CARTAS ADICIONAIS DE CHARLES DARWIN
Por Charles Darwin
UM REGISTRO DE SEU TRABALHO EM UMA SÉRIE DE CARTAS ATÉ ENTÃO INÉDITAS
EDITADO POR FRANCIS DARWIN, MEMBRO DO CHRIST'S COLLEGE, E A.C. SEWARD, MEMBRO DO EMMANUEL COLLEGE, CAMBRIDGE
EM DOIS VOLUMES
Notas do Transcritor:
Todas as notas biográficas de rodapé aparecem ao final do Volume II.
Todas as outras notas dos editores de Charles Darwin aparecem no texto, entre colchetes () com um número de Capítulo/Nota ou Carta/Nota.
VOLUME I.
DEDICADO, COM AFETO E RESPEITO, AO
SIR JOSEPH HOOKER
EM LEMBRANÇA DE SUA AMIZADE DE TODA A VIDA COM CHARLES DARWIN
"Você nunca saberá o quanto lhe devo por sua constante bondade e encorajamento"
CHARLES DARWIN PARA SIR JOSEPH HOOKER, 14 DE SETEMBRO DE 1862
PREFÁCIO
A obra "Life and Letters of Charles Darwin" foi publicada em 1887. Desde aquela data, graças à gentileza de vários correspondentes, cartas adicionais foram recebidas; entre elas, podem ser mencionadas as escritas pelo Sr. Darwin ao Sr. Belt, Lady Derby, Hugh Falconer, Sr. Francis Galton, Huxley, Lyell, Sr. John Morley, Max Muller, Owen, Lord Playfair, John Scott, Thwaites, Sir William Turner e John Jenner Weir. Contudo, o material para o nosso trabalho consistiu, em grande parte, em uma massa de cartas que, por falta de espaço ou por outras razões, não foram impressas em "Life and Letters". Gostaríamos de chamar atenção especial para a correspondência com Sir Joseph Hooker. Para ele, o Sr. Darwin escrevia com total liberdade, e isso conferiu um charme pessoal até mesmo às suas cartas mais técnicas. Há também muita correspondência, dificilmente inferior em interesse biográfico, com Sir Charles Lyell, Fritz Muller, Sr. Huxley e Sr. Wallace. A partir desse material inédito, conseguimos compilar um registro quase completo do trabalho do Sr. Darwin em uma série de cartas publicadas agora pela primeira vez. No entanto, em poucos casos, repetimos parágrafos, ou, em um ou dois casos, cartas inteiras de "Life and Letters", onde tal repetição parecia necessária para fins de clareza ou continuidade.
Nossos dois volumes contêm praticamente todo o material que parece desejável publicar no momento. Mas, em algum momento futuro, outros poderão encontrar dados interessantes no que permanece não impresso; isso é certamente verdade para uma curta série de cartas tratando dos Cirripedia, que foram omitidas unicamente por falta de espaço. (Prefácio/1. Aquelas endereçadas ao falecido Albany Hancock já apareceram nas "Transactions of the Tyneside Nat. Field Club", VIII., página 250.)
Somos afortunados por ter a permissão, de Sir Joseph Hooker e do Sr. Wallace, para publicar certas cartas deles para o Sr. Darwin. Também pudemos incluir algumas cartas de Sir Charles Lyell, Hugh Falconer, Edward Forbes, Dr. Asa Gray, Professor Hyatt, Fritz Muller, Sr. Francis Galton e Sir T. Lauder Brunton. Aos dois últimos, bem como à Sra. Lyell (a biógrafa de Sir Charles), à Sra. Asa Gray e à Sra. Hyatt, desejamos expressar nossos agradecimentos.
Os presentes volumes foram preparados para dar uma ideia tão completa quanto possível do curso do trabalho do Sr. Darwin. Os volumes, portanto, contêm necessariamente muitas cartas de caráter altamente técnico, mas nenhuma, esperamos, que não seja essencialmente interessante. Com o objetivo de economizar espaço, restringimo-nos a elucidar as cartas por meio de notas completas e, pela mesma razão — embora com algum pesar —, omitimos na maioria dos casos o início e o fim das cartas. Para os fatos principais da vida do Sr. Darwin, remetemos nossos leitores ao resumo de seu Diário privado, fornecido no presente volume.
O Sr. Darwin geralmente escrevia suas cartas quando estava cansado ou apressado, e isso frequentemente levava à omissão de palavras. Geralmente inserimos os artigos, sem qualquer indicação de sua ausência nos originais. Onde parecia haver qualquer possibilidade de produzir uma alteração de sentido (e em muitos casos onde não existe tal possibilidade), colocamos as palavras introduzidas entre colchetes. Podemos dizer de uma vez por todas que, ao longo do livro, os colchetes indicam palavras não encontradas nos originais. (Prefácio/2. Exceto em alguns locais onde os colchetes são usados para indicar passagens previamente publicadas. Em todos esses casos, o significado do símbolo é explicado.) Os pontos indicam omissões, mas muitas omissões são feitas sem serem assim indicadas.
A seleção e organização das cartas não foram fáceis. Nosso plano tem sido classificar as cartas de acordo com o assunto — naquelas que tratam de Evolução, Distribuição Geográfica, Botânica, etc., e, em cada grupo, colocar as cartas cronologicamente. Mas em vários capítulos adotamos cabeçalhos seccionais, que acreditamos serem uma ajuda para o leitor. A grande dificuldade residiu em decidir em qual dos grupos principais uma determinada carta deveria ser colocada. Se o manuscrito tivesse sido cortado em parágrafos, não haveria tal dificuldade; mas sentimos fortemente que uma carta deve, tanto quanto possível, ser tratada como um todo. De fato, permitimos que esse princípio interferisse em uma classificação precisa, de modo que o leitor encontrará, por exemplo, nos capítulos sobre Evolução, questões consideradas que poderiam ter se encaixado igualmente em Distribuição Geográfica ou Geologia, ou questões no capítulo sobre o Homem que poderiam ter sido colocadas sob o título Evolução. Da mesma forma, para evitar a mutilação, permitimos que referências a um ramo da ciência permanecessem em cartas preocupadas principalmente com outro assunto. Por essas irregularidades, pedimos a paciência do leitor e rogamos que acredite que algum esforço foi dedicado ao arranjo.
O Sr. Darwin, que era cuidadoso em outras coisas, geralmente omitia a data na correspondência familiar, e muitas vezes é apenas tratando uma carta como um detetive estuda um crime que podemos ter certeza de sua data. Felizmente, porém, Sir Joseph Hooker e outros correspondentes de Darwin acostumaram-se a acrescentar a data em que as cartas eram recebidas. Isso às vezes leva a uma imprecisão que precisa de uma palavra de explicação. Assim, uma carta que o Sr. Darwin datou como "Quarta-feira" pode ser encabeçada por nós como "Quarta-feira [3 de janeiro de 1867]", sendo a última metade a data em que a carta foi recebida; se tivesse sido datada pelo autor, teria sido "Quarta-feira, 2 de janeiro de 1867".
Ao agradecer àqueles amigos — especialmente Sir Joseph Hooker e o Sr. Wallace — que revisaram algumas de nossas provas, desejamos deixar claro que eles não são, no menor grau, responsáveis por nossos erros ou omissões; o peso de nossas falhas recai apenas sobre nós.
Desejamos expressar nossa gratidão àqueles que tão prontamente nos forneceram informações, especialmente Sir Joseph Hooker, Professor Judd, Professor Newton, Dr. Sharp, Sr. Herbert Spencer e Sr. Wallace. E temos o prazer de mencionar o Sr. H.W. Rutherford, da Biblioteca da Universidade, a cujo trabalho consciencioso como copista estamos muito endividados.
Finalmente, é um prazer expressar nossa obrigação àqueles que nos ajudaram na questão das ilustrações. Os retratos do Dr. Asa Gray, Sr. Huxley, Sir Charles Lyell, Sr. Romanes são de suas respectivas Biografias, e pela permissão para fazer uso deles devemos agradecer à Sra. Gray, ao Sr. L. Huxley, à Sra. Lyell e à Sra. Romanes, bem como aos editores dos livros em questão. Pela reprodução do retrato antigo do Sr. Darwin, estamos em dívida com a Srta. Wedgwood; pelos interessantes retratos de Hugh Falconer e Edward Forbes, agradecemos ao Sr. Irvine Smith, que obteve para nós os negativos; sendo estes de papel e com quase sessenta anos, tornaram sua reprodução um trabalho de alguma dificuldade. Também agradecemos aos Srs. Elliott & Fry por gentilmente colocarem à nossa disposição um negativo do belo retrato que forma o frontispício do Volume II. Pela oportunidade de fazer fac-símiles de diagramas em algumas das cartas, estamos mais uma vez em dívida com Sir Joseph Hooker, que generosamente deu as cartas originais à família do Sr. Darwin.
Cambridge, outubro de 1902.
SUMÁRIO.
CONTEÚDO DO VOLUME I.
Esboço da vida de Charles Darwin, etc.
CAPÍTULO 1.I.--Um Fragmento Autobiográfico e Cartas Iniciais, 1809-1842.
CAPÍTULO 1.II.--Evolução, 1844-1858.
CAPÍTULO 1.III.--Evolução, 1859-1863.
CAPÍTULO 1.IV.--Evolução, 1864-1869.
CAPÍTULO 1.V.--Evolução, 1870-1882.
CAPÍTULO 1.VI.--Distribuição Geográfica, 1843-1867.
ILUSTRAÇÕES NO VOLUME I.
CHARLES E CATHERINE DARWIN, 1816. De um desenho a giz colorido por Sharples, em posse da Srta. Wedgwood, de Leith Hill Place.
SRA. DARWIN, 1881. De uma fotografia por Barraud.
EDWARD FORBES, 1844 (?). De uma fotografia por Hill & Adamson.
THOMAS HENRY HUXLEY, 1857. De uma fotografia por Maull & Fox. ("Life" de Huxley, Volume I.)
PROFESSOR HENSLOW. De uma fotografia.
HUGH FALCONER, 1844. De uma fotografia por Hill & Adamson.
JOSEPH DALTON HOOKER, 1870 (?). De uma fotografia por Wallich.
ASA GRAY, 1867. De uma fotografia. ("Letters of Asa Gray", Volume I.)
VOLUME II
CAPÍTULO 2.VII.--Distribuição Geográfica, 1867-1882.
CAPÍTULO 2.VIII.--Homem, 1860-1882. 2.VIII.I. Descendência do Homem, 1860-1882. 2.VIII.II. Seleção Sexual, 1866-1872. 2.VIII.III. Expressão, 1868-1874.
CAPÍTULO 2.IX.--Geologia, 1840-1882. 2.IX.I. Vulcanismo e movimentos terrestres, 1840-1881. 2.IX.II. Ação do gelo, 1841-1882. 2.IX.III. As Estradas Paralelas de Glen Roy, 1841-1880. 2.IX.IV. Recifes de Coral, Fósseis e Recentes, 1841-1881. 2.IX.V. Clivagem e Foliacão, 1846-1856. 2.IX.VI. Idade do Mundo, 1868-1877. 2.IX.VII. Ação Geológica das Minhocas, 1880-1882. 2.IX.VIII. Miscelânea, 1846-1878.
CAPÍTULO 2.X.--Botânica, 1843-1871. 2.X.I. Miscelânea, 1843-1862. 2.X.II. Melastomaceae, 1862-1881. 2.X.III. Correspondência com John Scott, 1862-1871.
CAPÍTULO 2.XI.--Botânica, 1863-1881. 2.XI.I. Miscelânea, 1863-1866. 2.XI.II. Correspondência com Fritz Muller, 1865-1881. 2.XI.III. Miscelânea, 1868-1881.
CAPÍTULO 2.XII.--Vivissecção e Assuntos Diversos, 1867-1882. 2.XII.I. Vivissecção, 1875-1882. 2.XII.II. Assuntos Diversos, 1867-1882.
ILUSTRAÇÕES NO VOLUME II.
CHARLES DARWIN, 1881. De uma fotografia por Elliott & Fry.
ALFRED RUSSEL WALLACE, 1878. De uma fotografia por Maull & Fox.
GEORGE J. ROMANES, 1891. De uma fotografia por Elliott & Fry. ("Life" de Romanes.)
CHARLES LYELL. De uma fotografia por Maull & Fox. ("Life" de Lyell, Volume II.)
CHARLES DARWIN, 1854 (?). De uma fotografia por Maull & Fox.
FRITZ MULLER. De uma fotografia.
FAC-SÍMILES DE ESBOÇOS NAS CARTAS.
FIGURA 1. Seção hipotética ilustrando a elevação continental.
FIGURA 2. Diagrama da junção entre dique e lava.
FIGURA 3. Contorno de uma cratera elíptica.
FIGURA 4. Seção hipotética mostrando a relação dos diques com as aberturas vulcânicas.
FIGURA 5. Mapa ilustrando o arranjo linear das ilhas vulcânicas em relação às linhas costeiras continentais.
FIGURA 6. Esboço mostrando a forma e distribuição do quartzo em uma rocha foliada.
FIGURA 7. Esboço mostrando o arranjo de feldspato e quartzo em uma série metamórfica.
FIGURA 8. Diagrama floral de uma orquídea.
FIGURA 9. Flor dissecada de Habenaria Chlorantha.
FIGURA 10. Diagrama de uma flor crucífera.
FIGURA 11. Seção longitudinal de uma flor crucífera.
FIGURA 12. Seção transversal do ovário de uma crucífera.
FIGURA 13. (Conteúdo/1. Não é um fac-símile.) Folha de Trifolium resupinatum. (Desenhada pela Srta. Pertz.)
CARTAS ADICIONAIS DE CHARLES DARWIN.
VOLUME I.
ESBOÇO DA VIDA DE CHARLES DARWIN.
BASEADO EM SEU DIÁRIO, DATADO DE AGOSTO DE 1838.
Referências aos periódicos nos quais os artigos do Sr. Darwin foram publicados serão encontradas em sua "Life and Letters" III, Apêndice II. Estamos muito gratos ao Sr. C.F. Cox, de Nova York, por chamar nossa atenção para erros no Apêndice, e aproveitamos esta oportunidade para corrigi-los.
Apêndice II, Lista ii.--O Sr. Romanes discursou sobre o ensaio do Sr. Darwin sobre Instinto em uma reunião da Sociedade Lineana, em 6 de dezembro de 1883, e algum relato sobre isso é dado na "Nature" da mesma data. Mas não foi publicado pela Sociedade Lineana.
Apêndice II, Lista iii.--"Origem dos depósitos salíferos. Lagos de sal da Patagônia e La Plata" (1838). Este é o título de um extrato do volume de Darwin sobre a América do Sul reimpresso no "Quarterly Journal of the Geological Society", Volume II, Parte ii, "Miscelânea", páginas 127-8, 1846.
O artigo sobre "Analogia da Estrutura de algumas Rochas Vulcânicas, etc." foi publicado em 1845, não em 1851.
Um artigo "Sobre a Fertilização de Orquídeas Britânicas por Agência de Insetos", no "Entomologist's Weekly Intelligencer" viii., e "Gardeners' Chronicle", 9 de junho de 1860, deve ser inserido na bibliografia.
1809. 12 de fevereiro: Nascido em Shrewsbury.
1817. Morte de sua mãe.
1818. Foi para a Escola de Shrewsbury.
1825. Deixou a Escola de Shrewsbury.
1826.
Outubro: Foi para a Universidade de Edimburgo. Leu dois artigos perante a Sociedade Pliniana de Edimburgo "no final de 1826 ou início de 1827".
1827. Matriculou-se no Christ's College, Cambridge.
1828. Começou a residir em Cambridge.
1831.
Janeiro: Passou em seu exame para B.A., e cumpriu os dois termos seguintes.
Agosto: Excursão geológica com Sedgwick.
11 de setembro: Foi para Plymouth ver o "Beagle".
2 de outubro: "Despedi-me de minha casa".
27 de dezembro: "Parti da Inglaterra em nossa circunavegação".
1832.
16 de janeiro: "Aterrissei pela primeira vez em uma costa tropical" (Santiago).
1833.
6 de dezembro: "Parti pela última vez do Rio da Prata".
1834.
10 de junho: "Parti pela última vez da Terra do Fogo".
1835.
5 de setembro: "Parti das costas oeste da América do Sul".
16 de novembro: Cartas ao Professor Henslow, lidas em uma reunião da Sociedade Filosófica de Cambridge.
18 de novembro: Artigo lido perante a Sociedade Geológica sobre Notas feitas durante uma Pesquisa das Costas Leste e Oeste da América do Sul nos anos 1832-35.
1836.
31 de maio: Ancorou no Cabo da Boa Esperança.
2 de outubro: Ancorou em Falmouth.
4 de outubro: Chegou a Shrewsbury após uma ausência de cinco anos e dois dias.
13 de dezembro: Foi morar em Cambridge.
1837.
4 de janeiro: Artigo sobre Elevação Recente no Chile lido.
13 de março: Estabeleceu-se na Great Marlborough Street, 36.
14 de março: Artigo sobre a "Rhea" lido.
Maio: Leu artigos sobre Formação de Corais e sobre os Pampas para a Sociedade Geológica.
Julho: Abriu o primeiro caderno sobre a Transmutação das Espécies.
13 de março a novembro: Ocupado com seu Diário.
Outubro e novembro: Preparando o esquema para a Zoologia da Viagem do "Beagle". Trabalhando na Geologia da América do Sul.
1º de novembro: Leu o artigo sobre Minhocas perante a Sociedade Geológica.
1838.
Trabalhou na Geologia da América do Sul e na Zoologia da Viagem. "Alguma pequena teoria de espécies".
7 de março: Leu artigo sobre a Conexão de certos Fenômenos Vulcânicos e sobre a Formação de Cadeias de Montanhas, perante a Sociedade Geológica.
Maio: A saúde começou a debilitar-se.
23 de junho: Partiu para Glen Roy. O artigo sobre Glen Roy foi escrito em agosto e setembro.
5 de outubro: Começou o artigo sobre Corais.
11 de novembro: Noivou com sua prima, Emma Wedgwood.
31 de dezembro: "Mudei-me para Upper Gower Street, 12".
1839.
29 de janeiro: Casou-se em Maer.
Fevereiro e março: Algum trabalho sobre Corais e sobre a Teoria das Espécies.
Março (parte) e abril: Trabalhando no artigo sobre Corais. Artigos sobre uma Rocha vista em um Iceberg e sobre as Estradas Paralelas de Glen Roy. Publicou "Journal and Remarks", sendo o volume iii da "Narrative of the Surveying Voyages of H.M.S. 'Adventure' and 'Beagle', etc.". Pelo resto do ano, Corais e Zoologia da Viagem. Publicação da "Zoology of the Voyage of H.M.S. 'Beagle'", Parte II (Mammalia).
1840.
Trabalhou em Corais e na Zoologia da Viagem. Contribuiu com introdução Geológica para a Parte I da "Zoology of the Voyage" (Fossil Mammalia por Owen).
1841.
Publicação da Parte III da "Zoology of the Voyage" (Aves). Leu artigo sobre Pedregulhos e Depósitos Glaciais da América do Sul, perante a Sociedade Geológica. Publicou artigo sobre uma barra notável de Arenito ao largo de Pernambuco, na costa do Brasil. Publicação da Parte IV da "Zoology of the Voyage" (Peixes).
1842.
6 de maio: Última prova do livro sobre Corais corrigida.
Junho: Examinou a ação das Geleiras no País de Gales. "Escrevi um esboço a lápis da minha Teoria das Espécies".
Julho: Escreveu artigo sobre Geleiras de Caernarvonshire.
Outubro: Começou seu livro sobre Ilhas Vulcânicas.
1843.
Trabalhando em "Ilhas Vulcânicas" e "algum trabalho sobre Espécies".
1844.
13 de fevereiro: Terminou "Ilhas Vulcânicas".
Julho a setembro: Escreveu uma versão ampliada da Teoria das Espécies. Artigos sobre Sagitta e sobre Planaria.
27 de julho: Começou seu livro sobre a Geologia da América do Sul.
1845.
Artigo sobre a Analogia da Estrutura de Rochas Vulcânicas com a das Geleiras. "Proc. R. Soc. Edin."
25 de abril a 25 de agosto: Trabalhando na segunda edição de "Naturalist's Voyage".
1846.
1º de outubro: Terminou a última prova de "Geological Observations on South America". Artigos sobre Poeira do Atlântico e sobre Geologia das Ilhas Falkland, comunicados à Sociedade Geológica. Artigo sobre Arthrobalanus.
1847.
Trabalhando em Cirripedia. Resenha de "Natural History of the Mammalia", de Waterhouse.
1848.
20 de março: Terminou Instruções Científicas em Geologia para o Manual do Almirantado. Trabalhando em Cirripedia. Artigo sobre Pedregulhos Erráticos.
1849.
Saúde especialmente ruim. Trabalhando em Cirripedia.
Março-junho: Tratamento de água em Malvern.
1850.
Trabalhando em Cirripedia. Publicou Monografias de Lepadidae Recentes e Fósseis.
1852.
Trabalhando em Cirripedia.
1853.
30 de novembro: "Medalha Real concedida a mim".
1854.
Publicou Monografias sobre Balanidae e Verrucidae Recentes e Fósseis.
9 de setembro: Terminou de empacotar todos os meus Cirripedia. "Comecei a separar notas para a Teoria das Espécies".
1855.
Março-abril: Experimentos sobre o efeito da água salgada em sementes. Artigos sobre Icebergs e sobre Vitalidade de Sementes.
1856.
14 de maio: "Comecei, por conselho de Lyell, a escrever Esboço de Espécies" (descrito em "Life and Letters" como o "Livro Inacabado").
16 de dezembro: Terminou o Capítulo III. Artigo lido perante a Sociedade Lineana, Sobre Água do mar e a Germinação de Sementes.
1857.
29 de setembro: Terminou os Capítulos VII e VIII.
30 de setembro a 29 de dezembro: Trabalhando em Hibridismo. Artigo sobre a Agência das Abelhas na Fertilização de Flores Papilionáceas.
1858.
9 de março: "Terminei o capítulo sobre Instinto".
18 de junho: Recebeu o esboço do Sr. Wallace sobre sua teoria evolucionária.
1º de julho: Artigo conjunto de Darwin e Wallace lido na Sociedade Lineana.
20 de julho a 27 de julho: "Comecei o Resumo do livro de Espécies", ou seja, a "Origem das Espécies", em Sandown, I.W. Artigo sobre Abelhas e Fertilização de Flores.
1859.
25 de maio: Começou as provas da "Origem das Espécies".
24 de novembro: Publicação da "Origem": 1250 cópias impressas.
2 de outubro a 9 de dezembro: No estabelecimento de tratamento de água, Ilkley, Yorkshire.
1860.
7 de janeiro: Publicação da Edição II da "Origem" (3000 cópias).
9 de janeiro: "Revisando o manuscrito sobre Variação". Artigo sobre a Fertilização de Orquídeas Britânicas.
Julho e novamente em setembro: Fez observações sobre Drosera. Artigo sobre Mariposas e Flores. Publicação de "A Naturalist's Voyage".
1861.
Até julho, trabalhando em "Variação sob Domesticação".
30 de abril: Publicação da Edição III da "Origem" (2000 cópias).
Julho até o final do ano: Trabalhando em Orquídeas.
Novembro: Artigo sobre Primula lido perante a Sociedade Lineana. Artigos sobre Pumilio e sobre Fertilização de Vinca.
1862.
15 de maio: Livro sobre Orquídeas publicado. Trabalhando em Variação. Artigo sobre Catasetum (Sociedade Lineana). Contribuição para o Capítulo III do Memoir de Henslow por Jenyns.
1863.
Trabalhando em "Variação sob Domesticação". Artigos sobre Chuva Amarela, os Pampas e sobre Cirripedia. Uma resenha do artigo de Bates sobre Borboletas Miméticas. Doença grave até o final do ano.
1864.
Doença continuou até abril. Artigo sobre Linum publicado pela Sociedade Lineana.
25 de maio: Artigo sobre Lythrum terminado.
13 de setembro: Artigo sobre Plantas Trepadeiras terminado. Trabalho em "Variação sob Domesticação".
30 de novembro: Medalha Copley concedida a ele.
1865.
1º de janeiro: Continuou o trabalho em Variação até 22 de abril. O trabalho foi interrompido por doença até o final do outono.
Fevereiro: Leu artigo sobre Plantas Trepadeiras.
25 de dezembro: Começou novamente em Variação.
1866.
Continuou o trabalho em "Variação sob Domesticação".
1º de março a 10 de maio: Trabalhando na Edição IV da "Origem". Publicada em junho (1250 cópias). Leu artigo sobre Cytisus scoparius perante a Sociedade Lineana.
22 de dezembro: Começou o último capítulo de "Variação sob Domesticação".
1867.
15 de novembro: Terminou as revisões de "Variação sob Domesticação".
Dezembro: Começou artigos sobre Uniões Ilegítimas de Plantas Dimórficas e Trimórficas, e sobre Primula.
1868.
30 de janeiro: Publicação de "Variação sob Domesticação".
4 de fevereiro: Começou o trabalho sobre o Homem.
10 de fevereiro: Nova edição de "Variação sob Domesticação". Leu artigos sobre Uniões Ilegítimas de Plantas Dimórficas e Trimórficas, e sobre Verbascum.
1869.
10 de fevereiro: "Terminei a quinta edição da 'Origem'; levou-me quarenta e seis dias".
Edição V publicada em maio.
Trabalhando na "Descendência do Homem". Artigos sobre a Fertilização de Orquídeas e sobre a Fertilização de Plantas que Florescem no Inverno.
1870.
Trabalhando na "Descendência do Homem". Artigo sobre o Pica-pau dos Pampas.
1871.
17 de janeiro: Começou a "Expressão das Emoções".
24 de fevereiro: "Descendência do Homem" publicada (2500 cópias).
27 de abril: Terminou a cópia bruta de "Expressão".
18 de junho: Começou a Edição VI da "Origem". Artigo sobre a Fertilização de Leschenaultia.
1872.
10 de janeiro: Terminou as provas da Edição VI da "Origem", e "reescrevendo novamente 'Expressão'".
22 de agosto: Terminou as últimas provas de "Expressão".
23 de agosto: Começou a trabalhar em Drosera.
Novembro: "Expressão" publicada (7000 cópias, e mais 2000 impressas no final do ano).
8 de novembro: "Na venda de Murray, 5267 cópias vendidas aos livreiros de Londres".
1873.
Janeiro: Corrigindo o artigo sobre Plantas Trepadeiras para publicação como livro.
3 de fevereiro: Trabalhando em "Fertilização Cruzada".
Fevereiro a setembro: Contribuições para a "Nature".
14 de junho: "Começou Drosera novamente".
20 de novembro: Começou "Descendência do Homem", Edição II.
1874.
"Descendência do Homem", Edição II, em um volume, publicada (Prefácio datado de setembro). "Recifes de Coral", Edição II, publicada.
1º de abril: Começou "Plantas Insetívoras".
Fevereiro a maio: Contribuiu com notas para a "Nature".
1875.
2 de julho: "Plantas Insetívoras" publicada (3000 cópias); 2700 cópias vendidas imediatamente.
6 de julho: "Corrigindo a 2ª edição de 'Variação sob Domesticação'". Foi publicada no outono.
1º de setembro (aproximadamente): Começou em "Fertilização Cruzada e Autofertilização".
Novembro: Comissão de Vivissecção.
1876.
5 de maio: "Terminei o manuscrito, primeira leitura, de 'Cross and Self-Fertilisation' (Fertilização Cruzada e Autofertilização)."
Maio a junho: Correção de "Fertilisation of Orchids" (Fertilização das Orquídeas), Edição II. Escreveu seu Esboço Autobiográfico.
Maio e novembro: Contribuições para a "Nature".
19 de agosto: Primeiras provas de "Cross and Self-Fertilisation".
10 de novembro: "Cross and Self-Fertilisation" publicado (1500 cópias).
1877.
"Toda a primeira parte do verão trabalhando em 'Different Forms of Flowers' (Diferentes Formas de Flores)."
Julho: Publicação de "Different Forms of Flowers" (1250 cópias). Durante o restante do ano, trabalhando na pruína das folhas, movimentos das plantas, "e um pouco sobre minhocas".
Novembro: LL.D. em Cambridge. Segunda edição de "Fertilisation of Orchids" publicada. Contribuições para a "Nature", "Gardeners' Chronicle" e "Mind".
1878.
O ano inteiro trabalhando nos movimentos das plantas e na pruína das folhas.
Maio: Contribuição para a "Nature". Segunda edição de "Different Forms of Flowers". Escreveu carta prefatória para "Flowers and their Unbidden Guests" (Flores e seus Convidados Indesejados), de Kerner.
1879.
O ano inteiro trabalhando nos movimentos das plantas, exceto por "cerca de seis semanas" na primavera e início do verão dedicadas à "Life of Erasmus Darwin" (Vida de Erasmus Darwin), que foi publicada no outono. Contribuições para a "Nature".
1880. "Toda a primavera terminando o manuscrito de 'Power of Movement in Plants' (Poder de Movimento nas Plantas) e folhas de prova." "Comecei no outono sobre Minhocas." Nota prefatória escrita para a tradução de Meldola do livro de Weismann.
6 de novembro: 1500 cópias de "Power of Movement" vendidas na venda de Murray. Contribuições para a "Nature".
1881.
Durante toda a primeira parte do ano trabalhando no "livro das minhocas". Várias contribuições para a "Nature".
10 de outubro: O livro sobre "Earthworms" (Minhocas) publicado: 2000 cópias vendidas de imediato.
Novembro: Trabalhando na ação do carbonato de amônia nas plantas.
1882.
Sem entradas no Diário.
Fevereiro: Trabalhando na correção do sexto milhar de "Earthworms".
6 de março e 16 de março: Artigos sobre a ação do Carbonato de Amônia nas raízes, etc., lidos na Sociedade Lineana.
6 de abril: Nota para a "Nature" sobre a Dispersão de Bivalves.
18 de abril: O artigo de Van Dyck sobre Cães Sírios, com uma nota preliminar de Charles Darwin, lido perante a Sociedade Zoológica.
19 de abril: Charles Darwin faleceu em Down.
...
CHARLES DARWIN
CAPÍTULO 1.I.--UM FRAGMENTO AUTOBIOGRÁFICO E CARTAS ANTIGAS.
1809-1842.
(Capítulo I./1. No processo de remoção do restante dos livros e papéis do Sr. Darwin de Down, vieram à luz as seguintes notas autobiográficas, escritas em 1838. Parecem-nos dignas de publicação--tanto por fornecerem alguns fatos novos, quanto por ilustrarem o interesse que ele claramente sentia em seu próprio desenvolvimento. Muitas palavras estão omitidas no manuscrito, e alguns nomes escritos incorretamente; as correções que foram feitas nem sempre estão indicadas.)
Minha lembrança mais remota, cuja data posso dizer aproximadamente, e que deve ter sido antes de eu completar quatro anos de idade, foi quando, sentado no colo de Caroline (Caroline Darwin) na sala de estar, enquanto ela cortava uma laranja para mim, uma vaca passou correndo pela janela, o que me fez pular, de modo que recebi um corte profundo, do qual trago a cicatriz até hoje. Desta cena, lembro-me do lugar onde me sentei e da causa do susto, mas não do corte em si, e penso que minha memória é real, e não, como frequentemente acontece em casos semelhantes, [derivada] de ouvir a coisa ser repetida muitas vezes, [quando] obtém-se uma imagem tão vívida que não pode ser separada da memória: porque lembro-me claramente de que caminho a vaca percorreu, o que provavelmente não teria sido dito a mim. Minha memória aqui é um quadro obscuro, no qual, por não recordar qualquer dor, estou dificilmente consciente de sua referência a mim mesmo.
1813.
Quando eu tinha quatro anos e meio, fui ao mar e fiquei lá algumas semanas. Lembro-me de muitas coisas, mas com exceção das criadas (e estas não estão individualizadas), não me lembro de nenhum dos meus familiares que estavam lá. Lembro-me de mim mesmo ou de Catherine ser levado, e de ser trancado em um quarto e tentar quebrar as janelas. Tenho um quadro obscuro de uma casa diante dos meus olhos, e de uma pequena loja vizinha, onde o proprietário me deu um figo, mas que, para minha grande alegria, revelou-se serem dois: este figo foi-me dado para que o homem pudesse beijar a criada. Lembro-me de uma caminhada comum até um tipo de poço, no caminho para o qual havia uma cabana sombreada por árvores de damasceno (Capítulo I./2. Damson deriva de Damascene; o fruto era anteriormente conhecido como uma "Ameixa de Damasco."), habitada por um velho, chamado de eremita, de cabelos brancos, que costumava nos dar damascos. Não sei se os damascos, ou a reverência e o medo indistinto por este velho produziram o maior efeito em minha memória. Lembro-me de, ao ir lá, atravessar na carruagem um vau largo, e o medo e o espanto com a água branca espumante causaram uma impressão vívida. Penso que a memória de eventos começa abruptamente; isto é, lembro-me destas primeiras coisas tão claramente quanto de outras muito mais tardias na vida, que foram igualmente impressas em mim. Algumas lembranças muito antigas estão ligadas ao medo em Parkfield e à pobre Betty Harvey. Lembro-me com horror de sua história sobre pessoas sendo empurradas para dentro do canal pela corda de reboque, ao irem pelo lado errado do cavalo. Eu tinha o maior horror a esta história--instinto agudo contra a morte. Algumas outras lembranças são as de vaidade--ou seja, pensar que as pessoas estavam me admirando, em um caso por perseverança e em outro pela ousadia ao subir em uma árvore baixa, e o que é mais estranho, uma consciência, como se instintiva, de que eu era vaidoso, e desprezo por mim mesmo. Meu suposto admirador era o velho Peter Haile, o pedreiro, e a árvore, o sorveiro no gramado. Todas as minhas lembranças parecem estar ligadas mais estreitamente a mim mesmo; agora Catherine (Catherine Darwin) parece recordar cenas onde outros eram os atores principais. Quando minha mãe morreu, eu tinha 8 anos e meio, e [Catherine] um ano a menos, ainda assim ela lembra-se de todos os detalhes e eventos de cada dia, enquanto eu dificilmente recordo de qualquer coisa (e assim com muitos outros casos), exceto de ser chamado, a memória de entrar em seu quarto, meu pai me encontrando--chorando depois. Lembro-me do vestido da minha mãe e dificilmente de algo de sua aparência, exceto uma ou duas caminhadas com ela. Não tenho recordação distinta de qualquer conversa, e apenas daquelas de natureza muito trivial. Lembro-me dela dizendo "se ela me pediu para fazer algo", o que eu disse que ela tinha, "foi unicamente para o meu bem".
Catherine lembra-se de minha mãe chorando, quando soube da morte de minha avó. Também, quando em Parkfield, como a Tia Sarah e a Tia Kitty costumavam recebê-la. Susan, como eu, apenas lembra-se de assuntos pessoais. É suficientemente estranha esta [diferença] nos assuntos lembrados. Catherine diz que não se lembra da impressão causada nela por coisas externas, como a paisagem, mas para coisas que ela lê, ela tem uma memória excelente, isto é, para ideias. Agora, sua simpatia sendo ideal, é parte de seu caráter, e mostra quão facilmente seu tipo de memória era gravado; um pensamento vívido é repetido, uma impressão vívida esquecida.
Lembro-me obscuramente da iluminação após a batalha de Waterloo, e da Milícia exercitando-se por volta daquele período, no campo em frente à nossa casa.
1817.
Aos 8 anos e meio, fui para a Escola do Sr. Case. (Capítulo I/3. Uma escola diurna em Shrewsbury mantida pelo Rev. G. Case, ministro da Capela Unitária ("Life and Letters", Volume I., página 27 e segs.)) Lembro-me de quão muito eu tinha medo de encontrar os cães em Barker Street, e como na escola eu não conseguia reunir coragem para lutar. Eu era muito tímido por natureza. Lembro-me de que sentia grande prazer na escola em pescar tritões na poça da pedreira. Eu tinha, tão jovem, formado um forte gosto por colecionar, principalmente selos, franqueamentos, etc., mas também seixos e minerais--um que me foi dado por algum menino decidiu este gosto. Acredito que pouco depois disso, ou antes, eu tinha tido um conhecimento superficial de botânica, e certamente quando na Escola do Sr. Case, eu era muito afeiçoado à jardinagem, e inventei algumas grandes falsidades sobre ser capaz de colorir açafrões como eu gostava. (Capítulo I./4. A história é contada em "Life and Letters", I., página 28, sendo os detalhes ligeiramente diferentes.) Nesta época, sentia uma amizade muito forte por alguns meninos. Foi logo depois que comecei a colecionar pedras, isto é, quando tinha 9 ou 10 anos, que recordo distintamente o desejo que tinha de ser capaz de saber algo sobre cada seixo em frente à porta do saguão--foi minha primeira e única aspiração geológica naquela época. Eu era naqueles dias um grande contador de histórias--pelo puro prazer de suscitar atenção e surpresa. Roubei frutas e escondi-as por esses mesmos motivos, e prejudiquei árvores ao retirar-lhes a casca por objetivos semelhantes. Dificilmente saía para caminhar sem dizer que tinha visto um faisão ou algum pássaro estranho (gosto pela história natural); essas mentiras, quando não detectadas, presumo, excitavam minha atenção, já que as recordo vividamente, não conectadas com a vergonha, embora de algumas eu me lembre, mas como algo que, por ter produzido um grande efeito em minha mente, dava prazer como uma tragédia. Recordo-me, quando estava no Sr. Case, de inventar todo um tecido para mostrar quão afeiçoado eu era em falar a VERDADE! Minha invenção ainda é tão vívida em minha mente que eu quase poderia imaginar que fosse verdade, não fosse a memória da vergonha anterior me dizer que era falsa. Não tenho lembranças particularmente felizes ou infelizes desta época ou períodos anteriores de minha vida. Lembro-me bem de uma caminhada que fiz com um menino chamado Ford através de alguns campos até uma casa de fazenda na estrada de Church Stretton. Não me lembro de quaisquer atividades mentais, exceto aquelas de colecionar pedras, etc., jardinagem, e por volta desta época, frequentemente indo com meu pai em sua carruagem, contando-lhe sobre minhas lições, e vendo caça e outros pássaros selvagens, o que era um grande prazer para mim. Nasci um naturalista.
Quando eu tinha 9 anos e meio (julho de 1818), fui com Erasmus ver Liverpool: não deixou impressões em minha mente, exceto as mais triviais--medo de a carruagem virar, um bom jantar, e uma memória extremamente vaga de navios.
No meio do verão deste ano, fui para a Escola do Dr. Butler. (Capítulo I./5. Darwin entrou na escola do Dr. Butler em Shrewsbury no verão de 1818, e lá permaneceu até 1825 ("Life and Letters", I., página 30).) Lembro-me bem da primeira vez que fui lá, o que curiosamente não consigo lembrar de ter ido à do Sr. Case, a primeira escola de todas. Lembro-me bem do ano de 1818, não por ter ido pela primeira vez a uma escola pública, mas por escrever aqueles números em meu livro escolar, acompanhados de pensamentos obscuros, agora cumpridos, se eu me lembraria na vida futura daquele ano.
Em setembro (1818), fiquei doente com escarlatina. Lembro-me bem da sensação miserável de estar delirante.
1819, julho (10 anos e meio de idade).
Fui ao mar em Plas Edwards e fiquei lá três semanas, o que agora me parece como três meses. (Capítulo I./6. Plas Edwards, em Towyn, na costa galesa.) Lembro-me de uma certa estrada verde sombreada (onde vi uma cobra) e uma cachoeira, com um grau de prazer, que deve estar ligado ao prazer da paisagem, embora não diretamente reconhecido como tal. A planície arenosa diante da casa deixou uma forte impressão, que está obscuramente ligada a uma lembrança indistinta de insetos curiosos, provavelmente um Cimex manchado de vermelho, e Zygaena, a mariposa-burnet. Eu era naquela época muito apaixonado (quando eu jurava como um soldado) e briguento. A antiga paixão, creio, quase totalmente, mas lentamente, morreu. Ao viajar para lá de carruagem, lembro-me de um oficial de recrutamento (acho que conheceria seu rosto até hoje) na hora do chá, pedindo à criada pão e manteiga torrados. Eu estava convulsionado de riso e pensei que fosse o discurso mais peculiar e espirituoso que já saiu da boca de um homem. Tal é a sagacidade aos 10 anos e meio. A memória agora lampeja sobre mim do prazer que tive à noite em um dia ventoso, caminhando ao longo da praia sozinho e vendo as gaivotas e os corvos-marinhos seguindo seu caminho para casa em um curso selvagem e irregular. Tais prazeres poéticos, sentidos tão intensamente em anos posteriores, eu não teria esperado tão cedo na vida.
1820, julho.
Fiz uma excursão a cavalo (no velho Dobbin) com Erasmus até Pistyll Rhiadr (Capítulo I./7. Pistyll Rhiadr vem de Llyn Pen Rhiadr descendo o Llyfnant até o Dovey.); disto lembro-me pouco, um quadro indistinto da queda, mas lembro-me bem do meu espanto ao ouvir que os peixes podiam saltar sobre ela.
(Capítulo I./8. O fragmento autobiográfico termina aqui. As cartas seguintes dão algum relato de Darwin como estudante em Edimburgo. Ele descreveu ("Life and Letters", I., páginas 35-45) seu fracasso em se interessar pelo ensino oficial da Universidade, seu horror ao teatro de operações e sua aversão gradualmente crescente ao estudo médico, o que finalmente determinou sua saída de Edimburgo e entrada em Cambridge com o objetivo de tomar Ordens.)
CARTA 1. PARA R.W. DARWIN. Domingo de manhã [Edimburgo, outubro de 1825].
Meu querido Pai
Como suponho que Erasmus (Erasmus Darwin) tenha dado todos os detalhes da viagem, não direi mais nada sobre isso, exceto que, ao todo, custou-me 7 libras. Chegamos ao nosso alojamento ontem à noite, que é muito confortável e perto da Faculdade. Nossa senhoria, de nome Sra. Mackay, é uma velha agradável, limpa e excessivamente civil e atenciosa. Ela mora em "11, Lothian Street, Edimburgo" (1/1. Em uma carta impressa no "Edinburgh Evening Despatch" de 22 de maio de 1888, o escritor sugeriu que uma placa fosse colocada na casa, 11, Lothian Street. Esta sugestão foi levada a cabo em 1888 pelo Sr. Ralph Richardson (Escrivão do Tribunal Comissário, Edimburgo), que obteve permissão dos proprietários para afixar uma placa na casa, declarando que Charles Darwin residiu lá como estudante da Universidade de Edimburgo. Estamos em dívida com o Sr. W.K. Dickson por obter para nós esta informação, e com o Sr. Ralph Richardson por gentilmente nos fornecer detalhes. Ver o Discurso Inaugural do Sr. Richardson, "Trans. Edinb. Geol. Soc." 1894-95; também "Memorable Edinburgh Houses", de Wilmot Harrison, 1898.), e apenas quatro lances de escada do andar térreo, o que é muito moderado em relação a alguns outros alojamentos que quase pegamos. Os termos são 1 libra e 6 xelins por dois quartos de dormir muito agradáveis e ILUMINADOS e uma sala de estar; a propósito, quartos iluminados são artigos muito escassos em Edimburgo, já que a maioria deles são pequenos buracos nos quais não há nem ar nem luz. Visitamos o Dr. Hanley na primeira manhã, a quem penso que nunca teríamos encontrado, não fosse por um Dr. de Divindade bondoso que nos levou à sua biblioteca e nos mostrou um mapa, e nos deu direções de como encontrá-lo. De fato, todos os escoceses são tão civis e atenciosos, que é o suficiente para fazer um inglês se envergonhar de si mesmo. Eu deveria pensar se o Dr. Butler ou qualquer outro gordo Divino inglês levaria dois estranhos absolutos à sua biblioteca e lhes mostraria o caminho! Quando finalmente encontramos o Doutor, e tendo feito todos os discursos apropriados de ambos os lados, nós três partimos e caminhamos por toda a cidade, a qual admiramos excessivamente; de fato, a Bridge Street é a coisa mais extraordinária que já vi, e quando olhamos pela primeira vez por cima das laterais, dificilmente pudemos acreditar em nossos olhos, quando em vez de um belo rio, vimos um fluxo de pessoas. Passamos todas as nossas manhãs passeando pela cidade, que conhecemos muito bem, e à noite vamos ao teatro para ouvir a Srta. Stephens (Provavelmente Catherine Stephens), o que é absolutamente encantador; ela é muito popular aqui, sendo bisada a tal ponto que dificilmente consegue continuar com a peça. Na segunda-feira vamos ao Der F (não sei como soletrar o restante da palavra). (1/2. "Der F" é sem dúvida "Der Freischutz", que apareceu em 1820, e do qual uma seleção foi dada em Londres, sob a direção de Weber, em 1825. A última das composições de Weber, "From Chindara's warbling fount", foi escrita para a Srta. Stephens, que a cantou com seu acompanhamento "a última vez que seus dedos tocaram o teclado". (Ver "Dict. of Music", "Stephens" e "Weber.")) Antes de entrarmos em nosso alojamento, estávamos hospedados no Star Hotel em Princes St., onde, para minha surpresa, encontrei um antigo colega de escola, de quem gosto muito; ele acabou de voltar de uma excursão a pé na Suíça e agora vai estudar para seu [diploma?] As palestras introdutórias começam na próxima quarta-feira, e fomos matriculados para elas no sábado; pagamos 10s., e escrevemos nossos nomes em um livro, e a cerimônia está terminada; mas a Biblioteca não é livre para nós até obtermos um bilhete de um Professor. Acabamos de ir à Igreja e ouvimos um sermão de apenas 20 minutos. Eu esperava, pelo relato de Sir Walter Scott, um discurso cortante para a alma de 2 horas e meia.
Permaneço seu filho afetuoso, C. DARWIN.
CARTA 2. PARA CAROLINE DARWIN. 6 de janeiro de 1826. Edimburgo.
Muitas graças pela sua carta muito divertida, que foi um grande alívio depois de ouvir uma longa e estúpida palestra de Duncan sobre Matéria Médica, mas como você não sabe nada nem das Palestras nem dos Palestrantes, darei a você um breve relato deles. O Dr. Duncan é tão muito culto que sua sabedoria não deixou espaço para seu bom senso, e ele palestra, como já disse, sobre a Matéria Médica, que não pode ser traduzida para qualquer palavra expressiva o suficiente de sua estupidez. Nestas poucas manhãs passadas, no entanto, ele mostrou sinais de melhora, e espero que ele "continue tão bem quanto se pode esperar". Suas palestras começam às oito da manhã. O Dr. Hope começa às dez horas, e gosto muito dele e de suas palestras (depois das quais Erasmus vai ao "Sr. Sizars sobre Anatomia", que é um Palestrante encantador). Às 12 o Hospital, depois do qual assisto Monro sobre Anatomia. Desgosto tanto dele e de suas palestras, que não posso falar com decência sobre eles. Três vezes por semana temos o que é chamado de palestras Clínicas, que significa palestras sobre as pessoas doentes no Hospital--estas, eu gosto muito. Disse que este relato seria breve, mas receio que tenha sido longo demais, como as próprias palestras.
Serei um bom menino e direi algo sobre Johnson novamente (não que eu esteja muito surpreso que o Papai tenha se esquecido tanto a ponto de me chamar, um Colegiano na Universidade de Edimburgo, de menino). Ele mudou seu alojamento pela terceira vez; conseguiu uns muito baratos, mas receio que não dará certo, pois eles devem compensar trapaceando. Espero que você goste das notícias oficiais de Erasmus, ele pretende começar cada carta assim. Você mencionou em sua carta que Emma estava ficando com vocês: se ela não se foi, peça a ela para dizer a Jos que não tive sucesso em conseguir nenhum titânio, mas que tentarei novamente... Quero saber quantos anos terei no próximo aniversário--acredito que 17, e se for assim, serei forçado a ir para o exterior por um ano, já que é necessário que eu tenha completado meu 21º ano antes de tirar meu diploma. Agora você não tem nada que franzir a testa e ficar intrigada com esta carta, pois não prometi escrever com uma letra boa para você.
CARTA 3. PARA J.S. HENSLOW.
(3/1. Trechos das cartas de Darwin para Henslow foram lidos perante a Sociedade Filosófica de Cambridge em 16 de novembro de 1835. Algumas das cartas foram subsequentemente impressas, em um panfleto em 8vo de 31 páginas, datado de 1º de dezembro de 1835, para distribuição privada entre os membros da Sociedade. Uma tradução alemã por W. Preyer apareceu na "Deutsche Rundschau", junho de 1891.)
[15 de agosto de 1832. Montevidéu.]
Estamos agora navegando contra o vento no Rio da Prata, e aproveito a oportunidade para começar uma carta para você. Não enviei os espécimes do Rio de Janeiro, pois lamentei o tempo que levaria para empacotá-los. Agora estão prontos para serem enviados e, muito provavelmente, irão por este navio postal. Se for assim, irão para Falmouth (onde Fitz-Roy fez os preparativos) e, portanto, não incomodarão o agente de seu irmão em Londres. Quando deixei a Inglaterra, não estava plenamente consciente de quão essencial era a bondade que você me ofereceu ao se encarregar de receber minhas caixas. Não sei o que faria sem tal quartel-general. E agora, uma prosa apologética sobre minha coleção: receio que você diga que é muito pequena, mas não fiquei ocioso, e você deve se lembrar da mostra muito pequena que centenas de espécies fazem. A caixa contém um bom número de espécimes geológicos; estou bem ciente de que a maior parte é pequena demais. Mas sustento que ninguém tem o direito de me acusar, até que tenha tentado carregar rochas sob um sol tropical. Tentei obter espécimes de cada variedade de rocha e escrevi notas sobre todas. Se você achar que vale a pena examinar qualquer um deles, ficarei muito contente com algumas informações mineralógicas, especialmente sobre quaisquer números entre 1 e 254, que incluem as rochas de Santiago. Pelo meu catálogo, saberei a quais você pode se referir. Quanto às minhas plantas, "pudet pigetque mihi". Tudo o que posso dizer é que, quando estão presentes objetos que posso observar e sobre os quais posso particularizar, não consigo reunir determinação para coletar quando não sei nada.
É positivamente angustiante caminhar na gloriosa floresta em meio a tais tesouros e sentir que todos estão sendo desperdiçados em alguém. Minha coleção dos Abrolhos é interessante, pois suspeito que quase contenha toda a vegetação com flores — e, de fato, devido à extrema esterilidade, o mesmo pode quase ser dito de Santiago. Enviei para casa quatro garrafas com animais em álcool; tenho mais três, mas não quis enviá-las até ter uma quarta. Ficarei ansioso para saber como eles chegam. Fiz uma enorme coleção de Arachnidae no Rio, também um bom número de pequenos besouros em caixas de comprimidos, mas não é a melhor época do ano para estes últimos. Dentre os animais inferiores, nada me interessou tanto quanto encontrar duas espécies de Planaria verdadeiras de cores elegantes habitando a floresta orvalhada! A falsa relação que elas mantêm com os caracóis é a coisa mais extraordinária do gênero que já vi. No mesmo gênero (ou, mais propriamente, família), algumas das espécies marinhas possuem uma organização tão maravilhosa que mal posso acreditar em meus olhos. Todos já ouviram falar das faixas descoloridas de água nas regiões equatoriais. Uma que examinei devia-se à presença de Oscillariae tão minúsculas que, em cada polegada quadrada de superfície, devia haver pelo menos cem mil presentes. Depois disso, é melhor eu ficar em silêncio, pois você me achará um Barão Munchausen entre os naturalistas. Com toda a certeza, eu poderia coletar um número muito maior de espécimes de animais invertebrados se dedicasse menos tempo a cada um; mas cheguei à conclusão de que dois animais, com sua cor e forma originais anotadas, serão mais valiosos para os naturalistas do que seis apenas com datas e locais. Espero que você me envie suas críticas sobre minha coleção; e será meu esforço que nada do que você disser seja perdido para mim. Eu enviaria para casa meus escritos com meus espécimes, mas descubro que tenho tão repetidamente a necessidade de consultá-los que seria uma perda séria para mim. Não posso concluir sobre minha coleção sem acrescentar que confio implicitamente em que você mantenha uma conta exata contra todas as despesas com caixas, etc., etc. Neste exato minuto, estamos ancorados na foz do rio, e que cena estranha é. Tudo está em chamas — o céu com relâmpagos, a água com partículas luminosas, e até mesmo os próprios mastros estão pontuados por uma chama azul. Espero grande interesse em percorrer as planícies de Montevidéu, contudo, olho para trás com pesar para os Trópicos, aquela atração mágica para todos os naturalistas. O deleite de sentar-se em um tronco em decomposição em meio à quietude sombria da floresta é indescritível e jamais será esquecido. Quantas vezes desejei que você estivesse lá. Quando vejo uma banana, lembro-me bem de admirá-las com você em Cambridge — pouco imaginava eu, então, quão cedo comeria seu fruto.
15 de agosto. Em poucos dias, a caixa irá pelo navio postal "Emulous" (Capitão Cooke) para Falmouth e será encaminhada a você. Esta carta segue pelo mesmo caminho, de modo que, se no devido tempo você não receber a caixa, teria a bondade de escrever para Falmouth? Estamos aqui (Montevidéu) há algum tempo; mas, devido ao mau tempo e ao combate contínuo em terra, quase nunca pudemos caminhar pelo campo. Não coletei nada durante o último mês, mas hoje saí e retornei como a Arca de Noé, com animais de todos os tipos. Hoje, para meu espanto, encontrei duas Planariae vivendo sob pedras secas: pergunte a L. Jenyns se ele já ouviu falar desse fato. Também encontrei um caracol curiosíssimo, além de aranhas, besouros, cobras, escorpiões ad libitum, e, para concluir, abati uma Cavia pesando um quintal. Na sexta-feira, navegamos para o Rio Negro, e então começará nosso verdadeiro trabalho selvagem. Aguardo com pavor as regiões úmidas e tempestuosas do sul, mas, depois de tanto prazer, devo me sujeitar a um pouco de enjoo e miséria.
CARTA 4. PARA J.S. HENSLOW. Montevidéu, 24 de novembro de 1832.
Chegamos aqui em 24 de outubro, após nosso primeiro cruzeiro na costa da Patagônia. Ao norte do Rio Negro, encontramos algumas pequenas escunas empregadas na caça de focas; para evitar a perda de tempo no levantamento da intrincada massa de bancos de areia, o Capitão Fitz-Roy alugou duas delas e colocou oficiais nelas. Levamos quase um mês para equipá-las; assim que isso foi terminado, voltamos para cá e agora estamos nos preparando para um longo cruzeiro para o sul. Espero que o país selvagem e montanhoso da Terra do Fogo seja muito interessante, e, depois da costa da Patagônia, irei aproveitá-lo plenamente. — Eu esperava, pelo crédito da Dama Natureza, que não existisse um país como este último; na triste realidade, navegamos ao longo de 240 milhas de dunas de areia; nunca soube antes quão horrível e feio é um monte de areia. O famoso país do Rio da Prata, em minha opinião, não é muito melhor: um enorme rio salobro, limitado por uma interminável planície verde, é o suficiente para fazer qualquer naturalista gemer. Então, viva o Cabo Horn e a Terra das Tempestades. Agora que expressei meu desabafo, que é um privilégio que os marinheiros tomam em todas as ocasiões, vou virar o jogo e dar um relato do que fiz em História Natural. Devo fazer mais um desabafo: por má sorte, o Governo francês enviou um de seus coletores ao Rio Negro, onde ele tem trabalhado nos últimos seis meses e agora contornou o Horn. De modo que, de forma muito egoísta, temo que ele consiga a nata de todas as coisas boas antes de mim. Como não tenho ninguém com quem conversar sobre minha sorte e azar na coleta, estou determinado a desabafar tudo com você. Tenho tido muita sorte com ossos fósseis; tenho fragmentos de pelo menos 6 animais distintos: como muitos deles são dentes, confio que, despedaçados e rolados como foram, serão reconhecidos. Prestei toda a atenção de que sou capaz ao seu local geológico; mas, é claro, é uma história longa demais para aqui. 1º, tenho os tarsos e metatarsos muito perfeitos de uma Cavia; 2º, a mandíbula superior e a cabeça de algum animal muito grande, com quatro molares quadrados e ocos, e a cabeça grandemente projetada para a frente. A princípio, pensei que pertencesse ao Megalonyx ou Megatherium (4/1. O animal provavelmente pode ter sido Grypotherium Darwini, Ow. As placas ósseas mencionadas abaixo devem ter pertencido a um dos Glyptodontidae, e não ao Megatherium. Devemos ao Sr. Kerr ter chamado nossa atenção para uma passagem no "Bridgewater Treatise" de Buckland (Volume II, página 20, nota), onde a armadura óssea é atribuída ao Megatherium.). Em confirmação disso, na mesma formação, encontrei uma grande superfície das placas poligonais ósseas que "observações recentes" (o que são?) mostram pertencer ao Megatherium. Imediatamente ao ver isso, pensei que deveriam pertencer a um tatu enorme, cujas espécies vivas desse gênero são tão abundantes aqui. 3º, A mandíbula inferior de algum animal grande que, pelos dentes molares, eu diria pertencer aos Edentata; 4º, alguns dentes molares grandes que, em alguns aspectos, pareceriam pertencer a um enorme roedor; 5º, também alguns dentes menores pertencentes à mesma ordem. Se isso o interessar o suficiente para desembalá-los, ficarei muito curioso para ouvir algo sobre eles. Deve-se ter cuidado, neste caso, para não confundir as etiquetas. Eles estão misturados com conchas marinhas que me parecem idênticas às que existem hoje. Mas, desde que foram depositados em seus leitos, várias mudanças geológicas ocorreram no país. Tanto para os mortos, e agora para os vivos: há um espécime pobre de uma ave que, para meus olhos não ornitológicos, parece ser uma mistura feliz de cotovia, pombo e narceja (nº 710). O próprio Sr. MacLeay jamais imaginou tal criatura osculante: suponho que acabará sendo alguma ave bem conhecida, embora ela tenha me deixado completamente perplexo. Capturei alguns Amphibia interessantes; um novo Trigonocephalus conectando belamente em seus hábitos Crotalus e os Viperidae, e muitos sáurios novos (até onde vai meu conhecimento). Quanto a um pequeno sapo, espero que seja novo, para que possa ser batizado de "diabolicus". Milton deve aludir a este próprio indivíduo quando fala de "agachado como um sapo" (4/2. "...ele [Satã] ali eles [Ithuriel e Zephon] encontraram, Agachado como um sapo, perto do ouvido de Eva" ("Paraíso Perdido", Livro IV, linha 800). "Antigamente, o 'Paraíso Perdido' de Milton era meu favorito principal, e em minhas excursões durante a viagem do 'Beagle', quando eu só podia levar um único volume, eu sempre escolhia Milton" ("Autobiografia", página 69).); suas cores são, segundo Werner (4/3. Werner's "Nomenclature of Colours", Edimburgo, 1821.), preto tinta, vermelho vermelhão e laranja camurça. Tem sido um cruzeiro esplêndido para mim em História Natural. Dentre os Pelagic Crustacea, alguns gêneros novos e curiosos. Nos Zoophytes, alguns animais interessantes. Quanto a uma Flustra, se eu não tivesse o espécime para me apoiar, ninguém acreditaria em sua estrutura tão anômala. Mas, quanto à novidade, tudo isso não é nada perto de uma família de animais pelágicos que, à primeira vista, parecem Medusae, mas são, na verdade, altamente organizados. Examinei-os repetidamente e, certamente, por sua estrutura, seria impossível colocá-los em qualquer ordem existente. Talvez Salpa seja o animal mais próximo, embora a transparência do corpo seja quase a única característica que têm em comum. Acho que as plantas secas contêm quase tudo o que estava, então (Bahia Blanca), florescendo. Todos os espécimes serão embalados em barris. Acho que serão três (antes de enviar esta carta, especificarei datas, etc., etc.). Receio que você vá gemer, ou melhor, que o piso da sala de aula vai gemer quando os barris chegarem. Sem você, eu estaria totalmente perdido. O pequeno barril contém peixes: você poderia abri-lo para ver como o álcool resistiu à evaporação dos Trópicos? A bordo do navio, tudo segue o melhor possível; o único inconveniente é a terrível quantidade de tempo entre este dia e o dia do nosso retorno. Não vejo limites para isso. Um ano está quase completo e o segundo o estará antes mesmo de deixarmos a costa leste da América do Sul. E então nossa viagem pode-se dizer que realmente começou. Não sei como serei capaz de suportar. A frequência com que penso em todas as horas felizes que passei em Shrewsbury e Cambridge é um tanto sinistra — confio tudo ao tempo e ao destino, e seguirei sentindo o caminho à medida que avanço.
24 de novembro. — Estivemos em Buenos Aires por uma semana; é uma cidade grande e bela, mas que país, tudo é lama, você não pode ir a lugar algum, você não pode fazer nada por causa da lama. Na cidade, obtive muitas informações sobre as margens do Uruguai — ouvi falar de calcário com conchas, e leitos de conchas em todas as direções. Espero, quando passarmos o inverno no Prata, fazer uma excursão geológica muito interessante por aquele país: comprei fragmentos (nº 837-8) de alguns ossos enormes, que me asseguraram pertencer aos antigos gigantes!! Também consegui algumas sementes — não sei se valem a pena você aceitá-las; se você achar que sim, buscarei mais algumas. Estão na caixa. Enviei para você pelo navio postal "Duke of York", comandado pelo Tenente Snell, para Falmouth, dois grandes barris contendo ossos fósseis, um barril pequeno com peixes e uma caixa contendo peles, garrafa de álcool, etc., e caixas de comprimidos com besouros. Você teria a bondade de abrir estas últimas, pois tendem a criar mofo. Com exceção dos ossos, o restante da minha coleção parece bem escasso. Lembre-se de quanto tempo é passado no mar. Estou sempre ansioso para saber em que estado as coisas chegam e quaisquer críticas sobre a quantidade ou tipo de espécimes. No barril menor, há parte de uma cabeça grande, cujas porções anteriores estão no outro, o maior. O navio postal chegou e estou em um grande alvoroço. Você não terá notícias minhas por alguns meses.
Chegou uma caixa contendo duas das suas mais gentis e afetuosas cartas. Não sabe quão feliz elas me fizeram. Uma está datada de 15 de dezembro de 1833, a outra de 15 de janeiro do mesmo ano! Por que fatalidade não chegou antes, não posso conjecturar; lamento muito, pois contém as informações que eu mais desejava, sobre a maneira de embalar, etc., etc.: raízes com espécimes de plantas, etc., etc. Suponho que esta foi escrita após a recepção da minha primeira carga de espécimes. Não tendo tido notícias suas até março deste ano, comecei realmente a pensar que as minhas coleções eram tão pobres que estava perplexo sobre o que dizer; o caso agora é exatamente o oposto; pois é culpado de elevar todos os meus sentimentos de vaidade a um nível bastante confortável; se o trabalho árduo compensar estes pensamentos, juro que não será poupado. É um pouco tarde, mas farei alusão a algumas observações na carta de janeiro; aconselha-me a enviar para casa duplicatas das minhas notas; tenho estado ciente da vantagem de o fazer; mas então, no mar, até hoje, fico invariavelmente enjoado, exceto nos dias mais amenos, momentos em que, com animais pelágicos ao meu redor, nunca consegui dedicar-me à tarefa — em terra, a pessoa mais prudente dificilmente esperaria tal sacrifício de tempo. As minhas notas estão a tornar-se volumosas. Tenho cerca de 600 pequenas páginas em quarto cheias; cerca de metade disto é Geologia — a outra, descrições imperfeitas de animais; com estas últimas, estabeleci como regra descrever apenas as partes ou factos que não podem ser vistos nos espécimes em álcool. Mantenho o meu Diário privado distinto do anterior. (N.B. esta carta é muito desarrumada, mas a minha mente está desarrumada de alegria; a culpa é sua, por isso tem de arcar com as consequências.) Com respeito às Planariae terrestres, inquestionavelmente não são animais moluscos. Li as suas cartas ontem à noite, esta manhã fiz uma pequena caminhada; por uma coincidência curiosa, encontrei uma nova espécie branca de Planaria, e um Vaginulus novo para mim (terceira espécie que encontrei na América do Sul) de Cuvier. Entre os moluscos marinhos, vi um bom número de géneros e, no Rio, encontrei um totalmente novo. Com respeito à carta de dezembro, estou muito contente por saber que os quatro barris chegaram em segurança; desde esse momento, recebeu outra carga, com as peles de aves sobre as quais não me compreendeu. Alguma das sementes de B. Ayres produziu plantas? Das Falklands, confirmei a receção de uma caixa e uma carta suas; com a carta, havia algumas sementes da Patagónia. De momento, tenho espécimes suficientes para fazer uma carga pesada, mas esperarei o máximo de tempo possível, porque as oportunidades agora não são tão boas como antes. Acabei de sentir o rasto de alguns ossos fósseis de um MAMUTE; o que possam ser, não sei, mas se ouro ou galope os conseguir, serão meus. Diz-me que gosta de ouvir como estou e o que estou a fazer, e bem pode imaginar o quanto gosto de falar com alguém sobre assuntos em que estou sempre a pensar, mas nunca tenho ninguém com quem conversar [sobre eles]. Após deixar as Falklands, seguimos para o Rio S. Cruz, subindo o rio até vinte milhas das Cordilheiras. Infelizmente, a falta de provisões obrigou-nos a regressar. Esta expedição foi muito importante para mim, pois foi uma secção transversal da grande formação da Patagónia. Conjecturo (um exame preciso dos fósseis poderá possivelmente determinar o ponto) que a camada principal é algures cerca do período Mioceno (usando a expressão do Sr. Lyell); julgo pelo que vi das conchas atuais da Patagónia. Esta camada contém um ENORME campo de lava. Isto é de algum interesse, por ser uma aproximação grosseira da idade da parte vulcânica da grande cadeia dos Andes. Muito antes disto, existia como uma linha de colinas de xisto e pórfiro. Colecionei uma quantidade tolerável de informações respeitantes ao período e formas de elevação destas planícies. Penho que serão interessantes para o Sr. Lyell; tinha adiado a leitura do seu terceiro volume até ao meu regresso: pode adivinhar quanto prazer me deu; algumas das suas gravuras em madeira encaixaram tão exatamente que só tenho de referir-me a elas em vez de redesenhar semelhantes. Tinha o meu barómetro comigo, só desejo tê-lo usado mais nestas planícies. O vale de S. Cruz parece-me muito curioso; no início, deixou-me totalmente confuso. Acredito que posso apresentar boas razões para supor que já foi um estreito a norte, semelhante ao de Magalhães. Quando regressar a Inglaterra, terá algum trabalho árduo a joeirar a minha Geologia; o pouco que sei, aprendi de uma forma tão curiosa que frequentemente me sinto muito duvidoso quanto ao número de grãos [de valor?]. Seja qual for o número que venham a ter, desfrutei de extremo prazer em colecioná-los. Na T. del Fuego, colecionei e examinei alguns coralíneos; observei um facto que me deixou bastante espantado: é que, no género Sertularia (tomado na sua forma mais restrita como [usado] por Lamoureux) e em duas espécies que, excluindo expressões comparativas, teria muita dificuldade em descrever como diferentes, os pólipos diferiam total e essencialmente em todas as suas partes mais importantes e evidentes da estrutura. Já vi o suficiente para estar convencido de que as famílias atuais de coralíneos, como arranjadas por Lamarck, Cuvier, etc., são altamente artificiais. Parece que estão no mesmo estado [em] que as conchas estavam quando Lineu as deixou para Cuvier reorganizar. Desejo tanto ser melhor a dissecar, descobri que posso fazer muito pouco nas partes minuciosas da estrutura; sou forçado a tomar um exame muito grosseiro como tipo para diferentes classes de estrutura. É muito extraordinário que não consiga ver em lado nenhum nos meus livros uma única descrição do pólipo de qualquer coralíneo, exceto o Alcyonium Lobularia de Savigny. Encontrei uma pequena e curiosa Cellaria pétrea (5/1. Cellaria, um género de Bryozoa, colocado na secção Flustrina da Subordem Chilostomata.) (um novo género), cada célula provida com uma cerda longa e dentada, estas são capazes de movimentos variados e rápidos. Este movimento é frequentemente simultâneo e pode ser produzido por irritação. Este facto, tanto quanto vejo, é totalmente isolado na história dos zoófitos (exceto a Flustra com um órgão como a cabeça de um abutre); aponta para uma relação muito mais íntima entre os pólipos do que Lamarck está disposto a admitir. Esqueci-me se mencionei ter visto algo sobre o modo de propagação naquela família tão ambígua, os coralíneos; sinto-me bastante convencido de que, se não são plantas, não são zoófitos. A "gêmula" de uma Halimeda continha várias articulações unidas, prontas a romper o seu envelope e tornar-se ligadas a alguma base. Acredito que, nos zoófitos, universalmente, a gêmula produz um único pólipo, que depois ou ao mesmo tempo cresce com a sua célula ou articulação individual.
O "Beagle" deixou os Estreitos de Magalhães a meio do inverno; encontrou o seu caminho de saída por um canal selvagem e pouco frequentado; bem poderia o Sir J. Narborough chamar à costa oeste South Desolation, "porque é uma terra tão desolada de se contemplar." Fomos empurrados para Chiloe por um tempo muito mau. Um inglês deu-me três espécimes daquele inseto lucanoide muito fino que está descrito nas "Camb. Phil. Trans." (5/2. "Description of Chiasognathus Grantii, a new Lucanideous Insect, etc." por J.F. Stephens ("Trans. Camb. Phil. Soc." Volume IV., página 209, 1833.)), dois machos e uma fêmea. Descobri que Chiloe é composta de lava e depósitos recentes. As lavas são curiosas por abundarem em, ou antes por serem em partes compostas de pedra-piche. Se formos a Chiloe no verão, colherei uma colheita entomológica. Suponho que a Botânica tanto lá como no Chile seja bem conhecida.
Esqueci-me de declarar que, nas quatro cargas de espécimes, foram enviadas três caixas quadradas, cada uma contendo quatro garrafas de vidro. Menciono isto caso sejam arrumadas debaixo de espécimes geológicos e, assim, escapem à sua atenção; talvez algum álcool possa ser necessário nelas. Se uma caixa chegar de B. Ayres com uma cabeça de Megatherium e os outros espécimes não numerados, seja gentil o suficiente para me dizer, pois tenho fortes receios pela sua segurança. Chegámos aqui anteontem; as vistas das montanhas distantes são muito sublimes e o clima é delicioso; após o nosso longo cruzeiro nos climas húmidos e sombrios do sul, respirar um ar claro e seco e sentir um sol honesto e quente, e comer uma boa carne de vaca fresca assada, deve ser o summum bonum da vida humana. Não gosto do aspeto das rochas nem metade tanto quanto da carne, há demasiado daqueles ingredientes bastante insípidos, mica, quartzo e feldspato. Os nossos planos estão, de momento, indecisos; há um bom bocado de trabalho a sul de Valparaíso e, para norte, uma quantidade indefinida. Aguardo com interesse cada parte. Enviei-lhe nesta carta uma dose triste de egotismo, mas lembre-se de que o considero como o meu pai na História Natural, e um filho pode falar de si mesmo ao seu pai. Na sua capacidade paternal como proproctor, que grande quantidade de problemas parece ter tido. Quão turbulenta Cambridge se tornou. Antes desta altura, terá recuperado a sua tranquilidade. Tenho um desejo muito escolar de estar lá, desfrutando das minhas férias. É uma reflexão muito confortável para mim que, sendo um navio feito de madeira e ferro, não possa durar para sempre, e, portanto, esta viagem deve ter um fim.
28 de outubro. Esta carta tem estado na minha pasta desde julho; não a enviei porque não achei que valesse o porte; irá agora com uma caixa de espécimes. Pouco depois de chegar aqui, parti para uma excursão geológica e tive um passeio muito agradável pela base dos Andes. Todo o país parece composto de brechas (e imagino que xistos) que universalmente foram modificadas e, muitas vezes, completamente alteradas pela ação do fogo. As variedades de pórfiro assim produzidas são infinitas, mas em parte alguma encontrei ainda rochas que tenham fluído num fluxo; diques de pedra verde são muito numerosos. A ação vulcânica moderna está inteiramente fechada nas partes muito centrais (que não podem agora ser alcançadas devido à neve) das Cordilheiras. A sul do R. Maypu, examinei as planícies Terciárias, já parcialmente descritas pelo M. Gay. (5/3. "Rapport fait a l'Academie Royale des Sciences, sur les Travaux Geologiques de M. Gay," por Alex. Brongniart ("Ann. Sci. Nat." Volume XXVIII., página 394, 1833.) As conchas fósseis parecem-me muito mais diferentes das atuais do que na grande formação da Patagónia; será curioso se um Eoceno e um Mioceno (dos recentes há abundância lá) pudessem ser provados existir na América do Sul, assim como na Europa. Fiquei muito interessado em encontrar abundância de conchas recentes a uma elevação de 1.300 pés; o país, em muitos lugares, está espalhado com conchas, mas estas são todas litorais. Por isso, suponho que a elevação de 1.300 pés deve dever-se a uma sucessão de pequenas elevações, como em 1822. Com estas provas certas da residência recente do oceano sobre todas as partes mais baixas do Chile, o contorno de cada vista e a forma de cada vale possui um elevado interesse. A ação da água corrente ou do mar formou este desfiladeiro profundo? era uma pergunta que surgia frequentemente na minha mente e geralmente era respondida encontrando um leito de conchas recentes no fundo. Não tenho argumentos suficientes, mas não acredito que mais do que uma pequena fração da altura dos Andes tenha sido formada dentro do período Terciário. A conclusão da minha excursão foi muito infeliz, fiquei indisposto e mal consegui chegar a este lugar. Tenho estado na cama durante o último mês, mas agora estou a recuperar rapidamente. Tinha esperado durante este tempo ter feito uma boa coleção de insetos, mas tem sido impossível: lamento menos porque Chiloe fervilha de colecionadores; há mais naturalistas no país do que carpinteiros ou sapateiros ou qualquer outro ofício honesto.
Na minha carta das Ilhas Falkland, disse que tinha receios sobre uma caixa com um Megatherium. Ouvi desde então de B. Ayres que foi para Liverpool pelo brigue "Basingwaithe". Se não a recebeu, penso que vale a pena ter algum trabalho com isso. Em outubro, dois barris e um frasco foram enviados pelo H.M.S. "Samarang" via Portsmouth. Não tenho dúvidas de que os recebeu. Com esta carta, envio um bom número de peles de aves; na mesma caixa com elas, há um pacote de papel contendo caixas de comprimidos com insetos. As outras caixas de comprimidos não requerem cuidados particulares. Verá em duas destas caixas algumas Planariae secas (terrestres), o único método que encontrei para as preservar (são extremamente quebradiças). Ao examinar a espécie branca, compreendo um pouco da estrutura interna. Há dois pequenos pacotes de sementes. Há algumas plantas que espero que lhe possam interessar, ou pelo menos as da Patagónia, onde colecionei cada uma em flor. Há uma garrafa, desajeitadamente, mas penso que seguramente arrolhada, contendo água e gás dos banhos quentes de Cauquenes, situados no sopé dos Andes e há muito célebres pelas suas propriedades medicinais. Tive o cuidado de encher e fechar tanto a água como o gás. Se puder encontrar alguém que goste de os analisar, penso que valeria a pena o trabalho. Não tenho tempo, de momento, para copiar as minhas poucas observações sobre a localidade, etc., etc., [destas] fontes. Diga-me como os Arachnidae que enviei para casa, por exemplo os do Rio, parecem estar preservados. Tenho dúvidas se vale a pena colecioná-los.
Partimos depois de amanhã: os nossos planos são finalmente limitados e definidos; estou encantado por dizer que demos um adeus eterno à T. del Fuego. O "Beagle" não prosseguirá mais para sul do que o C. Tres Montes; a partir desse ponto, mapearemos para norte. O Arquipélago de Chonos é deliciosamente desconhecido: belas enseadas profundas entrando nas Cordilheiras — onde podemos navegar à luz de um vulcão. Não sei qual parte da viagem oferece agora mais atrações. Esta é uma carta vergonhosamente desarrumada, mas tem de me perdoar.
CARTA 6. PARA J.S. HENSLOW. 18 de abril de 1835. Valparaíso.
Acabei de regressar de Mendoza, tendo atravessado as Cordilheiras por duas passagens. Esta viagem acrescentou muito ao meu conhecimento da geologia do país. Alguns dos factos, da veracidade dos quais estou plenamente convencido na minha própria mente, parecer-lhe-ão bastante absurdos e incríveis. Farei um esboço muito curto da estrutura destas enormes montanhas. Na passagem de Portillo (a mais a sul), os viajantes descreveram as Cordilheiras como consistindo numa dupla cadeia de altitude quase igual, separada por um intervalo considerável. É este o caso; e a mesma estrutura estende-se para norte até Uspallata; a pequena elevação da linha oriental (aqui não mais de 6.000-7.000 pés) fez com que fosse quase negligenciada. Para começar com a cadeia ocidental e principal, temos, onde as secções são melhor vistas, uma enorme massa de um conglomerado porfirítico descansando sobre granito. Esta última rocha parece formar o núcleo de toda a massa, e é vista nos vales laterais profundos, injetada entre, levantando, derrubando da maneira mais extraordinária, os estratos sobrejacentes. A estratificação em todas as montanhas é belamente distinta e, pela variedade na cor, pode ser vista a grandes distâncias. Não consigo imaginar qualquer parte do mundo apresentando uma cena mais extraordinária da rutura da crosta do globo do que as partes muito centrais dos Andes. A elevação ocorreu por um grande número de linhas (quase) N. e S.; que, na maioria dos casos, formaram tantas ravinas anticlinais e sinclinais; os estratos nos pináculos mais altos estão quase universalmente inclinados a um ângulo de 70 a 80 graus. Não lhe sei dizer como desfrutei de algumas destas vistas — vale a pena vir de Inglaterra, uma vez, para sentir tal deleite intenso; a uma elevação de 10 a 12.000 pés, há uma transparência no ar, e uma confusão de distâncias e um tipo de quietude que dá a sensação de se estar noutro mundo, e quando a isto se junta a imagem tão claramente desenhada dos grandes períodos de violência, causa na mente um conjunto muito estranho de ideias.
A formação que chamo de Conglomerados Porfiríticos é a mais importante e a mais desenvolvida no Chile: a partir de um grande número de cortes, considero-a um verdadeiro conglomerado grosseiro ou brecha, que a cada passo, numa lenta gradação, passa a um pórfiro de argilito fino; os seixos e o cimento tornando-se porfiríticos até que, finalmente, tudo se mistura numa única rocha compacta. Os pórfiros são excessivamente abundantes nesta cadeia. Tenho a certeza de que pelo menos 4/5 deles foram assim produzidos a partir de camadas sedimentares in situ. Existem pórfiros que foram injetados a partir de baixo entre estratos, e outros ejetados, que fluíram em correntes; é notável, e eu poderia mostrar espécimes desta rocha produzidos por estes três métodos, que não podem ser distinguidos. É um grande erro considerar as Cordilheiras aqui como compostas por rochas que fluíram em correntes. Nesta cadeia não vi, em parte alguma, um fragmento que eu acredite ter tido tal origem, embora a estrada passe a não grande distância dos vulcões ativos. Os pórfiros, o conglomerado, o arenito e o arenito quartzoso e os calcários alternam-se e passam uns para os outros muitas vezes, sobrepondo-se (onde não rompidos pelo granito) ao xisto argiloso. Nas partes superiores, o arenito começa a alternar com o gesso, até que finalmente temos esta substância de uma espessura estupenda. Acredito realmente que a formação tem em alguns lugares (varia muito) quase 2.000 pés de espessura; ocorre frequentemente com um arenito silicioso verde (epidoto?) e mármore branco como a neve; assemelha-se àquele encontrado nos Alpes ao conter grandes concreções de um mármore cristalino de uma cor cinzento-acinzentada. As camadas superiores que formam alguns dos pináculos mais elevados consistem em camadas de gesso branco como a neve e arenito compacto vermelho, desde a espessura de papel até alguns pés, alternando num ciclo sem fim. A rocha tem uma aparência curiosamente pintada. Na passagem de Peuquenes, nesta formação, onde, contudo, uma rocha negra como xisto argiloso, sem muitas lâminas, ocorrendo com um calcário pálido, substituiu o arenito vermelho, encontrei abundantes impressões de conchas. A elevação deve estar entre 12 e 13.000 pés. Uma concha que acredito ser a Gryphaea é a mais abundante — uma Ostrea, Turritella, Ammonites, pequenos bivalves, Terebratulae (?). Talvez algum bom concologista (6/1. Alguns destes géneros são mencionados por Darwin ("Geol. Obs." página 181) como tendo sido nomeados para ele pelo M. D'Orbigny.) seja capaz de arriscar a que grande divisão das formações da Europa estes restos orgânicos mais se assemelham. Eles são extremamente imperfeitos e poucos. Era tarde na estação e a situação particularmente perigosa devido às tempestades de neve. Não me atrevi a atrasar-me, caso contrário uma grande colheita poderia ter sido ceifada. Tanto quanto à linha ocidental; na passagem do Portillo, seguindo para leste, encontramos uma imensa massa de conglomerado, inclinada para oeste a 45 graus, que repousa sobre arenito micáceo, etc., etc., soerguida e convertida em rocha de quartzo, penetrada por diques da grandiosa massa de protogine (grandes cristais de quartzo, feldspato vermelho e ocasionalmente um pouco de clorite). Ora, este conglomerado que repousa sobre e se inclina a partir do protogine a 45 graus consiste nas rochas peculiares da primeira cadeia descrita, seixos da rocha negra com conchas, arenito verde, etc., etc. É, portanto, manifesto que o soerguimento (e a deposição, pelo menos de parte) da grande cadeia oriental é inteiramente posterior à ocidental. Para norte, na passagem de Uspallata, temos também um facto da mesma classe. Tenha isto em mente: ajudá-lo-á a acreditar no que se segue. Disse que a cadeia de Uspallata é geologicamente, embora apenas com 6.000-7.000 pés, uma continuação da grande cadeia oriental. Tem o seu núcleo de granito, consiste em grandes camadas de várias rochas cristalinas, das quais não posso ter dúvidas de que são lavas subaquáticas alternando com arenito, conglomerados e camadas aluminosas brancas (como feldspato decomposto) com muitas outras variedades curiosas de depósitos sedimentares. Estas lavas e arenitos alternam muitas vezes e são perfeitamente conformes uns aos outros. Durante dois dias de exame cuidadoso, disse a mim próprio pelo menos cinquenta vezes, quão exatamente parecidas (apenas um pouco mais duras) são estas camadas com as dos estratos Terciários superiores da Patagónia, Chiloé e Concepción, sem que a possível identidade me tivesse ocorrido. Finalmente, não havia como resistir à conclusão. Não poderia esperar conchas, pois nunca ocorrem nesta formação; mas lignite ou xisto carbonáceo deveriam ser encontrados. Eu tinha ficado anteriormente extremamente intrigado ao encontrar no arenito camadas finas (de alguns centímetros a alguns pés de espessura) de um pitchstone brechado. Suspeito fortemente que o granito subjacente alterou tais camadas neste pitchstone. A madeira silicificada (particularmente característica) ainda estava ausente. A convicção de que eu estava sobre os estratos Terciários era tão forte por esta altura no meu espírito, que, no terceiro dia, no meio de lavas e [? massas] de granito, comecei a minha aparentemente desesperada busca. Como pensa que tive sucesso? Num escarpamento de arenito esverdeado compacto, encontrei um pequeno bosque de árvores petrificadas numa posição vertical, ou melhor, os estratos estavam inclinados cerca de 20-30 graus para um ponto e as árvores 70 graus para o oposto. Isto é, antes da inclinação, estavam verdadeiramente verticais. O arenito consiste em muitas camadas e é marcado pelas linhas concêntricas da casca (tenho espécimes); 11 estão perfeitamente silicificadas e assemelham-se à madeira dicotiledónea que encontrei em Chiloé e Concepción (6/2. "Geol. Obs." página 202. Espécimes da madeira silicificada foram examinados por Robert Brown e determinados por ele como sendo de coníferas, "participando das características da tribo Araucária, com alguns pontos curiosos de afinidade com o teixo."); as outras (30-40) só sei que são árvores pela analogia de forma e posição; consistem em colunas brancas como a neve (como a mulher de Lot) de carbonato de cálcio grosseiramente cristalino. O maior tronco tem 7 pés. Estão todas próximas, num raio de 100 jardas e aproximadamente ao mesmo nível: em nenhum outro lugar consegui encontrar. Não se pode duvidar que as camadas de arenito fino foram silenciosamente depositadas entre um grupo de árvores que estavam fixas pelas suas raízes. O arenito repousa sobre lava, é coberto por uma grande camada aparentemente com cerca de 1.000 pés de espessura de lava augítica negra, e acima desta existem pelo menos 5 grandes alternâncias de tais rochas e depósitos sedimentares aquosos, totalizando em espessura vários milhares de pés. Tenho bastante receio da única conclusão que posso retirar deste facto, nomeadamente que deve ter havido uma depressão na superfície da terra nessa ordem de grandeza. Mas, negligenciando esta consideração, foi um suporte muito satisfatório para a minha presunção da idade Terciária (refiro-me por Terciária ao facto de que as conchas do período eram estreitamente aliadas, ou algumas idênticas, àquelas que vivem agora, como nas camadas inferiores da Patagónia) desta cadeia oriental. Grande parte da prova deve permanecer sobre o meu ipse dixit de uma semelhança mineralógica com aquelas camadas cuja idade é conhecida, e o carácter de tal semelhança deve estar sujeito a variação infinita, passando de uma variedade para outra por uma estrutura concrecionária. Dificilmente espero que acredite em mim, quando é uma consequência desta visão que o granito, que forma picos de uma altura provavelmente de 14.000 pés, tenha estado fluido no período Terciário; que os estratos daquele período sejam alterados pelo seu calor e sejam atravessados por diques provenientes da massa. Que estes estratos tenham também, provavelmente, sofrido uma imensa depressão, que estejam agora inclinados a ângulos elevados e formem linhas anticlinais regulares ou complicadas. Para completar o clímax e selar a sua descrença, estes mesmos estratos sedimentares e lavas são atravessados por MUITO NUMEROSOS veios metálicos verdadeiros de ferro, cobre, arsénico, prata e ouro, e estes podem ser traçados até ao granito subjacente. Uma mina de ouro foi trabalhada perto do grupo de árvores silicificadas. Se, quando vir os meus espécimes, cortes e relato, pensar que existe uma prova presuntiva bastante forte dos factos acima mencionados, parece muito importante; pois a estrutura e o tamanho desta cadeia suportarão comparação com qualquer outra no mundo, e o facto de tudo isto ter sido produzido num período tão recente é, de facto, maravilhoso. No meu próprio espírito, estou bastante convencido da realidade disto. De qualquer modo, posso dizer muito conscientemente que nenhuma conjetura previamente formada distorceu o meu julgamento. Tal como descrevi, observei realmente os factos. Mas terei alguma piedade e terminarei este longuíssimo relato da minha viagem geológica.
Em algumas das grandes manchas de neve perpétua, encontrei a famosa neve vermelha dos países Árticos; envio com esta carta as minhas observações e um pedaço de papel no qual tentei secar alguns espécimes. Se o facto for novo e achar que vale a pena, examine-os você mesmo ou envie-os a quem descreveu os espécimes do norte e publique uma nota em qualquer dos periódicos. Envio também uma pequena garrafa com dois lagartos, um deles é vivíparo, como verá pela nota anexa. Um M. Gay — um naturalista francês — já publicou num dos jornais deste país uma afirmação semelhante e provavelmente terá enviado para Paris algum relato; como o facto parece singular, não valeria a pena entregar os espécimes a algum bom lagartologista e anatomista comparativo para publicar um relato da sua estrutura interna? Faça o que achar conveniente.
Esta carta seguirá com uma carga de espécimes de Coquimbo. Escreverei para o informar de quando forem enviados. Na caixa há dois sacos de sementes, um [das] vales das Cordilheiras a 5.000-10.000 pés de altitude, o solo e o clima extremamente secos, solo muito leve e pedregoso, extremos de temperatura; o outro principalmente da Traversia seca e arenosa de Mendoza, 3.000 pés mais ou menos. Se alguns dos arbustos crescerem, mas não estiverem saudáveis, tente uma leve aspersão de sal e salitre. A planície é salífera. Todas as flores nas Cordilheiras parecem ser flores de outono — estavam todas em flor e semente, muitas delas muito bonitas. Recolhi-as enquanto cavalgava pelas encostas das colinas. Se elas quiserem nascer, não tenho dúvidas de que muitas seriam grandes raridades. No saco de Mendoza estão as sementes ou bagas do que parece ser uma pequena planta de batata com uma flor esbranquiçada. Crescem a muitas léguas de onde qualquer habitação poderia ter existido devido à ausência de água. Entre as plantas secas de Chonos, verá um belo espécime da batata selvagem, crescendo sob um clima muito oposto, e inquestionavelmente uma verdadeira batata selvagem. Deve ser uma espécie distinta daquela das Cordilheiras Inferiores. Talvez, como acontece com a banana, espécies distintas não sejam agora distinguíveis nas suas variedades produzidas pelo cultivo. Não posso copiar as poucas observações sobre a batata de Chonos. Com os espécimes há um pacote de papéis velhos e cadernos. Poderá cuidar deles? Caso eu perca as minhas notas, estes poderiam ser úteis. Não envio para casa quaisquer insetos porque devem ser incómodos para si, e agora que falta tão pouco da viagem, posso bem encarregar-me deles. Daqui a dois ou três dias parto para Coquimbo por terra; o "Beagle" passa por mim no início de junho. De modo que tenho mais seis semanas para desfrutar da geologia nestas curiosas montanhas do Chile. Há atualmente uma revolução sangrenta no Peru. O Comodoro foi para lá e, na pressa, levou as nossas cartas consigo; talvez entre elas haja uma sua. Quem me dera ter o velho Comodoro aqui, eu incutiria alguma consideração pelos outros no seu velho corpo. De Coquimbo voltará a ter notícias minhas.
CARTA 7. PARA J.S. HENSLOW. Lima, 12 de julho de 1835.
Esta é a última carta que escreverei para si a partir das costas da América, e por esta razão a envio. Dentro de poucos dias o "Beagle" zarpará para as Ilhas Galápagos. Aguardo isto com alegria e interesse, tanto por estar um pouco mais perto de Inglaterra como pelo prazer de ter uma boa visão de um vulcão ativo. Embora tenhamos visto lava em abundância, nunca contemplei o cratera. Enviei pelo H.M.S. "Conway" duas grandes caixas de espécimes. O "Conway" zarpou no final de junho. Com eles seguiam cartas para si; desde essa altura viajei por terra de Valparaíso até Copiapó e vi algo mais das Cordilheiras. Algumas das minhas visões geológicas foram, posteriormente à última carta, alteradas. Acredito que a massa superior de estratos não é tão moderna como supus. Esta última viagem explicou-me muito da história antiga das Cordilheiras. Sinto-me seguro de que outrora consistiram numa cadeia de vulcões a partir da qual enormes correntes de lava foram vertidas no fundo do mar. Estas alternam com camadas sedimentares de uma vasta espessura; num período subsequente estes vulcões devem ter formado ilhas, a partir das quais foram produzidos estratos de vários milhares de pés de espessura de conglomerado grosseiro. (7/1. Ver "Geological Observations on South America" (Londres, 1846), Capítulo VII: "Central Chile; Structure of the Cordillera.") Estas ilhas estavam cobertas com árvores finas; no conglomerado, encontrei uma com 15 pés de circunferência perfeitamente silicificada até ao próprio centro. As alternâncias de rochas cristalinas compactas (não posso duvidar que sejam lavas subaquáticas) e camadas sedimentares, agora soerguidas, fraturadas e endurecidas, formam a cadeia principal dos Andes. A formação foi produzida na época em que ammonites, gryphites, ostras, Pecten, Mytilus, etc., etc., viviam. Nas partes centrais do Chile, a estrutura das camadas inferiores é tornada muito obscura pela ação metamórfica que tornou até os conglomerados mais grosseiros porfiríticos. As Cordilheiras dos Andes, tão dignas de admiração pela grandeza das suas dimensões, elevam-se em dignidade quando se considera que, desde o período das ammonites, têm formado uma característica marcante na geografia do globo. A geologia destas montanhas agradou-me num aspeto; ao ler Lyell, sempre me tinha ocorrido que, se a crosta do mundo continua a mudar num círculo, deveria haver em algum lugar formações que, tendo a idade das grandes camadas Secundárias europeias, deveriam possuir a estrutura de rochas Terciárias ou aquelas formadas entre ilhas e em bacias limitadas. Ora, as alternâncias de lava e sedimento grosseiro que formam as partes superiores dos Andes correspondem exatamente ao que se acumularia sob tais circunstâncias. Como consequência disto, só posso separar muito grosseiramente em três divisões os estratos variáveis (talvez 8.000 pés de espessura) que compõem estas montanhas. Tenho receio de que me diga para aprender o meu ABC para conhecer quartzo de feldspato antes de me entregar a tais especulações. Recentemente obtive um relatório sobre os trabalhos do M. Dessalines D'Orbigny na América do Sul (7/2. "Voyage dans l'Amerique Meridionale, etc." (A. Dessalines D'Orbigny).); experimentei um nível de vexame bastante rebaixador ao descobrir que ele descreveu a Geologia dos Pampas, e que tive algumas cavalgadas difíceis por nada; foi, contudo, gratificante que as minhas conclusões sejam as mesmas, tanto quanto posso recolher, que os seus resultados. É também excelente que toda a Bolívia será descrita. Espero ser capaz de conectar a sua geologia daquele país com a minha do Chile. Após deixar Copiapó, tocámos em Iquique. Visitei, mas não compreendo bem a posição das camadas de nitrato de sódio. Aqui no Peru, devido ao estado de anarquia, não posso fazer qualquer expedição.
Ouço de casa que o meu irmão vai enviar-me uma caixa com livros e uma carta sua. É muito lamentável que não possa receber isto antes de chegarmos a Sydney, mesmo que chegue em segurança até lá. Não terei outra oportunidade durante muitos meses de lhe escrever novamente. Terá a caridade de me enviar mais uma carta (assim que esta chegar até si) dirigida ao Cabo da Boa Esperança? As suas cartas, além de me proporcionarem o maior prazer, dão-me sempre um novo estímulo para o esforço. Desculpe esta carta geológica aborrecida, e adeus até que tenha notícias minhas em Sydney, e me veja no outono de 1836.
CARTA 8. PARA JOSIAH WEDGWOOD. [Shrewsbury, 5 de outubro de 1836.]
Meu caro Tio
O "Beagle" chegou a Falmouth na noite de domingo, e eu cheguei a casa tarde ontem à noite. A minha cabeça está bastante confusa com tanto deleite, mas não posso permitir que as minhas irmãs lhe digam primeiro o quão feliz estou por ver todos os meus queridos amigos novamente. Sou obrigado a regressar em três ou quatro dias a Londres, onde o "Beagle" será liquidado, e então farei a Shrewsbury uma visita mais longa. Estou muito ansioso por ver Maer uma vez mais, e todos os seus habitantes, de modo que, no decorrer de duas ou três semanas, espero pessoalmente agradecer-lhe, como tendo sido o meu primeiro Lorde do Almirantado. (8/1. Os leitores da "Life and Letters" recordar-se-ão que foi a Josiah Wedgwood que Darwin deveu a grande oportunidade da sua vida ("Life and Letters", Volume I, página 59), e era apropriado que ele se apresentasse ao seu "primeiro Lorde do Almirantado". A presente carta esclarece uma pequena obscuridade à qual o Sr. Poulton chamou a atenção ("Charles Darwin and the Theory of Natural Selection", série "Century", 1896, página 25). Escrevendo a Fitz-Roy de Shrewsbury a 6 de outubro, Darwin diz: "Cheguei aqui ontem de manhã à hora do pequeno-almoço". Isto refere-se à sua chegada à casa do seu pai, após ter dormido na estalagem. A data da sua chegada a Shrewsbury foi, portanto, 4 de outubro, como indicado na "Life and Letters", I, página 272.) As entradas no seu Diário são: — 2 de outubro de 1831. Despedi-me da minha casa. 4 de outubro de 1836. Cheguei a Shrewsbury após uma ausência de 5 anos e 2 dias.) Estou tão feliz que mal sei o que estou a escrever. Acredite em mim, seu sobrinho mais afetuoso,
CHAS. DARWIN.
CARTA 9. PARA C. LYELL. Shrewsbury, segunda-feira [12 de novembro de 1838].
Meu caro Lyell
Suponho que estará em Hart St. (9/1. Sir Charles Lyell viveu em 16, Hart Street, Bloomsbury.) amanhã [ou] dia 14. Escrevo porque não posso evitar desejar ser a primeira pessoa a dizer à Sra. Lyell e a si próprio que tenho a muito boa, e até há pouco tempo [i.e., até recentemente] muito inesperada fortuna de me ir casar! A dama é a minha prima, Srta. Emma Wedgwood, irmã de Hensleigh Wedgwood e do irmão mais velho que se casou com a minha irmã, por isso estamos ligados por múltiplos laços, além de, da minha parte, pelo mais sincero amor e gratidão sincera a ela por aceitar alguém como eu.
Decidi, quando estive pela última vez em Maer, tentar a minha sorte, mas dificilmente esperava que tamanha boa fortuna me viesse a calhar. Estarei na cidade a meio ou no final da semana seguinte. (9/2. O Sr. Darwin casou-se a 29 de janeiro de 1839 (ver "Life and Letters", I, página 299). A presente carta foi escrita no dia seguinte ao de ter ficado noivo.) Temo que diga que eu poderia muito bem ter deixado a minha história por contar até nos encontrarmos. Mas sinto profundamente a sua bondade e amizade para comigo, que, na verdade, posso dizer, tem sido uma fonte principal de felicidade para mim, desde o meu regresso a Inglaterra: por isso deve desculpar-me. Estou bem certo de que a Sra. Lyell, que tem simpatia por todos os que lhe são próximos, me dará os seus sinceros parabéns.
Acredite em mim, meu caro Lyell, seu muito sinceramente obrigado, CHAS. DARWIN.
(PLACA: SRA. DARWIN. Walker and Cockerell, ph. sc.)
CARTA 10. PARA EMMA WEDGWOOD. Domingo à noite. Athenaeum. [20 de janeiro de 1839.]
...Não sei dizer-lhe o quanto apreciei a minha visita a Maer; senti por antecipação a minha futura vida tranquila: como espero que possa ser tão feliz quanto sei que serei: mas assusta-me, sempre que penso no tipo de família da qual você fez parte. Pensava esta manhã como aconteceu que eu, que gosto de conversar e quase nunca estou desanimado, deva descansar tão inteiramente as minhas noções de felicidade na quietude e numa boa dose de solidão: mas creio que a explicação é muito simples e menciono-a porque lhe dará esperanças de que gradualmente me tornarei menos bruto, é que durante os cinco anos da minha viagem (e na verdade posso acrescentar estes dois últimos), que pela forma ativa como foram passados, podem ser considerados o início da minha vida real, todo o meu prazer derivou do que se passava na minha mente, enquanto admirava paisagens sozinho, viajando através dos desertos selvagens ou florestas gloriosas ou andando de um lado para o outro no convés do pobre e pequeno "Beagle" à noite. Desculpe este tanto de egoísmo; dou-lho porque penso que você me humanizará e logo me ensinará que existe felicidade maior do que construir teorias e acumular factos em silêncio e solidão. Minha própria e queridíssima Emma, rezo fervorosamente para que nunca se arrependa do grande, e acrescentarei muito bom, feito que realizará na terça-feira: minha própria querida futura esposa, que Deus a abençoe... Os Lyell vieram visitar-me hoje depois da igreja; como Lyell estava tão cheio de geologia, foi obrigado a desabafar, e janto lá na terça-feira para uma confidência especial. Fiquei bastante envergonhado de mim mesmo hoje, pois falámos durante meia hora de geologia pura e simples, com a pobre Sra. Lyell sentada ao lado, um monumento de paciência. Preciso de prática em maltratar o sexo feminino; não observei que Lyell tivesse qualquer remorso; espero endurecer a minha consciência a tempo: poucos maridos parecem achar difícil conseguir isso. Desde o meu regresso, deitei várias vistas de olhos, como facilmente acreditará, na sala de estar; suponho que o meu gosto [por] cores harmoniosas já se deteriorou, pois declaro que a sala começa a parecer menos feia. Sinto tanto prazer na casa (10/1. O n.º 12, Upper Gower Street, é agora o n.º 110, Gower Street, e forma parte de um quarteirão habitado pelos empregados dos Srs. Shoolbred. Devemos esta informação ao Sr. Wheatley, da Society of Arts.), declaro que sou exatamente como uma criança grande e crescida com um brinquedo novo; mas então, ao contrário de uma criança real, anseio por ter uma coparticipante e possuidora.
(10/2. A passagem seguinte foi retirada da cópia manuscrita da "Autobiografia"; não foi publicada em "Life and Letters", que apareceu durante a vida da Sra. Darwin:--)
Todos vós conheceis a vossa mãe, e que boa mãe ela tem sido sempre para todos vós. Ela tem sido a minha maior bênção, e posso declarar que em toda a minha vida nunca a ouvi proferir uma única palavra que eu preferisse não ter sido dita. Ela nunca falhou na mais bondosa simpatia para comigo, e suportou com a máxima paciência as minhas frequentes queixas de má saúde e desconforto. Não creio que ela tenha perdido alguma vez uma oportunidade de fazer uma ação bondosa a qualquer pessoa próxima de si. Maravilho-me com a minha boa sorte por ela, tão infinitamente superior a mim em cada qualidade moral, ter consentido em ser minha esposa. Ela tem sido a minha sábia conselheira e alegre consoladora ao longo da vida, que sem ela teria sido, durante um período muito longo, uma vida miserável devido à má saúde. Ela conquistou o amor de todas as almas próximas de si.
CARTA 11. C. LYELL PARA C. DARWIN. [Julho?, 1841?].
(11/1. Lyell iniciou a sua primeira visita aos Estados Unidos em julho de 1841, e esteve ausente treze meses. Darwin regressou a Londres a 23 de julho de 1841, após uma ausência prolongada; pode, portanto, ter perdido a oportunidade de ver Lyell. Assumindo que a data de 1841 esteja correta, pareceria que o plano de viver no campo foi formado um ano antes de ser efetivamente executado.)
Não tenho dúvidas de que o seu pai agiu bem ao persuadi-lo a ficar [em Shrewsbury], mas ficámos muito desapontados por não o termos visto antes da nossa partida para uma ausência de um ano. Não lhe sei dizer quantas vezes, desde a sua longa doença, senti falta do convívio amigável que tivemos tão frequentemente antes, e no qual apostei mais do que nunca após o seu casamento. Não acontecerá facilmente que duas vezes na vida, mesmo no grande mundo de Londres, uma alma congénere tão ocupada com precisamente as mesmas ocupações e com uma independência que lhe permite persegui-las, surja tão perto do meu caminho, e tê-la-la visto arrebatada de mim com a perspetiva da sua residência um tanto longe é uma privação que sinto como sendo muito grande. Espero que não se afaste, como Herschell, de uma linha férrea.
CARTA 12. PARA CATHERINE DARWIN.
(12/1. A carta seguinte foi escrita para a sua irmã Catherine cerca de dois meses antes de Charles Darwin se estabelecer em Down:--)
Domingo [julho de 1842].
Deve ter ficado surpreendida por não ter tido notícias mais cedo sobre a casa. Emma e eu só regressámos ontem à tarde de dormir lá. Dar-lhe-ei em detalhe, como o meu pai gostaria, a MINHA opinião sobre ela — a de Emma difere ligeiramente. Posição: cerca de 1/4 de milha da pequena aldeia de Down, em Kent — 16 milhas de St. Paul's — 8 1/2 milhas da estação (com muitos comboios), estação essa que fica apenas a 10 de Londres. Isto é mau, pois a viagem devido às colinas é longa. Calculo que levamos duas horas de London Bridge. Aldeia de cerca de quarenta casas com velhas nogueiras no centro onde se encontra uma velha igreja de sílex e as ruelas se cruzam. Habitantes muito respeitáveis — escola infantil — adultos grandes músicos — todos tocam nos seus chapéus como no País de Gales e sentam-se às suas portas abertas à noite; nenhuma estrada principal passa pela aldeia. A pequena taberna onde dormimos é uma mercearia, e o estalajadeiro é o carpinteiro — por isso pode adivinhar o estilo da aldeia. Há talho, padaria e estação de correios. Um transportador vai semanalmente a Londres e passa em qualquer lugar para apanhar qualquer coisa em Londres e leva qualquer coisa para qualquer lugar. Na estrada [de Londres] para a aldeia, num dia bonito, a paisagem é absolutamente bela: perto da nossa casa a vista é muito distante e bastante bela, mas a casa, estando situada num planalto um tanto elevado, tem um ar um tanto desolado. Há uma quinta antiga belíssima, com grandes celeiros de colmo e velhos troncos de carvalho, como a de Skelton, a um campo de distância. O encanto do lugar para mim é que quase todos os campos são cruzados (como, infelizmente, o nosso) por um ou mais caminhos pedonais. Nunca vi tantos passeios em nenhum outro condado. O campo é extraordinariamente rural e tranquilo, com ruelas estreitas e sebes altas e quase nenhum sulco. É realmente surpreendente pensar que Londres fica apenas a 16 milhas de distância. A casa fica muito mal situada, perto de uma ruela minúscula e perto do campo de outro homem. O nosso campo tem 15 acres e é plano, dando para vales de fundo plano em ambos os lados, mas sem vista da sala de estar, que está virada exatamente para sul, exceto para o nosso campo plano e pedaços de um horizonte distante um tanto feio. Perto, à frente, há algumas velhas (muito produtivas) cerejeiras, nogueiras, teixos, castanheiros, pereiras, lariços velhos, abetos escoceses e abetos prateados e velhas amoreiras, [que] formam um grupo bastante bonito. Dão ao terreno um aspeto antigo, mas por não florescerem muito, dão-lhe também um aspeto um tanto desolado. Há marmelos, nêsperas e ameixas com abundância de fruta, e ginjas; mas poucas maçãs. A magnólia roxa floresce contra a casa. Há uma faia realmente bela à vista na nossa sebe. A horta é uma faixa detestável e o solo parece miserável devido à quantidade de sílex de giz, mas acredito realmente que é produtiva. As sebes crescem bem à volta do nosso campo, e é um pedaço notável de terra de feno. Este ano a colheita foi má, mas foi comprada, como estava, por 2 libras por acre — isto é, 30 libras — o comprador encarregando-se da recolha. No ano passado foi vendida por 45 libras — não foi colocado estrume no intervalo. Não soa isto bem? Pergunte ao meu pai. Será que a amoreira e a magnólia mostram que não faz muito frio no inverno, o que temo que seja o caso? Diga a Susan que fica a 9 milhas de Knole Park e a 6 de Westerham, lugares onde ouço dizer que a paisagem é bela. Há muitas vistas muito estranhas à volta da nossa casa — um vale de fundo plano um tanto profundo e uma quinta simpática, mas grandes campos de pousio, brancos e feios; — cultiva-se muito trigo aqui. Casa feia, não parece nem velha nem nova — paredes de dois pés de espessura — janelas um tanto pequenas — andar inferior um tanto baixo. Estudo excelente de 18 x 18. Sala de jantar 21 x 18. A sala de estar pode ser facilmente aumentada: tem 21 x 15. Três andares, muitos quartos. Poderíamos acomodar os Hensleigh, você, Susan e Erasmus, todos juntos. Casa em bom estado de conservação. O Sr. Cresy há alguns anos gastou para o proprietário 1.500 libras e fez um telhado novo. Tubos de água pela casa — duas casas de banho — dependências bastante boas e bom pátio de estábulos, etc., e uma casa de campo. Acredito que o preço é cerca de 2.200 libras, e não tenho dúvidas de que a conseguirei por um ano de arrendamento primeiro para experimentar, de modo que não farei nada à casa inicialmente (o último proprietário manteve três vacas, um cavalo e um burro, e vendia algum feno anualmente de um campo). Não tenho dúvidas de que, se completarmos a compra, pouparei pelo menos 1.000 libras em relação a Westcroft, ou a qualquer outra casa que tenhamos visto. Emma ficou inicialmente bastante desapontada, e com o campo à volta da casa; o dia estava sombrio e frio com vento de NE. Ela gosta mais do campo real e da casa do que eu; a casa está situada exatamente como ela gosta para o retiro, nem demasiado perto nem demasiado longe de outras casas, mas ela acha que o campo parece desolado. Penso que todos os países de giz parecem, mas estou habituado a Cambridgeshire, que é dez vezes pior. Emma está a mudar rapidamente de opinião. Ela esteve terrivelmente mal com dores de dentes e de cabeça à noite e na sexta-feira, mas ao regressar ontem, ficou tão encantada com a paisagem nas primeiras milhas a partir de Down, que isso provocou uma grande mudança nela. Voltaremos lá no primeiro dia bonito que Emma puder, e então decidiremos finalmente o que fazer.
(12/2. O seguinte fragmento "Relato de Down" foi encontrado entre os papéis do Sr. Darwin após a publicação de "Life and Letters". Dá a impressão de que ele pretendia escrever um diário de história natural ao estilo de Gilbert White, mas não há provas de que esse tenha sido o caso.)
1843. 15 de maio. — A primeira peculiaridade que surpreende um estranho não habituado a um campo de giz montanhoso são os vales, com os seus fundos arredondados e íngremes — não sulcados pelo menor regato. Na estrada para Down, vinda de Keston, um monte foi lançado através de um vale considerável, mas mesmo contra este monte não há sinais de que se tenha acumulado sequer uma pequena poça de água após as chuvas mais fortes. A água infiltra-se toda diretamente para baixo. Verificar a profundidade média dos poços, inclinação dos estratos e nascentes. Será que a água deste campo aflora em nascentes em Holmsdale ou no vale do Tamisa? Examinar as belas nascentes em Holmsdale.
Os vales neste planalto que se inclinam para norte, mas extraordinariamente uniformes, correm geralmente de norte para sul; as suas encostas perto dos cumes tornam-se geralmente mais abruptas de repente, e estão orladas com faixas estreitas, ou, como são aqui chamadas, "shaws" de madeira, por vezes apenas por sebes que cresceram descontroladamente. A inclinação súbita pode geralmente ser percebida, tal como pouco antes de subir para Cudham Wood, e em Green Hill, onde uma das ruelas atravessa estes vales. Estes vales são com toda a probabilidade antigas baías marítimas, e por vezes especulei se este acentuado estreitamento das encostas não marca as orlas de penhascos verticais formados quando estes vales estavam cheios de água do mar, como naturalmente aconteceria em estratos como o giz.
Na maioria dos países as estradas e caminhos pedonais sobem ao longo do fundo dos vales, mas aqui isso quase nunca acontece. Todas as aldeias e a maioria das casas antigas ficam nos planaltos ou faixas estreitas de terra plana entre os vales paralelos. Será isto devido aos cumes terem existido desde os tempos mais antigos como colinas abertas e os vales terem sido preenchidos com matagal? Não tenho provas disto, mas é certo que a maioria das quintas na terra plana são muito antigas. Há uma peculiaridade que ajudaria a determinar que os caminhos pedonais corressem ao longo dos cumes em vez do fundo dos vales, sendo que estes últimos, no meio, estão geralmente cobertos, ainda mais densamente do que a superfície geral, com sílex quebrados. Esta camada de sílex, que diminui gradualmente de cada lado, pode ser vista de uma longa distância num campo recém-lavrado ou de pousio como uma faixa esbranquiçada. Cada pedra que rola após chuva forte ou pelo pontapé de um animal, por pouco que seja, tende toda para o fundo dos vales; mas se isto é suficiente para explicar o seu número, por vezes duvidei, e inclinei-me a aplicar ao caso a teoria de Lyell de dissolução pela água da chuva, etc., etc.
A terra plana do cume está coberta com uma camada de argila vermelha rígida, de alguns pés de espessura até, creio, vinte pés: esta [camada], embora situada imediatamente sobre o giz, e abundando com sílex enormes, de forma irregular e não rolados, muitas vezes com a cor e o aspeto de ossos enormes, que estavam originalmente incrustados no giz, não contém uma partícula de carbonato de cálcio. Esta camada de argila vermelha repousa sobre uma superfície muito irregular, e desce frequentemente para poços redondos profundos, cuja origem foi explicada por Lyell. Nestas cavidades há manchas de areia como areia do mar, e como a areia que alterna com as grandes camadas de pequenos seixos derivados do desgaste dos sílex de giz, que formam Keston, Hayes e Addington Commons. Perto de Down um sílex de giz arredondado é uma raridade, embora ocorram alguns; e ainda não vi uma pedra de origem distante, o que faz uma diferença — pelo menos para olhos geológicos — no próprio aspeto do campo, comparado com todos os condados do norte.
Os sílex de giz decompõem-se externamente, o que, segundo Berzelius ("Edin. New Phil. Journal", número recente), se deve ao facto de os sílex conterem uma pequena proporção de álcali; mas, além desta decomposição externa, todo o corpo é afetado pela exposição de alguns anos, de modo a não se partirem com faces limpas para a construção.
Esta camada de argila vermelha, que torna o campo muito escorregadio nos meses de inverno de outubro a abril, não cobre as encostas dos vales; estas, quando lavradas, mostram o giz branco, tonalidade que se esbate mais abaixo no vale, tão insensivelmente como uma cor aplicada pelo pincel de um pintor.
Quase toda a terra é lavrada, e é frequentemente deixada em pousio, o que dá ao campo um aspeto vermelho nu, ou não raramente branco, devido a uma cobertura de giz colocada pelos agricultores. Ninguém parece estar de todo consciente de qual o princípio pelo qual o giz fresco colocado em terra que abunda em cal lhe faz algum bem. Isto, contudo, diz-se ter sido a prática do campo desde o período dos romanos, e atualmente os muitos poços brancos nas encostas das colinas, que tão frequentemente proporcionam um contraste pitoresco com os teixos sobranceiros, são todos escavados para este fim.
O número de diferentes tipos de arbustos nas sebes, entrelaçados pela videira-branca e pelas brionias, é conspícuo comparado com as sebes dos condados do norte.
25 de março [1844?]. — O primeiro período de vegetação, e as margens estão vestidas de violetas azul-pálidas numa extensão que nunca vi igualada, e de prímulas. Alguns dias mais tarde, alguns dos bosques foram belamente animados por *Ranunculus auricomus*, anémonas-do-bosque, e uma *Stellaria* branca. Mais tarde, subsequentemente, grandes áreas ficaram brilhantemente azuis com jacintos-dos-bosques. As flores são aqui muito belas, e o número de flores; [e] a escuridão do azul da comum pequena *Polygala* quase a iguala a uma genciana alpina.
Há grandes extensões de floresta, [cortadas] cerca de uma vez a cada dez anos; alguns destes recintos parecem ser muito antigos. No lado sul de Cudham Wood, uma sebe de faia cresceu até um tamanho de Brobdingnag, com vários dos ramos enormes cruzando-se entre si e firmemente enxertados um no outro.
As cotovias abundam aqui, e os seus cantos soam muito agradavelmente de todos os lados; os rouxinóis são comuns. A julgar por uma nota arrulhante estranha, algo como o ronronar de um gato, as rolas são muito comuns nos bosques.
25 de junho. — Os campos de sanfeno estão agora do mais belo rosa, e devido ao número de abelhas que os frequentam, o zumbido é bastante extraordinário. Este zumbido é um pouco mais grave do que o zumbido lá no alto, que tem sido contínuo e alto durante todos estes últimos dias quentes sobre quase todos os campos. Os trabalhadores aqui dizem que é feito por "abelhas-do-ar", e um homem, vendo uma abelha selvagem numa flor diferente da espécie da colmeia, comentou: "Essa, sem dúvida, é uma abelha-do-ar." Este ruído é considerado um sinal de tempo bom e estável.
CAPÍTULO 1.II. — EVOLUÇÃO, 1844-1858.
Desde a publicação da "Vida e Cartas", surgiu o obituário de Charles Darwin escrito pelo Sr. Huxley. (Proc. R. Soc. volume 44, 1888, e "Collected Essays (Darwiniana)", página 253, 1899.) Este artigo magistral é, em nossa opinião, o mais excelente da grande série de ensaios darwinianos que devemos ao Sr. Huxley. Ousaríamos recomendá-lo aos nossos leitores como a melhor introdução possível a estas páginas. Há, contudo, um pequeno ponto no qual discordamos do Sr. Huxley. Ao discutir o desenvolvimento das visões evolucionárias do Sr. Darwin, o Sr. Huxley cita da autobiografia ("Vida e Cartas", I., página 82. Alguma explicação sobre a origem das suas visões evolucionárias é dada numa carta a Jenyns (Blomefield), "Vida e Cartas", II., página 34.) uma passagem na qual o autor descreve a profunda impressão causada na sua mente por certos grupos de factos observados na América do Sul. O Sr. Huxley prossegue: "Os factos aos quais se faz referência aqui eram, sem dúvida, eminentemente aptos a atrair a atenção de um pensador filosófico; mas, até que as relações das espécies existentes com as extintas, e das espécies das diferentes áreas geográficas entre si, fossem determinadas com alguma exactidão, eles proporcionavam apenas uma base insegura para a especulação. Não era possível que esta determinação tivesse sido efectuada antes do regresso do "Beagle" a Inglaterra; e assim a data (A data em questão é julho de 1837, quando ele "abriu o primeiro caderno sobre a Transmutação das Espécies".) que Darwin (escrevendo em 1837) atribui ao alvorecer da nova luz que surgia na sua mente, torna-se inteligível." Isto parece-nos inconsistente com a própria afirmação de Darwin de que foi especialmente o carácter das "espécies do Arquipélago das Galápagos" que o impressionara. (Ver "Vida e Cartas", I., página 276.) Isto deve referir-se aos espécimes zoológicos: sem dúvida, ele estava a pensar nas aves, mas estas tinham sido recolhidas por ele próprio em 1835 (Ele escreveu no seu "Diário", página 394, "A minha atenção foi despertada de forma cabal ao comparar os numerosos espécimes abatidos por mim e por vários outros elementos a bordo", etc.), e não era necessária qualquer determinação precisa das formas para o impressionar com as notáveis espécies características das diferentes ilhas. Concordamos com o Sr. Huxley que 1837 é a data da "nova luz que surgia na sua mente". Que o alvorecer não tenha chegado mais cedo parece-nos ser explicado pela necessidade de tempo para produzir uma revolução tão grande nas suas concepções. Não vemos que a suposição do Sr. Huxley quanto ao efeito da determinação das espécies, etc., tenha muito peso. O Sr. Huxley cita uma carta de Darwin a Zacharias, "Mas não me convenci de que as espécies eram mutáveis até que, creio, dois ou três anos [após 1837] tivessem decorrido" (ver Carta 278). Esta passagem, que deve ser lembrado ter sido escrita em 1877, é quase irreconciliável com a prova directa do caderno de 1837. Uma série de passagens são citadas a partir dele na "Vida e Cartas", Volume II., páginas 5 e seguintes, e estas é impossível ler sem sentir que ele estava convencido da mutabilidade. Ele ainda não tinha atingido uma ideia clara da Selecção Natural e, portanto, as suas visões poderiam não ter tido, mesmo para si próprio, o poder de convicção irresistível que ganharam posteriormente; mas que ele estava, no sentido comum da palavra, convencido da verdade da doutrina da evolução, não podemos duvidar. Ele pensava ser "quase inútil" tentar provar a verdade da evolução até que a causa da mudança fosse descoberta. E é natural que, mais tarde na vida, ele devesse ter sentido que a convicção faltava até que essa causa fosse esclarecida. (Ver "Charles Darwin, his Life told, etc." 1892, página 165.) Para os propósitos do presente capítulo, o ponto não é muito material. Sabemos que em 1842 ele escreveu o primeiro esboço da sua teoria, e que este foi grandemente ampliado em 1844. De modo que, na data das primeiras cartas deste capítulo, sabemos que ele tinha uma hipótese de trabalho sobre a evolução que não diferia em aspectos essenciais daquela apresentada na "Origem das Espécies".
Para compreender a quantidade de trabalho que estava em curso durante o período coberto pelo Capítulo II., deve ser lembrado que, durante parte do tempo — nomeadamente, de 1846 a 1854 — ele esteve largamente ocupado com o seu trabalho sobre os Cirrípedes. ("Vida e Cartas", I., página 346.) Esta investigação teria ocupado plenamente um trabalhador menos metódico e, mesmo para aqueles que o viam a trabalhar, parecia ser a sua ocupação total. Assim (para citar uma história de Lord Avebury), diz-se que um dos filhos do Sr. Darwin perguntou, em relação a um vizinho, "Então, onde é que ele faz as suas cracas?", como se não apenas o seu pai, mas todos os outros homens, devessem estar ocupados com aquele grupo.
Sir Joseph Hooker, a quem a primeira carta neste capítulo é dirigida, teve a bondade de fornecer uma nota sobre a origem da sua intimidade com o Sr. Darwin, e esta foi publicada na "Vida e Cartas". (Ibid., II., página 19. Ver também "Nature", 1899, 22 de junho, página 187, onde algumas reminiscências são publicadas, as quais formaram parte do discurso de Sir Joseph na inauguração da estátua de Darwin no Museu de Oxford.) O estreito convívio que surgiu entre eles foi levado a cabo largamente por correspondência, e as cartas do Sr. Darwin a Sir Joseph forneceram material biográfico valiosíssimo. Mas não deve ser esquecido que, completamente à parte disto, a ciência deve muito a esta memorável amizade, uma vez que, sem a ajuda de Hooker, o grande trabalho de Darwin dificilmente teria sido realizado no aspecto botânico. E Sir Joseph fez muito mais do que fornecer conhecimento e orientação em assuntos técnicos: Darwin deveu-lhe uma camaradagem empática e inspiradora que o animou e refrescou até ao fim da sua vida.
Uma frase de uma carta a Hooker escrita em 1845 mostra, tão bem quanto declarações mais sérias, quão rapidamente o conhecimento cresceu para amizade.
"Adeus! Que coisa boa é a comunidade de gostos! Sinto-me como se o conhecesse há cinquenta anos. Adios." E, como ilustração da permanência do laço empático entre eles, citamos uma carta de 1881 escrita quarenta e dois anos após o primeiro encontro com Sir Joseph em Trafalgar Square (ver "Vida e Cartas", II., página 19). O Sr. Darwin escreveu: "A sua carta animou-me, e o mundo não parece um quarto tão negro esta manhã como parecia quando escrevi antes. As suas palavras amigáveis valem o seu peso em ouro.")
CARTA 13. A J.D. HOOKER. Down, quinta-feira [11 de janeiro de 1844].
Meu caro senhor
Devo escrever para agradecer a sua última carta e para lhe dizer quão interessantes me são todos os seus pontos de vista e factos. Deve ser-me permitido interpretar à minha maneira o que diz sobre "não ser um bom organizador de pontos de vista alargados" — o que é que não se entrega às especulações vagas tão facilmente iniciadas por qualquer diletante e coleccionador errante. Vejo uma forte tendência para generalizar como um mal absoluto.
O que diz sobre o Sr. Brown é humilhante; eu suspeitava, mas não me permiti acreditar em tal heresia. Fitz-Roy deu-lhe uma reprimenda no seu prefácio (13/1. No prefácio às "Surveying Voyages of the 'Adventure' and the 'Beagle'", 1826-30, constituindo o Volume I da obra, que inclui a viagem posterior do "Beagle", o Capitão Fitz-Roy escreveu (março de 1839): "O Capitão King teve grandes cuidados na formação e preservação de uma colecção botânica, auxiliado por uma pessoa embarcada apenas para esse propósito. Ele colocou esta colecção no Museu Britânico e foi levado a esperar que um botânico de primeira linha a examinasse e descrevesse; mas ele ficou desapontado." Uma referência à morosidade de Robert Brown sobre a colecção de King ocorre na "Vida e Cartas", I., página 274, nota.), e deixou-o muito indignado, mas parece que uma muito mais dura não teria sido desperdiçada. A minha colecção criptogâmica foi enviada para Berkeley; não era grande. Não acredito que ele tenha ainda publicado um relato, mas escreveu-me há alguns anos que tinha descrito [os espécimes] e extraviado todas as suas descrições. Não seria bom para si colocar-se em comunicação com ele, pois, de outro modo, algo será talvez trabalhado duas vezes? A minha melhor (embora pobre) colecção de criptógamas foi das Ilhas Chonos.
Teria a gentileza de observar um pequeno facto para mim, se alguma espécie de planta, peculiar a qualquer ilha, como Galápagos, Santa Helena ou Nova Zelândia, onde não existem grandes quadrúpedes, possui sementes com ganchos — ganchos tais que, se observados aqui, seriam pensados com justiça como adaptados para se prenderem na lã dos animais.
Faria o favor de me informar a dada altura (embora eu me esqueça de que isto aparecerá certamente na sua "Flora Antarctica") se, em ilhas como Santa Helena, Galápagos e Nova Zelândia, o número de famílias e géneros é grande comparado com o número de espécies, como acontece nas ilhas de coral, e como, creio, na terra árctica extrema. Certamente este é o caso com as conchas marinhas nos mares árcticos extremos. Supõe que a escassez de espécies em proporção ao número de grandes grupos nas ilhotas de coral se deve à probabilidade de sementes de todas as ordens serem trazidas por deriva para tais novos locais, como supus? Recolheu conchas marinhas na Terra de Kerguelen? Gostaria de saber o seu carácter.
As suas cartas interessantes tentam-me a ser muito irracional ao fazer-lhe perguntas; mas não se deve dar ao trabalho com elas, pois sei quão plena e dignamente está empregado. (13/2. O resto da carta foi previamente publicado na "Vida e Cartas", II., página 23.)
Para além de um interesse geral pelas terras do sul, estou, desde o meu regresso, envolvido num trabalho muito presunçoso, e não conheço um único indivíduo que não dissesse ser um trabalho muito insensato. Fiquei tão impressionado com a distribuição dos organismos das Galápagos, etc., e com o carácter dos mamíferos fósseis americanos, etc., que determinei recolher cegamente todo o tipo de facto que pudesse ter alguma relação com o que são espécies. Li montes de livros de agricultura e horticultura e nunca deixei de recolher factos. Finalmente, surgiram vislumbres de luz, e estou quase convencido (totalmente ao contrário da opinião com que comecei) de que as espécies não são (é como confessar um crime) imutáveis. Que o Céu me livre dos disparates de Lamarck sobre uma "tendência para a progressão", "adaptações a partir da vontade lenta dos animais", etc.! Mas as conclusões a que chego não são largamente diferentes das dele; embora os meios de mudança o sejam totalmente. Creio ter descoberto (aqui está a presunção!) o caminho simples pelo qual as espécies se tornam primorosamente adaptadas a vários fins. Irá agora gemer e pensar para si mesmo: "em que tipo de homem tenho estado a desperdiçar o meu tempo e a escrever". Eu, há cinco anos, teria pensado o mesmo... (13/3. Sobre as questões aqui tratadas, ver a interessante carta a Jenyns na "Vida e Cartas", II., página 34.)
CARTA 14. A J.D. HOOKER. [Novembro] 1844.
...Que curioso e maravilhoso caso é o do Lycopodium! (14/1. Sir J.D. Hooker escreveu, 8 de novembro de 1844: "Estou firmemente convencido (mas não o suficiente para o imprimir) de que o L. Selago varia na Terra de Van Diemen para o L. varium. Duas ESPÉCIES mais diferentes (como até agora se pensou), per se, não podem ser concebidas, mas em nenhum outro lugar elas variam uma na outra, nem o Selago varia de todo em Inglaterra.")... suponho que dificilmente esperaria que fossem mais variáveis do que uma planta fanerogâmica. Confio que resolverá o caso e, mesmo que não seja apoiado, publicá-lo-á, pois seguramente pode fazê-lo com a devida cautela. Ouvi falar de alguns factos análogos, embora à menor escala, em certos insectos serem mais variáveis num distrito do que noutro, e creio que o mesmo se aplica a algumas conchas terrestres. Por um acaso estranho, tinha anotado perguntar-lhe nesta carta uma questão análoga, com respeito a géneros, em vez de espécies individuais — isto é, se conhece algum caso de um género com a maioria das suas espécies variáveis (digamos Rubus) num continente, tendo outro conjunto de espécies noutro continente não variáveis, ou não de uma maneira tão marcada. O Sr. Herbert (14/2. Sem dúvida o Deão Herbert, o horticultor. Ver "Vida e Cartas", I., página 343.) mencionou incidentalmente numa carta para mim que as urzes no Cabo da Boa Esperança eram muito variáveis, enquanto na Europa não são (?); mas então as espécies aqui são poucas em comparação, de modo que o caso, mesmo que verdadeiro, não é um bom exemplo. Em alguns géneros de insectos a variabilidade parece ser comum em partes distantes do mundo. Em conchas, espero no futuro obter muita luz sobre esta questão através de fósseis. Se puder ajudar-me, ficaria muito agradecido: de facto, todas as suas cartas são-me muito úteis.
SEGUNDA-FEIRA: — Agora, quanto à sua primeira carta longa, e para mim tão interessante quanto longa. Várias coisas são-me totalmente novas nela — nomeadamente, por um lado, a sua crença de que existem mais espécies extra-tropicais do que intra-tropicais. Vejo que o meu argumento a partir das regiões árcticas é falso, e não deveria ter tentado argumentar contra si se não tivesse imaginado que o senhor pensava que a equabilidade do clima era a causa directa da criação de um maior ou menor número de espécies. Vejo que chama ao nosso clima equável; eu teria pensado que era o contrário. De qualquer modo, o termo é vago, e em Inglaterra dependerá de a pessoa o comparar com os Estados Unidos ou com a Terra do Fogo. No meu Diário (página 342) vejo que afirmo que no sul de Chiloé, a uma altura de cerca de 1.000 pés, as florestas tinham um aspecto fueguino: recordo-me distintamente de que, ao nível do mar, no meio de Chiloé, a floresta tinha quase um aspecto tropical. Gostaria muito de ouvir, se descobrir, se os limites N. ou S. de uma planta são os mais restritos; eu teria esperado que o S. fosse, nas regiões temperadas, devido ao número de espécies antagonistas ser maior. N.B. Humboldt, quando em Londres, falou-me de um rio (14/3. O Obi (ver "Flora Antarctica", página 211, nota). Hooker escreve: "Algumas das árvores mais conspícuas atingem qualquer uma das suas margens, mas não as cruzam.") no nordeste da Europa, em cujas margens opostas a flora era, no mesmo solo e sob o mesmo clima, amplamente diferente!
Esqueço-me (14/4. O último parágrafo é publicado na "Vida e Cartas", II., página 29.) da minha última carta, mas deve ter sido muito tola, pois parece que dei a minha noção de que o número de espécies é, em grande grau, governado pelo grau em que a área foi frequentemente isolada e dividida. Devo ter estado louco para a ter escrito, pois não tenho provas, a menos que uma pessoa esteja disposta a admitir todos os meus pontos de vista, e então segue-se.
(14/5. O resto da carta anterior é publicado na "Vida e Cartas", II., página 29. É interessante por dar as suas visões sobre a mutabilidade das espécies. Assim, ele escreveu: "Com respeito a livros sobre este assunto, não conheço nenhuns sistemáticos, excepto os de Lamarck, que são verdadeiro lixo; mas há muitos, como Lyell, Pritchard, etc., sobre a visão da imutabilidade." Por "Pritchard" entende-se, sem dúvida, James Cowles "Prichard", autor da "Physical History of Mankind". O Prof. Poulton deu no seu artigo, "A remarkable Anticipation of Modern Views on Evolution" (14/6. "Science Progress", Volume I., abril de 1897, página 278.), um estudo interessante do trabalho de Prichard. Ele mostra que Prichard estava à frente do seu tempo nas suas visões sobre a não transmissão de caracteres adquiridos. O Prof. Poulton tenta também mostrar que Prichard era um evolucionista. Ele admite que Prichard escreveu com hesitação, e que nas edições posteriores do seu livro as suas visões se tornaram mais fracas. Mas, mesmo com estas qualificações, pensamos que Poulton exagerou involuntariamente o grau em que Prichard acreditava na evolução.
Uma das frases mais fortes de Prichard é citada por Poulton (loc. cit., página 16); ocorre na "Physical History of Mankind", Ed. 2, Volume II., página 570: —
"Não é provável que as variedades que surgem dentro dos limites de espécies particulares sejam adaptações ulteriores da estrutura às circunstâncias sob as quais a tribo está destinada a existir? As variedades ramificam-se a partir da forma comum de uma espécie, tal como as formas das espécies se desviam do tipo comum de um género. Por que deveria a uma classe de fenómenos ser sem fim ou utilidade, um mero efeito de contingência ou acaso, mais do que a outra?"
Se esta passagem, e outras semelhantes a ela, estivessem isoladas, poderíamos concordar com o Prof. Poulton; mas isto é impossível quando encontramos no Volume I. da mesma edição, página 90, a seguinte declaração inflexível de imutabilidade: —
"O significado atribuído ao termo espécie, na história natural, é muito simples e óbvio. Inclui apenas uma circunstância — nomeadamente, uma distinção original e uma transmissão constante de qualquer carácter. Uma raça de animais, ou plantas, marcada por quaisquer peculiaridades de estrutura que tenham sido sempre constantes e invariáveis, constitui uma espécie."
Na página 91, ao falar da ideia de que as espécies que compõem um género podem ter descendido de uma forma comum, ele diz: —
"Deve, de facto, haver algum princípio sobre o qual os fenómenos de semelhança, bem como os de diversidade, possam ser explicados; e a referência de várias formas a um tipo comum parece calculada para sugerir a ideia de alguma afinidade original; mas, como isto é meramente uma conjectura, deve ser mantido fora de vista quando as nossas indagações respeitam apenas matérias de facto."
Esta visão é novamente apresentada no Volume II., página 569, onde ele pergunta se deveríamos acreditar que "na primeira produção de um género, quando ele surgiu pela primeira vez na existência, alguma ligeira modificação nas causas produtivas o carimbou originalmente com todas estas diversidades específicas? Ou é mais provável que a modificação tenha sido subsequente à sua origem, e que o género, na sua criação inicial, fosse um e uniforme, e depois se tornasse diversificado pela influência de agentes externos?" Ele conclui que "a primeira destas suposições é a conclusão a que somos levados por tudo o que pode ser averiguado a respeito dos limites das espécies e da extensão da variação sob a influência de causas actualmente existentes e operantes."
Apesar do facto de Prichard não ter levado as suas ideias até à sua conclusão lógica, pode talvez causar surpresa que o Sr. Darwin devesse ter falado dele como estando absolutamente do lado da imutabilidade.
Acreditamos que seja parcialmente explicado (como Poulton sugere) pelo facto de o Sr. Darwin possuir apenas a terceira edição (1836 e 1837) e a quarta edição (1841-51). (14/7. A edição de 1841-51 consiste em reimpressões da terceira edição e três volumes adicionais de datas variadas. Os volumes I. e II. são descritos na folha de rosto como a quarta edição; os volumes III. e IV. como a terceira edição, e o volume V. não tem edição marcada na folha de rosto.) Em nenhuma destas o ponto de vista evolucionário é tão forte como na segunda edição.
Revisámos todas as passagens marcadas pelo Sr. Darwin para referência futura na terceira e quarta edições, e só conseguimos encontrar a seguinte, que ocorre na terceira edição (Volume I., 1836, página 242) (14/8. Há também (ed. 1837, Volume II., página 344) uma referência vaga à Selecção Natural, da qual a última frase está encerrada a lápis entre aspas, como se o Sr. Darwin tivesse tido a intenção de a citar: "Noutras partes da África a variedade xântica [do homem] aparece frequentemente, mas não se multiplica. Os indivíduos assim caracterizados são como sementes que perecem num solo pouco propício.")
"A variedade na forma, prevalecente entre todas as produções organizadas da natureza, verifica-se subsistir entre seres individuais de qualquer espécie, mesmo quando são descendentes dos mesmos progenitores. Outra circunstância igualmente notável é a tendência que existe em quase todas as tribos, quer de animais ou de plantas, para transmitir à sua descendência e perpetuar na sua raça todas as peculiaridades individuais que possam ter surgido dessa forma. Estes dois factos gerais na economia dos seres organizados lançam uma base para a existência de raças diversificadas, originárias do mesmo tronco primitivo e dentro dos limites de espécies idênticas."
Na página seguinte (página 243) uma passagem (não marcada pelo Sr. Darwin) enfatiza a limitação que Prichard atribuía aos resultados da variação e hereditariedade:--
"Mesmo aqueles fisiologistas que defendem o que é denominado a natureza indefinida das espécies admitem que elas têm limites presentemente e sob circunstâncias ordinárias. Quaisquer diversidades que ocorram acontecem sem violar o tipo característico da espécie. Este é transmitido de geração em geração: cabras produzem cabras, e ovelhas, ovelhas."
A passagem na página 242 ocorre na reimpressão da edição de 1836-7 que faz parte da edição de 1841-51, mas não está lá marcada pelo Sr. Darwin. Ele anota no final do Volume I. da edição de 1836-7: "Março de 1857. Não examinei todas estas [isto é, passagens marcadas], mas passei pela edição posterior"; e uma entrada semelhante encontra-se no Volume II. da terceira edição. É, portanto, fácil compreender como ele chegou a ignorar a passagem na página 242 quando começou a declaração mais completa da sua teoria das espécies, a qual é referida em "Life and Letters" como o "livro inacabado". No esboço histórico prefixado à "Origem das Espécies", escritores são nomeados como precursores cujas pretensões são menos fortes do que as de Prichard, e é certo que o Sr. Darwin teria dado conta dele se o tivesse considerado um evolucionista.
As duas passagens seguintes mostrarão que o Sr. Darwin estava, pelo seu conhecimento dos livros de Prichard, justificado em classificá-lo entre aqueles que não acreditavam na mutabilidade das espécies:
"As várias tribos de seres organizados foram originalmente colocadas pelo Criador em certas regiões, para as quais estão, pela sua natureza, peculiarmente adaptadas. Cada espécie teve apenas um início num único tronco: provavelmente um único par, como Linnaeus supôs, foi primeiro chamado à existência em algum ponto particular, e a descendência deixada a dispersar-se para tão grande distância do centro original da sua existência quanto os poderes locomotores conferidos a eles, ou a sua capacidade de suportar mudanças de clima e outros agentes físicos, possam ter permitido que vagueassem." (14/9. Prichard, terceira edição, 1836-7, Volume I., página 96.)
A segunda passagem é anotada pelo Sr. Darwin com uma chuva de pontos de exclamação:
"O significado atribuído ao termo ESPÉCIE na história natural é muito definido e inteligível. Inclui apenas as seguintes condições, a saber: origem separada e distinção de raça, comprovada pela transmissão constante de alguma peculiaridade característica de organização. Uma raça de animais ou de plantas marcada por qualquer caráter peculiar que tenha sido sempre constante e inalterável constitui uma espécie; e duas raças são consideradas como especificamente diferentes, se se distinguem uma da outra por algum caráter que não se pode supor ter sido adquirido, ou perdido, através de qualquer operação conhecida de causas físicas; pois somos, a partir daqui, levados a concluir que as tribos assim distinguidas não descendem do mesmo tronco original." (14/10. Prichard, ed. 1836-7, Volume I., página 106. Esta passagem é quase idêntica à citada da segunda edição, Volume I., página 90. A última parte, a partir de "e duas raças...", ocorre na segunda edição, embora não citada acima.)
Como era seu costume, o Sr. Darwin prendeu no final do primeiro volume da edição de 1841-51 um pedaço de papel contendo uma lista das páginas onde ocorrem passagens marcadas. Este papel ostenta, escrito a lápis: "Como tudo isto se parecerá com o meu livro!". (As palavras parecem referir-se à discussão de Prichard sobre a dispersão de animais e plantas; certamente não se referem às visões evolucionistas que se encontram no livro.)
CARTA 15. PARA J.D. HOOKER. Down [1844].
Agradeço imensamente a sua longa carta, e estou, na verdade, envergonhado com o tempo e o trabalho que teve por mim; mas devo escrever-lhe um dia novamente sobre o assunto da sua carta. Limitar-me-ei agora a observar que estendeu a minha observação sobre o alcance das espécies de conchas ao alcance de géneros ou grupos. A analogia a partir das conchas apenas iria até ao ponto de que, se duas ou três espécies... fossem encontradas a estender-se da América à Índia, seriam encontradas a estender-se através de uma espessura invulgar de estratos -- digamos do Cretáceo Superior até ao seu estrato mais baixo, ou o Neocomiano. Ou pode inverter e dizer que aquelas espécies que se estendem por todo o Cretáceo terão alcances amplos: a saber, da América através da Europa até à Índia (este é um caso real com conchas no período Cretáceo).
CARTA 16. PARA J.D. HOOKER. Down [1845].
Eu deveria ter escrito mais cedo para dizer que estou muito disposto a subscrever 1 libra e 1 xelim para o homem africano (embora seja homicídio em pequena escala), e enviar-lhe-ei um vale postal pagável a Kew, se for tão gentil ao ponto de se encarregar dele. Obrigado pelas suas informações sobre a Zoologia Antártica; recebi os meus números quando estava na Cidade na quinta-feira: seria pedir demasiado trabalho ao seu editor enviar a sua Botânica ["Flora Antarctica," por J.D. Hooker, 1844] para o Athenaeum Club? ele poderia enviar dois ou três números juntos. Tenho realmente vergonha de pensar que me tenha dado uma obra tão valiosa; tudo o que posso dizer é que aprecio o seu presente de duas formas -- como a sua oferta, e pela sua grande utilidade para o meu trabalho sobre espécies. Fico muito contente por saber que pretende atacar este assunto um dia. Pergunto-me se seremos algum dia combatentes públicos; de qualquer modo, congratulo-me por uma vantagem extremamente injusta sobre si, a saber, a de ter extraído mais factos e pontos de vista de si do que de qualquer outra pessoa. Atrevo-me a dizer que a sua explicação sobre o polimorfismo em ilhas vulcânicas pode ser a correta; a razão pela qual estou curioso sobre isso é o facto de as aves nas Galápagos serem, em diversos casos, espécies muito finamente ajustadas -- isto é, ao compará-las, não tanto umas com as outras, mas com os seus análogos do continente. Senti de alguma forma, como você, que uma forma alpina de uma planta não é uma verdadeira variedade; e, no entanto, não posso admitir que o simples facto de a causa ser atribuível deva impedir que seja chamada de variedade; toda a variação deve ter alguma causa, de modo que a diferença residiria no nosso conhecimento em sermos capazes ou não de atribuir a causa. Considera que uma verdadeira variedade deveria ser produzida por causas que atuam através do progenitor? Mas mesmo adotando esta definição, tem a certeza de que as formas alpinas não são herdadas de uma, duas ou três gerações? Ora, não seria este um experimento curioso e valioso (16/1. Para um relato de trabalho desta natureza, ver artigos de G. Bonnier na "Revue Generale," Volume II., 1890; "Ann. Sc. Nat." Volume XX.; "Revue Generale," Volume VII.), a saber, obter sementes de alguma planta alpina, um pouco mais peluda, etc., etc., do que o seu semelhante de terras baixas, e cultivar plântulas em Kew: se isto não foi feito, não poderia fazê-lo? Tem alguém na Escócia de quem pudesse obter as sementes?
Fiquei interessado com as suas observações sobre Senecio e Gnaphalium: não valeria a pena (eu ficaria muito curioso por ouvir o resultado) fazer uma pequena lista dos géneros geralmente considerados variáveis ou polimórficos, como Rosa, Salix, Rubus, etc., etc., e refletir se tais géneros são geralmente mundanos, e mais especialmente se têm espécies distintas ou idênticas (ou estreitamente relacionadas) nos seus diferentes e distantes habitats.
Não se esqueça de mim, se alguma vez se deparar com casos da mesma espécie ser MAIS ou MENOS variável em diferentes países.
Com respeito à palavra "estéril" como usada para flores masculinas ou poliníferas, sempre ofendeu terrivelmente os meus ouvidos; pelo mesmo princípio que ofenderia ouvir um garanhão, carneiro ou touro potente ser chamado de estéril, porque não pariam, além de procriarem, crias.
Com respeito à sua sugestão de mapa geológico, desejo de todo o coração poder segui-la; mas reflita apenas sobre o número de medições necessárias; ora, atualmente não poderia ser feito nem mesmo na Inglaterra, nem mesmo com a suposição de a terra ter simplesmente subido qualquer número exato de pés. Mas a subsidência na maioria dos casos tornou o problema irremediavelmente complexo: veja o que Jordanhill-Smith (16/2. James Smith, de Jordan Hill, autor de um artigo "On the Geology of Gibraltar" ("Quart. Journ. Geol. Soc." Volume II., página 41, 1846).) diz sobre a dança para cima e para baixo, muitas vezes, que Gibraltar teve tudo dentro do período recente. Mapas como os que Lyell (16/3. "Principles of Geology," 1875, Volume I., Plate I, página 254.) publicou de mar e terra no início do período Terciário devem ser excessivamente imprecisos: pressupõe que toda a parte na qual estratos Terciários não foram depositados, deve ter sido então terra firme, -- uma suposição muito duvidosa.
Fiquei divertido com Chambers v. Hooker sobre o K. Cabbage. Vejo nas "Explanations" (cujo espírito, embora não os factos, deveria envergonhar Sedgwick) que "Vestiges" considera que todos os animais e plantas terrestres passaram de formas marinhas; portanto, Chambers está totalmente de acordo. Ouviu Forbes, quando esteve aqui, apresentar a evidência bastante curiosa (a partir de uma semelhança no erro) de que Chambers deve ser o autor de "Vestiges": o seu caso parece-me alguma confirmação. Escrevi uma carta irracionalmente longa e aborrecida, por isso, adeus. (16/4. "Explanations: A Sequel to the Vestiges of the Natural History of Creation" foi publicado em 1845, após o aparecimento da quarta edição de "Vestiges", como resposta às críticas ao livro original. O "K. cabbage" referido no início do parágrafo é a "Pringlea antiscorbutica", o "Couve de Kerguelen" descrito pelo Sir J.D. Hooker na sua "Flora Antarctica." O que Chambers escreveu sobre este assunto não descobrimos. A menção a Sedgwick é uma referência à sua severa crítica de "Vestiges" na "Edinburgh Review", 1845, volume 82, página 1. Darwin descreveu-a como tendo "o sabor do dogmatismo do púlpito" ("Life and Letters," I., página 344). A edição do Sr. Ireland de "Vestiges" (1844), na qual Robert Chambers foi pela primeira vez autenticamente anunciado como autor, contém (página xxix) um extrato de uma carta escrita por Chambers em 1860, na qual ocorre a seguinte passagem: "O número de abril da 'Edinburgh Review'" (1860) faz quase um pedido de desculpas direto pelo abuso que derramou sobre o meu trabalho há alguns anos." Esta é a bem conhecida crítica de Owen, à qual ocorrem referências em "Life and Letters," II., página 300. O pedido de desculpas a "Vestiges" não é tão completo quanto o autor sentiu que fosse; mas estava claramente no lugar num artigo destinado a menosprezar a "Origem"; também deu ao crítico (página 511) uma oportunidade para um golpe em Sedgwick e na sua crítica de 1845.)
CARTA 17. PARA L. BLOMEFIELD [JENYNS]. Down. 14 de fevereiro [1845].
Tomei a liberdade de agradecer pela sua última carta e discussão, muito interessantes para mim, sobre o aumento das espécies. Desde a sua carta, encontrei uma visão muito semelhante em Richardson, que afirma que os jovens são expulsos pelos velhos para distritos desfavoráveis, e aí a maioria perece. Quando se encontram retornos estatísticos tão inesperados sobre o aumento e diminuição e proporção de mortes e nascimentos entre a humanidade, e neste nosso país bem conhecido, não deveríamos ficar minimamente surpreendidos com a nossa ignorância sobre quando, onde e como o aumento sem fim dos nossos tordos e pardais é controlado.
Obrigado pelas suas dicas sobre os termos de "mutação", etc.; eu tinha algumas suspeitas de que não era totalmente correto, e ainda assim não vejo como chegar a termos melhores. Levará anos até que eu publique, de modo que terei muito tempo para pensar em palavras melhores. Desenvolvimento talvez servisse, apenas é aplicado às mudanças de um indivíduo durante o seu crescimento. Estou, contudo, muito contente com a sua observação, e irei ponderar sobre ela.
Estamos todos bem, esposa e três filhos, e tão prósperos quanto este tempo horrível, tempestuoso e que nos confina a casa permite.
CARTA 18. PARA J.D. HOOKER. Down [1845].
Espero que esteja a progredir bem com as suas palestras, e que tenha desfrutado de alguns passeios agradáveis durante o recente tempo delicioso. Escrevo para lhe dizer (já que talvez pudesse ter receios sobre o assunto) que os seus livros chegaram em segurança. Estou imensamente grato por eles, e cuidarei muito bem deles; levar-me-á algum tempo lê-los cuidadosamente.
Envio hoje o manuscrito corrigido do primeiro número do meu "Journal" (18/1. Em 1842 ele tinha escrito à sua irmã: "Falando de dinheiro, colhi no outro dia todo o lucro que alguma vez terei do meu "Journal" ["Journal of Researches, etc."] que consistiu em pagar ao Sr. Colburn 21 libras e 10 xelins pelas cópias que apresentei a diferentes pessoas; 1.337 cópias foram vendidas. Este é um arranjo confortável, não é?") na Colonial Library, de modo que se por acaso souber de algum erro grosseiro nas primeiras 214 páginas (se tiver o meu "Journal"), ficar-lhe-ia grato se me dissesse.
Não responda a isto por mera formalidade; pois deve estar muito ocupado. Acabámos de ter os Lyells aqui, e você deveria ter uma esposa para impedir que trabalhasse demasiado, como a Sra. Lyell peremptoriamente impede Lyell.
CARTA 19. PARA J.D. HOOKER.
(19/1. As cartas do Sir J.D. Hooker ao Sr. Darwin parecem fixar a data em 1845, enquanto a referência ao artigo de Forbes indica 1846.)
Down [1845-1846].
Estou particularmente grato pelos seus factos sobre ilhas solitárias terem várias espécies de géneros peculiares; isso deita por terra algumas analogias minhas; o ponto, estupidamente, nunca me ocorreu perguntar. Divirto-me com os seus anátemas contra a variação e companhia; o que quer que lhe apraza dizer, nunca ficará contente com simples espécies, "como elas são". Desafio-o a endurecer a sua mente para tecnicidades, como tantos dos nossos irmãos naturalistas. Estou muito satisfeito por ter pensado em enviar-lhe o artigo de Forbes. (19/2. O célebre artigo de E. Forbes "Memoirs of the Geological Survey of Great Britain," Volume I., página 336, 1846. Nos "Principles" de Lyell, 7.ª Edição, 1847, página 676, ele faz uma reivindicação temperada de prioridade, como já tinha feito numa carta privada de 14 de outubro de 1846, a Forbes ("Life of Sir Charles Lyell," 1881, Volume II., página 106) tanto no que diz respeito à flora siciliana como ao efeito de barreira das cadeias montanhosas. Ver Carta 20 para uma nota sobre Forbes.) Confesso que não consigo compreender a evidência das suas noções de tempo na distribuição, e não posso deixar de suspeitar que são um tanto vagas. Lyell precedeu Forbes numa classe de especulação deste tipo: por exemplo, ao explicar a identidade da Flora da Sicília com a da Itália do Sul, pelo facto de ter sido totalmente elevada dentro do período recente; e, assim creio, com cadeias montanhosas a separar floras. Não me lembro do facto de Humboldt sobre as regiões de urze. Muito curioso o caso da giesta; posso contar-lhe algo análogo numa pequena escala. O meu pai, quando construiu a sua casa, semeou muitas sementes de giesta num banco selvagem, que não nasceram, devido, como se pensava, a ter sido lançada muita terra sobre elas. Cerca de trinta e cinco anos depois, ao cortar um terraço, toda esta terra foi revolvida, e agora o banco é uma massa de giesta. Vejo que estávamos de certa forma a falar de propósitos cruzados; quando disse que não acreditava muito na hibridização em qualquer extensão, não quis de todo excluir o cruzamento. É há muito um passatempo meu ver em quantas flores tal cruzamento é provável; era, creio eu, a visão de Knight, originalmente, de que toda a planta deve ser ocasionalmente cruzada. (19/3. Ver um artigo sobre "The Knight-Darwin law" por Francis Darwin na "Nature," 27 de outubro de 1898, página 630.) Descubro, contudo, muita dificuldade em mostrar mesmo uma vaga probabilidade disto; especialmente nas Leguminosae, embora a sua [estrutura?] seja inimitavelmente adaptada para favorecer o cruzamento, nunca encontrei até agora senão um caso de um MESTIÇO NATURAL (ou mula?) nesta família.
Ficarei particularmente curioso por ouvir algum relato sobre a aparência e origem do Teixo irlandês de Ayrshire. E agora quanto ao objetivo principal da minha carta: é perguntar se você daria uma vista de olhos na prova do meu capítulo das Galápagos (19/4. Na segunda edição do "Naturalist's Voyage."), onde menciono as plantas, para ver se não cometi erros, ou se escrevi mal algum dos nomes científicos. Como atrevo-me a dizer que me fará esse favor, deixe-me saber com alguns dias de antecedência, quando deixa Edimburgo e quanto tempo fica em Kinnordy, para que a minha carta o possa encontrar. Não estou surpreendido com o facto de a minha coleção da Ilha James diferir de outras, pois o distrito húmido das terras altas (onde dormi duas noites) fica a seis milhas da costa, e nenhum naturalista exceto eu provavelmente alguma vez ascendeu a ele. Cuming nunca tinha sequer ouvido falar dele. Cuming diz-me que esteve nas ilhas Charles, James e Albemarle, e que não consegue lembrar-se pela minha descrição da Scalesia, mas pensa que poderia se visse um espécime. Não faço ideia da origem da distribuição das conchas das Galápagos, sobre as quais pergunta. Presumo (após as excelentes observações de Forbes sobre as facilidades com que as conchas embrionárias são transportadas) que as conchas do Pacífico foram levadas para lá por correntes; mas as correntes correm todas na direção oposta.
(PRANCHA: EDWARD FORBES 1844? De uma fotografia por Hill & Adamson.)
CARTA 20. EDWARD FORBES PARA C. DARWIN.
(20/1. Edward Forbes estava a trabalhar no seu célebre artigo nos "Geological Survey Memoirs" para 1846. Não vimos a carta de Darwin à qual esta é uma resposta, nem, na verdade, qualquer das suas cartas a Forbes. A data da carta é fixada pela palestra de Forbes dada na Royal Institution a 27 de fevereiro de 1846 (de acordo com as "Memoirs" impressas privadamente de L. Horner, II., página 94.))
Quarta-feira. 3, Southwark Street, Hyde Park. [1846].
Caro Darwin
Responder à sua muito bem-vinda carta, longe de ser uma perda de tempo, é um ganho, pois obriga-me a tornar-me claro e compreendido em assuntos que evidentemente apresentei de forma imperfeita e com obscuridade. Dediquei toda esta semana a trabalhar e a escrever sobre a questão da flora, pois sinto-me agora suficientemente forte para dar a minha prometida palestra noturna sobre ela na Royal Institution na sexta-feira, e, além disso, desejo tê-la numa forma imprimível para os Relatórios do nosso Inquérito. Portanto, em nenhuma altura posso receber ou responder a objeções com mais benefício do que agora. Devido à pressa e pressão que infelizmente acompanham todos os meus movimentos e ações, raramente tenho tempo de sobra, ao preparar para publicação, para fazer mais do que dar resumos breves e insatisfatórios, que receio serem muitas vezes extremamente obscuros.
Agora para as suas objeções -- que brotaram das minhas próprias obscuridades.
Não argumento em círculo sobre o caso irlandês, mas trato a evidência botânica da conexão e a geológica como distintas. A primeira apenas defendi em Cambridge; a última ainda não defendi publicamente.
O meu argumento de Cambridge (20/2. "Sobre a Distribuição de Plantas Endémicas", por E. Forbes, "Brit. Assoc. Rep." 1845 (Cambridge), página 67.) foi o seguinte: Que nenhuma corrente conhecida, seja de água ou de ar, ou meios ordinários de transporte (20/3. Nota de Darwin sobre o transporte (encontrada com a carta de Forbes): "Os argumentos de Forbes, a partir de várias plantas espanholas na Irlanda não serem transportadas, não são sólidos, porque as correntes marítimas e aéreas e a migração das aves seguem as MESMAS LINHAS. Pensei que a não-transporte fosse a maior dificuldade. Ora, vemos quantas sementes cada planta e árvore requer para ser regularmente propagada no seu próprio país, pois não podemos pensar que o grande número de sementes seja supérfluo, e, portanto, quão pequena é a possibilidade de aqui e ali uma plântula solitária ser preservada num país bem povoado."), explicaria o pequeno grupo de plantas asturianas — poucas em espécie, mas desempenhando um papel conspícuo na vegetação — que conferem um carácter botânico peculiar ao sul da Irlanda; que, como eu tinha produzido provas de que as outras floras das nossas ilhas, isto é, a germânica, a cretácea e a devónica (termos usados topograficamente, não geologicamente) tinham sido adquiridas por migração sobre terra contínua (a flora glacial ou alpina excluo-a por enquanto — pois o transporte pelo gelo pode ter desempenhado um grande papel na sua introdução) — considerei ser o mais provável, e sustentei, que a introdução dessa flora irlandesa também foi efetuada pelos mesmos meios. Sustentei também que o carácter desta flora era mais meridional e mais antigo do que o de qualquer das outras, e que o seu estado fragmentário e limitado se devia provavelmente ao facto de as plantas que a compõem terem (devido à sua resistência comparativa — urzes, saxífragas, etc.) sobrevivido à influência destruidora da época glacial.
O meu argumento geológico é agora o seguinte: metade das ilhas do Mediterrâneo, ou mais, são parcialmente — em alguns casos (como Malta) totalmente — compostas pelo leito levantado do mar Miocénico; o mesmo acontece com uma grande parte do sul de França, de Bordéus a Montpellier; o mesmo com o oeste de Portugal; e encontramos os leitos correspondentes com os mesmos fósseis (Pecten latissimus, etc.) nos Açores. Um levantamento tão geral parece-me indicar a existência anterior de uma grande terra pós-miocénica [na] região do que é habitualmente chamado flora mediterrânica. (Em toda a parte estas ilhas miocénicas, etc., possuem uma flora de tipo verdadeiro.) Se esta terra existiu, não se estendeu até à América, pois os fósseis do Miocénico da América são representativos e não idênticos. Onde, então, estava a extremidade ou linha costeira da mesma, em direção ao Atlântico? Observe a forma e a constância do grande banco de fucus, e considere que é um banco de Sargassum, e que o Sargassum ali se encontra numa condição anormal, e que as espécies deste género de fucos são essencialmente de crescimento terrestre, e veja então a probabilidade de este banco ter tido origem numa linha de costa antiga.
Ora, tendo assim argumentado independentemente, primeiro sobre a minha flora e segundo sobre as evidências geológicas de terra no quadrante necessário, junto as duas para sustentar o meu caso irlandês.
Não posso admitir que o caso do Sargassum seja paralelo ao das Confervae ou Oscillatoria.
Penso ter provas a partir dos fósseis das formações de blocos erráticos na Irlanda de que, se tal terra miocénica existiu, deve ter sido fragmentada ou parcialmente fragmentada na época do período glacial ou dos blocos erráticos.
Todas as objeções são recebidas com gratidão.
Sempre muito sinceramente,
EDWARD FORBES.
CARTA 21. PARA L. JENYNS (BLOMEFIELD). Down. [1846].
Estou-lhe muito grato pela sua nota e pela gentil oferta do seu volume. (21/1. Sem dúvida "Observações em História Natural" do falecido Sr. Blomefield. Ver "Life and Letters", II., página 31.) Sinto-me seguro de que irei gostar, pois todas as discussões e observações sobre o que o mundo chamaria de pontos triviais em História Natural parecem-me sempre muito interessantes. Nas publicações periódicas estrangeiras que vi, não existem artigos como os que White, ou Waterton, ou alguns outros naturalistas teriam escrito no Jornal de Loudon e de Charlesworth; e sempre me pareceu uma grande perda. Teria gostado muito de o encontrar em Londres, mas não posso deixar a minha casa, uma vez que a minha esposa está a recuperar de um ataque de febre bastante forte, e eu próprio estou a trabalhar afincadamente para terminar a minha Geologia da América do Sul (21/2. "Observações Geológicas na América do Sul" (Londres), 1846.), da qual, graças a todos os poderes plutónicos, dois terços já passaram pela imprensa, e então sentir-me-ei um homem comparativamente livre. Tem pensado em Southampton? (21/3. A Associação Britânica reuniu-se em Southampton em 1846.) Tenho uma ideia vaga de ir lá, e gostaria muito de o encontrar.
CARTA 22. PARA J.D. HOOKER. Shrewsbury [final de fevereiro de 1846].
Vim aqui por causa da saúde do meu pai, que tem estado tristemente debilitada ultimamente, mas para minha grande alegria ele melhorou surpreendentemente... Não tinha ouvido falar da sua nomeação botânica (22/1. Sir Joseph foi nomeado Botânico do Serviço Geológico em 1846.), e estou muito contente com isso, especialmente porque o fará viajar e lhe proporcionará mudança de trabalho e relaxamento. Terá de examinar o Giz e a sua junção com a Argila de Londres e o Greensand? Se sim, a nossa casa seria um bom local central, e o meu cavalo estaria à sua disposição. Não poderia prolongar este exame por uma longa semana? De facto, deleitar-nos-ia, e poderia trazer os seus documentos (como Lyell) e trabalhar em horas vagas. Forbes tem-me escrito sobre as suas doutrinas de subsidência; gostaria de ter ouvido os seus detalhes completos, mas expressei-lhe, na minha ignorância, as minhas objeções, que se baseiam meramente na sua base hipotética demasiado grande; estarei curioso, quando o encontrar, para ouvir o que ele diz. Ele também está a especular sobre a erva-do-golfo. Confesso que não consigo apreciar o seu raciocínio sobre o seu continente miocénico, mas presumo que seja por falta de conhecimento.
Alude ao facto de a flora da Sicília não ser peculiar, e de isso ser causado pela sua elevação recente (bem estabelecida) na maior parte: verá que Lyell expôs isto de forma muito clara e correta. Os Apeninos (sobre os quais estive a ler algures recentemente) parecem um caso muito curioso.
Penso que Forbes deveria aludir um pouco ao trabalho de Lyell (22/2. Ver Carta 19.) sobre quase o mesmo assunto que as suas especulações; não que eu queira dizer que Forbes deseja tirar o menor crédito a ele ou a qualquer homem vivo; nenhum homem, tanto quanto vejo, gosta tanto de dar crédito aos outros, ou paira mais acima do desejo mesquinho de auto-celebração.
Se chegar a mais conclusões sobre o polimorfismo, ficaria muito contente por ouvir o resultado: é delicioso ter muitos pontos a fermentar no cérebro, e as suas cartas e conclusões dão-nos sempre bastante dessa mesma fermentação. Gostaria de poder retribuir de alguma forma todos os seus factos, pontos de vista e sugestões.
CARTA 23. PARA J.D. HOOKER.
(23/1. O excerto seguinte dá o germe do que se desenvolveu numa discussão interessante na "Origem" (Edição I., página 147). Darwin escreveu: "Suspeito também que alguns casos de compensação que foram apresentados, e igualmente alguns outros factos, possam ser fundidos sob um princípio mais geral: nomeadamente, que a seleção natural está continuamente a tentar economizar em todas as partes do organismo." Ele fala da crença geral dos botânicos na compensação, mas não cita quaisquer instâncias.)
[Setembro de 1846].
Alguma vez pensou na "loi de balancement" de G. St. Hilaire (23/2. De acordo com Darwin ("Variação de Animais e Plantas", 2ª edição, II., página 335), a lei do balanceamento foi proposta por Goethe e Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844) quase ao mesmo tempo, mas ele não dá referências às obras destes autores. Parece, contudo, a partir da obra do seu filho Isidore, "Vie, Travaux etc., d'Etienne Geoffroy Saint-Hilaire", Paris 1847, página 214, que a lei foi apresentada na sua "Philosophie Anatomique", cuja primeira parte foi publicada em 1818. Darwin (ibid.) dá alguns exemplos da lei a manter-se válida nas plantas.), aplicada às plantas? Estou bem ciente de que alguns zoólogos a rejeitam completamente, mas parece-me certamente que ela é muitas vezes válida com os animais. Sem dúvida que tem conhecimento do tipo de factos a que me refiro, como o grande desenvolvimento dos caninos nos carnívoros, causando aparentemente uma diminuição — uma compensação ou balanceamento — no tamanho pequeno dos pré-molares, etc. Notei incidentalmente algumas observações análogas sobre plantas, mas nunca as vi discutidas por botânicos. Consegue pensar em casos numa espécie de um género, ou género numa família, com certas partes extra desenvolvidas e algumas partes adjacentes reduzidas? Em variedades da mesma espécie, flores dobradas e frutos grandes parecem ser algo disso — a falta de pólen e de sementes a compensar o aumento do número de pétalas e o desenvolvimento do fruto. Espero que o vejamos aqui este outono.
(24/1. Neste ano (1847), Darwin escreveu uma pequena crítica à "História Natural dos Mamíferos" de Waterhouse, cujo primeiro volume tinha aparecido. Foi publicada nos "Anais e Revista de História Natural", Volume XIX., página 53. A frase seguinte é a única que mostra sequer um vestígio de evolução: "quer vejamos a classificação como um mero artifício para transmitir muita informação numa única palavra, ou como algo mais do que uma memoria technica, e como estando ligada às leis da criação, não podemos duvidar que, onde diferenças tão importantes nos sistemas gerativo e cerebral, como as que distinguem os Marsupiata dos Placentata, percorrem duas séries de animais, elas devem ser organizadas sob cabeçalhos de valor igual."
Uma observação característica ocorre em referência à Distribuição Geográfica, "esse nobre assunto, do qual ainda apenas vislumbramos vagamente o alcance total."
A carta seguinte parece ser de interesse suficiente para ser publicada, apesar das obscuridades causadas pela falta de data. Parece ter sido escrita após 1847, ano em que uma disputa envolvendo o Dr. King e vários "cavalheiros do ártico" foi travada no "Athenaeum". O Sr. Darwin fala de "Instruções de História Natural para a presente expedição". Isto pode possivelmente referir-se ao "Manual de Investigação Científica do Almirantado" (1849), pois é claro, a partir do memorando prefacial dos Lordes do Almirantado, que eles acreditavam que o manual seria útil nas expedições vindouras em busca de Sir John Franklin.)
CARTA 24. PARA E. CRESY.
(24/2. O Sr. Cresy era, cremos, um arquiteto: a sua amizade com o Sr. Darwin data do estabelecimento em Down.)
Down [após 1847].
Embora nunca tenha prestado atenção particular aos pontos em disputa entre o Dr. (Richard) King e os outros cavalheiros do Ártico, li cuidadosamente todos os artigos no "Athenaeum" e retirei deles muito a mesma impressão que transmite na sua carta, pela qual lhe agradeço. Acredito que aquele velho pecador, Sir J. Barrow (24/3. Sir John Barrow, (1764-1848): Secretário do Almirantado, esteve no fundo de todo o dinheiro desperdiçado nas expedições navais. Senti-o tão fortemente sobre este assunto que, quando fui nomeado para um comité para as instruções de Hist. Nat. para a presente expedição, se tivesse podido comparecer, tinha resolvido expressar a minha opinião sobre a pequena vantagem, comparativamente à despesa, obtida por elas. Têm existido, creio eu, desde o início, dezoito expedições; isto parece-me monstruoso, considerando quão pouco se sabe, por exemplo, sobre o interior da Austrália. O país pagou caro pelo passatempo de Sir John. Tenho poucas dúvidas de que o Dr. King tem toda a razão quanto à vantagem das expedições terrestres no que diz respeito à geografia; e esse é agora o principal objetivo. (24/4. Esta frase implicaria que Darwin pensava ser inútil resgatar a expedição de Sir J. Franklin. Se assim for, a carta deve ser, pelo menos, de 1850. Se as dezoito expedições mencionadas acima forem "expedições de busca", isso também traria a data da carta para 1850.)
CARTA 25. PARA RICHARD OWEN. Down [26 de março de 1848].
Meu caro Owen
Não sei se as suas instruções manuscritas foram entregues; mas mesmo que não tenham sido, imagino que o que vou escrever será absolutamente supérfluo (25/1. Os resultados da experiência do Sr. Darwin dados na carta acima foram incorporados pelo Prof. Owen na secção "Sobre o Uso do Microscópio a Bordo de Navio", fazendo parte do artigo "Zoologia" no "Manual de Investigação Científica, Preparado para o Uso da Marinha de Sua Majestade" (Londres, 1849).), mas derivei uma vantagem infinitamente grande do meu novo microscópio simples, em comparação com aquele que usei a bordo do "Beagle", e que me foi recomendado por R. Brown ("Life and Letters", I., página 145.), que não posso renunciar à simples hipótese de vantagem de o aconselhar nisto. O ponto principal de diferença consiste simplesmente em ter a platina para pratos muito grande e fixa. O meu comporta um prato de três polegadas de diâmetro interno. Nunca vi um microscópio como o meu, embora o de Chevalier (de cujo plano muitos pontos do meu são retirados), de Paris, se aproxime bastante. Aprecio plenamente o ABSURDO total de eu lhe dar conselhos sobre meios de dissecação; mas apreciei eu próprio a enorme desvantagem de ter trabalhado com um instrumento mau, embora achado, há alguns anos, o melhor. Por favor, observe que, a menos que chame especial atenção para este ponto, aqueles que desconhecem a História Natural certas vezes arranjarão um dos instrumentos de brincar vendidos nas lojas. Se achasse adequado, eu apontaria as diferenças que, pela minha experiência, fazem um microscópio útil para o tipo de dissecação dos invertebrados que uma pessoa estaria inclinada a tentar a bordo de um navio. Mas reze novamente para acreditar que sinto o absurdo desta carta, e escrevo meramente pela hipótese de você, possuindo grande perícia e tendo trabalhado com bons instrumentos, [não estar] possivelmente plenamente ciente da diferença espantosa que o tipo de microscópio faz para aqueles que não foram treinados na perícia para a dissecação debaixo de água. Quando vier a seguir à cidade (fui impedido da última vez por doença) devo visitá-lo, e relatar, para minha própria satisfação, um ponto realmente (penso eu) curioso que descobri nos meus amados cracas. Não pode imaginar o quanto desfrutei da nossa conversa aqui.
Sempre, meu caro Owen, Seu sinceramente, C. DARWIN.
P.S.--Se não tiver notícias, entenderei que a minha carta é supérflua. Smith e Beck ficaram tão satisfeitos com o microscópio simples que fizeram para mim, que fizeram outro como modelo. Se for consultado por algum jovem naturalista, recomende-lhes que olhem para este. Sinto realmente uma gratidão pessoal por esta forma de microscópio, e um ódio profundo pelo meu antigo.
CARTA 26. PARA J.S. HENSLOW. Down [1 de abril de 1848.]
Obrigado pela sua nota e por me dar a hipótese de o ver na cidade; mas estava fora do meu alcance tirar proveito disso, pois tinha previamente arranjado ir a Londres na segunda-feira. Teria gostado muito de o ver. Obrigado também pelo seu discurso (26/1. Uma conferência introdutória proferida em março de 1848 na primeira reunião de uma Sociedade "para dar instruções às classes trabalhadoras em Ipswich em vários ramos da ciência, e especialmente em história natural" ("Memória do Rev. J.S. Henslow", por Leonard Jenyns, página 150.), de que gostei muito. A anedota sobre Whewell e as marés eu tinha esquecido completamente; creio que está suficientemente perto da verdade. Hesito um pouco quanto a uma frase sua — a saber, "Por mais delicioso que qualquer estudo científico possa ser, contudo, se for totalmente inaplicado, não tem mais utilidade do que construir castelos no ar." Não infeririam os seus ouvintes a partir disto que o uso prático de cada descoberta científica deveria ser imediato e óbvio para torná-la digna de admiração? Que belo exemplo o clorofórmio é de uma descoberta feita a partir de pesquisas puramente científicas, que depois veio quase por acaso a ter uso prático! Para mim, no entanto, adotaria uma postura mais elevada, pois acredito que existe, e sinto dentro de mim, um instinto para a verdade, ou conhecimento ou descoberta, algo da mesma natureza que o instinto da virtude, e que o facto de termos tal instinto é razão suficiente para pesquisas científicas sem que delas advenha qualquer resultado prático. Perguntar-se-á o que me faz falar tanto, mas tenho trabalhado muito arduamente nos últimos dezoito meses na anatomia, etc., dos Cirripedia (sobre os quais publicarei uma monografia), e alguns dos meus amigos riem-se de mim, e temo que o estudo dos Cirripedia permaneça sempre "totalmente inaplicado", e ainda assim sinto que tal estudo é melhor do que construir castelos no ar.
CARTA 27. PARA J.D. HOOKER, no Dr. Falconer's, Jardim Botânico, Calcutá. Down, 10 de maio de 1848.
Fiquei deveras encantado ao ver a sua letra; mas senti quase pesar ao contemplar quão longa carta escreveu. Sei que é indomável no trabalho, mas lembre-se de quão precioso é o seu tempo, e não o desperdice com os seus amigos, por muito prazer que lhes possa dar. Tal carta ter-me-ia custado meio dia de trabalho. Como parece progredir de forma excelente! Invejo-o pela visão de toda aquela vegetação gloriosa. Estou muito satisfeito e surpreendido por ter conseguido observar tanto no mundo animal. Sem dúvida que mantém um diário, e um excelente diário será, tenho a certeza, quando publicado. Todos estes factos sobre animais contarão bastante nele. Compreendo perfeitamente a dificuldade que menciona sobre não saber o que é conhecido zoologicamente na Índia; mas os factos observados, tal como os observará, não são piores por serem reiterados. Viu o Sr. Blyth em Calcutá? Ele seria um homem excelente para lhe dizer o que se sabe sobre a Zoologia Indiana, pelo menos nos Vertebrata. É um sujeito muito inteligente, estranho e selvagem, que nunca fará o que poderia fazer, por não se cingir a qualquer assunto. A propósito, se o vir em qualquer ocasião, tente não se esquecer de me transmitir as suas mais cordiais lembranças a ele; gostei de tudo o que vi dele. A sua carta foi precisamente aquela que me encantou, com todos os seus factos para o meu livro sobre as Espécies, e sinto-me verdadeiramente grato por uma lembrança tão gentil de mim. Não se esqueça de fazer averiguações sobre a origem, ainda que apenas conhecida por tradição, de quaisquer variedades de quadrúpedes domésticos, aves, bichos-da-seda, etc. Existem abelhas domésticas? Se assim for, colmeias deveriam ser trazidas para casa. De todos os factos que menciona, o do [ilegível] selvagem, quando se cruza com o doméstico, produzindo descendência algo estéril, é o mais surpreendente: certamente devem ser espécies diferentes. A maioria dos zoólogos desacreditaria absolutamente tal afirmação, e consideraria o resultado como uma prova de que eram espécies distintas. Não vou tão longe, mas o caso parece altamente improvável. Blyth estudou os Ruminantia indianos. Fiquei muito impressionado com o que diz sobre as plantas das terras baixas que ascendem às montanhas, mas as alpinas que não descem. Como espero que consiga subir algumas montanhas em Bornéu; quão curioso será o resultado! A propósito, nunca ouvi da sua parte qual a afinidade da flora das Maldivas, o que é cruel, pois tentou-me fazendo-me adivinhar. Por vezes gemo sobre a sua viagem à Índia, quando penso em todas as suas riquezas encerradas. Quando verei um memorial sobre as floras insulares, e sobre o Pacífico? Que grande assunto seriam as floras alpinas do mundo (27/1. O Sr. William Botting Hemsley, F.R.S., dos Royal Gardens, Kew, está agora empenhado numa monografia das plantas alpinas de alta altitude do mundo.), tanto quanto é conhecido; e nunca deu um coup d'oeil sobre a semelhança e dissemelhança das floras Ártica e Antártica. Bem, graças aos céus, quando voltar, será nolens volens uma peça fixa. Estou particularmente contente por ter estado no Carvão; tenho, desde que partiu, divagado frequentemente sobre o assunto, e nunca descansarei sossegado no cemitério de Down sem que o problema seja resolvido por alguém antes de eu morrer. Falar de morrer faz-me dizer-lhe que o meu estômago maldito está mais ou menos na mesma; na verdade, ultimamente tem estado um pouco pior, mas durante o último ano, creio, consegui realizar mais trabalho. Não fiz nada além dos percebes, exceto, na verdade, um pequeno artigo teórico sobre blocos erráticos (27/2. "On the Transportal of Erratic Boulders from a Lower to a Higher Level" ("Quart. Journ. Geol. Soc." Volume IV., páginas 315-23. 1848). Neste artigo, Darwin favorece a visão de que o transporte de blocos foi efetuado pelo gelo costeiro. Um artigo anterior intitulado "Notes on the Effects produced by the ancient Glaciers of Caernarvonshire, and on the Boulders transported by floating Ice" ("Phil. Mag." 1842, página 352) é mencionado pelo Sir Archibald Geikie como estando "quase no topo da longa lista de contribuições inglesas para a história da Idade do Gelo" ("Charles Darwin," "Nature" Series, página 23).), e Instruções Geológicas Científicas para o Volume do Almirantado (27/3. "A manual of Scientific Enquiry, prepared for the use of Her Majesty's Navy, and adapted for Travellers in General." Editado pelo Sir John F.W. Herschel, Bart. Secção VI.--Geologia--por Charles Darwin. Londres, 1849. Ver "Life and Letters," páginas 328-9.), que me custou algum trabalho. Este trabalho, editado pelo Sir J. Herschel, é um excelente serviço, na medida em que os capitães dos navios de guerra verão agora que o Almirantado se preocupa com a ciência, e assim favorecerão os naturalistas a bordo. Quanto a um homem que não é científico por natureza, não acredito que as instruções lhe façam qualquer bem; e se ele for científico e valer alguma coisa, as instruções serão supérfluas. Não sei quem faz a Botânica; Owen faz a Zoologia, e enviei-lhe um relato do meu novo microscópio simples, que considero perfeito, ainda melhor do que o seu de Chevalier. N.B. Obtive uma objetiva de 1/8 de polegada, e é grandiosa. Tenho progredido bem com os meus amados Cirripedia, e tornei-me mais habilidoso na dissecção. Elaborei o sistema nervoso bastante bem em vários géneros, e descobri-lhes os ouvidos e narinas (27/4. Para os sacos olfativos, ver a "Monograph of the Cirripedia" de Darwin, 1851, página 52.), que eram totalmente desconhecidos. Obtive recentemente um cirrípede bissexual, sendo o macho microscopicamente pequeno e parasita dentro do saco da fêmea. Digo-lhe isto para me gabar da minha teoria das espécies, pois o género mais intimamente aliado a ele é, como de costume, hermafrodita, mas eu tinha observado alguns parasitas minúsculos a aderir a ele, e estes parasitas agora posso mostrar que são machos suplementares, sendo os órgãos masculinos no hermafrodita invulgarmente pequenos, embora perfeitos e contendo zoospermas: por isso temos quase um animal polígamo, faltando apenas fêmeas simples. Eu nunca teria descoberto isto se a minha teoria das espécies não me tivesse convencido de que uma espécie hermafrodita deve passar para uma espécie bissexual por estágios insensivelmente pequenos; e aqui tê-lo-emos, pois os órgãos masculinos no hermafrodita estão a começar a falhar, e machos independentes já formados. Mas dificilmente consigo explicar o que quero dizer, e talvez deseje que os meus percebes e a minha teoria das espécies vão al Diavolo juntos. Mas não me importa o que diga, a minha teoria das espécies é o evangelho absoluto. Tivemos apenas uma festa aqui: a saber, dos Lyell, Forbes, Owen e Ramsay, e ambos sentimos imensa a sua falta e a do Falconer... Sei mais da sua história do que supõe, pois a Srta. Henslow enviou-me muito gentilmente um pacote das suas cartas, e escreveu-me um bilhete tão simpático que me deixou bastante orgulhoso. Não tive notícias de nada no campo científico que o interessasse. Sir H. De la Beche (27/5. O Discurso Presidencial proferido por De la Beche perante a Sociedade Geológica em 1848 ("Quart. Journ. Geol. Soc." Volume IV., "Proceedings," página xxi, 1848).) fez um discurso muito longo e algo aborrecido; a parte mais interessante foi a do Sir J. Ross. O Sr. Beete Jukes figurou nele muito proeminentemente: é realmente uma qualidade muito agradável no Sir Henry a forma como promove os seus subordinados. Jukes leu desde então o que foi considerado um artigo muito valioso. O homem, não contente com bigodes, ostenta agora uma barba completa, e tenho a certeza de que se acha parecido com Júpiter tonans. Houve há pouco tempo uma discussão não muito abonatória numa reunião da Royal Society, onde Owen atacou Mantell com fúria e desprezo por causa de belemnites. Que feitos miseráveis advêm da ordem da fama; o amor pela verdade sozinho nunca faria um homem atacar outro amargamente. O meu papel está cheio, por isso devo desejar-lhe de todo o coração adeus. Que o Céu conceda que a sua saúde se mantenha boa.
CARTA 28. PARA J.S. HENSLOW. The Lodge, Malvern, 6 de maio de 1849.
O seu amável bilhete foi-me reencaminhado para aqui. Ficará surpreendido ao saber que todos nós — crianças, criados e todos — estamos aqui há quase dois meses. Durante todo o outono e inverno passado a minha saúde piorou cada vez mais: enjoos incessantes, mãos trémulas e cabeça a andar à roda. Pensei que estava a seguir o caminho de toda a carne. Tendo ouvido falar de muito sucesso em alguns casos com a cura pela água fria, decidi desistir de todas as tentativas de fazer o que quer que fosse e vir para aqui colocar-me sob os cuidados do Dr. Gully. Tem resultado em considerável medida: os meus enjoos muito controlados e ganhei força considerável. O Dr. G., além disso (e ouço dizer que raramente fala com confiança), diz-me que tem poucas dúvidas de que me possa curar com o decorrer do tempo — tempo, contudo, é o que levará. Experimentei o suficiente para sentir a certeza de que a cura pela água fria é um grande e poderoso agente e perturbador de todos os hábitos constitucionais. Falando de hábitos, o desgraçado cruel obrigou-me a deixar o rapé — esse consolo principal da vida. Agradecemos-lhe muito sinceramente pelo seu pronto e antecipado convite para Hitcham para a Associação Britânica de 1850 (28/1. O convite provavelmente não era para 1850, mas para 1851, quando a Associação se reuniu em Ipswich.): se eu estiver bom e forte, aceitá-lo-ei com todo o gosto; mas como estive até agora, um passeio todos os dias de meia dúzia de milhas seria mais do que eu poderia suportar ao assistir a qualquer das secções. Pretendo ir a Birmingham (28/2. A Associação reuniu-se em Birmingham em 1849.) se for capaz; na verdade, sou obrigado a tentar, pois sou honrado acima de toda a medida por ser um dos Vice-Presidentes. Estou extraordinariamente contente por o senhor lá estar; temo, contudo, que não teremos viagens tão encantadoras como Nuneham e Dropmore. (28/3. Numa carta a Hooker (12 de outubro de 1849) Darwin fala daquele "dia celestial em Dropmore." ("Life and Letters," I., página 379.)) Ficaremos aqui até pelo menos 1 de junho, talvez até 1 de julho; e terei de continuar com o tratamento aquoso em casa por mais alguns meses. Um efeito muito singular do tratamento é que induz na maioria das pessoas, e eminentemente no meu caso, a mais completa estagnação de espírito. Deixei de pensar até em percebes! Tive notícias há algum tempo de Hooker... Quão bem parece ter tido sucesso em todos os seus empreendimentos! Deve estar muito ocupado agora. Aconteceu-me pensar no outro dia na viagem de Gamlingay aos Lírios do Vale (28/4. O Lírio do Vale (Convallaria majalis) está registado em Gamlingay pelo Professor Babington na sua "Flora of Cambridgeshire," página 234. (Londres, 1860.)): ah, aqueles foram dias deliciosos quando não se tinha um órgão como um estômago, apenas uma boca e os apetrechos de mastigação. Estou muito surpreendido com o que diz, que os homens estão a começar a trabalhar a sério [na] Botânica. Que perda será para a História Natural o facto de ter deixado de residir todo o ano em Cambridge!
CARTA 29. PARA J.F. ROYLE. Down, 1 de setembro [184-?].
Devolvo-lhe com muitos agradecimentos a sua valiosa obra. Tenho a certeza de que não perdi nenhuma folha nem desarrumei os números soltos. Interessei-me por folhear os volumes, embora não tenha encontrado tanto quanto pensava ser possível sobre as variedades dos animais e plantas domésticos indianos, e as tentativas de introdução foram demasiado recentes para que os efeitos (se os houver) do clima se tenham desenvolvido. Fiquei, contudo, espantado e encantado com a evidência das tentativas enérgicas de fazer o bem por parte de tantas pessoas, e a maioria delas evidentemente não pessoalmente interessada no resultado. Que o nosso domínio floresça longamente na Índia. Declaro que todo o trabalho demonstrado nestas transações é suficiente por si só para nos deixar orgulhosos dos nossos compatriotas...
CARTA 30. PARA HUGH STRICKLAND.
(30/1. O primeiro parágrafo desta carta foi publicado em "Life and Letters," I., página 372, como parte de uma série de cartas a Strickland, começando na página 365, onde uma nota biográfica do Professor Newton também é dada. O Professor Newton escreveu: "Em 1841 ele apresentou o assunto da Nomenclatura da História Natural à Associação Britânica, e preparou o código de regras para a Nomenclatura Zoológica, agora conhecido pelo seu nome — cujos princípios são muito geralmente aceites." As razões do Sr. Darwin contra acrescentar o nome do descritor ao da espécie são dadas em "Life and Letters," página 366. A presente carta é de interesse por dar detalhes adicionais relativamente às dificuldades de Darwin.)
Down, 10 de fevereiro [1849].
Tenho novamente de lhe agradecer cordialmente pela sua carta. As suas observações frutificarão até certo ponto, e tentarei ser mais fiel à virtude rígida e à prioridade; mas quanto a chamar Balanus "Lepas" (o que não me ocorreu) não o posso fazer, a minha pena não o escreve — é impossível. Tenho grandes esperanças de que algumas das minhas dificuldades desapareçam, devido a datas erradas em Agassiz e ao facto de ter de fundir vários géneros num só; pois até agora recorri, em poucos casos, a fontes originais. Relativamente a adotar as minhas próprias noções no meu livro sobre Cirripedia, não gostaria de o fazer sem verificar que outros as aprovam, e de alguma forma pública; nem, na verdade, está bem adaptado, pois nunca consigo reconhecer uma espécie sem ter o espécime original, o que felizmente tenho em muitos casos no Museu Britânico. Até este ponto pretendo adotar a minha noção, em nunca colocar mihi ou Darwin após as minhas próprias espécies, e no texto anatómico não dar de todo os nomes dos autores, pois a parte sistemática servirá para aqueles que queiram saber a história da espécie tanto quanto imperfeitamente a consegui elaborar.
Recebi um bilhete do W. Thompson (30/2. O Sr. Thompson é descrito no prefácio aos Lepadidae como "o distinto Historiador Natural da Irlanda.") esta manhã, e ele diz-me que Ogleby tem algum plano quase idêntico ao meu. Sinto-me bastante certo de que existe uma aversão geral crescente ao apêndice do nome do autor, exceto nos casos em que é necessário. Ora, neste momento vi espécimes etiquetados com um nome específico e sem referência — tais são irremediavelmente inconvenientes; mas declaro que preferiria (como forma de poupar tempo) ter uma referência a alguma segunda obra sistemática do que ao autor original, pois tenho casos disto que dificilmente me ajudam, pois não sei onde procurar entre infinitos jornais estrangeiros periódicos. Por outro lado, consegue-se obter a maioria das obras sistemáticas e assim seguir o rasto, e uma espécie não jaz durante muito tempo enterrada exclusivamente num artigo.
Agradeço-lhe sinceramente pela sua oferta muito gentil de me assistir ocasionalmente com a sua opinião, e não abusarei muito. Tenho um caso, mas [é um] sobre o qual tenho quase certeza; e assim, para lhe poupar a escrita, se eu concluir corretamente, por favor não responda, e entenderei o silêncio como assentimento.
Olfers em 1814 fez de Lepas aurita Linn. o género Conchoderma; [Oken] em 1815 deu o nome Branta a Lepas aurita e vittata, e ao fazê-lo altera essencialmente a definição genérica de Olfers. Oken tinha razão (como se verifica), e Lepas aurita e vittata devem formar juntas um género. (30/3. Na "Monograph on the Cirripedia" (Lepadidae) os nomes usados são Conchoderma aurita e virgata.) (Deixo de parte uma multidão de sinónimos subsequentes.) Ora, suponho que devo manter Conchoderma de Olfers. Não consigo formular uma regra precisa no "British Association Report" para isto. Quando um género é cortado em dois, vejo que o nome antigo é mantido para parte e alterado para ele; por isso suponho que a definição pode ser alargada para receber outra espécie — embora os casos sejam algo diferentes. Eu não teria tido dúvidas se Lepas aurita e vittata tivessem sido feitas em dois géneros, pois então, quando fundidos, o mais antigo dos dois teria sido mantido. Certamente, colocar Conchoderma Olfers não é totalmente correto quando aplicado às duas espécies, pois essa não era a definição e opinião de Olfers. Se não tiver notícias suas, manterei Conchoderma para as duas espécies...
P.S. — Dará o seu consentimento pelo silêncio ao seguinte?
Lineu não dá tipo ao seu género Lepas, embora L. balanus venha primeiro. Vários autores antigos usaram Lepas exclusivamente para a divisão pedunculada, e o nome foi dado à família e composto em nomes subgenéricos. Ora, isto mostra que os autores antigos ligavam o nome Lepas mais particularmente à divisão pedunculada. Ora, se eu usasse Lepas para Anatifera (30/4. Anatifera e Anatifa foram usados como nomes genéricos para o que Lineu e Darwin chamaram Lepas anatifera.) livrar-me-ia da dificuldade da segunda edição de Hill e da dificuldade de Anatifera vel Anatifa. A descrição genérica de Lineu é igualmente aplicável a Anatifera e Balanus, embora este último apareça primeiro. Deve a mera precedência superar rigorosamente a opinião aparente de muitos naturalistas antigos? Quanto a usar Lepas em lugar de Balanus, não posso. Todos entenderão o que se quer dizer com Lepas Anatifera, de modo que a conveniência seria maravilhosamente assim servida. Se não tiver notícias suas, entenderei que tenho o seu consentimento.
CARTA 31. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN.
(31/1. Em "Life and Letters," I., página 392, encontra-se uma carta ao Sir J.D. Hooker do Sr. Darwin, a quem o primeiro tinha dedicado os seus "Himalayan Journals." O Sr. Darwin escreveu lá: "A sua carta, recebida esta manhã, interessou-me extremamente, e agradeço-lhe sinceramente por me contar os seus antigos pensamentos e aspirações." Segue-se a carta referida, que, a nosso pedido, o Sir Joseph nos permitiu publicar.)
Kew, 1 de março de 1854.
Agora que o meu livro (31/2. "Himalayan Journals," 2 volumes. Londres, 1854.) foi publicamente reconhecido como tendo algum valor, sinto-me ousado para lhe escrever; pois, para lhe dizer a verdade, nunca estive sem um receio de que a dedicação pudesse revelar-se um elogio muito mau, por mais gentilmente que eu soubesse que a receberia. A ideia da dedicação tem estado presente em mim desde uma data muito antiga: foi formada durante a viagem à Antártida, por amor ao seu próprio "Journal," e nunca me abandonou desde então; nem me abandonaria, creio, se nunca soubesse mais do senhor do que por relato e como autor do dito "Naturalist's Journal." Excluindo a gratificação que senti em publicar o livro, não conheço maior do que a sua gentil e calorosa aceitação da dedicação; e, se os críticos me tivessem enforcado, a dedicação teria sido a única coisa a causar-me dor real. Não tenho o desejo de assumir uma indiferença estoica perante a opinião pública, pois estou bem atento a ela, e os críticos poderiam ter-me irritado severamente, mas nunca poderiam ter-me causado o arrependimento que a associação do seu nome com um mau livro meu teria causado.
Ir-se-á rir quando lhe disser que, com o meu livro publicado, sinto que passei o meridiano da vida! Mas não sabe como, desde a minha mais tenra infância, nutri e acarinhuei o desejo de fazer uma viagem meritória num país novo, e escrever um relato tão respeitável das suas características naturais que me desse um nicho entre os exploradores científicos do globo que habito, e transmitisse o meu nome como um colaborador útil de matéria original. Uma combinação de vantagens mais raras permitiu-me obter tanto quanto me satisfaz, pois nunca desejei ser o maior entre vós, nem a rivalidade entrou nos meus pensamentos. Nenhum objetivo ulterior esteve alguma vez presente em mim nesta busca. A minha ambição está plenamente gratificada pela conclusão satisfatória da minha tarefa, e agora estou feliz por continuar a trote na Botânica até ao fim dos meus dias — colina abaixo, num certo sentido, todo o caminho. Nunca terei outro objeto semelhante para o qual trabalhar, nem sentirei a falta dele... Como está, o desejo de trinta anos está satisfeito, e agora olho para a vida de uma forma que nunca pude anteriormente. Nunca houve um passado até agora para mim. O fantasma estava sempre à vista; talvez seja apenas um "ridiculus mus" afinal, mas é suficientemente grande para mim...
(PRANCHA: T.H. HUXLEY, 1857. Foto de Maull & Polyblank, gravura de Walker & Cockerell)
(32/1. A história da vida de Huxley foi contada na íntegra na interessante biografia editada pelo Sr. Leonard Huxley. (32/2. "Life and Letters of Thomas Henry Huxley." Londres, 1900.) Os leitores deste livro e da "Life and Letters of Charles Darwin" obtêm uma compreensão da relação entre este par de amigos à qual pouco podemos acrescentar. Darwin compreendia plenamente a força essencial da natureza do Sr. Huxley; conhecia, como todo o mundo agora conhece, o delicado sentido de honra do seu amigo, e estava sempre inclinado a apoiar-se na sua orientação em questões práticas, como num irmão mais velho. Da habilidade dialética e literária do Sr. Huxley, ele era um admirador entusiasta, e nunca esqueceu o que as suas teorias deviam aos poderes combativos do seu "agente geral". (32/3. Ibid., I., página 171.) A avaliação de Darwin por Huxley é muito interessante: ele valorizava-o ao mais alto nível pelo que era tão notavelmente característico do próprio Darwin — o amor pela verdade. Ele falou de encontrar nele "algo maior do que a humanidade comum — uma simplicidade e franqueza de propósito inigualáveis — um altruísmo sublime". (32/4. Ibid., II., página 94. Huxley está a falar da morte de Gordon, e continua: "De todas as pessoas que encontrei na minha vida, ele e Darwin são os dois em quem encontrei", etc.) O mesmo ponto de vista transparece na avaliação de Huxley sobre o poder mental de Darwin. (32/5. Ibid., II., página 39.) "Ele tinha uma inteligência clara e rápida, uma grande memória, uma imaginação vívida, e o que constituía a sua grandeza era a estrita subordinação de tudo isto ao seu amor pela verdade." Isto, como análise do equipamento mental de Darwin, parece-nos incompleto, embora não pretendamos corrigi-lo. Não pensamos que seja possível dissecar e rotular as qualidades complexas que compõem aquilo que todos reconhecemos como génio. Mas, se nos atrevermos a criticar, diríamos que as palavras do Sr. Huxley não parecem cobrir aquele poder supremo de ver e pensar no que o resto do mundo tinha ignorado, o que era uma das características mais marcantes de Darwin. Para lançar luz sobre a qualidade da sua amizade, damos abaixo uma carta que já apareceu na "Life and Letters of T.H. Huxley", I., página 366. O Sr. L. Huxley dá um relato do colapso na saúde que convenceu os amigos de Huxley de que era necessário encontrar descanso e alívio da ansiedade para ele. O Sr. L. Huxley observa apropriadamente sobre a carta: "É difícil dizer se faz mais honra a quem a enviou ou a quem a recebeu." (32/6. "Life" de Huxley, I., página 366. O Sr. Darwin deixou ao Sr. Huxley um legado de 1.000 libras, "como um pequeno memorial da minha afeição e respeito de toda uma vida por ele".)
CARTA 32. PARA T.H. HUXLEY. Down, 23 de abril de 1873.
Meu caro Huxley
Fui solicitado por alguns dos seus amigos (dezoito em número) a informar-lhe que depositaram, através do Robarts, Lubbock & Co., a soma de 2.100 libras na sua conta bancária. Fizemo-lo para lhe permitir obter o descanso completo que possa necessitar para o restabelecimento da sua saúde; e, ao fazê-lo, estamos convencidos de que agimos em prol do interesse público, bem como de acordo com os nossos desejos mais fervorosos. Deixe-me assegurar-lhe que somos todos seus amigos pessoais calorosos e que não há entre nós um estranho ou mero conhecido. Se pudesse ter ouvido o que foi dito, ou se pudesse ter lido o que era, como acredito, o nosso pensamento mais íntimo, saberia que todos sentimos por si o que sentiríamos por um irmão honrado e muito amado. Tenho a certeza de que retribuirá este sentimento e, portanto, ficará feliz por nos dar a oportunidade de o ajudar em alguma medida, pois isso será uma felicidade para nós até ao último dia das nossas vidas. Deixe-me acrescentar que o nosso plano ocorreu a vários dos seus amigos quase ao mesmo tempo e de forma bastante independente uns dos outros.
Meu caro Huxley, Seu amigo afetuoso, CHARLES DARWIN.
CARTA 33. PARA T.H. HUXLEY.
(33/1. A carta seguinte é uma das primeiras da longa série dirigida ao Sr. Huxley.)
Down, 23 de abril [1854].
Meu caro Senhor
Separei todos os espécimes que pensei que poderiam, por qualquer possibilidade, ser de alguma utilidade para si; mas não os examinei e não sei em que estado se encontram, mas ficaria muito satisfeito se fossem da menor utilidade para si. Junto um catálogo de habitats: pensei que as minhas notas se revelariam de maior utilidade. Copiei os poucos pontos que talvez não fossem aparentes em espécimes preservados. O frasco irá para o Sr. Gray na próxima quinta-feira pelo nosso transportador semanal.
Estou muito grato pelo seu artigo sobre os Moluscos (33/2. O artigo de Huxley é "On the Morphology of the Cephalous Mollusca, etc." ("Phil. Trans. R. Soc." Volume 143, Parte I., 1853, página 29.)); li-o todo com muito interesse: mas seria ridículo da minha parte fazer quaisquer observações sobre um assunto no qual sou tão completamente ignorante; mas posso ver a sua elevada importância. A descoberta do tipo ou "ideia" (33/3. Huxley define o seu uso da palavra "arquétipo" na página 50: "Tudo o que quero dizer é a conceção de uma forma que corporiza as proposições mais gerais que podem ser afirmadas a respeito dos Moluscos Cefálicos, mantendo-se na mesma relação para com eles que o diagrama para um teorema geométrico, e como ele, de uma só vez, imaginário e verdadeiro.") (no seu sentido, pois detesto a palavra tal como usada por Owen, Agassiz & Co.) de cada grande classe, não posso duvidar, é um dos fins mais elevados da História Natural; e certamente o mais interessante para quem a elabora. Várias das suas observações interessaram-me: estou, contudo, surpreendido com o que diz versus "anamorfismo" (33/4. A passagem referida está na página 63: "Se, contudo, todos os Moluscos Cefálicos... forem apenas modificações por excesso ou defeito das partes de um arquétipo definido, então, penso que se segue como consequência necessária que nenhum anamorfismo ocorre neste grupo. Não há progressão de um tipo inferior para um superior, mas meramente uma evolução mais ou menos completa de um tipo." Huxley parece usar o termo anamorfismo num sentido diferente do de alguns escritores. Assim, no "Dictionnaire des Termes Usités dans les Sciences Naturelles" de Jourdan, 1834, é definido como a produção de uma forma atípica, quer por detenção ou por excesso de desenvolvimento.), eu teria pensado que o arquétipo na imaginação era sempre, em algum grau, embrionário, e, portanto, capaz [de] e geralmente a sofrer um maior desenvolvimento.
Não é um facto extraordinário a grande diferença na posição do coração em diferentes espécies de Cleodora? (33/5. Um género de Pterópodes.) Sou um crente de que quando qualquer parte, geralmente constante, difere consideravelmente em diferentes espécies afins, será encontrada em algum grau variável dentro dos limites da mesma espécie. Assim, esperaria que, se um grande número de espécimes de algumas das espécies de Cleodora tivesse sido examinado com este objetivo, a posição do coração em algumas das espécies teria sido considerada variável. Pode ajudar-me com quaisquer factos análogos?
Estou muito satisfeito por saber que não abandonou a ideia de comentar o meu volume sobre cirrípedes. Tudo o que vi desde então confirma tudo o que é de qualquer importância declarado nesse volume — especialmente, fui capaz de confirmar rigorosamente numa espécie anómala, pelas provas mais claras, que o conteúdo celular real dos tubos ovarianos, pela ação semelhante à de uma glândula de uma porção modificada do tubo contínuo, passa para a matéria cimentante: de facto, os cirrípedes fazem cola a partir dos seus próprios ovos não formados! (33/6. Sobre o erro de Darwin neste ponto, ver "Life and Letters", III., página 2.)
Por favor, acredite em mim, sinceramente seu, C. DARWIN.
Contei o caso acima a Milne Edwards, e vi que ele não depositou a menor crença nele.
CARTA 34. PARA T.H. HUXLEY. Down, 2 de setembro [1854].
O meu segundo volume sobre os eternos percebes foi finalmente publicado (34/1. "A Monograph of the Sub-class Cirripedia. II. The Balanidae, the Verrucidae." Ray Society, 1854.), e terei o prazer de lhe enviar uma cópia para Jermyn Street na próxima quinta-feira, pois tenho de enviar outro livro nessa altura para o Sr. Baily.
E agora quero pedir-lhe um favor — nomeadamente, responder-me a duas perguntas. Como está tão perfeitamente familiarizado com os feitos, etc., de todos os naturalistas continentais, quero que me diga alguns nomes daqueles que pensa que se interessariam pelo meu volume. Não quero dizer no sentido de fazer publicidade ao meu livro, mas não quero enviar cópias àqueles que, devido a outros estudos, idade, etc., o veriam como papel inutilizado. Pela assistência que me prestaram, considero-me obrigado a enviar cópias a: (1) Bosquet de Maestricht, (2) Milne Edwards, (3) Dana, (4) Agassiz, (5) Muller, (6) W. Dunker de Hesse Cassel. Agora tenho cinco ou seis outras cópias para distribuir, e seria tão amável a ponto de me ajudar? Tinha pensado em Von Siebold, Loven, d'Orbigny, Kolliker, Sars, Kroyer, etc., mas não sei quase nada sobre nenhum deles.
A minha segunda pergunta, é meramente uma questão de sorte se consegue responder — é se posso enviar estes livros ou qualquer um deles (em alguns casos acompanhados de espécimes), através da Royal Society: tenho alguma ideia vaga de ter ouvido dizer que a Royal Society por vezes ajudava os membros dessa forma.
Acabei de ler a sua crítica aos "Vestiges" (34/2. No seu capítulo sobre a "Reception of the Origin of Species" ("Life and Letters", II., páginas 188-9), o Sr. Huxley escreveu: "e a única crítica sobre a qual tenho remorsos de consciência, com base num salvajismo desnecessário, é uma que escrevi sobre os 'Vestiges'." O artigo está na "British and Foreign Medico-chirurgical Review", XIII., 1854, página 425. O "grande homem" referido abaixo é Owen: ver a crítica de Huxley, página 439, e a "Life" de Huxley, I., página 94.), e a forma como lida com um grande Professor é realmente requintada e inimitável. Fiquei extremamente interessado noutras partes, e, para mim, é incomparavelmente a melhor crítica que li sobre os "Vestiges"; mas não posso deixar de pensar que é um tanto duro para com o pobre autor. Devo pensar que tal livro, se não faz outro bem, espalha o gosto pela Ciência Natural.
Mas talvez eu não seja um juiz imparcial, pois sou quase tão pouco ortodoxo sobre espécies como o próprio "Vestiges", embora espere que não tão pouco filosófico. Como analisa magnificamente a sua noção sobre a lei. Não sei quando li uma crítica que me interessasse tanto. Pelos céus, como o sangue deve ter jorrado para os capilares quando um certo grande homem (a quem, com todos os seus defeitos, não posso deixar de apreciar) a leu!
Lamento um pouco que não pense mais nas fases embriológicas de Agassiz (34/3. Ver "Origin", Edição VI., página 310: também Carta 40, Nota.), pois embora eu visse quão excessivamente fraca era a evidência, fui levado a ter esperança na sua veracidade.
CARTA 35. PARA J.D. HOOKER. Down [1854].
Relativamente a "superioridade" e "inferioridade", as minhas ideias são apenas ecléticas e não muito claras. Parece-me que um desejo inevitável de comparar todos os animais com os homens, como supremos, causa alguma confusão; e penso que nada além de alguma comparação vaga desse tipo é pretendido, ou talvez seja sequer possível, quando a questão é se dois reinos como os Articulata ou Mollusca são os superiores. Dentro do mesmo reino, estou inclinado a pensar que "superior" significa habitualmente a forma que sofreu mais "diferenciação morfológica" a partir do embrião ou arquétipo comum da classe; mas depois, de vez em quando, ficamos incomodados (como Milne Edwards observou) pelo "desenvolvimento retrógrado", isto é, o animal maduro tendo órgãos menos numerosos e menos importantes do que o seu próprio embrião. A especialização de partes para diferentes funções, ou "a divisão do trabalho fisiológico" (35/1. Um lapso de escrita para "divisão fisiológica do trabalho.") de Milne Edwards concorda exatamente (e para mim é a melhor definição, quando pode ser aplicada) com o que afirma ser a sua ideia em relação às plantas. Não penso que os zoólogos concordem em quaisquer ideias definidas sobre este assunto; e as minhas ideias não são mais claras do que as dos meus irmãos.
CARTA 36. PARA J.D. HOOKER. Down, 2 de julho [1854].
Tenho tido a casa cheia de visitantes, e quando converso não consigo fazer absolutamente mais nada; e desde então tenho estado bastante indisposto, caso contrário teria respondido à sua carta muito antes disto, pois gosto imensamente de discutir pontos como os da sua última nota. Mas que vilão é você para despejar insultos gratuitos sobre a minha teoria ELÁSTICA: você poderia chamar à virtude de uma dama elástica, tal como à virtude de uma teoria acomodável nos seus favores. O que quer que diga, sinto que a minha teoria me dá algumas vantagens ao discutir estes pontos. Mas vamos aos negócios: mantenho as minhas notas de tal forma, a saber, em bruto, que não consigo encontrar qualquer referência; nem, no que diz respeito ao reino vegetal, me lembro distintamente de ter lido qualquer discussão sobre superioridade ou inferioridade geral, exceto Schleiden (imagino) sobre as Compositae serem as superiores. Ad. de Jussieu (36/1. "Monographie de la Famille des Malpighiacees", por Adrien de Jussieu, "Arch. du Museum", Volume III., página 1, 1843.), em "Arch. du Museum", Tome 3, discute o valor dos caracteres das flores degradadas nas Malpighiaceae, mas duvido que isto lhe interesse de todo. Mirbel em algum lugar discutiu alguma questão semelhante.
As plantas estão em enorme desvantagem no que respeita a tais discussões por não passarem por fases larvais. Não sei se consegue distinguir uma planta inferior por não-desenvolvimento de uma inferior por degradação, o que teoricamente, pelo menos, são muito distintos. Devo concordar com Forbes que um molusco pode ser superior a um animal articulado e inferior a outro; se alguém fosse perguntado qual era o superior como um todo, o Reino dos Moluscos ou o dos Articulados, eu olharia para e compararia os superiores de cada um, e não compararia os seus arquétipos (supondo que sejam conhecidos, o que não são).
Mas existem, na minha opinião, casos mais difíceis do que quaisquer a que aludimos, nomeadamente, o dos peixes — mas as minhas ideias não são suficientemente claras, e não suponho que se importasse de ouvir o que obscuramente penso sobre este assunto. No que diz respeito à minha teoria elástica, tudo o que me interessa é que organismos muito antigos (quando diferentes dos existentes) tendam a assemelhar-se às fases larvais ou embriológicas dos existentes.
Fico contente por ouvir o que diz sobre o paralelismo: sou um descrente absoluto de qualquer paralelismo que não seja mero acidente. É muito estranho, mas penso que Forbes é frequentemente bastante fantasioso; a sua "Polaridade" (36/2. Ver Carta 41, Nota.) faz-me sentir mal — é como o "magnetismo" a girar uma mesa.
Se conseguir pensar em alguém propenso a adquirir as suas "Illustrations" (36/3. "Illustrations of Himalayan Plants from Drawings made by J.F. Cathcart." Folio, 1855.), enviarei o anúncio. Se quiser completar algum número definido para ir para a impressão, colocarei o meu nome com PRAZER (e espero e acredito que confiará em mim ao dizê-lo), embora não fosse, por natureza, subscrever qualquer obra de horticultura: — aja por mim.
CARTA 37. PARA J.D. HOOKER. Down, [29 de maio], 1854.
Estou verdadeiramente muito triste por saber da sua [saúde]. Imploro-lhe que escreva o seu próprio caso — sintomas e hábitos de vida — e depois considere o seu caso como o de um estranho; e coloco-lhe a questão, se o senso comum não o ordenaria a fazer exercício mais regular e a trabalhar menos o cérebro. (N.B. Tome um banho frio e caminhe antes do pequeno-almoço.) Tenho a certeza de que a longo prazo não perderia tempo. Até ter um estômago completamente mau, não saberá o mal realmente grande que é, moralmente, fisicamente e de todas as formas. Reflita e aja resolutamente. Lembre-se de como a sua ação cardíaca perturbada indicou claramente, outrora, como a sua constituição estava sob esforço. Mas não direi mais nada — exceto que um homem é louco ao arriscar a saúde, da qual tudo, incluindo a saúde herdada dos seus filhos, depende. Não me odeie por esta lição. Realmente, não estou surpreendido por ter tido alguma dor de cabeça depois da noite de quinta-feira, pois não deve ter sido um esforço pequeno fazer um resumo de tudo o que foi dito após o jantar. O facto de estar tão ocupado foi um incómodo, pois havia várias coisas que teria gostado de ter discutido consigo. Foi certamente um jantar de primeira qualidade, e desfrutei-o imensamente, muito mais do que esperava. Muito longe de me fazer mal, as minhas visitas a Londres começaram recentemente a cair admiravelmente bem ao meu estômago; começo a pensar que a dissipação, a vida boémia, com muito clarete, é o que preciso, e o que tive durante a última visita. Vamos agir com base neste mesmo princípio, e de forma muito devassa acabámos de tirar um par de bilhetes de época para ver a Rainha abrir o Crystal Palace. (37/1. A Rainha Vitória abriu o Crystal Palace em Sydenham a 10 de junho de 1854.) Como gostaria que houvesse alguma hipótese de lá estar! A última grande coisa em que estivemos juntos correu, tenho a certeza, muito bem, e esse foi o funeral do Duque.
Viu a aula introdutória de Forbes (37/2. Edward Forbes foi nomeado para uma cátedra em Edimburgo em maio de 1854.) no "Scotsman" (emprestado por Horner)? está realmente ADMIRAVELMENTE feita, embora sem nada, talvez, muito original, o que dificilmente seria de esperar: deu-me uma opinião ainda mais elevada do que a que já tinha sobre a variedade e o polimento do seu intelecto. É, de facto, uma perda irreparável para a sociedade de história natural de Londres. Desejaria, contudo, que ele não elogiasse tanto aquele velho pau seco e castanho Jameson. No geral, para o meu gosto, é muito a melhor aula introdutória que já li. Ouvi dizer que o seu discurso de aniversário é muito bom.
Adios, meu caro Hooker; seja sábio e bom, e cuide do seu estômago, dentro do qual, como sei muito bem, residem o intelecto, a consciência, o temperamento e as afeições.
CARTA 38. PARA J.D. HOOKER. Down, 2 de dezembro [1854].
Você é um belo sujeito para falar de ter medo de agradecer no jantar da medalha. (38/1. A medalha Real foi dada ao Sir Joseph em 1854.) Ouvi dizer que foi decididamente o melhor discurso da noite, feito "com perfeita fluidez, clareza e domínio da linguagem", e que demonstrou grande autocontrolo: foi este último a coragem proverbial e desesperada de um cobarde? Mas você é um belo sujeito para ter tanto medo e depois fazer o discurso brilhante. Que muitos desses calvários tenha você de passar! Não sei se Sir William [Hooker] ficaria contente com o discurso de Lord Rosse (38/2. Presidente da Royal Society 1848-54.) ao entregar-lhe a medalha; mas estou muito satisfeito com ele, e realmente a lista do que fez foi, penso eu, esplêndida. Que pena ele ter estragado metade ao não se ter dado ao trabalho de a ler primeiro. O pobre Hofmann (38/3. August Wilhelm Hofmann, o outro medalhado de 1854.) saiu-se ainda pior a este respeito. É realmente quase insolência arrogante contra todos os que não são astrónomos.
Na manhã seguinte, estive numa festa de pequeno-almoço muito agradável em casa de Sir R. Inglis. (38/4. Sir Robert Inglis, Presidente da Associação Britânica em 1847. Aparentemente Darwin esteve presente na reunião da tarde, mas não no jantar.) Recebi, com muitos agradecimentos, os géneros aberrantes; mas não tive tempo de os considerar, nem as suas observações sobre a geografia botânica australiana.
CARTA 39. PARA T.H. HUXLEY.
(39/1. A carta seguinte mostra o interesse de Darwin na adjudicação das medalhas Reais. O ano de 1855 foi o último durante o qual serviu no Conselho da Sociedade. Tinha servido anteriormente em 1849-50.)
Down, 31 de março de 1855.
Refleti e indaguei muito sobre Westwood, e realmente penso que ele merece amplamente a medalha de ouro. Mas, caso você pense em alguém com uma reivindicação superior, estou perfeitamente disposto a desistir. Na verdade, suponho que, a menos que eu consiga alguém para apoiar, não posso propô-lo.
Você teria a gentileza de ler o anexo e devolvê-lo para mim? Devo enviá-lo a Bell? Isto é, a menos que você objete ou me convença do contrário. Eu havia pensado em Hancock, um trabalhador de classe superior; mas, até onde posso avaliar, ele ainda não fez tanto quanto Westwood. Posso declarar que li toda a "Classificação" (39/2. Possivelmente "Introduction to the Modern Classification of Insects" (1839) de Westwood.) antes de fazer parte do Conselho, e sempre pensei no assunto das medalhas. Temo que minhas observações sejam um pouco longas, mas, para lhe fazer justiça, não pude encurtá-las muito. Por favor, diga-me francamente se o anexo é o tipo de coisa adequada, pois, embora eu tenha feito parte do Conselho da Royal, nunca compareci a nenhuma reunião, devido à má saúde.
Com relação à medalha Copley (39/3. A Medalha Copley foi concedida a Lyell em 1858.), tenho um forte sentimento de que Lyell tem uma reivindicação elevada, mas como ele já recebeu a Medalha Real, presumo que seria considerado questionável propô-lo; e, como pretendo (se você não objetar e me converter) propor W. para a Real, pareceria, é claro, intoleravelmente presunçoso propor também para a Copley.
CARTA 40. PARA T.H. HUXLEY. Down, 10 de junho de 1855.
Você comparecerá ao Conselho da Royal Society na próxima quinta-feira? Não tenho passado muito bem ultimamente e duvido que possa comparecer; e se eu pudesse fazer qualquer coisa (por favor, oculte este fato escandaloso), quero ir ao Crystal Palace para encontrar os Horners, os Lyells e um grupo. Então, quero saber se você falará por mim, com a maior ênfase, por Barrande. Você sabe melhor do que eu sobre seus admiráveis trabalhos sobre o desenvolvimento de trilobitas e seu trabalho mais importante sobre sua Zona Inferior ou Primordial. Anexo uma nota antiga de Lyell para mostrar o que ele pensa. Com relação a Dana, a quem também propus, você conhece bem seus méritos. Posso falar muito bem de seu trabalho de classificação sobre crustáceos e sua Distribuição Geográfica. Sua Geologia Vulcânica é admirável, e ele fez muitos bons trabalhos sobre recifes de coral.
Se você comparecer, não responda a isto; mas, se não puder estar no Conselho, por favor, informe-me, e suponho que deverei, se puder, comparecer.
Obrigado pelo resumo de sua palestra na Royal Institution, que me interessou muito e me entristeceu um pouco, pois eu esperava que as coisas tivessem sido, em um grau ligeiro, de outra forma. (40/1. "On certain Zoological Arguments commonly adduced in favour of the hypothesis of the Progressive Development of Animal Life", Discurso, sexta-feira, 20 de abril de 1855: "Proceedings R.I." (1855). Também publicado em "Huxley's Scientific Memoirs". O palestrante concentrou-se principalmente no argumento de Agassiz, que ele resume da seguinte forma: "Peixes homocercos têm em seu estado embrionário caudas heterocercas; portanto, a heterocercaria é, até certo ponto, uma marca de um estado embrionário em comparação com a homocercaria, e os peixes heterocercos mais antigos são embrionários em comparação com os homocercos posteriores." Ele mostra que os fatos não apoiam essa visão e conclui, de modo geral, "que não há paralelo real entre as formas sucessivas assumidas no desenvolvimento da vida do indivíduo atualmente e aquelas que apareceram em diferentes épocas no passado".) Ouvi dizer há algum tempo que, em breve, eu poderia parabenizá-lo por se tornar um homem casado. (40/2. O Sr. Huxley casou-se em 21 de julho de 1855.) Pela minha própria experiência de uns quinze anos, tenho certeza de que não há nada neste vasto mundo que mereça mais congratulações, e sincera e cordialmente o parabenizo, desejando-lhe muitos anos de tanta felicidade quanto este mundo pode oferecer.
CARTA 41. PARA J.D. HOOKER.
(41/1. A carta a seguir ilustra o trabalho de Darwin sobre gêneros aberrantes. Na "Origem", Edição I, página 429, ele escreveu: "Quanto mais aberrante for qualquer forma, maior deve ser o número de formas de conexão que, na minha teoria, foram exterminadas e totalmente perdidas. E temos algumas evidências de formas aberrantes que sofreram severamente com a extinção, pois geralmente são representadas por um número extremamente pequeno de espécies; e as espécies que existem são geralmente muito distintas umas das outras, o que novamente implica extinção.")
Down, 15 de novembro [1855?].
No Catálogo de Curculionidae de Schoenherr (41/2. "Genera et Species Curculionidum." (C.J. Schoenherr: Paris, 1833-38.)), as 6.717 espécies apresentam uma média de 10,17 por gênero. Waterhouse (que conhece bem o grupo e que publicou sobre a escassez de espécies em gêneros aberrantes) me deu uma lista de 62 gêneros aberrantes, e estes têm uma média de 7,6 espécies; e se um único gênero for removido (e que ainda não posso acreditar que deva ser considerado aberrante), então os 61 gêneros aberrantes teriam apenas 4,91 espécies em média. Testei esses resultados de outra maneira. Encontrei em Schoenherr 9 famílias, incluindo apenas 11 gêneros, e esses gêneros (9 dos quais estavam na lista de Waterhouse) incluíam apenas 3,36 espécies em média.
Este último resultado levou-me ao "Vegetable Kingdom" de Lindley, no qual descobri (excluindo talófitas e acrógenas) que os gêneros incluem cada um 10,46 espécies (quão próximo, por acaso, dos Curculionidae), e encontro 21 ordens incluindo gêneros únicos, e esses 21 gêneros têm em média 7,95 espécies; mas se Lindley estiver certo de que Erythroxylon (com suas 75 espécies) deveria estar entre as Malpighiaceae, então a média seria de apenas 4,6 por gênero.
Mas aqui surge, ao que me parece, uma coisa estranha (espero não cansá-lo demais). Existem 29 outras ordens, cada uma com 2 gêneros, e esses 58 gêneros têm em média 15,07 espécies: esse grande número deve-se aos 10 gêneros nas Smilaceae, Salicaceae (com 220 espécies), Begoniaceae, Balsaminaceae, Grossulariaceae, sem as quais os 48 gêneros restantes teriam em média apenas 5,91 espécies.
Este caso das ordens com apenas 2 gêneros, apesar de terem 15,07 espécies cada, parece-me muito intrigante e quase derruba a conclusão dedutível das ordens com gêneros únicos.
Fui mais longe e testei as alianças com 1, 2 e 3 ordens; e nesses casos descobri que tanto os gêneros são poucos em cada aliança quanto as espécies são menos do que a média de todo o reino em cada gênero.
Tudo isso me divertiu, mas suponho que você vai zombar de mim e me dizer para ficar com as minhas cracas. A propósito, você concorda comigo que às vezes a gente fica desanimado — por exemplo, quando a teoria e os fatos não se harmonizam; mas o que me parece ainda pior, e me faz desesperar, é quando vejo, a partir da mesma grande classe de fatos, homens como Barrande deduzirem conclusões, como as de suas "Colônias" (41/3. Lyell refere-se brevemente ao trabalho de Barrande na Boêmia em uma carta (31 de agosto de 1856) a Fleming ("Life of Sir Charles Lyell", II, página 225): "Ele me explicou no local sua descoberta notável de uma 'colônia' de fósseis do Siluriano Superior, a 3.400 pés de profundidade, em meio ao grupo do Siluriano Inferior. Isso fez muito barulho, mas acho que posso explicar a suposta anomalia através de, etc." (Ver Carta 40, Nota).) e sua concordância com as linhas de Elevação de E. de Beaumont, ou homens como Forbes com sua Polaridade (41/4. Edward Forbes "On the Manifestation of Polarity in the Distribution of Organised Beings in Time" ("Edinburgh New Phil. Journal", Volume LVII, 1854, página 332). O autor aponta que "o desenvolvimento máximo de tipos genéricos durante o período Paleozoico ocorreu durante suas épocas anteriores; que durante o período Neozoico, em direção aos seus períodos posteriores". Assim, os dois períodos de atividade são concebidos como estando nos dois polos opostos de uma esfera que de alguma forma representa para ele o sistema da Natureza.); não tenho dúvida de que, antes que muitos meses se passem, estarei desejando as espécies mais desonestas como sendo mais honestas do que as teorias mais honestas. Mais uma observação. Se você sentir algum interesse, ou puder conseguir que outra pessoa se interesse pela questão dos gêneros aberrantes, acho que a maneira mais interessante seria pegar gêneros aberrantes em qualquer grande família natural e testar o número médio de espécies por gênero nessa família.
Como eu gostaria que vivêssemos perto um do outro! Eu gostaria tanto de conversar com você sobre distribuição geográfica, em suas maiores características. Tenho tentado, a partir das produções terrestres, ter uma visão muito geral do mundo, e gostaria tanto de ver até que ponto ela concorda com as plantas.
CARTA 42. PARA A SRA. LYELL.
(42/1. A Sra. Lyell é filha do falecido Sr. Leonard Horner e viúva do Tenente-Coronel Lyell, irmão de Sir Charles.)
Down, 26 de janeiro [1856].
Ficarei muito feliz em ser de qualquer utilidade para você em relação aos besouros. Mas, primeiro, deixe-me agradecer por sua nota gentil e oferta de espécimes para meus filhos. Meus meninos são todos caçadores de borboletas; e todos os jovens e ardentes lepidopteristas desprezam, do fundo de suas almas, os coleopteristas.
O plano mais simples para o seu objetivo e para o bem da entomologia, eu diria, seria oferecer a coleção ao Dr. J.E. Gray, do British Museum, com a condição de que um conjunto perfeito fosse feito para você. Se a coleção fosse minimamente valiosa, acho que ele ficaria muito feliz em fazê-lo. Se valeria a pena fazer um terceiro conjunto, dependeria do valor da coleção. Não suponho que você espere que os insetos sejam nomeados, pois esse seria um trabalho muito sério. Se você não aprovar este esquema, acho muito provável que o Sr. Waterhouse considere que vale a pena preparar uma série para você, mantendo duplicatas para si mesmo; mas digo isso apenas como uma aposta. Você pode confiar implicitamente no Sr. Waterhouse, o que temo, conforme [ilegível] vai, ser mais do que se pode dizer de todos os entomologistas. Presumo que, se você pensasse em qualquer um dos esquemas, Sir Charles Lyell poderia facilmente ver os senhores e providenciar isso; mas, se não, eu poderia fazê-lo quando vier à cidade, o que, no entanto, não será antes de três ou quatro semanas.
Com relação a dar aos seus filhos um gosto pela História Natural, arriscarei uma observação — a saber, que dar-lhes espécimes, em minha opinião, tenderia a destruir esse gosto. Os jovens devem ser eles próprios colecionadores para adquirir gosto; e se eu tivesse uma coleção de lepidópteros ingleses, eu seria sistematicamente muito avarento e não daria aos meus meninos meia dúzia de borboletas por ano. Seu filho mais velho tem a testa de um observador, se houver o mínimo de verdade na frenologia. Estamos todos melhores, mas temos sido ultimamente um lar pobre.
CARTA 43. PARA J.D. HOOKER. Down [1855].
Eu teria menos escrúpulos em incomodá-lo se tivesse qualquer confiança no que meu trabalho se tornará. Às vezes penso que será bom, outras vezes realmente sinto tanta vergonha de mim mesmo quanto o autor dos "Vestiges" deveria sentir de si mesmo. Sei bem que sua bondade e amizade o fariam fazer muito por mim, mas isso não é razão para que eu seja irracional. Não posso e não devo esquecer que todo o seu tempo é empregado em um trabalho certamente valioso. É supérfluo dizer que gosto imensamente de escrever para você e que suas respostas são da maior utilidade possível para mim. Devolvo com muitos agradecimentos a prova sobre Aquilegia (43/1. Isso parece referir-se à discussão sobre o gênero Aquilegia na "Flora Indica" de Hooker e Thomson, 1855, Volume I, Parte Sistemática, página 44. A conclusão dos autores é que "todas as formas europeias e muitas das siberianas geralmente reconhecidas pertencem a uma espécie muito variável". Com relação aos cirrípedes, o Sr. Darwin falou de "certas diferenças apenas perceptíveis que se misturam e constituem variedades e não espécies" ("Life and Letters", I, página 379).): ela me interessou muito. É exatamente como minhas cracas; mas, para meu propósito particular, infelizmente, tanto Kolreuter quanto Gartner trabalharam principalmente em A. vulgaris, canadensis e atro-purpurea, e essas são exatamente as espécies que você parece não ter estudado. N.B. Por que você não me deixa comprar a Flora Indiana? Você é magnífico demais.
Agora, para uma curta cavalgada no meu cavalinho (atualmente), isto é, gêneros aberrantes. O que você diz em suas observações sobre Lepidodendron parece exatamente o caso que eu quero, para dar algum tipo de prova do que ambos acreditamos, isto é, como os grupos se tornaram anômalos ou aberrantes; e penso que algum tipo de prova é necessária, pois não acredito que muitos naturalistas admitam nossa visão.
Obrigado pelo aviso sobre grandes gêneros anômalos que primeiro chamam a atenção. Não concordo totalmente com sua "grave objeção a todo o processo", que é "que se você multiplicar as espécies anômalas por 100, e dividir as normais pelo mesmo, você inverterá os nomes...". Pois, para dar um exemplo, Ornithorhynchus e Echidna não seriam menos aberrantes se cada um tivesse uma dúzia (não digo 100, porque não temos tais casos no reino animal) de espécies em vez de uma. O que realmente tornaria esses dois gêneros menos anômalos seria a criação de muitos gêneros e subfamílias ao redor e irradiando deles por todos os lados. Assim, se a Austrália fosse destruída, Didelphys na América do Sul seria maravilhosamente anômalo (este é o seu caso com as Proteaceae), enquanto agora existem tantos gêneros e pequenas subfamílias de Marsupiata que o grupo não pode ser chamado de aberrante ou anômalo. Sagitta (e a tesourinha) é um dos animais mais anômalos do mundo, e nem um pouco menos porque existem uma dúzia de espécies. Agora, meu ponto (que, penso eu, é um ponto de vista ligeiramente novo) é: se é a extinção que tornou o gênero anômalo, como regra geral, as mesmas causas de extinção permitiriam a existência de apenas algumas espécies nesses gêneros. Sempre que nos encontrarmos (o que será no dia 23 [no] Clube), gostaria muito de ouvir se isso lhe parece sensato. Sinto-me o tempo todo nas bordas de um círculo de truísmo. É claro que eu não poderia pensar em tal pedido, mas você possivelmente poderia: — se Bentham não achar todo o assunto um lixo, peça-lhe um dia para escolher a dúzia de gêneros mais anômalos nas Leguminosae, ou qualquer grande ordem da qual haja uma monografia pela qual eu possa calcular a porcentagem comum de espécies por gênero. Estou mais ansioso, pois quanto mais pergunto, menos são os casos em que isso pode ser feito. Não pode ser feito em aves, ou, receio, em mamíferos. Duvido muito que em qualquer outra classe de insetos [além dos Curculionidae].
Vi seu belo aviso sobre o pobre Forbes no "Gardeners' Chronicle", e vejo no "Athenaeum" um aviso de reunião no último sábado de seus amigos. É claro que desejarei contribuir assim que possível para qualquer memorial...
Acabei de testar na prática o que o desuso faz na redução de partes. Fiz [esqueletos] de pato selvagem e domesticado (oh, o cheiro de pato bem cozido e curado!), e descobri que o pato domesticado deveria, de acordo com a escala do protótipo selvagem, ter suas duas asas pesando 360 grãos; mas tem apenas 317, ou 43 grãos a menos, ou 1/7 do peso de suas próprias duas asas. Isso me parece bastante interessante. (43/2. Sobre as conclusões extraídas dessas pesquisas, ver o Sr. Platt Ball, "The Effects of Use and Disuse" (Nature Series), 1890, página 55. Com relação aos seus pombos, Darwin escreveu, em novembro de 1855: "Eu os amo a tal ponto que não suporto matá-los e esqueleto-los".)
P.S. — Não sei se você achará que vale a pena ler isto. Trabalhei nisso desde que escrevi minha carta e tabulei tudo.
21 ordens com 1 gênero, tendo 7,95 espécies (ou 4,6?).
29 ordens com 2 gêneros, tendo 15,05 espécies em média.
23 ordens cada uma com 3 gêneros, e esses gêneros incluem em média 8,2 espécies.
20 ordens cada uma com 4 gêneros, e esses gêneros incluem em média 12,2 espécies.
27 ordens cada uma com mais de 50 gêneros (ao todo 4716 gêneros), e esses gêneros têm em média 9,97 espécies.
A partir disso, concluo que, quer haja muitos ou poucos gêneros em uma ordem, o número de espécies em um gênero não é muito afetado; mas talvez quando [houver] apenas um gênero em uma ordem ele será afetado, e isso dependerá se o [gênero] Erythroxylon for transformado em uma família.
CARTA 44. PARA J.D. HOOKER. Down, 8 de abril [1856].
Fiquei particularmente feliz em receber seu esplêndido elogio a Lindley. Seu nome esteve ultimamente passando pela minha cabeça, e eu esperava que Miers o tivesse proposto para a medalha Real. Concordo inteiramente que a Copley (44/1. O falecido Professor Lindley nunca obteve a honra da medalha Copley. A medalha Real foi concedida a ele em 1857.) é mais apropriada, e arrisco dizer que ele não teria valorizado a Real. Ao folhear muitos livros de botânica e consultar frequentemente o "Vegetable Kingdom", eu havia (ignorante como sou) formado a mais alta opinião de suas reivindicações como botânico. Se Sharpey defendê-lo fortemente, teremos alguma chance; mas as ciências naturais estão apenas fracamente representadas no Conselho. Sir P. Egerton, arrisco dizer, seria um defensor forte dele. Você sabe que Bell está fora. Agora, minha única dúvida é, e espero que você considere isso, que sendo as ciências naturais fracas no Conselho, e (imagino) o homem mais poderoso do Conselho, o Cel. S[abine], sendo fortemente contra Lindley, se teremos alguma chance de sucesso. Seria tão fácil nomear algum homem eminente cujo nome fosse bem conhecido por todos os físicos. Lindley ouviria sobre ser proposto para a Copley e não ter sucesso, e desgostaria disso? Não seria melhor, sob esse ponto de vista, propô-lo para a Real? Pense nisso. Além disso, se Lindley não for proposto para a Real, temo que ambas as medalhas Reais iriam [para] físicos; pois eu, por um, não gostaria de propor outro zoólogo, embora Hancock fosse um homem muito bom, e imagino que haveria um sentimento contra medalhas para dois botânicos. Mas, para qualquer coisa que Lindley seja proposto, farei o meu melhor. Conversaremos sobre isso aqui.
CARTA 45. PARA J.D. HOOKER. Down, 9 de maio [1856].
...Com relação a Huxley, eu estava prestes a falar com Crawford e Strezlecki (que estarão no Comitê do Athenaeum) quando me lembrei de como Owen pareceria e o que ele diria. Não consegue imaginá-lo, com voz lenta e suave, perguntando: "O Sr. Crawford me dirá o que o Sr. Huxley fez, merecendo esta honra? Só sei que ele difere de, e contesta a autoridade de Cuvier, Ehrenberg e Agassiz como não tendo peso algum." E quando comecei a dizer ao Sr. Crawford o que falar, fiquei perplexo, e só pude encaminhá-lo para alguns artigos excelentes no "Phil. Trans.", pelos quais a medalha havia sido concedida. Mas duvido, com uma facção oponente, se isso seria considerado suficiente, pois acredito que o mérito científico real não é considerado suficiente, sem que a pessoa seja geralmente bem conhecida. Agora quero ouvir o que você pensa deliberadamente sobre isso: seria ruim tê-lo proposto e depois rejeitado; e Owen é muito poderoso.
CARTA 46. PARA J.D. HOOKER. Down [1856].
Recebi as Conferências e li-as. (46/1. A referência é presumivelmente às Conferências da Royal Institution dadas em 1854-56. Aquelas que vimos — nomeadamente, as reimpressas nos "Scientific Memoirs", Volume I. — "On the Common Plan of Animal Form", página 281; "On certain Zoological Arguments, etc." página 300; "On Natural History as Knowledge, Discipline, and Power", página 305, não nos parecem conter nada que possa ofender; mas o ataque de Falconer no "Ann. and Mag. of Nat. Hist." de junho de 1856, à última palestra mencionada, mostra um sentimento forte. Uma resposta do Sr. Huxley apareceu no número de julho do mesmo periódico. A discussão mais herética de um ponto de vista moderno está na página 311, onde ele pergunta como é concebível que as cores brilhantes das borboletas e conchas ou as formas elegantes dos Foraminíferos possam possivelmente ser de utilidade aos seus possuidores; e é isto que impressionou especialmente Darwin, a julgar pelas notas a lápis na sua cópia da Conferência.) Embora eu acredite, tanto quanto vai o meu conhecimento, que Huxley tem razão, penso que o seu tom é demasiado veemente, e aventurei-me a dizer isso numa nota a Huxley. Não tinha pensado nestas conferências em relação ao Athenaeum (46/2. O Sr. Huxley foi eleito em 1858 para o Athenaeum Club ao abrigo da Regra 2, que prevê a eleição anual de "um certo número de pessoas de eminência distinta na ciência, literatura ou artes, ou por serviços públicos."), mas estou inclinado a concordar inteiramente consigo, e que seria melhor fazermos uma pausa antes que algo seja dito... (N.B. Achei Falconer muito indignado com a maneira pela qual Huxley tratou Cuvier nas suas conferências da Royal Institution; e eu disse isso gentilmente a Huxley.) Penso que seria melhor não fazermos nada: tentar seriamente levar um grande naturalista para o Athenaeum e falhar é muito pior do que não fazer nada.
Quão estranho, engraçado e vergonhoso que quase todos (Faraday e Sir J. Herschel, pelo menos, são exceções) os nossos grandes homens estejam em conflitos em dísticos; nunca me tinha ocorrido antes...
CARTA 47. C. LYELL PARA CHARLES DARWIN.
(47/1. Em "Life and Letters", II., página 72, é dada uma carta (16 de junho de 1856) a Lyell, na qual Darwin exala a sua indignação sobre os "extensionistas" que criaram continentes ad libitum para satisfazer a conveniência das suas teorias. Na página 74, uma declaração mais completa das suas opiniões é dada numa carta datada de 25 de junho. Não vimos a resposta de Lyell a isto, mas a sua resposta à carta de Darwin de 16 de junho está presente, e é aqui impressa pela primeira vez.)
53, Harley Street, Londres, 17 de junho de 1856.
Admiro-me de não ter mencionado também o artigo de D. Sharpe (47/2. "On the Last Elevation of the Alps, etc." ("Quart. Journ. Geol. Soc." Volume XII., 1856, página 102.), recém-publicado, pelo qual os Alpes foram submersos até 9.000 pés da sua atual elevação acima do mar no período Glacial e depois, desde então, erguidos novamente. Sem admitir isto, provavelmente transportaria os blocos erráticos alpinos para o Jura por correntes marinhas, e, se assim for, faria dos Alpes e do Jura ilhas no mar glacial. E não faria a teoria Glacial, como agora muito geralmente entendida, submergir tanta parte da Europa quanto eu fiz no meu mapa original da Europa, quando simplesmente expressei toda a área que em algum momento ou outro esteve debaixo de água desde o início do período Eoceno? Quase suspeito que a submersão glacial a excederia.
Mas não seria isto uma medida do movimento em qualquer outra área, norte (ártica), antártica, ou tropical, durante um período igual — oceânico ou continental? Pois a conversão de mar em terra seria sempre igual à transformação de muita terra em mar.
Mas tudo isto seria feito numa fração do período Plioceno; as conchas Glaciais são apenas 1 por cento de espécies extintas. Multiplique isto pelas épocas Plioceno e Mioceno mais antigas.
Também se esquece de um autor que, por meio de atóis, conseguiu submergir arquipélagos (ou continentes?), cujas montanhas devem originalmente ter diferido umas das outras em altura 8.000 (ou 10.000?) pés, de modo que todas simplesmente subiram até à superfície a um nível, ou os seus locais são marcados por boias de coral. Nunca pude ter certeza se ele queria dizer que esta catástrofe tremenda, toda provocada pelo que Sedgwick chamou de "operações mesquinhas de Lyell", teria sido efetuada durante a era das espécies existentes de corais. Talvez me possa dizer, pois estou realmente curioso para saber... (47/3. O autor referido é, naturalmente, Darwin.)
Ora, embora não haja nada nas minhas obras que justifique a construção de continentes no Atlântico e Pacífico mesmo desde o período Eoceno, ainda assim, como algumas das rochas nos Alpes centrais são em parte Eoceno, começo a pensar que todos os continentes e oceanos podem ser principalmente, se não todos, pós-Eoceno, e o "Oceano Atlântico" do Siluriano Inferior de Dana é infantil (ver o Anniversary Address, 1856). (47/4. Provavelmente o Anniversary Address de Dana à "American Association for the Advancement of Science", publicado nos "Proceedings" 1856.) Mas até que ponto está à vontade para invocar continentes das "profundezas vastas" tão frequentemente como quer para transportar uma Helix dos Estados Unidos para a Europa nos períodos Mioceno ou Plioceno é uma questão; pois o oceano tem se tornado mais profundo ultimamente, e Haughton diz que a profundidade média é de onze milhas! pelo seu recente artigo sobre marés. (47/5. "On the Depth of the Sea deducible from Tidal Observations" ("Proc. Irish Acad." Volume VI., página 354, 1853-54).) Ficarei surpreendido se isto se revelar verdadeiro pelas sondagens.
Pensei que a sua mente estava a expandir-se tanto em relação ao tempo que teria estado a avançar em relação à possibilidade de cadeias de montanhas serem criadas numa fração do período necessário para converter um cisne num ganso, ou vice-versa. Nove pés ganhou a cadeia de Rimutaka da Nova Zelândia em altura em janeiro de 1855, e um grande terramoto tem ocorrido na Nova Zelândia a cada sete anos durante quase meio século. A "Washingtonia" (conífera da Califórnia) (47/6. Washingtonia, ou Wellingtonia, mais conhecida como Sequoia. Asa Gray, escrevendo em 1872, declara a sua crença de que "nenhuma Sequoia viva pode sensivelmente anteceder a era cristã" ("Scientific Papers", II., página 144).) recentemente exibida tinha quatro mil anos, pelo que um indivíduo poderia ver uma cadeia de colinas elevar-se, e elevar-se com ela, muito [mais] uma espécie — e aquelas ilhas que J. Hooker descreve como cobertas com plantas da Nova Zelândia a trezentas (?) milhas a nordeste (?) da Nova Zelândia podem ter sido separadas do continente há duas ou três ou quatro gerações de Washingtonia.
Se a identidade das conchas terrestres de todas as centenas de Ilhas Britânicas se deve ao facto de terem estado unidas desde o período Glacial, e a discordância, quase total, das conchas de Porto Santo e Madeira se deve ao facto de terem estado separadas [durante] todos os períodos Plioceno mais novos e possivelmente mais antigos, então isto dá-nos uma conceção de tempo que o ajudará muito na sua conversão de espécies, se a imensidão do tempo fizer tudo o que necessita; pois o período Glacial é assim mostrado, como poderíamos ter antecipado, como desprezível em duração ou em distância de nós, comparado com o Plioceno mais antigo, quanto mais o Mioceno, quando as nossas espécies contemporâneas estavam, embora em minoria, já a começar a florescer.
As conchas litorais, segundo MacAndrew, implicam que a Madeira e as Canárias estiveram outrora ligadas ao continente da Europa ou da África, mas que essas ilhas foram separadas há tanto tempo que a maioria das espécies entrou desde então. Em suma, as conchas marinhas contam a mesma história que as conchas terrestres. Por que é que as plantas de Porto Santo e da Madeira concordam tão proximamente? E por que é que as conchas que são as mesmas que as espécies europeias ou africanas permanecem completamente inalteradas, como as espécies de Crag, que regressaram inalteradas aos mares Britânicos após terem sido expulsas deles pelo frio glacial, quando dois milhões (?) de anos tinham decorrido, e após tal migração para mares mais amenos? Seja tão bondoso de explicar tudo isto na sua próxima carta.
CARTA 48. PARA J.D. HOOKER. Down, 5 de julho [1856].
Escrevo esta manhã em grande tribulação sobre Tristan d'Acunha. (48/1. Ver "Flora Antarctica", página 216. Embora Tristan d'Acunha esteja "apenas a 1.000 milhas de distância do Cabo da Boa Esperança, e a 3.000 do Estreito de Magalhães, a botânica desta ilha é muito mais intimamente aliada à da Fuegia do que à da África.") Quanto mais reflito sobre a sua flora Antártica, mais fico espantado. Dá todos os factos tão clara e plenamente que é impossível não ajudar a especular sobre o assunto; mas leva-me ao desespero, pois não consigo engolir o seu continente; e não ser capaz de o fazer dá, aos meus olhos, um triunfo terrível aos criacionistas múltiplos. É um caso maravilhoso, e quão estranho que A. De Candolle o tenha ignorado; o que certamente fez, ao que me parece. Escrevi a Lyell uma longa carta geológica (48/2. "Life and Letters", II., página 74.) sobre continentes, e recebi uma resposta muito longa e interessante; mas não consigo de forma alguma colher a sua opinião sobre todos os seus extensionistas continentais; e escrevi novamente implorando um veredito. (48/3. Na décima edição dos "Principles", 1872, Lyell adicionou um capítulo (Capítulo XLI., página 406) sobre floras e faunas insulares em relação à origem das espécies; ele aqui (página 410) dá as suas razões contra Forbes como um extensionista.) Pedi-lhe para enviar-lhe a minha carta, pois como estava bem copiada não seria trabalhoso lê-la; mas se vale a pena ler, realmente não sei; dei nela as razões que me fazem fortemente oposto às extensões continentais.
Fiquei muito contente por receber a sua nota há alguns dias: desejo que ache que vale a pena, como pretende ter o caso do Laburnum traduzido, escrever a "Wien" (aquele lugar desconhecido) (48/4. Existe uma tradição de que Darwin perguntou uma vez a Hooker onde "é este lugar Wien, onde publicam tantos livros."), e descobrir como o Laburnum se tem comportado: deveria realmente ser conhecido.
A Entada é uma besta. (48/5. As sementes grandes da Entada scandens são ocasionalmente arrastadas pelo Atlântico e lançadas nas costas da Europa.); nunca divergi de si sobre o crescimento de uma planta numa nova ilha ser uma provação MUITO mais difícil do que o transporte, embora certamente isso pareça bastante difícil. De facto, suspeito que vou ainda mais longe do que você a este respeito; mas é uma história demasiado longa.
Obrigado pelos casos de Aristolochia e Viscum: que espécies eram? Pergunto, porque estranhamente estes dois géneros vi-os avançados como instâncias (esqueço-me agora por quem, mas por bons homens) nas quais a agência de insetos era absolutamente necessária para a impregnação. No nosso Viscum dioico Britânico suponho que deve ser necessário. Havia algo para mostrar que o estigma estava pronto para o pólen nestes dois casos? pois parece que há muitos casos em que o pólen é libertado muito antes de o estigma estar pronto. Como no nosso Viscum, os insetos transportam, suficientemente regularmente para a impregnação, pólen de flor em flor, penso que deve haver cruzamentos ocasionais mesmo num Viscum hermafrodita. Nunca ouvi falar de abelhas e borboletas, apenas mariposas, produzindo ovos férteis sem cópula.
Com respeito à Ray Society, beneficiei tão enormemente por ela publicar os meus Cirrepedia, que não posso concordar inteiramente consigo em limitá-la a traduções; não sei como de outra forma poderia possivelmente ter publicado.
Acabei de enviar o meu nome para 20 libras para a Linnaean Society, mas devo confessar que o fiz com pesados gemidos, enquanto presumo que você deu as suas 20 libras como um cavalheiro de espírito alegre...
P.S. Wollaston fala fortemente sobre o grau intermédio entre duas variedades em insetos e moluscos ser frequentemente mais raro do que as próprias duas variedades. Isto é obviamente muito importante para mim, e não é fácil de explicar. Acredito que já recebi casos seus. Mas, se acredita nisto, gostaria que me desse uma frase para citar da sua parte sobre este ponto. Deve haver, penso eu, muita verdade nisto; caso contrário, dificilmente poderia haver variedades quase distintas sob qualquer espécie, pois teríamos em vez disso uma série de mistura, como em silvas e salgueiros.
CARTA 49. PARA J.D. HOOKER. 13 de julho de 1856.
Que livro um capelão do diabo poderia escrever sobre as obras da natureza desajeitadas, desperdiçadoras, desastradas, baixas e horrivelmente cruéis! Com respeito ao cruzamento, de uma frase na sua carta penso que me compreende mal. Estou muito longe de acreditar em híbridos: apenas no cruzamento da mesma espécie ou de variedades próximas. Nestes dois ou três últimos dias tenho estado a observar o trigo, e convenci-me de que L. Deslongchamps está em erro sobre a impregnação ocorrer em flores fechadas; i.e., claro, só posso julgar pelas aparências externas. A propósito, R. Brown disse-me uma vez que o uso da escova no estigma das gramíneas era desconhecido. Sabe o seu uso?...
Diz muito verdadeiramente sobre criações múltiplas e as minhas noções. Se algum caso pudesse ser provado, eu seria esmagado; mas como estou a escrever o meu livro, tento ter o máximo de cuidado possível para dar os casos mais fortes opostos a mim, e muitas vezes tais conjeturas que me ocorrem. Tenho estado a trabalhar os seus livros como a mina mais rica (e mais vil) contra mim; e que trabalho árduo tive para compilar a sua Flora da Nova Zelândia! Como tenho de o citar tão frequentemente, gostaria de me referir ao caso de Muller dos Alpes Australianos. Onde está publicado? É um livro? Uma referência correta seria suficiente para mim, embora seja errado até citar sem olhar um mesmo. Gostaria muito de ver as folhas de Forbes, às quais se refere; mas devo confessar (dificilmente sei porquê) que passei a desconfiar um pouco do pobre e querido Forbes.
Há uma maravilhosa lógica errada no seu famoso e admirável memorial sobre distribuição, ao que me parece, agora que o compilei de modo a dar os pontos principais numa página. Dependa disto, o meu ditado é verdadeiro — a saber, que um compilador é um grande homem, e um homem original é um homem comum. Qualquer tolo pode generalizar e especular; mas oh, meus céus, compilar em segunda mão uma Flora da Nova Zelândia, esse é o trabalho...
E agora vou implorar quase um favor tão grande quanto um homem pode implorar de outro: e peço com umas cinco ou seis semanas antes de precisar que o favor seja feito, para que pareça menos horrível. É ler, mas bem copiado, as minhas páginas (cerca de quarenta!!) sobre floras e faunas Alpinas, floras e faunas Árticas e Antárticas, e o suposto período mundano frio. Seria realmente uma vantagem enorme para mim, pois tenho a certeza de que de outra forma cometerei erros botânicos. Especificaria os poucos pontos em que mais desejo o seu conselho. Mas é muito provável que possa objetar com o fundamento de que poderia estar a publicar antes de mim (espero publicar dentro de um ano, no máximo), pelo que isso o atrapalharia e incomodaria; e em segundo lugar pode objetar à perda de tempo, pois presumo que levaria uma hora e meia a ler. Seria certamente de imensa vantagem para mim; mas claro que não deve pensar em fazê-lo se interferisse com o seu próprio trabalho.
Não considero este pedido in futuro como quebrar a minha promessa de não dar mais problemas durante algum tempo.
Das cartas de Lyell, ele está a mudar de opinião a uma velocidade ferroviária sobre a mutabilidade das espécies, e autoriza-me a colocar algumas frases sobre este ponto no meu prefácio.
Encontrarei Lyell na quarta-feira em casa de Lord Stanhope, e pedir-lhe-ei para encaminhar a minha carta para si; embora, como os meus argumentos não o impressionaram, não possam ter força, e a minha cabeça deve ser excêntrica sobre o assunto; mas as excentricidades permanecem firmemente lá. Dei a sua opinião sobre terra contínua, vejo, demasiado fortemente.
CARTA 50. PARA S.P. WOODWARD. Down, 18 de julho [1856].
Muitíssimos agradecimentos pela sua bondade em escrever-me com tanta extensão, e fico contente por dizer, pelo seu bem, que não vejo que terei de implorar mais favores. Que alcance e que variabilidade na Cyrena! (50/1. Um género de Lamelibrânquios que varia do Lias até aos dias de hoje.) A sua lista dos alcances das conchas terrestres e de água doce é certamente muito marcante e curiosa, e especialmente porque a antiguidade de quatro delas é tão claramente mostrada.
Tenho o livro de beira-mar de Harvey, e gostei dele; não fiquei particularmente impressionado com ele, mas relerei os primeiros e últimos capítulos.
Estou a tornar-me tão mau quanto o pior sobre espécies, e quase não tenho um vestígio de crença na permanência das espécies restando em mim; e esta confissão fará com que pense muito pouco de mim, mas não posso evitar. Tal tornou-se a minha honesta convicção, embora as dificuldades e argumentos contra tal heresia sejam certamente muito ponderosos.
CARTA 51. PARA C. LYELL. 10 de novembro [1856].
Sei que gosta de todos os casos de prova geológica negativa serem derrubados. Imaginava que era um crente muito relutante na prova negativa; mas ainda assim tal prova negativa parecia-me tão forte que no meu "Fossil Lepadidae" afirmei, dando razões, que não acreditava que pudessem ter existido quaisquer cirrípedes sésseis durante as eras Secundárias. Ora, outro dia Bosquet de Maestricht envia-me um desenho perfeito de um Chthamalus perfeito (um género recente) do Giz! (51/1. Chthamalus, um género de Cirripedia. ("A Monograph on the Sub-class Cirripedia", por Charles Darwin, página 447. Londres, 1854.) Uma espécie fóssil deste género de idade Cretácica Superior foi nomeada por Bosquet Chthamalus Darwini. Ver "Origin", Edição VI., página 284; também Zittel, "Traité de Paléontologie", Traduit par Dr. C. Barrois, Volume II., página 540, figura 748. Paris, 1887.) De facto, é forçar um ponto torná-lo especificamente distinto da nossa espécie Britânica viva. É um género que não foi encontrado até agora em qualquer leito Terciário.
CARTA 52. PARA T.H. HUXLEY. Down, 9 de julho de 1857.
Estou extremamente grato por ter entrado tão plenamente no meu ponto. Sabia que estava em terreno inseguro, mas prova-se muito mais inseguro do que pensava. Tinha pensado que Brulle (52/1. Isto sem dúvida refere-se ao artigo de A. Brulle nos "Comptes rendus" 1844, do qual uma tradução é dada nos "Annals and Mag. of Natural History", 1844, página 484. Ao falar do desenvolvimento dos Articulata, o autor diz "que os apêndices se manifestam num período anterior da existência de um animal Articulado quanto mais complexo é o seu grau de organização, e vice-versa que eles fazem a sua aparência mais tarde, quanto menor o número de transformações que ele tem de sofrer.") tinha uma base mais ampla para a sua generalização, pois fiz o extrato há vários anos, e presumo (afirmo-o como alguma desculpa para mim mesmo) que duvidei dele, pois, diferentemente do meu hábito geral, não extraí os seus fundamentos. Foi o encontro com o artigo de Barneoud que me fez pensar que poderia haver verdade na doutrina. (52/2. Aparentemente Barneoud "On the Organogeny of Irregular Corollas", dos "Comptes rendus", 1847, conforme dado nos "Annals and Mag. of Natural History", 1847, página 440. O artigo trata principalmente do facto de que na sua condição mais primitiva as flores irregulares são regulares. A visão atribuída a Barneoud não parece tão definidamente dada neste artigo como num anterior ("Ann. Sc. Nat." Bot., Tom. VI., página 268.) A sua instância do coração e cérebro de peixe parece-me muito boa. Foi um erro muito estúpido da minha parte não pensar na parte posterior do tempo de desenvolvimento. Não farei, claro, alusão a este assunto, que lamento bastante, pois desejava que fosse verdade; mas, ai! um homem científico não deveria ter desejos, não deveria ter afeções — um mero coração de pedra.
Há apenas um ponto na sua carta no qual, no momento, não consigo segui-lo inteiramente: supondo que as observações de Barneoud (não digo as de Brulle) fossem verdadeiras e universais — isto é, que as pétalas que têm de passar pela maior quantidade de desenvolvimento e modificação começam a mudar mais cedo a partir da forma embrionária simples e comum da pétala —, se esta fosse uma lei verdadeira, então não posso deixar de pensar que lançaria luz sobre a proposição de Milne Edwards de que, quanto mais afastadas estão as classes de animais, mais cedo divergem do plano embrionário comum — cujo plano embrionário comum pode ser comparado com as pétalas semelhantes no botão inicial, sendo as várias pétalas de uma flor comparadas aos embriões distintos, porém semelhantes, das diferentes classes. Desejo muito que mantenha isto em mente, para que, sempre que nos encontrarmos, eu possa ouvir até que ponto discorda ou concorda com isto. Sempre encarei a proposição de Barneoud e Brulle como sendo apenas, em certo grau, análoga.
P.S. Vejo no meu resumo do artigo de Milne Edwards que ele fala dos "órgãos mais perfeitos e importantes" como sendo os primeiros a serem desenvolvidos, e eu teria pensado que isto era geralmente sinónimo dos mais desenvolvidos ou modificados.
CARTA 53. PARA J.D. HOOKER.
(53/1. A carta seguinte é de interesse principalmente por mostrar a quantidade e o tipo de trabalho necessário para as conclusões de Darwin sobre os "grandes géneros a variar", que ocupam não mais do que duas ou três páginas na "Origem" (Edição I, página 55). Alguma correspondência sobre o assunto é dada em "Life and Letters", II, páginas 102-5.)
Down, 22 de agosto [1857].
A sua caligrafia alegra sempre o fundo do meu coração; embora não tenha razão para estar "sobrecarregado de vergonha", pois não esperava ouvir notícias.
Escrevo agora principalmente para saber se me pode dizer como escrever a Hermann Schlagenheit (estará isto bem soletrado?) (53/2. Schlagintweit.), pois creio que ele regressou a Inglaterra e tem peles de aves para mim, enviadas por W. Elliot de Madras.
Fico muito contente por saber que tem estado a tabular algumas Floras sobre variedades. Pode dizer-me apenas, a grandes traços, o resultado? Não acha que consome muito tempo? Estou a empregar um mestre-escola laboriosamente cuidadoso, que faz a tabulação e a divisão em duas grandes coortes, mais cuidadosamente do que eu conseguiria. Sendo assim, ficaria muito contente em ter, a seu tempo, Koch, as Canárias de Webb, Ledebour e Grisebach, mas nem sei onde fica a Rumélia. Trabalharei a flora britânica com três Floras separadas; e pretendo dividir as variedades em duas classes, conforme Asa Gray e Henslow fornecem os materiais, e, além disso, A. Gray e H.C. Watson marcaram para mim as formas que consideram espécies reais, mas que, ainda assim, são muito próximas de outras; e será curioso comparar os resultados. Se tudo isto se mantiver, é muito importante para mim; pois explica, creio eu, toda a classificação, isto é, a quase ramificação e sub-ramificação das formas, como se fossem de uma única raiz, grandes géneros a aumentar e a dividir-se, etc., como perceberá. Mas depois entra, também, o que chamo de princípio de divergência, que penso poder explicar, mas que é demasiado longo, e talvez não se importasse de ouvir. Como tem estado sobre este assunto, talvez goste de ouvir o pouco que está completo (pois o meu mestre-escola teve três semanas de férias) — apenas três casos até agora, vejo eu.
BABINGTON — Flora Britânica.
593 espécies em géneros de 5 e 593 (acaso ímpar igual) em acima têm em mil géneros de 3 e abaixo têm espécies apresentando vars. em mil apresentando vars. 134/1000.* 37/1000.
(*53/3. Esta frase pode ser interpretada da seguinte forma: O número de espécies que apresentam variedades é 134 por mil em géneros de 5 espécies ou mais. O resultado é obtido a partir da tabulação de 593 espécies.)
HOOKER — Nova Zelândia.
Géneros com 4 espécies e Com 3 espécies e abaixo acima, 150/1000. 114/1000.
GODRON — França Central.
Com 5 espécies e acima Com 3 espécies e abaixo 160/1000. 105/1000.
Não entro em detalhes sobre a omissão de plantas introduzidas e géneros muito variáveis, como Rubus, Salix, Rosa, etc., o que tornaria o resultado mais favorável.
Gostei imenso de ver Henslow, embora estivesse longe de estar bem na altura. Adeus, meu caro Hooker: não se esqueça da sua visita aqui, a seu tempo.
CARTA 54. PARA J.D. HOOKER. Down, 14 de novembro [1857].
Na terça-feira enviarei de Londres, para onde vou nesse dia, os três volumes restantes de Ledebour, Grisebach e Cybele, isto é, tudo o que tenho, e estou-lhe verdadeiramente muito grato por eles. Constato que a regra, até agora, de as espécies variarem mais nos grandes géneros é universal, exceto na lista muito breve e, portanto, imperfeita da flora da Holanda de Miquel, o que me deixa muito ansioso por tabular uma flora mais completa da Holanda. Permanecerei em Londres até sexta-feira de manhã, e se for conveniente enviar-me dois volumes do Prodromus de D.C., poderia levá-los para casa e tabular. Acho que um volume com uma grande família natural bem conhecida e um volume com várias famílias pequenas e fragmentadas seria o melhor, sempre supondo que as variedades estejam marcadamente assinaladas em ambos. Tem o volume publicado por Lowe sobre a Madeira? Se sim, e se alguma variedade estiver marcada, gostaria muito de o ver, para ver se consigo apurar algo sobre os habitats das vars. numa área tão pequena — um ponto sobre o qual me tornei muito curioso. Receio que não haja hipótese de possuir "British Shells" de Forbes e Hancock, uma obra grandiosa, que desejo muito tabular.
Muitíssimas graças pela semente de Adlumia cirrhosa, que observarei cuidadosamente. A minha nota no G. Ch. sobre feijões (54.1 "On the Agency of Bees in the Fertilisation of Papilionaceous Flowers" ("Gardeners' Chronicle", 1857, página 725).) trouxe-me uma carta curiosa de um jardineiro inteligente, com um lote de feijões muito notável, cruzados de uma maneira maravilhosa NA PRIMEIRA GERAÇÃO, como as ervilhas enviadas a si por Berkeley e como as experimentadas por Gartner e por Wiegmann. É um caso muito estranho; semearei estas sementes e verei o que nasce. Quão estranho que o pólen de uma forma afete as cascas externas e o tamanho do feijão produzido por espécies puras!...
CARTA 55. PARA J.D. HOOKER. Down [1857?].
Sabe como trabalho os assuntos: ou seja, se tropeço em alguma observação geral, e se a encontro confirmada em qualquer outra classe muito distinta, então tento descobrir se é verdadeira — se tem alguma influência no meu trabalho. O seguinte, talvez, possa ser importante para mim. O Dr. Wight observa que as Cucurbitaceae (55/1. Wight, "Remarks on the Fruit of the Natural Order Cucurbitaceae" ("Ann. Mag. Nat. Hist." VIII, página 261). R. Wight, F.R.S. (1796-1872) era Superintendente do Jardim Botânico de Madras.) são uma família muito isolada e têm afinidades muito divergentes. Encontro, fortemente exposta e ilustrada, a mesma observação nos géneros de hymenoptera. Ora, não me é de imediato aparente por que razão um grupo muito distinto e isolado deveria ser propenso a ter afinidades mais divergentes do que um grupo menos isolado. Estou ciente de que a maioria dos géneros tem mais afinidades do que em duas direções, sendo este último, talvez, o caso mais comum. Vejo quão infinitamente vago tudo isto é; mas gostaria muito de saber o que pensa disto, e o Sr. Bentham (se ele quiser ler isto), que se dedicou tanto aos princípios da classificação. Talvez a melhor maneira fosse pensar em meia dúzia dos grupos de plantas mais isolados e, depois, considerar se as afinidades apontam num número invulgar de direções. É muito provável que ache toda a questão demasiado vaga para merecer consideração.
CARTA 56. PARA J.D. HOOKER. Down, 8 de abril [1857].
Quero agora pedir a sua opinião e factos sobre um ponto; e como muitas vezes vou querer fazer isto durante o próximo ano ou dois, deixe-me dizer, de uma vez por todas, que não deve ter trabalho apenas por pura bondade (da qual, para comigo, tem uma reserva muito abundante), mas deve considerar, em relação ao trabalho que qualquer questão possa dar, se acha que vale a pena — uma vez que toda a perda de tempo diminui o seu trabalho original — dar-me factos para serem citados sob a sua autoridade no meu trabalho. Não pense que ficarei desapontado se não puder dispensar tempo; pois já lucrei enormemente com o seu discernimento e conhecimento. Peço-lhe encarecidamente que aja como sugiro e não tenha trabalho apenas por bondade.
O meu ponto é o seguinte: Harvey apresenta o caso de Fucus a variar notavelmente, e ainda assim da mesma forma sob as condições mais diferentes. D. Don faz a mesma observação em relação a Juncus bufonius em Inglaterra e na Índia. Polygala vulgaris tem flores brancas, vermelhas e azuis nas Faroé, em Inglaterra e, penso que Herbert diz, em Zante. Ora, tais casos parecem-me muito impressionantes, como mostrando quão pouca relação algumas variações têm com as condições climáticas.
Acha que existem muitos casos desses? Oxalis corniculata apresenta exatamente as mesmas variedades sob climas muito diferentes?
Como é com quaisquer outras plantas britânicas na Nova Zelândia, ou no sopé dos Himalaias? Quer pensar sobre isto e deixar-me saber o resultado?
Uma outra questão: lembra-se se a Sonchus introduzida na Nova Zelândia era menos, igualmente ou mais comum do que o stock aborígene da mesma espécie, onde ambas ocorriam juntas? Esqueço-me se existe algum outro caso paralelo a este curioso da Sonchus...
Tenho feito um bom, embora lento, progresso com o meu livro, pois os factos têm caído agradavelmente em grupos, esclarecendo-se uns aos outros.
CARTA 57. PARA T.H. HUXLEY. Moor Park, Farnham, Surrey [1857?].
A sua carta foi-me reencaminhada para aqui, onde estou a beneficiar de algumas semanas de descanso e hidroterapia. A sua carta interessou-me e divertiu-me muito. Estou extremamente contente por ter pegado na questão dos Aphis (57/1. O artigo do Professor Huxley sobre a reprodução orgânica dos Aphis está em "Trans. Linn. Soc." XXII. (1858), página 193. O Prof. Owen tinha tratado o assunto na sua palestra introdutória Hunteriana "On Parthenogenesis" (1849). A sua teoria não pode ser totalmente dada aqui. Resumidamente, ele sustenta que a partenogénese se deve à hereditariedade de um "remanescente de virtude espermática": quando a "força espermática" ou "virtude" está esgotada, ocorre uma nova impregnação. Huxley critica severamente tanto os factos como a teoria de Owen.), mas, pelo amor de Deus, não faça o papel de "mild Hindoo" (seja lá o que isso for) para com Owen; o seu confessor treme por si. Imagino que Owen pensa muito nesta doutrina dele; eu, desde o início, nunca acreditei nela, e não posso deixar de pensar que o mesmo poder está envolvido na produção de afídeos sem fertilização, e na produção, por exemplo, de unhas no coto amputado dos dedos de um homem, ou da nova cauda de um lagarto. A propósito, vi algures durante a última semana ou que tal uma afirmação de um homem a criar, a partir do mesmo conjunto de ovos, afídeos alados e sem asas, o que me pareceu novo. Não diz algum Ianque que os afídeos vivíparos americanos são alados? Estou particularmente contente por estar a ruminar sobre o ato da fertilização: há muito que me parece o mais maravilhoso e curioso dos problemas fisiológicos. Especulei muitas e muitas vezes por diversão sobre o assunto, mas completamente infrutiferamente. Não acha que a conjugação das Diatomaceae lançará, em última análise, luz sobre o assunto? Mas no outro dia cheguei à conclusão de que algum dia teremos casos de jovens produzidos a partir de espermatozoides ou pólen sem um óvulo. Abordando o assunto pelo lado que mais me atrai, i.e., a hereditariedade, tenho estado ultimamente inclinado a especular, muito rudemente e indistintamente, que a propagação por fertilização verdadeira se revelará ser uma espécie de mistura, e não uma verdadeira fusão, de dois indivíduos distintos, ou melhor, de inúmeros indivíduos, uma vez que cada progenitor tem os seus progenitores e antepassados. Não consigo compreender por outra visão a forma como as formas cruzadas regridem em tão grande escala para formas ancestrais. Mas tudo isto, claro, é infinitamente rude. Espero estar em Londres no decurso deste mês, e há dois ou três pontos que, por minha própria causa, quero discutir brevemente consigo.
CARTA 58. PARA T.H. HUXLEY. Down, 26 de setembro [1857].
Obrigado pelo seu muito agradável bilhete. Diverte-me ver que "bug-bear" me tornei para si; quando, tendo escrito uma frase muito pungente e boa, deve ser muito desagradável ver o meu rosto surgir como um fantasma feio. (58/1. Isto refere-se provavelmente ao desejo de Darwin de moderar uma certa pugnacidade em Huxley.) Sempre suspeitei da superficialidade e dos miseráveis poderes de raciocínio de Agassiz; mas penso que tais homens fazem imenso bem à sua maneira. Veja como ele agitou toda a Europa sobre os glaciares. A propósito, Lyell esteve nos glaciares, ou melhor, nos seus efeitos, e parece ter feito um bom trabalho a testar e a julgar o que outros fizeram...
Em relação à classificação e a todas as disputas intermináveis sobre o "Sistema Natural", que nenhuns dois autores definem da mesma maneira, acredito que deveria, de acordo com as minhas noções heterodoxas, ser simplesmente genealógica. Mas como não temos pedigrees escritos, dirá talvez que isto não ajudará muito; mas penso que, em última análise, ajudará, sempre que a heterodoxia se tornar ortodoxia, pois limpará uma imensa quantidade de lixo sobre o valor dos caracteres e tornará clara a diferença entre analogia e homologia. O tempo virá, acredito, embora eu não vá viver para o ver, em que teremos árvores genealógicas bastante verdadeiras de cada grande reino da Natureza.
CARTA 59. PARA T.H. HUXLEY. Down, 16 de dezembro [1857].
Na minha opinião, o seu Catálogo (59/1. Parece, a partir de uma carta ao Sir J.D. Hooker (25 de dezembro de 1857), que a referência é às provas do "Explanatory Preface to the Catalogue of the Palaeontological Collection in the Museum of Practical Geology", por T.H. Huxley e R. Etheridge, 1865. O Sr. Huxley acrescenta uma nota na página xlix: "Deve notar-se que estas páginas foram escritas antes do aparecimento do livro do Sr. Darwin 'A Origem das Espécies' — uma obra que efetuou uma revolução na especulação biológica.") é simplesmente o melhor resumo, de longe, sobre toda a ciência da História Natural que alguma vez vi. Realmente não tenho críticas: concordo com cada palavra. As suas metáforas e explicações parecem-me admiráveis. Em muitas partes é curioso como o que escreveu concorda com o que eu tenho estado a escrever, apenas com a melancólica diferença, para mim, de que coloca tudo de uma maneira duas vezes mais marcante do que eu. Acrescento, mais pelo motivo de mostrar que estive atento a tudo do que por qualquer outro objetivo, algumas críticas triviais.
Diverti-me ao encontrar alguns dos argumentos que avançou na conversa comigo sobre classificação; e agrada-me [que] as minhas longas prosas não tenham sido, até certo ponto, deitadas fora, pois levaram-no a apresentar aqui algumas boas frases. Mas sobre classificação (59/2. Isto refere-se provavelmente à discussão do Sr. Huxley sobre "Classificação Natural", um assunto dificilmente suscetível de tratamento frutífero exceto a partir de um ponto de vista evolucionista.) não tenho a certeza de que ainda concorde totalmente consigo, embora concorde com cada palavra que disse aqui. O todo, repito, na minha opinião, é admirável e excelente.
CARTA 60. PARA J.D. HOOKER. Down, 28 de fevereiro [1858].
Cordial agradecimento por De Candolle recebido. Pus os grandes géneros em mãos. Também muitas graças pelas suas valiosas observações sobre as afinidades das espécies nos grandes géneros, que me serão de muita utilidade no meu capítulo sobre classificação. A sua opinião é o que eu esperava a partir do pouco que sabia, mas queria muito que fosse confirmada, e muitas das suas observações foram mais ou menos novas para mim e todas de valor.
Dá uma má imagem da filosofia da Botânica. Por minha ignorância, suponho, dificilmente me consigo persuadir de que as coisas estão tão más como as faz parecer — poderia ter estado a escrever observações sobre Ornitologia! Meditarei muito sobre as suas observações, que também serão muito úteis quando eu escrever e considerar as minhas tabelas de grandes e pequenos géneros. Lamento, por mim, dizer que Watson concorda com a sua visão, mas com muitas dúvidas. Não lhe dei qualquer guia sobre qual era a sua opinião. Escrevi a A. Gray e a X., que — i.e., este último — neste ponto pode ser encarado como o "Foolometer" de S. Smith.
Estou agora a trabalhar várias das grandes Floras locais, deixando de fora completamente todos os géneros mais pequenos. Quando tiver feito isto, e visto o que as secções dos maiores géneros dizem, e visto quais são os resultados da amplitude e da frequência das espécies variáveis, tenho de chegar a alguma conclusão definitiva sobre se devo ou não desistir completamente. Mostrarei então como a minha teoria aponta, como os factos se mantêm, depois declararei a natureza do seu grave ataque e cederei inteiramente ou defenderei o caso tanto quanto puder honestamente.
Mais uma vez agradeço-lhe pela sua inestimável assistência. Não senti tanto o golpe [críticas de Hooker] ultimamente, pois tenho estado incomensuravelmente interessado no instinto construtivo da abelha. Adeus, seu terrível aborrecedor de pobres teóricos!
CARTA 61. PARA J.D. HOOKER. Down [1858?].
Muitas graças por Ledebour e ainda mais pela sua carta, com o seu admirável resumo de todas as suas objeções. É realmente muito bondoso da sua parte ter tanto trabalho com o que lhe parece, e provavelmente é, meros devaneios.
Tentarei seriamente ser cauteloso. Escreverei as minhas tabelas e conclusão, e (quando bem copiado) espero que seja tão bondoso ao ponto de o ler. Depois guardá-lo-ei e, após alguns meses, olharei para ele com olhos frescos. Trabalharei brevemente todas as suas objeções e as de Watson. Trabalho com uma grande dificuldade, por sentir a certeza de que, com o pouco trabalho sistemático que fiz, os pequenos géneros eram mais interessantes e, portanto, atraíram mais a minha atenção.
Não vejo o alcance de uma das suas observações sob o seu ponto de vista — nomeadamente, que em géneros monotípicos "a variação e a variabilidade" são "muito mais frequentemente notadas" do que em géneros politípicos. Dificilmente gosto de perguntar, mas este é o único dos seus argumentos cujo alcance não vejo; e certamente ficaria muito contente por saber. Acredito que sou o mais lento (talvez o pior) pensador de Inglaterra; e consequentemente admito agora plenamente a total hostilidade das Urticaceae, que darei nas minhas tabelas.
Não farei observações sobre as suas objeções, pois espero que leia o meu manuscrito, que não lhe custará muito trabalho quando estiver devidamente copiado. Pela minha própria experiência, dificilmente acredito que os observadores mais sagazes, sem contar, pudessem ter previsto se havia mais ou menos variedades registadas em géneros grandes ou pequenos; pois constatei, quando fazia a lista, que nunca conseguia encontrar um equilíbrio na minha mente — um bom número de variedades a ocorrerem juntas, em pequenos ou grandes géneros, deitava-me sempre fora do equilíbrio...
P.S. — Acabei de pensar que a sua observação sobre a muita variação dos géneros monotípicos era para me mostrar que, mesmo nestes, os menores géneros, havia muita variabilidade. Se for este o caso, então não responda; e entenderei assim.
CARTA 62. PARA J.D. HOOKER. 23 de fevereiro [1858].
Quer pensar em alguns dos maiores géneros com os quais está bem familiarizado, e depois supor 4/5 das espécies totalmente destruídas e desconhecidas nas secções (por assim dizer) tanto quanto possível no centro desses grandes géneros. Então, o 1/5 restante das espécies, formando algumas secções, seria, de acordo com a prática geral dos bons Botânicos médios, classificado como géneros distintos? Claro que, nesse caso, seriam géneros estreitamente relacionados. A questão, de facto, é: todas as espécies num género gigantesco são mantidas juntas nesse género porque são realmente tão muito estreitamente semelhantes a ponto de serem inseparáveis? ou é porque não se podem desenhar abismos ou limites que separem as muitas espécies? A questão poderia ter sido colocada para Ordens.
CARTA 63. A J.D. HOOKER. Down, 9 de fevereiro [1858].
Ficar-lhe-ia muito grato pela sua opinião sobre o anexo. Talvez se lembre de que, nos três primeiros volumes tabelados, todas as ordens correram bem, exceto Labiatae. A propósito, se por qualquer sorte extraordinária não tiver deitado fora o pedaço de papel com os resultados anteriores, gostaria que mo devolvesse, pois perdi a minha cópia e terei de fazer toda a divisão novamente; mas NÃO ande à procura dele, pois, em qualquer caso, eu teria revisto o cálculo.
Agora, acabei os outros três volumes. Verá que todas as espécies nos seis volumes juntos correm bem, e da mesma forma todas as ordens nos três últimos volumes, exceto Verbenaceae. Não será Verbenaceae muito estreitamente aliada a Labiatae? Se assim for, seria de pensar que não foi mero acaso esta coincidência. As espécies em Labiatae e Verbenaceae juntas perfazem entre 1/5 e 1/6 de todas as espécies (15.645), que agora tabelo.
Agora, tendo em mente as muitas Floras locais que tabelo (contornando todo o hemisfério norte), e considerando que elas (e os autores do D.C. Prodromus) provavelmente tomariam diferentes graus de cuidado no registo de variedades, e que os géneros seriam divididos segundo diferentes princípios por diferentes homens, etc., estou muito surpreendido com a uniformidade do resultado, e estou convencido de que deve haver verdade na regra de que os pequenos géneros variam menos do que os grandes. O que pensa? Hipoteticamente, posso conjeturar como Labiatae pode falhar — nomeadamente, se algumas pequenas divisões da Ordem estivessem agora a ganhar importância no mundo e a variar muito e a criar espécies. Isto faz-me querer saber se poderia dividir Labiatae em algumas grandes divisões naturais, e então eu tabelá-las-ia separadamente como subordens. Vejo que Lindley faz tantas divisões que não haveria o suficiente em cada uma para uma média. Envio a tabela de Labiatae para a eventualidade de poder fazer isto por mim. Poderia traçar linhas oblíquas incluindo e separando tanto géneros grandes como pequenos. Também dividi todas as espécies em duas massas iguais, e a minha regra mantém-se válida para todas as espécies numa massa nos seis volumes; mas falha em várias (quatro) grandes Ordens — a saber, Labiatae, Scrophulariaceae, Acanthaceae e Proteaceae. Mas, então, quando as espécies são divididas em duas divisões quase exatamente iguais, as divisões com grandes géneros são muito poucas: por exemplo, em Solanaceae, Solanum equilibra todas as outras. Em Labiatae, sete géneros gigantescos equilibram todos os outros (isto é, 113), e em Proteaceae, cinco géneros equilibram todos os outros. Agora, de acordo com as minhas noções hipotéticas, estou longe de supor que todos os géneros continuem a aumentar para sempre e, portanto, não me surpreendo com este resultado quando a divisão é feita de modo a que apenas alguns géneros fiquem de um lado. Mas, segundo as minhas noções, as secções ou subgéneros dos géneros gigantescos deveriam obedecer à minha regra (isto é, supondo que um género gigantesco atingiu o seu máximo, qualquer aumento que ainda estivesse a ocorrer deveria ocorrer nos subgéneros maiores). Acha que as secções dos géneros gigantescos no D.C. Prodromus são geralmente NATURAIS: isto é, não fundadas em meros caracteres artificiais? Se pensa que são geralmente feitas tão naturais quanto possível, então gostaria muito de tabelar os subgéneros, considerando-os por enquanto como bons géneros. Neste caso, e se não me acha desarrazoado ao pedi-lo, ficaria muito grato pelo empréstimo dos Volumes X, XI, XII e XIV, que incluem Acanthaceae, Scrophulariaceae, Labiatae e Proteaceae, — isto é, as ordens que, quando divididas de forma bastante igual, não estão de acordo com a minha regra, e nas quais muito poucos géneros equilibram todos os outros.
Escrevi-lhe uma prosa tremendamente longa.
CARTA 64. A J.D. HOOKER. Down, 8 de junho [1858].
Estou confinado ao sofá com furúnculos, por isso deve deixar-me escrever a lápis. Rir-se-ia se pudesse saber o quanto a sua nota me agradou. Tinha a mais firme convicção de que diria que todo o meu manuscrito era disparate e, graças a Deus, é um dos poucos homens que se atreve a dizer a verdade. Embora não me importasse muito de deitar fora o que viu, fui forçado a confessar a mim mesmo que tudo era muito semelhante, e se condenasse aquilo, condenaria todo o trabalho da minha vida, e isso confesso que me deixou um pouco em baixo; mas poderia ter suportado, pois tenho a convicção de que honestamente fiz o meu melhor. A discussão surge no fim do longo capítulo sobre a variação num estado de natureza, de modo que discuti, tanto quanto sou capaz, como chamar às variedades. Tentarei deixar de fora toda a alusão a géneros que entram e saem nesta parte, até quando discutir o "Princípio da Divergência", que, com a "Seleção Natural", é a pedra angular do meu livro; e tenho muita confiança de que é sólido. Mandaria copiar esta discussão, se pudesse realmente pensar que não o aborreceria lê-la, — pois, acredite, valorizo plenamente cada palavra de crítica sua, e a vantagem que de si derivei não pode ser contada...
Fico contente por saber que o pobre velho Brown está a morrer tão facilmente...
Achará mesquinho, mas como me foi pedido que pagasse a impressão do Diploma [de uma Sociedade da qual fora feito membro honorário], não quis recusar, por isso envio 1 libra. Mas penso que é um procedimento reles. Se um cavalheiro me fizesse um serviço, embora sem ser solicitado para o fazer, e depois exigisse pagamento, eu pagar-lhe-ia, e achá-lo-ia um cão reles; e, com base neste princípio, envio a minha libra.
(65/1. As quatro cartas seguintes referem-se a um inquérito instituído em 1858 pelos Curadores do Museu Britânico quanto à disposição das Coleções de História Natural. O inquérito foi um dos primeiros passos para o estabelecimento do Museu de Cromwell Road, que foi efetuado em 1875.)
CARTA 65. A R.I. MURCHISON. Down, 19 de junho [1858].
Acabo de receber a sua nota. Infelizmente, não posso comparecer ao Museu Britânico na segunda-feira. Não suponho que a minha opinião sobre o assunto da sua nota possa ter qualquer valor, uma vez que não considerei muito o assunto, nem tive a vantagem de discuti-lo com outros naturalistas. Mas a minha impressão é que há muito peso no que diz sobre não fragmentar a coleção de história natural do Museu Britânico. Penso que uma coleção nacional deveria estar em Londres. Posso, contudo, ver que alguns argumentos de peso poderiam ser avançados a favor de Kew, devido ao imenso valor da coleção e biblioteca de Sir W. Hooker; mas estas são propriedade privada, e não tenho conhecimento de que haja qualquer certeza de que permaneçam sempre em Kew. Se este fosse o caso, teria pensado que a coleção botânica poderia ter sido movida para lá sem pôr em perigo os outros ramos das coleções. Mas penso que seria o maior mal que poderia possivelmente acontecer à ciência natural neste país se as outras coleções fossem alguma vez removidas do Museu Britânico e da Biblioteca.
CARTA 66. A T.H. HUXLEY.
(66/1. O memorial referido na carta seguinte foi endereçado em 18 de novembro ao Chanceler do Tesouro. Foi assinado por Huxley, Bentham, W.H. Harvey, Henfrey, Henslow, Lindley, Busk, Carpenter e Darwin. O memorial, que é acessível, conforme publicado no "Gardeners' Chronicle", 27 de novembro de 1858, página 861, recomendava, falando genericamente, a consolidação das coleções Botânicas Nacionais em Kew.
Em fevereiro de 1900, um Comité foi nomeado pelos Lordes Comissários do Tesouro "para considerar as presentes disposições sob as quais o trabalho botânico é feito e as coleções mantidas pelos Curadores do Museu Britânico, e sob o Primeiro Comissário de Obras em Kew, respetivamente; e para relatar que mudanças (se houver) nessas disposições são necessárias ou desejáveis a fim de evitar a duplicação de trabalho e coleções nas duas instituições." O Comité publicou o seu relatório em março de 1901, recomendando uma disposição semelhante à proposta em 1858.)
Down, 23 de outubro [1858].
Os nomes que me dá como apoiantes do seu memorial fazem-me desconfiar totalmente do meu próprio julgamento; mas, como devo dizer sim ou não, sou forçado a dizer que duvido da sabedoria do movimento, e não estou disposto, neste momento, a assinar. As minhas razões, talvez de muito pouco valor, são as seguintes. As classes governantes são totalmente não científicas, e os homens de arte e arqueologia têm muito maior peso junto do Governo do que nós. Se fizermos um movimento para nos separarmos do Museu Britânico, não posso deixar de temer que possamos ir para o galheiro. Penso que devemos a nossa posição, em grande parte, às centenas de milhares de pessoas que visitam o Museu Britânico, atraídas pela mistura heterogénea de objetos. Se perdêssemos este apoio, como penso que perderíamos — pois uma mera coleção de animais não parece muito atrativa para as massas (a julgar pelo Museu da Sociedade Zoológica, anteriormente em Leicester Square) —, então não penso que obteríamos tanta ajuda do Governo. Por isso, estaria inclinado a ater-me às múmias e aos deuses assírios enquanto pudéssemos. Se soubéssemos que o Governo nos ia expulsar, então, e só então, estaria inclinado a fazer um movimento enérgico. Se nos separássemos, não acredito que nos fossem concedidos fundos para os muitos livros necessários para consulta ocasional: cada homem deve falar pela sua própria experiência. Tive necessidade, tão repetidamente, de ver Transações antigas e Viagens antigas, etc., que lamentaria imenso, quando a trabalhar no Museu Britânico, ficar separado da biblioteca inteira. As instalações para trabalhar em certas grandes classes — como aves, grandes fósseis, etc. — são, sem dúvida, tão más quanto possível, ou melhor, impossíveis nos dias abertos; mas achei as salas de trabalho dos Assistentes muito convenientes para todas as outras classes, em todos os dias.
Relativamente às coleções botânicas, sou demasiado ignorante para expressar qualquer opinião. O ponto parece ser até que ponto os botânicos se oporiam a viajar até Kew; mas existem, evidentemente, muitas grandes vantagens na transferência.
Se eu mandasse, faria da coleção do Museu Britânico apenas uma típica para exibição, o que seria tão divertido e muito mais instrutivo para a população (e penso que para os naturalistas) do que a presente enorme exibição de aves e mamíferos. Pouparia a despesa de empalhar, e guardaria todas as peles, exceto algumas "típicas", em gavetas. Assim, muito espaço seria poupado, e um pouco mais de espaço poderia ser dado aos trabalhadores reais, que poderiam trabalhar todo o dia. Salas equipadas com milhares de gavetas custariam muito pouco. Com isto ficaria contente. Até ter informação bastante segura de que íamos ser expulsos, não me mexeria no assunto. Com tais oponentes como nomeia, ouso dizer que estou totalmente errado; mas este é o meu melhor, embora duvidoso, julgamento atual...
Parece-me perigoso até mesmo aludir a um novo Museu Científico — um Museu popular, e subsidiar os Jardins Zoológicos; penso que assustaria qualquer Governo.
CARTA 67. A J.D. HOOKER. Moor Park, Farnham, Surrey [29 de outubro] [1858].
Como diz que tem boa informação privada de que o Governo tenciona realmente remover a coleção do Museu Britânico, o caso para mim, individualmente, mudou totalmente; e, tal como o memorial está agora, com tal expressão à frente, não tenho qualquer objeção em assinar. Devo expressar uma opinião muito forte de que seria um imenso mal mudar para Kensington, não tanto por causa dos homens de ciência, mas pelas massas em toda a parte leste e central de Londres. Penso, além disso, que seria um grande mal separar uma coleção típica (que de forma alguma posso encarar apenas como popular) da coleção completa. Não poderia ser adicionada alguma expressão, ainda mais forte do que as agora usadas, sobre a exibição (que é uma espécie de vaidade nos curadores) de um número tão vasto de aves e mamíferos, com tal perda de espaço. Sinto-me em baixo com a convicção de que o Governo nunca dará dinheiro suficiente para uma biblioteca realmente boa.
Não quero ser caprichoso, mas detestaria assinar sem alguma expressão sobre o local ser facilmente acessível à população de toda a Londres.
Repito, tal como as coisas estão agora, estarei orgulhoso em assinar.
CARTA 68. A T.H. HUXLEY. Down, 3 de novembro [1858].
Subscrevo inteiramente tudo o que diz na sua nota. Tive alguma correspondência com Hooker sobre o assunto. Como parece certo que um movimento no Museu Britânico é geralmente antecipado, a minha principal objeção está totalmente removida; e, tal como disse a Hooker, não tenho qualquer objeção em assinar um memorial da natureza daquele que ele me enviou ou daquele que agora devolvi. Ambos me parecem muito bons. Não posso deixar de temer se o Governo alguma vez concederá dinheiro suficiente para livros. Posso ver muitas vantagens em não estar sob a asa pouco maternal da arte e da arqueologia, e o meu único medo era que não fôssemos fortes o suficiente para viver sem alguma proteção, tão profundo, penso, é o desprezo e a ignorância da Ciência Natural entre a nobreza de Inglaterra. Hooker diz-me que eu deveria ser convertido a favor de Kensington Gore se ouvisse tudo o que poderia ser dito a seu favor; mas ainda não posso deixar de pensar que uma localidade tão ocidental é uma grande desventura. Lyell foi consultado? O dele seria um nome poderoso, e tais nomes contam muito para os nossos ignorantes Governantes. Parece ter tido muito trabalho com o negócio, e honro-o por isso.
CARTA 69. A J.D. HOOKER. Down, 9 de novembro [1858].
Estou muito encantado por saber sobre a Copley e Lyell. (69/1. A Medalha Copley da Royal Society foi atribuída a Lyell em 1858.) Fiquei quente de indignação muitas vezes a pensar na forma como a proposta foi recebida no ano passado, de acordo com o seu relato. Também fico muito contente por ouvir falar de Hancock (Albany Hancock recebeu uma Medalha Real em 1858.); mostrará que os provincianos não são negligenciados. Ao todo, as medalhas são excelentes. Ficarei orgulhoso e obrigado a ajudar de qualquer forma sobre o elogio, que é um fardo um tanto pesado sobre os proponentes das medalhas, como descobri sobre Richardson e Westwood; mas o caso de Lyell será vinte vezes mais difícil. Começarei esta mesma noite a apontar algumas observações sobre Lyell; embora, sem dúvida, a maioria seja supérflua, e várias exigiriam uma consideração deliberada. De qualquer modo, tais notas podem ser uma ajuda preliminar para si; enviá-las-ei dentro de poucos dias, e farei qualquer outra coisa que deseje...
P.S. — Recebi uma carta de Henslow esta manhã. Ele vem aqui na [quinta-feira] 25, e ficarei encantado por vê-lo; mas isso impede a minha vinda ao Clube, como tinha planeado fazer, e agora suponho que não estarei em Londres até 16 de dezembro, se os afazeres não me obrigarem a vir mais cedo. Claro que não disse uma palavra a Henslow sobre a minha mudança de planos. Ansiava com prazer por um bate-papo consigo e com outros.
P.S. 2. — Trabalhei todo o dia de ontem à noite a pensar, e escrevi o papel enviado por este correio esta manhã. Nem uma frase serviria, mas é o tipo de esboço aproximado que eu teria desenhado se tivesse de o fazer. Deus sabe se o ajudará em alguma coisa. Está miseravelmente escrito, com metáforas horrivelmente más, provavelmente com uma gramática terrivelmente má. É a minha impressão deliberada, tal como teria escrito a qualquer amigo que me tivesse perguntado o que pensava dos méritos de Lyell. Farei qualquer outra coisa que deseje, ou que eu possa.
CARTA 70. A J.D. HOOKER. Down, 30 de dezembro [1858].
Mandei copiar isto para lhe poupar trabalho, uma vez que estava vilmente escrito, e agora está vilmente expresso.
A sua carta interessou-me imenso; mas quão inextricáveis são os assuntos que estamos a discutir! Não penso que disse que pensava que as produções da Ásia eram MAIS ELEVADAS (70/1. Sobre o uso dos termos "mais elevado" e "mais baixo", ver Cartas 35 e 36.) do que as da Austrália. Tenciono evitar cuidadosamente esta expressão (70/2. Num papel de notas a lápis presas na cópia de Darwin dos "Vestígios", ocorrem as palavras: "Nunca use a palavra (sic) mais elevado e mais baixo."), pois não penso que alguém tenha uma ideia definida do que se quer dizer com mais elevado, exceto em classes que podem ser vagamente comparadas com o homem. Na nossa teoria da Seleção Natural, se os organismos de qualquer área pertencentes aos períodos Eocénico ou Secundário fossem postos em competição com os que agora existem na mesma área (ou provavelmente em qualquer parte do mundo), eles (isto é, os antigos) seriam batidos de forma retumbante e exterminados; se a teoria for verdadeira, tem de ser assim. Da mesma forma, acredito, um maior número das produções da Ásia, o maior território do mundo, venceria as da Austrália, do que inversamente. Assim parece ser entre a Europa e a América do Norte, pois dificilmente posso acreditar que a diferença no fluxo de comércio cause uma diferença tão grande nas proporções de imigrantes. Mas este tipo de "elevação" (gostaria de poder inventar alguma expressão, e devo tentar fazê-lo) é diferente de elevação na aceção comum da palavra. Poderia estar ligado à degradação da organização: assim, a cobra cega e degradada semelhante a um verme (Typhlops) poderia suplantar a minhoca verdadeira. Aqui, então, haveria degradação na classe, mas certamente aumento na escala de organização nos habitantes gerais do país. Por outro lado, seria tão fácil acreditar que minhocas verdadeiras pudessem vencer a Typhlops. Não vejo como esta "elevação competitiva" possa ser testada de qualquer forma por nós. E isto é um conforto para mim quando comparo mentalmente os organismos silurianos e recentes. Não que duvide que um longo curso de "elevação competitiva" tornará, em última análise, a organização mais elevada em todos os sentidos da palavra; mas parece muito difícil testá-lo. Olhe para a Erigeron canadensis, por um lado, e para a Anacharis (70/3. Anacharis (Elodea canadensis) e Erigeron canadensis são ambas imigrantes bem-sucedidas da América.) por outro; estas plantas devem ter alguma vantagem sobre as produções europeias, para se espalharem como o fizeram. Mas quem a poderia descobrir? Os macacos podem coexistir com preguiças e gambás, ordens no fundo da escala; e os gambás poderiam muito bem ser vencidos por insetívoros placentários, vindos de um país onde não havia macacos, etc. Lamento renunciar à visão de que um território contínuo antigo e muito grande produziria geralmente organismos mais elevados no sentido competitivo do que um território menor. Posso, claro, estar totalmente errado sobre as plantas da Austrália (e os seus factos são, claro, totalmente novos para mim sobre a sua elevação), mas quando leio os relatos da imensa disseminação de plantas europeias na Austrália, e penso na lã e no milho trazidos de lá para a Europa, e nem uma planta naturalizada, dificilmente posso evitar a suspeita de que a Europa vence a Austrália nas suas produções. Se muitas (isto é, mais do que uma ou duas) plantas australianas estiverem VERDADEIRAMENTE naturalizadas na Índia (N.B. A naturalização nas montanhas indianas dificilmente é justa, já que as montanhas são pequenas ilhas na terra), tenho de baixar as velas. Ficaria contente por saber se o que escrevi de forma muito obscura sobre este ponto produz ALGUM efeito em si; pois quero clarificar a minha mente, já que talvez devesse colocar uma ou duas frases no meu resumo sobre este assunto. (70/4. Resumo era o nome de Darwin para a "Origem" durante partes de 1858 e 1859.)
Sempre estive disposto a baixar as velas em relação a antigas extensões imensas de terra nos oceanos, se algum caso o exigisse em grau eminente. Talvez o seu possa ser um caso desses, mas, por ora, prefiro muito mais terra nas regiões antárticas, onde agora só há gelo e neve, mas que, antes do período Glacial, poderiam muito bem ter estado cobertas de vegetação. Assim, tem de inventar muito menos terra, e uma terra mais central; e a ajuda é obtida pelo gelo flutuante para o transporte de sementes.
Espero não o fatigar ao rabiscar as minhas noções com este comprimento. Depois de lhe ter escrito pela última vez, comecei a pensar que a Terra Malaia poderia ter existido durante parte da época Glacial. A razão pela qual duvidei inicialmente foi a diferença dos mamíferos existentes em diferentes ilhas; mas muitos são muito próximos, e alguns idênticos nas ilhas, e estou constantemente a enganar-me ao pensar na pequena mudança que as conchas e as plantas, embora coexistindo no seu próprio hemisfério norte, sofreram desde a época Glacial; mas estou convencido de que este é um raciocínio muito falso, pois as relações de um organismo com novos organismos, quando reunidos, são, de longe, as mais importantes.
Quando fala de plantas que sofreram mais alterações desde períodos geológicos antigos do que os animais, não estará antes a comparar plantas com animais superiores? Pense em quão pouco alguns, na verdade muitos, moluscos mudaram. Lembre-se do Nautilus siluriano, da Lingula e de outros Braquiópodes, e da Nucula, e entre os Equinodermes, do Asterias siluriano, etc.
O que diz sobre a pequenez das plantas de água salobra interessa-me. Lembro-me de que tendem a ser sociais (isto é, muitos indivíduos em comparação com as formas específicas), e sentir-me-ia tentado a encarar isto como um caso de uma área muito pequena, e, consequentemente, de muito poucos indivíduos em comparação com os da terra ou da água doce pura; e, portanto, menos desenvolvimento (palavra odiosa!) do que em terra ou na água doce. Mas aqui entra a sua espada de dois gumes! Gostaria muito de ver qualquer artigo sobre plantas de água salobra ou da orla do mar; mas suponho que nunca tenha sido publicado nada desse género.
Obrigado pelo Nelumbium, pois penso que foi esta a planta que, pelo tamanho da semente, me espantou, e que A. De Candolle apresentou como um caso maravilhoso de transporte quase impossível. Descubro agora, para meu espanto, que as garças se alimentam por vezes de frutos [ilegível]; e os mergulhões de sementes de Compostas.
Muito obrigado pela oferta de ajuda quanto a uma subvenção para o Resumo; mas espero que se venda o suficiente para pagar as despesas.
Estou a ler a sua carta e a rabiscar à medida que avanço.
O seu caso do carvalho e do castanheiro parece-me muito curioso; não será ainda mais curioso pelo facto de as faias terem ido para, ou vindo do sul? Mas protesto veementemente contra o facto de você, ou qualquer outra pessoa, tornar tais casos maravilhas especiais, sem que esteja preparado para dizer por que razão cada espécie em qualquer flora é duas ou três vezes, etc., mais rara do que cada outra espécie que cresce no mesmo solo. Quanto mais penso, mais evidente me parece quão totalmente ignorantes somos das mil contingências das quais dependem a distribuição, a frequência e a extinção de cada espécie.
Por vezes pensei, a partir dos Edentata (70/5. Sem dúvida um lapso de pena para Monotremata.) e Marsupialia, que a Austrália retém um vestígio do antigo e anterior estado da fauna do mundo, e suponho que você esteja a chegar a alguma conclusão semelhante para as plantas; mas a relação entre o Cabo e a Austrália não será demasiado especial para tais pontos de vista? Deduzo dos seus escritos que a relação é demasiado especial entre a Fuegia e a Austrália para nos permitir ver as semelhanças em certas plantas como relíquias de semelhanças mundanas. Por outro lado, não terão as Ilhas Sandwich, no Hemisfério Norte, algumas relações estranhas com a Austrália? Quando estivermos mortos e enterrados, que assunto nobre será a Distribuição Geográfica!
Pode dizer o que quiser, mas nunca me convencerá de que não lhe devo dez vezes mais do que você pode dever-me. Adeus, meu caro Hooker. Lamento saber que ambos estão indispostos com gripe. Não se incomode em responder a nada disto, exceto à sua impressão geral sobre a batalha entre o Norte e o Sul.
CAPÍTULO 1.III.--EVOLUÇÃO, 1859-1863.
CARTA 71. PARA A.R. WALLACE. Down, 6 de abril de 1859.
Recebi esta manhã a sua agradável e amigável nota de 30 de novembro. A primeira parte do meu manuscrito está nas mãos de Murray para ver se ele quer publicá-lo. Não há prefácio, mas uma curta introdução, que deve ser lida por todos os que lerem o meu livro. O segundo parágrafo da introdução (71/1. "Origem das Espécies", Edição I., 1859, páginas 1 e 2.) mandei copiar palavra por palavra da minha cópia de rascunho, e espero que pense que mencionei de forma justa o seu artigo no "Linn. Journal". (71/2. "Sobre a Tendência das Espécies para formar Variedades, e sobre a Perpetuação de Variedades e Espécies por Meios Naturais de Seleção." Por Charles Darwin e Alfred Russell Wallace. Comunicado pelo Sir Charles Lyell e J.D. Hooker. "Journ. Linn. Soc." Volume III., página 45, 1859. (Lido a 1 de julho de 1858.)) Deve lembrar-se de que estou agora a publicar apenas um resumo, e não dou referências. Farei, naturalmente, alusão ao seu artigo sobre distribuição (71/3. "Sobre a Lei que tem regulado a Introdução de Novas Espécies" (A.R. Wallace). "Ann. Mag. Nat. Hist." Volume XVI., página 184, 1855. A lei aludida é assim declarada por Wallace: "Toda a espécie surgiu coincidente tanto no espaço como no tempo com uma espécie pré-existente intimamente relacionada" (loc. cit., página 186).); e acrescentei que sei, por correspondência, que a sua explicação da sua lei é a mesma que eu ofereço. Tem razão ao dizer que cheguei à conclusão de que a seleção era o princípio da mudança a partir do estudo das produções domesticadas; e então, ao ler Malthus, vi imediatamente como aplicar este princípio. A distribuição geográfica e as relações geológicas dos habitantes extintos com os recentes da América do Sul levaram-me primeiro ao assunto: especialmente o caso das Ilhas Galápagos. Espero ir para a tipografia no início do próximo mês. Será um pequeno volume de cerca de quinhentas páginas ou mais. Enviar-lhe-ei, naturalmente, um exemplar. Esqueço-me se lhe disse que Hooker, que é o nosso melhor botânico britânico e talvez o melhor do mundo, é um convertido pleno, e vai agora publicar imediatamente a sua confissão de fé; e espero ver diariamente as provas de impressão. (71/4. "A Flora da Austrália, etc., um Ensaio Introdutório à Flora da Tasmânia." Londres 1859.) Huxley mudou, e acredita na mutação das espécies: se é um convertido a nós, não sei bem. Viveremos para ver todos os homens mais jovens convertidos. O meu vizinho e excelente naturalista, J. Lubbock, é um convertido entusiasta. Vejo que está a fazer um grande trabalho no Arquipélago; e sinto-me muito solidário consigo. Pelo amor de Deus, cuide da sua saúde. Houve poucos trabalhadores tão nobres na causa da Ciência Natural como você.
P.S. Não pode imaginar como admiro o seu espírito, na forma como aceitou tudo o que foi feito sobre a publicação de todos os nossos artigos. Eu tinha escrito uma carta para si, declarando que não publicaria nada antes de você publicar. Eu não tinha enviado essa carta para o correio quando recebi uma de Lyell e Hooker, instando-me a enviar-lhes algum manuscrito, e a permitir-lhes agir como achassem justo e honesto para ambos; e assim o fiz.
(71/5. O que se segue é a passagem da Introdução à "Origem das Espécies", referida no primeiro parágrafo da carta acima.)
"O meu trabalho está agora quase terminado; mas como me levará mais dois ou três anos a completá-lo, e como a minha saúde está longe de ser robusta, fui instado a publicar este Resumo. Fui mais especialmente induzido a fazê-lo, dado que o Sr. Wallace, que está agora a estudar a História Natural do Arquipélago Malaio, chegou a conclusões gerais quase exatamente iguais às que eu tenho sobre a origem das espécies. No ano passado, ele enviou-me um memorando sobre este assunto, com o pedido de que o encaminhasse ao Sir Charles Lyell, que o enviou para a Sociedade Lineana, e está publicado no terceiro volume do Jornal dessa Sociedade. O Sir C. Lyell e o Dr. Hooker, que ambos conheciam o meu trabalho -- tendo o último lido o meu esboço de 1844 -- honraram-me ao pensarem que seria aconselhável publicar, com o excelente memorando do Sr. Wallace, alguns breves excertos dos meus manuscritos."
CARTA 72. PARA J.D. HOOKER. Down, 3 de maio de 1859.
No que diz respeito à reversão, tenho estado a remexer memórias vagas de factos vagos; e a impressão na minha mente é um pouco mais favorável à reversão do que quando você esteve aqui.
No meu resumo (72/1. "A Origem das Espécies.") dou apenas um parágrafo sobre o caso geral da reversão, embora entre em detalhe sobre alguns casos de reversão de carácter especial. Ainda não coloquei todos os meus factos sobre este assunto em massa, por isso não posso chegar a nenhuma conclusão definitiva. Mas como caracteres isolados podem reverter, devo dizer que não vejo nenhuma improbabilidade em vários reverterem. Como não acredito que sejam conhecidas experiências ou factos bem fundamentados, cada um deve formar a sua opinião a partir de generalidades vagas. Penso que confunde duas considerações bastante distintas; uma variação surge de qualquer causa, e a reversão não se opõe a isto, mas apenas à sua herança. Não que eu acredite que o que talvez devamos chamar de uma dúzia de leis distintas estejam todas a lutar umas contra as outras em cada variação que surge. Para dar a minha impressão, se eu fosse forçado a apostar se, após cem gerações de crescimento num solo arenoso pobre, uma couve-flor e uma couve roxa reverteriam ou não para a mesma forma, devo dizer que preferia apostar o meu dinheiro em como reverteriam. Mas em tal caso as condições de vida são alteradas (e aqui surge a questão da influência direta da condição), e não há seleção, os efeitos comparativamente repentinos da seleção do homem são deixados ao livre jogo da reversão.
Em suma, não me atrevo a chegar a qualquer conclusão sem comparar todos os factos que recolhi, e não penso que existam muitos.
Por favor, não diga a ninguém que pensei que o meu livro sobre espécies seria razoavelmente popular e teria uma venda razoavelmente remuneradora (o que era o auge da minha ambição), pois se se revelar um fracasso total, tornar-me-ia ainda mais ridículo.
CARTA 73. PARA W.H. MILLER. Down, 5 de junho [1859].
Agradeço-lhe muito a sua carta. Se eu tivesse visto o interesse da minha observação, teria feito muitas mais medições, embora tenha feito várias. Apresentei os factos apenas para dar ao leitor geral uma ideia da espessura das paredes. (73/1. As paredes das células das abelhas: ver Carta 173.)
Especialmente se eu tivesse visto que o facto tinha qualquer relevância geral, teria declarado que, tanto quanto pude medir, as paredes não são de forma alguma perfeitamente da mesma espessura. Também teria declarado que a principal diferença é quando a espessura das paredes da parte superior do hexágono e das placas basais piramidais é contrastada. Far-me-á o favor de olhar com uma lente forte para o bocado de favo, escovando com uma faca as arestas superiores espessadas, e depois comparar, apenas a olho, a espessura das paredes aí com a espessura das placas basais, como se vê em qualquer corte transversal. Gostaria muito de saber se, mesmo desta forma, a diferença não é percetível. É geralmente assim percetível comparando a espessura das paredes do hexágono (se não for tomada muito perto do ângulo) perto das placas basais, onde a comparação a olho é naturalmente mais fácil. A sua carta deixou-me realmente doente de pânico; por não ver qualquer grande importância [no] facto, até olhar para as minhas notas, não me lembrava de ter feito várias medições. Repeti agora as mesmas medições, grosseiramente com os mesmos resultados gerais, mas a diferença, penso eu, dificilmente é o dobro.
Não teria mencionado a espessura das placas basais de todo, se não tivesse pensado que daria uma noção injusta da espessura das paredes declarar apenas as medições menores.
CARTA 74. PARA W.H. MILLER. [1859]
Não tinha pensado que você mediria a espessura das paredes das células; mas se o fizer, e me permitir dar as suas medições, será uma vantagem imensa. Como não dá trabalho, envio mais espécimes. Se medir, por favor observe que medi a espessura das paredes dos prismas hexagonais não muito perto da base; mas, pelas suas observações muito interessantes, a parte inferior das paredes deveria ser medida.
Obrigado pela sugestão sobre como as abelhas julgam os ângulos e as distâncias. Tê-la-ei em mente. É uma perplexidade completa para mim, e no entanto certamente os insetos podem, de alguma forma rude, julgar a distância. Existem dificuldades especiais devido à gradação de tamanho entre as células-operárias e as células-zangão maiores. Estou a tentar testar o caso praticamente, obtendo favos de diferentes espécies, e da nossa própria abelha de diferentes climas. Recebi ultimamente alguns das Índias Ocidentais da nossa abelha comum, mas as células PARECEM certamente ser maiores; mas ainda não foram cuidadosamente medidas. Terei a sua sugestão em mente sempre que regressar às experiências com abelhas vivas; mas isso não será em breve.
Como tem estado a considerar a minha pequena discussão em relação a Lord Brougham (74/1. Artigo de Lord Brougham sobre "A Estrutura Matemática das Células das Abelhas", lido perante o Instituto Nacional de França em maio de 1858.), e como fui mais vituperado por esta parte do que por quase qualquer outra, gostaria apenas de lhe dizer como penso que a situação se encontra. A discussão, vista por si só, vale pouco mais do que o papel em que está impressa, exceto na medida em que contém três ou quatro factos certamente novos. Mas para aqueles que estão inclinados a acreditar na verdade geral da conclusão de que as espécies e os seus instintos são lentamente modificados pelo que chamo de Seleção Natural, penso que a minha discussão remove quase uma dificuldade muito grande. Acredito na sua verdade principalmente devido à existência da Melipona, que faz um favo tão intermédio em estrutura entre o da abelha-zangão e o da abelha-do-mel, e especialmente devido ao novo e curioso facto de as abelhas fazerem taças ou pires lisos quando escavavam num pedaço espesso de cera, cujos pires ficavam tão próximos que hexágonos eram construídos sobre as suas arestas de interseção. E, por último, porque quando escavavam numa fina tira de cera, a escavação em ambos os lados de bacias lisas semelhantes era interrompida, e planos planos eram deixados entre as bacias quase opostas. Se a minha visão fosse totalmente falsa, estes casos, penso eu, nunca teriam ocorrido. Sedgwick e companhia podem abusar de mim quanto quiserem, mas continuarei, por enquanto, a pensar que a minha é uma explicação racional (na medida em que vai) do seu método de trabalho.
CARTA 75. PARA W.H. MILLER.
Down, 1 de dezembro [1859].
Há alguns meses, teve a amabilidade de dizer que mediria a espessura das paredes das placas basais e laterais da célula da abelha. Poderia encontrar tempo para o fazer em breve? A razão pela qual quero isso em breve é que soube ultimamente por Murray que ele vendeu na sua venda muito mais exemplares do que tem da "Origem das Espécies", e que devo preparar imediatamente uma nova edição, que estou agora a corrigir. A propósito, ouvi dizer por Murray que todos os ataques acumulados ao meu livro não parecem ter prejudicado de todo a venda, o que fará o pobre e querido velho Sedgwick gemer. Se as placas basais e as paredes diferirem consideravelmente em espessura, como certamente diferiam na uma ou duas células que medi sem cuidado particular (pois nunca pensei que o ponto tivesse qualquer importância), dir-me-á o significado do facto tão simplesmente quanto puder, pela hipótese de alguém tão estúpido como eu em geometria ser capaz de compreender?
Será que a maior espessura das placas basais e da orla dos hexágonos seria uma boa adaptação para suportar o peso vertical das células cheias de mel e que suportam grupos de abelhas vivas?
Esforçar-se-á por arranjar tempo e conceder-me este favor?
P.S. Se o resultado da sua medição da espessura das paredes for de todo o que afirmei, não valeria a pena escrever um pequeno artigo sobre o assunto da sua nota anterior; e "depenar" as abelhas se elas merecerem esta degradação? Muitos matemáticos parecem ter achado o assunto digno de atenção. Quando as células estão cheias de mel e pendem verticalmente, têm de suportar um grande peso. Poderão as placas basais mais espessas ser um artifício para dar força a todo o favo, com menos consumo de cera, do que se todos os lados dos hexágonos fossem espessados?
Esta noção crua passou-me anteriormente pela mente; mas, claro, está fora do meu alcance sequer conjeturar como seria o caso.
Um matemático, o Sr. Wright, tem estado a escrever sobre a geometria das células das abelhas nos Estados Unidos em consequência do meu livro; mas dificilmente consigo compreender o seu artigo. (75/1. Chauncey Wright, "Observações sobre a Arquitetura das Abelhas" ("Amer. Acad. Proc." IV., 1857-60, página 432.)
CARTA 76. PARA T.H. HUXLEY.
(76/1. A data desta carta é infelizmente duvidosa, caso contrário provaria que, desde cedo, ele estava familiarizado com as visões de Erasmus Darwin sobre a evolução, um facto que nem sempre tem sido reconhecido. Dificilmente podemos duvidar de que foi escrita em 1859, pois nesta altura o Sr. Huxley estava a recolher factos sobre a criação para a sua palestra dada na Royal Institution a 10 de fevereiro de 1860, sobre "Espécies e Raças e a sua Origem". Ver "Vida e Cartas", II., página 281.)
Down [junho?] 9 [1859?].
Se no dia 11 tiver meia hora livre, talvez goste de ver uma muito boa exibição de pombos, e o cartão em anexo admiti-lo-á.
A história do erro é totalmente sem importância, mas é curioso observar quão exata e precisamente o meu avô (em "Zoonomia", Volume I., página 504, 1794) apresenta a teoria de Lamarck. Citarei uma frase. Falando dos bicos das aves, diz ele: "Todos os quais parecem ter sido gradualmente produzidos durante muitas gerações pelo esforço perpétuo das criaturas para suprir a falta de comida, e ter sido entregues à sua posteridade com melhoria constante dos mesmos para os fins exigidos." Lamarck publicou a "Hist. Zoolog." em 1809. A "Zoonomia" foi traduzida para muitas línguas.
CARTA 77. PARA C. LYELL. Down, 28 [junho 1859].
Não vale a pena incomodá-lo, mas a minha consciência está inquieta por me ter esquecido de lhe agradecer pela sua "Etna" (77/1. "Sobre a Estrutura das Lavas que foram consolidadas em Encostas Íngremes, com observações sobre o Modo de Origem do Monte Etna, e sobre a Teoria das 'Crateras de Elevação'" ("Phil. Trans. R. Soc." Volume CXLVIII., 1858, página 703).), que me parece uma magnífica contribuição para a geologia vulcânica, e penso que poderia agora descansar sobre os louros neste departamento.
Assim que conseguir um exemplar do meu livro (77/2. "A Origem das Espécies", Londres, 1859.) pronto, dentro de seis semanas ou dois meses, ser-lhe-á enviado; e se o aprovar, mesmo que moderadamente, será a maior satisfação que alguma vez receberei por uma quantidade de trabalho que ninguém apreciará.
CARTA 78. PARA J.D. HOOKER.
(78/1. A referência na carta que se segue é às provas da "Flora Australiana" de Hooker.)
Down, 28 [julho 1859].
O texto devolvido é, em sua maior parte, aquele que recebi em manuscrito. Algumas partes parecem-me (embora talvez possa ser esquecimento) muito melhoradas, e mantenho a minha impressão anterior de que toda a discussão sobre a flora australiana é admiravelmente boa e original. Sei que compreenderá e não se oporá a que eu expresse a minha opinião (pois é preciso formar uma) de forma tão presunçosa. Não tenho críticas, exceto talvez pelo fato de que eu gostaria que dissesse em algum lugar, quando se referir a mim, que se refere apenas à nota no "Linnean Journal"; não que, pela minha deliberada palavra de honra, eu espere que pense mais favoravelmente de todo o conjunto do que da sugestão no "Journal". Estou mais do que satisfeito com o que diz sobre o meu trabalho; contudo, seria bom evitar a aparência de que as suas observações são uma crítica ao meu trabalho mais completo.
Lamento muito saber que está tão sobrecarregado de trabalho. Eu também avanço muito lentamente, e mal acabei metade do meu volume... Regressei na última terça-feira de uma semana de hidropatia.
Tome cuidado comigo e não trabalhe demasiado. Pelo amor de Deus, pense nisto.
É um trabalho terrivelmente árduo para mim conseguir terminar o meu infame volume.
Desejo-lhe boa sorte em todos os seus labores. Adios.
CARTA 79. PARA ASA GRAY. Down, 29 de novembro [1859].
Esta será uma nota tão extraordinária como nunca recebeu de mim, pois não conterá uma única pergunta ou pedido. Agradeço-lhe pela sua impressão sobre as minhas opiniões. Cada crítica de um homem bom é de valor para mim. O que sugere de modo geral é muito, muito verdadeiro: que o meu trabalho será gravemente hipotético, e grandes partes de modo algum dignas de serem chamadas de indução, sendo o meu erro mais comum provavelmente a indução a partir de fatos escassos. Eu não tinha pensado na sua objeção sobre eu usar o termo "seleção natural" como um agente. Uso-o muito como um geólogo usa a palavra denudação — para um agente, expressando o resultado de várias ações combinadas. Terei o cuidado de explicar, não apenas por inferência, o que quero dizer com o termo; pois devo usá-lo, caso contrário teria de o expandir incessantemente para uma fórmula como a seguinte (aqui miseravelmente expressa): "A tendência para a preservação (devido à severa luta pela vida a que todos os seres orgânicos estão em algum momento ou geração expostos) de qualquer variação, por mais ligeira que seja, em qualquer parte, que seja da mínima utilidade ou favorável à vida do indivíduo que assim variou; juntamente com a tendência para a sua hereditariedade." Qualquer variação, que não fosse de utilidade alguma para o indivíduo, não seria preservada por este processo de "seleção natural". Mas não o vou cansar continuando, pois não suponho que pudesse tornar o meu significado mais claro sem uma grande expansão. Apenas acrescentarei mais uma frase: várias variedades de ovelhas foram soltas juntas nas montanhas de Cumberland, e verifica-se que uma raça específica tem tanto mais sucesso do que todas as outras que as faz morrer à fome. Eu diria aqui que a seleção natural escolhe esta raça, e tenderia a melhorá-la, ou a tê-la formado originalmente...
Fala de as espécies não terem qualquer base material sobre a qual repousar, mas será isto um obstáculo maior do que decidir o que merece ser chamado de variedade, e ser designado por uma letra grega? Quando eu estava a trabalhar sistematicamente, sei que desejava não ter outra dificuldade (já suficientemente grande) do que decidir se a forma era distinta o suficiente para merecer um nome, e não ser assombrado por questões indefinidas e sem resposta sobre se era uma verdadeira espécie. Que salto é esse, de uma variedade bem marcada, produzida por causa natural, para uma espécie produzida pelo ato separado da mão de Deus! Mas estou a divagar tolamente. A propósito, encontrei outro dia Phillips, o paleontólogo, e ele perguntou-me: "Como define uma espécie?" Eu respondi: "Não consigo." Ao que ele disse: "finalmente encontrei a única definição verdadeira, qualquer forma que já tenha tido um nome específico!"...
CARTA 80. PARA C. LYELL. Ilkley, 31 de outubro [1859].
Para que não interprete mal até que ponto vou com Pallas e os seus muitos discípulos, gostaria de acrescentar que, embora acredite que os nossos cães domésticos descendem de várias formas selvagens, e embora deva pensar que a esterilidade, que provavelmente teriam demonstrado se cruzados antes de serem domesticados, foi eliminada, ainda assim acompanho muito pouco Pallas & Co. na sua crença na importância do cruzamento e da mistura das linhagens aborígenes. (80/1. "Com os nossos animais domesticados, as várias raças, quando cruzadas entre si, são bastante férteis; contudo, em muitos casos, descendem de duas ou mais espécies selvagens. Deste fato devemos concluir ou que as espécies parentais aborígenes produziram inicialmente híbridos perfeitamente férteis, ou que os híbridos subsequentemente criados sob domesticação tornaram-se bastante férteis. Esta última alternativa, que foi primeiro proposta por Pallas, parece de longe a mais provável, e pode, na verdade, dificilmente ser posta em dúvida" ("Origem das Espécies", Edição VI, página 240).) Verá isto brevemente exposto no primeiro capítulo. Geralmente, no que diz respeito ao cruzamento, os efeitos podem ser diametralmente opostos. Se cruzar duas raças muito distintas, pode criar (não que eu acredite que tal tenha sido feito muitas vezes) uma terceira e nova raça intermédia; mas se cruzar duas raças excessivamente próximas, ou dois indivíduos ligeiramente diferentes da mesma raça, então, de fato, anula e oblitera a diferença. Desta última forma, acredito que o cruzamento é de suma importância, e agora, há vinte anos, trabalho com flores e insetos sob este ponto de vista. Não gosto dos termos de Hooker, centripeto e centrifugo (80/2. "Ensaio Introdutório à Flora da Tasmânia" de Hooker, páginas viii. e ix.): lembram-me o mau termo de Forbes, Polaridade. (80/3. Forbes, "Sobre a Manifestação da Polaridade na Distribuição dos Seres Organizados no Tempo."--"R. Institution Proc." I., 1851-54.)
Atrevo-me a dizer que a seleção pelo homem funcionaria geralmente mais depressa do que a Seleção Natural; mas a distinção importante entre elas é que o homem dificilmente pode selecionar exceto caracteres externos e visíveis, e, em segundo lugar, ele seleciona para o seu próprio bem; enquanto que, na natureza, caracteres de todos os tipos são selecionados exclusivamente para o próprio bem de cada criatura, e são bem exercidos; mas encontrará tudo isto no Capítulo IV.
Embora o cão de caça, o galgo e o buldogue possam possivelmente ter descendido de três linhagens distintas, estou convencido de que a sua grande quantidade atual de diferença se deve principalmente às mesmas causas que tornaram as raças de pombos tão diferentes umas das outras, embora estas raças de pombos tenham todas descendido de uma única linhagem selvagem; pelo que a doutrina Pallasiana considero apenas de importância bastante secundária.
No meu livro maior, expliquei o meu significado plenamente; se o fiz no Resumo, não me lembro.
CARTA 81. PARA C. LYELL. [5 de dezembro de 1859.]
Esqueço-me se subscreve o "Times"; pela possibilidade de não o fazer, envio a carta rica em anexo. (81/1. Ver o "Times", 1 de dezembro e 5 de dezembro de 1859: duas cartas assinadas por "Senex", tratando de "Obras de Arte na Deriva".) É, tenho a certeza, de Fitz-Roy... É uma pena que ele não tenha acrescentado a sua teoria da extinção do Mastodonte, etc., devido à porta da Arca ter sido feita demasiado pequena. (81/2. Um posfácio a esta carta, aqui omitido, é publicado em "Vida e Cartas", II., página 240.)
CARTA 82. FRANCIS GALTON PARA CHARLES DARWIN. 42, Rutland Gate, Londres, S.W., 9 de dezembro de 1859.
Peço-lhe que me deixe acrescentar uma palavra de parabéns pela conclusão do seu maravilhoso volume, àquelas que tenho certeza de que terá recebido de todos os lados. Deixei-o de lado no pleno gozo de um sentimento que raramente se experimenta após os dias de infância, o de ter sido iniciado numa província de conhecimento inteiramente nova, que, no entanto, se conecta com outras coisas de mil maneiras. Ouvi dizer que está empenhado numa segunda edição. Há um erro trivial na página 68, sobre rinocerontes (82/1. Down (loc. cit.) diz que nem o elefante nem o rinoceronte são destruídos por animais de rapina. O Sr. Galton escreveu que os cães selvagens caçam o rinoceronte jovem e "exaurem-no até à morte; perseguem-no todo o dia, rasgando as suas orelhas, a única parte onde os seus dentes se podem agarrar." A referência ao rinoceronte é omitida em edições posteriores da "Origem".), que achei que poderia apontar, e aproveitei a mesma oportunidade para rabiscar meia dúzia de outras notas, que podem, ou não, ser inúteis para si.
(83/1. As três cartas seguintes referem-se à palestra de Huxley sobre Evolução, dada na Royal Institution em 10 de fevereiro de 1860, da qual a peroração é dada em "Vida e Cartas", II., página 282, juntamente com algumas cartas sobre o assunto.)
CARTA 83. PARA T.H. HUXLEY. 25 de novembro [1859].
Regozijo-me imensamente com a palestra. Estarei em casa dentro de quinze dias, quando lhe poderia enviar esplêndidos desenhos coloridos em fólio de pombos. Isto chegaria a tempo? Se não, penso que poderia escrever aos meus criados e tê-los-ia enviados para si. Se NÃO ouvir nada, entenderei que cerca de quinze ou dezesseis dias chegarão a tempo.
Recebi uma carta gentil, embora cortante, contra mim, do pobre e querido velho Sedgwick, "que riu até lhe doerem os lados com o meu livro".
Phillips é cauteloso, mas decididamente, receio, hostil. Viva a Palestra — é grandiosa!
CARTA 84. PARA T.H. HUXLEY. Down, 13 de dezembro [1859].
Tenho belos desenhos grandes (84/1. Para a palestra de R.I. do Sr. Huxley.) do Pouter, Carrier e Tumbler; só tenho desenhos em livros de Fantails, Barbs e Scanderoon Runts. Se os tivesse, teria uma grande exibição de extremos de diversidade. Pagariam na Royal Institution pela cópia em tamanho grande de desenhos destes pássaros? Poderia emprestar crânios de um Carrier e de um Tumbler (para mostrar a grande diferença) para o mesmo propósito, mas provavelmente não valeria a pena.
Tenho estado a olhar para o meu manuscrito. O que quer, acredito, é sobre hibridismo e criação. O capítulo sobre hibridismo está num estado bastante bom — cerca de 150 páginas de fólio com notas e referências no verso. O meu primeiro capítulo sobre criação está num estado demasiado mau e imperfeito para enviar; mas a minha discussão sobre pombos (em cerca de 100 páginas de fólio) está num estado bastante bom. Estou perfeitamente convencido de que nunca teria paciência para ler tais volumes de manuscritos. Falo agora no palácio da verdade, e rezo para que o faça também: se pensa que os leria, enviá-los-ei de bom grado pelo meu criado, ou levá-los-ei eu mesmo na próxima semana. Mas não tenho cópia, e nunca poderia substituí-los; e, a menos que pensasse realmente que os usaria, preferia não arriscar. Mas repito que os trarei de bom grado, se pensa que teria a vasta paciência para os usar. Por favor, deixe-me ouvir sobre este assunto, e se devo enviar o livro com desenhos pequenos de três outras raças ou crânios. Ouvi um rumor de que Busk está do nosso lado em relação às espécies. Será assim? Seria muito bom.
CARTA 85. PARA T.H. HUXLEY. Down, 16 de dezembro [1859].
Agradeço-lhe pela sua nota muito agradável e divertida e pelo convite para jantar, que lamento dizer que não posso aceitar. Subirei (se o estômago permitir) na quinta-feira para o jantar do Phil. Club, e voltarei no sábado, e estou comprometido com o meu irmão para a sexta-feira. Mas gostaria muito de passar pelo Museu na sexta-feira ou sábado de manhã e vê-lo. Deixar-me-ia uma linha, quer aqui quer em 57, Queen Anne Street, para dizer a que horas costuma vir ao Museu, e se provavelmente estará lá na sexta-feira ou sábado? Mesmo que esteja no Clube, será uma mera coincidência se nos sentarmos perto um do outro.
Trarei os artigos na quinta-feira à tarde e deixá-los-ei sob a responsabilidade do porteiro no Museu. Consistirão em desenhos grandes de um Pouter, um Carrier, e desenhos um pouco menores de algumas sub-variedades (que se reproduzem quase puras) de Tumblers de cara curta. Também um desenho pequeno de Scanderoon, um tipo de Runt, e uma raça muito notável. Também um livro com desenhos muito moderadamente bons de Fantail e Barb, mas duvido muito que valha o trabalho de ampliar.
Também uma caixa (pelo amor de Deus, tome cuidado!) com um crânio de Carrier e de um Tumbler de cara curta; também mandíbulas inferiores (tamanho maior) de Runt, tamanho médio de pombo-das-rochas, e a larga de Barb. A forma do ramo da mandíbula difere curiosamente nestas mandíbulas.
Também manuscrito de hibridismo e pombos, que o irá apenas cansar até à morte. Eu próprio irei buscar ou enviarei um criado para buscar o manuscrito e os ossos sempre que tiver terminado com eles; mas não tenha pressa.
Acertou no plano exato que, por conselho de Lyell, Murray, etc., pretendo seguir — isto é, lançar volumes separados em detalhe — e começarei com produções domésticas; mas estou determinado a tentar [trabalhar] muito lentamente, para que, se possível, me possa manter num estado de saúde um pouco melhor. Não tinha pensado em ilustrações; esse é um conselho excelente. Adeus, meu bom e admirável agente para a promulgação de heresias condenáveis!
CARTA 86. PARA L. HORNER. Down, 23 de dezembro [1859].
Devo ter o prazer de lhe agradecer pela sua carta extremamente gentil. Estou muito satisfeito por aprovar o meu livro, e por me fazer o extraordinário elogio de o ler duas vezes. Receio que seja uma leitura difícil, mas está além das minhas capacidades tornar o assunto mais claro. Lyell tê-lo-ia feito admiravelmente.
Deve apreciar ser um cavalheiro à vontade, e ouvi dizer que regressou com ardor ao trabalho na Sociedade Geológica. Esperamos, no decorrer do inverno, persuadir a Sra. Horner e a si próprio e às suas filhas a nos fazerem uma visita. Ilkley fez-me um bem extraordinário durante a última parte da minha estadia e durante a minha primeira semana em casa; mas voltei ultimamente aos meus maus hábitos, e temo que nunca serei decentemente bem e forte.
P.S. — Quando algum dos seus familiares escrever a Mildenhall, ficaria muito grato se dissesse a Bunbury que espero que ele não se esqueça, sempre que ler o meu livro, da sua promessa de me fazer saber o que pensa dele; pois o seu conhecimento é tão vasto e preciso que todos devem valorizar as suas opiniões altamente. Ficarei totalmente satisfeito se a sua crença na imutabilidade das espécies for minimamente abalada.
CARTA 87. PARA C. LYELL.
(87/1. Na "Origem das Espécies" uma seção do Capítulo X. é dedicada a "A sucessão dos mesmos tipos dentro das mesmas áreas, durante o período Terciário tardio" (Edição I., página 339). O Sr. Darwin escreveu o seguinte: "O Sr. Clift mostrou há muitos anos que os mamíferos fósseis das cavernas australianas estavam estreitamente aliados aos marsupiais vivos daquele continente." Após citar outros exemplos ilustrando a mesma concordância entre tipos fósseis e recentes, o Sr. Darwin continua: "Fiquei tão impressionado com estes fatos que insisti fortemente, em 1839 e 1845, nesta 'lei da sucessão de tipos', nesta 'maravilhosa relação no mesmo continente entre os mortos e os vivos.' O Professor Owen subsequentemente estendeu a mesma generalização aos mamíferos do Velho Mundo.")
Down, [27 de dezembro] [1859].
Owen escreveu-me para pedir a referência a Clift. Como as minhas próprias notas para os capítulos finais estão todas em caos, pensei em quem seria o homem mais digno de confiança de todos para procurar referências, e respondi a mim mesmo: "Claro, Lyell." Nos ["Princípios de Geologia"], edição de 1833, Volume III., capítulo xi., página 144, encontrará a referência a Clift no "Edinburgh New Phil Journal", Nº XX., página 394. (87/2. A referência correta ao "Relatório" de Clift sobre ossos fósseis da Nova Holanda é "Edinburgh New Phil. Journal", 1831, página 394.) Também descobrirá que ficou muito impressionado com o fato em si (87/3. Isto refere-se à descoberta de espécies de animais recentes e fósseis numa brecha de caverna australiana. O Sr. Clift é citado como tendo identificado um dos ossos, que era muito maior do que os restantes, como sendo de um hipopótamo.), que eu tinha esquecido completamente. Copiei a passagem e enviei-a a Owen. A razão pela qual dei com algum detalhe referências ao meu próprio trabalho é que Owen (não é a primeira ocasião em relação a mim e a outros) ignora silenciosamente o fato de eu ter generalizado sobre o assunto, e faz um grande estardalhaço em mais de uma ocasião por ter descoberto a lei da sucessão. De fato, esta lei, com a distribuição das Galápagos, voltou primeiramente a minha mente para a origem das espécies. As minhas próprias referências são [para o "Naturalist's Voyage"]:
Grande 8vo, Murray, Edição 1839 Edição 1845
Página 210 Página 173 Sobre a sucessão.
Página 153 Páginas 131-32 Sobre a divisão de antigas províncias geográficas.
Muito antes de Owen publicar, eu tinha em manuscrito elaborado a sucessão de tipos no Velho Mundo (como me lembro de dizer a Sedgwick, que naturalmente não acreditou).
Desde que recebi a sua última carta sobre Hooker, li a sua introdução até à página xxiv (87/4. "Sobre a Flora da Austrália, etc.; sendo um Ensaio Introdutório à Flora da Tasmânia": Londres, 1859.), onde a flora australiana começa, e esta última parte foi a que mais gostei nas provas. É um ensaio magnífico. Duvido ligeiramente de algumas afirmações, ou melhor, teria gostado de mais fatos — como, por exemplo, em relação às espécies variarem mais nos limites da sua área de distribuição. Naturalmente, duvido um pouco das suas observações sobre divergência (87/5. "A variação é efetuada por mudanças graduadas; e a tendência das variedades, tanto na natureza como sob cultivo, quando variam ainda mais, é antes afastar-se mais e mais do tipo original do que reverter para ele." Na margem Darwin escreveu: "Sem seleção duvidoso" (loc. cit., página viii).), e sobre as raças domésticas serem produzidas na natureza sem seleção. Seria preciso muito para me persuadir de que um Pombo Pouter, ou um Carrier, etc., poderiam ter sido produzidos pelas meras leis da variação sem seleção prolongada, embora cada pequeno aumento de papo e bico se deva à variação. Discordo grandemente da sua comparação dos produtos de ilhas que afundam e ilhas que emergem (87/6. "Atrevo-me a antecipar que um estudo da vegetação das ilhas com referência às peculiaridades dos tipos genéricos por um lado, e das condições geológicas (sejam emergentes ou submersas) por outro, pode, no estado atual do nosso conhecimento, fazer avançar consideravelmente outros assuntos de distribuição e variação" (loc. cit., página xv).); no Oceano Índico ele compara exclusivamente muitas ilhas vulcânicas emergentes e ilhas de coral submersas. Estas últimas têm um solo muito peculiar, e são excessivamente pequenas em área, e são habitadas por muito poucas espécies; além disso, tais ilhas de coral baixas provavelmente foram frequentemente, durante a sua subsidência, totalmente submersas, e repovoadas por plantas de outras ilhas. No Oceano Pacífico as floras de todos os melhores casos são desconhecidas. A comparação deveria ter sido exclusivamente entre ilhas vulcânicas emergentes e com recifes, e ilhas vulcânicas submersas e circundadas. Li Naudin (87/7. Naudin, "Revue Horticole", 1852?.), e Hooker concorda que ele nem sequer toca nas minhas opiniões.
CARTA 88. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN. [1859 ou 1860.]
Tive outra conversa com Bentham, que está bastante agitado com o seu livro: evidentemente, o intelecto severo e aguçado está despertado, e ele descobre que é tarde demais para hesitar entre duas opiniões. Como as coisas irão decorrer, veremos. Estou intensamente interessado em saber a que conclusão chegaremos, e nunca toco no assunto com ele. Terminei ontem os capítulos sobre a evidência geológica; são muito bons e muito notáveis, mas não vejo que sejam objeções tão contundentes como você ainda as considera. Eu diria que você, na sua alma secreta, ainda subestima a imperfeição do Registro Geológico, embora nenhuma linguagem possa ser mais forte ou os argumentos mais justos e sólidos contra ele. Naturalmente, sou influenciado pela Botânica e pela convicção de que não temos, em condição fossilizada, uma fração das plantas que existiram, e que nem uma fração das que temos são reconhecíveis especificamente. Nunca vi ser exposto tão claramente o fato de que o que queremos não são intermediários entre as espécies existentes, mas entre estas e o desconhecido tertium quid.
Você certamente faz da Seleção Natural um passatempo, e provavelmente monta-o com demasiada força; essa é uma necessidade do seu caso. Se o aprimoramento da doutrina da criação-por-variação for concebível, será através do alívio da sua teoria da Seleção Natural, que à primeira vista parece sobrecarregada — isto é, por explicar demasiado. Penso, também, que algumas das suas dificuldades que você contorna com a Seleção Natural podem ceder perante outras explicações. Mas, oh Senhor! quão pouco sabemos e sabemos ter sido tão avançados em conhecimento por uma teoria. Se nos considerávamos cães sábios antes de você revelar a Seleção Natural, que cães ignorantes e malditos devemos ser agora que conhecemos essa lei.
Ouvi dizer que você poderá estar no Clube na quinta-feira. Espero que sim. Huxley não estará lá, portanto não venha por esse motivo.
CARTA 89. A T.H. HUXLEY. 1º de janeiro [1860].
Escrevo apenas uma linha para agradecer a sua nota agradável e para dizer que guardarei o seu segredo. Abanarei a cabeça tão misteriosamente quanto Lord Burleigh. Várias pessoas perguntaram-me quem escreveu aquele "artigo notabilíssimo" no "Times". Como um gato pode olhar para um rei, disse que suspeitava fortemente de si. O X foi tão perspicaz que a primeira frase revelou a autoria. Os Z (Deus nos livre) pensaram que era do Owen! Pode confiar que causou uma profunda impressão, e estou sinceramente contente que o assunto e eu lhe devamos esta nova obrigação. Mas, pelo amor de Deus, cuide da sua saúde; lembre-se de que o cérebro leva anos a descansar, enquanto os músculos levam apenas horas. Há o pobre Dana, a quem costumava pregar por carta, escreve-me que as minhas profecias se tornaram realidade: ele está em Florença completamente esgotado, não consegue ler nada nem escrever nada, e não consegue falar durante meia hora. Notei a "frase impertinente" sobre o Owen, embora a minha mulher tenha visto o seu alcance primeiro. Adeus, seu melhor e pior dos homens!
Aquela frase sobre os jantares de pássaros e peixes encantou-nos. Lyell escreveu-me — estilo igual ao seu.
Viu o artigo mordaz de 26 de dezembro no "Daily News", contra o facto de eu ter roubado o meu "mestre", o autor dos "Vestiges"?
CARTA 90. A J.L.A. DE QUATREFAGES. [Sem data]
Como gostaria de saber se Milne Edwards leu o exemplar que lhe enviei, e se ele pensa que apresentei um caso bastante bom do nosso lado da questão. Não há naturalista no mundo por cuja opinião eu tenha um respeito tão profundo. Naturalmente, não sou tão tolo ao ponto de esperar mudar a sua opinião.
CARTA 91. A C. LYELL.
[Dezembro?] 9 [1859].
Envio a carta de Sedgwick; está terrivelmente confusa, e realmente a primeira página parece quase infantil.
Estou tristemente sobrecarregado de trabalho, por isso não lhe escreverei. Incorporei várias das suas inestimáveis correções — de facto, todas as que o tempo permite. Deduzo de uma carta de Huxley que Ramsay é um convertido, e estou extremamente contente por obter geólogos puros, pois serão muito poucos. Muito obrigado pela sua nota muito agradável. Que prazer me deu. Acredito que teria sido miserável se não fosse por si e por alguns outros, pois ouço ameaças de ataques que suponho serão suficientemente severos. Mas tenho a certeza de que agora os posso suportar.
CARTA 92. A T.H. HUXLEY.
Down, 11 de janeiro [1860?].
Concordo plenamente que a dificuldade é grande, e poderia ser muito explorada por um mero advogado. Poderia fazer-me o favor de ler novamente, devagar, das páginas 267 a 272? Posso acrescentar ao que aí é dito que me parece completamente sem esperança tentar explicar por que razão as variedades não são estéreis, até sabermos a causa precisa da esterilidade nas espécies.
Reflita por um momento sobre quão pequenas e sobre que causas muito peculiares a reciprocidade desigual da fertilidade nas mesmas duas espécies deve depender. Reflita sobre o caso curioso de espécies mais férteis com pólen estrangeiro do que com o seu próprio. Reflita sobre muitos casos que poderiam ser dados, e que serão dados no meu livro maior (independentemente da hibrididade), de mudanças muito ligeiras nas condições que levam uma espécie a ser completamente estéril e que não afetam uma espécie estreitamente relacionada. Quão profundamente ignorantes somos sobre a relação íntima entre as condições de vida e a fertilidade prejudicada nas espécies puras!
O único ponto que poderia acrescentar à minha breve discussão sobre este assunto é que penso ser provável que a falta de adaptação às condições uniformes de vida nas nossas variedades domésticas tenha desempenhado um papel importante em impedir que adquirissem esterilidade quando cruzadas. Pois a falta de uniformidade, e as mudanças nas condições de vida, parecem ser a única causa da eliminação da esterilidade (quando cruzadas) sob domesticação. Esta eliminação, embora admitida por muitos autores, baseia-se em evidências muito escassas, contudo penso que é muito provavelmente verdadeira, como se pode inferir do caso dos cães. Sob a natureza, parece improvável que as diferenças na constituição reprodutiva, das quais depende a esterilidade de quaisquer duas espécies quando cruzadas, possam ser adquiridas diretamente pela Seleção Natural; pois não é de qualquer vantagem para a espécie. Tais diferenças na constituição reprodutiva devem estar em correlação com algumas outras diferenças; mas quão impossível é conjecturar quais são estas! Reflita sobre o caso das variações de Verbascum, que não diferem em mais nenhum aspeto, exceto no elemento flutuante da cor da flor, e ainda assim é impossível resistir à evidência de Gärtner de que esta diferença na cor afeta a fertilidade mútua das variedades.
O caso todo parece-me misterioso demais para sustentar um ataque válido à teoria da modificação das espécies, embora, como você diz, ofereça um excelente terreno para um mero advogado.
Estou surpreendido, considerando quão ignorantes somos sobre muitos pontos, [que] mais partes fracas no meu livro não me tenham sido apontadas até agora. Sem dúvida que muitas o serão. H.C. Watson baseia a sua objeção em manuscrito no facto de não haver limite para a infinita diversificação das espécies: respondi a isto, penso eu, satisfatoriamente, e enviei o ataque e a resposta a Lyell e Hooker. Se isto lhe parece uma boa objeção, enviar-lhe-ia os documentos. Andrew Murray "despacha" toda a teoria com uma dificuldade engenhosa proveniente da distribuição de insetos cegos de caverna; mas pode, creio, ser razoavelmente respondida.
CARTA 93. A T.H. HUXLEY. Down, 2 de [fevereiro] [1860].
Recebi esta manhã uma carta do velho Bronn (que, para meu espanto, parece ligeiramente abalado pela Seleção Natural), e ele diz que um editor em Estugarda está disposto a publicar uma tradução, e que ele, Bronn, irá, até certo ponto, supervisionar. Já escreveu a Kölliker? Se não, talvez seja melhor eu fechar negócio com esta proposta — o que acha? Se já escreveu, tenho de esperar, e neste caso, seria tão amável em deixar-me saber assim que ouvir de Kölliker?
Meu pobre e querido amigo, você amaldiçoará o dia em que assumiu a linha de "agência geral"; mas, realmente, depois disto, não lhe darei mais qualquer incómodo.
Não se esqueça dos três bilhetes para nós para a sua palestra, e o bilhete para Baily, o vendedor de aves.
O velho Bronn publicou no "Anuário de Mineralogia" uma nota sobre a "Origem"; e diz que ele próprio publicou noutro lugar um pressentimento da teoria!
CARTA 94. A J.D. HOOKER. Down, 14 de fevereiro [1860].
Consegui persuadir-me durante vinte e quatro horas de que a palestra de Huxley foi um sucesso. Algumas partes foram eloquentes e boas, e todas muito ousadas; e ouvi estranhos dizerem: "Que boa palestra!" Disse-o a Huxley; mas contestei muito o tempo desperdiçado em observações introdutórias, especialmente o facto de ele fazer parecer que a esterilidade era uma distinção clara e manifesta das espécies, e o facto de não ter sequer aludido às partes mais importantes do assunto. Ele disse que tinha muito mais escrito, mas o tempo falhou. Após conversar com outros e refletir mais, devo confessar que, como exposição da doutrina, a palestra parece-me um fracasso total. Agradeço a Deus por não ter pensado assim quando vi Huxley; pois ele falou tão gentilmente e magnificamente de mim, que dificilmente teria suportado dizer o que agora penso. Ele não deu uma ideia justa da Seleção Natural. Sempre considerei a doutrina da Seleção Natural como uma hipótese que, se explicasse várias grandes classes de factos, mereceria ser classificada como uma teoria digna de aceitação; e esta, naturalmente, é a minha própria opinião. Mas, como Huxley nunca aludiu à minha explicação de classificação, morfologia, embriologia, etc., pensei que ele estivesse completamente insatisfeito com toda esta parte do meu livro. Mas, para minha alegria, descubro que não é assim, e que ele concorda com a minha maneira de ver o assunto; apenas que ele avalia mais do que eu a necessidade de a Seleção Natural ser demonstrada como uma vera causa sempre em ação. Ele diz-me que está a escrever uma longa crítica na "Westminster". Foi realmente irritante como ele desperdiçou tempo com a ideia de uma espécie exemplificada no cavalo, e com a velha experiência de Sir J. Hall sobre o mármore. Murchison foi muito cortês comigo sobre o meu livro após a palestra, na qual ficou desapontado. Estou completamente decidido a um ataque selvagem; mas com Lyell, você e Huxley, sinto-me confiante de que estamos certos e que, a longo prazo, prevaleceremos. Não creio que Asa Gray lhe tenha feito plena justiça no início da crítica sobre mim. A crítica pareceu-me muito boa, mas li-a muito apressadamente.
CARTA 95. A C. LYELL. Down, 18 de [fevereiro] [1860].
Envio por correio Asa Gray, que me parece muito bom, com o cunho da originalidade. Também o "Jahrbuch für Mineralogie" de Bronn.
O intelecto unido da minha família tentou inutilmente compreendê-lo. Nunca tentei um alemão tão condenadamente difícil; nem parece valer o esforço. Ele agarra-se à Matéria Verde de Priestley, e parece pensar que, até se poder mostrar como a vida surge, não adianta mostrar como as formas de vida surgem. Isto parece-me tão lógico (comparando coisas muito grandes com pequenas) como dizer que não servia de nada o Newton mostrar as leis da atração da gravidade e o consequente movimento dos planetas, porque ele não conseguia mostrar o que é a atração da gravidade.
A expressão "Wahl der Lebens-Weise" faz-me duvidar se o B. entende o que quero dizer com Seleção Natural, como lhe disse. Ele diz (se o entendo) que você deveria estar do mesmo lado que eu.
P.S. Domingo à tarde. — Guardei isto para lhe agradecer a sua carta, com muitas notícias, recebida esta manhã. A minha consciência está inquieta pelo tempo que você desperdiça a divertir-me e a interessar-me. Estava muito curioso para ouvir sobre Phillips. A crítica nos "Annals" é, como estava convencido, de Wollaston, pois recebi uma carta muito cordial dele esta manhã.
Envio por correio um ataque no "Gardeners' Chronicle" de Harvey (um botânico de primeira classe, como provavelmente sabe). Parece-me um pouco estranho; ele assume a permanência dos monstros, enquanto os monstros são geralmente estéreis e não são frequentemente hereditários. Mas, concedendo o seu caso, chega a [isto], que fui demasiado cauteloso ao não admitir grandes e súbitas variações. Aqui entra novamente o dano do meu resumo. Em manuscrito mais completo, discuti o caso paralelo de um peixe normal como um peixe dourado monstruoso.
Termino a minha discussão duvidando, porque todos os casos de monstruosidades que se assemelham a estruturas normais que consegui encontrar não estavam em grupos relacionados. Árvores como Aspicarpa, com flores de dois tipos (na "Origem"), levaram-me também a especular sobre o mesmo assunto; mas apenas consegui encontrar um caso duvidosamente análogo de espécies que tivessem flores como as flores degradadas ou monstruosas. Harvey não vê que, se apenas alguns (como ele supõe) dos rebentos herdarem ser monstruosidades, a Seleção Natural seria necessária para selecionar e preservá-los. É melhor devolver o "Gardeners' Chronicle", etc., ao meu irmão. O caso da Begonia em si é muito curioso; estou tentado a responder à nota, mas abster-me-ei, pois não haveria fim para as respostas.
Com respeito à sua objeção de uma multidão de formas simples ainda vivas, não a discuti em lado nenhum na "Origem", embora a tenha ponderado muitas vezes. Sobre o que você diz acerca do progresso ser apenas ocasional e a retrogressão não ser incomum, concordo; apenas que no reino animal duvido muito que a retrogressão seja comum. Sempre me perguntei — que vantagem podemos ver num animal infusório, ou num verme intestinal, ou pólipo de coral, ou minhoca sendo altamente desenvolvidos? Se não há vantagem, eles não se tornariam altamente desenvolvidos: não que todos estes animais tenham estruturas muito complexas (exceto os infusórios), e podem muito bem ser superiores aos animais que ocupavam lugares semelhantes na economia da natureza antes da época siluriana. Existe uma cobra cega com as aparências e, em alguns aspetos, hábitos das minhocas; mas esta cobra cega não tende, pelo que podemos ver, a substituir e expulsar as minhocas. Penso que devo, numa edição futura, discutir mais alguns pontos como estes, e introduzirei isto e a objeção de H.C. Watson sobre o número infinito de espécies e o aumento geral da organização. Mas há uma objeção diretamente oposta à sua que é muito difícil de responder — isto é, como no início da vida, quando havia apenas os organismos mais simples, como é que qualquer complicação de organização os beneficiava? Só posso responder que não temos factos suficientes para guiar qualquer especulação sobre o assunto.
Com respeito ao Lepidosiren, peixes Ganoides, talvez Ornithorhynchus, suspeito, como declarado na "Origem", que foram preservados por habitarem água doce e partes isoladas do mundo, nas quais houve menos competição e menos progresso rápido na Seleção Natural, devido à escassez de indivíduos que podem habitar pequenas áreas; e onde há poucos indivíduos a variação, no máximo, deve ser mais lenta. Existem várias alusões a esta noção na "Origem", como em Amblyopsis, o peixe cego das cavernas, e em Heer sobre as plantas da Madeira que se assemelham às plantas fósseis e extintas da Europa.
CARTA 96. A JAMES LAMONT. Down, 5 de março [1860?].
Sou-lhe muito grato pela sua longa e interessante carta. O senhor tem, de facto, pleno direito de falar com confiança sobre os hábitos das aves e animais selvagens; pois creio que ninguém, além do senhor, tenha jamais caçado em Spitzbergen e na África Austral. É muito curioso e interessante que o senhor tenha chegado à conclusão de que a chamada "Seleção Natural" tenha sido eficiente ao conferir as suas cores peculiares aos nossos tetrazes. Provavelmente usarei a sua autoridade sobre os hábitos semelhantes dos nossos tetrazes e da espécie norueguesa.
Sou particularmente grato pelo seu facto muito curioso sobre o efeito nos tetrazes da sua vizinhança. É um exemplo muito notável do que o cruzamento pode fazer ao afetar o caráter de uma raça. Já viu em alguma obra sobre desporto a afirmação de que a caça se tornou mais selvagem neste país? Gostaria de obter qualquer prova desse facto, pois a sua explicação parece-me igualmente engenhosa e provável. Testemunhei eu próprio na América do Sul um caso quase paralelo àquele que menciona em relação às renas em Spitzbergen, com o Cervus campestris de La Plata. Não temia o homem nem o som do disparo de uma espingarda, mas aterrorizava-se à vista de um homem a cavalo; pois todos naquele país andam sempre a cavalo. Como o senhor é um desportista tão grande, talvez tenha a bondade de verificar um ponto muito insignificante para mim, já que os meus vizinhos aqui acham-no demasiado absurdo para ser notado — a saber, se as patas das aves estão sujas, se alguns grãos de terra não aderem ocasionalmente às suas patas. Quero especialmente saber como isto se passa no caso de aves como as garças e as aves limícolas, que caminham na lama. O senhor adivinha que isto se relaciona com a dispersão de sementes, que é uma das minhas maiores dificuldades. A minha saúde é muito indiferente e raramente posso comparecer às reuniões científicas, mas espero sinceramente que algum dia possa ter o prazer de o conhecer.
Queira aceitar os meus cordiais agradecimentos pela sua amável carta.
CARTA 97. A G.H.K. THWAITES. Down, 21 de março [1860].
Agradeço-lhe muito sinceramente a sua carta e fico muito satisfeito por concordar um pouco comigo. O senhor achará presunçoso, mas estou bem convencido, pela minha própria experiência mental, de que, se mantiver o assunto presente no seu espírito, acabará por ir mais longe. O presente volume é um mero resumo, e há grandes omissões. Uma das principais, que retifiquei nas edições estrangeiras, é uma explicação (que satisfez Lyell, que apresentou a mesma objeção que o senhor) sobre a razão pela qual muitas formas não progridem ou avançam (e concordo plenamente quanto a algumas retrocederem). Tenho também uma discussão em manuscrito sobre a beleza; mas supõe o senhor realmente que, por exemplo, as Diatomaceae foram criadas belas para que o homem, após milhões de gerações, as admire através do microscópio? (97/1. Thwaites (1811-82) publicou vários artigos sobre as Diatomaceae ("On Conjugation in the Diatomaceae", "Ann. and Mag. Nat. Hist." Volume XX, 1847, páginas 9-11, 343-4; "Further Observations on the Diatomaceae", loc. cit., 1848, página 161). Ver "Life and Letters" II, página 292.) Eu atribuiria a maioria dessas estruturas a leis de crescimento completamente desconhecidas; e a mera repetição de partes é, para os nossos olhos, um elemento principal de beleza. Quando qualquer estrutura é útil (e posso mostrar que pormenores curiosamente minuciosos são muitas vezes da maior utilidade), não vejo, com os meus olhos preconceituosos, limite para a perfeição das coadaptações que poderiam ser efetuadas pela Seleção Natural. Duvido um pouco se o senhor vê até onde, ao que me parece, o argumento a favor da homologia e da embriologia pode ser levado. Não encaro isto como mera analogia. Preferiria acreditar que as conchas fósseis eram meras imitações de conchas reais do que acreditar que os mesmos ossos no pé de um cão e na asa de um morcego, ou o embrião semelhante de mamífero e ave, não tivessem um significado direto, e que esse significado não possa ser a unidade de descendência ou nada. Mas atrevo-me a repetir o quão satisfeito estou por o senhor concordar um pouco comigo. Acho que vários naturalistas fazem o mesmo e, como os seus pontos de paragem são variados, e devo pensar que arbitrários, creio que todos irão mais longe. Quanto a mudar de opinião de imediato, não valorizaria a opinião de um homem que o pudesse fazer; deve ser um processo lento. (97/2. Darwin escreveu a Woodward a respeito da "Origem": "Pode ser uma coisa vã e tola de dizer, mas acredito que o meu livro deve ser lido duas vezes cuidadosamente para ser totalmente compreendido. Talvez o senhor ache que não vale de todo o esforço.") Obrigado por me falar sobre a Lantana (97/3. Uma espécie exótica de Lantana (Verbenaceae) cresce vigorosamente no Ceilão e é descrita como surgindo frequentemente após a queima das florestas das terras baixas (ver H.H.W. Pearson, "The Botany of the Ceylon Patanas", "Journal Linn. Soc." Volume XXXIV, página 317, 1899). Sem dúvida que a carta de Thwaites a Darwin se referia à propagação da Lantana introduzida, comparável à do cardo em La Plata e de outras plantas mencionadas por Darwin na "Origem das Espécies" (Edição VI, página 51).), e ficaria a qualquer momento muito grato por qualquer informação que o senhor considere útil para mim. Espero que o senhor publique uma lista de todas as plantas naturalizadas no Ceilão, na medida do conhecido, distinguindo cuidadosamente as que se restringem apenas a solos cultivados. Sinto-me certo de que este assunto tão importante tem sido grandemente subestimado.
CARTA 98. A T.H. HUXLEY.
(98/1. A referência aqui é à recensão da "Origem das Espécies" geralmente atribuída ao falecido Sir R. Owen, e publicada no número de abril da "Edinburgh Review", 1860. O biógrafo de Owen silencia sobre o assunto e imprime, sem comentários, a seguinte passagem numa carta sem data de Sedgwick para Owen: "Sabe quem foi o autor do artigo na "Edinburgh" sobre o assunto da teoria de Darwin? No geral, acho-o muito bom. Uma vez suspeitei que o senhor devesse ter tido mão nele, e depois abandonei esse pensamento. Não o li com qualquer cuidado" (Owen's "Life", Volume II, página 96).)
9 de abril [1860].
Nunca vi tal quantidade de deturpação. Na página 530 (98/2. "Conclusões duradouras e frutíferas basearam-se, de facto, até agora apenas na posse de conhecimento; agora somos chamados a aceitar uma hipótese sob o pretexto da falta de conhecimento. O registo geológico, afirma-se, é tão imperfeito!"--"Edinburgh Review", CXI, 1860, página 530.) ele diz que somos chamados a aceitar a hipótese sob o pretexto de ignorância, enquanto penso que não poderia ter tornado mais claro que admito a imperfeição do Registo Geológico como uma grande dificuldade.
A citação (98/3. "Somos apelados, ou pelo menos 'os jovens e promissores naturalistas com mentes plásticas,* [On the Nature of the Limbs, página 482] são adjurados." Ver-se-á que a aspa após "naturalistas" é omitida; o asterisco referindo-se, numa nota de rodapé (aqui colocada entre parênteses retos), à página 482 da "Origem", parece ter sido assumido incorretamente pelo Sr. Darwin como indicando o fim da citação.--Ibid., página 512.) na página 512 da "Review" sobre "jovens e promissores naturalistas com mentes plásticas", atribuída a "natureza dos membros", é uma citação falsa, pois não uso as palavras "mentes plásticas".
Na página 501 (98/4. A passagem ("Origem", Edição I, página 483) começa por "Mas acreditam eles realmente...", e mostra claramente que o autor considera tal crença quase impossível.) a citação está truncada, pois apenas pergunto se os naturalistas acreditam em átomos elementares a cintilar, etc., e ele altera-o para o facto de eu declarar que eles acreditam.
Na página 500 (98/5. "Todos os que trouxeram a especulação da transmutação ao teste de factos observados e poderes determinados na vida orgânica, e publicaram os resultados, geralmente adversos a tais especulações, são colocados pelo Sr. Darwin como 'curiosamente ilustrando a cegueira da opinião preconcebida'." A passagem na "Origem", página 482, começa por expressar surpresa com o ponto de vista de alguns naturalistas: "Admitem que uma multidão de formas, que até há pouco eles próprios pensavam serem criações especiais,... foram produzidas por variação, mas recusam-se a estender a mesma visão a outras formas muito ligeiramente diferentes... Admitem a variação como uma vera causa num caso, rejeitam-na arbitrariamente noutro, sem atribuir qualquer distinção aos dois casos. O dia virá em que isto será dado como uma curiosa ilustração da cegueira da opinião preconcebida.") é muito falso dizer que implico com "cegueira da opinião preconcebida" a simples crença na criação. E assim por diante noutros casos. Mas peço perdão por incomodá-lo. Lamento profundamente que, nos seus esforços altruístas para espalhar o que acredita ser a verdade, o senhor tenha incorrido num ataque tão brutal. (98/6. O recensor da "Edinburgh", referindo-se à Palestra de Huxley na Royal Institution dada em 10 de fevereiro de 1860, "Sobre Espécies e Raças e a sua Origem", diz (página 521): "Observámos com espanto a audácia do dispensador do entretenimento intelectual da hora, que, aproveitando-se da ignorância técnica da maioria dos seus ouvintes, procurou cegá-los quanto aos fundamentos frágeis da 'seleção natural' com ilustrações como a que se segue": E depois segue-se uma crítica à comparação feita pelo conferencista da suposta descendência do cavalo a partir do Palaeotherium com a de vários tipos de pombos domésticos a partir do Pombo-das-rochas.) E agora não pensarei mais neste ataque falso e maligno.
CARTA 99. A MAXWELL MASTERS. Down, 13 de abril [1860].
Agradeço-lhe muito sinceramente as suas duas amáveis notas. Da próxima vez que escrever ao seu pai, peço-lhe que lhe transmita os meus melhores agradecimentos, mas lamento que ele tenha tido o incómodo de escrever quando doente. Fiquei muito interessado pelos factos por ele apresentados. Se acha que ele teria o mínimo interesse em ouvir o resultado de um cruzamento artificial de duas ervilhas-de-cheiro, pode enviar o anexo; se apenas lhe trouxer incómodo, rasgue-o. Parece haver tanto paralelismo no tipo de variação do meu experimento, que foi certamente um cruzamento, e o que o Sr. Masters observou, que não posso deixar de suspeitar que as suas ervilhas foram cruzadas por abelhas, que vi bem cobertas com o pólen da ervilha-de-cheiro; mas então eu desejo isto, e quão difícil é evitar que o desejo influencie o julgamento!
Fiquei impressionado com a sua observação sobre as Compositae, etc. Não vejo que isso pese muito contra mim, e se pesa ou não é, naturalmente, da mínima importância. Embora concorde plenamente que nenhuma definição pode ser traçada entre monstruosidades e ligeiras variações (como a minha teoria exige), suspeito que existe alguma distinção. Alguns factos levam-me a pensar que as monstruosidades surgem geralmente numa idade precoce; e depois de me debruçar sobre o assunto, tenho grandes dúvidas se as espécies em estado de natureza alguma vez se tornam modificadas por tais saltos repentinos como resultariam da Seleção Natural de monstruosidades. Não pode prestar-me serviço maior do que apontar erros. Espero sinceramente que o seu trabalho sobre monstruosidades (99/1. "Vegetable Teratology", Londres, 1869 (Ray Soc.).) apareça em breve, pois tenho a certeza de que será altamente instrutivo.
Agora, para as suas notas, pelas quais lhe agradeço novamente.
1. A sua conclusão sobre partes desenvolvidas (99/2. Ver "Origem das Espécies", Edição I, página 153, sobre a variabilidade das partes "desenvolvidas de uma maneira extraordinária em qualquer espécie, comparada com as outras espécies do mesmo género". Ver "Life and Letters", II, páginas 97, 98, também Carta 33.) não serem extra variáveis concorda com a de Hooker. Verá que afirmei que a regra aparentemente não se aplica às plantas, embora devesse, se fosse verdadeira, aplicar-se a elas.
2. Não me recordo agora em que obra vi a afirmação sobre a Peloria afetar o eixo, mas sei que era uma em que pensei que se poderia confiar. Consultei também o Dr. Falconer, e penso que ele concordou com a veracidade da mesma; mas não sei agora onde procurar as minhas notas. Fiquei muito impressionado ao encontrar uma árvore de Laburnum com as flores terminais apenas em cada cacho pelóricas, embora não perfeitamente regulares. O caso do Pelargonium na "Origem" parece apontar na mesma direção. (99/3. "Origem das Espécies", Edição I, página 145.)
3. Obrigado pela correção sobre a tojo: encontrei as plântulas a brotar e fiquei tão surpreendido com a sua aparência que as enviei a Hooker; mas nunca me perguntei claramente se eram cotilédones ou primeiras folhas. (99/4. As folhas trifoliadas das plântulas de tojo não são cotilédones, mas folhas precoces: ver "Seedlings" de Lubbock, I, página 410.)
4. Esse é um facto curioso sobre as sementes do tojo, tanto mais curioso quanto descobri com as Leguminosae que a imersão em água fria simples por apenas poucos dias matou alguns tipos.
Se a qualquer momento algo lhe ocorrer ilustrando ou opondo-se às minhas noções, e tiver tempo para me informar, ficaria verdadeiramente grato, pois posso ver claramente que o senhor possui uma riqueza de conhecimento.
Quanto ao avanço ou retrocesso na organização em monstruosidades das Compositae, etc., não acha muito difícil definir qual é qual?
De qualquer modo, a maioria dos botânicos parece divergir tanto quanto possível sobre este ponto.
CARTA 100. A J.S. HENSLOW. Down, 8 de maio [1860].
Muitíssimos agradecimentos sobre a Elodea, caso que me interessa muito. Escrevi ao Sr. Marshall (100/1. W. Marshall foi o autor de "Anacharis alsinastrum, a new water-weed": quatro cartas para a "Cambridge Independent Press", reimpressas como panfleto, 1852.) em Ely, e em devido tempo ele diz que me enviará qualquer informação que puder obter.
Owen é, de facto, muito mal-intencionado. (100/2. Acreditava-se que Owen fosse o autor do artigo na "Edinburgh Review", abril de 1860. Ver Carta 98.) Ele deturpa e altera o que digo de forma muito injusta. Mas penso que a sua conduta para com Hooker é a mais inoportuna: a saber, aludir ao seu ensaio (Flora Australiana) e não notar os resultados magníficos sobre a distribuição geográfica. Os londrinos dizem que ele está louco de inveja porque o meu livro tem sido comentado; que homem estranho para ter inveja de um naturalista como eu, incomensuravelmente inferior a ele! De uma conversa com ele, suspeito realmente que ele vai, no fundo da sua alma oculta, tão longe quanto eu.
Gostaria de saber se Sedgwick notou na "Edinburgh Review" sobre os "difamadores sacerdotais", -- assim, os difamadores estão a despedaçar-se uns aos outros. Suponho que Sedgwick será muito feroz contra mim na Sociedade Filosófica. (100/3. A reunião da "Cambridge Phil. Soc." realizou-se em 7 de maio de 1860 e foi amplamente reportada na "Cambridge Chronicle", 19 de maio. Sedgwick é reportado como tendo dito que "a teoria de Darwin não é indutiva--não se baseia numa série de factos reconhecidos, levando a uma conclusão geral evoluída logicamente a partir dos factos... Os únicos factos que ele pretende aduzir, como verdadeiros elementos de prova, são as variedades produzidas pela domesticação e os artifícios do cruzamento." Sedgwick continuou a falar sobre a multiplicação vexatória de supostas espécies e acrescenta: "A este respeito, a teoria de Darwin pode ajudar a simplificar as nossas classificações e, assim, prestar um bom serviço à ciência moderna. Mas ele não minou nenhuma grande verdade na constância das leis naturais e na continuidade das verdadeiras espécies.") A julgar pela sua nota no "Spectator", (100/4. 24 de março de 1860; ver "Life and Letters", II, página 297.) ele irá deturpar-me, mas certamente será feito de forma não intencional. Numa carta para mim, e na nota acima, ele fala muito sobre eu me desviar do espírito da filosofia indutiva. Gostaria, se alguma vez falar sobre o assunto com ele, que lhe perguntasse se não era permitido (e um grande passo) inventar a teoria ondulatória da luz, i.e., ondulações hipotéticas, numa substância hipotética, o éter. E se assim for, por que não posso eu inventar a hipótese da Seleção Natural (que, pela analogia das produções domésticas, e pelo que sabemos da luta pela existência e da variabilidade dos seres orgânicos, é, em algum grau muito ligeiro, em si mesma provável) e tentar se esta hipótese da Seleção Natural não explica (como penso que explica) um grande número de factos na distribuição geográfica--sucessão geológica, classificação, morfologia, embriologia, etc. Gostaria realmente muito de saber por que tal hipótese como a ondulação do éter pode ser inventada, e por que não posso eu inventar (não que eu a tenha inventado, pois fui levado a ela pelo estudo das variedades domésticas) qualquer hipótese, como a Seleção Natural.
Peço perdão a si e à minha caneta por se terem deixado levar, e por rabiscar com tanta extensão.
Posso perfeitamente compreender Sedgwick (100/5. Ver "Life and Letters", II, página 247; a carta está lá datada de 24 de dezembro, mas pensamos que deve ter sido escrita em novembro, o mais tardar.) ou qualquer pessoa a dizer que a Seleção Natural não explica grandes classes de factos; mas isso é muito diferente de dizer que me desvio dos princípios corretos da investigação científica.
CARTA 101. A J.S. HENSLOW. Down, 14 de maio [1860].
Fiquei grandemente interessado pela sua carta a Hooker, e devo agradecer-lhe de todo o coração por me defender tão generosamente, na medida do que pôde, contra os meus poderosos atacantes. Nada do que as pessoas dizem me magoa por muito tempo, pois tenho a convicção absoluta de que não fui influenciado por maus sentimentos nas conclusões a que cheguei. Nem publiquei as minhas conclusões sem longa deliberação, e elas foram alcançadas após muito mais estudo do que o público jamais saberá, ou acreditará. É certo que errei em muitos pontos, mas não acredito que tanto quanto Sedgwick e Cia. pensam.
Existe algum Resumo ou atas da Sociedade Filosófica de Cambridge publicado? (101/1. As observações de Henslow não são dadas no relatório acima mencionado na "Cambridge Chronicle".) Se assim for, e se pudesse obter-me uma cópia, gostaria de ter uma.
Acredite em mim, meu caro Henslow, sinto-me grato a si nesta ocasião, e pela multidão de bondades que me fez desde os meus primeiros dias em Cambridge.
CARTA 102. A C. LYELL. Down, 22 de maio [1860].
Hooker enviou-me uma carta de Thwaites (102/1. Ver Carta 97.), do Ceilão, que faz exatamente as mesmas objeções que o senhor fez no início sobre a necessidade de todas as formas avançarem, e, portanto, a dificuldade de formas simples ainda existirem. Não houve omissão pior do que esta no meu livro, e eu tinha a discussão toda pronta.
Estou extremamente contente por saber que o senhor pretende acrescentar novos argumentos sobre a imperfeição do Registo Geológico. Sinto sempre isto agudamente, e surpreende-me que homens como Ramsay e Jukes não o sintam mais.
Concordo plenamente sobre a evidência insuficiente quanto ao trigo de múmia. (102/2. Ver notas anexas a uma carta para Lyell, setembro de 1843 (Botânica).)
Quando puder dispensá-lo, gostaria (mas apenas por pura curiosidade) de ver Binney sobre os pântanos marinhos de carvão.
Certa vez deixei Hooker muito selvagem ao dizer que acreditava que as plantas de carvão cresciam no mar, como mangais. (102/3. Ver "Life and Letters", I, página 356.)
CARTA 103. A J.D. HOOKER.
(103/1. Esta carta é de interesse por conter uma expressão forte sobre a importância avassaladora da seleção.)
Down [1860].
Muitos agradecimentos pela carta de Harvey (103/2. W.H. Harvey correspondia-se com Sir J.D. Hooker sobre a "Origem das Espécies".), que guardarei por mais um pouco e depois devolverei. Escreverei a ele e tentarei esclarecer, pela analogia das produções domésticas, o papel que acredito que a seleção desempenhou. Tenho estado a retrabalhar os meus pombos e outros animais domésticos, e tenho a certeza de que qualquer pessoa está certa ao dizer que a seleção é a causa eficiente, embora, como o senhor diz verdadeiramente, a variação seja a base de tudo. Por que não acredito tanto quanto o senhor em agências físicas é que vejo em quase todos os organismos (embora muito mais claramente nos animais do que nas plantas) adaptação, e isto, exceto em casos raros, deve ser, penso eu, devido à seleção.
Não se esqueça da Pyrola quando estiver em flor. (103/3. Em uma carta a Hooker, de 22 de maio de 1860, Darwin escreveu: "Você tem Pyrola em Kew? Se tiver, pelo amor de Deus, observe a curvatura do pistilo em direção à passagem para o nectário." O fato de o estigma em flores visitadas por insetos estar posicionado de tal maneira que o visitante deve tocá-lo a caminho do néctar foi um ponto que atraiu cedo a atenção de Darwin e o impressionou fortemente.) Minha pequena e abençoada Scaevola começou a florescer, e tentarei a fertilização artificial nela.
Li a carta de Harvey e presumi (espero que corretamente) que ele não poderia se opor a saber que você a encaminhou para mim.
CARTA 104. PARA ASA GRAY. Down, 8 de junho [1860].
Tenho a agradecer-lhe por dois bilhetes, um por intermédio de Hooker e outro com algumas cartas para serem postadas, o que foi feito. Antecipei seu pedido fazendo algumas observações sobre a resenha de Owen. (104/1. "The Edinburgh Review", abril de 1860.) Hooker está tão cansado de resenhas que não creio que você obterá qualquer dica dele. Ultimamente tenho levado muito mais "pontapés do que meio pences". Uma resenha na última "Nat. Hist. Review" de Dublin é a coisa mais injusta que já apareceu — uma massa de deturpações. É evidentemente de Haughton, o geólogo, químico e matemático. Demonstra uma vaidade imensurável e desprezo por todos aqueles que não são matemáticos. Ele discute as células das abelhas e apresenta uma série à qual nunca me referi, ignorando totalmente o favo intermediário de Melipona, que foi o único que me levou às minhas noções. O artigo é uma curiosidade de injustiça e arrogância; mas, como ele zomba de Malthus, estou satisfeito, pois é claro que ele não consegue raciocinar. Ele é amigo de Harvey, com quem tenho mantido alguma correspondência. Seu artigo, claramente, como ele admite, influenciou-o. Ele admite, até certo ponto, a Seleção Natural, mas tenho certeza de que não me compreende. É estranho que muito poucos o façam, e fiquei plenamente convencido de que devo ser um explicador extremamente ruim. Para retornar por um momento a Owen: ele deturpa grosseiramente e é muito injusto com Huxley. Você diz que pensa que o artigo deve ser de um aluno de Owen; mas nenhum fato pesa tanto contra Owen, considerando sua antiga posição no Royal College of Surgeons, quanto o fato de ele nunca ter formado um único aluno ou seguidor. No número recém-lançado da "Fraser's Magazine" (104/2. Ver "Life and Letters", II, página 314) há um artigo ou resenha sobre Lamarck e sobre mim por W. Hopkins, o matemático, que, como Haughton, despreza o poder de raciocínio de todos os naturalistas. Pessoalmente, ele é extremamente gentil comigo; mas ele evidentemente pretende, no número seguinte, me reduzir a átomos. Ele não aprecia minimamente a diferença entre as minhas opiniões e as de Lamarck, no que diz respeito à explicação da adaptação, ao princípio da divergência, ao aumento dos grupos dominantes e à quase necessária extinção dos grupos menos dominantes e menores, etc.
CARTA 105. PARA C. LYELL. Down, 17 de junho [1860].
Mais uma palavra sobre a Deificação (105/1. "Se confundirmos a 'Variação' ou 'Seleção Natural' com tais leis criacionais, deificamos causas secundárias ou exageramos imensamente a sua influência" (Lyell, "The Geological Evidences of the Antiquity of Man, with Remarks on Theories on the Origin of Species by Variation", página 469, Londres, 1863). Ver Carta 131.) da Seleção Natural: atribuir-lhe tanto peso não exclui leis ainda mais gerais, isto é, a ordenação de todo o universo. Eu disse que a Seleção Natural está para a estrutura dos seres organizados assim como o arquiteto humano está para um edifício. A própria existência do arquiteto humano mostra a existência de leis mais gerais; mas ninguém, ao atribuir o crédito de um edifício ao arquiteto humano, acha necessário referir-se às leis pelas quais o homem surgiu.
Nenhum astrônomo, ao mostrar como os movimentos dos planetas se devem à gravidade, acha necessário dizer que a lei da gravidade foi projetada para que os planetas seguissem os cursos que seguem. Não posso acreditar que haja um pingo a mais de interferência do Criador na construção de cada espécie do que no curso dos planetas. Acredito que é apenas devido a Paley e Cia. que se julga necessária esta interferência mais especial nos corpos vivos. Mas nunca concordaremos, portanto, não se incomode em responder.
Deveria achar que as suas observações eram muito justas sobre os matemáticos não estarem mais aptos a julgar probabilidades do que outros homens de senso comum.
Acabo de obter mais retornos sobre a gestação de cães de caça. O período difere pelo menos de sessenta e um a setenta e quatro dias, exatamente como eu esperava.
Estava pensando em enviar-lhe a "Gardeners' Chronicle", por causa de um artigo meu sobre a fertilização de orquídeas por insetos (105/2. "Fertilisation of British Orchids by Insect Agency." Este artigo na "Gardeners' Chronicle" de 9 de junho de 1860, página 528, começa com um pedido para que fossem feitas observações sobre o modo de fertilização na orquídea-abelha e na orquídea-mosca.), pois envolve um ponto curioso, e como você se interessou pelo meu artigo sobre feijões; mas, como você está tão ocupado, não enviarei.
CARTA 106. PARA C. LYELL. Down [junho?] 20 [1860].
Envio Blyth (106/1. Ver Carta 27.); é uma caligrafia terrível; a passagem está na página 4. Em um bilhete anterior, ele me disse que temia não haver quase chance de conseguir dinheiro para a expedição chinesa e falou de sua gentileza.
Muito obrigado por sua longa e interessante carta. Fico admirado, maravilhado e grato pela sua paciência em escrever tanto. Discordo um pouco do fato de o Deinosaurus não ter "livre-arbítrio", pois certamente nós temos. Discordo também de você colocar a "força e matéria" de Huxley na mesma categoria que a Seleção Natural. Esta última pode, é claro, ser uma visão totalmente falsa; mas certamente não é ir além de nossa profundidade em direção às causas primeiras.
É verdadeiramente notável que a gestação dos cães de caça (106/2. Em uma carta escrita a Lyell em 25 de junho de 1860, ocorre o seguinte parágrafo: "Você não precisa acreditar em uma palavra do que eu disse sobre a gestação dos cães. Desde que escrevi para você, tive mais correspondência com o mestre de caça, e vejo que o seu [registro?] não vale nada. Pode, é claro, estar correto, mas não é confiável. Também encontro declarações diferentes sobre o lobo: na verdade, estou completamente perdido.") varie tanto, enquanto a do homem não. Pode ser devido a uma origem múltipla. Os ovos do pato-almiscarado e do pato comum levam um período intermediário para eclodir; mas eu veria isso antes como um dos dez mil casos que não podemos explicar — ou seja, quando uma parte ou função varia em uma espécie e não em outra.
Hooker não me disse nada sobre sua explicação para poucas formas árticas; eu já sabia o fato. Eu havia especulado sobre o que presumo, pelo que você diz, ser a sua explicação (106/3. "Outlines of the Distribution of Arctic Plants", J.D. Hooker, "Trans. Linn. Soc." Volume XXIII., página 251, 1862. [lido em 21 de junho de 1860.] Neste artigo, Hooker chama a atenção para o caráter excepcional da flora da Groenlândia; mas, quanto à escassez de suas espécies e à sua semelhança muito maior com as floras da Europa Ártica do que com as da América Ártica, ele considera difícil explicar esses fatos, "a menos que admitamos as hipóteses do Sr. Darwin" (ver "Origin", Edição VI., 1872, Capítulo XII., página 330) de uma migração para o sul devido ao frio do período glacial e o subsequente retorno dos tipos do norte durante o período mais quente que se seguiu. Muitas das espécies da Groenlândia, estando confinadas à península, "seriam, por assim dizer, empurradas para o mar — isto é, exterminadas" (Hooker, op. cit., páginas 253-4).); mas deve ter havido em todos os momentos uma região ártica. Achei que a especulação se tornou complexa demais, como me pareceu, para valer a pena seguir.
Tenho feito um trabalho mais interessante com orquídeas. Falando em adaptação em pica-paus (106/4. "Pode ser dado um exemplo de adaptação mais notável do que o de um pica-pau para escalar árvores e agarrar insetos nas frestas da casca?" ("Origin of Species", Edição I., página 141).), algumas das orquídeas superam isso.
Mostrei o caso a Elizabeth Wedgwood, e seu comentário foi: "Agora você arruinou o seu próprio livro, pois não me convencerá de que isso poderia ser efetuado pela Seleção Natural."
CARTA 107. PARA T.H. HUXLEY. 20 de julho [1860].
Muito obrigado pela sua agradável carta. Concordo com cada palavra que você diz sobre a "Fraser" e a "Quarterly". (107/1. A resenha do Bispo Wilberforce sobre a "Origin" na "Quarterly Review", julho de 1860, foi republicada em seus "Collected Essays", 1874. Ver "Life and Letters, II., página 182, e II., página 324, onde são dadas algumas citações da resenha. Para a resenha de Hopkins na "Fraser's Magazine", junho de 1860, ver "Life and Letters", II., 314.) Recebi algumas cartas realmente admiráveis de Hopkins. Não suponho que ele tenha se preocupado com distribuição geográfica, classificação, morfologias, etc., e são apenas aqueles que o fizeram que sentirão algum alívio em ter algum tipo de explicação racional para tais fatos. Não é grandioso o modo como o Bispo afirma que todos esses fatos são explicados por ideias na mente de Deus? A "Quarterly" é incomumente inteligente; e ri bastante da maneira como meu avô e eu somos provocados. Pude ver aqui e ali a mão de Owen. A propósito, como é que você não foi atacado? Será que Owen começa a achar mais prudente deixá-lo em paz? Eu daria cinco xelins para saber qual foi a tremenda gafe que o Bispo cometeu; pois vejo que uma página foi cancelada e uma nova página colada.
Estou, de fato, muito plenamente satisfeito com o progresso da opinião. Por tudo o que ouço de vários setores, parece que Oxford fez muito bem ao assunto. (107/2. Um relato da reunião da Associação Britânica em Oxford em 1860 é dado em "Life and Letters", II., página 320, e um relato mais completo na "Life of Charles Darwin", em volume único, 1892, página 236. Ver também "Life and Letters of T.H. Huxley", Volume I., página 179, e o relato divertido da reunião em "Reminiscences of Oxford", de Tuckwell, Londres, 1900, página 50.) É de enorme importância mostrar ao mundo que alguns homens de primeira linha não têm medo de expressar sua opinião. Vejo diariamente, cada vez mais claramente, que meu livro, sem ajuda, não teria feito absolutamente nada. Asa Gray está lutando admiravelmente nos Estados Unidos. Ele é mestre completo no assunto, o que não se pode dizer, de forma alguma, de homens como até mesmo Hopkins.
Tenho pensado sobre o que você alude a respeito de uma resenha de história natural. (107/3. Em "Life and Letters of T.H. Huxley", Volume I., página 209, algum relato da fundação da "Natural History Review" é dado em uma carta ao Sir J.D. Hooker de 17 de julho de 1860. Em 2 de agosto, o Sr. Huxley acrescentou: "Darwin escreveu-me uma admoestação muito gentil sobre isso, dizendo-me que eu não deveria me desperdiçar em nada além de trabalho original. Em resposta, no entanto, assegurei-lhe que eu DEVO me desperdiçar, queira ou não, e que a 'Review' era apenas um meio de aproveitar tudo.") Suponho que você queira dizer realmente uma RESENHA e não um periódico para comunicações originais em História Natural. Deste último, há agora uma superabundância. Com relação a uma boa resenha, não pode haver dúvida sobre seu valor e utilidade; no entanto, se não for tarde demais, espero que você considere deliberadamente antes de decidir. Lembre-se de quanto trabalho você tem sobre seus ombros e, embora você possa fazer muito, há um limite para o poder de trabalho até mesmo do trabalhador mais árduo. Eu lamentaria profundamente vê-lo sacrificando muito tempo que poderia ser dedicado à pesquisa original. Temo que, para alguém que pode resenhar tão bem quanto você, haveria a mesma tentação de desperdiçar tempo, como notoriamente há para aqueles que sabem falar bem.
Uma resenha é apenas temporária; seu trabalho deveria ser perene. Sei bem que você pode dizer que, a menos que bons homens resenhem, não haverá boas resenhas. E isso é verdade. Você não faria mais bem com uma resenha ocasional em algum periódico bem estabelecido do que dedicando muito tempo à edição, ou auxiliando grandemente, se não editando, uma resenha que, por estar limitada a um único assunto, não teria uma circulação muito grande? Mas devo retornar à ideia principal que me ocorre — a de que isso diminuiria a quantidade de trabalho original e perene que você poderia realizar. Reflita sobre quantos homens existem na Inglaterra que podem fazer trabalho original nas várias linhas em que você é excelentemente apto. Lyell, lembro-me, com base em motivos análogos, muitos anos atrás resolveu que não escreveria mais resenhas. Sou um velho lento, e seu esquema me faz tremer. Deus sabe que, em um sentido, sou quase o último homem na Inglaterra que deveria jogar água fria em qualquer resenha na qual você estivesse envolvido, pois lucrei imensamente com seus trabalhos nessa linha.
Com relação a resenhar eu mesmo, nunca tentei: qualquer trabalho desse tipo me impede de fazer qualquer outra coisa, pois não consigo trabalhar em momentos perdidos. Tenho, além disso, um ódio insano de interromper meu curso regular de trabalho. Tenho agora materiais para um pequeno artigo ou dois, mas sei que nunca os desenvolverei. Portanto, não prometerei ajudar; embora não ajudar, se pudesse, me faria sentir muito ingrato com você. Você não tem ideia de durante quanto pouco tempo diariamente sou capaz de trabalhar. Se eu tivesse quaisquer deveres regulares, como você e Hooker, eu não faria absolutamente nada na ciência.
Fico sinceramente contente em saber que você está melhor; mas como tal trabalho como o de soldado voluntário (toda honra a você) não o mata, eu não consigo entender.
Pelo amor de Deus, lembre-se de que seu campo de trabalho é a pesquisa original nos ramos mais elevados e difíceis da História Natural. Não que eu queira subestimar a importância de resenhas inteligentes e sólidas.
CARTA 108. PARA T.H. HUXLEY. Sudbrook Park, Richmond, quinta-feira [julho de 1860].
Devo enviar-lhe um bilhete para dizer que bom camarada você é por me enviar um relato tão longo dos acontecimentos de Oxford. Li-o duas vezes e enviei-o à minha esposa, e quando chegar em casa lerei novamente: interessou-me muito. Mas como ousa atacar um bispo vivo dessa maneira? Estou completamente envergonhado de você! Você não tem reverência pelas finas mangas de linho? Por Júpiter, você parece ter feito isso muito bem. Se alguém ridicularizasse qualquer crença do bispo, ele não daria de ombros gentilmente e ficaria inexprimivelmente chocado? Sinto muito, muito mesmo, saber que você não está bem; mas não me surpreendo após todo o seu trabalho autoinfligido. Espero que você tenha logo um passeio, e isso lhe fará um bem real.
Fico feliz em ouvir sobre J. Lubbock, a quem espero ver em breve, e lhe direi o que você disse. Você leu Hopkins na última "Fraser?" — bem colocado, com bom espírito, exceto a discussão sobre a alma que é ruim, como lhe disse; nada realmente novo, pega apenas os pontos fracos e deixa de fora todas as outras considerações.
Recebi notícias de Asa Gray ontem; ele continua lutando como um troiano.
Deus o abençoe! — melhore, seja ocioso e sempre reverencie um bispo.
CARTA 109. PARA J.D. DANA. Down, 30 de julho [1860].
Recebi várias semanas atrás seu bilhete dizendo-me que você não poderia visitar a Inglaterra, o que lamentei sinceramente, pois teria gostado muito de ter feito sua amizade pessoal. Você me deu um relato melhorado, mas não muito bom, da sua saúde. Ficaria grato, a qualquer momento, por um bilhete para me dizer como você está. Tivemos um verão miserável, devido a uma doença terrivelmente longa e grave da minha filha mais velha, que melhora ligeiramente, mas ainda está em uma condição precária. Não pude fazer nada na ciência ultimamente. Meu gentil amigo Asa Gray escreve-me frequentemente e conta-me das calorosas discussões sobre a "Origin of Species" nos Estados Unidos. Sempre que você estiver forte o suficiente para lê-lo, sei que será totalmente contra mim, mas sei igualmente bem que sua oposição será liberal e filosófica. E isso é muito mais do que posso dizer de todos os meus oponentes neste país. Ainda não vi o ataque de Agassiz (109/1. "Silliman's Journal", julho de 1860. Uma passagem da resenha de Agassiz é dada pelo Sr. Huxley em "Life and Letters" de Darwin, II., página 184.), mas espero encontrá-lo em casa quando retornar em poucos dias, pois estive por várias semanas fora de casa por causa da minha filha. O Prof. Silliman enviou-me uma mensagem extremamente gentil através de Asa Gray de que seu Jornal estaria aberto a uma resposta minha. Não posso decidir até vê-lo, mas, por princípio, resolvi evitar responder a qualquer coisa, pois consome muito tempo, muitas vezes o temperamento, e já disse o que tinha a dizer na "Origin". Nenhuma pessoa entende minhas visões e as defendeu tão bem quanto A. Gray, embora ele não concorde de forma alguma comigo em tudo. Houve muita discussão sobre o assunto na Associação Britânica em Oxford, e tive muitos defensores, e o meu lado parece (pois não estive lá) quase ter ganho o melhor da batalha. Seu correspondente e meu vizinho, J. Lubbock, continua trabalhando no tempo livre que tem. Este é um bilhete egoísta, mas não vi um naturalista há meses. Sincera e profundamente espero que este bilhete o encontre quase recuperado.
CARTA 110. PARA W.H. HARVEY.
(110/1. Ver Carta 95, nota. Esta carta foi escrita em resposta a uma longa carta de W.H. Harvey, datada de 24 de agosto de 1860. Harvey já havia publicado um texto satírico e uma resenha, aos quais são feitas referências em "Life and Letters", II., páginas 314 e 375; mas aparentemente ele não havia completado a leitura da "Origin" antes desse momento.)
[Agosto de 1860.]
Li a sua longa carta com muito interesse, e agradeço-lhe pela sua grande liberalidade ao enviar-ma. Contudo, após reflexão, não desejo tentar responder a qualquer parte, exceto a si, em privado. Qualquer coisa dita por mim em defesa não teria peso; é melhor ser defendido por outros, ou não o ser de todo. Partes da sua carta parecem-me, se me é permitido dizer, muito agudas e originais, e sinto como um grande elogio o facto de ter dedicado tanto tempo ao meu livro. Mas, no geral, estou desapontado; não por não concordar comigo, pois nunca esperei tal coisa e, de facto, nas suas observações sobre os capítulos XII e XIII, vai muito mais longe comigo (embora um pouco) do que alguma vez antecipei, e estou muito satisfeito com o resultado. Mas, no geral, estou desapontado porque me parece que não compreende o que quero dizer por Seleção Natural, como demonstrado na página 11 (110/2. Harvey fala da perpetuação ou seleção do útil, pressupondo "um agente vigilante e inteligente", o que é muito semelhante a dizer que um agente inteligente é necessário para ver que as pedras pequenas passam pelos buracos de uma peneira e as grandes permanecem atrás.) da sua carta e por várias das suas observações. Como o meu livro falhou em explicar o meu significado, seria inútil tentar fazê-lo numa carta. Fala na primeira parte da sua carta, e na página 9, como se eu tivesse dito que a Seleção Natural era o único agente de modificação, enquanto eu disse direta e repetidamente, ad nauseam, e por ordem de precedência impliquei (o que me parece óbvio) que a seleção nada pode fazer sem variabilidade prévia (ver páginas 80, 108, 127, 468, 469, etc.), "nada pode ser efetuado a menos que ocorram variações favoráveis".
Considero a Seleção Natural de tamanha importância porque acumula variações sucessivas em qualquer direção vantajosa e, assim, adapta cada novo ser às suas condições de vida complexas. O termo "seleção", vejo, engana muitas pessoas, embora eu não veja mais razão para que isso aconteça do que com a afinidade eletiva, usada pelos antigos químicos. Se eu tivesse de reescrever o meu livro, usaria "preservação natural" ou "naturalmente preservado". Suponho que tomaria um emético tão depressa quanto releria qualquer parte do meu livro; mas, se o fizesse, e apagasse seleção e selecionado, e inserisse preservação e preservado, possivelmente o assunto seria mais claro. Como não é o único a interpretar mal o meu livro, há muito que teria concluído que o meu cérebro estava nublado se não tivesse descoberto, através de resenhas publicadas e, especialmente, pela correspondência, que Lyell, Hooker, Asa Gray, H.C. Watson, Huxley e Carpenter, e muitos outros, compreendem perfeitamente o que quero dizer. O resultado das suas observações na página 11 é que a minha explicação, etc., e toda a doutrina da Seleção Natural, são apenas palavras vazias, significando a "ordem da natureza". Como os homens de mente clara acima mencionados, que compreendem as minhas opiniões, todos me acompanham até certo ponto, e certamente não pensam que tudo seja fantasia, arriscar-me-ia a sugerir um pouco mais de reflexão da sua parte. Não quero com isto dizer que a opinião destes homens valha muito como prova de que estou correto, mas apenas como alguma evidência de que tenho ideias mais claras do que pensa, caso contrário estes mesmos homens teriam de ser ainda mais confusos do que eu; pois não têm tentação de se enganar a si próprios. No próximo número de setembro (110/3. "American Journal of Science and Arts", setembro de 1860, "Design versus Necessity", reimpresso em "Darwiniana" de Asa Gray, 1876, página 62.) do "American Journal of Science" há um interessante e curto artigo teológico (de Asa Gray), que apresenta incidentalmente, com admirável clareza, a teoria da Seleção Natural, e que, portanto, pode valer a pena ler. Penso que a parte teológica lhe interessaria.
Objeta a todas as minhas ilustrações. São todas necessariamente conjeturais, e podem ser todas falsas; mas eram as melhores que eu podia dar. O caso do urso (110/4. "Origin of Species", Edição I, página 184. Ver Carta 120.) foi muito ridicularizado, e desonestamente distorcido por alguns, que disseram que eu afirmava que um urso poderia ser convertido numa baleia. Como ofendeu pessoas, retirei-o na segunda edição; mas ainda sustento que não há dificuldade especial em que a boca de um urso seja alargada em qualquer grau útil para os seus hábitos em mudança — não mais dificuldade do que o homem encontrou em aumentar o papo do pombo, por seleção contínua, até ser literalmente tão grande como todo o resto do corpo. Se isto não fosse conhecido, quão absurdo teria parecido dizer que o papo de uma ave poderia ser aumentado até se tornar como um balão!
Com relação ao avestruz, acredito que as asas foram reduzidas, e não estão em curso de desenvolvimento, porque toda a estrutura de uma ave é essencialmente formada para o voo; e o avestruz é essencialmente uma ave. Verá na página 182 da "Origin" uma discussão algo análoga. Na página 450 da segunda edição, apontei a distinção essencial entre um órgão nascente e um rudimentar. Se prefere a visão mais complexa de que o progenitor do avestruz perdeu as suas asas, e que o avestruz atual as está a recuperar, nada tenho a dizer em oposição.
Com relação às árvores em ilhas, recolhi alguns casos, mas tomei os factos principais de Alph. De Candolle, e pensei que poderiam ser de confiança. A minha explicação pode estar grosseiramente errada; mas não estou convencido de que o esteja, e não vejo a força total do seu argumento de certas ordens herbáceas terem sido desenvolvidas em árvores em certos casos raros nos continentes. O caso parece-me depender inteiramente da questão de saber se, geralmente, as ordens herbáceas fornecem mais frequentemente árvores e arbustos nas ilhas do que nos continentes, relativamente às suas áreas. (110/5. Na "Origin", Edição I, página 392, o autor aponta que, na presença de árvores concorrentes, uma planta herbácea teria poucas hipóteses de se tornar arborescente; mas numa ilha, com apenas outras plantas herbáceas como concorrentes, poderia ganhar uma vantagem ao superar as suas companheiras, e tornar-se semelhante a uma árvore. Harvey escreve: "O que diz (página 392) sobre árvores insulares que pertencem a ordens que em outros lugares incluem apenas espécies herbáceas parece-me não ser apoiado por evidência suficiente. Não cita árvores particulares, e posso, portanto, estar errado ao adivinhar que as ordens a que alude são Scrophularineae e Compositae; e as árvores insulares as Veronicas antárticas e as Compositae arborescentes de Santa Helena, Tasmânia, etc. Mas na África do Sul, a Halleria (Scrophularineae) é frequentemente tão grande e lenhosa como uma macieira; e existem várias Compositae arborescentes sul-africanas (Senecio e Oldenburgia). Além disso, na Tasmânia, pelo menos, as Compositae arborescentes não são encontradas a competir apenas com plantas herbáceas, e a crescer cada vez mais altas ao superá-las...; pois a mais arborescente de todas (Eurybia argophylla, a árvore-do-almíscar) cresce... em florestas de Eucalyptus. E o mesmo acontece com a Halleria sul-africana, que é uma árvore entre árvores. Quais podem ser as condições das Gerania arborescentes das ilhas Sandwich, não sou capaz de dizer... Não me lembro de outros exemplos, nem posso aceitar a sua explicação em qualquer outro dos casos que citei.")
Na página 4 da sua carta diz que desiste de muitas espécies de livros como criações separadas: eu desisto de todas, e infere que a nossa diferença é apenas de grau e não de espécie. Discordo disto; pois dou uma razão distinta de quão longe vou na desistência de espécies. Considero todas as formas, que se assemelham umas às outras homológica ou embriologicamente, como certamente descendentes da mesma espécie.
Acertou-me forte e justamente (110/6. Harvey escreve: "Pergunta — foram todos os tipos infinitamente numerosos de animais e plantas criados como ovos ou sementes, ou como adultos? A isto é suficiente responder: foi o seu organismo primordial, ou foram os seus quatro ou cinco progenitores criados como ovo, semente ou adultos? Nenhuma teoria tenta resolver este enigma, nem o enigma do Omphalos." O último ponto, que o Sr. Darwin se recusa a abandonar, está na página 483 da "Origin", "e, no caso dos mamíferos, foram criados ostentando as marcas falsas de nutrição do útero materno?") sobre a minha pergunta (página 483, "Origin") acerca da criação de ovos ou jovens, etc., (mas não sobre mamíferos com a marca do cordão umbilical), contudo, ainda tenho um sentimento ilógico de que há menos dificuldade em imaginar a criação de uma célula assexuada, aumentando por simples divisão.
Página 5 da sua carta: Concordo com cada palavra sobre a antiguidade do mundo, e nunca vi o caso ser colocado por ninguém de forma mais forte ou mais capaz. Não me causa, no entanto, mais impressão como objeção do que o astrónomo quando acrescenta algumas centenas de milhões de milhas à distância das estrelas fixas. Para comparar coisas muito pequenas com grandes, Lingula, etc., permanecendo quase inalteradas desde a época siluriana até aos dias de hoje, é como os pombos de pombal serem ainda idênticos aos pombos-das-rochas selvagens, enquanto a sua descendência "de fantasia" foi imensamente modificada, e ainda está a ser modificada, por meio de seleção artificial.
Coloca a dificuldade da primeira modificação do primeiro protozoário admiravelmente. Garanto-lhe que imediatamente após a publicação da primeira edição isto ocorreu-me, e pensei em inseri-lo na segunda edição. Não o fiz, porque não sabemos minimamente qual foi o primeiro germe de vida, nem temos qualquer facto que nos guie nas nossas especulações sobre o tipo de mudança que a sua descendência sofreu. Discordo completamente do que diz sobre os milhares de anos que levaria para povoar o mundo com tal protozoário imaginado. Em quão curto espaço de tempo Ehrenberg calculou que um único infusório poderia fazer um cubo de rocha! Um único cubo em progressão geométrica faria o globo sólido em (suponho) menos de um século. Pelo pouco que sei, não posso deixar de pensar que subestima os efeitos das condições físicas de vida sobre estes organismos inferiores. Mas admito plenamente que não posso dar qualquer tipo de resposta às suas objeções; contudo, devo acrescentar que seria maravilhoso se algum homem pudesse, assumindo por um momento que a minha teoria é verdadeira. Pensa que a questão é suposta ao dizer que o Protococcus estaria condenado à semelhança eterna. Nem pode saber que o primeiro germe se assemelhava a um Protococcus ou a qualquer outra forma viva atual.
Página 12 da sua carta: Não há nada na minha teoria que necessite, em cada caso, de progressão de organização, embora a Seleção Natural tenda para esta linha, e tenha geralmente agido assim. Um animal, se se tornar adaptado pela seleção para viver a vida, por exemplo, de um parasita, geralmente degradar-se-á. Lamentei muito não ter tornado esta parte do assunto mais clara. Deixei de fora este e muitos outros assuntos, que agora vejo que deveriam ter sido introduzidos. Inseri uma discussão sobre este assunto nas edições estrangeiras. (110/7. Na terceira Edição é adicionada uma discussão sobre este ponto no Capítulo IV.) Em caso algum qualquer ser orgânico tenderá a retrogradar, a menos que tal retrogradação seja uma vantagem para a sua descendência variável; e é difícil ver como voltar à estrutura do desconhecido suposto protozoário original poderia alguma vez ser uma vantagem.
Página 13 da sua carta: Fiquei mais contente por ler a sua discussão sobre formas "dominantes" do que qualquer outra parte da sua carta. (110/8. Harvey escreve: "Observando a natureza orgânica no seu aspeto mais amplo, penso que é inquestionável que as raças verdadeiramente dominantes não são as de alta, mas as de baixa organização"; e continua a citar a doença da batata, etc. Na terceira edição da "Origin", página 56, é introduzida uma discussão definindo o uso do termo "dominante" pelo autor.) Posso agora ver que não fui suficientemente cauteloso ao limitar a minha definição e significado. Não posso dizer que tenha alterado as minhas opiniões. Se o Botrytis [Phytophthora] tivesse exterminado a batata selvagem, uma forma baixa teria conquistado uma alta; mas não me lembro de alguma vez ter dito (tenho a certeza de que nunca pensei) que uma forma baixa nunca conquistaria uma alta. Aludi expressamente a parasitas a exterminarem metade dos animais de caça, e à luta pela vida ser por vezes entre formas tão diferentes quanto possível: por exemplo, entre gafanhotos e quadrúpedes herbívoros. Sob as muitas condições de vida que este mundo oferece, qualquer grupo que seja numeroso em indivíduos e espécies e seja amplamente distribuído, pode ser corretamente chamado de dominante. Nunca sonhei em considerar que qualquer grupo, sob todas as condições e em todo o mundo, seria predominante. Como poderiam os vertebrados ser predominantes sob as condições de vida em que vivem os vermes parasitas? De que serviriam os seus sentidos aperfeiçoados e o seu intelecto sob tais condições? Quando falei de formas dominantes, foi em relação à multiplicação de novas formas específicas, e a dominância de qualquer espécie tem sido geralmente relativa a outros membros do mesmo grupo, ou pelo menos a seres expostos a condições semelhantes e que entram em competição. Mas suponho que não me fiz claro na "Origin", e o espaço tornou-o impossível. Mas agradeço-lhe sinceramente pelas suas valiosas observações, embora não concorde com elas.
Sobre saltos repentinos: não tenho objeções a eles — ajudar-me-iam em alguns casos. Tudo o que posso dizer é que analisei o assunto e não encontrei provas que me fizessem acreditar em saltos; e bastante apontando na direção oposta. Achará difícil (página 14 da sua carta) traçar uma linha marcada de separação entre cruzamentos férteis e inférteis. Não vejo como a mudança aparentemente repentina (pois a rapidez da mudança numa crisálida é, claro, em grande parte apenas aparente) nas larvas durante o seu desenvolvimento lança qualquer luz sobre o assunto.
Gostaria de ter tornado esta carta mais digna de lhe ser enviada. Mandei copiá-la para lhe poupar, pelo menos, o trabalho intolerável de ler a minha má caligrafia. Agradeço-lhe novamente pela sua grande liberalidade e bondade ao enviar-me as suas críticas, e desejo sinceramente que estivéssemos um pouco mais de acordo; mas temos de nos contentar em estar tão distantes como os polos, mas sem, graças a Deus, qualquer malícia ou outro sentimento negativo.
CARTA 111. PARA T.H. HUXLEY.
(111/1. Os artigos do Dr. Asa Gray no "Atlantic Monthly", julho, agosto e outubro de 1860, foram publicados em Inglaterra como um panfleto, e formam o Capítulo III na sua "Darwiniana" (1876). Ver "Life and Letters", II, página 338. O artigo referido na presente carta é o do número de agosto.)
Down, 10 de setembro [1860].
Envio por este correio uma resenha de Asa Gray, tão boa que gostaria que a visse; devo pedir a sua devolução. Quero perguntar, também, a sua opinião sobre a sua reimpressão em Inglaterra. Pensei em enviá-la ao Editor do "Annals and Mag. of Nat. Hist.", no qual apareceram duas resenhas hostis (embora suponha que o "Annals" tenha uma circulação muito pobre), e pedir-lhes, num espírito de jogo limpo, que imprimam isto, com o nome de Asa Gray, que assumirei a responsabilidade de acrescentar. Além disso, como é longa, oferecer-me-ia para pagar as despesas.
É muito boa, além disso, por incluir Pictet tão largamente. (111/2. Pictet (1809-72) escreveu uma resenha "perfeitamente justa" oposta à "Origin". Ver "Life and Letters", II, página 297.) Diga-me brevemente o que pensa.
Que expedição espantosa esta de Hooker à Síria! Deus sabe se é sensato.
Como estão você e todos os seus? Espero que não esteja a trabalhar demasiado. Pelo amor de Deus, pense que pode tornar-se uma besta como eu. Como vai o "Nat. Hist. Review?" Falando em resenhas, amaldiçoei com elegância a resenha no "Athenaeum" (111/3. Resenha de "The Glaciers of the Alps" ("Athenaeum", 1 de setembro de 1860, página 280).) sobre Tyndall com uma alusão vil e desprezível a si. É vergonhoso sobre Tyndall — na verdade, duvidando da sua veracidade.
Estou muito cansado, e odeio quase todo o mundo. Portanto, boa noite, e cuide da sua digestão, o que significa cérebro.
CARTA 112. PARA C. LYELL. 15, Marine Parade, Eastbourne, 26 [setembro de 1860].
Acabou de me ocorrer que não tomei nota das suas perguntas sobre a extinção em Santa Helena. Tenho quase a certeza de que Hooker tem informações sobre a extinção de plantas (112/1. "Principles of Geology", Volume II (Edição X, 1868), página 453. Factos são citados de Hooker ilustrando o extermínio de plantas em Santa Helena.), mas não me consigo lembrar de onde a vi. Pode-se assumir confiantemente que muitos insetos foram exterminados.
A propósito, recebi notícias recentemente de Wollaston, que me disse que tinha acabado de receber formas de insetos eminentemente da Madeira e das Canárias do Cabo da Boa Esperança, a que distância insignificante, se ele for lógico, terá de estender a sua Atlântida! Acabei de receber a sua carta, e estou muito satisfeito por aprovar. Mas estou totalmente enojado e envergonhado com o dingo. Não consigo pensar em como pude ter interpretado o artigo tão grosseiramente. Espero não ter cometido o mesmo erro quanto à sua coexistência com espécies extintas: que erro horrível! Estou triste por saber que pensa que devo trabalhar as notas no texto; mas é um juiz muito melhor, por isso obedecerei. Lamento que tenha tido o incómodo de devolver o manuscrito do Cão, que suponho receberei amanhã.
Pretendo dar bons cortes de madeira de todas as principais raças de pombos. (112/2. "The Variation of Animals and Plants under Domestication", 1868.)
Exceto o C. oenas (112/3. O Columba oenas da Europa empoleira-se em árvores e constrói o seu ninho em buracos, quer em árvores ou no solo ("Var. of Animals", Volume I, página 183).) (que é parcialmente, de facto quase inteiramente, um pombo-torcaz), não há outro pombo-das-rochas com o qual o nosso pombo doméstico se cruzaria — isto é, se várias raças geográficas extremamente próximas de C. livia, que quase nenhum ornitólogo considera como espécies verdadeiras, forem todas agrupadas sob C. livia. (112/4. Columba livia, o Pombo-das-rochas. "Podemos concluir com confiança que todas as raças domésticas, apesar da sua grande quantidade de diferença, descendem do Columba livia, incluindo sob este nome certas raças selvagens" (op. cit., Volume I, página 223).)
Estou a escrever de forma confusa, enquanto releio a sua carta. Pensei que a minha carta tinha sido muito mais selvagem do que a sua. Sinto perfeitamente o conforto de escrever quando se pode "alterar as especulações de alguém no dia seguinte". Está além do meu conhecimento pesar classificações de aves e monotremados; no sistema respiratório e circulatório e energia muscular, acredito que as aves estão à frente de todos os mamíferos.
Eu sabia que deveria ter sabido sobre a Nova Guiné; mas ao escrever-lhe nunca me torno educado!
Após tratar de meia dúzia ou uma dúzia de animais domésticos da mesma maneira que trato os cães, pretendia ter um capítulo de conclusões. Mas o Céu sabe quando terminarei: avanço muito lentamente. Ficaria surpreendido com o tempo que levei para escolher o que parecia útil sobre cães a partir de multidões de detalhes.
Compreendo a força da sua observação sobre as raças humanas mais isoladas nos tempos antigos e, portanto, mais numerosas. Parece-me difícil ponderar probabilidades. Talvez assim seja, se se referir a diferenças muito ligeiras nas raças: para criar grandes diferenças seria necessário muito tempo e, então, mesmo no período mais remoto, eu teria esperado que uma raça se tivesse espalhado, conquistado e exterminado as outras.
No que respeita à série de Elefantes de Falconer (112/5. Em 1837, o Dr. Falconer e Sir Proby Cautley recolheram um grande número de restos fósseis das colinas Siwalik. Falconer e Cautley, "Fauna Antiqua Sivalensis", 1845-49.), penso que o caso poderia ser melhor respondido do que o fiz na "Origem", página 334. (112/6. "Origem das Espécies", Edição I., página 334. "Não é uma objeção real à veracidade da afirmação de que a fauna de cada período, no seu todo, é quase intermediária em caráter entre as faunas precedente e sucessora, o facto de certos géneros oferecerem exceções à regra. Por exemplo, os mastodontes e os elefantes, quando organizados pelo Dr. Falconer em duas séries, primeiro de acordo com as suas afinidades mútuas e depois de acordo com os seus períodos de existência, não coincidem na organização. As espécies de caráter extremo não são as mais antigas, nem as mais recentes; nem as que são intermediárias em caráter são intermediárias em idade. Mas supondo, por um instante, neste e noutros casos semelhantes, que o registo do primeiro aparecimento e desaparecimento das espécies fosse perfeito, não temos razão para acreditar que as formas produzidas sucessivamente perdurem necessariamente por extensões de tempo correspondentes. Uma forma muito antiga poderia, ocasionalmente, durar muito mais do que uma forma produzida posteriormente noutro local, especialmente no caso de produções terrestres que habitam distritos separados" (páginas 334-5). As mesmas palavras ocorrem na edição posterior da "Origem" (Edição VI., página 306.) Todas estas novas descobertas mostram quão imperfeita é a série descoberta, que Falconer pensava, anos atrás, ser quase perfeita.
Enviarei hoje ou amanhã dois artigos de Asa Gray. O mais longo (agora não corrigido finalmente) sairá na "Atlantic Monthly" de outubro, e podem ser obtidos na Trubner's. Agradecimentos sinceros por toda a sua bondade.
Não se apresse com Asa Gray. Ele parece-me um dos melhores raciocinadores e escritores que alguma vez li. Ele conhece o meu livro tão bem quanto eu próprio.
CARTA 113. A C. LYELL. 15, Marine Parade, Eastbourne, 3 de outubro [1860].
A sua última carta interessou-me muito de muitas formas.
Anexo uma carta de Wyman que toca na questão dos cérebros. Wyman engana-se ao supor que eu não sabia que o rato-das-cavernas era uma forma americana; fiz perguntas especiais. Ele não sabe que o olho do Tucotuco foi cuidadosamente dissecado.
No que respeita às críticas de A. Gray. Pensei em enviar o Diálogo à "Saturday Review" dentro de uma semana ou algo assim, uma vez que discutiram recentemente o Design. (113/1. "Discussão entre dois Leitores do Tratado de Darwin sobre a Origem das Espécies, sobre a sua Teologia Natural" ("Amer. Journ. Sci." Volume XXX, página 226, 1860). Reimpresso em "Darwiniana", 1876, página 62. O artigo começa com a seguinte pergunta: "Primeiro Leitor--A teoria de Darwin é ateísta ou panteísta? Ou tende para o ateísmo ou panteísmo?" A discussão é encerrada pelo Segundo Leitor, que resume assim as suas opiniões: "Pelo que podemos insistir que, por tudo o que ainda aparece, o argumento para o design, conforme apresentado pelos teólogos naturais, é tão bom agora, se aceitarmos a teoria de Darwin, como era antes da teoria ter sido promulgada; e que o jurado cético, que estava prestes a juntar-se aos outros onze num veredito unânime a favor do design, não encontra boa desculpa para manter o Tribunal à espera por mais tempo.") Enviei o segundo, ou agosto, artigo da "Atlantic" aos "Annals and Mag. of Nat. History". (113/2. "Annals and Mag. Nat. Hist." Volume VI., páginas 373-86, 1860. (Do "Atlantic Monthly", agosto, 1860.)) A cópia que tem, quero enviar a Pictet, como disse a A. Gray que faria, pensando, pelo que ele disse, que gostaria que isto fosse feito. Duvido que fosse possível obter o número de outubro reimpresso neste país; por isso, não tenho pressa alguma quanto a isto.
Recebi uma carta há poucas semanas de Symonds sobre a imperfeição do Registo Geológico, menos clara e contundente do que esperava. Respondi-lhe longamente e com muita cortesia, embora mal conseguisse compreender o que ele pretendia. Ele falou sobre si de uma forma que me fez bem ler.
Estou extremamente contente por gostar das críticas de A. Gray. Quão generoso e altruísta ele tem sido em todo o seu trabalho! Não fica impressionado com as suas metáforas e símiles? Disse-lhe que ele é um poeta e não um advogado.
Duvidaria totalmente da conversão de tartarugas em cágados terrestres em qualquer ilha. Lembre-se de quão notavelmente semelhantes são as tartarugas em todos os continentes, bem como nas ilhas; devem ter descendido todas de um progenitor antigo, incluindo a tartaruga gigante do Himalaia.
Penso que deve ser cauteloso em não seguir a doutrina conveniente de que apenas uma espécie entre muitas varia alguma vez. Reflita sobre casos como a fauna e a flora da Europa, América do Norte e Japão, que são tão semelhantes e, contudo, possuem uma grande maioria das suas espécies ou especificamente distintas, ou formando raças bem marcadas. Devemos, em tais casos, inclinar-nos para a crença de que uma multidão de espécies foram outrora identicamente as mesmas nos três países quando sob um clima mais quente e com mais ligação; e variaram nos três países. Inclino-me a acreditar que quase todas as espécies (como vemos com quase todas as nossas produções domésticas) variam suficientemente para que a Seleção Natural selecione e acumule novas diferenças específicas, sob novas condições orgânicas e inorgânicas de vida, sempre que um lugar esteja aberto na política da natureza. Mas olhando para um longo lapso de tempo e para o mundo inteiro, ou para grandes partes do mundo, acredito que apenas uma ou poucas espécies de cada grande género se tornam, em última análise, vitoriosas e deixam descendentes modificados. Para dar um exemplo imaginário: o gaio tornou-se modificado nos três países em (acredito) três ou quatro espécies; mas o género gaio não é, aparentemente, um grupo tão dominante como os corvos; e, a longo prazo, provavelmente todos os gaios serão exterminados e substituídos talvez por alguns corvos modificados.
Dou apenas este exemplo para mostrar o que me parece provável.
Mas oh! que trabalho há pela frente antes de compreendermos a genealogia dos seres orgânicos!
No que respeita ao Apteryx, não sei o suficiente de anatomia; mas pergunte ao Dr. F. se a clavícula, etc., não dão fixação a alguns dos músculos da respiração. Se as minhas opiniões estiverem minimamente corretas, a asa do Apteryx (113/3. "Origem das Espécies", Edição VI., página 140.) não pode ser (página 452 da "Origem") um órgão nascente, uma vez que estas asas são inúteis. Não me atrevo a confiar na memória, mas sei que descobri que o esterno inteiro estava sempre reduzido em tamanho em todos os pombos exóticos e confinados, relativamente aos mesmos ossos no pombo-das-rochas selvagem: a quilha estava geralmente ainda mais reduzida relativamente ao comprimento reduzido do esterno; mas, em algumas raças, era, de uma forma muito anómala, mais proeminente. Tenho um monte de factos sobre a redução dos órgãos de voo no pombo, que me levaram semanas a elaborar e que Huxley considerou curiosos.
Estou totalmente envergonhado e gemo com a minha letra. Era "Preservação Natural". Perseguição natural é o que o autor deveria sofrer. Regozija-me que não se oponha ao termo. Hooker fez a mesma observação, de que deveria ter sido "Variação e Seleção Natural". Contudo, com produções domésticas, quando se fala de seleção, a variação está sempre implícita. Mas concordo inteiramente com a sua observação e a de Hooker.
Começou regularmente a escrever o seu livro sobre a antiguidade do homem? (113/4. Publicado em 1863.)
NÃO concordo com a sua observação de que faço a Seleção Natural fazer demasiado trabalho. Talvez responda que cada homem monta o seu cavalo de hobby até à morte; e que eu estou no estado de galope.
CARTA 114. A C. LYELL. 15, Marine Parade, Eastbourne, sexta-feira, 5 [outubro de 1860].
Tenho dois bilhetes para lhe agradecer e devolvo Wollaston. Sempre me pareceu algo estranho que Forbes, Wollaston e Cia. argumentassem, a partir da presença de espécies aliadas, e não idênticas, nas ilhas, pela anterior continuidade de terra.
Argumentam, suponho, a partir de as espécies serem aliadas em diferentes regiões do mesmo continente, embora especificamente distintas. Mas penso que se poderia, na doutrina criacionista, argumentar com igual força de uma maneira diretamente inversa e dizer que, como as espécies são tão frequentemente marcadamente distintas, embora aliadas, nas ilhas, todos os nossos continentes existiram primeiro como ilhas e os seus habitantes foram primeiro criados nestas ilhas e, desde então, misturaram-se, de modo a não serem tão distintos como geralmente são agora nas ilhas.
CARTA 115. A H.G. BRONN. Down, 5 de outubro [1860].
Deveria pedir desculpa por incomodá-lo, mas li finalmente com atenção as suas excelentes críticas ao meu livro. (115/1. Bronn acrescentou observações críticas à sua tradução alemã da "Origem": ver "Life and Letters", II., página 279.) Concordo com grande parte delas e totalmente com a sua frase final. As objeções e dificuldades que podem ser levantadas contra o meu ponto de vista são, de facto, pesadas o suficiente para quase me partir as costas, mas ainda não está partida! Coloca muito bem e com muita justiça que não consigo, em caso algum, explicar o curso da modificação em qualquer exemplo particular. Poderia dar algum tipo de resposta ao seu caso dos dois ratos; e não poderia eu virar-me e perguntar àquele que acredita na criação separada de cada espécie, por que razão um rato tem uma cauda mais comprida ou orelhas mais curtas do que outro? Presumo que a maioria das pessoas diria que estes caracteres tinham alguma utilidade, ou estavam em alguma ligação com outras partes; e, se assim fosse, a Seleção Natural agiria sobre eles. Mas, tal como coloca o caso, é desfavorável para mim. Argumenta com muita justiça contra a minha pergunta, se as muitas espécies foram criadas como ovos (115/2. Ver Carta 110.) ou como maduras, etc. Certamente não tinha o direito de fazer essa pergunta. Concordo plenamente que poderia ter havido cem mil criações, tal como oito ou dez, ou apenas uma. Mas então, sobre a visão de oito ou dez criações (isto é, tantas quantas existem tipos distintos de estrutura), podemos, na minha visão, compreender a semelhança homológica e embriológica de todos os organismos de cada tipo e, apenas por esta razão, não acredito nos inumeráveis atos de criação. Existem apenas dois pontos nos quais penso que me compreendeu mal. Refiro-me apenas a um período Glacial como afetando a distribuição dos seres orgânicos; não quis sequer aludir à evidência duvidosa de ação glacial nos períodos Pérmico e Carbonífero. Em segundo lugar, não acredito que o processo de desenvolvimento tenha sido sempre realizado à mesma velocidade em todas as diferentes partes do mundo. A Austrália opõe-se a tal crença. O desenvolvimento igual quase contemporâneo em períodos passados atribuo à lenta migração das formas mais elevadas e dominantes por todo o mundo, e não a atos independentes de desenvolvimento em diferentes partes. Por último, permita-me acrescentar que não consigo ver a força da sua objeção de que nada é efetuado até que a origem da vida seja explicada: certamente vale a pena tentar seguir a ação da eletricidade, embora não saibamos o que é a eletricidade.
Se alguma vez me fizer o favor de me escrever, ficaria muito grato se me informasse se examinou pessoalmente as subespécies de aves de Brehm; pois examinei alguns dos seus escritos, mas nunca encontrei um ornitólogo que acreditasse na sua [ilegível]. Estas subespécies são realmente características de certas regiões diferentes da Alemanha?
Se escrever, gostaria muito de saber como se vende a edição alemã.
CARTA 116. A J.S. HENSLOW. 26 de outubro [1860].
Muitos agradecimentos pelo seu bilhete e por todo o trabalho com as sementes, que me serão muito úteis na próxima primavera. No meu regresso a casa, enviarei os xelins. (116/1. Xelins para as meninas na paróquia de Henslow que recolheram sementes para Darwin.) Concluí que o Dr. Bree se enganou sobre os Celtas. Não me importo com o seu abuso monótono e constante sobre mim, e singular deturpação. Mas na página 244 ele, de facto, duvida da minha palavra deliberada, e esse é o ato de um homem que não tem a alma de um cavalheiro nele. Kingsley é "o célebre autor e teólogo" (116/2. "Espécies não Transmutáveis", por C.R. Bree. Após citar da "Origem", Edição II., página 481, as palavras em que um célebre autor e teólogo confessa que "ele aprendeu gradualmente a ver que é uma conceção tão nobre da Divindade acreditar que Ele criou algumas formas originais, etc.", o Dr. Bree continua: "Penso que deveríamos ter tido o nome deste teólogo dado com esta afirmação notável. Confesso que ainda não decidi totalmente que qualquer teólogo pudesse ter escrito linhas tão fatais para as verdades que ele é chamado a ensinar.") cuja frase marcante dou na segunda edição com a sua permissão. Não escolhi pedir-lhe para me deixar usar o seu nome e, como ele não se ofereceu, não tive, claro, escolha. (116/3. Estamos em dívida para com o Sr. G.W. Prothero por chamar a nossa atenção para a seguinte passagem marcante das obras de um teólogo deste período:--"Apenas um ceticismo semelhante foi demonstrado por quase todos os primeiros fisiologistas da atualidade, que se juntaram na rejeição das teorias de desenvolvimento de Lamarck e dos 'Vestígios'...Contudo, é agora reconhecido sob a alta sanção do nome de Owen que 'criação' é apenas outro nome para a nossa ignorância do modo de produção...enquanto uma obra surgiu agora de um naturalista da mais reconhecida autoridade, o volume magistral do Sr. Darwin sobre a 'Origem das Espécies', pela lei da 'seleção natural', que agora comprova em bases inegáveis o próprio princípio tão longamente denunciado pelos primeiros naturalistas--a originação de novas espécies por causas naturais: uma obra que deve em breve provocar uma revolução total de opinião a favor do grande princípio dos poderes de autoevolução da natureza."--Prof. Baden Powell's "Study of the Evidences of Christianity", "Essays and Reviews", 7.ª edição, 1861 (páginas 138, 139).)
O Dr. Freke enviou-me o seu artigo, que está muito além do meu alcance--algo como o excelente enigma no "Anti-Jacobin" sobre o meu avô, que foi citado na "Quarterly Review".
CARTA 117. A D.T. ANSTED.
(117/1. A seguinte carta foi publicada no discurso presidencial do Professor Meldola à Sociedade Entomológica, 1897, e estamos em dívida para com ele por uma cópia.)
15, Marine Parade, Eastbourne, 27 de outubro [1860].
Como estou fora de casa por causa da saúde da minha filha, não sei o seu endereço e envio isto ao acaso, e é de muito pouca importância se nunca o alcançar.
Acabei de ler a maior parte do seu "Geological Gossip" e achei parte muito interessante; mas quero expressar a minha admiração pela forma clara e correta como apresentou um esboço da Seleção Natural. Pensará que este é um elogio muito ligeiro; mas declaro que a maioria dos leitores parece totalmente incapaz de compreender o meu longo argumento. Alguns dos críticos, que se agarraram servilmente às minhas ilustrações e quase às minhas palavras, estiveram corretos, mas extraordinariamente poucos outros tiveram sucesso. Posso ver claramente, pelas suas novas ilustrações e maneira e ordem de colocar o caso, que compreende profundamente o assunto. Garanto-lhe que isto é muito gratificante para mim, e é a única forma como o público pode ser doutrinado. Estou muitas vezes em desespero por fazer a generalidade dos NATURALISTAS sequer compreender-me. Homens inteligentes que não são naturalistas e não têm uma ideia dogmática do termo espécie, mostram mais clareza de espírito. Penso que prestou um serviço real ao assunto e agradeço-lhe sinceramente. Sem dúvida, haverá muito erro encontrado no meu livro, mas tenho grande confiança de que o ponto de vista principal será, com o tempo, considerado correto; pois descubro, sem exceção, que aqueles naturalistas que foram a princípio um centímetro comigo agora vão um pé ou uma jarda comigo.
Este bilhete obviamente não requer resposta.
CARTA 118. A H.W. BATES. Down, 22 de novembro [1860].
Agradeço-lhe sinceramente por me escrever e pela sua carta muito interessante. O seu nome tem-me sido familiar há muito tempo e tenho ouvido falar das suas zelosas diligências na causa da História Natural. Mas eu não sabia que tinha trabalhado com questões filosóficas elevadas antes da sua mente. Tenho uma antiga crença de que um bom observador significa realmente um bom teórico (118/1. Para uma opinião oposta, ver Carta 13.), e espero plenamente encontrar as suas observações muito valiosas. Lamento muito saber que a sua saúde está debilitada; mas confio que sob um clima saudável possa ser restaurada. Posso simpatizar consigo totalmente neste aspeto, pois tenho tido má saúde durante muitos anos e temo que permanecerei sempre um inválido confirmado. Fico encantado por saber que o senhor, com todo o seu vasto conhecimento prático de História Natural, me antecipou em muitos aspetos e concorda comigo. Como diz, fui muito bem atacado e injuriado (especialmente por entomologistas--Westwood, Wollaston e A. Murray criticaram-me e zombaram de mim à vontade), mas não me importo nada com os seus ataques; vários juízes realmente bons vão muito longe comigo, e observo que todos aqueles que vão um pouco longe tendem a ir um pouco mais longe. Que mente filosófica fina tem o seu amigo Sr. Wallace, e ele agiu, em relação a mim, como um verdadeiro homem com um espírito nobre. Vejo pela sua carta que lidou com vários dos problemas mais difíceis, como me parece, na História Natural--tais como as distinções entre os diferentes tipos de variedades, espécies representativas, etc. Talvez encontre alguns factos no seu artigo sobre variedades intermediárias em regiões intermediárias, sobre cujo assunto encontrei informação notavelmente escassa. Não lhe sei dizer quão contente estou por saber que prestou atenção à questão curiosa da refrigeração equatorial. Concordo perfeitamente que deve ter sido pequena; contudo, quanto mais entro nessa questão, mais convencido fico de que houve, durante o período Glacial, alguma migração de norte para sul. O esboço na "Origem" dá uma conta muito escassa do meu ensaio manuscrito mais completo sobre este assunto.
Ficarei particularmente grato por uma cópia do seu artigo quando publicado (118/2. Provavelmente um artigo de Bates intitulado "Contribuições para uma Fauna de Insetos do Vale do Amazonas" ("Trans. Entomol. Soc." Volume V., página 335, 1858-61).); e se me ocorrer alguma sugestão (não que precise de alguma) ou perguntas, escreverei a pedir.
Tenho de preparar imediatamente uma nova edição da "Origem", (118/3. Terceira Edição, março de 1861.), e ter-me-ei ao prazer de lhe enviar uma cópia; mas será apenas ligeiramente alterada.
Casos de formigas neutras, divididas em castas, com gradações intermediárias (que imagino serem raras), interessam-me muito. Ver "Origem" sobre a formiga-viajante, página 241 (por favor, veja a passagem.)
CARTA 119. A T.H. HUXLEY.
(119/1. Isto refere-se ao primeiro número da nova série da "Natural History Review", 1861, um periódico que Huxley foi largamente instrumental em fundar, e do qual foi editor (ver Carta 107). A primeira série foi publicada em Dublin e teve sete volumes entre 1854 e 1860. A nova série chegou ao fim em 1865.)
Down, 3 de janeiro [1861].
Acabo de terminar o nº 1 da "Natural History Review" e devo cumprimentá-lo, como principal responsável, pela sua excelência. O todo parece-me admirável — tão admirável que é impossível que os outros números sejam tão bons, mas seria tolice esperá-lo. Sou um tanto pessimista e temo, de fato, que o mérito dos artigos esteja acima do alcance dos leitores e assinantes comuns. Fiquei muito interessado pelo seu artigo sobre o cérebro. (119/2. O "artigo sobre o cérebro" de Huxley tinha o título "Sobre as Relações Zoológicas do Homem com os Animais Inferiores" e apareceu no nº 1, janeiro de 1861, página 67. Foi a defesa de Huxley contra a contradição incondicional feita por ele na reunião de Oxford da Associação Britânica às afirmações do Professor Owen quanto à diferença entre os cérebros do homem e dos grandes símios. A frase omitida por Owen em sua palestra perante a Universidade de Cambridge era uma nota de rodapé sobre a estreita semelhança estrutural entre o Homo e o Pithecus, que ocorre em seu artigo sobre os caracteres da classe Mammalia no "Linn. Soc. Journal", Volume II, 1857, página 20. Segundo Huxley, a palestra, ou "Ensaio sobre a Classificação dos Mammalia", era, com essa omissão, uma reimpressão do artigo linneano. Em "O Lugar do Homem na Natureza", página 110, nota, Huxley observa: "Certamente é um pouco singular que o 'anatomista', que acha 'difícil' 'determinar a diferença' entre o Homo e o Pithecus, deva ainda classificá-los, por critérios anatômicos, em subclasses distintas.") Que golpe completo e terrível (e feito como um "anjo amanteigado") é para Owen! Que impostor ele é por ter deixado de fora a frase na palestra perante os ortodoxos catedráticos de Cambridge! Gosto muito do artigo de Lubbock: como ele escreve bem. (119/3. O artigo de Sir John Lubbock era uma resenha de Leydig sobre os Daphniidae. O de M'Donnell era "Sobre as Homologias do Órgão Elétrico do Torpedo", posteriormente usado na "Origem" (ver Edição VI, página 150).) M'Donnell, naturalmente, agrada-me imensamente. Mas estou muito curioso para saber quem escreveu o artigo sobre os Protozoa: saberei, se não for segredo, por Lubbock. Parece-me muito bom e, por Júpiter, como Owen é desmascarado — este "grande e sensato raciocinador"! A propósito, isso me lembra uma passagem que acabo de observar no discurso de Owen em Leeds, que um resenhista inteligente poderia transformar em motivo de troça. Ele define (página xc) e mais adiante amplia sua definição de que criação significa "um processo que ele não sabe qual". E em uma frase anterior, ele diz que os fatos abalam sua confiança de que o Apteryx na Nova Zelândia e o Grouse Vermelho na Inglaterra são "criações distintas". Portanto, ele não tem confiança de que essas aves foram produzidas por "processos que ele não sabe qual"! A que inconsistências miseráveis e que lixo leva esse servilismo a opiniões opostas ao grande generalizador! (119/4. No "Esboço Histórico", que faz parte das edições posteriores da "Origem", o Sr. Darwin fez uso do Discurso de Leeds de Owen da maneira esboçada acima. Ver "Origem", Edição VI, página xvii.)
Adeus: regozijo-me cordialmente com o mérito evidente deste número. Espero que a Sra. Huxley continue bem. Etty mantém-se mais ou menos na mesma, mas não atingiu o mesmo nível de quando você esteve aqui. Adeus.
CARTA 120. A JAMES LAMONT. Down, 25 de fevereiro [1861].
Sinto-me extremamente grato pelo seu amável presente da sua bela obra, "Seasons with the Sea-Horses"; e não tenho dúvidas de que encontrarei muito interesse vindo de um observador tão cuidadoso e sagaz quanto você. (120/1. "Seasons with the Sea-Horses; or, Sporting Adventures in the Northern Seas." Londres, 1861. O Sr. Lamont (loc. cit., página 273) escreve: "O urso polar parece-me não ser nada mais do que uma variedade dos ursos que habitam o Norte da Europa, Ásia e América; e certamente não exige grande esforço de imaginação supor que esta variedade foi originalmente criada, não como a vemos agora, mas por indivíduos de Ursus arctos na Sibéria, que, vendo seus meios de subsistência diminuírem, e pressionados pela fome, aventuraram-se no gelo e capturaram algumas focas. Esses indivíduos descobririam que poderiam fazer subsistência desta maneira, e fixariam residência na costa e gradualmente adotariam uma vida no gelo... Então é lógico que aqueles indivíduos que pudessem ser mais pálidos na cor teriam a melhor chance de conseguir surpreender as focas... O processo de Seleção Natural faria o resto, e o Ursus arctos seria, no curso de alguns milhares, ou alguns milhões de anos, transformado na variedade atualmente conhecida como Ursus maritimus." O autor acrescenta a seguinte nota de rodapé (op. cit., página 275): "Será óbvio para qualquer um que sigo o Sr. Darwin nestas observações; e, embora a substância deste capítulo tenha sido escrita em Spitzbergen, antes da publicação de 'A Origem das Espécies', não reivindico qualquer originalidade para as minhas opiniões; e também reconheço alegremente que, não fosse pela publicação daquela obra em conexão com o nome de um naturalista tão distinto, eu nunca teria me aventurado a dar ao mundo as minhas próprias humildes opiniões sobre o assunto.")
P.S. Acabo de cortar as folhas do seu livro e fiquei muito satisfeito e surpreso com a sua nota sobre o que escreveu em Spitzbergen. Como você pensou nisso independentemente, não é de admirar que compreenda tão claramente a Seleção Natural, o que poucos dos meus resenhistas fazem ou fingem não fazer.
Nunca esperei ver ninguém tão heroicamente ousado a ponto de defender a minha ilustração do urso. (120/2. "Na América do Norte, o urso-negro foi visto por Hearne nadando por horas com a boca amplamente aberta, capturando assim, quase como uma baleia, insetos na água." — "Origem", Edição VI, página 141. Ver Carta 110.) Mas um homem que fez tudo o que você fez deve ser ousado! É risível quantas vezes fui atacado e representado erroneamente por causa deste urso. Estou muito satisfeito com suas observações e agradeço-lhe cordialmente por vir em meu socorro.
CARTA 121. A W.B. TEGETMEIER.
(121/1. As cartas do Sr. Darwin ao Sr. Tegetmeier, tomadas como um todo, dão uma imagem impressionante da quantidade de assistência que Darwin recebeu dele durante muitos anos. Algumas citações dessas cartas dadas em "Life and Letters", II, páginas 52, 53, mostram quão livre e generosamente o Sr. Tegetmeier deu sua ajuda, e quão valorizada foi sua cooperação.
A carta a seguir é dada como exemplo das questões sobre as quais Darwin buscava a opinião e orientação do Sr. Tegetmeier.)
Down, 22 de março [1861].
Eu deveria ter respondido à sua última nota mais cedo; mas tenho estado muito ocupado. Quão maravilhosamente bem-sucedido você tem sido na criação de Pombos-papudos! Você tem todo o direito de se orgulhar da sua precisão de olhar e julgamento. Estou imerso em aves, tendo acabado de começar, e ficarei verdadeiramente grato pelos crânios, se você puder enviá-los por qualquer transporte para o Nag's Head na próxima quinta-feira.
Você pergunta sobre cera de vermelhão: positivamente não estava no estado de favo, mas em pedaços sólidos e bolos, que foram jogados com outros detritos não longe das minhas colmeias. Você pode fazer qualquer uso do fato que desejar. Os favos poderiam ser coloridos concêntrica e variadamente e as datas registradas dando por alguns dias cera escuramente colorida com vermelhão e índigo, e suponho que outras substâncias. Você pergunta sobre as minhas aves cruzadas, e isso leva-me a fazer-lhe uma proposta, que espero não ser ofensiva para você. Confio que você me conhece bem demais para pensar que eu proporia algo censurável ao meu melhor juízo. O caso é este: para o meu objetivo de tratar de aves, devo fazer um esboço de várias raças, com observações sobre vários pontos. Não me sinto forte no assunto. Ora, quando o meu manuscrito estiver devidamente copiado com uma caligrafia excelente, você leria, o que lhe levaria no máximo uma ou duas horas, e faria comentários a lápis nele; e aceitaria, como um advogado, um honorário, digamos, de duas guinéus. Isso seria uma grande ajuda para mim, especialmente se você me permitisse colocar uma nota, declarando que você, um distinto juiz e criador, o tinha lido. Eu declararia que você duvidou ou concordou, conforme o caso, riscando naturalmente o que você tivesse certeza de que estava incorreto. Haveria pouco de novo no meu manuscrito para você; mas se por acaso você usasse algum dos meus fatos ou conclusões antes de eu publicar, eu gostaria que você declarasse que eram sob a minha autoridade; caso contrário, serei acusado de roubar de você. Haverá pouco de novo, exceto talvez que consultei alguns livros pouco usuais e correspondi-me com algumas boas autoridades. Diga-me francamente o que pensa disso; mas a menos que você me obrigue aceitando a remuneração, não posso e não darei tal trabalho a você. Tenho poucas dúvidas de que surgirão vários pontos que exigirão investigação, já que me importo com muitos pontos ignorados pelos criadores; e de acordo com qualquer tempo assim gasto, você, espero, permitir-me-á fazer uma remuneração. Espero que você me conceda este favor. Há uma assistência que me aventurarei agora a pedir-lhe — a saber, conseguir-me, se puder, outro espécime de um velho coelho Angorá branco. Quero-o morto para o esqueleto; e não atingido na cabeça. Em segundo lugar, vejo no "Cottage Gardener" (19 de março, página 375) que há meio-lops impuros com uma orelha bem ereta e mais curta do que a outra orelha caída. Quero muito um morto. Baker não consegue um. Baily está procurando; mas quero dois espécimes. Pode ajudar-me, se encontrar algum criador de coelhos? Já tive coelhos com uma orelha mais caída que a outra; mas quero um com uma orelha bem ereta e mais curta, e a outra bem comprida e caída.
CARTA 122. A H.W. BATES. Down, 26 de março [1861].
Li os seus artigos com extremo interesse, e li cuidadosamente cada palavra deles. (122/1. "Contribuições para uma Fauna de Insetos do Vale do Amazonas." (Lido em 5 de março e 24 de novembro de 1860). "Entomological Soc. Trans." V, páginas 223 e 335).) Eles parecem-me muito mais ricos em fatos de variação, e especialmente sobre a distribuição de variedades e subespécies, do que qualquer coisa que li. Futuramente irei relê-los, e espero no meu trabalho futuro lucrar com eles e fazer uso deles. A quantidade de variação surpreendeu-me muito. A variação análoga de espécies distintas nas mesmas regiões parece-me particularmente curiosa. A maior variabilidade do sexo feminino é nova para mim. O seu caso da Guiana parece de certo modo análogo, no que diz respeito às plantas, com as planícies modernas de La Plata, que parecem ter sido colonizadas do norte, mas as espécies quase não foram modificadas. (122/2. O Sr. Bates (página 349) dá razões para acreditar que a região da Guiana deveria ser considerada "uma província perfeitamente independente", e que formou um centro "de onde irradiaram as espécies que agora povoam as terras baixas em suas fronteiras.")
Você teria a gentileza de responder-me a duas ou três perguntas se estiver ao seu alcance? Quando a espécie A se torna modificada em outra região em uma forma C bem marcada, mas está conectada a ela por uma (ou mais) formas graduais B que habitam uma região intermediária; esta forma B geralmente existe em números iguais a A e C, OU HABITA UMA ÁREA IGUALMENTE GRANDE? A probabilidade é que você não possa responder a esta pergunta, embora um dos seus casos pareça ter relação com ela...
Você ficará, creio, contente em saber que agora frequentemente ouço falar de naturalistas que aceitam as minhas opiniões mais ou menos plenamente; mas alguns são curiosamente cautelosos em correr o risco de qualquer pequeno ódio ao expressar sua crença.
CARTA 123. A H.W. BATES. Down, 4 de abril [1861].
Tenho estado indisposto, por isso atrasei o agradecimento pela sua admirável carta. Espero que não me considere presunçoso ao dizer o quanto fiquei impressionado com o seu conhecimento variado, e com a maneira decisiva com que você o aplica a cada ponto — uma qualidade rara e elevadíssima, tanto quanto vai a minha experiência. Espero sinceramente que você encontre tempo para publicar extensamente: perante a Sociedade Linneana você poderia trazer à luz ousadamente as suas opiniões sobre as espécies. Já pensou em publicar as suas viagens e incorporar nelas as partes menos abstrusas da sua História Natural? Acredito que seria um sucesso de vendas e uma contribuição muito valiosa para a História Natural. Você também deve ter visto bastante dos nativos. Sei bem que seria completamente irracional pedir qualquer informação adicional de você; mas mencionarei apenas que agora estou, e estarei por muito tempo, escrevendo sobre variedades domésticas de todos os animais. Quaisquer fatos seriam úteis, especialmente qualquer um mostrando que os selvagens têm algum cuidado na criação dos seus animais, ou em rejeitar os maus e preservar os bons; ou quaisquer caprichos que eles possam ter de que um cão colorido ou marcado, etc., é melhor do que outro. Já coletei muito sobre este assunto, mas sou ávido por fatos. Você verá imediatamente a relação deles com a variação sob domesticação.
Quase nada na sua carta me agradou mais do que sobre a seleção sexual. No meu manuscrito maior (e na verdade na "Origem" com respeito ao tufo de pelos no peito do peru) protegi-me contra ir longe demais; mas eu não sabia de forma alguma que machos e fêmeas de borboletas frequentavam locais um pouco diferentes. Se eu tivesse que me despedaçar em uma resenha, eu teria [preocupado?] e questionado a seleção sexual; portanto, embora esteja plenamente convencido de que é em grande parte verdadeira, você pode imaginar o quanto me agrada o que você diz sobre a sua crença. Esta parte da sua carta para mim é uma quintessência de riqueza. O fato sobre as borboletas atraídas por sépalas coloridas é outro bom fato, que vale o seu peso em ouro. Teria encantado o coração do velho Christian C. Sprengel — há muitos anos em sua sepultura.
Fico feliz em saber que você tem prestado atenção especial às analogias "miméticas" — um assunto curiosíssimo; espero que você publique sobre isso. Há muito tempo desejo saber se o que o Dr. Collingwood afirma é verdadeiro — que os casos mais impressionantes geralmente ocorrem entre insetos que habitam o mesmo país.
CARTA 124. A F.W. HUTTON. Down, 20 de abril [1861].
Espero que você me permita agradecer-lhe por me enviar uma cópia do seu artigo no "The Geologist" (124/1. Em uma carta a Hooker (23 de abril?, 1861) Darwin refere-se à resenha de Hutton como "muito original", e acrescenta que Hutton é "um dos poucos que vê que a mudança de espécie não pode ser diretamente provada..." ("Life and Letters", II, página 362). A resenha apareceu no "The Geologist" (conhecido posteriormente como "The Geological Magazine") de 1861, páginas 132-6 e 183-8. Uma carta sobre "Dificuldades do Darwinismo" é publicada no mesmo volume do "The Geologist", página 286.), e ao mesmo tempo expressar a minha opinião de que você prestou um serviço real ao assunto pela maneira altamente original, impressionante e condensada com que apresentou o caso. Estou realmente cansado de dizer às pessoas que não pretendo apresentar evidências diretas de uma espécie mudando para outra, mas que acredito que esta visão em geral está correta, porque tantos fenômenos podem ser assim agrupados e explicados. Mas geralmente não adianta; não consigo fazer com que as pessoas vejam isso. Geralmente jogo-lhes na cara a teoria universalmente admitida da ondulação da luz — nem a ondulação nem a própria existência do éter sendo provadas, ainda assim admitidas porque a visão explica tanta coisa. Você é um dos poucos que viu isso, e agora colocou de forma muito contundente e clara. Fico muito satisfeito ao ver quão cuidadosamente você leu o meu livro, e, o que é muito mais importante, refletiu sobre tantos pontos com um espírito independente. Como estou profundamente interessado no assunto (e espero que não exclusivamente sob um ponto de vista pessoal), não pude resistir a arriscar agradecer-lhe pelo belo serviço que você prestou.
Quase não preciso dizer que esta nota não requer resposta.
CARTA 125. A J.D. HOOKER.
(125/1. Partes desta carta são publicadas em "Life and Letters", II, página 362.)
Down, [23 de] abril [1861].
Fiquei muito interessado pelo artigo de Bentham na "Natural History Review", mas ele não lhe causaria, naturalmente, pela familiaridade, o mesmo impacto que causou em mim. (125/2. Isto refere-se ao artigo de Bentham "Sobre as Espécies e Gêneros de Plantas, etc." "Nat. Hist. Review", abril de 1861, página 133, que é baseado em, ou extraído de, um artigo lido perante a Linn. Soc., 15 de novembro de 1858. Tinha sido originalmente marcado para ser lido em 1º de julho de 1858, mas cedeu lugar aos artigos de Darwin e Wallace. O Sr. Bentham descreveu ("Life and Letters", II, página 294) como ele relutantemente cancelou as partes que defendiam a "fixidez original" do tipo específico, e o restante parece não ter sido publicado exceto no artigo citado acima na "Nat. Hist. Review".) Gostei de tudo — todos os fatos sobre a natureza das espécies próximas e variáveis. Céus! pensar nos botânicos britânicos torcendo o nariz e dizendo que ele não sabe nada sobre plantas britânicas! Também fiquei satisfeito com as suas observações sobre a classificação, porque isso me mostrou que escrevi verdadeiramente sobre este assunto na "Origem". Vi Bentham na Sociedade Linneana e conversei um pouco com ele, Lubbock, Edgeworth, Wallich e vários outros. Pedi a Bentham para nos dar as suas ideias sobre as espécies; se parcialmente conosco ou mortalmente contra nós, ele escreveria excelente material. Ele não respondeu, mas a sua maneira fez-me pensar que ele poderia fazê-lo se instado — portanto, ataque-o você. Todos falavam com afeição e ansiedade de Henslow. Jantei com Bell no Linnean Club e gostei do meu jantar... jantar fora é uma novidade para mim que apreciei. Bell tem um coração muito bom. Gostei do artigo de Rolleston, mas nunca li nada tão obscuro e não evidente como os seus "cânones". (125/3. Ver "Nat. Hist. Review", 1861, página 206. O artigo é "Sobre o Cérebro do Orangotango", e forma parte da amarga controvérsia deste período à qual ocorre referência em cartas a Huxley e em outros lugares nestes volumes. O trabalho de Rolleston é citado por Huxley ("O Lugar do Homem na Natureza", página 117) como parte da esmagadora refutação da posição de Owen. A carta do Sr. Huxley referida acima é sem dúvida a que se encontra no "Athenaeum", 13 de abril de 1861, página 498; é certamente severa, mas para aqueles que conhecem a "História Sucinta da Controvérsia", etc. do Sr. Huxley ("O Lugar do Homem na Natureza", página 113), não parecerá severa demais.) Tive uma percepção vaga da verdade da sua observação profunda — que ele escreveu com medo e tremor "de Deus, do homem e dos macacos", mas eu a alteraria para "Deus, o homem, Owen e os macacos". A carta de Huxley foi truculenta, e vejo que todos pensam que é truculenta demais; mas, em verdade, tornei-me bastante demoníaco a respeito de Owen — pior que Huxley; e disse a Huxley que deveria colocar-me sob seus cuidados para ser tornado mais brando. Mas pretendo tentar tornar-me mais angelical nos meus sentimentos; no entanto, nunca esquecerei o seu aperto de mão cordial, quando ele estava escrevendo tão rancorosamente quanto podia contra mim. Mas sempre pensei que você tem mais motivos que eu para estar demoniacamente inclinado contra ele. Bell disse-me que Owen diz que o editor mutilou o seu artigo na "Edinburgh Review" (125/4. Este é o único caso, com o qual estamos familiarizados, de Owen reconhecer a autoria do artigo da "Edinburgh Review".), e Bell parecia pensar que ele foi tornado mais rancoroso pelo Editor; talvez a visão oposta seja tão provável quanto. Oh, céus! isto não parece ser tornar-se mais angelical no meu temperamento!
Tive uma conversa esplêndida e longa com Lyell (pode adivinhar quão esplêndida, pois ele esteve muitas vezes de joelhos, com os cotovelos no sofá) (125/5. O Sr. Darwin frequentemente falava da tendência do Sir Charles Lyell de adotar atitudes curiosas quando excitado.) sobre o seu trabalho em França: parece ter feito um trabalho excelente ao determinar a idade das camadas contendo machados de pedra, mas o caso torna-se cada vez mais complicado. Tudo, contudo, tende para uma antiguidade cada vez maior do homem. As camadas de seixos parecem ser depósitos estuarinos. Visitei R. Chambers na sua casa muito agradável em St. John's Wood, e tive uma conversa muito agradável de meia hora — ele é realmente um sujeito excelente. Ele fez uma observação boa e riu-se dela: que os leigos trataram universalmente a controvérsia sobre os "Essays and Reviews" como um assunto meramente profissional, e não se juntaram a ela, mas deixaram-na para o clero. Ficarei ansioso pela sua próxima carta sobre Henslow. Adeus, com sincera simpatia, meu velho amigo.
P.S. — Estamos muito agradecidos pela "London Review". Gostamos muito de ler grande parte dela, e a ciência é incomparavelmente melhor do que na "Athenaeum". Não deve continuar por muito tempo a enviá-la, pois ficará arruinado com os cêntimos e o incómodo; mas estou sob um feitiço horrível da "Athenaeum" e da "Gardeners' Chronicle", ambas intoleravelmente aborrecidas, mas que subscrevo há tantos anos que não consigo desistir delas. A "Cottage Gardener", para o meu propósito, é agora muito melhor do que a "Gardeners' Chronicle".
CARTA 126. A J.L.A. DE QUATREFAGES. Down, 25 de abril [1861].
Recebi esta manhã a sua "Unite de l'Espece Humaine" [publicada em 1861], e agradeço-lhe muito sinceramente por este seu presente tão gentil. Eu tinha ouvido falar dos seus artigos e recomendaram-me a sua leitura, mas, não sabendo que tinham sido publicados separadamente, não sabia como os obter. Por isso, o seu presente é muito aceitável, e estou muito ansioso por ver as suas opiniões sobre todo o assunto das espécies e da variação; e certamente tirarei muito proveito do seu trabalho. Ao cortar as páginas, observo que mencionou muito gentilmente o meu trabalho várias vezes. As minhas opiniões espalham-se lentamente em Inglaterra e na América; e estou muito surpreendido por descobrir que são mais comummente aceites pelos geólogos, depois pelos botânicos, e menos pelos zoólogos. Fico muito satisfeito por os geólogos mais jovens e de meia-idade estarem a mudar de opinião, pois os argumentos da Geologia sempre me pareceram os mais fortes contra mim. Nenhum dos geólogos mais velhos (exceto Lyell) foi sequer abalado nas suas opiniões sobre a imutabilidade eterna das espécies. Mas tantos dos homens mais jovens estão a mudar com zelo que olho para o futuro com alguma confiança. Estou agora a trabalhar na "Variation under Domestication", mas faço pouco progresso — é um trabalho tão tedioso comparar esqueletos.
Com os mais sinceros agradecimentos pela gentil simpatia que sempre me demonstrou, e com muito respeito,...
P.S. — Li ultimamente o artigo do M. Naudin (126/1. O artigo de Naudin ("Revue Horticole", 1852) é mencionado no "Esboço Histórico" que precede as edições posteriores da "Origin" (Edição VI., página xix). Naudin insistiu que as espécies são formadas de uma maneira análoga à produção de variedades pelos cultivadores, i.e., por seleção, "mas não mostra como a seleção atua na natureza." Em "Life and Letters", II., página 246, Darwin, falando do trabalho de Naudin, diz: "Decaisne parece pensar que ele apresenta toda a minha teoria."), mas não me parece que me antecipe, pois ele não mostra como a seleção poderia ser aplicada na natureza; mas um escritor obscuro (126/2. O escritor obscuro é Patrick Matthew (ver o "Esboço Histórico" na "Origin.") sobre árvores florestais, em 1830, na Escócia, antecipou expressa e claramente as minhas opiniões — embora tenha exposto o caso tão brevemente que ninguém nunca notou as passagens dispersas no seu livro.
CARTA 127. A L. HINDMARSH.
(127/1. A carta seguinte foi em resposta a uma do Sr. Hindmarsh, a quem o Sr. Darwin tinha escrito pedindo informações sobre o número médio de animais mortos a cada ano no rebanho de Chillingham. O objetivo do pedido era obter informações que pudessem lançar luz sobre a taxa de aumento do gado relativamente aos dos pampas da América do Sul. O Sr. Hindmarsh tinha contribuído com um artigo "On the Wild Cattle of Chillingham Park" para os "Annals and Mag. Nat. Hist." Volume II., página 274, 1839.)
Down, 12 de maio [1861].
Agradeço-lhe sinceramente pela sua pronta e grande gentileza, e devolvo a carta, que tive muito prazer em ver e da qual fiz uma cópia. O aumento é mais rápido do que eu previa, mas parece um tanto conjetural; esperava que, num caso tão interessante, algum registo exato tivesse sido mantido. O número de nascimentos, ou de crias criadas até seguirem as suas mães, teria talvez sido o melhor dado. Da carta do Sr. Hardy infiro que dez devem nascer anualmente para compensar as mortes por várias causas. No Paraguai, Azara afirma que num rebanho de 4.000, de 1.000 a 1.300 são criados; mas então, embora não matem as crias, mas castrem os touros jovens, sem dúvida que os bois seriam mortos mais cedo do que as vacas, pelo que o rebanho conteria provavelmente mais do sexo feminino do que o rebanho em Chillingham. Não há aparentemente qualquer registo se são mortos mais touros jovens do que vacas. Estou surpreendido que Lord Tankerville não mande manter um registo exato de mortes, sexos e nascimentos: após uma dúzia de anos seria um registo estatístico interessante para o naturalista e o agricultor.
(ESTAMPA: PROFESSOR HENSLOW.)
CARTA 128. A J.D. HOOKER.
(128/1. A morte do Professor Henslow (que era sogro do Sir J.D. Hooker) ocorreu a 16 de maio de 1861.)
Down, 24 de maio [1861].
Obrigado pelas suas duas notas. Fico contente que o funeral tenha passado, e simpatizo sinceramente e posso compreender perfeitamente os seus sentimentos pela sua perda.
Entristece-me pensar quão pouco vi Henslow durante muitos anos. Com relação a uma biografia de Henslow, não posso deixar de me sentir um tanto duvidoso, pelo princípio de que uma biografia não lhe poderia fazer justiça. As suas cartas eram geralmente escritas à pressa, e temo que ele não tenha mantido qualquer diário ou registo. Se houvesse materiais vívidos para descrever a sua vida como pároco, e a maneira de gerir os pobres, seria muito bom.
Nunca sou muito otimista quanto a projetos literários. Não posso deixar de temer que a sua Vida possa tornar-se insípida. Dificilmente pode haver incidentes marcantes para descrever. Espero sinceramente que eu tenha uma visão errada e sombria, mas não posso deixar de temer — preferiria não ver nenhuma Vida do que uma que interessasse a poucos. Será um prazer e um dever para mim considerar o que me consigo lembrar; mas, de momento, não consigo pensar em quase nada. A equanimidade e perfeição de todo o caráter de Henslow, eu pensaria, tornaria muito difícil para qualquer um retratá-lo. Tenho estado a pensar em Henslow durante todo o dia, mas quanto mais penso menos consigo pensar em algo para escrever. É um estilo bastante novo para mim começar a abordar, mas continuarei a pensar no que poderia dizer para dar qualquer noção, por mais imperfeita que seja, dele nos velhos tempos de Cambridge.
Por favor, dê as minhas mais gentis lembranças a L. Jenyns (128/2. O Rev. Leonard Jenyns (mais tarde Blomefield) encarregou-se da "Vida" de Henslow, para a qual Darwin contribuiu com um esboço característico e delicioso. Ver Carta 17.), que é frequentemente associado à minha recordação daqueles velhos tempos felizes.
CARTA 129. HENRY FAWCETT A CHARLES DARWIN.
(129/1. Foi em resposta à carta seguinte que Darwin escreveu a Fawcett: "Não me poderia ter dito nada que me desse mais satisfação do que o que diz sobre a opinião do Sr. Mill. Até o seu artigo aparecer, comecei a pensar que talvez eu não entendesse de todo como raciocinar cientificamente." ("Life of Henry Fawcett", por Leslie Stephen, 1885, página 100.)
Bodenham, Salisbury, 16 de julho [1861].
Sinto que não deveria ter adiado tanto a escrita para lhe agradecer a sua carta tão gentil sobre o meu artigo acerca do seu livro na "Macmillan's Magazine".
Estava particularmente ansioso por salientar que o método de investigação seguido era, em todos os aspetos, filosoficamente correto. Passei uma noite na semana passada com o meu amigo Sr. John Stuart Mill, e tenho a certeza de que ficará satisfeito por ouvir de tal autoridade que ele considera que o seu raciocínio, de ponta a ponta, está em total conformidade com os princípios estritos da lógica. Ele diz também que o método de investigação que seguiu é o único adequado a tal assunto.
É fácil para um crítico antagónico, quando acha difícil responder aos seus argumentos, tentar livrar-se de todo o assunto proferindo algum lugar-comum como "Isto não é uma indução baconiana".
Espero passar em breve alguns dias na sua vizinhança, e se não for uma intrusão, consideraria um grande favor se me permitisse visitá-lo e ter meia hora de conversa consigo.
No que me diz respeito pessoalmente, tenho a certeza de que lhe devo estar grato, pois desde o meu acidente nada me deu tanto prazer como a leitura do seu livro. Tais estudos são agora um grande recurso para mim.
CARTA 130. A C. LYELL. 2, Hesketh Terrace, Torquay [2 de agosto de 1861].
Declaro que lê as críticas sobre a "Origin" com mais cuidado do que eu. Concordo com todas as suas observações. O ponto da correlação pareceu-me bem colocado, e sobre as variedades crescendo juntas; mas já comecei a preparar o terreno para obter informações sobre este último ponto, no qual Bronn também se alonga. Com respeito à sexualidade, especulei frequentemente sobre isso, e concluí sempre que somos demasiado ignorantes para especular: nenhum fisiologista pode conjeturar por que é que os dois elementos se unem para formar um novo ser, e, mais do que isso, por que é que a natureza se esforça por unir os dois elementos de dois indivíduos. O que estou agora a trabalhar nas minhas orquídeas é uma ilustração admirável da lei. Concluiria certamente que toda a sexualidade descendeu de um protótipo. Não subestima o grau de simplicidade da organização em que a sexualidade ocorre — isto é, em Hydra, e ainda mais baixo em algumas das confervas livres unicelulares que "conjugam", o que bons juízes (Thwaites) acreditam ser a forma mais simples de verdadeira geração sexual? (130/1. Ver Carta 97.) Mas todo o caso é um mistério.
Há outro ponto sobre o qual desejei ocasionalmente dizer algumas palavras. Acredito que pensa como Asa Gray que não dei importância suficiente ao facto de a corrente de variação ter sido guiada por um poder superior. Tenho tido ultimamente muita correspondência sobre este ponto. Herschel, na sua "Physical Geography" (130/2. "Physical Geography of the Globe", por Sir John F.W. Herschel, Edimburgo, 1861. Na página 12, Herschel escreve sobre as revelações da Geologia apontando para sucessivas submersões e reconstruções dos continentes e novas raças de animais e plantas. Ele refere-se a uma "grande lei de mudança" que não operou nem por uma variação gradualmente progressiva das espécies, nem por uma abolição súbita e total de uma raça... A seguinte nota de rodapé na página 12 da "Physical Geography" foi adicionada em janeiro de 1861: "Isto foi escrito antes da publicação do trabalho do Sr. Darwin sobre a "Origin of Species", um trabalho que, independentemente do seu mérito ou engenho, não podemos, no entanto, considerar como tendo refutado a visão tomada no texto. Não podemos aceitar o princípio da variação arbitrária e casual e da seleção natural como uma explicação suficiente, per se, do mundo orgânico passado e presente, tal como não podemos aceitar o método laputiano de compor livros (levado ao extremo) como suficiente para Shakespeare e os "Principia". Igualmente em qualquer dos casos, uma inteligência, guiada por um propósito, deve estar continuamente em ação para influenciar as direções dos passos da mudança — para regular a sua quantidade, para limitar a sua divergência, e para continuá-los num curso definido. Não acreditamos que o Sr. Darwin pretenda negar a necessidade de tal direção inteligente. Mas isso não entra, tanto quanto podemos ver, na fórmula desta lei, e sem ela somos incapazes de conceber até que ponto a lei pode ter levado aos resultados. Por outro lado, não pretendemos negar que tal inteligência possa agir de acordo com uma lei (isto é, segundo um plano pré-concebido e definido). Tal lei, declarada em palavras, não seria outra senão a lei observada de sucessão orgânica; uma mais geral, tomando essa forma quando aplicada ao nosso planeta, e incluindo todos os elos da cadeia que desapareceram. MAS A LEI ÚNICA É UM SUPLEMENTO NECESSÁRIO DA OUTRA, E DEVERIA, EM TODA A PROPRIEDADE LÓGICA, FAZER PARTE DA SUA ENUNCIAÇÃO. Concedendo isto, e com alguma reserva quanto à génese do homem, estamos longe de repudiar a visão tomada sobre este assunto misterioso no livro do Sr. Darwin." A frase em itálico é sem dúvida a referida na carta a Lyell. Ver Carta 243.), tem uma frase com relação à "Origin", algo no sentido de que a lei superior da Disposição Providencial deveria ser sempre declarada. Mas os astrónomos não declaram que Deus dirige o curso de cada cometa e planeta. A visão de que cada variação foi providencialmente arranjada parece-me tornar a Seleção Natural inteiramente supérflua, e de facto retira todo o caso do aparecimento de novas espécies do âmbito da ciência. Mas o que me faz objetar mais à visão de Asa Gray é o estudo da extrema variabilidade dos animais domésticos. Aquele que não supõe que cada variação no pombo foi providencialmente causada, ao acumular as quais variações o homem fez um Fantail, não pode, penso eu, argumentar logicamente que a cauda do pica-pau foi formada por variações providencialmente ordenadas. Parece-me que as variações nas condições domésticas e selvagens se devem a causas desconhecidas, e são sem propósito, e nesse sentido acidentais; e que se tornam propositadas apenas quando são selecionadas pelo homem para o seu prazer, ou pelo que chamamos Seleção Natural na luta pela vida, e sob condições em mudança. Não desejo dizer que Deus não previu tudo o que aconteceria; mas aqui surge quase o mesmo tipo de imbróglio miserável que existe entre o livre-arbítrio e a necessidade pré-ordenada. Duvido se tornei claro o que penso; mas certamente a noção de A. Gray de que os cursos da variação foram conduzidos como um fluxo de água pela gravidade parece-me destruir todo o assunto. Lembra-me um espanhol a quem disse que estava a tentar descobrir como a Cordilheira foi formada; e ele respondeu-me que era inútil, pois "Deus fê-las". Pode dizer-se que Deus previu como seriam feitas. Pergunto-me se Herschel diria que se deve sempre dar a lei providencial superior, e declarar que Deus ordenou todas as certas mudanças de nível, que certas montanhas deveriam surgir. Devo pensar que tais visões de Asa Gray e Herschel mostram apenas que o assunto nas suas mentes está no estágio teológico da ciência de Comte...
Naturalmente, não quero qualquer resposta à minha discussão quase teológica, mas apenas que pense nas minhas noções, se as compreender.
Espero aos céus que os seus longos e grandes trabalhos na sua nova edição estejam a chegar ao fim.
CARTA 131. A C. LYELL. Torquay, [13 de agosto de 1861].
Muito obrigado pelas orquídeas, que se revelaram extremamente úteis para mim de duas maneiras que eu não previa, mas eram demasiado monstruosas (embora de alguma utilidade) para o meu propósito especial.
Quando chegar à "Deificação" (131/1. Ver Carta 105, nota.), pergunte a si próprio honestamente se o que está a pensar se aplica às variações infindáveis das produções domésticas, que o homem acumula por mero capricho ou uso. Sem dúvida que estas são todas causadas por alguma lei desconhecida, mas não posso acreditar que foram ordenadas para qualquer propósito, e se não foram assim ordenadas sob domesticidade, não vejo razão para acreditar que foram ordenadas num estado de natureza. Claro que pode dizer-se, quando pontapeia uma pedra, ou uma folha cai de uma árvore, que foi ordenado, antes de os fundamentos do mundo terem sido lançados, exatamente onde essa pedra ou folha deveria repousar. Neste sentido, o assunto não tem interesse para mim.
Mais uma vez, muito obrigado pelas orquídeas; deve deixar-me reembolsá-lo do que pagou ao colecionador.
CARTA 132. A C. LYELL.
(132/1. O primeiro parágrafo refere-se provavelmente às provas de impressão do "Antiquity of Man" de Lyell, mas a passagem referida parece não ocorrer no livro.)
Torquay, 21 de agosto [1861].
...Não tenho realmente qualquer crítica, exceto uma trivial a lápis perto do fim, que inseri devido ao facto de espécies dominantes e importantes variarem geralmente mais. Fala das "suas opiniões" um pouco como se estivesse a mil milhas de distância de tais miseráveis, mas o seu parágrafo final mostra que é um dos miseráveis.
Fico contente que aprove a crítica de Hutton. (132/2. "Some Remarks on Mr. Darwin's Theory", por F.W. Hutton. "Geologist", Volume IV., página 132 (1861). Ver Carta 124.) Pareceu-me ter uma visão mais filosófica da maneira de julgar a questão do que qualquer outra crítica. A frase que cita dela parece muito verdadeira, mas não concordo com a conclusão teológica. Penso que ele cita Asa Gray, certamente não eu; mas não tenho nem A. Gray nem a "Origin" comigo. De facto, disse repetidamente na "Origin" que a Seleção Natural não faz nada sem variabilidade; dediquei um capítulo inteiro às leis, e usei a linguagem mais forte sobre quão ignorantes somos sobre estas leis. Mas concordo que, de alguma forma (Hooker diz que é devido ao meu título), não tornei a grande e manifesta importância da variabilidade anterior suficientemente clara. Os criadores falam constantemente da Seleção como o único grande meio de melhoramento; mas, naturalmente, eles implicam diferenças individuais, e isto eu teria pensado que seria óbvio para todos na Seleção Natural; mas não tem sido assim.
Acabei de dizer que não posso concordar com "as quais variações são os efeitos de uma lei desconhecida, ordenada e guiada sem dúvida por uma causa inteligente num plano pré-concebido e definido". Quer dizer-me honestamente (e ficar-lhe-ia realmente muito grato) se acredita que a forma do meu nariz (eheu!) foi ordenada e "guiada por uma causa inteligente?" (132/3. Deve lembrar-se que a forma do seu nariz quase determinou que Fitz-Roy rejeitasse Darwin como naturalista do H.M.S. "Beagle" ("Life and Letters", I., página 60).) Pela seleção de diferenças análogas e menores, os criadores fazem diferenças quase genéricas nos seus pombos; e consegue ver alguma boa razão pela qual a Seleção Natural de diferenças individuais análogas não deveria criar novas espécies? Se diz que Deus ordenou que em algum momento e lugar uma dúzia de ligeiras variações surgissem, e que apenas uma delas fosse preservada na luta pela vida e as outras onze perecessem na primeira ou nas primeiras gerações, então a afirmação parece-me puro palavreado. Resume-se apenas a dizer que tudo o que existe, é ordenado.
Por que haveríamos tu ou eu de falar da variação como tendo sido ordenada e guiada, mais do que um astrónomo ao discutir a queda de um meteorito? Ele diria simplesmente que este foi atraído para a nossa terra pela força da gravidade, tendo sido desviado do seu curso pela ação de algumas leis totalmente desconhecidas. Gostarias que ele dissesse que a sua queda num determinado lugar e momento foi "ordenada e guiada, sem dúvida, por uma causa inteligente segundo um plano preconcebido e definido"? Não chamarias a isto pedantismo ou exibicionismo teológico? Acredito que não é pedantismo no caso das espécies, simplesmente porque a sua formação tem sido, até agora, vista como algo que está para além da lei; de facto, este ramo da ciência encontra-se ainda, para a maioria das pessoas, na sua fase teológica de desenvolvimento. A conclusão a que chego sempre depois de pensar em tais questões é que elas estão para além do intelecto humano; e quanto menos se pensar nelas, melhor. Poderás dizer: "Então, por que me incomodas?" Mas eu gostaria muito de saber claramente o que pensas.
CARTA 133. PARA HENRY FAWCETT.
(133/1. A carta seguinte foi publicada na "Vida" do Sr. Fawcett (1885); estamos em dívida para com a Sra. Fawcett e os Srs. Smith & Elder pela permissão para a reimprimir. Ver Carta 129.)
18 de setembro [1861].
Perguntei-me quem me teria enviado tão gentilmente o jornal (133/2. O jornal enviado foi o "Manchester Examiner" de 9 de setembro de 1861, contendo um relatório do discurso do Sr. Fawcett proferido perante a Secção D da Associação Britânica, "Sobre o método do Sr. Darwin no seu tratado sobre a origem das espécies", no qual o orador demonstrou que o "método de investigação seguido pelo Sr. Darwin no seu tratado sobre a origem das espécies está em estrita conformidade com os princípios da lógica". O "A" da carta (tal como publicado na Vida de Fawcett) é o falecido Professor Williamson, de quem se diz ter afirmado que, "embora não dissesse que o livro do Sr. Darwin lhe tinha causado uma perda de reputação, tinha a certeza de que não lhe tinha trazido ganhos". A referência a "B" é explicada pelo relatório do discurso do falecido Dr. Lankester, no qual ele disse: "Os factos apresentados em apoio da hipótese tinham um valor muito diferente, de facto, do da hipótese... Um grande naturalista, que ainda era amigo do Sr. Darwin, disse-lhe uma vez (Dr. Lankester): 'O erro é que Darwin lidou com a origem. Porque não nos apresentou os factos e deixou que eles falassem por si?'" Outro orador, o Rt. Hon. J.R. Napier, comentou: "Vou falar estritamente sobre a questão. Se a hipótese é apresentada para contradizer factos, e as alegações são contrárias à Palavra de Deus, digo que não é um argumento lógico". Neste ponto, o presidente, Professor Babington, interveio sabiamente, com base no facto de a reunião ser de natureza científica.), o qual fiquei muito contente por ver; e agora tenho de lhe agradecer sinceramente por me permitir ver o seu manuscrito. Parece-me muito bom e sólido; embora eu certamente não seja um juiz imparcial. Terá prestado um bom serviço ao chamar a atenção dos homens de ciência para os meios e leis de filosofar. Pelo que pude julgar pelos jornais, os seus opositores foram indignos de si. Como A. falou miseravelmente da minha reputação, como se isso tivesse algo a ver com o assunto!... Quão profundamente ignorante B deve ser da própria alma da observação! Há cerca de trinta anos, falava-se muito que os geólogos deveriam apenas observar e não teorizar; e lembro-me bem de alguém dizer que, a este ritmo, um homem poderia muito bem ir a uma cascalheira, contar os seixos e descrever as suas cores. Como é estranho que alguém não veja que toda a observação deve ser a favor ou contra alguma visão, se quiser ter alguma utilidade!
Regressei apenas recentemente de uma visita de dois meses a Torquay, que fez bem à minha saúde na altura; mas sou uma daquelas criaturas miseráveis que nunca estão bem durante vinte e quatro horas; e é evidente para mim que deveria ser exterminado. Tenho estado um pouco ocioso ultimamente, ou, falando com mais rigor, a trabalhar em alguns artigos diversos, que, no entanto, têm alguma relação direta com o assunto das espécies; ainda assim, sinto-me culpado por ter negligenciado o meu livro maior. Mas, para mim, observar é um desporto muito melhor do que escrever. Temo tê-lo cansado com esta longa nota.
Por favor, acredite que me sinto sinceramente grato por ter pegado nas armas em defesa da linha de argumentação da "Origem"; terá beneficiado o tema.
Muitos têm tanto medo de falar abertamente. Um naturalista alemão veio aqui outro dia; e diz-me que há muitos na Alemanha do nosso lado, mas que todos parecem receosos de falar, à espera que alguém se pronuncie, e então muitos seguirão. Os naturalistas parecem tão tímidos quanto as jovens deveriam ser, no que toca à sua reputação científica. Há muita discussão sobre o assunto no Continente, mesmo na tranquila Holanda; e recebi um panfleto de Moscovo outro dia, de um homem que defende famosamente a imperfeição do "Registo Geológico", mas queixa-se de que eu subestimei tristemente a variabilidade dos antigos animais fossilizados! Mas não me posso alongar.
CARTA 134. PARA H.W. BATES. Down, 25 de setembro [1861].
Agora, umas palavras sobre ciência. Muito obrigado pelos factos sobre os neutros. Não pode imaginar como me alegra que não ache absurdo o que disse sobre o assunto. Apenas duas pessoas me mencionaram isso — a saber, o sarcasmo amargo de Owen na "Edinburgh Review" (134/1. "Edinburgh Review", abril de 1860, página 525.), e o meu bom amigo e apoiante, Sir C. Lyell, que apenas conseguiu reunir coragem para dizer: "Bem, enfrentou estoicamente a dificuldade".
Que caso maravilhoso o da Volucella, do qual nunca tinha ouvido falar. (134/2. A Volucella é uma mosca — uma das Syrphidae — que se supõe fornecer um caso de mimetismo; este era, sem dúvida, o ponto de interesse para Bates. O Dr. Sharp diz ["Insects", Parte II. (na série Camb. Nat. Hist.), 1899, página 500]: "Antigamente assumia-se que as larvas de Volucella viviam das larvas das abelhas, e que as moscas progenitoras eram providencialmente dotadas de uma aparência de abelha para que pudessem obter entrada nos ninhos das abelhas sem serem detetadas". O Dr. Sharp continua a dizer que o pouco que se sabe sobre o assunto apoia a crença de que a "presença da Volucella nos ninhos é vantajosa tanto para a mosca como para a abelha.") Eu não fazia ideia de que tal caso ocorresse na natureza; devo obter e ver espécimes no Museu Britânico. Espero e suponho que dará bastante História Natural nas suas Viagens; todos se interessam pelas formigas — foi dada mais atenção às formigas escravas na "Origem" do que a qualquer outra passagem.
Espero plenamente deleitar-me com as suas Viagens. Mantenha um estilo simples, como nas suas excelentes cartas — mas peço desculpa, estou novamente a aconselhar.
Que artigo excelente será o seu sobre semelhanças miméticas! Fará disso um assunto completamente novo. Eu tinha pensado em tais casos como uma dificuldade; e uma vez, quando correspondia com o Dr. Collingwood, pensei na sua explicação; mas afastei-a da minha mente, pois senti que não tinha conhecimento para julgar de uma forma ou de outra. O Dr. C., penso eu, afirma que as formas miméticas habitam o mesmo país, mas eu não sabia se devia acreditar nele. Que casos maravilhosos parecem ser os seus! Não poderia incluir algumas xilogravuras nas suas Viagens para ilustrar isto? Estou cansado de um dia de trabalho árduo, por isso nada mais, exceto dar os meus sinceros agradecimentos e votos calorosos para o sucesso das suas Viagens.
CARTA 135. PARA J.D. HOOKER. Down, 18 de março [1862].
A sua carta discute imensos temas interessantes, e estou muito contente por ter pedido a sua carta ao Bates. (135/1. Publicada nas memórias de Bates por Mr. Clodd em "Naturalist on the Amazons", 1892, página l.) O que quer dizer com "plantas individuais"? (135/2. Numa carta ao Sr. Darwin datada de 17 de março de 1862, Sir J.D. Hooker discutiu uma suposta diferença entre animais e plantas, "na medida em que o animal individual é certamente alterado materialmente pelas condições externas, o segundo (penso eu) nunca, exceto de uma forma tão grosseira como o atrofiamento ou aumento — por exemplo, nenhum aumento de frio no local, ou mudança de planta individual de quente para frio, induzirá a referida planta individual a ganhar uma cobertura mais lanosa; mas suponho que uma série de estações frias provocaria tal mudança num quadrúpede individual, tal como o remo endurecerá as mãos, etc.") Imaginei que um rebento vivia apenas um ano, e dificilmente se poderia esperar qualquer mudança nesse período; mas se chama a uma árvore ou planta um indivíduo, tem rebentos desportivos. Talvez queira dizer que a árvore inteira não muda. As tulipas, na "quebra", mudam. A fruta parece certamente afetada pelo porta-enxerto. Penso que (135/3. Ver nota, Carta 16.) obtive casos de ligeira mudança em plantas alpinas transplantadas. Todos estes assuntos saíram um pouco da minha cabeça devido às orquídeas, mas em breve terei de os abordar seriamente quando voltar ao meu volume sobre a variação sob domesticação.
... Durante o tempo de vida de um animal, penso que acharia muito difícil mostrar efeitos das condições externas nos animais mais do que a sombra e a luz, o solo bom e mau, produzem numa planta.
Fala de "uma tendência inerente para variar, totalmente independente das condições físicas"! Esta é uma forma muito simples de colocar a questão (como o Dr. Prosper Lucas também a coloca) (135/4. Prosper Lucas, o autor de "Traité philosophique et physiologique de l'hérédité naturelle dans les états de santé et de maladie du système nerveux": 2 volumes, Paris, 1847-50.): mas duas grandes classes de factos levam-me a pensar que toda a variabilidade se deve à mudança nas condições de vida: primeiro, que há mais variabilidade e mais monstruosidades (e estas graduam-se umas nas outras) sob condições domésticas não naturais do que na natureza; e, segundo, que condições alteradas afetam de uma forma especial os órgãos reprodutores — aqueles órgãos que devem produzir um novo ser. Mas por que razão uma plântula entre milhares apresenta algum novo carácter transcende os poderes mais selvagens da conjectura. Foi neste sentido que falei de "clima", etc., possivelmente produzindo sem seleção uma semente em gancho, ou qualquer variação não grande. (135/5. Esta afirmação ocorre provavelmente numa carta, e não nas obras publicadas de Darwin.)
Há anos e anos que luto comigo mesmo para não atribuir demasiado à Seleção Natural — para atribuir algo à ação direta das condições; e talvez tenha superado demasiado a minha tendência para quase não dar importância às condições de vida.
Não estou abalado quanto aos "saltus" (135/6. Sir Joseph tinha escrito, a 17 de março de 1862: "Huxley está bastante inclinado a pensar que ignorou os saltus, mas não tenho a certeza de que ele tenha razão — saltus quoad indivíduos não é saltus quoad espécies — como salientei no caso da Begonia, embora talvez isso fosse um argumento mais especial no atual estado da ciência." Para o caso da Begonia, ver "Life and Letters", II., página 275, também carta 110, página 166.), não escrevi sem analisar bastante cuidadosamente todos os casos de estrutura normal em animais que se assemelham a monstruosidades que aparecem per saltus.
CARTA 136. PARA J.D. HOOKER. 26 [março de 1862].
Obrigado também pela sua (136/1. Ver nota na Carta 135.) e pela carta de Bates agora devolvida. Ambas são excelentes; penso que disse tudo o que pode ser dito contra os efeitos diretos das condições, e colocou-o de forma capitular. Mas ainda me mantenho do meu lado e do de Bates. No entanto, fico satisfeito por atribuir pouco às condições, e gostaria de ter feito o que sugere — começar pelo princípio fundamental da variação ser um princípio inato, e depois fazer algumas observações mostrando que, futuramente, talvez este princípio fosse explicável. Sempre que o meu livro sobre aves de capoeira, pombos, patos e coelhos for publicado, com todas as medições e pesagens de ossos, penso que verá que o "uso e desuso" pelo menos têm algum efeito. Não acredito na reversão perfeita. Resisto um pouco à sua doutrina de "variação centrífuga". (136/2. A "doutrina da variação centrífuga" é dada no "Introductory Essay to the Flora of Tasmania" de Sir J.D. Hooker (Parte III. da Botânica da Expedição Antártica), 1859, página viii. No parágrafo 10, o autor escreve: "A tendência das variedades, tanto na natureza como sob cultivo... é mais afastar-se cada vez mais do tipo original do que reverter para ele". Na carta de Sir Joseph a Bates (loc. cit., página lii) ele escreveu: "Darwin também acredita em alguma reversão ao tipo, o que se opõe à minha visão de variação". Pode notar-se, a este respeito, que o Sr. Galton mostrou razões para acreditar numa tendência centrípeta na variação (para usar a terminologia de Hooker) que não é idêntica à reversão das plantas cultivadas aos seus antepassados, o caso a que Hooker aparentemente se refere. Ver "Natural Inheritance", por F. Galton, 1889.) Suponho que não concorda ou não se lembra da minha doutrina do bem da diversificação (136/3. Darwin usava habitualmente a palavra "divergência" a este respeito.); isto parece-me explicar amplamente o facto de a variação ser centrífuga — se se esqueceu, veja esta discussão (página 117 da 3ª edição), foi o melhor ponto que, segundo as minhas noções, defini, e sempre me agradou. É realmente curiosamente satisfatório para mim ver um homem tão capaz como Bates (e você mesmo) a acreditar mais plenamente na Seleção Natural do que penso que eu próprio acredito. (136/4. Isto refere-se a uma passagem muito interessante na carta de Hooker a Bates (loc. cit., página liii): "Tenho a certeza de que, consigo, como comigo, quanto mais pensar, menos ocasião verá para outra coisa que não o tempo e a seleção natural para efetuar a mudança; e que esta visão seja a mais simples e clara no atual estado da ciência é uma vantagem, pelo menos. De facto, penso que é, no atual estado da investigação, a posição legítima a assumir; é cedo para nos preocuparmos com a causa secundária quando há alguma evidência dela ou alguma procura por ela — de momento não vejo uma nem outra, pelo que me sinto inclinado a renunciar a qualquer outra por agora.") A propósito, vanglorio-me sempre para si, e por isso penso que Owen estará errado ao dizer que o meu livro será esquecido em dez anos, pois uma edição francesa está agora a sair da imprensa e é necessária uma segunda edição alemã. A sua longa carta a Bates pôs a minha cabeça a funcionar, e faz-me arrepender dos nove meses gastos nas orquídeas; embora não saiba por que não me deveria ter divertido com elas, tal como escravizar-me com ossos de patos e pombos, etc. As orquídeas têm sido um desporto esplêndido, embora de momento esteja terrivelmente farto delas.
Anexo uma cópia descartada da xilogravura de Mormodes ignea; gostaria que tivesse uma planta em Kew, pois tenho a certeza de que o seu mecanismo e estrutura maravilhosos o divertiriam. Não é curioso a forma como o labelo assenta no topo da coluna? — aqui os insetos pousam e são maravilhosamente disparados, quando tocam num certo ponto sensível, pelas polínias.
Como me ajudou gentilmente no meu trabalho! Adeus, meu caro e velho amigo.
CARTA 137. PARA H.W. BATES. Down, 4 de maio [1862].
Agradecimentos calorosos pela sua carta interessantíssima e pelos três extratos muito valiosos. Estou muito contente por ter observado os insetos Temperados do Sul. Gostaria que os materiais no Museu Britânico tivessem sido mais ricos; mas acho que o caso dos Carabi sul-americanos, apoiado por algum outro caso, mereceria um artigo. Para nós que teorizamos, tenho a certeza de que o caso é muito importante. Será que os Carabi sul-americanos diferem mais das outras espécies do que, por exemplo, os da Sibéria, Europa, América do Norte e Himalaias (se o género existir lá)? Se diferirem, concordo inteiramente consigo que a diferença seria demasiado grande para ser explicada pelo recente período Glacial. Concordo, também, consigo em rejeitar totalmente uma origem independente para estes Carabi. Existe uma dificuldade, tanto quanto sei, na nossa ignorância sobre se os insetos mudam rapidamente ao longo do tempo; poderia julgar isto sabendo até que ponto coleópteros estreitamente relacionados têm geralmente áreas de distribuição muito restritas, pois isto implica quase uma mudança rápida. Que caso curioso oferecem os moluscos terrestres, que se tornam modificados em cada subdistrito, e que ainda assim retiveram a mesma estrutura geral desde períodos geológicos muito remotos! Ao trabalhar no período Glacial, lembro-me de me sentir muito surpreendido com o quão poucas aves, nenhuns mamíferos, e muito poucos moluscos marinhos pareceram ter atravessado, ou entrado profundamente, nas regiões intertropicais durante o período frio. Os insetos, por tudo o que diz, parecem cair na mesma categoria. As plantas parecem migrar mais facilmente do que os animais. Não subestime a duração do período Glacial: Forbes costumava argumentar que era equivalente a todo o período Pleistoceno nas latitudes mais quentes. Acredito, consigo, que seremos levados a um período Glacial mais antigo.
Lamento muito ouvir sobre o Museu Britânico; seria inútil lutar contra alguém apoiado por Owen. Talvez outra oportunidade possa surgir antes de muito tempo. Como seria falar com Owen assim que a sua própria mente estivesse decidida? Pelo que ouvi, desde que falei consigo, temo que o interesse pessoal mais forte junto de um Ministro seja necessário para uma pensão.
Adeus, e que o sucesso acompanhe o acerrimo pro-pugnatori.
P.S. Desejo profundamente que possa encontrar alguma situação em que pudesse dedicar o seu tempo à ciência; seria uma grande coisa para a ciência e para si próprio.
CARTA 138. PARA J.L.A. DE QUATREFAGES. Down, 11 de julho [1862].
Agradeço-lhe cordialmente por ter respondido tão gentil e prontamente às minhas perguntas. Citarei algumas das suas observações. O caso parece-me de alguma importância com referência às minhas noções heréticas, pois mostra como as larvas poderiam ser modificadas. Suponho que não publicarei durante um ano, pois muito tempo é gasto em experiências. Se dentro deste período adquirir alguma informação fresca sobre a semelhança das traças de raças distintas, e me permitir citar alguns factos sob a sua autoridade, sentir-me-ia muito grato.
Agradeço-lhe a sua grande gentileza com respeito à tradução da "Origem"; é muito liberal da sua parte, uma vez que diferimos em grau considerável. Tenho sido atrozmente abusado pelos meus compatriotas religiosos; mas como vivo uma vida independente no campo, isso não me magoa minimamente de forma alguma, exceto, de facto, quando o abuso vem de um velho amigo como o Professor Owen, que me abusa e depois avança a doutrina de que todas as aves são provavelmente descendentes de um único progenitor.
Gostaria que a tradutora (138/1. Mdlle. Royer, que traduziu a primeira edição francesa da "Origem".) soubesse mais de História Natural; ela deve ser uma senhora inteligente mas singular, mas nunca ouvi falar dela até ela propor traduzir o meu livro.
CARTA 139. PARA ASA GRAY. Down, 23 de julho [1862].
Recebi há poucos dias dois grandes pacotes, mas até agora li apenas a sua carta; pois temos estado em terrível aflição e não pude ocupar-me de nada. O nosso pobre rapaz teve o caso raro de uma segunda erupção cutânea e dor de garganta...; e, como se isto não bastasse, um ataque muito grave de erisipela, com sintomas tifoides. Desesperei-me pela sua vida; mas esta noite ele comeu uma garfada e creio que superou a crise. Viveu à base de vinho do Porto de três em três quartos de hora, dia e noite. Esta noite, para nosso espanto, perguntou se os seus selos estavam a salvo, e eu falei-lhe de um enviado por si, e que ele o veria amanhã. Ele respondeu: "Gostaria imenso de o ver agora"; por isso, com dificuldade, abriu as pálpebras e olhou para ele e, com um suspiro de satisfação, disse: "Está bem." Os filhos são a nossa maior felicidade, mas frequentemente uma miséria ainda maior. Um homem de ciência não deveria ter nenhuns — talvez nem uma esposa; pois então não haveria nada neste vasto mundo que valesse a pena, e um homem poderia (se o conseguiria é outra questão) trabalhar como um troiano. Espero dentro de poucos dias pôr o meu cérebro em ordem, e então escolherei todas as suas cartas sobre orquídeas e devolvê-las-ei na esperança de que lhes dê uso...
De todos os carpinteiros para acertar no prego, você é o melhor de todos; ninguém mais percebeu que o meu principal interesse no meu livro sobre orquídeas tem sido o facto de ser um "movimento de flanco" sobre o inimigo. Vivo em tal solidão que não ouço nada, e não faço ideia a que se refere sobre Bentham, as orquídeas e as espécies. Mas tenho de me informar.
A propósito, um dos meus principais inimigos (o único que me tem incomodado), nomeadamente Owen, ouvi dizer que tem dado palestras sobre aves; e admite que todas descendem de uma só, e apresenta como sendo sua a ideia de que as aves oceânicas sem asas perderam as asas por desuso gradual. Ele nunca me alude, ou apenas com zombarias amargas, e associado a Buffon e aos "Vestígios".
Bem, tem sido um divertimento para mim esta primeira noite, rabiscar tão egoisticamente como de costume sobre mim e as minhas atividades; por isso tem de me perdoar, como sei bem que o seu coração bondoso fará. Consegui passar os olhos pelo jornal, mas não tive coragem de ler todos os detalhes sangrentos. Grande Deus! Qual será o fim? Talvez sejamos demasiado pessimistas aqui; mas tenho de pensar que é demasiado esperançoso do seu lado do oceano. Nunca acreditei nos "canards" de que o exército do Potomac se tinha rendido. A minha boa e querida esposa e eu passámos a desejar a paz a qualquer preço. Boa noite, meu bom amigo. Não rabiscarei mais.
Mais uma palavra. Gostaria de ouvir o que pensa sobre o que digo no último capítulo do livro das orquídeas sobre o significado e a causa da infinita diversidade de meios para o mesmo fim geral. Isto toca no design, essa questão sem fim. Boa noite, boa noite!
CARTA 140. PARA C. LYELL. 1, Carlton Terrace, Southampton, 22 de agosto [1862].
Diz que o Bispo e Owen vão cair em cima de si (140/1. Isto refere-se à "Antiguidade do Homem", que foi publicada em 1863.): o último dificilmente pode, pois fui assegurado de que Owen, nas suas palestras desta primavera, apresentou como uma ideia nova que as aves sem asas tinham perdido as asas por desuso. (140/2. O primeiro parágrafo desta carta foi publicado em "Life and Letters", II., páginas 387, 388.) Também que as pegas roubavam colheres, etc., de um remanescente de algum instinto como o da ave-cetim, que adorna a sua passagem de jogo com penas bonitas. De facto, disseram-me que ele insinuou claramente que todas as aves descendem de uma só. Que homem sem vergonha deve ser para dar tais palestras depois de me ter insultado tanto, e nunca se ter retratado abertamente, ou aludido ao meu livro!
CARTA 141. PARA JOHN LUBBOCK (LORD AVEBURY). Cliff Cottage, Bournemouth, 5 de setembro [1862].
Muito obrigado pela sua nota agradável em resposta a todo o meu incómodo estúpido. Não apreciei totalmente o seu caso dos insetos mergulhadores (141/1. "Sobre dois Himenópteros aquáticos, um dos quais usa as suas asas para nadar". Por John Lubbock. "Trans. Linn. Soc." Volume XXIV., 1864, páginas 135-42.) [Lido a 7 de maio de 1863.] Neste artigo, Lubbock descreve uma nova espécie de Polynema — P. natans — que nada por meio das suas asas, e é capaz de viver debaixo de água durante várias horas; a outra espécie, referida a um novo género Prestwichia, vive debaixo de água, mantém as suas asas imóveis e usa as pernas como remos.) antes da sua última nota, nem tinha ideia de que o facto era novo, embora novo para mim. É realmente muito interessante. Naturalmente, publicará um relato sobre o assunto. Dirá então se o inseto consegue voar bem pelo ar. (141/2. Ao descrever os hábitos de Polynema, Lubbock escreve: "Fui infelizmente incapaz de verificar se podiam voar" (loc. cit., página 137).) A minha esposa perguntou: "Como descobriu ele que ficou quatro horas debaixo de água sem respirar?" Respondi de imediato: "A Sra. Lubbock sentou-se quatro horas a observar." Pergunto-me se tenho razão.
Anseio por estar em casa e com trabalho constante, e espero que possamos estar noutro mês. Receio que seja inútil ir ter consigo, pois estou mais mole do que nunca, mas espero que dois duches frios por dia me deem um pouco de força, para que, espero, você venha ter connosco. Já passou uma era desde que o vi ou a qualquer amigo científico.
Recebi notícias de Lyell outro dia na Ilha de Wight, e de Hooker na Escócia. Sobre Huxley não sei nada, mas espero que o seu livro progrida, pois estarei muito curioso por o ver. (141/3. "O Lugar do Homem na Natureza". Londres, 1863.)
Não faço nada aqui exceto olhar ocasionalmente para algumas flores, e há poucas aqui, pois o campo é maravilhosamente estéril.
Veja o que é ser bem treinado. Horace disse-me ontem: "Se todos matassem víboras, elas viriam picar menos." Respondi: "Claro que sim, pois haveria menos." Ele replicou indignado: "Não quis dizer isso; mas as víboras tímidas que fogem seriam salvas e, com o tempo, nunca picariam." Seleção natural de cobardes!
CARTA 142. H. FALCONER PARA CHARLES DARWIN.
(142/1. Isto refere-se ao manuscrito do artigo de Falconer "Sobre o Elefante Fóssil Americano das Regiões que margeiam o Golfo do México (E. Columbi, Falc.)", publicado na "Natural History Review", janeiro de 1863, página 43. A secção que trata da relação dos seus factos com as opiniões de Darwin está na página 77. Ele insiste fortemente (página 78) na "persistência e uniformidade dos caracteres dos dentes molares no mamute mais antigo conhecido e no seu sucessor mais moderno". Contudo, acrescenta que as "inferências que tiro destes factos não se opõem a uma das proposições principais da teoria de Darwin". Estas admissões foram tanto mais satisfatórias uma vez que, como aponta Falconer (página 77), "fui incluído por ele na categoria daqueles que têm mantido veementemente a persistência dos caracteres específicos".)
21, Park Crescent, Portland Place, N.W., 24 de setembro [1862].
Não se assuste com o anexo. Desejo esclarecer-me consigo antes de ir para a imprensa. Estou a publicar uma memória pesada sobre elefantes — um caso de omnium gatherum, com observações sobre as espécies fósseis e recentes. Uma secção é dedicada à persistência no tempo dos caracteres específicos do mamute. Rasteio-o desde antes do período Glaciar, através dele e depois dele, imutável e inalterado no que diz respeito aos órgãos de digestão (dentes) e locomoção. Ora, o período Glaciar não foi brincadeira: teria dado cabo dos seus queridos pombos e rolas.
Com todas as minhas falhas, tenho uma consideração tão sincera e afetuosa por si e tanta admiração pelo seu trabalho, que ficaria magoado por descobrir que expressei as minhas convicções honestas de uma forma que estaria aberta a qualquer objeção da sua parte. O raciocínio pode ser muito estúpido, mas creio que a observação é sólida. Quer, portanto, examinar as poucas páginas que enviei e dizer-me se encontra alguma falha, ou se pensa que deveria mudar a forma de expressão? Você tem sido tratado de forma tão indelicada e pouco franca por um amigo seu e meu que lamento encontrar-me na posição de um opositor seu, e mais particularmente com a possibilidade de fazer figura de tolo.
Encontrei o seu irmão ontem, que me diz que você vai vir à cidade. Espero que me chame. Anseio por uma conversa consigo e tenho muito que falar sobre o assunto.
Terá visto o esclarecimento sobre os macacos Eocénicos de Inglaterra. Com um toque da varinha mágica foram metamorfoseados — à la Darwin — em porcos Hyracotherian. (142/2. "Sobre o Caráter Hyracotherian dos Molares Inferiores do suposto Macacus da Areia Eocénica de Kyson, Suffolk." "Ann. Mag. Nat. Hist." Volume X., 1862, página 240. Nesta nota, Owen afirmou que os dentes que ele tinha nomeado Macacus ("Ann. Mag." 1840, página 191) pertenciam muito provavelmente ao Hyracotherium cuniculus. Ver "A Catalogue of British Fossil Vertebrata", A.S. Woodward e C.D. Sherborn, 1890, sob Hyracotherium, página 356; ver também "Handbuch der Palaeontologie" de Zittel, Abth. I., Bd. IV., Leipzig, 1891-93, página 703.) Acreditaria nisto? Isto é até um erro grosseiro. Não são porcos.
CARTA 143. PARA HUGH FALCONER. Down, 1 de outubro [1862].
No meu regresso a casa ontem, encontrei a sua carta e o manuscrito, que li com extremo interesse. A sua nota e cada palavra no seu artigo são expressas com o mesmo sentimento bondoso que tenho experimentado da sua parte desde que tenho a felicidade de o conhecer. Valorizo o elogio científico, mas valorizo incomparavelmente mais tal sentimento bondoso como o seu. Não há uma única palavra no seu artigo à qual eu pudesse possivelmente objetar: eu estaria louco se o fizesse; o seu único defeito é talvez a sua bondade excessiva. O seu caso parece-me o mais notável que encontrei da persistência de caracteres específicos. É muito mais notável por se relacionar com os dentes molares, que diferem tanto nas espécies do género, e nos quais, consequentemente, eu teria esperado variação. À medida que lia, senti-me não pouco estupefacto e pensei para comigo que, sempre que chegasse a este assunto, teria de ser selvagem comigo mesmo; e perguntei-me quão selvagem você seria. Tremi um pouco. A minha única esperança era que algo pudesse ser feito a partir das formas do pântano norte-americano, que você classifica como uma raça geográfica; e possivelmente mais tarde a partir das espécies sicilianas. Adivinhe, então, a minha satisfação quando descobri que você próprio criou uma escapatória (143/1. Isto refere-se talvez a uma passagem ("N.H. Review", 1863, página 79) na qual Falconer permite a existência de formas intermédias ao longo de certas linhas possíveis de descendência. A referência de Falconer aos elefantes sicilianos está numa nota na página 78; o elefante do pântano é mencionado na página 79.), que eu nunca, naturalmente, poderia ter adivinhado; e imagine a minha satisfação ainda maior por se expressar como um descrente na imutabilidade eterna das espécies. As suas observações finais sobre o meu trabalho são demasiado generosas, mas deram-me não pouco prazer. Quanto a críticas, tenho apenas pequenas. Quando fala de "intervalo moderado de variação", não posso deixar de pensar que deveria lembrar aos seus leitores (embora suponha que já o tenha feito anteriormente) qual é o montante, incluindo o caso do mamute do pântano americano. Fala destes animais como tendo estado expostos a uma vasta gama de mudanças climatéricas desde antes até depois do período Glaciar. Eu teria pensado, pela analogia das conchas marinhas, que por migração (ou extinção local quando a migração não era possível) estes animais poderiam e teriam mantido quase o mesmo clima.
Uma consideração bastante mais importante, parece-me, é que todo o grupo dos proboscídeos pode, presumo, ser visto como estando a tender para a extinção: de qualquer modo, a extinção foi completa no que diz respeito à Europa e à América. Inúmeras considerações e factos levaram-me na "Origem" a concluir que são os membros prósperos ou dominantes de cada ordem que geralmente dão origem a novas raças, subespécies e espécies; e sob este ponto de vista, não estou nada surpreendido com a constância da sua espécie. Isto leva-me a notar que a frase no fundo da página [80] não é aplicável às minhas opiniões (143/2. Ver Falconer no fundo da página 80: é a velha dificuldade — como pode a variabilidade coexistir com a persistência de tipo? Na nossa cópia da carta, a passagem é dada como ocorrendo na página 60, um lapso de pena para a página 80.), embora bastante aplicável àqueles que atribuem a modificação à ação direta das condições de vida. Um elefante poderia ser mais individualmente variável do que qualquer quadrúpede conhecido (pelos efeitos das condições de vida ou outras causas inatas desconhecidas), mas se estas variações não ajudassem o animal a resistir melhor a todas as influências hostis, e portanto a fazê-lo aumentar em número, não haveria tendência para a preservação e acumulação de tais variações — isto é, para a formação de uma nova raça. Como o grupo dos proboscídeos parece ser, por causas totalmente desconhecidas, um grupo em declínio em muitas partes do mundo, eu não teria previsto a formação de novas raças.
Você faz observações importantes contra a Seleção Natural, e talvez fique surpreendido por eu concordar em grande medida consigo. Poderia mostrar-lhe muitas passagens, escritas tão fortemente quanto pude na "Origem", declarando que a Seleção Natural nada pode fazer sem variabilidade prévia; e tentei colocar igualmente forte que a variabilidade é governada por muitas leis, na sua maioria totalmente desconhecidas. O meu título engana as pessoas, e gostaria de o ter feito um pouco diferente. A sua filotaxia (143/3. Falconer, página 80: "A lei da Filotaxia... é quase tão constante na sua manifestação como qualquer das leis físicas ligadas ao mundo material.") servirá de exemplo, pois concordo inteiramente que o arranjo espiral de um certo número de verticilos de folhas (independentemente de como isso tenha surgido primordialmente, e se é tão invariável como afirma), governa os limites da variabilidade, e portanto governa o que a Seleção Natural pode fazer. Deixe-me explicar como surgiu que dei tanta ênfase à Seleção Natural, e ainda penso que justamente. Cheguei a pensar, pela distribuição geográfica, etc., etc., que as espécies provavelmente mudam; mas durante anos fui parado de repente pela minha total incapacidade de ver como cada parte de cada criatura (um pica-pau ou uma andorinha, por exemplo) se tinha adaptado às suas condições de vida. Isto parecia-me, e ainda parece, o problema a resolver; e penso que a Seleção Natural o resolve, tal como a seleção artificial resolve a adaptação das raças domésticas para o uso do homem. Mas suspeito que quer dizer algo mais — que existe alguma lei desconhecida de evolução pela qual as espécies necessariamente mudam; e se assim for, não posso concordar. Esta, contudo, é uma questão demasiado vasta mesmo para uma carta tão irrazoavelmente longa como esta. Contudo, apenas para explicar por meras conjeturas sem valor como imagino que os dentes dos seus elefantes mudam, eu veria a mudança como resultando indiretamente de mudanças na forma das mandíbulas, ou do desenvolvimento das presas, ou no caso do primigenius até mesmo da correlação com a cobertura lanosa; em todos os casos a Seleção Natural verificando a variação. Se, de facto, um elefante tivesse mais sucesso alimentando-se de alguns novos tipos de comida, então qualquer variação de qualquer tipo nos dentes que favorecesse o seu poder de trituração seria preservada. Ora, posso imaginá-lo a levantar as mãos e a gritar que asneira! Para voltar à sua frase final: longe de estar surpreendido, vejo como absolutamente certo que muito na "Origem" será provado como lixo; mas espero e desejo que a estrutura se mantenha. (143/4. Falconer, página 80: "Ele [Darwin] lançou as fundações de um grande edifício: mas não precisa de ficar surpreendido se, no progresso da edificação, a superestrutura for alterada pelos seus sucessores...")
Tinha esperado ter passado por sua casa na segunda-feira à noite, mas estava completamente exausto. Vi Lyell ontem de manhã. Ele estava muito curioso sobre as suas opiniões, e como tinha de lhe escrever esta manhã, não pude deixar de lhe dizer algumas palavras sobre as suas opiniões. Suponho que está cansado da "Origem" e nunca mais a lerá; caso contrário, gostaria que tivesse a terceira edição, e enviá-la-ia de bom grado em vez de olhar para a primeira ou segunda edição. Com agradecimentos cordiais pela sua generosa bondade.
CARTA 144. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN. Royal Gardens, Kew, 7 de novembro de 1862.
Sinto-me grandemente aliviado pela sua carta esta manhã sobre o meu ensaio Ártico, pois tinha estado a conjurar algum erro crasso (como as planícies graníticas da Patagónia). Certamente, depois do que me disse sobre Dawson, ele não gostará da carta que lhe escrevi há dias, na qual lhe disse que era impossível manter uma opinião forte contra a hipótese Darwiniana sem que isso desse origem a uma distorção mental ao ver assuntos nos quais essa hipótese estava ou poderia estar envolvida. Disse-lhe que sentia que isto era assim comigo quando me opus a si, e que todas as mentes estão sujeitas a tais obliquidades! — que o Senhor me ajude, e isto para um LL.D. e Diretor de uma Faculdade! Procedi a discutir a sua Geologia com a insolência de um novato; e, graças a Deus, insisti no próprio argumento da sua carta sobre evidências de subsidência — a saber, nem tudo submerso de uma vez, e a ação glacial sendo subaérea e não oceânica. A sua carta foi, portanto, um alívio, pois senti que não estava suficientemente forte para me ter lançado como fiz a um geólogo professo.
(144/1. [Sobre o assunto da carta acima, ver uma de data anterior de Sir J.D. Hooker (2 de novembro de 1862) dada no presente trabalho (Carta 354) com a resposta de Darwin (Carta 355).])
CARTA 145. PARA HUGH FALCONER. Down, 14 de novembro [1862].
Li o seu artigo (145/1. "Sobre a afinidade contestada do género de mamíferos Plagiaulax, das camadas de Purbeck."--"Quart. Journ. Geol. Soc." Volume XVIII., página 348, 1862.) com extremo interesse, e agradeço-lhe por tê-lo enviado, embora certamente o tivesse lido com atenção, ou qualquer coisa com o seu nome, na Revista. Parece-me uma obra-prima de raciocínio cerrado: embora, naturalmente, não seja um juiz de tais assuntos, não posso sentir qualquer dúvida de que é conclusivo. Irá Owen responder-lhe? Espero que, dada a sua visão arrogante da sua própria posição, ele não responda. O seu artigo é terrivelmente severo para com ele, mas perfeitamente cortês, e polido como o mais fino punhal. Quão gentil é para comigo: a sua primeira frase (145/2. "Um dos mais precisos observadores e pensadores originais do nosso tempo dissertou com eloquência enfática sobre a Imperfeição do Registo Geológico.") agradou-me mais do que talvez devesse, se eu tivesse alguma modéstia na minha composição. A propósito, depois de ler o primeiro parágrafo completo, reli-o, não pelo conteúdo, mas pelo estilo; e então ocorreu-me subitamente que um certo homem me disse uma vez, quando o instei a publicar alguma da sua riqueza miscelânea de conhecimentos: "Oh, ele não conseguia escrever, ele detestava isso," etc. Seu homem falso, nunca mais me diga isso. A sua observação incidental sobre a notável especialização do Plagiaulax (145/3. "Se o Plagiaulax for considerado através do meio da visão defendida com tanto vigor por Darwin, por que número de formas intermédias não terá o género passado antes de atingir a condição especializada em que os fósseis nos surgem!") (que ficou presa na minha garganta desde que li o seu primeiro artigo) como tendo relação com o número de formas precedentes, é-me inteiramente nova e, naturalmente, está de acordo com as minhas noções como um argumento mais impressionante. Fiquei também contente por ser relembrado dos dentes do camelo e dos ossos do tarso. (145/4. Op. cit. página 353. Uma referência ao exemplo de Cuvier "da relação secreta entre os incisivos superiores em forma de canino do camelo e os ossos do tarso.") Descendência de uma forma intermédia, Hum!
Bem, tudo o que posso dizer é que há muito tempo que não me interessava tanto por um artigo como pelo seu. Dá-me um risinho demoníaco pensar na expressão agradável de Owen quando o ler.
Não vou a Londres desde o final de setembro; quando for, irei bater à sua porta se puder; mas não sei o que me aconteceu. Estou pior do que nunca a suportar qualquer excitação. Até conversar durante uma noite por menos de duas horas causou-me duas vezes recentemente vómitos tão violentos e tremores que receio ir a Londres. Ouvi dizer que se destacou em Cambridge (145/5. O Prof. Owen, numa comunicação à Associação Britânica em Cambridge (1862) "Sobre um dente de Mastodonte das margas terciárias, perto de Xangai," apresentou o caso do Mastodonte australiano como prova da notável distribuição geográfica dos Proboscidea. Numa discussão subsequente, ele abandonou-o francamente, em consequência das dúvidas então suscitadas quanto à sua autenticidade. (Ver nota de rodapé, página 101, no artigo de Falconer "Sobre o Elefante Fóssil Americano," "Nat. Hist. Review," 1863.)), e fico sinceramente contente por ter atacado o Mastodonte australiano. Nunca acreditei nele, nem poderia. Gostaria que lesse o meu pequeno artigo sobre a Primula no "Linnean Journal," Volume VI. Botânica (N.º 22), página 77 (não tenho uma cópia que possa dispensar), pois penso que há uma boa hipótese de ter observado casos semelhantes. Este é o meu verdadeiro passatempo atual. Re-testei este verão a diferença funcional das duas formas em Primula, e acho tudo estritamente exato. Se souber de algum caso análogo, por favor informe-me. Adeus, meu bom e gentil amigo.
CARTA 146. PARA J.D. HOOKER.
(146/1. A carta seguinte é interessante em conexão com uma carta dirigida a Sir J.D. Hooker, a 26 de março de 1862, N.º 136, onde o valor da Seleção Natural é declarado mais fortemente por Sir Joseph do que por Darwin. É lamentável que a carta de Sir Joseph, à qual esta é uma resposta, não tenha sido encontrada.)
Down, 20 de novembro [1862].
A sua última carta interessou-me num grau extraordinário, e o seu conselho verdadeiramente paroquial, "alguma outra pessoa sábia e discreta," etc., etc., divertiu-nos não pouco. Apresentarei um caso concreto para mostrar o que penso que A. Gray acredita sobre o cruzamento e o que eu acredito. Se 1.000 pombos fossem criados juntos numa gaiola durante 10.000 anos, não sendo permitido que o seu número aumentasse por abate ao acaso, então, por cruzamento mútuo, não surgiriam variedades; mas, se cada pombo fosse um hermafrodita autofecundante, surgiriam uma multidão de variedades. Este, creio eu, é o efeito comum do cruzamento, a saber, a obliteração de variedades incipientes. Não nego que, quando duas variedades marcadas foram produzidas, o seu cruzamento produzirá uma terceira ou mais variedades intermédias. Possivelmente, ou provavelmente, com variedades domésticas, com uma forte tendência para variar, o ato de cruzamento tende a dar origem a novos caracteres; e assim, uma terceira ou mais raças, não estritamente intermédias, podem ser produzidas. Mas há provas pesadas contra o surgimento de novos caracteres a partir do cruzamento de formas selvagens; apenas raças intermédias são então produzidas. Ora, concorda até aqui? se não, não vale a pena discutir; teremos de recorrer a palavrões, e estou convencido de que posso dizer mais palavrões do que você, portanto estou certo. Q.E.D.
Se o número de 1.000 pombos fosse impedido de aumentar não por abate ao acaso, mas, digamos, por todas as aves de bico mais curto serem mortas, então TODO o grupo passaria a ter bicos mais longos. Concorda?
Em terceiro lugar, se 1.000 pombos fossem mantidos num país quente, e outros 1.000 num país frio, e alimentados com comida diferente, e confinados em aviários de tamanhos diferentes, e mantidos constantes em número por abate ao acaso, então eu esperaria como bastante provável que, após 10.000 anos, os dois grupos diferissem ligeiramente em tamanho, cor e talvez outros caracteres triviais; a isto eu chamaria a ação direta das condições físicas. Por esta ação, desejo implicar que as forças vitais inatas são de alguma forma levadas a agir de forma bastante diferente nos dois casos, tal como o calor permitirá ou causará que dois elementos se combinem, o que de outra forma não teria acontecido. Ficar-lhe-ia especialmente grato se me dissesse o que pensa a este respeito.
Mas a parte da sua carta que me deixou literalmente de pernas para o ar com espanto, é aquela onde afirma que cada diferença individual que vemos poderia ter ocorrido sem qualquer seleção. Eu concordo e sempre concordei plenamente; mas o senhor deu a volta ao assunto, e viu-o de um lado oposto e inteiramente novo, e quando me levou lá, fiquei estupefacto. Quando digo que concordo, devo fazer a ressalva de que, sob o seu ponto de vista, como agora, cada forma permanece durante muito tempo adaptada a certas condições fixas, e que as condições de vida são, a longo prazo, mutáveis; e segundo, o que é mais importante, que cada forma individual é um hermafrodita autofecundante, de modo que cada variação de um fio de cabelo não se perde por cruzamento. A sua forma de colocar o caso seria ainda mais marcante do que é se a mente conseguisse lidar com tais números — é lidar com a eternidade — pense em cada uma de mil sementes a gerar a sua planta, e depois cada uma delas mil. Um globo que se estendesse até à estrela fixa mais distante ficaria muito rapidamente coberto. Não consigo sequer lidar com a ideia, mesmo com raças de cães, gado, pombos ou aves de capoeira; e aqui todos admitem e veem a rigorosa exatidão da sua ilustração.
Homens como o senhor e Lyell pensarem que faço demasiado de um Deus da Seleção Natural é um argumento conclusivo contra mim. Contudo, dificilmente sei como poderia ter inserido, em todas as partes do meu livro, frases mais fortes. O título, como o senhor apontou uma vez, poderia ter sido melhor. Ninguém se opõe a que os agricultores usem a linguagem mais forte sobre a sua seleção, contudo cada criador sabe que ele não produz a modificação que seleciona. A minha enorme dificuldade durante anos foi compreender a adaptação, e isto fez-me, não posso deixar de pensar, corretamente, insistir tanto na Seleção Natural. Que Deus me perdoe por escrever com tal extensão; mas o senhor não pode dizer o quanto a sua carta me interessou, e quão importante é para mim, com o meu atual livro em mãos, tentar obter ideias claras. Pense um pouco sobre o que se entende por ação direta das condições físicas. Não me refiro a se elas agem; os meus factos lançarão alguma luz sobre isto. Estou a recolher todos os casos de variações de gomos, em contraposição às variações de sementes (gosta deste termo, para o que alguns jardineiros chamam "sports"?); estes eliminam todos os efeitos do cruzamento. Por favor, lembre-se de quanto valorizo a sua opinião como a mais clara e original que alguma vez recebo.
Vejo claramente que a Welwitschia (146/2. O grande artigo de Sir Joseph sobre a Welwitschia mirabilis foi publicado nas "Linn. Soc. Trans." 1863.) será um caso de Cracas.
Tenho outra planta a pedir, mas escrevo em papel separado, pois é mais conveniente para si guardar. Pretendia ter dito antes, como desculpa por pedir tanto a Kew, que perdi agora DUAS estações, por viveiristas malditos não terem as plantas certas, e enviarem-me as erradas em vez de dizerem que não as possuíam.
CARTA 147. PARA J.D. HOOKER. Down, 24 [novembro de 1862].
Acabei de receber o anexo para si, e pensei que gostaria de ler a segunda metade da carta de A. Gray para mim, pois é política e quase tão louca como sempre aos nossos olhos ingleses. Verá como a perda do poder de intimidar é, de facto, a penosa perda para os homens do Norte devido à desunião.
Devolvo com agradecimentos a carta de Bates, que fiquei contente por ver. Foi muito bom da sua parte escrever-lhe, pois ele é evidentemente um homem que precisa de encorajamento. Terminei agora o seu artigo (mas não li mais nada no volume); parece-me admirável. Para a minha mente, o ato de segregação de variedades em espécies nunca foi tão claramente apresentado, e há montes de observações miscelâneas capitais.
Dificilmente sei por que estou um pouco arrependido, mas o meu trabalho atual está a levar-me a acreditar um pouco mais na ação direta das condições físicas. Presumo que lamento isto, porque diminui a glória da Seleção Natural, e é tão terrivelmente duvidoso. Talvez mude novamente quando tiver todos os meus factos sob um ponto de vista, e este será um trabalho bastante árduo. (147/1. Este parágrafo foi publicado em "Life and Letters," II., página 390. Não é claro por que uma crença na "ação direta" deveria diminuir a glória da Seleção Natural, uma vez que as mudanças assim produzidas devem, como quaisquer outras variações, passar pela provação da sobrevivência do mais apto. Sobre toda a questão da ação direta, ver o "Discurso Presidencial à Secção Zoológica da Associação Britânica" do Sr. Adam Sedgwick, 1899.)
CARTA 148. PARA H.W. BATES. Down, 25 de novembro [1862?].
Eu diria que não era necessário obter um acordo por escrito. (148/1. O livro do Sr. Bates, "A Naturalist on the Amazons," foi publicado em 1863.) Nunca tive um de Murray. Suponho que tenha uma carta com os termos; se não, eu diria que é melhor pedir uma para evitar mal-entendidos. Penso que Sir C. Lyell me disse que não tinha quaisquer acordos formais. Fico sinceramente contente por saber que o seu livro está a progredir. Poderia encontrar-me algum lugar, mesmo uma nota de rodapé (embora estas sejam em nove casos em dez condenáveis), onde pudesse declarar, tão completamente quanto os seus materiais permitem, todos os factos sobre o emparelhamento de variedades semelhantes — por palpite, quantas apanhou, e quantas estão agora na sua coleção? Considero este facto como muito importante; se não for no seu livro, coloque-o noutro lugar, ou deixe-me ter os casos.
Concordo inteiramente consigo sobre a enorme vantagem de estudar minuciosamente um grupo.
Realmente não tenho críticas a fazer. (148/2. O artigo do Sr. Bates sobre borboletas miméticas foi lido perante a Sociedade Linneana, a 21 de novembro de 1861, e publicado nas "Linn. Soc. Trans." XXIII., 1862, página 495, sob o título de "Contribuições para uma Fauna de Insetos do Vale do Amazonas.") O estilo parece-me muito bom e claro; mas lamento muito que no título ou na passagem de abertura não tenha tocado uma trombeta alta sobre o que ia mostrar. Talvez o artigo tivesse ficado melhor mais dividido em secções com títulos. Talvez pudesse ter dado em algum lugar um pouco mais de um resumo sobre o progresso da segregação de variedades, e não referir os seus leitores à parte descritiva, exceto aqueles leitores que desejassem detalhes minuciosos. Mas estas são ninharias: considero o seu artigo uma produção mais admirável em todos os aspetos. Sempre que chegar à variação sob condições naturais (a minha cabeça durante meses esteve exclusivamente ocupada com variedades domésticas), terei de estudar e reestudar o seu artigo, e sem dúvida terei então de o importunar com perguntas. Fico sinceramente contente por saber que está bem. Fui obrigado a escrever à pressa; por isso, desculpe-me.
CARTA 149. PARA T.H. HUXLEY. Down, 7 de dezembro [1862].
Eu estava prestes a adicionar a uma encomenda à Williams & Norgate para as suas Conferências (149/1. "Um Curso de Seis Conferências para Trabalhadores," publicadas em seis panfletos por Hardwicke, e mais tarde como um livro. Ver Carta 156.) quando chegaram, e muito grato estou. Li-as com interesse, e parecem-me muito boas para este propósito e primorosamente escritas, como é tudo o que o senhor escreve. Suponho que qualquer livro hoje em dia requer algum empurrão, pelo que, se não deseja que estas conferências sejam extensamente difundidas, suponho que não o serão; de outra forma, diria que fariam bem e espalhariam um gosto pelas ciências naturais. De qualquer modo, gostei delas; mas começo cada vez mais, lamento dizer, a não me importar com nada exceto História Natural; e principalmente, como disse uma vez, pela mera questão das espécies. Acho que gostei mais da N.º III. de todas. Muitas vezes disse e pensei que o processo de descoberta científica era idêntico ao pensamento quotidiano, apenas com mais cuidado; mas nunca consegui colocar o caso para mim com um décimo da clareza com que o fez. Penso que a sua segunda secção geológica confundirá os seus leitores não científicos; de qualquer modo, confundiu-me, e com a forte linha central, que deve representar ou uma linha de estratificação ou alguma grande mudança mineralógica, não consigo conceber como a sua afirmação pode manter-se válida.
Fico muito contente por ouvir falar do seu vigor de "três anos" [?]; mas receio, com todo o seu trabalho multifacetado, que o seu livro sobre o Homem seja necessariamente atrasado. Seu homem mau; não diz uma palavra sobre a Sra. Huxley, de quem a minha esposa e eu estamos sempre verdadeiramente ansiosos por ouvir notícias.
P.S. Vejo na "Cornhill Magazine" um aviso de uma obra de Cohn, que aparentemente é importante, sobre o tecido contrátil das plantas. (149/2. "Ueber contractile Gewebe im Pflanzenreiche." "Abhand. der Schlesischen Gesellschaft fur vaterlandische Cultur," Heft I., 1861.) Deveria tê-la revista. Encomendei-a, e devo tentar decifrar, se puder, um pouco do maldito alemão, pois estou muito interessado no assunto, e experimentei um pouco sobre isso este verão, e cheguei à conclusão de que as plantas devem conter alguma substância mais estreitamente análoga à suposta matéria nervosa difundida nos animais inferiores; ou como, presumo, seria mais exato dizer com Cohn, que elas têm tecido contrátil.
Conferência VI., página 151, linha 7 do topo — molhar PÉS ou corpos? (Crítica da Srta. Henrietta Darwin.) (149/3. Conferência VI., página 151: Lamarck "disse, por exemplo, que as aves de pernas curtas, que vivem de peixe, tinham sido convertidas nas aves pernaltas de pernas longas pelo desejo de obter o peixe sem molhar os pés."
As suas críticas às Conferências IV. e VI. estão num pedaço separado de papel sem data, e devem pertencer a uma carta de data posterior; apenas três conferências foram publicadas até 7 de dezembro de 1862.)
Conferência IV., página 89 — Atavismo.
O senhor usa aqui e ali atavismo = hereditariedade. Duchesne, que, creio eu, inventou a palavra, no seu livro sobre o Morango confinou-a, como todos têm feito desde então, à semelhança com o avô ou ancestral mais remoto, em contraposição à semelhança com os pais.
CARTA 150. PARA JOHN SCOTT.
(150/1. A seguinte é a primeira de uma série de cartas dirigidas ao falecido John Scott, das quais a maior parte é dada nos nossos capítulos Botânicos. Fomos tentados a dar esta correspondência na íntegra não apenas por causa do seu interesse científico intrínseco, mas também porque são quase as únicas cartas que mostram Darwin em relação pessoal com um homem mais jovem envolvido em investigação sob a sua supervisão.)
[1862?]
Segundo o meu melhor julgamento, nenhum assunto é tão importante em relação à ciência natural teórica, em vários aspetos, e igualmente por si mesmo merecedor de investigação, como os efeitos de condições alteradas ou não naturais, ou de estrutura alterada no sistema reprodutivo. Sob este ponto de vista, a relação de variedades bem marcadas mas indubitáveis ao fertilizarem-se mutuamente requer muito mais experiências do que as que foram tentadas. Ver na "Origem" o breve resumo de Gartner sobre Verbascum e Zea. O Sr. W. Crocker, recentemente capataz em Kew e um observador muito bom, vai por sugestão minha trabalhar variedades de malva-rosa. (150/2. Altheae species. Estas experiências parecem não ter sido realizadas.) O clima seria demasiado frio, suponho, para variedades de tabaco. Comecei com couves, mas parei imediatamente devido à queda prematura do seu pólen causar demasiados problemas. O seu conhecimento sugeriria algumas [plantas]. Pelo mesmo princípio seria bom testar flores pelóricas com o seu próprio pólen, e com pólen de flores regulares, e tentar pólen de pelóricas em flores regulares — sendo contadas as sementes em cada caso. Tenho agora uma plântula de muitos cruzamentos de um Pelargonium pelórico por pólen pelórico; tenho duas ou três plântulas de uma flor pelórica por pólen de flor regular. Encomendei um Antirrhinum pelórico (150/3. Ver "Variation of Animals and Plants," Edição I., Volume II., página 70.) e a Gloxinia pelórica, mas temo muito que nunca tenha tempo para os experimentar. Os casos de Passiflora são verdadeiramente maravilhosos, como os casos de Crinum (ver "Origem"). (150/4. "Origem," Edição VI., página 238.) Li num artigo alemão que algumas variedades de batatas (nome não dado) não podem ser fertilizadas pelo [seu] próprio pólen, mas podem pelo pólen de outras variedades: bem vale a pena tentar. Novamente, a fertilidade de qualquer flor monstruosa, que é produzida de forma bastante regular; obtive a maravilhosa Begonia frigida (150/5. A espécie sobre a qual Sir J.D. Hooker escreveu na "Gardeners' Chronicle," 25 de fevereiro de 1860. Ver "Life and Letters," II., página 275.) de Kew, mas duvido se tenho calor para fixar as suas sementes. Se uma Celosia não modificada pudesse ser obtida, seria bom testar com a crista-de-galo modificada. Existe uma variação de columbine [Aquilegia] com pétalas simples sem nectários, etc., etc. Nunca consegui pensar no que tentar; mas se alguém conseguisse obter uma planta cultivada há muito tempo que cruzasse com uma espécie distinta e produzisse um número muito pequeno de sementes, então seria altamente bom testar comparativamente a forma-mãe selvagem e a sua descendência variável com esta terceira espécie: por exemplo, se um polianthus cruzasse com alguma espécie de Primula, então experimentar um prímula selvagem com ela. Acredito que quase nenhumas primulas foram alguma vez cruzadas. Se soubéssemos e pudéssemos obter o progenitor do cravo (150/6. Dianthus caryophyllus, variedade de jardim.), seria muito bom para este fim. Qualquer membro das Lythraceae cultivado a partir de semente deveria ser bem observado quanto ao dimorfismo. Tenho factos maravilhosos, o resultado de experiência, sobre a Lythrum salicaria.
CARTA 151. PARA JOHN SCOTT. Down, 11 de dezembro [1862].
Li o seu artigo com muito interesse. (151/1. "Sobre a Natureza e Peculiaridades do Esporo da Samambaia." "Bot. Soc. Edin." Lido a 12 de junho de 1862.) Solicita observações sobre o assunto, que é o único realmente importante. Considerar-me-á impertinente (garanto que não é a minha intenção) se arriscar um comentário sobre o estilo, que tem mais importância do que alguns pensam? Na minha opinião (que pode ou não valer muito), o seu artigo teria ficado muito melhor se fosse escrito de forma mais simples e menos elaborada — mais parecido com as suas cartas. É uma regra de ouro usar sempre, se possível, uma palavra saxónica curta e antiga. Uma frase como "tão puramente dependente está a planta incipiente da tendência morfológica específica" não soa aos meus ouvidos como um bom inglês vernáculo — precisa de tradução. Aqui e ali, creio que poderia ter condensado algumas frases. Sigo o princípio de considerar cada palavra que possa ser omitida sem perda real de sentido como um ganho decidido. Agora, talvez me considere um intruso metediço: de qualquer modo, é o conselho de um escritor velho e batido que lhe deseja sinceramente o melhor. A sua observação sobre os dois sexos contrabalançarem a variabilidade no produto de um deles é nova para mim. (151/2. Scott (op. cit., página 214): "Os órgãos reprodutores das fanerógamas, como é bem sabido, são sempre produtos de dois órgãos morfologicamente distintos, os estames produzindo o pólen, os carpelos produzindo os óvulos... Sendo o embrião, neste caso, o resultante modificado de dois órgãos originalmente distintos, haverá necessariamente uma maior tendência para apagar quaisquer peculiaridades individuais destes do que teria sido o caso se o embrião fosse o produto de um único órgão." Uma ideia diferente parece ter ocorrido ao Sr. Darwin, pois numa carta sem data para Scott ele escreveu: "Mal sei o que dizer sobre a sua visão dos órgãos masculinos e femininos e da variabilidade. Devo pensar mais sobre isso. Mas diverti-me ao encontrar outro dia, no meu portfólio dedicado à variação de gomos, um pedaço de papel datado de junho de 1860, com palavras como estas: 'Não poderá a permanência dos gomos enxertados dever-se ao facto de os dois elementos sexuais derivados de partes diferentes não terem entrado em ação?' Eu tinha esquecido completamente, quando li o seu artigo, que qualquer noção análoga tivesse passado pela minha mente — nem agora me consigo lembrar, mas o papel mostra-me que passou." É interessante que Huxley também tenha chegado a uma conclusão diferente da de Scott; e, curiosamente, Darwin confundiu as duas visões, pois escreveu a Scott (19 de dezembro): "Por um acaso estranho, lendo ontem à noite algumas palestras curtas recém-publicadas pelo Prof. Huxley, encontro a sua observação, à qual ele chegou independentemente, sobre a confluência dos dois sexos causando variabilidade." As observações do Professor Huxley estão nas suas "Palestras aos Trabalhadores sobre o nosso Conhecimento, etc." N.º 4, página 90: "E, de fato, penso que uma certa quantidade de variação em relação ao estoque primitivo é o resultado necessário do próprio método de propagação sexual; pois, na medida em que a coisa propagada procede de dois organismos de sexos diferentes e de constituições e temperamentos diferentes, e, como a descendência deve ser de um sexo ou do outro, é muito claro que não pode ser uma diagonal exata dos dois, ou não teria sexo algum; não pode ser uma forma intermediária exata entre a de cada um dos seus progenitores — deve desviar-se para um lado ou para o outro.") Mas não posso evitar pensar que existe algo desconhecido e mais profundo na geração seminal. Reflita sobre a longa sucessão de mudanças embriológicas em cada animal. Algum gomo produz cotilédones ou folhas embrionárias? Fiquei muito interessado pela sua observação sobre a herança em idades correspondentes; espero que, como diz, continue a dedicar atenção a isto. É verdade que as plantas fêmeas de Primula produzem sempre fêmeas por partenogénese? (151/3. Parece provável que Darwin aqui se refira à reprodução vegetativa.) Se puder responder a isto, ficar-lhe-ia grato; tem relação com o meu trabalho sobre Primula. Pensei no assunto, mas desisti de investigar o que tinha sido observado, porque a abelha fêmea por partenogénese produz apenas machos. O seu artigo disse-me muito que, na minha ignorância, era completamente novo para mim. Obrigado sobre a P. scotica. Se forem feitas críticas importantes sobre a Primula à Sociedade Botânica, ficaria contente em ouvi-las. Se achar adequado, pode declarar que repeti as experiências de cruzamento em P. sinensis e prímula com o mesmo resultado nesta primavera que no ano passado — na verdade, com uma diferença bastante mais marcada na fertilidade dos dois cruzamentos. De fato, se eu tivesse provado o caso Linum naquela altura, não teria desperdiçado tempo na repetição. Estou determinado a publicar imediatamente sobre Linum...
Tive razão em ser cauteloso ao supor que estava em erro sobre Siphocampylus (não foram incluídas flores). Espero que descubra se o pistilo apresenta dois comprimentos definidos; ficarei espantado se o fizer. Não entendo completamente as suas objeções à Seleção Natural; se as entendo, presumo que se aplicariam com força total, por exemplo, às aves. Reflita sobre a modificação do cavalo Árabe-Turco no nosso cavalo de corrida Inglês. Tive a satisfação de dizer ao meu editor para enviar o meu "Journal" e a "Origin" para o seu endereço. Suspeito que, com a sua mente fértil, achará muito melhor experimentar com o que escolher; mas se, após reflexão, quiser tentar algumas que me interessam, ficaria verdadeiramente encantado e, nesse caso, escreveria com algum detalhe. Se tiver meios para repetir as experiências de Gärtner sobre variações de Verbascum ou sobre milho (veja a "Origin"), tais experiências seriam preeminentemente importantes. Nunca consegui variações de Verbascum. Poderia sugerir uma experiência sobre batatas análoga ao caso da Passiflora; mesmo o caso da Passiflora, tantas vezes como foi repetido, poderia ser vantajosamente repetido. Trabalhei como um escravo (tendo contado cerca de nove mil sementes) sobre Melastoma, sobre o significado dos dois conjuntos de estames muito diferentes, e até agora fui vergonhosamente derrotado, e agora clamo por ajuda. Poderia sugerir o que acredito ser um plano muito bom (pelo menos, o Dr. Hooker achou) para a degeneração sistemática de plantas culinárias, e assim descobrir a sua origem; mas isto seria laborioso e o trabalho de anos.
CARTA 152. PARA J.D. HOOKER. Down, 12 [de dezembro de 1862].
Meu bom e velho Amigo —
Quão gentil foi ao dedicar-me tanto do seu tempo! A sua carta é de real utilidade, e foi e será bem considerada. Fico muito satisfeito por descobrir que não divergimos tanto quanto temia. Começo o meu livro dizendo que o meu principal objetivo é mostrar a escala desmedida da variação; estudei especialmente todos os tipos de variações do indivíduo. Sobre o cruzamento, não posso mudar; quanto mais penso, mais razões tenho para acreditar que a minha conclusão seria aceite por todos os criadores experientes. Também duvido muito que a variabilidade e a domesticação sejam necessariamente correlativas, mas toquei nisto na "Origin". O fato de as plantas serem idênticas sob condições muito diferentes sempre me pareceu um argumento muito pesado contra o que chamo de ação direta. Acho que talvez tome o caso dos 1.000 pombos (152/1. Veja a Carta 146.) para resumir o meu volume; não discutirei outros pontos, mas, como disse, voltarei à sua carta. Mas devo apenas dizer que, se for permitido que a esterilidade entre em jogo, se os de bico longo forem em qualquer grau estéreis com os de bico curto, todo o meu caso altera-se. A propósito, as minhas noções sobre hibridismo estão a tornar-se consideravelmente alteradas pelo meu trabalho sobre dimorfismo. Estou agora fortemente inclinado a acreditar que a esterilidade é, a princípio, uma qualidade selecionada para manter as espécies incipientes distintas. Se observou Lythrum, verá como o pólen pode ser modificado apenas para favorecer o cruzamento; com igual prontidão poderia ser modificado para impedir o cruzamento.
É isto que me faz interessar tanto pelo dimorfismo, etc. (152/2. Isto dá uma impressão estreita do interesse de Darwin pelo dimorfismo. A importância do seu trabalho foi (resumidamente) a prova de que a esterilidade não tem ligação necessária com a diferença específica, mas depende da diferenciação sexual independente das diferenças raciais. Veja "Life and Letters", III., página 296. O seu ponto de vista de que a esterilidade é uma qualidade selecionada é novamente dado numa carta a Huxley ("Life and Letters", II., página 384), mas não foi mantido nos seus escritos posteriores (veja "Origin of Species", Edição VI., página 245). A ideia de que a esterilidade é uma qualidade selecionada é interessante em relação à teoria da seleção fisiológica de Romanes. (Veja Cartas 209-214.))
Mais uma palavra. Quando me atirou de cabeça com a sua nova maneira de olhar para o lado oculto da variação, recebi segurança e força ao considerar monstros — devidos à lei: por mais horrivelmente estranhos que sejam, os monstros estavam vivos, pelo menos quando nasceram. Diferem, pelo menos tanto do progenitor como um mamífero de outro.
Acabei de terminar um longo e cansativo capítulo sobre fatos simples da variação das plantas cultivadas, e estou agora a refrescar-me com um artigo sobre Linum para a Sociedade Linneana.
CARTA 153. PARA W.B. TEGETMEIER.
(153/1. A carta seguinte também incide sobre a questão da produção artificial de esterilidade.)
Down, 27 [de dezembro de 1862].
O plano atual é tentar se alguma raça existente por acaso adquiriu qualquer grau de esterilidade; mas falarei deste ponto mais tarde. O manuscrito em anexo mostrará o que fiz e sei sobre o assunto. Por favor, num momento futuro, devolva-me o manuscrito com cuidado. Se fosse tentar novamente, preferiria Turbit com Carrier ou Dragon.
Sugerirei uma experiência análoga, que tenho há dois anos no meu livro de experiências com "certifique-se de tentar", mas que, à medida que a minha saúde se torna cada ano mais fraca e o meu outro trabalho aumenta, suponho que nunca tentarei. Permita-me acrescentar que, se 5 libras cobrissem as despesas da experiência, ficaria encantado em dá-las, e poderia publicar o resultado, se houver algum resultado. Cruzei o galo Espanhol (a sua ave) e a galinha Seda branca e obtive muitos ovos e pintos; mas dois deles pareciam ser completamente estéreis. Eu estava então tristemente sobrecarregado com trabalho, mas desde então tenho-me censurado muito por não ter preservado e testado cuidadosamente o poder procriador destas galinhas. Agora, se estiver inclinado a obter um galo Espanhol e um par de galinhas Seda brancas, ficarei muito grato em saber se a descendência se reproduz bem: penso que não provarão ser resistentes; se provarem ser estéreis, o que mal posso acreditar, de qualquer modo servirão para a panela. Se tentar isto, que tal colocar um galo Seda com a sua curiosa galinha Cochin sedosa, para obter uma raça grande e sedosa; seria curioso se conseguisse aves sedosas com cores brilhantes. Acredito que uma galinha Seda cruzada com qualquer outra raça nunca dá penas sedosas. Um cruzamento de galo Seda e galinha Cochin Seda deve dar penas sedosas e provavelmente cores brilhantes.
Fui levado ultimamente por experiências (não publicadas) sobre dimorfismo a refletir muito sobre a esterilidade por hibridismo, e parcialmente a mudar a opinião dada na "Origin". Tenho agora cartas enviadas questionando o seguinte ponto, implícito na experiência, que me parece valer a pena tentar, mas demasiado laborioso para ser tentado. Perguntaria a todo o criador de pombos e aves se observaram alguma vez, na mesma raça, um galo A emparelhado com uma galinha B que não produziu crias. Depois, obteria o galo A e emparelhá-lo-ia com uma galinha do seu sangue mais próximo; e a galinha B com o seu sangue mais próximo. Depois emparelharia a descendência de A (isto é, a, b, c, d, e) com a descendência de B (isto é, f, g, h, i, j), e todas as crianças que fossem férteis entre si seriam destruídas até encontrar uma — digamos a, que não fosse completamente fértil com — digamos, i. Então, a e i seriam preservados e emparelhados com os seus progenitores A e B, de modo a tentar obter duas famílias que não se uniriam; mas os membros DENTRO de cada família sendo férteis entre si. Isto seria provavelmente desesperador; mas aquele que pudesse efetuar isto, acredito, resolveria o problema da esterilidade por hibridismo. Se alguma vez ouvir falar de aves ou pombos individuais que sejam estéreis entre si, ficaria muito grato em saber do caso. É um caso paralelo aos registados de um homem não impotente que viveu longamente com uma mulher que permaneceu sem filhos; o marido morreu, e a mulher casou-se novamente e teve muitos filhos. Aparentemente (de modo algum certamente) este primeiro homem e mulher eram diferentes na sua organização sexual. Concebo ser possível que a sua descendência (se ambos tivessem casado novamente e ambos tivessem filhos) fosse sexualmente diferente, como os seus progenitores, ou estéril entre si. Por favor, perdoe a minha escrita terrível; tenho estado muito mal todo o dia, e não tenho força para reescrever este rabisco. Estou a trabalhar lentamente, e suponho que em três ou quatro meses estarei pronto.
Tenho a certeza de que não sei se algum ser humano poderia entender ou ler este rabisco vergonhoso.
CARTA 154. PARA T.H. HUXLEY. Down, 28 de dezembro [1862].
Devolvo o anexo: se escrever, agradeça ao Sr. Kingsley por pensar em deixar-me ver o bom senso de um potentado Oriental. (154/1. A carta de Kingsley para Huxley, datada de 20 de dezembro de 1862, contém uma história ou parábola de um Khan pagão na Tartária que foi visitado por um par de Moollahs proselitistas. O primeiro Moollah disse: "Oh! Khan, adore o meu Deus. Ele é tão sábio que fez todas as coisas." Mas o Moollah N.º 2 ganhou o dia apontando que o seu Deus é "tão sábio que faz com que todas as coisas se façam a si mesmas.") Tudo o que disse sobre o livrinho (154/2. As seis "Palestras aos Trabalhadores", publicadas em seis panfletos e em forma de livro em 1863. O Sr. Huxley considerou que o argumento do Sr. Darwin exigia a produção pela seleção do homem de raças que fossem mutuamente inférteis, e assim se assemelhassem a espécies distintas tanto fisiológica como morfologicamente.) é estritamente a minha opinião; é em todos os aspetos excelente, e não pode deixar de fazer bem quanto mais ampla for a sua circulação. Se vale a pena dedicar-lhe tempo é outra questão que só a si cabe decidir; que fará bem ao assunto é algo que está fora de qualquer questão. Não penso que exista algum estúpido que não o pudesse entender, e essa é uma afirmação ousada depois da medida em que fui mal compreendido. Não entendi o que exigia sobre a esterilidade: certamente os fatos fornecidos não vão quase nada longe. Divergimos tanto que não vale a pena discutir. Obter o grau de esterilidade que espera em variedades formadas recentemente parece-me simplesmente desesperador. Parece-me quase como aqueles naturalistas que declaram que nunca acreditarão que uma espécie se transforma noutra até verem cada estágio no processo.
Ouvi de Tegetmeier, e dei-lhe o resultado dos meus cruzamentos das aves que ele propõe tentar, e disse-lhe como penso que a experiência poderia ser tentada com a mais ténue esperança de sucesso — nomeadamente, obter, se possível, um caso de duas aves que, quando emparelhadas, eram improdutivas, contudo nenhuma delas era impotente. Por exemplo, tive esta manhã uma carta com um caso de uma novilha Hereford, que parecia ser, após repetidas tentativas, estéril com um touro em particular e longe de ser impotente, mas não com outro touro. Mas é uma história muito longa — é tentar fazer duas linhagens, ambas férteis, e contudo estéreis quando uma de uma linhagem é cruzada com uma da outra. Mas a dificuldade... estaria além do cálculo. Até onde vejo, o plano de Tegetmeier testaria simplesmente se duas raças existentes são agora em qualquer grau ligeiro estéreis; o que já foi largamente testado: não que eu conteste o benefício de retestar.
CARTA 155. PARA HUGH FALCONER.
(155/1. A carta original está datada de "10 de dezembro", mas isto deve, pensamos nós, ser um lapso de escrita para 10 de janeiro. Contém uma referência ao N.º VI. das "Palestras aos Trabalhadores" que, como o Sr. Leonard Huxley tem a gentileza de nos informar, não foi proferida até 15 de dezembro, e portanto não poderia ter sido vista pelo Sr. Darwin em 10 de dezembro. A mudança de data torna compreensível a referência ao artigo de Falconer "Sobre o Elefante Fóssil Americano das Regiões limítrofes do Golfo do México (E. Columbi, Falc.)", que apareceu no número de janeiro da "Natural History Review". É verdade que ele tinha visto provas de impressão do artigo de Falconer ("Life and Letters", II., página 389), mas a referência aqui é ao artigo completo.
Neste volume, pensámos ser correto dar alguma expressão à atitude de Darwin para com Owen. O biógrafo do Professor Owen sentiu claramente a dificuldade de fazer uma declaração sobre a atitude de Owen para com o Darwinismo, e foi ("Life of Sir Richard Owen", Volume II., página 92) levado a adotar a severa acusação contida na "Origin of Species", Edição VI., página xviii. Darwin não estava de forma alguma sozinho na sua desconfiança de Owen; e omitir completamente uma referência à conduta que levou ao isolamento de Owen entre os seus antigos amigos e colegas seria omitir uma parte da história da ciência da época. E como não podemos deixar de notar o ponto de vista de Darwin, parece correto dar os fatos de um caso típico ilustrando o sentimento com que ele considerava Owen. Isto é tanto mais necessário quanto a biografia recentemente publicada de Sir R. Owen não dá qualquer indício, tanto quanto sabemos, de sequer uma diferença de opinião com outros homens científicos.
O relato que Falconer dá no artigo acima mencionado na "Nat. Hist. Review" (janeiro de 1863) seria divertido se o assunto fosse menos sério. Em 1857 Falconer descreveu ("Quart. Journ. Geol. Soc." XIII.) uma nova espécie de elefante fóssil da América, à qual deu o nome Elephas Columbi, uma designação que foi reconhecida e adotada por escritores Continentais. Em 1858 (Brit. Assoc. Leeds) Owen fez uso do nome "Elephas texianus, Blake" para a espécie que Falconer tinha anteriormente nomeado E. Columbi, mas sem se referir à determinação de Falconer; não deu qualquer autoridade, "produzindo-o assim, pelo uso estabelecido em zoologia, como seu". Em 1861 Owen na sua Paleontologia, 2.ª edição, 1861, descreve o elefante como E. texianus, Blake. Ao nome do Sr. Blake é acrescentado um asterisco que se refere a uma nota de rodapé nas "Antiquities of S. America" de Bollaert, 2.ª edição. Segundo Falconer (página 46) nenhuma segunda edição de Bollaert tinha aparecido na altura da escrita (agosto de 1862), e na primeira edição (1860) ele foi "incapaz de detetar a ocorrência do nome sequer, de E. texianus, em qualquer parte do volume"; embora Bollaert mencione o fato de ter depositado, no Museu Britânico, o dente de um elefante fóssil do Texas.
Em novembro de 1861, Blake escreveu um artigo no "Geologist" no qual o novo elefante já não ostenta o seu próprio nome como autoridade, mas é descrito como "Elephas texianus, Owen, E. Columbi, Falconer". Finalmente, noutro artigo o nome de Owen é abandonado e o elefante é mais uma vez seu. Como Falconer observa, "o uso da ciência não apoia tais arranjos acomodativos, quando o resultado é prejudicar um direito anterior".
Pode dizer-se, sem dúvida, que a questão de quem descreveu primeiro uma determinada espécie é mesquinha; mas este ponto de vista tem um gume duplo, e aplica-se mais fortemente àqueles que negligenciam as justas reivindicações dos seus predecessores.)
Down, 5 de janeiro [1863].
Terminei o seu artigo sobre o Elefante ontem à noite, e deve permitir-me expressar a minha admiração por ele. (155/2. "On the American Fossil Elephant of the Regions bordering the Gulf of Mexico (E. Columbi, Falc.), etc." "Nat. Hist. Rev." 1863, página 81. (Cf. Carta a Lyell. "Life and Letters," II., página 389; também "Origin," Edição VI., página 306.) Ver Carta 143.) Todos os pontos parecem-me admiravelmente elaborados, e muitíssimos extremamente interessantes. Fiquei particularmente impressionado com as suas observações sobre o caráter da antiga Fauna Mamífera da América do Norte (155/3. Falconer, página 62. Esta passagem está marcada no exemplar de Darwin.); concorda com tudo o que eu imaginava ser o caso, nomeadamente uma irrupção temporária de formas sul-americanas na América do Norte, e inversamente, ri-me um pouco com o espécime de M. Andium "hesitando" entre os dois grupos. (155/4. Ao falar das características do Mastodon Andium, Falconer refere-se a um artigo anterior seu ("Quart. Journ. Geol. Soc." Volume XIII. 1857, página 313), no qual chamou a atenção "para o caráter excecional de certos espécimes de M. Andium, como se estivessem a hesitar entre [os grupos] Tetralophodon e Trilophodon" (ibid., página 100).) Fui assegurado pelo Sr. Wallace de que abundantes vestígios de Mastodonte foram encontrados em Timor, e isso é bastante perto da Austrália. Alegro-me por ter destruído esse caso. (155/5. No artigo na "Nat. Hist. Review" (loc. cit.) Falconer escreve: "Parece mais provável que algum erro não intencional se tenha misturado com a história deste fóssil notável; e até que sejam apresentadas outras provas confirmatórias, de caráter irrepreensível, não se pode depositar fé na realidade do suposto Mastodonte australiano" (página 101).) É, de facto, um grande artigo. Não direi mais nada sobre as suas alusões a mim, exceto que me agradaram tanto impresso quanto em manuscrito. Deve ter trabalhado arduamente; o esforço deve ter sido extremo, mas espero sinceramente que tenha saúde e força para continuar. Rir-se-ia se pudesse ver o quão indignado toda a conduta mesquinha de Owen sobre o E. Columbi me deixou. (155/6. Ver Carta 157.) Não consegui adormecer até depois das 3 horas. Como o açoita bem, firme e severamente, com um temperamento imperturbável, como se estivesse a cumprir um dever simples. O caso chegou a tal ponto que penso que todo o homem de ciência é obrigado a mostrar os seus sentimentos através de algum ato ostensivo, e estarei atento a uma oportunidade adequada.
P.S.--Retive por um dia o anexo devido à chegada da sua carta interessantíssima. Sabia que era uma mera hipótese se poderia informar-me sobre os pontos solicitados; mas nenhuma outra pessoa respondeu tão frequentemente às minhas consultas diversas. Acredito que tenho agora na minha estufa L. trigynum (155/7. Linum trigynum.), que nasceu de sementes compradas como L. flavum, do qual é totalmente diferente na folhagem. Acabei de enviar um artigo sobre o Dimorfismo do Linum à Sociedade Linneana (155/8. "On the Existence of the Forms, and on their reciprocal Sexual Relation, in several species of the genus Linum.--"Journ. Linn. Soc." Volume VII., página 69, 1864.), e por isso não duvido que a sua memória esteja correta sobre o L. trigynum: a diferença funcional nas duas formas de Linum é realmente maravilhosa. Asseguro-lhe que desejo imensamente vê-lo a si e a alguns outros em Londres; não é tanto o eczema que me retirou a epiderme uma dúzia de vezes completamente; mas tenho estado esgotado ultimamente com uma facilidade extraordinária, e quando poderei ir, não sei. Desejo particularmente ouvir sobre o pássaro maravilhoso: o caso encantou-me, porque nenhum grupo é tão isolado como o das Aves. Desejo muito saber, quando nos encontrarmos, quais os dígitos que estão desenvolvidos; ao examinar aves há dois ou três anos, lembro-me distintamente de escrever a Lyell que algum dia um pássaro fóssil seria encontrado com a extremidade da asa fendida, isto é, a asa bastarda e a outra parte, ambas bem desenvolvidas. Obrigado pelo Von Martius, devolvido por este correio, que fiquei contente por ver. O pobre velho Wagner (Provavelmente Johann Andreas Wagner, autor de "Zur Feststellung des Artbegriffes, mit besonderer Bezugnahme auf die Ansichten von Nathusius, Darwin, Is. Geoffroy and Agassiz," "Munchen Sitzungsb." (1861), página 301, e de numerosos artigos sobre assuntos zoológicos e paleozoológicos.) atacava-me sempre com um espírito adequado, e enviou-me dois ou três pequenos folhetos, e agradeci-lhe cordialmente. Os alemães parecem muito agitados sobre o assunto. Recebi pelo mesmo correio quase um pequeno volume sobre a "Origem".
Não consigo trabalhar mais de um par de horas diariamente, e isto estraga-me tudo.
P.S. 2º.--Trabalhei como um escravo e fui frustrado como um escravo ao tentar compreender o significado de dois conjuntos muito diferentes de estames em algumas Melastomaceae. (155/9. Várias cartas sobre as Melastomaceae ocorrem na nossa secção Botânica.) Devo contar-lhe um facto. Contei 9.000 sementes, uma a uma, das minhas vagens fertilizadas artificialmente. Há algo muito estranho, mas até agora fui derrotado. As plantas de dois pólenes crescem a ritmos diferentes! Agora, o que quero saber é, se em indivíduos da mesma espécie, crescendo juntos, já notou alguma diferença na posição do pistilo ou no tamanho e cor dos estames?
CARTA 156. PARA T.H. HUXLEY. Down, 18 de dezembro [1862].
Li os N.º IV. e V. (156/1. "On our Knowledge of the Causes of the Phenomena of Organic Nature," sendo seis Palestras para Trabalhadores proferidas no Museu de Geologia Prática pelo Prof. Huxley, 1863. Estas palestras, que foram dadas uma vez por semana a partir de 10 de novembro de 1862, foram impressas a partir das notas do Sr. J.A. Mays, um taquígrafo, que pediu permissão para as publicar por sua própria conta; o Sr. Huxley declarou num "Aviso" prefacial que não teve tempo para rever as palestras.) São simplesmente perfeitos. Deveriam ser amplamente anunciados; mas é muito bom da minha parte dizer isto, pois atirei o N.º IV. com esta reflexão: "Qual é o proveito de escrever um livro estrondosamente grande, quando tudo está neste livrinho verde, tão desprezível pelo seu tamanho?" Em nome de tudo o que é bom e mau, mais vale fechar a loja de vez. Coloca de forma magnífica e da maneira mais simples e clara a relação dos animais e plantas entre si na página 122.
Tenha cuidado com os Fantails: as penas da cauda estão fixas numa posição radiante, mas eles podem baixá-las e elevá-las. Lembro-me de num livro sobre pombos ver um desprezo fulminante expresso contra algum naturalista por não saber este ponto importante! A página 111 (156/2. A referência é aos pequenos livros de papel verde originais em que as palestras apareceram pela primeira vez; a paginação no volume encadernado datado de 1863 é ligeiramente diferente. A passagem aqui é, "...Se cruzar um híbrido macho e fêmea... o resultado é que em noventa e nove casos em cem não obterá descendência alguma." Darwin sustenta noutro lugar que Huxley, por não conhecer as provas botânicas, deu demasiada importância a este ponto. Ver "Life and Letters," II., página 384.) parece um pouco demasiado forte — a saber, noventa e nove em cem, a menos que se excluam as plantas.
Página 118: Diz que a resposta para as variedades quando cruzadas serem de algum modo estéreis é "absolutamente negativa". (156/3. Huxley, página 112: "Podemos encontrar alguma aproximação a isto [esterilidade de híbridos] nas diferentes raças conhecidas por serem produzidas pela criação seletiva a partir de um stock comum? Até ao presente momento a resposta a essa questão é absolutamente negativa.") Quer dizer que Gartner mentiu, após centenas de experiências (e sendo ele uma testemunha hostil), quando mostrou que este era o caso com o Verbascum e com o milho (e aqui tem raças selecionadas): Kolreuter mente quando fala sobre as variedades de tabaco? Meu Deus, não será o caso suficientemente difícil, sem ser, como devo pensar, falsamente tornado mais difícil? Acredito que a culpa é minha — da minha maldita franqueza: deveria ter feito dez vezes mais barulho sobre estas experiências tão cuidadosas. Coloquei-o mais forte na terceira edição da "Origem". Se tiver uma nova edição, considere a sua segunda secção geológica: não contesto a verdade da sua afirmação; mas mantenho que em quase todos os casos o cascalho graduaria para o lodo; que não haveria uma linha dura e reta entre a massa de cascalho e o lodo; que o cascalho, ao arrastar-se para o interior, seria separado das camadas subjacentes por linhas oblíquas de estratificação. Uma bela ideia da dificuldade da Geologia a sua secção daria a um trabalhador! Mostre a sua secção a Ramsay, e diga-lhe o que eu digo; e se ele achar que é uma secção justa para um principiante, fico calado, e "manterei a minha língua para sempre". Boa noite.
CARTA 157. PARA T.H. HUXLEY. Down, [janeiro] 10 [1863].
Estará cansado das notas minhas sobre o seu livrinho. É uma sorte para mim que tenha expressado, antes de ler o N.º VI. (157/1. "Lectures to Working Men," N.º VI., é um exame crítico da posição da "Origem das Espécies" em relação à teoria completa das "causas dos fenómenos da natureza orgânica."), a minha opinião sobre a sua excelência absoluta, e sobre ser digno de ampla distribuição e de correção (não que veja onde poderia melhorar), se achasse que valia o seu tempo valioso. Se tivesse lido o N.º VI., até um rudimento de modéstia teria, ou deveria ter, impedido-me de dizer tanto. Embora tenha sido bem abusado, contudo, recebi tantos elogios que me tornei um guloso, tanto em capacidade como em gosto; e realmente não pensei que um homem mortal pudesse ter feito cócegas no meu paladar da maneira requintada com que fez o trabalho. Portanto, sou um velho asno, e nada mais precisa ser dito sobre isto. Concordo inteiramente com todas as suas reservas sobre a aceitação da doutrina, e poderia ter ido mais longe com mais segurança e verdade. Naturalmente, não concordo totalmente sobre a esterilidade. Odeio acima de todas as coisas encontrar-me em desacordo com qualquer juiz capaz, quando as premissas são as mesmas; e, no entanto, isto acontecerá ocasionalmente. Pensando na minha carta anterior para si, imaginei (mas agora duvido) que tinha descoberto parcialmente a causa do nosso desacordo, e atribuí-a ao facto de pensar naturalmente mais nos animais, com os quais a esterilidade dos híbridos é muito mais conspícua do que a fertilidade diminuída do primeiro cruzamento. De facto, isto dificilmente poderia ser verificado com mamíferos, exceto comparando os produtos de toda a [sua] vida; e, tanto quanto sei, isto só foi verificado no caso do cavalo e do burro, que produzem menos descendência durante a [sua] vida do que na criação pura. Nas plantas, o teste do primeiro cruzamento parece tão justo quanto o teste da esterilidade dos híbridos. E este último teste aplica-se, manterei até à morte, ao cruzamento de variedades de Verbascum, e variedades, variedades selecionadas, de Zea. (157/2. Ver Carta 156.) Dirá: Vá para o Diabo e cale a boca. Não, não calarei a boca; pois devo acrescentar que, após passar, para o meu presente livro, por todos os animais domésticos, cheguei à conclusão de que existem quase certamente vários casos de duas ou três ou mais espécies misturadas e agora perfeitamente férteis entre si. Daí concluo que deve haver algo na domesticação — talvez as condições menos estáveis, a própria causa que induz tanta variabilidade — que elimina a esterilidade natural das espécies quando cruzadas. Se assim for, podemos ver quão improvável é que a esterilidade surja entre raças domésticas. Agora calarei a boca. Página 143: não deveria "Sânscrito" ser "Ariano"? Que número capital é a última "Natural History Review"! Esse é um grande artigo de Falconer. Não posso dizer quão indignado a conduta de Owen sobre o E. Columbi me deixou. Acredito que o odeio mais do que o senhor, talvez até mais do que o bom e velho Falconer. Mas transbordei para um ou dois correspondentes sobre este assunto, e não direi mais nada. Enviei a Lubbock uma pequena crítica ao artigo de Bates nas "Linn. Transact." (157/3. A crítica não assinada do trabalho do Sr. Bates sobre borboletas miméticas apareceu na "Nat. Hist. Review" (1863), página 219.) que L. parece achar que servirá para a sua "Review". Inaugure uma grande melhoria, e tenha as páginas cortadas, como fazem os Ianques; derramarei bênçãos sobre a sua cabeça. Não perca o seu tempo a responder a isto.
CARTA 158. PARA JOHN LUBBOCK [LORD AVEBURY]. Down, 23 de janeiro [1863].
Não tenho críticas, exceto uma frase não perfeitamente fluida. Acho as suas observações introdutórias muito marcantes, interessantes e novas. (158/1. "On the Development of Chloeon (Ephemera) dimidiatum, Part I. By John Lubbock. "Trans. Linn. Soc." Volume XXIV., páginas 61-78, 1864 [Lido a 15 de janeiro de 1863].) Interessaram-me tanto mais porque os pensamentos mais vagos do mesmo tipo tinham passado pela minha cabeça; mas não fazia ideia de que pudessem ser tão bem desenvolvidos, nem sabia de exceções. Sitaris e Meloe (158/2. Sitaris e Meloe, dois géneros de insetos coleópteros, são referidos por Lubbock (op. cit., páginas 63-64) como "talvez... os casos mais notáveis... entre os Coleoptera" de metamorfoses curiosas e complicadas.) parecem muito bons. Colocou todo o caso da metamorfose sob uma nova luz; arrisco-me a dizer que o que observa sobre a pobreza da água doce é muito verdadeiro. (158/3. "Não podemos deixar de ficar impressionados com a pobreza da fauna de água doce quando comparada com a do oceano" (op. cit., página 64).) Acho que poderia escrever um memorando sobre produções de água doce. Sugiro que a nota-chave é que as produções terrestres são superiores e têm vantagem em geral sobre as marinhas; e consequentemente as produções terrestres foram geralmente modificadas em produções de água doce, em vez de as produções marinhas serem diretamente transformadas em produções de água doce, como à primeira vista parece mais provável, uma vez que a possibilidade de imigração está sempre aberta do mar para rios e lagoas.
A minha conversa consigo fez-me muito bem, e desfrutei-a imenso.
CARTA 159. PARA J.D. HOOKER. Down, 13 de janeiro [1863].
Envio uma resposta muito imperfeita à [sua] pergunta, que escrevi em papel estrangeiro para o poupar de copiar, e pode enviar quando escrever a Thomson em Calcutá. Futuramente poderei responder melhor à sua pergunta sobre as qualidades induzidas nos indivíduos serem herdadas; gota no homem — perda de lã em ovelhas (que começa na primeira geração e leva duas ou três a completar); provavelmente obesidade (pois é rara nos pobres); provavelmente obesidade e maturidade precoce no gado de chifres curtos, etc., etc.
CARTA 160. PARA A. DE CANDOLLE. Down, 14 de janeiro [1863].
Agradeço-lhe sinceramente por me ter enviado o seu Memorando. (160/1. Etude sur l'Espece a l'occasion d'une revision de la Famille des Cupuliferes. "Biblioth. Univ. (Arch. des Sc. Phys. et Nat.)," Novembro 1862.) Li-o com o mais vivo interesse, como é natural para mim; mas tem a arte de tornar os assuntos, que poderiam ser secos, fáceis de ler. Fiquei verdadeiramente surpreendido com a quantidade de variabilidade individual nos carvalhos. Nunca vi antes o assunto em qualquer departamento da natureza trabalhado tão cuidadosamente. Que trabalho deve ter-lhe custado! Falou numa carta de anos avançados; mas tenho a certeza de que ninguém teria suspeitado que sentia isto. Interessou-me cada parte; embora seja tão desafortunado a ponto de discordar da maioria dos meus contemporâneos ao pensar que as vastas extensões continentais (160/2. Ver Cartas 47, 48.) de Forbes, Heer, e outros não são apenas avançadas sem provas suficientes, mas são opostas a muitas provas de peso. Refere-se ao meu trabalho com o espírito mais bondoso e generoso. Estou plenamente satisfeito com a extensão da crença a que chega, e não estou nada surpreendido com as reservas prudentes que faz. Lembro-me bem de quantos anos me custou a voltar das velhas crenças. É encorajador observar que todos os que deram um centímetro comigo, após um período dão mais alguns centímetros ou até pés. Mas o ponto principal, ao que me parece, é desistir da imutabilidade das formas específicas; enquanto forem consideradas imutáveis, não pode haver progresso real na "Epiontologia". (160/3. Ver De Candolle, loc. cit., página 67: ele define "Epiontologie" como o estudo da distribuição e sucessão dos seres organizados desde a sua origem até ao presente. Atualmente a Epiontologia está dividida em geografia e paleontologia, "mas esta divisão demasiado desigual e com limites muito vagos desaparecerá provavelmente.") Importa muito pouco a alguém exceto a mim mesmo, se estou um pouco mais ou menos errado neste ou naquele ponto; de facto, tenho a certeza de ser provado errado em muitos pontos. Mas o assunto terá, estou convencido, um futuro grandioso. Considerando que as aves são o grupo mais isolado no reino animal, que caso esplêndido é esta criatura-pássaro de Solenhofen com a sua cauda longa e dedos nas suas asas! Ultimamente tenho usado e citado diariamente e horariamente a sua "Geographical Botany" no meu livro sobre "Variation under Domestication."
CARTA 161. PARA HORACE DOBELL. Down, 16 de fevereiro [1863].
A ausência de casa e a consequente ociosidade são as causas de não lhe ter agradecido antes pelo seu muito gentil presente das suas Palestras. (161/1. "On the Germs and Vestiges of Disease," (Londres) 1861.) O seu raciocínio parece bastante satisfatório (embora o assunto esteja um pouco além do meu limite de pensamento e conhecimento) sobre a V.M.F. não ser "uma quantidade dada". (161/2. "Tem sido demasiado comum considerar a força exibida nas operações da vida (a V.M.F.) como uma quantidade dada, à qual não se podem fazer acréscimos, mas que é distribuída a cada ser vivo em quantidade suficiente para as suas necessidades, de acordo com alguma lei oculta" (op. cit., página 41.) E posso ver que as condições de vida devem desempenhar um papel muito importante em permitir que esta quantidade aumente, como no brotamento de uma árvore, etc. Até que ponto estas condições agem sobre "as formas da vida orgânica" (página 46) não vejo claramente. De facto, nenhuma parte do meu assunto me deixou tão completamente perplexo como determinar que efeito atribuir (ao que chamo vagamente) a ação direta das condições de vida. Chegarei a este assunto em breve, e devo esforçar-me por chegar a alguma conclusão quando tiver a massa de factos recolhidos em alguma ordem na minha mente. A minha impressão atual é que subestimei esta ação na "Origem". Não tenho dúvidas de que quando percorrer o seu volume encontrarei outros pontos de interesse e valor para mim. Já tropecei num caso (sobre o qual quero consultar o Sr. Paget) — nomeadamente, sobre o recrescimento de dígitos supranumerários. (161/3. Ver Cartas 178, 270.) Refere-se a "White on Regeneration, etc., 1785." Fui às bibliotecas das Sociedades Real e Linneana, e ao Museu Britânico, onde os bibliotecários tiraram o seu volume e fizeram uma busca especial, e não puderam descobrir vestígio de tal livro. Conceder-me-á o favor de me dar qualquer pista, onde eu poderia ver o livro? Tem-no? se sim, e o caso for dado brevemente, teria a grande bondade de o copiar? Desejo muito saber todos os pormenores. Um caso foi-me dado, mas com detalhes dificilmente minuciosos, de um dedo mindinho supranumerário que já foi cortado duas vezes, e agora a operação terá em breve de ser feita pela terceira vez. Estou extremamente obrigado pela tabela genealógica; o facto de os dois primos não, tanto quanto parece, transmitirem a peculiaridade é extraordinário, e deve ser dado por mim.
CARTA 162. PARA C. LYELL. [17 de fevereiro de 1863.]
A mesma correspondência que trouxe a carta inclusa, trouxe o panfleto de Dana sobre o mesmo assunto. (162/1. O panfleto referido foi publicado no "Silliman's Journal", Volume XXV, 1863, páginas 65 e 71, também nos "Annals and Magazine of Natural History", Volume XI, páginas 207-14, 1863: "On the Higher Subdivisions in the Classification of Mammals" [Sobre as subdivisões superiores na classificação dos mamíferos]. Neste artigo, Dana mantém a opinião de que "o direito do Homem a uma posição por si só, separado dos outros mamíferos na classificação, parece estar fixado tanto em fundamentos estruturais quanto físicos" (página 210). Sua descrição é a seguinte:--
I. ARCHONTIA (vel DIPODA) Homem (sozinho).
II. MEGASTHENA. III. MICROSTHENA. Quadrumana. Cheiroptera. Carnivora. Insectivora. Herbivora. Rodentia. Mutilata. Bruta (Edentata).
IV. OOTICOIDEA. Marsupialia. Monotremata.)
O todo parece-me completamente descabido. Se não houvesse o desejo preestabelecido de separar o homem, nunca poderei acreditar que Dana ou qualquer outra pessoa se tivesse baseado numa distinção tão pequena como o facto de o homem adulto não usar os membros anteriores para a locomoção, vendo que os macacos usam os seus membros em todos os outros aspectos para o mesmo fim que o homem. Aplicar princípios análogos (pois não são idênticos; nos crustáceos, os membros cefálicos são trazidos para perto da boca) desde os crustáceos até à classificação dos mamíferos parece-me loucura. Quem sonharia em fazer uma distinção fundamental nas aves, pelo facto de os membros anteriores não serem usados de todo em [algumas] aves, ou serem usados como barbatanas no pinguim, e para o voo noutras aves?
Avanço lentamente com o seu grandioso trabalho, pois estou sobrecarregado com uma série de coisas e cartas.
CARTA 163. PARA J.D. HOOKER.
(163/1. O excerto seguinte refere-se ao artigo de Owen no "Linn. Soc. Journal", junho de 1857, no qual foi proposta a classificação dos Mammalia por caracteres cerebrais. Apesar do facto de o homem e os símios serem colocados em Subclasses distintas, Owen fala (na nota de rodapé que Huxley utilizou com tanto efeito) da determinação da diferença entre Homo e Pithecus como a dificuldade do anatomista. (Ver Carta 119.))
5 de julho de 1857.
Que excelente número do "Linnean Journal!" O de Owen é um artigo grandioso; mas não consigo engolir o Homem a fazer uma divisão tão distinta de um chimpanzé como um Ornithorhynchus de um cavalo; pergunto-me o que um chimpanzé diria a isto? (163/2. Segundo Owen, a subclasse Archencephala contém apenas o género Homo: a Gyrencephala contém tanto o chimpanzé como o cavalo, a Lyencephala contém o Ornithorhynchus.)
CARTA 164. PARA T.H. HUXLEY. Down [26 de fevereiro?] de 1863.
Acabei de ler com muito grande interesse "Man's Place" [O Lugar do Homem]. (164/1. "Evidence as to Man's Place in Nature", 1863 (prefácio datado de janeiro de 1863).) Nunca deixo de admirar a clareza e o vigor condensado do seu estilo, como se costuma dizer, mas na verdade do seu pensamento. Não tenho críticas; nem é provável que pudesse ter. Mas penso que poderia ter acrescentado alguma matéria interessante sobre o caráter ou disposição dos jovens orangotangos que foram mantidos na França e na Inglaterra. Teria pensado que poderia ter alargado um pouco as mudanças embriológicas tardias no homem e na sua estrutura rudimentar, a cauda em comparação com a cauda dos macacos superiores, o osso intermaxilar, as costelas falsas, e atrevo-me a dizer outros pontos, tais como os músculos das orelhas, etc., etc. Fiquei muito impressionado com admiração nas páginas de abertura da Parte II. (e oh! que sarcasmo delicioso, tão bom como uma sobremesa, na página 106) (164/2. Huxley, op. cit., página 106. Depois de dizer que "há apenas uma hipótese relativa à origem das espécies de animais em geral que tem qualquer existência científica - aquela proposta pelo Sr. Darwin", e após algumas palavras sobre Lamarck, ele continua: "E embora eu tenha ouvido falar do anúncio de uma fórmula respeitante ao 'devir contínuo ordenado das formas orgânicas', é óbvio que o primeiro dever de uma hipótese é ser inteligível, e que uma proposição qua-qua-versal deste tipo, que pode ser lida de trás para a frente ou de frente para trás, ou de lado, com exatamente a mesma quantidade de significado, não existe realmente, embora possa parecer existir." A "fórmula" em questão é a de Owen.): mas a minha admiração é ilimitada nas páginas 109 a 112. Declaro que nunca na minha vida li nada mais grandioso. O próprio Bacon não poderia ter carregado alguns parágrafos com um sentido mais condensado e cortante do que o senhor fez. É verdadeiramente grandioso. Lamento imensamente que não tenha podido, ou não tenha querido, terminar o seu livro (não que eu pretenda dizer uma palavra contra a História Geológica) com estas páginas. Com um livro, tal como com um dia bonito, gosta-se que termine com um pôr do sol glorioso. Felicito-o pela sua publicação; mas não fique desapontado se não vender muito: partes são altamente científicas, e já notei muitas vezes que os melhores livros frequentemente não são apreciados rapidamente: certamente que uma grande venda não é prova do mais alto mérito. Mas espero que possa ser amplamente distribuído; e alegro-me ao ver na sua nota à Srta. Rhadamanthus (164/3. Isto refere-se à filha do Sr. Darwin (agora Sra. Litchfield), de quem o Sr. Huxley costumava rir-se devido à severidade das suas críticas.) que um segundo milhar é solicitado para o pequeno livro. Que carta é aquela do Owen no "Athenaeum" (164/4. Uma carta de Owen no "Athenaeum", 21 de fevereiro de 1863, respondendo a críticas sobre o seu tratamento da questão do cérebro, que tinham aparecido na obra "Antiquity of Man" de Lyell.); quão habilmente ele baralhará e confundirá completamente o público. De fato, ele baralhou-me completamente, até que reli a sua "declaração concisa" (164/5. Isto refere-se a uma secção (páginas 113-18) em "Man's Place in Nature", intitulada "A succinct History of the Controversy respecting the Cerebral Structure of Man and the Apes" [Uma história sucinta da controvérsia relativa à estrutura cerebral do homem e dos macacos]. Huxley segue a questão desde a tentativa de Owen de classificar os mamíferos por caracteres cerebrais, publicada pela "Linn. Soc." em 1857, até à sua reanimação do assunto na reunião de Cambridge da Associação Britânica em 1862. É uma tremenda acusação contra Owen, e parece-nos concluir não inadequadamente com uma citação do artigo de Huxley no "Medical Times", 11 de outubro de 1862. Huxley salienta aqui que investigações especiais foram feitas sobre a questão em causa "durante os últimos dois anos" por Allen Thomson, Rolleston, Marshall, Flower, Schroeder van der Kolk e Vrolik, e que "todos estes observadores capazes e conscienciosos" testemunharam a exatidão das suas declarações, "enquanto nenhum anatomista, grande ou pequeno, apoiou o Professor Owen." Ele resume o caso mais uma vez, e conclui: "A questão tornou-se, portanto, uma questão de veracidade pessoal. Quanto a mim, não aceitarei outra conclusão senão esta, grave como é, para a presente controvérsia.") (que é capitalmente clara), e então vi que a minha suspeita era verdadeira, que ele mudou inteiramente o seu terreno para o tamanho do Cérebro. Quão cândido ele se mostra ao ter tomado o Cérebro escorregado! (164/6. Owen no "Athenaeum", 21 de fevereiro de 1863, admite que no cérebro que usou como ilustração das suas afirmações "os hemisférios cerebrais tinham deslizado para a frente e separado atrás, de modo a expor uma porção do cerebelo.") Estou intensamente curioso para ver se Lyell responderá. (164/7. A resposta de Lyell foi no "Athenaeum" de 7 de março de 1863.) Lyell foi, temo, um pouco imprudente ao entrar num assunto sobre o qual ele, naturalmente, nada sabe por si próprio. Pelos céus, Owen vai sacudir-se todo quando vir que antagonista ele criou para si próprio em si. Com admiração sincera, Adeus.
Estou terrivelmente desapontado com a cautela excessiva de Lyell (164/8. Na "Antiquity of Man": ver "Life and Letters", III, página 8.) ao expressar qualquer juízo sobre Espécies ou [sobre a] origem do Homem.
CARTA 165. PARA JOHN SCOTT. Down, 6 de março de 1863.
Agradeço-lhe as suas críticas sobre a "Origin" [Origem], que não tenho tempo para discutir; mas não posso deixar de duvidar, pela sua expressão de um "princípio seletivo... INATO", se compreende totalmente o que se entende por Seleção Natural. Certamente, quando fala de formas mais fracas (isto é, menos bem adaptadas) cruzando-se com as mais fortes, tem uma visão amplamente diferente da minha sobre a luta pela existência; pois tais formas mais fracas não poderiam existir exceto pela mais rara das chances. No que diz respeito à utilidade, reflita que 99/100 da estrutura de cada ser deve-se à herança de estruturas anteriormente úteis. Reze para ler o que disse sobre "correlação". As orquídeas deviam mostrar-nos quão ignorantes somos sobre o que é útil. Sem dúvida, centenas de casos poderiam ser apresentados para os quais não se poderia oferecer nenhuma explicação; mas tenho de parar. A sua carta interessou-me muito. Estou muito longe de estar forte, e tenho grande medo de ter de parar todo o trabalho por um par de meses para descanso total, e deixar casa. Será a ruína de todo o meu trabalho.
CARTA 166. PARA J.D. HOOKER. Down, 23 de abril [1863].
Quanto mais penso na carta de Falconer (166/1. Publicada no "Athenaeum" de 4 de abril de 1863, página 459. O autor afirma que Lyell não deixou claro que certo material utilizado na "Antiquity of Man" foi fornecido pelo trabalho original do Sr. Prestwich e dele próprio. (Ver "Life and Letters", III, página 19.)) mais entristecido fico; ele e Prestwich (este último pelo menos deve muito aos "Principles") assumem uma posição absurdamente injustificável com relação a Lyell. É demasiado mau tratar um velho herói da ciência desta forma. Posso ver por uma nota de Falconer (sobre um maravilhoso fóssil de mamífero brasileiro, bem chamado Meso- ou Typo-therium) que ele não espera simpatia da minha parte. Ele acabará, espero, por estar arrependido. Lyell expõe-se a uma bofetada ao dizer que viria mostrar as suas observações originais, e depois não o fazendo distintamente; teria sido melhor se ele tivesse apenas reivindicado, neste único ponto do homem, a verificação e a compilação.
No geral, gosto muito da carta de Lyell. Mas todas estas disputas farão cair muito os homens de ciência. Já vi um escárnio no "Times".
CARTA 167. PARA H.W. BATES. No Rev. C. Langton, Hartfield, Tunbridge Wells, 30 de abril [1863].
Já terá recebido antes disto a nota que enderecei a Leicester, depois de terminar o Volume I, e terá recebido cópias da minha pequena crítica (167/1. "Nat. Hist. Review", 1863, página 219. Uma crítica ao artigo de Bates sobre Borboletas Miméticas.) do seu artigo... Acabei agora o Volume II, e a minha opinião permanece a mesma - que escreveu uma obra verdadeiramente admirável (167/2. "The Naturalist on the Amazons", 1863.), com observações originais capitais, descrições de primeira classe, e tudo num estilo que não poderia ser melhorado. A minha família está agora a ler o livro, e admira-o extremamente; e, como a minha esposa nota, tem um ar tão forte de veracidade. Recebi uma carta de uma pessoa no outro dia, desconhecida para si, cheia de elogios ao livro. Espero muito que seja amplamente ouvido e circulado; mas até certo ponto isto, penso eu, depende sempre da sorte.
Suponho que o som de clique de surpresa feito pelo índio é aquele que a ponta da língua, aplicada ao palato da boca e subitamente retirada, faz?
Não escrevi desde que recebi a sua nota de 20 de abril, na qual confiou em mim e me contou as suas perspectivas. Desejo sinceramente que fossem melhores, e especialmente mais certas; mas com as suas capacidades e poderes de escrita será estranho se não conseguir acrescentar o pouco que necessita para o seu rendimento. Estou contente por ter conseguido uma situação retirada e semi-rural. Que final grandioso dá ao seu livro, contrastando a civilização e a vida selvagem! Lamento bastante ter terminado: todas as noites era um verdadeiro deleite para mim ter a minha meia hora na grandiosa floresta amazónica, e imaginar as suas descrições vívidas. Há montes de factos de valor para mim de um ponto de vista de história natural. Foi uma grande desgraça ter sido impedido de dar a discussão sobre espécies. Mas espero que seja capaz de dar as suas opiniões e factos noutro lugar.
CARTA 168. PARA J.D. HOOKER. Down, 15 de maio [1863].
A sua carta recebida esta manhã interessou-me mais do que até a maioria das suas cartas, e isso é dizer muito. Tenho de rabiscar um pouco sobre vários pontos. Sobre Lyell e as espécies - acredito mesmo que o senhor apresenta todo o caso quando diz que ele é "de meio coração e cabeça inteira". (168/1. A desilusão de Darwin com o ponto de vista cauteloso assumido por Lyell na "Antiquity of Man" é ilustrada em "Life and Letters", III, páginas 11, 13. Ver também a Carta 164, página 239.) Escrevi a A. Gray que, quando via homens como Lyell e ele recusarem-se a julgar, isso deixava-me em desespero, e que por vezes pensava que preferiria que Lyell tivesse julgado contra a modificação das espécies em vez de professar incapacidade de decidir; e deixei-o aplicar isto a si próprio. Estou sinceramente contente por ouvir que pretende tentar juntar L. e F. (168/2. Falconer afirmou que Lyell não tinha "feito justiça à parte que ele teve na ressuscitação da questão das cavernas." Ver "Life and Letters", III, página 14.) de novo; mas não seria melhor esperar até que eles estejam um pouco arrefecidos? Fará à Ciência um serviço verdadeiramente bom. Falconer nunca perdoou Lyell por ter tomado os ossos de Purbeck dele e entregá-los a Owen.
No que diz respeito às floras insulares, se compreendo corretamente, diferimos quase unicamente sobre como as plantas chegaram lá primeiro. Suponho que a longos intervalos, desde tão longe como os períodos Terciários tardios até ao tempo presente, as plantas chegaram ocasionalmente (em alguns casos, talvez, ajudadas por correntes diferentes das correntes existentes e por ilhas anteriores), e que estas chegadas antigas sobreviveram pouco modificadas nas ilhas, mas tornaram-se grandemente modificadas ou extinguiram-se no continente. Se compreendo, acredita que todas as ilhas foram anteriormente unidas aos continentes, e depois receberam todas as suas plantas e nenhuma desde então; e que nas ilhas elas sofreram menos extinção e modificação do que no continente. O número de formas animais nas ilhas, muito estreitamente aliadas àquelas nos continentes, com algumas extremamente distintas e anómalas, não me parece harmonizar-se bem com a sua suposta visão de todas terem chegado anteriormente ou, melhor, terem sido deixadas juntas na ilha.
CARTA 169. PARA ASA GRAY. Down, 31 de maio [1863?].
Fiquei muito contente por receber a sua crítica (169/1. A crítica sobre o trabalho de De Candolle sobre os Carvalhos (A. Gray's "Scientific Papers", I, página 130).) de De Candolle há uma semana. Parece-me excelente, e fala, penso eu, mais claramente a favor da derivação das espécies do que até agora, embora duvidosamente sobre a Seleção Natural. Conceda a primeira, e estou tranquilo quanto à segunda. Não considera casos como o de todas as orquídeas como algo próximo de uma demonstração contra a visão de Heer das espécies surgindo subitamente por monstruosidades? - é impossível imaginar tantas coadaptações sendo formadas todas por um golpe de sorte. Claro que os criacionistas cortariam o enigma.
CARTA 170. PARA T.H. HUXLEY. 27 de junho [1863?]
O que está a fazer agora? Nunca consegui deitar a mão à "Edinburgh Review", na qual ouço dizer que é bem insultado. A propósito, ouvi ultimamente de Asa Gray que Wyman estava encantado com "Man's Place". (170/1. "Evidence as to Man's Place in Nature", por T.H. Huxley, 1863.) Pergunto-me quem é que o ataca fracamente, mas virulentamente, na "Anthropological Review". Como Owen parece calmo! Começo finalmente a acreditar que ele cairá finalmente na estimativa pública. Que disparates ele escreveu no "Athenaeum" (170/2. "Athenaeum", 28 de março de 1863. Ver "Life and Letters", III, página 17.) sobre Heterogenia! Vi no seu artigo sobre o Aye-Aye (170/3. Ver Owen em "Trans. Zool. Soc." Volume V. A frase referida parece ser a seguinte (página 95): "Não conhecemos mudanças em curso na Ilha de Madagáscar, que necessitem de uma busca especial de larvas que furam madeira por pequenos quadrúpedes dos tipos de organização Lemurinos ou Sciurinos.") (penso eu) que ele escarnece da maneira como ele supõe que deveríamos explicar a estrutura dos seus membros; e pergunta como sabemos que certos insetos tinham aumentado nas florestas de Madagáscar. Não seria uma boa réplica perguntar-lhe como ele sabe que havia árvores de todo nas planícies sem árvores de La Plata para os seus Mylodons derrubarem? Mas tenho de parar, pois se começar sobre [ele] não haverá fim. Fiquei desapontado com a parte sobre espécies em Lyell. (170/4. Lyell's "Antiquity of Man". Ver "Life and Letters", III, página 11.) O senhor e Hooker são os únicos dois homens corajosos. Tive uma primavera e um verão maus, quase constantemente muito indisposto; mas estou a arrastar-me no meu livro sobre "Variation under Domestication" [Variação sob Domesticação].)
CARTA 171. PARA C. LYELL. Down, 14 de agosto [1863].
Viu as observações de Bentham sobre as espécies no seu discurso à Sociedade Lineana? (171/1. Discurso presidencial perante a Sociedade Lineana por G. Bentham ("Journ. Proc. Linn. Soc." Volume VII, página xi, 1864).) agradaram-me mais do que qualquer coisa que li há algum tempo. Não tenho notícias, pois não vi uma alma há meses, e tive uma primavera e um verão maus, mas consegui fazer um bom trabalho. Emma está a ameaçar levar-me para Malvern, e talvez seja forçado, mas é um desperdício horrível de tempo; o senhor deve ter apreciado o Norte do País de Gales, devia pensar, é para mim um país gloriosíssimo...
Se não leu o livro de Bates (171/2. Henry Walter Bates, "The Naturalist on the River Amazons", 2 volumes, Londres, 1863. Numa carta a Bates, 18 de abril de 1863, Darwin escreve: "É o melhor trabalho de viagens de história natural alguma vez publicado na Inglaterra" ("Life and Letters", II, página 381.), penso que o interessaria. Ele é o segundo apenas a Humboldt na descrição de uma floresta tropical. (171/3. Citado em "Life and Letters", II, página 381.). Falando de leitura, nunca recebi a "Edinburgh" (171/4. A "Geological Evidence of the Antiquity of Man", por Sir Charles Lyell, e trabalhos de outros autores revistos na "Edinburgh Review". Volume CXVIII, julho de 1863. O autor resume a sua crítica da seguinte forma: "Olhando para o trabalho de Sir Charles Lyell como um todo, deixa a impressão nas nossas mentes de que estivemos a ler uma tese académica engenhosa, em vez de um trabalho de demonstração por um escritor original... Não há argumento nele, e apenas alguns factos que não foram declarados noutro lugar pelo próprio Sir C. Lyell ou por outros" (loc. cit., página 294).), na qual, suponho, o senhor é cortado.
CARTA 172. PARA H. FALCONER. 26 de dezembro [1863].
Obrigado por me falar sobre o mamífero do Pliocénico, que é muito notável; mas não afirmou Owen que o texugo do Pliocénico é idêntico ao recente? Tal caso mostra de facto bem a duração estupenda da mesma forma. Não ouvi falar do panfleto de Suess (172/1. Provavelmente o artigo de Suess "Ueber die Verschiedenheit und die Aufeinanderfolge der tertiaren Land-faunen in der Niederung von Wien." "Sitz.-Ber. Wien Akad." XLVII, página 306, 1863.), e gostaria muito de saber o título, se puder ser obtido; mas estou em assuntos diferentes neste momento. Gostaria bastante de ver como altamente provável que o processo de formação de uma nova espécie fosse curto comparado com a sua duração - isto é, se o processo fosse permitido ser lento e longo; a ideia é nova para mim. A visão de Heer de que novas espécies são subitamente formadas como monstros, sinto uma convicção por muitas razões de que é falsa.
CAPÍTULO 1.IV.--EVOLUÇÃO, 1864-1869.
CARTA 173. PARA A.R. WALLACE. Down, 1 de janeiro de 1864.
Ainda não consigo escrever de outra forma que não seja por ditado. Em uma carta recebida há duas ou três semanas de Asa Gray, ele escreve: "Li ultimamente com gosto a exposição de Wallace sobre o homem de Dublin acerca das células das abelhas, etc." (173/1. "Observações sobre o artigo do Rev. S. Haughton sobre a Célula da Abelha e sobre a Origem das Espécies" ("Ann. and Mag. Nat. Hist." XII., 1863, página 303). O artigo do Prof. Haughton foi lido perante a Sociedade de História Natural de Dublin, em 21 de novembro de 1862, e reimpresso no "Ann. and Mag. Nat. Hist." XI., 1863, página 415. Ver Cartas 73, 74, 75.) Ora, embora eu não possa ler no momento, desejo muito saber onde isso foi publicado, para que eu possa obter uma cópia. Mais adiante, Asa Gray diz (após falar sobre o artigo de Agassiz sobre Glaciares na "Atlantic Magazine" e seu livro recente intitulado "Method of Study"): "Por favor, ponha Wallace a par desses artigos." Portanto, Asa Gray parece ter em alta conta suas capacidades de revisão, e menciono isso pois é, certamente, laudari a laudato. Espero que você esteja trabalhando muito, e se estiver disposto a me contar, gostaria muito de saber o que você está fazendo. Temo que se passarão muitos meses antes que eu faça qualquer coisa.
CARTA 174. PARA J.L.A. DE QUATREFAGES. Down, 27 de março [1864?].
Eu tinha ouvido dizer que seu trabalho seria traduzido, e ouvi isso com prazer; mas não posso compartilhar o crédito, pois não sou um membro ativo, apenas honorário da Sociedade. Desde que escrevi, terminei com extremo interesse até o fim seu admirável trabalho sobre metamorfose. (174/1. Provavelmente "Metamorfoses do Homem e dos Animais Inferiores". Traduzido por H. Lawson, 1864.) Quão bem você conhece os trabalhos dos naturalistas ingleses, e quão generosamente você os honra! O Sr. Lubbock é meu vizinho, e o conheço desde que ele era um menino pequeno; ele é, em todos os sentidos, um homem completamente bom; assim como meu amigo Huxley. Deu-me um prazer real vê-lo notar os trabalhos deles como você fez.
CARTA 175. PARA T.H. HUXLEY. Down, 11 de abril [1864].
Sou muito grato pelo presente de sua "Anat. Comp." (175/1. "Palestras sobre os Elementos de Anatomia Comparada", 1864.) Quando estiver forte o suficiente, tenho certeza de que a lerei com o maior interesse. Não consegui resistir ao último capítulo, do qual li uma parte, e fiquei muito interessado sobre o "idiota inspirado". (175/2. Em referência a Oken (op. cit., página 282), Huxley diz: "Devo confessar que nunca leio suas obras sem pensar no epíteto de 'idiota inspirado' aplicado ao nosso próprio Goldsmith.") Se Owen escreveu o artigo "Oken" (175/3. O artigo sobre Oken na oitava edição da "Encyclopaedia Britannica" é assinado "R.O.": Huxley escreveu a Darwin (18 de abril de 1864), "Não há a menor dúvida de que Owen escreveu tanto o artigo 'Oken' quanto o livro 'Arquétipo'" (Huxley's "Life", I., página 250). As declarações do Sr. Huxley resumem-se ao seguinte: (1) O Prof. Owen acusa Goethe de ter, em 1820, se apropriado da teoria do crânio de Oken, e de ter dado uma versão apócrifa de como a ideia lhe ocorreu em 1790. (2) No mesmo artigo, página 502, Owen afirmou ser questionável se o descobridor da verdadeira teoria da constituição segmentar do crânio (i.e., ele mesmo) foi estimulado em seus trabalhos, ou "de alguma forma influenciado pelos palpites a priori de Oken." Sobre isso, Huxley escreve, página 288: "Mas se ele mesmo não tivesse sido de alguma forma influenciado por Oken, e se o 'Programm' [de Oken] for apenas uma massa de 'palpites a priori', como se explica que apenas três anos antes o Sr. Owen pudesse escrever assim? 'Oken, ce genie profond et penetrant, fut le premier qui entrevit la verite, guide par l'heureuse idee de l'arrangement des os craniens en segments, comme ceux du rachis, appeles vertebres...'" Mais tarde, Owen escreveu: "Cela servira pour exemple d'une examen scrupuleux des faits, d'une appreciation philosophique de leurs relations et analogies, etc." (De "Principes d'Osteologie comparee, ou Recherches sur l'Archetype", etc., páginas 155, 1855). (3) Finalmente, Huxley diz, página 289, claramente: "O fato é que, longe de não ter sido 'de alguma forma influenciado' por Oken, as próprias contribuições do Prof. Owen a esta questão são o mais puro Okenismo, remanie.") e o trabalho francês sobre o Arquétipo (pontos que você não coloca de forma clara), ele nunca cometeu um ato mais vil... Você é um cristão tão bom que dificilmente entenderá como eu dou risada dessa vilania. Espero que você se mantenha bem e forte; honro sua sabedoria ao abrir mão, no momento, da Sociedade pela Ciência. Mas, por outro lado, sinto em mim a possibilidade de chegar a me importar demais com a Ciência Natural e pouco com outras coisas. Estou melhorando, quase ouso esperar que permanentemente; pois minha doença é decididamente menor — por vinte e sete dias consecutivos eu estive doente muitas vezes diariamente, e ultimamente passei cinco dias livre. Anseio por fazer um pouco de trabalho novamente. O magnífico (de longe o mais magnífico, e demasiado magnífico) elogio que você me prestou ao final da sua "Origem das Espécies" (175/4. Um título aplicado às "Palestras para Trabalhadores", aquele "pequeno livro verde" referido na Carta 156. Falando do trabalho do Sr. Darwin, ele diz (página 156): "Acredito que, se você o despir de sua parte teórica, ele ainda permanece uma das maiores enciclopédias da doutrina biológica que qualquer homem já produziu; e acredito que, se você o tomar como a corporificação de uma hipótese, ele está destinado a ser o guia da especulação biológica e psicológica para as próximas três ou quatro gerações.") encontrei reimpresso por você duas ou três vezes ultimamente.
CARTA 175A. PARA ERASMUS DARWIN. Down, 30 de junho de 1864.
(175A.1. A carta precedente contém uma referência ao período prolongado de problemas de saúde que Darwin sofreu em 1863 e 1864, e, a este respeito, a presente carta é de interesse.
A Medalha Copley foi dada a ele em 1864.)
Eu não tinha ouvido uma palavra sobre a Medalha Copley. Por favor, dê a Falconer meus agradecimentos cordiais por seu interesse em mim. Envio a lista de tudo o que publiquei, exceto alguns artigos sem importância. Peça a Falconer para não mencionar que enviei a lista, pois alguém poderia dizer que eu estive fazendo campanha, o que é uma imputação odiosa. A origem da Viagem no "Beagle" foi que Fitz-Roy generosamente ofereceu ceder metade de sua cabine a qualquer um que se voluntariasse para ir como naturalista. Beaufort escreveu para Cambridge, e eu me voluntariei. Fitz-Roy nunca me persuadiu a desistir da viagem por causa de doença, nem eu jamais pensei em fazê-lo, embora tenha sofrido consideravelmente; mas não acredito que tenha sido a causa da minha subsequente má saúde, que me custou tantos anos, e, portanto, não creio que o enjoo do mar valesse a menção. Economizaria seu trabalho encaminhar isto com minhas mais gentis lembranças a Falconer.
(176/1. A carta seguinte foi o início de uma correspondência com o Sr. B.D. Walsh, a quem C.V. Riley descreve como "um dos mais capazes e completos entomologistas de nosso tempo.")
CARTA 176. B.D. WALSH PARA CHARLES DARWIN. Rock Island, Illinois, E.U.A., 29 de abril de 1864.
(176/2. As palavras entre colchetes são restaurações de partes arrancadas da carta original.)
Há mais de trinta anos, fui apresentado a você em seus aposentos no Christ's College por A.W. Grisebach, e tive o prazer de ver sua nobre coleção de Coleópteros Britânicos. Alguns anos depois, tornei-me Membro do Trinity, e finalmente desisti do meu cargo para não entrar para as Ordens, e vim para este país. Nos últimos cinco ou seis anos, tenho dedicado considerável atenção à fauna de insetos dos E.U.A., alguns dos frutos dos quais você verá nos panfletos anexos. Permita-me aproveitar esta oportunidade para agradecer-lhe pela publicação da sua "Origem das Espécies", que li há três anos por conselho de um amigo botânico, embora eu tivesse um forte preconceito contra o que supunha então serem suas opiniões. A primeira leitura me abalou, a segunda me convenceu, e quanto mais a leio, mais convencido fico da solidez geral da sua teoria.
Como você apelou aos naturalistas que acreditam em suas opiniões para dar testemunho público de suas convicções, direcionei sua atenção na parte externa de um ou dois dos meus panfletos para as passagens particulares nas quais [eu] fiz isso. Por favor, aceite estes papéis de mim como um sinal de meu respeito e admiração.
Como você pode ver pelo mais recente destes papéis, [eu] fiz recentemente a notável descoberta de que [existem os] chamados "três sexos" não apenas em insetos sociais, mas [também no] gênero estritamente solitário Cynips.
Quando seu grande trabalho fará sua aparição? [Eu ficaria] muito satisfeito em receber algumas linhas suas.
CARTA 177. PARA B.D. WALSH. Down, 21 de outubro [1864].
Problemas de saúde impediram-me de agradecer mais cedo por sua carta muito gentil e vários memorandos.
Fiquei muito satisfeito ao ver com que ousadia e clareza você fala sobre a modificação das espécies. Agradeço por me dar as páginas de referência; mas elas foram supérfluas, pois encontrei tantas observações originais e profundas que examinei cuidadosamente todos os papéis. Espero que sua descoberta sobre o Cynips (177/1. "Sobre o Dimorfismo no gênero himenóptero Cynips", "Proc. Entom. Soc. Philadelphia", março de 1864. A visão do Sr. Walsh é que Cynips quercus aciculata é uma forma dimórfica de Cynips q. spongifica, e ocorre apenas como fêmea. Cynips q. spongifica também produz fêmeas e machos de spongifica de outras galhas em uma época diferente do ano.) se sustente, pois é notável, e eu, pessoalmente, muitas vezes me perguntei qual poderia ser o significado do caso. Emprestarei seu papel ao meu vizinho, o Sr. Lubbock, que sei que está muito interessado no assunto. Incidentalmente, lucrarei com suas observações sobre galhas. Se você tiver tempo, acho que um experimento bastante desesperador valeria a pena tentar; de qualquer forma, eu o teria tentado se minha saúde tivesse permitido. É inserir um grão minúsculo de alguma substância orgânica, juntamente com o veneno de abelhas, vespas de areia, icneumônios, víboras e até venenos alcaloides nos tecidos de plantas adequadas, na esperança de que crescimentos monstruosos sejam produzidos. (177/2. Ver "Life and Letters", III., página 346, para um relato de experimentos tentados nesta direção pelo Sr. Darwin em 1880. Sobre os efeitos de ferir tecidos vegetais, ver Massart, "La Cicatrisation, etc." no Tomo LVII. dos "Memoires Couronnes" da Academia de Bruxelas.)
Minha saúde tem sido ruim há muito tempo, e recentemente sofri de uma longa doença que interrompeu todo o trabalho, mas agora estou recomeçando um volume em conexão com a "Origem".
P.S.—Se você escrever novamente, eu gostaria muito de saber como é sua vida em seu novo país.
Qual pode ser o significado ou uso da grande diversidade dos órgãos geradores externos em seus casos, em Bombus, e nos coleópteros fitófagos?
O que pode haver no ato da cópula que necessite de aparelhos tão complexos e diversificados?
CARTA 178. PARA W.H. FLOWER. Down, 11 de julho de 1864.
Sou verdadeiramente grato por todo o trabalho que você teve por mim, e por sua nota muito interessante. Eu tinha apenas vagamente ouvido dizer que sapos tinham um rudimento de um sexto dedo; se eu soubesse que homens tão grandes tinham se debruçado sobre o ponto, não teria sonhado em olhar eu mesmo. O rudimento enviado a você era de um sapo adulto; de modo que, se esses ossos são os dois cuneiformes, eles devem, eu acho, ser considerados em uma condição rudimentar. Esta tarde, meu jardineiro trouxe alguns girinos apenas com as patas traseiras desenvolvidas, e olhei para o rudimento. Nesta idade, certamente parece extremamente como um dígito, pois a extremidade é alargada como a do dedo real adjacente, e a articulação transversal parece semelhante. Lamento que o caso seja duvidoso, pois se esses batráquios tivessem seis dedos, certamente penso que teria lançado luz sobre a força verdadeiramente extraordinária da hereditariedade na polidactilia em tantos animais, e especialmente sobre o poder de regeneração em dígitos supranumerários amputados. (178/1. Na primeira edição de "Variação sob Domesticação", a visão aqui apresentada é defendida, mas na segunda edição (Volume I., página 459) Darwin retirou sua crença de que o desenvolvimento de dígitos supranumerários no homem é "um caso de reversão a um progenitor de organização inferior provido de mais de cinco dígitos." Ver Cartas 161, 270.)
CARTA 179. PARA J.D. HOOKER. Down [22 de outubro de 1864].
Os Lyell estiveram aqui, e foram extremamente agradáveis, mas eu os vi apenas ocasionalmente por dez minutos, e quando eles foram embora, tive um dia terrível [de doença]; mas agora estou lentamente voltando ao meu padrão anterior. Logo estarei confinado a um túmulo vivo, e é um mal terrível.
Suponho que você tenha lido Tyndall. (179/1. Provavelmente Tyndall "Sobre a Conformação dos Alpes" ("Phil. Mag." 1864, página 255).) Voltei agora à visão de Ramsay, (179/2. "Phil. Mag." 1864, página 293.) pela terceira ou quarta vez; mas Lyell diz que, quando eu ler sua discussão nos "Elementos", me retratarei pela quinta vez. (179/3. Isso se refere a uma discussão sobre a "Conexão da predominância de Lagos com a Ação Glacial" ("Elementos", Edição VI., páginas 168-74). Lyell adere às visões expressas na "Antiguidade do Homem" (1863) contra a teoria de Ramsay sobre a origem das bacias lacustres pela ação do gelo.) Que escritor excelente é Tyndall!
Em sua última nota você pergunta o que é o "oxlip" de Bardfield. É P. elatior de Jacq., que certamente parece, quando cresce, aos olhos comuns, diferente do "oxlip" comum. Lutarei contra você até a morte que, como a prímula e a "cowslip" são diferentes em aparência (sem mencionar o odor, habitat e distribuição), e como agora posso mostrar que, quando se cruzam, a prole intermediária é estéril como híbridos comuns, elas devem ser chamadas de espécies tão boas quanto um homem e um gorila.
Concordo que, se a "cowslip" vermelha de Scott crescesse selvagem ou se espalhasse e não variasse [para] a "cowslip" comum (e não temos absolutamente nenhuma prova de que a prímula ou a "cowslip" variem uma na outra), e como ela não se cruza com a "cowslip", seria uma espécie perfeitamente boa. O poder de permanecer por um bom longo período constante eu vejo como a essência de uma espécie, combinada com uma quantidade apreciável de diferença; e ninguém pode dizer que não existe essa quantidade de diferença entre a prímula e o "oxlip".
(PLACA: HUGH FALCONER, 1844. De uma fotografia por Hill & Adamson.)
CARTA 180. HUGH FALCONER PARA W. SHARPEY.
(180/1. Falconer propôs Darwin para a Medalha Copley da Royal Society (que lhe foi concedida em 1864), mas, sendo detido no exterior, ele deu suas razões para apoiar Darwin para esta honra em uma carta a Sharpey, o Secretário da Royal Society. Uma cópia da carta aqui impressa parece ter sido dada a Erasmus Darwin, e por ele mostrada a seu irmão Charles.)
Montauban, 25 de outubro de 1864.
Busk e eu fizemos todos os esforços para estar de volta a Londres até o dia 27, mas fomos perseguidos por contratempos — através da quebra de trens, diligências, etc., de modo que fomos tristemente prejudicados em nossos cálculos — e perdemos alguns dos objetivos principais que nos trouxeram por esta parte da França — nenhum dos quais era ocioso ou sem importância.
Busk partiu ontem para Paris de Bruniquel, para ter certeza de estar presente na reunião do Conselho Real na quinta-feira. Ele lhe dirá que havia razões fortes para eu permanecer para trás. Mas como apoiei a proposta do Sr. Darwin para a Medalha Copley, na ausência de minha presença na primeira reunião, peço que você expresse meus grandes lamentos ao Presidente e ao Conselho por não estar lá, e que estou muito relutantemente detido. Certamente estarei em Londres (se Deus quiser) na segunda reunião no dia 3 próximo. Enquanto isso, solicito o favor de ser ouvido, através de você, a respeito dos fundamentos sobre os quais apoiei a nomeação do Sr. Darwin para a Medalha Copley.
Referindo-me à lista classificada que elaborei dos trabalhos científicos do Sr. Darwin, variando pelo amplo campo de (1) Geologia, (2) Geografia Física, (3) Zoologia, (4) Botânica fisiológica, (5) Biologia genética, e ao poder com que ele investigou qualquer assunto que tenha abordado — Nullum quod tetigit non ornavit — sou da opinião de que o Sr. Darwin não é apenas um dos naturalistas mais eminentes de seu tempo, mas que futuramente será considerado um dos grandes naturalistas de todos os países e de todos os tempos. Seu trabalho inicial sobre a estrutura e distribuição de recifes de coral constitui uma era na investigação do assunto. Como um trabalho monográfico, pode ser comparado com o "Ensaio sobre o Orvalho" do Dr. Wells, tão original, exaustivo e completo — contendo a observação mais próxima com generalizações grandes e importantes.
Entre os zoólogos, suas monografias sobre Balanidae e Lepadidae, Fósseis e Recentes, nas publicações das Sociedades Palaeontographical e Ray, são consideradas modelos do seu gênero.
Na Botânica fisiológica, suas pesquisas recentes sobre o dimorfismo dos órgãos genitais em certas plantas, incorporadas em seus artigos no "Linnean Journal", sobre Primula, Linum e Lythrum, são da mais alta ordem de importância. Elas abrem uma nova mina de observação sobre um campo que mal havia sido tocado antes. A mesma observação se aplica às suas pesquisas sobre a estrutura e várias adaptações da flor orquidácea a um objetivo definido conectado com a impregnação das plantas através da agência de insetos com pólen estrangeiro. Ainda não houve tempo para que sua devida influência fosse sentida no avanço da ciência. Mas, em qualquer um dos assuntos, elas constituem um avanço per saltum. Não preciso insistir no valor de suas pesquisas geológicas, que lhe renderam um dos primeiros prêmios da Medalha Wollaston da Sociedade Geológica, o melhor dos juízes sobre o ponto.
E finalmente, o grande ensaio do Sr. Darwin sobre a "Origem das Espécies" por Seleção Natural. Este assunto solene e misterioso tinha sido tão levemente ou tão grotescamente tratado antes, que mal era considerado dentro dos limites da investigação filosófica legítima. O Sr. Darwin, após vinte anos do estudo e pesquisa mais próximos, publicou suas opiniões, e é suficiente dizer que elas instantaneamente fixaram a atenção da humanidade em todo o mundo civilizado. Que os esforços de uma única mente pudessem ter chegado ao sucesso em um assunto de escopo tão vasto, e cercado de tais dificuldades, era mais do que se poderia razoavelmente esperar, e estou longe de pensar que Charles Darwin resolveu todo o seu caso. Mas ele o tratou com tal poder e em um espírito tão filosófico e de busca da verdade, e ilustrou-o com tal quantidade de observação original e coligida, que trouxe justamente o assunto dentro dos limites da investigação científica racional. Considero este grande ensaio sobre Biologia genética como uma forte reivindicação adicional em nome do Sr. Darwin para a Medalha Copley. (180/2. A carta seguinte (3 de dezembro de 1864), do Sr. Huxley para Sir J.D. Hooker, é reimpressa, com a gentil permissão do Sr. L. Huxley, da "Vida" de seu pai, I., página 255. O discurso de Sabine (do "Reader") é dado em "Life and Letters", III., página 28. Nos "Proceedings of the Royal Society", a frase ofensiva é ligeiramente modificada. Diz-se, na "Vida" de Huxley (loc. cit., nota), que a frase que a segue foi introduzida para mitigar o efeito:--
"Gostaria que você estivesse na reunião de aniversário e no jantar, porque o último foi muito agradável, e o primeiro, para mim, muito desagradável. Minha desconfiança em Sabine é, como você sabe, crônica; e fui determinado a manter uma vigilância cuidadosa sobre seu discurso, para que nenhuma frase astuta prejudicial a Darwin fosse introduzida. Minhas suspeitas foram justificadas, a única parte do discurso [relacionada] a Darwin escrita pelo próprio Sabine contendo a seguinte passagem:
"'Falando de modo geral e coletivo, omitimos expressamente isso [a teoria de Darwin] dos fundamentos de nosso prêmio.'")
"É claro que isso seria interpretado por todos como significando que, após a devida discussão, o conselho havia resolvido formalmente não apenas excluir a teoria de Darwin dos fundamentos da premiação, mas dar aviso público, por meio do presidente, de que o haviam feito e, além disso, que os amigos de Darwin tinham sido vis o bastante para aceitar uma honraria para ele, sob o entendimento de que, ao recebê-la, ele deveria ser publicamente insultado!
"Senti que isso jamais poderia acontecer e, portanto, quando a resolução para a impressão do discurso foi proposta, fiz um pronunciamento, que tomei o cuidado de manter perfeitamente calmo e moderado, desautorizando qualquer intenção de interferir na liberdade do presidente de dizer o que bem entendesse, mas exercendo meu direito constitucional de exigir que a ata do conselho que concedeu o prêmio fosse lida, a fim de que a Sociedade pudesse ser informada se as condições implícitas por Sabine haviam sido impostas ou não.
"A resolução foi lida e, naturalmente, nada desse tipo apareceu. Sabine não gostou exatamente disso, creio eu. Tanto Busk quanto Falconer protestaram contra a passagem para ele, e espero que seja retirada quando o discurso for impresso. Se não, haverá uma confusão terrível e, quanto a mim, não mostrarei misericórdia."
Ao formar uma estimativa do valor e da extensão das pesquisas do Sr. Darwin, deve-se ter a devida consideração pelas circunstâncias sob as quais foram realizadas — uma pressão de doença incessante, que ultimamente lhe deixou não mais do que uma ou duas horas do dia que ele pudesse chamar de suas.
CARTA 181. PARA HUGH FALCONER. Down, 4 de novembro [1864].
Que amigo bom e gentil você é! Sei bem que esta medalha deve ter-lhe custado muitos problemas. É uma honra muito grande para mim, mas declaro que o conhecimento de que você e alguns outros amigos se interessaram pelo assunto é o verdadeiro creme do prazer para mim; na verdade, vale para mim muito mais do que muitas medalhas. Portanto, aceite meus sinceros e cordiais agradecimentos. Espero que eu ainda possa ter forças para fazer um pouco mais de trabalho em Ciências Naturais, por mais trêmulo e velho que eu esteja. Ri e triunfei com o seu pós-escrito sobre o pobre M. Brulle e seus jovens alunos (181/1. O seguinte é o pós-escrito de uma carta de Falconer para Darwin, 3 de novembro [1864]: "Retornei ontem à noite da Espanha via França. Na segunda-feira, estive em Dijon, onde, enquanto estava no Museu, M. Brulle, professor de Zoologia, perguntou-me qual era a minha opinião franca sobre a doutrina de Charles Darwin? Ele me disse, em desespero, que não conseguia fazer com que seus alunos ouvissem qualquer coisa vinda dele, a não ser *a la Darwin*! Ele, pobre homem, não conseguia compreender e ainda não estava convencido, mas todos os jovens franceses não queriam ouvir ou acreditar em nada mais.") Cerca de uma semana atrás, recebi um relato quase semelhante da Alemanha e, ao mesmo tempo, ouvi falar de alguns convertidos esplêndidos em homens como Leuckart, Gegenbauer, etc. Você pode dizer o que quiser sobre si mesmo, mas considero um homem que trata a história natural com o mesmo espírito que você, exatamente tão bom, pelo que acredito ser a verdade, quanto um convertido.
CARTA 182. PARA HUGH FALCONER. Down, 8 de novembro [1864].
Sua observação sobre a relação entre a concessão da medalha e a atual explosão de intolerância não me havia ocorrido. Parece muito verdadeira e me deixa ainda mais gratificado por recebê-la. O General Sabine (182/1. Veja "Life and Letters", III., página 28.) escreveu-me e pediu-me para comparecer ao aniversário, mas eu lhe disse que era realmente impossível. Nunca consegui conjecturar a causa; mas descubro que, nos meus dias bons, quando consigo escrever por algumas horas, qualquer coisa que me agite, como conversar por meia ou até um quarto de hora, geralmente me prostra completamente, às vezes até por muito tempo depois. Acredito que comparecer ao aniversário possivelmente me deixaria gravemente doente. Eu gostaria de comparecer e apertar a mão de você e de alguns outros amigos meus, mas seria loucura, mesmo que eu não desmoronasse na hora. Disse a Sabine que não sabia quem me havia proposto e apoiado para a medalha, mas que supunha que tivesse sido você, ou Hooker ou Busk, e que sentia certeza de que, se você comparecesse, receberia a medalha por mim; e que, se nenhum de vocês comparecesse, Lyell ou Huxley a receberiam por mim. Você a receberia, e ela poderia ser deixada na casa do meu irmão?
Mais uma vez, aceite meus cordiais e duradouros agradecimentos por toda a sua gentileza e simpatia.
CARTA 183. PARA B.D. WALSH. Down, 4 de dezembro [1864].
Fiquei muito interessado pelo seu relato sobre sua vida americana. Que vida extraordinária e independente você levou! E que vigor mental você deve possuir para seguir a ciência com tanto ardor depois de tudo o que passou! Estou muito grato pelo seu panfleto sobre Distribuição Geográfica, sobre Agassiz, etc. (183/1. O artigo do Sr. Walsh "On certain Entomological Speculations of the New England School of Entomologists" foi publicado no "Proc. Entomolog. Soc. of Philadelphia", setembro de 1864, página 207.) Estou encantado com a maneira pela qual você enfrentou este leão em sua própria toca. Concordo inteiramente com tudo o que você escreveu. O que eu quis dizer quando escrevi a Agassiz para agradecer-lhe por um pacote de suas publicações foi exatamente o que você supõe. (183/2. Ou seja, que o Sr. Darwin, tendo sido abusado como ateu, etc., por outros escritores, provavelmente sentiu gratidão por um escritor que estava disposto a lhe permitir "um espírito tão reverencial quanto o seu próprio". ("Methods of Study", Prefácio, página iv.)) Confesso, contudo, que não percebi totalmente como ele havia deturpado minhas visões; mas apenas folheei seu "Methods of Study" e achei um livro muito ruim. Estou tão acostumado a ser totalmente mal interpretado que isso dificilmente desperta minha atenção. Mas você realmente acertou na mosca, de forma excelente. Todos os bons naturalistas mais jovens que conheço pensam de Agassiz como você; mas ele prestou um grande serviço sobre geleiras e peixes. Sobre a sucessão de formas, Pictet abandonou todas as suas visões, e nenhum geólogo agora concorda com Agassiz. Estou feliz que você tenha atacado as noções selvagens de Dana; [embora] eu tenha um grande respeito por Dana... Se você tiver oportunidade, leia na "Trans. Linn. Soc." o artigo de Bates sobre "Mimetic Lepidoptera of Amazons". Fiquei encantado com seu artigo.
Consegui inserir uma nota sobre suas visões a respeito da *Cynips* fêmea na "Natural History Review" (183/3. "Nat. Hist. Review", janeiro de 1865, página 139. Uma nota de "J.L." (provavelmente Lord Avebury) sobre o artigo de Walsh "On Dimorphism in the Hymenopterous Genus Cynips", no "Proc. Entomolog. Soc. of Philadelphia", março de 1864.): se a nota será favorável, não sei, mas de qualquer forma chamará a atenção para suas visões...
Como você alude em seu artigo aos que acreditam na mudança das espécies, você ficará feliz em saber que muitos dos melhores homens estão mudando de ideia na Alemanha. Ultimamente ouvi falar de Hackel, Gegenbauer, F. Muller, Leuckart, Claparede, Alex. Braun, Schleiden, etc. Assim é, ouvi dizer, com os franceses mais jovens.
CARTA 184. PARA J.D. HOOKER. Down, 19 de janeiro [1865].
É hora de trabalhar, mas estou tentando tirar um dia de folga, pois terminei e despachei ontem meu artigo sobre as plantas trepadeiras. Nos últimos dez dias, não fiz nada além de corrigir frases rebeldes, e detesto o assunto todo como tártaro emético. A propósito, estou convencido de que você precisa de férias, e penso assim porque você tomou o nome do diabo em vão tantas vezes em sua última nota. Você pode vir aqui para o domingo? Você sabe como eu gostaria disso, e você estará quieto e entediado o suficiente aqui para descansar bastante. Tenho pensado com pesar sobre o que você disse em uma de suas últimas notas, sobre ter negligenciado fazer anotações sobre a gradação de caracteres em seus gêneros; mas seria tarde demais? Certamente, se você observasse os nomes em série, os fatos voltariam, e você certamente poderia escrever um belo artigo "Sobre a gradação de caracteres importantes nos gêneros de plantas". Quanto aos caracteres sem importância, fiz de sua perfeita gradação um ponto muito proeminente com relação aos meios de escalar, em meu artigo. Começo a achar que um dos meios mais comuns de transição é a mesma planta individual ter a mesma parte em estados diferentes: assim, *Corydalis claviculata*, se você olhar para uma folha, pode ser chamada de portadora de gavinhas; se você olhar para outra folha, pode ser chamada de planta trepadeira de folhas. Ora, tenho certeza de que me lembro de alguns casos com plantas em que partes importantes, como a posição do óvulo, diferem: diferenças na espiral das folhas em ramos laterais e terminais, etc.
Não havia muito na última "Natural History Review" que me interessasse, exceto as floras coloniais (184/1. "Nat. Hist. Review", 1865, página 46. Uma resenha de "Flora of the British West Indian Islands" de Grisebach e "Enumeratio Plantarum Zeylaniae" de Thwaites. O ponto referido é dado na página 57: "Mais da metade das plantas com flores pertencem a onze ordens no caso das Índias Ocidentais, e a dez no caso do Ceilão, enquanto, com apenas uma exceção, as ordens do Ceilão são as mesmas das Índias Ocidentais". O resenhista especula sobre o significado do fato "em relação à hipótese de uma época fria intertropical, como a que o Sr. Darwin exige para a migração da Flora do Norte para o hemisfério Sul".) e o relatório sobre a sexualidade das criptógamas. Suponho que o primeiro tenha sido de Oliver; quão extremamente curioso é o fato da similaridade das Ordens nos Trópicos! Sinto a convicção de que está de alguma forma conectado com a destruição glacial, mas não consigo "me contorcer" confortavelmente de jeito nenhum sobre o assunto. Tenho quase certeza de que Dana demonstra que o maior número de formas de crustáceos habita regiões temperadas mais quentes.
Recebi uma carta enorme de Leo Lesquereux (após dúvidas, achei que não valia a pena enviar para você) sobre a Flora do Carvão: ele escreveu alguns artigos excelentes na "Silliman" novamente sobre [minhas] visões da "Origem"; mas ele diz agora, após repetidas leituras do livro, que é um convertido! Mas quão engraçadas são as mentes dos homens! Ele diz que se converteu principalmente porque meus livros tornam o Nascimento de Cristo, a Redenção pela Graça, etc., claros para ele!
CARTA 185. PARA J.D. HOOKER. Down, 9 de fevereiro [1865].
Concordo totalmente com o quão humilhante é o lento progresso do homem, mas cada um tem seu horror de estimação, e este lento progresso ou mesmo a aniquilação pessoal afunda em minha mente para a insignificância em comparação com a ideia, ou melhor, presumo certeza, de que o sol algum dia esfriará e todos nós congelaremos. Pensar no progresso de milhões de anos, com cada continente fervilhando de homens bons e esclarecidos, tudo terminando nisso, e provavelmente sem um novo começo até que este nosso sistema planetário tenha sido novamente convertido em gás em brasa. *Sic transit gloria mundi*, com força...
CARTA 186. PARA B.D. WALSH. Down, 27 de março [1865].
Fiquei muito interessado com sua carta. Recebi seu artigo anterior sobre variedade fitofágica (186/1. Para "Phytophagic Varieties and Phytophagic Species", veja "Proc. Entomolog. Soc. Philadelphia", novembro de 1864, página 403, também dezembro de 1865. A parte sobre gradação está resumida nas páginas 427, 428. Walsh mostra que existe uma gradação completa entre espécies que são absolutamente inalteradas pela mudança de alimento e casos em que "a diferença de alimento é acompanhada por diferenças marcadas e constantes, seja coloracionais, estruturais, ou ambas, nos estados de larva, pupa e imago".), a maior parte do qual era nova para mim. Desde então, recebi seu artigo sobre galhas de salgueiro; isso foi muito oportuno, pois eu queria aprender um pouco sobre galhas. Havia muito neste artigo que me interessou extremamente, sobre gradações, etc., e sobre sua "unidade de coloração" (186/2. "Unidade de coloração": esta expressão não parece ocorrer no artigo de novembro de 1864, mas é discutida longamente no de dezembro de 1865, página 209.). Este último assunto é quase novo para mim, embora eu tenha colecionado, muitos anos atrás, alguns desses casos com pássaros; mas o que mais me chamou a atenção foi quando um gênero de pássaro habita dois continentes, as duas seções às vezes exibem um tipo de coloração um tanto diferente. Eu gostaria de saber se isso não ocorre com gêneros de insetos amplamente distribuídos? Você talvez goste de saber que Wichura (186/3. "Die Bastarde befruchtung im Pflanzenreich, etc:" de Max Wichura, Breslau 1865. Uma tradução apareceu na "Bibliotheque Universelle", xxiii., página 129: Genebra 1865.) publicou recentemente um livro que me convenceu totalmente de que na Europa existe uma multidão de salgueiros híbridos espontâneos. Não seria muito interessante saber como os produtores de galhas se comportaram com relação a esses híbridos? Você acha provável que o ancestral de *Cecidomyia* tenha adquirido seu veneno como os mosquitos (que picam os homens) sem nenhum propósito especial (pelo menos não para produzir galhas)? Tais noções me fazem desejar que alguém experimentasse os experimentos sugeridos em minha carta anterior. Não é provável que as moscas-hóspedes fossem originalmente produtoras de galhas, e tenham a mesma relação com elas que *Apathus* provavelmente tem com *Bombus*? (186/4. *Apathus* (= *Psithyrus*) vive nos ninhos de *Bombus*. Diz-se que esses insetos são tão parecidos com as abelhas que "não eram distinguidos delas pelos primeiros entomologistas": Dr. Sharp em "Cambridge Nat. Hist. (Insects", Parte II.), página 59.) Com relação ao dimorfismo, você talvez goste de saber que o Dr. Hooker me diz que uma planta parasita dioica aliada à *Rafflesia* tem seus dois sexos parasitários em duas espécies distintas do mesmo gênero de plantas; então, fique atento a algum caso semelhante nas duas formas de *Cynips*. Enviei-lhe cópias de meus artigos sobre dimorfismo. A *Leersia* (186/5. *Leersia oryzoides* foi por muito tempo considerada produtora apenas de flores cleistogâmicas e, portanto, autógamas. Veja "Variation of Animals and Plants", Edição II., Volume II., página 69.) comporta-se, em estado natural, da maneira provocante descrita por mim. Com relação à curiosa descoberta de Wagner, minha opinião não vale nada; sem dúvida, é uma grande anomalia, mas não me parece nem de longe tão inacreditável quanto para você. Lembre-se de como formas aliadas nos *Hydrozoa* diferem em suas chamadas gerações alternadas; sigo os naturalistas que encaram todos esses casos como formas de gemulação; e uma multidão de organismos tem esse poder ou traços desse poder em todas as idades, desde o germe até a maturidade. Com relação às visões de Agassiz, havia muitos, e ainda há não poucos, que acreditam que a mesma espécie é criada em muitos pontos. Escrevi a Bates, e ele lhe enviará seu artigo sobre mimetismo; e atrevo-me a dizer que outros: ele é um homem de primeira categoria.
Seu caso dos insetos sem asas perto das Montanhas Rochosas é extremamente curioso. Tenho certeza de que ouvi falar de algum caso semelhante no Velho Mundo: acho que no Cáucaso. Meu argumento sobre insetos insulares sem asas não se aplicaria talvez a insetos verdadeiramente alpinos? Pois não seria sua destruição ser soprados de seu lar adequado? Eu gostaria de escrever sobre muitos pontos mais detalhadamente para você, mas não tenho forças de sobra.
CARTA 187. PARA A.R. WALLACE. Down, 22 de setembro [1865].
Estou muito grato pelo seu extrato (187/1. O Sr. Wallace enviara a Darwin uma nota sobre um melro-preto com crista, que transmitia o caractere a alguns de seus descendentes.); nunca ouvi falar de tal caso, embora tal variação seja talvez a mais provável de todas de ocorrer em estado natural e de ser herdada, na medida em que todas as aves domesticadas apresentam raças com uma crista ou com penas invertidas em suas cabeças. Às vezes penso que o progenitor de toda a classe deve ter sido um animal com crista.
Você faz algum progresso com seu diário de viagens? Estou ainda mais ansioso para que você o faça, pois li ultimamente com muito interesse alguns artigos seus sobre o orangotango, etc., nos "Annals", dos quais tenho lido ultimamente os últimos volumes. Sempre achei que diários dessa natureza fazem um bem considerável ao promover o gosto pela História Natural: sei que, no meu próprio caso, nada estimulou tanto meu zelo quanto a leitura da "Narrativa Pessoal" de Humboldt. Ainda não recebi a última parte das "Linnean Transactions", mas seu artigo (187/2. Provavelmente sobre a variabilidade e distribuição das borboletas da região malaia: "Linn. Soc. Trans." XXV., 1866.) no momento estará um pouco além de minhas forças, pois, embora um pouco melhor, ainda não consigo fazer quase nada além de deitar no sofá e ser lido em voz alta. A propósito, você leu Tylor e Lecky? (187/3. Tylor, "Early History of Mankind"; Lecky, "Rationalism".) Ambos os livros me interessaram muito. Suponho que você tenha lido Lubbock. (187/4. Lubbock, "Prehistoric Times", página 479: "...a teoria da Seleção Natural, que com altruísmo característico ele atribui sem reservas ao Sr. Darwin".) No último capítulo, há uma nota sobre você com a qual concordo sinceramente. Vejo que você esteve na Associação Britânica, mas não ouvi nada a respeito, exceto o que colhi no "Reader". Ouvi um boato de que o "Reader" foi vendido para a Sociedade Antropológica. Se você não se importar com o incômodo de outra nota (pois meu único canal de notícias através de Hooker está fechado por causa de sua doença), eu gostaria muito de saber se o "Reader" foi vendido assim. Eu lamentaria muito por isso, pois o jornal se tornaria setorial em sua tendência. Se você escrever, conte-me o que você mesmo está fazendo. A única notícia que tenho sobre a "Origem" é que Fritz Muller publicou há alguns meses um livro notável (187/5. "Fur Darwin.") a seu favor e, em segundo lugar, que uma segunda edição francesa está prestes a sair.
CARTA 188. PARA F. MULLER. Down, 11 de janeiro [1866].
Recebi sua interessante carta de 5 de novembro há algum tempo e despachei imediatamente uma cópia do meu "Diário de Pesquisas". Temo que você me ache incômodo em minha oferta; mas você tem a segunda edição alemã da "Origem?", que é uma tradução, com adições, da terceira edição inglesa e, creio, consideravelmente melhorada em comparação com a primeira edição. Tenho algumas cópias extras que não me servem para nada, e seria um prazer para mim enviar-lhe uma, se fosse de alguma utilidade para você. Você nunca precisaria reler o livro, mas talvez quisesse consultar alguma passagem. Estou particularmente grato pela sua fotografia, pois a gente gosta de ter uma imagem na mente de alguém por quem se interessa. Recebi e li com interesse seu artigo sobre a esponja com espículas córneas. (188/1. "Ueber Darwinella aurea, einen Schwamm mit sternformigen Hornnadeln."--"Archiv. Mikrosk. Anat." I., página 57, 1866.) Devido à má saúde e por estar ocupado quando estava bem, negligenciei por alguns anos a literatura científica periódica e ultimamente tenho me atualizado, tendo assim lido traduções de vários de seus artigos; entre os quais fiquei particularmente feliz em ler e ver os desenhos das metamorfoses de *Peneus*. (188/2. "On the Metamorphoses of the Prawns", pelo Dr. Fritz Muller.--"Ann. Mag. Nat. Hist." Volume XIV., página 104 (com prancha), 1864. Traduzido por W.S. Dallas de "Wiegmann's Archiv", 1863 (veja também "Facts and Arguments for Darwin", *passim*, traduzido por W.S. Dallas: Londres, 1869).) Esta me parece a descoberta mais interessante em embriologia feita há anos.
Sou muito grato por me contar um pouco de seus planos para o futuro; que vida estranha, mas para o meu gosto interessante, você levará quando se retirar para sua propriedade em Itajahy!
Você se refere em sua carta aos fatos que Agassiz está colecionando, contra nossas visões, no Amazonas. Embora ele tenha feito tanto pela ciência, ele me parece tão selvagem e paradoxal em todas as suas visões que não posso considerar suas opiniões como de qualquer valor.
CARTA 189. PARA A.R. WALLACE. Down, 22 de janeiro de 1866.
Agradeço-lhe pelo seu artigo sobre pombos (189/1. "On the Pigeons of the Malay Archipelago" (The "Ibis", outubro de 1865). O Sr. Wallace aponta (página 366) que "a mais notável superabundância de pombos, bem como de papagaios, está confinada à sub-região Australo-Malaia na qual... os mamíferos que habitam florestas e se alimentam de frutos, como macacos e esquilos, estão totalmente ausentes." Ele ressalta também que os macacos são "extremamente destrutivos para os ovos e aves jovens."), que me interessou, como tudo o que você escreve. Quem teria imaginado que os macacos influenciam a distribuição de pombos e papagaios! Mas tive uma satisfação ainda maior, pois terminei seu artigo ontem nas "Linnean Transactions". (189/2. "Linn. Soc. Trans." XXV.: um artigo sobre a distribuição geográfica e a variabilidade dos Papilionidae malaios.) Está admiravelmente feito. Não consigo conceber que o mais firme crente nas espécies pudesse lê-lo sem ficar atônito. Tais artigos converterão muito mais naturalistas do que livros prolixos como os que escreverei, se eu tiver forças. Fiquei particularmente impressionado com suas observações sobre o dimorfismo; mas não consigo entender bem um ponto (página 22), (189/3. A passagem referida nesta carta como necessitando de maior explicação é a seguinte: "Os últimos seis casos de mimetismo são especialmente instrutivos, porque parecem indicar um dos processos pelos quais as formas dimórficas foram produzidas. Quando, como nestes casos, um sexo difere muito do outro, e varia grandemente por si mesmo, pode acontecer que ocorram variações individuais ocasionais, tendo uma semelhança distante com grupos que são os objetos de mimetismo, e aos quais é, portanto, vantajoso assemelhar-se. Tal variedade terá uma melhor chance de preservação; os indivíduos que a possuem serão multiplicados; e sua semelhança acidental com o grupo favorecido será tornada permanente pela transmissão hereditária, e cada variação sucessiva que aumenta a semelhança sendo preservada, e todas as variações que se afastam do tipo favorecido tendo menos chance de preservação, haverá, com o tempo, o resultado desses casos singulares de duas ou mais formas isoladas e fixas unidas por aquele relacionamento íntimo que as constitui os sexos de uma única espécie. A razão pela qual as fêmeas estão mais sujeitas a este tipo de modificação do que os machos é, provavelmente, que seu voo mais lento, quando carregadas de ovos, e sua exposição ao ataque enquanto estão no ato de depositar seus ovos sobre folhas, tornam especialmente vantajoso para elas ter alguma proteção adicional. Elas obtêm isso imediatamente ao adquirir uma semelhança com outras espécies que, por qualquer causa, desfrutam de uma imunidade comparativa à perseguição." O Sr. Wallace teve a gentileza de nos dar a seguinte nota sobre a passagem acima: "A citação acima lida exclusivamente com a questão de como certas fêmeas das espécies polimórficas (Papilio Memnon, P. Pammon e outras) foram modificadas de modo a mimetizar espécies de uma seção bastante distinta do gênero; mas não tenta explicar por que ou como os outros tipos muito variáveis de fêmea surgiram, e esta era a dificuldade de Darwin. Como a carta que escrevi em resposta foi perdida, e como é bastante difícil explicar o assunto claramente sem referência às figuras coloridas, devo entrar em alguns detalhes e dar agora o que foi provavelmente a explicação que dei na época. O macho de Papilio Memnon é uma grande borboleta preta com as nervuras em direção às margens das asas bordadas com pontos cinza-azulados. É um inseto da floresta, e a cor muito escura torna-o conspícuo; mas é um forte voador, e assim sobrevive. Para a fêmea, contudo, essa massa conspícua de cor seria perigosa, devido ao seu voo mais lento e à necessidade de descansar continuamente enquanto deposita seus ovos nas folhas da planta hospedeira da larva. Ela, consequentemente, adquiriu tons mais claros e variados. As faixas marginais pontilhadas de cinza do macho tornaram-se de um cinza acastanhado e muito mais largas nas asas anteriores, enquanto a margem das asas posteriores é amarelada, com um ponto mais definido perto do ângulo anal. Esta é a forma mais semelhante ao macho, mas é comparativamente rara, sendo a mais comum muito mais clara na cor, com o cinza-azulado das asas posteriores sendo frequentemente inteiramente substituído por uma larga banda de branco amarelado. O ângulo anal é amarelo-alaranjado, e há um ponto vermelho brilhante na base das asas anteriores. Entre esses dois extremos, há toda variação possível. Agora, é bastante certo que essa mistura variável de marrom, preto, branco, amarelo e vermelho é muito menos conspícua em meio aos tons sempre mutáveis da floresta, com seus reflexos de luz solar penetrando por toda parte de modo a formar contrastes fortes e manchas de luz e sombra. Portanto, TODAS as fêmeas — uma em um momento e outra em outro — obtêm ALGUMA proteção, e isso é suficiente para permitir que vivam o tempo bastante para colocar seus ovos, quando seu trabalho está terminado. Ainda assim, sob más condições, elas apenas conseguiram sobreviver, e como a coloração de algumas dessas fêmeas variáveis se assemelhava muito à das borboletas protegidas do grupo P. coon (talvez em uma época em que as caudas destas últimas não estavam totalmente desenvolvidas), quaisquer rudimentos de um prolongamento da asa em uma cauda somavam-se à semelhança protetora e, portanto, era preservado. As xilogravuras de algumas dessas formas em meu "Malay Archipelago" (i., página 200) permitirão àqueles que têm este livro à mão compreender melhor a explicação precedente.") e ficaria grato por uma explicação, pois quero compreendê-lo plenamente. Como pode uma forma feminina ser selecionada e as formas intermediárias morrerem, sem que a outra forma extrema também morra por não ter as vantagens da primeira forma selecionada? pois, pelo que entendo, ambas as formas femininas ocorrem na mesma ilha. Concordo plenamente com sua distinção entre formas dimórficas e variedades; mas duvido que seu critério de formas dimórficas não produzirem descendência intermediária seja suficiente, pois conheço um bom número de variedades que devem ser assim chamadas que não se misturarão nem se cruzarão, mas produzem descendentes bastante semelhantes a qualquer um dos pais.
Fiquei particularmente impressionado com suas observações sobre a distribuição geográfica em Celebes. É impossível que qualquer coisa pudesse ser melhor colocada, e daria um calafrio aos naturalistas imutáveis.
E agora vou fazer uma pergunta que você não vai gostar. Como vai o seu jornal? Será uma pena se você não popularizar suas pesquisas.
CARTA 190. A.R. WALLACE PARA CHARLES DARWIN. Hurstpierpoint, Sussex, 2 de julho de 1866.
Fiquei tão repetidamente impressionado pela absoluta incapacidade de um grande número de pessoas inteligentes de ver claramente, ou de forma alguma, os efeitos auto-atuantes e necessários da Seleção Natural, que sou levado a concluir que o termo em si, e seu modo de ilustrá-lo, por mais claros e belos que sejam para muitos de nós, não são, contudo, os mais bem adaptados para imprimi-los no público naturalista em geral. Os dois últimos casos de mal-entendido são: (1) o artigo sobre "Darwin e seus Ensinamentos" no último "Quarterly Journal of Science", que, embora muito bem escrito e, no geral, apreciativo, termina com uma acusação de algo como cegueira, por você não ver que a Seleção Natural requer a vigilância constante de um "escolhedor" inteligente, como a seleção do homem à qual você tão frequentemente a compara; e (2) na obra recente de Janet sobre o "Materialismo dos Dias Atuais", resenhada no "Reader" do último sábado, por um trecho do qual vejo que ele considera seu ponto fraco o fato de você não ver que "o pensamento e a direção são essenciais para a ação da Seleção Natural". A mesma objeção foi feita uma vintena de vezes por seus principais oponentes, e eu mesmo a ouvi declarada tantas vezes em conversas. Ora, penso que isso decorre quase inteiramente de sua escolha do termo "Seleção Natural" e de compará-lo tão constantemente em seus efeitos à Seleção do Homem, e também de você personificar tão frequentemente a natureza como "selecionando", como "preferindo", como "buscando apenas o bem da espécie", etc., etc. Para poucos, isso é tão claro quanto a luz do dia, e belamente sugestivo, mas para muitos é evidentemente um obstáculo. Desejo, portanto, sugerir-lhe a possibilidade de evitar inteiramente essa fonte de equívoco em sua grande obra (se não for tarde demais agora), e também em quaisquer edições futuras da "Origem", e creio que isso pode ser feito sem dificuldade e muito eficazmente adotando o termo de Spencer (que ele geralmente usa em preferência à Seleção Natural) — a saber, "sobrevivência do mais apto".
Este termo é a expressão simples do fato; Seleção Natural é uma expressão metafórica dele, e, até certo ponto, indireta e incorreta, uma vez que, mesmo personificando a Natureza, ela não seleciona tanto as variações especiais quanto extermina as mais desfavoráveis.
Combinado com os enormes poderes multiplicadores de todos os organismos, e a "luta pela existência" levando à constante destruição da grande maioria — fatos que nenhum de seus oponentes, até onde sei, negou ou entendeu mal — a "sobrevivência do mais apto" em vez daquela dos menos aptos não poderia possivelmente ser negada ou mal compreendida. Tampouco seria possível dizer que, para garantir a "sobrevivência do mais apto", qualquer escolhedor inteligente fosse necessário; ao passo que, quando você diz que a Seleção Natural age de modo a escolher aqueles que são mais aptos, isso É mal compreendido, e aparentemente sempre será. Referindo-me ao seu livro, encontro expressões como "O homem seleciona apenas para seu próprio bem; a Natureza apenas para o do ser que ela cuida". Isto, ao que parece, será sempre mal compreendido; mas se você tivesse dito "O homem seleciona apenas para seu próprio bem; a Natureza, pela inevitável 'sobrevivência do mais apto', apenas para o do ser que ela cuida", seria menos suscetível de sê-lo.
Verifico que você usa o termo "Seleção Natural" em dois sentidos: (1) para a simples preservação de variações favoráveis e rejeição das desfavoráveis, caso em que é equivalente à "sobrevivência do mais apto"; e (2) para o efeito ou mudança produzida por essa preservação, como quando você diz: "Para resumir as circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis à Seleção Natural", e novamente, "O isolamento, também, é um elemento importante no processo de Seleção Natural". Aqui, não se trata apenas de "sobrevivência do mais apto", mas de mudança produzida pela sobrevivência do mais apto. Ao examinar seu quarto capítulo, verifico que essas alterações de termos podem, na maioria dos casos, ser facilmente feitas, enquanto em alguns casos a adição de "ou sobrevivência do mais apto" após "Seleção Natural" seria melhor; e em outros, menos propensos a serem mal compreendidos, o termo original pode permanecer isolado.
Eu não poderia me aventurar a propor a qualquer outra pessoa uma alteração de termos tão grande, mas você, estou certo, dará a ela uma consideração imparcial, e se você realmente acha que a mudança produzirá uma melhor compreensão de seu trabalho, não hesitará em adotá-la.
É evidentemente também necessário não personificar demais a "Natureza" — embora eu mesmo seja muito propenso a fazê-lo — uma vez que as pessoas não entenderão que todas essas frases são metáforas. A Seleção Natural é, quando entendida, um princípio tão necessário e evidente por si mesmo, que é uma pena que deva ser de alguma forma obscurecido; e parece-me, portanto, que o uso livre de "sobrevivência do mais apto", que é uma definição compacta e precisa dele, tenderia muito a que fosse mais amplamente aceito, e evitaria que fosse tão mal representado e mal compreendido.
Há outra objeção feita por Janet que também é muito comum. É que as chances são quase infinitas contra o tipo particular de variação necessária ser coincidente com cada mudança de condições externas, para permitir que um animal se torne modificado pela Seleção Natural em harmonia com tais condições alteradas; especialmente quando consideramos que, para ter produzido as modificações quase infinitas dos seres orgânicos, essa coincidência deve ter ocorrido um número quase infinito de vezes.
Ora, parece-me que você mesmo levou a que essa objeção fosse feita, ao declarar frequentemente o caso de forma muito forte contra si mesmo. Por exemplo, no início do Capítulo IV., você pergunta se é "improvável que variações úteis ocorram às vezes no curso de milhares de gerações"; e um pouco mais adiante você diz, "a menos que variações lucrativas ocorram, a Seleção Natural nada pode fazer". Ora, tais expressões deram aos seus oponentes a vantagem de assumir que variações favoráveis são acidentes raros, ou podem até mesmo, por longos períodos, nunca ocorrer de forma alguma, e assim o argumento de Janet pareceria a muitos ter grande força. Penso que seria melhor eliminar todas essas expressões qualificativas, e manter constantemente (o que certamente acredito ser o fato) que variações de todo tipo estão sempre ocorrendo em cada parte de cada espécie, e, portanto, que variações favoráveis estão sempre prontas quando necessárias. Você tem, estou certo, materiais abundantes para provar isto; e é, acredito, o grande fato que torna a modificação e a adaptação às condições quase sempre possíveis. Eu colocaria o ônus da prova sobre meus oponentes para mostrar que qualquer órgão, estrutura ou faculdade não varia, mesmo durante uma geração, entre todos os indivíduos de uma espécie; e também para mostrar qualquer modo ou maneira pela qual qualquer tal órgão, etc., não varia. Eu pediria a eles que dessem qualquer razão para supor que qualquer órgão, etc., seja alguma vez absolutamente idêntico em qualquer momento em todos os indivíduos de uma espécie, e se não o for, então está sempre variando, e sempre há materiais que, pelo simples fato de que "os mais aptos sobrevivem", tenderão à modificação da raça em harmonia com as condições alteradas.
Espero que estas observações possam ser inteligíveis para você, e que você seja tão gentil a ponto de me deixar saber o que pensa delas.
Não ouço há algum tempo como você está indo. Espero que você ainda esteja melhorando de saúde, e que agora seja capaz de continuar com seu grande trabalho, para o qual tantos milhares estão olhando com interesse.
CARTA 191. PARA A.R. WALLACE.
(191/1. De "Life and Letters", III., página 45.)
Down, 5 de julho [1866].
Fiquei muito interessado com sua carta, que é clara como a luz do dia. Concordo plenamente com tudo o que você diz sobre as vantagens da excelente expressão de H. Spencer de "a sobrevivência do mais apto". Isto, contudo, não me tinha ocorrido até ler sua carta. É, no entanto, uma grande objeção a este termo que ele não possa ser usado como um substantivo regente de um verbo; e que esta é uma objeção real, infiro do fato de H. Spencer usar continuamente as palavras Seleção Natural. Antigamente pensei, provavelmente em um grau exagerado, que era uma grande vantagem trazer para conexão a seleção natural e artificial; isto, de fato, levou-me a usar um termo em comum, e ainda penso que é alguma vantagem. Gostaria de ter recebido sua carta há dois meses, pois teria incluído "a sobrevivência", etc., frequentemente na nova edição da "Origem", que agora está quase impressa, e da qual, é claro, lhe enviarei uma cópia. Usarei o termo em meu próximo livro sobre animais domésticos, etc., do qual, a propósito, vejo claramente que você espera MUITO demais. O termo Seleção Natural tem sido agora tão amplamente usado no exterior e em casa que duvido que pudesse ser abandonado, e com todas as suas falhas eu lamentaria ver a tentativa ser feita. Se ele será rejeitado, deve agora depender "da sobrevivência do mais apto". Como com o tempo o termo deve tornar-se inteligível, as objeções ao seu uso tornar-se-ão mais fracas e mais fracas. Duvido que o uso de qualquer termo tivesse tornado o assunto inteligível para algumas mentes, tão claro quanto é para outras; pois não vemos até os dias atuais Malthus sobre a População absurdamente mal compreendido? Esta reflexão sobre Malthus frequentemente me confortou quando fiquei irritado com esta declaração errônea de minhas visões. Quanto ao M. Janet, ele é um metafísico, e tais cavalheiros são tão agudos que penso que muitas vezes mal entendem o povo comum. Sua crítica sobre o duplo sentido em que usei Seleção Natural é nova para mim e irrefutável; mas meu erro não fez mal algum, pois não acredito que ninguém, exceto você, tenha observado isso. Novamente, concordo que disse demais sobre "variações favoráveis", mas inclino-me a pensar que você coloca o lado oposto muito fortemente: se cada parte de cada ser variasse, não penso que veríamos o mesmo fim ou objetivo alcançado por meios tão maravilhosamente diversificados.
Espero que você esteja apreciando o campo, e que esteja com boa saúde, e trabalhando duro em seu livro "Malay Archipelago", pois colocarei sempre este desejo em cada nota que lhe escrever, como algumas boas pessoas sempre colocam um texto. Minha saúde mantém-se muito parecida, ou antes melhora, e sou capaz de trabalhar algumas horas diariamente.
CARTA 192. PARA C. LYELL. Down, 9 de outubro [1866].
Apenas uma linha para dizer que recebi sua nota e as provas em segurança, e as lerei com o maior prazer; mas tenho certeza de que não serei capaz de enviar qualquer crítica sobre o capítulo astronômico (192/1. "Principles of Geology", por Sir Charles Lyell; Edição X., Londres, 1867. O Capítulo XIII. trata de "Vicissitudes no Clima até que ponto influenciadas por Causas Astronômicas."), pois sou tão ignorante quanto um porco neste tópico. Precisarei de alguns dias para ler o que foi enviado. Acabei de ler o Capítulo IX. (192/2. Capítulo IX., "Teoria do Desenvolvimento Progressivo da Vida Orgânica em Períodos Geológicos Sucessivos."), e gosto dele extremamente; tudo parece-me muito claro, cauteloso e sagaz. Você não alude a um ponto muito marcante o suficiente, ou de forma alguma — a saber, que as classes foram outrora menos diferenciadas do que são agora; e essa especialização das classes deve, podemos concluir, ajustá-las para diferentes hábitos gerais de vida, bem como a especialização de órgãos particulares.
Página 162 (192/3. Na página 163, Lyell refere-se à ausência de Cetacea nas rochas Secundárias, e expressa a opinião de que sua ausência "é um fato negativo de grande significância, que parece mais do que qualquer outro tornar altamente improvável que encontremos respiradores de ar da classe mais alta em qualquer dos estratos Primários, ou em qualquer dos membros mais antigos da série Secundária.") Eu discordo um pouco de seu argumento dos Cetacea: como são mamíferos tão grandemente modificados, deveriam ter aparecido um pouco mais tarde na série. Você me achará um tanto impudente, mas a discussão no final do Capítulo IX. sobre o homem (192/4. Loc. cit., páginas 167-73, "Introdução do Homem, até que ponto uma Mudança do Sistema."), que pensa tanto de seu belo ser, parece-me muito longa, ou antes supérflua, e muito ortodoxa, exceto para o clero beneficiado.
CARTA 193. PARA V. CARUS.
(193/1. A carta seguinte refere-se à 4ª edição da "Origem", 1866, que foi traduzida pelo Professor Carus, e formou a 3ª edição alemã. Carus continuou a traduzir os livros de Darwin, e um forte laço de amizade cresceu entre autor e tradutor (ver "Life and Letters", III., página 48). O panfleto de Nageli foi notado pela primeira vez na 5ª edição inglesa.)
Down, 21 de novembro de 1866.
...Com respeito a uma nota sobre Nageli (193/2. "Entstehung und Begriff der Naturhistorischen Art", um Discurso proferido perante a Real Academia de Ciências em Munique, 28 de março de 1865. Ver "Life and Letters", III., página 50, para a carta do Sr. Darwin ao falecido Prof. Nageli.) Verifico, após consideração, que seria muito longa; pois um panfleto tão bom deveria ser discutido por inteiro ou de forma alguma. Ele comete um erro ao supor que digo que os caracteres úteis são sempre constantes. Sua visão sobre espécies distintas convergindo e adquirindo a mesma estrutura idêntica é, por implicação, respondida na discussão que dei sobre a diversidade infinita de meios para alcançar o mesmo fim.
O ponto mais importante, como me parece, no panfleto é aquele sobre os caracteres morfológicos das plantas, e verifico que não poderia responder a isso sem entrar em muitos detalhes.
A resposta seria, como me parece, que caracteres morfológicos importantes, tais como a posição dos óvulos e a posição relativa dos estames em relação ao ovário (hipógino, perígino, etc.), são por vezes variáveis na mesma espécie, como menciono incidentalmente ao tratar das flores marginais nas Compositae e Umbelliferae; e não vejo como Nageli poderia sustentar que diferenças em tais caracteres provam uma tendência inerente à perfeição. Vejo que me esqueci de dizer que você tem o meu pleno consentimento para acrescentar qualquer discussão que julgue conveniente à nova edição. Quanto a mim, não posso acreditar na geração espontânea e, embora espere que em algum momento futuro o princípio da vida se torne inteligível, no presente parece-me estar para além dos confins da ciência.
CARTA 194. A T.H. HUXLEY. Down, 22 de dezembro [1866?].
Suponho que você tenha recebido o livro de Hackel (194/1. "Generelle Morphologie", 1866.) há algum tempo, tal como eu. Sempre que tiver tempo de ler uma parte dele, o suficiente para julgar, estarei muito curioso para ouvir o seu parecer. Consegui ler uma página ou duas aqui e ali, e senti-me interessado e instruído por algumas partes. Mas a minha vaga impressão é que se dá demasiado espaço a detalhes metódicos, e quase não consigo encontrar fatos ou novas visões detalhadas. O número de palavras novas, para um homem como eu, fraco no seu grego, é algo terrível. Ele parece ter uma paixão por definir, creio que muito bem, e por cunhar novas palavras. A partir das minhas noções muito vagas sobre o livro, e do seu imenso tamanho, receio que uma tradução esteja fora de questão. Vejo que ele nos cita frequentemente a ambos com elogios. Tenho a certeza de que gostaria muito do livro se pudesse lê-lo diretamente, em vez de gemer e praguejar a cada frase. Ainda não tive tempo de ler o seu livro de Fisiologia (194/2. "Lessons in Elementary Physiology", 1866.), exceto um capítulo; mas acabei de reler o seu livro sobre "Man's Place, etc.", e creio que o admiro ainda mais desta segunda vez do que da primeira. Duvido que você tenha tempo, mas se alguma vez o tiver, leia o capítulo sobre o hibridismo na nova edição da "Origin" (194/3. Quarta Edição (1866).), pois estou muito ansioso para fazer com que você pense menos seriamente nessa dificuldade. Creio que melhorei bastante o capítulo e cheguei a visões mais definidas. Asa Gray e Fritz Muller (especialmente este último) pensam que os novos fatos sobre a descendência ilegítima de plantas dimórficas lançam muita luz indireta sobre o assunto. Agora que trabalhei com animais domésticos, estou convencido da verdade da visão Pallasiana (194/4. Ver Carta 80.) da perda de esterilidade sob domesticação, e isto parece-me explicar muita coisa. Mas eu não tinha a intenção, quando comecei este bilhete, de me alongar tanto sobre o hibridismo; mas você tem sido o Opositor-Geral neste quesito.
CARTA 195. A T. RIVERS.
(195/1. Para outra carta do Sr. Darwin para ele, ver "Life and Letters", III., página 57.)
Down, 23 de dezembro [1866?].
Não sei se me perdoará um estranho por se dirigir a você. O meu nome pode possivelmente ser-lhe conhecido. Estou agora a escrever um livro sobre a variação dos animais e plantas sob domesticação; e há uma pequena informação que é mais provável que você possa dar-me do que qualquer outro homem no mundo, se puder dispensar meia hora dos seus trabalhos profissionais e estiver inclinado a ser tão gentil. Estou a recolher todos os relatos do que alguns chamam de "sports", isto é, do que chamarei de "variações de gomo", i.e., uma rosa-musgosa que aparece subitamente numa rosa-de-provence — uma nectarina num pessegueiro, etc. Ora, o que quero saber, e que não é provável que esteja registado na imprensa, é se diferenças muito ligeiras, demasiado ligeiras para valer a pena propagar, aparecem assim subitamente através de gomos. Como todos sabem, ao criar plantas a partir de sementes, pode-se ter todas as gradações desde indivíduos idênticos aos progenitores, a variedades ligeiras, até variedades fortemente marcadas. Ora, isto ocorre com gomos, ou apenas variedades bastante marcadas aparecem desta forma em intervalos raros de tempo através de gomos? (195/2. O Sr. Rivers não conseguiu dar uma resposta decidida, mas não se recordava de ter visto variações de gomo ligeiras. A questão é discutida em "Variation under Domestication", Edição II., Volume I., página 443.) Ficar-lhe-ia muito grato por qualquer informação. Posso acrescentar que, se você observou na sua enorme experiência quaisquer "variações de gomo" notáveis, e pudesse dispensar tempo para me informar, permitindo-me citá-las sob a sua autoridade, seria o maior favor. Sinto-me certo de que estas "variações de gomo" são muito interessantes para qualquer pessoa que tente esclarecer o pouco que pode ser esclarecido sobre o assunto obscuro da variação.
CARTA 196. A T. RIVERS. Down, 7 de janeiro [1867?].
Agradeço-lhe muito pela sua carta e pelo pacote de rebentos. O caso da ameixeira amarela é um tesouro, e está agora devidamente registado sob a sua autoridade no seu lugar apropriado, em contraste com o caso de A. Knight da "yellow magnum bonum" que variou para vermelho. (196/1. Ver "Variation under Domestication", Edição II., Volume I., página 399.) Não consegui ver qualquer diferença nos rebentos, exceto que os da amarela eram mais grossos, e presumo que isto seja meramente acidental: como você não o menciona, presumo ainda que não existam outras diferenças nas folhas ou flores das duas ameixeiras. Fico muito contente por saber acerca do freixo amarelo, e que você próprio tenha visto o caso do jasmim. Devo confessar que mal acreditava nele por completo; mas agora acredito, e é muito surpreendente.
Num livro francês antigo, publicado em Amesterdão em 1786 (penso eu), existe um relato, aparentemente autêntico e atestado pelo autor como testemunha ocular, de bolbos de jacinto de duas cores que foram cortados em dois e enxertados, e que produziram hastes únicas com flores de cores diferentes nos dois lados, e algumas flores malhadas. Pensei uma vez em oferecer 5 libras de recompensa no "Cottage Gardener" por tal planta; mas talvez parecesse demasiado tolo. Não são dadas instruções sobre quando realizar a operação; tentei duas ou três vezes e falhei completamente. Verifico que tenho uma grande lista de "variações de gomo", e amanhã trabalharei em casos que tenho sobre variações em rosas, que parecem muito numerosos, e que vejo você afirmar ocorrerem comparativamente com frequência.
Quando uma pessoa é muito bem-humorada, é muito importunada — uma descoberta que creio que você tenha feito, ou de qualquer modo fará em breve; pois eu quero muito saber se você semeou sementes de quaisquer rosas-musgosas, e se as plântulas eram rosas-musgosas. (196/2. Rosas-musgosas podem ser criadas a partir de semente ("Variation under Domestication", Edição II., Volume I., página 405.) Será que uma rosa comum produzida por SEMENTE já produziu uma rosa-musgosa?
Se alguma luz lhe vier sobre alterações muito ligeiras nos gomos, rezo que tenha a bondade de me iluminar. Tenho casos de sete ou oito variedades de pessegueiro que produziram por "variação de gomo" nectarinas, e contudo apenas um único caso (em França) de um pessegueiro que produziu outro pessegueiro muito semelhante (mas mais tardio na maturação). Quão estranho é que uma grande alteração no pessegueiro ocorra não raramente e alterações mais ligeiras aparentemente muito raramente! Quão estranho que não pareça existir qualquer caso registado de novas maçãs ou peras ou damascos por "variação de gomo"! Quão ignorantes somos! Mas com os muitos bons observadores que vivem agora, os filhos dos nossos filhos serão menos ignorantes, e isso é um conforto.
CARTA 197. A T.H. HUXLEY. Down, 7 de janeiro [1867].
Muitíssimos agradecimentos pela sua carta, que me disse exatamente o que eu queria saber. Desistirei de todos os pensamentos de tentar obter a tradução do livro (197/1. "Generelle Morphologie" de Hackel, 1866. Ver "Life and Letters", III., páginas 67, 68.), pois estou bem convencido de que seria desesperançoso sem um dispêndio demasiado grande. Lamento muito isto, pois penso que a obra seria útil, e tenho a certeza de que o seria para mim, uma vez que nunca serei capaz de atravessar mais do que uma página ou outra do original aqui e ali. Para todas as pessoas, não posso deixar de pensar que o número de termos novos seria um grande mal. Devo escrever-lhe. Suponho que você saiba o seu endereço, mas caso não saiba, é "aos cuidados do Signor Nicolaus Krohn, Madeira". Enviei o manuscrito do meu grande livro (197/2. "The Variation of Animals and Plants under Domestication", 1868.), e horrivelmente, repugnantemente grande ele será, aos impressores, mas não suponho que seja publicado, devido à ideia de Murray sobre as estações, até ao próximo novembro. Estou a pensar num capítulo sobre o Homem, uma vez que ultimamente se tem dito tanto sobre a Seleção Natural em relação ao homem. Não vi o livro do Duque (ou Duquezinho? como pode falar assim de um Duque real vivo?) mas devo obtê-lo de Mudie, uma vez que você diz que ele nos ataca. (197/3. "The Reign of Law" (1867), pelo falecido Duque de Argyll. Ver "Life and Letters", III., página 65.)
P.S. — A natureza nunca tornou as espécies mutuamente estéreis por seleção, nem os homens o farão.
CARTA 198. A E. HACKEL. Down, 8 de janeiro [1867].
Recebi há algumas semanas a sua grande obra (198/1. "Generelle Morphologie", 1866.); li várias partes, mas sou um estudioso demasiado pobre de alemão e o livro é demasiado grande para eu o ler todo. Não lhe posso dizer o quanto lamento isto, pois tenho a certeza de que quase tudo me interessaria muito, e já achei várias partes muito úteis, tais como a discussão sobre células e sobre as diferentes formas de reprodução. Sinto-me certo, após considerar o assunto deliberadamente e após consultar Huxley, de que seria desesperançoso tentar convencer um editor a imprimir uma tradução inglesa; a obra é demasiado profunda e demasiado longa para os nossos compatriotas ingleses. O número de termos novos também, tenho a certeza, contaria muito contra a sua venda; e, na verdade, eu próprio desejava que tivesse impresso um glossário de todos os termos novos que utiliza. Espero plenamente que o seu livro seja altamente bem-sucedido na Alemanha, e a maneira como você se refere frequentemente a mim no seu texto, e a sua dedicatória e o título, considerá-los-ei sempre como uma das maiores honras conferidas a mim durante a minha vida. (198/2. Relativamente à dedicatória e título, isto parece uma expressão forte. O título é "Generelle Morphologie der Organismen. Allgemeine Grundzuge der organischen Formen-Wissenschaft mechanisch begrundet durch die von Charles Darwin reformirte Descendenz-Theorie." A dedicatória do segundo volume é "Den Begrundern der Descendenz-Theorie, den denkenden Naturforschern, Charles Darwin, Wolfgang Goethe, Jean Lamarck widmet diese Grundzuge der Allgemeinen Entwickelungsgeschichte in vorzuglicher Verehrung, der Verfasser.")
Espero sinceramente que tenha tido uma expedição próspera e que tenha encontrado muitos animais novos e interessantes. Se tiver tempo livre, gostaria muito de ouvir o que tem feito e observado. Quanto a mim, enviei o manuscrito do meu livro sobre animais domésticos, etc., aos impressores. Revela ser muito grande; não será publicado, suponho, até ao próximo novembro. Verifico que discutimos vários dos mesmos assuntos, e penso que concordamos em quase todos os pontos bastante bem. Ultimamente tenho tido notícias várias vezes de Fritz Muller, mas ele parece estar agora principalmente a trabalhar com plantas. Penso frequentemente na sua visita a esta casa, que apreciei extremamente, e será sempre para mim um prazer real recordar o nosso conhecimento. Pelo que ouvi em Londres, penso que fez muitos amigos lá. Irá regressar através de Inglaterra? Se sim, e se puder dispensar o tempo, ficaríamos todos encantados por vê-lo aqui novamente.
CARTA 199. A T. RIVERS. Down, 11 de janeiro [1867?].
Que carta rica e valiosa me enviou tão gentilmente! O caso da Baronne Prevost (199/1. Ver "Variation under Domestication", Edição II., Volume I., página 406. O Sr. Rivers tinha uma nova rosa francesa com um caule delicado e liso, folhas glaucas pálidas e flores às riscas cor de carne; nos ramos assim caracterizados apareceu "a famosa rosa antiga chamada 'Baronne Prevost'", com o seu caule grosso e espinhoso e flores duplas de cor rica e uniforme.), com os seus diferentes rebentos, folhagem, espinhos e flores, será magnífico de citar. Fico extremamente contente por ouvir sobre as rosas-musgosas de semente. Aquele caso de uma plântula semelhante a uma rosa escocesa, a menos que você tenha a certeza de que nenhuma rosa escocesa crescia perto (e é improvável que se possa lembrar), deve, poder-se-ia pensar, ter sido um cruzamento.
Tenho poucos remorsos por ser tão problemático — não mais do que um grande Inquisidor tem ao torturar um herege — pois não estou eu a prestar um verdadeiro bom serviço público ao extrair migalhas de conhecimento da sua riqueza de informação?
P.S. Desde que o acima foi escrito, li o seu artigo no "Gardeners' Chronicle": é admirável, e sei que será um tesouro para mim. Eu não sabia de todo o quão estritamente o caráter de tantas flores é herdado.
Sob a minha palavra de honra, quando comecei este bilhete não tinha intenção de o incomodar com uma pergunta; mas você menciona um ponto tão interessante, e que tive ocasião de notar, que tenho de suplicar por mais alguns fatos para citar sob a sua autoridade. Você diz que tem um ou dois pessegueiros de semente (199/2. "On raising Peaches, Nectarines, and other Fruits from Seed." Por Thomas Rivers, Sawbridgeworth.--"Gard. Chron." 1866, página 731.) aproximando-se muito de amêndoas de polpa espessa (sei sobre A. Knight e os casos de híbridos italianos). Ora, crescia alguma amendoeira perto da sua pessegueira-mãe? Mas, especialmente, quero saber se você se recorda da forma do caroço, se era achatado como o de uma amêndoa; isto, botanicamente, parece a distinção mais importante. Desejo seriamente citar isto. A polpa era de todo doce?
Perdoe-me se puder.
Manteve estes pessegueiros de semente? Se me desse um fruto no próximo verão, quero que seja gravado.
CARTA 200. A I. ANDERSON-HENRY. 22 de maio [1867].
Você é tão gentil ao oferecer-se para me emprestar a obra de Maillet (200/1. Para De Maillet, ver a crítica do Sr. Huxley sobre "The Origin of Species" na "Westminster Review", 1860, reimpressa em "Lay Sermons", 1870, página 314. As visões evolucionistas de De Maillet foram publicadas após a sua morte em 1748 sob o nome de Telliamed (De Maillet soletrado ao contrário).), da qual já ouvi falar frequentemente, mas nunca vi. Gostaria de lhe dar uma vista de olhos, e devolver-lha-ia em pouco tempo. Sinto-me na obrigação de a ler, uma vez que o meu antigo amigo e atual inimigo amargo Owen geralmente classifica-me a mim e a Maillet como um par de tolos iguais.
CARTA 201. A J.D. HOOKER. Down, 4 de abril [1867].
Prestou-me um grande serviço ao enviar-me as páginas do "Farmer". Não sei se deseja que lha devolva; mas guardá-la-ei a menos que saiba que você a quer. O velho I. Anderson-Henry faz um elogio magnífico, mas um tanto absurdo, a mim; mas o ponto de tal valor extremo aos meus olhos é a afirmação do Sr. Traill (201/1. Os resultados do Sr. Traill são dados na página 420 de "Animals and Plants", Edição II., Volume I. Em "Life and Letters of G.J. Romanes", 1896, é publicada uma correspondência interessante com o Sr. Darwin sobre este assunto. O plano das experiências sugerido a Romanes era criar plântulas a partir de híbridos de enxertia: se a descendência seminal de plantas hibridizadas por enxertia mostrasse o caráter híbrido, seria uma evidência notável a favor da pangênese. A experiência, contudo, não teve sucesso.) de que ele criou um mestiço malhado cortando olhos e juntando dois tipos de batatas. (201/2. Para um relato de experiências semelhantes agora em curso, ver uma "Note on some Grafting Experiments" por R. Biffen nos "Annals of Botany", Volume XVI., página 174, 1902.) Escrevi-lhe a pedir informação completa, e depois pores-me-ei a trabalhar numa tentativa semelhante. Provaria, creio eu, por demonstração, que a propagação por gomos e pelos elementos sexuais são essencialmente o mesmo processo, como a pangênese, da maneira mais solene, declara ser o caso.
CARTA 202. A T.H. HUXLEY. Down, 12 de junho [1867?].
Subiremos no sábado, dia 15, para passar uma semana. Quero muito vê-lo por pouco tempo para falar sobre o meu filho mais novo e a Escola de Minas. Sei que é um pouco irracional, mas você tem de deixar-me ir um pouco depois das 10 horas da manhã de domingo, dia 16. Se for de alguma forma inconveniente, envie-me uma linha para "6, Queen Anne Street W.,"; mas se não tiver notícias, eu (stomacho volente) passarei por lá, mas não ficarei muito tempo e não arruinarei toda a sua manhã como feriado. Quer pensar duas ou três vezes sobre esta questão: o que chamei de "pangênese" significa que cada célula liberta um átomo do seu conteúdo ou uma gêmula, e que estes agregados formam o verdadeiro óvulo ou gomo, etc.? Ora, quero saber se não poderia inventar uma palavra melhor. "Cyttarogenesis" (202/1. De kuttaros, uma célula de abelha: citogênese seria uma forma natural da palavra a partir de kutos.) — i.e., gênese-celular — é mais verdadeira e expressiva, mas longa. "Atomogenesis" soa um pouco melhor, penso eu, mas um "átomo" é um objeto que não pode ser dividido; e o termo poderia referir-se à origem de átomos de matéria inorgânica. Creio que gosto mais de "pangênese", embora tão indefinida; e embora a minha mulher diga que soa mal, como panteísmo; mas estou tão familiarizado agora com esta palavra, que não posso julgar. Suplico-lhe que me ajude.
CARTA 203. A A.R. WALLACE. Down, 12 e 13 de outubro [1867].
Encomendei o periódico (203/1. "Quarterly Journal of Science", outubro de 1867, página 472. Uma resenha de "Reign of Law", do Duque de Argyll) há muito tempo, mas, por algum descuido, recebi-o apenas ontem e li-o. Pensará que o meu elogio não merece ser tido em conta, por ser tão indiscriminado; mas, se devo dizer a verdade, devo dizer que admiro cada palavra. Acabou de tocar nos pontos que eu desejava particularmente ver notados. Fico contente por ter tido a coragem de abordar a Angraecum (203/2. Angraecum sesquipedale, uma orquídea de Madagáscar, com um nectário em forma de chicote, de 11 a 12 polegadas de comprimento, que, segundo Darwin ("Fertilisation of Orchids", Edição II, página 163), está adaptada às visitas de uma traça com uma probóscide de comprimento correspondente. Ele aponta que não há dificuldade em acreditar na existência de tal traça conforme F. Muller descreveu ("Nature", 1873, página 223) — uma esfinge brasileira com uma tromba de 10 a 11 polegadas de comprimento. Além disso, Forbes forneceu provas para mostrar que tal inseto existe de facto em Madagáscar ("Nature", VIII, 1873, página 121). O caso da Angraecum foi apresentado pelo Duque de Argyll como sendo necessariamente devido à invenção pessoal da Divindade. O Sr. Wallace (página 476) mostra que tanto a probóscide como o nectário poderiam ser aumentados em comprimento por meio da Seleção Natural. Pode acrescentar-se que Hermann Muller mostrou boas razões para acreditar que a especialização mútua deste tipo é benéfica tanto para o inseto como para a planta) após o ataque do Duque; pois creio que o princípio, neste caso, pode ser amplamente aplicado. Gosto da figura, mas gostaria que o artista tivesse desenhado uma esfinge melhor. Relativamente à beleza, as suas observações sobre objetos hediondos e sobre as flores não serem feitas belas exceto quando lhes são de utilidade prática, parecem-me muito boas. Neste único ponto da beleza, dificilmente posso pensar que o Duque tenha sido totalmente sincero. Utilizei no parágrafo final do meu atual livro exatamente o mesmo argumento que o senhor, trazendo até o buldogue (203/3. "Variation of Animals and Plants", Edição I, Volume II, página 431: "Terá Ele feito variar a estrutura e as qualidades mentais do cão para que se pudesse formar uma raça de ferocidade indomável, com mandíbulas ajustadas para imobilizar o touro para o desporto brutal do homem?"), no que diz respeito às variações não terem sido especialmente ordenadas. A sua metáfora do rio (203/4. Ver Wallace, op. cit., páginas 477-8. Ele imagina um observador a examinar um grande sistema fluvial e a encontrar por toda a parte adaptações que revelam o desígnio do Criador. "Ele veria uma adaptação especial às necessidades do homem em rios largos, calmos e navegáveis, através de planícies aluviais férteis que sustentariam uma grande população, enquanto os riachos rochosos e torrentes de montanha estavam confinados àquelas regiões estéreis adequadas apenas para uma pequena população de pastores e criadores de gado") é nova para mim e admirável; mas a sua outra metáfora, na qual compara a classificação e máquinas complexas, não me parece totalmente apropriada, embora não consiga apontar o que parece deficiente. O ponto que me parece forte é que todos os naturalistas admitem que existe uma classificação natural, e é esta que a descendência explica. Gostaria que tivesse insistido um pouco mais contra o "North British" (203/5. Na página 485, o Sr. Wallace lida com a resenha de Fleeming Jenkin na "North British Review", 1867. A resenha esforça-se por mostrar que existem limites estritos para a variação, uma vez que a seleção mais rigorosa e prolongada não aumenta indefinidamente uma qualidade como a rapidez de um cavalo de corrida. Sobre isto, o Sr. Wallace comenta que "este argumento falha em responder à verdadeira questão", que não é se a mudança indefinida é possível, "mas se tais diferenças como as que ocorrem na natureza poderiam ter sido
observadas pelo resenhista partindo do pressuposto de que cada variação que aparece é fortemente marcada; embora, por implicação, tenha tornado isto muito claro. Nada em todo o seu artigo me impressionou mais do que a sua visão relativa ao limite da rapidez no cavalo de corrida e noutros casos semelhantes: tentarei citá-lo a este respeito na prova do meu capítulo final. Deixei passar completamente esta explicação, embora no caso do trigo tenha chegado a algo análogo. Fico contente por elogiar o livro do Duque, pois fiquei muito impressionado com ele. A parte sobre o voo pareceu-me, a princípio, muito boa; mas como a asa é articulada por uma junta de esfera e encaixe, suspeito que o Duque acharia muito difícil apresentar qualquer razão contra a crença de que a asa atinge o ar mais ou menos obliquamente. Fiquei muito contente por ver o seu artigo e o desenho da borboleta em "Science Gossip". A propósito, não posso deixar de pensar que leva a proteção demasiado longe em alguns casos, como com as riscas do tigre. Li também esta manhã um excelente resumo no "Gardeners' Chronicle" do seu artigo sobre ninhos (203/6. Um resumo de um artigo sobre "Birds' Nests and Plumage", lido perante a Associação Britânica: ver "Gard. Chron." 1867, página 1047). Não fui de forma alguma totalmente convertido pela sua carta, mas penso agora que o estou; e espero que seja publicado em algum lugar na íntegra. Parece-me uma generalização capital e parece-me ainda mais original do que inicialmente...
Terminei o Volume I do meu livro ["Variation of Animals and Plants"] e espero que o todo seja publicado até ao final de novembro. Se tiver a paciência de o ler até ao fim, o que é muito duvidoso, encontrará, creio eu, uma grande acumulação de factos que lhe serão de utilidade em futuros artigos; e não poderiam ser postos em melhor uso, pois é certamente um mestre na nobre arte de raciocinar.
CARTA 204. A T.H. HUXLEY. Down, 3 de outubro [sem data].
Sei que não tem tempo para correspondência especulativa; e não esperava minimamente uma resposta à minha última. Mas estou muito contente por a ter tido, pois, no meu trabalho eclético, as opiniões dos poucos homens bons são de grande valor para mim.
Eu sabia, é claro, da visão cuvieriana da classificação (204/1. Cuvier provou que "os animais não podem ser dispostos numa única série, mas que existem vários planos distintos de organização a serem observados entre eles, nenhum dos quais, na sua modificação mais elevada e complexa, conduz a qualquer um dos outros" (Huxley's "Darwiniana", página 215)); mas penso que a maioria dos naturalistas procura algo mais e pesquisa "o sistema natural" — "o plano sobre o qual o Criador trabalhou", etc., etc. É este elemento adicional que acredito ser simplesmente genealógico.
Mas ficaria muito contente por ter a sua resposta (quer quando nos encontrarmos ou por nota) ao seguinte caso, tomado por si só, e não se permitindo olhar para além do ponto em questão. Conceda que todas as raças de homem descendem de uma única raça — conceda que toda a estrutura de cada raça de homem era perfeitamente conhecida — conceda que uma tabela perfeita da descendência de cada raça era perfeitamente conhecida — conceda tudo isto, e então não pensa que a maioria preferiria como a melhor classificação uma genealógica, mesmo que ocasionalmente colocasse uma raça não tão próxima de outra como estaria se colocada apenas pela estrutura? Geralmente, podemos assumir com segurança que a semelhança das raças e os seus pedigrees andariam de mãos dadas.
Gostaria de ouvir o que diria sobre este caso puramente teórico.
Poder-se-ia perguntar por que é o desenvolvimento tão todo-poderoso na classificação, como admito plenamente que é? Creio que é porque depende da, e melhor trai a, descendência genealógica; mas este é um ponto demasiado vasto para abordar.
CARTA 205. A C. LYELL. Down, 7 de dezembro [1867].
Envio por este correio o artigo no Victorian Institute a respeito da desova de rãs. Se se lembra da sua juventude ter tentado tirar uma pequena porção da água, lembrar-se-á de que é muito difícil. Creio que todos os pássaros do mundo poderiam pousar todos os dias na desova de batráquios e nunca transportar um único óvulo. Relativamente aos jovens moluscos, indubitavelmente, se o pássaro ao qual estavam agarrados pousasse no mar, seriam instantaneamente mortos; mas um pássaro terrestre, penso eu, nunca pousaria exceto sob terrível necessidade por fadiga. Isto, contudo, foi observado perto de Heligoland (205/1. Exemplos são registados por Gatke em "Heligoland as an Ornithological Observatory" (traduzido por Rudolph Rosenstock, Edimburgo, 1895) de aves terrestres, tais como tordos, escrevedeiras, tentilhões, etc., a descansar por um curto período na superfície da água. O autor descreve observações feitas por si próprio cerca de duas milhas a oeste de Heligoland (página 129)); e aves terrestres, após descansarem por um tempo no mar tranquilo, foram vistas a levantar voo e a continuar a sua viagem. Não posso dar-lhe a referência sobre Heligoland sem muita pesquisa. Este pousar no mar pode ajudá-lo na sua dificuldade inesperada da difusão demasiado fácil de moluscos terrestres pela agência das aves. Apreciei muito a nossa conversa matinal.
CARTA 206. A F. HILDEBRAND. Down, 5 de janeiro [1868].
Agradeço-lhe a sua carta, que me encantou imenso. Felicito-o sinceramente pelo seu sucesso em criar um híbrido de enxerto (206/1. O artigo do Prof. Hildebrand está no "Bot. Zeitung", 1868: a substância é dada em "Variation of Animals and Plants", Edição II, Volume I, página 420), pois acredito que seja uma observação da maior importância. Confio que publicará detalhes completos sobre este assunto e sobre a ação direta do pólen (206/2. Ver Prof. Hildebrand, "Bot. Zeitung", 1868, e "Variation of Animals and Plants", Edição II, Volume I, página 430. Um milho de grão amarelo foi fertilizado com pólen de um de grão castanho; o resultado foi que foram produzidas espigas contendo grãos amarelos e de cor escura): espero que seja tão gentil a ponto de me enviar uma cópia do seu artigo. Se eu tivesse tido sucesso em criar um híbrido de enxerto da batata, tinha a intenção de cultivar plântulas a partir do híbrido de enxerto e das duas formas progenitoras (excluindo insetos) e comparar cuidadosamente a descendência. Isto, contudo, seria difícil devido à esterilidade e variabilidade da batata. Quando, no decurso de alguns meses, receber o meu segundo volume (206/3. Esta frase pode ser parafraseada como "Quando receber o meu livro e ler o segundo volume"), verá por que penso que estes dois assuntos são tão importantes. Levaram-me a formar uma hipótese sobre as várias formas de reprodução, desenvolvimento, hereditariedade, etc., hipótese essa que acredito que será finalmente aceite, embora tenha muitas dúvidas sobre como será recebida agora.
Mais uma vez, felicito-o pelo seu sucesso.
CARTA 207. A J.D. HOOKER. Down, 6 de janeiro [1868].
Muito obrigado pelos nomes das plantas, sinónimos e flores masculinas — tudo o que eu queria.
Fiquei contente por ver a carta de Watson, e lamento que ele seja um renegado quanto à Seleção Natural. É, como diz, característico, com o golpe final em si.
A sua dificuldade sobre a diferença entre os dois géneros de umbelíferas de St. Helena é exatamente a mesma que Nageli defendeu num panfleto capaz (207/1. "Ueber Entstehung und Begriff der naturhist. Art." "Sitz. der K. Bayer. Akad. Der Wiss. zu Munchen", 1865. Alguns dos pontos de Nageli são discutidos na "Origin", Edição V, página 151), e que, consequentemente, sustenta que existe alguma tendência inata desconhecida para a progressão em todos os organismos. Disse numa carta para ele que, naturalmente, não poderia, de forma alguma, explicar tais casos; mas que não me pareciam de força avassaladora, enquanto formos totalmente ignorantes do significado de tais estruturas, se são de alguma utilidade para as plantas, ou consequências inevitáveis de modificações noutras partes.
Não consigo compreender o que Watson quer dizer com o "contrapeso na natureza" para a variação divergente. Existe o contrapeso do cruzamento, do qual o meu trabalho atual me leva diariamente a ver cada vez mais a eficiência; mas suponho que ele quer dizer algo muito diferente. Além disso, acredito que a variação é divergente apenas porque formas diversificadas podem subsistir melhor. Mas vai achar-me um maçador.
Anexo metade de uma carta de F. Muller (que por favor devolva) para a eventualidade de gostar de a ver; embora tenha hesitado muito em enviá-la, uma vez que está tão sobrecarregado de trabalho. Imagino que a flor semelhante a Solanum seja curiosa.
Ouvi ontem, para minha alegria, que o Dr. Hildebrand tem feito experiências sobre a ação direta do pólen na planta-mãe com sucesso. Conseguiu também fazer um verdadeiro híbrido de enxerto entre duas variedades de batatas, no que eu falhei. Considero isto esplêndido para a pangénese, como sendo uma forte prova de que a reprodução por gomos e a reprodução seminal não diferem essencialmente.
O meu livro está horrivelmente atrasado, devido ao maldito criador de índices (207/2. Darwin apreciou profundamente o bom trabalho colocado no índice de "The Variation of Animals and Plants"). Quase me esqueci dele!
CARTA 208. A T.H. HUXLEY. Down, 30 de janeiro [1868].
Os mais sinceros agradecimentos pelas suas amáveis felicitações. Nunca recebi uma nota sua na minha vida sem prazer; mas se isto será assim depois de ter lido a pangénese (208/1. No Volume II de "Animals and Plants", 1868), tenho muitas dúvidas. Oh Senhor, que explosão poderei receber! Escrevo agora em parte para dizer que não deve pensar em olhar para o meu livro até ao verão, quando espero que leia a pangénese, pois preocupo-me com a sua opinião sobre tal assunto mais do que com a de qualquer outro homem na Europa. É tão terrivelmente perspicaz e tão diabolicamente honesto! Mas, até ao dia da minha morte, sustentarei sempre que foi demasiado perspicaz quanto ao hibridismo; e o capítulo sobre o assunto no meu livro gostaria que o lesse: não que, como temo, vá produzir algum bom efeito, e que se dane.
Regozijo-me por saber que os seus filhos estão todos bastante bem. Dê à Sra. Huxley o anexo (208/2. Perguntas sobre Expressão) e peça-lhe para observar quando um dos seus filhos estiver a lutar e prestes a desatar a chorar. Uma querida jovem aqui perto atormentou uma criança muito pequena por minha causa, até que ela chorasse, e vi as sobrancelhas por um segundo ou dois maravilhosamente oblíquas, pouco antes de o torrente de lágrimas começar.
A simpatia de todos os nossos amigos sobre o sucesso do George (ele é o jovem Herald) (208/3. O seu filho George foi Second Wrangler em 1868; quando rapaz, era um entusiasta da heráldica) tem sido um prazer maravilhoso para nós. George não se escravizou, o que torna o seu sucesso ainda mais satisfatório. Adeus, meu caro Huxley, e não se mate com trabalho.
Peço que me permita incluir o que me parece ser uma demonstração, baseada nos seus próprios princípios, de que a Seleção Natural poderia produzir a esterilidade dos híbridos. Se isso não o convencer, ficarei grato se me apontar onde reside a falácia. Tomei os dois casos de uma ligeira esterilidade superando a fertilidade perfeita, e de uma esterilidade perfeita superando uma fertilidade parcial — o começo e o fim do processo. O senhor admite que ocorrem variações na fertilidade e na esterilidade, e penso que também admitirá que, se eu demonstrar que uma quantidade considerável de esterilidade seria vantajosa para uma variedade, isso é prova suficiente de que a menor variação nessa direção seria também útil e continuaria a acumular-se.
1. Suponhamos que exista uma espécie que variou em duas formas, cada uma adaptada às condições existentes (211/1. "Condições existentes" significa, é claro, novas condições que surgiram agora. E o facto de as "duas" estarem melhor adaptadas do que a forma parental significa que estão melhor adaptadas cada uma a um ambiente especial na mesma área — como uma a lugares húmidos, outra a lugares secos; uma a bosques, outra a terrenos abertos, etc., etc., como Darwin já tinha explicado. A.R.W. (1899).) melhor do que a forma parental, a qual suplantam.
2. Se estas duas formas, que se supõe coexistirem no mesmo distrito, não se cruzarem, a Seleção Natural acumulará variações favoráveis até que se tornem suficientemente bem adaptadas às suas condições de vida e formem duas espécies aliadas.
3. Mas se estas duas formas se cruzarem livremente entre si e produzirem híbridos que também são bastante férteis inter se, então a formação das duas raças ou espécies distintas será retardada ou talvez inteiramente impedida; pois a descendência das uniões cruzadas será mais vigorosa devido ao cruzamento, embora menos adaptada às suas condições de vida do que qualquer uma das raças puras. (211/2. Depois de "raças puras", acrescentar "por serem menos especializadas". A.R.W. (1899).)
4. Agora, que surja uma esterilidade parcial de alguns indivíduos destas duas formas quando se cruzam; e, como isto se deverá provavelmente a algumas condições especiais de vida, podemos razoavelmente supor que surja numa porção definida da área ocupada pelas duas formas.
5. O resultado é que, nesta área, os híbridos não aumentarão tão rapidamente como antes; e, como pelos termos do problema as duas formas puras são mais adequadas às condições de vida do que os híbridos, elas tenderão a suplantar estes últimos inteiramente sempre que a luta pela existência se tornar severa.
6. Podemos também supor razoavelmente que, logo que surja qualquer esterilidade sob condições naturais, ela será acompanhada por alguma desinclinação para uniões cruzadas; e isto diminuirá ainda mais a produção de híbridos.
7. Na outra parte da área, contudo, onde o hibridismo ocorre sem entraves, os híbridos de vários graus ultrapassarão em breve, e de longe, a forma parental ou pura.
8. O primeiro resultado, então, de uma esterilidade parcial dos cruzamentos aparecendo numa parte da área ocupada pelas duas formas, será que a GRANDE MAIORIA dos indivíduos consistirá ali apenas das formas puras, enquanto no resto da área estas serão uma minoria — o que é o mesmo que dizer que a nova variedade estéril ou fisiológica das duas formas será mais adequada às condições de existência do que a porção restante que não variou fisiologicamente.
9. Mas quando a luta pela existência se torna severa, a variedade que está mais bem adaptada às condições de existência suplanta sempre aquela que está imperfeitamente adaptada; portanto, pela Seleção Natural, as variedades estéreis das duas formas serão estabelecidas como as únicas.
10. Agora, que ocorra uma nova série de variações na quantidade de esterilidade e na desinclinação para uniões cruzadas — também em certas partes da área: exatamente o mesmo resultado deve repetir-se, e a descendência desta nova variedade fisiológica ocupará novamente, com o tempo, toda a área.
11. Existe ainda outra consideração que apoia este ponto de vista. Parece provável que as variações na quantidade de esterilidade coincidiriam até certo ponto com as variações estruturais e talvez dependessem delas; de modo que, na exata proporção em que as duas formas divergissem e se tornassem mais bem adaptadas às condições de existência, a sua esterilidade aumentaria. Se este fosse o caso, então a Seleção Natural atuaria com força dupla, e aquelas variedades que estivessem melhor adaptadas para sobreviver, tanto estrutural como fisiologicamente, certamente o fariam. (211/3. Os onze parágrafos anteriores são substancialmente, mas não verbalmente, idênticos à exposição do argumento no "Darwinism" do Sr. Wallace, 1889. Páginas 179, 180, nota 1.)
12. Consideremos agora o caso mais difícil de duas espécies aliadas A, B, na mesma área, sendo metade dos indivíduos de cada uma (As, Bs) absolutamente estéril, e a outra metade (Af, Bf) parcialmente fértil: será que As, Bs exterminarão, em última análise, Af, Bf?
13. Para evitar complicações, deve admitir-se que entre As e Bs não ocorrem uniões cruzadas, enquanto entre Af e Bf as uniões cruzadas são tão frequentes como as uniões diretas, embora muito menos férteis. Devemos também deixar de fora da consideração os cruzamentos entre As e Af, Bs e Bf, com as suas várias aproximações à esterilidade, pois creio que não afetarão o resultado final, embora compliquem muito o problema.
14. Na primeira geração resultará: 1.º, a descendência pura de As e Bs; 2.º, a descendência pura de Af e de Bf; e 3.º, a descendência híbrida de Af, Bf.
15. Supondo que, em anos comuns, o aumento do vigor constitucional dos híbridos compense exatamente as suas adaptações imperfeitas às condições, haverá na segunda geração, além destas três classes, híbridos de segundo grau entre os primeiros híbridos e Af e Bf, respetivamente. Nas gerações sucessivas, haverá híbridos de todos os graus, variando entre os primeiros híbridos e os tipos quase puros de Af e Bf.
16. Ora, se inicialmente o número de indivíduos de As, Bs, Af e Bf fosse igual, e, ano após ano, o número total continuasse estacionário, penso que se pode provar que, enquanto metade será a descendência pura de As e Bs, a outra metade tornar-se-á cada vez mais hibridizada, até que o todo seja constituído por híbridos de vários graus.
17. Ora, esta raça híbrida e algo intermédia não pode estar tão bem adaptada às condições de vida como as duas espécies puras, que foram formadas pela adaptação minuciosa às condições através da Seleção Natural; portanto, numa luta severa pela existência, os híbridos devem sucumbir, especialmente porque, por hipótese, a sua fertilidade não seria tão grande como a das duas espécies puras.
18. Se fôssemos levar em consideração as uniões de As com Af e de Bs com Bf, os resultados tornar-se-iam muito complicados, mas isso ainda teria de levar a que existisse um número de formas puras inteiramente derivadas de As e Bs, e de formas híbridas principalmente derivadas de Af e Bf; e o resultado da luta destes dois conjuntos de indivíduos não pode ser duvidoso.
19. Se estes argumentos são sólidos, segue-se que a esterilidade pode ser acumulada e aumentada, e finalmente tornada completa pela Seleção Natural, quer as variedades estéreis se originem juntas numa porção definida da área ocupada pelas duas espécies, quer ocorram dispersas por toda a área. (211/4. A primeira parte desta discussão deve ser considerada isoladamente, pois é simultaneamente mais simples e mais importante. Acredito agora que a utilidade, e portanto a causa da esterilidade entre espécies, ocorre durante o processo de diferenciação. Quando as espécies estão totalmente formadas, a ocorrência ocasional de híbridos é de importância comparativamente pequena e nunca pode ser um perigo para a existência da espécie. A.R.W. (1899).)
P.S. — Em resposta à objeção quanto à esterilidade desigual dos cruzamentos recíprocos ("Variation, etc.", Volume II, página 186), respondo que, até onde ia, a esterilidade de um cruzamento seria vantajosa mesmo que o outro cruzamento fosse fértil: e, assim como caracteres agora coordenados podem ter sido acumulados separadamente pela Seleção Natural, também os cruzamentos recíprocos podem ter-se tornado estéreis um de cada vez.
CARTA 212. PARA A.R. WALLACE. 4, Chester Place, 17 de março de 1868.
(212/1. O Sr. Darwin já tinha escrito uma breve nota ao Sr. Wallace expressando uma divergência geral em relação ao seu ponto de vista.)
Não sinto que irei debater o argumento da esterilidade até ao meu regresso a casa; tentei uma ou duas vezes, e isso fez com que o meu estômago se sentisse como se tivesse sido colocado num torno. O seu artigo deixou três dos meus filhos meio loucos — um deles ficou acordado até às 12 horas a lê-lo. O meu segundo filho, o matemático, acha que o senhor omitiu uma dedução quase inevitável que aparentemente modificaria o resultado. Ele escreveu o que pensa, mas não tentei compreender totalmente o que ele disse. Suponho que não se interesse o suficiente pelo assunto para querer ver o que ele escreveu.
CARTA 212A. A.R. WALLACE PARA CHARLES DARWIN. Hurstpierpoint, 24 de março [1868].
Devolvo as notas do seu filho com as minhas observações sobre elas. Sem entrar em detalhes, não é este um forte argumento geral?
1. Uma espécie varia ocasionalmente em duas direções, mas, devido ao seu livre cruzamento, as variedades nunca aumentam.
2. Ocorre uma mudança de condições que ameaça a existência da espécie; mas as duas variedades estão adaptadas às condições em mudança, e, se forem acumuladas, formarão duas novas espécies adaptadas às novas condições.
3. O cruzamento livre, contudo, torna isto impossível, e por isso a espécie corre perigo de extinção.
4. Se a esterilidade fosse induzida, então as raças puras aumentariam mais rapidamente e substituiriam a espécie antiga.
5. Admite-se que a esterilidade parcial entre variedades ocorre ocasionalmente. Admite-se [que] o grau desta esterilidade varia; não é provável que a Seleção Natural possa acumular estas variações e, assim, salvar a espécie? Se a Seleção Natural NÃO pode fazer isto, como é que as espécies surgem, exceto quando uma variedade é isolada?
O facto de espécies intimamente aliadas em países distintos serem estéreis não é uma dificuldade; pois ou divergiram de um antepassado comum em contacto, e a Seleção Natural aumentou a esterilidade, ou foram isoladas e variaram desde então: caso em que foram influenciadas durante eras por condições distintas que podem bem produzir esterilidade.
Se a dificuldade de enxertar fosse tão grande como a dificuldade de cruzar, e tão regular, admito que seria uma objeção muito séria. Mas não é. Creio que muitas espécies distintas podem ser enxertadas, enquanto outras menos distintas não podem. A regularidade com que as espécies naturais são estéreis entre si, mesmo quando muito semelhantes, penso ser um argumento a favor de a esterilidade ter sido geralmente produzida pela Seleção Natural para o bem da espécie.
A outra dificuldade, da esterilidade desigual dos cruzamentos recíprocos, não me parece nenhuma; pois é um passo para uma esterilidade mais completa e, como tal, seria aumentada pela seleção.
CARTA 213. PARA A.R. WALLACE. Down, 6 de abril [1868].
Tenho estado a considerar o terrível problema. Deixe-me dizer primeiro que ninguém poderia ter desejado mais seriamente o sucesso da Seleção Natural no que diz respeito à esterilidade do que eu; e, quando considerei uma declaração geral (como na sua última nota), senti sempre a certeza de que poderia ser resolvida, mas falhei sempre nos detalhes. A causa, creio eu, é que a Seleção Natural não pode efetuar o que não é bom para o indivíduo, incluindo neste termo uma comunidade social. Seria preciso um volume para discutir todos os pontos, e nada é tão humilhante para mim como concordar com um homem como o senhor (ou Hooker) nas premissas e discordar sobre o resultado.
Concordo com o argumento do meu filho e não com a réplica. A causa da nossa diferença, penso eu, é que considero o número de descendentes como um elemento importante (permanecendo todas as circunstâncias iguais) na manutenção do número médio de indivíduos dentro de qualquer área. Não acredito que a quantidade de alimento seja, de forma alguma, a única causa determinante do número. Uma fertilidade diminuída é equivalente a uma nova fonte de destruição. Acredito que se, num distrito, uma espécie produzisse, por qualquer causa, menos crias, a deficiência seria suprida pelos distritos circundantes. Isto aplica-se ao seu parágrafo 5. (213/1. Ver Carta 211.) Se a espécie produzisse menos crias por qualquer causa em todos os distritos, tornar-se-ia extinta, a menos que a sua fertilidade fosse aumentada através da Seleção Natural (ver H. Spencer).
Discordo da probabilidade e quase da possibilidade do parágrafo 1, uma vez que o senhor começa com duas formas dentro da mesma área, que não são mutuamente estéreis, e que ainda assim suplantaram a forma parental.
(Parágrafo 6.) Não conheço qualquer sombra de facto que apoie a crença de que a desinclinação para o cruzamento acompanha a esterilidade. Isso não pode sustentar-se com plantas, ou com os animais aquáticos fixos mais inferiores. Vi claramente que auxílio imenso isto seria, mas desisti. A desinclinação para cruzar parece ter sido adquirida independentemente, provavelmente pela Seleção Natural; e não vejo por que não teria bastado, para impedir que espécies incipientes se misturassem, simplesmente aumentar a desinclinação sexual para cruzar.
(Parágrafo 11.) Discordo até certo ponto de que a quantidade de esterilidade e a dissimilaridade estrutural andem necessariamente juntas, exceto indiretamente e de forma alguma estrita. Veja as variedades de pombos, galinhas e couves.
Descuidei a vantagem da semi-esterilidade dos cruzamentos recíprocos; contudo, talvez pela novidade, não me sinto inclinado a admitir a probabilidade de a Seleção Natural ter feito o seu trabalho de forma tão estranha.
Não discutirei o segundo caso de esterilidade absoluta, mas os seus pressupostos no parágrafo 13 parecem-me demasiado complicados. Não posso acreditar que um atributo tão universal como a esterilidade absoluta entre espécies remotas tenha sido adquirido de forma tão complexa. Não concordo com a sua réplica sobre a enxertia: admito plenamente que não é tão estreitamente restrita como o cruzamento, mas isto não me parece enfraquecer o caso como uma analogia. A incapacidade de enxertar é, da mesma forma, um atributo invariável de plantas suficientemente remotas entre si, e por vezes de plantas bastante próximas.
A dificuldade de aumentar a esterilidade através da Seleção Natural de duas espécies já estéreis parece-me ser melhor compreendida considerando um caso real. A prímula-das-prados e a prímula-vulgar são moderadamente estéreis, contudo produzem ocasionalmente híbridos. Ora, estes híbridos, dois ou três ou uma dúzia em toda uma paróquia, ocupam terreno que poderia ter sido ocupado por qualquer uma das espécies puras, e sem dúvida que estas últimas sofrem nesta pequena medida. Mas pode conceber que quaisquer plantas individuais de prímula-vulgar e prímula-das-prados que, por acaso, fossem mutuamente um pouco mais estéreis (isto é, que, ao serem cruzadas, produzissem um pouco menos de sementes) do que o habitual, lucrassem a tal ponto que aumentassem em número até à exclusão final da atual prímula-vulgar e prímula-das-prados? Eu não consigo.
O meu filho, lamento dizer, não consegue ver a força total da sua réplica em relação ao segundo ponto da esterilidade continuamente aumentada. O senhor fala nesta réplica, e no parágrafo 5, de todos os indivíduos se tornarem em algum grau ligeiro estéreis em certos distritos: se o senhor admitisse que, pela exposição contínua a estas mesmas condições, a esterilidade aumentaria inevitavelmente, não haveria necessidade de Seleção Natural. Mas suspeito que a esterilidade não é causada tanto por quaisquer condições particulares, mas sim pela longa habituação a condições de qualquer tipo. Para falar de acordo com a pangénese, as gémulas dos híbridos não são prejudicadas, pois os híbridos propagam-se livremente por gomos; mas os seus órgãos reprodutores são de alguma forma afetados, de modo que não podem acumular as gémulas adequadas, quase da mesma maneira que os órgãos reprodutores de uma espécie pura se tornam afetados quando expostos a condições não naturais.
Esta é uma carta muito mal expressa e mal escrita. Não responda, a menos que o espírito o incite. A vida é demasiado curta para uma discussão tão longa. Receio muito que nunca iremos concordar.
CARTA 214. A.R. WALLACE PARA CHARLES DARWIN. Hurstpierpoint, [abril?] 8 de 1868.
Lamento que se tenha dado ao trabalho de responder às minhas ideias sobre a esterilidade. Se não está convencido, tenho poucas dúvidas de que estou errado; e, de facto, eu próprio só estava meio convencido pelos meus próprios argumentos, e penso agora que há cerca de uma hipótese em duas de a Seleção Natural poder ou não ser capaz de acumular a esterilidade. Se a minha primeira proposição for modificada para a existência de uma espécie e de uma variedade na mesma área, funcionará tão bem para o meu argumento. Tais existem certamente. São férteis entre si, e ainda assim cada uma mantém-se toleravelmente distinta. Como pode ser isto, se não há desinclinação para o cruzamento?
A minha crença é certamente que o número de descendentes não é um elemento tão importante na manutenção da população de uma espécie como o fornecimento de alimento e outras condições favoráveis; porque os números de uma espécie variam constantemente muito em diferentes partes da sua própria área, enquanto o número médio de descendentes não é um elemento muito variável.
Contudo, não direi mais nada, mas deixarei o problema como insolúvel, apenas receando que se torne uma arma formidável nas mãos dos inimigos da Seleção Natural.
CARTA 215. PARA J.D. HOOKER.
(215/1. O excerto seguinte de uma carta ao Sir Joseph Hooker (datada de 3 de abril de 1868) refere-se ao seu Discurso Presidencial para a próxima reunião da Associação Britânica em Norwich.
Algum relato do sucesso do Sir Joseph é dado em "Life and Letters", III, página 100, também em "Life" de Huxley, Volume I, página 297, onde Huxley escreve a Darwin:--
"Tivemos uma reunião excelente em Norwich, e o querido velho Hooker esteve em grande forma, como sempre acontece em emergências. O único defeito foi o terrível 'Darwinismus' que se espalhou pela secção e apareceu quando menos se esperava, até na palestra de Fergusson sobre 'Templos Budistas'. Terá a rara felicidade de ver as suas ideias triunfantes durante a sua vida.
"P.S. — Vou para a oposição; não aguento isto.")
Down, 3 de abril [1868].
Tenho estado a pensar no seu Discurso Presidencial; declaro que me senti bastante desconfortável ao imaginar que tinha de o fazer, e sentindo-me totalmente perplexo.
Mas não acredito que o ache tão difícil. Quando vier a Down, estarei muito curioso por ouvir quais são as suas ideias sobre o assunto.
Conseguiria tirar algo de uma história dos grandes passos no progresso da Botânica, como representativa de toda a História Natural? Que o Céu o proteja! Suponho que há homens para quem tal tarefa não seria tão terrível como me parece a mim... Se tivesse tempo, deveria ler um artigo de W. Bagehot no número de abril da "Fortnightly" (215/2. "Physic and Politics", "Fortnightly Review", Volume III, página 452, 1868.), aplicando a Seleção Natural à política antiga ou pré-histórica e, na verdade, à política recente — isto sabe ser o seu ponto de vista.
CARTA 216. A.R. WALLACE PARA CHARLES DARWIN. 9, St. Mark's Crescent, N.W., 16 de agosto [1868].
Deveria ter escrito antes para lhe agradecer as cópias dos seus artigos sobre a Primula e sobre "Cross-unions of Dimorphic Plants, etc.". Este último é particularmente interessante e a conclusão é da maior importância; mas penso que torna a dificuldade de saber como estas formas, com os seus graus variáveis de esterilidade, se originaram, maior do que nunca. Se a "seleção natural" não pôde acumular graus variáveis de esterilidade para benefício da planta, então como é que a esterilidade chegou a ser associada a um cruzamento de uma planta trimórfica em vez de outro? A dificuldade parece ser aumentada pela consideração de que a vantagem de um cruzamento com um indivíduo distinto é obtida tão bem por uniões ilegítimas como por uniões legítimas. Por que meios, então, é que as uniões ilegítimas se tornaram estéreis? Pareceria uma forma muito mais simples de o pólen de cada planta ter adquirido uma prepotência sobre o estigma de outro indivíduo em relação ao do mesmo indivíduo, sem a extraordinária complicação de três diferenças de estrutura e dezoito uniões diferentes com graus variáveis de esterilidade!
Contudo, o facto permanece como uma excelente resposta à declaração de que a esterilidade dos híbridos prova a distinção absoluta dos progenitores.
Tenho estado a ler com grande prazer o último admirável discurso do Sr. Bentham (216/1. "Proc. Linn. Soc." 1867-8, página lvii.), no qual ele responde tão bem às grosseiras falsidades do "Athenaeum"; e também dá um parecer favorável à pangénese. Penso que podemos agora felicitá-lo por ter feito um valioso convertido, cujas opiniões sobre o assunto, chegando tão tarde e sendo evidentemente tão bem consideradas, terão muito peso.
Vou a Norwich na terça-feira para ouvir o Dr. Hooker, que espero que promulgue ousadamente o "Darwinismo" no seu discurso. (216/2. Discurso Presidencial do Sir Joseph Hooker na Reunião da Associação Britânica.) Teremos o prazer de o ver lá?
Estou envolvido em negociações sobre o meu livro.
Esperando que esteja bem e a avançar com os seus próximos volumes.
(216/3. O Sr. Wallace permitiu-nos anexar a seguinte nota quanto às suas opiniões mais recentes sobre a questão da Seleção Natural e da esterilidade:--
"Ao escrever o meu 'Darwinismo', e ao voltar à consideração deste problema do efeito da Seleção Natural na acumulação de variações na quantidade de esterilidade entre variedades ou espécies incipientes vinte anos depois, fiquei mais convencido, do que estava quando discutia com Darwin, da substancial precisão do meu argumento. Recentemente, um correspondente que é simultaneamente naturalista e matemático assinalou-me um ligeiro erro no meu cálculo na página 183 (que, no entanto, não afeta materialmente o resultado), refutando a 'seleção fisiológica' do falecido Dr. Romanes, mas ele não consegue ver qualquer falácia no meu argumento quanto ao poder da Seleção Natural para aumentar a esterilidade entre espécies incipientes, nem, tanto quanto sei, alguém demonstrou que tal falácia exista.
"Quanto aos outros pontos em que divergi do Sr. Darwin na discussão anterior — o efeito da elevada fertilidade na população de uma espécie, etc. — continuo a manter as opiniões que expressei então, mas seria despropositado tentar justificá-las aqui."
A.R.W. (1899).)
CARTA 217. A C. LYELL. Down, 4 de outubro [1867].
Relativamente aos pontos da sua nota, talvez me tenha expressado por vezes com ambiguidade. No final do Capítulo XXIII, onde digo que raças marcadas não são frequentemente (o senhor omite "frequentemente") produzidas por condições alteradas (217/1. "Portanto, embora se deva admitir que as novas condições de vida afetam por vezes, de forma definida, os seres orgânicos, pode duvidar-se se raças bem marcadas foram frequentemente produzidas pela ação direta de condições alteradas sem a ajuda da seleção, seja pelo homem ou pela natureza." ("Animais e Plantas", Volume II, página 292, 1868.)), pretendi referir-me à ação direta de tais condições na causa da variação, e não como algo que conduza à preservação ou destruição de certas formas. Existe uma diferença tão grande nestes dois aspetos como entre a seleção voluntária pelo homem e as causas que induzem a variabilidade. Em algum lugar no meu livro, referi a estreita ligação entre a Seleção Natural e a ação das condições externas no sentido que especifica na sua nota. E, neste sentido, pode dizer-se que toda a Seleção Natural depende de condições alteradas. Na "Origem", creio que subestimei (e pela causa que menciona) os efeitos da ação direta das condições externas na produção de variedades; mas espero que, no Capítulo XXIII, tenha estabelecido um equilíbrio tão justo quanto o nosso conhecimento permite.
É maravilhoso para mim que tenha paciência para ler as minhas provas, e não posso deixar de lamentar, uma vez que são tão imperfeitas; penso que lhe devem dar uma impressão errada e, se eu tivesse recusado terminantemente, talvez tivesse ficado com uma ideia melhor do meu livro. Cada uma das provas está muito alterada e, espero, melhorada.
Relativamente ao óvulo humano, não consigo encontrar as dimensões indicadas, embora tenha visto frequentemente essa afirmação. A minha impressão é que seria apenas ou mal visível se colocado sobre um pedaço de vidro limpo. Huxley poderia responder à sua pergunta imediatamente.
Não tenho estado bem ultimamente e fiz um progresso lento, mas penso que o meu livro estará terminado a meio de novembro.
CARTA 218. A.R. WALLACE A CHARLES DARWIN. [Fim de fevereiro de 1868]
Estou no segundo volume do seu livro e fiquei espantado com o imenso número de factos interessantes que reuniu. Li primeiro o capítulo sobre a pangénese, pois não conseguia esperar. Dificilmente lhe posso dizer o quanto o admiro. É um conforto positivo para mim ter qualquer explicação viável para uma dificuldade que sempre me tem atormentado, e nunca serei capaz de a abandonar até que uma melhor tome o seu lugar — e isso penso ser dificilmente possível. Venceu agora de forma justa Spencer no seu próprio terreno, pois ele realmente não ofereceu qualquer solução para as dificuldades do problema. A incompreensível minúcia e o vasto número de germes ou átomos fisiológicos (que eles próprios devem ser compostos por números das unidades fisiológicas de Spencer) é a única dificuldade; mas isso está apenas ao nível das dificuldades em todas as conceções de matéria, espaço, movimento, força, etc.
Pelo que entendi de Spencer, as suas unidades fisiológicas eram idênticas em toda a espécie, mas ligeiramente diferentes em cada espécie distinta; mas não foi feita qualquer tentativa para mostrar como a forma idêntica do progenitor ou dos ancestrais acabou por ser construída a partir de tais unidades.
CARTA 219. A A.R. WALLACE. Down, 27 de fevereiro [1868].
Não consegue imaginar o quanto me agradou o que diz sobre a pangénese. Nenhum dos meus amigos se quer pronunciar, exceto até certo ponto o Sir H. Holland, que a achou uma leitura muito difícil, mas admite que alguma visão "estreitamente próxima dela" terá de ser admitida. Hooker, tanto quanto o entendo, o que dificilmente faço neste momento, parece pensar que a hipótese é pouco mais do que dizer que os organismos têm tais e tais potencialidades. O que diz exprime exata e plenamente os meus sentimentos — a saber, que é um alívio ter alguma explicação viável para os vários factos, que pode ser abandonada assim que se encontre qualquer hipótese melhor. Tem sido certamente um imenso alívio para a minha mente; pois tenho tropeçado sobre o assunto durante anos, vendo vagamente que existia alguma relação entre as várias classes de factos. Ouço agora de H. Spencer que as suas opiniões citadas na minha nota de rodapé se referem a algo bastante distinto, como parece ter percebido. (219/1. Esta carta está publicada em "Life and Letters", III, página 79.)
CARTA 220. A.R. WALLACE A CHARLES DARWIN. Hurstpierpoint, 1 de março de 1868.
...O Sir C. Lyell falou-me como se tivesse admirado muito a pangénese. Fico muito contente por H. Spencer reconhecer imediatamente que a sua visão era algo bastante distinto da sua. Embora, como sabe, eu seja um grande admirador dele, sinto o quão completamente a sua visão falhou em ir à raiz da questão, como a sua faz. A dele não explicava nada, embora estivesse evidentemente a esforçar-se muito para encontrar uma explicação. A sua, tanto quanto posso ver, explica tudo no crescimento e na reprodução — embora, naturalmente, o mistério da vida e da consciência permaneça tão grande como sempre.
Achei partes do capítulo sobre a pangénese difíceis de ler e ainda não as dominei completamente, e existem também ao longo das discussões no Volume II muitas partes de difícil leitura, sobre pontos minuciosos que nós, que não trabalhámos experimentalmente no cultivo e cruzamento, como o senhor fez, dificilmente conseguimos ver a importância, ou a sua relação com a questão geral.
Se me for pedido, talvez escreva um artigo sobre o livro para alguma publicação periódica e, se assim for, farei o que puder para que a "Pangénese" seja apreciada...
(220/1. Em "Nature", 25 de maio de 1871, página 69, apareceu uma carta sobre a pangénese do Sr. A.C. Ranyard, lidando com a dificuldade de que os "elementos sexuais produzidos no enxerto" não foram demonstrados como sendo afetados pelo porta-enxerto. O Sr. Darwin, numa cópia anotada desta carta, contesta a precisão da afirmação, mas acrescenta: "A MELHOR OBJEÇÃO ATÉ AGORA LEVANTADA." Parece não ter usado as observações do Sr. Ranyard na 2.ª edição de "Variation of Animals and Plants", 1875.)
CARTA 221. A J.D. HOOKER. Down, 21 de maio [1868].
Sei que tem trabalhado demasiado e isso faz com que pense que não está a fazer nada na ciência. Se este for o caso (o que não acredito), o seu intelecto converteu-se todo na escrita de cartas, pois nunca em toda a minha vida recebi uma mais agradável do que a sua última. Divertiu-nos imenso a todos. Quão terrivelmente severo é com o Duque (221/1. O falecido Duque de Argyll, cujo "Reign of Law" o Sir J.D. Hooker tinha lido.): considero-o demasiado severo, mas então não sou um juiz imparcial, pois um Duque, aos meus olhos, não é um mortal comum, e não deve ser julgado pelas regras comuns! Sinto pena de si do fundo da minha alma por causa do discurso (221/2. O Sir Joseph foi Presidente da Associação Britânica em Norwich em 1868: ver "Life and Letters", III, página 100. A referência às "Insular Floras" é à palestra do Sir Joseph na reunião de Nottingham da Associação Britânica em 1866: ver "Life and Letters", III, página 47.): faz-me arrepiar; mas quando senti pena de si perante Huxley, ele não se juntou de todo, e apenas disse que o senhor fez e entregou a sua palestra sobre as Floras Insulares tão admiravelmente em todos os aspetos que não dispensaria qualquer piedade a si. Ele sentia-se certo de que manteria a cabeça erguida. No entanto, aprouvesse a Deus que tudo isto acabasse pelo seu bem. Penso, a partir de várias longas conversas, que Huxley dará uma excelente e original palestra sobre a Distribuição Geográfica das aves. Tenho trabalhado muito arduamente — demasiado arduamente ultimamente — sobre a Seleção Sexual, que se revela um assunto gigantesco; e quase todos os dias surgem novos temas que requerem investigação e levam a infinitas cartas e pesquisas em livros. Estou também incomodado com montes de cartas tolas sobre todo o tipo de assuntos, mas estou muito interessado no meu tema, e por vezes vejo vislumbres de luz. Todas as minhas outras cartas impediram-me de me entregar ao prazer de escrever-lhe; mas encontrei subitamente a erva-gafanhoto (221/3. Sem dúvida as plantas cultivadas a partir de sementes retiradas de excrementos de gafanhoto enviadas pelo Sr. Weale da África do Sul. O caso é mencionado na quinta edição da "Origem", publicada em 1869, página 439.) ontem em flor, e tive de a despachar imediatamente. Suponho que algum dos seus assistentes será capaz de identificar o género sem grande dificuldade. Tenho feito pouco em termos de experiência ultimamente, mas descubro que a resedá é absolutamente estéril com pólen da mesma planta. Qualquer pessoa que visse estame após estame a inclinar-se para cima e a espalhar pólen sobre os estigmas da mesma flor declararia que a estrutura era um mecanismo admirável para a autopolinização. Quão absolutamente misterioso é que deva haver alguma diferença nos óvulos e nos conteúdos dos grãos de pólen (pois os tubos penetram no próprio estigma) causando a fertilização quando estes são retirados de quaisquer duas plantas distintas, e conduzindo invariavelmente à impotência quando retirados da mesma planta! Por Júpiter, nem o Pan. (221/4. Pangénese.) explicará isto. É um conforto para mim pensar que o senhor será certamente assombrado no seu leito de morte por não honrar o grande deus Pan. Estou absolutamente encantado com o que diz sobre o meu livro e sobre Bentham; ao escrevê-lo, estava muito interessado em algumas partes, mas ultimamente pensei tão mal dele como até o "Athenaeum". Deveria ser lido no estrangeiro por causa dos livreiros, pois cinco edições saíram ou estão a sair no estrangeiro! Tenho vergonha de dizer que li apenas a parte orgânica de Lyell, e admiro tudo o que li tanto quanto o senhor. É um conforto saber que possivelmente quando se tem setenta anos de idade o cérebro pode ser útil para o trabalho. Deixa-me louco, e sei que o deixa a si também, que não se tenha tempo para ler nada além do que deve ser lido: o meu quarto está sobrecarregado com livros por ler. Concordo quanto à inteligência maravilhosa de Wallace, mas ele não é suficientemente cauteloso na minha opinião. Descubro que devo (e desconfio sempre de mim próprio quando discordo dele) separar bastante largamente dele tudo o que diz respeito a ninhos de aves e proteção; ele está a levar esse passatempo longe demais. Nunca li nada tão miserável como a crítica de Andrew Murray a Wallace no último número do seu Jornal. (221/5. Ver "Journal of Travel and Natural History", Volume I, N.º 3, página 137, Londres, 1868, para a "Resposta à Teoria dos Ninhos de Aves do Sr. Wallace" de Andrew Murray, que apareceu no mesmo volume, página 73. O "Journal" chegou ao fim após a publicação de um volume para 1867-8.) Acredito que este Jornal morrerá, e não chorarei: que contraste com a antiga "Natural History Review".
CARTA 222. A J.D. HOOKER. Freshwater, Ilha de Wight, 28 de julho [1868].
Fico contente por saber que vai (222/1. No seu Discurso Presidencial em Norwich.) tocar na afirmação de que a crença na Seleção Natural está a desaparecer. Não suponho que mesmo o "Athenaeum" pretendesse que a crença na descendência comum das espécies esteja a desaparecer, e este é o ponto mais importante. Esta agora quase universal crença na evolução (de alguma forma) das espécies, penso que pode ser razoavelmente atribuída em grande parte à "Origem". Seria bom que desse uma vista de olhos na curta Introdução da "Anat. of Invertebrates" de Owen, e visse quão plenamente ele admite a descendência das espécies.
Da "Origem", quatro edições inglesas, uma ou duas americanas, duas francesas, duas alemãs, uma holandesa, uma italiana e várias (como me disseram) edições russas. As traduções do meu livro sobre "Variação sob Domesticação" são os resultados da "Origem"; e destas, duas inglesas, uma americana, uma alemã, uma francesa, uma italiana e uma russa apareceram, ou aparecerão em breve. Ernst Hackel escreveu-me há uma ou duas semanas que novas discussões e críticas da "Origem" continuam a sair continuamente na Alemanha, onde o interesse pelo assunto certamente não diminui. Vi algumas destas discussões, e são boas. Receio que o interesse pelo assunto não tenha morrido na América do Norte, ao observar no livro do Professor e da Sra. Agassiz sobre o Brasil quão excessivamente ansioso ele está por me destruir. Relativamente a este país, qualquer um pode julgar por si próprio, mas não diria que o interesse estava a morrer se olhasse para o último número da "Anthropological Review", na qual sou incessantemente ridicularizado. Penso que os "Principles" de Lyell produzirão um efeito considerável. Espero ter-lhe dado o tipo de informação que pretende. A minha cabeça está um pouco instável, o que torna a minha letra pior do que o habitual.
Se discute sobre a não aceitação da Seleção Natural, parece-me um facto muito marcante que a teoria da gravitação de Newton, que parece a todos agora tão certa e clara, foi rejeitada por um homem tão extraordinariamente capaz como Leibniz. A verdade não penetrará numa mente preocupada.
Wallace (222/2. Wallace, "Westminster Review", julho de 1867. O artigo começa: "Não há prova mais convincente da verdade de uma teoria abrangente do que o seu poder de absorver e encontrar um lugar para novos factos, e a sua capacidade de interpretar fenómenos que tinham sido anteriormente encarados como anomalias inexplicáveis..." O Sr. Wallace ilustra a sua afirmação de que "uma teoria falsa nunca resistirá a este teste" com as especulações de "polaridade" de Edward Forbes (ver página 84 do presente volume) e o "Sistema Circular" e "Quinário" de Macleay publicado nos seus "Horae Entomologicae", 1821, e desenvolvido por Swainson nos volumes de história natural da "Lardner's Cabinet Cyclopaedia". O Sr. Wallace diz que um "número considerável de naturalistas bem conhecidos falou aprovadoramente dela, ou defendeu princípios semelhantes, e durante uns bons anos esteve decididamente em ascendência... contudo, morreu completamente em poucos anos curtos, a sua própria existência é agora uma questão de história, e tão rápida foi a sua queda que... Swainson, talvez, viveu para ser o último homem que acreditou nela. Tal é o curso de uma teoria falsa. O de uma verdadeira é muito diferente, como se pode ver bem pelo progresso da opinião sobre o assunto da Seleção Natural."
Aqui, (página 3) segue-se uma passagem sobre a importância avassaladora da Seleção Natural, sublinhada com aparente aprovação na cópia da crítica do Sr. Darwin.), na "Westminster Review", num artigo sobre Proteção, tem uma boa passagem, contrastando o sucesso da Seleção Natural e o seu crescimento com a compreensão de novas classes de factos (222/3. Esta frase bastante obscura pode ser traduzida como: "o seu poder de crescimento através da absorção de novos factos."), com teorias falsas, como a Teoria Quinária, e a da Polaridade, do pobre Forbes, ambas as quais foram promulgadas com grandes vantagens e a primeira temporariamente aceite.
CARTA 223. A G.H. LEWES.
(223/1. O seguinte é impresso a partir de um esboço de carta inscrito pelo Sr. Darwin "Contra órgãos terem sido formados por ação direta do meio em organismos distintos. Principalmente órgãos luminosos e elétricos e espinhos." O esboço está escrito de forma descuidada e é quase ilegível.)
7 de agosto de 1868.
Se quer dizer que em animais distintos, partes ou órgãos, como por exemplo os órgãos luminosos dos insetos ou os órgãos elétricos dos peixes, são inteiramente o resultado das condições externas e internas às quais os órgãos foram sujeitos, de uma forma tão direta e inevitável que poderiam ser desenvolvidos independentemente de serem úteis ou não ao seu possuidor, não posso admitir [a sua visão]. Quase tão cedo poderia admitir que toda a estrutura de, por exemplo, um pica-pau, tivesse tido tal origem; e que deva existir uma relação tão estreita entre a estrutura e as circunstâncias externas que não podem afetar diretamente a estrutura parece-me [ser] inadmissível. Órgãos como os acima especificados parecem-me demasiado complexos e geralmente demasiado bem coordenados com toda a organização, para a admissão de que resultam de condições independentemente da Seleção Natural. A impressão que tive, estudando a natureza, é forte, de que em todos os casos, se pudéssemos recolher todas as formas que alguma vez viveram, teríamos uma gradação estreita desde algum começo mais simples. Se condições semelhantes bastassem, sem a ajuda da Seleção Natural, para dar partes ou órgãos semelhantes, independentemente da relação de sangue, duvido muito que tivéssemos aquela harmonia marcante entre as afinidades, o desenvolvimento embriológico, a distribuição geográfica e a sucessão geológica de todos os organismos aliados. Ficaríamos muito mais perplexos do que agora sobre como classificar, num método natural, muitas formas. É suficientemente intrigante distinguir entre a semelhança devida à descendência e à adaptação; mas (felizmente para os naturalistas), devido ao forte poder da hereditariedade, e a causas e leis de variabilidade excessivamente complexas, quando o mesmo fim ou objetivo foi alcançado, partes um pouco diferentes foram geralmente modificadas, e modificadas de uma forma diferente, de modo a que as semelhanças devidas à descendência e à adaptação possam ser comummente distinguidas. Gostaria apenas de acrescentar, para que nos possamos entender, como suponho que os órgãos luminosos dos insetos, por exemplo, tenham sido desenvolvidos; mas dependo de conjeturas, pois existem tão poucos insetos luminosos que não temos meios de julgar, pela preservação até aos dias de hoje de formas ligeiramente modificadas, as prováveis gradações pelas quais os órgãos passaram. Além disso, não sabemos de que utilidade são estes órgãos. Vemos que os tecidos de muitos animais, [como] certas centopeias em Inglaterra, são suscetíveis, sob condições desconhecidas de alimento, temperatura, etc., de se tornarem ocasionalmente luminosos; tal como o [ilegível]: tal luminosidade tendo sido vantajosa para certos insetos, os tecidos, suponho, tornam-se especializados para este propósito num grau intensificado; em certos insetos numa parte, noutros insetos noutras partes do corpo. Daí que acredite que, se todas as formas de insetos extintas pudessem ser recolhidas, teríamos gradações desde os Elateridae, com os seus tórax altamente e constantemente luminosos, e desde os Lampyridae, com os seus abdómenes altamente luminosos, até alguns insetos antigos ocasionalmente luminosos como a centopeia.
Não sei, mas suponho que a estrutura microscópica dos órgãos luminosos nos insetos mais diferentes seja quase a mesma; e atribuiria à herança de um progenitor comum a semelhança dos tecidos que, sob condições semelhantes, lhes permitiu variar da mesma maneira e, assim, através da Seleção Natural para o mesmo fim geral, chegar ao mesmo resultado. Mutatis mutandis, aplicaria a mesma doutrina aos órgãos elétricos dos peixes; mas aqui tenho de fazer, na minha própria mente, a suposição violenta de que algum peixe antigo era ligeiramente elétrico sem possuir quaisquer órgãos especiais para esse fim. Foi declarado, com base em provas não fidedignas, que certos répteis são elétricos. É, além disso, possível que os chamados órgãos elétricos, enquanto em estado não altamente desenvolvido, possam ter desempenhado alguma função distinta: pelo menos, penso eu, Matteucci não conseguiu detetar eletricidade pura em certos peixes providos dos órgãos adequados. Numa das suas cartas aludiu a unhas, garras, cascos, etc. Pela sua perfeita coadaptação com todo o resto da organização, não posso admitir que tenham sido formados pela ação direta das condições de vida. A opinião de H. Spencer de que se desenvolveram primeiro a partir de pele endurecida, resultado da pressão nas extremidades, parece-me provável.
Relativamente a espinhos e acúleos, suponho que processos atrofiados e [ilegível] endurecidos foram deixados primariamente pela abolição de vários apêndices, mas devo acreditar que a sua extrema agudeza e dureza são o resultado da variabilidade flutuante e da "sobrevivência do mais apto". Admito livremente que a forma precisa, a curvatura e a cor dos espinhos sejam o resultado das leis de crescimento de cada planta em particular, ou das suas condições, internas e externas. Seria um facto espantoso se qualquer planta variável produzisse subitamente, sem a ajuda da reversão ou da seleção, espinhos perfeitos. Que a Seleção Natural tenderia a produzir os espinhos mais temíveis será admitido por todos os que observaram a distribuição na América do Sul e em África (vide Livingstone) de plantas portadoras de espinhos, pois aparecem sempre onde os arbustos crescem isolados e estão expostos aos ataques dos mamíferos. Mesmo em Inglaterra, notou-se que todas as plantas portadoras de espinhos e ferrões são palatáveis para os quadrúpedes, quando os espinhos são esmagados. Com respeito à palmeira trepadeira malaia, o que quis expressar é que os ganchos admiráveis talvez não tenham sido desenvolvidos primeiro para trepar; mas, tendo sido desenvolvidos para proteção, foram posteriormente usados, e talvez mais modificados, para trepar.
CARTA 224. A J.D. HOOKER. Down, 8 de setembro [1868].
Sobre o "Pall Mall". (224/1. "Pall Mall Gazette", 22 de agosto de 1868. Num artigo intitulado "Dr. Hooker on Religion and Science", e referindo-se ao discurso da Associação Britânica, o autor opõe-se a qualquer suposta oposição entre religião e ciência. "A religião", diz ele, "é a sua opinião sobre um conjunto de assuntos, a ciência a sua opinião sobre outro conjunto de assuntos". Mas esquece-se de que, por um lado, temos opiniões assumidas como verdades reveladas; e esta é uma condição que resulta ou na opinião adicional de que aqueles que apresentam factos irreconciliáveis são mais ou menos perversos, ou numa mudança de posição por parte da religião, pela qual a opinião teológica "muda os seus fundamentos para atender às exigências de cada novo facto que a ciência estabelece, e de cada antigo erro que a ciência expõe" (Dr. Hooker, conforme citado pelo "Pall Mall"). Se os teólogos estivessem habituados a reconhecer que, nas palavras do autor do "Pall Mall", "Ciência é um nome geral para o conhecimento humano na sua forma mais definida e geral, qualquer que seja o objeto desse conhecimento", provavelmente as observações de Sir Joseph Hooker nunca teriam sido feitas.) Não concordo que o artigo estivesse de todo correto; pareceu-me monstruoso (e respondido no momento pelo "Morning Advertiser") que a religião não atacasse a ciência. Quando, contudo, digo não de todo correto, não tenho a certeza se não seria mais sensato que os homens de ciência ignorassem completamente todo o assunto da religião. Goldwin Smith, que almoçou aqui, vindo com os Norton (filho do professor Norton e amigo de Asa Gray), que alugaram por quatro meses a Keston Rectory, era fortemente da opinião de que era um erro. Várias pessoas falaram-me veementemente de que admiram muito o seu discurso. Pela possibilidade de querer ver-se num traje francês, envio um jornal; também com um artigo fraco de Agassiz sobre Distribuição Geográfica. Berkeley enviou-me o seu discurso (224/2. O Rev. M.J. Berkeley foi presidente da Secção D em Norwich em 1868.), pelo que tive uma boa desculpa para lhe escrever. Discordo de si: dificilmente suportaria apertar a mão ao "Açúcar de Chumbo" (224/3. "Sabe que a Sra. Carlyle disse que a doçura de Owen a lembrava de açúcar de chumbo." (Huxley a Tyndall, 13 de maio de 1887: "Life" de Huxley, II, página 167.), o que nunca ouvi antes: é excelente. Estou muito contente por vir aqui com Asa Gray, pois se eu estiver mal, ele não será aborrecido. Pediremos aos Norton que venham jantar. No sábado, Wallace (e provavelmente a Sra. W.), J. Jenner Weir (um homem muito bom) e Blyth, e temo que não Bates, virão passar o domingo. O pensamento deixa-me um pouco nervoso; mas desfrutarei imensamente se não me matar. Como gostaria que fosse possível estar aqui!
CARTA 225. A M.J. BERKELEY. Down, 7 de setembro de 1868.
Estou-lhe muito grato por me ter enviado o seu discurso (225/1. Discurso à Secção D da Associação Britânica. ("Brit. Assoc. Report", reunião de Norwich, 1868, página 83.))...pois ganho assim uma boa desculpa para o incomodar com este bilhete para lhe agradecer a sua referência muito gentil e extremamente honrosa aos meus trabalhos.
Quando lhe digo que, desde que era estudante em Cambridge, senti por si o respeito mais sincero, por tudo o que ouvia continuamente do pobre e querido Henslow e de outros sobre o seu grande conhecimento e pesquisas originais, acreditará em mim quando digo que raramente na minha vida fiquei mais gratificado do que ao ler o seu discurso; embora sinta que fala demasiado enfaticamente do que eu fiz. A sua referência à pangénese (225/3. "Seria imperdoável terminar estas observações algo desarticuladas sem advertir sobre um dos assuntos mais interessantes do dia — a doutrina darwiniana da pangénese... Como tudo o que provém da pena de um escritor que não tenho hesitação, na medida em que o meu juízo alcança, em considerar como, de longe, o maior observador da nossa era, qualquer que seja o pensamento sobre as suas teorias quando levadas aos seus resultados extremos, o assunto exige uma consideração cuidadosa e imparcial." (Berkeley, página 86.)) agradou-me particularmente, pois tem sido geralmente negligenciada ou malvista pelos meus amigos; contudo, espero plenamente que algum dia seja mais bem-sucedida. Creio que concordo inteiramente consigo na maneira como os átomos descartados ou chamados gêmulas provavelmente agem (225/4. "Assumindo a verdade geral da teoria de que moléculas dotadas de certos atributos são descartadas pelos componentes celulares com tal infinitésima pequenez que são capazes de circular com os fluidos e, no final, estar presentes na célula embrionária não impregnada e no espermatozoide... parece-me muito mais provável que sejam capazes, sob circunstâncias favoráveis, de exercer uma influência análoga à que é exercida pelo conteúdo do tubo polínico ou espermatozoide no saco embrionário ou óvulo, do que o facto de essas partículas serem elas próprias desenvolvidas em células" (Berkeley, página 87).): nunca supus que fossem desenvolvidas em células livres, mas que penetravam noutras células nascentes e modificavam o seu desenvolvimento subsequente. Este processo comparei-o de facto com a fertilização comum. As células assim modificadas, suponho, descartam por sua vez gêmulas modificadas, que se combinam novamente com outras células nascentes, e assim por diante. Mas não o devo incomodar mais.
CARTA 226. A AUGUST WEISMANN. Down, 22 de outubro de 1868.
Estou-lhe muito grato pela sua carta gentil, e esperei uma semana antes de responder na esperança de receber a "kleine Schrift" (226/1. A "kleine Schrift" é "Ueber die Berechtigung der Darwin'schen Theorie", Leipzig, 1868. O "Anhang" é "Ueber den Einfluss der Wanderung und raumlichen Isolirung auf die Artbilding.") à qual alude; mas temo que se tenha perdido, o que me surpreende muito, pois raramente deixei de receber algo enviado pelo correio.
Como não sei o título e não posso encomendar um exemplar, ficar-lhe-ia muito grato se pudesse dispensar outro.
Estou encantado por si, cujo nome me é familiar, aprovar o meu trabalho. Concordo inteiramente com o que diz sobre cada espécie variar de acordo com as suas próprias leis peculiares; mas, ao mesmo tempo, penso que se deve admitir que as variações da maioria das espécies, no decorrer das eras, foram extremamente diversificadas, pois não vejo como possa ser explicado de outra forma o facto de tantas formas terem adquirido estruturas análogas para o mesmo objeto geral, independentemente da descendência. Estou muito contente por saber que tem argumentado contra a lei da perfectibilidade de Nageli, que me parece supérflua. Outros defendem opiniões semelhantes, mas nenhum deles define o que é essa "perfeição" que não pode ser gradualmente alcançada através da Seleção Natural. Achei o primeiro panfleto de M. Wagner (226/2. O primeiro ensaio de Wagner, "Die Darwin'sche Theorie und das Migrationsgesetz", 1868, é um panfleto publicado separadamente com 62 páginas. No prefácio, o autor declara que é uma versão mais completa de um artigo lido perante a Real Academia de Ciências de Munique em março de 1868. Não conseguimos dizer qual dos escritos de Wagner é referido como o segundo panfleto; o seu segundo ensaio bem conhecido, "Ueber den Einfluss der Geogr. Isolirung", etc., é de data posterior, i.e., 1870.) (pois ainda não tive tempo de ler o segundo) muito bom e interessante; mas penso que ele sobrevaloriza imensamente a necessidade de emigração e isolamento. Duvido que tenha refletido sobre o que deve ocorrer quando as suas formas colonizam um novo país, a menos que variem durante a própria primeira geração; nem atribui, penso eu, peso suficiente aos casos do que chamei seleção inconsciente pelo homem: nestes casos as raças são modificadas pela preservação dos melhores e a destruição dos piores, sem qualquer isolamento.
Simpatizo sinceramente consigo quanto ao estado da sua visão: é de facto o mal mais temível que pode acontecer a alguém que, como o senhor, está seriamente ligado à busca do conhecimento natural.
CARTA 227. A F. MULLER. Down, 18 de março [1869].
Desde que escrevi há alguns dias e enviei três exemplares do seu livro, li a tradução inglesa (227/1. "Facts and Arguments for Darwin." Ver "Life and Letters", III, página 37.), e não posso negar-me o prazer de, mais uma vez, expressar a minha calorosa admiração. Poderia, mas não o farei, repetir os meus agradecimentos pela maneira muito honrosa como frequentemente menciona o meu nome; mas posso dizer verdadeiramente que considero a publicação do seu ensaio como uma das maiores honras que já me foram conferidas. Nada pode ser mais profundo e impressionante do que as suas observações sobre o desenvolvimento e a classificação. Estou muito contente por ter acrescentado a sua justificação relativamente às metamorfoses dos insetos; pois a sua conclusão parece agora altamente provável. (227/2. Ver "Facts and Arguments for Darwin", página 119 (nota), onde F. Muller dá as suas razões para a crença de que a "metamorfose completa" dos insetos não era um caráter da forma da qual os insetos derivaram: o seu argumento depende largamente de considerações tiradas do estudo dos neuroptera.) Reli muitas partes, especialmente a dos cirrípedes, com o mais vivo interesse. Tinha quase esquecido a sua discussão sobre o desenvolvimento retrógrado dos Rhizocephala. Que ilustração admirável proporciona da minha doutrina completa! Um homem deve ser mesmo um fanático a favor de atos separados de criação se não ficar abalado após ler o seu ensaio; mas temo que seja demasiado profundo para os leitores ingleses, exceto para uns poucos escolhidos.
CARTA 228. A A.R. WALLACE. 27 de março [1869].
Ultimamente (i.e., na nova edição da "Origin") (228/1. Quinta edição, 1869, páginas 150-57.) tenho moderado o meu zelo, e atribuído muito mais à mera variabilidade inútil. Pensei em enviar-lhe a folha, mas arrisco que não se importaria de a ver, na qual discuto o ensaio de Nageli sobre a Seleção Natural não afetar carateres sem importância funcional, e que ainda assim são de alta importância classificatória. Hooker está bastante satisfeito com o que disse a este respeito.
CARTA 229. A J.D. HOOKER. Caerdeon, Barmouth, Norte do País de Gales, 24 de julho [1869].
Estaremos em casa daqui a uma semana, levando dois dias na viagem, e ficarei muito contente. O conjunto foi um fracasso para mim, mas de muito usufruto para os jovens... A minha mulher esteve bastante doente quase todo o tempo; pelo que detesto o lugar, com toda a sua beleza. Fiquei contente por ouvir o que pensou de F. Muller, e concordo inteiramente consigo. A sua carta chegou na hora certa, pois eu estava a escrever no próprio dia a Muller, e transmiti a sua aprovação dos Capítulos X e XI. Algum dia gostaria de pedir emprestadas as "Transactions of the New Zealand Institute", de modo a ler o artigo de Colenso. (229/1. Colenso, "On the Maori Races of New Zealand." "N.Z. Inst. Trans." 1868, Pt. 3.) Deve ler Huxley v. Comte (229/2. "The Scientific Aspects of Positivism." "Fortnightly Review", 1869, página 652, e "Lay Sermons", 1870, página 162. Esta foi uma resposta ao artigo do Sr. Congreve, "Mr. Huxley on M. Comte", publicado no número de abril da "Fortnightly", página 407, que tinha sido escrito em crítica ao artigo de Huxley no número de fevereiro da "Fortnightly", página 128, "On the Physical Basis of Life."); ele nunca escreveu nada tão inteligente antes, e esmagou toda a gente à direita e à esquerda em grande estilo. Tive um desejo vago de ler Comte, e o George também, mas ele curou-nos inteiramente de qualquer desejo vão desse tipo.
Há outro artigo (229/3. "North British Review", Volume 50, 1869: "Geological Time", página 406. Os artigos revistos são de Sir William Thomson, "Trans. R. Soc. Edin." 1862; "Phil. Mag." 1863; Thomson e Tait, "Natural Philosophy", Volume I., App. D; Sir W. Thomson, "Proc. R. Soc. Edin." 1865; "Trans. Geol. Soc. Glasgow", 1868 e 1869; "Macmillan's Mag." 1862; Prof. Huxley, Discurso Presidencial, "Geol. Soc. London", fevereiro de 1869; Dr. Hooker, Discurso Presidencial, "Brit. Assoc." Norwich, 1868. Também a revisão sobre a "Origin" na "North British Review", 1867, por Fleeming Jenkin, e um artigo na "Pall Mall Gazette", 3 de maio de 1869. O autor trata o último com desprezo como o trabalho de um jornalista anónimo, aparentemente inconsciente da sua própria posição semelhante.) que acabou de sair na última "North British", por algum grande matemático, o que é admiravelmente feito; ele lança uma farpa severa a si (229/4. O autor do artigo da "North British" parece-nos, na página 408, compreender mal ou interpretar mal a parábola de Sir J.D. Hooker sobre o "escoramento". Ver "Life and Letters", III, página 101 (nota). Sir Joseph é atacado com veemência bastante desnecessária noutro ponto na página 413.), mas o artigo é dirigido contra Huxley e a favor de Thomson. Esta revisão mostra-me — não que eu precisasse que me mostrassem — quão diabolicamente inteligente é o Huxley, pois o revisor não consegue deixar de admirar as suas capacidades. Há alguns bons espécimes de arrogância matemática na revisão, e incidentalmente ele mostra com que frequência os astrónomos chegaram a conclusões que são agora vistas como erradas; pelo que os geólogos poderiam verdadeiramente responder que devemos ser lentos em admitir as suas conclusões. No entanto, todos os uniformitaristas fariam melhor em gritar imediatamente "peccavi", — não que eu não sinta a convicção de que o mundo será considerado um pouco mais antigo do que Thomson o faz, e muito mais antigo do que o revisor o faz. Estou contente por ter enfrentado e admitido a dificuldade na última edição da "Origin", da qual suponho que recebeu, conforme a encomenda, um exemplar.
CARTA 230. A J.D. HOOKER. Down, 7 de agosto [1869].
Nunca houve um homem tão bom como o senhor para me dizer coisas que gosto de ouvir. Não estou nada surpreendido que Hallett tenha descoberto que algumas variedades de trigo não podiam ser melhoradas em certas qualidades desejáveis tão rapidamente como ao início. Toda a experiência mostra isto com animais; mas seria, penso eu, precipitado assumir, a julgar pela experiência real, que um pouco mais de melhoria não poderia ser obtida no decorrer de um século, e teoricamente muito improvável que, após alguns milhares [de anos] de descanso, não haveria um início na mesma linha de variação. O que me espanta, contrariamente à experiência, e o que não posso acreditar, é que variedades já melhoradas ou modificadas não variam noutros aspetos. Penso que ele deve ter generalizado a partir de duas ou três variedades espontaneamente fixadas. Mesmo em plântulas da mesma cápsula, algumas variam muito mais do que outras; assim é com subvariedades e variedades. (230/1. Numa carta de 13 de agosto de 1869, Sir J.D. Hooker escreveu corrigindo a impressão do Sr. Darwin: "Não quis dar a entender que Hallett afirmava que toda a variação parava — longe disso: ele mantinha o contrário, mas se o compreendo bem, ele chega rapidamente a um ponto além do qual qualquer acumulação adicional na direção procurada é tão pequena e tão lenta que, praticamente, uma fixação de tipo (não fixação absoluta, contudo) é o resultado.")
É um facto grandioso sobre o Anoplotherium (230/2. Isto refere-se talvez à existência de Anoplotherium na formação Eocénica da América do Sul: é um dos pontos em que a fauna da América do Sul se assemelha à da Europa e não à da América do Norte. (Ver Wallace "Geographical Distribution", I., página 148.)), e mostra como até os quadrúpedes terrestres tiveram tempo antigamente para se espalhar para regiões muito distintas. Em cada época, o mundo tende a ficar povoado de forma bastante uniforme, o que é uma bênção para a Geologia.
O artigo na "N. British Review" (230/3. Ver Carta 229.) vale bem a pena ler cientificamente; George D. e Erasmus ficaram encantados com ele. Como o autor bate! Foi um eufemismo falar numa farpa contra si: foi um pontapé. Ele é muito injusto para com o Huxley, e acusa-o de "sofismas", etc.; contudo, o autor não consegue deixar de o admirar imensamente. Sei que me senti muito pequeno quando terminei o artigo. Divertir-se-á ao observar que os geólogos foram todos enganados por Playfair, que foi enganado por dois dos maiores matemáticos! E há outros casos desses; pelo que poderíamos voltar-nos e mostrar ao seu revisor quão cautelosos os geólogos deveriam ser ao confiar nos matemáticos.
Há outro artigo original excelente, sinto-me seguro que por McClennan, sobre o Homem Primitivo, bem digno de leitura.
Não concordo totalmente sobre Sabine: ele é diferente de qualquer outro soldado ou marinheiro de quem já ouvi falar se não colocasse a sua segunda perna na tumba com mais satisfação como K.C.B. do que como um homem simples. Concordo plenamente que o Governo deveria tê-lo feito há muito tempo, mas o que é que o Governo sabe ou se importa com a Ciência? Tanto pela sua carta esplendorosa.
CARTA 231. A J.D. HOOKER. Down, 14 de agosto [1869?].
Escrevo uma linha para lhe dizer que é um homem verdadeiramente bom por propor vir aqui para um domingo depois de Exeter. Mantenha-se fiel a esta boa intenção... Tenho a certeza de que Exeter e a sua outra visita lhe farão bem. Muitas vezes pergunto-me como suporta todo o seu trabalho multifacetado.
Concordo inteiramente sobre a loucura das subscrições intermináveis para homens mortos; mas Faraday é uma exceção, e se pagar três guineus por mim, poupar-me-á algum trabalho; mas será melhor incluir um cheque, que, como verá, deve ser endossado. Se ler a "North British Review", gostará de saber que o George me convenceu, a partir da correspondência no estilo e espírito, de que o artigo é de Tait, o colaborador de Thomson.
Fiquei muito surpreendido com as folhas de Drosophyllum estarem sempre enroladas para trás nas suas pontas, mas não sabia que era um caráter único.
(PLACA: SIR J.D. HOOKER, 1870? De uma fotografia de Wallich.)
CARTA 232. A J.D. HOOKER. Down, 13 de novembro [1869].
Soube ontem por um parente, que viu num jornal, que o senhor era C.B. Tenho de escrever uma linha para dizer "Viva", embora desejasse que tivesse sido K.C.B., como certamente deveria ter sido; mas suponho que eles encaram o K.C.B. antes do C.B. como um ducado antes de um condado.
Tivemos uma semana muito bem-sucedida em Londres, e eu estava invulgarmente bem e vi um bom número de pessoas, o que, quando estou bem, é um grande prazer para mim. Tive uma conversa alegre com Huxley, entre outros. E agora estou no mesmo trabalho de antes, e estarei por mais dois meses -- nomeadamente, a tornar frases feias um pouco mais direitas; e estou farto do trabalho, e, como o assunto é todo sobre seleção sexual, estou cansado dos eternos machos e fêmeas, galos e galinhas.
É uma vergonha incomodá-lo, mas gostaria de ouvir, a seu tempo, sobre o caso do C.B.
Li uma ou duas brochuras interessantes ultimamente -- a saber, Stirling, o hegeliano, contra Huxley e o protoplasma; Tylor no "Journal of Royal Institute" sobre as sobrevivências do pensamento antigo na civilização moderna.
Adeus. Estou tão aborrecido como um pato, tanto macho como fêmea.
Ao Dr. Hooker, C.B., F.R.S.
Dr. Hooker, K.C.B. (Isto parece melhor).
P.S. Ouço um bom relato sobre o último discurso de Bentham (232/1. Discurso Presidencial, principalmente sobre Distribuição Geográfica, proferido perante a "Linn. Soc." a 24 de maio de 1869.), que vou agora ler.
Descubro que me enganei quanto ao discurso de Bentham. Lyell falava de um que li há alguns meses; mas li metade dele novamente ontem à noite, e terminá-lo-ei. Algumas passagens são novas ou não foram suficientemente estudadas por mim antes. Parecem-me admiráveis, tal como na primeira leitura, embora discorde em alguns poucos pontos.
Um discurso desses vale o seu peso em ouro, creio eu, para converter pessoas às nossas opiniões. Lyell diz-me que Bunbury ficou maravilhosamente impressionado com ele, e ele nunca antes pensara nada das nossas opiniões sobre a evolução.
P.S. (2). Acabei de ler, e gosto muito, a sua recensão de Schimper. (232/2. Uma recensão de "Traite de Paleontologie Vegetale" de Schimper, cuja primeira parte foi publicada em 1869. "Nature", 11 de novembro de 1869, página 48.)
CARTA 233. A J.D. HOOKER. Down, 19 de novembro [1869].
Muito obrigado por me contar tudo sobre o C.B., pois desejava muito saber. Agrada-me imenso que o Governo tenha feito tanto; e como os K.C.B. são limitados em número (o que eu não sabia), desculpo-o. Não mencionarei a ninguém o que me contou, pois seria algo murchisoniano. Mas que vergonha usar esta expressão, pois acredito plenamente que Murchison teria qualquer trabalho para conseguir qualquer sinal de honra para qualquer homem de ciência.
Gosto de todos os periódicos científicos, incluindo a pobre "Scientific Opinion", e penso melhor do que o senhor sobre a "Nature". Deus, que rapsódia aquela de Goethe, mas que bem traduzida; pareceu-me, como disse a Huxley, como se tivesse sido escrita pelo mais louco erudito inglês. É poesia, e poderei dizer algo mais severo? O último número da "Academy" estava esplêndido, e espero que em breve saia quinzenalmente. Gostaria que a "Nature" pesquisasse mais cuidadosamente todos os jornais e transações estrangeiras.
Estou agora a ler um folheto grosso alemão (233/1. "Die Abhangigheit der Pflanzengestalt von Klima und Boden. Ein Beitrag zur Lehre von der Enstehung und Verbreitung der Arten, etc." Festschrift zur 43 Versammlung Deutscher Naturforscher und Aertze in Innsbruck (Innsbruck, 1869).) de Kerner sobre o Tubocytisus; se se cruzar com ele, veja o mapa da distribuição das dezoito quase-espécies, e a árvore genealógica. Se esta última, como diz o autor, foi construída unicamente a partir das afinidades das formas, então a distribuição é maravilhosamente interessante; podemos ver os próprios passos da formação de uma espécie. Se estudar a árvore genealógica e o mapa, compreenderá quase todo o livro. Os dois antigos elos de ligação parentais mantêm-se vivos apenas em duas ou três áreas; depois temos quatro espécies amplamente estendidas, seus descendentes; e a partir delas pequenos grupos de descendentes mais recentes habitando áreas bastante pequenas...
CARTA 234. A CAMILLE DARESTE. Down, 20 de novembro de 1869.
Caro senhor,
Fico contente por ser candidato à Cátedra de Fisiologia em Paris. Como sabe pelas minhas obras publicadas, sempre considerei as suas investigações sobre a produção de monstruosidades como cheias de interesse. Nenhum assunto é atualmente mais importante, tanto quanto vai o meu julgamento, do que verificar por experiência até que ponto a estrutura pode ser modificada pela ação direta de condições alteradas; e o senhor lançou muita luz sobre este assunto.
Observo que vários naturalistas em várias partes da Europa sustentaram ultimamente que é agora do maior interesse para a ciência esforçar-se por diminuir, tanto quanto possível, a nossa profunda ignorância sobre a causa de cada variação individual; e, como Is. Geoffroy St. Hilaire observou há muito tempo, as monstruosidades não podem ser separadas por nenhuma linha distinta das variações mais ligeiras.
Com os meus melhores votos para o seu sucesso na obtenção da Professoria, e com sincero respeito.
Tenho a honra de permanecer, caro senhor, Seu fielmente, CHARLES DARWIN.
CAPÍTULO 1.V.--EVOLUÇÃO, 1870-1882.
CARTA 235. A J. JENNER WEIR. Down, 17 de março [1870].
É minha opinião decidida que o senhor deve enviar um relato a alguma sociedade científica, e penso que à Royal Society. (235/1. O caso do Sr. Jenner Weir é apresentado em "Animals and Plants", Edição II., Volume I., página 435, e não parece ter sido publicado em outro lugar. Os factos são brevemente que um cavalo, descendente de uma égua do Lord Mostyn, que tinha tido anteriormente um potro de um quagga, mostrou uma série de características semelhantes às do quagga, tais como riscas, crina de crescimento baixo e cascos alongados. A passagem em "Animals and Plants", para a qual ele chama a atenção do Sr. Weir em relação à objeção de Carpenter, está na Edição I., Volume I., página 405: "É uma hipótese muito improvável que o mero sangue de um indivíduo possa afetar os órgãos reprodutores de outro indivíduo de tal maneira que modifique a descendência subsequente. A analogia da ação direta do pólen estrangeiro no ovário e nos tegumentos das sementes da planta-mãe apoia fortemente a crença de que o elemento masculino atua diretamente sobre os órgãos reprodutores da fêmea, por mais maravilhosa que seja esta ação, e não através da intervenção do embrião cruzado." Para referências às experiências do Sr. Galton sobre a transfusão de sangue, ver Carta 273.) Eu comunicá-lo-ia se assim o decidir. Poderia dar como razão preliminar a publicação nas "Transactions" do célebre caso Morton e o caso do porco pelo Sr. Giles. Poderia também aludir à evidente importância fisiológica de tais factos como influenciando a teoria da geração. Se seria prudente aludir à desprezada pangénese não posso dizer, mas acredito plenamente que a pangénese terá o seu dia de sucesso. Por favor, verifique cuidadosamente a cor da mãe e do pai. Veja sobre os cavalos baios no meu livro ["Animals and Plants"], Volume I., página 55. A extensão da crina e a forma dos cascos são grandes factos novos. O pelo do seu cavalo é de todo encaracolado? pois [um] caso observado [é] dado por mim (Volume II., página 325) de Azara sobre a correlação de formas do casco com pelos encaracolados. Veja também no meu livro (Volume I., página 55; Volume II., página 41) quão extremamente raras são as riscas nas faces dos cavalos em Inglaterra. Dê a idade do seu cavalo.
O senhor sabe que o Dr. Carpenter e outros tentaram explicar os efeitos de uma primeira impregnação a partir da influência do sangue do embrião cruzado; mas, para os fisiologistas que acreditam que os elementos reprodutores são realmente formados pelas glândulas reprodutoras, esta visão é inconsistente. Por favor, veja o que disse em "Domestic Animals" (Volume I., páginas 402-5) contra esta doutrina. Parece-me mais provável que as gémulas afetem apenas os ovários. Lembro-me de especular antigamente, tal como o senhor, sobre a afirmação de que as esposas ficam parecidas com os seus maridos; mas quão impossível é eliminar os efeitos da imitação e dos mesmos hábitos de vida, etc. A sua carta interessou-me profundamente.
P.S.--Desde a publicação ouvi falar de casos adicionais -- um muito bom em relação a porcos da Vestfália cruzados com um verraco inglês, e toda a descendência subsequente afetada, dado na "Illust. Landwirth-Zeitung", 1868, página 143.
Mostrei que os mulos são frequentemente riscados, embora nenhum dos pais possa ser riscado,--devido a uma reversão antiga. Agora, Fritz Müller escreve-me do Sul do Brasil: "Fui assegurado, por pessoas que certamente nunca tinham ouvido falar da égua de Lord Morton, que as éguas que tiveram híbridos de um burro são particularmente propensas a produzir depois potros de burro riscados." Assim, uma fertilização prévia dá aparentemente à descendência subsequente uma tendência para certos caracteres, assim como carateres realmente possuídos pelo primeiro macho.
Na reimpressão (não chamada de segunda edição) dos meus "Domestic Animals" dou um bom caso adicional de descendência subsequente de cão sem pelo ser peludo devido aos efeitos da primeira impregnação.
P.S. 2.º. A sugestão, sem dúvida, é supérflua, mas o senhor deve, penso eu, medir a extensão da crina para além de uma linha que une a frente ou a parte de trás das orelhas, e comparar com a do cavalo. Também a medida (e dê a comparação com o cavalo), comprimento, largura e profundidade dos cascos.
CARTA 236. A J.D. HOOKER. Down, 12 de julho [1870].
A sua conclusão de que toda a especulação sobre a preordenação é um desperdício inútil de tempo é a única sensata; mas quão difícil é não especular! A minha teologia é uma simples confusão; não consigo encarar o universo como o resultado de um acaso cego, contudo não vejo evidência de um design benevolente ou, de facto, de design de qualquer tipo, nos detalhes. Quanto a cada variação que alguma vez ocorreu ter sido preordenada para um fim especial, não posso acreditar mais nisso do que no facto de o local onde cada gota de chuva cai ter sido especialmente ordenado.
A geração espontânea parece quase um enigma tão grande como a preordenação. Não me consigo persuadir de que tal multiplicidade de organismos possa ter sido produzida, como cristais, nas soluções do mesmo tipo de Bastian (236/1. A 2 de setembro de 1872, o Sr. Darwin escreveu ao Sr. Wallace, em referência à recensão deste último de "The Beginnings of Life", de H.C. Bastian (1872), na "Nature", 1872, páginas 284-99: "Atualmente, prefiro qualquer hipótese louca, como a de que cada molécula desintegrada das formas inferiores pode reproduzir a forma parental; e que essas moléculas estão universalmente distribuídas, e que não perdem o seu poder vital até serem aquecidas a uma temperatura tal que se decompõem como partículas orgânicas mortas."). Fico espantado por, até agora, não ter encontrado qualquer alusão à afirmação positiva de Wyman (236/2. "Observations and Experiments on Living Organisms in Heated Water", por Jeffries Wyman, Prof. de Anatomia, Harvard Coll. ("Amer. Journ. Sci." XLIV., 1867, página 152.) Soluções de matéria orgânica em frascos hermeticamente fechados foram imersas em água a ferver por vários períodos. "Nenhuns infusórios de qualquer tipo apareceram se a fervura fosse prolongada além de um período de cinco horas.") de que, se as soluções forem fervidas durante cinco horas, não aparecem organismos; contudo, se a memória não me falha, as soluções, quando abertas ao ar, ficaram imediatamente povoadas. Contra todas as evidências, não posso evitar suspeitar que as partículas orgânicas (as minhas "gémulas" das células separadas das criaturas inferiores!) se manterão vivas e depois multiplicar-se-ão sob condições adequadas.
Que problema interessante é este.
CARTA 237. A W.B. TEGETMEIER. Down, 15 de julho [1870].
Faz muito tempo que não tenho notícias suas, e estou-lhe muito grato pela sua carta. São boas notícias o facto de ir lançar uma nova edição do seu livro sobre Aves de Capoeira (237/1. "The Poultry Book", 1872.), e tem toda a liberdade para usar todos os meus materiais. Obrigado pelo curioso caso da variação do pato selvagem: ouvi falar de outros exemplos de uma tendência para variar num entre uma grande ninhada ou família. Tenho demasiadas coisas em mãos atualmente para tirar partido da sua oferta do empréstimo do livro americano sobre Aves de Capoeira.
Por favor, mantenha-se firme na sua ideia de desenvolver o assunto das variações análogas (237/2. "Por este termo refiro-me ao facto de que carateres semelhantes aparecem ocasionalmente nas várias variedades ou raças descendentes da mesma espécie, e mais raramente na descendência de espécies amplamente distintas" ("Animals and Plants", II., Edição II., página 340).) com pombos; penso realmente que poderia assim fazer uma contribuição nova e valiosa para a ciência. Posso, contudo, compreender perfeitamente quanto o seu tempo deve estar ocupado com os cuidados editoriais que nunca terminam e sempre recomeçam.
Mantenho-me mais ou menos como de costume, e rastejo com o meu trabalho.
CARTA 238. A J.D. HOOKER. Down, 27 de setembro [1870].
A sua foi uma carta esplêndida, e eu estava muito curioso por ouvir algo sobre a reunião de Liverpool (238/1. O Sr. Huxley foi Presidente da Associação Britânica em Liverpool em 1870. O seu Discurso Presidencial sobre "Biogénese e Abiogénese" está reimpresso nos seus Ensaios reunidos, VIII., página 229. Alguns relatos da reunião são dados em "Life and Letters" de Huxley, Volume I., páginas 332, 336.), que eu desejava muito que fosse um sucesso por causa de Huxley. Fico surpreendido por pensar que o seu discurso não teria sido claro para o público; pareceu-me tão claro como a água. A linha geral do seu argumento poderia ter sido respondida pelo caso da combustão espontânea: dezenas de milhares de casos de coisas vistas a incendiarem-se não seriam um argumento verdadeiro contra alguém que sustentasse que as chamas irrompem por vezes espontaneamente. Estou encantado com a apoteose de Sir Roderick; posso imaginar que discursos arrumados e apropriados ele faria a cada nobre à medida que este entrasse pelos portões do céu. O senhor pergunta o que penso sobre a palestra de Tyndall (238/2. A palestra de Tyndall foi "On the Scientific Uses of the Imagination."): pareceu-me grandiosa e muito interessante, embora não pudesse, por ignorância, seguir bem algumas partes, e desejei dizer-lhe o quanto teria sido imensamente melhorada se toda a primeira parte tivesse sido feita muito menos egoísta. George chegou independentemente à mesma conclusão, e gostou imenso de toda a parte final. Ele pensou que a primeira parte não era apenas egoísta, mas bastante populista.
Quão bem Tyndall expõe a maneira de filosofar do "como se", e mostra que é justificável. Alguns daqueles franceses malditos têm-me atacado ultimamente por usar esta forma de prova ou argumento.
Acabei de ler o discurso de Rolleston na "Nature" (238/3. Discurso Presidencial da Secção Biológica, Associação Britânica, 1870. "Nature", 22 de setembro de 1870, página 423. Rolleston referiu-se à vitalidade das sementes no solo, um assunto sobre o qual Darwin fez observações ocasionais. Ver "Life and Letters", II., página 65.): o seu estilo é totalmente inigualável! Vejo que ele o cita sobre a semente, por isso ontem fui e observei mais cuidadosamente o caso dado no documento anexo, que talvez o senhor goste de ler e queimar.
Quão verdadeiro e bom é o que diz sobre Lyell. Ele é sempre o mesmo; Dohrn esteve aqui ontem, e comentava que ninguém estava mais alto na estima pública da Alemanha do que Lyell.
Estou verdadeira e profundamente contente por estar a pensar em algum trabalho geral sobre a Distribuição Geográfica, ou algo do género; espero em Deus que as suas ocupações incessantes não interrompam esta intenção. Quanto ao meu livro, não terei terminado as malditas provas até ao fim de novembro (238/4. As provas de "Descent of Man" foram terminadas a 15 de janeiro de 1871.): bom Deus, que cabeça confusa tenho nos meus miseráveis ombros velhos.
CARTA 239. A H. SETTEGAST. Down, 29 de setembro de 1870.
Estou-lhe muito grato pela sua gentil carta e presente do seu belo volume. (239/1. "Die Thierzucht", 1868.) O seu trabalho não é novo para mim, pois ouvi falar dele tão bem que adquiri um exemplar da primeira edição. Foi uma grande gratificação para mim encontrar um homem que estudou durante muito tempo com espírito filosófico os nossos animais domesticados, e que era altamente competente para julgar, concordando em grande medida com as minhas opiniões. Lamentei muito não ter conhecido o seu trabalho quando publiquei os meus últimos volumes.
Fico surpreendido e contente por ouvir que a ciência não está totalmente esquecida sob o atual estado de coisas excitante. Todos os que conheço em Inglaterra são entusiastas desejosos do sucesso pleno e completo da Alemanha.
P.S. Darei um dos meus dois exemplares do seu trabalho a alguma biblioteca científica pública em Londres.
CARTA 240. AO EDITOR DO "PALL MALL GAZETTE". Down, 24 de março [1871].
O Sr. Darwin apresenta os seus cumprimentos ao Editor, e ficaria muito grato se ele endereçasse e enviasse a carta anexa ao autor das duas admiráveis recensões de "Descent of Man". (240/1. As notas sobre "Descent of Man", publicadas no "Pall Mall Gazette" de 20 e 21 de março de 1871, foram do Sr. John Morley. Devemos ao Editor do "Pall Mall Gazette" o ter-nos permitido gentilmente consultar o seu arquivo do jornal.)
CARTA 241. A JOHN MORLEY. Down, 24 de março de 1871.
Pelo espírito da sua recensão no "Pall Mall Gazette" do meu último livro, que me deu grande prazer, pensei que talvez me informasse sobre um ponto, mantendo, se lhe aprouver, o seu nome em segredo.
Diz que a minha fraseologia sobre a beleza é "cientificamente vaga e, filosoficamente, a mais enganadora." (241/1. "A obra do Sr. Darwin é uma daquelas raras e capitais realizações do intelecto que efetuam uma grave modificação em todos os mais elevados departamentos do reino da opinião... Há, por toda a descrição e exame da Seleção Sexual, uma maneira de falar de beleza que nos parece ser altamente não filosófica, porque pressupõe uma certa teoria da beleza, a qual os pensadores modernos mais competentes estão demasiado longe de aceitar para permitir que a sua assunção seja inteiramente judiciosa... Por que havemos de achar a qualidade estética nas aves maravilhosa apenas quando coincide com a nossa? Por outras palavras, por que atribuir-lhes qualidades estéticas conscientes de todo? Não há razão mais positiva para atribuir consciência estética ao faisão-argus do que para atribuir às abelhas consciência geométrica dos prismas hexagonais e das placas rômbicas da colmeia que elas tão maravilhosamente constroem. Daí que a fraseologia que o Sr. Darwin emprega nesta parte do assunto, embora não afetando o grau de probabilidade que possa pertencer a esta teoria, nos pareça muito vaga cientificamente e, filosoficamente, a mais enganadora." — "Pall Mall Gazette.") Isto não é de todo improvável, visto que já quase uma vida inteira passou desde que me dediquei à filosofia da estética, e não pensei, na altura, que alguma vez viesse a fazer uso das minhas conclusões. Pode indicar-me um ou dois livros (pois a minha capacidade de leitura não é grande) que me pudessem iluminar? Ou pode explicar-me, numa ou duas frases, onde erro? Talvez fosse melhor explicar o que entendo por sentido de beleza no seu estádio mais baixo de desenvolvimento, e que só se pode aplicar aos animais. Quando uma cor intensa, ou dois tons em harmonia, ou uma figura recorrente e simétrica agradam ao olho, ou uma única nota doce agrada ao ouvido, chamo a isto um sentido de beleza; e, com este significado, falei (embora veja agora que de uma forma não suficientemente cautelosa) de um gosto pelo belo como sendo o mesmo na humanidade (pois todos os selvagens admiram pedaços de tecido brilhante, contas, plumas, etc.) e nos animais inferiores. Se a plumagem azul e amarela de uma arara (241/2. "O que o homem considera os contrastes horríveis de amarelo e azul atrai a arara, enquanto a plumagem com ocelos atrai o faisão-argus" — "Pall Mall Gazette", 21 de março de 1871, página 1075.) agrada ao olho desta ave, eu diria que ela tem um sentido de beleza, ainda que o seu gosto fosse mau segundo o nosso padrão. Agora, terá a gentileza de me dizer como posso aprender a ver o erro dos meus caminhos? Naturalmente reconheço, como de facto mencionei no meu livro, que o sentido de beleza no caso da paisagem, pinturas, etc., é algo infinitamente complexo, dependendo de associações variadas e da cultura do espírito. De uma recensão muito interessante no "Spectator", e da sua recensão e da de Wallace, percebo que cometi um grande lapso ao não ter dito o pouco que podia sobre a aquisição do sentido do belo pelo homem e pelos animais inferiores. Seria de facto uma vantagem imensa para um autor se pudesse ler tais críticas como as suas antes de publicar. Na página 11 da sua recensão, cita acidentalmente mal as minhas palavras colocadas por si entre aspas, do meu Volume II, página 354: digo que "o homem não pode suportar qualquer grande mudança", e as palavras omitidas "qualquer grande" fazem toda a diferença na discussão. (241/3. "O Sr. Darwin diz-nos, e dá-nos excelentes razões para pensar, que 'os homens de cada raça preferem o que estão habituados a ver; não podem suportar a mudança'. Contudo, não haverá uma inconsistência entre este facto e o outro de que uma raça difere de outra exatamente porque se apresentaram novidades, que foram avidamente aproveitadas e propagadas?")
Permita-me acrescentar algumas outras observações. Acredito que a sua crítica é inteiramente justa quanto ao meu espírito histórico deficiente, pois estou ciente da minha ignorância nesta área. (241/4. "No espírito histórico, contudo, o Sr. Darwin deve ser inequivocamente declarado deficiente. Quando, por exemplo, ele fala do 'grande pecado da escravatura' ter sido geral entre as nações primitivas, esquece-se que, embora ter um escravo fosse uma degradação pecaminosa para um europeu de hoje, a prática de transformar prisioneiros de guerra em escravos, em vez de os massacrar, não era de todo um pecado, mas marcava uma melhoria decidida nos costumes humanos.") Por outro lado, se alguma vez for levado a ler novamente o Capítulo III, e especialmente o Capítulo V, penso que descobrirá que não sou suscetível a todas as suas censuras; embora sentisse que estava a caminhar num caminho desconhecido para mim e cheio de armadilhas; mas tive a vantagem de discussões anteriores por homens capazes. Tentei dizer o mais enfaticamente possível que um grande filósofo, legislador, etc., fez muito mais pelo progresso da humanidade pelos seus escritos ou pelo seu exemplo do que por deixar uma numerosa descendência. Esforcei-me por mostrar como a luta pela existência entre tribo e tribo depende de um avanço nas qualidades morais e intelectuais dos membros, e não meramente da sua capacidade de obter alimento. Quando falo da necessidade de uma luta pela existência para que a humanidade avance ainda mais na escala, não me refiro aos MAIS, mas a que "os homens MAIS altamente dotados" sejam bem-sucedidos na batalha pela vida; referia-me à minha suposição de os homens em qualquer país estarem divididos em dois corpos iguais — a saber, os mais e os menos altamente dotados, e os primeiros, em média, terem mais sucesso.
Mas tenho muitas razões para me desculpar pela extensão desta carta mal expressa. A minha única desculpa é o interesse extraordinário que senti na sua recensão, e o prazer que experimentei ao observar os pontos que atraíram a sua atenção. Devo dizer mais uma palavra. Tendo mantido o assunto da seleção sexual na minha mente durante muitos anos, e tendo ficado cada vez mais satisfeito com ele, sinto grande confiança de que, assim que a noção for tornada familiar aos outros, será aceite, pelo menos numa extensão muito maior do que atualmente. Com sincero respeito e agradecimentos...
CARTA 242. A JOHN MORLEY. Down, 14 de abril [1871].
Como este bilhete não requer resposta, não hesito em escrever algumas linhas para dizer quão fiel e completo é o resumo que deu das minhas noções sobre o sentido moral no "Pall Mall", e para fazer algumas observações atenuantes ou explicativas. (242/1. "O que é chamado a questão do sentido moral é na verdade duas: como a faculdade moral é adquirida e como é regulada. Por que obedecemos à consciência ou sentimos dor ao desobedecer-lhe? E por que a consciência prescreve um tipo de ação e condena outro tipo? Para o colocar mais tecnicamente, existe a questão da existência subjetiva da consciência, e existe a questão das suas prescrições objetivas. Primeiro, por que penso que é obrigatório cumprir o meu dever? Segundo, por que penso que é meu dever fazer isto e não fazer aquilo? Embora, contudo, a segunda questão deva ser tratada independentemente, por razões que sugeriremos de seguida, a resposta histórica a ela, ou os vários fundamentos sobre os quais os homens identificaram certos tipos de conduta com o dever, em vez de condutas dos tipos opostos, lança luz sobre a outra questão das condições de crescimento da ideia de dever como um diretor soberano e imperial. O Sr. Darwin parece-nos não ter reconhecido perfeitamente a separação lógica entre os dois lados da questão do sentido moral. Por exemplo, ele diz (i. 97) que 'filósofos da escola derivada da moral assumiram anteriormente que o fundamento da moralidade residia numa forma de egoísmo; mas mais recentemente no princípio da Maior Felicidade'. Mas o Sr. Mill, a quem o Sr. Darwin se refere, mostrou expressamente que o princípio da Maior Felicidade é um PADRÃO, e não um FUNDAMENTO, e que a sua validade como padrão de ação correta ou errada é tão sustentável por alguém que acredita que o sentido moral é inato como por alguém que sustenta que é adquirido. Ele diz claramente que os sentimentos sociais da humanidade formam 'a base natural de sentimento para a moral utilitária'. Longe de considerar o princípio da Maior Felicidade como o fundamento da moralidade, ele descrevê-lo-ia como o princípio formador da superestrutura da qual os sentimentos sociais da humanidade são o fundamento. Entre o Sr. Darwin e os utilitaristas, enquanto utilitaristas, não existe tal conflito como ele parece supor. O utilitarista mais estrito pouco mais poderia dizer do que o que o Sr. Darwin diz (ii. 393): 'Como todos os homens desejam a sua própria felicidade, o louvor ou a censura são atribuídos a ações e motivos conforme tendem a este fim; e, como a felicidade é uma parte essencial do bem geral, o princípio da Maior Felicidade serve INDIRETAMENTE como um padrão QUASE seguro de certo e errado'. Talvez não seja impertinente suspeitar que os advérbios hesitantes que imprimimos em itálico não indicam mais do que a relutância de um converso semiconsciente ao utilitarismo puro. Noutro lugar (i. 98) ele admite que 'como todos desejam a felicidade, o princípio da Maior Felicidade terá se tornado um guia e objeto secundário muito importante, servindo os instintos sociais, incluindo a simpatia, sempre como o impulso e guia primário'. Isto é exatamente o que o Sr. Mill diz, só que em vez de chamar ao princípio um guia secundário, ele chamar-lhe-ia um padrão, para o distinguir do impulso social, no qual, tanto quanto o Sr. Darwin, ele reconhece a base e fundamento." — "Pall Mall Gazette", 12 de abril de 1871.) Como surgiu o erro que cometi ao falar da maior felicidade como o fundamento da moral, é-me totalmente ininteligível: em qualquer momento nos últimos anos teria rido tal ideia com desprezo. O Sr. Lecky nunca cometeu um erro maior, e a sua bondade fê-lo deixar-me passar demasiado facilmente. (242/2. Na primeira edição de "A Descendência do Homem", I, página 97, o Sr. Lecky é citado como um daqueles que assumiu que o "fundamento da moralidade residia numa forma de egoísmo; mas mais recentemente no princípio da 'maior felicidade'". O nome do Sr. Lecky é omitido nesta ligação na segunda edição, página 120. Nesta edição, o Sr. Darwin torna mais claro que atribui a maior importância ao instinto social como o "impulso e guia primário".) Com respeito ao Sr. Mill, nada me teria agradado mais do que ter confiado na sua grande autoridade quanto aos instintos sociais, mas a frase que cito no [Volume I] página 71 ("se, como é a minha própria crença, os sentimentos morais não são inatos, mas adquiridos, não são por essa razão menos naturais") parece-me algo contraditória com as outras palavras que cito, de modo que não sabia o que pensar; mais especialmente porque ele diz tão pouco sobre os instintos sociais. Quando falo de atividade intelectual como a base secundária da consciência, quis dizer na minha própria mente secundária no período de desenvolvimento; mas ninguém poderia esperar que compreendesse uma elipse tão grande. Com referência à sua última frase, não acha que o homem poderia ter retrogradado nos seus instintos parentais, matrimoniais e outros sem ter retrogradado nos seus instintos sociais? E não penso que haja qualquer evidência de que o homem alguma vez existiu como um animal não social. Devo acrescentar que fiquei muito contente por ler as suas observações sobre o caso suposto da abelha: proporciona um contraste divertido com o que a Srta. Cobbe escreveu na "Theological Review". (242/3. O Sr. Darwin diz ("A Descendência do Homem", Edição I, Volume I, página 73; Edição II, página 99), "que se os homens vivessem como abelhas, as nossas fêmeas solteiras considerariam um dever sagrado matar os seus irmãos". A Srta. Cobbe observa sobre isto "que os princípios do dever social seriam invertidos" ("Theological Review", abril de 1872). O Sr. Morley, por outro lado, diz sobre a afirmação de Darwin, que é "tão reconfortante como o mais absoluto dos moralistas poderia desejar. Pois equivale a dizer que os fundamentos da moralidade, as distinções de certo e errado, estão profundamente estabelecidos nas próprias condições da existência social; que existe perante estas condições uma diferença positiva e definida entre o moral e o imoral, o virtuoso e o vicioso, o certo e o errado, nas ações dos indivíduos que participam dessa existência social".) Indubitavelmente, o grande princípio de agir para o bem de todos os membros da mesma comunidade, e portanto o bem da espécie, teria ainda mantido o seu domínio soberano.
CARTA 243. A J.D. HOOKER.
(243/1. Sir Joseph Hooker escreveu (5 de agosto de 1871) a Darwin sobre o Discurso Presidencial de Lord Kelvin na reunião de Edimburgo da Associação Britânica: "Parece-me ser deveras muito capaz; e que boa noção dá da gigantesca realização dos matemáticos e físicos! — realmente ficava-se tonto só de ler sobre eles. Não creio que Huxley lhe agrade pela sua referência a ele como um descrente positivo na geração espontânea — estes matemáticos não me parecem distinguir entre descrença e a-crença. Não conheço outro nome para o estado de espírito que é produzido sob o termo ceticismo. Não fazia ideia antes de que a Matemática pura tinha alcançado tais maravilhas na ciência prática. A ausência total de qualquer alusão aos trabalhos de Tyndall, mesmo quando os cometas são o seu tema, parece-me estranha.")
Haredene, Albury, Guildford, 6 de agosto [1871].
Li com o maior interesse o discurso de Thomson; mas diz tão EXATA E COMPLETAMENTE tudo o que penso, que tirou todas as palavras da minha boca; até sobre Tyndall. É um ganho que um homem tão maravilhoso, embora não seja naturalista, se torne um converso à evolução; Huxley, parece, comentou no seu discurso neste sentido. Gostaria de saber o que ele quer dizer sobre design — não consigo compreender de todo, pois presumo que ele não acredita em interposições especiais. (243/2. Ver "Relatório da Associação Britânica", página cv. Lord Kelvin fala de forma muito duvidosa sobre a evolução. Após citar a passagem conclusiva da "Origem", ele continua: "Omiti duas frases... descrevendo brevemente a hipótese da 'origem das espécies pela Seleção Natural', porque sempre senti que esta hipótese não contém a verdadeira teoria da evolução, SE EVOLUÇÃO HOUVER na biologia" (os itálicos não estão no original). Lord Kelvin descreve então como uma "crítica muito valiosa e instrutiva" a observação de Sir John Herschel de que a doutrina da Seleção Natural é "demasiado parecida com o método de Laputa para fazer livros, e que não levava suficientemente em conta uma inteligência continuamente orientadora e controladora". Mas deve lembrar-se que foi neste discurso de Lord Kelvin que ele sugeriu a possibilidade de "pedras meteóricas portadoras de sementes movendo-se pelo espaço" inocularem a terra com organismos vivos; e se ele assume que toda a população do globo deve ser traçada até estes "fragmentos cobertos de musgo das ruínas de outro mundo", é óbvio que ele acredita numa forma de evolução, e uma na qual uma inteligência controladora não é muito óbvia, de qualquer modo não no estádio inicial e de extrema importância.) O comentário de Herschel foi um bom escárnio. Fez-me inserir o símile sobre a Madonna de Rafael, ao descrever em "A Descendência do Homem" a maneira de formação dos admiráveis ornamentos em ocelo, e jurarei pela verdade deste caso. (243/3. Ver "A Descendência do Homem", II, página 141. Darwin diz que ninguém atribuirá o sombreado dos "olhos" nas asas do faisão-argus ao "concurso fortuito de átomos de matéria corante". Ele continua a dizer que o desenvolvimento do efeito de ocelo por meio da Seleção Natural parece a princípio tão incrível como que "uma das Madonnas de Rafael tivesse sido formada pela seleção de borrões de tinta ao acaso". A observação de Herschel, citada em "Vida e Cartas", II, página 241, de que a "Origem" ilustra a "lei do caos", é provavelmente uma variante coloquial da comparação de Laputa que deu origem à passagem em "A Descendência do Homem" (ver Carta 130).)
Conhece a variedade de folhas de carvalho da madressilva comum; não consegui convencer uma senhora de que isto não era o resultado da madressilva a trepar um jovem carvalho! Não é isto como o caso da Viola?
CARTA 244. A JOHN LUBBOCK (LORD AVEBURY). Haredene, Albury, Guildford, 12 de agosto [1871].
Espero que o envio das provas para aqui não o incomode. Li-as com infinita satisfação, e toda a discussão parece-me admirável. Não tenho livros aqui, e desejo muito poder ver uma placa de Campodea. (244/1. "Sobre a Origem dos Insetos". Por Sir John Lubbock, Bart. "Journ. Linn. Soc. (Zoology)", Volume XI, 1873, páginas 422-6. (Lido a 2 de novembro de 1871.) No parágrafo conclusivo o autor escreve: "Se estas visões estão corretas, o género Campodea [um besouro] deve ser considerado como uma forma de interesse notável, uma vez que é o representante vivo de um tipo primordial do qual não apenas os Collembola e Thysanura, mas as outras grandes ordens de insetos, derivaram a sua origem". (Ver também "Relatório da Assoc. Brit.", 1872, página 125 — Discurso de Sir John Lubbock; e para uma figura de Campodea ver "Nature", Volume VII, 1873, página 447.)) Nunca refleti muito sobre a dificuldade que indica, e sobre a qual lança tanta luz. (244/2. A dificuldade aludida é explicada pela primeira frase do artigo de Lord Avebury. "As metamorfoses deste grupo (Insetos) pareceram-me sempre uma das maiores dificuldades da teoria darwinista... Sinto grande dificuldade em conceber por que processo natural um inseto com uma boca suctorial, como a de um mosquito ou borboleta, poderia ser desenvolvido a partir de um tipo poderosamente mandibulado como os ortópteros, ou mesmo a partir dos neurópteros... Uma pista para a dificuldade pode, creio, ser encontrada na distinção entre as mudanças desenvolvimentais e adaptativas às quais chamei a atenção da Sociedade num artigo anterior".
A distinção entre mudanças desenvolvimentais e adaptativas é mencionada, mas não discutida, no artigo "Sobre a Origem dos Insetos" (loc. cit., página 422); num artigo anterior, "Sobre o Desenvolvimento de Chloeon (Ephemera) dimidiatum" ("Trans. Linn. Soc." XXV, página 477, 1866), esta questão é tratada longamente.) Tenho apenas algumas observações triviais a fazer. Na página 44, gostaria que tivesse alargado um pouco o que disse sobre a distinção entre mudanças desenvolvimentais e adaptativas; pois não me consigo lembrar bem do ponto, e outros talvez estejam na mesma situação. Penso que sempre vi que a larva e o adulto podiam ser separadamente modificados em qualquer medida. Tendo em mente que estranhas mudanças de função as partes sofrem, com o estado intermediário de uso (244/3. Esta frase ligeiramente obscura pode ser parafraseada como: "os estados graduais sendo de utilidade para o organismo."), parece-me que fala com demasiada ousadia sobre a impossibilidade de um inseto mandibulado ser convertido num inseto sugador (244/4. "Existem, contudo, dificuldades peculiares naqueles casos em que, como entre os lepidópteros, a mesma espécie é mandibulada enquanto larva e suctorial enquanto embrião" (Lubbock, "Origem dos Insetos", página 423).); não que eu duvide minimamente do valor da sua explicação.
Os Cirripedia que passam pelo que chamei de estado pupal (244/5. "Daí que a larva, neste, o seu último estádio, não possa comer; pode ser chamada de 'Pupa locomotora'; toda a sua organização é aparentemente adaptada para o único grande fim de encontrar um local apropriado para a sua fixação e metamorfose final." ("A Monograph on the Sub-Class Cirripedia". Por Charles Darwin. Londres, Ray Soc., 1851.)) no que diz respeito às suas bocas, apoia bastante o que diz na página 52.
Na página 40, as suas observações sobre o faisão-argus (244/6. Não há menção ao faisão-argus no artigo publicado.) (embora não tenha a mínima objeção a elas) não me parecem muito apropriadas como estando relacionadas com as faculdades mentais. Se puder dispensar-me estas provas quando terminar, ficarei grato, pois estarei a corrigir uma nova edição da "Origem" quando regressar a casa, embora este assunto seja demasiado vasto para eu entrar nele. Agradeço-lhe sinceramente o grande interesse que a sua discussão me proporcionou.
[245/1. A carta seguinte refere-se à "Génese das Espécies" de Mivart.]
Down, 16 de setembro [1871].
Estou a preparar uma nova e barata edição da "Origem" e introduzirei um novo capítulo sobre gradação, e sobre as utilidades dos começos iniciais de estruturas úteis; pois isto, observo, tem produzido o maior efeito na maioria das pessoas. Cada um dos casos dele [Mivart], tal como me parece, pode ser respondido de uma maneira razoavelmente satisfatória. Ele é muito injusto e nunca diz o que deve ter sabido que poderia ser dito do meu lado. Ignora o efeito do uso, e o que eu disse em todos os meus livros e edições posteriores sobre os efeitos diretos das condições de vida e a chamada variação espontânea. Envio-lhe por este correio uma resenha muito inteligente, mas mal escrita, da América do Norte por um amigo de Asa Gray, que republiquei. [245/2. Chauncey Wright na "North American Review", Volume CXIII., reimpressa por Darwin e publicada como panfleto (ver "Life and Letters", III., página 145).]
Fico contente por ouvir falar de Huxley. Nunca leu cartas tão fortes como as que Mivart me escreveu sobre o respeito para comigo, implorando que eu o visitasse, etc., etc.; contudo, na "Q. Review" [245/3. Ver "Quarterly Review", julho de 1871; também "Life and Letters", III., página 147.] ele mostra o maior desprezo e animosidade para comigo, e com uma inteligência incomum diz tudo o que é mais desagradável. Faz de mim a besta mais arrogante e odiosa que jamais viveu. Não o consigo compreender; suponho que a maldita intolerância religiosa esteja na raiz disto. É claro que ele tem toda a liberdade para me desprezar e odiar, mas por que ter tanto trabalho para expressar algo mais do que amizade? Isso mortificou-me bastante.
CARTA 246. A J.D. HOOKER. Down, 4 de outubro [1871].
Estou deveras encantado por pensar tão bem do artigo de Huxley. [246/1. Uma resenha da "Seleção Natural" de Wallace, da "Génese das Espécies" de Mivart, e do artigo da "Quarterly Review" sobre a "Descendência do Homem" (julho de 1871), publicada na "Contemporary Review" (1871), e nos "Collected Essays" de Huxley, II., página 120.] Receava dizer tudo o que pensava sobre isso, pois nada é tão provável que faça algo parecer monótono. Pensei, e concordei inteiramente, com a sua observação anterior de que Huxley faz sentirmo-nos totalmente infantis em intelecto. Ele age sempre assim comigo. Concordo exatamente com o que diz sobre os vários pontos no artigo, e acumulei clímax sobre clímax de admiração na minha carta para ele. Não sou um cristão tão bom como pensa, pois apreciei a minha vingança sobre Mivart. Ele (isto é, Mivart) acaba de me escrever tão frio como um pepino, esperando que a minha saúde esteja melhor, etc. A minha cabeça, aliás, atormenta-me terrivelmente, e sinto-a leve e a oscilar metade do dia. Adeus, meu caro velho amigo — o melhor dos meus amigos.
CARTA 247. A JOHN FISKE.
[247/1. O Sr. Fiske, que é talvez mais conhecido em Inglaterra como autor de "Outlines of Cosmic Philosophy", tinha enviado ao Sr. Darwin alguns relatórios das palestras dadas na Universidade de Harvard. O ponto referido no pós-escrito da carta do Sr. Darwin é explicado pelo seguinte extrato da obra do Sr. Fiske: "Esforcei-me por mostrar que a transição da animalidade (ou bestialidade, despindo a palavra das suas conotações negativas) para a humanidade deve ter sido principalmente determinada pelo prolongamento da infância ou imaturidade que é consequente a um alto desenvolvimento da inteligência, e que deve ter tornado necessário o agrupamento gradual dos homens pitecoides em famílias mais ou menos definidas." (Ver "Descendência", I., página 13, sobre a prolongada infância dos símios antropoides.)]
Down, 9 de novembro de 1871.
Estou-lhe muito grato por me ter enviado, através do meu filho, as suas palestras, e pela maneira muito honrosa como alude às minhas obras. As palestras parecem-me ser escritas com muita força, clareza e originalidade. Mostra também uma quantidade verdadeiramente extraordinária de conhecimento de tudo o que foi publicado sobre o assunto. O tipo de letra em muitas partes é tão pequeno que, exceto para olhos jovens, é muito difícil de ler. Portanto, desejo que reflita sobre a sua publicação em separado, embora tanto tenha sido publicado sobre o assunto que o público possa possivelmente ter tido o suficiente. Espero que esta seja a sua intenção, pois não creio ter visto alguma vez o argumento geral mais forçosamente colocado de modo a converter os descrentes.
Surpreendeu-me e agradou-me ver que o senhor e outros detetaram a falsidade de grande parte do raciocínio do Sr. Mivart. Oxalá tivesse lido as suas palestras há um ou dois meses, pois tenho estado a preparar uma nova edição da "Origem", na qual respondo a alguns pontos especiais, e creio que teria achado as suas palestras úteis; mas o meu manuscrito está agora nas mãos do impressor, e não tenho força ou tempo para fazer mais adições.
P.S. — Por uma estranha coincidência, desde que o acima foi escrito recebi a sua carta muito prestável de 23 de outubro. Notei o ponto a que se refere, e no futuro refletirei mais sobre ele. Estava, de facto, prestes a inserir uma frase com mais ou menos o mesmo sentido na nova edição da "Origem", em relação à questão — Por que não avançaram os símios em intelecto tanto quanto o homem? — mas omiti-a por causa da afirmada infância prolongada do orangotango. Também tenho algumas dúvidas sobre a distinção entre gregariedade e sociabilidade.
...Quando vier a Inglaterra terei muito prazer em fazer o seu conhecimento; mas a minha saúde é habitualmente tão fraca que tenho muito pouca capacidade de conversar com os meus amigos tanto quanto desejo. Deixe-me agradecer-lhe novamente pela sua carta. Acreditar que influenciei de algum modo as mentes de homens capazes é a maior satisfação que sou capaz de receber.
CARTA 248. A E. HACKEL. Down, 27 de dezembro de 1871.
Agradeço-lhe a sua carta muito interessante, que me deu muito prazer receber. Nunca ouvi nada tão estranho como o Prior da Santa Igreja Católica a acreditar nos nossos progenitores semelhantes a símios. Espero muito que os Jesuítas não o expulsem.
Que homem maravilhosamente ativo o senhor é! E alegro-me por ter sido tão bem-sucedido no seu trabalho sobre as esponjas. [248/1. "Die Kalkschwämme: eine Monographie; 3 volumes: Berlim, 1872. H.J. Clark publicou um artigo "On the Spongiae Ciliatae as Infusoria flagellata" nas "Mem. Boston Nat. Hist. Soc." Volume I., Parte iii., 1866. Ver Hackel, op. cit., Volume I., página 24.] O seu livro com sessenta pranchas será magnífico. Ficarei contente por saber o que pensa da visão de Clark de que as esponjas são infusórios flagelados; alguns observadores neste país acreditam nele. Estou contente por ir considerar plenamente a hereditariedade, que é um assunto da maior importância para nós. Não sei se alguma vez leu o meu capítulo sobre a pangénese. As minhas ideias foram quase universalmente desprezadas, e suponho que fui tolo ao publicá-las; contudo, ainda devo pensar que há alguma verdade nelas. De qualquer modo, ajudaram-me muito a compreender claramente os factos da hereditariedade.
Tenho tido má saúde neste último verão, e durante dois meses não fui capaz de fazer nada; mas agora quase terminei uma próxima edição da "Origem", que Victor Carus está a traduzir. [248/2. Ver "Life and Letters", III., página 49.] Não há muito de novo nela, exceto um capítulo no qual respondi, espero que satisfatoriamente, à suposta dificuldade do Sr. Mivart sobre o desenvolvimento incipiente de estruturas úteis. Dei também as minhas razões para não acreditar de todo em grandes e súbitas modificações. Estou a preparar um ensaio sobre a expressão no homem e nos animais inferiores. Tem pouca importância, mas interessou-me. Duvido se a minha força durará para muito mais trabalho sério. Espero, no entanto, publicar no próximo verão os resultados das minhas experiências de longa duração sobre as vantagens maravilhosas derivadas do cruzamento. Continuarei a trabalhar enquanto puder, mas não importa muito quando paro, pois há tantos homens bons tão capazes, talvez mais capazes do que eu, de levar adiante o nosso trabalho; e destes o senhor ocupa o primeiro lugar.
Com cordiais bons votos para o seu sucesso em todo o seu trabalho e para a sua felicidade.
CARTA 249. A E. RAY LANKESTER. Down, 15 de abril [1872].
Muitíssimos agradecimentos pela sua amável consideração. A correspondência foi no "Athenaeum". Pedi a um matemático para fazer o cálculo, e ele enganou-se e causou-me muita vergonha. Envio o pedaço de provas da última edição da "Origem", com o cálculo corrigido. Que grande trabalho fez em Nápoles! Posso ver claramente que um dia se tornará a nossa primeira estrela em História Natural.
[249/1. Segue-se o extrato da "Origem", sexta edição, página 51: "O elefante é considerado o reprodutor mais lento de todos os animais conhecidos, e tive algum trabalho para estimar a sua provável taxa mínima de aumento natural. Será mais seguro assumir que começa a reproduzir-se aos trinta anos de idade, e continua a reproduzir-se até aos noventa anos, dando à luz seis crias no intervalo, e sobrevivendo até aos cem anos de idade; se assim for, após um período de 740 a 750 anos, haveria quase dezanove milhões de elefantes vivos, descendentes do primeiro par." Na quinta edição, página 75, a passagem reza: "Se assim for, ao fim do quinto século, haveria vivos quinze milhões de elefantes, descendentes do primeiro par" (ver "Athenaeum", 5 de junho, 3, 17, 24 de julho de 1869).]
CARTA 250. A C. LYELL. Down, 10 de maio [1872].
Recebi ontem de manhã o seu presente dessa obra à qual eu, por um lado, assim como tantos outros, devo uma dívida de gratidão que nunca será esquecida. Li com o maior interesse todas as adições especiais; e desejo de todo o coração ter a força e o tempo para ler novamente cada palavra de todo o livro. [250/1. "Principles of Geology", Edição XII., 1875.] Não concordo com todas as suas críticas sobre a Seleção Natural, nem suponho que esperaria que eu o fizesse. Devemos contentar-nos em discordar em vários pontos. Discordo mais sobre a sua dificuldade (página 496) [250/2. No Capítulo XLIII. Lyell trata do "Homem considerado com referência à sua Origem e Distribuição Geográfica". Ele critica a visão de que a Seleção Natural é capaz de provocar qualquer quantidade de mudança, desde que uma série de passos transicionais minúsculos possa ser apontada. "Mas, na realidade", escreve ele, "não se pode dizer que obtemos qualquer perspicácia sobre a natureza das forças pelas quais um grau mais elevado de organização ou instinto é evoluído a partir de um mais baixo ao tomar conhecimento de uma série de formas ou estados gradacionais, cada um tendo uma afinidade muito estreita com o outro."..."É quando há uma mudança de um ser inferior para um de grau superior, de um organismo mais humilde para um dotado de novos e mais exaltados atributos, que somos levados a sentir que, para explicar a dificuldade, devemos obter algum conhecimento daquelas leis de variação das quais o Sr. Darwin concede que estamos atualmente profundamente ignorantes" (op. cit., páginas 496-97).] sobre um grau mais elevado de organização ser evoluído a partir de graus mais baixos. Não é um homem muito inteligente um grau acima de um muito aborrecido? E não levaria a acumulação de um grande número de ligeiras diferenças deste tipo a uma grande diferença no grau de organização? E suponho que admitirá que a diferença no cérebro de um homem inteligente e de um aborrecido não é muito mais maravilhosa do que a diferença no comprimento do nariz de quaisquer dois homens. É claro que permanece a impossibilidade de explicar atualmente por que um homem tem um nariz mais comprido do que outro. Mas é tolice da minha parte incomodá-lo com estas observações, que provavelmente passaram muitas vezes pela sua mente. O fim deste capítulo (XLIII.) impressiona-me como sendo admirável e grandiosamente escrito. Desejo-lhe alegria por ter completado o seu gigantesco empreendimento, e permaneço, meu caro Lyell,
O seu sempre fiel e agora muito velho aluno, CHARLES DARWIN.
CARTA 251. A J. TRAHERNE MOGGRIDGE. Sevenoaks, 9 de outubro [1872].
Acabei de receber o seu bilhete, reencaminhado para mim de minha casa. Agradeço-lhe muito verdadeiramente o seu pretendido presente, e tenho a certeza de que o seu livro me interessará imenso. Estou encantado por ter assumido o assunto muito difícil e mais interessante dos hábitos dos insetos, sobre o qual os ingleses têm feito tão pouco. Quão incomparavelmente mais valiosas são tais pesquisas do que a mera descrição de mil espécies! Ouso dizer que pensou em fazer experiências sobre os poderes mentais das aranhas, fixando as suas alçapões abertas de diferentes maneiras e em diferentes ângulos, e observando o que farão.
Temos estado aqui há alguns dias, e pretendemos ficar algumas semanas; pois eu estava completamente exausto de trabalho, e não consigo estar ocioso em casa.
Espero sinceramente que a sua saúde não esteja pior.
CARTA 252. A A. HYATT.
[252/1. A correspondência com o Professor Hyatt, de Boston, E.U.A., teve origem na referência às suas teorias e às do Professor Cope sobre aceleração e retardamento, inserida na sexta edição da "Origem", página 149. O Sr. Darwin, ao receber do Sr. Hyatt uma cópia dos seus "Fossil Cephalopods of the Museum of Comparative Zoology. Embryology", do "Bull. Mus. Comp. Zool." Harvard, Volume III., 1872, escreveu o seguinte (252/2. Parte desta carta foi publicada em "Life and Letters", III., página 154.):--]
10 de outubro de 1872.
Estou-lhe muito grato pela sua bondade por me ter enviado o seu valioso memorial sobre a embriologia dos cefalópodes extintos. O trabalho deve ter sido de um labor imenso, e os resultados são extremamente interessantes. Permita-me aproveitar esta oportunidade para expressar o meu sincero pesar por ter cometido dois erros graves na última edição da minha "Origem das Espécies", na minha alusão às suas visões e às do Professor Cope sobre a aceleração e retardamento do desenvolvimento. Eu pensara que o Professor Cope o tinha precedido; mas lembro-me agora bem de ter lido anteriormente com vivo interesse, e marcado, um artigo seu em algum lugar na minha biblioteca, sobre cefalópodes fósseis, com observações sobre o assunto. [252/3. O artigo parece ser "On the Parallelism between the Different Stages of Life in the Individual and those in the Entire Group of the Molluscous Order Tetrabranchiata", das "Boston. Soc. Nat. Hist. Mem." I., 1866-69, página 193. No verso do artigo está escrito: "Não posso evitar pensar que este artigo é fantasioso."] Parece também que representei mal a vossa visão conjunta; isto irritou-me muito. Confesso que nunca fui capaz de compreender totalmente o que deseja mostrar, e presumo que isto deva ser devido a alguma falta de perspicácia da minha parte... Como o caso está, a lei de aceleração e retardamento parece-me ser uma simples [?] declaração de factos; mas a declaração, se totalmente estabelecida, seria sem dúvida um passo importante no nosso conhecimento. Mas seria melhor eu não dizer mais nada sobre o assunto, caso contrário talvez cometa um erro novamente. Asseguro-lhe que lamento muito ter caído em dois erros tão graves.
CARTA 253. A. HYATT A CHARLES DARWIN.
[253/1. O Sr. Hyatt respondeu numa longa carta, da qual apenas uma pequena parte é aqui dada.
Cannstadt bei Stuttgart, novembro de 1872.
A carta com que me honrou, datada de 10 de outubro, acabou de chegar aqui após uma viagem à América e de volta.
Tenho tido há muito em mente escrever-lhe sobre o assunto de que fala, mas fui impedido por um sentimento muito natural de desconfiança na dignidade e verdade das visões que tinha para apresentar.
Certamente não há ocasião para pedir desculpa por não ter citado o meu artigo. A lei de aceleração e retardamento do desenvolvimento foi nela usada para explicar o aparecimento de outros fenómenos, e poderia, como aconteceu em quase todos os casos, escapar facilmente à atenção.
As minhas relações com o Prof. Cope são do caráter mais amigável; e embora afortunado em publicar com alguns meses de antecedência, considero que isto não me dá direito a reivindicar algo além de tal quantidade de participação na descoberta, se assim pode ser chamada, como a exaustividade e valor do meu trabalho me confere...
As coleções que estudei, recordar-se-á, são fósseis recolhidos sem referência especial às subdivisões muito minuciosas, como as subdivisões do Lias Inferior ou Médio feitas pelos autores alemães, especialmente Quenstedt e Oppel, mas bastante bem definidas para as divisões maiores nas quais as espécies estão também bem definidas. A condição das coleções no que diz respeito a nomes, etc., era caótica, apenas as localidades, com algumas poucas exceções, eram precisas. Para pôr isto em ordem foram primeiro organizadas de acordo com as suas características adultas. Provando ser isto insatisfatório, determinei testar minuciosamente a teoria da evolução seguindo a história do desenvolvimento de cada espécie e colocando-as dentro das suas formações, Lias Médio ou Superior, Oólito ou algo do género, de acordo com a extensão em que representavam as características umas das outras. Assim, um adulto de estrutura simples sendo tomado como o ponto de partida que chamaremos a, outra espécie que era a na sua fase jovem e se tornava b no adulto era colocada acima dela na série zoológica. Por este processo, descobri presentemente que a, depois a b e a b c, c representando a fase adulta, eram muito frequentemente encontrados; mas que praticamente após passar estas duas ou três fases não acontecia muitas vezes que uma espécie fosse encontrada que fosse a b c na juventude e depois se tornasse d no adulto. Mas por outro lado encontrei muito frequentemente uma que, enquanto era a na juventude, saltava as fases b e c e se tornava d enquanto ainda bastante jovem. Depois, por vezes, embora mais raramente, uma espécie seria encontrada pertencente à mesma série, que seria a na juventude e com uma semelhança muito ténue e fugaz com d numa fase posterior, passaria imediatamente enquanto ainda bastante jovem para as características mais avançadas representadas por e, e manteria estas como as suas características específicas até que a velhice as destruísse. Este salto é a mais alta exemplificação, ou melhor, manifestação, de aceleração no desenvolvimento. Ao aludir à história das doenças e herança de características, o senhor na sua "Origem das Espécies" alude à manifestação comum da aceleração, quando fala da tendência das doenças ou características para aparecerem em períodos mais jovens na vida da criança do que dos seus pais. Isto, de acordo com as minhas observações, é uma lei, ou melhor, modo de desenvolvimento, que é aplicável a todas as características, e desta maneira é possível explicar por que os jovens de animais ocorrentes mais tarde são como as fases adultas daqueles que os precederam no tempo. Se não me engano, o senhor também deu a entender algo deste género na sua primeira edição, mas não fui capaz de o encontrar ultimamente. É claro que esta é uma condição muito normal de assuntos quando uma série pode ser seguida desta maneira, começando com a espécie a, depois passando pela espécie a b para a b c, depois a b d ou a c d, e depois a d e ou simplesmente a e, como por vezes acontece. Muitas vezes a aceleração ocorre em duas séries estreitamente ligadas, assim:
a--ab--abd--ae---ad
nas quais uma série continua muito regularmente, enquanto outra ramificação lateral de a se torna d no adulto. Este é um caso real que pode ser claramente mostrado com os espécimes em mãos, e foi verificado nas coleções aqui. O retardamento é inteiramente ideia do Prof. Cope, mas penso que também facilmente rastreável. É o oponente da aceleração, por assim dizer, ou o oposto ou negativo daquele modo de desenvolvimento. Assim, podem ocorrer séries nas quais, quer em tamanho ou características, regressam a características anteriores; mas uma melhor discussão deste ponto encontrará no pequeno tratado que envio pelo mesmo correio que esta carta, "On Reversions among the Ammonites."]
CARTA 254. A A. HYATT. Down, 4 de dezembro de 1872.
Agradeço-lhe sinceramente a sua interessantíssima carta. Refere-se de forma demasiado modesta ao seu próprio conhecimento e discernimento, uma vez que está muito mais apto a lançar luz sobre os seus próprios problemas difíceis do que eu.
Incomodou-me bastante não compreender claramente as suas opiniões e as do Prof. Cope (254/1. As opiniões do Prof. Cope podem ser colhidas do seu "Origin of the Fittest", 1887; neste livro (página 41) está reimpressa a sua "Origin of Genera", do "Proc. Philadelph. Acad. Nat. Soc." de 1868, que foi publicado separadamente pelo autor em 1869, e que acreditamos ser a sua primeira publicação sobre o assunto. No prefácio de "Origin of the Fittest", página vi, ele resume os pontos principais da "Origin of Genera" sob sete tópicos, dos quais os seguintes são os mais importantes: -- "Primeiro, que o desenvolvimento de novos caracteres foi realizado por uma ACELERAÇÃO ou RETARDAMENTO no crescimento das partes alteradas... Segundo, que o de EXATO PARALELISMO entre o adulto de um indivíduo ou conjunto de indivíduos, e um estágio transitório de um ou mais outros indivíduos. Esta doutrina é distinta da do paralelismo exato, que já tinha sido estabelecida por von Baer." O último ponto é menos definido por Hyatt na sua carta de 4 de dezembro de 1872. "Sou assim perpetuamente levado a ver uma série muito como vejo um indivíduo, e penso ter descoberto que, em muitos casos, estas oferecem alterações paralelas." Ver também "Lamarck the Founder of Evolution", de A.S. Packard: Nova Iorque, 1901.) e a culpa é, em certa medida, penso eu, do Prof. Cope, que não escreve com muita clareza. Creio compreender agora os termos "aceleração" e "retardamento"; mas importaria-se de ter o trabalho de me dizer, com a ajuda da ilustração seguinte, se compreendo corretamente? Quando um crustáceo decápode de água doce nasce com uma estrutura quase madura, e portanto não passa, como outros decápodes, pelo estágio de Zoea, não será este um caso de aceleração? Por outro lado, se um decápode imaginário retivesse, quando adulto, muitos caracteres de Zoea, não seria este um caso de retardamento? Se estas ilustrações estiverem corretas, posso perceber por que fui tão lento em compreender as suas opiniões. Procurei algo mais, estando familiarizado com tais casos e classificando-os na minha própria mente como simplesmente devidos à obliteração de certos estágios larvais ou embrionários. Imaginei que esta obliteração resultava por vezes inteiramente daquela lei da hereditariedade à qual alude; mas que, em muitos casos, era auxiliada pela Seleção Natural, como inferi pelo facto de tais casos ocorrerem tão frequentemente em membros terrestres e de água doce de grupos que retêm os seus vários estágios embrionários no mar, desde que as condições adequadas estejam presentes.
Outra causa do meu mal-entendido foi o pressuposto de que na sua série
a--ab--abd--ae,--------ad
as diferenças entre as espécies sucessivas, expressas pela letra terminal, eram devidas à aceleração: agora, se compreendo corretamente, este não é o caso; e tais caracteres devem ter sido adquiridos independentemente por algum meio.
Os dois pontos mais novos e interessantes da sua carta (e, na medida em que penso, do seu artigo anterior) parecem-me ser sobre características senis numa espécie que aparecem nas espécies sucessivas durante a maturidade; e, em segundo lugar, sobre certos caracteres degradados que aparecem na última espécie de uma série. Pede a minha opinião: só posso enviar as impressões conjeturais que me ocorreram e que não valem a pena ser escritas. (Deveria saber-se se o caráter senil aparece antes ou depois do período de reprodução ativa.) Estaria inclinado a atribuir o caráter, em ambos os seus casos, às leis do crescimento e da descendência, secundariamente à Seleção Natural. Foi um erro da minha parte, e um infortúnio, não ter discutido amplamente o que entendo por leis do crescimento num período inicial em alguns dos meus livros. Disse algo sobre este assunto em dois novos capítulos na última edição da "Origin". Teria todo o gosto em enviar-lhe um exemplar desta edição, se não o possuir e se tiver interesse em tê-lo. Um homem em idade muito avançada difere muito de um homem jovem, e presumo que todos explicariam isto pela falha das faculdades de crescimento. Por outro lado, os crânios de alguns mamíferos continuam a alterar-se durante a maturidade até à velhice; tal como os chifres do veado, as penas da cauda de algumas aves, o tamanho dos peixes, etc.; e todas essas diferenças eu atribuiria simplesmente às leis do crescimento, desde que o vigor total fosse retido. Infinitas outras alterações de estrutura em espécies sucessivas podem, creio eu, ser explicadas por várias leis complexas do crescimento. Ora, qualquer alteração de caráter induzida deste modo com o avançar da idade no indivíduo poderia facilmente ser herdada numa idade mais precoce do que aquela em que surgiu pela primeira vez, e tornar-se assim característica da espécie madura; ou então, tais alterações tenderiam a seguir-se da variação, independentemente da hereditariedade, sob condições adequadas. Portanto, esperaria que caracteres deste tipo aparecessem frequentemente em espécies formadas tardiamente sem a ajuda da Seleção Natural, ou com a sua ajuda se os caracteres fossem de alguma vantagem. Quanto mais vivo, mais me convenço de quão ignorantes somos quanto à extensão em que todos os tipos de estruturas são úteis para cada espécie. Mas que caracteres que surgem durante a maturidade numa espécie apareçam tão regularmente, como afirma ser o caso, nas espécies sucessivas, parece-me muito surpreendente e inexplicável.
Com respeito à degradação nas espécies perto do fim de uma série, não tenho nada a dizer, exceto que, antes de chegar ao fim da sua carta, ocorreu-me que os amonites mais antigos e simples devem ter estado bem adaptados às suas condições, e que, quando as espécies estavam a caminhar para a extinção (devido provavelmente à presença de alguns concorrentes mais bem-sucedidos), naturalmente se tornariam readaptadas a condições mais simples. Antes de ler as suas observações finais, pensei também que condições desfavoráveis poderiam causar, através da lei do crescimento, auxiliada talvez pela reversão, a degradação do caráter. Sem dúvida que muitas novas leis permanecem por descobrir. Permita-me acrescentar que nunca fui tão insensato ao ponto de imaginar que consegui fazer mais do que estabelecer algumas das linhas gerais da origem das espécies.
Após longa reflexão, não posso evitar a convicção de que não existe nenhuma tendência inata para o desenvolvimento progressivo, como é agora sustentado por tantos naturalistas capazes, e talvez por si próprio. É curioso quão raramente os escritores definem o que entendem por desenvolvimento progressivo; mas este é um ponto que discuti brevemente na "Origin". Espero sinceramente que possa visitar o famoso depósito de Hilgendorf. Viu o panfleto de Weismann "Einfluss der Isolirung", Leipzig, 1872? Ele faz um uso esplêndido das admiráveis observações de Hilgendorf. (254/2. Hilgendorf, "Monatsb. K. Akad." Berlim, 1866. Para um relato semipopular do trabalho de Hilgendorf e Hyatt sobre este assunto, ver "Darwin and after Darwin" de Romanes, I., página 201.) Não tenho forças a poupar, estando com a saúde muito debilitada; caso contrário, teria tentado tornar esta carta mais digna de ser enviada. Desejo-lhe sinceramente sucesso nas suas valiosas e difíceis investigações.
Recebi, e agradeço-lhe, os seus três panfletos. Até onde posso julgar, as suas opiniões parecem muito prováveis; mas que assunto terrivelmente intrincado é este da sucessão dos amonites. (254/3. Ver vários artigos nas publicações da "Boston Soc. Nat. Hist." e no "Bulletin of the Harvard Museum of Comp. Zoology.")
CARTA 255. A. HYATT A CHARLES DARWIN. Cannstadt bei Stuttgart, 8 de dezembro de 1872.
A rapidez e a seriedade da sua resposta à minha carta dão-me o maior encorajamento, e estou muito encantado com o interesse inesperado que as suas perguntas e comentários demonstram. O que diz sobre o estilo do Prof. Cope já me foi dito muitas vezes, e notei nos seus escritos um tratamento insatisfatório da nossa teoria comum. Isto, creio, deve-se talvez em grande parte à completa absorção da sua mente na contemplação do seu assunto: isto parece levá-lo a ser descuidado sobre os métodos pelos quais este pode ser melhor explicado. Ele tem, contudo, um conhecimento mais extenso do que eu, e tem, de muitas formas, uma compreensão mais poderosa do assunto, e por essa mesma razão, talvez, é suscetível de cair em extremos. Pergunta sobre a omissão do estágio de Zoea em decápodes de água doce: é esta uma ilustração de aceleração? É, com toda a certeza, se aceleração significa alguma coisa. Novamente, outra ilustração mais geral seria se, entre os decápodes marinhos, se pudesse formar uma série na qual o estágio de Zoea se tornasse cada vez menos importante no desenvolvimento, e fosse relegado para estágios cada vez mais jovens do desenvolvimento, e finalmente desaparecesse naqueles a que se refere. Esta é a forma habitual como o modo de desenvolvimento acelerado se manifesta; embora perto das espécies mais baixas ou de aparecimento mais precoce, também deva ser procurado. Talvez isto a que alude seja uma ilustração algo semelhante àquela de que falei na minha série,
a--ab--abc--ae--------ad,
que como "a d" provém da mais antiga de uma série, embora eu devesse pensar, pela omissão total do estágio de Zoea, que deve ser, como "a e", o resultado de uma longa linhagem de ancestrais. De facto, o ponto essencial da nossa teoria é que as características são sempre herdadas pelos jovens em períodos mais precoces do que aqueles em que são assumidas no devido curso de crescimento pelos pais, e que isto deve levar eventualmente à extinção ou à omissão total destas características...
Considerações como estas e o facto de que, perto dos inícios de séries ou perto dos últimos membros de séries, e não no princípio, se encontravam geralmente os tipos acelerados, que omitiam características inferiores e desenvolviam-se muito subitamente para um ponto de vista mais elevado e complexo na estrutura, levaram tanto Cope como [eu próprio] àquilo que pode ser um grande erro. Vejo que o levou, pelo menos, à dificuldade de que se queixa muito justamente, e que, lamento ver, lhe custou parte do seu tempo valioso. Presumimos que, porque as características eram perpetuamente herdadas em estágios mais precoces, essa própria concentração das características desenvolvidas abria espaço para a produção de diferenças nos descendentes adultos de qualquer par dado. Além disso, que no espaço assim criado outras características diferentes deveriam ser produzidas, e que estas apareceriam necessariamente mais cedo na proporção em que a espécie fosse mais ou menos acelerada, e seriam maiores ou menores na mesma proporção. Finalmente, que nos mais acelerados, tais como "a c" ou "a d", a diferença seria tão grande que constituiria géneros distintos. Cope e eu divergi muito; enquanto ele reconhecia a ação do modo acumulado de desenvolvimento apenas quando características genéricas ou maiores diferenças eram produzidas, eu via o mesmo modo de desenvolvimento como aplicável em todos os casos e a todas as características, até mesmo a doenças. Até aqui os factos sustentaram-nos, mas quando assumimos que as diferenças adultas eram o resultado do modo acelerado de desenvolvimento, estávamos talvez em terreno um pouco inseguro. É evidentemente este pressuposto que o levou a compreender mal a teoria. Cope baseou a sua crença, de que as características adultas eram também o resultado da aceleração, se bem me lembro, principalmente na classe de factos mencionados acima no homem, onde uma mudança súbita em dois órgãos pode produzir diferenças inteiramente novas e inesperadas em toda a organização, e nas alterações que a aceleração parecia produzir no desenvolvimento de cada espécie sucessiva. A sua dificuldade em compreender a teoria e as observações que fez mostram-me imediatamente quais foram as minhas próprias dificuldades, mas sobre estas não falarei de momento, pois a minha carta está a alongar-se a um comprimento terrível.
(255/1. Após falar da comparação de Cope entre a aceleração e o retardamento na evolução e a força da gravidade em questões físicas, o Sr. Hyatt continua:--)
Agora parece-me [a aceleração] explicar cada vez menos a origem de características progressivas adultas ou simplesmente diferenças, e talvez agora avance mais depressa com o meu trabalho.
CARTA 256. A A. HYATT. Down, 14 de dezembro [1872].
(256/1. Em resposta à carta acima (255) do Sr. Hyatt.)
Não obstante a gentil consideração demonstrada na sua última frase, devo agradecer-lhe pela sua interessante e claramente expressa carta. Instruí o meu editor a enviar-lhe um exemplar da última edição da "Origin", e pode, se quiser, colar o "Do Autor" na página seguinte. Em relação à sua opinião e à do Professor Cope sobre a "aceleração" causar um desenvolvimento de novos caracteres, seria, penso eu, bom se comparasse os decápodes que passam e os que não passam pelo estágio de Zoea, e o grupo que (segundo Fritz Muller) passa pelos estágios de Nauplius ainda mais precoces, e ver se apresentam quaisquer diferenças marcantes. Acredito que descobrirá que este não é o caso. Gostaria que fosse, pois muitas vezes fiquei perplexo com a omissão de estágios embrionários, bem como com a aquisição de estágios peculiares que parecem não produzir nenhum resultado especial na forma madura.
(256/2. O resto desta carta falta, e a totalidade da última frase foi decifrada com alguma incerteza. (Nota do Sr. Hyatt.))
CARTA 257. A A. HYATT. Down, 13 de fevereiro de 1877.
Agradeço-lhe a sua muito gentil, longa e interessante carta. O caso é tão maravilhoso e difícil que não me atrevo a expressar qualquer opinião sobre ele. Naturalmente, lamento que Hilgendorf tenha provado estar tão grandemente em erro (257/1. Isto refere-se a uma controvérsia com Sandberger, que tinha atacado Hilgendorf no "Verh. der phys.-med. Ges. zu Wurzburg", Bd. V., e no "Jahrb. der Malakol. Ges." Bd. I., ao qual Hilgendorf respondeu no "Zeitschr. d. Deutschen geolog. Ges." Jahrb. 1877. O nome de Hyatt ocorre nas páginas de Hilgendorf, mas não encontramos referência a qualquer artigo desta data; o seu conhecido artigo está na "Boston. Soc. Nat. Hist." de 1880. Numa carta a Darwin (23 de maio de 1881) Hyatt lamenta não ter tido oportunidade de uma terceira visita a Steinheim, e continua: "Teria então feito maior justiça a Hilgendorf, por quem tenho tão elevado respeito."), mas é um conforto egoísta para mim o facto de sempre ter sentido tantos receios que nunca citei o seu artigo. (257/2. Na quinta edição da "Origin" (página 362), contudo, Darwin fala das formas graduadas de Planorbis multiformis, descritas por Hilgendorf a partir de certos estratos na Suíça, pelos quais presumimos que ele queria dizer os estratos de Steinheim em Wurtemberg.) A variabilidade destas conchas é bastante surpreendente, e parece exceder a de Rubus ou Hieracium entre as plantas. O resultado que mais me surpreende é que a mesma forma deva ser desenvolvida a partir de vários e diferentes progenitores. Isto parece mostrar quão potentes são as condições de vida, independentemente de as variações serem de alguma forma benéficas.
A produção de uma espécie a partir de um caos de formas variáveis lembra-me a conclusão de Nageli, deduzida do estudo de Hieracium, de que este é o modo comum como as espécies surgem. Mas continuo a duvidar muito sobre este ponto, e apego-me à crença expressa na primeira edição da "Origin", de que as espécies proteiformes ou polimórficas são aquelas que estão agora a variar de tal maneira que as variações não são nem vantajosas nem desvantajosas. Fico contente por ouvir sobre o depósito de Brunswick, pois sinto-me seguro de que o estudo cuidadoso de tais casos é altamente importante. Espero que a Smithsonian Institution publique a sua memória.
CARTA 258. A A. DE CANDOLLE. Down, 18 de janeiro [1873].
Foi muito gentil da sua parte dedicar tanto do seu tempo a escrever-me a sua última e interessante carta. A prova parece boa quanto à docilidade das borboletas alpinas, e o facto parece-me muito surpreendente, pois cada borboleta dificilmente terá adquirido a sua experiência durante a sua própria curta vida. Poderia ser tão gentil a ponto de agradecer ao M. Humbert pela sua nota, que li com agrado. Recebi anteriormente de um homem, não naturalista, que estava em Cannes, um relato semelhante, mas duvidei em acreditar nele. O caso, contudo, não responde à minha questão, a saber: se as borboletas são atraídas por cores brilhantes, independentemente da suposta presença de néctar?
Devo confessar que tenho grande dificuldade em acreditar que qualquer condição temporária dos pais possa afetar a descendência. Se durar tempo suficiente para afetar a saúde ou a estrutura dos pais, posso perfeitamente acreditar que a descendência seria modificada. Mas quão misterioso é o assunto da geração! Embora a minha hipótese da pangénese tenha sido vituperada por todos os lados, ainda devo considerar a geração sob este ponto de vista; e isso torna-me muito avesso a acreditar numa emoção que tenha qualquer efeito sobre a descendência. Permita-me acrescentar uma palavra sobre o corar e a timidez: pretendia apenas dizer que o hábito foi primordialmente adquirido pela atenção ao rosto, e não que cada homem tímido agora se preocupasse com a sua aparência pessoal.
CARTA 259. A J.D. HOOKER. Down, 28 de junho de 1873.
Escrevo uma linha para lhe desejar adeus, pois ouvi dizer que parte na quarta-feira, e para lhe agradecer pela Dionaea, mas não consigo fazer a pequena criatura crescer bem. Li hoje o último discurso de Bentham, e devo expressar a minha admiração por ele. (259/1. Discurso presidencial à Sociedade Linneana, lido a 24 de maio de 1873.) Talvez não o devesse fazer, já que ele me esmaga justamente com honra.
Estou encantado por ver quão exatamente concordo com ele sobre afinidades, e especialmente sobre formas extintas como ilustrado pela sua árvore de topo plano. (259/2. Ver página 15 do exemplar separado: "Deveríamos então ter as raças presentes representadas pelos incontáveis ramos que formam o cume de topo plano" de uma árvore genealógica, na qual "tudo o que podemos fazer é mapear o cume como se fosse a partir de uma vista de pássaro, e sob cada grupo, ou grupo de grupos, colocar como tronco comum um tipo imaginário de um género, ordem, ou classe de acordo com a profundidade a que desejaríamos ir.") O meu trabalho recente leva-me a diferir dele num ponto, a saber: sobre a separação dos sexos. (259/3. Sobre a questão da sexualidade, ver página 10 do discurso de Bentham. No verso do exemplar do Sr. Darwin, ele escreveu: "Enquanto os organismos mais baixos livres--sexos separados: assim que se tornam ligados, para evitar a esterilidade sexos unidos--separados novamente como meio de fertilização, adaptado [?] para organismos distantes [?]--no caso dos animais pelos seus sentidos e movimentos voluntários--com plantas a ajuda de insetos e vento, este último sempre existiu, e longamente retido." As duas palavras marcadas [?] são duvidosas. A introdução da liberdade ou ligação, como um fator no problema, também ocorre em "Cross and Self-fertilisation", página 462.) Suspeito fortemente que os sexos estivessem primordialmente em indivíduos distintos; depois tornaram-se comummente unidos no mesmo indivíduo, e depois numa multidão de animais e algumas poucas plantas tornaram-se novamente separados. Peça a Bentham que envie um exemplar do seu discurso ao "Dr. H. Muller, Lippstadt, Prússia", pois tenho a certeza de que lhe agradará GRANDEMENTE.
...Quando estiver em França escreva-me uma linha e diga-me como vai, e como está Huxley; mas não o faça se se sentir preguiçoso, e se escrever o incomodar.
CARTA 260. A R. MELDOLA.
(260/1. Esta carta, com outras de Darwin para Meldola, é publicada em "Charles Darwin and the Theory of Natural Selection", por E.B. Poulton, páginas 199 e segs., Londres, 1896.)
Southampton, 13 de agosto de 1873.
Fico-lhe muito grato pelo seu presente, que sem dúvida encontrarei em Down no meu regresso a casa. Lamento dizer que não posso responder à sua pergunta; nem creio que a possa encontrar respondida, mesmo que aproximadamente, em parte alguma. É muito difícil ou impossível definir o que se entende por uma grande variação. Tais variações transformam-se em monstruosidades ou em variações geralmente prejudiciais. Eu próprio não creio que estas sejam frequentemente ou alguma vez aproveitadas pela natureza. É frequente que variações bruscas e consideráveis sejam transmitidas num estado inalterado, ou não sejam transmitidas de todo, à descendência, ou a alguns dos seus membros. Assim sucede com os animais sem cauda ou sem cornos, e com mudanças súbitas e grandes de cor nas flores. Oxalá lhe pudesse ter dado qualquer resposta.
CARTA 261. A E.S. MORSE. [Sem data.]
Tenho de ter o prazer de lhe agradecer a sua gentileza ao enviar-me o seu ensaio sobre os Brachiopoda. (261/1. "The Brachiopoda, a Division of Annelida", "Amer. Assoc. Proc." Volume XIX., página 272, 1870, e "Annals and Mag. Nat. Hist." Volume VI., página 267, 1870.) Acabei de o ler com o maior interesse, e parece-me (embora eu não seja um juiz competente) que apresenta com notável clareza um caso extremamente forte. Que mudança maravilhosa é, para um velho naturalista, ter de encarar estas "conchas" como "vermes"; mas, como bem diz, no que diz respeito à aparência externa, o caso não é mais maravilhoso do que o dos cirrípedes. Também fiquei particularmente interessado pelas suas observações sobre o Registo Geológico, e sobre as formas inferiores e mais antigas de cada grande classe não terem sido provavelmente protegidas por válvulas calcárias ou por uma concha.
P.S.--A sua xilogravura de Lingula é introduzida com a maior perícia para obrigar a ver a sua semelhança com um anelídeo.
CARTA 262. A H. SPENCER.
(262/1. O livro do Sr. Spencer "The Study of Sociology", 1873, foi publicado na "Contemporary Review" em fascículos entre maio de 1872 e outubro de 1873.)
31 de outubro [1873].
Fico contente por receber hoje um anúncio do seu livro. Fiquei maravilhosamente interessado pelos artigos na "Contemporary". Foram tiradas esplêndidas sobre o Príncipe de Gales e Gladstone. (262/2. Ver "The Study of Sociology", página 392. O Sr. Gladstone, em protesto contra algumas palavras do Sr. Spencer, dissera que o aparecimento de grandes homens "em grandes crises da história humana" eram eventos tão marcantes "que os homens estariam inclinados a qualificá-los de providenciais numa era pré-científica". Sobre isto, o Sr. Spencer observa que "em comum com o antigo grego, o Sr. Gladstone considera irreligiosa qualquer explicação da Natureza que dispense a superintendência Divina imediata". E como exemplo da parceria "entre as ideias de causalidade natural e de interferência providencial", ele cita um caso em que um príncipe "ganhou popularidade por sobreviver a certas mudanças anormais no seu sangue", e onde "por ocasião da sua recuperação, o auxílio providencial e a causalidade natural foram reconhecidos conjuntamente por uma ação de graças a Deus e um baronete ao médico". A passagem sobre o Toryismo encontra-se na página 395, onde o Sr. Spencer, com a sua habitual tolerância, escreve: "O desejável é que um crescimento de ideias e sentimentos que tendam a produzir modificação seja acompanhado por uma continuidade de ideias e sentimentos que tendam a preservar a estabilidade". E deste ponto de vista, ele conclui ser muito desejável que "alguém na posição do Sr. Gladstone pense como ele". A questão é discutida mais profundamente nas notas ao Capítulo XVI., página 423.) Nunca antes li uma boa defesa do Toryismo. Numa passagem (mas não me recordo, por nada deste mundo, onde ou o que era exatamente) pensei que teria lucrado com o meu princípio (isto é, se não o rejeita) apresentado na minha "Descent of Man", de que os novos caracteres que aparecem tarde na vida são aqueles que são transmitidos apenas ao mesmo sexo. Apresentei algumas evidências bastante fortes, e o princípio é de grande importância em relação às semelhanças sexuais secundárias. (262/3. Isto refere-se à discussão do Sr. Spencer sobre a evolução dos traços mentais característicos das mulheres. À página 377, ele aponta a importância da limitação da hereditariedade pelo sexo nesta relação. Uma generalização marcante sobre esta questão é apresentada na "Descent of Man", Edição I., Volume II., página 285: que quando o macho adulto difere da fêmea adulta, ele difere da mesma forma dos jovens de ambos os sexos. Pode esta lei ser aplicada no caso em que a fêmea adulta possui caracteres não possuídos pelo macho: por exemplo, o elevado grau de poder intuitivo de ler os estados mentais dos outros e de ocultar os seus próprios -- caracteres que o Sr. Spencer mostra serem explicados pelas relações entre marido e mulher num estado de selvajaria. Se assim for, o homem deveria assemelhar-se aos "jovens de ambos os sexos" na ausência destas qualidades especiais. Este parece ser o caso com algumas características masculinas, e a infantilidade do homem não deixa de ser reconhecida entre as mulheres: por exemplo, por Dolly Winthrop em "Silas Marner", que se contenta com pão para si própria, mas coze bolos para crianças e homens, cujos "estômagos são feitos de forma tão cómica que querem uma mudança -- eles querem, eu sei, que Deus os ajude".) Apliquei-o ao homem e à mulher, e possivelmente foi aqui que pensei que teria lucrado com a doutrina. Receio que esta nota seja quase ilegível, mas estou muito cansado.
CARTA 263. G.J. ROMANES A CHARLES DARWIN.
(263/1. Esta é, cremos nós, a primeira carta endereçada pelo falecido Sr. Romanes ao Sr. Darwin. Foi guardada com outra sobre o mesmo assunto, e inscrita "Romanes sobre o Aborto, com a minha resposta (muito importante)". A resposta do Sr. Darwin dada abaixo é impressa a partir do seu esboço, que está em certos lugares mal legível. Sobre o assunto destas cartas, consultar Romanes, "Darwin and after Darwin", Volume II., página 99, 1895.)
Dunskaith, Parkhill, Ross-shire, 10 de julho de 1874.
Sabendo que não desencoraja os mais atentos dos seus leitores de comunicar diretamente a si próprio quaisquer ideias que possam ter sobre assuntos relacionados com os seus escritos, tomo a liberdade de enviar a cópia anexa de uma carta que dirigi recentemente ao Sr. Herbert Spencer. Perceberá que o assunto tratado é o mesmo a que se refere uma carta minha na "Nature" da semana passada [2 de julho, página 164] -- a saber, "O Desuso como Causa Redutora nas Espécies". Ao submeter esta exposição mais detalhada das minhas opiniões à sua consideração, gostaria de afirmar novamente o que afirmei na "Nature" há algumas semanas, a saber, que ao propor a cessação da seleção como causa redutora, não suponho estar a sugerir nada que já não lhe tenha ocorrido. Não só este princípio está incorporado na teoria exposta no artigo sobre Órgãos Rudimentares ("Nature", Volume IX.); como é mais do que uma vez sugerido na "Origin", nas passagens onde se diz que os órgãos rudimentares são mais variáveis do que outros, porque já não estão sob a influência restritiva da Seleção Natural. E ainda mais distintamente este princípio é reconhecido na página 120.
Assim, ao enviar-lhe a carta anexa, não imagino que esteja a trazer quaisquer sugestões novas ao seu conhecimento. Como vejo que já aplicou o princípio em questão ao caso de estruturas criadas artificialmente, não posso deixar de inferir que o ponderou em ligação com estruturas criadas naturalmente. Que objeção, contudo, poderá ter visto a este princípio nesta última ligação, sou incapaz de adivinhar; e por isso penso que o melhor caminho a seguir é o que adoto -- a saber, enviar-lhe as minhas considerações na íntegra.
Na ausência de informação expressa, a inferência mais natural é que a razão pela qual se recusa a considerar o princípio em questão é porque mostra que a tendência regressiva da variabilidade indiscriminada [é] inadequada para competir com a tendência conservadora da longa hereditariedade. O inverso disto é expresso nas palavras "Que a luta entre a Seleção Natural, por um lado, e a tendência para a reversão e variabilidade, por outro, cessará com o decorrer do tempo; e que os órgãos desenvolvidos de forma mais anormal podem tornar-se constantes, não vejo razão para duvidar" ("Origin", página 121). Certamente que não, se, como não duvido, a palavra "constante" se destina a ter um significado relativo; mas dizer que a constância pode tornar-se absoluta -- isto é, que qualquer prazo de hereditariedade poderia garantir a um órgão uma imunidade total à menor quantidade de variabilidade espontânea -- dizer isto seria injustificável. Suponha, por exemplo, que por uma razão ou outra um aumento adicional no tamanho da asa de um morcego se tornasse agora subitamente altamente benéfico para esse animal: dificilmente podemos supor que não surgiriam variações para a Seleção Natural aproveitar (a menos que o limite do tamanho possível tenha sido atingido, o que é um assunto totalmente distinto). E se supusermos que variações minúsculas no sentido do aumento estão assim ainda agora a ocorrer ocasionalmente, muito mais provável é que variações semelhantes no sentido da diminuição estejam agora a ocorrer -- isto é, que se a influência conservadora da Seleção Natural fosse removida por um longo período de tempo, mais variações surgiriam abaixo do tamanho atual das asas dos morcegos do que acima dele. A isto pode acrescentar-se que, quando a influência da "seleção rápida" é removida, parece em si altamente provável que a estrutura se tornasse, por esta razão, mais variável, pois a única razão pela qual alguma vez deixou de ser variável (isto é, depois de atingir o seu tamanho máximo) foi por causa da influência da seleção que destruía constantemente os indivíduos nos quais ocorria uma tendência para variar. Quando, portanto, esta força antagónica à variabilidade foi removida, parece altamente provável que o último princípio começasse novamente a afirmar-se, e isto de uma forma cumulativa. Sendo os indivíduos nos quais ocorria uma tendência para variar já não eliminados, teriam tantas hipóteses de deixar descendência que herdasse a sua disposição flutuante como os seus companheiros mais inflexíveis.
CARTA 264. A G.J. ROMANES. 16 de julho de 1874.
Fico-lhe muito grato pela sua amável e longa comunicação, que li com grande interesse, bem como os seus artigos na "Nature". O assunto parece-me tão importante e interessante como difícil. Estou com a saúde muito debilitada, e a trabalhar arduamente num assunto muito diferente, pelo que não posso dar às suas observações a atenção que merecem. Guardarei, contudo, a sua carta para uma altura posterior, quando puder retomar o assunto. A sua carta torna mais claro para mim do que alguma vez foi antes, como uma parte ou órgão que já começou, por qualquer causa, a diminuir, continuará a diminuir através da chamada variabilidade espontânea, com cruzamento; pois, nessas circunstâncias, é muito improvável que haja variação no sentido do aumento acima do tamanho médio, e não há razão para que não haja variações de diminuição. Penso que isto expressa a sua opinião. Tinha a intenção de, este verão, submeter plantas a condições [ilegível] e observar os efeitos na variação; mas o trabalho seria muito laborioso, embora esteja inclinado a pensar que, no futuro, valerá o esforço.
CARTA 265. A T. MEEHAN. Down, 9 de outubro de 1874.
Fico contente por estar atento às cores das flores dioicas; mas é bom lembrar que as suas cores podem ser tão pouco importantes para elas como as de uma galha, ou, na verdade, como a cor de uma ametista ou rubi o é para estas gemas. Há cerca de trinta anos comecei a investigar as pequenas flores roxas no centro das umbelas da cenoura. Suponho que a minha memória me engana, mas diz-me que estas flores são fêmeas, e penso que uma vez obtive uma semente de uma delas; mas a minha memória pode estar completamente errada. Espero que continue as suas interessantes investigações.
CARTA 266. A G. JAGER. Down, 3 de fevereiro de 1875.
Recebi esta manhã um exemplar da sua obra "Contra Wigand", quer da sua parte, quer do seu editor, e fico-lhe muito grato por isso. (266/1. A obra de Jager "In Sachen Darwins insbesondere contra Wigand" (Estugarda, 1874) é dirigida contra "Der Darwinismus und die Naturforschung Newtons und Cuviers" de A. Wigand (Brunswick, 1874).) Tinha, contudo, comprado um exemplar anteriormente, e enviei o novo para a nossa melhor biblioteca, a da Royal Society. Como sou um muito mau germanista, li até agora apenas cerca de quarenta páginas; mas estas interessaram-me ao mais alto grau. As suas observações sobre espécies fixas e variáveis merecem a maior atenção; mas não estou, de momento, totalmente convencido de que existam independentemente das condições a que estão sujeitas. Penso que prestou um grande serviço ao princípio da evolução, que ambos apoiamos, ao publicar este trabalho. Fico ainda mais contente por o ler, pois não tive tempo de ler o grande e tedioso volume de Wigand.
CARTA 267. A CHAUNCEY WRIGHT. Down, 13 de março de 1875.
Escrevo hoje para que não haja demora desta vez em agradecer-lhe a sua interessante e longa carta recebida esta manhã. Tenho a certeza de que desculpará a brevidade quando lhe disser que me estou a meio matar a tentar preparar um livro para a imprensa. (267/1. O manuscrito de "Insectivorous Plants" foi preparado para a imprensa em março de 1875. Darwin parece ter estado mais do que habitualmente sobrecarregado pelo trabalho.) Concordo inteiramente com o que diz sobre as vantagens de vários graus de importância serem co-selecionadas (267/2. O Sr. Chauncey Wright escreveu (24 de fevereiro de 1875): "A questão sobre qual dos vários usos reais é aquele através do qual a Seleção Natural agiu... pareceu-me durante vários anos uma questão um pouco menos importante do que parecia antigamente, e ainda parece à maioria dos pensadores sobre o assunto... Os usos do chocalho da cascavel como proteção ao avisar os seus inimigos e como um chamamento sexual não são usos rivais; nem são os usos de alcance elevado e de visão distante do pescoço da girafa 'rivais'."), e auxiliadas pelos efeitos do uso, etc. O assunto parece-me bem merecedor de maior desenvolvimento. Não creio ter notado em parte alguma o uso das sobrancelhas, mas há muito que sabia que protegiam os olhos do suor. Durante a viagem do "Beagle", um dos homens subiu a uma colina elevada durante um dia muito quente. Ele tinha sobrancelhas pequenas, e os seus olhos ficaram terrivelmente inflamados devido ao suor que escorria para dentro deles. Os habitantes portugueses estavam familiarizados com este mal. Penso que alude aos sulcos transversais na testa como proteção contra o suor; mas lembre-se de que estes aparecem incessantemente nas testas dos babuínos.
P.S.--Fiquei muito satisfeito com as notas na "Nation".
CARTA 268. A A. WEISMANN. Down, 1 de maio de 1875.
Não recebi o seu ensaio durante alguns dias após a sua muito amável carta, e leio alemão tão lentamente que só agora o terminei. (268/1. "Studien zur Descendenz-Theorie" I. "Ueber den Saison-Dimorphismus", 1875. O facto era anteriormente conhecido de que duas formas do género Vanessa que tinham sido consideradas espécies distintas são apenas formas SAZONAIS da mesma espécie -- uma aparecendo na primavera, a outra no verão. Esta relação notável constitui o objeto do ensaio.) O seu trabalho interessou-me imenso, e as suas conclusões parecem bem estabelecidas. Há muito que sentia muita curiosidade sobre o dimorfismo sazonal, mas nunca consegui formar qualquer teoria sobre o assunto. Sem dúvida que a sua opinião é muito importante, no que diz respeito à questão geral da variabilidade. Quando escrevi a "Origin", não consegui encontrar quaisquer factos que provassem a ação direta do clima e de outras condições externas. Pensei há muito que chegaria em breve o momento em que as causas da variação seriam plenamente discutidas, e ninguém fez tanto como o senhor neste assunto importante. A evidência recente da diferença entre aves da mesma espécie no Norte e no Sul dos Estados Unidos mostra bem o poder do clima. Os dois sexos de algumas poucas aves são aí modificados de forma diferente pelo clima, e introduzi este facto na última edição da minha "Descent of Man". (268/2. "Descent of Man", Edição II. (num volume), página 423. Allen mostrou que muitas espécies de aves são mais fortemente coloridas no sul dos Estados Unidos, e que por vezes um sexo é mais afetado do que o outro. É este último ponto que incide sobre as observações de Weismann (loc. cit., páginas 44, 45) sobre Pieris napi. Os machos da forma alpino-boreal bryoniae dificilmente diferem dos da forma alemã (var. vernalis), enquanto as fêmeas são extraordinariamente diferentes. Assim, o caráter das diferenças sexuais secundárias é determinado pelo clima.) Estou, portanto, plenamente preparado para admitir a justiça da sua crítica sobre a seleção sexual dos lepidópteros; mas, considerando a exibição da sua beleza, não estou ainda inclinado a pensar que estou totalmente em erro.
O que diz sobre a reversão (268/3. Por exemplo, o facto de que a reversão à forma primária de inverno pode ser produzida pelo efeito perturbador da alta temperatura (página 7).) ser excitada por várias causas, concorda com o que concluí em relação aos efeitos notáveis do cruzamento de duas raças: a saber, que tudo o que perturba a constituição conduz à reversão, ou, como coloquei o caso sob a minha hipótese da pangénese, dá uma boa hipótese de gemas latentes se desenvolverem. O seu ensaio, na minha opinião, é admirável, e agradeço-lhe pelo interesse que me proporcionou.
P.S. Verifico que há vários pontos que esqueci. O Sr. Jenner Weir não publicou nada mais sobre lagartas, mas escrevi-lhe perguntando se tentou mais alguma experiência, e guardarei esta carta até receber a sua resposta. O Sr. Riley dos Estados Unidos apoia o Sr. Weir, e encontrará referência a ele e a outros artigos na página 426 da nova e muito corrigida edição da minha "Descent of Man". Como tenho um exemplar duplicado do Volume I. (acredito que o Volume II. ainda não foi publicado em alemão) envio-lho por este correio. O Sr. Belt, nas suas viagens na Nicarágua, dá vários casos marcantes de animais conspicuamente coloridos (mas não lagartas) que são desagradáveis para as aves de rapina: ele é um excelente observador, e o seu livro, "The Naturalist in Nicaragua", muito interessante.
Fico-lhe muito grato pela sua fotografia, que tenho particular prazer em possuir, e envio a minha em troca.
Vejo que alude às afirmações de Hilgendorf, que lamentei ver contestadas por um bom observador alemão. O Sr. Hyatt, um excelente paleontólogo dos Estados Unidos, visitou o local, e também me assegurou que Hilgendorf estava completamente enganado. (268/4. Ver Cartas 252-7.)
Fico entristecido por saber que a sua visão continua má, mas de qualquer forma forçou o seu excelente trabalho no seu último ensaio.
4 de maio. Aqui está o que o Sr. Weir diz:--
"Em resposta ao seu inquérito de sábado, lamento ter pouco a acrescentar às minhas duas comunicações às 'Entomological Society Transactions'.
"Repeti as experiências com lagartas vistosas durante anos, e sempre com os mesmos resultados: nem numa única ocasião encontrei larvas ricamente coloridas e conspícuas comidas por aves. Foi mais notável observar que as aves não prestaram a menor atenção às lagartas vistosas, nem mesmo quando em movimento -- as experiências satisfizeram tão completamente a minha mente que desisti de as fazer."
CARTA 269. A LAWSON TAIT.
(269/1. O falecido Sr. Lawson Tait escreveu ao Sr. Darwin (2 de junho de 1875): "Estou a observar um lote dos meus ratos aos quais removi as caudas à nascença, e estou a chegar à conclusão de que o uso essencial da cauda ali é como um órgão de registo -- isto é, registam nas suas memórias os cantos que dobram e a altura dos buracos por onde passam, tocando-os com as suas caudas." O Sr. Darwin interessou-se pela ideia porque "algum alemão zombou da Seleção Natural e deu como exemplo as caudas dos ratos.")
11 de junho de 1875.
Acaba de me ocorrer verificar a "Origem das Espécies" (Edição VI, página 170), e é certo que Bronn, no capítulo anexo à sua tradução do meu livro para alemão, apresentou as orelhas e a cauda de várias espécies de ratos como uma dificuldade oposta à Seleção Natural. Respondi no que respeita às orelhas, aludindo ao curioso artigo de Schobl (esqueço-me de quando foi publicado) (269/2. J. Schobl, "Das aussere Ohr der Mause als wichtiges Tastorgan." "Archiv. Mik. Anat." VII., 1871, página 260.) sobre os pelos das orelhas serem sensíveis e providos de nervos. Presumo que ele tenha feito cortes finos: se está habituado a tal trabalho histológico, não valeria a pena examinar os pelos da cauda dos ratos? Na página 189, cito Henslow (confirmado por Gunther) sobre o Mus messorius (e outras espécies?) usando a cauda como órgão preênsil.
O Dr. Kane, no seu relato da segunda Expedição Grinnell, diz que os Esquimós, em tempo severo, carregam uma cauda de raposa atada ao pescoço, a qual usam como respirador mantendo a ponta da cauda entre os dentes. (269/3. O facto é declarado no Volume II., página 24, de "Arctic Explorations: The Second Grinnell Expedition in Search of Sir John Franklin", de E.K. Kane. Filadélfia, 1856.)
Diz também que encontrou uma raposa congelada, enroscada com o focinho enterrado na cauda.
N.B. É perfeitamente possível que este último facto seja declarado por M'Clintock, e não pelo Dr. Kane.
(269/4. A passagem final é um pós-escrito do Sr. W.E. Darwin referente à ideia do Sr. Lawson Tait sobre a função respiratória da cauda da raposa.)
CARTA 270. PARA G.J. ROMANES. Down, 12 de julho de 1875.
Estou a corrigir uma segunda edição de "Variação sob Domesticação" e verifico que devo fazê-lo de forma bastante completa. Por isso, dou um breve resumo dos híbridos de enxerto em batatas, e quero saber se não lhe enviei uma referência sobre beterraba. Investigou isto, e pode dizer-me algo a respeito?
Espero de todo o coração que esteja a progredir razoavelmente com as suas experiências.
Fui levado a pensar muito sobre o assunto e estou convencido da sua elevada importância, embora sejam necessários anos de insistência antes que os fisiologistas admitam que os órgãos sexuais apenas recolhem os elementos geradores.
A edição será publicada em novembro, e então verá tudo o que recolhi, mas creio que forneceu todos os casos mais importantes. O caso da videira na "Gardeners' Chronicle", que lhe enviei, penso que pode ser apenas uma variação de gema não devida ao enxerto. Ouvi dizer indiretamente do seu sucesso esplêndido com nervos de medusas. Estivemos em Abinger Hall durante um mês para descansar, o que muito necessitava, e vi lá a videira de folhas recortadas que parece esplêndida para a hibridação por enxerto.
CARTA 271. PARA FRANCIS GALTON. Down, 7 de novembro de 1875.
Li o seu ensaio com muita curiosidade e interesse, mas provavelmente não faz ideia de quão excessivamente difícil é de compreender. (271/1. "A Theory of Heredity" ("Journal of the Anthropological Institute", 1875). Neste artigo, o Sr. Galton admite que a hipótese das unidades orgânicas "deve estar na base da ciência da hereditariedade" e prossegue para mostrar em que aspeto a sua conceção difere da hipótese da pangénese. A cópia do artigo do Sr. Galton, que Darwin numerou em correspondência com as críticas na sua carta, não está disponível, e somos portanto apenas capazes de adivinhar alguns dos pontos referidos.) Não consigo apreender totalmente, apenas conjecturar aqui e ali, quais são os pontos em que divergimos. Ouso dizer que isto se deve principalmente a uma confusão mental da minha parte, mas não creio que seja totalmente assim. Os seus numerosos termos, não definidos, "germes desenvolvidos", "germes férteis" e "germes estéreis" (a própria palavra "germe", por associação, é-me enganadora), "stirp", "sept", "resíduo", etc., etc., confundiram-me completamente. Se me pergunto como deriva, e onde coloca os inumeráveis gêmulos contidos nos espermatozoides formados por um animal macho durante toda a sua vida, não me consigo responder. A menos que possa tornar várias partes mais claras, creio (embora espere estar totalmente errado) que apenas alguns se esforçarão ou conseguirão sondar o seu significado. Marquei algumas passagens com números, e aqui faço algumas observações e expresso a minha opinião, como deseja, não que suponha que lhe será de alguma utilidade.
1. Se isto implica que muitas partes não são modificadas pelo uso e desuso durante a vida do indivíduo, divirjo largamente de si, pois cada ano passo a atribuir mais e mais importância a tal agência. (271/2. Isto parece referir-se à página 329 do artigo do Sr. Galton. A passagem deve ter sido lida apressadamente e foi totalmente mal compreendida. O Sr. Galton nunca expressou a visão que lhe é atribuída.)
2. Isto parece bastante ousado, uma vez que a sexualidade não foi detetada em algumas das formas mais inferiores, embora ouse dizer que possa vir a ser. (271/3. Sr. Galton, op. cit., páginas 332-3: "Não existem necessariamente dois sexos, porque enxames de criaturas das organizações mais simples multiplicam-se principalmente por algum processo de autodivisão.")
3. Se os gêmulos (para usar o meu próprio termo) fossem frequentemente deficientes em gemas, não posso deixar de pensar que as variações de gema seriam mais comuns do que são no estado de natureza; nem parece que as variações de gema exibam frequentemente deficiências que pudessem ser explicadas pela ausência dos gêmulos apropriados. Tenho uma visão muito diferente do significado ou causa da sexualidade. (271/4. A ideia do Sr. Galton é que numa gema ou outra parte produzida assexuadamente, os germes (isto é, os gêmulos) podem não ser completamente representativos de todo o organismo, e se a reprodução continuar assexuadamente "em cada fase sucessiva há sempre a possibilidade de uma ou mais das várias espécies de germes... se extinguirem" (página 333). O Sr. Galton supõe, na reprodução sexual, onde dois progenitores contribuem com germes para o embrião, a possibilidade de deficiência de qualquer dos germes necessários é grandemente diminuída. A "visão muito diferente do significado ou causa da sexualidade" de Darwin é, sem dúvida, a que é dada em "Cross and Self Fertilisation" — isto é, que a sexualidade é equivalente a condições alteradas, que os progenitores não são representativos de sexos diferentes, mas de condições de vida diferentes.)
4. Encomendei a "Fraser's Magazine" (271/5. "The History of Twins", por F. Galton, "Fraser's Magazine", novembro de 1875, republicado com adições no "Journal of the Anthropological Institute", 1875. O Sr. Galton explica a notável dissimilaridade de gémeos, que por vezes é encontrada, supondo que a descendência neste caso divide os gêmulos disponíveis entre si de tal forma que cada um é o complemento do outro. Assim, para colocar o caso de uma forma exagerada, gémeos semelhantes teriam, cada um, metade dos gêmulos A, B, C... Z., etc., ao passo que, no caso de gémeos dessemelhantes, um teria todos os gêmulos A, B, C, D... M, e o outro teria N... Z.), e estou curioso por saber como os gémeos de um único óvulo se distinguem dos gémeos de dois óvulos. Nada me parece mais curioso do que a semelhança e a dissimilaridade de gémeos.
5. Terrivelmente difícil de compreender.
6. Apresentei quase a mesma noção.
7. Espero que tudo isto seja alterado. Recebi casos novos e adicionais, pelo que agora não tenho uma sombra de dúvida.
8. Tais casos dificilmente podem ser chamados de muito raros, como diria se tivesse recebido metade do número de casos que eu recebi.
(271/6. Somos incapazes de determinar a que parágrafos se referem 5, 6, 7, 8.)
Lamento muito divergir tanto de si, mas pensei que desejaria a minha opinião franca. O Frank está fora, caso contrário ele teria copiado o meu rascunho.
Tenho um bom stock de vagens de ervilhas de cheiro, mas o outono tem sido assustadoramente mau; talvez ainda consigamos que algumas mais amadureçam.
CARTA 272. PARA T.H. HUXLEY. Down, 12 de novembro [1875].
Muito obrigado pela sua "Biologia", que li. (272/1. "A Course of Practical Instruction in Elementary Biology", por T.H. Huxley e H.N. Martin, 1875. Para um relato do livro, ver "Life and Letters of T.H. Huxley", Volume I., página 380.) Foi um verdadeiro golpe de génio pensar num tal plano. Deus, como gostaria de ter passado por um tal curso!
CARTA 273. PARA FRANCIS GALTON. 18 de dezembro [1875].
O George tem estado a explicar as nossas diferenças. Admiti na nova edição (273/1. Na segunda edição (1875) de "Variation of Animals and Plants", Volume II., página 350, é feita referência às experiências de transfusão do Sr. Galton, "Proc. R. Soc." XIX., página 393; também à carta do Sr. Galton à "Nature", 27 de abril de 1871, página 502. Este é um erro curioso; a carta na "Nature", 27 de abril de 1871, é do próprio Darwin, e refere-se principalmente à questão de saber se se pode supor que os gêmulos estão no sangue. A carta do Sr. Galton está na "Nature", 4 de maio de 1871, Volume IV., página 5. Ver Carta 235.) (antes de ver o seu ensaio) que talvez os gêmulos sejam largamente multiplicados nos órgãos reprodutores; mas isto não me faz duvidar de que cada unidade de todo o sistema também expele os seus gêmulos. Sem dúvida que terá pensado na seguinte objeção às suas visões, e gostaria de ouvir qual é a sua resposta. Se duas plantas são cruzadas, acontece frequentemente, ou melhor, geralmente, que todas as partes do caule, folha, até aos pelos, e flores do híbrido são de caráter intermédio; e este híbrido produzirá por gemas milhões sobre milhões de outras gemas, todas reproduzindo exatamente o caráter intermédio. Não posso duvidar de que cada unidade do híbrido é hibridizada e expele gêmulos hibridizados. Aqui nada temos que ver com os órgãos reprodutores. Dificilmente pode haver dúvida, pelo que sabemos, de que a mesma coisa ocorreria com todos aqueles animais que são capazes de produzir gemas, e alguns destes (como os Ascidiáceos compostos) são suficientemente complexos e altamente organizados.
CARTA 274. PARA LAWSON TAIT. 25 de março de 1876.
(274/1. A referência é à teoria apresentada na primeira edição de "Variation of Animals and Plants", II., página 15, de que a alegada tendência para a regeneração após a amputação de dígitos supranumerários no homem é um retorno aos poderes recuperativos característicos de um "progenitor de organização inferior, provido de mais de cinco dígitos". A retratação de Darwin está no Volume I., página 459 da segunda edição.)
Desde que li o seu primeiro artigo (274/2. Lawson Tait escreveu duas notas sobre "The Variation of Animals and Plants under Domestication" no "Spectator" de 4 de março de 1876, página 312, e 25 de março, página 406.), o Dr. Rudinger escreveu-me e enviou-me um ensaio, no qual dá os resultados das MAIS EXTENSAS inquirições junto de todos os cirurgiões eminentes na Alemanha, e todos são unânimes quanto à não regeneração de dígitos extra após a amputação. Explicam alguns casos aparentes, como o Paget fez comigo. A propósito, risquei da minha segunda edição uma citação de Sir J. Simpson sobre a regeneração no útero, pois o Paget objetou, e como eu não podia dizer como um rudimento de um membro devido a qualquer causa poderia ser distinguido de uma regeneração imperfeita. Há dois ou três dias recebi outra carta da Alemanha de um bom naturalista, o Dr. Kollmann (274/3. O Dr. Kollmann era Secretário da Anthropologische Gesellschaft de Munique, sociedade na qual teve lugar a discussão referida em "Variation of Animals and Plants", I., 459, como tendo originado as dúvidas de Darwin sobre toda a questão. A nova evidência aduzida por Kollmann quanto à ocorrência normal de um sexto dígito rudimentar em Batráquios é o artigo de Borus, "Die sechste Zehe der Anuren" em "Morpholog. Jahrbuch", Bd. I., página 435. Sobre este assunto, ver Carta 178.), dizendo que lamentava que eu tivesse desistido do atavismo e dos dígitos extra, e falando-me de uma nova e boa evidência de rudimentos de um sexto dígito rudimentar em Batráquios (que eu próprio tinha visto, mas a que tinha desistido devido às visões de Gegenbaur); mas, falhando-me a regeneração, não pude manter a minha velha noção.
CARTA 275. PARA G.J. ROMANES.
(275/1. A resposta do Sr. Romanes a esta carta está impressa na sua "Life and Letters", página 93, onde, por um lapso, está datada de 1880-81.)
H. Wedgwood, Esq., Hopedene, Dorking, 29 de maio [1876].
Como se interessa pela pangénese, e um dia, espero, converterá um "nada etéreo" numa teoria substancial, envio por este correio um ensaio de Hackel (275/2. "Die Perigenesis der Plastidule oder die Wellenzeugung der Lebenstheilchen", 79 páginas. Berlim, 1876.) atacando a Pan. e substituindo-a por uma hipótese molecular. Se compreendo bem as suas visões, ele diria que, com um pássaro que fortaleceu as suas asas pelo uso, o protoplasma formativo das partes fortalecidas tornou-se alterado, e as suas vibrações moleculares consequentemente alteradas, e que estas vibrações são transmitidas por toda a estrutura do pássaro, e afetam os elementos sexuais de tal maneira que as asas da descendência são desenvolvidas de forma igualmente fortalecida. Imagino que ele diria, em casos como o da égua de Lord Morton (275/3. Uma égua castanha árabe de raça quase pura deu à luz um híbrido de um quagga, e subsequentemente produziu dois potros listrados por um cavalo árabe preto: ver "Animals and Plants", I., página 403. O caso foi originalmente descrito nos "Philosophical Transactions", 1821, página 20. Para um relato do trabalho recente relacionado com esta questão, ver o artigo sobre "Zebras, Horses, and Hybrids", na "Quarterly Review", outubro de 1899. Ver Carta 235.), que as vibrações do protoplasma, ou "plasson", do fluido seminal da zebra fizeram o plasson vibrar na égua; e que estas vibrações continuaram até que o pelo do segundo potro foi formado, e que consequentemente ficou barrado como o de uma zebra. Como ele explica a reversão a um ancestral remoto, não sei. Talvez o tenha compreendido mal, embora tenha percorrido tudo com algum cuidado. Ele dá muita importância à herança ser uma forma de memória inconsciente, mas até que ponto isto é parte da sua vibração molecular, não compreendo. As suas visões não tornam nada mais claro para mim; mas isto pode ser falha minha. Ninguém, suponho, duvidaria de movimentos moleculares de algum tipo. O seu ensaio é inteligente e notável. Se o ler (mas não deve fazê-lo por minha causa), gostaria muito de ouvir o seu juízo, e pode devolvê-lo a qualquer momento. As linhas azuis são de Hackel para chamar a minha atenção.
Viemos para cá para meu descanso, de que necessitava muito; e permaneceremos aqui por mais dez dias, e depois para casa para trabalhar, que é o meu único prazer na vida. Espero que o seu esplêndido trabalho sobre Medusas e as suas experiências sobre pangénese estejam a correr bem. Recebi notícias do meu filho Frank ontem de que estava febril com uma constipação e não pôde jantar com os fisiologistas, o que lamento muito, pois teria ouvido o que pensam sobre o novo Projeto de Lei. Vejo que é um dos secretários desta jovem Sociedade.
CARTA 276. PARA H.N. MOSELEY. Down, 22 de novembro [1876].
É muito gentil da sua parte enviar-me os livros japoneses, que são extremamente curiosos e divertidos. O meu filho Frank está fora, mas tenho a certeza de que ficará muito agradecido pelos dois artigos que lhe enviou.
Obrigado, também, pela sua nota interessante. É uma pena que o Peripatus (276/1. Moseley "On the Structure and Development of Peripatus capensis" ("Phil. Trans. R. Soc." Volume 164, página 757, 1874). "Quando subitamente manuseados ou irritados, eles (isto é, Peripatus) disparam fios finos de um fluido leitoso notavelmente viscoso e tenaz... projetado das pontas das papilas orais" (página 759).) seja tão estúpido ao cuspir a matéria viscosa pela extremidade errada do seu corpo; teria sido belo explicar assim a origem da teia de aranha.
CARTA 277. NAPHTALI LEWY PARA CHARLES DARWIN.
(277/1. A carta seguinte refere-se a um livro, "Toledoth Adam", escrito por um judeu erudito com o objetivo de convencer os seus correligionários da verdade da teoria da evolução. A tradução devemos ao falecido Henry Bradshaw, Bibliotecário da Universidade em Cambridge. O livro, infelizmente, já não se encontra na biblioteca do Sr. Darwin.)
[1876].
Ao Senhor, o Príncipe, que "se levanta como estandarte dos povos" (Isa. xi. 10), o Investigador da geração, o "brilhante filho da alva" (Isa. xiv. 12), Charles Darwin, que viva muito!
"Desde o nascente do sol até ao poente" (Isa. xlv. 6) todas as nações sabem acerca da Torá (Teoria) (277/2. Lit., instrução. A Torá é o Pentateuco, estritamente falando, a fonte de todo o conhecimento.) que "procedeu de ti para luz dos povos" (Isa. li. 4), e as nações "ouvem e dizem: É verdade" (Isa. xliii. 9). Mas com "a porção do meu povo" (Jer. x. 16), Jacob, "a sorte da minha herança" (Deut. xxxii. 9), não é assim. Esta nação, "o povo antigo" (Isa. xliv. 7), que "se recorda das coisas primeiras e considera as coisas de outrora" (Isa. xliii. 18), "não conhece, nem compreende" (Salmo lxxxii. 5), que pela tua Torá (instrução ou teoria) tu lançaste luz sobre a sua Torá (a Lei), e que os olhos dos Hebreus (277/3. Uma letra alterada nesta palavra tornaria a palavra "cegos", que é o que Isaías usa na passagem aludida.) "podem agora ver da obscuridade e das trevas" (Isa. xxix. 18). Portanto, "levantei-me" (Juízes v. 7) e escrevi este livro, "Toledoth Adam" ("as gerações do homem", Gén. v. 1), para ensinar aos filhos do meu povo, a semente de Jacob, a Torá (instrução) que tu deste como herança a todas as nações da terra.
E "procedi a fazer uma obra maravilhosa entre este povo, uma obra maravilhosa e um prodígio" (Isa. xxix. 14), permitindo-lhes agora ler na Torá de Moisés, nosso mestre, "claramente e dando o sentido" (Neemias viii. 8), aquilo que tu deste nas tuas Torás (obras de instrução). E quando o meu povo perceber que a tua visão de modo algum "se desviou" (Núm. v. 12, 19, etc.) da Torá de Deus, manterão o teu nome na mais alta reverência, e "ao mesmo tempo glorificarão o Deus de Israel" (Isa. xxix. 23).
"A visão de tudo isto" (Isa. xxix. 11) tu verás, ó Príncipe da Sabedoria, neste livro, "que vai diante de mim" (Gén. xxxii. 21); e tudo o que o teu grande entendimento encontrar para criticar nele, vem, "escreve-o numa tábua e nota-o num livro" (Isa. xxx. 8); e permite-me nomear a minha obra com o teu nome, que é glorificado e grandemente reverenciado por
Teu servo, Naphtali Hallevi [isto é, o Levita].
Datado aqui na cidade de Radom, na província da Polónia, no mês de Nisã no ano 636, de acordo com o cômputo menor (isto é, A.M. [5]636 = A.D. 1876).
CARTA 278. PARA OTTO ZACHARIAS. 1877.
Quando estava a bordo do "Beagle" acreditava na permanência das espécies, mas, tanto quanto me recordo, dúvidas vagas surgiam ocasionalmente no meu espírito. No meu regresso a casa, no outono de 1836, comecei imediatamente a preparar o meu diário para publicação, e vi então quantos factos indicavam a descendência comum das espécies (278/1. "Os factos a que aqui se faz referência estavam, sem dúvida, eminentemente aptos a atrair a atenção de um pensador filosófico; mas até que as relações das espécies existentes com as extintas e das espécies das diferentes áreas geográficas, umas com as outras, fossem determinadas com alguma exatidão, forneciam apenas uma base insegura para a especulação. Não era possível que esta determinação tivesse sido efetuada antes do regresso do "Beagle" a Inglaterra; e assim a data que Darwin (escrevendo em 1837) atribui ao amanhecer da nova luz que surgia no seu espírito torna-se inteligível." — De "Darwiniana", Ensaios por Thomas H. Huxley, Londres, 1893; páginas 274-5.), de modo que em julho de 1837 abri um caderno para registar quaisquer factos que pudessem ter relação com a questão; mas não me convenci de que as espécies eram mutáveis até que, creio, dois ou três anos tivessem decorrido. (278/2. Sobre este último ponto, ver página 38.)
CARTA 279. PARA G.J. ROMANES.
(279/1. A carta seguinte refere-se a notas em MS. de Romanes, que não vimos. As observações de Darwin sobre elas são, contudo, suficientemente claras.)
O meu endereço será "Bassett, Southampton", 11 de junho [1877].
Recebi o artigo sobre cruzamento que teve a amabilidade de me enviar. É muito claro e estou plenamente de acordo com ele; mas a questão em apreço não constituiu uma dificuldade para mim, uma vez que nunca acreditei que uma nova forma se originasse de uma única variação. O que chamei de seleção inconsciente pelo homem ilustra, ao que me parece, o mesmo princípio que o seu, dentro da mesma área. O homem adquire os animais ou plantas individuais que lhe parecem os melhores em qualquer aspeto — alguns mais, outros menos — e, sem qualquer cruzamento ou emparelhamento, a raça, com o passar do tempo, é certamente alterada. A ausência, em numerosos casos, de formas intermédias ou de transição, na região fronteiriça entre duas raças geográficas estreitamente relacionadas ou espécies próximas, pareceu-me uma dificuldade maior quando discuti o assunto na "Origem".
Quanto à sua ilustração, antigamente deixava-me meio louco tentar explicar o aumento ou a diminuição da produtividade de um organismo; mas não consigo recordar-me de onde residia a minha dificuldade. (279/2. Ver Cartas 209-16.) A Seleção Natural aplica-se sempre, como penso, a cada indivíduo e à sua descendência, tal como às suas sementes, ovos, que são formados pela progenitora e que são protegidos de várias formas. (279/3. Foi a respeito deste ponto que Romanes enviou o manuscrito a Darwin. Numa carta de 16 de junho, ele escreve: "Foi com referência à possibilidade de a Seleção Natural atuar sobre tipos orgânicos, em distinção dos indivíduos — uma possibilidade que o senhor me disse uma vez não parecer nada clara.") Não parece haver qualquer dificuldade em compreender como a produtividade de um organismo pode ser aumentada; mas foi, tanto quanto me lembro, na redução da produtividade que fiquei mais confuso. Mas por que escrevinho sobre isto, não sei.
Li a sua recensão do livro do Sr. Allen (279/4. Ver "Nature" (7 de junho de 1877, página 98), uma recensão de "Physiological Aesthetics" de Grant Allen.), e isso torna-me ainda mais duvidoso do que antes se ele realmente lançou muita luz sobre o assunto.
Fico contente por saber que alguns fisiologistas partilham a mesma opinião que eu sobre o facto de o senhor dar demasiado crédito a H. Spencer — embora, Deus sabe, este seja um erro raro. (279/5. A referência é à conferência de Romanes sobre Medusa, proferida na Royal Institution, a 25 de maio. (Ver "Nature", XVI., páginas 231, 269, 289.) Parece, por uma carta de Romanes (6 de junho), que foi o resumo no "Times" que deu a impressão mencionada. Referências às teorias do Sr. Spencer sobre a génese nervosa ocorrem na "Nature", páginas 232, 271, 289.)
Quanto mais penso no seu trabalho sobre os nervos das medusas, mais esplêndido ele me parece.
CARTA 280. PARA A. DE CANDOLLE. Down, 3 de agosto de 1877.
Tenho de ter o prazer de lhe agradecer pela sua longa e interessante carta. A causa e os meios da transição de uma condição hermafrodita para uma unissexual parecem-me um problema muito intrigante, e ficarei extremamente contente por ler as suas observações sobre Smilax, quando receber o ensaio que gentilmente diz que me enviará. (280/1. "Monographiae Phanerogamarum", Volume I. No seu tratamento das Smilaceae, De Candolle distingue:--Heterosmilax, que tem flores dioicas sem rasto de estames ou pistilos abortados, Smilax com estames estéreis nas flores femininas, e Rhipogonum com flores hermafroditas.) Há muita justiça nas suas críticas (280/2. A passagem criticada por De Candolle está em "Forms of Flowers" (página 7): "É uma inferência natural que as suas corolas tenham sido aumentadas em tamanho para este propósito especial." De Candolle prossegue dando conta da "recherche linguistique", que, com característica imparcialidade, empreendeu para verificar se a palavra "purpose" difere em significado da palavra francesa correspondente "but.") ao meu uso dos termos objetivo, fim, propósito; mas aqueles que acreditam que os órgãos foram gradualmente modificados pela Seleção Natural para um propósito especial podem, penso eu, usar os referidos termos corretamente, ainda que nenhum ser consciente tenha intervindo. Encontrei muita dificuldade nas minhas tentativas ocasionais de evitar estes termos, mas talvez pudesse ter falado sempre de um efeito benéfico ou útil. O meu filho Francis ficará interessado em ouvir falar sobre Smilax. Ele enviou-lhe uma cópia do seu artigo sobre as glândulas de Dipsacus (280/3. "Quart. Journ. Mic. Sci." 1877.), e espero que encontre tempo para o ler, pois o caso parece-me novo e altamente notável. Estamos agora a trabalhar arduamente numa tentativa de descobrir a função ou o uso da cera ou secreção cerosa nas folhas e frutos de muitas plantas; mas duvido muito que as nossas experiências nos digam muito. (280/4. "Como está, apurámos claramente que, em algumas plantas (principalmente suculentas), a cera controla a evaporação — nalgumas, certamente, previne ataques de insetos; nalgumas plantas do litoral, previne danos causados pela água salgada, e acredito que, em algumas, previne danos causados pela água pura que se deposita nas folhas." (Ver carta ao Sr. W. Thiselton-Dyer, "Life and Letters", III., página 341. Um artigo sobre o mesmo assunto por Francis Darwin foi publicado no "Journ. Linn. Soc." XXII.)) Se tiver alguma opinião formada sobre se as plantas com folhas conspicuamente glaucas são mais frequentes em países quentes do que em temperados ou frios, em países secos do que em húmidos, ficaria grato se acrescentasse às suas muitas gentilezas a de me informar. Por favor, apresente as minhas cordiais lembranças ao seu filho e diga-lhe que o meu filho tem estado a experimentar, em grande escala, os efeitos de alimentar Drosera com carne, e os resultados são muito impressionantes e bem mais favoráveis do que eu previa.
CARTA 281. PARA G.J. ROMANES.
(281/1. Publicada em "Life and Letters" de Romanes, página 66.)
Down, Sábado à noite [1877].
Acabei de ler a sua conferência (281/2. "The Scientific Evidence of Organic Evolution: a Discourse" (proferida perante a Philosophical Society de Ross-shire), Inverness, 1877. Foi reimpressa na "Fortnightly Review" e posteriormente transformada num livro sob o mesmo título.); é um argumento científico admirável e muito poderoso. Gostaria que pudesse ser semeado por toda a terra. A sua coragem é maravilhosa, e admiro-me de que não tenha sido apedrejado no local — e na Escócia! Por favor, diga-me como foi recebida no auditório. Sobre o homem ser feito como um macaco (página 37 (281/3. "E se rejeitar a explicação natural da descendência hereditária, só pode supor que a Divindade, ao criar o homem, teve o cuidado mais escrupuloso de o fazer à imagem do macaco" ("Discourse", página 37).)) é algo inteiramente novo para mim, e o argumento num ponto anterior (página 8 (281/4. Na página 8 do "Discourse", o orador referiu-se à lei "que Sir William Hamilton chamou a Lei da Parcimónia — ou a lei que nos proíbe de assumir a operação de causas superiores quando causas inferiores são consideradas suficientes para explicar os efeitos desejados", como constituindo a "única barreira lógica entre a Ciência e a Superstição.")) sobre a lei da parcimónia está admiravelmente exposto. Sim, a página 21 (281/5. "Discourse", página 21. Se aceitarmos as doutrinas das criações individuais e dos tipos ideais, devemos acreditar que a Divindade agiu "sem outro motivo aparente que não o de nos sugerir, por cada um dos factos observáveis, que os tipos ideais não são mais do que os vínculos de uma descendência linear.") é nova para mim. Tudo me parece muito claro e, considerando o pouco espaço, escolheu as suas linhas de raciocínio de forma excelente.
As poucas páginas finais são terrivelmente poderosas, na minha opinião.
Domingo de manhã. — O que está acima foi escrito ontem à noite no entusiasmo do momento, e agora — nesta manhã de domingo escura e sombria — concordo plenamente com o que disse.
Lamento muito saber das falhas nas experiências de enxertia, e não por culpa ou azar seu. Trollope, num dos seus romances, dá como máxima de uso constante por um fabricante de tijolos: — "It is dogged as does it" (281/6. "Digo-lhe uma coisa, Mestre Crawley; — e a vossa reverência não pense que estou a pregar; não há nada que um homem não possa suportar se for tenaz. Vá para casa, Mestre Crawley, e pense nisso, e talvez ainda lhe faça bem. É a tenacidade que faz as coisas. Não é pensar nelas." (Giles Hoggett, o velho fabricante de tijolos, em "The Last Chronicle of Barset", Volume II., 1867, página 188.)) — e muitas e muitas vezes pensei que este é o lema para qualquer trabalhador científico. Tenho a certeza de que é o seu — se não desistir da pangénese com imprecações terríveis.
A propósito, G. Jager publicou na "Kosmos" uma espécie de pangénese química que se refere principalmente à hereditariedade. (281/7. Vários artigos de Jager sobre "Hereditariedade" foram publicados no primeiro volume de "Kosmos", 1877.)
Não consigo conceber por que não ofereci o meu jardim para as suas experiências. Trataria das plantas, no que diz respeito aos meros cuidados, com prazer; mas Down é um lugar de difícil acesso.
Valeria a pena tentar ver se a "Fortnightly" a republicaria [i.e., a conferência]?
CARTA 282. PARA T.H. HUXLEY.
(282/1. Em 1877, o título honorário de LL.D. foi conferido ao Sr. Darwin pela Universidade de Cambridge. No jantar oferecido na ocasião pela Philosophical Society, o Sr. Huxley respondeu ao brinde da noite com o discurso do qual uma versão autorizada é dada pelo Sr. L. Huxley em "Life and Letters" do seu pai (Volume I., página 479). O Sr. Huxley disse: "Mas quer essa doutrina [da evolução] seja verdadeira ou falsa, desejo expressar a opinião deliberada de que, desde o grande sumário de Aristóteles do conhecimento biológico do seu tempo até aos dias de hoje, não há nada comparável à "Origem das Espécies" como um levantamento conexo dos fenómenos da vida, permeado e vivificado por uma ideia central."
Na primeira parte do discurso, houve uma frase brilhante que ele descreveu como um toque de chicote "atado com fitas", e isto foi talvez um pouco duro para os apoiantes da evolução na Universidade. O Sr. Huxley disse: "Em vez de oferecer as suas honras quando corriam o risco de serem esmagadas sob as marcas acumuladas de aprovação de todo o mundo civilizado, a Universidade esperou até que o troféu estivesse terminado, e coroou o edifício com a delicada coroa de apreço académico.")
Down, segunda-feira à noite, 19 de novembro [1877].
Não consigo ficar descansado sem lhe dizer, mais seriamente do que fiz quando nos encontrámos durante cinco minutos perto do Museu, o quão profundamente senti as muitas coisas generosas (tanto quanto Frank se conseguia lembrar delas) que o senhor disse sobre mim no jantar. Frank veio cedo na manhã seguinte, transbordando de entusiasmo sobre o seu discurso. O senhor tem sido, de facto, sempre um amigo muito generoso para mim, mas sei, infelizmente, muito bem o quanto o senhor me sobrestima. Perdoe-me por o incomodar com estas poucas linhas.
(282/2. O seguinte extrato de uma carta (10 de fevereiro de 1878) ao seu antigo colega de escola, Sr. J. Price, contém uma observação característica sobre o título honorário.)
"Estou muito grato pelas suas amáveis felicitações sobre o LL.D. Por que razão o Senado mo conferiu, não sei minimamente. Fiquei espantado por ouvir que o Professor Real de Divindade e vários outros grandes Doutores compareceram, e vários desses homens subscreveram, conforme fui informado, para o retrato para a Universidade, a fim de comemorar a honra que me foi conferida."
CARTA 283. PARA W. BOWMAN.
(283/1. Não descobrimos a que prémio se refere a seguinte carta ao falecido Sir W. Bowman (o conhecido cirurgião).)
Down, 22 de fevereiro de 1878.
Recebi a sua carta esta manhã, e era totalmente impossível que recebesse uma resposta até às 16h00 de hoje. Mas isto não significa nada, pois a sua proposta parece-me muito boa, e concordo inteiramente consigo que é muito melhor sugerir alguma questão específica do que ter uma discussão geral compilada a partir de livros. A regra de que o Ensaio deve ser "ilustrativo da sabedoria e beneficência do Todo-Poderoso" limitaria os assuntos a serem propostos. Com respeito ao Reino Vegetal, poderia sugerir dois ou três assuntos sobre os quais, ao que me parece, a informação é muito necessária; mas estes assuntos exigiriam um longo curso de experimentação, e infelizmente quase não há ninguém neste país que pareça inclinado a dedicar-se a experiências.
CARTA 284. PARA J. TORBITT.
(284/1. O Sr. Torbitt estava empenhado em tentar produzir, por seleção metódica e fertilização cruzada, uma raça de batata resistente a fungos. O plano está totalmente descrito em "Life and Letters", III., página 348. A carta seguinte é apresentada como ilustração adicional do profundo interesse que o Sr. Darwin tinha no projeto.)
Down, segunda-feira, 4 de março de 1878.
Não tenho nada de bom para relatar. O Sr. Caird visitou-me ontem; tanto ele como o Sr. Farrer (284/2. O falecido Lord Farrer.) foram muito enérgicos e prestáveis. Não vale a pena pensar na Sociedade Agrícola. O Sr. Caird falou com várias pessoas sobre o assunto, especialmente com o Sr. Carruthers, Botânico da Sociedade. Ele (o Sr. Carruthers) acha a tentativa sem esperança, mas apresenta, num longo memorando enviado ao Sr. Caird, razões que estou convencido de que não são sólidas. Especifica dois pontos, contudo, que são dignos da sua consideração — nomeadamente, que uma variedade deve ser testada durante três anos antes que a sua robustez possa ser fiável; e, especialmente, deve ser cultivada num clima húmido. A opinião do Sr. Carruthers sobre este aspeto é valiosa porque ele foi empregado pela Sociedade para avaliar as variedades enviadas para o prémio oferecido há um ou dois anos. Se eu tivesse forças para organizar uma petição ao Governo, acredito que poderia ter sucesso; pois Sir J. Hooker escreve que acredita que o senhor está no caminho certo; mas não sei a quem mais recorrer cujo juízo tivesse peso junto do Governo, e realmente não tenho forças para discutir o assunto e convencer as pessoas.
A pedido do Sr. Farrer, quando esperávamos que a Sociedade Agrícola pudesse encarregar-se disso, escrevi-lhe uma longa carta dando-lhe a minha opinião sobre o assunto; e esta carta o Sr. Caird levou consigo ontem, e ponderará com o Sr. Farrer se pode ser feita alguma petição ao Governo.
Estou, contudo, longe de estar otimista. Verei o Sr. Farrer esta noite e farei o que puder. Quando receber de volta a minha carta, enviar-lha-ei para a sua leitura.
Após muita reflexão, parece-me que o seu melhor plano será, se falharmos em obter ajuda do Governo, continuar durante o presente ano, numa escala reduzida, a criar novas variedades de fertilização cruzada e, no próximo ano, se for capaz, testar o poder de resistência apenas do tipo mais promissor. Se fosse possível, seria muito aconselhável que conseguisse que algumas fossem cultivadas no lado ocidental húmido da Irlanda. Se tiver sucesso em obter uma variedade resistente a fungos, pode estar certo de que os seus méritos seriam logo conhecidos localmente e que depois se espalhariam rapidamente por toda a parte. O Sr. Caird deu-me um exemplo marcante de tal caso na Escócia. Regresso a casa amanhã de manhã.
Tenho o prazer de incluir um cheque de 100 libras. Se receber um subsídio do Governo, devo ser reembolsado.
P.S. Se eu estivesse no seu lugar, não gastaria qualquer trabalho ou dinheiro a publicar o que já fez, ou a enviar sementes ou tubérculos a quem quer que fosse. Trabalharia silenciosamente até que alguns resultados seguros fossem obtidos. E estes seriam tão valiosos que o seu trabalho, neste caso, seria logo conhecido. Também me esforçaria por fazer um juízo o mais rigoroso possível sobre o estado dos tubérculos e das plantas.
CARTA 285. PARA E. VON MOJSISOVICS. Down, 1 de junho de 1878.
Finalmente encontrei tempo para ler [o] primeiro capítulo dos seus "Dolomit Riffe" (285/1. "Dolomitriffe Sudtirols und Venetiens." Wien, 1878.), e fiquei extremamente interessado por ele. Que mudança maravilhosa no futuro da cronologia geológica o senhor indica, ao assumir a teoria da descendência como estabelecida e, depois, tomar as mudanças graduais do mesmo grupo de organismos como o verdadeiro padrão! Nunca esperei viver para ver tal passo sequer proposto por alguém. (285/2. Publicado em "Life and Letters", III., páginas 234, 235.)
Não obstante, vi vagamente que cada camada numa formação poderia conter apenas os organismos próprios de uma certa profundidade e de outras condições lá existentes, e que todas as formas intermédias entre uma espécie marinha e outra poderiam raramente ser preservadas no mesmo local e na mesma camada. Oppel, Neumayr e o senhor prestarão um serviço duradouro e admirável à nobre ciência da Geologia, se conseguirem difundir as suas opiniões de modo a serem geralmente conhecidas e aceites.
Quanto aos períodos continentais e oceânicos comuns a todo o hemisfério norte, aos quais se refere, especulei por vezes que a atual distribuição da terra e do mar sobre o mundo pode ter sido antigamente muito diferente do que é agora; e que novos géneros e famílias podem ter sido desenvolvidos nas costas de tratos isolados no sul, e depois espalhados para o norte.
CARTA 286. PARA J.W. JUDD. Down, 27 de junho de 1878.
Fico sinceramente contente por saber do seu casamento pretendido. Uma boa esposa é a bênção suprema nesta vida, e espero e acredito, pelo que diz, que será tão feliz como eu fui a este respeito. Que o seu futuro trabalho geológico seja tão valioso como aquele que já realizou; e não é preciso desejar mais do que isto para qualquer homem. O ensino prático da Geologia parece uma excelente ideia.
Muitos agradecimentos por Neumayr, (286/1. Provavelmente um artigo sobre "Die Congerien und Paludinenschichten Slavoniens und deren Fauna. Ein Beitrag zur Descendenz-Theorie", "Wien. Geol. Abhandl." VII. (Heft 3), 1874-82.), mas já recebi e li uma cópia do mesmo, ou pelo menos de um ensaio muito semelhante, e pareceu-me admiravelmente bom.
Este ensaio, e um de Mojsisovics (286/2. Ver nota à Carta 285.), que li ultimamente, mostram o que a Paleontologia fará no futuro para a classificação e sequência das formações. Deleitou-me ver uma ordem de procedimento tão invertida — a saber, assumir a descendência das espécies como certa e, depois, tomar as mudanças de formas estreitamente relacionadas como o padrão do tempo geológico. A minha saúde está melhor do que há alguns anos, mas nunca passo um dia sem muito desconforto e a sensação de cansaço extremo.
(286/3. Devemos ao Professor Judd as seguintes recordações interessantes do Sr. Darwin, escritas por volta de 1883: —
"Nesta última ocasião, quando o felicitei pelo seu aparente melhor estado de saúde, ele contou-me a causa da ansiedade que tinha quanto ao estado do seu coração. De facto, não posso deixar de sentir que ele teve uma espécie de pressentimento de que o seu fim se aproximava. Quando o deixei, ele insistiu em acompanhar-me até à porta, e havia algo no seu tom e maneira que me pareceu transmitir a triste notícia de que não era apenas uma despedida temporária, embora ele próprio estivesse perfeitamente alegre e feliz.
"É impossível para mim expressar adequadamente a impressão deixada no meu espírito pelas minhas várias conversas com o Sr. Darwin. A sua extrema modéstia levava-o a formar a estimativa mais baixa dos seus próprios trabalhos e uma ideia correspondentemente extravagante do valor do trabalho feito por outros. A sua deferência para com os argumentos e sugestões de homens muito mais jovens do que ele, e a sua simpatia genuína pelas suas ocupações, eram muito marcadas e características; de facto, ele, o grande mestre da ciência, costumava falar, e tenho a certeza de que sentia, como se estivesse a recorrer a uma autoridade superior para obter informações em todas as suas conversas. Só quando uma questão era plenamente discutida com ele é que nos tornávamos conscientes do fundo de informações que ele podia trazer para a sua elucidação, e a amplitude de pensamento com que a tinha apreendido. Da sua natureza gentil e amorosa, da qual tive tantas provas, não preciso de escrever; ninguém poderia estar com ele, mesmo por alguns minutos, sem ficar profundamente impressionado pela sua amabilidade grata e bondade.")
CARTA 287. PARA O CONDE SAPORTA. Down, 15 de agosto de 1878.
Agradeço-lhe muito sinceramente pela sua amável e interessante carta. Seria falso da minha parte fingir que me importo muito com a minha eleição para o Instituto, mas a simpatia de alguns poucos amigos gratificou-me profundamente.
Sinto-me extremamente feliz ao saber que vai publicar um trabalho sobre as plantas fósseis mais antigas; e agradeço-lhe antecipadamente pelo volume que gentilmente diz que me enviará. Espero sinceramente que forneça, pelo menos incidentalmente, os resultados a que chegou no que diz respeito às plantas do Terciário mais recentes; pois a gradação estreita de tais formas parece-me um facto de importância primordial para o princípio da evolução. Os seus casos são semelhantes aos da gradação no género Equus, recentemente descobertos por Marsh na América do Norte.
CARTA 288. PARA O DUQUE DE ARGYLL.
(288/1. A carta seguinte foi publicada na "Nature", a 5 de março de 1891, Volume XLIII., página 415, juntamente com uma nota do falecido Duque de Argyll, na qual afirmava que a carta tinha sido escrita para ele pelo Sr. Darwin em resposta à pergunta "por que razão ele assumiu a unidade da humanidade como descendente de um único par". O Duque acrescentou que, na resposta, o Sr. Darwin "não repudia esta interpretação da sua teoria, mas simplesmente procede a explicar e a defender a doutrina". Numa ocasião anterior, o Duque de Argyll tinha "aludido como um facto à circunstância de Charles Darwin assumir que a humanidade surgiu num só lugar e, portanto, num único par". A carta de Darwin foi publicada em resposta a alguns amigos cientistas, que duvidavam do facto e pediram a referência na qual a afirmação se baseava.)
Down, 23 de setembro de 1878.
O problema que expõe tão claramente é muito interessante, sobre o qual especulei frequentemente. Tanto quanto posso julgar, a improbabilidade é extrema de que a mesma espécie bem caracterizada seja produzida em dois países distintos, ou em dois tempos distintos. É certo que a mesma variação pode surgir em dois locais distintos, como acontece com o albinismo ou com a nectarina em pessegueiros. Mas a evidência parece-me esmagadora de que uma espécie bem marcada é o produto, não de uma única ou de poucas variações, mas de uma longa série de modificações, cada modificação resultando principalmente da adaptação a condições infinitamente complexas (incluindo os habitantes do mesmo país), com maior ou menor hereditariedade de todas as modificações precedentes. Além disso, como a variabilidade depende mais da natureza do organismo do que da do ambiente, as variações tenderão a diferir em cada estágio sucessivo de descendência. Ora, parece-me altamente improvável que uma espécie tenha sido alguma vez exposta em dois lugares a relações infinitamente complexas de natureza exatamente igual durante uma longa série de modificações. Uma ilustração talvez torne mais claro o que disse, embora se aplique apenas aos fatores menos importantes da hereditariedade e da variabilidade, e não à adaptação — a saber, a improbabilidade de dois homens nascerem em dois países idênticos em corpo e mente. Se, contudo, se assumir que uma espécie em cada estágio sucessivo da sua modificação estava rodeada em dois países ou tempos distintos pelo mesmo conjunto exato de plantas e animais, e pelas mesmas condições físicas, então não vejo qualquer dificuldade teórica [em] tal espécie dar à luz a nova forma nos dois países. Se consultar a sexta edição da minha "Origem", na página 100, encontrará uma discussão algo análoga, talvez mais inteligível do que esta carta.
CARTA 289. W.T. THISELTON-DYER PARA O EDITOR DA "NATURE".
(289/1. A carta seguinte ("Nature", Volume XLIII., página 535) critica a interpretação dada pelo Duque à carta do Sr. Darwin.)
Royal Gardens, Kew, 27 de março [1891].
Na "Nature" de 5 de março (página 415), o Duque de Argyll publicou uma carta muito interessante do Sr. Darwin, da qual retirou a inferência de que o autor "assumiu que a humanidade surgiu... num único par". Não creio que a carta suporte esta interpretação. Mas o ponto, no seu aspeto mais geral, é muito importante e descobre-se frequentemente que apresenta alguma dificuldade aos estudiosos dos escritos do Sr. Darwin.
Muito recentemente descobri por acaso, entre os papéis do falecido Sr. Bentham em Kew, uma carta de crítica amigável do Sr. Darwin sobre o discurso presidencial que o Sr. Bentham proferiu na Linnean Society a 24 de maio de 1869. Esta carta, penso eu, foi ignorada e não publicada anteriormente. Nela, o Sr. Darwin exprime-se com relação à origem múltipla das raças e a alguns outros pontos em linguagem muito explícita. O Prof. Meldola, a quem mencionei em conversa a existência da carta, instou-me fortemente a imprimi-la. Isto, portanto, faço agora, com o acréscimo de algumas notas explicativas.
CARTA 290. PARA G. BENTHAM. Down, 25 de novembro de 1869.
(290/1. As notas a esta carta são do Sir W. Thiselton-Dyer e apareceram na "Nature", loc. cit.)
Fiquei muito interessado pelo seu discurso, que li agora três vezes, e que creio terá muita influência sobre todos os que o lerem. Mas engana-se ao pensar que alguma vez disse que estava errado em qualquer ponto. Tudo o que quis dizer foi que, em certos pontos, e pontos muito duvidosos, estava inclinado a discordar de si. E agora, ao considerar melhor o ponto sobre o qual, há uns dois ou três meses, me sentia mais inclinado a discordar — a saber, sobre o isolamento — descubro que discordo muito pouco. O que tenho a dizer não vale realmente a pena, mas como lamentaria muito não fazer o que quer que me pedisse, vou rabiscar os pensamentos ligeiramente dissidentes que me ocorreram. Seria um trabalho interminável especificar os pontos em que me interessou; mas posso apenas mencionar a relação da flora extrema ocidental da Europa (alguns pensamentos muito vagos cruzaram a minha mente, relacionados com o período Glacial) com a África do Sul, e as suas observações sobre o contraste da distribuição passiva e ativa.
Página lxx.—Penso que a contingência de uma ilha que se ergue, ainda não totalmente povoada de plantas, deve ser sempre tida em mente ao falar de colonização.
Página lxxiv.—Não encontrei nada que me faça duvidar minimamente de que os grandes géneros apresentam um maior número de variedades relativamente ao seu tamanho do que os pequenos géneros. (290/2. Bentham pensava que o "grau de variabilidade... tal como outros caracteres constitucionais, é em primeiro lugar um caráter individual, que... pode tornar-se mais ou menos hereditário, e portanto específico; e daí, embora num grau muito ténue, genérico". Ele parece ter a intenção de argumentar contra a conclusão que Sir Joseph Hooker tinha citado do Sr. Darwin de que "as espécies de grandes géneros são mais variáveis do que as de pequenos". [Sobre a variação de grandes géneros, ver Carta 53.]) Hooker convenceu-se pelos meus dados, nunca até agora publicados na íntegra, apenas sintetizados na "Origem".
Página lxxviii.—Contesto que uma nova raça ou espécie seja necessariamente, ou mesmo geralmente, descendente de um único progenitor ou par de progenitores. Todo o corpo de indivíduos, acredito, torna-se alterado em conjunto — como os nossos cavalos de corrida, e como todas as raças domésticas que são alteradas através da "seleção inconsciente" pelo homem. (290/3. Bentham tinha dito: "Devemos também admitir que cada raça foi provavelmente descendente de um progenitor ou par de progenitores, e consequentemente originou-se num local". O Duque de Argyll inverte a proposição.)
Quando se consideram períodos de tempo tão longos quanto os necessários para mudar uma forma específica, duvido muito que poderes de multiplicação mais ou menos rápidos tenham mais do que o peso mais insignificante. Estes poderes, penso, estão relacionados com maior ou menor destruição na vida prematura.
Página lxxix.—Continuo a pensar que subestima um pouco a importância do isolamento. Cheguei a pensar que é muito importante por várias razões; as formas anómalas e quase extintas em ilhas, etc., etc., etc.
Com respeito a áreas com numerosas formas "individualmente duráveis", pode dizer-se que geralmente apresentam uma superfície "quebrada" com "barreiras intransponíveis"? Isto, sem dúvida, é verdade em certos casos, como Tenerife. Mas será que isto se mantém com o Sudoeste da Austrália ou o Cabo? Duvido muito. Habituei-me a encarar a causa de tantas formas como sendo parcialmente um clima árido ou seco (como insiste De Candolle) que indiretamente conduz a condições diversificadas [?]; e, em segundo lugar, ao isolamento do resto do mundo durante um período muito longo, de modo a que outras formas mais dominantes não tenham entrado, e tenha havido tempo amplo para muita especificação e adaptação de caráter.
Página lxxx.—Suponho que pensa que as Restiaceae, Proteaceae (290/4. É duvidoso que Bentham pensasse isso. No seu discurso de 1870, ele diz: "Não posso resistir à opinião de que toda a prova presuntiva é contra as Proteaceae europeias, e que toda a prova direta a seu favor se desfez sob contra-interrogatório."), etc., etc., se estenderam outrora pelo mundo, deixando fragmentos no sul.
Fala em vários lugares da distribuição de plantas como se fosse exclusivamente governada pelo solo e pelo clima. Sei que não quer dizer isso, mas lamento sempre que se omite uma oportunidade de salientar que a luta com outras plantas (e animais hostis) é muito mais importante.
Disse-lhe que não tinha nada que valesse a pena dizer, mas dei-lhe os meus PENSAMENTOS.
Quão detestáveis são os algarismos romanos! por que razão os discursos do Presidente, que são muitas vezes, e tenho a certeza que neste caso, mais valiosos do que todo o resto do número, não devem ser paginados com algarismos cristãos?
CARTA 291. PARA R. MELDOLA.
(291/1. "Esta carta foi em resposta a uma sugestão de que, no seu prefácio, o Sr. Darwin deveria apontar, por referências a "A Origem das Espécies" e aos seus outros escritos, até que ponto ele já tinha traçado o caminho que Weismann percorreu. A sugestão foi feita porque, num grande número dos escritos continentais sobre a teoria da descendência, muitos dos pontos que tinham sido claramente prenunciados, e em alguns casos até explicitamente declarados por Darwin, tinham sido redescobertos e publicados como se fossem originais. Nas notas à minha edição de Weismann, esforcei-me por fazer plena justiça a Darwin.—R.M." Ver Carta 310.)
4, Bryanston Street, 26 de novembro de 1878.
Lamento muito dizer que não posso concordar com a sua sugestão. Um autor nunca é um juiz apto do seu próprio trabalho, e eu detestaria extremamente apontar quando e como as conclusões e o trabalho de Weismann concordavam com os meus. Sinto-me certo de que não deveria fazer isto, e seria para mim uma tarefa intolerável. Nem me parece ser a função apropriada do prefácio, que é mostrar o que o livro contém, e que o conteúdo me parece valioso. Mas não vejo qualquer objeção a que você, se achar adequado, escreva uma introdução com observações ou críticas de qualquer tipo. Naturalmente, teria todo o prazer em aconselhá-lo sobre qualquer ponto, tanto quanto estivesse ao meu alcance, mas, no seu todo, não poderia ter nada a ver com isso, pelas razões acima especificadas, de que um autor não pode e não deve tentar julgar as suas próprias obras, ou compará-las com outras. Lamento recusar fazer qualquer coisa que deseje.
CARTA 292. PARA T.H. HUXLEY. Down, 18 de janeiro de 1879.
Acabei de terminar a sua oferta da Vida de Hume (292/1. "Hume" na série "English Men of Letters" do Sr. Morley. Sobre a parte biográfica deste livro, o Sr. Huxley escreveu, numa carta ao Sr. Skelton, em janeiro de 1879 ("Life of T.H. Huxley", II., página 7): "É a aproximação mais próxima a uma obra de ficção de que ainda fui culpado."), e tenho de lhe agradecer pelo grande prazer que me proporcionou. As suas discussões são, como me parece, claras a um grau bastante maravilhoso, e muitos dos pequenos lampejos de espírito intercalados são deliciosos. Apreciei particularmente o julgamento sucinto em cerca de cinco palavras sobre Comte. (292/2. Possivelmente a passagem referida está na página 52.) Apesar da clareza de cada frase, os temas são em parte tão difíceis que os achei uma leitura árdua. Receio, portanto, que seja demasiado árdua para o grande público; mas espero sinceramente que isto se revele um erro, e, nesse caso, a inteligência do público será grandemente exaltada aos meus olhos. A escrita deste livro deve ter sido um trabalho terrivelmente árduo, diria eu.
CARTA 293. PARA F. MULLER. Down, 4 de março [1879].
Agradeço-lhe cordialmente a sua carta. Os seus factos e discussão sobre a perda dos pelos nas patas das tricópteras parecem-me a coisa mais importante e interessante que li há muito tempo. Espero que não desaprove, mas enviei a sua carta para a "Nature" (293/1. Fritz Muller, "On a Frog having Eggs on its Back--On the Abortion of the Hairs on the Legs of certain Caddis-Flies, etc.": a carta de Muller e uma de Charles Darwin foram publicadas na "Nature", Volume XIX., página 462, 1879.), com algumas observações introdutórias, apontando ao leitor geral a importância do seu ponto de vista, e declarando que me senti perplexo durante muitos anos sobre este ponto exato. Se, como estou inclinado a acreditar, a sua visão puder ser amplamente estendida, será um ganho capital para a doutrina da evolução. Vejo pelos seus vários artigos que está a trabalhar energicamente e, onde quer que olhe, parece descobrir algo de completamente novo e extremamente interessante. O seu irmão também continua a fazer um excelente trabalho sobre a fertilização de flores e assuntos relacionados.
Tenho pouco ou nada a dizer-lhe sobre mim. Vou rastejando lentamente com o meu tema atual — os vários e complicados movimentos das plantas. Não tenho estado muito bem ultimamente, e hoje estou cansado, por isso não escreverei mais. Com a mais cordial simpatia em todo o seu trabalho, etc.
CARTA 294. PARA T.H. HUXLEY. Down, 19 de abril de 1879.
Muito obrigado pelo livro. (294/1. "Freedom in Science and Teaching" de Ernst Hackel, com uma nota introdutória de T.H. Huxley, 1879. O Professor Hackel publicou recentemente (sem permissão) uma carta na qual o Sr. Darwin comenta severamente Virchow. É difícil dizer o que teria magoado mais o Sr. Darwin — o insulto a um colega, ou a quebra de confiança num amigo.) Li apenas o prefácio... É excelente, e apreciei a tremenda estalada que deu a Virchow no final. Que prazer deve ser escrever como você consegue fazer!
CARTA 295. PARA E.S. MORSE. Down, 21 de outubro de 1879.
Embora seja tão gentil ao dizer-me para não escrever, tenho apenas de lhe agradecer as provas do seu artigo, que me interessou imenso. (295/1. Ver "The Shell Mounds of Omori" nos "Memoirs of the Science Department of the Univ. of Tokio", Volume I., Parte I., 1879. As cristas em Arca são mencionadas na página 25. Na "Nature", 15 de abril de 1880, o Sr. Darwin publicou uma carta do Sr. Morse relacionada com a crítica do artigo acima mencionado, que apareceu na "Nature", XXI., página 350. O Sr. Darwin introduz a carta do Sr. Morse com algumas observações introdutórias. A correspondência é republicada no "American Naturalist", setembro de 1880.) O aumento no número de cristas nas três espécies de Arca parece ser um facto muito notável, tal como o aumento de tamanho em tantas, embora não todas, as espécies. Que estado constante de flutuação parece ser o de todo o mundo orgânico! É interessante ouvir que, em toda a parte, a primeira mudança é aparentemente nos números proporcionais das espécies. Fiquei muito impressionado com o facto nas conchas elevadas de Coquimbo, no Chile, como mencionado nas minhas "Geological Observations on South America".
De todas as maravilhas do mundo, o progresso do Japão, no qual tem ajudado, parece-me ser a mais maravilhosa de todas.
CARTA 296. PARA A.R. WALLACE. Down, 5 de janeiro de 1880.
Como esta nota não requer qualquer tipo de resposta, deve permitir-me expressar a minha viva admiração pelo seu artigo na "Nineteenth Century". (296/1. "Nineteenth Century", janeiro de 1880, página 93, "On the Origin of Species and Genera".) É certamente um mestre na difícil arte da exposição clara. É impossível insistir demasiadas vezes em que a seleção a partir de um único indivíduo variável ou de um único órgão variável não será suficiente. Incorporou capitalmente as admiráveis investigações de Allen. (296/2. J.A. Allen, "On the Mammals and Winter Birds of East Florida, etc." ("Bull. Mus. Comp. Zoolog. Harvard", Volume II.) Como de costume, delicia-se em honrar-me mais do que mereço. Quando escrevi sobre a extrema lentidão da Seleção Natural (296/3. O Sr. Wallace faz um cálculo baseado nos resultados de Allen quanto ao período muito curto em que a formação de uma raça de aves diferindo 10 a 20 por cento da média no comprimento da asa e força do bico poderia concebivelmente ser efetuada. Ele pensa que a lentidão da ação da Seleção Natural depende realmente da lentidão das mudanças que ocorrem naturalmente nas condições físicas, etc.) (em que espero estar enganado), tive principalmente em mente os efeitos do cruzamento. Subscrevo quase tudo o que diz, exceto a última frase curta. (296/4. A passagem em questão é a seguinte: "Também tentei mostrar que as causas que produziram as espécies separadas de um género, de uma família, ou talvez de uma ordem, a partir de um ancestral comum, não são necessariamente as mesmas que produziram as ordens, classes e sub-reinos separados a partir de ancestrais comuns mais remotos. Que todas foram produzidas da mesma forma por 'descendência com modificação' a partir de alguns tipos primitivos, todo o corpo de evidências indica claramente; mas embora a variação individual com a Seleção Natural esteja provada como sendo adequada para a produção da primeira, não temos prova e quase nenhuma evidência de que seja adequada para iniciar aquelas importantes divergências de tipo que caracterizam a segunda." Nesta passagem deve dar-se ênfase (como o Sr. Wallace nos aponta) à palavra PROVA. Ele não afirma de forma alguma que as causas que produziram as espécies de um género são inadequadas para produzir maiores diferenças. O seu objetivo é antes insistir na diferença entre prova e probabilidade.)
CARTA 297. PARA J.H. FABRE.
(297/1. Uma carta para M. Fabre é apresentada em "Life and Letters", III., página 220, na qual é feita a sugestão de rodar o inseto antes que ocorra uma experiência de "regresso a casa".)
Down, 20 de fevereiro de 1880.
Agradeço-lhe a sua amável carta e estou encantado por tentar a experiência da rotação. É muito curioso que tal crença seja mantida sobre os gatos no seu país (297/2. M. Fabre tinha escrito de Serignan, Vaucluse: "Parmi la population des paysans de mon village, l'habitude est de faire tourner dans un sac le chat que l'on se propose de porter ailleurs, et dont on veut empecher le retour. J'ignore si cette pratique obtient du succes."), nunca ouvi falar de nada do género em Inglaterra. Fui levado, creio eu, a pensar na experiência por ter lido nas "Travels in Siberia" de Wrangel (297/3. Almirante Ferdinand Petrovich von Wrangell, "Le Nord de la Siberie, Voyage parmi les Peuplades de la Russie asiatique, etc." Paris, 1843.) sobre o poder maravilhoso que os samoiedos possuem de manter a sua direção num nevoeiro enquanto viajam numa linha tortuosa através de gelo quebrado. Com respeito aos gatos, vi um relato de que na Bélgica existe uma sociedade que dá prémios ao gato que consegue encontrar o caminho de casa mais depressa, e para este fim eles são levados para partes distantes da cidade.
Aqui haveria uma oportunidade capital para tentar a rotação.
Sinto-me extremamente feliz ao saber que o seu livro será provavelmente traduzido para inglês.
P.S.—Ficarei muito satisfeito por saber o resultado das suas experiências.
CARTA 298. PARA J.H. FABRE. Down, 21 de janeiro de 1881.
Estou muito grato pela sua carta muito interessante. Os seus resultados parecem-me altamente importantes, pois eliminam um meio pelo qual os animais poderiam talvez reconhecer a direção; e este, pelo que foi dito sobre selvagens, e pela nossa própria consciência, parecia o meio mais provável. Se achar que vale a pena, pode naturalmente mencionar o meu nome em relação a este assunto.
Caso consiga eliminar uma noção das correntes magnéticas da Terra, deixaria o campo de investigação bastante aberto. Suponho que mesmo aqueles que ainda acreditam que cada espécie foi criada separadamente admitiriam que certos animais possuem algum sentido pelo qual percebem a direção, e que usam instintivamente. Ao mencionar o assunto ao meu filho George, que é matemático e sabe algo sobre magnetismo, ele sugeriu transformar uma agulha muito fina num íman; depois, parti-la em pedaços muito curtos, que ainda seriam magnéticos, e fixar um desses pedaços com algum cimento no tórax do inseto a ser experimentado.
Ele acredita que um íman tão pequeno, devido à sua estreita proximidade com o sistema nervoso do inseto, o afetaria mais do que as correntes terrestres.
Recebi o seu ensaio sobre Halictus (298/1. "Sur les Moeurs et la Parthenogese des Halictes" ("Ann. Sc. Nat." IX., 1879-80).), que tenho a certeza de que lerei com muito interesse.
CARTA 299. PARA T.H. HUXLEY.
(299/1. A 9 de abril de 1880, o Sr. Huxley deu uma palestra na Royal Institution sobre "The Coming of Age of the Origin of Species." A palestra foi publicada na "Nature" e nos "Collected Essays" de Huxley, Volume II., página 227. A carta de Darwin a Huxley sobre o assunto encontra-se em "Life and Letters", III., página 240; na resposta de Huxley de 10 de maio ("Life and Letters of T.H. Huxley," II., página 12) ele escreve: "Espero que não imagine que, por eu não ter tido nada a dizer sobre a 'Seleção Natural', sou de todo fraco na fé nesse artigo... Mas a primeira coisa parece-me ser introduzir o facto da evolução nas cabeças das pessoas; uma vez que isso esteja seguro, o resto virá facilmente.")
Down, 11 de maio de 1880.
Eu não tinha a intenção de o fazer escrever-me, nem a expectativa de que o fizesse; mas a sua nota foi tão mais "alegre" (299/2. "É o escritor de cartas mais alegre que conheço": Huxley para Darwin. Ver "Life" de Huxley, II., página 12.) para mim do que a minha poderia ter sido para si, que devo e escreverei novamente. Percebi o seu motivo para não aludir à Seleção Natural e concordei plenamente no meu íntimo com a sua sabedoria. Mas, ao mesmo tempo, ocorreu-me que poderia estar a desistir dela e que, de qualquer modo, não a poderia aludir com segurança sem várias "ressalvas" demasiado longas para dar numa palestra. Se pensar continuamente em meia dúzia de estruturas das quais não podemos ver qualquer utilidade no momento, posso persuadir-me de que a Seleção Natural é de importância bastante subordinada. Por outro lado, quando reflito sobre as inúmeras estruturas, especialmente nas plantas, que há vinte anos teriam sido chamadas simplesmente de "morfológicas" e inúteis, e que agora se sabe serem altamente importantes, posso persuadir-me de que cada estrutura pode ter sido desenvolvida através da Seleção Natural. É realmente curioso quantas, numa lista de estruturas que Bronn enumerou como não sendo possivelmente devidas à Seleção Natural por não terem importância funcional, podem agora ser demonstradas como sendo altamente importantes. As folhas lobadas eram, creio eu, um caso, e há apenas dois ou três dias Frank mostrou-me como elas atuam de uma maneira suficientemente importante para explicar o lobo de qualquer folha grande. Estou particularmente encantado com o que diz sobre cães domésticos, chacais e lobos, porque, a partir de simples evidência indireta, cheguei em "Varieties of Domestic Animals" exatamente à mesma conclusão (299/3. A opinião do Sr. Darwin era que os cães domésticos descendem de mais do que uma espécie selvagem.) com respeito aos cães domésticos da Europa e da América do Norte. Veja quão importante de outra forma é esta conclusão; pois ninguém pode duvidar de que cães grandes e pequenos são perfeitamente férteis entre si e produzem rafeiros férteis; e como isto apoia bem a doutrina Pallasiana (299/4. Ver Carta 80.) de que a domesticação elimina a esterilidade quase universal entre formas desenvolvidas lentamente num estado de natureza.
Peço humildemente o seu perdão por o incomodar com uma nota tão longa; mas a culpa é sua.
As plantas são esplêndidas para fazer alguém acreditar na Seleção Natural, já que a vontade e a consciência estão excluídas. Tenho andado ultimamente a experimentar uma estrutura tão curiosa para abrir as cascas das sementes: declaro que se poderia dizer que um par de tesouras ou um quebra-nozes tinham sido desenvolvidos através de condições externas tal como a estrutura em questão. (299/5. O gancho ou calcanhar em Cucurbita: ver "Power of Movement in Plants" página 102.)
CARTA 300. PARA T.H. HUXLEY. Down, 5 de novembro de 1880.
Ao ler a sua excelente crítica (300/1. Ver "Nature," 4 de novembro de 1880, página 1, uma crítica ao Volume I. das publicações do "Challenger," para o qual Sir Wyville Thomson contribuiu com uma Introdução Geral.) com a frase citada de Sir Wyville Thomson, pareceu-me aconselhável, considerando a natureza da publicação, notar a "variação extrema" e outro ponto. Agora, leia o anexo e, se aprovar, envie-o em breve. Se desaprovar, atire-o ao fogo e, assim, adicione mais uma às mil bondades que me fez. Não escreva: verei o resultado na "Nature" da próxima semana. Por favor, observe que no rascunho eu tinha adicionado uma frase final que não copio a princípio, pois parecia-me inferencialmente demasiado desprezível; mas agora prendi-a ao verso e pode enviá-la ou não, como achar melhor — isto é, se achar que alguma parte vale a pena ser enviada. O meu pedido não lhe custará muito trabalho — isto é, ler duas páginas, pois sei que pode decidir de imediato. Gostei imenso da minha conversa consigo na manhã de domingo.
P.S. — Se o meu manuscrito parecer demasiado plano, demasiado desprezível, demasiado maldoso, ou demasiado qualquer coisa, imploro-lhe seriamente que o atire ao fogo.
CARTA 301. CHARLES DARWIN PARA O EDITOR DA "NATURE."
(301/1. "Nature," 11 de novembro de 1880, página 32.)
Down, 5 de novembro de 1880.
Sir Wyville Thomson e a Seleção Natural.
Lamento constatar que Sir Wyville Thomson não compreende o princípio da Seleção Natural, conforme explicado pelo Sr. Wallace e por mim. Se o tivesse compreendido, não poderia ter escrito a seguinte frase na Introdução à Viagem do "Challenger": "O caráter da fauna abissal recusa-se a dar o menor apoio à teoria que refere a evolução das espécies a uma variação extrema guiada apenas pela Seleção Natural." Este é um padrão de crítica não raramente atingido por teólogos e metafísicos quando escrevem sobre temas científicos, mas é algo novo vindo de um naturalista. O Professor Huxley opõe-se a isso no último número da "Nature"; mas não toca na expressão de variação extrema, nem na de que a evolução seja guiada apenas pela Seleção Natural. Pode Sir Wyville Thomson nomear alguém que tenha dito que a evolução das espécies depende apenas da Seleção Natural? No que me diz respeito, creio que ninguém apresentou tantas observações sobre os efeitos do uso e desuso de partes como eu fiz na minha "Variation of Animals and Plants under Domestication"; e estas observações foram feitas para este objetivo especial. Apresentei igualmente ali um corpo considerável de factos, mostrando a ação direta das condições externas sobre os organismos; embora, sem dúvida, desde que os meus livros foram publicados, muito tenha sido aprendido a este respeito. Se Sir Wyville Thomson visitasse o quintal de um criador e visse todo o seu gado ou ovelhas quase absolutamente fiéis — isto é, estreitamente semelhantes, ele exclamaria: "Senhor, não vejo aqui nenhuma variação extrema; nem posso encontrar qualquer apoio para a crença de que seguiu o princípio da seleção na criação dos seus animais." Pelo que vi anteriormente dos criadores, não tenho dúvidas de que o homem assim repreendido teria sorrido e não dito uma palavra. Se ele tivesse contado a história a outros criadores, receio muito que eles tivessem usado linguagem enfática, mas irreverente, sobre os naturalistas.
(301/2. A passagem seguinte foi omitida por conselho de Huxley: ver o seu "Life and Letters," II., página 14:--
"Talvez tivesse sido mais sensato da minha parte ter permanecido completamente em silêncio, tal como o criador; pois, como o Prof. Sedgwick observou há muitos anos, em referência ao pobre e velho Deão de York, que nunca se cansava de invectivar contra os geólogos, um homem que fala sobre o que não compreende minimamente é invulnerável.")
CARTA 302. PARA G.J. ROMANES.
(302/1. Parte desta carta foi publicada na nota do Sr. C. Barber sobre "Graft-Hybrids of the Sugar-Cane," em "The Sugar-Cane," novembro de 1896.)
Down, 1 de janeiro de 1881.
Envio o manuscrito, mas, tanto quanto posso julgar apenas por uma leitura rápida, não lhe será de utilidade. Parece incidir sobre formas de transição. Tenho a certeza de que tenho outros e melhores casos, mas não consigo lembrar-me de onde procurar.
Deveria ter-lhe escrito em poucos dias sobre o caso seguinte. O Barão de Villa Franca escreveu-me do Brasil há cerca de dois anos, descrevendo novas variedades de cana-de-açúcar que ele tinha criado ao plantar duas variedades antigas em aposição. Creio (mas a minha memória é muito falível) que escrevi que não podia acreditar em tal resultado, e atribuí as novas variedades ao solo, etc. Creio que não compreendi o que ele queria dizer por aposição. Ontem chegou um pacote de manuscritos da Legação Brasileira, com uma carta em francês do Dr. Glass, Diretor dos Jardins Botânicos, descrevendo detalhadamente como primeiro tentou enxertar variedades de cana-de-açúcar de várias maneiras, e falhou sempre, e depois dividiu caules de duas variedades, amarrou-os e plantou-os, e depois criou algumas variedades novas e muito valiosas, que, tal como as plantas cruzadas, parecem crescer com vigor extra, são constantes e aparentemente participam do caráter das duas variedades. O Barão também me envia uma cópia autenticada de vários cultivadores brasileiros sobre o sucesso do plano de criar novas variedades. Não tenho a certeza se a Legação Brasileira deseja que eu devolva o documento, mas se não tiver notícias em três ou quatro dias de que devam ser devolvidos, ser-lhe-ão enviados, pois parecem-me bem merecedores da sua consideração.
Talvez se eu me tivesse contentado com os meus bolbos de jacinto estando apenas amarrados sem qualquer adesão verdadeira ou melhor, crescimento conjunto, teria tido sucesso como o velho holandês.
Há uma quantidade de verborreia supérflua nos documentos, mas marquei a lápis onde começa a parte importante. As atestações estão em duplicado. Agora, depois de as ler, dê-me a sua opinião sobre se as partes principais são dignas de publicação na "Nature": inclino-me a pensar que sim, e é bom encorajar a ciência em partes remotas do mundo.
Guarde esta nota até receber os documentos ou ter notícias minhas. Pergunto-me se duas variedades de trigo poderiam ser tratadas de forma semelhante? Não, suponho que não — pela falta de gomos laterais. Fiquei extremamente interessado com o seu resumo sobre o suicídio.
CARTA 303. PARA K. SEMPER. Down, 6 de fevereiro de 1881.
Devido a todo o tipo de trabalho, só agora acabei de ler as suas "Natural Conditions of Existence." (303/1. "Natural Conditions of Existence as they affect Animal Life" de Semper (International Science Series), 1881.) Embora seja um livro de pequenas dimensões, contém uma quantidade surpreendente de matéria, e fiquei particularmente impressionado com a originalidade com que trata tantos assuntos e com a sua escrupulosa precisão. Na grande maioria dos pontos, sigo-o plenamente nas suas conclusões, mas difiro em alguns, e suponho que não haveria dois homens no mundo que concordassem plenamente em tantos assuntos diferentes. Fiquei interessado em tantos pontos que dificilmente poderia dizer em qual mais. Talvez tanto na Distribuição Geográfica como em qualquer outro, especialmente em relação a M. Wagner. (Não! não! sobre parasitas interessou-me ainda mais.) Quão estranho que Wagner tenha pensado que eu queria dizer, por luta pela existência, luta pelo alimento. É curioso que não tenha pensado nas infindáveis adaptações para a dispersão de sementes e a fertilização das flores.
Novamente, fiquei muito interessado sobre Branchipus e Artemia. (303/2. A referência é às experiências de Schmankewitsch, página 158: ele manteve Artemia salina em água salgada, gradualmente diluída com água doce até se tornar praticamente livre de sal; os crustáceos mudaram gradualmente ao longo das gerações, até adquirirem os caracteres do género Branchipus.) Quando li imperfeitamente, há alguns anos, o artigo original, não pude evitar pensar que alguma explicação especial seria encontrada futuramente para um caso tão curioso. Especulei se uma espécie muito sujeita a repetidas e grandes mudanças de condições não poderia adquirir uma condição flutuante pronta a ser adaptada a ambas as condições. Com respeito aos animais árticos serem brancos (página 116 do seu livro), talvez valha a pena ver o que digo a partir das observações de Pallas e das minhas próprias no "Descent of Man" (edições posteriores), Capítulo VIII., página 229, e Capítulo XVIII., página 542.
Concordo plenamente com o que deduzo ser o seu juízo, a saber, que a ação direta das condições de vida sobre os organismos, ou a causa da sua variabilidade, é o mais importante de todos os assuntos para o futuro. Durante alguns anos, tenho pensado em começar um conjunto de experiências em plantas, pois quase invariavelmente variam quando cultivadas. Imagino que vejo o meu caminho com a ajuda da autofecundação contínua. Mas sou demasiado velho e não tenho força suficiente. Contudo, a esperança reaviva-se ocasionalmente.
Finalmente, deixe-me agradecer-lhe pela maneira muito gentil como frequentemente se refere aos meus trabalhos, e pela maneira ainda mais gentil como discorda de mim.
Com cordiais agradecimentos pelo prazer e instrução que obtive do seu livro, etc.
CARTA 304. PARA O CONDE SAPORTA. Down, 13 de fevereiro de 1881.
Recebi há uma ou duas semanas o trabalho que você e o Prof. Marion tiveram a gentileza de me enviar. (304/1. Provavelmente "L'Evolution du Regne vegetal," I. "Cryptogames," Saporta & Marion, Paris, 1881.) Quando chegou, estava muito ocupado, e esta deve ser a minha desculpa por não lhe ter agradecido mais cedo, e servirá também para explicar o facto de, até agora, ter lido apenas o prefácio.
Mas agora aguardo com grande prazer a leitura de tudo na íntegra. Se depois tiver alguma observação que valha a pena enviar, o que não é muito provável, escreverei novamente. Fico muito satisfeito ao ver com que ousadia expressa a sua crença na evolução, no prefácio. Às vezes penso que alguns dos seus compatriotas têm sido um pouco tímidos em publicar a sua crença sobre este assunto e, assim, falharam em ajudar uma boa causa.
CARTA 305. PARA R.G. WHITEMAN. Down, 5 de maio de 1881.
Na primeira edição da "Origin", após a frase que termina com as palavras "...insetos na água", adicionei a seguinte frase:--
"Mesmo num caso tão extremo como este, se o fornecimento de insetos fosse constante, e se concorrentes mais bem adaptados não existissem já no país, não vejo dificuldade em uma raça de ursos ser tornada, pela Seleção Natural, cada vez mais aquática nas suas estruturas e hábitos, com bocas cada vez maiores, até que uma criatura fosse produzida tão monstruosa como uma baleia." (305/1. Ver Cartas 110 e 120.)
Esta frase foi omitida nas edições subsequentes, devido ao conselho do Prof. Owen, pois era suscetível de ser mal interpretada; mas sempre lamentei ter seguido este conselho, pois ainda penso que a opinião é bastante razoável.
CARTA 306. PARA A. HYATT. Down, 8 de maio de 1881.
Estou muito grato pelo seu gentil presente de "The Genesis, etc." (306/1. "The Genesis of the Tertiary Species of Planorbis," no "Boston Soc. Nat. Hist. Anniversary Mem." 1880.), que ficarei feliz por ler, pois o caso sempre me pareceu muito curioso. É ainda mais gentil da sua parte enviar-me este livro, visto que estou ciente de que pensa que não fiz nada para promover a boa causa da teoria da Descendência. (306/2. O acima referido levou-me a escrever uma carta expressando um sentimento de arrependimento e humilhação, que espero ainda esteja preservado, pois certamente tal sentimento, causado sem dúvida pelos meus escritos, que tratavam demasiado exclusivamente de divergências sobre pontos especiais, precisava de uma negação forte. Usei a teoria darwiniana em muitos casos, especialmente ao explicar a preservação de diferenças; e neguei a sua aplicação apenas na preservação de características fixas e hereditárias, que se tornaram essencialmente similaridades homólogas. (Nota do Prof. Hyatt.))
(306/3. Aventuramo-nos a citar a passagem da resposta do Prof. Hyatt, datada de 23 de maio de 1881:--
"Pensaria que sou insincero se lhe escrevesse o que realmente sinto em relação ao que fez pela teoria da Descendência. Talvez este ensaio o leve a uma visão mais correta do que aquela que agora tem sobre a minha estimativa, se se pode dizer que tenho algum direito a fazer uma estimativa do seu trabalho nesta direção. Não se ofenderá, contudo, se lhe disser que os seus apoiantes mais fortes dificilmente lhe podem dar maior estima e honra. Esforcei-me por ter uma ideia justa da sua teoria, mas sem dúvida falhei em transmiti-la nas minhas publicações como deveria ser feito."
Encontramos outras expressões de respeito igualmente fortes e genuínas nas cartas do Prof. Hyatt.)
CARTA 307. PARA O LORDE FARRER.
(307/1. O livro do Sr. Graham, "Creed of Science", é mencionado em "Life and Letters," I., página 315, onde uma carta interessante ao autor é impressa. Em relação ao acaso, Darwin escreveu: "Expressou a minha convicção interior, embora de forma muito mais clara e vívida do que eu poderia ter feito, que o universo não é o resultado do acaso.")
Down, 28 de agosto de 1881.
Fiquei muito interessado com a sua carta e fico feliz por gostar do livro do Sr. Graham...(307/2. Na carta do Lorde Farrer de 27 de agosto, ele refere-se à velha dificuldade, em relação ao design, da existência do mal.)
Tudo o que leio agora sai-me logo da cabeça, e tinha esquecido que ele implica que as minhas opiniões explicam o universo; mas é um exagero monstruoso. Quanto mais se pensa, mais se sente a imensidão desesperante da ignorância humana. Embora faça sentirmo-nos orgulhosos ver o que a ciência alcançou durante o último meio século. Isto foi trazido vividamente à minha mente por ter lido recentemente a maior parte das provas do Discurso de Lubbock para York (307/3. Lorde Avebury foi Presidente da Associação Britânica em 1881.), no qual tentará rever o progresso de todos os ramos da ciência nos últimos cinquenta anos.
Concordo inteiramente com o que diz sobre o "acaso", exceto em relação a que as variações dos seres orgânicos tenham sido projetadas; e imagino que o Sr. Graham deve ter usado o "acaso" apenas em relação ao propósito na origem das espécies. Esta é a única forma como usei a palavra acaso, como tentei explicar nas duas últimas páginas da minha "Variation under Domestication".
Por outro lado, se considerarmos o universo inteiro, a mente recusa-se a vê-lo como o resultado do acaso — isto é, sem design ou propósito. Toda a questão parece-me insolúvel, pois não posso depositar muita ou qualquer fé nas chamadas intuições da mente humana, que foram desenvolvidas, como não posso duvidar, a partir de uma mente tal como os animais possuem; e que valeriam as suas convicções ou intuições? Existem muitos pontos sobre os quais não consigo seguir inteiramente o Sr. Graham.
Relativamente à sua última discussão, atrevo-me a dizer que contém muita verdade; mas não consigo ver, no que diz respeito à felicidade, que possa aplicar-se aos sofrimentos infinitos dos animais — não apenas os do corpo, mas os da mente — como quando uma mãe perde a sua cria ou um macho a sua fêmea. Se a visão não se aplica aos animais, será suficiente para o homem? Mas pode muito bem queixar-se desta nota longa e mal expressa na minha caligrafia terrivelmente má.
A morte do meu irmão Erasmus é uma perda muito pesada para todos nós nesta família. Ele era tão bondoso e afetuoso. Nem nunca conheci ninguém mais agradável. Foi sempre um prazer muito grande conversar com ele sobre qualquer assunto, e isto nunca mais o farei. A clareza da sua mente pareceu-me sempre admirável. Não creio que tenha sido um homem feliz e, durante muitos anos, não valorizou a vida, embora nunca se tenha queixado. Estou tão contente por ter escapado a sofrimentos muito severos durante os seus últimos dias. Nunca mais verei um homem assim.
Perdoe-me por rabiscar desta maneira, meu caro Farrer.
CARTA 308. A G.J. ROMANES.
(308/1. Romanes tinha feito a crítica de "Struggle of Parts in the Organism", de Roux, na "Nature", de 20 de setembro de 1881, página 505. Isto levou a um ataque do Duque de Argyll (20 de outubro, página 581), seguido de uma resposta de Romanes (27 de outubro, página 604), uma réplica do Duque (3 de novembro, página 6) e, finalmente, pela carta de Romanes (10 de novembro, página 29) a que Darwin se refere. O "floreado" do Duque está na página 7: "Desejaria que os discípulos do Sr. Darwin imitassem um pouco da digna reticência do seu mestre. Ele caminha com um passo paciente e majestoso ao longo dos caminhos da observação conscienciosa, etc., etc.")
Down, 12 de novembro de 1881.
Tenho de escrever para dizer o quanto admiro a sua carta na última "Nature". Subscrevo cada palavra que diz, e não poderia ter sido expressa de forma mais clara ou vigorosa. Após a última carta e o floreado do Duque sobre mim, pensei que seria mesquinho não dizer que concordava com o que tinha dito. Mas, depois de escrever duas páginas em fólio, descobri que não conseguia dizer o que desejava sem ocupar demasiado espaço; e o que tinha escrito não me agradou de todo, por isso rasguei-o, e agora, por todos os deuses, alegro-me por o ter feito, pois colocou a questão de forma incomparavelmente melhor do que eu tinha feito ou poderia fazer.
Além disso, detesto controvérsias, e estas desperdiçam muito tempo, pelo menos com um homem que, tal como eu, só consegue trabalhar durante pouco tempo por dia. Como diabo consegue concluir todo o seu trabalho, isso espanta-me.
Agora, não me faça sentir culpado por responder a esta carta e perder um pouco do seu tempo.
Não deveria praguejar contra o livro de Roux, que o levou a esta controvérsia, pois tenho a certeza de que a sua última carta valeu bem a pena ser escrita — não que vá produzir qualquer efeito no Duque.
CARTA 309. A J. JENNER WEIR.
(309/1. Em 27 de dezembro de 1881, o Sr. Jenner Weir escreveu ao Sr. Darwin: "Após alguma hesitação, em vez de um cartão de Natal, atrevo-me a dar-lhe o retorno de algumas observações sobre mulas feitas em Espanha durante os últimos dois anos... É um facto que o progenitor tem a prepotência na descendência, como tem sido observado pela maioria dos escritores sobre o assunto, incluindo você mesmo. A mula é mais parecida com o burro, e o bardoto mais parecido com o cavalo, tanto nos respetivos comprimentos das orelhas como na forma da cauda; mas observei um ponto que não me recordo de ter encontrado, e é que a pelagem da mula se assemelha à da sua mãe, a égua, e a do bardoto à da sua mãe, a burra, de modo que, neste aspeto, a prepotência dos sexos é invertida." O hermafroditismo em lepidópteros, referido abaixo, é mencionado pelo Sr. Weir como ocorrendo notavelmente no caso dos híbridos de Smerinthus populi-ocellatus.)
Down, 29 de dezembro de 1881.
Agradeço-lhe o seu "cartão de Natal" e retribuo cordialmente os seus bons votos. O que diz sobre a pelagem das mulas é novo para mim, tal como a afirmação sobre o hermafroditismo em traças híbridas. Este último facto parece-me particularmente curioso; e, para fazer uma hipótese muito ousada, estaria inclinado a explicá-lo por reversão à condição primordial de os dois sexos estarem unidos, pois penso que é certo que o hibridismo conduz à reversão.
Mantenho-me razoavelmente bem, mas não tenho muita força e sinto-me muito velho.
CARTA 310. A R. MELDOLA. Down, 2 de fevereiro de 1882.
Lamento muito não poder acrescentar nada à minha nota muito breve, sem ler novamente a obra de Weismann e preparar todo o assunto lendo os meus próprios livros e outros, e não tenho forças para tanto trabalho. Trabalho noutros assuntos há alguns anos e, quando um homem envelhece como eu, é um grande esforço para o cérebro voltar a temas antigos e semi-esquecidos. Não acreditaria facilmente na frequência com que me fazem perguntas de todo o tipo e, ultimamente, tive de dedicar muito tempo a realizar um trabalho que não me dizia respeito, mas que não quis recusar. Tenho, contudo, de traçar uma linha algures, ou a minha vida será uma miséria para mim.
Li o seu prefácio e parece-me excelente. (310/1. "Studies in the Theory of Descent". De A. Weismann. Traduzido e editado por Raphael Meldola; com uma Nota Prefacial de C. Darwin e um Prefácio do Tradutor. Ver Carta 291.) Lamento de muitas formas, incluindo a honra de Inglaterra como país científico, que a sua tradução tenha sido mal vendida até agora. O editor ou você perdem com isso? Se for o editor, embora lamente por ele, faz parte do negócio; mas se você próprio perder, peço-lhe encarecidamente que me permita subscrever uma ninharia, isto é, dez guineus, para as despesas desta obra, que empreendeu por motivos públicos.
CARTA 311. A W. HORSFALL. Down, 8 de fevereiro de 1882.
Na sucessão das Formações mais antigas, as espécies e géneros de trilobites mudam e, depois, extinguem-se todos. Para qualquer pessoa que acredite que os geólogos conhecem o início da vida (isto é, formações contemporâneas com o primeiro aparecimento de criaturas vivas na Terra), sem dúvida que o aparecimento súbito de trilobites perfeitas e outros organismos nos estratos mais antigos conhecidos que contêm vida seria fatal para a evolução. Mas eu, por mim, e muitos outros, rejeitamos completamente tal crença. Já são conhecidas três ou quatro pilhas de estratos discordantes abaixo do Câmbrico; e estes encontram-se geralmente num estado cristalino e podem, outrora, ter estado carregados de restos orgânicos.
Relativamente aos animais e plantas, os esporos locomotores de algumas algas, dotados de cílios, teriam sido classificados como animais se não se soubesse que se desenvolviam em algas.
CARTA 312. A JOHN COLLIER. Down, 16 de fevereiro de 1882.
Devo agradecer-lhe a oferta do seu Art Primer, que li com muito prazer. Algumas partes foram demasiado técnicas para mim, que nunca soube desenhar uma linha, mas interessei-me imenso por toda a primeira parte. Gostaria que pudesse explicar por que razão certas linhas curvas e figuras simétricas dão prazer. Mas não o desprezarão os seus colegas artistas por se mostrar um tão bom evolucionista? Talvez digam que se deve ter paciência com ele, uma vez que se aliou a um homem tão terrível como Huxley. Isto faz-me lembrar que acabei de ler o último volume de ensaios. Por sorte, não tinha lido o de Priestley (312/1. "Science and Culture, and other Essays": Londres, 1881. O quinto ensaio é sobre Joseph Priestley (página 94).), e parece-me o ensaio mais esplêndido que alguma vez li. O sobre o automatismo (312/2. O Ensaio IX (página 199) intitula-se "On the Hypothesis that Animals are Automata, and its history") é maravilhosamente interessante: mais pena tenho eu, pois se estivesse tão bem armado como Huxley, desafiá-lo-ia para um duelo sobre este assunto. Mas sou demasiado sensato para fazer algo do género, pois ele atravessar-me-ia o corpo meia dúzia de vezes com a sua espada afiada e polida antes de eu saber onde estava. Não pretendia ter rabiscado todos estes disparates, mas apenas agradecer-lhe o presente.
Todos os que vi e que viram o seu retrato meu estão encantados com ele. Hei de orgulhar-me, um dia, de me ver suspenso na Linnean Society. (312/3. O retrato pintado pelo Sr. Collier encontra-se na sala de reuniões da Linnean Society.)
CAPÍTULO 1.VI.--DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA, 1843-1867.
CARTA 313. A J.D. HOOKER. Down, terça-feira [12 de dezembro de 1843].
Estou-lhe muito grato pela sua interessante carta. Há muito que desejo, mesmo um esboço tão curto como o que gentilmente me enviou, da geografia botânica do hemisfério sul. Estarei muito curioso por ver os seus resultados em detalhe. Devido à minha total ignorância de Botânica, lamento dizer que não posso responder a nenhuma das perguntas que me faz. Creio que menciono no meu "Journal" que encontrei a minha velha amiga, a faia do sul (não posso dizer positivamente qual a espécie), no cimo da montanha, nas partes sul de Chiloe e ao nível do mar na lat. 45 graus, no Arquipélago de Chonos. Não constituiria a extremidade sul de Chiloe uma boa divisão para si? Presumo, pela coleção de Brydges e Anderson, que Chiloe seja bastante conhecida e que, para sul, comece uma terra incognita. Recolhi algumas plantas entre as Ilhas Chonos. O facto de a faia ser aqui encontrada, a existência de turfa e o aspeto geral da paisagem ligam as Ilhas Chonos e a T. del Fuego. Vi a Alerce (313/1. "Alerse" é o nome local de uma madeira sul-americana, descrita nas "Voyages of the 'Adventure' and 'Beagle'", do Cap. King, página 281, e identificada com alguma dúvida como Thuja tetragona, Hook. ("Flora Antarctica", página 350)) nas montanhas de Chiloe (no continente cresce até um tamanho enorme, e sempre acreditei que Alerce e Araucaria imbricata fossem idênticas), mas tenho vergonha de dizer que me esqueci completamente do seu aspeto. Vi um arbusto semelhante a zimbro na T. del Fuego, mas nada mais lhe posso dizer sobre ele, pois presumo que tenha visto a coleção do Cap. King na posse do Sr. Brown, provisoriamente para o Museu Britânico. Receio que fique muito desapontado com as minhas poucas plantas: uma pessoa ignorante não consegue colecionar; e, além disso, perdi o primeiro e melhor conjunto de plantas alpinas. Por outro lado, espero que as plantas das Galápagos (313/2. Ver "Life and Letters", II., páginas 20, 21, para as notas do Sir J.D. Hooker sobre o início da sua amizade com o Sr. Darwin, e para a carta deste último sobre as plantas das Galápagos terem sido entregues nas mãos de Hooker.) (a julgar pelas observações de Henslow) se revelem mais interessantes do que espera. Por favor, tenha o cuidado de observar se alguma vez marquei as ilhas individuais das Ilhas Galápagos, pelas razões que verá no meu "Journal". Menzies e Cumming estiveram lá, e existem algumas plantas (penso que o Sr. Bentham me disse) na Horticultural Society e no Museu Britânico. Creio que não recolhi plantas em Ascension, pensando que seria bem conhecida.
Não é muito curiosa a semelhança das plantas de Kerguelen Land e do sul da América do Sul? Existe algum exemplo no hemisfério norte de plantas serem semelhantes a distâncias tão grandes? Com agradecimentos pela sua carta e por ter assumido a minha pequena coleção de plantas,
Acredite em mim, meu caro Senhor, seu muito sinceramente, C. DARWIN.
Lembre-se da minha súplica e escreva tanto para ignorantes em botânica como para grandes botânicos. Existe um artigo de Carmichael (313/3. "Some Account of the Island of Tristan da Cunha and of its Natural Productions."--"Linn. Soc. Trans." XII., 1818, página 483.) sobre Tristan d'Acunha, que, devido à falta de observações gerais e comparações, achei [rasgado] ser para mim letra morta. -- Presumo que incluirá esta ilha nas suas perspetivas do hemisfério sul.
P.S. -- Tenho estado a olhar para a minha pobre e miserável tentativa de observações botânico-paisagísticas, e vejo que afirmo que a espécie de faia que é menos comum na T. del Fuego é comum na floresta do Chiloe central. Mas enviar-lhe-ei esta única página do meu diário de rascunhos.
CARTA 314. A J.D. HOOKER. Down, 31 de março (1844).
Levei um tempo vergonhoso a devolver-lhe os documentos, mas tenho estado muito ocupado cientificamente, e não cientificamente a plantar. Interessei-me imenso pelos detalhes sobre as Ilhas Galápagos. Não preciso de dizer que recolhi às cegas e não tentei fazer séries completas, apenas apanhei tudo o que estava em flor, cegamente. A flora dos cumes e das bases das ilhas parece totalmente diferente; pode ajudar-vos a observar se as diferentes ilhas têm espécies representativas que ocupam os mesmos lugares na economia da natureza, saber que recolhi plantas da região inferior e seca em todas as ilhas, i.e., em Chatham, Charles, James e Albemarle (o menos nesta última); e que só consegui ascender à região alta e húmida nas Ilhas James e Charles; e na primeira penso que obtive todas as plantas então em flor. Por favor, tenha isto em mente ao comparar as espécies representativas. (Sabe que Henslow descreveu uma nova Opuntia das Galápagos.) As suas observações sobre a distribuição de grandes géneros mundanos interessaram-me muito; mas esse não era o ponto preciso que eu estava curioso por verificar; não tem relação necessária com a dimensão do género (embora talvez as suas declarações mostrem que tem). Era apenas isto: suponha um género com dez ou mais espécies, habitando as dez principais regiões botânicas, esperaria que todas ou a maioria destas dez espécies tivessem vastas áreas de distribuição (isto é, que fossem encontradas na maioria das partes) nos seus respetivos países? (314/1. Este ponto é discutido numa carta em "Life and Letters", Volume II., página 25, mas não, creio, na "Origin"; para cartas sobre grandes géneros contendo muitas variedades, ver "Life and Letters", Volume II., páginas 102-7, também na "Origin", Edição I., página 53, Edição VI., página 44. Numa carta de 5 de abril de 1844, Sir J.D. Hooker deu a sua opinião: "No geral, creio que muitas espécies representativas individuais de grandes géneros têm vastas áreas, mas não considero o facto como sendo de grande valor, porque a proporção de tais espécies com uma vasta área não é grande comparada com outras espécies representativas do mesmo género cujos limites são confinados."
Pode notar-se que em grandes géneros as espécies têm frequentemente áreas pequenas ("Origin", Edição VI., página 45), e os grandes géneros são mais comummente de vasta área do que o contrário.) Para dar um exemplo, o género Felis encontra-se em todos os países exceto na Austrália, e as espécies individuais abrangem geralmente milhares de milhas nos seus respetivos países; por outro lado, nenhum género de macaco abrange uma parte tão vasta do mundo, e as espécies individuais nos seus respetivos países raramente abrangem espaços vastos. Suspeito (mas não tenho a certeza) que no género Mus (o género mais mundano de todos os mamíferos) as espécies individuais não têm vastas áreas, o que se opõe à minha questão.
Imagino, a partir de um artigo de Don, que alguns géneros de gramíneas (i.e. Juncus ou Juncaceae) estão amplamente difundidos pelo mundo, e certamente muitas das suas espécies têm áreas muito vastas — em suma, parece que a minha questão é se existe alguma relação entre as áreas dos géneros e as das espécies individuais, sem qualquer relação com a dimensão dos géneros. É evidente que um género pode ser amplamente difundido de duas formas: 1.ª, por muitas espécies diferentes, cada uma com áreas restritas; e 2.ª, por muitas ou poucas espécies com áreas vastas. Qualquer luz que pudesse lançar sobre isto, ficar-lhe-ia muito grato. Agradeço também muito amavelmente a sua oferta numa carta anterior de considerar quaisquer outros pontos; e, num futuro próximo, estarei muito grato por uma pequena ajuda, mas não serei impiedoso.
Swainson observou (e Westwood contradisse) que os géneros típicos têm áreas vastas: Waterhouse (sem conhecer estes observadores anteriores) fez-me a mesma observação: sinto uma dúvida louvável e uma falta de inclinação para acreditar em qualquer afirmação de Swainson; mas agora que Waterhouse a observa, estou curioso sobre o ponto. Existe, contudo, tanto de vago no significado de "formas típicas" e não pouca ambiguidade na mera afirmação de "áreas vastas" (pois os zoólogos raramente entram numa aritmética estrita e desagradável, como vocês, botânicos, tão sabiamente fazem) que me sinto muito na dúvida, embora algumas considerações me tentem a acreditar nesta observação. Aqui, novamente, se puder lançar alguma luz, ficar-lhe-ei muito grato. Após as suas gentis observações, não pedirei desculpa por o aborrecer com as minhas vagas questões e observações.
CARTA 315. A J.D. HOOKER. Down, 25 de dezembro [1844]. Feliz Natal para si.
(315/1. A carta seguinte refere-se a notas de Sir J.D. Hooker que não vimos. Embora sejamos, portanto, incapazes de esclarecer muitos pontos referidos, a carta parece-nos, no geral, tão interessante que é impressa com a omissão de apenas uma frase sem importância.
Os assuntos tratados na carta são aqueles que ocupavam a atenção de Hooker em relação à sua "Flora Antarctica" (1844).)
Devo agradecer-lhe mais uma vez por todos os seus documentos, que me interessaram imenso e me surpreenderam. Achei muito difícil encarregar a minha cabeça com todos os seus resultados tabulados, mas sei perfeitamente que isto se deve, em grande parte, a essa cabeça não ser botânica, ajudado pelo facto de as tabelas estarem em manuscrito; penso, contudo, que para um ignorante poderiam ser mais claras; mas, por favor, tenha em mente que isto é muito diferente de dizer que penso que os botânicos devem organizar os seus resultados mais elevados para que os não-botânicos os compreendam facilmente. Dir-lhe-ei como, para mim individualmente, gostaria de ver os resultados trabalhados, e então poderá julgar se isto é aconselhável para o mundo botânico.
Olhando para o globo, as Ilhas Auckland e Campbell, a Nova Zelândia e a Terra de Van Diemen estão tão evidentemente relacionadas geograficamente que eu gostaria, antes de qualquer comparação ser feita com países muito mais distantes, de compreender as suas floras em relação umas às outras; e as do sul em relação ao hemisfério temperado do norte, que presumo ser para todos um padrão de comparação quase involuntário. Para compreender a relação das floras destas ilhas, gostaria de ver o grupo dividido numa metade norte e sul, e saber quantas espécies existem nesta última--
1. Pertencentes a géneros confinados à Austrália, Terra de Van Diemen e norte da Nova Zelândia.
2. Pertencentes a géneros encontrados apenas nas montanhas da Austrália, Terra de Van Diemen e norte da Nova Zelândia.
3. Pertencentes a géneros de distribuição em muitas partes do mundo (isto é, que não contam nenhuma história particular).
4. Pertencentes a géneros encontrados no hemisfério norte e não nos trópicos; ou apenas em montanhas nos trópicos.
Atrevo-me a dizer que tudo isto (na medida em que os materiais atuais permitem) poderia ser extraído das suas tabelas, tal como estão; mas para alguém não familiarizado com os nomes das plantas, isto seria difícil. Senti particularmente a falta de não saber quais dos géneros são encontrados nas terras baixas dos trópicos, ao compreender a relação das floras Antárticas com as Árticas.
Se a flora Fuegiana fosse tratada de forma análoga (e isto mostraria incidentalmente até que ponto as Cordilheiras são uma via principal de géneros), estaria então preparado, de forma muito mais fácil e satisfatória, para compreender as relações da Fuegia com as Ilhas Auckland e, consequentemente, com as montanhas da Terra de Van Diemen. Além disso, os factos maravilhosos da sua íntima relação botânica (entre a Fuegia e as Ilhas Auckland, etc.) sobressairiam mais proeminentemente, depois de as Ilhas Auckland terem sido tratadas primeiro sob a relação puramente geográfica de posição. Uma divisão tripla como a sua levar-me-ia a supor que os três lugares eram um tanto igualmente distantes, e não tão grandemente diferentes em tamanho: a relação da Terra de Van Diemen parece tão comparativamente pequena, e sendo essa relação nas suas plantas alpinas, faz-me sentir que deveria apenas ser tratada como uma subdivisão do grande grupo, incluindo Auckland, Campbell, Nova Zelândia...
...e a Fuegia. Mas, de novo, não sendo botânico, sinto-me um tanto atrevido ao sugerir qualquer coisa sobre o seu arranjo. A sua observação sobre a distribuição da flora antártica, como sendo possivelmente devida a uma ligação antiga e não a uma migração, é uma ideia grandiosa; mas, se a terra tivesse sido contínua, não deveríamos esperar uma maior mistura de espécies? No entanto, mal posso esperar para ler a sua discussão.
Agradeço imensamente a sua carta de 2 de abril; é, como sempre, de extremo valor para mim. Não consigo expressar o quanto lamento ter sido tão negligente ao não responder à sua carta anterior, mas estive, e estou, num estado de saúde tão miserável que escrever é um esforço que evito ao máximo. Estou muito interessado no que diz sobre a flora das ilhas de Kerguelen; sinto que isso deve ser a chave para o enigma de toda a distribuição antártica.
Quanto à questão da "esterilidade", peço-lhe que não se aborreça com a minha impaciência; é apenas o meu zelo por uma terminologia que não prejudique o entendimento. Entendo perfeitamente o seu ponto de vista. A sua opinião sobre a ausência de uma flora alpina nas ilhas do Sul é fascinante; se isso for um facto estabelecido, deve ser uma das leis mais importantes da geografia botânica.
Com respeito aos seus comentários sobre o meu trabalho, não se desculpe; a sua franqueza é exatamente o que eu desejo. Sinto-me encorajado a continuar, apesar da minha sensação de total ignorância. É um alívio saber que a minha falta de conhecimento especializado não me impede de ver as grandes questões que o seu trabalho ilumina.
Quanto às minhas questões sobre as plantas, não se sinta pressionado a responder de imediato; sei o quão ocupado está. Fico imensamente grato por tudo o que tem feito para me esclarecer. A notícia sobre a ida de Falconer para a Índia é, de facto, desoladora; a ciência perderá muito com a sua ausência.
Espero que, em breve, possamos encontrar-nos e conversar sobre estes assuntos com mais calma. Desculpe a brevidade e a desconexão desta nota, mas o meu estado de saúde não me permite mais agora. Com os meus melhores cumprimentos e votos de sucesso contínuo no seu trabalho.
Fui um cão ingrato por não lhe ter agradecido antes o bolo e os livros. As crianças e os seus superiores declararam o primeiro excelente, e Annie quis saber se era o cavalheiro "que brincou connosco assim". Gostaria que estivéssemos a uma distância mais razoável, para que Emma e eu pudéssemos ter visitado Lady Hooker com as nossas felicitações nesta ocasião. Foi muito bom da sua parte incluir ambos os números do "Hort. Journal". Penso que o artigo do Dean Herbert vale bem a leitura. Fui tão extravagante ao ponto de encomendar M[oquin] Tandon (320/2. Provavelmente "Elements de Teratologie Vegetale": Paris, 1841.), pois, embora ainda não tenha encontrado nada de particularmente novo ou surpreendente, descobri que desejava sublinhar muitas passagens para as reler num futuro próximo e, portanto, encomendei o livro. Consequentemente, espero devolver-lhe os seus livros em breve. Enviei as plantas da Ascension por intermédio de Bunsen para Ehrenberg.
Havia muito na sua última e longa carta que me interessou imenso; e estou particularmente satisfeito por se dedicar ao polimorfismo no nosso último e incorreto sentido nas suas obras; vejo que deve ser muito difícil estabelecer qualquer tipo de limite constante para a quantidade de variação possível. Como desejo ardentemente que todas as suas obras estivessem publicadas e completas; para que eu pudesse pensar nelas calmamente. Receio que as Ilhas do Pacífico devam estar muito distantes no futuro. Receio, na verdade, que Forbes esteja a avançar demasiado depressa; mas veremos em breve todos os seus fundamentos, pois ouço dizer que ele está agora a corrigir as provas sobre este assunto; ele tem muitas pessoas que o atacam; vejo que Falconer nunca perde uma oportunidade, e é maravilhoso como Forbes aguenta bem. Que facto notável é a relação botânica entre a África e Java; tal como a descreve agora, sinto-me satisfeito em vez de desgostoso, pois concorda perfeitamente com a distribuição dos mamíferos (320/3. Ver Wallace, "Geogr. Distribution", Volume I, página 263, sobre o "elemento especial oriental ou mesmo malaio" nos mamíferos e aves da África Ocidental.): apenas julgo pelas suas cartas que o Cabo difere ainda mais marcadamente do que eu pensava, do resto da África, e muito mais do que os mamíferos. Fico surpreendido ao verificar quão bem os mamíferos e as plantas parecem concordar na sua distribuição geral. Relativamente à minha forte objeção à linguagem de Aug. St. Hilaire sobre AFFAIBLISSEMENT (320/4. Isto refere-se à sua obra "Leçons de Botanique (Morphologie Végétale)", 1841. Saint-Hilaire explica frequentemente as diferenças morfológicas como devidas a diferenças de vigor. Ver Carta 319.), é talvez pouco racional, e ainda assim ele confessa que algumas das plantas mais vigorosas da natureza têm alguns dos seus órgãos afetados por esta fraqueza — ele não pretende, naturalmente, que tenham sido de outra forma em gerações anteriores — ou que uma planta de crescimento mais vigoroso produza órgãos menos enfraquecidos, e assim falhe na produção da sua estrutura típica. Numa planta em estado natural, será que o corte da seiva tende a produzir botões florais? Sei que acontece em árvores de pomar. Owen tem realizado um trabalho grandioso na morfologia dos vertebrados: o seu braço e mão são partes da sua cabeça, ou melhor, os processos (i.e., costelas modificadas) da vértebra occipital! Ele deu-me uma palestra grandiosa sobre a cabeça de um bacalhau. A propósito, não lhe pareceria monstruoso se, ao falar das mandíbulas, palpos, etc., minúsculos e redutores de um inseto ou crustáceo, alguém dissesse que foram produzidos pelo affaiblissement dos órgãos de locomoção, menos importantes mas maiores. Vejo pela sua carta (embora não suponha que valha a pena referir o assunto) que eu não poderia ter expressado o que queria dizer quando lhe permiti inferir que a regra de Owen, de que os órgãos únicos são de uma ordem superior à dos órgãos múltiplos, se aplicava apenas aos locomotores, etc.; aplica-se a todos, mesmo ao órgão mais importante. Não duvido que ele diria que os placentários possuírem úteros únicos, enquanto os marsupiais têm duplos, é um exemplo desta lei. Acredito, contudo, que na maioria dos casos em que um órgão, como um centro nervoso ou coração, substitui vários, ele aumenta em complexidade; mas parece-me realmente estranho ver, neste caso, eminentes botânicos e zoólogos a partir de bases opostas. Por favor, lembre-se gentilmente sobre a impregnação no botão: nunca (tendo estado atento durante alguns anos) ouvi falar de um caso: desejo há muito saber como era na Subularia, ou algum nome semelhante, que cresce no fundo dos lagos escoceses, e também numa planta herbácea, que vive em água salobra, esqueço-me completamente do nome, perto do Tamisa; botânicos mais velhos duvidavam se era uma Fanerógama. Quando nos encontrarmos, dir-lhe-ei por que duvido desta impregnação por botão.
Estamos atualmente num estado de extrema confusão, pois demolimos todas as nossas dependências e vamos reconstruí-las e alterá-las. Pessoalmente, estou também num estado de extrema confusão, pois a minha cruel esposa persuadiu-me a deixar o rapé por um mês; e estou por isso letárgico, estúpido e melancólico.
Adeus, meu caro Hooker. Sempre seu.
CARTA 321. PARA J.D. HOOKER. Down, 19 de abril [1855].
Obrigado pela sua lista de candidatos à R.S., que me será muito útil.
Pensei bastante nas minhas experiências com sal (321/1. Para um relato das experiências de Darwin sobre o efeito da água salgada na germinação de sementes, ver "Life and Letters", II., página 54. Em abril, ele escreveu para o "Gardeners' Chronicle" pedindo informações, e os seus resultados foram publicados no mesmo jornal, a 26 de maio e 24 de novembro de 1855; também no "Linn. Soc. Journal", 1857.) e penso realmente que valem a pena prosseguir até certo ponto; mas dificilmente vejo a utilidade (pelo menos, a utilidade equivalente ao trabalho enorme) de tentar a experiência na escala imensa sugerida por si. Penso que algumas sementes das ordens principais, ou algumas sementes de cada uma das classes mencionadas por si, com albúmen de diferentes tipos, seriam suficientes para mostrar a possibilidade de um transporte marítimo considerável. Saber se qualquer flora insular específica tinha sido transportada desta forma exigiria que cada espécie fosse examinada. Poderá analisar estas listas impressas e, se puder, marcar com uma cruz vermelha aquelas que sugeriria? Na verdade, receio impor muito mais à sua grande bondade, meu caro Hooker, do que tenho direito; mas foi você quem ofereceu isto, pois nunca pensei pedir-lhe mais do que uma sugestão. Não creio que pudesse gerir mais de quarenta ou cinquenta tipos de cada vez, pois verifico que a água tem de ser renovada dia sim, dia não, pois começa a cheirar horrivelmente: e não penso que o seu plano de pequenos pacotes de cambraia seja bom, pois retém muito ar. Manterei o grande recipiente com água salgada com os quarenta ou cinquenta pequenos frascos, parcialmente abertos, imersos nele, na cave para uma temperatura uniforme. Tenho de plantar ao ar livre, pois não tenho estufa.
Disse-lhe que tinha inserido um aviso no "Gardeners' Chronicle" e, hoje, recebi notícias de Berkeley de que ele já enviou um sortido de sementes para Margate para um amigo colocar em água salgada; por isso suponho que ele acha que a experiência vale a pena, uma vez que assim tomou o assunto em mãos com tanta prontidão. (321/2. O Rev. M.J. Berkeley publicou sobre o assunto no "Gardeners' Chronicle", 1 de setembro de 1855.)
Relendo isto, parece que fiquei ofendido!!! o que não preciso dizer que não é o caso. (321/3. Adicionado depois entre as linhas.)
Posso apenas mencionar que as sementes referidas na minha nota anterior germinaram todas após catorze dias de imersão, exceto as couves, todas mortas, e os rabanetes tiveram a sua germinação atrasada e vários creio que mortos; o agrião continua todo muito vigoroso. Espinafres franceses, aveia, cevada, sementes de alpista, borragem, beterraba germinaram após sete dias de imersão.
É surpreendente que os rabanetes tenham crescido, pois a água salgada estava pútrida a um ponto que não teria acreditado ser credível se não a tivesse cheirado eu mesmo, tal como estava a água com as sementes de couve.
CARTA 322. PARA J.D. HOOKER. Down, 10 de junho [1855].
Se estar completamente interessado nas suas cartas me torna merecedor delas, sou muito merecedor.
Cultivei algumas plantas sensitivas a partir de sementes, mas se puder dispensar-me FACILMENTE uma planta de tamanho moderado, ficarei contente com ela.
Encoraja-me tanto, que continuarei lentamente a salgar sementes. Vejo que não me expliquei bem, ao deixá-lo supor que me opunha a casos como a anterior união da Inglaterra e do Continente; encaro este caso como provado pelos animais, etc., etc.; e, na verdade, seria um facto espantoso se a terra se tivesse mantido tão estável a ponto de não terem estado unidas, com Snowdon elevado 1.300 pés em tempos recentes, etc., etc.
É apenas contra a anterior união com as ilhas vulcânicas oceânicas que sou veemente. (322/1. Ver "Life and Letters", Volume II, páginas 72, 74, 80, 109.) Que caso intrigante parece ser o da Nova Zelândia: a ausência de Leguminosae, etc., etc., não é TÃO fortemente oposta à conexão continental como a qualquer outra teoria? Que facto curioso afirma sobre a distribuição e a baixeza andarem juntas.
A presença de uma rã na Nova Zelândia parece-me um facto bastante forte a favor da conexão continental, pois presumo que a água do mar mataria a desova, mas vou tentar. A desova, verifico, viverá cerca de dez dias fora de água, mas não creio que pudesse possivelmente aderir a uma ave.
O que diz sobre ninguém realizar a criação parece-me muito verdadeiro; mas penso e espero que haja quase tanta diferença entre tentar descobrir se as espécies de um género tiveram um ancestral comum e preocupar-se com a primeira origem da vida, como entre determinar as leis da atração química e a primeira origem da matéria.
Pensei que a carta de Gray lhe tinha chegado aberta e que a tinha lido: verá o que pedi — a saber, habitats das plantas alpinas, mas presumo que não haverá nada de novo para si. Por favor, devolva ambas. Com que agrado Gray aceita o meu pedido, e creio que terei feito um bom serviço se o fizer escrever um artigo sobre a distribuição geográfica das plantas dos Estados Unidos.
Escrevi-lhe uma carta muito longa, contando-lhe alguns dos pontos sobre os quais sentiria curiosidade. Mas pela minha vida, é sublimemente ridículo eu fazer sugestões a tal homem.
Não posso deixar de pensar que o que diz sobre as plantas baixas serem amplamente distribuídas e suportarem melhor condições prejudiciais do que as superiores (mas não será isto muito difícil de demonstrar?) é igualmente favorável ao transporte marítimo, às conexões continentais e a todos os outros meios. Por favor, não suponha que imagino que, se pudesse mostrar que quase todas as sementes poderiam suportar um período quase indefinido de imersão em água do mar, teria feito mais do que um passo EXTREMAMENTE PEQUENO na resolução do problema da distribuição, pois consigo avaliar bem a importância do facto que aponta; e depois as direções das correntes nos tempos passados e presentes têm de ser consideradas!!
Estarei muito curioso para ouvir os resultados de Berkeley na linha da salga.
Relativamente às alterações geológicas, deveria ser um dos últimos homens a subestimá-las depois do meu mapa de ilhas de coral e depois do que vi de elevação na costa da América. Adeus. Espero que as minhas cartas não o incomodem. Mais uma vez, e pela última vez, digo que ficaria extremamente aborrecido se alguma vez me escrevesse contra a vontade ou quando estivesse cansado.
CARTA 323. PARA J.S HENSLOW. Down, 2 de julho [1855].
Muitíssimas graças por tudo o que fez e tão amavelmente promete fazer por mim.
Quer dar a cada uma das meninas (se não forem demasiado grandes e grandiosas) seis pence (pelos quais envio selos), que vão colecionar sementes para mim: a saber, Lychnis, branca, vermelha e cor de carne (se ocorrerem).
...Será que pode ter a amabilidade de as ver antes de serem enviadas, apenas para ter a certeza absoluta de que estão corretas, pois lembre-se da minha ignorância botânica.
Lê o "Gardeners' Chronicle" e reparou em algumas pequenas experiências minhas sobre a salga de sementes? Sementes de aipo e cebola nasceram após oitenta e cinco dias de imersão na água salgada, o que me parece surpreendente e creio que lança alguma luz sobre a ampla dispersão de certas plantas. Ora, ocorreu-me que seria uma forma interessante de testar a probabilidade do transporte marítimo de sementes fazer uma lista de todas as plantas europeias encontradas nos Açores — um arquipélago muito oceânico — recolher as sementes e tentar se suportariam uma imersão bastante longa. Pensa que a mais capaz das suas meninas gostaria de recolher para mim um pacote de sementes de tais plantas açorianas que crescem perto de Hitcham, pagando eu, digamos, 3 pence por cada pacote: poria alguns xelins nos seus bolsos e seria uma vantagem enorme para mim, pois lamento o tempo para recolher as sementes, especialmente porque tenho de aprender as plantas! A experiência parece-me que vale a pena tentar: o que acha? Objetaria oferecer por mim esta recompensa ou pagamento às suas meninas? Teria de selecionar as mais conscienciosas, para que eu não receba sementes erradas. Acabei de comparar as listas e suspeito que não teria muitas das plantas açorianas. Tem, contudo,
Ranunculus repens, Ranunculus parviflorus, Papaver rhoeas?, Papaver dubium?, Chelidonium majus?, Fumaria officinalis?.
Todas estas são plantas açorianas.
Relativamente ao cultivo de plantas, pretendo começar por muito poucas, pois posso achar demasiado trabalhoso. Já tenho há alguns meses prímulas e flores-de-prímula, fortemente adubadas com guano, e com as flores colhidas, e uma flor-de-prímula obrigada a crescer à sombra; e na próxima primavera colherei sementes.
Penso que me compreendeu mal quanto ao meu objetivo ao pedir-lhe para marcar na lista anexa com (x) todas as "espécies próximas" (323/1. Ver Carta 279.), i.e., tais como não pensa serem variedades, mas que, no entanto, são muito estreitamente aliadas; não tem absolutamente nada a ver com o seu cultivo, mas não lhe posso dizer [o meu] objetivo, pois poderia inconscientemente influenciá-lo a marcá-las. Quer passar o seu lápis diretamente sobre todos os nomes daquelas (poucas) espécies das quais não saiba nada. Depois, quando estiver feito, dir-lhe-ei o meu objetivo — não que valha a pena dizer, embora eu próprio esteja muito curioso sobre o assunto. Sei e consigo perceber que a definição de "espécie próxima" é muito vaga e, portanto, não me importaria que a lista fosse marcada por ninguém, exceto por alguém como você.
Perdoe esta longa carta. Agradeço-lhe do fundo do coração por toda a sua assistência.
Meu velho Mestre, Afetuosamente seu, C. Darwin.
Talvez 3 pence não seja suficiente e, se o número de tipos não for muito grande, serão 6 pence por pacote.
CARTA 324. ASA GRAY PARA CHARLES DARWIN.
(324/1. Em resposta à carta de Darwin, 8 de junho de 1855, dada em "Life and Letters", II., página 61.)
Harvard University, Cambridge, E.U.A., 30 de junho de 1855.
A sua longa carta do dia 8 instantâneo é plena de interesse para mim, e seguirei as suas dicas tanto quanto puder. Regozijo-me em fornecer factos a outros para trabalharem na sua relação com questões gerais, e sinto tanto mais o meu dever de o fazer quanto, pela preocupação de espírito e tempo e falta de experiência, sou incapaz de contribuir com investigações originais diretas deste tipo para o avanço da ciência.
O seu pedido no final da carta, que teve hesitação desnecessária em fazer, é exatamente o tipo de pedido ao qual me é fácil responder, pois encontra-se diretamente no meu caminho. Provavelmente sair-me-ia da mente, contudo, na altura que propõe, por isso tratarei dele de imediato, para preencher os intervalos de tempo que me restam enquanto trato de um ou dois alunos. Assim, pego em algumas folhas soltas de um exemplar do "Manual" e marco as "espécies próximas" ligando-as com um parêntese.
Aquelas assim ligadas, algumas delas, eu na revisão uniria sob uma só, muitas mais o Dr. Hooker uniria, e quanto ao resto não seria extraordinário se, em qualquer caso, a descoberta de formas intermédias forçasse a sua união.
Como anotei na página em branco das folhas que lhe envio (através de Sir William Hooker), suponho que, se alargássemos a área, digamos para a da nossa flora da América do Norte, descobriríamos que a proporção de "espécies próximas" para toda a flora aumentaria consideravelmente. Mas aqui falo por palpite. Um dia testá-lo-ei para algumas famílias.
Se tomar para comparação com o que lhe envio a "British Flora", ou a "Flora Germanica" de Koch, ou a "Flora de França" de Godron, e marcar as "espécies próximas" pelo mesmo princípio, encontrará sem dúvida um número muito maior. Claro que não inferirá disto que as duas floras diferem neste aspeto; uma vez que a diferença se deve provavelmente aos factos de que (1) não tem havido aqui tantos observadores empenhados em detetar diferenças; e (2) as nossas espécies, graças principalmente ao Dr. Torrey e a mim próprio, foram mais exaustivamente castigadas. O que passa por uma espécie no "Manual" figuraria em quase qualquer flora europeia como duas, três ou mais, num número muito considerável de casos.
Ao reduzir ousadamente espécies nominais, J. Hooker está a fazer um bom trabalho; mas a sua vocação — tal como a de qualquer outro reformador — expõe-no a tentações e perigos.
Porque demonstrou que a e b estão tão ligadas por formas intermédias que não podemos fazer outra coisa senão considerá-las variações de uma espécie, não podemos concluir que c e d, diferindo muito da mesma forma e no mesmo grau, sejam de uma espécie, antes de ser obtida uma quantidade igual de prova. Isto é, quando dois grupos de indivíduos exibem quaisquer diferenças graves, o ónus da prova da sua origem comum cabe à pessoa que assume esse ponto de vista; e cada caso deve ser decidido pela sua própria prova, e não por analogia, se as nossas conclusões desta forma devem ter um valor real. Claro que temos de saltar frequentemente para conclusões a partir de provas imperfeitas. Gostaria de escrever um ensaio sobre espécies um dia; mas antes de ter tempo para o fazer, à minha maneira trabalhosa, espero que você ou Hooker o façam, e muito melhor. Estou muito contente por estar em conferência com o Hooker e consigo sobre estes assuntos, e penso que podemos, ou melhor, você pode, em poucos anos, resolver a questão sobre se as opiniões de Agassiz ou as de Hooker estão corretas; são certamente muito diferentes.
A propósito disto, muitíssimas graças pelo artigo contendo as suas experiências sobre sementes expostas à água do mar. Por que ninguém pensou em tentar a experiência antes, em vez de tomar como garantido que a água salgada mata as sementes? Farei com que seja quase toda reimpressa no "Silliman's Journal" como uma noz para o Agassiz partir.
CARTA 325. PARA ASA GRAY. Down, 2 de maio [1856?]
Fico imensamente grato por tudo o que tem feito para me esclarecer. A notícia sobre a ida de Falconer para a Índia é, de facto, desoladora; a ciência perderá muito com a sua ausência. Espero que, em breve, possamos encontrar-nos e conversar sobre estes assuntos com mais calma. Desculpe a brevidade e a desconexão desta nota, mas o meu estado de saúde não me permite mais agora. Com os meus melhores cumprimentos e votos de sucesso contínuo no seu trabalho.
Recebi a sua amabilíssima nota de 8 de abril. Na verdade, é um absurdo da minha parte dar-lhe sugestões; mas dar-me-á um prazer real escrever-lhe tal como falo com Hooker, que diz que as minhas perguntas são por vezes sugestivas devido ao facto de eu comparar as áreas de distribuição, etc., em diferentes reinos da Natureza. Não farei mais desculpas sobre a minha presunção; mas dir-lhe-ei apenas (embora eu tenha a certeza de que haverá MUITO pouco de novo naquilo que sugiro e pergunto) os pontos sobre os quais estou muito ansioso por ouvir a sua opinião. Esqueço-me se inclui a América Ártica, mas, se o fizer, para comparação com outras partes do mundo, eu excluiria a região Ártica e a Alpina-Ártica, por pertencerem a uma categoria bastante distinta. Ao excluir as naturalizadas, penso que De Candolle deve estar certo ao aconselhar a exclusão (apresentando uma lista) das plantas encontradas exclusivamente em terrenos cultivados, mesmo quando não se sabe que tenham sido introduzidas pelo homem. Eu daria uma lista das plantas temperadas (se existirem) encontradas na Ásia Oriental, China e Japão, e em nenhum outro lugar. Nada me daria uma ideia melhor da flora dos Estados Unidos do que a proporção dos seus géneros em relação a todos os géneros que se encontram confinados à América; e a proporção dos géneros confinados à América e à Ásia Oriental com o Japão; os géneros restantes seriam comuns à América e à Europa e ao resto do mundo; presumo que seria impossível mostrar qualquer afinidade especial em géneros, por menor que fosse, entre a América e a Europa Ocidental. A América poderia estar relacionada com a Ásia Oriental (excluindo sempre as formas Árticas) por um género que tem as mesmas espécies confinadas a estas duas regiões; ou poderia estar relacionada pelo facto de o género ter espécies diferentes, não sendo o género em si encontrado em nenhum outro lugar. A relação dos géneros (excluindo espécies idênticas) parece-me ser um elemento importantíssimo na distribuição geográfica, muitas vezes ignorado, e presumo que de aplicação mais difícil nas plantas do que nos animais, devido às mais vastas áreas de distribuição das plantas; mas verifico na Nova Zelândia (através de Hooker) que a consideração de géneros com espécies representativas conta a história da relação de forma ainda mais clara do que a identidade das espécies com as diferentes partes do mundo. Gostaria de ver os géneros dos Estados Unidos, digamos 500 (excluindo os Árticos e Alpinos), divididos em três classes, com as proporções apresentadas da seguinte forma:
100/500 géneros americanos;
200/500 géneros do Velho Mundo, mas que não têm quaisquer espécies idênticas em comum;
200/500 géneros do Velho Mundo, mas que têm algumas espécies idênticas em comum;
Supondo que estes 200 géneros incluíssem 600 plantas dos E.U.A., então as 600 seriam o denominador da fração das espécies comuns ao Velho Mundo. Mas estou a alongar-me a um ponto disparatado.
Existe uma discussão interessante em De Candolle (cerca das páginas 503-514) sobre a relação entre o tamanho das famílias e a área de distribuição média das espécies individuais; não posso deixar de pensar, a partir de alguns factos que recolhi muito antes de De Candolle surgir, que ele está no caminho errado ao ter tomado famílias (devido ao facto de incluírem uma diversidade demasiado grande na constituição das espécies), mas que, se ele tivesse tomado géneros, teria descoberto que as espécies individuais em géneros grandes se espalham por uma área maior do que as espécies em géneros pequenos: penso que, se tiver materiais, valeria a pena estudar isto, pois é uma relação muito singular.
No que diz respeito às plantas naturalizadas: existem algumas que sejam sociais na sua região, que não o sejam no seu país de origem? Surpreende-me que a importância disto não tenha impressionado mais De Candolle. Destas plantas naturalizadas, existem algumas ou muitas que sejam mais variáveis, na sua opinião, do que a média das suas plantas dos Estados Unidos? Estou ciente de quão vago isto deve ser; mas De Candolle afirmou que as plantas naturalizadas não apresentam variedades; contudo, serem muito variáveis e apresentarem variedades distintas parece-me um caso bastante diferente: se tivesse a amabilidade de se dar ao trabalho de responder a esta pergunta, ficar-lhe-ia muito grato, quer venha ou não a abordar tais pontos no seu ensaio.
No que diz respeito a tais plantas, que têm os seus limites meridionais dentro da sua área, os indivíduos são alguma vez ou frequentemente raquíticos no seu crescimento ou pouco saudáveis? Tentei em vão encontrar algum botânico que tenha observado este ponto; mas vi algumas observações de Barton sobre as árvores nos Estados Unidos. As árvores parecem, a este respeito, comportar-se de forma bastante diferente das outras plantas.
Seria um ponto muito curioso, mas receio que achasse que está fora do seu ensaio, comparar a lista de plantas europeias na Terra do Fogo (em Hooker) com as da América do Norte; pois, sem criação múltipla, penso que devemos admitir que todas as que estão agora na T. do Fogo devem ter viajado através da América do Norte e, nesse sentido, dizem-lhe respeito.
A discussão sobre plantas sociais (por mais vagos que sejam os termos e os factos) em De Candolle parece-me a melhor que alguma vez vi: dois pontos parecem-me eminentemente notáveis nelas; o facto de serem sociais perto dos seus limites extremos; e, em segundo lugar, que espécies com uma área de distribuição extremamente confinada sejam, ainda assim, sociais onde ocorrem: ficar-lhe-ia infinitamente grato por quaisquer casos, seja por carta ou publicamente, sobre estes pontos, mais especialmente no que diz respeito a uma espécie permanecer ou deixar de ser social nos confins da sua área de distribuição.
Existe um outro ponto sobre o qual, individualmente, lhe ficaria extremamente grato se pudesse dispensar tempo para pensar um pouco e informar-me: a saber, se existem casos da mesma espécie ser mais variável nos Estados Unidos do que noutros países em que é encontrada, ou em diferentes partes dos Estados Unidos? Wahlenberg diz, em termos gerais, que as mesmas espécies, ao irem para sul, tornam-se mais variáveis do que no extremo norte. Estou ainda mais ansioso por saber se algum dos géneros, que tem a maior parte das suas espécies horrivelmente variáveis (como Rubus ou Hieracium) na Europa, ou noutras partes do mundo, é menos variável nos Estados Unidos; ou, no caso inverso, se tem consigo algum género odioso que seja menos odioso noutros países? Qualquer informação sobre este ponto seria uma verdadeira gentileza para comigo.
Suponho que a sua flora é demasiado vasta; mas uma simples lista em colunas próximas, em letra pequena, de todas as espécies, géneros e famílias, numerados consecutivamente, sempre me pareceu muito útil; e Hooker lamenta não ter dado tal lista na introdução da Flora da Nova Zelândia e outras. Tenho a certeza de que lhe dei uma dose de perguntas maior do que a que esperava, e cumpri a minha palavra e tratei-o exatamente como faço com Hooker. Não obstante, se algo me ocorrer durante os próximos dois meses, escreverei livremente, acreditando que me perdoará e não me considerará muito presunçoso.
Como De Candolle mostra bem a necessidade de comparar áreas quase iguais para a proporção de famílias!
Reli esta carta e realmente não vale a pena enviá-la, exceto por minha causa. Vejo que me esqueci, no início, de declarar que me pareceu que os seis tópicos do seu Ensaio incluíam quase todos os pontos que se poderiam desejar e, portanto, que eu tinha pouco a dizer.
CARTA 326. A J.D. HOOKER.
(326/1. A 5 de julho de 1856, Darwin escreveu ao Sir J.D. Hooker:--
"Estou a ficar louco e em desespero por causa da sua maldita flora das ilhas Antárticas. Quer ler a lista de Tristan e ver se as minhas observações sobre ela são minimamente precisas. Não consigo perceber porque considera a vegetação tão fueguiana.")
Down, 8 [de julho de 1856].
Espero que esta nota chegue a tempo de lhe poupar trabalho a um respeito. Sinto-me perfeitamente envergonhado, pois encontro na introdução da Flora da Fuegia (326/2. "Flora Antarctica", página 216. "Embora distando apenas 1.000 milhas do Cabo da Boa Esperança e 3.000 do Estreito de Magalhães, a botânica desta ilha [Tristão da Cunha] está muito mais intimamente aliada à da Fuegia do que à de África." Hooker continua dizendo que apenas Phylica e Pelargonium são formas do Cabo, enquanto sete espécies, ou um quarto da flora, "são nativas da Fuegia ou típicas da botânica sul-americana, e os fetos e Lycopodia exibem uma afinidade ainda mais forte.") uma breve discussão sobre as plantas de Tristan, que, embora marcada [isto é, assinalada a lápis], eu tinha esquecido completamente na altura, e tinha pensado apenas em consultar a introdução da Flora da Nova Zelândia. Foi muito estúpido da minha parte. No meu esboço, sinto-me forçado a escolher os casos mais marcantes de espécies que favorecem a doutrina da criação múltipla, a menos que, de facto, se admitam grandes extensões continentais. Dos muitos casos maravilhosos nos seus livros, o que mais me impressiona é aquela lista de espécies que fez para mim, comuns à Nova Zelândia e à América, e confinadas ao hemisfério sul; e, nesta lista, aquelas comuns ao Chile e à Nova Zelândia parecem-me as mais admiráveis. Copiei-as e incluí-as. Agora prometo não fazer mais perguntas, se me disser um pouco sobre estas. O que quero saber é se algumas ou muitas delas são plantas de montanha do Chile, de modo a trazê-las em algum grau (como as plantas de Chonos) para a mesma categoria que as plantas fueguianas? Vejo que todos os géneros (mesmo Edwardsia, com espécies das Ilhas Sandwich e da Índia) são géneros de vasta distribuição, exceto Myosurus, que parece ser extraordinariamente maravilhoso. Algum destes géneros agarra-se à beira-mar? As outras espécies destes géneros são de vasta distribuição? Seja um bom cristão e não me odeie.
Comecei ontem à noite a reler o seu artigo sobre as Galápagos e, ao meu gosto, é absolutamente admirável: vejo nele alguns dos pontos que achei melhores em A. De Candolle! Tal é a minha memória.
Lyell não quer expressar qualquer opinião sobre extensões continentais. (326/3. Ver Cartas 47, 48.)
CARTA 327. A C. LYELL. Down, 8 de julho [1856].
Muitíssimas graças pelas suas duas notas, e especialmente pelo mapa de Maury: também pelos livros que me vai emprestar.
Lamento que não possa dar qualquer veredito sobre extensões continentais; e infiro que acha que o meu argumento não tem muito peso contra tais extensões; sei que gostaria de poder acreditar. (327/1. Este parágrafo foi publicado em "Life and Letters", II, página 78; refere-se a uma carta (25 de junho de 1856, "Life and Letters", II, página 74) que apresenta os argumentos de Darwin contra a doutrina da "Extensão Continental". Ver Cartas 47, 48.)
Dei uma vista de olhos em Maury (que já tinha visto uma vez antes) e, no que respeita à Madeira & C.ª, devo dizer que a carta me parece contrária a que a extensão de terra explique a introdução de seres orgânicos. A Madeira, as Canárias e os Açores estão tão ligados entre si que eu teria pensado que deveriam estar ligados por algum banco, se as mudanças de nível tivessem estado ligadas à sua relação orgânica. Os Açores deveriam, também, ter mostrado mais ligação com a América. Tinha especulado por vezes se os icebergues poderiam explicar o maior número de plantas europeias e o seu carácter mais setentrional nos Açores, em comparação com a Madeira; mas parece perigoso até que se encontrem rochedos lá. (327/2. Ver "Life and Letters", II, página 112, para uma carta (26 de abril de 1858) na qual Darwin se regozija com a descoberta de rochedos nos Açores e o cumprimento da profecia, que ele estava, de forma característica, meio inclinado a atribuir a Lyell.)
Um dos pontos mais curiosos em Maury é, como me parece, a pequena mudança que cerca de 9.000 pés de elevação súbita causariam no continente visível, e que mudança prodigiosa causaria uma subida de 9.000 pés! Será a diferença devida à denudação durante a elevação? Certamente que 12.000 pés de elevação causariam uma mudança prodigiosa. Acabei de o citar no meu ensaio sobre o gelo que transporta sementes no hemisfério sul, mas isto não servirá em todos os casos. Tive uma semana de trabalho tão árduo a reunir as relações de toda a flora Antártica a partir das admiráveis obras de Hooker. Curiosamente, acabei de terminar, com grande detalhe, a apresentação de provas de arrefecimento nas regiões tropicais durante a época Glaciar, e a consequente migração de organismos através dos trópicos. Há muitas dificuldades, mas, no geral, explica muito. Esta tem sido uma noção favorita minha, quase desde que escrevi sobre rochedos erráticos do sul. Harmoniza-se com a modificação das espécies; e, sem admitir este terrível postulado, a época Glaciar no sul e nos trópicos não se enquadra bem. Sobre a Atlântida, duvido que as Ilhas Canárias estejam muito mais relacionadas com o continente do que deveriam estar, se estivessem anteriormente ligadas por terra contínua.
Hooker, com quem discuti anteriormente a noção de que o mundo ou grandes cinturões dele tenham sido mais frios, embora a princípio visse grandes dificuldades (e as dificuldades são suficientemente grandes), penso que está muito inclinado a adotar a ideia. Com a modificação de formas específicas, explica alguns factos maravilhosamente estranhos na distribuição.
Mas nunca mais pararei se continuar com este assunto, no qual tenho trabalhado, por vezes em triunfo, por vezes em desespero, durante o último mês.
CARTA 328. ASA GRAY A CHARLES DARWIN. Recebida a 20 de agosto de 1856.
Incluo-lhe uma prova da última página, para que possa ver a que montante chega a nossa flora. Os géneros das Criptogâmicas (Fetos até Hepáticas) estão ilustrados em catorze placas densas. De modo que o volume se tornou algo formidável como livro de aulas, para o qual é destinado.
Revi as últimas provas hoje. Os editores publicá-lo-ão algures em agosto. Entretanto, vou tirar umas pequenas férias, que mereci, por pouco que possa dispensar o tempo para isso. E a minha esposa e eu partimos na sexta-feira para visitar a minha mãe e amigos no Oeste de Nova Iorque, e no nosso caminho de volta passarei pela reunião científica em Albany no dia 20, ou mais tarde, apenas para encontrar alguns velhos amigos lá.
Porque não poderia vir, face ao convite urgente feito aos sábios europeus — e passagem gratuita de ida e volta nos vapores? No entanto, creio que ninguém virá. Não virá para o ano, se lhe for enviado um convite especial nos mesmos termos?
Boott enviou-me ultimamente a sua fotografia, que (embora não seja muito perfeita) fico muito contente por ter...
Mas há outra pergunta na sua última carta — uma sobre a qual uma pessoa só pode dar uma impressão — e a minha impressão é que, falando de plantas de uma flora bem conhecida, aquilo a que chamamos variedades intermédias são geralmente menos numerosas em indivíduos do que os dois estados que ligam. Que este seria o caso numa flora onde as coisas são postas como deveriam ser naturalmente, não duvido muito; e quanto mais amplas forem as suas visões sobre as espécies (digamos, por exemplo, com as noções muito latitudinárias do Dr. Hooker), mais claramente isto apareceria. Mas, na prática, duas coisas impedem enormemente qualquer aplicação do facto ou princípio, se tal for. 1. A nossa escolha do que tomar como formas típicas muitas vezes não é livre. Tomamos, por exemplo, para uma delas, a forma particular da qual Lineu, digamos, por acaso recebeu um espécime e sobre a qual [ele] estabeleceu a espécie; e conheço mais do que um caso em que essa é uma forma rara de uma espécie comum; a outra variedade será talvez o extremo oposto — seja a mais comum ou não, ou será o que L. ou [ilegível] descreveu como uma 2.ª espécie. Aqui, várias formas intermédias podem ser as mais abundantes. 2. É exatamente a mesma coisa agora, no que diz respeito aos espécimes que chegam do nosso novo país ocidental. A forma que chega primeiro, e que é descrita e nomeada, determina o carácter específico, e isto permanece durante muito tempo como o tipo, embora, de facto, possa estar longe de ser a forma mais comum. No entanto, de plantas muito bem conhecidas em todos os seus aspetos, consigo pensar em várias das quais reconhecemos duas formas principais, e raramente vemos algo realmente intermédio, como a nossa Mentha borealis, as suas variedades peludas e lisas.
A sua questão anterior sobre a variabilidade das plantas naturalizadas em comparação com outras dos mesmos géneros, não a tinha esquecido, mas não tomei medidas para responder. Ia, futuramente, pegar na nossa lista de plantas naturalizadas e considerá-las — não estava no meu plano fazê-lo ainda. De improviso, só posso dizer que não me parece que as nossas plantas introduzidas sejam geralmente mais variáveis, nem tão variáveis, talvez, como as indígenas. Mas isto é apenas um palpite. Quando receber as minhas folhas da primeira parte do artigo no "Silliman's Journal", lembre-se de que ficarei muito contente com comentários críticos livres; e quanto mais cedo os receber, maior utilidade terão para mim...
Mais um favor. Não fale, peço-lhe, das suas cartas me incomodarem. Lamento imenso que pare de escrever, ou que escreva mais raramente, mesmo que mortificado por descobrir que tão raramente posso dar-lhe a informação que poderia razoavelmente esperar.
CARTA 329. A ASA GRAY. Down, 24 de agosto [1856].
Fico-lhe muito grato pela sua carta, que me tem sido muito interessante. As suas respostas "indefinidas" são talvez a parte não menos valiosa; pois a Botânica tem sido seguida com um espírito muito mais filosófico do que a Zoologia, que quase nunca gosto de confiar em qualquer observação geral em Zoologia sem verificar que os botânicos concordam. Assim, no que diz respeito às variedades intermédias serem raras, encontrei-a posta, como suspeitava, de forma demasiado forte (sem as limitações e dúvidas que aponta) por um muito bom naturalista, o Sr. Wollaston, em relação aos insetos; e se pudesse ser estabelecida como verdadeira, seria, creio eu, um ponto curioso. A sua resposta em relação às plantas introduzidas não serem particularmente variáveis, concorda com uma resposta que o Sr. H.C. Watson me enviou em relação às plantas agrárias britânicas, ou tais (fossem ou não naturalizadas) [que] são agora encontradas apenas em terrenos cultivados. Parece-me muito estranho, sem quaisquer noções teóricas de qualquer tipo, que tais plantas não devessem ser variáveis; mas a evidência parece ser contrária a isso.
Muitos agradecimentos sinceros pelo seu amável convite para os Estados Unidos: na verdade, não há nada de que eu gostasse mais; mas a minha saúde não está, e suponho que nunca estará, suficientemente forte, exceto para a vida mais rotineira e tranquila no campo. Ficarei particularmente contente com as folhas do seu artigo sobre distribuição geográfica; mas é realmente altamente improvável que eu possa fazer quaisquer sugestões.
No que diz respeito à minha observação de que supunha que havia poucas plantas comuns à Europa e aos Estados Unidos, que não variam até às regiões Árticas; foi fundada em bases vagas, e parcialmente na distribuição dos animais. Mas tomei as observações de H.C. Watson (1835) e na tabela no final descobri que, de 499 plantas consideradas comuns ao Velho e ao Novo Mundo, apenas 110 não variavam de um lado ou do outro do Atlântico até à região Ártica. E, ao escrever ao Sr. Watson para perguntar se ele conhecia alguma planta que não variasse para norte da Grã-Bretanha (digamos 55 graus) que fosse comum, ele escreve-me que imagina que existem muito poucas; com a assistência do Sr. Syme, ele encontrou cerca de 20 a 25 espécies nessas circunstâncias, mas muitas delas, por uma razão ou outra, ele considerou duvidosas. Como exemplos, ele especifica-me, com dúvida, Chrysosplenium oppositifolium; Isnardia palustris; Astragalus hypoglottis; Thlaspi alpestre; Arenaria verna; Lythrum hyssopifolium.
Espero que esteja inclinado a calcular para o seu próximo artigo, que número, das suas 321 em comum, não varia até às regiões Árticas. Tais plantas parecem estar expostas a dificuldades muito maiores na difusão. Muitíssimos agradecimentos por toda a sua gentileza e respostas às minhas perguntas.
P.S. — Se algo lhe ocorrer sobre a variabilidade de plantas naturalizadas ou agrárias, espero que seja tão amável de mo deixar saber, pois é um ponto que me interessa imensamente.
CARTA 330. ASA GRAY A CHARLES DARWIN. Cambridge, Mass., 23 de setembro de 1856.
O Dr. Engelmann, de St. Louis, Missouri, que conhecia bem a botânica europeia antes de vir para cá, e que tem sido um observador atento de um modo geral durante vinte anos ou mais neste país, em resposta à sua pergunta que lhe apresentei, disse prontamente que as plantas introduzidas não são particularmente variáveis — talvez não sejam tão variáveis quanto as plantas indígenas em geral.
A dificuldade de responder às suas perguntas, sobre se existem aqui plantas sociais que não o são no Velho Mundo, reside no facto de eu saber tão pouco sobre as plantas europeias na natureza. O que se segue é tudo o que tenho a contribuir. Recentemente, levei Engelmann e Agassiz numa excursão botânica ao longo de meia dúzia de milhas de um dos nossos condados do litoral; quando ambos observaram que nunca tinham visto na Europa, no seu todo, metade da bérberis que viram nessa viagem. Por todo este distrito, pode dizer-se que a B. vulgaris se tornou uma planta verdadeiramente social em campos e matagais negligenciados, e até mesmo penetrando em bosques antigos bastante fechados. Sempre supus que as aves dispersavam as sementes. Mas não estou certo de que muitas delas toquem nas bagas. Pelo menos, estas permanecem nos arbustos durante todo o inverno com a maior abundância. Talvez a bérberis pertença a um país mais quente do que o norte da Europa, e sinta-se mais em casa nos nossos verões soalheiros. Contudo, fora da Nova Inglaterra, parece não se espalhar de todo.
A Maruta Cotula, fide Engelmann, é uma planta dispersa e bastante escassa na Alemanha. Aqui, de Boston a St. Louis, cobre as bermas das estradas e é uma das nossas plantas mais sociais. Mas esta planta é, sem dúvida, nativa de um país mais quente do que o norte da Alemanha.
A erva-de-são-joão (Hypericum perforatum) é uma infestante intrusiva em todas as pastagens montanhosas, etc., e pode ser considerada, com justiça, uma planta social. Na Alemanha não se encontra assim, fide Engelmann.
O Verbascum Thapsus está difundido por todo o país, é vastamente mais comum aqui do que na Alemanha, fide Engelmann.
Suponho que o Erodium cicutarium foi trazido para a América com o gado vindo de Espanha: parece estar amplamente espalhado pela América do Sul fora dos trópicos. Nos EUA atlânticos é muito escasso e local. Mas povoa a Califórnia e o interior do Oregon até ao declive ocidental das Montanhas Rochosas. Fremont menciona-o como o primeiro alimento de primavera para o seu gado quando chegou ao lado ocidental das Montanhas Rochosas. E quase ninguém acreditará em mim quando declaro que é uma planta introduzida. Atrevo-me a dizer que é igualmente abundante em Espanha. Duvido que o seja mais.
Engelmann e eu temos vindo a notar as espécies verdadeiramente indígenas aqui que, ao tornarem-se ruderais ou campestres, estão a aumentar em número de indivíduos em vez de diminuir à medida que o país se torna mais povoado e as florestas são removidas. A lista das nossas plantas selvagens que se tornaram verdadeiras infestantes é maior do que eu supunha, e estas provavelmente aumentaram todas a sua área de distribuição geográfica — pelo menos, multiplicaram-se em número nos Estados do Norte desde a colonização.
Há algum tempo, enviei um exemplar da primeira parte do meu pequeno ensaio sobre as estatísticas (330/1. "Estatísticas da Flora do Norte dos E.U.A." ("Silliman's Journal," XXII. e XXIII.)) das plantas dos nossos Estados do Norte para a Trubner & Co., 12, Paternoster Row, para ser daí enviado para si. Pode ter-se atrasado ou extraviado, por isso envio outro a partir daqui.
Isto é apenas um começo. A amplitude das espécies em latitude deve ser tabulada a seguir — as espécies disjuntas catalogadas (isto é, aquelas que ocorrem em áreas remotas e inteiramente separadas — por exemplo, Phryma, Monotropa uniflora, etc.) — depois, algumas das questões curiosas que sugeriu — o grau de consanguinidade entre as espécies relacionadas do nosso país e de outros países, e a amplitude comparativa das espécies em géneros grandes e pequenos, etc., etc. Agora, vale a pena continuar com esta extensão de detalhes? Não se sabe quanto espaço poderá ocupar. Contudo, afinal de contas, factos em toda a sua plenitude é o que se pretende, e não aqueles reunidos para apoiar (ou mesmo para testar) quaisquer conclusões preconcebidas. Será enfadonho, mas poderá ser útil.
Depois, não tenho tempo para rever devidamente os manuscritos e corrigir lapsos. Para meu vexame, na minha curta lista das nossas espécies alpinas, deixei de fora, de alguma forma inexplicável, duas das mais características — a saber, Cassiope hypnoides e Loiseleuria procumbens. Por favor, adicione-as na página 28.
Há muito a dizer sobre as nossas plantas introduzidas. Mas agora, e por algum tempo, tenho de pensar em assuntos bem diferentes. Pretendo continuar este ensaio no número de janeiro — para o qual os meus manuscritos devem estar prontos por volta do dia 1 de novembro.
Ainda não tentei contá-las; mas é claro que estou disposto a acreditar que três quartos das nossas espécies comuns à Europa se encontrarão distribuídas para norte até às regiões Árticas. Apenas quis dizer que tinha em mente um número que não o faz; penso que o número não será muito pequeno; e pensei que o senhor estava sob a impressão de que muito poucas não se estendiam absolutamente para norte. O caso mais impressionante que conheço é o da Convallaria majalis, nas montanhas da Virgínia e da Carolina do Norte, e não para norte. Creio que já lhe mencionei isto antes.
CARTA 331. PARA ASA GRAY. Down, 12 de outubro [1856].
Recebi ontem a sua amabilíssima carta do dia 23 e as suas "Estatísticas", e dois dias antes outro exemplar. Agradeço-lhe cordialmente por eles. Os botânicos escrevem, claro, para botânicos; mas, no que toca à opinião de um "estranho", penso que o seu artigo é admirável. Li cuidadosamente uma boa quantidade de artigos e obras sobre distribuição geográfica, e só conheço um ensaio (a saber, o "Nova Zelândia" de Hooker) que se aproxima da clareza com que o seu artigo faz um não botânico apreciar o caráter da flora de um país. É maravilhosamente condensado (que trabalho deve ter exigido!). Pergunta se vale a pena dar tais detalhes: na minha opinião, não há literalmente uma palavra a mais.
Agradeço-lhe sinceramente as informações sobre as "plantas sociais" e "variáveis", e igualmente por me ter dado uma ideia sobre a proporção (isto é, 1/4) das plantas europeias que pensa não se estenderem até ao extremo Norte. Esta proporção é muito maior do que eu tinha previsto, pelo que recolhi em conversas, etc.
Voltando às suas "Estatísticas". Atrevo-me a dizer que indicará a quantos géneros (e ordens) pertencem as suas 260 plantas introduzidas. Vejo que incluem 113 géneros não indígenas. Como provavelmente tem uma lista das plantas introduzidas, seria pedir um favor demasiado grande enviar-me, via Hooker ou de outra forma, apenas o número total de géneros e ordens a que as plantas introduzidas pertencem. Estou muito interessado nisto e achei as observações de De Candolle sobre este assunto muito instrutivas.
Nada me surpreendeu mais do que a maior afinidade genérica e específica com o Leste da Ásia do que com o Oeste da América. Pode dizer-me (e prometo não infligir mais nenhuma pergunta) se o clima explica esta maior afinidade? ou é um dos muitos problemas totalmente inexplicáveis na geografia botânica? O Leste da Ásia é tão bem conhecido como o Oeste da América? de modo que o estado do conhecimento permite uma comparação bastante justa? Presumo que seria impossível, mas penso que tornaria num ponto as suas tabelas de amplitudes genéricas mais claras (admiravelmente claras como me parecem) se pudesse mostrar, ainda que grosseiramente, que proporção dos géneros em comum com a Europa (isto é, quase metade) são de distribuição muito geral ou mundial. Tal como os seus resultados se apresentam agora, à primeira vista, a afinidade parece muito forte com a Europa, devido, como presumo, ao facto de quase metade dos géneros incluir muitos géneros comuns ao mundo ou a grandes porções dele. A Europa é assim injustamente exaltada. Não é assim? Se tivéssemos o número de géneros estritamente, ou quase estritamente europeus, poder-se-ia comparar melhor com a Ásia e a América do Sul, etc. Mas atrevo-me a dizer que este é um desejo utópico, devido à dificuldade de dizer que géneros chamar mundiais; nem tenho as minhas ideias de todo claras sobre o assunto, e expressei-as ainda menos claramente do que as tenho.
Estou muito contente por pretender trabalhar a amplitude norte das 321 espécies europeias; pois parece-me, de longe, o elemento mais importante na sua distribuição.
E estou igualmente contente por pretender trabalhar a amplitude das espécies em relação ao tamanho dos géneros — isto é, o número de espécies no género. Tenho tentado fazer isto em alguns casos, mas é loucura para qualquer pessoa que não seja botânico tentar fazê-lo. Devo pensar que De Candolle caiu em erro ao tentar fazer isto para ordens em vez de géneros — por razões com as quais não o incomodarei.
CARTA 332. PARA J.D. HOOKER.
(332/1. O "veredito" referido na carta seguinte foi a opinião de Sir J.D. Hooker sobre o manuscrito de Darwin sobre distribuição geográfica. O primeiro parágrafo já foi publicado em "Life and Letters", II., página 86.)
Down, 4 de novembro [1856].
Agradeço-lhe mais cordialmente do que julgará provável pela sua nota. O seu veredito foi um grande alívio. Pela minha honra, não fazia ideia se diria (e eu sabia que o diria muito gentilmente) que era tão mau, que me teria implorado para queimar tudo. Para a minha própria mente, o meu manuscrito libertou-me de algumas dificuldades, e as dificuldades pareciam-me razoavelmente bem expostas; mas tinha ficado tão atordoado com factos, evidências, raciocínios e opiniões conflituantes — que senti que tinha perdido todo o discernimento. O seu veredito geral é incomparavelmente mais favorável do que eu tinha antecipado.
Muito obrigado pelo seu convite. Tinha decidido, por causa da minha pobre esposa, não ir ao próximo Phil. Club; mas sinto-me tão tentado pelo seu convite, e a minha pobre e querida esposa é tão bondosa a esse respeito, que penso que não resistirei — isto é, se ela não piorar. Viria jantar à mesma hora que antes, se isso lhe conviesse, e se não ouvisse o contrário; e iria embora no comboio das primeiras horas — isto é, por volta das 9 horas. Descobri que o meu trabalho atual me cansa bastante, e faz o meu coração palpitar, por isso tenho de ter cuidado. Mas gostaria tanto de ver Henslow, e igualmente encontrar Lindley se o destino o permitir. Verá se haverá tempo para qualquer crítica em detalhe ao meu manuscrito antes do jantar: não que eu tenha a mínima pressa, pois faltam meses para eu voltar à Distribuição Geográfica; apenas receio que se esqueça de quaisquer comentários.
Não sei se as minhas observações muito triviais sobre os meios de distribuição merecem a sua leitura, mas diverte-me contá-las.
As sementes que a águia tinha no estômago durante dezoito horas pareciam tão frescas que apostaria cinco contra um que todas teriam germinado; mas alguns tipos foram TODOS mortos, e apenas duas aveias, uma semente de alpista, um trevo e uma beterraba nasceram! Ora, eu não me teria importado de jurar que a beterraba não teria sido morta, e teria esperado plenamente que o trevo o tivesse sido. Estas sementes, contudo, foram mantidas durante três dias em pastilhas húmidas, húmidas com suco gástrico, após serem ejetadas, o que teria ajudado a danificá-las.
Ultimamente tenho estado a observar, durante alguns passeios, o excremento de pequenas aves. Encontrei seis tipos de sementes, o que é mais do que esperava. Por último, tive uma perdiz com vinte e dois grãos de terra seca num pé, e para minha surpresa um seixo do tamanho de uma semente de vica; e agora compreendo como isto é possível, pois a ave coça-se, [e as] pequenas penas plumosas fazem uma espécie de emplastro muito tenaz. Pense aos milhões de codornizes migratórias (332/2. Ver "Origem", Edição I., página 363, onde os milhões de codornizes migratórias ocorrem novamente.), e seria estranho se algumas plantas não tivessem sido transportadas através de bons braços de mar.
Falando nisto, acabei de ler o seu curioso artigo sobre a Ilha Raoul. (332/3. "Linn. Soc. Journal." I., 1857.) Isto parece mais um caso de terra contínua, ou talvez de várias ilhas intervenientes, agora perdidas, do que qualquer outro (de acordo com as minhas noções heterodoxas) que tenha visto até agora. A concordância da vegetação parece tão completa com a Nova Zelândia, e apenas com essa terra.
Li o artigo de Salter e mal o consigo digerir. Pergunto-me se as barcaças foram alguma vez usadas para transportar grão e feno para navios. (332/4. Salter, "Linn. Soc. Journal", I., 1857, página 140, "Sobre a Vitalidade das Sementes após Imersão prolongada no Mar." Parece que em 1843 a lama foi raspada do fundo dos canais no Porto de Poole, e transportada para terra em barcaças. Sobre esta lama nasceu uma vegetação diferente da da margem circundante.)
Adeus, meu caro Hooker. Agradeço-lhe da forma mais honesta pela sua assistência — assistência, aliás, agora espalhada por uma dúzia de anos.
P.S. — Quarta-feira. Vejo pela expressão da minha esposa que ela não gosta muito de eu ir, e por isso tenho de renunciar, claro, a este prazer.
Se tiver algo a discutir sobre o meu manuscrito, vejo que poderia chegar aí por volta das 12 horas, e depois poderia regressar no comboio das 2.19 horas, e estar em casa às 5.30 horas, e assim teríamos duas horas de conversa. Mas seria um esforço considerável para mim, e não o empreenderia apenas por prazer, mas fá-lo-ia muito de bom grado pelo bem do meu livro.
CARTA 333. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN. 9 de novembro de 1856.
Terminei a leitura do seu manuscrito, e fiquei muito encantado e instruído. O seu caso é dos mais fortes, e dá-me uma ideia muito mais elevada de mudança do que eu tinha anteriormente; e embora, como sabe, nunca tenha sido muito teimoso sobre a inalterabilidade do tipo específico, nunca me senti tão hesitante sobre espécies antes.
A primeira metade conseguirá expô-la mais claramente quando a polir. Fiz em vários casos alterações a lápis nos detalhes quanto a palavras, etc., para conseguir seguir melhor, — parte dela é leitura bastante árdua. Tenho uma ou duas páginas de notas para discussão, muitas das quais foram respondidas, à medida que avançava no manuscrito, de forma mais ou menos completa. A sua doutrina do arrefecimento dos Trópicos é surpreendente, quando levada ao extremo de sustentar plantas de regiões temperadas frias; e devo confessar que, por muito que eu quisesse que assim fosse, dificilmente consigo digerir manter os géneros tropicais vivos numa estufa tão fria [nota a lápis de C.D., "Não tão fria assim, mas as do norte poderiam estender-se mais para sul se não fossem opostas"]. Ainda assim, devo confessar que todos os seus argumentos a favor podem ser expostos de forma muito mais forte do que o senhor os expõe. Estou mais reconciliado com o transporte por icebergs do que estava, especialmente porque lhe darei qualquer tempo para manter a vitalidade no gelo, e mais do que isso, deixá-lo-ei transportar raízes dessa forma também.
(333/1. A carta acima estava presa à nota seguinte do Sr. Darwin.)
Em resposta a isto, mostre pela semelhança das plantas americanas, europeias e alpino-árticas, que elas viajaram enormemente sem qualquer mudança.
Como as subárticas, temperadas e tropicais estão todas a marchar lentamente em direção ao equador, as tropicais serão as primeiras a ser travadas e angustiadas, de forma semelhante (333/2. Quase ilegível.) as temperadas invadirão...; depois de as temperadas não poderem avançar ou não desejarem avançar mais, as árticas serão travadas e invadirão. As temperadas terão estado muito mais tempo nos Trópicos do que as subárticas. As subárticas terão primeiro de atravessar a [zona] temperada e depois os Trópicos. Penetrar-se-iam entre estranhos, tal como as muitas plantas naturalizadas trazidas pelo homem, por alguma vantagem desconhecida. Mas ainda mais, pois quase todas têm hipóteses de o fazer.
(333/3. O ponto de vista é exposto mais claramente nas cartas seguintes.)
CARTA 334. PARA J.D. HOOKER. Down, 15 de novembro [1856].
Não considerarei todas as suas notas sobre o meu manuscrito durante algumas semanas, até ter terminado o cruzamento; mas não fui capaz de parar de meditar sobre a sua poderosa objeção ao período frio mundial (334/1. Ver Carta 49.), a saber, que MUITO mais espécies temperadas quentes deveriam ter atravessado os Trópicos do que as formas subárticas. Penso realmente que para aqueles que negam a modificação das espécies, isto refutaria absolutamente a minha teoria. Mas, de acordo com as noções que estou a testar — a saber, que as espécies mudam, e que o tempo é um elemento importantíssimo (o que penso que serei capaz de mostrar muito claramente neste caso) — nessa mudança, penso que o resultado seria o seguinte. Algumas das formas temperadas quentes penetrariam nos Trópicos muito antes das subárticas, e algumas poderiam atravessar o equador muito antes de as formas subárticas o conseguirem fazer (isto é, sempre supondo que o frio veio lentamente), e, portanto, estas devem ter estado expostas a novos associados e novas condições muito mais tempo do que as subárticas. Daí eu inferir que deveríamos ter no hemisfério S. temperado quente mais formas representativas ou modificadas, e menos espécies idênticas do que ao comparar as regiões mais frias do N. e S. Expressei isto de forma muito obscura, mas compreenderá, penso eu, o que quero dizer. É um caso paralelo (mas com uma diferença maior) ao das espécies das montanhas do S. da Europa comparado com as plantas árticas, tendo as espécies alpinas do S. Europeu estado isoladas por um período mais longo do que nas ilhas árticas. Se existem muitas espécies toleravelmente próximas nas terras temperadas quentes do S. e N., não sei; como no La Plata, Cabo da Boa Esperança e S. da Austrália comparado com o Norte, não sei. Presumo que seria muito difícil testar isto, mas talvez mantenha isto um pouco presente no seu espírito, pois o seu argumento parece-me, de longe, a dificuldade mais séria que me ocorreu. Todas as suas críticas e aprovações são, em simples verdade, inestimáveis para mim. Imagino que estou correto ao falar nesta nota das espécies em comum ao N. e S. como sendo mais subárticas do que árticas.
Esta carta não requer qualquer resposta. Escrevi-a para me aliviar, e para fazer com que mantenha apenas o seu argumento, sob o ponto de vista da modificação, em mente. Tive esta manhã uma facada muito cruel no lado sobre a minha noção da distribuição dos mamíferos em relação às sondagens.
CARTA 335. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN. Kew, domingo [novembro de 1856].
Escrevo apenas para dizer que aprecio inteiramente a sua resposta à minha objeção sobre a raridade comparativa das formas temperadas quentes do Norte no hemisfério Sul. Certamente safou-se disso dando-lhes mais tempo para mudar, mas como deve admitir que a distância percorrida não é tão grande como a que as árticas têm de percorrer, e os extremos da causa modificadora não tão grandes como os que as árticas sofrem, o resultado deveria ser consideravelmente modificado por isso. Assim: as subárticas têm (1) de viajar duas vezes mais longe, (2) levando o dobro do tempo, (3) sofrendo muito mais influências perturbadoras.
Tudo isto tem de ser confrontado por si, dando às formas temperadas do Norte simplesmente mais tempo. Penso que isto dificilmente se sustentará.
CARTA 336. PARA J.D. HOOKER. Down, 18 de novembro [1856].
Muito obrigado pela sua nota recebida esta manhã; e agora por mais um "contorcionismo". De acordo com as minhas noções, as espécies subárticas avançariam em bloco, avançando de modo a manter o clima quase igual; e, enquanto fizessem isto, não creio que haveria qualquer tendência para a mudança, mas apenas quando um pequeno grupo se visse entre associados estrangeiros. Quando as espécies tropicais recuassem tanto quanto pudessem até ao equador, deter-se-iam, e então a confusão espalhar-se-ia de volta na linha de marcha vinda do extremo norte, e as mais fortes esforçar-se-iam para avançar, etc., etc. (Mas estou a tornar-me bastante poético nos meus contorcionismos). Em suma, ACHO que as temperadas quentes estariam expostas durante muito mais tempo àquelas causas que acredito serem as únicas eficazes na produção de mudança do que as subárticas; mas tenho de pensar mais sobre isto, e dar um bom contorcionismo. Não posso concordar inteiramente com a sua proposição de que, pelo facto de as subárticas terem de viajar duas vezes mais, seriam mais propensas à mudança. Observe as duas jornadas que as árticas fizeram de N. para S. e de S. para N., sem mudança, como se pode inferir, se a minha doutrina estiver correta, pela semelhança das espécies árticas na América e na Europa e nos Alpes. Mas não o vou cansar; mas real e verdadeiramente penso que a sua última objeção não é tão forte quanto parece à primeira vista. Nunca faz uma objeção sem me fazer muito bem. Hurra! uma semente acaba de germinar após 21 1/2 horas no estômago de uma coruja. Isto, de acordo com o cálculo dos ornitólogos, transportá-la-ia sabe Deus quantos quilómetros; mas penso que uma coruja poderia realmente percorrer, numa tempestade, neste tempo, 400 ou 500 quilómetros. Adeus.
Corujas e falcões têm sido frequentemente vistos no meio do Atlântico.
(336/1. Uma carta interessante, datada de 23 de novembro de 1856, ocorre em "Life and Letters", II., página 86, que faz parte desta discussão. Na página 87 ocorre a seguinte passagem: "Terei de discutir e pensar mais sobre a sua dificuldade das formas temperadas e subárticas no hemisfério Sul do que fiz até agora. Mas estou inclinado a pensar que tenho razão (se os meus princípios gerais estiverem corretos), de que haveria pouca tendência para a formação de uma nova espécie durante o período de migração, quer mais curto ou mais longo, embora uma variabilidade considerável possa ter ocorrido.)
CARTA 337. PARA J.D. HOOKER. Down, 10 de dezembro [1856].
É um inconveniente muito cansativo para a minha satisfação ao escrever que, embora omita uma boa parte e tente condensar, cada capítulo atinge um comprimento exorbitante. O meu capítulo atual sobre as causas da fertilidade e esterilidade e sobre o cruzamento natural chegou, de facto, a 100 páginas de manuscrito, e ainda assim não creio ter colocado nada supérfluo...
Tenho sido, nos últimos quinze meses, atormentado e assombrado por moluscos terrestres, que ocorrem em todas as ilhas oceânicas; e pensei que os criacionistas duplos ou os expansionistas continentais tinham aqui uma vitória completa. Os poucos ovos que experimentei afundam-se e morrem. Ninguém duvida que a água salgada lhes seria eminentemente destrutiva; e eu estava realmente em desespero, quando pensei que os experimentaria quando estivessem torpidos; e hoje tirei um monte da água do mar, após exatamente sete dias de imersão. (337/1. Este método de dispersão não é apresentado na "Origem"; parece, portanto, provável que experiências posteriores tenham derrubado a conclusão tirada em 1856. Isto explicaria a satisfação expressa no ano seguinte com a descoberta de outro método, sobre o qual Darwin escreveu ao Sir J.D. Hooker: "A distribuição dos moluscos de água doce tem sido um horrível pesadelo para mim, mas penso que agora sei o caminho. Quando recém-eclodidos são muito ativos, e tive trinta ou quarenta a rastejar no pé de um pato morto; e não podem ser sacudidos, e viverão quinze ou mesmo vinte e quatro horas fora de água" ("Life and Letters", II., página 93). O relato publicado destas experiências está na "Origem", Edição I., página 385.) Alguns afundam-se e outros nadam; e em ambos os casos tive (até agora) um que voltou à vida, o que me espantou e deliciou bastante. Sinto-me como se um peso de mil libras tivesse sido retirado das minhas costas. Adeus, meu caro e bondoso amigo.
Tenho de lhe contar outra das minhas profundas experiências! [Frank] disse-me: "Porque não poderia um pássaro ser morto (por falcão, relâmpago, apoplexia, granizo, etc.) com sementes no seu papo, e este flutuar?" Nem mais nem menos: um pombo flutuou durante trinta dias em água salgada com sementes no seu papo, e elas cresceram esplendidamente; e para minha grande surpresa até as ervilhacas (Leguminosae, tão geralmente mortas pela água do mar), que o pássaro tinha comido naturalmente, cresceram bem. Dirá que gaivotas e cações, etc., comeriam a carcaça, e assim o fariam 999 vezes em cada mil, mas uma poderia escapar: vi pássaros terrestres mortos em detritos marinhos.
CARTA 338. ASA GRAY PARA CHARLES DARWIN.
(338/1. Em resposta à carta de Darwin dada em "Life and Letters", II., página 88.)
Cambridge, Mass., 16 de fevereiro de 1857.
Pretendia ter respondido à sua interessante carta de 1 de janeiro muito antes deste momento, e também à de 24 de novembro, que duvido que tenha alguma vez acusado a receção. Mas depois de ter terminado o meu livro escolar, "Lessons in Botany" — que consumiu tempo muito além do que o seu tamanho pareceria justificar — tive de me dedicar arduamente a uma coleção de pequeno tamanho do Japão — principalmente do Norte do Japão, que acabo de concluir. Como esperava, o número de espécies comuns à América do Norte aumentou consideravelmente nesta coleção, assim como o número de espécies estreitamente representativas nas duas, e um número bastante considerável de espécies europeias também. Enviei os meus manuscritos (embora mal saiba o que será deles), ou remetê-lo-ia a algumas ilustrações. A maior parte das espécies idênticas (do Japão e América do Norte) são daquelas que se estendem até ou pertencem à costa noroeste da América, mas há várias peculiares ao Japão e aos Estados Unidos orientais: por exemplo, o nosso Viburnum lantanoides é uma das espécies de Thunberg. O caso notável da Phryma de De Candolle, sobre o qual ele tanto insiste, acaba por ser, como o Dr. Hooker disse que seria, apenas um caso entre muitos outros do mesmo género. (Hooker trouxe Monotropa uniflora, como sabe, dos Himalaias; e agora, por falar nisso, tenho-a de quase tão longe a sul, i.e., de St. Fee, Nova Granada)...
Bem, nunca pretendi tirar conclusões de todo, e lamento muito que a única em que fui induzido a cair o "irrite" (338/2. "Uma das suas conclusões faz-me gemer, viz., que a linha de conexão das plantas estritamente alpinas é através da Gronelândia. Gostaria imensamente de ver as suas razões publicadas em detalhe, pois isso 'irrita-me' (esta é uma expressão apropriada, não é?) terrivelmente" (Darwin para Gray, 1 de janeiro de 1857, "Life and Letters", II., página 89).) como diz que faz, — a da página 73 do meu segundo artigo: pois se o incomoda não é provável que seja sólida. Naturalmente, não tive a ideia de colocar grande ênfase no facto (à primeira vista tão inesperado para mim) de que um terço das nossas espécies alpinas comuns à Europa não alcança o círculo Ártico; mas a observação que escrevi foi uma inferência improvisada do que vocês, geólogos, parecem ter estabelecido — viz., que as regiões setentrionais devem ter sido muito mais frescas do que são agora — o limite norte da vegetação, portanto, muito mais baixo do que agora — por volta da época em que pareceria provável que as espécies existentes das nossas plantas tivessem sido criadas. De qualquer modo, durante o período Glacial não poderia ter havido plantas fanerogâmicas no nosso continente em qualquer lugar próximo das regiões polares; e parece uma boa regra procurar, em primeiro lugar, a causa ou razão do que agora existe, naquilo que imediatamente o precedeu. Não vejo que a Gronelândia nos pudesse ajudar muito, mas se houve algum intercâmbio de espécies entre a América do Norte e a Europa do Norte naqueles tempos, não seria a comunicação mais provável em latitudes mais baixas do que sobre o polo?
Se, contudo, disser — como pode ter razões muito boas para dizer — que as espécies existentes obtiveram a sua difusão atual antes da época Glacial, não teria resposta. Suponho que tenha de assumir uma antiguidade muito grande para as espécies de plantas a fim de explicar a sua dispersão atual, desde que nos apeguemos — como não se pode deixar de fazer — à ideia do local de nascimento único das espécies.
Estou curioso para ver se, como sugere, se encontraria uma harmonia ou estreita semelhança entre a extensão geográfica neste país das espécies comuns à Europa e aquelas estritamente representativas ou estritamente congéneres com as espécies europeias. Se tiver um pouco de tempo, procurarei os factos: embora, como o Dr. Hooker me diz corretamente, eu não tenha nada que andar a correr atrás de jogos secundários de qualquer espécie, enquanto há tanto que tenho de fazer — muito mais do que provavelmente alguma vez farei — para terminar empreendimentos que comecei há muito tempo.
...Quanto ao seu P.S. Se tiver tempo para me enviar uma lista mais longa dos seus géneros proteanos, direi se parecem ser proteanos aqui. Daqueles que menciona:--
Salix, não sei realmente nada.
Rubus, as espécies norte-americanas, com uma exceção, estão muito claramente marcadas, de facto.
Mentha, temos apenas uma espécie selvagem; essa tem duas formas bastante bem marcadas, que foram tomadas por espécies; uma lisa, a outra peluda.
Saxifraga, não dá qualquer problema aqui.
Myosotis, apenas uma ou duas espécies aqui, e essas muito bem marcadas.
Hieracium, poucas espécies, mas bastante bem marcadas.
Rosa, ao listar um conjunto de espécies nominais, restam-nos quatro; duas delas polimórficas, mas fáceis de distinguir...
CARTA 339. PARA J.D. HOOKER. Down, [1857?]
Deve-se julgar pela nossa própria luz, por mais imperfeita que seja, e como não encontrei outro livro (339/1. "Geographie Botanique" de A. De Candolle, 1855.) tão útil para mim, sinto-me na obrigação de sentir gratidão: sem dúvida que se deve em grande parte à luz concentrada da nobre arte da compilação. (339/2. Ver Carta 49.) Estava ciente de que ele não foi o primeiro a insistir na extensão das Monocotiledóneas. (Não foi R. Brown [com] Flinders?) (339/3. "Voyage to Terra Australis in 1801-3, in H.M.S. 'Investigator'" de M. Flinders; com "Botanical Appendix" por Robert Brown, Londres, 1814.), e imagino que apenas usei a expressão "insistiu fortemente em" — mas é totalmente sem importância.
Se você e eu tivéssemos tempo para desperdiçar, gostaria de rever o seu [de De Candolle] livro e apontar os vários assuntos em que imagino que ele seja original. As suas observações sobre as relações das plantas naturalizadas serão muito úteis para mim; sobre as extensões das grandes famílias pareceram-me boas, embora eu acredite que ele tenha cometido um grande erro ao considerar famílias em vez de grupos menores, como fiquei encantado ao encontrar no último artigo de A. Gray. Mas não vale a pena continuar.
Desejo tanto poder compreender claramente porque é que você não acredita de todo nos meios acidentais de dispersão das plantas. O argumento mais forte de que me consigo lembrar neste instante é o de A. de C., de que plantas de extensão muito vasta são encontradas tão comummente em ilhas como em continentes. É realmente irritante para mim que o imenso contraste na proporção de plantas na Nova Zelândia e na Austrália me pareça um argumento forte para a terra não contínua; e isto não parece pesar minimamente consigo. Gostaria de poder colocar-me no seu estado de espírito. Na Madeira encontro nos livros de Wollaston um caso paralelo ao seu caso da Nova Zelândia — viz., a ausência impressionante de géneros e ordens inteiros agora comuns na Europa, e (como acabei de procurar) comuns na Europa nos períodos Miocénicos. Naturalmente, não posso oferecer qualquer explicação sobre porque é que este ou aquele grupo está ausente; mas se os meios de introdução foram acidentais, então poder-se-ia esperar proporções e ausências estranhas. Quando nos encontrarmos, tente fazer-me ver, mais claramente do que vejo, as suas razões.
CARTA 340. PARA J.D. HOOKER. Down, 14 de novembro [1858].
Fico sinceramente contente por saber que as minhas notas Lyellianas foram da mínima utilidade para si. (340/1. A Medalha Copley foi dada a Sir Charles Lyell em 1858. O Sr. Darwin forneceu ao Sir J.D. Hooker, que fazia parte do Conselho da Sociedade Real, notas para as razões da concessão. Ver Carta 69.) Não creio que a visão esteja exagerada...
A sua carta e listas interessaram-me PROFUNDAMENTE. Primeiro, pelo ponto menos importante, sobre árvores hermafroditas. (340/2. Ver "Life and Letters", II., página 89. Na "Origem", Edição I., página 100, o autor cita o Dr. Hooker no sentido de que "a regra não se aplica na Austrália", i.e., que as árvores não são mais geralmente unissexuais do que outras plantas. Na 6ª edição, página 79, Darwin acrescenta, "mas se a maioria das árvores australianas for dicógama, o mesmo resultado seguir-se-ia como se elas dessem flores com sexos separados".) É o suficiente para me derrubar, contudo dificilmente posso pensar que a América do Norte Britânica e a Nova Zelândia devessem todas ter estado teoricamente corretas por acaso. Tem em Kew algum Eucalyptus ou Mimosa australiana que produza sementes? se assim for, seria muito trabalhoso observar quando o pólen está maduro, e se os tubos polínicos entram no estigma prontamente imediatamente quando o pólen está maduro ou algum tempo depois? embora se o pólen não estiver maduro algum tempo depois da flor abrir, o estigma possa estar pronto primeiro, embora de acordo com C.C. Sprengel este seja um caso mais raro. Escrevi a Muller pela possibilidade de ele poder e querer observar isto.
O seu facto do maior número de plantas europeias (N.B. — Mas refere-se a maior percentagem?) na Austrália do que na América do Sul é espantoso e muito desagradável para mim; pois da América do Norte Ocidental (onde existe quase a mesma flora que no Canadá?) até à Terra do Fogo, há muito mais terra alta contínua do que da Europa para a Tasmânia. Deve ter existido, penso eu, alguma barreira curiosa na Estrada Principal americana: secura do Peru, humidade excessiva do Panamá, ou alguma outra causa maldita, que ou impediu a imigração ou as destruiu desde então. Diz que posso fazer perguntas, e assim o fiz no papel anexo; mas será, naturalmente, uma coisa muito diferente se achará que valem o trabalho de responder.
Posso ficar com as listas agora devolvidas? caso contrário, mandá-las-ei copiar.
Disse que me daria alguns casos de formas australianas e espécies idênticas indo para o norte através das montanhas do Arquipélago Malaio até às Filipinas e Japão; mas se estes estiverem dados no seu "Introduction", isto bastar-me-á. (340/3. Ver "Introductory Essay" de Hooker, página l.)
As suas listas parecem-me maravilhosamente interessantes.
De acordo com as minhas noções teóricas, não estou satisfeito com o que diz sobre as plantas locais no canto sudoeste da Austrália (340/4. Sir Joseph respondeu numa carta sem data: "Obrigado pela sua sugestão. Serei muito cauteloso ao mencionar qualquer conexão entre a flora variada e o solo pobre do S.O. da Austrália... Não é, aliás, apenas que as espécies sejam tão numerosas, mas que estas e os géneros sejam tão malditos e bem marcados. Tem, em suma, um número incrível de géneros e espécies MUITO LOCAIS e BEM MARCADOS amontoados naquele canto da Austrália." Ver "Introductory Essay to the Flora of Tasmania", 1859, página li.), e as sementes não germinarem prontamente: seja cauteloso nisto; considere o lapso de tempo. Não me convence nada. É como os caracóis terrestres confinados de Wollaston em Porto Santo, e confinados aos mesmos pontos desde um período Terciário, devido aos seus poderes lentos de rastejar; e contudo sabemos que outros caracóis com concha povoaram um país inteiro em poucos anos com os mesmos poderes de reprodução, e os mesmos poderes de rastejar, quando as condições foram favoráveis à vida das espécies introduzidas. Hipoteticamente, veria antes o caso como devido a — mas como as minhas noções não são muito simples ou claras, e apenas hipotéticas, não vale a pena infligi-las a si.
Tinha jurado não mencionar o meu eterno Resumo (340/5. A "Origem das Espécies" foi abreviada a partir do MS. de um livro não publicado.) a si novamente, pois tenho a certeza de que o incomodei muito mais do que o suficiente sobre isso; mas como alude à sua publicação prévia, posso dizer que tenho capítulos sobre Instinto e Hibridismo para resumir, que podem levar uma quinzena cada; e sendo os meus materiais para Paleontologia, Distribuição Geográfica e Afinidades menos trabalhados, suponho que cada um deles levar-me-á três semanas, pelo que não terei terminado, no mais cedo, até abril, e então o meu Resumo em volume fará um pequeno livro. Nunca dou mais do que um ou dois exemplos, e passo brevemente por todas as dificuldades, e contudo não consigo tornar o meu Resumo mais curto, para ser satisfatório, do que estou agora a fazer, e ainda assim ele expandir-se-á para um pequeno volume.
CARTA 341. PARA J.D. HOOKER. Down, [novembro?] 27 [1858].
O que diz sobre a relação direta da flora do Cabo com a Austrália é um grande problema para mim. Não será que as terras altas da Abissínia (341/1. Numa carta a Darwin, 21 de dezembro (?), 1858, Sir J.D. Hooker escreveu: "As terras altas da Abissínia não o ajudarão a conectar as floras temperadas do Cabo e da Austrália: faltam-lhes todos os tipos comuns a ambas, e, pior do que isso, a Índia notavelmente carece deles. Proteaceae, Thymeleae, Haemodoraceae, Acacia, Rutaceae, de géneros estreitamente aliados (e em alguns casos espécies), estão amontoados no S.O. da Austrália, e C.B.S. [Cabo da Boa Esperança]: adicione a isto as Epacrideae (que são meros (símbolo de parágrafo) de Ericaceae) e a ausência ou raridade de Rosaceae, etc., etc., e tem uma quantidade [de] semelhança nas floras e dissimilaridade para com a da Abissínia e Índia nas mesmas características que exige uma explicação em qualquer história teórica da vegetação do Sul."), e as montanhas na costa ocidental ligam, em certo grau, as floras extratropicais do Cabo e da Austrália? Para o meu espírito a enorme importância do período Glacial aumenta diária e cada vez mais fortemente. Estou muito contente por ouvir sobre a Austrália S.E. e S.O.: suspeitei depois da minha carta ter ido que o caso deve ser como é. Sabe, naturalmente, que quase a mesma regra se mantém com pássaros e mamíferos. Há vários anos revi nos "Annals of Natural History" (341/2. "Annals and Mag. of Nat. Hist." Volume XIX., 1847, páginas 53-56, uma crítica não assinada de "A Natural History of the Mammalia", por G.R. Waterhouse, Volume I. A passagem referida está na página 55: "O facto de a Austrália do Sul possuir apenas poucas espécies peculiares, tendo aparentemente sido colonizada das costas leste e oeste, é muito interessante; pois acreditamos que o Sr. Robert Brown mostrou que quase a mesma observação é aplicável às plantas; e o Sr. Gould descobre que a maioria dos pássaros destas margens opostas, embora estreitamente aliados, são distintos. Considerando estes factos, juntamente com a presença na Austrália do Sul de depósitos Terciários modernos elevados e de vulcões extintos, parece provável que as margens leste e oeste outrora formassem duas ilhas, separadas uma da outra por um mar pouco profundo, com os seus habitantes genericamente, embora não especificamente, relacionados, exatamente como são os da Nova Guiné e da Austrália do Norte, e que dentro de um período geologicamente recente uma série de convulsões converteu o mar intermédio naquelas planícies desérticas que hoje se sabe estenderem-se desde a costa sul bem para o norte, e que então foram colonizadas das regiões a leste e oeste." Sobre este ponto ver "Introductory Essay to the Flora of Tasmania" de Hooker, página ci, onde as visões de Jukes são discutidas. Para um relato interessante das implicações da submersão de partes da Austrália, ver Thiselton-Dyer, "R. Geogr. Soc. Jour." XXII., No. 6.) a "Mammalia" de Waterhouse, e especulei que estes dois cantos, agora separados por golfo e terra baixa, devem ter existido como duas grandes ilhas; mas é estranho que as produções não se tenham misturado mais; mas concorda com, penso eu, uma regra muito geral na propagação dos seres orgânicos. Concordo com o que diz sobre Lyell; ele aprende mais de viva voz do que lendo.
Henslow acabou de ir embora, e deixou-me num acesso de entusiasmo e admiração pelo seu caráter. Ele é um homem verdadeiramente nobre e bom.
CARTA 342. A G. BENTHAM. Down, 1 de dezembro [1858?].
Agradeço-lhe por ter tido a gentileza de se dar ao trabalho de me escrever sobre plantas naturalizadas. Eu não sabia, ou tinha-me esquecido, do caso do trevo. Como eu gostaria de saber que plantas o trevo substituiu; mas isso exigiria um conhecimento mais preciso de qualquer terreno do que suponho que alguém possua. No caso de árvores serem tão longevas, penso que seria extremamente difícil distinguir entre a propagação verdadeira e a nova de uma espécie, e uma rotação de cultura. Com respeito à sua ideia de plantas viajando para oeste, fiquei muito impressionado com uma observação sua no penúltimo "Linnean Journal" sobre a propagação de plantas da América perto do Estreito de Bering. Não considera que o facto de tantas mais sementes e plantas serem levadas da Europa para a América, do que na direção inversa, explicaria, em certa medida, a relativa escassez de plantas americanas naturalizadas aqui? Embora eu pense que se poderia especular desenfreadamente sobre o facto de as infestantes europeias se terem tornado bem adaptadas a terras cultivadas, durante milhares de anos de cultura, enquanto a terra cultivada seria um novo lar para as infestantes nativas americanas, e elas não seriam, consequentemente, capazes de vencer as suas rivais europeias quando colocadas em competição com elas em terras cultivadas. Eis um pouco de teoria selvagem! (342/1. Ver Asa Gray, "Scientific Papers", 1889, Volume II., página 235, sobre "The Pertinacity and Predominance of Weeds", onde a visão aqui apresentada é adotada. Numa carta a Asa Gray (6 de novembro de 1862), publicada em "Life and Letters", II., página 390, Darwin escreveu: "Não fere o seu orgulho ianque o facto de vos darmos uma tareia tão tremenda? Tenho a certeza de que a Sra. Gray defenderá as vossas próprias infestantes. Pergunte-lhe se elas não são infestantes de uma espécie mais honesta e direta.")
Mas não me sentei com a intenção de rabiscar desta forma; mas sim para lhe pedir um favor. Entreguei ao Hooker uma lista de espécies de Silene, sobre as quais Gartner realizou experiências de cruzamento: agora quero EXTREMAMENTE ter permissão para dizer que tais e tais são consideradas pelo Sr. Bentham como espécies verdadeiras, e tais e tais como sendo apenas variedades. Infelizmente e estupidamente, Gartner não acrescenta o nome do autor às espécies.
Agradeço-lhe sinceramente o que diz sobre o meu livro; mas ficará grandemente desapontado; será dolorosamente hipotético demais. É muito provável que não tenha outra utilidade senão a de coligir alguns factos; embora eu próprio pense ver o meu caminho aproximadamente sobre a origem das espécies. Mas, ai, quão frequente, quão quase universal é num autor persuadir-se da verdade dos seus próprios dogmas. A minha única esperança é que certamente vejo muitas dificuldades de estatura gigantesca.
Se se lembrar de algum caso de uma espécie introduzida a vencer ou a prevalecer sobre outra, ficar-lhe-ia muito grato se me informasse. Creio que a papoila-das-searas comum foi vista como indígena na Sicília. Gostaria de saber se supõe que as plântulas desta planta selvagem enfrentariam uma competição com a nossa própria papoila; quase esperaria que as nossas papoilas estivessem em certo grau aclimatadas e acostumadas aos nossos campos de cereais. Se isto pudesse ser demonstrado ser assim neste e noutros casos, penso que poderíamos compreender por que muitas plantas americanas não treinadas não teriam sucesso nos nossos habitats agrários.
CARTA 343. A J.D. HOOKER.
(343/1. O Sr. Darwin usou o conhecimento da propagação de plantas introduzidas na América do Norte e na Austrália para lançar luz sobre a migração cósmica de plantas. O Sir J.D. Hooker aparentemente objetou que não era justo argumentar a partir de plantas agrárias para outras plantas; ele também adotou uma visão que diferia ligeiramente da de Darwin quanto às condições climáticas e outras condições naturais que favorecem as plantas introduzidas na Austrália.)
Down, 28 de janeiro de 1859.
Obrigado pelos glaciares. É um prazer e um proveito para mim escrever-lhe, e como na sua última tocou nas plantas naturalizadas da Austrália, suponho que não se importaria de ouvir o que posso dizer em resposta. Pelo menos sei que não desejaria que eu me curvasse à sua autoridade, enquanto não estivesse convencido.
Concordo plenamente com o que diz sobre as nossas plantas agrárias estarem acostumadas à terra cultivada, e, portanto, não ser um teste justo. Buckman, penso eu, publicou esta noção com respeito à América do Norte. Com respeito às plantas de beira de estrada, não posso sentir-me tão seguro de que estas devam ser excluídas, pois os animais fazem estradas em muitos países selvagens. (343/2. No relato das plantas naturalizadas na Austrália no "Introductory Essay to the Flora of Tasmania" de Sir J.D. Hooker, 1859, página cvi, muitas das plantas estão marcadas como "Grã-Bretanha--locais baldios", "Europa--campos de cereais", etc. Na mesma lista, as espécies que também invadiram a América do Norte--um grande número--são dadas. Na margem do exemplar de Darwin está rabiscado a lápis: "Muito bom, mostrando quantas das mesmas espécies estão naturalizadas na Austrália e nos Estados Unidos, com climas muito diferentes; oposto à sua conclusão." Sir Joseph supôs que uma causa principal da intrusão de plantas inglesas na Austrália, e não vice-versa, era a grande importação de sementes europeias para a Austrália e o escasso retorno de sementes australianas.)
Procurei agora e encontrei a passagem na carta de F. Muller (343/3. Ferdinand Muller.) para mim, na qual ele diz: "Nos ERMOS da Austrália, algumas perenes europeias estão a 'avançar em progresso seguro', 'não podem ser detidas', etc." Ele dá como exemplos (pelo que suponho que existam outros casos) onze espécies, a saber: 3 Rumex, Poterium sanguisorba, Potentilla anserina, Medicago sativa, Taraxacum officinale, Marrubium vulgare, Plantago lanceolata, P. major, Lolium perenne. Todas estas estão a semear livremente. Agora lembro-me, há muitos anos, de discutir consigo quão curiosamente fácil as plantas se naturalizam em ilhas desabitadas, se os navios sequer lá tocam. Lembro-me de discutirmos sobre embalagens serem abertas com feno velho ou palha, etc. Agora pense em peles e lã (e lã exportada largamente pela Europa), e plantas introduzidas, e amostras de cereais; e devo pensar que se a Austrália tivesse sido o velho país, e a Europa tivesse sido a Botany Bay, muito poucas, muito menos, plantas australianas teriam crescido selvagens na Europa do que agora na Austrália.
O caso parece-me muito mais forte entre o Rio da Prata e a Espanha.
Não obstante, colocarei a minha única frase sobre este ponto, ilustrando a maior migração durante o período Glacial do norte para o sul do que inversamente, muito humildemente e cautelosamente. (343/4. "Origin of Species", Edição I., página 379. Darwin refere-se aos factos dados por Hooker e De Candolle mostrando um fluxo migratório mais forte do norte para o sul do que na direção oposta. Darwin explica isto pelo facto de as plantas do norte terem estado durante muito tempo sujeitas a uma severa competição nos seus lares setentrionais, e terem adquirido um maior "poder dominante" do que as formas do sul. "Exatamente da mesma maneira que vemos hoje em dia que muitíssimas produções europeias cobrem o solo no Rio da Prata, e em menor grau na Austrália, e têm, até certo ponto, vencido as nativas; enquanto pouquíssimas formas do sul se naturalizaram em qualquer parte da Europa, embora peles, lã e outros objetos suscetíveis de transportar sementes tenham sido largamente importados durante os últimos dois ou três séculos do Rio da Prata, e durante os últimos trinta ou quarenta anos da Austrália.")
Fico muito contente por saber que está a fazer um bom progresso com a sua Introdução Australiana. Estou, graças a Deus, a mais de metade do meu capítulo sobre distribuição geográfica, e concluí o resumo da parte Glacial...
CARTA 344. A J.D. HOOKER. Down, 30 de março de 1859.
Muitos agradecimentos pela sua nota agradável. Por favor, guarde o manuscrito geográfico até ter notícias minhas, pois poderei ter de lhe pedir que o envie ao Murray; pois através da intervenção de Lyell espero que ele publique, mas exige ver primeiro o manuscrito. (344/1. "The Origin of Species"; ver uma carta a Lyell em "Life and Letters", II., página 151.)
Discordo do que diz sobre mudarmos o clima do mundo para explicar a "migração de insetos, moscas, etc." NÓS não fazemos nada desse género; pois NÓS baseamo-nos em rochas estriadas, antigas moreias, conchas árticas e mamíferos. Não tenho qualquer teoria sobre a causa do frio, nem mais do que tenho sobre a causa da elevação e submersão; e não vejo razão para não usar o frio, ou a elevação, ou a submersão para explicar quaisquer outros fenómenos, como a distribuição. Penso que, se tivesse espaço e tempo, poderia construir um caso bastante sólido contra quaisquer grandes mudanças continentais desde a época Glacial, e isto levou-me principalmente a abandonar a doutrina de Lyell como insuficiente para explicar todas as mutações do clima.
Achei graça ao testemunho do Museu Britânico. (344/2. Isto refere-se à carta a Murchison (Carta 65), publicada com o testemunho do inquérito de 1858 pelos curadores do Museu Britânico.) Sou levado a dar a minha opinião tão autoritariamente sobre assuntos botânicos!...
Quanto à nossa crença de que a origem das espécies faz qualquer diferença no trabalho descritivo, tenho a certeza de que está incorreta, pois fiz todo o meu trabalho sobre cracas sob este ponto de vista. Apenas lamentei frequentemente não me ser permitido decidir simplesmente se uma diferença era suficiente para merecer um nome.
Fico contente por ouvir falar de Huxley--um homem maravilhoso.
CARTA 345. A J.D. HOOKER. Wells Terrace, Ilkley, Otley, Yorkshire, Quinta-feira [antes de 9 de dezembro de 1859].
Li a sua discussão (345/1. Ver "Introductory Essay", página c. Darwin não recebeu este trabalho até 23 de dezembro, pelo que a referência é às provas tipográficas.), como de costume, com grande interesse. Os pontos são terrivelmente complexos, quase atualmente para lá dos confins do conhecimento. A visão que eu teria considerado talvez como a mais provável (embora dificilmente difira da sua) é que o mundo inteiro, durante as eras Secundárias, era habitado por marsupiais, araucárias (Mem.--Madeira fóssil tão comum deste tipo na América do Sul (345/2. Ver Carta 6, Nota.)), Banksia, etc.; e que estas foram suplantadas e exterminadas na maior área do norte, mas foram deixadas vivas no sul. De onde estas formas muito antigas procederam originalmente parece uma investigação desesperada.
As suas observações sobre a passagem das formas do norte para o sul, e de as formas do sul de nenhum tipo passarem para o norte, parecem-me grandiosas. Admiráveis, também, são as suas observações sobre a luta da vegetação: verifico que o compreendi mal, pois temia diferir de si, o que vejo que dificilmente é o caso. Não posso deixar de suspeitar que atribui demasiado peso ao clima no caso da Austrália. O Rio da Prata parece apresentar factos tão análogos, embora suponha que a naturalização de plantas europeias tenha ocorrido lá numa escala ainda maior do que na Austrália...
Receberá quatro exemplares do meu livro--um para si, e três para os botânicos estrangeiros--em cerca de dez dias, ou antes; isto é, assim que as folhas puderem ser encadernadas em tecido. Espero que não seja demasiado tarde para as suas encomendas.
Quando ler o meu volume, use o seu lápis e marque, para que um dia possamos conversar sobre quaisquer críticas.
CARTA 346. A HUGH FALCONER. Down, 17 de dezembro, [1859].
Enquanto me lembro, deixe-me dizer-lhe que, há anos, lembro-me de ver no Museu da Sociedade Geológica um dente de hipopótamo de Madagáscar: isto, por razões geográficas e todas as outras, deveria ser analisado. Por favor, tome nota deste facto. (346/1. Numa reunião da Sociedade Geológica, a 1 de maio de 1833, foi lida uma carta do Sr. Telfair ao Sir Alex. Johnstone, acompanhando um espécime de rocha conglomerada recente, da ilha de Madagáscar, contendo fragmentos de uma presa e parte de um dente molar de um hipopótamo ("Proc. Geol. Soc." 1833, página 479). Há uma referência a estes restos de hipopótamo num artigo do Sr. R.B. Newton no "Geol. Mag." Volume X., 1893; e na memória do Dr. Forsyth Major sobre o Megaladapis Madagascariensis ("Phil. Trans. R. Soc." Volume 185, página 30, 1894).
Desde que esta carta foi escrita, vários ossos pertencentes a duas ou possivelmente três espécies de hipopótamo foram encontrados em Madagáscar. Ver Forsyth Major, "On the General Results of a Zoological Expedition to Madagascar in 1894-96" ("Proc. Zool. Soc." 1896, página 971).)
Regressámos há uma semana de Ilkley, e fez-me algum bem notável. Em Londres vi Lyell (o pobre homem que "se lançou no seio de duas heresias"--aliás, vi os seus machados de pedra, e como são intensamente interessantes), e ele disse-me que o senhor era muito antagónico às minhas opiniões sobre as espécies. Eu bem sabia que este seria o caso. Devo confessar livremente que as dificuldades e objeções são terríveis; mas não posso acreditar que uma teoria falsa explicasse, como me parece que explica, tantas classes de factos. Alguma vez vê Wollaston? Ele e o senhor concordariam muito bem sobre o meu livro (346/2. "Origin of Species", 1859.)--má sorte para ambos. Se tiver algo de agradável para me dizer, escreva; e se tudo o que puder dizer for muito desagradável, far-lhe-á bem expectorar. E é bem sabido que gosta muito de escrever cartas. Adeus, meu bom e velho amigo e inimigo.
Tome nota sobre o hipopótamo. Se for um cavalheiro ao ponto de escrever, por favor diga-me como é que Torquay se adapta à sua saúde.
(PLACA: DR. ASA GRAY, 1867.)
CARTA 347. A ASA GRAY. Down, 24 de dezembro [1859].
Estive dez semanas no tratamento de água, e no meu regresso há quinze dias através de Londres encontrei um exemplar da sua Memória, e agradeço-lhe sinceramente por ele. (347/1. "Diagnostic Characters of New Species of Phaenogamous Plants collected in Japan by Charles Wright...with Observations upon the Relations of the Japanese Flora to that of North America and of other parts of the Northern Temperate Zone" ("Mem. American Acad. Arts and Sci." Volume VI., página 377, 1857).) Não a li, e não poderei fazê-lo muito cedo, pois estou muito sobrecarregado de trabalho, e o meu estômago ficou quase tão mau como sempre.
Com respeito à discussão sobre o clima, peço-lhe que acredite que nunca me coloquei um momento sequer em competição com Dana; mas quando alguém pensou sobre um assunto, não pode evitar formar alguma opinião. O que escrevi ao Hooker esqueço-me, depois de ler apenas algumas folhas da sua Memória, que vi que seriam cheias de interesse para mim. Hooker pediu-me para lhe escrever, mas, como lhe disse, não me atreveria a expressar-lhe uma opinião sem uma deliberação cuidadosa. O que ele escreveu não sei: eu tinha visto anteriormente, há vários anos (por quem, esqueço-me), alguma especulação sobre um período mais quente nos Estados Unidos após o período Glacial; e tinha consultado Lyell, que parecia duvidar muito, e o julgamento de Lyell é realmente admiravelmente cauteloso. Os argumentos avançados no seu artigo e na sua carta parecem-me dificilmente suficientes; não que eu ficasse de todo triste por admitir este período mais quente subsequente e intercalado--quanto mais mudanças, melhor, penso eu. Por outro lado, não acredito que a introdução das formas do Velho Mundo no Novo Mundo após o período Glacial sirva para as formas modificadas ou representativas nos dois Mundos. Houve demasiada mudança em comparação com a pouca mudança das formas alpinas isoladas; mas verá isto no meu livro. (347/2. "Origin of Species" (1859), Capítulo XI., páginas 365 e seguintes.) Posso apenas fazer algumas observações sobre por que, à primeira vista, não atribuo muito peso ao argumento na sua carta sobre o clima mais quente. Primeiro, sobre o nível da terra ter sido mais baixo após o período Glacial, como evidenciado pelo todo, etc., duvido que o conhecimento meteorológico seja suficiente para esta dedução: virando-nos para o hemisfério sul, poderia argumentar-se que uma maior extensão de água tornava a temperatura mais baixa; e quando grande parte da terra setentrional era mais baixa, estaria coberta pelo mar e a intermigração entre o Velho e o Novo Mundo teria sido travada. Segundo, duvido que qualquer inferência sobre a natureza do clima possa ser deduzida de espécies extintas de mamíferos. Se o boi-almiscarado e o veado de grande porte dos seus Barren-Grounds fossem conhecidos apenas por ossos fósseis, quem se teria aventurado a supor o clima excessivamente frio sob o qual viviam? Com respeito ao alimento dos grandes animais, se se interessa pelo assunto, quer consultar a minha discussão sobre este tema, parcialmente no que respeita ao Elephas primigenius no meu "Journal of Researches" (Murray's Home and Colonial Library), Capítulo V., página 85. (347/3. "A firme convicção da necessidade de uma vegetação possuindo um caráter de luxúria tropical para sustentar tais animais grandes, e a impossibilidade de conciliar isto com a proximidade de congelação perpétua, foi uma causa principal das várias teorias de revoluções súbitas de clima... Estou longe de supor que o clima não tenha mudado desde o período em que estes animais viveram, que agora jazem enterrados no gelo. No momento, apenas desejo mostrar que, no que diz respeito apenas à quantidade de alimento, os antigos rinocerontes poderiam ter vagueado pelas estepes da Sibéria Central mesmo na sua condição atual, assim como os rinocerontes e elefantes vivos pelos karoos da África do Sul" ("Journal of Researches", página 89, 1888).) Neste país, inferimos a partir dos restos de Elephas primigenius que o clima no período do seu enterramento era muito severo, como parece ser confirmado pela sua cobertura lanuda, pela natureza dos depósitos com fragmentos angulares, pela natureza das conchas co-enterradas, e pela coexistência do boi-almiscarado. Eu tinha anteriormente deduzido de Lyell que a posição relativa do Megatherium e do Mylodon com respeito aos depósitos Glaciais não tinha sido bem estabelecida; mas talvez tenha sido recentemente. Tais são as minhas razões para ainda não admitir o período mais quente após a época Glacial; mas ouso dizer que posso estar completamente errado, e não ficarei de todo triste por provarem que estou.
Lerei certamente o seu ensaio com cuidado, pois vi apenas um fragmento até agora, e muito provavelmente algumas partes, que não conseguia compreender claramente anteriormente, ficarão bastante claras.
CARTA 348. A J.D. HOOKER. Down, [26 de dezembro, 1859].
Acabei de ler com intenso interesse até à página xxvi (348/1. Para a impressão de Darwin sobre o "Introductory Essay to the Tasmanian Flora" como um todo, ver "Life and Letters", II., página 257.), isto é, até onde trata da própria Flora Australiana; e essa última parte lembro-me de considerar a mais importante nas provas tipográficas. Ou alterou bastante, ou eu não vi tudo ou estava cego, pois fiquei muito mais interessado com toda a primeira parte do que estava antes--não que eu não gostasse dela no início. Tudo me parece muito claramente escrito, e fiquei bloqueado apenas numa frase. Penso que, no geral, gosto mais da discussão geológica, ou melhor, paleontológica: parece-me excelente, e admiravelmente cautelosa. Concordo com tudo o que diz, tanto quanto a minha falta de conhecimento especializado me permite julgar.
Não tenho críticas de qualquer importância, mas gostaria de ter mais factos num ou noutro lugar, sobre os quais não perguntarei. Discordo um pouco da justiça da sua comparação de áreas em ascensão e submersão (348/2. Hooker, op. cit., página xv, parágrafo 24. A visão de Hooker era que as ilhas em submersão "contêm comparativamente menos espécies e menos tipos genéricos peculiares do que aquelas que estão em ascensão." No exemplar de Darwin do Ensaio está escrito na margem da página xvi: "Duvido de todo o caso."), pois no Oceano Índico compara terra vulcânica com ilhas exclusivamente de coral, e estas últimas são muito pequenas em área e têm solo muito peculiar, e durante a sua formação é provável que tenham sido totalmente submersas, talvez muitas vezes, e reabastecidas com plantas existentes. No Pacífico, a ignorância sobre as Marianas e Carolinas e outras ilhas principais quase impede a comparação (348/3. A ilha Gambier seria um caso interessante. [Nota no original.]); e será correto incluir ilhas americanas como Juan Fernandez e as Galápagos? Em ilhas tão altas e provavelmente antigas como Sandwich e Tahiti, não pode fazer muita diferença na flora se elas submergiram ou emergiram alguns milhares de pés nos últimos tempos.
Desejo que pudesse desenvolver a sua noção de certas partes dos Trópicos terem permanecido quentes, enquanto outras partes foram arrefecidas; tentei este esquema na minha mente, e pareceu falhar. No geral, gosto muito de tudo o que li da sua Introdução, e não posso duvidar que terá grande peso em converter outros botânicos da doutrina da criação imutável. Que quantidade de matéria existe numa das suas páginas!
Há muitos pontos que desejo muito discutir consigo.
Como desejo que pudesse elaborar as floras do Pacífico: lembro-me de há eras ter lido parte do seu manuscrito. Em Paris deve haver, penso eu, materiais das viagens francesas. Mas de todos os lugares do mundo, gostaria de ver uma boa flora das ilhas Sandwich. (348/4. Ver Hillebrand, "Flora of the Hawaiian Islands", 1888.) Subscreveria 50 libras para qualquer coletor que fosse para lá trabalhar nas ilhas. Não compensaria a um coletor ir para lá, especialmente se ajudado por alguma subscrição? Seria uma ocasião justa para pedir auxílio à subvenção governamental da Royal Society. Creio que é o grupo mais isolado do mundo, e as próprias ilhas bem isoladas umas das outras.
CARTA 349. A ASA GRAY. Down, 7 de janeiro [1860].
Acabei de ler a sua memória sobre o Japão (349/1. "Diagnostic Characters of New Species of Phaenogamous Plants collected in Japan by Charles Wright. With observations upon the Relations of the Japanese Flora to that of North America, etc.: 1857-59."--"Memoirs of Amer. Acad." VI.), e devo agradecer-lhe pelo extremo interesse com que a li. Parece-me um caso de distribuição deveras curioso; e como argumenta muito bem, e coloca o caso por analogia na alta probabilidade de centros únicos de criação. Esse grande homem Agassiz, quando chega a raciocinar, parece-me tão grande ao adotar uma visão errada como é grande a observar e classificar. Um dos pontos que mais me impressionou como notável e inexplicável na sua memória é o número de géneros monotípicos (ou quase isso) entre as formas representativas do Japão e da América do Norte. E quão singular é a preponderância de espécies idênticas e representativas na América Oriental, em comparação com a Ocidental. Não possuo um bom mapa que mostre quão largo é o terreno moderadamente baixo no lado oeste das Montanhas Rochosas; nem, claro, sei se todo o território baixo ocidental foi estudado botanicamente; mas ocorreu-me, ao olhar para os mapas que tenho, que a área oriental deve ser maior do que a ocidental, o que explicaria, em certa pequena medida, a preponderância no lado oriental das espécies representativas. Existe alguma verdade nesta suspeita? A sua memória faz-me maravilhar e refletir. Confesso que não sou capaz de entender bem a sua Geologia nas páginas 447, 448; mas provavelmente não se importaria de ouvir as minhas dificuldades, e por isso não o incomodarei com elas.
Fiquei tão triste ao receber uma carta de Dana, em Florença, dando-me uma notícia muito má (embora melhorada) sobre a sua saúde.
CARTA 350. A T.H. HUXLEY. 15, Marine Parade, Eastbourne, 1 de novembro [1860].
A sua nota foi maravilhosamente interessante. O seu termo, "homem pitecoide", é um artigo e uma teoria por si só. Como espero que o crânio da nova Macrauchenia tenha chegado. É grandioso. Devolvo a carta de Hooker, com muitos agradecimentos. A ação glacial no Líbano é particularmente interessante, considerando a sua posição entre a Europa e o Himalaia. Fico cada vez mais convencido de que a minha doutrina do período Glacial mundano está correta (350/1. Na 1.ª edição da "Origem", página 373, Darwin argumenta a favor de um período Glacial praticamente simultâneo em todo o globo. Na 5.ª edição, 1869, página 451, adotou as opiniões do Sr. Croll sobre a alternância de períodos frios nos hemisférios norte e sul. Uma modificação interessante da teoria do período Glacial mundano é dada em "The Naturalist in Nicaragua", de Belt, 1874, página 265. As opiniões do Sr. Belt são discutidas em "Geogr. Distribution", de Wallace, 1876, Volume I., página 151.), e que é o mais importante de todos os fenómenos recentes no que diz respeito à distribuição de plantas e animais. Espero que a sua Revista (350/2. A história da fundação da "Natural History Review" é dada em "Life and Letters" de Huxley, Volume I., página 209. Ver Carta 107.) progrida favoravelmente. Estou exausto e não me sinto bem, por isso escrevo brevemente; pois tivemos nove dias de tanta miséria quanto um homem pode suportar. A minha pobre filha sofreu penosamente, e dia e noite necessitou de três pessoas para a apoiar. A crise de perigo extremo passou, e ela está a recuperar surpreendentemente, mas os médicos ainda têm dúvidas sobre o desfecho final. Mas o sofrimento era tão penoso que quase cheguei a desejar vê-la morrer. Ela está calma agora. Quando estará apta a viajar para casa, não sei. Espero sinceramente que a Sra. Huxley se mantenha bastante bem. O trabalho que a maioria dos homens tem de fazer é uma bênção para eles em casos como o seu. Deus o abençoe.
Sir H. Holland veio aqui vê-la, e foi maravilhosamente gentil.
CARTA 351. A C. LYELL. Down, 20 de novembro [1860].
Concordo plenamente na admiração pelo Ensaio de Forbes (351/1. "Memoir of the Geolog. Survey of the United Kingdom", Volume I., 1846.), contudo, pela minha vida, penso que fez, em certos aspetos, tanto mal quanto bem. Aqueles que acreditam em vastas extensões continentais nunca investigarão os meios de distribuição. Bons céus, vejam o mapa da Atlântida de Heer! Achei a sua divisão e linhas de viagem das plantas britânicas muito desenfreadas, e sem quase qualquer fundamento. Concordo plenamente com o que diz sobre a quase certeza de a época Glacial ter destruído as saxífragas espanholas, etc., na Irlanda. (351/2. Ver Carta 20.) Lembro-me bem de discutir isto com Hooker; e sugeri que um clima ligeiramente diferente ou mais equável e húmido poderia ter permitido (talvez com alguma extensão de terra) que as plantas em questão crescessem ao longo de todas as costas ocidentais entre a Espanha e a Irlanda, e que posteriormente se extinguiram, exceto nos pontos atuais sob um clima oceânico. A ponta de Devonshire tem agora um toque do mesmo caráter.
Contesto neste caso particular o transporte pelo gelo de Forbes. O assunto saiu um pouco da minha mente, e não vale a pena olhar para a minha discussão manuscrita sobre a migração durante o período Glacial; mas lembro-me de que a distribuição dos mamíferos, e a relação muito regular das plantas alpinas com pontos a norte (aludida na "Origem"), pareciam indicar terra contínua no final do período Glacial.
CARTA 352. A J.D. HOOKER. Down, 18 de março [1861].
Tenho recordado os meus pensamentos sobre a questão de saber se o período Glacial afetou o mundo inteiro contemporaneamente, ou apenas uma cintura longitudinal após a outra. Para meu desgosto, as minhas antigas razões para rejeitar a última alternativa parecem-me suficientes, e gostaria muito de saber o que pensa. Suponhamos que o frio afetou as duas Américas antes ou depois do Velho Mundo. Deixemo-lo avançar primeiro a partir do norte ou do sul até que os Trópicos se tornassem ligeiramente arrefecidos, e algumas formas temperadas alcançassem a Silla de Caracas e as montanhas do Brasil. Diria, suponho, que quase todas as produções tropicais seriam mortas; e que posteriormente, após o frio ter moderado, plantas tropicais imigraram das outras partes não arrefecidas do mundo. Mas isto é impossível, a menos que se crie uma ponte sobre as partes tropicais do Atlântico — uma doutrina que sabe que não posso admitir, embora em certos aspetos deseje que pudesse. Oswald Heer não faria nada com tal ponte. Quando o período Glacial afetou o Velho Mundo, não seria um pouco imprudente supor que o meridiano da Índia, o Arquipélago Malaio e a Austrália foram refrigerados, e a África não? Mas concedamos que assim foi; concedamos a ponte sobre o Mar Vermelho (embora um tanto oposta à comunicação quase certa anterior entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo); concedamos que a Arábia e a Pérsia eram húmidas e aptas para a passagem de plantas tropicais: contudo, apenas olhe para o globo e imagine o frio a chegar lentamente, e as plantas sob os trópicos a viajar em direção ao equador, e parece-me altamente improvável que pudessem escapar da Índia para as regiões ainda quentes da África, pois teriam de ir para oeste com um pouco de norte em torno das margens setentrionais do Oceano Índico. Assim, se a África fosse refrigerada primeiro, haveria considerável dificuldade em as produções tropicais da África escaparem para as regiões ainda quentes da Índia. Aqui, novamente, teria de construir uma ponte sobre o Oceano Índico dentro de um período tão recente, e não na linha do Arquipélago das Laquedivas. Se supuser que o frio viaja do polo sul para o norte, não nos ajudará, a menos que suponhamos que os países imediatamente a norte do trópico norte estavam ao mesmo tempo mais quentes, para permitir a livre passagem da Índia para a África, o que me parece uma hipótese demasiado complexa e sem apoio para admitir. Portanto, não vejo que a suposição de diferentes cinturas longitudinais do mundo serem arrefecidas em diferentes períodos nos ajude muito. A suposição de o mundo inteiro ser arrefecido contemporaneamente (mas talvez não de forma igual, sendo a América do Sul menos arrefecida do que o Velho Mundo) parece-me a hipótese mais simples, e não acrescenta à grande dificuldade de todas as produções tropicais não terem sido exterminadas. Ainda penso que algumas espécies de cada género tropical ainda existente devem ter sobrevivido nos pontos mais quentes ou mais favoráveis, quer secos ou húmidos. As produções tropicais, embora muito angustiadas pela queda de temperatura, estariam ainda sob as mesmas condições de duração do dia, etc., e estariam ainda expostas a quase os mesmos inimigos, como insetos e outros animais; enquanto as produções temperadas invasoras, embora encontrando uma temperatura favorável, teriam algumas das suas condições de vida novas, e estariam expostas a muitos novos inimigos. Mas admito plenamente que a dificuldade é muito grande. Não vejo a força total da sua dificuldade quanto a não haver causa conhecida para uma mudança mundana de temperatura. Não conhecemos a causa das elevações e depressões continentais, contudo admitimo-las. Pode acreditar, olhando apenas para a Europa, que o frio intenso, que deve ter prevalecido quando glaciares tão gigantescos se estendiam nas planícies do Norte da Itália, se devia meramente a posições alteradas de terra dentro de um período tão recente? Eu não posso. Seria uma história demasiado longa, mas penso que poderia ser claramente demonstrado que todos os nossos continentes existiram aproximadamente nas suas posições atuais muito antes do período Glacial; o que parece oposto a tais mudanças geográficas gigantescas necessárias para causar uma queda de temperatura tão vasta. O período Glacial perdurou na Europa e na América do Norte enquanto o nível da terra oscilou em altura plenamente 3000 pés, e isto não parece como se o nível alterado fosse a causa do período Glacial. Mas escrevi uma discussão desmesuradamente longa. Não me responda longamente, mas envie-me algumas palavras a seu tempo sobre o assunto.
Mandei copiar isto, para que não o aborrecesse demasiado lê-lo.
Mais algumas palavras. Quando as produções equatoriais foram terrivelmente angustiadas pela queda de temperatura, e provavelmente pela humidade alterada, e pelos números proporcionais alterados de outras plantas e inimigos (embora pudessem favorecer algumas das espécies), devo admitir que todas seriam exterminadas se produções exatamente ajustadas, não apenas para o clima, mas para todas as condições das regiões equatoriais durante o período Glacial existissem e pudessem ter imigrado para todo o lado. Mas as produções das regiões temperadas teriam provavelmente encontrado, sob o equador, nos seus novos lares e solos, condições consideravelmente diferentes de humidade e periodicidade, e teriam encontrado um novo conjunto de inimigos (uma consideração muito importante); pois parece haver boas razões para acreditar que os animais não foram capazes de migrar quase na medida em que as plantas migraram durante o período Glacial. Daí que me possa convencer de que as produções temperadas não substituiriam e exterminariam inteiramente as produções dos trópicos arrefecidos, mas misturar-se-iam parcialmente com elas.
Estou longe de estar satisfeito com o que rabisquei. Concluo que deve ter havido um período Glacial mundano, e que as dificuldades são muito as mesmas quer suponhamos que foi contemporâneo em todo o mundo, quer que cinturas longitudinais foram afetadas umas após as outras. Pelo amor de Deus, perdoe-me!
CARTA 353. A H.W. BATES. 26 de março [1861].
Fiquei particularmente impressionado com as suas observações sobre o período Glacial. (353/1. Nas suas "Contributions to the Insect Fauna of the Amazon Valley", "Trans. Entom. Soc." Volume V., página 335 (lido a 24 de novembro de 1860), o Sr. Bates discute a migração de espécies das regiões equatoriais após o período Glacial. Chega a um resultado que, assinala, "é altamente interessante por incidir sobre a questão de até que ponto a extinção é provável ter ocorrido nas regiões equatoriais durante a época Glacial."..."O resultado é claro, de que sempre houve (pelo menos ao longo de imensas épocas geológicas) uma fauna equatorial rica em espécies endémicas, e que a extinção não pode ter prevalecido em qualquer extensão dentro de um período de tempo tão comparativamente moderno como a época Glacial na geologia." Esta conclusão não apoia a visão expressa na "Origem das Espécies" (Edição I., capítulo XI., página 378) de que a refrigeração da terra se estendeu às regiões equatoriais. (Bates, loc. cit., páginas 352, 353.)) Parece-me ter colocado o caso com clareza admirável e com força esmagadora. Fiquei completamente abalado com o golpe, e não sei o que pensar. Ultimamente surgiram vários factos que me levam a acreditar mais firmemente que o período Glacial afetou as regiões equatoriais; mas não posso dar resposta ao seu argumento, e estou completamente num impasse. Por um acaso estranho, estive apenas há poucos dias a discutir este assunto, em relação às plantas, com o Dr. Hooker, que acredita até certo ponto, mas insistiu fortemente na pouca extinção aparente nas regiões equatoriais. Afirmei numa carta há alguns dias que os trópicos da América do Sul parecem ter sofrido menos do que o Velho Mundo. Há muitos pontos desconcertantes; as plantas temperadas parecem ter migrado muito mais do que os animais. Possivelmente as espécies podem ter sido formadas mais rapidamente dentro dos trópicos do que se esperaria. Confesso livremente que me confundiu; mas ainda não posso desistir da minha crença de que o período Glacial afetou até certo ponto os trópicos.
CARTA 354. A J.D. HOOKER. Down, 25 de fevereiro [1862].
Quase terminei o seu artigo sobre o Ártico, e devo dizer-lhe o quanto o admiro. (354/1. "Outlines of the Distribution of Arctic Plants" [Lido a 21 de junho de 1860], "Linn. Soc. Trans." XXIII., 1862, página 251. As observações do autor sobre as teorias de Distribuição Geográfica do Sr. Darwin são dadas na página 255: estão escritas num espírito caracteristicamente generoso.) O assunto, tratado como o tratou, é realmente magnífico. Bons céus, que trabalho deve ter-lhe custado! E que grande perspetiva existe para o futuro. Não preciso dizer o quanto fico satisfeito com a sua menção ao meu trabalho; pois sabe que considero a sua opinião mais do que a de todos os outros. Tais artigos são o verdadeiro motor para obrigar as pessoas a refletir sobre a modificação das espécies; qualquer pessoa com uma mente inquiridora dificilmente deixaria de desejar considerar todo o assunto após ler o seu artigo. Por Júpiter! será levado, quer queira quer não, a um globo arrefecido. Pense no seu próprio caso da Abissínia e Fernando Pó, e África do Sul, e no seu caso do Líbano (354/2. Ver "Origem", Edição VI., página 337.); conceda que existem terras altas para favorecer a migração, mas certamente as terras baixas devem ter sido algo arrefecidas. Que prova esplêndida, nova e original é a da Gronelândia: não consigo ver como, mesmo concedendo pontes de terra contínua, se pode entender a flora existente. Penso, pelo estado da Escócia e da América, e pelas isotérmicas, que durante a parte mais fria do período Glacial, a Gronelândia deve ter ficado completamente despovoada. Como um cão ao seu vómito, não posso deixar de voltar atrás e inclinar-me para meios acidentais de transporte pelo gelo e correntes. Quão curioso é também o caso da Islândia. Que artigo esplêndido fez do assunto. Quando nos encontrarmos, devo perguntar-lhe quanto atribui a riqueza da flora da Lapónia ao simples clima; parece-me muito maravilhoso que este ponto tenha sido uma espécie de foco de radiação; se, contudo, é artificialmente rica, isto é, contém mais espécies do que deveria para a sua latitude, em comparação com as outras regiões Árticas, não pareceria assim falsamente um foco de radiação? Mas terei de ler e reler o seu artigo; de momento, estou bastante confuso sobre o assunto. Quão estranha é, sob qualquer ponto de vista, a relação da Gronelândia com as montanhas do Este da América do Norte; parece que houve uma extinção em massa no Este da América do Norte. Mas não devo continuar. A propósito, verifico que Link em 1820 especulou sobre a relação das plantas alpinas e árticas ser devida a um antigo clima mais frio, o que atribuiu a montanhas mais altas que cortavam os ventos quentes do sul.
CARTA 355. J.D. HOOKER A CHARLES DARWIN. Kew, 2 de novembro de 1862.
Disse-lhe o quão profundamente satisfeito fiquei com a nota de Gray ao meu ensaio sobre o Ártico? (355/1. "American Journal of Science and Arts", XXXIV., e nos "Scientific Papers" de Gray, Volume I., página 122.) Foi terrivelmente bom da parte dele, pois tenho a certeza de que deve ter visto vários erros. Ele diz-me que o Dr. Dawson (355/2. Uma carta (N.º 144) de Sir J.D. Hooker, datada de 7 de novembro de 1862, sobre este assunto encontra-se na secção Evolucionista.) está contra mim, e tenho uma palestra muito agradável sobre plantas Árticas e Alpinas do Dr. D., com uma crítica ao ensaio sobre o Ártico — que ele não viu senão depois. Encontrou alguns ninhos de éguas no meu ensaio, e um erro muito venial nas tabelas — parece que ODIA o Darwinismo — acusa-me de negligenciar os factos geológicos, e insiste muito no facto de eu ignorar a subsidência da América temperada durante o período Glacial — e a minha afirmação de uma subsidência da América Ártica, que nunca me passou pela cabeça. Desejo, no entanto, se não lhe causar muita dor de cabeça, que apenas desse uma vista de olhos nas minhas três primeiras páginas, e me dissesse se ultrajei algum facto geológico ou cometi algum descuido. Expus a coisa toda duas vezes a Lyell antes de a imprimir, com mapa e tabelas, com a intenção de obter (e pensei que tinha) o seu imprimatur para tudo o que fiz e disse; mas quando aqui esteve há três noites, descobri que ele era tão ignorante de que eu tinha escrito um ensaio sobre o Ártico como poderia ser! E assim suponho que ou não o absorveu, ou pensou que era de pouca importância. Hector aprovou-o in toto. Não preciso dizer que comecei por bases biológicas, e considero-me tão independente de teorias de subsidência como você o é das opiniões dos físicos sobre o calor do globo! Escrevi uma [carta] longa a Dawson.
A propósito, viu a nota da "Athenaeum" sobre a língua basca e finlandesa de L. Bonaparte? — não é possível que os bascos sejam finlandeses deixados para trás após o período Glacial, como as plantas árticas? Pensei frequentemente que esta teoria explicaria as afinidades nacionais mexicanas e chinesas. Estou a esforçar-me em Welwitschia à noite e Genera Plantarum de dia. Tivemos um jantar muito alegre no Clube na quinta-feira. Estamos todos bem.
CARTA 356. A J.D. HOOKER. Down, 4 de novembro [1862].
Li atentamente (com até muito mais admiração do que da primeira vez) as páginas (356/1. O artigo sobre plantas árticas no Volume XXIII das "Transactions" da Linnean Society, 1860-62) e não consigo imaginar o que leva o Dr. D. a acusá-lo de afirmar uma subsidência da América Ártica. (356/2. O falecido Sir J.W. Dawson escreveu uma resenha (assinada J.W.D) do artigo de Hooker sobre o Ártico que apareceu no "Canadian Naturalist", 1862, Volume VII, página 334. A parte principal do artigo é composta por citações do artigo de Asa Gray mencionado abaixo. O restante é um resumo dos argumentos geológicos contra as opiniões de Hooker. Não encontramos a acusação referida acima, que parece ter aparecido em uma palestra.) Sem dúvida, houve uma subsidência da América do Norte durante o período Glacial, e sobre uma grande parte, mas sustentar que a subsidência se estendeu por quase toda a largura do continente, ou que durou durante todo o período Glacial, não acredito que ele possa apoiar. Suspeito que grande parte da evidência de subsidência durante o período Glacial se mostrará falsa, uma vez que se baseia amplamente na ação do gelo, que, como você sabe, está começando a ser vista cada vez mais como subaérea. Se Dawson publicou críticas, eu gostaria de vê-las. Ouvi dizer que ele é raivoso contra mim e, sem dúvida, em parte como consequência, contra qualquer coisa que você escreva a meu favor (e nunca foi publicado nada mais favorável do que o artigo sobre o Ártico). Lyell teve dificuldade em impedir que Dawson resenhasse a "Origem" (356/3. Dawson resenhou a "Origem" no "Canadian Naturalist", 1860) por ouvir dizer, sem tê-la examinado. Não se pode esperar espírito de justiça de um juiz tão tendencioso.
Tudo o que posso dizer é que suas poucas primeiras páginas me impressionaram muito mais nesta leitura do que na primeira vez. Pode a porção escandinava da flora ser tão potente (356/4. O Dr. Hooker escreveu: "Considerada como um todo, a flora ártica é decididamente escandinava; pois a Escandinávia Ártica, ou Lapônia, embora seja uma extensão de terra muito pequena, contém de longe a flora ártica mais rica, chegando a três quartos do total"; ele apontou "que a flora escandinava está presente em todas as latitudes do globo, e é a única que o é" (citado por Gray, loc. cit. infra).) por ter sido preservada naquele canto, aquecida pela Corrente do Golfo, e por agora representar sozinha a totalidade da flora circumpolar, durante o período pré-Glacial mais quente? Desde o início, não consegui resistir à impressão (compartilhada por Asa Gray, cuja Resenha (356/5. "Scientific Papers" de Asa Gray, Volume I, página 122) sobre você me agradou muito) de que, durante o período Glacial, deve ter havido quase extinção total na Groenlândia; pois a profundidade do mar não favorece uma extensão anterior da terra para o sul naquele local. (356/6. Na expulsão da vegetação para o sul pela época Glacial, a flora da Groenlândia seria "empurrada para o mar, isto é, exterminada." (Hooker citado por Gray, loc. cit. página 124).) Devo suspeitar que as plantas foram amplamente introduzidas por correntes marítimas, que trazem tanta madeira do norte da Europa. Mas aqui nos dividiremos tão distantes quanto os polos. O mundo inteiro não poderia me persuadir, se tentasse, de que o seu não é um ensaio grandioso. Não entendo bem se é este ensaio que Dawson "atacou". Que ideia curiosa sobre o clima Glacial, e bascos e finlandeses! Os bascos são montanheses — espero que sim. Sinto muito por não ter visto o "Athenaeum", mas agora assino o "Parthenon". A propósito, acabei de ler com muito interesse Max Muller (356/7. Provavelmente suas "Lectures on the Science of Language", 1861-64); a última parte, sobre a origem inicial da linguagem, parece ser a parte menos satisfatória.
Por favor, agradeça cordialmente a Oliver pelo seu monte de referências sobre venenos. (356/8. Sem dúvida em conexão com o trabalho de Darwin sobre Drosera: ele estava trabalhando neste assunto durante sua estadia em Bournemouth no outono de 1862.) Como diabos ele as encontra?
Não devo me entregar [a mim mesmo] ao Cypripedium. Asa Gray constatou de forma bastante clara que, pelo menos em alguns casos, o ato de fertilização é efetuado por pequenos insetos sendo forçados a rastejar para dentro e para fora da flor em uma direção particular; e talvez eu esteja completamente errado ao pensar que é sempre efetuado pela probóscide.
Retrato-me até o ponto de que, se você tiver o raro C. hirsutissimum, eu gostaria muito de examinar uma única flor cortada; pois vi uma em uma exposição de flores e, pelo que pude ver, parecia muito diferente de outras formas.
P.S. — Responda a isto, se por acaso puder. Lembro-me distintamente de ter lido em algum livro de viagens, tenho quase certeza que na Austrália, um relato dos nativos, durante fomes, experimentando e cozinhando de todas as maneiras possíveis várias produções vegetais, e às vezes sendo prejudicados por elas. Você consegue se lembrar de algum relato assim? Quero encontrá-lo. Pensei que fosse em Sir G. Grey, mas não é. Poderia ter sido no livro de Eyre?
CARTA 357. J.D. HOOKER A CHARLES DARWIN. [Novembro de 1862].
...Especulei sobre a probabilidade de ter havido uma conexão ártico-norueguesa-groenlandesa pós-Glacial, o que explicaria o fato forte de que a Groenlândia temperada é tão ártica quanto a Groenlândia Ártica — um fato que, para mim, é de uma força assombrosa. Confesso que uma migração para o norte preencheria a Groenlândia como ela é preenchida, na medida em que toda a flora (temperada e ártica) seria ártica — mas então as mesmas plantas deveriam ter ido para as outras ilhas polares e, acima de tudo, tantas plantas árticas escandinavas não deveriam estar ausentes na Groenlândia, menos ainda deveriam estar ausentes Ordens Naturais inteiras e, acima de tudo, as Leguminosae árticas. É difícil (como disse a Dawson) conceber a força com que os argumentos extraídos da ausência de certas plantas ubíquas familiares atingem os botânicos. Eu não descartaria totalmente o transporte por gelo e por água, mas não consigo imaginar que eles deem origem a tais anomalias na distribuição como as que a Groenlândia apresenta. Da mesma forma, sempre senti a força da sua objeção de que a Groenlândia deveria ter sido despovoada no período Glacial, mas depois refleti que a vegetação agora sobe, esqueço até que altura (cerca de 1.000 pés), em Disco, a 70 graus, e que mesmo em um oceano Glacial pode sempre ter havido esconderijos para as poucas centenas de plantas que a Groenlândia possui agora. Supondo que a Groenlândia fosse repovoada a partir da Escandinávia por via oceânica, por que as Carices seriam as principais coisas trazidas? Por que não teriam sido trazidas Leguminosae, nenhuma planta além das altamente árticas? — por que não a Caltha palustris, que doura os pântanos da Noruega e pinta os telhados da Islândia? Em suma, aos meus olhos, a migração transoceânica não formaria tal conjunto mais do que as criações especiais explicariam as espécies representativas — e nenhuma "contorção engenhosa" jamais me convenceu de que o faria. Pronto, então!
Jantei com Henry Christy na noite passada, que tinha acabado de voltar da caça aos machados com Lartet, entre os bascos — eles são pirenaicos. Lubbock estava lá e me disse que minha preciosa especulação era de Von Baer e que se supõe que os finlandeses fizeram os Kjokken moddings. Li Max Muller há um ano — e concordo plenamente, a primeira parte é excelente; a última, sobre a origem da linguagem, é fátua e fraca como argumento científico.
CARTA 358. PARA J.D. HOOKER. Down, 12 de novembro [1862].
Devolvo por este correio a palestra de Dawson, que me parece interessante, mas sem nada de novo. Acho que ele deve ser um tanto presunçoso, com seu "Se o Dr. Hooker tivesse sabido disto e daquilo, teria dito isto e aquilo". Parece-me absurdo Dawson assumir que a América do Norte esteve sob o mar durante todo o período Glacial. Certamente a Groenlândia é um problema muito curioso e difícil. Mas quanto às Leguminosae, o caso, meu caro amigo, é tão claro quanto a luz do dia, já que as sementes são mortas muito rapidamente pela água do mar. Seriamente, seria um experimento curioso tentar a vitalidade em água salgada das plantas que deveriam estar na Groenlândia. Esqueço-me, porém, que seria impossível, suponho, obter quase qualquer uma, exceto a Caltha, e se algum dia eu encontrar essa planta em semente, eu a testarei.
Gostaria muito que alguém examinasse as rochas perto do nível do mar na ponta sul da Groenlândia e visse se estão bem marcadas; isso diria algo. Mas então a subsidência poderia ter trazido rochas mais altas para o nível atual do mar. Estou muito mais disposto a admitir sua terra de conexão Noruega-Groenlândia do que na maioria dos outros casos, devido à natureza das rochas em Spitzbergen e na Ilha do Urso. Você abordou e lançou muita luz sobre um problema esplêndido, que algum dia será resolvido. Alegra-me pensar que, quando menino, me mostraram um bloco errático em Shrewsbury e um velho cavalheiro inteligente me disse que, até o fim do mundo, ninguém jamais adivinharia como ele foi parar ali.
Faz-me rir pensar na indignação do Dr. Dawson com sua frase sobre "obliquidade de visão". (358/1. Ver Carta 144.) Por Júpiter, ele tentará atacar você algum dia. Boa noite por enquanto.
Para voltar por um momento ao período Glacial. Você poderia ter perguntado a Dawson se o íbex, a marmota, etc., etc., foram carregados de montanha em montanha na Europa em gelo flutuante; e se o boi almiscarado chegou à Inglaterra em icebergs? No entanto, a Inglaterra sofreu subsidência, se confiarmos apenas na boa evidência das conchas, mais durante o período Glacial do que se sabe que a América o fez.
Pelo amor de Deus, instile uma palavra de cautela nos ouvidos de Tyndall. Vi um trecho de que os vales da Suíça seriam inteiramente devidos às geleiras. Ele não pode ter refletido sobre os vales em países tropicais. Os vales mais grandiosos que já vi foram no Taiti. Novamente, se entendo bem, ele supõe que as geleiras desgastam cadeias de montanhas inteiras; assim, diminuem sua altura, diminuem a temperatura e diminuem as próprias geleiras. Ele supõe que toda a Escócia foi desgastada dessa forma? Certamente ele deve esquecer que a oscilação do nível seria mais potente de uma forma ou de outra durante lapsos de tempo tão enormes. Seria difícil acreditar que qualquer cadeia de montanhas tenha permanecido estacionária por tanto tempo.
Suponho que o livro de Lyell logo será lançado. (358/2. "The Antiquity of Man", 1863.) Fiquei muito feliz em ver em um jornal que Murray vendeu 4.000 exemplares. Que venda!
Estou agora trabalhando em plantas cultivadas e gosto bastante do meu trabalho; mas tenho um medo terrível de fazer as observações mais precipitadas sobre o valor das diferenças. Confio em uma espécie de instinto e, Deus sabe, raramente consigo dar qualquer razão para minhas observações. Senhor, em que confusão está a origem das plantas cultivadas. Tenho lido sobre morangos e mal consigo encontrar dois botânicos que concordem sobre quais são as formas selvagens; mas extraio de livros de horticultura aqui e ali casos estranhos de variação, herança, etc., etc.
Que carta longa escrevi; mas você deve me perdoar, pois é um grande prazer conversar assim com você.
Você já ouviu falar da "Água Ozonizada de Condy"? Tenho experimentado com, creio eu, vantagem extraordinária — para o conforto, pelo menos. Uma colher de chá, em água, três ou quatro vezes ao dia. Se encontrar algum pobre diabo dispéptico como eu, sugira.
CARTA 359. PARA J.D. HOOKER. Down, 26 de [março de 1863].
Espero e penso que você é severo demais com os primeiros capítulos de Lyell. Embora tão condensados e não bem organizados, pareceram-me transmitir com força incomum a antiguidade do homem, e esse era o seu objetivo. (359/1. "The Geological Evidences of the Antiquity of Man": Londres, 1863.) Não me ocorreu, mas temo que haja alguma verdade em sua crítica, de que nada é confiável até que ele [Lyell] tenha observado.
Fico feliz em vê-lo entusiasmado com as plantas tropicais durante o período Glacial.
Lembre-se de que jurei a você muitas vezes que elas coexistiram; portanto, meu caro amigo, você deve fazê-las coexistir. Não acho que seria necessária uma frieza maior em uma condição de coisas perturbada do que a zona do Himalaia, na qual você descreve algumas formas tropicais e temperadas se misturando (359/2. "Durante este [o período Glacial], o ponto mais frio, as terras baixas sob o equador, devem ter sido cobertas por uma vegetação mista tropical e temperada, como aquela descrita por Hooker como crescendo luxuriantemente a uma altura de quatro a cinco mil pés nas encostas inferiores do Himalaia, mas talvez com uma predominância ainda maior de formas temperadas" ("Origin of Species", Edição VI, página 338).); e como na parte inferior de Camarões, e como Seemann descreve, nas montanhas baixas do Panamá. É, como você diz, absurdo supor que um gênero como Dipterocarpus (359/3. Dipterocarpus, um gênero das Dipterocarpaceae, uma família de plantas dicotiledôneas restrita aos trópicos do Velho Mundo.) pudesse ter sido desenvolvido desde a era Glacial; mas você se sente tão seguro, a ponto de opor (359/4. O significado parece ser: "Você se sente tão seguro de que pode trazer em oposição um grande corpo de considerações para mostrar, etc.") um grande corpo de considerações do outro lado, de que este gênero não poderia ter sido lentamente acostumado a um clima mais frio? Vejo que Lindley diz que não foi trazido para a Inglaterra e, portanto, não poderia ter sido testado na estufa. Você tem materiais para mostrar a que pequena altura ele sobe nas montanhas de Java ou Sumatra? Faz uma diferença enorme, toda a área sendo resfriada; e a área talvez não sendo em todos os aspectos, como umidade, etc., etc., adequada para tais plantas temperadas que poderiam entrar. Mas, de qualquer forma, estou pronto para jurar novamente que o Dipterocarpus e qualquer outro gênero que você queira nomear sobreviveram durante um período mais frio.
Sobre a reversão, você expressa exatamente o que quero dizer. De alguma forma, cometi um erro e mentalmente tomei literalmente que a criança herdava do avô. Essa visão de latência colige muitos fatos — caracteres sexuais secundários em cada indivíduo; tendência do caráter latente de aparecer temporariamente na juventude; efeito do cruzamento em induzir talento, caráter, etc. Quando se pensa em um caráter latente sendo transmitido, escondido por mil ou dez mil gerações, e então aparecendo de repente, ficamos completamente perplexos com a infinidade de caracteres escritos em tinta invisível no germe. Não tenho evidências da reversão de todos os caracteres em uma variedade. Concordo plenamente com o que você diz sobre o gênio. Disse a Lyell que aquela passagem me fez gemer.
Que pena sobre Falconer! (359/5. Isto se refere à reivindicação de prioridade de Falconer contra Lyell. Ver "Life and Letters", III, página 14; também Cartas 166 e 168.) Que singular e que lamentável!
Lembre-se das vagens de orquídeas. Tenho uma paixão por cultivar as sementes (e outros motivos). Não tenho um fato para me basear, mas tenho uma ideia (não, tenho uma convicção firme!) de que elas são parasitas na juventude sobre criptógamas! (359/6. Em um artigo sobre orquídeas epífitas britânicas ("Gard. Chron." 1884, página 144) Malaxis paludosa é descrita por F.W. Burbidge como sendo uma verdadeira epífita nos caules de Sphagnum. Stahl afirma que a dificuldade de cultivar orquídeas depende amplamente de sua dependência de um fungo micorrízico — embora ele não aplique sua visão à germinação. Ver "Jahrbucher" de Pringsheim, XXXIV, página 581. Somos gratos a Sir Joseph Hooker pela referência ao artigo de Burbidge.) Aqui está a ideia de um tolo. Tenho algumas plantadas em Sphagnum. Algum líquen ou musgo tropical, ou europeu, resiste ao calor ou cresce em alguma árvore em estufa em Kew? Se sim, pelo amor de Deus, favoreça minha loucura e mande raspar alguns e me enviar.
Sou como um jogador e adoro um experimento selvagem. Dá-me grande prazer imaginar que vejo radículas de semente de orquídea penetrando o Sphagnum. Sei que não verei e, portanto, não ficarei desapontado.
CARTA 360. PARA J.D. HOOKER. Down [26 de setembro de 1863].
...Sobre a Nova Zelândia, finalmente estou mudando de ideia e admito que deve ter estado conectada a alguma terra firme, mas morrerei antes de admitir a Austrália. Como gostaria que as montanhas da Nova Caledônia fossem bem exploradas!...
CARTA 361. PARA J.D. HOOKER.
(361/1. Na parte anterior desta carta, o Sr. Darwin refere-se a uma resenha sobre Planchon no "Nat. History Review", abril de 1865. Não há dúvida, portanto, de que "o artigo de Thomson" deve ser a resenha de "Diagnoses d'especes nouvelles ou meconnues", etc., de Jordan, no mesmo número, página 226. Trata de "agrupadores" e "divisores", e uma possível nomenclatura trinominal.)
17 de abril [1865].
Fiquei muito impressionado com o artigo de Thomson; parece-me bastante notável por seu julgamento, força e clareza. Interessou-me muito. Às vezes especulei vagamente sobre o que a nomenclatura se tornaria e concluí que seria trinominal. Que nome uma planta levará formalmente com o nome do autor após o gênero (como alguns recomendam), e após a espécie e subespécie! Realmente parece uma das maiores questões que podem ser discutidas para a História Natural sistemática. Quão imparcialmente Thomson ajusta as reivindicações de "divisores de cabelo" e "agrupadores"! Espero sinceramente que ele escreva resenhas ou ensaios com bastante frequência. É um antigo motivo de tristeza para mim, antigamente na Geologia e ultimamente na Zoologia e Botânica, que os melhores homens (exceto aqueles que têm que escrever princípios e elementos, etc.) leiam tão pouco e entreguem quase todo o seu tempo ao trabalho original. Muitas vezes pensei que a ciência progrediria mais se houvesse mais leitura. Quão poucos leem quaisquer artigos longos e trabalhosos! O único uso de publicar tais parece ser como prova de que o autor dedicou tempo e trabalho à sua obra.
CARTA 362. PARA J.D. HOOKER. Down, 22 e 28 de outubro de 1865.
Quanto aos antropólogos serem uma "bete noire" para os homens de ciência, não me surpreende, pois acabei de folhear o último "Anthrop. Journal" e ele mostra, especialmente o longo ataque à Associação Britânica, um espírito curioso de insolência, vaidade, estupidez e vulgaridade. Li com interesse incomum o curto artigo de Travers sobre as Ilhas Chatham. (362/1. Ver Travers, H.H., "Notes on the Chatham Islands", "Linn. Soc. Journ." IX., outubro de 1865. O Sr. Travers diz que pegou uma semente de Edwardsia, evidentemente trazida pela maré. Os troncos encalhados indicavam uma corrente da Nova Zelândia.) Lembro-me de você me atacar com ferocidade terrível porque eu disse que achava que a semente de Edwardsia poderia ter sido trazida pelo mar do Chile para a Nova Zelândia: agora, o que você diz, meu jovem, sobre as três árvores jovens do mesmo tamanho em um único local da ilha, e com a vagem lançada na costa? Se não fossem aqueles infelizes pássaros sem asas, eu poderia acreditar que o grupo havia sido colonizado por meios acidentais; mas, como está, parece-me de longe a melhor evidência de extensão continental já observada. A distância, vejo, é de 360 milhas. Eu gostaria de saber se o mar era mais profundo do que entre a Nova Zelândia e a Austrália. Temo que você não admitirá um acidente tão pequeno como o transporte dos pássaros sem asas em icebergs. Sugira, se tiver chance, a qualquer pessoa que visite as Ilhas novamente, que fique atenta a blocos erráticos lá. Quão curioso é seu relato sobre as árvores frutíferas e as abelhas! (362/2. "Desde a importação das abelhas, as árvores frutíferas e arbustos europeus produziram livremente." Travers, "Linn. Soc. Journal", IX., página 144.) Gostaria de saber se o trevo havia se espalhado antes da introdução das abelhas...
Vi no "Gardeners' Chronicle" a frase sobre a "Origem" morrendo na Alemanha, mas não sabia que era de Seemann.
CARTA 363. PARA C. LYELL. Down, 7 de fevereiro [1866].
Fico muito agradecido pela sua nota e pelo extrato, que me interessaram extremamente. Não posso duvidar por um momento de Agassiz sobre a ação glacial, após toda a sua experiência, como você diz, e após aquele excelente livro com pranchas que ele publicou cedo (363/1. "Etudes sur les Glaciers"; Neuchâtel, 1840.); quanto às suas inferências e raciocínios sobre o vale do Amazonas, essa é uma questão bem diferente, nem ele pode ter visto todas as regiões às quais a Sra. A. alude. (363/2. Uma carta da Sra. Agassiz para Lady Lyell, que havia sido encaminhada ao Sr. Darwin. A mesma carta foi enviada também ao Sir Charles Bunbury, que, ao escrever a Lyell em 3 de fevereiro de 1866, critica algumas das afirmações. Ele fala das observações de Agassiz sobre os fenômenos glaciais no Brasil como "muito surpreendentes, na verdade; tão surpreendentes que tenho muita dificuldade em acreditar nelas. Elas abalam minha fé no sistema glacial por completo; ou talvez devessem abalar a fé em Agassiz... Se o Brasil foi algum dia coberto por geleiras, não vejo razão para que a terra inteira não o tenha sido. Talvez todo o globo terrestre tenha sido um dia 'um pingente de gelo único e perfeito'." (Da "Life" impressa em privado de Sir Charles Bunbury, editada por Lady Bunbury, Volume ii., página 334).) A carta dela não é muito clara para mim, e não entendo o que ela quer dizer com "a uma altura de mais de três mil pés". Não há blocos erráticos (aos quais prestei atenção especial) nas terras baixas ao redor do Rio. É possível ou mesmo provável que esta área possa ter sofrido subsidência, pois não pude detectar qualquer evidência de elevação, ou quaisquer formações terciárias ou ação vulcânica. As montanhas da Serra dos Órgãos têm de seis a sete mil pés de altura; e estou apenas um pouco surpreso por elas apresentarem marcas de ação glacial. Pois alguns gêneros temperados de plantas, a saber, Vaccinium, Andromeda, Gaultheria, Hypericum, Drosera, Habenaria, habitam essas montanhas, e encaro isso quase como uma evidência tão boa de um período frio quanto a ação glacial. O fato de não haver mais plantas temperadas pode ser explicado pela posição isolada dessas montanhas. Não há blocos erráticos na costa do Pacífico ao norte de Chiloe, e poucas geleiras na Cordilheira, mas não se segue de forma alguma, creio eu, que não possa ter havido antigamente geleiras gigantescas no lado oriental e mais úmido.
Na terceira edição de "Origem", página 403 (363/3. "Origem", Edição VI., página 335, 1882. "O Sr. D. Forbes informa-me que encontrou em várias partes da Cordilheira, da lat. 13° O. a 30° S., a cerca de doze mil pés de altura, rochas profundamente sulcadas... e também grandes massas de detritos, incluindo seixos estriados. Ao longo de todo este espaço da Cordilheira, geleiras verdadeiras não existem agora, mesmo a alturas muito mais consideráveis."), você encontrará uma breve alusão, sob a autoridade do Sr. D. Forbes, sobre a extensão anteriormente muito mais baixa das geleiras na Cordilheira equatorial. Por favor, veja também na página 407 o que digo sobre a natureza da vegetação tropical (que eu poderia agora melhorar muito) durante o período Glacial. (363/4. "Durante este, o período mais frio, as terras baixas sob o Equador devem ter estado cobertas por uma vegetação mista tropical e temperada..." ("Origem", Edição VI., 1882, página 338).)
Sinto uma forte convicção de que em breve todos acreditarão que o mundo inteiro estava mais frio durante o período Glacial. Lembre-se do maravilhoso caso de Hooker, descoberto recentemente, da identidade de tantas plantas temperadas no cume de Fernando Pó e nas montanhas da Abissínia. (363/5. "O Dr. Hooker também demonstrou recentemente que várias das plantas que vivem nas partes superiores da elevada ilha de Fernando Pó, e nas vizinhas montanhas dos Camarões, no Golfo da Guiné, estão estreitamente relacionadas com as das montanhas da Abissínia, e também com as da Europa temperada" (loc. cit., página 337).) Considero como certo que essas plantas atravessaram toda a África de leste a oeste durante o mesmo período. Gostaria de ter publicado um longo capítulo escrito na íntegra, e quase pronto para a imprensa, sobre este assunto, que escrevi há dez anos. Foi impossível na "Origem" apresentar um resumo justo.
Minha saúde melhorou consideravelmente, de modo que sou capaz de trabalhar quase duas horas por dia, e assim fazer algum pequeno progresso com meu eterno livro sobre variedades domésticas. Você terá ouvido falar da morte tranquila da minha irmã Catherine na última sexta-feira de manhã. (363/6. Catherine Darwin morreu em fevereiro de 1866.) Ela sofreu muito, e todos nós encaramos sua morte como uma bênção, pois havia muito medo de um sofrimento prolongado e maior. Estamos inquietos quanto a Susan, mas ela até agora suportou melhor do que poderíamos ter esperado. (363/7. Susan Darwin morreu em outubro de 1866.)
Lembre-se da ação glacial do Líbano quando falar sobre a não ocorrência de ação glacial no S. do Himalaia e no S.E. da Austrália.
P.S.--Fiquei muito feliz em ver a carta de Sir C. Bunbury. (363/8. A carta de Bunbury para Lyell, já citada sobre este assunto. Bunbury escreve: "Não há nada que seja minimamente SETENTRIONAL, nada que não seja caracteristicamente brasileiro, na flora da Serra dos Órgãos.") Se os gêneros que nomeio a partir de Gardner (363/9. "Travels in the Interior of Brazil", de G. Gardner: Londres, 1846.) não são considerados por ele como formas usualmente temperadas, estou, naturalmente, silenciado; mas Hooker examinou o capítulo do manuscrito há uns dez anos e não riscou minhas observações sobre eles, e ele geralmente está pronto o suficiente para atacar minha ignorância e me menosprezar, como muitas vezes mereço. Meu espanto era como quaisquer formas temperadas, por poucas que fossem, alcançaram as montanhas do Brasil; e supus que viajaram pelas terras e serras bastante altas (nome esquecido) que se estendem da Cordilheira em direção ao Brasil. Gêneros de plantas da Cordilheira também, de alguma forma, alcançaram a Silla de Caracas. Quando penso na vegetação da Nova Zelândia e da costa oeste da América do Sul, onde geleiras descem agora até ou muito perto do mar, sinto que é precipitado concluir que todas as formas tropicais seriam destruídas por um período consideravelmente mais frio sob o Equador.
CARTA 364. PARA C. LYELL. Down, quinta-feira, 15 de fevereiro [1866].
Muitos agradecimentos pela carta de Hooker; é um verdadeiro prazer para mim ler suas cartas; elas são sempre escritas com tanto espírito. Concordo plenamente que Agassiz nunca poderia confundir blocos intemperizados com ação glacial; embora o erro tenha, eu sei, sido cometido em dois ou três lugares do mundo. Muitas vezes lutei com Hooker sobre os físicos vetarem a ideia de que o mundo tenha sido mais frio; parece-me tão irracional quanto se, quando os geólogos apresentaram pela primeira vez alguma evidência de elevação e subsidência, um Hooker anterior tivesse declarado que isso não poderia possivelmente ser admitido até que os geólogos pudessem explicar o que fazia a terra subir e descer. Parece que errei muito sobre algumas das plantas da Serra dos Órgãos. (364/1. "Na Serra dos Órgãos, no Brasil, alguns poucos gêneros temperados europeus, alguns antárticos e alguns andinos foram encontrados por Gardner, os quais não existiam nos países quentes e baixos intervenientes" ("Origem", Edição VI., página 336).) Mas fico muito feliz em ouvir sobre a Fuchsia, etc. Não consigo entender no que Hooker acredita; ele parece admitir o clima mais frio de outrora, e quase no mesmo fôlego desprezar a ideia. Para retrucar as palavras de Hooker, "é inexplicável para mim" como ele pode comparar o transporte de sementes dos Andes para a Serra dos Órgãos com o de um continente para uma ilha. Sem mencionar a distância muito maior, não há correntes de água de um para o outro; e o que raios faria um pássaro voar essa distância sem descansar muitas vezes? Não suponho de forma alguma que quase todas as formas tropicais foram exterminadas durante o período frio; mas em áreas um tanto despovoadas, nas quais não poderia haver migração, provavelmente muitas espécies estreitamente relacionadas terão sido formadas desde este período. O artigo de Hooker na "Natural History Review" (364/2. Possivelmente um artigo sem assinatura, intitulado "New Colonial Floras" (uma resenha da "Flora of the British West Indian Islands" de Grisebach e da "Enumeratio Plantarum Zeylaniae" de Thwaites).--"Nat. Hist. Review", janeiro de 1865, página 46. Veja a Carta 184.) vale bem a pena estudar; mas não me lembro de ele apresentar boas razões para sua convicção de que certas ordens de plantas não poderiam resistir a um clima um pouco mais frio, mesmo que viesse de forma mais gradual. Acabamos de aprender sob quão fria temperatura várias orquídeas tropicais podem florescer. Vi claramente a dificuldade de Hooker quanto à preservação das formas tropicais durante o período frio, e tentei o meu melhor para manter um local após outro como uma estufa para sua preservação; mas isso não se sustentava, e foi apenas uma concessão da minha parte quando sugeri que cinturões longitudinais do mundo foram resfriados um após o outro. Gostarei muito de ver a carta de Agassiz, sempre que você receber uma. Escrevi uma longa carta; mas uma discussão com ou sobre Hooker sempre me faz muito bem, e estamos nisso há muitos longos anos. Não consigo entender se ele me ataca como um contorcionista ou um martelador, mas tenho muita certeza de que uma boa dose de contorcionismo tem de ser feita.
CARTA 365. PARA J.D. HOOKER. Down, 30 de julho [1866].
Muitos agradecimentos pelo tremoço. Sua carta interessou-me extremamente e lembra-me dos velhos tempos. Suponho, pelo seu modo de escrever, que gostaria de ouvir minhas noções. Não posso admitir a Atlântida conectando a Madeira e as Ilhas Canárias sem a evidência mais forte, e tudo está daquele lado (365/1. Sir J.D. Hooker palestrou sobre "Insular Floras" na reunião da Associação Britânica em Nottingham, em 27 de agosto de 1866. Sua palestra é apresentada na "Gardeners' Chronicle", 1867, página 6. Sem dúvida, ele estava nesta época preparando suas observações sobre a extensão continental, que tomam a forma de uma declaração judicial, apresentando os argumentos e dificuldades de ambos os lados. Ele resume contra a extensão continental, que, diz ele, explica tudo e não explica nada; "enquanto a hipótese da migração transoceânica, embora deixe uma multidão de fatos inexplicados, oferece uma solução racional para muitos dos fenômenos mais intrigantes." Em sua palestra, Sir Joseph escreveu que, ao subir as montanhas na Madeira, há pouca substituição de espécies das terras baixas por aquelas de uma latitude setentrional mais elevada. "As plantas tornam-se cada vez menos numerosas à medida que subimos, e seus lugares não são ocupados por plantas boreais, ou apenas por muito poucas."): a profundidade é tão grande; não há nada geologicamente nas ilhas que favoreça a crença; não há mamíferos ou batráquios endêmicos. Bunbury não mostrou que algumas Ordens de plantas eram singularmente deficientes? Mas confio principalmente na grande quantidade de distinção específica nos insetos e moluscos terrestres de Porto Santo e da Madeira: certamente as Canárias e a Madeira não poderiam ter sido conectadas, se a Madeira e Porto Santo estivessem separados há muito tempo. Se você admite a Atlântida, acho que é obrigado a admitir ou explicar as dificuldades.
Com relação às plantas temperadas frias na Madeira, é claro que não sei o suficiente para formar uma opinião; mas, admitindo a Atlântida, posso ver que sua raridade é uma grande dificuldade; caso contrário, vendo que a latitude é apenas um pouco ao norte do Golfo Pérsico, e vendo o longo transporte marítimo para as sementes, a raridade das plantas setentrionais não me parece difícil. A imigração pode ter sido de uma direção sul, e parece que algumas poucas plantas africanas, bem como algumas um tanto frias, são comuns às montanhas ao sul.
Acreditando no transporte ocasional, não posso sentir tanta surpresa por haver uma boa dose em comum entre a Madeira e as Canárias, sendo estes os pontos de terra mais próximos um do outro. É algo totalmente novo e muito interessante para mim o que você diz sobre as plantas endêmicas serem em tão grande proporção espécies raras. Devido ao maior tamanho da oficina (isto é, maior competição e maior número de indivíduos, etc.), eu esperaria que as formas continentais, à medida que são ocasionalmente introduzidas, sempre tendessem a vencer as formas insulares; e, como em qualquer área, haverá sempre muitas formas mais ou menos raras tendendo à extinção, certamente eu esperaria que, nas ilhas, uma grande proporção das formas mais raras tivesse origem insular. Quanto mais tempo qualquer forma tiver existido em uma ilha na qual formas continentais são ocasionalmente introduzidas, tanto mais as chances estarão a favor de ela ser peculiar ou anormal por natureza e, ao mesmo tempo, escassa em números. A duração de sua existência também lhe terá dado antigamente a melhor chance, quando não era tão rara, de ser amplamente distribuída para arquipélagos adjacentes. Aqui está um contorcionismo: quanto mais antiga é uma forma, melhor será a chance de ela ter se desenvolvido em uma árvore! Uma ilha, por ser cercada pelo mar, impedirá a livre imigração e competição, por isso um número maior de formas antigas sobreviverá em uma ilha do que no continente mais próximo de onde a ilha foi povoada; e sempre encarei a Clethra (365/2. Clethra é um gênero americano de arbustos das Ericaceae, encontrado em lugar nenhum mais perto da Madeira do que a América do Norte. Sobre esta planta e sobre a Persea, Sir Charles Lyell ("Principles", 1872, Volume II., página 422) diz: "Consideradas como relíquias de uma flora miocênica, elas são exatamente as formas que naturalmente esperaríamos que tivessem vindo do continente miocênico adjacente." Veja também "Origin of Species", Edição VI., página 83, onde uma visão semelhante é citada de Heer.) e as outras formas extra-europeias como remanescentes da flora terciária que habitava antigamente a Europa. Esta preservação de formas antigas em ilhas parece-me como a preservação de peixes ganoides em nossas águas doces atuais. Você fala de não haver plantas setentrionais nas montanhas ao sul dos Pirenéus: minha memória me engana completamente ao dizer que Boissier publicou uma longa lista das montanhas do sul da Espanha? Não vi o "Catalogue" de Wollaston, (365/4. Provavelmente o "Catalogue of the Coleopterous Insects of the Canaries in the British Museum", 1864.) mas devo comprá-lo, se apresentar os fatos sobre plantas raras que você menciona.
E agora dei mais do que o suficiente das minhas noções, que bem sei que estarão em total contradição com todas as suas.
Wollaston, em seu "Insecta Maderensia" (365/5. "Insecta Maderensia", Londres, 1854.), 4to, página 12, e em seu "Variation of Species", páginas 82-7, apresenta o caso dos insetos ápteros, mas lembro-me de que elaborei alguns detalhes adicionais.
Acho que ele apresenta nessas mesmas obras a proporção de insetos europeus.
CARTA 366. PARA J.D. HOOKER.
(366/1. Sir Joseph havia perguntado (31 de julho de 1866): "Existe alguma evidência de que o sul da Inglaterra e da Irlanda não estavam submersos durante a época Glacial, quando o O. e o N. da Inglaterra eram ilhas em um mar glacial? E supondo que estivessem acima da água, poderiam as floras atuais do Atlântico e do N.O. da França que encontramos lá ter estado lá durante a época Glacial?--No entanto, é isso que Forbes exige, página 346. Na página 347 ele vê esta objeção, e se livra da dificuldade colocando a data do Canal 'perto do fim da época Glacial'. O que Austen faz da data do Canal?--pré ou pós Glacial?" As mudanças de nível e outras questões são tratadas em um artigo de R.A.C. Austen (posteriormente Godwin-Austen), "On the Superficial Accumulations of the Coasts of the English Channel and the Changes they indicate." "Quart. Journ. Geol. Soc." VII., 1851, página 118. Nota de obituário pelo Prof. Bonney nos "Proc. Geol. Soc." XLI., página 37, 1885.)
Down, 3 de agosto [1866].
Seguirei sua carta em série. Há boa evidência de que o S.E. da Inglaterra era terra firme durante o período Glacial. Esqueço o que Austen diz, mas os Mamíferos provam, creio eu, que a Inglaterra esteve unida ao Continente desde o período Glacial. Não vejo sua dificuldade sobre o que digo quanto ao rompimento de um istmo: se o Panamá fosse rompido, a fauna do Pacífico não fluiria para as Índias Ocidentais, ou vice-versa, e destruiria uma multidão de criaturas? Claro que não sou juiz, mas pensei que De Candolle tivesse provado seu caso sobre pequenas áreas de árvores. Você encontrará na página 112, 3ª edição de "Origem", uma alusão muito concisa sobre a flora da Madeira ser um remanescente da flora europeia Terciária. Ficarei profundamente interessado em ler suas dificuldades botânicas contra a imigração ocasional. Os fatos que você apresenta sobre certas plantas, como as urzes, são certamente muito curiosos. (366/2. Na palestra de Hooker, ele cita a St. Dabeoc's Heath e a Calluna vulgaris como as mais impressionantes das poucas plantas boreais nos Açores. Darwin parece ter ficado impressionado com o caráter boreal dos Açores, adotando assim a visão oposta à de Sir Joseph. Veja a Carta 370, nota.) Pensei que a flora dos Açores fosse mais boreal, mas o que você quer dizer ao dizer que os Açores estão mais próximos da Grã-Bretanha e de Terra Nova do que da Madeira?--no globo, eles estão quase duas vezes mais longe. (366/3. Veja a Carta 368.) Com relação às correntes marítimas, fiz perguntas anteriormente na Madeira, mas não posso agora lhe dar os resultados; mas lembro-me de que os fatos eram diferentes do que geralmente se afirma: acho que um navio naufragado nas Ilhas Canárias foi arrojado na costa da Madeira.
Você fala como se apenas moluscos terrestres diferissem na Madeira e em Porto Santo: minha memória me engana ao dizer que existe uma multidão de insetos representativos?
Quando você exorcizar em Nottingham os meios ocasionais de transporte, seja honesto e admita quão pouco se sabe sobre o assunto. Lembre-se de quão recentemente você e outros pensavam que a água salgada mataria rapidamente as sementes. Reflita que não há um ilhéu de coral no oceano que não esteja muito bem coberto de plantas, e a escassez das espécies dificilmente pode ser atribuída, com justiça, à chegada de poucas sementes, pois ilhéus de coral próximos a outras terras sustentam apenas a mesma vegetação limitada. Lembre-se de que ninguém sabia que as sementes permaneceriam por muitas horas nos papos das aves e manteriam sua vitalidade; que os peixes comem sementes e que, quando os peixes são devorados pelas aves, as sementes podem germinar, etc. Lembre-se de que todos os anos muitas aves são sopradas para a Madeira e para as Bermudas. Lembre-se de que poeira é soprada por 1.000 milhas sobre o Atlântico. Agora, tendo tudo isso em mente, não seria um prodígio se uma ilha não povoada não recebesse, ao longo dos séculos, colonos das costas de onde fluem as correntes, árvores são arrastadas e aves são impelidas por vendavais. As objeções a ilhas serem assim povoadas são, até onde entendo, que certas espécies e gêneros foram introduzidos mais livremente, e outros menos livremente do que se poderia esperar. Mas, então, o mar mata alguns tipos de sementes, outros são mortos pela digestão das aves, e alguns seriam mais propensos do que outros a aderir aos pés das aves. Mas sabemos tão pouco sobre esses pontos que me parece que não podemos dizer de forma alguma quais formas provavelmente seriam introduzidas e quais não. Não pretendo por um momento que esses meios de introdução possam ser provados como tendo agido; mas eles parecem-me suficientes, sem objeções válidas ou pesadas, ao passo que existem, na minha opinião, as maiores objeções em fundamentos geológicos e de distribuição geográfica (páginas 387, 388, "Origem" (366/4. Edição III., ou Edição VI., página 323.) às enormes extensões continentais de Forbes. Mas temo que terei entediado você.
CARTA 367. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN.
(367/1. Em uma carta de 31 de julho, Sir J.D. Hooker escreveu: "Você não deve me supor um campeão da conexão continental, porque não sou favorável à migração transoceânica... qualquer das hipóteses parece-me cobrir bem os fatos das floras oceânicas, mas existem graves objeções a ambas, botânicas à sua, geológicas à de Forbes.")
As seguintes cartas interessantes apresentam algumas das dificuldades de Sir Joseph.)
Kew, 4 de agosto de 1866.
Você menciona ("Journal") a inexistência de aves terrestres, exceto as introduzidas, em Santa Helena. Beatson (Introdução xvii) menciona uma (367/2. Aegialitis sanctae-helenae, uma pequena tarambola "muito estreitamente aliada a uma espécie encontrada na África do Sul, mas apresentando certas diferenças que lhe conferem a categoria de uma espécie peculiar" (Wallace, "Island Life", página 294)). Nas edições anteriores da "Origem" (por exemplo, Edição III, página 422), Darwin escreveu que "a Madeira não possui uma única ave peculiar". Na Edição IV, 1866, página 465, o erro foi corrigido.) "em números consideráveis", assemelha-se à calhandra-das-areias — é chamada de "pássaro-de-arame", tem pernas longas e esverdeadas como arames, corre rápido, olhos grandes, bico moderadamente longo, é um tanto esquiva, não possui grandes poderes de voo. O que era isso? Escrevi para perguntar a Sclater, também sobre as aves da Madeira e dos Açores. É uma coisa muito curiosa que os Açores não contenham o gênero americano (não europeu) Clethra, que é encontrado na Madeira e nas Canárias, e que os Açores não contenham traço do elemento americano (além do que é comum à Madeira), exceto uma espécie de Sanicula, um gênero com cerdas em forma de gancho nos pequenos frutos. A Sanicula europeia perambula da Noruega à Madeira, Canárias, Cabo Verde, Camarões, Cabo da Boa Esperança, e da Grã-Bretanha ao Japão, e também está, creio eu, na América do Norte; mas não ocorre nos Açores, onde é substituída por uma que é de um tipo decididamente americano.
Isso pesa fortemente contra a doutrina que une a Atlântida à América, e é muito contrário à sua migração transoceânica — pois, considerando quão perto os Açores estão da América, e sob a influência da Corrente do Golfo e dos ventos predominantes, certamente parece maravilhoso. Não apenas os Açores estão em uma corrente que varre a costa dos Estados Unidos, mas estão nos ventos de S.O. e no olho dos furacões de S.O.!
Suponho que você responderá que as formas europeias são prepotentes, mas isso é levar a prepotência ao extremo.
R.T. Lowe escreveu-me uma excelente carta sobre as floras madeirense, canária e de Cabo Verde.
Eu o induzi ao erro se lhe dei a entender que o Catálogo de Wollaston dizia algo sobre plantas raras. Estou exausto e preocupado até a morte com esta palestra: e amaldiçoo a mim mesmo como um imbecil de cabeça e coração moles por tê-la aceitado.
CARTA 368. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN. Kew, segunda-feira [6 de agosto de 1866].
Novamente obrigado pela sua carta. Você não precisa temer que eu não faça justiça às suas objeções à hipótese continental!
Referindo-me novamente à página 344 (368/1. "Origem das Espécies", Edição III, páginas 343-4: "Em alguns casos, contudo, como pela ruptura de um istmo e a consequente irrupção de uma multidão de novos habitantes, ou pela subsidência final de uma ilha, a extinção pode ter sido comparativamente rápida."), nunca me ocorreu que você aludia à extinção da vida marinha: um istmo é um pedaço de terra, e você continua na mesma frase sobre "uma ilha", o que me confundiu completamente, pois a destruição de um istmo cria uma ilha!
Certamente não disse que os Açores estão mais perto da Grã-Bretanha e de Terra Nova "do que da Madeira", mas "do que a Madeira está de tais lugares".
Com relação aos coleópteros madeirenses, confio muito pouco na distribuição local de insetos — eles próprios são tão locais. Uma borboleta é uma grande raridade em Kew, mesmo uma branca, embora estejamos cercados por hortas comerciais. Todos os insetos são raríssimos conosco, até mesmo os tipos que abundam no lado oposto do Tâmisa.
Assim com as conchas, literalmente não temos nenhuma — nem mesmo uma Helix, embora abundem nas vielas a 200 jardas dos Jardins. Dos 89 insetos das Desertas, [apenas?] 11 são peculiares. Dos 162 de Porto Santo, 113 são madeirenses e 51 das Desertas.
Não se incomode em aborrecer Murray por minha causa sobre a nova edição da "Origem". Você me dirá qualquer coisa que tenha relação com meu assunto.
CARTA 369. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN. Kew, 7 de agosto de 1866.
Caro velho Darwin,
Você não deve deixar que eu o preocupe. Sou um porco obstinado, mas você não deve ficar infeliz por eu olhar para a mesma coisa sob uma luz diferente da sua. Preciso chegar ao fundo desta questão, e é tudo o que posso fazer. Algum sujeito mais esperto um dia quebrará o fundo dela e verá o caminho para explicar o que, para um botânico sem uma teoria para sustentar, deve ser dificuldades muito grandes. É bem verdade, tudo pode ser explicado, como você argumenta que será — eu admito isso plenamente; mas, enquanto isso, nem tudo está explicado, e não posso aceitar uma hipótese que deixa tantos fatos sem explicação. Você diz que as partes temperadas da América do Norte [estão] quase duas vezes e meia mais distantes dos Açores do que a Europa. De acordo com um cálculo aproximado no mapa do Cel. James, calculo 850 milhas dos Açores Orientais a Portugal, 1500 dos Ocidentais a Terra Nova, mas estou escrevendo para um amigo no Almirantado para que a distância seja calculada (o que parece quebrar nozes com o martelo de Nasmyth!)
As aves europeias são levadas pelo vento para a América? Os erráticos dos Açores são um fato estabelecido? Preciso muito deles, embora não sejam de muita importância, pois um ligeiro afundamento esconderia toda evidência desse tipo.
Quero resumir imparcialmente, deixando o veredito para o júri. Não posso fazer isso sem expor todas as dificuldades da maneira mais clara. Como você sabe como se sairia comigo se fosse um continentalista! Depois, também, devemos lembrar que tenho de enfrentar uma horda que está toda do lado continental — na verdade, praticamente todos os pensadores, Forbes, Hartung, Heer, Unger, Wollaston, Lowe (Wallace, suponho) e agora Andrew Murray. Não considero todos estes, e estalo os dedos para todos, menos para você; no meu íntimo, digo conscientemente que me inclino para a sua teoria, mas não posso aceitá-la como uma verdade estabelecida ou uma hipótese inquestionável.
O "pássaro-de-arame" ser um Grallator é um fato curioso favorável a você... Como eu anseio por ir novamente a Santa Helena.
É claro que aceito a evidência ornitológica como tremendamente forte, embora por que eles deveriam ser levados pelo vento para o oeste, e não mudarem especificamente, como os insetos, conchas e plantas fizeram, seja um mistério.
CARTA 370. PARA J.D. HOOKER. Down, 8 de agosto [1866].
Seria um prazer muito grande para mim se eu pudesse pensar que minhas cartas fossem da menor utilidade para você. Devo ter me expressado mal para que você suponha que encaro o povoamento de ilhas por transporte ocasional como uma hipótese bem estabelecida. Ambos abandonamos a criação e, portanto, temos de explicar os habitantes das ilhas ou por extensões continentais ou por transporte ocasional. Ora, tudo o que sustento é que, dessas duas alternativas, uma das quais deve ser admitida, não obstante muitas dificuldades, o transporte ocasional é de longe o mais provável. Vou um pouco mais longe — sustento que, sabendo o que sabemos, seria inexplicável se as ilhas desabitadas não fossem povoadas, pelo menos até certo ponto, por esses meios ocasionais. As aves europeias são ocasionalmente levadas para a América, mas muito mais raramente do que na direção inversa: elas chegam via Groenlândia (Baird); contudo, uma cotovia europeia foi capturada nas Bermudas.
A propósito, você talvez goste de saber que as aves europeias migram regularmente via ilhas setentrionais para a Groenlândia.
Sobre os erráticos nos Açores, veja a "Origem", página 393. (370/1. "Origem", Edição VI, página 328. A importância dos blocos erráticos nos Açores está em mostrar a probabilidade de sementes trazidas pelo gelo terem povoado as ilhas, explicando assim o número de espécies europeias e seu caráter inesperadamente setentrional. O deleite de Darwin na verificação de sua teoria é descrito em uma carta a Sir Joseph de 26 de abril de 1858, na "Life and Letters", II, página 112.) Hartung dificilmente poderia estar enganado sobre blocos de granito em uma ilha vulcânica.
Não acho um mistério que as aves não tenham sido modificadas na Madeira. (370/2. "Origem", Edição VI, página 328. A Madeira tem apenas uma ave endêmica. Darwin explica o fato pelo fato de a ilha ter sido povoada por aves que lutaram entre si e se tornaram mutuamente coadaptadas nos continentes vizinhos. "Portanto, quando estabelecida em seus novos lares, cada tipo terá sido mantido pelos outros em seu lugar e hábitos adequados, e consequentemente terá estado pouco sujeito a modificações." O cruzamento com imigrantes que chegam frequentemente também tenderá a conter a modificação.) Por favor, veja a página 422 da "Origem" [Edição III]. Você não acharia um mistério se tivesse visto as longas listas que tenho (em algum lugar) das aves que são sopradas anualmente, até mesmo em bandos, para a Madeira. O estoque cruzado seria o mais vigoroso.
Lembre-se de que se você não vier aqui antes de Nottingham, se não vier depois, pensarei que fui diabolicamente maltratado.
CARTA 371. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN. Kew, 9 de agosto de 1866.
Se as minhas cartas não o entediaram, é impossível que você suponha que as suas não foram de utilidade para mim! Eu desistiria de tudo se não fosse pela correspondência com você, que é a única ponta de prata no caso. Sinto que é nojento ter de enfatizar uma especialidade na qual não consigo ver o caminho nem um pouco mais longe do que via antes de começar. Certamente, tenho uma noção muito mais clara dos prós e contras de ambos os lados (embora estes fossem fatos mais esquecidos do que redescobertas). Vejo as paredes do poço mais abaixo com mais clareza, mas o fundo é tão obscuro quanto antes.
Acho que sei a "Origem" de cor em relação ao assunto, e foi a leitura dela que sugeriu as perguntas sobre os matacões dos Açores e as aves da Madeira. Os primeiros, você e eu discutimos, e pensei lembrar que você queria que fossem confirmados. O segundo me impressiona assim: por que as plantas e os insetos mudaram tão extensivamente e as aves não? Entendo perfeitamente e sinto a força do seu argumento em relação às aves per se, mas por que isso não se aplica aos insetos e plantas? Você não consegue ver que isso sugere a conclusão de que as plantas são derivadas de uma maneira e as aves de outra?
Certamente tomei como certo que você supunha que o povoamento [por] transporte ocasional fosse algo ainda mais do que uma "hipótese bem estabelecida", mas os debatedores raramente param para medir a força da opinião de seu antagonista.
Estarei com você na semana que vem, no sábado, espero. Eu deveria ter vindo antes, mas fiz tão pouco progresso que não pude. Agora estou em Santa Helena, e depois irei para, e terminarei com, a terra de Kerguelen.
(371/1. Após dar as distâncias dos Açores, etc., da América, Sir Joseph continua:--)
Mas, para mim, [isso] não melhora a questão — pois não pergunto por que os Açores têm, mesmo proporcionalmente (à distância), um número menor de plantas americanas, mas por que não têm nenhuma, vendo que os ventos e correntes sopram para lá. As Bermudas são todas americanas em flora, mas pelo que o Cel. Munro me informa, eu diria que não têm nada além de ervas daninhas americanas comuns e o zimbro (cedro). Nenhuma forma alterada, contudo estão tão longe da América quanto os Açores da Europa. Suponho que sejam modernas e estejam fora do padrão.
...Há essa, para mim, diferença assombrosa entre certas ilhas oceânicas que foram povoadas por extensão continental e aquelas povoadas por imigração (seguindo em ambas as definições a sua opinião), que as primeiras [continentais] contêm muitos tipos do continente mais distante, as segundas não contêm nenhum! Pegue Madagascar, com seus muitos gêneros asiáticos desconhecidos na África; Ceilão, com muitos tipos malaios não peninsulares; Japão, com muitos tipos americanos não asiáticos. O fato de Baird sobre a migração na Groenlândia eu conhecia desde que escrevi meu artigo sobre o Ártico. Quem me dera estar tão satisfeito com [extensões] continentais ou com meios de transporte quanto estou com minha hipótese da Groenlândia!
Oh, meu Deus, que conforto é ter uma crença (zombe à vontade).
CARTA 372. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN. Kew, 4 de dezembro de 1866.
Acabei de terminar o "Manual" da Nova Zelândia (372/1. "Handbook of the New Zealand Flora."), e estou pensando em uma discussão sobre a distribuição geográfica, etc., das plantas. Dificilmente existe uma única planta anual indígena no grupo. Gostaria de saber mais sobre a condição passada das ilhas, e se elas estiveram subindo ou afundando. Há muito que sugere a ideia de que as ilhas foram outrora conectadas durante uma época mais quente, foram depois separadas e muito reduzidas em área ao que são agora, e, por fim, assumiram seu tamanho atual. A notável uniformidade geral da flora, mesmo da flora arbórea, ao longo de tantos graus de latitude, é um traço muito marcante, assim como a representação, na metade sul, de certas espécies do norte, por variedades ou espécies muito estreitamente aliadas; e, por fim, há a imensa preponderância de certos gêneros cujas espécies se misturam todas umas com as outras e variam horrivelmente, e que sugerem uma área em ascensão. Ouvi dizer que uma baleia foi encontrada a algumas milhas no interior.
CARTA 373. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN. Kew, 14 de dezembro de 1866.
Não vejo como as montanhas da Nova Zelândia, Austrália do Sul e Tasmânia poderiam ter sido povoadas, e [com] uma extensão tão grande de formas antárticas (373/1. "Introductory Essay to Flora of New Zealand", página xx. "As plantas das ilhas antárticas, que são igualmente nativas da Nova Zelândia, Tasmânia e Austrália, são quase invariavelmente encontradas apenas nas altas montanhas desses países.") comuns à Fuegia, sem alguma intercomunicação. E sempre supus que isso foi antes da imigração de plantas asiáticas para a Austrália, e das quais as plantas temperadas e tropicais daquele país podem ser consideradas como formas alteradas. A presença de tantos desses gêneros temperados e frios australianos e neozelandeses no topo de Kini Balu em Bornéu (sob o equador) é um atordoante terrível, e exige uma distribuição setentrional muito extensa das formas temperadas australianas. É uma suposição assustadora que as planícies de Bornéu estivessem cobertas com uma vegetação temperada fria que foi empurrada para cima de Kini Balu pelo retorno do frio. Depois, há a distribuição muito distante de alguns tipos australianos para o norte, para as Filipinas, China e Japão: esse é um fato temível e maravilhoso, embora, como essas plantas sejam também da Nova Zelândia em sua maior parte, a migração para o norte possa ter ocorrido a leste da Austrália.
CARTA 374. PARA J.D. HOOKER. 24 de dezembro [1866].
...Uma palavra a mais sobre a flora derivada da suposta terra antártica do Pleistoceno que requer intercomunicação terrestre. Isso dependerá muito, ao que me parece, de quão longe você decida finalmente se os Açores, Cabo Verde, Tristão da Cunha, Galápagos, Juan Fernández, etc., etc., etc., tiveram todos intercomunicação terrestre. Se você não acha isso necessário, a Nova Zelândia, etc., não poderia ter sido povoada durante o início do período Glacial por meios ocasionais a partir da terra antártica? Quanto às terras baixas de Bornéu serem habitadas por um número moderado de formas temperadas durante o período Glacial, tão longe [está] de parecer uma "suposição assustadora" que cheguei a tal ponto de fanatismo que encaro como provado!
CARTA 375. J.D. HOOKER PARA CHARLES DARWIN. Kew, 25 de dezembro de 1866.
Eu estava prestes a escrever hoje, quando sua alegre carta chegou esta manhã, para lhe dizer que, após analisar cuidadosamente a flora da Nova Zelândia, descubro que existem apenas cerca de trinta dicotiledôneas anuais reputadas como indígenas, das quais quase metade, não tendo sido encontradas por Banks e Solander, provavelmente não são indígenas. Isso é exatamente 1/20 das dicotiledôneas, ou, excluindo as duvidosas, cerca de 1/40, enquanto a proporção britânica de anuais é 1/4,6 entre as dicotiledôneas!!! Das plantas naturalizadas da Nova Zelândia, metade são anuais! Suponho que não possa haver dúvida de que uma vegetação de folhas decíduas oferece mais condições para a vida vegetal do que uma de folha perene, e que é por isso que descobrimos que países caracterizados por climas uniformes são pobres em espécies, e essas são sempre de folha perene. Agora posso desenvolver esse ponto para a Nova Zelândia e a Grã-Bretanha. O Japão pode ser uma exceção: é um país extraordinário de folhas perenes e aparentemente tem muitas espécies, mas tem tanta novidade que pode não ser realmente tão rico em espécies quanto parece, e acredito que é muito pobre. Tem pouquíssimas anuais. Então, novamente, penso que o número de plantas com flores irregulares, e especialmente aquelas que requerem a agência de insetos, diminui muito com a perenidade. Portanto, em todas as regiões temperadas úmidas temos, como regra, poucas espécies, muitas perenes, poucas anuais, poucas leguminosas e orquídeas, poucos lepidópteros e outros insetos voadores, muitas coníferas, amentáceas, gramíneas, ciperáceas e outras árvores e plantas polinizadas pelo vento, etc. Orquídeas e leguminosas são escassas em ilhotas, porque os insetos fertilizadores necessários não migraram com as plantas. Talvez você tenha publicado isso.
CARTA 376. PARA J.D. HOOKER. Down, 9 de janeiro [1867].
Gosto da primeira parte do seu artigo no "Gard. Chronicle" (376/1. A palestra sobre Floras Insulares ("Gard. Chron." janeiro de 1867).) a um grau extraordinário: você nunca, em minha opinião, escreveu nada melhor. Você pede por todas, até pelas críticas minuciosas. Na primeira coluna você fala sobre a ausência de plantas alpinas e de substituição por zonas, o que atingirá a todos com espanto que tenham lido Humboldt e Webb sobre as Zonas em Tenerife. Você não quer dizer plantas boreais ou árticas? (376/2. A passagem à qual parece se referir menciona a ausência de plantas BOREAIS.) Na terceira coluna você fala como se os selvagens (376/3. "Tais plantas em ilhas oceânicas são, como os selvagens que em algumas ilhas foram por tanto tempo as únicas testemunhas de sua existência, os últimos representantes de suas várias raças.") tivessem geralmente visto as plantas endêmicas das ilhas atlânticas. Ora, como você bem sabe, apenas as Canárias, de todos os arquipélagos, foram habitadas. Na terceira coluna, você realmente tem materiais para falar sobre confirmar a proporção de insetos alados e não alados nas ilhas?
Sua comparação das plantas da Madeira com as ilhotas da Grã-Bretanha é admirável. (376/4. "O que diríamos, por exemplo, se uma planta tão totalmente diferente de qualquer coisa britânica como a Monizia edulis... fosse encontrada em uma ilhota rochosa das Scillies, ou outra planta umbelífera, Melanoselinum... em uma montanha no País de Gales; ou se a Ilha de Wight e as Ilhas Scilly tivessem variedades, espécies e gêneros também, diferindo de qualquer coisa na Grã-Bretanha, e encontrados em nenhum outro lugar do mundo!")
Devo aludir a uma de suas últimas notas com o caso muito curioso da proporção de anuais na Nova Zelândia. (376/5. Sobre este assunto, veja o interessante artigo de Hildebrand "Die Lebensdauer der Pflanzen" (Engler's "Botanische Jahrbucher", Volume II, 1882, página 51). Ele mostra que as anuais são raras em terras desérticas muito secas, em regiões setentrionais e alpinas. A tabela a seguir fornece as porcentagens de anuais, etc., em várias situações em Freiburg (Baden):--
Anuais. Bienais. Perenes. Árvores e Arbustos. Lugares arenosos, secos e pedregosos: 21 11 65 3
Campos secos: 6 4 90
Campos úmidos: 12 2 77 9
Bosques e moitas: 3 2 65 31
Água: 3 97
Terra cultivada: 89 11
As anuais são adaptadas para estações curtas, como em regiões árticas, ou países tropicais com estação seca, ou para terrenos periodicamente perturbados e cultivados? Você fala da vegetação de folha perene como levando a condições poucas ou restritas; mas a vegetação de folha perene não está ligada a um clima úmido e estável? Um clima muito úmido não implica quase (Tyndall) um clima estável?
Nunca imprimi uma palavra que eu possa me lembrar sobre orquídeas e plantas papilionáceas serem poucas em ilhas devido à raridade de insetos; e lembro-me de que você gritou comigo quando sugeri isso a propósito das Papilionaceae na Nova Zelândia, e da declaração sobre o trevo não semear lá até que a abelha-europeia fosse introduzida, como afirmei em meu artigo no "Gard. Chronicle". (376/6. "Em um número antigo do "Gardeners' Chronicle" é dado um extrato de um jornal da Nova Zelândia no qual muita surpresa é expressa pelo fato de o trevo introduzido nunca semear livremente até que a abelha-europeia fosse introduzida." "On the Agency of Bees in the Fertilisation of Papilionaceous Flowers..." ("Gard. Chron." 1858, página 828). Veja Carta 362, nota.) Tenho estado nestes últimos dias vexado e aborrecido a um grau tolo por ouvir que meu MS. sobre Animais Domésticos, etc., fará dois volumes, ambos maiores que a "Origem". Os volumes terão de ser em oitavo de tamanho normal, então escrevi para Murray sugerindo que os detalhes fossem impressos em tipo pequeno. Mas sinto que o tamanho é bastante ridículo em relação ao assunto. Estou pronto a praguejar contra mim mesmo e contra todo tolo que escreve um livro.
CARTA 377. A J.D. HOOKER. Down, 15 de janeiro [1867].
Obrigado pela sua alegre carta. Li o seu segundo artigo (377/1. A conferência sobre Floras Insulares foi publicada em fascículos no "Gardeners' Chronicle", 5, 12, 19 e 26 de janeiro de 1867.), e gostei ainda mais dele do que do primeiro, e mais do que isto não posso dizer. Por mero acaso, deparei-me ontem com uma passagem em Humboldt de que uma violeta cresce no Pico de Tenerife, em comum com os Pirenéus. Se Humboldt estiver certo de que as Ilhas Canárias, que ficam mais próximas do continente, têm um caráter africano muito mais forte do que as outras, não deveria você apenas aludir a isso? Não sei se você admite, e, em caso afirmativo, se alude à opinião que me parece provável, de que a maioria dos géneros confinados às ilhas do Atlântico (não digo as espécies) existia originalmente na Europa, e dela derivou, [e ter] se extinguido neste continente. Explicaria assim a comunidade de géneros peculiares nas várias ilhas do Atlântico. O que diz sobre as Ilhas Selvagens é excelente. (377/2. As Selvagens são ilhéus rochosos a meio caminho entre a Madeira e as Canárias; e possuem uma flora atlântica, em vez de, como seria de esperar, uma composta por imigrantes africanos. ("Insular Floras", página 5 da cópia separada.)) Fico contente por falar em LIGAÇÃO, embora isto soe um pouco demasiado próximo, em vez de ser contínuo. Tudo o que diz sobre Santa Helena é grandioso. Você não tem fé, mas se eu conhecesse alguém que vivesse em Santa Helena, suplicar-lhe-ia que me enviasse um barril ou dois de terra, retirados a algumas polegadas abaixo da superfície da parte superior da ilha, e de qualquer lagoa seca, e assim, tão certo como sou um vivente, receberia uma multidão de plantas perdidas.
Sugeri-lhe que calculasse a proporção de plantas com flores irregulares nas ilhas; fiz isto depois de apresentar uma discussão muito breve sobre flores irregulares no meu artigo sobre o Lythrum. (377/3. "Linn. Soc. Journ." VIII., 1865, página 169.) Mas o que raio tem uma mera sugestão como esta a ver com o meu e o teu? Você consolou-me muito quanto à dimensão do meu livro, que ainda me causa náuseas quando penso nele.