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Love and Freindship [sic]

by Jane Austen · in Portuguese

AMOR & AMIZADE E OUTRAS OBRAS DA JUVENTUDE

Uma Coleção de Escritos Juvenis

Por Jane Austen

CONTEÚDO

AMOR E AMIZADE CARTA PRIMEIRA De ISABEL para LAURA CARTA 2ª LAURA para ISABEL CARTA 3ª LAURA para MARIANNE CARTA 4ª Laura para MARIANNE CARTA 5ª LAURA para MARIANNE CARTA 6ª LAURA para MARIANNE CARTA 7ª LAURA para MARIANNE CARTA 8ª LAURA para MARIANNE, em continuação CARTA 9ª Da mesma para a mesma CARTA 10ª LAURA em continuação CARTA 11ª LAURA em continuação CARTA 12ª LAURA em continuação CARTA 13ª LAURA em continuação CARTA 14ª LAURA em continuação CARTA 15ª LAURA em continuação.

UM ROMANCE INACABADO EM CARTAS LESLEY CASTLE CARTA PRIMEIRA da Srta. MARGARET LESLEY para a Srta. CHARLOTTE LUTTERELL CARTA SEGUNDA Da Srta. C. LUTTERELL para a Srta. M. LESLEY em resposta. CARTA TERCEIRA Da Srta. MARGARET LESLEY para a Srta. C. LUTTERELL CARTA QUARTA Da Srta. C. LUTTERELL para a Srta. M. LESLEY CARTA QUINTA Da Srta. MARGARET LESLEY para a Srta. CHARLOTTE LUTTERELL CARTA SEXTA LADY LESLEY para a Srta. CHARLOTTE LUTTERELL CARTA SÉTIMA Da Srta. C. LUTTERELL para a Srta. M. LESLEY CARTA OITAVA Da Srta. LUTTERELL para a Sra. MARLOWE CARTA NONA Da Sra. MARLOWE para a Srta. LUTTERELL CARTA DÉCIMA Da Srta. MARGARET LESLEY para a Srta. CHARLOTTE LUTTERELL

A HISTÓRIA DA INGLATERRA

UMA COLEÇÃO DE CARTAS Para a Srta. COOPER CARTA PRIMEIRA De uma MÃE para sua AMIGA. CARTA SEGUNDA De uma JOVEM DAMA contrariada no Amor para sua amiga CARTA TERCEIRA De uma JOVEM DAMA em Circunstâncias aflitivas para sua amiga CARTA QUARTA De uma JOVEM DAMA um tanto impertinente para sua amiga CARTA QUINTA De uma JOVEM DAMA muito apaixonada para sua Amiga

A FILÓSOFA FEMININA

O PRIMEIRO ATO DE UMA COMÉDIA

UMA CARTA de uma JOVEM DAMA, cujos sentimentos sendo intensos demais UM PASSEIO PELO PAÍS DE GALES — em uma CARTA de uma JOVEM DAMA —

UM CONTO.

AMOR E AMIZADE

À MADAME LA COMTESSE DE FEUILLIDE ESTE ROMANCE É DEDICADO POR SUA OBRIGADA HUMILDE SERVIDORA A AUTORA.

“Enganada na Amizade e Traída no Amor.”

CARTA PRIMEIRA De ISABEL para LAURA

Quantas vezes, em resposta aos meus repetidos rogos para que desses à minha Filha uma descrição detalhada das Infortúnios e Aventuras da tua Vida, disseste “Não, minha amiga, jamais atenderei ao teu pedido até que eu não corra mais o Risco de sofrer novamente tais horrores.”

Certamente esse tempo está agora próximo. Tens hoje 55 anos. Se alguma vez se pode dizer que uma mulher está a salvo da Perseverança determinada de Amantes desagradáveis e das perseguições cruéis de Pais obstinados, certamente deve ser a tal altura da Vida.

Isabel

CARTA 2ª LAURA para ISABEL

Embora eu não possa concordar contigo ao supor que jamais serei exposta novamente a Infortúnios tão imerecidos quanto aqueles que já vivenciei, contudo, para evitar a imputação de Obstinação ou má vontade, satisfarei a curiosidade da tua filha; e que a fortaleza com que sofri as muitas aflições da minha vida passada sirva para ela como uma lição útil para suportar aquelas que possam sobrevir na sua própria.

Laura

CARTA 3ª LAURA para MARIANNE

Como Filha da minha mais íntima amiga, considero-te com direito a aquele conhecimento da minha triste história que a tua Mãe tantas vezes me solicitou que te desse.

Meu Pai era natural da Irlanda e habitante do País de Gales; minha Mãe era a Filha natural de um Par escocês com uma cantora de Ópera italiana — nasci na Espanha e recebi minha Educação num Convento na França.

Quando cheguei aos dezoito anos, fui chamada de volta pelos meus Pais para o meu teto paterno no País de Gales. Nossa mansão estava situada numa das partes mais românticas do Vale de Uske. Embora meus Encantos estejam agora consideravelmente suavizados e um tanto prejudicados pelos Infortúnios que sofri, já fui bela. Mas, adorável como eu era, as Graças da minha Pessoa eram a menor das minhas Perfeições. De todo talento costumeiro ao meu sexo, eu era Mestra. Quando no Convento, meu progresso sempre excedera minhas instruções, minhas Aquisições foram maravilhosas para a minha idade, e em pouco tempo superei meus Mestres.

Em minha Mente, concentrava-se toda Virtude que a pudesse adornar; era o Ponto de encontro de toda boa Qualidade e de todo sentimento nobre.

Uma sensibilidade viva demais, tremulamente atenta a toda aflição das minhas Amigas, dos meus Conhecidos e, particularmente, a toda aflição minha, era meu único defeito, se é que se pode chamar de defeito. Ai de mim! quão alterada estou agora! Embora, na verdade, meus próprios Infortúnios não causem menos impressão em mim do que sempre causaram, contudo agora nunca sinto pelos dos outros. Meus talentos também começam a desvanecer — já não sei cantar tão bem nem Dançar com tanta graça como outrora — e esqueci inteiramente o _Minuet Dela Cour_.

Adeus. Laura.

CARTA 4ª LAURA para MARIANNE

Nossa vizinhança era pequena, pois consistia apenas na tua Mãe. Ela provavelmente já te contou que, tendo sido deixada pelos seus Pais em Circunstâncias indigentes, retirara-se para o País de Gales por motivos econômicos. Foi lá que nossa amizade começou. Isabel tinha então vinte e um anos. Embora agradável tanto na Pessoa quanto nos Modos (entre nós), ela nunca possuiu a centésima parte da minha Beleza ou dos meus Talentos. Isabel vira o Mundo. Passara 2 anos num dos melhores internatos de Londres; passara uma quinzena em Bath e ceára uma noite em Southampton.

“Cuidado, minha Laura (ela costumava dizer), Cuidado com as vaidades insípidas e as Dissipações ociosas da Metrópole da Inglaterra; Cuidado com os Luxos sem sentido de Bath e com o peixe fedorento de Southampton.”

“Ai de mim! (exclamei eu) como hei de evitar esses males aos quais jamais serei exposta? Que probabilidade existe de eu algum dia provar as Dissipações de Londres, os Luxos de Bath ou o Peixe fedorento de Southampton? Eu, que estou condenada a desperdiçar meus Dias de Juventude e Beleza numa humilde Cabana no Vale de Uske.”

Ah! pouco eu pensava então que estava destinada a deixar tão cedo aquela humilde Cabana pelos Prazeres Enganosos do Mundo.

Adeus. Laura.

CARTA 5ª LAURA para MARIANNE

Certa noite de dezembro, enquanto meu Pai, minha Mãe e eu estávamos dispostos em conversa social ao redor da nossa Lareira, ficamos de repente muito espantados ao ouvir um bater violento na porta externa da nossa rústica Cabana.

Meu Pai sobressaltou-se — “Que ruído é esse,” (disse ele). “Soa como um forte bater na porta” — (respondeu minha Mãe). “Soa, de fato.” (gritei eu). “Sou da tua opinião; (disse meu Pai) certamente parece proceder de alguma violência incomum exercida contra a nossa porta inofensiva.” “Sim (exclamei eu) não posso deixar de pensar que deve ser alguém que bate para pedir entrada.”

“Esse é outro ponto (respondeu ele); Não devemos pretender determinar com que motivo a pessoa bate — embora que alguém bata à porta, estou parcialmente convencido.”

Aqui, uma 2ª batida tremenda interrompeu meu Pai no seu discurso, e alarmou um pouco minha Mãe e a mim.

“Não seria melhor irmos ver quem é? (disse ela) os criados estão fora.” “Acho que seria.” (respondi eu). “Certamente, (acrescentou meu Pai) por todos os meios.” “Vamos agora?” (disse minha Mãe), “Quanto antes, melhor.” (respondeu ele). “Oh! não percamos tempo” (gritei eu).

Uma terceira Batida, mais violenta do que nunca, assaltou novamente nossos ouvidos. “Tenho certeza de que há alguém batendo à Porta.” (disse minha Mãe). “Acho que deve haver,” (respondeu meu Pai) “Imagino que os criados retornaram; (disse eu) acho que ouço Mary indo à Porta.” “Estou contente com isso (exclamou meu Pai) pois anseio saber quem é.”

Eu estava certa na minha conjectura; pois Mary, entrando instantaneamente na Sala, informou-nos que um jovem Cavalheiro e seu Criado estavam à porta, que tinham perdido o caminho, estavam com muito frio e pediam licença para se aquecerem junto à nossa lareira.

“Não os admitirão?” (disse eu). “Não tens objeção, minha Querida?” (disse meu Pai). “Nenhuma no Mundo.” (respondeu minha Mãe).

Mary, sem esperar por mais ordens, deixou imediatamente a sala e retornou rapidamente, introduzindo o mais belo e amável Jovem que eu já tinha contemplado. O criado ela manteve para si.

Minha sensibilidade natural já tinha sido muito afetada pelos sofrimentos do infeliz estranho e, não mais cedo o contemplei, do que senti que dele dependeria a felicidade ou a Miséria da minha vida futura.

Adeus. Laura.

CARTA 6ª LAURA para MARIANNE

O nobre Jovem informou-nos que seu nome era Lindsay — por razões particulares, no entanto, ocultá-lo-ei sob o de Talbot. Contou-nos que era filho de um Baronete inglês, que sua Mãe falecera há muitos anos e que tinha uma Irmã de estatura média. “Meu Pai (continuou ele) é um miserável mesquinho e mercenário — é apenas a tão particulares amigos como este Querido Grupo que revelaria suas falhas. Suas Virtudes, meu amável Polydore (dirigindo-se ao meu pai), as tuas, Querida Claudia, e as tuas, minha Encantadora Laura, pedem-me que deposite em vós a minha confiança.” Nós nos curvamos. “Meu Pai, seduzido pelo brilho falso da Fortuna e pela Pompa Iludente do Título, insistiu que eu desse minha mão à Lady Dorothea. Não, jamais, exclamei eu. Lady Dorothea é adorável e Envolvente; não prefiro nenhuma mulher a ela; mas saiba, Senhor, que desprezo casar-me com ela em conformidade com seus Desejos. Não! Jamais será dito que obriguei meu Pai.”

Todos admiramos a nobre Virilidade da sua resposta. Ele continuou.

“Sir Edward ficou surpreso; talvez não esperasse encontrar uma oposição tão vigorosa à sua vontade. “Onde, Edward, em nome dos céus (disse ele) apanhaste este palavreado sem sentido? Suspeito que tenhas estado a estudar Romances.” Desprezei responder: teria sido abaixo da minha dignidade. Montei no meu Cavalo e, seguido pelo meu fiel William, parti para casa das minhas tias.”

“A casa do meu Pai está situada em Bedfordshire, a da minha Tia em Middlesex, e embora eu me lisonjeie de ser um proficiente tolerável em Geografia, não sei como aconteceu, mas encontrei-me a entrar neste belo Vale, que descobri ser no Sul do País de Gales, quando esperava ter chegado à casa das minhas tias.”

“Depois de ter vagueado algum tempo pelas Margens do Uske sem saber para onde ir, comecei a lamentar o meu Destino cruel da maneira mais amarga e patética. Estava agora perfeitamente escuro, não havia uma única estrela para dirigir meus passos, e não sei o que me teria acontecido se não tivesse finalmente discernido através da Sombra solene que me cercava uma luz distante, a qual, ao aproximar-me, descobri ser o brilho alegre da vossa lareira. Impelido pela combinação de Infortúnios sob os quais eu padecia, a saber, Medo, Frio e Fome, não hesitei em pedir entrada, a qual finalmente ganhei; e agora, minha Adorável Laura (continuou ele, tomando minha Mão), quando poderei esperar receber aquela recompensa de todos os sofrimentos dolorosos que suportei durante o curso do meu apego a ti, a que sempre aspirei. Oh! quando me recompensarás com Ti mesma?”

“Neste instante, Querido e Amável Edward.” (respondi eu). Fomos imediatamente unidos pelo meu Pai, que, embora nunca tivesse recebido ordens, fora criado para a Igreja.

Adeus. Laura.

CARTA 7ª LAURA para MARIANNE

Permanecemos apenas alguns dias após nosso Casamento no Vale de Uske. Após tomar uma despedida afetuosa do meu Pai, da minha Mãe e da minha Isabel, acompanhei Edward até à casa da sua Tia em Middlesex. Philippa recebeu-nos a ambos com todas as expressões de Amor afetuoso. Minha chegada foi, na verdade, uma surpresa muito agradável para ela, pois não só ignorava totalmente meu Casamento com seu Sobrinho, como nunca tivera a menor ideia de que houvesse tal pessoa no Mundo.

Augusta, a irmã de Edward, estava em visita a ela quando chegamos. Achei-a exatamente o que seu Irmão descrevera — de estatura média. Recebeu-me com surpresa igual, embora não com igual Cordialidade que Philippa. Havia uma frieza desagradável e uma Reserva Repulsiva na sua recepção a mim, o que foi igualmente angustiante e Inesperado. Nada daquela sensibilidade interessante ou simpatia amável nos seus modos e Tratamento para comigo, quando nos conhecemos pela primeira vez, que deveria ter distinguido nossa apresentação uma à outra. Sua Linguagem não era nem calorosa nem afetuosa, suas expressões de estima não eram nem animadas nem cordiais; seus braços não foram abertos para receber-me em seu Coração, embora os meus estivessem estendidos para apertá-la contra o meu.

Uma curta Conversa entre Augusta e seu Irmão, que ouvi acidentalmente, aumentou minha antipatia por ela e convenceu-me de que seu Coração não fora mais formado para os suaves laços do Amor do que para o relacionamento carinhoso da Amizade.

“Mas pensas que meu Pai algum dia se reconciliará com esta conexão imprudente?” (disse Augusta).

“Augusta (respondeu o nobre Jovem) pensei que tivesses uma opinião melhor de mim do que imaginar que eu me degradaria tão abjetamente ao ponto de considerar a Concordância do meu Pai em qualquer dos meus negócios como sendo de Consequência ou preocupação para mim. Dize-me, Augusta, com sinceridade; alguma vez me viste consultar as suas inclinações ou seguir o seu Conselho no mais insignificante Particular desde os quinze anos?”

“Edward (respondeu ela) és certamente modesto demais no teu próprio elogio. Desde os quinze anos apenas! Meu Querido Irmão, desde os cinco anos de idade, absolvo-te inteiramente de teres contribuído voluntariamente para a satisfação do teu Pai. Mas ainda assim não estou sem receios de que sejas obrigado em breve a degradar-te aos teus próprios olhos, buscando um apoio para a tua esposa na Generosidade de Sir Edward.”

“Jamais, jamais Augusta, eu me rebaixarei tanto. (disse Edward). Apoio! Que apoio precisará Laura que possa receber dele?”

“Apenas aqueles apoios insignificantes de Comida e Bebida.” (respondeu ela).

“Comida e Bebida! (respondeu meu Marido de uma maneira nobremente desdenhosa) e imaginas tu então que não há outro apoio para uma mente exaltada (tal como a da minha Laura) do que o emprego vil e indelicado de Comer e Beber?”

“Nenhum que eu conheça, tão eficaz.” (retrucou Augusta).

“E nunca sentiste então as dores prazerosas do Amor, Augusta? (respondeu meu Edward). Parece impossível ao teu paladar vil e corrompido, existir apenas de Amor? Não consegues conceber o Luxo de viver em toda a angústia que a Pobreza pode infligir, com o objeto do teu mais terno afeto?”

“És ridículo demais (disse Augusta) para argumentar; talvez, no entanto, possas a seu tempo ser convencido de que...”

Aqui fui impedida de ouvir o restante do seu discurso pelo aparecimento de uma Jovem muito Bonita, que foi introduzida na Sala na porta da qual eu estava a escutar. Ao ouvi-la ser anunciada pelo nome de “Lady Dorothea”, deixei instantaneamente meu Posto e segui-a para a Sala de Estar, pois lembrava-me bem de que ela era a Dama proposta como Esposa para o meu Edward pelo Cruel e Inexorável Baronete.

Embora a visita de Lady Dorothea fosse nominalmente a Philippa e Augusta, contudo tenho alguma razão para imaginar que (conhecedora do Casamento e da chegada de Edward) ver-me fosse um motivo principal para ela.

Logo percebi que, embora Adorável e Elegante na sua Pessoa e embora Fácil e Polida no seu Tratamento, ela era daquela ordem inferior de Seres no que diz respeito a Sentimento Delicado, sentimentos ternos e sensibilidade refinada, da qual Augusta era uma.

Ela ficou apenas meia hora e nem no decorrer da sua Visita confiou-me qualquer dos seus pensamentos secretos, nem solicitou que eu confiasse a ela qualquer dos Meus. Imaginarás facilmente, portanto, minha Querida Marianne, que não pude sentir qualquer afeição ardente ou apego muito sincero por Lady Dorothea.

Adeus. Laura.

CARTA 8ª LAURA para MARIANNE, em continuação

Lady Dorothea não nos deixara há muito tempo quando outra visitante, tão inesperada quanto sua Ladyshipp, foi anunciada. Era Sir Edward, que, informado por Augusta do casamento do seu Irmão, veio indubitavelmente repreendê-lo por ter ousado unir-se a mim sem o seu Conhecimento. Mas Edward, prevendo seu desígnio, aproximou-se dele com fortaleza heroica assim que ele entrou na Sala, e dirigiu-se a ele da seguinte Maneira.

“Sir Edward, sei o motivo da sua Viagem até aqui — O senhor vem com o desígnio vil de me repreender por ter firmado um compromisso indissolúvel com a minha Laura sem o seu Consentimento. Mas Senhor, glorio-me do Ato—. É o meu maior orgulho ter incorrido no desagrado do meu Pai!”

Dizendo isto, ele tomou minha mão e, enquanto Sir Edward, Philippa e Augusta refletiam indubitavelmente com admiração sobre sua Bravura intrépida, conduziu-me da Sala de Estar para a Carruagem do seu Pai que ainda permanecia à Porta e na qual fomos instantaneamente levados da perseguição de Sir Edward.

Os Postilhões tinham inicialmente recebido ordens apenas para tomar a estrada de Londres; assim que refletimos o suficiente, contudo, ordenamos que nos Levassem para M——. a residência do amigo mais particular de Edward, que ficava a apenas alguns quilômetros de distância.

Em M——. chegamos em poucas horas; e, ao enviar nossos nomes, fomos imediatamente admitidos junto de Sophia, a Esposa do amigo de Edward. Após ter sido privada durante o curso de 3 semanas de uma verdadeira amiga (pois tal termo uso para a tua Mãe) imagina os meus transportes ao contemplar uma, verdadeiramente digna do Nome. Sophia era um pouco acima da estatura média; formada de maneira muito elegante. Um languor suave espalhava-se sobre seus traços adoráveis, mas aumentava sua Beleza—. Era a Característica da sua Mente—. Ela era toda sensibilidade e Sentimento. Voamos para os braços uma da outra e, após termos trocado votos de Amizade mútua pelo resto de nossas Vidas, desvendamos instantaneamente uma à outra os segredos mais íntimos de nossos Corações—. Fomos interrompidas na encantadora Ocupação pela entrada de Augustus, (amigo de Edward) que acabara de regressar de uma caminhada solitária.

Nunca vi tal Cena comovente como foi o encontro de Edward e Augustus.

“Minha Vida! minha Alma!” (exclamou o primeiro) “Meu anjo adorável!” (respondeu o último) enquanto voavam para os braços um do outro. Era patético demais para os sentimentos de Sophia e meus — Desmaiamos alternadamente num sofá.

Adeus Laura.

CARTA 9ª Da mesma para a mesma

Perto do final do dia recebemos a seguinte Carta de Philippa.

“Sir Edward está muito irritado com a vossa partida abrupta; ele levou de volta Augusta para Bedfordshire. Por mais que eu deseje desfrutar novamente da vossa encantadora companhia, não posso determinar arrebatar-vos da de tão queridos e merecedores Amigos — Quando a vossa Visita a eles estiver terminada, confio que retornareis aos braços da vossa”

“Philippa.”

Demos uma resposta apropriada a este afetuoso Bilhete e, após agradecer-lhe pelo seu amável convite, asseguramo-lhe de que certamente aproveitaríamos o mesmo, sempre que não tivéssemos outro lugar para onde ir. Embora, certamente, nada pudesse ter parecido mais satisfatório, para qualquer Ser razoável, do que uma resposta tão grata ao seu convite, não sei como foi, mas ela certamente teve o capricho de ficar descontente com o nosso comportamento e, algumas semanas depois, seja para vingar a nossa Conduta, ou para aliviar a sua própria solidão, casou-se com um caçador de fortunas jovem e iletrado. Este passo imprudente (embora estivéssemos cientes de que provavelmente nos privaria daquela fortuna que Philippa sempre nos ensinara a esperar) não pôde, por nossa própria conta, arrancar das nossas mentes exaltadas um único suspiro; ainda assim, temendo que pudesse revelar-se uma fonte de miséria sem fim para a Noiva iludida, a nossa trêmula Sensibilidade ficou grandemente afetada quando fomos informadas pela primeira vez do Evento. As afetuosas Súplicas de Augustus e Sophia para que considerássemos para sempre a sua Casa como o nosso Lar prevaleceram facilmente sobre nós, levando-nos a decidir nunca mais deixá-los. Na companhia do meu Edward e deste Amável Par, passei os momentos mais felizes da minha Vida; o nosso tempo foi passado da forma mais deliciosa, em mútuas Protestações de Amizade e em votos de Amor inalterável, nos quais estávamos seguras de não sermos interrompidas por Visitantes intrusivos e desagradáveis, pois Augustus e Sophia tinham, logo na sua primeira Chegada à Vizinhança, tomado o devido cuidado de informar as Famílias circundantes de que, como a sua felicidade residia inteiramente neles próprios, não desejavam outra sociedade. Mas, ai de mim! minha Querida Marianne, tal Felicidade como a que eu então desfrutava era perfeita demais para durar. Um Golpe mais severo e inesperado destruiu de uma só vez toda a sensação de Prazer. Convencida como deves estar, pelo que já te contei a respeito de Augustus e Sophia, de que nunca houve um Casal mais feliz, não preciso, imagino eu, informar-te de que a sua união tinha sido contrária às inclinações dos seus Pais Cruéis e Mercenários; que tinham tentado em vão, com obstinada Perseverança, forçá-los a um Casamento com aqueles a quem sempre tinham abominado; mas, com uma Fortitude Heroica digna de ser relatada e admirada, ambos recusaram constantemente submeter-se a tal poder despótico.

Depois de se terem libertado tão nobremente dos grilhões da Autoridade Parental, por meio de um Casamento Clandestino, estavam determinados a nunca perder a boa opinião que tinham granjeado no Mundo ao fazê-lo, aceitando quaisquer propostas de reconciliação que lhes pudessem ser oferecidas pelos seus Pais — a esta prova adicional da sua nobre independência, contudo, nunca foram expostos.

Estavam casados há apenas alguns meses quando a nossa visita a eles começou, tempo durante o qual foram amplamente sustentados por uma quantia considerável de dinheiro que Augustus tinha subtraído graciosamente da Escrivaninha do seu indigno pai, poucos dias antes da sua união com Sophia.

Com a nossa chegada, as suas Despesas foram consideravelmente aumentadas, embora os seus meios para as suprir estivessem então quase esgotados. Mas eles, Criaturas Exaltadas! desdenhavam refletir um momento sobre as suas Dificuldades pecuniárias e teriam corado com a ideia de pagar as suas Dívidas. — Ai! qual foi a sua Recompensa por tal Comportamento desinteressado! O belo Augustus foi preso e nós ficamos todas arruinadas. Tal Traição pérfida por parte dos impiedosos perpetradores do Ato chocará a tua natureza gentil, Queridíssima Marianne, tanto quanto afetou então a Delicada sensibilidade de Edward, Sophia, da tua Laura e do próprio Augustus. Para completar tal Barbárie sem paralelo, fomos informadas de que uma Execução na Casa teria lugar em breve. Ah! o que poderíamos fazer senão o que fizemos! Suspiramos e desmaiamos no sofá.

Adeus Laura.

CARTA 10ª LAURA em continuação

Quando estávamos um tanto recuperadas das avassaladoras Efusões da nossa dor, Edward desejou que considerássemos qual seria o passo mais prudente a ser dado na nossa infeliz situação, enquanto ele se dirigia ao seu amigo encarcerado para lamentar as suas desgraças. Prometemos que o faríamos, e ele partiu na sua viagem para a Cidade. Durante a sua ausência, cumprimos fielmente o seu Desejo e, após a mais madura Deliberação, concordamos finalmente que a melhor coisa que poderíamos fazer era deixar a Casa; da qual esperávamos a cada momento que os oficiais de Justiça tomassem posse. Aguardamos, portanto, com a maior impaciência, pelo retorno de Edward a fim de lhe comunicar o resultado das nossas Deliberações. Mas nenhum Edward apareceu. Em vão contamos os tediosos momentos da sua ausência — em vão choramos — em vão até suspiramos — nenhum Edward retornou. Este foi um Golpe cruel demais, inesperado demais para a nossa Sensibilidade Gentil — não o pudemos suportar — só pudemos desmaiar. Finalmente, reunindo toda a Resolução de que era Senhora, levantei-me e, após empacotar algumas roupas necessárias para Sophia e para mim, arrastei-a para uma Carruagem que eu tinha ordenado e partimos instantaneamente para Londres. Como a Habitação de Augustus ficava a doze milhas da Cidade, não demorou muito até chegarmos lá, e mal tínhamos entrado em Holborn quando, baixando um dos Vidros Dianteiros, perguntei a todas as Pessoas com aspeto decente que cruzávamos: “Se tinham visto o meu Edward?”

Mas como conduzíamos rápido demais para permitir que respondessem às minhas repetidas Perguntas, obtive pouca, ou na verdade nenhuma, informação sobre ele. “Para onde devo conduzir?” disse o Postilhão. “Para Newgate, Jovem Gentil (respondi eu), para ver Augustus.” “Oh! não, não, (exclamou Sophia) não posso ir a Newgate; não serei capaz de suportar a visão do meu Augustus num confinamento tão cruel — os meus sentimentos já estão suficientemente chocados pelo relato do seu Sofrimento, mas contemplá-lo sobrecarregará a minha Sensibilidade.” Como concordei perfeitamente com ela na Justiça dos seus Sentimentos, o Postilhão foi instantaneamente orientado a retornar para o Campo. Talvez te tenha surpreendido um pouco, minha Queridíssima Marianne, que na Aflição que então suportei, desprovida de qualquer apoio e sem provisões com qualquer Habitação, eu nunca me tenha lembrado uma única vez do meu Pai e da minha Mãe ou da minha Cabana paterna no Vale de Uske. Para explicar este aparente esquecimento, devo informar-te de uma circunstância trivial a respeito deles que, até agora, nunca mencionei. A morte dos meus Pais, poucas semanas após a minha Partida, é a circunstância a que me refiro. Com o falecimento deles, tornei-me a Herdeira legítima da sua Casa e Fortuna. Mas ai de mim! a Casa nunca tinha sido deles e a sua Fortuna tinha sido apenas uma Anuidade sobre as suas próprias Vidas. Tal é a Depravação do Mundo! À tua Mãe eu teria retornado com Prazer, teria ficado feliz por lhe apresentar a minha encantadora Sophia e teria passado com Alegria o resto da minha Vida na sua querida Sociedade no Vale de Uske, não tivesse um obstáculo à execução de tão agradável plano intervindo; o que foi o Casamento e a Mudança da tua Mãe para uma parte distante da Irlanda.

Adeus. Laura.

CARTA 11ª LAURA em continuação

“Tenho um Parente na Escócia (disse-me Sophia enquanto deixávamos Londres) que tenho a certeza de que não hesitaria em receber-me.” “Devo ordenar ao Rapaz que conduza até lá?” disse eu — mas, recordando-me instantaneamente, exclamei: “Ai, temo que seja uma Jornada longa demais para os Cavalos.” Não querendo, contudo, agir apenas com o meu próprio Conhecimento inadequado da Força e das Habilidades dos Cavalos, consultei o Postilhão, que estava inteiramente de acordo com a minha Opinião a respeito do Assunto. Decidimos, portanto, trocar de Cavalos na próxima Cidade e viajar por Correio o resto da Jornada. Quando chegamos à última Estalagem onde iríamos parar, que ficava a poucas milhas da Casa do Parente de Sophia, não querendo intrometer a nossa Sociedade nele de forma inesperada e impensada, escrevemos um Bilhete muito elegante e bem redigido para ele, contendo um relato da nossa Situação Destituída e melancólica, e da nossa intenção de passar alguns meses com ele na Escócia. Assim que despachamos esta Carta, preparamo-nos imediatamente para segui-la em pessoa e estávamos a entrar na Carruagem para esse Propósito quando a nossa atenção foi atraída pela Entrada de uma Carruagem com coroa e 4 cavalos no pátio da Estalagem. Um Cavalheiro consideravelmente avançado em anos desceu dela. À sua primeira Aparição, a minha Sensibilidade foi maravilhosamente afetada e, antes que eu o tivesse contemplado uma 2ª vez, uma simpatia instintiva sussurrou ao meu Coração que ele era o meu Avô. Convencida de que não poderia estar enganada na minha conjectura, saltei instantaneamente da Carruagem em que acabara de entrar e, seguindo o Venerável Estranho para a Sala para a qual fora conduzido, lancei-me de joelhos diante dele e supliquei-lhe que me reconhecesse como sua Neta. Ele estremeceu e, tendo examinado atentamente os meus traços, levantou-me do Chão e, lançando os seus braços de Avô ao redor do meu Pescoço, exclamou: “Reconhecer-te! Sim, querida semelhança da minha Laurina e da filha de Laurina, doce imagem da minha Claudia e da mãe da minha Claudia, eu reconheço-te como a Filha de uma e a Neta da outra.” Enquanto ele me abraçava ternamente, Sophia, atônita com a minha partida precipitada, entrou na Sala em minha busca. Mal ela captou o olhar do venerável Par, ele exclamou com todas as marcas de Estupefação — “Outra Neta! Sim, sim, vejo que és a Filha da filha mais velha da minha Laurina; a tua semelhança com a bela Matilda proclama-o suficientemente.” “Oh! respondeu Sophia, quando te contemplei pela primeira vez, o instinto da Natureza sussurrou-me que éramos parentes em algum grau — Mas se Avôs, ou Avós, não poderia pretender determinar.” Ele envolveu-a nos seus braços e, enquanto se abraçavam ternamente, a Porta do Aposento abriu-se e apareceu um jovem muito belo. Ao percebê-lo, Lord St. Clair estremeceu e, recuando alguns passos, com as Mãos levantadas, disse: “Outra Neta! Que Felicidade inesperada é esta! descobrir no espaço de 3 minutos, tantos dos meus Descendentes! Este tenho a certeza de que é Philander, o filho da 3ª menina da minha Laurina, a amável Bertha; falta agora apenas a presença de Gustavus para completar a União dos Netos da minha Laurina.”

“E aqui está ele; (disse um Jovem Gracioso que naquele instante entrou na sala) aqui está o Gustavus que desejas ver. Sou o filho de Agatha, a 4ª e mais nova Filha da tua Laurina.” “Vejo que és, de facto; respondeu Lord St. Clair — Mas diz-me (continuou ele, olhando temerosamente para a Porta) diz-me, tenho mais algum neto na Casa.” “Nenhum, meu Lorde.” “Então providenciarei para todos vós sem mais demora — Aqui estão 4 Notas de Banco de 50£ cada — Tomai-as e lembrai-vos de que cumpri o Dever de um Avô.” Ele deixou instantaneamente a Sala e, imediatamente depois, a Casa.

Adeus. Laura.

CARTA 12ª LAURA em continuação

Podes imaginar quão grandemente ficamos surpreendidas com a súbita partida de Lord St Clair. “Avô ignóbil!” exclamou Sophia. “Avô indigno!” disse eu, e desmaiamos instantaneamente nos braços uma da outra. Quanto tempo permanecemos nesta situação, não sei; mas quando recuperamos, encontramo-nos sozinhas, sem Gustavus, Philander ou as Notas de Banco. Enquanto deplorávamos o nosso destino infeliz, a Porta do Aposento abriu-se e “Macdonald” foi anunciado. Ele era primo de Sophia. A pressa com que veio em nosso socorro, tão logo após o recebimento do nosso Bilhete, falou tão grandemente a seu favor que não hesitei em pronunciá-lo, à primeira vista, um Amigo terno e simpático. Ai de mim! ele pouco merecia o nome — pois embora nos dissesse que estava muito preocupado com as nossas Desgraças, no entanto, pelo seu próprio relato, parecia que a leitura delas não tinha arrancado dele um único suspiro, nem o induzira a proferir uma maldição sobre os nossos astros vingativos. Ele disse a Sophia que a sua Filha dependia do seu retorno com ele a Macdonald-Hall, e que, como amiga da sua Prima, ele ficaria feliz por me ver lá também. Para Macdonald-Hall, portanto, fomos, e fomos recebidas com grande gentileza por Janetta, a Filha de Macdonald e Senhora da Mansão. Janetta tinha então apenas quinze anos; naturalmente bem disposta, dotada de um Coração suscetível e uma Disposição simpática, ela poderia, se estas qualidades amáveis tivessem sido devidamente encorajadas, ter sido um ornamento para a Natureza humana; mas, infelizmente, o seu Pai não possuía uma alma suficientemente exaltada para admirar tal Disposição promissora, e tinha tentado por todos os meios ao seu alcance evitar que ela crescesse com os seus Anos. Ele tinha, na verdade, extinguido de tal forma a nobre Sensibilidade natural do seu Coração, a ponto de a levar a aceitar uma oferta de um jovem por Recomendação sua. Iriam casar-se dentro de poucos meses, e Graham estava na Casa quando chegamos. Logo vimos através do seu caráter. Ele era exatamente o tipo de Homem que se poderia esperar ser a escolha de Macdonald. Diziam que ele era Sensato, bem informado e Agradável; não pretendíamos julgar tais ninharias, mas como estávamos convencidas de que ele não tinha alma, que nunca tinha lido os sofrimentos de Werter e que o seu Cabelo não tinha a menor semelhança com o castanho-avermelhado, tínhamos a certeza de que Janetta não poderia sentir qualquer afeição por ele, ou pelo menos que ela não deveria sentir nenhuma. O próprio facto de ele ser a escolha do seu pai também era tão desfavorável a ele que, mesmo que ele fosse merecedor dela em todos os outros aspetos, isso, por si só, deveria ter sido uma razão suficiente aos Olhos de Janetta para o rejeitar. Estas considerações estávamos determinadas a representar-lhe sob a sua luz correta e não duvidávamos de alcançar o sucesso desejado junto de alguém naturalmente tão bem disposto; cujos erros no assunto tinham apenas surgido da falta de confiança adequada na sua própria opinião e de um desprezo apropriado pela do seu pai. Encontramo-la, de fato, tudo o que os nossos desejos mais calorosos poderiam ter esperado; não tivemos dificuldade em convencê-la de que era impossível que ela pudesse amar Graham, ou que era o seu Dever desobedecer ao seu Pai; a única coisa em que ela parecia hesitar era a nossa afirmação de que ela devia estar ligada a alguma outra Pessoa. Por algum tempo, ela perseverou em declarar que não conhecia nenhum outro jovem por quem tivesse a menor Afeição; mas, ao explicar a impossibilidade de tal coisa, ela disse que acreditava que gostava do Capitão M’Kenrie mais do que de qualquer outra pessoa que conhecesse. Esta confissão satisfez-nos e, depois de termos enumerado as boas Qualidades de M’Kenrie e assegurado-lhe que ela estava violentamente apaixonada por ele, desejamos saber se ele alguma vez tinha declarado de alguma forma a sua afeição por ela.

“Tão longe de a ter declarado, não tenho razão para imaginar que ele tenha sentido alguma vez por mim.” disse Janetta. “Que ele certamente te adora (respondeu Sophia) não pode haver dúvida. O Apego deve ser recíproco. Ele nunca te contemplou com admiração — pressionou ternamente a tua mão — deixou cair uma lágrima involuntária — e deixou a sala abruptamente?” “Nunca (respondeu ela) que me lembre — ele sempre deixou a sala, de fato, quando a sua visita terminava, mas nunca partiu de forma particularmente abrupta ou sem fazer uma vénia.” De fato, minha Querida (disse eu) deves estar enganada — pois é absolutamente impossível que ele pudesse alguma vez ter-te deixado senão com Confusão, Desespero e Precipitação. Considera apenas por um momento, Janetta, e deves estar convencida de quão absurdo é supor que ele pudesse alguma vez fazer uma vénia, ou comportar-se como qualquer outra Pessoa.” Tendo resolvido este Ponto para a nossa satisfação, o seguinte que levamos em consideração foi determinar de que maneira deveríamos informar M’Kenrie da Opinião favorável que Janetta nutria por ele... Acordamos finalmente em dar-lho a conhecer por meio de uma Carta anônima que Sophia redigiu da seguinte maneira.

“Oh! feliz Amante da bela Janetta, oh! amável Possuidor do seu Coração cuja mão está destinada a outro, por que atrasas assim a confissão do teu apego ao amável Objeto dele? Oh! considera que poucas semanas porão de uma vez um fim a toda a Esperança lisonjeira que podes agora acalentar, unindo a infeliz Vítima da Crueldade do seu pai ao execrável e detestado Graham.”

“Ai! por que conivês assim tão cruelmente com a projetada Miséria dela e tua, atrasando a comunicação daquele plano que sem dúvida há muito possuía a tua imaginação? Uma União secreta garantirá de uma vez a felicidade de ambos.”

O amável M’Kenrie, cuja modéstia, como ele nos assegurou mais tarde, tinha sido a única razão de ter escondido durante tanto tempo a violência da sua afeição por Janetta, ao receber este Bilhete voou nas asas do Amor para Macdonald-Hall e suplicou tão poderosamente o seu Apego àquela que o inspirava que, após alguns encontros privados mais, Sophia e eu experimentamos a satisfação de os ver partir para Gretna-Green, que escolheram para a celebração das suas Núpcias, em preferência a qualquer outro lugar, embora ficasse a uma distância considerável de Macdonald-Hall.

Adeus Laura.

CARTA 13ª LAURA em continuação

Eles tinham partido há quase um par de Horas, antes que Macdonald ou Graham tivessem tido qualquer suspeita do assunto. E poderiam nem mesmo então ter suspeitado, não fosse pelo seguinte pequeno Acidente. Aconteceu um dia de Sophia abrir uma Gaveta privada na Biblioteca de Macdonald com uma das suas próprias chaves, e descobriu que era o Lugar onde ele guardava os seus Documentos de consequência e, entre eles, algumas notas bancárias de valor considerável. Esta descoberta ela comunicou-me; e tendo acordado entre nós que seria um tratamento apropriado para um Miserável como Macdonald privá-lo de dinheiro, talvez desonestamente ganho, ficou decidido que, da próxima vez que qualquer uma de nós passasse por lá, tiraríamos uma ou mais das Notas de Banco da gaveta. Este Plano bem intencionado tínhamos muitas vezes colocado em Execução com sucesso; mas ai de mim! no próprio dia da Fuga de Janetta, enquanto Sophia estava majestosamente a remover a 5ª Nota de Banco da Gaveta para a sua própria bolsa, foi subitamente interrompida da forma mais impertinente na sua ocupação pela entrada do próprio Macdonald, de uma Maneira muito abrupta e precipitada. Sophia (que embora naturalmente fosse toda doçura cativante, podia, quando as ocasiões o exigiam, evocar a Dignidade do seu sexo) assumiu instantaneamente um aspeto muito proibitivo e, lançando um olhar zangado ao culpado inabalável, exigiu em tom de voz altivo: “Por que razão o seu retiro era assim insolentemente invadido?” O impávido Macdonald, sem sequer tentar exculpar-se do crime de que era acusado, tentou vilmente reprovar Sophia por o defraudar ignobilmente do seu dinheiro... A dignidade de Sophia foi ferida; “Miserável (exclamou ela, substituindo apressadamente a Nota de Banco na Gaveta) como ousas acusar-me de um Ato, cuja mera ideia me faz corar?” O vil miserável continuou convencido e continuou a censurar a justamente ofendida Sophia numa Linguagem tão opróbria que, finalmente, ele provocou tanto a doce suavidade da sua Natureza, a ponto de a induzir a vingar-se dele informando-o da Fuga de Janetta e da parte ativa que ambas tínhamos tomado no assunto. Nesta altura da sua Discussão, entrei na Biblioteca e fiquei, como podes imaginar, tão ofendida quanto Sophia com as acusações infundadas do malevolente e desprezível Macdonald. “Celerado vil! (gritei eu) como podes tu, assim tão corajosamente, tentar manchar a reputação imaculada de tal Excelência brilhante? Por que não suspeitas da minha inocência tão cedo?” “Fique satisfeita, Senhora (respondeu ele), suspeito dela, e por isso devo desejar que ambas deixem esta Casa em menos de meia hora.”

“Iremos voluntariamente; (respondeu Sophia) os nossos corações há muito te detestam, e nada senão a nossa amizade pela tua Filha nos teria induzido a permanecer tanto tempo sob o teu teto.”

“A vossa Amizade pela minha Filha foi, de fato, exercida de forma muito poderosa ao lançá-la nos braços de um caçador de fortunas sem princípios.” (respondeu ele)

“Sim, (exclamei eu) em meio a toda a desgraça, dar-nos-á algum consolo refletir que, por este único ato de Amizade para com Janetta, descarregamos amplamente toda a obrigação que recebemos do seu pai.”

“Deve ser, de fato, uma reflexão muito grata para as vossas mentes exaltadas.” (disse ele.)

“Pois bem, (disse eu) não percamos mais tempo em conversas tão pouco proveitosas. O nosso tempo é precioso e não deve ser desperdiçado com discussões fúteis. O meu desejo é que nos separemos imediatamente. A vossa presença é-me odiosa e a vossa conduta, uma afronta à minha sensibilidade.”

Ao ouvir estas palavras, Philander e Gustavus, aparentemente tocados pelo meu desprezo, pediram-me perdão pelo seu comportamento passado, o qual atribuíram à influência corruptora da necessidade. Reconciliamo-nos, portanto, e, após trocarmos votos de mútua estima, saí do cesto e dirigi-me ao local onde o resto da nossa comitiva se encontrava. Sir Edward, ao ver-me, perguntou-me, com uma frieza que me fez estremecer, se eu tinha desfrutado da minha conversa com os nossos parentes. “Desfrutei, Sir Edward, (respondi eu com dignidade) da consolação que sempre se encontra na franqueza e na retidão, qualidades que, temo, não lhe sejam familiares.”

Ele não respondeu, mas, com um olhar desdenhoso, ordenou que subíssemos para o veículo. A viagem prosseguiu em silêncio. A minha mente, sempre ocupada, não encontrava descanso senão na contemplação da minha própria grandeza de alma. À medida que nos aproximávamos de Edimburgo, a paisagem tornava-se mais agreste, refletindo a desolação que reinava no meu coração. Em Edimburgo, fomos recebidos por Lady Dorothea com uma cortesia que, embora educada, carecia daquela efusão de sentimentos que eu tanto ansiava encontrar.

Fomos instaladas numa casa de grande elegância, porém, para mim, o fausto não passava de um ornamento vazio. A minha dor pela perda de Edward e a memória de Sophia, que me perseguia a cada instante, tornavam qualquer conforto material num peso insuportável. A vossa Mãe, que insistia em tentar consolar-me com argumentos de razão e bom senso, apenas conseguia irritar-me mais, pois o que eu buscava era alguém que compreendesse a profundidade da minha agonia, e não alguém que tentasse medi-la por padrões mundanos.

“Laura, minha querida, (dizia-me ela) deves procurar ocupar a tua mente com leituras úteis e evitar esses devaneios que apenas servem para corroer a tua saúde.” “Leituras úteis! (exclamava eu, com um sorriso de desdém) Podem os livros conter a essência da alma humana? Podem eles curar uma ferida que sangra pela perda de um ser amado?”

Apesar da minha recusa em aceitar os seus conselhos, ela não desistia. E assim, entre a indiferença de Sir Edward, a insensibilidade de Augusta e os vãos esforços da vossa Mãe, o tempo corria, arrastando-me para um destino que eu pressentia, mas que não tinha forças para evitar.

Adeus, Laura.

“Somos filhos, como já sabeis, das duas filhas mais novas que Lord St Clair teve com Laurina, uma rapariga de ópera italiana. Nenhuma das nossas mães conseguiu determinar com exatidão quem foi o nosso pai, embora se acredite geralmente que Philander seja filho de um certo Philip Jones, um pedreiro, e que o meu pai tenha sido um tal de Gregory Staves, um fabricante de espartilhos de Edimburgo. Isto, contudo, é de pouca importância, pois, como as nossas mães nunca foram casadas com nenhum deles, tal não reflete qualquer desonra sobre o nosso sangue, que é da espécie mais antiga e imaculada. Bertha (a mãe de Philander) e Agatha (a minha própria mãe) viveram sempre juntas. Nenhuma delas era muito rica; as suas fortunas reunidas tinham ascendido originalmente a nove mil libras, mas, como sempre viveram do capital, quando tínhamos quinze anos, este tinha diminuído para novecentas. Estas novecentas libras eram guardadas sempre numa gaveta de uma das mesas que se encontrava na nossa sala de estar comum, pela conveniência de as ter sempre à mão. Se foi por esta circunstância, de serem facilmente levadas, ou por um desejo de sermos independentes, ou por um excesso de sensibilidade (pelo qual sempre fomos notáveis), não posso agora determinar, mas é certo que, quando atingimos o nosso 15.º ano, levámos as novecentas libras e fugimos. Tendo obtido este prémio, estávamos determinados a geri-lo com economia e a não o gastar nem com loucura nem com extravagância. Para este propósito, dividimo-lo em nove parcelas, uma das quais dedicámos a víveres, a 2.ª a bebida, a 3.ª a despesas domésticas, a 4.ª a carruagens, a 5.ª a cavalos, a 6.ª a criados, a 7.ª a diversões, a 8.ª a vestuário e a 9.ª a fivelas de prata. Tendo assim organizado as nossas despesas para dois meses (pois esperávamos fazer as novecentas libras durar tanto tempo), apressámo-nos para Londres e tivemos a sorte de as gastar em 7 semanas e um dia, o que foi 6 dias mais cedo do que tínhamos pretendido. Assim que nos livrámos felizmente do peso de tanto dinheiro, começámos a pensar em regressar para junto das nossas mães, mas, ao ouvirmos acidentalmente que ambas tinham morrido à fome, abandonámos o projeto e decidimos empregar-nos numa qualquer companhia de teatro ambulante, uma vez que sempre tivemos queda para o palco. Em conformidade, oferecemos os nossos serviços a uma e fomos aceites; a nossa companhia era, na verdade, um pouco pequena, consistindo apenas no gerente, na sua mulher e em nós, mas havia menos para pagar e o único inconveniente era a escassez de peças que, por falta de pessoas para desempenhar as personagens, podíamos representar. Não nos importávamos com bagatelas, no entanto—. Uma das nossas representações mais admiradas era Macbeth, na qual éramos verdadeiramente grandiosos. O gerente representava sempre Banquo, e a sua mulher, Lady Macbeth. Eu fazia as Três Bruxas e Philander representava todo o resto. Para dizer a verdade, esta tragédia não foi apenas a melhor, mas a única peça que alguma vez representámos; e depois de a termos representado por toda a Inglaterra e País de Gales, viemos até à Escócia para a exibir pelo resto da Grã-Bretanha. Calhámos estar aquartelados precisamente naquela cidade onde vieste e encontraste o teu avô—. Estávamos no pátio da estalagem quando a sua carruagem entrou e, percebendo pelos brasões a quem pertencia, e sabendo que Lord St Clair era o nosso avô, concordámos em tentar obter algo dele revelando o parentesco—. Sabes quão bem isso resultou—. Tendo obtido as duzentas libras, deixámos instantaneamente a cidade, deixando o nosso gerente e a sua mulher a representar Macbeth sozinhos, e tomámos a estrada para Sterling, onde gastámos a nossa pequena fortuna com grande brilho. Estamos agora a regressar a Edimburgo a fim de conseguir algum lugar no ramo da representação; e tal, minha querida prima, é a nossa história.”

Agradeci ao amável jovem pela sua narrativa divertida e, depois de expressar os meus votos pelo seu bem-estar e felicidade, deixei-os na sua pequena habitação e regressei junto dos meus outros amigos que me esperavam impacientemente.

As minhas aventuras estão agora a chegar ao fim, minha queridíssima Marianne; pelo menos por agora.

Quando chegámos a Edimburgo, Sir Edward disse-me que, como viúva do seu filho, desejava que eu aceitasse das suas mãos quatrocentas libras por ano. Prometi graciosamente que o faria, mas não pude deixar de observar que o pouco empático barão o ofereceu mais por eu ser a viúva de Edward do que por ser a refinada e amável Laura.

Fixei residência numa aldeia romântica nas Terras Altas da Escócia, onde desde então tenho permanecido, e onde posso, ininterrupta por visitas sem sentido, entregar-me numa melancólica solidão às minhas incessantes lamentações pela morte do meu pai, da minha mãe, do meu marido e da minha amiga.

Augusta está há vários anos unida a Graham, o homem, entre todos, mais adequado para ela; conheceu-o durante a sua estadia na Escócia.

Sir Edward, na esperança de obter um herdeiro para o seu título e propriedades, casou-se ao mesmo tempo com Lady Dorothea—. Os seus desejos foram atendidos.

Philander e Gustavus, depois de terem elevado a sua reputação pelas suas representações no ramo teatral em Edimburgo, mudaram-se para Covent Garden, onde ainda se exibem sob os nomes artísticos de Luvis e Quick.

Philippa há muito pagou a dívida à natureza. O seu marido, contudo, continua a conduzir a diligência de Edimburgo para Sterling:—

Adeus, minha queridíssima Marianne. Laura.

Fim

13 de junho de 1790.

LESLEY CASTLE UM ROMANCE INACABADO EM CARTAS

Ao Sr. HENRY THOMAS AUSTEN.

Senhor,

Estou agora a aproveitar a liberdade com que frequentemente me honrou de dedicar um dos meus romances a V. S.ª. Que esteja inacabado, lamento; temo, contudo, que da minha parte permanecerá sempre assim; que, até onde foi levado, seja tão trivial e tão indigno de V. S.ª é outra preocupação da sua obrigada e humilde

Serva, A Autora

Messrs Demand and Co — por favor, paguem à Srta. Jane Austen a quantia de cento e cinco guinéus por conta da vossa humilde serva.

H. T. Austen

£105. 0. 0.

LESLEY CASTLE

A PRIMEIRA CARTA é da Srta. MARGARET LESLEY para a Srta. CHARLOTTE LUTTERELL

Lesley Castle, 3 de janeiro de 1792.

O meu irmão acaba de nos deixar. “Matilda (disse ele ao partir), tu e Margaret, estou certo, cuidarão da minha querida pequenina com todo o carinho que ela poderia ter recebido de uma mãe indulgente, afetuosa e amável.” Lágrimas rolavam pelas suas faces enquanto pronunciava estas palavras — a lembrança daquela que tão desenfreadamente desonrou o caráter maternal e tão abertamente violou os deveres conjugais, impediu-o de acrescentar qualquer outra coisa; ele abraçou a sua doce filha e, depois de saudar Matilda e a mim, apressou-se a romper o nosso contacto e, sentando-se na sua carruagem, seguiu a estrada para Aberdeen. Nunca houve melhor jovem! Ah! quão pouco merecia ele as infelicidades que experimentou no estado matrimonial! Um marido tão bom para uma esposa tão má! Pois sabeis, minha querida Charlotte, que a indigna Louisa o deixou, a ele, à sua filha e à sua reputação, há poucas semanas, na companhia de Danvers e da desonra. Nunca houve um rosto mais doce, uma forma mais fina ou um coração menos amável do que o que Louisa possuía! A sua filha já possui os encantos pessoais da sua infeliz mãe! Possa ela herdar do seu pai todas as suas qualidades mentais! Lesley tem atualmente apenas vinte e cinco anos e já se entregou à melancolia e ao desespero; que diferença entre ele e o seu pai! Sir George tem 57 anos e continua a ser o dândi, o rapaz irrequieto, o jovem alegre e o adolescente vivaz que o seu filho era realmente há cerca de cinco anos, e que ele tem fingido aparentar desde que me lembro. Enquanto o nosso pai esvoaça pelas ruas de Londres, alegre, dissipado e irrefletido aos 57 anos, Matilda e eu continuamos isoladas da humanidade no nosso velho e bolorento castelo, que está situado a duas milhas de Perth, sobre uma rocha saliente e ousada, e que domina uma vista extensa da cidade e dos seus arredores encantadores. Mas, embora retiradas de quase todo o mundo (pois não visitamos ninguém exceto os M’Leod, os M’Kenzie, os M’Pherson, os M’Cartney, os M’Donald, os M’Kinnon, os M’Lellan, os M’Kay, os Macbeth e os Macduff), não somos nem aborrecidas nem infelizes; pelo contrário, nunca houve duas raparigas mais vivas, mais agradáveis ou mais espirituosas do que nós; nem uma hora do dia pesa nas nossas mãos. Lemos, trabalhamos, caminhamos e, quando fatigadas com estes afazeres, aliviamos os nossos espíritos, seja com uma canção alegre, uma dança graciosa ou com algum *bon-mot* inteligente e réplica espirituosa. Somos bonitas, minha querida Charlotte, muito bonitas, e a maior das nossas perfeições é que somos inteiramente insensíveis a isso nós mesmas. Mas por que me demoro tanto em nós! Deixai-me antes repetir o louvor da nossa querida sobrinha, a inocente Louisa, que está neste momento a sorrir docemente num sono suave, enquanto repousa no sofá. A querida criatura acabou de fazer dois anos; tão bonita como se tivesse 22, tão sensata como se tivesse 32 e tão prudente como se tivesse 42. Para vos convencer disto, devo informar-vos que ela tem uma tez muito fina e traços muito bonitos, que já conhece as duas primeiras letras do alfabeto e que nunca rasga os seus vestidos—. Se ainda não vos convenci da sua beleza, bom senso e prudência, não tenho mais nada a aduzir em apoio à minha afirmação, e não tereis, portanto, outra forma de decidir o assunto senão vindo a Lesley-Castle e, através de um conhecimento pessoal com Louisa, decidir por vós mesma. Ah! minha querida amiga, quão feliz eu ficaria ao ver-vos dentro destas paredes veneráveis! Já se passaram quatro anos desde que a minha saída da escola me separou de vós; que dois corações tão ternos, tão estreitamente ligados pelos laços da simpatia e da amizade, devam ser tão amplamente afastados um do outro, é imensamente comovente. Eu vivo em Perthshire, vós em Sussex. Poderíamos encontrar-nos em Londres, se o meu pai estivesse disposto a levar-me lá, e se a vossa mãe estivesse lá ao mesmo tempo. Poderíamos encontrar-nos em Bath, em Tunbridge, ou em qualquer outro lugar, na verdade, se pudéssemos apenas estar no mesmo lugar juntas. Só nos resta esperar que tal período possa chegar. O meu pai não regressa para junto de nós até ao outono; o meu irmão deixará a Escócia dentro de poucos dias; ele está impaciente por viajar. Jovem iludido! Ele vangloria-se inutilmente de que a mudança de ares curará as feridas de um coração partido! Juntar-vos-eis a mim, estou certa, minha querida Charlotte, nas orações pela recuperação da paz de espírito do infeliz Lesley, a qual deve ser sempre essencial para a da vossa sincera amiga,

M. Lesley.

CARTA SEGUNDA Da Srta. C. LUTTERELL para a Srta. M. LESLEY, em resposta.

Glenford, 12 de fevereiro.

Tenho mil desculpas a pedir por ter demorado tanto a agradecer-vos, minha querida Peggy, a vossa agradável carta, o que, acreditai-me, não teria adiado se cada momento do meu tempo durante as últimas cinco semanas não tivesse sido tão plenamente ocupado com os arranjos necessários para o casamento da minha irmã, ao ponto de não me permitir tempo para dedicar nem a vós nem a mim mesma. E agora, o que mais me provoca do que qualquer outra coisa é que o compromisso foi desfeito e todo o meu trabalho deitado fora. Imaginai quão grande deve ser a desilusão para mim, quando considerais que, depois de ter trabalhado tanto de noite como de dia para ter o banquete de casamento pronto à hora marcada, depois de ter assado carne de vaca, estufado carneiro e cozinhado sopa suficiente para durar ao casal recém-casado durante a lua de mel, tive a mortificação de descobrir que tinha estado a assar, estufar e cozinhar tanto a carne como a mim mesma em vão. De facto, minha querida amiga, não me lembro de ter sofrido qualquer vexame igual ao que experimentei na última segunda-feira, quando a minha irmã veio a correr ter comigo à despensa com a cara branca como um *syllabub* batido e me disse que Hervey tinha sido atirado do seu cavalo, tinha fraturado o crânio e fora declarado pelo cirurgião em perigo iminente. “Meu Deus! (disse eu) não me digas tal coisa? Ora, o que, em nome do céu, acontecerá a todos os víveres! Nunca seremos capazes de os comer enquanto estiverem bons. Contudo, chamaremos o cirurgião para nos ajudar. Serei capaz de tratar do lombo sozinha, a minha mãe comerá a sopa, e tu e o doutor devem acabar com o resto.” Aqui fui interrompida ao ver a minha pobre irmã cair aparentemente sem vida sobre um dos baús onde guardamos a nossa roupa de mesa. Chamei imediatamente a minha mãe e as criadas e, finalmente, trouxemo-la de volta a si; assim que recuperou os sentidos, expressou a determinação de ir instantaneamente ter com Henry e estava tão loucamente empenhada neste plano que tivemos a maior dificuldade do mundo em impedi-la de o executar; no fim, porém, mais pela força do que pela súplica, convencemo-la a ir para o seu quarto; deitámo-la na cama e ela continuou durante algumas horas nas convulsões mais terríveis. A minha mãe e eu continuámos no quarto com ela e, quando quaisquer intervalos de tolerável calma em Eloisa nos permitiam, juntávamo-nos em lamentações sentidas sobre o terrível desperdício das nossas provisões que este evento causaria, e em concertar algum plano para nos livrarmos delas. Concordámos que a melhor coisa que podíamos fazer era começar a comê-las imediatamente e, em conformidade, ordenámos que subissem o presunto frio e as aves, e começámos instantaneamente o nosso plano de devoração com grande prontidão. Tentaríamos persuadir Eloisa a tomar uma asa de frango, mas ela não quis ser persuadida. Estava, contudo, muito mais calma do que tinha estado; as convulsões de que sofrera antes tinham dado lugar a uma insensibilidade quase perfeita. Tentámos despertá-la por todos os meios ao nosso alcance, mas sem sucesso. Falei-lhe de Henry. “Querida Eloisa (disse eu), não há necessidade de chorares tanto por uma bagatela dessas. (pois eu estava disposta a encarar o assunto com leviandade para a confortar) Peço-te que não te preocupes—Vês que isso não me aborrece minimamente; embora talvez eu possa sofrer mais com isso, afinal; pois não só serei obrigada a comer todos os víveres que já preparei, como terei, se Henry recuperar (o que, contudo, não é muito provável), de preparar outros tantos para ti; ou se ele morrer (como suponho que acontecerá), ainda terei de preparar um jantar para ti sempre que te casares com outro qualquer. Portanto, vês que, embora talvez por agora te possa afligir pensar no sofrimento de Henry, contudo, atrevo-me a dizer que ele morrerá em breve, e então a sua dor terminará e tu ficarás aliviada, ao passo que o meu trabalho durará muito mais tempo, pois, por mais que trabalhe, tenho a certeza de que a despensa não pode ser limpa em menos de quinze dias.” Assim, fiz tudo o que estava ao meu alcance para a consolar, mas sem qualquer efeito, e finalmente, como vi que ela não parecia ouvir-me, não disse mais nada, mas, deixando-a com a minha mãe, levei os restos do presunto e do frango e enviei William a perguntar como estava Henry. Não se esperava que ele vivesse muitas horas; morreu no mesmo dia. Tomámos todo o cuidado possível para dar a notícia do melancólico evento a Eloisa da forma mais terna; contudo, apesar de todas as precauções, o seu sofrimento ao ouvi-lo foi demasiado violento para a sua razão, e ela continuou durante muitas horas num estado de delírio profundo. Ela continua extremamente doente e os seus médicos receiam muito que ela entre em declínio. Estamos, portanto, a preparar-nos para Bristol, onde pretendemos estar no decurso da próxima semana. E agora, minha querida Margaret, deixai-me falar um pouco dos vossos assuntos; e, em primeiro lugar, devo informar-vos que se diz com confiança que o vosso pai vai casar-se; estou muito relutante em acreditar num boato tão desagradável e, ao mesmo tempo, não posso desacreditá-lo totalmente. Escrevi à minha amiga Susan Fitzgerald para obter informações a esse respeito, o que, como ela se encontra atualmente na cidade, poderá muito bem dar-me. Não sei quem é a dama. Penso que o vosso irmão está extremamente correto na resolução que tomou de viajar, pois contribuirá talvez para apagar da sua memória aqueles eventos desagradáveis que ultimamente tanto o afligiram—Estou feliz por verificar que, embora isoladas de todo o mundo, nem vós nem Matilda estais aborrecidas ou infelizes—que nunca possais saber o que é ser qualquer uma dessas coisas é o desejo da vossa sinceramente afetuosa,

C.L.

P. S. Acabo de receber uma resposta da minha amiga Susan, que vos envio em anexo e sobre a qual tirareis as vossas próprias conclusões.

A CARTA anexa

Minha querida CHARLOTTE,

Não poderias ter pedido informações acerca do boato do casamento de Sir George Lesley a ninguém mais capaz de tas dar do que eu. Sir George está certamente casado; eu própria estive presente na cerimónia, o que não vos surpreenderá quando me subscrevo como a vossa,

Afetuosa, Susan Lesley

CARTA TERCEIRA Da Srta. MARGARET LESLEY para a Srta. C. LUTTERELL

Lesley Castle, 16 de fevereiro.

Fiz as minhas próprias reflexões sobre a carta que me enviastes, minha querida Charlotte, e agora dir-vos-ei quais foram essas reflexões. Refleti que, se por este segundo matrimónio Sir George viesse a ter uma segunda família, as nossas fortunas teriam de ser consideravelmente diminuídas; que, se a sua esposa fosse de natureza extravagante, ela encorajá-lo-ia a perseverar naquele modo de vida alegre e dissipado para o qual seria necessário pouco encorajamento, e que receio já se tenha revelado demasiado prejudicial à sua saúde e fortuna; que ela passaria agora a ser a senhora daquelas joias que outrora adornaram a nossa mãe, e que Sir George sempre nos prometera; que, se não viessem a Perthshire, eu não seria capaz de satisfazer a minha curiosidade de contemplar a minha madrasta e que, se viessem, Matilda deixaria de presidir à cabeceira da mesa do seu pai. Estas, minha querida Charlotte, foram as reflexões melancólicas que se acumularam na minha imaginação após a leitura da carta da Susan para vós, e que ocorreram instantaneamente a Matilda quando ela a leu também. As mesmas ideias, os mesmos receios, ocuparam imediatamente a sua mente, e não sei qual reflexão a angustiou mais, se a provável diminuição das nossas fortunas, ou a sua própria importância. Ambas desejamos muito saber se Lady Lesley é bonita e qual é a vossa opinião sobre ela; como a honrais com a designação de vossa amiga, lisonjeamo-nos ao pensar que ela deve ser amável. O meu irmão já está em Paris. tenciona deixá-la em poucos dias e começar a sua rota para Itália. Escreve de uma forma muito alegre, diz que o ar de França restabeleceu grandemente tanto a sua saúde como o seu espírito; que agora deixou inteiramente de pensar em Louisa com qualquer grau de piedade ou afeição, que até se sente grato a ela pela sua fuga, pois acha que é muito divertido voltar a ser solteiro. Por isto, podeis perceber que ele recuperou inteiramente aquela alegria jovial e aquele espírito vivaz, pelos quais outrora foi tão notável. Quando ele conheceu Louisa pela primeira vez, o que aconteceu há pouco mais de três anos, era um dos jovens mais vivos e mais agradáveis da sua idade. Acredito que nunca ouvistes os pormenores do seu primeiro encontro com ela. Começou em casa do nosso primo Coronel Drummond; em cuja casa em Cumberland ele passou o Natal em que completou vinte e dois anos. Louisa Burton era filha de um parente distante da Sra. Drummond, que, morrendo poucos meses antes em extrema pobreza, deixou a sua única filha, então com cerca de dezoito anos, à proteção de qualquer um dos seus parentes que a quisesse proteger. A Sra. Drummond foi a única que se sentiu disposta a tal; Louisa foi, portanto, transferida de uma cabana miserável em Yorkshire para uma mansão elegante em Cumberland, e de todas as dificuldades pecuniárias que a pobreza poderia infligir, para todos os desfrutes elegantes que o dinheiro poderia comprar. Louisa era naturalmente de mau génio e astuta; mas tinha sido ensinada a disfarçar a sua verdadeira disposição sob a aparência de uma doçura insinuante, por um pai que sabia demasiado bem que, para casar, seria a única hipótese que ela teria de não passar fome, e que se lisonjeava ao pensar que, com tamanha quota extraordinária de beleza pessoal, aliada a uma gentileza de modos e a um trato cativante, ela poderia ter uma boa hipótese de agradar a algum jovem que pudesse dar-se ao luxo de casar com uma rapariga sem um xelim. Louisa compreendeu perfeitamente os planos do pai e estava determinada a promovê-los com todo o seu cuidado e atenção. À força de perseverança e aplicação, ela tinha finalmente disfarçado tão completamente a sua disposição natural sob a máscara da inocência e da suavidade, que impôs a todos os que, por uma longa e constante intimidade com ela, não tivessem descoberto o seu verdadeiro caráter. Tal era Louisa quando o infeliz Lesley a viu pela primeira vez em Drummond-house. O seu coração que (para usar a vossa comparação favorita) era tão delicado, doce e terno como um *whipt-syllabub*, não pôde resistir aos seus encantos. Em poucos dias, ele estava a apaixonar-se, pouco depois apaixonou-se realmente, e antes de a conhecer há um mês, tinha casado com ela. O meu pai ficou inicialmente muito desagradado com uma ligação tão apressada e imprudente; mas quando descobriu que eles não se importavam, reconciliou-se rapidamente com o casamento. A propriedade perto de Aberdeen que o meu irmão possui pela generosidade do seu tio-avô, independente de Sir George, era inteiramente suficiente para o sustentar a ele e à minha irmã com elegância e conforto. Durante o primeiro ano, ninguém poderia ser mais feliz do que Lesley, e ninguém mais amável na aparência do que Louisa, e ela agiu de forma tão plausível e comportou-se com tanta cautela que, embora Matilda e eu passássemos muitas vezes várias semanas com eles, nenhuma de nós teve qualquer suspeita da sua verdadeira disposição. Após o nascimento de Louisa, no entanto, o que se poderia pensar que fortaleceria o seu apreço por Lesley, a máscara que ela tinha sustentado durante tanto tempo foi gradualmente posta de lado e, como provavelmente pensava então estar segura no afeto do seu marido (que parecia, de facto, se possível, aumentado pelo nascimento da sua filha), ela parecia não se esforçar para evitar que esse afeto diminuísse. As nossas visitas a Dunbeath eram, portanto, agora menos frequentes e muito menos agradáveis do que costumavam ser. A nossa ausência, contudo, nunca foi mencionada nem lamentada por Louisa que, na companhia do jovem Danvers, com quem se tornou conhecida em Aberdeen (ele estava numa das universidades de lá), sentia-se infinitamente mais feliz do que na companhia de Matilda e da vossa amiga, embora certamente nunca tenha havido raparigas mais agradáveis do que nós. Conheceis o triste fim de toda a felicidade conjugal de Lesley; não o repetirei. Adeus, minha querida Charlotte; embora ainda não tenha mencionado nada sobre o assunto, espero que me façais a justiça de acreditar que penso e sinto muito pela aflição da vossa irmã. Não duvido que o ar saudável das colinas de Bristol a remova inteiramente, ao apagar da sua mente a lembrança de Henry. Sou, minha querida Charlotte, vossa sempre,

M. L.

CARTA QUARTA Da Srta. C. LUTTERELL para a Srta. M. LESLEY

Bristol, 27 de fevereiro

Minha querida Peggy

Acabei de receber a vossa carta, que, por ter sido dirigida para Sussex enquanto eu estava em Bristol, teve de me ser reencaminhada para aqui e, devido a algum atraso inexplicável, só neste instante chegou até mim. Agradeço-vos muito pelo relato que contém sobre o conhecimento, amor e casamento de Lesley com Louisa, que não me divertiu menos por já me ter sido repetido muitas vezes antes.

Tenho a satisfação de vos informar que temos todas as razões para imaginar que a nossa despensa está a esta altura quase vazia, pois deixámos ordens precisas aos criados para comerem o máximo que pudessem e para chamarem um par de serventes para os ajudar. Trouxemos uma empada de pombo fria, um peru frio, uma língua fria e meia dúzia de geleias connosco, das quais tivemos a sorte, com a ajuda da nossa senhoria, do seu marido e dos seus três filhos, de nos livrarmos em menos de dois dias após a nossa chegada. A pobre Eloisa continua tão indiferente tanto na saúde como no espírito, que receio muito que o ar das colinas de Bristol, por mais saudável que seja, não tenha sido capaz de afastar o pobre Henry da sua lembrança.

Perguntais-me se a vossa nova madrasta é bonita e amável — dar-vos-ei agora uma descrição exata dos seus encantos corporais e mentais. É baixa e extremamente bem feita; é naturalmente pálida, mas usa bastante *rouge*; tem olhos bonitos e dentes bonitos, como ela terá o cuidado de vos fazer saber assim que vos vir, e, no geral, é muito bonita. É notavelmente bem-humorada quando consegue fazer a sua vontade, e muito vivaz quando não está de mau humor. É naturalmente extravagante e não muito afetada; nunca lê nada a não ser as cartas que recebe de mim, e nunca escreve nada a não ser as respostas a elas. Toca, canta e dança, mas não tem gosto por nada disso, e não se destaca em nenhum, embora diga que é apaixonadamente fã de todos. Talvez me possais lisonjear ao ponto de vos surpreender que alguém de quem falo com tão pouco afeto seja a minha amiga particular; mas, para vos dizer a verdade, a nossa amizade surgiu mais por capricho da parte dela do que por estima da minha. Passámos dois ou três dias juntas com uma senhora em Berkshire com quem ambas nos calhámos estar ligadas. Durante a nossa visita, estando o tempo notavelmente mau e o nosso grupo particularmente estúpido, ela foi tão boa ao ponto de conceber uma violenta parcialidade por mim, que muito cedo se consolidou numa amizade absoluta e terminou numa correspondência estabelecida. Provavelmente, a esta altura, ela já está tão farta de mim como eu dela; mas como ela é demasiado educada e eu sou demasiado cortês para o dizer, as nossas cartas continuam tão frequentes e afetuosas como sempre, e a nossa ligação tão firme e sincera como quando começou. Como ela tinha um grande gosto pelos prazeres de Londres e de Brighthelmstone, ouso dizer que encontrará alguma dificuldade em convencer-se a satisfazer a curiosidade que ouso dizer que sente de vos ver, à custa de abandonar esses locais favoritos de dissipação, pela melancólica, ainda que venerável, escuridão do castelo que habitais. Talvez, contudo, se ela encontrar a sua saúde prejudicada por demasiada diversão, possa adquirir fortaleza suficiente para empreender uma viagem à Escócia na esperança de que se revele, pelo menos, benéfica para a sua saúde, se não condutora à sua felicidade. Os vossos receios, sinto dizê-lo, acerca da extravagância do vosso pai, das vossas próprias fortunas, das joias da vossa mãe e da importância da vossa irmã, suponho que são, infelizmente, demasiado fundados. A minha amiga tem ela própria quatro mil libras, e provavelmente gastará quase o mesmo todos os anos em vestuário e lugares públicos, se conseguir obtê-lo; ela certamente não se esforçará por redimir Sir George do modo de vida a que ele está tão habituado há tanto tempo, e há, portanto, alguma razão para temer que ficareis muito bem se obtiverdes alguma fortuna. As joias, imagino também, serão sem dúvida dela, e há demasiadas razões para pensar que ela presidirá à mesa do seu marido em detrimento da sua filha. Mas como um assunto tão melancólico vos deve necessariamente angustiar imenso, não me prolongarei mais nele.

A indisposição de Eloisa trouxe-nos a Bristol numa época tão pouco elegante do ano, que na verdade só vimos uma família distinta desde que chegámos. O Sr. e a Sra. Marlowe são pessoas muito agradáveis; a má saúde do seu filhinho ocasionou a sua chegada aqui; podeis imaginar que, sendo a única família com quem podemos conversar, estamos, por conseguinte, num pé de intimidade com eles; vemo-los, de facto, quase todos os dias e jantámos com eles ontem. Passámos um dia muito agradável e tivemos um jantar muito bom, embora, para dizer a verdade, a vitela estivesse terrivelmente mal passada e o *curry* não tivesse tempero. Não pude evitar desejar, durante todo o jantar, que tivesse sido eu a prepará-lo. Um irmão da Sra. Marlowe, o Sr. Cleveland, está com eles atualmente; é um jovem de boa aparência e parece ter muito que dizer. Digo a Eloisa que ela devia tentar conquistá-lo, mas ela não parece de todo apreciar a proposta. Gostaria de ver a rapariga casada e Cleveland tem uma propriedade muito boa. Talvez vos possais perguntar por que não me considero a mim própria, tal como à minha irmã, nos meus projetos matrimoniais; mas, para vos dizer a verdade, nunca desejo representar um papel mais principal num casamento do que o de supervisionar e dirigir o jantar, e, portanto, enquanto eu puder conseguir que qualquer um dos meus conhecidos case por mim, nunca pensarei em fazê-lo eu mesma, pois suspeito muito que não teria tanto tempo para preparar o meu próprio jantar de casamento como para preparar o dos meus amigos.

Vossa sinceramente, C. L.

CARTA QUINTA Srta. MARGARET LESLEY para a Srta. CHARLOTTE LUTTERELL

Lesley-Castle, 18 de março

No mesmo dia em que recebi a vossa última carta amável, Matilda recebeu uma de Sir George, datada de Edimburgo, a informar-nos de que teria o prazer de nos apresentar Lady Lesley na noite seguinte. Isto, como podeis supor, surpreendeu-nos consideravelmente, particularmente porque o vosso relato sobre a sua senhoria nos tinha dado razões para imaginar que havia pouca hipótese de ela visitar a Escócia numa altura em que Londres deve estar tão alegre. Sendo, contudo, nossa obrigação estarmos encantadas com tal marca de condescendência como uma visita de Sir George e Lady Lesley, preparámo-nos para lhes devolver uma resposta expressiva da felicidade que sentíamos na expectativa de tal bênção, quando, lembrando-nos felizmente de que, como eles chegariam ao castelo na noite seguinte, seria impossível para o meu pai recebê-la antes de deixar Edimburgo, contentámo-nos em deixá-los supor que estávamos tão felizes quanto deveríamos estar. Às nove da noite do dia seguinte, chegaram, acompanhados por um dos irmãos de Lady Lesley. A sua senhoria responde perfeitamente à descrição que me enviastes dela, exceto que não a acho tão bonita como pareceis considerá-la. Não tem um rosto mau, mas há algo de tão extremamente não majestoso na sua pequena figura diminuta, que a torna, em comparação com a altura elegante de Matilda e a minha, uma anã insignificante. A sua curiosidade de nos ver (que deve ter sido grande para a trazer mais de quatrocentas milhas) estando agora perfeitamente satisfeita, já começa a mencionar o seu regresso à cidade e pediu-nos que a acompanhássemos. Não podemos recusar o seu pedido, uma vez que é secundado pelas ordens do nosso pai e terciado pelas súplicas do Sr. Fitzgerald, que é certamente um dos jovens mais agradáveis que já vi. Ainda não está determinado quando iremos, mas sempre que o fizermos, levaremos certamente a nossa pequena Louisa connosco. Adeus, minha querida Charlotte; Matilda une-se a mim nos melhores votos para vós e para Eloisa, com os vossos sempre,

M. L.

CARTA SEXTA LADY LESLEY para a Srta. CHARLOTTE LUTTERELL

Lesley-Castle, 20 de março

Chegámos aqui, minha doce amiga, há cerca de quinze dias, e já me arrependo sinceramente de ter deixado a nossa encantadora casa em Portman-square por um castelo tão sombrio, velho e batido pelos ventos como este. Não podeis formar ideia suficientemente horrível da sua forma de masmorra. Está na verdade empoleirado sobre um rochedo, aparentemente tão totalmente inacessível, que esperava ter sido içada por uma corda; e arrependi-me sinceramente de ter gratificado a minha curiosidade de ver as minhas enteadas à custa de ser obrigada a entrar na sua prisão de forma tão perigosa e ridícula. Mas assim que me vi chegada em segurança ao interior deste edifício tremendo, consolei-me com a esperança de ver o meu espírito revigorado pela visão de duas raparigas belas, tal como as Srta. Lesley tinham sido representadas para mim em Edimburgo. Mas aqui, novamente, encontrei apenas desapontamento e surpresa. Matilda e Margaret Lesley são duas raparigas grandes, altas, fora do comum, crescidas demais, exatamente do tamanho adequado para habitar um castelo quase tão grande em comparação com elas próprias. Gostaria, minha querida Charlotte, que pudésseis ver estes gigantes escoceses; tenho a certeza de que vos assustariam até perderdes o juízo. Elas ficarão muito bem como contraponto a mim própria, por isso convidei-as a acompanharem-me a Londres, onde espero estar no decurso de quinze dias. Além destas duas donzelas justas, encontrei aqui uma pequena criatura mal-humorada que acredito ser alguma parente delas; disseram-me quem ela era e contaram-me uma longa história confusa sobre o seu pai e uma Srta. Qualquer-uma, que esqueci inteiramente. Odeio escândalos e detesto crianças. Tenho sido atormentada desde que cheguei aqui com visitas cansativas de um bando de desgraçados escoceses, com nomes terrivelmente difíceis; eram tão corteses, fizeram-me tantos convites e falaram tanto de voltar tão cedo, que não pude evitar ofendê-los. Suponho que não os voltarei a ver, e, no entanto, como grupo familiar, somos tão estúpidos que não sei o que fazer comigo mesma. Estas raparigas não têm música, a não ser árias escocesas, não têm desenhos, a não ser montanhas escocesas, e não têm livros, a não ser poemas escoceses — e eu odeio tudo o que é escocês. Em geral, posso passar metade do dia no meu *toilett* com muito prazer, mas porque me hei de vestir aqui, uma vez que não há uma criatura na casa a quem eu deseje agradar. Acabei de ter uma conversa com o meu irmão na qual ele me ofendeu grandemente, e da qual, como não tenho nada mais divertido para vos enviar, vos darei os pormenores. Deveis saber que suspeito fortemente há 4 ou 5 dias que William nutre uma parcialidade pela minha filha mais velha. Admito, de facto, que se estivesse inclinada a apaixonar-me por qualquer mulher, não teria feito escolha de Matilda Lesley como objeto da minha paixão; pois não há nada que eu odeie tanto como uma mulher alta: mas, contudo, não há como explicar o gosto de alguns homens e, como William tem ele próprio quase seis pés de altura, não é de admirar que ele tenha uma inclinação por essa altura. Ora, como tenho um grande afeto pelo meu irmão e ficaria extremamente triste por vê-lo infeliz, o que suponho que ele tenciona ser se não puder casar com Matilda, como, além disso, sei que as suas circunstâncias não lhe permitem casar com ninguém sem fortuna, e que a de Matilda é inteiramente dependente do seu pai, que não terá nem a sua própria inclinação nem a minha permissão para lhe dar nada presentemente, pensei que seria uma ação de boa natureza da minha parte para com o meu irmão informá-lo de tanto, para que ele pudesse escolher por si mesmo, se havia de vencer a sua paixão, ou amar e desesperar. Consequentemente, encontrando-me esta manhã a sós com ele numa das horríveis salas antigas deste castelo, abri o caso perante ele da seguinte forma.

"Bem, meu querido William, o que pensas destas raparigas? Pela minha parte, não as acho tão vulgares como esperava: mas talvez me possas achar parcial para com as filhas do meu marido e talvez tenhas razão — Elas são de facto tão parecidas com Sir George que é natural pensar..."

"Minha querida Susan (exclamou ele num tom de grande espanto), não pensas realmente que elas guardam a mínima semelhança com o seu pai! Ele é tão vulgar! — mas peço-te perdão — tinha-me esquecido inteiramente de quem estava a falar..."

"Oh! por favor não ligues a isso; (respondi eu) toda a gente sabe que Sir George é horrivelmente feio, e garanto-te que sempre o achei um espantalho."

"Surpreendes-me extremamente (respondeu William) com o que dizes tanto em relação a Sir George como às suas filhas. Não podes pensar que o teu marido é tão deficiente em encantos pessoais como falas, nem podes certamente ver qualquer semelhança entre ele e as Srta. Lesley, que são, na minha opinião, perfeitamente diferentes dele e perfeitamente bonitas."

"Se essa é a tua opinião em relação às raparigas, certamente não é prova da beleza do seu pai, pois se elas são perfeitamente diferentes dele e muito bonitas ao mesmo tempo, é natural supor que ele seja muito vulgar."

"De modo algum, (disse ele) pois o que pode ser bonito numa mulher, pode ser muito desagradável num homem."

"Mas tu próprio (respondi eu) ainda há poucos minutos admitiste que ele era muito vulgar."

"Os homens não são juízes da beleza no seu próprio sexo." (disse ele).

"Nem homens nem mulheres podem achar Sir George tolerável."

“Ora, ora, (disse ele) não vamos discutir a sua Beleza, mas a sua opinião sobre as suas Filhas é certamente muito singular, pois, se bem o entendi, disse que não as achou tão sem graça como esperava!”

“Ora, acha-as mais sem graça então?” (disse eu).

“Dificilmente posso acreditar que esteja a falar a sério (retorquiu ele) quando fala da aparência delas de uma maneira tão extraordinária. Não acha que as meninas Lesley são duas jovens muito bonitas?”

“Meu Deus! Não! (exclamei eu) Acho-as terrivelmente sem graça!”

“Sem graça! (respondeu Ele) Minha querida Susan, não pode pensar assim verdadeiramente! Pois que traço isolado no rosto de qualquer uma delas consegue encontrar defeito?”

“Oh! Deixe isso comigo; (respondi eu). Vamos, começarei pela mais velha — pela Matilda. Posso, William?” (Fiz um ar tão astuto quanto pude ao dizê-lo, a fim de o envergonhar).

“Elas são tão parecidas (disse ele) que suponho que os defeitos de uma seriam os defeitos de ambas.”

“Bem, então, em primeiro lugar; são ambas tão horrivelmente altas!”

“São mais altas do que tu, de facto.” (disse ele com um sorriso atrevido.)

“Ora, (disse eu), não sei nada sobre isso.”

“Bem, mas (continuou ele) embora possam estar acima da estatura comum, as suas figuras são perfeitamente elegantes; e quanto aos seus rostos, os seus Olhos são lindos.”

“Nunca poderei achar figuras tão tremendas e descomunais minimamente elegantes, e quanto aos seus olhos, são tão altos que nunca consegui esticar o pescoço o suficiente para olhar para eles.”

“Ora, (respondeu ele) não sei se não terá razão em não o tentar, pois talvez elas a pudessem deslumbrar com o seu Brilho.”

“Oh! Certamente. (disse eu, com a maior complacência, pois garanto-te, minha querida Charlotte, que não fiquei minimamente ofendida, embora, pelo que se seguiu, se pudesse supor que o William estava consciente de me ter dado motivos justos para o ser, pois, aproximando-se de mim e tomando a minha mão, disse) “Não deves parecer tão séria, Susan; vais fazer-me recear ter-te ofendido!”

“Ofendido-me! Querido Irmão, como te veio tal pensamento à cabeça! (retorquiu eu) Não, na verdade! Garanto-te que não estou minimamente surpreendida por seres um defensor tão caloroso da Beleza destas raparigas.” —

“Bem, mas (interrompeu William) lembra-te de que ainda não terminámos a nossa disputa sobre elas. Que defeito encontras na sua tez?”

“São tão horrivelmente pálidas.”

“Têm sempre um pouco de cor, e após qualquer exercício ela é consideravelmente realçada.”

“Sim, mas se alguma vez acontecesse chover nesta parte do mundo, nunca seriam capazes de exibir mais do que a sua cor habitual — exceto, claro, se se divertissem a correr para cima e para baixo por estas galerias e antecâmaras horríveis e antigas.”

“Bem, (respondeu o meu Irmão num tom de vexame, e lançando-me um olhar impertinente) se elas têm pouca cor, pelo menos é toda delas.”

Isto foi demais, minha querida Charlotte, pois tenho a certeza de que ele teve a insolência, com aquele olhar, de fingir suspeitar da realidade da minha. Mas tu, estou certa, defenderás o meu carácter sempre que o ouvires ser tão cruelmente difamado, pois podes testemunhar quantas vezes protestei contra o uso de Rouge, e quanto sempre te disse que não gostava dele. E garanto-te que as minhas opiniões continuam as mesmas.—. Bem, não suportando ser assim suspeitada pelo meu Irmão, deixei o quarto imediatamente, e desde então tenho estado no meu próprio quarto de vestir a escrever-te. Que longa carta fiz! Mas não deves esperar receber tais cartas da minha parte quando eu chegar à Cidade; pois é apenas em Lesley Castle que se tem tempo para escrever até a uma Charlotte Lutterell.—. Fiquei tão irritada com o olhar de William, que não consegui reunir Paciência suficiente para ficar e dar-lhe aquele conselho relativo à sua afeição por Matilda que me tinha levado, por puro Amor por ele, a iniciar a conversa; e estou agora tão totalmente convencida, por isso, da sua violenta paixão por ela, que tenho a certeza de que ele nunca ouviria a razão sobre o assunto, e por isso não me darei a mais trabalho nem com ele nem com a sua favorita. Adeus, minha querida menina —

Tua afetuosamente, Susan L.

CARTA SÉTIMA Da Srta. C. LUTTERELL para a Srta. M. LESLEY

Bristol, 27 de março

Recebi cartas tuas e da tua madrasta esta semana que me divertiram muito, pois descubro nelas que ambas estão positivamente com ciúmes da beleza uma da outra. É muito estranho que duas mulheres bonitas, embora sejam de facto mãe e filha, não possam estar na mesma casa sem se zangarem por causa dos seus rostos. Convence-te de que ambas são perfeitamente bonitas e não digas mais nada sobre o assunto. Suponho que esta carta deva ser dirigida a Portman Square, onde provavelmente (por muito que seja o teu afeto por Lesley Castle) não ficarás triste por te encontrares. Apesar de tudo o que as pessoas possam dizer sobre os campos verdes e o campo, sempre fui da opinião de que Londres e os seus divertimentos devem ser muito agradáveis por algum tempo, e ficaria muito feliz se o rendimento da minha mãe nos permitisse entrar nos seus lugares públicos durante o inverno. Sempre desejei particularmente ir a Vaux-hall, para ver se a carne fria lá é cortada tão fina como se diz, pois tenho uma suspeita astuta de que poucas pessoas entendem a arte de cortar uma fatia de carne fria tão bem como eu: aliás, seria difícil se eu não soubesse algo sobre o assunto, pois foi uma parte da minha educação com a qual me esforcei mais. A mamã sempre me achou a sua melhor aluna, embora, quando o papá era vivo, a Eloisa fosse a dele. Nunca, certamente, houve duas disposições mais diferentes no mundo. Ambas adorávamos ler. Ela preferia Histórias, e eu Receitas. Ela adorava desenhar Quadros, e eu desenhar Frangos. Ninguém conseguia cantar uma canção melhor do que ela, e ninguém fazer uma tarte melhor do que eu.—E assim tem sido sempre desde que deixámos de ser crianças. A única diferença é que todas as disputas sobre a excelência superior das nossas ocupações, então tão frequentes, agora já não existem. Há muitos anos que fizemos um acordo de admirar sempre o trabalho uma da outra; nunca deixo de ouvir a sua música, e ela é tão constante a comer as minhas tartes. Tal era, pelo menos, o caso até Henry Hervey aparecer em Sussex. Antes da chegada da sua tia à nossa vizinhança, onde ela se estabeleceu, tu sabes, há cerca de um ano, as visitas dele a ela eram em alturas determinadas, e de duração igual e definida; mas com a sua mudança para o Hall, que fica a uma curta distância a pé da nossa casa, tornaram-se mais frequentes e mais longas. Isto, como podes supor, não podia ser agradável para a Sra. Diana, que é uma inimiga declarada de tudo o que não seja dirigido pelo decoro e pela formalidade, ou que tenha a mínima semelhança com a descontração e a boa educação. Aliás, tão grande era a sua aversão ao comportamento do seu sobrinho que a ouvi muitas vezes dar tais alusões a isso diante dele que, se Henry não estivesse, nessas alturas, envolvido em conversa com a Eloisa, teriam captado a sua atenção e tê-lo-iam deixado muito perturbado. A alteração no comportamento da minha irmã, a que aludi anteriormente, aconteceu então. O acordo que tínhamos feito de admirar as produções uma da outra ela já não parecia respeitar, e embora eu aplaudisse constantemente até cada contradança que ela tocava, nem sequer uma tarte de pombo feita por mim conseguia obter dela uma única palavra de aprovação. Isto era certamente suficiente para deixar qualquer um furioso; no entanto, eu mantive-me tão fresca como um queijo creme e, tendo formado o meu plano e concertado um esquema de vingança, estava determinada a deixá-la seguir o seu caminho e não lhe fazer sequer uma única censura. O meu esquema era tratá-la como ela me tratava, e embora ela pudesse até desenhar o meu próprio retrato ou tocar Malbrook (que é a única melodia que alguma vez gostei verdadeiramente), não dizer sequer um “Obrigada Eloisa;” embora eu tivesse, durante muitos anos, gritado constantemente sempre que ela tocava, Bravo, Bravissimo, her, Da capo, allegretto con espressione, e Poco presto com muitas outras palavras estrangeiras, todas elas, como a Eloisa me dizia, expressivas da minha admiração; e assim, de facto, suponho que sejam, pois vejo algumas delas em cada página de cada livro de música, sendo os sentimentos, imagino eu, do compositor.

Executei o meu plano com grande pontualidade. Não posso dizer sucesso, pois, infelizmente! o meu silêncio enquanto ela tocava não parecia minimamente desagradar-lhe; pelo contrário, ela disse-me de facto um dia: “Bem, Charlotte, fico muito feliz por constatar que finalmente abandonaste esse costume ridículo de aplaudir a minha execução no cravo até me fazeres doer a cabeça e ficares rouca. Sinto-me muito grata por guardares a tua admiração para ti.” Nunca esquecerei a resposta muito espirituosa que dei a este discurso. “Eloisa (disse eu) peço-te que fiques totalmente à vontade no que respeita a todos esses receios no futuro, pois tem a certeza de que guardarei sempre a minha admiração para mim e para as minhas ocupações, e nunca a estenderei às tuas.” Esta foi a única coisa muito severa que alguma vez disse na minha vida; não que não me tenha sentido muitas vezes extremamente satírica, mas foi a única vez que tornei os meus sentimentos públicos.

Suponho que nunca houve dois jovens que tivessem uma maior afeição um pelo outro do que Henry e Eloisa; não, o amor do teu irmão pela Srta. Burton não podia ser tão forte, embora pudesse ser mais violento. Podes imaginar, portanto, o quão provocada a minha irmã deve ter ficado por ele lhe ter pregado tal partida. Pobre rapariga! ela ainda lamenta a sua morte com inabalável constância, apesar de ele estar morto há mais de seis semanas; mas algumas pessoas preocupam-se mais com tais coisas do que outras. O fraco estado de saúde em que a sua perda a deixou torna-a tão fraca, e tão incapaz de suportar o menor esforço, que passou a manhã toda em lágrimas apenas por se ter despedido da Sra. Marlowe que, com o seu marido, irmão e filho, deixam Bristol esta manhã. Lamento que partam porque são a única família com quem temos aqui qualquer conhecimento, mas nunca pensei em chorar; é certo que a Eloisa e a Sra. Marlowe sempre estiveram mais juntas do que comigo, e contraíram, portanto, uma espécie de afeição uma pela outra, o que não torna as lágrimas tão indesculpáveis nelas como seriam em mim. Os Marlowe vão para a Cidade; Cliveland acompanha-os; como nem a Eloisa nem eu conseguimos apanhá-lo, espero que tu ou a Matilda tenham mais sorte. Não sei quando deixaremos Bristol, o ânimo da Eloisa está tão em baixo que ela é muito avessa a mover-se, e ainda assim não está, de forma alguma, melhorada pela sua estadia aqui. Uma ou duas semanas, espero, determinarão as nossas medidas — entretanto, acredita em mim

e etc.—e etc.—Charlotte Lutterell.

CARTA OITAVA Da Srta. LUTTERELL para a Sra. MARLOWE

Bristol, 4 de abril

Sinto-me muito grata a ti, minha querida Emma, por tal marca de afeição como a que me lisonjeio ter sido transmitida na proposta que me fizeste de correspondermos; garanto-te que será um grande alívio para mim escrever-te e, enquanto a minha saúde e ânimo mo permitirem, encontrar-me-ás uma correspondente muito constante; não direi uma correspondente divertida, pois conheces a minha situação o suficiente para não ignorares que em mim a alegria seria imprópria e conheço o meu próprio coração demasiado bem para não estar ciente de que seria antinatural. Não deves esperar notícias, pois não vemos ninguém com quem tenhamos o mínimo conhecimento, ou em cujos procedimentos tenhamos qualquer interesse. Não deves esperar escândalos, pois, pela mesma regra, estamos igualmente impedidas de os ouvir ou inventar.—Não deves esperar de mim nada além das efusões melancólicas de um coração partido que está sempre a voltar à felicidade que outrora desfrutou e que suporta mal a sua atual desgraça. A possibilidade de poder escrever-te, de falar-te do meu Henry perdido, será um luxo para mim, e a tua bondade, sei, não se recusará a ler o que tanto alívio trará ao meu coração escrever. Pensei outrora que ter o que é geralmente chamado de Amiga (quero dizer, alguém do meu próprio sexo a quem eu pudesse falar com menos reserva do que a qualquer outra pessoa), independente da minha irmã, nunca seria um objeto dos meus desejos, mas quão enganada estava! Charlotte está demasiado absorvida por duas correspondentes confidenciais desse tipo para ocupar o lugar de uma para mim, e espero que não penses que sou infantilmente romântica quando digo que ter alguma amiga gentil e compassiva que pudesse ouvir as minhas mágoas sem tentar consolar-me era o que eu desejava há algum tempo, quando o nosso conhecimento contigo, a intimidade que se seguiu e a particular atenção afetuosa que me dedicaste quase desde o início, me fez entreter a ideia lisonjeira de que essas atenções seriam melhoradas, num conhecimento mais próximo, numa amizade que, se fosses o que os meus desejos te formaram, seria a maior felicidade que eu poderia ser capaz de desfrutar. Constatar que tais esperanças se realizam é, de facto, uma satisfação, uma satisfação que é agora quase a única que poderei alguma vez experienciar.—Sinto-me tão languida que tenho a certeza de que, se estivesses comigo, obrigar-me-ias a parar de escrever, e não posso dar-te uma maior prova da minha afeição por ti do que agir, como sei que gostarias que eu fizesse, quer ausente ou presente. Sou a amiga sincera da minha querida Emma

E. L.

CARTA NONA Da Sra. MARLOWE para a Srta. LUTTERELL

Grosvenor Street, 10 de abril

Precisarei dizer, minha querida Eloisa, quão bem-vinda foi a tua carta para mim? Não posso dar uma maior prova do prazer que recebi dela, ou do desejo que sinto de que a nossa correspondência possa ser regular e frequente, do que dando-te um exemplo tão bom como agora faço ao respondê-la antes do fim da semana—. Mas não imagines que reclamo qualquer mérito em ser tão pontual; pelo contrário, garanto-te que é uma satisfação muito maior para mim escrever-te do que passar a noite num concerto ou num baile. O Sr. Marlowe deseja tanto que eu apareça em alguns dos lugares públicos todas as noites que não gosto de recusar-lhe, mas, ao mesmo tempo, desejo tanto ficar em casa que, independentemente do prazer que experimento ao dedicar qualquer parte do meu tempo à minha querida Eloisa, a liberdade que reclamo, por ter uma carta para escrever, de passar uma noite em casa com o meu menino, tu conheces-me bem o suficiente para estares ciente de que será, por si só, um incentivo suficiente (se um for necessário) para eu manter com prazer uma correspondência contigo. Quanto ao assunto das tuas cartas para mim, quer grave ou alegre, se te diz respeito, deve ser igualmente interessante para mim; não que eu pense que a indulgência melancólica das tuas próprias mágoas, ao repeti-las e ao insistir nelas comigo, apenas as encorajará e aumentará, e que seria mais prudente da tua parte evitar um assunto tão triste; mas, sabendo como sei que prazer apaziguador e melancólico te deve proporcionar, não me posso convencer a negar-te tal indulgência, e insistirei apenas em que não esperes que eu te encoraje nisso com as minhas próprias cartas; pelo contrário, pretendo enchê-las com tal espírito vivo e humor animador que provocará até um sorriso no rosto doce, mas triste, da minha Eloisa.

Em primeiro lugar, deves saber que encontrei as três amigas da tua irmã, Lady Lesley e as suas filhas, duas vezes em público desde que estou aqui. Sei que estarás impaciente por ouvir a minha opinião sobre a beleza de três senhoras de quem tanto ouviste falar. Ora, como estás demasiado doente e demasiado infeliz para seres vaidosa, penso que posso arriscar informar-te de que não gosto de nenhum dos seus rostos tanto quanto do teu. No entanto, são todas bonitas — Lady Lesley, de facto, já a tinha visto antes; as suas filhas, creio eu, seriam geralmente consideradas como tendo um rosto mais fino do que o de Sua Excelência, e ainda assim, entre os encantos de uma tez florescente, um pouco de afetação e uma grande dose de conversa fiada (em cada uma das quais ela é superior às jovens senhoras), aposto que ela ganhará tantos admiradores como os traços mais regulares da Matilda e da Margaret. Tenho a certeza de que concordarás comigo ao dizer que nenhuma delas pode ter o tamanho adequado para a verdadeira beleza, quando souberes que duas delas são mais altas e a outra mais baixa do que nós. Apesar deste defeito (ou antes, por causa dele), há algo de muito nobre e majestoso na figura das meninas Lesley, e algo de agradavelmente vivo na aparência da sua bonita madrasta. Mas, embora uma possa ser majestosa e a outra viva, os rostos de nenhuma delas possuem aquela doçura fascinante da minha Eloisa, que o seu langor atual está longe de diminuir. O que diriam o meu marido e o meu irmão de nós se soubessem todas as coisas amáveis que estive a dizer-te nesta carta? É muito duro que uma mulher bonita nunca possa ser informada de que o é por qualquer pessoa do seu próprio sexo sem que essa pessoa seja suspeita de ser ou a sua inimiga determinada, ou a sua bajuladora assumida. Como são mais amáveis as mulheres nesse aspeto! Um homem pode dizer quarenta coisas gentis a outro sem que suponhamos que ele é pago por isso, e desde que ele cumpra o seu dever para com o nosso sexo, não nos importa quão educado ele seja para o seu próprio.

A Sra. Lutterell será tão amável de aceitar os meus cumprimentos, Charlotte, meu amor, e Eloisa os melhores votos para a recuperação da sua saúde e ânimo que podem ser oferecidos pela sua amiga afetuosa

E. Marlowe.

Receio que esta carta seja apenas um pobre exemplo dos meus dotes de espírito; e a tua opinião sobre eles não será grandemente aumentada quando te garantir que fui tão divertida quanto possível.

CARTA DÉCIMA Da Srta. MARGARET LESLEY para a Srta. CHARLOTTE LUTTERELL

Portman Square, 13 de abril

MINHA QUERIDA CHARLOTTE

Deixamos Lesley-Castle no dia 28 do mês passado e chegamos sãos e salvos a Londres após uma viagem de sete dias; tive o prazer de encontrar a sua carta aqui à espera da minha chegada, pela qual lhe agradeço reconhecida. Ah! minha querida amiga, cada dia lamento mais os prazeres serenos e tranquilos do castelo que deixamos, em troca das incertas e desiguais diversões desta cidade tão vangloriada. Não que eu pretenda afirmar que estas incertas e desiguais diversões me sejam minimamente desagradáveis; pelo contrário, desfruto-as imensamente e desfrutá-las-ia ainda mais, se não tivesse a certeza de que cada aparição que faço em público apenas remacha as correntes daqueles seres infelizes cuja paixão é impossível não compadecer, embora esteja fora do meu alcance corresponder. Em suma, minha querida Charlotte, é a minha sensibilidade pelo sofrimento de tantos jovens amáveis, a minha aversão à admiração extrema que encontro, e a minha repugnância em ser tão celebrada tanto em público, em privado, nos jornais e nas tipografias, que são as razões pelas quais não posso desfrutar mais plenamente das diversões tão variadas e agradáveis de Londres. Quantas vezes desejei possuir tão pouca beleza pessoal quanto você; que a minha figura fosse tão deselegante; o meu rosto tão pouco encantador; e a minha aparência tão pouco atraente quanto a sua! Mas ah! que pouca probabilidade existe de um acontecimento tão desejável; tive varíola e, portanto, devo submeter-me ao meu infeliz destino.

Vou agora confiar-lhe, minha querida Charlotte, um segredo que há muito perturba a tranquilidade dos meus dias, e que é de uma natureza a exigir a mais inviolável discrição da sua parte. Na segunda-feira da semana passada, Matilda e eu acompanhamos Lady Lesley a uma reunião na casa da honorável Sra. Kickabout; fomos escoltadas pelo Sr. Fitzgerald, que é, no geral, um jovem muito amável, embora talvez um pouco singular no seu gosto — ele está apaixonado por Matilda. Mal tínhamos cumprimentado a dona da casa e feito uma vénia a uma dezena de pessoas diferentes, quando a minha atenção foi atraída pelo aparecimento de um jovem, o mais encantador do seu sexo, que naquele momento entrou na sala com outro cavalheiro e uma senhora. Desde o primeiro momento em que o contemplei, tive a certeza de que dele dependia a felicidade futura da minha vida. Imagine a minha surpresa quando ele me foi apresentado pelo nome de Cleveland — reconheci-o instantaneamente como o irmão da Sra. Marlowe, e o conhecido da minha Charlotte em Bristol. O Sr. e a Sra. M. foram o cavalheiro e a senhora que o acompanhavam. (Você não acha a Sra. Marlowe bonita?) O trato elegante do Sr. Cleveland, as suas maneiras polidas e o seu arco delicioso confirmaram de imediato o meu apego. Ele não falou; mas posso imaginar tudo o que teria dito, se tivesse aberto a boca. Posso imaginar o entendimento cultivado, os sentimentos nobres e a linguagem elegante que teriam brilhado tão conspicuamente na conversação do Sr. Cleveland. A aproximação de Sir James Gower (um dos meus numerosos admiradores) impediu a descoberta de tais faculdades, ao pôr fim a uma conversa que nunca tínhamos começado, e ao atrair a minha atenção para si mesmo. Mas oh! quão inferiores são os dotes de Sir James aos do seu tão invejado rival! Sir James é um dos nossos visitantes mais frequentes e está quase sempre presente nas nossas reuniões. Desde então, encontrámo-nos muitas vezes com o Sr. e a Sra. Marlowe, mas sem Cleveland — ele está sempre ocupado noutro lugar. A Sra. Marlowe fatiga-me até à morte cada vez que a vejo com as suas conversas cansativas sobre você e Eloisa. Ela é tão estúpida! Vivo na esperança de ver o seu irresistível irmão esta noite, pois vamos a casa de Lady Flambeau, que sei ser íntima dos Marlowe. O nosso grupo será composto por Lady Lesley, Matilda, Fitzgerald, Sir James Gower e eu própria. Vemos pouco de Sir George, que está quase sempre na mesa de jogo. Ah! minha pobre fortuna, onde estarás tu a esta altura? Vemos mais de Lady L., que faz sempre a sua aparição (fortemente pintada) à hora do jantar. Ai! que jóias deliciosas ela usará esta noite em casa de Lady Flambeau! No entanto, admiro-me de como ela mesma pode deleitar-se em usá-las; certamente deve estar ciente da impropriedade ridícula de carregar a sua figura diminuta com tais ornamentos supérfluos; será possível que ela não saiba o quanto uma elegância simples é superior ao traje mais estudado? Se ela nos presenteasse a Matilda e a mim com elas, quão obrigadas lhe ficaríamos! Como seriam adequados os diamantes nas nossas figuras majestosas! E como é surpreendente que tal ideia nunca lhe tenha ocorrido. Tenho a certeza de que, se refleti desta maneira uma vez, fi-lo cinquenta vezes. Sempre que vejo Lady Lesley vestida com elas, tais reflexões surgem imediatamente na minha mente. As jóias da minha própria mãe também! Mas não direi mais nada sobre um assunto tão melancólico — deixe-me distraí-la com algo mais agradável — Matilda recebeu uma carta esta manhã de Lesley, pela qual temos o prazer de descobrir que ele está em Nápoles, converteu-se ao catolicismo romano, obteve uma das bulas do Papa para anular o seu primeiro casamento e desde então casou-se com uma dama napolitana de grande linhagem e fortuna. Diz-nos, além disso, que um caso semelhante aconteceu à sua primeira esposa, a desprezível Louisa, que também está em Nápoles, converteu-se ao catolicismo romano e está prestes a casar-se com um nobre napolitano de grande e distinto mérito. Diz que atualmente são muito bons amigos, perdoaram completamente todos os erros passados e pretendem ser, no futuro, muito bons vizinhos. Convida Matilda e eu a visitá-lo na Itália e a levar-lhe a sua pequena Louisa, que tanto a sua mãe, a madrasta e ele próprio desejam igualmente ver. Quanto a aceitarmos o seu convite, é por agora muito incerto; Lady Lesley aconselha-nos a ir sem perda de tempo; Fitzgerald oferece-se para nos escoltar até lá, mas Matilda tem algumas dúvidas sobre a propriedade de tal plano — ela admite que seria muito agradável. Tenho a certeza de que ela gosta do sujeito. O meu pai deseja que não tenhamos pressa, pois talvez, se esperarmos alguns meses, ele e Lady Lesley tenham o prazer de nos acompanhar. Lady Lesley diz que não, que nada a tentará a renunciar às diversões de Brighthelmstone por uma viagem à Itália apenas para ver o nosso irmão. "Não (diz a mulher desagradável), fui uma vez na minha vida tola o suficiente para viajar não sei quantas centenas de milhas para ver dois da família, e descobri que não valeu a pena, por isso que o diabo me leve se alguma vez for tão tola novamente." Assim diz a senhora, mas Sir George ainda persiste em dizer que, talvez dentro de um mês ou dois, eles possam acompanhar-nos.

Adeus, minha querida Charlotte. Sua fiel Margaret Lesley.

A HISTÓRIA DE INGLATERRA

DO REINADO DE HENRIQUE IV À MORTE DE CARLOS I

POR UMA HISTORIADORA PARCIAL, PRECONCEITUOSA E IGNORANTE.

À Srta. Austen, filha mais velha do Rev. George Austen, este trabalho é dedicado com todo o respeito por

A AUTORA.

N.B. Haverá muito poucas datas nesta História.

A HISTÓRIA DE INGLATERRA

HENRIQUE IV

Henrique IV subiu ao trono de Inglaterra para sua grande satisfação no ano de 1399, depois de ter convencido o seu primo e predecessor Ricardo II a renunciar a ele e a retirar-se para o resto da sua vida para o Castelo de Pomfret, onde por acaso foi assassinado. É de supor que Henrique fosse casado, uma vez que certamente teve quatro filhos, mas não está ao meu alcance informar o leitor sobre quem era a sua esposa. Seja como for, ele não viveu para sempre, mas ao adoecer, o seu filho, o Príncipe de Gales, veio e levou a coroa; momento em que o Rei fez um longo discurso, para o qual devo remeter o leitor para as peças de Shakespeare, e o Príncipe fez outro ainda mais longo. Resolvidas assim as coisas entre eles, o Rei morreu e foi sucedido pelo seu filho Henrique, que tinha anteriormente derrotado Sir William Gascoigne.

HENRIQUE V

Este príncipe, após suceder ao trono, tornou-se completamente reformado e amável, abandonando todos os seus companheiros dissipados e nunca mais espancando Sir William. Durante o seu reinado, Lord Cobham foi queimado vivo, mas esqueci-me do motivo. Sua Majestade virou então os seus pensamentos para a França, onde foi e travou a famosa Batalha de Agincourt. Casou-se depois com a filha do Rei, Catarina, uma mulher muito agradável segundo o relato de Shakespeare. Apesar de tudo isto, contudo, morreu e foi sucedido pelo seu filho Henrique.

HENRIQUE VI

Não posso dizer muito sobre o juízo deste monarca. Nem o faria se pudesse, pois ele era um Lancastriano. Suponho que saiba tudo sobre as guerras entre ele e o Duque de York, que estava do lado certo; se não sabe, é melhor ler outra História, pois não serei muito difusa nesta, pretendendo apenas desabafar o meu baço contra, e mostrar o meu ódio por todas aquelas pessoas cujos partidos ou princípios não se coadunam com os meus, e não dar informações. Este Rei casou-se com Margarida de Anjou, uma mulher cujas angústias e infortúnios foram tão grandes que quase me fazem, a mim que a odeio, compadecer-me dela. Foi neste reinado que Joana d'Arc viveu e fez tal alarido entre os ingleses. Não a deveriam ter queimado — mas queimaram-na. Houve várias batalhas entre os Yorkistas e os Lancastriano, nas quais os primeiros (como deveriam) geralmente venciam. Por fim, foram inteiramente derrotados; o Rei foi assassinado — a Rainha foi enviada para casa — e Eduardo IV subiu ao trono.

EDUARDO IV

Este monarca foi famoso apenas pela sua beleza e pela sua coragem, das quais o retrato que aqui apresentamos dele, e o seu comportamento destemido ao casar-se com uma mulher enquanto estava noivo de outra, são provas suficientes. A sua esposa foi Elizabeth Woodville, uma viúva que, pobre mulher!, foi mais tarde confinada num convento por aquele monstro de iniquidade e avareza, Henrique VII. Uma das amantes de Eduardo foi Jane Shore, sobre quem foi escrita uma peça, mas é uma tragédia e, portanto, não vale a pena ler. Tendo realizado todas estas ações nobres, Sua Majestade morreu e foi sucedido pelo seu filho.

EDUARDO V

Este príncipe infeliz viveu tão pouco tempo que ninguém o desenhou. Foi assassinado por instigação do seu tio, cujo nome era Ricardo III.

RICARDO III

O caráter deste príncipe tem sido, em geral, muito severamente tratado pelos historiadores, mas como era um York, estou mais inclinada a supor que era um homem muito respeitável. Foi, de facto, assertivamente declarado que ele matou os seus dois sobrinhos e a sua esposa, mas também foi declarado que ele não matou os seus dois sobrinhos, o que estou inclinada a acreditar ser verdade; e se este é o caso, pode também afirmar-se que ele não matou a sua esposa, pois se Perkin Warbeck era realmente o Duque de York, por que não poderia Lambert Simnel ser a viúva de Ricardo? Inocente ou culpado, não reinou muito tempo em paz, pois Henrique Tudor, Conde de Richmond, tão grande vilão quanto jamais existiu, fez um grande alarido para obter a coroa e, tendo morto o Rei na batalha de Bosworth, sucedeu-lhe.

HENRIQUE VII

Este monarca, pouco depois da sua ascensão, casou-se com a Princesa Isabel de York, através da qual provou claramente que considerava o seu próprio direito inferior ao dela, embora pretendesse o contrário. Deste casamento teve dois filhos e duas filhas, a mais velha das quais foi casada com o Rei da Escócia e teve a felicidade de ser avó de uma das primeiras figuras do Mundo. Mas sobre ela terei ocasião de falar mais extensamente no futuro. A mais nova, Maria, casou-se primeiro com o Rei de França e depois com o Duque de Suffolk, de quem teve uma filha, mais tarde a mãe de Lady Jane Grey, que embora inferior à sua encantadora prima, a Rainha dos Escoceses, era contudo uma jovem amável e famosa por ler grego enquanto as outras pessoas caçavam. Foi no reinado de Henrique VII que Perkin Warbeck e Lambert Simnel, mencionados anteriormente, fizeram a sua aparição; o primeiro dos quais foi posto no pelourinho, refugiou-se na Abadia de Beaulieu e foi decapitado com o Conde de Warwick, e o último foi levado para a cozinha do Rei. Sua Majestade morreu e foi sucedido pelo seu filho Henrique, cujo único mérito foi não ser tão mau quanto a sua filha Isabel.

HENRIQUE VIII

Seria um insulto aos meus leitores supor que eles não estão tão familiarizados com os pormenores do reinado deste Rei como eu própria. Poupar-lhes-á, portanto, a tarefa de ler novamente o que já leram, e a mim o trabalho de escrever o que não recordo perfeitamente, ao dar apenas um ligeiro esboço dos principais acontecimentos que marcaram o seu reinado. Entre estes podem ser contados o Cardeal Wolsey a dizer ao pai Abade da Abadia de Leicester que "ele viera para depor os seus ossos entre eles", a reforma da religião e o Rei a cavalgar pelas ruas de Londres com Anna Bullen. É, contudo, justiça e meu dever declarar que esta mulher amável era inteiramente inocente dos crimes de que foi acusada, e dos quais a sua beleza, a sua elegância e a sua vivacidade eram provas suficientes, sem mencionar os seus protestos solenes de inocência, a fraqueza das acusações contra ela e o caráter do Rei; todos os quais acrescentam alguma confirmação, embora talvez apenas ligeira quando comparada com aquelas anteriormente alegadas a seu favor. Embora eu não pretenda dar muitas datas, como julgo apropriado dar algumas e, naturalmente, farei a escolha daquelas que é mais necessário que o leitor saiba, penso que é justo informá-lo de que a sua carta ao Rei foi datada de 6 de maio. Os crimes e crueldades deste príncipe foram numerosos demais para serem mencionados (como esta história, confio, demonstrou plenamente); e nada pode ser dito em sua defesa, senão que a sua abolição das ordens religiosas e a sua entrega às ruinosas depredações do tempo foram de infinita utilidade para a paisagem da Inglaterra em geral, o que provavelmente foi um motivo principal para o fazer, pois, de outra forma, por que haveria um homem que não tinha religião alguma ter tanto trabalho para abolir uma que estava estabelecida há séculos no Reino? A quinta esposa de Sua Majestade foi a sobrinha do Duque de Norfolk que, embora universalmente absolvida dos crimes pelos quais foi decapitada, foi por muitas pessoas considerada como tendo levado uma vida dissoluta antes do seu casamento — sobre isto, contudo, tenho muitas dúvidas, uma vez que ela era parente daquele nobre Duque de Norfolk que foi tão fervoroso na causa da Rainha da Escócia, e que finalmente caiu como vítima dela. A última esposa do Rei conseguiu sobreviver-lhe, mas com dificuldade. Foi sucedido pelo seu único filho, Eduardo.

EDUARDO VI

Como este príncipe tinha apenas nove anos de idade na altura da morte do seu pai, foi considerado por muitas pessoas demasiado jovem para governar, e acontecendo o falecido Rei ser da mesma opinião, o irmão da sua mãe, o Duque de Somerset, foi escolhido Protetor do reino durante a sua menoridade. Este homem era, no geral, de um caráter muito amável, e é um tanto um favorito meu, embora de modo algum pretendesse afirmar que ele era igual àqueles primeiros homens, Robert Earl of Essex, Delamere ou Gilpin. Foi decapitado, do que poderia com razão ter-se orgulhado, se soubesse que tal tinha sido a morte da Rainha Maria da Escócia; mas como era impossível que ele tivesse consciência do que nunca tinha acontecido, não parece que se tenha sentido particularmente encantado com a maneira como ocorreu. Após o seu falecimento, o Duque de Northumberland teve o cuidado do Rei e do Reino, e desempenhou a sua função de ambos tão bem que o Rei morreu e o Reino foi deixado à sua nora, Lady Jane Grey, que já foi mencionada como lendo grego. Se ela realmente compreendia essa língua ou se tal estudo procedia apenas de um excesso de vaidade, pelo qual creio que ela sempre foi um tanto notável, é incerto. Qualquer que fosse a causa, ela preservou a mesma aparência de conhecimento, e desprezo pelo que era geralmente considerado prazer, durante toda a sua vida, pois declarou-se descontente por ser nomeada Rainha e, enquanto a conduziam ao cadafalso, escreveu uma frase em latim e outra em grego ao ver o corpo morto do seu marido a passar acidentalmente por aquele caminho.

MARIA

Esta mulher teve a sorte de ser elevada ao trono de Inglaterra, apesar das pretensões superiores, mérito e beleza das suas primas Maria, Rainha da Escócia, e Jane Grey. Nem posso compadecer-me do Reino pelos infortúnios que experimentaram durante o seu reinado, uma vez que os mereceram plenamente por lhe terem permitido suceder ao seu irmão — o que foi uma dupla parcela de loucura, uma vez que poderiam ter previsto que, como morreu sem filhos, seria sucedida por aquela desgraça para a humanidade, aquela praga da sociedade, Isabel. Muitas foram as pessoas que caíram como mártires da religião protestante durante o seu reinado; suponho que não menos de uma dúzia. Casou-se com Filipe, Rei de Espanha, que no reinado da sua irmã foi famoso pela construção de Armadas. Morreu sem descendência, e então chegou o momento terrível em que o destruidor de todo o conforto, a traidora enganadora da confiança depositada nela, e a assassina da sua prima subiu ao trono.

ISABEL

Foi a infeliz particularidade desta Mulher ter tido maus Ministros — pois, por mais perversa que ela própria fosse, não poderia ter cometido tal extensão de maldades, se estes homens vis e abandonados não tivessem conivência com os seus Crimes, encorajando-a neles. Sei que por muitas pessoas foi afirmado e acreditado que Lord Burleigh, Sir Francis Walsingham e o resto daqueles que ocuparam os principais cargos de Estado eram Ministros merecedores, experientes e capazes. Mas oh! quão cegos devem estar tais escritores e tais Leitores para o verdadeiro Mérito, para o Mérito desprezado, negligenciado e difamado, se podem persistir em tais opiniões quando refletem que estes homens, estes homens tão vangloriados, foram escândalos para o seu País e para o seu sexo ao permitir e assistir a sua Rainha no confinamento, pelo espaço de dezanove anos, de uma Mulher que, se as exigências do Parentesco e do Mérito não tivessem valia, ainda assim, como Rainha e como alguém que condescendeu em depositar confiança nela, tinha todas as razões para esperar assistência e proteção; e, por fim, ao permitir que Isabel levasse esta amável Mulher a uma Morte prematura, imerecida e escandalosa. Pode alguém, se refletir apenas por um momento sobre esta mancha, esta mancha eterna na sua compreensão e no seu Caráter, permitir qualquer elogio a Lord Burleigh ou a Sir Francis Walsingham? Oh! o que não terá sofrido a mente nobilíssima desta Princesa encantadora, cujo único amigo era então o Duque de Norfolk, e cujos únicos agora são o Sr. Whitaker, a Sra. Lefroy, a Sra. Knight e eu própria, que foi abandonada pelo seu filho, confinada pela sua Prima, abusada, censurada e vilipendiada por todos, o que não terá sofrido quando informada de que Isabel tinha dado ordens para a sua Morte! Contudo, suportou-o com uma fortaleza inabalável, firme na sua mente; constante na sua Religião; e preparou-se para enfrentar o destino cruel ao qual estava condenada com uma magnanimidade que só poderia provir de uma Inocência consciente. E ainda assim, poderá o leitor acreditar ser possível que alguns protestantes endurecidos e zelosos a tenham até insultado por aquela firmeza na Religião Católica que lhe trouxe tanto crédito? Mas esta é uma prova marcante das almas estreitas e dos Julgamentos preconceituosos daqueles que a acusam. Foi executada no Grande Salão do Castelo de Fortheringay (lugar sagrado!) na quarta-feira, 8 de fevereiro de 1586 — para a eterna Reprovação de Isabel, dos seus Ministros e da Inglaterra em geral. Talvez não seja desnecessário, antes de concluir inteiramente o meu relato sobre esta Rainha infeliz, observar que ela foi acusada de vários crimes durante o tempo em que reinou na Escócia, dos quais asseguro agora muito seriamente ao meu Leitor que ela era inteiramente inocente; não tendo nunca sido culpada de nada mais do que Imprudências nas quais foi traída pela abertura do seu Coração, pela sua Juventude e pela sua Educação. Tendo eu, assim espero, dissipado inteiramente com esta garantia toda a Suspeita e toda a dúvida que poderiam ter surgido na mente do Leitor pelo que outros Historiadores escreveram sobre ela, passarei a mencionar os Eventos restantes que marcaram o reinado de Isabel. Foi por esta altura que Sir Francis Drake, o primeiro Navegador inglês a circum-navegar o Mundo, viveu para ser o ornamento do seu País e da sua profissão. Contudo, grande como ele era, e justamente celebrado como marinheiro, não posso deixar de prever que ele será igualado neste ou no próximo Século por alguém que, embora ainda jovem, já promete corresponder a todas as expectativas ardentes e otimistas dos seus Parentes e Amigos, entre os quais posso incluir a amável Senhora a quem esta obra é dedicada, e a minha não menos amável pessoa.

Embora de profissão diferente, e brilhando numa esfera de Vida diferente, mas igualmente conspícuo no Caráter de um Conde, como Drake o foi no de um Marinheiro, estava Robert Devereux, Lord Essex. Este jovem desafortunado não era diferente em caráter daquele igualmente desafortunado Frederic Delamere. O símile pode ser levado ainda mais longe, e Isabel, o tormento de Essex, pode ser comparada à Emmeline de Delamere. Seria interminável enumerar os infortúnios deste nobre e galante Conde. Basta dizer que foi decapitado a 25 de fevereiro, depois de ter sido Lorde Tenente da Irlanda, depois de ter colocado a mão na espada e depois de ter prestado muitos outros serviços ao seu País. Isabel não sobreviveu muito tempo à sua perda, e morreu tão miserável que, se não fosse uma ofensa à memória de Maria, eu ter-lhe-ia pena.

JAIME I

Embora este Rei tivesse algumas falhas, entre as quais, e como a principal, a de permitir a morte da sua Mãe, ainda assim, considerado no conjunto, não posso deixar de gostar dele. Casou-se com Ana da Dinamarca e teve vários Filhos; felizmente para ele, o seu filho mais velho, o Príncipe Henrique, morreu antes do pai, ou poderia ter passado pelos males que se abateram sobre o seu desafortunado Irmão.

Como sou eu própria parcial em relação à religião católica romana, é com infinito pesar que me vejo obrigada a censurar o Comportamento de qualquer Membro dela: contudo, sendo a Verdade, penso eu, muito desculpável num Historiador, vejo-me na necessidade de dizer que, neste reinado, os católicos romanos da Inglaterra não se comportaram como Cavalheiros para com os protestantes. O seu Comportamento, na verdade, para com a Família Real e ambas as Casas do Parlamento, poderia justamente ser considerado por eles como muito incivil, e até Sir Henry Percy, embora certamente o homem mais bem-educado do partido, não tinha nada daquela polidez geral que é universalmente agradável, pois as suas atenções estavam inteiramente limitadas a Lord Mounteagle.

Sir Walter Raleigh floresceu neste e no reinado anterior, e é por muitas pessoas tido em grande veneração e respeito — Mas, como ele foi um inimigo do nobre Essex, não tenho nada a dizer em seu louvor, e devo remeter todos aqueles que desejem familiarizar-se com os detalhes da sua vida para a peça de teatro de Mr. Sheridan, O Crítico, onde encontrarão muitas anedotas interessantes tanto sobre ele como sobre o seu amigo Sir Christopher Hatton. — Sua Majestade era daquela disposição amável que se inclina para a Amizade, e em tais pontos possuía uma penetração mais aguçada para descobrir o Mérito do que muitas outras pessoas. Ouvi uma vez uma excelente Charada sobre um Tapete, da qual o assunto em que estou agora me lembra, e como penso que pode proporcionar aos meus Leitores algum entretenimento descobri-la, tomarei aqui a liberdade de a apresentar.

CHARADA

O meu primeiro é o que o meu segundo foi para o Rei Jaime I, e tu pisas o meu todo.

Os principais favoritos de Sua Majestade foram Car, que foi depois criado Conde de Somerset e cujo nome talvez possa ter alguma participação na Charada acima mencionada, e George Villiers, depois Duque de Buckingham. Com a morte de Sua Majestade, foi sucedido pelo seu filho Carlos.

CARLOS I

Este monarca amável parece ter nascido para sofrer infortúnios iguais aos da sua adorável Avó; infortúnios que ele não poderia merecer, já que era seu descendente. Nunca certamente houve antes tantos Caracteres detestáveis ao mesmo tempo na Inglaterra como neste Período da sua História; nunca homens amáveis foram tão escassos. O número deles em todo o Reino totalizava apenas cinco, além dos habitantes de Oxford, que foram sempre leais ao seu Rei e fiéis aos seus interesses. Os nomes deste nobre grupo de cinco que nunca esqueceu o dever do súbdito, nem se desviou do seu apego a Sua Majestade, eram os seguintes — O próprio Rei, sempre constante no seu próprio apoio — o Arcebispo Laud, o Conde de Strafford, o Visconde Faulkland e o Duque de Ormond, que eram pouco menos vigorosos ou zelosos na causa. Enquanto os vilões da época formariam uma lista demasiado longa para ser escrita ou lida; contentar-me-ei, portanto, com mencionar os líderes do Bando. Cromwell, Fairfax, Hampden e Pym podem ser considerados como os Causadores originais de todas as perturbações, Aflições e Guerras Civis nas quais a Inglaterra esteve envolvida durante muitos anos. Neste reinado, assim como no de Isabel, vejo-me obrigada, apesar do meu apego aos escoceses, a considerá-los tão culpados quanto a generalidade dos ingleses, uma vez que ousaram pensar de forma diferente do seu Soberano, esquecer a Adoração que, como Stuarts, era seu Dever pagar-lhes, rebelar-se contra, depor e aprisionar a infeliz Maria; opor-se, enganar e vender o não menos infeliz Carlos. Os Eventos do reinado deste Monarca são demasiado numerosos para a minha pena e, na verdade, a recitação de quaisquer Eventos (exceto os que eu própria crio) é desinteressante para mim; sendo a minha principal razão para empreender a História da Inglaterra provar a inocência da Rainha da Escócia, o que me lisonjeio por ter feito eficazmente, e insultar Isabel, embora receie ter ficado aquém nesta última parte do meu plano. — Como, portanto, não é minha intenção dar qualquer relato particular das aflições nas quais este Rei foi envolvido através da má conduta e Crueldade do seu Parlamento, satisfazer-me-ei em defendê-lo da Reprovação de Governo Arbitrário e tirânico com que tem sido frequentemente acusado. Isto, sinto eu, não é difícil de fazer, pois com um argumento tenho a certeza de satisfazer toda a pessoa sensata e bem disposta cujas opiniões tenham sido devidamente guiadas por uma boa Educação — e este Argumento é que ele era um STUART.

FINIS

Sábado, 26 de novembro de 1791.

UMA COLEÇÃO DE CARTAS

Para a Srta. COOPER

PRIMAS

Consciente do Caráter Charmoso que em cada País, e cada Clima da Cristandade é Cantado, Relativamente a ti, com Cautela e Cuidado Recomendo à tua Caridosa Crítica esta Coleção Clever de Comentários Curiosos, que foram Cuidadosamente Colhidos, Coletados e Classificados pela tua Cómica Prima

A Autora

UMA COLEÇÃO DE CARTAS

CARTA PRIMEIRA De uma MÃE para a sua AMIGA.

Os meus Filhos começam agora a exigir toda a minha atenção de uma forma diferente daquela a que estavam habituados a recebê-la, pois chegaram agora àquela idade em que é necessário que se tornem, em certa medida, familiarizados com o Mundo. A minha Augusta tem 17 anos e a sua irmã não tem menos de doze meses a menos. Lisonjeio-me de que a sua educação tenha sido tal que não desonrará a sua aparência no Mundo, e que não desonrarão a sua Educação, tenho todas as razões para acreditar. Na verdade, são doces Raparigas—. Sensatas mas não afetadas — Realizadas mas Descontraídas—. Vivas mas Gentis—. Como o seu progresso em tudo o que aprenderam tem sido sempre o mesmo, estou disposta a esquecer a diferença de idade e a introduzi-las juntas no Mundo. Esta mesma Tarde está marcada como a sua primeira entrada na Vida, pois vamos tomar chá com a Sra. Cope e a sua Filha. Fico contente por não encontrarmos ninguém, pelo bem das minhas Raparigas, pois seria embaraçoso para elas entrar num Círculo demasiado vasto logo no primeiro dia. Mas prosseguiremos por graus. — Amanhã a família do Sr. Stanly virá tomar chá connosco, e talvez as Srta. Phillips se encontrem com eles. Na terça-feira faremos Visitas Matinais — Na quarta-feira jantaremos em Westbrook. Na quinta-feira teremos Companhia em casa. Na sexta-feira estaremos num Concerto Privado em casa de Sir John Wynna — e no sábado esperamos que a Srta. Dawson passe de Manhã — o que completará a Introdução das minhas Filhas à Vida. Como suportarão tanta dissipação, não consigo imaginar; quanto ao seu ânimo, não tenho medo, temo apenas pela sua saúde.

Este grande assunto está agora felizmente terminado, e as minhas Raparigas estão apresentadas. À medida que se aproximava o momento da nossa partida, não pode imaginar como as doces Criaturas tremiam de medo e expectativa. Antes que a Carruagem chegasse à porta, chamei-as ao meu quarto de vestir e, assim que se sentaram, dirigi-lhes a palavra: “Minhas queridas Filhas, chegou agora o momento em que vou colher as recompensas de todas as minhas Ansiedades e Trabalhos para convosco durante a vossa Educação. Esta Tarde ides entrar num Mundo no qual encontrareis muitas coisas maravilhosas; contudo, deixai-me alertar-vos contra o facto de vos deixardes influenciar mesquinhamente pelas Loucuras e Vícios dos outros, pois acreditai, minhas amadas Filhas, que se o fizerdes — ficarei muito triste por isso.” Ambas me asseguraram que lembrariam sempre os meus conselhos com Gratidão, e segui-los-iam com atenção; que estavam preparadas para encontrar um Mundo cheio de coisas para as espantar e chocar: mas que confiavam que o seu comportamento nunca me daria motivos para me arrepender do Cuidado Vigilante com que presidi à sua infância e formei as suas Mentes — “Com tais expectativas e tais intenções (exclamei) não posso ter nada a temer de vós — e posso alegremente conduzir-vos a casa da Sra. Cope sem o medo de serdes seduzidas pelo seu Exemplo, ou contaminadas pelas suas Loucuras. Vamos, pois, minhas Filhas (acrescentei), a Carruagem está a chegar à porta, e não retardarei nem um momento a felicidade que estais tão impacientes por desfrutar.” Quando chegámos a Warleigh, a pobre Augusta mal conseguia respirar, enquanto Margaret estava cheia de Vida e Êxtase. “O Momento tão esperado chegou agora (disse ela) e em breve estaremos no Mundo.” — Em poucos Momentos estávamos na sala de estar da Sra. Cope, onde ela se encontrava sentada com a filha pronta para nos receber. Observei com deleite a impressão que as minhas Filhas causaram nelas —. Eram, de facto, duas Raparigas doces e de aspeto elegante e, embora algo envergonhadas pela peculiaridade da sua situação, havia uma naturalidade nos seus Modos e abordagem que não podia deixar de agradar —. Imagine a minha querida Senhora quão encantada devo ter ficado ao observar, como observei, quão atentamente observavam cada objeto que viam, quão desgostosas com algumas Coisas, quão encantadas com outras, quão surpreendidas com tudo! No geral, no entanto, voltaram em êxtases com o Mundo, os seus Habitantes e Modos.

Vossa sempre — A. F.

CARTA SEGUNDA De uma JOVEM SENHORA infeliz no Amor para a sua amiga

Por que motivo este último desapontamento deve pesar tanto no meu espírito? Por que devo senti-lo mais, por que devo deixar-me ferir mais profundamente do que naqueles que experimentei antes? Será que tenho uma afeição maior por Willoughby do que tive pelos seus amáveis predecessores? Ou será que os nossos sentimentos se tornam mais agudos por serem frequentemente feridos? Devo supor, minha querida Belle, que este é o Caso, uma vez que não tenho consciência de estar mais sinceramente ligada a Willoughby do que estive a Neville, Fitzowen, ou a qualquer um dos Crawford, por todos os quais senti outrora a afeição mais duradoura que alguma vez aqueceu o coração de uma Mulher. Diz-me então, querida Belle, por que continuo a suspirar quando penso no infiel Edward, ou por que choro quando contemplo a sua Noiva, pois muito certamente este é o caso —. Os meus Amigos estão todos alarmados por mim; temem o declínio da minha saúde; lamentam a minha falta de ânimo; temem os efeitos de ambos. Na esperança de aliviar a minha melancolia, dirigindo os meus pensamentos para outros objetos, convidaram vários dos seus amigos para passar o Natal connosco. A Lady Bridget Darkwood e a sua cunhada, a Srta. Jane, são esperadas na sexta-feira; e a família do Coronel Seaton estará connosco na próxima semana. Tudo isto é muito bem-intencionado da parte do meu Tio e das minhas Primas; mas o que pode a presença de uma dúzia de pessoas indiferentes fazer por mim, senão cansar-me e perturbar-me —. Não terminarei a minha Carta até que alguns dos nossos Visitantes tenham chegado.

Sexta-feira à noite. A Lady Bridget chegou esta manhã, e com ela a sua doce irmã, a Srta. Jane —. Embora conheça esta encantadora Mulher há mais de quinze Anos, nunca antes observei quão adorável ela é. Tem agora cerca de 35 anos e, apesar da doença, da tristeza e do Tempo, está mais florescente do que alguma vez vi uma Rapariga de 17. Fiquei encantada com ela no momento em que entrou na casa, e ela pareceu igualmente agradada comigo, ligando-se a mim durante o resto do dia. Há algo tão doce, tão suave no seu Rosto, que parece mais do que Mortal. A sua Conversa é tão fascinante quanto a sua aparência; não pude deixar de lhe dizer o quanto ela atraía a minha admiração —. “Oh! Srta. Jane (disse eu) — e parei por incapacidade no momento de me expressar como desejava — Oh! Srta. Jane — (repeti) — não conseguia encontrar palavras para corresponder aos meus sentimentos — Ela parecia esperar pela minha fala —. Fiquei confusa — perturbada — os meus pensamentos estavam atordoados — e só pude acrescentar — “Como está?” Ela viu e sentiu o meu Embaraço e, com admirável presença de espírito, aliviou-me dele dizendo: “Minha querida Sophia, não te sintas inquieta por te teres exposto — mudarei de Conversa sem parecer notar.” Oh! como a amei pela sua bondade! “Andas a cavalo tanto como costumavas andar?” disse ela —. “Sou aconselhada a andar a cavalo pelo meu Médico. Temos passeios encantadores à nossa volta, tenho um cavalo Charmoso, sou extraordinariamente apaixonada pelo Passatempo, respondi eu, totalmente recuperada da minha Confusão, e, em suma, ando muito a cavalo.” “Tens razão, minha querida,” disse ela. Depois, repetindo a seguinte linha, que foi um improviso e igualmente adaptada para recomendar tanto o Andar a Cavalo como a Franqueza —

“Monta onde possas, Sê Franca onde puderes,” acrescentou ela, “eu andava a cavalo, mas foi há muitos anos” — Ela disse isto com uma Voz tão baixa e trémula, que fiquei em silêncio —. Impressionada com a sua forma de falar, não consegui responder. “Não ando a cavalo, continuou ela, fixando os olhos no meu rosto, desde que me casei.” Nunca fiquei tão surpreendida — “Casada, Senhora!” repeti. “Podes bem trazer esse olhar de espanto, disse ela, uma vez que o que eu disse te deve parecer improvável — Contudo, nada é mais verdade do que o facto de que eu já fui casada.”

“Então por que és chamada de Srta. Jane?”

“Casei-me, minha Sophia, sem o consentimento ou conhecimento do meu pai, o falecido Almirante Annesley. Foi, portanto, necessário manter o segredo dele e de todos, até que surgisse alguma oportunidade afortunada de o revelar —. Tal oportunidade, infelizmente! surgiu demasiado cedo com a morte do meu caro Capitão Dashwood — Perdoa estas lágrimas, continuou a Srta. Jane, enxugando os Olhos, devo-as à memória do meu Marido. Ele caiu, minha Sophia, enquanto lutava pelo seu País na América, após uma união felicíssima de sete anos —. Os meus Filhos, dois doces Rapazes e uma Rapariga, que tinham residido constantemente com o meu Pai e comigo, passando perante ele e perante todos como filhos de um Irmão (embora eu tenha sido sempre Filha única), tinham sido até então o conforto da minha Vida. Mas não tardou que, após ter perdido o meu Henry, estas doces Criaturas adoecessem e morressem —. Imagina, querida Sophia, quais teriam sido os meus sentimentos quando, como Tia, acompanhei os meus Filhos à sua sepultura precoce —. O meu Pai não lhes sobreviveu muitas semanas — Ele morreu, pobre e bom velho, felizmente ignorante até à sua última hora do meu Casamento.”

“Mas não o admitiste, e assumiste o nome dele após a morte do teu marido?”

“Não; não consegui obrigar-me a fazê-lo; especialmente quando nos meus Filhos perdi todo o incentivo para o fazer. A Lady Bridget e tu própria são as únicas pessoas que têm conhecimento de que alguma vez fui Esposa ou Mãe. Como não consegui convencer-me a tomar o nome de Dashwood (um nome que, após a morte do meu Henry, nunca pude ouvir sem emoção) e como estava consciente de não ter direito ao de Annesley, abandonei todos os pensamentos sobre ambos, e fiz questão de usar apenas o meu nome de Batismo desde a morte do meu Pai.” Ela fez uma pausa — “Oh! minha querida Srta. Jane (disse eu), quão infinitamente lhe estou obrigada por uma história tão cativante! Não pode imaginar como me divertiu! Mas já terminou?”

“Tenho apenas de acrescentar, minha querida Sophia, que, tendo o irmão mais velho do meu Henry morrido por volta da mesma época, Lady Bridget tornou-se viúva tal como eu, e como sempre nos amáramos em ideia pelo elevado caráter com que sempre se falara de nós, embora nunca nos tivéssemos encontrado, decidimos viver juntas. Escrevemo-nos uma à outra sobre o mesmo assunto pelo mesmo correio, tão exatamente coincidiram os nossos sentimentos e as nossas ações! Ambas abraçamos ansiosamente as propostas que demos e recebemos de nos tornarmos uma só família, e temos desde então vivido juntas na maior afeição.”

“E é só isto?” disse eu, “espero que não tenha terminado.”

“De fato, terminei; e alguma vez ouviu uma história mais patética?”

“Nunca ouvi — e é por essa razão que me agrada tanto, pois quando se está infeliz nada é tão delicioso para os sentidos como ouvir falar de uma miséria igual.”

“Ah! mas minha Sophia, por que está infeliz?”

“Não ouviu, minha Senhora, falar do casamento de Willoughby?”

“Mas, meu amor, por que lamentar a sua perfídia, quando suportou tão bem a de muitos jovens antes?”

“Ah! minha Senhora, eu estava habituada a isso então, mas quando Willoughby quebrou os seus compromissos, eu não tinha sido desiludida há sequer meio ano.”

“Pobre rapariga!” disse a Srta. Jane.

CARTA TERCEIRA De uma JOVEM SENHORA em circunstâncias aflitivas para a sua amiga

Há poucos dias estive num baile privado oferecido pelo Sr. Ashburnham. Como a minha mãe nunca sai, confiou-me aos cuidados de Lady Greville, que me fez a honra de passar por mim no seu caminho e de me permitir sentar virada para a frente, o que é um favor sobre o qual sou muito indiferente, especialmente por saber que é considerado como me conferindo uma grande obrigação. “Então, Srta. Maria (disse a sua Ladilíssima ao ver-me avançar para a porta da carruagem), parece muito elegante esta noite — as minhas pobres raparigas parecerão estar em desvantagem ao seu lado — só espero que a sua mãe não se tenha afligido para a exibir. Tem um vestido novo?”

“Sim, minha Senhora,” respondi com a maior indiferença que pude assumir.

“Sim, e um belo vestido, creio eu — (sentindo-o, enquanto, com a sua permissão, me sentava ao lado dela). Aposto que é tudo muito elegante — mas devo confessar, pois sabe que digo sempre o que penso, que acho que foi uma despesa completamente desnecessária — por que não pôde ter usado o seu antigo vestido às riscas? Não é do meu feitio criticar as pessoas por serem pobres, pois sempre penso que elas são mais dignas de desprezo e piedade do que de censura por isso, especialmente se não o puderem evitar, mas, ao mesmo tempo, devo dizer que, na minha opinião, o seu antigo vestido às riscas teria sido bastante fino para quem o veste — pois, para lhe dizer a verdade (eu digo sempre o que penso), tenho muito medo de que metade das pessoas na sala não saiba se tem um vestido vestido ou não — mas suponho que tenciona fazer a sua fortuna esta noite — Bem, quanto mais cedo, melhor; e desejo-lhe sucesso.”

“De fato, minha Senhora, não tenho tal intenção —”

“Quem já ouviu uma jovem senhora admitir que é uma caça-fortunas?” A Srta. Greville riu-se, mas tenho a certeza de que Ellen sentiu-se por mim.

“A sua mãe já se tinha deitado antes de a deixar?” disse a sua Ladilíssima.

“Minha cara Senhora,” disse Ellen, “são apenas nove horas.”

“Verdade, Ellen, mas as velas custam dinheiro, e a Sra. Williams é demasiado sensata para ser extravagante.”

“Ela estava precisamente a sentar-se para jantar, minha Senhora.”

“E o que tinha ela para jantar?” “Não reparei.” “Pão e queijo, suponho.” “Nunca desejaria um jantar melhor,” disse Ellen. “Nunca tem qualquer razão,” respondeu a sua mãe, “pois um melhor é sempre providenciado para si.” A Srta. Greville riu-se excessivamente, como faz constantemente com o espírito da sua mãe.

Tal é a situação humilhante em que sou forçada a aparecer enquanto viajo na carruagem da sua Ladilíssima — não me atrevo a ser impertinente, pois a minha mãe admoesta-me sempre a ser humilde e paciente se desejo abrir caminho no mundo. Ela insiste em que aceite todos os convites de Lady Greville, ou pode estar certa de que eu nunca entraria na sua casa, nem na sua carruagem, com a certeza desagradável que sempre tenho de ser insultada pela minha pobreza enquanto estou nelas. — Quando chegamos a Ashburnham, eram quase dez horas, o que era uma hora e meia mais tarde do que o esperado; mas Lady Greville é demasiado moderna (ou imagina que o é) para ser pontual. A dança, contudo, não tinha começado, pois esperavam pela Srta. Greville. Não estava há muito tempo na sala quando fui convidada para dançar pelo Sr. Bernard, mas, exatamente quando nos preparávamos para nos levantarmos, ele lembrou-se de que o seu criado tinha as suas luvas brancas e correu imediatamente para as buscar. Entretanto, a dança começou e Lady Greville, ao passar para outra sala, passou exatamente à minha frente — viu-me e, parando instantaneamente, disse-me, embora houvesse várias pessoas perto de nós:

“Ora viva, Srta. Maria! O quê, não consegue um par? Pobre jovem! Receio que o seu vestido novo tenha sido posto por nada. Mas não se desespere; talvez consiga um pezinho de dança antes que a noite termine.” Dizendo isto, passou sem ouvir a minha insistência repetida de estar comprometida, deixando-me muito provocada por ser tão exposta perante todos — O Sr. Bernard, contudo, regressou em breve e, ao vir ter comigo no momento em que entrou na sala e me conduzir para os dançarinos, o meu caráter, espero, foi limpo da imputação que Lady Greville lhe lançara, aos olhos de todas as velhas senhoras que tinham ouvido o seu discurso. Esqueci depressa todos os meus aborrecimentos no prazer de dançar e de ter o par mais agradável da sala. Como ele é, além disso, herdeiro de uma propriedade muito grande, pude ver que Lady Greville não parecia muito satisfeita quando descobriu quem tinha sido a sua escolha — Ela estava determinada a humilhar-me e, consequentemente, quando estávamos sentados entre as danças, veio ter comigo com mais do que a sua habitual importância insultuosa, acompanhada pela Srta. Mason, e disse alto o suficiente para ser ouvida por metade das pessoas na sala: “Diga-me, Srta. Maria, em que ramo de negócios estava o seu avô? Pois a Srta. Mason e eu não conseguimos concordar se ele era merceeiro ou encadernador.” Vi que ela queria humilhar-me e resolvi, se possível, impedi-la de ver que o seu esquema resultava. “Nenhum dos dois, minha Senhora; ele era comerciante de vinhos.” “Sim, eu sabia que ele estava num negócio qualquer tão baixo — Ele faliu, não foi?” “Creio que não, minha Senhora.” “Ele não fugiu?” “Nunca ouvi dizer que o tivesse feito.” “Pelo menos morreu insolvente?” “Nunca mo tinham dito antes.” “Ora, o seu pai não era tão pobre como um rato?” “Imagino que não.” “Ele não esteve no King’s Bench uma vez?” “Nunca o vi lá.” Ela lançou-me um olhar e afastou-se com uma grande fúria; enquanto eu estava meio encantada comigo mesma pela minha impertinência e meio com medo de ser considerada demasiado atrevida. Como Lady Greville estava extremamente zangada comigo, não me prestou mais atenção durante toda a noite e, de fato, mesmo que eu estivesse nas suas boas graças, teria sido igualmente negligenciada, pois ela estava num grupo de grandes figuras e nunca fala comigo quando pode falar com outra pessoa. A Srta. Greville estava com o grupo da sua mãe ao jantar, mas Ellen preferiu ficar com os Bernard e comigo. Tivemos uma dança muito agradável e, como Lady G— dormiu todo o caminho até casa, tive uma viagem muito confortável.

No dia seguinte, enquanto jantávamos, a carruagem de Lady Greville parou à porta, pois essa é a hora do dia em que ela geralmente consegue que tal aconteça. Enviou uma mensagem pelo criado a dizer que “não sairia, mas que a Srta. Maria devia ir à porta da carruagem, pois ela queria falar com ela, e que devia apressar-se e vir imediatamente—” “Que mensagem impertinente, Mamã!” disse eu — “Vai, Maria —” respondeu ela — Consequentemente, fui e fui obrigada a ficar ali ao prazer da sua Ladilíssima, embora o vento estivesse extremamente forte e muito frio.

“Ora, penso, Srta. Maria, que não está tão elegante como estava ontem à noite — mas não vim para examinar o seu traje, mas para lhe dizer que pode jantar conosco depois de amanhã — Não amanhã, lembre-se, não venha amanhã, pois esperamos Lord e Lady Clermont e a família de Sir Thomas Stanley — Não haverá necessidade de estar muito elegante, pois não enviarei a carruagem — Se chover, pode levar um guarda-chuva —” Mal pude evitar rir-me ao ouvi-la dar-me permissão para me manter seca — “E por favor lembre-se de ser pontual, pois não esperarei — detesto a minha comida demasiado passada — mas não precisa de vir antes da hora — Como está a sua mãe? Ela está a jantar, não está?” “Sim, minha Senhora, estávamos a meio do jantar quando a sua Ladilíssima chegou.” “Receio que ache muito frio, Maria,” disse Ellen. “Sim, é um vento de leste horrível,” disse a sua mãe — “Garanto-lhe que mal consigo suportar a janela aberta — mas está habituada a ser levada pelo vento, Srta. Maria, e é isso que fez a sua tez tão rude e grosseira. Vocês, jovens senhoras, que não podem andar frequentemente de carruagem, não se importam com o tempo em que caminham, ou como o vento mostra as vossas pernas. Eu não deixaria as minhas raparigas ficarem ao ar livre como a senhora faz num dia como este. Mas certos tipos de pessoas não têm sentimentos, nem de frio nem de delicadeza — Bem, lembre-se de que a esperamos na quinta-feira às 5 horas — Deve dizer à sua criada para a vir buscar à noite — Não haverá lua — e terá uma caminhada horrível até casa — Os meus cumprimentos à sua mãe — receio que o seu jantar esteja frio — Avance —” E partiu, deixando-me com uma grande fúria contra ela, como faz sempre.

Maria Williams.

CARTA QUARTA De uma JOVEM SENHORA um tanto impertinente para a sua amiga

Jantamos ontem com o Sr. Evelyn, onde fomos apresentados a uma rapariga de aspeto muito agradável, sua prima. Fiquei extremamente satisfeita com a sua aparência, pois, aos encantos de um rosto atraente, o seu modo de ser e a sua voz tinham algo de peculiarmente interessante. Tanto assim que me inspiraram uma grande curiosidade em conhecer a história da sua vida, quem eram os seus pais, de onde vinha e o que lhe tinha acontecido, pois sabia-se apenas que ela era uma parente do Sr. Evelyn e que o seu nome era Grenville. À noite, apresentou-se-me uma oportunidade favorável para tentar, pelo menos, saber o que desejava saber, pois todos jogavam às cartas, exceto a Sra. Evelyn, a minha mãe, o Dr. Drayton, a Srta. Grenville e eu própria; e como as duas primeiras estavam envolvidas numa conversa sussurrada e o Doutor adormeceu, fomos por necessidade obrigadas a entreter-nos umas às outras. Isto era o que eu desejava e, estando determinada a não permanecer na ignorância por falta de perguntas, iniciei a conversa da seguinte maneira.

“Está há muito tempo em Essex, minha Senhora?”

“Cheguei na terça-feira.”

“Veio de Derbyshire?”

“Não, minha Senhora!” parecendo surpreendida com a minha pergunta, “de Suffolk.” Pensará que este é um bom atrevimento da minha parte, minha querida Mary, mas sabe que não me falta audácia quando tenho algum objetivo em vista. “Está satisfeita com o campo, Srta. Grenville? Acha-o igual àquele que deixou?”

“Muito superior, minha Senhora, em termos de beleza.” Ela suspirou. Ansiein saber porquê.

“Mas o aspeto de qualquer país, por mais belo que seja,” disse eu, “pode ser apenas um pobre consolo para a perda dos amigos mais queridos.” Ela abanou a cabeça, como se sentisse a verdade do que eu dizia. A minha curiosidade aumentou tanto que resolvi, a todo o custo, satisfazê-la.

“Lamenta então ter deixado Suffolk, Srta. Grenville?” “De fato, lamento.” “Nasceu lá, suponho?” “Sim, minha Senhora, nasci lá e passei muitos anos felizes lá —”

“Esse é um grande conforto,” disse eu, “espero, minha Senhora, que nunca tenha passado nenhum ano infeliz lá.”

“A felicidade perfeita não é propriedade dos mortais, e ninguém tem o direito de esperar uma felicidade ininterrupta. — Algumas desgraças, certamente, encontrei.”

“Que desgraças, minha cara Senhora?” respondi, ardendo de impaciência por saber tudo. “Nenhuma, minha Senhora, espero, que tenha sido efeito de qualquer culpa intencional da minha parte.” “Aposto que não, minha Senhora, e não tenho dúvidas de que quaisquer sofrimentos que possa ter experimentado só poderiam provir das crueldades de parentes ou dos erros de amigos.” Ela suspirou — “Parece infeliz, minha querida Srta. Grenville — Está ao meu alcance aliviar as suas desgraças?” “Ao seu alcance, minha Senhora?” respondeu ela, extremamente surpreendida; “não está ao alcance de ninguém tornar-me feliz.” Ela pronunciou estas palavras num sotaque tão lúgubre e solene que, por algum tempo, não tive coragem de responder. Fiquei verdadeiramente silenciada. Recuperei-me, contudo, em poucos momentos e, olhando para ela com toda a afeição que pude, “Minha querida Srta. Grenville,” disse eu, “parece extremamente jovem — e pode provavelmente necessitar do conselho de alguém cujo respeito por si, juntamente com uma idade superior, talvez um julgamento superior, a pudesse autorizar a dá-lo. Eu sou essa pessoa, e desafio-a agora a aceitar a oferta que lhe faço da minha confiança e amizade, em troca da qual apenas pedirei a sua —”

“É extremamente amável, minha Senhora,” disse ela, “e sinto-me altamente lisonjeada com a sua atenção para comigo — mas não estou em nenhuma dificuldade, nenhuma dúvida, nenhuma incerteza de situação em que qualquer conselho seja necessário. Quando estiver, contudo,” continuou ela, iluminando-se num sorriso complacente, “saberei a quem recorrer.”

Fiz uma vénia, mas senti-me bastante humilhada por tal recusa; ainda assim, não tinha desistido do meu objetivo. Descobri que, com a aparência de sentimento e amizade, nada se ganhava, e decidi, portanto, renovar os meus ataques através de perguntas e suposições. “Pretende ficar muito tempo nesta parte de Inglaterra, Srta. Grenville?”

“Sim, minha Senhora, algum tempo, creio eu.”

“Mas como suportarão o Sr. e a Sra. Grenville a sua ausência?”

“Nenhum deles está vivo, minha Senhora.” Esta foi uma resposta que eu não esperava — Fiquei completamente silenciada e nunca me senti tão desajeitada na minha vida —.

CARTA QUINTA De uma JOVEM SENHORA muito apaixonada para a sua amiga

O meu tio torna-se mais avarento, a minha tia mais exigente e eu mais apaixonada a cada dia. O que seremos todos nós, a este ritmo, no fim do ano! Tive esta manhã a felicidade de receber a seguinte carta do meu querido Musgrove.

Sackville St: 7 de janeiro

Faz hoje um mês desde que vi pela primeira vez a minha adorável Henrietta, e o sagrado aniversário deve e será guardado de uma forma digna do dia — escrevendo-lhe. Nunca esquecerei o momento em que as suas belezas brilharam pela primeira vez à minha vista — Nenhum tempo, como bem sabe, pode apagá-lo da minha memória. Foi em casa de Lady Scudamore. Feliz Lady Scudamore, viver a uma milha da divina Henrietta! Quando a adorável criatura entrou pela primeira vez na sala, oh! quais foram as minhas sensações? Vê-la foi como ver uma coisa maravilhosa e bela. Estremeci — contemplei-a com admiração — Ela parecia a cada momento mais encantadora, e o infeliz Musgrove tornou-se cativo dos seus encantos antes que eu tivesse tempo de olhar ao meu redor. Sim, minha Senhora, tive a felicidade de a adorar, uma felicidade pela qual não posso ser demasiado grato. “O que disse ele para si próprio, é Musgrove permitido morrer por Henrietta? Mortal invejável! e poderá ele suspirar por ela que é objeto de admiração universal, que é adorada por um coronel, e objeto de brindes por um barão!” Adorável Henrietta, como é bela! Declaro que é absolutamente divina! É mais do que mortal. É um anjo. É a própria Vénus. Em suma, minha Senhora, é a rapariga mais bonita que alguma vez vi na minha vida — e a sua beleza aumenta aos olhos do seu Musgrove ao permitir-lhe amá-la e ao permitir-me ter esperança. E ah! Angélica Srta. Henrietta, o céu é a minha testemunha de quão ardentemente espero pela morte do seu vil tio e da sua abandonada esposa, uma vez que a minha bela não consentirá em ser minha até que o falecimento deles a tenha colocado numa afluência acima do que a minha fortuna pode proporcionar — embora seja uma propriedade melhorável —. Cruel Henrietta, persistir em tal resolução! Estou presentemente com a minha irmã, onde pretendo continuar até que a minha própria casa, que, embora seja excelente, está presentemente um pouco a precisar de reparos, esteja pronta para me receber. Amável princesa do meu coração, adeus — Daquele coração que treme enquanto se assina como o seu mais ardente admirador e dedicado humilde servo.

T. Musgrove.

Aí tem um modelo de carta de amor, Matilda! Alguma vez leu tal obra-prima da escrita? Tanto sentido, tanto sentimento, tanta pureza de pensamento, tal fluidez de linguagem e tal amor não fingido numa única folha? Não, nunca, posso responder por isso, uma vez que um Musgrove não se encontra em todas as raparigas. Oh! como anseio por estar com ele! Pretendo enviar-lhe o seguinte em resposta à sua carta amanhã.

Meu querido Musgrove — As palavras não podem expressar quão feliz a sua carta me fez; pensei que choraria de alegria, pois amo-o mais do que a qualquer um no mundo. Acho-o o homem mais amável e o mais bonito de Inglaterra, e, com certeza, é-o. Nunca li uma carta tão doce na minha vida. Escreva-me outra exatamente igual, e diga-me que está apaixonado por mim em cada linha. Morro por vê-lo. Como havemos de fazer para nos vermos? Pois estamos tão apaixonados que não podemos viver separados. Oh! meu querido Musgrove, não imagina quão impacientemente espero pela morte do meu tio e da minha tia — Se eles não morrerem depressa, creio que enlouquecerei, pois fico cada dia mais apaixonada por si.

Como a sua irmã é feliz por desfrutar do prazer da sua companhia na sua casa, e como todos em Londres devem ser felizes por o senhor estar lá. Espero que seja tão gentil ao ponto de me escrever novamente em breve, pois nunca li cartas tão doces como as suas. Sou, meu querido Musgrove, a mais verdadeira e fielmente sua para todo o sempre

Henrietta Halton.

Espero que ele goste da minha resposta; é tão boa quanto consigo escrever, embora não seja nada comparada com a dele; de fato, sempre ouvi dizer que ele era um ás nas cartas de amor. Vi-o, sabe, pela primeira vez em casa de Lady Scudamore — E quando vi a sua Ladilíssima depois, ela perguntou-me como tinha gostado do seu primo Musgrove?

“Ora, pela minha honra,” disse eu, “acho que é um jovem muito bonito.”

“Fico contente que o pense,” respondeu ela, “pois ele está perdidamente apaixonado por si.”

“Valha-me Deus, Lady Scudamore,” disse eu, “como pode falar de forma tão ridícula?”

“Ora, é muito verdade,” respondeu ela, “garanto-lhe, pois ele esteve apaixonado por si desde o primeiro momento em que a viu.”

“Oxalá seja verdade,” disse eu, “pois esse é o único tipo de amor pelo qual eu daria um ceitil — Há algum sentido em estar apaixonado à primeira vista.”

“Bem, dou-lhe os parabéns pela sua conquista,” respondeu Lady Scudamore, “e creio que tenha sido muito completa; tenho a certeza de que não é uma conquista desprezível, pois o meu primo é um jovem encantador, viu muito do mundo e escreve as melhores cartas de amor que alguma vez li.”

Isto deixou-me muito feliz, e fiquei excessivamente satisfeita com a minha conquista. Contudo, achei que era apropriado dar-me ares — por isso disse-lhe:

“Isto é tudo muito bonito, Lady Scudamore, mas sabe que nós, jovens senhoras que somos herdeiras, não devemos desperdiçar-nos com homens que não têm fortuna nenhuma.”

— Minha cara menina Halton — disse ela —, estou tão convencida disso quanto você pode estar, e garanto-lhe que eu seria a última pessoa a encorajar o seu casamento com alguém que não tivesse pretensões de esperar uma fortuna com você. O Sr. Musgrove está longe de ser pobre, pois possui uma propriedade de várias centenas por ano que é capaz de grandes melhorias, e uma excelente casa, embora, no presente, não esteja totalmente em bom estado de conservação.

— Se esse é o caso — respondi —, não tenho mais nada a dizer contra ele, e se, como diz, ele é um jovem instruído e sabe escrever uma boa carta de amor, tenho a certeza de que não tenho motivos para criticá-lo por me admirar, embora talvez eu não me case com ele, apesar de tudo, Lady Scudamore.

— Você certamente não tem obrigação nenhuma de casar com ele — respondeu Sua Senhoria —, exceto aquela que o próprio amor lhe ditará, pois, se não estou muito enganada, você, neste exato momento, sem o saber, nutre por ele uma afeição muito terna.

— Valha-me Deus, Lady Scudamore — respondi, corando —, como pode pensar numa coisa dessas?

— Porque cada olhar, cada palavra o trai — respondeu ela. — Venha, minha querida Henrietta, considere-me como uma amiga e seja sincera comigo. Não prefere o Sr. Musgrove a qualquer outro homem do seu conhecimento?

— Por favor, não me faça essas perguntas, Lady Scudamore — disse eu, desviando o rosto —, pois não é apropriado que eu as responda.

— Ora, minha querida — respondeu ela —, agora confirma as minhas suspeitas. Mas por que, Henrietta, haveria de ter vergonha de admitir um amor bem colocado, ou por que se recusar a confiar em mim?

— Não tenho vergonha de o admitir — disse eu, ganhando coragem. — Não me recuso a confiar em si nem fico rubra ao dizer que amo o seu primo, o Sr. Musgrove, que lhe sou sinceramente afeiçoada, pois não é desonra nenhuma amar um homem bonito. Se ele fosse feio, na verdade, poderia ter motivos para me envergonhar de uma paixão que teria de ser vil, uma vez que o objeto seria indigno. Mas com tal figura e rosto, e um cabelo tão belo como o do seu primo, por que haveria eu de corar ao admitir que um mérito tão superior causou em mim uma impressão?

— Minha doce menina — disse Lady Scudamore, abraçando-me com grande afeição —, que maneira delicada de pensar tem nestas questões, e que discernimento rápido para alguém da sua idade! Oh! Como a honro por sentimentos tão nobres!

— Honra, minha senhora? — disse eu. — É extremamente amável. Mas, diga-me, Lady Scudamore, o seu primo disse-lhe pessoalmente da sua afeição por mim? Eu gostar dele-ei ainda mais se o fez, pois o que é um amante sem um confidente?

— Oh! Minha querida — respondeu ela —, vocês nasceram um para o outro. Cada palavra que diz convence-me mais profundamente de que as vossas mentes são movidas pelo poder invisível da simpatia, pois as vossas opiniões e sentimentos coincidem exatamente. Aliás, a cor do vosso cabelo não é muito diferente. Sim, minha querida menina, o pobre e desesperado Musgrove revelou-me a história do seu amor. E não fiquei surpreendida com isso; não sei como foi, mas tive uma espécie de pressentimento de que ele se apaixonaria por si.

— Bem, mas como é que ele lhe contou?

— Não foi senão depois do jantar. Estávamos sentados à volta da lareira, a conversar sobre assuntos triviais, embora, para dizer a verdade, a conversa fosse principalmente da minha parte, pois ele estava pensativo e silencioso, quando de repente interrompeu-me a meio de algo que eu dizia, exclamando num tom muito teatral:

Sim, estou apaixonado, sinto-o agora, E Henrietta Halton arruinou-me.

— Oh! Que maneira doce — respondi — de declarar a sua paixão! Fazer um par de versos tão encantadores sobre mim! Que pena não serem rimados!

— Fico muito contente por ter gostado — respondeu ela. — De facto, houve muito gosto nisto. "E está apaixonado por ela, primo?", disse eu. "Lamento muito, pois, por mais irrepreensível que seja em todos os aspetos, com uma bela propriedade capaz de grandes melhorias e uma excelente casa, embora um pouco necessitada de reparos, quem pode esperar aspirar com sucesso à adorável Henrietta, que recebeu uma proposta de um coronel e foi homenageada por um baronet?" — "Isso recebi!", exclamei eu. Lady Scudamore continuou: — "Ah, querido primo", respondeu ele, "estou tão convencido da pouca oportunidade que posso ter de conquistar aquela que é adorada por milhares, que não preciso das suas garantias para ficar ainda mais convencido. Contudo, certamente nem você nem a própria bela Henrietta me negarão a gratificação requintada de morrer por ela, de cair vítima dos seus encantos. E quando eu estiver morto" — continuou ela.

— Oh, Lady Scudamore — disse eu, limpando os olhos —, que uma criatura tão doce fale de morrer!

— É, de facto, uma circunstância comovente — respondeu Lady Scudamore. — "Quando eu estiver morto", disse ele, "deixem-me ser levado e estendido aos seus pés, e talvez ela não desdenhe deixar cair uma lágrima de compaixão sobre os meus pobres restos."

— Querida Lady Scudamore — interrompi —, não diga mais nada sobre este assunto tão comovente. Não consigo suportar.

— Oh! Como admiro a doce sensibilidade da sua alma, e como não a quereria ferir demasiado por nada neste mundo, ficarei em silêncio.

— Por favor, continue — disse eu. Ela assim o fez.

— "E depois", acrescentou ele, "Ah, prima, imagine quais serão os meus transportes quando sentir as queridas e preciosas gotas a escorrerem pelo meu rosto! Quem não morreria para saborear tal êxtase! E quando eu for sepultado, que a divina Henrietta abençoe algum jovem mais feliz com o seu afeto; que ele lhe seja tão ternamente afeiçoado quanto o infeliz Musgrove, e, enquanto ele se esfarela em pó, que eles vivam como um exemplo de felicidade no estado conjugal!"

Já alguma vez ouviu algo tão patético? Que desejo encantador, ser estendido aos meus pés quando ele estivesse morto! Oh! Que mente elevada ele deve ter para ser capaz de tal desejo! Lady Scudamore continuou:

— "Ah, meu querido primo", respondi-lhe, "um comportamento tão nobre como este deve derreter o coração de qualquer mulher, por mais endurecido que seja naturalmente; e se a divina Henrietta pudesse ouvir os seus generosos desejos pela sua felicidade, por mais suave que seja a sua mente, não tenho dúvidas de que ela teria pena da sua afeição e tentaria retribuí-la." "Oh, prima", respondeu ele, "não tente aumentar as minhas esperanças com tais garantias lisonjeiras. Não, não posso esperar agradar a este anjo de mulher, e a única coisa que me resta fazer é morrer." "O verdadeiro amor é sempre desanimado", respondi, "mas eu, meu caro Tom, dar-lhe-ei esperanças ainda maiores de conquistar o coração desta bela dama do que as que já lhe dei, assegurando-lhe que a observei com a maior atenção durante todo o dia, e pude descobrir claramente que ela acalenta no seu seio, embora sem o saber, uma afeição muito terna por si."

— Querida Lady Scudamore — exclamei —, isto é mais do que eu sabia!

— Não lhe disse que era sem o saber? Não o encorajei — continuei a dizer-lhe — ao dizer isto logo de início, para que a surpresa pudesse tornar o prazer ainda maior. "Não, prima", respondeu ele com uma voz lânguida, "nada me convencerá de que posso ter tocado o coração de Henrietta Halton, e se você mesma está enganada, não tente enganar-me." Em suma, minha querida, foi trabalho de algumas horas para mim persuadir o pobre e desesperado jovem de que você tinha realmente uma preferência por ele; mas quando, finalmente, ele não pôde mais negar a força dos meus argumentos, ou desacreditar o que lhe contei, os seus transportes, os seus arrebatamentos, os seus êxtases estão além da minha capacidade de descrever.

— Oh, a querida criatura — exclamei —, como me ama apaixonadamente! Mas, querida Lady Scudamore, disse-lhe que eu era totalmente dependente do meu tio e da minha tia?

— Sim, contei-lhe tudo.

— E o que ele disse?

— Exclamou com virulência contra tios e tias; acusou as leis da Inglaterra de lhes permitir possuir as suas propriedades quando são necessárias aos seus sobrinhos ou sobrinhas, e desejou estar na Câmara dos Comuns para poder reformar a legislatura e retificar todos os seus abusos.

— Oh, o doce homem! Que espírito ele tem! — disse eu.

— Ele não se podia lisonjear — acrescentou — de que a adorável Henrietta se dignasse, por amor a ele, a renunciar àqueles luxos e àquele esplendor a que estava habituada, e aceitar apenas em troca os confortos e elegâncias que o seu rendimento limitado lhe poderia proporcionar, mesmo supondo que a sua casa estivesse pronta para a receber. Disse-lhe que não se poderia esperar que o fizesse; seria cometer uma injustiça supor que ela fosse capaz de renunciar ao poder que agora possui e que tão nobremente usa para fazer tanto bem extensivo à parte mais pobre dos seus semelhantes, meramente para a gratificação de você e dele.

— Com certeza — disse eu —, sou muito caridosa de vez em quando. E o que disse o Sr. Musgrove a isto?

— Respondeu que estava sob a necessidade melancólica de reconhecer a verdade do que eu disse, e que, portanto, se ele fosse a criatura feliz destinada a ser o marido da bela Henrietta, teria de se preparar para esperar, por mais impacientemente, pelo dia afortunado em que ela pudesse ser libertada do poder de parentes indignos e capaz de se entregar a ele.

Que criatura nobre ele é! Oh, Matilda, que criatura afortunada eu sou, que hei de ser a sua esposa! A minha tia está a chamar-me para vir fazer as empadas, por isso adeus, minha querida amiga, e acredite que sou sua, etc.

H. Halton.

Finis.

RETALHOS

À Srta. FANNY CATHERINE AUSTEN

MINHA QUERIDA SOBRINHA

Como sou impedida, pela grande distância entre Rowling e Steventon, de supervisionar a sua educação pessoalmente — cuidado esse que, por esse motivo, recairá provavelmente sobre o seu pai e a sua mãe —, penso ser o meu dever particular evitar que sinta, tanto quanto possível, a falta das minhas instruções pessoais, dirigindo-lhe por escrito as minhas opiniões e advertências sobre a conduta das jovens, as quais encontrará expressas nas páginas seguintes.

Sou, minha querida sobrinha, Sua tia afetuosa A Autora.

A FILÓSOFA FEMININA

UMA CARTA

MINHA QUERIDA LOUISA

O seu amigo, o Sr. Millar, visitou-nos ontem no seu caminho para Bath, para onde vai por motivos de saúde; duas das suas filhas estavam com ele, mas a mais velha e os três rapazes estão com a mãe em Sussex. Embora me tenha dito muitas vezes que a Srta. Millar era notavelmente bonita, nunca mencionou nada sobre a beleza das suas irmãs; no entanto, são certamente extremamente bonitas. Vou dar-lhe a descrição delas: Julia tem dezoito anos; com um semblante no qual a modéstia, o bom senso e a dignidade estão felizmente misturados, ela tem uma forma que de imediato lhe apresenta graça, elegância e simetria. Charlotte, que tem apenas dezasseis anos, é mais baixa do que a sua irmã, e embora a sua figura não possa ostentar a dignidade fácil da de Julia, tem uma gordura agradável que, de uma forma diferente, é tão estimável. Ela é clara e o seu rosto é expressivo, por vezes, de uma doçura que é a mais fascinante, e noutras, de uma vivacidade a mais marcante. Ela parece ter um espírito infinito e um bom humor inalterável; a sua conversa, durante a meia hora em que estiveram sentados connosco, foi repleta de tiradas bem-humoradas, bonmots e repartidas; enquanto a sensata e amável Julia proferia sentimentos de moralidade dignos de um coração como o seu. O Sr. Millar pareceu corresponder ao caráter que eu sempre ouvira dele. O meu pai recebeu-o com aquele olhar de amor, aquele aperto de mão social e beijo cordial que marcavam a sua alegria ao ver um velho e valioso amigo de quem, devido a várias circunstâncias, estivera separado há quase vinte anos. O Sr. Millar observou (e muito justamente) que muitos acontecimentos tinham ocorrido a cada um durante esse intervalo de tempo, o que deu ocasião à adorável Julia para fazer reflexões muito sensatas sobre as muitas mudanças na sua situação que um período tão longo tinha causado, sobre as vantagens de alguns e as desvantagens de outros. A partir deste assunto, ela fez uma pequena digressão sobre a instabilidade dos prazeres humanos e a incerteza da sua duração, o que a levou a observar que todas as alegrias terrenas devem ser imperfeitas. Ela estava a prosseguir para ilustrar esta doutrina com exemplos das vidas de grandes homens quando a carruagem chegou à porta e a amável moralista, com o seu pai e irmã, foi obrigada a partir; mas não sem a promessa de passar cinco ou seis meses connosco no seu regresso. Falámos, naturalmente, de si, e garanto-lhe que foi feita ampla justiça aos seus méritos por todos. "Louisa Clarke", disse eu, "é em geral uma rapariga muito agradável, contudo, por vezes, o seu bom humor é obscurecido pela irritabilidade, inveja e despeito. Ela não carece de entendimento nem lhe faltam algumas pretensões à beleza, mas estas são tão triviais que o valor que ela atribui aos seus encantos pessoais e a adoração que ela espera que lhes seja oferecida são, ao mesmo tempo, um exemplo marcante da sua vaidade, do seu orgulho e da sua insensatez." Assim disse eu, e à minha opinião todos acrescentaram peso com a concordância das suas próprias.

Sua afetuosa, Arabella Smythe.

O PRIMEIRO ATO DE UMA COMÉDIA

Personagens

Popgun Maria Charles Pistoletta Postilhão Estalajadeira Coro de rapazes Cozinheira e e Strephon Chloe

CENA — UMA ESTALAGEM

Entram a Estalajadeira, Charles, Maria e a Cozinheira.

Estalajadeira para Maria Se os fidalgos no Leão quiserem camas, mostra-lhes o número 9.

Maria Sim, senhora. — sai Maria

Estalajadeira para a Cozinheira Se as suas honras na Lua pedirem o cardápio, dá-lho.

Cozinheira Dar-lhe-ei, dar-lhe-ei. sai a Cozinheira.

Estalajadeira para Charles Se as suas senhorias no Sol tocarem a campainha — atende.

Charles Sim, senhora. saem separadamente.

CENA MUDA PARA A LUA, e descobre Popgun e Pistoletta.

Pistoletta Por favor, papá, quão longe é até Londres?

Popgun Minha menina, minha querida, a minha preferida de todos os meus filhos, que és a imagem da tua pobre mãe que morreu há dois meses, com quem vou à cidade para te casar com Strephon, e a quem pretendo legar toda a minha propriedade, faltam sete milhas.

CENA MUDA PARA O SOL —

Entram Chloe e um coro de rapazes lavradores.

Chloe Onde estou? Em Hounslow. — Onde vou? Para Londres —. O que fazer? Ser casada —. Com quem? Com Strephon. Quem é ele? Um jovem. Então, cantarei uma canção.

CANÇÃO

Vou para a cidade E quando descer, Serei casada com Strephon.* E isso para mim será divertido.

[* Notar os dois e's]

Coro

Divertido, divertido, divertido, E isso para mim será divertido.

Entra a Cozinheira —

Cozinheira Aqui está o cardápio.

Chloe lê 2 patos, uma perna de carne, uma perdiz a cheirar mal e uma tarte. — Hei de comer a perna de carne e a perdiz.

Sai a Cozinheira.

E agora cantarei outra canção.

CANÇÃO

Vou jantar, Depois do que não ficarei mais magra, Quem me dera ter aqui Strephon, Pois ele cortaria a perdiz se ela fosse dura.

Coro

Dura, dura, dura, Pois ele cortaria a perdiz se ela Fosse dura.

Saem Chloe e o Coro. —

CENA MUDA PARA O INTERIOR DO LEÃO.

Entram Strephon e o Postilhão.

Streph: Conduziu-me de Staines para este lugar, de onde pretendo ir à cidade para casar com Chloe. Quanto lhe devo?

Post: Dezoito pence.

Streph: Ai, meu amigo, tenho apenas uma nota de uma libra má, com a qual pretendo manter-me na cidade. Mas dar-lhe-ei como penhor uma carta sem destinatário que recebi de Chloe.

Post: Senhor, aceito a sua oferta.

FIM DO PRIMEIRO ATO.

UMA CARTA de uma JOVEM SENHORA, cujos sentimentos, sendo demasiado fortes para o seu discernimento, a levaram à prática de erros que o seu coração desaprovava.

Muitos foram os cuidados e vicissitudes da minha vida passada, minha amada Ellinor, e a única consolação que sinto pela sua amargura é que, após um exame atento da minha conduta, estou convencida de que estritamente os mereci. Matei o meu pai num período muito inicial da minha vida, desde então matei a minha mãe, e agora vou matar a minha irmã. Mudei a minha religião tantas vezes que, atualmente, não tenho ideia de nenhuma que me reste. Fui uma testemunha perjura em todos os julgamentos públicos nestes últimos doze anos; e falsifiquei o meu próprio testamento. Em suma, não há quase nenhum crime que eu não tenha cometido — mas agora vou reformar-me. O Coronel Martin, da Guarda a Cavalo, apresentou-me as suas intenções, e casar-nos-emos dentro de poucos dias. Como há algo de singular no nosso namoro, dar-lhe-ei um relato dele. O Coronel Martin é o segundo filho do falecido Sir John Martin, que morreu imensamente rico, mas, legando apenas cem mil libras a cada um dos seus três filhos mais novos, deixou a maior parte da sua fortuna, cerca de oito milhões, ao atual Sir Thomas. Com a sua pequena mesada, o Coronel viveu toleravelmente contente durante quase quatro meses, quando lhe deu na cabeça determinar obter toda a propriedade do seu irmão mais velho. Um novo testamento foi falsificado e o Coronel apresentou-o em tribunal — mas ninguém queria jurar que era o testamento certo, exceto ele mesmo, e ele tinha jurado tanto que ninguém acreditava nele. Nesse momento, eu estava a passar pela porta do tribunal e fui chamada pelo juiz, que disse ao Coronel que eu era uma senhora pronta a testemunhar qualquer coisa pela causa da justiça, e aconselhou-o a recorrer a mim. Em suma, o assunto foi rapidamente resolvido. O Coronel e eu jurámos que era o testamento correto, e Sir Thomas foi obrigado a renunciar a toda a sua riqueza mal adquirida. O Coronel, em gratidão, visitou-me no dia seguinte com uma proposta de casamento —. Agora vou matar a minha irmã.

Sua para sempre, Anna Parker.

UMA VIAGEM PELO PAÍS DE GALES — numa CARTA de uma JOVEM SENHORA —

MINHA QUERIDA CLARA

Tenho estado tanto tempo de rambala que só agora tive oportunidade de lhe agradecer a sua carta —. Deixámos o nosso querido lar na segunda-feira passada, há um mês, e prosseguimos na nossa viagem pelo País de Gales, que é um principado contíguo à Inglaterra e dá o título ao Príncipe de Gales. Viajámos a cavalo por preferência. A minha mãe montou o nosso pequeno pónei e a Fanny e eu caminhámos ao lado dela, ou melhor, corremos, pois a minha mãe gosta tanto de andar depressa que galopou todo o caminho. Pode ter a certeza de que estávamos num belo estado de transpiração quando chegámos ao nosso lugar de descanso. A Fanny fez muitos desenhos do campo, que são muito belos, embora talvez não sejam semelhanças tão exatas quanto se poderia desejar, por terem sido feitos enquanto ela corria. Ficaria espantada ao ver todos os sapatos que gastámos na nossa viagem. Determinámo-nos a levar um bom estoque connosco e, por isso, cada uma levou um par nosso, além daqueles com que partimos. Contudo, fomos obrigadas a mandá-los remendar e pôr saltos em Carmarthen, e finalmente, quando já estavam completamente gastos, a mamã foi tão amável que nos emprestou um par de chinelos de cetim azul, dos quais cada uma levou um e saltitámos até casa, desde Hereford, deliciosamente —

Sou a sua sempre afetuosa, Elizabeth Johnson.

UM CONTO.

Um cavalheiro, cujo nome de família ocultarei, comprou uma pequena casa de campo em Pembrokeshire há cerca de dois anos. Esta ação ousada foi-lhe sugerida pelo seu irmão mais velho, que prometeu mobilar dois quartos e um armário para ele, desde que ele aceitasse uma casa pequena perto da orla de uma vasta floresta e a cerca de três milhas do mar. Wilhelminus aceitou alegremente a oferta e continuou durante algum tempo à procura de tal retiro, quando, numa manhã, foi agradavelmente aliviado da sua expectativa ao ler este anúncio num jornal.

PARA ALUGAR

Uma Casa de Campo arrumada nas margens de uma vasta floresta e a cerca de três milhas do mar. Encontra-se mobilada, exceto dois quartos e um armário.

O encantado Wilhelminus partiu imediatamente para junto do seu irmão e mostrou-lhe o anúncio. Robertus felicitou-o e enviou-o na sua carruagem para tomar posse da casa de campo. Após viajar durante três dias e seis noites sem parar, chegaram à floresta e, seguindo um trilho que a ladeava por uma colina íngreme sobre a qual serpenteavam dez riachos, alcançaram a casa em meia hora. Wilhelminus apeou-se e, depois de bater durante algum tempo sem receber qualquer resposta ou ouvir alguém mover-se no interior, abriu a porta, que estava apenas presa por um trinco de madeira, e entrou numa pequena divisão, que imediatamente percebeu ser um dos dois quartos que não estavam mobilados. Daí, seguiu para um armário igualmente vazio. Um lanço de escadas que saía desse compartimento levou-o a uma divisão por cima, não menos desprovida, e descobriu que estes aposentos compunham toda a casa. Não ficou de modo algum desagradado com esta descoberta, uma vez que teve o conforto de refletir que não seria obrigado a gastar nada em mobília. Regressou imediatamente para junto do irmão, que o levou no dia seguinte a todas as lojas da cidade e comprou tudo o que era necessário para mobilar os dois quartos e o armário. Em poucos dias, tudo estava concluído e Wilhelminus regressou para tomar posse da sua casa de campo. Robertus acompanhou-o, com a sua esposa, a amável Cecilia, e as suas duas encantadoras irmãs, Arabella e Marina, por quem Wilhelminus nutria um terno apego, além de um grande número de criados. Um génio vulgar poderia, provavelmente, ter ficado embaraçado ao tentar acomodar um grupo tão grande, mas Wilhelminus, com uma admirável presença de espírito, deu ordens para a imediata montagem de duas tendas nobres num espaço aberto na floresta contígua à casa. A sua construção era simples e elegante; um par de cobertores velhos, cada um sustentado por quatro estacas, constituiu uma prova notável daquele gosto pela arquitetura e daquela feliz facilidade em superar dificuldades que eram algumas das virtudes mais marcantes de Wilhelminus.

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