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Love-at-arms

by Rafael Sabatini · in Portuguese

LOVE-AT-ARMS

Sendo uma narrativa extraída das crônicas de Urbino durante o domínio do Altíssimo e Poderoso Messer Guidobaldo da Montefeltro

Por Raphael Sabatini

“Le donne, i cavalier', l'arme, gli amori, Le cortesie, l'audace imprese io canto.”

ARIOSTO

ÍNDICE

CAPÍTULO

I. VOX POPULI

II. EM UM CAMINHO DE MONTANHA

III. CILÍCIO E TRAGE DE TOLO

IV. MONNA VALENTINA

V. GIAN MARIA

VI. O DUQUE AMOROSO

VII. GONZAGA, O INSIDIOSO

VIII. ENTRE AS BORRAS DO VINHO

IX. A “TRATTA DI CORDE”

X. O RELINCHAR DE UM BURRO

XI. CAVALEIROS ERRANTES

XII. A CURIOSIDADE DO BOBO

XIII. GIAN MARIA FAZ UM VOTO

XIV. FORTEMANI BEBE ÁGUA

XV. A MISERICÓRDIA DE FRANCESCO

XVI. GONZAGA DESMASCARA-SE

XVII. O INIMIGO

XVIII. TRAIÇÃO

XIX. TRAMA E CONTRATRAMA

XX. OS AMANTES

XXI. O PENITENTE

XXII. UMA REVELAÇÃO

XXIII. NA TORRE DO ARSENAL

XXIV. A MISSA INTERROMPIDA

XXV. A CAPITULAÇÃO DE ROCCALEONE

CAPÍTULO I. VOX POPULI

Do vale, levado ao alto pelas asas da brisa vespertina, elevava-se fracamente o repicar do sino do Angelus, e em uma cabana de cabreiro nas alturas acima, seis homens encontravam-se com as cabeças descobertas e inclinadas, obedecendo ao seu chamado para a oração da tarde. Uma lâmpada de latão, equipada com três bicos, balançava no teto imundo e, com mais fumaça que chama, derramava uma luz indiferente, e um cheiro ainda mais indiferente, por toda a choça escurecida. Mas bastava, ao menos, para revelar nos apetrechos e paramentos daquela companhia uma riqueza que era tanto mais notável pelo contraste com a miséria ao redor.

Quando a última badalada da Ave Maria desapareceu no vento que murmurava lamentavelmente através dos läris da encosta, eles piedosamente fizeram o sinal da cruz e, retomando vagarosamente seus chapéus, olharam uns para os outros com olhares inquisidores. Contudo, antes que qualquer um pudesse expressar a pergunta que estava na mente de todos, uma batida caiu sobre as madeiras podres da porta.

— Finalmente! — exclamou o velho Fabrizio da Lodi, com uma voz carregada de alívio, enquanto um homem mais jovem, de boa compleição e vestes alegres, dirigia-se à porta em obediência ao olhar de Fabrizio e a abria de par em par.

Através do umbral passou uma figura alta sob um chapéu largo e sem plumas, envolta em uma capa que ele desapertou ao entrar, revelando o mais singelo dos trajes por baixo. Um gibão de couro estava apertado na cintura por um cinto de aço martelado, do qual pendia à sua esquerda uma espada longa com gavilões de aço anelados, enquanto por trás do quadril direito espreitava o punho de um robusto punhal de Pistoja. Suas calças de pano vermelho desapareciam em botas de couro não curtido, atadas na frente e dobradas nos joelhos, completando nele a aparência geral de um mercenário em tempos de paz, apesar do que os seis nobres, naquele lugar de paradoxos, descobriram suas cabeças novamente e permaneceram em atitudes de atenção deferente.

Ele pausou um momento para tirar a capa, da qual o jovem que o admitira apressou-se a livrá-lo tão prontamente como se tivesse nascido um servidor. Em seguida, removeu o chapéu e permitiu que ficasse pendurado nos ombros, exibindo, juntamente com um semblante ainda juvenil de extraordinária força e nobreza, uma juba de cabelos negros como azeviche, penteados em uma rede larga de fios de ouro — o único artigo de vestuário que poderia ter sugerido que sua posição era mais elevada do que a princípio parecera.

Ele dirigiu-se prontamente à mesa grosseira e manchada de gordura, ao redor da qual a companhia estava de pé, e seus olhos negros percorreram rapidamente os rostos que o confrontavam.

— Senhores — disse ele finalmente —, estou aqui. Meu cavalo mancou meia légua depois de Sant' Angelo, e fui constrangido a terminar a jornada a pé.

— Vossa Excelência deve estar cansado — exclamou Fabrizio, com aquela solicitude pronta que está sempre às ordens dos grandes. — Uma taça de vinho da Puglia, meu senhor. Aqui, Fanfulla — chamou ele, ao jovem nobre que atuara como recepcionista. Mas o recém-chegado silenciou-o e pôs o assunto de lado com um gesto.

— Deixe isso para depois. O tempo importa como pouco sonhais. Bem pode ser, ilustres senhores, que se eu não tivesse vindo desta forma, não teria vindo de modo algum.

— Como? — exclamou um deles, expressando a maravilha que surgia em cada mente, assim como em cada semblante alguma consternação se mostrava. — Estamos traídos?

— Se estais em condições de temer uma traição, bem pode ser, meus amigos. Ao cruzar a ponte sobre o Metauro e tomar o caminho que leva até aqui, meus olhos foram atraídos por uma luz carmesim brilhando de um emaranhado de arbustos à beira da estrada. Aquela chama carmesim era um reflexo do sol poente disparado pelo elmo de aço de um observador oculto. O caminho levou-me para mais perto e, com meu chapéu assim posto de modo que melhor pudesse ocultar meu rosto, eu era todo olhos. E, ao passar pelo local onde aquele espião estava de emboscada, discerni entre as folhas que tão bem poderiam tê-lo ocultado, se o sol não tivesse revelado seu elmo, o rosto maligno de Masuccio Torri. — Houve uma agitação entre os ouvintes, e a consternação aumentou, enquanto um ou dois mudaram de cor. — Por quem ele esperava? Essa foi a pergunta que fiz a mim mesmo, e encontrei a resposta de que era por mim. Se eu estivesse certo, ele também deveria saber a distância que percorri, de modo que não esperaria ver-me a pé, nem, talvez, em vestes como estas. E assim, graças a tudo isso e ao chapéu e à capa com os quais me mascarava cuidadosamente, ele deixou-me passar sem ser desafiado.

— Pela Virgem! — exclamou Fabrizio calorosamente. — Juro que as vossas conclusões estavam erradas. Em toda a Itália não era conhecido por homem algum além de nós seis que vós deveríeis encontrar-nos aqui, e com a mão sobre os Evangelhos poderia jurar que nenhum de nós respirou sobre isso.

Ele olhou ao redor para seus companheiros como se os convidasse a confirmar suas palavras, e eles não tardaram em confirmar o que ele jurara, em termos tão veementes quanto os dele, até que, no final, o recém-chegado acenou-os para o silêncio.

— Nem eu respirei sobre isso — assegurou-lhes ele —, pois respeitei a vossa injunção, Messer Fabrizio. Ainda assim... o que Masuccio fazia lá, escondido como um ladrão, à beira da estrada? Senhores — continuou ele, em um tom ligeiramente alterado —, não sei com que fim me convidastes até aqui, mas se algo de traição espreita em vossos desígnios, aviso-vos: cuidado! O Duque tem conhecimento disso, ou pelo menos, suspeita. Se aquele espião não foi colocado para vigiar-me, então foi colocado para vigiar a todos, para que possa logo informar ao seu senhor que homens estavam presentes nesta reunião.

Fabrizio encolheu os ombros com uma indiferença desdenhosa que foi expressa por seu vizinho Ferrabraccio.

— Que seja informado — zombou este último, com um sorriso sombrio em seu rosto rústico. — O conhecimento chegar-lhe-á tarde demais.

O recém-chegado jogou a cabeça para trás, e um olhar que era metade maravilha, metade esclarecimento, brilhou nas profundezas negras de seus olhos imperiosos. Ele respirou fundo.

— Parece, senhores, que eu estava certo — disse ele, com um toque de severidade —, e que traição é, de fato, o vosso negócio.

— Meu Senhor de Aquila — respondeu-lhe Fabrizio —, somos traidores a um homem para que possamos permanecer fiéis e leais a um Estado.

— Que Estado? — ladrou o Senhor de Aquila, com desprezo.

— O Ducado de Babbiano — veio a resposta.

— Seríeis falsos ao Duque para que possais ser fiéis ao Ducado? — questionou ele, com o escárnio correndo cada vez mais forte em sua voz. — Senhores, é um enigma que não pretendo resolver.

Caiu uma pausa na qual eles se olhavam, e seus olhares eram quase como os olhares de homens frustrados. Eles não esperavam tal tom vindo dele, e questionaram com seus olhos e mentes a sabedoria de ir adiante. Finalmente, com um meio suspiro, Fabrizio da Lodi voltou-se mais uma vez para Aquila.

— Senhor Conde — começou ele, em uma voz calma e impressionante —, sou um homem velho; o nome que carrego e a família da qual provenho são igualmente honrados. Não podeis pensar tão vilmente de mim a ponto de opinar que, na minha velhice, eu faria algo para manchar a bela fama de um ou de outro. Ser chamado de traidor, senhor, é receber um título duro, e um, penso eu, que não poderia caber a homem algum menos do que cabe a mim ou a qualquer um destes meus companheiros. Fereis-me a honra, então, de ouvir-me até o fim, Excelência; e quando me tiverdes ouvido, julgai-nos. Não, mais do que julgamento pedimos de vós, Senhor Conde. Pedimos orientação para que possamos salvar nosso país da ruína que o ameaça, e prometemos-vos que não daremos passo algum que não tenha a vossa sanção — que não seja incitado por vós.

Francesco del Falco, Conde de Aquila, observou o velho nobre com um olhar que mudara enquanto ele falava, de modo que, de desdenhoso que era, agora tornara-se cheio de branda maravilha e indagação. Ele inclinou levemente a cabeça em sinal de aquiescência.

— Peço que faleis — foi tudo o que ele disse, e Fabrizio teria imediatamente falado se Ferrabraccio não houvesse intervindo para exigir que Aquila desse a eles sua palavra de cavaleiro de não traí-los no caso de sua rejeição às propostas que tinham a fazer. Quando ele lhes deu sua promessa, e eles se sentaram em tais bancos rudes como o lugar permitia, Fabrizio retomou seu ofício de porta-voz e expôs o assunto sobre o qual convidara o Conde para o meio deles.

Em um breve preâmbulo, ele tocou no caráter de Gian Maria Sforza, o Duque reinante de Babbiano — colocado em seu trono por seu poderoso tio, Lodovico Sforza, Senhor de Milão. Ele expôs as extravagâncias imprudentes do homem, sua contínua indulgência consigo mesmo, seu descuido em questões de governo e sua aparente falta de inclinação para cumprir os deveres que sua alta posição lhe impunha. Sobre tudo isso, Fabrizio tocou com a mais louvável discrição e contenção, como era exigido pela circunstância de que, em Francesco del Falco, ele estava se dirigindo ao próprio primo do Duque.

— Até aqui, Excelência — continuou ele —, não podeis ignorar a insatisfação geral que prevalece entre os súditos de nosso mais ilustre primo. Houve a conspiração de Bacolino, há um ano, que, se tivesse tido sucesso, ter-nos-ia lançado às mãos de Florença. Fracassou, mas outra como esta poderia não fracassar novamente. O crescente desfavor de Sua Alteza pode trazer mais aderentes a uma nova conspiração deste tipo, e estaríamos perdidos como um estado independente. E o perigo que nos ameaça é o perigo de estarmos assim perdidos. Não apenas por deserção nossa, mas pela força das armas de outro. Esse outro é César Bórgia. Seu domínio está se espalhando como uma peste sobre a face desta Itália, que ele ameaçou devorar como uma alcachofra — folha por folha. Já seus olhos gananciosos voltaram-se para nós, e que poder temos nós — tão despreparados como estamos — com o qual possamos opor-nos com sucesso ao poder esmagador do Duque de Valentinois? Tudo isso Sua Alteza percebe, pois deixamo-lo mais do que claro para ele, como também deixamos clara a solução. Contudo, ele parece tão indiferente ao seu perigo quanto à sua salvação. Seu tempo é gasto em orgias, em danças, na falcoaria e em vergonhosas aventuras amorosas, e se ousamos lançar uma palavra de aviso, ameaças e maldições são a única resposta que recebemos.

Da Lodi pausou, como se percebesse que sua maneira estava se tornando excessivamente veemente. Mas disso, seus companheiros, pelo menos, estavam todos inconscientes, pois preencheram a pausa com um murmúrio de confirmação raivosa. Francesco franziu a testa e suspirou.

— Estou — ai de mim! — plenamente consciente deste perigo de que falais. Mas... o que esperais de mim? Por que trazeis-me vossa queixa? Não sou um estadista.

— Aqui não é necessário estadista, senhor. É um soldado que Babbiano requer; um espírito marcial para organizar um exército contra a invasão que deve vir — que já está vindo. Em suma, Senhor Conde, precisamos de um guerreiro como vós. Que homem existe em toda a Itália — ou, na verdade, que mulher ou que criança — que não tenha ouvido falar da bravura do Senhor de Aquila? Vossos feitos cavalheirescos nas guerras entre Pisa e Florença, vossas proezas de armas e comando a serviço dos venezianos, são assuntos para a criação de canções épicas.

— Messer Fabrizio! — murmurou Paolo, tentando conter seu interlocutor elogioso, enquanto um leve tom avermelhado subia às suas faces bronzeadas. Mas Da Lodi continuou, sem notar:

— E haveis de vós, meu senhor, que vos portastes tão valorosamente como um condottiero a serviço do estrangeiro, hesitar em empregar vossa perícia e valor contra os inimigos de vossa própria pátria? Não, Excelência. Conhecemos a alma patriótica de Francesco del Falco, e contamos com ela.

— E fazeis bem — respondeu ele firmemente. — Quando chegar o momento, encontrar-me-eis pronto. Mas até lá, e tocando em tal preparação como deve ser feita — por que não vos dirigis a Sua Alteza como fazeis comigo?

Um sorriso triste cruzou o rosto nobre de Lodi, enquanto Ferrabraccio riu abertamente em frio desprezo e, com rudeza característica, respondeu:

— Falaremos a ele — bradou ele —, de feitos cavalheirescos, de proezas e de valor? Eu preferiria ordenar a Roderigo Bórgia que cumprisse os deveres sagrados de seu Vicariato; eu poderia tão proveitosamente espalhar incenso em um monturo. O que poderíamos dizer a Gian Maria nós dissemos, e já que teria sido inútil ter apelado a ele como apelamos a vós, mostramos a ele ainda outro caminho pelo qual Babbiano poderia ser salvo e o ataque de Valentino evitado.

— Ah! E este outro caminho? — indagou o Conde, seu olhar voltando-se para Fabrizio.

— Uma aliança com a casa de Urbino — respondeu Lodi. — Guidobaldo tem duas sobrinhas. Sondamo-lo e encontramo-lo bem disposto em relação a tal casamento como sugerimos. Aliados assim à casa de Montefeltro, receberíamos não apenas assistência de Guidobaldo, mas também dos senhores de Bolonha, Perúgia, Camerino e alguns estados menores cujas fortunas já estão ligadas à de Urbino. Assim, apresentaríamos a César Bórgia uma coalizão tão forte que ele nunca ousaria trazer uma lança para nosso território.

— Ouvi falar disso — disse Paolo. — Teria sido um passo sábio, de fato. Pena que as negociações não deram em nada!

— Mas por que não deram em nada? Corpo de Satã! Por que? — rugiu o impetuoso Ferrabraccio, enquanto com seu punho poderoso ele desferiu na mesa um golpe que quase a despedaçou. — Porque Gian Maria não estava com disposição para casar! A moça que propusemos a ele era bela como um anjo; mas ele não queria nem olhar. Havia uma mulher em Babbiano que...

— Meu senhor — interrompeu Fabrizio apressadamente, temendo até onde o outro poderia ir —, é como Ferrabraccio diz. Sua Alteza não queria casar. E é isso que nos levou a convidar-vos para vos encontrardes conosco aqui esta noite. Sua Alteza não fará nada para salvar o Ducado, e por isso voltamo-nos para vós. O povo está conosco; em cada rua de Babbiano falais abertamente como o duque que eles gostariam que governasse e defendesse seus lares. Em nome sagrado do povo, então — concluiu o velho, levantando-se e falando com uma voz trêmula de emoção —, e com a voz do povo, da qual somos apenas o porta-voz, oferecemos-vos agora a coroa de Babbiano. Voltai conosco esta noite, meu senhor, e amanhã, com apenas vinte lanças como escolta, cavalgaremos até Babbiano e proclamar-vos-emos Duque. Nem precisais temer a menor oposição. Apenas um homem de Babbiano — esse mesmo Masuccio que vos dissemos que vistes esta noite — permanece fiel a Gian Maria; fiel porque ele e os cinquenta mercenários suíços em seus calcanhares são pagos para sê-lo. Levantai-vos, meu senhor! Deixai que vosso bom senso diga-vos se um homem honesto precisa hesitar em depor um príncipe cujo trono não conhece defesa além da proteção contratada de cinquenta lanças estrangeiras.

Seguiu-se um silêncio após aquele discurso apaixonado. Lodi permaneceu de pé, os outros sentados, seus olhares ávidos voltados para o Conde, seus ouvidos ansiosamente alertas para sua resposta. Assim permaneceram por um breve momento, o próprio Aquila tão imóvel que mal parecia respirar.

Ele sentou-se, segurando os braços de sua cadeira, a cabeça caída para frente até que seu queixo repousasse sobre o peito, uma carranca escurecendo sua fronte alta. E enquanto esperavam por sua resposta, uma grande batalha era travada dentro de sua alma. O poder tão repentinamente, tão inesperadamente, empurrado ao seu alcance, e oferecido a ele se ele apenas abrisse as mãos para agarrá-lo, deslumbrou-o por um pequeno momento. Como em um relâmpago, viu-se Senhor de Babbiano. Contemplou uma carreira orgulhosa de feitos cavalheirescos que faria seu nome e o de Babbiano ressoarem por toda a extensão e largura da Itália. Do estado obscuro que era, seu patriotismo e sua perícia como condottiero torná-lo-iam uma das grandes potências italianas — a rival de Florença, de Veneza ou Milão. Ele teve uma visão de territórios ampliados e de senhores vizinhos tornando-se vassalos de seu poder. Viu-se arrancando a Romanha milha a milha do domínio do libertino Bórgia, caçando-o até a morte como costumava caçar o javali nos pântanos de Commachio, ou expulsando-o para dentro do próprio Vaticano para buscar refúgio dentro dos portões de seu pai — a última faixa de terra que ele lhe deixaria para dominar. Sonhou com uma Babbiano cortejada pelas grandes repúblicas, e a honra de sua aliança cobiçada por elas para que pudessem resistir aos ataques de franceses e espanhóis. Tudo isso ele viu naquela visão fugaz sua, e a Tentação capturou seu espírito marcial em um aperto de aço. E então, outra imagem surgiu diante de seus olhos. O que ele faria em tempos de paz? A sua era uma alma que definhava em palácios. Ele nasceu para o acampamento, e não para o ar insípido das cortes. Em troca deste poder que lhe era oferecido, o que ele deveria dar? Sua gloriosa liberdade. Tornar-se o senhor deles em muitas coisas, para ser seu escravo em mais. Nominalmente governar, mas na verdade ser governado, até que, se ele falhasse em fazer a vontade de seus governantes, haveria em alguma noite outra reunião como esta, na qual homens conspirariam para causar sua queda e substituí-lo como ele era convidado a substituir Gian Maria. Por fim, lembrou-se do homem cujo poder ele era incitado a usurpar. Seu próprio primo, filho da irmã de seu pai, em cujas veias corria o mesmo sangue que no seu.

Ele levantou a cabeça finalmente e encontrou aqueles rostos ansiosos sobre os quais a luz instável lançava sombras duras. O fantasma pálido de um sorriso pairou por um segundo nos cantos de sua boca severa.

— Agradeço-vos, senhores, pela honra que me fizestes — respondeu ele lentamente —, uma honra da qual temo que sou totalmente indigno.

Em coro intenso, suas vozes elevaram-se para contradizê-lo.

— Pelo menos, então, uma honra que não posso aceitar.

Houve um momento de silêncio, e seus rostos, de ávidos que eram, tornaram-se abatidos a ponto de mau humor.

— Mas por que, meu senhor? — exclamou o velho Fabrizio finalmente, seus braços estendidos para o Conde, sua voz tremendo de intensidade. — Santissima Vergine! Por quê?

— Porque — para dar-vos apenas uma razão entre muitas — o homem que me pedis para derrubar e substituir é do meu próprio sangue. — E, não fosse pelo fato de que seu tom era calmo, eles poderiam ter pensado que ele os repreendia.

— Eu tinha pensado — arriscou seriamente o alegre Fanfulla —, que com um homem como Vossa Excelência, o patriotismo e o amor por Babbiano pesariam ainda mais do que os laços de sangue.

— E vós tínheis pensado bem, Fanfulla. Não vos disse eu que a razão que vos dei era apenas uma entre muitas? Dizei-me, senhores, que motivo tendes para acreditar que eu deveria governar-vos com sabedoria e retidão? Acontece que, na crise que agora ameaça Babbiano, é necessário um capitão para seu governante. Mas não deixeis que isso vos iluda, pois pode chegar uma época na fortuna do Estado em que tal homem poderia ser tão inadequado para o domínio quanto é o presente Duque neste. E então? Um bom cavaleiro andante é um cortesão indiferente e um mau estadista. Por fim, meus amigos — já que deveis saber tudo o que está em meu coração — resta o fato de que amo a mim mesmo um pouco. Amo demais a minha liberdade, e não tenho intenção de sufocar na atmosfera perfumada das cortes. Vedes que sou franco convosco. É meu prazer vagar pelo mundo, com minha armadura às costas, livre como o vento bendito do céu. Deverá uma coroa ducal e um manto de púrpura... — Ele interrompeu-se bruscamente com uma risada. — Ora, meus amigos! Tendes razões de sobra. Mais uma vez agradeço-vos, e lamento que, sendo como sou, não possa tornar-me como desejaríeis que eu fosse.

Ele recostou-se na cadeira, observando-os com um olhar nada menos que nostálgico, e após um segundo de silêncio, a voz de Da Lodi suplicou-lhe, em tons que tremiam com ênfase patética, que reconsiderasse sua resolução. O velho teria prosseguido com novos argumentos, mas Aquila cortou-o.

— Já considerei tão bem, Messer Fabrizio — respondeu ele resolutamente —, que nada agora poderia demover-me. Mas isto, senhores, eu vos prometo: cavalgarei convosco até Babbiano, e procurarei argumentar com meu primo. Mais farei; buscarei de suas mãos o cargo de Gonfaloneiro e, se ele mo conceder, reorganizarei nossas forças e firmarei tais alianças com nossos vizinhos que assegurarei, ao menos em algum grau, a segurança de nosso Estado.

Ainda tentaram persuadi-lo, mas ele manteve-se firme contra seus esforços, até que, no fim, com um semblante pesaroso, Da Lodi agradeceu-lhe pela promessa de usar sua influência junto a Gian Maria.

— Por isto, ao menos, agradecemos a Vossa Excelência, e da nossa parte exerceremos o poder que ainda detemos em Babbiano para que o alto cargo de Gonfaloneiro vos seja conferido. Teríamos preferido ver-vos ocupar com honra uma posição ainda mais elevada, e caso mais tarde venhais a considerar...

— Despedi vossas esperanças disso — interrompeu o Conde, com um movimento solene de cabeça. E então, antes que outra palavra fosse proferida, o jovem Fanfulla degli Arcipreti saltou subitamente de pé, com as sobrancelhas franzidas e uma expressão de alarme espalhando-se por seu rosto formoso. Por um segundo permaneceu assim; então, dirigindo-se rapidamente à porta, abriu-a e ficou a ouvir, seguido pelos olhares surpresos da companhia reunida. Mas não foi necessário o grito de alerta com que se virou para lhes fornecer a explicação de seu comportamento estranho. No silêncio tenso do momento que se seguiu à sua abertura repentina da porta, eles haviam captado lá fora o som distante de pés em marcha.

CAPÍTULO II. EM UMA TRILHA NA MONTANHA

— Homens armados, meus senhores! — fora o grito de Fanfulla. — Fomos traídos!

Eles olharam uns para os outros com olhos severos, e com aquela crueza que toma o lugar que o medo ocuparia em almas mais mesquinhas.

Então Aquila levantou-se lentamente, e com ele levantaram-se os outros, buscando suas armas. Ele sussurrou suavemente um nome: — Masuccio Torri.

— Sim — exclamou Lodi amargamente —, quem dera tivéssemos dado ouvidos ao vosso aviso! Será Masuccio, e em seu encalço seus cinquenta mercenários.

— Não menos, eu vos garanto, pelo som deles — disse Ferrabraccio. — E nós apenas seis, sem nossas armaduras.

— Sete — corrigiu o Conde laconicamente, pegando seu chapéu e afrouxando a espada na bainha.

— Não, meu senhor — exclamou Lodi, colocando a mão sobre o braço do Conde. — Não deveis ficar conosco. Sois nossa única esperança — a única esperança de Babbiano. Se fomos de fato traídos — embora por quais meios infernais, não sei — e eles têm conhecimento de que seis traidores se reuniram aqui esta noite para conspirar contra o trono de Gian Maria, ao menos, posso jurar, não se sabe que vos encontraríeis conosco. Sua Alteza pode conjecturar, mas não pode saber com certeza, e se vós apenas escapardes, tudo ainda poderá terminar bem — exceto para nós, que não importamos. Ide, meu senhor! Lembrai-vos de vossa promessa de buscar de seu primo o gonfalone, e que Deus e Seus santos benditos prosperem Vossa Excelência.

O velho segurou a mão do jovem e, inclinando a cabeça até que seu rosto ficasse escondido em seus longos cabelos brancos, imprimiu-lhe um beijo de lealdade. Mas Aquila não seria dispensado tão facilmente.

— Onde estão vossos cavalos? — perguntou ele.

— Atados nos fundos. Mas quem ousaria montá-los à noite descendo este precipício?

— Eu ousaria, por um — respondeu o jovem com firmeza —, e assim ousareis todos vós. Um pescoço quebrado é o pior que nos pode acontecer, e eu preferiria quebrar o meu nas rochas de Sant' Angelo a tê-lo quebrado pelo carrasco de Babbiano.

— Bravo, pela Virgem! — rugiu Ferrabraccio. — A cavalo, senhores!

— Mas o único caminho é o caminho pelo qual eles vêm — ponderou Fanfulla. — O resto é um penhasco puro.

— Ora, então, meu doce sedutor, iremos ao encontro deles — replicou Ferrabraccio alegremente. — Eles estão a pé, e nós os atropelaremos como uma torrente de montanha. Vamos, senhores, apressai-vos! Eles se aproximam.

— Temos apenas seis cavalos, e somos sete — objetou outro.

— Não tenho cavalo — disse Francesco —, segui-los-ei a pé.

— O quê? — gritou Ferrabraccio, que parecia agora ter assumido o comando da empresa. — Deixai nosso São Miguel dar a retaguarda! Não, não. Vós, Da Lodi, sois velho demais para este trabalho.

— Velho demais? — inflamou-se o velho, erguendo-se a toda a altura do que ainda era uma figura muito imponente, e seus olhos parecendo incendiar-se com essa reflexão sobre seu valor cavaleiresco. — Se a época fosse outra, Ferrabraccio, eu poderia pedir licença para vos mostrar quanta juventude ainda resta em mim. Mas... — Ele hesitou. Seus olhos coléricos haviam pousado sobre o Conde, que estava à espera junto à porta, e toda a expressão de seu semblante mudou. — Tendes razão, Ferrabraccio, estou ficando velho, de fato — um caduco. Tomai meu cavalo e ide embora.

— Mas vós? — perguntou o Conde com solicitude.

— Eu ficarei. Se fizerdes bem o vosso dever com esses mercenários, eles não me incomodarão. Não lhes ocorrerá que alguém foi deixado para trás. Eles pensarão apenas em vos seguir depois que tiverdes passado por eles. Ide, ide, senhores, ou tudo estará perdido.

Eles obedeceram-no agora com uma pressa que parecia quase beirar o pânico. Em um frenesi, Fanfulla e outro soltaram as amarras, e um momento depois estavam todos montados e prontos para aquela cavalgada temerária. A noite estava escura, mas não escura demais. O céu estava sem nuvens e densamente estrelado, enquanto uma lua minguante ajudava a iluminar o caminho pelo qual deveriam seguir. Mas, naquele caminho de montanha quebrado e incerto, as sombras eram densas o suficiente para tornar seu empreendimento desesperado.

Ferrabraccio, reivindicando um conhecimento melhor do que o de seus companheiros, colocou-se à frente deles, com o Conde ao seu lado. Atrás deles, dois a dois, vinham os outros quatro. Eles estavam em uma pequena saliência à sombra do grande penhasco que se avultava à sua esquerda. De lá, a encosta da montanha poderia ser examinada — tão bem quanto se podia discernir sob tal luz. O passo dos pés havia ficado mais alto e mais próximo, e com ele veio o tilintar de armaduras. À frente deles estendia-se o caminho que declinava, por cem jardas ou mais, até a primeira curva. Abaixo deles, à direita, o caminho aparecia novamente no ponto onde se projetava por cerca de meia dúzia de jardas em seu curso em ziguezague, e lá Fanfulla captou o brilho do aço, refletindo a fraca luz do luar. Ele chamou a atenção de Ferrabraccio, e aquele bravo guerreiro deu imediatamente a ordem de partir. Mas Francesco interpôs-se.

— Se o fizermos — objetou ele —, chegaremos a eles após a curva, e nessa curva seremos forçados a diminuir a velocidade para evitar sermos lançados sobre a borda do precipício. Além disso, em tal aperto, nossos cavalos podem falhar e recusar o terreno. De qualquer forma, não descerei sobre eles com a mesma força que teremos se esperarmos até que entrem em linha reta conosco. As sombras aqui nos ocultarão deles enquanto isso.

— Tendes razão, Lorde Conde. Esperaremos — foi a resposta pronta. E enquanto esperavam, ele resmungava vigorosamente.

— Ser apanhado em tal armadilha como esta! Corpo de Satanás! Foi uma loucura ter-se reunido em uma cabana com apenas um acesso.

— Poderíamos talvez ter recuado pelo penhasco atrás — disse Francesco.

— Poderíamos, de fato — se fôssemos pardais ou gatos da montanha. Mas, sendo homens, o caminho por onde vamos é o único — e é um caminho terrivelmente ruim. Eu gostaria de ser enterrado em Sant' Angelo, Lorde Conde — continuou ele de forma caprichosa. — Será convenientemente perto; pois, uma vez que eu caia pela encosta da montanha, posso jurar que nada me deterá até que eu alcance o vale — um pacote de ossos quebrados.

— Firme, meus amigos — murmurou a voz de Aquila. — Eles vêm.

E contornando aquela curva fatídica, eles entravam agora no campo de visão — uma companhia com elmos e couraças de aço, com alabardas nos ombros. Por um momento eles pararam, de modo que o grupo à espera quase se considerou observado. Mas logo ficou claro que a parada servia para que os retardatários se aproximassem. Masuccio era um homem que não corria riscos; ele queria cada patife de seus cinquenta homens antes de arriscar o assalto.

— Agora — murmurou o Conde, apertando o chapéu sobre a testa, para que pudesse ocultar melhor suas feições. Então, levantando-se nos estribos e elevando sua espada ao alto, ele fez sua voz ser ouvida novamente. Mas não mais em um sussurro. Como um toque de trombeta, ela ressoou, ecoando e reecoando pela encosta da montanha.

— Avante! São Miguel e a Virgem!

Aquele grito poderoso, seguido por um trovão de cascos, fez os mercenários que avançavam pararem. A voz de Masuccio foi ouvida, chamando-os para que se mantivessem firmes; ordenando-lhes que se ajoelhassem e defendessem a carga com suas lanças; assegurando-lhes com pragas que eles tinham apenas meia dúzia de homens para enfrentar. Mas os ecos da montanha eram ilusórios, e aquele trovão de cascos que desciam parecia-lhes não de meia dúzia, mas de um regimento. Apesar das imprecações de Masuccio, os primeiros viraram-se, e naquele momento os cavaleiros estavam sobre eles, através deles e acima deles, como a torrente poderosa da qual Ferrabraccio falara.

Uma dúzia de suíços caiu sob aquele ataque, e outra dúzia que fora varrida para o lado e sobre o precipício estava na metade do caminho para o vale antes que aquela cavalaria encontrasse qualquer resistência. Os homens restantes de Masuccio esforçaram-se vigorosamente para conter aquela catarata humana, agora que percebiam quão pequeno era o número de seus atacantes. Eles puseram suas alabardas em ação, e por alguns momentos a batalha enfureceu-se ardentemente naquele caminho estreito. O ar estava carregado com o ranger e o tinir do aço, o bater de pés de homens e cavalos, e os gritos e maldições dos mutilados.

O Senhor de Aquila, sempre na frente, lutava desesperadamente. Não apenas com sua espada ele lutava, mas com seu cavalo também. Empinando a besta sobre as patas traseiras, ele a girava e a deixava descer onde menos se esperava, golpeando ao seu redor com a espada ao mesmo tempo. Em vão eles tentaram derrubar seu cavalo com suas lanças; tão rápida e furiosa era sua ação que, antes que seu plano pudesse ser realizado, ele estava sobre aqueles que o planejavam, dispersando-os para longe para salvarem suas peles.

Desta forma feroz, ele abriu um caminho à sua frente, e a sorte serviu-o tão bem que os golpes que eram desferidos desordenadamente contra ele enquanto disparava passavam longe. Finalmente, ele estava quase atravessando a multidão, e apenas três homens agora o enfrentavam. Novamente seu cavalo empinou, bufando e escavando o ar como um gato, e dois dos três patifes à sua frente fugiram incontinenti para o lado. Mas o terceiro, que era de fibra mais corajosa, caiu sobre um joelho e apresentou sua lança contra a barriga do cavalo. Francesco fez uma tentativa desesperada de salvar o ruão que o servira tão galhardamente, mas era tarde demais. Ele desceu para empalar-se naquela alabarda à espera. Com um grito horrível, o cavalo afundou sobre seu algoz, esmagando-o sob seu peso colossal e arremessando seu cavaleiro para a frente, no chão. Em um instante ele estava de pé e tinha se virado, apesar de estar meio atordoado pela queda e enfraquecido pela perda de sangue de um golpe de lança no ombro — do qual ele permanecera até então inconsciente no calor da batalha. Dois mercenários avançavam sobre ele — os mesmos dois que tinham sido os últimos a recuar diante dele. Ele preparou-se para enfrentá-los, pensando que sua última hora havia chegado, quando Fanfulla degli Arcipreti, que o seguira de perto através da multidão, desceu agora sobre seus atacantes por trás e atropelou-os. Ao lado do Conde, ele estancou o cavalo e estendeu a mão.

— Monte atrás de mim, Excelência — instou ele.

— Não há tempo — respondeu Francesco, que discernia meia dúzia de figuras correndo em sua direção. — Eu me agarrarei à sua sela, assim. Agora, esporas! — E sem esperar que Fanfulla o obedecesse, ele deu um golpe com a parte chata de sua espada nos jarretes do cavalo, o que o fez saltar para a frente. Assim, continuaram aquela descida perigosa, Fanfulla montado e o Conde meio correndo, meio pendurado no estribo. Finalmente, quando haviam percorrido meia milha desta forma, e o caminho tornara-se mais fácil, eles pararam para que o Conde pudesse montar atrás de seu companheiro, e enquanto cavalgavam agora a um passo mais tranquilo, Francesco percebeu que ele e Fanfulla eram os únicos dois que haviam passado por aquele lugar terrível. O galante Ferrabraccio, herói de cem batalhas extenuantes, havia encontrado o destino ignóbil que, meio em tom de brincadeira, ele mesmo profetizara. Seu cavalo traíra-o no início da carga e, assustando-se, desviara-se apesar de seus esforços para controlá-lo, até que, perdendo o equilíbrio, homem e besta foram arremessados sobre o penhasco. Amerini, Fanfulla vira ser morto, enquanto os dois restantes, ambos tendo perdido seus cavalos, seriam sem dúvida prisioneiros de Masuccio.

Cerca de três milhas além de Sant' Angelo, o cavalo cansado de Fanfulla atravessou um vau do Metauro, e assim, por volta da segunda hora da noite, alcançaram o território de Urbino, onde, por enquanto, podiam considerar-se a salvo de qualquer perseguição.

CAPÍTULO III. CÍLÍCIO E TRAJES DE ARLEQUIM

O tolo e o frade tinham começado a brigar, e — para vergonha do frade e glória do tolo, diga-se de passagem — o motivo de sua contenda era uma mulher. Ora, o frade, vendo que não era páreo para o tolo nas palavras, e sendo tão largo e robusto de cintura e membros quanto o outro era franzino e deformado, tirou sua sandália para que, com ela, pudesse imprimir toda a força de seus argumentos através do crânio do bobo da corte. Diante disso, o tolo, sendo um covarde, fugiu incontinenti através das árvores.

Correndo, como o tolo que era, com a cabeça voltada para saber se o bom padre o seguia, ele nunca viu a figura que jazia meio escondida na samambaia, e poderia nunca ter adivinhado sua presença, não fosse que, tropeçando nela, foi arremessado para a frente, com um tilintar de guizos, sobre seu nariz torto.

Ele sentou-se com um gemido, que foi respondido por um palavrão vindo do homem em cujas costelas ele havia cravado seus pés em voo. Os dois olharam um para o outro com surpresa, temperada com raiva no um e desalento no outro.

— Um bom despertar para vós, nobre senhor — disse o tolo educadamente; pois, pelo porte e estatura do homem que havia despertado, ele pensou que a cortesia poderia servir-lhe melhor.

O outro observou-o com interesse, como bem poderia; pois uma figura mais estranha seria difícil de encontrar na Itália.

Corcunda, de tamanho pequeno e membros frágeis, ele estava vestido com gibão, calças e capuz, cuja metade era preta e a outra carmesim, enquanto de seus ombros caía, a partir desse mesmo capuz — que enquadrava apertadamente seu rostinho feio —, uma capa folheada, de cujas pontas pendia um minúsculo guizo de prata que brilhava à luz do sol e tilintava à medida que ele se movia. De sob as sobrancelhas salientes, um par de olhos brilhantes, postos tão abertos quanto os de uma coruja, assumiam o humor travesso de sua boca prodigiosa.

— Uma maldição sobre vós e sobre aquele que vos enviou — foi a saudação de resposta que ele recebeu. Então o homem conteve sua raiva e desatou a rir ao ver o medo que surgiu nos olhos do bobo.

— Peço perdão — peço-o humildemente, Ilustríssimo — disse o tolo, ainda com medo. — Eu estava sendo perseguido.

— Perseguido? — ecoou o outro, em um tom não isento de uma inquietação repentina. — E, por favor, por quem?

— Pelo próprio demônio, disfarçado na carne grosseira e aparência de um irmão dominicano.

— Estais a zombar? — veio a pergunta colérica.

— Zombar? Se tivésseis apanhado sua sandália vilã entre as vossas espaldas, como eu, saberíeis quão pouca vontade tenho de zombar.

— Agora, respondei a uma pergunta simples, se tendes o juízo para responder — disse o outro, a raiva sempre crescente em sua voz. — Existe aqui por perto um monge?

— Sim, existe — que uma peste imunda o apodreça! — escondido nos arbustos ali. Ele é gordo demais para correr, ou tê-lo-íeis visto em meus calcanhares, adornado com aquele aparato de ira vingadora que é o emblema da Igreja Militante.

— Ide trazê-lo aqui — foi a resposta curta.

— Gesù! — arquejou o tolo, em pavor muito real. — Não chegarei perto dele até que sua raiva se acalme — nem se me fizésseis reto e me subornásseis com o Patrimônio de São Pedro.

O homem virou-se dele impacientemente, e elevando a voz:

— Fanfulla! — chamou ele por cima do ombro, e então, após uma breve pausa, novamente: — Olá, Fanfulla!

— Estou aqui, meu senhor — veio uma voz de resposta de trás de um arbusto à sua direita, e quase imediatamente o jovem muito esplêndido que fora dormir à sua sombra levantou-se e veio até eles. Ao ver o tolo, ele parou para avaliá-lo, enquanto o tolo retribuía o cumprimento com interesse atônito. Pois, por mais que o traje de Fanfulla pudesse ter sofrido no confronto da noite anterior, ainda estava muito luxuoso, e na boina de veludo em sua cabeça uma corrente de joias estava entrelaçada. No entanto, não foi tanto pela riqueza de suas vestes que o tolo ficou impressionado, mas pelo fato de que alguém tão manifestamente nobre dirigisse a este companheiro de roupas indiferentes, sobre quem ele havia tropeçado, com tal título e em um tom de tanta deferência. Então seu olhar vagou de volta para o homem que jazia apoiado sobre o cotovelo, e ele notou agora a rede de ouro em que o cabelo estava preso, o que de forma alguma era comum a pessoas humildes. Seus olhos pequenos e cintilantes voltaram sua atenção totalmente para o rosto à sua frente, e de repente um brilho de reconhecimento surgiu neles. Seu semblante sofreu uma mudança, e de grotesco que era, tornou-se mais grotesco ainda em sua pressa em assumir reverência.

— Meu Lorde de Aquila! — murmurou ele, levantando-se.

Mal tinha ele se erguido quando uma mão agarrou-o pelo ombro, e a adaga de Fanfulla brilhou diante de seus olhos assustados.

— Jurai pela cruz disto, nunca divulgar a presença de sua Excelência aqui, ou recebei a ponta dela em vosso coração tolo.

— Eu juro, eu juro! — gritou ele, em pressa temerosa, com a mão sobre o punho que Fanfulla agora lhe estendia.

— Agora buscai o padre, bom tolo — disse o Conde, com um sorriso diante do terror repentino do corcunda. — Não tendes nada a temer de nós.

Quando o bobo os deixou para cumprir sua missão, Francesco virou-se para seu companheiro.

— Fanfulla, tu és excessivamente cauteloso — disse ele, com um sorriso fácil. — Que importará que eu seja reconhecido?

— Eu não permitiria que isso acontecesse por um reino enquanto estais tão perto de Sant'Angelo. Nós seis que nos reunimos ontem à noite estamos condenados — aqueles de nós que ainda não estão mortos. Para mim, e para Lodi, se ele não foi capturado, pode haver segurança na fuga. Jamais voltarei a pôr os pés no território de Babbiano enquanto Gian Maria for Duque, a menos que esteja cansado deste mundo. Mas quanto ao sétimo — vós mesmo — ouvistes o velho Lodi jurar que o segredo não poderia ter transpirado. Contudo, se Sua Alteza chegasse a saber da vossa presença nestas paragens e em minha companhia, a suspeita poderia colocá-lo no caminho que conduz ao conhecimento.

— Ah! E então?

— Então? — devolveu o outro, observando Francesco com surpresa. — Ora, então as esperanças que depositamos em vós — as esperanças de todo homem em Babbiano digno do nome — seriam frustradas. Mas aqui vem o nosso amigo o tolo e, em seu rastro, o frade.

Fra Domenico — assim era muito apropriadamente chamado este seguidor de São Domingos — aproximou-se com uma solenidade que procedia mais de sua grande corpulência do que de qualquer sentido inflado da dignidade de sua vocação. Ele curvou-se diante de Fanfulla até que seu grande rosto carmesim ficasse escondido, e ele exibiu, em vez disso, uma tonsura amarela e rapada. Era como se o sol tivesse se posto e a lua tivesse surgido em seu lugar.

— Tendes perícia em medicina? — perguntou Fanfulla bruscamente.

— Tenho algum conhecimento, Ilustre.

— Então cuidai dos ferimentos deste cavalheiro.

— Eh? Dio mio! Estais ferido, então? — começou ele, voltando-se para o Conde, e teria acrescentado outras perguntas tão pertinentes, não fosse pelo fato de que Aquila, afastando seu gibão no ombro, respondeu-lhe rapidamente:

— Aqui, senhor padre.

Com os lábios franzidos em solicitude, o frade teria se colocado de joelhos, mas Francesco, vendo com que esforço o movimento deveria estar carregado, levantou-se imediatamente.

— Não é tão mau a ponto de eu não conseguir ficar de pé — disse ele, submetendo-se ao exame do monge.

Este último expressou a opinião de que não era de forma alguma perigoso, por mais incômodo que pudesse ser, ao que o Conde convidou-o a enfaixá-lo. A isto Fra Domenico respondeu que não tinha unguentos nem linho, mas Fanfulla sugeriu que ele poderia obter essas coisas no convento de Acquasparta, ali perto, e ofereceu-se para acompanhá-lo até lá.

Sendo isso determinado, eles partiram, deixando o Conde na companhia do bobo da corte. Francesco estendeu sua capa e deitou-se novamente, enquanto o tolo, suplicando-lhe permissão para permanecer, dispôs-se sobre os calcanhares como um turco.

— Quem é vosso senhor, tolo? — perguntou o Conde, num espírito ocioso.

— Há um homem que me veste e me alimenta, nobre senhor, mas a Loucura é meu único mestre.

— Com que fim ele faz isso?

— Porque finjo ser um tolo maior do que ele, para que, em contraste comigo, ele pareça a si mesmo sábio, o que lisonjeia sua vaidade. Novamente, talvez, porque sou muito mais feio do que ele para que, também por contraste, ele possa considerar-se um prodígio de beleza.

— Estranho, não é? — o Conde entrou na brincadeira dele.

— Nem metade tão estranho quanto o fato de que o Senhor de Aquila deveria estar deitado aqui, vestido grosseiramente, um ferimento no ombro, falando com um tolo.

Francesco observou-o com um sorriso.

— Dai graças a Deus que Fanfulla não está aqui para vos ouvir, ou essas teriam sido vossas últimas palavras, pois, por mais belo que ele seja, Messer Fanfulla é um verdadeiro monstro de sede de sangue. Comigo é diferente. Sou um homem de maneiras muito gentis, como deveis ter ouvido, Messer Bufão. Mas tratai de esquecer imediatamente minha posição e meu nome, ou podereis perceber quão pouco precisam de bufões na Corte do Céu.

— Meu senhor, perdoai. Obedecer-vos-ei — respondeu o corcunda, com um ar abalado. E então, através da clareira, veio uma voz — uma voz de mulher, maravilhosamente doce e rica — chamando: "Peppino! Peppino!"

— É minha senhora me chamando — disse o tolo, saltando de pé.

— De modo que possuís uma senhora, ainda que a Loucura seja vosso único mestre — riu o Conde. — Dar-me-ia prazer contemplar a dama de quem sois propriedade, Ser Peppino.

— Podeis contemplá-la se apenas virardes a cabeça — sussurrou Peppino.

Distraidamente, com um sorriso nos lábios que era quase desdenhoso, o Senhor de Aquila voltou os olhos na direção em que o tolo já estava caminhando. E, num instante, toda a sua expressão mudou. O escárnio divertido foi varrido de seu semblante, e em seu lugar havia agora um olhar de admiração que era quase temor.

Ali parado, na orla da clareira em que ele jazia, ele contemplou uma mulher. Teve uma impressão vaga de uma estatura esbelta e bem-formada, uma visão fugaz de uma veste de damasco branco, uma camorra de veludo verde e um cinto de ouro primorosamente trabalhado. Mas foi a glória de seu rosto sem par que capturou e prendeu seu olhar com tal êxtase reverente; o milagre de seus olhos que, cravados nos dele, retribuíam seu olhar com um de branda surpresa. Quase uma criança ela parecia, apesar de sua estatura e proporções femininas, tão fresco e juvenil era seu semblante.

Erguido sobre o cotovelo, ele ficou ali por um tempo, e olhou e olhou, sua mente vagando por visões que homens piedosos tiveram de santos do Paraíso.

Finalmente, o encanto foi quebrado pela voz de Peppino, dirigindo-se a ela, com as costas servilmente curvadas. Francesco lembrou-se da deferência devida a alguém tão claramente nobre e, saltando de pé, com seu ferimento esquecido, curvou-se profundamente. Um segundo depois, ele arquejou por ar, cambaleou e, desmaiando, caiu de costas entre as samambaias.

CAPÍTULO IV. MONNA VALENTINA

Em anos posteriores, o Senhor de Aquila costumava afirmar com toda a solenidade que foi a visão de sua beleza maravilhosa que causou tal desordem em sua alma que superou seus sentidos e o deixou desmaiado aos pés dela. Que ele mesmo acreditasse nisso, não nos cabe duvidar, apesar de estarmos mais inclinados a concordar com a opinião posteriormente expressa por Fanfulla e pelo frade — e profundamente ressentida pelo Conde — de que, ao saltar de pé com pressa excessivamente violenta, seu ferimento reabriu-se, e a dor disso, combinada com a condição de fraqueza resultante da perda de sangue, causou seu súbito desfalecimento.

— Quem é este, Peppe? — ela perguntou ao tolo, e ele, atento ao juramento que fizera, respondeu-lhe descaradamente que não sabia, acrescentando que era — como ela poderia ver — algum pobre rapaz ferido.

— Ferido? — ela repetiu, e seus olhos gloriosos tornaram-se muito piedosos. — E sozinho?

— Havia um cavalheiro aqui, cuidando dele, Madonna; mas ele partiu com Fra Domenico para o Convento de Acquasparta para buscar o necessário para remendar seu ombro.

— Pobre cavalheiro — murmurou ela, aproximando-se da figura caída. — Como ele conseguiu seu ferimento?

— Isso, Madonna, é mais do que posso dizer.

— Não podemos fazer nada por ele até que seus amigos retornem? — foi sua pergunta seguinte, curvando-se sobre o Conde enquanto falava. — Vamos, Peppino — ela gritou —, dai-me o vosso auxílio. Trazei-me água do riacho, ali adiante.

O tolo olhou ao redor em busca de um recipiente e, ao pousar o olho no chapeirão espaçoso do Conde, arrebatou-o e cumpriu sua tarefa. Quando ele retornou, a dama estava ajoelhada com a cabeça do homem inconsciente em seu colo. No chapéu cheio de água que Peppe lhe trouxe, ela mergulhou um lenço e, com ele, banhou a testa sobre a qual seus longos cabelos pretos jaziam emaranhados e desordenados.

— Vede como ele sangrou, Peppe — disse ela. — Seu gibão está encharcado e ele ainda está sangrando! Vergine Santa! — ela gritou, contemplando agora o ferimento feio que se abria em seu ombro e empalidecendo ao vê-lo. — Certamente ele morrerá disso — e ele tão jovem, Peppino, e tão formoso de se ver!

Francesco moveu-se, e um suspiro passou por seus lábios pálidos. Então ele ergueu suas pálpebras pesadas, e seus olhares encontraram-se e prenderam-se um ao outro. E assim, olhos que eram castanhos e ternos olharam para febris e lánguidos olhos negros, enquanto sua mão gentil segurava o pano úmido contra sua fronte dolorida.

— Anjo de beleza! — ele murmurou sonhadoramente, estando apenas meio desperto ainda para sua posição. Então, tornando-se consciente de seus cuidados, — Anjo de bondade! — ele acrescentou, com ainda mais fervor.

Ela não teve resposta para ele, a não ser tal resposta — e em si mesma era eloquente o suficiente — quanto seus rubores faziam, pois ela viera fresca de um convento e era toda inocente das maneiras mundanas e dos truques da fala galante.

— Sois sofredor? — ela perguntou finalmente.

— Sofredor? — disse ele, agora despertando cada vez mais, e sua voz soando uma nota de escárnio. — Sofrer? Minha cabeça tão acolhida e uma santa do Céu cuidando de meus males? Não, não sinto dor, Madonna, mas uma alegria mais doce do que jamais conheci.

— Gesù! Que língua ágil! — zombou o tolo ao fundo.

— Estais aí também, Mestre Bufão? — disse Francesco. — E Fanfulla? Não está ele aqui? Ora, agora me lembro; ele foi a Acquasparta com o frade. — Ele empurrou o cotovelo para baixo para obter mais apoio.

— Não deveis mover-vos — disse ela, pensando que ele tentaria levantar-se.

— Eu não o faria, senhora, se pudesse — respondeu ele solenemente. E então, com os olhos no rosto dela, ele ousadamente perguntou seu nome.

— Meu nome — ela respondeu prontamente — é Valentina della Rovere, e sou sobrinha de Guidobaldo de Urbino.

As sobrancelhas dele ergueram-se.

— Vivo eu realmente — questionou ele — ou sonho apenas as lembranças do conto de algum velho romancista, no qual um cavaleiro errante é cuidado assim por uma princesa?

— Sois um cavaleiro? — ela perguntou, uma maravilha vindo agora a seus olhos, pois até mesmo no isolamento de sua vida conventual tinham penetrado histórias estranhas sobre esses poderosos homens de armas.

— Vosso cavaleiro, pelo menos, doce dama — respondeu ele —, e para sempre vosso pobre campeão, se me quiserdes fazer tamanha honra.

Um rubor carmesim roubou agora suas bochechas, convocado por suas palavras ousadas e olhares mais ousados ainda, e seus olhos baixaram. Contudo, o ressentimento não fazia parte de sua confusão. Ela não encontrou presunção em seu discurso, nem nada que um bravo cavaleiro pudesse não dizer à dama que o socorrera em sua aflição. Peppe, que estava ouvindo e observando a maneira do Conde, conhecendo a posição do cavaleiro, estava agora cheio de espanto, agora de zombaria; contudo, nunca interferiu.

— Qual é o vosso nome, senhor cavaleiro? — ela perguntou, após uma pausa.

Seus olhos pareciam perturbados e, enquanto disparavam além dela para o tolo, captaram no rosto de Peppe um sorriso de diversão astuta.

— Meu nome — disse ele finalmente — é Francesco. — E então, para evitar que ela o questionasse mais — — Mas dizei-me, Madonna — ele indagou —, como uma dama de vossa posição vem aqui, sozinha com essa pobre fração de homem? — E ele indicou o Peppe sorridente.

— Meu povo está ali, nos bosques, onde paramos por um breve espaço. Estou a caminho da corte de meu tio, vinda do Convento de Santa Sofia, e para minha escolta tenho Messer Romeo Gonzaga e vinte lanças. De modo que, como vedes, estou bem protegida, sem contar Ser Peppe aqui e o santo Fra Domenico, meu confessor.

Houve uma pausa, encerrada finalmente por Francesco.

— Sois a sobrinha mais nova de Sua Alteza de Urbino? — disse ele.

— Não, Messer Francesco — ela respondeu prontamente. — Sou a mais velha.

A isso, suas sobrancelhas tornaram-se de repente sombrias.

— Podeis ser aquela a quem pretendem dar em casamento a Gian Maria? — ele exclamou, ao que o tolo aguçou os ouvidos, enquanto ela olhava para o Conde com um olhar que mostrava claramente quão longe ela estava de compreendê-lo.

— Dissestes? — ela perguntou.

— Ora, nada — ele respondeu, com um suspiro, e naquele momento a voz de um homem veio ecoando através da floresta.

— Madonna! Madonna Valentina!

Francesco e a dama voltaram os olhos na direção de onde a voz procedia, e contemplaram uma figura soberbamente deslumbrante entrando na clareira. Em beleza física e riqueza de vestuário, ele era bem digno da companhia de Valentina. Seu gibão era de veludo cinza, realçado com escamas de ouro batido, e revelando um colete bordado a ouro por baixo; seu gorro combinava com seu gibão e era decorado por uma pluma que brilhava com gemas dispendiosas; sua espada de punho de ouro estava embainhada numa bainha também de veludo cinza cravejada de joias. Seu rosto era formoso como o de uma donzela, seus olhos azuis e seu cabelo dourado.

— Contemplai — anunciou Peppino gravemente —, a mais recente tradução da Itália do Asno de Ouro de Apuleio.

Ao ver a nobre sobrinha de Guidobaldo ajoelhada ali com a cabeça de Francesco ainda acolhida em seu colo, o recém-chegado ergueu os braços num gesto de consternação.

— Santos no Céu! — ele exclamou, apressando-se em direção a eles. — Que ocupação encontrastes? Quem é este sujeito feio?

— Feio? — foi tudo o que ela lhe respondeu, em tons de profunda surpresa.

— Quem é ele? — o jovem insistiu, seu tom tornando-se acalorado. — E o que ele faz aqui e assim, convosco? Gesù! O que Sua Alteza diria? Como ele trataria comigo se soubesse disso? Quem é o homem, Madonna?

— Ora, como vedes, Messer Gonzaga — ela respondeu, com algum calor —, um cavaleiro ferido.

— Ele um cavaleiro? — zombou Gonzaga. — Um ladrão, mais provavelmente, um masnadiero à espreita. Qual é o vosso nome? — perguntou ele rudemente ao Conde.

Afastando-se um pouco de Valentina e reclinando-se inteiramente sobre o cotovelo, Francesco gesticulou-lhe com um movimento da mão para que não chegasse mais perto.

— Peço, dama, que ordenais ao vosso belo pajem que se afaste um pouco. Ainda estou fraco, e seus perfumes me sobrecarregam.

Sob a máscara do pedido educado, Gonzaga detectou a nota zombeteira e desprezível, e isso deu combustível à sua raiva.

— Não sou pajem, tolo — ele respondeu, então, batendo palmas, ergueu a voz para gritar — — Olá, Beltrame! A mim!

— O que pretendeis fazer? — gritou a dama, levantando-se para enfrentá-lo.

— Levar este rufião acorrentado para Urbino, como é meu dever.

— Senhor, podeis ferir vossas belas mãos ao agarrar-me — respondeu o Conde, com fria indiferença.

— Ah! Ameaçar-me-íeis com violência, vassalo? — gritou o outro, recuando alguns passos enquanto falava. — Beltrame! — chamou ele novamente. — Nunca vireis? — Uma voz respondeu-lhe da mata e, com um tilintar de aço, meia dúzia de homens lançaram-se na clareira.

— Vossas ordens, senhor? — solicitou aquele que os liderava, seus olhos vagando para o Conde ainda prostrado.

— Amarrai-me este cão — Gonzaga ordenou-lhe. Mas antes que o sujeito pudesse mover um pé para cumprir a ordem, Valentina bloqueou seu caminho.

— Não o fareis — ela comandou, e tão transformada ela estava da criança ingênua que ultimamente falara com ele, que Francesco ficou de boca aberta em puro espanto. — Em nome de meu tio, ordeno que deixeis este cavalheiro onde ele jaz. Ele é um cavaleiro ferido a quem tive o prazer de cuidar — um assunto que parece ter despertado a raiva de Messer Gonzaga contra ele.

Beltrame hesitou e olhou de Valentina para Gonzaga, indeciso.

— Madonna — disse Gonzaga, com humildade fingida —, vossa palavra é lei conosco. Mas gostaria que considerásseis que o que ordeno a Beltrame fazer é no interesse de Sua Alteza, cujo território está infestado por esses ladrões vagabundos. É um fato que pode não ter chegado até vós em vosso retiro conventual, não mais do que conhecimento suficiente chegou até vós ainda — em vossa inocência incomparável — para distinguir entre patifes e homens honestos. Beltrame, cumpri minha ordem.

O pé de Valentina bateu impacientemente no chão, e em seus olhos surgiu um olhar de raiva que aumentou sua semelhança com seu tio marcial. Mas foi Peppe quem falou.

— Por mais que pareça haver tolos suficientes, já, intrometendo-se neste negócio — disse ele, em tons de lamento fingido —, permiti que eu me junte ao número deles, Ser Romeo, e escutai meu conselho.

— Fora, tolo — gritou Gonzaga, golpeando-o com sua chibata, — não precisamos de vossas cabriolas.

— Não, mas precisais de minha sabedoria — retorquiu Ser Peppe, enquanto saltava para fora do alcance de Gonzaga. — Escutai-me, Beltrame! Por mais que não duvidemos do agudo discernimento de Messer Gonzaga ao julgar entre um patife e um homem honesto, prometo-vos, tão seguramente como se eu fosse o próprio Destino, que se o obedecerdes agora e amarrardes aquele cavalheiro, sereis vós mesmo amarrado por isso, mais tarde, de uma maneira ainda mais feia.

Beltrame parecia alarmado, Gonzaga incrédulo. Valentina agradeceu a Peppe com os olhos, pensando que ele apenas encontrara um subterfúgio para servir a seus desejos, enquanto Francesco, que agora se levantara, observava com um sorriso divertido, como se o assunto não lhe dissesse respeito pessoalmente. E então, no ponto crítico da situação, Fanfulla e Fra Domenico apareceram no local.

— Estais bem de volta, Fanfulla! — o Conde chamou-o. — Este belo cavalheiro teria me feito amarrar.

— Fazer-vos amarrar? — ecoou Fanfulla, em horror raivoso. — Sob que fundamentos, rogo-vos? — ele exigiu, voltando-se ferozmente para Gonzaga.

Impressionado pelo ar senhorial de Fanfulla, Romeo Gonzaga tornou-se surpreendentemente humilde para alguém que, momentos antes, fora tão arrogante.

— Pareceria, senhor, que meu julgamento falhou ao avaliar sua condição — ele desculpou-se.

— Vosso julgamento? — devolveu o colérico Fanfulla. — E quem vos ordenou julgar? Ide cortar vossos dentes de leite, rapaz, e não vos intrometais com homens se quiserdes viver para ser um homem algum dia.

Valentina sorriu, Peppe riu abertamente, enquanto até mesmo Beltrame e seus seguidores sorriram, tudo o que não adicionou pouco à cólera de Gonzaga. Mas, por menos que fosse sua sabedoria, era ainda suficiente para ditar prudência.

— A presença da Madonna aqui me retém — ele respondeu, com dignidade elaborada. — Mas se nos encontrarmos novamente, serei audaz em mostrar-vos o que significa masculinidade.

— Talvez — se até lá tiverdes chegado a ela. — E com um encolher de ombros, Fanfulla voltou-se para dar atenção ao Conde, a quem Fra Domenico já estava cuidando.

Valentina, para aliviar o constrangimento do momento, propôs a Gonzaga que ele fizesse sua escolta montar e deixasse sua liteira pronta, para que pudessem retomar sua jornada assim que Fra Domenico concluísse seus cuidados.

Gonzaga curvou-se e, com um olhar vicioso aos estranhos e um raivoso "Segui-me!" para Beltrame e os outros, partiu com os homens de armas em seus calcanhares.

Valentina permaneceu com Fanfulla e Peppe, enquanto Fra Domenico curava o ferimento de Francesco e, logo, quando a tarefa foi concluída, eles partiram, deixando Fanfulla e o Conde sozinhos. Mas antes que ela fosse, ela escutou os agradecimentos de Francesco e permitiu que ele tocasse seus dedos de marfim com os lábios.

Havia muito que ele poderia ter dito, não fosse a presença dos outros três que o restringia. Contudo, um pouco daquele muito ela pode ter visto refletido nos olhos dele, pois, durante todo aquele dia, ela cavalgou pensativa, um sorriso afetuoso e melancólico nos cantos dos lábios. E embora para Gonzaga ela não tenha manifestado ressentimento, ela o provocou quanto àquele erro dele. Ferido em sua dignidade, ele pouco gostou de seu escárnio brincalhão, mas gostou menos ainda das palavras em que ela o formulou.

— Como viestes a cometer um erro tão grave, Ser Romeo? — ela lhe perguntou, mais de uma vez. — Como pudestes considerá-lo um patife — ele com um ar tão nobre e um semblante tão belo? — E, sem atentar para a tristeza de suas respostas, ela voltava a cair, com um suspiro, mais uma vez em reflexão — uma coisa que irritava Gonzaga mais, talvez, do que suas zombarias.

CAPÍTULO V. GIAN MARIA

Passara-se uma semana após o encontro entre a sobrinha de Guidobaldo e o Conde de Aquila, quando este último — seu ferimento estando quase curado — cavalgou numa manhã sob o grande arco que era a entrada principal da cidade de Babbiano. O Capitão do Portão saudou-o respeitosamente enquanto ele passava e permitiu-se maravilhar com a palidez do rosto de sua Excelência. E, contudo, a causa não era muito difícil de buscar. Estava sobre quatro lanças, entre um rebanho barulhento de corvos circulantes, acima daquele próprio Portão — chamado de San Bacolo — e consistia em quatro cabeças humanas truncadas.

A visão daqueles rostos mortos, sorrindo horrivelmente, com seus cabelos longos e emaranhados tremulando como trapos na brisa de abril, detivera a atenção de Francesco enquanto ele se aproximava. Mas quando, pouco depois, chegou mais perto e olhou com mais atenção, um calafrio de reconhecimento percorreu-o, e um grande horror encheu-lhe a alma e empalideceu-lhe o rosto. A primeira daquelas cabeças era a do valente e bem-nomeado Ferrabraccio; a seguinte, a de Amerino Amerini; e as outras duas, as de seus companheiros capturados naquela noite em Sant' Angelo.

Portanto, parecia que Gian Maria estivera ocupado durante a semana que passara, e que ali, nas muralhas de Babbiano, apodreciam os únicos frutos que aquela infeliz conspiração provavelmente daria.

Por um segundo, passou-lhe pela mente voltar atrás. Mas sua natureza firme e destemida impeliu-o a seguir em frente, desacompanhado como estava, e apesar dos presságios vagos que o atormentavam. Quanto, imaginava ele, Gian Maria saberia de sua própria participação naquele encontro na montanha, e como seria para ele se seu primo estivesse ciente de que fora proposto ao Conde de Aquila substituí-lo?

Não demorou muito, contudo, para descobrir que faltavam fundamentos para tais temores que ele alimentara. Gian Maria recebeu-o com uma hospitalidade ainda maior que a habitual, pois dava muito valor ao julgamento de Francesco e precisava dele desesperadamente no momento.

Francesco encontrou-o à mesa, que fora posta para ele em meio aos tesouros de arte e saber que enriqueciam a esplêndida biblioteca do Palácio. Era um lugar amado por Gian Maria pelos confortos materiais que lhe oferecia, e assim ele o transformou para uma infinidade de propósitos vulgares seus, embora nunca para aquele para o qual fora equipado, sendo um completo estranho às letras e ignorante como um lavrador.

Acomodado em uma grande cadeira de couro carmesim, diante de uma mesa sobrecarregada de iguarias selecionadas e cintilante com frascos de cristal e vasos e pratos de ouro e esmalte, Francesco encontrou seu primo, e o ar que outrora fora pesado com o cheiro erudito de pergaminhos e tomos mofados estava agora saturado com os odores pungentes da mesa.

Em estatura, Gian Maria era baixo e tendente, jovem embora fosse, à corpulência. Seu rosto era redondo, pálido e flácido; seus olhos azuis e miúdos; sua boca sensual e cruel. Vestia um traje de veludo lilás, guarnecido com pele de lince e cortado, à moda espanhola, nas mangas, para mostrar a camisa de fino linho de Reims por baixo. Em volta do pescoço pendia uma corrente de ouro, carregando um Agnus Dei, que continha uma relíquia da Verdadeira Cruz — pois Gian Maria levava sua devoção a extremos.

Sua recepção a Francesco foi mais efusiva do que o de costume. Pediu aos dois servos que o atendiam que servissem um prato para seu ilustre primo, e quando Aquila, breve, porém cortesmente, recusou, com a garantia de que já havia jantado, o Duque insistiu que, pelo menos, ele bebesse uma taça de Malvasia. Quando, de um vaso de ouro batido, encheram uma taça para o Conde, sua Alteza ordenou que os servos saíssem e relaxou — se, de fato, tanto se pode dizer de alguém que nunca conheceu muita dignidade — diante de seu visitante.

“Ouço”, disse Aquila, quando os primeiros cumprimentos terminaram, “histórias estranhas sobre uma conspiração em seu Ducado, e nas muralhas do Portão de San Bacolo contemplei quatro cabeças, de homens que conheci e honrei.”

“E que desonraram a si mesmos antes que suas cabeças se tornassem um banquete para os corvos. Ali, Francesco!” Ele estremeceu e persignou-se. “Dá azar falar dos mortos à mesa.”

“Falemos, então, apenas da ofensa deles”, persistiu Francesco sutilmente. “Em que consistia?”

“Em que?” respondeu o Duque, divertido. Sua voz era fina e tendente ao estridente. “É mais do que posso dizer. Masuccio sabia. Mas o cão não revelaria seu segredo nem os nomes dos conspiradores até que sua tarefa estivesse cumprida e ele os tivesse apanhado na traição que ele sabia que tinham se reunido para amadurecer. Mas”, continuou ele, uma azeitona equilibrada entre o polegar e o indicador, “parece que eles não deveriam ser capturados tão facilmente quanto ele pensava. Ele me disse que os traidores eram seis, e que deveriam encontrar um sétimo ali. Os homens que voltaram da empreitada dizem-me também, e sem vergonha, que eram apenas uns seis ou sete que os cercaram. Ainda assim, deram aos suíços problemas suficientes, e mataram uns nove deles, além de uma dezena de mais ou menos gravemente feridos, enquanto eles apenas mataram dois de seus agressores e capturaram outros dois. Essas foram as quatro cabeças que viu na Porta San Bacolo.”

“E Masuccio?” indagou Francesco. “Ele não lhe contou desde então quem eram aqueles outros que escaparam?”

Sua Alteza fez uma pausa para mastigar a azeitona.

“Ora, aí reside a dificuldade”, disse ele finalmente. “O cão está morto. Foi morto na refrega. Que apodreça no inferno por sua obstinada reticência. Não, não!” ele corrigiu-se apressadamente. “Ele está morto, e o segredo desta traição, bem como os nomes dos traidores, morreram com ele. Contudo, sou um homem clemente, Francesco, e embora aquele cão tenha me prejudicado gravemente com seu silêncio, agradeço ao Céu pela graça de dizer — Deus descanse sua alma vil!”

O Conde atirou-se em uma cadeira, tanto para dissimular tais sinais de alívio que pudessem aparecer em seu rosto, quanto porque desejava sentar-se.

“Mas certamente Masuccio lhe deixou alguma informação!” exclamou ele.

“A mais escassa”, respondeu Gian Maria, em tons contrariados. “Era sempre o jeito daquele vassalo sigiloso. Maldito seja! Ele francamente me disse que, se eu soubesse, eu falaria. Já ouviu falar de tal insolência insuportável para com um príncipe? Tudo o que ele me deixou saber foi que havia uma conspiração em curso para me substituir, e que ele ia capturar os conspiradores, juntamente com o homem a quem eles estavam convidando para tomar o meu lugar. Pondere, Francesco! Tais são os planos assassinos que meus amados súditos formam para minha ruína — eu, que os governo com um cetro de ouro, o príncipe mais clemente, justo e generoso da Itália. Cristo buono! Espanta-se que eu tenha perdido a paciência e mandado colocar suas cabeças horrendas em lanças?”

“Mas não disse que dois desses conspiradores foram trazidos de volta como cativos?”

O Duque assentiu, a boca cheia demais para palavras.

“Então, no julgamento deles, o que transpirou?”

“Julgamento? Não houve julgamento.” Gian Maria mastigou vigorosamente por um momento. “Digo-lhe que eu estava tão aquecido de raiva por essa base ingratidão, que nem sequer tive o engenho de fazer com que os nomes de seus associados fossem torturados para fora deles. Meia hora após sua chegada a Babbiano, as cabeças desses homens que aprouve ao Céu entregar-me estavam onde as viu hoje.”

“Mandou-os assim para a morte?” arquejou Francesco, levantando-se e olhando para o primo com uma mistura de espanto e raiva. “Mandou homens de famílias como estas ao carrasco, sem um julgamento? Penso, Gian Maria, que deve estar louco se tão precipitadamente pode derramar tal sangue como este.”

O Duque recuou em sua cadeira para boquiabrir-se diante de seu impetuoso primo. Então, em raiva sombria: “A quem você fala?” exigiu ele.

“A um tirano que se intitula o príncipe mais clemente, justo e generoso da Itália, e que carece de sabedoria para ver que está minando com suas próprias mãos, e por suas próprias ações precipitadas, um trono que já está cambaleante. Não consegue pensar que isso poderia significar uma revolução? Equivale a assassinato, e embora duques recorram a isso livremente na Itália, não é feita aberta e desafiadoramente, como esta.”

Raiva havia na alma do Duque, mas havia ainda mais medo — tanto, que empurrou a raiva para o lado.

“Tomei providências contra a rebelião”, anunciou ele, com uma facilidade que tentava em vão sentir. “Entreguei o comando de meus guardas a Martino Armstadt, e ele contratou para mim uma companhia de quinhentos lansquenês suíços que estavam ultimamente a serviço dos Baglioni de Perugia.”

“E considera isso segurança?” replicou Francesco, com um sorriso de desprezo. “Cercar seu trono com lanças estrangeiras comandadas por um estrangeiro?”

“Isto e a graça de Deus”, foi a resposta piedosa.

“Bah!” respondeu Francesco, impaciente com a hipocrisia. “Ganhe os corações de seu povo. Que isso seja seu escudo.”

“Cale-se!” sussurrou Gian Maria. “Você blasfema. Acaso cada ato de minha vida de autossacrifício não aponta para tal objetivo? Vivo para o meu povo. Mas, por minha alma, eles pedem demais quando pedem que eu deva morrer por eles. Se sirvo àqueles que tramam contra minha vida, como servi a esses homens de quem você fala, quem me culpará? Digo-lhe, Francesco, que gostaria de ter aqueles outros que escaparam, para que pudesse fazer o mesmo com eles. Pelo Deus vivo, eu gostaria! E quanto ao homem que deveria me ter substituído...” Ele pausou, um sorriso mortal em sua boca sensual completando a sentença mais eficazmente do que estava ao alcance das palavras. “Quem poderia ter sido?” ele ponderou. “Jurei que, se o Céu me conceder descobri-lo, queimarei uma vela a Santa Fosca todo sábado durante doze meses e jejuarei na Vigília dos Mortos. Quem... quem poderia ter sido, Franceschino?”

“Como saberia?” respondeu Francesco, esquivando-se da pergunta.

“Você sabe tanto, Checco mio. Sua mente é tão rápida para sondar assuntos deste tipo. Pensa, agora, que poderia ter sido o Duca Valentino?”

Francesco balançou a cabeça.

“Quando César Bórgia vier, ele não conhecerá a necessidade de recorrer a meios tão pobres. Ele virá em armas para reduzi-lo por seu poder.”

“Deus e os santos me protejam!” arquejou o Duque. “Você fala disso como se ele já estivesse marchando.”

“Então falo com conhecimento de causa. O evento não é tão remoto quanto você quer fazer-se acreditar. Ouça, Gian Maria! Não cavalguei de Aquila apenas pelo prazer de passar o tempo conversando com você. Fabrizio da Lodi e Fanfulla degli Arcipreti têm estado comigo ultimamente.”

“Com você?” gritou o Duque, seus olhos pequenos estreitando-se enquanto olhavam para seu primo. “Com você — eh?” Ele encolheu os ombros e estendeu as palmas das mãos diante de si. “Tolo! Veja em que erros até uma mente tão clara quanto a minha pode cair. Sabe, Francesco, que ao notar a ausência deles desde que aquela conspiração foi revelada, tive uma suspeita de que estavam ligados a ela.” E dedicou sua atenção a um favo de mel.

“Você não tem em todo o seu Ducado dois corações mais fiéis a Babbiano”, foi a resposta equívoca. “Foi sobre o assunto deste mesmo perigo que o ameaça que eles vieram a mim.”

“Ah!” O rosto branco de Gian Maria tornou-se interessado.

E agora o Conde de Aquila falava ao Duque de Babbiano muito como Fabrizio da Lodi falara ao Conde naquela noite em Sant' Angelo. Falou do perigo que ameaçava por parte dos Bórgia, da total falta de preparação, e do desprezo de Gian Maria pelos conselhos que lhe foram dados. Aludiu ao descontentamento reinante entre seus súditos com este estado de coisas, e à necessidade urgente de corrigi-los. Quando terminou, o Duque sentou-se em silêncio por um tempo, seus olhos voltados pensativamente para seu prato, no qual a comida jazia agora ignorada.

“Uma coisa fácil, não é, Francesco, dizer a um homem: isto está errado, e aquilo está errado. Mas quem está aí, eu pergunto, para consertar isso para mim?”

“Isso, se disser apenas a palavra, eu tentarei fazer.”

“Você?” gritou o Duque, e longe de manifestar satisfação por ter alguém se oferecendo para empreender o conserto deste negócio muito torto, o rosto de Gian Maria refletiu uma raiva incrédula e algum pequeno desprezo. “E como, meu maravilhoso primo, você faria isso?” indagou ele, um escárnio espreitando em seu tom.

“Eu colocaria assuntos como a cobrança de dinheiro por tributação nas mãos de Messer Despuglio, e a qualquer sacrifício à sua própria extravagância, eu me certificaria de que, pelos próximos meses, a maior parte desses dinheiros seja aplicada ao alistamento e armamento de homens adequados. Tenho alguma habilidade como condottiero — pelo menos, assim mais de um príncipe estrangeiro foi forçado a reconhecer. Liderarei seu exército quando eu o tiver levantado, e entrarei em alianças para você com nossos Estados vizinhos, que, vendo-nos armados, nos considerarão uma potência digna de sua aliança. E assim, o que um homem pode fazer para deter a enchente iminente desta invasão, isso farei para defender seu Ducado. Faça-me seu gonfaloniere, e em um mês direi se está ou não em meu poder salvar seu Estado.”

Os olhos de Gian Maria tinham se estreitado cada vez mais enquanto Francesco falava, e em seu rosto superficial tinha se infiltrado um olhar maligno e suspeito. Quando o Conde cessou, ele soltou um riso contido, amargo com escárnio.

“Fazer de você meu gonfaloniere?” murmurou ele, em divertimento consumado. “E desde quando Babbiano tem sido uma república — ou é seu objetivo torná-la uma, e estabelecer-se como seu magistrado principal?”

“Se você me interpreta mal assim...” começou Francesco, mas seu primo interrompeu-o com desprezo crescente.

“Interpretá-lo mal, Messer Franceschino? Não, não. Eu entendo você bem demais.” Ele levantou-se subitamente de sua refeição interrompida, e deu um passo mais perto de seu primo. “Ouço rumores desse amor crescente que meu povo está manifestando pelo Conde de Aquila, e eu os deixei passar despercebidos. Aquele patife Masuccio avisou-me antes de morrer, e eu respondi-lhe com meu chicote em seu rosto. Mas não tenho certeza de que venho procedendo com sabedoria. Tive um sonho há duas noites... Mas deixe isso para lá! Quando acontece que em qualquer Estado há um homem a quem o povo prefere àquele que os governa, e quando acontece que este homem é de tão bom sangue e alto nascimento quanto você, ele se torna um perigo para aquele que senta no trono. Mal preciso lembrá-lo”, acrescentou ele, com um sorriso horrível, “de como os Bórgia lidam com tais indivíduos, nem preciso acrescentar que um Sforza pode ver por bem emular essas medidas de precaução muito conclusivas. A família Sforza não gerou até agora nenhum tolo, nem eu provarei ser o primeiro ao colocar nas mãos de outro o poder de tornar-se meu mestre. Você vê, meu gentil primo, como seus objetivos se tornam transparentes sob meus olhos. Tenho visão aguçada, Franceschino, visão aguçada!” Ele tocou seu nariz e soltou uma risada de apreciação maliciosa de suas próprias percepções agudas.

Francesco encarou-o com um olho de desprezo pétreo. Ele poderia ter respondido, se estivesse disposto, que o Ducado de Babbiano era seu para tomar quando quisesse. Poderia ter-lhe dito isso, e desafiado-o. Mas ele agiu mais lentamente do que este homem de uma família que não gerava tolos.

“Conhece-me, então, tão pouco, Gian Maria”, disse ele, não sem amargura, “que pensa que estou faminto por algo tão vazio quanto esta pompa ducal que você agarra tão temerosamente? Digo-lhe, homem, que prefiro minha liberdade a um trono imperial. Mas desperdiço fôlego com você. Contudo, algum dia, quando sua coroa tiver passado de você e seu poder tiver sido engolido pela garganta voraz dos Bórgia, lembre-se da minha oferta que poderia tê-lo salvo e que você desconsiderou com insultos, como desconsiderou o conselho que seus conselheiros mais velhos lhe deram.”

Gian Maria encolheu seus ombros gordos.

“Se por esse outro conselho você quer dizer o conselho de que eu deveria tomar a sobrinha de Guidobaldo como esposa, você pode dar descanso à sua alma patriótica. Consenti em entrar nesta aliança. E agora”, terminou ele, com outro de seus risos infernais, “você vê quão pouco preciso temer este terrível filho do Papa Alexandre. Aliado a Urbino e aos outros Estados que são seus amigos, posso desafiar o poder de César Bórgia. Dormirei tranquilo nas noites ao lado de minha bela noiva, seguro na proteção que os exércitos de seu tio me oferecerão, e nunca precisando tanto quanto da ajuda de meu valente primo como meu gonfaloniere.”

O Conde de Aquila mudou de cor apesar de si mesmo, e os olhos suspeitos do Duque foram tão rápidos em observar isso quanto sua mente foi em interpretar mal seu significado. Ele registrou um voto de colocar uma vigilância sobre este primo solícito que se oferecia tão prontamente para carregar seu gonfalon.

“Felicito-o, pelo menos”, disse Francesco gravemente, “pela sabedoria desse passo. Se eu soubesse disso, não o teria incomodado com outras propostas para a segurança de seu Estado. Mas, posso perguntar-lhe, Gian Maria, quais influências o levaram a um curso que, até agora, você tão obstinadamente se recusou a seguir?”

O Duque encolheu os ombros.

“Eles me atormentaram tanto”, lamentou ele, com uma careta, “que no final eu consenti. Eu poderia resistir a Lodi e aos outros, mas quando minha mãe juntou-se a eles com suas preces — devo dizer, suas ordens — e apontou novamente meu perigo para mim, eu cedi. Afinal, um homem deve casar-se. E como em minha posição ele não precisa deixar que seu casamento pese demais sobre ele, resolvi fazê-lo em nome da segurança e da paz.”

Como era a salvação de Babbiano que ele visava, o Conde de Aquila deveria ter se regozijado com a sábia resolução de Gian Maria, e nenhuma outra consideração deveria ter temperado uma coisa tão abrangente quanto aquela alegria deveria ter sido. Contudo, quando mais tarde ele deixou a presença de seu primo, o único sentimento que ele carregava consigo era um profundo e amargo ressentimento contra o Destino que queria tais coisas, misturado com uma piedosa pena pela moça que iria casar-se com seu primo e um ódio crescente pelo primo que o fazia ter pena dela.

CAPÍTULO VI. O DUQUE AMOROSO

De uma janela do Palácio de Babbiano, o Senhor de Aquila observava a agitação espantosa no pátio abaixo, e ao seu lado estava Fanfulla degli Arcipreti, a quem ele convocara de Perugia com garantias de que, estando Masuccio morto, nenhum perigo agora o ameaçava.

Era uma semana após aquela entrevista em que Gian Maria tornara conhecidas suas intenções ao seu primo, e sua Alteza estava agora prestes a partir para Urbino, para encenar a comédia de cortejar a Lady Valentina. Esta era a explicação daquela correria de servidores e pajens, daquele desfile de homens de armas, e daquele bater de cascos de cavalos e mulas no quadrilátero abaixo. Francesco observava a cena com um sorriso de certa amargura, seu companheiro com um de suprema satisfação.

“Louvado seja o Céu por ter trazido sua Alteza finalmente a um sentido de seu dever”, comentou o cortesão.

“Aconteceu-me muitas vezes”, disse Francesco, desconsiderando as palavras de seu companheiro, “maldiçoar os Destinos por terem me trazido ao mundo um conde. Mas no futuro lhes darei graças, pois vejo quanto pior poderia ter sido — eu poderia ter nascido um príncipe, com um ducado para governar. Eu poderia ter sido como aquele pobre homem, meu primo, uma criatura cuja vida é toda pompa e nenhuma dignidade real, toda festança e nenhum júbilo real — sem amor, isolado e vaidoso.”

“Mas”, gritou o espantado Fanfulla, “certamente há compensações?”

“Você vê aquela agitação. Você sabe o que ela pressagia. Que compensação pode haver para isso?”

“É uma pergunta que você deveria ser o último a fazer, meu senhor. Você viu a sobrinha de Guidobaldo, e tendo-a visto, pode ainda perguntar que compensação este casamento oferece a Gian Maria?”

“Então, você não entende?”, respondeu Aquila, com um sorriso pálido. “Você não vê a tragédia nisso? Não significa nada que dois Estados, tendo descoberto que este casamento seria mutuamente vantajoso, tenham determinado que ele ocorra? Que, enquanto isso, os principais atores — as vítimas, eu quase diria — não tenham oportunidade de escolher por si mesmos. Gian Maria segue resignado. Ele lhe dirá que sempre soube que um dia teria de se casar e fazer o possível para gerar um filho. Ele resistiu o suficiente contra esta aliança, mas agora que a necessidade o impele finalmente, ele a encara mais ou menos como encararia qualquer outro assunto de Estado — uma coroação, um banquete ou um baile. Você pode se admirar agora de que eu não aceitasse o trono de Babbiano quando me foi oferecido? Eu lhe digo, Fanfulla, que se eu estivesse no lugar do meu primo, eu lançaria a coroa e a púrpura a quem quer que as desejasse antes que elas esmagassem a vida dentro de mim e me deixassem um pobre fantoche. Antes de suportar essa zombaria oca de vida, eu me tornaria um camponês ou um vassalo; eu cavaria a terra e levaria uma vida humilde, mas a levaria à minha própria maneira, e agradeceria a Deus pela liberdade disso; escolheria meus próprios companheiros; viveria como bem entendesse, onde bem entendesse; amaria como bem entendesse, onde bem entendesse, e morreria quando a Deus aprouvesse, com a consciência de que minha vida não tinha sido totalmente estéril. E aquela pobre moça, Fanfulla! Pense nela. Ela será unida em uma união sem amor a um bruto tão grosseiro e insensível quanto Gian Maria. Você não tem pena dela?”

Fanfulla suspirou, sua fronte nublou-se.

“Não sou tão estúpido a ponto de não ver por que você raciocina assim hoje”, disse ele. “Esses pensamentos lhe vieram desde que você a viu.”

Francesco suspirou profundamente.

“Quem sabe?”, respondeu ele com melancolia. “Nos poucos momentos em que conversamos, no pouco tempo em que a contemplei, pode ser que ela me tenha causado uma ferida muito mais profunda do que aquela que ela tão misericordiosamente tentou tratar.”

Agora, apesar de tudo o que o Senhor de Aquila disse tocando na união projetada conter uma grande dose de justiça, contudo, quando ele afirmou que os principais atores não teriam oportunidade de escolher por si mesmos, ele disse demais. Essa oportunidade eles teriam. Ocorreu três dias depois em Urbino, quando o Duque e Valentina foram reunidos no banquete de boas-vindas oferecido por Guidobaldo ao seu pretendido sobrinho por afinidade. A visão de sua beleza resplandecente foi um choque alegre para Gian Maria, e encheu-o de tanta impaciência para possuí-la quanto sua própria fealdade grosseira o tornava ofensivo aos olhos dela. Ela fora avessa a este casamento desde o momento em que lhe foi proposto. A visão de Gian Maria completou sua aversão ao papel que lhe fora atribuído, e em seu coração ela registrou um voto de que, antes de se tornar a Duquesa de Babbiano, ela retornaria ao seu Convento de Santa Sofia e tomaria o véu.

Gian Maria sentou-se ao lado dela no banquete e, nos intervalos das refeições — que o absorviam grandemente —, ele sussurrava elogios aos quais ela estremecia e empalidecia. Quanto mais arduamente ele se esforçava para agradar, à sua maneira grosseira e desajeitada, mais ele conseguia repelir e enojá-la, até que, no fim, com toda a sua fatuidade, ele passou a achá-la estranhamente fria. Disso, logo depois, ele fez queixa àquele magnífico príncipe, seu tio. Mas Guidobaldo zombou de seus escrúpulos.

“Você considera minha sobrinha uma camponesa?”, perguntou ele. “Você quer que ela sorria e se contorça a cada lisonja que você profere? Contanto que ela se case com Vossa Alteza, o que importará o resto?”

“Eu queria que ela me amasse um pouco”, queixou-se Gian Maria, tolamente.

Guidobaldo examinou-o com um olhar que sorria de forma inescrutável, e pode ter-lhe passado pela mente que este Duque grosseiro e de rosto pálido era ambicioso demais.

“Não duvido que ela o fará”, respondeu ele, em tons tão inescrutáveis quanto seu olhar. “Desde que você corteje com graça e ardor, que mulher poderia resistir a Vossa Alteza? Não se deixe desencorajar por tal modéstia que convém a uma donzela.”

Essas palavras de Guidobaldo insuflaram-lhe nova coragem. E nunca mais ele pôde pensar que a frieza dela fosse outra coisa senão um manto, uma espécie de vestimenta de donzela por trás da qual a modéstia a obrigava a ocultar as inclinações de seu coração. Raciocinando assim, e tendo em apoio a isso sua maravilhosa fatuidade, aconteceu que, quanto mais ela o evitava e se esquivava dele, mais ele se convencia da intensidade de seu afeto; quanto mais aversão ela demonstrava, mais prova isso lhe dava da qualidade consumidora de sua paixão. No fim, ele chegou a aplaudir e estimar nela essa mesma conduta virginal.

Houve festas de caça, falcoaria, festas nas águas, banquetes, comédias, bailes e festejos de toda sorte, e durante uma semana tudo correu bem em Urbino. Então, tão repentinamente como se um canhão tivesse sido disparado sobre o Palácio, as festividades foram interrompidas. A notícia de que um enviado de Caesar Borgia estava em Babbiano com uma mensagem de seu mestre caiu como um banho de água fria sobre Gian Maria. Chegou-lhe em uma carta de Fabrizio da Lodi, implorando seu retorno imediato para tratar com esse plenipotenciário de Valentino.

Ele não desconsiderou mais o perigo que o ameaçava por parte do todo-conquistador Borgia, nem considerou mais exagerado pelos seus conselheiros o motivo de medo. Esta presença repentina do mensageiro de Valentino, vindo, também, em um momento em que quase pareceria que a união iminente com Urbino teria estimulado o Borgia a agir antes que a aliança fosse estabelecida, encheu-o de apreensão.

Em uma das câmaras principescas que haviam sido reservadas para seu uso durante sua visita a Urbino, ele discutiu a trágica notícia com os dois nobres que o acompanhavam — Alvaro de Alvari e Gismondo Santi — e ambos, enquanto o instavam a seguir o conselho de Lodi e retornar imediatamente, instaram-no, também, a estabelecer seu noivado antes de partir.

“Resolva a questão imediatamente, Vossa Alteza”, disse Santi, “e assim você voltará para Babbiano bem armado para encontrar o mensageiro do Duca Valentino.”

Aceitando prontamente este conselho, Gian Maria foi em busca de Guidobaldo e apresentou-lhe suas propostas, juntamente com a notícia que chegara e que era a causa da pressa que ele agora manifestava. Guidobaldo ouviu gravemente. À sua maneira, a notícia o afetava também, pois ele temia o poder de Caesar Borgia tanto quanto qualquer homem na Itália, e ele estava, por força disso, mais pronto a apressar uma aliança que traria outro dos estados vizinhos para a poderosa coalizão que ele estava formando.

“Será como você deseja”, respondeu-lhe o gracioso Senhor de Urbino, “e o noivado será proclamado hoje, para que você possa levar a notícia dele ao mensageiro de Valentino. Quando você tiver ouvido este enviado, entregue-lhe uma resposta de tal desafio ou tal cautela como desejar. Então, retorne em dez dias a Urbino, e tudo estará pronto para as núpcias. Mas, antes de tudo, vá e conte a Monna Valentina.”

Confiante no sucesso, Gian Maria obedeceu ao seu anfitrião e foi em busca da dama. Ele alcançou sua antecâmara e, de lá, enviou um pajem ocioso para solicitar-lhe a honra de uma audiência.

Enquanto o jovem passava pela porta que conduzia à sala seguinte, Gian Maria captou por um momento os acentos de uma voz masculina requintada cantando uma canção de amor ao acompanhamento de um alaúde.

“Una donna più bella assai che 'l sole...”

vieram as palavras de Petrarca, e ele ainda as ouvia, embora abafadas, por um momento ou dois depois que o rapaz se fora. Então cessou abruptamente, e seguiu-se uma pausa, ao fim da qual o pajem retornou. Levantando a cortina de azul e ouro, ele convidou Gian Maria a entrar.

Era uma sala que falava com eloquência da riqueza e do refinamento de Montefeltro, desde o dourado e o ultramarino do teto abobadado com seu friso esculpido em madeira delicadamente incrustada, até as tapeçarias inestimáveis abaixo dele. Acima de um genuflexório carmesim pendia um crucifixo de prata, o trabalho requintado do famoso Anichino de Ferrara. Ali perto havia um gabinete incrustado, encimado por um espelho de cristal e algumas maravilhas de vidro de Murano. Havia um quadro de Mantegna, alguns camafeus dispendiosos e esmaltes delicados, uma abundância de livros, um saltério que um pajem de cabelos claros examinava com olhos curiosos e, junto a uma janela à direita, estava uma harpa muito bonita que Guidobaldo comprara para sua sobrinha em Veneza.

Naquele apartamento seleto dela, o Duque encontrou Valentina cercada por suas damas, Peppe o bobo, alguns pajens e meia dúzia de cavalheiros da corte de seu tio. Um destes — aquele mesmo Gonzaga que a escoltara do Convento de Santa Sofia —, esplendidamente vestido em tabis branco, seu colete e gibão ricos em ouro, sentava-se em um banquinho, dedilhando ociosamente o alaúde em seu colo, do que Gian Maria deduziu que a voz fora a dele que o alcançara na antecâmara.

À chegada do Duque, todos se levantaram, exceto Valentina, e receberam-no com uma cerimônia que resfriou um pouco seu ardor. Ele avançou; então parou desajeitadamente e, de uma maneira desastrada, formulou um pedido para que pudesse falar com ela a sós. De uma maneira cansada e sofredora, ela dispensou aquela corte dela, e Gian Maria ficou esperando até que o último deles passasse pelas altas janelas que davam para um terraço encantador, onde, no meio de um quadrado verde, uma fonte de mármore brilhava e cintilava à luz do sol.

“Senhora”, disse ele, quando finalmente ficaram a sós, “tenho notícias de Babbiano que exigem meu retorno imediato.” E ele aproximou-se dela mais um passo.

Na verdade, ele era um sujeito de espírito lento ou, então, cego demais pela fatuidade para ver e interpretar corretamente o brilho repentino em seus olhos, a expressão súbita e inconfundível de alívio que se espalhou por seu rosto.

“Meu senhor”, respondeu ela, com uma voz baixa e composta, “lamentaremos sua partida.”

Tolo de Duque que ele era! Cego, crasso e o mais fatuo dos pretendentes! Teria ele sido educado nas cortes e seus ouvidos sintonizados com palavras que não significavam nada, que eram apenas os ecos vazios do que deveria ter sido pretendido; era ele tão novo em cortesias nas quais o coração não tinha parte, que aquelas palavras de Valentina deveriam levá-lo de joelhos diante dela, para tomar seus dedos delicados em suas mãos gordas e transformar-se em um amante rude do tipo mais ultrajante?

“Lamentarão mesmo?”, balbuciou ele, seu olhar tornando-se poderosamente amoroso. “Lamentarão de verdade?”

Ela levantou-se abruptamente.

“Peço que Vossa Alteza se levante”, ordenou ela friamente, uma frieza que mudou rapidamente para alarme à medida que seus esforços para soltar a mão revelaram-se vãos. Pois, apesar de suas lutas, ele segurava com firmeza. Isso era mera timidez, assegurou ele a si mesmo, mera artimanha de donzela que ele devia suportar até que a superasse de uma vez por todas.

“Meu senhor, eu lhe imploro!”, continuou ela. “Pense em onde você está — de quem você é.”

“Aqui ficarei até o fim dos tempos”, respondeu ele, com uma mistura estranha de humor, ardor e ferocidade, “a menos que você consinta em me ouvir.”

“Estou pronta a ouvir, meu senhor”, respondeu ela, sem velar uma repugnância que ele não tinha a inteligência de ver. “Mas não é necessário que você segure minha mão, nem adequado que você se ajoelhe.”

“Não adequado?”, exclamou ele. “Senhora, você não me compreende corretamente. Não é adequado que todos nós — sejamos príncipes ou vassalos — nos ajoelhemos às vezes?”

“Em suas orações, meu senhor, sim, muito adequado.”

“E não está um homem em suas orações quando corteja? Que santuário mais adequado em todo o mundo do que os pés de sua amada?”

“Solte-me”, ordenou ela, ainda lutando. “Vossa Alteza torna-se cansativo e ridículo.”

“Ridículo?”

Sua boca grande e sensual abriu-se. Suas bochechas brancas ficaram manchadas, e seus olhos pequenos olharam para cima com um brilho poderosamente maligno em seu azul cruel. Por um momento ele permaneceu assim, então levantou-se. Ele soltou as mãos dela como ela lhe ordenara, mas agarrou os braços dela em vez disso, o que era ainda pior.

“Valentina”, disse ele, com uma voz que estava longe de ser firme, “por que você me trata assim tão indelicadamente?”

“Mas eu não trato”, ela protestou cansadamente, afastando-se com um estremecimento do rosto branco que estava tão perto do seu, inspirando-a com uma aversão que ela não conseguia reprimir. “Eu não gostaria que Vossa Alteza parecesse tolo, e você não pode conceber quão—”

“Você pode conceber quão profunda, quão apaixonadamente eu a amo?”, ele interrompeu, seu aperto apertando-se.

“Meu senhor, você está me machucando!”

“E você não está me machucando?”, ele rosnou. “O que é um braço apertado comparado com tais feridas que seus olhos estão me causando? Você não está—”

Ela se contorcera para sair de seu aperto e, em um salto, alcançara a janela-porta pela qual suas damas haviam passado.

“Valentina!”, ele gritou, enquanto saltava atrás dela, e era mais como o rosnado de uma besta do que o grito de um amante. Ele a alcançou e, com pouca cerimônia, arrastou-a de volta para a sala.

Diante disso, sua aversão latente, desprezo e indignação levantaram-se em armas. Nunca ela tinha ouvido dizer que uma mulher de sua posição fosse tratada desta maneira. Ela o detestava, contudo, ela o poupara da humilhação de ouvir isso de seus lábios, pretendendo lutar por sua liberdade com seu tio. Mas agora, já que ele a tratava como se fosse uma criada; já que ele parecia não saber nada da deferência que lhe era devida, nada das delicadezas de pessoas bem-nascidas e bem-educadas, ela não suportaria mais suas odiosas demonstrações de amor. Já que ele escolhera prosseguir seu cortejo como um palhaço, a filha de espírito elevado de Urbino prometeu a si mesma que, da mesma forma, ela lidaria com ele.

Limpando-se de seu aperto pela segunda vez, ela deu-lhe uma bofetada ardente na face ducal que — tão grandemente o tomou de surpresa — quase o fez estatelar-se.

“Madonna!”, ele arfou. “Esta indignidade para comigo!”

“E que indignidades não sofri eu às suas mãos?”, retrucou ela, com uma ferocidade de olhar diante da qual ele recuou. E como ela agora pairava diante dele, uma bela personificação da ira, ele não sabia se a amava mais do que a temia, contudo, o desejo de possuí-la e de domá-la era forte dentro dele.

“Sou eu uma bagagem de seus acampamentos”, ela questionou furiosamente, “para ser assim tratada por você? Você esquece que sou a sobrinha de Guidobaldo, uma dama da casa de Rovere, e que desde meu berço não conheci nada além do respeito de todos os homens, por mais que tenham nascido elevados? Que a tais, por meu nascimento, tenho o direito? Devo lhe dizer em palavras claras, senhor, que, embora nascido para um trono, suas maneiras são as de um cavalariço? E devo lhe dizer, antes que você perceba, que nenhum homem a quem, com meus próprios lábios, não dei o direito, deverá colocar as mãos em mim como você fez?”

Seus olhos faiscaram, sua voz elevou-se e mais alto enfureceu-se a tempestade; e Gian Maria estava tão sacudido e despedaçado por ela que só podia suplicar humildemente por perdão.

“O que significará que sou um Duque”, ele implorou timidamente, “já que me tornei um amante? O que é um Duque então? Ele é apenas um homem, e como o mais humilde de seus súditos, seu amor deve ter expressão. Pois o que o amor sabe de posição?”

Ela estava movendo-se em direção à janela novamente, e apesar de ele não ousar uma segunda vez detê-la à força, ele buscou por palavras para fazê-lo.

“Madonna”, exclamou ele, “imploro que me ouça. Em outra hora estarei na sela, a caminho de Babbiano.”

“Isso, senhor”, respondeu ela, “é a melhor notícia que ouvi desde sua chegada.” E sem esperar por sua resposta, ela passou pela janela aberta para o terraço.

Por um segundo ele hesitou, um sentimento de humilhação irritada oprimindo seu juízo. Então começou a segui-la; mas, quando alcançou a janela, a pequena figura corcunda de Ser Peppe surgiu subitamente diante dele com um tilintar de sinos e um sorriso zombeteiro iluminando seu rosto.

“Saia do caminho, tolo”, rosnou o Duque irritado. Mas a figura estranha em seu traje de vermelho e preto continuou onde estava.

“Se é por Madonna Valentina que você procura”, disse ele, “contemple-a ali.”

E Gian Maria, seguindo a indicação do dedo magro de Peppe, viu que ela se reunira às suas damas e que, assim, sua oportunidade de falar com ela chegara ao fim. Ele virou as costas para o bobo e moveu-se pesadamente em direção à porta pela qual entrara originalmente na sala. Teria sido bom para Ser Peppe se ele o tivesse deixado ir. Mas o bobo, que amava sua senhora carinhosamente e tinha muitos dos instintos do cão fiel, amando onde ela amava e odiando onde ela odiava, não pôde reprimir o desejo de enviar uma zombaria atrás da figura em retirada e infligir outra ferida naquele espírito tão ferido.

“Você acha um caminho difícil para o coração de Madonna, Magnífico”, chamou ele atrás dele. “Onde sua sabedoria é cega, seja auxiliado pelos olhos aguçados da tolice.”

O Duque parou. Um homem mais digno teria deixado aquela língua traiçoeira sem atenção. Mas Dignidade e Gian Maria eram estranhos. Ele se virou e examinou a figura que agora o seguia para dentro da sala.

“Você tem conhecimento para vender”, adivinhou ele, desprezivelmente.

“Conhecimento eu tenho — um vasto estoque —, mas nenhum para venda, Senhor Duque. Tal como lhe importa, eu concederei se você me pedir, por nada mais do que a alegria de vê-lo sorrir.”

“Diga”, ordenou-lhe o Duque, sem relaxar a aspereza que tensionava seu rosto flácido.

Peppe curvou-se.

“Seria uma coisa fácil, Altíssimo e Poderoso, ganhar o amor de Madonna se—” Ele pausou dramaticamente.

“Sim, sim. E dunque! Se—”

“Se você tivesse a fisionomia nobre, a altura esplêndida, os membros bem torneados, o discurso cortês e a maneira principesca de alguém que conheço.”

“Você está zombando de mim?”, questionou o Duque, incrédulo.

“Ah, não, Alteza! Apenas lhe digo como seria possível que minha senhora pudesse chegar a amá-lo. Se você tivesse aqueles atributos gloriosos daquele de quem falo, e de quem ela sonha, poderia ser fácil. Mas já que Deus o moldou tal como você é — grosseiro de fisionomia, gordo e atrofiado de forma, rude de—”

Com um rugido, o Duque enfurecido estava sobre ele. Mas o bobo, tão ágil de pernas quanto de língua, esquivou-se do aperto vicioso daquelas mãos gordas e, saltando pela janela, correu para o abrigo das saias de sua senhora.

CAPÍTULO VII. GONZAGA O INSIDIOSO

Bem, na verdade, teria sido para Ser Peppe se ele tivesse contido seu humor malicioso e refreado o discurso zombeteiro que fora como vinagre nas feridas de Gian Maria. Pois, quando Gian Maria estava ferido, ele costumava ser vingativo, e na presente ocasião ele era algo ainda mais.

Permanecia com ele a lembrança das palavras do bobo e a sugestão de que no coração de Valentina estava moldada a imagem de algum outro homem. Agora, amando-a, à sua própria maneira grosseira, e como ele entendia o amor, o Duque rejeitado tornou-se furiosamente ciumento deste outro cuja existência Peppe insinuara. Este desconhecido estava em seu caminho para Valentina, e para limpar esse caminho, sugeriu-se a Gian Maria que o método mais simples era remover o obstáculo. Mas primeiro ele devia descobri-lo, e para isso ele pensou, com um sorriso sombrio, que o bobo poderia — querendo ou não — ajudá-lo.

Ele retornou aos seus próprios aposentos e, enquanto os preparativos para sua partida estavam em curso, ele ordenou a Alvaro que convocasse Martin Armstadt — o capitão de sua guarda. Para este, suas ordens foram curtas e secretas.

“Leve quatro homens”, ordenou-lhe, “e permaneça em Urbino depois que eu tiver ido. Descubra os esconderijos de Peppe, o bobo. Capture-o e traga-o atrás de mim. Veja que você faça isso diligentemente e que não surja nenhuma suspeita de sua tarefa.”

O bravo — ele era pouco melhor que isso, apesar de comandar a guarda do Duque de Babbiano — fez uma reverência e respondeu com sua voz estrangeira e gutural que Sua Alteza seria obedecida.

Depois disso, Gian Maria arranjou maneira de partir. Despediu-se de Guidobaldo, prometendo retornar dentro de poucos dias para as núpcias, e deixando no espírito de seu anfitrião a impressão de que sua entrevista com Valentina fora muito diferente da real.

Foi da própria Valentina que Guidobaldo haveria de saber, após a partida de Gian Maria, a verdadeira natureza daquela entrevista e o que se passara entre sua sobrinha e seu hóspede. Ela o procurou em seu gabinete, para onde ele se retirara, impelido pelo demônio da gota que já habitava seu corpo e que costumava, por vezes, forçá-lo a isolar-se de sua corte. Encontrou-o reclinado sobre um divã, buscando distração em um volume das obras em prosa de Piccinino. Era um homem belo, de excelente porte, com apenas trinta anos de idade. Seu rosto estava pálido, havia olheiras escuras ao redor dos olhos e linhas de dor em torno de sua boca firme.

Ele sentou-se à chegada dela e, colocando o livro sobre a mesa ao lado, ouviu suas queixas coléricas.

A princípio, o cortesão Montefeltro inclinou-se à ira ao saber da grosseria com que Gian Maria se portara. Mas, logo, sorriu.

— Bem vistas as coisas, não vejo nisso grande causa para indignação — assegurou-lhe ele. — Reconheço que pode faltar a formalidade que deveria acompanhar as abordagens de um homem na posição do Duque a uma dama na sua. Mas, uma vez que ele deve desposá-la, e em breve, por que se irritar por ele buscar cortejá-la como qualquer outro homem?

— Falei em vão, então — respondeu ela, petulante — e fui mal compreendida. Não pretendo desposar esse estorvo ducal que escolhestes para ser meu marido.

Guidobaldo encarou-a com as sobrancelhas erguidas e espanto em seus belos olhos. Depois, encolheu os ombros, um tanto cansado. Este belo e amado Guidobaldo era muito príncipe, tão treinado nos modos principescos a ponto de, por vezes, esquecer-se de que era um homem.

— Perdoamos muito à impetuosidade da juventude — disse ele, muito friamente. — Mas há limites para a resistência de cada um de nós. Como seu tio e seu príncipe, reclamo de você um dever duplo, e você deve uma dupla lealdade aos meus desejos. Pela minha dupla autoridade, ordenei-lhe que se case com Gian Maria.

A princesa nela foi toda esquecida, e foi apenas a mulher que lhe respondeu, em tom de protesto:

— Mas, Alteza, eu não o amo.

Uma sombra de impaciência atravessou seu rosto altivo.

— Não me recordo — respondeu ele, cansado — de ter amado sua tia. Contudo, casamo-nos e, pelo hábito, passamos a amar um ao outro e a ser felizes juntos.

— Posso compreender que Monna Elizabetta tenha passado a amá-lo — retrucou ela. — Vós não sois como Gian Maria. Não éreis gordo e feio, estúpido e cruel, como ele o é.

Foi um apelo que poderia ter conquistado o coração de um homem através do canal sempre pronto de sua vaidade. Mas não foi assim com Guidobaldo. Ele apenas balançou a cabeça.

— A questão não é algo que discutirei. Seria indigno para ambos. Os príncipes, minha filha, não são como o povo comum.

— Em que são diferentes? — rebateu ela, instantaneamente. — Não sentem fome e sede como o povo comum? Não estão sujeitos aos mesmos males; não experimentam as mesmas alegrias? Não nascem, e não morrem, tal como o povo comum? Em que, então, reside essa diferença que os proíbe de se unir como o povo comum?

Guidobaldo lançou os braços aos céus, os olhos cheios de uma consternação que claramente desafiava a expressão. A violência do gesto arrancou-lhe um suspiro de dor. Finalmente, quando a dominou:

— São diferentes — disse ele — no fato de que suas vidas não lhes pertencem para dispor como queiram. Pertencem ao Estado que nasceram para governar, e em nada isso se torna de tanta importância quanto em seu matrimônio. Cabe-lhes contrair alianças que revertam em proveito de seu povo. Um meneio de sua cabeça ruiva foi a interpolação de Valentina, mas seu tio continuou implacavelmente em seus tons frios e formais — tons como aqueles com os quais ele poderia ter se dirigido a uma assembleia de seus capitães:

— No presente caso, estamos ameaçados — Babbiano e Urbino — por um inimigo comum. E enquanto divididos, nenhum de nós poderia resistir a ele; unidos, combinaremos para sua derrota. Portanto, esta aliança torna-se necessária — imperativa.

— Não compreendo a necessidade — respondeu ela, com uma voz que exalava desafio. — Se tal aliança como a que falais é desejável, por que não pode ser feita puramente política — como, por exemplo, aquela que agora vos liga a Perugia e Camerino? Que necessidade há de me envolver na questão?

— Um pouco de conhecimento de história lhe forneceria a resposta. Tais alianças políticas são feitas diariamente, e diariamente rompidas quando mais lucro se oferece em outra parte. Mas, cimentado pelo casamento, o laço, ao continuar político, torna-se também de sangue. No caso de Urbino e Babbiano, entra também em consideração que não tenho filho. Poderia muito bem ser, Valentina — prosseguiu ele, com uma frieza calculista que a revoltou —, que um filho seu ligasse ainda mais fortemente os dois ducados. Com o tempo, ambos poderiam tornar-se unidos sob ele em uma grande potência que poderia rivalizar com sucesso com qualquer uma na Itália. Agora deixe-me, criança. Como vê, estou sofrendo, e quando é assim comigo, e este tirano maligno me tem em suas garras, prefiro ficar sozinho.

Houve uma pausa e, enquanto os olhos dele estavam sobre os dela, os dela estavam no chão, evitando seu olhar. Uma carranca marcou sua testa branca, seus lábios estavam contraídos e suas mãos cerradas. A piedade por suas doenças físicas lutava um pouco com a piedade por seu próprio tormento mental. Finalmente, ela jogou para trás sua bela cabeça, e o modo daquele gesto era instintivo de insubordinação.

— Entristece-me assediar Vossa Alteza em tal momento — assegurou-lhe ela —, mas devo pedir sua indulgência. Estas coisas podem ser como dizeis. Vossos planos podem ser os mais nobres que já foram concebidos, uma vez que para sua consumação seria necessário o sacrifício de seu próprio sangue — na pessoa de sua sobrinha. Mas não tomarei parte neles. Pode ser que me falte tal nobreza de alma; pode ser que eu seja toda indigna do alto posto para o qual nasci, sem culpa minha. E assim, meu senhor — terminou ela, sua voz, seu rosto, seu gesto, tudo conferindo uma finalidade irrevogável às suas palavras —, não desposarei este Duque de Babbiano — não, nem para cimentar alianças com cem ducados.

— Valentina! — exclamou ele, despertado de sua calma habitual. — Esquece que és minha sobrinha?

— Uma vez que parece ter esquecido disso.

— Estes caprichos de mulher... — começou ele, quando ela o interrompeu.

— Talvez sirvam para lembrar-vos de que sou uma mulher, e talvez, se vos lembrardes disso, possais considerar quão natural é que, sendo uma mulher, eu recuse desposar por — por fins políticos.

— Para seu aposento — ordenou ele, agora completamente desperto. — E de joelhos, peça a graça do Céu para ajudá-la a ver seu dever, já que minhas palavras não prevalecem.

— Oh, se a Duquesa tivesse retornado de Mântua — suspirou ela. — A boa Monna Elizabetta poderia derreter-vos a alguma piedade.

— Monna Elizabetta é muito cumpridora de seus deveres para fazer algo além de exortá-la ao cumprimento do dever. Vamos, criança — acrescentou ele, em um tom mais insinuante —, deixe de lado este humor desobediente, que não é típico de você e lhe cai mal. Você será desposada com um esplendor e magnificência que deixará todas as princesas da Itália verdes de inveja. Seu dote está fixado em cinquenta mil ducados, e Giuliano della Rovere pronunciará a bênção. Já enviei ordens a Ferrara, ao incomparável Anichino, para o cinto de majestade; enviarei a Veneza por folha de ouro e...

— Mas não me escutais que não desposarei? — interrompeu ela com calma apaixonada, seu rosto branco, seu peito ofegante.

Ele se levantou, apoiando-se pesadamente em uma bengala de cabo dourado, e olhou para ela por um momento sem falar, com as sobrancelhas contraídas. Então:

— Seu noivado com Gian Maria está proclamado — anunciou ele em uma voz fria e definitiva. — Dei minha palavra ao Duque, e seu casamento ocorrerá assim que ele retornar. Agora vá. Cenas como estas são cansativas para um homem doente, e são indignas.

— Mas, Vossa Alteza... — começou ela, uma nota suplicante tomando o lugar que antes fora ocupado pelo desafio.

— Vá! — explodiu ele, batendo o pé, e então para salvar sua dignidade — pois temia que ela pudesse ainda permanecer — ele próprio girou nos calcanhares e saiu do apartamento.

Deixada a sós, ela permaneceu ali por um momento, permitiu que um suspiro lhe escapasse e enxugou uma lágrima de raiva de seus olhos castanhos. Então, com um movimento súbito que parecia implicar a supressão de seu humor, caminhou até a porta pela qual entrara e deixou a câmara.

Desceu a longa galeria, cujas paredes brilhavam com os novos afrescos do pincel milagroso de Andrea Mantegna; atravessou sua antecâmara e alcançou o próprio aposento onde, algumas horas atrás, recebera o insulto das odiosas abordagens de Gian Maria. Atravessou a sala agora vazia e saiu para o terraço que dava para os jardins paradisíacos do Palácio.

Perto da fonte, havia um assento de mármore branco sobre o qual, mais cedo naquele dia, uma de suas damas jogara uma capa de veludo carmesim. Ali ela se sentou agora para pensar sobre a situação monstruosa que a cercava. O ar estava quente, balsâmico e pesado com o perfume das flores do jardim abaixo. O borrifar da fonte parecia acalmá-la, e por um momento seus olhos ficaram fixos naquela água cintilante, que subia alto em uma coluna de cristal, depois quebrava e caía, uma chuva de joias brilhantes, na ampla bacia de mármore. Então, seus olhos cansando-se, desviaram-se para a balaustrada de mármore, onde um pavão caminhava com dignidade excessiva; seguiram para os jardins abaixo, alegres com as primeiras flores, em suas molduras imponentes de altas sebes de buxo, e ladeados por mirtos e altos ciprestes, erguendo-se esguios e negros contra o açafrão profundo do céu vespertino.

À exceção do borrifar da fonte e do ocasional grito áspero do pavão, tudo estava em paz, como que em contraste com o tumulto que rugia na alma de Valentina. Então, outro som rompeu a quietude — um passo suave, triturando o cascalho do caminho. Ela se virou, e atrás dela estava o magnífico Gonzaga, um sorriso que refletia prazer e surpresa em seu rosto belo.

— Sós, Madonna? — disse ele, em tons de leve espanto, seus dedos dedilhando suavemente as cordas do alaúde que carregava, e sem o qual raramente aparecia pela Corte.

— Como vê — respondeu ela, e seu tom era o tom de alguém cujos pensamentos estão ocupados com outras coisas.

Seu olhar moveu-se para longe dele novamente, e em um momento parecia que ela esquecera sua presença, tão absorta tornou-se a expressão de seu rosto.

Mas Gonzaga não se desencorajava facilmente. A paciência era a única virtude que Valentina, mais do que qualquer mulher — e houvera muitas em sua jovem vida —, inculcara em uma alma que, no geral, era tudo menos virtuosa. Ele deu um passo mais perto e inclinou-se levemente contra a borda de seu assento, suas pernas bem torneadas cruzadas, seu corpo gracioso inclinando-se ligeiramente em direção a ela.

— Estais pensativa, Madonna — murmurou ele, com sua voz rica e carinhosa.

— Por que então — repreendeu-o ela, mas em tom suave — intercedeis em meus pensamentos?

— Porque parecem pensamentos tristes, Madonna — respondeu ele, com fluidez —, e eu seria um mau amigo se não buscasse despertar-vos deles.

— Sois isso, Gonzaga? — questionou ela, sem olhar para ele. — Sois meu amigo?

Ele pareceu estremecer e então endireitar-se, enquanto, através de seu rosto, passava uma sombra de algo que poderia ter sido bom ou mau, ou parte de ambos. Então, inclinou-se até que sua cabeça ficasse muito perto da dela.

— Vosso amigo? — disse ele. — Ah, mais do que vosso amigo. Contai comigo como vosso próprio escravo, Madonna.

Ela olhou para ele agora, e em sua fisionomia viu um reflexo do ardor que falara em sua voz. Em seus olhos havia um brilho de ardente intensidade. Ela se afastou dele e, a princípio, ele se considerou repelido, mas apontando para o espaço que ela deixara:

— Sentai aqui ao meu lado, Gonzaga — disse ela calmamente, e ele, mal acreditando em sua própria boa sorte por tanto favor lhe ser concedido, obedeceu-a de um modo semitímido que estava em estranha contradição com suas últimas palavras ousadas.

Ele riu levemente, talvez para cobrir o embaraço que o assolava, e deixando cair seu gorro cravejado de joias, jogou uma perna calçada de branco sobre a outra e tomou seu alaúde no colo, seus dedos vagando novamente pelas cordas.

— Tenho uma nova canção, Madonna — anunciou ele, com uma alegria que era obviamente forçada. — É em oitava rima, um tênue eco do imortal Niccolo Correggio, composta em honra de alguém cuja descrição está além do voo da canção humana.

— E contudo cantais sobre ela?

— Não é nada melhor do que um reconhecimento da impossibilidade de cantar sobre ela. Assim... — E dedilhando um ou dois acordes, começou, a meia voz:

— Quando sorriderán' in ciel Gli occhi tuoi ai santi...

Ela colocou uma mão sobre o braço dele para detê-lo.

— Não agora, Gonzaga — suplicou ela —, não estou com humor para vossa canção, por mais doce que eu não duvide que seja.

Uma sombra de desapontamento e vaidade ferida atravessou seu rosto. As mulheres costumavam ouvir avidamente seus strambotti, fascinadas pela astúcia das palavras e pela doçura sedutora de sua voz.

— Ah, nunca olheis tão soturno — exclamou ela, sorrindo agora diante de seu ar cabisbaixo. — Se não escutei agora, escutarei novamente. Perdoai-me, bom Gonzaga — implorou ela, com uma doçura a que nenhum homem poderia ter resistido. E então um suspiro flutterou de seus lábios; um som que era como um soluço veio depois dele, e sua mão fechou-se sobre o braço dele.

— Eles estão partindo meu coração, meu amigo. Oh, se me tivésseis deixado em paz no Convento de Santa Sofia!

Ele se virou para ela, toda solicitude e gentileza, para indagar a razão de seu desabafo.

— É esta aliança odiosa para a qual buscam me forçar com aquele homem de Babbiano. Disse a Guidobaldo que não desposarei este Duque. Mas tão proveitosamente poderia dizer ao Destino que não morrerei. Um é tão desatento quanto o outro.

Gonzaga suspirou profundamente, em simpatia, mas não disse nada.

Aqui estava um pesar ao qual ele não podia ministrar, uma queixa que ele nada poderia fazer para remover. Ela se afastou dele com um gesto de impaciência.

— Suspirais — exclamou ela —, e lamentais a crueldade do destino que me aguarda. Mas não podeis fazer nada por mim. Sois apenas palavras, Gonzaga. Podeis chamar-vos mais do que meu amigo — meu próprio escravo. Contudo, quando preciso de vossa ajuda, o que me ofereceis? Um suspiro!

— Madonna, sois injusta — apressou-se ele a responder, com certo calor. — Não sonhei — não ousei sonhar — que era minha ajuda que buscáveis. Minha simpatia, acreditei, era tudo que convidáveis, e assim, para que eu não parecesse presunçoso, foi tudo que ofereci. Mas se precisais de minha ajuda; se buscais um meio de evitar esta aliança que corretamente descreveis como odiosa, tal ajuda como está ao alcance de um homem prestar, tereis de mim.

Ele falou quase ferozmente e com uma certa confiança sombria, embora, até o momento, nenhum plano se tivesse formado em sua mente.

Na verdade, se um curso tivesse ficado claro para ele, talvez houvesse menos confiança em seu tom, pois, afinal, ele não era, por natureza, um homem de ação, e seu caráter era o exato oposto de valente. No entanto, ele era um ator tão excelente que enganava até a si mesmo com sua atuação, e, nesta sugestão de alguns feitos vagos e nobres que ele faria, sentiu-se agitado por um súbito ardor marcial e capaz de tudo. Ele estava agitado, também, pela paixão com que a beleza de Valentina o preenchia — uma paixão que o levou mais perto de fazer dele um homem do que a Natureza conseguira fazer.

Que agora, na hora de sua necessidade, ela devesse se voltar tão prontamente para ele em busca de assistência, ele aceitou como prova de que ela não estava surda à voz deste grande amor que ele nutria por ela, mas do qual ele ainda nunca ousara mostrar sinal. O ciúme passageiro que ele sentira por aquele cavaleiro ferido que encontraram em Acquasparta foi colocado em repouso por sua atual atitude em relação a ele, o cavaleiro, ele próprio esquecido.

Quanto a Valentina, ela ouviu seu discurso pronto e seu tom sincero com crescente espanto, tanto com ele quanto consigo mesma. Suas próprias palavras tinham sido pouco mais do que um desabafo petulante. De encontrar realmente um caminho para iludir os desejos de seu tio, ela não tinha pensamento — a menos que residisse em cumprir aquela ameaça sua de tomar o véu. Agora, porém, que Gonzaga falava tão bravamente sobre fazer o que um homem poderia fazer para ajudá-la a evitar aquele casamento, o pensamento de resistência ativa assumiu uma forma convidativa.

Uma esperança tímida — uma esperança que temia ser destruída antes de crescer para qualquer força — espreitou agora dos olhos maravilhados que ela voltou para seu companheiro.

— Existe um caminho, Gonzaga? — perguntou ela, após uma pausa.

Agora, durante aquela pausa, sua mente estivera muito ocupada. Um tanto poeta, ele era abençoado com inteligência de certa rapidez e era um homem de imaginação muito pronta. Como uma inspiração, uma ideia viera a ele; desta, surgira outra, e ainda outra, até que uma cadeia de eventos pela qual a frustração dos planos de Babbiano e Urbino pudesse ser realizada, estava completa.

— Penso — disse ele lentamente, seus olhos no chão —, que conheço um caminho.

Seu olhar estava agora ávido, seu lábio trêmulo e seu rosto um pouco pálido. Ela se inclinou em direção a ele.

— Dizei-me — suplicou ela febrilmente.

Ele colocou seu alaúde no assento ao lado dele, e seus olhos olharam ao redor em uma inspeção apreensiva.

— Não aqui — murmurou ele. — Há muitos ouvidos no Palácio de Urbino. Vos apraz caminhar nos jardins? Eu vos direi lá.

Eles se levantaram juntos, tão pronta foi sua anuência. Olharam um para o outro por um segundo. Então, lado a lado, desceram os largos degraus de mármore que levavam do terraço aos caminhos ladeados de buxo dos jardins. Aqui, entre as sombras que se alongavam, caminharam em silêncio por um tempo, enquanto Gonzaga buscava palavras para propor seu plano. Finalmente, tornando-se impaciente, Valentina o instou com uma pergunta.

— O que aconselho, Madonna — respondeu ele —, é desafio aberto.

— Tal curso eu já estou seguindo. Mas aonde ele me levará?

— Não me refiro ao mero desafio das palavras — meros protestos de que não desposareis Gian Maria. Escutai, Madonna! O Castelo de Roccaleone é vossa propriedade. É talvez a fortaleza mais robusta em toda a Itália, hoje. Levemente guarnecida e bem provida, poderia resistir a um ano de cerco.

Ela se voltou para ele, tendo adivinhado já a proposta em sua mente, e, embora a princípio seus olhos parecessem assustados, logo se acenderam com uma luz de ousadia que augurava bem para uma aventura muito corajosa. Era uma noção selvagemente romântica, esta de Gonzaga, digna do cérebro fervoroso de um poeta, e ainda assim ela a atraía por seu sabor sem precedentes.

— Poderia ser feito? — perguntou ela, seus olhos brilhando com a antecipação de tal feito.

— Poderia, na verdade poderia — respondeu ele, com uma avidez não menos intensa que a dela. — Encerre-se em Roccaleone e de lá lance desafio a Urbino e Babbiano, recusando-se a render-se até que lhe concedam os seus termos: o de que se casará como bem entender.

— E você me ajudará nisto? — questionou ela, sua mente — em sua inocência — inclinando-se cada vez mais para o projeto insensato.

— Com toda a minha força e engenho — respondeu ele, pronta e galantemente. — Proverei o lugar de tal modo que poderá resistir a um cerco por um ano inteiro, caso a necessidade surja, e encontrarei os homens para armá-lo; uns vinte, creio eu, serão suficientes para nossas necessidades, já que é principalmente na força natural do local que confiamos.

— E então — disse ela —, precisarei de um capitão.

Gonzaga fez-lhe uma profunda reverência.

— Se me honrar com o cargo, Madonna, servi-la-ei lealmente enquanto tiver vida.

Um sorriso tremeluziu por um segundo em seus lábios, mas desapareceu antes que o cortesão se endireitasse de sua reverência, pois estava longe de seus desejos ferir o espírito dele. Mas a ideia desse janota perfumado no papel de capitão, governando um punhado de mercenários grosseiros e dirigindo as operações para a resistência de um cerco assíduo, tocou-a com seu tom ridículo. No entanto, se ela lhe recusasse isso, era mais do que provável que ele se considerasse ofendido e se recusasse a levar adiante os planos deles. Passou-lhe pela mente — na plena confiança da juventude — que, se ele viesse a falhar quando a hora da ação chegasse, ela tinha coração suficientemente valente para ajudar a si mesma. E assim ela consentiu, ao que ele novamente se curvou, desta vez em gratidão. E então um pensamento súbito lhe ocorreu, e com ele veio o desânimo.

— Mas para tudo isso, Gonzaga — para os homens e para os mantimentos —, será necessário dinheiro.

— Se me permitir que a amizade seja provada também nisso... — começou ele.

Mas ela o interrompeu, subitamente atingida por uma solução para o enigma.

— Não, não! — exclamou ela. O rosto dele caiu um pouco. Ele esperava deixá-la em dívida de todas as formas possíveis, mas ali estava uma em que ela erguia uma barreira. Sobre a cabeça ela usava uma rede de ouro, tão ricamente bordada com pérolas que valia o resgate de um príncipe. Esta ela agora se apressou em desapertar com dedos que a excitação fazia tremer. — Aí está! — gritou ela, estendendo-a para ele. — Transforme isso em dinheiro, meu amigo. Deve render-lhe ducados suficientes para este empreendimento.

Em seguida, ocorreu-lhe que ela não poderia ir sozinha para aquele castelo apenas com Gonzaga e os homens que ele estava prestes a recrutar. A resposta dele veio com uma presteza que mostrou que ele também havia considerado isso.

— De modo algum — respondeu ele. — Quando chegar a hora, a senhora deve selecionar as damas de sua confiança que lhe parecerem adequadas — digamos, três ou quatro. Pode levar um padre também, um ou dois pajens e alguns servos.

Assim, no crepúsculo, entre as sombras daquele antigo jardim italiano, foi tramada a conspiração pela qual Valentina escaparia da aliança com Sua Alteza de Babbiano. Mas havia mais do que isso, embora fosse tudo o que Valentina via. Era, também, um complô pelo qual ela poderia se tornar a esposa de Messer Romeo Gonzaga.

Ele era um membro exilado daquela famosa família de Mântua, que gerou alguns canalhas e um santo. Com o dinheiro que, na despedida, uma mãe amorosa lhe concedera, ele ostentava uma figura valente na corte de Urbino, onde era tolerado em virtude de seu parentesco com a Duquesa de Guidobaldo, Monna Elizabetta. Mas seus recursos estavam diminuindo, e cabia-lhe voltar sua atenção para tais setores que pudessem lhe render lucro. Sendo de espírito fraco e — uma vez que seus gostos não se inclinavam para esse lado — destreinado nas armas, teria sido fútil para ele buscar a carreira comum aos aventureiros de sua idade. Contudo, aventureiro de coração ele era, e como os campos de Marte eram pouco adequados à sua natureza, ele há muito ponderava sobre as possibilidades oferecidas pelas listas de Cupido. Guidobaldo — puramente por consideração a Monna Elizabetta — havia-lhe demonstrado um alto grau de favor, e sobre isso ele fora vaidoso o suficiente para fundar grandes esperanças, pois Guidobaldo tinha duas sobrinhas. Altas haviam sido essas esperanças quando ele foi escolhido para escoltar a adorável Valentina della Rovere do Convento de Santa Sofia até a corte de seu tio. Mas ultimamente elas haviam murchado, desde que soubera quais eram os planos do tio para o futuro daquela dama. E agora, por iniciativa dela mesma, e pelo complô no qual ela havia entrado com ele, elas se erguiam mais uma vez.

Frustrar Guidobaldo poderia revelar-se uma coisa perigosa, e sua vida poderia pagar o preço se seus esquemas fracassassem — por mais clemente e misericordioso que Guidobaldo fosse. Mas se eles tivessem sucesso, e se por amor ou pela força ele pudesse levar Valentina a desposá-lo, ele estava toleravelmente confiante de que Guidobaldo, vendo que as coisas tinham ido longe demais — já que Gian Maria certamente se recusaria a casar com a viúva de Gonzaga —, deixaria que as coisas ficassem como estavam. Para esse fim, nenhum plano poderia ser mais propício do que aquele no qual ele a atraíra. Guidobaldo poderia cercá-los em Roccaleone e poderia eventualmente reduzi-los pela força das armas — uma circunstância, no entanto, que, apesar de suas palavras, ele considerava extremamente remota. Mas se ele pudesse desposar Valentina antes que capitulassem, pensou que teria poucos motivos para temer quaisquer consequências da ira de Guidobaldo. Afinal, no que dizia respeito ao nascimento e à família, Romeo Gonzaga não era de forma alguma inferior a Sua Alteza de Urbino. Guidobaldo ainda tinha outra sobrinha, e ele poderia cimentar com ela a desejada aliança com Babbiano.

Sozinho nos jardins do Palácio, Gonzaga caminhava após a queda da noite, e com os olhos postos nas estrelas que começavam a pontilhar o céu violeta, sorriu um sorriso de gratificação astuta. Ele pensou em quão bem aconselhada fora sua sugestão de que levassem um padre para Roccaleone. A menos que seu sentido profético o levasse a um erro profundo, eles encontrariam trabalho para aquele padre antes que o castelo fosse rendido.

CAPÍTULO VIII. ENTRE AS BORRAS DO VINHO

E assim aconteceu que, enquanto por ordens de Guidobaldo os preparativos para as núpcias de Valentina seguiam com febril pressa — enquanto pintores, entalhadores e artífices em ouro e prata aplicavam-se às suas tarefas apressadas; enquanto mensageiros corriam para Veneza em busca de folha de ouro e ultramarino para os baús de casamento; enquanto o leito nupcial era trazido de Roma e a carruagem de Ferrara; enquanto tecidos caros eram coletados e as vestes de casamento eram confeccionadas —, o magnífico Romeo Gonzaga estava, por seu lado, tão diligentemente tramando para tornar vão todo aquele trabalho de preparação.

Na noite do terceiro dia de sua conspiração, ele sentou-se no quarto que lhe fora designado no Palácio de Urbino e amadureceu seus planos. E tão satisfeito estava ele com seu solilóquio que, enquanto se sentava à janela, havia um sorriso de contentamento em seus lábios.

Ele permitiu que seu olhar se perdesse pelas encostas daquele árido deserto de rochas, até o Rio Metauro, serpenteando seu caminho para o mar através de planícies férteis, brilhando aqui de prata e lá de ouro à luz da tarde. Não tão complacentemente ele teria sorrido se julgasse que o empreendimento no qual se engajava fosse daquele caráter guerreiro que ele representara a Valentina. Não lhe faltava astúcia, nem julgamento sobre o funcionamento das mentes humanas, e ele muito razoavelmente opinou que, uma vez que a Lady Valentina se encerrasse em Roccaleone e enviasse recado ao tio de que não se casaria com Gian Maria, nem retornaria à Corte de Urbino até que ele lhe desse sua palavra ducal de que ela não ouviria mais falar da união, o Duque seria o primeiro a capitular.

Ele argumentava que isso poderia não acontecer imediatamente — nem ele desejava que acontecesse; mensagens seriam trocadas, e Guidobaldo buscaria, por lisonjas, reconquistar sua sobrinha. Ela resistiria a isso e, no final, seu tio veria a natureza intransponível da situação e concordaria com seus termos para que ela terminasse. Que isso chegasse às armas, e que Guidobaldo se movesse para cercar Roccaleone, ele não acreditava por um momento — pois que tipo de ridículo ele não atrairia sobre si mesmo vindo dos Estados vizinhos? No pior dos casos, mesmo que houvesse um cerco, nunca seria levado a cabo com o rigor da guerra comum; não haveria assaltos, não haveria bombardeios; seria um simples investimento, com o objetivo de interceptar recursos, de modo a levar a guarnição à fome até a submissão — pois eles nunca sonhariam com tal provisão de mantimentos como a que Gonzaga estava preparando.

Assim comungava Gonzaga consigo mesmo, e o sorriso que animava os cantos de sua boca fraca tornava-se mais pensativo. Ele sonhava grandes sonhos naquela noite; tinha visões maravilhosas de um futuro poder principesco que viria a ser seu em virtude desta aliança que ele tão habilmente estava envolvendo — um tolo em um paraíso de tolos, tendo apenas sua tolice como companhia.

Mas, apesar de tudo, seus sonhos eram maravilhosamente doces de se desfrutar e suas visões verdadeiramente atraentes de contemplar. Havia planos a serem formados e meios a serem concebidos para a fuga para Roccaleone. Havia cálculos a serem feitos; a estimativa de mantimentos, armas e homens; e, uma vez completos esses cálculos, havia todas essas coisas a serem obtidas. Os mantimentos ele já havia providenciado, enquanto das armas ele não precisava pensar; Roccaleone estaria bem abastecida delas. Mas a busca pelos homens causava-lhe certa preocupação. Ele decidira recrutar vinte, o que certamente era o número mínimo com o qual ele poderia fazer uma boa exibição de estar marcialmente sério. Mas, mesmo que o número fosse modesto, onde ele encontraria vinte sujeitos que se importassem tão pouco com suas vidas a ponto de embarcar em tal empreendimento — mesmo que atraídos por um pagamento generoso — e, assim, incorrer no desagrado ducal de Guidobaldo?

Ele vestiu-se com sóbrio rigor, pela primeira vez em sua vida de janota, e desceu, após a queda da noite, a uma taverna em uma rua pobre atrás do Duomo, esperando que lá, entre as borras do vinho, ele pudesse encontrar o que precisava.

Por muita sorte, encontrou um velho capitão de salteadores, que outrora fora um condottiero de espécie inferior, mas que estava gravemente reduzido pela má sorte e pelo mau vinho.

A taverna era um lugar sujo e perigoso, no qual o delicado Gonzaga não entrara sem um tremor, invocando a proteção dos santos e persignando-se antes de colocar os pés sobre o limiar. Alguns pedaços de cabrito estavam sendo cozidos nas brasas, em uma grande lareira no final do cômodo, o mais longe possível da porta. Diante dela, Ser Luciano — o taverneiro — estava agachado sobre os calcanhares e abanava tão diligentemente que uma nuvem de cinzas subia até o teto e espalhava-se, junto com a fumaça nauseabunda, por todo o quarto sórdido. Uma lamparina de latão pendia do teto e brilhava livremente através daquela fumaça, como a lua brilha através de uma névoa noturna. O lugar fedia tão mal que, a princípio, Gonzaga sentiu-se compelido a sair dali. Apenas a reflexão de que em lugar nenhum em Urbino era tão provável quanto ali encontrar a coisa que buscava, impeliu-o a sufocar seu natural nojo e permanecer. Ele escorregou em alguma gordura e quase não evitou medir o comprimento daquele chão imundo, um incidente que provocou uma gargalhada maliciosa de um gigante esfarrapado que observava com interesse sua chegada afetada.

Transpirando e com os nervos desfeitos, o cortesão abriu caminho até uma mesa junto à parede e sentou-se no banco de madeira bruta diante dela, rezando para que fosse deixado como seu único ocupante.

Na parede oposta pendia um crucifixo enegrecido e uma pequena pia de água benta que estava seca há uma geração e era agora um receptáculo para poeira e um raminho seco de alecrim. Imediatamente abaixo disso — na companhia de um par de maltrapilhos dignos dele — sentava-se o gigante que zombaria de sua fuga da queda, e enquanto Gonzaga tomava seu assento, ouviu a voz do sujeito, gutural, entorpecida pela bebida e contenciosa.

— E este vinho, Luciano? Sangue della Madonna! Vai trazê-lo antes de cair morto, porco?

Gonzaga estremeceu e teria se persignado novamente para proteção contra o que parecia um demônio encarnado, não fosse pelo olho injetado de sangue do rufião fixado nele em um olhar pétreo.

— Já vou, cavaliere, já vou — gritou o tímido anfitrião, saltando de pé e deixando o cabrito queimar enquanto ministrava à sede insaciável do gigante.

O título fez Gonzaga sobressaltar-se, e ele voltou os olhos para o rosto do homem. Achou-o de expressão vilanesca, inflamado e manchado; o cabelo pendia emaranhado sobre uma cabeça de bala e os olhos brilhavam ferozmente de ambos os lados de um nariz pendular. Da graduação cavalheiresca pela qual o taverneiro o tratava, o sujeito não ostentava sinais externos. Armas ele carregava, é verdade; uma espada e um punhal no cinto, enquanto ao seu lado, sobre a mesa, repousava um capacete de aço enferrujado. Mas essas ferramentas guerreiras serviam apenas para dar-lhe a aparência de um masnadiero errante ou de um assassino de aluguel. Pouco depois, abandonando a contemplação de Gonzaga, ele se voltou para seus companheiros, e até o ouvinte flutuou uma história grosseira e orgulhosa de uma guerra de pilhagem na Sicília dez anos atrás. Gonzaga ficou excitado. Parecia, de fato, que este era um homem que poderia ser-lhe útil. Ele fingiu bebericar o vinho que Luciano lhe trouxera e ouviu avidamente aquela história fanfarrona, da qual parecia que esse patife outrora estivera em melhores condições e fora algo como um líder. Intencionalmente ele ouviu, e perguntou-se se homens como os que ele gabava ter liderado naquela campanha ainda poderiam ser encontrados e reunidos.

Ao final de talvez meia hora, os dois companheiros daquele gigante sedento levantaram-se e despediram-se dele. Lançaram um olhar de passagem a Gonzaga e partiram.

Por um momento ele hesitou. O rufião parecia ter caído em um devaneio, ou então dormia de olhos abertos. Reunindo sua coragem, o galante levantou-se finalmente e atravessou o cômodo. Totalmente inexperiente nos costumes das tavernas estava o magnífico Gonzaga, e aquele que na corte, no salão de baile ou na antecâmara, era um verdadeiro espelho de todas as graças de um cortesão, sentia-se desajeitado ali e desconfortável.

Finalmente, convocando sua inteligência em seu auxílio:

— Bom senhor — disse ele, com certa timidez —, far-me-ia a honra de compartilhar um frasco comigo?

O olho do rufião, que um momento antes parecia vácuo e melancólico, agora avivou-se até parecer em chamas. Ele ergueu suas órbitas injetadas de sangue e encontrou audazmente o olhar inquieto de Gonzaga. Seus lábios se abriram com um estalo de antecipação, suas costas enrijeceram e sua cabeça foi erguida até que seu queixo assumisse uma inclinação tão altiva que Gonzaga temeu que sua hospitalidade oferecida estivesse prestes a sofrer uma rejeição desdenhosa.

— Se compartilharei um frasco? — ofegou o sujeito, como, sendo o pecador que era e sabia ser, ele poderia ter ofegado: "Irei ao Céu?" — Se eu... se eu...? — Ele fez uma pausa e franziu os lábios. Suas sobrancelhas estavam franzidas e sua expressão tornou-se muito astuta enquanto ele avaliava novamente aquele sujeitinho bonito que oferecia frascos de vinho a aventureiros falidos como ele. Ele quase perguntou o que seria exigido dele em troca disso, quando subitamente pensou — com a filosofia de patife que a adversidade lhe ensinara — que, se lhe dissessem para que fins o vinho o deveria subornar, e se o negócio não lhe agradasse, ele perderia o vinho ao confessá-lo; ao passo que, se ele apenas guardasse silêncio até ter bebido, seria dele depois agradar-se sobre o negócio quando este viesse a ser proposto.

Ele compôs seus traços rudes na semelhança rude de um sorriso.

— Doce jovem senhor — murmurou ele, — doce, gentil e mais ilustre senhor, eu compartilharia um barril com um nobre como você.

— Devo entender que você beberá? — disse Gonzaga, que mal sabia o que fazer com as últimas palavras do homem.

— Corpo de Baco! Sim. Beberei com você, gentile signorino, até que sua bolsa esteja vazia ou o mundo seque. — E ele lançou um olhar de mistura de zombaria e satisfação.

Gonzaga, ainda meio incerto de seu terreno, chamou o taverneiro e ordenou-lhe que trouxesse um frasco do seu melhor. Enquanto Luciano estava ocupado na busca pelo vinho, um constrangimento pesou sobre aquele par estranhamente discordante.

— É uma noite fria — comentou Gonzaga, pouco depois, sentando-se oposto ao seu espadachim.

— Jovem senhor, sua inteligência perdeu o fio. A noite está quente.

— Eu disse — balbuciou Gonzaga, que não estava acostumado à contradição de seus inferiores e desejava agora afirmar-se —, que a noite está fria.

— Mentiu, então — retornou o outro, com um novo olhar —, pois, como respondi, a noite está quente. Piaghe di Cristo! Sou um homem ruim para se contradizer, meu belo galante, e se eu digo que a noite está quente, quente ela será, ainda que haja neve no Monte Vesúvio.

O cortesão ficou rosado com aquilo e, não fosse pela chegada do taverneiro com o vinho, é possível que ele pudesse ter cometido uma temeridade incalculável. À vista do licor tinto, a fúria morreu no rosto do rufião.

— Uma vida longa, uma sede longa, uma bolsa longa e uma memória curta! — foi seu brinde, em cujo significado enigmático Gonzaga não tentou investigar. Enquanto o sujeito pousava sua taça e, com a manga, removia a umidade de sua boca por barbear, — Posso saber — inquiriu ele — de cuja hospitalidade tenho a honra de desfrutar?

— Já ouviu falar de Romeo Gonzaga?

— De Gonzaga, sim; embora de Romeo Gonzaga, nunca. É você ele?

Gonzaga inclinou a cabeça.

— Uma família nobre a sua — retornou o espadachim, em um tom que implicava que a sua própria era tão boa quanto. — Deixe-me apresentar-me a você. Sou Ercole Fortemani — disse ele, com o ar orgulhoso de quem se anunciava um imperador.

— Um nome formidável — disse Gonzaga, em tons de surpresa —, e tem um som nobre.

O grande sujeito voltou-se para ele com uma raiva súbita.

— Por que esse espanto? — ele explodiu. — Digo-lhe que meu nome é nobre e formidável, e você me achará tão formidável quanto sou nobre. Diavolo! Parece incrível?

— Disse eu isso? — protestou Gonzaga.

— Você estaria morto agora se tivesse, Messer Gonzaga. Mas você pensou isso, e posso me dar ao luxo de mostrar-lhe quão ousado um homem precisa ser para pensar assim sem sofrer.

Arrepiado como um peru, ferido em seu orgulho e em sua vaidade, Ercole apressou-se em esclarecer Gonzaga sobre sua personalidade.

— Saiba, senhor — anunciou ele —, que sou o Capitão Ercole Fortemani. Ostentei essa graduação no exército do Papa. Servi aos pisanos e aos nobres Baglioni de Perugia com honra e distinção. Comandei cem lanças da famosa companhia livre de Gianinoni. Lutei com os franceses contra os espanhóis, e com os espanhóis contra os franceses, e servi aos Bórgia, que conspiram contra ambos. Arrastei um pique no séquito do imperador, e mantive a graduação de capitão, também, no exército do Rei de Nápoles. Agora, jovem senhor, você aprendeu algo sobre mim, e se meu nome não está escrito em letras de fogo de uma ponta a outra da Itália, é — Corpo de Deus! — porque as mãos que me contrataram para o trabalho colheram a glória de meus feitos.

— Um registro nobre — disse Gonzaga, que absorvera credulamente aquele catálogo de mentiras —, um registro muito nobre.

— Não tanto — contradisse o outro, pela luxúria da contradição que era parte dele. — Um grande registro, se quiser, para me recomendar ao serviço de mercenário. Mas você não pode chamar o serviço de um mercenário de nobre.

— É uma questão sobre a qual não discutiremos — disse Gonzaga, de forma tranquilizadora. A ferocidade do homem era terrível.

— Quem diz que não o faremos? — exigiu ele. — Quem me impedirá se eu tiver vontade de brigar por isso? Responda-me! — e levantou-se parcialmente do assento, movido pela raiva na qual se esporeava. — Mas paciência! — interrompeu-se, serenando de repente. — Suponho que não tenha sido por consideração aos meus belos olhos, nem atraído pela elegância do meu trajo — e levantou um canto de sua capa esfarrapada — nem tampouco porque deseje jogar os dados comigo, que buscou meu conhecimento e pediu este vinho. Você requer um serviço meu?

— Você adivinhou.

— Um discernimento prodigioso, pelo Hóstia! — Ele parecia inclinar-se de forma bastante tediosa para a ironia. Então seu rosto tornou-se severo, e ele baixou a voz até que não passasse de um sussurro rascante. — Escute-me, Messer Gonzaga. Se o serviço que requer é o corte de uma garganta ou algum negócio imundo semelhante, para o qual minha aparente necessidade o leva a supor que estou pronto, deixe-me aconselhá-lo, como preza pela sua própria pele, a deixar o serviço sem ser mencionado e retirar-se.

Em um protesto apressado, frenético e temeroso, as mãos de Gonzaga foram estendidas.

— Senhor, senhor... eu... eu não poderia ter pensado isso de você — ele balbuciou, com calor, muito do qual era genuíno, pois alegrava-o ver que alguns escrúpulos ainda brilhavam no monte imundo da existência canalha deste homem. Um patife cuja vilania não conhecesse limites dificilmente teria servido aos seus propósitos. — Eu preciso de um serviço, mas não é um trabalho de cantos escuros. É um empreendimento considerável, e no qual, creio, você deveria provar ser o homem que preciso.

— Deixe-me saber mais — disse Ercole grandiloquentemente.

— Preciso primeiro da sua palavra de que, caso o empreendimento se mostre inadequado para você, ou além das suas capacidades, você respeitará o assunto e o manterá em segredo.

— Corpo de Satã! Nenhum cadáver jamais foi tão mudo quanto eu serei.

— Excelente! Pode encontrar-me vinte homens robustos para formar uma guarda-costas e uma guarnição, que, em troca de boas acomodações — talvez por algumas semanas — e pagamento a quatro vezes a taxa normal dos mercenários, estarão dispostos a correr algum risco, e arriscar até mesmo um confronto com as forças do Duque?

Ercole estufou suas bochechas manchadas até que Gonzaga temeu que ele as explodisse.

— É bandoleirismo! — rugiu ele, quando encontrou a voz. — Bandoleirismo, ou sou um tolo.

— Ora, sim — confessou Gonzaga. — É uma questão de bandoleirismo de certa forma. Mas o risco é tênue.

— Não pode me dizer mais nada?

— Não ouso.

Ercole esvaziou sua taça de vinho de um só gole e salpicou o resto no chão. Então, pousando o recipiente vazio, sentou-se imerso em pensamentos por um momento. Ficando impaciente:

— Bem — gritou Gonzaga finalmente —, pode me ajudar? Pode encontrar os homens?

— Se você me contasse mais sobre a natureza deste serviço que requer, eu poderia encontrar cem com facilidade.

— Como eu disse, preciso apenas de vinte.

Ercole parecia extremamente grave e esfregou pensativamente seu longo nariz.

— Poderia ser feito — disse ele, após uma pausa. — Mas teremos que procurar patifes desesperados; homens que já estão sob banimento, e para os quais pouco importará ter outro item adicionado à sua dívida com a lei, caso caiam em suas garras. Quão cedo precisará desta companhia desesperada?

— Para amanhã à noite.

— Eu imagino... — meditou Ercole. Ele contava nos dedos e parecia ter caído em cálculos mentais. — Eu poderia conseguir dez ou uma dúzia em questão de duas horas. Mas vinte... — Novamente ele pausou, e novamente voltou a pensar. Finalmente, de forma mais ágil: — Vamos ouvir que pagamento você me oferece, para me lançar assim, de olhos vendados, neste negócio seu como líder da companhia que requer? — perguntou ele de repente.

O rosto de Gonzaga caiu com isso. Então ele subitamente enrijeceu-se e assumiu uma expressão de altivez.

— É minha intenção liderar esta companhia eu mesmo — informou ele altivamente ao arruaceiro.

— Corpo de Deus! — ofegou Ercole, em cuja mente se intrometeu uma imagem grotesca de tal companhia, como a que ele reuniria, sendo liderada por este cavaleiro de tapete afetado. Então, recordando-se: — Se assim for — disse ele —, você faria melhor, você mesmo, em alistá-la. Felicissima notte! — E acenou-lhe um adeus através da mesa.

Aqui estava um desafio para Gonzaga. Como ele iria conduzir um negócio como aquele? Estava além de suas capacidades. Tanto ele protestou francamente.

— Agora atente para mim, jovem senhor — foi a resposta do outro. — O assunto é o seguinte: se eu puder recorrer a certos amigos meus com a informação de que um negócio está em curso, cujos detalhes não posso dar a eles, mas no qual eu mesmo os liderarei, compartilhando tal risco que possa haver, não duvido que, a esta hora de amanhã, eu possa ter vinte deles alistados — tal é a confiança deles em Ercole Fortemani. Mas se eu os levar para entrar em um serviço desconhecido, sob um líder igualmente desconhecido, a formação de tal companhia seria um assunto poderosamente tedioso.

Este era um argumento cuja força Gonzaga não podia deixar de sentir. Após um momento de consideração, ele ofereceu a Ercole cinquenta florins de ouro como sinal de boa-fé e a promessa de pagamento, posteriormente, à taxa de vinte florins de ouro por mês durante o tempo que ele precisasse de seus serviços; e Ercole, que em todos os seus dias de freelancer nunca ganhara a décima parte de tal soma, estava pronto para cair no pescoço deste nobilíssimo cavalheiro e chorar de pura alegria e afeição fraternal.

O assunto sendo resolvido, Gonzaga produziu uma bolsa pesada que produziu um tilintar poderosamente agradável aos ouvidos de Fortemani, e deixou-a cair com um tinido sobre a mesa.

— Aí estão cem florins para o equipamento desta companhia. Não desejo ter um regimento de esfarrapados de cotovelos de fora nos meus calcanhares. — E seu olhar varreu de forma pouco elogiosa o trajo de Ercole. — Cuide para que os vista adequadamente.

— Será feito, Magnífico — respondeu Ercole, com uma demonstração de respeito como nunca antes manifestara. — E armas?

— Dê-lhes piques e arcabuzes, se quiser; mas nada mais. O lugar para onde vamos está bem provido de armaduras, mas talvez nem mesmo isso seja necessário.

— Talvez não seja necessário? — ecoou o espadachim cada vez mais atônito. Eles deveriam ser pagos em uma escala tão lordesca, vestidos e alimentados, para induzi-los a um negócio que poderia não trazer luta alguma? Certamente ele nunca se vendera para um serviço mais provável ou promissor, e naquela noite ele sonhou enquanto dormia que se tornara o administrador de um cavalheiro, e que em seus calcanhares marchava uma companhia interminável de lacaios em librés extravagantes. No dia seguinte, ele acordou com a persuasão de que, enfim, na verdade, sua fortuna estava feita, e que daqui em diante não haveria mais arrastar de piques para seus braços velhos e exaustos pela guerra.

Conscientemente ele começou a alistar a companhia, pois, à sua maneira, este Ercole Fortemani era um homem consciencioso — turbulento e indisciplinado, se você quiser; um patife, à sua maneira, com pouco respeito pela propriedade; não acima de trapacear nos dados ou mesmo furtar uma bolsa na ocasião, quando forçado pela necessidade, apesar de ter nascido de boa família e ter ocupado empregos honrosos; um bêbado por longo hábito, e um brigão fanfarrão à menor provocação. Mas, apesar disso, desordeiro e desonesto como pudesse ser no comércio geral da vida, ainda assim, para a mão que o contratara, ele se esforçava — nem sempre com sucesso, talvez, mas, pelo menos, sempre sinceramente — para ser leal.

CAPÍTULO IX. A “TRATTA DI CORDE”

Enquanto o burburinho de preparação prosseguia vivamente em Urbino, Gian Maria, por sua vez, dispunha rapidamente dos assuntos em Babbiano, para que pudesse retornar aos núpcias pelos quais estava impaciente. Mas ele havia se deparado com um emaranhado mais profundo do que imaginara, e mais a fazer do que esperara.

No dia de sua partida de Urbino, ele cavalgara até Cagli e parara na casa do nobre Messer Valdicampo. Esta fora colocada à sua disposição, e lá ele propôs passar a noite. Eles haviam jantado — o Duque, de' Alvari, Gismondo Santi, Messer Valdicampo, sua esposa e duas filhas, e alguns amigos, potenciais cidadãos de Cagli, que ele convidara, para que pudessem testemunhar a honra que estava sendo feita à sua casa. Ficou tarde, e o torpor que se segue à generosa gratificação do apetite pairava sobre a companhia quando Armstadt — o capitão suíço de Gian Maria — entrou e aproximou-se de seu senhor com o ar de um homem portador de notícias. Ele parou a um ou dois passos da cadeira de encosto alto do Duque e ficou observando Gian Maria com uma paciência estúpida.

— Bem, tolo? — rosnou o Duque, virando a cabeça.

O suíço aproximou-se mais um passo. — Trouxeram-no, Alteza — disse ele em um sussurro confidencial.

— Sou eu um mago para ter que ler seus pensamentos? — intimidou Gian Maria. — Quem trouxe quem?

Armstadt observou a companhia com hesitação. Então, aproximando-se do Duque, murmurou em seu ouvido:

— Os homens que deixei para trás trouxeram o tolo — Ser Peppe.

Um brilho súbito nos olhos mostrou que Gian Maria entendeu. Sem desculpas à mesa, ele se virou e sussurrou de volta para seu capitão que levasse o sujeito ao seu quarto, para lá aguardá-lo. — Deixe alguns de seus patifes de prontidão, e venha você também, Martino.

Martino curvou-se e retirou-se, momento em que Gian Maria encontrou graça para pedir o perdão de seu anfitrião, com a explicação de que o homem lhe trouxera notícias que ele estava esperando. Valdicampo, que pela honra de ter um Duque dormindo sob seu teto teria engolido impropriedades muito mais flagrantes, minimizou o assunto e o dispensou. E logo Gian Maria levantou-se com o anúncio de que tinha uma longa jornada pela frente no dia seguinte e, portanto, com a devida licença de seu anfitrião, iria deitar-se.

Valdicampo, ele próprio, desempenhou então o papel de camareiro e, pegando um dos grandes candelabros, iluminou o caminho do Duque até seus aposentos. Ele teria levado seus bons ofícios, e suas velas, até o próprio quarto do Duque, mas, na antecâmara, Sua Alteza, tão educadamente quanto possível, ordenou-lhe que depositasse as luzes e o deixasse.

O Duque permaneceu em pé por um momento, deliberando se daria conhecimento a Alvari e Santi — que o haviam seguido e estavam esperando suas ordens — do que estava prestes a fazer. No final, decidiu que agiria sozinho e por sua própria conta. Então, dispensou-os.

Quando eles se foram e ele estava completamente só, ele bateu as mãos uma na outra e, em resposta a esse chamado, a porta de seu quarto abriu-se, revelando Martin Armstadt no limiar.

— Ele está aí? — indagou o Duque.

— Aguardando Vossa Alteza — respondeu o suíço, e ele segurou a porta para Gian Maria entrar.

O quarto designado ao Duque no Palazzo Valdicampo era um aposento nobre e elevado, em cujo centro pairava a grande cama de honra esculpida, com seus pilares verticais e dossel fúnebre.

Sobre a lareira havia dois candelabros de cinco braços com velas acesas. No entanto, Gian Maria não parecia considerar que havia luz suficiente para tal propósito que ele pretendia, pois ordenou a Martin que lhe trouxesse o candelabro que fora deixado para trás. Então ele voltou sua atenção para o grupo parado junto à janela, onde a luz da lareira caía plenamente sobre ele.

Este consistia em três homens, sendo dois mercenários da guarda de Armstadt, em couraça e morrião, e o terceiro, que estava cativo entre eles, o infeliz Ser Peppe. O rosto do tolo estava mais pálido que de costume, enquanto a patifaria habitual desaparecera de seus olhos e de sua boca, o medo tendo tomado posse de seu lugar. Ele encontrou o olhar cruel do Duque com um de alarme e piedosa súplica.

Tendo se assegurado de que Peppe não possuía armas e que seus braços estavam atados atrás das costas, Gian Maria ordenou que os dois guardas se retirassem, mas mantivessem-se de prontidão na antecâmara com Armstadt. Então ele se voltou para Peppe com uma carranca em sua testa baixa.

— Você não está tão alegre quanto estava esta manhã, tolo — zombou ele.

Peppino contorceu-se um pouco, mas sua natureza, moldada pelo longo hábito da zombaria, estimulou uma audaciosa extravagância em sua resposta.

— As circunstâncias não são exatamente propícias — para mim. Sua Alteza, no entanto, parece estar em excelente bom humor.

Gian Maria olhou para ele com raiva por um momento. Ele era um homem de raciocínio lento, e não conseguia conceber uma resposta pronta, nenhuma daquelas tiradas cortantes que lhe teria dado prazer administrar. Ele caminhou vagarosamente até a lareira e apoiou o cotovelo na borda superior.

— Seu humor levou-o a dizer algumas coisas pelas quais eu deveria ser misericordioso se mandasse açoitá-lo.

— E, pelo mesmo raciocínio, caridoso se me mandasse enforcar — retrucou o tolo secamente, um sorriso pálido em seus lábios.

— Ah! Você reconhece isso? — gritou Gian Maria, sem jamais ver a ironia pretendida. — Mas eu sou um príncipe muito clemente, tolo.

— Proverbialmente clemente — protestou o bobo, mas ele não teve sucesso desta vez em excluir o sarcasmo de sua voz.

Gian Maria disparou-lhe um olhar furioso.

— Você está zombando de mim, animal? Mantenha sua língua venenosa sob controle, ou farei com que seja privado dela.

O rosto de Peppe tornou-se cinzento com a ameaça, como bem poderia — pois o que faria um homem como ele no mundo sem uma língua?

Vendo-o mudo e atingido, o Duque continuou:

— Agora, apesar de você merecer a forca por sua insolência, estou disposto a que você não sofra nenhum mal, desde que responda verdadeiramente a tais perguntas que tenho para você.

A figura grotesca de Peppino curvou-se em uma reverência.

— Aguardo suas perguntas, glorioso senhor — respondeu ele.

— Você falou... — o Duque hesitou por um momento, contorcendo-se interiormente com a lembrança das palavras exatas com que o tolo falara. — Você falou esta manhã sobre alguém que a Lady Valentina conhecera.

O medo pareceu aumentar no rosto do bobo. — Sim — respondeu ele, com uma voz sufocada.

— Onde ela conheceu este cavaleiro de quem você falou, e que descreveu para mim com palavras tão maravilhosas de louvor?

— Nos bosques em Acquasparta, onde o rio Metauro não é nada mais que um riacho. Cerca de duas léguas antes de Sant' Angelo.

— Sant' Angelo! — ecoou Gian Maria, sobressaltando-se com a própria menção do lugar onde a recente conspiração contra ele fora arquitetada. — E quando foi isso?

— Na quarta-feira antes da Páscoa, enquanto Monna Valentina viajava de Santa Sofia para Urbino.

Nenhuma palavra proferiu o Duque em resposta. Ele ficou parado, a cabeça curvada e seus pensamentos correndo novamente sobre aquela conspiração. A luta na montanha em que Masuccio fora morto ocorrera na noite de terça-feira, e a convicção — por mais escassa que fosse a evidência — crescia nele de que este homem era um dos conspiradores que escapara.

— Como veio sua senhora a falar com este homem — ele era conhecido dela? — indagou ele finalmente.

— Não, Alteza; mas ele estava ferido, e assim despertou sua compaixão. Ela buscou cuidar de sua ferida.

— Ferido? — gritou Gian Maria, em um brado. — Agora, por Deus, é como eu suspeitava. Juro que ele obteve aquele ferimento na noite anterior em Sant' Angelo. Qual era o nome dele, tolo? Diga-me isso, e você será libertado.

Por apenas um segundo o corcunda pareceu hesitar. Ele estava sob um medo terrível de Gian Maria, de cujas crueldades algumas histórias horríveis eram contadas. Mas em maior medo estava da danação eterna que poderia ganhar se quebrasse o juramento que fizera de não divulgar a identidade daquele cavaleiro.

— Ai de mim! — suspirou ele, — eu gostaria que fosse possível para mim ganhar minha liberdade por um preço tão baixo; mas é um que a ignorância não me permitirá pagar. Não sei o nome dele.

O Duque olhou para ele de forma investigadora e desconfiada.

Embora fosse lento por natureza, a avidez parecia agora ter dado um corte astuto ao seu raciocínio, e a suspeita levara-o a observar a hesitação momentânea do tolo.

— De que aparência ele era? Descreva-o para mim. Como ele estava vestido? Qual era a maneira de seu rosto?

— Novamente, Lorde Duque, não posso respondê-lo. Eu tive apenas o mais fugaz vislumbre dele.

A face amarelada do Duque tornou-se muito maligna, e um sorriso feio contorceu seu lábio e expôs seus dentes brancos e fortes.

— Tão fugaz que nenhuma memória dele lhe restou? — disse ele.

— Precisamente, Alteza.

— Você mente, sua imundície — trovejou Gian Maria em uma fúria crescente. — Foi apenas esta manhã que você disse que sua altura era esplêndida, sua fisionomia nobre, seu modo principesco, sua fala cortês e — eu não sei o que mais. No entanto, agora você me diz — você me diz — que seu vislumbre dele foi tão fugaz que não pode descrevê-lo. Você sabe o nome dele, patife, e eu o tirarei de você, ou então...

— De fato, de fato, nobilíssimo senhor, não se encolerize... — o tolo começou, em temerosa protestação. Mas o Duque interrompeu-o.

— Encolerizado? — ecoou ele, seus olhos dilatando-se em uma espécie de horror ante a noção. — Você ousa imputar a mim o pecado mortal da cólera? Eu não estou encolerizado; não há raiva em mim. — Ele fez o sinal da cruz, como se para exorcizar o mau humor se ele de fato existisse, e devotadamente curvando a cabeça e dobrando as mãos — Libera me a malo, Domine! — murmurou ele audivelmente. Então, com uma ferocidade maior do que antes: — Agora — exigiu ele —, você me dirá o nome dele?

— Eu gostaria de poder — começou o corcunda aterrorizado. Mas a isso o Duque virou-se dele com um encolher de ombros de impaciente raiva, e batendo as mãos:

— Olá! Martino! — chamou ele. Instantaneamente a porta abriu-se e o suíço apareceu. — Traga seus homens e sua corda.

O capitão virou-se sobre os calcanhares e, simultaneamente, o tolo lançou-se aos pés de Gian Maria.

— Misericórdia, Vossa Alteza! — ele lamentou. — Não me mande enforcar. Eu sou...

— Não vamos enforcá-lo — interrompeu o Duque friamente. — Morto, você seria de fato mudo e não nos serviria de nada. Queremos você vivo, Messer Peppino — vivo e falante; achamos você muito reservado para um tolo. Mas esperamos fazê-lo falar.

De joelhos, Peppe levantou seus olhos selvagens para o Céu.

— Mãe dos Aflitos — orou ele, ao que o Duque irrompeu em uma risada desdenhosa.

— O que a Mãe Celestial tem a ver com tal imundície como você? Faça seus apelos a mim. Eu sou o árbitro mais imediato de seu destino. Diga-me o nome daquele homem que você conheceu nos bosques, e tudo ainda poderá ficar bem com você.

Peppino ajoelhou-se em silêncio, um suor frio acumulando-se em sua testa pálida, e um medo horrível apertando seu coração e garganta.

E ainda maior do que este horror que eles preparavam para ele era o horror de perder sua alma imortal por uma quebra do juramento solene que fizera. Gian Maria virou-se dele, finalmente, para seus bravi, que agora entravam silenciosamente e com o ar de homens que conheciam o trabalho esperado deles. Martino montou na cama e balançou por um instante na estrutura do dossel.

— Vai aguentar, Alteza — anunciou ele.

Gian Maria ordenou-lhe que, já que era assim, removesse as cortinas de veludo, enquanto despachava um dos homens para ver se a porta da antecâmara estava fechada, para que nenhum grito pudesse penetrar nos aposentos da casa Valdicampo.

Em poucos segundos tudo estava pronto, e Peppino foi rudemente levantado de seus joelhos e das orações que ele balbuciava à Virgem para lhe dar força nesta hora de necessidade.

— Pela última vez, senhor tolo — disse o Duque —, você nos dirá o nome dele?

— Alteza, eu não posso — respondeu Peppe, apesar do terror que congelava seu sangue.

Uma luz de satisfação brilhava agora nos olhos de Gian Maria.

— Então você sabe! — exclamou ele. — Você já não protesta sua ignorância, mas apenas que não pode me dizer. Subam com ele, Martino.

Num último e lastimável esforço contra o inevitável, o tolo desvencilhou-se de seus guardas e lançou-se em direção à porta. Um dos robustos suíços agarrou-o pelo pescoço com um aperto que o fez gritar de dor. Gian Maria observou-o com um sorriso sinistro, e Martin procedeu a prender uma das pontas da corda aos pulsos atados do prisioneiro. Então, conduziram-no, trêmulo, até a grande cama. A outra extremidade da corda foi passada por cima de um dos braços nus da armação do dossel. Esta ponta foi agarrada pelos dois homens de armas. Martin permaneceu ao lado do prisioneiro. O Duque jogou-se numa grande cadeira entalhada, um ar de satisfação investindo agora seu rosto redondo e pálido.

“Você sabe o que está prestes a lhe acontecer”, disse ele, em tons de fria indiferença. “Falará antes que comecemos?”

“Meu senhor”, disse o tolo, com uma voz que o terror estrangulava, “o senhor é um bom cristão, um filho leal da Santa Madre Igreja e um crente nos fogos eternos do inferno?”

Um vinco surgiu na testa de Gian Maria. Estaria o tolo prestes a intimidá-lo com conversas sobre vingança sobrenatural?

“Assim”, continuou Peppe, “o senhor talvez seja misericordioso quando eu confessar minha posição. Fiz um juramento solene ao homem que encontrei em Acquasparta naquele dia fatídico, de que jamais revelaria sua identidade. O que devo fazer? Se mantiver meu juramento, o senhor talvez me torture até a morte. Se o quebrar, serei condenado eternamente. Tenha misericórdia, nobre senhor, já que agora o senhor sabe como estou colocado.”

O sorriso alargou-se no rosto de Gian Maria, e a crueldade de sua boca e olhos pareceu intensificada por ele. O tolo havia lhe contado aquilo que ele daria muito para saber. Havia lhe dito que este homem, cujo nome ele buscava, temia tanto que sua presença naquele dia em Acquasparta se tornasse conhecida, que obrigara o tolo, mediante juramento, a não divulgar o segredo. Do que antes suspeitava, agora estava seguro. O homem em questão era um dos conspiradores; provavelmente o próprio chefe deles. Nada menos que a morte do tolo sob tortura o impediria agora de aprender o nome daquele desconhecido que lhe causara o duplo dano de conspirar contra ele e — se o tolo devesse ser acreditado — de capturar o coração de Valentina.

“Pela danação de sua alma não serei chamado a responder”, disse ele por fim. “Tenho cuidado suficiente para salvar a minha — pois as tentações são muitas e esta pobre carne é fraca. Mas é o nome deste homem que preciso e — pelas cinco chagas de Santa Lúcia de Viterbo! — eu o terei. Você falará?”

Algo como um soluço sacudiu o corpo deformado do pobre tolo. Mas foi só isso. Com a cabeça baixa, ele manteve um silêncio obstinado. O Duque fez um sinal aos homens e, instantaneamente, os dois depositaram seu peso sobre a corda, içando Peppe pelos pulsos até que ele estivesse na altura do próprio dossel. Feito isso, pausaram e voltaram seus olhos para o Duque em busca de novas ordens. Novamente Gian Maria convocou o tolo a responder às suas perguntas; mas Peppe, uma massa contorcida e disforme da qual dependiam duas pernas agitadas, manteve um silêncio obstinado.

“Deixem-no cair”, rosnou Gian Maria, perdendo a paciência. Os homens soltaram a corda e permitiram que cerca de um metro dela corresse por suas mãos. Então, agarraram-na novamente, de modo que a queda súbita de Peppe foi tão subitamente detida por um solavanco que quase arrancou seus braços das articulações. Um grito rompeu-se dele diante daquela tortura requintada, e ele foi arrastado mais uma vez até a altura total do dossel.

“Você falará agora?”, perguntou Gian Maria friamente, quase divertido. Mas o tolo ainda permanecia em silêncio, seu lábio inferior preso tão firmemente entre os dentes que o sangue escorria dele pelo seu queixo. Novamente o Duque deu o sinal, e novamente eles o soltaram. Desta vez, permitiram-lhe uma queda mais longa, de modo que o solavanco com que a detiveram foi mais severo do que o primeiro.

Peppe sentiu seus ossos saindo de suas articulações, e era como se um ferro em brasa o estivesse queimando no ombro, cotovelo e pulso.

“Deus misericordioso!”, ele gritou. “Oh, tenha piedade, nobre senhor.”

Mas o nobre senhor mandou içá-lo novamente ao dossel. Contorcendo-se ali na extremidade de sua angústia, o pobre corcunda derramou de lábios espumantes um fluxo de maldições e imprecações, invocando o Céu e o inferno para que matassem seus algozes.

Mas o Duque, de cujo comportamento se poderia inferir que estava acostumado ao efeito produzido por esta forma de tortura, observava com um sorriso cruel, como alguém que assiste ao progresso dos eventos em direção ao fim que deseja e planejou. Ele estava menos paciente, e seu sinal veio mais rapidamente agora. Pela terceira vez o tolo foi solto e içado, agora, a um metro do chão.

Desta vez ele não chegou sequer a gritar. Ficou pendurado ali, balançando na ponta da corda, a boca toda ensanguentada, o rosto horrível em sua palidez reluzente, e de seus olhos nada restando além do branco. Ele ficou ali, e gemia piedosa e incessantemente. Martin olhou com questionamento para Gian Maria, e seus olhos perguntavam muito claramente se não seria melhor pararem. Mas Gian Maria não lhe deu ouvidos.

“Isso bastará para você?”, perguntou ele ao tolo. “Você falará agora?”

Mas a única resposta do tolo foi um gemido, momento em que, novamente, ao sinal implacável do Duque, ele foi balançado para o alto. Mas, diante do terror de uma quarta queda, mais temerosa do que qualquer uma das três anteriores, ele despertou muito subitamente para o horror impossível de sua posição. Que aquela agonia duraria até que ele morresse ou desmaiasse, ele estava certo. E, como parecia incapaz de desmaiar ou morrer, sofrer mais ele não poderia. O que eram o céu ou o inferno para ele então, que o pensamento de qualquer um pudesse apagar o horror desta tortura e fortalecê-lo para continuar a suportar a agonia dela? Ele não podia mais suportar — não, nem para salvar uma dúzia de almas, se as tivesse:

“Eu falarei”, ele gritou. “Deixe-me descer, e você terá o nome dele, Senhor Duque.”

“Pronuncie-o primeiro, ou a maneira de sua descida será como as outras.”

Peppe passou a língua pelos lábios sangrentos, ficou imóvel e falou.

“Era seu primo”, arfou ele, “Francesco del Falco, Conde de Aquila.”

O Duque encarou-o por um momento, com semblante assustado e boca aberta.

“Você está me dizendo a verdade, animal?”, exigiu ele, com voz trêmula. “Foi o Conde de Aquila quem estava ferido e a quem Monna Valentina tratou?”

“Eu juro”, respondeu o tolo. “Agora, em nome de Deus e de Seus abençoados santos, deixe-me descer.”

Por um momento ainda ele foi mantido ali, aguardando o sinal de Gian Maria. O Duque continuou a observá-lo com aquele mesmo olhar de assombro, enquanto ponderava em sua mente as notícias que havia colhido. Então a convicção da verdade penetrou em sua mente. Era o Senhor de Aquila quem era o ídolo dos babbianos. O que, então, mais natural do que o fato de os conspiradores terem procurado colocá-lo no trono que pretendiam arrebatar de Gian Maria? Ele chamou a si mesmo de tolo por não ter adivinhado tanto antes.

“Deixem-no descer”, ordenou ele rispidamente aos seus homens. “Depois levem-no daqui, e deixem-no ir com Deus. Ele serviu ao seu propósito.”

Gentilmente eles o baixaram, mas quando seus pés tocaram o chão, ele não conseguiu ficar de pé. Suas pernas dobraram-se sob ele, e ele jazia — um pequeno monte corcunda — sobre os juncos do chão. Seus sentidos o haviam abandonado.

A um sinal de Armstadt, os dois homens o pegaram e o levaram para fora entre eles.

Gian Maria atravessou a sala até um genuflexório forrado de tapeçaria e ajoelhou-se diante de um crucifixo de marfim para render graças a Deus pela luz sinalizadora da graça, pela qual Ele havia se dignado a mostrar ao Duque seu inimigo.

Depois disso, tirando do peito de seu gibão um terço de contas de ouro e âmbar, ele devotamente cumpriu suas devoções noturnas.

CAPÍTULO X. O ZUNIDO DE UM ASNO

Quando, no dia seguinte, por volta da vigésima segunda hora, o Alto e Poderoso Gian Maria Sforza cavalgou para sua capital em Babbiano, encontrou a cidade em violento tumulto, ocasionado, como corretamente adivinhou, pela presença ominosa do enviado de César Borgia.

Uma multidão densa e taciturna encontrou-o na Porta Romana e preservou um profundo silêncio enquanto ele cavalgava para dentro da cidade, acompanhado por Alvari e Santi, e cercado por sua escolta de vinte lanças em armadura completa. Havia uma ameaça naquele silêncio mais ominosa do que qualquer vociferação, e muito branco estava o rosto do Duque enquanto ele lançava olhares de ira impotente para todos os lados. Mas o pior estava por vir. Enquanto subiam o Borgo dell' Annunziata, a multidão engrossou, e o silêncio foi agora substituído por uma tempestade de vaias e gritos raivosos. O povo tornou-se ameaçador e, pelas ordens de Armstadt — o Duque estava a essa altura paralisado demais pelo medo para emitir quaisquer ordens —, os homens de armas baixaram suas lanças a fim de abrir caminho, enquanto um ou dois da população, que foram empurrados para muito perto da cavalaria pela maré humana, caíram e foram pisoteados.

Vozes satíricas perguntavam ao Duque, zombeteiras, se ele estava casado, e onde poderiam estar as lanças de seu tio político que deveriam protegê-los contra os Borgia. Alguns exigiram saber para onde fora a última escandalosa cobrança de impostos, e onde estava o exército que deveria ter servido para levantar. A isso, outros respondiam pelo Duque, sugerindo uma infinidade de usos vis para os quais o dinheiro fora destinado.

Então, de repente, um grito de “Assassino!” surgiu, seguido por exigências raivosas de que ele restaurasse a vida ao valente Ferrabraccio, a Amerini, o amigo do povo, e àqueles outros que ele havia recentemente massacrado, ou então segui-los na morte. Por último, o nome do Conde de Aquila soou descontroladamente em seus ouvidos, provocando uma tempestade de “Evviva! Viva Francesco del Falco!” e uma voz persistente, soando alto acima das outras, já o chamava de “il Duca Francesco”. A isso, o sangue subiu ao cérebro de Gian Maria, e uma onda de raiva repeliu o medo de seu coração. Ele levantou-se nos estribos, seus olhos em chamas com a ira ciumenta que o possuía.

“Ser Martino!”, ele rugiu roucamente para seu capitão. “Abaixem as lanças e avancem através deles a galope!”

O robusto suíço hesitou, homem valente que fosse. Alvaro de' Alvari e Gismondo Santi olharam um para o outro alarmados, e o intrépido velho estadista, em cujo coração nenhum pingo de medo fora despertado pelo brado ameaçador da ralé, mudou de cor ao ouvir aquela ordem dada.

“Alteza”, implorou ele ao Duque, “o senhor não pode querer dizer isso.”

“Não querer dizer?”, rebateu Gian Maria, seu olhar viajando de Santi para o capitão hesitante. “Tolo!”, ele esbravejou contra este último. “Besta bruta, pelo que você espera? Não me ouviu?”

Sem um segundo de demora, o capitão levantou sua espada, e sua voz profunda e gutural latiu uma ordem aos seus homens que trouxe suas lanças para baixo da horizontal. A turba também ouvira aquele comando feroz e, despertando para o seu perigo, aqueles mais próximos da cavalaria teriam recuado, não fosse pelos outros, pressionando fortemente por trás, mantendo-os na maré da morte que agora varria tudo com armas tilintantes e gritos roucos.

Gritos preencheram o ar onde antes ameaças haviam sido lançadas em voz alta. Mas havia alguns naquela multidão que não seriam testemunhas passivas deste massacre. Metade das pedras do borgo foram atiradas após aquela cavalaria, caindo em uma chuva persistente sobre eles, batendo como granizo gigante em suas armaduras, amassando muitos elmos para o extremo desconforto de seus usuários. O próprio Duque foi atingido duas vezes, e no couro cabeludo desprotegido de Santi uma ferida feia foi aberta, da qual o sangue fluiu em profusão para tingir suas mechas brancas.

Desta maneira indigna, chegaram finalmente ao Palazzo Ducale, deixando um rastro de mortos e mutilados para marcar o caminho por onde haviam vindo.

Em um estado febril de paixão, Gian Maria buscou seus aposentos e não saiu mais até que, cerca de duas horas depois, foi anunciada a presença do emissário de César Borgia, Duque de Valentinois, que buscava uma audiência.

Ainda fora de si, e fervendo de ira pelas indignidades que recebera, Gian Maria — sem disposição para uma entrevista que teria exigido frieza e presença de espírito de um cérebro mais aguçado que o dele — recebeu o enviado, um espanhol sombrio com rosto de padre, na sala do trono do Palácio. O Duque estava acompanhado por Alvari, Santi e Fabrizio da Lodi, enquanto sua mãe, Caterina Colonna, ocupava uma cadeira de veludo carmesim na qual o leão dos Sforza estava bordado em ouro.

A entrevista foi breve e marcada por uma grosseria em seu encerramento que contrastava fortemente com a cerimoniosidade de seu início. Logo ficou claro que a verdadeira missão do embaixador era arranjar uma briga com Babbiano em nome de seu mestre, para que os Borgia pudessem ter um pretexto sólido para invadir o Ducado. Ele exigiu, primeiro educada e calmamente, e depois — quando negado — com insistência arrogante, que Gian Maria fornecesse ao Duque de Valentinois cem lanças — equivalentes a quinhentos homens — como uma contribuição de sua parte para a resistência que César Borgia pretendia fazer contra a iminente invasão francesa.

Gian Maria nunca deu ouvidos às palavras de contenção que Lodi sussurrava em seu ouvido, exortando-o a ganhar tempo e a adiar este mensageiro até que a aliança com a casa de Urbino estivesse completa e sua posição fortalecida o suficiente para permitir-lhes desafiar a ira de César Borgia. Mas nem isso, nem os olhares irados e significativos que sua astuta mãe lhe lançava, serviram para contê-lo. Ele obedeceu apenas à voz de seu temperamento obstinado, nunca sonhando com as consequências que poderiam recair sobre ele.

“Você levará ao Duca Valentino esta mensagem minha”, disse ele, ao concluir. “Você lhe dirá que as lanças que tenho em Babbiano pretendo manter, para que com elas eu possa defender minhas próprias fronteiras contra seus avanços de salteador. Messer da Lodi”, acrescentou ele, voltando-se para Fabrizio e sem sequer esperar para ver se o enviado tinha algo mais a dizer, “faça este cavalheiro ser reconduzido aos seus aposentos, e veja que ele tenha salvo-conduto daqui até que esteja fora de nosso Ducado.”

Quando o enviado, de rosto carmesim e olhos ameaçadores, retirou-se sob a escolta de Lodi, Monna Caterina levantou-se, a própria encarnação da paciência ultrajada, e derramou sua amarga invectiva sobre a cabeça de seu filho precipitado.

“Tolo!”, ela esbravejou contra ele. “Lá se vai seu Ducado — na palma da mão daquele homem.” Então ela riu com amargura. “Afinal, ao lançá-lo para longe de si, talvez tenha escolhido o caminho mais sábio, pois, tão certo quanto existe um Deus no Céu, você é totalmente incapaz de mantê-lo.”

“Minha senhora mãe”, respondeu ele, com a dignidade que pôde reunir da massa miserável na qual seu juízo parecia agora residir, “a senhora fará bem em dedicar-se às suas tarefas de mulher, e não interferir no trabalho de um homem.”

“Trabalho de homem!”, ela zombou. “E você o executa como um menino petulante ou uma mulher irritadiça.”

“Eu o executo, Madonna, como melhor me parece, pois acontece que sou Duque de Babbiano”, respondeu ele, taciturno. “Não temo nenhum filho de Papa que já tenha caminhado. A aliança com Urbino está quase concluída. Deixe que isso se estabeleça, e se Valentino mostrar os dentes — por Deus, mostraremos os nossos.”

“Sim, mas com esta diferença: os dele são dentes de lobo, e os seus de cordeiro. Além disso, esta aliança com Urbino está incompleta até agora. Teria sido melhor aconselhado se tivesse mandado embora o enviado com alguma promessa indefinida que lhe teria proporcionado trégua suficiente na qual selar os assuntos com a casa de Montefeltro. Do jeito que está, seus dias estão contados. Com essa mensagem que você enviou a ele, César agirá imediatamente. Pela minha parte, não tenho intenção de ser presa do invasor, e deixarei Babbiano, e buscarei refúgio em Nápoles. E, se uma última palavra de conselho posso lhe oferecer, é que faça o mesmo.”

Gian Maria levantou-se e desceu do estrado, observando-a com uma espécie de atordoamento embotado. Então ele olhou, como se em busca de ajuda, para Alvari, para Santi e, por último, para Lodi, que havia retornado enquanto Caterina falava. Mas nenhum deles disse uma palavra, e graves eram os olhos de todos.

“Vocês todos são de espírito fraco!”, ele zombou. Então seu rosto escureceu e seu tom concentrou-se. “Não sou assim”, garantiu-lhes ele, “se no passado posso ter parecido às vezes. Estou desperto finalmente, senhores. Ouvi uma voz nas ruas de Babbiano hoje, e vi uma cena que colocou fogo em minhas veias. Este Duque bonzinho, suave e indulgente que vocês conheciam, se foi. O leão acordou finalmente, e vocês verão coisas que não teriam sonhado.”

Eles o observavam agora com olhos nos quais a gravidade era aumentada por uma luz de temor, admiração e indagação. Estaria sua mente cedendo sob a prodigiosa tensão que lhe fora imposta naquele dia? Se não fosse loucura, o que mais aquela vanglória selvagem argumentava?

“Estão todos mudos?”, perguntou ele, seus olhos febris. “Ou consideram que prometo mais do que é meu para cumprir? Vocês julgarão, e logo. Amanhã, minha senhora mãe, enquanto a senhora viaja para o sul, como nos disse, eu volto para o norte, de volta a Urbino. Nem um dia perderei agora. Dentro da semana, senhores, pela graça de Deus, estarei casado. Isso nos dará Urbino como um escudo, e com Urbino vêm Perugia e Camerino. Mas mais do que isso. Há um dote principesco que vem para nós com a Lady Valentina. Como acham que o gastarei? Até o último florim irá para o armamento de homens. Contratarei todas as condottas livres na Itália. Levantarei um exército como nunca antes foi visto de uma só vez, e com isso buscarei o Duca Valentino. Não ficarei aqui em casa aguardando o prazer de sua chegada, mas irei encontrá-lo, e com esse exército descerei sobre ele como um raio vindo do Céu. Sim, minha senhora mãe”, ele riu em sua loucura, “o cordeiro caçará o lobo, e dilacerá-o de modo que ele nunca mais poderá ficar de pé para atacar outros cordeiros. Isso farei, meus amigos, e haverá combates como não se vê desde os longínquos dias de Castracani.”

Eles olhavam para ele, mal acreditando agora que estivesse são, e maravilhando-se profundamente de onde surgira esse súbito fervor marcial em alguém cuja natureza era mais indolente do que ativa, mais tímida do que guerreira. E, no entanto, a razão não era difícil de encontrar, se eles tivessem se preocupado em seguir a linha de pensamento à qual ele mesmo lhes dera a pista quando se referiu à voz que ouvira e às cenas que vira nas ruas de Babbiano. A voz era a voz que aclamara seu primo Francesco Duque. Foi através disso que um ciúme feroz o inflamara. Este homem roubara dele ao mesmo tempo o amor de seu povo e de Valentina, e assim estabelecera em seu coração o desejo ardente de superá-lo e de provar que tanto seu povo quanto Valentina estavam errados em sua preferência. Ele era como um jogador que arrisca tudo em uma única aposta, e sua aposta seria o dote de sua noiva, o jogo, um torneio com as forças dos Borgia. Se vencesse, sairia coberto de glória, e não apenas como o salvador de seu povo e o campeão de sua liberdade, mas como uma figura gloriosa que toda a Itália — ou, pelo menos, aquela parte dela que conhecera o calcanhar de ferro de Valentino — deveria reverenciar. Assim ele se corrigiria, e assim esmagaria de suas mentes a lembrança de seu primo rebelde com quem estava prestes a lidar.

A mãe dele voltou-se agora para ele, e suas palavras foram palavras de cautela, preces para que ele não se aventurasse em nada tão vasto e apavorante para a sua mente feminina, sem a devida reflexão e debate em conselho. Um servo entrou naquele momento e aproximou-se do Duque.

“Madonna”, anunciou Gian Maria, interrompendo as suas palavras fervorosas, “estou plenamente decidido quanto ao meu curso. Se apenas aguardar um momento e retomar o seu assento, testemunhará a primeira cena deste grande drama que estou a preparar.” Então, voltando-se para o servo que aguardava: “A tua mensagem?”, exigiu ele.

“O Capitão Armstadt regressou, Alteza, e trouxe a sua Excelência.”

“Traga luzes e depois deixe-os entrar”, ordenou ele brevemente. “Aos vossos lugares, senhores, e vós, minha mãe. Estou prestes a sentar-me em julgamento.”

Assombrados e sem compreender, eles obedeceram aos seus gestos frenéticos e retomaram os seus lugares junto ao trono, mesmo enquanto ele caminhava de volta para o estrado e se sentava na cadeira ducal. Servos entraram, carregando grandes candelabros de ouro batido, que colocaram sobre a mesa e a cornija da lareira. Retiraram-se, e quando as portas se abriram novamente, um tinir de malha, chegando-lhes do exterior, aumentou o espanto da companhia.

Este elevou-se ainda mais, deixando-os frios e mudos, quando entrou na câmara o Conde de Aquila com um soldado de cada lado, marcando-o como prisioneiro. Com um olhar rápido e abrangente que compreendeu todo o grupo em torno do trono — e sem manifestar a menor surpresa com a presença de Lodi — Francesco permaneceu imóvel e aguardou as palavras do seu primo.

Ele estava elegantemente vestido, mas sem luxo, e se tinha o ar de um grande senhor, isso derivava mais da distinção do seu rosto e do seu porte. Estava sem armas e descoberto, exceto pela coifa de ouro que usava sempre, a qual parecia acentuar a negrura lustrosa do seu cabelo. O seu rosto estava impassível, e o olhar era o de um homem algo cansado do entretenimento que lhe fora proporcionado.

Houve um silêncio opressivo de alguns momentos, durante o qual o seu primo o observou com um olho que brilhava estranhamente. Por fim, Gian Maria desatou a falar, a sua voz aguda de excitação.

“Sabes de alguma razão”, exigiu ele, “pela qual a tua cabeça não deveria ser exibida numa lança entre as outras no Portão de San Bacolo?”

As sobrancelhas de Francesco elevaram-se num espanto justificável.

“Conheço muitas”, respondeu ele, com um sorriso, uma resposta que pela sua simplicidade pareceu deixar o Duque perplexo.

“Ouçamos algumas delas”, desafiou ele logo de seguida.

“Não, ouçamos, antes, alguma razão pela qual a minha pobre cabeça deva ser tratada com tal dureza. Quando um homem é levado rudemente, como eu fui, é um costume, que talvez a vossa Alteza siga, conceder-lhe alguma razão para o ultraje.”

“Seu traidor de língua macia”, disse o Duque, com infinita malícia, tornando-se mais colérico devido à dignidade do seu primo. “Seu vilão de fala refinada! Quer aprender por que foi levado? Diga-me, senhor, o que fez em Acquasparta na manhã da quarta-feira antes da Páscoa?”

O rosto impassível do Conde permaneceu inescrutável, uma máscara de paciente assombro. Apenas pelo cerrar súbito das suas mãos ele traiu o modo como aquele golpe o atingira, e as suas mãos ninguém ali notou. Fabrizio da Lodi, de pé atrás do Duque, empalideceu até aos lábios.

“Não me recordo de ter feito lá nada de grande importância”, respondeu ele. “Respirei o bom ar da primavera nos bosques.”

“E nada mais?”, zombou Gian Maria.

“Não consigo lembrar-me de mais nada que signifique. Encontrei lá uma dama com quem conversei, um frade, um tolo, um pavão e alguns soldados. Mas” — mudou ele abruptamente, o seu tom tornando-se altivo — “o que quer que eu tenha feito, fi-lo como melhor me pareceu, e ainda tenho de aprender que o Conde de Aquila deve prestar contas do que faz e de onde o faz. Ainda não me disse, senhor, por que direito, ou suposto direito, me mantém prisioneiro.”

“Não disse, na verdade? Não vê qualquer ligação entre a sua ofensa e a sua presença perto de Sant' Angelo naquele dia?”

“Se devo depreender que me mandou trazer aqui com esta indignidade para me propor enigmas para o seu divertimento, estou esclarecido e, ainda assim, espantado. Não sou um bobo da corte.”

“Palavras, palavras”, cortou o Duque. “Não pense que me enganará com elas.” Com uma risada curta, ele voltou-se de Francesco para os que estavam no estrado. “Estarão a maravilhar-se, senhores, e vós, minha senhora mãe, sobre que fundamentos mandei prender este traidor. Devem saber. Na noite de terça-feira antes da Páscoa, sete traidores reuniram-se em Sant' Angelo para tramar a minha queda. Desses, as cabeças de quatro podem ser vistas nas muralhas de Babbiano agora; os outros três escaparam, mas ali está um deles — aquele que deveria ter ocupado este trono depois de me terem destronado.”

Os olhos de todos estavam agora postos no jovem Conde, enquanto o seu próprio olhar se desviava para o rosto de Lodi, no qual estava escrita uma consternação tão grande que o teria traído se o Duque tivesse olhado na sua direção. Seguiu-se uma pausa que ninguém presente ousou quebrar. Gian Maria parecia aguardar uma resposta de Francesco; mas Francesco permanecia impassivelmente a observá-lo, e não deu sinal de que iria falar. Por fim, incapaz de suportar mais o silêncio:

“E dunque?”, gritou o Duque. “Não tens resposta?”

“Eu submeteria”, respondeu Francesco, “que não ouvi nenhuma pergunta. Ouvi uma afirmação frenética, extravagante e louca, a acusação de alguém demente, uma acusação da qual não podem ser apresentadas provas, caso contrário, presumo que não as teria retido. Pergunto-vos, senhores, e a vós, Madonna”, continuou ele, voltando-se para os outros, “disse a sua Alteza algo a que uma resposta possa de alguma forma ser necessária?”

“São provas que te faltam?”, gritou Gian Maria, mas menos confiante do que anteriormente, e, portanto, menos feroz. Uma dúvida surgira na sua mente, nascida desta estranha calma por parte de Francesco — uma calma que, para a perceção de Gian Maria, dificilmente parecia o traje da culpa, mas pertencia antes a alguém que está seguro de que nenhum perigo o ameaça. “São provas que te faltam?”, disse o Duque novamente, e então com o ar de um homem lançando uma pergunta irrespondível: “Como obtiveste o ferimento que tiveste naquele dia nos bosques?”

Um sorriso vibrou no rosto de Francesco e desapareceu.

“Pedi provas, não perguntas”, protestou ele cansado. “O que provará se eu tivesse cem ferimentos?”

“Provar?”, ecoou o Duque, cada vez menos confiante no seu terreno, temendo já ter ido talvez demasiado rápido e demasiado longe no caminho das suas suspeitas. “Prova-me, quando aliado à sua presença lá, que esteve no combate na noite anterior.”

Francesco moveu-se com isso. Ele suspirou e sorriu ao mesmo tempo. Então, assumindo um tom de comando enérgico:

“Mande estes homens embora”, disse ele, apontando para os seus guardas. “Depois ouça-me espalhar as suas vis suspeitas como o furacão espalha as folhas no outono.”

Gian Maria olhou para ele estupefacto. Aquela segurança avassaladora, aquele porte altivo e digno que fazia um contraste tão nobre com a sua própria agressividade grosseira, estavam gradualmente a minar cada vez mais a sua confiança. Com um aceno de mão, indicou aos soldados que se retirassem, obedecendo quase inconscientemente à mente superior do seu primo, pela qual estava a ser, tão inconscientemente, influenciado.

“Agora, Alteza”, disse Francesco, assim que os homens se foram, “antes de refutar a acusação que faz, deixe-me entendê-la claramente. Pelas expressões que usou, deduzo que seja esta: uma conspiração foi tramada há pouco tempo em Sant' Angelo, que tinha como objetivo suplantar-vos no trono de Babbiano e colocar-me no vosso lugar. Acusa-me de ter tido nessa conspiração uma parte — a parte que me foi atribuída. É assim, não é?”

Gian Maria assentiu.

“Colocou-o muito claramente”, zombou ele. “Se conseguir provar a sua inocência tão claramente, ficarei satisfeito por ter errado a seu respeito.”

“Que esta conspiração ocorreu, aceitaremos como provado, embora para o povo de Babbiano a prova possa ter parecido escassa. Um homem, entretanto falecido, disse à vossa Alteza que tal plano estava a ser urdido. Dificilmente, talvez, por si só, prova suficiente para justificar colocar as cabeças de quatro cavalheiros muito valentes em lanças, mas sem dúvida a vossa Alteza tinha outras provas às quais o resto de nós não teve acesso.”

Gian Maria estremeceu com as palavras. Lembrou-se do que Francesco dissera na ocasião da sua última conversa sobre este mesmo assunto; lembrou-se do modo como ele próprio fora recebido naquele dia em Babbiano.

“Devemos contentar-nos que seja assim”, continuou calmamente Francesco. “Na verdade, a ação da vossa Alteza no assunto não deixa dúvidas. Aceitaremos, então, que tal conspiração foi tramada, mas que eu tive uma parte nela, que fui o homem escolhido para tomar o vosso lugar — será que preciso provar a vacuidade de tal acusação?”

“Precisas, na verdade. Por Deus! Precisas, se quiseres salvar a tua cabeça.”

O Conde permaneceu numa postura descontraída, com as mãos cruzadas atrás das costas, e sorriu para o rosto pálido e a testa franzida do seu primo.

“Como são misteriosos os caminhos da vossa justiça, primo”, murmurou ele, com infinito deleite; “que equidade maravilhosa investe os vossos métodos! Manda arrastar-me aqui à força e, sentado aí, diz-me: 'Prova que não conspiraste contra mim, ou o carrasco levar-te-á!' Pela minha fé! Salomão era um tagarela tolo quando comparado convosco.”

Gian Maria desferiu no braço dourado da sua cadeira um golpe pelo qual descobriria a sua mão negra no dia seguinte.

“Prova-o!”, gritou ele, como uma criança num acesso de raiva. “Prova-o, prova-o, prova-o!”

“E as minhas palavras não o provaram já?”, disse o Conde, com uma voz de tal suave espanto e gentil protesto que deixou Gian Maria a ofegar.

Então, o Duque fez um gesto apressado de impaciência.

“Messer Alvari”, disse ele, com uma voz de raiva concentrada, “penso que seria melhor chamar de volta a guarda.”

“Espere!”, o Conde obrigou-o, levantando a mão. E agora viu-se que a leve nonchalance tinha desaparecido do seu rosto: o sorriso tinha desaparecido, e no seu lugar havia um olhar de ira altiva e desprezadora. “Repetirei as minhas palavras. Arrastou-me aqui à sua frente à força e, sentado aí no trono de Babbiano, diz-me: 'Prova que não conspiraste contra mim se quiseres salvar a tua cabeça.'” Fez uma pausa de um segundo e notou o olhar intrigado com que todos o observavam.

“Isto é uma parábola?”, zombou o Duque incompreensivo.

“Disse-o”, retorquiu Francesco. “Uma parábola é. E se a considerar, não lhe oferece prova suficiente?”, perguntou ele, uma nota de triunfo na sua voz. “Não demonstram as nossas posições relativas, de forma irrefutável, a falta de fundamento desta sua acusação? Estaria eu aqui e estaria vós aí sentado se o que alegam contra mim fosse verdade?” Ele riu-se quase selvaticamente, e os seus olhos brilharam com desdém para o Duque. “Se precisa de forma ainda mais clara, Gian Maria, digo-lhe que, se eu tivesse tramado ocupar o seu trono vacilante, estaria nele agora, não aqui de pé a defender-me contra uma acusação tola. Mas pode duvidar? Não aprendeu nenhuma lição ao cavalgar até Babbiano hoje? Não os ouviu aclamar-me e gemer perante vós? E, no entanto”, terminou ele, com uma altiva piedade, “diz-me que tramei. Ora, se eu desejasse o seu trono, a minha única necessidade seria desfraldar o meu estandarte nas ruas da sua capital e, dentro de uma hora, Gian Maria já não seria Duque. Provei a minha inocência, Alteza?”, terminou ele calmamente, quase tristemente. “Está convencido de quão pouca é a minha necessidade de tramas?”

Mas o Duque não tinha resposta para ele. Mudo, e num tipo de horror atordoado, ele sentou-se e encarou o rosto bonito do seu primo, enquanto os outros o observavam furtivamente, em silêncio, tremendo pelo jovem que, ali, ao seu alcance, se atrevera a dizer-lhe tais coisas. Pouco depois, cobriu o rosto com as mãos e sentou-se assim, como alguém profundamente pensativo, por um momento. Por fim, retirou-as lentamente e apresentou um semblante que a paixão e o desgosto tinham estranhamente devastado em tão pouco tempo. Voltou-se para Santi, que estava mais próximo.

“A guarda”, disse ele roucamente, com um aceno de mão, e Santi foi, ninguém ousando proferir uma palavra. Esperaram assim, um grupo estranho, todos muito graves, exceto um, e ele o que tinha mais motivo para a gravidade. Então, o capitão reentrou, seguido pelos seus dois homens, e Gian Maria acenou com a mão na direção do prisioneiro.

“Levem-no embora”, murmurou ele asperamente, com o rosto cadavérico, e a paixão a fazê-lo tremer como um álamo. “Levem-no embora e aguardem as minhas ordens na antecâmara.”

“Se é um adeus, primo”, disse Francesco, “posso esperar que me envie um padre? Vivi como um cristão fiel.”

Gian Maria não lhe deu resposta, mas o seu olhar funesto estava sobre Martino. Lendo o significado daquele olhar, o capitão tocou levemente no braço de Francesco. Por um momento, o Conde permaneceu de pé, olhando do Duque para os soldados; por um segundo, o seu olhar repousou sobre os ali reunidos; então, com um leve erguer dos ombros, virou-se sobre os calcanhares e, com a cabeça erguida, passou para fora da câmara ducal.

E o silêncio continuou depois de ele ter partido, até que Caterina Colonna o quebrou com uma risada que irritou os nervos agora muito sensíveis de Gian Maria.

“Prometeste corajosamente”, zombou ela, “fazer o papel de leão. Mas, até agora, só ouvimos o zurro de um burro.”

CAPÍTULO XI. CAVALEIROS ERRANTES

Aquela provocação da sua mãe agitou Gian Maria. Ele levantou-se da sua cadeira ducal e desceu do estrado no qual ela repousava, possuído por um estado de espírito tempestuoso que não o deixava ficar quieto.

“O zurro de um burro?”, murmurou ele, virando-se para Caterina. Depois, riu-se de forma desagradável. “A queixada de um burro fez uma execução dolorosa numa ocasião, Madonna, e poderá fazê-lo novamente. Um pouco de paciência, e verás.” Em seguida, e com um ar mais enérgico, dirigiu-se aos quatro cortesãos silenciosos: “Ouviram-no, senhores”, exclamou ele. “Como dizem que devo lidar com tal traidor?” Aguardou alguns segundos por uma resposta, e pareceu irritá-lo que nenhuma viesse. “Não têm, então, conselho para mim?”, exigiu ele asperamente.

“Não pensava”, disse Lodi audaciosamente, “que este fosse um caso no qual a vossa Alteza precisasse de conselho. Foi levado a concluir que o Senhor de Aquila era um traidor, mas, pelo que todos ouvimos, a vossa Alteza deveria agora ver que ele não o é.”

“Deveria, então?”, retorquiu o Duque, permanecendo imóvel e fixando em Fabrizio um olho que era baço como o de uma serpente. “Messer da Lodi, a vossa lealdade é algo que tem dado sinais de vacilar ultimamente. Ora, se pela graça de Deus e dos Seus santos abençoados eu governei como um príncipe misericordioso que erra demasiado pelo lado da clemência, eu instar-vos-ia a não testar essa clemência demasiado. Sou apenas um homem, afinal de contas.”

Ele voltou-se da frente destemida apresentada pelo velho estadista para enfrentar os olhares perturbados dos outros.

“O vosso silêncio, senhores, diz-me que neste assunto o vosso julgamento corre paralelo ao meu. E são sábios, pois num caso destes só pode haver um curso. O meu primo proferiu palavras hoje que nenhum homem jamais disse a um príncipe e viveu. Nem abriremos exceção a essa regra. A cabeça do meu Senhor de Aquila deve pagar o preço da sua temeridade.”

“Meu filho”, gritou Caterina, com uma voz de horror. Gian Maria enfrentou-a com paixão, o seu semblante tornado manchado.

“Eu disse-o”, rosnou ele. “Não dormirei enquanto ele não morrer.”

“Mas nunca poderás acordar novamente”, respondeu ela. E com esse preâmbulo, ela lançou sobre a sua cabeça a crítica mais amarga que ele jamais ouvira. Por epítetos picantes e palavras desdenhosas, ela procurou fazê-lo ver a loucura do que planeava. Estaria ele realmente cansado de governar Babbiano? Se fosse esse o caso, disse-lhe ela, bastava esperar pela vinda de Cesare Borgia. Não precisava de precipitar as coisas com um ato que levaria a uma revolta, a um levantamento do povo para vingar o seu ídolo.

“Deu-me apenas razões acrescidas”, respondeu ele corajosamente. “Não há espaço no meu Ducado para um homem cuja morte, se me agradasse levá-la a cabo, seria vingada sobre mim pelo meu próprio povo.”

“Então envie-o para fora dos seus domínios”, instou ela. “Bane-o, e tudo poderá ficar bem. Mas se o matar, não contaria com a sua vida nem por um dia.”

Este conselho era sensato, e no final convenceram-no a adotá-lo. Mas não foi feito sem o custo de intermináveis preces por parte daqueles cortesãos, e as persuasões do desprezo mordaz de Caterina e profecias do destino que certamente o aguardava se tocasse na vida de alguém tão amado. Por fim, contra a sua vontade, ele consentiu tacitamente que o banimento do seu primo o satisfizesse. Mas foi com infinita amargura e arrependimento que ele deu a sua palavra, pois o seu ciúme era de uma qualidade que nada menos do que a morte de Francesco poderia ter aplacado. É certo que nada, exceto o medo das consequências, que a sua mãe incutira no seu coração, o poderia ter levado a contentar-se com o facto de o Conde de Aquila ser banido.

Ele mandou chamar Martino e ordenou-lhe que devolvesse ao Conde a sua espada, e confiou a mensagem de exílio a Fabrizio da Lodi, encarregando-o de informar Francesco de que lhe eram concedidas vinte e quatro horas de graça para se colocar para lá dos domínios de Gian Maria Sforza.

Feito isso — e com uma má vontade extrema — o Duque virou-se sobre os calcanhares e, com a testa sombria, deixou a câmara ducal e dirigiu-se, sem escolta, para os seus próprios aposentos.

Regozijando-se, Fabrizio da Lodi cumpriu a sua missão, a qual desincumbiu com certas adições que lhe poderiam ter custado a cabeça se o conhecimento delas chegasse a Gian Maria. De facto, aproveitou a oportunidade para pressionar novamente Francesco sobre o trono de Babbiano.

“A hora está muito madura”, insistiu ele com o Conde, “e o povo ama-o como certamente nenhum príncipe foi amado. É no interesse deles que pleiteio. É a sua única esperança. Não virá até eles?”

Se por um momento Francesco hesitou, foi mais em consideração pelo modo como a coroa lhe era oferecida do que em consequência de qualquer atração que a oferta pudesse ter tido para ele. Uma vez — naquela noite em Sant' Angelo — ele conhecera a tentação, e por um momento ouvira as seduções na voz que o convidava ao poder. Mas não agora. Deu um pensamento ao povo que tinha tanta fé nele, e o cobria com tal amor admirado, e a quem, como uma questão de reciprocidade, desejava o bem, e a quem teria servido em qualquer capacidade, exceto esta. Ele abanou a cabeça e, com um sorriso de pesar, recusou a oferta.

“Tenha paciência, velho amigo”, acrescentou ele. “Não sou do material de que são feitos os bons príncipes, embora pense que sim. É um cativeiro no qual não me venderia. A vida de um homem para mim, Fabrizio — uma vida livre que não é dirigida por conselheiros e à mercê da ralé.”

O rosto de Fabrizio tornou-se triste. Ele suspirou profundamente, contudo, uma vez que não seria bom para ele permanecer demasiado tempo à conversa com alguém que, aos olhos do Duque, estava manchado de traição, não teve lazer para insistir com persuasões, as quais, afinal, ele claramente via que acabariam por revelar-se estéreis.

“O que era a salvação do povo de Babbiano”, murmurou ele, “era também a de Vossa Excelência, visto que se adotasse o curso que eu insto, não haveria necessidade de partir para o banimento.”

“Ora, este exílio assenta-me maravilhosamente bem”, respondeu Francesco. “Tenho estado ocioso há tempo demais, e o desejo de vaguear corre-me de novo nas veias. Verei o mundo mais uma vez, e quando me cansar da minha vagabundagem, poderei retirar-me para as minhas terras de Aquila; e nesse canto da Toscana, demasiado insignificante para atrair o olhar de um conquistador, ninguém me molestará, e eu descansarei. Babbiano, meu amigo, não mais me conhecerá depois desta noite. Quando eu tiver partido, e o povo se der conta de que não pode ter o que deseja, talvez se contente com o que pode ter.” E acenou com a mão na direção das portas que conduziam aos aposentos ducais. Dito isto, despediu-se do seu velho amigo e, levando na mão a espada e a adaga que o Capitão Armstadt lhe devolvera, dirigiu-se apressadamente para a ala norte do Palácio, onde se alojara.

Na antecâmara, dispensou os criados que tinham sido recrutados entre o pessoal do Duque e ordenou aos seus próprios seguidores toscanos, Zaccaria e Lanciotto, que cuidassem de empacotar os seus pertences e preparassem tudo para partir dentro de uma hora.

Não era um cobarde, mas não tinha desejo de morrer tão cedo, caso isso pudesse ser evitado com honra. A vida ainda tinha algumas doçuras a oferecer a Francesco del Falco, e isso estimulou-o a apressar-se, pois bem conhecia os modos sem escrúpulos do seu primo. Estava ciente de que Gian Maria fora forçado, pelo peso dos argumentos, a deixá-lo partir, e temia astutamente que, se ele tardasse, o seu primo pudesse mudar de ideias novamente e, sem se deter para procurar conselho uma segunda vez, livrar-se dele sem demora e sem se preocupar com as consequências.

Enquanto Lanciotto ficava ocupado na antecâmara, o Conde entrou no seu quarto, acompanhado por Zaccaria, para proceder às mudanças de trajo que se tornavam convenientes. Mas mal tinha começado quando foi interrompido pela chegada de Fanfulla degli Arcipreti, a quem Lanciotto deixou entrar. O rosto de Francesco iluminou-se ao ver o seu amigo, e estendeu-lhe a mão.

“O que é que aconteceu?” exclamou o jovem fidalgo, acrescentando algo que mostrava que a sua pergunta era desnecessária, pois de Fabrizio da Lodi já recebera toda a história do que ocorrera. Sentou-se na cama e, ignorando totalmente a presença de Zaccaria — que sabia ser fiel —, tentou persuadir o Conde onde Fabrizio falhara. Mas Paolo interrompeu-o antes que fosse muito longe.

“Pára com isso”, disse ele, e embora o dissesse com uma risada, a determinação soava firme no seu tom. “Sou um cavaleiro errante, não um príncipe, e não serei convertido de um para o outro. Seria fazer um hilota de um homem livre, e não me amas, Fanfulla, se levares este argumento mais longe. Pensas que estou triste, abatido, com a perspetiva deste banimento? Ora, rapaz, o sangue corre mais veloz pelas minhas veias desde que ouvi a sentença. Liberta-me de Babbiano numa hora em que talvez o meu dever — a reciprocidade do amor do povo — me pudesse ter retido aqui, e dá-me a liberdade de partir, meu bom Fanfulla, em busca de tal aventura que eu escolha seguir.” Atirou os braços para fora e exibiu os seus dentes magníficos numa risada franca.

Fanfulla observou-o, contagiado pela alegria turbulenta do seu estado de espírito.

“Ora, verdadeiramente, meu senhor”, reconheceu, “sois um pássaro demasiado belo para cantar numa gaiola. Mas partir em busca de aventuras...” Ele hesitou e abriu as mãos em protesto. “Já não existem dragões a manter princesas em cativeiro.”

“Infelizmente, não. Mas os venezianos estão na iminência da guerra, e encontrarão trabalho para estas minhas mãos. Não me faltam amigos entre eles.”

Fanfulla suspirou.

“E assim perdemos-vos. O braço mais forte de Babbiano deixa-nos na hora da necessidade, expulso por aquele Duque grosseiro. Pela minha alma, Ser Francesco, quem me dera poder ir convosco. Aqui não há nada a fazer.”

Francesco parou no ato de calçar uma bota e levantou os olhos para fitar por um momento o seu amigo.

“Mas se o desejas, Fanfulla, regozijar-me-ei em ter a tua companhia.”

E agora a ideia entrou na mente de Fanfulla a sério, pois a sua expressão fora, mais ou menos, um devaneio. Mas já que Francesco o convidava, por que não, de facto?

E assim aconteceu que, à terceira hora daquela quente noite de maio, um grupo de quatro homens a cavalo e duas mulas de carga saiu de Babbiano e tomou o caminho que conduz a Vinamare, e de lá para o território de Urbino. Estes cavaleiros eram o Conde de Aquila e Fanfulla degli Arcipreti, seguidos por Lanciotto a conduzir uma mula que carregava as armas daqueles cavaleiros errantes, e Zaccaria a conduzir outra com a sua bagagem geral.

Cavalgaram toda a noite sob as estrelas, e continuaram até cerca de três horas depois do nascer do sol, quando fizeram uma paragem numa cavidade das colinas, não longe de Fabriano. Ataram os seus cavalos num bosque de loureiros pacíficos e amoreiras protetoras, ao pé de uma encosta plantada de oliveiras, cinzentas, retorcidas e curvadas como coxos idosos, e junto ao rio Esino, num ponto tão estreito que um homem ágil poderia saltar a sua largura. Ali, então, estenderam as suas capas, e Zaccaria desembalou os seus víveres e pôs diante deles uma refeição simples de pão, vinho e ave assada, que à sua fome soube melhor do que um banquete noutra ocasião. E quando comeram, deitaram-se junto ao riacho e ali passaram o tempo em conversa agradável até adormecerem. Descansaram durante o calor do dia e, acordando cerca de três horas depois do meio-dia, o Conde levantou-se e caminhou uma dúzia de passos riacho abaixo, até um ponto onde este caía num pequeno lago — uma piscina profunda e azul como o céu sem nuvens que espelhava. Ali despiu as suas vestes e mergulhou de cabeça, para emergir, momentos mais tarde, revigorado no corpo e na alma.

Quando Fanfulla acordou, viu uma aparição a aproximar-se dele, uma figura ágil e robusta como um deus silvestre, a água a brilhar na brancura de marfim da sua pele e a cintilar no seu cabelo negro conforme a luz do sol o apanhava.

“Diz-me agora, Fanfulla, vive um homem de mente tão depravada que preferiria uma coroa ducal a isto?”

E o cortesão, vendo o semblante radiante de Francesco, compreendeu talvez, finalmente, quão sórdida era a ambição que podia atrair um homem para longe de tal liberdade divina, e das alegrias santas e consumadoras que ela lhe trazia. Tendo os seus pensamentos iniciado esse rumo, foi sobre isso que conversaram enquanto o Conde retomava as suas vestes — as suas calças vermelhas, as botas de cano alto de couro não curtido e a sua brigantina acolchoada de pano castanho simples, considerada à prova de adaga. Ergueu-se finalmente para cingir o seu cinturão de aço martelado, do qual pendia, atrás dos rins, uma adaga robusta e comprida, a única arma que transportava.

À sua ordem, os cavalos foram selados e as mulas de carga carregadas uma vez mais. Lanciotto segurou-lhe o estribo, e Zaccaria fez o mesmo serviço por Fanfulla, e pouco depois cavalgavam para fora daquele bosque perfumado sobre a relva elástica de amplas pastagens verdes. Atravessaram o riacho num ponto onde a folha de água alargada mal chegava acima dos jarretes dos seus cavalos; depois, virando para leste, afastaram-se das colinas durante cerca de meia légua até alcançarem uma estrada. Aqui, voltaram de novo para norte e seguiram em frente em direção a Cagli.

Quando os sinos tocavam o Ave Maria, a cavalhada deteve-se diante do Palazzo Valdicampo, onde, duas noites antes, Gian Maria fora recebido. Os seus portões foram agora prontamente escancarados para saudar o ilustre e glorioso Conde de Aquila, que era estimado por Messer Valdicampo não menos do que o seu primo mais poderoso. Foram-lhe postos aposentos à disposição, assim como a Fanfulla; ordenou-se aos criados que os servissem; vestes frescas foram-lhes preparadas, e uma nobre ceia foi preparada para honrar Francesco. Nem o modo generoso de Valdicampo arrefeceu quando soube que Francesco estava em desgraça na Corte de Babbiano e banido dos domínios do Duque Gian Maria. Expressou um pesar simpático por tão inoportuna circunstância e discretamente absteve-se de emitir qualquer opinião sobre o assunto.

Contudo, mais tarde, enquanto cearam, e quando talvez os vinhos escolhidos tivessem algo relaxado a sua discrição, permitiu-se falar dos modos de Gian Maria em termos que estavam muito longe de ser elogiosos.

“Aqui, em minha casa”, informou-os, “ele cometeu um ultraje contra um pobre infeliz, do qual uma explicação ainda me pode ser pedida — já que foi sob o meu teto que a coisa aconteceu, embora eu não soubesse de nada.”

Ao ser pressionado por Paolo para lhes contar mais, partilhou a informação de que o infeliz em questão era o bobo de Urbino, Peppe. A isso, o olhar de Paolo tornou-se mais atento. A memória do seu encontro com o bobo e a sua amante na floresta, há um mês, atravessou agora a sua mente, e ocorreu-lhe que poderia adivinhar corretamente a fonte de onde o seu primo tinha extraído a informação que levara à sua própria prisão e banimento.

“De que natureza foi o ultraje?” inqueriu ele.

“Pelo que o próprio Peppe me contou, pareceria que o bobo possuía algum conhecimento que Gian Maria procurava, mas sobre o qual Peppe estava obrigado por juramento ao silêncio. Gian Maria mandou-o buscar secretamente e levado de Urbino. Os seus sbirri trouxeram o homem para aqui, e para o fazer falar, o Duque improvisou nos seus aposentos uma tratta di corde, que teve o resultado desejado.”

O rosto do Conde tornou-se sombrio de raiva. “O cobarde!” murmurou ele. “O vilão covarde!”

“Mas recordai-vos, senhor Conde”, exclamou Valdicampo, “que este pobre Peppe é uma criatura frágil e deformada, carente da força de um homem comum, e não o julgueis com demasiada dureza.”

“Não foi dele que falei”, respondeu Francesco, “mas do meu primo, aquele tirano cobarde, Gian Maria Sforza. Dizei-me, Messer Valdicampo — o que aconteceu a Ser Peppe?”

“Ele ainda está aqui. Tenho-o cuidado, e o seu estado já melhorou bastante. Não tardará muito até estar recuperado, mas por mais alguns dias os seus braços permanecerão quase inúteis. Foram quase arrancados do seu corpo.”

Quando a refeição terminou, Francesco pediu ao seu anfitrião que o conduzisse ao quarto de Peppe. Valdicampo fê-lo e, deixando Fanfulla na companhia das damas da sua casa, escoltou o Conde até ao quarto onde o pobre corcunda maltratado estava de cama, cuidado por uma das mulheres da criadagem de Valdicampo.

“Aqui está um visitante para vos ver, Ser Peppe”, anunciou o velho cavalheiro, pousando a sua vela numa mesa junto à cama. O bobo virou a sua cabeça grande em direção à do recém-chegado e procurou com olhos melancólicos o rosto do seu visitante. À sua vista, um olhar de terror espalhou-se pelo seu rosto.

“Meu senhor”, gritou, esforçando-se por se sentar, “meu nobre e gracioso senhor, tende piedade de mim. Eu poderia arrancar esta língua cobarde minha. Mas se soubésseis que agonias sofri, e a que tortura me submeteram para me tornar infiel, talvez vós próprio tivésseis piedade de mim.”

“Ora, isso tenho”, respondeu Francesco suavemente. “De facto, se eu pudesse ter visto as consequências que esse juramento teria para vós, não vos teria obrigado a ele.”

O medo no rosto de Peppe deu lugar à descrença.

“E perdoais-me, senhor?” exclamou ele. “Temia, quando entrastes, que viesseis para me punir pelo mal que vos possa ter feito ao falar. Mas se me perdoais, talvez o Céu também me perdoe, e que eu não seja condenado. E isso seria uma lástima mil vezes maior, pois o que faria eu no inferno, meu senhor?”

“Ridicularizar as agonias de Gian Maria”, respondeu Francesco, com uma risada.

“Valeria quase a pena arder por isso”, refletiu Peppe, estendendo uma mão, cujo pulso lacerado e inchado dava provas da tortura que sofrera. À sua vista, o Conde soltou uma exclamação de horror irado e apressou-se a perguntar pelo estado do pobre bobo.

“Já não é tão mau agora”, respondeu-lhe Peppe, “e é apenas devido à insistência de Messer Valdicampo que tenho permanecido na cama. Mal posso usar os meus braços, é verdade, mas estão a melhorar. Amanhã estarei de pé e espero partir para Urbino, onde a minha querida senhora deve estar angustiada com receios pela minha ausência, pois ela é uma senhora muito bondosa e de coração terno.”

Esta resolução de Peppe levou o Conde a oferecer-se para o conduzir a Urbino no dia seguinte, já que ele próprio seguiria por esse caminho — oferta que o bobo aceitou sem hesitação e com viva gratidão.

CAPÍTULO XII. A CURIOSIDADE DO BOBO

De manhã, Francesco partiu mais uma vez, acompanhado pelos seus criados, Fanfulla e o bobo. Este último estava agora tão recuperado que podia montar uma mula, mas para que a cavalgada não o cansasse demasiado, seguiram a pouco mais do que um passo de andadura ao longo dos belos vales do Metauro. Assim aconteceu que, quando a noite desceu, os encontrou ainda em viagem, a cerca de duas léguas de Urbino. Viajaram mais uma légua sob a luz da lua, e o bobo estava a entreter-nos com uma história engraçada colhida das brilhantes páginas de Messer Boccaccio, quando, de repente, os seus ouvidos aguçados captaram um som que o deixou mudo a meio de uma frase.

“Estais a sentir-vos fraco?” perguntou Francesco, voltando-se rapidamente para ele, atento ao estado doloroso do sujeito.

“Não, não”, respondeu o bobo, com uma prontidão que dissipou o alarme do Conde a esse respeito. “Pensei ter ouvido um som de marcha à distância.”

“O vento nas árvores, Peppino”, explicou Fanfulla.

“Não creio...” Ele interrompeu-se e ouviu, e agora todos o ouviram, pois chegou-lhes levado por uma rajada do vento inconstante que lhes batia no rosto.

“Tens razão”, disse Francesco. “É o passo de homens. Mas que tem isso, Peppe? Homens marcharão em Itália. Deixa-nos ouvir o fim da tua história.”

“Mas quem marcharia em Urbino, e de noite?” persistiu o bobo.

“Sei eu, ou importo-me?” disse o Conde. “A tua história, homem.”

Embora estivesse longe de estar satisfeito, o bobo retomou a sua narrativa. Mas já não a contava com o seu irresistível humor de antes. A sua mente estava ocupada com aquele som de marcha, que se aproximava constantemente. Por fim, não pôde suportá-lo mais, e a apatia dos seus companheiros levou-o a rebelar-se abertamente.

“Meu senhor”, gritou, voltando-se para o Conde e deixando novamente a sua história interrompida, “eles estão quase em cima de nós.”

“Verdade!” concordou Francesco com indiferença. “A próxima curva lá adiante deve levar-nos até eles.”

“Então peço-vos, Senhor Conde, que nos afastemos. Vamos fazer uma pausa aqui, sob as árvores, até que eles tenham passado. Estou cheio de medos. Talvez seja um cobarde, mas não gosto destes bandos errantes noturnos. Pode ser uma companhia de masnadieri.”

“E depois?” respondeu o Conde, sem abrandar o passo. “Que motivo temos para temer um grupo de ladrões?”

Mas Fanfulla e os criados juntaram os seus conselhos aos de Peppe e prevaleceram finalmente sobre Francesco para que se abrigasse até que esta companhia tivesse passado. Ele consentiu, para os apaziguar, e virando à direita entraram no limite da floresta, travando a marcha bem na sombra, de onde podiam observar a estrada e ver quem passava pela mancha de luar que a iluminava. E pouco depois a companhia surgiu e entrou naquele fluxo revelador de luz. Para espanto dos observadores, viram não um bando de saqueadores como tinham sido levados a esperar, mas uma companhia muito ordenada de cerca de vinte homens, sóbriamente vestidos com gibões de couro e saladas de aço brilhante, marchando com a espada à coxa e a pique ao ombro. À frente desta companhia cavalgava um homem de constituição poderosa num grande cavalo alazão, à vista do qual o bobo jurou suavemente de espanto. No meio do grupo seguiam quatro liteiras transportadas por mulas, e ao lado de uma delas cavalgava uma figura esguia e graciosa que provocou de Peppe um segundo juramento. Mas a injúria mais profunda de todas foi arrancada dele à vista de uma corpulência rechonchuda no hábito negro dos Dominicanos, que seguia a trote na retaguarda, e que estava, naquele momento, em altercação irada com um sujeito que incitava a sua mula com o cabo da sua alabarda.

“Que sejas assado numa grelha como São Lourenço”, arfava o padre irado. “Querias partir-me o pescoço, animal bruto que és? Espera apenas até chegarmos a Roccaleone e, por São Domingos, farei com que o teu comandante rufia te enforque por esta piada mal temperada.”

Mas o seu perseguidor riu-se como resposta e golpeou a mula de novo, um golpe desta vez que quase a fez empinar-se. O frade gritou em alarme irado e, continuando a esbravejar e a ameaçar o seu perseguidor, passou. Atrás dele vieram seis carroças pesadamente carregadas, cada uma puxada por uma parelha de bois, e a retaguarda do cortejo era completada por um rebanho de uma dúzia de ovelhas balidoras, pastoreadas por um soldado blasfemo. Passaram pelos observadores espantados, que permaneceram escondidos até que aquela companhia estranha se tivesse dissolvido na noite.

“Eu poderia jurar”, disse Fanfulla, “que aquele frade e eu já nos encontrámos antes.”

“Nem cometerias perjúrio”, respondeu-lhe o bobo. “Pois é aquele porco gordo, Frei Domenico — aquele que foi convosco ao Convento de Acquasparta para buscar unguentos para Sua Excelência.”

“O que faz ele naquela companhia, e quem são eles?” perguntou o Conde, virando-se para o bobo enquanto cavalgavam para fora da sua emboscada.

“Pergunta-me onde o diabo guarda as suas iscas”, disse o bobo, “e esforçar-me-ei por te responder. Mas quanto ao que faz Frei Domenico naquela galera, é mais do que posso arriscar adivinhar. Não é o único conhecido meu”, acrescentou Peppino. “Ali estava Ercole Fortemani, um rufia grande, sujo e fanfarrão que nunca vi senão em trapos, cavalgando à cabeça deles com vestes de uma integridade inusitada; e ali estava Romeo Gonzaga, que nunca soube ver sair de noite senão para uma marcação. Coisas estranhas devem estar a acontecer em Urbino.”

“E as liteiras?” inqueriu Francesco. “Não podes arriscar nenhum palpite quanto ao seu significado?”

“Nenhum”, disse ele, “exceto que podem justificar a presença de Messer Gonzaga. Pois as liteiras implicam mulheres.”

“Parece, bobo, que nem a tua sabedoria nos servirá. Mas ouviste o frade dizer que iam para Roccaleone?”

“Sim, ouvi isso. E por meio disso provavelmente saberemos o resto no final da nossa viagem.”

E sendo um homem de mente extremamente inquisitiva, o bobo iniciou as suas investigações no momento em que entraram pelos portões de Urbino de manhã — pois tinham chegado à cidade demasiado tarde para obter entrada nessa mesma noite, e foram forçados a procurar abrigo numa das casas junto ao rio. Foi ao Capitão do Portão que procurou informações.

“Pode dizer-me, Ser Capitan”, inqueriu, “que companhia foi aquela que viajou ontem à noite para Roccaleone?”

O capitão olhou-o por um momento.

“Não houve nenhuma que eu saiba”, disse ele. “Certamente nenhuma vinda de Urbino.”

“Tendes uma vigilância maravilhosa”, disse o bobo secamente. “Digo-vos que uma companhia de soldados, com cerca de vinte homens, seguiu ontem à noite de Urbino para Roccaleone.”

“Para Roccaleone?” repetiu o capitão, com um ar pensativo, mais atentamente do que antes, como se a repetição daquele nome tivesse sugerido algo à sua mente. “Ora, é o castelo de Monna Valentina.”

“Verdade, sábio senhor. Mas que dizer da companhia, e porque viajava assim, à noite?”

“Como sabeis que partiu de Urbino?” disse o capitão seriamente.

“Porque à frente reconheci o guerreiro rugidor Ercole Fortemani, no meio cavalgava Romeo Gonzaga, na retaguarda vinha Frei Domenico, confessor da Madonna — todos homens de Urbino.”

O rosto do oficial ficou púrpura com a notícia.

“Havia alguma mulher no grupo?” gritou ele.

— Não vi nenhuma — respondeu o bobo, em quem esta súbita avidez do capitão despertou cautela e reflexão.

— Mas havia quatro liteiras — interveio Francesco, cuja natureza era menos desconfiada e alerta que a do sábio bobo.

Tarde demais, Peppe lançou-lhe um olhar severo de advertência. O capitão soltou um grande juramento.

— É ela — exclamou, com segurança. — E esta comitiva viajava para Roccaleone, dizeis vós. Como o sabeis?

— Ouvimo-lo do frade — respondeu Francesco prontamente.

— Então, pela Virgem! Nós os temos. Olá! — Virou-se para eles e correu gritando para a guarita, para reemergir um momento depois com meia dúzia de soldados em seus calcanhares.

— Ao Palácio — ordenou, e enquanto seus homens cercavam o grupo de Francesco, disse ao Conde: — Vamos, senhor. Devedes vir conosco e contar vossa história ao Duque.

— Não há necessidade de toda esta força — respondeu Francesco friamente. — De qualquer modo, eu não poderia passar por Urbino sem ver o Duque Guidobaldo. Sou o Conde de Aquila.

Imediatamente, o comportamento do capitão tornou-se respeitoso. Apresentou suas desculpas pelas medidas violentas de seu zelo e ordenou que seus homens ficassem para trás. Ordenando-lhes que o seguissem, montou em um cavalo que lhe trouxeram e cavalgou vivamente pelo borgo ao lado do Conde. E enquanto cavalgava, contou-lhes o que a intuição rápida do bobo já lhe havia sussurrado. A dama Valentina fugira de Urbino durante a noite e, em sua companhia, tinham ido três de suas damas e — supunha-se também, uma vez que haviam desaparecido — Frei Domenico e Romeo Gonzaga.

Atônito com o que ouvia, Francesco pressionou seu informante por mais notícias; mas havia pouco mais que o capitão pudesse lhe dizer, além do fato de que se acreditava que ela fora levada a isso para escapar de seu casamento iminente com o Duque de Babbiano. Guidobaldo estava transtornado com o que havia acontecido e ansioso para trazer a dama de volta antes que as notícias de seu comportamento chegassem aos ouvidos de Gian Maria. Era, portanto, um assunto de não pouca satisfação para o capitão que a tarefa de levar a Guidobaldo esta notícia de seu paradeiro, que ele obtivera de Francesco e do bobo, coubesse a ele.

Peppe parecia sombrio e amuado. Se ao menos tivesse refreado sua maldita curiosidade, e se o Conde tivesse se alarmado a tempo e mantido a boca fechada, tudo poderia estar bem com sua amada patrona. Como as coisas estavam, ele — o único homem pronto a morrer para servi-la — fora o próprio a trair seu refúgio. Ouviu a risada do Conde, e o som dela foi combustível para sua raiva. Mas Francesco pensava apenas na audácia esplêndida da ação da dama.

— Mas estes homens de armas que ela levava consigo? — exclamou. — Com que propósito uma escolta tão numerosa?

O capitão olhou para ele por um momento.

— Não podeis adivinhar? — indagou. — Talvez não conheçais o Castelo de Roccaleone.

— Seria estranho se eu não conhecesse a fortaleza mais inexpugnável da Itália.

— Ora, então por que não se torna claro? Ela tomou esta companhia como guarnição e, em Roccaleone, claramente pretende resistir, à moda rebelde, aos desejos de Sua Alteza.

Diante disso, o Conde jogou a cabeça para trás e assustou os transeuntes com uma gargalhada tão franca quanto a que já cruzara seus lábios.

— Pela Hóstia! — ofegou ele, o riso ainda sufocando sua fala. — Eis aí uma donzela para vós! Ouvis o que o capitão diz, Fanfulla? Ela pretende resistir a este casamento pela força das armas, se necessário for. Ora, por minha alma, se Guidobaldo insistir na união depois disto, bem, então ele não tem coração, não tem sentimento. Por minha vida, ela é uma parenta de que tal príncipe guerreiro bem poderia se orgulhar. Não admira que não temam os Bórgia em Urbino. — E riu novamente. Mas o capitão o olhou com desdém, e Peppe franziu a testa.

— Ela é uma rameira rebelde — disse o capitão com amargura.

— Não, com calma — retrucou Francesco, apesar de ainda rir. — Se fôsseis de linhagem cavaleiresca, eu quebraria uma lança convosco por esse motivo. Sendo como é... — ele fez uma pausa, seu riso cessou e seus olhos escuros avaliaram o capitão de uma maneira curiosa. — É melhor deixá-la sem censura, Ser Capitano. Ela é da casa de Rovere e estreitamente aliada à de Montefeltro.

O oficial sentiu a repreensão, e o silêncio reinou entre eles depois disso.

Foi enquanto Francesco, Fanfulla e Peppe aguardavam na antecâmara pela admissão junto ao Duque que o bobo extravasou um pouco da amargura que sentia pela tagarelice deles. A esplêndida sala estava repleta de uma multidão cortês. Havia nobres e enviados magníficos, eclesiásticos sombrios e prelados vestidos de púrpura, capitães em aço e oficiais da corte em seda e veludo. No entanto, indiferente a quem pudesse ouvi-lo, Peppe expressou sua repreensão, e os termos que empregou não foram tão comedidos nem tão respeitosos quanto a patente do Conde ditava. Contudo, com aquela equanimidade de espírito que o tornava tão universalmente amado, Francesco não se ressentiu da reprovação do bobo. Ele viu que ela era merecida, pois lançava sobre o assunto uma luz que era nova e mais penetrante. Mas ele logo viu além do que o bobo, e sorriu diante das carrancas do outro.

— Não tão alto, Peppe — disse ele. — Superestimais o dano. Na pior das hipóteses, apenas antecipamos um pouco o que o Duque teria aprendido por outras fontes.

— Mas é exatamente esse pouco — as poucas horas ou dias — que causará o mal — retrucou o bobo, irritado, embora baixasse a voz. — Em poucos dias, Gian Maria estará de volta. Se ele se deparasse com a notícia de que a Dama Valentina estava desaparecida, que ela havia fugido com Romeo Gonzaga — pois isso, vereis, será a história que circulará em breve — achais que ele permaneceria aqui ou se preocuparia em continuar a cortejá-la? Nem pensar. Essas alianças que são apenas para fins de Estado, nas quais o coração não desempenha papel algum, exigem, pelo menos, que, do lado da dama, haja um registro imaculado pelo sopro do escândalo. Sua Alteza tê-lo-ia mandado para casa, e a Madonna teria se livrado dele.

— Mas por um preço estranho, Peppe — respondeu Francesco gravemente. — Ainda assim — acrescentou — concordo que eu teria servido melhor ao seu propósito mantendo silêncio. Mas não creio que tal caso vá arrefecer o ardor de meu primo. Estais enganado ao colocar isto entre as alianças nas quais o coração não desempenha papel algum. Do lado de meu primo — se tudo o que dizem for verdade — o coração desempenha um papel muito considerável, de fato. Mas, quanto ao resto — que mal fizemos nós?

— O tempo dirá — disse o corcunda.

— Dirá, então, que não fiz mal algum aos seus interesses. A esta altura, ela está a salvo em Roccaleone. O que, então, pode lhe acontecer? Guidobaldo, sem dúvida, irá até ela e, do outro lado do fosso, irá implorar-lhe que seja uma sobrinha obediente e que retorne. Ela oferecerá fazê-lo sob a condição de que ele lhe dê sua palavra principesca de não mais molestá-la com o assunto deste casamento. E então?

— Bem? — rosnou o bobo. — E então? Quem poderá dizer o que pode acontecer então? Digamos que Sua Alteza a subjugue pela força.

— Um cerco? — riu o Conde. — Tolice! Onde está vossa sabedoria, bobo! Pensais que o esplêndido Guidobaldo está ansioso para se tornar o espetáculo da Itália e descer à posteridade como o duque que sitiou sua sobrinha porque ela resistiu às suas ordens quanto ao assunto do seu casamento?

— Guidobaldo da Montefeltro pode ser um homem violento em ocasiões — o bobo respondia, quando o oficial que os deixara reapareceu com o anúncio de que Sua Alteza os aguardava.

Encontraram o Príncipe em um humor muito sombrio e, após cumprimentar Francesco com fria cerimônia, questionou-o sobre o assunto da comitiva que haviam encontrado na noite anterior. Conduziu estas indagações com dignidade característica e sem mais demonstração de preocupação do que se tivesse sido um caso de um falcão perdido. Agradeceu a Francesco pela informação e deu ordens para que o senescal colocasse apartamentos à disposição dele e de Fanfulla pelo tempo que lhes aprouvesse honrar sua corte. Com isso, dispensou-os, ordenando ao oficial que permanecesse para receber suas ordens.

— E isso — disse Francesco a Peppe, enquanto cruzavam a antecâmara atrás de um servo — é o homem que sitiaria o castelo de sua sobrinha? Por uma vez, senhor bobo, vossa sabedoria está em falta.

— Não conheceis o Duque, Excelência — respondeu o bobo. — Sob aquele exterior congelado queima uma fornalha, e não há loucura que ele não fosse capaz de cometer.

Mas Francesco apenas riu enquanto, de braços dados com Fanfulla, passava pelo corredor a caminho dos apartamentos para os quais o servo os conduzia.

CAPÍTULO XIII. GIAN MARIA FAZ UM VOTO

Em certa medida, os eventos que se seguiram quase tenderiam a mostrar que o bobo estava certo. Pois, mesmo que a noção de sitiar Valentina e subjugá-la pela força das armas não fosse a de Guidobaldo em primeiro lugar, ele emprestou um ouvido muito disposto ao conselho de que assim procedessem, quando instado furiosamente, dois dias depois, pelo Duque de Babbiano.

Ao ouvir a notícia, Gian Maria entregara-se a tal licença de raiva que fazia aqueles ao seu redor tremerem, desde o mais alto até o mais humilde. A decepção de sua paixão era, por si só, justificativa suficiente para isso; mas, além disso, Gian Maria via na fuga de Valentina a frustração daqueles planos audaciosos sobre os quais falara tão alto aos seus conselheiros e à sua mãe. Foi sua confiança nesses mesmos planos que o induzira a enviar aquela resposta desafiadora a César Bórgia. Como consequência disso, havia pressa — uma pressa desesperada — para que ele se casasse, uma vez que o casamento deveria lhe conferir o poder de cumprir suas bravas promessas de proteger sua coroa do Duque de Valentinois, para não falar da completa derrota dos Bórgia que ele se comprometera loucamente a realizar.

Que os destinos dos Estados fossem lançados aos ventos do Céu por uma garota era para ele algo tão insuportável quanto inesperado.

— Ela deve ser trazida de volta! — gritara ele, em sua paixão avassaladora. — Ela deve ser trazida de volta imediatamente.

— Verdade! — respondeu Guidobaldo, em seu modo sereno; — ela deve ser trazida de volta. Até aí, concordo convosco inteiramente. Dizei-me, agora, como a coisa deve ser realizada. — E havia sarcasmo em sua voz.

— Que dificuldades isso apresenta? — indagou Gian Maria.

— Nenhuma dificuldade — foi a resposta irônica. — Ela se trancou no castelo mais forte da Itália e me diz que não sairá de lá até que eu lhe prometa liberdade de escolha no assunto do casamento. Claramente, não há dificuldades ligadas ao fato de ela ser trazida de volta.

Gian Maria mostrou os dentes.

— Dás-me permissão para resolver isso à minha própria maneira? — perguntou ele.

— Não só te dou permissão, como te darei toda a assistência ao meu alcance, se puderes arquitetar um meio de atraí-la para fora de Roccaleone.

— Não hesito mais. Vossa sobrinha, Senhor Duque, é uma rebelde e, como rebelde, deve ser tratada. Ela guarneceu um castelo e lançou um desafio ao governante da terra. É uma declaração de guerra, Alteza, e guerra teremos.

— Recorreríeis à força? — perguntou Guidobaldo, com desaprovação latente em sua voz.

— À força das armas, vossa Alteza — respondeu Gian Maria, com presteza feroz. — Sitiarei este castelo dela e o reduzirei pedra por pedra. Oh, eu a teria cortejado gentilmente se ela tivesse me permitido, com palavras delicadas e modos refinados que as donzelas amam. Mas, uma vez que ela nos desafia, eu a cortejarei com arcabuzes e canhões, e buscarei, pela fome, fazê-la render-se à minha corte. Meu amor vestirá armadura para sujeitá-la, e juro a Deus que não farei a barba até que eu esteja dentro do seu castelo.

Guidobaldo parecia grave.

— Eu aconselharia medidas mais gentis — disse ele. — Sitiai-a se quiserdes, mas não recorrais a muita violência. Cortai seus recursos e deixai que a fome seja vossa advogada. Mesmo assim, temo que sejais motivo de riso para toda a Itália — acrescentou ele sem rodeios.

— Que se dane isso! Que os tolos riam se estiverem dispostos. Que forças ela tem em Roccaleone?

À pergunta, a testa de Guidobaldo escureceu. Foi como se ele tivesse se lembrado de alguma circunstância que permanecia esquecida.

— Uns vinte patifes liderados por um rufião notório chamado Fortemani. A companhia foi alistada, dizem-me, por um cavalheiro de minha corte, um parente de minha Duquesa, Messer Romeo Gonzaga.

— Ele está com ela agora? — ofegou Gian Maria.

— Ao que parece, está.

— Pelo Anel da Virgem de Perugia! — balbuciou Gian Maria em crescente consternação. — Sugere que eles fugiram juntos?

— Meu senhor! — a voz de Guidobaldo soou aguda e ameaçadora. — É da minha sobrinha que estais falando. Ela levou este cavalheiro consigo da mesma forma que levou três de suas damas e um ou dois pajens, para formar a comitiva que convém ao seu nascimento.

Gian Maria deu uma volta na sala, uma carranca enrugando sua testa e seus lábios apertados. As palavras orgulhosas de Guidobaldo não o convenceram de forma alguma. Mas o único desejo preponderante em seu coração naquele momento era humilhar a garota que ousara zombar dele, fazê-la curvar seu pescoço teimoso. Finalmente:

— Posso, de fato, me tornar o motivo de riso da Itália — murmurou ele, com voz concentrada —, mas cumprirei minha resolução, e meu primeiro ato ao entrar em Roccaleone será enforcar este patife Gonzaga em sua torre mais alta.

Naquele mesmo dia, Gian Maria começou seus preparativos para a expedição contra Roccaleone, e a notícia foi levada por Fanfulla a Francesco — pois este último deixara seus aposentos no palácio ao ouvir da chegada de Gian Maria e estava agora hospedado no sinal do "Sol".

Ao ouvir a notícia, ele soltou um juramento poderoso no qual consignou seu primo ao diabo, por quem, naquele momento, o declarou gerado.

— Acha — perguntou ele, quando estava mais calmo — que este homem Gonzaga é seu amante?

— É mais do que posso dizer — respondeu Fanfulla. — Há o fato de que ela fugiu com ele. Embora, quando questionei Peppe sobre este mesmo assunto, ele primeiro riu da noção com desprezo e depois ficou grave. "Ela não o ama, o pavão", disse ele; "mas ele a ama, ou então sou cego, e ele é um vilão, eu sei."

Francesco levantou-se, seu rosto muito sério e seus olhos escuros cheios de pensamentos inquietos.

— Pela Hóstia! É uma coisa vergonhosa — exclamou ele finalmente. — Esta pobre dama tão assediada de todos os lados por um bando de vilões, cada um mais inescrupuloso que o outro. Fanfulla, mandai chamar Peppe. Devemos despachar o bobo até ela com um aviso da chegada de Gian Maria e, também, um aviso contra este homem de Mântua com quem ela fugiu.

— Tarde demais — respondeu Fanfulla. — O bobo partiu esta manhã para Roccaleone, para se juntar à sua patrona.

Francesco demonstrou seu desalento.

— Ela estará perdida — gemeu ele. — Assim, entre a pedra superior e a inferior — entre Gian Maria e Romeo Gonzaga. Gesù! Ela estará perdida! E ela, tão corajosa e tão cheia de espírito!

Ele moveu-se lentamente para a janela e ficou olhando para as janelas do outro lado da rua, nas quais o sol poente incidia com um brilho avermelhado. Mas não eram as janelas que ele via. Era uma cena nos bosques em Acquasparta naquela manhã após a luta na montanha; um homem caído, ferido na samambaia, e sobre ele uma dama gentil debruçada com olhos de piedade e solicitude. Muitas vezes, desde então, seus pensamentos revisitaram aquela cena, às vezes com um sorriso, às vezes com um suspiro e, às vezes, com ambos ao mesmo tempo.

Ele virou-se repentinamente para Fanfulla. — Eu mesmo irei — anunciou.

— Vós? — ecoou Fanfulla. — Mas os venezianos?

Por um gesto, o Conde sinalizou o quão pouco os venezianos pesavam para ele quando comparados com a sorte desta dama.

— Estou indo para Roccaleone — insistiu ele —, agora — imediatamente. — E caminhando até a porta, bateu as mãos e chamou Lanciotto.

— Dissestes, Fanfulla, que nestes dias não há mais donzelas mantidas em cativeiro a quem um cavaleiro errante possa prestar auxílio. Estáveis enganado, pois em Monna Valentina temos a donzela cativa, em meu primo o dragão, em Gonzaga outro, e em mim o cavaleiro errante que está destinado — espero — a salvá-la.

— Vós a salvareis de Gian Maria? — questionou Fanfulla, incrédulo.

— Tentarei.

Ele virou-se para seu servo, que entrara enquanto ele falava.

— Partimos em um quarto de hora, Lanciotto — disse ele. — Sela para mim e para ti. Tu vais comigo. Zaccaria pode permanecer com Messer degli Arcipreti. Tu cuidarás dele, Fanfulla, e ele te servirá bem.

— Mas e quanto a mim? — gritou Fanfulla. — Não vos acompanharei?

— Se quiserdes, sim. Mas poderíeis servir-me melhor retornando a Babbiano e observando os eventos lá, enviando-me notícias do que acontece — pois grandes coisas acontecerão em breve se meu primo não retornar e os Bórgia avançarem. É nisto que estou baseando as esperanças que tenho.

— Mas para onde vos enviarei notícias? Para Roccaleone?

Francesco refletiu por um momento. — Se não tiverdes notícias minhas, então enviai vossas notícias para Roccaleone, pois se eu me demorar lá e formos sitiados, talvez seja impossível enviar uma mensagem para vós. Mas se — como espero — eu for para Aquila, enviar-vos-ei notícias disso.

— Para Aquila?

— Sim. Pode ser que eu esteja em Aquila antes que a semana termine. Mas mantende isso em segredo, Fanfulla, e eu enganarei esses duques até o topo de sua inclinação doentia.

Meia hora depois, o Conde de Aquila, montado em um robusto cavalo da Calábria e acompanhado por Lanciotto em uma mula, cavalgou suavemente em direção ao vale. Eles passaram despercebidos, pois o que importavam para eles os camponeses que cantavam em seus trabalhos no contado?

Encontraram um mercador, cujo servo estava impelindo suas bestas de carga carregadas pela estrada montanhosa até a cidade nas colinas, e passaram por ele com uma saudação cortês. Mais adiante, encontraram uma companhia montada de nobres e damas, retornando de uma festa de falcoaria, e seguidos por atendentes carregando seus falcões encapuzados, e suas risadas alegres ainda soavam nos ouvidos de Francesco depois que ele passou de sua vista e desapareceu nas névoas púrpuras do anoitecer que vinham ao seu encontro a partir do rio.

Viraram para oeste em direção aos Apeninos e seguiram adiante após o cair da noite, até a quarta hora, quando, por sugestão de Francesco, refrearam diante de uma estalagem sonolenta à beira da estrada e despertaram o hospedeiro para pedir abrigo. Lá, não dormiram mais do que até as matinas, de modo que a luz cinzenta do amanhecer os viu mais uma vez a caminho, e, no momento em que o sol atingiu com seu primeiro raio dourado a crista cinzenta das velhas colinas, eles refrearam na borda da torrente rugidora, ao pé do poderoso penhasco que era coroado pelo Castelo de Roccaleone.

Sombrio e descarnado, ele surgia acima do vale fértil, com aquela torrente circulando-o em um fosso natural, como um sentinela gigante dos Apeninos que eram seu pano de fundo. E agora a luz do sol corria pelas encostas das velhas montanhas como uma maré. Atingiu a torre quadrada da fortaleza, depois fluiu pela muralha, fazendo a velha pedra cinzenta brilhar e refletindo em uma janela com mainel colocada no alto. Desceu mais, revelando gárgulas grotescas, inundando as ameias creneladas e tornando verde a hera e o líquen que, um momento antes, haviam escurecido os robustos contrafortes salientes. De lá, saltou para o solo e empurrou a sombra à sua frente encosta abaixo, até chegar ao riacho e brilhar em suas águas espumantes e turbulentas, espalhando cem cores através da névoa voadora.

E todo aquele tempo, até que o sol o alcançasse e o incluísse no quadro que estava despertando, o Conde de Aquila sentava-se em sua sela, com olhos pensativos voltados para a fortaleza.

Então, Lanciotto seguindo-o, ele conduziu seu cavalo pelo lado ocidental, onde a torrente era substituída por um braço de água calmo, para o qual um corte fora feito a fim de completar o isolamento do penhasco de Roccaleone. Mas aqui, onde o castelo poderia mais facilmente ter se tornado vulnerável, uma parede lisa o saudou, interrompida por não mais do que uma ou duas frestas estreitas a meio caminho abaixo das ameias. Ele cavalgou em direção ao lado norte, atravessando uma passarela que cruzava o rio e, por fim, parando diante da torre de entrada. Aqui, novamente, o fosso era formado pelas águas torrenciais da correnteza da montanha.

Ele ordenou que seu servo despertasse os ocupantes, e Lanciotto bradou com uma voz que a natureza fizera profunda e poderosa. O eco dela retumbou para espantar os pássaros na encosta, mas não evocou resposta do castelo silencioso.

— Eles mantêm uma vigília zelosa — riu o Conde. — Novamente, Lanciotto.

O homem obedeceu-o, e mais e mais sua voz profunda soou como um toque de trombeta antes que um sinal fosse feito de dentro de que fora ouvida. Por fim, acima do parapeito da torre, apareceu uma figura atarracada com a cabeça desgrenhada, quase tão grotesca quanto qualquer uma das gárgulas abaixo, e um rosto corujesco espiou-os de uma das ameias do parapeito e exigiu, em tons mal-humorados e roucos, seus negócios. Instantaneamente, o Conde reconheceu Peppe.

— Bom dia, tolo — ordenou-lhe.

— O senhor, meu lorde? — exclamou o bobo.

— Vós dormis profundamente em Roccaleone — disse Francesco. — Agitai essa guarnição de velhacos vossa e ordenai aos cães preguiçosos que baixem a ponte. Tenho notícias para Monna Valentina.

— Imediatamente, Excelência — respondeu o tolo, e teria ido no mesmo instante, não fosse o fato de Francesco tê-lo chamado de volta.

— Dizei, Peppe, um cavaleiro... o cavaleiro que ela encontrou em Acquasparta, se quiserdes. Mas deixai meu nome por dizer.

Com a garantia de que obedeceria aos seus desejos, Peppe seguiu em sua tarefa. Um leve atraso se seguiu, e então, sobre as ameias, apareceu Gonzaga, sonolento e contencioso, acompanhado por um par dos velhacos de Fortemani, que vieram perguntar a natureza dos negócios de Francesco.

— É com Monna Valentina — respondeu-lhe Francesco, elevando a cabeça e a voz, de modo que Gonzaga o reconheceu como o cavaleiro ferido de Acquasparta, lembrou-se dele e franziu a testa.

— Sou o capitão de Monna Valentina aqui — anunciou ele, com arrogância. — E podeis entregar a mim as mensagens que trazeis.

Seguiu-se uma contenda, conduzida de forma mal-humorada por parte de Gonzaga e quase tão mal-humorada por parte do Conde, com Francesco recusando-se obstinadamente a comunicar seus negócios a qualquer um que não fosse Valentina, e Gonzaga recusando-se com a mesma obstinação a perturbar a dama àquela hora, ou a baixar a ponte. Palavras voaram entre eles através das águas do fosso, e tornaram-se mais acaloradas a cada nova troca, até que, no final, foram abruptamente terminadas pelo aparecimento da própria Valentina, acompanhada por Peppino.

— O que é isso, Gonzaga? — ela indagou, seu modo excitado, pois o tolo lhe dissera que era o cavaleiro Francesco quem buscava admissão, e, ao simples menção do nome, ela corara, depois empalecera, depois correra para as muralhas. — Por que a este cavaleiro é negada a admissão, uma vez que ele traz uma mensagem para mim? — E, de onde estava, ela buscou com olhos admiradores a forma graciosa do Conde de Aquila... o cavaleiro andante de seus sonhos. Francesco descobriu a cabeça e curvou-se até a cernelha de seu cavalo em cortês saudação. Ela virou-se para Gonzaga impacientemente.

— Por que esperais? — ela clamou. — Não compreendestes meus desejos? Que a ponte seja baixada.

— Refleti, Madonna — ele protestou. — Não conheceis este homem. Ele pode ser um espião de Gian Maria... um mercenário pago para nos trair.

— Vosso tolo — respondeu ela asperamente. — Não vedes que é o cavaleiro ferido que encontramos naquele dia em que me escoltáveis para Urbino?

— O que isso deve significar? — exigiu ele. — É prova de sua honestidade de propósito ou lealdade para convosco? Sede aconselhada, Madonna, e deixai que ele entregue sua mensagem de onde está. Ele está mais seguro lá.

Ela o mediu com um olhar determinado.

— Messer Gonzaga, ordenai que baixem a ponte — ordenou-lhe.

— Mas, minha senhora, refleti sobre vosso perigo.

— Perigo? — ecoou ela. — Perigo de dois homens, e nós uma guarnição de mais de vinte? Certamente é covarde o homem que fala tão prontamente de perigos. Fazei baixar a ponte levadiça.

— Mas se... — começou ele, com uma veemência desesperada, quando ela o cortou novamente.

— Devo ser obedecida? Sou a senhora, e ordenareis que baixem a ponte, ou devo eu mesma cuidar disso?

Com um olhar de raiva desesperada e um encolher de ombros, ele virou-se dela e despachou um de seus homens com uma ordem. Poucos momentos depois, com um ranger de dobradiças e um retinir de correntes, a grande ponte balançou para baixo e caiu com um baque para atravessar o abismo. Instantaneamente, o Conde esporeou seu cavalo para frente e, seguido por Lanciotto, atravessou a tábua e passou sob o arco da torre de entrada para o primeiro pátio.

Ora, mal ele havia puxado as rédeas ali quando, através de uma porta na extremidade oposta, apareceu a figura gigantesca de Fortemani, semivestido e espada em punho. Ao ver Francesco, o sujeito saltou meia dúzia de degraus e avançou em sua direção com uma rajada de juramentos.

— A mim! — gritou ele, com uma voz que poderia ter despertado os mortos. — Olá! Olá! Que obra do diabo é esta? Como viestes aqui? Por ordens de quem a ponte foi baixada?

— Por ordens do capitão de Monna Valentina — respondeu Francesco, perguntando-se que louco poderia ser este.

— Capitão? — gritou o outro, parando e com o rosto tornando-se púrpura. — Corpo de Satanás! Que capitão? Eu sou o capitão aqui.

O Conde olhou-o de cima a baixo com surpresa.

— Ora, então — disse ele —, sois o próprio homem que procuro. Parabenizo-vos pela vigília que mantendes, Messer Capitano. Vosso castelo é tão excelentemente patrulhado que, se eu estivesse disposto a uma escalada, teria escalado vossas muralhas e entrado por vossos portões sem despertar nenhum de vossos sentinelas adormecidos.

Fortemani observou-o com um olhar ameaçador. A prosperidade dos últimos quatro dias aumentara a insolência inerente ao homem.

— É esse o vosso problema? — rosnou ele ameaçadoramente. — Sois ousado demais, senhor estranho, para buscar uma briga comigo, e atrevido demais para me dizer como devo exercer minha capitania. Pela Paixão! Deveis ser punido.

— Punido... eu? — ecoou Francesco, em cuja testa agora descia um cenho tão negro quanto o de Ercole.

— Sim, punido, jovem senhor. Ercole Fortemani é meu nome.

— Ouvi falar de vós — respondeu o Conde com desprezo —, e de como desmentis esse vosso nome, pois me dizem que um patife mais bêbado, covarde e imprestável não pode ser encontrado na Itália... não, nem mesmo nos domínios do Papa. E tomai cuidado com o modo como atirais a palavra 'punição' aos vossos superiores, animal. O fosso não é tão distante, e a imersão pode vos fazer bem. Pois eu juraria que não fostes lavado desde que vos batizaram... se, de fato, sois mesmo um filho da Santa Igreja.

— Sangue di Cristo! — cuspiu o valentão enfurecido, seu rosto manchado. — Isso para mim? Descei desse cavalo.

Ele agarrou a perna de Francesco para arrastá-lo ao chão, mas o Conde a livrou com um movimento rápido que deixou um corte de sua espora nas mãos do capitão. Simultaneamente, ele levantou seu chicote e teria lançado a ponta dele através das costas largas de Fortemani — pois o irritara além das palavras ter um rufião da qualidade deste sujeito tentando pavonear-se com ele — mas, naquele momento, uma voz feminina, severa e imperativa, ordenou que contivessem sua briga.

Fortemani recuou, cuidando da mão lacerada e murmurando maldições, enquanto Francesco virava-se na direção de onde aquela voz viera. No meio da escadaria de pedra, ele viu Valentina, seguida por Gonzaga, Peppe e um par de homens de armas, descendo das ameias.

Calma e real, ela estava de pé, vestida com uma camorra de veludo cinza com mangas pretas, que realçava excelentemente sua altura formosa. Gonzaga estava inclinado para frente, falando ao ouvido dela, e, embora sua voz fosse contida, algumas de suas palavras viajaram até Francesco no ar calmo da manhã.

— Não fui sábio, Madonna, ao hesitar em admiti-lo? Vedes que tipo de homem ele é.

O sangue flamejou nas faces de Francesco, nem suavizou seu desgosto notar o olhar que Valentina lançou para ele.

Instantaneamente, ele saltou para o chão e, atirando suas rédeas a Lanciotto, avançou até o pé daquela escadaria de pedra, seu chapéu largo jogado para trás sobre os ombros, para encontrar aquela companhia que descia.

— É isso conveniente, senhor? — ela questionou com raiva. — Convém-vos brigar com minha guarnição no momento em que sois admitido?

O sangue subiu mais ao rosto de Francesco, e agora sufocou suas têmporas e alcançou seu cabelo. No entanto, sua voz estava bem contida quando ele respondeu:

— Madonna, este velhaco foi insolente.

— Uma insolência que, sem dúvida, provocastes — intrometeu-se Gonzaga, uma covinha aparecendo em sua face feminina. Mas a repreensão mais severa caiu dos lábios de Valentina.

— Velhaco? — ela questionou, com o semblante corado. — Se não quereis que eu me arrependa de vossa admissão, Messer Francesco, rogo-vos que refreeis vossas palavras. Aqui não há velhacos. Aquele, senhor, é o capitão de meus soldados.

Francesco curvou-se submissamente, tão paciente sob sua repreensão quanto fora apressado sob a de Fortemani.

— Foi sobre o assunto desta capitania que caímos em palavras — respondeu ele, com mais humildade. — Pelo seu próprio anúncio, entendi que este nobre — e seus olhos voltaram-se para Gonzaga — fosse vosso capitão.

— Ele é o capitão do meu castelo — informou ela.

— Como vedes, Ser Francesco — intrometeu-se Peppe, que se empoleirara no parapeito —, não sofremos de falta de capitães aqui. Temos também Fra Domenico, que é o capitão de nossas almas e da cozinha; eu mesmo sou o capitão de...

— O diabo te leve, tolo — disparou Gonzaga, empurrando-o rudemente de seu poleiro. Então, virando-se abruptamente para o Conde: — Trazeis uma mensagem para nós, senhor? — questionou ele altivamente.

Engolindo o tom cavalheiresco e ignorando o pronome que Gonzaga empregara, Francesco inclinou a cabeça novamente para a dama.

— Eu preferiria entregá-la com mais privacidade do que esta. — E seu olhar percorreu o pátio e subiu os degraus atrás, onde estava agora reunida toda a companhia de Fortemani. Gonzaga zombou e jogou seus cachos dourados, mas Valentina não viu nada de desarrazoado no pedido e, ordenando a Romeo que a acompanhasse e a Francesco que a seguisse, ela liderou o caminho.

Eles atravessaram o quadrângulo e, subindo os degraus pelos quais Fortemani passara correndo para encontrar o Conde, passaram para o salão de banquetes, que se abria diretamente para o lado sul do pátio. O Conde, seguindo em seu rastro, passou pela prova das carrancas dos mercenários reunidos. Ele caminhou passando por eles imperturbável, medindo-os enquanto passava e estimando seu verdadeiro valor com o olho infalível do condottiero experiente que teve que lidar com o alistamento de homens e o manejo deles. Ele gostou tão pouco de suas aparências que, no limiar do salão, parou e deteve Gonzaga.

— Reluto em deixar meu servo à mercê daqueles rufiões, senhor. Posso implorar que os avise contra oferecer-lhe violência?

— Rufiões? — gritou a dama com raiva, antes que Gonzaga pudesse oferecer uma resposta. — Eles são meus soldados.

Novamente ele curvou-se, e havia uma fria polidez nos tons com que ele a respondeu:

— Peço vosso perdão, e não direi mais nada... a menos que seja para deplorar que não possa vos felicitar pela vossa escolha.

Foi a vez de Gonzaga ficar com raiva, pois a escolha fora dele.

— Vossa mensagem precisará ser de peso, senhor, para ganhar nossa paciência para vossa impertinência.

Francesco retribuiu o olhar daqueles olhos azuis que em vão buscavam brilhar ferozmente, e ele fez pouco esforço para impedir que seu desprezo transparecesse em seu olhar. Ele permitiu-se até encolher os ombros um pouco impacientemente.

— De fato, de fato, penso que seria melhor que eu me fosse — respondeu ele com pesar —, pois é um lugar cujos ocupantes parecem todos dispostos a brigar comigo. Primeiro vosso capitão Fortemani me saúda com uma insolência difícil de deixar impune. Vós mesma, Madonna, ressentis que eu deva implorar proteção para meu homem contra aqueles sujeitos cujas aparências dão margem à minha solicitação. Estais zangada por eu tê-los apelidado de rufiões, como se eu tivesse seguido a carreira das armas por dez anos sem adquirir conhecimento da qualidade de um homem, não importa o quanto possais disfarçá-lo. E, por último, para coroar tudo, este cicisbeo — e ele espalhou uma mão com desprezo em direção a Gonzaga — fala de minhas impertinências.

— Madonna — gritou Gonzaga —, imploro que me deixeis lidar com ele.

Sem saber, sem querer, Gonzaga salvou a situação com aquela prece. A raiva que subia rapidamente no coração de Madonna, agitada pelo porte orgulhoso do Conde, espalhou-se diante do humor inconsciente do apelo de seu capitão, em contraste tão ridículo estavam seu discurso afetado e figura esguia com os tons firmes e a altura esguia e ativa de Francesco. Ela não riu, pois isso teria sido estragar tudo, mas olhou de um para o outro com prazer silencioso, notando o olhar de surpresa e as sobrancelhas levantadas com que o Conde recebeu o pedido do cortesão para que o deixasse lidar com ele. E assim, sendo desviada da raiva, o equilíbrio de sua mente foi rápido em ajustar-se, e ela pensou que talvez houvesse razão no que este cavaleiro propunha, e que sua recepção carecera da cortesia que lhe era devida. Em um momento, com graça e habilidade incomparáveis, ela acalmara a vaidade ferida de Gonzaga e apaziguara o ressentimento mais robusto do Conde.

— E agora, Messer Francesco — ela concluiu —, sejamos amigos, e deixai-me ouvir vossos negócios. Rogo-vos que vos senteis.

Eles passaram para o salão de banquetes — um nobre apartamento, cujas paredes eram afrescadas com cenas de caça e pastoris, uma ou duas das quais eram obra de Pisaniello. Havia, também, alguns troféus de caça perdidos e, aqui e ali, uma armadura cara que capturava a luz do sol que entrava pelas altas janelas com colunas. Na extremidade distante, havia uma tela de cedro ricamente esculpida, e acima dela aparecia o corrimão retorcido da galeria dos menestréis. Em uma alta poltrona de couro não curtido, na cabeceira da espaçosa mesa, Monna Valentina sentou-se, Gonzaga tomando seu lugar ao lado dela, e Francesco à sua frente, apoiando-se levemente na mesa.

— As notícias que trago-vos, senhora, são logo ditas — disse o Conde. — Eu gostaria que sua qualidade fosse melhor. Vosso pretendente Gian Maria, retornando à corte de Guidobaldo, ansioso pelas núpcias que lhe foram prometidas, soube de vossa fuga para Roccaleone e está levantando... de fato, já deve ter levantado a esta altura... um exército para investir e reduzir vossa fortaleza.

Gonzaga ficou tão pálido quanto o colete de seda branca que brilhava sob seu gibão de veludo cor de pérola com essa realização das profecias que ele proferira sem acreditar. Um medo doentio possuiu sua alma. Que destino eles reservariam para ele, que fora o espírito líder na rebelião de Valentina? Ele poderia ter gemido em voz alta com esse fracasso de todos os seus belos planos. Onde agora haveria tempo para falar de amor, para pressionar e levar adiante seu cortejo com Valentina e tornar-se seu marido? Haveria guerra no ar, e um trabalho sangrento que fazia sua pele arrepiar e gelar ao ponderar. E a ironia de tudo isso era profundamente cruel. Era a própria contingência que ele profetizara, assegurando que nem Guidobaldo nem Gian Maria seriam loucos o suficiente para cortejar o ridículo ao se engajarem nela.

Por um segundo, os olhos de Francesco repousaram no rosto do cortesão e viram o medo escrito ali para todos lerem. A sombra de um sorriso tremia em seus lábios enquanto seu olhar seguia para encontrar os olhos de Valentina, brilhando como brilha a geada sob o sol.

— Ora, que venham! — exclamou ela, quase em exultação. — Este pateta ducal me encontrará muito preparada para ele. Estamos armados em todos os pontos. Temos víveres para durar três meses, se necessário, e não nos faltam armas. Que Gian Maria venha, e ele descobrirá que Valentina della Rovere não é tão fácil de reduzir. A vós, senhor — continuou ela, com mais calma —, a vós, sobre quem não tenho reivindicação, sou mais do que grata por vosso ato cavalheiresco de cavalgar até aqui para me avisar.

Francesco suspirou; um olhar de pesar atravessou seu rosto.

— Ai de mim! — disse ele. — Quando cavalguei até aqui, Madonna, esperava servir-vos com um propósito melhor. Eu tinha conselhos a oferecer e assistência, caso precisásseis; mas a visão daqueles vossos homens de armas me faz temer que não seja um conselho sobre o qual seria sábio agir. Pois, para o plano que eu tinha em mente, seria de primeira importância que vossos soldados fossem dignos de confiança, e isso, temo eu, eles não são.

— Não obstante — intrometeu-se Gonzaga febrilmente, agarrando-se a uma esperança tênue —, ouçamo-lo.

— Rogo que o façais — disse Valentina.

Assim ordenado, Francesco ponderou por um momento.

— Estais familiarizada com a política de Babbiano? — ele indagou.

— Sei algo sobre eles.

— Tornarei a posição bem clara para vós, Madonna — respondeu ele. E, com isso, contou-lhe sobre a ameaçada descida de César Borgia sobre o ducado de Gian Maria e, portanto, sobre o pouco tempo à disposição de seu pretendente; de modo que, se ele pudesse ser mantido sob controle diante das muralhas de Roccaleone por um tempo, tudo poderia ficar bem. — Mas, vendo com quanta pressa ele está — terminou ele —, seus métodos provavelmente serão rudes e desesperados, e eu pensara que, enquanto isso, não precisaríeis permanecer aqui, Madonna.

— Não permanecer? — ela gritou, o desprezo pela noção em sua voz. — Não permanecer? — disse Gonzaga timidamente, a esperança soando na dele.

— Precisamente, Madonna. Eu teria proposto que deixásseis a Gian Maria um ninho vazio, de modo que, mesmo que o castelo caísse em suas mãos, ele não ganharia nada.

— Aconselhar-me-íeis a fugir? — ela exigiu.

— Vim preparado para fazê-lo, mas a visão de vossos homens me retém. Eles não são dignos de confiança e, para salvar suas peles sujas, poderiam abrir Roccaleone aos sitiantes, e assim vossa fuga seria descoberta, enquanto ainda poderia haver tempo para torná-la inútil.

Antes que ela pudesse formular uma resposta, lá estava Gonzaga febrilmente insistindo para que ela agisse sobre tal sugestão sábia e oportuna, e buscasse segurança na fuga de um lugar que Gian Maria despedaçaria pedra por pedra. Suas palavras martelavam rápida e piedosamente em súplica, até que, no final, enfrentando-o diretamente:

— Estais com medo, Gonzaga? — ela perguntou-lhe.

— Estou... com medo por vós, Madonna — respondeu ele prontamente.

— Então deixai vossos medos descansarem. Pois, quer eu fique ou quer eu vá, uma coisa é certa: Gian Maria nunca colocará as mãos sobre mim. — Ela virou-se novamente para Francesco. — Vejo uma certa sabedoria no conselho de fuga que me teríeis oferecido, não menos do que no que tomo como sendo vosso conselho de que eu deveria permanecer. Se eu apenas consultasse meu humor, eu ficaria e travaria batalha quando este tirano se mostrasse. Mas a prudência também deve ser consultada, e eu pensarei sobre o assunto. — E agora ela agradeceu-lhe com um encanto generoso por ter vindo até ela com essas notícias e oferecido sua assistência, perguntando quais motivos o trouxeram.

— Tais motivos como devem sempre impelir um cavaleiro a servir uma dama em perigo — disse ele —, e talvez, também, a memória da caridade com que cuidastes de minhas feridas naquele dia em Acquasparta.

Por um segundo, seus olhares se encontraram, tremeram no encontro e separaram-se novamente, uma estranha confusão no peito de cada um, tudo o que Gonzaga, imerso em ruminação mal-humorada, não observou. Para aliviar o silêncio constrangedor que caíra, ela perguntou-lhe como ocorrera tão cedo que fora para Roccaleone que ela fugira.

— Não sabeis? — ele gritou. — Peppe não vos contou?

— Não falei com ele. Ele mesmo só chegou ao castelo tarde da noite passada, e eu o vi pela primeira vez esta manhã, quando veio anunciar vossa presença.

E então, antes que mais pudesse ser dito, surgiu um tumulto de gritos do lado de fora. A porta foi subitamente aberta, e Peppe entrou apressadamente na sala.

— O vosso homem, Ser Francesco — gritou ele, com o rosto lívido de excitação. — Vinde depressa, ou eles vão matá-lo.

CAPÍTULO XIV. FORTEMANI BEBE ÁGUA

A coisa começara com os olhares furtivos que Francesco observara, e crescera para zombaria e insultos depois que ele desaparecera. Mas Lanciotto mantivera uma aparência impassível, sendo um homem educado no serviço do Conde de Aquila para o silêncio e uma paciência maravilhosa. Essa insensibilidade aqueles rudes traduziram por covardia, e, encorajados por ela — como os vira-latas que eram —, a sua agressividade tornou-se mais direta e gradualmente mais ameaçadora. A paciência de Lanciotto ia lentamente esvaindo-se e, na verdade, não era nada mais do que o medo de provocar a ira do seu mestre que o impedia. Por fim, um rufião corpulento, que o mandara remover o seu elmo na companhia de cavalheiros, e cujo pedido fora por Lanciotto tão ignorado quanto os outros, avançou ameaçadoramente em sua direção e agarrou-o pela perna, como Ercole agarrara o seu mestre. Exasperado com isso, Lanciotto soltou a perna e desferiu no sujeito precipitado um pontapé vicioso no rosto que o derrubou, atordoado e a sangrar.

O rugido dos companheiros do homem disse a Lanciotto o que esperar. Num instante, estavam sobre ele, clamando pelo seu sangue. Ele tentou sacar a espada do seu mestre, que, juntamente com a outra armadura do Conde, estava pendurada no seu arção; mas, antes que pudesse desembaraçá-la, foi agarrado por uma dúzia de mãos e arrancado, a lutar, da sela. No chão, dominaram-no, e uma mão encouraçada foi colocada sobre a sua boca, esmagando de volta para a garganta o grito de socorro que ele teria lançado.

No lado oeste do pátio, uma fonte que brotava da parede outrora vertia a sua água através de uma cabeça de leão para um vasto tanque de granito coberto de musgo. Mas estava fora de uso há algum tempo, e o cano na boca do leão estava seco. O tanque, contudo, estava mais de metade cheio de água, que, durante o recente abandono do castelo, se tornara fétida e estagnada. Afogar Lanciotto nela foi a amável sugestão que emanou do próprio Fortemani — uma sugestão recebida com estrépito pelos seus patifes, que se puseram a executá-la. Eles arrastaram rudemente o Lanciotto, a sangrar e a lutar freneticamente, através do pátio e alcançaram a borda do tanque, pretendendo plenamente afundá-lo nele e mantê-lo submerso, para ali morrer afogado como um rato.

Mas, naquele instante, algo irrompeu sobre eles como um raio saído do Céu. Num ou noutro, e logo em mais, o riso cruel transformou-se em súbitos uivos de dor quando um chicote de couro de boi os atingiu na cabeça, no rosto e nos ombros.

— Atrás, seus bestas, seus animais, atrás! — rugiu uma voz de trovão, e eles recuaram sem questionar diante daquele chicote impiedoso, como a matilha de cães cobardes que eram.

Era Francesco que, sozinho e armado com nada mais do que um chicote, os dispersava de perto do seu servo maltratado, como o falcão dispersa um bando de pardais ruidosos. E agora, entre ele e Lanciotto, não estava mais do que o volume largo de Ercole Fortemani, de costas para o Conde; pois, até então, ele não se apercebera da interrupção.

Francesco largou o chicote e, colocando uma mão no cinturão do capitão e a outra no seu pescoço sujo, içou-o com uma força incrível e arremessou-o do seu caminho para a água viscosa do tanque.

Houve um rugido poderoso abafado por um mergulho mais poderoso ainda enquanto Fortemani, em estrela, atingia a superfície e desaparecia da vista, enquanto com o borrifo vinha um odor fétido para denunciar o mau cheiro daquele banho inesperado.

Sem parar para ver a conclusão do seu trabalho, Francesco inclinou-se sobre o seu servo prostrado.

— As bestas feriram-te, Lanciotto? — perguntou ele. Mas, antes que o homem pudesse responder, um daqueles rudes saltara sobre o Conde curvado e golpeou-o com um punhal entre as omoplatas.

Um grito alarmado de mulher ecoou, pois Valentina observava a briga dos degraus do salão, com Gonzaga ao seu lado.

Mas o gibão acolchoado de Francesco resistira ao teste do aço, e a ponta daquele punhal de assassino deslizou inofensivamente para o lado, não causando ferimento maior do que um rasgão na superfície de seda da peça. Um segundo depois, o sujeito viu-se agarrado como num laço de aço. O punhal foi arrancado do seu aperto e a ponta dele encostada ao seu peito mesmo enquanto o Conde o forçava a cair de joelhos.

Num lampejo foi feita a coisa, ainda assim para o miserável que se viu no limiar da Eternidade, e que — como um verdadeiro filho da Igreja — tinha um medo salutar do inferno, pareceu uma hora enquanto, com faces lívidas e olhos a saltar das órbitas, ele esperava por aquele punhal a enterrar-se no seu coração, tal como fora mirado. Mas não foi no seu coração que o golpe caiu. Com um súbito bufo de divertido enfado, o Conde atirou o punhal para longe de si e descarregou o seu punho cerrado com uma força esmagadora no rosto do rufião. O sujeito caiu inconsciente sob aquele golpe poderoso, e Francesco, recuperando o chicote que jazia quase aos seus pés, levantou-se para enfrentar os que mais pudessem lá estar.

Do tanque, de pé com a água pelas mamas, a cabeça e o rosto grotescamente mascarados por uma viscosidade verde e vil de vegetação pútrida, Ercole Fortemani bramou com horrível blasfémia que teria o sangue do seu agressor, mas não moveu um pé para o obter. Não que fosse por natureza totalmente cobarde; mas, inspirado por um medo salutar do homem que podia realizar tal milagre de força, permaneceu fora do alcance de Francesco, bem no meio daquela bacia quadrada, e rugiu ordens aos seus homens para que despedaçassem o sujeito. Mas os seus homens tinham visto o suficiente dos métodos do Conde e não avançaram sobre aquela figura robusta e destemida que ali estava à espera deles com um chicote que vários já tinham provado. Aconchegados uns aos outros, mais como um rebanho de ovelhas assustadas do que como um corpo de homens de guerra, ficaram perto da torre de entrada, alvo da zombaria de Peppe, que da galeria de pedra acima — para grande divertimento das damas de Valentina e dos dois pajens atrevidos que estavam com ele — aplaudia em termos altissonantes o seu maravilhoso valor.

Eles moveram-se finalmente, mas foi por ordem de Valentina. Ela estivera a conferenciar com Gonzaga, que — dando como razão que ela própria poderia precisar de proteção — permanecera ao seu lado, bem fora da briga. Ela insistira com ele para que fizesse algo, e finalmente ele obedecera-lhe e descera os curtos degraus para o pátio; mas tão relutante e lentamente que, com uma exclamação de impaciência, ela subitamente passou por ele, para ela própria cumprir a tarefa que lhe suplicara. Passou por Francesco, com uma palavra de tal elogio ao seu valor e um olhar de tal admiração profunda, que o sangue brotou, em resposta, na sua face. Ela parou com uma indagação solícita pelo agora levantado, mas dolorosamente ferido, Lanciotto. Lançou um olhar zangado e uma ordem zangada de silêncio ao grande Ercole, ainda a bramar do seu tanque, e então, a dez passos dos seus seguidores, parou e, com ar colérico e a mão estendida para o seu capitão, ordenou-lhes que o prendessem.

Aquela ordem súbita e inesperada deixou mudo o vociferante Fortemani. Ele calou-se e ficou boquiaberto para os seus homens, que se olhavam agora em dúvida; mas a dúvida foi rapidamente dissipada pelas próprias palavras da dama:

— Fá-lo-eis prisioneiro e conduzi-lo-eis à sala da guarda, ou mandar-vos-ei, a vós e a ele, varrer para fora do meu castelo — informou-os ela, tão confiantemente como se tivesse uma centena de homens de armas para cumprir as suas ordens sobre eles.

Um passo ou dois atrás dela estava o pálido Gonzaga, a morder o lábio, tímido e a conjeturar. Atrás dele, de novo, erguia-se a estatura robusta de Francesco del Falco com, ao seu lado, Lanciotto, de aspeto quase tão resoluto como o seu.

Essa era a força total com a qual a dama falava de os varrer — como se tivessem sido uma imundície qualquer — de Roccaleone, a menos que cumprissem as suas ordens. Ainda hesitavam, quando o Conde avançou para o lado de Valentina.

— Ouvistes a escolha que a nossa senhora vos dá — disse ele severamente. — Deixai-nos saber se obedeceis ou desobedeceis. Esta escolha que é vossa agora, pode não ser vossa de novo. Mas se escolheis desobedecer à Madonna, o portão está atrás de vós, a ponte ainda em baixo. Ide-vos embora!

Furtivamente, por baixo de sobrancelhas cerradas, Gonzaga lançou um olhar de malícia impotente ao Conde. Qualquer que fosse o desfecho do caso, aquele homem não devia permanecer em Roccaleone. Ele era demasiado forte, demasiado dominante, e far-se-ia mestre do lugar sem outro título que não a sua força e aquele modo de comando que Gonzaga considerava um dom vulgar de valentão, mas pelo qual teria dado muito para possuir. De quão forte e dominante ele era, de facto, nunca Francesco oferecera uma prova mais notável. Aqueles homens, feridos e maltratados por ele, teriam sem dúvida aglomerado-se e dado cabo rapidamente de alguém menos destemido, mas quando uma coragem poderosa como a dele caminha de mãos dadas com o hábito de comandar, tais rudes como eles nunca a podem resistir por muito tempo. Eles resmungaram algo entre si, e um deles finalmente respondeu:

— Nobre senhor, é o nosso capitão que nos é ordenado prender.

— Verdade; mas o vosso capitão, tal como vós, está ao serviço desta dama; e ela, a vossa verdadeira, a vossa comandante suprema, ordena-vos que o prendais. — E agora, enquanto ainda hesitavam, o seu espírito rápido lançou-lhes a isca que devia revelar-se mais atraente. — Ele mostrou-se hoje inapto para o comando que lhe foi confiado e pode tornar-se uma questão, quando ele for julgado, de escolher um de vós para preencher o lugar que ele poderá deixar vazio.

Eram rudes na verdade; a escória dos bravos que assombrava o mais humilde burgo de Urbino. A sua hesitação desapareceu, e tal lealdade, ainda que ligeira, que sentiam por Ercole foi sobreposta pela perspetiva da sua posição e do seu soldo, caso a sua desgraça se consumasse.

Eles chamaram-no para que saísse do seu refúgio, onde ele ainda estava, mudo e prostrado por esta súbita reviravolta que os acontecimentos tinham tomado. Ele recusou-se tacitamente a obedecer ao chamado para se render, até que Francesco — que agora assumia o comando com uma prontidão que irritava Gonzaga cada vez mais — ordenou a um deles que fosse buscar um arcabuz e disparasse contra o cão. A isso ele clamou por misericórdia e veio vadeando até à borda do tanque, jurando que, se a imersão não o afogara, era um milagre ele não estar envenenado.

Assim encerrou-se um incidente que tivera um aspeto deveras feio, e serviu para abrir os olhos de Valentina para a verdadeira qualidade dos homens que Gonzaga contratara para ela. Talvez tenha aberto os seus próprios, pois aquele amável tocador de alaúde era verde de experiência nestas matérias. Ela ordenou a Gonzaga que cuidasse de Francesco e chamou um dos pajens sorridentes da galeria para ser o seu escudeiro. Um quarto foi posto à sua disposição pelo pouco tempo que ele pudesse passar em Roccaleone, enquanto ela debatia qual deveria ser o seu curso de ação.

Um sino tocou na ala sul distante do castelo, para além do segundo pátio, e convocou-a para a capela, pois ali o Fra Domenico rezava a Missa todas as manhãs. E assim ela despediu-se de Francesco, dizendo que rezaria ao Céu para que a direcionasse para uma escolha sábia, se devia fugir de Roccaleone, ou se devia permanecer e afastar o ataque de Gian Maria.

Francesco, acompanhado por Gonzaga e pelo pajem, recolheu-se a um quarto elegante sob a Torre do Leão, que se erguia no ângulo sudeste da fortaleza. As suas janelas davam para o segundo pátio, ou pátio interior, através do qual Valentina e as suas damas corriam agora a caminho da Missa.

Gonzaga esforçou-se por sufocar o ressentimento que sentia contra este homem, em quem via um intruso, e esforçou-se por tratá-lo com a cortesia que lhe era devida. Teria até ido ao ponto de discutir com ele a situação — instigado por uma certa desconfiança, e astuciosamente ansioso por sondar o verdadeiro motivo que trouxera aquele estranho a interessar-se pelos assuntos de Valentina. Mas Francesco, cansado, embora com uma polidez irrepreensível, desviou-o e pediu que Lanciotto fosse enviado para o servir. Vendo a futilidade dos seus esforços, Gonzaga retirou-se com um ressentimento acrescido, mas com uma doçura de sorriso e uma profundidade de cortesias aumentadas.

Ele desceu para dar ordens para o levantamento da ponte e, encontrando os homens singularmente mansos e tratáveis após a dura lição que Francesco lhes dera, descarregou sobre eles parte do vasto mau humor que o possuía. Seguidamente, passou para os seus próprios aposentos e lá sentou-se junto a uma janela com vista para os jardins do castelo, com os seus pensamentos desagradáveis como única companhia.

Mas, pouco depois, o seu ânimo aliviou-se e ele ganhou coragem, pois podia ser muito bravo quando o perigo era remoto. Era melhor, refletiu ele, que Valentina deixasse Roccaleone. Esse era o curso que ele aconselharia e insistiria. Naturalmente, ele iria com ela, e assim poderia avançar a sua pretensão tão bem noutro lugar como naquele castelo. Por outro lado, se ela permanecesse, bem, ele também, e, afinal, o que importava se Gian Maria viesse? Como Francesco dissera, o cerco não podia ser prolongado, graças aos assuntos emaranhados de Babbiano. Em breve, Gian Maria seria forçado a voltar para casa, para defender o seu Ducado. Se, então, por um pouco de tempo, pudessem mantê-lo sob controlo, tudo correria bem. Certamente fora demasiado rápido a desesperar.

Ele levantou-se e espreguiçou-se com um deleite indolente, depois, abrindo a sua janela, inclinou-se para respirar o ar da manhã. Um riso suave escapou-lhe. Ele fora um tolo, de facto, ao atormentar-se com medos quando ouvira falar pela primeira vez da vinda de Gian Maria. Visto corretamente, tornava-se um serviço que Gian Maria lhe prestava — quer permanecessem, quer fossem. O amor não tem promotor mais forte do que um perigo partilhado, e uma semana de tais distúrbios como Gian Maria provavelmente lhes causaria deveria fazer mais para avançar a sua pretensão do que ele poderia esperar alcançar num mês inteiro de cortejo pacífico. Então, a memória de Francesco colocou uma ruga entre as suas sobrancelhas, e ele lembrou-se de quão cativada Valentina ficara pelo sujeito quando o vira pela primeira vez em Acquasparta, e de como, enquanto ela cavalgava naquele dia, não vira nada além dos olhos escuros deste Cavaleiro Francesco.

— Cavaleiro Francesco de quê ou de onde? — murmurou para si próprio. — Bah! Um aventureiro sem nome, sem lar; um valentão, a tresandar a sangue e couro, e apto para conduzir tal bando como o de Fortemani. Mas com uma dama — o que poderá alcançar tal bronco, como poderá ele prevalecer? — Ele riu-se do ciúme incipiente com desdém, e a sua testa clareou, pois agora estava num estado de espírito otimista — talvez uma reação aos seus tremores recentes. — Contudo, pelo Hóstia! — continuou ele, lembrando-se da ousadia espantosa que Francesco mostrara no pátio, — ele tem a força de Hércules e um modo com ele que o torna temido e obedecido. Pish! — ele riu-se de novo, enquanto, virando-se, despendurava o seu alaúde de onde pendia na parede. — O bastardo de algum condottiero, que mistura com a arrogância de valentão do pai a alma camponesa da sua mãe descuidada. E eu temo que alguém como esse toque o coração da minha incomparável Valentina? Por que, é um pensamento que lhe faz apenas pobre honra.

E, afastando Francesco da sua mente, procurou as cordas com os dedos e dedilhou um acompanhamento enquanto voltava para a janela, a sua voz, maravilhosamente doce e terna, irrompendo numa suave canção de amor.

CAPÍTULO XV. A MISERICÓRDIA DE FRANCESCO

Monna Valentina e as suas damas almoçaram ao meio-dia numa pequena câmara que dava para o grande salão, e para lá foram convidados Francesco e Gonzaga. A companhia foi servida pelos dois pajens, enquanto Fra Domenico, com um avental branco como a neve cingido sobre a sua cintura portentosa, trazia os acepipes a fumegar da cozinha onde os preparara; pois, como um verdadeiro conventual, ele era uma espécie de mestre na confeção — e um verdadeiro glutão no consumo — de comestíveis deleitáveis. A cozinha era para ele como o santuário de algum culto menor, e se o seu breviário e contas comandassem dele metade do fervor extático das suas devoções à panela e à frigideira, ao caldeirão e ao espeto, então a canonização estar-lhe-ia deveras assegurada.

Ele serviu-lhes naquele dia um jantar como nenhum príncipe comandou melhor, a menos que fosse o Papa. Havia tordos, abatidos no vale, feitos com trufas, que faziam o epicurista Gonzaga revirar os olhos, traduzidos através do meio do seu paladar num verdadeiro paraíso de deleite sensual. Havia uma lebre, apanhada na encosta, e estufada em Malvasia, de um sabor tão delicado que Gonzaga lamentava a sua pesada indulgência nos tordos; havia truta, fresca da ribeira abaixo, e um pastel maravilhoso que se tornava líquido na boca. Para regar estas boas coisas havia vinho tinto forte de Puglia e Malvasia mais delicada, pois, no seu aprovisionamento da fortaleza, Gonzaga conseguira que, pelo menos, não tivessem sede.

— Para uma guarnição à espera de cerco, comeis muito bem em Roccaleone — foi o comentário de Francesco sobre aquele excelente repasto.

Foi o bobo que lhe respondeu. Ele sentava-se fora da vista no chão, curvado contra a cadeira de uma das damas de Valentina, que de vez em quando lhe atirava um bocado do seu prato, tal como poderia ter tratado um cão favorito.

— Tendes o frade a agradecer por isso — disse ele, com uma voz abafada, pois a sua boca estava cheia de pastel. — Que eu seja condenado quando morrer, se não fizer dele o meu confessor. O homem que pode assim servir os corpos deveria lidar maravilhosamente bem com as almas. Fra Domenico, tu confessar-me-ás depois do pôr do sol.

— Não precisas de mim — respondeu o monge, com desdém irado. — Há uma beatitude para os da tua espécie — “Bem-aventurados os pobres de espírito”.

— E não há maldição para os da tua? — retorquiu o bobo. — Não diz em parte nenhuma — “Condenados sejam os grossos de carne, os glutões gordos e rotundos que fabricam para si mesmos um deus dos seus próprios ventres”?

Com o seu pé calçado com sandálias, o frade deu ao bobo um pontapé sub-reptício.

— Cala-te, tu víbora, tu saco de veneno.

Temendo pior, o bobo levantou-se.

— Cuidado! — gritou ele agudamente. — Lembra-te, frade, que a ira é um pecado cardinal. Cuidado, digo eu!

Fra Domenico conteve a sua mão levantada e começou a resmungar pedaços de latim, as suas pálpebras velando os seus olhos subitamente baixados. Assim, Peppe alcançou a porta.

— Dizei-me, frade; ao meu ouvido, agora — Foi uma lebre que estufaste, ou uma sandália gasta?

— Agora, Deus me perdoe — rugiu o monge, saltando em sua direção.

— Pela tua cozinha? Sim, reza — de joelhos. — Ele esquivou-se a um golpe, mergulhou e voltou para dentro da sala. — Um cozinheiro, tu? Pish! tu tonel de banha de convento! Os teus tordos estavam queimados, a tua truta nadava em gordura, o teu pastel...

O que o pastel pudesse ter sido a companhia não havia de aprender, pois Fra Domenico, de rosto carmesim, investira sobre o bobo e tê-lo-ia agarrado se ele não tivesse mergulhado debaixo da mesa pelas saias de Valentina e suplicado a sua proteção daquele maníaco grosseiro que se considerava um cozinheiro.

— Agora, contei a vossa ira, padre — disse ela, rindo com os outros. — Ele apenas vos atormenta. Tende paciência com ele por causa dessa beatitude que citaste, que o incendiou para represálias.

Acalmado, mas ainda resmungando ameaças de uma tareia a ser dada a Peppe quando a oportunidade lhe servisse melhor, o frade voltou aos seus deveres domésticos. Eles levantaram-se pouco depois e, por sugestão de Gonzaga, Valentina parou no grande salão para dar ordens para que Fortemani fosse trazido perante ela para julgamento. De várias maneiras, desde a sua vinda a Roccaleone, Ercole fora falho naquele respeito a que Gonzaga se considerava com direito, e esta oportunidade ele aproveitou com avidez para descarregar o seu rancor vingativo.

Valentina implorou a Francesco que ele também ficasse e os ajudasse com a sua vasta experiência, uma frase que causou uma pontada desagradável no coração de Romeo Gonzaga. Foi talvez tanto para se afirmar como para satisfazer o seu rancor contra Fortemani que, tendo enviado um soldado para buscar o prisioneiro, ele se voltou para sugerir, de forma seca, que Ercole deveria ser enforcado imediatamente.

“Para que serve um julgamento?” exigiu ele. “Fomos todos testemunhas da sua insubordinação, e para isso só pode haver uma punição. Que o animal seja enforcado!”

“Mas o julgamento foi sugestão vossa”, protestou ela.

“Não, Madonna. Apenas sugeri um veredito. É desde que pediu ao Messer Francesco, aqui presente, para nos assistir, que suponho que pretenda dar ao velhaco um julgamento.”

“Creria este caro Gonzaga capaz de tamanha sede de sangue?” perguntou ela a Francesco. “Partilha, senhor, da opinião dele de que o capitão deve ser enforcado sem ser ouvido? Receio que sim, pois, pelo que vi deles, os vossos métodos não se inclinam para a brandura.”

Gonzaga sorriu, percebendo por essa frase quão verdadeiramente ela avaliava a natureza grosseira deste estranho. A resposta de Francesco surpreendeu-os.

“Não, considero o conselho do Messer Gonzaga um mau conselho. Mostrai misericórdia a Fortemani agora, quando ele não espera nenhuma, e tereis feito dele um servo fiel. Conheço a sua espécie.”

“Ser Francesco fala sem o conhecimento que nós temos, Madonna”, foi o comentário rude de Gonzaga. “Deve ser dado um exemplo se quisermos ter respeito e ordem da parte destes homens.”

“Então que seja um exemplo de misericórdia”, sugeriu Francesco, docemente.

“Bem, veremos”, foi a resposta de Valentina. “Gosto do vosso conselho, Messer Francesco, e ainda assim vejo uma certa sabedoria nas palavras de Gonzaga. Embora, num caso como este, eu preferisse aliar-me à insensatez do que ter a morte de um homem na minha consciência. Mas ei-lo que vem, e, pelo menos, dar-lhe-emos um julgamento. Talvez ele esteja arrependido agora.”

Gonzaga sorriu com desprezo e tomou o seu lugar à direita da cadeira de Valentina, Francesco de pé à esquerda dela; e desta forma dispuseram-se a julgar o capitão das suas forças.

Ele foi trazido entre dois homens de armas armados, com as mãos atadas atrás das costas, o passo pesado como o de um homem com medo, os olhos dirigidos com ar taciturno ao trio que esperava, mas mais taciturno de todos para Francesco, que tão notavelmente conduzira a sua derrota. Valentina estendeu uma mão a Gonzaga, e de Gonzaga acenou levemente na direção do Valentão. Em resposta a esse gesto, Gonzaga enfrentou o capitão atado de forma truculenta.

“Conheces a tua ofensa, velhaco”, berrou ele. “Tens algo a alegar que nos possa dissuadir de te enforcar?”

Fortemani ergueu as sobrancelhas por um momento, surpreendido com essa ferocidade vinda de alguém que ele sempre considerara quase uma mulher. Depois, soltou uma risada de tal desprezo que a cor subiu às faces de Gonzaga.

“Levai-o daqui...” começou ele furiosamente, quando Valentina interveio, colocando uma mão no seu braço.

“Não, não, Gonzaga, os vossos métodos estão todos errados. Dizei-lhe... Não, eu própria o interrogarei. Messer Fortemani, fostes culpado de um ato de grave abuso. Vós e os vossos homens fostes contratados para mim pelo Messer Gonzaga, e a vós foi dado o honroso cargo de capitão sobre eles, para que pudésseis conduzi-los neste meu serviço pelos caminhos do dever, submissão e lealdade. Em vez disso, fostes o instigador daquele ultraje desta manhã, quando quase se cometeu um assassínio contra um homem inofensivo que era meu convidado. Que tendes a dizer?”

“Que não fui o instigador”, respondeu ele, taciturno.

“É tudo a mesma coisa”, retorquiu ela, “pois, pelo menos, foi feito com a vossa sanção, e participastes nesse desporto cruel, em vez de o conter, como era claramente o vosso dever. É sobre vós, o capitão, que recai a responsabilidade.”

“Minha senhora”, explicou ele, “eles são almas selvagens, mas muito fiéis.”

“Fiéis à sua selvajaria, talvez”, respondeu ela com desdém. Depois continuou: “Recordar-vos-eis que por duas vezes antes o Messer Gonzaga teve ocasião de vos admoestar. Estas duas últimas noites os vossos homens comportaram-se de forma desordeira dentro das minhas muralhas. Houve bebedeiras, houve jogos de dados, e tais brigas uma ou duas vezes que me levaram a pensar que haveria gargantas cortadas entre as vossas fileiras. Fostes avisado pelo Messer Gonzaga para manter os vossos seguidores sob melhor rédea, e, ainda assim, hoje, sem sequer a embriaguez para os desculpar, temos este vil assunto, convosco como cabecilha.”

Seguiu-se uma pausa, durante a qual Ercole ficou de cabeça baixa como alguém que pensa, e Francesco virou o seu olhar carregado de admiração para aquela rapariga franzina de olhos castanhos gentis que tinham sido tão ternos e piedosos. Maravilhado com a grandeza do seu espírito, ele tornou-se — inconscientemente — ainda mais escravizado.

Gonzaga, alheio a tudo isto, observava Fortemani à espera da sua resposta.

“Madonna”, disse o valentão finalmente, “que podeis esperar de uma tropa como esta? O Messer Gonzaga não poderia ter esperado que eu alistasse acólitos para um negócio que ele me disse que roçava a criminalidade. Quanto à sua embriaguez e à ninharia da desordem, que soldados não têm estes defeitos? Quando não os têm, também não têm mérito. O homem que é manso em tempos de paz é uma mulher covarde em tempos de guerra. Quanto ao resto, de onde veio o vinho que beberam? Foi providenciado pelo Messer Gonzaga.”

“Mentes, cão!” explodiu Gonzaga. “Forneci vinho para a mesa da Madonna, não para os homens.”

“Ainda assim, algum chegou até eles; o que é bom. Pois água no estômago torna um homem de espírito fraco. Onde está o pecado de um pouco de indulgência, Madonna?” continuou ele, voltando-se novamente para Valentina. “Estes meus homens provarão o seu valor quando chegar a hora dos golpes. São cães, talvez — mas mastins, cada um deles, e perderiam cem vidas ao vosso serviço se as tivessem.”

“Sim, se as tivessem”, intrometeu-se Gonzaga, amargamente; “mas, não tendo mais do que uma cada um, não se importarão de a poupar.”

“Não, aí estais a ser injusto com eles”, gritou Fortemani, com calor. “Dai-lhes um líder forte o suficiente para os conter, para os encorajar e sujeitar, e eles irão a qualquer lugar ao seu comando.”

“E aí”, interrompeu Gonzaga rapidamente, “levais-nos de volta à questão principal. Tal líder mostrastes-nos que não sois. Fizestes pior. Fostes insubordinado quando deveríeis não apenas ser ordeiro, mas ter imposto a ordem nos outros. E por isso, segundo o meu entendimento, deveríeis ser enforcado. Não percais mais tempo com ele, Madonna”, concluiu, virando-se para Valentina. “Que o exemplo seja feito.”

“Mas, Madonna...” começou Fortemani, empalidecendo sob o bronzeado do seu rosto rude.

Gonzaga silenciou-o.

“As vossas palavras são vãs. Fostes insubordinado, e para a insubordinação só há uma penalidade.”

O valentão baixou a cabeça, julgando-se perdido, e sem engenho para retorquir como Francesco retorquiu inesperadamente por ele.

“Madonna, aí o vosso conselheiro está equivocado. A acusação contra o homem está errada. Não houve insubordinação.”

“Como?” questionou ela, virando-se para o Conde. “Nenhuma, dizeis?”

“Surgiu um Salomão”, zombou Gonzaga. Depois, irritado: “Não percais palavras com ele, Madonna”, prosseguiu. “O nosso negócio é com Fortemani.”

“Mas esperai, meu bom Gonzaga. Ele pode ter razão.”

“O vosso coração é demasiado tenro”, respondeu Romeo com impaciência. Mas ela já se tinha virado para ele, e implorava a Francesco que tornasse o seu significado mais claro.

“Se ele tivesse erguido a mão contra vós, Madonna, ou mesmo contra o Messer Gonzaga, ou se tivesse desobedecido a uma ordem dada por qualquer um de vós, então, e só então, poderia haver questão de insubordinação. Mas ele não fez nada disso. É culpado de maltratar grosseiramente o meu servo, é verdade, mas não há insubordinação nisso, uma vez que ele não estava sob promessa de lealdade a Lanciotto.”

Eles olhavam para ele como se as suas palavras fossem palavras de sabedoria recôndita em vez da simples exposição de um caso claro. Gonzaga cabisbaixo, Fortemani com uma luz de esperança e admiração a brilhar nos seus olhos, e Madonna com um leve aceno de cabeça que denotava concordância. Discutiram ainda um pouco, Gonzaga amargo, vingativo e temerariamente desdenhoso tanto de Francesco como de Fortemani. Mas o Conde manteve tão resolutamente a posição que assumira que, no final, Valentina encolheu os ombros, reconheceu-se convencida e pediu a Francesco que proferisse o veredito.

“Estais a falar a sério, Madonna?” disse Francesco, surpreendido, enquanto um cenho carregado desfigurava a serenidade da testa de Gonzaga.

“Estou, de facto. Tratai dele como considerardes melhor e mais justo, e o seu destino será exatamente como ordenardes.”

Francesco virou-se para os homens de armas. “Desatai-o, um de vós”, disse ele brevemente.

“Creio que estais louco”, gritou Gonzaga, num frenesim, mas o seu estado de espírito nascia mais do desgosto de ver o intruso prevalecer onde ele falhara. “Madonna, não lhe deis ouvidos.”

“Peço-vos que vos deixeis disso, meu bom Gonzaga”, respondeu ela, de forma apaziguadora, e Gonzaga, quase a desmaiar de despeito, obedeceu-lhe.

“Deixai-o aí e ide-vos”, foi a ordem seguinte de Paolo aos homens, e eles partiram, deixando o espantado Fortemani de pé, sozinho, desatado e acanhado.

“Agora ouvi-me bem, Messer Fortemani”, admoestou-o Francesco. “Fizestes uma coisa cobarde, indigna do soldado que quereis que os homens acreditem que sois. E por isso, creio, a punição que recebestes das minhas mãos foi suficiente, na medida em que a indignidade a que vos submeti abalou a vossa posição perante os vossos seguidores. Voltai agora para eles e recuperai o que perdestes, e vede que no futuro sejais mais digno. Que isto vos sirva de lição, Messer Fortemani. Estivestes perigosamente perto da forca, e provou-se-vos que em momentos de perigo os vossos homens estão prontos a levantar as mãos contra vós. Por que será? Porque não procurastes o seu respeito. Fostes demasiado companheiro deles nas suas bebedeiras e brigas, em vez de vos manterdes afastado com dignidade.”

“Senhor, aprendi a minha lição!” respondeu o valentão humilhado.

“Então agi de acordo com ela. Retomai o vosso comando e disciplinai os vossos homens para uma ordem melhor. A Madonna, aqui, e o Messer Gonzaga esquecerão este assunto. Não é assim, Madonna? Não é assim, Messer Gonzaga?”

Influenciada pela vontade dele e por uma intuição que lhe dizia que, para qualquer fim que ele estivesse a trabalhar, ele estava a trabalhar sabiamente, Valentina deu a Fortemani a garantia que Francesco pedira, e Gonzaga foi forçado, de má vontade, a seguir o seu exemplo.

Fortemani inclinou-se profundamente, o rosto pálido e os membros a tremer como nem o medo os fizera tremer. Avançou até Valentina e, caindo sobre um joelho, beijou humildemente a bainha do seu vestido.

“A vossa clemência, Madonna, não vos trará arrependimento. Servir-vos-ei até à morte, senhora, e a vós, senhor.” Às últimas palavras, ele levantou os olhos para o rosto calmo de Francesco. Então, sem sequer um olhar para o desapontado Gonzaga, levantou-se e, curvando-se novamente — um verdadeiro cortesão —, retirou-se.

O fechar da porta foi para Gonzaga um sinal para irromper num torrente de amargas repreensões contra Francesco, repreensões que foram sustidas a meio por Valentina.

“Estais fora de vós, Gonzaga”, exclamou ela. “O que foi feito, foi feito com a minha sanção. Não duvido da sabedoria disso.”

“Não duvidais? Que Deus permita que nunca duvideis! Mas aquele homem não conhecerá paz até que esteja vingado de nós.”

“Messer Gonzaga”, respondeu Francesco, com uma polidez incomparável, “sou um homem mais velho do que vós, e talvez tenha visto mais guerras e mais homens como este. Existe um certo valor que se esconde naquele valentão, apesar de toda a sua fanfarronice e arrogância, e existe, também, um certo sentido de justiça. Misericórdia ele teve hoje, e o tempo mostrará quão certo estou em tê-lo perdoado em nome da Madonna. Digo-vos, senhor, que em parte alguma a Monna Valentina tem um servo mais fiel do que ele provavelmente se tornará.”

“Acredito em vós, Messer Francesco. De facto, tenho a certeza de que o vosso ato foi a própria sabedoria.”

Gonzaga mordeu o lábio.

“Posso estar enganado”, disse ele, numa aquiescência relutante. “Espero, de facto, que esteja.”

CAPÍTULO XVI. GONZAGA DESMASCARA-SE

As quatro grandes muralhas exteriores de Roccaleone estavam dispostas num quadrado poderoso, do qual o castelo propriamente dito ocupava apenas metade. A outra metade, estendendo-se de norte a sul, era um trecho de jardim, dividido em três terraços. O mais alto destes não era mais do que um corredor estreito sob a muralha sul, coberto de ponta a ponta por uma latada de vinhas em vigas enegrecidas pelo tempo, suportadas por esteios de granito, quadrados e grosseiramente talhados.

Um degrau íngreme de granito, com ervas nas frestas da pedra antiga e terminando num par de leões deitados na base, conduzia ao terraço do meio, que era chamado de jardim superior. Este era dividido em dois por uma verdadeira galeria de buxos gigantescos que descia em direção ao terraço inferior, e que testemunhava de forma eloquente a idade daquele velho jardim. Nessa galeria, o sol nunca penetrava senão por um raio furtivo, e no dia mais quente do verão uma frescura grata habitava na sua penumbra verde. Jardins de rosas estendiam-se de ambos os lados, mas o abandono dos últimos tempos tinha-os deixado infestados de ervas daninhas.

O terceiro e mais baixo destes terraços, que era mais longo e mais largo do que qualquer um dos anteriores, não era mais do que um trecho de relvado liso, ladeado por acácias e plátanos, do canto extremo do qual brotava uma escadaria de pedra em caracol, com corrimão de ferro, que conduzia a um ninho que correspondia diagonalmente à Torre do Leão, onde o Conde de Aquila estava alojado.

Neste relvado verde, as damas de Valentina e um pajem passavam o serão num jogo de bolas, a sua falta de jeito para o passatempo incomum provocando a troça bem-humorada de Peppe, que observava, e as suas próprias risadas, ainda mais bem-humoradas.

Fortemani também estava lá, afrontando o caso da manhã, que quase parecia ter esquecido, tão seguro de si e tão à vontade que estava. Ele era do tipo em quem a vergonha nunca cala muito fundo, e ele pavoneava-se alegremente por ali, entre as mulheres, revirando os seus olhos ferozes para as namoriscar sedutoramente, lançando a sua capa nova e vistosa com um desdém aristocrático — gloriosamente consciente de que ela não se rasgaria com o movimento, como as capas a que a dura Circunstância o tinha habituado recentemente — e pavoneando-se como qualquer galo num monte de estrume.

Mas a lição que aprendera não estava destinada a partilhar do mesmo esquecimento. De facto, os seus frutos já podiam ser observados na conduta mais ordeira dos seus homens, quatro dos quais, com alabardas ao ombro, faziam a guarda nas muralhas do castelo. Tinham saudado o seu regresso entre eles com zombarias e alusões depreciativas à sua imersão, mas com alguns golpes bem escolhidos ele tinha abafado os mais ruidosos para o silêncio e para um humor mais submisso. Falara-lhes num tom áspero e truculento, dando ordens que pretendia que fossem obedecidas, a menos que o desobediente estivesse ansioso por um ajuste de contas com ele.

De facto, ele era um homem alterado, e quando, naquela noite, os seus seguidores, tendo bebido o que ele considerava suficiente para o seu bem, ignoraram as suas ordens de que deveriam parar e ir para a cama, ele foi em busca da Monna Valentina. Encontrou-a em conversa com Francesco e Gonzaga, sentada na galeria da sala de jantar. Estavam lá desde o jantar, discutindo a sabedoria de partir ou permanecer, de fugir ou manter-se firme para receber Gian Maria. A sua conferência foi interrompida agora por Ercole com a sua queixa.

Ela enviou Gonzaga para conter os homens, uma medida que Fortemani tratou com um escárnio oculto. O janota partiu regozijando-se com esta prova de que a avaliação dela sobre as suas qualidades de comando de modo algum sofrera com o contraste com as daquele espadachim de Francesco. Mas o seu orgulho levou-o a uma queda amarga.

Eles fizeram troça das suas admoestações, e quando ele emulou os métodos de Francesco, dirigindo-se a eles com aguda ferocidade e chamando-lhes bestas e porcos, eles captaram o tom falso da sua ferocidade, que era tão diferente da verdadeira como o toque do chumbo é diferente do da prata. Zombaram-no com insultos, imitaram a sua voz de tenor, que a excitação tornara estridente, e mandaram-no ir tocar um alaúde para deleite da sua senhora, e deixar o trabalho dos homens para os homens.

A sua raiva subiu, e eles perderam a paciência; e de mostrar os dentes no riso, começaram a mostrá-los em rosnados. Perante isto, a sua ferocidade abandonou-o. Passando por Fortemani, que estava frio e desdenhoso junto à porta, observando o fracasso que esperava, ele regressou com as faces a arder e palavras amargas para a Madonna Valentina.

Ela ficou consternada com o relato que ele lhe trouxe, magnificado para encobrir a sua própria vergonha. Francesco estava sentado calmamente a tamborilar no parapeito, os olhos no jardim banhado pelo luar lá em baixo, e nunca por palavra ou sinal sugerindo que poderia ter sucesso onde Romeo falhara. Finalmente, ela virou-se para ele.

“Poderíeis...?” começou ela, e parou, os seus olhos vagueando de volta para Gonzaga, relutante em ferir ainda mais um orgulho que já estava muito dorido. No instante seguinte, Francesco levantou-se.

“Poderia tentar, Madonna”, disse ele calmamente, “embora o fracasso do Messer Gonzaga me dê pouca esperança. E, contudo, pode ser que ele tenha retirado o gume da sua ousadia, e que, assim, uma tarefa mais fácil me aguarde. Tentarei, Madonna.” E com isso, ele partiu.

“Ele terá sucesso, Gonzaga”, disse ela, depois que ele se foi. “Ele é um homem de guerra, e conhece as palavras às quais estes sujeitos não têm resposta.”

“Desejo-lhe boa sorte na sua tarefa”, zombou Gonzaga, o seu rosto bonito agora branco de amargura. “E aposto convosco como ele falha.”

Mas Valentina desprezou a oferta, cuja temeridade ficou mais do que provada quando, ao fim de uns dez minutos, Francesco reentrou, tão imperturbável como quando partira.

“Eles estão quietos agora, Madonna”, anunciou ele.

Ela olhou para ele interrogativamente. “Como o conseguistes?” perguntou ela.

“Tive uma pequena dificuldade”, disse ele, “mas não demasiada.” O seu olhar dirigiu-se a Gonzaga, e ele sorriu. “O Messer Gonzaga é demasiado gentil com eles. Demasiado verdadeiro cortesão para se valer da brutalidade que é necessária quando lidamos com brutos. Não deveríeis desdenhar usar as vossas mãos neles”, admoestou ele o janota com toda a seriedade, e sem qualquer traço de ironia. Nem Gonzaga suspeitou de nenhuma.

“Eu, sujar as minhas mãos naquela vermalha?” gritou ele, com uma voz de horror. “Morreria antes.”

“Ou então logo depois”, guinchou Peppe, que entrara sem ser notado. “Patrona mia, deveríeis ter visto este paladino”, continuou ele, adiantando-se. “Ora, Orlando nunca foi metade tão furioso como ele quando estava ali a dizer-lhes que tipo de lixo eram, e a mandar-lhes ir para a cama antes que os expulsasse com uma vassoura.”

“E eles foram?” perguntou ela.

“Não de imediato”, disse o bobo. “Tinham bebido o suficiente para se tornarem muito corajosos, e um que estava muito bêbado foi tão corajoso que o atacou. Mas Ser Francesco derrubou-o com as mãos e, chamando Fortemani, ordena-lhe que ponha o homem numa masmorra para ficar sóbrio. Depois, sem esperar sequer para ver as suas ordens cumpridas, afasta-se, convencido de que nada mais era necessário. E não foi. Eles levantaram-se, resmungando uma ou outra maldição, talvez — ainda assim, não tão alto que pudesse chegar aos ouvidos de Fortemani — e foram-se para a cama.”

Ela olhou novamente para Francesco com olhos admirados e falou da sua audácia em termos elogiosos. Isto ele minimizou; mas ela insistiu.

“Vistes muitas guerras, senhor”, perguntou ela, meio perguntando, meio afirmando.

“Ora, sim, Madonna.”

E aqui o contorcido Gonzaga vislumbrou a sua oportunidade.

“Não me lembro do vosso nome, bom senhor”, murmurou ele.

Francesco voltou-se meio para ele e, apesar de a sua mente estar a trabalhar com uma rapidez relâmpago, o seu rosto estava indolentemente calmo. Revelar a sua verdadeira identidade considerou imprudente, pois todos os ligados à prole Sforza deviam despertar desconfiança por parte de Valentina. Sabia-se que o Conde de Aquila ocupava uma posição elevada no favor de Gian Maria, e a notícia da sua queda súbita e banimento não poderia ter chegado aos ouvidos da sobrinha de Guidobaldo, que fugira antes que o conhecimento disso estivesse em Urbino. O seu nome despertaria suspeitas, e qualquer história de desgraça e banimento poderia ser considerada a máscara perfeita para um espião. Havia este Gonzaga, elegante e venenoso, em quem ela confiava e de quem dependia, para sussurrar insidiosamente ao seu ouvido.

“Meu nome”, disse ele serenamente, “é, como lhe disse, Francesco”.

“Mas tem outro?”, perguntou Valentina, o interesse a levar a fazer a pergunta.

“Ora, sim, mas tão intimamente ligado ao primeiro que quase não vale a pena mencionar. Sou Francesco Franceschi, um cavaleiro errante”.

“E um verdadeiro, como bem sei”. Ela sorriu-lhe com tanta doçura que Gonzaga ficou enfurecido.

“Não ouvi esse nome antes”, murmurou ele, acrescentando:

“O seu pai era...?”

“Um cavalheiro da Toscana”.

“Mas não da Corte?”, sugeriu Romeo.

“Ora, sim, da Corte”.

Então, com uma insolência astuta que trouxe o sangue às faces de Francesco, embora para a mente casta de Valentina não significasse nada — “Ah!”, replicou ele. “Mas então, a sua mãe...?”

“Era mais criteriosa, senhor, do que a sua”, veio a resposta cortante, e das sombras a explosão sufocada de riso do bobo acrescentou fel a ela.

Gonzaga levantou-se pesadamente, soltando um suspiro profundo, e os dois homens espetaram-se um ao outro com os olhos. Valentina, sem compreender, olhava de um para o outro.

“Senhores, senhores, o que disseram?”, exclamou ela. “Por que toda esta guerra de olhares?”

“Ele é demasiado rápido a ofender-se, Madonna, para um homem honesto”, foi a resposta de Gonzaga. “Como a serpente na erva, ele está muito pronto com o seu ferrão quando tentamos revelá-lo”.

“Que vergonha, Gonzaga”, gritou ela, levantando-se agora também. “O que está a dizer? Enlouqueceu? Vamos, senhores, uma vez que são ambos meus amigos, sejam amigos um do outro”.

“Perfeitíssimo silogismo!”, murmurou o bobo, sem ser ouvido.

“E o senhor, Messer Francesco, esqueça as suas palavras. Ele não as diz a sério. Ele é muito quente de temperamento, mas doce de coração, este bom Gonzaga”.

No instante seguinte, a nuvem levantou-se da testa de Francesco.

“Ora, já que me pede”, respondeu ele, inclinando a cabeça, “se ele disser apenas que não teve malícia nas suas palavras, confessarei o mesmo pelas minhas”.

Gonzaga, a arrefecer, viu que talvez tivesse ido demasiado depressa, e estava mais disposto a fazer as pazes. Contudo, no seu peito, alimentava uma reserva acrescida de veneno, um sopro do qual lhe escapou quando estava a deixar Valentina, e depois de Francesco já ter partido:

“Madonna”, murmurou ele, “desconfio daquele homem”.

“Desconfia dele? Porquê?”, perguntou ela, franzindo o sobrolho apesar da sua fé no magnífico Romeo.

“Não sei porquê; mas é aqui. Sinto-o”. E com a mão tocou na região do coração. “Diga que ele não é um espião e chame-me tolo”.

“Ora, farei ambos”, riu-se ela. Depois, com mais severidade, acrescentou: “Vá para a cama, Gonzaga. O seu juízo engana-o. Peppino, chame as minhas aias”.

No momento em que ficaram sozinhos, ele aproximou-se dela, esporeado à loucura pelos ciúmes que suportara naquele dia. O seu rosto brilhava pálido à luz das velas, e nos seus olhos havia uma ferocidade latente que a fez hesitar.

“Faça como quiser, Madonna”, disse ele, com uma voz concentrada; “mas amanhã, quer partamos daqui, quer fiquemos, ele não permanece connosco”.

Ela ergueu-se em toda a sua esbelta e graciosa altura, com os olhos ao nível dos de Gonzaga.

“Isso”, respondeu ela, “é como for decretado por mim ou por ele”.

Ele suspirou bruscamente, e a sua voz endureceu para além do que seria crível num homem geralmente tão gentil de tom e maneiras.

“Esteja avisada, Madonna”, murmurou ele, aproximando-se tanto que, com o mínimo movimento, ela teria de lhe tocar, “que se este sbirro sem nome ousar alguma vez colocar-se entre si e mim, por Deus e pelos Seus santos, eu matá-lo-ei! Esteja avisada, digo-lhe”.

E, abrindo-se a porta naquele momento, ele recuou, inclinou-se e, passando pelas aias que entravam, alcançou o umbral. Ali, alguém puxou as prodigiosas mangas folheadas que se espalhavam ao seu lado no ar como as asas de um pássaro. Ele voltou-se e viu Peppino a fazer-lhe sinal para baixar a cabeça.

“Uma palavra ao seu ouvido, Magnífico. Houve um homem que uma vez saiu à procura de lã e voltou tosquiado”.

Dando um safanão colérico no bobo, ele partiu.

Valentina afundou-se no banco da sua janela, num turbilhão de raiva e espanto misturados que lhe empalideceu a face e lhe fez o peito arfar. Foi a primeira insinuação das suas intenções a respeito dela que Gonzaga ousara deixar escapar, e o estado em que isso a deixou augurava mal para o seu sucesso final. A raiva dela ele teria suportado, se a tivesse testemunhado, pois tê-la-ia atribuído ao tom que usara com ela. Mas a incredulidade dela de que ele pudesse, de facto, ter ousado significar o que os seus sentidos lhe diziam que ele significara, ter-lhe-ia mostrado quão desesperada era a sua situação e quão afrontada, quão ultrajada na alma ela tinha sido deixada por este momento de apaixonada revelação pessoal. Ele teria compreendido então que, aos olhos dela, ele nunca tinha sido, nunca seria, mais do que um servo — e um, doravante, que, considerando presunçoso, ela manteria a maior distância.

Mas ele, sem sonhar com isto enquanto caminhava pelo seu quarto, sorria com os seus pensamentos, que fluíam com um otimismo pronto. Talvez tivesse sido um tolo ao ceder tão depressa. A estação ainda não chegara; o fruto não estava suficientemente maduro para ser colhido; ainda assim, que importaria ter dado à árvore um ligeiro abanão premonitório? Um pouco prematuro, talvez, mas predisporia o fruto a cair. Lembrou-se da sua bondade inalterável para com ele, da sua ternura afetuosa, e faltou-lhe o engenho para ver que aquilo não passava da doçura natural que fluía dela tão livremente como flui o perfume da flor — porque a Natureza a moldou assim, e não porque Messer Gonzaga goste do cheiro. Faltando-lhe esse engenho, foi para a cama com uma confiança bem-aventurada e sorriu suavemente para o seu sono.

Longe, no quarto sob a Torre do Leão, o Conde de Aquila também caminhava pelo seu aposento antes de procurar o seu leito, e, no seu caminhar, avistou algo que prendeu a sua atenção e provocou um sorriso. Num canto, entre a sua armadura que Lanciotto ali empilhara, o seu escudo refletia a luz, exibindo o leão dos Sforza esquartelado com a águia dos Aquila.

“Se o meu doce Gonzaga visse um vislumbre daquilo, não teria necessidade de continuar a investigar a minha ascendência”, pensou ele. E, arrastando o brasão daquela pilha de armaduras, abriu suavemente a sua janela e lançou-o para longe, de modo a que caísse com um mergulho no fosso. Feito isto, foi para a cama e ele também adormeceu com um sorriso nos lábios e, na sua mente, uma visão flutuante de Valentina. Ela precisava de uma mão forte e pronta para a guiar nesta rebelião contra o amor-em-armas de Gian Maria, e essa mão, jurou ele, seria a sua, a menos que ela desprezasse a oferta. E assim, murmurando o seu nome com um fervor persistente, de cuja verdadeira importância era totalmente alheio, adormeceu, nem voltou a acordar até que um estrondo na sua porta o despertou. E aos seus sentidos ainda dormentes chegou a voz de Lanciotto, carregada de pressa e alarme.

“Acordai, senhor! Levantai-vos, de pé! Estamos cercados”.

CAPÍTULO XVII. O INIMIGO

O Conde saltou da sua cama e apressou-se a escancarar a porta para admitir o seu servo, que, com o rosto e a voz excitados, lhe trazia a notícia de que Gian Maria chegara a Roccaleone durante a noite e estava agora acampado na planície diante do castelo.

Ele ainda estava a contar a sua história quando um pajem veio com a mensagem de que Monna Valentina solicitava a presença de Messer Francesco no grande salão. Ele vestiu-se à pressa e depois, com Lanciotto nos seus calcanhares, desceu para atender ao seu chamado. Ao atravessar o segundo pátio, viu as aias de Valentina agrupadas nos degraus da capela numa discussão excitada sobre este acontecimento com o Frei Domenico, que, em trajes clericais completos, esperava para dizer a Missa da manhã. Deu-lhes um cortês “Bom dia” e seguiu para o salão de banquetes, deixando Lanciotto fora.

Aqui, encontrou Valentina em conferência com Fortemani. Ela caminhava pela grande sala enquanto falava; mas, além disso, não havia sinal de excitação no seu porte, e, se algum medo do resultado lhe tocava o coração agora que o momento para a ação chegara, ele estava maravilhosamente bem suprimido. À vista de Francesco, um olhar que era metade consternação e metade prazer iluminou o seu rosto. Ela saudou-o com um sorriso que, naquela hora, não concederia a ninguém senão a um amigo de confiança. Depois, com um olhar de pesar:

“Estou incomensuravelmente entristecida, senhor, que o senhor deva estar assim comprometido com a minha sorte. Ter-lhe-ão dito já que estamos cercados, e assim verá como o seu destino está agora ligado ao nosso. Pois temo que não haja saída daqui para si até que Gian Maria levante este cerco. A escolha de partir ou permanecer já não é minha. Temos de permanecer e lutar até ao fim desta batalha”.

“Pelo menos, minha senhora”, respondeu ele prontamente, quase alegremente, “não posso partilhar os seus pesares por mim. O seu ato pode ser uma loucura, Madonna, mas é a mais corajosa e doce loucura que alguma vez existiu, e terei orgulho em desempenhar o meu papel se me atribuir um”.

“Mas, senhor, não tenho qualquer direito sobre si!”

“O direito que toda a senhora cercada tem sobre um verdadeiro cavaleiro”, assegurou-lhe ele. “Eu não poderia pedir melhor ocupação para estes meus braços do que na sua defesa contra o Duque de Babbiano. Estou ao seu serviço e de coração alegre, Monna Valentina. Vi um pouco de guerra e poderá achar-me útil”.

“Faça-o Preboste de Roccaleone, Madonna”, instou Fortemani, cuja gratidão ao homem que lhe salvara a vida se misturava com uma apreciação admirada dos seus poderes, dos quais o valentão tivera uma experiência tão prática.

“Ouve o que o Ercole diz?”, exclamou ela, voltando-se para Francesco com uma súbita avidez que mostrava quão bem-vinda era aquela sugestão.

“Seria uma honra demasiado grande”, respondeu ele solenemente. “Contudo, se colocasse nas minhas mãos essa confiança, defendê-la-ia até ao meu último suspiro”.

E então, antes que ela pudesse responder-lhe, Gonzaga entrou pela porta lateral e franziu o sobrolho ao ver Francesco ali antes dele. Estava um pouco pálido, levava a sua capa sobre o ombro direito em vez do esquerdo e, em geral, o seu traje estava menos meticuloso do que o habitual e mostrava sinais de ter sido vestido à pressa. Com um aceno seco ao Conde e ignorando totalmente Fortemani — que o olhava de soslaio com raiva em memória do dia anterior —, ele curvou-se profundamente perante Valentina.

“Estou perturbado, Madonna...”, começou ele, quando ela o interrompeu.

“Tem pouca razão para o estar. Terão as coisas acontecido de forma diferente daquela que esperávamos?”

“Talvez não. Contudo, eu esperava que Gian Maria não permitisse que o seu humor o levasse tão longe”.

“Esperava isso... depois da mensagem que Messer Francesco nos trouxe?”. E ela examinou-o com um olhar de súbita compreensão. “Contudo, não expressou tal esperança quando aconselhou esta fuga para Roccaleone. Era todo a favor de lutar então. Um ardor marcial consumia-o. Donde esta mudança? É a iminência do perigo que lhe dá uma realidade demasiado sombria para o seu apetite?”

Havia um desprezo nas suas palavras que o feriu como ela pretendia que ferisse. A sua imprudência da noite anterior mostrara-lhe a necessidade de não o deixar com uma opinião falsa da extensão da sua estima, e, além disso, essas últimas palavras dele mostraram-no revelado sob uma nova luz, e ela gostava menos dele por isso.

Ele inclinou a cabeça levemente, com a vergonha a arder em vermelho nas suas faces por ser assim repreendido diante de Fortemani e daquele Francesco, um arrivista. Que Francesco fosse um arrivista já não era uma questão de suposição para ele. A sua alma assegurava-lho.

“Madonna”, disse ele, com alguma mostra de dignidade, ignorando as suas zombarias, “vim trazer-lhe a notícia de que um arauto de Gian Maria implora uma audiência. Devo parlamentar com ele por si?”

“É demasiado bom”, respondeu ela docemente. “Eu própria ouvirei o homem”.

Ele inclinou-se submissivamente, e depois o seu olhar moveu-se para Francesco.

“Poderíamos combinar com ele o salvo-conduto para este cavalheiro”, sugeriu ele.

“Não há esperança de que o concedessem”, respondeu ela facilmente. “Nem eu poderia esperar que o fizessem, pois Messer Francesco consentiu em exercer o cargo de Preboste de Roccaleone. Mas estamos a fazer o mensageiro esperar. Senhores, acompanhar-me-ão até às muralhas?”

Eles inclinaram-se e seguiram-na, com Gonzaga a vir por último, o seu passo pesado como o de um bêbado, o rosto branco até aos lábios na raiva amarga com que se via suplantado e lia a sua resposta às palavras quentes que na noite anterior sussurrara ao ouvido de Valentina.

Ao atravessarem o pátio, Francesco cumpriu o primeiro ato do seu novo cargo ao ordenar a meia dúzia de homens de armas que se perfilassem atrás deles, a fim de que pudessem fazer alguma demonstração sobre a muralha quando chegassem para parlamentar com o arauto.

Encontraram um homem alto montado num cavalo cinzento alto, cujo elmo polido brilhava como prata ao sol da manhã e cujo gibão estava quase escondido sob um tabardo carmesim ornamentado com o leão dos Sforza. Ele inclinou-se profundamente quando Valentina apareceu, seguida pela sua escolta, na vanguarda da qual se encontrava o Conde de Aquila, o seu chapéu largo puxado para baixo sobre a testa, de modo que deixava o seu rosto na sombra.

“Em nome do meu senhor, o Altíssimo e Poderoso Gian Maria Sforza, Duque de Babbiano, exorto-a a render-se, minha senhora, depondo as suas armas e abrindo os seus portões”.

Seguiu-se uma pausa, ao fim da qual ela lhe perguntou se aquela era a soma da sua mensagem, ou se havia algo que ele se tivesse esquecido. O arauto, curvando-se graciosamente sobre o pescoço arqueado do seu cavalo que fazia piruetas, respondeu-lhe que o que tinha dito era tudo o que lhe fora ordenado dizer.

Ela voltou-se com um olhar perplexo e bastante desamparado para aqueles que estavam atrás dela. Desejava que o assunto fosse conduzido com a devida dignidade, e a sua educação em convento deixava-a em dúvida sobre como isto poderia ser melhor alcançado. Ela dirigiu-se a Francesco.

“Dará a ele a sua resposta, meu Lorde Preboste?”, disse ela, com um sorriso, e Francesco, avançando e apoiando-se numa amena daquela muralha fortificada, obedeceu-lhe.

“Sr. Arauto”, disse ele, com uma voz rouca que não era a sua, “quererá dizer-me desde quando o Duque de Babbiano está em guerra com Urbino para que deva assim cercar uma das suas fortalezas e exigir a rendição da mesma?”

“Sua Alteza”, respondeu o arauto, “está a agir com a plena sanção do Duque de Urbino ao enviar esta mensagem à Senhora Valentina della Rovere”.

Nesse momento, Valentina empurrou o Conde de lado e, esquecendo o seu propósito de conduzir este assunto com dignidade, deixou que a sua língua de mulher proferisse a resposta do seu coração.

“Esta mensagem, senhor, e a presença aqui do seu mestre, não passa de mais uma das impertinências que sofri às mãos dele, e é a culminante. Leve essa mensagem de volta a ele e diga-lhe que, quando eu for instruída sobre com que direito ele ousa enviar alguém com tal recado, poderei dar-lhe uma resposta mais germânica com o seu desafio”.

“Preferiria, Madonna, que Sua Alteza viesse pessoalmente falar consigo?”

“Não há nada que eu preferisse menos. Já a necessidade me obrigou a ter mais a dizer a Gian Maria do que eu teria desejado”. E com um gesto orgulhoso, ela sinalizou que a audiência tinha terminado e voltou-se para abandonar a muralha.

Teve uma breve conferência com Francesco, durante a qual ele a consultou sobre certas medidas de defesa a serem tomadas e fez sugestões, às quais ela concordou, com as suas esperanças a subirem rapidamente ao ver que ali, pelo menos, tinha um homem com conhecimento do trabalho a que se tinha dedicado. Aliviava-lhe o coração e dava-lhe uma confiança alegre olhar para aquela figura reta e marcial, a mão tão familiarmente a descansar no punho da espada que parecia parte de si, e os olhos tão calmos; enquanto, quando ele falava de perigos, estes pareciam diminuir perante o desdém por eles tão manifesto no seu tom.

Com Fortemani nos seus calcanhares, ele pôs-se a executar as medidas que sugerira, com o valentão a segui-lo agora com a lealdade maravilhada de um cão pelo seu dono, compreendendo que ali, de facto, estava um soldado de fortuna em comparação com quem os da sua laia não passavam de seguidores de campo. Confiança, também, obteve Ercole daquele magnetismo da inabalável confiança de Francesco; pois ele parecia tratar o assunto como uma grande pilhéria, uma comédia encenada para o Duque de Babbiano e à custa desse mesmo Duque. E tal como o tom vivaz de Francesco soprava confiança em Fortemani e Valentina, também o soprava nos miseráveis seguidores de Fortemani. Eles tornaram-se entusiastas no reflexo do seu entusiasmo e, por admiração por ele, passaram a admirar o negócio em que estavam empenhados e, finalmente, a orgulharem-se da parte que ele atribuía a cada um deles. Dentro de uma hora, havia tal diligente agitação em Roccaleone, tal ar de sombria alegria e alto espírito, que Valentina, observando-o, perguntava a si mesma que espécie de mágico era aquele que ela tinha elevado ao comando da sua fortaleza, que em tão pouco tempo podia operar tal mudança maravilhosa no comportamento da sua guarnição.

Apenas uma vez a alegria de Francesco falhou, e isso foi quando, ao visitar a armaria, encontrou apenas um único barril de pólvora ali armazenado. Voltou-se para Fortemani para perguntar onde Gonzaga a teria colocado, e sendo Fortemani tão ignorante quanto ele sobre o assunto, foi imediatamente em busca de Gonzaga. Depois de revistar o castelo por ele, encontrou-o a caminhar pelo caramanchão no jardim em animada conversa com Valentina. À sua aproximação, o porte do cortesão tornou-se mais contido e as suas sobrancelhas sombrias.

“Messer Gonzaga”, chamou-o Francesco. O cortesão, surpreendido, olhou para cima. “Onde escondeu a sua reserva de pólvora?”

“Pólvora?”, gaguejou Gonzaga, arrepiado por um súbito receio. “Não há nenhuma na armaria?”

“Sim — um pequeno barril, suficiente para carregar um canhão uma ou duas vezes, não nos restando nada para as nossas armas de mão. É essa a sua reserva?”

“Se é tudo o que há na armaria, é tudo o que temos”.

Francesco ficou sem fala, olhando para ele, com um rubor baço a rastejar para as suas faces. Naquele momento de ira, esqueceu as suas posições e não pensou no ardor que devia estar em Gonzaga pela perda de posto que sofrera desde que Valentina nomeara um preboste.

“E são estes os seus métodos de fortificar Roccaleone?”, perguntou ele, com uma voz que cortava como uma faca. “O senhor armazenou uma boa provisão de vinho, um rebanho de ovelhas e infinitas iguarias, senhor”, zombou ele. “Esperava atirar com isto ao inimigo, ou não contava com nenhum inimigo?”

Ora, esta pergunta tocou tão de perto a verdade que ateou no peito de Gonzaga uma raiva que, por um momento, fez dele um homem. Foi o último sopro que fez explodir a cólera latente que ele carregava na sua alma.

A sua resposta veio feroz e quente. Foi tão desmedida e desprezadora quanto as recriminações anteriores de Francesco, e terminou num desafio ao Conde para o encontrar a cavalo ou a pé, com espada ou lança, e isso o mais brevemente possível.

Mas Valentina interveio e repreendeu ambos. Contudo, para Francesco a sua repreensão foi cortês e terminou numa oração para que ele fizesse o melhor com os recursos que Roccaleone oferecia; para Gonzaga foi desprezadora no último grau, pois a pergunta de Francesco — a qual Gonzaga deixara sem resposta —, vinda num momento em que ela estava cheia de suspeitas de Gonzaga e dos fins que ele procurara servir ao aconselhá-la sobre um caminho que desde então se mostrara tão totalmente inapto para guiar, abrira-lhe bem os olhos. Ela lembrou-se de quão estranhamente comovido ele ficara ao saber ontem que Gian Maria marchava sobre Roccaleone, e com que ardor ele aconselhara a fuga da fortaleza — ele, que tão bravamente falara em mantê-la contra o Duque.

Eles ainda estavam a discutir ali de uma forma muito imprópria quando um toque de trombeta os alcançou para além das muralhas.

“O arauto novamente”, gritou ela. “Vamos, Messer Francesco, ouçamos que nova mensagem ele traz”.

Ele conduziu Francesco para longe, deixando Gonzaga na sombra das vinhas, reduzido quase às lágrimas na extremidade da sua humilhação.

O arauto retornou com o anúncio de que a resposta de Valentina não deixava a Gian Maria alternativa senão aguardar a chegada do Duque Guidobaldo, que então marchava para se juntar a ele. A presença do Duque de Urbino seria, pensava ele, justificação suficiente aos olhos dela para o desafio que Gian Maria enviara, e que enviaria novamente quando o seu tio chegasse para confirmá-lo.

Dali em diante, o resto do dia passou-se em paz em Roccaleone, se exceptuarmos o verdadeiro inferno de inquietação que fervia no coração de Romeo Gonzaga. Ele sentou-se ignorado ao jantar naquela noite, salvo pelas damas de Valentina e pelo bobo, que ocasionalmente o provocava sobre o seu desânimo. Valentina, por sua vez, voltou toda a sua atenção para o Conde, e enquanto Gonzaga — Gonzaga, o poeta de fantasia ardente, o alegre cantor, o reconhecido espírito, o espelho da cortesia — permanecia silencioso e sem fala, este fanfarrão arrogante e recém-chegado entretinha-os com uma vivacidade que conquistava todos os corações — sempre à excepção do de Romeo Gonzaga.

Francesco fez pouco do cerco de uma maneira que animou cada alma presente com alívio. Tornou-se alegre à custa de Gian Maria e deixou bem claro que não poderia ter encontrado nada mais cativante para a sua fantasia guerreira do que este assunto em que um acidente o embarcara. Estava tão cheio de confiança quanto ao resultado como estava cheio de uma ansiedade impaciente pela contenda em si.

Será de estranhar que — nunca tendo conhecido senão homens artificiais; homens da corte e da antecâmara; homens de modos delicados e truques de fala afectados e afetados; em suma, tais homens como a circunstância determina que rodeiem os grandes — os olhos de Monna Valentina se abrissem muito, para melhor contemplar este novo modelo de homem, que, embora claramente um cavalheiro de alta linhagem, trazia consigo um ar de campo em vez de câmara, era imbuído por um espírito de cavalaria e aventura, e ignorava com uma certa dignidade altiva, como se abaixo da sua observação, as poses que ela estava acostumada a ver caracterizar o comportamento dos cavalheiros de Sua Alteza, seu tio.

Era jovem, além disso, mas já não imaturo; formoso, mas com uma forte formosura masculina; tinha uma voz agradavelmente modulada, mas que eles tinham ouvido elevar-se num tom imperativo e convincente; tinha a risada mais alegre e descuidada de todo o mundo — tal risada que cativa um homem a todos os que a ouvem — e entregava-se a ela sem restrições.

Gonzaga sentava-se sombrio e melancólico, com o coração a rebentar com o ressentimento dos medíocres e incompetentes pelo homem de qualidades brilhantes. Mas o dia seguinte traria-lhe algo pior.

O Duque de Urbino chegou na manhã seguinte e cavalgou até ao fosso pessoalmente, acompanhado apenas por um trompetista, que, pela terceira vez, entoou uma nota de desafio à fortaleza.

Como no dia anterior, Valentina atendeu ao chamado, acompanhada por Francesco, Fortemani e Gonzaga — este último não convidado, mas não proibido, seguindo taciturnamente na sua comitiva, numa última e desesperada tentativa de afirmar-se como um dos seus capitães.

Francesco vestira a sua armadura e vinha trajado da cabeça aos pés em aço resplandecente, para prestar honra digna à ocasião. Um molho de plumas balançava no seu elmo, e apesar de a sua viseira estar aberta, as sombras do capacete proporcionavam, àquela distância, suficiente ocultação às suas feições.

A visão do seu tio deixou Valentina inabalável. Por muito amado que fosse pelo seu povo, entre si e a sua sobrinha ele não fizera qualquer esforço para estabelecer relações de afecto. Menos do que nunca procurava ele agora prevalecer pela voz do parentesco. Veio na armadura de guerra, como um príncipe para um súbdito rebelde, e foi precisamente com esse tom que a saudou.

“Monna Valentina”, disse ele — parecendo ignorar inteiramente a circunstância de ela ser sua parente — “por muito que esta rebelião me entristeça, não penses que o teu sexo te concederá quaisquer privilégios ou clemência. Tratar-te-emos precisamente como trataríamos qualquer outro súbdito rebelde que agisse como tu agiste.”

“Alteza”, respondeu ela, “não solicito privilégio algum além daquele ao qual o meu sexo me dá o direito absoluto, e que não tem qualquer relação com a guerra e as armas. Refiro-me ao privilégio de dispor de mim mesma, da minha mão e do meu coração, como me aprouver. Até que chegueis a reconhecer que sou uma mulher dotada de uma natureza feminina, e até que, tendo-o compreendido, estejais preparado para vos submeter a isso e me passeis a vossa palavra de príncipe de não insistir mais comigo na pretensão do Duque de Babbiano, aqui ficarei, apesar de vós, dos vossos homens de armas e do vosso desprezível aliado, Gian Maria, que imagina que o amor pode ser feito com sucesso com armadura, e que o caminho para o coração de uma mulher deve ser aberto a tiro de canhão.”

“Penso que a levaremos a um estado de espírito mais subjectivo e dócil, Madonna”, foi a resposta sombria.

“Dócil a quem?”

“Ao Estado, de que és princesa por honra de nascimento.”

“E quanto ao meu dever para comigo mesma, para com o meu coração e para com a minha feminilidade? Não se deve tomar conta disso?”

“São assuntos, Madonna, que não devem ser discutidos aos gritos das muralhas de um castelo — nem, na verdade, desejo discuti-los em parte alguma. Estou aqui para vos intimar a render-vos. Se resistirdes a nós, fazê-lo-eis por vossa conta e risco.”

“Então, por minha conta e risco, resistir-vos-ei — alegremente. Desafio-vos. Fazei o vosso pior contra mim, desonrai a vossa masculinidade e o próprio nome da cavalaria com qualquer violência que vos ocorra, mas prometo-vos que Valentina della Rovere nunca se tornará a esposa de Sua Alteza de Babbiano.”

“Recusais-vos a abrir os vossos portões?” retornou ele, com uma voz que tremia de raiva.

“Total e finalmente.”

“E pensais persistir nisto?”

“Enquanto tiver vida.”

O Príncipe riu-se sardonicamente.

“Lavo as minhas mãos do assunto e das suas consequências”, respondeu ele sombriamente. “Deixo-o aos cuidados do vosso futuro marido, Gian Maria Sforza, e se, na sua muito natural ânsia pelas núpcias, ele tratar o vosso castelo com dureza, a culpa disso deve recair sobre vós. Mas o que ele fizer, fá-lo-á com a minha plena sanção, e vim aqui para vos avisar disso, já que parecíeis estar em dúvida. Peço que permaneçais aí por alguns momentos, para ouvir o que a própria Alteza terá a dizer. Confio que a sua eloquência se mostre mais persuasiva.”

Ele saudou cerimoniosamente e, virando o seu cavalo, cavalgou para longe. Valentina teria-se retirado, mas Francesco insistiu para que ela permanecesse e aguardasse a vinda do Duque de Babbiano. E assim percorreram as ameias, Valentina em conversa séria com Francesco, Gonzaga seguindo em silêncio melancólico com Fortemani, devorando-os com os olhos.

Da sua elevação, observaram o acampamento agitado na planície, onde tendas verdes, castanhas e brancas estavam a ser rapidamente erguidas por soldados seminu. O pequeno exército, ao todo, talvez contasse com cem homens, o que, na sua vaidade, Gian Maria considerava tudo o que seria necessário para reduzir Roccaleone. Mas a porção mais formidável das suas forças rolou para o campo mesmo enquanto eles observavam. Foi anunciada por um gemido rouco das rodas de carroças puxadas por bois, em número de dez, em cada uma das quais era transportado um canhão. Outras carroças seguiam com munições e víveres para os homens acampados.

Observaram com interesse a cena atarefada que se desenrolava, e enquanto vigiavam, viram Guidobaldo entrar no coração do acampamento e desmontar. Então, de uma tenda mais espaçosa e imponente que as outras, avançou a figura baixa e robusta de Gian Maria, impossível de reconhecer àquela distância, salvo pelos olhos atentos de Francesco, que estavam familiarizados com a sua forma.

Um cavalariço segurou-lhe o cavalo e ajudou-o a montar, e então, atendido pelo mesmo trompetista que escoltara Guidobaldo, ele avançou em direcção ao castelo. À beira do fosso, ele parou e, à vista de Valentina e da sua companhia, tirou o seu chapéu emplumado e inclinou a sua cabeça cor de palha.

“Monna Valentina”, chamou ele, e quando ela se adiantou em resposta, ele ergueu os seus olhos pequenos e cruéis num olhar malicioso e mostrou a lua redonda do seu rosto branco, mais branco ainda do que o costume — uma palidez atrabiliosa e quase esverdeada.

“Lamento que Sua Alteza, o vosso tio, não tenha prevalecido convosco. Onde ele falhou, posso ter pouca esperança de ter sucesso — pela persuasão das palavras. Contudo, rogo-vos que me permitais falar com o vosso capitão, quem quer que ele seja.”

“Os meus capitães estão aqui presentes”, respondeu ela tranquilamente.

“Então! Tendes uma pluralidade deles; para comandar — quantos homens?”

“O suficiente”, rugiu Francesco, interpondo-se, a sua voz soando oca de dentro do seu elmo, “para enviar-vos a vós e aos vossos lacaios de cerco para a perdição.”

O Duque mexeu-se no seu cavalo e espreitou o orador. Mas havia pouca coisa do seu rosto visível para reconhecimento, enquanto a sua voz estava alterada e a sua figura dissimulada na sua carapaça de aço.

“Quem és tu, patife?” perguntou ele.

“Patife nos teus dentes, sejas tu vinte vezes Duque”, respondeu o outro, ao que Valentina riu-se abertamente.

Nunca, desde o dia em que soltara o seu primeiro lamento, Sua Alteza de Babbiano ouvira palavras de tal importância dos lábios de um homem vivo. Um rubor púrpura manchou as suas faces pela indignidade daquilo.

“Atenta em mim, velhaco!” berrou ele. “O que quer que aconteça ao resto desta guarnição mal orientada quando finalmente cair nas minhas mãos, para ti posso prometer uma corda e uma trave.”

“Bah!” zombou o cavaleiro. “Primeiro apanha o teu pássaro. Não estejas tão certo de que Roccaleone cairá alguma vez nas tuas mãos. Enquanto eu viver, não entras aqui, e a minha vida, Alteza, é para mim algo precioso, da qual não me separarei levianamente.”

Os olhos de Valentina não tinham alegria agora enquanto os voltava para aquela figura marcial e reluzente que estava tão orgulhosamente ao seu lado, e parecendo tão bem sintonizada com o orgulhoso desafio que ele lançava ao tirano principesco lá em baixo.

“Cale-se, senhor!” murmurou ela. “Não o irrite mais.”

“Sim”, gemeu Gonzaga, “em nome de Deus não diga mais nada, ou arruinar-nos-á irremediavelmente.”

“Madonna”, disse o Duque, sem mais prestar atenção a Francesco, “dou-vos vinte e quatro horas para vos decidirdes sobre a vossa acção. Ali vedes eles a trazerem os canhões para o acampamento. Quando acordardes amanhã, encontrareis essas armas apontadas às vossas muralhas. Entretanto, chega de palavras. Permita que eu diga uma palavra ao Messer Gonzaga antes de partir.”

“Desde que partais, podeis dizer uma palavra a quem quiserdes”, respondeu ela com desprezo. E, virando-se, indicou a Gonzaga a seteira que ela abandonara.

“Juro que aquele bobo afetado já está a tremer com o medo do que virá”, berrou o Duque, “e talvez o medo lhe mostre o caminho para a razão. Messer Gonzaga!” chamou ele, elevando a voz. “Como acredito que os homens de Roccaleone estão ao vosso serviço, chamo-vos a ordenar-lhes que baixem essa ponte levadiça, e, em nome de Guidobaldo, bem como no meu próprio, prometo-lhes perdão total e nenhum dano — salvando apenas aquele patife ao vosso lado. Mas se os vossos velhacos me resistirem, prometo-vos que, quando eu tiver reduzido Roccaleone pedra por pedra, não pouparei nenhum de vós.”

A tremer como um álamo, Gonzaga permaneceu ali, a sua voz paralisada e sem dar resposta, ao que Francesco se inclinou novamente para a frente.

“Ouvimos os vossos termos”, respondeu ele, “e não estamos dispostos a atendê-los. Não desperdiceis o dia com ameaças vãs.”

“Senhor, os meus termos não eram para vós. Não vos conheço; não vos dirigi a palavra, nem sofrerei ser abordado por vós.”

“Demorai-vos aí mais um momento”, respondeu a voz vibrante do cavaleiro, “e encontrareis a ser abordados com uma salva de tiros de arcabuz. Olá, lá!” comandou ele, virando-se e dirigindo-se a um corpo imaginário de homens nas muralhas inferiores do jardim, à sua esquerda. “Arcabuzeiros para o postigo! Soprai as vossas mechas! Preparai-vos! Agora, meu Lorde Duque, retirareis ou teremos de vos fazer retirar a sopro?”

A resposta do Duque tomou a forma de um punhado de ameaças blasfemas sobre como trataria o seu interlocutor quando o conseguisse apanhar.

“Apresentar armas!” rugiu o cavaleiro aos seus arcabuzeiros imaginários, ao que, sem mais uma palavra, o Duque virou o seu cavalo e cavalgou com uma pressa vergonhosa, o seu trompetista seguindo logo atrás dos seus calcanhares, perseguido por uma rajada de risos irrisórios de Francesco.

CAPÍTULO XVIII. TRAIÇÃO

“Senhor”, engoliu em seco Gonzaga, enquanto desciam das ameias, “terminareis por nos fazer enforcar a todos. Era essa a forma de se dirigir a um príncipe?”

Valentina franziu o sobrolho por ele se atrever a repreender o seu cavaleiro. Mas Francesco apenas se riu.

“Por São Paulo! Como teríeis querido que eu me dirigisse a ele?” inquiriu. “Teríeis querido que eu usasse bajulação com ele — aquele bronco? Teríeis querido que eu implorasse misericórdia a ele, e suplicasse-lhe, em palavras melosas, que tivesse paciência com uma senhora voluntariosa? Deixai estar, Messer Gonzaga, ainda superaremos isto, não duvideis.”

“A coragem do Messer Gonzaga parece ser de uma qualidade que diminui à medida que a necessidade dela aumenta”, disse Valentina.

“Estais a confundir coragem, Madonna, com imprudência temerária”, respondeu o cortesão. “Poderíeis aprender isso para a vossa própria ruína.”

Que Gonzaga não era o único a ter esta opinião, eles logo saberiam, pois, ao chegarem ao pátio, um rufião corpulento e de sobrancelhas negras, chamado Cappoccio, atravessou-se no seu caminho.

“Uma palavra convosco, Messer Gonzaga, e convosco, Ser Ercole.” A sua atitude era cheia de insolência truculenta, e todos pararam, Francesco e Valentina virando-se dele para os dois homens a quem ele se dirigia, e esperando para ouvir o que ele poderia ter a dizer-lhes. “Quando aceitei serviço sob o vosso comando, deram-me a entender que estava a entrar num negócio que deveria acarretar pouco risco para a minha pele. Disseram-me que provavelmente não haveria luta, e que, se houvesse, não seria mais do que um confronto com os homens do Duque. Assim também assegurastes aos meus camaradas.”

“Assegurastes mesmo?” disse Valentina, intervindo e dirigindo-se a Fortemani, a quem as palavras de Cappoccio tinham sido dirigidas.

“Fiz, Madonna”, respondeu Ercole. “Mas tive a palavra do Messer Gonzaga para isso.”

“Permitistes”, continuou ela, virando-se para Gonzaga, “o seu alistamento com esse entendimento?”

“Com algum entendimento desse tipo, sim, Madonna”, foi ele forçado a confessar.

Ela olhou para ele por um momento, espantada. Então:

“Messer Gonzaga”, disse ela finalmente, “penso que começo a conhecer-vos.”

Mas Cappoccio, que de forma alguma estava interessado na extensão do conhecimento de Valentina sobre o homem, interrompeu impetuosamente:

“Agora ouvimos o que se passou entre este novo Preboste aqui e a Sua Alteza de Babbiano. Ouvimos os termos que foram oferecidos, e a sua rejeição deles, e vim dizer-vos, Ser Ercole, e a vós, Messer Gonzaga, que eu, por um, não permanecerei aqui para ser enforcado quando Roccaleone cair nas mãos de Gian Maria. E há outros dos meus camaradas que pensam da mesma forma.”

Valentina olhou para as feições rugosas e determinadas do homem, e o medo pela primeira vez roubou-lhe o coração e reflectiu-se no seu rosto. Ela estava quase a virar-se para Gonzaga, para desabafar nele um pouco da amargura do seu humor — pois a ele atribuía ela a culpa — quando, mais uma vez, Francesco veio ao resgate.

“Ora, que vergonha sobre ti, Cappoccio, por um rústico desprezível! São estas palavras para os ouvidos de uma senhora sitiada e duramente assediada, cobarde?”

“Não sou cobarde”, respondeu o homem roucamente, o seu rosto a corar sob o chicote do desprezo de Francesco. “Lá fora, ao ar livre, assumirei os meus riscos e lutarei em qualquer causa que me pague. Mas este não é o meu ofício — este esperar pela morte de um rato encurralado.”

Francesco encontrou os seus olhos firmemente por um momento, depois olhou para os outros homens, em número de uma dezena ou mais — todos, de facto, que os deveres que ele lhes atribuíra não retinham noutro lugar. Eles pendiam na retaguarda de Cappoccio, todos ouvidos para o que estava a ser dito, e as suas fisionomias mostravam claramente como os seus sentimentos estavam em simpatia com o seu porta-voz.

“E tu, um soldado, Cappoccio?” zombou Francesco. “Devo dizer-te em que é que Fortemani errou quando te alistou? Ele errou em não te contratar para o serviço de lavagem na cozinha do castelo.”

“Senhor Cavaleiro!”

“Bah! Ergueste a voz para mim? Pensas que sou do teu tipo, animal, para ser amedrontado por sons — por mais hediondos que sejam?”

“Não sou amedrontado por sons.”

“Não és? Por que, então, todo este alarido sobre um punhado de ameaças vazias lançadas contra nós pelo Duque de Babbiano? Se fosses realmente o soldado que gostarias que pensássemos que és, virias aqui dizer: 'Não morrerei desta maneira, ou daquela'? Confessa-te um fanfarrão quando nos dizes que estás pronto para morrer ao ar livre.”

“Não! Isso não sou.”

“Então, se estás pronto para morrer lá fora, por que não aqui dentro? Significará algo para aquele que morre onde ele cumpre a sua morte? Mas tranquiliza-te, sua mulherzinha”, acrescentou ele, com uma risada, e com uma voz suficientemente alta para ser ouvida pelos outros, “não vais morrer — nem aqui, nem lá.”

“Quando Roccaleone capitular....”

“Não capitulará”, trovejou Francesco.

“Bem, então — quando for tomado.”

“Nem será tomado”, insistiu o Preboste, com uma segurança que trazia convicção. “Se Gian Maria tivesse tempo ilimitado ao seu comando, poderia matar-nos de fome até à submissão. Mas ele não tem. Um inimigo está a ameaçar as suas próprias fronteiras, e dentro de poucos dias — uma semana, no máximo — ele será forçado a retirar-se daqui para defender a sua coroa.”

“Ainda maior razão para ele usar medidas severas e bombardear-nos como ameaça”, respondeu Cappoccio astutamente, mas mais no tom de um homem que espera ver o seu argumento refutado. E Francesco, se não o podia refutar, podia pelo menos contradizê-lo.

“Não acredites nisso”, gritou ele, com uma risada de escárnio. “Digo-te que Gian Maria nunca ousará tanto. E se o fizesse, seriam estas muralhas que ruiriam com alguns tiros de canhão? Ele poderia tentar um assalto; mas não preciso de dizer a um soldado que vinte homens que são corajosos e resolutos, como acredito que sejais apesar de todas as vossas palavras de cobarde, poderiam manter um lugar tão forte como este contra o assalto de vinte vezes o número de homens que o Duque tem consigo. E quanto ao resto, se pensas que vos digo mais do que acredito, peço-vos que vos lembreis de como estou incluído na ameaça de Gian Maria. Não sou mais do que um soldado como vós, e tais riscos como são os vossos são também meus. Vedes algum sinal de hesitação em mim, algum sinal de dúvida sobre o resultado, ou algum medo de uma corda que me tocará tanto quanto vos tocará a vós? Ali, Cappoccio! Um preboste menos misericordioso ter-vos-ia enforcado pelas vossas palavras — pois elas cheiram a sedição. No entanto, eu permaneci aqui e discuti convosco, porque não posso dispensar um homem corajoso tal como vós provareis ser. Não ouçamos mais das vossas dúvidas. Elas são indignas. Sede corajosos e resolutos, e ver-vos-eis bem recompensados quando o Duque frustrado for forçado a levantar este cerco.”

Ele virou-se sem esperar pela resposta de Cappoccio — que estava desanimado, as suas faces avermelhadas pela vergonha da sua ameaça de se retirar dali — e conduziu Valentina calmamente através do pátio e subindo os degraus do salão.

Era o seu modo nunca mostrar dúvida de que as suas ordens seriam obedecidas, contudo, nesta ocasião, mal a porta do salão se fechou atrás deles quando ele se virou bruscamente para o Ercole que o seguia.

“Arranja um arcabuz”, disse ele rapidamente, “e leva o meu homem Lanciotto contigo. Caso esses cães ainda se mostrem amotinados, dispara sobre qualquer um que tente os portões — dispara para matar — e envia-me notícias. Mas, acima de tudo, Ercole, não deixes que eles te vejam ou suspeitem da tua presença; isso seria minar o efeito que as minhas palavras podem ter produzido.”

De um rosto lamentavelmente pálido, Valentina ergueu os seus olhos castanhos para os dele, num olhar que foi como uma punhalada para o Gonzaga que observava.

«Precisava de um homem aqui», disse ela, «e creio que deve ter sido o Céu quem o enviou em meu auxílio. Mas acha», perguntou, e com os olhos perscrutou atentamente o rosto dele em busca de qualquer sinal de dúvida, «que eles estão apaziguados?»

«Estou seguro disso, Madonna. Vamos, há sinais de lágrimas nos seus olhos e — pela minha alma! — não há nada por que chorar.»

«Sou apenas uma mulher, afinal de contas», sorriu ela para ele, «e, portanto, sujeita à fraqueza de uma mulher. Pareceu-me que o fim estava mesmo a chegar há pouco. Teria chegado, se não fosse por si. Se eles se amotinassem...»

«Não o farão enquanto eu aqui estiver», respondeu ele, com uma confiança animadora. E ela, cheia de fé neste seu verdadeiro cavaleiro, foi procurar as suas damas e acalmar, por sua vez, qualquer alarme de que pudessem ter sido presas.

Francesco foi desarmar-se e Gonzaga foi apanhar ar nas muralhas, com o coração a ser um verdadeiro saco de fel. O seu ódio pelo intruso não era nada agora comparado com a sua raiva contra Valentina, uma raiva que nascera de uma incompreensão espantada sobre como ela poderia preferir aquele bruto grosseiro e fanfarrão a ele, o inigualável Gonzaga. E enquanto caminhava ali, sob o céu do meio-dia, a memória da garantia de Francesco de que os homens não se amotinariam voltou-lhe, e deu por si a desejar ardentemente que o fizessem, nem que fosse para mostrar a Valentina quão deslocada estava a sua confiança, quão tola a sua crença naquele fanfarrão ruidoso. Pensou a seguir — e com crescente amargura — nos seus próprios esquemas corajosos, no seu amor por Valentina e em quão seguro estivera de que os seus afetos eram correspondidos, antes de este ruffiano chegar ao meio deles. Riu-se com desprezo amargo quando o pensamento voltou a ela preferir Francesco a si próprio. Bem, poderia ser assim agora — agora que os tempos eram de guerra, e este Francesco era um homem que brilhava no seu melhor neles. Mas que tipo de companheiro faria este sbirro em tempos de paz? Teria ele o engenho, a graça, a beleza que era a de Gonzaga? A circunstância, parecia-lhe, era a culpada, e ele amaldiçoou redondamente essa mesma Circunstância. Noutros ambientes, estava seguro de que ela não teria lançado um olhar a Francesco enquanto ele, próprio, estivesse por perto; e se recordava o seu primeiro encontro em Acquasparta, era novamente para amaldiçoar a Circunstância por ter colocado o cavaleiro em tal situação que apelasse à ternura que é parte da natureza da mulher.

Refletiu — seguro de que tinha razão — que se Francesco não tivesse vindo a Roccaleone, ele poderia agora estar casado com Valentina; e, uma vez casado, poderia deitar abaixo a ponte e sair de Roccaleone, seguro de que Gian Maria não se importaria de desposar a sua viúva, e não menos seguro de que Guidobaldo — que era no fundo um príncipe bondoso e clemente — se contentaria em deixar estar o que fora feito, uma vez que nada ganharia além da viuvez da sua sobrinha em enforcar Gonzaga. Era o argumento especioso que o tinha atraído para este empreendimento temerário, as esperanças que estava seguro de que teriam frutificado não fosse a intromissão de Francesco.

Ficou a olhar para a planície tendada, com uma raiva negra e um desespero negro a apagar a beleza da luz do sol daquela manhã de maio, e então ocorreu-lhe que, já que nada havia a esperar dos seus antigos planos, não seria sensato voltar a sua atenção para novos que o salvassem, pelo menos, do enforcamento? Pois estava seguro de que, acontecesse o que acontecesse aos outros, o seu próprio destino estava selado, caísse ou não Roccaleone. Ser-lhe-ia lembrado contra ele que o caso fora da sua instigação, e nem de Gian Maria nem de Guidobaldo poderia esperar misericórdia.

E agora o pensamento de se libertar do seu perigo desesperado deixou-o frio pela sua súbitude. Ficou muito quieto um momento; depois olhou em redor como se temesse que algum espião atento pudesse ler nele a intenção feia que de repente saltara para a vida no seu coração. Rapidamente espalhou-se e tomou uma forma mais definida, o reflexo dela aparecendo agora no seu rosto liso e bonito, e desfigurando-o para além do que se podia acreditar. Afastou-se da muralha e deu uma ou duas voltas nas muralhas, com uma mão atrás das costas, a outra erguida para apoiar o queixo caído. Assim meditou por algum tempo. Depois, com outro dos seus olhares furtivos, virou-se para a torre noroeste e entrou na armaria. Ali remexeu até encontrar a pena, a tinta e o papel que procurava e, com a porta escancarada — para melhor poder ouvir o som de passos que se aproximavam —, pôs-se febrilmente a escrever. Foi feito rapidamente, e ele levantou-se, abanando a folha para secar a tinta. Depois olhou-a de novo, e eis o que tinha escrito:

«Tenho o poder de incitar a guarnição ao motim e de abrir os portões de Roccaleone. Assim cairá o castelo imediatamente nas vossas mãos, e tereis uma prova de quão pouco simpatizo com esta rebelião da Monna Valentina. Que termos me ofereceis se eu realizar isto? Respondei-me agora, e pelos mesmos meios que estou a empregar, mas não envieis a vossa resposta se eu me mostrar nas muralhas.

«ROMEO GONZAGA.»

Dobrou o papel e no verso escreveu o sobrescrito — «Ao Alto e Poderoso Duque de Babbiano.» Depois, abrindo um grande baú que estava encostado à parede, remexeu um momento e, por fim, retirou um virote de besta. À volta do corpo deste atou o seu bilhete. A seguir, tirou da parede uma besta e, de um canto, um molinete para a armar. Com o pé no estribo, esticou a corda e colocou a haste na posição.

E agora fechou a porta e, indo à janela, que era pouco mais que uma fenda de seta, pôs a sua besta ao ombro. Apontou cuidadosamente na direção da tenda ducal e soltou o virote. Observou o seu voo, e quase o arrepiou de orgulho na sua perícia de arqueiro ver o virote atingir a tenda na qual tinha visado e fazer a lona estremecer.

Num momento houve uma comoção. Homens correram para o local, outros emergiram da tenda e, entre estes últimos, Gonzaga reconheceu as figuras de Gian Maria e Guidobaldo.

O virote foi entregue ao Duque de Babbiano, que, com um olhar para cima para as muralhas, desapareceu de novo na tenda.

Gonzaga saiu do seu posto e escancarou a porta da torre, para que os seus olhos pudessem percorrer a totalidade das muralhas banhadas pelo sol. Regressando à sua janela, esperou impacientemente pela resposta. Nem a sua impaciência durou muito. Ao fim de uns dez minutos, Gian Maria reapareceu e, chamando um arqueiro para o seu lado, entregou-lhe algo e fez um gesto com a mão em direção a Roccaleone. Gonzaga moveu-se para a porta e ficou à escuta, sem fôlego. Ao menor sinal de uma aproximação, mostrar-se-ia e, assim, pela provisão feita na sua carta, teria advertido o arqueiro contra disparar o seu virote. Mas tudo estava calmo, e assim Gonzaga permaneceu onde estava até que algo brilhou como um pássaro através da sua visão, bateu secamente contra a parede posterior e caiu com um tilintar nas pedras largas da muralha. Um momento depois, a resposta de Gian Maria estava nas suas mãos.

Desenrolou-a rapidamente da haste que a trouxera e deixou cair o virote num canto. Depois, desdobrando a carta, leu-a, encostado a um dos merlões da muralha.

«Se puder conceber um meio de entregar Roccaleone imediatamente nas minhas mãos, ganhará a minha gratidão, perdão total pela sua parte na rebelião da Monna Valentina e a soma de mil florins de ouro.

«GIAN MARIA.»

Ao ler, uma luz de alegria saltou-lhe aos olhos. Os termos de Gian Maria eram muito generosos. Aceitá-los-ia, e Valentina perceberia, quando fosse tarde demais, em que tipo de caniço quebrado ela se apoiava ao confiar no Messer Francesco. Salvá-la-ia ele agora, como tão alto se gabava? Não haveria de facto motim, como ele tão confiantemente profetizava? Gonzaga riu-se malignamente para si mesmo. Ela aprenderia a sua lição, e quando fosse esposa de Gian Maria, talvez pudesse arrepender-se do seu tratamento de Romeo Gonzaga.

Riu-se suavemente para si mesmo. Depois, de repente, sentiu frio e sentiu a pele a arrepiar-se. Um passo furtivo soou atrás dele.

Amachucou a carta do Duque na mão e, no alarme do momento, deixou-a cair por cima da muralha. Tentando em vão compor as feições que um medo gelado agora perturbara, virou-se para ver quem vinha.

Atrás dele estava Peppe, os seus olhos solenes fixos com uma intensidade estranha no rosto de Gonzaga.

«Procuravas-me?» disse Romeo, e o tremor na sua voz não combinava com a sua arrogância.

O bobo fez-lhe uma vénia grotesca.

«A Monna Valentina deseja que a compareça no jardim, Ilustre.»

CAPÍTULO XIX. CONLIO E CONTRACONLIO

Os olhos rápidos de Peppe tinham visto Gonzaga amachucar e deixar cair o papel, não menos do que tinham observado o rosto sobressaltado do cortesão, e as suas suspeitas tinham sido despertadas. Ele era por natureza curioso, e a experiência ensinara-lhe que as coisas que os homens tentam esconder são geralmente as mesmas coisas que é mais importante conhecer. Por isso, quando Gonzaga se foi, em obediência à convocatória de Valentina, o bobo espreitou cuidadosamente por cima das ameias.

A princípio não viu nada, e concluía com desapontamento que a coisa que Gonzaga deitara fora perdera-se nas águas torrenciais do fosso. Mas, de repente, pousada numa pedra saliente, acima do riacho espumante no qual parecia que um milagre impedira que caísse, avistou uma bola de papel amachucado. Observou com satisfação que jazia a uns três metros imediatamente abaixo da porta falsa junto à ponte levadiça.

Secretamente, pois não era o hábito de Peppe confiar em homens onde pudesse ser evitado, arranjou um novelo de corda. Tendo descido e aberto silenciosamente a porta falsa, prendeu uma extremidade e baixou a outra até à água com extremo cuidado, para não deslocar, e assim perder, aquele papel.

Certificando-se de novo de que não era observado, desceu, mão sobre mão, como um macaco, com os pés contra o granito toscamente talhado da muralha. Depois, com um pequeno balanço da corda, aproximou-se daquela bola amachucada, com as pernas agora a balançar na água agitada, e com um grande esticão que por pouco não o precipitou na torrente, agarrou o papel e transferiu-o para os dentes. Depois, mão sobre mão de novo, e com uma pressa frenética, pois temia a observação não só das sentinelas do castelo mas também dos observadores no acampamento dos sitiantes, subiu de volta para a porta falsa, exultando por ter passado despercebido, e desprezando a vigilância daqueles que deveriam tê-lo observado.

Suavemente fechou a postigo, trancou-o e correu os ferrolhos no topo e na base, e foi repor a chave no seu prego na casa da guarda, que encontrou desocupada. A seguir, com aquela carta misteriosa na mão, correu através do pátio e através do alpendre que conduzia às dependências domésticas, nem parou até ter alcançado a cozinha, onde o Frei Domenico estava a assar o quarto de um cordeiro que ele tinha abatido naquela manhã. Pois, agora que o cerco estava estabelecido, já não havia peixe do riacho, nem lebres e tordos do campo.

O frade amaldiçoou o bobo redondamente, como era seu hábito em todas as ocasiões, pois ele não era tão santo que desprezasse as formas mais leves de juramentos injuriosos. Mas Peppe, por uma vez, não tinha resposta viciosa pronta, um assunto que levou o dominicano a perguntar-lhe se estava doente.

Sem nunca lhe ligar, o bobo desdobrou e alisou o papel amachucado num canto junto ao lume. Leu-o e assobiou, depois enfiou-o no peito da sua túnica absurda.

«Que te aflige?» disse o frade. «Que tens aí?»

«Uma receita para um prato de miolos de frade. Uma iguaria muito rara, e tornada dispendiosa devido à escassez dos ingredientes.» E com essa resposta Peppe foi-se embora, deixando o monge com um olhar feio nos olhos e uma imprecação não dita na língua.

Diretamente ao Conde de Aquila foi o bobo com a sua carta. Francesco leu-a e interrogou-o atentamente sobre o que sabia da maneira como ela chegara à posse de Gonzaga. Quanto ao resto, aquelas linhas, longe de lhe causarem o desconforto que Peppe esperava, pareciam uma fonte de satisfação e segurança para ele.

«Ele oferece mil florins de ouro», murmurou ele, «além da liberdade e promoção de Gonzaga. Ora, então, eu não disse mais do que a verdade quando garanti aos homens que Gian Maria apenas nos ameaçava ociosamente com bombardeamento. Mantém este assunto em segredo, Peppe.»

«Mas vigiará o Messer Gonzaga?» disse o bobo.

«Vigiá-lo? Porquê, onde está a necessidade? Não imaginas que ele seja tão vil que esta oferta o pudesse tentar?»

Peppe olhou para cima, o seu rosto grande e extravagante franzido numa expressão de dúvida astuta.

«Não acha, senhor, que ele a convidou?»

«Ora, que vergonha esse pensamento. Messer Gonzaga pode ser um ocioso tocador de alaúde, um cobarde de espírito mesquinho; mas um traidor...! E trair a Monna Valentina! Não, não.»

Mas o bobo estava longe de estar descansado. Tinha tido o convívio mais longo com Messer Gonzaga, e os seus olhos astutos tinham há muito tomado a medida exata do homem. Que Francesco desprezasse a noção de traição por parte de Romeo; Peppe persegui-lo-ia como uma sombra. Isto ele fez pelo resto daquele dia, agarrando-se a Gonzaga como se o amasse carinhosamente, e observando furtivamente o comportamento do homem. Contudo, não viu nada que confirmasse as suas suspeitas além de uma certa melancolia preocupada por parte do cortesão.

Naquela noite, enquanto ceavam, Gonzaga queixou-se de dor de dentes e, com a licença de Valentina, deixou a mesa logo no início da refeição. Peppe levantou-se para o seguir, mas ao chegar à porta, o seu inimigo natural, o frade — sempre ansioso por frustrá-lo onde podia — apanhou-o pela nuca e atirou-o sem cerimónias de volta para a sala.

«Também tens dor de dentes, bom-para-nada?» disse o frade. «Fica aqui e ajuda-me a servir a companhia.»

«Deixe-me ir, bom Frei Domenico», sussurrou o bobo, com uma voz tão séria que o monge deixou o caminho livre. Mas a voz de Valentina ordenou-lhe agora que ficasse com eles, e assim a sua oportunidade perdeu-se.

Moveu-se pela sala como um bobo muito desanimado e melancólico, sem uma piada para ninguém, pois os seus pensamentos estavam todos em Gonzaga e na traição que tinha a certeza de que ele estava a tramar. Contudo, fiel a Francesco, que se sentava sem se preocupar, e não querendo alarmar Valentina, sufocou o aviso que lhe subia aos lábios, procurando convencer-se de que os seus medos nasciam talvez de um excesso de suspeita. Se soubesse quão bem fundamentados eles realmente eram, poderia ter praticado menos autocontrolo.

Pois enquanto ele se movia taciturnamente pela sala, auxiliando o Frei Domenico com os pratos e bandejas, Gonzaga caminhava pelas muralhas ao lado de Cappoccio, que estava de serviço de sentinela na muralha norte.

O seu negócio não exigia grande diplomacia, nem Gonzaga empregou muita. Disse sem rodeios a Cappoccio que ele e os seus camaradas tinham permitido que a língua pronta do Messer Francesco os enganasse naquela manhã, e que as garantias que Francesco lhes dera não eram dignas da consideração de um homem inteligente.

«Digo-te, Cappoccio», terminou ele, «que permanecer aqui e prolongar esta resistência sem esperança custar-te-á a vida pelas mãos desagradáveis do carrasco. Vês que sou franco contigo.»

Ora, apesar de tudo o que Gonzaga lhe disse poder combinar excelentemente bem com as ideias que ele próprio tinha tido, Cappoccio era de natureza suspeita, e as suas suspeitas sussurravam-lhe agora que Gonzaga era movido por algum propósito que ele não conseguia avaliar.

Ficou parado e, apoiando-se com ambas as mãos na sua alabarda, tentou distinguir as feições do cortesão na luz baça da lua nascente.

«Queres dizer», perguntou ele, e na sua voz soava a surpresa com que o estranho discurso de Gonzaga o enchera, «que somos tolos por termos escutado o Messer Francesco, e que seríamos mais bem aconselhados a sair de Roccaleone?»

«Sim; é isso que quero dizer.»

«Mas porquê», insistiu ele, a sua surpresa a aumentar, «insistes connosco num tal curso?»

«Porque, Cappoccio», foi a resposta plausível, «tal como vós, fui atraído para este negócio por deturpações insidiosas. As garantias que dei a Fortemani, e com as quais ele vos alistou ao seu serviço, foram as que me tinham sido dadas. Não fiz um trato com uma tal morte como a que nos espera aqui, e digo-te francamente que não tenho estômago para ela.»

«Começo a entender», murmurou Cappoccio, meneando a cabeça sabiamente, e havia uma insolência astuta no seu tom e maneira. «Quando deixarmos Roccaleone, vens connosco?»

Gonzaga acenou.

«Mas por que não dizes estas coisas ao Fortemani?» questionou Cappoccio, ainda duvidando.

«Fortemani!» ecoou Gonzaga. «Pela Hóstia, não! O homem está enfeitiçado por esse patife plausível, Francesco. Longe de se ressentir do tratamento que o sujeito lhe deu, segue e obedece a cada palavra sua, como o cão de espírito mesquinho que é.»

De novo Cappoccio procurou perscrutar o rosto de Gonzaga. Mas a luz era indiferente.

«Estás a lidar comigo honestamente?» perguntou ele. «Ou algum propósito mais profundo jaz sob o teu desejo de que nos rebelemos contra a senhora?»

«Meu amigo», respondeu Gonzaga, «espera apenas até que o arauto de Gian Maria venha pela sua resposta de manhã. Depois aprenderás de novo os termos em que as vossas vidas vos são oferecidas. Não faças nada até lá. Mas quando ouvires que vos ameaçam com a corda e a roda, pensa em que curso serás mais bem aconselhado a seguir. Perguntas-me que propósito me inspira. Já te disse — pois sou tão aberto como a luz do dia contigo — que sou inspirado pelo propósito de salvar o meu próprio pescoço. Não é esse propósito suficiente?»

Uma risada de tal compreensão que teria incendiado um homem melhor de indignação foi a resposta que recebeu.

«Ora, sim, é mais do que suficiente. Amanhã, então, os meus camaradas e eu marchamos para fora de Roccaleone. Conta com isso.»

«Mas não aceites a minha palavra. Espera até que o arauto venha de novo. Não faças nada até teres ouvido os termos que ele traz.»

«Ora, não, certamente que não.»

«E não deixes transparecer entre os teus companheiros que fui eu quem sugeriu isto.»

«Ora, não. Guardarei o teu segredo», riu-se o bravo ofensivamente, colocando a alabarda ao ombro e retomando o passo de sentinela.

Gonzaga procurou a sua cama. Uma alegria feroz consumia-o por ter tão consumadamente planeado a ruína de Valentina, contudo não desejava enfrentá-la de novo naquela noite.

Mas quando, no dia seguinte, o arauto tocou a sua trombeta de novo sob as muralhas do castelo, Gonzaga estava em destaque no pequeno grupo que acompanhava a Monna Valentina. O Conde de Aquila estava a supervisionar o trabalho ao qual tinha posto uma dezena de homens. Com uma grande exibição, e tanto ruído quanto possível — com o qual Francesco pretendia que o arauto ficasse impressionado —, estavam a empurrar quatro pequenas colubrinas e três canhões de maior calibre, e a plantá-los de modo a que fizessem uma exibição ameaçadora nas ameias do parapeito.

Enquanto observava e dirigia os homens, mantinha os ouvidos abertos para a mensagem, e ouviu o arauto recitar de novo os termos em que a guarnição se poderia render, e de novo a ameaça de enforcar cada homem nas muralhas do castelo se o obrigassem a reduzi-los pela força das armas. Terminou a sua mensagem anunciando que, na sua extrema clemência, Gian Maria lhes concedia mais meia hora de graça para se resolverem sobre o seu curso. Se o fim desse tempo os encontrasse ainda obstinados, o bombardeamento começaria. Tal era a mensagem que, noutra das suas cartas enviadas por flecha, Gonzaga tinha sugerido que Gian Maria enviasse.

Foi Francesco quem se adiantou para responder. Estivera debruçado sobre uma das peças de artilharia, como se quisesse certificar-se da precisão da sua mira, e, ao levantar-se, declarou-se satisfeito com uma voz suficientemente alta para que o arauto a ouvisse. Depois, avançou para o lado de Valentina e, enquanto ali permanecia a proferir a sua resposta, não reparou na partida silenciosa dos homens que estavam junto à muralha.

— Dirás ao seu Alteza de Babbiano — respondeu ele — que nos faz lembrar o rapaz da fábula que gritava "Lobo!" demasiadas vezes. Dize-lhe, senhor, que as suas ameaças deixam esta guarnição tão indiferente quanto as suas promessas. Se for verdade que tenciona bombardear-nos, que comece imediatamente. Estamos prontos para ele, como vês. Talvez não supusesse que estivéssemos equipados com canhões; mas ali estão eles. Essas peças estão apontadas ao seu acampamento, e o primeiro tiro que disparar contra nós será o sinal para uma resposta como ele nem sonha. Dize-lhe, também, que não esperamos quartel e que não concederemos nenhum. Não desejamos o derramamento de sangue, mas se ele nos obrigar a isso e cumprir o seu propósito de empregar canhões, então que as consequências recaiam sobre a sua própria cabeça. Leva-lhe essa resposta e dize-lhe que não te envie mais com ameaças vazias.

O arauto inclinou-se sobre a cernelha do seu cavalo. A arrogância, a fria imperiosidade da mensagem deixaram-no mudo de espanto. O espanto era também seu, por ver que Roccaleone estava armado com canhões, como os seus próprios olhos testemunhavam. Que aquelas peças estivessem vazias, não podia ele adivinhar, nem poderia Gian Maria ao ouvir uma mensagem que o encheu de raiva e que o teria enchido de consternação, não fosse o facto de contar com o motim que Gonzaga se comprometera a fomentar.

Enquanto o arauto se afastava, uma gargalhada rouca escapou a Fortemani, que estava atrás do Conde.

Valentina voltou-se para Francesco com olhos que brilhavam admiração e uma ternura singular.

— Oh, o que teria feito sem vós, Messer Francesco? — exclamou ela, certamente pela vigésima vez desde a sua chegada. — Estremeço ao pensar no que teria acontecido sem a vossa inteligência e valor para me auxiliarem. — Ela nunca reparou no sorriso malicioso que tremia no rosto belo de Gonzaga. — Onde encontrastes a pólvora? — perguntou ela inocentemente, pois o seu espírito ainda não tinha captado o humor da situação que arrancara uma gargalhada a Fortemani.

— Não encontrei nenhuma — respondeu Francesco, sorrindo da sombra do seu elmo. — As minhas ameaças — e acenou com a mão na direção daquela formidável fileira de canhões — são tão vazias quanto as de Gian Maria. Contudo, penso que os impressionarão mais do que as dele a nós. Respondo por isso, Madonna, que eles o dissuadirão de nos bombardear — se é que alguma vez teve essa intenção. Por isso, vamos tomar o pequeno-almoço com coragem alegre.

— Esses canhões estão vazios? — ofegou ela. — E pudestes falar tão ousadamente e ameaçar com tanto desafio!

A alegria surgiu agora no seu rosto e afastou o alarme, um pouco do qual espreitara dos seus olhos mesmo enquanto ela exaltava Francesco.

— Ali! — exclamou ele alegremente. — Estais a sorrir agora, Madonna. Nem tendes motivo para outra coisa. Desceremos? Este trabalho matinal deu-me a fome de um lobo.

Ela virou-se para ir com ele e, naquele momento, Peppe, com a sua cara de coruja coberta de alarme, subiu os degraus a correr a partir do pátio.

— Madonna! — ofegou ele, sem fôlego. — Messer Francesco! Os homens... Cappoccio... Ele está a discursar para eles. Ele... está a incitá-los à traição.

Assim, aos soluços, contou a sua história, que varreu novamente a alegria dos olhos de Valentina e pintou muito de branco a sua face. Por mais forte e corajosa que fosse, sentiu os sentidos a rodar com aquela súbita reviravolta da confiança para o medo. Teria terminado tudo exatamente no momento em que a esperança atingira o seu meridiano alto?

— Estais desfalecida, Madonna; apoiai-vos em mim.

Foi Gonzaga quem falou. Mas, para além do facto de as palavras terem sido proferidas, ela não percebeu nada. Viu um braço estendido e segurou-o. Depois, arrastou Gonzaga consigo para o lado que dava para o pátio, para que com os seus próprios olhos pudesse ter provas do que estava a acontecer.

Ouviu um juramento — um juramento vigoroso e perverso — de Francesco, seguido de uma ordem, aguda e áspera.

— Ao arsenal, Peppe! Trazei-me uma espada de duas mãos — a mais robusta que puderdes encontrar. Ercole, vinde comigo. Gonzaga... Não, mais vale ficar aqui. Cuidai de Monna Valentina.

Ele aproximou-se agora do seu lado e observou rapidamente a cena agitada lá em baixo, onde Cappoccio ainda se dirigia aos homens. Ao verem Francesco, soltaram um grito feroz, como uma alcateia de cães que avistou a presa.

— Às portas! — gritava-se. — Baixai a ponte levadiça! Aceitamos os termos de Gian Maria. Não morreremos como ratos.

— Por Deus, mas morrereis, se eu assim o quiser! — rosnou Francesco através dos dentes cerrados. Depois, virando a cabeça numa febre de impaciência: — Peppe — gritou ele —, nunca trareis essa espada?

O bobo aproximou-se naquele momento, cambaleando sob o peso de uma grande espada de duas mãos, de gume duplo, equipada com ganchos e medindo uns bons seis pés da ponta ao punho. Francesco agarrou-a e, inclinando-se, murmurou uma ordem rápida ao ouvido de Peppino.

— ...Na caixa que está sobre a mesa nos meus aposentos — ouviu Gonzaga dizer. — Agora ide e trazei-ma ao pátio. Apressai-vos, Peppino!

Um olhar de compreensão brilhou nos olhos do corcunda e, enquanto ele partia a correr, Francesco içou a poderosa espada ao ombro como se o seu peso fosse o de uma pena. Nesse instante, a mão branca de Valentina pousou sobre a braçadeira que protegia o seu antebraço.

— Que fareis? — questionou ela, num sussurro, com os olhos dilatados de alarme.

— Deter a traição daquela ralé — respondeu ele secamente. — Permanecei aqui, Madonna. Fortemani e eu pacificá-los-emos — ou daremos um fim a eles. — E disse-o de forma tão sombria que Gonzaga acreditou que tal estivesse ao seu alcance.

— Mas estais louco! — gritou ela, e o medo nos seus olhos aumentou. — Que podeis fazer contra vinte?

— O que a Deus aprouver — respondeu ele e, por um segundo, afastou a ferocidade do seu coração para poder sorrir de forma tranquilizadora.

— Mas sereis morto — gritou ela. — Oh! Não vades, não vades! Deixai que façam o que quiserem, Messer Francesco. Deixai que Gian Maria cerque o castelo. Não me importo, contanto que não vades.

A sua voz, e a história que contava de uma doce ansiedade pelo destino dele que tudo superava naquele momento — até o seu horror a Gian Maria —, acelerou-lhe o sangue ao ritmo do êxtase. Foi tomado por um desejo louco de a agarrar nos braços — esta dama até então tão corajosa e agora intimidada apenas pelo medo do perigo dele. Cada fibra do seu ser incitava-o a recolhê-la ao seu peito, enquanto derramava coragem e conforto nos seus ouvidos. Quase desmaiou com o desejo de beijar aqueles olhos ternos, voltados para os dele na sua súplica piedosa para que ele não arriscasse a própria vida. Mas, reprimindo tudo, ele apenas sorriu, embora muito ternamente.

— Sede corajosa, Madonna, e confiai um pouco em mim. Falhei-vos até agora? Precisais, então, de temer que eu vos falhe agora?

A isso, ela pareceu ganhar coragem. As palavras reavivaram a sua confiança na sua esplêndida força.

— Riremos disto quando tomarmos o pequeno-almoço — gritou ele. — Vinde, Ercole! — E sem esperar por mais, saltou os degraus com uma agilidade surpreendente num homem tão pesadamente armado como ele.

Não chegaram um momento demasiado cedo. Quando chegaram ao pátio, os homens vinham a varrer tudo em direção aos portões, com as vozes roucas e ameaçadoras. Estavam cheios de confiança. Pensavam que nem todo o inferno os poderia ter impedido e, no entanto, à visão daquela figura alta, brilhante como um anjo, na sua armadura de aço cintilante, com aquela grande espada pousada no seu ombro esquerdo, parte da impetuosidade pareceu abandonar-lhes.

Ainda assim, avançaram, com a voz de Cappoccio a gritar encorajamento. Quase estavam ao alcance daquela longa espada, quando de repente ela brilhou ao sair do seu ombro e descreveu um semicírculo de luz deslumbrante diante dos seus olhos. Passou à volta da sua cabeça e voltou à frente deles, manejada como se fosse um chicote, deixando-os, silenciosos, parados. Ele trouxe-a de volta ao ombro e, alerta para o primeiro movimento, com o sangue a ferver e pronto para matar um ou dois homens caso o exemplo se tornasse necessário, dirigiu-se a eles.

— Vede o que vos espera se persistirdes nisto — disse ele, numa voz perigosamente calma. — Não tendes vergonha, bando de animais cobardes! Sois de voz alta onde a traição à mão que vos paga está em causa; mas aí, ao que parece, termina o vosso valor.

Falou-lhes agora com palavras ardentes. Recapitulara os argumentos que ontem usara para reprimir o espírito amotinado de Cappoccio. Garantiu-lhes que Gian Maria ameaçava mais do que podia realizar; e, assim, talvez, mais do que cumpriria se fossem tão tolos a ponto de se colocarem no seu poder. A segurança deles, apontou-lhes, estava aqui, por detrás destas muralhas. O cerco não poderia durar muito. Tinham um aliado robusto em César Bórgia, e ele marchava sobre Babbiano a esta hora, de modo que Gian Maria teria de se retirar para casa à força antes de muito tempo. O soldo deles era bom, lembrou-lhes, e se o cerco fosse levantado em breve seriam bem recompensados.

— Gian Maria ameaça enforcar-vos quando capturar Roccaleone. Mas mesmo que a capturasse, achais que lhe seria permitido levar a cabo uma ameaça tão inumana? Sois mercenários, afinal, a soldo de Monna Valentina, sobre quem e sobre os seus capitães a culpa deve recair. Isto é Urbino, não Babbiano, e Gian Maria não é senhor aqui. Pensais que o nobre e magnânimo Guidobaldo vos deixaria enforcar? Tendes uma opinião tão má do vosso Duque? Tolos! Estais tão a salvo da violência como aquelas damas na galeria lá em cima. Pois Guidobaldo pensaria tanto em ferir-vos como em permitir que o mal lhes acontecesse a elas. Se houver algum enforcamento, será para mim, e talvez para Messer Gonzaga que vos contratou. Contudo, falo eu em depor as armas? O que pensais que me retém aqui? Interesse — tal como o interesse vos retém a vós — e se eu penso que o risco vale a pena, porque não deveríeis vós também pensar? Sois tão mansos e de espírito tão pobre que uma ameaça vos vence? Tornar-vos-eis um provérbio na Itália e, quando os homens falarem de cobardia, querereis que digam: "Covardes como a guarnição de Monna Valentina"?

Neste tom falou-lhes ele, ora golpeando duramente com o seu desprezo, ora aliciando-os com as suas garantias e gerando confiança de novo nos seus espíritos abalados. Foi algo que depois contribuiu para a criação de um épico que foi cantado desde a Calábria ao Piemonte, sobre como este cavaleiro corajoso, pelas suas palavras, pelo poder da sua vontade e pelo poder da sua presença, refreou e subjugou aquela dúzia turbulenta de rústicos rebeldes.

E da muralha acima, Valentina observava-o, com os olhos a cintilar de lágrimas que não tinham a sua fonte na tristeza nem no medo, pois sabia que ele tinha de prevalecer. Como poderia ser de outra forma com alguém tão destemido?

Assim pensava ela agora. Mas, no momento da sua partida, o medo gelara-lhe o coração e, quando o viu pela primeira vez tomar a sua posição diante deles, ela tinha-se voltado meio transtornada e suplicado a Gonzaga que não demorasse ao seu lado, mas que fosse prestar a ajuda que pudesse àquele bravo cavaleiro que se encontrava em tão grave necessidade dela. E Gonzaga sorrira um sorriso tão pálido como a luz do sol de janeiro, e os seus suaves olhos azuis tinham endurecido no seu olhar. Não era fraqueza agora que o retinha ali, bem fora da perigosa agitação. Pois sentia que, tivesse ele a força de Hércules e a coragem de Aquiles, não teria naquele instante movido um passo em auxílio de Francesco. E tanto disse ele a ela.

— Por que o faria, Madonna? — respondera ele friamente. — Por que haveria de levantar uma mão para ajudar o homem que preferis a mim? Por que haveria de desembainhar a espada pela causa desta fortaleza?

Ela olhou para ele com olhos preocupados. — Que estais a dizer, meu bom Gonzaga?

— Sim — o vosso bom Gonzaga! — zombou ele amargamente. — O vosso cão de colo, o vosso tocador de alaúde; mas não homem o suficiente para ser o vosso capitão; não homem o suficiente para merecer um pensamento que seja mais gentil do que qualquer um merecido por Peppe ou pelos vossos cães. Posso arriscar o meu pescoço para vos servir, para vos trazer para aqui a um lugar de segurança da perseguição de Gian Maria, e ser posto de parte por alguém que, por acaso, tem um pouco mais de conhecimento deste grosseiro ofício das armas. Ponde-me de parte se quiserdes — continuou ele, com crescente amargura —, mas tendo-o feito, não me peça que vos sirva novamente. Deixai que Messer Francesco resolva isto...

— Calai-vos, Gonzaga! — interrompeu ela. — Deixai-me ouvir o que ele está a dizer.

E o seu tom indicou ao cortesão que as suas palavras se tinham perdido no ar da manhã. Absorta na cena lá em baixo, ela nem sequer tinha escutado a sua amarga tirada. Pois agora Francesco estava a comportar-se de forma estranha. O bobo tinha regressado da missão em que fora enviado e Francesco chamou-o para o seu lado. Baixando a espada, recebeu um papel da mão de Peppe.

A arder de indignação por não ter sido ouvido, Gonzaga ficou a morder o lábio, enquanto Valentina se esticava para captar as palavras de Francesco.

— Tenho aqui uma prova — gritou ele — do que vos digo; prova de quão pouco Gian Maria está preparado para cumprir as suas ameaças de canhões. É aquele sujeito Cappoccio que vos seduziu com a sua conversa. E vós, como as ovelhas que sois, deixais-vos conduzir pela sua língua suja. Agora escutai o suborno que Gian Maria oferece a alguém dentro destas muralhas se conseguir arranjar um meio de entregar Roccaleone nas suas mãos. — E, para consternação paralisante de Gonzaga, ele ouviu Francesco ler a carta com a qual Gian Maria tinha respondido à sua proposta de traição da fortaleza. Ficou branco de medo e apoiou-se na muralha baixa para estabilizar o tremor revelador que se apoderara dele. Depois, a voz de Francesco, desdenhosa e confiante, flutuou até aos seus ouvidos. — Pergunto-vos, meus amigos, estaria o seu Alteza de Babbiano disposto ao pagamento de mil florins de ouro se por bombardeamento pensasse abrir caminho para dentro de Roccaleone? Esta carta foi escrita ontem. Desde então fizemos uma brava demonstração de canhões nós mesmos; e se ontem ele não se atreveu a disparar, pensais que o fará hoje? Mas aqui, certificai-vos, se houver alguém entre vós que saiba ler.

Ele estendeu a carta para eles. Cappoccio pegou nela e, chamando um tal Aventano, estendeu-a por sua vez. Este Aventano, um jovem que fora parcialmente educado para a Igreja, mas que caíra desse elevado propósito, adiantou-se agora e pegou na carta. Examinou-a, leu-a em voz alta e declarou-a genuína.

— A quem é endereçada? — exigiu Cappoccio.

— Não, não! — gritou Francesco. — Que necessidade há disso?

— Deixa estar — respondeu Cappoccio, quase ferozmente. — Se quereis que permaneçamos em Roccaleone, deixa estar. Aventano, dize-me.

— Ao Messer Romeo Gonzaga — respondeu o jovem, com uma voz de espanto.

Uma luz tão maligna saltou para os olhos de Cappoccio que Francesco levou a mão livre à espada que tinha baixado. Mas Cappoccio apenas olhou para Gonzaga e sorriu malevolamente. Tinha penetrado na sua mente obtusa que ele fora o instrumento de um Judas, que tentara vender o castelo por mil florins. Mais do que isso, Cappoccio não viu; nem ficou muito ressentido, e o seu sorriso era mais de troça do que de raiva. Não era incomodado por noções elevadas de honra que o fizessem ver neste ato de Gonzaga nada mais do que o ato de um trapaceiro como o que é sempre agradável frustrar. E então, para os outros, que nada sabiam do que se passava na mente de Cappoccio, ele fez uma coisa estranhamente poderosa. De ser aquele a instigá-los à traição e ao motim, foi ele agora o primeiro a elevar a sua voz num argumento robusto de lealdade. Concordou com tudo o que Messer Francesco dissera e, ele próprio, perfilou-se ao lado de Messer Francesco para defender os portões de quaisquer traidores que tentassem abri-los a Gian Maria Sforza.

A sua deserção da causa do motim foi o sinal para o abandono total dessa causa em si, e outro aliado robusto que veio oportunamente para pesar a favor de Francesco foi o facto de a meia hora de graça ter agora decorrido, e os canhões de Gian Maria continuarem silenciosos. Ele chamou-lhes a atenção para o facto com uma gargalhada e ordenou-lhes que fossem em paz, acrescentando a nova garantia de que aqueles canhões não falariam naquele dia, nem no seguinte, nem na verdade nunca.

Completamente conquistados por Francesco e — talvez ainda mais — pelo seu aliado inesperado, Cappoccio, eles afastaram-se envergonhados para a comida e bebida que ele lhes mandou procurar pelas mãos do Frei Domenico.

CAPÍTULO XX. OS AMANTES

— Como é que essa carta chegou às vossas mãos? — perguntou Valentina a Gonzaga, quando pouco depois estavam juntos no pátio, para onde o cortesão a tinha seguido quando ela desceu.

— Enrolada num virote de besta que caiu nas muralhas ontem enquanto eu caminhava lá sozinho — respondeu Gonzaga calmamente.

Tinha agora recuperado a sua compostura. Via que estava em perigo mortal, e o próprio medo que o possuía parecia, por um paradoxo estranho, dar-lhe a força para desempenhar o seu papel.

Valentina observou-o com algo de desconfiança no seu olhar. Mas no rosto claro de Francesco nenhuma sombra de suspeita apareceu. Os seus olhos quase sorriram ao perguntar a Gonzaga:

— Por que não a levastes a Monna Valentina?

Um rubor avermelhou as bochechas do cortesão. Ele encolheu os ombros impacientemente e, com uma voz sufocada pela raiva, proferiu a sua resposta.

— Para vós, senhor, que pareceis criado em campos de batalha e educado em salas de guarda, a plenitude deste insulto oferecido a mim por Gian Maria pode não ser aparente. Pode não ser vosso compreender que o próprio contacto daquela carta sujou as minhas mãos, que me envergonhou inefavelmente pensar que aquele Duque rude tivesse considerado que eu era um alvo para tal dardo. Seria inútil, portanto, tentar fazer-vos compreender o quão pouco eu podia suportar submeter-me à vergonha adicional de permitir que outro visse a afronta que eu era impotente para vingar. Fiz, senhor, com aquela carta a única coisa concebível. Amassei-a na minha mão e lancei-a para longe de mim, tal como tentei lançar o seu conteúdo da minha mente. Mas os vossos espiões vigilantes, Ser Francesco, levaram-na até vós, e se a minha vergonha foi exibida perante os olhos daquela ralé de soldados, pelo menos serviu o propósito de salvar Monna Valentina. Para o fazer, eu, se a necessidade surgisse, imolaria mais do que o orgulho que me causou silêncio sobre a questão desta comunicação.

Ele falou com tal calor de sinceridade que convenceu tanto Francesco como Valentina, e os olhos da dama assumiram uma expressão mais suave enquanto ela observava Gonzaga — este pobre Gonzaga a quem, dizia-lhe o coração, ela tinha gravemente injustiçado em pensamento. Francesco, sempre generoso, aceitou as suas declarações apaixonadas de excelente grado.

— Messer Gonzaga, compreendo os vossos escrúpulos. Fazeis-me mal ao pensar que eu falharia nisso.

Ele suprimiu a sugestão que estava prestes a renovar de que, no entanto, teria sido melhor aconselhado se tivesse apresentado essa carta imediatamente a Monna Valentina. Em vez disso, descartou o assunto com uma gargalhada e propôs que tomassem o pequeno-almoço assim que ele tivesse despido a sua armadura.

Ele foi fazê-lo, enquanto Valentina dirigiu os seus passos para a sala de jantar, acompanhada por Gonzaga, a quem ela agora tentava compensar as suas suspeitas com uma amabilidade de comportamento quase excessiva.

Contudo, havia alguém a quem as palavras sonoras de Gonzaga a propósito daquela carta tinham deixado frio. Tratava-se de Peppe, aquele mais sábio dos tolos. Apressou-se atrás de Francesco e, enquanto o cavaleiro se desarmava, veio manifestar as suas suspeitas. Mas Francesco expulsou-o com impaciência, e Peppe afastou-se lamentando-se e jurando que a sabedoria do tolo era, na verdade, melhor do que a loucura dos sábios.

Ao longo daquele dia, Gonzaga dificilmente se afastou do lado de Valentina. Conversou longamente com ela pela manhã sobre temas poéticos ou eruditos, com os quais pretendia demonstrar a sua vasta superioridade mental sobre o espadachim Francesco. À noite, quando o calor do dia tinha passado e enquanto esse mesmo Messer Francesco tratava de algumas medidas defensivas nas muralhas, Gonzaga jogou às bochas com Valentina e as suas damas — tendo estas últimas recuperado do pânico a que antes estiveram presas.

Naquela manhã, Gonzaga estivera encurralado, vendo os seus planos ruírem. Naquela noite, após o dia passado na companhia de Valentina — e sendo ela tão doce e gentil para com ele — começou a ganhar ânimo novamente, e a sua mente volátil sussurrou à sua alma a esperança de que, afinal, as coisas poderiam bem correr como ele tinha inicialmente pretendido, se apenas jogasse as suas cartas com destreza e não arruinasse as suas hipóteses com a precipitação que por pouco o fizera perder tudo. O seu propósito ganhou força com uma mensagem que chegou naquela noite da parte de Gian Maria, que já estava convencido de que o plano de Gonzaga falhara. Ele enviou recado a dizer que, não desejando provocar o derramamento de sangue ameaçado pelo louco imprudente que se intitulava Preboste de Monna Valentina, atrasaria o bombardeamento, esperando que, entretanto, a fome gerasse naquela guarnição rebelde um estado de espírito mais submisso.

Francesco leu a mensagem aos soldados da Madonna, e eles receberam-na com alegria. A sua confiança nele aumentou cem vezes com aquela prova da precisão da sua clarividência. Em consequência, formaram uma companhia alegre ao jantar, e o mais alegre de todos era Messer Gonzaga, vestido de forma vistosa num fato púrpura de seda taby para honrar tão portentosa ocasião.

Francesco foi o primeiro a deixar a mesa, pedindo a licença de Monna Valentina para tratar de um dever que o levava às muralhas. Ela deixou-o ir e, depois, sentou-se pensativa, não prestando atenção à tagarelice leve de Romeo, nem ao soneto de Petrarca que ele cantava de seguida para a companhia. Os seus pensamentos estavam todos com aquele que tinha deixado a mesa. Dificilmente trocara uma palavra com Francesco desde aquele momento delirante em que tinham olhado nos olhos um do outro nas muralhas e visto o segredo que cada um escondia do outro. Por que não tinha ele vindo ter com ela? Perguntou a si mesma. E então lembrou-se de como Gonzaga tinha estado todo o dia colado ao seu lado, e percebeu, também, que tinha sido ela a evitar a companhia de Francesco, tendo-se tornado de repente estranhamente tímida.

Mas maior do que a sua timidez era agora o seu desejo de estar perto dele e de ouvir a sua voz; de tê-lo a olhar novamente para ela como tinha olhado naquela manhã, quando, em terror por ele, ela tentara dissuadi-lo de se opor ao impulso cobarde dos seus homens de armas. Uma mulher de idade madura, ou mais experiente, teria esperado que ele a procurasse. Mas Valentina, na sua doce naturalidade, nunca pensou em subterfúgios ou astúcias de sedução. Levantou-se calmamente da mesa antes que a canção de Gonzaga terminasse e, tão calmamente, escapou da sala.

Era uma noite bela, o ar pesado com o perfume vernal de terras férteis, e o cobalto profundo dos céus uma cúpula cintilante e salpicada de estrelas, num espaço mais claro onde flutuava o meio disco da lua crescente. Tal lua, pensou ela, como aquela que tinha contemplado com pensamentos nele, na noite após o seu breve encontro em Acquasparta. Tinha chegado à muralha norte onde ele anunciara que o dever o levava, e lá ao longe viu um homem — o único habitante da muralha — debruçado sobre o parapeito ameado, olhando para as luzes do acampamento de Gian Maria. Estava de cabeça descoberta e, pela coifa de ouro que brilhava no seu cabelo, reconheceu-o. Suavemente, esgueirou-se por trás dele.

“Sonhamos aqui, Messer Francesco?” perguntou-lhe ela, ao chegar ao seu lado, e havia riso a percorrer as suas palavras.

Ele sobressaltou-se ao som da sua voz, depois riu também, suave e alegremente.

“É uma noite para sonhos, e eu estava realmente a sonhar. Mas a senhora dispersou-os.”

“Entristece-me,” provocou-o ela. “Pois, certamente, eram agradáveis, uma vez que, para vir aqui e entregar-se a eles, deixou-nos.”

“Sim... eram agradáveis,” respondeu ele. “E, no entanto, estavam carregados de uma certa tristeza, mas tão vãos como a matéria de que são feitos os sonhos. Eram seus para serem dissipados, pois eram sobre a senhora.”

“Sobre mim?” questionou ela, com o coração a bater mais depressa e trazendo às suas faces um rubor que ela agradeceu à noite por esconder.

“Sim, Madonna... sobre a senhora e o nosso primeiro encontro nos bosques de Acquasparta. Recorda-o?”

“Recordo, recordo,” murmurou ela ternamente.

“E recorda como eu jurei então ser o seu cavaleiro e para sempre o seu defensor? Pouco sonhávamos como a honra que eu desejava me viria a caber.”

Ela não lhe deu resposta, a sua mente voltando àquele primeiro encontro sobre o qual tantas vezes e tão ternamente tinha meditado.

“Eu pensava, também,” disse ele pouco depois, “naquele homem Gian Maria na planície ali abaixo, e neste cerco vergonhoso.”

“O senhor... o senhor não tem receios?” hesitou ela, pois as suas palavras tinham-na desapontado um pouco.

“Receios?”

“Por estar aqui comigo. Por estar implicado no que chamam a minha rebelião?”

Ele riu suavemente, com os olhos postos no brilho prateado das águas lá em baixo.

“Os meus receios são todos para o momento em que este cerco terminar; quando a senhora e eu tivermos seguido cada um o nosso caminho separado,” respondeu ele ousadamente. Virou-se agora para a enfrentar, e a sua voz soou um pouco tensa. “Mas por estar aqui para guiar esta bela resistência e emprestar-lhe a pequena ajuda que posso... Não, não, não tenho receio disso. É a mais cara aventura a que a minha vida militar me conduziu. Vim a Roccaleone com uma mensagem de aviso; mas, no fundo, bem lá no fundo do meu coração, trazia a esperança de que o meu papel fosse mais do que o de um mensageiro; que pudesse ser meu o dever de permanecer ao seu lado e fazer o trabalho que estou a fazer.”

“Sem si, já me teriam forçado a render-me.”

“Talvez tivessem. Mas enquanto eu estiver aqui, não creio que o façam. Ardo por notícias de Babbiano. Se eu pudesse apenas saber o que se passa lá, poderia animá-la com a garantia de que este cerco não pode durar mais do que alguns dias. Gian Maria tem de voltar para casa ou submeter-se à perda do seu trono. E se ele perder isso, o seu tio já não apoiaria tão vigorosamente a sua pretensão à sua mão. Para si, Madonna, este deve ser um pensamento animador. Para mim... ai! Por que haveria eu de esperar por isso?”

Ele olhava agora para a noite, mas a sua voz tremia com a emoção que sentia. Ela ficou em silêncio e, talvez encorajado por esse silêncio, estimulado pela memória do que vira naquela manhã refletido nos olhos dela:

“Madonna,” exclamou ele, “eu gostaria que pudesse ser meu o dever de abrir caminho para si através daquele acampamento sitiante e levá-la para um lugar abençoado onde não existam cortes nem príncipes. Mas, como tal não pode ser, Madonna mia, eu gostaria que este cerco pudesse durar para sempre.”

E então... seria a brisa noturna a mover-se suavemente pelo seu cabelo que o provocava com o sussurro: “Eu também gostaria”? Ele virou-se para ela, a sua mão, morena e nervosa, caiu sobre a dela, branca como marfim, onde ela repousava na pedra.

“Valentina!” exclamou ele, a sua voz não mais alta do que um sussurro, os seus olhos a procurar ardentemente os olhos dela, que se desviavam. E então, tão subitamente como tinha surgido, o fogo no seu olhar extinguiu-se. Retirou a mão da dela, suspirou e voltou a desviar o olhar para o acampamento. “Perdoe, esqueça, Madonna,” murmurou ele amargamente, “aquilo que, na minha loucura, presumi.”

Ela permaneceu em silêncio por um longo momento; depois aproximou-se dele, e a sua voz murmurou de volta: “E se eu não considerar isso uma presunção?”

Com um suspiro, ele virou-se para ela, e ficaram muito próximos, o olhar preso no olhar, e o dela menos tímido do que o dele. Permaneceram assim durante algum tempo. Depois, abanando a cabeça e falando com uma tristeza infinita:

“Seria melhor que considerasse, Madonna,” respondeu ele.

“Melhor? Mas porquê?”

“Porque não sou duque, Madonna.”

“E o que é isso importa?” exclamou ela, para acrescentar com desprezo: “Lá fora senta-se um duque. Oh, senhor, como poderei eu considerar presunçosas em si as mesmas palavras que eu gostaria de ouvir? O que significa o seu título para mim? Conheço-o como o mais verdadeiro dos cavaleiros, o mais nobre cavalheiro e o mais valente amigo que jamais veio em auxílio de uma donzela em aflição. Esquece os próprios princípios que me levaram a fazer esta resistência? Que sou uma mulher e não peço à vida mais do que é o devido a uma mulher — e nada menos.”

Ali parou; novamente o sangue inundou as suas faces ao pensar em quão rápido tinha falado e em quão audazes as suas palavras poderiam soar. Virou-se ligeiramente para longe dele e apoiou-se agora no parapeito, olhando para a noite. E enquanto permanecia assim, foi uma voz muito ardente que lhe sussurrou ao ouvido:

“Valentina, pela minha alma, eu amo-a!” E ali, aquele sussurro, que a enchia de um êxtase quase doloroso na sua intensidade, terminou bruscamente como se fosse estrangulado. Novamente a sua mão procurou a dela, que lhe foi cedida como ela teria cedido a sua própria vida à sua doce vontade, e agora a sua voz soou menos apaixonada.

“Por que nos iludirmos com esperanças cruéis, minha Valentina?” dizia ele. “Há o futuro. Há o momento em que este cerco terminará e em que, tendo Gian Maria regressado a casa, a senhora estará livre para partir. Para onde irá?”

Ela olhou para ele como se não compreendesse a pergunta, e os seus olhos estavam perturbados, embora na luz que ali havia ele mal pudesse ver isso.

“Irei para onde o senhor me mandar. Que outro lugar tenho para ir?” acrescentou ela, com uma nota de amargura.

Ele sobressaltou-se. A resposta dela estava tão longe do que ele esperava.

“Mas o seu tio...?”

“Que dever devo eu a ele? Oh, eu pensei nisso e, até... até esta manhã, parecia que um convento seria o meu refúgio final. Passei a maior parte da minha juventude em Santa Sofia, e o pouco que vi do mundo na corte do meu tio dificilmente me convida a ver mais. A Madre Abadessa gostava um pouco de mim. Ela acolher-me-ia de volta, a menos que...”

Ela interrompeu-se e olhou para ele, e perante aquele olhar de rendição absoluta e doce, os seus sentidos desvaneceram-se. Que ela era sobrinha do Duque de Urbino, ele não se lembrava mais do que de que era Conde de Aquila, de boa linhagem, mas de posses não muito ricas, e certamente não mais um par para ela aos olhos de Guidobaldo do que se fosse o simples cavaleiro errante que parecia ser.

Aproximou-se dela, as suas mãos — como se obedecessem a um comando maior do que a sua vontade, o comando daquele olhar dela, talvez — seguraram-na pelos ombros, enquanto toda a sua alma a contemplava através dos seus olhos. Então, com um grito sufocado, puxou-a para si. Por um momento ela permaneceu, palpitante, nos seus braços, a sua cabeça alta e bronzeada ao nível do seu queixo, o seu coração a bater contra o coração dele. Inclinando-se subitamente, beijou-a nos lábios. Ela sofreu-o com uma não-resistência que convidava. Mas quando terminou, ela afastou-o suavemente; e ele, obediente ao seu menor desejo, refreou o ardor selvagem do seu estado de espírito e libertou-a.

“Anima mia!” exclamou ele arrebatado. “A senhora é minha agora, aconteça o que acontecer. Nem Gian Maria nem todos os duques da cristandade a tirarão de mim.”

Ela pôs a mão nos lábios dele para o silenciar, e ele beijou-lhe a palma, de modo que, rindo, ela recuou novamente. E agora, do riso, passou a uma grande solenidade, e com o braço estendido em direção ao acampamento ducal: “Ganhe-me um caminho através daquelas linhas,” disse ela, “e leve-me para longe de Urbino — para muito longe, onde o poder de Guidobaldo e a vingança de Gian Maria não nos possam seguir — e terá conquistado-me para si. Mas, até lá, que haja uma trégua para... para isto, entre nós. Aqui há o trabalho de um homem a ser feito, e se eu sou fraca como esta noite, posso enfraquecê-lo, e então ambos estaríamos perdidos. É com a sua força que conto, Franceschino mio, meu verdadeiro cavaleiro.”

Ele teria respondido. Tinha muito a dizer-lhe — quem e o que ele era. Mas ela apontou para o topo dos degraus, onde a figura de um homem se perfilava.

“Lá vem o sentinela,” disse ela. “Deixe-me agora, querido Francesco. Vá. Está a ficar tarde.”

Ele curvou-se profundamente perante ela, obediente sempre, como o verdadeiro cavaleiro que era, e despediu-se, com a alma em chamas.

Valentina observou a sua figura que se afastava até que ela desapareceu na esquina da muralha. Depois, com um suspiro profundo, que era como uma oração de agradecimento por este grande bem que tinha entrado na sua vida, inclinou-se sobre o parapeito e olhou para a escuridão, as faces coradas, o coração ainda a bater alto. Riu suavemente para si mesma, pela pura felicidade do seu estado de espírito. O acampamento de Gian Maria tornou-se um objeto do seu desprezo. O que poderia valer o poder dele enquanto ela tivesse tal defensor para a proteger agora e no futuro?

Havia uma ironia naquele cerco na qual a sua imaginação se fixou. Ao vir assim em armas contra ela, Gian Maria procurava conquistá-la para sua esposa; contudo, tudo o que ele tinha alcançado fora colocá-la nos braços do único homem que ela tinha aprendido a amar em virtude deste mesmo cerco. O calor suave da noite, o perfume ambiente dos campos estavam bem de acordo com o seu estado de espírito, e a brisa leve que soprava carinhosamente na sua face parecia ecoar as melodias que o seu coração emitia. Naquela hora, aquelas antigas muralhas cinzentas de Roccaleone pareciam encerrar para ela um verdadeiro paraíso, e o fragmento de uma antiga canção de amor escapou suavemente dos seus lábios entreabertos. Mas, como um paraíso — ai! — tinha a sua serpente, que se arrastou despercebida por trás dela e estava agora a sibilar no seu ouvido. E a sua voz era a voz de Romeo Gonzaga.

“Consola-me, Madonna, o facto de haver alguém, pelo menos, em Roccaleone que tenha o coração para cantar.”

Sobressaltada da sua feliz pensatividade por aquela voz suave e agora indescritivelmente sinistra, ela virou-se para enfrentar o seu dono.

Viu o brilho branco do rosto dele e algo da raiva que ardia no seu olhar, e, apesar de si mesma, um calafrio de alarme percorreu-a como um tremor. Olhou para além dele para um ponto onde ultimamente tinha visto o sentinela. Não havia ninguém ali, nem em parte alguma daquela muralha. Estavam sozinhos, e Messer Gonzaga parecia singularmente maligno.

Por um momento, houve um silêncio tenso, interrompido apenas pelas águas agitadas da torrente do fosso e pelo desafio rouco do “Chi va là?” de um sentinela no acampamento de Gian Maria. Depois, ela virou-se nervosamente, perguntando-se o quanto ele poderia ter ouvido do que passara entre ela e Francesco, o quanto teria visto.

“E, no entanto, Gonzaga,” respondeu-lhe ela, “deixei-o a cantar lá em baixo quando me vim embora.”

“— Para se entregar aqui ao luar com aquele maldito espadachim, aquele salteador, aquela besta de sbirro nascida na sarjeta!”

“Gonzaga! O senhor atrever-se-ia!”

“Atrever-me-ia?” provocou-a ele, fora de si com a paixão. “É a senhora quem fala em atrevimento — a senhora, a sobrinha de Guidobaldo da Montefeltro, uma dama da nobre e ilustre casa de Rovere, que se atirou para os braços de um vassalo de baixa estirpe como aquele, um masnadiero, um bandido, um bravo? E ainda pode falar em atrevimento, e tomar esse tom comigo, quando a vergonha a deveria deixar morta ou muda?”

“Gonzaga,” respondeu ela, com o rosto tão branco como o dele, mas com a voz firme e dura pela raiva, “deixe-me agora — imediatamente, ou mandá-lo-ei açoitado — açoitado até ao osso.”

Por um momento, ele olhou para ela como um homem atordoado. Depois, atirou os braços para o céu e, deixando-os cair pesadamente ao lado do corpo, encolheu os ombros e riu-se maldosamente. Mas não fez menção de se ir embora.

“Chame os seus homens,” respondeu ele, com a voz embargada. “Faça a sua vontade comigo. Açoite-me até ao osso ou até à morte — que esse seja o prémio de tudo o que fiz, de tudo o que arrisquei, de tudo o que sacrifiquei para servi-la. Seria condizente com as suas outras ações.”

Os olhos dela procuraram os dele na penumbra, o seu peito arquejante, num esforço para se controlar antes de falar.

“Messer Gonzaga,” disse ela por fim, “não negarei que me serviu fielmente na questão da minha fuga de Urbino...”

“Por que falar disso?” zombou ele. “Foi um serviço do qual a senhora apenas se aproveitou até que outro apareceu, a quem pôde conceder o seu favor e o comando supremo da sua fortaleza. Por que falar disso?”

“Para lhe mostrar que o serviço a que alude está agora pago,” retorquiu ela severamente. “Ao repreender-me, o senhor recebeu o pagamento, e ao insultar-me, apagou a minha gratidão.”

“Uma lógica muito conveniente a sua,” provocou ele. “Sou posto de parte como uma peça de vestuário gasta, e considera-se que a peça está paga porque, devido a muito uso árduo, se tornou um pouco esfarrapada.”

E agora passou-lhe pela mente que, talvez, houvesse alguma justiça no que ele dizia. Talvez ela o tivesse tratado um pouco duramente.

“Pensa, Gonzaga,” disse ela, e o seu tom era agora um pouco mais suave, “que, porque me serviu, pode afrontar-me, e àquele cavaleiro que também me serviu, e...”

“Em que pode tal serviço como o dele comparar-se ao meu? O que fez ele que eu não tenha feito em maior escala?”

“Ora, quando os homens se rebelaram aqui...”

“Bah! Não me cite isso. Corpo de Deus! É a sua profissão liderar tais suínos. Ele é um deles. Mas, quanto ao resto, o que tem um homem como este a perder pela sua parte na sua rebelião, comparado com tal perda como a minha deve ser?”

“Ora, se as coisas correrem mal, suponho que ele possa perder a vida,” respondeu ela, em voz baixa. “Pode perder mais do que isso?”

Ele fez um gesto de impaciência.

“Se as coisas correrem mal — sim. Pode custar-lhe caro. Mas se correrem bem, e este cerco for levantado, ele não tem mais nada a temer. O meu caso é perigoso. Seja qual for o fim deste cerco, para mim não haverá fuga da vingança de Gian Maria e de Guidobaldo. Eles sabem a minha parte nisso. Eles sabem que a sua ação foi ajudada por mim e que, sem mim, a senhora nunca poderia ter-se equipado para tal resistência. Seja o que for que aconteça à senhora e a este Ser Francesco, para mim não haverá escapatória.”

Ela respirou fundo e depois colocou-lhe a pergunta óbvia:

“Não ponderou isso — não pesou estas hipóteses — antes de se embarcar neste assunto, antes de ser o senhor mesmo a instar-me a dar este passo?”

“Sim, ponderei,” respondeu ele, mal-humorado.

“Então, por que estas queixas agora?”

Ele foi singular e loucamente franco com ela na sua resposta. Disse-lhe que o tinha feito porque a amava, porque ela lhe tinha dado sinais de que o seu amor não era em vão.

“Dei-lhe sinais?” interrompeu-o ela. “Mãe no Céu! Recite esses sinais para que eu os conheça.”

“Não foi sempre gentil comigo?” exigiu ele. “Não manifestou sempre gosto pela minha companhia? Não ficou sempre satisfeita por eu lhe cantar as canções que fiz em sua honra? Não foi a mim que recorreu na hora da sua necessidade?”

«Vede agora que criatura insignificante sois, Gonzaga?» respondeu ela com desprezo. «Uma mulher pode não vos sorrir, pode não vos dirigir uma palavra amável, pode não vos permitir que lhe cantais, mas tereis de concluir que ela está enamorada de vós. E se recorri a vós na minha hora de necessidade, como me recordais, terá isso de ser um sinal da minha paixão? Pensará assim todo o cavaleiro quando uma mulher indefesa recorre a ele na sua aflição? Mas ainda assim», continuou ela, «como haveria tudo isso de diminuir o perigo de que agora falais? Mesmo que a vossa pretensão para comigo prosperasse, tornar-vos-ia isso menos Romeo Gonzaga, o alvo da ira do meu tio e de Gian Maria? Antes penso que vos tornaria mais.»

Mas ele desiludiu-a. Não se escusou, no seu estado de espírito colérico, a apresentar-lhe os seus raciocínios de que, como seu marido, ele estaria protegido.

Ela riu-se alto disso.

«E é, pois, por tais sofismas como estes que a vossa presunção ganhou vida?»

Aquilo feriu-o. Tremendo com a paixão que o obcecava, aproximou-se dela.

«Dizei-me, Madonna — por que havemos de considerar presunção em Romeo Gonzaga uma pretensão que encorajamos num aventureiro sem nome?» perguntou ele, com a voz espessa e trémula.

«Tende cuidado», ordenou-lhe ela.

«Cuidado com quê?» retorquiu ele de pronto. «Respondei-me, Monna Valentina. Serei eu um homem tão vil que, pelo simples pensamento de amor por vós, deva presumir, enquanto vós vos podeis entregar aos braços deste espadachim fanfarrão e aceitar os seus beijos? O vosso raciocínio combina mal com os vossos atos.»

«Covarde!» respondeu-lhe ela. «Cão que sois!» E perante o fulgor da paixão nos seus olhos, ele recuou, com a coragem a vacilar. Ela cortou a sua raiva a meio e, com uma voz perigosamente calma, ordenou-lhe que se certificasse de que pela manhã já não estaria em Roccaleone. «Aproveitai a noite», aconselhou-o ela, «e escapai à vigilância de Gian Maria o melhor que puderdes. Aqui não ficareis.»

Nesse momento, um grande medo apoderou-se dele, pondo em fuga o último vestígio da sua raiva. E, para lhe fazer plena justiça, não foi apenas medo. Foi também a compreensão de que, se ele quisesse cobrar-lhe este tratamento, se quisesse saciar a sua vingança, teria de ficar. Um plano falhara. Mas a sua mente era fértil e poderia engendrar outro que pudesse ter êxito e colocar Gian Maria em Roccaleone. Assim seria ele amplamente vingado. Ela estava a virar-se, tendo pronunciado o seu banimento, mas ele saltou atrás dela e, de joelhos, suplicou-lhe piedosamente que o ouvisse ainda um pouco.

E ela, arrependida já da sua dureza e pensando que talvez, no seu ciúme, ele dificilmente fosse responsável pelo que dissera, ficou parada a ouvi-lo.

«Não isso, não isso, Madonna», lamentou-se ele, com o tom a sugerir a iminência de lágrimas. «Não me mandeis embora. Se tenho de morrer, deixai-me morrer aqui em Roccaleone, ajudando a defesa até ao meu último suspiro. Mas não me expulseis para cair nas mãos de Gian Maria. Ele enforcar-me-á pela minha parte neste negócio. Não me recompenseis assim, Madonna. Deveis-me um pouco, certamente, e se estive louco quando falei convosco há pouco, foi o amor por vós que me levou — amor por vós e suspeita daquele homem de quem nenhum de nós sabe nada. Madonna, sede um pouco piedosa. Permiti-me que permaneça.»

Ela olhou para ele, com o espírito oscilando entre a piedade e o desprezo. Depois, a piedade venceu no coração caprichoso, mas sempre gentil, de Valentina. Ordenou-lhe que se levantasse.

«E ide, Gonzaga. Ide para a cama e dormi até atingirdes um estado de espírito mais são. Esqueceremos tudo isto que dissestes, desde que nunca mais faleis disso — nem deste amor que dizeis nutrir por mim.»

O hipócrita apanhou a bainha do seu manto e levou-a aos lábios.

«Que Deus mantenha o vosso coração sempre tão puro, nobre e perdoador», murmurou ele, com a voz quebrada. «Sei quão pouco mereço a vossa clemência. Mas eu recompensar-vos-ei, Madonna», protestou ele — e dizia-o verdadeiramente, embora não no sentido que parecia.

CAPÍTULO XXI. O PENITENTE

Uma semana passou-se pacificamente em Roccaleone; tão pacificamente que era difícil conceber que ali fora, na planície, estivesse Gian Maria com os seus cem homens a cercá-los.

Esta inação irritava o Conde de Aquila, tal como a falta de notícias de Fanfulla; e ele perguntava-se vagamente o que poderia estar a acontecer em Babbiano para que Gian Maria se contentasse em estar sentado ociosamente diante deles, como se tivesse meses à sua disposição para os levar à rendição pela fome. O mistério ter-se-ia dissipado se ele soubesse que tinha a agradecer a Gonzaga esta singular paciência de Gian Maria. Pois o cortesão encontrara ocasião para enviar outra flecha portadora de carta ao campo do Duque, informando-o de como e por que o último plano falhara, e instando Gian Maria a esperar e confiar nele para engendrar um estratagema melhor para entregar o castelo ao seu poder. Ele tinha prometido de forma ousada e confiante, e Gian Maria — os factos mostravam — tinha confiado nessa sua promessa e aguardado o seu cumprimento. Mas por mais que forçasse a mente, nenhuma inspiração lhe vinha, nenhum plano se sugeria pelo qual pudesse realizar o seu propósito traiçoeiro.

Ele empregou o tempo astuciosamente para reconquistar o favor e a confiança de Valentina. Na manhã seguinte à sua tempestuosa entrevista com a sobrinha de Guidobaldo, confessara-se ao Fra Domenico e aproximara-se do Sacramento. Em todas as manhãs seguintes, apareceu na Missa e, pela piedade e fervor das suas devoções, tornou-se um exemplo para todos os outros. Ora, isto não passou despercebido a Valentina, que fora educada num convento e era, em certa medida, devota. Ela leu nesta singular alteração dos seus modos a indicação indubitável de um carácter transformado. O facto de ele se ter aproximado do Sacramento na manhã seguinte às suas palavras selvagens para ela, interpretou-o como um arrependimento pela perversidade da animosidade que nutrira; o facto de ele continuar tão extremamente devoto depois disso, interpretou-o como um sinal de que o seu arrependimento era sincero e persistente.

E assim ela começou a perguntar a si própria se, na verdade, ele não teria sido tanto um ofendido como um ofensor, e acabou por se convencer de que, em certa medida, a culpa era dela. Vendo-o tão penitente e concluindo, a partir disso, que dificilmente voltaria a transgredir, readmitiu-o no seu favor e, pouco a pouco, o antigo estado de amizade foi restabelecido, sendo talvez mais sólido em virtude da sua confiança de que, após o que se passara, ele não voltaria a interpretar mal as suas intenções.

Ele não o fez, nem voltou a permitir que o seu otimismo e a sua vaidade sempre pronta o enganassem com falsas esperanças. Ele lia-a com exata precisão e, embora a leitura apenas servisse para o amargar ainda mais e o tornar mais firme no seu propósito vingativo, fazia-o, contudo, sorrir mais docemente e ser mais servil e obsequioso.

E não satisfeito com isto, não limitou a sua bajulação a Valentina, mas procurou também, através de uma persistência sorridente, granjear a estima de Francesco. Nenhuma voz em Roccaleone — nem mesmo a do valentão Ercole — se elevava mais vezes ou com mais entusiasmo para louvar e glorificar o seu Preboste. Valentina, observando isto e aceitando-o como outro sinal da sua contrição pelo passado e propósito de emenda para o futuro, tornou-se ainda mais cordial para com ele. Ele não carecia de astúcia, este belo Ser Romeo, nem de conhecimento do coração de uma mulher, e da apreensão do facto de que não há lisonja que ela prefira àquela que tem por objeto o homem que ela ama.

Assim conquistou Gonzaga a confiança e a estima de todos durante aquela semana pacífica. Parecia um homem mudado e todos, exceto Peppe, viam nesta mudança um motivo para uma crescente confiança e amizade para com ele. Mas o astuto bobo observava e ponderava. Tais transformações como estas não se efetuavam numa noite. Ele não acreditava em nenhuma crisálida humana que fizesse da larva de ontem a borboleta de hoje. E assim, neste Gonzaga bajulador, sorridente e submisso, ele não via nada além de um objeto de desconfiança, um sujeito a ser observado com a máxima vigilância. A esta vigilância o corcunda aplicou-se com um zelo nascido da sua cordial aversão pelo cortesão. Mas Gonzaga, ciente da desconfiança e vigilância do bobo, conseguiu, por uma vez, iludi-lo e fazer chegar uma carta a Gian Maria expondo o engenhoso plano que tinha chocado.

A ideia viera-lhe naquele domingo, na Missa. Em todos os dias santificados, era costume da Monna Valentina insistir que toda a guarnição, com a exceção de um único sentinela — e isto apenas por insistência muito séria de Francesco —, assistisse ao serviço matinal. Como uma inspiração, ocorreu-lhe que meia hora como aquela seria o momento mais oportuno para abrir os portões de Roccaleone aos sitiantes. A quarta-feira seguinte era a festa de Corpus Christi. Então seria a sua oportunidade.

Ajoelhado ali, com a cabeça inclinada em devoção extasiante, ele amadureceu o seu plano traiçoeiro. O único sentinela ele poderia subornar ou, se o suborno falhasse, apunhalar. Ele percebeu que, sozinho, poderia não conseguir baixar a pesada ponte levadiça, nem seria sensato, mesmo que possível, pois o ruído poderia dar o alarme. Mas havia a poterna. Gian Maria teria de construir-lhe uma ponte leve e portátil, e tê-la pronta para atravessar o fosso e silenciosamente verter os seus soldados para o interior do castelo através daquele pequeno portão.

E assim, com o plano amadurecido e cada detalhe claro, ele foi para o seu quarto e escreveu a carta que haveria de regozijar o coração de Gian Maria. Escolheu um momento favorável para a despachar, tal como fizera com as anteriores, amarrada ao virote de uma besta, e viu o sinal de Gian Maria — para o qual a carta providenciara — de que o plano seria adotado. Zumbindo uma melodia alegre, jubilante com a perspetiva de se ver tão amplamente vingado, Gonzaga desceu e saiu para os jardins do castelo para se juntar às damas na sua brincadeira num jogo de cabra-cega.

Ora, por muito que o Duque de Babbiano se pudesse ter congratulado com o aliado que possuía em Gonzaga e com o plano astuto que este último engendrara para o colocar na posse de Roccaleone, chegaram-lhe no dia seguinte notícias que o fizeram regozijar cem vezes mais fervorosamente. Os seus súbditos de Babbiano estavam numa condição que se aproximava da rebelião aberta, resultante dos rumores inquietantes de que César Bórgia estava a armar-se em Roma para um ataque ao Ducado, e da ausência continuada de Gian Maria numa tal época, num cortejo que eles consideravam inoportuno. Um partido forte tinha-se formado e os líderes tinham pregado nos portões do Palácio uma proclamação de que, a menos que Gian Maria regressasse dentro de três dias para organizar a defesa de Babbiano, eles depô-lo-iam e dirigir-se-iam a Aquila para convidar o seu primo, Francesco del Falco — cujo patriotismo e perícia militar eram conhecidos de todos — a assumir a coroa de Babbiano e protegê-los.

À notícia, e ao ler a proclamação que Alvari trouxera consigo, Gian Maria entrou num daqueles ataques de raiva que tornaram o seu nome um ditado em Babbiano. Entretanto, porém, acalmou-se. Ali estava Gonzaga, que prometera admiti-lo em Roccaleone na quarta-feira. Isso deixava-lhe tempo para primeiro se apoderar da sua relutante noiva e depois cavalgar rapidamente até Babbiano, para chegar lá antes do termo dos três dias de graça que os seus súbditos lhe davam.

Conferenciou com Guidobaldo e insistiu que um padre deveria estar à espera para os casar assim que ele a tivesse trazido para fora da fortaleza. Nesse detalhe, estiveram a um passo de se zangarem. Guidobaldo não concordava, a princípio, com umas núpcias tão apressadas; eram desadequadas à dignidade e ao posto da sua sobrinha, e se Gian Maria a quisesse desposar, teria de ir a Urbino e deixar que a cerimónia fosse realizada por um cardeal. Foi então bom para Gian Maria ter dominado a sua habitual precipitação e contido a resposta quente e desafiante que lhe subiu aos lábios. Se o tivesse feito, uma rutura duradoura entre eles teria provavelmente ocorrido; pois Guidobaldo não era homem para permitir que o intimidassem e, afinal, ele percebia perfeitamente que Gian Maria precisava mais dele do que ele de Gian Maria. E isso, naquele momento, o Duque de Babbiano também percebeu, e ao percebê-lo, preparou-se para suplicar onde, de outra forma, poderia ter exigido, para implorar como um favor aquilo que, de outra forma, poderia ter comandado com uma ameaça. E assim venceu Guidobaldo — embora relutante — para os seus desejos na matéria, e, na sua boa índole, o Duque de Urbino consentiu em guardar no bolso a dignidade que o incitava a ver a cerimónia realizada com pompa principesca.

Estando isto resolvido, Gian Maria abençoou Gonzaga, que tornara tudo possível e viera muito oportunamente em seu auxílio, onde, sem ele, teria sido forçado a recorrer a canhões e derramamento de sangue.

Com Gonzaga, a única sombra de dúvida que restava para estragar a perfeita certeza do seu êxito residia na sua apreciação do carácter audaz e da mente engenhosa de Francesco, e agora — como se os deuses estivessem ansiosos por favorecê-lo até ao último grau — uma arma estranha para combater isto foi inesperadamente colocada na sua mão.

Aconteceu que Alvari não foi o único mensageiro que viajou naquele dia para Roccaleone. Seguiu-o, algumas horas depois, o servo do Conde de Aquila, Zaccaria, que cavalgou arduamente e chegou às aproximações do castelo ao pôr do sol. Sendo o seu destino a própria fortaleza, foi forçado a esperar nos bosques até que a noite tivesse caído e, mesmo então, a sua missão estava carregada de perigo.

Sucedeu que, algures perto da segunda hora da noite, estando a lua encoberta na altura — pois havia ameaças de tempestade no céu —, o sentinela na muralha leste ouviu um som de chapinhar no fosso abaixo, acompanhado pela respiração estertorosa de um nadador cuja boca não estava bem acima da água. Ele desafiou o som, mas, não recebendo resposta, voltou-se para ir dar o alarme e esbarrou nos braços de Gonzaga, que subira para apanhar ar.

«Ilustre», exclamou ele, «há alguém a atravessar o fosso a nado.»

«Eh?» gritou Gonzaga, com cem suspeitas de Gian Maria a correrem-lhe pela mente. «Traição?»

«Foi o que pensei.»

Gonzaga pegou no homem pela manga do seu gibão e puxou-o de volta para o parapeito. Espreitaram para baixo e, vindo da escuridão, foram saudados por um ténue «Olá!»

«Quem vai lá?» exigiu Romeo.

«Um amigo», veio a resposta suavemente. «Um mensageiro de Babbiano com cartas para o Senhor Conde de Aquila. Lançai-me uma corda, amigos, antes que eu me afogue nesta calha.»

«Delirais, tolo!» respondeu-lhe Gonzaga. «Não temos condes em Roccaleone.»

«Certamente, senhor sentinela», respondeu a voz, «o meu mestre, Messer Francesco del Falco, está aqui. Lançai-me uma corda, digo-vos.»

«Messer Fran...» começou Gonzaga. Depois, fez um ruído como um homem a engasgar-se. Foi como se uma luz súbita de revelação tivesse inundado o seu cérebro. «Arranjai uma corda», ordenou ele asperamente ao sentinela. «No pátio da armaria. Depressa, tolo!» acrescentou ele bruscamente, temendo agora a interrupção.

Num momento, o homem estava de volta e a corda foi baixada para o visitante lá em baixo. Alguns segundos depois, Zaccaria estava nas muralhas de Roccaleone, com a água a pingar das suas vestes encharcadas e a acumular-se numa poça à volta dos seus pés.

«Por aqui», disse Gonzaga, levando o homem em direção à torre da armaria, onde uma lanterna ardia. À luz dela, examinou o recém-chegado e ordenou ao sentinela que fechasse a porta e permanecesse ao alcance da voz, do lado de fora.

Zaccaria pareceu sobressaltado com a ordem. Esta não era, de todo, a receção que esperava depois de tanto ter arriscado a vida para chegar ao castelo com a sua carta.

«Onde está o meu senhor?» perguntou ele, através de dentes que castanheavam devido ao frio da sua imersão, perguntando-se vagamente quem seria aquele senhor muito magnífico.

«É Messer Francesco del Falco o vosso senhor?» perguntou Romeo.

«É, senhor. Tive a honra de o servir estes dez anos. Trago-lhe cartas de Messer Fanfulla degli Arcipreti. São muito urgentes. Levar-me-eis até ele?»

«Estais muito molhado», murmurou Gonzaga solícito. «Morrereis de frio, e a morte de um homem tão bravo que encontrou um caminho através das linhas de Gian Maria seria verdadeiramente deplorável.» Ele dirigiu-se à porta. «Olá!» chamou ele para o sentinela. «Levai este bravo rapaz lá acima e arranjai-lhe uma muda de roupa.» Ele apontou para a câmara superior da torre, onde, de facto, tais coisas estavam guardadas.

«Mas as minhas cartas, senhor!» gritou Zaccaria impacientemente. «São muito urgentes e horas já desperdicei à espera da noite.»

«Certamente podeis esperar até ter mudado as vossas vestes? A vossa vida, suponho, tem mais conta do que a perda de alguns momentos.»

«Mas as minhas ordens de Messer degli Arcipreti foram de que eu não devia perder um instante.»

«Oh, si, si!» gritou Gonzaga, com uma mostra de impaciência bem-humorada. «Dai-me as cartas, então, e eu levá-las-ei ao Conde enquanto vos despis dessas roupas molhadas.»

Zaccaria olhou para ele um momento em dúvida. Mas ele parecia tão inofensivo nas suas galas e a expressão do seu rosto aprazível era tão cativante e honesta que a hesitação do homem desvaneceu-se assim que surgiu. Tirando o barrete, tirou de dentro da aba a carta, que colocara ali para a manter seca. Este pacote ele entregou agora a Gonzaga, que, com uma palavra final de instrução ao sentinela quanto a encontrar vestimentas para o mensageiro, saiu para cumprir a sua missão. Mas fora da porta, hesitou e chamou o sentinela novamente para si.

«Aqui está um ducado para ti», sussurrou ele. «Faz o que te mando e terás mais. Detém-no na torre até eu regressar e, em caso algum, deixes que ele seja visto ou ouvido por alguém.»

«Sim, Excelência», respondeu o homem. «Mas e se o capitão vier e me encontrar ausente do meu posto?»

«Eu providenciarei isso. Direi a Messer Fortemani que vos empreguei num assunto especial e pedir-lhe-ei que vos substitua. Estais dispensado do serviço de sentinela para esta noite.»

O homem fez uma vénia e retirou-se silenciosamente para cuidar do seu prisioneiro, pois era assim que ele agora via Zaccaria.

Gonzaga procurou Fortemani na sala de guarda lá em baixo e fez o que prometera ao sentinela.

«Mas», retorquiu Ercole, ficando vermelho, «sob que autoridade fizestes isto? Por que direito enviais sentinelas em missões vossas? Christo Santo! Deve o castelo ser invadido enquanto vós enviais os meus vigias para buscar a vossa caixa de doces ou um livro de versos?»

«Haveis de lembrar-vos...» começou Romeo, com um ar de dignidade esmagadora.

«Que o diabo vos leve e àquele que vos enviou!» interrompeu o valentão. «O Messer Preboste saberá disto.»

«De modo nenhum», gritou Gonzaga, passando agora da raiva ao alarme e agarrando as abas do manto de Fortemani quando o capitão estava prestes a sair para executar a sua ameaça. «Ser Ercole, sede razoável, peço-vos. Havemos de alarmar o castelo e perturbar Monna Valentina por causa de um assunto trivial como este? Homem, eles rir-se-ão de vós.»

«Eh?» Não havia nada que Ercole apreciasse menos do que ser ridicularizado. Ponderou um momento e ocorreu-lhe que talvez estivesse a fazer muito por nada. Então:

«Tu, Aventano», chamou ele, «pega na tua alabarda e patrulha a muralha leste. Pronto, Messer Gonzaga, obedeci aos vossos desejos; mas Messer Francesco saberá disto quando fizer as suas rondas.»

Gonzaga deixou-o. Francesco não faria as suas rondas por mais uma hora e, a essa altura, não importaria o que Fortemani lhe dissesse. De uma forma ou de outra, ele seria capaz de dar conta da sua ação.

Atravessou o pátio e subiu os degraus que conduziam ao seu próprio quarto. Uma vez lá, fechou e trancou a porta. Acendeu uma luz e, atirando a carta para a mesa, sentou-se e contemplou o seu exterior e o grande selo vermelho que brilhava à luz amarelada da sua vela.

Então! Este cavaleiro andante, este homem a quem ele considerava um rústico de baixo nascimento, não era outro senão o famoso Conde de Aquila, o bem-amado do povo de Babbiano, o modelo de perfeição de toda a gente militar, da Sicília aos Alpes. E ele jamais suspeitara! Considerou-se, agora, de espírito obtuso. Ouvira descrições suficientes daquele famoso condottiero, aquele espelho da cavalaria italiana. Poderia ter sabido que não existiam dois homens de modos tão dominadores como aqueles que vira exemplificados em Roccaleone. Qual seria o seu objetivo ali? Seria o amor por Valentina, ou seria...? Ele hesitou, enquanto na sua mente fazia uma rápida revisão da política de Babbiano. Ocorreu-lhe uma possibilidade súbita que fez os seus olhos brilhar e as suas mãos tremerem de avidez. Seria aquilo apenas um estratagema político para minar o trono do seu primo, ao qual Gonzaga ouvira rumores de que Francesco del Falco aspirava? Se assim fosse, que vingança seria a sua ao desmascará-lo! Como isso humilharia Valentina! A carta jazia diante dele. Dentro dela, os factos reais seriam revelados. O que lhe escrevia o seu amigo Fanfulla?

Ele pegou na carta e examinou o selo minuciosamente. Depois, suave, silenciosa e lentamente, desembainhou o seu punhal. Se as suas suspeitas fossem infundadas, o seu punhal aquecido na chama da vela permitir-lhe-ia ocultar o facto de ter violado aquela missiva. Deslizou a lâmina por baixo do selo e trabalhou-a cautelosamente até que este se soltou e a carta se abriu. Desdobrou-a e, ao ler, os seus olhos dilataram-se. Pareceu encolher-se na cadeira, e a mão que segurava o papel tremia. Aproximou a vela e, resguardando os olhos, leu-a novamente, palavra por palavra:

“MEU CARO SENHOR CONDE — Demorei a escrever até ao momento em que os sinais que observei se tornassem mais definidos, como agora aconteceu, para que não possa demorar mais. Isto, portanto, segue pela mão de Zaccaria, para lhe dizer que hoje foi enviada uma mensagem a Gian Maria dando-lhe três dias para regressar a Babbiano, ou abandonar toda a esperança na sua coroa, cuja oferta o povo enviará então a Vossa Excelência em Aquila, onde se crê que esteja. Assim, meu caro senhor, tem o tirano à sua mercê, lançado entre Cila e Caríbdis. A si cabe resolver como agirá; mas alegro-me por ser eu a enviar-lhe a notícia de que a sua presença em Roccaleone e a sua obstinada defesa da fortaleza não foram em vão, e que, em breve, colherá a merecida recompensa. O povo foi levado a esta ação extrema pela confusão que aqui prevalece.

“Chegaram-nos notícias de que César Bórgia está a armar, em Roma, uma condotta para invadir Babbiano, e o povo está exasperado com a ausência prolongada de Gian Maria nesta altura. Eles são míopes nisto, pois ignoram os resultados que devem advir da aliança com Urbino. Que Deus proteja e prospere a Vossa Excelência, de quem é o mais devotado servidor,

“FANFULLA DEGLI ARCIPRETI.”

CAPÍTULO XXII. UMA REVELAÇÃO

“Francesco”, disse Valentina, e o nome saiu dos seus lábios como se fosse uma carícia, “por que esse olhar franzido e angustiado?”

Estavam sozinhos na sala de jantar, onde os outros os tinham deixado, e ainda estavam sentados à mesa em que tinham ceado. Francesco ergueu os seus olhos escuros e pensativos, e, ao pousarem agora em Valentina, a ponderação que neles havia deu lugar à ternura.

“Estou inquieto com esta falta de notícias”, admitiu ele. “Quem me dera saber o que está a ser feito em Babbiano. Eu pensara que, a esta hora, César Bórgia já teria levado os súbditos de Gian Maria a alguma forma de ação. Quem me dera saber!”

Ela levantou-se e, aproximando-se dele, ficou com uma mão pousada no ombro dele, os olhos sorrindo para o rosto erguido de Francesco.

“E tal ninharia há de inquietá-lo — a si, que professou há uma semana que desejaria que este cerco durasse para sempre?”

“Não me considere volúvel, anima mia”, respondeu-lhe ele, e beijou os dedos de marfim que repousavam no seu ombro. “Pois isso foi antes de o mundo mudar para mim com a magia da sua vontade. E, por isso”, repetiu, “quem me dera saber o que se passa em Babbiano!”

“Mas por que suspirar por um desejo tão ocioso?” exclamou ela. “Por que meios podem chegar-lhe aqui notícias dos acontecimentos do mundo exterior?”

Ele ponderou um momento, procurando palavras para lhe responder. Uma dezena de vezes durante aquela semana estivera a ponto de se revelar, de lhe dizer quem e o que era. Contudo, hesitara sempre, adiando essa revelação até que a ocasião parecesse mais adequada. Considerava agora o presente momento como tal. Ela confiava nele, e não havia razão para permanecer em silêncio por mais tempo. Talvez já tivesse demorado demasiado, e estava prestes a falar quando ela se afastou do seu lado e dirigiu-se apressadamente para a janela, alarmada pelo som de passos que se aproximavam. Um segundo depois, a porta abriu-se e Gonzaga apareceu.

Hesitou um momento no vão da porta, olhando de um para o outro, e Francesco, observando-o preguiçosamente por sua vez, notou que as suas faces estavam pálidas e que os seus olhos brilhavam como os de um homem com febre. Depois, deu um passo em frente e, deixando a porta aberta atrás de si, avançou para dentro da sala.

“Monna Valentina, tenho algo a comunicar-lhe.” A sua voz tremia ligeiramente. “Messer... Francesco, dar-nos-ia licença?” E os seus olhos febris moveram-se para a porta aberta com uma eloquência que não pedia palavras.

Francesco levantou-se lentamente, esforçando-se por reprimir a sua surpresa, e lançou um olhar a Valentina, como se aguardasse a sua confirmação ou recusa deste pedido para que os deixasse a sós.

“Uma comunicação para mim?” espantou-se ela, um ligeiro franzir de sobrancelhas unindo-as. “De que natureza, senhor?”

“De uma natureza tão importante quanto privada.”

Ela ergueu o queixo e, com um sorriso paciente, pareceu implorar a Francesco que lhe permitisse condescender com aquele estado de espírito de Gonzaga. Numa obediência rápida, Francesco inclinou a cabeça.

“Estarei nos meus aposentos até à hora das minhas rondas, Madonna”, anunciou e, com isso, retirou-se.

Gonzaga acompanhou-o até à porta, que fechou após ele, e, compondo as feições numa expressão de indignação pesarosa, voltou e ficou de frente para Valentina, do outro lado da mesa.

“Madonna”, disse ele, “quem me dera aos Céus que esta comunicação que tenho de lhe fazer viesse de outros lábios. À luz do que aconteceu — aqui em Roccaleone — por minha tolice — a senhora... a senhora pode pensar que a minha missão está carregada de vingança.”

A perplexidade fitava-o a partir dos olhos dela.

“Enche-me de alarme, meu bom Gonzaga”, respondeu ela, embora sorrindo.

“Infelizmente, coube-me o infortúnio de fazer mais do que isso. Fiz a descoberta de uma traição tão vil aqui na sua fortaleza como qualquer traidor jamais tramou.”

Ela olhou para ele com mais seriedade agora. A veemência do seu tom e a sugestão de pesar que nele corria, conferindo-lhe um acento tão franco, exigiam a sua atenção.

“Traição!” ecoou ela, em voz baixa, os olhos dilatando-se. “E de quem?”

Ele hesitou um momento, depois, agitando a mão:

“Não se sentará, Madonna?” sugeriu nervosamente.

Mecanicamente, ela sentou-se à mesa, os olhos sempre no rosto dele, o alarme espalhando-se no seu coração, nascido do suspense.

“Sente-se também”, ordenou ela, “e conte-me.”

Ele puxou uma cadeira, sentou-se à frente dela e, respirando fundo: “Ouviu falar alguma vez do Conde de Aquila?” inquiriu.

“Seria estranho se não tivesse. O cavaleiro mais valente da Itália, diz a fama.”

Os olhos dele estavam fixos no rosto dela, e o que viu ali satisfez-o.

“Sabe como ele está com o povo de Babbiano?”

“Sei que é por eles amado.”

“E sabe que ele é um pretendente ao trono de Babbiano? Lembrar-se-á de que é primo de Gian Maria?”

“A sua relação com Gian Maria eu sei. Que ele pretenda o trono de Babbiano, não tinha conhecimento. Mas para onde nos estamos a desviar?”

“Não nos estamos a desviar, Madonna”, respondeu Gonzaga, “estamos a seguir uma linha reta para o próprio coração e alma desta traição de que falei. Acreditar-me-ia se lhe dissesse que aqui, em Roccaleone, temos um agente do Conde de Aquila, um que, no interesse do Conde, está a prolongar este cerco com o pretexto de expulsar Gian Maria?”

“Gonzaga...” começou ela, adivinhando mais do que metade do sentido da explicação dele. Mas ele interrompeu-a com uma brusquidão pouco comum.

“Espere, Madonna”, gritou, os olhos no rosto dela, a mão imperiosamente erguida. “Ouça-me com paciência. Não estou a falar em vão. Do que lhe digo, estou armado de provas e testemunhas. Tal agente dos... dos interesses do Conde temos entre nós, e o seu verdadeiro objetivo ao prolongar este cerco, e encorajá-la e ajudá-la na sua resistência, é desgastar a paciência do povo de Babbiano com Gian Maria e levá-los, na hora do seu perigo iminente perante os exércitos de César Bórgia, a outorgar o trono a Aquila.”

“Onde aprendeu esta mentira vil?” perguntou-lhe ela, as faces cor de carmesim, os olhos em brasa.

“Madonna”, disse ele, num tom paciente, “isto que a senhora chama de mentira já é um facto consumado. Não lhe estou a apresentar os frutos de uma especulação ociosa. Tenho comigo a prova mais positiva de que um resultado como o que se esperava já foi alcançado. Gian Maria recebeu dos seus súbditos uma notificação de que, a menos que esteja na sua capital dentro de três dias a contar de hoje, eles investirão o Senhor de Aquila com a coroa ducal.”

Ela levantou-se, a sua raiva bem controlada, a voz calma.

“Onde está esta prova? Não, não; não preciso de a ver. O que quer que seja, o que me provará? Que as suas palavras, no que toca à política de Babbiano, podem ser verdadeiras; a nossa resistência a Gian Maria pode, de facto, custar-lhe o trono e prestar um bom serviço à causa do Conde de Aquila; mas como provará tudo isto aquela sua mentira, de que Messer Francesco — pois é claramente dele que fala — de que Messer Francesco deveria ser este agente do Conde? É uma mentira, Gonzaga, pela qual será punido como merece.”

Ela silenciou e ficou à espera da resposta dele, e, ao observá-lo, o seu comportamento calmo provocou um arrepio no seu coração. Ele estava tão confiante, tão cheio de segurança; e isso, em Gonzaga, ela aprendera a saber que significava um forte baluarte entre si e o perigo. Ele suspirou profundamente.

“Madonna, estas suas palavras cruéis não me ferem, uma vez que não são mais do que eu esperava. Mas ferir-me-á — e dolorosamente — se, quando souber o resto, não reconhecer humildemente como me injustiçou, como me julgou tão grosseiramente. Pensa que venho até si com o mal no coração, impelido por um espírito de vingança contra Messer Francesco. Pelo contrário, venho até si apenas com um pesar profundo por ter de ser eu a voz que a desiludirá, e uma profunda indignação contra ele que a usou tão vilmente para os seus próprios fins. Espere, Madonna! Em certa medida, a senhora tem razão. Não era estritamente verdade dizer que este Messer Francesco é o agente do Conde de Aquila.”

“Ah! Já está a retratar-se?”

“Apenas um pouco — um pouco insignificante. Ele não é um agente porque...” Hesitou e lançou um olhar rápido para cima. Depois suspirou, baixou a voz e, com um pesar consumadamente simulado, concluiu: “Porque ele é, ele próprio, Francesco del Falco. Conde de Aquila.”

Ela oscilou um momento e a cor morreu-lhe nas faces, deixando-as pálidas como marfim. Apoiou-se pesadamente na mesa e ponderou o que tinha ouvido. E então, tão subitamente como tinha desaparecido, o sangue voltou-lhe ao rosto, subindo até às próprias têmporas.

“É uma mentira!” ela fulminou-o; “uma mentira pela qual será açoitado.”

Ele encolheu os ombros e atirou a carta de Francesco para cima da mesa.

“Aí, Madonna, está algo que provará tudo o que disse.”

Ela observou o papel friamente. O seu primeiro impulso foi chamar Fortemani e levar a cabo a sua ameaça de mandar açoitar Gonzaga, recusando-se sequer a ver esta coisa que ele tão confiantemente chamava de prova; mas pode ser que a confiança dele tenha atuado sobre ela, tocando uma corda da curiosidade feminina. Que ele estava errado, ela nunca duvidou; mas que ele se acreditava certo, ela também estava assegurada, e perguntava-se o que seria aquela coisa que o tinha convencido tanto. Ainda assim, não lhe tocou, mas perguntou com voz indiferente:

“O que é?”

“Uma carta que foi trazida até aqui esta noite por um homem que atravessou o fosso a nado, e a quem ordenei que fosse detido na torre do arsenal. É de Fanfulla degli Arcipreti para o Conde de Aquila. Se a sua memória a levar de volta a um certo dia em Acquasparta, talvez se recorde de que Fanfulla era o nome de um cavaleiro muito galante que se dirigiu a este Messer Francesco com um respeito marcado.”

Ela lançou aquele olhar mental para trás, conforme ele lhe pediu, e lembrou-se. Então, lembrou-se também de como, nessa mesma noite, Francesco dissera que estava inquieto por notícias de Babbiano, e que, quando ela perguntou como ele esperava que essas notícias pudessem chegar-lhe a Roccaleone, Gonzaga entrara antes de ele lhe responder. Na verdade, ele parecera hesitar sobre essa resposta. Um frio súbito envolveu-a perante essa reflexão. Oh, era impossível, absurdo! E, no entanto, ela pegou na carta da mesa. Com as sobrancelhas franzidas, leu-a, enquanto Gonzaga a observava, mal conseguindo impedir que a satisfação brilhasse nos seus olhos.

Leu-a lentamente e, à medida que lia, o seu rosto tornava-se mortalmente pálido. Quando terminou, ficou em silêncio durante um longo minuto, os olhos na assinatura e a mente voltando ao que Gonzaga dissera, traçando comparações entre isso e as coisas que tinham sido feitas e ditas, e em parte alguma encontrou o menor brilho daquela discrepância que tão ardentemente procurava.

Era como se uma mão estivesse a esmagar o coração no seu peito. Este homem em quem ela confiara, este campeão sem par da sua causa, não ser mais do que um aproveitador, um intrigante que, para promover os seus próprios fins, fizera dela um peão. Pensou em como, por um momento, ele a segurara nos seus braços e a beijara, e com isso toda a sua alma revoltou-se contra a noção de que ali não havia mais do que traição.

“É tudo um plano contra ele!” gritou ela, as faces escarlates novamente. “É uma coisa infame da sua invenção, Messer Gonzaga, uma mentira odiosa!”

“Madonna, o homem que trouxe a carta ainda está detido. Confronte-o com Messer Francesco; ou aplique-lhe o tormento e aprenda o verdadeiro nome e posição do seu senhor. Quanto ao resto, se aquela carta é prova insuficiente para si, peço-lhe que olhe para os factos. Por que haveria ele de lhe mentir? E dizer que o seu nome era Francesco Franceschi? Por que deveria ele tê-la instado — contra toda a razão — a permanecer aqui, quando lhe trouxe notícias de que Gian Maria avançava? Certamente, se ele apenas procurasse servi-la, tê-lo-ia feito melhor colocando o seu próprio castelo de Aquila à sua disposição, e deixando aqui um ninho vazio para Gian Maria, como eu insisti.”

Ela afundou-se numa cadeira, uma febre na mente.

“Digo-lhe, Madonna, não há engano. O que disse é verdade. Por mais três dias ele teria mantido Gian Maria aqui, enquanto, se lhe desse aquela carta, é provável que ele escapasse na noite de amanhã, para que pudesse estar em Babbiano no terceiro dia para tomar o trono que o seu primo trata tão levianamente. Santo Deus!” gritou ele. “Creio que este é o plano mais diabolicamente traiçoeiro que a mente de um homem jamais concebeu e a insensibilidade humana executou.”

“Mas... mas...” hesitou ela, “tudo isto pressupõe que Messer Francesco é, de facto, o Conde de Aquila. Pode... não poderá ser que esta carta se destinasse a outro destino?”

“Confrontará este mensageiro com o Conde?”

“Com o Conde?” inquiriu ela, atordoada. “Com Messer Francesco, quer dizer?” Ela estremeceu e, com uma estranha inconsistência: “Não”, disse, com voz sufocada, o lábio torcendo-se estranhamente no canto. “Não desejo ver o rosto dele novamente.”

Um brilho surgiu no olho de Gonzaga e extinguiu-se no instante seguinte.

“É melhor ter a certeza”, sugeriu ele, levantando-se. “Ordenei a Fortemani que trouxesse Lanciotto para aqui. Ele estará a esperar agora, lá fora. Devo admiti-los?”

Ela assentiu sem falar, e Gonzaga abriu a porta e chamou Fortemani. Uma voz respondeu-lhe da penumbra da sala de banquetes.

“Traga Lanciotto para aqui”, ordenou ele.

Quando o criado de Francesco entrou, com um olhar de surpresa no rosto perante aqueles procedimentos misteriosos, foi Valentina quem o questionou, e isso com uma voz tão fria como se o assunto não lhe dissesse respeito algum.

“Diga-me, patife”, disse ela, “e, se preza o seu pescoço, veja que me responde com verdade... qual é o nome do seu senhor?”

Lanciotto olhou dela para Gonzaga, que estava ao lado, com um esgar cínico nos seus lábios sensuais.

“Responda a Monna Valentina”, instou o cortesão. “Declare o verdadeiro nome e posição do seu senhor.”

“Mas, minha senhora”, começou Lanciotto, confuso.

“Responda-me!” ordenou ela, as suas pequenas mãos cerradas batendo na mesa com impaciência áspera. E Lanciotto, não vendo outra saída, respondeu:

“Messer Francesco del Falco, Conde de Aquila.”

Algo que começou num soluço e terminou numa gargalhada irrompeu dos lábios de Valentina. Os olhos de Ercole estavam arregalados com a notícia, e ele poderia ter ido ao ponto de interpor uma pergunta, quando Gonzaga ordenou-lhe asperamente que fosse à torre do arsenal e trouxesse de lá o soldado e o homem que Gonzaga deixara ao seu cuidado.

“Não deixarei sombra de dúvida na sua mente, Madonna”, disse ele, em jeito de explicação.

Esperaram em silêncio — pois a presença de Lanciotto impedia a conversação — até que Ercole regressou, acompanhado pelo soldado e por Zaccaria, que tinha agora mudado as suas vestes. Antes que pudessem questionar o recém-chegado, as perguntas que poderiam ter colocado foram respondidas pela saudação que passou entre ele e o seu companheiro de serviço, Lanciotto.

Gonzaga virou-se para Valentina. Ela estava sentada muito quieta, a sua cabeça ruiva curvada e, nos olhos, um olhar de profundo sofrimento. E, nesse instante, um passo apressado soou lá fora. A porta foi aberta de um safanão e o próprio Francesco estava no limiar, com o rosto alarmado de Peppe a aparecer atrás dele. Gonzaga recuou instintivamente um passo e o seu semblante perdeu parte da cor.

À vista de Francesco, Zaccaria precipitou-se e curvou-se profundamente.

“Meu senhor!” saudou-o.

E se faltava uma pequena coisa para completar a evidência contra o Conde, essa coisa, por um estranho acaso, pareceu ser fornecida pelo próprio Francesco. O estranho grupo naquela sala de jantar a reclamar a sua atenção, e o ar portentoso que pairava sobre os presentes, confirmaram o aviso que Peppe lhe trouxera de que algo estava errado. Ele ignorou totalmente a saudação do seu criado e, com olhos de uma perplexidade que pode ter tido o aspeto de alarme, procurou o rosto de Valentina.

Ela levantou-se no instante seguinte, um vermelho colérico a tingir-lhe as faces. O próprio olhar dele, parecia, tornara-se uma afronta insuportável depois do que acontecera — pois a memória do seu beijo mordia como uma presa envenenada no seu cérebro. Uma risada estranha escapou-lhe. Ela fez um gesto em direção a Francesco.

“Fortemani, colocará o Conde de Aquila sob custódia”, ordenou, com uma voz firme e severa, “e, se preza a sua vida, verá que ele não lhe escapa.”

O grande valentão hesitou. O seu conhecimento dos métodos de Francesco não era encorajador.

“Madonna!” ofegou Francesco, a sua perplexidade aumentando.

“Ouviu-me, Fortemani”, exigiu ela. “Remova-o.”

“Meu senhor?” gritou Lanciotto, levando a mão à espada, os olhos nos do seu mestre, pronto para desembainhar e atacar ao primeiro sinal de comando.

“Sh! Deixe estar”, respondeu Francesco friamente. “Aqui, Messer Fortemani.” E ofereceu o seu punhal, a única arma que trazia.

Valentina, chamando Gonzaga para a acompanhar, apressou-se a deixar o aposento. A esse ponto, Francesco pareceu despertar para a sua posição.

“Madonna, espere”, gritou ele, e colocou-se deliberadamente à frente dela. “A senhora tem de me ouvir. Rendi-me por empenho da minha fé e confiante de que, uma vez que me tenha ouvido...”

“Capitão Fortemani”, exclamou ela, quase com raiva, “vai restringir o seu prisioneiro? Desejo passar.”

Ercole, com relutância visível, colocou uma mão no ombro de Francesco; mas foi desnecessário. Diante das suas palavras, o Conde recuou como se tivesse sido atingido. Ficou fora do caminho dela, ofegante, num misto de descrença e resignação irritada. Por um instante, os seus olhos pousaram em Gonzaga, tão ferozmente que o ténue sorriso murchou nos lábios do cortesão, e os seus joelhos tremeram enquanto ele se apressava a sair da sala no encalço de Valentina.

CAPÍTULO XXIII. NA TORRE DO ARSENAL

As pedras ásperas do pátio interior brilhavam limpas e brilhantes sob o sol da manhã, ainda molhadas pelas fortes chuvas que as tinham lavado na véspera.

O bobo sentava-se num banco rústico dentro do alpendre da longa galeria e, observando melancolicamente aquele pavimento reluzente, meditava. Estava irritado, o que, exceto quando Fra Domenico estava envolvido, era algo raro no bem-humorado Peppe. Tentara argumentar com Monna Valentina sobre o encarceramento de Messer Francesco nos seus aposentos, e ela ordenara-lhe que limitasse a sua atenção às suas graças com uma dureza que nunca antes conhecera nela. Mas ele desafiara as suas ordens e surpreendera-a com a informação de que a verdadeira identidade deste Messer Francesco lhe era conhecida desde aquele dia em que o encontraram pela primeira vez em Acquasparta. Ele pretendia dizer mais. Pretendia acrescentar o anúncio do banimento de Francesco de Babbiano e a sua notória falta de vontade de subir ao trono do seu primo. Pretendia fazê-la compreender que, se Francesco tivesse tido tal intenção, não teria necessidade de se rebaixar a um ato como este que ela lhe imputava. Mas ela interrompera-o e, com palavras iradas e ameaças ainda mais iradas, expulsara-o da sua presença.

E assim ela tinha ido à Missa, e o bobo refugiara-se no alpendre da galeria, para que ali pudesse desabafar parte do seu mau humor — ou, na verdade, satisfazê-lo — ponderando sobre a obtusidade da mulher e a insidiosidade de Gonzaga, a quem ele nunca duvidou que este estado miserável de coisas se devia.

E, enquanto ali se sentava — uma figura grotesca e disforme em trajes espalhafatosos — uma raiva incontrolável apossou-se dele. O que seria deles agora? Sem o apoio severo do Conde de Aquila, a guarnição tê-la-ia forçado a capitular há uma semana. O que aconteceria, agora que a restrição do seu formidável comando fora retirada?

“Ela conhecerá a sua loucura quando for demasiado tarde. É o jeito das mulheres”, assegurou ele a si mesmo. E, amando a sua senhora como amava, a sua alma fiel sentia-se atingida pelo pensamento. Esperaria ali até que ela regressasse da Missa, e então ela ouvi-lo-ia — todos a ouviriam. Não se permitiria ser afastado novamente com tanta facilidade. Estava intensamente a ruminar no seu espírito o que diria, com que frase surpreendente e pregnante forçaria a atenção, quando foi sobressaltado pelo aparecimento de uma figura nos degraus da capela. Súbita e silenciosamente como uma aparição, surgiu, mas trazia a aparência de Romeo Gonzaga.

Ao vê-lo, Peppe recuou instintivamente para as sombras do alpendre, os seus olhos discernindo a furtividade suspeita dos movimentos do cortesão, e observando-os com uma avidez sombria. Viu Romeo olhar cuidadosamente à sua volta e depois descer os degraus na ponta dos pés, evidentemente para que nenhum eco dos seus passos chegasse aos que estavam dentro da capela. Então, sem nunca suspeitar da presença de Peppe, apressou-se vivamente através do pátio e desapareceu pelo arco que conduzia ao pátio exterior. E o bobo, assegurado de que um conhecimento do propósito do cortesão não seria despropositado, pôs-se a segui-lo.

No seu quarto, sob a Torre do Leão, o Conde de Aquila passara uma noite inquieta, exercitado por esses mesmos medos sobre o destino do castelo que tinham assediado o bobo, mas menos disposto a atribuir o seu confinamento às maquinações de Gonzaga. A presença de Zaccaria dissera-lhe que Fanfulla devia finalmente ter escrito, e ele só podia assumir que a carta, caindo nas mãos de Monna Valentina, deveria conter algo que ela interpretasse como traição da sua parte.

Amargamente, ele reprovava-se agora por não ter sido, desde o início, franco com ela sobre a sua identidade; amargamente, reprovava-a por nem sequer dar ouvidos ao homem que ela professara amar. Se ela lhe tivesse dito apenas sobre que fundamentos as suas suspeitas contra ele tinham sido fundadas, ele estava certo de que poderia tê-las dissipado com uma palavra, tornando clara a sua falta de base e a sua própria honestidade de propósito para com ela. Mais do que tudo, era corroído pelo facto de a presença de Zaccaria, após uma vinda tão esperada e tão adiada, argumentar que as notícias que trazia eram momentosas. Disso poderia resultar que Gian Maria se movesse a qualquer momento e que a sua ação pudesse ter um caráter desesperado.

Agora, através das fileiras dos homens de Fortemani, correra uma inevitável consternação pela detenção de Francesco, e um ressentimento contra Valentina, que a tinha engendrado. Era a mão dele que os mantinha unidos, o seu discernimento — do qual tinham tido sinais inequívocos — que lhes dera coragem. Ele era um líder que se mostrara capaz de liderar, e por confiança em quem eles teriam empreendido qualquer coisa que ele lhes ordenasse. Quem tinham eles agora? Fortemani era apenas um deles, colocado no comando por um evento puramente fortuito. Gonzaga era um janota cujas graças eles imitavam e cuja inteligência desprezavam; enquanto Valentina, embora suficientemente corajosa e de espírito elevado, permanecia uma rapariga sem conhecimento mundano e com menos ainda conhecimento militar, cujas ordens poderia ser suicida cumprir.

Ora, por ninguém estas opiniões eram mais fortemente sustentadas do que pelo próprio Ercole Fortemani. Nunca realizara nada com maior relutância do que a detenção de Francesco, e quando pensava no que provavelmente se seguiria, a sua consternação não conhecia limites. Passara a respeitar e, à sua maneira rústica, até a amar o seu magistral Preboste, e desde que soubera a sua verdadeira identidade, na hora de o prender, a sua admiração crescera para algo próximo da reverência pelo condotiero cujo nome, para os homens de armas de Itália, era como o nome de algum santo padroeiro.

Para garantir a guarda segura do seu cativo, ele fora ordenado por Gonzaga, que agora reassumia o comando de Roccaleone, a passar a noite na antecâmara do quarto de Francesco. Estas ordens ele tinha excedido, passando uma parte considerável da noite no próprio quarto do Conde.

“Só tem de falar”, jurara o valentão, como forma de mostrar a Francesco a verdadeira natureza dos seus sentimentos, “e o castelo é seu. A uma palavra sua, os meus homens correrão a obedecer-lhe, e poderá fazer a sua vontade em Roccaleone.”

“Fétido traidor que você é”, Francesco rira-se dele. “Esquece sob quem tomou serviço? Deixe estar o que é, Ercole. Mas se quer fazer-me um favor, deixe-me ver Zaccaria — o homem que veio a Roccaleone esta noite.”

Isto Ercole tinha feito por ele. Agora, Zaccaria estava plenamente consciente do conteúdo da carta que transportara, tendo sido instruído por Fanfulla contra a eventualidade de ser forçado, para a sua segurança, a destruí-la — um expediente para o qual ele agora se arrependia amargamente de não ter recorrido. De Zaccaria, então, Francesco soube tudo o que havia para saber, e como o conhecimento apenas confirmava os seus receios de que Gian Maria não adiaria mais a ação, ele tornou-se presa da mais apaixonada impaciência com a sua própria detenção.

Nas horas cinzentas da manhã, ele tornou-se mais calmo e, à luz de uma lâmpada que ele chamara Ercole para reabastecer, sentou-se para escrever uma carta a Valentina, que ele achava que deveria levar a convicção da sua honestidade ao coração dela. Uma vez que ela não o queria ouvir, este era o único caminho. Ao fim de uma hora — a sua luz moribunda tornado-se amarela agora que o sol tinha nascido — a sua carta estava terminada, e ele chamou Ercole novamente, para o encarregar de a entregar imediatamente a Monna Valentina.

“Esperarei pelo seu regresso da capela”, respondeu Ercole. Levou a carta e partiu. Ao emergir no pátio, ficou surpreendido ao ver o bobo correr na sua direção, ofegante, e com entusiasmo em cada linha do seu rosto peculiar.

“Rapidamente, Ercole!” Peppe ordenou-lhe. “Venha comigo.”

“Que o diabo o leve, desova de Satanás — para onde?” rosnou o soldado.

“Dir-lhe-ei enquanto vamos. Não temos um momento a perder. Há traição em curso... Gonzaga...” ele ofegou, e terminou desesperadamente: “Virá?”

Fortemani não precisou de um segundo pedido. A hipótese de apanhar o belo Messer Romeo numa traição era um engodo demasiado doce. Bufando e soprando — pois a bebida forte prejudicara gravemente o seu fôlego — o grande capitão apressou o bobo, ouvindo enquanto caminhavam as palavras ofegantes com que ele trazia a sua história. Não era muito, afinal. Peppe vira Messer Gonzaga dirigir-se à torre do arsenal. Através de uma fresta, observara-o tirar e examinar uma besta, colocá-la na mesa e sentar-se para escrever.

“Bem?” exigiu Ercole. “Que mais?”

“Nada mais. É tudo”, respondeu o corcunda.

“Céus e inferno!” rugiu o valentão, parando e olhando fixamente para o seu impaciente companheiro. “E fez-me correr por isto?”

“E não é suficiente?” retorquiu Peppe irritado. “Virá?”

“Nem mais um passo”, respondeu o capitão, ficando muito zangado. “É isto uma piada miserável? O que há da traição de que falou?”

“Uma carta e uma besta!” ofegou o enfurecido Peppe, fazendo uma careta horrível com este atraso. “Deus, existiu alguma vez um tolo assim? Isto não significa nada para essa coisa grossa e vazia que chama de cabeça? Esqueceu-se de como a oferta de mil florins de Gian Maria chegou a Roccaleone? Num virote de besta, estúpido! Vamos, digo eu, e depois terá o meu traje de bobo — a única libré que tem o direito de usar.”

No choque da iluminação, Ercole esqueceu-se de dar uma bofetada ao bobo pela sua insolência e permitiu-se ser apressado novamente, através do pátio exterior e subindo os degraus que levavam às ameias.

“Pensa...” começou ele.

“Penso que seria melhor caminhar mais suavemente”, cortou o bobo, em voz baixa, “e controlar esse arquejo trovejante, se quer surpreender Ser Romeo.”

Ercole aceitou a sugestão, dócil como um cordeiro, e deixando o bobo para trás nos degraus, subiu suavemente e aproximou-se da torre do arsenal. Espreitando cautelosamente pela fresta, e favorecido pelo facto de as costas de Gonzaga estarem voltadas para ele, viu que não chegara mais do que a tempo.

O cortesão estava curvado e, pelo som rangente que o alcançou, Ercole adivinhou que a sua ocupação era o enrolar da corda da besta. Na mesa ao seu lado jazia um virote envolto numa folha de papel.

Rápida e silenciosamente, Ercole contornou a torre e, no instante seguinte, empurrou a porta destrancada e entrou.

Um grito de terror saudou-o, e um rosto muito assustado foi virado para ele por Gonzaga, que instantaneamente se pôs de pé. Então, ao ver quem era, o rosto do cortesão reassumiu alguma da sua compostura normal, mas o seu olhar era inquieto e a sua face pálida.

“Sant Iddio!” ofegou ele. “Assustou-me, Ercole. Não o ouvi vir.”

E agora, algo no rosto do valentão aumentou o alarme em Gonzaga. Ele ainda fez um esforço de autocontrolo, enquanto se colocava entre Ercole e a mesa, de modo a ocultar o virote revelador, perguntou-lhe o que procurava ali.

“Essa carta que escreveu a Gian Maria”, foi a resposta rude e intransigente, pois Ercole não se importava nada com questões diplomáticas.

A boca de Gonzaga abriu-se com um solavanco, e o seu lábio superior estremeceu contra os dentes.

“Que... Que...”

“Dê-me essa carta”, insistiu Ercole, avançando agora sobre ele, e vestindo um ar de ferocidade que empurrou de volta para a garganta de Gonzaga as palavras ressentidas em que ele pensava. Então, como um animal encurralado — e até um rato se afirma então — ele ergueu a pesada besta que segurava e ficou a bloquear o caminho de Ercole.

“Afaste-se!” gritou ele; “ou por Deus e os Seus santos, esmagar-lhe-ei os miolos.”

Houve uma risada gutural do valentão, e então os seus braços estavam à volta da cintura bem torneada de Gonzaga, e o pavão foi levantado do chão. Viciosamente, ele baixou a besta, como ameaçara; mas atingiu o ar vazio. No instante seguinte, Gonzaga foi atirado, contuso, para um canto da torre.

Numa raiva tão grande que sentia que ela lhe drenava a própria força e sufocava o fôlego no seu corpo, ele fez um movimento para se levantar e lançar-se novamente sobre o seu agressor. Mas Fortemani estava sobre ele e, apesar de todas as suas lutas, conseguiu virá-lo de bruços, torcendo os seus braços atrás das costas e prendendo-os com um cinto que estava à mão.

“Fique quieto, seu escorpião!” rosnou o valentão, respirando com dificuldade devido aos seus esforços. Levantou-se, pegou no virote com a carta amarrada, leu o sobrescrito — “Ao Alto e Poderoso Senhor Gian Maria Sforza” — e, com uma risada de prazer e desprezo misturados, foi-se embora, trancando a porta.

Deixado sozinho, Gonzaga jazia de cara para baixo onde fora atirado, capaz de fazer pouco mais do que gemer e suar na extremidade do seu desespero, enquanto esperava a chegada daqueles que provavelmente acabariam com ele. Nem mesmo de Valentina poderia esperar misericórdia, tão incriminatória era a nota que escrevera. A sua carta era para ordenar ao Duque que mantivesse os seus homens de prontidão à hora do Angelus da manhã seguinte, e que esperasse até que Gonzaga acenasse um lenço das ameias. Com isso, ele deveria avançar imediatamente para o postigo, que encontraria aberto, e o resto, prometia Gonzaga, seria fácil. Ele apanharia toda a guarnição nas suas orações e desarmada.

Quando Francesco a leu, uma luz brilhou no seu olho e um juramento nos seus lábios; mas nem o olhar nem o juramento eram de execração, como Ercole esperava. Uma ideia súbita passou pela mente do Conde, tão estranha e humorística e, ainda assim, tão cheia de promessa de fácil realização, que ele irrompeu numa risada.

“Agora que Deus abençoe este bobo como o mais oportuno dos traidores!” exclamou ele, com uma surpresa diante da qual a boca de Fortemani se abriu e os olhos de Peppe ficaram muito redondos.

“Ercole, meu amigo, aqui está um engodo para apanhar aquele patife do meu primo, tal como eu nunca poderia ter idealizado por mim mesmo.”

“Quer dizer...?”

“Leve-a de volta para ele”, gritou o Conde, estendendo a carta com uma mão que tremia na avidez do seu espírito. “Leve-a de volta e leve-o, por bem ou por mal, a dispará-la como pretendia; ou se ele se recusar, por que, então, sele-a e dispare-a você mesmo. Mas veja que ela chegue a Gian Maria!”

“Posso saber o que pretende?” indagou o confuso Ercole.

“Tudo a seu tempo, meu amigo. Primeiro faça a minha vontade com essa carta. Ouça! Seria melhor que, tendo-a lido, concordasse em juntar-se a ele na sua traição a Roccaleone, sendo despertados os seus próprios receios quanto ao destino final que o espera nas mãos de Gian Maria. Instigue-o a prometer-lhe dinheiro, imunidade, o que quiser, como recompensa; mas faça-o acreditar que é sincero, e induza-o a disparar o seu precioso virote. Agora vá! Não perca tempo, ou eles podem estar a regressar da capela, e a sua oportunidade estará perdida. Venha ter comigo aqui, depois, e eu dir-lhe-ei o que tenho em mente. Teremos uma noite agitada esta noite, Ercole, e terá de me libertar quando os outros estiverem na cama. Agora vá!”

Ercole foi, e Peppe, permanecendo, atormentou o Conde com perguntas que ele respondeu até que, no final, o bobo apanhou o sentido do seu esquema e jurou insolentemente que um bobo maior do que a sua Excelência não existia. Depois, Ercole regressou.

“Está feito? A carta foi?” gritou Francesco. Fortemani assentiu.

“Somos irmãos de armas neste negócio, ele e eu. Adicionei uma linha à sua nota para dizer que ganhei a sua cooperação e que, portanto, a imunidade também era esperada para mim.”

“Fez bem, Ercole.” Francesco aplaudiu-o. “Agora devolva-me a carta que lhe dei para Monna Valentina. Já não há necessidade dela. Mas regresse a mim esta noite, por volta da quarta hora, quando todos estiverem na cama, e traga consigo os meus homens, Lanciotto e Zaccaria.”

CAPÍTULO XXIV. A MISSA INTERROMPIDA

A manhã daquela quarta-feira de Corpus Christi, fatídica para todos os envolvidos nesta crónica, amanheceu enevoada e cinzenta, e o ar estava arrefecido pelo vento que soprava do mar. O sino da capela tocou a sua convocação, e a guarnição dirigiu-se fielmente à Missa.

Presentemente, veio Monna Valentina, seguida pelas suas damas, os seus pajens e, por último, Peppe, usando, sob a sua fina máscara de piedade, um ar de ansiedade e inquietação ávidas. Valentina estava muito pálida, e à volta dos seus olhos havia círculos escuros que falavam de noites sem dormir, e enquanto ela baixava a cabeça em oração, as suas damas observavam que lágrimas caíam sobre o livro de Missa iluminado sobre o qual ela se debruçava. E agora vinha Fra Domenico da sacristia com a casula branca que a Igreja ordena para a festa de Corpus Christi, seguido por um pajem com uma túnica clerical preta, e a Missa começou.

Estavam ausentes apenas da reunião Gonzaga e Fortemani, além de um sentinela e os três prisioneiros. Francesco e os seus dois seguidores.

Gonzaga apresentara-se a Valentina com a história plausível de que, como os eventos dos quais a carta de Fanfulla lhes dera conhecimento poderiam levar Gian Maria a qualquer momento a medidas desesperadas, poderia ser bom que ele reforçasse o único homem de armas a patrulhar as muralhas. Valentina, pouco se importando agora se o castelo resistia ou caía, e ainda menos com ninharias como a assistência de Gonzaga à Missa, assentira sem prestar atenção ao peso do que ele dizia.

E assim, com o rosto contraído e o corpo a tremer com a excitação do que estava prestes a fazer, Gonzaga dirigira-se às muralhas assim que os viu a todos entrar na capela. O sentinela era aquele mesmo jovem clerical Aventano, que lera aos soldados aquela carta que Gian Maria enviara a Gonzaga. O cortesão aceitou isto como um bom presságio. Se havia um homem entre a soldadesca em Roccaleone com quem ele julgava ter uma conta a ajustar, esse homem era Aventano.

A névoa estava a clarear rapidamente, e o campo tornou-se visível por quilómetros em redor. No campo de Gian Maria, ele observou um vai-e-vem de homens que argumentava uma agitação inaudita para uma hora tão matinal. Eles esperavam pelo seu sinal.

Ele aproximou-se do jovem sentinela, tornando-se cada vez mais nervoso à medida que o tempo para a ação avançava. Amaldiçoou Fortemani, que se recusara egoisticamente a participar ativamente na admissão de Gian Maria. Aqui estava uma tarefa que Fortemani poderia desempenhar mais satisfatoriamente do que ele. Ele insistira neste facto perante a atenção de Ercole, mas o valentão sorrira e abanara a cabeça. A Gonzaga cabia a maior recompensa, e por isso Gonzaga devia fazer o maior trabalho. Era apenas justo, o patife insistira; e enquanto Gonzaga estivesse ocupado com isso, ele vigiaria a porta da capela contra interrupções. E assim Gonzaga fora forçado a ir sozinho para tentar resolver a situação com o sentinela.

Ele dirigiu ao jovem um "Bom dia" nervoso, porém agradável, e observou com satisfação que ele não trajava armadura. Sua intenção original fora tentar suborná-lo e torná-lo maleável por meio de propinas; mas agora que o momento da ação chegara, ele não ousou fazer a oferta. Faltaram-lhe palavras com as quais apresentar sua proposta, e temia que o homem se ofendesse e, num ataque de indignação, o atacasse com sua alabarda. Mal imaginava ele que Aventano fora avisado por Ercole de que um suborno lhe seria oferecido e que ele deveria aceitá-lo prontamente. Ercole escolhera aquele homem por ser inteligente, e fizera-o compreender o suficiente do que estava por vir, além de oferecer uma recompensa substancial se ele desempenhasse bem seu papel, e Aventano aguardava. Mas Gonzaga, nada sabendo disso, abandonou no último momento a ideia de suborná-lo — o que Ercole lhe ordenara, e o que ele, por sua vez, prometera a Ercole ser o curso que seguiria.

“Parece estar com frio, Excelência”, disse o jovem com deferência, pois observara que Gonzaga tremia.

“Uma manhã gelada, Aventano”, retribuiu o galante, com um sorriso forçado.

“Verdade; mas o sol está rompendo ali adiante. Logo estará mais quente.”

“Ora, sim”, respondeu o outro distraidamente, e ainda assim permaneceu junto ao sentinela, sua mão, sob o alegre manto de veludo azul, tateando nervosamente o punho de uma adaga que ele não ousava sacar. Passou-lhe pela mente que os momentos estavam passando e que a coisa precisava ser feita. Contudo, Aventano era um jovem vigoroso, e se a punhalada repentina que ele meditava falhasse, ele estaria à mercê do sujeito. Com o pensamento, ele estremeceu novamente, e seu rosto tornou-se cinzento. Afastou-se um passo e, então, a inspiração trouxe-lhe um estratagema cruel. Ele soltou um grito.

“O que é isso?”, exclamou ele, com os olhos no chão.

Num instante, Aventano estava ao seu lado, pois sua voz soara alarmada — um tom, em sua condição atual, não difícil de simular.

“O que, Excelência?”

“Lá embaixo”, gritou Gonzaga excitado. “Ali daquela fissura na pedra. Não viu nada?” E apontou para o chão num local onde duas lajes se encontravam.

“Não vi nada, Ilustríssimo.”

“Foi como um clarão de luz amarela ali embaixo. O que há sob nós aqui? Juro que há traição em ação. Ajoelhe-se e tente ver se algo é visível.”

Com um olhar de admiração para o rosto branco e trêmulo do cortesão, o infeliz jovem pôs-se de quatro para obedecer à sua ordem. Afinal — pobre rapaz! — ele dificilmente era tão inteligente quanto Fortemani supunha.

“Não há nada, Excelência”, disse ele. “O reboco está rachado. Mas... Ah!”

Em um pânico de pressa, Gonzaga sacara a adaga de sua bainha e a enterrara no meio das costas largas de Aventano. Os braços do sujeito deslizaram, e com um suspiro longo e gorgolejante, ele caiu e estirou-se horrivelmente sobre as pedras.

Naquele instante, as nuvens se abriram acima e o sol saiu num clarão de glória dourada. Bem acima da cabeça de Gonzaga, uma cotovia começou a cantar.

Por um momento, o assassino permaneceu de pé sobre o corpo de sua vítima com a cabeça enterrada entre os ombros como um homem que espera um golpe, seu rosto cinzento, seus dentes batendo e sua boca contraindo-se hediondamente. Um calafrio o sacudiu. Era a primeira vida que tirava, e aquela carniça a seus pés o enchia de um horror doentio. Nem por um reino — nem para salvar sua alma vil da condenação eterna que aquele ato lhe rendera — ele teria ousado curvar-se para arrancar a adaga das costas do miserável que assassinara. Com algo semelhante a um grito, ele se virou e fugiu em pânico do local. Ofegante de horror, mas subconscientemente ciente do trabalho que tinha a fazer, ele parou um momento para acenar com um lenço, depois correu escada abaixo em direção à poterna.

Com dedos trêmulos, ele destrancou a porta e abriu-a de par em par para os homens de Gian Maria que, em resposta ao seu sinal, apressavam-se agora com uma ponte composta de pinheiros, que eles haviam montado apressada e rudemente durante o dia anterior. Esta, com algum esforço e mais ruído do que Gonzaga apreciava, foi empurrada sobre o fosso. Um dos homens rastejou e ajudou Gonzaga a prender sua extremidade.

Um momento depois, Gian Maria e Guidobaldo estavam no pátio do castelo, e atrás deles vinha quase todos os cem homens que Gian Maria trouxera para aquele cerco. Era o que Francesco esperava confiantemente, sabendo que não era o costume de seu primo correr riscos.

O Duque de Babbiano, cujo rosto estava desfigurado por uma sebe eriçada de restolho avermelhado — pois, em obediência ao voto que fizera, trazia agora duas semanas de barba em seu rosto redondo — virou-se para Gonzaga.

“Está tudo bem?”, perguntou ele, num tom amigável, enquanto Guidobaldo olhava com desprezo para o pavão.

Gonzaga garantiu-lhes que tudo fora realizado sem perturbar a guarnição em suas orações. Agora que se julgava bem protegido, sua habitual serenidade de maneiras retornou.

“Pode felicitar-se, Alteza”, arriscou ele dizer, com um sorriso, a Guidobaldo, “por ter criado sua sobrinha em modos devotos.”

“Dirigiu-se a mim?”, indagou o Duque de Urbino friamente. “Espero que não seja novamente necessário.”

Diante do olhar de repugnância em seu belo rosto, Gonzaga encolheu-se. Gian Maria riu em seu agudo trinado.

“Não servi a Vossa Alteza fielmente?”, adulou o galante.

“Assim o fez o mais vil dos ajudantes de cozinha, o mais humilde cavalariço em meus estábulos — e com mais honra para si mesmo”, respondeu o orgulhoso Duque. “Contudo, ele não chega ao ponto de gracejar comigo.” Seu olhar carregava uma ameaça tão eloquente que Gonzaga recuou, amedrontado; mas Gian Maria deu-lhe um tapinha no ombro de maneira amigável.

“Tenha coragem, Judas”, riu ele, seu rosto pálido sorrindo, “encontrarei lugar para você em Babbiano, e trabalho também, se o fizer tão bem quanto este. Vamos; os homens já estão aqui. Avancemos enquanto eles estão em suas orações. Mas não devemos perturbá-los”, acrescentou, mais seriamente. “Não serei culpado de uma impiedade. Podemos ficar à espreita deles do lado de fora.”

Ele riu alegremente, pois parecia de um humor prepotentemente bom e, ordenando que Gonzaga liderasse o caminho, seguiu-o com Guidobaldo ao seu lado. Cruzaram o pátio, onde seus homens estavam enfileirados, armados até os dentes, e na porta do arco que conduzia ao pátio interno, pausaram para que Gonzaga a abrisse.

Por um momento, o galante ficou parado, encarando. Então, voltou um rosto de consternação para os Duques. Seus joelhos tremiam visivelmente.

“Está trancada”, anunciou ele, com voz rouca.

“Fizemos muito ruído ao entrar”, sugeriu Guidobaldo, “e eles deram o alarme.”

A explicação aliviou a crescente inquietação na mente de Gian Maria. Ele se voltou com um palavrão para seus homens.

“Aqui, algum de vocês”, ordenou sua voz aguda. “Arrombem esta porta. Pela Hóstia! Pensam os tolos que podem me manter fora tão facilmente?”

A porta foi derrubada e eles avançaram. Mas apenas alguns seis passos, pois no final daquela curta galeria encontraram a segunda porta bloqueando seu progresso. Através desta, também, eles romperam, Gian Maria blasfemando ferozmente contra o atraso. No entanto, quando foi feito, ele não estava tão ansioso para liderar o caminho.

No segundo pátio, ele julgou extremamente provável que encontrassem os soldados de Valentina à sua espera. Então, ordenando que seus homens passassem, ele permaneceu para trás com Guidobaldo até ouvir a notícia de que o pátio interno estava igualmente vazio.

E agora, a centena inteira de seus seguidores estava reunida ali para subjugar os vinte que serviam a Monna Valentina; e Guidobaldo — apesar dos escrúpulos de Gian Maria — caminhou calmamente em direção à porta da capela.

* * * * *

Dentro da capela, a Missa começara. Fra Domenico, ao pé do altar, recitara o Confiteor, sua voz profunda respondida pelo soprano do pajem oficiante. O Kyrie estava sendo proferido quando a atenção da congregação foi atraída pelo som de passos aproximando-se da porta da capela, acompanhados por um tinido sinistro de aço. Os homens se levantaram em uníssono, temendo traição e amaldiçoando — apesar da santidade do lugar — a circunstância de estarem sem armas.

Então a porta se abriu, e escada abaixo ecoaram os saltos armados dos recém-chegados, de modo que todos os olhos se voltaram para eles, incluindo os de Fra Domenico, que pronunciara o último “Christe eleison” com voz trêmula.

Um suspiro de alívio, seguido por um grito de raiva de Valentina, subiu quando reconheceram aqueles que vinham. Primeiro passou o Conde de Aquila em armadura completa, espada ao lado e adaga no quadril, carregando seu elmo na dobra do braço esquerdo. Atrás dele, erguia-se a massa de Fortemani, seu grande rosto corado por uma estranha excitação, um gibão de couro sobre sua couraça de aço, cingido também com espada e adaga, e carregando seu brilhante morrião na mão. Por último vieram Lanciotto e Zaccaria, ambos totalmente equipados e armados em todos os pontos.

“Quem são vocês que vêm assim equipados à Casa de Deus para interromper a santa Missa?”, gritou a voz grave do frade.

“Paciência, bom padre”, respondeu Francesco calmamente. “A ocasião é nossa justificativa.”

“O que isto significa, Fortemani?”, exigiu Valentina imperiosamente, seus olhos fixos com raiva em seu capitão, ignorando totalmente o Conde. “Também me trai?”

“Significa, Madonna”, respondeu o gigante bruscamente, “que seu cãozinho de colo, Messer Gonzaga, está neste exato momento admitindo Gian Maria e suas forças em Roccaleone, pela poterna.”

Houve um grito rouco dos homens, que Francesco silenciou com um gesto de sua mão enluvada de ferro.

Valentina olhou freneticamente para Fortemani e, então, como se atraída por uma vontade maior que a sua, seus olhos foram forçados a viajar para o Conde. Ele avançou instantaneamente e curvou a cabeça diante dela.

“Madonna, esta não é hora para explicações. Ação é necessária, e imediatamente. Errei ao não revelar minha identidade a você antes que a descobrisse por meios tão infelizes e com a assistência do único traidor que Roccaleone abrigou, Romeo Gonzaga — que, como Fortemani acabou de lhe dizer, está neste momento admitindo meu primo e seu tio ao castelo. Mas que meu objetivo tenha sido outro senão servi-la, ou que eu buscasse, como lhe foi representado, transformar este cerco em meu próprio lucro político, isso, Madonna, imploro-lhe, em seu próprio interesse, que acredite ser mentira.”

Ela caiu de joelhos e, com as mãos postas, começou a rezar à Mãe da Misericórdia, julgando-se perdida, pois seu tom carregava convicção, e ele dissera que Gian Maria estava entrando no castelo.

“Madonna”, gritou ele, tocando-a levemente no ombro; “deixe suas orações para quando puderem ser de ação de graças. Escute. Pela vigilância de Peppe ali, que, boa alma que é, nunca perdeu a fé em mim nem me considerou um covarde, fomos informados ontem à noite — Fortemani e eu — do que Gonzaga estava preparando. E fizemos nossos planos e preparamos o terreno. Quando os soldados de Gian Maria entrarem, encontrarão as portas externas barradas e trancadas, e ganharemos um pouco de tempo enquanto eles as arrombam. Meus homens, como observará, estão agora mesmo bloqueando a porta da capela para impor um obstáculo adicional. Agora, enquanto eles estão assim ocupados, devemos agir. Em suma, então, se confiar em nós, tirá-la-emos daqui, pois nós quatro trabalhamos durante a noite para algum propósito.”

Ela olhou para ele através de uma névoa de lágrimas, seu rosto tenso e assustado. Então, ela levou as mãos à testa num gesto de desamparo confuso.

“Mas eles nos seguirão”, queixou-se ela.

“Não, de forma alguma”, respondeu ele, sorrindo. “Pois para isso, também, tomamos providências. Venha, Madonna, o tempo urge.”

Por um longo momento ela o encarou. Então, afastando as lágrimas que obscureciam sua visão, ela colocou uma mão em cada um de seus ombros e permaneceu assim, diante de todos, olhando para seu rosto calmo.

“Como saberei que o que diz é verdade — que posso confiar em você?”, perguntou ela, mas sua voz não era a voz de alguém que exige uma prova esmagadora antes de acreditar.

“Pela minha honra e minha cavalaria”, respondeu ele, com voz retumbante, “faço juramento aqui, ao pé do altar de Deus, que meu propósito — meu único propósito — tem sido, é e será servi-la, Monna Valentina.”

“Eu acredito em você”, gritou ela; para soluçar um momento depois:

“Perdoe-me, Francesco, e que Deus também perdoe minha falta de fé em você.”

Ele sussurrou suavemente o nome dela em acentos tão doces que uma paz feliz a invadiu, e a coragem brilhante de outrora brilhou em seus olhos castanhos.

“Venham, senhores!”, gritou ele agora, com uma presteza súbita que os sobressaltou para uma obediência febril. “Você, Fra Domenico, corte suas vestes sacerdotais e cinja seu hábito. Há escalada para você. Aqui, um par de vocês, afaste aquele degrau do altar. Meus homens e eu passamos a noite afrouxando suas velhas dobradiças.”

Eles levantaram a laje, e na abertura abaixo dela foi revelado um lance de degraus que levava às masmorras e porões de Roccaleone.

Desceram por ali às pressas, mas em boa ordem, organizados por Francesco, e quando o último passou, ele e Lanciotto, auxiliados por outros abaixo, que agarraram uma corda que ele lhes descera, recolocaram a laje por baixo, de modo que nenhum vestígio restasse do caminho pelo qual haviam vindo.

Uma poterna fora destrancada abaixo por Fortemani, que liderara o caminho com meia dúzia de homens; e uma enorme escada de assalto que jazia pronta naquela galeria subterrânea foi levada às pressas sobre o fosso, que naquele ponto era uma torrente rugidora.

Fortemani foi o primeiro a descer aquela ponte inclinada e, ao chegar ao solo, prendeu a extremidade inferior.

Depois foi uma dúzia de homens, por ordem de Francesco, armados com as lanças que haviam sido deixadas durante a noite na galeria. A uma palavra de comando, eles deslizaram silenciosamente. Depois vieram as mulheres e, por fim, o restante dos homens.

Do inimigo não vislumbraram nada; nem mesmo um sentinela, pois cada um dos homens de Gian Maria fora pressionado para o cerco ao castelo. Assim, emergiram de Roccaleone e seguiram por aquela ponte rudimentar até os prados agradáveis ao sul. Já Fortemani e seus doze homens haviam desaparecido a trote, dirigindo-se para a frente do castelo, quando Francesco pisou por último na ponte e fechou a poterna atrás de si. Então, deslizou rapidamente para o solo e, com a assistência de uma dúzia de mãos prontas, arrastou a escada de assalto. Eles a levaram alguns metros da borda da torrente e a depositaram no prado. Com uma risada do mais puro deleite, Francesco aproximou-se do lado de Valentina.

“Exercitará suas mentes descobrir como saímos”, gritou ele, “e serão forçados à conclusão de que somos todos anjos, com asas sob nossas armaduras. Não lhes deixamos uma única escada ou um fio de corda em Roccaleone pelo qual tentar nos seguir, mesmo se descobrirem como viemos. Mas venha, Valentina mia, a comédia ainda não terminou. Fortemani já terá removido a ponte pela qual entraram e engajado os poucos homens que podem ter ficado para trás, e temos o Alto e Poderoso Gian Maria na armadilha mais apertada que já foi concebida.”

CAPÍTULO XXV. A CAPITULAÇÃO DE ROCCALEONE

Sob o sol daquela brilhante manhã de maio, Francesco e seus homens puseram-se alegremente a trabalhar para tomar posse do acampamento ducal, e a primeira tarefa do dia foi armar aqueles soldados que haviam saído desarmados. Armas não faltavam, e delas se serviram de maneira liberal, enquanto aqui e ali um homem parava para vestir um cota de malha ou pressionar um elmo de aço sobre a cabeça.

Apenas três sentinelas haviam sido deixadas para guardar as tendas, e destas Fortemani e dois de seus homens fizeram prisioneiros enquanto os outros removiam a ponte pela qual os invasores haviam entrado. E agora, sob a poterna aberta junto à ponte levadiça, abria-se uma torrente agitada que ninguém teria a coragem de tentar atravessar a nado.

Naquela abertura, surgiu então Gian Maria, seu rosto vermelho por uma vez, e atrás dele uma multidão clamorosa de homens de armas que compartilhavam a raiva de seu mestre pela maneira como haviam sido encurralados.

Na retaguarda das tendas, Valentina e suas damas aguardavam o resultado da parlamentação que agora parecia prestes a ocorrer. A maior parte dos homens estava ocupada com os canhões de Gian Maria e, sob a supervisão de Francesco, eles os treinavam sobre a ponte levadiça.

Do castelo, um grito poderoso subiu. Os homens desapareceram da poterna para reaparecer um momento depois nas muralhas, e Francesco riu profundamente em sua garganta ao perceber o propósito disso. Eles haviam se lembrado dos canhões que estavam montados ali e tinham ido usá-los contra o pequeno exército de Valentina. Canhão após canhão eles experimentaram, e um grito feroz de raiva irrompeu quando perceberam por quais simulacros haviam sido mantidos sob controle durante a semana passada. Isso foi seguido por um silêncio de alguns momentos, encerrado enfim pelo som de um clarim.

Respondendo a essa convocação para parlamentar, e com uma última palavra de ordem a Fortemani, que ficara encarregado dos homens nos canhões, Francesco cavalgou para a frente em um dos cavalos de Gian Maria, escoltado por Lanciotto e Zaccaria montados de forma semelhante, e cada um armado com um arcabuz carregado.

Sob as muralhas de Roccaleone ele conteve as rédeas, rindo para si mesmo dessa monstruosa troca de lados. Quando parou — capacete na cabeça, mas viseira aberta — um corpo veio voando sobre as ameias e mergulhou nas águas espumantes abaixo. Era o cadáver de Aventano, que Gian Maria ordenara peremptoriamente que removessem de sua vista.

“Desejo falar com Monna Valentina della Rovere”, gritou o furioso Duque.

“Pode falar comigo, Gian Maria”, respondeu a voz de Francesco, clara e metálica. “Sou seu representante, seu outrora Preboste de Roccaleone.”

“Quem é você?”, indagou o Duque, atingido por uma nota familiar naquela voz zombeteira.

“Francesco del Falco, Conde de Aquila.”

“Por Deus! Você!”

“Uma era de maravilhas, não é?”, riu Francesco.

“O que perderá, meu primo — uma esposa ou um ducado?”

A raiva deixou Gian Maria mudo por um momento. Então ele se virou para Guidobaldo e sussurrou algo; mas Guidobaldo, que parecia vastamente interessado agora neste cavaleiro abaixo, apenas encolheu os ombros.

“Não perderei nenhum, Messer Francesco”, rugiu o Duque. “Nenhum, por Deus!”, gritou ele. “Nenhum, ouve-me?”

“Eu seria surdo caso contrário”, foi a resposta fácil. “Mas você está gravemente equivocado. Um ou outro deve renunciar, e cabe a você fazer uma escolha entre eles. O jogo virou contra você, Gian Maria, e você deve pagar.”

“Mas não tenho voz no comércio de minha sobrinha?”, perguntou Guidobaldo, com fria dignidade. “Cabe a você, Lorde Conde, dizer se seu primo deve se casar com ela ou não?”

“Ora, não. Ele pode se casar com ela se quiser, mas não será mais duque. De fato, será um pária sem título para reivindicar, se é que os babbianianos lhe deixarão a cabeça; enquanto eu, pelo menos, embora não um duque com um trono vacilante, sou um conde com terras, pequenas, mas firmemente mantidas, e me tornarei duque se Gian Maria se recusar a renunciar à sua sobrinha. De modo que, se ele estiver disposto a se casar com ela, estará você disposto a deixá-la casar-se com um vagabundo sem-teto ou um cadáver sem cabeça?”

O rosto de Guidobaldo pareceu mudar, e seus olhos olharam curiosamente para o Duque de rosto pálido ao lado.

“Então você é o outro pretendente à mão de minha sobrinha, Lorde Conde?”, perguntou ele, em sua voz mais fria.

“Sou, Alteza”, respondeu Francesco calmamente. “A questão apresenta-se assim: a menos que Gian Maria esteja em Babbiano pela manhã, ele perde a sua coroa, e ela passa para mim pela voz do povo; mas se ele renunciar à sua pretensão a Monna Valentina em meu favor, então viajarei diretamente para Aquila e não mais incomodarei Babbiano. Se ele recusar e insistir neste casamento, abominável para Monna Valentina, bem, então meus homens mantê-lo-ão cativo atrás destas muralhas até que seja tarde demais para ele chegar ao seu ducado a tempo de salvar a coroa. Entretanto, cavalgarei para Babbiano em seu lugar e — relutante embora eu esteja em desempenhar o papel de duque — aceitarei o trono e silenciarei as importunações do povo. Ele poderá então esforçar-se por obter o consentimento de Vossa Alteza para a união.”

Talvez pela primeira vez na vida, Guidobaldo foi culpado de um ato de descortesia positiva. Ele soltou uma risada — uma risada estrondosa e divertida que cortou o coração de Gian Maria como uma faca.

“Ora, Lorde Conde”, disse ele, “confesso que nos tem muito nas suas mãos para nos moldar como bem entender. Pois bem, é um soldado e um estrategista de tal ordem que me daria prazer ter junto à minha pessoa em Urbino. O que diz Vossa Alteza?”, continuou ele, voltando-se agora para o quase mudo Gian Maria. “Tenho ainda outra sobrinha com quem poderíamos cimentar a união dos dois ducados; e ela talvez se mostre mais disposta. As mulheres, ao que parece, insistem em ser mulheres. Não lhe parece que Monna Valentina e este seu valente primo...”

“Não lhe dê ouvidos!”, gritou Gian Maria, agora em um calor branco de paixão. “Ele é um cão de língua macia que discutiria com o próprio diabo para tirá-lo do inferno. Não faça termos com o vilão! Tenho cem homens e...” Ele girou subitamente. “Baixem aquela ponte levadiça, covardes!”, rugiu ele para eles, “e varram-me esses animais das minhas tendas.”

“Gian Maria, dou-lhe um aviso”, gritou Francesco, alto e firme. “Mirei os seus próprios canhões para aquela ponte, e à primeira tentativa de baixá-la, eu a farei em estilhaços. Você não sai de Roccaleone salvo pelo meu prazer e sob os meus termos, e se perder o seu ducado pela sua obstinação, será obra sua; mas responda-me agora, para que eu possa seguir o meu curso.”

Guidobaldo, também, conteve Gian Maria e revogou a sua ordem para baixar a ponte. E agora, do outro lado, Gonzaga aproximou-se dele e sussurrou ao seu ouvido a sugestão de que deveria esperar até que a noite caísse.

“Esperar até a noite, tolo!”, trovejou o Duque, voltando-se para ele, em uma alegria feroz por encontrar alguém a quem pudesse destruir. “Se eu esperar até lá, o meu trono está perdido para mim. Isto é o que acontece ao andar com traidores. A culpa é sua, seu Judas!”, gritou ele ainda mais ferozmente, com o rosto distorcido; “mas você, pelo menos, pagará pelo que fez.”

Gonzaga viu um lampejo repentino de aço diante dos seus olhos, e um grito lancinante escapou-lhe quando a adaga de Gian Maria enterrou-se no seu peito. Tarde demais, Guidobaldo estendeu a mão para deter o Duque.

E assim, por uma justiça estranhamente vingativa, o magnífico Gonzaga afundou-se morto no exato local em que, tão covarde e vilmente, apunhalara Aventano.

“Joguem-me essa carniça no fosso”, rosnou Gian Maria, ainda tremendo com a raiva que motivara o seu ato feroz.

Foi obedecido, e assim assassinado e assassino foram unidos em uma sepultura comum.

Após a primeira tentativa de conter Gian Maria, Guidobaldo assistiu com indiferença, julgando o ato um castigo muito apropriado para um homem com cuja traição ele, pelo menos, nunca se solidarizara.

Ao ver o corpo desaparecer na torrente abaixo, Gian Maria pareceu dar-se conta do que fizera. A sua raiva dissipou-se e, com a cabeça baixa, ele fez piedosamente o sinal da cruz. Então, voltando-se para um atendente que estava ao seu lado:

“Veja que uma Missa seja rezada pela sua alma amanhã”, ordenou ele solenemente.

Como se o ato servisse para pacificá-lo e devolvê-lo aos seus sentidos, Gian Maria deu um passo em frente e pediu ao seu primo, em tons mais calmos do que os que empregara até então, que esclarecesse os termos sob os quais ele permitiria que regressasse a Babbiano dentro do tempo a que o seu povo o limitava.

“Não são mais do que você renunciar à sua pretensão a Monna Valentina, e que encontre consolo — como creio que a própria Alteza de Urbino sugeriu — na sobrinha mais nova do Lorde Guidobaldo.”

Antes que pudesse responder, Guidobaldo instava-o, em voz baixa, a aceitar os termos.

“O que mais há para você?”, terminou Montefeltro de forma significativa.

“E esta outra sobrinha sua...”, perguntou Gian Maria, sem convicção.

“Já dei a minha palavra”, respondeu Guidobaldo.

“E Monna Valentina?”, o outro quase choramingou.

“Pode casar-se com este seu obstinado condottiero. Não os impedirei. Venha; sou seu amigo nisto. Estou até sacrificando Valentina pelos seus interesses. Pois se você persistir, ele o arruinará. O jogo é dele, meu senhor. Reconheça a sua derrota, tal como eu reconheço a minha, e pague.”

“Mas o que é a sua derrota para a minha?”, gritou Gian Maria, que via através da apreciação de Guidobaldo de que um sobrinho político como Francesco del Falco estava longe de ser indesejável nos tempos conturbados que se avizinhavam.

“É pelo menos tão absoluta”, retorquiu Guidobaldo, com um encolher de ombros. E nesta linha, o Duque de Urbino continuou por alguns momentos, até que, no final, Gian Maria viu-se não apenas abandonado pelo seu aliado, mas tendo este aliado agora a combater do lado do seu primo e a pressioná-lo a aceitar os termos do primo, por mais desagradáveis que fossem. Assim instado, Gian Maria reconheceu, sem convicção, a sua derrota e a sua disposição para pagar o preço. Com isso, perguntou quão cedo lhe seria permitido deixar o castelo.

“Ora, imediatamente, agora que tenho a sua palavra”, respondeu Francesco prontamente, ao que a traição brilhou no olhar de Gian Maria, sendo rapidamente extinta pelas palavras seguintes de Francesco. “Mas para que os seus homens e os meus não entrem em problemas uns com os outros, você ordenará que os seus saiam sem armas ou armaduras, e você deporá as suas próprias. A Alteza Guidobaldo é o único homem a cujo favor posso abrir uma exceção a esta condição. Que ela seja quebrada, e prometo-lhe que se arrependerá amargamente. À vista do primeiro homem armado saindo por aqueles portões, darei a ordem para disparar sobre vocês, e os seus próprios canhões operarão a sua destruição.”

Assim terminou o segundo cerco de Roccaleone quase assim que começou, e assim capitulou Gian Maria perante o conquistador. O Duque de Babbiano e os seus homens marcharam para fora, cabisbaixos e silenciosos, e seguiram para Babbiano, sem que nenhuma palavra — nem sequer um olhar — passasse entre Gian Maria e a dama que fora a causa da sua derrota, e que alegremente assistia à sua partida.

Guidobaldo e os seus poucos atendentes permaneceram depois que o seu antigo aliado partiu. Então, ordenou a Francesco que o levasse até à sua sobrinha, ao que Francesco prontamente obedeceu.

O Duque abraçou-a friamente — ainda assim, o facto de a abraçar, depois do que se passara, era um bom sinal.

“Virá comigo para Urbino, Lorde Conde?”, disse ele subitamente a Francesco. “Seria melhor celebrar as núpcias lá. Tudo está pronto — pois tudo fora preparado para Gian Maria.”

Uma grande alegria surgiu nos olhos de Valentina; as suas faces coraram e o seu olhar baixou; mas Francesco examinou o rosto do Duque com o olhar penetrante de quem está descrente de tanta boa fortuna.

“Vossa Alteza deseja-me bem?”, ousou ele perguntar. Guidobaldo enrijeceu-se, e um franzir de cenho quebrou a serenidade da sua fronte elevada.

“Você tem a minha palavra principesca”, respondeu ele solenemente, ao que, com o joelho dobrado, Francesco inclinou-se para beijar a sua mão ducal.

E assim partiram nos cavalos que guardaram como despojos de guerra. Formavam um belo espetáculo, com Guidobaldo cavalgando à frente, com Francesco e Valentina, enquanto a retaguarda era composta por Peppe e Fra Domenico, que, tocados por esta epidemia de boa vontade, estavam finalmente a fraternizar um com o outro.

E enquanto cavalgavam, aconteceu que, pouco depois, Guidobaldo ficou para trás, de modo que, por um momento, Francesco e Valentina viram-se sozinhos um pouco à frente dos outros. Ela virou-se para ele, com uma timidez nos olhos castanhos, um tremor nos cantos dos lábios vermelhos:

“Você ainda não disse que me perdoa, Francesco”, queixou-se ela, num sussurro receoso. “Não seria adequado que o fizesse, uma vez que nos havemos de casar tão em breve?”

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