A FILHA DE MONTE-CRISTO.
SEQUÊNCIA DO
GRANDE ROMANCE DE ALEXANDRE DUMAS, "O CONDE DE MONTE-CRISTO", E CONCLUSÃO DE "EDMOND DANTÈS".
POR
EDMUND FLAGG
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"A FILHA DE MONTE-CRISTO", um romance maravilhosamente brilhante, original, excitante e absorvente, é a sequência de "O Conde de Monte-Cristo", a obra-prima de Alexandre Dumas, e a continuação e conclusão desse grande romance, "Edmond Dantès". Possui um poder raro, um interesse incansável e um enredo intrincado que, em termos de habilidade construtiva e desenvolvimento eficiente, permanece inigualável. Zuleika, a bela filha de Monte-Cristo e Haydée, é a heroína, e seu pretendente, o Visconde Giovanni Massetti, um jovem romano ardente e impetuoso, o herói. Este último, através de um flerte com uma bela florista, Annunziata Solara, envolve-se em um labirinto de suspeitas que o apontam como raptor e assassino, causando sua separação de Zuleika e transformando-o em um maníaco. O desenrolar dessas complicações emaranhadas constitui o tema principal deste livro emocionante. O romance é abundante em cenas de amor ardente e aventuras vibrantes. O Conde de Monte-Cristo figura proeminentemente nele, e numerosos personagens de Monte-Cristo são introduzidos. "A FILHA DE MONTE-CRISTO" é a mais recente adição à famosa série da Petersons, que consiste em "O Conde de Monte-Cristo", "Edmond Dantès", "A Condessa de Monte-Cristo", "A Esposa de Monte-Cristo" e "O Filho de Monte-Cristo".
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NOVA IORQUE:
WM. L. ALLISON COMPANY
EDITORES.
CONTEÚDO
Capítulo. Página. I. MONTE-CRISTO E A PRIMA DONNA 21
II. UMA EPÍSTOLA ESTRANHAMENTE ENVIADA 33
III. O INTRUSO NO JARDIM DO CONVENTO 45
IV. UMA ENTREVISTA TORMENTOSA 57
V. ANNUNZIATA SOLARA 69
VI. O PODER DE UM NOME 81
VII. NA CABANA DO CAMPONÊS 91
VIII. UM IDÍLIO SILVESTRE 101
IX. O RAPTO 112
X. A CONDESSA DE MONTE-CRISTO 130
XI. O MENDIGO E SEUS COMPANHEIROS 142
XII. PAI E FILHA 156
XIII. A AVENTURA DE MORCERF 166
XIV. ZULEIKA E A SRA. MORREL 183
XV. UM ENCONTRO INESPERADO 195
XVI. ENTRE AS RUÍNAS DO COLISEU 206
XVII. A HISTÓRIA DE PEPPINO 218
XVIII. MAIS DA HISTÓRIA DE PEPPINO 228
XIX. O MANÍACO DO COLISEU 238
XX. A ILHA DE MONTE-CRISTO 248
XXI. ZULEIKA DESCOBRE A VERDADE 264
XXII. O MÉDICO MARAVILHOSO 274
XXIII. UM MILAGRE MODERNO 285
XXIV. UM ENCONTRO DESESPERADO 296
XXV. UMA VISITA AO REFÚGIO 306
XXVI. VAMPA E MONTE-CRISTO 316
XXVII. AS REPRESÁLIAS DOS BANDIDOS 326
XXVIII. O ATAQUE AOS BANDIDOS 336
XXIX. O JULGAMENTO DE VAMPA 346
XXX. ALEGRIA SEM LIMITES 363
A FILHA DE MONTE-CRISTO.
_SEQUÊNCIA DO GRANDE ROMANCE DE ALEXANDRE DUMAS, "O CONDE DE MONTE-CRISTO", E CONTINUAÇÃO E CONCLUSÃO DE "EDMOND DANTÈS"._
CAPÍTULO I.
MONTE-CRISTO E A PRIMA DONNA.
O Conde de Monte-Cristo estava em Roma. Ele havia alugado um dos numerosos palácios particulares, o Palazzo Costi, situado em uma ampla via próxima ao ponto onde a Ponte Sant'Angelo liga a Roma propriamente dita àquele subúrbio transtiberino conhecido como Cidade Leonina ou Trastevere. A nobreza romana sem recursos estava sempre pronta a alugar seus palácios a estrangeiros titulados e ricos, e Ali, agindo em nome do Conde, não tivera dificuldade em conseguir para seu mestre uma morada que até um potentado poderia invejar. Era um edifício alto e cômodo, construído de mármore branco em estilo arquitetônico antigo, e de cujas amplas varandas se tinha uma bela vista do Tibre e de sua margem ocidental, sobre a qual se erguiam aquela vasta prisão e cidadela, o Castelo de Sant'Angelo, e o maior palácio do mundo, o Vaticano.
O Conde de Monte-Cristo sempre gostara de Roma por causa de sua antiguidade pitoresca e misteriosa, mas sua missão atual ali não tinha nada a ver com seus gostos individuais. Ele havia se estabelecido por um tempo na Cidade Eterna para que sua filha Zuleika, filha de Haydée[1], pudesse terminar sua educação em um famoso colégio de freiras conduzido sob os auspícios da Irmandade do Sagrado Coração.
Zuleika tinha quinze anos de idade, mas parecia muito mais velha, possuindo a maturidade precoce das gregas, cujo sangue ardente, pelo lado de sua falecida mãe, corria em suas veias juvenis. Ela havia atingido sua estatura total, sendo alta e bem desenvolvida. Parecia-se muito com a mãe, possuindo uma beleza brilhante do tipo oriental, sonhadora e voluptuosa. Seu cabelo era abundante e negro como a noite. Tinha olhos escuros e faiscantes, dentes de pérola, lábios cheios e cor de rubi, e pés e mãos que eram de uma pequenez feérica, bem como milagres de graça e forma delicada. Em temperamento, era mais parecida com Haydée do que com o Conde, embora possuísse a rapidez de decisão e a firmeza de seu pai, com o acréscimo de muito do entusiasmo dele.
O Palazzo Costi era magnificamente mobiliado, por isso o Conde não fizera alterações a esse respeito, trazendo consigo apenas o guarda-roupa da família e uma parte de sua biblioteca, composta principalmente por manuscritos orientais escritos em caracteres estranhos e cabalísticos, inteligíveis para ninguém além dele mesmo.
A criadagem era composta apenas pelo Conde, seu filho Esperance[2], sua filha Zuleika, o fiel mudo núbio Ali e cinco ou seis criados e criadas. Não tendo outro objetivo senão a educação de sua filha, o Conde desejava viver no mais completo isolamento possível, mas era impossível para ele manter sua presença em segredo e, assim que se soube que ele estava em Roma, foi assediado por multidões de visitantes pertencentes à mais alta nobreza, entre os quais vinham numerosos patriotas, discípulos do infortunado Savonarola, notáveis por sua firme devoção à causa da liberdade italiana.
Logo cedo na manhã em que esta narrativa começa, o Conde de Monte-Cristo estava sentado sozinho em um pequeno aposento do Palazzo Costi, que fora arranjado como seu escritório e no qual seus preciosos manuscritos estavam guardados em armários trancados a chave. O Conde tinha um exemplar de um jornal romano à sua frente, e seus olhos estavam fixos em um parágrafo que parecia tê-lo fascinado como a serpente fascina o pássaro. O parágrafo dizia o seguinte:
"A Srata. Louise d'Armilly, a famosa prima donna, que cantará esta noite no Teatro Apollo seu grande papel de Lucrécia Bórgia, tem, ao que parece, um mistério profundo e impenetrável que a cerca. Ela é francesa de nascimento e diz-se ser filha de um banqueiro, que desapareceu em circunstâncias peculiares, mas, como ela se recusa positivamente a falar sobre sua história, só podemos dar os rumores a seu respeito pelo que valem. O Sr. Léon d'Armilly, irmão da prima donna, que a acompanha na ópera de Donizetti, também se recusa a ser comunicativo. De qualquer forma, o mero indício do mistério já causou um certo frisson de entusiasmo nos círculos da alta sociedade, e isso é suficiente para garantir casa cheia."
"Louise d'Armilly!" murmurou o Conde, quase audivelmente. "O nome é familiar, certamente, embora onde eu tenha visto ou ouvido antes, não consigo agora recordar. A dama é francesa de nascimento, diz o jornal, e esse fato, pelo menos, é um pretexto suficiente para que eu a visite. Farei uma visita a ela como um compatriota, e a entrevista demonstrará se ela me é conhecida."
O Conde levantou-se, foi até sua escrivaninha e, sentando-se ali, escreveu a seguinte breve epístola:
"Edmond Dantès[3], Conde de Monte-Cristo, deseja permissão para visitar a Srata. Louise d'Armilly às dez horas desta manhã. Neste desejo, o Sr. Dantès é movido unicamente pelo desejo de prestar a homenagem de um francês aos pés de uma artista tão distinta de sua própria nação como a Srata. d'Armilly."
Tendo terminado, selado e endereçado esta nota, o Conde tocou uma campainha que foi imediatamente atendida pelo sempre vigilante núbio.
"Ali", disse o Conde, na língua árabe, "leve esta carta ao Hotel de France e aguarde uma resposta."
O fiel servo curvou-se quase até o chão, pegou a missiva e partiu. Quando ele se foi, o Conde percorreu o aposento com os passos longos habituais a ele nos momentos em que estava absorvido por algum pensamento todo-poderoso.
"Certamente", murmurou ele, "esta artista não pode, de forma alguma, interessar-me pessoalmente, e ainda assim sinto um pressentimento sutil de que seria sensato da minha parte vê-la."
Ele ainda estava andando pelo escritório quando Ali retornou. O rosto geralmente impassível do núbio trazia vestígios de excitação e horror. Ele prostrou-se aos pés de seu mestre e, com o rosto pressionado contra o chão, levantou a mão, apresentando ao Conde a carta idêntica da qual fora portador.
"Ora, como é isso, Ali?" perguntou o Conde, franzindo a testa. "Minha carta enviada de volta sem uma resposta. O selo também foi rompido. Deve ter sido lida."
O mudo levantou-se lentamente e iniciou uma pantomima eloquente que seu mestre prontamente traduziu em palavras: "Você foi ao Hotel de France e mandou subir a carta. Em dez minutos ela foi devolvida a você pelo criado da dama, que disse que toda a resposta que o Conde de Monte-Cristo merecia da parte de sua patroa estava escrita no verso."
Ali balançou a cabeça em confirmação à tradução de seu mestre, parecendo como se esperasse ser severamente repreendido por ter sido o portador de tal indignidade. O Conde, no entanto, apenas sorriu. A curiosidade, mais do que a raiva, predominava nele. Ele virou a carta e leu, rabiscada a lápis com letra de mulher, a seguinte breve e enigmática, porém insultuosa comunicação:
"Qualquer francês, exceto o ignominioso Sr. Dantès, o chamado Conde de Monte-Cristo, seria bem-vindo à Srata. d'Armilly. Essa pessoa ela não deseja ver e não verá."
O Conde ficou perplexo e também divertido. O fervor da prima donna o fez sorrir. Ele certamente não a conhecia, certamente nunca a vira. Por que, então, ela era tão amarga contra ele? Ele não conseguia entender nada disso. Seria possível que o nome dela fosse realmente tão familiar para ele quanto parecia? A artista irada certamente ouvira falar do Conde de Monte-Cristo e, portanto, não poderia estar enganada quanto à sua identidade, mas de que maneira ele poderia tê-la ferido ou incorrido em sua raiva? Quanto mais pensava no assunto, mais perplexo ficava. Enquanto debatia consigo mesmo que ação deveria tomar, houve uma batida na porta e um criado entrou, entregando-lhe um cartão no qual estava inscrito: "Capitão Joliette".
"Ah!" exclamou Monte-Cristo, "ele vem a tempo. Ele me ajudará a resolver este mistério."
Ele sinalizou para que Ali saísse do escritório e ordenou ao criado que trouxera o cartão que conduzisse o visitante imediatamente. Em outro instante, o Capitão Joliette entrou na sala. O Conde avançou para cumprimentá-lo.
"Bem-vindo, Capitão", disse ele. "Não o vejo desde nossas vibrantes aventuras na Argélia[4]. Espero que esteja bem e feliz. A propósito, o que está fazendo em Roma? Eu não sabia que você estava aqui."
"Estou aqui simplesmente por acaso", respondeu o jovem soldado, com um rubor que desmentia suas palavras. "Eu estava na Itália em uma pequena viagem de prazer e, naturalmente, fui levado à Cidade Eterna. Soube apenas esta manhã que você estava instalado no Palazzo Costi e apressei-me instantaneamente para apresentar meus respeitos."
Quando seus cumprimentos cordiais terminaram e eles estavam sentados lado a lado em um cômodo sofá luxuosamente estofado em seda carmesim, o Conde disse abruptamente:
"Capitão, você já ouviu falar de uma cantora de ópera francesa chamada Louise d'Armilly?"
Novamente o jovem corou profundamente, uma circunstância que não escapou à observação atenta de seu companheiro, que instantaneamente adivinhou que a famosa prima donna contava mais nas razões que haviam trazido o Capitão a Roma do que aquele galante guerreiro estava disposto a admitir.
"Sim", gaguejou Joliette, "já ouvi falar dela, e dizem que é uma dama notavelmente encantadora, bem como uma grande artista."
"Seu tom é entusiástico, meu caro Capitão", retrucou Monte-Cristo, sorrindo agradavelmente. "Talvez você seja conhecido da Srata. d'Armilly."
"Bem, para confessar, Conde", disse Joliette, com uma risada, "sou conhecido dela e, curiosamente, parte da minha missão aqui hoje era pedir-lhe para ocupar um camarote na apresentação de 'Lucrécia Bórgia' esta noite. Aceitará?"
"Com genuíno prazer", foi a resposta pronta de Monte-Cristo. "Desejo ver esta misteriosa prima donna por mais de uma razão. Em primeiro lugar, seu nome é vagamente familiar para mim, embora não consiga me lembrar de onde já o ouvi, e, em segundo lugar, ela recusou categoricamente uma visita minha ainda esta manhã."
Joliette pareceu muito surpreso.
"Recusou uma visita sua, Conde! Eu não acreditaria se não ouvisse de seus próprios lábios. A Srata. d'Armilly deve estar louca! Ela certamente não sabe que honra é receber uma visita do Conde de Monte-Cristo!"
O Conde sorriu de seu jeito peculiar e entregou ao Capitão a resposta singular da Srata. d'Armilly à sua nota. O jovem olhou-a com espanto, lendo-a repetidas vezes; finalmente, gaguejou:
"É a letra dela, mas o que ela pode querer dizer?"
"É exatamente isso que eu gostaria de saber, e vejo por seus modos e palavras que você é impotente para me esclarecer. Ainda assim, você pode me dizer quem é esta Srata. d'Armilly, e isso, com toda a probabilidade, me fornecerá a chave para seu tratamento um tanto grosseiro comigo."
"Meu caro Conde, sou conhecido da jovem, é verdade, mas, como você, estou em total ignorância quanto à sua história. Ela é francesa, isso é evidente, e ela chegou ao ponto de admitir para mim que Louise d'Armilly é apenas seu nome artístico, mas qual é seu nome verdadeiro, ela se recusou positivamente mais de uma vez a me revelar. Ela é igualmente reticente quanto aos rumores que circulam a seu respeito. Você, sem dúvida, está ciente de que ela tem a reputação de ser filha de um banqueiro francês que desapareceu misteriosamente. Isso ela nem nega nem afirma; ela apenas mantém um silêncio obstinado sempre que isso é mencionado em sua presença."
"Seu relato interessa-me muito, Capitão", disse Monte-Cristo. "Você é mais privilegiado do que eu, na medida em que desfruta do conhecimento desta jovem excêntrica, mas ela não parece depositar um grau maior de confiança em você do que em mim, pois ela não lhe contou absolutamente nada."
"Bem", disse Joliette, "você a verá esta noite, de qualquer forma, apesar de sua proibição. Ela não pode mantê-lo fora do teatro, pois o camarote está comprado e aqui estão os ingressos."
"Mas ela ficará zangada com você, Capitão", disse o Conde, astutamente, "por trazer um auditor tão indesejável. É melhor que eu vá sozinho e ocupe algum assento obscuro. Não quero que você perca os sorrisos da Srata. d'Armilly por minha causa."
"Ora!" respondeu Joliette, "existe claramente algum equívoco. Ela não o conhece, não o reconhecerá. Ela certamente confundiu você com outra pessoa."
"Talvez sim", disse Monte-Cristo; "mas as memórias das mulheres são boas, e eu o aviso de que você está correndo um risco grave."
"Nenhum, garanto-lhe. É mais provável que, ao responder à sua nota da maneira que fez, a Srata. d'Armilly tenha sido influenciada apenas por capricho. Se ela me perguntar após a apresentação quem era meu companheiro, só preciso dar a você um nome fictício e ela não ficará sabendo de nada."
Naquela noite, o Capitão Joliette e o Conde de Monte-Cristo abriram caminho através da densa multidão em frente ao Teatro Apollo e foram finalmente conduzidos a um camarote inferior próximo ao palco, de onde se tinha uma visão completa da cena. Monte-Cristo instintivamente buscou refúgio atrás das cortinas e drapeados do camarote, onde podia sentar-se sem ser visto e, ainda assim, ser capaz de examinar de perto a misteriosa cantora que parecia ter tal aversão intensa por ele.
Embora ainda fosse cedo, o teatro já estava lotado em todas as partes, e multidões não conseguiam nem mesmo entrar. O vasto público era composto principalmente pela melhor e mais elegante sociedade de Roma. Incluía muitos da mais alta nobreza, que ocupavam os camarotes que mantinham durante a temporada. Por toda parte, as toaletes elegantes e de cores vivas das damas encontravam o olhar, enquanto os cavalheiros brilhavam em trajes de festa. Rostos jovens e frescos e rostos nobres e antigos estavam lado a lado, a beleza da juventude e a imponência da idade, e as feições masculinas não eram menos marcantes do que as das mulheres. Verdadeiramente, era um grande agrupamento, um que deveria deliciar o coração e lisonjear a vaidade até da mais caprichosa das primas donnas.
A princípio, houve um zumbido baixo de conversa por todo o teatro, juntamente com visitas preliminares de camarote em camarote, mas o movimento começou a diminuir quando os músicos apareceram, e, quando já estavam em seus lugares na orquestra, reinou silêncio absoluto. Quando o maestro fez sua aparição, foi recebido com uma explosão de aplausos, que ele reconheceu graciosamente com uma reverência profunda. Então ele pegou sua batuta, bateu levemente na estante à sua frente, e a deliciosa abertura da grande obra de Donizetti começou.
Ao concluir, o pano subiu lentamente e a ópera começou. A Srata. d'Armilly apareceu a seu tempo, e o teatro ressoou com aplausos de boas-vindas. Ela cantou divinamente e atuou com arte consumada, recebendo sonoros "bis" para todas as suas peças. Monte-Cristo, que era apaixonado por música, contagiou-se pelo entusiasmo predominante e gradualmente emergiu do abrigo das cortinas e drapeados protetores. Ele examinara a Srata. d'Armilly cuidadosamente através de seu binóculo de ópera e estava completamente convencido de que ela era uma completa estranha para ele, embora, de vez em quando, um tom, um gesto ou um movimento do corpo transmitisse vagamente uma sensação de reconhecimento de algum tom, gesto ou movimento que ele ouvira ou vira em algum outro lugar. O Conde, no entanto, refletiu que todas as mulheres possuíam certos pontos de semelhança na voz e no porte; ele, portanto, descartou as presentes coincidências como puramente acidentais, não pensando mais nelas.
Por muito tempo, a Srata. d'Armilly não olhou para o camarote ocupado pelo Capitão Joliette e pelo Conde de Monte-Cristo[5], e foi apenas quando o primeiro lhe atirou uma custosa coroa de flores que ela voltou os olhos naquela direção. Ela estava prestes a retribuir os agradecimentos, quando seu olhar pousou sobre a forma imponente do Conde. Instantaneamente, ela parou no centro do palco, empalideceu mortalmente sob a pintura de sua maquiagem e, com um grito alto, caiu em desmaio. O pano foi imediatamente descido e o diretor, declarando que a prima donna fora acometida por uma indisposição súbita e alarmante, dispensou o público. O Capitão Joliette correu para o camarim da Srata. d'Armilly e o Conde de Monte-Cristo seguiu seu caminho de volta ao Palazzo Costi, completamente perplexo com o que acontecera.
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Um relato completo da vida de Haydée será encontrado naquele grande romance "A Esposa de Monte-Cristo", publicado completo e sem cortes por T. B. Peterson & Brothers, Filadélfia.
[2] Um relato completo de sua vida e da carreira notável de Esperance será encontrado naquele romance absorvente, "O Filho de Monte-Cristo", publicado completo e sem cortes por T. B. Peterson & Brothers, Filadélfia.
[3] Para um relato completo da vida e carreira de "Edmond Dantès", um dos romances mais poderosos e emocionantes já publicados, veja "Edmond Dantès", publicado completo e sem cortes por T. B. Peterson & Brothers, Filadélfia.
[4] Veja "O Filho de Monte-Cristo", edição completa e sem cortes, publicada por T. B. Peterson & Brothers, Filadélfia.
[5] Para um relato completo da vida e carreira notável de "O Conde de Monte-Cristo", obra-prima de Alexandre Dumas, um dos maiores romances já escritos, veja a edição ilustrada e sem cortes dele, publicada por T. B. Peterson & Brothers, Filadélfia.
CAPÍTULO II.
UMA EPÍSTOLA ESTRANHAMENTE ENVIADA.
Zuleika, a filha de Monte-Cristo, estava há alguns meses no colégio de freiras conduzido pela Irmandade do Sagrado Coração. Ela não era uma estudante aplicada, embora aprendesse rápido, e era mais inclinada ao romance e à aventura do que aos livros empoeirados de história e ciência. Como já foi dito, ela tinha a maturidade precoce das garotas gregas. Além disso, ela atraíra a atenção de vários jovens romanos de linhagem nobre e elevada, que haviam prestado avidamente a ela a homenagem devida à sua beleza e atratividade oriental. Embora tivesse apenas quinze anos, ela apreciava e se sentia lisonjeada por essa homenagem e, naturalmente, ficava impaciente com a restrição que lhe era imposta pelos regulamentos do colégio, que excluíam rigorosamente todos os visitantes masculinos, exceto pais ou tutores.
No primeiro escalão de seus jovens admiradores estava o Visconde Giovanni Massetti. Ele era mais ardente que qualquer um dos outros e, na verdade, estava perdidamente apaixonado pela bela e fascinante filha da falecida Haydée. Ele pertencia a uma família de grande antiguidade e riqueza ilimitada, e tinha a reputação de possuir uma vasta fortuna por mérito próprio. O Visconde estava apenas em seu vigésimo primeiro ano, mas era extremamente varonil, arrojado e galante. Era bastante bonito e dizia-se que era a própria alma da honra, embora seu temperamento ardente e a busca desenfreada pelo que mais cobiçava não raramente o envolvessem em sérios problemas, dos quais, graças ao seu próprio tato e à vasta influência de sua família, ele geralmente saía ileso.
Na chegada de Zuleika a Roma e antes que ela fosse colocada no colégio do convento, o Visconde Massetti havia feito seu conhecimento de uma forma que cheirava a romance e que causou uma profunda impressão na inexperiente jovem. Na carruagem de Monte-Cristo, acompanhada apenas por uma tímida femme de chambre, ela atravessava um dia uma das duas pontes que levavam à Ilha de San Bartolomeo, quando um tirante se partiu e os cavalos se assustaram. O cocheiro aterrorizado perdeu o controle deles, e os animais loucos dispararam a uma velocidade assustadora, quase virando a carruagem. Zuleika levantara-se no veículo, que era um barouche aberto, e agarrava-se desesperadamente ao encosto do assento dianteiro, com o rosto pálido de medo e seus longos cabelos negros, que se haviam soltado, esvoaçando atrás de si. Seus olhos bem abertos tinham neles um olhar de súplica lacrimosa muito difícil de resistir. O jovem Visconde, que cavalgava sobre a ponte no momento do acidente, não pôde resistir. Saltou de seu cavalo e, à medida que a carruagem passava por ele, saltou para dentro dela. Agarrando Zuleika pela cintura, e mantendo-a firmemente junto a si, ele deu então outro salto, aterrissando em segurança com ela no leito da ponte. Os cavalos em fuga foram finalmente detidos e os ocupantes do veículo gravemente despedaçado foram resgatados de sua perigosa situação. Esta aventura fez com que o Conde de Monte-Cristo escancarasse as portas de seu palazzo ao jovem italiano, e ele fora um visitante frequente ali até o momento da partida de Zuleika para o colégio do convento.
No intervalo, tanto o Visconde quanto a moça haviam se afeiçoado muito um ao outro, e então este apego mútuo rapidamente amadurecera para um amor recíproco daquele ardor e intensidade experimentados apenas pelos filhos do sol meridional ou oriental. O jovem Massetti confessara sua paixão à sua bela encantadora, e a confissão não lhe causara desagrado; era, pelo contrário, extremamente agradável a ela e ela não tentou ocultar o fato de seu entusiasta pretendente.
A entrevista memorável ocorreu em um beco densamente sombreado do jardim do Palazzo Costi, em uma tarde abafada do início do outono. O jovem casal estava sentado muito perto um do outro em um banco rústico. Massetti segurava a mão pequena e macia de Zuleika na sua, e o toque elétrico de seus dedos minúsculos e bem torneados o emocionou como o toque de dedos femininos nunca o emocionara antes. Ele olhou para as profundezas líquidas de seus olhos escuros e brilhantes, e seu fogo sutil parecia derreter sua própria alma. A atmosfera fechada e abafada, carregada de perfumes pesados e inebriantes, estava repleta de uma influência delirante bem calculada para incendiar o sangue e promover a explosão de um amor contido. A espessa folhagem verde envolvia o par como em uma nuvem verdejante, ocultando-os efetivamente da observação. A oportunidade era irresistível. Giovanni aproximou-se mais de sua fascinante companheira, tão perto que seu hálito perfumado vinha direto em seu rosto, subjugando-o totalmente e obliterando completamente toda a cautela, tudo, exceto sua paixão absorvente pela garota palpitante cuja forma leve, porém bem delineada, graciosamente contornada sob suas vestes esvoaçantes e semi-orientais, tocava a sua. Subitamente arrebatado por um poderoso transporte, ele envolveu a cintura flexível da jovem com o braço e a puxou sem resistência para o seu peito, onde ela permaneceu, olhando para o rosto corado e excitado dele com um encanto indescritível e voluptuoso, misturado com total confiança e inocência hesitante. Ofegante em seu abraço, seus lábios de rubi parcialmente abertos como se buscassem ar, e o ardente italiano precipitada e imprudentemente imprimiu neles um beijo ardente. Zuleika, com um movimento quase imperceptível, retribuiu essa saudação casta, porém arrebatadora.
"Oh! como eu te amo!" murmurou Giovanni, tremendo da cabeça aos pés em seu êxtase selvagem, e apertando a linda garota ainda mais.
Ela não deu resposta verbal, mas não se moveu, não se esforçou para se libertar de seu caloroso abraço. Esta foi uma resposta suficiente para o rápido italiano. Zuleika, a bela Zuleika, retribuía seu amor, favorecia seu pedido. Sua alegria beirava o delírio.
"Oh! Zuleika," ele sussurrou, olhando diretamente para seus olhos pretos como a noite, "você me ama, tenho certeza! Dê-me os tesouros do seu coração virgem! Seja minha... seja minha esposa!"
"Oh! Giovanni," retrucou a garota trêmula, com uma voz baixa, mas suavemente modulada, "eu te amo... só Deus sabe o quanto!... mas sou jovem demais para ser sua esposa! Sou apenas uma criança, ainda nem saí do colégio. Meu pai não ouviria falar de eu me casar por vários anos. Você não pode esperar?"
"Será uma tarefa difícil, Zuleika," respondeu o jovem, excitado; "mas, ainda assim, esperarei se você me der a esperança de um amante. Prometa casar-se comigo quando estiver livre para fazê-lo, não, jure, e eu ficarei satisfeito!"
"Não posso prometer nem jurar, Giovanni, sem a aprovação e o consentimento de meu pai. Ele é um homem sábio, experiente e atencioso, terno e gentil com todos que ama, embora duro e implacável com seus inimigos. Fale com ele sobre mim, sobre seu amor, sobre seu desejo. Ele o ouvirá e não colocará em risco a felicidade de sua filha. Vá até ele sem demora, e tenha certeza de que tudo o que ele disser ou fizer será para o melhor interesse de ambos."
Ela havia se libertado de seu abraço e se afastado um pouco dele, não por terror, não por pudor, não por coqueteria, mas como uma medida de prudência. Ela sentia intuitivamente que a paixão selvagem e intensa de seu adorador italiano deveria ser mantida dentro de limites discretos.
"Não posso falar com seu pai ainda," respondeu Giovanni, hesitante. "Ele poderia me ouvir, é verdade; mas trataria nosso amor como um mero capricho infantil que o tempo não deixaria de atenuar, se não obliterar. Sou profundamente sincero, Zuleika, e não suportaria ser tratado como um rapaz irrefletido e precipitado, que não conhece sua própria mente. O ridículo, mesmo em sua forma mais branda, incendiaria meu sangue, encher-me-ia de projetos loucos de vingança. Prefiro não pedir sua mão ao seu pai até estar certo de uma recepção favorável ao meu pedido. Você compreende meus escrúpulos, não é, Zuleika? Eu te amo carinhosamente demais para não te conquistar quando eu pedir!"
"Mas você falará com meu pai?" disse a garota, em tons vacilantes.
"Sim, querida, oh! sim; mas não até que aquele odiado colégio de convento tenha deixado de opor suas barreiras entre nós. Quando você o tiver deixado, quando você tiver completado a educação que o Conde planejou para você, eu procurarei seu pai e pedirei você a ele para minha esposa; até lá, até que eu possa falar com segurança, pelo menos prometa-me que você não amará nenhum outro homem, não encorajará nenhum outro pretendente."
"Isso eu farei," respondeu a garota, alegremente. "Tenha certeza de que não amarei nenhum outro homem, não encorajarei nenhum outro pretendente!"
Incapaz de se controlar, o Visconde novamente apertou o objeto de sua adoração em seus braços, e novamente seus lábios se encontraram em um longo e apaixonado beijo de amor.
Assim ficou decidido, e Zuleika foi para o colégio do convento do Sagrado Coração, sentindo que sua felicidade estava assegurada, mas impaciente e insatisfeita com a longa espera que deveria necessariamente intervir antes da realização de suas esperanças, o amanhecer do futuro de sua mulher.
O Visconde Massetti, embora tivesse se declarado disposto a esperar, estava, por sua parte, completamente descontente com a árdua tarefa que havia assumido. Uma coisa era fazer uma promessa precipitada no calor do entusiasmo, mas outra bem diferente era mantê-la, especialmente quando essa promessa envolvia uma separação da linda garota que se entrelaçara inextricavelmente nas fibras de seu coração e era a única estrela guia de sua vida e amor.
O colégio do convento do Sagrado Coração estava localizado no convento daquela Irmandade, a cerca de três milhas além da Porta del Popolo, no lado norte de Roma. O convento era um edifício espaçoso, mas sombrio e proibitivo, com o aspecto de uma prisão. Janelas estreitas e gradeadas, como as de um calabouço da idade média, admitiam a luz de fora, fornecendo uma iluminação fraca e restrita que dava pouca evidência do poder e brilho do astro-rei. À noite, o brilho fraco e sepulcral das velas servia apenas para tornar a escuridão palpável e mais fantasmagórica.
A enorme sala de aula era tão primitiva e desconfortável em suas instalações e móveis quanto poderia ser. As paredes eram de pedra lavrada e erguiam-se nuas e horríveis até um teto elevado que era coberto por um perfeito labirinto de vigas curiosamente esculpidas, obra de algum artista desconhecido de muito tempo atrás. Os dormitórios das alunas eram estreitos, semelhantes a celas, escassamente mobiliados, nos quais toda luz deveria ser extinta à hora das nove da noite. Uma vez admitidas no colégio, as alunas não tinham permissão de deixar suas dependências, exceto nas férias ou no término de seu curso de estudos, uma circunstância que desgostava profundamente as alegres e despreocupadas garotas italianas enviadas para lá para receber treinamento mental e moral. Outra fonte de grave vexação para elas era o regulamento, já mencionado, que excluía rigorosamente todos os visitantes do sexo masculino, com a exceção de pais ou tutores.
Anexo ao convento havia um extenso jardim, cheio de árvores enormes que, aparentemente, estavam ali há séculos, tão tortas, nodosas e envelhecidas eram elas. Um velho jardineiro, com uma barba esvoaçante tão branca quanto a neve e escassas mechas da mesma tonalidade imaculada, ajudado por dois ou três assistentes quase tão antigos quanto ele mesmo, cuidava dos gramados e vastos canteiros de flores, sendo estes últimos mantidos constantemente cheios de plantas de flores magníficas e fragrância requintada. A aparência pitoresca do jardim contrastava forte e estranhamente com o aspecto rígido e sóbrio do edifício do convento, e este jardim era o único local onde as alunas se sentiam em casa e desfrutavam plenamente. Elas tinham permissão para caminhar ali ao meio-dia e perto do crepúsculo da noite, sob a supervisão da Irmã Agatha, uma freira de olhos aguçados e vigilante, que nunca deixava de repreender e corrigir suas vivazes pupilas mesmo pela menor infração de disciplina. Ainda assim, as garotas se divertiam no jardim, pois sua extensão e o fato de a Irmã Agatha não poder estar em toda parte ao mesmo tempo permitiam que as alunas brincalhonas e alegres se entregassem a muitas escapadas.
Certo meio-dia, Zuleika, que estava em um estado de espírito incomumente desanimado, desviou-se do resto de suas companheiras e passeou sob as árvores centenárias. Inconscientemente, ela se aproximou da parede elevada do jardim. Ela se sentou ao pé de um velho olmo nodoso, cujos ramos folhosos desciam até o chão e ocultavam efetivamente a filha de Monte-Cristo da vista. Pelo menos, foi o que ela pensou, mas embora não pudesse ser vista por ninguém dentro do recinto do jardim, ela era claramente visível da parede e das árvores que se erguiam acima dela do lado de fora.
Enquanto Zuleika estava sentada ponderando sobre seu destino e pensando tristemente em sua separação de seu amante, ela ouviu ou imaginou ouvir um ruído singular em meio aos ramos espessos de uma imensa castanheira imediatamente fora da parede do jardim. Ela levantou-se assustada, mas não conseguiu discernir nada de incomum, e o ruído singular não foi repetido. A parte mais estranha de todo o caso, no entanto, era que o ruído soara como seu próprio nome proferido por uma voz humana. Isso aumentou seu terror e confusão, e ela estava prestes a fugir do local quando um seixo oblongo ao qual algo branco estava preso esvoaçou sobre a parede e caiu a seus pés. Ela estava agora mais alarmada do que nunca e deu vários passos para trás, enquanto observava o objeto branco que jazia onde havia caído, imóvel e fascinante.
Finalmente, sua curiosidade obteve a supremacia, e, aproximando-se do objeto suspeito com a máxima cautela, ela se inclinou para examiná-lo. Era um envelope comum e, sem dúvida, continha uma carta. Para quem era destinado? Obviamente para uma das alunas. Era uma epístola clandestina, também, caso contrário teria vindo pelo canal regular através da agência de correios. Talvez fosse uma carta de amor. Com esse pensamento, ela deu um sobressalto de culpa e olhou penetrantemente para a castanheira, mas nada era visível ali, exceto ramos e folhas. Afinal, a epístola estava, sem dúvida, destinada a alguma beleza italiana de pele morena, e muitas dessas estavam no colégio do convento. Que tivesse caído a seus pés era certamente apenas uma mera coincidência. Não era, não podia ser destinada a ela! Sua legítima dona, que claramente recebera muitas notas semelhantes da mesma maneira, sabia onde estava e logo viria buscá-la. O envelope caíra com a face voltada para baixo, e ela não pôde ver o endereço. Ela tocou-o com o pé, então cautelosamente virou-o com a ponta do sapato. Ela viu a escrita. Era o endereço. De alguma forma, a disposição dos caracteres parecia familiar para ela, embora ela estivesse tão atordoada e confusa que não conseguia decifrar o nome. Sua curiosidade era indigna dela, ela sabia, indigna da filha de Monte-Cristo. Que direito ela tinha de se intrometer no segredo do coração de uma de suas companheiras de escola? Ainda assim, ela olhou; ela não pôde evitar. De repente, ela se abaixou e pegou o envelope do chão. O endereço fixou seus olhos como o feitiço de um mágico. Grandes céus! era seu próprio nome... Zuleika!
Arrancando apressadamente o leve cordão que prendia o envelope à pedra, ela enfiou o primeiro no seio de seu vestido. Então ela olhou ao seu redor, meio temendo ter sido vista por algumas das alunas ou pela vigilante Irmã Agatha. Mas não, ela não foi observada, e mesmo agora suas companheiras e a freira estavam a tal distância que ela poderia ler sua carta sem o menor perigo de ser descoberta ou interrompida. A tentação era forte. Ela cedeu a ela. Ela leria a carta. Ela se sentia convencida de que era do Visconde Massetti, e a convicção a encheu de alegria inefável. Ela não ouvira uma palavra sobre ele desde que fora encerrada dentro das paredes sombrias daquele convento lúgubre, e agora ela tinha notícias dele em sua própria letra! Era êxtase! O que ele escrevera para ela? Uma garantia de seu amor, sem dúvida, e, talvez, uma exortação para que ela cumprisse sua parte do acordo... de não amar nenhum outro homem, de não encorajar nenhum outro pretendente! Certamente ela não amava mais ninguém... ela nunca poderia amar ninguém além de Giovanni Massetti, pois ele não possuía todo o seu coração, toda a riqueza de seu ardente afeto juvenil?
Ela beijou o envelope, então abriu-o, retirou a carta, que estava escrita a lápis, e leu:
QUERIDA ZULEIKA: Não posso mais ficar longe de você. Preciso vê-la mais uma vez e chamá-la novamente de minha. Tentei atrair sua atenção agora mesmo na castanheira fora da parede. Pronunciei seu nome amado, mas você não pareceu me entender. Esta noite, ao crepúsculo, escalarei a parede. Nesse momento esteja no olmo onde você está agora e eu a encontrarei ali. Não me falhe, e, acima de tudo, não tenha medo. Garanto-lhe que nenhum mal pode possivelmente acontecer a qualquer um de nós. Encontre-me, querida. Sua, GIOVANNI.
Zuleika ficou olhando para esta nota apaixonada com sensações formadas por espanto, êxtase e consternação. Giovanni, seu amante, estava vindo. Ele estaria ali, naquele exato local, e ela o veria em toda a glória de sua varonilidade juvenil, com a luz radiante do amor em seus olhos. Mas e se ele fosse descoberto? O que então aconteceria com ele e com ela? Ela estremeceu com as possibilidades de perigo. Mas quanto a um ponto ela estava decidida... ela o encontraria, fosse qual fosse o perigo. Como Giovanni conseguiria evitar a observação ela não sabia, mas confiaria em seu julgamento e discrição.
Ela olhou na direção das alunas e da Irmã Agatha. Elas vinham lentamente em sua direção. Escondendo novamente a epístola de seu amante em seu seio, ela foi ao encontro delas.
CAPÍTULO III.
O INTRUSO NO JARDIM DO CONVENTO.
À medida que a hora do passeio noturno se aproximava, Zuleika ficou dolorosamente excitada e inquieta. Ela ansiava com todo o seu coração ver Giovanni Massetti novamente, ouvir as palavras ardentes de amor que ele certamente proferiria, mas estaria ela agindo corretamente ao encontrá-lo clandestinamente e sozinha? Sua mente a traía. É claro que ela poderia confiar em seu jovem amante italiano, pois ele era a própria alma da cavalaria e da honra. Mas será que outros sabiam disso? Como seria julgada sua conduta se as outras alunas e a Irmã Agatha os surpreendessem inesperadamente? Giovanni poderia escapar sem ser reconhecido, mas com ela seria completamente diferente. Ela poderia escapar apenas inventando uma mentira engenhosa, e contra isso toda a sua natureza se revoltava. Ela não podia se curvar a um engano inocente, muito menos a uma falsidade absoluta. Por que Giovanni a tentara? Por que ele buscara colocá-la em uma situação que ele deveria saber que seria perigosa? Havia apenas uma resposta... por causa de seu amor... e essa resposta era suficiente para induzi-la a correr o risco, por maior que fosse. Sim, ela o encontraria na hora e local marcados.
Finalmente, o sino tocou para o passeio, e a Irmã Agatha liderou a pequena procissão para o jardim. Por um breve espaço, Zuleika permaneceu com suas companheiras entre os caminhos sombreados e as flores magníficas, mas, na primeira oportunidade, afastou-se sorrateiramente e procurou o olmo folhoso, sob cujos ramos amigáveis ela deveria receber a bem-vinda, porém temida, visita do Visconde Massetti. Ela chegou ao ponto de encontro sem ser observada, com o coração batendo fortemente. O jovem italiano não estava lá. Ela procurou ansiosamente, mas em vão, por ele no crepúsculo que caía. O que teria acontecido para impedi-lo de vir? Ela estava sobre espinhos de ansiedade. Talvez ele tivesse tentado escalar a parede e tivesse caído, sofrendo algum ferimento grave! Talvez, mesmo então, enquanto ela esperava por ele, ele estivesse deitado fora da parede, machucado e sangrando! Mas o que ela poderia fazer? Apenas esperar, esperar, com pensamentos torturantes fervilhando em seu cérebro perturbado.
Ela ouviu atentamente. Nem um som. Se Giovanni estivesse ferido, incapacitado, ele estaria mantendo um silêncio muito heroico. Ela tirou do cinto um magnífico relógio de ouro, cujo estojo requintado era densamente incrustado de diamantes, e olhou para o mostrador. Passava das sete horas, e às oito todas as alunas deveriam estar em segurança dentro do convento. Além disso, ela não tinha certeza de que não seria sentida falta, procurada e encontrada. O que ela deveria fazer, que caminho deveria seguir?
Enquanto ela debatia consigo mesma, incerta se permaneceria ou retornaria, houve um farfalhar em meio à folhagem da castanheira imediatamente fora do recinto do jardim, e a forma de um homem balançou de um dos ramos para o topo da parede. A emoção de Zuleika quase a dominou. Ela reconhecera Giovanni. Em outro instante, ele saltara da parede para o chão e estava ao seu lado. Ele estendeu os braços para ela e a garota, toda trêmula, lançou-se impetuosamente neles.
"Oh! Giovanni!" murmurou ela. "Finalmente. Eu temia que algum acidente terrível tivesse acontecido com você."
"Estou a salvo, querida Zuleika," respondeu o jovem italiano, envolvendo-a em um abraço apertado e cobrindo sua testa e lábios de beijos ardentes. "Mas você, querida, você está bem? Você não me esqueceu, não deixou de me amar?"
"Esquecer você, deixar de te amar, Giovanni!" sussurrou a garota trêmula, em um tom de leve reprovação, olhando amorosamente nos olhos dele. "Não te dei minha promessa solene de amar apenas você?"
"Perdoe-me, minha própria!" exclamou o jovem Visconde. "O que é um amante sem medos e dúvidas? Elas são a prova da força de sua adoração!"
Eles sentaram-se ao pé do olmo galhudo, cujo abrigo amistoso os isolava. Então Zuleika disse, com apreensão na voz:
"Por que você veio aqui, Giovanni? Não sabe que está correndo um grande risco e me colocando em perigo? Se formos encontrados juntos, você será ignominiosamente expulso e eu severamente punida. Além disso, pense na desgraça para nós dois em tal evento! O assunto se espalhará, servirá de alimento para fofocas e certamente chegará aos ouvidos de meu pai e de meu irmão, cujo desagrado temo mais do que tudo! Pense, também, que Esperance pedirá contas da sua conduta, e eu jamais poderia suportar uma briga entre você e ele na qual, talvez, sangue pudesse ser derramado!"
"Nunca tema, Zuleika," respondeu Massetti, galantemente. "Se formos descobertos, eu a protegerei. Quanto ao seu pai e ao seu irmão, eles não poderão ficar descontentes, pois explicarei tudo a eles e terminarei por pedir a sua mão em casamento. Por que vim aqui? Simplesmente porque não pude mais ficar longe de você. Senti que precisava vê-la, falar com você, renovar meus votos de amor. Oh! Zuleika, o mundo é todo trevas para mim sem o seu sorriso!"
"Mas você me prometeu esperar!"
"Eu sei; mas calculei mal minhas forças quando fiz essa promessa. Se eu pudesse vê-la, talvez fosse paciente; mas esperar por semanas e semanas sem sequer um vislumbre do seu rosto querido, sem ouvir uma única vez o som da sua amada voz, é algo totalmente acima das minhas forças. Eu não posso fazer isso!"
"Você deve. Nada mais pode ser feito. Meu pai deseja que eu permaneça no colégio interno por um ano, e as regras proíbem terminantemente suas visitas. Seja paciente ainda por um tempo, Giovanni. Ambos somos muito jovens e temos uma vida de felicidade pela frente. Além disso, podemos nos ver no Palazzo Costi durante as férias, e isso já é algo."
"Não é nada para um homem que deseja vê-la constantemente, estar sempre com você. Oh! Zuleika, não suporto nossa separação, não posso viver sem você!"
O jovem levantara-se e proferira estas palavras em voz alta, imprudentemente. Zuleika saltou e agarrou-o pelo braço, seu rosto pálido de terror.
"Controle-se, Giovanni, controle-se!" ela sussurrou, em um tom assustado. "Fale mais baixo, com mais cautela, ou outros ouvidos além dos meus irão ouvi-lo!"
Mas o Visconde não a ouviu. Ele estava terrivelmente agitado e todo o seu corpo tremia de excitação e emoção.
"Fuja comigo, Zuleika, fuja comigo agora, neste exato momento, e seja minha esposa!" exclamou ele, em uma voz tão estranhamente alterada que a filha de Monte-Cristo mal a reconheceu. "Sou rico, e minha família tem riqueza e poder suficientes para nos proteger contra tudo e todos, até mesmo contra o seu pai, com todo o seu ouro incontável e influência! O Conde de Monte-Cristo busca nos separar; esse é o motivo pelo qual ele a enviou para cá, para este convento, onde você não é muito mais do que uma prisioneira!"
Ele a agarrou furiosamente em seus braços e a segurou contra o peito como se desafiasse o destino. Zuleika, mais aterrorizada do que nunca, lutou em seu abraço e finalmente se libertou. Ela encarou Giovanni e disse, calorosamente:
"Você comete uma injustiça com meu pai. Ele não busca nos separar. Ele o estima muito, Visconde Massetti, ama-o pelo serviço que prestou a mim, sua filha, e recompensará esse serviço com a mais alta recompensa que está em seu poder conceder — a minha mão. Mas ele me considera uma criança ainda, deseja que eu tenha educação e experiência antes de me casar, para que eu possa ser uma esposa digna de se ter e não uma mera boneca inútil. Respeite os desejos dele, Giovanni, respeite-o. Ele é um homem bom e de bom coração, e fará o que é certo. Sua sabedoria foi demonstrada vezes demais para que eu possa duvidar dela!"
"A sabedoria dele!" exclamou Massetti, amargamente. "Sim, ele é sábio, sábio demais para conceder a sua mão a mim, um mero Visconde! O que é a minha família aos olhos dele? Nada. O que é a minha riqueza? Uma ninharia comparada à dele. Eu lhe digo, Zuleika, ele não deseja que nos casemos. Ele a destina a algum alto potentado com riquezas que correspondam ao dote principesco que você terá!"
"Não, não!" gritou a moça. "Você está desanimado e, em seu desânimo, julga-o mal. Ele não se importa com riqueza ou posição elevada, mas valoriza um bom nome e uma reputação imaculada acima de tudo."
"Mas você não será minha, não fugirá comigo desta prisão miserável, na qual só posso vê-la às escondidas e como um criminoso?"
Os olhos do italiano brilhavam na penumbra e sua voz estava cheia de persuasão eloquente. Ele caiu de joelhos aos pés de Zuleika e, segurando sua mão, beijou-a apaixonadamente repetidas vezes. A jovem trêmula estava profundamente tocada por seu amor e súplicas. Por um momento, ela hesitou, mas apenas por um momento; então a razão afirmou seu domínio e uma reflexão mais fria veio em seu auxílio.
"Levante-se, Giovanni," disse ela, com relativa calma, "levante-se e seja um homem. Esta proposta é totalmente indigna de você e, se eu a aceitasse, ambos seríamos desonrados. Eu sou sua, meu coração está sob sua guarda e serei sua esposa no momento oportuno com o pleno consentimento de meu pai. Mas não posso fugir com você, eu não vou!"
O jovem saltou sobre os pés como se um raio o tivesse atingido.
"Você não tem confiança em mim, então!" exclamou ele, impulsivamente. "Você não me ama!"
"Não te amo!" exclamou a moça, envolvendo o pescoço dele com seus braços bem torneados, enquanto sua cabeça adorável caía sobre o peito dele. "Eu te amo com todo o meu coração, com toda a minha alma, e é porque te amo que não vou fugir com você!"
Giovanni beijou o cabelo dela arrebatadamente, com excitação, e a bela moça, parecendo dez vezes mais bela em sua seriedade suplicante, acrescentou, docemente, persuasivamente:
"Deixe-me agora, querido. O sino para as alunas retornarem ao convento logo tocará e não posso ser notada como ausente entre elas. Deixe-me, mas lembre-se da máxima: 'Espere e tenha esperança!'"
O amante estava prestes a responder quando o som de passos quebrou repentinamente o silêncio aos seus ouvidos. Eles se entreolharam, sobressaltados, incertos sobre o que fazer. Giovanni foi o primeiro a recuperar a compostura. Ele silenciosamente afastou os ramos do olmo e espiou cautelosamente na direção do som.
"Três homens estão se aproximando rapidamente," disse ele, apressadamente, num sussurro. "Eles estão quase chegando!"
Zuleika olhou, por sua vez, através dos ramos.
"O jardineiro e seus assistentes," sussurrou ela, quase paralisada de consternação. "Eles evidentemente descobriram que você pulou o muro e estão à sua procura!"
"Veja," disse Giovanni, sem fôlego, apontando para um grupo atrás dos homens. "Várias freiras também estão vindo!"
"Estão procurando por mim! Oh! Giovanni, fuja, fuja imediatamente!"
"E deixá-la sofrer, carregar o peso da minha imprudência! Nunca! Ficarei e a protegerei!"
"Você não me protegerá permanecendo. Você apenas nos comprometerá ainda mais. Vá, eu lhe suplico, vá, enquanto ainda há tempo!"
Com lágrimas nos olhos suplicantes, Zuleika empurrou seu amante suavemente em direção ao muro. Ele a fitou por um instante e depois aos homens e freiras que se aproximavam, que agora estavam muito perto.
A moça juntou as mãos em súplica, depois apontou silenciosamente para o muro.
"É o seu desejo?" perguntou Massetti, apressadamente.
Zuleika assentiu afirmativamente e, ainda mais imperativamente, apontou para o muro.
"Eu a obedecerei," sussurrou o jovem italiano, "e 'esperarei e terei esperança!'"
Ela havia alcançado a vitória. Uma luz de amor alegre surgiu em seus olhos, eclipsando por um momento seu terror. Giovanni não pôde resistir à tentação de abraçá-la, mesmo diante do perigo que o ameaçava. Ele envolveu seus braços ao redor da forma flexível dela, puxou-a para si com um aperto esmagador, cobrindo de beijos ardentes os lábios voltados para cima.
"Adeus," murmurou ele, soltando-a relutantemente, "adeus, minha própria!"
Ele se afastou dela e correu para o muro, escalou-o com a agilidade de um gato e desapareceu.
Quando o jardineiro e seus assistentes chegaram ao olmo, encontraram Zuleika ali, sozinha. Será que eles tinham visto Massetti escalar o muro? Será que o tinham reconhecido? Esses pensamentos cruzaram a mente agitada da moça. Ela não prestou atenção ao seu próprio perigo.
Os homens pararam e ficaram ali em silêncio, esperando a chegada das freiras. O horror estava estampado em seus semblantes envelhecidos, e eles encaravam a filha de Monte-Cristo como se ela tivesse cometido algum crime hediondo e imperdoável.
O grupo de freiras chegou rapidamente, liderado pela Irmã Agatha, que segurava uma carta aberta na mão. Zuleika fitou esta carta em silêncio e consternação. Era a dela, aquela que Giovanni lhe escrevera! Como ela fora parar nas mãos da Irmã Agatha? Ela tateou mecanicamente em seu colo, onde pensava tê-la escondido em segurança. Sua mão tocou apenas no envelope vazio. O bilhete deve ter caído no chão da sala de aula e sido encontrado por alguma aluna maliciosa que, após lê-lo e descobrir seu conteúdo comprometedor, entregara-o à freira, revelando assim o pesado segredo.
Zuleika ficou envergonhada e aterrorizada. Não havia chance de fuga agora. Não havia chance de engano, caso ela desejasse tentá-lo. A carta contava toda a história, e a prova de sua veracidade estava fornecida, pois não estava ela no encontro marcado, e não seria provável que os homens e as freiras tivessem visto Giovanni deixá-la e escalar o muro do jardim?
As freiras pareciam tão horrorizadas quanto os velhos servos, mas eram mais temíveis; possuíam o poder de repreender e punir, e que punição elas considerariam severa demais neste caso extremo? Irmã Agatha falou. Seu tom era mais suave do que Zuleika esperava.
"Oh! mademoiselle," disse ela, com reprovação, "o que é isto? Um encontro com um amante, e dentro destes recintos sagrados dedicados ao celibato, à castidade e às coisas sagradas! O que dirá seu pai, o Conde de Monte-Cristo, quando sua conduta for relatada a ele? Você é jovem, e deve-se levar em conta o sangue jovem e os impulsos apaixonados; mas ainda assim você agiu errado, muito errado! Este homem, que se assina Giovanni e que acaba de deixá-la, é seu noivo?"
"É," murmurou Zuleika, corando e baixando a cabeça.
"Com a permissão do seu pai, mademoiselle?"
"Meu pai não se opõe a ele," respondeu a moça evasivamente.
"Nesse caso, sua falta não é tão grande quanto eu supus a princípio," disse a freira. "Você é perdoável por receber o homem que, com o consentimento do seu pai, virá a ser seu marido; mas, ainda assim, ao encontrá-lo dentro dos terrenos do convento, você é censurável pela falta de disciplina e também por ser cúmplice de uma quebra de nossa regra que exclui todos os visitantes do sexo masculino, exceto pais ou guardiões."
Zuleika inclinou a cabeça em submissão.
"A punição," continuou a Irmã Agatha, "será a mais leve possível, no entanto, se você nunca encontrou este homem antes dentro dos terrenos do convento."
"Eu nunca o encontrei aqui antes," disse Zuleika, "e só o encontrei neste caso porque... porque..."
Ela hesitou e caiu em prantos.
"Porque o quê, minha pobre criança?" perguntou a freira, gentilmente.
"Porque eu o amo tanto, e porque temia que, se eu não o encontrasse, em seu desespero ele me procurasse diante de todas vocês!"
"Você já escreveu para ele desde que está nesta escola?"
"Nunca!"
"Ele já escreveu para você antes?"
"Você segura a primeira carta dele para mim em sua mão!"
"Como esta carta foi entregue, por qual meio ela chegou até você?"
Com o rosto em brasa, tremendo da cabeça aos pés, Zuleika contou toda a história de sua aventura ao meio-dia daquele dia. Como ela se afastara de suas companheiras sem qualquer intenção definida; como ela se sentara dentro dos ramos protetores do olmo para meditar; como ouvira o ruído singular na castanheira e, finalmente, como a carta, presa a uma pedra, chegara flutuando sobre o muro e caíra aos seus pés.
As freiras entreolharam-se, horrorizadas e maravilhadas com a audácia do jovem italiano.
"Zuleika," disse a Irmã Agatha, "eu lhe disse que sua punição seria a mais leve possível. Você foi exposta e repreendida; o rubor da vergonha foi trazido às suas faces! Esta, creio, é uma penalidade suficiente para uma primeira ofensa, considerando também que foi, em certa medida, imposta a você. Mas cuidado com uma segunda infração das nossas regras! Agora, retorne para suas companheiras."
Assim aconteceu que Zuleika sofreu apenas ligeiramente pela imprudência e devoção impetuosa de seu amante. Temendo fofocas, a Irmandade do Sagrado Coração abafou o assunto, e o Conde de Monte-Cristo nunca soube de nada. Zuleika esperava o ridículo de suas companheiras, mas as garotas italianas de sangue quente e românticas, em vez de ridicularizá-la, olhavam para ela como uma heroína e a invejavam pela posse de um amante audacioso e devotado o suficiente para escalar o muro de um jardim de convento.
CAPÍTULO IV.
UMA ENTREVISTA TEMPESTUOSA.
Quando o Capitão Joliette entrou no camarim de Mlle. d' Armilly, após deixar o Conde de Monte-Cristo no Teatro Apollo no encerramento repentino da representação de "Lucrécia Bórgia", encontrou a prima donna deitada em um sofá e recuperando-se lentamente dos efeitos de seu desmaio. Sua criada e as damas da companhia, estas últimas ainda em seus trajes de cena, estavam dando-lhe toda a atenção. Era uma cena estranha e um tanto grotesca — um drama real com cenários teatrais. As luzes ardentes, encerradas em suas esferas de arame, lançavam um brilho avermelhado nos rostos dos presentes, fazendo-os parecer estranhos e bruxos em sua pintura e pó. Sobre cadeiras e mesas jaziam as trocas de roupa de Mlle. d' Armilly para a representação e suas roupas de passeio, enquanto sobre uma prateleira larga em frente a um espelho estavam os vários artigos misteriosos usados em sua maquiagem — rouge, tinta de graxa, pó de arroz, etc., juntamente com escovas e inúmeros pincéis de pelo de camelo. Uma bacia cheia de água ficava sobre um lavatório e, no chão, estava o jarro, na companhia de uma coleção heterogênea de botas de palco e de rua pertencentes à eminente cantora. O diretor do teatro estava parado ansiosamente ao lado da prima donna sofredora, calculando mentalmente as chances de sua capacidade de aparecer na noite seguinte. Leon d' Armilly caminhava de um lado para o outro no pequeno cômodo, torcendo as mãos e derramando lágrimas como uma mulher, enquanto à porta aberta descansavam o tenor e o barítono da trupe, seus semblantes exibindo a habitual expressão apática de veteranos cantores de ópera que, pelo longo hábito, estão completamente acostumados às indisposições e caprichos das primas donnas e consideram-nos como incidentais à profissão.
Quando o Capitão Joliette entrou, Leon correu até ele e exclamou entre suas lágrimas:
"Oh! como você pôde trazer aquele homem odioso para o seu camarote! Veja como a própria visão dele afetou minha pobre irmã!"
A estas palavras, Mlle. d' Armilly despertou-se e, saltando sobre os pés, encarou o jovem soldado em um ataque de fúria incontrolável.
"Como você ousa," gritou ela, seus olhos brilhando e sua voz trêmula de raiva, "vir aqui, até mim, depois do que ocorreu esta noite!"
"Eu não sabia, Louise," respondeu ele, em tom de desculpa, "que você tinha uma aversão tão terrível ao Conde de Monte-Cristo."
"O Conde de Monte-Cristo!" exclamou o diretor. "Ele estava no teatro esta noite? Que honra!"
A irritada prima donna lançou-lhe um olhar terrível.
"Se você considera uma honra ter esse monstro em seu teatro," sibilou ela, "eu não cantarei mais para você!"
O diretor humilhado afastou-se sem fazer uma resposta. Ele considerou ser parte da sabedoria não se envolver com uma artista eminente que era capaz de lhe trazer tanto dinheiro e que também era capaz, pensou ele, de romper seu contrato se achasse conveniente. Ele, portanto, deixou o camarim. Os outros, vendo que Mlle. d' Armilly estava evidentemente prestes a ter uma discussão acalorada com seu admirador e que ela estava suficientemente recuperada para não precisar de mais cuidados, também abandonaram o apartamento.
Quando ficaram sozinhos, a prima donna virou-se ferozmente para o Capitão, exclamando:
"E você professa me amar também! Foi amor que o induziu a trazer meu pior inimigo aqui esta noite? Foi ódio, na verdade! Capitão Joliette, você me odeia!"
"Você sabe que não, Louise," disse o jovem soldado, calorosamente. "Você sabe que eu a amo até a desesperação!"
"Por que então o chamado Conde de Monte-Cristo estava em seu camarote?"
"Eu não sabia que você o conhecia; na verdade, senti-me convencido de que ele era um completo estranho para você, e sua conduta esta noite tendeu a confirmar essa convicção. Ele olhou para você sem o menor sinal de reconhecimento; e ele está tão longe de ser seu inimigo que lhe deu aplausos mais altos e entusiasmados do que qualquer outro homem em todo o teatro."
"É a arte dele, Capitão Joliette! Eu lhe digo que esse homem é tão astuto quanto uma serpente e tão impiedoso quanto um tigre. Ainda esta manhã ele tentou obter acesso a mim, com que motivo iníquo não sei; mas eu devolvi sua carta, com uma resposta que deve ter ferido seu orgulho até o âmago!"
"Eu vi essa resposta," disse o Capitão. "Monte-Cristo mostrou-a para mim mesmo em sua residência, o Palazzo Costi."
"O quê!" gritou Mlle. d' Armilly, com raiva aumentada. "Você viu, leu as minhas próprias palavras e, ainda assim, trouxe-o para o seu camarote?"
"Ouça, Louise, e seja razoável. Ele me disse que seu nome parecia familiar para ele e, no entanto, ele não conseguia se lembrar onde ou sob que circunstâncias o ouvira. Ele ficou atônito com o tom da sua resposta ao seu bilhete formal e, devo dizer, muito civil. Eu tinha certeza de que deveria haver algum erro da sua parte, que você o confundira com alguma outra pessoa. Eu tinha ido ao Palazzo Costi expressamente para convidá-lo a ouvi-la cantar, para ter um homem tão grande presente e assistir ao seu triunfo! Eu sentia orgulho de você, Louise, orgulho de você como artista e como mulher, e eu queria que meu amigo dos amigos compartilhasse minha exaltação por você. Tais foram as razões que me induziram a trazê-lo para o meu camarote esta noite e, certamente, se cometi um erro, mereço perdão pelos meus motivos!"
"Eu nunca o perdoarei, sejam quais forem seus motivos!" gritou Mlle. d' Armilly, vingativamente. "A presença dele arruinou a representação e me desonrou, a mim, Louise d' Armilly, aos olhos de toda Roma!"
O Capitão ficou sem fala, horrorizado com a fúria dela. Pálida de raiva, com os olhos brilhando e o peito arfando, ela parecia algum demônio belo.
"Eu teria triunfado como sempre se ele não estivesse aqui," continuou ela, furiosa e amargamente, "e amanhã a Cidade Eterna estaria aos meus pés, eu teria sido uma rainha reconhecida, não, até maior do que qualquer soberano vivo, mas agora falhei e não sou nada! Capitão Joliette, por tudo isso você é o culpado, e ainda assim você pensa que merece perdão pelos seus motivos! Ora, homem, você é pior do que um idiota! Não, eu nunca o perdoarei, nunca!"
Ela caminhava pelo camarim enquanto falava, suas mãos pequenas e brancas agindo como se estivessem prontas para despedaçar o jovem soldado. Joliette observou-a por um instante e então disse:
"Você é uma criatura singular, Louise, um problema que devo admitir que não consigo resolver. O que é o Conde de Monte-Cristo para você que a faz desmaiar à mera visão dele? Você certamente não poderia ter estado de forma alguma associada à vida passada dele, ter sofrido pela vingança notável que ele tomou sobre seus inimigos anos atrás!"
Mlle. d' Armilly parou subitamente em sua caminhada agitada e, agarrando o Capitão pelo braço com tal força que um choque de dor atravessou-o, gritou, ameaçadoramente:
"Se você ousar mencionar a vingança demoníaca de Monte-Cristo para mim novamente, eu o banirei para sempre da minha presença!"
Nesse momento, um dos funcionários do teatro apareceu na porta do camarim.
"Um bilhete para mademoiselle," disse ele, curvando-se profundamente.
A prima donna tomou a missiva das mãos do homem e lançou um olhar ao endereço no envelope. Ao fazê-lo, franziu as sobrancelhas e exclamou:
"A letra dele! Outro insulto! Não a lerei!"
O funcionário retirou-se confuso.
"De quem é a letra?" perguntou Joliette, com a curiosidade e o ciúme despertados simultaneamente. Mlle. d' Armilly referia-se frequentemente aos seus numerosos admiradores e às cartas que deles recebia, e o Capitão naturalmente concluiu que aquele bilhete fora enviado por algum ardente pretendente romano. Ele considerou a exclamação da artista e sua suposição de desagrado como meros truques engenhosos concebidos para enganá-lo.
"De quem é a letra?" repetiu Mlle. d' Armilly, com desdém. "Tenho de lhe explicar tudo?"
O jovem suportara tudo o que sua companheira, em sua raiva, despejara sobre ele com relativa equanimidade, mas não podia suportar a ideia de um rival; o simples pensamento era uma tortura.
"Louise," suplicou ele, "deixe-me ver essa carta, deixe-me lê-la."
"O quê! Você precisa examinar minha correspondência particular! Capitão Joliette, você está indo longe demais! Você já fez o suficiente esta noite, sem acrescentar injúria ao insulto!"
"Eu não busquei injuriá-la, Louise, Deus sabe! Nem desejo insultá-la; mas essa carta eu devo e vou ler!"
"Você fala como se eu já fosse sua esposa e escrava. Adote outro tom, e menos autoritário, monsieur. Capitão Joliette, você ainda não é meu marido!"
"Quem dera eu fosse e tivesse certeza do seu amor, Louise! A incerteza contínua em que você me mantém é insuportável! Você se recusa a me deixar ler essa carta?"
O jovem, por sua vez, começou a andar de um lado para o outro no camarim, agitado, com suas suspeitas ciumentas crescendo cada vez mais.
Mlle. d' Armilly observava-o triunfante. Ela orgulhava-se da vasta influência que exercia sobre esse guerreiro corajoso e viril. Ele permaneceria impassível diante da boca de um canhão, mas ela podia fazê-lo vacilar e tremer!
"Você se recusa a me deixar ler essa carta?" repetiu ele.
"E se eu não me recusar?" disse ela, num tom mais suave.
"Você fará de mim um homem muito feliz!"
"Então leia, pois eu não a lerei! Assim demonstro meu desprezo pelo seu miserável e covarde autor!"
Ela amassou o bilhete na mão e jogou-o no chão. Depois, colocou o pé sobre ele.
Joliette abaixou-se e pegou-o debaixo da bota dela. Ele desamassou o envelope, abriu-o, retirou a missiva e leu o seguinte:
"O Conde de Monte-Cristo apresenta seus respeitos a Mlle. d' Armilly, e pede permissão para expressar seu profundo pesar por sua presença no camarote do Capitão Joliette ter sido a causa de tão grave catástrofe. Ele está totalmente perdido para compreender por que Mlle. d' Armilly deveria nutrir tão profunda aversão por ele, e por que a visão dele deveria afetá-la tão seriamente. Se Mlle. d' Armilly se dignasse a explicar, ele consideraria isso um favor especial. Ele confia que o Capitão Joliette não será de modo algum culpado pelo que ocorreu, já que aquele cavalheiro, quando convidou o Conde para compartilhar seu camarote, estava tão completamente convencido quanto o próprio Conde de que Mlle. d' Armilly não o conhecia e não o reconheceria."
À medida que Joliette lia as últimas linhas que o inocentavam completamente, ele não pôde conter uma exclamação de alegria.
"Louise," gritou ele, "o Conde de Monte-Cristo escreveu para me exculpar!"
"De fato!" respondeu a prima donna, com desprezo.
"Sim; ele também se desculpa com você e pede que você explique por que a visão dele a afeta tão seriamente."
"Ele pede uma explicação, é isso?" gritou Mlle. d' Armilly, sua raiva retomando o controle. "Ele nunca terá uma!"
"Mas você me perdoará, já que vê que estou totalmente isento de culpa?"
"Manterei seu perdão sob consideração, Capitão. Minha atitude para com você será fortemente influenciada por sua conduta futura em relação ao miserável que se intitula Monte-Cristo!"
"Você certamente não quer que eu o afaste, que eu o evite?"
"Você o prefere a mim?"
"Eu a amo, Louise, amo-a mais do que qualquer coisa ou qualquer pessoa em todo o mundo! Mas eu estimo muito o Conde de Monte-Cristo. Há laços entre nós que você não entende."
"Não me interessa entendê-los. Eu lhe disse que esse homem é meu inimigo. Isso deveria ser o suficiente para você. Meu amante e meu inimigo não podem ser amigos. Escolha entre nós!"
"Você quer que eu brigue com ele?"
"Brigar com ele? Sim; e não apenas isso! Eu quero que você o desafie, que o mate!"
O jovem ficou horrorizado. Ele estava totalmente despreparado para essa explosão, essa exigência selvagem e vingativa.
"Desafiá-lo, matá-lo, Louise! Você não pode, você não quer dizer o que está dizendo!"
"Tenho o hábito de usar palavras vãs?"
"Louise, Louise, eu lhe imploro, não me imponha condições tão horríveis!"
"Você tem medo de Monte-Cristo?"
"Não tenho medo de nenhum homem vivo, Louise; mas não posso desafiar Monte-Cristo para um duelo, nem mesmo por você!"
"Então você se recusa a me proteger, a me defender?"
"Oh! Louise, como você pode falar assim! Eu alegremente derramaria cada gota de sangue em minhas veias por você, alegremente daria minha vida por você, mas não me peça para levantar a mão contra o Conde de Monte-Cristo!"
A bela mulher olhou para o orador enérgico com altivez e descontentamento. Ela estava um tanto desapontada. Pensara que sua influência sobre seu pretendente era ilimitada, mas agora parecia que ela tinha seus limites. Ela, no entanto, não desesperou. Conhecendo bem o maravilhoso fascínio que exercia sobre os homens, ela determinou trazer todas as suas baterias para influenciar o Capitão Joliette. Ela estava decidida a vingar-se terrivelmente do Conde de Monte-Cristo por algum ferimento misterioso que ele lhe infligira no passado, um ferimento sobre o qual ela se recusava a ser comunicativa até mesmo com seu amante aceito, e resolveu que Joliette deveria dar a maior prova de sua devoção a ela ao se tornar o instrumento dessa vingança.
Com a astúcia de uma mulher experiente do mundo, ela prontamente viu que um esforço especial seria necessário de sua parte para dobrar o galante soldado à sua vontade e obrigá-lo a executar seu propósito inexorável. Ela faria esse esforço especial e, ao fazê-lo, tornar-se-ia tão cativante, tão sedutora, tão desejável que Joliette não poderia deixar de ficar inebriado com seus encantos e fascínios. Então, sob o domínio louco de sua paixão cega, excitado ao máximo, ele estaria pronto para fazer qualquer coisa por ela, qualquer coisa, até mesmo cometer um crime, até mesmo derramar o sangue de seu amigo mais querido!
Nesse momento, Mlle. d' Armilly, afastando-se do Capitão como se estivesse muito descontente, pois era uma parte importante de seu plano assumir certo grau de frieza para com ele a princípio, tocou uma campainha e, imediatamente, seu irmão Leon e sua criada apareceram.
"Franchette," disse ela, dirigindo-se a esta última, "ajude-me com minha roupa de rua. Já me recuperei o suficiente para retornar ao Hôtel de France."
Alheia à presença do Capitão e de Leon, a astuta prima donna começou imediatamente a remover o traje que usara durante a ópera. A criada ajudou-a nessa operação com a impassibilidade exterior das criadas de teatro, embora sorrisse imperceptivelmente ao perceber que essa exibição dos encantos pessoais de sua patroa era feita apenas com o propósito de tornar o jovem soldado ainda mais escravo daquela sereia astuta.
Enquanto Mlle. d' Armilly permanecia em seu espartilho e saias brancas imaculadas que delineavam delicadamente sua forma perfeita, sua garganta fina, ombros e braços exibindo seu brilho radiante, o Capitão Joliette olhava para ela como alguém em transe. Nunca em toda a sua vida, pensou ele, tinha visto uma mulher tão completamente bela, tão semelhante a uma deusa. Ela era tão perfeita quanto uma pintura de Vênus, e mil vezes mais adorável por estar viva. Ele prendeu a respiração ao ver seu seio palpitar e sentiu que daria tudo o que possuía no mundo para chamá-la de sua, para estar com ela para sempre.
Leon parecia um tanto envergonhado com o procedimento de sua irmã e corou como uma menina, a maré carmesim dando ao seu rosto uma beleza totalmente feminina.
A operação de vestir-se concluída, Mlle. d' Armilly observou-se triunfante no espelho. Ela estava bem ciente de que havia prendido suas correntes muito firmemente em seu amante, mas, apesar disso, ela só poderia saber por experiência real se ele estava suficientemente sob seu domínio para atender aos seus desejos relativos ao Conde de Monte-Cristo. Portanto, ela determinou fazer essa experiência sem demora, antes que a reflexão calma viesse em auxílio do guerreiro deslumbrado e permitisse que ele percebesse que uma armadilha havia sido montada para ele.
Deixando o espelho, ela foi para o lado do Capitão Joliette e, colocando a mão em seu braço, enquanto lançava em seus olhos todo o magnetismo de seu olhar, disse, em tom doce:
"Você me acompanhará até o hotel, Capitão?"
O jovem assentiu alegremente e, logo, uma carruagem elegante o levava rapidamente para os aposentos da prima donna.
CAPÍTULO V.
ANNUNZIATA SOLARA.
Era uma tarde de primavera clara e quente, e a Piazza del Popolo, o grande passeio de Roma, estava lotada de alegres buscadores de prazer de ambos os sexos, enquanto o Corso e as outras duas vias principais que divergiam dessa extensa praça pública também estavam repletas de jovens e velhos. As árvores estavam cobertas com folhagem verdejante, e multidões de flores desabrochando adornavam a Piazza e as janelas dos palácios adjacentes e moradias humildes. Sons de alegria e riso eram ouvidos de todos os lados, enquanto, de vez em quando, sons de música suave eram audíveis. Era verdadeiramente uma cena inspiradora de luz e vida. Paqueras eram frequentes entre belas moças de rosto moreno, com cabelos e olhos como a noite, em seus trajes pitorescos, e galantes jovens de aspecto viril, enquanto aqui e ali olhares sombrios e carrancudos falavam de um ciúme feroz como o fogo, insinuando vingança conjugal e tragédias amorosas características dos impetuosos italianos de sangue quente.
No meio da multidão na Piazza, dois jovens passeavam, de braços dados. Eram o Visconde Giovanni Massetti e Esperance, filho de Monte-Cristo. Amigos íntimos pareciam ser, e conversavam alegremente enquanto caminhavam sem pressa. Seus espíritos estavam em plena harmonia com a cena animada ao seu redor, e eles evidentemente não eram insensíveis aos encantos das muitas moças bonitas que encontravam e sobre as quais lançavam olhares admirados.
De repente, uma camponesa de beleza deslumbrante apareceu na Piazza muito perto deles. Ela aparentava ter cerca de dezessete anos, brilhando com saúde robusta, suas bochechas cheias na cor da rosa vermelha. Suas mangas, enroladas acima dos cotovelos, exibiam braços perfeitos que seriam a inveja de um escultor. Seus pés estavam descalços e suas saias curtas permitiam vislumbres deslumbrantes de tornozelos bem feitos e pernas de forma quase impecável. Seu rosto tinha uma expressão alegre e agradável, não desprovida de uma astúcia picante e uma espécie de coqueteria delicada e fascinante. Ela era uma florista e vendia buquês de uma cesta alegremente carregada em um braço. Ela dirigia-se fluentemente aos jovens que encontrava, oferecendo suas mercadorias de forma tão recatada e modesta que raramente falhava em encontrar apreço e clientes liberais. Não havia nem mesmo uma suspeita de ousadia ou atrevimento nela, mas ela tinha aquela autoconfiança completa gerada pela familiaridade total com sua vocação um tanto arriscada e perigosa.
Giovanni e Esperance avistaram-na simultaneamente. Ambos ficaram impressionados com sua aparência e comportamento, aos quais seu traje camponês vistoso, porém arrumado e limpo, dava brilho adicional.
"Que garota bonita!" exclamou Esperance, involuntariamente.
"Uma divindade!" respondeu o Visconde, animado.
Então eles se entreolharam e riram, evidentemente um tanto envergonhados pela admiração que haviam expressado com tanto entusiasmo.
"Suas primeiras palavras, no entanto, dispersarão a ilusão aos ventos," disse Esperance, cinicamente. "Ela é, sem dúvida, tão ignorante quanto é bonita."
"Muito provável," juntou-se Giovanni. "A beleza exterior dessas camponesas geralmente esconde muita grosseria interior, para não dizer depravação."
Eles estavam prestes a seguir seu caminho, quando a garota se aproximou, oferecendo-lhes seus buquês. Sua voz era tão doce, tão melodiosa, tão deliciosamente modulada, que os jovens pararam apesar de si mesmos. Ela estava em uma atitude muito graciosa, seus lábios de coral entreabertos exibindo dentes tão brancos e brilhantes quanto pérolas. Um magnetismo sutil parecia emanar dela, o que não deixou de influenciar os dois jovens. Além disso, suas palavras não denotavam aquela ignorância a que Esperance aludira ou aquela depravação de que o Visconde falara.
"Comprem alguns buquês para suas belas amadas, signors," disse ela. "Eles alegrarão seus corações, pois o perfume fala de amor!"
"Amor!" exclamou Giovanni, sorrindo de sua seriedade e linguagem poética. "O que você sabe sobre o amor?"
"Ah! signor," respondeu ela, corando profundamente e desviando os olhos, "que garota não sabe sobre o amor! Até o mais humilde camponês sente a flecha do pequeno deus cego!"
Os jovens ficaram divertidos e interessados. Embora pertencente à classe baixa, essa pobre florista certamente recebera alguma educação e era dotada de uma boa parte dos sentimentos mais refinados. Esperance sentiu-se atraído por ela, e Giovanni experimentou um fascínio não difícil de explicar. Separado de Zuleika, cheio do desespero de um amante, o ardente Visconde não era avesso a uma pequena paquera, mais ou menos inocente. Aqui estava sua oportunidade; ele cultivaria o conhecimento dessa garota romântica e bonita. Onde estava o mal? Ele não pretendia ser infiel a Zuleika, e essa camponesa picante não ficaria pior por alegrar algumas de suas horas tristes. Sem dúvida ela era acessível e acolheria tal diversão, especialmente porque ele derramaria ouro liberalmente em seu colo.
"Comprarei algumas flores de você, minha garota," disse ele, encorajador.
"Aqui está um belo buquê, signor," disse a garota, sorrindo alegremente com a perspectiva de fazer uma venda lucrativa, e entregando-lhe uma seleção magnífica de botões e flores perfumadas.
Giovanni tomou o buquê e, ao mesmo tempo, pressionou gentilmente os dedos afilados da garota. Eles eram macios e aveludados ao seu toque. Um arrepio delicioso percorreu-o com o contato. A florista não demonstrou desagrado. Claramente, ela estava acostumada a tais avanços. O Visconde deslizou uma moeda de ouro de valor considerável em sua mão, experimentando novamente o arrepio delicioso.
"Isso é demais, signor," disse a garota, olhando para a moeda, "e não tenho troco. Você deve esperar um momento até que eu o consiga."
"Não se preocupe com o troco," respondeu Giovanni. "Fique com tudo."
A garota pareceu surpresa com tal liberalidade, então um sorriso alegre espalhou-se por seu belo rosto.
"Oh! obrigada, muito obrigada, signor," disse ela, efusivamente, a cor aprofundando-se em suas bochechas tentadoras. Giovanni com dificuldade conteve-se de beijá-las.
"Qual é o seu nome, minha garota?" perguntou ele, enquanto ela se movia para partir.
"Annunziata Solara, signor," respondeu ela, surpresa que tal pergunta lhe fosse feita.
"Onde você mora?"
"No campo, logo além do Trastavere."
"Você mora sozinha?"
"Não; com meu pai, Pasquale Solara."
"Qual é a ocupação dele?"
"Ele é pastor, signor."
A garota fez uma reverência aos dois jovens e, com um olhar para Giovanni que fez seu sangue formigar em suas veias, passou e perdeu-se rapidamente na multidão de transeuntes.
Esperance, que observara essa cena com curiosidade divertida, caiu em uma risada sonora quando o Visconde virou-se para ele com algo muito parecido com um suspiro.
"Giovanni," disse ele, "a linda Annunziata Solara enfeitiçou você!"
"Não tanto assim, Esperance," respondeu o jovem italiano. "Mas ela é uma criatura gloriosa, não é?"
"Sim, no que diz respeito à aparência; mas nem tudo o que reluz é ouro, e esta bela Annunziata pode se tornar um demônio ou uma fúria perfeita em um conhecimento mais próximo!"
Giovanni deu ao amigo um olhar de reprovação.
"Não a insulte com insinuações tão miseráveis," respondeu ele, calorosamente.
Esperance sorriu e disse:
"Você está apaixonado por ela, isso é claro!"
"Não estou, mas a admiro como admiraria qualquer coisa bela."
"Coloque como quiser. De qualquer forma, você dificilmente a verá novamente. Ela foi uma visão e desapareceu."
"Mas não pretendo perdê-la de vista."
"Você não quer dizer que pretende procurá-la?"
"É exatamente isso que quero dizer."
Esperance olhou para seu amigo de forma inquisidora e, ao mesmo tempo, inquieta.
"Quando você pretende procurá-la?"
"Esta noite mesmo."
"No Trastavere?"
"Não. Você não a ouviu direito. Ela disse que morava no campo, logo além do Trastavere. Eu a procurarei lá."
"O quê! Sozinho?"
"Sozinho."
"Cuidado, Giovanni! Seus olhos brilhantes podem levá-lo ao perigo! Como você sabe que ela não tem algum amante bandido feroz, que o encontrará com um estilete?"
"Bobagem! Seus medos são infantis!"
"Não tenho tanta certeza disso. O campo além do Trastavere é infestado por ladrões audazes, que não hesitariam em capturá-lo e mantê-lo por um resgate. Ainda outro dia, o notório Luigi Vampa realizou exatamente tal façanha, exigindo uma quantia muito grande pela libertação de seu prisioneiro, que era um nobre rico como você."
"Eu correrei o risco!"
"Você é louco!"
"Não sou. Não tenho medo de bandidos. Eles não ousariam tocar sequer em um dedo de um Massetti!"
O jovem Visconde estufou o peito orgulhosamente enquanto falava. Ele acreditava que o poder de sua família era invencível.
Esperance estava totalmente perdido para entender o firme controle que essa paixão repentina exercera sobre seu amigo. Claro, ele compreendia plenamente a influência da beleza feminina sobre a juventude impetuosa e obstinada, e reconhecia consigo mesmo que Annunziata era realmente muito bonita e sedutora; ainda assim, ela não era mais do que centenas de outras garotas que ficariam felizes em ganhar um sorriso do Visconde Massetti a quase qualquer preço, e cuja busca seria totalmente desprovida de perigo. Era bem conhecido que os bandidos astutos frequentemente enviavam mulheres jovens e bonitas a Roma para atrair suas presas para eles, e poderia Annunziata Solara, com toda a sua aparente modéstia, ser uma daquelas Dalilas perigosas?
Após várias tentativas adicionais de dissuadir o Visconde do empreendimento imprudente que decidira realizar, todas vãs, Esperance resolveu que seu amigo impetuoso não iria sozinho naquela noite em busca da fascinante Annunziata. Ele o seguiria sem ser visto e se esforçaria para protegê-lo caso a necessidade surgisse. Ele conhecia a natureza do Visconde bem demais para propor acompanhá-lo, já que tal proposição seria indubitavelmente recebida com desdém, se não como um insulto absoluto. Ele, porém, manteria o controle sobre ele e, se tudo corresse bem, Massetti não saberia de nada. Se, pelo contrário, sua ajuda fosse necessária, ele poderia se apresentar e fornecê-la. Nesse caso, a gratidão por parte do Visconde o impediria de exigir uma explicação de sua presença.
Enquanto isso, os jovens continuaram seu passeio e passaram da Piazza del Popolo para o Corso. Giovanni estava taciturno e mal-humorado. Ele olhava para frente, deixando de notar as belezas alegremente trajadas que lotavam aquela grande via, que em tempos comuns teriam ocupado sua atenção. Não era assim com Esperance; ele admirava as damas vivazes na calçada ou em suas carruagens bonitas puxadas por cavalos espirituosos. De vez em quando, ele reconhecia um conhecido entre eles e fazia uma reverência, mas Giovanni não reconhecia ninguém. Ele parecia mergulhado em um devaneio que nada poderia quebrar. Dificilmente ele respondia aos comentários ocasionais de Esperance, e quando o fazia, era com o ar de um homem cujos pensamentos estão longe.
No amplo pórtico do magnífico Palazzo Massetti, Esperance, o filho de Monte-Cristo, despediu-se de seu amigo. Ao virar-se para partir, ele disse:
"Sua determinação ainda é inalterada, você ainda pretende procurar Annunziata Solara no campo além do Trastavere?"
Giovanni olhou para ele intensamente, enquanto respondia, um tanto impaciente:
"Minha determinação é inalterada. Eu a procurarei!"
"Esta noite?"
"Esta noite!"
Esperance nada mais disse, mas partiu, cheio de tristes presságios. Sentia um pressentimento de mal e tinha a certeza de que seu amigo apaixonado encontraria algum terrível contratempo durante a romântica e perigosa expedição daquela noite. Já era bastante tarde, e o jovem apressou seus passos em direção ao Palazzo Costi, amadurecendo seu plano enquanto caminhava. Ele informaria ao Conde de Monte-Cristo que fora convidado a acompanhar alguns amigos em uma excursão de prazer, solicitando sua permissão para ausentar-se de Roma por alguns dias. Obtida essa permissão, ele vestiria o traje de um camponês italiano, dirigir-se-ia à Ponte St. Angelo e ali, na sombra da ponte, aguardaria a vinda do Visconde Massetti. Quando este último tivesse passado por seu lugar de ocultação, ele o seguiria a uma certa distância, mantendo-o sob sua vista e observando-o atentamente.
Monte-Cristo não fez objeção à ausência proposta por seu filho, e o jovem, após uma ceia apressada, correu para seu quarto de dormir, onde logo vestiu um traje de camponês que usara em um baile de máscaras recente. Postando-se diante de um espelho de toucador, aplicou uma tintura em seu rosto, dando-lhe a cor da de um trabalhador dos campos queimado pelo sol. Quando seu disfarce ficou completo, observou-se triunfante no espelho. Nem mesmo seu pai poderia tê-lo reconhecido, tão radicalmente ele alterara sua aparência.
Alcançando a rua por uma porta privada sem ser observado, ele chegou rapidamente à ponte. Ao entrar na sombra de um dos pilares, ouviu o grande relógio do Vaticano bater sete horas. Era o crepúsculo, mas tudo ao seu redor estava tão claramente visível quanto em plena luz do dia. Ele olhou em todas as direções. Nenhum sinal de Giovanni. Teria o ardente jovem Visconde já atravessado o Tibre?
Achou que não e esperou pacientemente por um quarto de hora. Ainda nenhum sinal. Então começou a ficar ansioso. Massetti certamente tinha passado pela ponte e ele o havia perdido. Esperou alguns minutos a mais, devorado pela impaciência e pela ansiedade. Por fim, chegou à conclusão de que Giovanni o precedera, que seguira sozinho, desprotegido. Ele devia ter feito isso; caso contrário, certamente teria aparecido antes. O pensamento era uma tortura. A quais perigos desconhecidos e mortais ele não estaria se expondo em meio aos pântanos fora dos muros da cidade? Mas talvez ele ainda não tivesse deixado os muros da cidade para trás! Um raio de esperança veio a Esperance. Se Massetti ainda estivesse dentro dos limites do Trastevere, ele poderia, usando a velocidade devida, alcançá-lo! Ele faria a tentativa, de qualquer modo. Ao formar essa resolução, emergiu da sombra do pilar. Naquele instante, um homem surgiu na ponte e passou por ele. Passou tão perto que quase se tocaram, soltando um juramento contido ao encontrar um intruso em seu caminho. Seu passo era rápido, tão rápido que logo estava longe. Ele nem sequer olhara para Esperance, e pareceu a este último que ele tentara esconder o rosto. O homem era do porte de Giovanni e tinha o porte de Giovanni, mas ali terminava a semelhança. Ele era certamente um camponês; seu traje o indicava; além disso, seu semblante, do qual Esperance vislumbrara um relance, era rude e bronzeado. O filho de Monte-Cristo sentiu uma pontada de profunda decepção; então olhou para suas próprias vestes, pensou em seu próprio rosto manchado, e uma revelação veio a ele como um clarão de relâmpago — o homem era Giovanni — Giovanni disfarçado! Ele apressadamente olhou para a figura que se afastava; era agora apenas uma mera mancha à distância, mal discernível no crepúsculo que se desvanecia. Ele partiu rapidamente em perseguição, quase correndo pela ponte. Após uma perseguição quente e cansativa, ele finalmente ganhou tanto terreno sobre o objeto de sua solicitude que estava tão perto quanto julgava prudente aproximar-se. Tinha agora certeza de que o homem à sua frente era o Visconde Massetti.
Esperance parou por um segundo para recuperar o fôlego; então seguiu em um passo mais lento. O perseguido não descobrira a perseguição; ele caminhava de forma constante e firme, nunca olhando para trás. Assim, os dois homens atravessaram o Trastevere e, cada um por sua vez, emergindo de um portão na muralha da Cidade Leonina, passaram para o campo pantanoso além. Não tinham ido muito longe quando Esperance viu Giovanni subitamente dar um sobressalto; ao mesmo tempo, ouviu uma voz alta e áspera gritar:
"Em nome de Luigi Vampa, pare!"
Esforçando a visão, Esperance finalmente conseguiu perfurar a semiescuridão do ambiente e percebeu um rufião gigantesco, que usava uma máscara negra, de pé no centro da estrada e apontando uma pistola para a cabeça do homem que ele tinha todos os motivos para acreditar ser Giovanni Massetti.
CAPÍTULO VI.
O PODER DE UM NOME.
O jovem Visconde, pois era, de fato, ele quem o gigantesco bandido mascarado detivera, ficou atordoado por um instante por esta inesperada interrupção de sua jornada em busca da bela vendedora de flores. Ele encarou o enorme rufião à sua frente, primeiro com perplexidade e depois com raiva. O ladrão calmamente continuou a cobri-lo com sua pistola; quando Giovanni fez um movimento com a mão em direção a um estilete que usava no cinto de seu traje de camponês, o olho atento do homem detectou sua intenção e ele exclamou, em um tom rude de comando:
"Toque nesse estilete e eu estourarei seus miolos!"
O Visconde baixou a mão; ele era bravo como um leão, mas o bandido levava vantagem sobre ele e, corajoso como era, reconheceu instantaneamente a insensatez de ignorar seu aviso. Sua raiva e indignação, contudo, eram grandes demais para que pudesse controlar. Ele gritou para seu robusto adversário:
"Por que você detém um pobre camponês de quem nada pode obter?"
"Você não é um pobre camponês, signor!"
"Não sou, é? Bem, reviste-me e verá!"
"Você não é um pobre camponês, signor, nem camponês algum! Eu o vi tantas vezes em Roma para ser enganado pelo disfarce frágil que você usa tão artificialmente! Eu o conheço! Você é o Visconde Giovanni Massetti!"
"Bem, e se eu for?" retrucou o jovem, bruscamente. "O fato não beneficiará você nem qualquer membro de seu bando maldito e covarde!"
"Cuidado com o modo como fala, signor!" exclamou o bandido, ameaçadoramente. "A insolência para com seus captores pode custar-lhe mais do que estaria disposto a pagar!"
"Sério?"
"Sim; quero dizer exatamente o que digo. Pode custar-lhe a vida!"
Giovanni encarou o bandido com olhos inabaláveis. Ele devolveu ameaça por ameaça.
"Tome minha vida, se quiser", disse ele. "Seria o pior trabalho que você já fez!"
"Posso perguntar por quê, signor?"
"Isso levantaria minha família contra você e o resultado não poderia deixar de ser o seu extermínio!"
O homem riu alto e respondeu causticamente:
"Você está brincando! O que sua família pode fazer contra Luigi Vampa e seus camaradas, que há muito são favorecidos pela mais alta autoridade!"
Este foi o clímax do insulto, e Giovanni, levado ao auge da fúria, incapaz de se controlar por mais tempo, arrancou seu estilete da bainha e, erguendo-o, partiu em um ataque frenético contra o gigantesco bandido. Instantaneamente, este último disparou. Giovanni deixou cair sua arma; seu braço direito caiu inútil ao lado do corpo.
Esperance, enquanto isso, não estivera ocioso. Sua excitação era intensa, e a ela se misturava um medo terrível pela segurança de seu amigo. Contudo, ele finalmente conseguiu se acalmar e se recompor o suficiente para formar um plano de ação e executá-lo. Ele se munira com uma pistola, a qual recarregara pouco antes de sua partida do Palazzo Costi. Ele puxou esta arma de seu lugar de ocultação ao primeiro sinal de perigo, engatilhando-a silenciosamente. A estrada era margeada por arbustos altos e densos, dos quais se projetava uma franja de sombras pesadas. Ao longo desta franja escura, Esperance esgueirou-se com passo cauteloso em direção ao enorme bandido, assim que o percebeu parado no centro da rodovia e notou sua atitude ameaçadora. Enquanto avançava furtivamente, a lua surgiu repentinamente, inundando a cena com sua luz prateada. Seus raios, porém, não perturbaram a linha de sombras margeantes, e Esperance passou despercebido. Quando o bandido disparou, ele estava muito perto. Vendo o braço de Giovanni cair e percebendo que ele estava ferido, o filho de Monte-Cristo prontamente levantou sua arma e, cobrindo o rufião gigantesco, disparou-a diretamente em seu coração. O sangue jorrou do peito do homem. Ele caiu no chão, onde permaneceu tremendo convulsivamente; em outro instante, expirou sem sequer soltar um gemido.
Giovanni, cujo braço estava gravemente estilhaçado e que sofria uma dor terrível, permaneceu mudo de espanto com esta intervenção repentina e inesperada em seu favor. Esperance saltou instantaneamente para o seu lado. O jovem italiano encarou-o como se ele fosse uma aparição do outro mundo. Ele não conseguiu reconhecê-lo em seu traje de camponês, com seu rosto manchado.
"Quem é você?" ofegou ele, assim que conseguiu encontrar palavras.
"Você não me conhece?" perguntou Esperance, espantado. Em sua excitação, ele esquecera seu disfarce.
"Você é um estranho para mim", respondeu o Visconde, "mas minha gratidão não é menor por causa disso. Você me resgatou do cativeiro, talvez salvou minha vida!"
"Não sou um estranho, Giovanni. Sou seu amigo, Esperance."
"O quê! Esperance com esse traje, com esse semblante queimado pelo sol! Achei que sua voz tivesse um tom estranhamente familiar, mas seu disfarce provou ser completo demais para que eu pudesse penetrá-lo!"
Essas palavras trouxeram à mente do filho de Monte-Cristo as mudanças que fizera em sua aparência. Não era de se admirar que o Visconde não tivesse conseguido reconhecê-lo!
"Por que você se disfarçou, e como veio parar aqui nesta conjuntura crítica?" perguntou Giovanni, após uma pausa.
"Disfarcei-me para que pudesse segui-lo sem medo de ser detectado. Você não queria ouvir a razão, e eu determinei proteger você durante sua aventura temerária tanto quanto pudesse estar ao meu alcance."
"Do fundo do meu coração eu lhe agradeço, Esperance. Você é um amigo corajoso, bem como devotado, plenamente digno de seu ilustre pai! Mas como você me reconheceu? Eu também estou disfarçado."
"O fato de meu próprio disfarce permitiu-me penetrar o seu. Reconheci-o quase imediatamente depois que passou por mim na Ponte St. Angelo."
"O quê! Foi você o camponês que quase atropelei ao atravessar a ponte?"
"Fui eu. Mas não percamos mais tempo; já perdemos o suficiente. Além disso, mais homens do bando de Luigi Vampa provavelmente estão rondando nas redondezas, e imagino que ambos já tivemos bandoleiros o suficiente por uma noite! A prudência dita que retornemos imediatamente para Roma. Com seu braço estilhaçado, certamente você não conta em continuar sua busca pela bela Annunziata no momento?"
"Não; isso é impossível, lamento dizer. Retornarei com você para Roma."
Enquanto o Visconde falava, um tremor repentino apoderou-se dele, e ele se apoiou no ombro de seu amigo para buscar sustentação.
"Você está desfalecido pela perda de sangue!" exclamou Esperance, muito alarmado. "Como fui descuidado em não enfaixar seu ferimento!"
Tirando o lenço do bolso, ele limpou o sangue do braço de seu amigo, enfaixando cuidadosamente e com ternura o ferimento; então fez uma tipoia com o lenço de Giovanni, colocando o membro ferido nela. O Visconde sentiu-se melhor assim, embora ainda um pouco desfalecido.
"Você é quase um médico, Esperance", disse ele.
"De forma alguma", respondeu o filho de Monte-Cristo; "mas meu pai ensinou-me como lidar com ferimentos; ele dizia que o conhecimento seria em algum momento útil para mim, e suas palavras provaram ser verdadeiras."
"Seu pai é um homem maravilhoso; ele parece pensar em tudo, prover para todas as eventualidades. Graças à habilidade que ele me transmitiu, estou agora em condições de iniciar a jornada de volta para casa."
Os jovens voltaram seus rostos para Roma, mas mal tinham dado uma dúzia de passos quando a estrada à frente deles literalmente fervilhou com homens armados de aparência rude, que obstruíram efetivamente seu progresso. Em um instante, eles estavam cercados. A resistência era impossível; os dois amigos olharam um para o outro e ao redor deles com consternação. Os recém-chegados eram evidentemente bandidos, membros do bando desesperado de Luigi Vampa.
Um dos malfeitores, que parecia ser o líder e estava muito pitorescamente trajado, confrontou Giovanni e Esperance. Ele tinha uma pistola no cinto, mas não a sacou.
"Vocês são meus prisioneiros!" disse ele, em um tom de autoridade.
"Quem é você, e por qual direito nos detém?" perguntou Esperance, altivamente.
"Quem eu sou", respondeu o bandido, com uma voz severa, "não lhe diz respeito. O direito pelo qual eu os detenho é o direito do mais forte!"
"Não podemos opor-nos à sua vontade, por mais desarrazoada e injusta que seja", retornou Esperance; "meu amigo está ferido e minha pistola está descarregada. Podemos apenas nos entregar à sua mercê; mas somos cavalheiros, apesar de nosso traje, e exigimos ser tratados como tal!"
"Como seu amigo veio a ficar ferido e sua pistola descarregada?" perguntou o bandido, desconfiado.
"Meu amigo foi atacado e fui em seu auxílio", respondeu Esperance.
"Vocês estavam em uma luta, então", retomou o líder. Virando-se subitamente para seus homens, perguntou: "Onde está Ludovico?"
"Ele subiu a estrada há meia hora e ainda não retornou", respondeu um sujeito jovem, baixo e atarracado, que parecia ser o tenente do líder.
"Bem a cara dele", disse o líder. "Sempre imprudente, sempre buscando aventuras sozinho. Ouvi um tiro de pistola algum tempo atrás", continuou ele, olhando ameaçadoramente para Esperance. "Talvez Ludovico tenha sido assassinado! Se for assim, irá custar caro aos seus assassinos! Que ele seja procurado."
O tenente baixo e atarracado, acompanhado por vários membros do bando, partiu imediatamente para obedecer à ordem.
Esperance olhou ansiosamente para Giovanni. Um novo perigo os ameaçava. O bandido gigantesco que fora morto era, sem dúvida, este Ludovico. Seu corpo seria encontrado e uma vingança sumária seria tomada contra eles. Giovanni também percebeu o perigo adicional; mas nenhum dos jovens deu o menor sinal de medo; interiormente, resolveram encarar a morte estoicamente, enfrentá-la sem o tremor de um músculo.
Em pouco espaço de tempo, o tenente e seus companheiros retornaram; dois dos homens carregavam o cadáver do enorme ladrão; colocaram-no na grama à beira da estrada, onde o luar pleno incidia sobre ele, mostrando o ferimento no peito e as vestes saturadas de sangue. Uma carranca contraiu o semblante do líder; ele olhou para Esperance e para o Visconde com um olhar de ódio e raiva; então, virando-se para o tenente, disse:
"Bem?"
"Encontramos Ludovico caído na estrada a uma curta distância daqui", respondeu o homem baixo e atarracado, com um traço de emoção em sua voz rude. "Ele foi baleado no coração e estava morto há algum tempo."
Os bandidos haviam se reunido em torno da forma prostrada de seu camarada; pareciam muito afetados pelo seu destino; Ludovico era evidentemente um favorito.
Assim que o líder recebeu o relatório de seu subordinado, virou-se para os prisioneiros, perguntando, severamente:
"Qual de vocês assassinou este homem?"
"Nenhum assassinato foi cometido", retornou Esperance, indignado. "O rufião gigantesco atirou em meu amigo, estilhaçando seu braço, como você vê; ele foi morto como uma medida de defesa."
"Sua pistola está descarregada", continuou o líder, asperamente; "isso você admitiu; você matou Ludovico!"
"Defendi meu amigo, a quem ele atacara vilmente", disse Esperance, taciturnamente.
"Você matou este homem? Sim ou não!"
"Eu o matei!"
"Basta!" gritou o líder, rangendo os dentes. "Vocês pagarão o preço de seu crime! Ambos morrerão!"
Ele fez um gesto para seu tenente e, em um instante, Esperance e Giovanni foram firmemente amarrados. Os jovens leram resolução desesperada e vingança feroz em todos os semblantes rudes ao seu redor. Não havia o menor lampejo de esperança; a morte ser-lhes-ia infligida imediatamente e da maneira mais sumária. De fato, laços já balançavam de um par de árvores à beira da estrada, esperando para fazer seu trabalho nefasto. A visão desses preparativos terríveis despertou Giovanni. Com olhos chamejantes, ele encarou o líder do bando.
"Cuidado!" gritou ele. "Se nos assassinarem, terão toda Roma com quem se haver! Dissemos-lhe que somos cavalheiros e não camponeses. Eu sou o Visconde Giovanni Massetti e meu companheiro é o filho do famoso Conde de Monte-Cristo!"
Enquanto o jovem italiano pronunciava essas palavras, um recém-chegado apareceu subitamente na cena, para quem todos os outros abriram caminho. Ele era um homem de aparência intelectual, despretensiosamente trajado com um traje de camponês.
"Quem pronunciou o nome do Conde de Monte-Cristo?" exigiu ele.
O líder apontou silenciosamente para Massetti, que respondeu instantaneamente:
"Eu pronunciei o nome do Conde de Monte-Cristo, e ele certamente tomará amarga vingança contra todos vocês pelo assassinato de seu filho!"
"O filho dele?"
"Sim, o filho dele, que está aqui ao meu lado, ignobilmente amarrado e ameaçado com uma morte vergonhosa!"
O estranho virou-se para Esperance e examinou-o atentamente.
"Você é o filho de Monte-Cristo?" perguntou ele, visivelmente agitado.
"Sou", respondeu Esperance, friamente.
"Dê-me alguma prova."
"'Espere e espere!'"
"A máxima dele!"
"Ah! Você a reconhece. Você também reconhece isto?"
Enquanto falava, o jovem ergueu a mão esquerda, e um magnífico anel de diamante que usava brilhou ao luar. O recém-chegado pegou sua mão e olhou para a joia, aquela que o Conde de Monte-Cristo usara por anos e que ele apresentara ao seu filho poucos dias antes.
"Estou convencido", disse o estranho. Então, virando-se para o líder, disse, em um tom de comando: "Solte estes homens!"
"Mas eles mataram Ludovico!"
"Solte-os!" trovejou o estranho. "Ludovico deveria ter sabido melhor do que ter interferido com meus amigos!"
Ele foi obedecido instantaneamente, e os dois jovens, muito espantados, ficaram livres de suas amarras.
"Vocês estão em liberdade", continuou o estranho, "e podem retomar sua rota. Digam ao Conde de Monte-Cristo que Luigi Vampa lembra-se de seu pacto e é fiel a ele!"
Enquanto falava, o notório chefe dos bandidos reuniu seus homens, e todo o bando desapareceu entre as árvores como se fossem espíritos da noite.
CAPÍTULO VII.
NA CABANA DO CAMPONÊS.
Por um momento, os dois jovens permaneceram silenciosos e atônitos. Tão repentina fora a mudança de perigo iminente para a segurança que eles mal podiam compreendê-la. Luigi Vampa viera e fora como um relâmpago, e tanto os bandidos quanto o perigo tinham sido dissipados pela maravilhosa magia do nome de Monte-Cristo. O chefe dos bandidos chamara Giovanni e Esperance de seus amigos, e como tal eles sabiam que todo o campo nas redondezas de Roma estava livre para eles; poderiam percorrê-lo de dia ou de noite sem medo de moléstia. Esperance importava-se pouco com isso, mas Giovanni estava exultante, pois isso lhe permitiria procurar Annunziata Solara sem risco de interrupção ou impedimento. Mas qual era o poder misterioso do Conde de Monte-Cristo? Essa era uma questão difícil, de fato, de responder. De qualquer modo, até o feroz Luigi Vampa curvava-se a ele, e era tão indisputável quanto estranho.
O Visconde Massetti foi o primeiro a perceber a necessidade de um avanço rápido para Roma. Ele estava desfalecido pela perda de sangue e pela excitação; além disso, seu braço estilhaçado pulsava violentamente e lhe dava pontadas de dor excruciante. Ele sentia-se desfalecer e instou seu amigo a apressar-se. Esperance concordou e, apoiando o jovem italiano o melhor que podia, retomaram a jornada de volta para casa. Mal tinham percorrido uma milha, contudo, quando Giovanni atirou-se sobre a relva ao pé de uma grande árvore, declarando que era totalmente impossível para ele avançar mais um passo. A pulsação em seu braço tornara-se insuportável, tirando-lhe o fôlego e enchendo-o com uma sensação enjoativa.
Eles ainda estavam longe de Roma, e nem um sinal de habitação podia ser discernido em qualquer direção. Esperar pelo raiar do dia não era algo a se considerar; faltavam algumas horas para o amanhecer, e mesmo quando o sol tivesse surgido, não era de forma alguma certo que assistência seria obtida. Enquanto isso, Giovanni sofreria tormentos, sem mencionar o perigo de estar exposto em sua condição à influência da malária dos pântanos ao redor.
Esperance, embora relutante em deixar o lado do amigo por um instante sequer, decidiu por fim que era imperativo partir em busca de socorro. Enquanto isso, uma febre violenta havia se instalado e Giovanni piorava rapidamente. Quando o filho de Monte-Cristo estava prestes a iniciar sua jornada de investigação, ouviu a voz de um homem cantando a certa distância, mas aproximando-se gradualmente. O som era alegre e tranquilizador, pois certamente o homem que podia cantar de forma tão doce e jubilosa deveria ter um coração bom e bondoso. À medida que o homem se aproximava, Esperance reconheceu a canção — era aquela bela e expressiva serenata, "Cara Nina", uma melodia cara a todos os jovens amantes italianos, fossem eles humildes ou de alto grau.
O homem finalmente surgiu à vista; caminhava despreocupadamente, mas com um passo longo e balançante. Sua voz era um tenor robusto, claro e pleno, e as notas de sua deliciosa canção de amor trinaram em sua garganta com um efeito maravilhoso no ar calmo e balsâmico da noite tranquila e gloriosa. Não tinha mais de vinte anos, era um camponês robusto, e o luar mostrava que possuía um semblante másculo e aberto. Estava tão absorto em sua serenata que não notou Giovanni deitado ao pé da árvore imensa e Esperance de pé ao lado dele. Ele estava passando quando este último o chamou. O camponês parou, algo alarmado, e sua mão instintivamente agarrou uma arma escondida em seu peito. Esperance apressou-se a tranquilizá-lo.
"Não tenha medo", disse ele. "Somos apenas viajantes, e um de nós está gravemente ferido. Em nome do Céu, preste toda a assistência que puder!"
O jovem camponês virou-se e aproximou-se cautelosamente deles.
"Esta é uma vizinhança perigosa", disse ele; "está infestada por bandidos da espécie mais imprudente e audaciosa."
"Temos razões de sobra para saber disso", respondeu Esperance, "pois acabamos de escapar por um triz de uma morte horrível nas mãos de alguns dos homens de Luigi Vampa."
"Homens de Luigi Vampa!" ecoou o camponês, com espanto.
"Sim."
"E eles os libertaram por vontade própria? Nunca ouvi falar de tal coisa! Não é costume deles libertar sua presa, pelo menos sem um resgate pesado. Eles os roubaram, ou vocês pagaram pela liberdade?"
"Nem uma coisa nem outra", respondeu Esperance.
O espanto do camponês redobrou. Ele olhou inquisitivamente para o Visconde prostrado.
"Como o seu companheiro ficou ferido?" perguntou ele.
"Seu braço foi estraçalhado pela pistola de um bandido gigantesco."
"Ludovico?" indagou o camponês, olhando ao redor, como se esperasse ver o enorme agressor.
"Acredito que esse fosse o nome dele", respondeu Esperance. "Mas ele não causará mais nenhum ferimento!"
"Você não quer dizer que o matou?"
"Sim."
"E ainda assim permitiram que vocês fossem embora! Não consigo entender!"
"Talvez não, mas pode entender que meu amigo está gravemente ferido e precisa de ajuda e abrigo imediatos. Não há alguma cabana hospitaleira nas redondezas para onde ele possa ser levado, onde possa ser cuidado até que chegue assistência de Roma?"
O camponês hesitou por um instante; então disse:
"Meu pai mora a uma curta distância daqui; ele poderia abrigá-los se quisesse, mas tem tanto pavor dos bandidos que, dadas as circunstâncias, provavelmente fecharia a porta para vocês."
"Ele não precisa ter medo dos brigantes neste caso, pois Luigi Vampa acaba de nos dar uma prova cabal de sua proteção. Além disso, assegurou-nos que era nosso amigo."
"Isso é, de fato, singular", disse o camponês, hesitando novamente. "Luigi Vampa é amigo de pouquíssimos, e esses são aqueles com quem ele está mancomunado. Vocês certamente não estão mancomunados com ele, ou não teriam matado Ludovico!"
"Este não é momento para parlamentar", respondeu Esperance. "Meu amigo está sofrendo, e a humanidade, por si só, deveria levar seu pai a recebê-lo. Eu me comprometo a apaziguar a ira de Luigi Vampa, caso ela seja despertada; na pior das hipóteses, comprometo-me a me render com meu amigo ao primeiro chamado para fazê-lo, e a assegurar ao chefe dos brigantes que seu pai é totalmente inocente. Vamos, não posso convencê-lo a ser generoso e humano?"
"Bem", disse o camponês, parcialmente convencido, "vou confiar em vocês, embora esteja correndo um grande risco. Se Vampa se ofender, ele queimará nossa cabana sobre nossas cabeças e nos assassinará a todos sem piedade. Contudo, tanto seu amigo ferido quanto você terão o pouco abrigo que nosso humilde teto oferece."
Giovanni foi ajudado a se levantar e, levando-o entre eles, Esperance e o camponês começaram sua caminhada. Felizmente não tiveram que ir muito longe, caso contrário, a força exaurida do jovem Visconde não teria sido suficiente para a tarefa. Deixaram a estrada principal, embrenhando-se em um caminho estreito, densamente arborizado de ambos os lados; tão espessos, de fato, eram os galhos das árvores que se entrelaçavam acima deles, que os raios da lua eram efetivamente excluídos e reinava uma escuridão quase impenetrável. Por um instante, Esperance sentiu receio de traição, mas esse medo foi dissipado quando pensou no porte másculo do jovem camponês e no pavor que ele expressara pelos brigantes. Os três mal podiam caminhar lado a lado no caminho estreito, e de vez em quando Giovanni tropeçava em alguma raiz saliente ou outro obstáculo invisível na obscuridade; mas o camponês conhecia o caminho perfeitamente e, com passo firme, apressava seus companheiros o mais rápido possível.
Logo o caminho se alargou um pouco, a luz começou a filtrar através da folhagem densa, e o borbulhar de um riacho ruidoso foi ouvido a pouca distância. De repente, fizeram uma curva abrupta, surgindo à vista uma pequena cabana de aparência limpa, coberta por trepadeiras e envolta em verdura. O riacho corria a poucos metros dali, o odor fresco da água misturando-se agradavelmente ao perfume das madressilvas e ao aroma da floresta ao redor. Era, de fato, um local belo e altamente romântico, um recanto aconchegante e isolado, tal como aquele em que o Rei Henrique escondeu seu amor, a Bela Rosamond, dos olhares curiosos do mundo inquisitivo. Esperance contemplou-o com arrebatamento, e mesmo Giovanni, ferido e exausto como estava, não pôde deixar de soltar uma exclamação de espanto e admiração. A cabana estava fechada e nenhum sinal de vida era visível.
"Chegamos", disse o camponês em voz baixa. Deixando seus companheiros, ele foi até uma janela, na qual deu três batidas distintas.
O sinal foi respondido quase imediatamente por três batidas semelhantes vindas de dentro; então a janela foi aberta e a cabeça de uma mulher apareceu. O luar incidiu diretamente sobre seu rosto, e tanto Esperance quanto Giovanni sobressaltaram-se de repente ao reconhecer Annunziata Solara, a encantadora vendedora de flores da Piazza del Popolo.
"É ela — é Annunziata!" sussurrou o jovem Visconde no ouvido de seu camarada.
"Silêncio!" respondeu este último, em um tom cauteloso. "Não se traia! Ela nunca nos reconhecerá, disfarçados como estamos! Além disso, as suspeitas do nosso guia não devem ser despertadas! Ele poderia ainda nos recusar abrigo!"
"Você tem razão, como sempre", respondeu Massetti. "Devemos manter nosso incógnito, pelo menos até termos certeza de onde estamos pisando."
Enquanto isso, o camponês falava apressadamente com Annunziata.
"Irmã", disse ele, "não estou sozinho; dois viajantes, camponeses como nós, estão comigo. Foram atacados pelos homens de Luigi Vampa, e um deles está gravemente ferido."
"Santa Virgem!" exclamou a moça, evidentemente tomada de terror.
"Eles pedem nossa hospitalidade para a noite e nossa assistência até que o socorro possa ser obtido em Roma. Em nome de nosso pai, concedi-lhes abrigo. Abra a porta e deixe-nos entrar."
A moça desapareceu da janela e, em outro instante, escancarou a porta. Enquanto ela estava ali na luz prateada, com o estado de suas vestes e cabelos indicando que se levantara apressadamente de seu leito, sua beleza brilhante e pitoresca era vastamente realçada. Os jovens pensaram que nunca tinham visto uma visão mais fascinante de formosura feminina.
"Onde está papai?" perguntou o camponês, ansioso.
"Ele ainda não voltou", respondeu a moça.
O guia soltou um suspiro de alívio.
"Estou contente", disse ele, "pois Pasquale Solara não gosta de estranhos. Se ele estivesse aqui, poderia recusar-se a exercer hospitalidade para com este homem ferido e seu companheiro, ainda que eles sejam, como afirmam, amigos de Luigi Vampa."
"Amigos de Luigi Vampa!" ecoou a moça, ficando muito alarmada. "Que a Santíssima Virgem nos proteja!"
"Eles não são brigantes, de qualquer modo", disse o camponês, "e acredito que sejam homens honestos. Se, no entanto, estiverem me enganando, saberei como agir!"
Houve um brilho ameaçador em seus olhos enquanto falava, e sua mão buscou novamente a arma escondida dentro de seu peito. Esperance, que estivera ouvindo atentamente essa conversa e notara cada movimento do jovem camponês, sentiu suas suspeitas reavivarem-se; mas não havia tempo para hesitação; abrigo e ajuda para seu amigo eram a primeira necessidade; precisavam ser obtidos imediatamente e a qualquer custo. Ele se abstivera de oferecer dinheiro ao camponês, não querendo revelar que ele e seu companheiro eram pessoas diferentes do que aparentavam ser, e agora que Annunziata aparecera em cena, congratulou-se com a sabedoria de sua conduta. Temia, no entanto, a impulsividade de Giovanni na presença da moça que ele tanto admirava, e determinou vigiá-lo o mais próximo possível, a fim de refrear prontamente quaisquer revelações prejudiciais. Se Giovanni permanecesse naquele recanto atraente o tempo suficiente para abrir e levar adiante um flerte com a bela vendedora de flores, teria que fazê-lo apenas como camponês e sob a capa de seu disfarce astuto. Era pouco provável que Annunziata reconhecesse em Massetti e nele próprio os dois jovens galãs que encontrara apenas por um momento em meio à multidão alegre e ao esmagamento da brilhante Piazza del Popolo.
Enquanto esses pensamentos atravessavam sua mente, o jovem Visconde, apoiando-se pesadamente em seu braço, não tirara os olhos da moça bela e tentadora diante dele. Sofrendo como estava, desejava estar ao lado dela, abraçar sua forma adorável, sentir seu hálito quente e voluptuoso passar por seu rosto e imprimir beijo após beijo em seus lábios vermelhos e maduros. Ele não tinha se esquecido de Zuleika. Oh! Não! Mas Annunziata Solara era um ser totalmente diferente, uma moça para encantá-lo, embriagá-lo, por um momento como a outra para toda a vida. Pela filha de Monte-Cristo seu sentimento era amor, pela fascinante vendedora de flores da Piazza del Popolo era uma paixão a ser saciada.
Após mais algumas palavras com sua irmã, o camponês retornou aos jovens, ajudando Esperance a transportar Giovanni para dentro da cabana. O interior desta humilde morada era tão limpo e pitoresco quanto o exterior. O cômodo em que entraram era pequeno e mobiliado de forma simples, mas o gosto feminino estava por toda parte. Uma única vela era a única luz, mas a escassa iluminação bastava para mostrar os toques refinados da mão de uma mulher. Em um canto ficava uma cama, cujas cobertas estavam viradas para baixo e sobre a qual estava impressa a forma de sua última ocupante. Na cabeceira da cama, um crucifixo de latão estava suspenso na parede, enquanto sobre o encosto de uma cadeira pendiam peças de vestuário feminino. Giovanni não podia duvidar de que estava no quarto de Annunziata, e que a marca na cama era dela. Ele sentiu um frisson de alegria com a ideia de que ocuparia o leito da encantadora vendedora de flores, de ocupar, talvez, o mesmo lugar onde ela estivera deitada pouco tempo antes.
Annunziata, que colocara uma capa sobre os ombros e roupas de dormir, mas cujos pés ainda estavam descalços, acompanhara o irmão e seus companheiros ao aposento. Ela observou os estranhos timidamente, mas com curiosidade, embora fosse bastante claro que não conseguira penetrar seu disfarce. Com mãos ágeis, ela rearranjou a cama e retirou suas roupas da cadeira. Então, retirou-se para outro cômodo, e o Visconde ferido foi ajudado a se despir e auxiliado a entrar no leito pelo camponês e Esperance, onde acabou adormecendo em um delírio de felicidade, após seu ferimento ter sido devidamente tratado.
Esperance foi devidamente acomodado para a noite, e logo um silêncio ininterrupto pairou sobre a cabana solitária na floresta.
Assim foi encenada a cena inicial de um drama destinado a ser frutífero em resultados desastrosos, resultados que obscureceram mais de uma vida feliz.
CAPÍTULO VIII.
UM IDÍLIO SILVESTRE.
Pela manhã, o braço do Visconde Massetti estava tão inchado e seu ferimento tão doloroso que se considerou aconselhável enviar alguém em busca de um médico, que residia em um vilarejo vizinho a não mais de uma milha da cabana dos Solara. O homem da medicina logo estava à cabeceira de Giovanni. Após examinar e enfaixar seu ferimento, declarou que o paciente não deveria ser movido por pelo menos uma semana, uma notícia com a qual o jovem se alegrou interiormente, não obstante todo o tormento que sofria, pois sua estadia envolvia cuidados por parte da bela Annunziata, que já lhe demonstrara possuir ternura e um coração bondoso, além de boa aparência.
Esperance manteve uma conferência com seu amigo após a partida do médico para decidir o que deveria ser feito. Ele propôs ir imediatamente a Roma e informar à família do Visconde o que havia acontecido e a condição de Giovanni, mas o jovem opôs-se firmemente a esse plano, declarando que estaria bem em poucos dias, no máximo, e protestando que informar seus parentes de sua situação envolveria explicações que ele não desejava dar. Giovanni também implorou a Esperance que permanecesse com ele e não desse sinal algum sobre o lugar de seu retiro; tão seriamente ele solicitou esses favores que o filho de Monte-Cristo, muito contra a sua vontade e com muitos pressentimentos, finalmente consentiu em concedê-los.
Pasquale Solara retornou para casa tarde no dia seguinte à chegada dos estranhos em sua choupana. Ele era um pastor velho, mas robusto, cujo rosto rude e queimado de sol falava de exposição ao tempo e trabalho árduo. Frequentemente ele ficava ausente por dias e noites seguidas, ausências que nunca explicava e sobre as quais seu filho e sua filha não ousavam questioná-lo, pois Pasquale era um homem duro, que ficava zangado pelo menor pretexto e tendia a ser severo com todos que tentassem bisbilhotar seus assuntos. Ele expressava grande medo dos bandidos que infestavam as vizinhanças de Roma e especialmente do bando de Luigi Vampa, mas aqueles que o conheciam melhor balançavam a cabeça com dúvida e, embora não dissessem, era claramente visível que consideravam esse medo apenas assumido para seus próprios fins. De qualquer modo, era um fato significativo que Pasquale nunca fosse perturbado em suas andanças, enquanto os brigantes sempre deixavam sua habitação e seus ocupantes ilesos.
O velho pastor franziu a testa sombriamente quando informado por seus filhos de que haviam dado abrigo a um par de viajantes, um dos quais fora ferido em uma luta com um brigante, mas não disse nada e pareceu disposto a aceitar a situação sem sequer resmungar. Ele não entrou, contudo, na câmara em que Giovanni jazia e evitou entrar em contato com Esperance, que só conseguiu um vislumbre passageiro dele antes que partisse novamente para outra expedição, o que fez após uma estadia de apenas meia hora em sua cabana.
O jovem camponês e Esperance logo se tornaram bastante amigos, entregando-se a muitos passeios na floresta e ao lado do riacho borbulhante. O nome do camponês era Lorenzo, e ele parecia levar uma vida livre, totalmente livre de ocupação de qualquer tipo, exceto ocasionalmente cuidar de algumas ovelhas que nunca se afastavam muito das margens do pequeno riacho.
Annunziata, por um tempo, abandonou suas visitas a Roma, instalando-se como enfermeira de Giovanni. Ela estava quase constantemente ao lado dele, e sua presença e cuidados eram remédios mais potentes do que quaisquer outros que o médico administrava. Seu sorriso parecia exercer um efeito fascinante sobre o jovem Visconde, enquanto sua voz soava em seu ouvido arrebatado como a música mais doce. A moça bonita era a própria imagem da saúde perfeita, e sua forma bem desenvolvida tinha todo o encanto da maturidade precoce, somada ao frescor e à graça da juventude. Ela usava saias curtas, e suas pernas bem torneadas nunca eram encobertas por meias, enquanto seus pés estavam invariavelmente descalços. Um corpete baixo e folgado com mangas curtas exibia seu pescoço e ombros robustos, e braços cheios e com covinhas que seriam a inveja de uma duquesa. Suas mãos, assim como seus pés, não eram pequenas e o sol lhes dera uma generosa camada de bronzeado, mas eram bem feitas e atraentes, enquanto seus dedos curtos e afilados eram adornados por unhas rosadas e cuidadosamente aparadas. No geral, ela parecia o espírito do lugar, uma deliciosa ninfa da floresta tão encantadora quanto qualquer uma que a imaginação de um poeta já criou, e ainda assim uma realidade mortal e substancial bem calculada para inflamar o sangue de um homem e deixar seu cérebro em turbilhão. Se ela parecia bela em Roma, em meio às rainhas da moda aristocrática da Piazza del Popolo, parecia mil vezes mais deleitável e fascinante em seu humilde lar na floresta, onde ela se livrava de toda restrição e mostrava-se como realmente era: uma criança brilhante e inocente da natureza, tão pura quanto o hálito do céu e tão livre de astúcia quanto a borboleta alimentada pelo mel no sol do verão.
Quanto mais Giovanni a via, mais ele caía sob o domínio de seus encantos irresistíveis, o império de sua atratividade física. Gradualmente ele melhorou, e à medida que seu ferimento cicatrizava, sua força retornava. Finalmente, perto do final da semana, ele foi capaz de deixar a cama e sentar-se em uma cadeira grande junto à janela de seu quarto. Ficara acordado entre ele e Esperance que, durante sua estadia na cabana dos Solara, eles seriam conhecidos, respectivamente, como Antonio Valpi e Guiseppe Sagasta, e Annunziata já havia concedido ao seu paciente o diminutivo amigável e familiar de Tonio, um nome ao qual ele respondia com o coração batendo descontroladamente e olhos que diziam volumes.
Por meio de perguntas habilmente manejadas, o jovem Visconde havia constatado que a vendedora de flores não tinha namorado, que seu peito nunca possuíra a terna paixão, e essa notícia adicionou combustível à chama que o consumia. Não se deve supor que Annunziata ignorasse a forte impressão que causara em seu jovem e belo paciente. Ela estava perfeitamente ciente disso e secretamente se regozijava com a manifesta exibição do poder de seus encantos. Talvez ela ainda não amasse Giovanni, talvez fosse meramente a atração física geral de uma mulher por um homem, ou poderia ter sido aquele tempero inato de coqueteria comum a todo ser feminino, mas o fato permanecia que ela tacitamente encorajava o jovem Visconde em suas atenções ardentes para com ela. Ela, além disso, atraía-o e inflamava-o de uma maneira tão descuidada e inocente que adquiria uma picância adicional com isso. Se Annunziata fosse uma mulher mundana e calculista, com a intenção de prender um amante rico, em vez de uma camponesa pura e ingênua, totalmente inconsciente do mal que estava causando, ela não poderia ter jogado seu jogo com mais efeito. Giovanni tornara-se totalmente seu escravo. Ele pendia de seus sorrisos, bebia suas palavras e mal podia se conter em sua presença. Nenhum marinheiro náufrago jamais devorou com olhos deslumbrados a fatídica Loreley de uma costa rochosa e deserta tão avidamente quanto ele a ela. Se ela fosse sua igual social, se sua inteligência e educação correspondessem à sua beleza pessoal, ele teria esquecido Zuleika, lançado-se impetuosamente a seus pés e solicitado sua mão. Como era, enquanto a filha de Monte-Cristo possuía todo o seu coração, Annunziata Solara escravizava seus sentidos.
Ela recebia suas abordagens como algo natural, sem timidez, sem rubor. Seus discursos galantes agradavam-na, ela não sabia por quê. Tão totalmente insuspeita era ela, que não notou que sua linguagem não era a do camponês sem instrução que ele afirmava ser, que seu porte, assim como suas palavras, indicavam um grau de cultura e refinamento muito acima de sua suposta posição. Ela estava deslumbrada, encantada por ele como o pássaro é pela serpente cintilante com seus olhos perversos e fascinantes. Ela não pensava em nada além do presente e suas alegrias inusitadas. Ela nunca se preocupara com o futuro — ela não se preocupava com ele agora.
O estranho, por sua vez, parecia hipnotizado pela beleza singular de Annunziata. Seus olhos, que antes brilhavam com uma astúcia gélida, suavizaram-se ao fitar a moça; ele a observava com uma intensidade faminta que, embora contida, revelava um desejo profundo e calculado. Ele parecia avaliar a pureza da jovem não como uma virtude a ser preservada, mas como um tesouro cuja posse lhe traria um prazer inefável.
"Você é, sem dúvida, a flor mais rara que esta floresta já produziu", disse ele, com aquela voz aveludada e culta que tanto intrigara Esperance. "Seria uma pena, uma tragédia imensa, se tal beleza fosse desperdiçada em meio a estas árvores e sombras, esquecida pelo mundo que tanto tem a oferecer àquelas que possuem a graça que você ostenta."
Annunziata inclinou a cabeça, confusa, mas lisonjeada. "Eu não conheço o mundo, senhor. O senhor fala como alguém que conhece grandes cidades e palácios. Aqui, no bosque, somos felizes."
O estranho soltou uma risada curta, quase imperceptível. "Felizes? Talvez. Mas a felicidade é uma prisioneira, minha cara, a menos que se tenha a chave para as portas de marfim. Você não se cansa, às vezes, de olhar para o mesmo céu e ver as mesmas árvores?"
Enquanto conversavam, a escuridão da floresta parecia se fechar ao redor da clareira. O silêncio da noite foi interrompido apenas pelo farfalhar das folhas e pelo canto distante de uma coruja. O estranho deu um passo à frente, aproximando-se de Annunziata, e ela, num gesto de inocência desarmada, não recuou.
Longe dali, na cabana, Esperance, incapaz de descansar, vigiava pela janela. A ausência de Pasquale Solara, somada à atitude estranha de Giovanni, que permanecia em seu quarto, mantinha seus nervos em estado de alerta. Ele sentia que algo estava prestes a se romper. O ar estava carregado, denso, como se a própria natureza contivesse a respiração antes de uma tempestade.
Giovanni, do seu canto, ouvia o silêncio da casa. Sua mente fervilhava com o duelo que o esperava ao amanhecer e com a imagem de Annunziata. Ele não queria desistir dela; a obsessão, longe de diminuir com as advertências de seu amigo, havia se tornado o único propósito de sua existência febril. Ele planejava, arquitetava, movido por uma paixão que beirava a loucura.
De repente, um grito abafado, quase um suspiro, cortou o ar noturno e foi levado pela brisa. Esperance, num salto, já estava junto à porta. Ele não hesitou. O instinto, aguçado por anos de convívio com os segredos de Monte-Cristo, impeliu-o para fora, em direção à floresta. Ele não tinha uma arma, apenas a determinação de um homem que jurara proteger a inocência a qualquer preço.
A lua, saindo de trás de uma nuvem densa, iluminou momentaneamente a clareira onde o estranho e Annunziata se encontravam. Esperance viu, com horror, a figura alta do estranho envolvendo a cintura da jovem e arrastando-a para as sombras mais profundas, enquanto ela, num misto de pavor e estranheza, tentava se soltar.
"Solte-a!" gritou Esperance, sua voz ressoando como um trovão na calmaria da noite.
O estranho parou, virou-se lentamente e, pela luz da lua, Esperance pôde finalmente ver seu rosto com clareza. Não era um estranho qualquer. O pavor que ele sentira mais cedo, a vaga lembrança que o atormentara, tudo se encaixou. Ele conhecia aquele homem, ou melhor, conhecia o poder que ele representava. A traição tinha um nome, e o destino daquela jovem camponesa estava prestes a ser selado por forças muito superiores à simples cobiça de um visconde.
A noite, todavia, passou sem incidentes e, a seu tempo, o sono pairou sobre a cabana Solara, envolvendo todos os seus ocupantes em silêncio e repouso. Todos os seus ocupantes? Todos, exceto o filho de Monte-Cristo, que se revirava inquieto em seu leito e não conseguia fechar os olhos. Por fim, contudo, conseguiu acalmar-se um pouco e estava prestes a mergulhar em uma espécie de semissono quando foi subitamente despertado por um grito selvagem, que ecoou ao longe e o fez saltar instantaneamente da cama. O grito era de uma mulher, e ele pensou reconhecer a voz de Annunziata Solara. Um segundo de reflexão pareceu satisfazê-lo quanto a este ponto, pois a vendedora de flores era a única mulher nas redondezas e a voz era certamente a dela; mas soava à distância, fora da cabana, e esse fato o desconcertou. Prontamente, a conduta do velho Solara voltou à sua mente e, instintivamente, ele associou o pastor taciturno ao grito e a tudo o que estava acontecendo. O jovem não havia retirado suas vestes; foi, portanto, trabalho de um instante para ele pegar sua pistola, que mantinha carregada sob o travesseiro, e correr da cabana na direção do grito, que fora repetido, mas que se tornava cada vez mais fraco.
Ao sair da cabana, ouviu um tiro ecoar pela floresta e, quase imediatamente, um homem precipitou-se em seus braços, sangrando profusamente por um ferimento aberto na têmpora. A noite estava sem lua e escura, mas, na luz fraca e incerta, Esperance reconheceu Lorenzo.
"Minha irmã... minha irmã... pobre Annunziata!", ofegou o jovem camponês, penosamente. "Seu amigo... raptada... desapareceu! Oh! meu Deus!" e ele caiu ao solo, uma massa inconsciente, tremendo nas últimas agonias da dissolução.
Esperance ficou horrorizado. Annunziata raptada por Giovanni! Ele não podia chegar a outra conclusão diante das exclamações entrecortadas do jovem camponês! Lorenzo morto, também, e sem dúvida pela mão do impetuoso Visconde! Oh! era horrível! — era quase inacreditável! Ele inclinou-se sobre a forma prostrada de Lorenzo, endireitou-a e apalpou a região do coração; não havia batimento; era como ele havia adivinhado — o irmão viril e generoso de Annunziata estava morto — vítima de um assassino covarde e traiçoeiro — e aquele assassino! — oh! ele não podia pensar nisso e manter sua fé nos homens!
Esperance deixou o cadáver de Lorenzo sobre o relvado e, pistola em punho, partiu para socorrer Annunziata, para resgatá-la de seu desprezível raptor, se estivesse ao seu alcance fazê-lo. Alcançou a floresta e mergulhou em suas profundezas sombrias. Mal havia percorrido vinte pés quando um homem carregando uma tocha flamejante passou por ele furiosamente, em mangas de camisa, sem chapéu, seus cabelos curtos, espessos e grisalhos quase em pé sobre a cabeça. No clarão súbito da luz, seus olhos abatidos brilhavam como os de um maníaco. Na mão esquerda, segurava uma faca longa de lâmina afiada. Ele não olhou nem para a direita nem para a esquerda, mas seguiu em frente, como se fosse um feroz cão de caça em perseguição de uma presa humana. Esperance parou abruptamente e encarou com olhos arregalados a aparição assustadora. Era o velho Pasquale Solara! O filho de Monte-Cristo estremeceu ao pensar que o pai, com toda a sua ferocidade italiana plenamente despertada, estava em perseguição do homem que raptara sua filha e assassinara seu filho. Nesse caso, a morte do Visconde era certa, pois ele não poderia escapar da vingança do pastor transtornado e implacável! Deveria ele erguer a voz e avisá-lo? Não, mil vezes não! Giovanni merecia a morte e, se o velho furioso a infligisse, ele estaria apenas antecipando o justo castigo da lei ultrajada!
Decidindo rapidamente seguir os passos de Pasquale Solara, Esperance lançou-se à frente, sem se importar com os arbustos e silvas que impediam seu progresso e rasgavam grandes lacerações em suas vestes. Logo, vozes excitadas chegaram aos seus ouvidos, depois o ruído de uma luta violenta. Ele avançou rapidamente, determinado a alcançar a cena do conflito, onde não duvidava que a desditosa Annunziata seria encontrada. Logo, viu indistintamente dois homens envolvidos em uma luta corpo a corpo. Um era evidentemente Pasquale Solara, pois uma tocha estava a fumegar no chão, meio extinta pelo musgo úmido, e o jovem captou um brilho ocasional de uma faca como a que o pastor carregava quando passara por ele, mas, além dessas circunstâncias, tudo era suposição, pois a identidade dos homens contendores não podia ser distinguida na obscuridade.
Empunhando sua pistola com força, Esperance estava prestes a anunciar sua presença quando a figura de um homem surgiu diante dele com a rapidez de um relâmpago, parecendo emergir do próprio solo a seus pés. Naquele instante, a tocha deu um brilho intenso e apagou-se, mas, naquele clarão, Esperance reconheceu o homem que se opunha ao seu progresso como o estranho camponês que vira lendo os "Comentários de César" na tarde anterior, junto ao riacho nas proximidades da cabana Solara. Estaria ele, também, envolvido no rapto, e como? Novamente, a suspeita retornou a Esperance de que ele era o confederado, o cúmplice do Visconde Massetti.
"Permaneça onde está!", ordenou o intruso, severamente. "Se avançar mais um passo, as consequências recairão sobre sua própria cabeça!"
"Afaste-se e deixe-me passar!", trovejou o jovem, apontando sua pistola para a cabeça de seu oponente. O outro deu uma risada baixa, fez um movimento rápido e a arma de Esperance foi lançada girando velozmente pelo ar. Enquanto isso, os sons da luta cessaram, e a escuridão quase impenetrável da floresta impedia efetivamente o jovem de distinguir qualquer coisa a um metro de distância. Assim que sua pistola foi arrancada de seu alcance, ele fechou os punhos com força, cerrou os dentes e investiu freneticamente contra o camponês. Este saltou para o lado com agilidade surpreendente, desaparecendo instantaneamente entre as árvores agrupadas. Tão súbito foi seu salto que Esperance, levado pelo forte impulso que a si mesmo dera, mergulhou violentamente em um aglomerado de arbustos e caiu de cabeça sobre uma espessa camada de musgo, cuja maciez impediu que sofresse até mesmo a menor contusão. Ao entrar em contato com o musgo, sua mão tocou algo frio que lhe enviou um calafrio gelado da cabeça aos pés. Instintivamente, reconheceu o objeto como um rosto humano e, passando a mão, sentiu o corpo e os membros. Grandes céus! quem era este? Teria ocorrido outro assassinato? Haveria um fim para os horrores e mistérios desta noite terrível? O corpo era o de um homem. Esperance ergueu-se sobre os joelhos e, tirando uma caixa de fósforos do bolso, acendeu uma chama. Quando a luz incidiu sobre o semblante do homem inconsciente, os traços de Giovanni Massetti apareceram! Esperance ficou atordoado. Como era possível? O Visconde ali, sob sua mão, frio e imóvel! Quem teria sido então o indivíduo com quem o velho Pasquale Solara estivera lutando há pouco? Verdadeiramente, os mistérios desta noite estavam se tornando complicados demais para serem resolvidos! E onde estava a infeliz Annunziata? Teria ela escapado de seu raptor ou raptores, teria sido resgatada, teria perecido como seu malfadado irmão, ou o rapto teria sido realizado com sucesso? Nenhuma dessas perguntas podia Esperance responder. Uma coisa, porém, era clara — não havia vestígios dela agora; nenhuma pista que ele pudesse seguir; portanto, prosseguir com a perseguição por ora era inútil. Tristemente, decidiu esperar pelo dia e, então, decidir algum plano para colocar em execução imediata a fim de reparar, tanto quanto possível, o grande erro que fora cometido.
Mas era preciso cuidar de Giovanni. Culpado ou inocente, vivo ou morto, ele não podia ser abandonado onde estava. A humanidade exigia que algum esforço fosse feito em seu benefício. Talvez, também, se ele estivesse em condições de falar, alguma chave para as estranhas, desconcertantes e terríveis transações da noite pudesse ser obtida. Esperance ergueu-o em seus braços e levou-o até o riacho próximo à cabana Solara. A essa altura, a lua havia surgido e, em seus raios prateados, examinou-o minuciosamente. Não havia vestígios de sangue, nenhum ferimento; apenas uma grande contusão em sua testa, como se tivesse sido atingido por algum objeto pesado e derrubado inconsciente. Ele estava vivo, pois seu coração batia, e uma ou duas vezes ele se movera sobre o relvado onde Esperance o colocara. O jovem fez uma concha com as mãos e, retirando um pouco de água fresca do riacho, salpicou-a no rosto do Visconde. Instantaneamente, ele abriu os olhos, olhando ao redor com perplexidade. Sentou-se e encarou Esperance, atônito.
"O que há de errado? Como vim parar aqui?", perguntou ele, espantado. Então, levando subitamente a mão à contusão em sua testa, como se lhe doesse, continuou: "Ah! sim! Lembro-me de tudo agora! Luigi Vampa me atingiu!"
"Luigi Vampa te atingiu?", exclamou Esperance, mais espantado do que nunca.
"Sim, depois de me forçar a fazer um juramento terrível de permanecer em silêncio!"
"Silêncio sobre o quê? O rapto de Annunziata Solara?"
"Silêncio! silêncio! Não mencione o nome daquela moça! Vampa ou alguns de seus homens podem estar à espreita nas redondezas e ouvir!"
"O que aconteceu com ela? Pelo menos me diga isso! Você sabe!"
"Por Deus, que é meu juiz, eu não sei!"
"Você não estava com ela esta noite? Você não a levou à força da cabana?"
"Não! não!"
"Quem levou, então?"
"Ai de mim! meu juramento impõe silêncio sobre esse ponto!"
"Seu juramento! Essa é uma desculpa muito conveniente! Giovanni, Luigi Vampa não estava aqui esta noite."
"Ele estava. Ele espreitou a cabana o dia todo, para que, quando a escuridão chegasse, ele pudesse cometer o ato mais vil que já maculou a história da humanidade!"
Instantaneamente, Esperance lembrou-se do camponês que encontrara naquela tarde ao lado do riacho, o homem que, pouco tempo antes, se opusera à sua passagem e o desarmara na floresta. Sua vaga familiaridade com sua voz, rosto e vestes estava agora explicada. O homem era Luigi Vampa. Não podia haver dúvida sobre isso. Mas por que ele raptara Annunziata Solara, como as palavras de Giovanni pareciam inferir? Por que, senão como o confederado e cúmplice do Visconde Massetti? Mas então, como Giovanni havia se comunicado com ele, e de que maneira haviam conseguido arranjar os detalhes de seu plano desonroso? Seria possível que o velho Pasquale tivesse sido o meio de correspondência entre os dois homens? Teria ele sido vil o suficiente para vender sua filha? Nesse caso, com quem ele lutara tão feroz e desesperadamente na floresta? Por que também o chefe dos bandidos havia jurado Giovanni ao silêncio? Perguntas vãs, que não admitiam respostas satisfatórias. A história do Visconde era inacreditável; era, sem dúvida, uma mera fabricação destinada a encobrir e ocultar sua própria culpa no caso. Ainda assim, Esperance não conseguia reconciliar essa teoria com o fato de encontrar Giovanni sem sentidos na floresta.
O jovem italiano já havia se recuperado totalmente dos efeitos do choque que sofrera. Ele se pôs de pé e, aproximando-se de Esperance, disse, seriamente:
"Meu amigo, que o passado seja esquecido. Eu estava errado e você estava certo. Peço-lhe perdão. Quanto ao rapto desta infeliz moça, asseguro-lhe que sou inteiramente inocente dele!"
"Mas quem disparou o tiro que matou Lorenzo?", perguntou Esperance, severamente.
"Matou Lorenzo!", exclamou Giovanni, com horror inegável. "Lorenzo foi morto?"
"Ele foi baleado esta noite e morreu em meus braços!"
"Oh! isso é terrível!", exclamou o Visconde, gotas de suor frio brotando em sua testa. "Asseguro-lhe, Esperance, que não tive participação neste assassinato hediondo — não sabia nada a respeito! Ouvi o estampido de uma pistola, mas quem disparou a arma ou contra quem ela foi disparada, eu não saberia dizer. Tudo parecia um sonho desordenado!"
Como Esperance não disse uma palavra em resposta, o Visconde continuou:
"Afirmo novamente minha inocência dos crimes sombrios que foram cometidos esta noite! Você não acredita em meus protestos?"
"Não sei no que acreditar", respondeu o jovem. "Mas não o considerarei culpado até que se prove o contrário."
"Então", exclamou Giovanni, alegremente, "tenho uma proposta a lhe fazer. Jure que você será silencioso sobre tudo o que ocorreu desde que conhecemos Annunziata Solara na Piazza del Popolo, incluindo os terríveis eventos desta noite, e eu partirei com você para Roma neste exato instante!"
"E você renunciará à sua perseguição à vendedora de flores?"
"Eu renunciarei a ela!"
"Você jura fazê-lo?"
"Eu juro!"
"Então, de minha parte, faço aqui o juramento de silêncio que você exige!"
"Você me perdoa por ter brigado com você?"
"Eu o perdoo!"
"Então, deixemos este local maldito sem mais um momento de atraso!"
"Que assim seja!"
Eles deixaram apressadamente a margem do pequeno riacho e foram até a cabana para se preparar para sua partida imediata. Ao passarem pelo local onde o corpo de Lorenzo estivera, Esperance notou, com um sobressalto, que ele não estava mais lá. Eles entraram na cabana. Estava escura e deserta. Esperance acendeu uma vela e, ao fazê-lo, percebeu um pedaço de papel no chão. Ele abaixou-se mecanicamente e pegou-o. Estava amassado como se tivesse sido apertado na mão e descartado. O jovem endireitou-o. Era uma carta breve. Ele a segurou junto à vela e, com uma sensação nauseante no coração, leu o seguinte:
QUERIDA ANNUNZIATA: Tudo está preparado. Fugiremos esta noite. Esteja pronta. TONIO.
O bilhete estava na letra de Massetti. Esperance passou-o silenciosamente para ele. O Visconde leu-o com os olhos saltando das órbitas, os dedos tremendo tanto que mal podia segurar o papel.
"A evidência é conclusiva!", disse Esperance, friamente, enquanto Massetti terminava de ler. "É uma confissão! Você raptou Annunziata Solara!"
"O que posso dizer para me justificar?", exclamou Giovanni, amargamente. "Oh! aquele juramento maldito!"
"E você me jurou ao silêncio, também, homem miserável!", disse Esperance. "Por que fui tão fraco!"
Ele olhou com desprezo para o Visconde, que estava com a cabeça baixa. Então, acrescentou:
"Eu o entendo agora! Você não queria que eu o traísse, que colocasse os cães da Justiça em seu rastro, que causasse que você fosse punido, marcado e desonrado! Você foi astuto e enganou-me. Mas meu juramento é sagrado — eu o manterei! Vamos retornar a Roma imediatamente, como propusemos originalmente. Lá, eu o desafiarei na devida forma por um suposto insulto, e resolveremos este assunto na boca da pistola!"
Em poucos momentos mais, eles estavam na estrada para a Cidade Eterna, deixando para trás a cabana para a qual haviam trazido ruína e morte!
CAPÍTULO X.
A CONDESA DE MONTE-CRISTO.
Roma estava agitada por um escândalo vago, tão vago, na verdade, que ninguém parecia saber os detalhes precisos. Surgira a partir de um relato de jornal, feito da maneira indefinida e insatisfatória característica do jornalismo romano. Um dos jornais da cidade publicara a declaração de que uma jovem e muito bela camponesa, que vivia com seu pai no campo além do Trastevere, fora recentemente raptada, dizia o relato, por um jovem membro da aristocracia romana; que o imprudente herdeiro da nobreza a cortejara e conquistara sob o disfarce de um camponês, levara-a para um esconderijo de bandidos e lá a abandonara eventualmente. Nenhum nome foi dado. Perguntas na redação do jornal revelaram o fato de que os proprietários tinham autoridade indubitável para a publicação da declaração, mas nenhuma informação adicional pôde ser obtida deles. Alguns dias depois, porém, o mesmo jornal deu mais detalhes: que o nobre fora auxiliado na realização do rapto por um jovem estrangeiro residente em Roma, e que o irmão da infeliz jovem fora morto ao tentar resgatá-la. Isso completou todas as informações que jamais foram concedidas ao público a respeito do misterioso caso, e, a partir daí, o jornal manteve um silêncio ininterrupto sobre o assunto. Corria o boato de que seus proprietários haviam sido subornados por partes interessadas para não dizerem mais nada, mas esse boato não pôde ser atribuído a nenhuma fonte confiável e era, portanto, considerado por muitos como uma fabricação. Nenhuma medida foi tomada pelas autoridades a respeito, e era evidente que o caso seria deixado para morrer por si só. Ainda assim, a sociedade romana estava consideravelmente agitada, e conjecturas sobre a identidade da parte culpada e seu cúmplice eram frequentes em todos os bairros elegantes e aristocráticos da cidade. Essas conjecturas, no entanto, não cresceram para declarações positivas, embora insinuações insidiosas tenham sido lançadas de que aqueles que adivinhavam que o Visconde Giovanni Massetti era o culpado não estavam longe da verdade. Massetti, sabia-se, estivera ausente de Roma por vários dias por volta do período em que o rapto teria ocorrido, mas ele não se dignou a notar as insinuações correntes a seu respeito, e ninguém foi audacioso o suficiente para questioná-lo. Não obstante, alguma cor foi dada aos rumores sobre ele pelo fato de que, imediatamente após seu retorno à cidade, após a ausência referida, ele se envolveu em uma violenta briga com um jovem francês, geralmente suposto ser Esperance, o filho de Monte-Cristo, que imediatamente o desafiou para um duelo, mas o duelo não foi travado por alguma razão não tornada pública, tendo a diferença entre os dois jovens ardentes sido resolvida através da mediação de amigos mútuos. Observou-se, porém, e foi amplamente comentado que, embora os dois tivessem sido anteriormente companheiros quase inseparáveis, Esperance, após essa briga, evitava estudiosamente o Visconde Massetti, abstendo-se até mesmo de mencionar seu nome.
Enquanto isso, em Civita Vecchia, outro ato no drama da vida obscurecida de Annunziata Solara fora encenado. Nessa cidade, localizava-se um famoso asilo para mulheres desafortunadas, fundado e administrado por uma dama francesa de enorme riqueza e correspondente benevolência, Madame Helena de Rancogne, a Condessa de Monte-Cristo.[6] Essa dama era incansável em seus esforços para resgatar e reabilitar as caídas de seu sexo. Ela era a Superiora da Ordem das Irmãs de Refúgio, cujos membros estavam espalhados por toda a Europa, mas que tinham sua sede no asilo em Civita Vecchia, onde um número suficiente delas auxiliava constantemente Madame de Rancogne na realização de seu bom e filantrópico trabalho.
O Refúgio, como era chamado o asilo, era um vasto edifício de pedra cinzenta com um aspecto sombrio e claustral. Sobre a enorme porta de entrada, numa placa de metal polido, esta frase estava incrustada em vistosas letras pretas: "Não Sejas Levado a Considerar Ninguém Indigno!" Era uma declaração feita pela Condessa de Monte-Cristo no passado e fora adotada como norma mestra e máxima da Ordem das Irmãs do Refúgio. O interior do edifício de modo algum correspondia ao seu exterior lúgubre e pavoroso. Janelas altas e largas admitiam livremente os ardores do cintilante sol italiano, inundando os corredores e aposentos com uma luz e um calor alegres. Colgaduras de carmesim e tapeçarias magnificamente trabalhadas, de preço fabuloso, adornavam as paredes, enquanto estátuas e pinturas valiosas e belas, obras de antigos mestres e de artistas contemporâneos, somavam-se ao atrativo dos numerosos salões e salas de estar. O grande refeitório e os dormitórios possuíam seus próprios encantos, com cores vivas saudando os olhos por toda parte e nada sendo permitido que pudesse inspirar ou promover humores melancólicos ou pensamentos dolorosos. Havia uma imensa biblioteca, à qual todos os acolhidos do Refúgio tinham livre acesso. Era suntuosamente mobiliada, e o chão estava coberto por um deslum
brado por tapetes orientais espessos e macios, que abafavam o som dos passos. Em suma, o lugar era um paraíso na terra, uma utopia realizada, onde a desolação e a miséria, tão onipresentes na sociedade, encontravam um refúgio seguro e uma cura eficaz.
O Conde de Monte-Cristo, que, como já vimos, passara a noite em claro, não ouvira a entrada dos intrusos. Estava imerso em um sono profundo em sua poltrona, quando um ruído leve, quase imperceptível, como o roçar de um tecido contra a madeira, ecoou no estúdio. O Conde, cujo sono era sempre leve e vigiado pelo instinto de um homem que viveu rodeado de perigos, abriu os olhos instantaneamente. Sem mover um músculo, permaneceu na mesma posição, enquanto seus olhos, aguçados pela penumbra da lua, perscrutavam o ambiente.
Perto da porta que dava para o corredor, ele avistou, através da fresta, uma forma humana que se movia com a cautela de uma serpente. Era um homem, mascarado e portando uma lanterna surda, que mal emitia um clarão tímido. O coração de Monte-Cristo não se acelerou; apenas uma fria determinação tomou conta de seu espírito. Ele percebeu que não se tratava de um simples ladrão, mas de alguém que conhecia a planta da casa ou que, no mínimo, tivera acesso a informações privilegiadas.
O homem avançou, seguido por outro, cujos contornos se confundiam com as sombras projetadas pelos móveis. Estavam perto da mesa onde o aparelho telegráfico repousava. O primeiro intruso, cujos movimentos denunciaram a Bouche-de-Miel, estendeu a mão em direção a uma pequena gaveta oculta na base da mesa, um lugar onde o Conde guardava documentos de suma importância, alguns dos quais, se caíssem em mãos erradas, poderiam causar prejuízos incalculáveis.
Com a rapidez de um felino, o Conde levantou-se. O movimento foi tão súbito e silencioso que, quando os intrusos se deram conta de sua presença, ele já estava a poucos passos deles. O homem que segurava a lanterna deixou escapar um arquejo de terror, enquanto o outro, recuando, tentou sacar uma arma escondida sob o casaco. Monte-Cristo, no entanto, foi mais veloz. Com um golpe preciso, desarmou o agressor, cujos dedos, trêmulos, não foram páreo para a força e a destreza do seu adversário.
"Quem são vocês, e o que buscam nesta casa?" perguntou o Conde, sua voz ressoando com uma calma autoritária que fez os dois homens empalidecerem. Bouche-de-Miel, reconhecendo a voz e a presença daquele que ele tanto odiava e temia, parecia paralisado, como se estivesse diante de um espectro do seu próprio passado. O medo, que ele tentara sufocar com promessas de vingança, agora se manifestava em um tremor incontrolável que percorria todo o seu corpo.
"Vingança!" sibilou Bouche-de-Miel, sua voz soando estranhamente distorcida. "Eu venho cobrar uma dívida antiga, Conde! O senhor não se lembra de mim, mas eu nunca esqueci o que me tirou!" Monte-Cristo fixou nele o seu olhar penetrante. Por um momento, a luz da lua revelou, através da máscara entreaberta, a face marcada por anos de vício e desespero. O Conde, apesar da surpresa, não demonstrou hesitação. Ele sabia que o destino, por vezes, traz de volta os fantasmas que pensamos ter enterrado para sempre.
"Se busca justiça, não é através de roubos e invasões que a encontrará," declarou Monte-Cristo, sem desviar os olhos do intruso. "Sua presença aqui é um erro, e o preço que pagará por ele será alto demais para as suas ambições." O outro invasor, vendo que o jogo estava perdido, tentou uma última cartada, lançando-se contra a janela na tentativa de escapar, mas o Conde, com um movimento ágil, fechou-lhe o caminho, bloqueando a saída com uma determinação inabalável. O silêncio da noite foi quebrado apenas pelo som da respiração ofegante dos invasores e pela voz gélida do Conde, que agora se preparava para lidar com aquela situação da maneira que sempre lidava: sem piedade para com aqueles que violavam a paz de seu lar.
"Sacre nom d'un chien!", resmungou ele, entre os dentes, "se continuar assim, velho, teria sido melhor que Waldmann o tivesse deixado para trás. Não se pode fazer este trabalho com uma mão trêmula. Anime-se, anime-se, Bouche-de-Miel! O que é isso?"
Houve um leve ruído no portão. Agarrando o companheiro trêmulo pelo braço, Siebecker arrastou-o apressadamente para trás de um pequeno grupo de castanheiros. Mal estavam escondidos quando três homens mascarados abriram cautelosamente o portão e entraram na ponta dos pés no jardim. Waldmann, Peppino e Beppo haviam chegado e estavam prontos para cumprir sua parte no trabalho nefasto. Siebecker e Bouche-de-Miel emergiram silenciosamente de seu esconderijo e juntaram-se a eles.
Waldmann olhou em volta, evidentemente satisfeito.
"Até aqui tudo bem", disse ele, em voz baixa. "Estamos todos aqui na hora certa. Não percamos nem um instante. Você acalmou os nervos com bastante conhaque, Bouche-de-Miel?"
"Estou bem", respondeu este, obstinadamente, embora houvesse um tremor perceptível em sua voz ao falar.
"Ele acabou de ter outro ataque de medo", disse Siebecker, desdenhosamente. "Acho que faríamos bem em deixá-lo com Peppino e Beppo para vigiar o jardim! Não será seguro levá-lo conosco para dentro da casa, Waldmann!"
O líder aproximou-se de Bouche-de-Miel e deu-lhe um sacudão bruto.
"Você é um covarde!" disse ele, selvagemente. "Aquela história da mulher que você nos contou era tudo bobagem. Você está com medo de encontrar Monte-Cristo, como vi muito claramente esta manhã!"
Essa provocação atingiu Bouche-de-Miel em cheio e devolveu-lhe toda a coragem. Ele enfrentou Waldmann sem vacilar e retrucou:
"Não sou covarde e não tenho medo de Monte-Cristo!"
"Então, qual é o seu problema?"
"Isso é problema meu, mas não vai prejudicar o trabalho desta noite. Irei com vocês até a casa e farei minha parte tão bem quanto você ou Siebecker. Você disse para não perder nem um instante. O que está esperando? Vamos!"
"Você jura ficar conosco até o fim, aconteça o que acontecer?"
"Eu juro!"
"Vou confiar em você."
"E você não terá motivos para se arrepender da sua confiança. Se eu encontrar Monte-Cristo, vou matá-lo como faria com um vira-lata! Isso satisfaz você?"
"E quanto à sua misteriosa mulher?"
Bouche-de-Miel não conseguiu conter um sobressalto, mas fechou os punhos com firmeza e respondeu, com um esforço:
"Não se importe com ela! Ela que cuide de si mesma!"
"Quem é ela?"
"Não se importe com ela, eu disse! Se algo de mal lhe acontecer, a culpa será dela mesma!"
Waldmann pareceu tranquilizado; no entanto, sussurrou no ouvido de Bouche-de-Miel com uma seriedade terrível que mostrava claramente que ele falava sério:
"Eu disse que confiaria em você, e confiarei. Mas se você fraquejar, se tentar agir como traidor para salvar aquela mulher, estourarei seus miolos onde você está!"
Bouche-de-Miel deu de ombros.
"Se eu fraquejar, se eu tentar traí-los, atire em mim no local! Dou-lhe permissão! Mas se usar sua pistola, será em outra caça que não eu! Vamos ao trabalho!"
Deixando os dois italianos de guarda no portão, Waldmann e Siebecker, com Bouche-de-Miel entre eles, foram furtivamente em direção à casa, caminhando sobre a grama para que o som de seus passos fosse abafado. Mantiveram-se bem nas sombras das árvores, alcançando a parte de trás da mansão sem serem observados e sem incidentes. Waldmann tirou os sapatos e os outros seguiram seu exemplo.
"Está tudo em silêncio", sussurrou ele. "Sem dúvida, todos os membros da casa, incluindo o próprio redutável Conde, estão profundamente adormecidos. Teremos facilidade."
Ele subiu na varanda dos fundos e testou a porta dos aposentos dos criados. Tinha sido deixada descuidadamente aberta. Ele a abriu e espiou lá dentro. Apenas escuridão e silêncio. Ele acenou para seus camaradas; eles também subiram na varanda. Waldmann tirou uma lanterna surda debaixo do casaco; os três ladrões entraram na casa de Monte-Cristo.
"O escritório do Conde, onde ele guarda seu dinheiro, fica no segundo andar", sussurrou Bouche-de-Miel. "Podemos alcançá-lo subindo a escada dos criados ali."
Ele apontou através do pequeno corredor em que estavam. Waldmann abriu cautelosamente sua lanterna e o estreito fio de luz que vinha dela revelou a escadaria. Os malfeitores subiram e, guiados por Bouche-de-Miel, que parecia estar completamente familiarizado com a topografia da mansão, logo estavam diante do escritório de Monte-Cristo. A porta estava entreaberta. Bouche-de-Miel espiou para dentro, mas retirou a cabeça instantaneamente, gesticulando para que Waldmann e Siebecker olhassem. Eles o fizeram, e viram um homem dormindo em uma poltrona; simultaneamente, um clique agudo no quarto os alarmou; eles rangeram os dentes, apertaram os lábios com firmeza e sacaram suas pistolas. O clique agudo foi repetido, seguido em rápida sucessão por vários outros. Era o instrumento telegráfico — as notícias de Berlim haviam chegado!
Instantaneamente, o Conde despertou completamente. Ele saltou da cadeira e correu para o instrumento, ao clique do qual ele ouvia ávida e atentamente. A vasta sociedade de patriotas prussianos havia se reunido. Os delegados demoraram a chegar, pois, embora o máximo sigilo tivesse sido usado, a polícia real havia sentido o cheiro de sua presença na capital e da assembleia proposta. Ainda assim, esperava-se que a reunião não fosse perturbada, já que o encontro era em um local isolado, do qual, pensava-se, as autoridades não suspeitavam. Mal, porém, o presidente tomara seu lugar, quando a polícia entrou por todas as portas e janelas. Todos os patriotas foram presos, exceto o confederado de Monte-Cristo, que por uma sorte feliz conseguiu enganar os mirmidões da lei.
A testa do Conde franziu-se ao ouvir essa inteligência surpreendente marcada pelo instrumento telegráfico. Ele levou a mão à testa ao concluir a mensagem sinistra e cambaleou como um homem embriagado de volta para sua poltrona, na qual se afundou. Assim que o fez, Waldmann, Siebecker e Bouche-de-Miel, que imediatamente correram para a frente, agarraram-no e o seguraram ali com a força do ferro. Waldmann colocou um mordaça em sua boca e Siebecker amarrou-o firmemente à cadeira com uma corda forte que tirou do bolso. Feita a amarração, os ladrões deixaram o Conde e viraram-se em busca do saque pelo qual tinham vindo — os milhões de Monte-Cristo!
De repente, houve um grito alto. Veio de Bouche-de-Miel. Os outros viraram-se e olharam para ele, suas pistolas nas mãos. Ele estava encarando uma mulher vestida de branco, que estava como um fantasma na porta aberta do escritório. Naquele momento, outra porta se abriu e Ali, o fiel núbio, seguido por todos os valetes da casa, saltou para dentro do quarto, caindo sobre os malfeitores atônitos antes que tivessem se recuperado de sua surpresa. Houve uma breve luta, mas os criados estavam desarmados, e os ladrões, desvencilhando-se das garras de seus adversários, mantiveram-nos afastados com suas pistolas e recuaram lentamente para fora do apartamento. No conflito, porém, a máscara de Bouche-de-Miel foi arrancada de seu rosto, e seu semblante mal estava visível quando a mulher vestida de branco correu em sua direção com os braços estendidos, exclamando sem fôlego:
"Meu pai! meu pai!"
Bouche-de-Miel a afastou; então ele se moveu como se fosse se aproximar dela, impelido por um sentimento que era totalmente incapaz de dominar; mas Waldmann, ainda mantendo sua pistola apontada para Ali e seus companheiros, agarrou-o pelo braço com um aperto de ferro e o arrastou para longe. Os ladrões frustrados conseguiram escapar da casa e do jardim.
O Conde de Monte-Cristo tinha sido desamarrado e desamordaçado por Ali quando os ladrões deixaram o escritório. Alarmados pelo barulho e comoção incomuns, o Capitão de Morcerf, Zuleika e Mlle. d'Armilly apareceram na cena, mas tarde demais para testemunhar o conflito com os malfeitores. Em poucas palavras, o Conde explicou-lhes o que havia acontecido. Zuleika olhou para Mlle. d'Armilly como se suspeitasse que o estranho mendigo daquela manhã tivesse algo a ver com aquela invasão noturna de sua casa; Louise parecia inquieta e agitada, mas manteve um silêncio pétreo.
A mulher vestida de branco ainda estava como se estupefata. Mlle. d'Armilly foi até ela e perguntou, solícita:
"Eugénie, o que há de errado?"
Essa pergunta despertou a jovem Madame de Morcerf, pois era ela, de seu estupor. Ela se jogou em uma cadeira e cobriu o rosto com as mãos, gemendo piedosamente:
"Oh! Louise! Louise! Eu vi meu pai! Ele era um dos ladrões! É terrível, terrível!"
O Capitão de Morcerf, que tinha ido para o lado de sua esposa e ternamente tomado sua mão, olhou indagador para o Conde.
"Eu vi o homem de quem ela fala perfeitamente", disse Monte-Cristo, em resposta ao seu olhar, "e ele era certamente o Barão Danglars!"
CAPÍTULO XIII.
A AVENTURA DE MORCERF.
O Conde de Monte-Cristo não tomou medidas para que os malfeitores que tinham invadido a santidade de sua casa fossem rastreados e presos; ele nem sequer instruiu o Comissário de Polícia do distrito sobre o que havia acontecido. Ele estava inteiramente satisfeito que o único objetivo dos miseráveis tinha sido o roubo, e, como esse objetivo fora frustrado, ele não desejava buscar maior publicidade colocando o assunto nas mãos das autoridades. Uma coisa, porém, dava ao Conde considerável inquietação, a saber, o fato de que Danglars tinha sido um dos ladrões. Ele não duvidava que o ex-banqueiro, a quem ele tinha arruinado financeiramente e forçado a fugir ignominiosamente de Paris no passado em busca de seu esquema de vingança em massa contra os inimigos de sua juventude, tinha planejado o roubo para satisfazer sua sede ardente de vingança; ele também sentia-se igualmente certo de que Danglars pretendia mais maldades, se pudesse realizá-las, e que sua presença na cidade seria uma ameaça constante à sua tranquilidade e prosperidade, não, mesmo à sua felicidade doméstica; mas seus sentimentos tinham passado por uma mudança radical desde os velhos tempos de retribuição incansável e inquieta, e ele agora lamentava o homem que tinha tão impiedosamente derrubado tanto quanto anteriormente o odiara. Danglars tinha caído muito baixo, de fato, para ser o companheiro e cúmplice de saqueadores noturnos, e a própria alma do Conde doía ao pensar a que profundezas de pobreza e ignomínia ele tinha sido o meio de reduzi-lo. Ele o teria procurado em meio à perigosa população criminosa de Paris, rastreado-o até seu antro de depravação e miséria, e oferecido-lhe dinheiro e os meios de reabilitação social, se houvesse a menor razão para esperar que pudesse, assim, resgatar o miserável homem do pântano de iniquidade em que estava mergulhado, mas ele conhecia bem demais o caráter implacável de Danglars e seu ódio profundamente enraizado contra si mesmo para tentar qualquer coisa do tipo. Se ele penetrasse em seus esconderijos e o encontrasse, o resultado só poderia ser desastroso, pois Danglars teria um prazer diabólico em traí-lo a seus associados desesperados, que não hesitariam nem mesmo em assassiná-lo sob suas ordens, e o ex-banqueiro era plenamente capaz de arquitetar seu assassinato da maneira mais horrível como um golpe final de vingança diabólica. Houve um tempo em que Monte-Cristo valorizava a vida muito pouco, quando teria aceitado alegremente a morte como um caminho bem-vindo para o descanso e a paz infinitos, mas esse tempo tinha passado; desde então, ele tinha contraído laços que o prendiam à existência com uma força insuperável; ele agora tinha uma família, estava cercado por seres que amava e acalentava ternamente, seres pelos quais ele devia viver e sobre cujos destinos ele devia velar atentamente. Ele era casado com Mercedes, que derramava sobre ele em sua maturidade toda a riqueza de afeto avassalador que ela tinha derramado sobre ele antes da conspiração fatídica que o tinha consignado como o marinheiro Dantès ao calabouço escuro e fétido do Château d'If e a entregue aos braços de Fernand, o catalão. Haydée tinha passado pela página de sua história tempestuosa e agitada, deixando-lhe Esperance e Zuleika como lembretes de um sonho feliz, mas breve demais, uma visão élfica de encantamento que tinha desaparecido tão rapidamente quanto tinha vindo. Mas seu filho e sua filha tinham se entrelaçado nas fibras de seu coração como a hera que se agarra aos fragmentos despedaçados de alguma ruína grandiosa e imponente, e cada dia, cada momento, à medida que passava, apenas servia mais para lhe revelar os anseios e a devoção da alma de um pai. Além disso, Albert de Morcerf e sua jovem esposa Eugénie eram agora profundamente queridos por ele, e ele sentia que, fazendo tudo ao seu alcance para aumentar a felicidade deles, estava gradualmente pagando a pesada dívida que devia à criança há tanto tempo abandonada de Danglars. Sim, o Conde de Monte-Cristo desejava viver, primeiro pela sua família, depois pela grande causa da liberdade humana com a qual ele tinha se identificado tão completamente. Se Danglars aparecesse em seu caminho, ele tentaria reclamá-lo e apaziguá-lo, mas ele não podia procurá-lo.
Mercedes, no período da tentativa de roubo, estava ausente em uma visita a alguns amigos em Marselha, e por consentimento comum resolveu-se não informá-la do reaparecimento de Danglars, pois a notícia não poderia deixar de ser um choque prostrante para ela.
Desde aquela memorável cena da meia-noite no escritório de Monte-Cristo, a jovem Madame de Morcerf agia como alguém sobrecarregada. Ela não disse nada, nem mesmo ao seu marido ou a Louise d'Armilly, sobre seu miserável pai, mas era claro que tristeza e vergonha intensas a estavam consumindo. Isso angustiava muito Albert e, vendo sua amada esposa definhar dia após dia, ele, sem dizer uma palavra a ninguém, formou uma resolução surpreendente e perigosa. Ele determinou encontrar a moradia de Danglars, ver seu sogro e tentar persuadi-lo a abandonar sua carreira de crime. Nisso, ele era movido por dois motivos poderosos — o desejo de aliviar a angústia e o suspense de Eugénie e o desejo de evitar o escândalo que certamente viria caso o ex-banqueiro fosse pego em flagrante cometendo algum crime terrível e uma investigação legal revelasse sua identidade.
Zuleika evitava estudadamente referir-se à tentativa de roubo e ao reconhecimento de Danglars por seu pai e Eugénie. Ela estava ciente do papel que Monte-Cristo desempenhara na queda e desgraça de seu inimigo, e não considerou prudente despertar as amargas recordações do passado lúgubre e terrível.
Mlle. d'Armilly também não disse nada em referência ao reaparecimento de Danglars, mas era muito claro para a observadora Zuleika que ela esperava e temia mais danos do inimigo vingativo de Monte-Cristo. À noite, ela se trancava em seu quarto e, apesar do calor quase insuportável do tempo, fechava e trancava com segurança todas as suas janelas.
O próprio Conde era tão reservado como sempre, nunca mencionando a invasão noturna de sua mansão ou o advento inesperado de seu inimigo mais mortal. Para todos na casa, ele parecia ter esquecido ou ter conseguido tirar de sua mente aqueles eventos tão cheios de emoção e possibilidades de desastre futuro. Mas Monte-Cristo, embora preservasse um exterior impassível, não tinha esquecido nem os descartado. Ele tinha simplesmente aplicado a si mesmo sua própria máxima famosa, "Esperar e Esperar". Ele estava esperando e esperando pelo melhor, por Deus em Sua sabedoria inescrutável para trazer um bem misterioso de um mal aparente.
Enquanto isso, o Capitão de Morcerf estava ocupado fazendo investigações completas, porém cautelosas. Ele tinha feito o conhecimento de um ex-agente da Sûreté, que lhe fora de grande utilidade ao descrever os vários fora da lei e saqueadores de Paris, e ao apontar-lhe seus antros secretos e os locais de encontro isolados onde se reuniam, bebiam licores vis e, sob a influência enlouquecedora do absinto e do álcool, planejavam seus crimes e atrocidades de toda descrição. Este homem, outro Quasimodo em termos de aspecto hediondo, tinha sido demitido do serviço de detetive por causa de sua incapacidade de se manter sóbrio, mas não tinha esquecido os recursos de sua profissão, e dinheiro prodigamente dado a ele o tornou o escravo mais obediente e fiel do Capitão de Morcerf. Dinheiro na mão tornava-o incansável e a perspectiva de obter mais mantinha-o discreto. Ele ensinara a seu patrão a arte de se disfarçar efetivamente, de passar por um verdadeiro zigue e, como era bem conhecido pelos desesperados que ele tinha anteriormente vigiado e era bem-vindo por eles como um excelente camarada, pôde levar o Capitão com impunidade entre canalhas que não teriam hesitado em cortar-lhe a garganta se soubessem quem ele era.
Como Albert não sabia qual nome Danglars tinha assumido e não estava disposto a dar ao ex-detetive seu verdadeiro sobrenome, este último não tinha nada que o guiasse a esse respeito. O Capitão também não estava ciente das mudanças que o tempo e seu modo de vida tinham provocado na aparência pessoal do ex-banqueiro, então ele só podia descrevê-lo como ele parecia nos anos passados. Isso não deu a Mange, tal era o nome do policial demitido, qualquer indicação da qual pudesse lucrar. Ele, no entanto, não ficou desconcertado com a escassez de informações. Ele sabia que o jovem Morcerf estava procurando por um homem que tinha sido um dos integrantes do grupo envolvido na tentativa de roubar a mansão Monte-Cristo na Rue du Helder, e esse conhecimento era suficiente para ele. Ele logo descobriu que Waldmann, Siebecker, Bouche-de-Miel e dois italianos tinham formado aquele grupo, e sendo Bouche-de-Miel o único francês no grupo, ele não teve qualquer dificuldade em identificar nele o indivíduo procurado. Ele comunicou sua descoberta e conclusão ao seu patrão, juntamente com a informação de que os homens costumavam se reunir no pequeno caboulot da Cité d'Antin. Albert recompensou Mange generosamente por seu zelo e prometeu-lhe uma soma muito maior caso Bouche-de-Miel se revelasse o seu homem. Foi imediatamente arranjado que Mange levaria o Capitão ao caboulot naquela mesma noite e, se possível, colocá-lo-ia frente a frente com o francês supostamente Danglars.
De acordo com este acordo, assim que a noite caiu, Mange estava esperando seu patrão na esquina da Rue Taitbout e da Rue de Provence. Ele não foi mantido muito tempo em seu posto, pois Albert apareceu rapidamente, vestido com uma blusa como a de um trabalhador; suas calças ásperas estavam enfiadas nas botas empoeiradas e, em sua cabeça, ele usava um chapéu desleixado e batido que parecia ter visto serviço atrás das barricadas revolucionárias. Mange examinou-o com um longo olhar de admiração; então, levando-o a um poste de luz vizinho, examinou criticamente seu rosto, que estava manchado para representar o efeito bronzeador do sol e sujo de terra.
"Capital!" exclamou o ex-detetive, ao terminar seu escrutínio. "Você é um zigue de ponta a ponta! Nem um vestígio do boulevardier para ser visto! A vache de faro mais aguçado no caboulot seria completamente enganada!"
Albert sorriu com o entusiasmo de seu companheiro.
"Bem, como passo no exame", disse ele, "vamos imediatamente. Você acha que nosso homem estará no caboulot?"
"Eu acho que a água correrá ladeira abaixo!" gritou Mange, com uma risada que lembrava nada mais do que o grasnido discordante de um corvo. "Ele nunca perde uma noite, e esta é a hora em que o conhaque começa a fluir!"
Albert estremeceu com essa observação, sugerindo, como sugeria, a certeza de que ele encontraria o pai de Eugénie um bêbado, bem como um ladrão. Ele, no entanto, tomou o braço de Mange e juntos passearam calmamente pela Cité d'Antin, dirigindo-se ao caboulot sem encontrar um único saqueador suspeito.
Entraram na sala da frente onde Bouche-de-Miel encontrara a jovem desleixada lendo seu exemplar gorduroso da Gazette des Tribunaux na manhã que precedeu a tentativa de roubo. Ela estava em seu lugar costumeiro atrás do balcão, mas não estava lendo; oito ou dez rufiões vigorosos monopolizavam sua atenção e, enquanto servia aos seus sedentos clientes as várias bebidas ardentes que exigiam, ela lançava seus olhares mais cativantes para a esquerda e para a direita entre eles. Ela estava tão desleixada como sempre, mas seu cabelo brilhava com banha de urso e um forte odor de almíscar impregnava suas vestes; um diamante de pasta de tamanho enorme, mas de brilho duvidoso, ornamentava seu broche, e em seus dedos grossos e imundos havia numerosos anéis de latão contendo imitações opacas de rubis, ametistas e topázios.
À medida que os recém-chegados entravam, Waldmann, parado em frente ao balcão com uma garrafa em uma mão e um copo na outra, a provocava.
"Veja só, Beurre-Sans-Sel", disse ele, com um ar bem simulado de intensa admiração, "você está parecendo uma verdadeira beldade esta noite. Aposto qualquer coisa que você espera um amante. Nunca vi você se arrumar tanto antes. Declaro que você supera de longe as demoiselles dos bailes públicos!"
"Oh! Monsieur Waldmann, como você fala!", retrucou a moça, com um sorriso afetado e uma tentativa mal-sucedida de corar.
Nesse momento, o alemão olhou em volta e avistou Mange, que parecia mais feio do que nunca. O espírito da travessura estava forte nele e ele imediatamente exclamou:
"Eu sabia; eu sabia que você estava esperando um amante e aqui está ele pontualmente na hora! Vamos, confesse, minha pequena Beurre-Sans-Sel, você não colocou todos os seus enfeites bonitos para Mange?"
"Para aquele velho gorila feio!", exclamou a moça, sem cerimônia e com desdém. "Posso conseguir amantes mais bonitos do que um macaco ou um suábio, quero que saiba, Monsieur Waldmann!"
Houve uma risada geral com essa tirada, e ninguém riu mais alto do que Mange, que tinha gosto por piadas grosseiras e respostas afiadas.
"Então!", disse Waldmann, depois que a alegria diminuiu. Então ele percebeu o companheiro de Mange pela primeira vez. Ele o examinou de perto e com desconfiança. Albert não recuou diante de seu escrutínio, mas o ex-detetive achou prudente corrigir as coisas desde o início com uma apresentação formal de seu empregador; ele, portanto, fez sinal para Albert segui-lo e caminhou até o alemão, oferecendo-lhe a mão, que este apertou cordialmente.
O Capitão agora estava ao lado de Waldmann em frente ao balcão e Mange apresentou-o sem demora.
"Monsieur Waldmann", disse ele, "permita-me apresentá-lo ao meu amigo Fouquier, de Dijon, um bon zigue."
"Monsieur Fouquier", disse o alemão, tomando a mão estendida de Albert, "fico feliz em conhecê-lo, especialmente porque você vem tão bem recomendado."
Mange curvou-se em reconhecimento a este pequeno tributo a si mesmo.
Morcerf respondeu que o prazer era mútuo.
As suspeitas de Waldmann pareciam ter sido dissipadas.
"Bebam alguma coisa", disse ele. "Aqui, Siebecker e Bouche-de-Miel, juntem-se a nós para beber à saúde do Monsieur Fouquier de Dijon!"
Albert ficou instantaneamente alerta e Mange observou-o atentamente enquanto os dois indivíduos nomeados emergiam de um canto da sala e se arrastavam até o balcão. Houve outra apresentação, uma dupla desta vez, com Waldmann fazendo as honras. Mange não precisava de apresentação. Todos pareciam conhecê-lo. Beurre-Sans-Sel colocou conhaque e copos, e a saúde do Monsieur Fouquier foi brindada entusiasticamente. Quando essa cerimônia terminou, Morcerf pediu cigarros e distribuiu-os entre a camarilha; então teve tempo para examinar Bouche-de-Miel; este último dera as costas ao balcão e apoiava os cotovelos nele; nesta posição, com seu cigarro entre os dentes, ele parecia o retrato perfeito da ociosidade vagabunda. Mange ainda observava Morcerf, mas não viu nenhum sinal de que ele tivesse reconhecido em Bouche-de-Miel o homem que procurava. Isso o deixou inquieto, pois era um sinal de que a recompensa que seu empregador lhe prometera não seria ganha.
Logo, Waldmann e Siebecker foram chamados para outra parte da sala. Bouche-de-Miel permaneceu, continuando a fumar seu cigarro, com os cotovelos sobre o balcão onde os colocara após o brinde. Os pensamentos do Capitão eram de natureza conflitante. Tudo apontava para o fato de que o homem à sua frente era seu sogro, mas, ao contrário da Mlle. d'Armilly, ele não via nele nada que sugerisse o Barão Danglars de outros tempos. Poderia este vagabundo, este miserável, ser Danglars? Se sim, como provar isso para sua satisfação? Como, acima de tudo, neste lugar, neste antro de ladrões e cortadores de garganta? O homem era certamente a parte que Eugénie reconhecera na noite da tentativa de roubo como seu pai, a parte que o próprio Monte-Cristo definira tão positivamente como sendo o antigo banqueiro. Mas não seria provável que sua esposa e o Conde estivessem enganados? Não seria provável que tivessem sido enganados por alguma semelhança imaginária quando a excitação os possuíra a tal ponto que os privara do pleno uso de suas faculdades mentais? De qualquer modo, ele viera ao caboulot para experimentar Bouche-de-Miel e não recuaria diante da aplicação cautelosa do teste.
Seus cigarros foram então consumidos. Albert, em busca de seu plano, convidou Bouche-de-Miel e Mange para sentarem-se a uma mesa e tomarem mais conhaque. Eles aceitaram o convite com presteza, e os três logo estavam bebendo e conversando. Libações repetidas finalmente abriram os lábios de Bouche-de-Miel; ele começou a ficar confidencial.
"Vocês podem não acreditar em mim, messieurs", disse ele, "mas nem sempre fui como me veem agora!"
Mange piscou triunfante para seu empregador. Revelações que poderiam ser importantes estavam por vir. Talvez ele ainda ganhasse a recompensa prometida. Morcerf estava ouvindo atentamente.
"Não, sacre nom d'un chien, nem sempre fui um zigue! Uma vez tive uma riqueza imensa, contava meu dinheiro aos milhões! Eu tinha posição, também, e posso dizer sem egoísmo que fui honrado pelas melhores pessoas de Paris!"
Ele fez uma pausa e esvaziou outro copo de conhaque.
"O que você era?", perguntou Mange.
Albert esperou sem fôlego pela resposta a esta pergunta.
"O que eu era?", repetiu Bouche-de-Miel. "Vocês podem rir, mas eu era um banqueiro!"
Morcerf não pôde evitar um sobressalto. O vagabundo, meio bêbado como estava, notou e perguntou:
"O que há com você, Fouquier? Você acha a mentira tão tremenda que não consegue ficar quieto?"
O jovem ficou feliz em aceitar essa interpretação de seu comportamento; ele tocou o copo nos lábios e disse, com um sorriso forçado:
"Bem, acho que você está exagerando um pouco!"
"Nem metade do suficiente, mon Dieu!", gritou Bouche-de-Miel, batendo o punho na mesa com tanta força que os copos quase caíram. "Nem metade do suficiente, digo-lhes, messieurs, pois eu era um Barão, além de banqueiro!"
Albert gemeu. Mange olhou para ele com olhos brilhantes; ele agora tinha certeza de que o dinheiro prometido estava ao seu alcance, que suas mãos logo o agarrariam. Sua sobriedade forçada desde que estava a serviço do Capitão deixava-o ansioso por uma farra prolongada e imprudente, terrivelmente ansioso, e suas libações contidas desde que entrara no caboulot aguçaram seu apetite devorador por álcool a tal ponto que ele mal conseguia mantê-lo sob controle com a farta oferta de conhaque na mesa, quase em seus lábios.
Bouche-de-Miel não ouviu o gemido de Morcerf; seus olhos turvos estavam fixos no espaço, parecendo espiar as profundezas e os recessos do passado distante. O Capitão julgou que chegara a hora de extrair a admissão final e culminante de seus lábios. Ele tocou-o levemente no braço. O homem virou-se e olhou para ele interrogativamente. O coração de Morcerf batia descompassado; foi com grande dificuldade que manteve sua agitação sob controle. Ele examinou apressadamente os outros ocupantes da sala — alguns estavam muito bêbados e estúpidos, outros barulhentos e demonstrativos, mas todos estavam ocupados demais com suas próprias preocupações e prazeres para prestar a mínima atenção ao pequeno grupo na mesa; Waldmann e Siebecker estavam dormindo nas extremidades opostas de um banco em um canto. Bouche-de-Miel, entretanto, recaíra em seu devaneio turvo. Albert tocou seu braço novamente.
"Não me incomode!", disse o homem, impaciente, sem tirar os olhos do espaço. "Você não pode deixar um sujeito sonhar!"
"Barão Danglars!", sussurrou Morcerf em seu ouvido.
"Eh? O quê?", gritou Bouche-de-Miel, voltando à realidade com um sobressalto, meio sóbrio ao ouvir esse nome.
"Barão Danglars", repetiu o Capitão, em um tom de voz contido, "eu conheço você!"
O homem levantou-se pesadamente e de forma instável; ele agarrou o ombro de Albert convulsivamente.
"Você é um Agente de la Surete!", sibilou ele. "Você veio aqui para me prender!"
A atenção de alguns dos rufiões menos intoxicados estava sendo despertada pelo comportamento de Bouche-de-Miel, mas seus ouvidos falharam em captar suas palavras em meio ao barulho predominante. Mange, com sua habitual perspicácia e rapidez, viu que algo precisava ser feito instantaneamente para acalmar o companheiro de Albert, ou todos os malfeitores que pudessem se mover seriam despertados e viriam se aglomerar em torno deles para estrangular o suposto Agente de la Surete. Ele, portanto, deu uma risada alta e disse a Bouche-de-Miel:
"Não seja tolo, velho! Monsieur Fouquier pertence à la rousse! Essa é uma boa piada! ha! ha! Ora, ele corre tanto risco de ir para o violon quanto você! ha! ha!"
Ele levantou-se, ainda rindo, e, brincando, pegou Bouche-de-Miel pelo colarinho, forçando-o gentilmente de volta à sua cadeira. Ao fazer isso, ele olhou para Beurre-Sans-Sel. A jovem desleixada estava com a mão na rosca do enorme lampião suspenso acima do balcão, pelo qual a sala era iluminada, pronta para apagá-lo e deixar todo o lugar na escuridão ao primeiro alarme. Ela estava evidentemente acostumada a incursões policiais e sabia como agir em tais casos. As palavras e a alegria de Mange, no entanto, tranquilizaram-na e ela retirou os dedos da rosca.
Mas Bouche-de-Miel não estava totalmente satisfeito. Ele sentou-se inquieto em sua cadeira, de frente para Morcerf e examinando ansiosamente seu semblante.
"O que você quis dizer chamando-me de Barão Danglars e dizendo que me conhecia?", perguntou ele, em voz baixa e um tanto trêmula.
Em vez de responder diretamente a esta pergunta, o jovem disse, lentamente e em um meio sussurro:
"Eu sou Albert de Morcerf, o marido de sua filha Eugénie!"
"O quê!", exclamou Bouche-de-Miel. "Eugénie casada — e com você!"
"Sim", disse o Capitão, "o Destino nos reuniu novamente após uma longa e dolorosa separação."
"Eu vi Eugénie na casa do Conde de Monte-Cristo, não importa como, não importa quando. O que ela estava fazendo lá?"
"Monte-Cristo é casado com minha mãe, Mercedes, e nós estamos morando com ele."
"Morando com ele — Eugénie, minha filha, vivendo sob o teto do homem que arruinou seu pai e fez dele o que ele é!"
Bouche-de-Miel ficou absolutamente lívido de raiva; ele estava totalmente sóbrio agora e todos os seus instintos malignos tinham total domínio sobre ele.
"Eu nunca vou perdoá-la — ou a você!", sibilou ele.
"Ouça-me", disse Albert, com relativa calma. "Vim aqui esta noite com o risco da minha vida para lhe oferecer dinheiro, os meios de reabilitação. Seja sensato. Deixe esses malfeitores com quem você está associado e torne-se um homem novamente!"
"Eu rejeito tanto sua oferta quanto seu conselho!", disse Bouche-de-Miel, agitado. "Eles são insultos, vindos como vêm do enteado de Monte-Cristo, meu implacável inimigo! Mas eu me vingarei de você por eles e, através de você, de Edmond Dantes! Ho, Waldmann, Siebecker!"
Os dois alemães acordaram, saltaram de seu banco e avançaram em direção à mesa.
Mange soltou um gemido de desespero. Ele nada podia fazer agora para evitar o perigo iminente.
Bouche-de-Miel saltou de seus pés e agarrou Albert de Morcerf. Waldmann e Siebecker, percebendo que algo estava errado e conectando imediatamente o alegado Monsieur Fouquier a isso, sacaram facas longas e de lâminas afiadas enquanto corriam para a frente.
Todos os ladrões e saqueadores que estavam sóbrios o suficiente para ficar de pé estavam agora de pé, prontos para se lançar sobre o homem suspeito. Armas brilhavam em todas as direções — adagas, facas e pistolas. Juramentos altos e epítetos abusivos eram ouvidos por todos os lados; era um pandemônio perfeito, uma babel de sons malignos.
Em meio a toda a confusão e perigo, a compostura de Mange não o abandonou. Vendo que era inútil tentar apaziguar a horda de desesperados, ele decidiu por uma medida ousada, uma que lhe permitiria salvar o Capitão de Morcerf e, ao mesmo tempo, manter sua reputação com os frequentadores criminosos do caboulot, com quem ele desejava, por motivos próprios, estar em bons termos. Ele correu para o balcão, onde Beurre-Sans-Sel já estava com a mão na rosca do lampião suspenso, esperando que os eventos decidissem que ação ela deveria tomar. Ele inclinou-se sobre o balcão e sussurrou para a moça:
"Beurre-Sans-Sel, eu fui enganado quanto ao Monsieur Fouquier. Ele me impôs. Ele me disse que era de Dijon. Ele se revela um parisiense e um Agente de la Surete. Ele se traiu. Mais Agentes estão vindo! Eles estarão aqui em um momento! Apague a luz!"
A moça não hesitou um segundo; ela deu à rosca um giro rápido e o caboulot ficou instantaneamente tão escuro quanto um túmulo.
Tendo executado essa manobra, Mange saltou para o lado de Albert de Morcerf, desferindo em Bouche-de-Miel um golpe esmagador no rosto que o fez perder o aperto no jovem. Então, agarrando seu empregador em seus braços musculosos, ele o levantou como se fosse uma criança e correu com ele para a porta da frente; abriu-a, saltando para a rua com seu fardo.
"Agora corra por sua vida!", exclamou, depositando o jovem na calçada.
Com isso, ele partiu em um ritmo acelerado, seguido de perto por Morcerf. Eles não pararam até chegarem à Rue de Provence, onde, no clarão das luzes, em meio às multidões de cidadãos honestos, estavam seguros.
CAPÍTULO XIV.
ZULEIKA E MME. MORREL.
Passara-se bastante tempo desde a partida repentina do Visconde Massetti de Paris, mas Zuleika ainda estava em completa ignorância quanto ao seu paradeiro e ações. Ele estava em Roma, disso ela não tinha a menor dúvida. Estava igualmente convencida de que sua missão ali era estabelecer sua inocência do terrível crime imputado a ele por Luigi Vampa, para obter provas que o inocentariam aos olhos de seu pai e dela mesma, se não de todo o mundo. Por que, portanto, ele não escrevia, por que não lhe dava algum sinal que ela pudesse entender? Seu silêncio desencorajava a jovem, enchia-a de inquietação. Parecia indicar que ele não tivera sucesso, não fora capaz de apagar a mancha de seu histórico. Se fosse assim, ela nunca mais o veria, pois Giovanni era orgulhoso demais para reaparecer em sua presença com um nome desonrado, uma reputação manchada. Este pensamento era torturante, e a filha de Monte-Cristo sentia que, se seu amante a abandonasse, ela não poderia viver.
À medida que os dias passavam sem uma palavra de notícia do Visconde, os temores de Zuleika assumiam maior consistência e peso. Ela tornou-se triste, inexprimivelmente triste; seu olhar perdeu o brilho, sua voz o tom alegre e seu passo a elasticidade. O viço desbotou de suas faces juvenis, dando lugar a uma palidez cinzenta. Ela não se interessava mais por suas ocupações e diversões costumeiras, e sentava-se por horas a fio com as mãos cruzadas no colo, dominada por pressentimentos dolorosos e sombrios.
Mercedes notou sua condição e, atribuindo-a à causa correta, esforçou-se de maneira maternal para despertá-la e consolá-la, mas sem efeito. Ela falou com o Conde sobre isso, implorando que ele usasse sua influência para animar sua filha, mas Monte-Cristo apenas balançou a cabeça, dizendo que deveriam confiar no poder calmante do tempo, que não poderia deixar de cumprir seu papel, em última análise. Esperance lamentava sinceramente por sua irmã, mas absteve-se de interferir, sabendo bem que nada que pudesse dizer seria produtivo. Albert de Morcerf, sua esposa e Mlle. d'Armilly, que tinham aprendido sobre o caso amoroso de Zuleika e a sombra sombria que caíra sobre ele, sentiam uma delicadeza em aludir ao assunto e, portanto, mantinham-se afastados; além disso, estavam deprimidos demais pelas circunstâncias sob as quais Danglars reaparecera para serem capazes de exercer uma influência animadora.
Quando Mercedes retornou de Marselha, ela estava acompanhada por Maximilian e Valentine Morrel, que imediatamente foram à mansão na Rue du Helder e apresentaram seus respeitos ao Conde de Monte-Cristo, seu benfeitor. Era intenção deles fazer apenas uma breve visita, hospedando-se durante sua estada em Paris naquele famoso local de parada para estrangeiros, o Grand Hotel du Louvre na Rue de Rivoli, adjacente ao Palais Royal, mas Monte-Cristo não quis nem ouvir falar de tal coisa, insistindo que o jovem soldado e sua esposa deveriam ser seus convidados e desfrutar de sua hospitalidade. Eles não relutaram em consentir com este arranjo agradável, pois isso lhes permitiria desfrutar ininterruptamente da companhia de seus amigos mais queridos.
Mme. Morrel imediatamente interessou-se profundamente por Zuleika. Ela viu que alguma tristeza pesava fortemente sobre a jovem e, adivinhando corretamente que a paixão terna tinha muito a ver com isso, esforçou-se imediatamente para inspirá-la com um grau de confiança suficiente para trazer à tona revelações. Nisso, Mme. Morrel não foi movida pela curiosidade. Seu motivo era totalmente louvável; ela desejava servir ao Conde de Monte-Cristo, fazer algo para mostrar sua gratidão pelos benefícios avassaladores que ele, no passado, concedera a seu marido e a si mesma, e não conseguia conceber maneira melhor ou mais eficaz do que esforçar-se para aliviar Zuleika. Ela, portanto, prontamente começou sua tarefa louvável, porém difícil, decidida a trazer de volta as rosas às faces da jovem e restaurar a esperança ao seu coração triste e deprimido.
Ela começou usando todas as artes femininas para induzir Zuleika a amá-la e vê-la como uma amiga de todas as amigas. Neste passo inicial, ela teve sucesso além de suas antecipações mais ardentes. Desde o início, a filha de Monte-Cristo sentiu-se atraída por ela, e foi preciso muito pouco esforço da parte de Mme. Morrel para conquistá-la completamente. A disposição de Valentine era tão doce e sua simpatia tão sincera que Zuleika não podia deixar de amá-la; além disso, a história romântica de seu amor por Maximilian e as terríveis provações que ela sofrera antes de ser unida a ele através da potente influência de Monte-Cristo, com a qual ela estava completamente familiarizada, predispuseram a noiva de Giovanni a considerá-la como uma mulher a quem ela poderia abrir seu coração e de quem poderia derivar consolo supremo, se não consolação. Os olhos rápidos e penetrantes de Valentine liam a jovem como as páginas de um livro aberto, e ela não demorou a utilizar as vantagens que adquiriu.
As coisas continuavam assim há vários dias, quando certa noite Mme. Morrel propôs um passeio no jardim a Zuleika com o objetivo de levar os assuntos a um ponto crítico. Ela aquiesceu alegremente à proposta e logo estavam passeando ao luar em meio às flores perfumadas e árvores centenárias. Era uma noite abafada, mas havia uma brisa agradável que refrescava agradavelmente as faces de Valentine e sua jovem companheira. Mme. Morrel amadurecera seu plano, mas a própria Zuleika veio inesperadamente em seu auxílio, ajudando-a a colocá-lo em execução imediata e prática.
Após caminharem por um curto espaço, sentaram-se em um magnífico pavilhão ou casa de verão situada na extremidade do jardim. Era construído de pedra branca, sendo as paredes perfuradas por vários arcos altos que supriam o lugar de janelas e portas. Hera e outras vinhas agrupadas subiam pelo exterior, rastejando através dos arcos e fornecendo ao teto um dossel verdejante extremamente convidativo e refrescante para o olho cansado de contemplar a poeira e a secura das ruas ressecadas pelo sol de verão. Do lado de fora havia várias grandes árvores de bordo prateado e numerosos arbustos ornamentais. Mme. Morrel aproximou-se de Zuleika no banco rústico que ocupavam e, pegando a mão da jovem, disse-lhe, com uma voz suave:
"Este é um local delicioso, minha filha."
"Sim", respondeu a filha de Monte-Cristo, "é, de fato, delicioso. Quando estou aqui, sinto sempre como se pudesse derramar todo o meu coração no seio de algum amigo fiel."
"Faça-o nesta ocasião, minha querida", disse Mme. Morrel, de forma persuasiva. "Confio que sou uma amiga fiel, assim como discreta."
"Eu acredito em você", respondeu Zuleika. "Desde que você está em nossa casa, tenho me sentido assim e desejado torná-la minha confidente, mas hesitei em dar tal passo, temendo sobrecarregá-la com problemas que poderiam angustiá-la."
"Não tenha mais receios quanto a isso, então, mas fale livremente e com a certeza de que, em suas mágoas, sejam elas quais forem, você encontrará em mim uma compreensiva e consoladora sincera."
Zuleika tomou a mão de Valentine e, fitando seu rosto com olhos lacrimejantes, disse:
"Você notou que eu tinha mágoas, Mme. Morrel?"
"Sim; como poderia evitar? Mas fiz mais; adivinhei a causa delas!"
Zuleika deu um leve sobressalto.
"Adivinhou a causa delas, Mme. Morrel?"
"Sim", respondeu Valentine. "Você está apaixonada!"
A jovem corou, mas pareceu aliviada. Mme. Morrel adivinhara seu amor, adivinhara que suas mágoas surgiam dele, mas não adivinhara a natureza da sombra que nublava sua vida florescente e a enchia de pesar e apreensão.
"Zuleika", continuou Valentine, com a máxima ternura e consideração, "eu também amei, profunda e desesperadamente; eu também senti todas as amargas dores que surgem da separação; mas realizei meu sonho finalmente, e as sombras que me cercavam foram varridas pelo sol abençoado da união e da felicidade. Confie em mim, minha filha. Se não posso afastar suas sombras, posso ao menos lhe dar verdadeira simpatia e o consolo que ela proporciona."
"Serão bem-vindos para mim, indescritivelmente bem-vindos, madame", respondeu Zuleika, trêmula.
"Então conte-me tudo."
"Não posso, madame; não tenho o direito; mas posso lhe dizer o suficiente para lhe partir o coração, para lhe mostrar quão infeliz eu sou."
"Minha pobre menina, entendo e aprecio seus escrúpulos. Você não deseja comprometer seu amante, e tem razão. Sua decisão a honra. O homem que você ama está em Paris?"
"Infelizmente, não. Acredito que ele esteja em Roma."
"Então você não sabe seu paradeiro com certeza?"
"Não, madame."
"Seu pai desaprova o cortejo dele?"
"Não desaprovava no início, mas circunstâncias muito dolorosas surgiram desde então, levando-o a alterar sua determinação ou, pelo menos, manter seu consentimento em suspenso. Ainda assim, penso que ele acredita que Giovanni pode e irá refutar a terrível acusação que foi feita contra ele."
"Giovanni? Seu amante é então um italiano?"
"Sim, o Visconde Giovanni Massetti."
"Você o conheceu aqui em Paris?"
"Não, madame; em Roma."
"E você acha que ele foi para lá para se livrar da acusação que você menciona?"
"Sim, madame. Ele veio a Paris para solicitar minha mão, mas desapareceu repentinamente depois que a terrível acusação foi feita. Não tive notícias dele desde então e seu silêncio pesa sobre mim como chumbo."
"Não me surpreende; mas, talvez, afinal, ele esteja apenas esperando por uma completa vindicação e não deseje escrever até ter tudo satisfatoriamente arranjado. Não lhe pergunto a natureza da acusação, Zuleika, e não permitiria que você a declarasse a mim mesmo se estivesse disposta a isso. Mas responda-me uma pergunta. Você tem fé absoluta na inocência de Giovanni, não tem?"
"Tenho, madame."
"Você tem certeza de que ele a ama, que ele não brincou com seus afetos?"
"Tenho certeza, madame."
"Ele é jovem, não é?"
"Sim, madame, ele é jovem."
"Sem dúvida, sua falta, seja ela qual tenha sido, foi simplesmente uma indiscrição devida à sua idade, que foi magnificada e feita para assumir proporções injustificadas pelas línguas da inveja e do escândalo. Se for assim, ele a reparará e voltará para você. Se ele é totalmente inocente, como você se sente convencida, ele moverá céus e terra para justificar-se aos olhos de seu pai e aos seus. O amor é potente, Zuleika, e realizará milagres. Confie em Giovanni e confie no Céu! Tudo ainda se ajeitará entre seu amante e você!"
"Quem dera eu pudesse sentir assim, madame, mas não posso!"
"E por que, eu pergunto?"
"Porque Giovanni evidentemente tem inimigos poderosos em Roma e em suas redondezas que, sem dúvida, estão neste momento operando contra ele e usando todos os seus esforços para impedi-lo de ter sucesso em sua missão."
"O que a faz pensar que ele tem inimigos tão impiedosos?"
"Uma carta que meu pai recebeu de Roma em resposta a perguntas que ele fez e a ilusão — deve ser uma ilusão — sob a qual meu irmão Esperance trabalha em relação a Giovanni."
"Seu irmão Esperance! Então ele acredita na culpa do jovem Massetti?"
"Infelizmente, sim; ele acredita firmemente nisso e estigmatiza o Visconde como o pior dos canalhas."
"Ele lhe deu as razões para sua crença, ele as expôs ao seu pai?"
"Ele lidou apenas com alusões vagas e misteriosas; um juramento de silêncio, ao que parece, o impede de falar abertamente."
"Um juramento de silêncio?"
"Sim, e Giovanni também está igualmente vinculado."
"De fato! Qual é a reputação de seu amante em Roma?"
"Da melhor possível; ele é considerado lá como a alma da honra."
"Exceto por seus inimigos. Até aqui, tudo bem. Você conhece a posição de sua família?"
"É uma das mais antigas, mais respeitadas, mais aristocráticas e mais ricas na Cidade Eterna."
"Outro ponto forte a favor do jovem. Zuleika, estou convencida de que o mistério que envolve seu amante pode ser dissipado; mas também estou convencida de que ele precisa de assistência, a assistência de pessoas profundamente interessadas em você, que têm seu bem-estar no coração e prezam sua felicidade como a delas mesmas."
"Mas tais pessoas não podem ser encontradas, madame. É claro que meu pai e meu irmão estão profundamente interessados em mim, têm meu bem-estar no coração e desejam me ver feliz. Eles, contudo, não estão dispostos a ajudar Giovanni, meu irmão por razões próprias e meu pai porque pensa que o Visconde deve trabalhar por sua própria reabilitação. Não, madame, pessoas como você menciona não podem ser encontradas."
"Elas podem ser encontradas, Zuleika, e você não terá de procurar muito por elas também!"
Mme. Morrel fitou a filha de Monte-Cristo com entusiasmo em seus belos olhos. A jovem não conseguia compreendê-la.
"Certamente você não quer dizer Albert de Morcerf e Eugenie?", disse ela.
"Não", respondeu Valentine. "Eles a amam, sem dúvida, mas a assistência necessária não será obtida através deles."
"Certamente você não pode estar se referindo à Mlle. d'Armilly ou a Ali, o devotado criado núbio de meu pai?"
"Não, não me refiro a eles!"
"A quem, então, você se refere?"
"Não consegue adivinhar, Zuleika?"
Um pensamento súbito veio a Zuleika, enchendo-a de intenso espanto.
"Você não quer dizer você mesma e seu marido, Mme. Morrel?", ela arfou.
"E por que não, minha filha?", respondeu Valentine, docemente. "Toda a assistência que podemos prestar-lhe será apenas um retorno fraco e inadequado pelo que seu pai fez por nós. Ele me salvou da morte, retirou a pistola suicida da mão de Maximilian, confortou-nos em nosso momento de desespero mais sombrio e, finalmente, reuniu-nos após uma separação que até mesmo o Sr. Morrel considerava eterna, colocando simultaneamente em nossas mãos riqueza suficiente para nos tornar totalmente independentes dos acidentes e desastres deste mundo. Além disso, antes disso, ele foi o benfeitor do pai do Sr. Morrel, salvando-o também do suicídio, o suicídio que ele determinara como o único meio de evitar uma terrível desgraça. Você vê, Zuleika, que temos abundantes motivos para ajudá-la."
"Oh! madame — Valentine — você me deixa totalmente sobrecarregada! Como posso mostrar minha gratidão a você?"
"Aceitando minha oferta!"
Essas palavras foram acompanhadas por um olhar de inefável ternura e sinceridade. Elas trouxeram instantaneamente esperança ao coração de Zuleika. Ela irrompeu em um dilúvio de lágrimas, mas eram lágrimas de alegria. Ainda assim, ela hesitou. O que seu pai diria se ela aceitasse a generosa proposta de Mme. Morrel?
"Você aceita, Zuleika?", continuou Mme. Morrel.
"Agradeço-lhe das profundezas da minha alma, madame; mas não posso aceitar o sacrifício que você e seu bondoso e viril marido fariam por mim! Meu pai me censuraria, nunca me perdoaria por adotar um curso tão egoísta!"
"Deixe seu pai comigo, minha filha."
"Oh! madame! Aceitar sua oferta sem consultá-lo?"
"Não há necessidade de consultá-lo, não há necessidade de ele saber qualquer coisa sobre o assunto, pelo menos por enquanto. Será tempo suficiente para lhe contar o que fizemos quando o sucesso coroar nossos esforços. Caso infelizmente falhemos, um pensamento que não posso entreter por um instante, não haverá ocasião de lhe contar nada."
Naquele momento, a voz de um homem foi ouvida chamando à distância:
"Valentine, Valentine, onde você está?"
"É Maximilian", disse Mme. Morrel a Zuleika. "Ele vem muito oportunamente!" Então, elevando a voz, ela lhe respondeu: "Aqui, Maximilian, aqui, no pavilhão de verão na extremidade do jardim!"
O marido apressou-se para o local e Valentine, fazendo-o sentar-se ao lado dela e da filha de Monte-Cristo, contou-lhe tudo o que acabara de saber. Ela também comunicou-lhe a oferta que fizera a Zuleika, acrescentando:
"Você consentirá com isso, eu sei, Maximilian!"
"Com prazer", respondeu o jovem soldado. "Se você não tivesse feito a proposta, eu mesmo a teria feito!"
"Então só nos resta induzir Zuleika a nos autorizar a agir. A pobre menina, contudo, hesita, temendo o desagrado do Conde."
"Ela não precisa nos autorizar", disse Maximilian rapidamente. "Assumiremos toda a responsabilidade pelo passo! Mas será necessário que ela confie em nós mais plenamente, que nos dê os dados sobre os quais basear nossos planos. Obterei cartas de introdução para o Visconde Massetti e, uma vez familiarizado com ele, o resto será fácil."
Mais tarde naquela noite, Zuleika contou a Mme. Morrel tudo sem reservas, dando-lhe até um pequeno bilhete para Giovanni que declarava que Valentine e Maximilian eram seus amigos mais queridos e haviam ido a Roma expressamente para ajudá-lo em seus problemas.
Uma semana após a entrevista momentosa no pavilhão, o Sr. e a Sra. Morrel partiram para a Itália, informando seus amigos na mansão na Rue du Helder que pretendiam ficar ausentes por algum tempo, mas abstendo-se de dar até a menor dica sobre o objetivo de sua jornada.
CAPÍTULO XV.
UM ENCONTRO INESPERADO.
Uma manhã, pouco depois da partida dos Morrel para Roma, o Conde de Monte-Cristo dirigia ao longo dos Champs-Élysées em sua elegante carruagem puxada por um par de fogosos cavalos baios de raça quando, perto do Rond-point, seu progresso foi subitamente interrompido por um grande e tumultuado aglomerado de pessoas. Inclinando-se para fora de sua carruagem, ele perguntou a um operário a causa da comoção incomum e foi informado de que dois italianos haviam sido presos por roubo e estavam sendo levados ao posto do bairro por um par de gardiens de la paix. Ele não pensou nada sobre a circunstância e estava calmamente esperando uma oportunidade para prosseguir quando a multidão ao redor da carruagem se abriu e os oficiais apareceram com seus cativos. O Conde não estava muito interessado, mas, não obstante, lançou um olhar de passagem sobre os malfeitores, que protestavam ruidosamente sua inocência em um francês quebrado, quase ininteligível, e ofereciam uma resistência vigorosa. Eles estavam vestidos rudemente com blusas azuis, usando chapéus de feltro que estavam puxados para baixo e obscureciam seus semblantes. Um dos homens sob custódia agarrou um raio de uma roda do veículo de Monte-Cristo, segurando-o com tal firmeza férrea que todos os esforços do policial encarregado dele falharam em sacudir sua garra. O Conde ordenou a Ali, que estava atuando como cocheiro, que lhe passasse as rédeas, descesse e ajudasse o gardien.
Ao som de sua voz, o homem que agarrara o raio olhou para cima com um sobressalto e, sem relaxar sua garra, gritou em italiano:
"Diga uma palavra por mim, Vossa Excelência! O Conde de Monte-Cristo deveria ter tanto poder sobre os mirmidões da lei francesa quanto sobre Luigi Vampa e seu bando!"
Esta exclamação surpreendeu e assustou o Conde, tão estranha e inesperada era. Ele fitou penetrantemente o malfeitor que a proferira, mas seu escrutínio não foi recompensado com reconhecimento.
"Quem é você?", perguntou ele, assim que seu espanto lhe permitiu falar, também fazendo uso da língua italiana. "Você é um estranho perfeito para mim, ainda assim você sabe meu nome e parece familiarizado com algumas de minhas ações no passado. Quem é você?"
"Eu sou Peppino", respondeu o homem, sem tirar os olhos do Conde. "Meu companheiro que está sendo arrastado para longe ali é Beppo."
"Peppino?--Beppo?", disse o Conde, pensativo. "Certamente ouvi esses nomes antes, mas eles são comuns na Itália, especialmente em Roma, e tenho estado lá frequentemente. Seja mais explícito, homem."
"Serei", replicou o italiano. "Eu sou o Peppino que serviu tão bem quando Luigi Vampa manteve o banqueiro francês, Danglars, em cativeiro por sua ordem. Quanto a Beppo, você não pode tê-lo esquecido; ele também era um membro do bando de Vampa naquele período."
"Sim", disse Monte-Cristo, "lembro-me de ambos agora, mas o que posso fazer por você? Paris é vastamente diferente de Roma, e minha influência com a polícia francesa não é de forma alguma igual à que exerci sobre Vampa e seus brigantes na época de que você fala."
"O poder do Conde de Monte-Cristo é ilimitado em qualquer lugar do mundo inteiro", respondeu o homem, seu semblante iluminado mostrando claramente a extensão de sua fé. "Uma palavra sua libertará tanto Beppo quanto eu. Diga essa palavra, Vossa Excelência, e nos liberte!"
Ali se abstivera de interferir quando ouviu esta conversa singular, que ele compreendia plenamente. Ele estava esperando por novas ordens de seu senhor.
O policial ficou impaciente e, dando ao italiano um sacudão rude, disse-lhe:
"Vamos agora, solte esse raio e submeta-se. Você não vê que está perturbando o Conde de Monte-Cristo? Sua Excelência não fará nada por um canalha como você. Vamos, solte esse raio, eu digo!"
Peppino, contudo, não obedecia e continuava a suplicar ao Conde que interferisse em favor de Beppo e dele mesmo. Por fim, levado ao desespero pela inação de Monte-Cristo, ele gritou para ele:
"Se Vossa Excelência não fará nada por nós sem recompensa, eu darei essa recompensa; eu lhe direi em troca de seus esforços em nosso favor tudo o que sei sobre a conspiração negra contra o Visconde Giovanni Massetti!"
O Conde ficou visivelmente comovido com esse discurso. Ele encarou Peppino como se pensasse que não ouvira direito.
"O Visconde Giovanni Massetti! Uma conspiração negra contra ele! O que você quer dizer?", indagou ele, rapidamente.
"Exatamente o que digo, Vossa Excelência", respondeu o italiano. "Sei que o Visconde visitou o Palazzo Costi em Roma quando você o habitava com sua família, e que ele se apaixonou por sua filha. Também conheço os detalhes de um plano pelo qual uma rede de circunstâncias esmagadoras foi tecida ao redor dele com o objetivo de enterrá-lo sob um peso de vergonha, desonra e até mesmo de crime! Posso revelar esses detalhes e o farei se você ajudar meu companheiro e a mim mesmo em nossa dificuldade atual. Eu o interesso, Senhor Conde?"
"Vastamente", respondeu Monte-Cristo, seu rosto assumindo um olhar sério. "Vá calmamente com o gardien para o posto. Eu seguirei imediatamente e verei o que pode ser feito."
"Sim, Vossa Excelência", disse Peppino, submissamente, e abandonando sua garra no raio, ele permitiu que o policial o levasse sem mais problemas. Enquanto isso, Beppo e o oficial em cuja custódia ele estava haviam desaparecido na distância.
Aqueles que estavam perto o suficiente da carruagem do Conde para testemunhar esta cena extraordinária ficaram grandemente admirados que um personagem tão famoso como o eloquente Deputado de Marselha se rebaixasse a conversar com um malfeitor na rua pública, mas seu espanto foi imensuravelmente aumentado quando viram a influência que o célebre orador exercia sobre o depravado italiano. Eles não tinham sido capazes de entender a conversa, mas o efeito das últimas palavras de Monte-Cristo parecia pouco menos que milagroso para eles e eles rasgaram o ar com vivas altos e entusiásticos.
"Viva o nobre Conde de Monte-Cristo! Viva o Deputado de Marselha, o amigo do povo!", era gritado de todos os lados.
Mais adiante, o grito foi retomado e repetido, ressoando por muito tempo ao longo dos largos e belos Champs-Élysées!
Monte-Cristo levantou-se em sua carruagem e, retirando o chapéu, ficou de cabeça descoberta, curvando-se para a população excitada.
Este foi o sinal para novos e mais calorosos vivas. Mas, tendo os criminosos sido removidos, a multidão logo começou a se dispersar. Por fim, a via foi liberada e o veículo do Conde pôde prosseguir. Ali retomara impassivelmente o assento do motorista e, a um aceno de seu adorado senhor, iniciou os cavalos fogosos pela imensa avenida. Enquanto os baios de raça iam trotando ao longo com pescoços orgulhosamente arqueados, o Conde inclinou-se e disse a Ali:
"Dirija imediatamente para o posto do bairro."
O núbio habilmente virou os animais e em poucos minutos Monte-Cristo alcançou seu destino.
À porta do posto, um gardien recebeu-o e, à menção de seu nome, obsequiosamente conduziu-o ao oficial encarregado. Este último, um homem baixo, de aparência determinada, com um bigode grisalho eriçado e cabelos grisalhos que ficavam quase em pé sobre sua pequena cabeça redonda, reconheceu seu ilustre visitante à primeira vista. Ele levantou-se apressadamente da mesa em que estava sentado, ocupado em examinar os relatórios de seus subordinados, e ofereceu-lhe polidamente uma cadeira. Então, perguntou, deferentemente:
"A que devo a tão distinta honra de uma visita do Conde de Monte-Cristo?"
"Monsieur", respondeu o Conde, tomando o assento oferecido, "dois italianos foram presos há pouco tempo nos Champs-Élysées e trazidos para cá."
"Sim", disse o chefe do posto, "e grandes canalhas eles são também! Estávamos vigiando-os há algum tempo, mas nunca pudemos detectá-los em qualquer ato aberto até hoje. Eles pertencem a um bando muito perigoso de saqueadores, liderado por um alemão astuto chamado Waldmann, cujas sedes ficam em um miserável caboulot da Cité d'Antin."
"De que são esses italianos acusados, ou seja, qual é a acusação específica atual contra eles?"
"Eles foram pegos roubando bolsos na multidão que se aglomerava em torno de um show de marionetes."
"A evidência contra eles é conclusiva?"
"É."
"Isso é lamentável", disse o Conde, "já que um deles está na posse de informações da maior importância para mim. Ele fez revelações parciais, mas estabelece como o preço de uma revelação completa minha interferência em favor dele e de seu camarada no crime. O que pode ser feito?"
"Não vejo", respondeu o chefe, em perplexidade. "É impossível para mim liberar os homens."
"Mas não há alguma maneira pela qual eu pudesse obter uma mitigação de sua punição?"
"Oh! quanto a isso, sim", disse o oficial, iluminando-se. "Se você falasse ao Procureur de la République, tenho certeza de que ele lhe concederia a sentença mínima em tais casos. Talvez", acrescentou ele, quando um pensamento súbito lhe ocorreu, "ele pudesse até ser induzido a não pressionar a acusação, caso em que os homens seriam liberados."
"Obrigado, monsieur", disse o Conde, levantando-se. "Agirei com base em sua sábia sugestão sem demora. Mas você pode me conceder um pequeno favor? Pode me permitir uma breve entrevista com o homem que se chama Peppino?"
"Indubitavelmente", respondeu o chefe, com uma voz cordial, "e ficarei muito feliz em fazê-lo se isso o ajudar em algo."
"Isso me permitirá assegurar ao homem que estou trabalhando e tenho alguma esperança de sucesso."
"Então siga-me."
O chefe, que permanecera de pé por cortesia ao Conde, tirou uma chave grande de um suporte atrás de sua mesa e abriu uma porta que levava a um corredor longo e mal iluminado. Monte-Cristo seguiu-o através desta passagem sombria até chegarem a uma cela, diante da qual o chefe parou. A chave grande rangeu na fechadura, a porta da cela abriu-se com um som ominoso e o Conde encontrou-se face a face com o antigo bandido romano.
Peppino estava sentado na beira de um estrado de ferro, a própria imagem do desespero. Ele pensou que Monte-Cristo o abandonara, que ele não interferiria mesmo com a perspectiva de obter os detalhes do plano contra o jovem Massetti. Quando o Conde entrou na cela, seu semblante iluminou-se instantaneamente e a esperança foi renovada em seu peito. O chefe retirou-se discretamente, dizendo enquanto o fazia:
"Eu esperarei do lado de fora, no corredor."
Com estas palavras ele fechou a porta da cela e Monte-Cristo encontrou-se a sós com Peppino.
Toda a luz que abria caminho para a lúgubre cela vinha através de uma pequena janela gradeada no alto da parede, colocada a tamanha distância do chão que nenhum prisioneiro poderia alcançá-la, mesmo subindo em seu estrado. As paredes e o teto eram de pedra.
"Bem", perguntou Peppino, "como a sua Excelência obteve sucesso?"
"Fiz pouco progresso até o momento, embora espere ser capaz de fazer algo por você e por Beppo em muito pouco tempo", respondeu o Conde, em um tom tranquilizador.
"Estou satisfeito", disse Peppino, alegremente. "Se sua Excelência apenas se decidir, Beppo e eu estaremos livres em breve!"
"Não posso ir tão longe, meu bom rapaz, mas posso prometer-lhe, e prometo, toda a ajuda e influência que eu puder exercer."
"Elas exercerão tudo o que for necessário, Senhor Conde", respondeu o italiano, confiantemente.
"Não espere demais, Peppino. Eu lhe disse que Paris é diferente de Roma."
"Tenho ocasião agora de saber disso", replicou o fora da lei, amargamente. "Mas o poder do Conde de Monte-Cristo é o mesmo aqui que na campagna!"
"Mantenha o coração firme, de qualquer modo, meu bom rapaz. Logo saberemos o que pode ser feito."
"Manterei o coração firme, Senhor Conde, pois tenho fé absoluta em você!"
"Assim seja. Agora, meu homem, o que você sabe sobre a conspiração contra o Visconde Massetti?"
"Perdoe-me, Senhor Conde", disse o italiano, astutamente, "mas eu lhe direi isso quando Beppo e eu estivermos em liberdade!"
Monte-Cristo sorriu diante da esperteza do homem.
"Ao menos", disse ele, "diga-me se viu o Visconde recentemente."
"Farei isso, sua Excelência. Eu o vi há muito pouco tempo em Roma e depois com Luigi Vampa e Pasquale Solara na região pantanosa além do Trastevere."
"O que trouxe você e seu companheiro a Paris?"
"Tivemos um desentendimento com o velho Solara, a quem Luigi Vampa insistia que devêssemos obedecer implicitamente. Solara era um tirano; além disso, era tão ganancioso e avaro quanto um miserável; queria tudo para si e não nos permitia nada; exigia que todo o espólio que adquiríssemos fosse trazido diretamente a ele sem divisão, afirmando que distribuiria nossas partes; isso ele invariavelmente deixava de fazer e, naturalmente, nos rebelamos. Vampa, que se tornou, se é que sempre não o foi, amigo íntimo do velho Pasquale, decidiu contra nós sempre que levamos nossas queixas a ele. Finalmente, não pudemos mais suportar; estávamos passando absoluta fome enquanto Solara acumulava riquezas, então decidimos deixar o bando. Fizemos isso e viemos para Paris, onde temos estado desde então."
"Não lhe perguntarei o que vocês têm feito em Paris", disse Monte-Cristo, sorrindo levemente; "de fato, não preciso perguntar, pois eu sei; o chefe do posto me contou; mas você me promete levar uma vida melhor no futuro e tentar induzir Beppo a fazer o mesmo, se eu conseguir efetivar sua libertação?"
"Não posso prometer-lhe isso", respondeu o italiano, com os olhos desviados, "mas prometo-lhe retornar a Roma e levar Beppo comigo."
"Isso servirá tão bem, ou quase tão bem", disse o Conde. "Armado com tal promessa, creio que posso obter sua liberdade. Mas você deve jurar-me deixar a França imediatamente após ter sido posto em liberdade, e considerarei seu juramento como obrigatório para Beppo também."
"Juro deixar a França no exato momento em que estiver livre! Juro, também, que Beppo me acompanhará!"
"Está bem", disse o Conde. "Estarei aqui novamente esta tarde ou amanhã, o mais tardar; mas lembre-se de que, antes de deixar esta cela, você deve me dar os detalhes completos da conspiração contra o jovem Massetti!"
"Eu me lembrarei, Senhor Conde; não tenha medo disso! Quando eu tiver falado, o velho Solara que se cuide!"
"O que você quer dizer com isso?", perguntou Monte-Cristo, asperamente.
"Não se preocupe por ora, Senhor Conde! Esclarecerei tudo para você em seu retorno."
O Deputado de Marselha deixou a cela e o posto, após ter agradecido ao chefe por sua cortesia. Ele dirigiu sem demora ao escritório do Procureur de la République no Palais de Justice, e não demorou muito para que ele tivesse os assuntos arranjados de modo satisfatório. O Procureur concordou alegremente em não levar adiante a acusação contra os italianos sob a condição de que Monte-Cristo se comprometesse de que eles deixariam Paris imediatamente após o Juge d'Instruction tê-los liberado. Este compromisso o Conde fez sem a menor hesitação, e decidiu-se que o Juge d'Instruction realizaria seu exame formal no posto naquela tarde, quando o Procureur compareceria através de seu Deputado e ordenaria a cessação dos procedimentos por razões plenas e suficientes. O Procureur concordou em notificar o Conde da hora exata do exame para que ele pudesse estar presente e pronto para executar sua parte do pacto.
Enquanto Monte-Cristo dirigia de volta à mansão da Rue du Helder, ele não pôde deixar de sentir-se consideravelmente agitado. O que ele estava prestes a aprender com Peppino, e como as revelações do italiano afetariam Massetti? Eram estes os problemas que as próximas horas estavam destinadas a solucionar.
CAPÍTULO XVI.
EM MEIO ÀS RUÍNAS DO COLISEU.
Uma das primeiras coisas que Maximilian Morrel fez, após ele e sua esposa estarem confortavelmente instalados no Hotel de France em Roma, foi fazer uma visita formal ao Palazzo Massetti e apresentar suas cartas de recomendação ao velho Conde, pai de Giovanni.
O velho nobre, que tinha pelo menos setenta anos e era de aparência muito patriarcal por causa de suas madeixas brancas e longas barbas nevadas, recebeu o jovem francês com grande urbanidade e condescendência em um salão suntuosamente mobiliado, repleto de tesouros artísticos raros e deslumbrante com ouro e cetim. Ele o encontrou com a mão estendida e disse, calorosamente, ao mesmo tempo que lançava um olhar ao cartão do Capitão como se para refrescar sua memória:
"Estou encantado por ter a honra de dar as boas-vindas a um visitante tão distinto como o Capitão Maximilian Morrel ao Palazzo Massetti. Por favor, sente-se, Capitão, e considere minha residência como sua."
O Conde falava francês fluentemente, sem sequer o menor traço de sotaque estrangeiro, e este fato, bem como sua maneira encantadoramente cordial, fez com que o jovem soldado imediatamente se sentisse à vontade em sua presença.
"Garanto-lhe, Conde", retribuiu Maximilian, fazendo uma reverência e então sentando-se, "que o prazer é mútuo."
O velho nobre também tomou uma cadeira, e por algum tempo conversaram agradavelmente sobre vários assuntos. O Conde fora um soldado bravo e ativo em seus dias e interessava-se muito pelos assuntos militares franceses. O visitante, que estava inteiramente a par desse tópico e devotadamente apegado à sua profissão, deu ao seu anfitrião inquisitivo cada detalhe que ele exigia e foi particularmente entusiasta ao falar dos operários parisienses, que, conforme ele afirmava, podiam abandonar seu labor costumeiro de um momento para o outro e enfrentar os perigos do campo de batalha com a resistência de veteranos treinados.
Finalmente, Maximilian pensou que poderia aventurar-se a tatear o terreno em relação à sua missão. Era certamente um assunto muito delicado, mas a polidez e a bonhomie do Conde encorajaram-no a prosseguir. Olhando o velho nobre diretamente no rosto, ele disse:
"Creio, Conde, que o senhor tem um filho chamado Giovanni, que esteve recentemente em Paris."
Instantaneamente, a testa do velho romano nublou-se e ele lançou um olhar perscrutador ao seu convidado. Então disse, friamente:
"Eu não tenho filho!"
Maximilian, por sua vez, olhou fixamente para o Conde, mas o semblante deste último já assumira um aspecto pétreo e desafiador que parecia opor uma barreira intransponível a uma conversa posterior sobre este assunto. Houve uma pausa embaraçosa, durante a qual os dois homens continuaram a olhar um para o outro. O Sr. Morrel, embora muito embaraçado e desconcertado pelo rápido freio que recebera, foi o primeiro a quebrar o silêncio ominoso.
"Peço-lhe perdão, Conde", disse ele, "mas o jovem de quem falei representou ser o Visconde Giovanni Massetti. É possível que ele fosse um impostor?"
O aspecto do Conde tornou-se mais frígido; ele replicou, glacialmente:
"Repito que não tenho filho!"
Maximilian estava dolorosamente perplexo. Ele não sabia o que pensar ou dizer. O velho nobre levantou-se como se para terminar a entrevista. Ele não mostrou traço de excitação, mas o Sr. Morrel sentiu-se certo de que ele era presa de uma agitação interna que ele controlava com dificuldade. Não poderia haver dúvida de que Giovanni era o que representara ser, pois não teria ele passado como o Visconde Massetti em Roma, assim como em Paris? Apenas uma solução para o mistério se oferecia — o Conde deserdara seu filho, deserdara-o por causa do terrível crime com o qual era acusado, do qual ele fora aparentemente incapaz de se livrar. O Sr. Morrel também levantou-se, mas ele não estava disposto a partir assim, a ser sumariamente despedido, por assim dizer. Ele determinou fazer um esforço a mais para chegar à verdade.
"Conde", disse ele, "não desejo que o senhor me entenda mal, que atribua à mera curiosidade ociosa meu desejo de ser informado a respeito deste jovem desafortunado e infeliz. Sei que uma nuvem negra paira sobre ele, que, no presente, ele está marcado e desonrado. Eu não estava ciente, contudo, de que sua família o tivesse lançado fora."
"Monsieur", retribuiu o Conde, impacientemente, "o senhor é estranhamente persistente."
"Sou persistente, Conde", disse Maximilian, seriamente, "porque o Visconde Massetti não está sozinho em sua infortuna. Outra, uma jovem estimável, está agora definhando em Paris por conta dele."
"Eu a compadeço!", disse o velho nobre, de modo impressionante.
"Eu também", replicou Maximilian; "do fundo do meu coração eu compadeço a ambos e essa é a razão pela qual estou aqui."
"Posso perguntar o nome desta jovem estimável?"
"Certamente. Seu nome é Zuleika; ela é filha do mundialmente famoso Conde de Monte-Cristo."
O velho Massetti deu um sobressalto e os músculos de seu rosto contraíram-se nervosamente, mas ele conseguiu controlar-se e disse:
"De fato! Permita-me indagar quais relações o jovem mantinha com a filha do Conde de Monte-Cristo."
"Ela é, ou melhor, era noiva dele."
"Meu Deus! Outra vítima! Será que a moça o ama?"
"Ama, com toda a sua alma!"
"Ele a traiu, ele a levou pelo mau caminho?"
"Não; sua conduta para com ela foi em todos os aspectos a de um homem da mais estrita honra."
"O Céu seja louvado por isso! Então nenhum dano foi feito! Deixe-a esquecê-lo!"
"Receio, eu sei, que ela não pode!"
"Ela é jovem, não é?"
"Muito jovem."
"Então o tempo curará suas feridas. Ela deve esquecê-lo, pois ele é indigno do amor dela!"
"Mas o senhor não sente afeição, nenhuma pena, por seu filho?"
"Eu lhe digo que não tenho filho! Quantas vezes devo repetir!"
O olhar do Conde era mais duro do que nunca; todo o orgulho e arrogância dos Massettis pareciam concentrados na expressão de seu semblante venerável. Maximilian abriu os lábios para falar novamente, mas o velho nobre interrompeu-o e disse, severamente:
"Já tivemos o suficiente disto! Capitão Morrel, que o que passou entre nós sobre este assunto miserável seja esquecido. Ficarei feliz em recebê-lo a qualquer hora como um amigo, mas, se o senhor valoriza minha amizade, meu conhecimento, nunca mais mencione aquele jovem para mim! Adeus, Monsieur!"
O Conde tocou uma campainha e um criado apareceu. Maximilian fez uma reverência ao seu anfitrião e, guiado pelo servidor, deixou o palazzo. Na rua, ele ficou por um momento como alguém totalmente desnorteado. Estava claro que o Massetti mais velho tinha formado sua opinião quanto à culpa de Giovanni, e se o pai abandonava seu filho, que esperança havia de que o mundo frio e sem coração não seguisse seu exemplo? Maximilian estava em desespero. No primeiro passo de sua missão, ele fora desrespeitosamente e firmemente detido. O que deveria ele fazer? Deveria reconhecer-se finalmente derrotado porque sua tentativa inicial falhara tão desastrosamente? Não; isso seria covardia miserável! Ele persistiria, ele faria investigações adicionais. Ele empreendera este trabalho por Zuleika, para restaurar a felicidade ao seu coração e brilho aos seus olhos, e ele não abandonaria a tarefa, não importa o quão árdua pudesse ser, até que tivesse livrado Giovanni ou obtido prova tangível e incontestável de sua culpa!
Fortalecido por esta resolução, o Sr. Morrel retornou ao Hotel de France. Valentine encontrou-o com um olhar de ansiosa indagação. Ele esforçou-se para parecer alegre, para tirar o melhor da situação, mas o esforço foi uma falha lamentável. Ele afundou em uma cadeira e disse à sua esposa em um tom abatido:
"Eu vi o Conde Massetti. Ele acredita que seu filho é culpado e o deserdou!"
Valentine sentou-se ao lado de seu marido e ternamente pegou sua mão.
"Maximilian", disse ela, "é um mau começo, eu confesso, mas você conhece o provérbio e, confio, o bom final ainda virá!"
"Não será por nossa culpa se não vier", replicou seu marido, heroicamente. "De qualquer modo, faremos o nosso melhor."
"E nós teremos sucesso! Sinto-me confiante disso!"
"Obrigado por essas palavras, Valentine! Você é uma perfeita encantadora e trouxe minha esperança morta à vida!"
Naquela noite, os Morrels decidiram visitar o Coliseu. Eles desejavam ver os restos gigantescos daquele vasto fabricado dos Césares sob o luar, inspecionar em meio aos raios prateados os pátios e galerias em ruínas que séculos atrás ecoaram com o passo orgulhoso da elite da barbárica Roma antiga! Conduzidos por um guia pertencente ao Hotel de France, eles partiram e logo estavam entre as ruínas do grande anfiteatro. Lá, foram tomados por um cicerone especial, que parecia considerar o enorme destroço do monumento de Flávio Vespasiano como sua propriedade particular e que não podia ser sacudido. Ele uniu forças com o guia do hotel e os dois, tagarelando laboriosamente em um jargão quase ininteligível, conduziram os visitantes indefesos de um ponto de interesse a outro, mostrando-lhes, por sua vez, colunas quebradas, os assentos das Vestais, escadarias de pedra dilapidadas, o "Fosse des Lions" e o "Podium des Cesars". Maximilian e Valentine estavam cheios de um temor indescritível e admiração enquanto contemplavam os remanescentes da grandeza antiga, e mentalmente povoaram o maravilhoso Coliseu com gladiadores contendentes, patrícios imponentes e a multidão aplaudidora de plebeus sanguinários, Mme. Morrel estremecendo enquanto pensava nas milhares de damas de alta linhagem e belas donzelas que, nos velhos tempos, impiedosamente viravam seus polegares como um sinal para o tiramento de vida humana! Embora a lua estivesse brilhante e inundasse o anfiteatro antigo com luz argentina, os guias carregavam tochas, que serviam para espalhar uma iluminação vacilante e pálida através dos recessos escuros dos vômitos cavernosos, agora o refúgio de morcegos, corujas, cabras e serpentes.
Enquanto passavam por uma galeria longa e incomumente sombria, os guias subitamente pararam com um grito simultâneo e começaram a fazer o sinal da cruz. Maximilian e Valentine pararam assustados, o primeiro sacando apressadamente uma pequena pistola para defender sua esposa e a si mesmo contra o perigo desconhecido e misterioso. Eles olharam ao redor, mas não puderam ver nada, as tochas revelando apenas pedras enormes e abóbadas cobertas de poeira. O Sr. Morrel exigiu dos guias qual era a causa de seu terror, mas por alguns momentos não pôde extrair inteligência alguma de suas respostas vagas e ininteligíveis. Finalmente, um dos cicerones conseguiu explicar que eles tinham visto o maníaco! Esta era uma informação confortante para os visitantes! Um maníaco à solta e vagando à noite em meio às ruínas do Coliseu! Valentine, tremendo de medo, agarrou-se ao seu marido em busca de proteção.
"É um homem ou uma mulher?", perguntou Maximilian a um dos guias.
"Um homem, signor."
"Ele é violento, perigoso?"
"Não, signor, nenhum dos dois; mas sua aparência dá um choque terrível, ele é de aspecto tão selvagem e, além disso, ele murmura maldições temíveis! Santa Virgem, proteja-nos!"
Maximilian sentiu sua curiosidade despertada; um estranho desejo tomou posse dele de ver e falar com este maníaco singular, que frequentava os pátios dos gladiadores e murmurava maldições temíveis às colunas quebradas do Coliseu.
"Onde está o maníaco agora?", exigiu ele dos guias. "Vocês o veem?"
"O Céu nos livre!", respondeu um dos homens, olhando ao redor inquieto.
"Mas onde ele está? Podem nos levar até ele?", persistiu Maximilian.
Os cicerones olharam um para o outro em espanto; as perguntas do jovem soldado assustaram-nos. Valentine não estava menos espantada e assustada que os guias; ela encarava seu marido, sem palavras diante do estranho interesse que ele exibia neste miserável pária.
"Podem nos levar até ele?", repetiu Maximilian.
"Signor", disse o guia pertencente ao hotel, "você está brincando!"
"Não estou brincando, estou falando sério", disse o Sr. Morrel. "Responda à minha pergunta."
"Claro, podemos levá-lo até ele, signor", respondeu o guia; "mas é melhor evitá-lo; a visão do miserável Massetti levará sua dama à loucura!"
Ao nome Massetti, tanto Maximilian quanto Valentine sobressaltaram-se; eles olharam um para o outro e para o homem que falara, pensando que não tinham ouvido corretamente.
"Massetti!", gritou o Sr. Morrel, quando seu espanto permitiu-lhe encontrar palavras. "Você disse Massetti?"
"Sim, signor, eu disse Massetti. O maníaco é o filho deserdado e despojado do velho Conde Massetti!"
"O quê! O Visconde Giovanni?"
"O mesmo, signor!"
"Oh! Isto é horrível, horrível, Maximilian!", sussurrou Valentine, agarrando-se ainda mais fortemente ao seu marido.
"É, de fato, horrível; duplamente por ser inteiramente inesperado", disse o Sr. Morrel. "Mas devo ver o jovem Massetti — foi, sem dúvida, alguma influência misteriosa, algum poder magnético indescritível, operando entre nós, que me fez desejar ver este homem, este maníaco, assim que ele foi mencionado! — Devo vê-lo e imediatamente!"
Como os guias possuíam apenas um conhecimento muito leve da língua francesa, na qual o diálogo entre o marido e a esposa tinha sido mantido, eles falharam em captar o pleno sentido da breve conversa; entenderam, contudo, que seus patrões estavam de alguma forma inexplicável interessados no maníaco do Coliseu e horrorizados pela descoberta súbita de sua identidade. A situação deixou-os perplexos e insatisfeitos.
Após pensar por um instante, Maximilian disse à sua esposa:
"Instruirei o guia do hotel a conduzi-la de volta aos nossos apartamentos. É melhor que eu encontre o pobre Massetti sozinho; ver o homem miserável em sua condição terrível atual certamente a chocaria e a deixaria nervosa."
Valentine olhou suplicante para o rosto de seu marido. Todo o seu medo a deixara. Ela estava calma agora e resolvida. Ela propusera a viagem a Roma, o projeto de ajudar o Visconde, e ela não desejava recuar de dar um único passo que pudesse ser benéfico a Giovanni e Zuleika. Ela disse, bravamente:
"Não me envie para longe de você, Maximilian! Serei de coração firme e corajosa! Não tenho medo deste pobre jovem agora, maníaco embora seja! Talvez eu possa ajudá-lo a lidar com ele, pois a sagacidade e a ternura de uma mulher, dizem, podem às vezes subjugar e pacificar aqueles cujas mentes estão desordenadas quando todos os esforços de um homem falharam."
Maximilian olhou para ela amorosa e admiradamente.
"Assim seja, Valentine", replicou ele, muito afetado. "Você permanecerá comigo e enfrentaremos a provação juntos!"
Os olhos de sua esposa expressaram sua satisfação com esta demonstração de confiança; ela simplesmente apertou a mão de seu marido, mas embora não tenha pronunciado uma palavra, a pressão calorosa que ela lhe deu falou volumes.
O Sr. Morrel voltou-se para os cicerones, que esperavam em um silêncio atônito.
"Levem-nos a este maníaco sem um instante de demora!", disse ele.
Os guias trocaram olhares, balançaram a cabeça como se em protesto e novamente começaram a fazer o sinal da cruz. Maximilian foi compelido a repetir seu comando de forma um tanto severa e imperativa antes que eles fizessem um movimento para obedecer; então, muito relutantemente, sinalizaram aos seus patrões para que os seguissem e tomaram a dianteira, murmurando orações à Santa Virgem.
O pequeno grupo deixou a galeria sombria e abriu caminho para o ar livre. Após terem percorrido cerca de vinte jardas, os guias pararam abruptamente e um deles apontou para o centro da vasta arena gladiatória.
"Olhe, signor!", ele disse ao Sr. Morrel. "Lá está o maníaco do Coliseu!"
Maximilian e Valentine espreitaram rápida e ansiosamente na direção indicada, mas não viram nada.
"Lá, signor!", repetiu o cicerone, ainda apontando.
Então, de repente, Maximilian e Valentine contemplaram a figura de um homem parado, tão imóvel quanto uma estátua, ao lado de um vasto fragmento de pedra. O luar caía em cheio sobre uma forma varonil e nobre, revelando um semblante belo que poderia ter pertencido a um dos antigos deuses romanos. As vestes do homem estavam em desordem pitoresca e, em sua cabeça descoberta, havia uma coroa de folhas de hera. Em uma das mãos, ele segurava um cajado alto, enquanto a outra estava levantada de forma ameaçadora.
"Escutem!", disse um dos guias, com um estremecimento. "Ele está amaldiçoando!"
O Sr. e a Sra. Morrel ouviram, horrorizados, preenchidos por um pavor sem nome. Um murmúrio fraco, mas distinto, chegou até eles, aumentando gradualmente de volume. Era uma maldição feroz e amarga, cheia de um ódio intenso e ardente, parecendo abranger Deus, o homem e o universo inteiro em seu alcance.
Os guias caíram de joelhos, descobriram a cabeça e rezaram à Virgem em tons baixos.
Maximilian tomou Valentine pela mão.
"Vamos", disse ele, "vamos até ele!"
A Sra. Morrel tremeu levemente, mas respondeu com firmeza:
"Estou pronta!"
Então, de mãos dadas, lenta e cautelosamente, sem saber o que poderia acontecer, avançaram em direção ao maníaco do Coliseu.
CAPÍTULO XVII.
A HISTÓRIA DE PEPPINO.
Na hora marcada, da qual fora devidamente notificado pelo Procureur de la République, o Conde de Monte-Cristo entrou na sala reservada ao uso do Juge d'Instruction no posto policial onde Peppino e Beppo estavam confinados. O magistrado já se encontrava no banco judicial e, a seu lado, estava o Deputy Procureur, que lhe explicava os desejos de seu superior. Ao entrar, Monte-Cristo curvou-se diante do Juge e do Deputy, que retribuíram sua saudação com todo o respeito devido a tão exaltado personagem.
"Messieurs", disse o Conde, após esta troca de gentilezas, "vocês estão, naturalmente, cientes do motivo da minha presença aqui esta tarde, portanto podemos tratar dos negócios imediatamente, mas antes que os italianos sejam trazidos, tenho um pequeno favor a pedir."
"Diga-o, M. le Comte", disse o Juge d'Instruction, afavelmente. "Ficaremos felizes em concedê-lo se estiver ao nosso alcance."
"Bem, messieurs", disse o Conde de Monte-Cristo, subindo na plataforma e debruçando-se sobre a escrivaninha do Juge, "é simplesmente isto. O prisioneiro que se intitula Peppino está na posse de certos detalhes aos quais atribuo considerável importância. Ele prometeu revelar-mos como preço de sua liberdade e a de seu companheiro. Escusado será dizer que o único motivo da minha interferência neste assunto é obter esses detalhes. Ora, por longa experiência, conheço toda a astúcia e traição da natureza italiana. Uma vez livre, este homem poderia estalar os dedos na minha cara e recusar-se a falar. Após as formalidades da lei terem sido devidamente cumpridas, desejo que os prisioneiros sejam reconduzidos às suas celas e informados de que a sua libertação só ocorrerá quando Peppino me tiver dado as informações prometidas."
"Isso será apenas uma pequena extensão da minha autoridade", respondeu o Juge d'Instruction, sorrindo, "se é que é alguma extensão, pois, conforme entendo o caso, os prisioneiros devem permanecer virtualmente sob sua custódia até sua partida da França, para a qual você deu sua palavra ao Procureur de la République. Portanto, o favor que pede será alegremente concedido."
Ao concluir, o Juge d'Instruction olhou para o Deputy Procureur, que assentiu.
O magistrado tocou uma campainha que estava em sua mesa e disse ao gardien de la paix que atendeu ao chamado:
"Traga os prisioneiros."
Monte-Cristo e o Deputy retiraram-se da plataforma, sentando-se em um par de fauteuils colocados em uma mesa imediatamente à frente da escrivaninha do Juge.
Assim que os dois italianos foram trazidos, Peppino olhou primeiro para o magistrado no banco e depois para o Deputy. Finalmente, seus olhos pousaram no Conde, e seu semblante iluminou-se instantaneamente; ele sentiu instintivamente que a misteriosa influência de Monte-Cristo tinha sido tão potente com as autoridades de Paris quanto com Luigi Vampa e seu bando, que o homem maravilhoso tinha conseguido efetivar a libertação dele e de Beppo.
"Coloque os prisioneiros no banco dos réus", disse o Juge d'Instruction, dirigindo-se ao gardien.
Esta ordem foi instantaneamente cumprida e os dois italianos ficaram de frente para o magistrado.
"Removam os chapéus."
Os prisioneiros obedeceram, Peppino com um sorriso confiante, Beppo com um olhar carrancudo.
"Prisioneiros", disse o Juge d'Instruction severamente, "vocês são acusados do crime de furtar carteiras em via pública. O que têm a dizer?"
Este começo formal e bastante ameaçador foi tanto uma surpresa quanto uma decepção para Peppino. Ele olhou interrogativamente para Monte-Cristo, mas nada pôde ler em seu rosto pálido e belo; então, com um cenho carregado, respondeu ao Juge, em tom áspero e desafiador:
"Não sou culpado!"
O magistrado olhou para Beppo, que, por sua vez, repetiu as palavras de seu companheiro.
Neste momento, o Deputy Procureur levantou-se e disse ao Juge d'Instruction, com voz clara e plena:
"Se lhe apraz, honrado Juge, como representante do Procureur de la République, desejo declarar que não é minha intenção levar adiante a acusação contra os prisioneiros no banco dos réus. Para este procedimento, tenho uma razão boa e suficiente. Portanto, na minha capacidade oficial, exijo que as pessoas que se intitulam Peppino e Beppo sejam liberadas."
Esta exigência foi outra surpresa para Peppino, mas ele instantaneamente adivinhou que Monte-Cristo contava muito nisso e olhou para ele com um ar de gratidão. Beppo estava absolutamente pasmo, pois não conseguia entender a virada súbita e favorável da situação.
O Juge d'Instruction, em conformidade com a forma prescrita pela lei, disse ao Deputy:
"Posso perguntar ao digno representante do Procureur de la République quais são as suas razões boas e suficientes?"
"Certamente, honrado Juge", respondeu o funcionário. "Sua Excelência, o Conde de Monte-Cristo, aqui presente, firmou um pacto com o Procureur, comprometendo-se, no caso de liberação dos prisioneiros, a induzi-los a deixar a França imediatamente."
Nisto, Monte-Cristo levantou-se e, de frente para o banco judicial, disse, daquela maneira impressionante que sempre marcava seus discursos públicos:
"Honrado Juge, o que o Deputy Procureur acabou de dizer é perfeitamente verdadeiro em todos os aspectos. No caso da liberação dos prisioneiros, comprometo-me perante seu superior hierárquico a garantir que eles retornem à Itália sem demora."
O Deputy e o Conde retomaram seus assentos. O Juge d'Instruction pareceu pensar por um momento; então disse:
"Meu dever nas premissas é claro. Nenhuma prova é apresentada contra os prisioneiros e a declaração oficial e a exigência do Procureur de la République, expressas através de seu digno e estimado representante, excluem a necessidade de um interrogatório formal dos acusados. Portanto, vou liberá-los, sujeitos, no entanto, ao controle de Sua Excelência, o Conde de Monte-Cristo. Prisioneiros", acrescentou ele, dirigindo-se a Peppino e Beppo, "eu os reconduzo às suas celas, sendo que a libertação ocorrerá no momento em que Sua Excelência, o Conde de Monte-Cristo, determinar."
Ele retomou seu assento no banco judicial, sinalizando ao gardien para remover os prisioneiros.
Dez minutos depois, Monte-Cristo estava na cela de Peppino. O italiano estava radiante de alegria e muito efusivo na expressão de seus agradecimentos ao seu poderoso e misterioso benfeitor.
O Conde agitou a mão impacientemente.
"Uma trégua nos agradecimentos", disse ele. "O tempo urge, e quanto mais cedo você me der os detalhes da conspiração contra o Visconde Massetti, mais cedo você e seu companheiro estarão livres."
Peppino jogou-se parcialmente sobre sua cama e Monte-Cristo sentou-se em um banco bambo, seu semblante, geralmente impassível, mostrando claramente o interesse absorvente que sentia pelo que viria a seguir.
O italiano pigarreou e começou.
"Signor Conde", disse ele, "em primeiro lugar, devo dizer-lhe que o jovem Massetti foi deserdado e renegado por seu pai, orgulhoso e severo, que acredita que ele seja um dos mais culpados e depravados canalhas da terra!"
Monte-Cristo deu um sobressalto; seu rosto ficou um tom mais pálido do que era habitual, mas ele nada disse; aguardava ansiosamente por desenvolvimentos posteriores.
"Isso não é tudo, no entanto", continuou Peppino, após uma ligeira pausa para notar o efeito de sua comunicação sobre seu interlocutor, "nem é o pior! O infeliz Visconde, ao ser ignominiosamente expulso do Palazzo Massetti pelas ordens do velho Conde, perdeu imediatamente os sentidos; ele é agora um maníaco furioso!"
"Mon Dieu! Mon Dieu!", exclamou Monte-Cristo, saltando de seu assento e caminhando pela cela, presa de uma intensa agitação que não se esforçou por controlar. "Um maníaco furioso! Giovanni um maníaco furioso! Oh! minha filha, minha filha!"
"Tudo o que digo é a verdade", retomou o italiano. "Como espero pelo Céu, eu o juro!"
"Mas o que aconteceu com Massetti? Onde ele está?", exigiu o Conde, parando abruptamente em sua caminhada. "Ele foi enviado para algum asilo?"
"Ele é um pária e um errante", respondeu Peppino. "Toda Roma o repele, evita-o como se evita uma peste. Quando deixei a Itália, ele havia buscado refúgio em meio às ruínas do Coliseu, onde era o terror tanto dos visitantes quanto dos guias supersticiosos. Vi-o lá com meus próprios olhos no dia anterior à minha partida. Ele estava em trapos, carregava um cajado alto, usava uma coroa de folhas de hera e passava o tempo amaldiçoando a Deus e aos homens. Dizem que ele nunca deixa as ruínas, salvo para mendigar uns poucos restos com os quais subsiste, e que dorme à noite nas profundezas de um escuro vomitarium em companhia de morcegos, aranhas e outras coisas imundas."
"Isto é inacreditável!", gritou Monte-Cristo, olhando penetrantemente para seu companheiro e quase suspeitando que ele estivesse recorrendo à sua vívida imaginação italiana para alguns de seus detalhes gráficos.
"Mas é verdade, Signor Conde", protestou Peppino, seriamente; "cada palavra é verdadeira!"
"Continue", disse Monte-Cristo, roucamente, sentando-se novamente no banco. "Conte-me sobre a conspiração."
"Já vou chegar lá, Signor Conde", disse o antigo bandido, assumindo uma postura sentada na beira da cama. "Você sabe, é claro, que a causa de todo o problema do Visconde Massetti foi uma bela jovem camponesa chamada Annunziata Solara?"
"Ouvi dizer que foi por causa de uma mulher, mas isso não importa; prossiga."
"Esta moça vendia flores na Piazza del Popolo e no Corso; lá, ela atraiu a atenção de Massetti e do seu filho Esperance."
"Esperance!", exclamou Monte-Cristo, com as mãos movendo-se nervosamente. "Oh! mon Dieu! a luz está começando a surgir!"
Peppino sorriu de forma tranquilizadora.
"Não tenha medo, Signor Conde", disse ele; "em todos os acontecimentos infelizes que levaram o pobre Visconde à suspeita, seu filho teve um papel tão nobre quanto honroso; você tem abundantes razões para se orgulhar dele!"
Monte-Cristo soltou um suspiro de alívio.
"Você pode provar isso?"
"Posso. Luigi Vampa e todo o seu bando sabem que seu filho é inteiramente inocente no que diz respeito à vendedora de flores e assim se expressarão. Mesmo o velho Solara, canalha endurecido e desprezível que é, não tentará incriminá-lo. Esteja seguro de que a prova da inocência de seu filho é ampla."
"Luigi Vampa já me escreveu que nenhuma culpa recai sobre Esperance, mas preciso de provas mais confiáveis do que a carta ou mesmo o juramento de um notório bandido."
"Tais provas podem ser obtidas sem muita dificuldade. A própria moça infeliz, que agora está no Refúgio em Civita Vecchia, o exculpará."
"Mas os detalhes da trama, os detalhes da trama!"
"Bem, o Visconde soube por Annunziata que ela morava no campo além do Trastavere e, naquela noite, saiu para encontrá-la. Seu filho, que sabia o objetivo dele, seguiu-o para protegê-lo contra os bandidos. Massetti foi detido por um dos homens de Vampa, que o feriu na luta que se seguiu, com seu filho aparecendo a tempo de matar o bandido e resgatar seu amigo. Pouco tempo depois, eles encontraram um grande número do bando de Vampa e escaparam por pouco de serem enforcados nas árvores mais próximas em vingança pela morte do homem morto pelo seu filho. Eles foram libertados pelo próprio Vampa assim que ele soube que Esperance era seu filho, tendo Massetti revelado tanto sua própria identidade quanto a de seu companheiro. Os jovens, ao que parece, tinham decidido retornar a Roma imediatamente após o Visconde receber seu ferimento, mas Massetti ficou fraco pela dor e pela perda de sangue, e resolveu-se buscar abrigo. Um camponês apareceu neste momento e, após alguma hesitação, concordou em conduzi-los à cabana de seu pai, onde poderiam passar a noite. Ele cumpriu sua palavra. Para ser breve, os jovens, que estavam disfarçados de camponeses, logo se encontraram na cabana de Pasquale Solara e na presença da própria e bela Annunziata."
Peppino pausou por um instante e depois continuou:
"Estes detalhes preliminares, Signor Conde, são necessários para permitir-lhe entender a conspiração que seria rapidamente urdida. O camponês, que tinha conduzido Massetti e seu filho ao próprio local que o primeiro deixara Roma para procurar, era irmão de Annunziata. O velho Pasquale Solara estava ausente de casa no momento da chegada dos estranhos, mas retornou pouco depois. Não tenho dúvidas de que ele há muito estava mancomunado com Luigi Vampa e agia secretamente como seu agente e confederado. De qualquer forma, quando chegou, ele estava bem ciente de que os jovens estavam em sua cabana e também estava completamente informado quanto à identidade deles, embora, com sua astúcia habitual, escondesse ambos os fatos, fingindo surpresa e insatisfação quando seus filhos anunciaram que tinham hóspedes. Secretamente, ele estava radiante, pois a presença do jovem Massetti dava-lhe uma oportunidade de, ao mesmo tempo, vingar-se de forma fulminante do velho Conde, a quem ele odiava amargamente há muito tempo, e desviar o estigma esmagador de um ato diabólico que ele meditava de si mesmo para o nome e a fama de outro."
"Você quer afirmar que este velho miserável tinha planos vis contra sua própria filha?", disse o Conde, seu semblante expressando todo o horror que sentia.
"Exatamente", respondeu Peppino, friamente. "O velho Solara, avarento miserável que é, tinha, por uma quantia muito grande do ouro que ele tanto cobiçava, vendido sua própria filha, sua bela Annunziata, ao chefe de bandidos Luigi Vampa!"
"O demônio de coração negro!", exclamou Monte-Cristo. "Ele é indigno do nome de homem! Em Paris, a população indignada o esmagaria até a morte sob seus pés!"
"Portanto, como você vê", retomou o italiano, "a chegada de Massetti foi oportuna, e Pasquale Solara, depois de ter visto que o Visconde estava seguramente alojado sob o teto de sua cabana, apressou-se a voltar para Luigi Vampa e juntos eles montaram a trama sórdida que teve sucesso por demais. Uma peça de vilania mais astuciosamente arquitetada e completamente oculta jamais manchou os anais do mundo civilizado!"
CAPÍTULO XVIII.
MAIS DA HISTÓRIA DE PEPPINO.
Monte-Cristo estava horrorizado com o que tinha ouvido. Toda a sua alma revoltava-se com a ideia de um pai que poderia deliberadamente e a sangue frio vender sua filha, com a ideia de um miserável que, com igual deliberação, poderia lançar a culpa de uma vilania cometida por si mesmo sobre um homem inocente. Parecera muito estranho ao Conde, na época em que Luigi Vampa lhe escrevera, que o chefe dos bandidos estivesse tão bem informado a respeito da inocência de Esperance e da culpa do Visconde Massetti, mas, à luz das revelações espantosas feitas por Peppino, tornou-se abundantemente claro que Vampa, no caso do jovem italiano, fora movido pelo motivo mais forte possível, a saber, o desejo de proteger a si mesmo, e que, para fazê-lo eficazmente, não recuara diante da mentira mais vil e completa. É claro que Vampa não queria incriminar Esperance por causa do pacto antigo, as relações que tinham subsistido entre ele e Monte-Cristo no passado; isso era igualmente claro; além disso, uma vítima era suficiente, e ao selecionar Massetti como essa vítima, o chefe dos bandidos tinha evidentemente agido por instigação do velho Pasquale Solara.
Peppino prosseguiu com suas revelações.
"Signor Conde", disse ele, "eu suspeitava há muito tempo que algo estava sendo tramado entre Vampa e o velho Solara. O pastor, mal-humorado e taciturno, não vinha a princípio ao covil dos bandidos, mas, em resposta a um sinal que ele usava, um assobio vibrante peculiar, o chefe saía sozinho e encontrava-o. Este sinal e as ações de Vampa despertaram minha curiosidade; mais de uma vez segui o chefe e, escondido seguramente atrás de uma árvore ou de uma rocha, presenciei os encontros secretos, ouvindo partes da conversa. Annunziata Solara era mencionada frequentemente, e o pai parecia estar se esforçando para fazer um negócio duro com Vampa. Finalmente, uma noite, chegaram a um entendimento. Ouvi o chefe concordar em pagar ao velho Pasquale uma quantia enorme de dinheiro após a entrega de Annunziata em suas mãos, e então percebi que a venda nefasta tinha sido concluída. Decidiu-se que a moça fadada à desgraça deveria ser entregue a Vampa na primeira oportunidade, e essa oportunidade surgiu quando o Visconde Massetti e seu filho Esperance estavam domiciliados na cabana isolada na floresta.
"Eu estava atento e, quando, após certificar-se da chegada dos dois jovens em sua cabana, o velho Pasquale procurou o esconderijo dos bandidos e soou seu sinal vibrante, eu o ouvi. Seguindo furtivamente Vampa, escondi-me como tinha feito em ocasiões anteriores. Eu estava agora completamente familiarizado com os detalhes da transação vil em progresso entre o par precioso e podia facilmente compreender até mesmo suas alusões mais obscuras e guardadas. O velho Solara informou ao chefe que os jovens tinham chegado, propondo que Vampa sequestrasse Annunziata no momento mais oportuno possível, arranjando as coisas de modo que a suspeita caísse sobre o Visconde Massetti. O chefe concordou em fazê-lo. O pastor deveria mantê-lo informado, e o sequestro deveria ocorrer quando as circunstâncias fossem mais calculadas para promover o sucesso de todas as fases da trama vilanesca. Com este entendimento, os conspiradores se separaram.
"O destino ficou do lado do velho Pasquale e de Vampa. Seu ferimento manteve o Visconde na cabana e a bela Annunziata cuidou dele. Ele tinha ficado fascinado com a beleza dela no dia em que a conheceu na Piazza del Popolo. A associação íntima com ela intensificou sua influência sobre ele, e quando ele estava na cabana há quase uma semana e a convalescença tinha começado, ele fez amor violentamente com ela, indo até ao ponto de pedir-lhe que fugisse com ele. Esperance adivinhou as intenções de seu amigo e, sabendo que Massetti não poderia casar-se com a moça, interveio para salvá-la. O resultado foi uma briga e seu filho desafiou o Visconde a lutar com ele. O desafio foi instantaneamente aceito e foi arranjado que o duelo ocorreria na manhã seguinte.
"Fiel à sua promessa a Vampa, o velho Solara, enquanto fingia estar ausente de casa, espreitava nas proximidades e mantinha controle de tudo o que estava acontecendo. Ele estava escondido sob a janela aberta quando Massetti ou Tonio, como ele se chamava, pois tanto o Visconde quanto Esperance estavam passando sob nomes assumidos, propôs a fuga à sua filha. Instantaneamente, ele apressou-se para o chefe dos bandidos, que estava rondando nas vizinhanças da cabana o dia todo, e comunicou-lhe alegremente o que tinha ouvido. Foi imediatamente decidido que a hora do sequestro tinha chegado e preparações foram feitas para levar Annunziata naquela mesma noite. Vampa escreveu uma carta incriminadora para a moça, alegando vir de Massetti, e o velho Solara, esgueirando-se despercebido para a cabana, colocou-a sob a caixa de costura de sua filha, sobre sua mesa, onde ela a encontrou posteriormente. Não se supôs por um momento que a moça consentiria em fugir com o Visconde, pois, embora alegre e despreocupada, ela era pura e inocente; o bilhete destinava-se simplesmente a preencher a mente de Annunziata, após o sequestro, com a ideia de que Massetti era seu raptor."
"Que vilania astuta e clarividente!", murmurou Monte-Cristo, entre os dentes.
"Naquela noite não havia lua", continuou Peppino, "e, depois que todos os ocupantes da cabana se retiraram para descansar, o velho Pasquale esperou do lado de fora com uma tocha enquanto Vampa se dirigia ao quarto de Annunziata, arrancava-a de seu leito e a levava para a floresta, impedindo-a de dar o alarme ao colocar a mão sobre sua boca. Ele estava mascarado e o pastor manteve-se a tal distância que era absolutamente impossível para sua filha reconhecê-lo. Enquanto Vampa corria pela floresta com seu fardo, ele bateu o braço contra uma árvore e a dor fez com que tirasse por um segundo a mão da boca de Annunziata. A pobre moça aproveitou a oportunidade para gritar e seu clamor trouxe primeiro seu irmão, depois o Visconde e então Esperance em seu auxílio.
"O irmão, ao alcançar Vampa, atacou-o ferozmente. Soltando a moça, que permanecia paralisada no lugar, o chefe sacou uma pistola e disparou contra seu agressor. Este foi atingido e cambaleou para trás, com o sangue jorrando de seu ferimento. De alguma forma, durante a luta, Vampa foi desmascarado e, na obscuridade predominante, Annunziata naturalmente imaginou que o rosto subitamente descoberto e tão rapidamente mascarado novamente era o de seu pretendente, o chamado Tonio. Tendo se livrado do irmão, que depois correu de volta para a cabana, encontrou Esperance, lançou-se em seus braços e então caiu ao solo, onde morreu, o chefe dos bandidos agarrou Annunziata, que entretanto desmaiara, e retomou sua fuga pela floresta. Ouvindo o som de uma perseguição mais próxima, Vampa parou consternado e escutou. Três pessoas pareciam estar se aproximando rapidamente. O chefe então escondeu a moça inconsciente atrás de um enorme fragmento de rocha e jogou-se no chão, esperando assim escapar da observação. Ao fazê-lo, viu o brilho da tocha do velho Solara. Ela iluminou em cheio o rosto de um camponês, um completo estranho, que ouvira o grito de Annunziata e viera em seu socorro. O pastor tinha uma faca em uma das mãos; ele instantaneamente lançou longe sua tocha e envolveu-se em conflito desesperado com o recém-chegado. Nesse momento, o Visconde surgiu na cena, movendo-se como se fosse tomar o partido do estranho. Vampa saltou, agarrou-o pela garganta e, sob a ameaça de morte imediata caso se recusasse, forçou-o a prestar um juramento de silêncio com relação aos eventos daquela noite. Massetti estava tão atordoado que mal sabia o que estava fazendo. Não tardou para que, após prestar o juramento, Vampa traiçoeiramente lhe desferisse um golpe esmagador que o fez cambalear até o chão, onde permaneceu imóvel e inconsciente. Então o chefe atirou-se novamente ao solo, levantando-se mais uma vez para enfrentar Esperance. Este apontou-lhe uma pistola, mas ele a arrancou de sua mão. Então o jovem golpeou-o ferozmente, mas Vampa esquivou-se do golpe e seu adversário caiu para frente, pelo seu próprio impulso, sobre uma espessa camada de musgo ao lado da forma prostrada de Massetti. Aproveitando prontamente a oportunidade, o chefe apoderou-se da ainda inconsciente Annunziata e, desta vez, conseguiu carregá-la em triunfo para uma cabana que havia preparado para sua recepção."
Peppino então prosseguiu relatando o que o leitor já aprendera pelo relato lamentável de Annunziata a Mme. de Rancogne no Refúgio em Civita Vecchia. Quando terminou, ele olhou para seu interlocutor e disse:
"Está satisfeito, Senhor Conde?"
"Estou", respondeu Monte-Cristo, com uma voz rouca que soava estranhamente diferente da sua. "Você conquistou plenamente a liberdade para si e para seu companheiro Beppo. O relato de negra iniquidade que tão vividamente me contou poderia parecer improvável a outros ouvidos, mas para mim traz o selo da verdade. Um ponto, contudo, é obscuro. Não consigo imaginar de que maneira você aprendeu os detalhes de certos eventos em sua narrativa, eventos que você não poderia ter presenciado com seus próprios olhos. Esclareça-me sobre este ponto."
"Com prazer", respondeu Peppino, sem a menor hesitação. "Aprendi os detalhes de que fala em parte pelo próprio Vampa e em parte pelo velho Solara. Os dois compararam notas depois que este último aderiu abertamente aos bandidos, e tomei o devido cuidado de ouvir a conversa deles."
Monte-Cristo levantara-se e agora caminhava pela cela por vários momentos, mergulhado em profundos pensamentos. Sua fronte estava nublada e sombria, mas seus olhos brilhavam ferozmente e suas mãos estavam cerradas tão fortemente que suas unhas deixavam marcas vermelhas em sua carne. O italiano, ainda sentado na beira de sua cama, observava-o atentamente, não sabendo o que pensar de sua preocupação e agitado por um vago medo de que pudesse recusar-se a cumprir sua promessa. Por fim, Monte-Cristo pareceu ter resolvido o problema espinhoso que o desconcertava e ter chegado a uma decisão. Ele veio à frente do italiano, parou e, olhando fixamente para ele, disse:
"Meu caro, eu, como sabe, obtive a liberdade para você e para Beppo, dando minha palavra ao Procureur de la République de que ambos deixarão o país imediatamente. Da sua parte, você fez o que combinamos e agora estou prestes a executar minha parte do trato."
O semblante de Peppino assumiu uma expressão de extremo deleite. Todos os seus receios desapareceram instantaneamente.
"Agora", continuou Monte-Cristo, de forma impressionante, "tenho uma proposta a lhe fazer. Você pode ser extremamente útil para mim, se desejar, e ao mesmo tempo adquirir uma grande soma de dinheiro honesta e honradamente."
Os olhos do italiano brilharam de prazer.
"Diga sua proposta, Senhor Conde", disse ele, entusiasticamente. "Aceito-a de antemão. Mas Beppo está incluído nela?"
"Está", respondeu o Conde. "As revelações que você me fez decidiram-me a ir a Roma imediatamente. Levarei minha filha comigo, bem como meu servo núbio Ali. Desejo que você e Beppo entrem em meu serviço e me acompanhem. A humanidade exige que eu use toda a minha influência para fazer justiça ao infeliz Visconde Massetti, e quero que você me ajude no trabalho."
"Farei como deseja, Senhor Conde", disse o italiano, "e prometo que Beppo também atenderá aos seus desejos."
"Muito bem", replicou Monte-Cristo. "Está entendido e acordado. Uma condição, contudo, devo exigir. Você e Beppo não devem manter nenhuma comunicação com Luigi Vampa ou qualquer de seu bando, pelo menos não até que eu assim o determine."
"A condição será escrupulosamente observada, Senhor Conde. Enquanto estivermos a seu serviço, suas ordens serão nossa única lei."
"É o suficiente. Agora, vou colocá-los, você e Beppo, em liberdade. Vocês me acompanharão imediatamente à minha residência e lá os preparativos para nossa partida serão feitos imediatamente. Partiremos para Roma amanhã."
"Como Vossa Excelência desejar", disse o italiano.
Monte-Cristo convocou o guardien de serviço no posto, ordenando-lhe que trouxesse Beppo, e logo o Conde e os italianos estavam sentados na carruagem deste último e sendo levados rapidamente por Ali em direção à mansão na Rue du Helder.
Assim que chegaram ao seu destino, o Conde, entregando as novas adições ao seu séquito aos cuidados do fiel núbio, retirou-se para seu escritório, convocando Zuleika. A moça apressou-se a obedecer à convocação, e a visão do semblante pálido e severo de seu pai instantaneamente lhe disse que algo muito incomum e importante ocorrera.
"Minha filha", disse o Conde, tomando-a ternamente em seus braços e olhando com carinho para seu rosto ansioso e voltado para cima, "recebi hoje algumas notícias muito surpreendentes."
O coração de Zuleika bateu descompassado com esse anúncio; ela sentiu-se convencida de que as notícias surpreendentes diziam respeito ao seu infeliz e longamente silencioso amante.
"Pai", disse ela, com voz trêmula, "recebeu notícias do Visconde Massetti?"
"Não, minha filha", respondeu Monte-Cristo; "mas notícias da mais grave natureza relacionadas a ele me foram transmitidas."
"Notícias da mais grave natureza, pai! É possível que ele esteja morto?"
Ao proferir as últimas palavras, a pobre moça desfez-se em lágrimas.
"Não, minha filha", respondeu o Conde. "O jovem Massetti não está morto."
"Ele conseguiu limpar-se daquela terrível acusação?", perguntou a moça, tremendo de ansiedade.
"Infelizmente, não! Mas ele é inocente, Zuleika, tão inocente do crime horrível que lhe é imputado quanto uma criança por nascer! Disso você pode estar certa, pois a prova de sua inocência está em minhas mãos!"
Zuleika deu um grito selvagem de alegria e lançou os braços ao redor do pescoço de seu pai.
"Acalme-se, minha filha", retomou Monte-Cristo; "tudo terminará bem. Parto para Roma amanhã com Ali e dois amigos de Giovanni. Esteja pronta para me acompanhar!"
O êxtase de Zuleika estava quase além de qualquer limite; mas, infelizmente, ela não sabia que a mente de Giovanni fora destruída pela vergonha e pela desgraça que haviam sido acumuladas sobre ele!
CAPÍTULO XIX.
O MANÍACO DO COLISEU.
Após deixarem seus guias no Coliseu, Maximilian e Valentine avançaram em direção ao centro da arena gladiatória, onde o demente Giovanni Massetti estava de pé. Ele não os notou, não pareceu prestar a menor atenção aos seus arredores, mas manteve os olhos voltados para o céu, com o murmúrio de amargas maldições saindo constantemente de seus lábios. À medida que o Sr. e a Sra. Morrel se aproximavam, suas palavras tornavam-se mais claras e claras, e eles não tiveram dificuldade alguma em compreender plenamente seu terrível significado. Não era de se admirar que os guias estivessem assustados com tal torrente de maldições amargas e mordazes!
O aflito Visconde mantinha sua atitude imóvel, como uma estátua, assemelhando-se mais à estranha criação da vívida imaginação de algum escultor do que a um mortal vivo e respirante. Valentine estava cheia de tristeza indescritível ao olhá-lo e perceber que aquele destroço de uma masculinidade nobre e gloriosa era o amado do coração de Zuleika, o ser com cujo destino infeliz o da filha de Monte-Cristo estava inextricavelmente entrelaçado. Oh! que por algum milagre, como aqueles que as divindades fabulosas do antigo Olimpo diziam realizar, ele pudesse ser restaurado à razão e à posse de um nome imaculado! Mas os dias de milagres haviam acabado, e se o jovem italiano deveria ser trazido de volta à sanidade e limpo da terrível acusação contra ele que causara todo este mal, esta miséria, deveria ser por meios terrenos e ordinários. Talvez ela e seu marido estivessem destinados a realizar essas mudanças aparentemente impossíveis! Quem sabia? Muitas coisas igualmente improváveis haviam acontecido, e por que não se poderia efetuar essa transformação maravilhosa, uma transformação digna da varinha de algum poderoso Próspero? Valentine era uma amiga devotada e uma entusiasta, e a máxima de Monte-Cristo, "Esperar e Ter Esperança", era sua estrela guia. "Esperar e Ter Esperança!" Oh! quão animador, quão tranquilizador era esse lema simples e confiante!
Maximilian, por sua vez, sentia piedade inominável tanto pelo homem miserável diante dele quanto pela adorável Zuleika, a doce e terna filha de seu benfeitor, definhando e desesperando-se longe, na luxuosa casa palaciana de seu pai. A pobre moça estava cercada por todas as bênçãos que a riqueza ilimitada poderia proporcionar; ela tinha o amor do Conde, o amor de Mercedes, o amor de Esperance e o afeto sincero de todos que a conheciam; mas, infelizmente, as riquezas principescas, o amor parental, fraternal e o afeto dos amigos eram como nada comparados à paixão que estava corroendo suas entranhas, uma paixão desesperada e sem esperança que não passava de um pesado fardo de aflição! Mas seria essa paixão totalmente desesperada e sem esperança? O tempo diria!
O Sr. e a Sra. Morrel estavam agora a poucos metros do desafortunado jovem enlouquecido, mas sua atenção estava tão absorta pelos pensamentos loucos que surgiam em seu cérebro perturbado que ele ainda falhou em detectar a presença deles.
Pedindo a Valentine que permanecesse onde estava, seu marido aproximou-se de Giovanni e subitamente colocou a mão em seu ombro. O Visconde sobressaltou-se com essa interrupção inesperada de seu devaneio sombrio e apressadamente olhou para o intruso. Seus olhos, contudo, tinham um olhar vítreo e incompreensivo, expressando nem surpresa nem medo.
"Giovanni Massetti", disse Maximilian, "escute-me! Sou um amigo!"
O jovem respondeu, em uma voz baixa e discordante:
"Quem menciona Giovanni Massetti? Houve uma vez um homem que levava esse nome, mas ele está morto, morto para o mundo!"
"Eu lhe disse que sou um amigo", retomou o Sr. Morrel. "Vim para salvá-lo!"
"Um amigo! — um amigo!", gritou o maníaco, com uma explosão de riso amargo e zombeteiro que atravessou Maximilian de parte a parte como um estilete afiado e de lâmina cortante, e fez Valentine estremecer como se tivesse entrado em contato com o gelo polar. "Um amigo! — um amigo! Veio para me salvar — a mim! ha! ha! ha! Um trabalho de Hércules sem nenhum Hércules para realizá-lo! Você está louco, meu pobre rapaz! Além disso, não sou Giovanni Massetti — sou um Rei, um Imperador! Contemple meu cetro e minha coroa!"
Ele apontou para seu cajado alto e para a guirlanda de folhas de hera que circundava sua cabeça, apontou triunfantemente e com toda a dignidade de um monarca entronizado.
Era uma visão lamentável, no mais alto grau lamentável, este espetáculo de intelecto derrubado, da gloriosa luz mental da masculinidade juvenil que se tornara nublada e obscurecida.
Maximilian ficou profundamente afetado, mas, sabendo muito bem que toda a sua firmeza, resolução e recursos seriam necessários ao lidar com o homem miserável que viera de tão longe ajudar, ele controlou sua emoção e disse, em uma voz comparativamente firme:
"Giovanni Massetti, em nome da mulher que você ama, em nome de Zuleika, a filha de Monte-Cristo, eu conjuro você a se acalmar e me ouvir. Sou seu embaixador, venho até você da parte dela!"
O jovem levou a mão à testa e pareceu estar se esforçando para reunir seus sentidos dispersos.
"Zuleika? — Zuleika?", murmurou ele. "A filha de Monte-Cristo? Sim, sim, já ouvi falar dela antes — há muito tempo, no passado sombrio! Li sobre ela em algum livro de história ou nos versos de algum poeta oriental. Ela era uma Rainha! — sim, ela era uma Rainha! Bem, o que há com essa Zuleika?"
Ele permaneceu como se esperasse que algum romance árabe fosse revelado a ele, com os lábios entreabertos e um sorriso vago, triste de se ver.
Desde seu encontro com o velho Conde Massetti, a esperança de Maximilian para o sucesso de sua difícil missão fora apenas um fio muito tênue. Agora, esse fio estava esticado ao seu limite máximo, e o embaixador de Zuleika sentia que ele deveria logo romper-se e desaparecer irremediavelmente. O amor é sempre uma influência potente com o homem, mas esta pobre criatura demente parecia ter perdido até a mais tênue concepção da paixão suprema da vida, já que o nome de Zuleika, o nome de sua noiva, falhara em despertar sua memória ou tocar um acorde simpático em seu peito.
Enquanto Maximilian permanecia incerto sobre o que fazer a seguir, mas ainda relutante em abandonar o miserável Visconde à sua sorte, Valentine veio até ele e, colocando a mão em seu braço, disse:
"Meu marido, é inútil tentar mover este homem infeliz em sua condição atual; sua mente é incapaz de ação racional. Somente por meio de cuidado e influência calmante ele pode ser restaurado a si mesmo. Ele deve ser induzido a nos acompanhar a algum asilo, alguma instituição onde possa ser tratado de sua terrível enfermidade."
"Você tem razão, Valentine, como sempre tem", respondeu o Sr. Morrel. "O curso que você sugere é o único a ser tomado nesta conjuntura. Mas como Giovanni deve ser induzido a nos acompanhar? A força não pode ser empregada — não temos direito legal para usá-la — e temo muito que o Visconde não nos siga por vontade própria, não importa a que solicitações possamos recorrer."
"Confie isso a mim, Maximilian", respondeu Valentine, doce e persuasivamente. "Lembre-se do que eu disse sobre a sagacidade e a ternura de uma mulher."
"Eu me lembro, e agora, se alguma vez, é o momento para o teste de seu poder, pois eu falhei totalmente. Mas, certamente, Valentine, você não pretende arriscar lidar com este pobre homem cuja mente está reduzida ao caos e que poderia, em um súbito acesso de fúria inexplicável, fazer-lhe mal antes mesmo que eu pudesse intervir?"
"Eu certamente pretendo lidar com ele! Sou uma feiticeira, você sabe, e agora você testemunhará uma prova mais ampla e convincente da potência dos meus feitiços do que a que foi mostrada ao trazer sua esperança morta à vida!"
Maximilian não estava totalmente satisfeito com a heroica resolução de sua esposa, mas ela persistiu firmemente nela e, finalmente, ele permitiu que ela fizesse à sua maneira. Ela deixou o lado dele e aproximou-se de Giovanni, seu semblante belo ostentando um sorriso fascinante tão sedutor quanto o de uma valquíria escandinava servindo no banquete dos heróis no fabuloso Valhalla.
Os guias, que em meio às suas petições à Virgem Abençoada haviam observado constantemente os procedimentos singulares de seus patronos, ficaram ambos atônitos e horrorizados ao ver Valentine deixar seu marido e caminhar corajosamente em direção ao maníaco. Eles redobraram o fervor de suas orações e esperaram, sem fôlego, pelo que estava prestes a acontecer.
O Visconde ainda não havia observado Valentine. Quando ela chegou à frente dele e parou, ainda sorrindo, ele a viu pela primeira vez. Largando seu cajado, ele uniu as mãos e olhou para ela em um êxtase de admiração.
"Que visão bela, que visão celestial é esta?", exclamou ele, ardentemente, sua voz assumindo mais das características da humanidade do que havia demonstrado até então.
Valentine estava em silêncio; ela desejava colocar Massetti completamente sob sua influência antes de falar com ele. Imóvel e estatuariamente ela permaneceu, permitindo que o maníaco olhasse o quanto quisesse para ela.
"Quem é você, visão divina?", continuou o Visconde, parecendo pensar que era a presa de algum sonho passageiro. "Oh! você é um espírito! — uma deusa como as que, antigamente, presidiam os jogos do Coliseu! — talvez a própria Juno! Não desapareça da minha vista, não se torne uma nuvem diáfana e se dissolva no éter! Oh! fale comigo, aparição gloriosa! Deixe-me ouvir a melodia celestial de sua voz e morrer ouvindo suas cadências maravilhosas!"
Valentine, entrando na brincadeira do capricho do homem demente, disse, no tom mais sedutor que pôde assumir:
"Você adivinhou corretamente, oh mortal! Eu sou, na verdade, Juno, a Rainha das deusas do Monte Olimpo! Pelo comando direto de Júpiter, eu busquei você esta noite!"
Ela chegou mais perto dele e tomou sua mão. Ele levou a dela aos lábios e beijou-a devotadamente. Então ele olhou para seus olhos como alguém em transe. A sagacidade e a ternura da mulher haviam triunfado. O maníaco, a quem até mesmo a menção do nome de Zuleika falhara em tocar, estava completamente sob a influência da Sra. Morrel. Ela o subjugara; ela poderia fazer com ele o que desejasse.
"Um milagre! um milagre!", gritaram ambos os cicerones simultaneamente. "A Virgem Abençoada seja louvada!"
Maximilian não estava menos atônito que os guias, mas, com seu espanto, alegria e gratidão estavam misturados — alegria por Giovanni estar agora tratável, e gratidão à sua nobre e destemida esposa que efetuara a maravilhosa transformação. Ele disse a si mesmo que Valentine era, de fato, uma feiticeira, mas uma Circe moderna, que, ao contrário de seu protótipo antigo, empregava seus feitiços e fascinações para promover o bem. Ele olhou para Valentine, com um sorriso de encorajamento e aprovação, esperando ansiosamente pelo próximo passo que ela deveria dar, pela próxima tentativa audaciosa que deveria empreender.
Giovanni não fez resposta ao discurso fantástico de Valentine e, após preservar o silêncio por um instante, ela retomou:
"Estou aqui para o seu bem-estar, para ajudá-lo em suas infortúnios esmagadores!"
"Ah! sim; eu tenho infortúnios, mas eu os havia esquecido", disse o jovem, pensativo.
"Fui enviada para livrá-lo deles", continuou Valentine. Então, lançando em sua voz sua qualidade mais persuasiva, ela acrescentou, fixando um olhar magnético no Visconde: "Minha missão é tomar conta de você, ver que você seja restaurado à saúde e à felicidade. Venha comigo!"
"Seguirei você, doce visão, até o fim do mundo!", disse Giovanni, entusiasticamente.
Valentine acenou apressadamente para seu marido; ele correu até ela e ela sussurrou em seu ouvido:
"Envie um dos guias para um cupê. Não devemos perder um único momento. O pobre Massetti me seguirá como um cão segue seu dono! Enquanto ele estiver sob minha influência, é imperativo que seja levado para um asilo onde possa ser bem cuidado e, se possível, curado. Sem dúvida os guias podem lhe dizer de tal instituição. Use a maior presteza, Maximilian!"
O jovem soldado não precisou de repetição dessas injunções sábias e humanitárias. Ele deu as direções necessárias e logo o veículo desejado estava pronto fora do Coliseu. Maximilian também havia averiguado o endereço de uma instituição de cura apropriada.
Enquanto isso, Valentine continuava a empregar suas táticas bem-sucedidas com o Visconde, que a cada momento cedia a ela mais e mais. Quando o cupê foi anunciado, ela lhe disse:
"Minha carruagem aguarda para levá-lo à minha morada olímpica. Virá comigo?"
"Seus desejos são minhas leis, oh! bela deusa!" respondeu Giovanni. "Leve-me para onde quiser, contanto que não me abandone e me deixe perecer no desespero!"
Mme. Morrel conduziu o jovem, que não ofereceu resistência, até o cupê, com Maximilian e os guias seguindo o par a uma curta distância para evitar qualquer impulso imprevisto por parte do pobre Massetti. Não houve necessidade de seus serviços, porém, e o Visconde foi logo instalado em segurança no cupê, com Valentine de um lado e seu marido do outro.
Após um breve trajeto, durante o qual Giovanni, que parecia ter perdido toda a compreensão da presença de qualquer pessoa além de Valentine, permaneceu olhando-a silenciosamente, o veículo parou em frente ao hospício.
Massetti foi induzido a entrar na instituição sem a menor dificuldade. Maximilian então tomou todas as providências necessárias, e o jovem foi colocado em acomodações confortáveis. O médico que o examinou afirmou que seu caso não estava além de qualquer esperança.
CAPÍTULO XX.
A ILHA DE MONTE-CRISTO.
No momento aprazado, o Conde de Monte-Cristo e Zuleika, acompanhados por Ali, Peppino e Beppo, os dois italianos trajados com as vestes de viagem de criados franceses, deixaram Paris rumo a Marselha. Ao chegarem a esta última cidade, dirigiram-se imediatamente ao porto, onde o iate de Monte-Cristo os aguardava, em obediência às instruções telegrafadas pelo Conde ao capitão da embarcação, cujo nome era Vincenzo, e que era filho de Jacopo, o antigo contrabandista, que por muito tempo comandou o malfadado Alcyon, perdido na terrível tempestade e distúrbio vulcânico no Mediterrâneo alguns anos antes. O iate atual era uma embarcação nova e soberba, tão veloz e bela quanto um pássaro. Estava equipado da maneira mais completa; a cabine, soberbamente acarpetada e mobiliada, era forrada com tapeçarias elaboradas e dispendiosas, enquanto aqui e ali, nas paredes, encontravam-se curiosamente dispostos grupos de antigas armas bárbaras, colhidas no sítio da antiga Cartago, nas ruínas da histórica Babilônia e até mesmo nos túmulos em ruínas daqueles temíveis guerreiros que, lá atrás, nos tempos remotos da antiguidade, haviam defendido o distante Catai contra as incursões das ferozes hordas tártaras. O iate chamava-se Haydee, em honra à amorosa e devotada escrava grega, mãe de Esperance e Zuleika, que desempenhara um papel tão importante na vida de Monte-Cristo e deixara para trás memórias tão ternas.
Assim que o Conde e seu pequeno grupo estavam a salvo a bordo da embarcação, esta partiu, deslizando velozmente sobre a ampla e cintilante extensão de água. Monte-Cristo e Zuleika permaneciam no convés, conversando agradavelmente e apreciando o panorama em constante mudança que se apresentava ao seu olhar. O Haydee deslizou rapidamente pela Île Ratonneau, conspícua devido ao seu altivo farol; depois veio a Pointe des Catalans, com sua praia onde Mercedes outrora habitara e onde o infeliz marinheiro Dantès vira a luz na janela de seu quarto naquela noite memorável em que estava sendo conduzido ao cativeiro. Por fim, uma rocha negra e ameaçadora ergueu-se diante deles, encimada por uma fortaleza sombria. Ao avistar esse rochedo lúgubre, Monte-Cristo franziu as sobrancelhas e, por entre os dentes cerrados, murmurou uma imprecação contra a tirania dos homens.
"O que é que tanto o comove, pai?" perguntou Zuleika, com voz suave, olhando solícita para o rosto dele.
"Olhe lá, minha filha", respondeu o Conde, com forte emoção; "a fortaleza sobre aquela rocha é o maldito Château d'If!"
Zuleika lançou um olhar à fortaleza com um sentimento de terror e pavor. Ela conhecia a história do longo encarceramento de seu pai e do intenso sofrimento na masmorra escura daquela construção proibitiva, de seus encontros com o Abade Faria ali e de sua posterior e audaciosa fuga; mas não sabia nada do que ocorrera entre o Abade e o marinheiro Dantès em relação ao famoso tesouro escondido pelo Cardeal Spada nas grutas da Ilha de Monte-Cristo, o tesouro que, desviado do alcance do Papa Alexandre VI, tornara o Conde enormemente rico. Sobre este tópico, seu pai nunca julgara adequado esclarecê-la. A visão do Château d'If a fez estremecer e empalidecer, embora, ao mesmo tempo, a fascinasse e a prendesse. Ela se agarrou a Monte-Cristo e disse, trêmula:
"Oh! Que lugar terrível é este! Meu coração gela com seu aspecto lúgubre!"
"Lúgubre como parece daqui, minha filha", retrucou o Conde, "é mil vezes mais lá dentro! É a morada escolhida da melancolia e do desespero!"
Ele afastou gentilmente a filha e entregou-se a um profundo devaneio no qual permaneceu mergulhado por alguns momentos. Todos os detalhes de seu encarceramento e as surpreendentes aventuras que o sucederam passaram por sua mente em rápida revisão, e um desejo ardente e irresistível de revisitar o local onde desenterrara os milhões de Spada apoderou-se dele inteiramente. De repente, ele disse ao Capitão Vincenzo:
"Rumo à Ilha de Monte-Cristo!"
"Sim, senhor Conde", respondeu o Capitão, e as ordens necessárias foram imediatamente dadas. O Haydee, obedecendo prontamente ao leme, girou rápida e graciosamente, partindo instantaneamente na direção da famosa ilha.
Zuleika, ao ouvir o comando do pai, lançou-lhe um olhar de espanto e ansiedade. Ela esperava que seguissem diretamente para a Itália, e essa mudança no curso do iate pressagiava outro programa.
"Minha filha", disse o Conde, adivinhando seus pensamentos, "proponho-me a parar na Ilha de Monte-Cristo apenas algumas horas; o atraso não será importante, especialmente porque podemos compensar o tempo perdido forçando as velas, e desejo mostrar-lhe alguns locais intimamente ligados à minha história que a interessarão."
"Ficarei encantada em visitar a Ilha de Monte-Cristo, pai", respondeu Zuleika. "Ouvi tanto a respeito dela e de suas maravilhas. O senhor possui uma mansão lá, não é?"
O Conde sorriu ao responder:
"Não exatamente uma mansão, Zuleika, mas algo que poderia servir como um substituto para uma, caso precisássemos de um refúgio temporário, embora eu tema muito que, pelo longo abandono, a encontraremos atualmente em uma condição deplorável."
A curiosidade de Zuleika estava agora consideravelmente excitada. O que poderia ser essa residência misteriosa, ou, como seu pai a chamava curiosamente, esse substituto de mansão? O que ela sabia sobre a Ilha de Monte-Cristo derivava de relatos fragmentários feitos a ela por Mercedes e seu filho Albert de Morcerf, mas como nenhum desses informantes jamais pusera os pés na ilha, suas informações eram necessariamente muito vagas, embora compensassem em maravilhoso o que lhes faltava em nitidez.
Ao fim da tarde, a costa rochosa da Ilha de Monte-Cristo tornou-se visível. O rosto do Conde iluminou-se ao vê-la e um estremecimento de prazer percorreu-o. Embora o Haydee estivesse ainda a uma distância considerável, ele podia distinguir claramente o pico altivo sobre o qual ficara parado e assistira aos contrabandistas partirem em sua tartana, La Jeune Amélie, naquela manhã memorável em que, com sua arma e picareta, partira para realizar sua busca, destinada a ser repleta de tanta emoção e a ser coroada com um resultado tão glorioso e deslumbrante. A luz do sol dourada caía plenamente sobre este pico e as massas de pedra ao redor, fazendo-as brilhar como se estivessem incrustadas com diamantes cintilantes de grande valor. Aqui e ali cresciam oliveiras e arbustos atrofiados que se destacavam claramente contra o céu azul sem nuvens; à medida que o iate se aproximava, seus tons verdes formavam um contraste marcante com a tonalidade predominante das rochas, acrescentando vastamente ao pitoresco da cena selvagem e romântica apresentada.
"Como a ilha parece bonita!" exclamou Zuleika, entusiasticamente, enquanto se inclinava sobre a amurada da embarcação e contemplava o mar.
"Sim", respondeu Monte-Cristo, que estava ao seu lado, "ela realmente parece bonita daqui, mas uma visão mais próxima dissipará o encanto, pois a ilha não passa de um deserto estéril."
"O quê! É um deserto?" perguntou Zuleika, surpresa.
"Um deserto perfeito, minha filha", respondeu o Conde, "inculto e desabitado."
"Desabitado!" gritou Zuleika, olhando fixamente para a costa. "Certamente vejo vida ali! Olhe! O que foi aquilo?"
"Um cabrito selvagem saltando de uma rocha para outra", retrucou Monte-Cristo, sorrindo. "A ilha está cheia deles. Quando disse que era desabitada, referia-me a seres humanos."
O Haydee já se aproximara o máximo possível da ilha; foi, portanto, ancorado. O Conde ordenou então que um barco fosse baixado, no qual desceu com Zuleika e Ali. Um marinheiro robusto assumiu o leme, outros dois agarraram os remos e, em poucos minutos, uma pequena enseada foi alcançada e o desembarque efetuado.
"Homens", disse o Conde, dirigindo-se aos marinheiros, "podem remar de volta ao iate. Quando me virem chegar à praia e acenar três vezes com meu lenço, voltem para nos buscar."
"Sim, senhor Conde", respondeu o mestre da guarnição. Suas palavras foram acompanhadas pela queda dos remos e o barco partiu em direção ao Haydee.
"Você está agora na Ilha de Monte-Cristo", disse o Conde a Zuleika, enquanto tomava sua mão para guiá-la. "Prepare-se para ver o que você chamou de suas maravilhas!"
"Elas, sem dúvida, provarão ser maravilhas para mim, de qualquer forma", retrucou a moça, sorrindo.
O núbio estava diante de seu mestre com a cabeça descoberta, esperando respeitosamente por ordens.
"Vá na frente, Ali", disse o Conde, "e veja se tudo está em ordem."
O núbio fez um profundo salaam à moda oriental e apressou-se.
O Conde e sua filha seguiram vagarosamente. Enquanto caminhavam, perturbavam bandos de gafanhotos, que saltavam com um bater de asas zumbidor dos arbustos e fugiam à frente deles. Isso divertia Zuleika, mas ela não conseguia reprimir um grito de susto quando, de vez em quando, um lagarto verde e de aspecto repugnante emergia de sob as pedras soltas exatamente aos seus pés e disparava apressadamente em busca de um esconderijo mais seguro. Ocasionalmente, também viam cabritos selvagens que eriçavam as orelhas e os encaravam com olhos arregalados, depois, preparando-se para um salto, disparavam pelas rochas e desapareciam.
Por fim, Monte-Cristo e Zuleika encontraram o núbio, que havia parado ao lado de uma enorme rocha que parecia estar ali há eras, desde que caíra das falésias acima. Um denso crescimento arbustivo de murta silvestre e espinheiro florido brotara ao seu redor, e sua superfície estava coberta por musgo de cor esmeralda. O Conde e sua filha também pararam, o primeiro olhando ao seu redor e para a vasta pedra com evidente satisfação.
"Nada foi tocado desde a última vez que estive aqui", disse ele, como se para si mesmo; então, voltando-se para Ali, acrescentou: "Desmascare a entrada das grutas!"
O núbio produziu um pé-de-cabra enferrujado de algum canto onde evidentemente o ocultara no passado, enfiando a ponta sob a rocha; depois, exerceu uma pressão forte e constante sobre o pé-de-cabra e a grande rocha moveu-se lentamente para o lado, revelando uma abertura circular em cujo centro havia uma laje quadrada que trazia em seu centro um anel de ferro. Neste anel, Ali inseriu seu pé-de-cabra e, com um esforço poderoso, ergueu a laje de seu lugar. Uma escadaria descendo aparentemente para as entranhas da terra foi revelada, e das profundezas sombrias escapou um fluxo de ar úmido e mefítico.
Zuleika recuou assustada. Tudo o que passara desde que chegaram à rocha era estranho, desconcertante e aterrorizante para ela. Teriam os dias de encantamento retornado? Seria Ali um potente feiticeiro como o suposto tio de Aladdin no antigo conto árabe, ou estaria ela simplesmente sob o domínio de um sonho desordenado? Seus joelhos tremiam sob ela e ela moveu-se como se fosse fugir, mas seu pai a segurou pelo braço e seu semblante sorridente a tranquilizou.
"Não tema nada, Zuleika", disse ele, suavemente. "Estamos prestes a visitar meu palácio subterrâneo. Isso é tudo."
A essa altura, a atmosfera da escadaria já se purificara e Monte-Cristo disse a Ali:
"Desça e ilumine as grutas. Quando tudo estiver pronto, dê o sinal habitual."
O fiel criado entrou na abertura e desapareceu pela escadaria. Logo, um delicioso perfume oriental ascendeu. Isso foi seguido por uma iluminação vívida do abismo aberto e, então, veio um assobio longo e reverberante.
"Ali nos avisa que tudo está preparado para nossa recepção", disse Monte-Cristo a Zuleika. "Venha, minha filha!"
Ele desceu a escadaria primeiro, com Zuleika seguindo-o em um estado de espírito difícil de descrever. Ela não estava mais com medo, mas suas sensações eram de uma natureza extremamente peculiar. A novidade e a singularidade da aventura a atraíam, embora, ao mesmo tempo, ela sentisse uma espécie de relutância em tentá-la. No entanto, a abertura estava agora clara como o dia, e à medida que desciam, o perfume inebriante aumentava em intensidade até que era quase como se acres de tuberosas tivessem florescido subitamente e enchido as cavernas com sua fragrância pesada.
No fundo da escadaria, Ali os recebeu, conduzindo-os a uma vasta câmara que, evidentemente, possuíra um dia grande esplendor, mas que estava atualmente suja e coberta de poeira, como se estivesse abandonada há muito tempo. Era o apartamento em que Monte-Cristo, como Simbad o Marujo, recebera o Barão Franz d'Epinay anos antes, mas o brocado carmesim, trabalhado com flores de ouro, embora ainda forrasse a câmara como na época, estava agora desbotado e roído pelas traças, enquanto o tapete turco, no qual os pés do Barão afundavam até o peito do pé, assim como a tapeçaria pendurada em frente às portas, estavam na mesma condição. O divã no recanto fora corroído por vermes e as bainhas de prata do suporte de espadas árabes que o encimavam estavam manchadas, sendo que apenas as gemas nos punhos das armas mantinham seu brilho. A outrora bela lâmpada de vidro de Veneza pendurada no teto, que Ali enchera e acendera, estava também manchada e seu globo de formato delicado estava rachado de alto a baixo. Monte-Cristo contemplou tristemente essa cena de ruína e decadência, mas contemplou-a apenas por um momento. Então, voltou-se para Zuleika e disse:
"Minha filha, este foi um dia meu salão e sua beleza fascinava os olhos de todos que o viam, mas eu o abandonei e o tempo fez seu trabalho, auxiliado pelo descaso — sua beleza não existe mais! Devo erguer outro fantasma do passado e mostrar-lhe seu antigo ocupante?"
"Certamente, eu o vejo diante de mim, não vejo?" disse Zuleika, olhando ternamente para seu pai.
"Não como ele era, minha filha, não como ele era. Espere aqui alguns momentos, com meu fiel Ali como seu guarda e protetor, e eu invocarei a aparição fantástica!"
Ao falar, ele ergueu a tapeçaria desbotada, revelando a porta que conduzia ao apartamento interno; abrindo esta porta e fechando-a atrás de si, ele perdeu-se de vista; a tapeçaria caiu de volta ao seu lugar, mascarando o ponto de entrada.
Após uma breve ausência, ele reapareceu vestido com seu famoso traje tunisino, mas esse, infelizmente! também perdera sua glória primitiva como tudo mais nesta abandonada morada subterrânea. Ainda assim, os destroços estavam lá — o barrete vermelho com a longa borla de seda azul; o colete de tecido preto bordado com ouro; as calças de vermelho profundo; as polainas largas e cheias da mesma cor, bordadas com ouro como o colete; os chinelos amarelos; a caxemira em torno de sua cintura, e o pequeno cangiar curvo passado por seu cinto.
Zuleika olhava para ele com espanto. Em seu traje desbotado, manchado e roído por traças, ele, de fato, parecia uma aparição fantástica, um fantasma pitoresco do passado.
"Venha, Zuleika", disse ele, "já que estou em trajes de festa, vamos visitar a salle-à-manger!"
Ele afastou a tapeçaria mais uma vez e abriu novamente a porta que levava ao outro apartamento. Zuleika entrou e o Conde seguiu-a, Ali permanecendo na câmara externa para evitar surpresas ou intrusões. A maravilhosa salle-à-manger era precisamente a mesma que o Barão d'Epinay vira. Aqui, o tempo parecia ter sido desafiado. O mármore de que a magnífica sala era construída estava tão brilhante e belo quanto sempre, os baixos-relevos antigos de valor inestimável estavam bem preservados, e as quatro estátuas soberbas com cestas sobre suas cabeças estavam ainda em seus lugares nos cantos da sala oblonga e ainda perfeitas, embora nenhuma pirâmide de frutas esplêndidas enchesse agora as cestas. No centro da salle-à-manger, a mesa de jantar ainda permanecia com seus pratos de prata e travessas de porcelana japonesa. Foi nesta mesa que tanto o Barão d'Epinay quanto Maximilian Morrel tomaram aquela maravilhosa preparação verde, aquela chave para o portão dos sonhos divinos, o haxixe de Alexandria, o haxixe de Abou-Gor. Foi nesta mesa que Maximilian, ao cair sob a influência da droga potente, teve seu primeiro vislumbre de sua amada Valentine após sua suposta morte; foi nesta mesa que ele foi reunido a ela ao despertar de seu sonho de haxixe. Foi nesta sala que Haydee confessou seu amor por Monte-Cristo e foi acolhida em seu coração.
Todas essas recordações vieram afluir ao Conde enquanto ele permanecia olhando ao seu redor. O pensamento de Haydee quase o levou às lágrimas, mas ele conteve as gotas salgadas e, tomando Zuleika ternamente em seus braços, exclamou, com uma voz cheia de emoção:
"Oh! Haydee, Haydee, eu a perdi, mas você vive para mim novamente neste tesouro abençoado que você me legou — nossa querida filha!"
Zuleika lançou seus braços em torno do pescoço de seu pai e beijou-o fervorosamente.
"Não sei", disse ela, efusivamente, "que memórias, que associações, esta sala recorda, mas ela me fez pensar em minha mãe e eu a abençoo!"
Quando ambos se acalmaram, Monte-Cristo disse à sua filha:
"Há ainda outro apartamento para vermos. Vamos até lá."
Eles entraram na câmara adjacente. Era um apartamento estranhamente mobiliado. De formato circular, era cercado por um grande divã que, assim como as paredes, o teto e o piso, estava coberto com o que haviam sido magníficas peles de leões de juba grande do Atlas, tigres de Bengala listrados, panteras malhadas do Cabo, ursos da Sibéria e raposas da Noruega, mas todas essas peles elegantes que estavam espalhadas em profusão, uma sobre a outra, haviam sido comidas por traças e vermes e apodrecidas pela umidade até que mal se mantinham juntas. O divã era aquele sobre o qual o Barão d'Epinay reclinara, e os chibouques, com tubos de jasmim e piteiras de âmbar, que ele vira, preparados de modo que não houvesse necessidade de fumar o mesmo cachimbo duas vezes, ainda estavam em seus lugares e eram as únicas coisas em toda a sala que haviam escapado ilesas das garras dos anos. Esta câmara era brilhantemente iluminada pelo clarão de várias grandes lâmpadas de prata e ouro manchadas, suspensas no teto e projetando-se das paredes, e a salle-à-manger era iluminada da mesma maneira.
Zuleika permanecia no meio de toda essa grandeza decadente, perdida em admiração, totalmente desconcertada pelo que via. Ela não disse uma única sílaba, pois as palavras eram inadequadas para expressar seu profundo espanto.
Monte-Cristo jogou-se sobre o divã, de onde uma nuvem de poeira sufocante se elevou. Tomando um dos chibouques, no qual ainda restava uma provisão de tabaco turco, ele o acendeu e começou a fumar.
Zuleika viu agora que o perfume pesado e delicioso com que o palácio da gruta estava preenchido vinha de incenso fumegante em um enorme vaso de malaquita colocado no centro desta câmara desconcertante.
Depois de dar algumas baforadas de fumaça do chibouque, Monte-Cristo removeu a piteira de âmbar de seus lábios e, levantando-se, disse:
"Agora já viste a minha morada subterrânea, Zuleika, a morada onde, no passado, procurei refúgio do mundo e consolo para as minhas mágoas. Parece-te o produto do feitiço de algum poderoso mago e, em verdade, assim o era, mas esse mago foi a boa fortuna e o feitiço foi a riqueza colossal, à influência vasta e sutil da qual todas as nações e todas as terras cedem uma submissão servil e uma obediência implícita! Não conheces a história romântica e incrível desta morada, minha filha, e não é minha intenção relatar-ta, pois o teu cérebro juvenil dificilmente a compreenderia. Contentai-te, pois, com o que contemplaste. Guarda-o na tua memória, se quiseres, como uma realidade ou meramente como uma visão passageira, mas não, conjuro-te, menciones jamais esta aventura a mim ou a qualquer outra alma viva! Tive confiança em ti, minha filha; retribui essa confiança obedecendo estritamente a este desejo, ou melhor, a esta ordem minha! Estas grutas pertencem ao passado e ao esquecimento; ao passado e ao esquecimento, portanto, que sejam consignadas! Promete-me fazer como desejo!"
Assombrada por este discurso estranho, que o Conde proferiu com uma voz trêmula de emoção, tanto quanto por qualquer das maravilhas inexplicáveis que vira, Zuleika respondeu, num tom cheio de agitação:
"Prometo, solenemente prometo, pai, cumprir as tuas ordens neste assunto ao pé da letra! Tenho a curiosidade de uma mulher e a inclinação de uma mulher para a tagarelice", acrescentou ela, com um leve sorriso, "mas, pelo teu querido bem, reprimirei ambas, ao menos no que concerne a este palácio subterrâneo verdadeiramente maravilhoso e à nossa visita a ele hoje!"
"E manterás a tua palavra, minha nobre filha!" disse Monte-Cristo, olhando-a com ternura e admiração. "Agora, removerei este traje de Tunes no qual estive, sem dúvida, excessivamente ridículo aos teus olhos, pois és de todo desconhecedora das associações que o rodeiam e o tornam caro a mim, dignificando-o, por assim dizer, acima de qualquer outro traje que já usei!"
Zuleika ergueu as mãos em protesto, exclamando:
"Não poderias, querido pai, parecer ridículo aos meus olhos, não importa em que veste estivesses trajado!"
Monte-Cristo sorriu aprovador, embora um tanto descrente, e deixou o apartamento circular. Quando voltou, estava vestido com o traje que usara ao sair do iate.
"Lança um último olhar ao teu redor, Zuleika", disse ele, num tom que tentou em vão tornar firme. "Estamos agora prestes a deixar este lugar para sempre!"
Ele tomou-lhe a mão e conduziu-a para fora da sala. Lenta e como que pesarosamente, passaram pela salle-à-manger e pelo apartamento em que tinham entrado primeiro, alcançando a escadaria e preparando-se para subi-la. No sopé dos degraus, Monte-Cristo parou e voltou-se para Ali. Estava mortalmente pálido e tremia ligeiramente. Com um esforço poderoso, porém, controlou a sua agitação.
"Ali", disse ele, numa voz que soou estranhamente aos ouvidos de Zuleika, "está tudo pronto?"
O fiel núbio, quase tão afetado quanto o seu senhor, inclinou-se afirmativamente.
"Então, adeus, ó grutas de Monte-Cristo!" gritou o Conde, excitado. "Adeus para sempre!"
Ele subiu apressadamente a escadaria, quase arrastando Zuleika consigo. Ali permaneceu abaixo.
Quando alcançaram o ar livre, pararam até que o mudo se juntasse a eles; então, o pequeno grupo recuperou a praia, onde Monte-Cristo agitou o seu lenço três vezes. Em obediência a este sinal, o bote deixou imediatamente o iate e foi puxado rapidamente para a costa.
Poucos momentos depois, o Conde, Zuleika e Ali estavam depositados em segurança no convés do Haydee e a valente pequena embarcação voltou a sua proa para a costa italiana.
Monte-Cristo e a sua filha, com Ali a uma curta distância deles, ficaram observando atentamente a ilha que desaparecia rapidamente. O Conde estava mais agitado e mais pálido do que estivera até então. Tremores nervosos abalavam a sua estrutura e os seus dentes estavam firmemente cerrados. O rosto habitualmente impassível do fiel mudo núbio trazia uma expressão de horror vazio. Zuleika olhou para o seu pai e depois para o servo. Ela não sabia o que pensar da sua estranha e inexplicável emoção. Colocando a mão sobre o ombro do Conde, ela estava prestes a falar-lhe, a tentar acalmar a sua agitação, quando subitamente houve uma forte explosão na Ilha de Monte-Cristo e uma enorme coluna de fumaça negra disparou para o ar.
O Conde cobriu o rosto com as mãos como para excluir a visão. Ali caiu prostrado sobre o convés, pressionando o seu rosto contorcido contra os pés do seu senhor.
"O que foi aquilo, oh! pai, o que foi aquilo?" gritou Zuleika, agarrando-se ao Conde em alarme selvagem.
"O palácio subterrâneo da Ilha de Monte-Cristo não existe mais!" respondeu ele, tristemente. "Ao meu comando, ele substituiu com a sua magnificência as grutas rudimentares e informes; ao meu comando, ele pereceu!"
Enquanto ele falava, a ilha rochosa perdia-se gradualmente de vista à distância, e o Haydee corria sobre as ondas do Mediterrâneo como alguma gloriosa ave aquática em pleno voo.
CAPÍTULO XXI.
ZULEIKA APRENDE A VERDADE.
Nada ocorreu para impedir o progresso do Haydee e, após uma viagem rápida e agradável, a bela embarcação lançou âncora no porto de Civita Vecchia, a principal cidade portuária dos Estados Pontifícios, que deve a sua origem ao Imperador Trajano. As rigorosas regulamentações de quarentena do local causaram um breve atraso, que Monte-Cristo e Zuleika suportaram com impaciência mal dissimulada, mas o período exigido pela lei para a purificação finalmente expirou e aos viajantes foi concedida permissão oficial para prosseguir até Roma. Disso eles se aproveitaram imediatamente e, em pouco tempo, estavam na Cidade Eterna, confortavelmente instalados nos melhores apartamentos que o Hotel de France oferecia.
O primeiro cuidado do Conde foi enviar o seu cartão ao Sr. e à Sra. Morrel, que imediatamente correram ao seu salão, onde as saudações mais cordiais foram trocadas. Que Monte-Cristo estivesse em Roma não surpreendeu, no mínimo, Maximilian e Valentine, que estavam plenamente cientes do seu hábito de fazer aparições repentinas em locais inesperados, aparentemente sem motivo, mas a presença de Zuleika nesta conjuntura crítica surpreendeu-os e encheu-os de consternação. Que resposta deveriam dar-lhe quando ela perguntasse sobre Giovanni? Como o fato da sua triste condição poderia ser mantido longe dela quando toda Roma sabia disso e era o assunto corrente da cidade? Valentine escrevera várias cartas para a jovem desde que deixara Paris, mas nelas tratara apenas de generalidades; ela evitara estudadamente informá-la do verdadeiro estado das coisas, esperando contra toda a esperança que eventualmente teria alguma notícia animadora para transmitir. O Conde, no entanto, aliviou rapidamente o devotado casal da sua ansiedade. Ele sabia, tanto quanto eles, que a sua filha não poderia deixar de saber em breve que o Visconde era um maníaco e preferia dar-lhe a notícia terrível ele mesmo. Assim que, portanto, as saudações terminaram, antes que Zuleika pudesse sussurrar à Sra. Morrel a pergunta que tremia nos seus lábios, a temida indagação sobre o seu amante e o seu paradeiro, ele disse, num tom calmo:
"Maximilian e Valentine, vocês, sem dúvida, se perguntam por que viemos a Roma, qual é o nosso negócio aqui. Eu lhes direi. Viemos para limpar um homem desafortunado, o Visconde Giovanni Massetti, de uma terrível acusação que há muito paira sobre ele."
O Sr. e a Sra. Morrel trocaram olhares. Agora era o seu momento de falar, de confessar a sua missão a Monte-Cristo.
"Conde", disse Maximilian, apontando para a sua esposa, "nós também viemos aqui com o mesmo objetivo. Zuleika confessou o seu amor pelo jovem italiano a Valentine, que obteve dela a natureza da acusação à qual acabou de aludir. Perdoe-nos por termos agido sem a sua autorização, mas desejávamos ter sucesso antes de confessar-lhe a parte que tomamos no assunto."
Monte-Cristo sorriu.
"Não precisam de perdão da minha parte", disse ele, gentilmente, muito afetado por esta prova de devoção à sua filha e, através dela, a ele; "pelo contrário, vocês têm a minha gratidão, bem como a de Zuleika! Mas que sucesso vocês obtiveram?"
"Infelizmente! Nenhum de importância até o momento", respondeu o Sr. Morrel, tristemente.
"Tal resultado era de se esperar", retornou o Conde, gravemente. "Vocês não tinham provas para estabelecer a inocência de Giovanni e era impossível para vocês obtê-las. Eu tenho as provas, provas conclusivas! Quando o momento apropriado chegar, eu as apresentarei, removerei a mancha do seu nome e confundirei os seus inimigos!"
"Graças a Deus!" exclamaram simultaneamente o Sr. e a Sra. Morrel, com Valentine tomando Zuleika nos seus braços, beijando-a e apertando-a contra o seu peito.
"Mas", continuou Monte-Cristo, olhando ansiosamente para a sua filha, "o infeliz jovem deve primeiro ser tratado e curado!"
Maximilian e Valentine trocaram olhares novamente. Sentiram-se aliviados. O Conde sabia de tudo. Ele estava fazendo a revelação gradualmente, consideradamente. Esperaram silenciosamente por mais desenvolvimentos, segurando a respiração. O coração de Valentine batia quase audivelmente. Zuleika soltou-se dos braços dela e olhou para o seu pai com olhos ansiosos e atônitos.
"Curado?" repetiu ela, numa voz trêmula. "Giovanni está doente?"
"Ele está, minha filha", respondeu o Conde.
O que ele diria a seguir? O quanto ele revelaria? Certamente não toda a terrível verdade! Estes pensamentos dispararam como um relâmpago através das mentes do Sr. e da Sra. Morrel. Maximilian permanecia como uma estátua, imóvel, pálido, olhando para Monte-Cristo como um criminoso condenado olha para o seu carrasco. Valentine agarrou a mão do seu marido e segurou-a como um torno.
Zuleika olhava fixamente para os Morrel; ela não conseguia entender a sua ação, o seu interesse sem fôlego. Então o seu olhar voltou para o seu pai e, pela primeira vez, ela viu que, apesar da sua calma aparente, ele também estava sob o domínio de alguma emoção intensa.
"Pai!" gritou ela, apertando as mãos em apelo, "o que queres dizer? Dizes que Giovanni está doente, mas o teu olhar expressa mais do que as tuas palavras! Com que terrível mal ele foi atingido? Diz-me, conjuro-te! Serei forte — eu suportarei!"
"Minha filha", disse o Conde, num tom solene, "então invoca toda a tua coragem, toda a tua firmeza para o teu auxílio! O jovem Massetti, sobrecarregado pelos seus problemas, caiu vítima de uma doença mental!"
"Mon Dieu! Mon Dieu!" gemia Zuleika, em angústia, "queres dizer que ele perdeu o juízo, que ele é um lunático?"
"Tal é, infelizmente, o caso! Mas, minha filha, confia em mim! Eu o encontrarei e a ciência efetuará a sua cura!"
A pobre jovem, atordoada pela terrível notícia da condição do seu amante, permaneceu por um instante com os olhos fixos como pedra no seu pai. As lágrimas recusaram-se a vir em seu auxílio. Então ela cambaleou, vacilou como se tivesse sido atingida subitamente por um projétil pesado, e caiu desmaiada nos braços estendidos de Valentine. Maximilian ajudou a sua esposa a colocá-la em uma poltrona, após o que ele agarrou o cordão da campainha.
"Para que vais tocar?" perguntou Monte-Cristo, que correra para o lado da sua filha.
"Para conhaque", respondeu o Sr. Morrel, com a mão ainda no cordão. "Isso a reanimará."
"Não te importes com o conhaque", retornou o Conde, enquanto tirava do bolso um pequeno frasco contendo um líquido de aparência avermelhada e, abrindo a boca de Zuleika, derramou oito gotas do líquido pela sua garganta. "Este é o elixir do Abade Faria, um remédio potente que nunca deixou de ter efeito! Funcionará como um encanto! Vê! Já está fazendo o seu ofício!"
Enquanto ele proferia estas palavras, Zuleika moveu-se ligeiramente na poltrona, depois abriu os olhos e olhou ao seu redor em confusão. Quase imediatamente, no entanto, ela percebeu que tinha desmaiado e um sentido pleno da terrível, embora consideradamente feita, revelação do seu pai retornou a ela. Ela enterrou o rosto nas mãos, estremeceu da cabeça aos pés, e então as gotas brilhantes que escorriam por entre os seus dedos contaram que as lágrimas tinham finalmente chegado para acalmá-la. Valentine inclinou-se sobre ela, acariciando suavemente o seu cabelo negro e tentando, de uma maneira feminina, acalmá-la, enquanto o Conde e Maximilian olhavam com semblantes ansiosos, esperando que o toque e a influência da Sra. Morrel fizessem o seu trabalho.
Subitamente, Zuleika removeu as mãos do seu rosto banhado em lágrimas, endireitou-se na poltrona e, fixando o seu olhar em Monte-Cristo, disse, num tom baixo, fraco e ofegante que denunciava a profundidade, a intensidade da sua emoção:
"Pai, falaste em encontrar Giovanni! Ele desapareceu?"
O Conde comprimiu os lábios, hesitando em responder. Ele desejava reter o máximo da terrível verdade possível. Ele temia o efeito sobre a sua filha do anúncio surpreendente de que o jovem Massetti estava vagando entre as ruínas do Coliseu como um segundo Rei Lear na charneca desolada. Mas Maximilian veio rapidamente em seu auxílio.
"Não há necessidade de encontrar o Visconde", disse ele. "Ele já foi encontrado e está presentemente sob tratamento em uma instituição adequada, onde ele está tanto confortável quanto contente."
Zuleika lançou um olhar grato ao Sr. e à Sra. Morrel. Monte-Cristo agarrou a mão de Maximilian e apertou-a calorosamente.
"Vocês fizeram isso, meu amigo", disse ele, o seu semblante iluminando-se, "e eu lhes agradeço por isso!"
"Não me agradeça", respondeu o marido, olhando com afeição e admiração para a sua esposa; "agradeça a Valentine, pois foi ela quem formou o plano e o levou com sucesso à execução!"
A Sra. Morrel baixou os olhos e uma cor intensificada cobriu o seu rosto encantador.
"Tu és um anjo, Valentine!" exclamou Monte-Cristo, entusiasticamente. "Maximilian disse há pouco que nenhum sucesso de importância tinha coroado os seus esforços unidos, mas a sua afirmação foi modesta demais. O seu sucesso foi notável; vocês deram o primeiro passo que eu pretendia dar e simplificaram a minha tarefa a um grau marcante. Estou profundamente em dívida com vocês dois."
O Sr. e a Sra. Morrel ergueram as mãos e balançaram as cabeças em protesto.
"A dívida é toda nossa", disse Maximilian, desdenhosamente, "e não importa o que possamos fazer, nunca poderemos quitá-la. Devemos-lhe a felicidade das nossas vidas!"
Monte-Cristo mudou a conversa; ele creditava pouco a si mesmo pelos benefícios que conferira aos seus semelhantes, considerando que cada boa ação da sua parte contribuía para expiar as terríveis catástrofes que causara na perseguição da sua vingança implacável contra os seus inimigos de longa data.
"Diz-me", disse ele, dirigindo-se ao Sr. Morrel, "qual é a condição presente do Visconde. Ele está se recuperando?"
Maximilian olhou apressadamente na direção de Zuleika; a pobre jovem estava observando-o atentamente, esperando ansiosamente pela sua resposta. A sua voz estava um tanto instável enquanto ele respondia:
"Desde que ele foi colocado na instituição de que lhe falei, tem recebido o cuidado mais próximo e mais habilidoso, mas o seu progresso é muito lento, quase imperceptível, embora o médico que o está assistindo nunca tenha cessado de nos assegurar que ele recuperará, em última análise, a posse plena da sua saúde e sentidos."
"Oh! Levem-me a ele, levem-me a ele imediatamente!" gritou Zuleika, levantando-se. "O meu lugar é ao seu lado! Eu o tratarei, eu o curarei!"
Monte-Cristo olhou para Maximilian, que balançou a cabeça negativamente e sussurrou ao ouvido do Conde:
"Não dará certo levá-la a ele agora; o choque de vê-lo seria grande demais! Ele nem mesmo a reconheceria — ele não reconhece ninguém!"
Zuleika adivinhou o suficiente do que estava se passando para perceber que Maximilian se opunha aos seus desejos, estava se esforçando para impedi-la de ir ao seu amante, de atender às suas necessidades. Ela saltou para o seu pai, apertou os braços em torno do seu pescoço e, olhando piedosa e suplicantemente para o seu rosto, exclamou:
"Oh! Levem-me a Giovanni, levem-me a ele! Não neguem a oração mais sincera da vossa filha amorosa e obediente! Não a neguem, oh! meu amado pai, não a neguem!"
Monte-Cristo foi tocado até as profundezas da sua alma; o Sr. e a Sra. Morrel ficaram igualmente afetados. O Conde, no entanto, decidiu instantaneamente o que devia ser feito. Ternamente, compassivamente, abraçando a sua filha, ele disse-lhe, numa voz suavizante:
"Minha filha, por enquanto é melhor que não vás a Giovanni. Eu o verei por ti e, sem demora, colocarei em operação um plano que não duvido que resultará na sua cura rápida. Conheço um médico maravilhoso cuja habilidade é tão grande que ele pode quase restaurar os mortos à vida. Ele pertence à raça desprezada dos judeus, mas é um homem bom, bem como maravilhoso. O seu nome é Dr. Israel Absalom e ele reside aqui em Roma, dentro das muralhas do Gueto evitado e execrado, perto do Monte Capitolino. Irei vê-lo imediatamente e o levarei ao jovem Massetti. Minha filha, descansa assegurada de que este sábio hebreu fará outro milagre e devolverá o teu amante a ti e em toda a glória da sua mente e masculinidade! Contentai-te, portanto, em permanecer onde estás por um breve período, com a nossa devotada amiga Valentine como tua companheira e consoladora."
"Sim, Zuleika", disse a Sra. Morrel, persuasivamente, "contenta-te em permanecer comigo. Não te deixarei nem por um instante. Falaremos de Giovanni, da felicidade e da alegria que o futuro reserva para ambos, e, acredita em mim, as horas passarão em asas rápidas!"
Enquanto Valentine falava, ela desengajou gentilmente a jovem do pescoço do seu pai e passou o seu braço amorosamente em torno da sua cintura esguia. A cabeça de Zuleika caiu sobre o ombro da sua amiga.
"Cedo às solicitações do meu pai e às tuas, Valentine", disse ela, submissamente. "Tu és mais velha e mais sábia do que eu e o que dizes é, sem dúvida, para o melhor. Ficarei e confiarei no médico maravilhoso."
"Ouvi falar muito deste Dr. Absalom desde que estou em Roma", disse o Sr. Morrel, dirigindo-se a Monte-Cristo. "O povo comum considera-o um mago e as classes mais altas como um charlatão astuto, mas, se a sua habilidade científica legítima é geralmente negada, o seu sucesso brilhante e maravilhoso, mesmo em casos que os melhores médicos romanos abandonaram como sem esperança, é universalmente admitido."
"O Dr. Absalom não é nem um mago nem um charlatão", respondeu Monte-Cristo, calorosamente, "mas um médico da maior experiência e dos mais altos conhecimentos possíveis. Ele está curvado sob o peso dos anos e do estudo árduo, contudo o seu olhar é tão agudo e a sua percepção tão aguda como se ele fosse um jovem de vinte anos. Nenhum homem conhece a sua idade ou a sua história. Encontrei-o há muito tempo em Atenas, onde tive a boa fortuna de resgatá-lo das garras de uma multidão uivante de rufiões que o tinham agarrado e estavam prestes a matá-lo como um feiticeiro porque ele tinha levado para a sua cabana e curado da peste um miserável grego que tinha sido lançado nas ruas para morrer! Por mim, ele salvará Giovanni!"
"Mas", disse Maximilian, enquanto um pensamento repentino lhe ocorreu e o encheu de consternação, "o Dr. Absalom só pode praticar fora do Gueto às escondidas e sob o risco de ser lançado na prisão! Ele não terá permissão para visitar o Visconde Massetti!"
O Conde de Monte-Cristo ergueu-se orgulhosamente e o seu sorriso peculiar passou pelo seu semblante.
"Eu tratarei disso!" disse ele, impressionantemente.
Zuleika foi deixada com a Sra. Morrel e, acompanhado por Maximilian, Monte-Cristo partiu imediatamente para o Gueto.
CAPÍTULO XXII.
O MÉDICO MARAVILHOSO.
Uma caminhada rápida de meia hora levou o Conde e o seu companheiro a um dos dois portões na muralha do Gueto ou bairro dos judeus de Roma. Monte-Cristo bateu a uma guarita e um policial apareceu imediatamente. Era um homem jovem e vestia um traje militar. O seu casaco estava abotoado até a garganta, um cordão amarelo e uma borla graciosamente passados sobre o peito. As suas mãos estavam envoltas em luvas de algodão branco, um capacete adornado com latão estava sobre a sua cabeça e ao seu lado pendia uma espada, enquanto no colarinho do seu casaco o número do seu regimento brilhava em figuras douradas. O porte do homem era soldadesco e ele tinha evidentemente visto serviço no campo de batalha. O Conde dirigiu-se a ele em italiano, informando-o de que ele e o Sr. Morrel desejavam visitar o Gueto, ao mesmo tempo exibindo os seus passaportes. Após examinar os papéis e ver que estavam em forma adequada, o policial abriu o portão e os visitantes entraram nas dependências lotadas e imundas do bairro judeu.
"Mon Dieu! que odores vis!" exclamou o Sr. Morrel, levando ao nariz o lenço saturado de colónia, enquanto atravessavam apressadamente as ruelas estreitas e pejadas de lixo.
"A atmosfera não é como a de uma perfumaria!" respondeu o Conde, rindo. "Mas parece adequar-se aos filhos de Israel, pois prosperam e multiplicam-se nela como os pardais no ar puro e nos campos verdes da Inglaterra!"
"Tenho pena deles!" disse Maximilien.
"Os gostos divergem", retorquiu Monte-Cristo, filosoficamente. "Aposto que em todo este bairro não encontraríamos um único judeu que comesse uma perdiz naquele estado de decomposição parcial em que um francês a considera mais apetitosa!"
"Que lugar estranho e grosseiro é este", disse o Sr. Morrel, após um breve silêncio. "Parece uma cidade do extremo oriente. Ninguém, subitamente transportado para aqui, imaginaria que estava no coração de Roma."
"Assemelha-se muito ao Judengasse em Frankfurt-am-Main", respondeu o Conde, "e é tão antigo quanto, embora muito maior. Mas os alemães são mais progressistas e liberais do que os romanos, pois as portas que fechavam o Judengasse foram removidas em 1806, enquanto as do Gueto ainda permanecem e estão, como viu, sob a responsabilidade da polícia, que submete todas as pessoas que entram ou saem do local a um escrutínio rigoroso. Mesmo no século XVII, as portas do Judengasse eram fechadas e trancadas apenas ao cair da noite, após o que nenhum judeu se podia aventurar em qualquer outra parte de Frankfurt sem incorrer numa pesada penalidade se fosse apanhado, ao passo que aqui, nos dias de hoje, nesta era de iluminação e tolerância religiosa, as portas do Gueto são mantidas fechadas dia e noite, e os pobres israelitas, vítimas do fanatismo e de um preconceito irracional, são tratados pior do que os párias no Industão! Roma é a Cidade Eterna e, na verdade, os seus defeitos são tão eternos quanto ela própria!"
Monte-Cristo tinha evidentemente visitado o Gueto antes, pois parecia estar perfeitamente familiarizado com as suas ruelas tortuosas e caminhos obscuros, seguindo o seu curso sem hesitação ou paragem para pedir informações. Aparentemente, não continha novas visões ou surpresas para ele. Para o Sr. Morrel, pelo contrário, que estava ali dentro das suas muralhas pela primeira vez, apresentava uma série infindável de maravilhas. Os edifícios impressionaram-no particularmente. Pareciam ter sido erguidos algures na antiguidade remota e eram combinações curiosamente pitorescas de madeira e pedra, de aparência extremamente cénica. A maioria deles não tinha mais de dois ou três metros de largura e elevava-se a uma altura de quatro andares, assemelhando-se a torres atrofiadas em vez de casas. Nem um edifício novo ou moderno podia ser visto em qualquer direção. Muitos dos edifícios estavam em condições ruinosas e alguns pareciam estar prestes a desmoronar-se, enquanto, aqui e ali, grandes pilhas de escombros informes marcavam os locais onde outros tinham caído. Enquanto passavam por uma destas pilhas, muito maior que as restantes, Maximilien chamou a atenção de Monte-Cristo para ela. O Conde olhou para ela e disse:
"Aquela foi outrora a habitação do velho Isaac Nabal, conhecido pelo seu povo como Isaac o Emprestador, mas chamado pelos romanos de Isaac o Usurário. Era enormemente rico e emprestava o seu ouro a taxas exorbitantes aos extravagantes e sem dinheiro nobres romanos. Isaac não tinha esposa nem filhos, mas era tão ávido de ganho que mantinha a sua casa constantemente cheia de inquilinos. A casa era talvez a mais antiga de todo o Gueto. Ruídos estranhos eram ouvidos nela todas as noites, causados pela queda de reboco ou paredes divisórias. Não era uma coisa incomum um inquilino ser subitamente despertado do seu sono por um estrondo e encontrar-se ferido e a sangrar. Ainda assim, o velho Isaac recusava-se obstinadamente a fazer reparações. Ele afirmava que o edifício decrépito duraria tanto quanto ele, e não estava errado, pois numa noite a casa veio abaixo sobre as suas orelhas e ele pereceu entre as ruínas juntamente com trinta outros, todos os que estavam na velha pocilga na altura. Esta catástrofe aconteceu há vinte anos."
"As casas caem frequentemente aqui?" perguntou o Sr. Morrel, olhando inquieto à sua volta para os edifícios em ruínas.
"Muito frequentemente", respondeu o Conde. "A idade e a decadência acabam por derrubá-las todas, mais cedo ou mais tarde."
"Então, pelo amor de Deus, apressemos-nos antes que sejamos esmagados por algum desmoronamento repentino!" disse Maximilien. "As casas projetam-se sobre a rua nos andares superiores até quase se tocarem no ar. Se uma caísse, não haveria escapatória!"
"Não tenhas medo, Maximilien!" respondeu Monte-Cristo, sorrindo. "Um famoso astrólogo garantiu-me uma vez que eu tinha uma vida protegida, e se eu escapar, tu também escaparás!"
Os pisos térreos das casas eram, na sua maioria, ocupados como lojas de vários tipos e as partes superiores usadas como habitações. Comerciantes judeus estavam às portas das lojas e mulheres judias, algumas delas muito belas, eram ocasionalmente vistas nas janelas superiores. As ruas estavam repletas de pedestres de ambos os sexos e, aqui e ali, grupos de crianças rechonchudas de cabelo preto brincavam.
Maximilien ficou surpreendido ao notar que a maioria dos homens que encontravam tiravam os chapéus a Monte-Cristo e que alguns deles o saudavam pelo nome.
"Pareces ser bastante conhecido pelos israelitas", disse ele, por fim.
"Sim", respondeu o Conde, "muitos deles conhecem-me. Tive frequentes ocasiões de consultar com eles sobre assuntos de importância. São um povo astuto e de confiança."
A esta altura, Monte-Cristo e o Sr. Morrel tinham chegado a uma ruela mais estreita e escura do que qualquer outra que tivessem atravessado. Nela o Conde entrou e, depois de levar o seu companheiro a uma curta distância, parou em frente a um edifício sombrio, mas bem preservado. Diferia dos seus vizinhos por não ter loja no piso térreo e por estar hermeticamente fechado de baixo a cima. Parecia estar desabitado.
"Chegámos ao nosso destino", disse Monte-Cristo. "Esta é a residência do Dr. Absalom."
Maximilien olhou para ele com espanto.
"A casa está deserta", disse ele. "Não te enganaste?"
"Não. É aqui."
"Receio então que o médico a tenha deixado e talvez também o Gueto."
Monte-Cristo sorriu.
"Não o conheces", disse ele. "Os seus hábitos e modo de vida são muito peculiares. Prepara-te para ficar muito surpreendido!"
Dito isto, dirigiu-se à porta da habitação hermeticamente fechada e desferiu cinco pancadas sonoras nela, três muito rápidas e duas muito lentamente executadas. Os sons pareciam reverberar pela casa como se ela não estivesse apenas desabitada, mas também sem mobília. Vários minutos passaram, mas não houve resposta ao sinal de Monte-Cristo, ninguém veio em obediência à sua convocatória. O Conde segurava o relógio na mão e os seus olhos estavam cravados no mostrador.
O Sr. Morrel ficou ligeiramente impaciente; disse ao seu companheiro, triunfante:
"Disse-te que a casa estava deserta e eu tinha razão!"
O Conde sorriu novamente, mas não respondeu, mantendo os olhos fixos no mostrador do seu relógio.
"Dez minutos!" disse ele, e repetiu o seu sinal, mas desta vez desferiu apenas três pancadas rápidas. Como antes, não houve resposta.
Maximilien estava muito interessado e não pouco divertido, os procedimentos do Conde eram tão singulares.
"Quinze minutos!" disse Monte-Cristo por fim, guardando o relógio e dando uma longa e retumbante pancada na porta.
O efeito foi instantâneo. O portal abriu-se devido a alguma influência invisível, como que por magia, revelando um corredor longo, despido e sombrio, mas nem um sinal de vida humana era visível.
O interesse e a diversão do Sr. Morrel transformaram-se em admiração e espanto; ele estava completamente mistificado e perplexo.
"O povo comum de Roma não anda muito longe na sua avaliação deste Dr. Absalom!" murmurou ele. "Isto certamente parece que o homem é um mágico!"
"Tretas!" retorquiu Monte-Cristo, com uma demonstração de impaciência que raramente exibia. "O erudito hebreu é obrigado a tomar as suas precauções; é só isso. Segue-me, e não importa o que possas ver ou ouvir, se desejas que o nosso empreendimento seja coroado de sucesso, não pronuncies uma palavra, nem um som, até que eu te dê permissão!"
O Conde entrou no corredor, seguido pelo seu perplexo e atónito amigo. Imediatamente a porta fechou-se silenciosamente atrás deles e encontraram-se no meio de uma escuridão densa. Monte-Cristo pegou no Sr. Morrel pela mão, guiando-o para a frente até que o seu progresso foi completamente bloqueado pelo que parecia ser o fim do corredor. Aqui o Conde parou e disse algumas palavras em hebreu. Uma resposta fraca veio prontamente de além do corredor na mesma língua, e imediatamente a luz de uma lâmpada brilhou sobre os visitantes. Uma porta tinha-se aberto e no limiar estava o exemplar de humanidade mais estranho que Maximilien jamais contemplara. O recém-chegado era um homem muito idoso, de ombros curvados, uma longa barba branca que chegava até à cintura e uma abundância de cabelos de neve que escapavam de sob um barrete de veludo púrpura, ao lado do qual pendia uma borla de um carmesim brilhante. Vestia um longo caftã persa de cetim rosa, profusa e belamente bordado a ouro, calças orientais largas de veludo vermelho e chinelos elaboradamente adornados de pele de tigre. Nos seus dedos longos e ossudos brilhavam vários anéis de diamante, sem dúvida de imenso valor, e um conjunto de esmeraldas brilhantes magnificamente cravadas em ouro adornava o seu peito. Esta singular visão de luxo, riqueza e suntuosidade oriental segurava a lâmpada, que era de bronze trabalhado e se assemelhava às encontradas entre as ruínas da antiga Pompeia, acima da sua cabeça, e, pela sua luz, Maximilien podia ver que os seus olhos eram agudos e penetrantes e que o seu rosto denotava a mais alta intelectualidade.
"Quem é que assim convoca o sábio das suas meditações?" perguntou o velho, com uma voz notavelmente juvenil. Desta vez falou em italiano.
"Alguém que o serviu no passado, oh! Dr. Absalom", respondeu Monte-Cristo, também usando a língua da Itália, "e que agora solicita um serviço em troca. Lembre-se da multidão de Atenas e do franco que interveio para o salvar da destruição!"
O velho baixou a lâmpada e segurou-a perto do rosto do seu famoso visitante; depois, exclamou alegremente:
"Bem-vindo, Edmond Dantès, Conde de Monte-Cristo! Bem-vindo à morada do seu dedicado servo Israel Absalom! O que quer que ele possa fazer para o servir será feito, não importa a que custo!"
Então, pela primeira vez, observou que o Conde não estava sozinho e fixou os seus olhos agudos no Sr. Morrel com um olhar de suspeita e inquirição.
"Um dos meus amigos mais queridos, o Sr. Maximilien Morrel, Capitão do Exército de França", disse Monte-Cristo, em resposta a este olhar. "Pode ter tanta confiança nele como em mim."
O Dr. Absalom inclinou-se profundamente perante o Sr. Morrel e, sem mais uma palavra, abriu caminho para um compartimento interior. Era uma vasto salão, fechado como a frente da casa, brilhantemente iluminado por um enorme candelabro suspenso do teto, no qual queimavam vinte velas de cera de várias tonalidades. A sala estava equipada com todos os aparelhos e parafernália de um laboratório de química dos dias modernos, contendo também muitos instrumentos e máquinas estranhas, tais como as que auxiliavam as pesquisas e trabalhos dos discípulos da alquimia dos tempos antigos.
No centro do compartimento erguia-se uma vasta mesa coberta de gigantescos tomos encadernados em pergaminho e rolos de manuscrito amarelado. Atrás desta mesa havia uma enorme cadeira de encosto alto, de elaborada obra de arte antiga, assemelhando-se ao trono de algum soberano asiático de um passado remoto. Nesta cadeira o médico sentou-se, depois de ter instalado os seus visitantes, cada um num cómodo e confortável divã turco.
Maximilien notou que o chão da sala estava coberto com tapetes persas macios e elegantes e que as paredes estavam cobertas com tapeçarias de uma beleza requintada. Monte-Cristo tinha-o avisado para se preparar para ficar muito surpreendido, mas a exibição luxuosa de riqueza, esplendor e gosto do Dr. Absalom, no meio do imundo e decrépito Gueto, deixou-o, no entanto, absolutamente atordoado. O Conde também o tinha advertido a não falar sem a sua permissão — uma injunção inútil, pois o jovem francês estava demasiado maravilhado para articular uma sílaba.
Depois de se sentar, o sábio hebreu, que parecia ser um homem de negócios tanto quanto de ciência, pediu ao Conde que declarasse em que o poderia servir. Então, Monte-Cristo relatou sucintamente a história do Visconde Massetti, contou da sua doença mental, do seu confinamento no hospital psiquiátrico e terminou perguntando ao médico se ele poderia e queria curá-lo.
"Já ouvi falar algo sobre este infeliz jovem", respondeu o Dr. Absalom, "e o facto da sua insanidade também me foi transmitido, mas antes de expressar uma opinião sobre o que a minha ciência pode fazer no seu caso, preciso dos pormenores."
O Conde fez um gesto ao Sr. Morrel, que, tendo a essa altura recuperado parcialmente do seu atordoamento, começou imediatamente a dar ao velho hebreu a informação de que ele necessitava. Quando concluiu, o Dr. Absalom disse, num tom calmo e confiante:
"Conde de Monte-Cristo, o caso é claro. Posso e vou curar este jovem italiano atormentado!"
"Eu tinha a certeza disso!" exclamou o Conde, alegre e triunfante. O Sr. Morrel não ficou menos encantado, mas, ao mesmo tempo, não conseguia sentir-se tão confiante como o seu amigo na capacidade do judeu de cumprir a sua promessa.
O médico disse algumas palavras em hebreu a Monte-Cristo. A resposta deste último pareceu dar-lhe inteira satisfação, pois disse em italiano:
"Nesse caso, não haverá oposição nem das autoridades de Roma nem das do hospital psiquiátrico. Estarei no asilo amanhã ao meio-dia, totalmente preparado para restaurar Massetti à saúde e à razão!"
O Conde e Maximilien levantaram-se e, despedindo-se do sábio, foram conduzidos por ele ao corredor. Estavam rapidamente na rua e abriram caminho para fora do Gueto o mais rapidamente possível.
CAPÍTULO XXIII.
UM MILAGRE MODERNO.
Monte-Cristo, cujo poder e influência pareciam ser absolutamente ilimitados, apresentou-se na manhã seguinte no hospital psiquiátrico onde o Visconde Massetti estava sob tratamento, armado com uma autorização do Secretário de Estado Papal, Cardeal Monti, para que o médico hebreu, Dr. Israel Absalom, assumisse o encargo do caso do nobre paciente. O diretor da instituição encolheu os ombros quando esta autorização lhe foi exibida pelo Sr. Morrel, que acompanhara o Conde com o propósito de o apresentar àquele oficial.
"Messieurs", disse ele, num francês muito bom, "sou obrigado a respeitar este papel, mas protesto solenemente contra a entrega do paciente a este charlatão hebreu e lavo as minhas mãos de toda a responsabilidade nas premissas!"
"Sr. Diretor", respondeu Monte-Cristo, num tom digno, "não obstante a repetida afirmação do seu médico, que tem estado encarregado do jovem Massetti desde a sua chegada aqui, de que a sua doença era inteiramente curável, ele fez pouco ou nenhum progresso com o sofredor, que hoje ainda está insano. O Dr. Absalom, mesmo que seja um charlatão como sustenta, mas o que, se me perdoa, devo recusar-me a admitir, não poderia fazer um fracasso mais conspícuo e completo!"
"Sr. Conde", disse o diretor, friamente, evidentemente não gostando da franqueza de Monte-Cristo, "tudo o que a ciência mais avançada pode fazer foi feito. A insanidade é uma doença lenta e difícil de curar; é necessário tempo para produzir resultados e decorrerá pelo menos um ano até que o Visconde possa, mesmo sob as circunstâncias mais favoráveis, ser totalmente restaurado."
"A sua experiência confere à sua opinião respeito", retorquiu o Conde, com igual frieza, "mas, ainda assim, não posso aceitar essa opinião como definitiva."
"Como desejar", disse o oficial, altivo. "Depois de o seu médico judeu, se é que realmente o é, ter administrado vãmente os seus fármacos e ineficazmente murmurado os seus encantamentos, ficará bastante contente por ter o praticante regular do hospital a retomar as funções das quais agora vê por bem privá-lo tão sumariamente."
"Talvez", respondeu o Conde, sorrindo. "Faz parte do meu credo nunca desprezar a ciência, sob qualquer forma que ela possa surgir!"
O diretor inclinou-se com polidez satírica.
Ao meio-dia em ponto, o Dr. Absalom chegou. Tinha descartado os seus trajes vistosos e fantásticos do dia anterior e aparecia com o traje de rua comum de um europeu. Se tinha parecido imponente a Maximilien na sua casa no Gueto, parecia ainda mais imponente agora, despojado como estava de todos os acessórios orientais e dependendo para efeito do aspeto intelectual maravilhoso do seu rosto apenas. O único artigo de luxo que tinha consigo era uma bengala maciça de topo de ouro, na qual os seus anos o faziam apoiar-se pesadamente.
Monte-Cristo e o Sr. Morrel receberam-no com a maior cortesia e deferência, mas o diretor quase não o notou e com dificuldade disfarçou o seu desagrado. O sábio hebreu, contudo, estava habituado à maneira incivil com que os italianos tratavam as pessoas da sua nação e não mostrou o menor sinal de desagrado, embora o Conde e Maximilien quase não se pudessem conter de ressentir o comportamento insultuoso do oficial.
Sem demora, o Dr. Absalom foi conduzido ao quarto do jovem Massetti pelo médico que, até àquela data, tinha assistido o paciente. Era um homem idoso, mas, embora italiano, mostrava um respeito marcado pelo hebreu idoso e de aspeto nobre. Monte-Cristo e o Sr. Morrel acompanharam os dois sábios, o primeiro confiante no poder do Dr. Absalom de cumprir a sua promessa, o último esperando pelo seu sucesso, mas duvidoso dele.
À medida que o grupo entrava no apartamento do maníaco, o médico italiano disse ao seu confrade judeu:
"Dr. Absalom, gostaria muito de testemunhar o seu modo de tratamento. Poderá, por favor, permitir-me permanecer na sala?"
"Certamente", respondeu o hebreu. "Não tenho absolutamente nada a esconder; mas", acrescentou, com olhos cintilantes, "aviso-o de antemão que não será mais sábio depois de ter testemunhado as minhas operações e o seu resultado do que é atualmente!"
O Visconde estava sentado numa grande poltrona, com o rosto enterrado nas mãos. À entrada dos quatro homens, murmurou, sem levantar a cabeça:
"Por que é que a bela visão me deixou? Por que é que a divina Juno me nega a luz da sua presença?"
O Dr. Absalom olhou interrogativamente para os seus companheiros.
"Ele refere-se a Valentine, a minha esposa", explicou Maximilien. "Ela recorreu a um pequeno artifício perdoável para o atrair até aqui."
"Que seja enviada buscar imediatamente", disse o hebreu. "Precisarei dela."
"Mas", objetou Monte-Cristo, "a Sra. Morrel está a tomar conta da minha filha, a noiva deste pobre jovem, que está terrivelmente abatida pelo terrível infortúnio do seu amado e não pode ser deixada sozinha."
"A sua noiva!" exclamou o Dr. Absalom. "Tanto melhor! Que ela também seja trazida! Também precisarei dela!"
"Será obedecido, Doutor", disse Monte-Cristo, e o Sr. Morrel foi imediatamente enviado ao Hotel de France com instruções para regressar imediatamente com a sua esposa e Zuleika.
Quando chegaram e a sua presença num apartamento adjacente foi anunciada ao Dr. Absalom por Maximilien, o hebreu disse:
"Sr. Morrel, por favor, conduza a sua esposa até aqui, e o senhor, Sr. Conde, vá ter com a sua filha e permaneça com ela até que eu o chame. Diga à pobre criança para estar de bom ânimo! que o seu amado lhe será restaurado!"
Monte-Cristo deixou o compartimento, seguido por Maximilien, que instantaneamente regressou com Valentine.
"Sra. Morrel", disse o médico judeu, "vá até ao paciente e pegue-lhe na mão."
Valentine fez como lhe foi indicado. Ao seu toque, o Visconde sobressaltou-se, exclamando, em tons de extremo deleite:
"Divina Juno, perdoe-me! Eu ofendi-a! Pensei que me tinha abandonado, mas estava enganado, pois a senhora está aqui!"
Fixou os olhos nela, olhando-a como alguém em transe, não prestando qualquer atenção aos outros no apartamento. Valentine olhou para o Dr. Absalom, que lentamente deixou o seu lugar, deslizando furtivamente para o lado de Massetti. Erguendo-se à sua altura total, estendeu as mãos sobre a cabeça de Giovanni; quase instantaneamente o homem demente afundou-se na sua cadeira como se pressionado por alguma força colossal, alguma força irresistível; depois, fechou os olhos, caindo num sono calmo e pacífico. Valentine, libertada do seu abraço, ficou a observar, perdida num espanto silencioso. Maximilien estava também maravilhado com esta pronta exibição do poder do hebreu, mas o médico italiano, que tinha estado a observar atentamente, sussurrou-lhe ao ouvido:
"O judeu é um mesmerista; é só isso; pelo menos, tudo o que foi desenvolvido até agora!"
Entretanto, o Dr. Absalom continuou a manter as mãos sobre a cabeça do paciente, que pendia cada vez mais até finalmente se afundar sobre o peito. Por mais um momento, o hebreu manteve a sua posição; depois retirou as mãos, tirando um pequeno frasco do bolso do seu casaco e desrolhando-o; imediatamente, um odor poderoso e subtil invadiu o apartamento, fazendo Valentine, Maximilian e o médico italiano respirarem com dificuldade, como se estivessem a sufocar.
"O que é isto?" arquejou M. Morrel, agarrando o italiano pelo braço.
"Não sei", respondeu este último. "Mas olhe para Massetti — o seu rosto está violeta, a tonalidade preliminar da morte! Se o judeu matar o paciente, nada o poderá salvar da fúria da populaça romana!"
O odor subtil aumentou de intensidade e o rosto do Visconde mudou do violeta para uma palidez cinzenta.
"Ele está morto!" gritou o italiano. "Dr. Absalom, o senhor é um assassino!"
O hebreu acenou com a mão de forma autoritária e, com um olhar da maior dignidade e severidade, disse:
"Cale-se e espere!"
Ele rolhou o frasco, guardou-o no bolso e abriu uma janela. O ar fresco inundou o local e, gradualmente, o odor opressivo desapareceu.
O paciente ainda apresentava uma palidez cadavérica. O Dr. Absalom sentiu-lhe o pulso, contando as batidas pelo seu relógio. Um sorriso de satisfação espalhou-se pelo seu rosto intelectual.
"O remédio fez o seu trabalho!" disse ele. "Agora para a segunda e vital aplicação! Aconteça o que acontecer", acrescentou, de forma impressionante, voltando-se para o médico italiano, "ordeno-lhe pela sua vida que não interfira nem me interrompa!"
Tirando outro frasco, maior que o primeiro, ergueu-o e agitou-o, examinando o seu conteúdo com a maior atenção. Os observadores profundamente interessados e algo receosos viram um fluido verde brilhante cintilar à luz do sol. Satisfeito com a sua análise, o hebreu desrolhou o frasco; depois, abrindo a boca do paciente, derramou o líquido esmeralda gradualmente pela garganta, gota a gota. Durante alguns segundos após isto, nenhuma mudança foi percetível em Massetti. Ele ainda estava sentado, a dormir na sua cadeira com a cabeça inclinada, e a tonalidade cadavérica do seu rosto permanecia inalterada. O Dr. Absalom tinha novamente tirado o seu relógio do bolso do colete, dividindo a sua atenção entre notar o passar do tempo e observar atentamente o paciente. Tão profundo era o silêncio na sala que o tiquetaque regular do relógio era distintamente audível em todas as partes da mesma.
De repente, Giovanni começou a estremecer. Seguiu-se uma convulsão violenta, sacudindo-o da cabeça aos pés e contorcendo-lhe terrivelmente o rosto, as suas mãos enrolando-se como uma tira de papel que foi raspada com uma faca. O seu estado era horrível de contemplar. Maximilian e o italiano observavam ansiosamente, prendendo a respiração. Valentine, incapaz de suportar a visão, desviou o olhar, a emoção e o terror a lutarem dentro dela pela supremacia. O hebreu, contudo, era pura fibra e confiança. Quando um quarto de hora se passou, ele guardou o seu relógio. A convulsão de Massetti tinha passado, as suas mãos tinham-se desenrolado e a sua palidez sobrenatural tinha sido sucedida por um ténue rubor. Ele reclinou-se na sua cadeira como se envolto num sono saudável. Pouco depois, os seus lábios entreabriram-se.
"Zuleika!" murmurou ele. "Oh! minha amada!"
O Dr. Absalom lançou um olhar significativo e triunfante ao médico italiano.
"O paciente está a sonhar", disse ele, "e é um bom sinal — ele está a sonhar com a sua noiva, de quem na sua demência se tinha esquecido por completo — outro bom sinal! O meu tratamento está a resultar! Hei de ter sucesso!" Voltando-se para Maximilian, acrescentou: "Ajude-me a colocar o Visconde na sua cama, se faz favor."
M. Morrel obedeceu com presteza e Massetti foi imediatamente estendido no seu leito numa posição confortável. O Dr. Absalom sentiu-lhe novamente o pulso, contando-o como antes pelo seu relógio; depois disse:
"O paciente pode agora acordar a qualquer momento, mas é provável que decorram primeiro quinze minutos. Que o Conde e a sua filha sejam chamados."
Maximilian abriu a porta e fez sinal para fora. Monte-Cristo e Zuleika entraram.
"Minha filha", disse o hebreu, pegando nesta última pela mão e conduzindo-a até à cabeceira do seu amado, "olha para o teu noivo! Ele está a dormir pacificamente e a sonhar contigo! Há pouco, ele pronunciou o teu nome! Coragem, filha, coragem! O pior já passou! As nuvens estão a varrer a mente do jovem para a deixar clara e perfeita! Permanece aqui onde te coloco! É importante que, ao acordar, os olhos do paciente repousem em ti!"
Zuleika, atónita, perplexa, contemplou o seu amado e com dificuldade resistiu ao impulso de se lançar ao seu pescoço.
Monte-Cristo, Maximilian, Valentine e o médico italiano agruparam-se a pouca distância, esperando e observando. A sua ansiedade e desejo eram intensos.
Cinco minutos, dez minutos passaram, depois quinze. Quando o relógio do Dr. Absalom marcou o quarto de hora, o Visconde abriu os olhos de uma só vez. Eles repousaram sobre Zuleika. O interesse ansioso dos espectadores estava agora no seu auge. O Conde, M. Morrel, Valentine e o italiano inclinaram-se para a frente, sem fôlego. Giovanni levou a mão à testa, soltou um suspiro baixo e depois sentou-se, olhando para a filha de Monte-Cristo em perplexidade. Finalmente, falou.
"Zuleika, querida Zuleika!" disse ele, fracamente, mas com muita ternura, estendendo ao mesmo tempo os braços para ela. A rapariga olhou para o Dr. Absalom. Ele apontou para Giovanni e sorriu. Ela compreendeu instantaneamente a sua permissão e lançou-se no abraço do seu amado.
"Giovanni, querido Giovanni", murmurou ela, "tu és tu mesmo outra vez, não és?"
"Eu mesmo, Zuleika? Alguma vez fui outra coisa?"
"Estiveste muito doente, Giovanni."
"Ah! sim. É por isso que estou aqui." Olhando à sua volta, acrescentou: "Ali está também o teu pai, mas quem são esses estranhos com ele?"
"Os médicos e dois dos nossos amigos mais dedicados, M. Morrel e a sua esposa."
O Visconde recostou-se no leito e tomou a mão de Zuleika na sua, apertando-a calorosamente.
"Sinto-me fraco e debilitado", disse ele, "oh! tão fraco e debilitado, mas um peso terrível e esmagador parece ter sido removido do meu cérebro!"
Ele falava racionalmente. O Dr. Absalom tinha operado um milagre moderno — a razão do jovem estava plenamente restaurada!
O Conde e Maximilian trocaram olhares de deleite. Os olhos de Valentine estavam molhados com lágrimas de alegria. Quanto a Zuleika, o seu cálice de felicidade estava cheio. O Dr. Absalom sorriu placidamente. O médico italiano aproximou-se e pegou-lhe na mão.
"Parabéns", disse ele, cordialmente. "A sua habilidade é simplesmente espantosa!"
O hebreu fez uma vénia profunda.
"Doutor", disse ele, "cumpri a minha promessa e a minha parte do trabalho está feita. O resto cabe-lhe a si realizar. Deve retomar o cuidado do paciente e restaurar-lhe as forças."
Com estas palavras, o velho sábio retomou o seu chapéu, saudou todos os presentes e, apoiando-se pesadamente na sua bengala de punho de ouro, afastou-se lentamente do apartamento.
Monte-Cristo seguiu-o, expressando entusiasticamente a sua gratidão; tirando do bolso um enorme maço de notas bancárias, ofereceu-o ao hebreu, mas este recusou firmemente aceitá-lo.
"Lembro-me da turba ateniense, Sr. Conde!" disse ele, de forma impressionante.
Ao passarem pelo gabinete do diretor, esse funcionário saiu.
"Bem?" disse ele a Monte-Cristo. "O judeu falhou, naturalmente!"
"Ele teve sucesso!" respondeu o Conde, com um sorriso de triunfo.
"Não me vai dizer que o paciente recuperou a razão!" exclamou o diretor.
"É exatamente isso que lhe quero dizer!" retorquiu Monte-Cristo, incisivamente.
"Hum! Há aqui algum truque astuto!" gritou o funcionário, regressando ao seu gabinete e fechando abruptamente a porta atrás de si.
O médico italiano retomou o cuidado do Visconde Massetti, com Zuleika e Valentine a tratá-lo alternadamente. Em duas semanas, o jovem deixou o asilo tão restaurado no corpo quanto na mente.
CAPÍTULO XXIV.
UM ENCONTRO DESESPERADO.
Quando o Visconde Massetti deixou o asilo de loucos, Monte-Cristo providenciou-lhe alojamento no Hotel de France, onde ele pudesse estar perto tanto dele como da sua filha. Durante o período da convalescença do jovem italiano, o Conde tinha-se abstido de lhe comunicar os detalhes da sórdida conspiração revelada por Peppino, mas assim que o noivo de Zuleika se instalou no hotel, ele deu-lhe todos os pormenores surpreendentes. Massetti não ficou espantado, pois há muito suspeitava de pelo menos uma parte da verdade, mas a sua indignação contra o velho Pasquale Solara não tinha limites, e jurou interiormente vingar-se rápida e completamente dele, embora o Conde o tenha avisado para ser extremamente prudente e não pôr em risco o sucesso das suas operações a seu favor com qualquer procedimento imprudente. Monte-Cristo não informou o jovem italiano dos seus planos, desconfiando da sua natural cabeça quente e impetuosidade, mas instou-o a contentar-se em deixar a prossecução do plano de reabilitação inteiramente nas suas mãos. O Conde também tinha instruído o Visconde de que, em consequência das revelações de Peppino, ele não tinha mais objeções à sua união com Zuleika e que o casamento deveria realizar-se imediatamente após o estabelecimento total e aberto da sua inocência aos olhos do mundo. Com isto, o ardente jovem ficou encantado até ao fundo do coração; a certeza da sua felicidade próxima e a ternura que a rapariga exibia por ele compensavam em grande medida todos os seus provações e torturas, mas ao mesmo tempo ele estava impaciente com o atraso necessário para restaurá-lo à posse de um nome e reputação imaculados, achando que Monte-Cristo era demasiado cauteloso e lento.
Ele tinha agora permissão para ver Zuleika quase constantemente e os seus tête-à-têtes amorosos eram da descrição mais deliciosa e apaixonada. Passavam horas juntos na vasta varanda superior do hotel, no suave crepúsculo italiano e nas noites de luar, discorrendo aquelas doces e ternas trivialidades tão preciosas para os amantes e tão insípidas para as pessoas práticas cujos dias de apego romântico terminaram. Às vezes, contudo, a sua conversa era de um carácter mais prático; falavam dos seus projetos para o futuro — para onde iriam na sua viagem de núpcias e o que fariam antes de se estabelecerem na vida calma e pacífica de uma plácida alegria matrimonial. Tinham decidido fixar a sua residência permanente em Paris; assim, estariam sempre perto de Monte-Cristo, Esperance e Mercedes, perto de Albert de Morcerf e da sua esposa, perto daqueles amigos de amigos, Maximilian e Valentine Morrel; além disso, na alegre capital francesa, a cidade das cidades, enquanto desfrutavam ao máximo, poderiam escapar a todas as alusões ao passado de Giovanni, o que não poderiam esperar se se estabelecessem em Roma, onde, sempre que o jovem casal aparecesse em público, o velho escândalo, a velha acusação contra o Visconde, seria sem dúvida comentada de forma fresca e talvez venenosa.
Ocasionalmente, quando Zuleika estava com o seu pai ou na companhia da Sra. Morrel, o jovem Massetti fazia longas caminhadas pelo campo com o objetivo de respirar o ar livre e aumentar a sua força por meio de exercício saudável. Durante estes passeios, ele evitava todas as pessoas que encontrava, sendo desejo de Monte-Cristo que ele evitasse estudadamente ser observado.
A notícia da cura súbita e maravilhosa de Massetti tinha-se espalhado por toda a Roma, mas as pessoas abanavam a cabeça quando falavam disso e concordavam com a opinião expressa pelo diretor do asilo de loucos de que o Dr. Absalom tinha feito uso de algum truque, cuja influência não poderia ser permanente, mas logo se dissiparia, momento em que o pobre e iludido Visconde cairia instantaneamente num estado mental pior do que antes.
Sem dúvida, o Conde Massetti ouviu falar da restauração do seu filho à sanidade e saúde física, mas não prestou a mínima atenção, continuando orgulhosa e altivamente a ignorar o facto da existência de Giovanni. Monte-Cristo não tinha visitado o velho e inflexível nobre por duas razões — receava que a sua indignação levasse a melhor sobre ele numa entrevista e, além disso, sabia que seria inteiramente inútil aproximar-se do Conde sem estar armado com a completa vindicação do jovem Massetti.
Durante um desses passeios já referidos, o Visconde foi muito mais longe do que o habitual. Era uma manhã brilhante, amena e alegre, e a radiância revigorante do sol, o verde brilhante das árvores, os odores fragrantes das flores e da erva, o chilrear dos insetos e as canções selvagens e inebriantes dos pássaros, tudo contribuía para atraí-lo e fazê-lo esquecer as injunções de Monte-Cristo quanto a manter-se longe da vista dos transeuntes.
Ele mal notava em que direção caminhava ou que estrada seguia, entregando-se a um devaneio descuidado e delicioso, cheio de prazeres do dolce far niente. Tinha fixado os olhos no chão e caminhava vagarosamente quando, de repente, tornou-se consciente de que alguém se aproximava. Ele olhou apressadamente. O pedestre ainda estava a alguma distância, mas os seus sapatos pesados batiam no cascalho da estrada com um som metálico. Era evidentemente um velho e camponês. Na mão direita segurava um cajado e o seu grande chapéu de abas largas estava puxado ligeiramente para baixo sobre o rosto, como se para o proteger do calor do sol. Giovanni estava prestes a desviar-se para um pequeno bosque de castanheiros ao lado da estrada, ali para esperar até que o recém-chegado tivesse passado, mas ao dar um segundo olhar para ele, algo familiar no seu aspeto deteve-o subitamente e, por um daqueles impulsos inexplicáveis que por vezes tomam conta de um homem, ele parou e esperou.
O camponês também tinha notado Giovanni e a sua ação, mas não diminuiu o passo, não pareceu inclinado a prestar sequer a mínima atenção a ele. Ele continuou a caminhar, chegou ao Visconde e passou por ele sem sequer um aceno de cabeça como saudação. Mas Massetti reconheceu-o com um sobressalto. Com um rubor de raiva no rosto e todo o seu sangue a ferver nas veias, ele virou-se, saltou atrás do velho e colocou a mão no seu ombro. O camponês parou abruptamente, também se virou, e uma imprecação feroz escapou dos seus lábios. Ele observou o jovem italiano irado da cabeça aos pés, com desdém e carranca.
"Por que me deténs?" disse ele, rudemente. "Não te conheço."
"Mas, Pasquale Solara, eu conheço-te!" exclamou o Visconde. "Encontrámo-nos a bom tempo e num local apropriado! A oportunidade pela qual esperei longa e impacientemente finalmente chegou! Sentirás o peso esmagador da minha vingança! Responderás perante mim pelos teus crimes desprezíveis e antinaturais! Pasquale Solara, base miserável que vendeste a tua própria filha a um destino pior que a morte, canalha ignóbil que não respeitaste os ditames da hospitalidade, eu sou Giovanni Massetti!"
Enquanto falava, ele saltou à frente do pastor soturno, bloqueando-lhe a passagem com o corpo.
"Bem, e o que importa que sejas Giovanni Massetti!" respondeu o velho Pasquale, fria e desafiadoramente. "Não me importo nada contigo! Sai do meu caminho e deixa-me passar antes que te atire ao chão como faria a um cão vadio e ganido!"
Com estas palavras, ele ergueu o cajado ameaçadoramente sobre o jovem italiano. Este, com a rapidez e agilidade de um veado, saltou para o cajado, agarrou-o e enviou-o a girar para dentro do bosque de castanheiros. Depois agarrou o velho Solara pela garganta e uma luta terrível começou imediatamente. Os dois homens fecharam-se um com o outro como se num agarramento mortal, lutando como um par de atletas. Massetti ainda não tinha recuperado o seu vigor total, mas a sua raiva emprestou-lhe força. Do seu lado, Pasquale, embora velho, tinha músculos de aço e um aperto como o ferro. Ele girava o seu adversário de um lado para o outro, por vezes quase derrubando-o, mas o Visconde lutava virilmente, ocasionalmente arrancando o pastor dos seus pés e levantando-o corporalmente no ar. O fôlego de ambos saía em arfares quentes, rápidos e laboriosos, enquanto os seus rostos estavam vermelhos de esforço. Por muito tempo o resultado foi duvidoso, a luta continuando ferozmente sem qualquer vantagem decidida de nenhum dos lados. Muitas vezes o Visconde era levado quase ao chão, mas invariavelmente recuperava, endireitava-se e renovava vigorosamente o conflito. Nem uma palavra era proferida agora. As energias concentradas dos contendores estavam voltadas para a luta, privando-os do poder da fala. Finalmente, por um movimento rápido, Giovanni conseguiu tropeçar Solara, que caiu com um estrondo, o jovem italiano caindo sobre o seu corpo prostrado com grande força e, por um instante, quase bloqueando-lhe a respiração. Ambos ficaram parcialmente atordoados pela queda e permaneceram imóveis. Massetti foi o primeiro a recuperar o domínio das suas faculdades. Ele meio se levantou, colocou os joelhos sobre o peito do velho Pasquale e, sacando de uma pistola, engatilhou-a.
"O que vais fazer?" arquejou o homem por baixo, o seu terror dando-lhe o poder de falar.
"Vou matar-te, Pasquale Solara!" sibilou o Visconde, entre os dentes cerrados.
"Assassino!" gritou o pastor, desesperadamente, fazendo um esforço frenético para se levantar, mas sem sucesso.
Esta palavra sinistra, com todo o peso terrível de significado que transmitia, atingiu o ouvido do jovem italiano como um som de desgraça. Um assassino? Sim, ele seria um assassino se matasse o velho Solara ali mesmo, e, marcado com o crime negro de um homicida, teria de renunciar para sempre a toda a esperança de possuir a sua amada Zuleika, teria de abandoná-la para morrer de coração partido! Talvez, também, ele fosse preso, julgado, condenado e encontrasse o destino de um criminoso no cadafalso ignominioso! É verdade, a justiça romana poderia ser silenciada com dinheiro, mas ele era um filho deserdado e renegado, um pária sem um tostão! Estes pensamentos levaram-no a uma perceção das profundezas negras do abismo aberto no qual ele estava prestes a mergulhar e fizeram-no hesitar. Mas uma ideia rápida veio em seu auxílio — se ele lutasse num duelo com o velho Solara e o matasse assim, a lei romana não o perseguiria, ele não seria marcado com o crime de um assassino! Ele faria isso, ele lutaria com ele! Saltando para os pés, sacou de uma segunda pistola e, lançando-a ao chão ao lado do seu atónito inimigo, disse-lhe, falando lenta e impressionantemente:
"Pasquale Solara, dar-te-ei uma hipótese para a tua vida! Levanta-te, pega nessa pistola e enfrenta-me! Nós lutaremos!"
O pastor levantou-se com alguma dificuldade; ele estava consideravelmente ferido e tinha, além disso, estirado seriamente uma das pernas. Apanhando a arma, engatilhou-a e, sem uma palavra, mas com um olhar de ferocidade demoníaca e triunfo na sua face maligna, assumiu uma posição a cerca de vinte passos de distância do seu oponente. Instantaneamente ambos ergueram as suas pistolas e dispararam. Quando o fumo leve se dissipou, tornou-se evidente que nenhum deles tinha sido atingido. O velho Solara lançou a sua arma vazia para longe com uma maldição e, produzindo um par de facas de lâmina longa e afiada, atirou uma delas para o Visconde.
"Tu desafiaste-me e eu aceitei!" disse ele, num tom áspero. "Agora eu desafio-te! Pega nessa faca e luta comigo!"
Massetti hesitou, com um olhar de horror no seu rosto. Um duelo com facas! Era bárbaro! Era digno dos selvagens vermelhos das terras selvagens americanas!
"Pega na faca, digo-te!" trovejou o velho Solara. "Pega nela e enfrenta-me, ou pelo dossel do céu mostrar-te-ei menos misericórdia do que tiveste a fraqueza de me mostrar! Esfaquear-te-ei no coração onde estás!"
Ele avançou com a sua arma assassina na mão estendida, tendo previamente arregaçado a manga e exposto o seu braço castanho e musculoso.
Massetti inclinou-se e pegou na faca de onde estava. Ele também expôs o seu braço, agarrando nervosamente o punho da arma.
Os olhos de Pasquale Solara brilhavam como os de um tigre visto através da escuridão de uma selva do Industão. Eles tinham um brilho terrível, sedento de sangue. O pastor sentia-se agora seguro da sua posição. Com uma pistola ele não era nada, com uma faca ele era um poder! Giovanni não poderia lidar com ele; ele cairia como uma vítima fácil da sua habilidade e astúcia!
O Visconde observava o velho canalha com febril ansiedade, compreendendo plenamente o que se passava na sua mente. Que Pasquale o venceria, o mataria, ele não podia duvidar, pois não sabia mais sobre lutar com uma faca do que um bebé no seu berço. Contudo, a sua coragem não o abandonou e ele resolveu vender a sua vida o mais caro possível.
Ao ver Giovanni pegar na faca e preparar-se para o combate, Solara inclinou-se parcialmente para a frente e arremeteu contra ele. As lâminas longas e afiadas encontraram-se com um clarão de fogo. O jovem italiano limitou-se a agir na defensiva, sendo necessária a máxima atividade e vigilância da sua parte para aparar e desviar os golpes incessantes e habilidosos do seu oponente. O pastor lutava com a rapidez desconcertante de um relâmpago e parecia estar em mil lugares diferentes ao mesmo tempo, tão velozmente avançava, recuava e saltava para o lado. A sua excitação fazia-o esquecer os seus ferimentos.
A dada altura, o braço de Massetti tornou-se tão tenso e fatigado que lhe era impossível aguentar por muito mais tempo. A sua mão estava fortemente cerrada em torno do cabo da faca, mas estava tão entorpecida que ele não conseguia sentir a arma. Ainda assim, com a energia e a resolução do desespero, continuou o conflito desigual, esperando contra toda a esperança que uma reviravolta inesperada lhe desse a vantagem.
Entretanto, o velho Solara, diabolicamente confiante, estava firme e seguramente a fechar o cerco sobre ele, estreitando o limite da sua retirada após cada golpe. Finalmente, ele não recuou mais, mas começou a pressionar o seu adversário para trás em direção ao bosque de castanheiros, enquanto desferia golpe após golpe. Então, subitamente, deu um giro destro ao pulso e a faca de Giovanni foi arrancada do seu aperto, caindo a cerca de dez pés de distância. Instantaneamente, o jovem foi forçado a ir ao chão e o velho Pasquale ficou por cima dele com as pernas bem afastadas, firmemente plantadas para desferir o golpe mortal. Enquanto Massetti estava caído, o seu olhar captou o brilho da sua própria faca para lá do pastor e, deslizando como uma serpente entre as pernas de Solara, agarrou-a, saltou para os pés e, antes que Pasquale pudesse recuperar da sua surpresa perante esta manobra inesperada, enterrou a lâmina cintilante no seu peito. Solara cambaleou e caiu sobre a relva, onde jazia banhado em sangue.
"Escapaste-me, Visconde Massetti!" gemeu ele.
O jovem Massetti mal conseguia compreender o que tinha acontecido, o que tinha feito, tão milagroso parecia o resultado deste estranho duelo para a sua mente atordoada.
Enquanto permanecia como alguém num sonho, ouviu um som como de muitos pés. Apressadamente, lançando-se para o bosque de castanheiros, olhou para trás e viu o velho Solara rodeado por um grupo de homens de Luigi Vampa.
CAPÍTULO XXV.
UMA VISITA AO REFÚGIO.
Entre os detalhes do plano do Conde de Monte-Cristo para a reabilitação de Giovanni Massetti, estava uma visita a Annunziata Solara no Refúgio em Civita Vecchia. Esta visita foi feita numa manhã, na companhia de Zuleika e do Sr. e Sra. Morrel. Madame de Rancogne ficou encantada ao ver o Conde e deu cordialmente as boas-vindas a ele e ao seu grupo.
"Portanto, esta bela jovem é a sua filha, Edmond," disse ela, sentando-se ao lado de Zuleika e tomando-lhe a mão. "Como o tempo voa depressa. Hoje estamos no meio do gozo da juventude e amanhã somos as pessoas de meia-idade da nossa localidade. Depois, num outro breve espaço, somos os velhos, após o que vem a morte!"
Zuleika corou com o elogio de Helena e olhou para ela com curiosidade enquanto ela proferia a parte final do seu discurso. Mas a Condessa de Monte-Cristo do passado não era de natureza sombria e, sorrindo, acrescentou:
"O lado mais deslumbrante e encantador do quadro da juventude é o amor! Zuleika, Conde, alguma vez experimentou a terna paixão? Seria extremamente estranho se não o tivesse feito."
A filha de Monte-Cristo corou novamente.
O Conde sorriu ao responder:
"Sim, Helena, Zuleika experimentou a paixão suprema da vida. Ela está noiva do Visconde Giovanni Massetti de Roma."
"O quê!" exclamou a Sra. de Rancogne, atingida de espanto e horror. "Aquele Giovanni Massetti que foi renegado e deserdado pelo seu pai pela prática de um dos crimes mais vis e desonrosos conhecidos no mundo?"
"O mesmo!" respondeu Monte-Cristo, calmamente.
A Sra. de Rancogne estava agora mais atónita do que nunca.
"Conhece o historial deste homem e, ainda assim, permite que ele conquiste a sua filha! Conde, isto não é próprio de si! Não consigo compreender!"
"Helena," replicou Monte-Cristo, "este pobre jovem foi difamado, falsamente acusado por pessoas inimigas dele."
A Superiora da Ordem das Irmãs do Refúgio abanou lenta mas firmemente a cabeça, olhando ao mesmo tempo para o Conde e para a sua filha com uma expressão de profunda simpatia e compaixão no seu nobre semblante.
"Foi enganado, ludibriado, Edmond," replicou ela. "Não pode haver dúvida alguma quanto à terrível e condenável culpa do jovem. Além disso, a minha afirmação admite verificação e prova imediatas. A infeliz vítima de Massetti, a bela rapariga camponesa Annunziata Solara, é agora uma interna desta instituição, para onde se arrastou quando vencida pela vergonha e pelo sofrimento da descrição mais aguda, procurando encontrar aqui um asilo e um claustro onde olhos curiosos não a pudessem encontrar e onde a língua venenosa do escândalo não pudesse rasgar as suas feridas e fazê-las sangrar de novo. Ela é um membro da nossa Ordem, dedicou o resto dos seus dias à realização de boas ações e ao levantamento dos caídos e traídos do seu sexo. Annunziata Solara está aqui, quase ao alcance da minha voz, e, embora com relutância, estou convencida, confirmará cada palavra que proferi relativamente ao seu cobarde e vil raptor!"
"Ter uma entrevista com esta criatura infeliz é o que me trouxe aqui com Zuleika e os meus amigos, os Morrel," disse o Conde. "Naturalmente, desejei vê-la, Helena, e desfrutar mais uma vez do prazer da sua companhia," acrescentou ele, o seu sorriso agradável acompanhando as suas palavras.
A Superiora fez uma vénia graciosa e levantou-se.
"Compreendo então a sua ansiedade em ver e falar com Annunziata no momento mais breve possível. Por conseguinte, irei imediatamente chamá-la a este aposento, onde a entrevista desejada poderá ter lugar sem demora."
Ao proferir estas palavras, a Sra. de Rancogne apressou-se a sair do salão, regressando pouco depois com a antiga vendedora de flores da Piazza del Popolo em Roma.
Annunziata permaneceu por um instante no centro do aposento, olhando interrogativamente para os visitantes, pois a Sra. de Rancogne não a tinha informado do seu propósito, preferindo que Monte-Cristo, na sua sabedoria e experiência, conduzisse a entrevista e desenvolvesse os seus desejos à sua maneira peculiar.
O Conde e Maximilian olharam para a filha do velho Pasquale Solara com considerável interesse, mas era um interesse totalmente masculino. Valentine também a olhou atentamente, com aquele olhar perscrutador e penetrante que uma mulher invariavelmente lança sobre outra. Quanto a Zuleika, os seus olhos devoravam literalmente a camponesa, brilhando com o que não era exatamente ódio por uma rival, mas sim um medo e desconfiança instintivos. Ela estava bem ciente de que Giovanni tinha flertado com esta rapariga, tinha sido cativado pelos seus encantos físicos, tinha quase cedido à sua influência, e sentia um interesse peculiar pela criatura que, temporariamente pelo menos, lhe tinha roubado o coração do seu amante.
Annunziata tinha sido grandemente beneficiada pela sua estadia no calmo e tranquilo Refúgio. Tinha, através de um grande e heroico exercício da sua força de espírito, deixado de lado todos os pensamentos sobre a sua história lamentável, sobre o seu passado subitamente ensombrado e terrível. Tinha-se abandonado completamente à disciplina e aos deveres das Irmãs da Ordem do Refúgio, e tinha procurado, com mais ou menos sucesso, até esquecer-se de si própria. A sua vida tranquila, passada na prática contínua do bem, enchia-a de paz e satisfação, e pela primeira vez em muito tempo ela compreendeu plenamente o que era estar perfeitamente contente e feliz. Consequentemente, a sua condição física tinha melhorado, respondendo prontamente à sua serenidade mental. Ela tinha recuperado a beleza que tinha perdido durante o seu confinamento na cabana dos bandidos e as suas subsequentes errâncias como uma proscrita sem-abrigo e faminta. A sua robustez tinha também regressado, e o seu olhar tinha todo o brilho e alegria que outrora o distinguiam. Ainda assim, um refinamento geral tinha tomado conta dela, e Annunziata já não era a criança da natureza que tinha sido quando vivia na cabana romântica na floresta.
Madame de Rancogne foi a primeira a falar.
"Irmã Annunziata," disse ela, "aqui estão a Sua Excelência o Conde de Monte-Cristo, Zuleika, a sua filha, e o Sr. e a Sra. Morrel. Permita-me apresentá-la a eles e assegurar-lhe que são verdadeiros amigos meus, em quem se pode confiar firmemente. Eles desejam interrogá-la a respeito de um certo assunto. Pode responder às suas perguntas sem medo e sem a mínima hesitação. O Conde de Monte-Cristo é a própria alma da cavalaria e da honra!"
O Conde fez uma vénia em reconhecimento deste discurso bem articulado e, dirigindo-se a Annunziata, que, não obstante as garantias da Sra. de Rancogne, começava a tremer e a sentir-se angustiada, disse:
"Irmã Annunziata, desejo fazer-lhe certas perguntas importantes como a sua Superiora lhe disse. Estou a conduzir uma investigação que promete ser frutífera nos melhores resultados do mais elevado bem possível. Irmã Annunziata, desejo a sua ajuda para limpar o registo de um homem inocente, alguém que sofreu tanto quanto a senhora e por quem pode, portanto, sentir piedade e simpatia. Refiro-me ao Visconde Giovanni Massetti."
A rapariga deu um sobressalto repentino e ficou mortalmente pálida.
"O Visconde Giovanni Massetti?" repetiu ela, interrogativamente, meio duvidando se poderia ter ouvido o nome corretamente.
"Sim," disse Monte-Cristo, "o Visconde Giovanni Massetti, que foi falsamente acusado de a ter raptado!"
"Falsamente acusado!" gritou Annunziata. "Ora, Senhor Conde de Monte-Cristo, o infeliz jovem é culpado de tudo o que lhe foi imputado, quer as acusações tenham sido feitas por pessoas inimigas dele ou não!"
Os visitantes continuavam a observar atentamente a camponesa. Eles esperavam que ela dissesse exatamente o que tinha dito e, portanto, não ficaram minimamente espantados ou desconcertados. A sua sinceridade e o facto de ela certamente dever saber a identidade do seu raptor eram bem calculados para inspirar confiança nas suas afirmações e induzir a crença na culpa do jovem Visconde Massetti.
Monte-Cristo respondeu a Annunziata firme, mas atenciosamente.
"Irmã," disse ele, "não obstante a sua crença de que Massetti foi o seu raptor, sei que o contrário é a verdade e tenho em minha posse prova indubitável do que afirmo!"
Annunziata abanou a cabeça.
"A prova deve, de facto, ser conclusiva para abalar a minha convicção!" disse ela, com um ligeiro traço de amargura no seu tom.
"É conclusiva!"
"Mas se o jovem Massetti é inocente do meu rapto e do assassinato do meu pobre irmão, quem então, em nome do Céu, é a parte culpada?"
"Luigi Vampa!"
"Luigi Vampa?"
"Sim. Ele forçou a entrada na sua cabana naquela noite memorável, raptou-a e, depois, alvejou o seu irmão Lorenzo na floresta."
"Diz que tem prova indubitável disto. Como foi obtida?"
"De um homem chamado Peppino, que ouviu todos os detalhes do negócio nefasto e da conspiração celebrada entre o chefe dos bandidos e o velho Pasquale Solara."
"Pasquale Solara? O meu pai! Oh! Senhor Conde, o que quer dizer?"
"Mantenha a calma, minha filha, e escute-me. O seu pai vendeu-a desprezivelmente a Luigi Vampa por uma grande soma de dinheiro e eles, juntos, orquestraram o rapto de tal forma que toda a suspeita cairia com força esmagadora sobre os ombros do jovem italiano!"
Annunziata levou a mão à testa e permaneceu imóvel, enraizada no lugar pelo horror e pelo espanto. Ela não tinha grande amor pelo seu pai sombrio e taciturno, que nunca tinha feito nada calculado para inspirar afeição por ele no seio da sua filha, mas, ao mesmo tempo, parecia-lhe incrível e horrível que o seu progenitor tivesse sido culpado deste comportamento antinatural para com ela, desta conduta pouco viril no que respeita a um convidado inocente que, com toda a confiança, partilhava da hospitalidade que o seu teto oferecia. Ela olhou para Monte-Cristo com dúvida e depois para a Sra. de Rancogne, que lhe sorria encorajadoramente.
"Como Deus é o meu juiz," disse ela, solenemente, "acredito que Giovanni Massetti foi o meu raptor!"
"Naturalmente," replicou Monte-Cristo, "mas a senhora está enganada!"
"Eu vi o rosto dele! Certamente deveria ter sido capaz de reconhecê-lo!"
"Certamente; mas, digo-lhe, tudo foi arranjado para a enganar e levá-la a acreditar que o jovem italiano era o criminoso, o desprezível miserável que não tinha respeitado a honra de uma mulher!"
"Pode ser como afirma, mas não consigo livrar-me da minha crença firme e profundamente enraizada sobre o assunto. Perdoei ao Visconde Massetti pelo erro vil que me cometeu, mas até ao último dia da minha existência terrena acreditarei que ele é culpado!"
Fixando subitamente os seus olhos em Zuleika com um olhar de intensidade desconcertante, Annunziata permaneceu como se estivesse ansiosa por falar com ela sobre algum tópico muito importante.
A filha de Monte-Cristo adivinhou isso e, dirigindo-se à antiga vendedora de flores, disse-lhe:
"Há algo que eu possa fazer por si, Irmã Annunziata? Se sim, só tem de pedir!"
Annunziata pousou a mão no ombro de Zuleika, perguntando, num tom que, apesar de todos os seus esforços para o controlar, não era pouco instável e trémulo:
"Ama-o? — ama o Visconde Massetti?"
"Sim," respondeu Zuleika, baixando os olhos perante a intensidade do olhar da outra.
"Assim pensava, mas oh! filha de uma nobre família, cuidado com o jovem pérfido! Ele não hesitará em enganá-la como me enganou a mim! Depois, deixá-la-á entregue ao seu destino como me deixou a mim, e a tristeza e a miséria de uma vida inteira serão a sua porção!"
Zuleika olhou com piedade para a camponesa.
"Amou-o outrora, não foi?" perguntou ela.
"Talvez o tenha amado, talvez não!" respondeu Annunziata. "Não sei! Certamente o meu coração falou por ele, mas isso pode ter sido apenas estima amigável! Contudo, após o rapto e os eventos horríveis e vergonhosos que se seguiram, passei a odiá-lo com a mais amarga das formas de ódio! Já lhe disse que o perdoei e era a verdade. Perdoei e estou a tentar esquecê-lo!"
Havia um brilho suspeito nos olhos da rapariga enquanto ela falava, algo que sugeria a presença de lágrimas, mas o brilho passou e, voltando-se para a Sra. de Rancogne, disse:
"Os seus convidados terminaram de me interrogar, Madame a Superiora?"
A Sra. de Rancogne olhou interrogativamente para Monte-Cristo, que abanou a cabeça afirmativamente.
"A entrevista está concluída," respondeu Helena, "e agora, se assim o desejar, pode regressar ao seu aposento."
Annunziata, mais afetada e agitada pelo que tinha acabado de passar do que queria admitir, fez uma vénia aos visitantes e à Superiora e saiu apressadamente do salão.
"Pobre rapariga! Ela permanece perfeitamente não convencida!" disse Monte-Cristo, após a partida dela.
"E ela tem razão!" replicou a Sra. de Rancogne, calorosamente. "Ouvi todos os detalhes da história dela e a cadeia de provas contra o Visconde Giovanni Massetti está totalmente completa. Duvidar da culpa dele seria pura idiotice!"
Após uma estadia de mais algumas horas no Refúgio, Monte-Cristo e o seu grupo regressaram a Roma para trabalharem ativamente na causa de Massetti.
CAPÍTULO XXVI.
VAMPA E MONTE-CRISTO.
Após o seu duelo temível e exaustivo com o velho Pasquale Solara, no qual tinha sido tão perto de ser vencido e tão notavelmente favorecido pelo Destino, o Visconde Massetti arrastou-se em vez de correr através do bosque de castanheiros à beira da estrada, parando de vez em quando para olhar para trás, através das árvores, e notar o que estava a acontecer entre os bandidos de Vampa. O seu antagonista ferido estava evidentemente inconsciente, pois os bandidos estavam debruçados sobre ele, alguns deles parecendo empenhados em esforços para o fazer recuperar os sentidos. Outra circunstância que tendia a confirmar esta suposição era a ausência de perseguição, pois se o pastor tivesse sido capaz de dar a mais fragmentária informação relativa ao encontro, os homens de Vampa teriam imediatamente dedicado a sua atenção a uma busca pelo seu atacante vitorioso e, na atual condição de exaustão de Giovanni, a sua captura não poderia ter sido duvidosa.
O jovem italiano não perdeu um momento, mas fez o seu caminho em direção a Roma tão rapidamente quanto pôde, embora o seu progresso fosse necessariamente penoso e extremamente doloroso. Tendo finalmente chegado à margem de um pequeno riacho a uma distância segura do local do conflito, lavou o pó e o suor do rosto e manteve a sua mão entorpecida na água fresca e límpida até o sangue retomar a sua circulação normal. Depois, arranjou as suas vestes rasgadas e desordenadas para não atrair demasiada atenção dos curiosos pedestres que certamente encontraria nos arredores da cidade, retomando a sua jornada fortalecido e revigorado. Contrariamente às suas expectativas, chegou eventualmente ao Hotel de France sem excitar qualquer observação ou comentário especial. Uma vez no seu próprio aposento, trancou cuidadosamente a porta e, lançando-se sobre a sua cama, respirou livremente pela primeira vez desde que o velho Solara tinha caído pela sua mão.
Os seus pensamentos, contudo, não eram de natureza totalmente reconfortante. Ele tinha feito justiça de um italiano sobre o desprezível velho Pasquale Solara, que certamente merecia tudo o que tinha recebido, mas como veria Monte-Cristo o caso quando o soubesse, como certamente saberia quando começasse a sua campanha contra Vampa, se não antes? Indubitavelmente com forte desaprovação e desagrado. O Conde tinha-o avisado para se manter fora de vista, para conter a sua impetuosidade, e ele não tinha feito nem uma nem outra coisa. Pelo contrário, tinha-se mostrado ao pastor, declarado a sua identidade e assumido a responsabilidade de lidar com ele, embora, diga-se de passagem, lhe tivesse dado uma oportunidade de se defender. Se Solara estivesse morto, se tivesse expirado sem fazer qualquer revelação, o seu segredo estava seguro e nem Monte-Cristo poderia desenterrá-lo, mas não privaria a morte do velho Pasquale o Conde de uma testemunha importantíssima, um fator importantíssimo na sua reabilitação? Talvez sim, talvez não, pois de modo algum era certo que Monte-Cristo pudesse forçar Solara a confessar e a fazer, pelo menos, uma reparação parcial e tardia pelas suas atrocidades. Era altamente provável que o infeliz pai de Annunziata, mesmo que encurralado, persistisse em manter um silêncio pétreo e ininterrupto, sem fazer admissão alguma. Tendo este ponto de vista sobre o assunto, o Visconde sentiu-se aliviado e, compondo-se no seu divã, cedeu à influência de extrema fadiga e adormeceu. O seu sono foi profundo e sem sonhos. Exatamente quanto tempo dormiu, ele não sabia, mas entretanto um evento tão inesperado quanto portentoso ocorreu quase ao alcance do ouvido de onde ele jazia, um evento provocado pela sua ação precipitada e inconsiderada daquela manhã.
O salão de Monte-Cristo ficava em frente aos aposentos de Massetti, com um largo corredor a separar os dois apartamentos. Era o final da tarde e o Conde, sentado à sua secretária, ponderava sobre os seus planos em relação ao Visconde. Os assuntos não tinham progredido tão rapidamente como esperara. Além disso, parecia inevitável um atraso muito maior. Maximilian, naturalmente, nada podia fazer, pelo menos por enquanto, e a utilidade de Valentine limitava-se a encorajar Zuleika e a exercer um grau adequado de vigilância sobre os amantes, quando tal vigilância era possível. Peppino e Beppo também eram comparativamente inúteis, embora, através de inquéritos cuidadosos e bem orientados, tivessem apurado que Luigi Vampa e o seu bando tinham mudado as suas instalações do antigo ponto de encontro, localizando-se num reduto ao qual não se podia chegar sem grande dificuldade e perigo. Nenhum dos bandoleiros visitava agora Roma e até o próprio Vampa parecia desconfiado do futuro. De acordo com as informações recolhidas por Peppino e Beppo, ele andava constantemente em vários disfarces que desafiavam a deteção, evitando escrupulosamente todos os seus locais habituais. Em relação às ações do chefe dos bandoleiros, Monte-Cristo só podia ter uma de duas opiniões: ou ele estava cheio de remorsos pela sua conduta vergonhosa para com a pobre Annunziata Solara e pela sua cumplicidade com o velho Pasquale em colocar o inocente Visconde sob suspeita, o que era duvidoso, ou receava que a justiça romana, estimulada pelo jovem Massetti e pelos amigos que ainda possuía, o alcançasse, o que era o mais provável. O Conde não esperava muito de Annunziata Solara, embora tivesse contado de certa forma com o efeito sobre ela da sua garantia de que possuía provas conclusivas da inocência de Giovanni. A sua recente entrevista com a rapariga, contudo, estabelecera o facto de que ela acreditava firmemente na culpa do Visconde, e era justo presumir que ela manteria a sua crença perante tudo, com toda a proverbial obstinação da mulher. Além disso, afinal, qual era a sua prova conclusiva? Simplesmente as afirmações não comprovadas de um antigo membro do bando de Vampa, que, ao fazê-las, fora claramente movido pelo desejo de exercer uma vingança pessoal sobre o velho Pasquale Solara!
O Conde não estava pouco desencorajado, mas a sua própria convicção sobre a veracidade do depoimento de Peppino era tão forte como sempre e, não obstante todos os obstáculos aparentemente intransponíveis, não duvidava que acabaria por encontrar uma forma de forçar Vampa e o pastor a uma confirmação completa de cada detalhe diabólico relatado pelo ex-bandoleiro na cela da esquadra de polícia em Paris.
Enquanto estava assim sentado a comungar com os seus pensamentos sombrios e a refletir que o atraso poderia estender-se por muitos meses, ouviu-se uma batida à porta e, em resposta à sua permissão, Peppino entrou no salão.
Um olhar para o semblante pálido e agitado do homem foi suficiente para dizer a Monte-Cristo que algo de invulgar tinha acontecido.
"Bem", disse ele, observando-o atentamente, "que se passa?"
O homem olhou apressadamente à volta do apartamento e, tendo-se certificado de que o seu amo estava sozinho, aproximou-se dele, curvando-se e sussurrando-lhe ao ouvido:
"Senhor Conde, um visitante estranho está lá em baixo a pedir para o ver. Ele está vestido como um nobre romano e o seu rosto está maquilado com tintas e cosméticos como o de um ator no palco de um teatro. Ainda assim, penso que descobri o seu disfarce e que ele não é menos do que a própria pessoa de Luigi Vampa!"
"Ah!" disse o Conde, levantando-se com um sorriso de satisfação. "Que o céu permita que estejas correto! Se Vampa está aqui, a sua visita simplificará as coisas."
"Mas não pretende ver o chefe dos bandoleiros, pois não, Senhor Conde?" disse Peppino, num tom sobressaltado.
"Por que razão, pergunto, não o deveria ver quando há tanto tempo espero impacientemente uma oportunidade para o encontrar?" perguntou Monte-Cristo, espantado.
"Porque", respondeu o italiano, com uma manifestação inconfundível de medo, "ele pode ter adivinhado a sua missão em Roma e o seu assunto consigo hoje pode ser o assassinato!"
Monte-Cristo riu-se de bom grado.
"Meu caro amigo", disse ele, num tom tranquilizador, "afasta os teus terrores infantis. Vampa nem sequer se atreverá a tentar fazer-me mal! Faz subir o misterioso visitante e deixa que o problema da sua identidade seja resolvido!"
"Conheço o seu poder sobre Vampa, Senhor Conde", retorquiu Peppino, hesitante, "mas, ainda assim, neste caso peculiar, ele pode falhar-lhe!"
"Pshaw!" disse o Conde, impacientemente. "Digo-te que não temo Vampa. Fá-lo subir imediatamente."
Peppino abandonou o salão muito relutantemente, regressando pouco depois com o visitante suspeito.
Monte-Cristo avançou para encontrar o recém-chegado, que apontou silenciosamente para Peppino, fazendo um gesto em direção à porta. O Conde acenou ao ex-bandoleiro e, com passo lento, ele saiu da sala.
Embora Vampa estivesse cuidadosamente disfarçado e até elegantemente vestido com o traje da moda da aristocracia romana, Monte-Cristo, tal como Peppino, não teve qualquer dificuldade em reconhecê-lo.
"Bem, Luigi Vampa!" disse ele, encarando o seu visitante e cruzando calmamente os braços assim que ficaram sozinhos. "O que queres de mim?"
O chefe dos bandoleiros não pareceu, nem por um momento, desconcertado ou surpreendido. Retribuiu corajosamente o olhar do seu anfitrião e disse:
"Eu sabia que me reconheceria imediatamente, pois estou bem ciente da sua extraordinária perspicácia e penetração, Senhor Conde, mas, para dizer a verdade, o meu disfarce não se destinava a enganá-lo; o seu único objetivo era garantir-me uma entrada e saída seguras de Roma, que ultimamente se tornou perigosa para homens da minha linha de trabalho!"
O Conde sorriu da sua maneira peculiar.
"O que queres de mim, Luigi Vampa?" repetiu ele. "O teu recado deve ser de vasta importância, já que tiveste tanto trabalho para o executar!"
"É de vasta importância, Senhor Conde. Esta manhã, um dos membros mais eficientes do meu bando, o velho Pasquale Solara, foi atacado e gravemente ferido pelo seu protegido, o Visconde Giovanni Massetti!"
"O velho Solara atacado e gravemente ferido pelo Visconde Massetti? Impossível!"
O Conde ficou muito desconcertado com esta notícia; não conseguiu esconder o seu desgosto. A imprudência e impetuosidade do Visconde arruinariam tudo!
"O que digo é verdade", continuou Vampa, "e vim até si para protestar. Deve refrear este Visconde Massetti, este louco imprudente! Ele professa ter um rancor contra Pasquale Solara e não se sabe até onde pode ir se não o controlar. Se Pasquale tivesse podido falar quando foi descoberto, banhado em sangue, na estrada por alguns dos membros do meu bando, o jovem Massetti teria sido perseguido, capturado e obrigado a pagar pelo seu assalto assassino com a vida; mas foi só mais tarde, quando trazido à minha presença, que ele recuperou a consciência suficiente para relatar o que tinha acontecido. Senhor Conde, desejo respeitar os seus amigos, mas eles, pela sua parte, devem respeitar-me a mim e ao meu bando!"
"Luigi Vampa", respondeu Monte-Cristo, severamente, "dizes que o jovem Massetti tem um rancor contra o velho Pasquale Solara! O que tentas menosprezar com o nome de rancor é simplesmente a justa indignação por um ultraje como poucos seres humanos cometem! Isto tu sabes! Tu, a quem Solara vilmente vendeu a sua filha! Tu, que conspiraste com o velho patife para que a acusação de rapto e homicídio pudesse cair sobre os ombros inocentes do Visconde quando tu, Luigi Vampa, eras o homem culpado!"
O chefe dos bandoleiros sobressaltou-se e empalideceu por baixo da tinta e dos cosméticos com que o seu rosto estava espessamente coberto.
"Foi enganado, Senhor Conde!" gaguejou ele, apanhado em desvantagem, mas, não obstante, falando com cautela e esforçando-se por manter uma aparência audaz. "A própria rapariga, Annunziata Solara, jurar-lhe-á que o Visconde Giovanni Massetti foi o seu raptor e o autor da sua ruína!"
"Sim", respondeu Monte-Cristo, amargamente, "ela fá-lo-á e diz isso mesmo, pois foi completamente cegada pelos estratagemas astutos e demoníacos a que recorreste, auxiliado e encorajado por aquele infame vilão, o velho Pasquale Solara, para quem uma morte lenta na roda da antiga Inquisição espanhola não seria um castigo suficiente!"
"Fala muito confiantemente, Senhor Conde", disse Vampa, retomando a sua fria compostura. "Por favor, diga-me como vai provar tudo isto?"
"Seria um tolo, de facto, se o fizesse", respondeu Monte-Cristo, vendo a armadilha do chefe dos bandoleiros e evitando habilmente ser apanhado nela. "Contudo, basta dizer que posso e vou confirmar tudo o que afirmei! Até a própria Annunziata Solara ficará completamente convencida!"
"Senhor Conde", disse Vampa, suplicante, "há muito que somos bons amigos, há muito que nos entendemos perfeitamente. Não deixe que os contos ociosos que pessoas mal-intencionadas despejaram nos seus ouvidos destruam essa amizade e esse entendimento!"
"Não ouvi contos ociosos de pessoas mal-intencionadas", retorquiu o Conde. "O que ouvi foi uma declaração simples e clara da verdade. Sei como o velho Solara o chamou com o seu apito de sinalização, como negociou com ele a sua bela filha e como finalmente a comprou! Sei como raptou a rapariga enquanto o seu infame pai esperava fora da cabana com uma tocha, como a transportou nos seus braços através da floresta, assassinando o irmão dela e encontrando, por sua vez, o meu filho Esperance e o Visconde Massetti. Sei como a levou para a cabana que tinha preparado, como a manteve lá como uma prisioneira próxima, guardada por membros do seu bando, até que o seu vergonhoso objetivo fosse cumprido! Sei como escreveu aquela carta assinada por Tonio, destinada a influenciar a crença de Annunziata na culpa do Visconde, e sei como o velho Solara a escondeu onde a filha a encontrou e leu mais tarde! Agora, Luigi Vampa, estás satisfeito? Disseste há momentos que há muito que nos entendemos. Espero que não haja qualquer mal-entendido da tua parte quando te digo que pretendo forçar tanto tu como o velho Solara a confessarem os vossos crimes e a fazerem reparação por eles, tanto quanto possível!"
"Então declara guerra contra nós?" gritou o chefe dos bandoleiros.
"Declaro!" respondeu Monte-Cristo, friamente.
"Então, em meu nome e no de Pasquale Solara, desafio-o, Edmond Dantes, Conde de Monte-Cristo!"
Ele recuou em direção à porta como se temesse que o Conde o atacasse. Quando lá chegou, virou-se, abriu-a de um golpe e saiu para o corredor, encontrando-se instantaneamente nas garras de Peppino e Beppo, que imediatamente o entregaram a um esquadrão de polícias, cujo oficial responsável disse:
"Prendo-o, Luigi Vampa! Siga-me!"
CAPÍTULO XXVII.
AS REPRESÁLIAS DOS BANDOLEIROS.
Monte-Cristo ficou estupefacto quando viu Luigi Vampa preso pelo polícia romano e o seu esquadrão; o seu primeiro pensamento foi que Peppino, não querendo deixar escapar uma oportunidade tão propícia de obter vingança, tinha traído o chefe dos bandoleiros às autoridades; esta ideia foi aparentemente confirmada pelo papel que os dois ex-bandoleiros tinham desempenhado na captura do seu antigo líder; por conseguinte, depois de os agentes e o seu prisioneiro terem partido, ele virou-se furiosamente para Peppino e disse, num tom de raiva:
"Este é um belo trabalho para um dos meus servos fazer, especialmente um tão de confiança como tu!"
"Senhor Conde", respondeu Peppino, humildemente, "está enganado. Não tive qualquer participação nisto, exceto obedecer à ordem do oficial no comando da polícia."
"De facto!" gritou o Conde, incrédulo.
"Sim", continuou Peppino, na mesma voz humilde, "e Beppo, aqui, é igualmente inocente. O oficial seguiu Vampa até ao hotel e foi informado de que eu o tinha conduzido à sua presença. Ele, então, mandou chamar-me, ordenando-me, sem mais delongas, que levasse Beppo, que por acaso estava na minha companhia, e capturasse o chefe, que lhe era pessoalmente desconhecido, no instante em que ele saísse do seu salão. Confio que a sua Excelência nos perdoará, pois não podíamos fazer nada a não ser obedecer."
"Nesse caso", disse Monte-Cristo, "nenhuma culpa recai sobre nenhum de vós, mas, ainda assim, a prisão de Vampa nesta conjuntura crítica interferirá seriamente com as minhas operações projetadas."
A polícia tinha conduzido os assuntos muito silenciosamente; ainda assim, o caminhar de muitos pés no corredor tinha acordado o Visconde e enchido-o de terror. Conhecendo a audácia inigualável dos bandoleiros, ele chegou imediatamente à conclusão de que um grupo deles tinha entrado em Roma e tomado posse do Hotel de France com o objetivo de o apanhar como o assassino do velho Pasquale Solara, que ele não duvidava que estivesse morto. Quando os pés, que o Conde e Vampa estavam demasiado ocupados para ouvir, pararam em frente da sua própria porta, ele ficou preso nesta conclusão e saltou da cama em grande alarme. Olhou apressadamente à sua volta à procura de alguma via de fuga, mas não havia nenhuma. Se os bandoleiros estavam fora, ele estava encurralado e estaria rapidamente nas mãos deles. Escutou com a maior ansiedade, esperando a cada instante que a sua porta fosse forçada e os seus inimigos implacáveis entrassem no quarto. Nenhum movimento desse tipo, porém, foi feito. Prevaleceu um silêncio mortal. Qual era o significado de tudo isto? O que estava a acontecer ou prestes a ocorrer? Se os homens no corredor não eram os bandoleiros de Luigi Vampa, quem eram eles? O Visconde perdeu-se num labirinto confuso de conjeturas. Fazer um exame pessoal e satisfazer-se, não se atrevia. No meio das suas conjeturas, ouviu uma porta abrir-se diretamente do outro lado do corredor e soube que era a de Monte-Cristo. Depois, uma voz de comando severo quebrou o silêncio, mas o que foi proferido ele não conseguiu distinguir, embora imaginasse ter percebido a palavra ominosa "prisão", que foi quase imediatamente sucedida por uma renovação do caminhar de pés. Este som rapidamente desapareceu e o silêncio prevaleceu novamente. O jovem Massetti estava mais perplexo do que nunca. Não conseguia tirar nada do problema complexo apresentado para a sua solução. De repente, ocorreu-lhe um pensamento que trouxe gotas de suor frio à sua testa. Monte-Cristo tinha sido preso e levado para uma prisão romana! Depois, ouviu a voz bem conhecida do Conde a dirigir-se furiosamente a alguém e este pensamento alarmante desapareceu tão rapidamente como lhe tinha vindo. A parte presa, se uma prisão tinha sido feita, não era, portanto, Monte-Cristo, mas outra pessoa, alguém que tinha vindo do salão do Conde. Quem poderia ser? Maximilian Morrel? Não, a ideia era absurda, pois o que tinha o jovem francês feito para provocar uma prisão? Finalmente, incapaz de suportar mais a incerteza e o suspense, o Visconde abriu cautelosamente a sua porta e espreitou para o corredor. Os seus olhos repousaram sobre Monte-Cristo, Peppino e Beppo. O primeiro viu-o e veio imediatamente até ele.
"O que aconteceu?" perguntou Massetti, ansiosamente.
"Luigi Vampa esteve aqui e foi levado prisioneiro pela polícia", respondeu o Conde.
"Luigi Vampa!" gritou o jovem italiano, espantado.
"Sim, Luigi Vampa", retorquiu Monte-Cristo, com a testa a anuviar-se.
"O que o trouxe ao Hotel de France?"
"Veio queixar-se de si!"
"De mim?"
"Eu disse-o."
"E o senhor mandou-o prender?"
"Não mandei. A sua prisão deveu-se inteiramente à sua própria imprudência. A polícia seguiu-o até aqui e prendeu-o no momento em que ele saía do meu apartamento."
Enquanto falava, Monte-Cristo dirigiu-se ao quarto de Giovanni. Fechando a porta atrás de si, ficou a olhar para o Visconde com um ar sombrio.
"Giovanni Massetti", disse ele, num tom lento e medido, "o senhor ignorou as minhas ordens e, pela sua impetuosidade, colocou todos os meus planos em perigo! Fez mal, muito mal, ao atacar o velho Pasquale Solara esta manhã!"
"Estou agudamente consciente disso agora, após uma reflexão calma", respondeu o Visconde, penitente. "Mas, ainda assim, deve considerar algo por mim. Encontrei-me subitamente com o pastor e a minha indignação e desejo de vingança dominaram-me tanto à vista dele que não me consegui controlar. Não obstante, dei-lhe uma oportunidade para a sua vida. Travámos um duelo desesperado e ele foi ferido, mas se mortalmente ou não, é-me impossível dizer, uma vez que os homens de Vampa apareceram imediatamente após a sua queda, e fui forçado a uma fuga precipitada."
"Caso Solara morra", disse Monte-Cristo, melancolicamente, "ter-nos-á privado de uma testemunha muito importante, pois contava forçá-lo a falar, a revelar cada detalhe da infame conspiração contra si. Mas, tal como o senhor, não conheço o seu estado atual, pois Vampa não me garantiu qualquer informação sobre esse ponto. Só posso esperar que ele não esteja gravemente ferido e que recupere."
"Sou singularmente infeliz", disse o Visconde, humildemente. "Tudo o que faço parece ser errado."
"Porque é governado apenas pelo impulso e não espera que o seu juízo mais calmo venha em seu auxílio", respondeu Monte-Cristo. Depois, acrescentou, firmemente: "Giovanni Massetti, ou se submete totalmente a mim no futuro, sendo guiado inteiramente pelos meus desejos, ou serei forçado a deixá-lo à sua sorte! Não preciso de dizer que o abandonarei muito relutantemente, mas abandoná-lo-ei a menos que pare de atrapalhar os meus esforços em seu nome!"
O jovem italiano agarrou a mão do seu benfeitor convulsivamente.
"Sua Excelência", exclamou ele, suplicante, "não me abandone, não me deixe à sua sorte nesta conjuntura crítica! Render-lhe-ei cega e implícita submissão e obediência! No futuro, não farei nada, não darei sequer o mais ligeiro e insignificante passo sem a sua autorização direta ou comando expresso!"
"Está bem, Giovanni", disse o Conde, evidentemente muito aliviado por encontrar o seu ardente protegido tão tratável. "Continuarei o trabalho que comecei e também tentarei levá-lo a uma conclusão rápida e bem-sucedida. A prisão de Vampa e o ferimento do velho Solara complicaram as coisas até certo ponto, mas um breve período, confio, bastará para desembaraçar as complicações e os nós, e depois o resultado será a felicidade para todos nós, a recompensa mais rica possível!"
"Que Deus o permita!" gritou Massetti, fervorosamente.
"Agora", disse o Conde, "não deve sair do Hotel de France nem por um momento sem a minha permissão! Promete-me isso?"
"Não só o prometo, juro-o!" exclamou o Visconde, levantando os olhos e a mão direita para o Céu.
"Está bem", repetiu Monte-Cristo, alegremente, e, virando-se, saiu do quarto de Massetti.
Estava planeado que o Conde levasse Zuleika a passear na manhã seguinte, mas o desejo de saber o que tinha acontecido a Luigi Vampa e o que as autoridades pretendiam fazer no seu caso impediu Monte-Cristo de cumprir a sua promessa à filha. Ele, contudo, decidiu não privar Zuleika do prazer que ela antecipava do seu passeio e, por isso, quando o landau e os seus cavalos fogosos foram trazidos à porta do hotel, instalou Peppino no assento do cocheiro com o fiel Ali para atuar como um guarda e protetor adicional.
Zuleika, depois de se despedir ternamente do pai, foi ajudada por ele a entrar no elegante veículo e Ali partiu, conduzindo os corcéis fogosos e impetuosos com toda a desenvoltura e perícia de um veterano cocheiro parisiense.
Passaram pelo Corso, que, como de costume, estava repleto de equipagens esplêndidas e transeuntes alegres, fazendo finalmente o seu caminho para a vasta e bela Piazza del Popolo, que apresentava uma cena ainda mais animada e vivificante do que o Corso. As equipagens elegantes eram lá complementadas por cavaleiros soberbamente montados e os vários caminhos estavam vivos com raparigas bonitas e os seus galantes, enquanto, intercalados entre as classes superiores, estavam camponeses de ambos os sexos, ricamente vestidos, alguns simplesmente a vaguear, outros a vender pequenas mercadorias e flores.
Cansada finalmente das vistas comuns de Roma, Zuleika ordenou a Ali que conduzisse uma curta distância para o campo. Ele obedeceu com considerável relutância, pois estava bem ciente dos perigos a enfrentar nos arredores da cidade, e Peppino, da sua parte, também estava inquieto, embora não se atrevesse a protestar contra o que considerava um capricho muito censurável da sua jovem senhora.
Contudo, conduziram durante várias milhas sem que ocorresse o mais pequeno incidente que justificasse os receios de Ali e Peppino ou perturbasse a serenidade de Zuleika. A jovem desfrutou imensamente do campo aberto, com as suas árvores majestosas, verdura e odores refrescantes, e congratulou-se internamente por ter variado o seu programa ao deixar a poeirenta Roma para trás por algum tempo.
Entretanto, Ali, com o fatalismo habitual da sua nação, resignara-se de antemão a tudo o que pudesse acontecer e conduzia diretamente para a frente, com os olhos fixos de forma impassível nos cavalos. O mesmo não acontecia com Peppino; o astuto e bem informado italiano estava constantemente em alerta, examinando cada matagal, grupo de árvores ou curva da estrada com um olhar perscrutador muito antes de chegarem a eles; embora nada de suspeito tivesse ainda cruzado o seu olhar, não estava de forma alguma satisfeito ou tranquilizado.
Finalmente, aproximaram-se de uma pequena estalagem à beira da estrada e Zuleika, queixando-se de sede, ordenou que o coche parasse e que Peppino descesse do seu assento, entrasse na estalagem e lhe trouxesse algum vinho. Peppino fez uma careta a esta ordem, mas não teve coragem de explicar à filha de Monte-Cristo que, ao obedecer-lhe, corria o risco de encontrar alguns dos seus antigos camaradas que poderiam revelar-se demasiado curiosos. Desceu lentamente do coche e, com um semblante extremamente pesaroso, dirigiu-se à estalagem. Não tinha ido embora há um instante quando reapareceu subitamente, correndo em direção ao coche e soltando altos gritos de alarme. Meia dúzia de homens de aspeto rústico perseguiam-no e, antes que ele pudesse alcançar o veículo, foi capturado. Simultaneamente, outro grupo de rufiões saiu da estalagem, agarrando os cavalos pelo freio no momento em que Ali estava prestes a arrancar.
— Não tão depressa, meu amigo de pele escura! — disse um dos homens. — Temos de fazer as apresentações com a tua bela jovem senhora!
Zuleika ficou sem fala, paralisada de terror. Ali levantou o chicote para atingir o rufião que falara com tanta leviandade sobre a filha de Monte-Cristo, mas o indignado mudo foi instantaneamente dominado e arrastado para o chão.
Entretanto, os homens que mantinham Peppino nas suas garras examinavam-no atentamente.
— Eu juraria — disse um deles — que este é o nosso antigo camarada Peppino, que fugiu de nós tão pouco cerimoniosamente, levando consigo tudo o que pôde apanhar!
— É o Peppino — acrescentou outro. — Reconheço-o apesar do seu rosto manchado e da sua libré! Pela Santa Virgem! — acrescentou ele — também conheço a libré! É de Monte-Cristo!
— Então o coche e os cavalos também são de Monte-Cristo! — disse o primeiro orador. — Não há dúvida, também, de que aquela jovem ali é um membro da família do Conde. Seguimos Peppino por um pouco de diversão, camaradas, mas caímos numa sorte rara! Monte-Cristo é o responsável pela prisão de Vampa ontem, pois o chefe foi apanhado quando saía do seu quarto. Agora podemos vingar-nos!
— Excelente! — gritou outro do bando. — Podemos vingar-nos e obter pelo menos um refém valioso para a segurança de Vampa! Signora — disse ele à aterrorizada Zuleika —, quem é você?
A pobre rapariga, comandando a sua voz o melhor que pôde, respondeu com alguma dignidade:
— Sou Zuleika, filha do Conde de Monte-Cristo! Em seu nome, exijo que nos libertem instantaneamente!
— Então! — disse o homem, voltando-se para os seus companheiros encantados. — A filha dele! Podemos agora contar com a segurança de Vampa sem sombra de dúvida!
O líder dos bandidos saiu então da estalagem; ao ser informado da importante captura que os seus homens tinham feito, esfregou as mãos de alegria. Voltando-se para os seus tenentes, disse:
— Coloquem um guarda no coche ao lado da filha de Monte-Cristo e deixem que outro camarada conduza a equipagem até ao ponto de encontro do bando. Quanto ao cocheiro de cor, deixem-no voltar a Roma a pé e levar as notícias ao seu amo com os cumprimentos dos homens de Vampa!
— O que deve ser feito com Peppino? — perguntou um dos tenentes.
— Enforquem-no na árvore mais próxima! — respondeu o líder, mas, refletindo imediatamente, acrescentou: — Não. Mantenham-no! Talvez Monte-Cristo dê algum valor ao patife e não seria má política retê-lo como um refém adicional!
Peppino, que estivera a ouvir atentamente as palavras do líder, soltou um profundo suspiro de alívio. Certamente passaria por um tratamento duro, mas, pelo menos, a sua vida estava a salvo. Submeteu-se, portanto, a ser atado sem um murmúrio e até sorriu enquanto era levado.
As ordens do líder referentes a Zuleika e à equipagem foram prontamente obedecidas, e logo a filha de Monte-Cristo tornou-se uma prisioneira próxima numa cela rochosa da fortaleza subterrânea dos bandidos.
Ali, assim que foi libertado, partiu para Roma para dar o alarme.
CAPÍTULO XXVIII.
A BATIDA AOS BANDIDOS.
Quando Ali chegou ao Hotel de France e se arrastou até ao apartamento do seu amo, o que só aconteceu já tarde da tarde, a sua condição era verdadeiramente deplorável. Com os pés doridos e pronto a cair de extrema fadiga, cambaleava como um homem ébrio. Estava densamente coberto de pó e a transpiração profusa fazia a sua pele escura brilhar. O fiel mudo lançou-se imediatamente aos pés do Conde, abraçando-lhe os joelhos e, na sua maravilhosa pantomima, suplicando eloquentemente perdão.
Monte-Cristo, que sofria um tormento devido à prolongada ausência da sua amada filha, adivinhou instantaneamente que algum acidente terrível lhe tinha acontecido e tornou-se quase louco de dor e apreensão. Erguendo Ali, disse-lhe com uma voz quebrada e ansiosa:
— Diz-me o que aconteceu, sem circunlóquios ou atrasos, e diz-me tudo!
O núbio fez uma profunda salaam em sinal de submissão e obediência. Depois, prosseguiu, à sua própria maneira peculiar de narrar eventos com os quais Monte-Cristo estava tão perfeitamente familiarizado e que, neste caso, traduziu apenas demasiado pronta e infalivelmente, para contar os detalhes da viagem fatal aos arredores da cidade e da captura de Zuleika, Peppino e da equipagem pelos salteadores.
Monte-Cristo sentou-se por um instante após ele ter concluído, como que estupefacto, tão completamente sobrecarregado estava ele pela inesperada e perturbadora informação. Depois, saltou para os seus pés e começou a andar pelo quarto, murmurando enquanto caminhava:
— Então os miseráveis capturaram a minha filha e o meu criado como forma de represália e pretendem mantê-los como reféns pela segurança de Luigi Vampa! O que deve ser feito? Deixem-me pensar, deixem-me pensar!
Levou a mão à testa e acelerou o passo, passando de um lado para o outro com tal rapidez febril que até Ali, impassível como era por natureza, mostrou alarme, receando o efeito de toda esta agitação terrível e exaustiva sobre o seu adorado amo, para salvar o qual do menor problema ou dor ele teria dado a sua vida livre e sem hesitação. Monte-Cristo continuou a murmurar:
— Vampa é um prisioneiro, confinado de perto numa masmorra do Castelo de Santo Ângelo. Ele será julgado pelos seus muitos crimes, entre os quais fiz incluir o rapto de Annunziata Solara e a sua tentativa de manchar a boa fama do Visconde Massetti. A sua condenação e punição como bandido podem ser aceites como certas, seja qual for o destino das outras acusações na lista negra contra ele, pois multidões daqueles que ele roubou e maltratou estão para testemunhar, e as autoridades romanas, por alguma razão, tornaram-se subitamente os seus inimigos mortais e implacáveis; não lhe mostrarão clemência! Mas o resto do bando infame, o que deve ser feito com eles? Nada, absolutamente nada, até onde fui capaz de saber! Porquê? Possivelmente porque a polícia teme atacar os salteadores no seu reduto! Mas eu mudarei este item do programa — sim, eu mudá-lo-ei! Irei imediatamente ao Cardeal Monti, queixar-me-ei de que a minha filha foi capturada pelos bandidos e oferecerei, com a ajuda do Capitão Morrel, liderar um destacamento de soldados contra eles. Animados por Maximilian e por mim, os militares mostrarão coragem por uma vez. O resultado não pode ser duvidoso. Capturaremos todo o bando, juntamente com o seu famoso reduto, e resgataremos Zuleika. Peppino, também, será libertado. Não levarei Massetti comigo — não, ele é demasiado precipitado e poderia colocar em perigo o sucesso do empreendimento — não, não o levarei, nem sequer o informarei do que pretendo fazer. O Cardeal dificilmente se atreverá a recusar-me. Se ele hesitar, porém, envergonhá-lo-ei até que consinta, ameaçá-lo-ei com invocar a ajuda do ministro francês! Não, ele não me recusará! Agora, para o teste do meu poder! Oh! Zuleika, minha querida filha, eu salvar-te-ei, eu salvar-te-ei!
Colocando apressadamente o seu chapéu e lançando uma capa leve sobre si, o Conde de Monte-Cristo partiu para a sua missão, uma missão certamente totalmente característica daquele homem maravilhoso.
O Cardeal Monti recebeu-o cordialmente, ouviu a sua queixa e, após hesitar ligeiramente, aceitou a sua oferta de liderar os soldados contra os temíveis salteadores, concordando em colocar duzentos homens da Guarda Suíça, devidamente oficializados e equipados, à disposição dele e do Capitão Morrel. Ficou decidido que a expedição deveria partir do Castelo de Santo Ângelo às dez horas daquela noite e deveria ser guiada por um camponês de confiança, então ao serviço do Cardeal, que professava conhecer a localização exata do refúgio dos bandidos e a rota mais segura para lá chegar.
Estes preliminares satisfatoriamente resolvidos, Monte-Cristo, com o seu coração a transbordar de alegria, regressou imediatamente ao Hotel de France para notificar o Sr. Morrel e fazer os seus preparativos para a campanha que se aproximava. Ao ser informado da captura de Zuleika pelos foras da lei e da parte que o seu pai desejava que ele desempenhasse na sua libertação, Maximilian consentiu instantaneamente, demasiado feliz por ter tal oportunidade notável de servir o seu benfeitor. O infortúnio de Zuleika, contudo, angustiou-o grandemente.
— Valentine sabe da captura da tua filha? — perguntou ele ao Conde.
— Não — respondeu Monte-Cristo —, e devo pedir-te que não lho contes até que o resultado da expedição seja conhecido. Desejo manter todo o assunto em segredo rigoroso, para que o jovem Massetti não ouça falar dele e estrague os nossos planos com a sua habitual precipitação. Com este objetivo, já instruí Ali, a única pessoa além de ti no Hotel de France que está ciente do golpe terrível que caiu sobre mim, a abster-se de comunicar a informação a qualquer pessoa. É melhor assim, pois os salteadores têm, sem dúvida, espiões em Roma neste momento e a máxima cautela é aconselhável.
O Sr. Morrel assentiu prontamente à sabedoria da política de silêncio completo do Conde, e os dois separaram-se para preparar silenciosamente a perigosa e emocionante aventura da noite.
Às nove e meia, Monte-Cristo e Maximilian entraram no pátio do sombrio Castelo de Santo Ângelo, onde o destacamento da Guarda Suíça já estava alinhado sob armas, aguardando ordens. O Conde vestia um traje semi-militar e trazia uma espada ao seu lado, enquanto o seu amigo estava vestido com o uniforme completo de um Capitão do Exército de França e igualmente provido com a arma regulamentar. Tanto ele como Monte-Cristo tinham um par de pistolas nos seus cintos, fresca e cuidadosamente carregadas.
O Capitão da Guarda Suíça recebeu-os e apresentou o camponês que o Cardeal Monti tinha enviado para atuar como guia. Depois, passou o comando dos seus homens ao Capitão Morrel, que lhes dirigiu brevemente a palavra em francês, uma língua com a qual eles estavam bem familiarizados, informando-os de que ele e a sua Excelência, o Conde de Monte-Cristo, confiavam em que cada homem cumprisse o seu dever na supressão dos salteadores e no resgate, das suas mãos rudes, de uma bela jovem francesa, nada menos que a própria filha do Conde.
Ao terminar este discurso, os soldados saudaram, a única forma que os regulamentos militares lhes permitiam responder.
Monte-Cristo e o Sr. Morrel tiveram então uma breve conferência com o guia camponês, que parecia muito inteligente e perfeitamente informado sobre os bandidos e o seu reduto. A informação que ele deu foi, em todos os aspetos, satisfatória e era abundantemente claro que se podia confiar implicitamente no homem.
Tudo estava agora pronto e, quando a hora das dez foi batida pelo relógio do Castelo de Santo Ângelo, as tropas, lideradas pelo Capitão Morrel e pelo Conde, saíram do pátio e iniciaram a sua marcha. Quando o campo aberto foi alcançado, o guia assumiu uma posição um pouco à frente do destacamento e liderou o caminho. Manteve-se silêncio total e tomou-se o máximo cuidado para abafar o passo dos pés dos soldados.
Após marcharem até quase à meia-noite, o guia, num sussurro baixo e cauteloso, informou o Conde e Maximilian de que o reduto dos bandidos estava perto. Uma breve paragem para descanso e recuperação foi imediatamente ordenada; depois, o avanço foi retomado, seguido de uma luta com a sentinela dos salteadores, que foi agarrada e dominada antes que pudesse dar sequer o menor alarme.
— Agora, homens — disse o Capitão Morrel, num tom firme e de comando —, um arranque rápido e prenderemos todos os lobos na sua toca subterrânea!
A caverna tinha duas entradas. O Conde, à frente de metade das tropas, apoderou-se rapidamente de uma, e Maximilian, com o resto do destacamento, capturou prontamente a outra.
Até agora, o sucesso da expedição tinha sido completo. Os foras da lei estavam enjaulados e não podiam escapar, mas, ainda assim, era provável que fizessem uma resistência desesperada e sangrenta. Simultaneamente, Monte-Cristo e o Capitão Morrel penetraram nas profundezas sombrias com os seus homens e uma dúzia de tochas rapidamente acesas iluminaram a caverna como que por magia. Instantaneamente surgiu um coro de gritos selvagens proferidos pelos bandidos surpreendidos, que, armados até aos dentes, vinham a acorrer de todas as direções. Seguiu-se uma batalha feroz corpo a corpo, com a caverna a ecoar com o estrépito da mosquetaria, os tiros das pistolas e o tinir das espadas.
Como se tinha previsto, os salteadores lutaram desesperadamente e com a máxima fúria. Eram homens corajosos e resistentes, e, embora cercados por todos os lados, esperavam evidentemente triunfar sobre os invasores do seu reduto e expulsá-los em desordem e terror. A sua experiência anterior com a Guarda Suíça e a polícia dava-lhes o direito de nutrir essa esperança, mas, na presente ocasião, fizeram os cálculos sem o dono da casa, pois os soldados nunca antes tinham tido líderes tão intrépidos, determinados e capazes.
A batalha durou mais de uma hora e só quando muitos tinham sido mortos e feridos de ambos os lados é que os foras da lei começaram a mostrar sinais de vacilar. Monte-Cristo e o Capitão Morrel realizaram prodígios de valor, animando e encorajando as suas tropas tanto por palavra como por exemplo. Finalmente, os foras da lei foram completamente subjugados, tendo os que não tinham sido mortos sido feitos prisioneiros. O Conde escapou sem um arranhão, mas Maximilian foi ligeiramente ferido na mão esquerda.
Quando o tiroteio e o tinir das espadas cessaram, o Capitão Morrel deu a ordem para revistar a caverna em busca de Zuleika e Peppino, colocando primeiro sentinelas nas entradas para evitar surpresas e impedir a fuga de qualquer um dos bandidos que, no meio da confusão, pudessem escapar dos seus captores.
— Onde estão as celas? — perguntou Monte-Cristo ao guia camponês, que tinha desempenhado virilmente a sua parte na luta.
— Sigam-me — respondeu o homem. — Levá-los-ei até elas.
Monte-Cristo, agora que a excitação do combate o tinha abandonado, estava cheio de ansiedade pela sua filha. O que lhe teria acontecido desde que fora prisioneira na toca dos bandidos? Teria a sua honra sido respeitada, assim como a sua vida? O seu suspense era a tortura mais terrível que se poderia conceber. Mal conseguia conter-se até que pudesse saber a verdade, fosse ela fatal ou favorável. Maximilian estava quase igualmente agitado, mas conseguiu manter um exterior comparativamente calmo para que pudesse apoiar e animar melhor o seu amigo nesta sua hora de amarga necessidade.
O camponês, segurando uma tocha acima da cabeça, conduziu-os a um corredor escuro e húmido, com vários soldados a segui-los sob o comando de um tenente. O grupo não tinha dado muitos passos quando os gritos de um homem se tornaram audíveis, procedentes de uma cela próxima. A porta desta cela estava fechada apenas por uma barra de ferro, para remover a qual foi necessário apenas um instante, quando se descobriu que os gritos vinham de Peppino, que, tendo ouvido o ruído do conflito e concluído que o alívio estava próximo, tinha começado imediatamente a gritar para revelar o seu paradeiro aos invasores. O ex-bandido foi posto em liberdade e a busca continuou.
De repente, um gemido baixo atingiu o ouvido atento do Conde.
— O que foi aquilo? — perguntou ele, com um sobressalto.
— Um gemido que, sem dúvida, foi proferido pela sua filha! — respondeu o guia.
— A minha filha! — gritou o Conde. — Então, graças a Deus, ela está viva!
Chegaram a outra cela, cuja porta, tal como a de Peppino, estava fechada por uma barra. Dentro da cela, o gemido baixo continuava. Monte-Cristo agarrou a barra, girou-a para o lado e abriu a porta; depois, saltou para a cela, chamando desesperadamente pela sua filha.
Zuleika estava deitada num canto sobre um monte de palha e a gemer piedosamente. Ao som da voz do seu pai, porém, ela estava de pé num instante e lançou-se arrebatadoramente nos seus braços.
— Estás a salvo, minha querida filha? — disse o Conde, cobrindo-lhe o rosto de beijos. — Os bandidos respeitaram-te?
— Estou a salvo, querido pai — respondeu Zuleika —, a salvo e sem ferimentos. Os bandidos assustaram-me e a solidão e os terrores desta masmorra escura e sombria foram terríveis de suportar. Mas todos os meus problemas acabaram agora que tu estás aqui!
O Conde ordenou então ao guia que os conduzisse aos estábulos dos bandidos, onde os seus cavalos e coche foram encontrados. A equipagem foi levada para o ar livre e, após colocar a sua filha no veículo, o Conde deixou-a sob os cuidados de Peppino e de vários soldados da Guarda Suíça, regressando à caverna para trazer o trabalho da expedição ao fim.
Quando Monte-Cristo chegou ao ponto onde a Guarda Suíça e os seus prisioneiros estavam reunidos, encontrou o Capitão Morrel a supervisionar a colocação de um bandido idoso numa maca improvisada.
— Durante a sua ausência, Conde — disse ele, com o rosto radiante de alegria —, fizemos a captura mais importante da noite! Este velho é Pasquale Solara!
— Onde o encontraram? — perguntou o Conde.
— Numa cela grande usada pelos foras da lei como enfermaria. Ele diz que está mortalmente ferido e a morrer lentamente, que o seu ferimento foi infligido por um nobre romano que o encontrou na estrada — uma história muito provável, na verdade!
— É um facto — respondeu Monte-Cristo. — O nobre romano que o feriu foi Giovanni Massetti! Mas, graças a Deus, ele ainda está vivo e provavelmente durará até ao julgamento de Vampa, no qual poderei forçá-lo a falar. Tratem dele cuidadosamente, Maximilian!
Os cativos foram formados em linha e, não estando nenhum demasiado incapacitado para andar, exceto o velho Solara que era transportado na sua maca, foram marchados para Roma rodeados pela triunfante Guarda Suíça. Monte-Cristo, Maximilian e Zuleika seguiram no coche do Conde, com Peppino a oficiar como cocheiro.
CAPÍTULO XXIX.
O JULGAMENTO DE VAMPA.
O resultado bem-sucedido da batida aos bandidos fez de Monte-Cristo e do Capitão Morrel os heróis do momento em Roma. Por onde quer que fossem, multidões reuniam-se para os contemplar e eram recebidos com vivas calorosos e altas aclamações de alegria. A bem dizer, o povo romano, tanto alto como baixo, tinha muito que lhes agradecer. O bando dos foras da lei foi completamente desmantelado e cada membro do mesmo foi guardado em segurança nas masmorras do Castelo de Santo Ângelo, onde, como já foi declarado, o temível líder, o notório chefe de bandidos, o próprio Luigi Vampa, também definhava, aguardando qualquer disposição que as autoridades pudessem escolher fazer dele com tudo menos estoicismo, pois ele não duvidava que as coisas lhe correriam mal. A prisão de Vampa foi considerada como diretamente devida a Monte-Cristo, pois se ele não tivesse vindo visitar o Conde, era improvável que ele tivesse sido capturado. Por conselho de Monte-Cristo, também, o refúgio subterrâneo dos bandidos foi preenchido com pólvora e reduzido a átomos. Não é de admirar, portanto, que os romanos estivessem gratos ao ilustre francês e ao seu capaz assistente, o Capitão Morrel.
O velho Pasquale Solara tinha sido colocado num hospital onde era vigiado de perto e tinha a assistência de um médico competente, pois o Conde tinha assegurado ao Cardeal Monti que ele poderia talvez ser transformado numa testemunha importante contra Vampa no seu próximo julgamento. Após examinar o ferimento do pastor, o médico deu a sua opinião de que era fatal, mas que, recorrendo a medidas adequadas e judiciosas, a vida do velho poderia ser prolongada o suficiente para lhe permitir testemunhar.
Valentine ficou profundamente comovida quando ouviu dos lábios de Zuleika a história do seu rapto pelos bandoleiros e do seu encarceramento na cela escura e húmida do seu refúgio na caverna, mas a sua emoção foi temperada pela alegria de saber que a sua querida amiga tinha escapado sem outros danos que não o choque resultante do susto e das apreensões naturais.
Quando Giovanni soube da perigosa aventura da sua noiva e dos perigos que a tinham cercado, a sua indignação não conheceu limites e, além disso, sentiu-se consideravelmente ofendido pelo facto de Monte-Cristo não lhe ter permitido participar no seu resgate. O Conde e a sua filha, contudo, conseguiram acalmá-lo e convencê-lo de que tudo tinha sido feito para o melhor. Ele foi ainda mais apaziguado pela garantia de Monte-Cristo de que poderia agora agir abertamente e sem receio de prejudicar o seu caso, uma vez que os criminosos estavam detidos e o fim estava certamente a aproximar-se.
O Cardeal Monti decidiu que o julgamento de Vampa deveria ter lugar dentro de uma semana e que a primeira acusação a ser investigada deveria ser a relativa ao rapto de Annunziata Solara e à conspiração contra o Visconde Massetti. Esta decisão foi motivada pela influência do Conde de Monte-Cristo, que representou ao Secretário de Estado Papal a importância de utilizar o testemunho do velho Pasquale Solara enquanto ele ainda estivesse em condições de o prestar.
O Conde resolveu fazer um esforço final para convencer Annunziata Solara da inocência de Giovanni, embora estivesse determinado a utilizar o seu testemunho em qualquer caso, confiando nos advogados e no Tribunal para extrair dela admissões que tendessem a mostrar que ela estava enganada quanto à identidade do seu raptor. Ele sabia que a antiga vendedora de flores era conscienciosa e acreditava firmemente na sua teoria, mas ainda assim não estava sem esperança de que ela pudesse ser levada a ver as coisas como elas realmente eram. Além disso, se o seu pai decidisse confessar, ela não poderia deixar de ser convencida da culpa de Vampa e, nesse caso, a expressão da sua convicção seria do máximo valor.
Em busca do seu plano, Monte-Cristo comunicou imediatamente com a Sra. de Rancogne no Refúgio em Civita Vecchia, suplicando-lhe que trouxesse Annunziata a Roma sem um instante de demora. Ela respondeu prontamente, aparecendo no Hotel de France com a sua protegida, e o Conde arranjou uma entrevista entre esta última e o jovem Massetti no seu salão. Quando Annunziata, acompanhada pela Superiora da Ordem das Irmãs do Refúgio, entrou no apartamento e encontrou Giovanni à sua espera, ela corou profundamente e começou a tremer.
"Coragem, minha pobre filha", disse a Sra. de Rancogne, de forma consoladora, "coragem!"
"Irmã Annunziata", disse o Conde, que também estava no salão, "não tenha medo. Tudo o que queremos nesta questão peculiarmente infeliz é chegar à verdade. Ouça o que o Visconde tem a dizer em sua própria defesa — isso é apenas justiça!"
O rubor no rosto bonito da jovem foi sucedido por uma palidez cadavérica, mas ela conseguiu eventualmente obter controlo sobre si mesma. Baixando os olhos, ela disse:
"Ouvirei o que o Visconde Massetti tem a dizer, mas ele não irá, ele não pode, negar a sua conduta vergonhosa e desonrosa para comigo!"
Giovanni, dificilmente menos afetado do que a jovem que se supunha sua vítima, avançou para ela e tomou-lhe a mão. Ela não se recusou a deixá-lo segurá-la na sua, mas absteve-se criteriosamente de olhar para ele.
"Annunziata", disse Massetti, humildemente, "não nego que a minha conduta para consigo no passado foi totalmente repreensível e imperdoável. Não nego que as circunstâncias se moldaram de tal forma que fui feito parecer um criminoso miserável e desprezível aos seus olhos; mas, Annunziata, eu não cheguei à culpa real e, como o Céu é minha testemunha, não tive qualquer participação nem no seu rapto nem nos horríveis eventos que o acompanharam e seguiram! Isto eu juro, e esta é a verdade de Deus!"
Annunziata levantou os olhos e lançou-lhe um olhar inquisidor.
"Compreendo a sua ansiedade em inocentar-se", disse ela, lentamente. "Com uma mancha no seu nome, não pode casar com a bela filha do Conde de Monte-Cristo!"
Foi um golpe agudo e cortante que fez Giovanni estremecer, mas ele recuperou-se instantaneamente.
"Estou ansioso por limpar o meu nome para que possa desposar Zuleika", respondeu ele, de forma firme e constante, "mas também estou ansioso porque sou inocente de qualquer ação criminosa — inocente do seu rapto, da sua desonra e do sangue do seu irmão! Annunziata, ainda se recusa a acreditar nas minhas afirmações solenes?"
"Eu acreditaria nelas de bom grado se pudesse", respondeu a jovem; "mas, infelizmente! Não posso! Vi o seu rosto quando a sua máscara caiu da sua face naquela noite terrível na floresta! Ouvi os tons da sua voz depois, na cabana guardada pelos bandidos! Que prova mais convincente poderia eu exigir?"
"Estava enganada, Annunziata, estava terrivelmente enganada!" gritou o jovem italiano, um desespero avassalador apoderando-se dele e esmagando a esperança no seu coração. Ele não conseguia convencer a antiga vendedora de flores, não conseguia sequer abalar as suas convicções! Ele tinha falhado com ela como Monte-Cristo tinha falhado anteriormente no Refúgio em Civita Vecchia! Até aquele momento, ele continuara a segurar a mão de Annunziata, mas agora largou-a como se tivesse sido uma serpente venenosa.
Annunziata estava profundamente afetada, mas a sua emoção surgia de uma causa totalmente diferente. Ela sentia a sua vergonha e desgraça e estava, além disso, horrorizada com a ideia de que outrora se tinha deixado levar pelas palavras doces de um patife tal como, na sua visão, o Visconde Massetti se tinha revelado.
Monte-Cristo estava agora completamente satisfeito por Giovanni nada poder conseguir com Annunziata e que um prolongamento da entrevista apenas traria sofrimento adicional tanto para a jovem como para o jovem Massetti; ele, portanto, pediu à Sra. de Rancogne que levasse a sua protegida para o seu apartamento e, quando elas deixaram o salão, disse ao Visconde:
"Devemos confiar esta rapariga aos advogados e juízes, Giovanni. Eles talvez sejam suficientemente astutos para abalar o seu testemunho, mesmo que o velho Solara decida manter silêncio sobre o assunto que nos diz respeito vitalmente."
Na hora marcada, o julgamento de Luigi Vampa começou no Salão de Julgamento do Vaticano, que estava repleto até à sua capacidade máxima, estando presentes tanto homens como mulheres e esforçando-se por empurrar para a frente a fim de obter um vislumbre do notório chefe dos bandoleiros e da primeira testemunha, Annunziata Solara.
O Cardeal Monti presidiu pessoalmente, assistido por dois Cardeais subordinados. Na parte do salão vedada para o uso da ordem dos advogados, estavam sentados Monte-Cristo e o Visconde Massetti com os seus advogados, os melhores e mais aguçados defensores de Roma, enquanto logo fora da vedação estavam o Sr. Morrel e Esperance, tendo este último vindo de Paris expressamente para assistir ao julgamento, embora, a seu pedido, o seu testemunho não lhe fosse exigido. Logo dentro da vedação e próximo de Maximilian e do filho de Monte-Cristo, estavam sentadas Valentine e Zuleika, ambas estreitamente veladas. Perto delas estavam a Sra. de Rancogne e a infeliz Annunziata Solara, vestidas com os hábitos cinzentos escuros da Ordem das Irmãs do Refúgio, os seus rostos brancos claramente visíveis sob as toucas das freiras de linho imaculado que usavam. Peppino sentava-se ao lado do Conde.
Havia um murmúrio baixo de conversação no Salão de Julgamento, à medida que o público discutia o resultado provável do julgamento e expressava opiniões diversas, embora todos concordassem que, independentemente da decisão do Tribunal quanto ao rapto e à conspiração, Luigi Vampa não escaparia à punição pelos crimes que cometeu na sua qualidade de chefe dos bandoleiros.
Pouco depois, o Cardeal Monti levantou-se, magnífico nas suas vestes principescas e joias cintilantes, acenando com a mão para pedir silêncio. O seu gesto foi instantaneamente obedecido e todo o salão ficou imóvel como a morte. Então, o Cardeal retomou o seu lugar no banco judicial e, voltando-se para o escrivão do Tribunal, ordenou-lhe que proclamasse a sessão aberta. Isso foi feito, após o que o Cardeal disse, com uma voz distintamente audível em todas as partes do vasto apartamento:
"Tragam o acusado!"
Um momento depois, Luigi Vampa entrou num recinto elevado que servia o propósito de banco dos réus, sob a custódia de dois polícias militares robustos e totalmente armados. O seu rosto estava cinzento, mas ele olhou em volta com indiferença e desafio. Quando os seus olhos pousaram em Monte-Cristo e no Visconde Massetti, ele sorriu de uma forma peculiar, como se se sentisse convencido de que todos os seus trabalhos seriam em vão. De repente, ele viu as duas mulheres vestidas de cinzento nas suas toucas de freira de linho, estremecendo ligeiramente ao reconhecer Annunziata Solara, mas de resto não demonstrando qualquer emoção.
Os homens e mulheres nas partes distantes do salão subiram aos bancos, esticando os pescoços para ver o acusado, e surgiu um murmúrio, um silvo fraco, que foi prontamente travado pelos vigilantes oficiais do Tribunal, que marchavam de um lado para o outro com os seus longos bastões brancos nas mãos e os seus chapéus pretos sobre as cabeças.
Então o Cardeal Monti levantou-se novamente, falando com uma voz profunda e impressionante:
"Luigi Vampa, prisioneiro no banco dos réus", disse ele, "está aqui acusado de muitos crimes graves, mas a acusação que o Tribunal considerará primeiro é mais negra do que todas as outras; essa acusação, Luigi Vampa, prisioneiro no banco dos réus, é que raptou e depois seduziu uma camponesa chamada Annunziata Solara e, em conluio com o seu pai, Pasquale Solara, conspirou para lançar o ónus e a suspeita do seu crime sobre um homem inocente, o Visconde Giovanni Massetti. O que diz, Luigi Vampa, prisioneiro no banco dos réus, é culpado ou não culpado?"
"Não culpado, sua Eminência!" respondeu o imperturbável chefe dos bandoleiros.
A isto seguiu-se outro murmúrio no salão, que foi prontamente suprimido como antes.
"Acusado, pode sentar-se", disse o Cardeal.
Vampa fez como lhe foi ordenado, os polícias permanecendo de pé aos seus lados com espadas desembainhadas nas mãos.
"Que a primeira testemunha seja chamada", disse o Cardeal, dirigindo-se ao escrivão do Tribunal.
Esse oficial levantou-se e chamou, em voz alta:
"Annunziata Solara!"
A antiga vendedora de flores adiantou-se, lenta e timidamente, e subiu ao estrado elevado das testemunhas, onde o juramento habitual lhe foi administrado pelo escrivão.
Novamente houve um esticar geral de pescoços, as mulheres mostrando a maior ansiedade por contemplar a rapariga que se dizia ter sido vítima de Vampa.
Com uma voz baixa e hesitante, Annunziata procedeu a prestar o seu testemunho. Ela repetiu a sua triste história exatamente como tinha feito antes, exonerando totalmente o chefe dos bandoleiros e lançando todo o peso do crime sobre os ombros do Visconde Massetti.
Isto foi o oposto do que o público esperava e o murmúrio de surpresa foi universal.
O prisioneiro olhou para Monte-Cristo e Massetti com um olhar radiante de triunfo.
Os advogados do Visconde tomaram então a testemunha a seu cargo, mas, por mais astutos e capazes que fossem, falharam totalmente em fazê-la desviar-se sequer um milímetro do seu depoimento. Ela regressou ao seu lugar ao lado da Sra. de Rancogne, confiante de que tinha cumprido o seu dever e não proferido uma única sílaba que fosse falsa.
Peppino seguiu-a. Ele repetiu quase palavra por palavra os detalhes que tinha dado ao Conde de Monte-Cristo em Paris. A sua recitação foi tão vívida, tão circunstancial, que causou uma impressão maravilhosa tanto no Tribunal como no público. Quando ele falou da infame venda, por parte do velho Pasquale Solara, da sua bela filha a Luigi Vampa, os ouvintes masculinos dificilmente conseguiam conter a sua indignação e as mulheres gritaram de horror, sendo necessários os maiores esforços dos oficiais do Tribunal para forçá-las a qualquer espécie de quietude. Outra sensação foi causada pela exposição de Peppino da nefasta conspiração pela qual o jovem e inocente Visconde foi colocado e mantido sob suspeita de homicídio e rapto. Quando ele concluiu a sua narrativa e deixou o banco das testemunhas, ele e Vampa trocaram olhares de ódio amargo e vingativo, e foi necessária toda a força dos polícias encarregados do prisioneiro para impedi-lo de saltar do banco dos réus e tentar tirar uma vingança sumária sobre a testemunha destemida e franca.
O Visconde Massetti tomou agora o seu lugar. Ele deu a história completa do seu conhecimento de Annunziata Solara desde o encontro na Piazza del Popolo até ao encontro com Vampa na floresta e a administração do juramento de silêncio, falando com tal evidência de sinceridade e sentimento que o seu testemunho adquiriu peso adicional por isso. O chefe dos bandoleiros observou-o atentamente, ouvindo o seu depoimento com um sorriso de desprezo. Quando o jovem italiano regressou para junto de Monte-Cristo e retomou o seu lugar, o seu rosto pálido estava banhado em suor e uma grande agitação apoderou-se dele.
"Chame Pasquale Solara", disse o Cardeal ao escrivão, após consultar um papel sobre a secretária à sua frente.
"Pasquale Solara!" gritou o escrivão, imediatamente.
Houve uma agitação no público e quatro soldados da Guarda Suíça avançaram em direção ao banco judicial, transportando uma maca sobre a qual estava estendido o corpo emaciado do velho pastor.
À medida que o seu pai era transportado por ela, Annunziata soltou um grito e levantou-se para ir ter com ele, mas a Sra. de Rancogne puxou-a gentilmente de volta para a sua cadeira, sussurrando-lhe que ele estava sob a custódia do Tribunal e que ela só poderia vê-lo após a conclusão do julgamento, quando a permissão necessária lhe seria obtida.
O velho Pasquale foi levantado da maca por um par de soldados e ajudado a subir ao estrado das testemunhas. Ele estava tão fraco e debilitado que foi necessário segurá-lo numa posição vertical depois de ele ter, com grande dificuldade, subido ao estrado. Mesmo assim, ele tremia como um paralítico e passaram-se alguns momentos até que pudesse responder às perguntas que lhe foram dirigidas. Vampa olhou-o com intensa ansiedade, inclinando-se ansiosamente para a frente para captar os sons débeis, quase impercetíveis, que saíam dos seus lábios.
"Que agrade ao seu Eminência", disse o velho Pasquale, fazendo uma pausa dolorosa após cada palavra, "sou um homem moribundo. O médico do hospital que me acompanhou e que se encontra agora no Salão de Julgamento assegura-me que não durarei mais do que poucos dias, no máximo. Fui um grande pecador, mas não desejo apresentar-me diante do meu Deus irado com todo o peso da minha iniquidade sobre mim; portanto, resolvi falar, contar tudo o que sei!"
Os espectadores no corpo do salão estremeceram. A voz do velho Solara não os alcançava, mas sentiram instintivamente que alguma revelação terrível estava a ser ou estava prestes a ser feita. Monte-Cristo e Massetti levantaram-se a meio nos seus assentos; estavam suficientemente perto para compreender o teor do que o pastor tinha dito e o efeito sobre eles foi absolutamente avassalador; esperavam que Pasquale contasse ou uma história habilmente fabricada calculada para proteger Vampa ou que se refugiasse num silêncio pétreo e obstinado, mas, em vez disso, ele ia fazer uma confissão completa de todo o terrível crime! Annunziata também tinha ouvido e estava a ouvir o que se seguiria com um rosto quase tão branco quanto a sua touca de freira. A Sra. de Rancogne agarrou as suas mãos e manteve-as firmemente; ela também estava assustada além de qualquer expressão pelas palavras do velho Solara e temia o efeito de novas revelações sobre a sua protegida. Zuleika, Valentine, o Sr. Morrel e Esperance estavam demasiado longe do estrado das testemunhas para compreender uma sílaba, mas, tal como os espectadores no corpo do salão, adivinharam o que estava prestes a acontecer, prendendo a respiração com medo e expectativa. Quanto a Vampa, dificilmente podia ser mantido quieto; os seus dedos moviam-se nervosamente como se desejasse estrangular a testemunha moribunda, e ele olhava para ele com os olhos flamejantes de um tigre feroz encurralado.
O velho Pasquale continuou, no meio do mais profundo silêncio:
"Não procuro proteger-me a mim próprio. Vampa é culpado tanto do rapto como da conspiração para arruinar o Visconde Massetti, mas eu fui o seu tentador e a mim ele deve o seu crime! No entanto, com o homicídio do meu filho Lorenzo, nada tive a ver — o chefe é o único responsável por isso! Mas tentei-o com a beleza da minha pobre filha Annunziata! Ganancioso por ouro, vendi-a a ele! O rapto foi proposto por mim e executado por ele! O plano para lançar o jovem Massetti sob suspeita também teve origem em mim, Vampa e eu próprio executando-o juntos. Ao formar o plano, fui movido por um desejo de obter vingança sobre o velho Conde Massetti por um mal que ele me fez no passado! Agora, sua Eminência, conhece toda a história negra!"
Pasquale Solara cessou e caiu nos braços dos dois soldados que o apoiavam, totalmente vencido pelos terríveis esforços que tinha feito ao entregar o seu testemunho esmagador, e ali jazia, uma massa inerte e trémula. Quando estavam prestes a retirá-lo do estrado das testemunhas, um pensamento súbito ocorreu-lhe e, com um esforço hercúleo, endireitou-se, fazendo um sinal ao Tribunal de que tinha algo mais a comunicar.
"Fale, testemunha", disse o Cardeal Monti, em resposta a este sinal.
"Sua Eminência", retomou o pastor, lenta e dolorosamente, "desejo dizer ainda outra palavra. Recebi a minha ferida mortal pelas mãos do Visconde Massetti!"
Houve uma agitação rápida entre aqueles que ouviram esta acusação inesperada e uma dúzia de olhos, incluindo os do Cardeal Monti e dos seus associados no banco judicial, foram instantaneamente fixados no jovem italiano, que olhou para Monte-Cristo e para os advogados com um ar de consternação. O Conde estava prestes a dirigir-se ao Tribunal em explicação, quando o velho Solara, que tinha feito uma pausa para recuperar o fôlego, acrescentou:
"Mas eu mereço ricamente o que recebi e é justo que morra pela mão do homem que procurei arruinar! A ferida, contudo, foi-me dada num duelo perfeitamente leal e, com o meu último suspiro, exonerarei o Visconde de toda a culpa no assunto, como o faço agora!"
A parte final do último discurso do velho Solara foi uma surpresa. Massetti deu um longo suspiro de alívio. Era dificilmente provável que ele fosse processado pelas autoridades romanas por ter lutado num duelo com o pastor nas circunstâncias, e o homem ferido tinha removido voluntariamente toda a suspeita de jogo sujo da sua parte. Monte-Cristo e os advogados lançaram olhares de parabéns ao jovem italiano. A sua reabilitação necessitava agora apenas da condenação e sentença de Vampa para ser completa, e não se podia duvidar por um instante que elas se seguiriam rapidamente.
O efeito do testemunho, ou melhor, da confissão, do seu pai sobre Annunziata tinha sido surpreendente. Tinha despedaçado completamente todas as suas convicções, colocando os seus infortúnios sob uma luz nova e horrível. O Visconde era inocente, como ele tinha afirmado constantemente, e o seu progenitor revelava-se a ela em toda a sua hediondez moral; ele era um monstro, um demónio; ele fizera as suas terríveis revelações apenas quando a morte estava sobre ele e a reparação era impossível; além disso, não havia nada de nobre ou edificante no seu remorso — era totalmente característico do homem — totalmente egoísta, induzido apenas pelo medo das consequências no mundo que virá. Annunziata sentiu como se toda a fé na humanidade tivesse sido retirada dela e, à medida que percebia gradualmente o significado total das palavras do seu pai, fechou os olhos e, com um suspiro, desmaiou nos braços da Sra. de Rancogne, que, dificilmente menos chocada e surpreendida do que a própria pobre rapariga, usou todos os esforços para a reanimar, conseguindo-o finalmente.
No pequeno grupo composto por Zuleika, Valentine, o Sr. Morrel e Esperance, a incerteza prevaleceu durante alguns momentos. Tinham sido incapazes de captar o que o velho Solara tinha dito, de extrair mais do que uma ideia geral de que o seu testemunho tinha sido contra Vampa. Assim que, contudo, a sua emoção lhe permitiu fazê-lo, Giovanni foi ter com eles e comunicou as boas novas. Zuleika estava quase vencida pela imensidão da sua alegria e, com dificuldade, conteve-se de abraçar o seu amante diretamente perante o augusto Tribunal e os espectadores reunidos. Valentine estava pronta a chorar de deleite e o seu marido sentia tanto triunfo como se tivesse ganho uma vitória decisiva sobre os inimigos combinados da França. Quanto a Esperance, ele estava simultaneamente enlevado e envergonhado — enlevado por a mancha negra ter sido removida do nome de Giovanni e envergonhado por ter sido tão cego e injusto ao suspeitar dele erroneamente.
Quando o teor do testemunho de Pasquale Solara foi sussurrado entre a assistência, os oficiais do Tribunal foram impotentes para conter as expressões de horror e entusiasmo. Se o pastor não estivesse sob estreita guarda dos soldados, certamente teria sido feito em pedaços e pisoteado, tão grande era a onda de indignação popular contra ele. Por fim, contudo, o tumulto acalmou-se e o Cardeal Monti, dirigindo-se ao chefe dos bandoleiros, disse:
"Luigi Vampa, prisioneiro no banco dos réus, ouvistes o testemunho. Que tendes a dizer em vossa defesa?"
Vampa, forçado pelos polícias a pôr-se de pé, respondeu, obstinada e taciturnamente:
"Nada!"
O Cardeal Monti voltou-se então para os seus associados na bancada judicial e seguiu-se uma breve conferência, após a qual se levantou e, encarando Vampa, disse solenemente:
"Luigi Vampa, prisioneiro no banco dos réus, o julgamento do Tribunal Papal é que sois culpado, primeiro, do homicídio de Lorenzo Solara, embora, como ele vos atacou, o crime tenha sido classificado em segundo grau; segundo, do rapto de Annunziata Solara; e, terceiro, de conspiração para manchar irremediavelmente o carácter de um digno nobre romano, o Visconde Giovanni Massetti. Luigi Vampa, prisioneiro no banco dos réus, a sentença do Tribunal Papal é que sejais levado daqui de volta para o vosso calabouço no Castelo de Santo Ângelo, para aí cumprir prisão solitária perpétua. Como esta sentença torna desnecessário prosseguir para o exame da outra e menos importante acusação contra vós, a de roubo nas vias públicas e de maus-tratos aos vossos cativos, o vosso julgamento está agora encerrado. Luigi Vampa, prisioneiro no banco dos réus, que Deus tenha misericórdia de vós e vos conduza ao arrependimento e à salvação final!"
O Cardeal Monti retomou o seu lugar em meio a altos murmúrios de aplausos e satisfação. Quando estes se extinguiram, o escrivão declarou o Tribunal encerrado, o condenado foi removido e a assistência dispersou-se lentamente.
Mme. de Rancogne e Annunziata Solara regressaram imediatamente ao Refúgio em Civita Vecchia, onde a pobre rapariga jazia prostrada por muitas semanas. Após a confissão dos seus atos infames, ela não tinha mais qualquer desejo de ver o seu desprezível e degradado pai.
Monte-Cristo e o seu grupo voltaram alegremente para o Hotel de France na carruagem do Conde.
Naquela noite, não existiam pessoas mais felizes sobre a terra do que Giovanni e Zuleika.
CAPÍTULO XXX.
ALEGRIA SEM LIMITES.
A notícia do resultado do julgamento de Luigi Vampa espalhou-se com a maior rapidez por toda a Roma e deu azo às mais selvagens celebrações, aumentando ainda mais a popularidade de Monte-Cristo e do Capitão Morrel, aos quais a população romana atribuía o mérito de ter levado à condenação do temido chefe dos bandoleiros e de ter inspirado a sua sentença. Por toda a parte, embora a vasta importância do testemunho do velho Pasquale Solara fosse reconhecida e admitida, o próprio miserável pastor era execrado como um pai antinatural e sem coração, como um facínora diabólico sem um único traço de redenção. O facto de ter prestado depoimento a favor do Estado salvou-o da mão pesada da lei, mas a sua ferida mortal em breve livraria o mundo dele, e esta circunstância deu motivo a calorosas felicitações em todos os quadrantes.
Na manhã seguinte ao julgamento de Vampa, um mensageiro chegou ao Hotel de France da parte do Conde Massetti, trazendo um breve bilhete no qual o velho nobre implorava ao filho que fosse ter com ele imediatamente. Giovanni exibiu este bilhete triunfante a Zuleika e aos amigos que tinham trabalhado de forma tão incansável e bem-sucedida na sua causa e, juntamente com o Conde de Monte-Cristo e o Sr. Morrel, dirigiu-se imediatamente ao Palazzo Massetti na carruagem de Monte-Cristo. O velho Conde recebeu o seu filho de braços abertos e cumprimentou cordialmente Monte-Cristo e Maximilian.
"Giovanni", disse ele, francamente, "admito que estava errado, que fui levado pelo que me parecia ser uma prova convincente. O meu orgulho e honra revoltaram-se contra a mancha aparentemente lançada sobre eles e agi como quase qualquer pai romano teria feito. Reconheço que fui precipitado, que procedi a extremidades sem a devida reflexão ou exame. Estas admissões na presença dos vossos nobres e abnegados amigos custam-me caro, mas observai que não recuo perante elas, não obstante a profunda humilhação. Peço humildemente o vosso perdão e restauro tudo o que vos tirei. Novamente sois o meu amado filho e herdeiro."
O velho nobre fez uma pausa, muito afetado; os seus olhos estavam cheios de lágrimas, lágrimas de misturada contrição e deleite. A emoção do Visconde era tal que, por um instante, foi incapaz de responder. Contudo, recuperou o controlo de si mesmo com um esforço tremendo e disse, com uma voz trémula pela sua alegria colossal:
"Pai, não tenho nada a perdoar. As aparências justificavam tudo o que fiz, e só posso agradecer ao Céu que a verdade tenha sido revelada antes que fosse demasiado tarde!"
Com estas palavras, lançou-se ao pescoço do velho Patrício. O Conde abraçou-o, puxando-o para o seu coração, e as suas lágrimas misturaram-se, pois Giovanni também chorava agora.
Lenta e como que relutantemente soltando o seu filho recuperado e reabilitado, o Conde voltou-se para o Sr. Morrel.
"Capitão", disse ele, "devo-vos um amplo pedido de desculpas pelo meu tratamento altivo e imperioso quando me expusestes o objetivo da vossa missão a Roma. Apresento-o neste momento e arrisco-me a esperar que o aceiteis, mesmo que venha à última hora!"
"Conde", respondeu Maximilian, "seria pior que um boçal se não o aceitasse. Aqui está a minha mão em sinal da nossa renovada amizade e estima."
O velho Massetti tomou a mão oferecida do Capitão e apertou-a calorosamente.
"Vós sustentais plenamente a reputação da grande nação à qual pertenceis", disse ele, com a maior cordialidade, "— sois tão nobre quanto generoso!"
"Conde", respondeu o Sr. Morrel, fazendo uma vénia profunda, "lisonjeais-me! Dizei antes que sou um soldado francês e, como tal, nunca fujo ao meu dever, não importa a forma que ele possa tomar!"
"Como quiserdes, Capitão", retorquiu o velho nobre, com um sorriso agradável. "Ao meu pedido de desculpas devo, contudo, acrescentar a minha gratidão por tudo o que fizestes para ajudar Giovanni e, na expressão dessa gratidão, devo incluir a Mme. Morrel, de cujo heroico feito no Coliseu e subsequente dedicação ao meu filho na sua hora de trevas mentais ouvi falar."
Maximilian fez novamente uma vénia profunda.
Avançando para o Conde de Monte-Cristo, o velho Massetti disse:
"Agora, Vossa Excelência, é a vossa vez. O vosso nome e feitos são-me familiares há muito, mas a quem não são! Ainda assim, embora tenhais honrado frequentemente Roma com a vossa ilustre presença, nunca tive o prazer de vos conhecer até este dia feliz em que, também eu, sou incluído na longa lista daqueles que receberam benefícios avassaladores das vossas mãos. Edmond Dantès, Conde de Monte-Cristo, devo-vos o restauro da sanidade do meu filho, trazido por pouco menos do que um milagre, uma bênção quase tão grande como a sua reabilitação, pela qual também estou na interminável lista dos vossos devedores."
Monte-Cristo fez uma vénia, mas não respondeu.
"A minha dívida, vasta como é", continuou o velho Massetti, "está, soube, prestes a ser ainda mais aumentada por uma aliança entre as nossas duas casas, e não preciso de vos dizer que este aumento das minhas obrigações será um fardo de alegria que aceitarei com agradecimentos ao Céu pelo sinal de favor que me foi mostrado!"
Monte-Cristo repetiu a sua vénia e disse:
"Ratificais então o pacto entre os nossos dois filhos, Conde Massetti?"
"Com mais deleite do que posso expressar!" respondeu este, entusiasticamente. "Posso pedir outro favor a Vossa Excelência?" acrescentou, subitamente.
"Certamente", disse Monte-Cristo, algo espantado e lançando um olhar de inquérito ao seu venerável anfitrião.
"Nesse caso", retomou o velho nobre, "gostaria de dar as boas-vindas à vossa filha imediatamente ao Palazzo Massetti!"
"Ela será mandada chamar sem um instante de demora", respondeu Monte-Cristo. "Giovanni, regressai na carruagem ao Hotel de France e trazei Zuleika ao vosso pai!"
O jovem obedeceu alegremente e, em muito pouco tempo, a filha de Monte-Cristo entrou timidamente e corando na presença do Conde Massetti, apoiada no braço do seu noivo, cujo semblante brilhava de felicidade. O par juvenil era acompanhado por Mme. Morrel.
Quando as apresentações foram feitas, o venerável Patrício ficou por um momento a contemplar a sua futura nora.
"Então esta é Zuleika!" disse ele, a dada altura. "É uma rapariga bela e encantadora, e não duvido que os atrativos da sua mente sejam plenamente iguais aos da sua pessoa! Minha filha", continuou ele, dirigindo-se à filha de Monte-Cristo, "dou-vos as boas-vindas à minha casa e ao meu coração! Fazei Giovanni tão feliz como sei que ele vos fará a vós! Agora, meus filhos, aceitai a bênção de um pai!"
O jovem casal ajoelhou-se aos pés do velho e ele estendeu as mãos sobre as suas cabeças. Quando se levantaram, ele tomou Zuleika nos seus braços e beijou-a ternamente.
Na alegria geral, Valentine não foi esquecida, tendo o velho Conde renovado para ela a expressão da sua gratidão que tinha anteriormente feito ao seu marido em nome dela.
Foi finalmente arranjado que o contrato de casamento seria assinado dentro de uma semana, e esta formalidade foi cumprida na presença de muitos dos parentes do jovem Visconde, de Monte-Cristo, Mercedes, Sr. e Sra. Albert de Morcerf, Esperance e Sr. e Sra. Morrel, tendo Mercedes e os Morcerf vindo a toda a pressa para Roma para tomar parte no auspicioso evento. Monte-Cristo deu à sua filha o dote de uma Princesa e a sua liberalidade foi plenamente igualada pela do Conde Massetti, que estabeleceu para Giovanni uma fortuna igual à de algum potentado oriental.
O casamento teve lugar em Roma e foi um grande acontecimento, com as festividades nupciais a durarem todo o dia e muito pela noite dentro. A ocasião feliz teve o caráter de uma alegria pública, pois a população, grata ao Conde de Monte-Cristo e a Maximilian Morrel pela supressão de Luigi Vampa e dos seus perigosos bandoleiros, que durante anos tinham sido o terror de ricos e pobres, desfilou pelas ruas em vastos grupos em honra das núpcias de Zuleika com o homem que o notório chefe dos bandoleiros tinha quase conseguido submergir em ruína e desgraça irremediáveis.
Desde muito cedo pela manhã, o Palazzo Massetti foi cercado por multidões entusiastas e ruidosas, e pelas oito horas os vastos jardins dos Massetti foram abertos livremente a todos os que quisessem entrar. As preparações ali foram numa escala gigantesca e principesca. Meses enormes tinham sido colocadas em várias alamedas largas e gemiam literalmente sob o peso dos abundantes e convidativos refrescos, enquanto vastos barris de excelentes vinhos estavam abertos. Um exército de criados servia o povo, fornecendo-lhes liberalmente os acepipes apetitosos e o produto estimulante da vinha. As bandeiras Papais e Francesas estavam por toda a parte exibidas em conjunto, e a beleza das decorações dos jardins era tal que suscitava admiração e assombro universais. A saúde do Visconde Massetti e da sua encantadora noiva foi brindada milhares de vezes em meio a aclamações de deleite, mas, por toda a colossal assembleia, a ordem perfeita foi preservada, achando a polícia militar de serviço a sua ocupação uma sinecura.
Imediatamente em frente ao Palazzo Massetti, tinha sido erguido um arco triunfal. Estava coberto com os emblemas entrelaçados de Roma e da França e, no seu ápice, ostentava um lema apropriado formado por flores de laranjeira de um branco cremoso e rosas escarlates.
O interior do palácio rivalizava em esplendor deslumbrante com a mais soberba e magnífica visão que alguma vez encantou um devoto de haxixe enquanto sonhava sob a potente influência da sua droga favorita.
No salão principal estavam reunidas muitas personagens com as quais o leitor está familiarizado, todas em traje de festa — o Conde de Monte-Cristo e a sua amada esposa Mercedes, os seus amigos Maximilian e Valentine Morrel, Esperance, Mlle. Louise d'Armilly e o Sr. e a Sra. Albert de Morcerf. Muitos parentes nobres do noivo estavam também presentes, sem falar numa hoste de conhecidos. O velho Conde Massetti, que parecia rejuvenescido e cujo venerável semblante estava coroado com sorrisos de alegria, movia-se entre os seus convidados como o mais feliz dos felizes.
Presentemente, uma porta foi aberta, um criado anunciou os noivos e Giovanni entrou orgulhosamente com a adorável Zuleika pendurada no seu braço, a sua beleza realçada pelos seus rubores e timidez. Ela trajava um magnífico vestido de cetim branco que uma Rainha poderia ter invejado, e o brilho de diamantes de valor inestimável cintilava num colar de bom gosto que adornava o seu pescoço de pérola; sobre o seu cabelo negro como a noite descansava uma coroa de flores de laranjeira e o seu véu de noiva esvoaçante estava preso por um alfinete de esmeralda cintilante. Um murmúrio de admiração e aprovação surgiu dos convidados ao contemplarem a filha de Monte-Cristo e notarem os seus encantos inigualáveis.
A procissão para São Pedro foi testemunhada por massas compactas de espectadores, que aclamaram ruidosamente a noiva e o noivo e saudaram com tumultuosos aplausos todas as personagens bem conhecidas à medida que surgiam, uma a uma.
Dentro da vasta catedral, o concurso era imenso, mas mantido a uma distância adequada por rececionistas uniformizados.
O próprio Papa uniu o jovem casal nos santos laços do matrimónio, tendo consentido fazê-lo em consequência da sua alta estima pela casa Massetti, a mais antiga e aristocrática nos seus domínios, e em consideração pelo Conde de Monte-Cristo, cuja maravilhosa história tinha penetrado mesmo nos augustos portais do Vaticano. No final da impressionante cerimónia, Sua Santidade abençoou o recém-formado marido e mulher e, imediatamente a seguir, o grande órgão irrompeu com um dobre triunfal, um coro invisível entoando um hino de casamento jubiloso, momento em que os noivos, rodeados pelas suas damas de honor e padrinhos, com Esperance a ocupar o primeiro lugar entre estes últimos, receberam as felicitações dos seus parentes e amigos.
Naquela noite houve uma festividade sem limites no Palazzo Massetti, terminando a celebração alegre com um grande baile e um jantar elaborado. Na manhã seguinte, Giovanni e Zuleika partiram para uma extensa viagem de núpcias que abraçaria as partes mais interessantes da Europa.
Eventualmente, estabeleceram-se em Paris, como tinham decidido originalmente, onde Giovanni comprou uma magnífica residência, mobiliando-a com todo o luxo do oriente.
A sua vida de casados foi tão feliz quanto favorecida, e Zuleika nunca teve ocasião de se arrepender de ter permanecido ao lado de Giovanni quando todo o resto do mundo parecia tê-lo abandonado.
Esperance e o jovem marido tornaram-se imediatamente amigos tão chegados como sempre, e a nuvem negra que os tinha separado no passado foi completamente esquecida.
O Conde de Monte-Cristo e Mercedes continuaram a levar uma existência tranquila e encantadora na mansão palaciana da Rue du Helder. Com a ascensão de Luís Napoleão ao poder, o Conde, que desconfiava dele e dos seus esquemas, abandonou a política e a agitação da vida pública para sempre, contentando-se em fazer todo o bem ao seu alcance e ajudar os necessitados de uma forma silenciosa e despretensiosa. A sua filha e o seu marido passavam grande parte do seu tempo na mansão da família, e o Conde e Mercedes adquiriram deleite adicional com isso. Albert de Morcerf, a sua esposa e Mlle. Louise d'Armilly permaneceram residentes na casa de Monte-Cristo, ajudando não pouco a promover o conforto e a felicidade dos seus generosos e agradáveis anfitriões.
Maximilian Morrel e a sua esposa regressaram a Marselha, mas estavam frequentemente em Paris e nunca deixavam de encontrar um vasto prazer e gratificação na sociedade dos Monte-Cristo, dos Massetti e dos seus amigos.
O pai de Giovanni morreu um ou dois anos após o casamento do seu filho, deixando-lhe o seu título, os seus palácios, a sua vinha e toda a sua riqueza colossal; mas mesmo esta mudança na sua condição não induziu o jovem Conde a regressar a Roma, onde as tristes associações do passado eram demasiado poderosas para ele.
O velho Solara expirou no hospital em Roma alguns dias após o julgamento de Vampa, e Annunziata viveu muito tempo com Mme. de Rancogne no Refúgio em Civita Vecchia, retirando o consolo que podia das suas abundantes boas obras.
Peppino e Beppo permaneceram ao serviço do Conde de Monte-Cristo, levando vidas honestas e íntegras.
Waldmann e Siebecker foram apanhados em flagrante delito na prática de um homicídio e terminaram a sua associação iníqua no cadafalso, tendo a lâmina da guilhotina livrado o mundo de dois miseráveis extremamente perigosos.
Quanto a Danglars, ele desapareceu subitamente de Paris um dia e não se ouviu mais falar dele.
O FIM.