoval com os seus, e desejar secretamente poder ter o mesmo. Mas, de alguma forma, a inveja e o descontentamento logo desapareciam quando ela pensava em todo o amor paciente e no trabalho que John tinha dedicado à pequena casa que a aguardava; e quando se sentavam juntos ao crepúsculo, falando sobre os seus pequenos planos, o futuro tornava-se sempre tão belo e brilhante que ela esquecia o esplendor de Sallie e sentia-se a rapariga mais rica e feliz da cristandade.
Jo nunca voltou para junto da Tia March, pois a velha senhora afeiçoou-se tanto a Amy que a subornou com a oferta de lições de desenho com um dos melhores professores da atualidade; e, pelo bem desta vantagem, Amy teria servido uma patroa muito mais difícil. Assim, dedicava as suas manhãs ao dever, as suas tardes ao prazer, e prosperava magnificamente. Jo, entretanto, dedicava-se à literatura e a Beth, que permaneceu delicada muito depois de a febre ser uma coisa do passado. Não exatamente uma inválida, mas nunca mais a criatura rosada e saudável que fora; ainda assim, sempre esperançosa, feliz e serena, ocupada com os deveres silenciosos que amava, amiga de todos e um anjo na casa, muito antes de aqueles que mais a amavam terem aprendido a conhecê-lo.
Enquanto "The Spread Eagle" lhe pagava um dólar por coluna pelo seu "lixo", como ela lhe chamava, Jo sentia-se uma mulher de posses e tecia diligentemente os seus pequenos romances. Mas grandes planos fermentavam no seu cérebro atarefado e na sua mente ambiciosa, e a velha cozinha de lata no sótão continha uma pilha lentamente crescente de manuscritos borrados, que um dia colocariam o nome de March no rol da fama.
Laurie, tendo ido obedientemente para a universidade para agradar ao seu avô, estava agora a terminá-la da maneira mais fácil possível para agradar a si próprio. Um favorito universal, graças ao dinheiro, aos modos, a muito talento e ao coração mais bondoso que alguma vez levou o seu dono a sarilhos por tentar tirar outros deles, corria um grande perigo de ser estragado, e provavelmente tê-lo-ia sido, como muitos outros rapazes promissores, se não possuísse um talismã contra o mal na memória do bom e velho homem que estava ligado ao seu sucesso, a amiga maternal que velava por ele como se fosse seu filho e, por último, mas não menos importante de forma alguma, o conhecimento de que quatro raparigas inocentes o amavam, admiravam e acreditavam nele com todo o coração.
Sendo apenas "um glorioso rapaz humano", é claro que se divertia e flirtava, tornava-se janota, aquático, sentimental ou ginasta, conforme as modas da universidade ditavam; pregava partidas e recebia-as, falava gíria e, mais de uma vez, chegou perigosamente perto da suspensão e da expulsão. Mas, como o espírito elevado e o amor pela diversão eram as causas destas partidas, ele conseguia sempre salvar-se através de uma confissão franca, de uma reparação honrosa ou do poder irresistível de persuasão que possuía na perfeição. De facto, orgulhava-se um pouco das suas fugas por um triz e gostava de emocionar as raparigas com relatos vívidos dos seus triunfos sobre tutores irados, professores dignos e inimigos vencidos. Os "homens da minha turma" eram heróis aos olhos das raparigas, que nunca se cansavam das proezas dos "nossos colegas", e eram frequentemente autorizadas a banhar-se nos sorrisos destas grandes criaturas, quando Laurie os trazia para casa consigo.
Amy, especialmente, desfrutava desta alta honra e tornou-se uma verdadeira beldade entre eles; pois a senhorita sentiu e aprendeu cedo a usar o dom de fascínio com o qual era dotada. Meg estava demasiado absorvida no seu John privado e particular para se importar com outros senhores da criação, e Beth demasiado tímida para fazer mais do que espreitar para eles e maravilhar-se como Amy se atrevia a mandar neles; mas Jo sentia-se perfeitamente no seu elemento e achava muito difícil abster-se de imitar as atitudes, frases e feitos cavalheirescos, que lhe pareciam mais naturais do que os decoros prescritos para as jovens senhoras. Todos eles gostavam imensamente de Jo, mas nunca se apaixonaram por ela, embora muito poucos escapassem sem pagar o tributo de um ou dois suspiros sentimentais no altar de Amy. E falar de sentimento leva-nos muito naturalmente ao "Pombal".
Esse era o nome da pequena casa castanha que o Sr. Brooke tinha preparado para o primeiro lar de Meg. Laurie tinha-a batizado, dizendo que era altamente apropriado para os gentis amantes, que "andavam juntos como um par de rolinhas, primeiro com um biquinho e depois com um arrulho". Era uma casa minúscula, com um pequeno jardim nas traseiras e um relvado à frente mais ou menos do tamanho de um lenço de bolso. Aqui, Meg pretendia ter uma fonte, arbustos e uma profusão de flores adoráveis; embora, por enquanto, a fonte fosse representada por uma urna desgastada pelo tempo, muito semelhante a uma terrina de lavagem em ruínas; os arbustos consistiam em vários lariços jovens, indecisos entre viver ou morrer; e a profusão de flores era apenas sugerida por regimentos de paus, para mostrar onde as sementes foram plantadas. Mas, por dentro, era absolutamente encantadora e a noiva feliz não viu falha alguma, do sótão à cave. É certo que o corredor era tão estreito que ainda bem que não tinham piano, pois nunca se teria conseguido lá pôr um inteiro; a sala de jantar era tão pequena que seis pessoas eram um aperto; e as escadas da cozinha pareciam construídas com o propósito expresso de precipitar tanto os criados como a louça aos trambolhões para dentro da caixa do carvão. Mas, uma vez habituado a estas ligeiras imperfeições, nada poderia ser mais completo, pois o bom senso e o bom gosto tinham presidido à decoração, e o resultado era altamente satisfatório. Não havia mesas de tampo de mármore, espelhos compridos ou cortinas de renda na pequena sala de estar, mas mobiliário simples, muitos livros, um ou dois quadros bons, um suporte de flores na janela saliente e, espalhados por todo o lado, os belos presentes que vinham de mãos amigas e eram mais belos pelas mensagens amorosas que traziam.
Não creio que a Psique de Parian que Laurie deu tenha perdido qualquer da sua beleza porque John colocou a prateleira sobre a qual ela estava; que qualquer estofador pudesse ter colocado as simples cortinas de musselina com mais graça do que a mão artística de Amy; ou que qualquer despensa tenha sido alguma vez mais bem provida de bons desejos, palavras alegres e esperanças felizes do que aquela em que Jo e a sua mãe guardaram as poucas caixas, barris e fardos de Meg; e estou moralmente certa de que a cozinha impecavelmente nova nunca poderia ter parecido tão acolhedora e arrumada se Hannah não tivesse arranjado cada tacho e panela uma dúzia de vezes e deixado o lume pronto a acender, no minuto em que a "Sra. Brooke chegasse a casa". Duvido também que qualquer jovem matrona tenha começado a vida com um fornecimento tão rico de panos de pó, pegas e sacos de retalhos; pois Beth fez o suficiente para durar até às bodas de prata e inventou três tipos diferentes de panos de prato para o serviço expresso da louça de noiva.
As pessoas que contratam outros para fazerem todas estas coisas nunca sabem o que perdem; pois as tarefas mais simples tornam-se belas se mãos amorosas as fizerem, e Meg encontrou tantas provas disso que tudo no seu pequeno ninho, desde o rolo de cozinha ao vaso de prata na mesa da sala, era eloquente de amor familiar e terna previsão.
Que tempos felizes eles tiveram a planear juntos, que excursões solenes às compras; que erros engraçados cometeram e que gargalhadas surgiram sobre as compras ridículas de Laurie. No seu amor por partidas, este jovem, embora quase a terminar a universidade, era tão rapaz como sempre. O seu último capricho fora trazer consigo, nas suas visitas semanais, algum artigo novo, útil e engenhoso para a jovem dona de casa. Ora um saco de molas de roupa notáveis; a seguir, um maravilhoso ralador de noz-moscada, que se desfez na primeira tentativa; um limpa-facas que estragou todas as facas; ou uma vassoura mecânica que arrancava cuidadosamente o pelo do tapete e deixava a sujidade; sabão que poupava trabalho e que tirava a pele das mãos; cimentos infalíveis que colavam firmemente a tudo menos aos dedos do comprador iludido; e todo o tipo de utensílios de estanho, desde um mealheiro de brinquedo para moedas soltas até uma caldeira maravilhosa que lavaria os artigos no seu próprio vapor, com todas as probabilidades de explodir no processo.
Em vão Meg suplicou-lhe que parasse. John ria-se dele e Jo chamava-lhe "Sr. Toodles". Ele estava possuído por uma mania de patrocinar a engenhosidade ianque e de ver os seus amigos devidamente equipados. Assim, cada semana presenciava algum absurdo fresco.
Tudo estava finalmente feito, até à organização de Amy de sabonetes de cores diferentes para combinar com os quartos de cores diferentes, e à colocação da mesa por Beth para a primeira refeição.
"Estás satisfeita? Parece um lar e sentes que serás feliz aqui?", perguntou a Sra. March, enquanto ela e a sua filha percorriam o novo reino, de braço dado; pois, naquele momento, pareciam apegar-se uma à outra mais ternamente do que nunca.
"Sim, mãe, perfeitamente satisfeita, graças a todas vocês, e tão feliz que não consigo falar sobre isso", respondeu Meg, com um olhar que valia mais do que palavras.
"Se ela tivesse apenas um criado ou dois, seria perfeito", disse Amy, saindo da sala de estar, onde tinha estado a tentar decidir se o Mercúrio de bronze ficava melhor na prateleira ou na lareira.
"A mãe e eu falámos sobre isso, e decidi experimentar primeiro o modo dela. Haverá tão pouco para fazer que, com a Lotty para fazer as minhas recados e ajudar-me aqui e ali, terei apenas trabalho suficiente para não me tornar preguiçosa ou nostálgica", respondeu Meg tranquilamente.
"A Sallie Moffat tem quatro", começou Amy.
"Se a Meg tivesse quatro, a casa não os comportaria, e o senhor e a senhora teriam de acampar no jardim", interrompeu Jo, que, envolta num grande avental azul, estava a dar o último polimento às maçanetas das portas.
"A Sallie não é a esposa de um homem pobre, e muitas criadas estão em conformidade com o seu estabelecimento fino. A Meg e o John começam humildemente, mas tenho a sensação de que haverá tanta felicidade na casa pequena como na grande. É um grande erro para raparigas jovens como a Meg deixarem-se sem nada para fazer a não ser vestir-se, dar ordens e tagarelar. Quando me casei, desejava que as minhas roupas novas se gastassem ou rasgassem, para que pudesse ter o prazer de as remendar; pois fiquei farta de fazer trabalhos manuais e de cuidar do meu lenço de bolso."
"Porque não foste para a cozinha fazer misturadas, como a Sallie diz que faz, para se divertir, embora nunca saiam bem e os criados se riam dela", disse Meg.
"Fiz, passado algum tempo; não para 'fazer misturadas', mas para aprender com a Hannah como as coisas devem ser feitas, para que os meus criados não se rissem de mim. Era uma brincadeira então; mas chegou um tempo em que fiquei verdadeiramente grata por não possuir apenas a vontade, mas o poder de cozinhar comida saudável para as minhas filhas, e ajudar-me quando já não podia contratar ajuda. Começas pela outra extremidade, querida Meg; mas as lições que aprendes agora ser-te-ão úteis daqui a algum tempo, quando o John for um homem mais rico, pois a dona de uma casa, por mais esplêndida que seja, deve saber como o trabalho deve ser feito, se deseja ser bem e honestamente servida."
"Sim, mãe, tenho a certeza disso", disse Meg, ouvindo respeitosamente a pequena lição; pois a melhor das mulheres fará um discurso sobre o assunto absorvente da gestão doméstica. "Sabes que gosto mais desta sala de todas na minha casa de bonecas", acrescentou Meg, um minuto depois, enquanto subiam as escadas e ela olhava para o seu roupeiro de linho bem abastecido.
Beth estava lá, colocando as pilhas níveas suavemente nas prateleiras e exultando com a bela disposição. Todas as três riram-se quando Meg falou; pois aquele roupeiro de linho era uma piada. Veem, tendo dito que se a Meg se casasse com "aquele Brooke" não teria um cêntimo do seu dinheiro, a Tia March ficou num dilema, quando o tempo apaziguou a sua ira e a fez arrepender-se do seu voto. Ela nunca quebrou a sua palavra e sentiu-se muito perturbada sobre como contorná-la e, finalmente, concebeu um plano pelo qual poderia satisfazer-se. A Sra. Carrol, a mãe de Florence, foi incumbida de comprar, mandar fazer e marcar um fornecimento generoso de roupa de casa e de mesa, e enviá-lo como o seu presente, tudo o que foi fielmente feito; mas o segredo escapou e foi muito apreciado pela família; pois a Tia March tentou parecer totalmente inconsciente e insistiu que não podia dar nada a não ser as pérolas à moda antiga, há muito prometidas à primeira noiva.
"Esse é um gosto doméstico que fico feliz por ver. Tive uma jovem amiga que começou a vida doméstica com seis lençóis, mas ela tinha taças de lavar os dedos para as visitas, e isso satisfazia-a", disse a Sra. March, dando palmadinhas nas toalhas de mesa de damasco, com uma apreciação verdadeiramente feminina da sua finura.
"Não tenho uma única taça de lavar os dedos, mas este é um 'enxoval' que me durará todos os meus dias, diz a Hannah"; e Meg parecia bastante contente, como bem podia.
"O Toodles está a chegar", gritou Jo lá de baixo; e todas desceram para encontrar Laurie, cuja visita semanal era um acontecimento importante nas suas vidas tranquilas.
Um jovem alto, de ombros largos, com a cabeça rapada, um chapéu de feltro tipo bacia e um casaco esvoaçante, vinha a caminhar pela estrada a grande passo, atravessou a cerca baixa sem parar para abrir o portão, diretamente até à Sra. March, com ambas as mãos estendidas e um caloroso--
"Aqui estou, mãe! Sim, está tudo bem."
As últimas palavras foram em resposta ao olhar que a senhora mais velha lhe lançou; um olhar de questionamento gentil, que os olhos bonitos encontraram tão francamente que a pequena cerimónia terminou, como de costume, com um beijo maternal.
"Para a Sra. John Brooke, com os parabéns e cumprimentos do fabricante. Deus te abençoe, Beth! Que espetáculo refrescante tu és, Jo. Amy, estás a tornar-te demasiado bonita para uma senhora solteira."
Enquanto Laurie falava, entregou um embrulho de papel castanho a Meg, puxou a fita do cabelo de Beth, olhou fixamente para o grande avental de Jo e caiu numa atitude de arrebatamento fingido diante de Amy, depois apertou a mão a todas, e todas começaram a falar.
"Onde está o John?", perguntou Meg ansiosamente.
"Parou para obter a licença para amanhã, senhora."
"Que lado ganhou o último jogo, Teddy?", perguntou Jo, que insistia em sentir interesse pelos desportos masculinos, apesar dos seus dezanove anos.
"O nosso, claro. Gostava que tivesses estado lá para ver."
"Como está a adorável Srta. Randal?", perguntou Amy, com um sorriso significativo.
"Mais cruel do que nunca; não vês como estou a definhar?", e Laurie deu uma palmada sonora no seu peito largo e soltou um suspiro melodramático.
"Qual é a última piada? Desembrulha o embrulho e vê, Meg", disse Beth, observando o embrulho irregular com curiosidade.
"É uma coisa útil para ter em casa em caso de incêndio ou ladrões", observou Laurie, enquanto o chocalho de um guarda noturno aparecia, entre o riso das raparigas.
"Qualquer altura em que o John esteja fora, e fiques assustada, Sra. Meg, balança apenas isso pela janela da frente, e acordará a vizinhança num instante. Coisa boa, não é?", e Laurie deu-lhes uma amostra dos seus poderes que as fez tapar os ouvidos.
"Aí tens gratidão! E falar de gratidão faz-me lembrar de mencionar que podes agradecer à Hannah por salvar o teu bolo de casamento da destruição. Vi-o a entrar na tua casa quando passei, e se ela não o tivesse defendido varonilmente, eu teria dado uma dentada nele, pois parecia um bolo notavelmente cheio de passas."
"Pergunto-me se alguma vez vais crescer, Laurie", disse Meg, num tom maternal.
"Estou a fazer o meu melhor, senhora, mas receio não conseguir ficar muito mais alto, pois um metro e oitenta é o máximo que os homens conseguem nestes tempos degenerados", respondeu o jovem, cuja cabeça estava quase ao nível do pequeno candelabro. "Suponho que seria profanação comer qualquer coisa neste ninho novinho em folha, por isso, como estou tremendamente com fome, proponho um adiamento", acrescentou pouco depois.
"A mãe e eu vamos esperar pelo John. Há algumas últimas coisas a acertar", disse Meg, afastando-se apressadamente.
"A Beth e eu vamos a casa da Kitty Bryant buscar mais flores para amanhã", acrescentou Amy, atando um chapéu pitoresco sobre os seus caracóis pitorescos e desfrutando do efeito tanto como qualquer outra.
"Vem, Jo, não abandones um colega. Estou num estado de exaustão tal que não consigo chegar a casa sem ajuda. Não tires o avental, o que quer que faças; é particularmente elegante", disse Laurie, enquanto Jo guardava a sua aversão especial no seu bolso espaçoso e lhe oferecia o braço para apoiar os seus passos débeis.
"Agora, Teddy, quero falar seriamente contigo sobre amanhã", começou Jo, enquanto passeavam juntos. "Tens de prometer comportar-te bem, não pregar partidas e estragar os nossos planos."
"Nem uma partida."
"E não digas coisas engraçadas quando devíamos estar sérios."
"Eu nunca digo; tu és a pessoa para isso."
"E imploro-te que não olhes para mim durante a cerimónia; certamente vou rir-me se o fizeres."
"Não me verás; estarás a chorar tão intensamente que o nevoeiro espesso à tua volta obscurecerá a perspetiva."
"Eu nunca choro, a menos que seja por uma grande aflição."
"Como rapazes a irem para a universidade, hein?", interrompeu Laurie, com um riso sugestivo.
"Não sejas um pavão. Apenas lamentei um pouco para fazer companhia às raparigas."
"Exatamente. Diz-me, Jo, como está o avô esta semana; bastante amável?"
"Muito; porque, meteste-te em sarilhos e queres saber como ele vai reagir?", perguntou Jo bastante bruscamente.
"Agora, Jo, achas que eu olharia para a tua mãe e diria 'Está tudo bem', se não estivesse?", e Laurie parou bruscamente, com um ar ofendido.
"Não, não acho."
— Então não te ponhas a ser desconfiada; só quero algum dinheiro — disse Laurie, voltando a andar, apaziguado pelo tom cordial dela.
— Gastas uma fortuna, Teddy.
— Deus te livre, não o gasto; ele gasta-se a si próprio, de alguma forma, e desaparece antes que eu me aperceba.
— És tão generoso e de bom coração que deixas as pessoas pedir emprestado e não consegues dizer «não» a ninguém. Ouvimos falar do Henshaw e de tudo o que fizeste por ele. Se gastasses sempre dinheiro dessa maneira, ninguém te censuraria — disse Jo calorosamente.
— Oh, ele fez uma tempestade num copo de água. Não querias que eu deixasse aquele excelente rapaz trabalhar até à morte, só por falta de uma pequena ajuda, quando ele vale por uma dúzia de nós, preguiçosos, querias?
— Claro que não; mas não vejo a utilidade de teres dezassete coletes, gravatas sem fim e um chapéu novo cada vez que vens a casa. Pensei que tivesses superado o período de dandy; mas, de vez em quando, volta a aparecer num sítio novo. Agora é moda ser horrível — fazer com que a cabeça pareça uma escova de esfregar, usar um colete apertado, luvas cor de laranja e botas pesadas de biqueira quadrada. Se fosse uma fealdade barata, eu não diria nada; mas custa tanto como a outra e não tiro satisfação nenhuma disso.
Laurie atirou a cabeça para trás e riu-se tão de coração com este ataque que a boina de feltro caiu e Jo pisou-a, insulto que apenas lhe deu oportunidade para discorrer sobre as vantagens de um traje prático, enquanto dobrava o chapéu maltratado e o metia no bolso.
— Não dês mais sermões, sua boa alma! Já chegam os que levo durante a semana e gosto de me divertir quando venho a casa. Amanhã vestir-me-ei sem olhar a despesas e serei uma satisfação para os meus amigos.
— Deixo-te em paz se apenas deixares o cabelo crescer. Não sou aristocrática, mas oponho-me a ser vista com uma pessoa que parece um jovem pugilista — observou Jo severamente.
— Este estilo despretensioso promove o estudo; é por isso que o adotamos — retorquiu Laurie, que certamente não poderia ser acusado de vaidade, tendo sacrificado voluntariamente uma bela cabeleira encaracolada para satisfazer a exigência de um restolho de meio centímetro.
— A propósito, Jo, acho que aquele pequeno Parker está a ficar realmente desesperado pela Amy. Fala dela constantemente, escreve poesia e anda por aí a suspirar de uma maneira muito suspeita. Seria melhor ele cortar essa paixão pela raiz, não seria? — acrescentou Laurie, num tom confidencial, de irmão mais velho, após um minuto de silêncio.
— Claro que seria; não queremos mais casamentos nesta família nos próximos anos. Valha-nos Deus, o que é que os miúdos têm na cabeça? — e Jo parecia tão escandalizada como se a Amy e o pequeno Parker ainda não tivessem chegado à adolescência.
— É uma época apressada e não sei onde isto vai parar, minha senhora. Tu és uma mera criança, mas serás a próxima, Jo, e ficaremos nós a lamentar — disse Laurie, abanando a cabeça sobre a degeneração dos tempos.
— Não te alarmes; não sou do género agradável. Ninguém me vai querer, e ainda bem, pois deve haver sempre uma solteirona numa família.
— Tu não dás oportunidade a ninguém — disse Laurie, com um olhar de soslaio e um pouco mais de cor do que antes no rosto queimado do sol. — Não mostras o lado terno do teu carácter; e se um tipo o visse por acaso e não conseguisse evitar mostrar que gosta dele, tu tratas-no como a Sra. Gummidge tratava o seu namorado — atiras-lhe água fria — e ficas tão espinhosa que ninguém se atreve a tocar-te ou a olhar para ti.
— Não gosto desse tipo de coisas; estou demasiado ocupada para me preocupar com disparates e acho horrível separar as famílias assim. Agora não digas mais nada sobre isso; o casamento da Meg deu cabo da cabeça de todos nós e só falamos de namorados e dessas absurdidades. Não quero zangar-me, por isso mudemos de assunto — e Jo parecia pronta a lançar água fria à mínima provocação.
Quaisquer que tivessem sido os seus sentimentos, Laurie encontrou uma válvula de escape num assobio longo e baixo e na terrível previsão, ao despedirem-se no portão: — Marca as minhas palavras, Jo, tu serás a próxima.
XXV.
O PRIMEIRO CASAMENTO.
As rosas de junho sobre o alpendre estavam despertas, vivas e cedo naquela manhã, alegrando-se de todo o coração com o sol sem nuvens, como vizinhas simpáticas que eram. Estavam bastante coradas de entusiasmo, com os seus rostos avermelhados a balançarem ao vento, sussurrando umas às outras o que tinham visto; pois algumas espreitavam pelas janelas da sala de jantar, onde o banquete estava servido, outras subiam para acenar e sorrir às irmãs enquanto vestiam a noiva, outras acenavam com boas-vindas aos que iam e vinham em várias tarefas no jardim, no alpendre e no corredor, e todas, desde a flor mais rosada e aberta até ao botão mais pálido, ofereciam o seu tributo de beleza e fragrância à gentil senhora que as tinha amado e tratado durante tanto tempo.
Meg parecia ela própria uma rosa; pois tudo o que havia de melhor e mais doce no coração e na alma parecia florescer no seu rosto naquele dia, tornando-o belo e terno, com um encanto mais bonito do que a própria beleza. Nem seda, nem rendas, nem flores de laranjeira ela quis. — Não quero parecer estranha ou arranjada hoje — disse ela. — Não quero um casamento da moda, mas apenas as pessoas que amo à minha volta, e para elas desejo parecer e ser o meu eu familiar.
Por isso, ela mesma fez o seu vestido de noiva, cosendo nele as tenras esperanças e os romances inocentes de um coração de rapariga. As suas irmãs trançaram o seu bonito cabelo, e os únicos ornamentos que usou foram os lírios do vale, que o «seu John» gostava mais do que todas as flores que cresciam.
— Estás mesmo a nossa querida Meg, só que tão doce e adorável que te abraçava se não fosse para não amarrotar o vestido — exclamou Amy, observando-a com deleite, quando tudo estava pronto.
— Então estou satisfeita. Mas, por favor, abracem-me e beijem-me, todas, e não se preocupem com o vestido; quero muitos amarrotados deste género nele hoje — e Meg abriu os braços às irmãs, que se agarraram a ela com rostos de abril durante um minuto, sentindo que o novo amor não tinha mudado o antigo.
— Agora vou atar a gravata do John e depois ficar uns minutos com o pai, calmamente, no escritório — e Meg correu para baixo para realizar estas pequenas cerimónias e depois para seguir a mãe para onde quer que ela fosse, consciente de que, apesar dos sorrisos no rosto materno, havia uma tristeza secreta escondida no coração de mãe pela partida da primeira ave do ninho.
Enquanto as irmãs mais novas estão juntas, dando os últimos retoques ao seu simples toucador, talvez seja uma boa altura para falar de algumas mudanças que três anos operaram na sua aparência; pois todas estão no seu melhor momento agora.
Os ângulos de Jo estão muito suavizados; ela aprendeu a portar-se com facilidade, se não com graça. A cabeleira encaracolada alongou-se num tufo espesso, que assenta melhor na cabeça pequena sobre a figura alta. Há uma cor fresca nas suas bochechas castanhas, um brilho suave nos seus olhos e apenas palavras gentis caem da sua língua afiada hoje.
Beth tornou-se esguia, pálida e mais silenciosa do que nunca; os olhos bonitos e gentis são maiores e neles reside uma expressão que entristece, embora não seja triste por si mesma. É a sombra da dor que toca o rosto jovem com tal paciência patética; mas Beth raramente se queixa e fala sempre com esperança de «ficar melhor em breve».
Amy é considerada, com razão, «a flor da família»; pois, aos dezasseis anos, tem o ar e o porte de uma mulher feita — não é bonita, mas possui aquele encanto indescritível chamado graça. Via-se nas linhas da sua figura, no feitio e movimento das mãos, no cair do vestido, no inclinar do cabelo — inconsciente, mas harmonioso, e tão atraente para muitos como a própria beleza. O nariz de Amy ainda a afligia, pois nunca queria crescer à grega; o mesmo acontecia com a sua boca, demasiado larga e com um queixo decidido. Estes traços ofensivos davam carácter a todo o seu rosto, mas ela nunca conseguia ver isso e consolava-se com a sua tez maravilhosamente clara, os olhos azuis vivos e os caracóis, mais dourados e abundantes do que nunca.
Todas as três usavam fatos de cinzento-prateado fino (os seus melhores vestidos para o verão), com rosas cor-de-rosa no cabelo e no peito; e todas as três pareciam exatamente o que eram — raparigas de rosto fresco e coração feliz, fazendo uma pausa momentânea nas suas vidas ocupadas para ler com olhos nostálgicos o capítulo mais doce do romance da feminilidade.
Não haveria cerimónias, tudo teria de ser o mais natural e caseiro possível; por isso, quando a Tia March chegou, ficou escandalizada ao ver a noiva correr a dar-lhe as boas-vindas e a conduzi-la para dentro, ao encontrar o noivo a prender uma grinalda que tinha caído e ao vislumbrar o ministro paternal a subir as escadas com um semblante grave e uma garrafa de vinho debaixo de cada braço.
— Valha-me Deus, que estado de coisas é este! — exclamou a velha senhora, ocupando o lugar de honra preparado para ela e ajeitando as pregas do seu moiré lavanda com um grande sussurro. — Não devias ser vista até ao último minuto, criança.
— Não sou um espetáculo, tia, e ninguém vem para ficar a olhar para mim, a criticar o meu vestido ou a contar o custo do meu almoço. Estou demasiado feliz para me importar com o que alguém diz ou pensa, e vou ter o meu pequeno casamento exatamente como gosto. John, querido, aqui tens o martelo — e Meg saiu para ajudar «aquele homem» no seu trabalho altamente impróprio.
O Sr. Brooke nem sequer disse «obrigado», mas, ao inclinar-se para a ferramenta pouco romântica, beijou a sua pequena noiva por trás da porta de correr, com um olhar que fez a Tia March tirar o lenço de bolso, com um orvalho repentino nos seus olhos velhos e aguçados.
Um estrondo, um grito e uma risada de Laurie, acompanhados pela exclamação indecorosa: — Júpiter Amon! A Jo voltou a entornar o bolo! — causaram uma agitação momentânea, que mal tinha terminado quando chegou um grupo de primos e «a festa entrou», como Beth costumava dizer quando era criança.
— Não deixes aquele jovem gigante aproximar-se de mim; ele preocupa-me mais do que os mosquitos — sussurrou a velha senhora a Amy, enquanto as salas se enchiam e a cabeça preta de Laurie se elevava acima das outras.
— Ele prometeu portar-se muito bem hoje e sabe ser perfeitamente elegante se quiser — retorquiu Amy, deslizando para avisar Hércules para ter cuidado com o dragão, aviso que o levou a perseguir a velha senhora com uma devoção que quase a deixou louca.
Não houve cortejo nupcial, mas um silêncio repentino caiu na sala quando o Sr. March e o jovem par ocuparam os seus lugares sob o arco verde. A mãe e as irmãs reuniram-se perto, como se relutantes em entregar Meg; a voz paternal falhou mais do que uma vez, o que só pareceu tornar o serviço mais bonito e solene; a mão do noivo tremia visivelmente e ninguém ouviu as suas respostas; mas Meg olhou diretamente nos olhos do marido e disse: — Aceito! — com tanta confiança terna no seu rosto e voz que o coração da sua mãe rejubilou e a Tia March fungou audivelmente.
Jo não chorou, embora estivesse muito perto disso uma vez, e só foi salva de uma demonstração pela consciência de que Laurie a observava fixamente, com uma mistura cómica de alegria e emoção nos seus olhos pretos e malvados. Beth manteve o rosto escondido no ombro da mãe, mas Amy estava de pé como uma estátua graciosa, com um raio de sol muito oportuno a tocar-lhe a testa branca e a flor no cabelo.
Não foi nada apropriado, receio, mas no minuto em que ficou formalmente casada, Meg gritou: — O primeiro beijo para a Marmee! — e, virando-se, deu-o com o coração nos lábios. Durante os quinze minutos seguintes, ela pareceu mais uma rosa do que nunca, pois todos aproveitaram os seus privilégios ao máximo, desde o Sr. Laurence até à velha Hannah, que, adornada com um toucado feito de forma temível e maravilhosa, se atirou a ela no corredor, gritando, com um soluço e uma risada: — Deus te abençoe, querida, cem vezes! O bolo não sofreu nada e tudo parece adorável.
Toda a gente animou-se depois disso e disse algo brilhante, ou tentou, o que deu no mesmo, pois o riso está pronto quando os corações estão leves. Não houve exposição de presentes, pois já estavam na pequena casa, nem houve um pequeno-almoço elaborado, mas um almoço farto de bolo e fruta, decorado com flores. O Sr. Laurence e a Tia March encolheram os ombros e sorriram um para o outro quando a água, a limonada e o café se revelaram os únicos tipos de néctar que as três Hebes carregavam. Ninguém disse nada, no entanto, até Laurie, que insistiu em servir a noiva, aparecer diante dela, com uma salva carregada na mão e uma expressão intrigada no rosto.
— A Jo partiu todas as garrafas por acidente? — sussurrou ele, — ou estarei apenas a sofrer de uma ilusão de que vi algumas espalhadas por aí esta manhã?
— Não; o teu avô ofereceu-nos amavelmente o melhor dele e a Tia March enviou realmente alguns, mas o pai guardou um pouco para a Beth e enviou o resto para o Lar dos Soldados. Sabes que ele acha que o vinho só deve ser usado na doença e a mãe diz que nem ela nem as suas filhas oferecerão alguma vez vinho a qualquer jovem sob o seu teto.
Meg falou seriamente e esperava ver Laurie franzir a testa ou rir; mas ele não fez nem uma coisa nem outra, pois após um olhar rápido para ela, disse, à sua maneira impetuosa: — Gosto disso! Pois já vi danos suficientes causados para desejar que outras mulheres pensassem como tu.
— Não aprendeste a ser sábio com a experiência, espero? — e havia um acento ansioso na voz de Meg.
— Não; dou-te a minha palavra. Não penses demasiado bem de mim, também; esta não é uma das minhas tentações. Tendo sido criado onde o vinho é tão comum como a água, e quase tão inofensivo, não me preocupo com ele; mas quando uma rapariga bonita o oferece, um tipo não gosta de recusar, vês?
— Mas irás recusar, pelo bem dos outros, se não pelo teu próprio. Vamos, Laurie, promete, e dá-me mais uma razão para chamar a este o dia mais feliz da minha vida.
Um pedido tão repentino e tão sério fez o jovem hesitar um momento, pois o ridículo é muitas vezes mais difícil de suportar do que a autonegação. Meg sabia que se ele desse a promessa, cumpri-la-ia a todo o custo; e, sentindo o seu poder, usou-o como uma mulher pode fazer pelo bem do seu amigo. Ela não falou, mas olhou para ele com um rosto tornado muito eloquente pela felicidade e um sorriso que dizia: — Ninguém me pode recusar nada hoje. Laurie, certamente, não podia; e, com um sorriso de resposta, deu-lhe a mão, dizendo calorosamente: — Prometo, Sra. Brooke!
— Agradeço-te muito, muito mesmo.
— E eu brindo à «longa vida à tua resolução», Teddy — gritou Jo, batizando-o com um salpico de limonada, enquanto acenava com o seu copo e sorria aprovadoramente para ele.
Assim, o brinde foi feito, a promessa dada e lealmente mantida, apesar de muitas tentações; pois, com uma sabedoria instintiva, as raparigas tinham aproveitado um momento feliz para fazer ao seu amigo um serviço, pelo qual ele lhes agradeceu toda a vida.
Após o almoço, as pessoas passearam, aos pares e trios, pela casa e pelo jardim, desfrutando do sol lá fora e lá dentro. Meg e John estavam por acaso parados juntos no meio do relvado, quando Laurie foi tomado por uma inspiração que deu o toque final a este casamento fora de moda.
— Todas as pessoas casadas deem as mãos e dancem à volta do recém-casado marido e mulher, como os alemães fazem, enquanto nós, solteiros e solteironas, saltitamos aos pares lá fora! — gritou Laurie, passeando pelo caminho com Amy, com um espírito e habilidade tão contagiantes que todos os outros seguiram o seu exemplo sem murmurar. O Sr. e a Sra. March, a Tia e o Tio Carrol, começaram; outros juntaram-se rapidamente; até Sallie Moffat, após um momento de hesitação, atirou a cauda do vestido sobre o braço e arrastou Ned para a roda. Mas a piada suprema foi o Sr. Laurence e a Tia March; pois quando o velho cavalheiro solene se aproximou da velha senhora, ela simplesmente meteu a bengala debaixo do braço e saltitou alegremente para dar as mãos aos outros e dançar à volta do par nupcial, enquanto os jovens percorriam o jardim, como borboletas num dia de verão.
A falta de fôlego deu por encerrado o baile improvisado e, então, as pessoas começaram a ir embora.
— Desejo-te felicidades, minha querida, desejo-te de coração felicidades; mas acho que te vais arrepender — disse a Tia March a Meg, acrescentando ao noivo, enquanto o conduzia até à carruagem: — Tens um tesouro, jovem, vê se o mereces.
— Esse é o casamento mais bonito a que fui em muito tempo, Ned, e não vejo porquê, pois não tinha um pingo de estilo — observou a Sra. Moffat ao marido, enquanto se iam embora.
— Laurie, meu rapaz, se alguma vez quiseres embarcar nisto, arranja uma dessas raparigas para te ajudar e ficarei perfeitamente satisfeito — disse o Sr. Laurence, acomodando-se na sua poltrona para descansar, após a emoção da manhã.
— Farei o meu melhor para o satisfazer, senhor — foi a resposta invulgarmente dócil de Laurie, enquanto desprendia cuidadosamente o raminho que Jo tinha posto na sua casa de botão.
A pequena casa não ficava longe e a única viagem nupcial que Meg teve foi o passeio tranquilo com John, da velha casa para a nova. Quando ela desceu, parecendo uma bonita quaker no seu fato cor de pomba e chapéu de palha atado com branco, todos se reuniram à volta dela para dizer «adeus», tão ternamente como se ela fosse fazer uma grande viagem.
— Não sintam que estou separada de vós, Marmee querida, ou que vos amo menos por amar tanto o John — disse ela, agarrando-se à mãe, com os olhos cheios, por um momento. — Virei todos os dias, pai, e espero manter o meu antigo lugar nos vossos corações, embora esteja casada. A Beth vai estar muito comigo e as outras raparigas passarão por lá de vez em quando para se rirem das minhas lutas com a lide da casa. Obrigado a todos pelo meu dia de casamento feliz. Adeus, adeus!
Ficaram a vê-la, com rostos cheios de amor, esperança e orgulho terno, enquanto ela se afastava, apoiada no braço do marido, com as mãos cheias de flores e o sol de junho a iluminar o seu rosto feliz — e assim começou a vida de casada de Meg.
XXVI.
TENTATIVAS ARTÍSTICAS.
As pessoas levam muito tempo a aprender a diferença entre talento e génio, especialmente os jovens ambiciosos. Amy estava a aprender esta distinção através de muitas tribulações; pois, confundindo entusiasmo com inspiração, tentou todos os ramos da arte com audácia juvenil. Durante muito tempo houve uma acalmia no negócio dos «bolinhos de lama» e ela dedicou-se ao desenho mais fino a caneta e tinta, no qual mostrou tanto gosto e habilidade que o seu trabalho gracioso revelou ser agradável e rentável. Mas os olhos demasiado esforçados levaram rapidamente a que a caneta e a tinta fossem postas de lado por uma tentativa ousada de desenho a ferro quente. Enquanto este ataque durou, a família viveu com o medo constante de um incêndio; pois o cheiro a madeira queimada invadia a casa a todas as horas; o fumo saía do sótão e do barracão com frequência alarmante, ferros em brasa jaziam por aí indiscriminadamente e Hannah nunca ia para a cama sem um balde de água e a campainha do jantar à porta, em caso de fogo. O rosto de Rafael foi encontrado audaciosamente executado na parte de baixo da tábua de amassar e Baco na cabeça de um barril de cerveja; um querubim a cantar adornava a tampa do balde do açúcar e tentativas de retratar Romeu e Julieta forneceram gravetos para a lareira durante algum tempo.
Do fogo para o óleo foi uma transição natural para dedos queimados, e Amy pôs-se a pintar com um ardor inabalável. Um amigo artista presenteou-a com as suas paletas, pincéis e tintas usados; e ela pintava desenfreadamente, produzindo vistas pastorais e marinhas como nunca se viram na terra ou no mar. As suas monstruosidades em forma de gado teriam ganho prémios numa feira agrícola; e o balanço perigoso das suas embarcações teria causado enjoo ao mais náutico dos observadores, se o completo desprezo por todas as regras conhecidas de construção naval e cordame não o tivesse feito contorcer-se de riso logo ao primeiro olhar. Rapazes morenos e Madonas de olhos escuros, a olhar para si de um canto do estúdio, sugeriam Murillo; sombras acastanhadas e oleosas de rostos, com uma mancha lúgubre no lugar errado, significavam Rembrandt; senhoras robustas e bebés hidrópicos, Rubens; e Turner aparecia em tempestades de trovão azul, relâmpagos cor de laranja, chuva castanha e nuvens púrpuras, com uma mancha cor de tomate no meio, que poderia ser o sol ou uma boia, a camisa de um marinheiro ou o manto de um rei, conforme o espectador desejasse.
Seguiram-se retratos a carvão; e toda a família ficou pendurada numa fila, parecendo tão selvagem e suja como se tivesse acabado de ser evocada de um depósito de carvão. Suavizados em esboços a giz de cera, ficaram melhores; pois as semelhanças eram boas, e o cabelo de Amy, o nariz de Jo, a boca de Meg e os olhos de Laurie foram declarados "maravilhosamente belos". Seguiu-se um regresso ao barro e ao gesso, e moldes fantasmagóricos dos seus conhecidos assombravam os cantos da casa, ou tombavam das prateleiras dos armários sobre a cabeça das pessoas. As crianças eram atraídas como modelos, até que os seus relatos incoerentes sobre as suas atividades misteriosas fizeram com que a menina Amy fosse vista como uma jovem ogra. Os seus esforços nesta área, contudo, foram interrompidos por um acidente infeliz, que extinguiu o seu ardor. Tendo os outros modelos faltado por algum tempo, ela decidiu moldar o seu próprio pé bonito, e a família foi um dia alarmada por um ruído de batidas e gritos sobrenaturais, e correndo em auxílio, encontraram a jovem entusiasta a saltar desvairadamente pelo abrigo, com o pé preso numa panela cheia de gesso, que tinha endurecido com uma rapidez inesperada. Com muita dificuldade e algum perigo foi ela desenterrada; pois Jo estava tão dominada pelo riso enquanto escavava, que a sua faca foi longe demais, cortou o pobre pé e deixou uma recordação duradoura de, pelo menos, uma tentativa artística.
Depois disto, Amy sossegou, até que uma mania de esboçar a partir da natureza a levou a frequentar o rio, os campos e o bosque, em busca de estudos pitorescos, e a suspirar por ruínas para copiar. Ela apanhava constipações infindáveis sentada na relva húmida para registar "um pedacinho delicioso", composto por uma pedra, um toco, um cogumelo e um talo de verbasco partido, ou "uma massa celestial de nuvens", que parecia uma seleção de edredões quando terminada. Ela sacrificou a tez ao flutuar no rio sob o sol do verão, para estudar a luz e a sombra, e ganhou uma ruga sobre o nariz, a tentar obter "pontos de vista", ou seja lá como se chama a tal proeza de semicerrar os olhos e medir com fios.
Se "o génio é paciência eterna", como afirma Miguel Ângelo, Amy certamente tinha algum direito a esse atributo divino, pois perseverou apesar de todos os obstáculos, fracassos e desencorajamentos, acreditando firmemente que, a seu tempo, faria algo digno de ser chamado de "alta arte".
Entretanto, ela estava a aprender, a fazer e a desfrutar de outras coisas, pois tinha decidido ser uma mulher atraente e talentosa, mesmo que nunca se tornasse uma grande artista. Nisso ela teve mais sucesso; pois era um daqueles seres felizes que agradam sem esforço, fazem amigos em toda a parte e levam a vida com tanta graça e leveza que as almas menos afortunadas são tentadas a acreditar que tais pessoas nasceram sob uma estrela da sorte. Todos gostavam dela, pois entre os seus bons dons estava o tato. Tinha um sentido instintivo do que era agradável e apropriado, dizia sempre a coisa certa à pessoa certa, fazia exatamente o que se adequava ao momento e ao lugar, e era tão autoconfiante que as suas irmãs costumavam dizer: "Se a Amy fosse à corte sem qualquer ensaio prévio, ela saberia exatamente o que fazer."
Uma das suas fraquezas era o desejo de circular na "nossa melhor sociedade", sem ter bem a certeza do que era realmente o melhor. Dinheiro, posição, dotes mundanos e maneiras elegantes eram coisas muito desejáveis aos seus olhos, e ela gostava de se associar com aqueles que as possuíam, confundindo frequentemente o falso com o verdadeiro, e admirando o que não era admirável. Nunca esquecendo que por nascimento era uma senhora, cultivava os seus gostos e sentimentos aristocráticos, para que, quando surgisse a oportunidade, pudesse estar pronta a ocupar o lugar do qual a pobreza a excluía agora.
"Minha senhora", como os seus amigos lhe chamavam, desejava sinceramente ser uma senhora genuína, e era-o de coração, mas ainda tinha de aprender que o dinheiro não pode comprar o refinamento da natureza, que o nível social nem sempre confere nobreza, e que a verdadeira educação faz-se sentir apesar dos obstáculos externos.
"Quero pedir-lhe um favor, mamã", disse Amy, entrando com um ar importante, certo dia.
"Bem, menina, o que é?", respondeu a mãe, aos olhos de quem a jovem majestosa ainda permanecia "o bebé".
"A nossa aula de desenho termina na próxima semana e, antes que as raparigas se separem para o verão, quero convidá-las para virem cá um dia. Elas estão doidas para ver o rio, esboçar a ponte partida e copiar algumas das coisas que admiram no meu livro. Têm sido muito gentis comigo de muitas maneiras, e estou grata, pois são todas ricas e sabem que sou pobre, mas nunca fizeram qualquer diferença."
"Por que haveriam de fazer?", e a senhora March colocou a questão com o que as raparigas chamavam o seu "ar de Maria Teresa".
"Sabes tão bem como eu que isso faz diferença para quase toda a gente, por isso não te arrepies, como uma querida galinha maternal, quando os teus pintainhos são bicados por aves mais espertas; o patinho feio acabou por ser um cisne, sabes", e Amy sorriu sem amargura, pois possuía um temperamento alegre e um espírito esperançoso.
A senhora March riu-se e suavizou o seu orgulho maternal ao perguntar:
"Bem, meu cisne, qual é o teu plano?"
"Gostaria de convidar as raparigas para almoçar na próxima semana, levá-las a passear pelos lugares que querem ver, um passeio de barco no rio, talvez, e fazer uma pequena festa artística para elas."
"Isso parece viável. O que queres para o almoço? Bolo, sanduíches, fruta e café será tudo o que é necessário, suponho?"
"Oh, não! Temos de ter língua fria e frango, chocolate francês e gelado, além disso. As raparigas estão habituadas a tais coisas, e eu quero que o meu almoço seja adequado e elegante, embora eu trabalhe para o meu sustento."
"Quantas jovens senhoras são?", perguntou a mãe, começando a ficar séria.
"Doze ou catorze na turma, mas arrisco dizer que não virão todas."
"Valha-me Deus, criança, terás de fretar um autocarro para as transportar."
"Por que, mãe, como podes pensar numa coisa dessas? Provavelmente não virão mais de seis ou oito, por isso vou alugar uma carruagem e pedir emprestado o *cherry-bounce* do senhor Laurence." (A pronúncia de Hannah para *char-à-banc*).
"Tudo isso será dispendioso, Amy."
"Não muito; calculei o custo e pagarei eu mesma."
"Não achas, querida, que como estas raparigas estão habituadas a tais coisas, e o melhor que podemos fazer não será nada de novo, que um plano mais simples seria mais agradável para elas, como uma mudança, se não por outro motivo, e muito melhor para nós do que comprar ou pedir emprestado o que não precisamos, e tentar um estilo que não condiz com as nossas circunstâncias?"
"Se não posso tê-lo como quero, não me interessa tê-lo de todo. Sei que posso levá-lo a cabo perfeitamente bem, se tu e as raparigas ajudarem um pouco; e não vejo por que não posso, se estou disposta a pagar por isso", disse Amy, com a determinação que a oposição tendia a transformar em obstinação.
A senhora March sabia que a experiência era uma excelente professora e, sempre que possível, deixava as suas filhas aprenderem sozinhas as lições que ela teria tido todo o gosto em facilitar, se elas não se opusessem a receber conselhos tanto quanto se opunham a tomar sais e sene.
"Muito bem, Amy; se tens o coração posto nisso e vês que podes levar avante sem um gasto demasiado grande de dinheiro, tempo e paciência, não direi mais nada. Fala com as raparigas e, de qualquer maneira que decidam, farei o meu melhor para te ajudar."
"Obrigada, mãe; és sempre tão gentil", e lá foi Amy expor o seu plano às irmãs.
Meg concordou imediatamente e prometeu a sua ajuda, oferecendo alegremente tudo o que possuía, desde a sua pequena casa até às suas melhores colheres de sal. Mas Jo franziu a testa a todo o projeto e, a princípio, não quis ter nada a ver com ele.
"Por que raio haverias de gastar o teu dinheiro, preocupar a tua família e virar a casa de pernas para o ar por um bando de raparigas que não querem saber de ti para nada? Pensava que tinhas orgulho e bom senso suficientes para não te humilhares perante nenhuma mulher mortal só porque ela usa botas francesas e anda de coupé", disse Jo, que, sendo chamada do clímax trágico do seu romance, não estava no melhor estado de espírito para empreendimentos sociais.
"Eu não me humilho, e detesto ser tratada com condescendência tanto quanto tu!", retorquiu Amy indignada, pois as duas ainda se desentendiam quando tais questões surgiam. "As raparigas gostam de mim, e eu delas, e há muita bondade, bom senso e talento entre elas, apesar do que chamas de disparates da moda. Tu não te importas de fazer com que as pessoas gostem de ti, de entrar na boa sociedade e de cultivar as tuas maneiras e gostos. Eu importo-me, e pretendo aproveitar ao máximo todas as oportunidades que surgirem. Podes seguir pelo mundo com os cotovelos de fora e o nariz no ar, e chamar a isso independência, se quiseres. Esse não é o meu caminho."
Quando Amy afiava a língua e dizia o que pensava, ela geralmente levava a melhor, pois raramente deixava de ter o senso comum do seu lado, enquanto Jo levava o seu amor pela liberdade e ódio pelas convencionalidades a um extremo tal que se via naturalmente derrotada num argumento. A definição de Amy sobre a ideia de independência de Jo foi um golpe tão bom que ambas desataram a rir, e a discussão tomou um rumo mais amigável. Muito contra a sua vontade, Jo acabou por consentir em sacrificar um dia à senhora Grundy, e ajudar a sua irmã naquilo que considerava "um negócio sem sentido".
Os convites foram enviados, quase todos aceites, e a segunda-feira seguinte foi reservada para o grande evento. Hannah estava de mau humor porque o seu trabalho da semana estava desarranjado, e profetizava que "se a lavagem e a passagem a ferro não fossem feitas regularmente, nada correria bem em lado nenhum". Este contratempo na mola real da maquinaria doméstica teve um efeito negativo em todo o conjunto; mas o lema de Amy era "*Nil desperandum*", e tendo decidido o que fazer, procedeu a fazê-lo apesar de todos os obstáculos. Para começar, a culinária de Hannah não correu bem: o frango estava duro, a língua demasiado salgada e o chocolate não fazia espuma corretamente. Depois, o bolo e o gelado custaram mais do que Amy esperava, assim como a carruagem; e várias outras despesas, que pareciam triviais no início, somaram-se de forma bastante alarmante depois. Beth apanhou uma constipação e foi para a cama, Meg teve um número invulgar de visitas que a mantiveram em casa, e Jo estava num estado de espírito tão dividido que as suas quebras, acidentes e erros foram invulgarmente numerosos, graves e penosos.
"Se não fosse pela mãe, eu nunca teria conseguido", como Amy declarou mais tarde, e lembrou-se com gratidão quando "a melhor piada da estação" foi completamente esquecida por todos os outros.
Se não estivesse bom tempo na segunda-feira, as jovens senhoras viriam na terça-feira – um arranjo que irritou Jo e Hannah ao mais alto nível. Na segunda-feira de manhã, o tempo estava naquele estado indeciso que é mais exasperante do que uma chuva persistente. Chuviscou um pouco, brilhou um pouco, ventou um pouco, e não se decidiu até que fosse demasiado tarde para que qualquer outra pessoa se decidisse. Amy estava de pé ao amanhecer, apressando as pessoas a sair das camas e a tomar o pequeno-almoço, para que a casa pudesse ser arrumada. A sala parecia-lhe invulgarmente gasta; mas sem parar para suspirar pelo que não tinha, ela habilmente tirou o melhor partido do que tinha, arranjando cadeiras sobre as partes gastas do tapete, cobrindo as manchas nas paredes com quadros emoldurados em hera, e preenchendo os cantos vazios com estatuária caseira, que dava um ar artístico à sala, assim como os belos vasos de flores que Jo espalhava por toda a parte.
O almoço parecia encantador; e enquanto o examinava, esperava sinceramente que tivesse um bom sabor e que os copos, a porcelana e a prata emprestados voltassem em segurança para casa. As carruagens estavam prometidas, Meg e a mãe estavam prontas para as honras da casa, Beth estava capaz de ajudar Hannah nos bastidores, Jo tinha-se comprometido a ser tão animada e amável quanto uma mente ausente, uma cabeça dorida e uma desaprovação muito decidida de toda a gente e de tudo permitiriam, e, enquanto se vestia cansadamente, Amy animava-se com as antecipações do momento feliz, em que, terminado o almoço em segurança, partiria com as suas amigas para uma tarde de delícias artísticas; pois o "*cherry-bounce*" e a ponte partida eram os seus pontos fortes.
Seguiram-se duas horas de suspense, durante as quais ela vibrou da sala para a varanda, enquanto a opinião pública variava como o cata-vento. Um aguaceiro forte às onze tinha evidentemente apagado o entusiasmo das jovens senhoras que deveriam chegar às doze, pois ninguém apareceu; e às duas, a família exausta sentou-se num clarão de sol para consumir as partes perecíveis do banquete, para que nada se perdesse.
"Sem dúvida quanto ao tempo de hoje; elas virão certamente, por isso temos de voar e estar prontas para elas", disse Amy, quando o sol a acordou na manhã seguinte. Falou com vivacidade, mas no fundo da sua alma desejava não ter dito nada sobre a terça-feira, pois o seu interesse, tal como o seu bolo, estava a ficar um pouco estragado.
"Não consigo arranjar lagostas, por isso terás de passar sem salada hoje", disse a senhora March, entrando meia hora depois, com uma expressão de desespero plácido.
"Usa o frango, então; a dureza não importará numa salada", aconselhou a sua mãe.
"Hannah deixou-o na mesa da cozinha por um minuto, e os gatinhos chegaram lá. Lamento muito, Amy", acrescentou Beth, que ainda era uma protetora dos gatos.
"Então tenho de arranjar uma lagosta, pois só língua não serve", disse Amy decididamente.
"Queres que eu corra para a cidade e exija uma?", perguntou Jo, com a magnanimidade de um mártir.
"Virias trazê-la para casa debaixo do braço, sem qualquer papel, só para me testar. Vou eu mesma", respondeu Amy, cujo temperamento estava a começar a falhar.
Envolta num véu espesso e armada com um cesto de viagem elegante, partiu, sentindo que um passeio fresco acalmaria o seu espírito irritado e a prepararia para os trabalhos do dia. Após algum atraso, o objeto do seu desejo foi obtido, assim como uma garrafa de molho, para evitar mais perda de tempo em casa, e ela partiu novamente, muito satisfeita com a sua própria previsão.
Como o autocarro continha apenas uma outra passageira, uma velha senhora sonolenta, Amy guardou o seu véu e enganou o tédio do caminho tentando descobrir para onde tinha ido todo o seu dinheiro. Estava tão ocupada com o seu cartão cheio de números rebeldes que não observou um recém-chegado, que entrou sem parar o veículo, até que uma voz masculina disse: "Bom dia, senhorita March", e, ao olhar para cima, viu um dos amigos de faculdade mais elegantes de Laurie. Esperando fervorosamente que ele saísse antes dela, Amy ignorou completamente o cesto aos seus pés e, congratulando-se por ter vestido o seu novo traje de viagem, retribuiu a saudação do jovem com a sua suavidade e espírito habituais.
Eles deram-se excelentemente bem; pois o principal cuidado de Amy foi logo posto de parte ao saber que o cavalheiro sairia primeiro, e ela estava a conversar num tom peculiarmente elevado, quando a velha senhora saiu. Ao tropeçar para a porta, ela derrubou o cesto e – oh, horror! – a lagosta, em toda a sua vulgar dimensão e brilho, foi revelada aos olhos de nobre estirpe de um Tudor.
"Por Júpiter, ela esqueceu-se do jantar!", gritou o jovem inconsciente, cutucando o monstro escarlate para o seu lugar com a bengala, e preparando-se para entregar o cesto depois da velha senhora.
"Por favor, não – é – é meu", murmurou Amy, com um rosto quase tão vermelho quanto o seu peixe.
"Oh, na verdade, peço perdão; é excecionalmente bela, não é?", disse Tudor, com grande presença de espírito e um ar de interesse sóbrio que honrava a sua educação.
Amy recompôs-se num suspiro, colocou o seu cesto audaciosamente no assento e disse, rindo:
"Não gostarias de ter um pouco da salada que ele vai fazer, e de ver as jovens senhoras encantadoras que a vão comer?"
Ora, isso foi tato, pois dois dos pontos fracos do espírito masculino foram tocados: a lagosta foi instantaneamente rodeada por uma aura de reminiscências agradáveis, e a curiosidade sobre "as jovens senhoras encantadoras" desviou a sua mente do percalço cómico.
"Suponho que ele se vai rir e brincar sobre isso com Laurie, mas eu não os vou ver; isso é um consolo", pensou Amy, enquanto Tudor fazia uma vénia e partia.
Ela não mencionou este encontro em casa (embora tenha descoberto que, graças ao tombo, o seu novo vestido estava muito danificado pelos riachos de molho que serpenteavam pela saia), mas passou pelos preparativos que agora pareciam mais penosos do que antes; e ao meio-dia tudo estava pronto novamente. Sentindo que os vizinhos estavam interessados nos seus movimentos, ela desejava apagar a memória do fracasso de ontem com um grande sucesso hoje; por isso ordenou o "*cherry-bounce*" e partiu com pompa para encontrar e escoltar as suas convidadas para o banquete.
"Aí está o barulho, elas vêm! Vou para a varanda recebê-las; parece hospitaleiro, e quero que a pobre criança passe um bom bocado depois de todo o seu trabalho", disse a senhora March, adaptando a ação à palavra. Mas, após um olhar, retirou-se, com uma expressão indescritível, pois, parecendo completamente perdida na carruagem grande, sentavam-se Amy e uma jovem senhora.
"Corre, Beth, e ajuda a Hannah a tirar metade das coisas da mesa; será demasiado absurdo colocar um almoço para doze perante uma única rapariga", gritou Jo, apressando-se para as divisões inferiores, demasiado excitada para parar sequer para rir.
Entrou Amy, bastante calma e deliciosamente cordial para com a única convidada que tinha cumprido a sua promessa; o resto da família, sendo de inclinação dramática, desempenhou os seus papéis igualmente bem, e a senhorita Eliott achou-os um grupo muito hilariante; pois era impossível controlar totalmente a alegria que os possuía. Sendo o almoço remodelado alegremente partilhado, o estúdio e o jardim visitados, e a arte discutida com entusiasmo, Amy ordenou uma *buggy* (ai do elegante *cherry-bounce*!) e passeou a sua amiga calmamente pela vizinhança até ao pôr do sol, quando "a festa acabou".
Ao caminhar para dentro, parecendo muito cansada, mas tão composta como sempre, observou que todo o vestígio da infeliz festa tinha desaparecido, exceto um franzido suspeito nos cantos da boca de Jo.
"Tiveste uma tarde adorável para o teu passeio, querida", disse a sua mãe, tão respeitosamente como se as doze tivessem vindo.
"A senhorita Eliott é uma rapariga muito doce, e pareceu divertir-se, pensei", observou Beth, com um calor invulgar.
"Poderias dispensar-me um pouco do teu bolo? Preciso mesmo de algum, tenho tantas visitas, e não consigo fazer algo tão delicioso quanto o teu", pediu Meg sobriamente.
"Leva-o todo; sou a única aqui que gosta de coisas doces, e vai ganhar bolor antes que eu consiga livrar-me dele", respondeu Amy, pensando com um suspiro na generosa reserva que tinha feito para um fim como este.
"É uma pena que Laurie não esteja aqui para nos ajudar", começou Jo, enquanto se sentavam para o gelado e salada pela segunda vez em dois dias.
Um olhar de aviso da sua mãe refreou quaisquer observações adicionais, e a família inteira comeu num silêncio heroico, até que o Sr. March observou suavemente: "A salada era um dos pratos favoritos dos antigos, e Evelyn" — aqui, uma explosão geral de risos interrompeu a "história das saladas", para grande surpresa do cavalheiro erudito.
"Empacota tudo num cesto e envia para os Hummel: os alemães gostam de misturadas. Estou farta de ver isto; e não há razão para que todos morram de indigestão só porque eu fui tola", exclamou Amy, limpando os olhos.
"Pensei que morreria quando vi vocês, duas raparigas, a chocalhar naquele coisa-que-tal, como dois pequenos grãos dentro de uma casca de noz muito grande, e a mãe à espera, em aparato, para receber a multidão", suspirou Jo, exausta de tanto rir.
"Lamento muito que tenhas ficado desapontada, querida, mas todas fizemos o nosso melhor para te satisfazer", disse a Sra. March, num tom cheio de pesar maternal.
"Estou satisfeita; fiz o que me propus, e não é culpa minha que tenha falhado; consolo-me com isso", disse Amy, com um pequeno tremor na voz. "Agradeço-vos muito a todas por me terem ajudado, e agradecer-vos-ei ainda mais se não aludirem a isto durante um mês, pelo menos."
Ninguém o fez durante vários meses; mas a palavra "fête" produzia sempre um sorriso geral, e a prenda de aniversário de Laurie para Amy foi uma pequena lagosta de coral em forma de pendente para a sua corrente de relógio.
XXVII.
LIÇÕES LITERÁRIAS.
A Fortuna sorriu subitamente a Jo e deixou cair uma moeda de sorte no seu caminho. Não propriamente uma moeda de ouro, mas duvido que meio milhão lhe tivesse dado uma felicidade mais real do que a pequena quantia que lhe veio desta forma.
De poucas em poucas semanas, ela fechava-se no seu quarto, vestia o seu traje de rabiscar e "caía num vórtice", como ela própria dizia, escrevendo o seu romance com todo o coração e alma, pois, até que estivesse terminado, não conseguiria encontrar paz. O seu "traje de rabiscar" consistia num avental de lã preta, no qual podia limpar a pena à vontade, e num barrete do mesmo material, adornado com um alegre laço vermelho, no qual enfiava o cabelo quando o convés estava limpo para a ação. Este barrete era um farol para os olhos curiosos da sua família que, durante estes períodos, mantinha a distância, apenas espreitando ocasionalmente para perguntar, com interesse: "O génio arde, Jo?" Nem sempre se aventuravam a fazer esta pergunta, mas observavam o barrete e julgavam em conformidade. Se esta expressiva peça de vestuário estivesse puxada para baixo, sobre a testa, era sinal de que estava a decorrer um trabalho árduo; em momentos de excitação, era puxada displicentemente para o lado; e quando o desespero se apoderava da autora, era arrancada por completo e atirada para o chão. Nesses momentos, o intruso retirava-se silenciosamente; e só quando o laço vermelho era visto alegremente erguido sobre a testa dotada é que alguém se atrevia a dirigir-se a Jo.
Ela não se considerava de modo algum um génio; mas, quando o ataque de escrita surgia, entregava-se a ele com total abandono e levava uma vida feliz, alheia à necessidade, às preocupações ou ao mau tempo, enquanto permanecia segura e feliz num mundo imaginário, cheio de amigos quase tão reais e queridos para ela como qualquer um de carne e osso. O sono abandonava-lhe os olhos, as refeições ficavam intocadas, o dia e a noite eram demasiado curtos para desfrutar da felicidade que a abençoava apenas nesses momentos, e tornavam estas horas dignas de serem vividas, ainda que não dessem outros frutos. O sopro divino durava habitualmente uma ou duas semanas, e depois ela emergia do seu "vórtice", faminta, sonolenta, rabugenta ou desanimada.
Estava a recuperar de um destes ataques quando foi persuadida a acompanhar a Srta. Crocker a uma palestra e, em troca da sua virtude, foi recompensada com uma ideia nova. Era um Curso Popular, a palestra sobre as Pirâmides, e Jo estranhou um pouco a escolha de tal assunto para tal público, mas partiu do princípio de que algum grande mal social seria remediado ou alguma grande necessidade suprida ao revelar as glórias dos Faraós a uma audiência cujos pensamentos estavam ocupados com o preço do carvão e da farinha, e cujas vidas eram passadas a tentar resolver enigmas mais difíceis do que o da Esfinge.
Chegaram cedo; e, enquanto a Srta. Crocker fazia o calcanhar da sua meia, Jo entreteve-se a examinar os rostos das pessoas que ocupavam o banco com elas. À sua esquerda estavam duas matronas, com testas maciças e chapéus a condizer, a discutir os Direitos da Mulher e a fazer renda de bilros. Mais além, estava um par de amantes humildes, segurando-se ingenuamente pelas mãos, uma solteirona sombria a comer pastilhas de menta de um saco de papel, e um velho cavalheiro a fazer a sua sesta preparatória atrás de um lenço amarelo. À sua direita, o seu único vizinho era um rapaz de aspeto estudioso, absorto num jornal.
Era uma folha ilustrada, e Jo examinou a obra de arte mais próxima dela, perguntando-se ociosamente que concatenação fortuita de circunstâncias necessitava daquela ilustração melodramática de um índio em traje de guerra completo, caindo por um precipício com um lobo à garganta, enquanto dois jovens cavalheiros enfurecidos, com pés anormalmente pequenos e olhos grandes, esfaqueavam-se ali perto, e uma mulher desalinhada fugia ao fundo com a boca escancarada. Ao parar para virar a página, o rapaz viu-a a olhar e, com a boa índole própria da idade, ofereceu-lhe metade do seu jornal, dizendo sem rodeios: "Quer lê-lo? É uma história de primeira."
Jo aceitou com um sorriso, pois nunca tinha deixado de gostar de rapazes, e cedo se viu envolvida no habitual labirinto de amor, mistério e assassínio, pois a história pertencia àquela classe de literatura ligeira em que as paixões tiram férias e, quando a invenção do autor falha, uma grande catástrofe limpa o palco de metade das personagens, deixando a outra metade a exultar sobre a sua queda.
"Excelente, não é?" perguntou o rapaz, enquanto os olhos dela percorriam o último parágrafo da sua parte.
"Acho que tu e eu poderíamos fazer tão bem como isto se tentássemos", retorquiu Jo, divertida com a admiração dele por tal lixo.
"Acho que seria um tipo bastante sortudo se conseguisse. Dizem que ela ganha a vida bem com histórias destas", e apontou para o nome da Sra. S. L. A. N. G. Northbury, por baixo do título do conto.
"Conheces a autora?" perguntou Jo, com súbito interesse.
"Não; mas leio todas as peças dela, e conheço um sujeito que trabalha no escritório onde este jornal é impresso."
"Dizes que ela ganha a vida bem com histórias como esta?" e Jo olhou com mais respeito para o grupo agitado e os pontos de exclamação densamente espalhados que adornavam a página.
"Calculo que sim! Ela sabe exatamente do que as pessoas gostam e é bem paga por o escrever."
Aqui a palestra começou, mas Jo ouviu muito pouco dela, pois, enquanto o Prof. Sands falava sobre Belzoni, Quéops, escaravelhos e hieróglifos, ela estava secretamente a anotar a morada do jornal e a resolver, audaciosamente, tentar ganhar o prémio de cem dólares oferecido nas suas colunas para uma história sensacionalista. Quando a palestra terminou e o público acordou, ela já tinha construído uma fortuna esplêndida para si própria (não a primeira fundada em papel) e já estava embrenhada na elaboração da sua história, incapaz de decidir se o duelo deveria ocorrer antes da fuga ou depois do assassínio.
Não disse nada sobre o seu plano em casa, mas pôs-se a trabalhar no dia seguinte, para grande inquietação da mãe, que parecia sempre um pouco ansiosa quando o "génio se punha a arder". Jo nunca tinha tentado este estilo antes, contentando-se com romances muito leves para o "Spread Eagle". A sua experiência teatral e a sua leitura diversificada foram úteis agora, pois deram-lhe alguma noção de efeito dramático e forneceram enredo, linguagem e trajes. A sua história era tão cheia de desespero e angústia quanto o seu conhecimento limitado dessas emoções desconfortáveis lhe permitia, e, tendo-a situado em Lisboa, terminou com um terramoto, como um desenlace marcante e apropriado. O manuscrito foi enviado secretamente, acompanhado de uma nota, dizendo modestamente que, se o conto não ganhasse o prémio, o que a autora dificilmente esperava, ficaria muito contente por receber qualquer quantia que fosse considerada justa.
Seis semanas é muito tempo para esperar, e ainda mais para uma rapariga guardar um segredo; mas Jo fez ambas as coisas e estava prestes a perder toda a esperança de ver o seu manuscrito novamente quando chegou uma carta que quase a deixou sem fôlego; pois, ao abri-la, um cheque de cem dólares caiu-lhe no colo. Por um minuto, ela olhou para ele como se fosse uma serpente, depois leu a carta e começou a chorar. Se o cavalheiro amável que escreveu aquela nota bondosa pudesse saber que felicidade intensa estava a proporcionar a um semelhante, penso que dedicaria as suas horas de lazer, se as tivesse, a esse entretenimento; pois Jo valorizou a carta mais do que o dinheiro, porque era encorajadora; e, após anos de esforço, foi tão agradável descobrir que tinha aprendido a fazer algo, embora fosse apenas escrever uma história sensacionalista.
Raramente se viu uma jovem mais orgulhosa do que ela quando, tendo-se recomposto, eletrizou a família ao aparecer diante deles com a carta numa mão e o cheque na outra, anunciando que tinha ganho o prémio. Naturalmente, houve um grande jubileu, e quando a história chegou, todos a leram e elogiaram; embora, depois de o pai lhe ter dito que a linguagem era boa, o romance fresco e sincero, e a tragédia bastante emocionante, ele abanasse a cabeça e dissesse, à sua maneira alheia aos bens mundanos:
"Podes fazer melhor do que isto, Jo. Aponta para o mais alto e não te preocupes com o dinheiro."
"Acho que o dinheiro é a melhor parte. O que vais fazer com tal fortuna?" perguntou Amy, olhando para o pedaço mágico de papel com um olhar reverente.
"Enviar a Beth e a mãe à beira-mar por um ou dois meses", respondeu Jo prontamente.
"Oh, que esplêndido! Não, não posso aceitar, querida, seria tão egoísta", exclamou Beth, que tinha batido as mãos finas e respirado fundo, como se ansiasse pelas brisas frescas do oceano; depois deteve-se e afastou o cheque que a irmã agitava diante dela.
"Ah, mas vais, eu pus o meu coração nisso; foi para isso que me esforcei, e foi por isso que tive sucesso. Nunca consigo nada quando penso apenas em mim, por isso ajudar-me-á trabalhar para ti, não vês? Além disso, a Marmee precisa da mudança, e ela não te deixará, por isso tens de ir. Não será divertido ver-te voltar gordinha e corada outra vez? Viva a Dra. Jo, que cura sempre os seus pacientes!"
Para a beira-mar foram, após muita discussão; e, embora Beth não tenha voltado tão gordinha e corada como seria de desejar, estava muito melhor, enquanto a Sra. March declarou sentir-se dez anos mais jovem; por isso, Jo ficou satisfeita com o investimento do seu dinheiro do prémio e pôs-se a trabalhar com um espírito alegre, decidida a ganhar mais daqueles cheques deliciosos. Ganhou vários nesse ano e começou a sentir-se um poder na casa; pois, pela magia de uma pena, o seu "lixo" transformava-se em conforto para todos eles. "A Filha do Duque" pagou a conta do talhante, "Uma Mão Fantasma" pagou um tapete novo, e a "Maldição dos Coventry" revelou-se a bênção dos March em termos de mercearias e vestidos.
A riqueza é certamente uma coisa muito desejável, mas a pobreza tem o seu lado luminoso, e um dos doces usos da adversidade é a satisfação genuína que vem do trabalho árduo da cabeça ou da mão; e, à inspiração da necessidade, devemos metade das bênçãos sábias, belas e úteis do mundo. Jo desfrutou de um pouco desta satisfação e deixou de invejar as raparigas mais ricas, encontrando grande conforto no conhecimento de que podia satisfazer as suas próprias necessidades e não precisava de pedir um cêntimo a ninguém.
Pouca atenção foi dada às suas histórias, mas encontraram mercado; e, encorajada por este facto, resolveu dar um passo arrojado em direção à fama e à fortuna. Tendo copiado o seu romance pela quarta vez, lido para todos os seus amigos de confiança e submetido com medo e tremor a três editores, finalmente dispôs dele, com a condição de que o reduzisse num terço e omitisse todas as partes que ela admirava particularmente.
"Agora, ou o volto a enfiar na minha cozinha de lata para ganhar bolor, ou pago para o imprimir eu mesma, ou corto-o para satisfazer os compradores e recebo o que puder por ele. A fama é uma coisa muito boa de se ter em casa, mas o dinheiro é mais conveniente; por isso, desejo ouvir a opinião da reunião sobre este assunto importante", disse Jo, convocando um conselho de família.
"Não estragues o teu livro, minha filha, pois há mais nele do que sabes, e a ideia está bem desenvolvida. Deixa-o esperar e amadurecer", foi o conselho do seu pai; e ele praticava o que pregava, tendo esperado pacientemente trinta anos para que os seus próprios frutos amadurecessem, e não tendo pressa de os colher, mesmo agora, quando estavam doces e maduros.
"Parece-me que a Jo lucrará mais com a tentativa do que com a espera", disse a Sra. March. "A crítica é o melhor teste para tal trabalho, pois mostrar-lhe-á tanto méritos insuspeitos como falhas, e ajudá-la-á a fazer melhor da próxima vez. Somos demasiado parciais; mas o louvor e a censura de estranhos provarão ser úteis, mesmo que ela receba pouco dinheiro."
"Sim", disse Jo, franzindo o sobrolho, "é exatamente isso; ando há tanto tempo às voltas com a coisa, que realmente não sei se é boa, má ou indiferente. Será uma grande ajuda ter pessoas frias e imparciais a dar uma vista de olhos e a dizer-me o que pensam."
"Eu não deixaria passar uma palavra que fosse; vais estragá-lo se o fizeres, pois o interesse da história está mais nas mentes do que nas ações das pessoas, e ficará tudo uma confusão se não explicares à medida que avanças", disse Meg, que acreditava firmemente que este livro era o romance mais notável alguma vez escrito.
"Mas o Sr. Allen diz: 'Omite as explicações, torna-o breve e dramático, e deixa que as personagens contem a história'", interrompeu Jo, voltando-se para a nota do editor.
"Faz o que ele te diz; ele sabe o que se vende, e nós não. Faz um bom livro popular e recebe o máximo de dinheiro que puderes. Mais tarde, quando tiveres um nome, podes dar-te ao luxo de divagar e ter pessoas filosóficas e metafísicas nos teus romances", disse Amy, que tinha uma visão estritamente prática do assunto.
"Bem", disse Jo, a rir, "se as minhas personagens são 'filosóficas e metafísicas', a culpa não é minha, pois não sei nada sobre tais coisas, exceto o que ouço o pai dizer, por vezes. Se tenho algumas das suas ideias sábias misturadas com o meu romance, tanto melhor para mim. Agora, Beth, o que dizes?"
"Gostaria tanto de vê-lo impresso em breve", foi tudo o que Beth disse, e sorriu ao dizê-lo; mas houve uma ênfase inconsciente na última palavra e um olhar nostálgico nos olhos que nunca perderam a sua candura infantil, o que arrefeceu o coração de Jo, por um minuto, com um medo premonitório, e a decidiu a fazer o seu pequeno empreendimento "em breve".
Portanto, com firmeza espartana, a jovem autora colocou o seu primogénito na mesa e cortou-o tão impiedosamente como qualquer ogre. Na esperança de agradar a todos, seguiu o conselho de todos; e, como o velho e o seu burro na fábula, não agradou a ninguém.
O pai gostava da veia metafísica que, inconscientemente, ali se tinha introduzido; por isso, foi deixada ficar, embora ela tivesse as suas dúvidas. A mãe achava que havia um pouco de descrição a mais; por isso, quase tudo saiu, e com isso muitas ligações necessárias na história. Meg admirava a tragédia; por isso, Jo amontoou a agonia para a satisfazer, enquanto Amy se opunha à diversão e, com as melhores intenções do mundo, Jo apagou as cenas vivas que aliviavam o caráter sombrio da história. Depois, para completar a ruína, reduziu-a num terço e, confiantemente, enviou o pobre pequeno romance, como um pisco depenado, para o grande e agitado mundo, para tentar a sua sorte.
Bem, foi impresso e ela recebeu trezentos dólares por ele; igualmente muitos elogios e críticas, ambos tão superiores ao que esperava que ficou num estado de perplexidade do qual levou algum tempo a recuperar.
"Disseste, mãe, que a crítica me ajudaria; mas como pode ajudar, quando é tão contraditória que não sei se escrevi um livro promissor ou se quebrei os dez mandamentos?" gritou a pobre Jo, folheando uma pilha de recortes, cuja leitura a enchia de orgulho e alegria num momento, e de ira e terrível desânimo no seguinte. "Este homem diz: 'Um livro requintado, cheio de verdade, beleza e seriedade; tudo é doce, puro e saudável'", continuou a perplexa autora. "O seguinte diz: 'A teoria do livro é má, cheia de fantasias mórbidas, ideias espiritualistas e personagens pouco naturais'. Ora, como não tinha teoria de qualquer espécie, não acredito no Espiritualismo e copiei as minhas personagens da vida real, não vejo como este crítico possa ter razão. Outro diz: 'É um dos melhores romances americanos que apareceu em anos' (sei melhor do que isso); e o seguinte afirma que, 'embora original e escrito com grande força e sentimento, é um livro perigoso'. Não é! Alguns troçam dele, outros elogiam-no demasiado, e quase todos insistem que eu tinha uma teoria profunda para expor, quando apenas o escrevi pelo prazer e pelo dinheiro. Gostaria de o ter impresso na íntegra ou não o ter impresso de todo, pois detesto ser tão mal julgada."
A sua família e amigos administraram conforto e elogios generosamente; ainda assim, foi um período difícil para a sensível e espirituosa Jo, que tinha as melhores intenções e tinha, aparentemente, feito tão mal. Mas fez-lhe bem, pois aqueles cuja opinião tinha valor real deram-lhe a crítica que é a melhor educação para um autor; e, quando a dor inicial passou, ela pôde rir do seu pobre livrinho, mas continuar a acreditar nele, e sentir-se mais sábia e mais forte pelos golpes que tinha recebido.
"Não sendo um génio, como Keats, não me matará", disse ela resolutamente; "e, afinal, a piada está do meu lado; pois as partes que foram tiradas diretamente da vida real são denunciadas como impossíveis e absurdas, e as cenas que inventei na minha cabeça tola são declaradas 'encantadoramente naturais, ternas e verdadeiras'. Por isso, consolar-me-ei com isso; e quando estiver pronta, levanto-me outra vez e tento de novo."
XXVIII.
EXPERIÊNCIAS DOMÉSTICAS.
Como a maioria das outras jovens esposas, Meg começou a sua vida de casada com a determinação de ser uma dona de casa modelo. John deveria encontrar no lar um paraíso; deveria ver sempre um rosto sorridente, deveria comer sumptuosamente todos os dias e nunca conhecer a falta de um botão. Ela trouxe tanto amor, energia e alegria ao trabalho que não podia deixar de ter sucesso, apesar de alguns obstáculos. O seu paraíso não era um lugar tranquilo; pois a pequena mulher andava ocupada, era excessivamente ansiosa por agradar e atarefava-se como uma verdadeira Marta, sobrecarregada com muitos cuidados. Estava demasiado cansada, por vezes, até para sorrir; John tornou-se dispéptico após um curso de pratos requintados e, ingratamente, exigiu comida simples. Quanto aos botões, cedo aprendeu a perguntar-se para onde iam, a abanar a cabeça perante o descuido dos homens e a ameaçar fazê-lo costurá-los ele próprio, para ver se o seu trabalho aguentaria melhor do que o dela os puxões impacientes e os dedos desajeitados.
No entanto, o verdadeiro teste à sua paciência surgiu sob a forma de uma amizade que Sallie Moffat, na sua benevolência, decidiu renovar. Sallie, que vivia num mundo de luxo e frivolidade, não conseguia compreender a economia doméstica e via a vida de Meg como uma espécie de peça de teatro interessante, mas algo desoladora. "Pobre querida", dizia ela, enquanto exibia sedas e rendas, "não te importas de usar o mesmo vestido de novo? Eu não suportaria, mas tu tens um espírito tão abnegado!" Estas palavras, ditas com uma falsa compaixão, feriam Meg mais do que a pobreza real. Começou a sentir-se humilhada por ter de recusar os convites para ir às compras ou aos espetáculos, e a sombra do descontentamento instalou-se na sua mente.
A tentação veio sob a forma de um vestido de seda azul, de uma elegância irresistível, que Sallie convenceu Meg a comprar numa liquidação. "É um investimento, Meg! Vais precisar de algo assim para as festas de inverno, e o John ficará tão orgulhoso de ver a sua esposa vestida como merece." Com o coração a bater descompassado, Meg comprou o vestido, utilizando uma quantia que deveria ter sido reservada para o carvão. Quando o escondeu no fundo do seu armário, sentiu-se como uma criminosa, mas, ao mesmo tempo, a ideia de o vestir perante os olhos de todos, para que ninguém pensasse que ela era uma dona de casa pobre e desleixada, trazia-lhe um conforto enganador.
O hábito de esconder as despesas tornou-se, infelizmente, uma rotina. Quando John lhe pedia para mostrar as contas, Meg sentia o rosto arder, mas a sua habilidade em manipular os números, arredondando aqui e ali, permitia-lhe manter o segredo por mais algum tempo. Tornou-se perita em inventar justificações para o desaparecimento do dinheiro, atribuindo-o a subidas nos preços dos mantimentos ou a despesas inesperadas com a casa. John, confiante na honestidade da sua esposa, não desconfiava de nada, o que tornava a culpa de Meg ainda mais pesada. A cada nova aquisição, a sua alegria diminuía, e a paz do seu lar era substituída por uma ansiedade constante.
Certa noite, John, mais atento do que de costume, comentou que as contas da casa pareciam estar a tornar-se um pouco elevadas para o orçamento mensal. "Meg, querida, teremos de ser mais contidos este mês; o inverno aproxima-se e os gastos com o aquecimento serão maiores do que previ." Meg sentiu um aperto no peito, mas, em vez de confessar a sua extravagância, respondeu com uma vivacidade forçada, mudando de assunto e elogiando o trabalho dele com um fervor que não lhe era habitual. John, satisfeito com o carinho da esposa, não insistiu, mas Meg ficou acordada durante horas, a ouvir o tiquetaque do relógio e a sentir que a sua própria mentira se tornava um peso insuportável no seu coração.
Sallie, alheia à agonia da amiga, continuava a empurrá-la para hábitos que ela não podia comportar. "Vamos tomar chá no hotel, Meg? É apenas uma ninharia, e o teu chapéu novo precisa de ser visto." Meg sabia que não devia ir, mas o desejo de parecer igual às suas antigas companheiras era demasiado forte. Lá ia ela, sentindo-se uma estranha no seu próprio mundo, fingindo que a vida era feita de prazeres constantes, enquanto a sua consciência lhe sussurrava que estava a trocar a confiança do seu marido por um punhado de aparências vazias. A vida que ela tanto adorava começava a revelar os seus espinhos, e a lição que ela ainda teria de aprender era a de que, num lar, a verdade é o único alicerce que não cede sob a pressão das dificuldades.
Mas as ninharias custam mais do que se poderia imaginar; e, quando ela somou as suas contas no final do mês, o total assustou-a um pouco. John esteve ocupado naquele mês e deixou as contas para ela; no mês seguinte, ele esteve ausente; mas, no terceiro, ele fez um grande acerto de contas trimestral, e Meg nunca o esqueceu. Poucos dias antes, ela tinha feito uma coisa terrível, e isso pesava-lhe na consciência. Sallie tinha andado a comprar sedas, e Meg desejava uma nova — apenas uma bonita e leve para festas, a sua seda preta era tão comum, e as coisas finas para usar à noite eram adequadas apenas para raparigas. A tia March dava geralmente às irmãs um presente de vinte e cinco dólares a cada uma no Ano Novo; faltava apenas um mês para isso, e ali estava uma linda seda violeta a preço de saldo, e ela tinha o dinheiro, se ao menos se atrevesse a usá-lo. John dizia sempre que o que era dele era dela; mas será que ele acharia correto gastar não apenas os vinte e cinco dólares futuros, mas outros vinte e cinco do fundo doméstico? Essa era a questão. Sallie tinha-a incentivado a fazê-lo, ofereceu-se para emprestar o dinheiro e, com as melhores intenções do mundo, tentou Meg para além das suas forças. Num momento de fraqueza, o lojista ergueu as dobras adoráveis e cintilantes e disse: "Uma pechincha, garanto-lhe, minha senhora." Ela respondeu: "Vou levá-la"; e foi cortada e paga, e Sallie exultou, e ela riu-se como se fosse algo sem importância, e partiu sentindo-se como se tivesse roubado alguma coisa e a polícia estivesse atrás dela.
Quando chegou a casa, tentou aliviar as dores do remorso estendendo a linda seda; mas parecia menos prateada agora, afinal não lhe ficava bem, e as palavras "cinquenta dólares" pareciam estampadas como um padrão em cada largura de tecido. Guardou-a; mas ela perseguia-a, não de forma deliciosa, como um vestido novo deveria, mas de forma terrível, como o fantasma de uma loucura que não era fácil de exorcizar. Quando John tirou os seus livros naquela noite, o coração de Meg afundou-se e, pela primeira vez na sua vida de casada, ela teve medo do marido. Os olhos castanhos e gentis pareciam capazes de ser severos; e, embora ele estivesse invulgarmente alegre, ela imaginou que ele a tinha descoberto, mas não queria deixá-la saber. As contas da casa estavam todas pagas, os livros todos em ordem. John elogiou-a e estava a abrir a velha carteira a que chamavam de "banco", quando Meg, sabendo que estava completamente vazia, deteve-lhe a mão, dizendo nervosamente:
"Ainda não viste o meu livro de despesas privadas."
John nunca pedia para o ver; mas ela insistia sempre para que ele o fizesse e costumava apreciar o espanto masculino dele com as coisas estranhas que as mulheres queriam, e fazia-o adivinhar o que era um "debrum", exigir ferozmente o significado de um "casaquinho", ou maravilhar-se de como uma pequena coisa composta por três botões de rosa, um pedaço de veludo e um par de fitas poderia ser, possivelmente, um chapéu e custar cinco ou seis dólares. Naquela noite, ele parecia querer divertir-se a questionar os seus números e a fingir-se horrorizado com a sua extravagância, como fazia frequentemente, orgulhando-se particularmente da sua esposa prudente.
O livrinho foi trazido lentamente e colocado diante dele. Meg pôs-se atrás da cadeira dele sob o pretexto de alisar as rugas da testa cansada e, parada ali, disse, com o seu pânico a aumentar a cada palavra:
"John, querido, tenho vergonha de te mostrar o meu livro, pois tenho sido realmente terrivelmente extravagante ultimamente. Ando tanto de um lado para o outro que preciso de coisas, sabes, e a Sallie aconselhou-me a comprá-lo, por isso comprei; e o meu dinheiro de Ano Novo pagará parte dele: mas arrependi-me depois de o ter feito, pois sabia que acharias que eu agi mal."
John riu-se e puxou-a para o seu lado, dizendo com bom humor: "Não te escondas. Não te vou bater se tiveres comprado um par de botas de arrasar; tenho algum orgulho nos pés da minha esposa e não me importo se ela pagar oito ou nove dólares pelas suas botas, se forem de boa qualidade."
Essa tinha sido uma das suas últimas "ninharias", e o olhar de John tinha caído sobre ela enquanto falava. "Oh, o que dirá ele quando chegar àqueles terríveis cinquenta dólares!", pensou Meg, com um estremecimento.
"É pior do que botas, é um vestido de seda", disse ela, com a calma do desespero, pois queria que o pior passasse logo.
"Bem, querida, qual é o 'total maldito', como diz o Sr. Mantalini?"
Aquilo não soou como o John, e ela percebeu que ele olhava para ela com o olhar direto que ela tinha estado sempre pronta a enfrentar e a responder com um olhar tão franco até agora. Ela virou a página e a cabeça ao mesmo tempo, apontando para a soma que já seria suficientemente má sem os cinquenta, mas que era assustadora para ela com esse acréscimo. Durante um minuto, a sala ficou muito silenciosa; depois John disse lentamente — mas ela podia sentir que lhe custava o esforço não expressar desagrado:
"Bem, não sei se cinquenta é muito para um vestido, com todos os enfeites e apetrechos que tens de ter para o terminar hoje em dia."
"Não está feito nem guarnecido", suspirou Meg fracamente, pois uma recordação repentina do custo que ainda teria de ser incorrido sobrecarregou-a completamente.
"Vinte e cinco jardas de seda parecem muito para cobrir uma pequena mulher, mas não tenho dúvidas de que a minha esposa ficará tão elegante como a de Ned Moffat quando o vestir", disse John secamente.
"Sei que estás zangado, John, mas não posso evitar. Não pretendo desperdiçar o teu dinheiro e não pensei que aquelas pequenas coisas contassem tanto. Não consigo resistir-lhes quando vejo a Sallie a comprar tudo o que quer e a ter pena de mim por não o fazer. Tento estar contente, mas é difícil, e estou cansada de ser pobre."
As últimas palavras foram ditas tão baixo que ela pensou que ele não as tinha ouvido, mas ele ouviu, e elas feriram-no profundamente, pois ele tinha negado a si mesmo muitos prazeres pelo bem de Meg. Ela poderia ter mordido a língua no minuto em que o disse, pois John afastou os livros e levantou-se, dizendo, com um pequeno tremor na voz: "Eu tinha medo disto; eu faço o meu melhor, Meg." Se ele a tivesse repreendido, ou até abanado, isso não lhe teria partido o coração como aquelas poucas palavras. Ela correu para ele e abraçou-o, chorando, com lágrimas de arrependimento: "Oh John, meu querido, bondoso e trabalhador rapaz, eu não queria dizer isso! Foi tão cruel, tão falso e ingrato, como pude dizê-lo! Oh, como pude dizê-lo!"
Ele foi muito gentil, perdoou-a prontamente e não proferiu uma única censura; mas Meg sabia que ela tinha feito e dito algo que não seria esquecido tão cedo, embora ele talvez nunca mais lhe aludisse. Ela tinha prometido amá-lo na alegria e na tristeza; e então ela, a sua esposa, tinha-o censurado pela sua pobreza, depois de gastar os seus ganhos de forma imprudente. Foi terrível; e o pior de tudo foi que o John continuou tão silencioso depois, como se nada tivesse acontecido, exceto que ele ficava na cidade até mais tarde e trabalhava à noite quando ela já tinha ido chorar até adormecer. Uma semana de remorso quase deixou Meg doente; e a descoberta de que o John tinha cancelado a encomenda do seu novo sobretudo reduziu-a a um estado de desespero que era patético de ver. Ele tinha simplesmente dito, em resposta às suas perguntas surpreendidas sobre a mudança: "Não posso pagar, minha querida."
Meg não disse mais nada, mas, poucos minutos depois, ele encontrou-a no corredor, com o rosto enterrado no velho sobretudo, a chorar como se o seu coração fosse partir-se.
Tiveram uma longa conversa naquela noite, e Meg aprendeu a amar o seu marido ainda mais pela sua pobreza, porque parecia tê-lo tornado um homem, ter-lhe dado a força e a coragem para lutar pelo seu próprio caminho, e ensinado-lhe uma paciência terna com a qual suportar e confortar os desejos e falhas naturais daqueles que ele amava.
No dia seguinte, ela guardou o orgulho no bolso, foi ter com a Sallie, contou a verdade e pediu-lhe que comprasse a seda como um favor. A bem-intencionada Sra. Moffat fê-lo de bom grado e teve a delicadeza de não lho oferecer logo a seguir. Depois, Meg encomendou o sobretudo e, quando o John chegou, ela vestiu-o e perguntou-lhe se ele gostava do seu novo vestido de seda. Pode-se imaginar a resposta que ele deu, como recebeu o seu presente e que estado de felicidade se seguiu. O John chegava cedo a casa, a Meg já não passeava mais; e aquele sobretudo era vestido de manhã por um marido muito feliz e tirado à noite por uma esposinha muito dedicada. Assim, o ano passou, e no solstício de verão chegou para Meg uma nova experiência — a mais profunda e terna da vida de uma mulher.
Laurie veio esgueirar-se para a cozinha da Dove-cote, num sábado, com um rosto excitado, e foi recebido com o choque de pratos; pois Hannah bateu as mãos com uma caçarola numa e a tampa na outra.
"Como está a mamã? Onde está toda a gente? Porque não me disseram antes de eu chegar a casa?", começou Laurie, num sussurro alto.
"Feliz como uma rainha, a querida! Estão todos lá em cima a adorar; não queríamos furacões por perto. Agora vai para a sala, e eu mando-os descer para ti", com a qual resposta algo confusa, Hannah desapareceu, rindo-se extasiada.
Pouco depois, Jo apareceu, carregando orgulhosamente um fardo de flanela estendido sobre uma almofada grande. O rosto de Jo estava muito sóbrio, mas os seus olhos brilhavam, e havia um som estranho na sua voz de emoção reprimida de algum tipo.
"Fecha os olhos e estende os braços", disse ela convidativamente.
Laurie recuou precipitadamente para um canto e pôs as mãos atrás das costas com um gesto suplicante: "Não, obrigado, preferia não o fazer. Vou deixá-lo cair ou esmagá-lo, tão certo como o destino."
"Então não verás o teu sobrinho", disse Jo decididamente, virando-se como se fosse embora.
"Vou, vou! Mas tu tens de ser responsável pelos danos"; e, obedecendo às ordens, Laurie fechou heroicamente os olhos enquanto algo era colocado nos seus braços. Uma explosão de risos de Jo, Amy, Sra. March, Hannah e John fê-lo abri-los no minuto seguinte, para se ver investido com dois bebés em vez de um.
Não é de admirar que se rissem, pois a expressão do seu rosto era suficientemente cómica para convulsionar um Quaker, enquanto ele estava ali parado e olhava fixamente, de forma desvairada, dos inocentes inconscientes para os espetadores hilariantes, com tal consternação que Jo sentou-se no chão e gritou.
"Gémeos, por Júpiter!", foi tudo o que ele disse por um minuto; depois, virando-se para as mulheres com um olhar suplicante que era comicamente piedoso, acrescentou: "Levem-nos depressa, alguém! Vou rir-me e vou deixá-los cair."
John resgatou os seus bebés e marchou de um lado para o outro, com um em cada braço, como se já estivesse iniciado nos mistérios do cuidado dos bebés, enquanto Laurie se ria até que as lágrimas lhe escorriam pelo rosto.
"É a melhor piada da estação, não é? Não queria que te contassem, porque pus na cabeça surpreender-te, e gabo-me de o ter feito", disse Jo, quando recuperou o fôlego.
"Nunca fiquei tão atordoado na minha vida. Não é divertido? São rapazes? Como os vão chamar? Deixa-me dar outra vista de olhos. Segura-me, Jo; porque, pela minha vida, é um a mais para mim", retorquiu Laurie, olhando para os bebés com o ar de um grande e benevolente Terra-Nova a olhar para um par de gatinhos infantis.
"Rapaz e rapariga. Não são umas belezas?", disse o orgulhoso pai, brilhando sobre os pequenos seres avermelhados como se fossem anjos acabados de nascer.
"As crianças mais notáveis que já vi. Qual é qual?", e Laurie curvou-se como um tirante de poço para examinar os prodígios.
"A Amy pôs uma fita azul no rapaz e uma cor-de-rosa na rapariga, à moda francesa, para que possas sempre distinguir. Além disso, um tem olhos azuis e o outro castanhos. Beija-os, Tio Teddy", disse a malvada Jo.
"Tenho medo que eles não gostem", começou Laurie, com uma timidez invulgar em tais assuntos.
"Claro que vão gostar; eles já estão habituados. Faz isso num minuto, senhor!", comandou Jo, receando que ele propusesse um substituto.
Laurie contraiu o rosto e obedeceu com um beijo cauteloso em cada bochecha que produziu outra risada e fez os bebés guinchar.
"Pronto, eu sabia que eles não gostavam! Aquele é o rapaz; vê como ele pontapeia; ele bate com os punhos como um valente. Agora então, jovem Brooke, atira-te a um homem do teu tamanho, queres?", gritou Laurie, encantado com uma estocada no rosto de um minúsculo punho, a agitar-se sem rumo.
"Ele vai chamar-se John Laurence, e a rapariga Margaret, em homenagem à mãe e à avó. Chamá-la-emos Daisy, para não termos duas Megs, e suponho que o pequeno será Jack, a menos que encontremos um nome melhor", disse Amy, com um interesse de tia.
"Chama-lhe Demijohn, e trata-o por 'Demi' para abreviar", disse Laurie.
"Daisy e Demi — exatamente o que faltava! Eu sabia que o Teddy ia conseguir", gritou Jo, batendo palmas.
O Teddy tinha certamente conseguido dessa vez, pois os bebés foram "Daisy" e "Demi" até ao fim do livro.
XXIX.
VISITAS.
"Anda, Jo, está na hora."
"Para quê?"
"Não me digas que te esqueceste de que prometeste fazer meia dúzia de visitas comigo hoje?"
"Já fiz muitas coisas precipitadas e tolas na minha vida, mas não creio que tenha sido louca ao ponto de dizer que faria seis visitas num só dia, quando uma única me deixa transtornada durante uma semana."
"Sim, disseste; foi um acordo entre nós. Eu tinha de acabar o desenho a giz da Beth para ti, e tu tinhas de vir devidamente comigo e retribuir as visitas dos nossos vizinhos."
"Se estivesse bom tempo — isso estava no contrato; e eu mantenho a letra do meu contrato, Shylock. Há um monte de nuvens a leste; não está bom tempo, e eu não vou."
"Isso é fugir. Está um dia adorável, sem perspetiva de chuva, e tu orgulhas-te de cumprir promessas; por isso sê honrada; vem e faz o teu dever, e depois descansa por mais seis meses."
Naquele momento, Jo estava particularmente absorvida na costura; pois ela era a costureira geral da família e orgulhava-se especialmente do facto de saber usar uma agulha tão bem como uma caneta. Era muito irritante ser interrompida no ato de uma primeira prova e ser mandada sair para fazer visitas com a sua melhor roupa, num dia quente de julho. Ela odiava visitas do género formal e nunca fazia nenhuma até que a Amy a obrigasse com um acordo, suborno ou promessa. No presente caso, não havia escapatória; e tendo batido as tesouras de forma rebelde, enquanto protestava que sentia cheiro a trovoada, ela cedeu, guardou o trabalho e, pegando no chapéu e nas luvas com um ar de resignação, disse à Amy que a vítima estava pronta.
"Jo March, és perversa o suficiente para provocar um santo! Não pretendes fazer visitas nesse estado, espero", gritou Amy, observando-a com espanto.
"Por que não? Estou arranjada, fresca e confortável; bastante apropriado para uma caminhada poeirenta num dia quente. Se as pessoas se preocupam mais com as minhas roupas do que comigo, não desejo vê-las. Podes vestir-te pelas duas e ser tão elegante quanto quiseres: compensa-te estar elegante; a mim não, e os enfeites só me preocupam."
"Oh, querida!", suspirou Amy; "agora ela está num estado de contrariedade e vai deixar-me louca antes que eu consiga deixá-la devidamente pronta. Tenho a certeza de que não é um prazer para mim ir hoje, mas é uma dívida que devemos à sociedade, e não há ninguém para a pagar senão tu e eu. Farei qualquer coisa por ti, Jo, se apenas te vestires bem e vieres ajudar-me a ser educada. Consegues falar tão bem, parecer tão aristocrática nas tuas melhores roupas e comportar-te tão belamente, se tentares, que me orgulho de ti. Tenho medo de ir sozinha; vem e toma conta de mim."
"És uma gatinha manhosa por lisonjear e adular a tua irmã mais velha e rabugenta dessa forma. A ideia de eu ser aristocrática e bem-educada, e tu teres medo de ir a qualquer lado sozinha! Não sei qual é a mais absurda. Bem, irei se for preciso e farei o meu melhor. Tu serás a comandante da expedição e eu obedecerei cegamente; isso satisfaz-te?", disse Jo, com uma mudança repentina de perversidade para submissão dócil.
"És um querubim perfeito! Agora põe todas as tuas melhores coisas, e eu dir-te-ei como te comportar em cada lugar, para que possas causar uma boa impressão. Quero que as pessoas gostem de ti, e gostarão se tentares ser apenas um pouco mais agradável. Faz o cabelo daquela maneira bonita e põe a rosa cor-de-rosa no chapéu; fica-te bem, e pareces demasiado sóbria no teu fato simples. Leva as tuas luvas claras e o lenço bordado. Pararemos na casa da Meg e pediremos emprestada a sua sombrinha branca, e depois podes ficar com a minha, cor de pomba."
Enquanto Amy se vestia, ela dava as suas ordens, e Jo obedecia-lhes; não sem apresentar o seu protesto, contudo, pois suspirava enquanto se vestia com o seu novo organdi, franzia o sobrolho para si mesma enquanto atava as fitas do chapéu num laço irrepreensível, lutava viciosamente com alfinetes enquanto punha o colarinho, enrugava o rosto de um modo geral enquanto sacudia o lenço, cujo bordado era tão irritante para o seu nariz como a presente missão era para os seus sentimentos; e quando ela espremeu as mãos em luvas apertadas com três botões e uma borla, como o último toque de elegância, virou-se para Amy com uma expressão de rosto imbecil, dizendo mansamente:
"Estou perfeitamente miserável; mas se me consideras apresentável, morro feliz."
"Estás altamente satisfatória; gira lentamente e deixa-me ver-te com atenção." Jo girou, e Amy deu um toque aqui e ali, depois recuou, com a cabeça de lado, observando graciosamente: "Sim, tu servirás; a tua cabeça é tudo o que eu poderia pedir, pois aquele chapéu branco com a rosa é bastante arrebatador. Põe os ombros para trás e carrega as mãos com naturalidade, não importa se as luvas te apertam. Há uma coisa que sabes fazer bem, Jo, que é usar um xaile — eu não consigo; mas é muito bom ver-te, e estou tão contente por a tia March te ter dado esse lindo; é simples, mas elegante, e aquelas dobras sobre o braço são realmente artísticas. A ponta do meu manto está no meio, e eu prendi bem o vestido? Gosto de mostrar as minhas botas, pois os meus pés são bonitos, embora o meu nariz não seja."
"Tu és uma coisa de beleza e uma alegria para sempre", disse Jo, olhando através da mão com o ar de um conhecedor para a pena azul contra o cabelo dourado. "Devo arrastar o meu melhor vestido pelo pó, ou prendê-lo, por favor, minha senhora?"
"Segura-o quando caminhares, mas deixa-o cair dentro de casa; o estilo de arrastar combina melhor contigo, e deves aprender a arrastar as tuas saias graciosamente. Não abotoaste metade de um punho; fá-lo imediatamente. Nunca parecerás acabada se não tiveres cuidado com os pequenos detalhes, pois eles compõem o conjunto agradável."
Jo suspirou e procedeu a rebentar os botões da sua luva ao apertar o punho; mas, finalmente, ambas estavam prontas e partiram, parecendo "tão bonitas como quadros", disse Hannah, enquanto se debruçava da janela de cima para as observar.
"Agora, Jo querida, os Chester consideram-se pessoas muito elegantes, por isso quero que ponhas o teu melhor comportamento. Não faças nenhum dos teus comentários abruptos, nem faças nada de estranho, sim? Apenas sê calma, serena e quieta — isso é seguro e cavalheiresco; e podes facilmente fazê-lo durante quinze minutos", disse Amy, à medida que se aproximavam do primeiro local, tendo pedido emprestada a sombrinha branca e sido inspecionadas pela Meg, com um bebé em cada braço.
"Deixa-me ver. 'Calma, serena e quieta' — sim, acho que posso prometer isso. Já representei o papel de uma jovem recatada no palco, e tentarei fazê-lo fora dele. Os meus poderes são grandes, como verás; por isso fica tranquila, minha querida."
Amy parecia aliviada, mas a travessa Jo levou-a à letra; pois, durante a primeira visita, sentou-se com todos os membros graciosamente compostos, todas as pregas corretamente dispostas, calma como um mar de verão, fria como um banco de neve e silenciosa como uma esfinge. Em vão a Sra. Chester aludiu ao seu "romance encantador", e as senhoritas Chester falaram de festas, piqueniques, da ópera e da moda; a cada uma e a todas responderam com um sorriso, uma vénia e um recatado "Sim" ou "Não", com o devido gelo. Em vão Amy telegrafou a palavra "Fala", tentou estimulá-la e administrou-lhe pontapés dissimulados com o pé. Jo permaneceu sentada como se estivesse suavemente alheia a tudo, com um comportamento semelhante ao rosto de Maud, "gelidamente regular, esplendidamente nulo".
"Que criatura altiva e desinteressante é aquela mais velha das senhoritas March!", foi o comentário, infelizmente audível, de uma das damas, enquanto a porta se fechava para as suas convidadas. Jo riu-se silenciosamente por todo o corredor, mas Amy parecia desgostosa com o fracasso das suas instruções e, muito naturalmente, culpou Jo.
"Como pudeste confundir-me tanto? Eu simplesmente queria que fosses devidamente digna e composta, e tu fizeste de ti própria uma verdadeira estátua de pedra. Tenta ser sociável na casa dos Lamb, conversa como as outras raparigas fazem, e mostra interesse por vestidos, flertes e qualquer disparate que surja. Eles movem-se na melhor sociedade, são pessoas valiosas para conhecermos, e eu não deixaria de causar uma boa impressão lá por nada deste mundo."
"Serei agradável; falarei de fofocas e darei risadinhas, e terei horrores e arrebatamentos por qualquer ninharia que queiras. Até gosto disto, e agora vou imitar o que se chama 'uma rapariga encantadora'; consigo fazê-lo, pois tenho May Chester como modelo, e hei de superá-la. Vais ver se os Lamb não dizem: 'Que criatura viva e agradável é aquela Jo March!'"
Amy sentiu-se ansiosa, como bem poderia, pois quando Jo ficava caprichosa não havia como saber onde ela pararia. O rosto de Amy era um estudo quando viu a irmã deslizar para a sala de estar seguinte, beijar todas as jovens com efusão, irradiar graciosamente para os jovens cavalheiros e participar na conversa com um espírito que espantava quem a via. Amy foi tomada de assalto pela Sra. Lamb, de quem era favorita, e forçada a ouvir um longo relato do último ataque de Lucretia, enquanto três jovens cavalheiros encantadores pairavam por perto, à espera de uma pausa para que pudessem intervir e resgatá-la. Assim situada, estava impotente para controlar Jo, que parecia possuída por um espírito de travessura e falava tão voluvelmente quanto a velha senhora. Um grupo de cabeças reuniu-se à volta dela, e Amy esticou os ouvidos para ouvir o que estava a acontecer; pois frases truncadas enchiam-na de alarme, olhos arregalados e mãos erguidas atormentavam-na com curiosidade, e frequentes gargalhadas deixavam-na desesperada por partilhar a diversão. Pode-se imaginar o seu sofrimento ao ouvir fragmentos deste tipo de conversa:
"Ela cavalga esplendidamente, — quem a ensinou?"
"Ninguém; ela costumava praticar montar, segurar as rédeas e sentar-se direita numa sela velha em cima de uma árvore. Agora ela cavalga qualquer coisa, pois não sabe o que é o medo, e o cavalariço deixa-a levar os cavalos a bom preço, porque ela treina-os para transportar senhoras tão bem. Ela tem tal paixão por isso que muitas vezes lhe digo que, se tudo o resto falhar, ela pode ser domadora de cavalos e ganhar a vida assim."
Com este discurso terrível, Amy conteve-se com dificuldade, pois estava a passar a ideia de que ela era uma jovem bastante avançada, o que era a sua aversão especial. Mas o que podia ela fazer? Pois a velha senhora estava a meio da sua história e, muito antes de terminar, Jo já tinha partido novamente, fazendo revelações mais engraçadas e cometendo erros ainda mais temíveis.
"Sim, Amy estava em desespero naquele dia, pois todos os bons animais tinham ido embora, e dos três que restavam, um era coxo, um cego e o outro tão teimoso que era preciso pôr terra na boca dele para que começasse a andar. Belo animal para um passeio de prazer, não era?"
"Qual deles ela escolheu?", perguntou um dos cavalheiros ridentes, que apreciava o assunto.
"Nenhum deles; ela ouviu falar de um cavalo jovem na quinta do outro lado do rio e, embora uma senhora nunca o tivesse montado, ela decidiu experimentar, porque ele era bonito e fogoso. As lutas dela foram realmente patéticas; não havia ninguém para levar o cavalo à sela, então ela levou a sela ao cavalo. Minha querida, ela remou com ela através do rio, colocou-a na cabeça e marchou até ao celeiro, para espanto total do velho!"
"Ela montou o cavalo?"
"Claro que sim, e divertiu-se imenso. Eu esperava vê-la trazida para casa em fragmentos, mas ela dominou-o perfeitamente e foi a alma da festa."
"Bem, eu chamo a isso coragem!", e o jovem Sr. Lamb lançou um olhar de aprovação a Amy, perguntando-se o que a mãe estaria a dizer para deixar a rapariga tão vermelha e desconfortável.
Ela ficou ainda mais vermelha e mais desconfortável um momento depois, quando uma mudança súbita na conversa introduziu o assunto do vestuário. Uma das jovens perguntou a Jo onde ela tinha arranjado o bonito chapéu cor de areia que usou no piquenique; e a estúpida da Jo, em vez de mencionar o lugar onde foi comprado há dois anos, teve de responder, com desnecessária franqueza: "Ah, a Amy pintou-o; não se conseguem comprar esses tons suaves, por isso pintamos os nossos de qualquer cor que gostemos. É um grande conforto ter uma irmã artista."
"Não é uma ideia original?", exclamou a Srta. Lamb, que achou Jo muito divertida.
"Isso não é nada comparado com alguns dos seus desempenhos brilhantes. Não há nada que a miúda não saiba fazer. Ora, ela queria um par de botas azuis para a festa da Sallie, então pintou simplesmente as suas botas brancas sujas com o tom mais adorável de azul-celeste que alguma vez viste, e pareceram exatamente cetim", acrescentou Jo, com um ar de orgulho nos talentos da irmã que exasperou Amy, a ponto de ela sentir que seria um alívio atirar-lhe com a sua caixa de cartões.
"Lemos uma história tua no outro dia, e gostámos muito", observou a mais velha das senhoritas Lamb, desejando elogiar a senhora literária, que não parecia a personagem naquele momento, deve confessar-se.
Qualquer menção às suas "obras" tinha sempre um mau efeito em Jo, que ou ficava rígida e parecia ofendida, ou mudava de assunto com um comentário brusco, como agora: "Lamento que não tenham conseguido encontrar nada melhor para ler. Escrevo aquelas asneiras porque se vendem, e as pessoas comuns gostam delas. Vão a Nova Iorque este inverno?"
Como a Srta. Lamb tinha "gostado" da história, este discurso não foi exatamente grato ou elogioso. No momento em que o fez, Jo viu o seu erro; mas, temendo piorar a situação, lembrou-se subitamente de que era a ela que cabia dar o primeiro passo para a partida, e fê-lo com uma brusquidão que deixou três pessoas com frases a meio nas bocas.
"Amy, temos de ir. Adeus, querida; vem visitar-nos; estamos ansiosas por uma visita. Não me atrevo a convidar-vos, Sr. Lamb; mas se vier, não creio que terei coragem de o mandar embora."
Jo disse isto com uma imitação tão engraçada do estilo efusivo de May Chester que Amy saiu da sala o mais rapidamente possível, sentindo um forte desejo de rir e chorar ao mesmo tempo.
"Não fiz isso bem?", perguntou Jo, com um ar satisfeito, enquanto se afastavam.
"Nada podia ter sido pior", foi a resposta esmagadora de Amy. "O que te deu para contar aquelas histórias sobre a minha sela, os chapéus e as botas, e todo o resto?"
"Ora, é engraçado e diverte as pessoas. Eles sabem que somos pobres, por isso não adianta fingir que temos criados, que compramos três ou quatro chapéus por estação e que temos as coisas tão fáceis e requintadas como eles."
"Não precisas de ir lá contar todas as nossas pequenas dificuldades e expor a nossa pobreza daquela maneira perfeitamente desnecessária. Não tens um pingo de orgulho próprio, e nunca aprenderás quando manter a língua quieta e quando falar", disse Amy, desesperada.
A pobre Jo parecia envergonhada e esfregava silenciosamente a ponta do nariz com o lenço rígido, como se estivesse a fazer penitência pelas suas faltas.
"Como me devo comportar aqui?", perguntou ela, à medida que se aproximavam da terceira mansão.
"Como quiseres; lavo as minhas mãos de ti", foi a resposta curta de Amy.
"Então vou divertir-me. Os rapazes estão em casa, e teremos um tempo agradável. Deus sabe que preciso de uma pequena mudança, pois a elegância tem um mau efeito na minha constituição", retorquiu Jo, rispidamente, estando perturbada pelas suas falhas em ajustar-se.
Uma receção entusiástica de três rapazes grandes e várias crianças bonitas acalmou rapidamente os seus sentimentos perturbados; e, deixando Amy a entreter a anfitriã e o Sr. Tudor, que por acaso também estava de visita, Jo dedicou-se aos jovens e achou a mudança refrescante. Ouviu histórias da faculdade com profundo interesse, acariciou cães de caça e caniches sem um murmúrio, concordou vivamente que "Tom Brown era um tipo cinco estrelas", independentemente da forma imprópria de elogio; e quando um rapaz propôs uma visita ao seu tanque das tartarugas, ela foi com uma prontidão que fez a mamã sorrir para ela, enquanto aquela senhora maternal ajeitava o toucado que fora deixado em condição ruinosa por abraços filiais, animalescos mas afetuosos, e mais queridos para ela do que o mais perfeito penteado das mãos de uma francesa inspirada.
Deixando a irmã por sua conta, Amy procedeu a divertir-se o quanto quis. O tio do Sr. Tudor tinha casado com uma senhora inglesa que era prima em terceiro grau de um lorde vivo, e Amy olhava para toda a família com grande respeito; pois, apesar do seu nascimento e criação americanos, possuía aquela reverência pelos títulos que assombra os melhores de nós — aquela lealdade não reconhecida à fé antiga nos reis que colocou a nação mais democrática debaixo do sol em polvorosa com a vinda de um rapaz real de cabelos amarelos, há alguns anos, e que ainda tem algo a ver com o amor que o país jovem nutre pelo antigo, como o de um filho grande por uma mãe pequena e imperiosa, que o segurou enquanto pôde e o deixou ir com uma bronca de despedida quando ele se rebelou. Mas nem a satisfação de falar com um parente distante da nobreza britânica fez Amy esquecer o tempo; e quando o número adequado de minutos passou, ela separou-se relutantemente desta sociedade aristocrática e procurou Jo, esperando fervorosamente que a sua irmã incorrigível não fosse encontrada em nenhuma posição que trouxesse desgraça ao nome March.
Poderia ter sido pior, mas Amy considerou-o mau; pois Jo estava sentada na relva, com um acampamento de rapazes à sua volta e um cão de patas sujas a repousar sobre a bainha do seu vestido de gala e festa, enquanto contava uma das travessuras de Laurie à sua audiência admirada. Uma criança pequena estava a espetar tartarugas com a estimada sombrinha de Amy, uma segunda estava a comer pão de gengibre sobre o melhor chapéu de Jo, e uma terceira a jogar à bola com as suas luvas. Mas todos se estavam a divertir; e quando Jo recolheu a sua propriedade danificada para partir, o seu grupo de escolta acompanhou-a, implorando-lhe que voltasse, "era tão divertido ouvir sobre as partidas de Laurie".
"Rapazes excelentes, não são? Sinto-me bastante jovem e ágil outra vez depois disto", disse Jo, passeando com as mãos atrás das costas, em parte por hábito, em parte para esconder a sombrinha salpicada.
"Porque evitas sempre o Sr. Tudor?", perguntou Amy, abstendo-se sabiamente de qualquer comentário sobre a aparência dilapidada de Jo.
"Não gosto dele; ele dá ares de importância, despreza as irmãs, preocupa o pai e não fala com respeito da mãe. Laurie diz que ele é um perdido, e não o considero um conhecido desejável; por isso deixo-o em paz."
"Poderias tratá-lo civilizadamente, pelo menos. Deste-lhe um aceno frio; e ainda agora fizeste uma vénia e sorriste da maneira mais educada ao Tommy Chamberlain, cujo pai tem uma mercearia. Se tivesses apenas invertido o aceno e a vénia, teria sido o correto", disse Amy, em tom de censura.
"Não, não teria", respondeu a perversa Jo; "Eu não gosto, não respeito nem admiro o Tudor, embora a sobrinha do sobrinho do tio do avô dele fosse prima em terceiro grau de um lorde. O Tommy é pobre, tímido, bom e muito inteligente; penso bem dele e gosto de mostrar que penso, pois ele é um cavalheiro, apesar dos embrulhos de papel pardo."
"Não adianta tentar discutir contigo", começou Amy.
"Nem um pouco, minha querida", interrompeu Jo; "por isso vamos parecer amáveis e deixar um cartão aqui, já que os King estão evidentemente fora, pelo que estou profundamente grata."
Tendo a caixa de cartões da família cumprido o seu dever, as raparigas seguiram caminho, e Jo soltou outro agradecimento ao chegar à quinta casa e ser informada de que as jovens senhoras estavam ocupadas.
"Agora vamos para casa, e não te preocupes com a tia March hoje. Podemos passar lá a qualquer altura, e é realmente uma pena arrastarmo-nos pelo pó nos nossos melhores trajes, quando estamos cansadas e mal-humoradas."
"Fala por ti, se fazes favor. A tia gosta que lhe façamos o elogio de vir com estilo e fazer uma visita formal; é uma pequena coisa a fazer, mas dá-lhe prazer, e não acredito que vá estragar as tuas coisas nem metade do que deixar cães sujos e rapazes desajeitados as estragarem. Inclina-te e deixa-me tirar as migalhas do teu chapéu."
"Que boa rapariga que tu és, Amy!", disse Jo, com um olhar arrependido do seu próprio traje danificado para o da irmã, que estava fresco e imaculado ainda. "Gostava que fosse tão fácil para mim fazer pequenas coisas para agradar às pessoas como é para ti. Penso nelas, mas leva demasiado tempo a fazê-las; por isso espero por uma oportunidade para conferir um grande favor e deixo escapar as pequenas; mas elas valem mais no fim, suponho."
Amy sorriu e ficou logo apaziguada, dizendo com um ar maternal:
"As mulheres devem aprender a ser agradáveis, particularmente as pobres; pois não têm outra forma de retribuir as bondades que recebem. Se te lembrasses disso e o praticasses, serias mais estimada do que eu, porque há mais de ti."
"Sou uma coisa velha e rabugenta, e sempre serei, mas estou disposta a admitir que tens razão; apenas é mais fácil para mim arriscar a vida por uma pessoa do que ser agradável para ela quando não me apetece. É um grande infortúnio ter gostos e aversões tão fortes, não é?"
"É um infortúnio maior não ser capaz de os esconder. Não me importo de dizer que não aprovo o Tudor mais do que tu; mas não sou obrigada a dizer-lho; tu também não, e não adianta tornares-te desagradável só porque ele o é."
"Mas penso que as raparigas devem mostrar quando reprovam os jovens; e como podem fazê-lo a não ser através dos modos? Sermões não fazem qualquer bem, como sei por experiência própria, desde que tenho o Teddy para gerir; mas há muitas pequenas formas em que posso influenciá-lo sem uma palavra, e digo que deveríamos fazê-lo com os outros se pudermos."
"O Teddy é um rapaz notável e não pode ser tomado como um exemplo de outros rapazes", disse Amy, num tom de convicção solene, que teria convulsionado o "rapaz notável" se a tivesse ouvido. "Se fôssemos beldades, ou mulheres de riqueza e posição, poderíamos fazer algo, talvez; mas franzir o sobrolho a um grupo de jovens cavalheiros porque não os aprovamos, e sorrir para outro grupo porque aprovamos, não teria uma partícula de efeito, e seríamos apenas consideradas estranhas e puritanas."
"Portanto, devemos apoiar coisas e pessoas que detestamos, apenas porque não somos beldades e milionárias, é isso? Esse é um belo tipo de moralidade."
"Não posso discutir sobre isso, só sei que é o caminho do mundo; e as pessoas que se colocam contra ele apenas são alvo de risota pelos seus esforços. Não gosto de reformadores e espero que nunca tentes ser um."
"Eu gosto deles e serei um se puder; pois, apesar das risadas, o mundo nunca avançaria sem eles. Não podemos concordar sobre isso, pois tu pertences ao grupo antigo e eu ao novo: tu vais avançar melhor, mas eu hei de ter o tempo mais animado. Acho que até gostaria das pedradas e das vaias."
"Bem, compõe-te agora e não preocupes a tia com as tuas novas ideias."
"Tentarei não o fazer, mas estou sempre possuída pela vontade de explodir com algum discurso particularmente direto ou sentimento revolucionário diante dela; é o meu destino e não posso evitá-lo."
Encontraram a tia Carrol com a velha senhora, ambas absortas em algum assunto muito interessante; mas deixaram-no cair quando as raparigas entraram, com um olhar consciente que traía que tinham estado a falar das sobrinhas. Jo não estava de bom humor, e o ataque de perversidade regressou; mas Amy, que tinha feito virtuosamente o seu dever, controlou o seu temperamento e agradou a todos, estava num estado de espírito angelical. Este espírito amável foi sentido imediatamente, e ambas as tias trataram-na por "querida" afetuosamente, parecendo o que disseram enfaticamente depois: "Aquela criança melhora a cada dia."
"Vais ajudar na feira, querida?", perguntou a Sra. Carrol, enquanto Amy se sentava ao lado dela com o ar confidente que as pessoas idosas gostam tanto nos jovens.
"Sim, tia. A Sra. Chester perguntou-me se eu o faria, e ofereci-me para tomar conta de uma banca, já que não tenho nada senão o meu tempo para dar."
"Eu não vou", interveio Jo, decididamente. "Odeio ser tratada com condescendência, e os Chester acham que é um grande favor permitir-nos ajudar na sua feira de altas relações. Admiro-me que tenhas consentido, Amy: eles só te querem para trabalhar."
"Estou disposta a trabalhar: é tanto para os libertos quanto para os Chester, e acho muito gentil da parte deles deixar-me partilhar o trabalho e a diversão. A condescendência não me incomoda quando é bem-intencionada."
"Muito correto e adequado. Gosto do teu espírito grato, minha querida; é um prazer ajudar pessoas que apreciam os nossos esforços: algumas não apreciam, e isso é um teste", observou a tia March, olhando por cima dos óculos para Jo, que se sentava à parte, embalando-se, com uma expressão algo morosa.
Se Jo soubesse apenas que grande felicidade estava a oscilar na balança para uma delas, ela ter-se-ia tornado dócil num minuto; mas, infelizmente, não temos janelas nos nossos peitos, e não podemos ver o que se passa nas mentes dos nossos amigos; melhor para nós que não possamos, de um modo geral, mas de vez em quando seria um tal conforto, uma tal poupança de tempo e temperamento. Pelo seu discurso seguinte, Jo privou-se de vários anos de prazer e recebeu uma lição oportuna na arte de manter a língua quieta.
"Não gosto de favores; eles oprimem e fazem-me sentir como uma escrava. Preferia fazer tudo por mim mesma, e ser perfeitamente independente."
"Ahem!", tossiu a tia Carrol suavemente, com um olhar para a tia March.
"Eu disse-te", disse a tia March, com um aceno decidido para a tia Carrol.
Misericordiosamente inconsciente do que tinha feito, Jo sentou-se com o nariz no ar e um aspeto revolucionário que era tudo menos convidativo.
"Falas francês, querida?", perguntou a Sra. Carrol, pousando a mão na de Amy.
"Muito bem, graças à tia March, que deixa a Esther falar comigo tão frequentemente quanto eu gosto", respondeu Amy, com um olhar grato que fez a velha senhora sorrir afavelmente.
"Como estás de línguas?", perguntou a Sra. Carrol a Jo.
"Não sei uma palavra; sou muito estúpida para estudar qualquer coisa; não suporto francês, é um tipo de língua tão escorregadia e boba", foi a resposta brusca.
Outro olhar passou entre as damas, e a tia March disse a Amy: "Estás bastante forte e bem, agora, querida, creio eu? Os olhos já não te incomodam, pois não?"
"De todo, obrigada, senhora. Estou muito bem, e pretendo fazer grandes coisas no próximo inverno, para que possa estar pronta para Roma, sempre que esse tempo alegre chegar."
"Boa rapariga! Mereces ir, e tenho a certeza de que irás algum dia", disse a tia March, com uma palmada de aprovação na cabeça, enquanto Amy apanhava o seu novelo para ela.
"Cross-patch, draw the latch, Sit by the fire and spin,"
gritou Polly, inclinando-se do seu poleiro nas costas da cadeira dela para espreitar a cara de Jo, com um ar tão cómico de curiosidade impertinente que era impossível não rir.
"Pássaro deveras observador", disse a velha senhora.
"Queres vir dar um passeio, minha querida?" exclamou Polly, saltitando em direção ao armário da loiça, com um olhar que sugeria torrões de açúcar.
"Obrigada, vou sim. Vem, Amy"; e Jo deu a visita por terminada, sentindo mais fortemente do que nunca que as visitas tinham um efeito nocivo sobre a sua constituição. Apertou a mão às tias de uma maneira cavalheiresca, mas Amy beijou ambas, e as raparigas partiram, deixando atrás de si a impressão de sombra e sol; impressão essa que levou a tia March a dizer, à medida que elas desapareciam:
"É melhor fazê-lo, Mary; eu fornecerei o dinheiro", e a tia Carrol a responder decididamente: "Certamente que o farei, se o pai e a mãe dela consentirem."
XXX.
CONSEQUÊNCIAS.
A feira da senhora Chester era tão elegante e exclusiva que era considerado uma grande honra, para as jovens da vizinhança, serem convidadas para tomar conta de uma banca, e todas estavam muito interessadas no assunto. Amy foi convidada, mas Jo não, o que foi uma sorte para todas as partes, visto que os seus cotovelos estavam decididamente arrebitados nesta fase da sua vida, e foram precisas muitas pancadas fortes para a ensinar a seguir o seu caminho com facilidade. A "criatura altiva e desinteressante" foi deixada estritamente de lado; mas o talento e o gosto de Amy foram devidamente elogiados com a oferta da banca de arte, e ela esforçou-se por preparar e garantir contribuições apropriadas e valiosas para a mesma.
Tudo decorreu sem problemas até ao dia anterior à abertura da feira; então ocorreu uma daquelas pequenas escaramuças que é quase impossível evitar, quando cerca de vinte e cinco mulheres, velhas e novas, com todas as suas picardias e preconceitos privados, tentam trabalhar juntas.
May Chester estava um tanto enciumada de Amy, porque esta última era mais popular do que ela e, precisamente nesta altura, ocorreram várias circunstâncias triviais que aumentaram esse sentimento. O delicado trabalho de caneta e tinta de Amy eclipsou totalmente os vasos pintados de May — esse foi um espinho; depois, o todo-poderoso Tudor tinha dançado quatro vezes com Amy, numa festa recente, e apenas uma com May — esse foi o espinho número dois; mas a principal queixa que remoía na sua alma, e que lhe deu um pretexto para a sua conduta hostil, foi um rumor que algum mexeriqueiro prestável lhe tinha sussurrado, de que as raparigas March tinham troçado dela em casa dos Lamb. Toda a culpa disto deveria ter recaído sobre Jo, pois a sua imitação maliciosa tinha sido demasiado fiel para escapar à deteção, e os brincalhões Lamb tinham deixado escapar a piada. No entanto, nenhum indício disto tinha chegado às culpadas, e pode imaginar-se o desânimo de Amy quando, na própria véspera da feira, enquanto dava os últimos retoques na sua bonita banca, a senhora Chester, que, naturalmente, se ressentia do suposto ridículo da filha, disse num tom suave, mas com um olhar frio:
"Descobri, querida, que existe algum sentimento entre as jovens por eu ter dado esta banca a outra pessoa que não as minhas filhas. Como esta é a banca mais proeminente, e alguns dizem que a mais atrativa de todas, e sendo elas as principais organizadoras da feira, achou-se melhor serem elas a ocupar este lugar. Lamento, mas sei que estás demasiado sinceramente interessada na causa para te importares com uma pequena desilusão pessoal, e poderás ter outra banca se quiseres."
A senhora Chester tinha imaginado de antemão que seria fácil proferir este pequeno discurso; mas, quando chegou o momento, achou um tanto difícil dizê-lo naturalmente, com os olhos insuspeitos de Amy a olharem diretamente para ela, cheios de surpresa e mágoa.
Amy sentiu que havia algo por detrás disto, mas não conseguia adivinhar o quê, e disse calmamente, sentindo-se ofendida e demonstrando que o estava:
"Talvez preferisse que eu não ficasse com banca nenhuma?"
"Agora, minha querida, não tenhas maus sentimentos, peço-te; é apenas uma questão de conveniência, compreendes; as minhas filhas ocuparão naturalmente o lugar de destaque, e esta banca é considerada o seu lugar próprio. Acho que é muito apropriada para ti e sinto-me muito grata pelos teus esforços para a tornar tão bonita; mas temos de abdicar dos nossos desejos privados, naturalmente, e tratarei de que tenhas um bom lugar noutro sítio. Não gostarias da banca das flores? As meninas tinham-na assumido, mas estão desanimadas. Poderias fazer dela algo encantador, e a banca das flores é sempre atrativa, sabes."
"Especialmente para os cavalheiros", acrescentou May, com um olhar que esclareceu Amy quanto a uma das causas da sua súbita queda em desgraça. Ela corou de raiva, mas não deu outra importância àquele sarcasmo de rapariga, e respondeu com uma amabilidade inesperada:
"Ficará como quiser, senhora Chester. Abdicarei do meu lugar aqui imediatamente e tratarei das flores, se quiser."
"Podes pôr as tuas próprias coisas na tua própria banca, se preferires", começou May, sentindo-se um pouco remorsosa ao olhar para os bonitos expositores, as conchas pintadas e as iluminuras pitorescas que Amy tinha feito com tanto cuidado e arranjado com tanta graça. Ela disse-o com intenção bondosa, mas Amy interpretou mal o seu significado e disse rapidamente:
"Oh, certamente, se estiverem a atrapalhar"; e, varrendo as suas contribuições para o seu avental, à pressa, afastou-se, sentindo que ela própria e as suas obras de arte tinham sido insultadas além de qualquer perdão.
"Agora ela está zangada. Oh, querida, quem me dera não te ter pedido para falares, mamã", disse May, olhando desolada para os espaços vazios na sua banca.
"As zangas de raparigas passam depressa", respondeu a mãe, sentindo-se um pouco envergonhada da sua própria participação nesta, como bem podia.
As meninas saudaram Amy e os seus tesouros com deleite, cuja receção cordial acalmou um pouco o seu espírito perturbado, e ela pôs-se a trabalhar, determinada a ter sucesso floral, se não podia ter sucesso artístico. Mas tudo parecia estar contra ela: era tarde e ela estava cansada; toda a gente estava demasiado ocupada com os seus próprios assuntos para a ajudar; e as meninas eram apenas um estorvo, pois as queridas mexiam-se e tagarelavam como pegas, criando uma grande confusão nos seus esforços ingénuos para manter a mais perfeita ordem. O arco de folhagem perene não se mantinha firme depois de o montar, mas balançava e ameaçava cair-lhe em cima da cabeça quando os cestos suspensos eram cheios; o seu melhor azulejo apanhou um salpico de água, que deixou uma lágrima de sépia na face do Cupido; ela magoou as mãos a martelar e constipou-se por trabalhar numa corrente de ar, cuja última aflição a encheu de receios para o dia seguinte. Qualquer rapariga leitora que tenha sofrido aflições semelhantes simpatizará com a pobre Amy e desejar-lhe-á que termine bem a sua tarefa.
Houve grande indignação em casa quando ela contou a história naquela noite. A mãe disse que era uma vergonha, mas disse-lhe que tinha agido bem; Beth declarou que não iria à feira de todo; e Jo perguntou por que razão ela não levava todas as suas coisas bonitas e deixava aquelas pessoas mesquinhas desenrascarem-se sem ela.
"O facto de elas serem mesquinhas não é razão para eu o ser. Odeio essas coisas e, embora ache que tenho o direito de me sentir ofendida, não tenciono mostrá-lo. Elas sentirão isso mais do que discursos zangados ou atitudes petulantes, não é, Marmee?"
"Esse é o espírito certo, minha querida; um beijo em troca de uma bofetada é sempre melhor, embora não seja muito fácil de dar por vezes", disse a mãe, com o ar de quem tinha aprendido a diferença entre pregar e praticar.
Apesar de várias tentações muito naturais para se ressentir e retaliar, Amy manteve-se fiel à sua resolução durante todo o dia seguinte, decidida a conquistar a sua inimiga pela bondade. Começou bem, graças a um lembrete silencioso que lhe veio inesperadamente, mas muito oportunamente. Enquanto arrumava a sua banca naquela manhã, enquanto as meninas estavam numa antecâmara a encher os cestos, ela pegou na sua produção favorita — um pequeno livro, cuja capa antiga o seu pai tinha encontrado entre os seus tesouros, e no qual, em folhas de velino, ela tinha iluminado belamente diferentes textos. Ao virar as páginas, ricas em desenhos delicados, com um orgulho muito perdoável, o seu olhar caiu sobre um verso que a fez parar e pensar. Enquadradas num brilhante trabalho de volutas de escarlate, azul e ouro, com pequenos espíritos de boa vontade a ajudarem-se uns aos outros a subir e a descer entre os espinhos e as flores, estavam as palavras: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo."
"Deveria, mas não amo", pensou Amy, enquanto o seu olhar ia da página brilhante para a cara descontente de May por detrás dos grandes vasos, que não conseguiam esconder as lacunas que o seu bonito trabalho tinha preenchido. Amy ficou um minuto, virando as folhas na mão, lendo em cada uma delas uma doce repreensão para todas as mágoas e falta de caridade de espírito. Muitos sermões sábios e verdadeiros são-nos pregados todos os dias por ministros inconscientes na rua, na escola, no escritório ou em casa; até uma banca de feira pode tornar-se um púlpito, se puder oferecer as palavras boas e úteis que nunca estão fora de época. A consciência de Amy pregou-lhe um pequeno sermão a partir daquele texto, ali mesmo; e ela fez o que muitos de nós nem sempre fazemos: levou o sermão a peito e, imediatamente, pô-lo em prática.
Um grupo de raparigas estava junto da banca de May, a admirar as coisas bonitas e a falar sobre a mudança das vendedoras. Baixaram a voz, mas Amy sabia que estavam a falar dela, ouvindo um lado da história e julgando em conformidade. Não era agradável, mas um espírito melhor tinha-a possuído e, pouco depois, surgiu uma oportunidade para o provar. Ouviu May dizer, pesarosa:
"É muito mau, porque não há tempo para fazer outras coisas, e não quero encher com restos. A banca estava perfeita então: agora está estragada."
"Aposto que ela as punha de volta se lhe pedisses", sugeriu alguém.
"Como poderia eu depois de toda a confusão?", começou May, mas não terminou, pois a voz de Amy veio do outro lado do salão, dizendo agradavelmente:
"Podem tê-las, e são bem-vindas, sem pedir, se as quiserem. Estava mesmo a pensar oferecer-me para as pôr de volta, pois pertencem mais à tua banca do que à minha. Aqui estão elas; por favor, aceita-as e perdoa-me se fui precipitada ao levá-las ontem à noite."
Enquanto falava, Amy devolveu a sua contribuição, com um aceno e um sorriso, e apressou-se a afastar-se novamente, sentindo que era mais fácil fazer uma coisa amigável do que ficar e ser agradecida por isso.
"Ora, chamo a isso uma atitude encantadora da parte dela, não acham?" gritou uma rapariga.
A resposta de May foi inaudível; mas uma outra jovem, cujo temperamento estava evidentemente um pouco azedado por fazer limonada, acrescentou, com uma risada desagradável: "Muito encantadora; pois ela sabia que não as venderia na sua própria banca."
Ora, isso foi duro; quando fazemos pequenos sacrifícios, gostamos de ser apreciados, pelo menos; e, por um minuto, Amy arrependeu-se de o ter feito, sentindo que a virtude nem sempre era a sua própria recompensa. Mas é — como ela descobriu pouco depois; pois o seu ânimo começou a subir, e a sua banca a florescer sob as suas mãos habilidosas; as raparigas foram muito gentis, e aquele pequeno ato pareceu ter limpo a atmosfera de forma surpreendente.
Foi um dia muito longo e difícil para Amy, enquanto estava sentada atrás da sua banca, muitas vezes completamente sozinha, pois as meninas desertaram muito cedo: poucos se interessavam por comprar flores no verão, e os seus ramos começaram a murchar muito antes da noite.
A banca de arte era a mais atrativa da sala; houve uma multidão à sua volta durante todo o dia, e as responsáveis estavam constantemente a correr de um lado para o outro com caras importantes e caixas de dinheiro a tilintar. Amy olhava muitas vezes com desejo para o outro lado, ansiando por estar lá, onde se sentia em casa e feliz, em vez de num canto sem nada para fazer. Poderia não parecer um sofrimento para alguns de nós; mas para uma jovem bonita e alegre, não era apenas tedioso, mas muito penoso; e a ideia de ser encontrada lá, à noite, pela sua família, por Laurie e pelos seus amigos, tornou-se um verdadeiro martírio.
Ela não foi para casa até à noite e, então, estava com um aspeto tão pálido e silencioso que eles souberam que o dia tinha sido difícil, embora ela não se tenha queixado e nem sequer tenha contado o que tinha feito. A sua mãe deu-lhe uma chávena de chá extra cordial, Beth ajudou-a a vestir-se e fez uma pequena grinalda encantadora para o seu cabelo, enquanto Jo surpreendeu a família arranjando-se com um cuidado invulgar e insinuando obscuramente que a maré estava prestes a virar.
"Não faças nada de rude, por favor, Jo. Não quero que se faça nenhuma cena, por isso deixa passar e comporta-te", implorou Amy, ao partir cedo, na esperança de encontrar um reforço de flores para refrescar a sua pobre banca.
"Pretendo apenas ser fascinantemente agradável para toda a gente que conheço e mantê-los no teu canto o maior tempo possível. O Teddy e os seus rapazes darão uma ajuda, e ainda vamos passar um bom bocado", respondeu Jo, inclinando-se sobre o portão para esperar por Laurie. Pouco depois, ouviu-se o passo familiar na penumbra e ela correu ao seu encontro.
"É o meu rapaz?"
"Tão certo como esta ser a minha rapariga!" e Laurie passou o braço pelo dela, com o ar de um homem cujo desejo era totalmente gratificado.
"Oh Teddy, que acontecimentos!" e Jo contou as injustiças de Amy com zelo fraternal.
"Um grupo dos nossos rapazes vai passar por lá daqui a pouco, e que me enforquem se eu não os obrigar a comprar todas as flores que ela tem e a acampar à frente da banca dela depois", disse Laurie, defendendo a causa dela com calor.
"As flores não estão nada boas, diz a Amy, e as frescas podem não chegar a tempo. Não quero ser injusta ou suspeita, mas não me admiraria se nunca chegassem. Quando as pessoas fazem uma coisa mesquinha, é muito provável que façam outra", observou Jo, num tom de nojo.
"O Hayes não te deu as melhores dos nossos jardins? Eu disse-lhe para o fazer."
"Não sabia disso; ele esqueceu-se, suponho; e, como o teu avô estava indisposto, não quis preocupá-lo pedindo, embora quisesse algumas."
"Ora, Jo, como pudeste pensar que havia necessidade de pedir! São tão tuas como minhas. Não dividimos sempre tudo a meias?" começou Laurie, no tom que fazia sempre Jo ficar espinhosa.
"Valha-me Deus, espero que não! metade de algumas das tuas coisas não me serviriam de todo. Mas não podemos ficar aqui a namoriscar; tenho de ajudar a Amy, por isso vai e torna-te esplêndido; e se fores tão amável a ponto de deixar o Hayes levar umas flores bonitas até ao Salão, abençoar-te-ei para sempre."
"Não podes fazê-lo agora?" perguntou Laurie, de forma tão sugestiva que Jo fechou o portão na cara dele com pressa inospitaleira e chamou através das grades: "Vai-te embora, Teddy; estou ocupada."
Graças aos conspiradores, a situação inverteu-se naquela noite; pois Hayes enviou uma profusão de flores, com um cesto adorável, arranjado da melhor maneira, para peça central; depois, a família March apareceu em massa, e Jo esforçou-se por um bom propósito, pois as pessoas não só vinham, como ficavam, rindo-se das suas disparates, admirando o gosto de Amy e, aparentemente, divertindo-se muito. Laurie e os seus amigos lançaram-se galhardamente na brecha, compraram os ramos, acamparam em frente à banca e fizeram daquele canto o lugar mais animado da sala. Amy estava agora no seu elemento e, por gratidão, se não por outra coisa, estava o mais viva e graciosa possível — chegando à conclusão, naquela altura, de que a virtude era, afinal, a sua própria recompensa.
Jo comportou-se com uma propriedade exemplar; e, quando Amy estava alegremente rodeada pela sua guarda de honra, Jo circulou pelo salão, recolhendo vários mexericos que a esclareceram sobre o assunto da mudança de estratégia de Chester. Repreendeu-se pela sua parte no ressentimento e resolveu exonerar Amy o mais rapidamente possível; descobriu também o que Amy tinha feito com as coisas de manhã e considerou-a um modelo de magnanimidade. Ao passar pela banca de arte, olhou para ver se encontrava as coisas da irmã, mas não viu sinais delas. "Escondidas para não se verem, imagino", pensou Jo, que conseguia perdoar as suas próprias injustiças, mas ressentia-se vivamente de qualquer insulto oferecido à sua família.
"Boa noite, menina Jo. Como vai a Amy?" perguntou May, com um ar conciliador, pois queria mostrar que também podia ser generosa.
"Ela vendeu tudo o que tinha que valesse a pena vender, e agora está a divertir-se. A banca das flores é sempre atrativa, sabes, 'especialmente para os cavalheiros'."
Jo não conseguiu resistir a dar aquela pequena estalada, mas May aceitou-a tão docemente que se arrependeu um minuto depois e pôs-se a elogiar os grandes vasos, que ainda permaneciam por vender.
"A iluminura da Amy está por aí? Tive vontade de comprar aquilo para o pai", disse Jo, muito ansiosa por saber o destino do trabalho da irmã.
"Tudo o que era da Amy vendeu-se há muito tempo; tratei de que as pessoas certas as vissem, e elas fizeram uma boa quantia de dinheiro para nós", respondeu May, que tinha superado várias pequenas tentações, assim como Amy, naquele dia.
Muito gratificada, Jo correu de volta para contar as boas notícias; e Amy pareceu simultaneamente comovida e surpreendida com o relato das palavras e atitudes de May.
"Agora, cavalheiros, quero que vão e cumpram o vosso dever pelas outras bancas tão generosamente como fizeram pela minha — especialmente a banca de arte", disse ela, ordenando que saíssem os "Teddy's Own", como as raparigas chamavam aos amigos da faculdade.
"'Carga, Chester, carga!' é o lema para aquela banca; mas cumpram o vosso dever como homens, e terão o valor do vosso dinheiro em arte em todos os sentidos da palavra", disse a irreprimível Jo, enquanto a falange devota se preparava para entrar em campo.
"Ouvir é obedecer, mas March é muito mais bela do que May", disse o pequeno Parker, fazendo um esforço frenético para ser espirituoso e terno, sendo prontamente silenciado por Laurie, que disse: "Muito bem, meu filho, para um rapaz pequeno!" e levou-o, com uma palmada paternal na cabeça.
"Compra os vasos", sussurrou Amy a Laurie, como um derradeiro amontoar de brasas acesas sobre a cabeça da sua inimiga.
Para grande deleite de May, o senhor Laurence não só comprou os vasos, como percorreu o salão com um debaixo de cada braço. Os outros cavalheiros especularam com igual imprudência em todo o tipo de ninharias frágeis e vaguearam desamparados por ali, carregados com flores de cera, leques pintados, carteiras de filigrana e outras compras úteis e apropriadas.
A tia Carrol estava lá, ouviu a história, pareceu satisfeita e disse algo à senhora March num canto, o que fez a última senhora irradiar satisfação e observar Amy com uma cara cheia de orgulho e ansiedade misturados, embora não tenha revelado a causa do seu prazer até vários dias depois.
A feira foi considerada um sucesso; e quando May se despediu de Amy, não foi efusiva como de costume, mas deu-lhe um beijo afetuoso e um olhar que dizia: "Perdoa e esquece." Isso satisfeur Amy; e quando chegou a casa, encontrou os vasos desfilados na lareira da sala, com um grande ramo em cada um. "A recompensa do mérito para uma March magnânima", como anunciou Laurie com um floreado.
"Tens muito mais princípio, generosidade e nobreza de carácter do que alguma vez te dei crédito, Amy. Comportaste-te docemente e respeito-te com todo o meu coração", disse Jo calorosamente, enquanto escovavam o cabelo juntas, tarde naquela noite.
"Sim, todos nós respeitamos, e amamo-la por estar tão pronta a perdoar. Deve ter sido terrivelmente difícil, depois de trabalhar tanto tempo e pôr o coração em vender as tuas próprias coisas bonitas. Não acredito que eu tivesse conseguido fazê-lo tão gentilmente como tu", acrescentou Beth da sua almofada.
"Ora, raparigas, não precisam de me elogiar tanto; eu apenas fiz como gostaria que fizessem comigo. Vocês riem-se de mim quando digo que quero ser uma dama, mas quero dizer uma verdadeira mulher de bem, de espírito e maneiras, e tento fazê-lo tanto quanto sei. Não consigo explicar exatamente, mas quero estar acima das pequenas mesquinhices, loucuras e defeitos que estragam tantas mulheres. Estou longe disso agora, mas faço o meu melhor e espero, a seu tempo, ser o que a mãe é."
Amy falou com sinceridade, e Jo disse, com um abraço cordial:
— Compreendo agora o que queres dizer, e nunca mais me rirei de ti. Estás a avançar mais depressa do que pensas, e vou ter lições contigo sobre verdadeira cortesia, pois acredito que descobriste o segredo. Continua a tentar, querida; hás de ter a tua recompensa um dia, e ninguém ficará mais encantada do que eu.
Uma semana depois, Amy recebeu de facto a sua recompensa, e a pobre Jo achou difícil ficar encantada. Chegou uma carta da tia Carrol, e o rosto da Sra. March iluminou-se a tal ponto, quando a leu, que Jo e Beth, que estavam com ela, perguntaram quais eram as boas novas.
— A tia Carrol vai para o estrangeiro no próximo mês, e quer...
— Que eu vá com ela! — interrompeu Jo, saltando da cadeira num arrebatamento incontrolável.
— Não, querida, não tu; é a Amy.
— Oh, mãe! Ela é demasiado nova; é a minha vez primeiro. Desejo isto há tanto tempo... far-me-ia tanto bem, e seria algo tão esplêndido... eu tenho de ir.
— Temo que seja impossível, Jo. A tia diz Amy, decididamente, e não nos cabe a nós ditar regras quando ela oferece um tal favor.
— É sempre assim. A Amy tem toda a diversão e eu tenho todo o trabalho. Não é justo, oh, não é justo! — exclamou Jo apaixonadamente.
— Receio que seja em parte culpa tua, querida. Quando a tia falou comigo no outro dia, lamentou os teus modos bruscos e o teu espírito demasiado independente; e aqui escreve ela, como se citasse algo que disseste: "Planeei primeiro convidar a Jo; mas como os 'favores a oprimem' e ela 'odeia o francês', creio que não me arriscarei a convidá-la. A Amy é mais dócil, será uma boa companhia para a Flo, e receberá com gratidão qualquer ajuda que a viagem lhe possa proporcionar."
— Oh, a minha língua, a minha língua abominável! Porque não consigo aprender a mantê-la quieta? — gemeu Jo, lembrando-se das palavras que tinham sido a sua ruína. Quando ouviu a explicação das frases citadas, a Sra. March disse com tristeza:
— Gostaria que pudesses ir, mas não há esperança disso desta vez; por isso, tenta aguentá-lo com alegria, e não entristeças o prazer da Amy com reprovações ou arrependimentos.
— Tentarei — disse Jo, piscando os olhos com força, enquanto se ajoelhava para apanhar o cesto que tinha virado alegremente. — Vou seguir o seu exemplo e tentar não apenas parecer contente, mas sê-lo, e não lhe invejar um único minuto de felicidade; mas não será fácil, pois é uma desilusão terrível — e a pobre Jo regou a pequena almofada de alfinetes gordinha que segurava com várias lágrimas muito amargas.
— Jo, querida, sou muito egoísta, mas não poderia dispensar-te, e estou contente por não ires ainda — sussurrou Beth, abraçando-a, cesto e tudo, com um toque tão apegado e um rosto tão amoroso que Jo sentiu-se confortada, apesar do profundo arrependimento que a fazia querer dar bofetadas a si própria e pedir humildemente à tia Carrol que a oprimisse com este favor, para ver com quanta gratidão ela o suportaria.
Quando Amy chegou, Jo já era capaz de participar na alegria da família; talvez não com tanta vivacidade como de costume, mas sem lamentações pela boa sorte da Amy. A jovem recebeu a notícia como um anúncio de grande alegria, andou num estado de arrebatamento solene e começou a separar as suas cores e a arrumar os seus lápis nessa noite, deixando ninharias como roupas, dinheiro e passaportes para aqueles menos absorvidos em visões de arte do que ela.
— Não é uma simples viagem de prazer para mim, raparigas — disse ela de forma impressionante, enquanto raspava a sua melhor paleta. — Irá decidir a minha carreira; pois se eu tiver algum génio, descobri-lo-ei em Roma, e farei algo para o provar.
— E se não tiveres? — disse Jo, cosendo, com os olhos vermelhos, os novos colarinhos que seriam entregues a Amy.
— Então voltarei para casa e darei aulas de desenho para ganhar a vida — respondeu a aspirante à fama, com compostura filosófica; mas fez uma careta perante a perspectiva e raspou a paleta como se estivesse decidida a tomar medidas enérgicas antes de desistir das suas esperanças.
— Não, não vais; odeias o trabalho árduo, e vais casar-te com algum homem rico, e voltar para casa para te sentares no colo do luxo todos os teus dias — disse Jo.
— As tuas previsões por vezes realizam-se, mas não acredito que essa se concretize. Tenho a certeza de que gostaria que assim fosse, pois se eu própria não puder ser artista, gostaria de poder ajudar aqueles que o são — disse Amy, sorrindo, como se o papel de Lady Bountiful lhe assentasse melhor do que o de uma pobre professora de desenho.
— Hum! — disse Jo, com um suspiro; — se o desejas, tê-lo-ás, pois os teus desejos são sempre concedidos... os meus nunca.
— Gostarias de ir? — perguntou Amy, batendo pensativamente no nariz com a faca.
— Nem queiras saber!
— Bem, dentro de um ou dois anos mandarei chamar-te, e escavaremos o Fórum em busca de relíquias, e levaremos a cabo todos os planos que fizemos tantas vezes.
— Obrigada; lembrar-te-ei da tua promessa quando esse dia feliz chegar, se é que chegará — respondeu Jo, aceitando a oferta vaga mas magnífica da forma mais grata que pôde.
Não houve muito tempo para preparativos, e a casa esteve num alvoroço até Amy partir. Jo aguentou-se muito bem até que o último movimento da fita azul desapareceu, altura em que se retirou para o seu refúgio, o sótão, e chorou até não conseguir chorar mais. Amy também se aguentou com firmeza até o vapor zarpar; então, precisamente quando a ponte de comando estava prestes a ser retirada, deu-se conta subitamente de que um oceano inteiro estaria prestes a rolar entre ela e aqueles que mais a amavam, e agarrou-se a Laurie, o último a ficar, dizendo com um soluço:
— Oh, toma conta deles por mim; e se alguma coisa acontecer...
— Eu tomarei, querida, eu tomarei; e se alguma coisa acontecer, irei consolar-te — sussurrou Laurie, sem sonhar que seria chamado a cumprir a sua palavra.
Assim, Amy navegou para encontrar o velho mundo, que é sempre novo e belo para olhos jovens, enquanto o seu pai e o seu amigo a observavam da costa, esperando fervorosamente que nada senão destinos gentis acontecessem à rapariga de coração feliz, que acenou com a mão até eles não conseguirem ver nada senão a luz do sol de verão a brilhar no mar.
XXXI.
O NOSSO CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO.
"LONDRES. "QUERIDÍSSIMAS PESSOAS,
"Aqui estou eu, sentada numa janela da frente do Bath Hotel, em Piccadilly. Não é um lugar da moda, mas o tio ficou aqui há anos e não quer ir a nenhum outro lado; no entanto, não pretendemos ficar muito tempo, por isso não é de grande importância. Oh, não posso começar a descrever-vos como desfruto de tudo isto! Nunca conseguirei, por isso dar-vos-ei apenas pedaços do meu caderno, pois não fiz nada senão desenhar e rabiscar desde que parti.
"Enviei uma linha de Halifax, quando me senti bastante miserável, mas depois disso segui de forma encantadora, raramente doente, no convés todo o dia, com muitas pessoas agradáveis para me divertir. Todos foram muito gentis comigo, especialmente os oficiais. Não te rias, Jo; os cavalheiros são realmente muito necessários a bordo do navio, para nos segurarmos, ou para nos servirem; e como não têm nada para fazer, é uma mercê torná-los úteis, caso contrário receio que fumariam até à morte.
"A tia e a Flo estiveram indispostas durante todo o caminho e gostavam de ser deixadas em paz, por isso, quando fiz o que pude por elas, fui divertir-me. Que passeios no convés, que pores-do-sol, que ar e ondas esplêndidos! Era quase tão emocionante como montar um cavalo veloz, quando íamos a correr tão grandiosamente. Gostaria que a Beth pudesse ter vindo, ter-lhe-ia feito muito bem; quanto à Jo, ela teria subido e sentado no pau da bujarrona, ou lá como se chama aquela coisa alta, ter-se-ia tornado amiga dos engenheiros e tocado a trombeta do capitão; ela teria ficado num estado de tal arrebatamento.
"Foi tudo celestial, mas fiquei contente por ver a costa irlandesa, e achei-a muito adorável, tão verde e ensolarada, com cabanas castanhas aqui e ali, ruínas em algumas das colinas, e casas de campo de cavalheiros nos vales, com veados a pastar nos parques. Era de manhã cedo, mas não me arrependi de me ter levantado para a ver, pois a baía estava cheia de pequenos barcos, a costa tão pitoresca, e um céu rosado por cima. Nunca me esquecerei disto.
"Em Queenstown, um dos meus novos conhecidos deixou-nos... o Sr. Lennox... e quando disse algo sobre os Lagos de Killarney, ele suspirou e cantou, olhando para mim:
'Oh, já ouviste falar de Kate Kearney? Ela vive nas margens de Killarney; Do olhar do seu olho, Evita o perigo e foge, Pois é fatal o olhar de Kate Kearney.'
Não foi disparatado?
"Só parámos em Liverpool por algumas horas. É um lugar sujo e barulhento, e fiquei contente por deixá-lo. O tio apressou-se a comprar um par de luvas de pele de cão, uns sapatos feios e grossos e um guarda-chuva, e fez a barba ao estilo costeleta de carneiro, logo à primeira. Depois, lisonjeou-se de que parecia um verdadeiro britânico; mas, da primeira vez que limpou a lama dos sapatos, o pequeno engraxador soube que um americano estava dentro deles e disse, com um sorriso: 'Aqui tem, senhor. Dei-lhes o brilho ianque mais recente.' Divertiu o tio imensamente. Oh, tenho de vos contar o que aquele absurdo Lennox fez! Pediu ao seu amigo Ward, que veio connosco, para encomendar um ramo de flores para mim, e a primeira coisa que vi no meu quarto foi um adorável, com 'Cumprimentos de Robert Lennox' no cartão. Não foi divertido, raparigas? Gosto de viajar.
"Nunca chegarei a Londres se não me despachar. A viagem foi como cavalgar por uma longa galeria de arte, cheia de paisagens adoráveis. As quintas eram o meu deleite; com telhados de palha, hera até aos beirais, janelas de treliça e mulheres robustas com crianças rosadas às portas. Até o gado parecia mais tranquilo do que o nosso, enquanto permanecia com os joelhos no trevo, e as galinhas tinham um cacarejar satisfeito, como se nunca ficassem nervosas, como as galinhas ianques. Nunca vi cores tão perfeitas... a erva tão verde, o céu tão azul, o cereal tão amarelo, os bosques tão escuros... estive num arrebatamento durante todo o caminho. A Flo também; e ficámos a saltar de um lado para o outro, a tentar ver tudo enquanto voávamos à velocidade de sessenta milhas por hora. A tia estava cansada e adormeceu, mas o tio leu o seu guia e não queria ficar surpreendido com nada. Foi assim que aconteceu: Amy, a voar para cima... 'Oh, aquilo deve ser Kenilworth, aquele lugar cinzento entre as árvores!' Flo, a correr para a minha janela... 'Que doce! Temos de ir lá um dia, não temos, papá?' Tio, a admirar calmamente as suas botas... 'Não, minha querida, a não ser que queiras cerveja; aquilo é uma cervejeira.'
"Uma pausa... depois Flo exclamou: 'Valha-me Deus, ali está uma forca e um homem a subir.' 'Onde, onde?' guincha Amy, a olhar fixamente para dois postes altos com uma trave e algumas correntes a balançar. 'Uma mina de carvão', observa o tio, com um brilho nos olhos. 'Aqui está um rebanho adorável de cordeiros todos deitados', diz Amy. 'Vê, papá, não são bonitos!', acrescentou Flo sentimentalmente. 'Gansos, minhas jovens', responde o tio, num tom que nos mantém quietas até Flo se acomodar para desfrutar de 'Os Flirtations do Cap. Cavendish', e eu ficar com a paisagem só para mim.
"Claro que choveu quando chegámos a Londres, e não havia nada para ver senão nevoeiro e guarda-chuvas. Descansámos, desfizemos as malas e fizemos algumas compras entre os aguaceiros. A tia Mary comprou-me algumas coisas novas, pois vim com tanta pressa que não estava sequer a meio pronta. Um chapéu branco e uma pena azul, um vestido de musselina a condizer e o manto mais adorável que alguma vez viram. Fazer compras na Regent Street é perfeitamente esplêndido; as coisas parecem tão baratas... fitas bonitas a apenas seis pence a jarda. Fiz um stock, mas comprarei as minhas luvas em Paris. Não soa de certa forma elegante e rico?
"A Flo e eu, pela diversão, encomendámos um táxi hansom, enquanto a tia e o tio estavam fora, e fomos dar um passeio, embora tenhamos aprendido mais tarde que não era apropriado para jovens senhoras andar neles sozinhas. Foi tão caricato! Pois quando fomos fechadas pelo avental de madeira, o homem conduziu tão depressa que a Flo ficou assustada e disse-me para o parar. Mas ele estava lá fora, atrás, algures, e eu não conseguia chegar até ele. Ele não ouviu o meu apelo, nem me viu agitar a minha sombrinha à frente, e lá estávamos nós, completamente indefesas, a chocalhar e a girar em esquinas a uma velocidade vertiginosa. Por fim, no meu desespero, vi uma pequena porta no tejadilho, e ao abri-la, apareceu um olho vermelho, e uma voz cheia de cerveja disse:
"'Então, senhora?'
"Dei a minha ordem tão calmamente quanto pude, e fechando a porta com estrondo, com um 'Muito bem, senhora', o homem fez o cavalo andar, como se fosse para um funeral. Tentei novamente e disse: 'Um pouco mais depressa'; então ele partiu, a galope, como antes, e resignámo-nos ao nosso destino.
"Hoje o tempo estava bom e fomos ao Hyde Park, ali perto, pois somos mais aristocráticas do que parecemos. O Duque de Devonshire vive perto. Vejo frequentemente os seus criados de libré a descansar no portão das traseiras; e a casa do Duque de Wellington não fica longe. Que visões vi, minha querida! Foi tão bom como o Punch, pois havia matronas gordas a rolar nas suas carruagens vermelhas e amarelas, com criados magníficos de meias de seda e casacos de veludo, atrás, e cocheiros de cabeleira empoada à frente. Criadas elegantes, com as crianças mais rosadas que alguma vez vi; raparigas bonitas, a parecerem meio a dormir; dândis, com chapéus ingleses estranhos e luvas de pelica cor de lavanda, a vaguear por aí, e soldados altos, em casacos vermelhos curtos e bonés de muffin enfiados de lado, parecendo tão cómicos que desejei desenhá-los.
"Rotten Row significa 'Route de Roi', ou o caminho do rei; mas agora é mais parecido com uma escola de equitação do que qualquer outra coisa. Os cavalos são esplêndidos, e os homens, especialmente os criados, montam bem; mas as mulheres são rígidas e saltam, o que não está de acordo com as nossas regras. Desejei mostrar-lhes um galope americano vertiginoso, pois elas trotavam solenemente de um lado para o outro, nos seus hábitos curtos e chapéus altos, parecendo as mulheres de uma Arca de Noé de brinquedo. Toda a gente monta... homens velhos, senhoras robustas, crianças pequenas... e os jovens flertam imenso aqui; vi um par trocar botões de rosa, pois é moda usar um na casa da lapela, e achei a ideia bastante agradável.
"À tarde fui à Abadia de Westminster; mas não esperem que a descreva, isso é impossível... por isso direi apenas que foi sublime! Esta noite vamos ver o Fechter, o que será um final apropriado para o dia mais feliz da minha vida.
"MEIA-NOITE.
"É muito tarde, mas não posso deixar que a minha carta parta de manhã sem vos contar o que aconteceu ontem à noite. Quem pensam que apareceu, enquanto tomávamos chá? Os amigos ingleses do Laurie, o Fred e o Frank Vaughn! Fiquei tão surpreendida, pois não os teria reconhecido senão pelos cartões. Ambos são rapazes altos, com suíças; o Fred é bonito ao estilo inglês, e o Frank muito melhor, pois apenas coxeia ligeiramente e não usa canadianas. Tinham ouvido do Laurie onde estaríamos, e vieram convidar-nos para a sua casa; mas o tio não quer ir, por isso retribuiremos a visita e ver-nos-emos como pudermos. Foram ao teatro connosco, e divertimo-nos imenso, pois o Frank dedicou-se à Flo, e o Fred e eu falámos sobre a diversão passada, presente e futura como se nos conhecêssemos desde sempre. Digam à Beth que o Frank perguntou por ela, e sentiu muito saber da sua saúde fraca. O Fred riu-se quando falei da Jo, e enviou os seus 'respeitosos cumprimentos ao chapéu grande'. Nenhum deles se tinha esquecido do Camp Laurence, ou da diversão que lá tivemos. Que idade parece ter, não é?
"A tia está a bater na parede pela terceira vez, por isso tenho de parar. Sinto-me realmente como uma senhora elegante de Londres, dissipada, a escrever aqui tão tarde, com o meu quarto cheio de coisas bonitas, e a minha cabeça uma mistura de parques, teatros, vestidos novos e criaturas galantes que dizem 'Ah!' e enrolam os seus bigodes loiros com a verdadeira imponência inglesa. Desejo ver-vos a todas, e apesar dos meus disparates sou, como sempre, a vossa amorosa AMY."
"QUERIDAS RAPARIGAS, "PARIS.
"Na minha última, contei-vos sobre a nossa visita a Londres... quão gentis foram os Vaughns, e que festas agradáveis fizeram para nós. Desfrutei das viagens a Hampton Court e ao Museu de Kensington mais do que tudo... pois em Hampton vi os cartoons de Rafael, e, no Museu, salas cheias de pinturas de Turner, Lawrence, Reynolds, Hogarth e as outras grandes criaturas. O dia em Richmond Park foi encantador, pois tivemos um piquenique inglês a sério, e tive mais carvalhos esplêndidos e grupos de veados do que conseguia copiar; também ouvi um rouxinol e vi cotovias a subir. 'Fizemos' Londres até ao nosso contentamento, graças ao Fred e ao Frank, e lamentámos ir embora; pois, embora os ingleses sejam lentos a acolher-nos, quando se decidem a fazê-lo, penso que não podem ser superados na hospitalidade. Os Vaughns esperam encontrar-nos em Roma no próximo inverno, e ficarei terrivelmente desapontada se não o fizerem, pois a Grace e eu somos grandes amigas, e os rapazes muito bons rapazes... especialmente o Fred.
"Bem, mal nos tínhamos estabelecido aqui, quando ele apareceu de novo, dizendo que tinha vindo para umas férias e que ia para a Suíça. A tia pareceu séria ao princípio, mas ele foi tão calmo quanto a isso que ela não pôde dizer uma palavra; e agora damo-nos muito bem, e estamos muito contentes por ele ter vindo, pois fala francês como um nativo, e não sei o que faríamos sem ele. O tio não sabe dez palavras, e insiste em falar inglês muito alto, como se isso fizesse as pessoas compreendê-lo. A pronúncia da tia é antiquada, e a Flo e eu, embora nos lisonjeássemos de saber muito, descobrimos que não sabemos, e estamos muito gratas por ter o Fred a fazer o 'parley vooing', como o tio lhe chama.
"Que tempos deliciosos estamos a passar! a ver pontos turísticos desde a manhã até à noite, a parar para almoços agradáveis nos cafés alegres e a ter todo o tipo de aventuras caricatas. Nos dias de chuva passo o tempo no Louvre, a deliciar-me com pinturas. A Jo torceria o seu nariz maroto perante algumas das melhores, porque não tem alma para a arte; mas eu tenho, e estou a cultivar o olho e o gosto o mais rápido que posso. Ela gostaria mais das relíquias de grandes pessoas, pois já vi o chapéu armado e o casaco cinzento de Napoleão, o berço do seu bebé e a sua velha escova de dentes; também o pequeno sapato de Maria Antonieta, o anel de Saint Denis, a espada de Carlos Magno e muitas outras coisas interessantes. Falarei durante horas sobre elas quando for, mas não tenho tempo para escrever.
"O Palais Royale é um lugar celestial... tão cheio de bijuteria e coisas adoráveis que estou quase louca porque não as posso comprar. O Fred quis comprar-me algumas, mas é claro que não o permiti. Depois, o Bois e os Champs Elysées são très magnifique. Já vi a família imperial várias vezes... o imperador um homem feio e de aspeto duro, a imperatriz pálida e bonita, mas vestida com mau gosto, pensei... vestido roxo, chapéu verde e luvas amarelas. O pequeno Nap. é um rapaz bonito, que se senta a conversar com o seu tutor, e beija a mão ao povo enquanto passa na sua carruagem de quatro cavalos, com postilhões em casacos de cetim vermelho, e uma guarda montada à frente e atrás.
"Caminhamos frequentemente nos Jardins das Tulherias, pois são adoráveis, embora os antigos Jardins do Luxemburgo me agradem mais. O Père la Chaise é muito curioso, pois muitos dos túmulos são como pequenas salas, e, ao espreitar, vê-se uma mesa, com imagens ou pinturas dos mortos, e cadeiras para os enlutados se sentarem quando vêm lamentar. Isso é tão francês."
"Os nossos quartos ficam na Rue de Rivoli e, sentados na varanda, olhamos para cima e para baixo ao longo da rua comprida e brilhante. É tão agradável que passamos as nossas noites a conversar ali, quando estamos demasiado cansados do trabalho do dia para sair. O Fred é muito divertido e é, ao todo, o jovem mais agradável que alguma vez conheci — exceto o Laurie, cujos modos são mais encantadores. Gostava que o Fred fosse moreno, pois não aprecio homens claros; contudo, os Vaughns são muito ricos e vêm de uma excelente família, por isso não vou criticar o seu cabelo amarelo, já que o meu é mais amarelo ainda.
"Na próxima semana partimos para a Alemanha e Suíça; e, como viajaremos depressa, só poderei enviar-te cartas apressadas. Mantenho o meu diário e tento 'recordar corretamente e descrever com clareza tudo o que vejo e admiro', como o pai aconselhou. É um bom exercício para mim e, com o meu caderno de esboços, dar-te-á uma melhor ideia da minha viagem do que estes rabiscos.
"Adeus; abraço-te ternamente. VOTRE AMIE."
"MINHA QUERIDA MAMÃ, — HEIDELBERG.
"Tendo uma hora tranquila antes de partirmos para Berna, vou tentar contar-te o que aconteceu, pois parte disso é muito importante, como verás.
"A viagem pelo Reno foi perfeita, e eu limitei-me a sentar-me e a desfrutá-la com todas as minhas forças. Pega nos antigos guias do pai e lê sobre isso; não tenho palavras suficientemente belas para descrevê-lo. Em Coblentz passámos um tempo adorável, pois alguns estudantes de Bonn, com quem o Fred se tornou conhecido no barco, deram-nos uma serenata. Era uma noite de luar e, por volta da uma da manhã, a Flo e eu fomos acordadas pela música mais deliciosa debaixo das nossas janelas. Voámos da cama e escondemo-nos atrás das cortinas; mas olhares furtivos mostraram-nos o Fred e os estudantes a cantar lá em baixo. Foi a coisa mais romântica que alguma vez vi — o rio, a ponte de barcos, a grande fortaleza em frente, luar por toda a parte e música capaz de derreter um coração de pedra.
"Quando terminaram, atirámos algumas flores e vimo-los lutar por elas, beijar as mãos às senhoras invisíveis e afastar-se a rir — para fumar e beber cerveja, suponho. Na manhã seguinte, o Fred mostrou-me uma das flores amarrotadas no bolso do seu colete e parecia muito sentimental. Ri-me dele e disse que não tinha sido eu a atirá-la, mas a Flo, o que pareceu desgostá-lo, pois atirou-a pela janela e voltou a ser sensato. Receio que vou ter problemas com aquele rapaz, começa a parecer que sim.
"Os banhos em Nassau eram muito animados, tal como Baden-Baden, onde o Fred perdeu algum dinheiro e eu repreendi-o. Ele precisa de alguém que tome conta dele quando o Frank não está com ele. A Kate disse uma vez que esperava que ele casasse em breve, e concordo inteiramente com ela que seria bom para ele. Frankfurt foi encantadora; vi a casa de Goethe, a estátua de Schiller e a famosa 'Ariadne' de Dannecker. Era muito bonita, mas teria desfrutado mais se conhecesse melhor a história. Não gostei de perguntar, pois todos a conheciam, ou fingiam que conheciam. Gostava que a Jo me contasse tudo sobre ela; devia ter lido mais, pois descubro que não sei nada, e isso mortifica-me.
"Agora vem a parte séria — pois aconteceu aqui, e o Fred acabou de partir. Ele tem sido tão amável e alegre que todos ganhámos um grande carinho por ele; nunca pensei em nada além de uma amizade de viagem, até à noite da serenata. Desde então, comecei a sentir que os passeios ao luar, as conversas na varanda e as aventuras diárias eram algo mais para ele do que apenas diversão. Não flertei, mãe, a sério, mas lembrei-me do que me disseste e fiz o meu melhor. Não posso evitar se as pessoas gostam de mim; não tento fazer com que gostem, e isso preocupa-me se eu não me importar com elas, embora a Jo diga que não tenho coração. Agora sei que a mãe vai abanar a cabeça e as raparigas dirão: 'Oh, a pequena miserável interesseira!', mas tomei a minha decisão e, se o Fred me pedir, aceitarei-o, embora não esteja perdidamente apaixonada. Gosto dele e damo-nos confortavelmente bem. Ele é bonito, jovem, inteligente o suficiente e muito rico — muito mais rico do que os Laurences. Não creio que a sua família se opusesse, e eu seria muito feliz, pois são todos pessoas gentis, bem-educadas e generosas, e gostam de mim. O Fred, como o gémeo mais velho, herdará a propriedade, suponho, e que propriedade esplêndida é! Uma casa na cidade numa rua elegante, não tão vistosa como as nossas casas grandes, mas duas vezes mais confortável e cheia de luxo sólido, tal como os ingleses acreditam. Gosto disso, pois é genuíno. Vi a prataria, as joias de família, os criados antigos e as fotografias da casa de campo, com o seu parque, a grande residência, os jardins adoráveis e os belos cavalos. Oh, seria tudo o que eu pediria! E preferiria isso a qualquer título que as raparigas agarram tão facilmente, para depois não encontrarem nada por trás. Posso ser interesseira, mas detesto a pobreza e não pretendo suportá-la um minuto a mais do que o necessário. Uma de nós tem de casar bem; a Meg não casou, a Jo não casará, a Beth ainda não pode, por isso eu fá-lo-ei e tornarei tudo acolhedor para todos. Não casaria com um homem que odiasse ou desprezasse. Podes ter a certeza disso; e, embora o Fred não seja o meu herói modelo, ele serve perfeitamente e, com o tempo, eu tornar-me-ia bastante afeiçoada a ele se ele fosse muito afeiçoado a mim e me deixasse fazer exatamente o que quisesse. Por isso, tenho matutado sobre o assunto na última semana, pois era impossível não ver que o Fred gostava de mim. Ele não disse nada, mas pequenas coisas mostraram-no; ele nunca vai com a Flo, coloca-se sempre do meu lado na carruagem, à mesa ou no passeio, parece sentimental quando estamos a sós e franze o sobrolho a qualquer outra pessoa que se atreva a falar comigo. Ontem, ao jantar, quando um oficial austríaco ficou a olhar para nós e depois disse algo ao seu amigo — um barão com ar de libertino — sobre 'ein wonderschönes Blöndchen', o Fred pareceu feroz como um leão e cortou a sua carne com tal selvajaria que quase voou do prato. Ele não é um daqueles ingleses frios e rígidos, mas é bastante irascível, pois tem sangue escocês, como se poderia adivinhar pelos seus lindos olhos azuis.
"Bem, ontem à noite subimos ao castelo por volta do pôr do sol — pelo menos todos nós, exceto o Fred, que se iria encontrar connosco lá depois de ir à Post Restante buscar as cartas. Tivemos um tempo encantador a espreitar as ruínas, as abóbadas onde está o tonel gigante e os belos jardins feitos pelo eleitor, há muito tempo, para a sua esposa inglesa. Gostei mais do grande terraço, pois a vista era divina; por isso, enquanto os outros foram ver os quartos lá dentro, sentei-me ali a tentar esboçar a cabeça de leão de pedra cinzenta na parede, com ramos de madressilva escarlate pendurados à volta. Sentia-me como se tivesse entrado num romance, sentada ali, a ver o Neckar a correr pelo vale, a ouvir a música da banda austríaca lá em baixo e à espera do meu amado, como uma verdadeira rapariga de livro de histórias. Tive a sensação de que algo ia acontecer e estava preparada para tal. Não me senti corada nem trémula, mas bastante calma e apenas um pouco excitada.
"Pouco depois ouvi a voz do Fred e ele veio a correr através do grande arco para me encontrar. Parecia tão perturbado que me esqueci de tudo sobre mim própria e perguntei o que se passava. Ele disse que tinha acabado de receber uma carta a implorar-lhe que voltasse para casa, pois o Frank estava muito doente; por isso, ele ia partir imediatamente, no comboio da noite, e só teve tempo para se despedir. Fiquei muito triste por ele e desapontada por mim própria, mas apenas por um minuto, porque ele disse, enquanto apertava a minha mão — e disse-o de uma forma que eu não podia confundir —: 'Voltarei em breve; não me vais esquecer, Amy?'
"Não prometi, mas olhei para ele, e ele pareceu satisfeito, e não houve tempo para nada além de recados e despedidas, pois ele partiu numa hora, e todos sentimos muito a sua falta. Sei que ele queria falar, mas penso, por algo que ele uma vez deixou entender, que tinha prometido ao pai não fazer nada do género ainda por algum tempo, pois ele é um rapaz impetuoso e o velho senhor teme uma nora estrangeira. Em breve encontrar-nos-emos em Roma; e então, se eu não mudar de ideias, direi 'Sim, obrigada', quando ele disser 'Queres, por favor?'
"Claro que isto é tudo muito privado, mas queria que soubesses o que se passava. Não fiques ansiosa por mim; lembra-te de que sou a tua 'prudente Amy' e tem a certeza de que não farei nada de forma precipitada. Envia-me todos os conselhos que quiseres; usá-los-ei se puder. Gostava de te ver para uma boa conversa, Marmee. Ama-me e confia em mim.
"Sempre tua, AMY."
XXXII.
TRIBULAÇÕES TERNAS.
"Jo, estou preocupada com a Beth."
"Porquê, mãe? Ela tem parecido invulgarmente bem desde que os bebés chegaram."
"Não é a saúde dela que me preocupa agora; é o seu espírito. Tenho a certeza de que algo lhe vai na mente, e quero que descubras o que é."
"O que te faz pensar isso, mãe?"
"Ela senta-se sozinha muitas vezes e não conversa com o pai tanto como costumava. Encontrei-a a chorar sobre os bebés no outro dia. Quando canta, as canções são sempre tristes, e de vez em quando vejo um olhar no seu rosto que não compreendo. Isto não é próprio da Beth, e preocupa-me."
"Já lhe perguntaste sobre isso?"
"Tentei uma ou duas vezes; mas ela ou evitou as minhas perguntas, ou olhou tão angustiada que parei. Nunca forço a confiança dos meus filhos, e raramente tenho de esperar muito por ela."
A Sra. March olhou para a Jo enquanto falava, mas o rosto à sua frente parecia completamente inconsciente de qualquer inquietação secreta, exceto a da Beth; e, após coser pensativamente durante um minuto, a Jo disse:
"Penso que ela está a crescer e, por isso, começa a sonhar sonhos e a ter esperanças, receios e inquietações, sem saber porquê ou sem ser capaz de os explicar. Ora, mãe, a Beth tem dezoito anos, mas nós não nos apercebemos disso e tratamo-la como uma criança, esquecendo que é uma mulher."
"Pois é. Querida, como cresces depressa", respondeu a mãe, com um suspiro e um sorriso.
"Não se pode evitar, Marmee, por isso tens de te resignar a todo o tipo de preocupações e deixar os teus passarinhos saltar para fora do ninho, um a um. Prometo nunca saltar muito longe, se isso for algum conforto para ti."
"É um grande conforto, Jo; sinto-me sempre forte quando estás em casa, agora que a Meg se foi. A Beth é demasiado frágil e a Amy demasiado nova para depender delas; mas quando o momento difícil chega, estás sempre pronta."
"Ora, sabes que não me importo muito com trabalhos duros, e tem de haver sempre alguém para as limpezas numa família. A Amy é esplêndida em trabalhos finos, e eu não; mas sinto-me no meu elemento quando todos os tapetes têm de ser levantados, ou metade da família adoece de uma vez. A Amy está a distinguir-se no estrangeiro; mas se algo corre mal em casa, sou a tua pessoa."
"Deixo a Beth nas tuas mãos, então, pois ela abrirá o seu tenro coraçãozinho à sua Jo mais depressa do que a qualquer outra pessoa. Sê muito gentil e não a deixes pensar que alguém a vigia ou fala sobre ela. Se ela apenas voltasse a ficar completamente forte e alegre, eu não teria mais nenhum desejo no mundo."
"Mulher feliz! Eu tenho montes deles."
"Minha querida, quais são?"
"Vou resolver as aflições da Bethy e depois conto-te as minhas. Não são muito desgastantes, por isso podem esperar"; e a Jo continuou a coser, com um aceno sábio que descansou o coração da mãe sobre ela, pelo menos por agora.
Enquanto aparentemente absorvida nos seus próprios assuntos, a Jo observava a Beth; e, após muitas conjeturas contraditórias, decidiu-se finalmente por uma que parecia explicar a mudança nela. Um pequeno incidente deu à Jo a pista para o mistério, pensou ela, e a fantasia viva e o coração amoroso fizeram o resto. Ela estava a fingir escrever ocupadamente numa tarde de sábado, quando ela e a Beth estavam sozinhas; contudo, enquanto rabiscava, mantinha o olho na irmã, que parecia invulgarmente sossegada. Sentada à janela, o trabalho da Beth caía frequentemente no seu colo, e ela apoiava a cabeça na mão, numa atitude abatida, enquanto os olhos repousavam na paisagem outonal baça. De repente, alguém passou lá em baixo, assobiando como um melro operático, e uma voz chamou:
"Tudo sereno! Venho cá hoje à noite."
A Beth sobressaltou-se, inclinou-se para a frente, sorriu e acenou, observou o transeunte até que o seu passo rápido se desvaneceu, depois disse suavemente, como se para si mesma:
"Como aquele querido rapaz parece forte, saudável e feliz."
"Hum!", disse a Jo, ainda atenta ao rosto da irmã; pois a cor viva desvaneceu-se tão rapidamente como surgiu, o sorriso desapareceu e, pouco depois, uma lágrima brilhava no parapeito da janela. A Beth limpou-a rapidamente e olhou apreensiva para a Jo; mas esta estava a riscar papel a uma velocidade tremenda, aparentemente absorta em "O Juramento de Olímpia". No instante em que a Beth se virou, a Jo começou a sua vigilância novamente, viu a mão da Beth ir silenciosamente aos olhos mais de uma vez e, no seu rosto meio virado, leu uma tristeza terna que fez os seus próprios olhos encherem-se. Com medo de se trair, ela escapou-se, murmurando algo sobre precisar de mais papel.
"Valha-me Deus, a Beth ama o Laurie!", disse ela, sentando-se no seu próprio quarto, pálida com o choque da descoberta que acreditava ter acabado de fazer. "Nunca sonhei com tal coisa. O que dirá a mãe? Pergunto-me se ele..." ali a Jo parou e ficou escarlate com um pensamento súbito. "Se ele não corresponder, quão terrível seria. Ele tem de corresponder; eu farei com que corresponda!", e abanou a cabeça ameaçadoramente para o retrato do rapaz de ar travesso que se ria dela na parede. "Oh, céus, estamos a crescer com toda a força. Aqui está a Meg casada e mãe, a Amy a triunfar em Paris e a Beth apaixonada. Sou a única que tem juízo suficiente para se manter longe de sarilhos." A Jo pensou intensamente durante um minuto, com os olhos fixos na imagem; depois alisou a testa enrugada e disse, com um aceno decidido ao rosto oposto: "Não, obrigada, senhor; és muito encantador, mas não tens mais estabilidade do que um cata-vento; por isso não precisas de escrever notas comoventes e sorrir dessa forma insinuante, pois não servirá de nada e eu não o permitirei."
Depois suspirou e mergulhou num devaneio, do qual não despertou até que o início do crepúsculo a levou a descer para fazer novas observações, que apenas confirmaram a sua suspeita. Embora o Laurie flirtasse com a Amy e brincasse com a Jo, a sua maneira de tratar a Beth tinha sido sempre peculiarmente gentil e doce, mas assim era a de toda a gente; por isso, ninguém pensou em imaginar que ele se importasse mais com ela do que com as outras. De facto, uma impressão geral tinha prevalecido na família, ultimamente, de que o "nosso rapaz" estava a ficar mais afeiçoado do que nunca à Jo, que, contudo, não queria ouvir uma palavra sobre o assunto e ralhava violentamente se alguém se atrevesse a sugeri-lo. Se tivessem conhecido as várias passagens ternas do último ano, ou melhor, tentativas de passagens ternas que tinham sido cortadas pela raiz, teriam tido a imensa satisfação de dizer: "Eu bem dizia". Mas a Jo detestava "paparicos" e não os permitia, tendo sempre uma piada ou um sorriso prontos ao menor sinal de perigo iminente.
Quando o Laurie foi para a faculdade pela primeira vez, apaixonava-se cerca de uma vez por mês; mas estas pequenas chamas eram tão breves quanto ardentes, não causavam danos e divertiam muito a Jo, que se interessava imenso pelas alternâncias de esperança, desespero e resignação, que lhe eram confiadas nas suas conferências semanais. Mas chegou um tempo em que o Laurie deixou de adorar em muitos altares, deu pistas obscuras sobre uma paixão absorvente e entregou-se ocasionalmente a ataques de melancolia byroniana. Então, ele evitava completamente o tema terno, escrevia notas filosóficas à Jo, tornou-se estudioso e anunciou que ia "trabalhar arduamente", com a intenção de se formar num brilho de glória. Isto agradava mais à jovem do que confidências ao crepúsculo, apertos ternos de mão e olhares eloquentes; pois, com a Jo, o cérebro desenvolveu-se mais cedo do que o coração, e ela preferia heróis imaginários a heróis reais, porque, quando se cansava deles, os primeiros podiam ser fechados na cozinha de lata até serem chamados, e os últimos eram menos controláveis.
As coisas estavam neste estado quando a grande descoberta foi feita, e a Jo observou o Laurie naquela noite como nunca o tinha feito antes. Se ela não tivesse colocado a nova ideia na cabeça, não teria visto nada de invulgar no facto de a Beth estar muito sossegada e o Laurie ser muito gentil com ela. Mas, tendo dado rédea solta à sua fantasia viva, esta galopou com ela a grande velocidade; e o bom senso, estando algo enfraquecido por um longo curso de escrita de romances, não veio em seu socorro. Como de costume, a Beth estava deitada no sofá e o Laurie estava sentado numa cadeira baixa ao lado, divertindo-a com todo o tipo de mexericos; pois ela dependia da sua "conversa" semanal, e ele nunca a desapontava. Mas naquela noite, a Jo imaginou que os olhos da Beth pousavam no rosto vivo e moreno ao seu lado com um prazer peculiar, e que ela ouvia com intenso interesse o relato de um emocionante jogo de críquete, embora as frases, "apanhado após um toque", "eliminado fora da base" e "o golpe de perna por três", fossem tão inteligíveis para ela como o sânscrito. Ela também imaginou, tendo posto o seu coração em vê-lo, que viu um certo aumento de gentileza na maneira do Laurie, que ele baixava a voz de vez em quando, ria menos do que o habitual, estava um pouco distraído e arranjava a manta sobre os pés da Beth com uma assiduidade que era realmente quase terna.
"Quem sabe? Coisas mais estranhas já aconteceram", pensou a Jo, enquanto andava de um lado para o outro na sala. "Ela fará dele um anjo, e ele tornará a vida deliciosamente fácil e agradável para a querida, se ao menos se amarem um ao outro. Não vejo como ele possa evitar; e acredito mesmo que ele o faria se o resto de nós estivesse fora do caminho."
Como toda a gente estava fora do caminho, exceto ela, a Jo começou a sentir que devia dispor-se a si mesma com toda a rapidez. Mas para onde iria ela? E ardendo de vontade de se colocar no altar da devoção fraternal, sentou-se para resolver esse ponto.
Ora, o velho sofá era um verdadeiro patriarca dos sofás — comprido, largo, bem almofadado e baixo; um pouco gasto, como bem poderia ser, pois as raparigas tinham dormido e estendido nele como bebés, pescado por cima das costas, cavalgado nos braços, tido coleções de animais debaixo dele como crianças, e descansado as cabeças cansadas, sonhado sonhos e ouvido conversas ternas nele como jovens mulheres. Todas elas o amavam, pois era um refúgio familiar, e um canto tinha sido sempre o lugar favorito de descanso da Jo. Entre as muitas almofadas que adornavam o venerável sofá havia uma, dura, redonda, coberta de crina de cavalo espinhosa e provida de um botão nodoso em cada extremidade; esta almofada repulsiva era a sua propriedade especial, sendo usada como arma de defesa, barricada ou um severo preventivo de demasiado sono.
O Laurie conhecia bem esta almofada e tinha motivos para a considerar com profunda aversão, tendo sido impiedosamente esmurrado com ela em tempos idos, quando as brincadeiras eram permitidas, e agora frequentemente impedido por ela de ocupar o lugar que mais cobiçava, ao lado da Jo no canto do sofá. Se "a salsicha", como lhe chamavam, estivesse de pé, era um sinal de que ele podia aproximar-se e repousar; mas se estivesse estendida ao longo do sofá, ai do homem, mulher ou criança que se atrevesse a perturbá-la! Naquela noite, a Jo esqueceu-se de barricar o seu canto e não estava sentada há cinco minutos quando uma forma maciça apareceu ao seu lado e, com ambos os braços estendidos sobre as costas do sofá e ambas as pernas compridas esticadas à sua frente, o Laurie exclamou, com um suspiro de satisfação:
"Bem, isto é compensador pelo preço."
"Nada de gírias", cortou a Jo, batendo com a almofada. Mas era tarde demais, não havia espaço para ela; e, deslizando para o chão, desapareceu de uma forma bastante misteriosa.
— Vamos, Jo, não sejas espinhosa. Depois de estudar até ficar em pele e osso durante toda a semana, um sujeito merece ser mimado, e deveria sê-lo.
— A Beth vai mimar-te; eu estou ocupada.
— Não, não se deve incomodá-la comigo; mas tu gostas desse tipo de coisas, a não ser que tenhas perdido subitamente o gosto por elas. Perdeste? Odeias o teu rapaz e queres atirar-lhe almofadas?
Dificilmente se ouviria algo mais insinuante do que esse apelo comovente, mas Jo reprimiu "o seu rapaz" voltando-se para ele com a pergunta severa:
— Quantos ramos de flores enviaste à menina Randal esta semana?
— Nem um, garanto-te. Ela está noiva. Toma lá.
— Ainda bem; essa é uma das tuas extravagâncias tolas — enviar flores e coisas a raparigas por quem não te interessas nem um pouco — continuou Jo, em tom de censura.
— As raparigas sensatas, por quem me interesso bastante, não me deixam enviar-lhes "flores e coisas", por isso, que posso eu fazer? Os meus sentimentos têm de ter uma saída.
— A mãe não aprova os flirts, nem a brincar; e tu fazes flirt desesperadamente, Teddy.
— Daria tudo para poder responder: "Tu também". Como não posso, direi apenas que não vejo mal nenhum nesse pequeno jogo agradável, se todas as partes compreenderem que não passa de uma brincadeira.
— Bem, parece agradável, mas não consigo aprender como se faz. Tentei, porque uma sente-se desajeitada em sociedade ao não fazer o que todos os outros fazem; mas não parece resultar — disse Jo, esquecendo-se de fazer de Mentor.
— Tem lições com a Amy; ela tem um talento nato para isso.
— Sim, ela faz isso muito graciosamente e nunca parece ir longe demais. Suponho que seja natural para algumas pessoas agradar sem esforço, e para outras dizer e fazer sempre a coisa errada no lugar errado.
— Ainda bem que não sabes fazer flirt; é realmente refrescante ver uma rapariga sensata e direta, que consegue ser alegre e gentil sem se fazer de parva. Entre nós, Jo, algumas das raparigas que conheço comportam-se de uma maneira que me envergonha. Não têm intenção de fazer mal, tenho a certeza; mas se soubessem como nós, rapazes, falamos delas depois, acho que mudariam de hábitos.
— Elas fazem o mesmo; e, como as suas línguas são as mais afiadas, vocês, rapazes, saem a perder, porque são tão tolos como elas, em tudo. Se se comportassem como deve ser, elas também se comportariam; mas, como sabem que gostam das suas parvoíces, elas continuam, e depois vocês culpam-nas.
— Sabes muito sobre o assunto, minha senhora — disse Laurie, num tom de superioridade. — Nós não gostamos de raparigas desinibidas e namoradeiras, embora possamos agir como se gostássemos, por vezes. As raparigas bonitas e modestas nunca são tema de conversa, a não ser com respeito, entre cavalheiros. Deus te abençoe, alma inocente! Se pudesses estar no meu lugar por um mês, verias coisas que te surpreenderiam um pouco. Garanto-te, quando vejo uma dessas raparigas tresloucadas, tenho sempre vontade de dizer, como o nosso amigo Cock Robin:
— "Fora daqui, fora daqui, Rapariga descarada!"
Era impossível não rir do conflito engraçado entre a relutância cavalheiresca de Laurie em falar mal do género feminino e a sua aversão muito natural pela tolice pouco feminina da qual a sociedade elegante lhe mostrava muitos exemplares. Jo sabia que o "jovem Laurence" era considerado um partido muito elegível pelas mães mundanas, era muito bem visto pelas suas filhas e suficientemente bajulado por senhoras de todas as idades para se tornar um vaidoso; por isso, observava-o com bastante ciúme, receando que ele se estragasse, e alegrou-se mais do que confessou ao descobrir que ele ainda acreditava em raparigas modestas. Voltando subitamente ao seu tom de admoestação, ela disse, baixando a voz: — Se tens de ter uma "saída", Teddy, vai e dedica-te a uma das "raparigas bonitas e modestas" que respeitas, e não desperdices o teu tempo com as tolas.
— Aconselhas mesmo isso? — e Laurie olhou para ela com uma mistura estranha de ansiedade e alegria no rosto.
— Sim, aconselho; mas, no fundo, era melhor esperares até terminares a universidade e preparares-te para o teu lugar entretanto. Não és metade bom o suficiente para... bem, seja quem for a tal rapariga modesta — e Jo também pareceu um pouco estranha, pois um nome quase lhe escapou.
— Isso não sou! — concordou Laurie, com uma expressão de humildade bastante nova para ele, enquanto baixava os olhos e enrolava distraidamente a borla do avental de Jo no seu dedo.
"Valha-me Deus, isto não pode continuar", pensou Jo; acrescentando em voz alta: — Vai cantar para mim. Estou a morrer por um pouco de música e gosto sempre da tua.
— Preferia ficar aqui, obrigado.
— Bem, não podes; não há espaço. Vai e torna-te útil, já que és demasiado grande para ser um enfeite. Pensei que detestasses estar preso às saias de uma mulher? — retorquiu Jo, citando certas palavras rebeldes dele próprio.
— Ah, isso depende de quem usa o avental! — e Laurie deu um puxão audacioso na borla.
— Vais-te embora? — perguntou Jo, mergulhando em busca da almofada.
Ele fugiu imediatamente e, no minuto em que se ouviu bem o "Up with the bonnets of bonnie Dundee", ela escapou-se, para não voltar até que o jovem cavalheiro tivesse partido, furioso.
Jo ficou muito tempo acordada naquela noite e estava quase a adormecer quando o som de um soluço abafado a fez voar para a cabeceira de Beth, com a pergunta ansiosa: — O que é, querida?
— Pensei que estivesses a dormir — soluçou Beth.
— É a dor antiga, minha preciosidade?
— Não; é uma nova; mas consigo suportá-la — e Beth tentou conter as lágrimas.
— Conta-me tudo, e deixa-me curá-la como tantas vezes curei a outra.
— Não consegues; não há cura. — Aí a voz de Beth falhou e, agarrando-se à irmã, ela chorou tão desesperadamente que Jo ficou assustada.
— Onde é? Devo chamar a mãe?
Beth não respondeu à primeira pergunta; mas, no escuro, uma das suas mãos foi involuntariamente ao coração, como se a dor fosse ali; com a outra, segurou Jo com firmeza, sussurrando ansiosamente: — Não, não, não a chames, não lhe contes. Ficarei melhor em breve. Deita-te aqui e faz festas na minha cabeça. Vou ficar quieta e dormir; juro que vou.
Jo obedeceu; mas enquanto a sua mão ia e vinha suavemente sobre a testa quente e as pálpebras húmidas de Beth, o seu coração estava muito cheio e ela ansiava por falar. Mas, por mais jovem que fosse, Jo tinha aprendido que os corações, tal como as flores, não podem ser manuseados com brusquidão, mas têm de se abrir naturalmente; por isso, embora acreditasse conhecer a causa da nova dor de Beth, disse apenas, no seu tom mais terno: — Há algo que te preocupa, querida?
— Sim, Jo — após uma longa pausa.
— Não te consolaria contar-me o que é?
— Não agora, ainda não.
— Então não vou perguntar; mas lembra-te, Bethy, de que a mãe e a Jo estão sempre dispostas a ouvir-te e a ajudar-te, se puderem.
— Eu sei. Contar-te-ei mais tarde.
— A dor está melhor agora?
— Oh, sim, muito melhor; és tão reconfortante, Jo!
— Vai dormir, querida; eu fico contigo.
Então, face a face, adormeceram e, no dia seguinte, Beth parecia ser ela própria outra vez; pois, aos dezoito anos, nem as cabeças nem os corações doem por muito tempo, e uma palavra carinhosa pode medicar a maioria dos males.
Mas Jo tinha tomado uma decisão e, após ponderar um projeto durante alguns dias, confiou-o à mãe.
— Perguntaste-me outro dia quais eram os meus desejos. Vou contar-te um deles, Marmee — começou ela, enquanto estavam sentadas a sós. — Quero ir para algum lado este inverno, para mudar de ares.
— Porquê, Jo? — e a sua mãe olhou para cima rapidamente, como se as palavras sugerissem um duplo sentido.
Com os olhos no seu trabalho, Jo respondeu seriamente: — Quero algo novo; sinto-me inquieta e ansiosa por ver, fazer e aprender mais do que estou a aprender. Penso demasiado nos meus próprios assuntos insignificantes e preciso de ser estimulada, por isso, como posso ser dispensada este inverno, gostaria de dar um pequeno salto e experimentar as minhas asas.
— Onde vais saltar?
— Para Nova Iorque. Tive uma ideia brilhante ontem, e é esta. Sabes que a Sra. Kirke te escreveu a pedir uma pessoa jovem e respeitável para ensinar os seus filhos e costurar. É um pouco difícil encontrar exatamente a coisa certa, mas acho que eu serviria se tentasse.
— Minha querida, ir trabalhar para aquela grande casa de hóspedes! — e a Sra. March pareceu surpreendida, mas não desagradada.
— Não é exatamente ir trabalhar; pois a Sra. Kirke é tua amiga — a alma mais bondosa que já existiu — e sei que tornaria as coisas agradáveis para mim. A sua família está separada do resto e ninguém me conhece lá. Não me importo se conhecerem; é trabalho honesto e não me envergonho dele.
— Nem eu; mas e a tua escrita?
— Ficará ainda melhor com a mudança. Vou ver e ouvir coisas novas, obter ideias novas e, mesmo que não tenha muito tempo lá, trarei para casa quantidades de material para as minhas "tralhas".
— Não tenho dúvidas disso; mas são estas as tuas únicas razões para este capricho repentino?
— Não, mãe.
— Posso saber as outras?
Jo olhou para cima e Jo olhou para baixo, depois disse lentamente, com um rubor súbito nas faces: — Pode ser vaidoso e errado dizer isto, mas... tenho medo de que o Laurie esteja a ficar demasiado afeiçoado a mim.
— Então não gostas dele da maneira que é evidente que ele começa a gostar de ti? — e a Sra. March pareceu ansiosa ao fazer a pergunta.
— Piedade, não! Adoro o querido rapaz, como sempre adorei, e sinto um orgulho imenso nele; mas, quanto a qualquer outra coisa, está fora de questão.
— Fico feliz por isso, Jo.
— Porquê, por favor?
— Porque, querida, não acho que sejam feitos um para o outro. Como amigos, são muito felizes e as vossas frequentes zangas passam depressa; mas temo que ambos se rebelassem se estivessem unidos para a vida. São demasiado parecidos e demasiado amantes da liberdade, para não mencionar os temperamentos explosivos e as vontades fortes, para se darem bem juntos, numa relação que exige infinita paciência e tolerância, para além do amor.
— É exatamente esse o sentimento que eu tinha, embora não o conseguisse expressar. Fico feliz por achares que ele só começou agora a gostar de mim. Preocupar-me-ia imenso fazê-lo infeliz; pois não me poderia apaixonar pelo querido rapaz apenas por gratidão, pois não?
— Tens a certeza dos sentimentos dele por ti?
A cor aprofundou-se nas faces de Jo, enquanto ela respondia, com o olhar de prazer, orgulho e dor misturados que as jovens têm ao falar dos primeiros amores:
— Receio que seja assim, mãe; ele não disse nada, mas olha muito. Acho que é melhor eu ir embora antes que isto dê em alguma coisa.
— Concordo contigo e, se for possível arranjar, vais.
Jo pareceu aliviada e, após uma pausa, disse, sorrindo: — Como a Sra. Moffat se admiraria com a tua falta de planeamento, se soubesse; e como ela se alegrará por saber que a Annie ainda pode ter esperança.
— Ah, Jo, as mães podem diferir na sua forma de educar, mas a esperança é a mesma em todas — o desejo de ver os seus filhos felizes. A Meg é-o, e estou contente com o seu sucesso. A ti, deixo-te gozar a tua liberdade até te cansares dela; pois só então descobrirás que existe algo mais doce. A Amy é a minha maior preocupação agora, mas o seu bom senso ajudá-la-á. Quanto à Beth, não alimento esperanças, a não ser que ela fique boa. A propósito, ela parece mais animada nestes últimos dias. Falaste com ela?
— Sim; ela confessou que tinha um problema e prometeu contar-me mais tarde. Não disse mais nada, pois acho que sei o que é; — e Jo contou a sua pequena história.
A Sra. March abanou a cabeça e não teve uma visão tão romântica do caso, mas pareceu séria e repetiu a sua opinião de que, pelo bem de Laurie, Jo deveria ir embora por algum tempo.
— Não digamos nada a ele até o plano estar decidido; depois, fugirei antes que ele possa recuperar o juízo e ser dramático. A Beth deve pensar que vou para meu próprio prazer, como é o caso, pois não consigo falar do Laurie com ela; mas ela pode mimá-lo e consolá-lo depois de eu ir embora, e assim curá-lo desta noção romântica. Ele já passou por tantos pequenos dissabores do género, está habituado a isso e em breve superará a sua melancolia amorosa.
Jo falou com esperança, mas não se conseguiu livrar do pressentimento de que este "pequeno dissabor" seria mais difícil do que os outros e que Laurie não superaria a sua "melancolia amorosa" tão facilmente como até então.
O plano foi discutido num conselho de família e aprovado; pois a Sra. Kirke aceitou alegremente a Jo e prometeu tornar o lugar numa casa agradável para ela. O ensino torná-la-ia independente; e o pouco tempo livre que conseguisse poderia ser aproveitado para escrever, enquanto os novos cenários e a sociedade seriam úteis e agradáveis. Jo gostou da perspetiva e estava ansiosa por partir, pois o ninho familiar estava a tornar-se demasiado estreito para a sua natureza inquieta e espírito aventureiro. Quando tudo ficou decidido, com medo e tremor, ela contou a Laurie; mas, para sua surpresa, ele aceitou muito calmamente. Ele tinha estado mais sério do que o habitual ultimamente, mas muito agradável; e, quando jocosamente acusado de mudar de vida, respondeu seriamente: — É verdade; e pretendo que esta mudança dure.
Jo sentiu-se muito aliviada por um dos seus ataques de virtude ter surgido precisamente naquela altura, e fez os seus preparativos com o coração mais leve — pois a Beth parecia mais alegre — e esperava estar a fazer o melhor por todos.
— Uma coisa deixo aos teus cuidados especiais — disse ela, na noite antes de partir.
— Referes-te aos teus papéis? — perguntou Beth.
— Não, ao meu rapaz. Sê muito boa para ele, não serás?
— Claro que serei; mas não posso ocupar o teu lugar e ele sentir-te-á muita falta.
— Não lhe fará mal; por isso, lembra-te, deixo-o ao teu encargo, para o provocar, mimar e manter na ordem.
— Farei o meu melhor, por ti — prometeu Beth, perguntando-se por que razão Jo olhava para ela de forma tão estranha.
Quando Laurie se despediu, sussurrou significativamente: — Não valerá de nada, Jo. Estou de olho em ti; por isso tem cuidado com o que fazes, ou virei buscar-te e trazer-te para casa.
XXXIII.
DIÁRIO DE JO.
"NOVA IORQUE, novembro.
"QUERIDA MARMEE E BETH, —
"Vou escrever-vos um volume regular, pois tenho muito para contar, embora não seja uma jovem distinta a viajar pelo continente. Quando perdi de vista o querido rosto do pai, senti-me um pouco triste e poderia ter derramado uma ou duas lágrimas salgadas, se uma senhora irlandesa com quatro filhos pequenos, todos a chorar mais ou menos, não me tivesse distraído; pois entretive-me a atirar biscoitos de gengibre por cima do assento cada vez que eles abriam a boca para berrar.
"Logo o sol apareceu e, tomando-o como um bom presságio, também eu me animei e desfrutei da minha viagem com todo o coração.
"A Sra. Kirke deu-me as boas-vindas tão gentilmente que me senti logo em casa, mesmo naquela casa grande cheia de estranhos. Deu-me um sótão engraçado — tudo o que ela tinha; mas há um fogão lá dentro e uma mesa agradável numa janela ensolarada, por isso posso sentar-me aqui e escrever sempre que quiser. Uma bela vista e uma torre de igreja em frente compensam as muitas escadas, e afeiçoei-me logo ao meu covil. O berçário, onde vou ensinar e costurar, é uma sala agradável ao lado da sala privada da Sra. Kirke, e as duas meninas são crianças bonitas — um pouco mimadas, creio eu, mas gostaram de mim depois de lhes contar 'Os Sete Porquinhos Maus'; e não tenho dúvidas de que serei uma governanta modelo.
"Vou fazer as refeições com as crianças, se preferir à mesa grande, e por enquanto prefiro, pois sou tímida, embora ninguém acredite.
"'Agora, minha querida, sente-se em casa', disse a Sra. K. à sua maneira maternal; 'estou a correr de manhã à noite, como pode imaginar com uma família destas; mas um grande peso sairá da minha mente se eu souber que as crianças estão seguras consigo. Os meus aposentos estão sempre abertos para si, e o seu será tão confortável quanto eu puder torná-lo. Há algumas pessoas agradáveis na casa, se se sentir sociável, e as suas noites estão sempre livres. Venha falar comigo se algo correr mal e seja o mais feliz que puder. Aí está o sino para o chá; tenho de correr e mudar de touca;' e ela apressou-se, deixando-me instalar no meu novo ninho.
"Quando desci as escadas, pouco depois, vi algo de que gostei. Os lances são muito longos nesta casa alta e, enquanto esperava no topo do terceiro, por uma pequena criada a subir com dificuldade, vi um cavalheiro vir atrás dela, tirar-lhe o pesado balde de carvão das mãos, carregá-lo até lá acima, pousá-lo junto a uma porta próxima e afastar-se, dizendo, com um aceno gentil e um sotaque estrangeiro:
"'Assim vai melhor. As costas pequenas são demasiado jovens para ter tal peso.'
"Não foi gentil da parte dele? Gosto dessas coisas, pois, como diz o pai, as pequenas coisas revelam o caráter. Quando mencionei isso à Sra. K., nessa noite, ela riu-se e disse:
"'Esse deve ter sido o Professor Bhaer; ele está sempre a fazer coisas desse género.'
"A Sra. K. contou-me que ele era de Berlim; muito erudito e bom, mas pobre como um rato de igreja, e dá lições para se sustentar a si próprio e a dois sobrinhos órfãos que ele está a educar aqui, de acordo com os desejos da sua irmã, que se casou com um americano. Não é uma história muito romântica, mas interessou-me; e fiquei contente por saber que a Sra. K. lhe empresta a sua sala para alguns dos seus alunos. Há uma porta de vidro entre ela e o berçário, e pretendo espreitá-lo, e depois dir-vos-ei como ele é. Ele tem quase quarenta anos, por isso não há mal, Marmee.
"Depois do chá e de uma brincadeira de antes de dormir com as meninas, ataquei o grande cesto de costura e passei uma noite tranquila a conversar com a minha nova amiga. Vou manter uma carta-diário e enviá-la uma vez por semana; por isso, boa noite, e mais amanhã."
"Terça-feira à noite.
"Tive um momento animado no meu seminário, esta manhã, pois as crianças portaram-se como loucas; e houve um momento em que pensei mesmo que as ia sacudir a todas. Um anjo bom inspirou-me a tentar ginástica e continuei até que elas ficaram contentes por se sentarem e ficarem quietas. Depois do almoço, a rapariga levou-as a passear e eu dediquei-me ao meu trabalho de agulha, como a pequena Mabel, 'com vontade'. Estava a agradecer à minha sorte por ter aprendido a fazer casas de botão perfeitas, quando a porta da sala se abriu e fechou, e alguém começou a cantarolar:
'Kennst du das land',
como um grande zangão. Foi terrivelmente impróprio, eu sei, mas não consegui resistir à tentação; e, levantando uma ponta da cortina diante da porta de vidro, espreitei. O Professor Bhaer estava lá; e enquanto ele arrumava os seus livros, observei-o bem. Um alemão autêntico — um pouco robusto, com cabelo castanho despenteado por toda a cabeça, uma barba farta, bom nariz, os olhos mais gentis que alguma vez vi, e uma voz esplêndida e profunda que faz bem aos ouvidos, depois da nossa tagarelice americana aguda ou descuidada. As suas roupas estavam gastas, as suas mãos eram grandes e ele não tinha nenhum traço realmente bonito no rosto, exceto os seus dentes belos; ainda assim, gostei dele, pois tinha uma cabeça distinta; a sua roupa branca estava muito bem tratada e ele parecia um cavalheiro, embora faltassem dois botões ao seu casaco e houvesse um remendo num sapato. Parecia sério, apesar de cantarolar, até que foi à janela para virar os bolbos de jacinto para o sol e fazer festas à gata, que o recebeu como a um velho amigo. Então ele sorriu; e quando bateram à porta, exclamou num tom alto e enérgico:
"'Herein!'
"Eu estava prestes a fugir, quando vislumbrei uma criança minúscula carregando um livro grande, e parei para ver o que se passava.
"'Quero o meu Bhaer', disse a pequena, batendo com o seu livro e correndo para o encontrar."
"Tu hás de ter o teu Bhaer; vem, pois, e recebe um bom abraço dele, minha Tina", disse o Professor, erguendo-a com uma risada e segurando-a tão alto acima da sua cabeça que ela teve de inclinar o seu rostinho para o beijar.
"Agora eu preciso de estudar a minha lição", continuou a criaturinha engraçada; então ele pô-la em cima da mesa, abriu o grande dicionário que ela tinha trazido e deu-lhe um papel e um lápis, e ela rabiscou, virando uma página aqui e ali, e passando o seu dedinho gordo pela página, como se procurasse uma palavra, com tanta seriedade que quase me traí com uma risada, enquanto o Sr. Bhaer a observava, afagando o seu cabelo bonito com um olhar paternal que me fez pensar que ela devia ser sua filha, embora parecesse mais francesa do que alemã.
Outra batida e o aparecimento de duas jovens fizeram-me voltar ao meu trabalho, e lá permaneci virtuosamente durante todo o ruído e tagarelice que se seguiu na porta ao lado. Uma das raparigas não parava de rir afetadamente e de dizer "Ora, Professor", num tom de coquete, e a outra pronunciava o seu alemão com um sotaque que devia ter tornado difícil para ele manter a seriedade.
Ambas pareciam pôr a sua paciência à prova; pois, mais de uma vez, ouvi-o dizer enfaticamente: "Não, não, não é assim; não prestou atenção ao que eu disse"; e uma vez ouviu-se um estrondo, como se ele tivesse batido na mesa com o livro, seguido pela exclamação de desespero: "Prut! Hoje tudo corre mal."
Pobre homem, tive pena dele; e, quando as raparigas se foram, espreitei só mais uma vez para ver se ele tinha sobrevivido. Parecia ter-se recostado na cadeira, exausto, e ficou sentado ali de olhos fechados até o relógio bater as duas, altura em que se levantou, guardou os livros no bolso, como se estivesse pronto para outra lição, e, pegando na pequena Tina, que tinha adormecido no sofá, levou-a silenciosamente. Imagino que ele tenha uma vida difícil.
A Sra. Kirke perguntou-me se eu não queria descer para o jantar das cinco; e, sentindo-me um pouco nostálgica, pensei que iria, só para ver que tipo de pessoas estavam sob o mesmo teto que eu. Por isso, arranjei-me para ficar apresentável e tentei esgueirar-me por trás da Sra. Kirke; mas, como ela é baixa e eu sou alta, os meus esforços de ocultação foram um fracasso. Ela deu-me um lugar ao seu lado e, depois de o meu rosto arrefecer, ganhei coragem e olhei à minha volta. A mesa comprida estava cheia e todos estavam concentrados em jantar — especialmente os cavalheiros, que pareciam estar a comer contra o relógio, pois engoliam a comida em todos os sentidos da palavra, desaparecendo assim que terminavam. Havia a habitual variedade de jovens absorvidos em si mesmos; casais jovens absorvidos um no outro; senhoras casadas nos seus bebés e cavalheiros idosos na política. Não creio que vá querer ter muito que ver com nenhum deles, exceto com uma senhora solteira de rosto doce, que parece ter algum conteúdo.
Desterrado mesmo no fundo da mesa estava o Professor, gritando respostas às perguntas de um senhor idoso e muito curioso de um lado, e discutindo filosofia com um francês do outro. Se a Amy estivesse aqui, ter-lhe-ia virado as costas para sempre, porque, triste é dizê-lo, ele tinha um grande apetite e empurrava a comida para dentro de uma maneira que teria horrorizado "a sua senhoria". Eu não me importei, porque gosto de "ver as pessoas comer com gosto", como diz a Hannah, e o pobre homem devia precisar de muita comida depois de ensinar idiotas o dia todo.
Quando subi as escadas depois do jantar, dois dos jovens estavam a ajeitar os chapéus em frente ao espelho do corredor e ouvi um dizer baixinho ao outro: "Quem é a nova?"
"Governante, ou algo desse género."
"Que raio faz ela à nossa mesa?"
"Amiga da velha."
"Cabeça bonita, mas sem estilo."
"Nem um pouco. Dá-me lume e vamos embora."
Senti-me zangada a princípio, e depois não me importei, pois uma governante é tão boa como um empregado de escritório, e eu tenho juízo, mesmo que não tenha estilo, o que é mais do que algumas pessoas têm, a julgar pelos comentários dos seres elegantes que se foram embora, fumando como chaminés mal arranjadas. Odeio pessoas vulgares!
Quinta-feira.
Ontem foi um dia calmo, passado a ensinar, a coser e a escrever no meu pequeno quarto, que é muito acolhedor, com luz e lareira. Recolhi algumas notícias e fui apresentada ao Professor. Parece que a Tina é filha da francesa que faz a engomadaria fina na lavandaria aqui. A pequena entregou o seu coração ao Sr. Bhaer e segue-o pela casa como um cão sempre que ele está em casa, o que o encanta, pois ele gosta muito de crianças, embora seja um "solteirão". A Kitty e a Minnie Kirke também nutrem por ele um grande afeto e contam todo o tipo de histórias sobre as brincadeiras que ele inventa, os presentes que traz e as histórias esplêndidas que conta. Os jovens troçam dele, parece, chamam-lhe Velho Fritz, Lager Beer, Ursa Major, e fazem todo o género de piadas sobre o seu nome. Mas ele diverte-se com isso como um rapaz, diz a Sra. K., e aceita tudo tão bem-humorado que todos gostam dele, apesar dos seus modos estrangeiros.
A senhora solteira é a Srta. Norton — rica, culta e gentil. Falou-me ao jantar hoje (pois voltei à mesa, é tão divertido observar as pessoas) e convidou-me para ir vê-la ao seu quarto. Ela tem livros e pinturas bonitos, conhece pessoas interessantes e parece ser simpática; por isso, vou tentar ser agradável, pois quero mesmo entrar numa boa sociedade, só que não é do mesmo tipo que a Amy gosta.
Eu estava na nossa sala de estar ontem à noite, quando o Sr. Bhaer entrou com alguns jornais para a Sra. Kirke. Ela não estava lá, mas a Minnie, que é uma pequena velhinha, apresentou-me de forma muito graciosa: "Esta é a amiga da mamã, a Srta. March."
"Sim; e ela é alegre e nós gostamos muito dela", acrescentou a Kitty, que é uma enfant terrible.
Ambos nos curvámos e depois rimos, pois a apresentação cerimoniosa e a adição direta foram um contraste bastante cómico.
"Ah, sim, ouço dizer que estas malandras vão chateá-la, Mees Marsch. Se acontecer de novo, chame-me e eu virei", disse ele, com um franzir de sobrolho ameaçador que encantou as pequenas pestes.
Prometi que o faria, e ele partiu; mas parece que estou condenada a vê-lo bastante, pois hoje, ao passar pela sua porta a caminho da saída, por acidente bati nela com o meu guarda-chuva. Abriu-se de rompante, e lá estava ele de robe, com uma meia azul grande numa mão e uma agulha de cerzir na outra; ele não pareceu nada envergonhado com isso, pois quando expliquei e me apressei a ir embora, ele abanou a mão, meia e tudo, dizendo com a sua voz alta e alegre:
"Tem um belo dia para o seu passeio. Bon voyage, mademoiselle."
Ri-me pelo caminho abaixo; mas foi também um pouco patético pensar no pobre homem a ter de remendar as suas próprias roupas. Os cavalheiros alemães bordam, eu sei; mas cerzir meias é outra coisa, e não é tão bonito.
Sábado.
Não aconteceu nada de especial para escrever, exceto uma visita à Srta. Norton, que tem um quarto cheio de coisas encantadoras e que foi muito charmosa, pois mostrou-me todos os seus tesouros e perguntou-me se eu queria ir às vezes com ela a palestras e concertos, como sua acompanhante — se eu gostasse deles. Ela pediu como um favor, mas tenho a certeza de que a Sra. Kirke lhe falou de nós e que ela o faz por gentileza para comigo. Sou orgulhosa como Lúcifer, mas tais favores de tais pessoas não me pesam, e aceitei com gratidão.
Quando voltei ao quarto das crianças, havia tanto alvoroço na sala que espreitei; e lá estava o Sr. Bhaer de gatas, com a Tina às costas, a Kitty a guiá-lo com uma corda de saltar, e a Minnie a dar bolos de sementes a dois rapazes pequenos, enquanto eles rugiam e brincavam em jaulas feitas de cadeiras.
"Estamos a brincar à 'nargerie'", explicou a Kitty.
"Este é o meu elefante!" acrescentou a Tina, agarrando-se ao cabelo do Professor.
"A mamã deixa-nos sempre fazer o que queremos na tarde de sábado, quando o Franz e o Emil vêm, não é, Sr. Bhaer?" disse a Minnie.
O "elefante" sentou-se, parecendo tão compenetrado como qualquer um deles, e disse-me seriamente:
"Dou-lhe a minha palavra que é assim. Se fizermos demasiado ruído, a menina dirá 'Psiu!' para nós, e nós seremos mais silenciosos."
Prometi fazê-lo, mas deixei a porta aberta e diverti-me tanto quanto eles — pois nunca presenciei uma brincadeira mais gloriosa. Brincaram ao apanhada e aos soldados, dançaram e cantaram, e quando começou a escurecer, todos se amontoaram no sofá à volta do Professor, enquanto ele contava histórias de fadas encantadoras sobre as cegonhas nas chaminés e os pequenos "kobolds", que cavalgam os flocos de neve enquanto caem. Gostava que os americanos fossem tão simples e naturais como os alemães, não acha?
Gosto tanto de escrever que continuaria para sempre se motivos de economia não me detivessem, pois, embora tenha usado papel fino e escrito pequeno, tremo só de pensar nos selos que esta carta longa vai precisar. Por favor, envie as da Amy assim que puder dispensá-las. As minhas pequenas notícias vão soar muito insípidas depois dos esplendores dela, mas sei que as vai gostar. O Teddy está a estudar tanto que não arranja tempo para escrever aos seus amigos? Cuida bem dele por mim, Beth, conta-me tudo sobre os bebés e dá muitos beijos a todos.
Da tua fiel JO.
P. S. Ao reler a minha carta, parece-me um pouco "Bhaeriana"; mas interesso-me sempre por pessoas estranhas e, na verdade, não tinha mais nada sobre que escrever. Deus te abençoe!
DEZEMBRO.
MINHA PRECIOSA BETSEY,
Como esta vai ser uma carta rabiscada à pressa, dirijo-a a ti, pois pode divertir-te e dar-te uma ideia do que faço; pois, embora calmas, as minhas atividades são bastante divertidas, o que — ó, alegria! Depois do que a Amy chamaria de esforços herculanos, em termos de agricultura mental e moral, as minhas jovens ideias começam a despontar e os meus pequenos ramos a curvar-se como eu desejava. Não são tão interessantes para mim como a Tina e os rapazes, mas cumpro o meu dever para com eles e eles gostam de mim. O Franz e o Emil são rapazes alegres, bem ao meu gosto; pois a mistura de espírito alemão e americano neles produz um estado constante de efervescência. As tardes de sábado são tempos de folia, quer passadas dentro ou fora de casa; pois, nos dias agradáveis, vão todos passear, como um seminário, comigo e com o Professor a manter a ordem; e depois, que diversão!
Somos muito amigos agora, e comecei a ter aulas. Realmente não pude evitar, e tudo aconteceu de uma forma tão caricata que tenho de te contar. Para começar do princípio, a Sra. Kirke chamou-me, um dia, ao passar pelo quarto do Sr. Bhaer, onde ela remexia em tudo.
"Já alguma vez viste tal antro, querida? Vem cá ajudar-me a pôr estes livros em ordem, pois virei tudo do avesso a tentar descobrir o que ele fez com os seis lenços novos que lhe dei não há muito tempo."
Entrei e, enquanto trabalhávamos, olhei à minha volta, pois era um "antro", sem dúvida. Livros e papéis por todo o lado; uma espuma de mar (meerschaum) partida e uma flauta velha sobre a lareira, como se estivessem arrumadas; um pássaro esfarrapado, sem cauda, chilreava num parapeito da janela, e uma caixa de ratos brancos adornava o outro; barcos a meio fazer e bocados de cordel jaziam entre os manuscritos; botas pequenas e sujas secavam diante do fogo; e vestígios dos tão queridos rapazes, por quem ele se torna escravo, viam-se por todo o quarto. Após uma grande busca, três dos artigos em falta foram encontrados — um sobre a gaiola do pássaro, outro coberto de tinta e um terceiro queimado, tendo sido usado como pega.
"Um tal homem!" riu-se a bondosa Sra. K., enquanto punha as relíquias no saco dos trapos. "Suponho que os outros foram rasgados para montar barcos, ligar dedos cortados ou fazer caudas de papagaios. É terrível, mas não consigo ralhar com ele: é tão distraído e bem-humorado que deixa aqueles rapazes montarem-no sem piedade. Concordei em tratar da sua lavagem e remendos, mas ele esquece-se de entregar as coisas e eu esqueço-me de as verificar, por isso ele chega a um estado triste às vezes."
"Deixa-me remendá-los", disse eu. "Não me importo, e ele não precisa de saber. Gostaria de o fazer — ele é tão gentil comigo, trazendo-me as cartas e emprestando-me livros."
Por isso, pus as coisas dele em ordem e tricotei calcanhares em dois pares de meias — pois estavam deformados com os seus cerzidos estranhos. Não se disse nada e eu esperava que ele não descobrisse, mas um dia, na semana passada, ele apanhou-me em flagrante. Ouvir as lições que ele dá aos outros interessou-me e divertiu-me tanto que me deu vontade de aprender; pois a Tina entra e sai, deixando a porta aberta, e eu consigo ouvir. Estava sentada perto desta porta, a acabar a última meia e a tentar entender o que ele dizia a uma nova aluna, que é tão estúpida como eu. A rapariga tinha ido embora, e eu pensei que ele também tinha, estava tão silencioso, e eu estava a balbuciar um verbo, a balançar-me de um lado para o outro de uma forma absurda, quando um pequeno ruído fez-me olhar para cima, e lá estava o Sr. Bhaer a olhar e a rir-se silenciosamente, enquanto fazia sinais à Tina para não o denunciar.
"Então!" disse ele, quando parei e fiquei a olhar como um ganso, "tu espreitas-me, eu espreito-te, e isso não é mau; mas olha, não estou a brincar quando digo: tens vontade de aprender alemão?"
"Sim; mas o senhor está demasiado ocupado. Sou demasiado estúpida para aprender", respondi, atrapalhada e vermelha como uma peónia.
"Prut! Nós arranjaremos o tempo, e não deixaremos de encontrar o sentido. Ao serão, darei uma pequena lição com muito gosto; pois, olha, Mees Marsch, tenho esta dívida a pagar", e apontou para o meu trabalho. "Sim, elas dizem umas às outras, estas senhoras tão gentis: 'ele é um velho estúpido; ele não verá o que fazemos; ele nunca observará que os calcanhares das suas meias já não têm buracos, ele pensará que os botões nascem novos quando caem, e acreditará que os cordéis se fazem sozinhos.' Ah! Mas eu tenho olho e vejo muito. Tenho coração e sinto a gratidão por isto. Vem, uma pequena lição de vez em quando, ou acabam-se os trabalhos de fada para mim e para os meus."
Claro que não pude dizer nada depois disso, e como é realmente uma oportunidade esplêndida, fiz o negócio e começámos. Tive quatro lições e depois fiquei presa num pântano gramatical. O Professor foi muito paciente comigo, mas deve ter sido um tormento para ele, e de vez em quando olhava para mim com uma expressão de desespero suave tal que era uma dúvida se eu devia rir ou chorar. Tentei ambos os caminhos; e quando cheguei a um fungar de total mortificação e aflição, ele simplesmente atirou a gramática para o chão e marchou para fora da sala. Senti-me desgraçada e abandonada para sempre, mas não o culpei nem um pouco, e estava a juntar os meus papéis, com a intenção de correr para o andar de cima e sacudir-me bem, quando ele entrou, tão ágil e radiante como se eu me tivesse coberto de glória.
"Agora tentaremos uma nova forma. Tu e eu leremos estes pequenos Märchen agradáveis juntos, e não cavaremos mais naquele livro seco, que vai para o canto por nos causar problemas."
Ele falou tão gentilmente e abriu os contos de fadas de Hans Andersen tão convidativamente diante de mim que fiquei mais envergonhada do que nunca e lancei-me à lição com um estilo de vida ou morte que pareceu diverti-lo imensamente. Esqueci a minha timidez e trabalhei (nenhuma outra palavra expressa isto) com todas as minhas forças, tropeçando em palavras compridas, pronunciando conforme a inspiração do momento e fazendo o meu melhor. Quando acabei de ler a minha primeira página e parei para respirar, ele bateu palmas e gritou, à sua maneira cordial: "Das ist gute! Agora vamos bem! A minha vez. Faço-o em alemão; dá-me o teu ouvido." E lá foi ele, a resmungar as palavras com a sua voz forte e um gosto que era tão bom de ver como de ouvir. Felizmente, a história era o "Soldadinho de Chumbo", que é engraçada, sabes, por isso pude rir — e ri-me — embora não entendesse metade do que ele lia, porque não pude evitar, ele estava tão sério, eu tão entusiasmada e a coisa toda tão cómica.
Depois disso, melhorámos, e agora leio as minhas lições bastante bem; pois esta forma de estudar convém-me, e consigo ver que a gramática é metida nos contos e na poesia como se dão pílulas em gelatina. Gosto muito e ele não parece cansado disso ainda — o que é muito bom da parte dele, não achas? Pretendo dar-lhe algo no Natal, pois não me atrevo a oferecer dinheiro. Diz-me algo agradável, Marmee.
Estou contente por o Laurie parecer tão feliz e ocupado, que tenha deixado de fumar e deixe crescer o cabelo. Vês, a Beth gere-o melhor do que eu. Não tenho ciúmes, querida; faz o teu melhor, só não faças dele um santo. Tenho medo de não conseguir gostar dele sem uma pitada de maldade humana. Lê-lhe bocados das minhas cartas. Não tenho tempo para escrever muito, e isso servirá perfeitamente. Graças a Deus a Beth continua tão bem.
JANEIRO.
Um Feliz Ano Novo a todos vós, minha queridíssima família, o que, claro, inclui o Sr. L. e um jovem pelo nome de Teddy. Não te posso dizer o quanto apreciei o vosso embrulho de Natal, pois não o recebi até à noite e já tinha perdido a esperança. A tua carta veio de manhã, mas não disseste nada sobre um pacote, planeando-o como uma surpresa; por isso fiquei desapontada, pois tinha um "tipo de pressentimento" de que não te esquecerias de mim. Senti-me um pouco em baixo, sentada no meu quarto, depois do chá; e quando o embrulho grande, enlameado e de aspeto estragado me foi trazido, simplesmente abracei-o e saltei. Era tão caseiro e refrescante que me sentei no chão e li, vi, comi, ri e chorei, à minha maneira absurda habitual. As coisas eram exatamente o que eu queria, e ainda melhores por terem sido feitas em vez de compradas. O novo "babete para tinta" da Beth foi excelente; e a caixa de pão de gengibre duro da Hannah será um tesouro. Vou certificar-me de usar as flanelas boas que enviaste, Marmee, e ler com atenção os livros que o pai marcou. Obrigado a todos, um monte!
Falar de livros lembra-me que estou a ficar rica nessa área, pois, no dia de Ano Novo, o Sr. Bhaer deu-me um belo Shakespeare. É um que ele valoriza muito, e eu admirava-o frequentemente, colocado no lugar de honra, com a sua Bíblia alemã, Platão, Homero e Milton; por isso podes imaginar como me senti quando ele o trouxe, sem a capa, e me mostrou o meu nome nele, "da parte do meu amigo Friedrich Bhaer."
"Dizes muitas vezes que desejas uma biblioteca: aqui te dou uma; pois entre estas tampas (ele queria dizer capas) estão muitos livros num só. Lê-o bem, e ele ajudar-te-á muito; pois o estudo do caráter neste livro ajudar-te-á a lê-lo no mundo e a pintá-lo com a tua pena."
Agradeci-lhe o melhor que pude e agora falo da "minha biblioteca", como se tivesse cem livros. Nunca soube o quanto havia em Shakespeare antes; mas, na verdade, nunca tive um Bhaer para mo explicar. Agora, não se riam do seu nome horrível; não se pronuncia nem "Bear" nem "Beer", como as pessoas insistem em dizer, mas algo entre os dois, como só os alemães conseguem pronunciar. Fico contente que ambas gostem do que vos conto sobre ele, e espero que um dia o conheçam. A mãe admiraria o seu coração caloroso, o pai a sua cabeça sensata. Eu admiro ambos, e sinto-me rica com o meu novo "amigo Friedrich Bhaer".
Não tendo muito dinheiro, ou sabendo o que ele gostaria, comprei várias pequenas coisas e coloquei-as pelo quarto, onde ele as encontraria inesperadamente. Eram úteis, bonitas ou engraçadas — um tinteiro novo na sua mesa, um pequeno vaso para a sua flor — ele tem sempre uma, ou um pouco de verde num copo, para o manter fresco, diz ele — e um suporte para o seu fole, para que não tenha de queimar o que a Amy chama de "mouchoirs". Fiz-o como aqueles que a Beth inventou — uma grande borboleta com um corpo gordo, asas pretas e amarelas, antenas de lã e olhos de contas. Ele gostou imenso e colocou-o na cornija da lareira como um objeto de vertu; por isso, foi um fracasso, afinal. Por mais pobre que seja, não se esqueceu de nenhum criado ou criança na casa; e nem uma alma aqui, desde a lavadeira francesa até à Miss Norton, se esqueceu dele. Fiquei tão contente com isso.
Organizaram um baile de máscaras e divertiram-se imenso na véspera de Ano Novo. Eu não tencionava descer, por não ter vestido; mas, à última hora, a Mrs. Kirke lembrou-se de uns brocados antigos e a Miss Norton emprestou-me rendas e penas; por isso, vesti-me de Mrs. Malaprop e entrei com uma máscara. Ninguém me reconheceu, pois disfarcei a voz, e ninguém imaginou que a silenciosa e altiva Miss March (pois eles acham que sou muito rígida e fria, a maioria deles; e sou-o para os presunçosos) pudesse dançar, vestir-se e explodir num "bom arranjo de epitáfios, como uma alegoria nas margens do Nilo". Diverti-me imenso; e quando tirámos as máscaras, foi divertido vê-los a olhar para mim. Ouvi um dos jovens dizer a outro que sabia que eu tinha sido atriz; de facto, achava que se lembrava de me ver num dos teatros menores. A Meg vai apreciar essa piada. O Mr. Bhaer era Nick Bottom e a Tina era Titânia — uma pequena fada perfeita nos seus braços. Vê-los dançar foi "toda uma paisagem", para usar um Teddyismo.
Tive um Ano Novo muito feliz, afinal; e quando refleti sobre isso no meu quarto, senti que estava a progredir um pouco, apesar dos meus muitos fracassos; pois estou bem-disposta o tempo todo agora, trabalho com vontade e interesso-me mais pelas outras pessoas do que costumava, o que é satisfatório. Deus vos abençoe a todas! Sempre a vossa carinhosa
JO.
XXXIV.
UM AMIGO.
Embora muito feliz na atmosfera social que a rodeava, e muito ocupada com o trabalho diário que lhe ganhava o pão, tornando-o mais doce pelo esforço, Jo ainda encontrava tempo para trabalhos literários. O propósito que agora se apoderava dela era natural para uma rapariga pobre e ambiciosa; mas os meios que usou para atingir o seu objetivo não eram os melhores. Ela via que o dinheiro conferia poder: dinheiro e poder, portanto, ela resolveu ter; não para ser usado apenas para si, mas para aqueles a quem amava mais do que a si própria.
O sonho de encher a casa de conforto, dar à Beth tudo o que ela quisesse, desde morangos no inverno até um órgão no seu quarto; ir ela própria para o estrangeiro, e ter sempre mais do que o suficiente, para que pudesse desfrutar do luxo da caridade, fora durante anos o castelo no ar mais acalentado de Jo.
A experiência do prémio literário parecera abrir um caminho que poderia, após longa viagem e muito trabalho penoso, levar a este delicioso château en Espagne. Mas o desastre do romance abateu-lhe a coragem por algum tempo, pois a opinião pública é um gigante que assustou Jacks de coração mais forte em pés de feijão maiores do que o dela. Como aquele herói imortal, ela repousou um pouco após a primeira tentativa, que resultou numa queda e no menos adorável dos tesouros do gigante, se bem me lembro. Mas o espírito de "levantar e tentar outra vez" era tão forte em Jo como em Jack; por isso ela subiu, pelo lado sombrio desta vez, e obteve mais espólio, mas quase deixou para trás o que era muito mais precioso do que os sacos de dinheiro.
Ela começou a escrever histórias sensacionalistas; pois, naqueles tempos sombrios, até a América toda perfeita lia disparates. Não contou a ninguém, mas arquitetou um "conto arrepiante" e levou-o ela mesma, audazmente, ao Mr. Dashwood, editor do "Weekly Volcano". Ela nunca tinha lido "Sartor Resartus", mas tinha o instinto feminino de que as roupas possuem uma influência mais poderosa sobre muitos do que o valor do caráter ou a magia das maneiras. Por isso, vestiu-se com o seu melhor e, tentando persuadir-se de que não estava nem excitada nem nervosa, subiu corajosamente dois lanços de escadas escuras e sujas para se encontrar num quarto desordenado, numa nuvem de fumo de charuto e na presença de três cavalheiros, sentados com os calcanhares um pouco mais altos do que os chapéus, artigos de vestuário que nenhum deles se deu ao trabalho de remover à sua chegada. Um pouco intimidada por esta receção, Jo hesitou no limiar, murmurando com muito embaraço:
"Desculpem-me, estava à procura do escritório do 'Weekly Volcano'; desejava ver o Mr. Dashwood."
Desceram os calcanhares mais altos, levantou-se o cavalheiro mais esfumaçado e, cuidando cuidadosamente do seu charuto entre os dedos, avançou, com um aceno e um rosto que não expressava senão sono. Sentindo que tinha de levar o assunto avante de alguma forma, Jo apresentou o seu manuscrito e, corando cada vez mais a cada frase, balbuciou fragmentos do pequeno discurso cuidadosamente preparado para a ocasião.
"Uma amiga minha desejou que eu oferecesse... uma história... apenas como uma experiência... gostaria de saber a vossa opinião... teria todo o gosto em escrever mais se isto servir."
Enquanto ela corava e balbuciava, o Mr. Dashwood tinha pegado no manuscrito e folheava as páginas com um par de dedos um tanto sujos, lançando olhares críticos pelas páginas limpas.
"Não é a primeira tentativa, suponho?" observou ele, vendo que as páginas estavam numeradas, escritas apenas de um lado e não atadas com uma fita — sinal certo de uma novata.
"Não, senhor; ela teve alguma experiência e ganhou um prémio por um conto no 'Blarneystone Banner'."
"Oh, ganhou?" e o Mr. Dashwood lançou a Jo um olhar rápido, que parecia tomar nota de tudo o que ela trazia, desde o laço no chapéu até aos botões das botas. "Bem, pode deixá-lo, se quiser. Temos mais deste género à mão do que sabemos o que fazer atualmente; mas darei uma vista de olhos e dar-lhe-ei uma resposta na próxima semana."
Ora, Jo não gostava de o deixar, pois o Mr. Dashwood não lhe agradava nada; mas, dadas as circunstâncias, não havia nada que ela pudesse fazer a não ser curvar-se e afastar-se, parecendo particularmente alta e digna, como costumava fazer quando irritada ou envergonhada. Naquele momento estava ambas; pois era perfeitamente evidente, pelos olhares conhecedores trocados entre os cavalheiros, que a sua pequena ficção sobre "a minha amiga" era considerada uma boa piada; e uma gargalhada, produzida por algum comentário inaudível do editor, enquanto ele fechava a porta, completou o seu desconforto. Resolvendo, a meio, nunca mais voltar, foi para casa e descarregou a sua irritação cosendo aventais vigorosamente; e, passado uma ou duas horas, estava suficientemente calma para rir da cena e ansiar pela próxima semana.
Quando lá voltou, o Mr. Dashwood estava sozinho, o que a alegrou; o Mr. Dashwood estava muito mais desperto do que antes, o que era agradável; e o Mr. Dashwood não estava demasiado absorvido por um charuto para se lembrar das suas boas maneiras: por isso, a segunda entrevista foi muito mais confortável do que a primeira.
"Vamos publicar isto" (os editores nunca dizem "eu"), "se não se importar com algumas alterações. É demasiado longo, mas omitir as passagens que marquei torná-lo-á no comprimento certo", disse ele, num tom pragmático.
Jo quase não reconhecia o seu próprio manuscrito, tão amarrotadas e sublinhadas estavam as suas páginas e parágrafos; mas, sentindo-se como uma mãe carinhosa a quem pedissem para cortar as pernas ao seu bebé para que ele coubesse num novo berço, olhou para as passagens marcadas e ficou surpreendida ao descobrir que todas as reflexões morais — que ela tinha cuidadosamente colocado como lastro para tanto romance — tinham sido eliminadas.
"Mas, senhor, pensei que toda a história devesse ter algum tipo de moral, por isso tive o cuidado de fazer com que alguns dos meus pecadores se arrependessem."
A gravidade editorial do Mr. Dashwood relaxou num sorriso, pois Jo tinha-se esquecido da sua "amiga" e falado apenas como uma autora poderia.
"As pessoas querem ser divertidas, não sermoneadas, sabe. A moral não vende hoje em dia"; o que não era uma afirmação totalmente correta, diga-se de passagem.
"Acha que serviria com estas alterações, então?"
"Sim; é um enredo novo e bastante bem trabalhado... a linguagem é boa, e assim por diante", foi a resposta afável do Mr. Dashwood.
"Qual é a... isto é, qual é a compensação..." começou Jo, não sabendo exatamente como se expressar.
"Oh, sim, bem, damos de vinte e cinco a trinta por coisas deste género. Pagamos quando sair", retorquiu o Mr. Dashwood, como se esse ponto lhe tivesse escapado; diz-se que tais bagatelas escapam frequentemente à mente editorial.
"Muito bem; pode ficar com ele", disse Jo, devolvendo a história com um ar satisfeito; pois, depois do trabalho a um dólar por coluna, até vinte e cinco parecia um bom pagamento.
"Devo dizer à minha amiga que aceitará outro se ela tiver um melhor do que este?" perguntou Jo, inconsciente do seu pequeno lapso de língua e encorajada pelo seu sucesso.
"Bem, veremos; não posso prometer aceitá-lo. Diga-lhe para o fazer curto e picante, e não se preocupe com a moral. Que nome gostaria a sua amiga de colocar nele?" num tom descuidado.
"Nenhum, se faz favor; ela não deseja que o seu nome apareça e não tem nenhum nom de plume", disse Jo, corando apesar de si mesma.
"Como ela quiser, naturalmente. O conto sairá na próxima semana; virá buscar o dinheiro ou prefere que lho envie?" perguntou o Mr. Dashwood, que sentia um desejo natural de saber quem seria a sua nova colaboradora.
"Virei buscá-lo. Bom dia, senhor."
Enquanto ela partia, o Mr. Dashwood pôs os pés em cima da mesa, com o comentário gracioso: "Pobre e orgulhosa, como de costume, mas ela safa-se."
Seguindo as instruções do Mr. Dashwood e tomando a Mrs. Northbury como modelo, Jo mergulhou imprudentemente no mar espumoso da literatura sensacionalista; mas, graças ao colete salva-vidas que lhe foi lançado por um amigo, ela veio à tona, não muito pior do que o mergulho.
Como a maioria dos jovens escribas, ela foi ao estrangeiro buscar as suas personagens e cenários; e bandidos, condes, ciganos, freiras e duques apareceram no seu palco, desempenhando os seus papéis com tanta precisão e espírito quanto se poderia esperar. Os seus leitores não eram exigentes quanto a bagatelas como gramática, pontuação e probabilidade, e o Mr. Dashwood permitia-lhe graciosamente preencher as suas colunas aos preços mais baixos, não achando necessário dizer-lhe que a verdadeira causa da sua hospitalidade era o facto de um dos seus tarefeiros, ao ser-lhe oferecido um salário maior, a ter deixado vilmente na mão.
Ela logo começou a interessar-se pelo seu trabalho, pois a sua bolsa emagrecida engordou e a pequena reserva que estava a fazer para levar a Beth às montanhas no próximo verão crescia lenta mas seguramente à medida que as semanas passavam. Uma coisa perturbava a sua satisfação, e era o facto de não contar a ninguém em casa. Tinha o pressentimento de que o pai e a mãe não aprovariam, e preferia fazer as coisas à sua maneira primeiro e pedir perdão depois. Era fácil guardar o seu segredo, pois nenhum nome aparecia com as suas histórias; o Mr. Dashwood tinha, naturalmente, descoberto muito cedo, mas prometeu ficar calado; e, para espanto de todos, cumpriu a palavra.
Pensou que não lhe faria mal, pois tencionava sinceramente não escrever nada de que se envergonhasse, e sossegou todas as picadas de consciência com a antecipação do minuto feliz em que mostraria os seus ganhos e riria do seu segredo bem guardado.
Mas o Mr. Dashwood rejeitava tudo o que não fossem contos arrepiantes; e, como os arrepios não podiam ser produzidos a não ser atormentando as almas dos leitores, a história e o romance, a terra e o mar, a ciência e a arte, os registos policiais e os manicómios tinham de ser revistados para o efeito. Jo logo descobriu que a sua experiência inocente lhe dera apenas vislumbres do mundo trágico que subjaz à sociedade; por isso, encarando-o de uma perspetiva profissional, começou a suprir as suas deficiências com energia característica. Ávida por encontrar material para histórias e empenhada em torná-las originais no enredo, se não magistrais na execução, ela revirava jornais à procura de acidentes, incidentes e crimes; excitava as suspeitas dos bibliotecários públicos ao pedir obras sobre venenos; estudava rostos na rua e caracteres, bons, maus e indiferentes, por todo o lado; escavava o pó dos tempos antigos em busca de factos ou ficções tão velhos que eram tão bons como novos, e introduzia-se na loucura, no pecado e na miséria, tanto quanto as suas limitadas oportunidades permitiam. Ela pensava que estava a prosperar lindamente; mas, inconscientemente, estava a começar a profanar alguns dos atributos mais femininos do caráter de uma mulher. Ela vivia em má companhia; e, embora imaginária, a sua influência afetava-a, pois alimentava o coração e a fantasia com alimentos perigosos e insubstanciais, e estava rapidamente a retirar a inocência da sua natureza através de um conhecimento prematuro do lado mais sombrio da vida, que chega cedo demais a todos nós.
Ela estava a começar a sentir, mais do que a ver isto, pois descrever tanto as paixões e os sentimentos das outras pessoas levava-a a estudar e a especular sobre os seus próprios... um divertimento mórbido, no qual as mentes jovens e saudáveis não se entregam voluntariamente. O erro traz sempre o seu próprio castigo; e, quando Jo mais precisava do seu, recebeu-o.
Não sei se o estudo de Shakespeare a ajudou a ler o caráter, ou o instinto natural de uma mulher para o que era honesto, corajoso e forte; mas enquanto dotava os seus heróis imaginários de toda a perfeição sob o sol, Jo estava a descobrir um herói vivo, que a interessava apesar de muitas imperfeições humanas. O Mr. Bhaer, numa das suas conversas, aconselhara-a a estudar personagens simples, verdadeiras e adoráveis, onde quer que as encontrasse, como um bom treino para uma escritora. Jo levou-o à letra, pois virou-se friamente e estudou-o... um procedimento que o teria surpreendido muito, se ele soubesse, pois o digno Professor era muito humilde no seu próprio conceito.
Porque é que todos gostavam dele era o que intrigava Jo, de início. Ele não era rico nem grandioso, nem jovem nem bonito; em nenhum aspeto o que se chama fascinante, imponente ou brilhante; e ainda assim era tão atraente como um fogo acolhedor, e as pessoas pareciam reunir-se à sua volta tão naturalmente como à volta de uma lareira quente. Era pobre, mas parecia estar sempre a dar algo; um estranho, mas todos eram seus amigos; já não era jovem, mas de coração tão feliz como um rapaz; simples e peculiar, mas o seu rosto parecia belo para muitos, e as suas excentricidades eram livremente perdoadas por causa dele. Jo observava-o frequentemente, tentando descobrir o encanto, e, finalmente, decidiu que era a benevolência que operava o milagre. Se ele tinha alguma mágoa, "sentava-se com a cabeça debaixo da asa", e ele voltava apenas o seu lado ensolarado para o mundo. Havia linhas na sua testa, mas o Tempo parecia tê-lo tocado suavemente, lembrando-se de quão gentil ele era para com os outros. As curvas agradáveis à volta da sua boca eram os memoriais de muitas palavras amigáveis e risos alegres; os seus olhos nunca eram frios ou duros, e a sua mão grande tinha um aperto caloroso e forte que era mais expressivo do que palavras.
As suas próprias roupas pareciam participar da natureza hospitaleira de quem as vestia. Pareciam estar à vontade e gostavam de o tornar confortável; o seu colete espaçoso era sugestivo de um grande coração por baixo; o seu casaco gasto tinha um ar social, e os bolsos largos provavam claramente que mãos pequenas entravam frequentemente vazias e saíam cheias; as suas próprias botas eram benevolentes, e os seus colarinhos nunca rígidos e ásperos como os das outras pessoas.
"É isso!", disse Jo para consigo mesma, quando finalmente descobriu que a genuína boa vontade para com os seus semelhantes podia embelezar e dignificar até um professor alemão robusto, que comia com pressa, remendava as suas próprias meias e estava sobrecarregado com o nome de Bhaer.
Jo valorizava muito a bondade, mas também possuía um respeito muito feminino pelo intelecto, e uma pequena descoberta que fez sobre o Professor aumentou muito a sua consideração por ele. Ele nunca falava de si mesmo, e ninguém sabia que, na sua cidade natal, ele tinha sido um homem muito honrado e estimado pelo seu saber e integridade, até que um compatriota o veio visitar e, numa conversa com a Miss Norton, divulgou o facto agradável. A partir dela, Jo soube-o, e gostou ainda mais porque o Mr. Bhaer nunca o tinha contado. Sentiu orgulho ao saber que ele era um Professor honrado em Berlim, embora apenas um pobre professor de línguas na América; e a sua vida caseira e de trabalho árduo era muito embelezada pelo toque de romance que esta descoberta lhe dava.
Outro dom, e melhor do que o intelecto, foi-lhe mostrado de uma forma inesperada. A Miss Norton tinha entrada na sociedade literária, que Jo não teria hipótese de ver se não fosse por ela. A mulher solitária sentia um interesse pela rapariga ambiciosa e gentilmente conferia muitos favores deste género tanto a Jo como ao Professor. Levou-os consigo, numa noite, a um simpósio selecionado, realizado em honra de várias celebridades.
Jo foi preparada para se curvar e adorar os poderosos que ela adorara com entusiasmo juvenil de longe. Mas a sua reverência pelo génio recebeu um choque severo naquela noite, e levou algum tempo a recuperar da descoberta de que as grandes criaturas eram, afinal, apenas homens e mulheres. Imaginem o seu desânimo, ao lançar um olhar de admiração tímida ao poeta cujas linhas sugeriam um ser etéreo alimentado por "espírito, fogo e orvalho", ao vê-lo devorar a sua ceia com um ardor que deixava o seu rosto intelectual corado. Voltando-se como de um ídolo caído, ela fez outras descobertas que dissiparam rapidamente as suas ilusões românticas. O grande romancista vibrava entre dois decantadores com a regularidade de um pêndulo; o famoso teólogo flertava abertamente com uma das Madame de Staëls da época, que olhava com desprezo para outra Corinne, que a satirizava amavelmente, depois de a superar em esforços para absorver o filósofo profundo, que bebia chá ao estilo de Johnson e parecia dormir, a loquacidade da senhora tornando impossível falar. As celebridades científicas, esquecendo os seus moluscos e períodos glaciares, tagarelavam sobre arte, enquanto se dedicavam às ostras e gelados com energia característica; o jovem músico, que encantava a cidade como um segundo Orfeu, falava de cavalos; e o exemplar da nobreza britânica presente acabou por ser o homem mais comum do grupo.
Antes que a noite fosse a meio, Jo sentiu-se tão completamente désillusionée que se sentou num canto para se recompor. O Sr. Bhaer juntou-se-lhe pouco depois, parecendo algo fora do seu elemento, e logo vários dos filósofos, cada qual montado no seu cavalo de batalha, aproximaram-se a passo lento para travar um torneio intelectual no recanto. A conversa estava a milhas da compreensão de Jo, mas ela apreciava-a, ainda que Kant e Hegel fossem deuses desconhecidos, o Subjetivo e o Objetivo termos ininteligíveis; e a única coisa "evoluída da sua consciência interior" foi uma dor de cabeça terrível depois de tudo terminar. Apercebeu-se gradualmente de que o mundo estava a ser feito em pedaços e montado de novo segundo, segundo os oradores, princípios infinitamente melhores do que antes; que a religião estava a caminho de ser reduzida a nada pela razão, e que o intelecto seria o único Deus. Jo não sabia nada sobre filosofia ou metafísica de qualquer espécie, mas uma curiosa excitação, metade prazerosa, metade dolorosa, apoderou-se dela enquanto ouvia com a sensação de estar à deriva no tempo e no espaço, como um jovem balão num dia de folga.
Ela olhou em redor para ver se o Professor gostava daquilo, e encontrou-o a observá-la com a expressão mais severa que alguma vez o vira usar. Ele abanou a cabeça e fez-lhe sinal para se afastar; mas ela estava fascinada, naquele momento, pela liberdade da Filosofia Especulativa, e manteve o seu lugar, tentando descobrir com o que é que os sábios cavalheiros pretendiam contar depois de terem aniquilado todas as antigas crenças.
Ora, o Sr. Bhaer era um homem tímido e lento a oferecer as suas próprias opiniões, não porque estivessem instáveis, mas por serem sinceras e sérias demais para serem proferidas de ânimo leve. Ao olhar de Jo para vários outros jovens, atraídos pelo brilho do fogo-de-artifício filosófico, ele franziu o sobrolho e ansiava por falar, receando que alguma alma jovem inflamável fosse desviada pelos foguetes, para descobrir, quando a exibição terminasse, que apenas tinham um pau vazio ou uma mão queimada.
Ele suportou-o tanto quanto pôde; mas, quando foi instado a dar uma opinião, inflamou-se com honesta indignação e defendeu a religião com toda a eloquência da verdade — uma eloquência que tornava o seu inglês quebrado musical e o seu rosto simples belo. Teve uma luta árdua, pois os homens sábios argumentavam bem; mas ele não sabia quando estava derrotado e manteve-se fiel à sua causa como um homem. De alguma forma, enquanto ele falava, o mundo voltou a ficar bem para Jo; as velhas crenças, que tinham durado tanto tempo, pareciam melhores do que as novas; Deus não era uma força cega, e a imortalidade não era uma fábula bonita, mas um facto abençoado. Sentiu como se tivesse chão sólido sob os pés novamente; e, quando o Sr. Bhaer parou, vencido em palavras, mas nem um pouco convencido, Jo teve vontade de bater palmas e agradecer-lhe.
Ela não fez nem uma coisa nem outra; mas recordou esta cena e dedicou ao Professor o seu mais profundo respeito, pois sabia que lhe custara um esforço falar ali mesmo, porque a sua consciência não lhe permitia estar em silêncio. Começou a ver que o caráter é uma posse melhor do que dinheiro, estatuto, intelecto ou beleza; e a sentir que, se a grandeza é o que um homem sábio definiu como sendo "verdade, reverência e boa vontade", então o seu amigo Friedrich Bhaer não era apenas bom, mas grande.
Esta convicção fortaleceu-se diariamente. Ela valorizava a sua estima, cobiçava o seu respeito, queria ser digna da sua amizade; e, precisamente quando o desejo era mais sincero, esteve perto de perder tudo. Tudo surgiu por causa de um chapéu bicorne; pois, certa noite, o Professor entrou para dar a lição a Jo com um chapéu de papel de soldado na cabeça, que Tina lá tinha posto e que ele se esquecera de tirar.
"É evidente que ele não se olha ao espelho antes de descer", pensou Jo, com um sorriso, enquanto ele dizia "Goot efening" e se sentava serenamente, totalmente inconsciente do contraste ridículo entre o seu tema e o seu toucado, pois ia ler-lhe a "Morte de Wallenstein".
Ela não disse nada de início, pois gostava de o ouvir rir a sua grande e calorosa gargalhada quando algo engraçado acontecia, por isso deixou que ele o descobrisse por si mesmo, e pouco depois esqueceu-se completamente disso; pois ouvir um alemão ler Schiller é uma ocupação bastante absorvente. Após a leitura veio a lição, que foi animada, pois Jo estava bem-disposta naquela noite, e o chapéu bicorne mantinha os seus olhos a dançar de alegria. O Professor não sabia o que pensar dela, e parou finalmente, para perguntar, com um ar de surpresa suave que era irresistível:
"Mees Marsch, por que ri na cara do seu mestre? Não tem respeito por mim, que continua tão mal?"
"Como posso ser respeitosa, senhor, quando se esquece de tirar o seu chapéu?", disse Jo.
Levando a mão à cabeça, o distraído Professor sentiu e removeu gravemente o pequeno chapéu bicorne, olhou para ele um minuto e depois inclinou a cabeça para trás e riu como um alegre violoncelo.
"Ah! Vejo-o agora; é aquela pequena Tina que me faz de tolo com o meu chapéu. Bem, não é nada; mas veja bem, se esta lição não correr bem, você também o usará."
Mas a lição não avançou durante alguns minutos, porque o Sr. Bhaer avistou uma imagem no chapéu e, ao desdobrá-lo, disse, com um ar de grande desgosto:
"Gostaria que estes papéis não entrassem em casa; não são para as crianças verem, nem para os jovens lerem. Não está bem, e não tenho paciência para aqueles que causam este mal."
Jo lançou um olhar à folha e viu uma ilustração desagradável composta por um lunático, um cadáver, um vilão e uma víbora. Ela não gostou; mas o impulso que a fez virar o papel não foi de desagrado, mas de medo, porque, por um minuto, imaginou que o jornal era o "Volcano". Não era, contudo, e o seu pânico diminuiu ao lembrar-se de que, mesmo que tivesse sido, e um dos seus próprios contos lá estivesse, não haveria nome para a trair. Ela tinha-se traído, no entanto, com um olhar e um rubor; pois, embora fosse um homem distraído, o Professor via muito mais do que as pessoas imaginavam. Ele sabia que Jo escrevia e tinha-a encontrado junto aos escritórios dos jornais mais de uma vez; mas, como ela nunca falava disso, ele não fazia perguntas, apesar de um forte desejo de ver o seu trabalho. Agora ocorreu-lhe que ela estava a fazer algo de que se envergonhava de assumir, e isso perturbou-o. Ele não disse para si mesmo: "Não é assunto meu; não tenho o direito de dizer nada", como muitas pessoas teriam feito; ele apenas lembrou-se de que ela era jovem e pobre, uma rapariga longe do amor da mãe e do cuidado do pai; e sentiu-se impelido a ajudá-la com um impulso tão rápido e natural como aquele que o levaria a estender a mão para salvar um bebé de uma poça. Tudo isto passou-lhe pela mente num minuto, mas nem um vestígio disso apareceu no seu rosto; e, quando o papel foi virado e a agulha de Jo enfiada, ele estava pronto para dizer, de forma bastante natural, mas muito grave:
"Sim, faz bem em afastá-lo de si. Não gosto de pensar que boas jovens devam ver tais coisas. São feitos para parecer agradáveis a alguns, mas eu preferiria dar aos meus rapazes pólvora para brincar do que este lixo maligno."
"Nem tudo pode ser mau, apenas parvo, sabe; e se há procura para isso, não vejo qualquer mal em satisfazê-la. Muitas pessoas muito respeitáveis ganham a vida honestamente com o que é chamado de histórias sensacionalistas", disse Jo, riscando franzidos com tanta energia que uma fila de pequenas fendas seguiu-se ao seu alfinete.
"Há procura de uísque, mas penso que nem eu nem você nos interessaríamos por vendê-lo. Se as pessoas respeitáveis soubessem o mal que faziam, não sentiriam que o ganha-pão era honesto. Não têm o direito de colocar veneno no bombom e deixar que os pequenos o comam. Não; deviam pensar um pouco e varrer a lama da rua antes de fazerem esta coisa."
O Sr. Bhaer falou com entusiasmo e caminhou até à lareira, amarrotando o papel nas mãos. Jo sentou-se imóvel, parecendo que o fogo tinha vindo até ela; pois as suas faces arderam muito tempo depois de o chapéu bicorne se ter transformado em fumo e ter subido inofensivamente pela chaminé.
"Gostaria muito de enviar todo o resto atrás dele", resmungou o Professor, voltando com um ar aliviado.
Jo pensou na labareda que a sua pilha de papéis lá em cima faria, e o seu dinheiro duramente ganho pesava bastante na sua consciência naquele minuto. Depois pensou de forma consoladora: "Os meus não são assim; são apenas parvos, nunca maus, por isso não me vou preocupar"; e, pegando no seu livro, disse, com um rosto estudioso:
"Devemos continuar, senhor? Serei muito boa e adequada agora."
"Espero que sim", foi tudo o que ele disse, mas significava mais do que ela imaginava; e o olhar grave e gentil que ele lhe lançou fez com que ela sentisse como se as palavras "Weekly Volcano" estivessem impressas em letras grandes na sua testa.
Assim que foi para o seu quarto, ela tirou os seus papéis e releu cuidadosamente cada uma das suas histórias. Sendo um pouco míope, o Sr. Bhaer usava por vezes óculos, e Jo tinha-os experimentado uma vez, sorrindo ao ver como eles ampliavam as letras pequenas do seu livro; agora parecia ter colocado também os óculos mentais ou morais do Professor; pois as falhas daquelas histórias medíocres olhavam-na de forma terrível e enchiam-na de consternação.
"São lixo, e logo serão piores do que lixo se eu continuar; pois cada uma é mais sensacionalista do que a anterior. Tenho seguido cegamente, magoando-me a mim e aos outros, por causa de dinheiro; sei que é assim, pois não consigo ler este material com sobriedade sem ficar horrivelmente envergonhada dele; e o que faria se fossem vistos em casa, ou se o Sr. Bhaer lhes pusesse as mãos em cima?"
Jo ficou em brasa só com a ideia e enfiou todo o embrulho no seu fogão, quase incendiando a chaminé com a labareda.
"Sim, esse é o melhor lugar para tais disparates inflamáveis; suponho que seria melhor incendiar a casa do que deixar que outros se explodissem com a minha pólvora", pensou ela, enquanto observava o "Demónio do Jura" desaparecer, uma pequena cinza preta com olhos de fogo.
Mas quando nada restou de todo o seu trabalho de três meses exceto um monte de cinzas, e o dinheiro no seu colo, Jo ficou sóbria, sentada no chão, a perguntar-se o que deveria fazer com o seu salário.
"Acho que ainda não fiz muito mal, e posso guardar isto para pagar o meu tempo", disse ela, após uma longa meditação, acrescentando impacientemente: "Quase desejo não ter consciência, é tão inconveniente. Se eu não me preocupasse em fazer o que é certo, e não me sentisse desconfortável ao fazer o que é errado, eu sairia-me muito bem. Não consigo evitar desejar, por vezes, que o pai e a mãe não tivessem sido tão exigentes com tais coisas."
Ah, Jo, em vez de desejares isso, agradece a Deus que "o pai e a mãe fossem exigentes", e lamenta, do fundo do coração, aqueles que não têm tais guardiões para os rodear de princípios que podem parecer muros de prisão para a juventude impaciente, mas que provarão ser fundamentos seguros sobre os quais construir o caráter na idade adulta.
Jo não escreveu mais histórias sensacionalistas, decidindo que o dinheiro não compensava a sua parte na sensação; mas, indo para o extremo oposto, como é habitual com pessoas do seu género, seguiu um curso de Mrs. Sherwood, Miss Edgeworth e Hannah More; e depois produziu um conto que poderia ter sido mais apropriadamente chamado de ensaio ou sermão, tão intensamente moral era. Ela teve dúvidas desde o início; pois a sua imaginação viva e o seu romance juvenil sentiam-se tão desconfortáveis no novo estilo como ela se sentiria mascarada no traje rígido e pesado do século passado. Ela enviou esta joia didática para vários mercados, mas não encontrou comprador; e estava inclinada a concordar com o Sr. Dashwood, que a moral não se vendia.
Depois tentou uma história para crianças, que poderia ter despachado facilmente se não tivesse sido mercenária o suficiente para exigir lucro imundo por ela. A única pessoa que ofereceu o suficiente para fazer valer a pena tentar a literatura juvenil foi um cavalheiro digno que sentia ser a sua missão converter todo o mundo à sua crença particular. Mas, por muito que gostasse de escrever para crianças, Jo não podia consentir em retratar todos os seus meninos marotos como sendo devorados por ursos ou atirados por touros raivosos, porque não iam a uma escola dominical específica, nem todos os bons bebés, que iam, como sendo recompensados por todo o tipo de felicidade, desde pão de mel dourado a escoltas de anjos, quando partiam desta vida com salmos ou sermões nas suas línguas balbuciantes. Por isso, nada resultou destas tentativas; e Jo fechou o seu tinteiro e disse, num ataque de humildade muito saudável:
"Não sei nada; vou esperar até saber antes de tentar novamente, e, entretanto, 'varrer a lama da rua', se não conseguir fazer melhor; isso é honesto, pelo menos"; decisão que provou que a sua segunda queda do pé de feijão lhe tinha feito algum bem.
Enquanto estas revoluções internas ocorriam, a sua vida externa tinha sido tão ocupada e sem acontecimentos como de costume; e, se ela por vezes parecia séria ou um pouco triste, ninguém o observava exceto o Professor Bhaer. Ele fazia-o tão silenciosamente que Jo nunca soube que ele estava à espera para ver se ela aceitaria e aproveitaria a sua repreensão; mas ela resistiu ao teste, e ele ficou satisfeito; pois, embora nenhuma palavra passasse entre eles, ele sabia que ela tinha deixado de escrever. Não só o adivinhou pelo facto de o segundo dedo da sua mão direita já não estar manchado de tinta, como ela passava as suas noites no andar de baixo agora, já não era vista nos escritórios dos jornais e estudava com uma paciência obstinada, que lhe assegurava que ela estava decidida a ocupar a sua mente com algo útil, se não agradável.
Ele ajudou-a de muitas maneiras, provando ser um verdadeiro amigo, e Jo estava feliz; pois, enquanto a sua caneta permanecia ociosa, ela estava a aprender outras lições além de alemão, e a estabelecer as bases para a história sensacionalista da sua própria vida.
Foi um inverno agradável e longo, pois ela não deixou a Mrs. Kirke até junho. Todos pareciam tristes quando chegou a altura; as crianças estavam inconsoláveis, e o cabelo do Sr. Bhaer espetava-se todo na cabeça, pois ele despenteava-o sempre selvaticamente quando se sentia perturbado.
"Vai para casa? Ah, você é feliz por ter uma casa para onde ir", disse ele, quando ela lho comunicou, e sentou-se silenciosamente a puxar a barba, no canto, enquanto ela recebia uma pequena audiência naquela última noite.
Ela ia partir cedo, por isso despediu-se de todos na véspera; e quando chegou a vez dele, ela disse calorosamente:
"Agora, senhor, não se esqueça de nos vir visitar, se alguma vez viajar pelo nosso caminho, está bem? Nunca o perdoarei se o fizer, pois quero que todos conheçam o meu amigo."
"Quer? Devo ir?", perguntou ele, olhando para ela com uma expressão ansiosa que ela não viu.
"Sim, venha no próximo mês; o Laurie gradua-se então, e o senhor apreciaria a cerimónia como algo novo."
"Esse é o seu melhor amigo, de quem fala?", disse ele, num tom alterado.
"Sim, o meu rapaz Teddy; tenho muito orgulho nele e gostaria que o visse."
Jo olhou para cima então, totalmente inconsciente de qualquer coisa exceto do seu próprio prazer na perspetiva de os apresentar um ao outro. Algo no rosto do Sr. Bhaer recordou-lhe subitamente o facto de que ela poderia achar Laurie mais do que um "melhor amigo", e, simplesmente porque ela particularmente desejava não parecer que algo se passava, começou involuntariamente a corar; e quanto mais tentava não o fazer, mais vermelha ficava. Se não fosse pela Tina no seu colo, ela não sabia o que seria dela. Felizmente, a criança foi levada a abraçá-la; por isso ela conseguiu esconder o rosto por um instante, esperando que o Professor não o visse. Mas ele viu, e o seu próprio rosto mudou novamente daquela ansiedade momentânea para a sua expressão habitual, ao dizer cordialmente:
"Temo não arranjar tempo para isso, mas desejo ao amigo muito sucesso, e a você toda a felicidade. Gott bless you!" e com isso, apertou-lhe a mão calorosamente, colocou Tina aos ombros e partiu.
Mas depois de os rapazes estarem na cama, ele sentou-se muito tempo diante do seu fogo, com o ar cansado no rosto e o "heimweh", ou saudade de casa, pesado no seu coração. Uma vez, quando se lembrou de Jo, tal como ela se sentava com a criança no colo e aquela nova suavidade no rosto, encostou a cabeça nas mãos um minuto, e depois vagueou pelo quarto, como se estivesse à procura de algo que não conseguia encontrar.
"Não é para mim; não devo ter esperança agora", disse ele para si mesmo, com um suspiro que era quase um gemido; depois, como se se censurasse pelo desejo que não conseguia reprimir, foi e beijou as duas cabeças despenteadas sobre a almofada, tirou o seu cachimbo de espuma do mar, raramente usado, e abriu o seu Platão.
Ele fez o seu melhor, e fê-lo virilmente; mas não creio que ele tenha achado que um par de rapazes desenfreados, um cachimbo, ou mesmo o divino Platão, fossem substitutos muito satisfatórios para uma esposa, um filho e um lar.
Cedo como era, ele estava na estação, na manhã seguinte, para ver Jo partir; e, graças a ele, ela começou a sua jornada solitária com a memória agradável de um rosto familiar a sorrir a sua despedida, um ramo de violetas para lhe fazer companhia, e, o melhor de tudo, o pensamento feliz:
"Bem, o inverno passou, e não escrevi livros, não ganhei fortuna; mas fiz um amigo que vale a pena, e vou tentar mantê-lo por toda a minha vida."
XXXV.
DOR DE CORAÇÃO.
Qualquer que tenha sido o seu motivo, Laurie estudou com algum propósito naquele ano, pois graduou-se com distinção e proferiu a oração em latim com a graça de um Phillips e a eloquência de um Demóstenes, segundo os seus amigos. Estavam todos lá, o seu avô — oh, tão orgulhoso! —, o Sr. e a Sra. March, John e Meg, Jo e Beth, e todos exultaram por ele com a admiração sincera que os rapazes desvalorizam na altura, mas que não conseguem obter do mundo por quaisquer triunfos posteriores.
"Tenho de ficar para este jantar confuso, mas estarei em casa amanhã cedo; virão encontrar-me como de costume, raparigas?", disse Laurie, ao colocar as irmãs na carruagem depois de as alegrias do dia terem terminado. Ele disse "raparigas", mas referia-se a Jo, pois ela era a única que mantinha o velho costume; ela não tinha coragem para negar nada ao seu rapaz esplêndido e bem-sucedido, e respondeu calorosamente:
"Eu virei, Teddy, faça chuva ou sol, e marcharei à tua frente, tocando '_Hail the conquering hero comes_' num berimbau."
Laurie agradeceu-lhe com um olhar que a fez pensar, num pânico súbito: "Oh, meu Deus! Sei que ele vai dizer algo, e então o que farei?"
A meditação noturna e o trabalho matinal acalmaram um pouco os seus medos e, tendo decidido que não seria vaidosa o suficiente para pensar que as pessoas iam pedir-lhe em casamento quando ela lhes tinha dado todas as razões para saberem qual seria a sua resposta, ela partiu à hora marcada, esperando que Teddy não fizesse nada para a obrigar a magoar os seus pobres sentimentos. Uma paragem em casa de Meg, e um cheiro e gole revigorantes no Daisy e no Demijohn, fortaleceram-na ainda mais para o tête-à-tête, mas quando viu uma figura robusta a surgir na distância, teve um forte desejo de dar meia-volta e fugir.
"Onde está o berimbau, Jo?", gritou Laurie, assim que esteve à distância de voz.
"Esqueci-me dele"; e Jo ganhou coragem novamente, pois aquela saudação não podia ser chamada de amorosa.
Ela costumava dar-lhe o braço nestas ocasiões; agora não o fazia, e ele não se queixou, o que era um mau sinal, mas falou rapidamente sobre todo o tipo de assuntos distantes, até que saíram da estrada para o pequeno caminho que conduzia a casa através do bosque. Então, ele caminhou mais devagar, perdeu subitamente a sua bela fluidez de linguagem e, de vez em quando, ocorria uma pausa terrível. Para resgatar a conversa de um dos poços de silêncio nos quais ela continuava a cair, Jo disse apressadamente:
"Agora tens de tirar umas boas e longas férias!"
"Pretendo fazê-lo."
Algo no seu tom resoluto fez Jo olhar para cima rapidamente, apenas para o encontrar a olhar para ela com uma expressão que lhe garantiu que o momento temido tinha chegado, e fê-la estender a mão com um súplice:
"Não, Teddy, por favor, não!"
"Vou dizer, e tens de me ouvir. Não vale a pena, Jo; temos de resolver isto, e quanto mais cedo melhor para ambos", respondeu ele, ficando corado e agitado ao mesmo tempo.
"Diz o que quiseres, então; eu ouvirei", disse Jo, com uma paciência desesperada.
Laurie era um jovem amante, mas falava a sério e estava determinado a "resolver isto", mesmo que morresse na tentativa; por isso, mergulhou no assunto com a sua impetuosidade característica, dizendo com uma voz que por vezes se tornava embargada, apesar dos esforços varonis para a manter firme:
"Amo-te desde que te conheço, Jo; não pude evitar, tens sido tão boa para mim. Tentei demonstrá-lo, mas tu não deixaste; agora vou fazer-te ouvir e dar-me uma resposta, porque não consigo continuar assim por mais tempo."
"Eu queria poupar-te a isto; pensei que entenderias..." começou Jo, achando tudo muito mais difícil do que esperava.
"Eu sei que querias; mas as raparigas são tão estranhas que nunca se sabe o que querem dizer. Dizem 'Não' quando querem dizer 'Sim', e deixam um homem fora de si só por diversão", retorquiu Laurie, entrincheirando-se atrás de um facto inegável.
"Eu não. Nunca quis fazer-te gostar de mim assim, e fui-me embora para te impedir disso, se pudesse."
"Eu pensei que sim; era bem ao teu feitio, mas não serviu de nada. Só te amei ainda mais, e trabalhei arduamente para te agradar, e desisti do bilhar e de tudo o que não gostavas, e esperei e nunca me queixei, porque esperava que me amasses, embora eu não seja metade do que mereces..." aqui houve um nó na garganta que não pôde ser controlado, pelo que ele decapitou botões-de-ouro enquanto limpava a sua "maldita garganta".
"Sim, mereces; és demasiado bom para mim, e estou tão grata a ti, e tão orgulhosa e afeiçoada a ti, que não compreendo por que não consigo amar-te como queres que eu faça. Tentei, mas não consigo mudar o sentimento, e seria uma mentira dizer que o faço quando não o sinto."
"A sério, verdadeiramente, Jo?"
Ele parou de repente e segurou ambas as mãos dela enquanto fazia a pergunta com um olhar que ela não esqueceu tão cedo.
"A sério, verdadeiramente, querido."
Estavam agora no bosque, perto do estorno; e quando as últimas palavras caíram relutantes dos lábios de Jo, Laurie largou-lhe as mãos e virou-se como se fosse seguir em frente, mas, pela primeira vez na sua vida, aquela cerca era demais para ele; por isso, apenas encostou a cabeça no poste coberto de musgo e ficou tão imóvel que Jo se assustou.
"Oh, Teddy, sinto tanto, sinto-o tão desesperadamente, que me mataria se isso servisse de alguma coisa! Gostaria que não levasses isto tão a peito. Não posso evitar; sabes que é impossível as pessoas obrigarem-se a amar outras se não o sentem", exclamou Jo, de forma deselegante mas arrependida, enquanto lhe dava palmadinhas suaves no ombro, lembrando-se do tempo em que ele a consolara há tanto tempo.
"Às vezes, as pessoas conseguem", disse uma voz abafada junto ao poste.
"Não acredito que seja o tipo certo de amor, e preferiria não tentar", foi a resposta decidida.
Houve uma longa pausa, enquanto um melro cantava alegremente no salgueiro junto ao rio e a erva alta sussurrava ao vento. Pouco depois, Jo disse muito sobriamente, sentando-se no degrau do estorno:
"Laurie, quero dizer-te uma coisa."
Ele sobressaltou-se como se tivesse sido atingido, ergueu a cabeça e exclamou, num tom feroz:
"Não me digas isso, Jo; não consigo suportar agora!"
"Dizer o quê?", perguntou ela, admirada com a sua violência.
"Que amas aquele velho."
"Que velho?", perguntou Jo, pensando que ele se referia ao avô dele.
"Aquele maldito Professor sobre quem estavas sempre a escrever. Se disseres que o amas, sei que farei algo desesperado"; e ele parecia capaz de cumprir a sua palavra, cerrando os punhos com uma centelha de ira nos olhos.
Jo teve vontade de rir, mas conteve-se e disse calorosamente, pois também ela começava a ficar agitada com tudo aquilo:
"Não digas asneiras, Teddy! Ele não é velho, nem nada de mau, mas bom e gentil, e o melhor amigo que tenho, a seguir a ti. Por favor, não te passes; quero ser gentil, mas sei que vou ficar zangada se insultares o meu Professor. Não tenho a menor intenção de amar a ele ou a qualquer outro."
"Mas vais, passado algum tempo, e então o que será de mim?"
"Tu também amarás outra pessoa, como um rapaz sensato, e esquecerás todo este incómodo."
"Não consigo amar mais ninguém; e nunca te esquecerei, Jo, nunca! Nunca!", com um bater de pé para enfatizar as suas palavras apaixonadas.
"O que hei de fazer com ele?", suspirou Jo, descobrindo que as emoções eram mais difíceis de gerir do que esperava. "Não ouviste o que eu queria dizer-te. Senta-te e ouve; porque, na verdade, quero agir bem e fazer-te feliz", disse ela, esperando acalmá-lo com um pouco de razão, o que provava que ela não sabia nada sobre o amor.
Vendo um raio de esperança nesse último discurso, Laurie atirou-se para a relva aos pés dela, apoiou o braço no degrau mais baixo do estorno e olhou para ela com uma cara expectante. Ora, aquele arranjo não era propício a um discurso calmo ou a um pensamento claro da parte de Jo; pois como podia ela dizer coisas duras ao seu rapaz enquanto ele a observava com olhos cheios de amor e saudade, e pestanas ainda húmidas com a gota ou duas de amargura que a sua dureza de coração tinha extraído dele? Ela virou-lhe gentilmente a cabeça para o lado, dizendo, enquanto acariciava o cabelo ondulado que ele deixara crescer por causa dela — quão comovente era aquilo, de facto! —:
"Concordo com a mãe que tu e eu não somos adequados um para o outro, porque os nossos temperamentos irascíveis e vontades fortes provavelmente tornar-nos-iam muito infelizes, se fôssemos tão tolos ao ponto de..." Jo hesitou um pouco na última palavra, mas Laurie pronunciou-a com uma expressão arrebatadora:
"Casar... não, não o seríamos! Se me amasses, Jo, eu seria um santo perfeito, pois tu poderias fazer de mim o que quisesses."
"Não, não posso. Tentei e falhei, e não vou arriscar a nossa felicidade com uma experiência tão séria. Não nos entendemos e nunca nos entenderemos; por isso seremos bons amigos para toda a vida, mas não vamos cometer nenhuma imprudência."
"Sim, cometeremos, se tivermos oportunidade", murmurou Laurie, rebelde.
"Agora, sê razoável e vê o caso de forma sensata", implorou Jo, quase no limite das suas forças.
"Não quero ser razoável; não quero ter o que tu chamas de 'visão sensata'; isso não me ajuda e só te torna mais dura. Não acredito que tenhas coração."
"Quem me dera não ter!"
Houve um pequeno tremor na voz de Jo, e, pensando ser um bom presságio, Laurie virou-se, trazendo todo o seu poder de persuasão enquanto dizia, no tom sedutor que nunca tinha sido tão perigosamente sedutor antes:
"Não nos desiludas, querida! Toda a gente espera por isso. O avô pôs nisso o seu coração, os teus também gostam, e eu não consigo viver sem ti. Diz que sim, e sejamos felizes. Por favor, por favor!"
Só meses depois é que Jo compreendeu como tivera a força de espírito para se manter fiel à resolução que tomara quando decidiu que não amava o seu rapaz e que nunca o amaria. Foi muito difícil, mas ela fê-lo, sabendo que adiar era inútil e cruel.
"Não consigo dizer 'Sim' com verdade, por isso não o direi de todo. Verás que tenho razão, mais tarde, e agradecer-me-ás por isso..." começou ela solenemente.
"Que me enforquem se o fizer!" e Laurie saltou da relva, ardendo de indignação só com a ideia.
"Sim, agradecerás!", persistiu Jo; "passado algum tempo, vais ultrapassar isto e encontrar uma rapariga adorável e talentosa, que te adorará e será uma excelente senhora para a tua bela casa. Eu não seria. Sou simples, desajeitada, estranha e velha, e terias vergonha de mim, e discutiríamos — não podemos evitar mesmo agora, vês — e eu não gostaria da sociedade elegante e tu sim, e tu detestarias os meus rabiscos, e eu não conseguiria viver sem eles, e seríamos infelizes, e desejaríamos não o ter feito, e tudo seria horrível!"
"Mais alguma coisa?", perguntou Laurie, achando difícil ouvir pacientemente aquele surto profético.
"Nada mais, exceto que não acredito que alguma vez me case. Sou feliz como sou, e amo demasiado a minha liberdade para ter pressa em entregá-la a qualquer homem mortal."
"Sei que não é verdade!", interrompeu Laurie. "Pensas assim agora; mas chegará um tempo em que te importarás com alguém, e vais amá-lo tremendamente, e viver e morrer por ele. Sei que o farás, é do teu feitio, e eu terei de ficar de fora a ver;" e o amante desesperado atirou o chapéu ao chão com um gesto que teria parecido cómico se o seu rosto não estivesse tão trágico.
"Sim, viverei e morrerei por ele, se ele alguma vez aparecer e me fizer amá-lo apesar de mim mesma, e tu tens de fazer o melhor que puderes!", gritou Jo, perdendo a paciência com o pobre Teddy. "Fiz o meu melhor, mas tu não queres ser razoável, e é egoísmo da tua parte continuar a insistir pelo que não posso dar. Serei sempre afeiçoada a ti, muito afeiçoada mesmo, como amigo, mas nunca casarei contigo; e quanto mais cedo acreditares nisso, melhor para ambos — e pronto!"
Aquele discurso foi como fogo na pólvora. Laurie olhou para ela por um minuto como se não soubesse bem o que fazer consigo mesmo, depois virou-se bruscamente, dizendo, num tom desesperado:
"Um dia vais arrepender-te, Jo."
"Oh, onde vais?", gritou ela, pois o rosto dele assustou-a.
"Para o diabo!", foi a resposta consoladora.
Por um minuto, o coração de Jo parou, enquanto ele se lançava pela margem em direção ao rio; mas é preciso muita loucura, pecado ou miséria para enviar um jovem para uma morte violenta, e Laurie não era do tipo fraco que se deixa vencer por um único fracasso. Não tinha pensamentos de um mergulho melodramático, mas um instinto cego levou-o a atirar o chapéu e o casaco para o seu barco e a remar com todas as suas forças, fazendo melhor tempo rio acima do que alguma vez fizera em muitas regatas. Jo soltou um longo suspiro e descruzou as mãos enquanto observava o pobre rapaz a tentar ultrapassar o problema que carregava no coração.
"Isso far-lhe-á bem, e ele voltará para casa num estado de espírito tão terno e penitente, que não terei coragem de o ver", disse ela, acrescentando, enquanto caminhava lentamente para casa, sentindo-se como se tivesse assassinado algo inocente e enterrado debaixo das folhas:
"Agora tenho de ir preparar o Sr. Laurence para ser muito gentil com o meu pobre rapaz. Gostaria que ele amasse a Beth; talvez o faça, com o tempo, mas começo a pensar que me enganei sobre ela. Oh, céus! Como podem as raparigas gostar de ter pretendentes e recusá-los. Acho isso terrível."
Tendo a certeza de que ninguém o poderia fazer tão bem como ela, foi diretamente ao Sr. Laurence, contou a dura história com coragem e depois desfez-se em lágrimas, chorando tão tristemente pela sua própria insensibilidade que o bondoso velho, embora profundamente desiludido, não proferiu qualquer censura. Achou difícil compreender como qualquer rapariga poderia não amar o Laurie e esperava que ela mudasse de ideias, mas sabia, ainda melhor do que Jo, que o amor não pode ser forçado, pelo que abanou a cabeça tristemente e resolveu levar o seu rapaz para longe de perigo; pois as palavras de despedida da "Jovem Impetuosidade" a Jo inquietaram-no mais do que ele estaria disposto a confessar.
Quando Laurie chegou a casa, morto de cansaço, mas bastante composto, o avô recebeu-o como se não soubesse de nada e manteve a ilusão com sucesso durante uma ou duas horas. Mas quando se sentaram juntos ao crepúsculo, o tempo que costumavam desfrutar tanto, foi difícil para o velho continuar a divagar como de costume, e ainda mais difícil para o jovem ouvir os elogios aos sucessos do último ano, que para ele agora pareciam esforços de amor perdidos. Suportou-o o quanto pôde, depois dirigiu-se ao seu piano e começou a tocar. As janelas estavam abertas; e Jo, caminhando no jardim com Beth, pela primeira vez compreendeu a música melhor do que a irmã, pois ele tocava a "Sonata Patética" e tocava-a como nunca antes fizera.
"Isso é muito bonito, não duvido, mas é triste o suficiente para levar qualquer um às lágrimas; dá-nos algo mais alegre, rapaz", disse o Sr. Laurence, cujo bom coração velho estava cheio de compaixão, que ele desejava demonstrar, mas não sabia como.
Laurie lançou-se num registo mais vivo, tocou tempestuosamente durante vários minutos e teria conseguido terminar corajosamente se, numa pausa momentânea, a voz da Sra. March não tivesse sido ouvida a chamar:
"Jo, querida, entra; preciso de ti."
Exatamente o que Laurie ansiava dizer, com um significado diferente! Ao ouvir, perdeu o ritmo; a música terminou com um acorde quebrado e o músico ficou sentado em silêncio na escuridão.
"Não suporto isto", murmurou o velho cavalheiro. Levantou-se, tateou o caminho até ao piano, colocou uma mão gentil em cada um dos ombros largos e disse, tão suavemente como uma mulher:
"Eu sei, meu rapaz, eu sei."
Nenhuma resposta por um instante; depois Laurie perguntou bruscamente:
"Quem lhe contou?"
"A própria Jo."
"Então, acabou-se!", e sacudiu as mãos do avô com um movimento impaciente; pois, embora grato pela compaixão, o seu orgulho de homem não suportava a piedade de outro homem.
"Não exatamente; quero dizer uma coisa, e depois será o fim", retorquiu o Sr. Laurence, com uma suavidade invulgar. "Talvez não te apeteça ficar em casa agora?"
"Não pretendo fugir de uma rapariga. Jo não pode impedir-me de a ver, e vou ficar e fazê-lo durante o tempo que eu quiser", interrompeu Laurie, num tom desafiante.
"Não se fores o cavalheiro que penso que és. Estou desiludido, mas a rapariga não pode evitar; e a única coisa que te resta fazer é ir embora por algum tempo. Para onde irás?"
"Para qualquer lado. Não me importa o que aconteça comigo"; e Laurie levantou-se com uma risada imprudente, que soou mal aos ouvidos do avô.
"Enfrenta isto como um homem e não faças nada de imprudente, pelo amor de Deus. Porque não vais para o estrangeiro, como planeaste, e esqueces isto?"
"Não consigo."
"Mas estavas doido por ir, e eu prometi-te que irias quando terminasses o curso."
"Ah, mas eu não queria ir sozinho!" e Laurie caminhou rapidamente pela sala, com uma expressão que ainda bem que o avô não viu.
"Não te peço para ires sozinho; há alguém pronto e feliz por ir contigo, a qualquer parte do mundo."
"Quem, senhor?", parando para ouvir.
"Eu mesmo."
Laurie voltou tão depressa como tinha ido e estendeu a mão, dizendo com a voz rouca:
"Sou um bruto egoísta; mas... sabe... avô..."
"Deus me ajude, sim, eu sei, pois já passei por tudo isso antes, uma vez nos meus tempos de juventude, e depois com o teu pai. Agora, meu querido rapaz, senta-te calmamente e ouve o meu plano. Está tudo decidido e pode ser levado a cabo de imediato", disse o Sr. Laurence, segurando o jovem, como se receasse que ele se soltasse, como o pai fizera antes dele.
"Bem, senhor, o que é?" e Laurie sentou-se, sem um sinal de interesse no rosto ou na voz.
"Há negócios em Londres que precisam de atenção; eu queria que tu tratasses disso; mas posso fazê-lo melhor eu mesmo, e as coisas por aqui correrão muito bem com o Brooke a geri-las. Os meus sócios fazem quase tudo; eu apenas me mantenho aqui até que ocupes o meu lugar, e posso partir a qualquer momento."
"Mas o senhor detesta viajar, senhor; não lhe posso pedir isso na sua idade", começou Laurie, que estava grato pelo sacrifício, mas preferia muito mais ir sozinho, se é que ia.
O velho cavalheiro sabia isso perfeitamente bem e desejava particularmente impedi-lo; pois o estado de espírito em que encontrou o neto garantiu-lhe que não seria sensato deixá-lo entregue a si mesmo. Por isso, sufocando um pesar natural ao pensar nos confortos do lar que deixaria para trás, disse firmemente:
"Deus te abençoe, ainda não estou na reforma. Até gosto da ideia; far-me-á bem, e os meus velhos ossos não sofrerão, pois viajar hoje em dia é quase tão fácil como estar sentado numa cadeira."
Um movimento inquieto de Laurie sugeriu que a sua cadeira não era confortável, ou que não gostava do plano, e fez o velho acrescentar apressadamente:
"Não pretendo ser um desmancha-prazeres ou um fardo; vou porque penso que te sentirias mais feliz do que se eu ficasse para trás. Não tenciono andar a passear contigo, mas deixar-te livre para ires onde quiseres, enquanto me divirto à minha maneira. Tenho amigos em Londres e em Paris, e gostaria de os visitar; entretanto, tu podes ir a Itália, Alemanha, Suíça, onde quiseres, e desfrutar de pinturas, música, paisagens e aventuras o quanto quiseres."
Ora, Laurie sentia, naquele momento, que o seu coração estava completamente partido e o mundo um deserto uivante; mas, ao som de certas palavras que o velho cavalheiro introduziu astuciosamente na sua frase final, o coração partido deu um salto inesperado, e um ou dois oásis verdes apareceram subitamente no deserto uivante. Ele suspirou e depois disse, num tom sem ânimo:
"Como quiser, senhor; não importa para onde vou ou o que faço."
"Para mim importa, lembra-te disso, meu rapaz; dou-te total liberdade, mas confio que farás um uso honesto dela. Promete-me isso, Laurie."
"Tudo o que quiser, senhor."
"Bom", pensou o velho cavalheiro. "Não te importas agora, mas chegará um tempo em que essa promessa te manterá longe de sarilhos, ou então estou muito enganado."
Sendo um indivíduo enérgico, o Sr. Laurence bateu enquanto o ferro estava quente; e, antes que o ser definhado recuperasse espírito suficiente para se rebelar, partiram. Durante o tempo necessário para a preparação, Laurie comportou-se como os jovens costumam fazer em tais casos. Estava de mau humor, irritável e pensativo alternadamente; perdeu o apetite, negligenciou o seu vestuário e dedicou muito tempo a tocar tempestuosamente no seu piano; evitava Jo, mas consolava-se olhando para ela da sua janela, com uma cara trágica que assombrava os seus sonhos à noite e a oprimia com um pesado sentimento de culpa durante o dia. Ao contrário de alguns sofredores, nunca falou da sua paixão não correspondida e não permitia que ninguém, nem mesmo a Sra. March, tentasse consolar ou oferecer simpatia. Por algumas razões, isto foi um alívio para os seus amigos; mas as semanas antes da sua partida foram muito desconfortáveis, e todos se alegraram por o "pobre e querido rapaz estar a ir embora para esquecer o seu problema e voltar para casa feliz". Claro que ele sorria sombriamente à ilusão deles, mas passava por cima, com a triste superioridade de quem sabia que a sua fidelidade, tal como o seu amor, era inalterável.
Quando chegou o momento da partida, ele fingiu estar bem-disposto para ocultar certas emoções inoportunas que pareciam inclinadas a impor-se. Esta alegria não enganou ninguém, mas todos tentaram agir como se a tivessem acreditado, por causa dele, e ele portou-se muito bem até que a Sra. March o beijou, com um sussurro cheio de solicitude maternal; então, sentindo que estava prestes a perder o controlo, abraçou-os a todos apressadamente, não esquecendo a aflita Hannah, e correu escada abaixo como se fosse pela sua própria vida. Jo seguiu-o um minuto depois para lhe acenar caso ele olhasse para trás. Ele olhou, voltou, passou os braços por ela enquanto ela estava no degrau acima do dele e olhou para ela com um rosto que tornou o seu breve apelo tanto eloquente como patético.
"Oh, Jo, não podes?"
"Teddy, querido, quem me dera poder!"
Foi tudo, exceto uma pequena pausa; depois, Laurie endireitou-se, disse "Está tudo bem, não faz mal" e foi-se embora sem dizer mais nada. Ah, mas não estava tudo bem, e Jo importava-se; pois, enquanto a cabeça de caracóis repousava no seu braço um minuto após a sua resposta dura, ela sentiu como se tivesse esfaqueado o seu melhor amigo; e quando ele a deixou sem olhar para trás, ela soube que o rapaz Laurie nunca mais voltaria.
XXXVI.
O SEGREDO DE BETH.
Quando Jo regressou a casa nessa primavera, ficou impressionada com a mudança em Beth. Ninguém falava disso ou parecia aperceber-se, pois tinha acontecido de forma demasiado gradual para assustar aqueles que a viam diariamente; mas, para olhos aguçados pela ausência, era muito evidente; e um peso enorme caiu sobre o coração de Jo ao ver o rosto da irmã. Não estava mais pálido e apenas um pouco mais magro do que no outono; contudo, havia um aspeto estranhamente transparente, como se a mortalidade estivesse a ser lentamente refinada e a imortalidade a brilhar através da carne frágil com uma beleza indescritivelmente patética. Jo viu-o e sentiu-o, mas não disse nada na altura, e logo a primeira impressão perdeu muito da sua força; pois Beth parecia feliz, ninguém parecia duvidar de que ela estava melhor; e, de momento, com outras preocupações, Jo esqueceu por um tempo o seu medo.
Mas, quando Laurie partiu e a paz prevaleceu novamente, a ansiedade vaga regressou e perseguiu-a. Ela tinha confessado os seus pecados e tinha sido perdoada; mas, quando mostrou as suas poupanças e propôs a viagem à montanha, Beth agradeceu-lhe sinceramente, mas pediu para não ir tão longe de casa. Outra pequena visita à beira-mar ser-lhe-ia mais agradável e, como não se conseguiu convencer a avó a deixar os bebés, Jo levou Beth para aquele lugar tranquilo, onde ela podia viver muito ao ar livre e deixar que as brisas frescas do mar trouxessem um pouco de cor às suas faces pálidas.
Não era um lugar da moda, mas, mesmo entre as pessoas agradáveis de lá, as raparigas fizeram poucos amigos, preferindo viver uma para a outra. Beth era demasiado tímida para desfrutar da sociedade, e Jo estava demasiado envolvida nela para se importar com mais alguém; assim, eram tudo uma para a outra e iam e vinham, completamente inconscientes do interesse que despertavam naqueles que as rodeavam, que observavam com olhos solidários a irmã forte e a fraca, sempre juntas, como se sentissem instintivamente que uma longa separação não estava longe.
Sentiam-no, contudo nenhuma delas falava disso; pois, muitas vezes, entre nós e aqueles que nos são mais próximos e queridos, existe uma reserva que é muito difícil de superar. Jo sentia como se um véu tivesse caído entre o seu coração e o de Beth; mas, quando estendia a mão para o levantar, parecia haver algo de sagrado naquele silêncio, e ela esperava que Beth falasse. Ela admirava-se, e sentia-se grata também, por os seus pais não parecerem ver o que ela via; e, durante as semanas tranquilas, em que a sombra se tornou tão evidente para ela, não disse nada aos que estavam em casa, acreditando que isso se diria por si só quando Beth voltasse sem melhoras. Ela perguntava-se ainda mais se a sua irmã realmente adivinhava a dura verdade, e que pensamentos passavam pela sua mente durante as longas horas em que ela ficava deitada sobre as rochas quentes, com a cabeça no colo de Jo, enquanto os ventos sopravam de forma saudável sobre ela e o mar fazia música aos seus pés.
Um dia, Beth contou-lhe. Jo pensou que ela estava a dormir, pois ela estava tão imóvel; e, pousando o livro, ficou a olhar para ela com olhos nostálgicos, tentando ver sinais de esperança na cor ténue das faces de Beth. Mas não conseguiu encontrar o suficiente para a satisfazer, pois as faces estavam muito magras e as mãos pareciam demasiado fracas para segurar até as pequenas conchas rosadas que tinham estado a recolher. Ocorreu-lhe então, mais amargamente do que nunca, que Beth estava lentamente a afastar-se dela, e os seus braços apertaram instintivamente o abraço ao tesouro mais querido que possuía. Durante um minuto, os seus olhos ficaram demasiado turvos para ver e, quando se limparam, Beth olhava para ela tão ternamente que quase não houve necessidade de ela dizer:
"Jo, querida, estou contente por saberes. Tentei dizer-te, mas não consegui."
Não houve resposta, exceto a face da irmã contra a sua, nem sequer lágrimas; pois, quando mais profundamente comovida, Jo não chorava. Ela era a mais fraca, então, e Beth tentou confortá-la e sustentá-la, com os seus braços à sua volta e as palavras reconfortantes que sussurrava ao seu ouvido.
"Já o sabia há muito tempo, querida, e agora que estou habituada a isso, não é difícil pensar nisso ou suportá-lo. Tenta ver as coisas assim, e não te preocupes comigo, porque é o melhor; realmente é."
"Foi isto que te tornou tão infeliz no outono, Beth? Não sentias isso então, e guardaste-o para ti durante tanto tempo, pois não?" perguntou Jo, recusando-se a ver ou dizer que era o melhor, mas contente por saber que Laurie não tinha parte na angústia de Beth.
"Sim, desisti de ter esperança nessa altura, mas não gostava de o admitir. Tentei pensar que era uma fantasia de doença e não queria deixar que isso preocupasse ninguém. Mas quando vos via a todos tão bem e fortes, e cheios de planos felizes, era difícil sentir que nunca poderia ser como vocês, e então sentia-me miserável, Jo."
"Oh, Beth, e não me contaste, não me deixaste confortar-te e ajudar-te! Como pudeste excluir-me e suportar tudo sozinha?"
A voz de Jo estava cheia de uma ternura carregada de reprovação, e o seu coração doía ao pensar na luta solitária que deve ter ocorrido enquanto Beth aprendia a dizer adeus à saúde, ao amor e à vida, e a carregar a sua cruz tão alegremente.
"Talvez tenha sido errado, mas tentei fazer o que era correto; não tinha a certeza, ninguém dizia nada, e eu esperava estar enganada. Teria sido egoísta assustar-vos a todos quando a Marmee estava tão ansiosa com a Meg, e a Amy longe, e tu tão feliz com o Laurie... pelo menos, foi o que pensei na altura."
"E eu pensei que tu o amavas, Beth, e fui-me embora porque não podia," exclamou Jo, feliz por dizer toda a verdade.
Beth parecia tão espantada com a ideia que Jo sorriu apesar da sua dor e acrescentou suavemente:
"Então não amavas, querida? Eu temia que fosse assim, e imaginei o teu pequeno coração cheio de amores não correspondidos durante todo esse tempo."
"Ora, Jo, como poderia eu, quando ele gostava tanto de ti?" perguntou Beth, tão inocentemente como uma criança. "Eu amo-o ternamente; ele é tão bom para mim, como poderia não o amar? Mas ele nunca poderia ser nada para mim além do meu irmão. Espero que ele o seja verdadeiramente, algum dia."
"Não através de mim," disse Jo decididamente. "A Amy ficou para ele, e eles formariam um par excelente; mas não tenho coração para tais coisas, agora. Não me importa o que aconteça a qualquer pessoa, exceto a ti, Beth. Tens de ficar boa."
"Eu quero, oh, tanto! Tento, mas todos os dias perco um pouco e sinto-me mais certa de que nunca o recuperarei. É como a maré, Jo; quando vira, vai lentamente, mas não pode ser parada."
"Há de ser parada, a tua maré não pode virar tão cedo, dezanove anos é demasiado jovem. Beth, não posso deixar-te ir. Vou trabalhar, rezar e lutar contra isso. Vou manter-te comigo apesar de tudo; tem de haver formas, não pode ser demasiado tarde. Deus não será tão cruel ao ponto de te tirar de mim," exclamou a pobre Jo de forma rebelde, pois o seu espírito era muito menos piedosamente submisso do que o de Beth.
Pessoas simples e sinceras raramente falam muito da sua piedade; ela manifesta-se em atos, mais do que em palavras, e tem mais influência do que homilias ou protestos. Beth não conseguia raciocinar ou explicar a fé que lhe dava coragem e paciência para renunciar à vida e esperar alegremente pela morte. Como uma criança confiante, não fazia perguntas, mas deixava tudo a Deus e à natureza, Pai e mãe de todos nós, sentindo-se certa de que eles, e apenas eles, podiam ensinar e fortalecer o coração e o espírito para esta vida e para a vida vindoura. Ela não repreendeu Jo com discursos santarrões, apenas a amou mais pela sua afeição apaixonada e agarrou-se mais estreitamente ao querido amor humano, do qual o nosso Pai nunca tenciona que nos desmamemos, mas através do qual Ele nos atrai mais para junto de Si. Ela não podia dizer "Estou contente por ir", pois a vida era muito doce para ela; apenas conseguia soluçar: "Tento estar disposta", enquanto se agarrava a Jo, à medida que a primeira onda amarga desta grande tristeza quebrava sobre ambas.
Pouco depois, Beth disse, com serenidade recuperada:
"Dir-lhes-ás isto quando voltarmos para casa?"
"Acho que eles verão isso sem palavras," suspirou Jo; pois, agora, parecia-lhe que Beth mudava a cada dia.
"Talvez não; ouvi dizer que as pessoas que mais amam são muitas vezes as mais cegas para tais coisas. Se eles não virem, dir-lhes-ás por mim. Não quero segredos, e é mais bondoso prepará-los. A Meg tem o John e os bebés para a consolar, mas tu tens de apoiar o pai e a mãe, não tens, Jo?"
"Se eu puder; mas, Beth, ainda não desisto; vou acreditar que é uma fantasia de doença e não te deixarei pensar que é verdade," disse Jo, tentando falar alegremente.
Beth ficou um minuto a pensar e depois disse, à sua maneira calma:
"Não sei como me expressar, e não tentaria, com ninguém a não ser contigo, porque não consigo falar abertamente, exceto com a minha Jo. Só quero dizer que tenho a sensação de que nunca foi intencionado que eu vivesse muito tempo. Não sou como o resto de vocês; nunca fiz planos sobre o que faria quando crescesse; nunca pensei em casar, como todas vocês fizeram. Não conseguia imaginar-me senão como a pequena Beth estúpida, a trotar por casa, sem utilidade em parte alguma a não ser lá. Nunca quis ir embora, e a parte difícil agora é deixar-vos a todas. Não tenho medo, mas parece que sentiria saudades tuas até no céu."
Jo não conseguia falar; e, durante vários minutos, não houve som senão o suspiro do vento e o bater da maré. Uma gaivota de asas brancas voou, com o brilho do sol nas suas asas prateadas; Beth observou-a até que desapareceu, e os seus olhos estavam cheios de tristeza. Um pequeno pássaro da areia, de casaco cinzento, veio a trotear pela praia, "piando" suavemente para si mesmo, como se desfrutasse do sol e do mar; chegou bem perto de Beth, olhou para ela com um olho amigável e pousou numa pedra quente, arranjando as suas penas molhadas, completamente à vontade. Beth sorriu e sentiu-se confortada, pois a pequena criatura parecia oferecer a sua pequena amizade e lembrar-lhe que um mundo agradável ainda estava por desfrutar.
"Querido passarinho! Vê, Jo, quão manso ele é. Gosto mais dos pios do que das gaivotas: não são tão selvagens e belos, mas parecem criaturas pequenas, felizes e confiantes. Costumava chamar-lhes os meus pássaros, no verão passado; e a mãe dizia que eles a faziam lembrar-me... criaturas ocupadas, da cor dos quakers, sempre perto da costa e sempre a chilrear essa sua pequena canção contente. Tu és a gaivota, Jo, forte e selvagem, afeiçoada à tempestade e ao vento, voando para longe, mar adentro, e feliz toda sozinha. A Meg é a rola, e a Amy é como a cotovia de que ela escreve, tentando subir até às nuvens, mas caindo sempre de volta ao seu ninho. Querida menina! Ela é tão ambiciosa, mas o seu coração é bom e terno; e não importa quão alto ela voe, nunca se esquecerá de casa. Espero voltar a vê-la, mas ela parece estar tão longe."
"Ela vem na primavera, e eu quero que estejas pronta para a ver e desfrutar dela. Vou fazer com que fiques boa e rosada até lá," começou Jo, sentindo que, de todas as mudanças em Beth, a mudança na fala era a maior, pois parecia não custar qualquer esforço agora, e ela pensava em voz alta de uma forma bastante diferente da tímida Beth.
"Jo, querida, não tenhas mais esperança; não fará qualquer bem, tenho a certeza disso. Não vamos ser miseráveis, mas desfrutemos de estar juntas enquanto esperamos. Teremos tempos felizes, pois não sofro muito, e acho que a maré baixará facilmente, se me ajudares."
Jo inclinou-se para beijar o rosto tranquilo; e, com esse beijo silencioso, dedicou-se de alma e corpo a Beth.
Ela tinha razão: não houve necessidade de quaisquer palavras quando chegaram a casa, pois o pai e a mãe viram claramente, agora, o que tinham rezado para serem poupados de ver. Cansada da sua curta viagem, Beth foi imediatamente para a cama, dizendo o quão contente estava por estar em casa; e, quando Jo desceu, descobriu que lhe seria poupada a difícil tarefa de contar o segredo de Beth. O seu pai estava parado, com a cabeça apoiada na lareira, e não se virou quando ela entrou; mas a sua mãe estendeu os braços como se pedisse ajuda, e Jo foi confortá-la sem dizer uma palavra.
XXXVII.
NOVAS IMPRESSÕES.
Às três da tarde, todo o mundo da moda em Nice pode ser visto na Promenade des Anglais — um lugar encantador; pois o passeio largo, ladeado de palmeiras, flores e arbustos tropicais, é limitado de um lado pelo mar e do outro pela grande avenida, ladeada de hotéis e villas, enquanto mais além ficam pomares de laranjeiras e as colinas. Muitas nações estão representadas, muitas línguas faladas, muitos trajes usados; e, num dia de sol, o espetáculo é tão alegre e brilhante como um carnaval. Ingleses altivos, franceses animados, alemães sóbrios, espanhóis belos, russos feios, judeus humildes, americanos descontraídos, todos passeiam, sentam-se ou deambulam por ali, conversando sobre as novidades e criticando a celebridade mais recente que chegou — Ristori ou Dickens, Vítor Emanuel ou a Rainha das Ilhas Sandwich. As carruagens são tão variadas como a companhia e atraem tanta atenção, especialmente os barouches de cestaria baixa em que as senhoras conduzem a si próprias, com um par de póneis impetuosos, redes alegres para evitar que os seus folhos volumosos transbordem dos veículos diminutos, e pequenos criados no banco de trás.
Ao longo deste passeio, no dia de Natal, um jovem alto caminhava lentamente, com as mãos atrás das costas e uma expressão de semblante algo ausente. Parecia um italiano, vestia-se como um inglês e tinha o ar independente de um americano — uma combinação que fazia com que vários pares de olhos femininos olhassem para ele com aprovação, e vários dândis em fatos de veludo preto, com gravatas cor-de-rosa, luvas cor de camurça e flores de laranjeira nas casas dos botões, encolhessem os ombros e, depois, o invejassem pela sua estatura. Havia muitos rostos bonitos para admirar, mas o jovem prestava-lhes pouca atenção, exceto para olhar, de vez em quando, para alguma rapariga loira ou senhora de azul. Pouco depois, ele saiu do passeio e ficou um momento na passadeira, como se indeciso entre ir ouvir a banda no Jardin Publique ou deambular pela praia em direção a Castle Hill. O trote rápido dos póneis fê-lo olhar para cima, quando uma das pequenas carruagens, contendo uma única dama, veio rapidamente pela rua abaixo. A dama era jovem, loira e vestida de azul. Ele ficou a olhar por um minuto, depois todo o rosto iluminou-se e, acenando com o chapéu como um rapaz, apressou-se a ir ao seu encontro.
"Oh, Laurie, és mesmo tu? Pensei que nunca mais vinhas!" exclamou Amy, largando as rédeas e estendendo ambas as mãos, para grande escândalo de uma mãe francesa que apressou os passos da filha, com receio de que ela se desmoralizasse ao ver os modos livres destes "mad English".
"Fui detido pelo caminho, mas prometi passar o Natal convosco, e aqui estou."
"Como está o teu avô? Quando chegaste? Onde estás hospedado?"
"Muito bem... ontem à noite... no Chauvain. Passei pelo teu hotel, mas vocês tinham saído todos."
"Tenho tanto para dizer, não sei por onde começar! Sobe, e podemos conversar à vontade; ia dar uma volta e desejava companhia. A Flo está a guardar-se para esta noite."
"O que acontece então, um baile?"
"Uma festa de Natal no nosso hotel. Há muitos americanos lá, e dão-na em honra do dia. Virás connosco, claro? A tia ficará encantada."
"Obrigado. Para onde agora?" perguntou Laurie, recostando-se e cruzando os braços, um procedimento que agradou a Amy, que preferia conduzir; pois o seu chicote-sombrinha e as rédeas azuis sobre o dorso dos póneis brancos proporcionavam-lhe uma satisfação infinita.
"Vou primeiro ao banco, buscar cartas, e depois a Castle Hill; a vista é tão adorável, e gosto de alimentar os pavões. Já lá estiveste alguma vez?"
"Muitas vezes, há anos; mas não me importo de lá dar uma vista de olhos."
"Agora conta-me tudo sobre ti. A última coisa que ouvi sobre ti, o teu avô escreveu que estava à tua espera vindo de Berlim."
"Sim, passei um mês lá e depois juntei-me a ele em Paris, onde se estabeleceu para o inverno. Ele tem amigos lá e encontra muito com que se divertir; por isso, vou e venho, e damo-nos maravilhosamente."
"Isso é um arranjo sociável," disse Amy, sentindo que faltava algo no comportamento de Laurie, embora não soubesse dizer o quê.
"Ora, vês, ele detesta viajar e eu detesto ficar parado; por isso, cada um satisfaz-se, e não há problemas. Estou muitas vezes com ele, e ele diverte-se com as minhas aventuras, enquanto eu gosto de sentir que alguém se alegra por me ver quando volto das minhas andanças. Buraco velho e sujo, não é?" acrescentou ele, com um olhar de desgosto, enquanto percorriam o boulevard até à Place Napoleon, na cidade antiga.
"A sujidade é pitoresca, por isso não me importo. O rio e as colinas são deliciosos, e estes vislumbres das ruas estreitas transversais são o meu deleite. Agora teremos de esperar que aquela procissão passe; vai para a Igreja de São João."
Enquanto Laurie observava sem entusiasmo a procissão de padres sob os seus dosséis, freiras de véu branco levando círios acesos e alguma irmandade de azul, cantando enquanto caminhavam, Amy observava-o e sentiu um novo tipo de timidez a apoderar-se dela; pois ele tinha mudado, e ela não conseguia encontrar o rapaz de rosto alegre que deixou no homem de aspeto taciturno ao seu lado. Ele estava mais bonito do que nunca e muito melhorado, pensou ela; mas agora que o rubor de prazer por a encontrar tinha passado, ele parecia cansado e sem espírito... não doente, nem exatamente infeliz, mas mais velho e grave do que um ou dois anos de vida próspera o deveriam ter feito. Ela não conseguia entender, e não se atreveu a fazer perguntas; por isso, abanou a cabeça e tocou nos póneis, enquanto a procissão se afastava pelos arcos da ponte Paglioni e desaparecia na igreja.
"Que pensez vous?" disse ela, exibindo o seu francês, que tinha melhorado em quantidade, se não em qualidade, desde que veio para o estrangeiro.
"Que a mademoiselle fez bom uso do seu tempo, e o resultado é encantador," respondeu Laurie, fazendo uma vénia, com a mão no coração e um olhar de admiração.
Ela corou de prazer, mas, de alguma forma, o elogio não a satisfez como os elogios diretos que ele costumava fazer-lhe em casa, quando passeava à volta dela em ocasiões festivas e lhe dizia que ela estava "absolutamente jovial", com um sorriso caloroso e uma palmadinha de aprovação na cabeça. Ela não gostou do novo tom; pois, embora não fosse blasé, soava indiferente, apesar do olhar.
"Se é assim que ele vai crescer, preferia que continuasse um rapaz", pensou ela, com uma estranha sensação de desapontamento e desconforto, tentando, entretanto, parecer bastante descontraída e alegre.
Em Avigdor's, ela encontrou as preciosas cartas de casa e, entregando as rédeas a Laurie, leu-as luxuosamente enquanto subiam pela estrada sombreada entre sebes verdes, onde as rosas de chá floresciam tão frescas como em junho.
"A Beth está muito mal, diz a mãe. Penso muitas vezes que devia ir para casa, mas todos dizem 'fica'; por isso fico, pois nunca terei outra oportunidade como esta", disse Amy, parecendo sóbria ao ler uma página.
"Acho que tens razão; não poderias fazer nada em casa, e é um grande conforto para eles saberem que estás bem, feliz e a desfrutar tanto, minha querida."
Ele aproximou-se um pouco e pareceu mais o seu antigo eu ao dizer isso; e o medo que por vezes pesava no coração de Amy aliviou-se, pois o olhar, o gesto, o "minha querida" fraternal pareciam garantir-lhe que, se algum problema surgisse, ela não estaria sozinha numa terra estranha. Pouco depois, ela riu-se e mostrou-lhe um pequeno esboço de Jo no seu traje de escritora, com o laço erguido de forma atrevida no seu toucado, e saindo da sua boca as palavras: "O génio arde!"
Laurie sorriu, pegou nele, guardou-o no bolso do colete, "para evitar que voasse", e ouviu com interesse a carta animada que Amy lhe leu.
"Este vai ser um Natal verdadeiramente alegre para mim, com presentes de manhã, tu e cartas à tarde, e uma festa à noite", disse Amy, enquanto desembarcavam entre as ruínas do antigo forte, e um bando de pavões esplêndidos vinha trotar à volta deles, esperando mansamente para serem alimentados. Enquanto Amy permanecia a rir na margem acima dele, espalhando migalhas para as aves brilhantes, Laurie olhava para ela como ela tinha olhado para ele, com uma curiosidade natural para ver que mudanças o tempo e a ausência tinham provocado. Não encontrou nada que o deixasse perplexo ou desapontado, muito para admirar e aprovar; pois, ignorando algumas pequenas afetações de fala e maneiras, ela estava tão viva e graciosa como sempre, com o acréscimo daquele algo indescritível no vestir e no porte a que chamamos elegância. Sempre madura para a sua idade, ela tinha ganho um certo aplomb tanto no porte como na conversação, o que a fazia parecer mais uma mulher do mundo do que era; mas a sua antiga petulância mostrava-se de vez em quando, a sua forte vontade ainda se mantinha, e a sua franqueza natural não estava estragada pelo verniz estrangeiro.
Laurie não leu tudo isto enquanto a observava alimentar os pavões, mas viu o suficiente para o satisfazer e interessar, e levou consigo uma pequena e bela imagem de uma rapariga de rosto radiante de pé à luz do sol, o que realçava o tom suave do seu vestido, a cor fresca das suas bochechas, o brilho dourado do seu cabelo, e fazia dela uma figura proeminente na cena agradável.
Quando subiram ao planalto de pedra que coroa a colina, Amy acenou com a mão como se lhe desse as boas-vindas ao seu local favorito e disse, apontando aqui e ali:
"Lembras-te da Catedral e do Corso, dos pescadores a puxar as redes na baía, da linda estrada para Villa Franca, da Torre de Schubert, logo abaixo, e, o melhor de tudo, daquele ponto longe no mar que dizem ser a Córsega?"
"Lembro-me; não mudou muito", respondeu ele, sem entusiasmo.
"O que não daria a Jo por ver esse famoso ponto!" disse Amy, sentindo-se bem disposta e ansiosa por vê-lo também assim.
"Sim", foi tudo o que ele disse, mas virou-se e esforçou os olhos para ver a ilha que um usurpador ainda maior do que Napoleão tornava agora interessante aos seus olhos.
"Dá uma boa vista de olhos por causa dela e depois vem contar-me o que tens feito durante todo este tempo", disse Amy, sentando-se, pronta para uma boa conversa.
Mas não a conseguiu; pois, embora ele se juntasse a ela e respondesse livremente a todas as suas perguntas, ela só pôde saber que ele tinha percorrido o continente e estado na Grécia. Assim, depois de perderem uma hora, voltaram para casa; e, tendo apresentado os seus cumprimentos à Sra. Carrol, Laurie deixou-as, prometendo voltar à noite.
Deve registar-se sobre Amy que ela deliberadamente se "esmerou" naquela noite. O tempo e a ausência tinham feito o seu trabalho em ambos os jovens; ela tinha visto o seu velho amigo sob uma nova luz, não como "o nosso rapaz", mas como um homem bonito e agradável, e tinha consciência de um desejo muito natural de encontrar favor aos olhos dele. Amy conhecia os seus pontos fortes e aproveitava-os ao máximo, com o gosto e a habilidade que são uma fortuna para uma mulher pobre e bonita.
O tarlatão e o tule eram baratos em Nice, por isso ela envolvia-se neles em tais ocasiões e, seguindo a sensata moda inglesa de vestir-se de forma simples para as jovens, criava pequenas toilettes encantadoras com flores frescas, algumas bugigangas e todo o tipo de dispositivos delicados, que eram simultaneamente baratos e eficazes. Deve confessar-se que o artista por vezes se apoderava da mulher e se entregava a penteados antigos, atitudes estatuárias e drapeados clássicos. Mas, querida alma, todos temos as nossas pequenas fraquezas e achamos fácil perdoar tais coisas aos jovens, que satisfazem os nossos olhos com a sua beleza e mantêm os nossos corações alegres com as suas vaidades ingénuas.
"Quero mesmo que ele pense que estou bem e que lhes conte isso em casa", disse Amy para si mesma, enquanto vestia o antigo vestido de baile de seda branca de Flo e o cobria com uma nuvem de ilusão fresca, da qual os seus ombros brancos e a cabeça dourada emergiam com um efeito muito artístico. Quanto ao cabelo, teve o bom senso de não lhe tocar, depois de reunir as ondas densas e os caracóis num nó à la Hebe na parte de trás da cabeça.
"Não é a moda, mas é adequado, e não me posso dar ao luxo de me tornar um espantalho", costumava dizer ela, quando aconselhada a frisá-lo, a dar-lhe volume ou a entrançá-lo, como ditava o último estilo.
Não tendo ornamentos suficientemente finos para esta importante ocasião, Amy prendeu as suas saias vaporosas com cachos rosados de azálea e emoldurou os ombros brancos com delicadas vinhas verdes. Lembrando-se das botas pintadas, observou os seus chinelos de cetim branco com satisfação juvenil e fez um chassé pela sala, admirando os seus pés aristocráticos sozinha.
"O meu novo leque combina exatamente com as minhas flores, as minhas luvas servem perfeitamente, e a renda verdadeira no lenço da tia dá um ar a todo o meu vestido. Se ao menos eu tivesse um nariz e uma boca clássicos, seria perfeitamente feliz", disse ela, examinando-se com um olhar crítico e uma vela em cada mão.
Apesar desta aflição, parecia invulgarmente alegre e graciosa enquanto deslizava; raramente corria — não se adequava ao seu estilo, pensava ela, pois, sendo alta, o porte majestoso e junoniano era mais apropriado do que o desportivo ou piquante. Caminhou de um lado para o outro no longo salão enquanto esperava por Laurie, e uma vez dispôs-se sob o candelabro, o que tinha um bom efeito no seu cabelo; depois, pensou melhor e foi para a outra extremidade da sala, como se tivesse vergonha do desejo juvenil de que a primeira impressão fosse propícia. Aconteceu que ela não podia ter feito melhor, pois Laurie entrou tão silenciosamente que ela não o ouviu; e, enquanto ela estava na janela distante, com a cabeça meio voltada e uma mão a recolher o vestido, a figura esguia e branca contra as cortinas vermelhas era tão eficaz como uma estátua bem colocada.
"Boa noite, Diana!" disse Laurie, com o olhar de satisfação que ela gostava de ver nos olhos dele quando pousavam nela.
"Boa noite, Apolo!" respondeu ela, sorrindo-lhe de volta, pois ele também parecia invulgarmente galante, e o pensamento de entrar no salão de baile no braço de um homem tão apresentável fazia Amy ter pena das quatro simples Srta. Davis do fundo do seu coração.
"Aqui estão as tuas flores; arranjei-as eu mesmo, lembrando-me de que não gostavas do que a Hannah chama de 'sot-bookay'", disse Laurie, entregando-lhe um delicado ramo, num suporte que ela cobiçava há muito tempo, sempre que passava pela montra da Cardiglia.
"Como és gentil!" exclamou ela, agradecida. "Se soubesse que vinhas, teria tido algo preparado para ti hoje, embora não tão bonito como este, receio."
"Obrigado; não é o que deveria ser, mas tu melhoraste-o", acrescentou ele, enquanto ela prendia a pulseira de prata no pulso.
"Por favor, não faças isso."
"Pensei que gostasses desse tipo de coisas?"
"Não de ti; não soa natural, e prefiro a tua antiga franqueza."
"Fico contente com isso", respondeu ele, com um olhar de alívio; depois abotoou-lhe as luvas e perguntou se a sua gravata estava direita, tal como costumava fazer quando iam juntos a festas, em casa.
A companhia reunida na longa salle à manger, naquela noite, era tal como só se vê no Continente. Os hospitaleiros americanos tinham convidado todos os conhecidos que tinham em Nice e, não tendo preconceito contra títulos, asseguraram alguns para acrescentar brilho ao seu baile de Natal.
Um príncipe russo dignou-se a sentar-se num canto durante uma hora e a falar com uma senhora maciça, vestida como a mãe de Hamlet, em veludo preto, com uma rédea de pérolas sob o queixo. Um conde polaco, de dezoito anos, dedicou-se às senhoras, que o declararam "um querido fascinante", e um Sereno Algo alemão, tendo vindo apenas para a ceia, vagueava vagamente, procurando o que podia devorar. O secretário particular do Barão Rothschild, um judeu de nariz grande, com botas apertadas, irradiava afavelmente sobre o mundo, como se o nome do seu mestre o coroasse com uma auréola dourada; um francês robusto, que conhecia o Imperador, veio para satisfazer a sua mania de dançar, e Lady de Jones, uma matrona britânica, adornou a cena com a sua pequena família de oito. É claro que havia muitas raparigas americanas de pés leves e vozes estridentes, belas inglesas de aspeto inanimado, e algumas demoiselles francesas simples mas piquantes; igualmente o grupo habitual de jovens cavalheiros viajantes, que se divertiam alegremente, enquanto as mães de todas as nações alinhadas nas paredes sorriam benignamente para eles quando dançavam com as suas filhas.
Qualquer jovem pode imaginar o estado de espírito de Amy quando "entrou em cena" naquela noite, apoiada no braço de Laurie. Ela sabia que estava bonita, adorava dançar, sentia que estava no seu elemento num salão de baile e desfrutava da deliciosa sensação de poder que surge quando as jovens descobrem pela primeira vez o novo e adorável reino que nasceram para governar em virtude da beleza, da juventude e da feminilidade. Ela sentiu pena das raparigas Davis, que eram desajeitadas, simples e desprovidas de escolta, exceto por um pai carrancudo e três tias solteironas ainda mais carrancudas, e cumprimentou-as da forma mais amigável ao passar; o que foi bom da sua parte, pois permitiu-lhes ver o seu vestido e arder de curiosidade para saber quem seria o seu amigo de aspeto distinto. Com o primeiro estouro da banda, a cor de Amy subiu, os seus olhos começaram a brilhar e os seus pés a bater impacientemente no chão; pois ela dançava bem e queria que Laurie o soubesse: por isso, o choque que ela recebeu pode ser mais facilmente imaginado do que descrito, quando ele disse, num tom perfeitamente tranquilo:
"Queres dançar?"
"Normalmente dança-se num baile."
O seu olhar de espanto e a resposta rápida fizeram com que Laurie corrigisse o seu erro o mais rapidamente possível.
"Referia-me à primeira dança. Posso ter a honra?"
"Posso dar-te uma se adiar o Conde. Ele dança divinamente; mas ele desculpar-me-á, já que tu és um velho amigo", disse Amy, esperando que o nome tivesse um bom efeito e mostrasse a Laurie que ela não estava para brincadeiras.
"Rapazinho simpático, mas um polaco um pouco baixo para sustentar
"'Uma filha dos deuses, Divinamente alta, e mais divinamente bela'",
foi toda a satisfação que obteve, no entanto.
O grupo em que se encontravam era composto por ingleses, e Amy foi obrigada a caminhar decorosamente através de um cotilhão, sentindo durante todo o tempo como se pudesse dançar a Tarantela com gosto. Laurie entregou-a ao "rapazinho simpático" e foi cumprir o seu dever para com Flo, sem garantir Amy para as alegrias vindouras, falta de previsão repreensível que foi devidamente punida, pois ela comprometeu-se imediatamente até à ceia, tencionando ceder se ele desse então quaisquer sinais de penitência. Ela mostrou-lhe o seu livro de baile com recatada satisfação quando ele passeou, em vez de se apressar, para a reclamar para a seguinte, uma gloriosa polca-redowa; mas os seus arrependimentos educados não a convenceram, e quando ela saiu a galopar com o Conde, viu Laurie sentar-se junto da sua tia com uma expressão de verdadeiro alívio.
Isso foi imperdoável; e Amy não lhe deu mais atenção durante muito tempo, exceto uma palavra aqui e ali, quando ela ia à sua acompanhante, entre as danças, para um alfinete necessário ou um momento de descanso. A sua raiva teve um bom efeito, contudo, pois ela escondeu-a sob um rosto sorridente e parecia invulgarmente alegre e brilhante. Os olhos de Laurie seguiam-na com prazer, pois ela não brincava nem passeava, mas dançava com espírito e graça, tornando o delicioso passatempo no que deveria ser. Ele naturalmente começou a estudá-la a partir deste novo ponto de vista; e, antes de a noite ir a meio, tinha decidido que "a pequena Amy se ia tornar uma mulher muito encantadora".
Foi uma cena animada, pois logo o espírito da época social tomou conta de todos, e a alegria natalícia fez brilhar todos os rostos, corações felizes e pés leves. Os músicos tocavam, sopravam e batiam como se se divertissem; dançava toda a gente que podia, e aqueles que não podiam admiravam os vizinhos com um calor invulgar. O ar estava escuro com os Davis, e muitos Jones saltitavam como um bando de girafas jovens. O secretário dourado disparava pela sala como um meteoro, com uma francesa arrebatadora, que cobria o chão com a sua cauda de cetim cor-de-rosa. O Sereno Teutónico encontrou a mesa da ceia e ficou feliz, comendo sistematicamente todo o menu e deixando os garçons consternados com os estragos que cometeu. Mas o amigo do Imperador cobriu-se de glória, pois dançava tudo, quer soubesse ou não, e introduzia piruetas improvisadas quando os passos o confundiam. O abandono juvenil daquele homem robusto era encantador de ver; pois, embora "tivesse peso", dançava como uma bola de borracha. Corria, voava, saltava; o seu rosto brilhava, a sua cabeça careca reluzia; as abas do seu casaco agitavam-se descontroladamente, os seus sapatos cintilavam no ar e, quando a música parava, limpava as gotas da sua testa e sorria aos seus semelhantes como um Pickwick francês sem óculos.
Amy e o seu polaco distinguiram-se pelo mesmo entusiasmo, mas com uma agilidade mais graciosa; e Laurie viu-se involuntariamente a marcar o ritmo da subida e descida rítmica dos chinelos brancos enquanto voavam tão incansavelmente como se tivessem asas. Quando o pequeno Vladimir finalmente a deixou, com garantias de que estava "desolado por partir tão cedo", ela estava pronta para descansar e ver como o seu cavaleiro renegado tinha suportado o castigo.
Tinha sido bem-sucedido; pois, aos vinte e três anos, as afeições desiludidas encontram um bálsamo na sociedade amigável, e os nervos jovens estremecem, o sangue jovem dança e os espíritos jovens e saudáveis erguem-se quando sujeitos ao encantamento da beleza, da luz, da música e do movimento. Laurie tinha um ar despertado quando se levantou para lhe ceder o seu lugar; e quando ele se apressou a ir buscar-lhe algo para a ceia, ela disse para si mesma, com um sorriso satisfeito:
"Ah, pensei que isso lhe faria bem!"
"Pareces a 'Femme peinte par elle-même' de Balzac", disse ele, enquanto a abanava com uma mão e segurava a chávena de café na outra.
"O meu rouge não sai"; e Amy esfregou a sua bochecha brilhante e mostrou-lhe a sua luva branca com uma simplicidade sóbria que o fez rir às gargalhadas.
"Como chamas a isto?" perguntou ele, tocando numa dobra do seu vestido que tinha voado sobre o seu joelho.
"Ilusão."
"Bom nome para isso; é muito bonito — coisa nova, não é?"
"É velha como as montanhas; já a viste em dezenas de raparigas e nunca descobriste que era bonita até agora — stupide!"
"Nunca a vi em ti antes, o que explica o erro, vês."
"Nada disso, é proibido; prefiro tomar café a elogios neste momento. Não, não te encostes, deixas-me nervosa."
Laurie sentou-se direito e aceitou humildemente o seu prato vazio, sentindo um estranho tipo de prazer em ter a "pequena Amy" a dar-lhe ordens; pois ela tinha perdido a timidez agora e sentia um desejo irresistível de a espezinhar, como as raparigas têm uma forma deliciosa de fazer quando os senhores da criação mostram quaisquer sinais de submissão.
"Onde aprendeste todo este tipo de coisas?" perguntou ele, com um olhar irónico.
"Como 'este tipo de coisas' é uma expressão bastante vaga, importar-te-ias de explicar?" retorquiu Amy, sabendo perfeitamente ao que ele se referia, mas deixando-o perversamente descrever o que é indescritível.
"Bem... o ar geral, o estilo, a autoconfiança, a... a... ilusão... sabes", riu-se Laurie, interrompendo-se e safando-se do dilema com a palavra nova.
Amy ficou satisfeita, mas, claro, não o demonstrou, e respondeu recatadamente: "A vida estrangeira polia-nos apesar de nós próprios; eu estudo tanto quanto brinco; e quanto a isto" — com um pequeno gesto para o seu vestido — "bem, o tule é barato, os ramos de flores arranjam-se de graça, e estou habituada a aproveitar ao máximo as minhas pobres pequenas coisas."
Amy arrependeu-se um pouco daquela última frase, receando que não fosse de bom gosto; mas Laurie gostou ainda mais dela por isso e viu-se a admirar e a respeitar a paciência corajosa que aproveitava as oportunidades ao máximo e o espírito alegre que cobria a pobreza com flores. Amy não sabia porque ele olhava para ela tão amavelmente, nem porque enchia o seu livro com o seu próprio nome e se dedicava a ela durante o resto da noite, da forma mais encantadora; mas o impulso que provocou esta mudança agradável foi o resultado de uma das novas impressões que ambos estavam inconscientemente a dar e a receber.
XXXVIII.
NA PRATELEIRA.
Em França, as jovens têm uma vida aborrecida até se casarem, altura em que "Vive la liberté" se torna o seu lema. Na América, como todos sabem, as raparigas assinam cedo a declaração de independência e gozam a sua liberdade com entusiasmo republicano; mas as jovens matronas abdicam geralmente com o primeiro herdeiro ao trono e entram numa reclusão quase tão fechada como a de um convento francês, embora de forma alguma tão silenciosa. Quer gostem ou não, são virtualmente colocadas na prateleira assim que a agitação do casamento termina, e a maioria delas poderia exclamar, como disse uma mulher muito bonita no outro dia: "Continuo tão bonita como sempre, mas ninguém repara em mim porque sou casada."
Não sendo uma beldade nem sequer uma senhora da moda, Meg não experimentou esta aflição até que os seus bebés tivessem um ano de idade, pois no seu pequeno mundo prevaleciam os costumes primitivos e ela viu-se mais admirada e amada do que nunca.
Mas, à medida que a novidade diminuía, a vida de casada revelou-se um tanto monótona para a nossa pequena Meg, que era humana e gostava de ser apreciada. O seu John era um homem excelente, mas, como todos os homens bons, era dado a um certo grau de complacência, aceitando os seus deveres de marido como um facto consumado e esquecendo-se de que as esposas precisam de um pouco de adulação tanto como as flores precisam de sol. Havia um vazio no seu coração que o amor pelos filhos não preenchia inteiramente, e ela suspirava por aqueles velhos tempos em que era a rainha do seu pequeno círculo, e não apenas uma dona de casa atarefada.
Como era uma mulherzinha muito feminina, o instinto materno era muito forte, e ela estava inteiramente absorvida pelos filhos, com a exclusão total de tudo e de todos. Dia e noite, ela velava por eles com uma devoção e ansiedade incansáveis, deixando John à mercê da ajuda doméstica, pois uma senhora irlandesa presidia agora ao departamento da cozinha. Sendo um homem caseiro, John sentia decididamente a falta das atenções conjugais a que estava habituado a receber; mas, como adorava os seus bebés, renunciou alegremente ao seu conforto por algum tempo, supondo, com ignorância masculina, que a paz seria em breve restaurada. Mas passaram-se três meses e não houve regresso à tranquilidade; Meg parecia desgastada e nervosa, os bebés absorviam cada minuto do seu tempo, a casa era negligenciada e Kitty, a cozinheira, que levava a vida "na desportiva", mantinha-o com rações escassas. Quando ele saía de manhã, ficava confuso com as pequenas comissões para a mamã cativa; se chegava alegremente à noite, ansioso por abraçar a sua família, era sufocado por um "Psiu! Eles acabaram de adormecer depois de terem estado a apoquentar o dia todo". Se propunha um pouco de diversão em casa, "Não, isso iria perturbar os bebés". Se aludia a uma conferência ou concerto, era respondido com um olhar de censura e um decidido "Deixar os meus filhos por prazer, nunca!". O seu sono era interrompido por choros infantis e visões de uma figura fantasmagórica que caminhava silenciosamente de um lado para o outro nas vigílias da noite; as suas refeições eram interrompidas pelo voo frequente do génio da casa, que o abandonava, a meio de ser servido, se um pio abafado soasse do ninho lá em cima; e quando ele lia o seu jornal à noite, a cólica de Demi entrava para a lista de navegação, e a queda de Daisy afetava o preço das ações, pois a Sra. Brooke só se interessava por notícias domésticas.
O pobre homem estava muito desconfortável, pois as crianças tinham-lhe roubado a esposa; o lar era apenas um berçário, e o perpétuo "psiu" fazia com que ele se sentisse como um intruso brutal sempre que entrava nos recintos sagrados da Terra dos Bebés. Ele suportou tudo isto muito pacientemente durante seis meses e, quando não surgiram sinais de melhoria, fez o que outros exilados paternos fazem: tentou obter um pouco de conforto noutro lugar. Scott tinha casado e ido viver para uma casa não muito longe, e John ganhou o hábito de lá passar uma hora ou duas à noite, quando a sua própria sala estava vazia e a sua própria esposa cantava cantigas de embalar que pareciam não ter fim. A Sra. Scott era uma rapariga viva e bonita, sem nada para fazer a não ser ser agradável, e ela cumpriu a sua missão com o maior sucesso. A sala estava sempre brilhante e atraente, o tabuleiro de xadrez pronto, o piano afinado, com muita conversa alegre e uma pequena ceia simpática posta de forma tentadora.
John teria preferido a sua própria lareira se não fosse tão solitária; mas, como estava, aceitou agradecido a segunda melhor opção e desfrutou da companhia da sua vizinha.
Meg até aprovou o novo arranjo no início e achou um alívio saber que John se estava a divertir em vez de estar a adormecer na sala ou a andar pela casa e a acordar as crianças. Mas, pouco a pouco, quando a preocupação com os dentes passou e os ídolos foram dormir a horas próprias, deixando à mamã tempo para descansar, ela começou a sentir a falta de John e a achar o seu cesto de costura uma companhia aborrecida, quando ele não estava sentado em frente, com o seu velho roupão, confortavelmente a queimar as pantufas na grelha da lareira. Ela não lhe pedia para ficar em casa, mas sentia-se ofendida porque ele não sabia que ela o queria sem que fosse preciso dizer, esquecendo completamente as muitas noites em que ele a esperou em vão. Ela estava nervosa e exausta de tanto velar e preocupar-se, e naquele estado de espírito irracional que as melhores mães experienciam ocasionalmente quando os cuidados domésticos as oprimem. A falta de exercício rouba-lhes a alegria, e demasiada devoção a esse ídolo das mulheres americanas, o bule de chá, faz com que sintam que são todas nervos e nenhum músculo.
"Sim", dizia ela, olhando-se ao espelho, "estou a ficar velha e feia; o John já não me acha interessante, por isso deixa a sua esposa desbotada e vai ver a sua vizinha bonita, que não tem encargos. Bem, os bebés amam-me; eles não se importam se estou magra e pálida, e não tenho tempo para fazer caracóis no cabelo; eles são o meu conforto, e um dia o John verá o que eu sacrifiquei alegremente por eles, não é, meu tesouro?"
Ao que este apelo patético, Daisy responderia com um arrulho, ou Demi com um grito, e Meg deixava de lado as suas lamentações para uma alegria materna, que acalmava a sua solidão por enquanto. Mas a dor aumentava à medida que a política absorvia John, que corria sempre para discutir pontos interessantes com Scott, completamente inconsciente de que Meg sentia a sua falta. Nem uma palavra ela dizia, contudo, até que a sua mãe a encontrou em lágrimas um dia e insistiu em saber o que se passava, pois o espírito abatido de Meg não tinha escapado à sua observação.
"Não contaria a ninguém exceto a ti, mãe; mas preciso mesmo de conselho, pois, se o John continuar assim por muito mais tempo, mais valia ser viúva", respondeu a Sra. Brooke, secando as lágrimas no babete da Daisy, com um ar ofendido.
"Continuar como, minha querida?", perguntou a sua mãe ansiosamente.
"Ele está fora o dia todo e, à noite, quando quero vê-lo, ele está continuamente a ir ter com os Scotts. Não é justo que eu tenha o trabalho mais duro e nunca tenha qualquer diversão. Os homens são muito egoístas, mesmo os melhores deles."
"As mulheres também; não culpes o John até veres onde tu mesma estás errada."
"Mas não pode ser certo ele negligenciar-me."
"Não o negligencias tu a ele?"
"Ora, mãe, pensei que ficarias do meu lado!"
"Fico, na medida em que simpatizo contigo; mas penso que a culpa é tua, Meg."
"Não vejo como."
"Deixa-me mostrar-te. Alguma vez o John te negligenciou, como tu dizes, enquanto fazias questão de lhe dar a tua companhia durante a noite, o seu único tempo de lazer?"
"Não; mas não o posso fazer agora, com dois bebés para tratar."
"Penso que podes, querida; e penso que deves. Posso falar com toda a liberdade, e lembrar-te-ás de que é a mãe que repreende, bem como a mãe que simpatiza?"
"Claro que sim! Fala comigo como se eu fosse a pequena Meg outra vez. Muitas vezes sinto que preciso de aprender mais do que nunca, desde que estes bebés esperam tudo de mim."
Meg puxou a sua cadeira baixa para junto da da mãe e, com uma pequena interrupção em cada colo, as duas mulheres embalaram-se e conversaram amorosamente, sentindo que o laço da maternidade as tornava mais unidas do que nunca.
"Tu cometeste apenas o erro que a maioria das jovens esposas comete: esqueceste-te do teu dever para com o teu marido no teu amor pelos teus filhos. Um erro muito natural e perdoável, Meg, mas um que seria melhor remediar antes de seguires caminhos diferentes; pois os filhos devem aproximar-vos mais do que nunca, não separar-vos, como se fossem apenas teus e o John não tivesse nada a fazer a não ser sustentá-los. Tenho visto isso há algumas semanas, mas não falei, sentindo que tudo se resolveria com o tempo."
"Receio que não. Se lhe pedir para ficar, ele pensará que estou com ciúmes; e eu não o insultaria com tal ideia. Ele não vê que eu preciso dele, e não sei como dizer-lho sem palavras."
"Torna-o tão agradável que ele não queira ir embora. Minha querida, ele anseia pelo seu pequeno lar; mas não é um lar sem ti, e tu estás sempre no berçário."
"Não deveria estar lá?"
"Não o tempo todo; demasiado confinamento torna-te nervosa, e então ficas inapta para tudo. Além disso, deves algo ao John, assim como aos bebés; não negligencies o marido pelos filhos, não o excluas do berçário, mas ensina-o a ajudar nele. O lugar dele é ali, bem como o teu, e as crianças precisam dele; deixa-o sentir que ele tem a sua parte a fazer, e ele fá-lo-á alegre e fielmente, e será melhor para todos vós."
"Achas mesmo, mãe?"
"Eu sei, Meg, porque já o experimentei; e raramente dou conselhos a menos que tenha provado a sua praticabilidade. Quando tu e a Jo eram pequenas, eu agia exatamente como tu, sentindo que não cumpria o meu dever a menos que me dedicasse inteiramente a vós. O pobre pai dedicou-se aos seus livros, depois de eu ter recusado todas as ofertas de ajuda, e deixou-me tentar a minha experiência sozinha. Lutei o melhor que pude, mas a Jo era demasiado para mim. Quase a estraguei com mimos. Tu estavas doente e eu preocupava-me contigo até ficar doente eu mesma. Então o pai veio em socorro, geriu tudo calmamente e tornou-se tão prestável que vi o meu erro, e nunca mais fui capaz de me arranjar sem ele desde então. Esse é o segredo da nossa felicidade familiar: ele não deixa que os negócios o desviem dos pequenos cuidados e deveres que nos afetam a todos, e eu tento não deixar que as preocupações domésticas destruam o meu interesse nas suas atividades. Fazemos cada um a nossa parte sozinhos em muitas coisas, mas em casa trabalhamos juntos, sempre."
"É verdade, mãe; e o meu grande desejo é ser para o meu marido e filhos o que tu foste para os teus. Mostra-me como; farei tudo o que disseres."
"Sempre foste a minha filha dócil. Bem, querida, se eu fosse tu, deixaria o John ter mais que ver com a gestão do Demi, pois o rapaz precisa de treino, e nunca é cedo demais para começar. Depois, faria o que já propus muitas vezes: deixa a Hannah vir ajudar-te; ela é uma excelente ama, e podes confiar os preciosos bebés a ela enquanto fazes mais tarefas domésticas. Precisas do exercício, a Hannah apreciaria o descanso e o John encontraria a sua esposa de novo. Sai mais; mantém-te alegre bem como ocupada, pois tu és a fazedora de sol da família, e se ficares sombria não há bom tempo. Depois, tentaria interessar-me por tudo o que o John gosta: conversa com ele, deixa-o ler para ti, troquem ideias e ajudem-se um ao outro dessa forma. Não te feches numa caixa porque és mulher, mas entende o que se passa e educa-te para participares no trabalho do mundo, pois tudo isso te afeta a ti e aos teus."
"O John é tão sensato, que receio que ele pense que sou estúpida se fizer perguntas sobre política e coisas assim."
"Não acredito que ele pensasse isso; o amor cobre uma multidão de pecados, e a quem poderias perguntar mais livremente do que a ele? Experimenta e vê se ele não acha a tua companhia muito mais agradável do que as ceias da Sra. Scott."
"Vou experimentar. Pobre John! Receio tê-lo negligenciado tristemente, mas pensei que estava a fazer o que era correto, e ele nunca disse nada."
"Ele tentou não ser egoísta, mas sinto que ele se sentiu um tanto abandonado. Esta é precisamente a altura, Meg, em que os jovens casados tendem a afastar-se, e a altura em que deveriam estar mais unidos; pois a primeira ternura desaparece rapidamente, a menos que se tenha cuidado em preservá-la; e nenhum tempo é tão belo e precioso para os pais como os primeiros anos das pequenas vidas que lhes foram dadas para educar. Não deixes que o John seja um estranho para os bebés, pois eles farão mais para o manter seguro e feliz neste mundo de provações e tentações do que qualquer outra coisa, e através deles aprenderão a conhecer-se e a amar-se como devem. Agora, querida, adeus; reflete sobre a pregação da mãe, age conforme ela se parecer boa, e que Deus vos abençoe a todos!"
Meg refletiu sobre isso, achou-o bom e agiu em conformidade, embora a primeira tentativa não tenha sido feita exatamente como ela planeou. É claro que as crianças a tiranizavam e governavam a casa assim que descobriam que pontapés e gritos lhes traziam tudo o que queriam. A mamã era uma escrava abjeta dos seus caprichos, mas o papá não era tão facilmente subjugado e, ocasionalmente, afligia a sua terna esposa com uma tentativa de disciplina paternal com o seu filho obstinado. Pois o Demi herdou um pouco da firmeza de caráter do seu progenitor — não lhe chamaremos obstinação — e quando ele decidia na sua cabecinha ter ou fazer alguma coisa, todos os cavalos do rei e todos os homens do rei não poderiam mudar aquela mentezinha pertinaz. A mamã achava o querido demasiado novo para ser ensinado a vencer os seus preconceitos, mas o papá acreditava que nunca era demasiado cedo para aprender a obediência; por isso, o pequeno Mestre Demi descobriu cedo que, quando tentava "lutar" com o "parpar", ele saía sempre a perder; ainda assim, tal como o inglês, o Bebé respeitava o homem que o vencia e amava o pai cujo grave "Não, não", era mais impressionante do que todos os carinhos da mamã.
Poucos dias depois da conversa com a sua mãe, Meg resolveu tentar uma noite social com John; então, encomendou uma ceia agradável, arrumou a sala, vestiu-se de forma bonita e deitou as crianças cedo, para que nada interferisse com a sua experiência. Mas, infelizmente, o preconceito mais incontrolável do Demi era contra ir para a cama, e naquela noite ele decidiu fazer uma cena; por isso, a pobre Meg cantou e embalou, contou histórias e tentou todos os estratagemas indutores de sono que conseguiu conceber, mas tudo em vão; os olhos grandes não se queriam fechar; e muito depois de Daisy ter ido para o sono, como a pequena e rechonchuda bola de boa índole que era, o maroto do Demi ficou a olhar para a luz, com a expressão mais desanimadora de quem está bem acordado.
"O Demi vai ficar quieto como um bom rapaz, enquanto a mamã corre para baixo e dá ao pobre papá o seu chá?", perguntou Meg, enquanto a porta do corredor se fechava suavemente e o passo bem conhecido ia na ponta dos pés para a sala de jantar.
"Eu quero chá!", disse Demi, preparando-se para participar na folia.
"Não; mas guardar-te-ei uns bolinhos pequenos para o pequeno-almoço, se fores dormir como a Daisy. Vais, meu amor?"
"Sim!" e Demi fechou os olhos com força, como se para apanhar o sono e apressar o dia desejado.
Aproveitando o momento propício, Meg escapou-se e correu para baixo para cumprimentar o seu marido com uma cara sorridente e o pequeno laço azul no cabelo, que era a sua especial admiração. Ele viu-o imediatamente e disse, com uma surpresa agradável:
"Ora, pequena mamã, como estamos alegres esta noite. Esperas visitas?"
"Apenas tu, querido."
"É um aniversário, bodas ou algo do género?"
"Não; cansei-me de ser desleixada, por isso arranjei-me para variar. Tu pões-te sempre bonito para a mesa, não importa o quão cansado estejas; então porque não deveria eu, quando tenho tempo?"
"Faço-o por respeito a ti, minha querida", disse o antiquado John.
"O mesmo, o mesmo, Sr. Brooke", riu-se Meg, parecendo jovem e bonita outra vez, enquanto acenava para ele sobre o bule de chá.
"Bem, é totalmente encantador e como nos velhos tempos. Isto sabe bem. Bebo à tua saúde, querida." E John bebeu o seu chá com um ar de êxtase repousante, que foi, no entanto, de curta duração; pois, ao pousar a chávena, o puxador da porta chocalhou misteriosamente e ouviu-se uma vozinha a dizer impacientemente:
"Abre, mamã; eu estou a vir!"
"É aquele rapaz maroto. Disse-lhe para ir dormir sozinho, e aqui está ele, cá em baixo, a apanhar uma constipação a andar com os pés descalços nesse chão", disse Meg, respondendo ao apelo.
"Já é de manhã", anunciou Demi, num tom alegre, enquanto entrava, com a sua longa camisola de noite graciosamente festonada sobre o braço, e cada caracol a saltitar alegremente enquanto ele saltava à volta da mesa, olhando para os "bolinhos" com olhares amorosos.
"Não, ainda não é de manhã. Tens de ir para a cama e não incomodar a pobre mamã; depois podes ter o bolinho pequeno com açúcar."
"Eu amo o parpar", disse o astuto, preparando-se para subir para o joelho paternal e deliciar-se em prazeres proibidos. Mas John abanou a cabeça e disse a Meg:
"Se lhe disseste para ficar lá em cima e ir dormir sozinho, fá-lo cumprir, ou ele nunca aprenderá a obedecer-te."
"Sim, claro. Vem, Demi"; e Meg levou o seu filho embora, sentindo um forte desejo de dar umas palmadas no pequeno estraga-prazeres que saltitava ao seu lado, laborando sob a ilusão de que o suborno lhe seria administrado assim que chegassem ao berçário.
Nem ele ficou desapontado; pois aquela mulher míope deu-lhe realmente um torrão de açúcar, meteu-o na cama e proibiu mais passeios até de manhã.
"Sim!", disse Demi, o perjuro, chupando beatificamente o seu açúcar e considerando a sua primeira tentativa como eminentemente bem-sucedida.
Meg regressou ao seu lugar e a ceia decorria agradavelmente, quando o pequeno fantasma caminhou de novo e expôs as delinquências maternas ao exigir audaciosamente:
"Mais açúcar, mamã."
"Agora isto não pode ser", disse John, endurecendo o seu coração contra o cativante pequeno pecador. "Nunca conheceremos paz até que aquela criança aprenda a ir para a cama como deve ser. Tu tens-te feito de escrava durante tempo suficiente; dá-lhe uma lição, e então haverá um fim para isto. Põe-no na cama e deixa-o, Meg."
"Ele não fica lá; nunca fica, a menos que eu me sente ao pé dele."
"Eu trato dele. Demi, vai lá para cima e mete-te na cama, como a mamã te manda."
"Não quero!", replicou o jovem rebelde, servindo-se do cobiçado "bolinho" e começando a comê-lo com calma audácia.
"Nunca deves dizer isso ao papá; eu levar-te-ei se não fores tu mesmo."
"Vai-te embora; eu não amo o parpar"; e Demi retirou-se para as saias da mãe para proteção.
Mas até esse refúgio se provou inútil, pois ele foi entregue ao inimigo, com um "Sê gentil com ele, John", que atingiu o culpado de consternação; pois, quando a mamã o abandonou, então o dia do juízo estava próximo. Privado do seu bolo, defraudado da sua brincadeira e levado por uma mão forte para aquela detestada cama, o pobre Demi não conseguiu conter a sua ira, mas desafiou abertamente o papá, e pontapeou e gritou vigorosamente durante todo o caminho escadas acima. No minuto em que era posto na cama de um lado, ele rebolava para o outro e dirigia-se à porta, apenas para ser ignominiosamente apanhado pela cauda da sua pequena túnica e posto de volta, uma performance animada que foi mantida até que a força do jovem se esgotou, altura em que se dedicou a rugir a plenos pulmões. Este exercício vocal costumava conquistar a Meg; mas John sentou-se tão imóvel como o poste que é popularmente acreditado ser surdo. Nada de mimos, nada de açúcar, nada de cantigas de embalar, nada de histórias; até a luz foi apagada, e apenas o brilho vermelho do fogo animava a "grande escuridão" que o Demi encarava com curiosidade em vez de medo. Esta nova ordem de coisas desgostou-o, e ele uivou tristemente por "mamã", à medida que as suas paixões coléricas diminuíam e as recordações da sua terna serva regressavam ao cativo autocrata. O lamento plangente que se seguiu ao rugido apaixonado tocou o coração de Meg, e ela correu lá acima para dizer suplicante:
"Deixa-me ficar com ele; ele vai ser bom, agora, John."
"Não, minha querida, eu disse-lhe que ele tem de ir dormir, como tu lhe mandaste; e ele tem, se eu tiver de ficar aqui a noite toda."
"Mas ele vai chorar até ficar doente", implorou Meg, repreendendo-se por abandonar o seu rapaz.
"Não, não vai, ele está tão cansado que em breve adormecerá, e então o assunto fica resolvido; pois ele entenderá que tem de obedecer. Não interfiras; eu trato dele."
"Ele é meu filho e não posso permitir que o seu espírito seja quebrado pela aspereza."
"Ele é meu filho e não permitirei que o seu temperamento seja estragado pela indulgência. Desce, minha querida, e deixa o rapaz comigo."
Quando John falava naquele tom autoritário, Meg obedecia sempre e nunca se arrependia da sua docilidade.
"Por favor, deixa-me beijá-lo uma vez, John?"
"Certamente. Demi, diz 'boa noite' à mamã e deixa-a ir descansar, pois ela está muito cansada de tratar de ti o dia todo."
Meg insistia sempre que o beijo ganhava a vitória; pois depois de dado, Demi soluçou mais calmamente e ficou totalmente imóvel no fundo da cama, para onde se tinha contorcido na sua angústia de espírito.
"Pobre homenzinho, ele está exausto de sono e de tanto chorar. Vou cobri-lo e depois vou descansar o coração de Meg", pensou John, aproximando-se da cabeceira, na esperança de encontrar o seu herdeiro rebelde a dormir.
Mas não estava; pois, no momento em que o pai espreitou, os olhos de Demi abriram-se, o seu pequeno queixo começou a tremer e ele estendeu os braços, dizendo, com um soluço de arrependimento: "Já sou um menino bom."
Sentada nas escadas, lá fora, Meg admirou-se do longo silêncio que se seguiu ao tumulto; e, depois de imaginar todo o tipo de acidentes impossíveis, entrou na ponta dos pés no quarto, para descansar os seus receios. Demi jazia a dormir profundamente; não na sua habitual atitude de estrela-do-mar, mas num montinho contido, aconchegado no círculo do braço do pai e segurando o dedo dele, como se sentisse que a justiça era temperada com misericórdia, e tivesse adormecido um bebé mais triste e mais sábio. Assim abraçado, John esperara com paciência feminina até que a pequena mão relaxasse o aperto; e, enquanto esperava, adormecera, mais cansado por aquela luta com o filho do que pelo seu dia inteiro de trabalho.
Enquanto Meg observava os dois rostos na almofada, sorriu para si mesma e depois retirou-se novamente, dizendo, num tom de satisfação:
"Nunca preciso de recear que o John seja demasiado duro com os meus bebés: ele sabe como lidar com eles e será uma grande ajuda, pois o Demi está a tornar-se demasiado para mim."
Quando John desceu finalmente, esperando encontrar uma esposa pensativa ou reprovadora, foi agradavelmente surpreendido ao encontrar Meg a guarnecer placidamente uma touca, e ao ser recebido com o pedido de ler algo sobre a eleição, se não estivesse demasiado cansado. John viu num instante que uma revolução de algum tipo estava a acontecer, mas sabiamente não fez perguntas, sabendo que Meg era uma pessoa tão transparente que não conseguia guardar um segredo nem por um momento, e que, portanto, a pista logo apareceria. Leu um longo debate com a maior prontidão amável e depois explicou-o da sua maneira mais lúcida, enquanto Meg tentava parecer profundamente interessada, fazer perguntas inteligentes e evitar que os seus pensamentos divagassem do estado da nação para o estado da sua touca. No íntimo da sua alma, contudo, decidiu que a política era tão má como a matemática, e que a missão dos políticos parecia ser a de se insultarem uns aos outros; mas guardou estas ideias femininas para si, e quando John fez uma pausa, abanou a cabeça e disse com o que considerou ser uma ambiguidade diplomática:
"Bem, eu realmente não vejo onde isto vai parar."
John riu-se e observou-a durante um minuto, enquanto ela equilibrava uma bonita e pequena preparação de renda e flores na mão, e a encarava com o interesse genuíno que o seu discurso não conseguira despertar.
"Ela está a tentar gostar de política por minha causa, por isso vou tentar gostar de chapelaria por causa dela, é o que é justo", pensou John, o Justo, acrescentando em voz alta:
"Isso é muito bonito; é o que chamam de touca de pequeno-almoço?"
"Meu caro homem, é uma touca! A minha melhor touca para ir a concertos e ao teatro."
"Peço perdão; era tão pequena que naturalmente a confundi com uma daquelas coisas leves que usas às vezes. Como é que a seguras?"
"Estes pedaços de renda são presos debaixo do queixo com um botão de rosa, assim;" e Meg ilustrou colocando a touca e olhando para ele com um ar de calma satisfação que era irresistível.
"É uma touca adorável, mas prefiro o rosto que está lá dentro, porque parece jovem e feliz de novo", e John beijou o rosto sorridente, com grande detrimento do botão de rosa debaixo do queixo.
"Estou contente que gostes, porque quero que me leves a um dos novos concertos qualquer noite; preciso mesmo de alguma música para me pôr em sintonia. Podes, por favor?"
"Claro que sim, de todo o coração, ou a qualquer outro lugar que queiras. Tens estado fechada tanto tempo que te fará um bem enorme, e eu desfrutarei disso, acima de tudo. O que te pôs isso na cabeça, mãezinha?"
"Bem, tive uma conversa com a Marmee no outro dia e contei-lhe como me sentia nervosa, rabugenta e indisposta, e ela disse que eu precisava de mudança e de menos preocupações; por isso a Hannah vai ajudar-me com as crianças, e eu vou tratar das coisas da casa mais vezes, e de vez em quando divertir-me um pouco, só para evitar tornar-me uma velha inquieta e arruinada antes do tempo. É apenas uma experiência, John, e quero tentá-la por ti tanto quanto por mim, porque te negligenciei vergonhosamente ultimamente, e vou tornar o lar o que costumava ser, se puder. Não te importas, espero?"
Não importa o que John disse, ou que estreita fuga a pequena touca teve de uma ruína total; tudo o que temos de saber é que John não pareceu importar-se, a julgar pelas mudanças que gradualmente ocorreram na casa e nos seus habitantes. Não era de forma alguma um Paraíso, mas todos beneficiaram do sistema de divisão de trabalho; as crianças prosperaram sob o domínio paternal, pois o John, preciso e constante, trouxe ordem e obediência ao mundo dos bebés, enquanto Meg recuperou o ânimo e recompôs os nervos com bastante exercício saudável, um pouco de prazer e muitas conversas confidenciais com o seu sensato marido. O lar tornou-se acolhedor novamente, e John não tinha desejo de o deixar, a menos que levasse Meg consigo. Os Scott vinham agora visitar os Brooke, e todos achavam a pequena casa um lugar alegre, cheio de felicidade, contentamento e amor familiar. Até a alegre Sallie Moffatt gostava de ir lá. "É sempre tão calmo e agradável aqui; faz-me bem, Meg", costumava dizer, olhando à sua volta com olhos nostálgicos, como se tentasse descobrir o encanto, para que pudesse usá-lo na sua grande casa, cheia de esplêndida solidão; pois não havia bebés tumultuosos e de rostos radiantes ali, e Ned vivia no seu próprio mundo, onde não havia lugar para ela.
Esta felicidade doméstica não surgiu de uma vez, mas John e Meg tinham encontrado a chave para ela, e cada ano de vida matrimonial ensinou-os a usá-la, abrindo os tesouros do verdadeiro amor familiar e da entreajuda, que os mais pobres podem possuir e os mais ricos não podem comprar. Este é o tipo de prateleira na qual as jovens esposas e mães podem consentir em ser colocadas, a salvo da agitação inquieta e da febre do mundo, encontrando amantes leais nos pequenos filhos e filhas que se agarram a elas, destemidos pelo sofrimento, pela pobreza ou pela idade; caminhando lado a lado, através de bom e mau tempo, com um amigo fiel, que é, no verdadeiro sentido da boa e velha palavra saxónica, o "apoio da casa", e aprendendo, como Meg aprendeu, que o reino mais feliz de uma mulher é o lar, a sua maior honra a arte de o governar, não como uma rainha, mas como uma esposa e mãe sábia.
XXXIX.
O LAURENCE PREGUIÇOSO.
Laurie foi para Nice com a intenção de ficar uma semana e permaneceu um mês. Estava cansado de vaguear sozinho, e a presença familiar de Amy parecia conferir um encanto caseiro às cenas estrangeiras em que ela participava. Ele sentia falta dos "mimos" que costumava receber e desfrutou de um pouco deles novamente; pois nenhuma atenção, por mais lisonjeira que fosse, vinda de estranhos, era tão agradável como a adoração fraternal das raparigas em casa. Amy nunca o mimava como as outras, mas ficava muito feliz por vê-lo agora, e agarrava-se a ele, sentindo que ele era o representante da querida família por quem ela ansiava mais do que admitiria. Naturalmente, encontravam conforto na companhia um do outro e passavam muito tempo juntos, a passear a cavalo, a caminhar, a dançar ou a vadiar, pois, em Nice, ninguém consegue ser muito trabalhador durante a época festiva. Mas, enquanto aparentemente se divertiam da forma mais descuidada, faziam, meio inconscientemente, descobertas e formavam opiniões um sobre o outro. Amy subia diariamente na estima do seu amigo, mas ele descia na dela, e cada um sentia a verdade antes de uma palavra ser dita. Amy tentava agradar, e conseguia, pois estava grata pelos muitos prazeres que ele lhe proporcionava, e retribuía-lhe com os pequenos serviços a que as mulheres femininas sabem como conferir um encanto indescritível. Laurie não fazia qualquer esforço, apenas se deixava levar o mais confortavelmente possível, tentando esquecer e sentindo que todas as mulheres lhe deviam uma palavra simpática porque uma tinha sido fria para com ele. Não lhe custava ser generoso, e ele teria dado a Amy todas as bugigangas de Nice se ela as tivesse aceite; mas, ao mesmo tempo, sentia que não podia mudar a opinião que ela estava a formar dele, e receava os olhos azuis perspicazes que pareciam observá-lo com uma surpresa meio melancólica, meio desdenhosa.
"Todos os outros foram para o Mónaco passar o dia; preferi ficar em casa a escrever cartas. Já estão prontas e vou a Valrosa para desenhar; vens?" disse Amy, ao juntar-se a Laurie num dia encantador, quando ele apareceu como de costume, por volta do meio-dia.
"Bem, sim; mas não está um pouco quente para uma caminhada tão longa?" respondeu ele lentamente, pois o salão sombreado parecia convidativo após o brilho lá fora.
"Vou levar a carruagem pequena, e o Baptiste pode conduzir, por isso não terás nada a fazer senão segurar o teu guarda-chuva e manter as luvas impecáveis", retorquiu Amy, com um olhar sarcástico para as pelicas imaculadas, que eram um ponto fraco de Laurie.
"Então irei com prazer;" e ele estendeu a mão para o bloco de desenho dela. Mas ela meteu-o debaixo do braço com um brusco:
"Não te incomodes; não é esforço nenhum para mim, mas tu não pareces ter energia para isso."
Laurie ergueu as sobrancelhas e seguiu a um passo lento enquanto ela corria escada abaixo; mas quando entraram na carruagem, ele próprio tomou as rédeas e deixou ao pequeno Baptiste apenas o trabalho de cruzar os braços e adormecer no seu poleiro.
Os dois nunca discutiam — Amy era demasiado bem-educada e, naquele momento, Laurie era demasiado preguiçoso; por isso, num instante, ele espreitou debaixo da aba do chapéu dela com um ar interrogativo; ela respondeu com um sorriso, e prosseguiram juntos da forma mais amigável.
Foi um passeio encantador, ao longo de estradas sinuosas ricas nas cenas pitorescas que deliciam os olhos amantes da beleza. Aqui um antigo mosteiro, de onde o cântico solene dos monges chegava até eles. Ali um pastor de pernas nuas, com tamancos de madeira, chapéu pontiagudo e um casaco áspero sobre um ombro, estava sentado a tocar flauta numa pedra, enquanto as suas cabras saltavam entre as rochas ou jaziam aos seus pés. Burros dóceis, cor de rato, carregados com cestos de erva recém-cortada, passavam por eles, com uma rapariga bonita de capote sentada entre as pilhas verdes, ou uma velha a fiar com uma roca enquanto seguia o seu caminho. Crianças morenas de olhos meigos corriam das singulares choupanas de pedra para oferecer ramos de flores, ou cachos de laranjas ainda no ramo. Oliveiras retorcidas cobriam as colinas com a sua folhagem escura, o fruto pendia dourado no pomar, e grandes anémonas escarlates orlavam a berma da estrada; enquanto para lá das encostas verdes e das alturas escarpadas, os Alpes Marítimos erguiam-se, nítidos e brancos, contra o céu azul italiano.
Valrosa bem merecia o seu nome, pois, naquele clima de verão perpétuo, as rosas floresciam em toda a parte. Pendiam sobre o arco, intrometiam-se entre as grades do grande portão com uma doce saudação aos transeuntes, e ladeavam a avenida, serpenteando por entre limoeiros e palmeiras plumosas até à villa na colina. Cada recanto sombrio, onde bancos convidavam a parar e descansar, era uma massa de flores; cada gruta fresca tinha a sua ninfa de mármore a sorrir por trás de um véu de flores, e cada fonte reflectia rosas carmesim, brancas ou rosa-pálido, inclinando-se para sorrir à sua própria beleza. Rosas cobriam as paredes da casa, drapeavam as cornijas, trepavam pelos pilares e corriam desenfreadas pelo balaustre do amplo terraço, de onde se olhava para o Mediterrâneo soalheiro e para a cidade de muralhas brancas na sua costa.
"Isto é um Paraíso de lua-de-mel em pleno, não é? Alguma vez viste rosas assim?" perguntou Amy, fazendo uma pausa no terraço para apreciar a vista e um sopro luxuoso de perfume que passava.
"Não, nem senti espinhos assim", retorquiu Laurie, com o polegar na boca, após uma tentativa vã de capturar uma flor escarlate solitária que crescia um pouco fora do seu alcance.
"Tenta mais abaixo, e apanha as que não têm espinhos", disse Amy, colando três das pequenas flores cor de creme que salpicavam a parede atrás dela. Colocou-as na casa do botão dele, como um sinal de paz, e ele ficou um minuto a olhar para elas com uma expressão curiosa, pois na parte italiana da sua natureza havia um toque de superstição, e ele estava naquele estado de melancolia meio doce, meio amarga, em que os jovens imaginativos encontram significado em bagatelas e alimento para o romance em toda a parte. Ele tinha pensado em Jo ao alcançar a rosa vermelha espinhosa, pois as flores vivas ficavam-lhe bem, e ela tinha usado frequentemente outras semelhantes da estufa em casa. As rosas pálidas que Amy lhe dera eram do tipo que os italianos colocam nas mãos dos mortos, nunca em coroas de noiva, e, por um momento, perguntou-se se o presságio era para Jo ou para si mesmo; mas no instante seguinte o seu bom senso americano superou o sentimentalismo, e ele soltou uma gargalhada mais franca do que a que Amy ouvira desde que ele chegara.
"É um bom conselho; mais vale segui-lo e poupar os teus dedos", disse ela, pensando que a sua fala o divertira.
"Obrigado, fá-lo-ei", respondeu ele a brincar, e uns meses mais tarde fá-lo-ia a sério.
"Laurie, quando vais ter com o teu avô?" perguntou ela pouco depois, enquanto se instalava num banco rústico.
"Muito em breve."
"Já disseste isso uma dúzia de vezes nas últimas três semanas."
"Suponho que sim; respostas curtas poupam trabalho."
"Ele espera por ti, e tu deverias realmente ir."
"Criatura hospitaleira! Eu sei."
"Então porque não o fazes?"
"Depravação natural, suponho."
"Indolência natural, queres dizer. É realmente terrível!" e Amy pareceu severa.
"Não tão mau como parece, pois eu só o chatearia se fosse, por isso mais vale ficar e chatear-te um pouco mais; tu aguentas melhor; de facto, acho que te cai excelentemente bem;" e Laurie acomodou-se para descansar na larga borda do balaustre.
Amy abanou a cabeça e abriu o bloco de desenho com um ar de resignação; mas tinha decidido dar uma lição àquele "rapaz", e num minuto começou de novo.
"O que estás a fazer neste momento?"
"A observar lagartixas."
"Não, não; refiro-me ao que pretendes e desejas fazer?"
"Fumar um cigarro, se me permitires."
"Como és provocador! Não aprovo charutos e só o permitirei com a condição de que me deixes colocar-te no meu desenho; preciso de uma figura."
"Com todo o prazer do mundo. Como me queres — de corpo inteiro ou três quartos, sobre a cabeça ou sobre os pés? Sugeriria respeitosamente uma postura reclinada, depois põe-te também a ti, e chama-lhe '_Dolce far niente_'."
"Fica como estás, e adormece se quiseres. Tenho a intenção de trabalhar arduamente", disse Amy, no seu tom mais enérgico.
"Que entusiasmo delicioso!" e ele inclinou-se contra uma urna alta com um ar de completa satisfação.
"O que diria a Jo se te visse agora?" perguntou Amy impacientemente, esperando agitá-lo com a menção do nome da sua irmã ainda mais enérgica.
"Como de costume: 'Vai-te embora, Teddy, estou ocupada!'" Ele riu-se enquanto falava, mas o riso não era natural, e uma sombra passou pelo seu rosto, pois a menção do nome familiar tocou a ferida que ainda não sarara. Tanto o tom como a sombra impressionaram Amy, pois ela já os vira e ouvira antes, e agora olhou para cima a tempo de captar uma nova expressão no rosto de Laurie — um olhar duro e amargo, cheio de dor, insatisfação e arrependimento. Desapareceu antes que ela pudesse estudá-lo, e a expressão apática voltou. Ela observou-o por um momento com prazer artístico, pensando em como ele parecia um italiano, enquanto jazia a aquecer-se ao sol com a cabeça descoberta e os olhos cheios de sonhadorismo meridional; pois ele parecia tê-la esquecido e caído num devaneio.
"Pareces a efígie de um jovem cavaleiro a dormir no seu túmulo", disse ela, traçando cuidadosamente o perfil bem definido contra a pedra escura.
"Quem me dera!"
"Esse é um desejo tolo, a menos que tenhas arruinado a tua vida. Estás tão mudado, que às vezes penso..." aí Amy parou, com um olhar meio tímido, meio nostálgico, mais significativo do que o seu discurso inacabado.
Laurie viu e compreendeu a ansiedade afetuosa que ela hesitava em expressar, e olhando diretamente nos olhos dela, disse, exatamente como costumava dizer à mãe dela:
"Está tudo bem, minha senhora."
Isso satisfez Amy e descansou as dúvidas que a tinham começado a preocupar ultimamente. Também a tocou, e ela mostrou que o fizera pelo tom cordial com que disse:
"Fico contente com isso! Não pensei que tivesses sido um rapaz muito mau, mas imaginei que pudesses ter desperdiçado dinheiro naquele perverso Baden-Baden, perdido o teu coração para alguma francesa encantadora com marido, ou ter-te metido em algum dos apuros que os jovens parecem considerar uma parte necessária de uma viagem ao estrangeiro. Não fiques aí ao sol; vem deitar-te aqui na relva e 'sejamos amigos', como a Jo costumava dizer quando nos enfiávamos no canto do sofá e contávamos segredos."
Laurie atirou-se obedientemente para a relva e começou a divertir-se a espetar margaridas nas fitas do chapéu de Amy, que ali jazia.
"Estou pronto para os segredos;" e ele olhou para cima com uma expressão de interesse decidida nos olhos.
"Não tenho nenhum para contar; podes começar."
"Não tenho nenhum que valha a pena. Pensei que talvez tivesses tido notícias de casa."
"Ouviste tudo o que chegou ultimamente. Não recebes notícias com frequência? Imaginei que a Jo te mandasse volumes."
"Ela está muito ocupada; ando tanto a vaguear que é impossível ser regular, sabes. Quando começas a tua grande obra de arte, Raphaella?" perguntou ele, mudando de assunto abruptamente após outra pausa, em que se interrogara se Amy sabia o seu segredo e queria falar sobre ele.
"Nunca", respondeu ela, com um ar desanimado mas decidido. "Roma tirou-me toda a vaidade; pois depois de ver as maravilhas que lá há, senti-me demasiado insignificante para viver e desisti de todas as minhas tolas esperanças em desespero."
"Por que haverias de o fazer, com tanta energia e talento?"
"É precisamente por isso — porque talento não é génio, e nenhuma quantidade de energia pode torná-lo em tal. Quero ser grande, ou nada. Não serei uma pintora medíocre, por isso não pretendo tentar mais."
"E o que vais fazer de ti agora, se me permites perguntar?"
"Polir os meus outros talentos e ser um ornamento da sociedade, se tiver oportunidade."
Foi um discurso característico e soou ousado; mas a audácia fica bem aos jovens, e a ambição de Amy tinha uma boa base. Laurie sorriu, mas gostou do espírito com que ela assumia um novo propósito quando um há muito acalentado morria, e não perdia tempo a lamentar-se.
"Bom! E é aqui que entra o Fred Vaughn, suponho."
Amy manteve um silêncio discreto, mas havia um olhar consciente no seu rosto cabisbaixo que fez Laurie sentar-se e dizer gravemente:
"Agora vou fazer de irmão e fazer perguntas. Posso?"
"Não prometo responder."
"O teu rosto responderá, se a tua língua não o fizer. Ainda não és uma mulher do mundo suficiente para esconder os teus sentimentos, minha querida. Ouvi rumores sobre o Fred e tu no ano passado, e é a minha opinião privada que, se ele não tivesse sido chamado a casa tão subitamente e detido por tanto tempo, algo teria acontecido — hein?"
"Isso não cabe a mim dizer", foi a resposta formal de Amy; mas os seus lábios sorriam, e havia um brilho traiçoeiro no olho, que traía que ela conhecia o seu poder e desfrutava desse conhecimento.
"Não estás noiva, espero?" e Laurie pareceu muito grave e fraternal de repente.
"Não."
"Mas vais ficar, se ele voltar e se puser devidamente de joelhos, não vais?"
"Muito provavelmente."
"Então gostas do velho Fred?"
"Poderia gostar, se tentasse."
"Mas não pretendes tentar até ao momento apropriado? Valha-me Deus, que prudência sobrenatural! Ele é um bom tipo, Amy, mas não é o homem que eu imaginei que tu gostarias."
"Ele é rico, é um cavalheiro e tem modos encantadores", começou Amy, tentando ser muito calma e digna, mas sentindo-se um pouco envergonhada de si mesma, apesar da sinceridade das suas intenções.
"Compreendo; as rainhas da sociedade não se safam sem dinheiro, por isso tens a intenção de fazer um bom casamento e começar dessa forma? Muito correto e apropriado, como as coisas do mundo vão, mas soa estranho vindo dos lábios de uma das filhas da tua mãe."
"Verdadeiro, apesar disso."
Um discurso curto, mas a decisão tranquila com que foi proferido contrastava curiosamente com a jovem oradora. Laurie sentiu isto instintivamente e deitou-se novamente, com uma sensação de desapontamento que não conseguia explicar. O seu olhar e silêncio, bem como uma certa autodesaprovação interior, irritaram Amy e fizeram-na decidir proferir a sua palestra sem demora.
"Gostaria que me fizesses o favor de te animares um pouco", disse ela asperamente.
"Fá-lo por mim, minha querida."
"Eu poderia, se tentasse"; e ela olhou como se gostasse de o fazer da forma mais sumária.
"Tenta, então; dou-te permissão", retorquiu Laurie, que gostava de ter alguém a quem provocar, após a sua longa abstinência do seu passatempo favorito.
"Ficarias zangado em cinco minutos."
"Nunca fico zangado contigo. São precisas duas pederneiras para fazer fogo: tu és tão calma e suave como a neve."
"Não sabes do que sou capaz; a neve produz um brilho e um formigueiro, se aplicada corretamente. A tua indiferença é metade afetação, e uma boa agitação prová-lo-ia."
"Agita à vontade; não me fará mal e pode divertir-te, como disse o homem grande quando a sua pequena esposa lhe bateu. Considera-me sob a luz de um marido ou de um tapete, e bate até te cansares, se esse tipo de exercício te convém."
Estando decididamente picada, e desejando vê-lo sacudir a apatia que tanto o alterava, Amy afiou a língua e o lápis, e começou:
"A Flo e eu temos um novo nome para ti; é 'Laurence o Preguiçoso'. Como gostas dele?"
Ela pensou que isso o aborreceria; mas ele apenas cruzou os braços sob a cabeça, com um imperturbável "Não é mau. Obrigado, senhoras."
"Queres saber o que penso honestamente de ti?"
"Anseio por ser informado."
"Bem, eu desprezo-te."
Se ela tivesse dito sequer "Eu odeio-te", num tom petulante ou sedutor, ele teria rido e até gostado; mas o acento grave, quase triste, da sua voz fê-lo abrir os olhos e perguntar rapidamente:
"Porquê, se faz favor?"
"Porque, com todas as hipóteses de ser bom, útil e feliz, tu és defeituoso, preguiçoso e miserável."
"Linguagem forte, mademoiselle."
"Se gostas, continuarei."
"Por favor, continua; é bastante interessante."
"Pensei que acharias que sim; as pessoas egoístas gostam sempre de falar de si próprias."
"Sou egoísta?" A pergunta escapou-se involuntariamente e num tom de surpresa, pois a única virtude da qual ele se orgulhava era a generosidade.
"Sim, muito egoísta", continuou Amy, com uma voz calma e fria, duas vezes mais eficaz, naquele momento, do que uma voz zangada. "Vou mostrar-te como, pois estudei-te enquanto nos divertíamos, e não estou nada satisfeita contigo. Aqui estás tu, no estrangeiro, há quase seis meses, e não fizeste nada a não ser desperdiçar tempo e dinheiro e desapontar os teus amigos."
"Um tipo não pode ter prazer algum depois de quatro anos de trabalho árduo?"
"Não pareces ter tido muito; de qualquer forma, não estás melhor por isso, tanto quanto vejo. Eu disse, quando nos conhecemos, que tinhas melhorado. Agora retiro tudo, pois não te acho nem metade tão agradável como quando te deixei em casa. Tornaste-te abominavelmente preguiçoso; gostas de mexericos e desperdiças tempo com coisas frívolas; contentas-te em ser mimado e admirado por pessoas tolas, em vez de seres amado e respeitado por pessoas sábias. Com dinheiro, talento, posição, saúde e beleza — ah, gostas disso, Velha Vaidade! mas é a verdade, por isso não posso evitar dizê-lo —, com todas estas coisas esplêndidas para usar e desfrutar, não consegues encontrar nada para fazer a não ser vaguear; e, em vez de seres o homem que poderias e deverias ser, és apenas..." Aí ela parou, com um olhar que tinha tanto de dor como de pena.
"São Lourenço na grelha", acrescentou Laurie, terminando suavemente a frase. Mas a palestra começou a fazer efeito, pois havia agora um brilho desperto nos seus olhos, e uma expressão meio zangada, meio ofendida, substituiu a indiferença anterior.
"Supus que receberias assim. Vocês, homens, dizem-nos que somos anjos e dizem que podemos fazer de vós o que quisermos; mas, no instante em que honestamente tentamos fazer-vos o bem, riem-se de nós e não ouvem, o que prova quanto vale a vossa adulação." Amy falou amargamente e virou as costas ao exasperante mártir aos seus pés.
Num minuto, uma mão desceu sobre a página, de modo a que ela não pudesse desenhar, e a voz de Laurie disse, com uma imitação engraçada de uma criança penitente:
"Serei bom, oh, serei bom!"
Mas Amy não se riu, pois estava a falar a sério; e, batendo com o lápis na mão estendida, disse sobriamente:
"Não te envergonhas de uma mão como essa? É tão macia e branca como a de uma mulher, e parece que nunca fez nada a não ser usar as melhores luvas de Jouvin e colher flores para as senhoras. Não és um dândi, graças ao Céu! por isso fico contente por ver que não tem diamantes ou grandes anéis de sinete, apenas aquele pequeno e velho que a Jo te deu há tanto tempo. Querida alma, quem me dera que ela estivesse aqui para me ajudar!"
"A mim também!"
A mão desapareceu tão subitamente como tinha vindo, e havia energia suficiente no eco do seu desejo para satisfazer até a Amy. Ela olhou para ele com um novo pensamento na mente; mas ele estava deitado com o chapéu meio sobre o rosto, como se fosse para fazer sombra, e o seu bigode escondia-lhe a boca. Ela apenas viu o seu peito subir e descer, com um longo suspiro que poderia ter sido uma mágoa, e a mão que usava o anel aninhou-se na relva, como se para esconder algo demasiado precioso ou demasiado terno para ser falado. Num instante, vários indícios e trivialidades assumiram forma e significado na mente de Amy, e disseram-lhe o que a sua irmã nunca lhe tinha confiado. Ela lembrou-se de que Laurie nunca falava voluntariamente da Jo; recordou a sombra no rosto dele há pouco, a mudança no seu caráter e o uso do pequeno anel antigo, que não era um ornamento para uma mão bonita. As raparigas são rápidas a ler tais sinais e a sentir a sua eloquência. Amy imaginara que talvez um problema amoroso estivesse na base da alteração, e agora tinha a certeza disso. Os seus olhos perspicazes encheram-se e, quando ela falou novamente, foi com uma voz que podia ser maravilhosamente suave e gentil quando ela escolhia que o fosse.
"Sei que não tenho o direito de falar assim contigo, Laurie; e se não fosses o tipo de temperamento mais doce do mundo, ficarias muito zangado comigo. Mas somos todos tão afeiçoados e orgulhosos de ti, que não suportava pensar que eles pudessem ficar desapontados contigo em casa como eu fiquei, embora, talvez, eles compreendessem melhor a mudança do que eu."
"Penso que compreenderiam", veio debaixo do chapéu, num tom sombrio, tão comovente como um tom quebrado.
"Eles deviam ter-me dito, e não deixar-me andar a tropeçar e a ralhar, quando eu deveria ter sido mais gentil e paciente do que nunca. Eu nunca gostei daquela Miss Randal, e agora odeio-a!" disse a astuta Amy, desejando ter a certeza dos seus factos desta vez.
"Que se lixe a Miss Randal!" e Laurie tirou o chapéu do rosto com um olhar que não deixava dúvidas sobre os seus sentimentos em relação àquela jovem.
"Peço perdão; pensei..." e aí ela pausou diplomaticamente.
"Não, não pensaste; sabias perfeitamente que eu nunca me interessei por ninguém a não ser pela Jo." Laurie disse aquilo no seu tom antigo e impetuoso, e virou o rosto enquanto falava.
"Eu pensei mesmo; mas como eles nunca disseram nada sobre isso, e tu vieste embora, presumi que estava enganada. E a Jo não foi gentil contigo? Ora, eu tinha a certeza de que ela te amava muito."
"Ela foi gentil, mas não da forma certa; e é uma sorte para ela que não me tenha amado, se sou o tipo imprestável que tu pensas que sou. É culpa dela, contudo, e podes dizer-lhe isso."
O olhar duro e amargo voltou novamente enquanto ele dizia aquilo, e isso preocupou Amy, pois ela não sabia que bálsamo aplicar.
"Eu estava errada, não sabia. Lamento muito ter sido tão ríspida, mas não consigo evitar desejar que suportasses isto melhor, querido Teddy."
"Não, esse é o nome dela para mim!" e Laurie ergueu a mão com um gesto rápido para parar as palavras ditas no tom meio gentil, meio reprovador da Jo. "Espera até teres passado por isso tu mesma", acrescentou ele, em voz baixa, enquanto arrancava a relva aos punhados.
"Eu suportaria virilmente, e seria respeitada se não pudesse ser amada", disse Amy, com a decisão de quem não sabia nada sobre isso.
Ora, Laurie vangloriava-se de ter suportado aquilo notavelmente bem, não fazendo lamentos, não pedindo simpatia e levando o seu problema para o superar sozinho. A palestra de Amy colocou a questão sob uma nova luz e, pela primeira vez, pareceu fraco e egoísta perder o ânimo à primeira falha e fechar-se numa indiferença melancólica. Ele sentiu-se como se subitamente sacudido de um sonho pensativo, e achou impossível voltar a dormir. Pouco depois, sentou-se e perguntou lentamente:
"Acharias que a Jo me desprezaria como tu desprezas?"
"Sim, se ela te visse agora. Ela odeia pessoas preguiçosas. Porque não fazes algo esplêndido e a fazes amar-te?"
"Fiz o meu melhor, mas não serviu de nada."
"Formar-te bem, queres dizer? Isso não foi mais do que deverias ter feito, pelo teu avô. Teria sido vergonhoso falhar depois de gastar tanto tempo e dinheiro, quando todos sabiam que podias fazer bem."
"Eu falhei, diz o que quiseres, pois a Jo não me quis amar", começou Laurie, apoiando a cabeça na mão numa atitude de desânimo.
"Não, não falhaste, e dirás isso no fim, pois fez-te bem e provou que podias fazer algo se tentasses. Se apenas te dedicasses a outra tarefa de qualquer tipo, em breve serias o teu eu cordial e feliz novamente, e esquecerias o teu problema."
"Isso é impossível."
"Tenta e verás. Não precisas de encolher os ombros e pensar: 'Ela percebe muito de tais coisas'. Não pretendo ser sábia, mas sou observadora, e vejo muito mais do que imaginarias. Interesso-me pelas experiências e inconsistências das outras pessoas; e, embora não possa explicar, lembro-me e uso-as para meu próprio benefício. Ama a Jo todos os teus dias, se quiseres, mas não deixes que isso te estrague, pois é perverso deitar fora tantas boas dádivas porque não podes ter a que queres. Pronto, não vou dar mais lições, pois sei que vais acordar e ser um homem apesar daquela rapariga de coração duro."
Nenhum falou durante vários minutos. Laurie sentou-se a rodar o pequeno anel no dedo, e Amy deu os últimos retoques no esboço apressado em que trabalhara enquanto falava. Pouco depois, colocou-o no joelho dele, dizendo apenas:
"Como gostas disso?"
Ele olhou e depois sorriu, como não podia deixar de fazer, pois estava feito com maestria — a figura longa e preguiçosa na relva, com o rosto apático, os olhos semicerrados e uma mão a segurar um charuto, de onde vinha a pequena grinalda de fumo que circundava a cabeça do sonhador.
"Como desenhas bem!" disse ele, com genuína surpresa e prazer pela habilidade dela, acrescentando, com um meio riso:
"Sim, sou eu."
"Como estás: isto é como estavas"; e Amy colocou outro esboço ao lado do que ele segurava.
Não estava nem de perto tão bem feito, mas havia uma vida e um espírito nele que compensavam muitas falhas, e recordava o passado tão vividamente que uma mudança súbita varreu o rosto do jovem enquanto olhava. Apenas um esboço tosco de Laurie a domar um cavalo; o chapéu e o casaco estavam fora, e cada linha da figura ativa, rosto resoluto e atitude dominante, estava cheia de energia e significado. O belo animal, recém-dominado, estava com o pescoço arqueado sob a rédea fortemente puxada, com um pé a arranhar impacientemente o chão e as orelhas em pé, como se estivesse à escuta da voz que o tinha dominado. Na crina eriçada, no cabelo revolto do cavaleiro e na atitude erecta, havia uma sugestão de movimento subitamente interrompido, de força, coragem e vivacidade juvenil, que contrastava nitidamente com a graça supina do esboço "Dolce far niente". Laurie não disse nada; mas, à medida que o seu olhar passava de um para o outro, Amy viu-o corar e cerrar os lábios como se lesse e aceitasse a pequena lição que ela lhe tinha dado. Isso satisfez-a; e, sem esperar que ele falasse, ela disse, da sua forma animada:
"Não te lembras do dia em que brincaste a Rarey com o Puck, e nós todos observámos? A Meg e a Beth estavam assustadas, mas a Jo aplaudiu e saltou, e eu sentei-me na cerca e desenhei-te. Encontrei esse esboço no meu portefólio no outro dia, retoquei-o e guardei-o para te mostrar."
"Muito obrigado. Melhoraste imensamente desde então, e dou-te os parabéns. Posso aventurar-me a sugerir num 'Paraíso de lua de mel' que as cinco horas são a hora do jantar no teu hotel?"
Laurie levantou-se enquanto falava, devolveu as imagens com um sorriso e uma vénia, e olhou para o relógio, como se para a lembrar de que até as lições morais devem ter um fim. Ele tentou retomar o seu anterior ar fácil e indiferente, mas era uma afetação agora, pois o despertar tinha sido mais eficaz do que ele admitiria. Amy sentiu a sombra de frieza na sua maneira e disse para consigo:
"Agora ofendi-o. Bem, se lhe faz bem, fico contente; se o faz odiar-me, lamento; mas é a verdade, e não posso retirar uma palavra que seja."
Riram-se e conversaram durante todo o caminho para casa; e o pequeno Baptiste, atrás, pensou que monsieur e mademoiselle estavam num espírito encantador. Mas ambos se sentiam desconfortáveis; a franqueza amigável estava perturbada, o sol tinha uma sombra sobre ele e, apesar da sua aparente alegria, havia um descontentamento secreto no coração de cada um.
"Ver-te-emos esta noite, mon frère?" perguntou Amy quando se separaram à porta da tia.
"Infelizmente tenho um compromisso. Au revoir, mademoiselle," e Laurie inclinou-se como se fosse beijar a mão dela, à moda estrangeira, o que lhe ficava melhor do que a muitos homens. Algo no rosto dele fez Amy dizer rápida e calorosamente:
"Não; sê tu mesmo comigo, Laurie, e separemo-nos da boa maneira antiga. Preferia um aperto de mão inglês cordial a todas as saudações sentimentais em França."
"Adeus, querida," e com estas palavras, ditas no tom que ela gostava, Laurie deixou-a, após um aperto de mão quase doloroso na sua cordialidade.
Na manhã seguinte, em vez da visita habitual, Amy recebeu um bilhete que a fez sorrir no início e suspirar no fim:
"MINHA CARA MENTORA,
"Por favor, apresenta os meus adeus à tua tia e exulta dentro de ti, pois 'Laurence o Preguiçoso' foi ter com o seu avô, como o melhor dos rapazes. Um inverno agradável para ti, e que os deuses te concedam uma lua de mel feliz em Valrosa! Penso que o Fred beneficiaria com um despertar. Diz-lhe isso, com os meus parabéns.
"Teu, com gratidão, TELEMACO."
"Bom rapaz! Estou contente por ele ter ido," disse Amy, com um sorriso de aprovação; no minuto seguinte o seu rosto caiu enquanto olhava em redor da sala vazia, acrescentando, com um suspiro involuntário:
"Sim, estou contente, mas como sentirei a sua falta!"
XL.
O VALE DA SOMBRA.
Quando a amargura inicial passou, a família aceitou o inevitável e tentou suportá-lo alegremente, ajudando-se mutuamente pelo aumento da afeição que chega para unir ternamente as famílias em tempos de aflição. Deixaram de lado a sua dor, e cada um fez a sua parte para tornar aquele último ano um ano feliz.
O quarto mais agradável da casa foi reservado para a Beth, e nele foi reunido tudo o que ela mais amava — flores, quadros, o seu piano, a pequena mesa de trabalho e as adoradas gatinhas. Os melhores livros do pai encontraram o seu caminho até lá, a cadeira de baloiço da mãe, a secretária da Jo, os melhores esboços da Amy; e todos os dias a Meg trazia os seus bebés numa peregrinação amorosa, para fazer brilhar o sol para a Tia Beth. John reservou silenciosamente uma pequena quantia, para que pudesse desfrutar do prazer de manter a inválida abastecida com a fruta que ela amava e desejava; a velha Hannah nunca se cansava de preparar pratos requintados para tentar um apetite caprichoso, deixando cair lágrimas enquanto trabalhava; e de além-mar vinham pequenos presentes e cartas alegres, parecendo trazer lufadas de calor e fragrância de terras que não conhecem o inverno.
Aqui, acarinhada como uma santa doméstica no seu santuário, sentava-se Beth, tranquila e ocupada como sempre; pois nada podia mudar a natureza doce e altruísta, e mesmo enquanto se preparava para deixar a vida, ela tentava torná-la mais feliz para aqueles que deveriam ficar para trás. Os dedos débeis nunca estavam ociosos, e um dos seus prazeres era fazer pequenas coisas para as crianças da escola que passavam diariamente — deixar um par de luvas da sua janela para um par de mãos roxas, um livro de agulhas para alguma pequena mãe de muitas bonecas, limpa-penas para jovens escribas que se esforçavam através de florestas de ganchos, álbuns de recortes para olhos que adoravam imagens, e todo o tipo de dispositivos agradáveis, até que os relutantes alpinistas da escada do conhecimento encontravam o seu caminho semeado de flores, por assim dizer, e passavam a considerar a gentil dadora como uma espécie de fada madrinha, que se sentava lá em cima e fazia chover presentes milagrosamente adequados aos seus gostos e necessidades. Se Beth tivesse desejado qualquer recompensa, ela encontrou-a nos rostos brilhantes e pequenos que se voltavam sempre para a sua janela, com acenos e sorrisos, e nas engraçadas pequenas cartas que lhe chegavam, cheias de borrões e gratidão.
Os primeiros meses foram muito felizes, e Beth costumava olhar em redor e dizer "Como isto é belo!" enquanto se sentavam todos juntos no seu quarto ensolarado, os bebés a gatinhar e a arrulhar no chão, a mãe e as irmãs a trabalhar perto, e o pai a ler, com a sua voz agradável, os sábios livros antigos que pareciam ricos em boas e confortáveis palavras, tão aplicáveis agora como quando foram escritos há séculos; uma pequena capela, onde um padre paternal ensinava ao seu rebanho as lições difíceis que todos devem aprender, tentando mostrar-lhes que a esperança pode confortar o amor, e a fé tornar possível a resignação. Sermões simples, que iam direto às almas daqueles que ouviam; pois o coração do pai estava na religião do ministro, e a falha frequente na voz dava uma dupla eloquência às palavras que ele dizia ou lia.
Foi bom para todos que este tempo de paz lhes fosse dado como preparação para as horas tristes que viriam; pois, pouco depois, Beth disse que a agulha estava "tão pesada" e pousou-a para sempre; falar cansava-a, os rostos perturbavam-na, a dor reclamou-a para si, e o seu espírito tranquilo foi dolorosamente perturbado pelos males que afligiam a sua carne frágil. Ah, meu Deus! dias tão pesados, noites tão longas, corações tão doridos e orações suplicantes, quando aqueles que mais a amavam eram forçados a ver as mãos finas estendidas suplicantemente para eles, a ouvir o grito amargo, "Ajuda-me, ajuda-me!" e a sentir que não havia ajuda. Um triste eclipse da alma serena, uma luta aguda da jovem vida com a morte; mas ambos foram misericordiosamente breves, e depois, terminada a rebelião natural, a paz antiga regressou mais bela do que nunca. Com o destroço do seu corpo frágil, a alma de Beth tornou-se forte; e, embora ela dissesse pouco, aqueles que a rodeavam sentiam que ela estava pronta, viam que a primeira peregrina chamada era igualmente a mais apta, e esperavam com ela na margem, tentando ver os Seres Resplandecentes a vir recebê-la quando ela atravessasse o rio.
Jo não a deixava nem por uma hora desde que Beth dissera: "Sinto-me mais forte quando estás aqui." Ela dormia num divã no quarto, acordando frequentemente para reavivar o lume, para alimentar, levantar ou servir a criatura paciente que raramente pedia algo e "tentava não dar trabalho". Durante todo o dia, ela rondava o quarto, ciumenta de qualquer outra enfermeira, e mais orgulhosa por ter sido escolhida para aquilo do que por qualquer honra que a sua vida jamais lhe trouxera. Horas preciosas e úteis para Jo, pois agora o seu coração recebia o ensinamento de que necessitava; as lições de paciência eram-lhe ensinadas tão docemente que ela não podia deixar de as aprender; caridade para com todos, o espírito adorável que sabe perdoar e verdadeiramente esquecer a maldade, a lealdade ao dever que torna fácil o mais difícil, e a fé sincera que não teme nada, mas confia sem hesitações.
Muitas vezes, ao acordar, Jo encontrava Beth a ler o seu livrinho gasto, ouvia-a cantar baixinho, para embalar a noite de insónia, ou via-a apoiar o rosto nas mãos, enquanto lágrimas lentas caíam através dos dedos transparentes; e Jo ficava deitada a observá-la, com pensamentos profundos demais para as lágrimas, sentindo que Beth, à sua maneira simples e altruísta, tentava desapegar-se da querida vida antiga e preparar-se para a vida que viria, com palavras sagradas de conforto, orações silenciosas e a música que tanto amava.
Ver isto fez mais por Jo do que os sermões mais sábios, os hinos mais santos, as orações mais fervorosas que qualquer voz pudesse proferir; pois, com olhos tornados límpidos por muitas lágrimas e um coração enternecido pela dor mais terna, ela reconheceu a beleza da vida da sua irmã — sem acontecimentos, sem ambições, mas cheia das virtudes genuínas que "cheiram bem e florescem no pó", o esquecimento de si mesma que faz com que os mais humildes da terra sejam lembrados mais cedo no céu, o verdadeiro sucesso que é possível a todos.
Certa noite, quando Beth procurava entre os livros sobre a mesa algo que a fizesse esquecer o cansaço mortal que era quase tão difícil de suportar como a dor, ao folhear o seu velho favorito, O Peregrino, encontrou um pequeno papel, rabiscado com a letra de Jo. O nome prendeu-lhe o olhar, e o aspeto esbatido das linhas deu-lhe a certeza de que lágrimas haviam caído sobre ele.
"Pobre Jo! Ela está a dormir profundamente, por isso não a vou acordar para pedir permissão; ela mostra-me todas as suas coisas e não creio que se importe se eu olhar para isto", pensou Beth, com um olhar para a irmã, que jazia sobre o tapete, com as tenazes ao lado, pronta a acordar no minuto em que o tronco de lenha se desfizesse.
"A MINHA BETH.
"Sentada paciente na sombra Até que a luz abençoada chegue, Uma presença serena e santa Santifica o nosso lar inquieto. As alegrias, esperanças e tristezas terrenas Quebram-se como ondulações na margem Do rio profundo e solene Onde os seus pés dispostos agora se encontram.
"Oh, minha irmã, que partes de mim, Para fora do cuidado e do conflito humano, Deixa-me, como presente, essas virtudes Que embelezaram a tua vida. Querida, lega-me aquela grande paciência Que tem o poder de sustentar Um espírito alegre e sem queixas Na sua casa-prisão de dor.
"Dá-me, pois preciso disso desesperadamente, Daquela coragem, sábia e doce, Que tornou o caminho do dever Verde sob os teus pés dispostos. Dá-me essa natureza altruísta, Que com caridade divina Pode perdoar o mal por amor ao amor-- Coração manso, perdoa o meu!
"Assim, a nossa separação perde diariamente Algo da sua dor amarga, E enquanto aprendo esta dura lição, A minha grande perda torna-se o meu ganho. Pois o toque do pesar tornará A minha natureza selvagem mais serena, Dará à vida novas aspirações, Uma nova fé no invisível.
"Doravante, a salvo do outro lado do rio, Verei para todo o sempre Um espírito doméstico amado À minha espera na margem. Esperança e fé, nascidas do meu pesar, Anjos da guarda se tornarão, E a irmã que partiu antes de mim Pelas suas mãos me levará para casa."
Esbatidas e manchadas, imperfeitas e frágeis como eram as linhas, trouxeram um aspeto de conforto inexprimível ao rosto de Beth, pois o seu único arrependimento fora ter feito tão pouco; e isto parecia assegurar-lhe que a sua vida não fora inútil, que a sua morte não traria o desespero que ela temia. Enquanto estava sentada com o papel dobrado entre as mãos, o tronco carbonizado partiu-se. Jo sobressaltou-se, avivou a chama e rastejou até à cabeceira, esperando que Beth estivesse a dormir.
"Não estou a dormir, mas tão feliz, querida. Vê, encontrei isto e li-o; sabia que não te importarias. Fui tudo isso para ti, Jo?" perguntou ela, com uma seriedade humilde e saudosa.
"Oh, Beth, tanto, tanto!" e a cabeça de Jo tombou sobre a almofada, ao lado da da sua irmã.
"Então não sinto que desperdicei a minha vida. Não sou tão boa como me pintas, mas tentei fazer o que é certo; e agora, quando é tarde demais para começar sequer a fazer melhor, é um conforto saber que alguém me ama tanto e sente que eu a ajudei."
"Mais do que qualquer pessoa no mundo, Beth. Costumava pensar que não poderia deixar-te partir; mas estou a aprender a sentir que não te perco; que serás mais para mim do que nunca, e que a morte não nos pode separar, embora pareça que sim."
"Sei que não pode, e já não a temo, pois tenho a certeza de que continuarei a ser a tua Beth, para te amar e ajudar mais do que nunca. Deves ocupar o meu lugar, Jo, e ser tudo para o pai e para a mãe quando eu partir. Eles voltarão-se para ti, não lhes falhes; e se for difícil trabalhar sozinha, lembra-te de que não me esqueço de ti, e de que serás mais feliz ao fazê-lo do que escrevendo livros esplêndidos ou vendo o mundo inteiro; pois o amor é a única coisa que podemos levar connosco quando partimos, e torna o fim tão fácil."
"Vou tentar, Beth;" e ali mesmo Jo renunciou à sua antiga ambição, comprometeu-se com uma nova e melhor, reconhecendo a pobreza de outros desejos e sentindo o consolo abençoado de uma crença na imortalidade do amor.
Assim, os dias de primavera vieram e foram, o céu tornou-se mais claro, a terra mais verde, as flores surgiram belas e cedo, e os pássaros voltaram a tempo de dizer adeus a Beth, que, como uma criança cansada mas confiante, se agarrou às mãos que a tinham guiado durante toda a vida, enquanto o pai e a mãe a guiavam ternamente pelo Vale da Sombra e a entregavam a Deus.
Raramente, exceto nos livros, os moribundos proferem palavras memoráveis, têm visões ou partem com semblantes beatificados; e aqueles que acompanharam muitas almas que partem sabem que, para a maioria, o fim chega tão natural e simplesmente como o sono. Como Beth esperara, a "maré baixou suavemente"; e na hora escura antes do amanhecer, no seio onde dera o seu primeiro suspiro, ela deu tranquilamente o último, sem despedida além de um olhar amoroso, um pequeno suspiro.
Com lágrimas, orações e mãos ternas, a mãe e as irmãs prepararam-na para o longo sono que a dor jamais voltaria a marcar, vendo com olhos gratos a bela serenidade que logo substituiu a paciência patética que lhes apertara o coração durante tanto tempo, e sentindo, com alegria reverente, que para a sua querida a morte era um anjo benigno, não um fantasma cheio de pavor.
Quando a manhã chegou, pela primeira vez em muitos meses o fogo estava apagado, o lugar de Jo estava vazio e o quarto estava muito silencioso. Mas um pássaro cantava alegremente num ramo em botão, ali perto, os flocos-de-neve floresciam frescos à janela, e o sol de primavera entrava como uma bênção sobre o rosto plácido na almofada — um rosto tão cheio de paz indolor que aqueles que mais a amavam sorriam através das lágrimas e agradeciam a Deus porque Beth estava finalmente bem.
XLI.
APRENDER A ESQUECER.
A lição de Amy fez bem a Laurie, embora, claro, ele não o admitisse senão muito tempo depois; os homens raramente o fazem, pois quando as mulheres são as conselheiras, os senhores da criação não seguem o conselho até se terem convencido de que era exatamente o que pretendiam fazer; então agem de acordo com ele e, se tiver sucesso, dão ao vaso mais fraco metade do crédito; se falha, generosamente dão-lhe o crédito todo. Laurie voltou para o seu avô e foi tão devotamente dedicado durante várias semanas que o velho cavalheiro declarou que o clima de Nice o tinha melhorado maravilhosamente e que seria melhor tentar de novo. Não havia nada que o jovem gostasse mais, mas nem elefantes o teriam arrastado de volta depois da reprimenda que recebera; o orgulho impedia-o, e sempre que o desejo crescia muito, ele fortalecia a sua resolução repetindo as palavras que lhe tinham causado a impressão mais profunda: "Desprezo-te"; "Vai e faz algo esplêndido que a faça amar-te".
Laurie repassou o assunto na sua mente tantas vezes que logo se viu a confessar que fora egoísta e preguiçoso; mas, quando um homem tem um grande desgosto, deve ser condescendente com todos os tipos de caprichos até que o tenha superado. Sentia que as suas afeições frustradas estavam agora mortas; e, embora nunca deixasse de ser um enlutado fiel, não havia motivo para usar o seu luto ostensivamente. Jo não o amaria, mas ele poderia fazer com que ela o respeitasse e admirasse ao fazer algo que provasse que o "Não" de uma rapariga não lhe arruinara a vida. Ele sempre pretendera fazer algo, e o conselho de Amy fora totalmente desnecessário. Apenas estivera à espera que as mencionadas afeições frustradas fossem decentemente enterradas; uma vez feito isso, sentiu que estava pronto para "esconder o seu coração ferido e continuar a trabalhar".
Como Goethe, quando tinha uma alegria ou uma mágoa, a punha numa canção, Laurie resolveu embalsamar o seu desgosto amoroso na música e compor um Requiem que perturbasse a alma de Jo e derretesse o coração de qualquer ouvinte. Portanto, da próxima vez que o velho cavalheiro o encontrou inquieto e de mau humor e o mandou embora, ele foi para Viena, onde tinha amigos músicos, e pôs-se a trabalhar com a firme determinação de se distinguir. Mas, quer a mágoa fosse demasiado vasta para ser incorporada na música, ou a música demasiado etérea para elevar uma dor mortal, ele logo descobriu que o Requiem estava além das suas capacidades, pelo menos naquele momento. Era evidente que a sua mente ainda não estava em condições de trabalho e as suas ideias precisavam de ser clarificadas; pois, frequentemente, a meio de uma melodia queixosa, dava por si a cantarolar uma música de dança que lembrava vividamente o baile de Natal em Nice, especialmente o francês corpulento, e punha um fim eficaz à composição trágica por enquanto.
Depois tentou uma Ópera, pois nada parecia impossível no início; mas aqui, novamente, dificuldades imprevistas assaltaram-no. Ele queria Jo como sua heroína e recorreu à memória para lhe fornecer recordações ternas e visões românticas do seu amor. Mas a memória tornou-se traidora; e, como se possuída pelo espírito perverso da rapariga, só conseguia recordar as excentricidades, os defeitos e as manias de Jo, só a mostrava nos aspetos mais anti-românticos — a bater em tapetes com a cabeça atada num lenço, a barricar-se com a almofada do sofá ou a atirar água fria à sua paixão à la Gummidge — e uma gargalhada irresistível estragava o quadro pensativo que ele tentava pintar. Jo não podia ser posta na ópera por preço algum, e ele teve de desistir dela com um "Abençoada rapariga, que tormento ela é!" e um puxão ao cabelo, como convinha a um compositor distraído.
Quando olhou à sua volta em busca de outra donzela menos intratável para imortalizar na melodia, a memória produziu uma com a prontidão mais solícita. Este fantasma tinha muitos rostos, mas sempre tinha cabelos dourados, estava envolto numa nuvem diáfana e flutuava alegremente diante do olho da sua mente num caos agradável de rosas, pavões, póneis brancos e fitas azuis. Ele não deu à aparição complacente nome algum, mas tomou-a como sua heroína e tornou-se bastante afeiçoado a ela, como bem poderia; pois dotou-a de todos os dons e graças debaixo do sol, e escoltou-a, incólume, através de provações que teriam aniquilado qualquer mulher mortal.
Graças a esta inspiração, ele progrediu muito bem durante algum tempo, mas gradualmente o trabalho perdeu o seu encanto, e ele esquecia-se de compor enquanto ficava a meditar, caneta na mão, ou a vaguear pela cidade alegre para obter novas ideias e refrescar a sua mente, que parecia estar num estado algo instável naquele inverno. Ele não fazia muito, mas pensava bastante e estava consciente de uma mudança que acontecia apesar de si mesmo. "É o génio a fervilhar, talvez. Deixá-lo-ei fervilhar e veremos o que resulta disso", dizia ele, com a suspeita secreta, o tempo todo, de que não era génio, mas algo muito mais comum. Seja o que for, fervilhou com um propósito, pois ele tornou-se cada vez mais descontente com a sua vida desordenada, começou a ansiar por algum trabalho real e sério a que se dedicar, de alma e corpo, e finalmente chegou à conclusão sábia de que nem todos os que amavam música eram compositores. Regressando de uma das grandes óperas de Mozart, esplendidamente interpretada no Teatro Real, ele olhou para a sua própria, tocou algumas das melhores partes, ficou a olhar para os bustos de Mendelssohn, Beethoven e Bach, que olhavam de volta benevolamente; depois, de repente, rasgou as suas folhas de música, uma a uma, e, quando a última esvoaçou da sua mão, disse sobriamente para si mesmo:
"Ela tem razão! Talento não é génio, e não se pode fazer com que seja. Aquela música tirou-me a vaidade como Roma a tirou dela, e não serei mais um impostor. Agora, o que farei?"
Essa parecia uma pergunta difícil de responder, e Laurie começou a desejar ter de trabalhar para ganhar o seu pão diário. Agora, se alguma vez ocorreu, surgia uma oportunidade elegível para "ir para o diabo", como ele certa vez expressou energicamente, pois tinha muito dinheiro e nada para fazer, e Satanás é proverbialmente afeito a providenciar emprego para mãos cheias e ociosas. O pobre rapaz teve tentações suficientes de fora e de dentro, mas resistiu-lhes bastante bem; pois, por mais que valorizasse a liberdade, valorizava mais a boa fé e a confiança, pelo que a sua promessa ao avô e o desejo de poder olhar honestamente nos olhos das mulheres que o amavam e dizer "Está tudo bem" mantiveram-no seguro e constante.
Muito provavelmente, alguma Sra. Grundy observará: "Não acredito; rapazes serão rapazes, os jovens devem semear a sua semente selvagem, e as mulheres não devem esperar milagres." Ouso dizer que não acredita, Sra. Grundy, mas é verdade, no entanto. As mulheres operam muitos milagres, e tenho a convicção de que podem realizar até o de elevar o padrão da masculinidade ao recusar repetir tais ditos. Deixem os rapazes serem rapazes, quanto mais tempo melhor, e deixem os jovens semear a sua semente selvagem, se tiverem de o fazer; mas as mães, irmãs e amigas podem ajudar a tornar a colheita pequena e impedir que muitas ervas daninhas estraguem a safra, acreditando, e mostrando que acreditam, na possibilidade de lealdade às virtudes que tornam os homens mais varonis aos olhos das boas mulheres. Se é uma ilusão feminina, deixem-nos aproveitá-la enquanto podemos, pois sem ela metade da beleza e do romance da vida perde-se, e presságios tristes amargariam todas as nossas esperanças nos rapazes corajosos e ternos que ainda amam as suas mães mais do que a si mesmos e não têm vergonha de o admitir.
Laurie pensou que a tarefa de esquecer o seu amor por Jo absorveria todas as suas forças durante anos; mas, para sua grande surpresa, descobriu que se tornava mais fácil a cada dia. Recusou-se a acreditar nisso no início, irritou-se consigo mesmo e não conseguia entender; mas estes nossos corações são coisas curiosas e contrárias, e o tempo e a natureza fazem a sua vontade apesar de nós. O coração de Laurie não doía; a ferida insistia em sarar com uma rapidez que o espantava e, em vez de tentar esquecer, dava por si a tentar lembrar-se. Ele não tinha previsto esta reviravolta e não estava preparado para ela. Estava enojado consigo mesmo, surpreendido com a sua própria inconstância e cheio de uma estranha mistura de desapontamento e alívio por poder recuperar de um golpe tão tremendo tão cedo. Ele revolvia cuidadosamente as brasas do seu amor perdido, mas elas recusavam-se a arder numa chama: havia apenas um brilho confortável que aquecia e lhe fazia bem sem o colocar em febre, e ele foi relutantemente obrigado a confessar que a paixão juvenil estava lentamente a transformar-se num sentimento mais tranquilo, muito terno, ainda um pouco triste e ressentido, mas que certamente passaria com o tempo, deixando uma afeição fraternal que duraria ininterrupta até ao fim.
À medida que a palavra "fraternal" passava pela sua mente num destes devaneios, ele sorriu e olhou para a imagem de Mozart que estava à sua frente:
"Bem, ele era um grande homem; e quando não pôde ter uma irmã, escolheu a outra e foi feliz."
Laurie não proferiu as palavras, mas pensou nelas; e no instante seguinte beijou o pequeno anel antigo, dizendo para si mesmo:
"Não, não vou! Não me esqueci, nunca poderei. Vou tentar de novo e, se isso falhar, bem, então..."
Deixando a frase inacabada, pegou na caneta e no papel e escreveu a Jo, dizendo-lhe que não conseguia fixar-se em nada enquanto houvesse a menor esperança de ela mudar de ideias. Não poderia, não gostaria, e deixá-lo voltar para casa e ser feliz? Enquanto esperava por uma resposta, não fazia nada, mas fê-lo energicamente, pois estava numa febre de impaciência. Chegou finalmente e resolveu a sua mente eficazmente sobre um ponto, pois Jo decididamente não podia e não queria. Ela estava absorvida por Beth e nunca mais quis ouvir a palavra "amor". Depois, implorou-lhe que fosse feliz com outra pessoa, mas que guardasse sempre um cantinho do seu coração para a sua amorosa irmã Jo. Num posfácio, ela pediu-lhe que não contasse a Amy que Beth estava pior; ela voltaria para casa na primavera e não havia necessidade de entristecer o resto da sua estadia. Esse seria o tempo suficiente, se Deus quisesse, mas Laurie devia escrever-lhe frequentemente e não a deixar sentir-se sozinha, nostálgica ou ansiosa.
"Assim farei, imediatamente. Pobre menina; será um triste regresso a casa para ela, receio;" e Laurie abriu a sua secretária, como se escrever a Amy tivesse sido a conclusão adequada da frase deixada inacabada algumas semanas antes.
Mas ele não escreveu a carta naquele dia; pois, enquanto remexia à procura do seu melhor papel, deparou-se com algo que mudou o seu propósito. A vaguear numa parte da secretária, entre faturas, passaportes e documentos de negócios de vários tipos, estavam várias das cartas de Jo, e noutro compartimento estavam três notas de Amy, cuidadosamente atadas com uma das suas fitas azuis, e doce e sugestivamente acompanhadas pelas pequenas rosas secas guardadas lá dentro. Com uma expressão meio arrependida, meio divertida, Laurie reuniu todas as cartas de Jo, alisou-as, dobrou-as e colocou-as cuidadosamente numa pequena gaveta da secretária, ficou um minuto a girar o anel pensativamente no dedo, depois tirou-o lentamente, colocou-o com as cartas, trancou a gaveta e saiu para ouvir a Missa Solene em Saint Stefan's, sentindo-se como se tivesse havido um funeral; e, embora não estivesse sobrecarregado de aflição, esta parecia uma forma mais adequada de passar o resto do dia do que escrever cartas a jovens encantadoras.
A carta seguiu muito em breve, no entanto, e foi prontamente respondida, pois Amy estava nostálgica e confessou-o da maneira mais deliciosamente confidente. A correspondência floresceu famosamente, e as cartas voaram para lá e para cá, com infalível regularidade, durante toda a primavera precoce. Laurie vendeu os seus bustos, fez fósforos da sua ópera e voltou para Paris, esperando que alguém chegasse dentro de pouco tempo. Ele queria desesperadamente ir a Nice, mas não o faria até que lhe fosse pedido; e Amy não lhe pediria, pois, naquele momento, ela estava a ter pequenas experiências suas, que a faziam desejar evitar os olhos inquisidores do "nosso rapaz".
Fred Vaughn tinha regressado e fizera a pergunta à qual ela decidira outrora responder "Sim, obrigada"; mas agora disse: "Não, obrigada", de forma gentil, porém firme; pois, quando chegou o momento, a sua coragem falhou-lhe e descobriu que era preciso algo mais do que dinheiro e posição para satisfazer o novo anseio que lhe enchia o coração de esperanças e receios ternos. As palavras "O Fred é um bom rapaz, mas não é, de todo, o homem que imaginei que tu alguma vez fosses gostar" e o rosto de Laurie quando as proferiu voltavam a ela com tanta pertinácia como as suas próprias palavras quando dissera, no olhar se não nas palavras: "Casarei por dinheiro". Incomodava-a lembrar-se disso agora; desejava poder retirar o que disse, soava tão pouco feminino. Ela não queria que Laurie a achasse uma criatura sem coração e mundana; não desejava ser uma rainha da sociedade nem metade do que desejava ser uma mulher amável; estava tão feliz por ele não a odiar pelas coisas terríveis que dissera, mas por tê-las recebido de forma tão bela e ter sido mais gentil do que nunca. As cartas dele eram um grande conforto, pois as cartas de casa eram muito irregulares e não eram nem metade tão satisfatórias quanto as dele quando chegavam. Não era apenas um prazer, mas um dever responder-lhes, pois o pobre rapaz estava desolado e precisava de mimos, já que Jo persistia em ter o coração de pedra. Ela deveria ter feito um esforço e tentado amá-lo; não poderia ser muito difícil, muitas pessoas sentir-se-iam orgulhosas e felizes por ter um rapaz tão querido a importar-se com elas; mas Jo nunca agia como as outras raparigas, por isso não havia nada a fazer senão ser muito gentil e tratá-lo como um irmão.
Se todos os irmãos fossem tratados tão bem como Laurie foi neste período, seriam uma raça de seres muito mais feliz do que são. Amy nunca dava sermões agora; pedia a opinião dele sobre todos os assuntos; interessava-se por tudo o que ele fazia, fazia-lhe pequenas prendas encantadoras e enviava-lhe duas cartas por semana, cheias de mexericos animados, confidências fraternas e esboços cativantes das belas paisagens que a rodeavam. Como poucos irmãos são elogiados por terem as cartas das suas irmãs carregadas nos bolsos, lidas e relidas diligentemente, choradas quando curtas, beijadas quando longas e guardadas cuidadosamente, não daremos a entender que Amy fazia alguma destas coisas ternas e tolas. Mas ela tornou-se certamente um pouco pálida e pensativa naquela primavera, perdeu muito do seu gosto pela sociedade e saía muito para desenhar sozinha. Nunca tinha muito para mostrar quando voltava a casa, mas estava a estudar a natureza, atrevo-me a dizer, enquanto se sentava durante horas, com as mãos cruzadas, no terraço em Valrosa, ou desenhava distraidamente qualquer fantasia que lhe ocorresse — um cavaleiro robusto esculpido num túmulo, um jovem a dormir na relva, com o chapéu sobre os olhos, ou uma rapariga de cabelos encaracolados em trajes sumptuosos, a passear por um salão de baile no braço de um cavalheiro alto, ficando ambos os rostos um borrão, de acordo com a última moda na arte, o que era seguro, mas não inteiramente satisfatório.
A sua tia pensou que ela se arrependia da resposta dada a Fred; e, achando as negativas inúteis e as explicações impossíveis, Amy deixou-a pensar o que quisesse, tendo o cuidado de que Laurie soubesse que Fred tinha ido para o Egito. Foi só isso, mas ele compreendeu e pareceu aliviado, enquanto dizia para si próprio, com um ar venerável:
"Tinha a certeza de que ela pensaria melhor sobre o assunto. Coitado! Já passei por tudo isso e consigo compreender."
Com isto deu um grande suspiro e depois, como se tivesse cumprido o seu dever para com o passado, pôs os pés sobre o sofá e desfrutou da carta de Amy luxuosamente.
Enquanto estas mudanças ocorriam no estrangeiro, o infortúnio tinha chegado a casa; mas a carta a contar que Beth estava a definhar nunca chegou a Amy, e quando a seguinte a encontrou, a relva já estava verde sobre a sua irmã. As notícias tristes encontraram-na em Vevay, pois o calor expulsara-os de Nice em maio e tinham viajado lentamente para a Suíça, passando por Génova e pelos lagos italianos. Ela suportou-o muito bem e submeteu-se silenciosamente ao decreto familiar de que não deveria encurtar a sua visita, pois, uma vez que já era tarde para se despedir de Beth, seria melhor ficar e deixar que a ausência suavizasse a sua mágoa. Mas o seu coração estava muito pesado; ansiava por estar em casa e, todos os dias, olhava saudosa para o outro lado do lago, à espera que Laurie viesse confortá-la.
Ele veio muito depressa; pois o mesmo correio trouxe cartas para ambos, mas ele estava na Alemanha e levou alguns dias a chegar até ele. No momento em que a leu, fez a sua mochila, despediu-se dos seus companheiros de caminhada e partiu para cumprir a sua promessa, com o coração cheio de alegria e tristeza, esperança e suspense.
Ele conhecia bem Vevay; e, assim que o barco tocou o pequeno cais, apressou-se pela margem até La Tour, onde os Carrol viviam en pension. O garçon estava desesperado porque toda a família tinha ido dar um passeio no lago; mas não, a mademoiselle loira podia estar no jardim do castelo. Se monsieur se desse ao trabalho de se sentar, num ápice ela apareceria. Mas monsieur não podia esperar nem "um ápice" e, a meio da frase, partiu para encontrar a mademoiselle ele próprio.
Um agradável jardim antigo nas margens do belo lago, com castanheiros a farfalhar por cima, hera a subir por toda a parte e a sombra negra da torre a cair longe sobre a água ensolarada. Num canto do muro largo e baixo havia um banco, e era ali que Amy vinha frequentemente ler ou trabalhar, ou consolar-se com a beleza que a rodeava. Ela estava sentada ali naquele dia, com a cabeça apoiada na mão, com o coração nostálgico e os olhos pesados, a pensar em Beth e a questionar-se sobre o motivo pelo qual Laurie não vinha. Não o ouviu atravessar o pátio lá fora, nem o viu parar no arco que conduzia do caminho subterrâneo para o jardim. Ele ficou um minuto a olhá-la com olhos novos, vendo o que ninguém jamais vira antes — o lado terno do caráter de Amy. Tudo nela sugeria silenciosamente amor e tristeza — as cartas manchadas no seu colo, a fita preta que prendia o seu cabelo, a dor e a paciência femininas no seu rosto; até a pequena cruz de ébano ao seu pescoço parecia patética a Laurie, pois tinha sido ele a oferecê-la e ela usava-a como o seu único adorno. Se ele tinha alguma dúvida sobre a receção que ela lhe daria, essa foi dissipada no minuto em que ela levantou os olhos e o viu; pois, largando tudo, correu para ele, exclamando, num tom de inconfundível amor e anseio:
"Oh Laurie, Laurie, eu sabia que virias ter comigo!"
Penso que tudo foi dito e resolvido então; pois, enquanto permaneciam juntos, em silêncio por um momento, com a cabeça escura inclinada protetoramente sobre a clara, Amy sentiu que ninguém a poderia confortar e sustentar tão bem como Laurie, e Laurie decidiu que Amy era a única mulher no mundo que poderia ocupar o lugar de Jo e fazê-lo feliz. Ele não lho disse; mas ela não ficou desapontada, pois ambos sentiram a verdade, ficaram satisfeitos e deixaram alegremente o resto para o silêncio.
Passado um minuto, Amy voltou para o seu lugar; e, enquanto ela enxugava as suas lágrimas, Laurie recolheu os papéis espalhados, encontrando na visão de várias cartas gastas e esboços sugestivos bons presságios para o futuro. Quando ele se sentou ao lado dela, Amy sentiu-se tímida novamente e ficou corada com a recordação da sua saudação impulsiva.
"Não consegui evitar; sentia-me tão sozinha e triste, e estava tão feliz por te ver. Foi uma surpresa tão grande levantar os olhos e encontrar-te, precisamente quando começava a recear que não virias", disse ela, tentando em vão falar com total naturalidade.
"Vim no minuto em que soube. Gostaria de poder dizer algo para te consolar pela perda da querida pequena Beth; mas só consigo sentir, e..." Ele não conseguiu continuar, pois também ele ficou tímido de repente e não sabia bem o que dizer. Ansiava por colocar a cabeça de Amy no seu ombro e dizer-lhe para chorar à vontade, mas não se atreveu; por isso, em vez disso, pegou na mão dela e deu-lhe um aperto solidário que valia mais do que palavras.
"Não precisas de dizer nada; isto conforta-me", disse ela suavemente. "Beth está bem e feliz, e não devo desejar que ela volte; mas temo o regresso a casa, por muito que anseie vê-los a todos. Não falaremos sobre isso agora, pois faz-me chorar, e quero aproveitar a tua companhia enquanto ficas. Não precisas de voltar já, pois não?"
"Não, se quiseres que eu fique, querida."
"Quero, muito. A tia e a Flo são muito gentis; mas tu pareces um membro da família, e seria tão reconfortante ter-te por perto durante algum tempo."
Amy falou e olhou como uma criança com saudades de casa, cujo coração estava cheio, que Laurie esqueceu a sua timidez de imediato e deu-lhe exatamente o que ela queria — os mimos a que estava habituada e a conversa alegre de que necessitava.
"Pobre alma, pareces ter sofrido tanto que quase adoeceste! Vou tomar conta de ti, por isso não chores mais, mas vem passear comigo; o vento está demasiado frio para ficares parada", disse ele, no modo meio carinhoso, meio autoritário que Amy gostava, enquanto lhe atava o chapéu, puxava o braço dela para o seu e começava a andar de um lado para o outro pelo caminho ensolarado, sob os castanheiros de folhas novas. Ele sentia-se mais à vontade sobre as suas pernas; e Amy achou muito agradável ter um braço forte em que se apoiar, um rosto familiar para lhe sorrir e uma voz gentil para falar deliciosamente apenas para ela.
O pitoresco jardim antigo abrigara muitos pares de namorados e parecia feito expressamente para eles, tão ensolarado e isolado era, sem nada além da torre para os observar e o lago largo para levar o eco das suas palavras, enquanto ondulava por baixo. Durante uma hora, este novo par caminhou e conversou, ou descansou no muro, desfrutando das doces influências que davam tal encanto ao tempo e ao lugar; e quando um pouco romântico sino de jantar os avisou para partirem, Amy sentiu como se tivesse deixado o seu fardo de solidão e tristeza para trás no jardim do castelo.
No momento em que a Sra. Carrol viu o rosto alterado da rapariga, iluminou-se com uma nova ideia e exclamou para si própria: "Agora percebo tudo... a criança tem andado a definhar por causa do jovem Laurence. Bendito seja o meu coração, nunca pensei em tal coisa!"
Com louvável discrição, a boa senhora não disse nada e não traiu qualquer sinal de esclarecimento; mas instou cordialmente Laurie a ficar e implorou a Amy que desfrutasse da sua companhia, pois far-lhe-ia mais bem do que tanta solidão. Amy foi um modelo de docilidade; e, como a sua tia estava muito ocupada com Flo, ela foi deixada a entreter o seu amigo, e fê-lo com mais sucesso do que o habitual.
Em Nice, Laurie tinha andado à deriva e Amy tinha repreendido; em Vevay, Laurie nunca estava ocioso, mas sempre a caminhar, a andar a cavalo, a passear de barco ou a estudar, da forma mais enérgica, enquanto Amy admirava tudo o que ele fazia e seguia o seu exemplo o mais longe e o mais depressa que podia. Ele dizia que a mudança se devia ao clima, e ela não o contradizia, sentindo-se feliz por ter uma desculpa semelhante para a sua própria saúde e espírito recuperados.
O ar revigorante fez bem a ambos, e muito exercício operou mudanças salutares tanto nas mentes como nos corpos. Pareciam ter visões mais claras da vida e do dever lá em cima, entre as colinas eternas; os ventos frescos afastaram dúvidas desencorajadoras, fantasias ilusórias e névoas melancólicas; o sol quente da primavera trouxe todo o tipo de ideias ambiciosas, esperanças ternas e pensamentos felizes; o lago parecia lavar as mágoas do passado, e as grandes montanhas antigas pareciam olhar benignamente para eles, dizendo: "Pequeninos, amai-vos uns aos outros".
Apesar da nova tristeza, foi um tempo muito feliz, tão feliz que Laurie não conseguia suportar perturbá-lo com uma palavra. Levou algum tempo a recuperar da sua surpresa com a cura rápida do seu primeiro e, como acreditava firmemente, o seu último e único amor. Consolou-se da aparente deslealdade com o pensamento de que a irmã de Jo era quase a mesma que a própria Jo, e a convicção de que teria sido impossível amar outra mulher que não Amy tão cedo e tão bem. O seu primeiro cortejo tinha sido da ordem tempestuosa, e ele olhava para trás como se fosse através de um longo intervalo de anos, com um sentimento de compaixão misturado com arrependimento. Não se envergonhava disso, mas guardou-o como uma das experiências agridoce da sua vida, pelas quais podia ser grato quando a dor passasse. O seu segundo cortejo, decidiu, deveria ser o mais calmo e simples possível; não havia necessidade de ter uma cena, quase não havia necessidade de dizer a Amy que a amava; ela sabia-o sem palavras e tinha-lhe dado a sua resposta há muito tempo. Tudo aconteceu tão naturalmente que ninguém se podia queixar, e ele sabia que toda a gente ficaria satisfeita, até Jo. Mas quando a nossa primeira pequena paixão foi esmagada, tendemos a ser cautelosos e lentos a fazer uma segunda tentativa; por isso Laurie deixou os dias passarem, desfrutando de cada hora e deixando ao acaso a expressão da palavra que poria fim à primeira e mais doce parte do seu novo romance.
Ele tinha imaginado que o desenlace ocorreria no jardim do castelo ao luar e da forma mais graciosa e decorosa; mas acabou por ser exatamente o contrário, pois a questão foi resolvida no lago, ao meio-dia, em poucas palavras diretas. Tinham estado a flutuar durante toda a manhã, desde o sombrio St. Gingolf até ao ensolarado Montreux, com os Alpes de Saboia de um lado, o Mont St. Bernard e o Dent du Midi do outro, a bela Vevay no vale e Lausanne na colina além, um céu azul sem nuvens por cima e o lago mais azul por baixo, pontilhado pelos barcos pitorescos que parecem gaivotas de asas brancas.
Tinham estado a falar de Bonnivard, enquanto deslizavam por Chillon, e de Rousseau, enquanto olhavam para Clarens, onde ele escreveu a sua "Héloise". Nenhum dos dois a tinha lido, mas sabiam que era uma história de amor, e cada um perguntava-se, em privado, se seria metade tão interessante quanto a sua própria. Amy tinha andado a mergulhar a mão na água durante a pequena pausa que se seguiu entre eles e, quando levantou os olhos, Laurie estava debruçado sobre os remos, com uma expressão nos olhos que a fez dizer apressadamente, apenas por dizer algo:
"Deves estar cansado; descansa um pouco e deixa-me remar; far-me-á bem; pois, desde que chegaste, tenho estado totalmente preguiçosa e luxuosa."
"Não estou cansado; mas podes pegar num remo, se quiseres. Há espaço suficiente, embora eu tenha de me sentar quase no meio, senão o barco não se equilibra", respondeu Laurie, como se gostasse bastante do arranjo.
Sentindo que não tinha melhorado muito as coisas, Amy ocupou o terço de assento oferecido, sacudiu o cabelo sobre o rosto e aceitou um remo. Remava tão bem como fazia muitas outras coisas; e, embora ela usasse as duas mãos e Laurie apenas uma, os remos mantinham o ritmo e o barco seguia suavemente pela água.
"Como remamos bem juntos, não remamos?", disse Amy, que se opunha ao silêncio naquele momento.
"Tão bem que gostava que remássemos sempre no mesmo barco. Queres, Amy?", muito ternamente.
"Sim, Laurie", muito baixo.
Então, ambos pararam de remar e, inconscientemente, acrescentaram um belo pequeno quadro de amor e felicidade humana às vistas em movimento refletidas no lago.
XLII.
TOTALMENTE SÓ.
Era fácil prometer abnegação quando o eu estava envolvido noutro, e o coração e a alma eram purificados por um doce exemplo; mas quando a voz prestável se calou, a lição diária terminou, a presença amada se foi e nada restou senão solidão e mágoa, então Jo achou a sua promessa muito difícil de manter. Como poderia ela "confortar o pai e a mãe", quando o seu próprio coração doía com um anseio incessante pela sua irmã; como poderia ela "tornar a casa alegre", quando toda a sua luz, calor e beleza pareciam tê-la abandonado quando Beth deixou o velho lar pelo novo; e onde em todo o mundo poderia ela "encontrar algum trabalho útil e feliz para fazer", que ocupasse o lugar do serviço amoroso que tinha sido a sua própria recompensa? Tentou de uma forma cega e sem esperança cumprir o seu dever, rebelando-se secretamente contra tudo isso durante todo o tempo, pois parecia injusto que as suas poucas alegrias fossem diminuídas, os seus fardos tornados mais pesados e a vida se tornasse cada vez mais difícil à medida que ela labutava. Algumas pessoas pareciam receber toda a luz do sol, e outras toda a sombra; não era justo, pois ela tentava mais do que Amy ser boa, mas nunca recebia qualquer recompensa, apenas desapontamento, problemas e trabalho árduo.
Pobre Jo, estes foram dias sombrios para ela, pois algo semelhante ao desespero apoderou-se dela quando pensou em passar toda a sua vida naquela casa tranquila, dedicada a cuidados monótonos, a alguns pequenos prazeres e ao dever que nunca parecia tornar-se mais fácil. "Não consigo fazê-lo. Não fui feita para uma vida como esta e sei que vou fugir e fazer algo desesperado se alguém não vier ajudar-me", dizia ela para si própria, quando os seus primeiros esforços falharam e ela caiu no estado de espírito melancólico e miserável que muitas vezes surge quando vontades fortes têm de ceder ao inevitável.
Mas alguém veio e ajudou-a, embora Jo não reconhecesse os seus anjos da guarda de imediato, porque usavam formas familiares e usavam os feitiços simples mais adequados à pobre humanidade. Muitas vezes ela saltava da cama à noite, pensando que Beth a chamava; e quando a visão da pequena cama vazia a fazia chorar com o choro amargo de uma mágoa não submissa, "Oh Beth, volta! volta!", ela não estendia os seus braços ansiosos em vão; pois, tão rápida a ouvir o seu soluço como fora a ouvir o mais leve sussurro da sua irmã, a sua mãe vinha confortá-la, não apenas com palavras, mas com a paciência terna que acalma através de um toque, lágrimas que eram lembretes mudos de uma mágoa maior do que a de Jo, e sussurros entrecortados, mais eloquentes do que orações, porque a resignação esperançosa caminhava de mãos dadas com a mágoa natural. Momentos sagrados, em que o coração falava ao coração no silêncio da noite, transformando a aflição numa bênção, que temperava a mágoa e fortalecia o amor. Sentindo isto, o fardo de Jo parecia mais fácil de suportar, o dever tornava-se mais doce e a vida parecia mais suportável, vista do refúgio seguro dos braços da sua mãe.
Quando o coração dorido estava um pouco confortado, a mente perturbada encontrou igualmente ajuda; pois um dia ela foi ao escritório e, inclinando-se sobre a boa cabeça grisalha erguida para a receber com um sorriso tranquilo, disse, muito humildemente:
"Pai, fala-me como falaste à Beth. Preciso mais disso do que ela precisou, pois estou totalmente errada."
"Minha querida, nada me pode confortar como isto", respondeu ele, com um falhar na voz, e ambos os braços à volta dela, como se ele, também, precisasse de ajuda e não tivesse medo de a pedir.
Então, sentando-se na pequena cadeira de Beth, bem ao lado dele, Jo contou os seus problemas — a mágoa ressentida pela sua perda, os esforços infrutíferos que a desencorajavam, a falta de fé que tornava a vida tão sombria e toda a triste perplexidade a que chamamos desespero. Ela depositou nele total confiança, ele deu-lhe a ajuda de que precisava, e ambos encontraram consolo no ato; pois chegara o momento em que podiam conversar, não apenas como pai e filha, mas como homem e mulher, capazes e felizes por servir um ao outro com simpatia mútua, bem como com amor mútuo. Tempos felizes e reflexivos ali, no velho escritório que Jo chamava de "a igreja de um só membro", e de onde ela saía com coragem renovada, alegria recuperada e um espírito mais submisso; pois os pais que tinham ensinado uma filha a enfrentar a morte sem medo, tentavam agora ensinar a outra a aceitar a vida sem desânimo ou desconfiança, e a aproveitar as suas belas oportunidades com gratidão e poder.
Outros auxílios Jo tinha — deveres e prazeres humildes e saudáveis que não podiam ser impedidos de cumprir o seu papel ao servi-la, e que ela aprendeu lentamente a ver e a valorizar. Vassouras e panos de prato nunca poderiam ser tão desagradáveis como tinham sido outrora, pois Beth presidira a ambos; e algo do seu espírito doméstico parecia pairar em torno da pequena esfregona e da velha escova, que nunca foi deitada fora. Enquanto as usava, Jo dava por si a cantarolar as canções que Beth costumava cantarolar, a imitar os modos ordenados de Beth e a dar os pequenos toques aqui e ali que mantinham tudo fresco e acolhedor, o que foi o primeiro passo para tornar o lar feliz, embora ela não o soubesse, até que Hannah disse, com um aperto aprovador na mão:
"Sua criatura pensativa, você está determinada a que não sintamos a falta daquele querido cordeiro, se puder evitar. Não dizemos muito, mas vemos, e o Senhor há de abençoá-la por isso, veja se não há de."
Enquanto se sentavam a costurar juntas, Jo descobriu o quanto a sua irmã Meg tinha melhorado; como sabia falar bem, quanto sabia sobre impulsos, pensamentos e sentimentos bons e femininos, quão feliz era com o marido e os filhos, e quanto todos eles faziam uns pelos outros.
"O casamento é uma coisa excelente, afinal. Será que eu floresceria metade do que tu floresceste, se tentasse?", disse Jo, enquanto construía uma pipa para Demi, no quarto das crianças, virado do avesso.
"É exatamente o que precisas para despertar a metade terna e feminina da tua natureza, Jo. És como um ouriço de castanha, espinhoso por fora, mas sedoso e macio por dentro, e com um caroço doce, se alguém conseguir chegar até ele. O amor fará com que mostres o teu coração um dia, e então o ouriço áspero cairá."
"O gelo abre os ouriços de castanha, minha senhora, e é preciso um bom abanão para os fazer cair. Os rapazes vão à apanha das castanhas, e eu não me importo de ser ensacada por eles", retorquiu Jo, colando a pipa que nenhum vento que soprasse alguma vez levaria, pois Daisy tinha-se atado a ela como cauda.
Meg riu-se, pois ficou contente por ver um vislumbre do antigo espírito de Jo, mas sentiu que era seu dever reforçar a sua opinião com todos os argumentos ao seu alcance; e as conversas entre irmãs não foram desperdiçadas, especialmente porque dois dos argumentos mais eficazes de Meg eram os bebés, a quem Jo amava ternamente. A dor é o melhor abre-corações para alguns, e o de Jo estava quase pronto para o saco: um pouco mais de sol para amadurecer a castanha, então, não o abanão impaciente de um rapaz, mas a mão de um homem estendida para a colher suavemente do ouriço, e descobrir que o caroço é são e doce. Se ela suspeitasse disto, ter-se-ia fechado hermeticamente, e ficado mais espinhosa do que nunca; felizmente, ela não estava a pensar em si mesma, por isso, quando chegou o momento, ela deixou-se cair.
Ora, se ela fosse a heroína de um livro de histórias moralistas, deveria, nesta fase da sua vida, ter-se tornado bastante santa, renunciado ao mundo e andado a fazer o bem com um chapéu austero, com folhetos no bolso. Mas, veja bem, Jo não era uma heroína; era apenas uma rapariga humana em luta, como centenas de outras, e limitava-se a agir de acordo com a sua natureza, sendo triste, rabugenta, apática ou enérgica, conforme o humor sugeria. É altamente virtuoso dizer que seremos bons, mas não o podemos fazer de uma só vez, e é preciso um esforço prolongado, um esforço forte e um esforço conjunto antes que alguns de nós consigam sequer colocar os pés no caminho certo. Jo tinha chegado tão longe, estava a aprender a cumprir o seu dever e a sentir-se infeliz se não o fizesse; mas fazê-lo alegremente — ah, isso era outra coisa! Ela tinha dito muitas vezes que queria fazer algo esplêndido, por mais difícil que fosse; e agora tinha o seu desejo, pois o que poderia ser mais belo do que dedicar a sua vida ao pai e à mãe, tentando tornar o lar tão feliz para eles como eles tinham feito para ela? E, se as dificuldades fossem necessárias para aumentar o esplendor do esforço, o que poderia ser mais difícil para uma rapariga irrequieta e ambiciosa do que desistir das suas próprias esperanças, planos e desejos, e viver alegremente para os outros?
A Providência tinha-a tomado pela palavra; aqui estava a tarefa, não o que ela esperava, mas melhor, porque o eu não tinha parte nela: agora, poderia ela fazê-lo? Decidiu que tentaria; e, na sua primeira tentativa, encontrou as ajudas que sugeri. Ainda outra lhe foi dada, e ela aceitou-a, não como uma recompensa, mas como um conforto, tal como Cristão aceitou o refresco proporcionado pelo pequeno caramanchão onde descansou, enquanto subia a colina chamada Dificuldade.
"Porque não escreves? Isso sempre te costumava fazer feliz", disse a sua mãe, certa vez, quando o ataque de desânimo ensombrou Jo.
"Não tenho ânimo para escrever, e se tivesse, ninguém se interessa pelas minhas coisas."
"Nós interessamo-nos; escreve algo para nós e não te preocupes com o resto do mundo. Tenta, querida; tenho a certeza de que te faria bem e nos agradaria muito."
"Não acredito que consiga"; mas Jo tirou a sua secretária e começou a rever os seus manuscritos inacabados.
Uma hora depois, a sua mãe espreitou, e lá estava ela, a rabiscar, com o seu avental preto e uma expressão absorta, o que fez com que a Sra. March sorrisse e se retirasse, muito satisfeita com o sucesso da sua sugestão. Jo nunca soube como aconteceu, mas algo entrou naquela história que foi direto ao coração daqueles que a leram; pois, quando a sua família riu e chorou com ela, o seu pai enviou-a, muito contra a sua vontade, para uma das revistas populares e, para sua total surpresa, não só foi paga, como outras foram solicitadas. Cartas de várias pessoas, cujo elogio era uma honra, seguiram-se ao aparecimento da pequena história, os jornais copiaram-na e estranhos, bem como amigos, admiraram-na. Para uma coisa pequena, foi um grande sucesso; e Jo ficou mais espantada do que quando o seu romance foi elogiado e condenado ao mesmo tempo.
"Não compreendo. O que pode haver numa pequena história simples como aquela para fazer as pessoas elogiarem-na tanto?", disse ela, bastante perplexa.
"Há verdade nela, Jo, esse é o segredo; o humor e o pathos tornam-na viva, e encontraste finalmente o teu estilo. Escreveste sem pensar na fama ou no dinheiro, e colocaste o teu coração nela, minha filha; tiveste o amargo, agora vem o doce. Faz o teu melhor e torna-te tão feliz como nós somos com o teu sucesso."
"Se há algo de bom ou verdadeiro no que escrevo, não é meu; devo tudo a ti, ao pai e à Beth", disse Jo, mais tocada pelas palavras do seu pai do que por qualquer quantidade de elogios do mundo.
Assim, ensinada pelo amor e pela dor, Jo escreveu as suas pequenas histórias e enviou-as para fazerem amigos para si e para ela, descobrindo que é um mundo muito caridoso para tais viajantes humildes; pois foram gentilmente recebidas e enviaram para casa lembranças confortáveis para a sua mãe, como filhos obedientes que a boa sorte alcança.
Quando Amy e Laurie escreveram sobre o seu noivado, a Sra. March temeu que Jo achasse difícil regozijar-se com isso, mas os seus receios foram logo dissipados; pois, embora Jo parecesse grave no início, encarou-o com muita serenidade e estava cheia de esperanças e planos para "as crianças" antes de ler a carta duas vezes. Era uma espécie de dueto escrito, no qual cada um glorificava o outro à moda dos amantes, muito agradável de ler e satisfatório de pensar, pois ninguém tinha qualquer objeção a fazer.
"Gostas, mãe?", disse Jo, enquanto pousavam as folhas escritas com letra apertada e olhavam uma para a outra.
"Sim, esperava que fosse assim, desde que a Amy escreveu que tinha recusado o Fred. Senti-me certa, então, de que algo melhor do que aquilo a que chamas o 'espírito mercenário' a tinha atingido, e uma sugestão aqui e ali nas suas cartas fez-me suspeitar que o amor e o Laurie venceriam."
"Como és perspicaz, Marmee, e como és silenciosa! Nunca me disseste uma palavra."
"As mães precisam de olhos perspicazes e línguas discretas quando têm raparigas para gerir. Tive medo de te meter a ideia na cabeça, para que não escrevesses a dar-lhes os parabéns antes de a coisa estar decidida."
"Já não sou a irresponsável que era; podes confiar em mim, estou suficientemente sóbria e sensata para ser confidente de qualquer um agora."
"És, querida, e devia ter feito de ti a minha, mas imaginei que te pudesse magoar saber que o teu Teddy amava outra pessoa."
"Ora, mãe, achaste mesmo que eu poderia ser tão tola e egoísta, depois de ter recusado o seu amor, quando estava mais fresco, se não melhor?"
"Sabia que eras sincera, então, Jo, mas ultimamente tenho pensado que, se ele voltasse e pedisse de novo, talvez sentisses vontade de dar outra resposta. Perdoa-me, querida, não posso evitar ver que estás muito solitária, e por vezes há um olhar faminto nos teus olhos que me parte o coração; por isso imaginei que o teu rapaz pudesse preencher o lugar vazio se tentasse agora."
"Não, mãe, é melhor como está, e fico contente que a Amy tenha aprendido a amá-lo. Mas tens razão numa coisa: estou solitária, e talvez se o Teddy tivesse tentado de novo, eu pudesse ter dito 'Sim', não porque o ame mais, mas porque me importo mais em ser amada do que quando ele partiu."
"Fico contente com isso, Jo, pois mostra que estás a seguir em frente. Há muitos que te amam, por isso tenta contentar-te com o pai e a mãe, irmãs e irmãos, amigos e bebés, até que o melhor amante de todos venha para te dar a tua recompensa."
"As mães são os melhores amantes do mundo; mas não me importo de sussurrar à Marmee que gostaria de experimentar de todas as formas. É muito curioso, mas quanto mais tento satisfazer-me com todo o tipo de afeições naturais, mais parece que quero. Não fazia ideia de que os corações podiam acolher tantos; o meu é tão elástico que nunca parece cheio agora, e eu costumava estar bastante contente com a minha família. Não compreendo."
"Eu compreendo"; e a Sra. March sorriu o seu sorriso sábio, enquanto Jo voltava as páginas para ler o que a Amy dizia sobre o Laurie.
"É tão belo ser amada como o Laurie me ama; ele não é sentimental, não diz muito sobre isso, mas vejo e sinto-o em tudo o que ele diz e faz, e isso faz-me tão feliz e tão humilde que não parece que sou a mesma rapariga que era. Nunca soube o quão bom, generoso e terno ele era até agora, pois ele deixa-me ler o seu coração, e descubro-o cheio de impulsos, esperanças e propósitos nobres, e estou tão orgulhosa por saber que é meu. Ele diz que sente como se 'pudesse fazer uma viagem próspera agora, comigo a bordo como imediato, e muito amor como lastro'. Rezo para que possa, e tento ser tudo o que ele acredita que sou, pois amo o meu capitão galante com todo o meu coração, alma e força, e nunca o abandonarei, enquanto Deus nos deixar estar juntos. Ó mãe, nunca soube o quanto este mundo poderia ser como o céu, quando duas pessoas se amam e vivem uma para a outra!"
"E essa é a nossa Amy, fria, reservada e mundana! Verdadeiramente, o amor faz milagres. Quão muito, muito felizes eles devem ser!" E Jo juntou as folhas farfalhantes com mão cuidadosa, como alguém que pudesse fechar as capas de um belo romance, que prende o leitor até ao fim, e ele se encontra sozinho no mundo do trabalho novamente.
De vez em quando, Jo vagueava pelo andar de cima, pois estava a chover e ela não podia caminhar. Um espírito irrequieto possuía-a, e o velho sentimento voltou, não amargo como fora outrora, mas uma dúvida tristemente paciente sobre a razão pela qual uma irmã devia ter tudo o que pedia, e a outra nada. Não era verdade; ela sabia disso e tentou afastar o pensamento, mas o desejo natural de afeição era forte, e a felicidade de Amy despertou o desejo faminto por alguém para "amar com o coração e a alma, e a quem se agarrar enquanto Deus os deixasse estar juntos".
Lá em cima, no sótão, onde as deambulações inquietas de Jo terminavam, estavam quatro pequenos baús de madeira em fila, cada um marcado com o nome do seu proprietário, e cada um cheio de relíquias da infância e da adolescência, terminadas agora para todas. Jo olhou para dentro deles e, quando chegou ao seu, apoiou o queixo na borda e olhou absentemente para a coleção caótica, até que um maço de velhos cadernos de exercícios lhe chamou a atenção. Tirou-os, folheou-os e reviveu aquele inverno agradável na casa da gentil Sra. Kirke. Ela sorriu a princípio, depois pareceu pensativa, a seguir triste, e quando chegou a uma pequena mensagem escrita com a letra do Professor, os seus lábios começaram a tremer, os livros deslizaram do seu colo e ela ficou a olhar para as palavras amigáveis, como se elas ganhassem um novo significado e tocassem um ponto sensível no seu coração.
"Espere por mim, minha amiga. Posso chegar um pouco atrasado, mas certamente virei."
"Oh, se ele apenas quisesse! Tão gentil, tão bom, tão paciente comigo sempre; o meu querido velho Fritz, não o valorizei nem metade do que devia quando o tinha, mas agora como adoraria vê-lo, pois todos parecem afastar-se de mim, e estou completamente sozinha."
E segurando o pequeno papel com força, como se fosse uma promessa ainda por cumprir, Jo pousou a cabeça num saco de trapos confortável e chorou, como se em oposição à chuva que tamborilava no telhado.
Teria sido tudo autocomiseração, solidão ou desânimo? Ou seria o despertar de um sentimento que tinha aguardado o seu tempo tão pacientemente como o seu inspirador? Quem poderá dizer?
XLIII.
SURPRESAS.
Jo estava sozinha ao crepúsculo, deitada no velho sofá, a olhar para o fogo e a pensar. Era a sua maneira favorita de passar a hora do crepúsculo; ninguém a perturbava, e ela costumava deitar-se ali, na pequena almofada vermelha de Beth, a planear histórias, a sonhar sonhos ou a pensar pensamentos ternos sobre a irmã que nunca parecia estar longe. O seu rosto parecia cansado, grave e bastante triste; pois amanhã era o seu aniversário, e ela pensava em como os anos passavam depressa, em como estava a ficar velha e em quão pouco parecia ter realizado. Quase vinte e cinco anos, e nada para mostrar por isso. Jo enganava-se; havia muito para mostrar, e pouco a pouco ela viu e ficou grata por isso.
"Uma solteirona, é o que vou ser. Uma solteirona literária, com uma pena como cônjuge, uma família de histórias para crianças e, daqui a vinte anos, um pouco de fama, talvez; quando, como o pobre Johnson, eu for velha e não puder desfrutá-la, solitária e não puder partilhá-la, independente e não precisar dela. Bem, não preciso de ser uma santa amarga nem uma pecadora egoísta; e, atrevo-me a dizer, as solteironas são muito confortáveis quando se habituam a isso; mas..." e ali Jo suspirou, como se a perspetiva não fosse convidativa.
Raramente é, no início, e os trinta parecem o fim de todas as coisas para os vinte e cinco; mas não é tão mau como parece, e pode-se viver bastante feliz se tivermos algo dentro de nós em que nos possamos apoiar. Aos vinte e cinco anos, as raparigas começam a falar sobre ser solteironas, mas secretamente resolvem que nunca o serão; aos trinta, não dizem nada sobre isso, mas aceitam silenciosamente o facto e, se forem sensatas, consolam-se lembrando-se de que têm mais vinte anos úteis e felizes, nos quais podem aprender a envelhecer com elegância. Não se riam das solteironas, queridas raparigas, pois muitas vezes romances muito ternos e trágicos estão escondidos nos corações que batem tão silenciosamente sob os vestidos sóbrios, e muitos sacrifícios silenciosos de juventude, saúde, ambição, o próprio amor, tornam os rostos desbotados belos aos olhos de Deus. Até as irmãs tristes e amargas devem ser tratadas com bondade, porque perderam a parte mais doce da vida, se não por outra razão; e, olhando para elas com compaixão, não com desprezo, as raparigas no seu apogeu devem lembrar-se de que elas também podem perder a época da floração; que as bochechas rosadas não duram para sempre, que fios prateados virão no bonito cabelo castanho e que, pouco a pouco, a bondade e o respeito serão tão doces como o amor e a admiração agora.
Cavalheiros, o que significa rapazes, sejam corteses com as solteironas, não importa quão pobres, simples e recatadas sejam, pois a única cavalaria que vale a pena ter é aquela que é a mais pronta a prestar deferência aos idosos, a proteger os débeis e a servir o género feminino, independentemente do estatuto, idade ou cor. Lembrem-se apenas das boas tias que não só deram lições e se preocuparam, mas também cuidaram e mimaram, muitas vezes sem agradecimentos; as dificuldades de que o ajudaram a sair, as "gorjetas" que lhe deram das suas pequenas economias, os pontos que os pacientes dedos velhos deram por si, os passos que os pés velhos e dispostos deram, e paguem gratamente às queridas senhoras velhas as pequenas atenções que as mulheres adoram receber enquanto viverem. As raparigas de olhos brilhantes são rápidas a ver tais traços, e gostarão ainda mais de si por causa deles; e se a morte, quase o único poder que pode separar mãe e filho, o roubar da sua, terá a certeza de encontrar uma receção terna e um carinho maternal de alguma Tia Priscilla, que guardou o canto mais quente do seu solitário coração velho para o "melhor sobrinho do mundo".
Jo deve ter adormecido (como me atrevo a dizer que o meu leitor fez durante esta pequena homilia), pois, de repente, o fantasma de Laurie pareceu estar diante dela — um fantasma substancial e realista —, inclinado sobre ela, com o próprio olhar que costumava usar quando sentia muito e não gostava de o mostrar. Mas, como Jenny na balada, —
"Ela não podia pensar que era ele",
e ficou a olhar para ele em silêncio assustado, até que ele se inclinou e a beijou. Então ela reconheceu-o e levantou-se num salto, gritando alegremente —
"Ó meu Teddy! Ó meu Teddy!"
"Querida Jo, estás contente por me ver, então?"
"Contente! Meu abençoado rapaz, as palavras não podem expressar a minha alegria. Onde está a Amy?"
"A tua mãe tem-na lá em baixo, na casa da Meg. Parámos lá pelo caminho, e não houve maneira de tirar a minha mulher das garras delas."
"A tua o quê?", gritou Jo, pois Laurie proferiu essas duas palavras com um orgulho e satisfação inconscientes que o traíram.
"Oh, diabo! Agora fiz asneira"; e ele parecia tão culpado que Jo caiu sobre ele como um raio.
"Tu foste e casaste-te!"
"Sim, por favor, mas nunca mais o farei"; e ele caiu de joelhos, com um aperto penitente de mãos e um rosto cheio de travessura, alegria e triunfo.
"Atualmente casada?"
"Muito, obrigado."
"Piedade de nós! Que coisa terrível farás a seguir?"; e Jo caiu no seu assento, com um suspiro.
"Uma congratulação característica, mas não exatamente elogiosa", retorquiu Laurie, ainda numa atitude abjeta, mas radiante de satisfação.
"O que podes esperar, quando tiras o fôlego a alguém, rastejando como um ladrão e deixando gatos sair dos sacos assim? Levanta-te, rapaz ridículo, e conta-me tudo sobre isso."
"Nem uma palavra, a menos que me deixes voltar ao meu antigo lugar e prometas não barricar."
Jo riu disso como não ria há muitos e longos dias, e deu palmadinhas no sofá de forma convidativa, enquanto dizia, num tom cordial:
"O travesseiro velho está no sótão, e não precisamos dele agora; por isso, vem e 'confessa', Teddy."
"Como soa bem ouvir-te dizer 'Teddy'! Ninguém me chama assim senão tu"; e Laurie sentou-se, com um ar de grande contentamento.
"Como é que a Amy te chama?"
"Meu senhor."
"Isso é a cara dela. Bem, tu pareces um;" e os olhos de Jo traíam claramente que ela achava o seu rapaz mais atraente do que nunca.
O travesseiro tinha desaparecido, mas havia uma barricada, no entanto — uma natural, erguida pelo tempo, pela ausência e pela mudança de coração. Ambos a sentiram e, por um minuto, olharam um para o outro como se aquela barreira invisível lançasse uma pequena sombra sobre eles. Dissipou-se imediatamente, contudo, pois Laurie disse, com uma vã tentativa de dignidade:
"Não pareço um homem casado e chefe de família?"
"Nem um pouco, e nunca parecerás. Cresceste e ficaste mais bonito, mas és o mesmo traquinas de sempre."
"Ora, a sério, Jo, deverias tratar-me com mais respeito," começou Laurie, que apreciava tudo aquilo imensamente.
"Como posso, quando a mera ideia de ti, casado e estabelecido, é tão irresistivelmente engraçada que não consigo ficar séria!" respondeu Jo, sorrindo por todo o rosto, de uma forma tão contagiosa que eles riram novamente e depois acomodaram-se para uma boa conversa, exatamente à agradável moda antiga.
"Não vale a pena ires lá fora ao frio buscar a Amy, pois eles vêm todos já a seguir. Eu não consegui esperar; queria ser eu a contar-te a grande surpresa e a tirar a 'primeira nata', como costumávamos dizer quando discutíamos por causa das natas."
"Claro que querias, e estragaste a tua história ao começar pelo fim. Agora, começa bem e conta-me como tudo aconteceu; estou a morrer de vontade de saber."
"Bem, fi-lo para agradar à Amy," começou Laurie, com um brilho nos olhos que fez Jo exclamar:
"Mentira número um; a Amy fê-lo para te agradar. Continua, e diz a verdade, se conseguires, senhor."
"Agora ela está a começar a implicar; não é divertido ouvi-la?" disse Laurie para o lume, e o lume brilhou e cintilou como se concordasse plenamente. "É tudo a mesma coisa, sabes, ela e eu sermos um só. Planeámos vir para casa com os Carrol há um mês ou mais, mas eles mudaram subitamente de ideias e decidiram passar outro inverno em Paris. Mas o avô queria vir para casa; ele foi para me agradar, e eu não podia deixá-lo ir sozinho, nem podia deixar a Amy; e a Sra. Carrol tinha ideias inglesas sobre acompanhantes e tais disparates, e não deixava a Amy vir connosco. Então, resolvi a dificuldade dizendo: 'Vamos casar-nos, e depois podemos fazer o que quisermos'."
"Claro que o fizeste; tu sempre tens as coisas à tua maneira."
"Nem sempre;" e algo na voz de Laurie fez Jo dizer apressadamente:
"Como é que conseguiste que a tia concordasse?"
"Foi um trabalho árduo; mas, entre nós, convencemo-la, pois tínhamos imensas boas razões do nosso lado. Não havia tempo para escrever a pedir autorização, mas vocês todos gostavam disto, tinham consentido nisso mais tarde, e era apenas 'agarrar o Tempo pelo tufo', como diz a minha esposa."
"Não estamos orgulhosos dessas duas palavras, e não gostamos de as dizer?" interrompeu Jo, dirigindo-se ao lume por sua vez, e observando com deleite a luz feliz que parecia acender-se nos olhos que tinham estado tão tragicamente sombrios quando ela os viu pela última vez.
"Um pouco, talvez; ela é uma mulherzinha tão cativante que não posso deixar de me orgulhar dela. Bem, então, o tio e a tia estavam lá para manter as aparências; nós estávamos tão absorvidos um no outro que não servíamos de nada separados, e aquele arranjo encantador tornaria tudo fácil para todos; por isso, fizemo-lo."
"Quando, onde, como?" perguntou Jo, numa febre de interesse e curiosidade feminina, pois não conseguia acreditar minimamente.
"Há seis semanas, no consulado americano, em Paris; um casamento muito tranquilo, claro, pois mesmo na nossa felicidade não nos esquecemos da querida e pequena Beth."
Jo pôs a mão na dele enquanto ele dizia aquilo, e Laurie alisou suavemente o pequeno travesseiro vermelho, de que se lembrava bem.
"Porque não nos avisaram depois?" perguntou Jo, num tom mais calmo, quando estiveram sentados em silêncio durante um minuto.
"Queríamos surpreender-vos; pensámos que vínhamos diretamente para casa, a princípio; mas o querido velho cavalheiro, assim que nos casámos, descobriu que não estaria pronto antes de um mês, pelo menos, e mandou-nos passar a lua de mel onde quiséssemos. A Amy tinha chamado uma vez a Valrosa uma verdadeira casa de lua de mel, por isso fomos para lá, e fomos tão felizes como as pessoas só são uma vez na vida. Por minha fé! não foi amor entre as rosas!"
Laurie pareceu esquecer-se de Jo por um minuto, e Jo ficou contente com isso; pois o facto de ele lhe contar estas coisas tão livre e naturalmente assegurava-lhe que ele tinha perdoado e esquecido completamente. Ela tentou retirar a mão; mas, como se ele adivinhasse o pensamento que motivou o impulso quase involuntário, Laurie segurou-a com firmeza e disse, com uma gravidade masculina que ela nunca tinha visto nele antes:
"Jo, querida, quero dizer uma coisa, e depois deixaremos isso de lado para sempre. Como te disse na minha carta, quando escrevi que a Amy tinha sido tão gentil comigo, nunca deixarei de te amar; mas o amor mudou, e aprendi a ver que é melhor como está. A Amy e tu trocais de lugar no meu coração, é só isso. Acho que estava destinado a ser assim, e teria acontecido naturalmente, se eu tivesse esperado, como tentaste fazer-me; mas nunca consegui ser paciente, e por isso fiquei com o coração partido. Eu era um rapaz, então, obstinado e violento; e foi necessária uma dura lição para me mostrar o meu erro. Pois foi um erro, Jo, como disseste, e descobri-o depois de me ter feito de parvo. Por minha palavra, fiquei tão baralhado, a certa altura, que não sabia a quem amava mais, a ti ou à Amy, e tentei amar ambas da mesma forma; mas não consegui, e quando a vi na Suíça, tudo pareceu esclarecer-se de uma vez. Ambas ocuparam os vossos lugares certos, e senti-me seguro de que estava tudo bem com o antigo amor antes de começar o novo; que podia partilhar honestamente o meu coração entre a irmã Jo e a esposa Amy, e amar ambas profundamente. Queres acreditar nisso e voltar aos tempos felizes em que nos conhecemos?"
"Acreditarei nisso, de todo o coração; mas, Teddy, nunca mais poderemos ser rapaz e rapariga: os tempos felizes não podem voltar, e não devemos esperar isso. Somos agora homem e mulher, com trabalho sério a fazer, pois o tempo de brincadeira acabou, e temos de deixar as travessuras. Tenho a certeza de que sentes isso; vejo a mudança em ti, e tu encontrá-la-ás em mim. Sentirei falta do meu rapaz, mas amarei o homem tanto quanto, e admirá-lo-ei mais, porque ele pretende ser o que eu esperava que fosse. Não podemos ser mais pequenos companheiros de brincadeiras, mas seremos irmão e irmã, para amar e ajudarmo-nos um ao outro toda a vida, não seremos, Laurie?"
Ele não disse uma palavra, mas pegou na mão que ela lhe ofereceu e pousou o rosto nela por um minuto, sentindo que, do túmulo de uma paixão juvenil, tinha nascido uma bela e forte amizade para abençoar ambos. Pouco depois, Jo disse alegremente, pois não queria que o regresso a casa fosse triste:
"Não consigo acreditar que vocês, crianças, estão realmente casados e vão começar a gerir uma casa. Ora, parece que foi ontem que eu estava a abotoar o avental da Amy e a puxar-te o cabelo quando me provocavas. Valha-me Deus, como o tempo voa!"
"Como uma das crianças é mais velha do que tu, não precisas de falar como uma avó. Gabo-me de ser um 'cavalheiro feito', como Peggotty disse de David; e quando vires a Amy, acharás que ela é uma criança bastante precoce," disse Laurie, parecendo divertido com o ar maternal dela.
"Podes ser um pouco mais velho em anos, mas sou muito mais velha em sentimento, Teddy. As mulheres são sempre; e este último ano foi tão duro que me sinto com quarenta."
"Pobre Jo! deixámo-te a suportar tudo sozinha, enquanto íamos divertir-nos. Estás mais velha; aqui está uma linha, e ali está outra; a menos que sorrias, os teus olhos parecem tristes, e quando toquei na almofada, ainda agora, encontrei uma lágrima nela. Tiveste muito que suportar, e tiveste de o suportar toda sozinha. Que animal egoísta eu fui!" e Laurie puxou o próprio cabelo, com um olhar de remorso.
Mas Jo apenas virou a almofada traidora e respondeu, num tom que tentou tornar bastante alegre:
"Não, tive o pai e a mãe para me ajudar, os queridos bebés para me consolar, e o pensamento de que tu e a Amy estavam salvos e felizes, para tornar os problemas aqui mais fáceis de suportar. Sinto-me só, às vezes, mas arrisco dizer que é bom para mim, e..."
"Nunca mais te sentirás," interrompeu Laurie, colocando o braço à volta dela, como se quisesse afastar todos os males humanos. "A Amy e eu não conseguimos passar sem ti, por isso tens de vir e ensinar 'as crianças' a gerir a casa, e dividir tudo a meias, tal como costumávamos fazer, e deixar-nos mimar-te, e sermos todos feliz e amigavelmente juntos."
"Se eu não for estorvar, seria muito agradável. Começo a sentir-me bastante jovem já; pois, de alguma forma, todos os meus problemas pareceram voar quando chegaste. Sempre foste um conforto, Teddy;" e Jo encostou a cabeça no ombro dele, tal como fazia anos atrás, quando Beth estava doente e Laurie lhe disse para se agarrar a ele.
Ele olhou para ela, perguntando-se se ela se lembrava daquele tempo, mas Jo estava a sorrir para si mesma, como se, na verdade, os seus problemas tivessem desaparecido todos com a chegada dele.
"Continuas a ser a mesma Jo, a deixar cair lágrimas num minuto e a rir no outro. Pareces um pouco malvada agora; o que é, avó?"
"Estava a perguntar-me como tu e a Amy se dão juntos."
"Como anjos!"
"Sim, claro, no início; mas quem manda?"
"Não me importo de te dizer que é ela, agora; pelo menos deixo-a pensar que sim — agrada-lhe, sabes. Mais tarde, revezar-nos-emos, pois o casamento, dizem, divide os direitos de um e duplica os deveres."
"Continuarás como começaste, e a Amy mandar-te-á todos os dias da tua vida."
"Bem, ela faz isso de forma tão impercetível que não creio que me importe muito. Ela é o tipo de mulher que sabe mandar bem; de facto, até gosto disso, pois ela envolve-nos à volta do dedo tão suave e graciosamente como uma meada de seda, e faz-te sentir como se estivesse a fazer-te um favor o tempo todo."
"Que eu vivesse para te ver um marido dominado e a gostar disso!" gritou Jo, com as mãos levantadas.
Foi bom ver Laurie endireitar os ombros e sorrir com desprezo masculino perante aquela insinuação, enquanto respondia, com o seu ar "de quem se tem na conta":
"A Amy é demasiado bem-educada para isso, e eu não sou o tipo de homem para me submeter a isso. A minha esposa e eu respeitamo-nos a nós mesmos e um ao outro demasiado para alguma vez tiranizarmos ou discutirmos."
Jo gostou disso e achou a nova dignidade muito apropriada, mas o rapaz parecia estar a transformar-se muito depressa em homem, e o arrependimento misturava-se com o seu prazer.
"Tenho a certeza disso; a Amy e tu nunca discutiam como nós costumávamos. Ela é o sol e eu o vento, na fábula, e o sol lidou melhor com o homem, lembras-te?"
"Ela também sabe explodir com ele além de brilhar sobre ele," riu-se Laurie. "Tal lição que levei em Nice! Dou-te a minha palavra de que foi muito pior do que qualquer uma das tuas repreensões — uma daquelas bem valentes. Contar-te-ei tudo sobre isso um dia destes — ela nunca o fará, porque, depois de me dizer que me desprezava e que tinha vergonha de mim, perdeu o coração pela parte desprezível e casou-se com o bom para nada."
"Que baixeza! Bem, se ela te abusar, vem ter comigo e eu defendo-te."
"Pareço precisar disso, não pareço?" disse Laurie, levantando-se e fazendo uma pose que mudou subitamente do imponente para o arrebatado, à medida que a voz da Amy era ouvida a chamar:
"Onde ela está? Onde está a minha querida e velha Jo?"
Toda a família entrou aos tropeções, e todos foram abraçados e beijados mais uma vez e, após várias tentativas vãs, os três viajantes foram sentados para serem observados e celebrados. O Sr. Laurence, tão são e forte como sempre, estava tão melhorado quanto os outros pela sua viagem ao estrangeiro, pois a acrimónia parecia quase ter desaparecido, e a cortesia à moda antiga tinha recebido um polimento que a tornava mais gentil do que nunca. Era bom vê-lo a irradiar pelos "meus filhos", como chamava ao jovem par; era ainda melhor ver a Amy prestar-lhe o dever e o afeto de filha que conquistaram completamente o seu velho coração; e o melhor de tudo, observar Laurie a girar em torno dos dois, como se nunca se cansasse de apreciar o belo quadro que formavam.
No minuto em que pôs os olhos na Amy, Meg tomou consciência de que o seu próprio vestido não tinha um ar parisiense, que a jovem Sra. Moffat seria inteiramente eclipsada pela jovem Sra. Laurence, e que "sua senhoria" era, de todo, uma mulher muito elegante e graciosa. Jo pensou, enquanto observava o par: "Como eles ficam bem juntos! Eu tinha razão, e Laurie encontrou a rapariga bonita e realizada que se adaptará melhor ao seu lar do que a desajeitada velha Jo, e que será um orgulho, não um tormento para ele." A Sra. March e o seu marido sorriram e acenaram um ao outro com rostos felizes, pois viam que a sua caçula tinha feito uma boa escolha, não apenas nas coisas mundanas, mas na riqueza superior do amor, da confiança e da felicidade.
Pois o rosto da Amy estava cheio do brilho suave que denota um coração em paz, a sua voz tinha uma nova ternura, e o porte frio e contido tinha mudado para uma dignidade gentil, tanto feminina quanto cativante. Nenhuma pequena afetação o estragava, e a doçura cordial da sua maneira era mais encantadora do que a nova beleza ou a antiga graça, pois carimbava-a imediatamente com o sinal inconfundível da verdadeira dama que ela esperava tornar-se.
"O amor fez muito pela nossa menina," disse a mãe suavemente.
"Ela teve um bom exemplo diante de si toda a vida, minha querida," sussurrou o Sr. March de volta, com um olhar amoroso para o rosto gasto e a cabeça grisalha ao lado dele.
Daisy achou impossível tirar os olhos da sua "tia bonita", mas prendeu-se como um cão de colo à maravilhosa pulseira cheia de berloques encantadores. Demi pausou para considerar a nova relação antes de se comprometer pela aceitação precipitada de um suborno, que tomou a forma tentadora de uma família de ursos de madeira de Berna. Um movimento de flanco produziu, contudo, uma rendição incondicional, pois Laurie sabia onde o apanhar.
"Jovem, quando tive a honra de fazer o seu conhecimento pela primeira vez, tu deste-me um soco na cara: agora exijo a satisfação de um cavalheiro;" e com isso o tio alto procedeu a atirar e a despentear o pequeno sobrinho de uma forma que danificou a sua dignidade filosófica tanto quanto deliciou a sua alma de rapaz.
"Bendita seja, não está ela de seda da cabeça aos pés? Não é uma visão aprazível vê-la ali sentada tão fina como um violino, e ouvir as pessoas a chamar à pequena Amy, Sra. Laurence?" murmurou a velha Hannah, que não conseguia resistir a frequentes "espreitadelas" pela passa-pratos enquanto punha a mesa de uma forma muito decididamente promíscua.
Valha-nos Deus, como eles falavam! primeiro um, depois o outro, depois todos explodiam juntos, tentando contar a história de três anos em meia hora. Foi uma sorte o chá estar à mão, para produzir uma pausa e providenciar refresco, pois teriam ficado roucos e fracos se tivessem continuado por muito mais tempo. Que cortejo feliz entrou na pequena sala de jantar! O Sr. March escoltou orgulhosamente a "Sra. Laurence"; a Sra. March apoiou-se tão orgulhosamente no braço do "meu filho"; o velho cavalheiro levou Jo, com um sussurrado "Tens de ser a minha rapariga agora," e um olhar para o canto vazio ao pé do lume, que fez Jo sussurrar de volta, com os lábios a tremer, "Tentarei ocupar o lugar dela, senhor."
Os gémeos saltitavam atrás, sentindo que o milénio estava próximo, pois todos estavam tão ocupados com os recém-chegados que eles foram deixados para se deleitarem à sua própria vontade, e podem ter a certeza de que aproveitaram ao máximo a oportunidade. Não roubaram goles de chá, encheram-se de pão de gengibre *ad libitum*, arranjaram um biscoito quente cada um, e, como transgressão culminante, não roubou cada um deles uma pequena tarte cativante para os seus minúsculos bolsos, para ali ficarem a colar e a esfarelar traiçoeiramente, ensinando-lhes que tanto a natureza humana como a pastelaria são frágeis? Carregados com a consciência culpada das tartes sequestradas, e temendo que os olhos aguçados de Dodo perfurassem o fino disfarce de cambraia e merino que escondia o seu butim, os pequenos pecadores agarraram-se ao "Dranpa", que não tinha os seus óculos postos. A Amy, que era passada de mão em mão como refrescos, regressou à sala de estar no braço do Pai Laurence; os outros formaram pares como antes, e este arranjo deixou Jo sem companhia. Ela não se importou no momento, pois demorou-se a responder à pergunta ansiosa de Hannah:
"A Srta. Amy andará no seu coupé, e usará todos aqueles lindos pratos de prata que estão guardados ali ao lado?"
"Não me admirava nada que ela andasse com seis cavalos brancos, comesse em pratos de ouro e usasse diamantes e rendas todos os dias. Teddy não acha nada demasiado bom para ela," respondeu Jo com infinita satisfação.
"Pois não, nem é! Vai querer picadinho ou bolinhos de peixe para o pequeno-almoço?" perguntou Hannah, que sabiamente misturava poesia e prosa.
"Não quero saber;" e Jo fechou a porta, sentindo que comida era um tópico pouco congenial naquele momento. Ela ficou um minuto a olhar para o grupo que desaparecia lá em cima e, à medida que as curtas pernas de xadrez de Demi se arrastavam pelo último degrau, uma súbita sensação de solidão apoderou-se dela tão fortemente que olhou à sua volta com olhos turvos, como se procurasse algo em que se apoiar, pois até Teddy a tinha abandonado. Se ela soubesse que presente de aniversário vinha a cada minuto mais e mais perto, não teria dito para si mesma: "Vou chorar um pouco quando for para a cama; não convém estar triste agora." Depois passou a mão pelos olhos — pois um dos seus hábitos de rapaz era nunca saber onde estava o seu lenço — e tinha acabado de conseguir esboçar um sorriso quando se ouviu bater à porta da entrada.
Abriu-a com pressa hospitaleira e sobressaltou-se como se outro fantasma tivesse vindo surpreendê-la; pois lá estava um cavalheiro alto e barbudo, a irradiar para ela a partir da escuridão como um sol da meia-noite.
"Oh, Sr. Bhaer, estou tão contente por vê-lo!" gritou Jo, com um aperto, como se temesse que a noite o engolisse antes que ela o conseguisse fazer entrar.
"E eu por ver a Srta. Marsch — mas não, a senhora tem uma festa..." e o Professor pausou enquanto o som de vozes e o bater de pés a dançar chegava até eles.
"Não, não temos, apenas a família. A minha irmã e amigos acabaram de chegar a casa, e estamos todos muito felizes. Entre e junte-se a nós."
Embora fosse um homem muito sociável, penso que o Sr. Bhaer se teria ido embora decorosamente e voltaria noutro dia; mas como poderia ele, quando Jo fechou a porta atrás dele e o privou do seu chapéu? Talvez o rosto dela tivesse algo a ver com isso, pois ela esqueceu-se de esconder a sua alegria ao vê-lo e mostrou-a com uma franqueza que se revelou irresistível para o homem solitário, cuja receção excedeu as suas esperanças mais ousadas.
"Se eu não for o *Monsieur de Trop*, ficarei tão contente por vê-los a todos. A senhora esteve doente, minha amiga?"
Ele fez a pergunta abruptamente, pois, quando Jo pendurou o seu casaco, a luz incidiu sobre o rosto dela, e ele viu uma mudança nele.
"Não doente, mas cansada e triste. Tivemos problemas desde a última vez que o vi."
"Ah, sim, eu sei. O meu coração sofreu por si quando soube disso;" e ele apertou-lhe a mão novamente, com um rosto tão solidário que Jo sentiu que nenhum conforto poderia igualar o olhar daqueles olhos gentis e o aperto da mão grande e quente.
"Pai, mãe, este é o meu amigo, Professor Bhaer", disse ela, com um rosto e um tom de um orgulho e prazer tão irreprimíveis que ela poderia muito bem ter tocado uma trombeta e aberto a porta com um floreio.
Se o estranho tivesse tido quaisquer dúvidas sobre a sua receção, elas foram dissipadas num minuto pela cordial acolhida que recebeu. Todos o cumprimentaram gentilmente, inicialmente por causa de Jo, mas muito em breve gostaram dele por si mesmo. Não podiam evitar, pois ele carregava o talismã que abre todos os corações, e estas pessoas simples afeiçoaram-se-lhe de imediato, sentindo-se ainda mais amistosas pelo facto de ele ser pobre; pois a pobreza enriquece aqueles que vivem acima dela, e é um passaporte seguro para espíritos verdadeiramente hospitaleiros. O Sr. Bhaer sentou-se a olhar à sua volta com o ar de um viajante que bate a uma porta estranha e, quando ela se abre, encontra-se em casa. As crianças foram ter com ele como abelhas a um pote de mel; e, estabelecendo-se em cada joelho, procederam a cativá-lo ao revistar os seus bolsos, puxar-lhe a barba e investigar o seu relógio, com audácia juvenil. As mulheres telegrafaram a sua aprovação umas às outras, e o Sr. March, sentindo que tinha encontrado uma alma gémea, abriu os seus tesouros mais preciosos para benefício do seu convidado, enquanto o silencioso John ouvia e desfrutava da conversa, mas não dizia uma palavra, e o Sr. Laurence achou impossível adormecer.
Se Jo não estivesse ocupada de outra forma, o comportamento de Laurie tê-la-ia divertido; pois uma leve pontada, não de ciúme, mas algo como suspeita, fez com que aquele cavalheiro se mantivesse à distância no início e observasse o recém-chegado com circunspeção fraternal. Mas não durou muito. Ele interessou-se apesar de si mesmo e, antes que desse por isso, foi atraído para o círculo; pois o Sr. Bhaer falava bem nesta atmosfera genial e fazia justiça a si mesmo. Ele raramente falava com Laurie, mas olhava para ele frequentemente, e uma sombra passava pelo seu rosto, como se lamentasse a sua própria juventude perdida, ao observar o jovem no seu apogeu. Então, o seu olhar voltava-se para Jo de forma tão nostálgica que ela teria certamente respondido à pergunta muda se a tivesse visto; mas Jo tinha os seus próprios olhos para cuidar e, sentindo que não se podia confiar neles, manteve-os prudentemente sobre a pequena meia que estava a tricotar, como uma tia solteirona exemplar.
Um olhar furtivo de vez em quando refrescava-a como goles de água fresca após uma caminhada poeirenta, pois os vislumbres de soslaio mostravam-lhe vários presságios propícios. O rosto do Sr. Bhaer perdera a expressão distraída e parecia todo vivo com interesse no momento presente, realmente jovem e bonito, pensou ela, esquecendo-se de compará-lo com Laurie, como ela geralmente fazia com homens estranhos, para grande detrimento deles. Então, ele parecia bastante inspirado, embora os costumes funerários dos antigos, para onde a conversa se desviara, pudessem não ser considerados um tópico estimulante. Jo brilhou de triunfo quando Teddy foi silenciado num argumento e pensou para si mesma, ao observar o rosto absorto do seu pai: "Como ele gostaria de ter um homem como o meu Professor para conversar todos os dias!" Por último, o Sr. Bhaer estava vestido com um fato novo de cor preta, o que o fazia parecer mais um cavalheiro do que nunca. O seu cabelo espesso tinha sido cortado e cuidadosamente escovado, mas não se manteve em ordem por muito tempo, pois, em momentos de entusiasmo, ele despenteava-o da maneira divertida que costumava fazer; e Jo gostava mais dele extravagantemente ereto do que liso, porque achava que isso dava à sua bela testa um aspeto jovial. Pobre Jo, como ela glorificava aquele homem simples, enquanto se sentava a tricotar tão calmamente, mas sem deixar escapar nada, nem mesmo o facto de que o Sr. Bhaer tinha, na verdade, botões de punho de ouro nos seus punhos imaculados!
"Querido velho! Ele não poderia ter-se arranjado com mais cuidado se estivesse a cortejar alguém", disse Jo para si mesma; e então um pensamento repentino, nascido das palavras, fê-la corar tão terrivelmente que teve de deixar cair o seu novelo e baixar-se para o apanhar, a fim de esconder o rosto.
A manobra não teve tanto sucesso como ela esperava, contudo; pois, embora estivesse prestes a incendiar uma pira funerária, o Professor deixou cair a sua tocha, metaforicamente falando, e mergulhou atrás do pequeno novelo azul. Naturalmente, bateram as cabeças com força, viram estrelas e ambos se levantaram corados e a rir, sem o novelo, para retomar os seus lugares, desejando não os ter deixado.
Ninguém soube para onde foi a noite; pois Hannah subtraiu habilmente os bebés a uma hora precoce, a cabecear como duas papoilas rosadas, e o Sr. Laurence foi para casa descansar. Os outros sentaram-se à volta da lareira, a conversar, totalmente alheios à passagem do tempo, até que Meg, cuja mente maternal estava impressionada com a firme convicção de que Daisy tinha caído da cama e Demi tinha incendiado a sua camisola de dormir a estudar a estrutura dos fósforos, fez um movimento para sair.
"Temos de cantar, à boa maneira antiga, pois estamos todos juntos mais uma vez", disse Jo, sentindo que um bom grito seria um escape seguro e agradável para as emoções jubilantes da sua alma.
Não estavam todos lá. Mas ninguém achou as palavras impensadas ou falsas; pois Beth ainda parecia estar entre eles, uma presença pacífica, invisível, mas mais querida do que nunca, uma vez que a morte não podia quebrar a liga doméstica que o amor tornou indissolúvel. A pequena cadeira permanecia no seu lugar antigo; o cesto de costura, com o trabalho que ela deixou inacabado quando a agulha se tornou "tão pesada", estava ainda na sua prateleira habitual; o amado instrumento, raramente tocado agora, não tinha sido movido; e acima dele, o rosto de Beth, sereno e sorridente, como nos primeiros dias, olhava para eles, parecendo dizer: "Sejam felizes. Eu estou aqui."
"Toca alguma coisa, Amy. Deixa-os ouvir o quanto melhoraste", disse Laurie, com um orgulho perdoável na sua promissora aluna.
Mas Amy sussurrou, com os olhos cheios, enquanto girava o banco desbotado:
"Não esta noite, querido. Não posso exibir-me esta noite."
Mas ela exibiu algo melhor do que brilho ou perícia; pois cantou as canções de Beth com uma música terna na voz que o melhor mestre não poderia ter ensinado, e tocou os corações dos ouvintes com um poder mais doce do que qualquer outra inspiração lhe poderia ter dado. A sala estava muito silenciosa quando a voz clara falhou subitamente na última linha do hino favorito de Beth. Era difícil dizer:
"A terra não tem tristeza que o céu não possa curar;"
e Amy encostou-se ao seu marido, que estava atrás dela, sentindo que a sua receção em casa não estava totalmente perfeita sem o beijo de Beth.
"Agora, devemos terminar com a canção de Mignon; pois o Sr. Bhaer canta essa", disse Jo, antes que a pausa se tornasse dolorosa. E o Sr. Bhaer limpou a garganta com um "Hem!" gratificado enquanto se dirigia para o canto onde Jo estava, dizendo:
"Cantarás comigo? Nós formamos um excelente par."
Uma ficção agradável, por sinal; pois Jo não tinha mais noção de música do que um gafanhoto. Mas ela teria consentido se ele tivesse proposto cantar uma ópera inteira, e cantou alegremente, alheia ao ritmo e à melodia. Não importava muito; pois o Sr. Bhaer cantava como um verdadeiro alemão, de coração e bem; e Jo rapidamente se rendeu a um zumbido contido, para que pudesse ouvir a voz melodiosa que parecia cantar apenas para ela.
"Conheces a terra onde florescem os limoeiros",
costumava ser a linha favorita do Professor, pois "das land" significava Alemanha para ele; mas agora ele parecia deter-se, com um calor e uma melodia peculiares, nas palavras:
"Lá, oh lá, poderia eu contigo, Ó minha amada, ir!"
e uma ouvinte ficou tão emocionada com o terno convite que desejou dizer que conhecia a terra e que partiria alegremente para lá sempre que ele quisesse.
A canção foi considerada um grande sucesso, e o cantor retirou-se coberto de louros. Mas, alguns minutos depois, ele esqueceu completamente os seus modos e ficou a olhar para Amy enquanto ela punha o seu chapéu; pois ela tinha sido apresentada simplesmente como "a minha irmã", e ninguém a tinha chamado pelo seu novo nome desde que ele chegara. Ele esqueceu-se ainda mais de si mesmo quando Laurie disse, da sua forma mais graciosa, ao despedir-se:
"A minha esposa e eu estamos muito felizes por conhecê-lo, senhor. Por favor, lembre-se de que há sempre uma receção à sua espera do outro lado da rua."
Então o Professor agradeceu-lhe tão calorosamente, e pareceu tão subitamente iluminado de satisfação, que Laurie achou-o o velho mais deliciosamente demonstrativo que alguma vez conhecera.
"Eu também irei; mas virei alegremente de novo, se me derem permissão, cara madame, pois um pequeno negócio na cidade manter-me-á aqui alguns dias."
Ele falou com a Sra. March, mas olhou para Jo; e a voz da mãe deu uma assentimento tão cordial quanto os olhos da filha; pois a Sra. March não era tão cega para o interesse das suas filhas como a Sra. Moffat supunha.
"Suspeito que esse seja um homem sábio", comentou o Sr. March, com plácida satisfação, a partir do tapete da lareira, depois de o último convidado ter partido.
"Sei que é um bom homem", acrescentou a Sra. March, com decidida aprovação, enquanto dava corda ao relógio.
"Eu sabia que irias gostar dele", foi tudo o que Jo disse, enquanto se escapulia para a sua cama.
Ela perguntou-se qual seria o negócio que trouxe o Sr. Bhaer à cidade e, finalmente, decidiu que ele tinha sido nomeado para alguma grande honra, algures, mas que tinha sido demasiado modesto para mencionar o facto. Se ela tivesse visto o rosto dele quando, a salvo no seu próprio quarto, ele olhou para a fotografia de uma jovem severa e rígida, com muito cabelo, que parecia estar a olhar sombriamente para o futuro, isso poderia ter lançado alguma luz sobre o assunto, especialmente quando ele apagou o gás e beijou a fotografia no escuro.
XLIV.
O MEU SENHOR E A MINHA SENHORA.
"Por favor, Mamã, poderia emprestar-me a minha esposa por meia hora? A bagagem chegou, e eu estive a fazer uma confusão com os artigos de luxo parisienses da Amy, a tentar encontrar algumas coisas de que preciso", disse Laurie, ao entrar no dia seguinte e encontrar a Sra. Laurence sentada no colo da sua mãe, como se estivesse a ser feita "o bebé" novamente.
"Certamente. Vai, querida; esqueço-me de que tens outra casa que não esta", e a Sra. March pressionou a mão branca que usava a aliança de casamento, como se pedisse perdão pela sua cobiça maternal.
"Eu não teria vindo se pudesse ter evitado; mas não consigo passar sem a minha pequena mulher, tal como um..."
"Cata-vento não consegue sem vento", sugeriu Jo, enquanto ele fazia uma pausa à procura de um símile; Jo tinha voltado a ser a sua própria pessoa atrevida desde que Teddy chegara a casa.
"Exatamente; pois a Amy mantém-me a apontar a oeste quase todo o tempo, com apenas um ocasional desvio para sul, e não tenho tido um período de vento de leste desde que me casei; não sei nada sobre o norte, mas estou totalmente salubre e ameno, não é, minha senhora?"
"Tempo adorável até agora; não sei quanto tempo durará, mas não tenho medo de tempestades, pois estou a aprender a navegar o meu navio. Vem para casa, querido, e eu encontrarei o teu saca-botas; suponho que seja isso que estás a remexer entre as minhas coisas. Os homens são tão desamparados, mãe", disse Amy, com um ar matronal que deleitou o seu marido.
"O que vão fazer depois de se instalarem?" perguntou Jo, abotoando a capa de Amy como costumava abotoar os seus aventais.
"Temos os nossos planos; não pretendemos falar muito sobre eles ainda, porque somos como vassouras muito novas, mas não tencionamos ficar parados. Vou entrar nos negócios com uma devoção que há de deliciar o avô e provar-lhe que não estou estragado. Preciso de algo do género para me manter estável. Estou cansado de vaguear e pretendo trabalhar como um homem."
"E a Amy, o que vai ela fazer?" perguntou a Sra. March, bem satisfeita com a decisão de Laurie e com a energia com que ele falava.
"Depois de cumprir as formalidades com todos e de exibir o nosso melhor chapéu, vamos surpreender-vos com as elegantes hospitalidades da nossa mansão, a sociedade brilhante que vamos atrair para nós e a influência benéfica que exerceremos sobre o mundo em geral. É mais ou menos isso, não é, Madame Récamier?" perguntou Laurie, com um olhar de troça para Amy.
"O tempo dirá. Vem embora, Impertinência, e não chocues a minha família chamando-me nomes na frente deles", respondeu Amy, decidindo que haveria uma casa com uma boa esposa antes de abrir um salão como uma rainha da sociedade.
"Como aquelas crianças parecem felizes juntas!" observou o Sr. March, achando difícil absorver-se no seu Aristóteles depois de o jovem casal ter partido.
"Sim, e penso que durará", acrescentou a Sra. March, com a expressão repousante de um piloto que trouxe um navio em segurança para o porto.
"Sei que durará. Feliz Amy!" e Jo suspirou, depois sorriu brilhantemente enquanto o Professor Bhaer abria o portão com um empurrão impaciente.
Mais tarde, à noite, quando o seu espírito ficou descansado quanto ao saca-botas, Laurie disse subitamente à sua esposa, que andava de um lado para o outro, a organizar os seus novos tesouros de arte:
"Sra. Laurence."
"Meu senhor!"
"Aquele homem tenciona casar com a nossa Jo!"
"Espero que sim; não esperas tu, querido?"
"Bem, meu amor, considero-o um trunfo, no sentido mais pleno dessa palavra expressiva, mas desejo que ele fosse um pouco mais novo e bastante mais rico."
"Agora, Laurie, não sejas tão exigente e mundano. Se eles se amam, não importa um bocado a idade que têm nem quão pobres são. As mulheres nunca deveriam casar por dinheiro..." Amy interrompeu-se bruscamente quando as palavras lhe escaparam e olhou para o seu marido, que respondeu com gravidade maliciosa:
"Certamente que não, embora oiças raparigas encantadoras dizerem que tencionam fazê-lo, por vezes. Se a minha memória não me falha, tu uma vez achaste que era teu dever fazer um casamento rico; isso explica, talvez, o facto de teres casado com um imprestável como eu."
"Oh, meu querido rapaz, não, não digas isso! Esqueci-me de que eras rico quando disse 'Sim'. Teria casado contigo se não tivesses um cêntimo, e por vezes desejo que fosses pobre para que eu pudesse mostrar o quanto te amo;" e Amy, que era muito digna em público e muito carinhosa em privado, deu provas convincentes da verdade das suas palavras.
"Não pensas realmente que sou uma criatura tão mercenária como tentei ser uma vez, pois não? Partir-me-ia o coração se não acreditasses que eu remaria alegremente no mesmo barco que tu, mesmo que tivesses de ganhar a vida a remar no lago."
"Serei eu um idiota e um bruto? Como poderia eu pensar tal coisa, quando recusaste um homem mais rico por mim e não me deixas dar-te metade do que quero agora, quando tenho o direito? As raparigas fazem-no todos os dias, as pobres, e são ensinadas a pensar que é a sua única salvação; mas tu tiveste melhores lições e, embora eu tivesse tremido por ti a dada altura, não fiquei desapontado, pois a filha foi fiel aos ensinamentos da mãe. Disse isso à mamã ontem, e ela pareceu tão feliz e grata como se eu lhe tivesse dado um cheque de um milhão, para ser gasto em caridade. Não estás a ouvir as minhas observações morais, Sra. Laurence;" e Laurie fez uma pausa, pois os olhos de Amy tinham um ar ausente, embora fixos no seu rosto.
"Sim, estou, e a admirar a covinha no teu queixo ao mesmo tempo. Não quero tornar-te vaidoso, mas devo confessar que me orgulho mais do meu marido bonito do que de todo o seu dinheiro. Não te rias, mas o teu nariz é um tal conforto para mim;" e Amy acariciou suavemente o traço bem delineado com satisfação artística.
Laurie tinha recebido muitos elogios na sua vida, mas nunca um que lhe servisse melhor, como ele demonstrou claramente, embora se risse do gosto peculiar da sua esposa, enquanto ela dizia lentamente:
"Posso fazer-te uma pergunta, querido?"
"Claro que podes."
"Importar-te-ias se a Jo casar com o Sr. Bhaer?"
"Oh, é esse o problema, é? Pensei que havia algo na covinha que não te agradava. Não sendo um cão no manger, mas o tipo mais feliz do mundo, garanto-te que posso dançar no casamento da Jo com um coração tão leve como os meus calcanhares. Duvidas disso, minha querida?"
Amy olhou para ele e ficou satisfeita; o seu último pequeno receio de ciúme desapareceu para sempre, e ela agradeceu-lhe, com um rosto cheio de amor e confiança.
"Gostaria que pudéssemos fazer algo por aquele excelente velho Professor. Não poderíamos inventar um parente rico, que morresse obrigatoriamente lá na Alemanha e lhe deixasse uma pequena fortuna arrumada?" disse Laurie, quando começaram a andar de um lado para o outro na longa sala de estar, de braço dado, como gostavam de fazer, em memória do jardim do castelo.
"Jo descobrir-nos-ia e estragaria tudo; ela tem muito orgulho dele, exatamente como ele é, e disse ontem que achava que a pobreza era uma coisa bela."
"Abençoado seja o seu querido coração! Ela não pensará assim quando tiver um marido literário e uma dúzia de pequenos professores e professorinhas para sustentar. Não vamos interferir agora, mas vigiaremos a nossa oportunidade e far-lhes-emos um favor apesar deles próprios. Devo à Jo parte da minha educação, e ela acredita que as pessoas devem pagar as suas dívidas honestas, por isso vou dar a volta por esse caminho."
"Como é delicioso poder ajudar os outros, não é? Esse foi sempre um dos meus sonhos, ter o poder de dar livremente; e, graças a ti, o sonho tornou-se realidade."
"Ah! Faremos imensas coisas boas, não faremos? Há um tipo de pobreza que gosto particularmente de ajudar. Os mendigos de raiz são cuidados, mas os cavalheiros pobres dão-se mal, porque não pedem e as pessoas não se atrevem a oferecer caridade; no entanto, há mil maneiras de ajudá-los, se alguém apenas souber como fazê-lo tão delicadamente que não ofenda. Devo dizer que gosto mais de servir um cavalheiro decadente do que um mendigo bajulador; suponho que seja errado, mas gosto, embora seja mais difícil."
"Porque é preciso ser um cavalheiro para o fazer", acrescentou o outro membro da sociedade de admiração doméstica.
"Obrigado, receio não merecer esse belo elogio. Mas eu ia dizer que, enquanto vagueava pelo estrangeiro, vi muitos jovens talentosos a fazer todo o tipo de sacrifícios e a suportar dificuldades reais para que pudessem realizar os seus sonhos. Rapazes esplêndidos, alguns deles, a trabalhar como heróis, pobres e sem amigos, mas tão cheios de coragem, paciência e ambição, que tive vergonha de mim mesmo e desejei dar-lhes uma boa ajuda. Essas são as pessoas que é uma satisfação ajudar, pois se têm génio, é uma honra ter permissão para servi-las e não deixar que ele se perca ou atrase por falta de combustível para manter a panela a ferver; se não têm, é um prazer confortar as pobres almas e impedi-las de desesperar quando descobrem isso."
"Sim, de facto; e há outra classe que não pode pedir e que sofre em silêncio. Sei algo sobre isso, pois pertencia a ela antes de me teres feito uma princesa, como o rei faz à mendiga na velha história. As raparigas ambiciosas têm uma vida difícil, Laurie, e muitas vezes têm de ver a juventude, a saúde e as oportunidades preciosas passar, apenas por falta de uma pequena ajuda no momento certo. As pessoas têm sido muito gentis comigo; e sempre que vejo raparigas a lutar, como nós costumávamos fazer, quero estender a mão e ajudá-las, como fui ajudada."
"E assim o farás, como o anjo que és!", exclamou Laurie, resolvendo, com um brilho de zelo filantrópico, fundar e dotar uma instituição para o benefício expresso de jovens mulheres com tendências artísticas. "As pessoas ricas não têm o direito de se sentarem e divertirem, ou de deixar que o seu dinheiro se acumule para outros desperdiçarem. Não é nem metade tão sensato deixar legados quando se morre quanto usar o dinheiro sabiamente enquanto se está vivo, e ter o prazer de fazer os nossos semelhantes felizes com ele. Nós próprios nos divertiremos, e daremos um sabor extra ao nosso próprio prazer ao proporcionar aos outros um gosto generoso. Serás uma pequena Dorcas, andando por aí a esvaziar um grande cesto de confortos e a enchê-lo com boas ações?"
"De todo o coração, se tu fores um valente São Martinho, parando, enquanto cavalgas galantemente pelo mundo, para partilhar a tua capa com o mendigo."
"É um negócio feito, e nós sairemos a ganhar com isso!"
Assim, o jovem par apertou as mãos sobre o acordo e depois continuou a caminhar feliz, sentindo que o seu lar agradável era mais acolhedor porque esperavam alegrar outros lares, acreditando que os seus próprios pés caminhariam com mais retidão ao longo do caminho florido à sua frente, se alisassem os caminhos acidentados para outros pés, e sentindo que os seus corações estavam mais estreitamente unidos por um amor que podia lembrar-se ternamente daqueles menos afortunados que eles.
XLV.
DAISY E DEMI.
Não sinto que cumpri o meu dever como humilde historiadora da família March sem dedicar pelo menos um capítulo aos dois membros mais preciosos e importantes dela. Daisy e Demi tinham agora chegado à idade da discrição; pois nesta época acelerada os bebés de três ou quatro anos afirmam os seus direitos, e obtêm-nos, também, o que é mais do que muitos dos seus mais velhos fazem. Se alguma vez houve um par de gémeos em perigo de ser completamente mimado pela adoração, eram estes faladores Brookes. É claro que eram as crianças mais notáveis que alguma vez nasceram, como será demonstrado quando mencionar que andaram aos oito meses, falaram fluentemente aos doze meses, e aos dois anos tomaram os seus lugares à mesa e comportaram-se com uma propriedade que encantou todos os que os viam. Aos três, Daisy pediu uma "agulhinha" e, na verdade, fez uma bolsa com quatro pontos nela; ela também começou a tratar da casa no aparador e geriu um fogão de cozinha microscópico com uma habilidade que trouxe lágrimas de orgulho aos olhos de Hannah, enquanto Demi aprendeu as letras com o seu avô, que inventou um novo modo de ensinar o alfabeto formando as letras com os seus braços e pernas, unindo assim ginástica para a cabeça e para os calcanhares. O rapaz desenvolveu cedo um génio mecânico que encantava o pai e distraía a mãe, pois tentava imitar todas as máquinas que via e mantinha o quarto das crianças numa condição caótica, com a sua "máquina-de-costura", — uma estrutura misteriosa de fio, cadeiras, molas da roupa e carretéis, para que as rodas andassem "à roda e à roda"; também um cesto pendurado nas costas de uma cadeira grande, no qual tentou em vão içar a sua irmã demasiado confiante, que, com devoção feminina, permitiu que a sua cabecinha fosse batida até ser resgatada, quando o jovem inventor observou indignadamente: "Ora, mamã, é o meu elevador, e eu estou a tentar puxá-la para cima."
Embora completamente diferentes em caráter, os gémeos davam-se notavelmente bem um com o outro e raramente discutiam mais de três vezes por dia. É claro que Demi tiranizava Daisy e a defendia galantemente de qualquer outro agressor; enquanto Daisy se tornava uma escrava de galera e adorava o seu irmão como o único ser perfeito no mundo. Uma pequena alma rosada, rechonchuda e radiante era Daisy, que encontrava o seu caminho para o coração de todos e lá se aninhava. Uma daquelas crianças cativantes que parecem feitas para serem beijadas e aconchegadas, adornadas e adoradas como pequenas deusas, e apresentadas para aprovação geral em todas as ocasiões festivas. As suas pequenas virtudes eram tão doces que teria sido completamente angelical se algumas pequenas traquinices não a mantivessem deliciosamente humana. Era sempre bom tempo no seu mundo, e todas as manhãs ela subia para a janela na sua camisola de dormir para olhar para fora e dizer, não importando se chovia ou se fazia sol: "Oh, dia lindo, oh, dia lindo!" Todos eram amigos, e ela oferecia beijos a um estranho tão confiadamente que o solteirão mais inveterado cedia, e os amantes de bebés tornavam-se fiéis adoradores.
"Eu amo toda a gente", disse ela uma vez, abrindo os braços, com a sua colher numa mão e a sua caneca na outra, como se estivesse ansiosa por abraçar e alimentar o mundo inteiro.
À medida que crescia, a sua mãe começou a sentir que o Pombal seria abençoado pela presença de uma habitante tão serena e amorosa como aquela que tinha ajudado a fazer da casa antiga um lar, e a rezar para que lhe fosse poupada uma perda como aquela que lhes tinha ensinado recentemente quanto tempo tinham acolhido um anjo sem saber. O seu avô chamava-lhe frequentemente "Beth", e a sua avó velava por ela com devoção incansável, como se tentasse compensar algum erro passado, que nenhum olho a não ser o seu podia ver.
Demi, como um verdadeiro ianque, era de uma natureza inquisitiva, querendo saber tudo e ficando muitas vezes muito perturbado por não conseguir obter respostas satisfatórias para os seus perpétuos "Porquê?".
Possuía também uma inclinação filosófica, para grande deleite do seu avô, que costumava ter conversas socráticas com ele, nas quais o aluno precoce ocasionalmente colocava o seu professor em xeque, para a satisfação nada dissimulada das mulheres da casa.
"O que faz as minhas pernas mexerem, avozinho?", perguntou o jovem filósofo, examinando essas partes ativas do seu corpo com um ar meditativo, enquanto descansava depois de uma brincadeira antes de ir para a cama, uma noite.
"É a tua pequena mente, Demi", respondeu o sábio, acariciando respeitosamente a cabeça loira.
"O que é uma pequena mente?"
"É algo que faz o teu corpo mover-se, tal como a mola fazia as rodas andarem no meu relógio quando to mostrei."
"Abre-me; quero ver isso a andar à roda."
"Não posso fazer isso mais do que tu poderias abrir o relógio. Deus dá-te corda, e tu andas até que Ele te pare."
"Dá?", e os olhos castanhos de Demi ficaram grandes e brilhantes enquanto absorvia o novo pensamento. "Eu tenho corda como o relógio?"
"Sim; mas não te posso mostrar como; porque é feito quando não vemos."
Demi apalpou as costas, como se esperasse encontrá-las como as do relógio, e depois observou gravemente:
"Eu acho que Deus faz isso quando eu estou a dormir."
Seguiu-se uma explicação cuidadosa, à qual ele ouviu tão atentamente que a sua ansiosa avó disse:
"Meu querido, achas sensato falar de tais coisas a esse bebé? Ele está a ganhar grandes protuberâncias sobre os olhos e a aprender a fazer as perguntas mais impossíveis de responder."
"Se ele tem idade suficiente para fazer as perguntas, tem idade suficiente para receber respostas verdadeiras. Não estou a colocar os pensamentos na cabeça dele, mas a ajudá-lo a desdobrar os que já lá estão. Estas crianças são mais sábias do que nós, e não tenho dúvidas de que o rapaz entende cada palavra que lhe disse. Agora, Demi, diz-me onde guardas a tua mente?"
Se o rapaz tivesse respondido como Alcibíades: "Pelos deuses, Sócrates, não sei dizer", o seu avô não teria ficado surpreendido; mas quando, depois de estar um momento sobre uma perna, como uma jovem cegonha meditativa, respondeu, num tom de calma convicção: "Na minha barriguinha", o velho cavalheiro só pôde juntar-se à risada da avó e dispensar a aula de metafísica.
Poderia ter havido motivo para ansiedade materna, se Demi não tivesse dado provas convincentes de que era um verdadeiro rapaz, bem como um filósofo em botão; pois, frequentemente, após uma discussão que levava Hannah a profetizar, com acenos ominosos: "Aquela criança não durará muito neste mundo", ele virava-se e descansava os receios dela com algumas das partidas com que os queridos, sujos e malandros meninos distraem e deliciam as almas dos seus pais.
Meg fazia muitas regras morais e tentava cumpri-las; mas que mãe foi alguma vez à prova contra os estratagemas cativantes, as evasivas engenhosas ou a tranquilidade audaz dos homens e mulheres em miniatura que tão cedo se mostram exímios trapaceiros?
"Chega de passas, Demi, vão fazer-te mal", diz a mamã à jovem pessoa que oferece os seus serviços na cozinha com infalível regularidade no dia do pudim de passas.
"Eu gosto de ficar mal."
"Eu não quero que fiques, por isso foge e ajuda a Daisy a fazer bolinhos."
Ele parte relutantemente, mas as suas injustiças pesam no seu espírito; e, pouco depois, quando surge uma oportunidade para as reparar, ele supera a mamã com um negócio esperto.
"Agora foram boas crianças, e eu brinco ao que quiserem", diz Meg, enquanto conduz os seus cozinheiros assistentes para cima, quando o pudim está em segurança a saltitar no tacho.
"A sério, mamã?", pergunta Demi, com uma ideia brilhante na sua cabeça bem empoada.
"Sim, a sério; ao que quiseres", responde a progenitora míope, preparando-se para cantar "Os Três Gatinhos" meia dúzia de vezes, ou para levar a sua família a "Comprar um pão de cêntimo", sem se importar com o vento ou com os membros. Mas Demi encurrala-a com a resposta calma:
"Então vamos comer todas as passas."
A Tia Dodo era a principal companheira de brincadeiras e confidente de ambas as crianças, e o trio virava a pequena casa de pernas para o ar. A Tia Amy era até então apenas um nome para eles, a Tia Beth desvaneceu-se rapidamente numa memória agradavelmente vaga, mas a Tia Dodo era uma realidade viva, e eles aproveitavam-na ao máximo, elogio pelo qual ela estava profundamente grata. Mas quando o Sr. Bhaer veio, Jo negligenciou os seus companheiros de brincadeira, e o desânimo e a desolação caíram sobre as suas pequenas almas. Daisy, que gostava de andar a vender beijos, perdeu o seu melhor cliente e faliu; Demi, com penetração infantil, descobriu rapidamente que a Dodo gostava mais de brincar com "o homem-urso" do que com ele; mas, embora magoado, escondeu a sua angústia, pois não tinha coragem para insultar um rival que guardava uma mina de gotas de chocolate no bolso do colete, e um relógio que podia ser retirado da sua caixa e abanado livremente por admiradores ardentes.
Algumas pessoas poderiam ter considerado estas agradáveis liberdades como subornos; mas Demi não via isso dessa forma e continuou a patrocinar o "homem-urso" com pensativa afabilidade, enquanto Daisy lhe concedia os seus pequenos afetos à terceira visita, e considerava o seu ombro o seu trono, o seu braço o seu refúgio, as suas dádivas tesouros de valor insuperável.
Os cavalheiros são por vezes acometidos por súbitos ataques de admiração pelos jovens parentes de senhoras a quem honram com a sua consideração; mas esta filoprogenitura falsificada assenta-lhes mal e não engana ninguém, nem um pouco. A devoção do Sr. Bhaer era sincera, no entanto, e também eficaz — pois a honestidade é a melhor política no amor como na lei; ele era um daqueles homens que se sentem à vontade com as crianças, e parecia particularmente bem quando rostos pequenos faziam um contraste agradável com o seu, viril. O seu negócio, qualquer que fosse, detinha-o de dia para dia, mas a noite raramente deixava de o trazer para ver... bem, ele perguntava sempre pelo Sr. March, por isso suponho que era ele a atração. O excelente papá vivia sob a ilusão de que era ele, e deliciava-se com longas discussões com a alma gémea, até que um comentário casual do seu neto mais observador o esclareceu subitamente.
O Sr. Bhaer entrou uma noite para parar no limiar do escritório, espantado com o espetáculo que encontrou. Estendido no chão jazia o Sr. March, com as suas respeitáveis pernas no ar, e ao lado dele, igualmente estendido, estava Demi, a tentar imitar a atitude com as suas próprias pernas curtas, de meias escarlates, ambos os rastejadores tão seriamente absortos que não estavam conscientes dos espectadores, até que o Sr. Bhaer deu a sua risada sonora, e Jo gritou, com um rosto escandalizado:
"Pai, pai, aqui está o Professor!"
Desceram as pernas pretas e subiu a cabeça grisalha, enquanto o preceptor dizia, com dignidade imperturbável:
"Boa noite, Sr. Bhaer. Desculpe-me por um momento; estamos apenas a terminar a nossa lição. Agora, Demi, faz a letra e diz o seu nome."
"Eu sei qual é!" e, após alguns esforços convulsivos, as pernas vermelhas tomaram a forma de um par de compassos, e o aluno inteligente gritou triunfantemente: "É um W, avozinho, é um W!"
"Ele é um Weller nato", riu-se Jo, enquanto o seu progenitor se recompunha e o seu sobrinho tentava pôr-se de cabeça para baixo, como a única forma de expressar a sua satisfação por a escola ter acabado.
"O que tens feito hoje, bübchen?", perguntou o Sr. Bhaer, levantando o ginasta.
"Fui ver a pequena Mary."
"E que fizeste lá?"
"Beijei-a", começou Demi, com uma franqueza ingénua.
"Prut! Tu começas cedo. O que disse a pequena Mary a isso?", perguntou o Sr. Bhaer, continuando a confessar o jovem pecador, que estava em cima do seu joelho, explorando o bolso do colete.
"Oh, ela gostou, e ela beijou-me, e eu gostei. Os meninos não gostam das meninas?", acrescentou Demi, com a boca cheia e um ar de doce satisfação.
"Tu, pintainho precoce! Quem te pôs isso na cabeça?", disse Jo, apreciando as revelações inocentes tanto quanto o Professor.
"Não está na minha cabeça; está na minha boca", respondeu o literal Demi, deitando a língua de fora, com uma gota de chocolate nela, pensando que ela se referia a doces, não a ideias.
"Devias guardar um pouco para a pequena amiga: doces para os doces, homenzinho"; e o Sr. Bhaer ofereceu a Jo um pouco, com um olhar que a fez perguntar-se se o chocolate não era o néctar bebido pelos deuses. Demi também viu o sorriso, ficou impressionado com ele e perguntou ingenuamente:
"Os meninos grandes também gostam de raparigas grandes, Professor?"
Como o jovem Washington, o Sr. Bhaer "não podia mentir"; por isso deu a resposta um pouco vaga de que acreditava que sim, por vezes, num tom que fez o Sr. March pousar a sua escova de roupa, olhar para o rosto recuado de Jo e depois afundar-se na sua cadeira, parecendo que o "pintainho precoce" lhe tinha colocado uma ideia na cabeça que era tanto doce como amarga.
Porque é que a Dodo, quando o apanhou no armário da louça meia hora depois, quase espremeu o fôlego do seu pequeno corpo com um abraço terno, em vez de o abanar por lá estar, e porque é que ela seguiu esse novo desempenho com a inesperada dádiva de uma grande fatia de pão com geleia, permaneceu um dos problemas sobre os quais Demi intrigou o seu pequeno engenho, e foi forçado a deixar insolúvel para sempre.
XLVI.
DEBAIXO DO GUARDA-CHUVA.
Enquanto Laurie e Amy davam passeios conjugais sobre carpetes de veludo, enquanto punham a sua casa em ordem e planeavam um futuro feliz, o Sr. Bhaer e Jo desfrutavam de passeios de um tipo diferente, ao longo de estradas lamacentas e campos encharcados.
"Eu dou sempre um passeio ao fim do dia, e não sei porque deveria deixar de o fazer, só porque muitas vezes me acontece encontrar o Professor no seu caminho para fora", dizia Jo para si mesma, após dois ou três encontros; pois, embora houvesse dois caminhos para casa de Meg, qualquer que ela tomasse, era certo que o encontraria, quer a ir, quer a voltar. Ele caminhava sempre rapidamente e nunca parecia vê-la até estar bastante perto, momento em que olharia como se os seus olhos míopes não tivessem conseguido reconhecer a dama que se aproximava até aquele momento. Então, se ela ia para casa de Meg, ele tinha sempre algo para os bebés; se o rosto dela estava voltado para casa, ele tinha apenas passeado até ao rio e estava prestes a voltar, a menos que estivessem cansados das suas visitas frequentes.
Dadas as circunstâncias, que podia Jo fazer a não ser cumprimentá-lo civilizadamente e convidá-lo a entrar? Se estava cansada das suas visitas, escondia o seu cansaço com perfeita perícia e assegurava-se de que houvesse café para o jantar, "pois Friedrich — quero dizer, o Sr. Bhaer — não gosta de chá".
Pela segunda semana, toda a gente sabia perfeitamente o que estava a acontecer, no entanto toda a gente tentava parecer que estava completamente cega às mudanças no rosto de Jo. Nunca perguntavam porque ela cantava durante o trabalho, arranjava o cabelo três vezes ao dia e ficava tão radiante com o seu exercício noturno; e ninguém parecia ter a menor suspeita de que o Professor Bhaer, enquanto falava de filosofia com o pai, estava a dar à filha lições de amor.
Jo não conseguia sequer perder o seu coração de uma maneira decorosa, mas tentava severamente reprimir os seus sentimentos; e, falhando nisso, levava uma vida um pouco agitada. Tinha um medo mortal de ser ridicularizada por se render, após as suas muitas e veementes declarações de independência. Laurie era o seu receio especial; mas, graças ao novo gerente, ele comportava-se com uma propriedade louvável, nunca chamou ao Sr. Bhaer "um excelente tipo" em público, nunca aludiu, da maneira mais remota, à aparência melhorada de Jo, ou expressou a menor surpresa ao ver o chapéu do Professor na mesa do corredor dos March quase todas as noites. Mas ele regozijava-se em privado e ansiava pelo tempo em que pudesse dar a Jo uma peça de prata, com um urso e um bastão esfarrapado nela como um brasão de armas apropriado.
Durante quinze dias, o Professor veio e foi com uma regularidade de namorado; depois esteve ausente durante três dias inteiros e não deu sinal de si — um procedimento que fez toda a gente parecer sóbria, e Jo tornar-se pensativa, no início, e depois — ai do romance! — muito zangada.
"Desgostoso, diria eu, e regressou a casa tão subitamente como veio. Não é nada comigo, claro; mas eu acharia que ele teria vindo e nos teria dito adeus, como um cavalheiro", dizia ela para si mesma, com um olhar desesperado para o portão, enquanto vestia as suas coisas para o passeio habitual, numa tarde monótona.
"É melhor levares o pequeno guarda-chuva, querida; parece que vai chover", disse a sua mãe, observando que ela levava o seu novo chapéu, mas não aludindo ao facto.
"Sim, mamã; queres alguma coisa na cidade? Tenho de lá ir buscar papel", respondeu Jo, puxando o laço debaixo do queixo diante do espelho como desculpa para não olhar para a sua mãe.
"Sim; quero um pouco de silesia, uma embalagem de agulhas número nove e dois metros de fita estreita cor de lavanda. Tens as tuas botas grossas calçadas e algo quente por baixo da capa?"
"Acho que sim", respondeu Jo, distraída.
"Se por acaso encontrares o Sr. Bhaer, traz-no para casa para o chá. Desejo muito ver esse querido homem", acrescentou a Sra. March.
Jo ouviu isso, mas não respondeu, a não ser beijando a sua mãe e afastando-se rapidamente, pensando com um brilho de gratidão, apesar da sua dor de coração:
"Como ela é boa para mim! O que fazem as raparigas que não têm mães para as ajudar nos seus problemas?"
As lojas de fazendas não ficavam lá em baixo, entre as casas comerciais, bancos e armazéns grossistas, onde os cavalheiros mais se reúnem; mas Jo encontrou-se nessa parte da cidade antes de fazer uma única recado, vagueando como se estivesse à espera de alguém, examinando instrumentos de engenharia numa montra e amostras de lã noutra com um interesse pouco feminino; tropeçando em barris, sendo quase sufocada por fardos que desciam e empurrada sem cerimónia por homens ocupados que pareciam perguntar-se "como raio ela foi ali parar". Uma gota de chuva na sua bochecha trouxe os seus pensamentos de esperanças frustradas para fitas arruinadas; pois as gotas continuavam a cair e, sendo uma mulher, bem como uma amante, sentia que, embora fosse tarde demais para salvar o seu coração, poderia o seu chapéu. Agora lembrava-se do pequeno guarda-chuva, que se tinha esquecido de levar na sua pressa para sair; mas o arrependimento era inútil, e nada podia ser feito a não ser pedir um emprestado ou submeter-se a uma encharcadela. Olhou para o céu carregado, para baixo, para o laço carmesim já salpicado de preto, para a frente, ao longo da rua lamacenta, depois um longo e persistente olhar para trás, para um certo armazém sombrio, com "Hoffmann, Swartz, & Co." sobre a porta, e disse para si mesma, com um ar severamente reprovador:
"É o que mereço! Que necessidade tinha eu de pôr todas as minhas melhores coisas e vir vaguear por aqui, esperando ver o Professor? Jo, tenho vergonha de ti! Não, não vais lá pedir um guarda-chuva emprestado, ou descobrir onde ele está, com os amigos dele. Vais arrastar-te por aí e fazer os teus recados à chuva; e se morreres e arruinares o teu chapéu, não é mais do que mereces. Ora então!"
Com isso, atravessou a rua tão impetuosamente que escapou por pouco de ser aniquilada por um camião que passava, e precipitou-se nos braços de um cavalheiro idoso e imponente, que disse: "Peço perdão, minha senhora", e pareceu mortalmente ofendido. Um tanto intimidada, Jo endireitou-se, espalhou o lenço sobre as fitas dedicadas e, deixando a tentação para trás, apressou-se, com uma humidade crescente nos tornozelos e muito estrépito de guarda-chuvas por cima da cabeça. O facto de um guarda-chuva azul, um tanto esfarrapado, permanecer imóvel sobre o seu chapéu desprotegido chamou-lhe a atenção; e, ao olhar para cima, viu o Sr. Bhaer a olhar para baixo.
"Sinto que conheço a senhora de espírito forte que caminha tão corajosamente sob tantos narizes de cavalos, e tão depressa através de tanta lama. O que faz aqui em baixo, minha amiga?"
"Estou a fazer compras."
O Sr. Bhaer sorriu, enquanto olhava da fábrica de pickles, de um lado, para o estabelecimento grossista de peles e couros, do outro; mas apenas disse polidamente:
"A menina não tem guarda-chuva. Posso ir também e levar os embrulhos para si?"
"Sim, obrigada."
As faces de Jo estavam tão vermelhas quanto a sua fita, e ela perguntou-se o que ele pensaria dela; mas não se importou, pois num minuto viu-se a caminhar de braço dado com o seu Professor, sentindo como se o sol tivesse irrompido subitamente com um brilho invulgar, como se o mundo estivesse bem outra vez e como se uma mulher profundamente feliz estivesse a caminhar pelo molhado naquele dia.
"Pensámos que tinha ido embora", disse Jo apressadamente, pois sabia que ele a observava. O seu chapéu não era grande o suficiente para esconder o seu rosto, e ela temia que ele pudesse achar a alegria que este denunciava pouco feminina.
"Acreditou que eu partiria sem uma despedida para aqueles que foram tão divinamente gentis comigo?" perguntou ele de forma tão reprovadora que ela sentiu como se o tivesse insultado com a sugestão, e respondeu calorosamente:
"Não, eu não acreditei; sabia que estava ocupado com os seus próprios assuntos, mas sentimos um pouco a sua falta... o pai e a mãe, especialmente."
"E a menina?"
"Fico sempre contente por o ver, senhor."
Na sua ansiedade por manter a voz bastante calma, Jo tornou-a um pouco fria, e o pequeno monossílabo gelado no final pareceu arrefecer o Professor, pois o seu sorriso desapareceu, enquanto dizia gravemente:
"Agradeço-lhe, e virei mais uma vez antes de partir."
"Vai partir, então?"
"Já não tenho negócios aqui; estão concluídos."
"Com sucesso, espero?" disse Jo, pois a amargura da desilusão estava naquela sua curta resposta.
"Devo pensar que sim, pois abriu-se-me um caminho pelo qual posso ganhar o meu pão e dar muita ajuda aos meus Jünglings."
"Diga-me, por favor! Gosto de saber tudo sobre os... os rapazes", disse Jo ansiosamente.
"Isso é tão gentil, direi com prazer. Os meus amigos encontraram-me um lugar numa faculdade, onde ensino como em casa, e ganho o suficiente para tornar o caminho suave para Franz e Emil. Por isto devo estar grato, não devo?"
"De facto, deve. Como será esplêndido tê-lo a fazer o que gosta, e poder vê-lo frequentemente, e aos rapazes!" exclamou Jo, agarrando-se aos rapazes como desculpa para a satisfação que não conseguia deixar de revelar.
"Ah! mas não nos encontraremos frequentemente, temo; este lugar fica no Oeste."
"Tão longe!" e Jo deixou as suas saias à sua sorte, como se já não importasse o que acontecia às suas roupas ou a si própria.
O Sr. Bhaer sabia ler várias línguas, mas ainda não tinha aprendido a ler as mulheres. Gabava-se de conhecer Jo muito bem e, por isso, ficou muito espantado com as contradições de voz, rosto e modo que ela lhe mostrou em rápida sucessão naquele dia, pois esteve em meia dúzia de estados de espírito diferentes no espaço de meia hora. Quando o encontrou, pareceu surpreendida, embora fosse impossível não suspeitar que ela tinha ido ali com esse propósito expresso. Quando ele lhe ofereceu o braço, ela aceitou-o com um olhar que o encheu de deleite; mas quando ele perguntou se ela sentia a sua falta, ela deu uma resposta tão fria e formal que o desespero se abateu sobre ele. Ao saber da sua boa sorte, ela quase bateu palmas: seria a alegria toda pelos rapazes? Depois, ao ouvir o seu destino, ela disse: "Tão longe!" num tom de desespero que o elevou a um pináculo de esperança; mas, no minuto seguinte, ela fê-lo cair novamente ao observar, como alguém totalmente absorvido no assunto:
"Aqui é o local para os meus recados; quer entrar? Não demorará muito."
Jo orgulhava-se um pouco da sua capacidade de fazer compras e desejava particularmente impressionar o seu acompanhante com a limpeza e rapidez com que realizaria o negócio. Mas, devido à agitação em que se encontrava, tudo correu mal; virou o tabuleiro de agulhas, esqueceu-se de que a silesia devia ser "sarjada" até que já a tinham cortado, deu o troco errado e cobriu-se de confusão ao pedir fita de lavanda no balcão de chita. O Sr. Bhaer ficou ao lado, observando-a corar e atrapalhar-se; e, enquanto observava, o seu próprio desconsolo pareceu diminuir, pois começava a ver que, em algumas ocasiões, as mulheres, tal como os sonhos, funcionam por contrários.
Quando saíram, ele colocou o pacote debaixo do braço com um aspeto mais alegre e atravessou as poças de água como se, no geral, até gostasse daquilo.
"Não deveríamos fazer um pouco daquilo a que chamam compras para os meninos, e ter um banquete de despedida esta noite, se eu for para a minha última visita à sua tão agradável casa?" perguntou ele, parando diante de uma montra cheia de fruta e flores.
"O que vamos comprar?" disse Jo, ignorando a última parte do seu discurso e cheirando os odores misturados com uma afetação de prazer enquanto entravam.
"Podem eles ter laranjas e figos?" perguntou o Sr. Bhaer, com um ar paternal.
"Comem-nos quando os conseguem arranjar."
"Gosta de frutos secos?"
"Como um esquilo."
"Uvas de Hamburgo; sim, certamente beberemos à Pátria com elas?"
Jo franziu o sobrolho perante esse pedaço de extravagância e perguntou por que não comprava um cesto de tâmaras, um barril de passas e um saco de amêndoas, e acabava com aquilo? Ao que o Sr. Bhaer confiscou-lhe a bolsa, produziu a sua própria e terminou as compras comprando vários quilos de uvas, um vaso de margaridas rosadas e um bonito frasco de mel, que devia ser considerado como um garrafão. Depois, deformando os seus bolsos com os embrulhos irregulares, e dando-lhe as flores para segurar, abriu o velho guarda-chuva e eles seguiram viagem novamente.
"Menina Marsch, tenho um grande favor a pedir-lhe", começou o Professor, após um passeio húmido de meio quarteirão.
"Sim, senhor;" e o coração de Jo começou a bater tão forte que ela teve medo que ele o ouvisse.
"Sou ousado em dizê-lo apesar da chuva, porque me resta tão pouco tempo."
"Sim, senhor;" e Jo quase esmagou o pequeno vaso de flores com o aperto súbito que lhe deu.
"Desejo comprar um pequeno vestido para a minha Tina, e sou demasiado estúpido para ir sozinho. Pode ter a gentileza de me dar uma palavra de gosto e ajuda?"
"Sim, senhor;" e Jo sentiu-se tão calma e serena, de repente, como se tivesse entrado num frigorífico.
"Talvez também um xaile para a mãe da Tina, ela é tão pobre e doente, e o marido é uma tal preocupação. Sim, sim, um xaile grosso e quente seria uma coisa simpática para levar à pequena mãe."
"Fá-lo-ei com prazer, Sr. Bhaer. Estou a andar muito depressa e ele está a tornar-se mais querido a cada minuto", acrescentou Jo para si mesma; depois, com um abanão mental, entrou no negócio com uma energia que era agradável de ver.
O Sr. Bhaer deixou tudo por sua conta, por isso ela escolheu um vestido bonito para Tina e depois pediu os xailes. O empregado, sendo um homem casado, condescendeu em interessar-se pelo casal, que parecia estar a fazer compras para a sua família.
"A sua senhora poderá preferir este; é um artigo superior, uma cor muito desejável, bastante casta e elegante", disse ele, sacudindo um confortável xaile cinzento e lançando-o sobre os ombros de Jo.
"Isto agrada-lhe, Sr. Bhaer?" perguntou ela, virando-lhe as costas e sentindo-se profundamente grata pela oportunidade de esconder o seu rosto.
"Excelente, ficaremos com ele", respondeu o Professor, sorrindo para si mesmo enquanto pagava, enquanto Jo continuava a remexer os balcões como uma caçadora de saldos convicta.
"Agora vamos para casa?" perguntou ele, como se as palavras lhe fossem muito agradáveis.
"Sim; é tarde e estou tão cansada." A voz de Jo era mais patética do que ela imaginava; pois agora o sol parecia ter-se escondido tão subitamente quanto aparecera, o mundo tornou-se lamacento e miserável outra vez, e pela primeira vez ela descobriu que os seus pés estavam frios, a sua cabeça doía e que o seu coração estava mais frio do que a primeira, mais cheio de dor do que a segunda. O Sr. Bhaer ia partir; ele só se importava com ela como amiga; tinha sido tudo um erro, e quanto mais cedo acabasse, melhor. Com esta ideia na cabeça, ela chamou um autocarro que se aproximava com um gesto tão apressado que as margaridas voaram para fora do vaso e ficaram gravemente danificadas.
"Este não é o nosso autocarro", disse o Professor, acenando para que o veículo carregado se afastasse e parando para apanhar as pobres flores.
"Peço perdão, não vi o nome distintamente. Não importa, posso ir a pé. Estou habituada a andar penosamente na lama", retorquiu Jo, piscando os olhos com força, porque teria morrido antes de enxugar abertamente as suas lágrimas.
O Sr. Bhaer viu as gotas nas suas faces, embora ela tivesse virado a cabeça; a visão pareceu comovê-lo muito, pois, inclinando-se subitamente, perguntou num tom que significava muito:
"Minha querida do coração, por que choras?"
Ora, se Jo não fosse nova neste tipo de coisas, teria dito que não estava a chorar, que tinha uma constipação, ou teria dito qualquer outra mentira feminina adequada à ocasião; em vez disso, aquela criatura sem dignidade respondeu, com um soluço irreprimível:
"Porque vai partir."
"Ach, mein Gott, isto é tão bom!" exclamou o Sr. Bhaer, conseguindo juntar as mãos apesar do guarda-chuva e dos embrulhos. "Jo, não tenho nada a não ser muito amor para te dar; vim para ver se podias cuidar dele, e esperei para ter a certeza de que eu era algo mais do que um amigo. Sou? Podes fazer um pequeno lugar no teu coração para o velho Fritz?" acrescentou ele, tudo num só fôlego.
"Oh, sim!" disse Jo; e ele ficou perfeitamente satisfeito, pois ela dobrou ambas as mãos sobre o seu braço e olhou para ele com uma expressão que mostrava claramente o quão feliz ela seria por caminhar pela vida ao lado dele, mesmo que não tivesse abrigo melhor do que o velho guarda-chuva, se ele o carregasse.
Foi certamente uma proposta feita em dificuldades, pois, mesmo que o desejasse, o Sr. Bhaer não podia pôr-se de joelhos, devido à lama; nem podia oferecer a mão a Jo, exceto figurativamente, pois ambas estavam ocupadas; muito menos podia entregar-se a demonstrações ternas em plena rua, embora estivesse perto dela: por isso, a única forma de expressar o seu enlevo era olhar para ela, com uma expressão que glorificava o seu rosto a tal ponto que parecia haver realmente pequenos arco-íris nas gotas que brilhavam na sua barba. Se ele não amasse muito a Jo, não creio que pudesse tê-lo feito então, pois ela parecia longe de ser adorável, com as suas saias num estado deplorável, as suas botas de borracha salpicadas até ao tornozelo e o seu chapéu em ruínas. Felizmente, o Sr. Bhaer considerava-a a mulher mais bela do mundo, e ela achou-o mais "semelhante a Júpiter" do que nunca, embora a aba do seu chapéu estivesse completamente mole com os pequenos fios de água que escorriam dali para os seus ombros (pois ele segurava o guarda-chuva todo sobre Jo), e cada dedo das suas luvas precisasse de ser remendado.
Os transeuntes provavelmente pensaram que eram um par de lunáticos inofensivos, pois esqueceram-se completamente de chamar um autocarro e passearam tranquilamente, alheios ao anoitecer e ao nevoeiro que se intensificavam. Pouco se importavam com o que alguém pensava, pois estavam a desfrutar da hora feliz que raramente vem mais do que uma vez na vida de alguém, o momento mágico que concede juventude aos velhos, beleza aos feios, riqueza aos pobres, e dá aos corações humanos um vislumbre do céu. O Professor parecia ter conquistado um reino, e o mundo não tinha mais nada a oferecer-lhe em termos de felicidade; enquanto Jo caminhava penosamente ao seu lado, sentindo como se o seu lugar tivesse sido sempre ali, e perguntando-se como poderia ter escolhido qualquer outro destino. Claro que foi ela a primeira a falar – de forma inteligível, quero dizer, pois as observações emocionais que se seguiram ao seu impetuoso "Oh, sim!" não foram de natureza coerente ou registável.
"Friedrich, por que não..."
"Ah, céu, ela dá-me o nome que ninguém pronuncia desde que a Minna morreu!" exclamou o Professor, parando numa poça para a contemplar com grato deleite.
"Chamo-te sempre assim para mim mesma – esqueci-me; mas não o farei, a menos que gostes."
"Gostar? É mais doce para mim do que posso dizer. Diz 'tu', também, e eu direi que a tua língua é quase tão bela como a minha."
"O 'tu' não é um pouco sentimental?" perguntou Jo, pensando em privado que era um monossílabo adorável.
"Sentimental? Sim. Graças a Deus, nós, alemães, acreditamos no sentimento, e mantemo-nos jovens com ele. O vosso 'you' inglês é tão frio, diz 'tu', minha querida do coração, significa tanto para mim", suplicou o Sr. Bhaer, mais como um estudante romântico do que como um grave professor.
"Bem, então, por que é que tu não me disseste tudo isto mais cedo?" perguntou Jo timidamente.
"Agora terei de te mostrar todo o meu coração, e fá-lo-ei com todo o gosto, porque terás de cuidar dele daqui para a frente. Vê, então, minha Jo – ah, o querido e engraçado pequeno nome! – eu tinha o desejo de dizer algo no dia em que me despedi, em Nova Iorque; mas pensei que o belo amigo estava noivo de ti, e por isso não falei. Terias dito 'Sim', então, se eu tivesse falado?"
"Não sei; receio que não, pois eu não tinha coração naquela altura."
"Prut! Isso eu não acredito. Estava a dormir até que o príncipe encantado atravessou o bosque e o acordou. Ah, bem, 'Die erste Liebe ist die beste'; mas isso eu não deveria esperar."
"Sim, o primeiro amor é o melhor; por isso fica contente, pois nunca tive outro. O Teddy era apenas um rapaz, e logo superou o seu pequeno capricho", disse Jo, ansiosa por corrigir o equívoco do Professor.
"Bom! então descansarei feliz, e terei a certeza de que me dás tudo. Esperei tanto tempo, tornei-me egoísta, como verás, Professorin."
"Gosto disso", exclamou Jo, encantada com o seu novo nome. "Agora diz-me o que te trouxe, finalmente, precisamente quando eu mais precisava de ti?"
"Isto;" e o Sr. Bhaer tirou um pequeno papel gasto do bolso do seu colete.
Jo desdobrou-o e pareceu muito envergonhada, pois era uma das suas próprias contribuições para um jornal que pagava por poesia, o que explicava ela enviar-lhe uma tentativa ocasional.
"Como é que isto te pôde trazer?" perguntou ela, perguntando-se o que ele queria dizer.
"Encontrei-o por acaso; reconheci-o pelos nomes e pelas iniciais, e nele havia um pequeno verso que parecia chamar-me. Lê e encontra-o; eu farei com que não andes no molhado."
Jo obedeceu e percorreu apressadamente as linhas que ela tinha batizado como—
"NO SÓTÃO.
"Quatro pequenos baús em fila, Obscuros de pó e gastos pelo tempo, Todos feitos e preenchidos, há muito, Por crianças agora no seu apogeu. Quatro pequenas chaves penduradas lado a lado, Com fitas desbotadas, valentes e alegres Quando aí presas, com orgulho infantil, Há muito, num dia de chuva. Quatro pequenos nomes, um em cada tampa, Esculpidos por uma mão de rapaz, E por baixo jaz escondido Histórias do bando feliz Que outrora aqui brincava, e parava amiúde Para ouvir o doce refrão, Que vinha e ia no telhado acima, Sob a chuva de verão a cair.
"'Meg' na primeira tampa, suave e bela. Olho para dentro com olhos amorosos, Pois dobrado aqui, com bem conhecido cuidado, Jaz um bom conjunto, O registo de uma vida pacífica,— Presentes para criança e rapariga gentil, Um vestido de noiva, linhas para uma esposa, Um sapatinho, um caracol de bebé. Nenhum brinquedo resta neste primeiro baú, Pois todos foram levados, Na sua velhice, para se juntarem novamente À brincadeira de outra pequena Meg. Ah, mãe feliz! bem sei Que ouves, como um doce refrão, Canções de embalar sempre suaves e baixas Sob a chuva de verão a cair.
"'Jo' na tampa seguinte, riscada e gasta, E lá dentro uma loja heterogénea De bonecas sem cabeça, de livros escolares rasgados, Pássaros e animais que já não falam; Espólios trazidos do solo de fadas Onde só pés juvenis pisaram, Sonhos de um futuro nunca encontrado, Memórias de um passado ainda doce; Poemas a meio, histórias selvagens, Cartas de abril, mornas e frias, Diários de uma criança voluntariosa, Indícios de uma mulher precocemente velha; Uma mulher num lar solitário, Ouvindo, como um triste refrão,— 'Sê digna de amor, e o amor virá,' Sob a chuva de verão a cair.
"Minha Beth! o pó é sempre varrido Da tampa que ostenta o teu nome, Como se por olhos amorosos que choraram, Por mãos cuidadosas que muitas vezes vieram. A morte canonizou para nós uma santa, Sempre menos humana do que divina, E ainda depositamos, com tenra queixa, Relíquias neste santuário doméstico.— O sino de prata, tão raramente tocado, O pequeno gorro que ela usou por último, A bela e morta Catherine que pendia Pelos anjos levada acima da sua porta; As canções que cantou, sem lamento, Na sua casa de prisão de dor, Para sempre docemente misturadas Com a chuva de verão a cair.
"Sobre o campo polido da última tampa— Lenda agora bela e verdadeira— Um cavaleiro galante ostenta no seu escudo, 'Amy', em letras de ouro e azul. Lá dentro jazem fitas que prendiam o seu cabelo, Chinelos que dançaram a sua última dança, Flores desbotadas guardadas com cuidado, Leques cujos trabalhos aéreos terminaram; Alegres valentins, todas chamas ardentes, Trifes que fizeram a sua parte Em esperanças, medos e vergonhas de rapariga,— O registo de um coração de donzela Agora a aprender feitiços mais belos e verdadeiros, Ouvindo, como um alegre refrão, O som prateado de sinos nupciais Sob a chuva de verão a cair.
"Quatro pequenos baús em fila, Obscuros de pó e gastos pelo tempo, Quatro mulheres, ensinadas pela prosperidade e pela dor A amar e trabalhar no seu apogeu. Quatro irmãs, separadas por uma hora, Nenhuma perdida, uma apenas foi antes, Feitas pelo poder imortal do amor, Mais próximas e queridas para sempre. Oh, quando estas nossas lojas escondidas Jazem abertas à vista do Pai, Que sejam ricas em horas douradas, Ações que mostram mais beleza à luz, Vidas cuja música valente longamente ecoará, Como uma melodia que agita o espírito, Almas que alegremente voarão e cantarão No longo sol depois da chuva.
"J. M."
"É uma poesia muito má, mas senti-a quando a escrevi, um dia em que estava muito solitária e chorei bastante em cima de um saco de trapos. Nunca pensei que iria para onde pudesse contar histórias", disse Jo, rasgando os versos que o Professor guardara durante tanto tempo.
"Deixa ir, cumpriu o seu dever, e eu terei um fresco quando ler todo o livro castanho em que ela guarda os seus pequenos segredos", disse o Sr. Bhaer, com um sorriso, enquanto observava os fragmentos voarem ao vento. "Sim", acrescentou ele seriamente, "li isto e pensei para mim mesmo: 'Ela tem uma tristeza, está solitária, encontraria conforto no amor verdadeiro. Tenho um coração cheio, cheio para ela; não irei e direi: 'Se isto não é uma coisa demasiado pobre para dar pelo que espero receber, aceita-o em nome de Deus?'"
"E foi assim que vieste a descobrir que não era demasiado pobre, mas a única coisa preciosa de que eu precisava", sussurrou Jo.
"Não tive coragem de pensar nisso ao princípio, por mais divinamente gentil que tenha sido a tua receção. Mas logo comecei a ter esperança, e depois disse: 'Tê-la-ei, mesmo que morra por isso', e assim farei!" exclamou o Sr. Bhaer, com um aceno desafiante, como se as paredes de nevoeiro que os rodeavam fossem barreiras que ele iria superar ou derrubar valentemente.
Jo achou aquilo esplêndido e resolveu ser digna do seu cavaleiro, embora ele não viesse a galope num corcel de arreios luxuosos.
"O que te fez ficar longe tanto tempo?" perguntou ela pouco depois, achando tão agradável fazer perguntas confidenciais e obter respostas deliciosas que não conseguia manter-se em silêncio.
"Não foi fácil, mas não tive coragem de te tirar daquela casa tão feliz até que pudesse ter uma perspetiva de uma para te dar, depois de muito tempo, talvez, e trabalho árduo. Como poderia pedir-te que renunciasses a tanto por um pobre velho, que não tem fortuna além de um pouco de saber?"
"Estou contente por seres pobre; não suportaria um marido rico", disse Jo decididamente, acrescentando, num tom mais suave: "Não temas a pobreza; conheço-a há tempo suficiente para perder o medo e ser feliz a trabalhar para aqueles que amo; e não te chames velho — os quarenta são o auge da vida. Não conseguiria evitar amar-te mesmo que tivesses setenta!"
O Professor achou aquilo tão comovente que teria ficado grato pelo seu lenço, se conseguisse alcançá-lo; como não conseguiu, Jo enxugou-lhe os olhos e disse, rindo, enquanto retirava um ou dois fardos:
"Posso ser independente, mas ninguém pode dizer que estou fora da minha esfera agora, pois a missão especial da mulher é supostamente enxugar lágrimas e carregar fardos. Vou carregar a minha parte, Friedrich, e ajudar a ganhar a casa. Decide-te quanto a isso, ou nunca irei", acrescentou ela resolutamente, enquanto ele tentava recuperar a sua carga.
"Veremos. Tens paciência para esperar muito tempo, Jo? Tenho de ir embora e fazer o meu trabalho sozinho. Tenho de ajudar os meus rapazes primeiro, porque, mesmo por ti, não posso quebrar a minha palavra à Minna. Podes perdoar isso e ser feliz enquanto esperamos e temos esperança?"
"Sim, sei que posso; porque nos amamos, e isso torna tudo o resto fácil de suportar. Tenho o meu dever, também, e o meu trabalho. Não conseguiria divertir-me se os negligenciasse, mesmo por ti, por isso não há necessidade de pressa ou impaciência. Tu podes fazer a tua parte no Oeste, eu posso fazer a minha aqui, e ambos ser felizes esperando pelo melhor, e deixando o futuro ser como Deus quiser."
"Ah! Tu dás-me tanta esperança e coragem, e eu não tenho nada para retribuir além de um coração cheio e destas mãos vazias", exclamou o Professor, completamente comovido.
Jo nunca, nunca aprenderia a ser propriamente composta; pois, quando ele disse aquilo enquanto estavam parados nos degraus, ela simplesmente pôs ambas as mãos nas dele, sussurrando ternamente: "Já não estão vazias"; e, inclinando-se, beijou o seu Friedrich debaixo do guarda-chuva. Era terrível, mas ela tê-lo-ia feito mesmo que o bando de pardais de cauda suja na sebe fossem seres humanos, pois ela estava muito apaixonada, de facto, e completamente indiferente a tudo, exceto à sua própria felicidade. Embora tenha surgido sob um aspeto tão simples, aquele foi o momento culminante da vida de ambos, quando, voltando-se da noite, da tempestade e da solidão para a luz, o calor e a paz da casa que esperavam para os receber, com um alegre "Bem-vindo a casa!", Jo conduziu o seu amado para dentro e fechou a porta.
XLVII.
TEMPO DE COLHEITA.
Durante um ano, Jo e o seu Professor trabalharam e esperaram, tiveram esperança e amaram, encontraram-se ocasionalmente e escreveram cartas tão volumosas que o aumento do preço do papel foi justificado, disse Laurie. O segundo ano começou um pouco sóbrio, pois as suas perspetivas não melhoraram, e a Tia March morreu subitamente. Mas quando o seu primeiro pesar passou — pois amavam a velha senhora apesar da sua língua afiada —, descobriram que tinham motivos para regozijo, pois ela tinha deixado Plumfield a Jo, o que tornou possíveis todo o tipo de coisas alegres.
"É um belo lugar antigo e renderá uma quantia considerável; pois, claro, pretendes vendê-lo", disse Laurie, enquanto discutiam o assunto, algumas semanas mais tarde.
"Não, não pretendo", foi a resposta decidida de Jo, enquanto acariciava o caniche gordo, que adotara em respeito pela sua antiga dona.
"Não tencionas viver lá?"
"Sim, tenciono."
"Mas, minha querida rapariga, é uma casa imensa e será preciso uma fortuna para a manter em ordem. O jardim e o pomar sozinhos precisam de dois ou três homens, e a agricultura não é a especialidade do Bhaer, suponho."
"Ele tentará a sua sorte lá, se eu o propuser."
"E esperas viver do que a terra produz? Bem, isso soa paradisíaco, mas vais achar um trabalho desesperadamente árduo."
"A colheita que vamos fazer é lucrativa"; e Jo riu-se.
"Em que consiste esta bela colheita, senhora?"
"Rapazes. Quero abrir uma escola para rapazes pequenos — uma escola boa, feliz e acolhedora, comigo a cuidar deles e o Fritz a ensiná-los."
"Eis um plano verdadeiramente 'Joiano' para ti! Não é mesmo a cara dela?" exclamou Laurie, apelando à família, que parecia tão surpreendida quanto ele.
"Gosto disso", disse a Sra. March decididamente.
"Eu também", acrescentou o seu marido, que via com agrado a ideia de uma oportunidade para experimentar o método socrático de educação na juventude moderna.
"Será um cuidado imenso para a Jo", disse Meg, afagando a cabeça do seu filho único e absorvente.
"A Jo consegue fazê-lo e ser feliz com isso. É uma ideia esplêndida. Conta-nos tudo sobre isso", exclamou o Sr. Laurence, que desejava ajudar os amantes, mas sabia que eles recusariam a sua ajuda.
"Eu sabia que estariam do meu lado, senhor. A Amy também está — vejo isso nos olhos dela, embora ela espere prudentemente para ponderar o assunto antes de falar. Agora, minhas queridas pessoas", continuou Jo seriamente, "apenas compreendam que esta não é uma ideia nova minha, mas um plano há muito acalentado. Antes de o meu Fritz chegar, costumava pensar como, quando tivesse feito fortuna e ninguém precisasse de mim em casa, alugaria uma casa grande e recolheria alguns rapazes pequenos, pobres e abandonados, que não tivessem mães, e cuidaria deles, e tornaria a vida divertida para eles antes que fosse tarde demais. Vejo tantos a arruinarem-se, por falta de ajuda no momento certo; adoro tanto fazer qualquer coisa por eles; parece que sinto as suas necessidades e simpatizo com os seus problemas, e, oh, gostaria tanto de ser uma mãe para eles!"
A Sra. March estendeu a mão a Jo, que a tomou, sorrindo, com lágrimas nos olhos, e continuou daquela forma entusiástica de antigamente, que não viam há muito tempo.
"Contei o meu plano ao Fritz uma vez, e ele disse que era exatamente o que ele gostaria, e concordou em tentá-lo quando ficássemos ricos. Abençoado seja o seu querido coração, ele tem feito isso toda a sua vida — ajudar rapazes pobres, quero dizer, não ficar rico; isso ele nunca será; o dinheiro não fica no bolso dele tempo suficiente para poupar nada. Mas agora, graças à minha boa velha tia, que me amou melhor do que alguma vez mereci, sou rica, ou pelo menos sinto-me assim, e podemos viver em Plumfield perfeitamente bem, se tivermos uma escola próspera. É o lugar ideal para rapazes, a casa é grande e o mobiliário é resistente e simples. Há espaço de sobra para dezenas dentro, e terrenos esplêndidos lá fora. Eles poderiam ajudar no jardim e no pomar: tal trabalho é saudável, não é, senhor? Depois, o Fritz pode treinar e ensinar à sua maneira, e o pai ajudá-lo-á. Eu posso alimentá-los, cuidar deles, mimá-los e ralhar-lhes; e a mãe será o meu apoio. Sempre desejei muitos rapazes e nunca tive o suficiente; agora posso encher a casa e deliciar-me com os queridos, para total satisfação do meu coração. Pensem que luxo — Plumfield minha, e um deserto de rapazes para desfrutar comigo!"
Enquanto Jo acenava com as mãos e dava um suspiro de êxtase, a família explodiu numa onda de alegria, e o Sr. Laurence riu-se até pensarem que teria um ataque apoplético.
"Não vejo nada de engraçado", disse ela gravemente, quando pôde ser ouvida. "Nada poderia ser mais natural ou apropriado do que o meu Professor abrir uma escola, e eu preferir residir na minha própria propriedade."
"Ela já está a armar-se", disse Laurie, que encarava a ideia como uma piada de primeira. "Mas posso perguntar como pretendes sustentar o estabelecimento? Se todos os alunos forem pequenos maltrapilhos, temo que a tua colheita não seja lucrativa num sentido mundano, Sra. Bhaer."
"Agora não sejas um estraga-prazeres, Teddy. Claro que terei alunos ricos também — talvez comece com esses; depois, quando tiver um começo, posso aceitar um ou dois maltrapilhos, apenas para dar um gosto. Os filhos de pessoas ricas frequentemente precisam de cuidado e conforto, tal como os pobres. Já vi criaturinhas infelizes deixadas a servos, ou as tímidas empurradas para a frente, quando é uma verdadeira crueldade. Alguns são malcriados devido a má gestão ou negligência, e alguns perdem as suas mães. Além disso, os melhores têm de passar pela idade ingrata, e esse é o preciso momento em que precisam de mais paciência e bondade. As pessoas riem-se deles, empurram-nos de um lado para o outro, tentam mantê-los fora da vista e esperam que se transformem, de repente, de crianças bonitas em belos jovens homens. Eles não se queixam muito — pequenas almas corajosas —, mas sentem-no. Eu passei por algo semelhante e sei tudo sobre isso. Tenho um interesse especial por esses jovens ursos, e gosto de lhes mostrar que vejo os corações de rapazes calorosos, honestos e bem-intencionados, apesar dos braços e pernas desajeitados e das cabeças confusas. Também tenho experiência, pois não criei um rapaz para ser o orgulho e a honra da sua família?"
"Testemunharei que tentaste fazê-lo", disse Laurie, com um olhar de gratidão.
"E tive sucesso para além das minhas esperanças; pois aqui estás tu, um empresário sensato e constante, fazendo montes de bem com o teu dinheiro e acumulando as bênçãos dos pobres, em vez de dólares. Mas não és apenas um empresário: amas as coisas boas e belas, desfrutas delas tu mesmo e deixas os outros partilhá-las, como sempre fizeste nos velhos tempos. Estou orgulhosa de ti, Teddy, pois ficas melhor a cada ano, e todos sentem isso, embora não deixes que o digam. Sim, e quando tiver o meu rebanho, apontarei para ti e direi: 'Eis o vosso modelo, meus rapazes'."
O pobre Laurie não sabia para onde olhar; pois, homem que era, algo da velha timidez apoderou-se dele quando este rasgo de elogios fez com que todos os rostos se voltassem aprovadoramente para ele.
"Digo-te, Jo, isso é demasiado", começou ele, exatamente da sua velha maneira juvenil. "Todos vós fizeste mais por mim do que alguma vez poderei agradecer, exceto fazendo o meu melhor para não vos desiludir. Tens-me deixado um pouco de lado ultimamente, Jo, mas tive a melhor ajuda, apesar de tudo; por isso, se cheguei até aqui, podes agradecer a estes dois por isso"; e colocou uma mão suavemente na cabeça branca do seu avô, a outra na dourada de Amy, pois os três nunca estavam longe um do outro.
"Penso mesmo que as famílias são as coisas mais belas de todo o mundo!" exclamou Jo, que estava num estado de espírito invulgarmente elevado naquela altura. "Quando eu tiver a minha própria, espero que seja tão feliz como as três que conheço e amo melhor. Se John e o meu Fritz estivessem aqui, seria um pequeno paraíso na terra", acrescentou ela mais calmamente. E naquela noite, quando foi para o seu quarto, após uma noite feliz de conselhos, esperanças e planos familiares, o seu coração estava tão cheio de felicidade que só o conseguiu acalmar ajoelhando-se ao lado da cama vazia, sempre perto da sua, e pensando pensamentos ternos sobre Beth.
Foi um ano muito surpreendente, no geral, pois as coisas pareciam acontecer de uma maneira invulgarmente rápida e deliciosa. Quase antes de saber onde estava, Jo viu-se casada e estabelecida em Plumfield. Depois, uma família de seis ou sete rapazes surgiu como cogumelos, e prosperou surpreendentemente, rapazes pobres assim como ricos; pois o Sr. Laurence encontrava continuamente algum caso comovente de miséria e implorava aos Bhaer que tivessem pena da criança, e ele pagaria alegremente uma ninharia pelo seu sustento. Desta forma, o astuto velho cavalheiro convenceu a orgulhosa Jo e forneceu-lhe o estilo de rapaz de que ela mais gostava.
Claro que foi um trabalho árduo no início, e Jo cometeu erros estranhos; mas o sábio Professor guiou-a em segurança para águas mais calmas, e o mais desenfreado maltrapilho foi conquistado no final. Como a Jo desfrutava do seu "deserto de rapazes", e como a pobre e querida Tia March teria lamentado se estivesse lá para ver os recintos sagrados da primorosa e bem organizada Plumfield invadidos por 'Toms', 'Dicks' e 'Harrys'! Havia uma espécie de justiça poética nisso, afinal, pois a velha senhora tinha sido o terror dos rapazes a quilómetros de distância; e agora os exilados banqueteavam-se livremente com ameixas proibidas, levantavam o cascalho com botas profanas sem serem repreendidos, e jogavam críquete no grande campo onde a irritável "vaca com o chifre dobrado" costumava convidar jovens imprudentes a vir para serem atirados pelo ar. Tornou-se uma espécie de paraíso dos rapazes, e Laurie sugeriu que fosse chamado de "Bhaer-garten", como um elogio ao seu mestre e apropriado aos seus habitantes.
Nunca foi uma escola da moda, e o Professor não acumulou uma fortuna; mas era exatamente o que Jo pretendia que fosse — "um lugar feliz e acolhedor para rapazes que precisassem de ensino, cuidado e bondade". Cada quarto na casa grande encheu-se rapidamente; cada pequeno pedaço no jardim logo teve o seu dono; um verdadeiro zoológico apareceu no celeiro e no abrigo, pois animais de estimação eram permitidos; e, três vezes por dia, Jo sorria para o seu Fritz da cabeceira de uma longa mesa ladeada de ambos os lados por filas de rostos jovens e felizes, que se voltavam todos para ela com olhos afetuosos, palavras confidentes e corações gratos, cheios de amor pela "Mãe Bhaer". Ela tinha rapazes que chegassem agora, e não se cansava deles, embora não fossem anjos, de forma alguma, e alguns deles causassem ao Professor e à Professora muitos problemas e ansiedade. Mas a sua fé no ponto bom que existe no coração do mais travesso, atrevido e provocador maltrapilho deu-lhe paciência, habilidade e, com o tempo, sucesso; pois nenhum rapaz mortal resistiria muito tempo com o Pai Bhaer a brilhar sobre ele tão benevolentemente como o sol, e a Mãe Bhaer a perdoar-lhe setenta vezes sete. Muito preciosa para Jo era a amizade dos rapazes; os seus fungadelas e sussurros penitentes após o mau comportamento; as suas pequenas confidências engraçadas ou comoventes; os seus agradáveis entusiasmos, esperanças e planos; até mesmo os seus infortúnios, pois apenas os tornavam ainda mais queridos para ela. Havia rapazes lentos e rapazes tímidos; rapazes débeis e rapazes irrequietos; rapazes que ceceavam e rapazes que gaguejavam; um ou dois coxos; e um alegre pequeno quadroon, que não podia ser aceite em mais lado nenhum, mas que era bem-vindo ao "Bhaer-garten", embora algumas pessoas previssem que a sua admissão arruinaria a escola.
Sim; Jo era uma mulher muito feliz ali, apesar do trabalho árduo, de muita ansiedade e de uma agitação perpétua. Ela desfrutava de tudo de coração e achava os aplausos dos seus rapazes mais satisfatórios do que qualquer elogio do mundo; pois agora ela não contava histórias exceto para o seu rebanho de entusiastas crentes e admiradores. À medida que os anos passavam, dois pequenos rapazes seus vieram aumentar a sua felicidade — Rob, nomeado em homenagem ao avô, e Teddy, um bebé despreocupado, que parecia ter herdado o temperamento alegre do papá, assim como o espírito vivo da sua mãe. Como eles cresceram vivos naquele turbilhão de rapazes era um mistério para a sua avó e tias; mas floresciam como dentes-de-leão na primavera, e as suas enfermeiras rudimentares amavam-nos e serviam-nos bem.
Havia muitos feriados em Plumfield, e um dos mais deliciosos era a colheita anual de maçãs; pois então os March, os Laurence, os Brooke e os Bhaer saíam em força e faziam daquele um dia memorável. Cinco anos após o casamento de Jo, um destes festivais frutíferos ocorreu — um dia suave de outubro, quando o ar estava cheio de uma frescura revigorante que fazia o espírito elevar-se e o sangue dançar saudavelmente nas veias. O velho pomar usava o seu traje de festa; varas-de-ouro e ásteres adornavam os muros cobertos de musgo; gafanhotos saltavam vivamente na erva seca, e grilos chilreavam como tocadores de flauta de fadas num banquete; esquilos estavam ocupados com a sua pequena colheita; pássaros chilreavam os seus adeus dos amieiros na vereda; e cada árvore estava pronta para enviar a sua chuva de maçãs vermelhas ou amarelas ao primeiro sacudir. Estava toda a gente lá; toda a gente ria e cantava, subia e caía; toda a gente declarava que nunca tinha havido um dia tão perfeito ou um grupo tão divertido para o desfrutar; e todos entregavam-se aos prazeres simples da hora tão livremente como se não existissem coisas como o cuidado ou o pesar no mundo.
O Sr. March passeava placidamente, citando Tusser, Cowley e Columella ao Sr. Laurence, enquanto desfrutava —
"Do suave sumo vínico da maçã."
O Professor avançava pelos corredores verdes como um robusto cavaleiro teutónico, com uma vara como lança, liderando os rapazes, que formavam uma companhia de ganchos e escadas, e realizavam maravilhas em termos de acrobacias. Laurie dedicava-se aos mais pequenos, andava com a sua pequena filha num cesto, levava a Daisy até aos ninhos dos pássaros e impedia o aventureiro Rob de partir o pescoço. A Sra. March e Meg sentavam-se entre as pilhas de maçãs como um par de Pomonas, selecionando as contribuições que continuavam a chegar; enquanto Amy, com uma bela expressão maternal no rosto, desenhava os vários grupos e vigiava um rapaz pálido, que se sentava a adorá-la com a sua pequena muleta ao lado.
Jo estava no seu elemento naquele dia e corria de um lado para o outro, com o vestido preso, o chapéu em qualquer lugar menos na cabeça, e o bebé debaixo do braço, pronta para qualquer aventura animada que pudesse surgir. O pequeno Teddy tinha uma vida protegida, pois nada acontecia com ele, e Jo nunca sentia qualquer ansiedade quando ele era levantado para uma árvore por um rapaz, galopava nas costas de outro, ou era alimentado com maçãs ácidas pelo seu indulgente papá, que laborava sob a ilusão germânica de que os bebés podiam digerir qualquer coisa, desde couve em conserva a botões, pregos e os seus próprios sapatos pequenos. Ela sabia que o pequeno Ted reapareceria a tempo, seguro e rosado, sujo e sereno, e recebia-o sempre de volta com um caloroso acolhimento, pois Jo amava os seus bebés ternamente.
Às quatro horas houve uma pausa, e os cestos permaneceram vazios, enquanto os apanhadores de maçãs descansavam e comparavam arranhões e nódoas negras. Então Jo e Meg, com um destacamento dos rapazes maiores, prepararam o lanche na relva, pois um chá ao ar livre era sempre a alegria culminante do dia. A terra literalmente fluía com leite e mel nessas ocasiões, pois não era exigido aos rapazes que se sentassem à mesa, mas permitia-se que se refrescassem como quisessem — sendo a liberdade o molho mais amado pela alma juvenil. Eles aproveitaram o raro privilégio ao máximo, pois alguns tentaram a agradável experiência de beber leite enquanto estavam de cabeça para baixo, outros davam um charme ao jogo de saltar por cima dos outros comendo tarte nos intervalos do jogo, biscoitos eram semeados por todo o campo, e empadas de maçã empoleiravam-se nas árvores como um novo estilo de pássaro. As meninas pequenas tinham uma festa de chá privada, e Ted vagueava entre as iguarias segundo a sua própria vontade.
Quando ninguém conseguia comer mais, o Professor propôs o primeiro brinde regular, que era sempre bebido nessas ocasiões — "Tia March, que Deus a abençoe!" Um brinde dado calorosamente pelo bom homem, que nunca esquecia o quanto lhe devia, e bebido silenciosamente pelos rapazes, que tinham sido ensinados a manter a sua memória viva.
"Agora, o sexagésimo aniversário da avó! Longa vida a ela, com três vezes três!"
Isso foi dado de boa vontade, como bem podeis acreditar; e, uma vez iniciado o vivas, foi difícil pará-lo. Propôs-se a saúde de todos, desde o Sr. Laurence, que era considerado o seu patrono especial, até ao porquinho-da-índia, que estava estupefacto e que se tinha afastado da sua esfera própria em busca do seu jovem mestre. Demi, como o neto mais velho, apresentou então à rainha do dia vários presentes, tão numerosos que foram transportados para o local festivo num carrinho de mão. Presentes engraçados, alguns deles, mas o que seriam defeitos para outros olhos eram adornos para os da avó — pois as dádivas das crianças eram todas suas. Cada ponto que os pacientes dedinhos de Daisy tinham dado nos lenços que ela embainhou era melhor do que bordado para a Sra. March; a caixa de sapatos de Demi era um milagre de perícia mecânica, embora a tampa não fechasse; o banco para os pés de Rob tinha um balanço nas suas pernas irregulares, que ela declarou ser muito reconfortante; e nenhuma página do livro dispendioso que o filho de Amy lhe deu era tão bela como aquela em que apareciam, em maiúsculas trôpegas, as palavras: "Para a querida Avó, da sua pequena Beth."
Durante esta cerimónia, os rapazes tinham desaparecido misteriosamente; e, quando a Sra. March tentou agradecer aos filhos e se deixou levar pela emoção, enquanto Teddy limpava os olhos com o seu avental, o Professor começou subitamente a cantar. Então, acima dele, voz após voz retomou as palavras, e de árvore em árvore ecoou a música do coro invisível, enquanto os rapazes cantavam, com todo o coração, a pequena canção que Jo tinha escrito, Laurie tinha musicado e o Professor tinha ensinado aos seus rapazes a entoar com o melhor efeito. Isto era algo totalmente novo, e revelou-se um grande sucesso; pois a Sra. March não conseguia ultrapassar o seu espanto e insistiu em apertar a mão a cada um dos pássaros sem penas, desde os altos Franz e Emil até ao pequeno quadrumano, que tinha a voz mais doce de todas.
Após isto, os rapazes dispersaram-se para uma última brincadeira, deixando a Sra. March e as suas filhas debaixo da árvore do festival.
"Não creio que deva voltar a chamar-me 'Jo Azarada', quando o meu maior desejo foi tão belamente satisfeito", disse a Sra. Bhaer, tirando o pequeno punho de Teddy do jarro de leite, onde ele agitava entusiasticamente.
"E, no entanto, a tua vida é muito diferente daquela que imaginaste há tanto tempo. Lembras-te dos nossos castelos no ar?" perguntou Amy, sorrindo enquanto observava Laurie e John a jogar críquete com os rapazes.
"Queridos! Faz bem ao meu coração vê-los esquecer os negócios e brincar por um dia", respondeu Jo, que agora falava de toda a humanidade de uma forma maternal. "Sim, lembro-me; mas a vida que eu queria então parece-me agora egoísta, solitária e fria. Não desisti da esperança de ainda poder escrever um bom livro, mas posso esperar, e tenho a certeza de que será muito melhor graças a experiências e ilustrações como estas;" e Jo apontou dos rapazes animados à distância para o seu pai, apoiado no braço do Professor, enquanto caminhavam de um lado para o outro ao sol, imersos numa das conversas que ambos tanto apreciavam, e depois para a sua mãe, sentada entronizada entre as suas filhas, com os netos no colo e aos seus pés, como se todos encontrassem ajuda e felicidade no rosto que nunca poderia envelhecer para eles.
"O meu castelo foi o que mais perto esteve de se realizar. Pedi coisas esplêndidas, é certo, mas no meu coração sabia que ficaria satisfeita se tivesse um pequeno lar, o John e alguns filhos queridos como estes. Tenho-os a todos, graças a Deus, e sou a mulher mais feliz do mundo;" e Meg pousou a mão na cabeça do seu filho alto, com um rosto cheio de terna e devota satisfação.
"O meu castelo é muito diferente do que planeei, mas não o alteraria, embora, como a Jo, não abdique de todas as minhas esperanças artísticas, nem me limite a ajudar os outros a realizar os seus sonhos de beleza. Comecei a modelar uma figura do bebé, e o Laurie diz que é a melhor coisa que já fiz. Eu própria penso o mesmo, e pretendo fazê-la em mármore, para que, aconteça o que acontecer, possa pelo menos guardar a imagem do meu pequeno anjo."
Enquanto Amy falava, uma grande lágrima caiu sobre o cabelo dourado da criança que dormia nos seus braços; pois a sua única filha bem-amada era uma criaturinha frágil e o medo de a perder era a sombra sobre o sol de Amy. Esta cruz estava a fazer muito tanto pelo pai como pela mãe, pois um amor e uma tristeza uniam-nos estreitamente. A natureza de Amy estava a tornar-se mais doce, mais profunda e mais terna; Laurie estava a tornar-se mais sério, forte e firme; e ambos estavam a aprender que a beleza, a juventude, a boa fortuna, e até o próprio amor, não podem impedir que o cuidado e a dor, a perda e o sofrimento, atinjam os mais abençoados; pois...
"Na vida de cada um, alguma chuva deve cair, Alguns dias devem ser escuros, tristes e sombrios."
"Ela está a melhorar, tenho a certeza disso, minha querida. Não desanimes, mas tem esperança e mantém-te feliz", disse a Sra. March, enquanto a terna Daisy se inclinava do seu joelho para encostar a sua bochecha rosada à da sua pequena prima pálida.
"Nunca deveria desanimar, enquanto tiver a ti para me animar, Mamã, e o Laurie para assumir mais de metade de cada fardo", respondeu Amy calorosamente. "Ele nunca me deixa ver a sua ansiedade, mas é tão doce e paciente comigo, tão dedicado à Beth, e um apoio e conforto para mim sempre, que não o consigo amar o suficiente. Por isso, apesar da minha única cruz, posso dizer com a Meg: 'Graças a Deus, sou uma mulher feliz'."
"Não há necessidade de eu o dizer, pois todos podem ver que sou muito mais feliz do que mereço", acrescentou Jo, lançando um olhar do seu bom marido para os seus filhos rechonchudos, que rebolavam na relva ao seu lado. "O Fritz está a ficar grisalho e corpulento; eu estou a ficar fina como uma sombra, e tenho trinta anos; nunca seremos ricos, e Plumfield pode arder numa noite qualquer, pois aquele incorrigível Tommy Bangs insiste em fumar charutos de feto debaixo dos lençóis, embora já se tenha incendiado três vezes. Mas, apesar destes factos pouco românticos, não tenho nada de que me queixar e nunca fui tão alegre na minha vida. Desculpai a observação, mas vivendo entre rapazes, não consigo evitar usar as suas expressões de vez em quando."
"Sim, Jo, penso que a tua colheita será boa", começou a Sra. March, espantando um grande grilo preto que estava a encarar Teddy.
"Nem metade tão boa quanto a tua, mãe. Ei-la, e nunca te poderemos agradecer o suficiente pela sementeira e colheita pacientes que fizeste", exclamou Jo, com a impetuosidade amorosa que ela nunca conseguiu superar.
"Espero que haja mais trigo e menos joio a cada ano", disse Amy suavemente.
"Um molho grande, mas sei que há lugar no teu coração para ele, querida Mamã", acrescentou a voz terna de Meg.
Comovida até ao coração, a Sra. March só pôde estender os braços, como se quisesse reunir filhos e netos a si, e dizer, com o rosto e a voz cheios de amor maternal, gratidão e humildade:
"Ó, minhas filhas, por muito que vivam, nunca vos poderei desejar uma felicidade maior do que esta!"
E assim terminou o dia de Natal. O sol pôs-se, as estrelas brilharam no céu sereno e, dentro da casa, o ar estava cheio de paz, amor e gratidão. Não houve grandes festas, nem luxos dispendiosos; apenas a simplicidade de um lar onde o afeto era a moeda corrente. As meninas sentiam-se felizes pelo que tinham dado e, ainda mais, pelo que tinham recebido — não em bens materiais, mas na certeza de que a união da família era o seu maior tesouro. A lareira ardia com um brilho acolhedor, enquanto, à sua volta, as recordações daquele dia ficariam gravadas para sempre nas suas memórias. Cada uma, à sua maneira, refletia sobre as lições aprendidas e sobre as promessas que, silenciosamente, fizeram a si mesmas para serem cada vez mais dignas daquela alegria partilhada. O sono chegou cedo, trazendo consigo a tranquilidade de quem cumpriu o seu papel com um coração puro, preparando-se para o novo dia que, certamente, lhes traria mais desafios e, com eles, a oportunidade de continuar a crescer, sempre juntas, sob o olhar atento e amoroso da mãe.