PAUL CLIFFORD
Por Edward Bulwer-Lytton
PREFÁCIO À EDIÇÃO DE 1840.
Este romance difere das outras ficções do mesmo autor na medida em que procura extrair o seu interesse de fontes mais práticas do que ideais. De entre cerca de doze romances ou novelas, abrangendo, ainda que de forma inadequada, uma grande variedade de cenários e personagens — de “Pelham” a “Os Peregrinos do Reno”, de “Rienzi” aos “Últimos Dias de Pompeia” —, “Paul Clifford” é o único em que um ladrão foi feito o herói, ou em que as fases peculiares da vida que ele ilustra foram trazidas para qualquer descrição proeminente.
Sem me deter a investigar que reino de costumes ou que ordem de crime e tristeza está aberto à arte e é capaz de contribuir para os fins próprios da ficção, permitam-me observar que o presente tema foi selecionado, e o romance escrito, com um duplo objetivo: Primeiro, chamar a atenção para dois erros nas nossas instituições penais; a saber, uma disciplina prisional viciosa e um código penal sanguinário — o hábito de corromper o rapaz pelo mesmo castigo que deveria redimi-lo, e depois enforcar o homem na primeira oportunidade, como a forma mais fácil de nos livrarmos dos nossos próprios erros. Entre o exemplo de crime que o principiante aprende com os criminosos no pátio da prisão e a horrível leviandade com que a multidão se reúne em torno do cadafalso em Newgate, existe uma ligação que a um escritor se pode perdoar por deixar as regiões mais elevadas da imaginação para rastrear e detetar. Até este ponto, este livro é menos um retrato da estrada real do rei do que da estrada real da lei para a forca — uma sátira ao atalho estabelecido entre a Casa de Correção e a Cela dos Condenados. Um segundo e mais ligeiro objetivo no romance “Paul Clifford” (e daí a introdução de um semi-burlesco ou paródia nos capítulos iniciais) foi mostrar que não há nada de essencialmente diferente entre o vício vulgar e o vício da moda, e que a gíria de um círculo é apenas uma paráfrase fácil do jargão do outro.
Os Ensaios Suplementares, intitulados “Tomlinsoniana”, que contêm os corolários a vários problemas sugeridos no Romance, foram restaurados na presente edição.
CLIFTON, 25 de julho de 1840.
PREFÁCIO À EDIÇÃO DE 1848.
A maioria dos homens que, com alguma seriedade de espírito, examinam os mistérios do nosso estado social, passará talvez pela fase de autoeducação em que este romance foi composto. O contraste entre as fraudes convencionais, aceites como partes integrantes do grande sistema da civilização, e as invasões menos enganosas das leis que distinguem o meum do tuum, é tentador para uma sátira que não deixa de ter a sua justiça. As verdades trágicas que jazem ocultas naquilo a que posso chamar a Filosofia da Circunstância atingem a nossa imaginação através da nossa filantropia. Vemos massas dos nossos semelhantes como vítimas de circunstâncias sobre as quais não tiveram qualquer controlo — contaminadas na infância pelo exemplo dos pais, com a sua inteligência extinta ou voltada contra eles, consoante a consciência é sufocada na ignorância ou pervertida em desculpas para o vício. Uma criança que é embalada na ignomínia, cujo mestre-escola é o criminoso, cuja academia é a Casa de Correção — que respira uma atmosfera em que a virtude é envenenada, a qual a religião não penetra — torna-se menos um ser humano responsável e racional do que uma fera selvagem que deixamos vaguear no deserto, até que ronda as nossas casas e a matamos em legítima defesa.
A este respeito, o romance “Paul Clifford” é um grito alto à sociedade para que corrija a circunstância — para que redima a vítima. É um apelo da Humanidade à Lei. E nisto, se não podia pretender influenciar ou guiar o temperamento dos tempos, era pelo menos um presságio de uma mudança vindoura. Entre a literatura da imaginação e os interesses práticos de um povo, existe uma harmonia tão completa quanto misteriosa. O coração de um autor é o espelho da sua época. A sombra do sol é projetada na superfície imóvel da literatura muito antes de a luz penetrar na lei; mas é sempre do sol que a sombra cai, e no momento em que vemos a sombra, podemos ter a certeza da luz.
Desde que esta obra foi escrita, a sociedade tem estado ocupada com os males em que então tacitamente aquiescia. O verdadeiro movimento dos últimos quinze anos tem sido o progresso de uma ideia: a Reforma Social. Aí avança ela com uma marcha constante e silenciosa por detrás de cada questão mais ruidosa de mudança constitucional. Façamos justiça ao nosso tempo. Houve períodos de ação mais brilhante sobre os destinos dos Estados, mas não há tempo visível na História em que tenha havido um desejo tão sincero e geral de melhorar a condição do grande corpo do povo. Em cada círculo da comunidade, esse desejo saudável está em movimento. Une num objetivo homens dos partidos mais opostos; oferece o núcleo mais atraente para reuniões públicas; limpou o livro de leis de sangue; está a livrar o mundo do carrasco. Anima o clero de todas as seitas nos distritos mais remotos; leva o senhorio a melhorar as casas e a distribuir lotes de terreno. Escolas surgem em todas as aldeias; nos livros mais ligeiros, a Grande Ideia colore a página e lega a moral. O Governo, sozinho (apesar das profissões de fé sobre as quais o atual Ministério foi fundado), permanece não penetrado pelo génio comum da época; mas sobre essa questão, com todas as subtilezas que ela envolve e as experiências que exige — não de acordo com os sonhos de uma filosofia insana, mas de acordo com as leis imutáveis que proporcionam as recompensas do trabalho ao respeito pela propriedade —, um Governo terá de ser formado, finalmente.
Há nesta obra uma questão mais subtil sugerida, mas não resolvida — aquela questão que nos confunde no ardor generoso da nossa juventude —, que, sendo tão insatisfatória como toda a metafísica, mais evitamos do que decidimos à medida que avançamos na idade; a saber: façamos as leis que quisermos, o homem que vive dentro da lei pode ser tão mau como o homem que vive fora dela. Compare-se o Paul Clifford da ficção com William Brandon — o filho caçado com o pai honrado, o proscrito da lei com o dispensador da lei, o criminoso com o juiz; e, à medida que, no fim, se defrontam — um no assento da justiça, o outro na barra do prisioneiro —, quem pode pôr a mão no coração e dizer que Paul Clifford é um homem pior do que William Brandon.
Não há imoralidade numa verdade que reforça esta questão; pois são precisamente essas ofensas, com as quais a sociedade não pode interferir, que a sociedade exige que a ficção exponha. A sociedade tem razão, embora a juventude relute em reconhecê-lo. A sociedade só pode formar certos regulamentos necessários para a sua autodefesa — quanto menos, melhor —, punir aqueles que invadem, deixar sem questionar aqueles que os respeitam. Mas a ficção segue a verdade até às fortalezas da convenção; atravessa o disfarce, levanta a máscara, expõe o coração e deixa uma moral onde quer que marque uma falsidade.
Fora deste alcance de ideias, a mente do Autor, talvez, tenha emergido para uma atmosfera que ele acredita ser mais congenial à Arte. Mas não pode arrepender-se de ter passado por ela, tanto quanto não pode arrepender-se de que, enquanto lá habitou, o seu coração, tal como os seus anos, era jovem. A simpatia pelo sofrimento que parece mais real, a indignação perante as fraudes que parecem mais aceites como virtudes, são as emoções naturais da juventude, se for sincera. Mais sensível depois às prerrogativas, tal como aos elementos da Arte, o Autor, pelo menos, procura escapar para onde o homem não pode, e olhar para o mundo prático através daquele mais sereno do ideal.
Com a conclusão desta obra, encerrou-se uma era na autoeducação do escritor. De “Pelham” a “Paul Clifford” (quatro ficções, todas escritas numa idade muito jovem), o Autor observa mais do que imagina; lida mais com a superfície comum da vida humana do que tenta, por mais humildemente que seja, elevar-se acima dela ou mergulhar por baixo. De retratar em “Paul Clifford” os erros da sociedade, foi um progresso quase natural da reflexão passar para aqueles que avultam em crime no coração humano solitário — dos males ousados e abertos que brotam da ignorância e do exemplo, rastrear aqueles que jazem enrolados nos emaranhados do conhecimento refinado e do orgulho especulativo. Olhando para trás, a esta distância de anos, posso ver tão claramente como se estivesse mapeado diante de mim, os caminhos que levaram através da fronteira da invenção de “Paul Clifford” a “Eugene Aram”. E, concluída essa última obra, não menos claramente posso ver onde os primeiros lampejos de uma fantasia mais justa quebraram o meu caminho e repousaram sobre aquelas imagens mais ideais que procurei, com mão fraca, transferir para “Os Peregrinos do Reno” e os “Últimos Dias de Pompeia”. Nós, autores, tal como as Crianças na Fábula, rastreamos a nossa jornada através do labirinto pelas pedras que espalhamos ao longo do caminho. De outros que vagueiam atrás de nós, elas podem não atrair qualquer atenção, ou, se notadas, parecer-lhes apenas espalhadas pelo capricho do acaso; mas nós, quando a nossa memória quer refazer os nossos passos, revemos nas pedras humildes as testemunhas do nosso progresso, os marcos do nosso caminho.
Kenelworth, 1848.
PAUL CLIFFORD.
CAPÍTULO I.
Dizei, vós oprimidos por algum pesar fantástico, Algum nervo tenso que vos frustra o repouso, Vós que pressionais o divã macio enquanto escravos avançam Com olhar tímido para ler o vislumbre distante, Vós que, com preces tristes, o médico cansado importunais Para nomear a doença sem nome, sempre nova, Vós que, com paciência fingida, terríveis queixas suportais, Que a dor real, e só ela, pode curar, Como suportaríeis jazeres em dor real, Desprezados, negligenciados, deixados sozinhos a morrer? Como suportaríeis dar o vosso último suspiro Onde tudo o que é miserável abre caminho para a morte? — Crabbe.
Era uma noite escura e tempestuosa; a chuva caía em torrentes, exceto em intervalos ocasionais, quando era contida por uma rajada violenta de vento que varria as ruas (pois é em Londres que se situa a nossa cena), fazendo barulho ao longo dos telhados e agitando ferozmente a chama escassa dos candeeiros que lutavam contra a escuridão. Através de um dos bairros mais obscuros de Londres, e entre locais pouco amados pelos senhores da polícia, um homem, evidentemente das classes mais baixas, seguia o seu caminho solitário. Parou duas ou três vezes em diferentes lojas e casas de uma descrição correspondente à aparência do quarteirão em que se situavam, e perguntou por um artigo ou outro que não parecia fácil de encontrar. Todas as respostas que recebeu foram negativas; e, ao virar as costas a cada porta, resmungava para si mesmo, com uma fraseologia nada elegante, a sua deceção e descontentamento. Finalmente, numa casa, o senhorio, um talhante robusto, depois de dar a mesma resposta que o inquiridor tinha até então recebido, acrescentou: “Mas se isto servir, Dummie, está inteiramente ao seu dispor!” Parando reflexivamente por um momento, Dummie respondeu que achava que a coisa oferecida poderia servir; e, enfiando-a no seu amplo bolso, afastou-se com um movimento tão rápido quanto o vento e a chuva permitiam. Chegou logo a um ninho de edifícios baixos e sombrios, à entrada dos quais, em caracteres meio apagados, estava escrito “Thames Court”. Parando no mais conspícuo destes edifícios, uma estalagem ou taberna, através das janelas entreabertas da qual brilhavam, com um conforto avermelhado, as chamas da lareira hospitaleira, bateu apressadamente à porta. Foi admitido por uma senhora de certa idade, dotada de uma arredondada e agradável redondeza de rosto e pessoa.
“Conseguiste, Dummie?” disse ela, rapidamente, enquanto fechava a porta ao convidado.
“Não, não! Não exatamente; mas penso que...”
“Pche, seu tolo!” gritou a mulher, interrompendo-o, irritada. “Por que não serve de nada enganar-me. Sabes que só passaste da minha taberna para outra, e não foste atrás do livro de todo. Então, a pobre criatura está a delirar e a morrer, e tu...”
“Deixa-me falar!” interrompeu Dummie, por sua vez. “Digo-te que fui primeiro à de Mother Bussblone, que, sei eu, vende os salmos de manhã e à noite às meninas, e peço lá uma Bíblia; e ela diz, diz ela: 'Só tenho um “Guia para a Forca”, mas conseguirás uma Bíblia, penso eu, com o Mestre Talkins, o sapateiro que prega'. Então vou ter com o Mestre Talkins, e ele diz, diz ele: 'Não tenho uso para a Bíblia — porquê? Tenho um chamado interior; mas talvez a consigas no talhante do outro lado — porquê? O talhante há de ir para o inferno!' Então vou ao outro lado, e o talhante diz, diz ele: 'Não tenho uma Bíblia, mas tenho um livro de peças encadernado tal e qual como uma, e talvez a pobre criatura não note a diferença'. Então levo as peças, Sra. Margery, e aqui estão elas, certamente! E como está a pobre Judy?”
“Horrível! Não passará desta noite, estou a pensar.”
“Bem, vou subir as escadas!”
Dizendo isto, Dummie subiu uma escada sem porta, através da entrada da qual um cobertor, estendido angularmente da parede até à chaminé, oferecia uma espécie de biombo; e logo se viu dentro de um quarto que o génio sombrio e doloroso de Crabbe poderia ter tido prazer em descrever. As paredes eram caiadas e, em vários lugares, figuras estranhas e caracteres grotescos tinham sido traçados por algum ocupante brincalhão, num contorno tão sombrio quanto a ponta de um pau queimado ou a borda de um pedaço de carvão costumam produzir. A luz pálida e vacilante de uma vela de sebo dava uma espécie de aspereza e ameaça a estas proezas da arte pictórica, especialmente porque mais de uma vez recebiam embelezamentos de retratos de Satanás, tal como ele é habitualmente desenhado. Um lume baixo ardia sombriamente na lareira fuliginosa, e sobre o rebordo sibila “a voz calma e suave” de uma chaleira de ferro. Numa mesa redonda de pinho havia dois frascos, uma chávena rachada, uma colher partida de algum metal baço, e sobre duas ou três cadeiras mutiladas estavam espalhados vários artigos de vestuário feminino. Noutra mesa, colocada abaixo de uma janela alta, estreita e sem postigos (através da qual, em vez de uma cortina, um avental axadrezado fora pendurado frouxamente, e agora ondulava intermitentemente nas rajadas de vento que entravam facilmente através de muitas fendas e ranhuras), encontravam-se um espelho, vários utensílios de toucador, uma caixa de pó-de-arroz grosseiro, alguns ornamentos de mais ostentação do que valor, e um relógio, cujo tiquetaque regular e calmo produzia aquele sentimento indescritivelmente doloroso que, tememos, muitos dos nossos leitores que ouviram o som num quarto de doente podem facilmente recordar. Uma cama grande com dossel situava-se em frente a esta mesa, e o espelho refletia parcialmente cortinas de riscas desbotadas, e de vez em quando (à medida que a posição da sofredora acompanhava a emoção inquieta de uma mente perturbada) vislumbres do rosto de alguém sobre quem a Morte se apressava rapidamente. Ao lado desta cama estava agora Dummie, um homem pequeno e magro, vestido com um gibão de peluche esfarrapado, do qual as gotas de chuva pingavam lentamente, e com uma fisionomia fina, amarela e astuta, grotescamente hedionda nos traços, mas não positivamente vilã na expressão. Do outro lado da cama estava um menino de cerca de três anos, vestido como se pertencesse às classes mais abastadas, embora o traje estivesse algo esfarrapado e descolorido. A pobre criança tremia violentamente e, evidentemente, olhava com um sentimento de alívio para a entrada de Dummie. E agora, lentamente, e com muitos suspiros asmáticos, arquejava em direção ao fundo da cama o corpo pesado da mulher que abordara Dummie lá em baixo, e que o seguira, haud passibus aequis, até ao quarto da sofredora; ela estava de pé com uma garrafa de remédio na mão, agitando o seu conteúdo de cima para baixo, e com uma compaixão bondosa, ainda que tímida, espalhada por um rosto carmesim devido a libações habituais. Isto compunha a cena — exceto que, sobre uma cadeira ao lado da cama, jazia uma profusão de caracóis longos, brilhantes e dourados, que tinham sido cortados da cabeça da sofredora quando a febre começara a subir, mas que, com um ciúme que retratava a pequena vaidade de um coração mesquinho, ela tinha agarrado e insistido em manter perto de si; e exceto que, junto ao lume, perfeitamente desatento ao evento prestes a ocorrer dentro do quarto, e ao qual nós, da raça bípede, atribuímos uma importância tão terrível, jazia um gato cinzento grande, enrolado em bola, e cochilando com olhos semicerrados, e orelhas que, de vez em quando, indicavam, por uma leve inflexão, o choque de um som mais alto ou mais próximo do que o habitual sobre os seus sentidos letárgicos. A mulher moribunda não prestou atenção, a princípio, à entrada de Dummie ou da mulher ao fundo da cama, mas virou-se para a criança e, agarrando-lhe o braço ferozmente, puxou-o para si e fixou os seus traços aterrorizados com um olhar em que a exaustão e uma palidez extrema da tez eram até horrivelmente contrastadas pelo brilho e energia do delírio.
“Se fores como ele,” murmurou ela, “estrangula-te-ei — hei de fazê-lo! Sim, treme, deves tremer quando a tua mãe te toca, ou quando ele é mencionado. Tens os olhos dele, tens! Fora com eles, fora — o diabo senta-se a rir neles! Oh, choras, choras, pequenino? Bem, agora, fica quieto, meu amor; cala-te! Não te faria mal! Mal... Ó Deus, ele é meu filho, afinal!” E, a estas palavras, abraçou o menino apaixonadamente ao peito e desatou a chorar.
“Vamos, agora, vamos,” disse Dummie, de forma consoladora; “toma o remédio, Judith, e depois falaremos sobre o miúdo!”
A mãe relaxou o aperto sobre o rapaz e, voltando-se para o falante, fitou-o por alguns momentos com um olhar perplexo; finalmente, pareceu lembrar-se dele lentamente e disse, enquanto se levantava sobre uma mão e apontava a outra para ele com um gesto inquisidor: “Trouxeste o livro?”
Dummie respondeu levantando o livro que trouxera do honesto talhante.
“Limpa o quarto, então,” disse a sofredora, com aquele ar de comando fingido tão comum aos loucos. “Queremos estar sós!”
Dummie piscou o olho à boa mulher ao fundo da cama; e ela (embora, geralmente, não fosse uma pessoa fácil de mandar ou persuadir) deixou, sem relutância, o quarto da doente.
“Se ela vai rezar,” murmurou a nossa estalajadeira (pois esse cargo detinha a boa matrona), “então, de facto, mais vale ir-me embora, pois não é muito confortável para os que já são velhos ouvir tudo isso!”
Com esta reflexão piedosa, a hospedeira da Caneca — assim se chamava a estalagem — desceu pesadamente as escadas a ranger. “Agora, homem,” disse a sofredora, severamente, “jura que nunca revelarás... jura, digo eu! E, pelo grande Deus cujos anjos estão por perto esta noite, se alguma vez quebrares o juramento, voltarei e perseguir-te-ei até ao teu dia de morte!”
O rosto de Dummie empalideceu, pois estava supersticiosamente afetado pela veemência e pela linguagem da mulher moribunda, e ele respondeu, enquanto beijava a pretensa Bíblia, que jurava guardar o segredo, tanto quanto sabia dele, o que, ela devia estar sensível, disse ele, era muito pouco. Enquanto falava, o vento varreu com uma rajada alta e súbita a chaminé e abanou o telhado acima deles tão violentamente que soltou muitas das telhas em ruínas, que caíram, uma após outra, com um ruído estrondoso, no pavimento lá em baixo. Dummie estremeceu de medo; e talvez a sua consciência o tenha picado pelo truque que fizera em relação à Bíblia falsa. Mas a mulher, cujos nervos excitados e descontrolados a levavam de um assunto para outro com uma rapidez sobrenatural, disse, com uma risada histérica: “Vê, Dummie, vêm buscar-me com pompa; dá-me o barrete... ali... e traz o espelho!”
Dummie obedeceu; e a mulher, enquanto proferia em tom baixo algo sobre a cor pouco lisonjeira das fitas, ajustou o barrete na cabeça e depois, dizendo com uma voz arrependida e petulante: “Por que teriam cortado o meu cabelo? Tal desfiguração!”, pediu a Dummie que desejasse à Sra. Margery que subisse mais uma vez até ela.
Deixada a sós com o seu filho, o rosto da desgraçada mãe suavizou-se ao contemplá-lo, e todas as leviandades e todas as veemências — se nos é permitido usar a palavra — que, na turbulenta comoção do seu delírio, tinham sido trazidas à superfície da sua mente, afundaram-se agora gradualmente à medida que a morte se intensificava nela, e a ansiedade de uma mãe elevou-se ao nível natural de onde fora perturbada e aviltada. Ela tomou a criança ao peito e, abraçando-a com os braços, que se tornavam mais fracos a cada instante, acalmou-a com o tipo de canto que as amas entoam para os seus bebés irrequietos; mas a sua voz era rouca e oca, e ao sentir que assim o era, os olhos da mãe encheram-se de lágrimas. A Sra. Margery reentrou então; e, virando-se para a estalajadeira com uma calma impressionante de modos que espantou e intimidou a pessoa a quem se dirigia, a mulher moribunda apontou para a criança e disse:
“Você tem sido gentil comigo, muito gentil, e que Deus a abençoe por isso! Descobri que aqueles a quem o mundo chama de piores são, muitas vezes, os mais humanos. Mas não vou agradecer-lhe como deveria, mas sim pedir-lhe um último e imenso favor. Proteja o meu filho até que ele cresça. Você disse muitas vezes que o amava — você mesma não tem filhos — e um bocado de pão e um abrigo para a noite, que é tudo o que lhe peço que lhe dê, não empobrecerá pretendentes mais legítimos.”
A pobre Sra. Margery, soluçando francamente, jurou que seria uma mãe para a criança e que se esforçaria por criá-lo honestamente; embora uma taberna não fosse, confessou ela, o melhor lugar para bons exemplos.
“Leve-o”, gritou a mãe, roucamente, à medida que a sua voz, falhando-lhe as forças, chocalhava indistintamente e quase morria dentro dela. “Leve-o, crie-o como quiser, como puder; qualquer exemplo, qualquer teto, é melhor do que...” Aqui as palavras tornaram-se inaudíveis. “E oh, que seja uma maldição e um... Dê-me o remédio; estou a morrer.”
A estalajadeira, alarmada, apressou-se a obedecer; mas antes que regressasse ao leito, a sofredora estava insensível — nem voltou a recuperar a fala ou o movimento. Apenas um gemido baixo e raro testemunhava a vida contínua, e dentro de duas horas isso cessou, e o espírito partiu. Naquele momento, a nossa boa estalajadeira encontrava-se ela própria além das coisas deste mundo exterior, tendo sustentado o seu ânimo durante as vigílias da noite com tantos pequenos estimulantes líquidos que estes finalmente afundaram no torpor que geralmente sucede à excitação. Aproveitando, talvez, a oportunidade que a insensibilidade da estalajadeira lhe proporcionava, Dummie, pelo raio expirante da vela que ardia no quarto da morte, abriu apressadamente um enorme baú (que estava geralmente escondido debaixo da cama e continha o guarda-roupa da falecida), e remexeu com mão irreverente as roupas de cama e as sedas, até que, bem no fundo do baú, descobriu alguns pacotes de cartas; agarrou-os e enterrou-os nas conveniências do seu traje. Depois, levantando-se e voltando a colocar o baú no lugar, lançou um olhar saudoso para o relógio na mesa de toucador, que era de ouro; mas retirou o olhar e, com um suspiro queixoso, observou para si mesmo: “A velha sabe disso, raio a parta! Mas, seja como for, vou levar isto: quem sabe se não pode ser de serventia. O que hoje não vale nada, amanhã pode ser uma fortuna!” E pousou a sua mão grosseira sobre as madeixas douradas e sedosas que descrevemos. “É um negócio estranho, e deixa-me confuso; mas bico calado quanto ao meu próprio pescoço.”
Com este breve solilóquio, Dummie desceu as escadas e saiu da casa.
CAPÍTULO II.
A imaginação inclina-se carinhosamente a traçar Os esplendores da sala desse lugar festivo. Aldeia Deserta.
Há pouco que interesse numa narrativa da primeira infância, a menos que, na verdade, se estivesse a escrever sobre educação. Não nos demoraremos, portanto, na infância do rapaz sem mãe deixado à proteção da Sra. Margery Lobkins, ou, como era por vezes familiarmente chamada, Peggy, ou Piggy, Lob. A boa senhora, extraindo um rendimento mais do que suficiente dos lucros de uma casa que, se situada numa localidade obscura, gozava de reputação muito geral e lucrativa, e sendo uma viúva solitária sem parentes nem amigos, não tinha tentação de quebrar a sua palavra à falecida, e permitiu que o órfão crescesse em força e entendimento até à idade de doze anos — um período em que estamos agora prestes a reintroduzi-lo aos nossos leitores.
O rapaz demonstrou grande robustez de temperamento e uma perspicácia de intelecto nada desprezível. Em tudo o que tentava, o seu sucesso era rápido, e uma força notável de membros e músculos secundava bem os ditames de uma ambição voltada, deve confessar-se, mais para o esforço físico do que para o mental. Não se deve supor, contudo, que a sua vida de rapaz decorreu numa tranquilidade ininterrupta. Embora a Sra. Lobkins fosse uma boa mulher no geral, e muito afeiçoada ao seu protegido, era violenta e rude no temperamento, ou, como ela própria expressava de forma mais lisonjeira, “os seus sentimentos eram incomumente fortes”; e a alternância de discussões e reconciliações constituía a principal ocupação da vida doméstica do protegido. Como, antes de se tornar pupilo da Sra. Lobkins, ele nunca tinha recebido outra denominação que não fosse “a criança”, o dever de o batizar recaiu sobre a nossa estalajadeira do Mug; e, após alguma deliberação, ela abençoou-o com o nome de Paul. Era um nome de bom presságio, pois pertencera ao avô da Sra. Lobkins, que tinha sido três vezes deportado e duas vezes enforcado (na primeira ocorrência desta última descrição, fora restaurado pelos cirurgiões, para grande desgosto de um jovem anatomista que teria tido a honra de o dissecar). O rapaz não parecia merecer o apelido distinto que ostentava, pois não demonstrava qualquer predisposição notável para a propriedade das outras pessoas. Aliás, embora por vezes esvaziasse os bolsos de algum visitante ocasional da sala de café da Sra. Lobkins, parecia um ato originado mais por um amor à brincadeira do que por um desejo de lucro; pois, depois de a pessoa saqueada ter sido suficientemente atormentada pela perda, porventura, de utilidades como uma tabaqueira ou um lenço; depois de ter, para regozijo secreto de Paul, revistado cada canto do apartamento, batido o pé, resmungado e se ter exposto pela sua irritabilidade à amarga objurgação da Sra. Lobkins, o nosso jovem amigo arranjaria, de forma silenciosa e repentina, que o artigo desaparecido regressasse por vontade própria ao bolso de onde tinha desaparecido. E assim, como os nossos leitores sem dúvida experimentaram quando perturbaram a paz de toda uma casa pela perda de algum tesouro portátil que eles próprios descobrem mais tarde ter extraviado, a infeliz vítima da honesta engenhosidade de Paul, exposta à indignação coletiva dos espectadores, e afundando-se de acusador em condenado, amaldiçoava secretamente a sorte infeliz que não só o vexava com a perda da sua propriedade, como tornava ainda mais irritante recuperá-la.
Se foi porque, ao descobrir estas partidas, a Sra. Lobkins tremeu pelo futuro viés da destreza que elas exibiam, ou se pensou que a tolice de roubar sem ganho exigia uma correção rápida e permanente, não podemos decidir; mas a boa senhora ficou finalmente extremamente ansiosa por garantir a Paul as bênçãos de uma educação liberal. A chave do conhecimento (a arte de ler) ela tinha, de facto, obtido para ele dois anos antes da presente data; mas isso estava longe de satisfazer a sua consciência — aliás, sentia que, se não pudesse também obter para ele a discrição para a usar, teria sido sábio até ter retido uma chave que o rapaz parecia perversamente aplicar a todas as fechaduras, menos à correta. Numa palavra, ela desejava que ele recebesse uma educação muito superior à daqueles que via à sua volta; e atribuindo, como a maioria das pessoas ignorantes, vantagens demasiado grandes à aprendizagem, ela concebeu que, para viver tão decorosamente como o pároco da freguesia, bastava saber tanto latim.
Uma noite, em particular, enquanto a senhora se sentava junto à sua lareira alegre, esta fonte de ansiedade estava invulgarmente ativa na sua mente, e de vez em quando dirigia olhares inquietos e agitados para Paul, que se sentava num banco no canto oposto da lareira, diligentemente empregado a ler a vida e aventuras do célebre Richard Turpin. O banco em que o rapaz se sentava estava gasto até a uma suavidade vítrea, exceto em certos lugares, onde algum ocioso engenhoso ou outro se tinha divertido a esculpir vários nomes, epítetos e subtilezas epigramáticas de linguagem. Diz-se que o órgão de esculpir em madeira é proeminentemente desenvolvido em todos os crânios ingleses; e o sagaz Sr. Combe colocou este órgão na parte de trás da cabeça, em justaposição ao da destrutividade, que é igualmente grande entre os nossos compatriotas, como é notavelmente comprovado em todas as grades, assentos, templos e outras coisas pertencentes a outras pessoas.
Em frente à lareira havia uma grande mesa de pinho, na qual Dummie, apelidado Dunnaker, sentado perto da senhora, ruminava calmamente sobre um copo de genebra com água. Mais adiante, noutra mesa no canto da sala, um cavalheiro com uma peruca ruiva, roupas muito gastas e roupa interior que parecia ter sido fervida em açafrão, fumava o seu cachimbo, à parte, silencioso e aparentemente mergulhado em meditação. Este cavalheiro não era outro senão o Sr. Peter MacGrawler, o editor de um magnífico periódico intitulado “O Asiaeum”, que foi escrito para provar que tudo o que é popular é necessariamente mau — uma verdade valiosa e recôndita, que “O Asinaeum” tinha demonstrado satisfatoriamente ao arruinar três impressores e demolir um editor. Não precisamos acrescentar que o Sr. MacGrawler era escocês de nascimento, uma vez que cremos ser bastante conhecido que todos os periódicos deste país foram, desde tempos imemoriais, monopolizados pelos cavalheiros da Terra dos Bolos. Não sabemos como será a moda de comer os ditos bolos na Escócia, mas aqui os bons emigrantes parecem gostar deles cuidadosamente barrados com manteiga de ambos os lados. Ao lado do editor estava uma grande caneca de estanho; acima dele pendia uma gravatura do “maravilhosamente gordo javali anteriormente na posse do Sr. Fattem, criador de gado”. À sua esquerda erguia-se a forma sombria de um relógio fino e vertical numa caixa de carvalho; para além do relógio, um espeto e um mosquete estavam fixados em paralelos à parede. Abaixo desses emblemas gémeos de guerra e culinária estavam quatro prateleiras, contendo pratos de estanho e faiança, terminando, à maneira de centauro, numa espécie de aparador. Do outro lado destas conveniências domésticas estava um retrato da Sra. Lobkins, num corpete escarlate e um chapéu com plumas. Atrás da bela estalajadeira estendia-se o cobertor que mencionámos anteriormente. Como um alívio à superfície monótona deste biombo simples, várias baladas e lendas eruditas estavam presas ao cobertor. Lá podia ler em versos, patéticos e sem adornos, como:
“Sally amava um rapaz marinheiro Que lutou com o famoso Shovel!”
Lá podia aprender, se estivesse antes inconsciente de dois factos tão instrutivos, que:
“Ben o beberrão amava a sua garrafa — Charley apenas amava as raparigas!”
Quando destas e de várias outras efusões poéticas estivesse um tanto cansado, os fragmentos literários em prosa mais humilde proporcionavam-lhe igual edificação e deleite. Lá podia esclarecer-se plenamente quanto às “Estranhas e Maravilhosas Notícias de Kensington, sendo uma relação mais completa e verdadeira de como uma criada lá é supostamente levada por um Espírito Maligno na quarta-feira, 15 de abril passado, por volta da meia-noite”. Lá, também, não menos interessante e não menos verídico, estava aquele anedota incomum tocando o chefe de muitos poderes entronizados intitulado “O Diabo de Mascon; ou, a verdadeira Relação das Principais Coisas que um Espírito Imundo fez e disse em Mascon, na Borgonha, na casa de um Sr. Francis Pereaud: agora traduzido para inglês por alguém que tem um Conhecimento Particular da Verdade da História”.
Nem estes materiais para a história satânica eram as únicas crónicas prosaicas e fiéis que o cobertor bibliotecário oferecia. Igualmente maravilhoso, e igualmente indisputável, era o relato de “uma jovem senhora, filha de um duque, com três pernas e o rosto de um porco-espinho”. Nem menos o “Terrível Julgamento de Deus sobre os Blasfemadores, como exemplificado no caso de John Stiles, que caiu morto após jurar um Grande Juramento; e ao despirem o infeliz homem encontraram 'Não jures de todo' escrito na cauda da sua camisa!”
Duas vezes a Sra. Lobkins tinha soltado um longo suspiro, enquanto os seus olhos se desviavam de Paul para a face tranquila de Dummie Dunnaker, e agora, reacomodando-se na sua cadeira, à medida que uma ansiedade maternal se acumulava sobre o seu rosto:
“Paul, meu pequeno”, disse ela, “que balbuciar é esse que tens aí?”
“Turpin, o grande salteador de estradas!” respondeu o jovem estudante, sem levantar os olhos da página, através da qual estava a soletrar o seu caminho instrutivo.
“Oh! Ele é um pedaço da cepa certa, senhora!” disse o Sr. Dunnaker, enquanto aplicava o seu cachimbo a um pedaço de papel iluminado. “Ele ainda montará um cavalo nascido de uma bolota, garanto-te!”
A esta profecia, a senhora respondeu apenas com um olhar de indignação; e balançando-se para a frente e para trás na sua enorme cadeira, permaneceu por alguns momentos em pensamento silencioso. Por fim, voltou a olhar ansiosamente para o rapaz esperançoso e, chamando-o para o seu lado, comunicou-lhe uma ordem num sussurro abatido. Paul, ao recebê-la, desapareceu por trás do cobertor e, pouco depois, regressou com uma garrafa e um copo de vinho. Com um gesto abstraído e um ar que denotava meditação contínua, a boa senhora tomou o cordial inspirador da mão do seu jovem copeiro:
“E antes que um homem tivesse poder para dizer 'Eis!', As mandíbulas de Lobkins tinham-no devorado: Tão depressa as coisas brilhantes caem em confusão!”
A bebida nectárea pareceu operar alegremente no sistema da matrona; e colocando a mão na cabeça encaracolada do rapaz, disse (como Andrómaca, dakruon gelasasa, ou, como Scott o coloca, “Com um sorriso na face, mas uma lágrima no olho”):
“Paul, o teu coração é bom, o teu coração é bom; não derramaste uma gota da bebida! Diz-me, meu querido, porque bateste no Tom Tobyson?”
“Porque”, respondeu Paul, “ele disse que você já devia ter sido enforcada há muito tempo.”
“Tom Tobyson é um bom para nada”, retorquiu a senhora, “e merece ser chicoteado na traseira da carroça; mas oh, meu filho, não sejas demasiado aventureiro a defender uma mulher — tem sido a ruína de muitos homens antes de ti; e quando dois homens se desentendem por uma mulher, não sabem a natureza da coisa pela qual se desentendem. Cuida do teu fim, Paul, e reverencia os velhos, sem perguntar o que eles foram antes de passarem pelo vale dos anos. Podes ir buscar o meu cachimbo, Paul — está lá em cima, debaixo da almofada.”
Enquanto Paul cumpria esta tarefa, a senhora do Mug, fixando os olhos no Sr. Dunnaker, disse: “Dummie, Dummie, se o pequeno Paul acabar por ser enforcado!”
“Xiu!” murmurou Dummie, lançando um olhar por cima do ombro para MacGrawler; “talvez aquele cavalheiro...” Aqui a sua voz tornou-se quase inaudível até para a Sra. Lobkins; mas o seu sussurro parecia implicar uma insinuação de que o ilustre editor do “O Asinaeum” poderia ser um informador, ou um daqueles heróis de quem um informador sobrevive.
A resposta da Sra. Lobkins, formulada na mesma nota, pareceu satisfazer Dunnaker, pois com um olhar de grande desprezo ele levantou a cabeça e disse: “Oh! é só isso, é?”
Paul reapareceu aqui com o cachimbo; e a senhora, tendo enchido o tubo, inclinou-se para a frente e acendeu a erva da Virgínia com a brasa do Sr. Dunnaker. À medida que nesta interessante ocupação as cabeças da estalajadeira e do convidado se aproximavam, a luz brilhante jogando alegremente no rosto de cada um, havia uma simplicidade honesta na imagem que teria merecido o génio picante e vigoroso de um Cruikshank. Assim que a faísca prometeica foi totalmente comunicada ao tubo da senhora, a Sra. Lobkins, ainda possuída pela ideia sombria que conjurara, repetiu:
“Ah, Dummie, se o pequeno Paul acabasse por ser enforcado!”
Dummie, retirando o cachimbo da boca, soltou um sopro de simpatia, mas permaneceu em silêncio; e a Sra. Lobkins, virando-se para Paul, que estava com a boca aberta e ouvidos atentos a esta ejaculação agourenta, disse:
“Pensas, Paul, que eles teriam o coração para te enforcar?”
“Penso que eles teriam a corda, senhora!” retorquiu o jovem.
“Mas tu não precisas de ir enfiar o pescoço no laço!” disse a matrona; e então, inspirada pelo espírito de moralizar, virou-se para o jovem e, olhando para o seu rosto atento, dirigiu-lhe as seguintes admoestações:
“Cuida do teu catecismo, criança, e reverencia a velhice. Nunca roubes, especialmente quando alguém estiver por perto. Nunca partilhes o que ganhas com aqueles que são mais velhos do que tu — porque será? Quanto mais velho um sujeito é, mais cuida de si mesmo e menos do seu parceiro. Aos vinte, enganamos o público; aos quarenta, enganamos os nossos companheiros! Sê modesto, Paul, e mantém-te na tua situação na vida. Não andes com salteadores finos, que ardem como uma vela que tem um ladrão nela — tudo chama, e num sopro desaparece! Deixa a bebida para os idosos, que não podem passar sem ela. A bebida prova muitas vezes ser a corda, e não há ruína como a ruína azul! Lê a tua Bíblia e fala como um piedoso. As pessoas guiam-se mais pelas tuas palavras do que pelas tuas ações. Se queres o que não é teu, tenta passar sem isso; e se não podes passar sem isso, tira-o por insinuação, não por alarido. Aqueles que fazem vigarices fazem mais e arriscam menos do que aqueles que roubam; e se enganares de forma brilhante, podes rir-te da forca. E agora vai brincar.”
Paul agarrou o seu chapéu, mas hesitou; e a senhora, adivinhando o significado da pausa, tirou e colocou na mão do rapaz a soma de cinco meios pence e um farthing.
“Lá tens, rapaz”, disse ela, e acariciou-lhe a cabeça com carinho quando falou, “fazes bem em não brincar por nada — é perda de tempo; mas brinca com aqueles que são menores do que tu, e então podes dar-te ao luxo de lhes bater se eles disserem que tu foste batota!”
Paul desapareceu; e a senhora, colocando a mão no ombro de Dummie, disse:
“Não há nada como um amigo na hora da necessidade, Dummie; e, de alguma maneira, penso que tu sabes mais sobre a origem daquele rapaz do que qualquer um de nós!”
“Eu, senhora!” exclamou Dummie, com um olhar largo de espanto.
“Ah, tu! Tu sabes que a mãe viu mais de ti um pouco antes de morrer do que viu de qualquer um de nós. Não, agora, não, agora! Conta-nos tudo sobre ele. Achas que ela o roubou?”
“Lá, Mãe Margery, achas que eu sei? O que pôs tal ideia na tua cabeça?”
“Bem!” disse a senhora, com um suspiro de desapontamento, “sempre pensei que tu sabias mais sobre isso do que admites. Querido, querido, nunca esquecerei a noite em que Judith trouxe a pobre criatura para aqui... sabes que ela esteve alguns meses na minha casa antes de eu ver o miúdo; e quando ela o trouxe, parecia tão pálida e fantasmagórica que eu não tive coragem de dizer uma palavra, por isso olhei para o pirralho, e ele estendeu-me as suas mãos pequeninas. E a mãe franziu-lhe o sobrolho e atirou-o para o meu colo.”
“Ah! Ela era uma mulher horrível, aquela!” disse Dummie, abanando a cabeça. “Mas, seja como for, o miúdo caiu em boas mãos; pois estou certo de que tens sido uma mãe melhor para ele do que a real!”
“Sempre fui uma tola com crianças”, replicou a Sra. Lobkins; “e penso que o pequeno Paul foi enviado para ser um conforto para os meus últimos anos! Enche o copo, Dummie.”
“Ouvi dizer que Judith foi uma vez amante de um grande lorde!” disse Dummie.
“Bem provável!” retorquiu a Sra. Lobkins — “bem provável! Ela sempre foi uma favorita minha, pois tinha um espírito tão grande como o meu; e pagava a renda como uma pessoa decente, apesar de estar fora de si, ou quase isso.”
“Sim, eu sei como você gostava dela — e por que não? Não é do seu feitio alugar um quarto a uma mulher! Você diz que não é respeitável, e que só gosta que homens visitem o Mug!”
“E eu não gosto de todos os que vêm aqui!” respondeu a dama — “especialmente pelo bem do Paul; mas o que pode uma mulher sozinha fazer? São muitos os cavalheiros salteadores que aqui vêm, cujo dinheiro é tão bom quanto o do sacristão da paróquia. E quando uma moeda está na minha mão, o que importa de cuja mão ela veio antes?”
“Isso é o que chamo de ser sensata e prática”, disse Dummie, aprovando. “E afinal de contas, embora você tenha uma mistura, por assim dizer, não conheço taberna onde um sujeito seja melhor entretido, nem encontre aos domingos companhia mais elegante, do que no Mug!”
Aqui a conversa, que o leitor deve saber ter sido mantida num tom inaudível para uma terceira pessoa, recebeu um freio do Sr. Peter MacGrawler, que, tendo terminado o seu devaneio e o seu caneco, levantou-se então para partir. Primeiro, porém, aproximando-se da Sra. Lobkins, observou que estivera a crédito por alguns dias e exigiu o montante da sua conta. Lançando um olhar para certos hieróglifos de giz inscritos na parede do outro lado da lareira, a dama respondeu que o Sr. MacGrawler lhe devia a quantia de um xelim e nove pence e três farthings.
Após uma breve busca preparatória nos bolsos do seu colete, o crítico caçou num canto uma solitária meia-coroa e, tendo-a apanhado entre o dedo e o polegar, deu-a à Sra. Lobkins e pediu o troco.
Assim que a matrona sentiu a sua mão ungida com o que foi chamado por algum engenhoso Johnson de St. Giles de “o óleo das palmas”, o seu semblante suavizou-se num sorriso complacente; e quando deu o troco necessário ao Sr. MacGrawler, esperou graciosamente que ele recomendasse o Mug ao público.
“Disso pode ter a certeza”, disse o editor do “The Asinaeum”. “Não há lugar onde eu me sinta tão em casa.”
Com isto, o douto escocês abotoou o seu casaco e seguiu o seu caminho.
“Como o mundo é maldoso!” disse a Sra. Lobkins, após uma pausa, “especialmente se uma mulher mantém uma espécie de estabelecimento público na moda! Quando Judith morreu, Joe, o vendedor de carne de cão, disse que eu estava muito melhor com isso, e que ela me deixou um tesouro para criar o órfão. Dir-se-ia que um pontapé torna um homem mais rico — por que será? Todo o homem pontapeia! Não recebi mais do que um relógio e dez guinéus quando Judy morreu, e certamente isso mal pagou o enterro.”
“Você esquece as duas libras que lhe dei pela velha caixa de trapos — muito tesouro encontrei lá!” disse Dummie, com uma vivacidade bajuladora.
“Sim”, exclamou a dama, rindo, “imagino que você não tenha ficado satisfeito com o negócio. Pensei que você fosse um trapeiro demasiado velho para ser tão generoso com o dinheiro; de qualquer modo, suponho que foi a anágua de purpurina que o enganou!”
“Como enganou muitos homens mais espertos do que um tipo como eu”, replicou Dummie, que às suas várias profissões secretas acrescentava a ostensiva de trapeiro e negociante de vidro partido.
A recordação do seu bom negócio com a caixa de trapos abriu o coração da nossa estalajadeira.
“Beba, Dummie”, disse ela, com bom humor — “beba; eu tenho aversão a anotar bebida para um amigo.”
Dummie expressou a sua gratidão, voltou a encher o seu copo, e a hospitaleira matrona, batendo as cinzas moribundas do seu cachimbo, prosseguiu assim:
“Você vê, Dummie, embora eu bata muitas vezes no rapaz, amo-o como se fosse a sua verdadeira mãe — quero fazer dele uma honra para o seu país e uma exceção à minha família!”
“Que todos mostraram os dentes no Surgeons' Hall!” acrescentou o metafórico Dummie.
“Verdade!” disse a senhora; “eles morreram valentemente, e não tenho vergonha deles. Mas devo um dever à mãe de Paul, e quero que Paul tenha uma vida longa. Eu enviá-lo-ia para a escola, mas você sabe como os rapazes apenas corrompem uns aos outros. E por isso, gostaria de encontrar algum homem decente, como tutor, para ensinar ao rapaz Latim e virtude!”
“Pelos meus olhos!” gritou Dummie, horrorizado com a grandeza deste desejo.
“O rapaz é bastante esperto, e adora ler”, continuou a dama; “mas não penso que os livros a que ele deita a mão lhe ensinem o caminho para envelhecer.”
“E como veio ele a ler, de qualquer modo?”
“Ranting Rob, o ator itinerante, ensinou-lhe as letras, e disse que ele tinha uma porção de génio.”
“E por que não haveria Ranting Rob de ensinar ao rapaz Latim e virtude?”
“Porque Ranting Rob, pobre coitado, foi deportado por fazer um arrombamento!” respondeu a dama, desalentada.
Houve um longo silêncio; foi quebrado pelo Sr. Dummie. Batendo na coxa com a veemência gesticulante de um Ugo Foscolo, aquele cavalheiro exclamou:
“Já sei — pensei num tutor para o pequeno Paul!”
“Quem é? Você assusta-me; não tem misericórdia dos meus nervos”, disse a dama, irritada.
“Ora, é o cavalheiro que escreve”, disse Dummie, levando o dedo ao nariz — “o cavalheiro que lhe pagou tão generosamente!”
“O quê! O cavalheiro escocês?”
“O próprio!” respondeu Dummie.
A dama voltou-se na sua cadeira e encheu de novo o cachimbo. Era evidente pela sua maneira que a sugestão do Sr. Dunnaker tinha causado uma impressão nela. Mas reconheceu duas dúvidas quanto à sua exequibilidade: uma, se o cavalheiro proposto seria adequado à tarefa; a outra, se ele estaria disposto a empreendê-la.
No meio das suas meditações sobre este assunto, a dama foi interrompida pela entrada de certos reclamantes da sua hospitalidade; e tendo Dummie partido pouco depois, o suspense da mente da Sra. Lobkins quanto à educação do pequeno Paul permaneceu durante todo aquele dia e noite inteiramente sem alívio.
CAPÍTULO III.
Confesso que tenho inveja do prazer que terás em descobrir que és mais instruído do que outros rapazes — mesmo aqueles que são mais velhos do que tu. Que honra isto te trará! Que distinções, que aplausos se seguirão onde quer que vás! — LORD CHESTERFIELD: Cartas ao seu Filho.
Exemplo, meu rapaz — o exemplo vale mil preceitos. — MAXIMILIAN SOLEMN.
Tarpeia foi esmagada sob o peso dos ornamentos. A linguagem do vulgo é uma espécie de Tarpeia. Livrámo-la, portanto, de tantas gemas quantas fomos capazes, e na cena precedente apresentamo-la ao olhar dos nossos leitores simplex munditiis. Não obstante, poderíamos imaginar timidamente alguns seres mais gentis do sexo frágil algo desagradados com o tom do diálogo que demos, se não nos lembrássemos de quão encantadas elas ficam com as barbáries provinciais do reino irmão, sempre que as encontram derramadas nas páginas de qualquer contador de histórias escocês. Como, infelizmente para a humanidade, o escocês carregado ainda não é a língua universal da Europa, supomos que as nossas compatriotas não estarão muito mais ignorantes do dialeto das suas próprias classes baixas do que daquele que sopra melodias nasais sobre o paraíso do Norte.
Foi no dia seguinte, à hora do crepúsculo, quando a Sra. Margery Lobkins, após um satisfatório tête-à-tête com o Sr. MacGrawler, teve a felicidade de pensar que tinha providenciado um tutor para o pequeno Paul. Tendo o crítico recitado para ela uma parte considerável de Propria quæ Maribus, a boa senhora não tinha mais dúvidas sobre a sua capacidade de ensinar; e, por outro lado, quando a Sra. Lobkins entrou no assunto da remuneração, o escocês professou estar perfeitamente disposto a ensinar tudo e qualquer coisa que o mais exigente guardião pudesse requerer. Ficou finalmente estabelecido que Paul deveria frequentar o Sr. MacGrawler duas horas por dia; que o Sr. MacGrawler teria direito a confortos animais de carne e bebida que o Mug proporcionasse e, além disso, ao estipêndio semanal de dois xelins e seis pence — os xelins pela instrução nos clássicos, e os seis pence por todas as outras humanidades; ou, como a Sra. Lobkins expressou, “dois xelins pelo Latim e um trocado pela virtude.”
Não censure a tua mente, gentil leitor, por um desvio da probabilidade ao fazer de um cavalheiro tão excelente e douto como o Sr. Peter MacGrawler o hóspede familiar da dama do Mug. Primeiro, deves saber que a nossa história se passa num período anterior ao presente, e um em que as antigas piadas sobre as circunstâncias do autor e do crítico tinham o seu fundamento na verdade; segundo, deves saber que, por uma curiosa concatenação de circunstâncias, nem meirinho nem oficial de justiça foi alguma vez visto dentro das quatro paredes continente da Sra. Margery Lobkins; terceiro, o Mug era mais próximo do que qualquer outra casa de resort público do domicílio do crítico; quarto, proporcionava uma excelente cerveja preta; e quinto, ó leitor, cometes uma grave injustiça para com a Sra. Margery Lobkins se supões que a sua porta estava apenas aberta para aqueles cavalheiros mercuriais que são afligidos pela curiosidade mórbida de espreitar os mistérios dos bolsos dos seus vizinhos — outros visitantes, de boa reputação, não eram raramente participantes da hospitalidade da boa matrona; embora deva ser confessado que ocupavam geralmente o quarto privado em preferência ao público. E sexto, doce leitor (lamentamos ser tão prolixos), gostaríamos apenas de te dar uma dica de que o Sr. MacGrawler era um daqueles sábios de mente vasta que, ocupados em contemplar a moral à grande escala, não desperdiçam os seus intelectos por uma base atenção a detalhes minuciosos. De modo que, se um descendente de Langfanger cruzava por vezes o venerável escocês na sua visita ao Mug, a aparição não revoltava aquele benevolente moralista tanto quanto, não fosse pela dica acima, a tua ignorância te poderia levar a imaginar.
Diz-se que Atenodoro, o Estoico, contribuiu grandemente pela sua conversação para emendar as faltas de Augusto, e para efetuar a mudança visível naquele homem afortunado após a sua ascensão ao império Romano. Se isto for verdade, pode lançar uma nova luz sobre o caráter de Augusto, e em vez de ser o hipócrita, ele era possivelmente o convertido. Certo é que há poucos vícios que não podem ser conquistados pela sabedoria; e contudo, melancólico é relatar, as instruções de Peter MacGrawler produziram apenas uma tênue melhoria nos hábitos do jovem Paul. Aquele engenhoso adolescente tinha, como já vimos, sob a tutela de Ranting Bob, dominado a arte da leitura — aliás, podia até construir e ligar certos curiosos ganchos, que ele próprio e a Sra. Lobkins costumavam graciosamente chamar de “escrita”. Até aqui, portanto, o caminho de MacGrawler estava suavizado e preparado.
Mas, infelizmente, todos os professores experientes admitem que a principal dificuldade não é aprender, mas desaprender; e a mente de Paul já estava ocupada por um vasto número de miscelâneas heterogéneas que resistiam firmemente ao ingresso do Latim ou da virtude. Nada o podia desmamar de uma sinistra afeição pela história de Richard Turpin; era para ele o que, tem-se dito, os autores gregos deveriam ser para o Académico — um estudo de dia e um sonho de noite. Ele era dócil o suficiente durante as lições, e por vezes até demasiado rápido na conceção para a marcha majestosa do intelecto do Sr. MacGrawler. Mas não raramente acontecia que, quando esse cavalheiro tentava levantar-se, encontrava-se, como a Dama em “Comus”, colado a —
“Um assento venenoso Besuntado com gomas de calor glutinoso;”
ou as suas pernas tinham sido secretamente unidas debaixo da mesa, e o nó não podia ser desfeito sem derrubar os poderes superiores. Estas, e várias outras pequenas maquinações desportivas com que Paul costumava aliviar a monotonia da literatura, iam longe para desgostar o douto crítico com a sua tarefa. Mas a “fita” e o tesouro da Sra. Lobkins suavizavam, por assim dizer, as cerdas irritadas da sua mente, e ele continuava os seus trabalhos com esta reflexão filosófica: “Por que me inquietar? Se um aluno se revela bem, é claramente para o crédito do seu mestre; se não, para o desvantagem de si mesmo.” Claro, uma sugestão semelhante nunca se impôs à mente do Dr. Keate. Em Eton, a própria alma do honesto diretor é consumida pelo seu zelo pelo bem-estar dos pequenos cavalheiros de gravatas rígidas.
Mas para Paul, que estava predestinado a desfrutar de um certo quantum de conhecimento, aconteceram circunstâncias, no início do segundo ano da sua tutela, que aceleraram prodigiosamente o progresso da sua carreira escolar.
No apartamento de MacGrawler, Paul encontrou uma manhã o Sr. Augustus Tomlinson, um jovem de grande promessa, que exercia a ocupação pacífica de cronista num jornal líder de “Assassinatos Horríveis”, “Melões Enormes” e “Circunstâncias Notáveis”. Este cavalheiro, tendo a vantagem de alguns anos de antiguidade sobre Paul, demorou a descontrair a sua dignidade; mas observando finalmente a atenta e respeitosa atenção com que o adolescente ouvia um relato veracíssimo de cinco homens sendo desumanamente assassinados na Catedral de Canterbury pelo Reverendo Zedekiah Fooks Barnacle, ele ficou tocado pela impressão que tinha criado, e apertando graciosamente a mão de Paul, disse-lhe que havia uma porção de astúcia natural no seu semblante, e que o Sr. Augustus Tomlinson não duvidava que ele (Paul) pudesse ter a honra de ser assassinado ele próprio um destes dias. “Você compreende-me”, continuou o Sr. Augustus — “quero dizer assassinado em efígie — assassinado em tipo — enquanto você próprio, inconsciente da circunstância, desfruta quietamente do que imagina ser a sua existência. Nunca matamos pessoas comuns — para dizer a verdade, o nosso principal rancor é contra a Igreja; destruímos bispos por atacado. Por vezes, na verdade, eliminamos um advogado líder ou outro, e expressamos a angústia dos advogados juniores perante uma perda tão destrutiva para os seus interesses. Mas isso é apenas um golpe disperso, e o advogado morto vive frequentemente para se tornar Procurador-Geral, renunciar aos princípios Whig e processar a própria Imprensa que o destruiu. Os bispos são o nosso alimento próprio; enviamo-los para o céu numa espécie de grifo voador, do qual as costas são uma apoplexia, e as asas são folhetos. O Bispo de---, que despachámos desta maneira no outro dia, sendo uma personagem algo jocosa, escreveu a protestar connosco sobre isso, observando que embora o céu fosse uma tradução muito boa para um bispo, contudo, em tais casos, ele preferia ‘o original à tradução’. À medida que matamos bispos, assim existe outra classe de pessoas que apenas afligimos com doenças letíferas. Esta última tribo consiste na Sua Majestade e nos ministros de Sua Majestade. Sempre que não podemos abusar das suas medidas, caímos sempre sobre a sua saúde. Se o rei aprova alguma lei popular, insinuamos imediatamente que a sua constituição está nas últimas. Se o ministro age como um homem sensato, observamos instantaneamente, com grande pesar, que a sua tez é notavelmente pálida. Existe uma vantagem manifesta em adoecer as pessoas, em vez de as destruir absolutamente: o público pode contradizer-nos categoricamente num caso, mas nunca o pode fazer no outro; é fácil provar que um homem está vivo, mas totalmente impossível provar que ele está de saúde. E se algum jornal de oposição pegar nos bastões em seu nome, e afirmar que a vítima de todas as queixas de Pandora, que enviamos trôpega para a sepultura, passa metade do dia a visitar uma ‘companhia distinta’ numa caçada, e a outra metade a superar a mesma ‘companhia distinta’ após o jantar? E se o próprio indivíduo aflito nos escrever dizendo que nunca esteve melhor na sua vida? Temos apenas de abanar misteriosamente a cabeça e observar que contradizer não é provar, que é pouco provável que a nossa autoridade se tenha enganado, e (somos muito afeiçoados a uma comparação histórica), implorar aos nossos leitores que se lembrem de que, quando o Cardeal Richelieu estava a morrer, nada o enfurecia tanto como sugerir que ele estava doente. Em suma, se Horácio tem razão, somos os próprios príncipes dos poetas; pois atrevo-me a dizer, Sr. MacGrawler, que você — e você também, meu pequeno cavalheiro, lembram-se perfeitamente das palavras do sábio velho romano, —
“'Ille per extentum funem mihi posse videtur Ire poeta, meum qui pectus inaniter angit, Irritat, mulcet, falsis terroribus implet.'”
[“Parece-me ser, na maior extensão, um poeta aquele que atormenta o meu peito no ar, irrita, acalma, enche-o com terrores irreais.”]
Tendo proferido esta citação com considerável autocomplacência, e desse modo completado inteiramente a sua conquista sobre Paul, o Sr. Augustus Tomlinson, voltando-se para MacGrawler, concluiu o seu negócio com aquele cavalheiro — que era de natureza literária, nomeadamente, uma composição conjunta contra um homem que, tendo menos de vinte e cinco anos e sendo demasiado pobre para oferecer jantares, teve a impudência de escrever um poema sagrado. Os críticos foram excessivamente amargos com isto; e tendo muito pouco a dizer contra o poema, os jornais da Corte chamaram ao autor um “vaidoso”, e os liberais “filho de um pantaleão!”
Havia uma descontração, um espírito, uma vida no Sr. Augustus Tomlinson, que cativava os sentidos do nosso jovem herói; então, também, ele estava vestindo-se de forma excessivamente elegante — usava saltos vermelhos e uma bolsa — tinha o que parecia a Paul o ar de um “homem da moda”; e, acima de tudo, ele debitava o Latim com uma graça notável!
Alguns dias depois, MacGrawler enviou o nosso herói aos aposentos do Sr. Tomlinson, com a sua parte do abuso conjunto sobre o poeta.
Duplamente aumentada foi a reverência de Paul pelo Sr. Augustus Tomlinson pela visão da sua morada. Encontrou-o instalado numa parte polida da cidade, num salão muito vistoso, cujos conteúdos manifestavam o génio universal do habitante. Tem sido objetado a nós, por um crítico muito perspicaz, que somos viciados no desenho de “génios universais”. Declaramo-nos Inocentes em instâncias anteriores; admitimos a suave acusação na instância do Sr. Augustus Tomlinson. Sobre a sua lareira estavam arranjadas luvas de boxe e floretes de esgrima; na sua mesa jaziam um cremona e uma flauta. De um lado da parede estavam prateleiras contendo a Covent Garden Magazine, Burn's Justice, um Horácio de bolso, um Livro de Orações, Excerpta ex Tacito, um volume de peças, Filosofia Facilitada e uma Chave para todo o Conhecimento. Além disso, havia noutra mesa um chicote de montar e um chicote de conduzir e um par de esporas, e três guinéus, com uma pequena montanha de prata solta. O Sr. Augustus era um jovem alto, claro, com uma tez sardenta, olhos verdes e pálpebras vermelhas, uma boca sorridente, algo prognata, um nariz afiado e um par de orelhas prodigiosamente grandes. Estava vestido com um roupão de damasco verde; e recebeu o terno Paul da forma mais graciosa.
Havia algo muito cativante no nosso herói. Ele não era apenas bem-parecido e franco no aspeto, mas tinha aquela aparência de vivacidade e intelecto que pertence a um patife em embrião. O Sr. Augustus Tomlinson professou a maior estima por ele — perguntou-lhe se sabia boxear, fez com que vestisse um par de luvas, e muito condescendentemente derrubou-o três vezes sucessivamente. A seguir tocou-lhe, tanto na sua flauta como no seu cremona, algumas das ares mais da moda. Além disso, cantou-lhe uma pequena canção da sua própria composição. Pegou então no chicote de conduzir, afugentou uma mosca da parede oposta e, atirando-se (naturalmente fatigado com os seus numerosos esforços) para o seu sofá, observou, num tom descuidado, que ele e o seu amigo Lord Dunshunner eram universalmente estimados como os melhores cocheiros da metrópole. “Eu”, disse o Sr. Augustus, “sou o melhor na estrada; mas o meu lorde é um demónio a fazer uma curva.”
Paul, que até então tinha vivido uma vida demasiado pouco sofisticada para estar ciente da importância que um lorde teria naturalmente aos olhos do Sr. Augustus Tomlinson, não ficou tão impressionado com a grandeza da conexão como o assassino dos jornais esperara. Apenas observou, como elogio, que o Sr. Augustus e o seu companheiro pareciam ser “miúdos descolados”.
Um pouco desagradado com esta observação metafórica — pois pode notar-se que “miúdo descolado” é, entre os doutos em tal saber, a expressão habitual para “um ladrão esperto” — o Augustus universal tomou a liberdade a que, pela sua idade e posição, tão superiores às de Paul, ele se imaginava ter direito, e repreendeu suavemente o nosso herói pelo seu uso indiscriminado de frases de gíria.
“Um rapaz da tua estirpe”, disse ele — “pois vejo que és inteligente, pelo teu olhar — deveria envergonhar-se de usar tais expressões vulgares. Tem um espírito mais nobre, uma emulação mais elevada, Paul, do que aquela que distingue os pequenos maltrapilhos da rua. Fica a saber que, neste país, o génio e a erudição levam tudo de vencida; e se te comportares devidamente, poderás, um dia ou outro, chegar tão alto no mundo como eu.”
A estas palavras, Paul olhou ansioso à volta da elegante sala e pensou no quão magnífico seria ser senhor de tal domínio, juntamente com os apetrechos de flauta e cremona, luvas de boxe, livros, flagelo para espantar moscas, três guinéus, com a pequena montanha de prata, e a reputação — partilhada apenas com Lord Dunshunner — de ser o melhor cocheiro de Londres.
“Sim”, continuou Tomlinson, com orgulho consciente, “devo a minha ascensão a mim próprio. A instrução vale mais do que casas e terras. 'Doctrina sed vim', etc. Sabes o que diz o velho Horácio? Pois, senhor, não acreditaria; mas fui eu o homem que matou Sua Majestade o Rei da Sardenha no jornal de ontem. Nada é demasiado árduo para o génio. Trabalha arduamente, meu rapaz, e poderás rivalizar (pois a coisa, embora difícil, pode não ser impossível) com Augustus Tomlinson!”
No final desta arenga, ouvindo-se uma batida na porta, Paul partiu e encontrou no corredor uma figura de aparência distinta, vestida segundo a última moda e calçando um par de fivelas prodigiosamente grandes nos sapatos. Paul olhou, e o seu coração inchou. “Posso rivalizar”, pensou ele — “foram essas as suas exatas palavras —, posso rivalizar (pois a coisa, embora difícil, não é impossível) com Augustus Tomlinson!” Absorto em meditação, foi silenciosamente para casa. No dia seguinte, as memórias do grande Turpin foram entregues às chamas, e notou-se que, de então em diante, Paul observou uma propriedade de palavras mais apurada, que assumiu um ar de dignidade mais refinado e que prestou consideravelmente mais atenção do que até então às lições do Sr. Peter MacGrawler. Embora se deva admitir que o progresso do nosso jovem herói nas línguas eruditas não foi espantoso, ainda assim, uma paixão precoce pela leitura, tornando-se cada vez mais forte pela aplicação, recompensou-o finalmente com um conhecimento tolerável da língua materna. Devemos, contudo, acrescentar que os seus estudos mais favoritos e acalentados dificilmente eram daquela natureza que um preceptor prudente teria grandemente recomendado. Recaíam principalmente sobre romances, peças de teatro e poesia — esta última a que ele se dedicou a tal ponto que se tornou ele próprio um tanto poeta. Todavia, estas ocupações literárias, por mais infrutíferas que parecessem, conferiram um certo refinamento aos seus gostos, que dificilmente teriam adquirido de outra forma no Mug; e, ao mesmo tempo que despertaram a sua ambição de ver um pouco da vida alegre que descreviam, incutiram no seu temperamento um tom de espírito empreendedor e de generosidade irrefletida que talvez tenha contribuído grandemente para contrariar as influências malignas para com os pequenos vícios a que os exemplos ao seu redor devem ter exposto a sua terna juventude. Mas, ai! uma grande deceção quanto à esperança de Paul de obter assistência e companhia nos seus trabalhos literários abateu-se sobre ele. O Sr. Augustus Tomlinson, numa manhã brilhante, desapareceu, deixando dito aos seus numerosos amigos que ia aceitar uma situação lucrativa no Norte de Inglaterra. Não obstante o choque que isto causou ao coração afetuoso e ao temperamento ambicioso do nosso amigo Paul, não diminuiu o seu ardor naquele campo da ciência que parecia ter sido cultivado com tanto sucesso pelo distinto ausente. Pouco a pouco, apoderou-se (além dos espólios literários a que aludimos) de tudo o que estava ao alcance do sábio e profundo Peter MacGrawler transmitir-lhe; e, aos dezasseis anos, começou (oh, a presunção da juventude!) a imaginar-se mais erudito do que o seu mestre.
CAPÍTULO IV.
Tornara-se agora um jovem de extrema elegância, e tão espalhado pela sociedade quanto o mais exigente e ávido desejoso de celebridade londrina poderia desejar. Era, naturalmente, membro dos clubes, etc. Era, em suma, daquele grupo frequentemente descrito perante o qual todos os belos menores se afundam na insignificância, ou entre os quais obtêm eventualmente um grau subalterno, através do sacrifício de uma parte devida da sua fortuna. — Almack's Revisited.
Pela alma do grande Malebranche, que fez uma “Investigação sobre a Verdade” e descobriu tudo o que é belo, exceto aquilo que procurava — pela alma do grande Malebranche, a quem o Bispo Berkeley encontrou a sofrer de uma inflamação nos pulmões e, muito obrigadoramente, falou até à morte (um exemplo de capacidades conversacionais digno da emulação invejosa de todos os grandes metafísicos e argumentadores) —, pela alma desse homem ilustre, é espantoso para nós o número de verdades que existem divididas em pequenos fragmentos e espalhadas aqui e ali pelo mundo. Que magnífico museu poderia um homem fazer dos preciosos minerais, se apenas saísse com o seu cesto debaixo do braço e os olhos atentos! Nós próprios recolhemos, neste mesmo dia, um certo pequeno pedaço de verdade, com o qual nos propomos explicar-te, cara leitora, uma viragem sinistra na fortuna de Paul.
“Onde quer que vejas dignidade”, diz um sábio vivo, “podes ter a certeza de que é necessária despesa para a sustentar.” Assim foi com Paul. Um jovem cavalheiro que era herdeiro presuntivo do Mug, e que gozava de uma figura atraente com uma mente cultivada, pertencia necessariamente a um certo estrato da sociedade e era um objeto de respeito aos olhos das mães manhosas das redondezas de Thames Court. Muitos foram os grupos de prazer a Deptford e Greenwich que Paul se viu compelido a acompanhar; e não precisamos de recorrer a romances sobre a vida mundana para informar os nossos leitores de que, na boa sociedade, os cavalheiros pagam sempre pelas senhoras! Nem era esta toda a despesa a que as suas expectativas o expunham. Um cavalheiro dificilmente poderia comparecer a estas festividades elegantes sem dedicar alguma atenção ao seu vestuário; e um alfaiate da moda faz um estrago danado na mesada anual de alguém.
Nós que residimos, fique a saber, leitor, na Pequena Bretanha, não estamos muito familiarizados com os modos das classes superiores em St. James's. Mas havia um grande vício entre a gente fina de Thames Court que não temos dúvidas que não existe em mais lado nenhum — a saber, essas pessoas finas estavam sempre em agonia por parecerem mais finas do que eram; e quanto mais ares um cavalheiro ou uma senhora davam a si mesmos, mais importantes se tornavam. Joe, o vendedor de carne de cão, tinha, de facto, entrado na sociedade inteiramente por um jeito de dizer coisas impertinentes a toda a gente; e os mais elegantes exclusivos do lugar, que raramente visitavam alguém onde não houvesse um bule de prata, costumavam pensar que Joe tinha muito valor porque empurrava o seu carrinho com a cabeça no ar e, um dia, deu ao próprio meirinho da paróquia “o corte direto”.
Ora, este desejo de ser tão excessivamente fino não só tornou a sociedade de Thames Court desagradável, como dispendiosa. Todos rivalizavam com o seu vizinho; e, como o espírito de rivalidade é particularmente forte nos seios juvenis, dificilmente nos podemos admirar de que tenha levado Paul a muitas extravagâncias. O mal de todos os círculos que se professam seletos é o jogo alto; e a razão é óbvia: as pessoas que têm o poder de conceder a outra uma vantagem que ela cobiça preferem vendê-la a dá-la; e Paul, aumentando gradualmente em popularidade e tom, viu-se, apesar da sua educação clássica, sem capacidade para enfrentar os cavalheiros acabados, ou, melhor dizendo, os que se estão a acabar, com quem começou a associar-se. A sua primeira admissão no seleto grupo destes homens do mundo formou-se na casa do Bachelor Bill, uma pessoa de grande notoriedade entre aquela parte da elite que se intitula enfaticamente “Flash”. No entanto, como é nossa intenção rígida nesta obra não retratar detalhadamente quaisquer personagens episódicas, apenas podemos oferecer aos nossos leitores um esboço ligeiro e rápido de Bachelor Bill.
Esta personagem era de extração de Devonshire. A sua mãe tinha tido a taberna mais agradável da cidade e, com a sua morte, Bill sucedeu na sua propriedade e popularidade. Todas as jovens das redondezas de Fiddler's Row, onde ele residia, faziam-lhe a corte; todos os mais elegantes trapaceiros, ou salteadores, procuravam levá-lo para o seu grupo; e a mais elegante rapariga de Londres teria dado as orelhas a qualquer momento por uma palavra amorosa de Bachelor Bill. Mas Bill era um sujeito sensato, prudente e de um temperamento notavelmente cauteloso. Evitava o casamento e a amizade; a saber, não era pilhado nem corno. Era um sujeito alto, aristocrático, de um trato diabolicamente limpo, e muito galante, de uma forma honesta, para com as raparigas. Como a maioria dos solteiros, sendo muito cavalheiro no que dizia respeito ao dinheiro, dava-lhes muitos “banquetes” e, de tempos a tempos, um baile muito agradável. A sua aguardente era irrepreensível; e quanto ao seu gim, era votado como a coisa mais brilhante da natureza. Em muito pouco tempo, pelos seus festins e pelo seu celibato — pois os solteiros chegam sempre ao ápice do haut ton mais facilmente do que os casados —, tornou-se o próprio espelho da moda; e muitos eram os aprendizes apertados, mesmo no extremo oeste da cidade, que costumavam voltar-se em admiração por Bachelor Bill, quando, numa tarde de domingo, conduzia a sua carroça de varapau até à sua pequena e acolhedora casa nos limites de Turnham Green. A felicidade de Bill não estava, contudo, totalmente isenta de ligações. As mulheres de prazer ficam sempre tão excessivamente zangadas quando um homem não lhes faz a corte, que não há nada que não digam contra ele; e as belas matronas das redondezas de Fiddler's Row espalharam todo o género de rumores infundados contra o pobre Bachelor Bill. Gradualmente, porém — pois, como disse Tácito, sem dúvida com um olhar profético para Bachelor Bill, “a verdade ganha com a demora” —, estes relatos começaram a desaparecer insensivelmente; e estando Bill agora a aproximar-se dos confins da meia-idade, os seus amigos estabeleceram confortavelmente por ele que seria Bachelor Bill toda a vida. De resto, era um excelente sujeito — dava as suas sobras de comida aos pobres, professava uma forma de pensar liberal e, em todas as discussões entre as raparigas (as vossas raparigas elegantes são um grupo briguento!), tomava sempre o partido do mais fraco. Embora Bill fingisse ser muito seletivo nas suas companhias, nunca se esquecia dos seus velhos amigos; e a Sra. Margery Lobkins, tendo sido muito boa para ele quando era um rapazinho de casaco de esqueleto, enviava-lhe invariavelmente um convite para os seus serões. A boa senhora, contudo, não tinha abandonado o seu canto da lareira nos últimos anos. De facto, o alarido da vida mundana era demasiado para os seus nervos; e o convite tinha-se tornado uma forma habitual, da qual não se esperava que fosse usada, mas nem por isso menos regularmente utilizada por essa razão. Como Paul tinha agora atingido o seu décimo sexto ano e era um rapaz bonito e elegante, a dama pensou que ele seria um excelente representante da dona do Mug; e que, para o seu protegido, um baile na casa de Bill não seria um mau começo da “Vida em Londres”. Assim, ela manifestou ao Bachelor um desejo nesse sentido; e Paul recebeu o seguinte convite de Bill:--
“O Sr. William Duke oferece um baile e um banquete de forma discreta na próxima segunda-feira e espera que o Sr. Paul Lobkins seja da festa. N. B. Espera-se que os cavalheiros venham de sapatos de verniz.”
Quando Paul entrou, encontrou Bachelor Bill a abrir o baile ao som de “Drops of Brandy”, com uma jovem a quem, por ter sido uma atriz itinerante, as Senhoras Patrocinadoras de Fiddler's Row tinham achado por bem tratar com uma civilidade muito arrogante. O bom Bachelor não tinha qualquer noção, como ele dizia, de tais acessos de raiva, e fez circular entre as mais elegantes das raparigas que esperava que todas as que dançassem na sua casa se comportassem de forma decente e educada para com a jovem Sra. Dot. Esta intimação, transmitida às senhoras com todo aquele polimento insinuante pelo qual Bachelor Bill era tão notável, produziu um efeito notável; e a Sra. Dot, sendo agora levada a dançar pelo elegante Bachelor, foi sobrecarregada de gentilezas durante o resto da noite.
Quando a dança terminou, Bill apertou muito educadamente a mão a Paul e aproveitou uma oportunidade para o apresentar a algumas das “personagens mais notórias” da cidade. Entre estas estavam o elegante Sr. Allfair, o insinuante Henry Finish, o alegre Jack Hookey, o sabedor Charles Trywit e vários outros igualmente notórios pela sua habilidade em viver abastadamente à custa do seu próprio engenho e dos bens alheios. Para dizer a verdade, Paul, que na altura era um rapaz honesto, ficou menos encantado do que tinha previsto com a conversação destes cavaleiros da indústria. Ficou mais agradado com as observações inteligentes, embora autossuficientes, de um cavalheiro com uma cabeça de cabelo notavelmente bonita, e a quem gostaríamos de apresentar mais enfaticamente ao nosso leitor sob a alcunha de Sr. Edward Pepper, geralmente chamado Long Ned. Como este digno estava destinado a ser mais tarde um associado íntimo de Paul, a nossa principal razão para assistir ao baile na casa de Bachelor Bill é anotar, como a importância do evento merece, a época do início do seu conhecimento.
Long Ned e Paul sentaram-se por acaso um ao lado do outro ao jantar, e conversaram tão amigavelmente que Paul, na hospitalidade do seu coração, expressou a esperança de ver o Sr. Pepper no Mug!
“Mug... Mug!” repetiu Pepper, fechando meio os olhos, com o ar de um dandy prestes a ser impertinente; “ah, o nome de uma capela, não é? Existe uma seita chamada Muggletonians, creio eu?”
“Quanto a isso”, disse Paul, corando com esta insinuação contra o Mug, “a Sra. Lobkins não tem mais religião do que os seus superiores; mas o Mug é uma casa muito excelente, frequentada pela melhor companhia possível.”
“Não tenho dúvidas!” disse Ned. “Lembra-te agora de que já lá estive uma vez e vi um tal Dummie Dunnaker — não é esse o nome? Lembro-me de há alguns anos, quando comecei, que o Dummie e eu tivemos uma aventura juntos; para te dizer a verdade, não é o género de coisa que faria agora. Mas — acreditarás, Sr. Paul? — este indivíduo lamentável foi muito rude comigo a única vez que o vi desde então; isto é, a única vez que entrei no Mug. Não tenho qualquer ideia de tais ares num comerciante — um comerciante de trapos! Esses tipos comerciais estão a tornar-se insuportáveis.”
“Surpreende-me”, disse Paul. “O pobre Dummie é o último homem a ser rude; é uma criatura tão civilizada como jamais viveu.”
“Ou vendeu um trapo”, disse Ned. “Possivelmente! Não duvido minimamente das suas qualidades amáveis. Passa a aguardente, meu bom amigo. Coisa estúpida, esta dança!”
“Diabolicamente estúpida!” ecoou Harry Finish, do outro lado da mesa. “Suponho que nos vamos para Fish Lane e fazemos rolar os marfins! O que dizes, Sr. Lobkins?”
Com medo do “riso severo do tom, que dificilmente o orgulhoso filósofo pode desprezar”, e não sendo muito parcial à dança, Paul anuiu à proposição; e um pequeno grupo, composto por Harry Finish, Allfair, Long Ned e o Sr. Hookey, retirou-se para Fish Lane, onde havia um clube, celebrado entre homens que vivem do seu engenho, no qual “bebida” e “tabaco” eram ostentados gratuitamente da forma mais magnífica. Aqui a noite passou-se de forma muito deliciosa, e Paul foi para casa sem um “tostão” no bolso.
A partir desse momento, as visitas de Paul a Fish Lane tornaram-se, infelizmente, regulares; e em muito pouco tempo, lamentamos dizer, Paul tornou-se aquela personagem distinta, um cavalheiro dos três 'sem' — “sem dinheiro, sem cotovelos e sem crédito”. As únicas duas pessoas que encontrou dispostas a acomodá-lo com um pequeno empréstimo, como dizem os anúncios assinados por X. Y., foram o Sr. Dummie Dunnaker e o Sr. Pepper, apelidado de Long. Este último, porém, embora obrigasse o herdeiro do Mug, nunca se dignou entrar naquele notório lugar de recreio; e o primeiro, sempre que abria bondosamente os cordões à bolsa, fazia-o com um aviso cordial para evitar a companhia de Long Ned — “um parson”, dizia Dummie, “de moral muito perigosa, e não é de maneira nenhuma um companheiro apto para um jovem cavalheiro de caráter como o pequeno Paul!” Tão sério era este aviso, e tão especialmente apontado a Long Ned — embora se pudesse dizer que a companhia do Sr. Allfair ou do Sr. Finish não era menos prejudicial —, que é provável que aquela fastidiosa solenidade de modos que Lord Normanby observa, com razão, num dos seus excelentes romances, cria tantos inimigos no mundo, e que caracterizava por vezes o comportamento de Long Ned, especialmente para com os homens do comércio, fosse uma razão principal pela qual Dummie estava tão aguda e peculiarmente atento às imoralidades daquele cavalheiro comprido. Ao mesmo tempo, devemos observar que, quando Paul, lembrando-se do que Pepper dissera a respeito da sua aventura inicial com o Sr. Dunnaker, a repetiu ao comerciante, Dummie não pôde esconder uma certa confusão, embora apenas tenha comentado, com uma espécie de riso, que não valia a pena falar sobre isso; e pareceu evidente a Paul que algo desagradável para o homem dos trapos, que não era partilhado pelo inconsciente Pepper, espreitava na reminiscência do seu passado conhecimento. Seja como for, a circunstância escapou à atenção de Paul momentos depois; e ele prestou, lamentamos dizer, igualmente pouca atenção aos avisos contra Ned com que Dummie o presenteou.
Talvez (pois devemos agora dirigir um olhar para os seus assuntos domésticos) uma grande causa que levou Paul para Fish Lane fosse a vida desconfortável que levava em casa. Pois, embora a Sra. Lobkins fosse extremamente afeiçoada ao seu protegido, ela possuía, como os seus clientes comentavam enfaticamente, “o temperamento do próprio diabo”; e a sua grosseria inata nunca tendo sido suavizada por aquelas imagens de sociedade alegre que tinham, em muitos romances e farsas cómicas, refinado o temperamento do romântico Paul, a sua maneira de desabafar as suas repreensões maternais não era certamente pouco revoltante para um rapaz de alguma delicadeza de sentimentos. De facto, ocorria-lhe frequentemente deixar a casa dela por completo e procurar a sua sorte sozinho, à maneira do engenhoso Gil Blas ou do empreendedor Roderick Random; e esta ideia, embora vencida e revencida, inchava e crescia gradualmente no seu coração, tal como incha aquela bola de pelo encontrada no estômago de alguma novilha sofredora após o seu falecimento. Entre estes projetos de empresa, o leitor notará futuramente que uma visão precoce da Caverna da Floresta Verde, na qual Turpin estava habituado, com um amigo, um presunto e uma esposa, a esconder-se, passou pela sua mente. Nesta altura, talvez não se inclinasse para o modo de vida praticado pelo herói das estradas; mas certamente não se apegava menos afetuosamente à noção da caverna.
O fluxo melancólico da vida do nosso herói estava agora, contudo, prestes a ser desviado por uma viragem inesperada, e os pensamentos crus da juventude prestes a explodir, “como a palma gigante de Ghilan”, no fruto de uma resolução varonil.
Entre os traços proeminentes da mente da Sra. Lobkins estava um desprezo soberano pelos fracassados. A imprudência e a má sorte de Paul causavam-lhe tanto desprezo quanto compaixão; e quando, pela terceira vez numa semana, ele se encontrou, com um semblante pesaroso e bolsos vazios, junto à cadeira grande da dama, a solicitar um fornecimento adicional, as marés da sua ira incharam até transbordar.
“Olha aqui, meu kinchen cove”, disse ela — e, para dar peculiar dignidade ao seu aspeto, colocou enquanto falava um enorme par de óculos de estanho —, “se te vais meter na cabeça que eu te vou fornecer as tuas necessidades viciosas, vais encontrar-te plantado em Queer Street. Que me partam se te dou mais um mag.”
“Mas devo um guinéu ao Long Ned”, disse Paul; “e o Dummie Dunnaker emprestou-me três coroas. Fica mal ao seu herdeiro aparente, minha cara dama, esquivar-se às suas dívidas de honra.”
— Tretas! Não te armes em esperto a tentar persuadir-me com as tuas dívidas e a tua honra — disse a dama, num acesso de fúria. — O Long Ned é tão comprido nos forcados [dedos] como é nas costas; que o diabo o leve! E quanto ao Dummie Dunnaker, admiro-me como tu, criado como um senhor, e abençoado com a melhor das educações, podes pensar em aturar tais sócios vulgares. Digo-te uma coisa, Paul, ou rompes com eles, num abrir e fechar de olhos, ou não hás de ver um tostão que seja da Peg Lobkins. Dito isto, a velha virou-se na cadeira e serviu-se de um cachimbo de tabaco.
Paul andou duas vezes de um lado para o outro da sala e, por fim, parou em frente da cadeira da dama. Era um jovem de espírito elevado; e embora fosse de bom coração e tivesse um amor pela Sra. Lobkins, que o seu cuidado e afeição por ele bem mereciam, tinha o temperamento rude e nem sempre era polido no falar. É verdade que o seu coração o acusava mais tarde, sempre que dizia algo para aborrecer a Sra. Lobkins, e ele era sempre o primeiro a procurar uma reconciliação; mas palavras acaloradas produzem um respeito frio, e o remorso pelo passado nem sempre é eficaz para emendar o futuro. Paul então, cheio da vaidade da sua educação distinta e da amizade do Long Ned (que ia a Ranelagh e usava meias com bordados de prata), parou em frente à cadeira da Sra. Lobkins e disse com grande solenidade:
— O Sr. Pepper, senhora, diz muito corretamente que preciso de dinheiro para me sustentar como um cavalheiro; e como não mo quer dar, estou determinado, com muitos agradecimentos pelos favores passados, a lançar-me ao mundo e a procurar a minha fortuna.
Se Paul não era de temperamento meloso e brando, a Dama Margaret Lobkins, como se viu, não tinha vantagem nesse aspeto. (Ousamos dizer que o leitor observou que nada enfurece tanto as pessoas de quem se depende como qualquer determinação expressa de procurar a independência.) Fitando, pois, por um momento o rosto aberto, mas resoluto, de Paul, enquanto todo o sangue das suas veias parecia reunir-se em fogo e escarlate nas suas faces dilatadas, a Dama Lobkins disse:
— Ora toma, Mestre Orgulho-em-trapos! procurar a tua fortuna, hás de? É nisto que dá eu criar-te e deixar-te comer o pão da ociosidade e da caridade, seu sapo de uma figa! Toma lá, que te lixes! — e, adequando a ação à palavra, o tubo que ela retirara da boca para proferir a sua gentil reprimenda sibilou pelo ar, roçou a face de Paul e terminou a sua carreira terrena ao entrar em contacto violento com o olho direito de Dummie Dunnaker, que naquele preciso momento entrava na sala.
Paul recuou por um momento para evitar o projétil; no instante seguinte estava perfeitamente ereto. As suas faces brilharam, o seu peito inchou; e a entrada de Dummie Dunnaker, que foi assim feito espetador da afronta que ele recebera, agitou o seu sangue numa raiva mais profunda e numa humilhação mais amarga. Todas as suas resoluções anteriores de partida, todas as palavras duras, as alusões grosseiras, os insultos práticos que tinha recebido em qualquer ocasião, assaltaram-no de uma vez. Apenas lançou um olhar à velha, cuja fúria agora já tinha metade diminuído, e virou-se lenta e silenciosamente para a porta.
Há muitas vezes algo de alarmante num acontecimento apenas porque é aquilo que menos esperamos. A astuta Sra. Lobkins, lembrando-se do temperamento rijo e das paixões ardentes de Paul, esperava algum acesso de raiva, alguma resposta veemente; e quando apanhou com um olho errante o seu olhar de despedida e o viu virar-se tão passiva e silenciosamente para a porta, o seu coração vacilou, ergueu-se da cadeira e dirigiu-se a ele. Infelizmente para a sua oportunidade de reconciliação, ela tinha bebido naquele dia mais copiosamente do que o habitual; e os sinais de embriaguez visíveis no seu andar incerto, no seu olho sem significado, no seu olhar vago, na sua face rubra, inspiraram em Paul sentimentos que, no momento, converteram o ressentimento em algo muito semelhante a aversão. Ele saltou do seu alcance para o limiar.
— Onde vais tu, seu diabo de uma figa? — gritou a dama. — Entra e não digas mais nada sobre o assunto; sê um rapaz esperto, larga esses valentões, e terás o dinheiro!
Mas Paul não atendeu a este convite.
— Não comerei mais o pão da ociosidade e da caridade — disse ele, carrancudo. — Adeus; e se alguma vez puder pagar-te o que te custei, fá-lo-ei.
Ele virou-se enquanto falava; e a dama, inflamando-se de ressentimento perante o seu retorno desagradável à bondade que ela lhe oferecera, gritou-lhe atrás e mandou que aquele cavalheiro de cor escura que guarda a agência de incêndios lá em baixo fosse com ele.
Inchado de raiva, orgulho, vergonha e um sentimento meio alegre de independência emancipado, Paul seguiu em frente, sem saber para onde, com a cabeça no ar e as pernas a marcar o passo num andamento militar de desafio. Não tinha avançado muito quando ouviu o seu nome proferido atrás de si; virou-se e viu a cara pesarosa de Dummie Dunnaker.
Muito inofensivamente tinha aquela pessoa respeitável estado empregada durante a última parte da cena que descrevemos a acariciar o seu olho aflito e a murmurar observações filosóficas sobre o perigo incorrido por todos aqueles que se dão com damas de temperamento colérico; quando a Sra. Lobkins, virando-se após a partida de Paul e vendo a figura lastimável daquele Dummie Dunnaker, cujo nome ela se lembrava que Paul mencionara no seu discurso de abertura e que, portanto, com uma confusão ilógica de ideias, considerava uma parte na disputa recente, exauriu sobre ele toda aquela raiva que era necessário para o seu conforto que ela descarregasse algures.
Agarrou o homenzinho pelo colarinho — o lugar mais terno de todos para cavalheiros em circunstâncias semelhantes quanto aos caminhos da vida — e, dando-lhe um murro que surtiu efeito no seu outro olho, até então intacto, gritou:
— Vou ensinar-te, seu sanguessuga, a viver à custa daqueles que têm expectativas! Vou ensinar-te a enganar o herdeiro do Mug, seu fantasma de vela de sebo, choramingas e de cara pálida! O quê! vais emprestar ao meu Paul três coroas, vais, quando sabes que me disseste que não podias pagar-me um mísero tostão? Oh, és um tipo estranho, garanto-te; mas não enganas a Margery Lobkins. Fora da minha vista, seu cão sarnento! Fora da minha vista; e se alguma vez puser os olhos em ti outra vez, ou se alguma vez souber que andas a fazer do meu Paul um tolo, dou-te a palavra que te teço um colarinho de cânhamo, enforco-te, seu cão, enforco-te! O quê! vais responder-me, vais? Oh, sua víbora, mexe-te e desaparece!
Foi em vão que Dummie protestou a sua inocência. Um violento pontapé terminou toda a conversa. Ele deixou o Mug vazio; e a estalajadeira, cambaleando de volta para a sua poltrona, procurou outro cachimbo e, como todas as pessoas imaginativas quando o mundo corre mal com elas, consolou-se pela ausência de realidades com as criações do fumo.
Entretanto, Dummie Dunnaker, murmurando e resmungando fantasias amargas, alcançou Paul e acusou aquele jovem de ter sido a causa dos ferimentos que acabara de sofrer. Paul não estava naquele momento com o humor mais adaptado para o suporte paciente de acusações. Respondeu ao Sr. Dunnaker muito secamente; e aquele indivíduo respeitável, ainda a arder com as suas nódoas negras, respondeu com igual acidez. As palavras subiram de tom e, finalmente, Paul, desejoso de concluir a conferência, fechou o punho e disse ao redobrado Dummie que o ia "atirar ao chão". Há algo de peculiarmente áspero e atordoante naquelas três monossílabas duras, aramescas, robustas e obstinadas. O próprio som faz-nos fechar o punho se formos um herói, ou o passo se formos um homem pacífico. Produziram um efeito instantâneo em Dummie Dunnaker, ajudadas como foram pelo efeito de uma figura atlética e juvenil, já aproximando-se rapidamente da altura de seis pés, uma face corada e um olho que demonstrava tanto paixão como resolução. A voz do mercador de trapos baixou de imediato e, com o semblante de um Cássio injustiçado, ele choramingou:
— Atirar-me ao chão? Oh, pequeno Paul, que palavras perversas são essas! O quê! Dummie Dunnaker, que te embalou no seu joelho muitas e muitas vezes! Ora, o coração do tipo é duro como cordame e orgulhoso como o cão de um jardineiro com um ramo de flores atado à cauda. Esta lamentação patética suavizou a raiva de Paul.
— Bem, Dummie — disse ele, rindo —, não tive a intenção de te magoar, e isso é o fim da história; e sinto muito pela má conduta da dama; por isso, desejo-te um bom dia.
— Ora, para onde vais a trotar, pequeno Paul? — disse Dummie, agarrando-o pela cauda do casaco.
— Nem imagino — respondeu o nosso herói; — mas acho que vou fazer uma visita ao Long Ned.
— Alto lá! — disse Dummie, falando em voz baixa; — se não fores contar a ninguém, vou contar-te um segredo. Ouvi dizer que o Long Ned partiu para Hampshire esta mesma manhã numa expedição de assalto!
— Ah! — disse Paul —, então que me enforquem se sei o que fazer!
Ao proferir estas palavras, um sentido mais profundo da sua indigência (se persistisse em deixar o Mug) do que aquele que sentira até então, assaltou-o; pois Paul tinha planeado por um tempo lançar-se à hospitalidade do seu amigo patagónio, e agora que descobria que esse amigo estava ausente de Londres e numa expedição tão perigosa, estava um pouco confuso sobre o que fazer com aquele tesouro de intelecto e sabedoria que carregava sobre as suas pernas. Já tinha adquirido penetração suficiente (pois Charles Trywit e Harry Finish eram excelentes mestres para iniciar um homem no conhecimento do mundo) para perceber que uma pessoa, por mais admiráveis que sejam as suas qualidades, não encontra facilmente um acolhimento sem um centavo no bolso. Nas redondezas de Thames Court tinha, na verdade, muitos conhecidos; mas a fineza da sua linguagem, adquirida da sua educação, e a elegância do seu ar, no qual tentava misturar em associação feliz a galante insolência do Sr. Long Ned com a graciosa negligência do Sr. Augustus Tomlinson, tinham-lhe feito muitos inimigos entre esses conhecidos; e ele não estava disposto — tão grande era o orgulho do nosso herói — a lançar-se à sorte do acolhimento deles, ou a publicar, por assim dizer, o seu estado exilado e abatido. Quanto aos companheiros de copo que o ajudaram a fazer um deserto dos seus bolsos, ele já tinha descoberto que esse era o único tipo de assistência que estavam dispostos a prestar-lhe. Numa palavra, ele não podia, pela sua vida, conjeturar em que paragem encontraria os benefícios de cama e mesa. Enquanto estava de dedo ao lábio, indeciso e pensativo, mas totalmente resolvido pelo menos a uma coisa — não voltar ao Mug —, o pequeno Dummie, que era um tipo de bom coração no fundo, espreitou o seu rosto e disse:
— Ora, Paul, meu rapaz, pareces em baixo; anima-te, o cuidado matou um gato!
Observando que este facto apropriado e encorajador da história natural não diminuía a nuvem na testa de Paul, o perspicaz Dummie Dunnaker procedeu de imediato para a grande panaceia para todos os males, na sua própria estimação profunda.
— Paul, meu caro, — disse ele, com uma piscadela de conhecedor, e dando uma cotovelada ao jovem no lado esquerdo —, que me dizes a um gole de aguardente? ou, como gostas de ser chique, não me importo de pagar-te um copo de vinho do Porto! Enquanto Dunnaker proferia este convite, uma reminiscência repentina brilhou através de Paul: lembrou-se de imediato de MacGrawler; e resolveu imediatamente reparar para a morada desse ilustre sábio, e peticionar pelo menos alojamento para a noite que se aproximava. Assim que chegou a esta determinação, sacudiu o aperto do amável Dummie e, recusando com muitos agradecimentos o seu convite hospitaleiro, pediu-lhe que extraísse da casa da dama, e alojasse na sua própria até ser chamado, tais artigos de roupa e vestuário que pertenciam a Paul e que poderiam ser facilmente apanhados, durante uma das sestas vespertinas da matrona, pelo astuto Dunnaker. O mercador prometeu que a comissão seria rapidamente executada; e Paul, apertando-lhe a mão, seguiu para a mansão de MacGrawler.
Devemos agora voltar um pouco no curso natural da nossa narrativa e observar que, entre as causas menores que tinham conspirado com a grande causa do jogo para trazer o nosso excelente Paul à sua situação atual, estava a sua intimidade com MacGrawler; pois quando os anos crescentes e os hábitos errantes de Paul tinham posto fim às instruções do sábio, foi cortada das finanças do preceptor a quantia semanal de duas xelins e seis pence, bem como a liberdade da adega e da despensa da dama; e como, na reação do sentimento e no curso perverso dos assuntos humanos, as pessoas geralmente se arrependem mais daquelas ações outrora mais ardentemente incorridas, assim a pobre Sra. Lobkins, imaginando que as irregularidades de Paul se deviam inteiramente ao conhecimento que ele tinha adquirido das instruções de MacGrawler, censurava-se gravemente pela sua antiga loucura em procurar uma educação superior para o seu protegido; mais, ela até descarregou sobre a cabeça sagrada do próprio MacGrawler a sua insatisfação com os resultados das suas instruções. Da mesma forma, quando um homem que sabe soletrar é enforcado, os anti-educacionistas acusam o livro de soletrar do seu assassínio. Seguiram-se palavras altas entre o admirador da inocência ignorante e o propagador da ciência intelectual, que terminaram na expulsão final de MacGrawler do Mug.
Há alguns jovens cavalheiros dos dias de hoje viciados na adoção da poesia de Lord Byron, com a alteração de novas rimas, que têm o prazer gracioso de nos informar que nasceram para ser a ruína de todos aqueles que os amam — um facto interessante, sem dúvida, mas que eles poderiam guardar para si mesmos. Pareceria pelo conteúdo deste capítulo como se a mesma desventura estivesse destinada a Paul. O exílio de MacGrawler, os insultos oferecidos a Dummie Dunnaker — ambos ocasionados por ele — parecem sancionar essa opinião. Infelizmente, embora Paul fosse um poeta, não era muito sentimentalista; e ele nunca nos deu os delírios edificantes do seu remorso sobre esses assuntos. Mas MacGrawler, como Dunnaker, estava resolvido a que o nosso herói percebesse a maldição da sua fatalidade; e como ele ainda retinha alguma influência sobre a mente do seu antigo pupilo, as suas acusações contra Paul, como a origem do seu banimento, foram atendidas com um sucesso maior do que as queixas de Dummie Dunnaker sobre uma calamidade semelhante. Paul, que, como a maioria das pessoas que não servem para nada, tinha um coração excelente, ficou extremamente entristecido com o banimento de MacGrawler por sua causa; e esforçou-se por compensar isso com tais consolações pecuniárias que estava habilitado a oferecer. Estas MacGrawler (puramente, podemos supor, de um desejo benevolente de diminuir o remorso do rapaz) não hesitou em aceitar; e assim, tão semelhantes são muitas vezes os efeitos da virtude e do vício, o exemplar MacGrawler conspirou com o sem princípios Long Ned e o insensível Henry Finish na produção daquele estado ininvejável de vacuidade que agora entristecia sobre os bolsos de Paul.
Enquanto o nosso herói caminhava lentamente em direção à morada do sábio, dependendo da sua gratidão e amizade para um abrigo temporário, um daqueles relâmpagos de pensamento que muitas vezes iluminam o abismo mais profundo da aflição atravessou a sua mente. Recordando a imagem do crítico, lembrou-se de que tinha visto aquele ornamento de "The Asinaeum" receber várias somas pelas suas lucubrações críticas.
— Por que — disse Paul, agarrando-se a esse facto e parando subitamente na rua —, por que não me tornaria eu próprio um crítico?
A única pessoa a quem alguém coloca uma questão com uma certeza tolerável de receber uma resposta satisfatória é a si mesmo. No momento em que Paul iniciou esta sugestão luminosa, pareceu-lhe que tinha descoberto as minas de Potosi. Ardendo de impaciência para discutir com o grande MacGrawler a viabilidade do seu projeto, apressou o seu passo quase para uma corrida e, em poucos minutos, tendo apenas derrubado um limpa-chaminés e duas vendedoras de maçãs pelo caminho, chegou à porta do sábio.
CAPÍTULO V.
Reinos ainda não revelados à vista humana, Canas através das mãos infelizes que escrevem, Chefes críticos — permiti-me relatar As maravilhas místicas do vosso estado silencioso!
VIRGÍLIO, Eneida, livro vi.
A Fortuna sorrira ao Sr. MacGrawler desde que ele começou a tutela do protegido da Sra. Lobkins. Ele habitava agora um segundo andar e desafiava o xerife e os seus espíritos malignos. Foi ao cair da tarde que Paul o encontrou em casa e sozinho.
Perante o homem poderoso estava um pote de cerveja londrina; uma vela, com um pavio ignorado, derramava a sua luz solitária sobre os seus trabalhos; e um gato infantil brincava alegremente aos seus pés eruditos, enganando os momentos cansativos com os restos da carapuça espiral com a qual, em vez de louro, o crítico tinha até agora adornado as suas sobrancelhas todas as noites.
Assim que MacGrawler, perfurando através da névoa sombria que pairava sobre a câmara, percebeu a pessoa do intruso, um franzir de sobrolho assentou na sua testa.
— Não te disse, rapaz — rosnou ele —, para nunca entrares no quarto de um cavalheiro sem bater? Digo-te, senhor, que os modos não são menos essenciais para a felicidade humana do que a virtude; por isso, nunca perturbes um cavalheiro nas suas ocupações, e senta-te sem molestar o gato!
Paul, que sabia que o seu respeitado tutor não gostava que ninguém traçasse a fonte do espírito maravilhoso que ele infundia nas suas composições críticas, fingiu não perceber a Hipocrene de estanho e, com muitos pedidos de desculpas pela sua falta de polidez preparatória, sentou-se conforme ordenado. Foi então que se seguiu a seguinte conversa edificante.
— Os antigos — disse Paul — eram homens muito grandes, Sr. MacGrawler.
— Eram-no, senhor — respondeu o crítico; — fazemos regra na nossa profissão afirmar esse facto.
— Mas, senhor — disse Paul —, eles estavam errados de vez em quando.
— Nunca, Ignoramus; nunca!
— Eles louvavam a pobreza, Sr. MacGrawler! — disse Paul, com um suspiro.
— Hem! — disse o crítico, um pouco atordoado; mas recuperando de imediato a sua perspicácia característica, observou: — É verdade, Paul; mas essa era a pobreza dos outros.
Houve uma leve pausa. — A crítica — retomou Paul —, deve ser uma arte muito difícil.
— A-hem! E que arte existe, senhor, que não seja difícil — pelo menos, para se tornar mestre dela?
— Verdade — suspirou Paul; — ou então...
— Ou então o quê, rapaz? — repetiu o Sr. MacGrawler, vendo que Paul hesitava, quer por medo do seu conhecimento superior, como a vaidade do crítico sugeria, quer por (o que era igualmente provável) falta de uma palavra para expressar o seu significado.
— Ora, eu estava a pensar, senhor — disse Paul, com aquela coragem desesperada que dá uma entonação distinta e alta à voz de todos os que apostam, ou pensam que apostam, o seu destino num lançamento —, eu estava a pensar que gostaria de me tornar eu próprio um crítico!
— W-h-e-w! — assobiou MacGrawler, elevando as sobrancelhas; — w-h-e-w! grandes fins vieram de princípios menores!
Encorajadora como esta afirmação foi, vinda como veio dos lábios de um homem tão grande e de um crítico tão grande, no próprio momento em que nada menos do que um anátema contra a arrogância e a presunção se esperava que saísse daqueles portais da sabedoria, ainda assim tal é a falácia de todas as esperanças humanas, que as de Paul teriam seguramente sido um pouco menos elevadas, se ele, ao mesmo tempo que os seus ouvidos bebiam o bálsamo destas palavras graciosas, tivesse sido capaz de ter mergulhado na fonte de onde elas emanavam.
“Conhece-te a ti mesmo!” era um preceito que o sábio MacGrawler se esforçara por obedecer; consequentemente, o resultado da sua obediência foi que, até por si próprio, ele era mais conhecido do que digno de confiança. Independentemente de como pudesse parecer aos outros, ele não tinha, na realidade, nenhuma fé vã na infalibilidade dos seus próprios talentos e recursos; tão bem poderia um talhante considerar-se um anatomista perfeito devido à frequente amputação de pernas de carneiro, como o crítico do “The Asinaeum” poderia ter aplicado “o unguento lisonjeiro à sua alma” de que era realmente versado na arte da crítica, ou mesmo conhecedor de uma das suas regras mais comuns, só porque conseguia, com toda a rapidez, retalhar e desmembrar qualquer obra, da mais pequena à maior, da mais superficial à mais superior; e assim foi que ele nunca teve a falta de franqueza de se enganar a si próprio quanto aos seus próprios talentos. O desejo de Paul, portanto, não foi mais cedo expresso do que um vago mas áureo esquema de lucro futuro iluminou o cérebro de MacGrawler — numa palavra, ele resolveu que Paul deveria, de futuro, partilhar o trabalho das suas críticas; e que ele, MacGrawler, deveria receber todos os lucros em troca da honra assim conferida ao seu coadjutor.
Olhando, portanto, para o nosso herói com um ar benigno, o Sr. MacGrawler continuou assim:
“Sim, repito — grandes fins advieram de começos menores! Roma não se construiu num dia; e eu, Paul, eu próprio nem sempre fui o editor do ‘The Asinaeum’. Dizes bem, a crítica é uma grande ciência, uma ciência muito grande; e pode ser dividida em três ramos — a saber, ‘fazer cócegas, retalhar e rebocar’. Em cada um destes três, acredito sem vaidade ser um adepto profundo! Vou iniciar-te em todos. Os teus trabalhos começarão esta mesma noite. Tenho três obras sobre a minha mesa; devem ser despachadas até amanhã à noite. Eu ficarei com a mais árdua; abandono-te as outras. As três consistem num Romance, uma Epopeia em doze livros e uma Investigação sobre a Mente Humana, em três volumes. Eu, Paul, farei cócegas no Romance; tu, esta mesma noite, rebocarás a Epopeia e retalharás a Investigação!”
“Céus, Sr. MacGrawler!” exclamou Paul, em consternação, “o que quer dizer? Eu nunca seria capaz de ler uma epopeia em doze livros, e adormeceria na primeira página da Investigação. Não, não, deixe-me o Romance e tome as outras duas sob a sua própria proteção!”
Embora o grande génio seja sempre benevolente, o Sr. MacGrawler não conseguiu conter um sorriso de desprezo inefável perante a simplicidade do seu pupilo.
“Fica a saber, jovem”, disse ele, solenemente, “que o Romance em questão deve ser alvo de cócegas; não é dado aos principiantes crus conquistar esse grande mistério da nossa ciência.”
“Antes de prosseguirmos, explique os termos da arte”, disse Paul, impacientemente.
“Escuta, então”, replicou MacGrawler; e, enquanto falava, a vela projetava um brilho aterrador sobre o seu rosto. “Retalhar é, falando gramaticalmente, empregar o caso acusativo, ou acusador; deves cortar o teu livro à direita e à esquerda, de alto a baixo, pela raiz e pelos ramos. Rebocar um livro é empregar o caso dativo, ou doador; e deves conceder à obra todos os superlativos da língua — deves aplicar o teu elogio por grosso e por miúdo, e não deixar uma fenda sem reboco. Mas fazer cócegas, senhor, é uma palavra abrangente, e compreende todas as variedades infinitas que preenchem o intervalo entre retalhar e rebocar. Esta é a subtileza da arte, e só a podes adquirir com a prática; alguns exemplos bastarão para te dar uma ideia da sua delicadeza.
“Começaremos com a cócega encorajadora: ‘Embora esta obra esteja cheia de falhas — embora as personagens sejam pouco naturais, o enredo totalmente improvável, os pensamentos batidos e o estilo agramatical — ainda assim não desencorajaríamos de modo algum o autor de prosseguir; e, entretanto, recomendamos confiantemente a sua obra à atenção do público leitor.’
“Toma, agora, a cócega aconselhadora: ‘Há uma boa dose de mérito nestes pequenos volumes, embora devamos lamentar a evidente pressa com que foram escritos. O autor poderia fazer melhor — recomendamos-lhe o estudo dos melhores escritores;’ termina então com uma citação em latim, que podes tirar de um dos lemas do ‘Spectator’.
“Agora, jovem, um exemplo da cócega metafórica: ‘Rogamos a este aspirante poético que se lembre do destino de Pireneu, que, tentando perseguir as Musas, esqueceu-se de que não tinha as asas das deusas, lançou-se da ascensão mais elevada que pôde alcançar e pereceu.’
“Isto, vês, Paul, é um tipo de cócega mais elevado e mais erudito, e pode ser reservado para uma das Quarterly Reviews. Nunca desperdices um símile desnecessariamente.
“Agora, uma amostra da cócega faceta: ‘O Sr. — obteve uma reputação considerável! Algumas damas elegantes consideram-no um grande filósofo, e ele tem sido elogiado na nossa presença por alguns membros de Cambridge pelo seu conhecimento da sociedade da moda.’
“Para este tipo de cócega usamos geralmente o mais aborrecido da nossa tribo; e selecionei o exemplo anterior das críticas de um escritor distinto no ‘The Asinaeum’, a quem chamamos, par excellence, o Asno.
“Há uma variedade de outras cócegas — a familiar, a vulgar, a educada, a bem-humorada, a amarga; mas, em geral, pode supor-se que todas as cócegas significam, por mais disfarçadas que estejam, um ou outro destes significados: ‘Este livro seria extremamente bom se não fosse extremamente mau;’ ou ‘este livro seria extremamente mau se não fosse extremamente bom.’
“Tens agora, Paul, uma ideia geral da arte superior exigida pela cócega?”
O nosso herói manifestou a sua anuência através de uma espécie de som histérico entre uma gargalhada e um gemido. MacGrawler continuou:
“Existe outra grande dificuldade inerente a esta classe de crítica — é geralmente necessário ler algumas páginas da obra; porque raramente fazemos cócegas sem extrair, e é preciso algum discernimento para fazer com que o contexto concorde com o extrato. Mas não é frequente ser necessário extrair quando se retalha ou quando se reboca; quando se retalha, é melhor, em geral, concluir com: ‘Depois do que dissemos, é desnecessário acrescentar que não podemos ofender o gosto dos nossos leitores com qualquer citação deste lixo execrável.’ E quando se reboca, podes terminar com: ‘Lamentamos que os nossos limites não nos permitam dar quaisquer extratos desta obra maravilhosa e inigualável. Devemos remeter os nossos leitores para o próprio livro.’
“E agora, senhor, penso que lhe dei um esboço suficiente da nobre ciência de Scaliger e MacGrawler. Sem dúvida que estás reconciliado com a tarefa que te atribuí; e enquanto eu faço cócegas ao Romance, tu retalharás a Investigação e rebocarás a Epopeia!”
“Farei o meu melhor, senhor!” disse Paul, com aquela simplicidade modesta e nobre que convém aos virtuosamente ambiciosos; e MacGrawler deu-lhe imediatamente papel e caneta, e fê-lo sentar-se à sua tarefa.
Teve a sorte de agradar a MacGrawler, que, após ter feito algumas correções no estilo, declarou que ele demonstrava um génio peculiar nesse ramo da composição. E foi então que Paul, tornado presunçoso pelo elogio, disse, olhando com desprezo para o rosto do seu preceptor e balançando as pernas de um lado para o outro:
“E o que, senhor, receberei pela Epopeia rebocada e pela Investigação retalhada?”
Tal como o rosto do aluno que, ao adivinhar, como pensa corretamente, o significado de alguma palavra misteriosa em Cornélio Nepos, não recebe o epíteto açucarado do elogio, mas um golpe repentino através do os humerosve — assim, vazio, perplexo e fulminado, ficou o rosto do Sr. MacGrawler perante a audácia abrupta e espantosa de Paul.
“Receber!” repetiu ele — “receber! Ora, seu cachorro insolente e ingrato, quereria roubar o pão do seu velho mestre? Se eu conseguir obter para os seus artigos crus uma admissão nas ilustres páginas do ‘The Asinaeum’, não será suficientemente pago, senhor, pela honra? Responda-me a isso. Outro homem, jovem, ter-lhe-ia cobrado um prémio pelas suas instruções; e aqui estou eu, numa lição, a transmitir-lhe todos os mistérios da ciência, e de graça! E fala-me de ‘receber! — receber!’ Jovem, nas palavras do bardo imortal: ‘Preferiria que me tivesses falado de veneno de ratos!’”
“Então, em suma, Sr. MacGrawler, não receberei nada pelo meu trabalho?” disse Paul.
“Claro que não, senhor; o melhor escritor do ‘The Asinaeum’ só recebe três xelins por artigo!” Quase mais do que merece, poderia ter acrescentado o crítico; pois aquele que escreve para ninguém não deve receber nada!
“Então, senhor,” disse o mercenário Paul, profanamente, e levantando-se, pontapeou com um pontapé o gato, a Epopeia e a Investigação para o outro lado da sala — “então, senhor, podem todos ir para o diabo!”
Não procuramos, ó gentil leitor, desculpar este anátema apressado. Os hábitos da infância irrompem por vezes apesar das bênçãos posteriores da educação; e não propomos Paul para tua imitação como esse modelo de virtude e de sabedoria que pretendemos que descubras em MacGrawler.
Quando esse grande crítico percebeu que Paul se tinha levantado e que estava a retirar-se, furioso, em direção à porta, levantou-se também e, repetindo as últimas palavras de Paul, disse:
“‘Ir para o diabo!’ Não tão depressa, jovem — festina lente — tudo a seu tempo. Que importa que eu tenha dito, espantado com o teu pedido prematuro, que não receberias nada; o meu grande amor por ti pode levar-me a esforçar-me em teu nome. O ‘Asinaeum’, é verdade, só dá três xelins por artigo em geral; mas eu sou o seu editor e intercederei junto dos proprietários em teu favor. Sim, sim; verei o que se pode fazer. Espera um pouco, meu rapaz.”
Paul, embora muito irascível, foi facilmente apaziguado; sentou-se novamente e, pegando na mão de MacGrawler, disse:
“Perdoe-me pela minha petulância, meu caro senhor; mas, para lhe dizer a pura verdade, estou muito por baixo na vida neste momento e preciso de arranjar dinheiro de uma forma ou de outra — em suma, tenho de escolher entre roubar bolsas ou escrever (não gratuitamente) para o ‘The Asinaeum’.”
E sem mais preliminares, Paul relatou as suas circunstâncias atuais ao crítico, declarou a sua determinação de não voltar ao Mug e solicitou, pelo menos, da amizade do seu velho preceptor, o favor de um abrigo para aquela noite.
MacGrawler ficou extremamente desconcertado ao ouvir um relato tão mau das finanças e das perspetivas do seu pupilo, pois pretendia secretamente regalar-se naquela noite com uma taça de ponche, para a qual pretendia que Paul pagasse; mas como conhecia a rapidez de espírito do jovem, assim como o grande afeto que por ele nutria a Sra. Lobkins, que com toda a probabilidade solicitaria o seu regresso no dia seguinte, pensou que não era improvável que Paul desfrutasse da mesma boa sorte que a do seu companheiro felino, que, embora tivesse acabado de ser pontapeado para o outro lado do apartamento, estava agora a retomar a sua ocupação anterior, incólume e não menos alegremente do que antes. Considerou, portanto, imprudente descartar o seu antigo pupilo, apesar da sua atual pobreza; e, além disso, embora o primeiro projeto feliz de embolsar todos os lucros derivados da indústria de Paul tivesse sido agora abandonado, ainda percebia uma grande facilidade em embolsar uma parte dos mesmos recebimentos. Respondeu, portanto, a Paul muito calorosamente, que simpatizava plenamente com ele na sua atual situação melancólica; que, no que lhe dizia respeito, partilharia o seu último xelim com o seu amado pupilo, mas que lamentava que, naquele momento, só tivesse onze pence e meio no bolso; que, no entanto, se esforçaria ao máximo para arranjar uma abertura para o génio literário de Paul; e que, se Paul quisesse encarregar-se da parte de retalhar e rebocar do negócio, ele ceder-lha-ia de bom grado e dar-lhe-ia todos os lucros, quaisquer que fossem. En attendant, lamentou que um reumatismo violento o impedisse de ceder a sua própria cama ao pupilo, mas que ele poderia, com todo o prazer imaginável, dormir sobre o tapete em frente à lareira. Paul ficou tão comovido com esta bondade do digno homem que, embora não muito dado a estados de espírito sensíveis, verteu lágrimas de gratidão. Insistiu, contudo, em não receber a totalidade da recompensa do seu trabalho; e, por fim, ficou decidido, embora com uma nobre relutância da parte de MacGrawler, que esta seria igualmente partilhada entre o crítico e o protegido do crítico — sendo metade dos lucros razoavelmente atribuída a MacGrawler pelas suas instruções e recomendação.
CAPÍTULO VI.
Os maus eventos espreitam pela cauda dos bons propósitos. — Bartholomew Fair.
Não demorou muito até que houvesse uma melhoria visível nas páginas do “The Asinaeum”. A parte de retalhar desse inigualável jornal foi subitamente concebida e levada a cabo com um vigor e um espírito que espantaram os poucos consagrados que contribuíam para a sua circulação. Não foi difícil perceber que um novo soldado tinha sido alistado ao serviço; havia algo tão fresco e cordial no abuso que nunca poderia ter procedido da acerbidade gasta de um velho retalhador. É certo que uma pequena ignorância de factos comuns e um método inovador de aplicar palavras a significados que nunca se pretendeu que denotassem eram, de vez em quando, distinguíveis nas críticas do novo Aquiles; não obstante, era fácil atribuir estas peculiaridades a uma forma original de pensar; e a ascensão do jornal com o aparecimento de uma série de artigos sobre autores contemporâneos, escritos por esta “mão eminente”, foi tão notável que cinquenta exemplares — um número perfeitamente sem precedentes nos anais do “The Asinaeum” — foram absolutamente vendidos numa semana; de facto, lembrando-se do princípio em que se baseava, um escritor velho e robusto declarou que o jornal acabaria em breve com si próprio e tornar-se-ia popular. Havia uma peculiaridade notável no estreante literário que assinava como “Nobilitas”: ele não só dava um sentido novo às palavras antigas, como usava palavras que nunca tinham sido usadas antes, entre o comum dos escritores. Isto era especialmente notável na aplicação de nomes duros aos autores. Uma vez, ao censurar um escritor popular por agradar ao público e, por isso, enriquecer, a “mão eminente” terminou com: “Aquele que surrateiramente acumula bustle [dinheiro] não é, de facto, nada melhor do que um buzz gloak!” [Carteirista].
Estas palavras enigmáticas e frases recônditas conferiram um grande ar de erudição ao estilo do novo crítico; e, pela sublimidade ininteligível da sua dicção, parecia duvidoso se ele era um poeta de Highgate ou um filósofo de Konigsberg. Em todo o caso, o crítico preservou o seu incógnito e, enquanto os seus elogios eram ecoados em nada menos do que três mesas de chá, até a glória lhe parecia menos deliciosa do que o disfarce.
Neste incógnito, leitor, já descobriste Paul; e agora temos de te deliciar com uma peça de moralidade sem paralelo no excelente MacGrawler. Esse digno Mentor, percebendo que havia uma inclinação inerente para a dissipação e a extravagância no nosso herói, resolveu magnanimamente atrair sobre si os pecados da traição e da má apropriação em vez de permitir que o seu amigo e antigo pupilo incorresse nos do desperdício e da profusão. Contrariamente, portanto, ao acordo feito com Paul, em vez de dar àquele jovem metade dos lucros resultantes das suas brilhantes lucubrações, ele concedeu-lhe apenas um quarto e, com a máxima ternura pela salvação de Paul, aplicou as outras três partes aos seus próprios vícios. As melhores ações são, ai de nós!, frequentemente mal interpretadas neste mundo; e estamos prestes a registar um exemplo notável dessa verdade melancólica.
Uma noite, MacGrawler, tendo “humedecido a sua virtude” da mesma forma que se diz que o grande Catão fez, na confusão que tal processo provoca por vezes nas cabeças mais bem reguladas, deu a Paul o que lhe pareceu ser o esboço de um certo artigo que ele desejava que fosse preenchido de forma retalhante, mas que na realidade era a seguinte nota do editor de um periódico mensal:
SENHOR, — Compreendendo que o meu amigo, o Sr. —, proprietário do “The Asinaeum”, permite ao distinto escritor que introduziu no mundo literário, e que assina como “Nobilitas”, apenas cinco xelins por artigo, rogo-lhe, por seu intermédio, que lhe ofereça o dobro dessa quantia. O artigo necessário terá um comprimento normal.
Sou, senhor, etc.,
Ora, nessa mesma manhã, MacGrawler tinha informado Paul desta oferta, alterando apenas, pelos motivos amáveis que já explicámos, a soma de dez xelins para a de quatro; e não foi mais cedo Paul ler a comunicação que colocámos perante o leitor do que, em vez de gratidão a MacGrawler pela sua consideração pelas enfermidades morais de Paul, concebeu contra aquele cavalheiro o ressentimento mais amargo. Não descarregou, contudo, os seus sentimentos de imediato sobre o escocês — de facto, naquele momento, como o sábio estava num sono profundo debaixo da mesa, teria sido inútil se ele tivesse soltado a sua indignação — mas resolveu, sem perda de tempo, abandonar a morada do crítico. “E, de facto,” dizia ele, soliloquizando, “estou profundamente cansado desta vida e ficarei muito contente por procurar outro emprego. Felizmente, amealhei cinco guineus e quatro xelins; e com essa independência na minha posse, uma vez que renunciei ao jogo, não posso facilmente morrer à fome.”
A este solilóquio seguiu-se um devaneio misantrópico sobre a infidelidade dos amigos; e a meditação terminou com Paul a fazer um pequeno embrulho com as roupas, etc., que Dummie tinha conseguido remover do Mug, e que Paul tinha retirado da habitação do trapeiro uma manhã em que Dummie estava fora.
Quando esta tarefa fácil foi concluída, Paul escreveu uma nota curta e censuradora ao seu ilustre preceptor, e deixou-a aberta sobre a mesa. Depois, entornando o tinteiro sobre o rosto adormecido de MacGrawler, partiu de casa e passeou-se sem se importar para onde.
A tarde estava gradualmente a fechar-se quando Paul, remoendo os seus pensamentos amargos, se encontrou na Ponte de Londres. Parou aí e, debruçando-se sobre a ponte, olhou melancolicamente para as águas sombrias que rolavam para a frente, não querendo saber um carapau das numerosas e encantadoras jovens que acharam por bem afogar-se naquelas ondas impiedosas, privando assim muitas boas patroas de uma excelente criada ou de uma cozinheira inestimável, e muitos um pérfido Faon de cartas começando com “Vilão Perjuro” e terminando com “A tua afetuosa mas melancólica Molly”.
Enquanto assim meditava, foi subitamente abordado por um cavalheiro de botas e esporas, segurando um chicote de montaria numa mão e a outra metida no bolso das suas calças. O chapéu do galante estava graciosa e cuidadosamente colocado, de modo a desarranjar o menos possível uma profusão de caracóis escuros que, escorrendo com unguentos, caíam baixo não só de cada lado do rosto, mas também sobre o pescoço e até sobre os ombros do proprietário. O rosto era saturnino e fortemente marcado, mas bonito e impressionante. Havia uma mistura de frivolidade e severidade na sua expressão — algo entre Madame Vestris e T. P. Cooke, ou entre a “adorável Sally” e um “Capitão ousado de Halifax”. A estatura desta personagem era notavelmente alta, e a sua figura era robusta, musculada e bem constituída. Em suma, para completar o seu retrato e dar aos nossos leitores de hoje uma ideia exata deste herói do passado, acrescentaremos que ele era, de todo, aquele tipo de cavalheiro que se vê a pavonear-se na Burlington Arcade, com o cabelo e o chapéu de lado, e uma capa militar atirada sobre os ombros; ou a rondar na Regent Street, ao cair da tarde, de patilhas e charuto.
Colocando a mão no ombro do nosso herói, este cavalheiro disse, com uma entonação de voz afetada:
“Como vais, meu caro? Há muito que não te via! Raio, mas pareces pior da vida. O que tens feito da tua vida?”
“Ah!” exclamou o nosso herói, retribuindo a saudação do estranho, “e é o Long Ned que contemplo? Fico, de facto, contente por te encontrar; e digo-te, meu amigo, espero que o que ouvi dizer a teu respeito não seja verdade!”
“Hist!”, disse Long Ned, olhando em redor com temor e baixando a voz; “nunca fales do que ouves sobre cavalheiros, a menos que desejes levá-los ao seu último discurso e confissão. Mas vem comigo, meu rapaz; há uma taverna aqui perto, e podemos muito bem discutir assuntos sobre uma caneca de vinho. Estás com um aspeto terrivelmente abatido, sem dúvida; mas posso dizer ao Bill, o empregado — um sujeito fantástico, esse Bill! — que és um dos meus rendeiros, que veio queixar-se do meu administrador, que acaba de penhorar-te por causa da renda, seu cão! Não admira que estejas tão desgastado da armação. Vem, segue-me. Não posso caminhar contigo. Pareceria demasiado o Northumberland House e a habitação do talhante ao lado a passearem juntos.”
“Na verdade, Sr. Pepper”, disse o nosso herói, corando e de modo algum satisfeito com a engenhosa comparação do seu amigo, “se tem vergonha das minhas roupas, que admito poderiam ser mais novas, não o ferirei com a minha...”
“Pooh! meu rapaz, pooh!”, gritou Long Ned, interrompendo-o; “nunca te ofendas. Eu nunca me ofendo. Nunca aceito nada senão dinheiro, exceto, claro, relógios. Não pretendo ferir os teus sentimentos; todos nós já fomos pobres. Raios, lembro-me de quando não tinha um trapo para vestir; e agora, vês-me... vês-me, Paul! Mas vem, só precisas de te separar de mim pelas ruas. Mantém-te um pouco atrás, muito pouco; assim está bem. Sim, assim está bem”, repetiu Long Ned, resmungando para si mesmo; “vão tomá-lo por um meirinho. Parece distinto hoje em dia ser tão acompanhado; mostra que alguém já teve crédito!”
Entretanto, Paul, embora de modo algum satisfeito com o desprezo manifestado pelo seu longo associado quanto à sua aparência pessoal, e impressionado com um sentido mais agudo do que nunca dos crimes do seu casaco e dos vícios da sua outra peça de vestuário — “Oh, não lhe sopres o nome!” — seguiu obstinada e taciturnamente os passos pavoneantes do afetado Sr. Pepper. Essa personagem chegou finalmente a uma pequena taverna e, detendo um empregado que corria pelo corredor em direção à sala de café com um prato de carne seca, exigiu (sem dúvida por uma agradável antecipação de uma catástrofe pendular semelhante) um prato da mesma excelente iguaria, para ser levado, na companhia de uma garrafa de vinho do Porto, para uma sala privada. Assim que se viu a sós com Paul, o Sr. Ned, rebentando numa gargalhada sonora, examinou o seu camarada da cabeça aos pés através de um monóculo que trazia preso à casa do botão por uma fita azul.
“Bem, raios agora”, disse ele, parando de vez em quando, como se para rir mais cordialmente, “que me matem, mas és um tipo cómico. Imagino o que as mulheres diriam se vissem o impetuoso Edward Pepper, Esquire, a caminhar de braço dado contigo em Ranelagh ou Vauxhall! Não, homem, nunca fiques abatido; se rio de ti, é apenas para te fazer parecer um pouco mais alegre a ti mesmo. Ora, pareces um livro do meu avô chamado 'Anatomia da Melancolia' de Burton; e, por fé, nunca vi uma cópia com encadernação mais esfarrapada.”
“Estas pilhérias são um pouco duras”, disse Paul, lutando entre a raiva e uma tentativa de sorrir; e depois, lembrando-se das suas recentes ocupações literárias e dos muitos extratos que tinha tirado de “Gleanings of the Belles Lettres”, a fim de conferir elegância às suas críticas, lançou a mão teatralmente e declamou com um rosto solene:
“'De todas as mágoas que afligem os angustiados, É certamente a mais amarga uma pilhéria desdenhosa!'”
“Bem, agora, peço-te que me perdoes”, disse Long Ned, compondo as feições, “e diz-me apenas o que tens feito nos últimos dois meses.”
“A cortar e a remendar!”, disse Paul, com orgulho consciente.
“A cortar e o quê? O rapaz está louco. O que queres dizer, Paul?”
“Por outras palavras”, disse o nosso herói, falando muito devagar, “sabe, ó muito Long Ned! que fui crítico do 'The Asinaeum'.”
Se o camarada de Paul se riu no início, agora riu dez vezes mais alegremente do que nunca. Atirou todo o seu comprimento de membro para um sofá vizinho e, literalmente, rolou com convulsões de riso; nem as suas emoções risíveis diminuíram até que a entrada da carne seca o devolveu à reflexão. Vendo então que uma nuvem pairava sobre o rosto de Paul, aproximou-se dele com algo como gravidade, pediu-lhe perdão pela sua falta de cortesia e pediu-lhe que lavasse toda a aspereza num copo de vinho do Porto. Paul, cujas excelentes disposições já tivemos ocasião de notar, não foi insensível às desculpas do seu amigo. Assegurou a Long Ned que o perdoava completamente pelo seu ridículo da alta situação que ele (Paul) tinha desfrutado no mundo literário; que era dever de um censor público não guardar rancor, e que ficaria muito contente em tomar a sua parte no enterro da carne seca.
O par sentou-se então para a sua refeição; e Paul, que tinha comido muito parcamente naquele Templo de Atena sobre o qual MacGrawler presidia, fez justiça total aos acepipes diante dele. Gradualmente, enquanto comia e bebia, o seu coração abriu-se ao seu companheiro; e, deixando de lado aquela dignidade do Asinaeum que ele tinha inicialmente pensado ser seu dever assumir, entreteve Pepper com todos os pormenores da vida que tinha levado ultimamente. Narrou-lhe o seu rompimento com a Sra. Lobkins, o seu acordo com MacGrawler, a glória que tinha adquirido e os erros que tinha sofrido; e concluiu, quando agora a segunda garrafa fazia a sua aparição, declarando o seu desejo de trocar por uma profissão mais ativa aquela carreira sedentária que tinha começado de forma tão promissora.
Esta última parte das confissões de Paul deleitou secretamente a alma de Long Ned; pois aquele experiente coletor das estradas — Ned era, de facto, de uma profissão não menos nobre — tinha há muito fixado os olhos no nosso herói, como alguém que ele pensava ser um crédito para aquela empresa que ele abraçava, e um útil assistente para si mesmo. Ele não tinha, no seu conhecimento anterior com Paul, quando o jovem estava sob o teto e a vigilância da praticada e cautelosa Sra. Lobkins, considerado prudente expor a natureza exata das suas próprias ocupações, e tinha-se contentado em amadurecer gradualmente a mente e as finanças de Paul até ao estado em que a proposta de um salto de uma sebe não seria suscetível de chocar grandemente a pessoa a quem era feita. Ele agora achava que esse tempo estava próximo; e enchendo o copo do nosso herói até à borda, dirigiu-se-lhe astutamente:
“Coragem, meu amigo! A tua narração deu-me um prazer sensível; pois que me matem se não fortaleceu a minha opinião favorita — que tudo acontece para o melhor. Se não fosse pela mesquinhez daquele sujeito miserável, MacGrawler, poderias ainda estar inspirado pela ambição mesquinha de ganhar alguns xelins por semana e difamar um bando de pobres diabos no tal... coisa, com um nome difícil; enquanto agora, meu bom Paul, confio que serei capaz de abrir ao teu génio uma nova carreira, na qual as guineias são obtidas só por pedir — na qual podes vestir roupas finas e namoriscar as senhoras em Ranelagh; e quando estiveres cansado da glória e da liberdade, Paul, bem, só tens de fazer a tua vénia a uma herdeira, ou a uma viúva com uma fortuna retumbante, e deixar o rumor dos homens como um Cincinato!”
Embora a perceção de Paul sobre os ramos mais abstrusos da moral não fosse muito aguda — e, naquela altura, o vinho do Porto tinha consideravelmente confundido as poucas noções que ele possuía sobre “a beleza da virtude” — ainda assim, não pôde deixar de perceber que a proposta insinuada pelo Sr. Pepper estava longe de ser uma que o banco dos bispos ou um sínodo de moralistas aprovariam conscientemente. Consequentemente, permaneceu em silêncio; e Long Ned, após uma pausa, continuou:
“Conheces a minha genealogia, meu caro? Fui filho do Advogado Pepper, um velho cão astuto, mas tão impetuoso como Calcutá; e neto do Coveiro Pepper, um grande autor, que escrevia versos em lápides e mantinha uma banca de folhetos religiosos em Carlisle. O meu avô, o coveiro, era o de melhor temperamento da família; pois todos nós temos uma pequena inclinação para ser impetuosos. Bem, meu caro, o meu pai deixou-me a sua bênção e este cabelo diabolicamente bom. Vivi durante alguns anos dos meus próprios recursos. Achei que era um modo de vida particularmente inconveniente e, ultimamente, tomei o hábito de viver do público. O meu pai e o meu avô fizeram-no antes de mim, embora numa linha diferente. É o plano mais agradável do mundo. Segue o meu exemplo e o teu casaco ficará tão elegante como o meu. Mestre Paul, à tua saúde!”
“Mas, ó mais longo dos mortais!”, disse Paul, enchendo o seu copo novamente, “embora o público possa permitir-te comer o teu carneiro à custa deles por um curto período, eles hão de revoltar-se finalmente e derrubar-te a ti e ao teu banquete; por outras palavras (perdoa a minha metáfora, caro Ned, em memória da parte que tenho desempenhado ultimamente no 'The Asinaeum', aquele mais magnífico e metafórico dos jornais!), — por outras palavras, a polícia há de apanhar-te finalmente; e terás o destino distinto, tal como já tens a característica distintiva, de Absalão!”
“Queres dizer que serei enforcado”, disse Long Ned, “isso pode ou não acontecer; mas quem teme a morte nunca desfruta da vida. Considera, Paul, que embora o enforcamento seja um mau destino, morrer à fome é pior; portanto, enche o teu copo e bebamos à saúde daquele grande burro, o povo, e que nunca nos faltem selas para o montar!”
“Ao grande burro”, gritou Paul, esvaziando o seu copo; “que as tuas orelhas sejam tão longas! Mas admito-te, meu amigo, que não posso entrar nos teus planos. E, como prova da minha resolução, não beberei mais, pois os meus olhos já começam a dançar no ar; e se ouvir mais da tua eloquência irresistível, os meus pés podem partilhar o mesmo destino!”
Dito isto, Paul levantou-se; nem qualquer súplica, por parte do seu anfitrião, o pôde persuadir a retomar o seu lugar.
“Bem, como quiseres”, disse Pepper, afetando um tom nonchalant e ajeitando a gravata diante do espelho — “bem, como quiseres. Ned Pepper não requer a companhia de ninguém contra a sua vontade; e se a nobre faísca da ambição não estiver no teu peito, não vale a pena gastar o meu fôlego a soprar no que apenas existia na minha demasiado lisonjeira opinião sobre as tuas qualidades. Então, propões voltar para MacGrawler (o velho trapaceiro escorbuto!) e passar o resto inglório da tua vida a mutilar autores e a assassinar a gramática? Vai, meu caro, vai! rabisca de novo e para sempre para MacGrawler, e deixa-o viver dos teus cérebros em vez de sofreres os teus cérebros a...”
“Espera!”, gritou Paul. “Embora eu possa ter alguns escrúpulos que me impedem de adotar essa linha ascendente de vida que me propuseste, ainda assim estás muito enganado se imaginas que sou tão desprovido de espírito a ponto de me sujeitar por mais tempo às fraudes daquele patife MacGrawler. Não! A minha intenção presente é fazer uma visita à minha antiga ama. Parece-me estranhamente estranho que, embora a tenha deixado há tantas semanas, ela nunca se tenha arrependido o suficiente para me encontrar, o que se pensaria não ter sido tarefa difícil; e agora, vês, estou bastante bem, tendo cinco guineias e quatro xelins todos meus, e ela dificilmente pode pensar que preciso do seu dinheiro, o meu coração derrete-se por ela, e vou pedir perdão pela minha pressa!”
“Bah! sentimental”, gritou Long Ned, um pouco alarmado com o pensamento de Paul escapar daquelas garras que ele pensava estarem agora tão firmemente fechadas sobre ele. “Ora, certamente não pretendes, depois de teres provado uma vez as alegrias da independência, voltar para a tasca e suportar todas as birras de bêbeda da Mãe Lobkins! Mais valia teres ficado com MacGrawler, entre os dois!”
“Enganas-te”, respondeu Paul; “pretendo apenas fazer as pazes com ela e obter a sua permissão para ver o mundo. A minha intenção final é... viajar.”
“Certo”, gritou Ned, “na estrada principal... e a cavalo, espero.”
“Não, meu Colosso das Estradas! não. Estou em dúvida se me alisto ou não num regimento de marcha, ou... Dá-me o teu conselho sobre isso! Imagino que tenho um grande jeito para o palco, desde que vi Garrick em 'Ricardo'. Devo tornar-me num saltimbanco? Deve ser uma vida alegre.”
“Oh, o diabo!”, gritou Ned. “Eu próprio uma vez fiz de Cássio num celeiro, e todos juraram que representei a cena da bebedeira na perfeição; mas não tens noção do que é uma vida lamentável para um homem de qualquer suscetibilidade. Não, meu amigo, não! Há apenas uma linha em todas as peças antigas digna da tua atenção:
“'Toby [A estrada] ou não toby, eis a questão.'
“Esqueço-me do resto!”
“Bem”, disse o nosso herói, respondendo no mesmo tom jovial, “confesso que tenho a alta ambição do ator. É espantoso como o meu coração bateu quando Ricardo gritou: 'Vamos, agitação, agitação!' Sim, Pepper, avante! —
“'Mil corações são grandes dentro do meu peito.'”
“Bem, bem”, disse Long Ned, espreguiçando-se, “já que és tão afeiçoado à peça, o que dizes a uma excursão até lá esta noite? Garrick atua.”
“Feito!”, gritou Paul.
“Feito!”, ecoou preguiçosamente Long Ned, levantando-se com aquele ar blasé que distingue o homem maduro do mundo do principiante entusiasta — “feito! e depois iremos para o White Horse.”
“Mas espera um momento”, disse Paul; “se te lembras, devia-te uma guineia quando te vi pela última vez... aqui está ela!”
“Disparate”, exclamou Long Ned, recusando o dinheiro — “disparate! Precisas do dinheiro presentemente; paga-me quando fores mais rico. Não, nunca sejas tímido com isso; dívidas de honra não são pagas agora como costumavam ser. Nós, rapazes do Fish Lane Club, mudámos tudo isso. Bem, bem, se insistes!”
E Long Ned, vendo que Paul insistia, pôs a guineia no bolso. Quando este assunto delicado foi resolvido — “Vem”, disse Pepper, “vem, vai buscar o teu chapéu; mas, abençoa-me! Esqueci-me de uma coisa.”
“O quê?”
“Ora, meu bom Paul, considera. A peça é um lugar de primeira categoria; olha para o teu casaco e o teu colete, é tudo!”
O nosso herói ficou mudo com este argumentum ad hominem. Mas Long Ned, depois de desfrutar da sua perplexidade, aliviou-o dela dizendo-lhe que conhecia um comerciante honesto que tinha uma loja de pronto-a-vestir mesmo ao lado do teatro, e que o podia equipar num momento.
De facto, Long Ned foi fiel à sua palavra; levou Paul a um alfaiate, que lhe deu pela quantia de trinta xelins — metade a pronto, metade a crédito — um casaco verde com rendas de ouro manchadas, um par de calções vermelhos e um colete de cor salpicada. É verdade que eram um pouco largos, pois tinham pertencido outrora a ninguém menos que o próprio Long Ned; mas Paul não considerava então essas subtilezas de vestuário, como viria a ser ensinado mais tarde pelo Gentleman George (uma personagem a ser introduzida mais adiante ao nosso leitor), e ele foi ao teatro tão satisfeito consigo mesmo como se fosse o Sr. T---- ou o Conde de ----.
Os nossos aventureiros estão agora sentados calmamente no teatro; e não acharemos necessário detalhar as representações que viram ou as observações que fizeram. Long Ned era um daqueles seres superiores da estrada que não teriam condescendido, por nada deste mundo, em aparecer em qualquer outro lugar que não fosse nos camarotes; e, consequentemente, os amigos arranjaram um par de lugares na fila destinada à plateia. No camarote ao lado daquele que os nossos aventureiros adornavam, notaram, mais especialmente do que o resto do público, um cavalheiro e uma jovem sentados um ao lado do outro; esta última, que tinha cerca de treze anos, era tão incomumente bela que Paul, apesar do seu entusiasmo dramático, podia dificilmente desviar os seus olhos do seu rosto para o palco. O seu cabelo, de um louro brilhante e claro, pendia em caracóis profusos em volta do seu pescoço, projetando uma sombra mais suave sobre uma tez na qual as rosas pareciam estar apenas a desabrochar, por assim dizer, num rubor. Os seus olhos, grandes, azuis e mais languidos do que brilhantes, eram cortinados pelas pestanas mais escuras; a sua boca parecia literalmente cingida de sorrisos, tão numerosas eram as covinhas que, cada vez que os lábios cheios, maduros e húmidos se separavam, surgiam à vista; e o encantamento das covinhas era ajudado por duas filas de dentes mais deslumbrantes do que as pérolas mais ricas que alguma vez brilharam numa noiva. Mas o principal encanto do rosto era o seu ar excessivo e comovente de inocência e suavidade juvenil; poder-se-ia ter olhado para sempre para aquele primeiro desabrochar indescritível, aquela penugem toda intocada e imaculada, que parecia como se um simples sopro pudesse estragá-la. Talvez o rosto pudesse ter carecido de animação; mas talvez, também, tenha tomado emprestada dessa falta uma atração. O repouso das feições era tão suave e gentil que o olhar vagueava por ali com o mesmo deleite, e deixava-o com a mesma relutância, que experimenta ao deter-se ou ao deixar aqueles tons que se descobrem harmonizar mais com a sua visão. Mas enquanto Paul alimentava o seu olhar nesta jovem beleza, os olhares aguçados de Long Ned tinham encontrado um objeto não menos fascinante num grande relógio de ouro que o cavalheiro que acompanhava a donzela trazia, de vez em quando, ao seu olho, como se estivesse a ficar um pouco cansado da duração das peças ou do lento progresso do tempo.
“Que rosto lindo!”, sussurrou Paul.
“Será o rosto de ouro, então, assim como o verso?”, sussurrou Long Ned, em resposta.
O nosso herói estremeceu, franziu a testa e, apesar da estatura gigantesca do seu camarada, disse-lhe, muito zangado, para encontrar outro assunto para brincar. Ned, por sua vez, ficou a olhar, mas não deu resposta.
Entretanto Paul, embora a senhora fosse um pouco jovem demais para se apaixonar, começou a questionar-se sobre que parentesco o seu companheiro tinha com ela. Embora o cavalheiro fosse, no seu todo, bonito, as suas feições e todo o caráter do seu rosto eram vastamente diferentes daqueles sobre os quais Paul olhava com tanto deleite. Ele não parecia ter mais de quarenta e cinco anos, mas a sua testa estava franzida em muitas linhas e sulcos; e, nos seus olhos, a luz, embora penetrante, era mais sóbria e contida do que convinha aos seus anos. Uma expressão desagradável brincava em volta da boca; e a forma do rosto, que era longo e fino, prejudicava consideravelmente o efeito cativante de um belo nariz aquilino, dentes finos e uma tez escura, viril, embora amarelada. Havia um ar misto de astúcia e distração na expressão do seu rosto. Ele parecia prestar muito pouca atenção à peça, ou a qualquer coisa em redor, mas testemunhou uma prontidão muito considerável, quando a peça terminou, ao colocar a capa em torno da sua jovem companheira e ao abrir caminho através da espessa multidão que os camarotes agora despejavam.
Paul e o seu companheiro silenciosamente, e cada um com motivos muito diferentes do outro, seguiram-nos. Estavam agora à porta do teatro.
Um criado adiantou-se e informou o cavalheiro de que a sua carruagem estava a poucos passos de distância, mas que poderia demorar algum tempo até que pudesse chegar ao teatro.
“Podes caminhar até à carruagem, minha querida?”, disse o cavalheiro à sua jovem protegida; e, respondendo ela afirmativamente, ambos deixaram a casa, precedidos pelo criado.
“Vamos!”, disse Long Ned, apressadamente, e caminhando na mesma direção que os estranhos tinham tomado. Paul concordou prontamente. Em breve alcançaram os estranhos. Long Ned caminhou o mais próximo do cavalheiro e roçou-se por ele ao passar. Pouco depois, uma voz gritou: “Pega ladrão!” e Long Ned, dizendo a Paul: “Desenrasca-te, corre!”, partiu do lado do nosso herói para a multidão e desapareceu num abrir e fechar de olhos. Antes que Paul pudesse recuperar do seu espanto, viu-se subitamente agarrado pelo colarinho; virou-se abruptamente e viu o rosto escuro do companheiro da jovem.
“Patife!”, gritou o cavalheiro, “o meu relógio!”
“Relógio!”, repetiu Paul, perplexo e, apenas por causa da jovem, abstendo-se de derrubar o seu detentor... “relógio!”
“Sim, jovem!”, gritou um sujeito de casaco comprido, que apareceu agora subitamente do outro lado de Paul; “o relógio deste cavalheiro. Por favor, sua honra”, dirigindo-se ao queixoso, “eu sou um vigia também; devo levar este tipo?”
— De qualquer modo — exclamou o cavalheiro; — eu não teria perdido o meu relógio por duas vezes o seu valor. Posso jurar que vi o companheiro deste sujeito arrancá-lo do meu bolso. O ladrão fugiu, mas temos, pelo menos, o cúmplice. Entrego-o sob sua estrita responsabilidade, vigia; arque com as consequências se o deixar escapar. O vigia respondeu, carrancudo, que não queria ser ameaçado e que sabia como cumprir o seu dever.
— Não me responda, seu patife! — disse o cavalheiro, com altivez; — faça o que lhe mando! E, após um breve colóquio, Paul viu-se subitamente conduzido por dois sujeitos altos, que pareciam prodigiosamente inclinados a devorá-lo. A essa altura, ele já havia recuperado do seu espanto e desânimo. Não lhe faltava perspicácia para perceber que o seu companheiro havia realmente cometido a ofensa pela qual ele era acusado; e previu também que tal circunstância poderia trazer consequências desagradáveis para si próprio. Diante de todas as características do caso, pensou que uma tentativa de fuga não seria um procedimento imprudente da sua parte; assim, após caminhar alguns passos de forma muito quieta e passiva, aproveitou a oportunidade, soltou-se do aperto do cavalheiro à sua esquerda e desferiu a mão assim libertada contra a face do cavalheiro à sua direita, com tamanha boa vontade que o fez largar o seu aperto e recuar vários passos em direção aos vãos das janelas, em posição oblíqua. Mas aquele tipo de golpe circular com o punho esquerdo é muito desfavorável para a preservação de um equilíbrio firme; e, antes que Paul se recuperasse o suficiente para dar uma corrida eficaz, foi prostrado ao solo por um golpe do outro vigia, o que não estava danificado, o qual o privou totalmente dos sentidos; e, quando recuperou essas posses úteis (das quais um homem pode razoavelmente gabar-se de perder, visto que é apenas a minoria que as possui para perder), encontrou-se estendido num banco na esquadra.
CAPÍTULO VII.
Cercado por muitos um escravo galante, Vestido como convém ao bravo, O velho Giaffir sentava-se no seu divã: . . . . . . . Muito duvido que este rapaz caprichoso Um dia me causará mais aborrecimento. Noiva de Abydos.
O erudito e engenhoso John Schweighaeuser (um nome fácil de soletrar e melodioso de pronunciar) aprouve, naquele “Appendix continens particulam doctrinae de mente humana”, que encerra o volume dos seus “Opuscula Academica”, observar (traduzimos de memória) que, “na infinita variedade de coisas que, no teatro do mundo, ocorrem à observação de um homem, ou que de uma forma ou de outra afetam o seu corpo ou a sua mente, a maior parte é concebida de modo a trazer-lhe antes algum sentido de prazer do que de dor ou desconforto”. Assumindo que isto se aplica geralmente a estruturas bem constituídas, apontamos um exemplo notável no caso do encarcerado Paul; pois, embora aquele jovem não estivesse numa situação agradável no presente, e embora nada de muito encorajador lhe sorrisse das perspectivas do futuro, ainda assim, logo que recuperou a consciência e se deu um sacudidela, encontrou uma fonte imediata de prazer ao descobrir, primeiro, que várias senhoras e cavalheiros lhe faziam companhia no seu aprisionamento; e, segundo, ao perceber um enorme jarro de água ao seu alcance, o qual, como a sua sensação ao despertar era de uma sede abrasadora, esvaziou deleitadamente num gole. Depois, esticando-se, olhou em redor com uma seriedade ansiosa e descobriu umas costas voltadas para si, reclinadas no chão, que à primeira vista lhe pareceram familiares. “Certamente”, pensou, “conheço aquele casaco de frisa e a curva peculiar daqueles ombros estreitos.” Soliloquiando desta forma, levantou-se e, estendendo a perna, deu um pontapé suave na forma reclinada. “Resmungando estranhos juramentos”, a forma virou-se e, levantando-se sobre aquela parte inóspita do corpo na qual a introdução de pés alheios é considerada tudo menos uma honra, fixou os seus olhos azuis baços na face do perturbador do seu sono, abrindo-os gradualmente cada vez mais, até parecerem ter-se alargado em proporções aptas para engolir a verdade importante que os invadiu, e então da boca da criatura saiu:
— Que me cegue se aquele não é o pequeno Paul!
— Sim, Dummie, aqui estou! Não demorou muito até ser apanhado, como vês! A vida é curta; temos de aproveitar bem o nosso tempo!
Após isto, o Sr. Dunnaker (não era menos respeitável pessoa) levantou-se do chão e, sentando-se no banco ao lado de Paul, disse num tom de piedade:
— Ora, valha-me Deus! Se não estás com a cabeça toda partida! A tua carapinha está tão ensanguentada como a cara de um porco quando lhe cortam a garganta!
[“Cara de porco”, leitor iletrado, parece, na fraseologia irlandesa, significar “cabeça de porco”.]
— É apenas a sorte da guerra, Dummie, e uma mera ninharia; as cabeças fabricadas em Thames Court não se desarranjam facilmente. Mas diz-me, como vieste parar aqui?
— Ora, eu andava a beber umas rodadas valentes...
— Até ficares com a cabeça leve, eh... e caíres na sarjeta?
— Sim.
— O meu caso é pior do que esse, temo eu; — e com isso Paul, em voz mais baixa, relatou ao fiel Dummie a sucessão de acidentes que o conduziram ao seu atual asilo. A face de Dummie alongou-se enquanto ouvia; contudo, quando a narrativa terminou, ele tentou os paliativos consoladores que lhe ocorreram. Representou, primeiro, a possibilidade de o cavalheiro não se dar ao trabalho de comparecer; segundo, a certeza de que nenhum relógio foi encontrado na posse de Paul; terceiro, o facto de que, mesmo pela confissão do cavalheiro, Paul não tinha sido o autor real da ofensa; quarto, se o pior acontecesse, o que eram algumas semanas ou até meses de prisão?
— Que me lixem! — disse Dummie, — se não é uma forma tão boa de passar o tempo como um tipo que gosta de aconchego poderia desejar!
Esta observação não trouxe conforto a Paul, que recuou, com toda a timidez virgem de alguém a quem tais uniões são desconhecidas, de uma aliança matrimonial com o aconchego da Casa de Correção. Ele confiava mais noutra fonte de consolação. Numa palavra, encorajava a crença lisonjeira de que Long Ned, descobrindo que Paul tinha sido apanhado em vez dele, teria a generosidade de se apresentar e ilibá-lo da acusação. Ao sugerir esta ideia a Dummie, aquele “homem da cidade” realizado não pôde, durante algum tempo, acreditar que qualquer simplório pudesse ser tão completamente ignorante do mundo a ponto de entreter seriamente uma noção tão ridícula; e, de facto, é um tanto notável que tal esperança alguma vez tivesse contado a sua história lisonjeira a alguém criado na casa da Sra. Margaret Lobkins. Mas Paul, como vimos, tinha formado muitas das suas noções a partir de livros; e tinha as mesmas belas teorias sobre o “patife moral” que possuem as mentes dos jovens patriotas quando deixam a faculdade pela primeira vez para a Câmara dos Comuns e pensam que a integridade é uma coisa mais bonita do que um cargo.
O Sr. Dunnaker instou Paul, seriamente, a descartar tal fantasia vaga e infantil do seu peito e a pensar antes em que linha de defesa seria melhor seguir. Esgotado finalmente este assunto, Paul voltou a falar da Sra. Lobkins e perguntou se Dummie tinha recentemente honrado aquela senhora com uma visita.
O Sr. Dunnaker respondeu que sim, embora com muita dificuldade, apaziguara a raiva dela contra ele pelo seu suposto auxílio aos excessos de Paul, e que, ultimamente, ela tinha mantido várias conversas com Dummie a respeito do nosso herói. Ao questionar Dummie mais a fundo, Paul soube das razões da boa matrona para não demonstrar aquela solicitude pelo seu regresso que o nosso herói tinha razoavelmente antecipado. O facto era que ela, não tendo confiança alguma nos recursos dele independentes dela, não lamentara a oportunidade de humilhar eficazmente, como esperava, aquele orgulho que a tinha tanto revoltado; e comprazia a sua vaidade antecipando o tempo em que Paul, faminto até à submissão, procuraria alegre e penitentemente o abrigo do seu teto e, domesticado como que pela experiência, nunca mais se revoltaria contra o jugo que a sua prudência maternal achava adequado impor-lhe. Contentou-se, então, em obter de Dummie a informação de que o nosso herói estava sob o teto de MacGrawler e, portanto, fora de qualquer perigo real para a vida e integridade física; e, como não podia prever as engenhosas exibições de intelecto pelas quais Paul se tinha transformado na “Nobilitas” do “The Asinaeum” e, assim, salvo da miséria total, ela estava perfeitamente convencida, pelo seu conhecimento do caráter, de que o ilustre MacGrawler não continuaria por muito tempo aquela proteção ao protegido rebelde que, na sua opinião, era o seu único preservativo contra o furto ou a inanição. Para a primeira alternativa decente, sabia ela da grande e juvenil aversão de Paul; e, consequentemente, tinha pouco medo pela sua moral ou pela sua segurança ao abandoná-lo por um tempo ao acaso. Qualquer ansiedade, também, que ela pudesse ter vivenciado intensamente, era atenuada pela embriaguez habitual que aumentava na boa senhora com a idade e que, embora por vezes pudesse ser excitada para toda a sua veemência característica, mantinha os seus sentidos, na maior parte, mergulhados num estupor letárico ou, para falar mais cortesmente, numa abstração poética das coisas do mundo exterior.
— Mas — disse Dummie, à medida que comunicava a solução da conduta da dama ao ouvido atento do seu companheiro — mas espero que, quando saíres desta embrulhada, pequeno Paul, tenhas cuidado e deixes a companhia do Sr. Pepper (a qual, devo dizer, sempre lamentei ver-te encorajar), e voltes para casa, para o Mug, e te agarres à velha senhora, pois ela não tem sido a mesma criatura desde que te foste embora. Ela é uma mulher de coração delicado, aquela Piggy Lob!
Um panegírico tão apropriado sobre a Sra. Margaret Lobkins poderia, noutra ocasião, ter excitado os músculos do riso de Paul; mas naquele momento ele sentiu verdadeiramente remorso pela forma pouco cerimoniosa como a deixara, e a suavidade da afeição arrependida impregnava com as suas cores santificadoras até a imagem de Piggy Lob.
Em conversas desta descrição intelectual e doméstica, a noite e a manhã seguinte passaram-se, até que Paul se viu na presença terrível do Juiz Burnflat. Vários casos foram resolvidos antes do seu; e, entre outros, o Sr. Dummie Dunnaker obteve a sua libertação, embora não sem uma severa reprimenda pelo seu pecado de embriaguez, o que sem dúvida afetou sensivelmente o espírito ingénuo daquele nobre caráter. Finalmente, chegou a vez de Paul. Ouviu, ao tomar o seu lugar, um zumbido geral. A princípio, imaginou que fosse pela sua própria aparência interessante; mas, levantando os olhos, percebeu que era pela entrada do cavalheiro que se tornaria o seu acusador.
— Silêncio — disse alguém perto dele, — é o Advogado Brandon. Ah, ele é um tipo esperto! Vai ser difícil para a pessoa de quem ele se queixa.
Havia um feliz fundo de elasticidade de espírito no nosso herói; e, embora não tivesse a sorte de ter “um coração destroçado” — uma circunstância que, pelos poetas e filósofos dos nossos dias, se supõe inspirar um homem com uma coragem maravilhosa e torná-lo imune a todas as desgraças —, ainda assim suportou-se com maravilhosa coragem perante a sua situação difícil e esteve longe de ficar esmagado, embora estivesse certamente um pouco desencorajado pela observação que acabara de ouvir.
O Sr. Brandon era, de facto, um advogado de reputação considerável e em alta estima no mundo, não só pelo talento, mas também por uma grande austeridade de maneiras, que, embora um pouco misturada com severidade e acrimónia pelos erros dos outros homens, era naturalmente considerada mais louvável por esse motivo; existindo, como as pessoas de experiência certamente sabem, duas divisões na primeira classe da moralidade: primeiro, um grande ódio pelos vícios do próximo; segundo, a posse de virtudes em si mesmo.
O Sr. Brandon foi recebido com grande cortesia pelo Juiz Burnflat; e, como ele veio, relógio na mão (um relógio emprestado), dizendo que o seu tempo valia cinco guineus por momento, o juiz procedeu imediatamente aos negócios.
Nada poderia ser mais claro, mais curto ou mais satisfatório do que o testemunho do Sr. Brandon. Seguiu-se o testemunho corroborativo do vigia; e então Paul foi chamado para a sua defesa. Esta foi tão breve quanto a acusação; mas, infelizmente! não foi igualmente satisfatória. Consistia numa declaração firme da sua inocência. O seu camarada, confessou ele, poderia ter roubado o relógio; mas sugeriu humildemente que essa era exatamente a razão pela qual ele não o tinha roubado.
— Há quanto tempo, sujeito — perguntou o Juiz Burnflat, — conhece o seu companheiro?
— Cerca de meio ano.
— E qual é o nome e a profissão dele? Paul hesitou e recusou-se a responder.
— Um triste caso de negócios! — disse o juiz, num tom melancólico, abanando a cabeça de forma agourenta.
O advogado concordou com o aforismo, mas com grande magnanimidade observou que não queria ser duro com o jovem. A sua juventude estava a seu favor e a sua ofensa era provavelmente consequência de más companhias. Sugeriu, portanto, que, como ele devia estar perfeitamente ciente do endereço do seu amigo, receberia um perdão total se imediatamente favorecesse o magistrado com essa informação. Concluiu observando, com singular filantropia, que não era o castigo do jovem, mas a recuperação do seu relógio, que ele desejava.
O Juiz Burnflat, tendo devidamente impressionado na mente do nosso herói a misericórdia desinteressada e cristã do queixoso e a obrigação eterna que Paul tinha para com ele pela sua exibição, repetiu agora, com dupla solenidade, aquelas perguntas sobre a habitação e o nome de Long Ned que o nosso herói tinha anteriormente recusado responder.
Lamentamos confessar que Paul, ingrato e totalmente intocado pela bela benignidade do Advogado Brandon, continuou firme na sua teimosa recusa em trair o seu companheiro; e com igual obstinação continuou a insistir na sua própria inocência e na imaculada respeitabilidade do seu caráter.
— O seu nome, jovem? — disse o juiz. — O seu nome, diz você, é Paul... Paul o quê? Você tem muitos pseudónimos, aposto.
Aqui o jovem hesitou novamente; finalmente respondeu:
— Paul Lobkins, vossa excelência.
— Lobkins! — repetiu o juiz. — Lobkins! Venha cá, Saunders; não temos nós esse nome nos nossos livros negros?
— Se vossa excelência assim o deseja — disse um homem pequeno e robusto, muito útil em muitos aspetos para o Festus da polícia —, há uma tal Peggy Lobkins, que mantém uma casa pública, uma espécie de esconderijo, chamada Mug, em Thames Court... não exatamente na nossa zona, vossa excelência.
— Ho, ho! — disse o Juiz Burnflat, piscando o olho ao Sr. Brandon, — temos de investigar isto um pouco. Diga-me, Sr. Paul Lobkins, que parentesco tem a boa dona da casa do Mug, em Thames Court, consigo próprio?
— Nenhum, senhor — disse Paul, apressadamente; — ela é apenas uma amiga!
Nisto ouviu-se uma gargalhada no tribunal.
— Silêncio! — gritou o juiz. — E atrevo-me a dizer, Sr. Paul Lobkins, que esta sua amiga abonará a respeitabilidade do seu caráter, sobre o qual o senhor se compraz em vangloriar-se?
— Não tenho dúvidas disso, senhor — respondeu Paul; e ouviu-se outra gargalhada.
— E existe algum outro amigo seu, igualmente importante e louvável, que lhe fará a mesma gentileza?
Paul hesitou; e, naquele momento, para surpresa do tribunal, mas acima de tudo para a surpresa total e estarrecedora de si próprio, dois cavalheiros, vestidos conforme a última moda, avançaram e, curvando-se perante o juiz, declararam-se prontos a abonar a total respeitabilidade e o caráter irrepreensível do Sr. Paul Lobkins, a quem conheciam, disseram, há muitos anos e por quem tinham o maior respeito. Enquanto Paul observava as pessoas destes amigos gentis, que ele não se lembrava de ter visto antes na sua vida, o advogado, que era um tipo muito esperto, sussurrou ao magistrado; e aquele dignatário, acenando como que em assentimento e observando os recém-chegados, inquiriu os nomes das testemunhas do Sr. Lobkins.
— Sr. Eustace Fitzherbert e Sr. William Howard Russell — foram as várias respostas.
Nomes tão aristocráticos produziram uma sensação geral. Mas o juiz impenetrável, chamando o mesmo Sr. Saunders a quem se tinha dirigido antes, pediu-lhe que examinasse bem as fisionomias dos amigos do Sr. Lobkins.
Como o alguazil observou as feições do memorável Dom Rafael e do ilustre Manuel Morales, quando o primeiro desses personagens realizados achou conveniente assumir a dignidade itinerante de um príncipe italiano, filho do soberano dos vales que ficam entre a Suíça, o Milanesado e a Saboia, enquanto o segundo se contentava em ser servo de Monseigneur le Prince; da mesma forma, com muito mais seriedade do que respeito, o Sr. Saunders observou as feições daqueles cavalheiros de nascimento nobre, os Srs. Eustace Fitzherbert e William Howard Russell; mas, após uma longa inspeção, retirou os olhos, fez um gesto insatisfatório e de não reconhecimento ao magistrado e disse:
— Se vossa excelência assim o deseja, eles não são do meu rebanho; mas Bill Troutling sabe mais sobre este tipo de cavalheiros elegantes do que eu.
— Mandem comparecer Bill Troutling! — foi a ordem lacónica.
A esse nome, uma certa confusão modesta poderia ter sido visível nos rostos do Sr. Eustace Fitzherbert e do Sr. William Howard Russell, se a atenção do tribunal não tivesse sido imediatamente dirigida para outro caso. Uma pobre mulher tinha sido condenada a sete dias na Casa de Correção por uma acusação de falta de respeitabilidade. O seu marido, a pessoa mais interessada no assunto, apresentou-se agora para refutar a acusação; e, com a ajuda dos seus vizinhos, teve sucesso.
— É tudo muito verdade — disse o Juiz Burnflat; — mas como a sua esposa, meu bom homem, sairá dentro de cinco dias, mal valerá a pena libertá-la agora.
[Um facto, ocorrido no mês de janeiro de 1830. Ver “The Morning Herald”.]
Uma decisão tão criteriosa não podia deixar de satisfazer o marido; e o público tornou-se a partir desse momento esclarecido sobre uma verdade muito notável: a de que cinco dias em sete têm uma proporção peculiarmente pequena em relação aos dois restantes; e que as pessoas na Inglaterra têm um amor tão prodigioso pelo castigo que, embora não valha a pena libertar uma mulher inocente da prisão cinco dias mais cedo do que o faria de outra forma, vale excessivamente a pena condená-la à prisão por sete!
Quando o marido, passando a sua mão áspera pelos olhos e resmungando uma impertinência vulgar ou outra, se retirou, o Sr. Saunders disse:
— Aqui está Bill Troutling, vossa excelência!
— Oh, bem — disse o juiz; — e agora, Sr. Eustace Fitz... Olá, como é isto! Onde estão o Sr. William Howard Russell e o seu amigo, o Sr. Eustace Fitzherbert?
— O eco respondeu... onde?
Aqueles nobres cavalheiros, tendo uma aversão natural a serem confrontados com uma pessoa tão baixa como o Sr. Bill Troutling, tinham, no instante em que o interesse público foi desviado deles, desaparecido silenciosamente de uma cena onde a sua posição na vida parecia tão pouco considerada. Se, leitor, estiver ansioso por saber de que parte do mundo os visitantes transitórios apareceram, saiba que eram espíritos enviados por aquele mágico inimitável, Long Ned, parcialmente para relatar como as coisas corriam no tribunal; pois o Sr. Pepper, em busca daquela velha política que ensina que quanto mais perto a raposa está dos caçadores, mais hipóteses tem de ser ignorada, tinha, imediatamente após a sua partida abrupta de Paul, mergulhado numa casa na mesma rua onde a sua engenhosidade se manifestara, e na qual ostras e cerveja atraíam e regalavam todas as noites uma assembleia que, para falar imparcialmente, era mais numerosa do que selecionada. Ali tinha aprendido como um carteirista fora agarrado por afeição ilegal ao relógio de outro homem; e ali, enquanto temperava calmamente as suas ostras, tinha ele, com a sua perspicácia característica, satisfeito a sua mente com a convicção de que aquele infeliz preso não era outro senão Paul. Em parte, portanto, como uma precaução para a sua própria segurança, para que pudesse receber notícias rápidas caso a defesa de Paul tornasse necessária uma mudança de residência, e em parte (por amizade de companheirismo) para apoiar o seu companheiro com tal ajuda que o testemunho favorável de duas pessoas bem vestidas, pouco conhecidas “pela cidade”, pudesse conferir, ele tinha enviado aqueles seres celestiais que tinham aparecido sob os nomes mortais de Eustace Fitzherbert e William Howard Russell ao tribunal imperial do Juiz Burnflat. Tendo assim explicado a aparição (a desaparição não requer comentários) dos “amigos” de Paul, voltamos ao próprio Paul.
Apesar dos perigos que o cercavam, nosso jovem herói lutou até o fim; mas o juiz não estava, de forma alguma, disposto a desagradar o Sr. Brandon e, observando que um sorriso de desdém incrédulo e mordaz permanecia fixo no lábio daquele cavalheiro durante toda a defesa de Paul, não pôde deixar de moldar sua decisão de acordo com a conhecida perspicácia do célebre advogado. Paul foi sentenciado a retirar-se por três meses para aquela casa de campo situada em Bridewell, para a qual os ingratos funcionários da justiça frequentemente banem seus cidadãos mais ativos.
Assim que a sentença foi proferida, Brandon, cujos olhos atentos não viam esperança de recuperar seu tesouro perdido, declarou que o patife tinha perfeitamente o corte de fisionomia de Old Bailey, e que não duvidava de que, se um dia vivesse para ser juiz, também viveria para proferir uma espécie de sentença muito diferente sobre o infrator.
Dizendo isso, resolveu não perder mais tempo e deixou o escritório de forma muito abrupta, sem outro consolo além da lembrança de que, de qualquer modo, enviara o rapaz para um lugar onde, por mais inocente que fosse no momento, certamente sairia tão inclinado à culpa quanto seus amigos pudessem desejar; somado a tal reflexão moral que a tragédia de Bombastes Furioso poderia ter proporcionado a ele mesmo naquela linha sentenciosa e concisa:--
“Teu relógio se foi,--relógios são feitos para andar.”
Enquanto isso, Paul foi conduzido em estado ao seu retiro, na companhia de dois outros infratores,--um homem de meia-idade, embora um “limado” muito antigo, que foi sentenciado por obter dinheiro sob falsos pretextos, e o outro um garotinho que fora considerado culpado de dormir sob uma colunata; sendo a beleza especial da lei inglesa não fazer distinções refinadas e absurdas entre vício e infortúnio, e seu método peculiar de proteger o honesto ser fazer tantos patifes quanto possível no menor espaço de tempo.
CAPÍTULO VIII.
Senso Comum. Qual é o fim do castigo no que diz respeito ao indivíduo punido?
Costume. Torná-lo melhor!
Senso Comum. Como punis os jovens infratores que são (por sua juventude) peculiarmente vivos ao exemplo, e a quem é, portanto, mais fácil arruinar ou reformar do que os maduros?
Costume. Nós os enviamos para a Casa de Correção, para se associarem com os maiores patifes do país!
Diálogo entre Senso Comum e Costume.--Muito raro.
Como era um pouco tarde do dia quando Paul fez sua primeira entrada em Bridewell, passou aquela noite na “sala de recepção”. Na manhã seguinte, assim que foi examinado pelo cirurgião e vestido com o uniforme habitual, foi conduzido, de acordo com sua classificação, entre a boa companhia que fora considerada culpada daquela ofensa compendiosa, “uma contravenção”. Aqui um cavalheiro alto marchou até ele e dirigiu-lhe a palavra em uma certa linguagem, que poderia ser chamada de maçonaria da gíria, e que Paul, embora não compreendesse palavra por palavra, entendeu corretamente ser uma indagação sobre se ele era um patife completo e um canalha total. Ele respondeu meio confuso, meio irritado; e sua resposta foi tão prejudicial a qualquer influência favorável que ele pudesse ter exercido sobre o interrogador, que este personagem, dando-lhe um beliscão na orelha, gritou: “Ramp, ramp!” e, com essa palavra significativa e terrível, Paul viu-se cercado em um instante por toda uma hoste de tormentores engenhosos. Um puxava este membro, outro beliscava aquele; um dava-lhe um soco pela frente, e outro espancava-o por trás. Como interlúdio a essa ocupação agradável, despiram-no das pouquíssimas coisas que, na mudança de roupa, ele havia retido. Um levou seu lenço, o segundo seu lenço de pescoço, e um terceiro, mais sortudo que os outros dois, apossou-se de um par de botões de camisa de cornalina, dados a Paul como um gage d'amour por uma jovem que vendia laranjas perto da Torre. Felizmente, antes que esse processo iniciatório--tecnicamente chamado de “ramping”, e exercido sobre todos os recém-chegados que parecem ter uma centelha de decência neles--tivesse reduzido os ossos de Paul, que lutou com unhas e dentes em sua defesa, ao estado de magnésia, um homem de aspecto grave, que até então desfiava sua estopa em silêncio, levantou-se subitamente, colocou-se entre a vítima e os agressores e ordenou aos últimos, como alguém com autoridade, que deixassem o rapaz em paz e fossem para o inferno.
Essa proposta de recorrer a outro lugar para diversão, embora proferida de maneira muito grave e tranquila, produziu aquele efeito instantâneo que as admoestações dos grandes patifes geralmente operam sobre os pequenos. Os senhores rampers cessaram suas diversões; e o líder da gangue, dando um tapa cordial nas costas de Paul, declarou que ele era um sujeito de primeira e que fora apenas uma brincadeira, a qual esperava não ter causado ofensa.
Paul, ainda cerrando o punho, estava prestes a responder em um tom nada pacífico, quando um carcereiro, que não se importava nem um pouco com quantos homens prendia por uma ofensa, mas que não gostava nem um pouco do trabalho de vigiar qualquer um de seu rebanho para ver se a ofensa não era cometida, surgiu de repente entre o grupo; e, após repreendê-los pela peste excessiva que eram para ele, levou dois dos mais pobres da turba para o confinamento solitário. Aconteceu, é claro, que esses dois não tinham participado nem um pouco da perturbação. Terminada essa cena, a companhia voltou a desfiar estopa; a roda de esteira, aquela invenção admiravelmente justa pela qual um homem forte não sofre fadiga e um fraco perde a saúde para sempre, não tendo sido então introduzida em nossos excelentes estabelecimentos para corrigir o crime. Amargamente e com muitos sentimentos sombrios e coléricos, nos quais o senso de injustiça na punição o sustentava contra as humilhações a que era submetido,--amargamente e com o coração inchado, no qual os pensamentos que levam ao crime já forçavam sua entrada através de um solo subitamente aquecido para seu crescimento, Paul curvou-se sobre seu trabalho. Sentiu-se tocado no braço; virou-se e viu que o cavalheiro que o livrara tão gentilmente de seus tormentores estava agora sentado ao seu lado. Paul fixou o olhar longa e seriamente em seu vizinho, lutando com o pensamento de que vira aquele semblante sagaz em tempos mais felizes, embora agora, infelizmente! estivesse alterado não apenas pelo tempo e pelas vicissitudes, mas por aquele ar de gravidade que os cuidados da idade adulta espalham gradualmente sobre o rosto dos mais impensados,--até que toda a dúvida se dissipou e ele exclamou:--
“É você, Sr. Tomlinson? Como estou contente em vê-lo aqui!”
“E eu”, retribuiu o outrora assassino para os jornais, com um sotaque anasalado, “ficaria muito contente em ver-me em qualquer outro lugar.”
Paul não respondeu; e Augustus continuou:--
“'Para um homem sábio todos os lugares são iguais',--assim foi dito. Não acredito nisso, Paul,--não acredito. Mas trégua para a reflexão! Lembrei-me de você no momento em que o vi, embora você esteja surpreendentemente crescido. Como está meu amigo MacGrawler?--ainda trabalhando duro para 'The Asinaeum'?”
“Creio que sim”, disse Paul, de forma carrancuda, e apressando-se em mudar de assunto; “mas diga-me, Sr. Tomlinson, como veio parar aqui? Ouvi dizer que tinha ido para o Norte da Inglaterra para cumprir um emprego lucrativo.”
“Possivelmente! O mundo sempre deturpa as ações daqueles que estão constantemente diante dele.”
“É muito verdade”, disse Paul; “e eu mesmo disse a mesma coisa cem vezes em 'The Asinaeum', pois nunca fomos pródigos demais com nossas verdades naquele magnífico jornal. É espantoso o quanto fizemos três ideias renderem.”
“Você me lembra de mim mesmo e de meus trabalhos jornalísticos”, replicou Augustus Tomlinson. “Não tenho certeza de que tinha tantas quanto três ideias para dispensar; pois, como você diz, é espantoso quão longe esse número pode ir, se bem administrado. É com escritores como com atores itinerantes,--as mesmas três ideias que serviram para turcos em uma cena servem para montanheses na próxima; mas você deve me contar sua história em um desses dias, e ouvirá a minha.”
“Ficar-lhe-ia excessivamente agradecido por sua confiança”, disse Paul, “e não duvido que sua vida deva ser excessivamente divertida. A minha, até agora, tem sido insípida. As vidas dos literatos não são repletas de aventura; e questiono se cada escritor de 'The Asinaeum' não levou quase a mesma existência que a que eu mesmo sustentei.”
Em conversas desse tipo, nossos amigos recém-reencontrados passaram o restante do dia, até a hora das quatro e meia, quando os prisioneiros devem supor que a noite começou e ser trancados em seus quartos. Tomlinson então, que se alegrava em reencontrar uma pessoa que o conhecera em seus beaux jours, falou privadamente ao carcereiro; e o resultado da conversa foi o acasalamento de Paul e Augustus na mesma câmara, que era uma espécie de caixa de pedra, que geralmente acomodava três, e media--pois nós a medimos, como teríamos medido a cela do prisioneiro de Chillon--apenas oito pés por seis.
Não pretendemos, leitor, indicar, com cores vivas e em longos detalhes, a deterioração moral de nosso herói; porque descobrimos, por experiência, que tais esforços de nossa parte pouco mais fazem do que fazer-te culpar nossa estupidez em vez de louvar nossa intenção. Portanto, apenas desenvolveremos nossa moral com dicas sutis e breves comentários; e agora nos contentaremos em lembrar-te de que até agora viste Paul honesto, apesar das circunstâncias. Apesar do contágio do Mug, apesar de seus associados em Fish Lane, apesar de sua intimidade com Long Ned, tu o viste enfrentar a tentação e ansiar por outra carreira que não a do roubo ou da fraude. Aliás, mesmo em sua indigência, quando expulso da morada de sua infância, observaste como, em vez de recorrer a algum modo de vida mais prazeroso ou libertino, ele se entregou de imediato ao teto sombrio e aos empregos insípidos de MacGrawler, e preferiu ganhar honestamente sua subsistência pelo suor de seu cérebro a recorrer a qualquer das numerosas formas de viver às custas dos outros com as quais sua experiência entre a pior parte da sociedade deve ter fervilhado, e que, no mínimo, são mais atraentes para os jovens e aventureiros do que os caminhos áridos do trabalho literário. De fato, para te contar um segredo, fora a ambição ousada de Paul elevar-se a um membro digno da comunidade. Suas circunstâncias atuais, como poderá ser visto futuramente, causaram uma grande mudança em seus desejos; e a conversa que ele manteve naquela noite com o engenhoso e habilidoso Augustus contribuiu mais para ajustá-lo ao herói desta obra do que todos os hábitos de sua infância ou as cenas de sua juventude anterior. As pessoas jovens costumam acreditar, erroneamente, que é uma coisa ruim ser excessivamente perverso. A Casa de Correção é assim chamada porque é um lugar onde tal noção ridícula é invariavelmente corrigida. No dia seguinte, Paul foi surpreendido por uma visita da Sra. Lobkins, que ouvira falar de sua situação e suas causas do amigável Dummie, e que conseguira obter do Juiz Burnflat uma ordem de admissão. Eles se encontraram, como Píramo e Tisbe, com um muro, ou melhor, um portão de ferro entre eles; e a Sra. Lobkins, após uma exclamação de desespero diante do obstáculo, irrompeu chorando na censura patética:--
“Oh, Paul, tu levaste teus porcos a um belo mercado!”
“É um mercado próprio para porcos, querida dama”, disse Paul, que, embora com uma lágrima no olho, não recusou uma piada tão amarga quanto inelegante; “pois, de todos os outros, é o lugar onde um homem aprende a cuidar do seu toucinho.”
“Cala a boca!” gritou a dama, irritada. “Que negócio você tem de tagarelar tanto enquanto está no limbo?”
“Ah, querida dama”, disse Paul, “não podemos evitar esses atritos e tropeços em nosso caminho para o sucesso!”
“Caminho para a forca!” gritou a dama. “Eu lhe digo, criança, você viverá para ser enforcado apesar de todo o meu cuidado e atenção com você, embora eu o tenha educado como um erudito, e sempre esperei que você crescesse para ser uma honra para o seu--”
“Rei e país”, interrompeu Paul. “Sempre dizemos, honra ao rei e país, o que significa enriquecer e pagar impostos. 'Quanto mais impostos um homem paga, maior honra ele é para ambos', como diz Augustus. Bem, querida dama, tudo a seu tempo.”
“O quê! você está alegre, está? Por que você não chora? Seu coração é duro como um tijolo. Parece muito antinatural e como uma hiena ser tão descuidado!” Dito isto, as lágrimas da boa dama jorraram com a amargura de uma Parisina em desespero.
“Não, não”, disse Paul, que, embora sofresse muito mais intensamente, suportava o sofrimento muito mais facilmente do que sua patrona, “não podemos consertar o assunto chorando. Suponha que você veja o que pode ser feito por mim. Arrisco dizer que você pode conseguir suavizar a sentença do juiz com um pouco de 'óleo de palma'; e se você puder me tirar daqui antes que eu esteja completamente corrompido,--um dia ou dois a mais neste lugar infernal fará o serviço,--prometo-lhe que não apenas viverei honestamente, mas com pessoas que vivem da mesma maneira.”
“Beija-me, Paul”, disse a terna Sra. Lobkins, “beija-me--Oh! mas esqueço-me do portão. Verei o que pode ser feito. E aqui, meu rapaz, aqui está algo para você enquanto isso,--uma gota do 'criatura', para pregar conforto ao seu pobre estômago. Shh! contrabandeie, ou eles verão você.”
Aqui a dama tentou empurrar uma garrafa de pedra através das grades do portão; mas, infelizmente! embora o gargalo tenha passado, o corpo recusou-se, e a dama foi forçada a retirar a “criatura”. Sobre isso, a mulher de bom coração renovou seus soluços; e tão absorvida estava em seu pesar que, parecendo esquecer completamente para que propósito havia trazido a garrafa, aplicou-a à própria boca e consolou-se com aquele elixir vitae que originalmente destinara a Paul.
Isso a restaurou um pouco; e após uma cena muito comovente, a dama saiu cambaleando com os passos vacilantes naturais à dor, prometendo, enquanto ia, que se amor ou dinheiro pudessem encurtar o confinamento de Paul, nenhum dos dois faltaria. Estamos um pouco perdidos para conjecturar a influência exata que o primeiro desses argumentos, instado pela adorável Margaret, poderia ter tido sobre o Juiz Burnflat.
Quando a boa dama partiu, Paul apressou-se em desfiar sua estopa e reencontrar seu amigo. Ele encontrou o digno Augustus vendendo privadamente pequenos luxos elegantes, como tabaco, gim e rações de iguarias mais saborosas do que a prisão permitia; pois Augustus, tendo mais dinheiro que o resto de seus companheiros, conseguia, através da amizade do carcereiro, comprar secretamente e revender a cerca de quatrocentos por cento tais confortos que os prisioneiros especialmente cobiçavam.
[Uma prática muito comum em Bridewell. O Governador em Coldbath-Fields, aparentemente um homem muito inteligente e ativo, em todos os sentidos adequado para um empreendimento muito árduo, informou-nos, na única conversa que tivemos a honra de manter com ele, que achava que quase ou totalmente destruíra em sua jurisdição esse método ilegal de comércio.]
“Uma prova”, disse Augustus, secamente, a Paul, “de que, pela prudência e esforço, mesmo naqueles lugares onde um homem não pode virar-se, ele pode conseguir ganhar um centavo.”
CAPÍTULO IX.
“Relata largamente, meu hóspede divino”, disse ela, “Os estratagemas gregos,--a cidade traída!” DRYDEN: Virgílio, Eneida, livro ii.
Descendo dali, eles escaparam!--Ibid.
Uma grande melhora ocorrera no caráter de Augustus Tomlinson desde que Paul encontrara aquele homem ilustre pela última vez. Então, Augustus afetara o homem de prazer, o erudito ocioso da cidade, o Péricles de todas as realizações dos jornais, citando alegremente Horácio, flanqueando gravemente uma mosca do editorial de Lord Dunshunner. Agora, um ar mais sério, embora não menos presunçoso, instalara-se em suas feições; a pretensão de moda dera lugar à pretensão de sabedoria; e do homem de prazer, Augustus Tomlinson tornara-se o filósofo. Com essa elevação apenas, também, ele não estava contente: ele uniu o filósofo ao político; e o patife engenhoso sentia prazer especialmente em orgulhar-se de ser “um Whig moderado”!
“Paul”, ele costumava observar, “acredite em mim, o Whiggismo moderado é um credo muito excelente. Ele se adapta a toda mudança possível, a toda variedade concebível de circunstância. É a única política para nós que somos os aristocratas daquele corpo livre que se rebela contra leis tirânicas; pois, diabo, eu não sou nenhum de seus democratas. Que haja masmorras e carcereiros para os baixos patifes que roubam roupas da cerca onde estão penduradas para secar, ou que furtam por uma área em busca de uma colher de prata; mas casas de correção não são feitas para homens que receberam uma educação esclarecida,--que abominam seus pequenos furtos tanto quanto um juiz de paz pode fazer,--que nunca deveriam ser chamados de desonestos em seus negócios, mas, se são descobertos, 'infelizes em suas especulações'! Uma bela coisa, de fato, que deveria haver distinções de classe entre outros membros da comunidade, e nenhuma entre nós! Onde está a sua tão vangloriada Constituição Britânica, eu gostaria de saber, onde estão seus privilégios de aristocracia, se eu, que sou um cavalheiro de nascimento, conheço latim e vivi na melhor sociedade, deveria ser lançado neste lugar abominável com um sujeito sujo que nasceu em um porão e nunca conseguiu ganhar mais de uma vez do que o suficiente para comprar uma salsicha? Não, não! nada de seus princípios de nivelamento para mim! Sou liberal, Paul, e amo a liberdade; mas, graças aos céus, desprezo suas democracias!”
Assim, meio a sério, meio velando uma inclinação natural para o sarcasmo, este Whig moderado falava por horas seguidas durante aquelas longas noites, começando às quatro e meia, nas quais ele e Paul faziam companhia um ao outro.
Certa noite, quando Tomlinson estava tão amargamente disposto a ser prolixo que Paul sentiu-se um tanto cansado de sua eloquência, nosso herói, desejoso de uma mudança na conversa, lembrou a Augustus sua promessa de comunicar sua história; e o Whig filosófico, nada relutante em falar de si mesmo, limpou a garganta e começou.
“Não se importe com quem foi meu pai, nem qual foi meu local de nascimento! Meu primeiro ancestral foi Tommy Linn (seu herdeiro tornou-se filho de Tom Linn),--você ouviu a balada feita em seu louvor,
“'Tommy Linn é um escocês de nascimento, Sua cabeça é careca e sua barba é aparada; Ele tinha um chapéu feito de pele de lebre, Um homem mais velho é Tommy Linn!'
“Havia uma espécie de profecia a respeito dos descendentes do meu ancestral obscuramente insinuada na estrofe final desta balada:--
“'Tommy Linn, e sua esposa, e a mãe de sua esposa, Caíram todos no fogo juntos; Aqueles que ficaram por baixo ficaram com a pele quente,--
“Não somos o bastante!” disse Tommy Linn.'”
“Você vê a profecia: é aplicável tanto a cavalheiros patifes quanto a Whigs moderados; pois ambos estão por baixo no mundo, e ambos estão perpetuamente gritando: 'Não somos o bastante!'”
“Começarei a minha própria história dizendo que frequentei uma escola no Norte, onde me destaquei pela facilidade em aprender; e pela minha habilidade em 'prisoner's base' — que, por minha palavra, não pretendi fazer trocadilho! Eu estava destinado à Igreja. Desejando, desde cedo, instruir-me em suas cerimónias, persuadi a criada do meu mestre-escola a ajudar-me a promover um batizado. O meu pai não gostou deste amor prematuro pelos ritos sagrados. Levou-me para casa; e, desejando dar ao meu ardor clerical um rumo diferente, preparou-me para escrever sermões, lendo-me uma dúzia por dia. Fiquei cansado disto, por mais estranho que possa parecer-lhe. ‘Pai’, disse eu, certa manhã, ‘não vale a pena falar; não entrarei para a Igreja — isso é definitivo. Dê-me a sua bênção e cem libras, e irei para Londres conseguir um sustento em vez de uma vigararia’. O meu pai enfureceu-se; mas acabei por levar a melhor. Falei em tornar-me tutor privado; jurei que tinha ouvido dizer que não havia nada mais fácil — as únicas coisas necessárias eram alunos; e a única maneira de os conseguir era ir para Londres e tornar o meu saber conhecido. O meu pobre pai... bem, ele já se foi, e sinto-me contente com isso agora!” A voz do orador vacilou. “Levei a melhor, digo eu, e vim para a cidade, onde tinha um parente livreiro. Graças à sua influência, escrevi um livro de Viagens na Etiópia para o filho de um conde, que queria tornar-se um leão; e um Tratado sobre a Partícula Grega, dedicado ao primeiro-ministro, para um deão, que queria tornar-se bispo — sendo o grego, a seguir aos conhecimentos, o melhor caminho para a mitra. Estes dois feitos foram generosamente pagos; por isso, aluguei um primeiro andar e decidi fazer um lance audacioso para conseguir uma esposa. O que acha que fiz? — não, nem tente adivinhar; seria inútil. Primeiro, fui ao melhor alfaiate e mandei coser a roupa no meu próprio corpo; segundo, decorei o livro da nobreza e as suas genealogias; terceiro, marchei uma noite, com a maior calma possível, para a casa de uma duquesa, que dava uma recepção imensa! Os jornais tinham-me inspirado esta ideia. Lera sobre as vastas multidões que uma senhora ‘em casa’ procurava atrair. Lera sobre escadarias intransitáveis e senhoras levadas para fora em estado de choque; e o senso comum dizia-me como era impossível que a bela anfitriã estivesse ao corrente da legalidade de cada importação. Resolvi, portanto, tentar a minha sorte e — entrei no corpo de Augustus Tomlinson, como uma peça de mercadoria roubada. Fé! Na primeira noite fui tímido — colei-me à escadaria e lancei olhares a uma solteirona de linhagem, a quem tinha ouvido anunciar como Lady Margaret Sinclair. Sem dúvida, nunca lhe tinham lançado olhares antes; e ela estava evidentemente arrebatada com os meus olhares. Na noite seguinte, li sobre um baile na casa da Condessa de -------. O meu coração batia como se fosse ser açoitado; mas ganhei coragem e dirigi-me a casa da condessa. Lá, contemplei de novo a divina Lady Margaret; e, observando que ela ficava amarela, a modo de rubor, quando me viu, aproveitei o vinho do Porto que tinha bebido como um encorajamento para a minha entrada e, avançando da forma mais elegante possível, lembrei à sua senhoria uma apresentação com a qual disse ter sido uma vez honrado na casa do Duque de Dashwell, e pedi a sua mão para o cotilhão seguinte. Oh, Paul, imagine o meu triunfo! A velha donzela disse, com um suspiro, que se lembrava muito bem de mim, ha, ha, ha! — e levei-a para o cotilhão como outro Teseu levando uma segunda Ariadne. Para não ser prolixo nesta parte da minha vida, ia noite após noite a bailes e recepções, para cuja admissão metade dos cavalheiros elegantes de Londres teriam dado as orelhas. E aproveitei tão bem o meu tempo com Lady Margaret, que era senhora de si mesma e tinha 5.000 libras — uma dote diabolicamente mau para alguns, mas não para ser desprezado por mim —, que comecei a pensar em quando deveria ser marcado o dia feliz. Entretanto, como Lady Margaret me apresentava a alguns dos seus amigos, e os meus aposentos ficavam numa boa localização, fui honrado com alguns convites reais. As únicas duas perguntas que me fizeram foram (de forma descuidada): ‘É filho único?’ e, na minha resposta verdadeira, ‘Sim!’, ‘Qual’ (isto foi perguntado com mais entusiasmo) — ‘qual era o seu condado?’ Felizmente, o meu condado era um grande — Yorkshire; e qualquer dos seus habitantes que as belas interrogadoras pudessem ter questionado sobre mim só poderia ter respondido que eu não era da parte deles.
“Bem, Paul, tornei-me tão ousado com o sucesso que o diabo, um dia, meteu-me na cabeça ir a um grande jantar na casa do Duque de Dashwell. Fui, jantei — nada aconteceu; vim-me embora e, na manhã seguinte, li nos jornais:
“‘Caso misterioso — pessoa que tem andado por aí ultimamente — primeiras casas — festas mais elegantes — ninguém conhece — ontem na casa do Duque de Dashwell. O Duque não quis causar distúrbios — visto que a realeza estava presente.’”
“O jornal caiu-me das mãos. Nesse momento, a rapariga da casa entregou-me um bilhete de Lady Margaret — aludia ao parágrafo; perguntava-se quem seria ‘O Estranho’; esperava ver-me naquela noite na casa de Lord A-----, para cuja festa eu disse ter sido convidado; falar então mais detalhadamente sobre esses assuntos que eu tinha mencionado! — em suma, caro Paul, uma epístola terna! Todos os grandes homens são fatalistas — eu sou um agora; o destino fez de mim um louco. Mesmo perante este parágrafo ominoso, ganhei coragem e fui naquela noite a casa de Lord A-----. O facto é que os meus assuntos estavam em confusão — eu estava muito endividado. Sabia que era necessário terminar a minha conquista de Lady Margaret o mais depressa possível; e a casa de Lord A----- parecia o melhor lugar para o efeito. Mais, pensei que a demora era tão perigosa, após o maldito parágrafo, que um dia poderia desmascarar-me, e seria, portanto, melhor não perder uma hora a terminar a peça ‘O Estranho’ com a farsa da ‘Lua de Mel’. Eis-me então em casa de Lord A-----, a levar Lady Margaret para a dança. Eis-me a sussurrar as coisas mais doces ao seu ouvido. Imagine-a a aprovar a minha pretensão e a repreender-me suavemente por falar de Gretna Green. Conceba tudo isto, meu caro, e logo no auge do meu triunfo, dilate os olhos da sua imaginação e contemple a forma imponente de Lord A-----, o meu nobre anfitrião, caminhando na minha direção, enquanto uma voz que, embora baixa e quieta como uma brisa vespertina, fez o meu coração cair nos sapatos, dizia: ‘Creio, senhor, que não recebeu convite de Lady A-----?’”
“Nem uma palavra consegui proferir, Paul — nem uma palavra. Se fosse na estrada em vez de num salão de baile, poderia ter falado suficientemente alto; mas eu estava sob um feitiço. ‘Ehem!’ gaguejei por fim — ‘e-h-e-m! Algum en-gano, eu... eu...’ Aí parei.
“‘Senhor’, disse o conde, olhando-me com uma gravidade severa, ‘é melhor retirar-se’.
“‘Valha-me Deus! O que é isto tudo?’ gritou Lady Margaret, largando o meu braço paralisado e olhando para mim como se esperasse que eu falasse como um herói.
“‘Oh’, disse eu, ‘eh-e-m, eh-e-m... explicarei amanhã... ehem, e-h-e-m’. Dirigi-me à porta; todos os olhos na sala pareciam transformados em lentes de aumento e escaldavam a própria pele do meu rosto. Ouvi um grito suave quando deixei o apartamento — Lady Margaret a desmaiar, suponho! Ali terminou o meu namoro e as minhas aventuras na ‘melhor sociedade’.”
“Senti-me melancólico com o insucesso do meu esquema. Tem de admitir que foi um projeto magnífico. Que coragem moral! Admiro-me quando penso nisso. Sem uma apresentação, sem conhecer uma única alma, tornar-me, tudo pela minha própria resolução, livre das melhores casas de Londres, a dançar com filhas de condes, e quase a levar uma filha de conde como minha esposa. Se o tivesse feito, os amigos teriam tido de fazer algo por mim; e Lady Margaret Tomlinson poderia, talvez, ter introduzido o génio juvenil do seu Augustus no parlamento ou no ministério. Oh, que queda foi aquela! No entanto, fé, ha, ha, ha! Não pude deixar de rir, apesar do meu desgosto, quando me lembrei de que, durante três meses, tinha enganado estes ‘exclusivos delicados’ e sido literalmente convidado por muitos deles, que não teriam convidado os filhos mais novos dos seus próprios primos, apenas porque eu vivia numa boa rua, me dizia filho único e falava das minhas propriedades em Yorkshire! Ha, ha! Quão amargurados os mercenários enganados devem ter-se sentido quando a descoberta foi feita! Que pílula para as boas matronas que tinham associado a minha imagem à de alguma filha Mary ou Jane — ha, ha, ha! O triunfo quase valeu a mortificação. No entanto, como disse antes, fiquei melancólico com isso, especialmente porque os meus cobradores se tornaram ameaçadores. Por isso, fui consultar o meu primo livreiro. Ele recomendou-me que escrevesse para os jornais e conseguiu-me uma oferta. Trabalhei com muita paciência durante pouco tempo e contraí algumas amizades agradáveis com cavalheiros que conheci num restaurante em St. James's. Ainda assim, os meus cobradores, embora lhes pagasse em migalhas, eram a praga da minha vida. Confessei o tanto a um dos meus novos amigos. ‘Venha a Bath comigo’, disse ele, ‘por uma semana, e voltará tão rico como um judeu’. Aceitei a oferta e fui para Bath na carruagem do meu amigo. Ele tomou o nome de Lord Dunshunner, um par irlandês que nunca tinha saído de Tipperary e, portanto, não era provável que fosse conhecido em Bath. Alugou também uma casa por um ano; encheu-a de vinhos, livros e um aparador de prata. Como falava vagamente de fazer o seu irmão mais novo candidatar-se pela cidade no próximo parlamento, comprou esses bens aos habitantes da cidade, a fim de encorajar o seu comércio. Consegui, secretamente, transportá-los para Londres e vendê-los; e, como os despachámos a cinquenta por cento abaixo do preço de custo, os nossos clientes, os penhoristas, não foram muito inquisitivos. Vivemos uma vida alegre em Bath durante alguns meses e partimos uma noite, deixando a nossa governanta para responder a todos os interrogatórios. Tínhamos tomado a precaução de usar disfarces, encher-nos e mudar os tons dos nossos cabelos. O meu nobre amigo era um adepto destas transformações; e, embora a polícia não dormisse sobre o assunto, nunca tropeçou connosco. Estou especialmente contente por não termos sido descobertos, pois gostei imenso de Bath; e pretendo voltar lá um destes dias e retirar-me do mundo — com uma herdeira!”
“Bem, Paul, pouco depois desta aventura, fiz o seu conhecimento. Continuei ostensivamente a minha profissão literária, mas apenas como uma máscara para os trabalhos que não professava. Uma circunstância obrigou-me a deixar Londres de forma bastante precipitada. Lord Dunshunner juntou-se a mim em Edimburgo. Diabo, em vez de fazermos algo lá, é que fomos feitos! O mais traquina que alguma vez rastejou pela High Street é mais do que suficiente para o mais científico dos ingleses. Connosco é arte; com os escoceses é natureza. Eles tiram-lhe a carteira sem usar os dedos para isso; e evitam represálias por não terem nada para você tirar.”
“Deixámos Edimburgo com caras muito compridas, e em Carlisle achámos necessário separar-nos. Quanto a mim, fui como criado de um nobre que acabara de perder o seu último servo em Carlisle devido a uma febre; o meu amigo deu-me as melhores referências! O meu novo patrão era um homem muito inteligente. Surpreendia as pessoas ao jantar pelos improvisos que preparava ao pequeno-almoço; numa palavra, era um espírito arguto. Ele logo viu, pois era ele próprio culto, que eu tinha recebido uma educação clássica, e empregou-me na capacidade confidencial de encontrar citações para ele. Classifiquei-as alfabeticamente e sob três cabeçalhos — ‘Parlamentar, Literário, Jantares’. Estes foram subdivididos em ‘Fino, Erudito e Jocoso’; de modo que o meu patrão sabia imediatamente onde recorrer para génio, sabedoria e graça. Ele estava encantado com a minha gestão do seu intelecto. Em homenagem a ele, prestei mais atenção à política do que tinha feito antes; pois ele era um ‘grande Whig’ e extraordinariamente liberal em tudo — menos em dinheiro! Daí, Paul, a origem dos meus princípios políticos; e agradeço ao Céu que não exista agora um patife em Inglaterra que seja um melhor — isto é, mais moderado — Whig do que o vosso humilde servo! Continuei com ele quase um ano. Ele despediu-me por uma falta digna do meu génio: outros criados podem perder o relógio ou o casaco do seu patrão; eu fui a uma caça mais nobre e perdi-lhe — o seu caráter privado!”
“Como quer dizer?”
“Ora, eu estava enamorado de uma senhora que não teria olhado para mim como Sr. Tomlinson; por isso, peguei nas roupas do meu patrão e, ocasionalmente, na sua carruagem, e fiz a corte à minha ninfa como Lord. A vaidade dela tornou-a indiscreta. Os jornais conservadores apoderaram-se disso; e o meu patrão, numa mudança de ministros, foi declarado por Jorge III como sendo ‘demasiado alegre para um Chanceler do Tesouro’. Um cavalheiro idoso que tinha tido quinze filhos com uma esposa como uma Górgona foi escolhido em vez do meu patrão; e, embora o novo ministro fosse um tolo na sua capacidade pública, o público moral estava perfeitamente contente com ele, por causa das suas virtudes privadas!”
“O meu patrão estava furioso, fez a investigação mais rigorosa, descobriu-me e expulsou-me também!”
“Um Whig fora do poder tem uma desculpa para não gostar da Constituição. A minha angústia quase fez de mim um republicano; mas, fiel ao meu credo, devo confessar que só teria nivelado para cima. Especialmente, desaprovo a desigualdade de riquezas; olhava com melancolia para cada carruagem que passava; até franzia o sobrolho como um segundo Catilina ao cheiro da cozinha de um cavalheiro! A minha última situação não tinha sido lucrativa; tinha negligenciado as minhas gratificações no meu ardor pela política. O meu patrão, também, recusou-se a dar-me referências: quem me aceitaria sem elas?”
“Eu perguntava-me sobre esta questão melancólica uma manhã, quando de repente encontrei um dos amigos elegantes que tinha apanhado no meu antigo antro, o restaurante, em St. James's. O nome dele era Pepper.”
“Pepper!” gritou Paul.
Sem prestar atenção à exclamação, Tomlinson continuou: — “Fomos a uma taverna e bebemos uma garrafa juntos. O vinho tornou-me comunicativo; também abriu o coração do meu camarada. Ele convidou-me para dar um passeio com ele naquela noite em direção a Hounslow. Fi-lo e encontrei uma bolsa.”
“Que sorte! Onde?”
“No bolso de um cavalheiro. Fiquei tão satisfeito com a minha sorte que fiz o mesmo caminho duas vezes por semana, para ver se conseguia apanhar mais bolsas. O destino favoreceu-me e vivi durante muito tempo a vida dos bem-aventurados. Oh, Paul, você não sabe — não sabe o que é uma vida gloriosa a de um salteador de estrada; mas irá prová-la um destes dias — irá, sobre a minha honra.”
“Vivi então com um clube de camaradas honestos. Chamávamo-nos ‘Os Exclusivos’ — pois éramos muito reservados nos nossos associados, e apenas aqueles que faziam negócios em grande escala eram admitidos no nosso grupo. Quanto a mim, com todo o meu amor pela profissão, eu gostava ainda mais de engenho do que de força, e preferia o que o vulgo chama de burla, até mesmo à estrada real. Numa expedição deste género, entrei uma vez numa cidade do interior e vi uma multidão reunida num canto; juntei-me a ela e, os meus sentimentos! — contemplei o meu pobre amigo Visconde Dunshunner prestes a ser enforcado! Afastei-me o mais depressa que pude — pensei ver Jack Ketch nos meus calcanhares. O meu cavalo atirou-me contra uma sebe e parti a clavícula. No confinamento que se seguiu, ideias sombrias flutuaram perante mim. Não gostava de ser enforcado; por isso, raciocinei contra os meus erros e arrependi-me. Recuperei lentamente, voltei à cidade e dirigi-me ao meu primo livreiro. Para dizer a verdade, tinha-lhe pregado uma pequena partida: cobrei algumas dívidas dele por um engano — muito natural na confusão inerente às minhas angústias. No entanto, ele foi extremamente indelicado quanto a isso; e o engano, natural como era, custou-me o seu conhecimento.”
“Fui agora ter com ele com o aspeto penitente do filho pródigo; e, fé, ele não teria feito uma má representação do bezerro gordo prestes a ser morto no meu regresso — tão corpulento parecia ele, e tão abatido! ‘Reprovado sem graça!’ começou ele, ‘o teu pobre pai morreu!’ Fiquei extremamente chocado; mas — nunca tema, Paul, não vou ser patético. O meu pai dividiu a sua fortuna por todos os seus filhos; a minha parte foi de 500 libras. A posse disto tornou logo a minha penitência muito mais sincera aos olhos do meu bom primo; e, depois de uma cena muito patética, ele tomou-me mais uma vez sob a sua proteção. Consultei-o agora sobre o melhor método de investir o meu capital e recuperar o meu caráter. Não conseguimos conceber nenhum esquema na primeira conferência; mas, na segunda vez que o vi, o meu primo disse com um semblante alegre: ‘Anima-te, Augustus, arranjei-te uma situação. O Sr. Asgrave, o banqueiro, aceitar-te-á como escriturário. Ele é um homem muito digno; e, tendo uma grande dose de saber, respeitar-te-á pelos teus conhecimentos’. No mesmo dia, fui apresentado ao Sr. Asgrave, que era um homem baixo com uma cabeça fina, calva e benevolente; e, depois de uma longa conversa que ele teve o prazer de manter comigo, tornei-me um dos seus escribas. Não sei como foi, mas, pouco a pouco, subi nas boas graças do meu patrão. Propiciei-o, imagino, ao dispor das minhas 500 libras de acordo com o seu conselho; ele aplicou-as por mim, no que ele disse ser uma garantia famosa, numa propriedade rural. O Sr. Asgrave tinha hábitos sociais — tinha uma casa excelente e vinhos excelentes. Como não era muito particular nas suas companhias, nem ambicioso de visitar os grandes, muitas vezes permitia-me fazer parte da sua mesa e tinha o prazer de manter longas discussões comigo sobre os antigos. Logo descobri que o meu patrão era um grande filósofo moral; e, estando eu próprio com saúde frágil, farto das ocupações comuns do mundo, nas quais a minha experiência tinha antecipado os meus anos, e naturalmente de temperamento contemplativo, voltei a minha atenção para os estudos morais que tanto fascinavam o meu empregador. Li nove prateleiras cheias de metafísicos e sabia exatamente os pontos em que esses pensadores ilustres discutiam uns com os outros, para o grande avanço da ciência. O meu patrão e eu costumávamos ter muitas longas discussões sobre a natureza do bem e do mal; como, com a ajuda da sua testa benevolente e de uma voz clara e obstinada, ele parecia sempre ao nosso público ser o homem mais sábio e melhor dos dois, ele ficava muito satisfeito com as nossas disputas. Este cavalheiro tinha uma única filha — uma megera terrível, com uma cara de machado, mas os filósofos superam os defeitos pessoais; e pensando apenas no bem que a sua riqueza poderia permitir-me fazer aos meus semelhantes, fiz-lhe amor secretamente. Dirá que isso foi pregar ao meu patrão uma partida vil pela sua bondade. De modo algum; o meu patrão tinha-me convencido de que não existia tal virtude como a gratidão. Era um erro dos moralistas vulgares. Cedi aos seus argumentos e, finalmente, desposei privadamente a sua filha. No dia seguinte a isto acontecer, ele convocou-me para o seu escritório. ‘Então, Augustus’, disse ele, muito suavemente, ‘casaste-te com a minha filha: não, não pareças confuso; vi há muito tempo que estavas resolvido a fazê-lo, e fiquei muito contente com isso’.”
“Tentei balbuciar algo como agradecimentos. ‘Nunca me interrompas!’ disse ele. ‘Tive duas razões para ficar contente — primeiro, porque a minha filha era a praga da minha vida, e eu precisava de alguém para a tirar das minhas mãos; segundo, porque precisava da tua assistência num ponto particular, e não me atrevia a pedi-la a ninguém senão ao meu genro. Em suma, desejo admitir-te como sócio!’”
“‘Sócio!’ gritei, caindo de joelhos. ‘Nobre, generoso homem!’
“‘Fica um pouco’, continuou o meu sogro. ‘Que fundos consideras necessários para manter um banco? Pareces confuso! Nem um xelim! Colocarás exatamente tanto quanto eu. Colocarás até um pouco mais; pois uma vez colocaste 500 libras, que já foram gastas há muito. Eu não coloco um xelim do meu próprio bolso. Vivo à custa dos meus clientes e ofereço-te, de muito boa vontade, metade deles!’
“Imagina, caro Paul, o meu espanto, a minha consternação! Vi-me casado com uma megera horrorosa — genro de um patife sem um tostão e roubado de toda a minha fortuna! Compara esta visão da questão com aquela que me tinha deslumbrado quando contemplava ser genro do rico Sr. Asgrave. No início, enfureci-me. O Sr. Asgrave pegou no ‘Progresso do Conhecimento’ de Bacon e não deu resposta até que eu estivesse arrefecido pela explosão. Perceberás que, quando a paixão diminuiu, vi necessariamente que nada me restava senão adotar a proposta do meu sogro. Assim, pela fatalidade que me perseguiu exatamente na altura em que pretendia reformar-me, fui forçado à patifaria e levado a defraudar um vasto número de pessoas pelo acidente de ser genro de um grande moralista. Como o Sr. Asgrave era um homem indolente, que passava as manhãs em especulações sobre a virtude, fui feito o sócio ativo. Passava o dia na casa comercial; e quando chegava a casa para descansar, a minha mulher arranhava-me os olhos.”
“Mas nunca foste reconhecido como ‘o estranho’ ou ‘o aventureiro’ na tua nova função?”
“Não; pois claro que assumi, em todas as minhas mudanças, tanto pseudónimos como disfarces. E, para te dizer a verdade, o meu casamento alterou-me de tal modo que, com um casaco cor de rapé e uma peruca castanha despenteada, com uma pena na orelha direita, eu parecia a própria imagem da respeitabilidade sensata. A minha cara crescia um centímetro todos os dias. Nada é tão respeitável como uma cara comprida; e uma expressão de semblante contida é o sinal mais certo de prosperidade comercial. Bem, continuámos esplendidamente durante cerca de um ano. Entretanto, tornei-me maravilhosamente melhor em filosofia. Não fazes ideia de como uma mulher rabugenta sublima e purifica o intelecto de alguém. O trovão limpa o ar, sabes! Por fim, para infelicidade da minha fama (pois eu contemplava uma magnífica história moral do homem, que, se ela tivesse vivido mais um ano, eu teria completado), a minha mulher morreu no parto. O meu sogro e eu falávamos sobre o acontecimento, criticando a civilização pelos hábitos enervantes pelos quais as mulheres morrem dos seus filhos em vez de os trazerem ao mundo sem sequer estarem conscientes da circunstância, quando um pedaço de papel, selado de forma torta, foi entregue ao meu sócio. Ele olhou para ele, terminou a discussão e depois disse-me que o nosso banco tinha suspendido os pagamentos. ‘Agora, Augustus’, disse ele, acendendo o seu cachimbo com o pedaço de papel, ‘vês a vantagem de não ter nada a perder.’”
“Não pagámos nem seis pence por libra; mas o meu sócio foi considerado tão infeliz que o público britânico angariou uma subscrição para ele, e ele retirou-se com uma anuidade, muito respeitado e bastante compadecido. Como eu não era tão conhecido como moralista, e não tinha a vantagem sedutora de uma cabeça careca e benevolente, nada foi feito por mim, e fui atirado mais uma vez para o mundo vasto, para moralizar sobre as vicissitudes da fortuna. O meu primo livreiro já não existia, e o seu filho cortou relações comigo. Aluguei um sótão em Warwick Court e, com alguns livros, o meu único consolo, tentei fortalecer a minha mente para o futuro. Foi nesta altura, Paul, que os meus estudos realmente me serviram. Meditei muito e tornei-me um verdadeiro filósofo, isto é, um filósofo prático. As minhas ações foram doravante reguladas pelo princípio; e, mais cedo ou mais tarde, convencer-te-ei de que o caminho da verdadeira moral nunca evita os bolsos do teu próximo. Assim que a minha mente fez a grande descoberta que o Sr. Asgrave tinha feito antes de mim, de que se deve viver de acordo com um sistema — pois se fazes o mal, é então o teu sistema que erra, não tu —, lancei-me à estrada, sem qualquer daquelas picadas de consciência que até então me tinham incomodado em tais aventuras. Formei um dos membros de um excelente grupo de ‘Agentes Livres’, que um dia ou outro te apresentarei, e rapidamente ascendi à distinção entre eles. Mas há cerca de seis semanas, não menos do que anteriormente preferindo caminhos secundários a autoestradas, tentei apossar-me de uma carruagem e vendê-la com desconto. Fui absolvido do crime de felonía, mas enviado para aqui pelo Juiz Burnflat por contravenção. Até aqui, meu jovem amigo, prosseguiu até agora a vida de Augustus Tomlinson.” A história deste cavalheiro causou uma profunda impressão em Paul. A impressão foi fortalecida pelas conversas posteriormente tidas com Augustus. Esse digníssimo era um persuasor perigoso e subtil. Ele tinha lido realmente uma boa quantidade de história e algo de moral; e tinha uma forma engenhosa de defender as suas práticas de patife através de silogismos da segunda e exemplos da primeira. Estas teorias ele reforçava, por assim dizer, com uma referência à política existente do dia. Aqueles que enganavam o público, sob falsos pretextos, ele tinha o prazer de chamar de “Whigs moderados”; os exigentes intimidadores da tua bolsa eram “Tories elevados”; e roubar em gangues era “o efeito do espírito de partido”. Havia esta diferença entre Augustus Tomlinson e Long Ned — Ned era o vilão em ação, Augustus o vilão raciocinante; e podemos ver, portanto, com uma pequena reflexão, que Tomlinson era um companheiro muito mais perigoso do que Pepper — pois teorias vistosas são sempre mais sedutoras para os jovens e inteligentes do que exemplos persuasivos, e a vaidade dos jovens torna-os mais satisfeitos por serem convencidos de uma coisa do que por serem aliciados para ela.
Um ou dois dias após a narrativa do Sr. Tomlinson, Paul foi novamente visitado pela Sra. Lobkins — pois os regulamentos contra visitantes frequentes não eram então tão estritamente aplicados como entendemos que são agora; e a boa senhora veio deplorar o insucesso da sua entrevista com o Juiz Burnflat.
Poupamos ao leitor de coração terno um detalhe da entrevista afetuosa que se seguiu. De facto, foi apenas uma repetição daquela que narrámos anteriormente. Diremos apenas, como prova da ternura de coração de Paul, que quando ele se despediu da boa matrona e lhe disse “Deus a abençoe”, a sua voz vacilou e as lágrimas ficaram nos seus olhos — exatamente como costumavam ficar nos olhos de Jorge III, quando esse excelente monarca tinha o prazer de pedir graciosamente um bis de “God save the King!”
“Hei de ser enforcado”, soliloquizou o nosso herói, enquanto se dirigia lentamente para o subtil Augustus — “Hei de ser enforcado (hum! a denúncia é profética), se não me sinto tão grato à velha senhora pelo seu cuidado comigo como se ela nunca me tivesse tratado mal. Quanto aos meus pais, creio que tenho pouco pelo que estar grato ou orgulhoso nessa parte. A minha pobre mãe, segundo todos os relatos, parece dificilmente ter tido até a virtude bruta da ternura materna; e em toda a probabilidade humana nunca saberei se tive um pai ou cinquenta. Mas que importa? Gosto mais de ser independente; e, afinal, o que é que nove décimos de nós alguma vez recebemos dos nossos pais senão um nome feio e conselhos que, se seguirmos, somos miseráveis, e se negligenciarmos, somos deserdados?”
Confortando-se com estes pensamentos, que talvez tenham tomado o seu complexo filosófico das conversas que tinha tido recentemente com Augustus, e que se interromperam na melodia murmurada de —
“Por que havemos de discutir por riquezas?”
Paul reparou para as suas ocupações habituais.
Na terceira semana do cativeiro do nosso herói, Tomlinson comunicou-lhe um plano de fuga que ocorrera ao seu cérebro sagaz. No pátio apropriado aos divertimentos dos cavalheiros “contravinientes”, havia um cano de água que, margeando a parede, passava por cima da porta através da qual todas as manhãs os cativos piedosos passavam a caminho da capela. Por este, Tomlinson propôs escapar; pois para o cano que chegava da porta à parede, numa direção inclinada e fácil, havia uma espécie de rodapé; e um homem destemido e ágil poderia facilmente, com a ajuda desta tábua, transportar-se ao longo do cano, até que o progresso desse útil condutor (que era felizmente muito breve) fosse parado pelo cume da parede, onde encontrava um seguimento noutro cano, que descia ao chão no lado oposto da parede. Ora, neste lado oposto ficava o jardim da prisão; neste jardim havia um guarda noturno, e este guarda noturno era o bicho-papão do esquema de Tomlinson — “Pois supondo-nos a salvo no jardim”, disse ele, “o que faremos com este sujeito confuso?”
“Mas isso não é tudo”, acrescentou Paul; “pois mesmo que não houvesse guarda noturno, há uma parede terrível, que notei especialmente na semana passada, quando fomos postos a trabalhar no jardim, e que não tem cano, exceto um perpendicular, que um homem teria de ter as pernas de uma mosca para ser capaz de subir!”
“Disparate!” retorquiu Tomlinson; “Eu ensinar-te-ei a subir a parede mais teimosa da cristandade, se se tiver apenas a costa livre. É o guarda noturno, o guarda noturno, que temos de...”
“O quê?” perguntou Paul, observando que o seu camarada não concluiu a frase.
Passou algum tempo até que o sábio Augustus respondesse; ele disse então num tom pensativo —
“Tenho estado a pensar, Paul, se seria consistente com a virtude, e aquele código estrito de moral pelo qual todas as minhas ações são reguladas, — matar o guarda noturno!”
“Valha-me Deus!” gritou Paul, horrorizado.
“E decidi”, continuou Augustus, solenemente, sem atender à exclamação, “que a ação seria perfeitamente justificável!”
“Vilão!” exclamou Paul, recuando para a outra extremidade da caixa de pedra — pois era noite — na qual estavam encurralados.
“Mas”, prosseguiu Augustus, que parecia soliloquizar, e cuja voz, soando calma e pensativa, como a de Young no famoso monólogo em “Hamlet”, denotava que ele não se importava com a interrupção indelicada — “mas a opinião nem sempre influencia a conduta; e embora possa ser virtuoso assassinar o guarda noturno, não tenho coração para o fazer. Confio que na minha história futura não serei censurado demasiado severamente por moralistas perspicazes por uma fraqueza pela qual o meu temperamento físico é o único culpado!”
Apesar da viragem do solilóquio, passou muito tempo até que Paul se pudesse reconciliar com mais conversas com Augustus; e foi apenas pela crença de que o moralista tinha inclinado para a veia jocosa que ele finalmente retomou a consulta.
Os conspiradores não levaram, contudo, o seu esquema naquela noite a qualquer decisão final. No dia seguinte, Augustus, Paul e alguns outros da companhia foram postos a trabalhar no jardim; e Paul observou então que o seu amigo, empurrando um carrinho de mão perto do local onde o guarda noturno estava, virou o seu conteúdo. O guarda noturno foi suficientemente bem-disposto para o ajudar a encher novamente o carrinho; e Tomlinson lucrou tão bem com a ocasião que naquela noite informou Paul de que não teriam nada a temer da vigilância do guarda noturno. “Ele prometeu”, disse Augustus, “por certas con-si-de-ra-ções, permitir-me derrubá-lo; ele prometeu também estar tão ferido a ponto de não conseguir mover-se até que estejamos por cima da parede. A nossa principal dificuldade agora, então, é o primeiro passo — isto é, subir o cano despercebidos!”
“Quanto a isso”, disse Paul, que desenvolveu, ao longo de todo o esquema, órgãos de sagacidade, audácia e invenção que encantaram o seu amigo, e certamente prometiam bem para a sua carreira futura — “quanto a isso, penso que podemos gerir a primeira subida com menos perigo do que imaginas. As manhãs ultimamente têm estado muito nevoentas; estão quase escuras à hora em que vamos para a capela. Deixa-nos fechar a fila: o cano passa logo acima da porta; as nossas mãos, como experimentámos, conseguem alcançá-lo; e um salto de não muita agilidade permitir-nos-á elevar-nos para um apoio no cano e no rodapé.”
“A subida então é fácil; e com o denso nevoeiro e a nossa própria rapidez, penso que teremos pouca dificuldade em ganhar o jardim. As únicas precauções que precisamos de usar são esperar por uma manhã muito escura e garantir que somos os últimos da fila, para que ninguém atrás possa dar o alarme...”
“Ou tentar seguir o nosso exemplo, e estragar a tarte com uma passa supérflua!” acrescentou Augustus. “Aconselhas admiravelmente; e um destes dias, se não fores enforcado entretanto, arrisco-me a prever que serás um grande lógico.”
A manhã seguinte estava clara e gelada; mas o dia a seguir estava, para usar o símile de Tomlinson, “tão escuro como se todos os negros de África tivessem sido estufados até se tornarem ar”. “Poderias ter cortado o nevoeiro com uma faca”, como diz o provérbio. Paul e Augustus não conseguiam sequer ver quão significativamente cada um olhava para o outro.
Foi um traço notável do temperamento audaz do primeiro que, jovem como era, ficou decidido que ele lideraria a tentativa. À hora, então, da capela, os prisioneiros passaram como de costume através da porta. Quando chegou a vez de Paul, ele elevou-se pelas mãos até ao cano e, rastejando ao longo do seu curso sinuoso, alcançou a parede antes mesmo de ter recuperado o fôlego. De forma um pouco mais desajeitada, Augustus seguiu o exemplo do seu amigo. Uma vez o seu pé escorregou, e ele quase caiu. Estendeu as mãos involuntariamente e agarrou Paul pela perna. Felizmente, o nosso herói tinha então alcançado a parede, à qual se agarrava; e, por uma vez, um patife elevou-se a si mesmo sem derrubar outro. Eis Tomlinson e Paul agora sentados por um instante na parede para recuperar o fôlego; o último então — a descida para o chão não era muito grande — baixando o corpo pelas mãos, deixou-se cair no jardim.
“Magoados?” perguntou o prudente Augustus, num sussurro rouco, antes de descer da sua “má eminência”, estando até disposto —
“A suportar aqueles males que tinha, Do que voar para outros que não conhecia”
“Não!” sem tomar todas as precauções prévias ao seu alcance, foi a resposta na mesma voz, e Augustus deixou-se cair.
Assim que este último digníssimo recuperou do choque da sua queda, não perdeu um momento a correr para a outra extremidade do jardim. Paul seguiu-o. Pelo caminho, Tomlinson parou num monte de entulho e apanhou uma pedra imensa. Quando chegaram à parte da parede que tinham acordado escalar, encontraram o guarda noturno — com quem não precisavam, aliás, de se ter preocupado; pois se não tivesse sido arranjado que ele os encontrasse, o nevoeiro profundo tê-los-ia impedido eficazmente de os ver. Este fiel guardião, Augustus derrubou-o, não com uma pedra, mas com dez guineus; ele tirou então da sua roupa uma corda um tanto grossa, que arranjou alguns dias antes com o carcereiro, e prendendo a pedra firmemente a uma extremidade, atirou essa extremidade para cima da parede. Ora, a parede tinha (como paredes de grande resistência geralmente têm) uma espécie de ameia saliente de ambos os lados; e a pedra, quando lançada e puxada até ao limite da corda à qual estava presa, prendeu-se necessariamente contra esta saliência; e assim a corda ficou por assim dizer presa à parede, e Tomlinson pôde por ela puxar-se até ao topo da barreira. Ele realizou este feito com destreza ginástica, como quem o tinha praticado muitas vezes; ainda que o discreto aventureiro não tivesse mencionado na sua narrativa a Paul qualquer ocasião anterior para a prática. Assim que ganhou o topo da parede, atirou a corda para o seu companheiro e, em consideração pela inexperiência de Paul naquele modo de subir, deu à fixação da corda uma segurança adicional segurando-a ele próprio. Com lentidão e esforço, Paul içou-se; e então, transferindo a pedra para o outro lado da parede, onde fez claro um engate semelhante, os nossos dois aventureiros foram capazes sucessivamente de escorregar e consumar a sua fuga da Casa de Correção.
“Segue-me agora!” disse Augustus, enquanto se punha a milhas; e Paul perseguiu-o através de um labirinto de becos e ruelas, através dos quais ele disparou e esquivou-se com uma celeridade variável e mutável que, se Paul não tivesse ficado colado a ele, rapidamente, combinado com o nevoeiro, o teria arrebatado dos olhos do seu jovem aliado. Felizmente, a imaturidade da manhã, a obscuridade das ruas percorridas e, acima de tudo, a escuridão extrema da atmosfera impediram aquela deteção e prisão que a roupa do seu prisioneiro lhes teria, de outra forma, garantido. Por fim, encontraram-se nos campos; e rastejando ao longo de sebes, e evitando diligentemente a estrada principal, continuaram a voar para a frente, até terem avançado várias milhas pelas “entranhas da terra”. Naquela altura, as “entranhas” de Augustus Tomlinson começaram a lembrar-lhe as suas exigências; e ele sugeriu consequentemente a conveniência de eles capturarem o primeiro camponês que encontrassem e fazer com que ele trocasse de roupa com um dos fugitivos, que assim seria capaz de entrar numa estalagem e providenciar as suas necessidades mútuas. Paul concordou com esta proposição e, consequentemente, vigiaram a sua oportunidade e apanharam um lavrador. Augustus despiu-o da sua blusa, chapéu e meias de lã; e Paul, endurecido pela necessidade e companhia, ajudou a atar o pobre lavrador a uma árvore. Continuaram então o seu progresso durante cerca de uma hora e, à medida que as sombras da tarde caíam sobre eles, descobriram uma estalagem. Augustus entrou e regressou em poucos minutos carregado de pão e queijo e uma garrafa de cerveja. A comida da prisão cura um homem de esquisitices, e os dois fugitivos jantaram estes víveres caseiros com considerável complacência. Retomaram então a sua jornada e, por fim, cansados do esforço, chegaram a um palheiro solitário, onde decidiram descansar por uma ou duas horas.
CAPÍTULO X.
Ao contrário do libertino, cujo gracejo licencioso Polui o seu banquete e insulta o seu convidado, Da riqueza e grandeza fácil de descer, Tu alegras-te em perder o mestre no amigo. Rodamos à tua mesa os alegres lacaios, vê; Com o sorriso da branda igualdade; Nenhum cuidado social o gracioso senhor despreza; O amor impele ao amor, e a reverência ganha reverência.
Tradução de LUCANO para Paso, Prefaciado ao Décimo Segundo Artigo de “The Rambler”.
Timidamente brilhavam as estrelas tímidas sobre os nossos aventureiros, à medida que, após uma curta sesta atrás do palheiro, se esticaram e, olhando um para o outro, rebentaram numa gargalhada involuntária e hilariante com a terminação próspera da sua proeza.
Até então tinham estado demasiado ocupados, primeiro com a sua fuga, depois com a fome, depois com a fadiga, para a auto-congratulação; agora esfregavam as mãos e brincavam como rapazes da escola em fuga com a sua escapadela.
Gradualmente os seus pensamentos voltaram-se do passado para o futuro; e “Diz-me, meu caro”, disse Augustus, “o que pretendes fazer. Confio que há muito te convenci de que não é pecado ‘servir os nossos amigos’ e ‘ser fiel ao nosso partido’; e, portanto, suponho que decidirás lançar-te à estrada.”
“É muito estranho”, respondeu Paul, “que eu ainda tenha quaisquer escrúpulos após as tuas lições sobre o assunto; mas confesso-te francamente que, de uma forma ou de outra, tenho dúvidas se roubar é realmente a profissão mais honesta que eu poderia seguir.”
“Escuta-me, Paul”, respondeu Augustus; e a sua réplica não é indigna de nota. “Todo o crime e toda a excelência dependem de uma boa escolha de palavras. Vejo que pareces confuso; vou explicar-te. Se tiras dinheiro ao público e dizes que roubaste, cometeste indubitavelmente um grande crime; mas se fazes o mesmo e dizes que estavas a aliviar as necessidades dos pobres, praticaste uma ação excelente. Se, ao dividir depois esse dinheiro com os teus companheiros, disseres que estavas a partilhar o espólio, cometeste uma ofensa contra as leis do teu país; mas se observares que estavas a partilhar com os teus amigos os ganhos da tua indústria, realizaste uma das mais nobres ações da humanidade. Partir a cabeça a um homem não é nem virtuoso nem culpável, mas depende da linguagem aplicada à ação torná-lo em homicídio ou em glória. Por que não dizer, então, que testemunhaste a coragem de um herói, em vez da atrocidade de um rufia? Isto é perfeitamente claro, não é?”
[Observamos num parágrafo de um jornal americano, copiado sem comentários para o “Morning Chronicle”, uma prova singular da verdade da filosofia de Tomlinson! “O Sr. Rowland Stephenson”, reza o excerto, “o célebre banqueiro inglês, acaba de comprar uma considerável extensão de terra”, etc. O mais filosófico dos paragrafistas! “Célebre banqueiro inglês!” — essa frase é uma ilustração melhor das falácias verbais do que todos os tratados de Bentham juntos. “Célebre!” Ó Mercúrio, que epíteto dextro!]
“Parece que sim”, respondeu Paul.
“É tão evidente que é assim que todos os governos são conduzidos. Pelo que, meu bom Paul, apenas fazemos o que todos os outros legisladores fazem. Nunca somos tratantes enquanto nos chamarmos homens honestos, e nunca cometemos um crime enquanto o pudermos chamar de virtude. Que dizes agora?”
Paul sorriu e ficou em silêncio alguns momentos antes de responder: “Há poucas dúvidas de que estás errado; mas se estás, também estão todos os outros no mundo. Não serve de nada ser a única ovelha branca do rebanho. Pelo que, meu caro Tomlinson, serei no futuro um excelente cidadão, aliviarei as necessidades dos pobres e partilharei os ganhos da minha indústria com os meus amigos.”
“Bravo!” exclamou Tomlinson. “E agora que isso está decidido, quanto mais cedo fores inaugurado, melhor. Desde que a luz das estrelas brilhou, vejo que estou num lugar que deveria conhecer muito bem; ou, se gostas de ser desconfiado, podes acreditar que te trouxe propositadamente nesta direção. Mas primeiro deixa-me perguntar se sentes algum grande desejo de passar a noite junto a este palheiro, ou se gostarias quase tanto de uma canção e da taça de ponche como do ar livre, com a hipótese de seres comido num bocado de feno por alguma vaca vadia.”
“Podes conceber a minha escolha”, respondeu Paul.
“Bem, então, há um excelente sujeito aqui perto, que mantém uma taberna e é um firme aliado e generoso patrono dos rapazes da cruz. Em certos períodos, realizam reuniões semanais na sua casa: esta é uma das noites. Que dizes? Devo apresentar-te ao clube?”
“Ficarei muito contente se eles me admitirem”, retorquiu Paul, a quem muitos e conflituosos pensamentos tornavam lacónico.
“Oh! não temas isso, sob os meus auspícios. Para te dizer a verdade, embora sejamos um grupo tolerante, recebemos cada novo prosélito com entusiasmo. Mas estás cansado?”
“Um pouco; a casa não fica longe, dizes tu?”
“A cerca de uma milha”, respondeu Tomlinson. “Apoia-te em mim.”
Os nossos errantes, deixando agora o palheiro, atravessaram parte de Finchley Common; pois a morada do digno taberneiro estava felizmente situada, e o cenário em que os seus convidados celebravam as suas festividades ficava perto daquele em que frequentemente realizavam as suas proezas.
À medida que avançavam, Paul questionou o seu amigo sobre o nome e o caráter do “meu anfitrião”; e o omnisciente Augustus Tomlinson respondeu-lhe, à maneira de um Quaker, com uma pergunta:
“Nunca ouviste falar do Gentleman George?”
“O quê! O notável chefe de uma taberna de luxo no campo? Pois claro que ouvi, muitas vezes; a minha pobre ama, Dame Lobkins, costumava dizer que ele era o homem com melhor lábia do ramo!”
“Sim, e continua a sê-lo. Na sua juventude, George era um rapaz muito atraente, mas um pouco demasiado afeiçoado à sua rapariga e à sua garrafa para agradar ao seu pai — um cavalheiro muito sisudo, que passeava aos domingos de peruca curta e bengala de castão de ouro, e era um agricultor muito melhor nos dias de semana do que chefe de taberna. George costumava ser um rapaz extraordinariamente bem vestido, e assim continua até hoje. Tem muito espírito, é um bom jogador de whist, tem uma cave excelente e gosta tanto de ver os seus amigos embriagados que comprou, há algum tempo, uma grande medida de estanho na qual seis homens podem ficar de pé. As raparigas, ou melhor, as velhas, para com as quais ele costumava ser muito mais cortês do que com as primeiras, sempre gostaram dele; dizem que nada é tão fino como os seus discursos finos, e deram-lhe o título de ‘Gentleman George’. É um homem simpático e de bom coração em muitas coisas. Peça o Céu que não tenhamos motivo para sentir a sua falta quando ele partir! Mas, para te dizer a verdade, ele tira mais do que a sua parte da nossa bolsa comum.”
“O quê! Ele é avarento?”
“Muito pelo contrário; mas é tão maldita e excessivamente afeiçoado a construir que investe todo o seu dinheiro (e quer que nós invistamos todo o nosso) em casas; e há um cão de um pedreiro que lhe apresenta contas terríveis — um sujeito chamado ‘Cunning Nat’, que é igualmente adro na estragar terrenos e a melhorar rendas de terreno.”
“O que queres dizer?”
“Ah! nisso reside uma história. Mas estamos perto do lugar agora; verás um grupo curioso.”
Enquanto Tomlinson dizia isto, a dupla aproximou-se de uma casa que estava isolada, e aparentemente sem qualquer outra habitação nas redondezas. Era de forma curiosa e grotesca, pintada de branco, com uma chaminé gótica, um poste de sinalização chinês (no qual estava representado um cavalheiro a pescar, com as palavras “The Jolly Angler” escritas por baixo) e um alpendre que teria sido grego se não fosse holandês. Ficava num pequeno campo, com uma sebe atrás e o baldio à frente. Augustus parou à porta; e enquanto hesitava, explosões de riso ressoaram alegremente no interior.
“Ah, os rapazes alegres!” murmurou ele; “Anseio por estar com eles;” e depois, com o punho fechado, bateu quatro vezes na porta. Houve um silêncio repentino que durou cerca de um minuto, e foi quebrado por uma voz lá dentro, perguntando quem estava lá. Tomlinson respondeu com uma palavra cabalística; a porta foi aberta e um rapazinho apresentou-se.
“Bem, meu rapaz”, disse Augustus, “e como está o teu mestre? Forte e saudável, se posso julgar pela sua voz.”
“Sim, Mestre Tommy, sim, ele está a beber de uma forma bela, na sala das traseiras, com o Sr. Pepper e o Fighting Attie, e mais uma dezena deles. Ele ficará muito contente por ver-vos, garanto.”
“Mostra este cavalheiro ao bar”, replicou Augustus, “enquanto eu vou apresentar os meus respeitos ao honesto Geordie.”
O rapaz fez uma espécie de vénia e, conduzindo o nosso herói até ao bar, consignou-o aos cuidados de Sal, uma barmaid robusta que refletia crédito no gosto do taberneiro, e que recebeu Paul com distinção marcada e uma dose de brandy.
Paul não teve muito tempo para ser amável antes de Tomlinson se juntar a ele com a informação de que o Gentleman George ficaria muito feliz por vê-lo na sala das traseiras, e que lá encontraria um velho amigo na pessoa do Sr. Pepper.
“O quê! Ele está aqui?” exclamou Paul. “O miserável velhaco, por me ter deixado enjaulado no seu lugar!”
“Calma, calma; nada de má aplicação de termos!” disse Augustus. “Isso não foi velhacaria; isso foi prudência, a maior de todas as virtudes, e a mais rara. Mas vamos, que Pepper explicar-te-á amanhã.”
Atravessando uma galeria ou passagem, Augustus precedeu o nosso herói, abriu uma porta e introduziu-o num apartamento longo e baixo, onde se sentavam, à volta de uma mesa coberta de cachimbos e bebidas, cerca de dez ou doze homens, enquanto na cabeceira da mesa, numa poltrona, presidia o Gentleman George. Esse dignitário era um cavalheiro robusto e aprazível, com um olhar sabichão e uma peruca galesa, usada, como diz o “Morning Chronicle” do chapéu de Sua Majestade, “de uma forma descontraída, de lado”. Aflito com gota, o seu pé esquerdo repousava num banco; e a atitude revelava, apesar de uma meia de lã de cordeiro, os restos de uma perna extremamente boa.
Como o Gentleman George era uma pessoa de majestosa dignidade entre os Cavaleiros da Cruz, confiamos que não seremos considerados irreverentes ao aplicar algumas das palavras com que o supracitado “Morning Chronicle” descreveu Sua Majestade no dia em que lançou a primeira pedra do monumento do seu pai à descrição do Gentleman George.
“Ele vestia um bonito casaco azul e um colete branco;” além disso, “riu-se de forma muito bem-humorada”, enquanto, voltando-se para Augustus Tomlinson, o saudou com:
“Portanto, este é o jovem que nos apresentas? Bem-vindo ao Jolly Angler! Dá-me a tua mão, jovem senhor; ficarei feliz por soprar uma nuvem contigo.”
“Com a devida submissão”, disse o Sr. Tomlinson, “penso que talvez seja melhor primeiro apresentar o meu pupilo e amigo aos seus futuros companheiros.”
“Falas como um gajo esperto”, gritou Gentleman George, ainda apertando a mão do nosso herói; e, voltando-se na sua poltrona, apontou para cada membro, à medida que apresentava individualmente os seus convidados a Paul.
“Aqui”, disse ele, “aqui está um bom rapaz à minha direita” (a pessoa assim designada era uma figura esguia de aspeto militar, com um casaco de montar gasto, e com um semblante aquilino, imponente e audaz, um pouco desgastado pelo uso), “aqui está um bom rapaz para ti! Fighting Attie chamamos-lhe; ele é um diabo na estrada. ‘Para! Entrega! Tem de ser e será! Não podes e não hás de! Faz o que te mando, ou vai para o diabo!’ É toda a conversa do Fighting Attie; e, por Deus, tem uma maneira maravilhosa de ir direto ao ponto! Um famoso sujeito é o meu amigo Attie — um velho soldado — viu o mundo e sabe o que é o quê; tem muita sagacidade e zero de conversa fiada. Contudo, os ladrões de topo não gostam dele; e quando ele tira o dinheiro às pessoas, não precisava de ser tão rabugento a esse respeito. Attie, deixa-me apresentar-te um novo companheiro.” Paul fez a sua vénia.
“Descansa, homem!” disse o veterano, sem tirar o cachimbo da boca.
O Gentleman George continuou então; e depois de apontar quatro ou cinco dos presentes (entre os quais o nosso herói descobriu, para sua surpresa, os seus velhos amigos Sr. Eustace Fitzherbert e Sr. William Howard Russell), chegou, finalmente, a um com um rosto muito vermelho e uma estrutura corporal robusta. “Esse cavalheiro”, disse ele, “é o Scarlet Jem; um sujeito perigoso para uma rusga, embora ele diga que gosta de roubar sozinho agora, pois uma rusga geral não é nem de perto tão boa como costumava ser antigamente. Não fazes ideia de como o Scarlet Jem é um mestre a disfarçar-se. Ele tem uma peruca velha com a qual geralmente faz negócio; e não serias capaz de o reconhecer quando ele se esconde debaixo da peruca. Oh, ele é um velhaco precioso, esse Scarlet Jem! Quanto ao gajo do outro lado”, continuou o anfitrião do Jolly Angler, apontando para o Long Ned, “tudo o que posso dizer dele, bem, mal ou indiferente, é que ele tem uma cabeleira incomum de fina; e agora, jovem, como o conheces, supõe que vais sentar-te ao lado dele, e ele apresentar-te-á aos outros; pois, racha a minha peruca!” (O Gentleman George era um pouco dado a praguejar) “se eu não estou cansado; e por isso aqui vai à tua saúde; e se por acaso o teu nome é Paul, que possas sempre roubar o Pedro [uma mala] para pagar ao Paulo!”
Este gracejo do meu anfitrião sendo recebido de forma excelente, Paul foi, entre o riso geral, ocupar o lugar vago ao lado de Long Ned. Esse cavalheiro alto, que até então tinha estado a conduzir nuvens (como Homero chama a Júpiter) em profundo silêncio, voltou-se agora para Paul com a maior cordialidade, declarou-se sobrecarregado de alegria por encontrar o seu velho amigo mais uma vez, e congratulou-o tanto pela sua fuga de Bridewell como pela sua admissão aos conselhos do Gentleman George. Mas Paul, atento a esse exercício de “prudência” por parte do Sr. Pepper, pelo qual tinha sido deixado à sua sorte e à mercê do Juiz Burnflat, recebeu os seus avanços de forma muito carrancuda. Esta frieza irritou tanto Ned, que era naturalmente colérico, que ele deu as costas ao nosso herói e, sendo de espírito aristocrático, murmurou algo sobre “advenedizos e carteiristas vulgares serem admitidos na companhia de gentis salteadores”. Este murmúrio trouxe todo o sangue de Paul às faces; pois, embora ele tivesse sido punido como um carteirista, ninguém sabia melhor do que Long Ned se ele era ou não inocente; e uma censura vinda dele veio, portanto, com dupla injustiça e severidade. Na sua ira, agarrou o Sr. Pepper pela orelha e, dizendo-lhe que ele era um canalha desprezível, desafiou-o para uma luta.
Um convite tão agradável não sendo anunciado sotto voce, mas num tom adequado à importância da proposta, todos ao redor ouviram-no; e antes que Long Ned pudesse responder, a voz plena de Gentleman George trovejou:
“Mantenham a paz aí, seu jovem! O quê! Acabaste de ser admitido nas nossas festanças e já tens de estar a discutir? Escutem, cavalheiros, já fui suficientemente incomodado com as vossas discussões antes de hoje; e o primeiro gajo que quebrar a presente tranquilidade do Jolly Angler será posto na rua sem contemplações — não será, Attie?”
“Direita, marchar!” disse o herói.
“Sim, essa é a palavra, Attie”, disse Gentleman George. “E agora, Sr. Pepper, se há algum sangue ruim entre ti e o rapaz, lava-o com um copo de bingo, e não quero ouvir mais nada sobre o assunto.”
“Estou disposto”, gritou Long Ned, com o ar deferente de um cortesão, e estendendo a mão a Paul. O nosso herói, algo confuso pela novidade da sua situação e pela repreensão de Gentleman George, aceitou, embora com alguma relutância, a cortesia oferecida.
Restaurada a ordem, a conversação dos convivas começou a assumir um viés fascinante. Falavam com infinito gosto das somas que tinham cobrado ao público, e as peculatas que tinham cometido para o que um chamava o bem da comunidade, e outro, a ordem estabelecida — referindo-se a eles próprios. Era fácil ver em que escola o perspicaz Augustus Tomlinson aprendera o valor das palavras.
Havia algo de edificante em ouvir os velhacos! Tão refinada era a sua linguagem, e tão honesto o seu entusiasmo pelos seus próprios interesses, que se poderia imaginar estar a ouvir um grupo de ministros de gabinete a discutir impostos ou a debater subsídios.
“Que prosperem os Comuns!” exclamou o trocadilhista Georgie, enchendo o seu copo; “é pelos comuns que somos alimentados, e que eles nunca conheçam o cultivo!”
“Três vezes três!” gritou Long Ned; e o brinde foi bebido como o Sr. Pepper propôs.
“Um pouco de cultivo moderado dos comuns, para falar francamente”, disse Augustus Tomlinson, modestamente, “não seria mau; pois atrairia as pessoas à crença de que poderiam viajar em segurança; e, afinal, uma sebe ou um campo de cevada é tão bom para nós como uma charneca estéril, onde não temos abrigo se formos perseguidos!”
“Dizes disparates, seu palerma!” gritou um ladrão de renome, chamado Bagshot; que, sendo idoso e tendo sido moço de recados de um advogado, era por vezes denominado “Old Bags”. “Dizes disparates; estes arados inovadores são a nossa ruína. Cada espiga de milho num comum é uma usurpação da constituição e dos direitos dos cavalheiros salteadores. Sou velho e talvez não viva para ver estas coisas; mas, marca as minhas palavras, chegará um dia em que um homem poderá ir de Lunnun a Johnny Groat's sem perder um centavo por um de nós; quando Hounslow será seguro, e Finchley protegido. Pelos meus olhos, que coisa triste será para nós!”
O venerável velho tornou-se subitamente silencioso, e as lágrimas vieram-lhe aos olhos. Gentleman George tinha um grande horror a estados de alma melancólicos, e detestava particularmente todos os assuntos desagradáveis.
“Trovão e relâmpagos, Old Bags!” disse o meu anfitrião do Jolly Angler, “isto não pode ser; estamos todos aqui para ser alegres, e não para ouvir as tuas taratarantas melancólicas. Digo eu, Ned Pepper, supõe que nos dás uma canção, e eu marcarei o ritmo com os meus nós dos dedos.”
Long Ned, tirando o cachimbo da boca, tentou, como a Lady Heron de Walter Scott, uma ou duas desculpas bonitas; sendo estas abafadas por um grito universal, o belo gatuno deu a seguinte canção, ao som de “Time has not thinned my flowing hair”.
CANÇÃO DE LONG NED.
Ah, se as minhas mãos aderem ao dinheiro, As minhas luvas estão pelo menos limpas, E raramente se viram cavalheiros da moda Com roupas mais bem apresentadas.
Doce Público, uma vez que os vossos cofres devem Proporcionar alívio às nossas necessidades, Ah! não suaviza dar o pó A um ladrão tão encantador?
“‘E João pode rir-se do meu’ — excelente!” exclamou Gentleman George, acendendo o seu cachimbo, e piscando o olho a Attie; “ouço dizer que és um sujeito famoso com as raparigas.”
Ned sorriu e respondeu: “Ninguém deve gabar-se; mas...” Pepper hesitou significativamente e, depois, olhando para Attie, disse: “Falando em raparigas, é a minha vez de desafiar um cavalheiro para uma canção, e desafio o Fighting Attie.”
“Eu nunca canto”, disse o guerreiro.
“Traição, traição!” gritou Pepper. “É a lei, e tens de obedecer à lei; por isso começa.”
“É verdade, Attie”, disse Gentleman George.
Não havia apelo do fiat do honesto taberneiro; por isso, de uma forma rápida e lacónica, sendo o dogma favorito de Attie que o menos dito é o mais depressa remendado, o guerreiro cantou o seguinte:
CANÇÃO DE FIGHTING ATTIE.
Ária: “Ele era famoso por feitos de armas.”
Nunca roubei uma carruagem Senão com um ar de amante; E embora possas censurar o meu percurso, Nunca poderias o meu cabelo.
Levantar às seis, jantar às duas, Roubar o teu homem sem hesitação, São as minhas máximas; se duvidas Da sua sabedoria, à direita-vuer!
(Fazendo sinal a um cavalheiro pálido do mesmo lado da mesa para enviar a taça de brandy.)
Passa o bingo, por uma arma, Seu filho mofado, sombrio e rouco! John Bull, que ama uma piada inofensiva, É dado a rir-se de mim; Mas porquê irritar-se com gente que se ri, A menos que riam e ganhem? John Bull tem dinheiro na sua caixa; E embora o seu espírito seja divino, Deixa-me rir dos caracóis do Johnny, E João pode rir-se dos meus.
[Muito do divertimento que possa ter sido causado pelas paródias (confiamos) não mal-intencionadas de certas personagens eminentes nesta parte da nossa obra quando foi publicada pela primeira vez, como todas as alusões políticas, perde o sentido e torna-se obscuro à medida que as aplicações deixam de ser familiares. Já é necessário, talvez, dizer que o Fighting Attie tipifica ou ilustra aqui a súbita demissão do Sr. Huskisson pelo Duque de Wellington.]
O CAVALHEIRO PÁLIDO (com voz rouca).
Attie, o bingo está agora comigo; Não o posso ceder ainda, percebes!
ATTIE (agarrando a taça).
Cede, cede-o — cessa o teu pó! (Arrancando-a e olhando ferozmente para o cavalheiro pálido.) Tu cedeste-o, e tens de o fazer.
CORO.
Tu cedeste-o, e tens de o fazer.
Enquanto o coro, rindo-se do bebedor desconcertado, gritava as palavras enfáticas do heroico Attie, essa personagem esvaziou o brandy de um trago, retomou o seu cachimbo e, com o mínimo de palavras possível, pediu uma canção a Bagshot. O excelente velho salteador, com grande modéstia, obedeceu ao pedido, limpou a garganta e começou com uma canção um pouco ao ritmo de “The Old Woman”.
CANÇÃO DE OLD BAGS.
Foram-se então os dias, quando em Hounslow Heath Fazíamos brilhar os nossos cavalos, Quando os peitos mais fortes vacilavam sob A voz de Bags? Nunca o meu trabalho foi deixado a meio, para não ser apanhado Lento era o velho Bags, mas nunca parava Até que tudo fosse agarrado.
CORO. Até que tudo fosse agarrado.
Quando a carruagem lenta parava, e os cavalheiros atacavam, Eu suportava o peso; E o único som que os meus lábios graves formavam Era “dinheiro” — ainda “dinheiro”!
Oh, aqueles dias joviais nunca são esquecidos! Mas a fita atrasa-se-- Quando eu estiver morto, tu beberás um copo Ao pobre velho Bags!
CORO. Ao pobre velho Bags!
“Sim, é o que faremos, meu caro Bagshot”, exclamou o Cavalheiro George, afetuosamente; mas, observando uma lágrima no olho do bom e velho companheiro, acrescentou: “Anime-se! Ora, vamos! Anime-se! Os tempos vão melhorar, e a Providência ainda pode enviar-nos um bom ano, em que você estará tão bem como sempre. Você abana a cabeça. Bem, não fique melancólico, derrube antes um cavalheiro.”
Limpando a gota de sensibilidade, o veterano derrubou o próprio Cavalheiro George.
“Oh, diabo!” disse George, com um ar de dignidade, “eu devia esquivar-me, já que sou eu quem arranja a bebida; mas, seja como for, aqui vai.”
CANÇÃO DO CAVALHEIRO GEORGE.
Melodia: “Old King Cole.”
Eu sou o tipo, o velho tipo alegre, De cuja bebida todos os rufiões cantam; E um tipo bebedor, penso eu, por Júpiter, É tão grande quanto um rei sóbrio!
CORO. É tão grande quanto um rei sóbrio!
Qualquer que seja o ruído feito pelos rapazes No balcão enquanto bebem, Diabo de ruído que perturbe a minha paz Enquanto os patifes pagarem!
CORO. Enquanto os patifes pagarem!
Que importa se eu assento as minhas pedras e tijolos Com argamassa que tiro aos convencidos? Todos os que se preocupam com o bem público Gostam que a taberna esteja animada.
CORO. Gostam que a taberna esteja animada.
“Pronto, cavalheiros!” disse o taberneiro, parando subitamente, “isso é o essencial da questão, e que me partam a peruca se não estou sem fôlego agora. Por isso, passem a aguardente, Augustus; seu cão matreiro, você guarda tudo para si.”
A esta altura, todo o conclave estava mais do que meio embriagado, ou, como Augustus Tomlinson expressou, “as suas qualidades mais austeras foram relaxadas por uma indulgência agradável e inocente”. Os olhos de Paul giravam e a língua soltou-se. Gradualmente, a sala nadou à sua volta, os rostos dos seus camaradas alteraram-se, o semblante do Velho Bags assumiu um ar terrível e ameaçador. Ele pensou que Long Ned o insultara, e que o Velho Bags tomara o partido do agressor; fechou o punho e ameaçou meter a cabeça do autor da ofensa no tribunal de chancelaria se ele perturbasse a paz da reunião. Vários outros males imaginários o cercaram. Ele pensou que tinha roubado uma carruagem de correio na companhia de Pepper; que Tomlinson o denunciara, e que o Cavalheiro George ordenara que ele fosse enforcado; em suma, ele sofria de um delírio temporário, causado por uma súbita mudança de fortuna — de água para aguardente; e a última coisa de que reteve qualquer recordação, antes de cair debaixo da mesa, na companhia de Long Ned, Scarlet Jem e o Velho Bags, foi de participar no refrão do que lhe parecia ser um coro de últimas palavras e confissões de moribundos, mas que, na realidade, era uma canção feita em honra do Cavalheiro George, e cantada pelos seus gratos convidados como final das festividades. Dizia assim:--
O GRANDE BRINDE DO LADRÃO.
Um copo de gin, enche, enche para mim! A fita vermelha, que a drene quem gosta; Mas seja qual for a bebida, tem de ser um copo cheio, Se nunca mais bebermos um copo cheio! Agora--agora na toca, onde um rufião pode deitar-se, Sem medo que as armadilhas o perturbem, Com uma gota na boca, e uma gota no olho, Um brinde ao Cavalheiro George,--Deus o abençoe! Deus o abençoe, Deus o abençoe! Um brinde ao Cavalheiro George,--Deus o abençoe!
Entre os comparsas do príncipe, ouvi dizer que é o costume, Antes de terem bebido o suficiente, Avivar o ponche com o melhor curaçau, Para tornar a mistura mais requintada. Não me gabo de tal bebida; mas quem não gostar Do seu copo, que me enforquem se o obrigar! De pé, meus rapazes,--passe, passe em redor! Um brinde ao Cavalheiro George,--Deus o abençoe! Deus o abençoe, Deus o abençoe! Um brinde ao Cavalheiro George,--Deus o abençoe!
Vejam, vejam, o bom sujeito enfraquece nas pernas; Ajudem-no, seus patifes, a manter-se de pé! Por que não se mexem? Estão todos em baixo? Fighting Attie, vai, dá-lhe uma mão!
(Os ladrões amontoam-se à volta do Cavalheiro George, cada um, sob o pretexto de o apoiar, puxando-o primeiro para um lado e depois para o outro.)
Vem, apoia-te em mim,--estou ao teu dispor! Afastem-se do seu cotovelo, seu pulha! Ele Só vai tombar,--esses sujeitos apenas fingem! Um brinde ao Cavalheiro George,--Deus o ajude! Deus o ajude, Deus o ajude! Um brinde ao Cavalheiro George, Deus o ajude!
CAPÍTULO XI.
Não me gabo de uma canção rica em maravilhas mágicas; Mas, oh Natureza! não há nada a valorizar, Familiar nas tuas cenas íntimas da vida? E habitam nos céus salubres da verdade à luz do dia Nenhuma forma com a qual a alma possa simpatizar? Jovem, inocente, em cuja doce fronte suave O caracol repartido brilhava na mais simples guisa, Uma habitante no lar de Albert sorria, Ou abençoava o seu passeio do meio-dia,--ela era a sua única filha.
Gertrude de Wyoming.
Ó tempo, pregaste-nos partidas estranhas; e abençoamos as estrelas que nos fizeram romancistas, e nos permitem agora retaliar. Deixando Paul entregue às instruções de Augustus Tomlinson e às festividades do Jolly Angler, e permitindo-lhe, por graus lentos mas seguros, adquirir as graças e a reputação do realizado e perfeito apropriador dos bens alheios, passaremos pelo lapso dos anos com a mesma rapidez descuidada com que eles deslizaram sobre nós, e convocaremos o nosso leitor para uma cena muito diferente daquelas que provavelmente o saudariam, se estivesse a seguir as aventuras do nosso novo Telémaco. Nem tu, caro leitor, a quem fazemos juiz entre nós e aqueles que nunca leem — os críticos; tu que, no verdadeiro espírito da gentileza, foste connosco a lugares onde a novidade da cena, receamos, mal compensou a grosseria, não assumindo os ares de uma criada delicada — não tagarelando, como um lacaio, sobre a baixa companhia que encontraste — nem tu, caro e amigável leitor, terás motivo para recear que cansemos a tua paciência com uma “maldita iteração” das mesmas localidades. Pausando por um momento para olhar sobre as divisões da nossa história, que jaz diante de nós como um mapa, sentimos que podemos prometer, no futuro, conduzir-te entre aspetos da sociedade mais familiares aos teus hábitos; onde os eventos fluem para o seu golfo designado através de paisagens de maior variedade agradável e entre tribos de uma civilização mais luxuosa.
Nas margens de um dos mais belos rios da bela Inglaterra, e a cerca de cinquenta milhas de distância de Londres, ainda permanece uma morada à moda antiga, a que chamaremos aqui Warlock Manorhouse. É um edifício de tijolo, variado por coroamentos de pedra, e coberto em grande parte por hera e jasmim. À sua volta jazem as ruínas da parte mais antiga da construção; e estas são suficientemente numerosas em extensão e importantes em aparência para testemunhar que a mansão já não careceu de pretensões à magnificência. Estes vestígios de poder, alguns dos quais datam do reinado de Henrique III, são sancionados pelo caráter do campo imediatamente nas proximidades da antiga casa senhorial. Uma vasta extensão de terreno baldio, intercalada com bosques de árvores antigas, e aqui e ali cristas irregulares e sinuosas de montes verdes, atestam ao olho experiente a evidência de uma coutada ou parque desmantelado, que originalmente deve ter sido de dimensões nada comuns. De um lado da casa, o relvado inclina-se em direção ao rio, dividido de um terraço, que forma o mais importante embelezamento dos jardins, por aquela vedação à qual foi dado o nome engenhoso e significativo de “ha-ha!”. Algumas árvores dispersas de crescimento gigante são os únicos obstáculos que quebram a vista do rio, que nos pareceu muitas vezes, naquela passagem particular do seu curso, deslizar com uma calma e serenidade incomuns. No lado oposto da corrente, existe uma cadeia de colinas íngremes, famosas por nada mais romântico do que a sua propriedade de conferir aos rebanhos que pastam naquela erva curta e aparentemente escassa um sabor particularmente agradável aos amantes daquele animal pastoral que muda o seu nome para carneiro após o seu falecimento. Sobre estas colinas, o vestígio de habitação humana não é visível; e, por vezes, quando nenhum barco desfigura a solidão suave do rio, e a tarde silenciou os sons do trabalho e da vida, conhecemos poucas cenas tão totalmente tranquilas, tão mergulhadas em sossego, como aquela apresentada pela velha casa de estilo peculiar e os seus terrenos antigos — o relvado suave, o rio silencioso e (para dizer a verdade, embora de forma depreciativa) algo lento, juntamente com as grandes colinas (às quais sabemos, por causas simples embora metafísicas, como se liga particularmente uma ideia completa de quietude e imobilidade), e os rebanhos brancos — essas criaturas mais pacíficas de Deus — que, em aglomerados lanosos, salpicam a encosta.
Em Warlock House, na época a que nos referimos, vivia um cavalheiro chamado Brandon. Era viúvo e atingira o seu quinquagésimo ano sem lançar muito remorso sobre o passado ou sentir muita ansiedade pelo futuro. Numa palavra, Joseph Brandon era um daqueles homens descuidados, quiescentes e indiferentes, pelos quais um pensamento sobre qualquer assunto nunca é revisitado sem uma necessidade muito urgente. Era bem-intencionado, inofensivo e fraco; e se não era um cidadão incomparável, era pelo menos um excelente vegetal. Pertencia a uma família de grande antiguidade, e anteriormente de considerável relevo. Nas últimas quatro ou cinco gerações, contudo, os proprietários de Warlock House, perdendo gradualmente algo tanto das suas terras como do seu prestígio, tinham deixado aos seus descendentes um estatuto não superior ao de um pequeno escudeiro rural. Um tinha sido jacobita, e tinha bebido meia dúzia de quintas em honra de Charley do outro lado da água; Charley do outro lado da água não era uma pessoa muito perigosa, mas Charley do outro lado do vinho era bastante mais ruinoso. O Brandon seguinte tinha sido um caçador de raposas, e os caçadores de raposas vivem tão largamente como os políticos patriotas. Pausânias diz-nos que o mesmo povo que era mais notório pelo seu amor ao vinho era também o mais notório pela sua negligência nos assuntos. Os tempos não mudaram muito desde que Pausânias escreveu, e a observação mantém-se tão verdadeira para os ingleses como foi para os figeus. Após este Brandon veio um que, embora não desprezasse o desportista, assumiu antes o papel de cavalheiro elegante. Casou-se com uma herdeira, que naturalmente ajudou a arruiná-lo; não desejando ajuda numa ocupação tão agradável, ele capotou-a (talvez não de propósito), numa nova espécie de carruagem que estava a aprender a conduzir, e a boa senhora morreu no local. Ela deixou ao cavalheiro elegante dois filhos — Joseph Brandon, o senhor atual, e um irmão alguns anos mais novo. O mais velho, tendo idade apropriada, foi enviado para a escola, e escapou um pouco ao contágio da mansão paterna. Mas o Brandon mais novo, tendo apenas atingido o seu quinto ano na altura da morte da mãe, foi mantido em casa. Se ele era bonito ou inteligente ou impertinente, ou parecido com o pai nos olhos (o maior de todos os méritos), não sabemos; mas o viúvo tornou-se tão afeiçoado a ele que foi num período tardio e com grande relutância que finalmente o confiou à providência de uma escola.
Entre meretrizes e jogadores e lordes e vigaristas, e cavalheiros da guarda, juntamente com os seus frequentes acompanhamentos — guardas dos cavalheiros, nomeadamente, meirinhos — William Brandon passou a primeira fase da sua infância. Tinha cerca de treze anos quando foi enviado para a escola; e sendo um rapaz de talentos notáveis, recuperou o tempo perdido tão bem que, quando aos dezanove anos se mudou para a Universidade, mal tinha residido lá um único trimestre antes de ter arrebatado dois dos mais altos prémios atribuídos ao mérito académico. Da Universidade partiu para o “grand tour”, na altura considerado tão necessário para completar o cavalheiro; foi na companhia de um jovem nobre, cuja amizade conquistara na Universidade, permaneceu no estrangeiro mais de dois anos, e, no seu regresso, estabeleceu-se na profissão de direito.
Entretanto, o seu pai morreu, e a sua fortuna, como irmão mais novo, sendo literalmente quase nada, e a propriedade da família (pois o seu irmão não estava indisposto a ajudá-lo) estando terrivelmente endividada, acreditou-se que ele lutou durante alguns anos com circunstâncias muito embaraçadas e penúrias. Durante este intervalo da sua vida, contudo, esteve ausente de Londres, e o seu irmão supôs que tivesse regressado ao Continente; finalmente, parece que ele lucrou com uma renovação da sua amizade com o jovem nobre que o tinha acompanhado ao estrangeiro, reapareceu na cidade, e obteve através do seu nobre amigo um ou dois cargos legais de remuneração respeitável. Pouco depois, obteve um processo em que um major andava a recrutar um corpo para o seu camarada, com o melhor consentimento da esposa do camarada do que do próprio camarada. As capacidades de Brandon aqui, pela primeira vez na sua profissão, encontraram um escoamento adequado; a sua reputação pareceu feita de uma vez, ele subiu rapidamente na sua profissão e, na altura de que falamos agora, navegava na maré cheia da fama e da riqueza, a inveja e o oráculo de todos os jovens Templários e advogados, que, tendo passado fome eles próprios durante dez anos, começaram agora a calcular a possibilidade de deixar os seus clientes à fome. Num período inicial da sua carreira, ele tinha, através dos bons ofícios do nobre que mencionámos, obtido um lugar na Câmara dos Comuns; e embora a sua eloquência fosse de uma ordem muito mais adequada ao tribunal do que ao senado, tinha contudo adquirido uma reputação muito considerável neste último, e era visto por muitos como alguém com probabilidades de conquistar as mesmas fortunas brilhantes que o cortês Mansfield — um grande homem, cujos princípios políticos e trato urbano Brandon era suposto adotar especialmente como o seu próprio modelo. De integridade irrepreensível na vida pública — pois, como apoiava todas as coisas que existem com a rigidez mais inflexível, não podia ser acusado de inconsistência — William Brandon era (como dissemos num lugar anterior de infeliz memória para o nosso herói) estimado na vida privada como o mais honrado, o mais moral, até o mais austero dos homens; e a sua reputação grave e severa a este respeito, juntamente com o brilho da sua eloquência e poderes forenses, tinha frustrado em grande medida o rancor da hostilidade partidária, e obtido para ele um caráter de virtudes quase tão elevado e invejável como aquele que tinha adquirido pelas suas capacidades.
Enquanto William seguia assim uma carreira notável e honrosa, o seu irmão mais velho, que tinha casado com a família de um clérigo, e perdido cedo a sua consorte, residia com a sua única filha, uma rapariga chamada Lucy, na sua mansão paterna em obscuridade imperturbada. O caráter e os hábitos pouco recomendáveis dos precedentes senhores de Warlock, que tinham afundado a sua respeitabilidade no condado, bem como reduzido a sua propriedade, tinham tornado a fidalguia circundante pouco ansiosa por cultivar a intimidade do atual proprietário; e a mente pesada e os modos retraídos de Joseph Brandon não foram calculados para contrabalançar as falhas dos seus antepassados, nem para restabelecer o nome de Brandon na sua popularidade e estima antigas. Embora aborrecido e pouco cultivado, o escudeiro não estava sem o seu “orgulho próprio”; não tentou intrometer-se onde era indesejado, evitou reuniões e bailes do condado, fumava o seu cachimbo com o pároco, e não poucas vezes com o cirurgião e o solicitador, e permitiu que a sua filha Lucy se educasse com a ajuda da esposa do pároco, e amadurecesse (pois a Natureza foi mais favorável para ela do que a Arte) para a rapariga mais bonita que todo o condado — ansiamos dizer todo o país — na altura podia gabar-se. Nunca o espelho devolveu uma imagem mais adorável do que a de Lucy Brandon aos dezanove anos. O seu cabelo castanho caía na mais rica luxúria sobre uma testa nunca perturbada, e uma face onde o sangue nunca dormia; a cada instante a cor variava, e a cada variação aquela face suave, pura, virgem, parecia ainda mais adorável do que antes. Ela tinha o riso mais belo que alguém que amava música poderia imaginar — prateado, baixo, e contudo tão cheio de alegria! Todos os seus movimentos, como dizia o velho pároco, pareciam manter o tempo com aquele riso, pois a alegria compunha uma grande parte do seu temperamento inocente e infantil; e contudo a alegria era feminina, nunca alta, nem como a das jovens senhoras que tinham recebido o acabamento final nos seminários de Highgate. Tudo o que era alegre a afetava, e de uma vez — o ar, as flores, a luz do sol, as borboletas. Ao contrário das heroínas em geral, ela raramente chorava, e não via nada de encantador em ter vapores. Mas nunca parecia tão bonita como a dormir; e à medida que a respiração leve vinha dos seus lábios entreabertos, e as pálpebras de marfim se fechavam sobre aqueles olhos que apenas no sono eram silenciosos — e a sua atitude no sono assumia aquela graça inefável pertencente apenas à infância, ou à juventude fresca na qual a infância se funde — ela era exatamente o que se poderia imaginar de uma Margaret a dormir, antes de aquela mais simples e gentil de todas as visões de feminilidade de um poeta ter encontrado Faust, ou os seus sonos terem sido perturbados com um sonho de amor.
Não podemos dizer muito sobre as aquisições intelectuais de Lucy; ela podia, graças à esposa do pároco, soletrar razoavelmente bem, e escrever uma letra tolerável; fazia conservas, e por vezes adivinhas — era mais difícil questionar a excelência das primeiras do que responder às questões das segundas. Trabalhava para admiração de todos os que a conheciam, e pedimos licença para dizer que consideramos isso “uma excelente coisa na mulher”. Fazia gorros para si própria e vestidos para os pobres, e de vez em quando completava o trabalho mais literário de um romance perdido que tinha chegado à mansão, ou um resumo da história antiga, no qual era omitido tudo menos os nomes próprios. A estas aquisições, ela juntava um certo módico de habilidade na espineta, e o poder de cantar canções antigas com a mais rica e doce voz que alguma vez fez os olhos de alguém humedecerem ou o coração de alguém bater.
As suas qualidades morais estavam mais plenamente desenvolvidas do que as mentais. Ela era a mais bondosa dos seres humanos; o próprio cão que nunca a tinha visto antes sabia essa verdade ao primeiro olhar, e não perdia tempo a fazer a sua amizade. A bondade do seu coração repousava sobre o seu rosto como a luz do sol, e a velha esposa na portaria dizia poeticamente e verdadeiramente do efeito que produzia, que “sentia-se calor quando se olhava para ela”. Se pudéssemos abstrair da descrição uma certa transparência arrepiante, os seguintes versos requintados de um poeta esquecido poderiam expressar a pureza e o brilho do seu rosto:--
“O seu rosto era como a via láctea no céu, Um encontro de luzes gentis sem um nome.”
Ela era rodeada por animais de estimação de todos os tipos, feios e bonitos — desde Ralph o corvo até Beauty o faisão, e desde Bob, o cão pastor sem cauda, até Beau, o Blenheim com fitas azuis à volta do pescoço; todas as coisas a amavam, e ela amava todas as coisas. Parecia duvidoso na altura se ela teria alguma vez firmeza e força de caráter suficientes. A sua beleza e o seu caráter pareciam tão essencialmente femininos — suaves mas vivos, flutuantes mas carinhosos — que dificilmente se poderia colocar nela aquela dependência moral que se poderia colocar num caráter menos amável mas menos cedentemente feminino. O tempo, contudo, e as circunstâncias, que alteram e endurecem, decidiriam se a natureza interior não possuía algumas propriedades latentes e ainda não descobertas. Tal era Lucy Brandon no ano ----; e nesse ano, numa bela noite de outono, introduzimo-la pela primeira vez pessoalmente aos nossos leitores.
Ela estava sentada num banco de jardim junto ao rio, com o seu pai, que estava deliberadamente a estudar o jornal da tarde de uma semana anterior, e gravemente a temperar as notícias antigas com as inspirações daquela erva que tão amargamente excitou a indignação real do nosso Salomão Britânico. Acontece, infelizmente para nós — pois as peculiaridades exteriores são dificilmente dignas da dignidade a que a comédia, seja no drama ou na narrativa, aspira — que o Escudeiro Brandon possuía tão poucos traços distintos de mente que deixa ao seu delineador pouco com que o designar, exceto um hábito de discurso confuso e parentético, pelo qual ele aparecia muito frequentemente àqueles que não lucravam com longa experiência ou observação atenta, dizer exatamente, e algo ludibriosamente, aquilo que ele não queria transmitir.
— Digo, Lucy — observou o Sr. Brandon, mas sem levantar os olhos do jornal —, digo, o trigo baixou; pense nisso, menina, pense nisso! Estes tempos, na minha opinião (sim, e na opinião de cabeças mais sábias que a minha, embora eu não pretenda dizer que não tenho alguma experiência nestes assuntos, o que é mais do que se pode dizer de todos os nossos vizinhos), são muito curiosos e até perigosos.
— De fato, Papai! — respondeu Lucy.
— E digo, Lucy, querida — retomou o escudeiro, após uma breve pausa —, houve (e é muito estranho, também, quando se considera a vizinhança povoada — Bendito seja Deus! Que tempos são estes!) um assassinato chocante cometido contra (o apagador de cachimbo, ali está ele) — pense, sabe, menina —, logo ali em Epping! — um velho cavalheiro!
— Céus, que chocante! Por quem?
— Sim, essa é a questão! O inquérito do legista (que bênção é viver num país civilizado, onde um homem não morre sem saber o porquê e o como!) examinou o corpo, e declarou (é muito estranho, mas não parecem ter feito grande descoberta; pois por quê? já sabíamos tanto quanto antes) que o corpo foi encontrado (foi encontrado no chão, Lucy) assassinado; assassino ou assassinos (na escrivaninha, que foi arrombada, encontraram o dinheiro deixado completamente intocado) desconhecidos!
Aqui houve novamente uma leve pausa; e, passando para outro lado do jornal, o Sr. Brandon retomou, num tom mais rápido: — Há! bem, agora isto é estranho! Mas ele é um sujeito terrivelmente inteligente, Lucy! Aquele meu irmão (e de uma maneira muito honrosa, também, o que tenho certeza que é altamente louvável para a família, embora ele não tenha tomado muito conhecimento de mim ultimamente — uma circunstância que, considerando que sou seu irmão mais velho, me deixa um pouco irritado) distinguiu-se num discurso, notável, diz o jornal, pela sua grande (eu me pergunto, a propósito, se William poderia conseguir-me aquele dinheiro de pastagem! É algo pesado de se perder; mas ir a tribunal, como meu pobre pai costumava dizer, é como pescar gudgeons [não é um peixe ruim; podemos ter alguns para o jantar] com guineus) perícia jurídica, bem como pela sua esplêndida e avassaladora (eu amo Will por manter a honra da família; tenho certeza de que é mais do que eu fiz, heigh-ho!), eloquência!
— E sobre que assunto ele esteve falando, Papai?
— Oh, um assunto muito fino; o que você chama de (é espantoso que neste país haja tal desejo de tirar a reputação das pessoas, o que, da minha parte, não vejo que seja um pouco mais divertido do que o que você está sempre fazendo — brincando com aqueles pássaros estúpidos) difamação!
— Mas o meu tio William não virá nos visitar? Ele prometeu fazê-lo, e isso o deixou muito feliz, Papai, por dois dias. Espero que ele não o decepcione; e tenho certeza de que não é culpa dele se ele parece negligenciá-lo. Ele falou de você para mim, quando o vi, da maneira mais gentil e afetuosa. Eu realmente acho, meu querido pai, que ele o ama muito.
— Ahem! — disse o escudeiro, evidentemente lisonjeado, e ainda assim não convencido. — Meu irmão Will é um sujeito muito astuto, e não tenho — minha querida menina — dúvida, mas que (quando você tiver visto tanto do mundo quanto eu, você se tornará desconfiada) ele pensou que qualquer boa palavra dita sobre mim para minha filha (você vê, Lucy, sou tão clarividente quanto meus vizinhos, embora não me dê todos os seus ares; o que eu muito bem poderia fazer, considerando que meu tataravô, Hugo Brandon, teve parte na detecção da conspiração da pólvora) seria dita a mim novamente!
— Não, mas tenho certeza de que meu tio nunca falou de você para mim com essa intenção.
— Possivelmente, minha querida criança; mas quando (as noites são muito mais curtas do que costumavam ser!) você falou com seu tio sobre mim?
— Oh, quando estava com a Sra. Warner, em Londres; certamente, faz seis anos, mas lembro-me perfeitamente. Lembro-me, em particular, de que ele falou de você muito gentilmente ao Lord Mauleverer, que jantou com ele uma noite em que eu estava lá, e quando meu tio foi tão gentil a ponto de me levar ao teatro. Depois fiquei muito triste por ele ter sido tão bondoso, pois perdeu (você se lembra que lhe contei a história) um relógio muito valioso.
— Sim, sim, lembro-me de tudo isso, e assim (quão longa a amizade dura com algumas pessoas!) Lord Mauleverer jantou com William! Que coisa fina é para um homem (é algo que nunca fiz, de fato; gosto de ser o que chamam de 'Galo da Capoeira' — deixe-me ver, agora que penso nisso, Pillum vem esta noite para jogar uma partida de gamão) fazer amigos com um grande homem cedo na (embora Will não tenha feito isso muito cedo, pobre rapaz! Ele lutou primeiro com uma grande quantidade de tristeza — dificuldades, isto é) vida! Já se passaram muitos anos desde que Will tem estado íntimo do meu (é um pouco de um filhote) Lord Mauleverer. O que você achou de sua senhoria?
— De Lord Mauleverer? Na verdade, mal o observei; mas ele parecia um homem bonito e era muito educado. A Sra. Warner disse que ele tinha sido uma pessoa muito perversa quando jovem, mas parece bom o suficiente agora, Papai.
— A propósito — disse o escudeiro —, sua senhoria acaba de ser nomeado (este novo ministério parece muito diferente do antigo, o que me confunde um pouco; pois acho que é meu dever, está vendo, Lucy, sempre votar no governo de Sua Majestade, especialmente vendo que o velho Hugo Brandon teve parte na detecção da conspiração da pólvora; e é um pouco estranho — pelo menos, à primeira vista — pensar que é bom agora o que sempre antes se pensou ser abominável) Lorde Tenente do condado.
— Lord Mauleverer nosso Lorde Tenente?
— Sim, criança; e como sua senhoria é um tal amigo do meu irmão, eu deveria pensar, considerando especialmente que somos uma família tão antiga no condado — não que eu queira me intrometer onde não sou considerado tão fino quanto os demais —, que ele seria mais atencioso conosco do que o Lorde -------- foi; mas isso, minha querida Lucy, faz-me lembrar de Pillum; e assim, talvez você queira caminhar até a casa do pároco, já que é uma noite bonita. John virá buscá-la às nove horas com (a lua não estará alta então) a lanterna.
Apoiando-se no braço solícito da filha, o bom velho homem então levantou-se e caminhou para casa; e assim que ela girou sua poltrona, colocou o tabuleiro de gamão sobre a mesa e desejou ao velho cavalheiro uma vitória fácil sobre seu esperado antagonista, o boticário, Lucy amarrou sua touca e tomou seu caminho para a reitoria.
Quando ela chegou à mansão clerical e entrou na sala de estar, ficou surpresa ao encontrar a esposa do pároco, uma senhora idosa, boa, simples e letárgica, correr até ela, aparentemente num estado de grande agitação nervosa e chorando:
— Oh, minha querida Srta. Brandon! Por qual caminho você veio? Você não encontrou ninguém na estrada? Oh, estou tão assustada! Tal acidente com o pobre e querido Dr. Slopperton! Parado na estrada real, roubado de algum dinheiro de dízimo que ele acabara de receber do Fazendeiro Slowforth! Se não fosse por aquele anjo querido, bom jovem, só Deus sabe se eu poderia não ter sido uma viúva inconsolável a esta altura!
Enquanto a afetuosa matrona falava assim, o olhar de Lucy, percorrendo a sala, descobriu numa poltrona a figura redonda e oleosa do Dr. Slopperton, com um semblante do qual todos os tons de cravo, exceto em uma excrescência circular no membro nasal, que permanecia, como a última rosa do verão, florescendo sozinha, desbotaram-se para um aspecto de palidez miserável. O homenzinho tentou conjurar um sorriso enquanto sua esposa narrava sua desventura, e balbuciar alguma sílaba de indiferença; mas ele parecia, apesar de toda a sua bravata, tão excessivamente assustado que Lucy, apesar de si mesma, teria rido abertamente, não tivesse seu olhar pousado sobre a figura de um jovem que estivera sentado ao lado do reverendo cavalheiro, mas que se levantara à entrada de Lucy, e que agora permanecia olhando para ela intensamente, mas com um ar de grande respeito. Corando profundamente e involuntariamente, ela desviou os olhos apressadamente e, aproximando-se do bom doutor, fez suas perguntas sobre o estado atual de seus nervos, num tom mais grave do que, um minuto antes, imaginara ser possível que ela fosse capaz de comandar.
— Ah! minha boa jovem — disse o doutor, apertando sua mão —, eu — posso, posso dizer a igreja — pois não sou eu seu ministro? — estava em perigo iminente — mas este excelente cavalheiro impediu o sacrilégio, pelo menos em grande medida. Só perdi algumas das minhas taxas — minhas taxas legítimas —, pelas quais me consolo pensando que o infame e abandonado vilão sofrerá no futuro.
— Não pode haver a menor dúvida disso — disse o jovem. — Se ele tivesse apenas roubado a carruagem do correio, ou arrombado a casa de um cavalheiro, a ofensa poderia ser expiável; mas roubar um clérigo, e um reitor também! — Oh, o cão sacrílego!
— Seu fervor lhe honra, senhor — disse o doutor, começando agora a recuperar-se; — e estou muito orgulhoso de ter feito o conhecimento de um cavalheiro de opiniões tão verdadeiramente religiosas.
— Ah! — exclamou o estranho —, meu defeito, senhor — se assim posso dizer — é uma espécie de fervor entusiasta pela Estabelecimento Protestante. Aliás, senhor, nunca passo pela própria nave da igreja sem sentir uma emoção indescritível — uma espécie de simpatia, por assim dizer — com — com — você me entende, senhor — receio expressar-me mal.
— De modo algum, de modo algum! — exclamou o doutor: — tais sentimentos são incomuns em alguém tão jovem.
— Senhor, aprendi-os cedo na vida com um amigo e preceptor meu, o Sr. MacGrawler, e confio que possam continuar comigo até o dia da minha morte.
Aqui o criado do doutor entrou com (pedimos emprestada uma frase do romance de ----------) "o serviço de chá"; e a Sra. Slopperton, dedicando-se à sua superintendência, perguntou com mais compostura do que até então pertencera ao seu comportamento, que tipo de criatura era o rufião.
— Vou lhe contar, minha querida, vou lhe contar, Srta. Lucy, tudo sobre isso. Eu estava caminhando para casa vindo do Sr. Slowforth, com seu dinheiro no bolso, pensando, meu amor, em comprar-lhe aquela cruz de topázio que você desejava ter.
— Querido, bom homem! — gritou a Sra. Slopperton; — que demônio deve ter sido para roubar uma criatura tão excelente!
— E — retomou o doutor —, também me ocorreu que o Madeira estava quase no fim — o Madeira, quero dizer, com o selo vermelho; e eu estava pensando que não seria má ideia dedicar parte do dinheiro para comprar mais seis dúzias; e o restante, meu amor, que seria cerca de uma libra e dezoito xelins, pensei em dividir — "pois aquele que dá aos pobres empresta ao Senhor!" — entre as trinta famílias pobres no campo comum; isto é, se eles se comportassem bem, e as maçãs no jardim dos fundos não fossem feloniosamente subtraídas!
— Excelente, caridoso homem! — exclamou a Sra. Slopperton. — Enquanto eu meditava assim, levantei meus olhos e vi diante de mim dois homens — um de altura prodigiosa, e com uma grande profusão de cabelo ao redor dos ombros; o outro era menor, e usava seu chapéu caído sobre o rosto: era um chapéu muito grande. Minha atenção foi atraída pela singularidade do cabelo da pessoa alta, e enquanto eu sorria com sua exuberância, ouvi-o dizer ao seu companheiro: "Bem, Augustus, já que você é um cão tão moral, ele é da sua linha, não da minha; então deixo-o para você." Pouco pensei que aquelas palavras se referiam a mim. Mal foram proferidas, o canalha alto saltou sobre um portão e desapareceu; o outro sujeito, então marchando até mim, muito suavemente perguntou-me o caminho para a igreja, e enquanto eu explicava a ele para virar primeiro à direita e depois à esquerda, e assim por diante — pois o melhor caminho é, você sabe, excessivamente tortuoso —, o canalha hipócrita agarrou-me pelo colarinho e gritou: "Seu dinheiro ou sua vida!" Garanto-lhe que nunca tremi tanto — não, minha querida Srta. Lucy, tanto por minha própria causa, quanto por causa das trinta famílias pobres no campo comum, cujas necessidades era minha intenção aliviar. Entreguei o dinheiro, achando que minhas orações e expostulações eram em vão; e o cão então, brandindo sobre minha cabeça um enorme porrete, disse — que linguagem abominável! — "Acho, doutor, que vou acabar com uma existência depreciativa para si mesmo e inútil para os outros." Naquele momento o jovem cavalheiro ao meu lado saltou sobre o próprio portão pelo qual o rufião alto desaparecera, e gritou: "Detenha-se, vilão!" Ao ver meu libertador, o covarde recuou e mergulhou num bosque vizinho. O bom jovem cavalheiro perseguiu-o por alguns minutos, mas depois retornando em meu auxílio, conduziu-me para casa; e como costumávamos dizer na escola:
— "Te rediisse incolumem gaudeo," —
o que, sendo interpretado, significa (senhor, desculpe um trocadilho, tenho certeza de que um tão grande amigo da Igreja entende latim) que estou muito feliz por voltar em segurança para o meu chá. He! he! E agora, Srta. Lucy, você deve agradecer àquele jovem cavalheiro por ter salvo a vida de seu professor pastoral, cujo ato sem dúvida será lembrado no Grande Dia!
Enquanto Lucy, olhando para o estranho, dizia algo em elogio, ela observou um sorriso vago e, por assim dizer, dissimulado em seu semblante, que imediatamente e como que por simpatia conjurou um para o seu próprio. O herói da aventura, no entanto, num tom muito grave, respondeu ao seu cumprimento, ao mesmo tempo curvando-se profundamente:
— Não mencione isso, senhora! Eu seria indigno do nome de um britânico e de um homem, se pudesse passar pela estrada real sem aliviar o sofrimento ou aliviar o fardo de um semelhante. E — continuou o estranho, após uma breve pausa, corando enquanto falava, e concluindo na galanteria empolada do dia —, penso que seria recompensa suficiente, tivesse eu salvo a igreja inteira em vez de um de seus membros mais valiosos, receber os agradecimentos de uma dama a quem eu poderia razoavelmente tomar por um daqueles seres celestiais a quem fomos piedosamente ensinados que a Igreja é especialmente o cuidado!
Embora pudesse ter havido algo realmente ridículo neste elogio exagerado, aliado como estava à preservação do Dr. Slopperton, no entanto, vindo da boca daquele que Lucy pensava ser a pessoa mais bonita que ela já vira, parecia-lhe tudo menos absurdo; e por muito tempo depois, seu coração vibrou de prazer quando ela se lembrou de que a bochecha do orador brilhara, e sua voz tremera enquanto ele o dizia.
A conversa agora, desviando-se dos ladrões em particular, girou sobre roubos em geral. Era edificante ouvir a honesta indignação com que o estranho falava dos depredadores sem lei com os quais o país, naquele dia de Macheaths, estava infestado.
— Um bando de canalhas infames! — disse ele, num brilho, — que tentam justificar seus feitos pelo exemplo de homens honestos, e que dizem que não fazem mais do que é feito por advogados e médicos, soldados, clérigos e ministros de Estado. Pífia ilusão, ou melhor, hipocrisia desavergonhada!
— Tudo vem de educar os pobres — disse o doutor. — No momento em que pretendem julgar a conduta de seus superiores, há um fim para toda a ordem! Eles não veem nada de sagrado nas leis, embora enforquemos os cães o mais rápido possível; e os próprios pares da terra, espirituais e temporais, deixam de ser veneráveis aos seus olhos.
— Falando em pares — disse a Sra. Slopperton, — ouço que Lord Mauleverer deve passar por esta estrada esta noite a caminho de Mauleverer Park. Você conhece sua senhoria, Srta. Lucy? Ele é muito íntimo de seu tio.
— Só o vi uma vez — respondeu Lucy.
— Você tem certeza de que sua senhoria virá por esta estrada? — perguntou o estranho, casualmente. — Ouvi algo sobre isso esta manhã, mas não sabia que estava decidido.
— Oh, certamente! — respondeu a Sra. Slopperton. — O cavalheiro de sua senhoria escreveu pedindo cavalos de postagem para encontrar sua senhoria em Wyburn, cerca de três milhas do outro lado da aldeia, às dez horas desta noite. Sua senhoria é muito impaciente com atrasos.
— Por favor — disse o doutor, que não tinha dado muita atenção a esta mudança na conversa, e estava agora "em cuidados hospitaleiros", — por favor, senhor, se não for impertinente, o senhor está visitando ou hospedando-se na vizinhança; ou tomará uma cama conosco?
— O senhor é extremamente gentil, meu caro senhor, mas temo que deva desejar-lhe boa noite em breve. Tenho que cuidar de uma pequena propriedade que tenho a algumas milhas daqui, a qual, de fato, trouxe-me a esta parte do mundo.
— Propriedade! — em que direção, senhor, se me permite perguntar? — disse o doutor; — conheço o país por milhas.
— O senhor conhece, de fato? Onde fica minha propriedade, o senhor diz? Ora, é bastante difícil descrevê-la, e é, afinal, uma mera ninharia; é apenas alguma terra comunal perto da estrada principal, e vim para tentar a experiência de cercar e drenar.
— É um bom plano, se alguém tem capital, e não requer um retorno rápido.
— Sim; mas alguém gosta de um bom interesse pela perda do principal, e um retorno rápido é sempre desejável — embora, ai! seja frequentemente acompanhado de risco!
— Espero, senhor — disse o doutor —, se o senhor deve nos deixar tão cedo, que sua propriedade o traga frequentemente à nossa vizinhança.
— O senhor me domina com tanta bondade inesperada — respondeu o estranho. — Para lhe dizer a verdade, nada pode me dar maior prazer do que encontrar novamente aqueles que uma vez me obrigaram.
— A quem você obrigou, melhor dizendo! — gritou a Sra. Slopperton; e então acrescentou, num sussurro alto para Lucy, — Que modesto! mas é sempre assim com a verdadeira coragem!
— Garanto-lhe, senhora — retrucou o benevolente estranho —, que nunca penso duas vezes nos pequenos favores que presto aos meus semelhantes; minha única esperança é que eles possam ser tão esquecidos quanto eu.
Encantados com tanta bondade de disposição não afetada, o doutor e a Sra. Slopperton agora iniciaram uma espécie de dueto em louvor ao seu convidado: após suportarem suas recomendações e cumprimentos por alguns minutos com muita careta de desaprovação e diffidência, a modéstia do estranho pareceu finalmente sofrer com o excesso de sua gratidão; e consequentemente, apontando para o relógio, que estava a poucos minutos das nove, ele disse:
— Temo, meu respeitado anfitrião e minha admirada anfitriã, que devo agora deixá-los; tenho um longo caminho a percorrer.
— Mas o senhor não tem medo dos salteadores de estrada? — gritou a Sra. Slopperton, interrompendo-o.
— Os salteadores de estrada! — disse o estranho, sorrindo; — não; não os temo; além disso, tenho pouco comigo que valha a pena roubar.
— O senhor mesmo supervisiona sua propriedade? — disse o doutor, que cultivava sua própria gleba e que, não querendo se separar de um convidado tão encantador, agarrou-o agora pelo botão.
— Supervisionar eu mesmo! ora, não exatamente. Há um administrador, cujas visões das coisas não concordam com as minhas, e que de vez em quando me dá uma boa quantidade de trabalho.
— Então por que o senhor não o demite completamente?
— Ah! eu gostaria de poder; mas é um mal necessário. Nós, proprietários de terras, meu caro senhor, devemos sempre ser atormentados com algo do gênero. Da minha parte, descobri que esses malditos administradores levariam embora, se pudessem, toda a pequena propriedade que se tentou acumular. Mas — mudando abruptamente seu jeito para um de grande suavidade —, não poderia eu oferecer meus serviços e minha companhia a esta jovem dama? Ela me permitiria conduzi-la para casa, e de fato marcar este dia em minha memória como um dos poucos dias encantadores que já conheci?
— Obrigado, querido senhor — disse a Sra. Slopperton, respondendo de uma vez por Lucy; — é muito atencioso de sua parte. — E tenho certeza, meu amor, que eu não poderia pensar em deixá-la ir para casa sozinha com o velho John, depois de tal aventura com o pobre e querido doutor.
Lucy começou uma desculpa que a boa senhora não quis ouvir. Mas como o criado que o Sr. Brandon deveria enviar com uma lanterna para acompanhar sua filha até casa não havia chegado, e como a Sra. Slopperton, apesar de suas predisposições a favor do salvador de seu marido, não cogitou por um momento sequer deixá-lo acompanhar, sem qualquer outro acompanhante, sua jovem amiga através dos campos àquela hora imprópria, o estranho foi forçado, por ora, a retomar seu assento. Um cravo aberto em uma das extremidades da sala deu-lhe a oportunidade de fazer algumas observações sobre música; e isso, introduzindo um elogio de Sra. Slopperton à voz de Lucy, resultou necessariamente em um pedido à Srta. Brandon para que agradasse o estranho com uma canção. Nunca Lucy, que não era uma moça tímida — era inocente demais para ser acanhada —, sentira-se nervosa até então ao cantar diante de um estranho; mas agora ela hesitou, gaguejou e passou por toda uma série de pequenas afetações naturais antes de atender ao pedido. Ela escolheu uma canção composta um tanto ao estilo da velha escola inglesa, que naquela época estava voltando à moda. A canção, embora carregasse uma espécie de presunção, talvez não fosse de todo desprovida de ternura; era uma das favoritas de Lucy, ela mal sabia por que, e dizia assim:
A CANÇÃO DE LUCY.
Por que dormis, ó flores gentis, ah, por quê, Quando a terna tarde cai, E a luz das estrelas bebe o suspiro feliz Dos ventos que às fadas chamam? Chamam com nota baixa e plangente, Muito semelhante a uma rola a queixar-se, Ou flauta fracamente ouvida de barco distante Sobre águas suaves a deslizar. Eis que, em torno de vós, rouba-se a brisa sedutora; Eis que, sobre vós, cai o orvalho! Ó doçuras, despertai, pois dificilmente estas Podem encantar enquanto vos faltam! Não despertais ainda, enquanto abaixo veloz O tempo prateado foge? Ó coração meu, essas flores apenas mostram Teu próprio ser contente. O crepúsculo apenas preserva o florescer, O sol só pode causar o declínio; O calor que traz o rico perfume Apenas rouba a vida embora. Ó coração, desfruta tua calma presente, Descansa em paz na sombra, E teme o sol que dá o bálsamo Para fazer a flor murchar.
Quando Lucy terminou, o louvor do estranho foi menos estrondoso do que o do médico ou de sua esposa; mas quão mais doce foi! E, pela primeira vez em sua vida, Lucy fez a descoberta de que os olhos podem elogiar tão bem quanto os lábios. De nossa parte, muitas vezes pensamos que essa descoberta é uma época na vida.
Foi então que a Sra. Slopperton declarou sua total convicção de que o próprio estranho sabia cantar. Ele tinha algo nele, disse ela, que a deixava certa disso.
— Na verdade, cara senhora — disse ele, com seu sorriso usual indefinível, meio franco, meio latente —, minha voz é apenas razoável, e minha memória tão indiferente que, mesmo nas passagens mais fáceis, logo chego a um impasse. Minhas melhores notas estão no falsete; e quanto à minha execução... Mas não falaremos disso.
— Ora, ora; o senhor é tão modesto — disse a Sra. Slopperton. — Tenho certeza de que poderia nos obrigar se quisesse.
— Sua ordem — disse o estranho, movendo-se para o cravo — é mais que suficiente; e já que a senhora — voltando-se para Lucy — escolheu uma canção da velha escola, posso encontrar perdão se eu fizer o mesmo? Minha seleção é, com certeza, de um cancioneiro fora da lei, e supõe-se ser uma balada de Robin Hood, ou pelo menos de um de seus homens alegres... um tipo muito diferente de fora da lei dos velhacos que a atacaram, senhor!
Com este prefácio, o estranho cantou, com um ar selvagem, porém jovial, e uma voz tolerável, a seguinte efusão:
O AMOR PELA NOSSA PROFISSÃO; OU A VIDA DO LADRÃO.
No fluxo do mundo, a vida do ladrão É levada na onda mais alegre; Agora salta para a luz em uma disputa prazerosa, Agora ri em sua caverna escondida.
Na treliça de sua donzela ele detém as rédeas; Quão quieto está seu orgulhoso corcel (Mas quieto como um vento quando paira sobre o oceano No peito da nuvem agourenta),
Com o freio mastigado e a crista arqueada, E o olhar de um cervo atento, Como o valor, inquieto quando em repouso, Menos irritado quando em carreira.
Escravo digno para um senhor que todos os outros recusam Salvar em sua necessidade desesperada; Por minha fé! Acho que alguém que o mundo persegue Tem direito a um corcel galante.
"Para longe, meu amor, ouço seus pés! Soprei-te um beijo, minha bela, E prometo trazer-te, quando nos encontrarmos, Uma fita para teu lindo cabelo.
Viva! Pelo espólio! — meu corcel, viva! Por entre arbustos, por entre moitas, vamos nós; E a lua tímida sorri em nosso caminho alegre, Como meu próprio amor... timidamente."
O pastor cavalga com uma bolsa tilintante, Como ela tagarela sobre os pobres saqueados! O cortesão descansa em sua carruagem dourada, — Como ela cheira a uma sinecura!
O advogado gira em sua carruagem veloz Doces pensamentos de um mal feito; E a dama que conhece a carta que joga Está contando seus guinéus ganhos!
"Ei, senhora! — O que, holá, vós homens sem pecado! Minha reivindicação dificilmente podeis recusar; Pois quando gente honesta vive dos vizinhos, então Eles invadem as dívidas do ladrão!"
A dama mudou de cor como uma donzela tímida, O advogado falou maravilhosamente bem, O pastor blasfemou e o cortesão rezou, E o ladrão levou sua parte.
"Viva! Pela farra! meu corcel, viva! Por entre arbustos, por entre moitas, vamos nós! É sempre uma virtude, quando os outros pagam,
Arrasar alegremente!"
Oh, nunca houve vida como a do ladrão, — tão alegre e ousada e livre! E seu fim... bem, um brado da multidão abaixo, E um salto de uma árvore sem folhas!
Terminada esta canção moral, a Sra. Slopperton declarou que era excelente; embora confessasse que achava os sentimentos um pouco soltos. Talvez o cavalheiro pudesse ser induzido a presenteá-los com uma canção de tom mais refinado e moderno... algo sentimental, em suma. Olhando para Lucy, o estranho respondeu que só conhecia uma canção do tipo que a Sra. Slopperton especificou, e era tão curta que ele dificilmente cansaria sua paciência ao atender ao pedido.
Nesse momento, o rio, que era facilmente avistado das janelas da sala, cintilava sob a luz das estrelas; e, dirigindo seus olhares para a água, como se a cena lhe tivesse sugerido os versos que cantava, ele entoou as seguintes estrofes em um tom muito baixo e doce, e com um gosto bem mais puro do que, talvez, teria se adequado à canção anterior e mais rude.
O DESEJO.
Como dorme a Véspera sonhadora abaixo, Sua estrela mais sagrada guarda vigília acima, E aquela onda começa a brilhar, Como a amizade que se torna Amor!
Ah, quem dera teu seio fosse aquele riacho, Nunca cortejado senão pelo ar virgem! — Ah, quem dera eu fosse aquela estrela, cujo raio Olha para baixo e encontra sua imagem lá!
Mal terminara a canção, a chegada do criado da Srta. Brandon foi anunciada; e seu escolta designado, levantando-se, galantemente ajudou-a com sua capa e seu capuz... feliz, sem dúvida, por escapar em certa medida dos cumprimentos avassaladores de seus anfitriões.
— Mas — disse o médico, enquanto apertava a mão de seu salvador —, por que nome deverei lembrar e — erguendo seus olhos reverentes — rezar pelo cavalheiro a quem tanto devo?
— O senhor é muito gentil — disse o estranho; — meu nome é Clifford. Senhora — voltando-se para Lucy —, posso oferecer meu braço para descer as escadas?
Lucy aceitou a cortesia; e o estranho estava na metade da escada quando o médico, esticando seu pequeno pescoço, exclamou:
— Boa noite, senhor! Espero realmente que nos encontremos novamente.
— Não tema! — disse o Sr. Clifford, rindo alegremente; — sou um viajante grande demais para fazer dessa esperança uma impossibilidade. Cuidado, senhora... mais um degrau.
A noite estava calma e toleravelmente clara, embora a lua ainda não tivesse nascido, enquanto Lucy e seu companheiro passavam pelos campos, com o criado precedendo-os a uma curta distância com a lanterna.
Após uma pausa de certa duração, Clifford disse, com um pouco de hesitação:
— A Srta. Brandon é parente do célebre advogado de seu nome?
— Ele é meu tio — disse Lucy; — o senhor o conhece?
— Apenas seu tio? — disse Clifford, com vivacidade, e esquivando-se da pergunta de Lucy. — Tive medo... hem! hem!... isto é, pensei que ele pudesse ser um parente mais próximo. — Houve outra, porém mais curta pausa, quando Clifford retomou, em voz baixa: — A Srta. Brandon me achará muito presunçoso se eu disser que um semblante como o dela, uma vez visto, nunca pode ser esquecido; e creio que, há alguns anos, tive a honra de vê-la em Londres, no teatro? Foi apenas um olhar momentâneo e distante que pude obter; e, contudo — acrescentou ele significativamente —, foi o suficiente!
— Estive apenas uma vez no teatro enquanto estava em Londres, há alguns anos — disse Lucy, um pouco embaraçada; — e, na verdade, um ocorrido desagradável que aconteceu ao meu tio, com quem eu estava, é suficiente para me fazer lembrar disso.
— Há! E o que foi?
— Ora, ao sair do teatro, seu relógio foi roubado por algum punguista destemido.
— O velhaco foi pego? — perguntou o estranho.
— Sim; e foi enviado no dia seguinte para Bridewell. Meu tio disse que ele era extremamente jovem e, ainda assim, bastante endurecido. Lembro-me de que fui tola o suficiente, quando ouvi sobre sua sentença, para pedir encarecidamente que meu tio intercedesse por ele; mas em vão.
— Você realmente intercedeu por ele? — disse o estranho, em um tom tão sincero que Lucy corou pela vigésima vez naquela noite, sem ver qualquer necessidade para o rubor. Clifford continuou, em um tom mais alegre: — Bem, é surpreendente como os velhacos se mantêm unidos. Eu não ficaria muito surpreso se a pessoa que despojou seu tio fosse uma da mesma gangue que o canalha que tanto aterrorizou seu digno amigo, o doutor. Mas este belo lugar antigo é sua casa?
— Esta é minha casa — respondeu Lucy; — mas é um lugar estranho e antiquado; e poucas pessoas, a quem não fosse querido por associações, o achariam belo.
— Perdoe-me! — disse o companheiro de Lucy, parando e observando com um olhar de grande interesse a construção peculiar que agora se erguia bem diante deles; seus tijolos escuros, empenas e paredes cobertas de hera, tingidos pela luz estelar dos céus, e contrastados pelo rio, que corria em silêncio abaixo. As venezianas da grande janela em arco da sala em que o escudeiro geralmente se sentava ainda estavam abertas, e a luz constante e quente do aposento brilhava, lançando um brilho até mesmo nas águas tranquilas do rio; ao mesmo tempo, também, o latido amigável do cão de guarda foi ouvido, como que em boas-vindas; e foi seguido pela nota do grande sino, anunciando a hora da última refeição da família antiquada e hospitaleira.
— Há um prazer nisto — disse o estranho, inconscientemente, e com um meio suspiro; — eu gostaria de ter um lar!
— E o senhor não tem um lar? — disse Lucy, com ingenuidade.
— Tanto quanto um solteiro pode ter, talvez — respondeu Clifford, recuperando sem esforço sua alegria e autodomínio. — Mas a senhora sabe que nós, andarilhos, não temos o mesmo direito de nos gabar que os mais afortunados Beneditos; enviamos nossos corações em busca de um lar, e perdemos um sem ganhar o outro. Mas estou mantendo-a no frio, e agora estamos à sua porta.
— O senhor entrará, é claro! — disse a Srta. Brandon, — e participará de nossa ceia noturna.
O estranho hesitou por um instante e, então, disse em um tom rápido:
— Não! Muitos, muitos agradecimentos; já está tarde. A Srta. Brandon aceitaria minha gratidão por sua condescendência em permitir a presença de alguém desconhecido para ela? — Enquanto falava, Clifford curvou-se profundamente sobre a mão de sua bela protegida; e Lucy, desejando-lhe boa noite, apressou-se com um passo leve para o lado de seu pai.
Enquanto isso, Clifford, após permanecer um minuto quando a porta se fechou para ele, virou-se abruptamente; e murmurando para si mesmo, dirigiu-se com passos rápidos para qualquer objetivo que tivesse em mente.
CAPÍTULO XII.
Despertai então, Meus alegres, alegres homens! — JOANNA BAILLIE.
Quando a lua surgiu naquela noite, havia um local sobre o qual ela brilhava palidamente, a cerca de dez milhas de distância de Warlock, pelo qual o viajante avisado não estaria ansioso para passar, mas que poderia não ter oferecido um mau estudo para artistas que captaram, do pintor selvagem dos Apeninos, um amor pelo selvagem e pelo aventureiro. Árvores escuras, espalhadas por toda parte sobre um gramado quebrado, porém verdejante, formavam o cenário; a lua cintilava através dos galhos enquanto ela saía lentamente de seu pavilhão de nuvens, e derramava um raio mais amplo sobre duas figuras que acabavam de avançar para além das árvores. Trazido mais claramente à luz por seus raios do que seu companheiro, aqui um cavaleiro, vestido com uma capa curta que mal cobria a garupa de seu corcel, verificava a escorva de uma grande pistola que acabara de tirar de seu coldre. Um chapéu de abas caídas e uma máscara de crepe preto conspiravam com a ação para lançar uma suspeita natural sobre as intenções do cavaleiro. Seu cavalo, um belo cinza escuro, permanecia imóvel, com o pescoço arqueado e as orelhas curtas movendo-se rapidamente para frente e para trás, demonstrativo daquela atenção sagaz e antecipatória que caracteriza o mais nobre de todos os animais domesticados; não se teria percebido a impaciência do corcel, não fosse pela espuma branca que se acumulava ao redor do freio e por um ocasional e infrequente movimento da cabeça. Atrás deste cavaleiro, e parcialmente lançado na sombra escura das árvores, outro homem, vestido de forma semelhante, estava ocupado em apertar as cilhas de um cavalo de grande força e tamanho. Enquanto o fazia, ele cantarolava, com um murmúrio não sem musicalidade, a melodia de uma canção de bebedeira popular.
— Por todos os diabos, Ned! — disse seu camarada, que por algum tempo esteve mergulhado em um devaneio silencioso — Por todos os diabos! Por que você não consegue sufocar seu amor pelas belas artes em um momento como este? Esse seu zumbido fica mais alto a cada momento; no final, espero que ele se transforme em um rugido completo. Lembre-se de que não estamos no Gentleman George's agora!
— Tanto pior, Augustus — respondeu Ned. — Soho, Little John; woaho, senhor! Uma bela noite longa como esta é feita propositalmente para beber. Quer, senhor? Fique parado então!
— O homem nunca é, mas sempre está para ser abençoado — disse o moralista Tomlinson; — veja só, você suspira por outros cenários mesmo quando tem uma noite linda e a chance de uma bênção divina diante de você.
— Sim, a noite é boa o suficiente — disse Ned, que era um tanto rabugento, enquanto, tendo terminado sua operação de cavalariço, montava lentamente. — Diabos, Oliver! [A lua] olha para fora tão abertamente como se fosse contar o segredo. Pela minha parte, adoro uma noite escura, com uma estrela aqui e ali piscando para nós, como que dizendo: "Eu vejo vocês, meus rapazes, mas não direi uma palavra sobre isso", e uma chuva fina, que impede que os cascos de Little John sejam ouvidos e cobre a retirada, por assim dizer. Além disso, quando se está um pouco molhado, é sempre necessário beber mais, para manter o frio longe do estômago quando se chega em casa.
— Ou, em outras palavras — disse Augustus, que adorava uma máxima com todo o seu coração —, o molhado leve nutre o molhado pesado!
— Bom! — disse Ned, bocejando. — Maldito seja, eu queria que o capitão viesse. Sabe que horas são? Não muito longe das onze, suponho?
— Por aí! Psiu, é uma carruagem? Não, é apenas um aumento súbito no vento.
— Muito presunçoso da parte do Sr. Vento permitir-se ser levantado sem a nossa ajuda! — disse Ned; — a propósito, é claro que voltaremos para a Gruta Vermelha?
— Assim diz o Capitão Lovett. Diga-me, Ned, o que você acha do novo inquilino que Lovett colocou na caverna?
— Oh, tenho estranhas dúvidas ali — respondeu Ned, sacudindo as honras peludas de sua cabeça. — Não gosto nem um pouco disso; considere que a caverna é nossa fortaleza e só deveria ser conhecida...
— Por homens de virtude comprovada — interrompeu Tomlinson. — Concordo com você; devo tentar fazer com que Lovett dispense seu singular protegido, como dizem os franceses.
— Pelos céus, Augustus, como você adquiriu tanto conhecimento? Você sabe todos os poetas de cor, para não mencionar o latim e o francês.
— Oh, diabos, fui criado, como o capitão, para uma vida literária.
— É isso que te torna tão próximo dele, suponho. Ele escreve (e canta também) uma canção tolerável e é, certamente, um sujeito muito inteligente. Que ascensão na vida ele fez! Você se lembra de como ele estava em uma situação ruim quando você o apresentou no Gentleman George's? E agora ele é o Capitão Crank da gangue.
— Gangue! A companhia, você quer dizer. Gangue, de fato! Alguém pensaria que você está falando de um bando de punguistas. Sim, Lovett é um sujeito inteligente; e, graças a mim, um filósofo muito decente! — É impossível transmitir ao nosso leitor o ar grave de importância com que Tomlinson fez seu elogio final. — Sim — disse ele, após uma pausa —, ele tem uma maneira ousada e simples de ver as coisas e, como Voltaire, torna-se um filósofo por ser um Homem de Senso! Psiu! Veja as orelhas do meu cavalo! Alguém está vindo, embora eu não o ouça! Fique de guarda!
Os ladrões silenciaram; o som de cascos distantes foi ouvido indistintamente e, à medida que se aproximava, houve um estalo de galhos, como se tivessem atravessado uma sebe. Logo a lua brilhou pitorescamente sobre a figura de um cavaleiro, aproximando-se através do bosque na retaguarda dos ladrões.
Agora ele era visto pela metade entre as sinuosidades de seu caminho na floresta; agora à vista, agora totalmente escondido; então seu cavalo relinchou impacientemente; agora ele aparecia novamente, e em mais um momento ele havia se juntado à dupla! O recém-chegado era de compleição alta e nervosa, e no primeiro florescer da masculinidade. Uma casaca verde-escura, debruada com uma estreita renda de prata e abotoada da garganta até o meio, dava o devido efeito a um porte ereto, um peito largo e uma cintura esguia, porém arredondada, que não precisava da compressão do alfaiate. Uma capa de montaria curta, presa na garganta com uma fivela de prata, pendia pitorescamente sobre um ombro, enquanto seus membros inferiores estavam revestidos em botas militares que, embora subissem acima do joelho, não eram evidentemente nem pesadas nem embaraçosas para os nervos vigorosos do cavaleiro. O arreio do corcel... o freio, a rédea, a sela, o coldre... estavam de acordo com a moda mais aprovada da época; e o próprio corcel estava em excelente condição e de beleza notável. O ar do cavaleiro era ereto e ousado; um pequeno, porém preto como carvão, bigode realçava a expressão resoluta de seu lábio curto e curvo; e por baixo do chapéu grande que pendia sobre sua testa, seus longos cabelos escapavam e ondulavam sombriamente no ar frio da noite. Ao todo, cavaleiro e cavalo exibiam uma aparência galante e até cavalheiresca, que a hora e o cenário realçavam para um efeito dramático e romântico.
— Ha! Lovett.
— Como estão, meus alegres homens? — foram as saudações trocadas.
— Alguma novidade? — disse Ned.
— Boas notícias! Fiquem atentos. Meu senhor e sua carruagem passarão por aqui em dez minutos, no máximo.
— Você conseguiu algo mais do pastor que assustei tão gloriosamente? — perguntou Augustus.
— Não; mais sobre isso depois. Agora, por nossa nova presa.
— Você tem certeza de que nosso nobre amigo estará tão logo à mão? — disse Tomlinson, acariciando seu corcel, que agora cavava o chão em alegria excitada.
— Certo! Eu o vi trocar de cavalos; eu estava no pátio do estábulo na hora. Ele saiu por meia hora, para comer, suponho. Tenha certeza de que eu lhe preguei uma peça enquanto isso.
— Para quê? — perguntou Ned.
— Para mim e para o servo.
— Os postilhões?
— Sim, esqueci deles. Não importa, vocês devem assustá-los.
— Avante! — gritou Ned; e seu cavalo saltou de seu calcanhar armado.
— Um momento — disse Lovett; — devo colocar minha máscara. Soho, Robin, soho! Agora é a vez... avante!
À medida que as árvores desapareciam rapidamente atrás deles, os cavaleiros entraram, a um galope curto, em uma vasta extensão de terra baldia intercalada com valas e, ocasionalmente, cercas de obstáculos, sobre as quais seus cavalos saltavam como quadrúpedes bem acostumados a tais proezas.
Certamente naquele momento, entre o ar fresco, o luar intermitente que ora irrompia intensamente, ora perdia-se em uma nuvem errante, o exercício estimulante e aquela agitação vivaz e dançante no sangue que toda ação, seja ela má ou nobre por natureza, desperta em nossas veias; entre tudo isso, não podemos deixar de admitir o fascínio daquela vida sem lei — um fascínio tão grande que um dos mais notáveis cavalheiros salteadores da época, alguém que também recebera uma educação excelente e convivera em sociedade nada inferior, teria dito, quando a corda estava prestes a ser colocada em seu pescoço e o bom clérigo o exortava a arrepender-se de sua vida mal empregada: "Mal empregada, seu cão! Ora!" (estalando os lábios) "foi deliciosa!"
"Fie! Fie! Sr. -------, eleve seus pensamentos ao Céu!"
"Mas um galope pelo campo — oh!" murmurou o criminoso; e sua alma galopou para a eternidade.
Tão vivamente saltou o coração do líder dos três que, ao avistarem a estrada principal e a roda distante de uma carruagem soar aos ouvidos, ele ergueu a mão direita com um gesto alegre e irrompeu em uma exclamação juvenil de hilaridade e deleite.
"Quieto, capitão!" disse Ned, contendo seu próprio ânimo com um ar fingido de gravidade, "comportemo-nos como cavalheiros; são apenas os tipos vis que se deixam levar por estados de espírito tão terrivelmente eufóricos; homens de mundo como nós deveriam fazer tudo como se estivessem com o coração partido."
"A melancolia sempre se associa à Sublimidade, e a Coragem é sublime", disse Augustus, com a pompa de um criador de máximas.
[Uma máxima que teria agradado a Madame de Staël, que pensava que a filosofia consistia em belos sentimentos. Na “Vida de Lord Byron”, recém-publicada pelo Sr. Moore, o distinto biógrafo faz uma afirmação semelhante à do sábio Augustus: “Quando um pensamento sublime surgiu na alma que a melancolia não fosse encontrada, por mais latente que fosse, em sua vizinhança?” Ora, com a devida deferência ao Sr. Moore, esta é uma peça de insensatez muito doentia, que não tem nem um átomo de verdade para se sustentar. “Deus disse: Haja luz, e houve luz!” — gostaríamos de saber onde reside a melancolia dessa frase sublime. “A verdade”, diz Platão, “é o corpo de Deus, e a luz é sua sombra.” Em nome do bom senso, em que canto possível nas vizinhanças dessa imagem elevada espreita a face icterícia deste eterno bicho-papão do Sr. Moore? Novamente, naquela passagem mais sublime do mais sublime dos poetas latinos (Lucrécio), que irrompe em honra a Epicuro, há algo que nos fale de tristeza? Pelo contrário, nas três passagens a que nos referimos, especialmente nas duas primeiras citadas, há algo esplendidamente luminoso e animador. A alegria é frequentemente uma grande fonte do sublime; a subitaneidade de suas manifestações seria suficiente para torná-la assim. O que pode ser mais sublime do que os Salmos triunfantes de Davi, embriagados que estão com um quase delírio de transporte? Mesmo nas passagens mais sombrias dos poetas, onde reconhecemos a sublimidade, nem sempre encontramos a melancolia. Somos atingidos pelo terror, pasmados pelo temor, mas raramente suavizados pela tristeza. De fato, a melancolia pertence mais a outra classe de sentimentos do que aqueles excitados por uma passagem sublime ou aqueles que engendram sua composição. Por um lado, nos voos mais altos de Homero, Milton e Shakespeare, desafiaremos um crítico a descobrir essa “doença verde” que o Sr. Moore converteria na magnificência da peste. Por outro lado, onde está a evidência de que a melancolia compunha os temperamentos habituais desses homens divinos? De Homero nada sabemos; de Shakespeare e Milton, temos motivos para acreditar que o temperamento comum era constitucionalmente alegre. Este último gaba-se disso. Mil instâncias, em contradição a uma afirmação que não valeria a pena contradizer, se não fosse tão geralmente popular, tão altamente sancionada e tão eminentemente perniciosa para tudo o que é masculino e nobre na literatura, acorrem à nossa memória. Mas achamos que já citamos o suficiente para refutar a sentença, que o ilustre biógrafo ele mesmo refutou em mais de vinte passagens, as quais, se ele se compraz em esquecer, agradecemos ao Céu que a posteridade jamais esquecerá. Agora que estamos no assunto desta Vida, tão excelente em muitos aspectos, não podemos deixar de observar que achamos todo o escopo de sua filosofia totalmente indigno da mente realizada do escritor; a filosofia consiste em uma distorção imperdoável de verdades gerais, para se adequar às peculiaridades de um indivíduo, nobre certamente, mas proverbial e excentricamente mórbido. Um exemplo notável disso ocorre na laboriosa afirmação de que poetas são péssimos personagens domésticos. O quê! porque Lord Byron é tido como um mau marido, era (para não recuar mais no tempo em busca de exemplos) — era Walter Scott um mau marido, ou Campbell, ou é o próprio Sr. Moore? Por que, em nome da justiça, deveria ser insinuado que Milton era um mau marido, quando, até onde alguém pode julgar a questão, era a Sra. Milton quem era a má esposa? E por que, oh! por que deveríamos ser informados pelo Sr. Moore — um homem que, a julgar por Captain Rock e The Epicurean, não carece nem de saber nem de diligência —, por que deveríamos ser informados, com ênfase peculiar, que Lord Bacon nunca se casou, quando Lord Bacon não apenas se casou, mas seu casamento foi tão vantajoso a ponto de ser uma época absoluta em sua carreira? Realmente, realmente, começa-se a acreditar que não existe tal coisa como um fato no mundo!]
"Agora pela sebe!" gritou Lovett, sem dar atenção aos seus camaradas; e seu cavalo saltou para a estrada.
Os três homens estavam agora parados, imóveis, ao lado da sebe. A estrada larga estendia-se diante deles, curvando-se para fora da vista de ambos os lados; o solo endurecia sob uma tendência precoce à geada, e o tinido claro de cascos que se aproximavam soou aos ouvidos dos ladrões, pressagiando, talvez, o tilintar de um "metal mais atraente" que, se a Esperança não contasse histórias lisonjeiras, estaria prestes a ser deles.
Logo o veículo há muito esperado surgiu na curva da estrada, rolando rapidamente atrás de quatro cavalos de correio velozes.
"Você, Ned, com seu corcel grande, pare os cavalos; você, Augustus, intimide os cocheiros; deixe-me fazer o resto", disse o capitão.
"Como combinado", respondeu Ned, laconicamente. "Agora, olhe para mim!" e o cavalo do vaidoso salteador saltou de seu esconderijo. Tão instantâneas foram as operações desses estrategistas experientes que as ordens de Lovett foram quase executadas em menos tempo do que ele levara para dá-las.
A carruagem sendo parada, e os cocheiros pálidos e trêmulos, com duas pistolas (miradas por Augustus e Pepper) engatilhadas em suas cabeças, Lovett, desmontando, escancarou a porta da carruagem e, em um tom muito civil e com um modo muito suave, dirigiu-se ao ocupante.
"Não se alarme, meu lorde, o senhor está perfeitamente seguro; só precisamos do seu relógio e da sua bolsa."
"Realmente", respondeu uma voz ainda mais suave que a do ladrão, enquanto um semblante marcado e algo francês, coroado por um gorro de pele, espreitava o detentor — "Realmente, senhor, seu pedido é tão modesto que eu seria pior que cruel se o recusasse. Minha bolsa não está muito cheia, e o senhor pode levá-la tão bem quanto um dos meus patifes de cobradores; mas meu relógio, eu tenho afeição por ele, e..."
"Eu o compreendo, meu lorde", interrompeu o salteador. "Quanto o senhor avalia seu relógio?"
"Humph! para você pode valer umas vinte guinéus."
"Permita-me vê-lo!"
"Sua curiosidade é extremamente gratificante", respondeu o nobre, enquanto, com grande relutância, retirava um relógio de bolso de ouro, incrustado, como era moda na época, com pedras preciosas. O salteador olhou levemente para a bugiganga.
"Vossa senhoria", disse ele, com grande gravidade, "foi modesto demais em seu cálculo; seu gosto reflete maior crédito sobre o senhor. Permita-me assegurar-lhe que seu relógio vale cinquenta guinéus para nós, no mínimo. Para mostrar-lhe que penso assim sinceramente, ou eu o guardarei, e não diremos mais nada sobre o assunto; ou eu o devolverei ao senhor sob sua palavra de honra de que me dará um cheque de cinquenta guinéus pagável, por seus verdadeiros banqueiros, ao 'portador'. Faça sua escolha; para mim é totalmente indiferente!"
"Sob minha honra, senhor", disse o viajante, com certa surpresa lutando em suas feições, "sua frieza e autodomínio são realmente admiráveis. Vejo que o senhor conhece o mundo."
"Vossa senhoria me lisonjeia!" respondeu Lovett, fazendo uma reverência. "Como o senhor decide?"
"Ora, é possível escrever rascunhos sem tinta, pena ou papel?"
Lovett recuou e, enquanto procurava em seus bolsos por instrumentos de escrita, que sempre carregava consigo, o viajante aproveitou a oportunidade e, arrancando subitamente uma pistola do bolso da carruagem, mirou-a diretamente na cabeça do ladrão. O viajante era um excelente e praticado atirador — ele estava quase ao alcance de um braço de sua pretendida vítima — suas pistolas eram a inveja de todos os seus amigos irlandeses. Ele apertou o gatilho — a pólvora faiscou na panela; e o salteador, sem nem sequer mudar de semblante, retirou um pequeno tinteiro e, colocando uma pena de aço nele, entregou-o ao nobre, dizendo, com incomparável sangue-frio: "Gostaria, meu lorde, de tentar a outra pistola? Se sim, obrigue-me com uma mira rápida, pois o senhor deve ver a necessidade de despacho. Se não, aqui está o verso de uma carta, na qual o senhor pode escrever o rascunho."
O viajante não era um homem propenso a ficar embaraçado com nada, exceto com suas circunstâncias; mas ele certamente sentiu-se um pouco desconsertado e confuso ao pegar o papel e, pronunciando algumas palavras entrecortadas, escreveu o cheque. O salteador deu uma olhada nele, viu que estava escrito de acordo com a forma e então, com uma reverência de respeito frio, devolveu o relógio e fechou a porta da carruagem.
Enquanto isso, o criado estava tremendo na frente, encaixotado naquela conveniência solitária chamada, não eufonicamente, de banco do cocheiro. A ele o ladrão agora dirigiu-se brevemente.
"O que você tem aí pertencente ao seu mestre?"
"Apenas seus comprimidos, vossa honra! que esqueci de colocar no..."
"Comprimidos! — jogue-os para mim!" O criado retirou trêmulo do bolso lateral uma caixinha, que jogou para baixo e Lovett pegou na mão.
Ele abriu a caixa, contou os comprimidos — "Um, dois, quatro, doze — aha!" Ele reabriu a porta da carruagem. "Estes são seus comprimidos, meu lorde?"
O par admirado, que começara a se acomodar novamente no canto de sua carruagem, respondeu que sim.
"Meu lorde, vejo que o senhor está em um estado febril elevado; o senhor estava um pouco delirante agora há pouco quando tentou disparar uma pistola na cara de seu amigo. Permita-me recomendar-lhe uma prescrição — engula todos estes comprimidos!"
"Meu Deus!" gritou o viajante, sobressaltado em sinceridade; "o que você quer dizer? — doze desses comprimidos matariam um homem!"
"Ouça-o!" disse o ladrão, apelando para seus camaradas, que rugiram de riso. "O quê, meu lorde, o senhor se rebelaria contra seu médico? Fie, fie! deixe-se persuadir."
E com um gesto suave, ele estendeu a caixa de comprimidos em direção ao nariz recuante do viajante. Mas, embora fosse um homem que pudesse, tão bem quanto qualquer um, tirar o melhor proveito de uma má condição, o viajante era especialmente cuidadoso com sua saúde; e era tão obstinado onde isso estava em jogo que preferiria ter se submetido à operação eficaz de uma bala do que incorrido na operação casual de um comprimido extra. Ele, portanto, com grande indignação, enquanto a caixa ainda era estendida em sua direção, arrancou-a da mão do ladrão e, jogando-a através da estrada, disse com dignidade:
"Faça o seu pior, patifes! Mas se me deixarem vivo, vocês se arrependerão do ultraje que ofereceram a um membro da casa de Sua Majestade!" Então, como se se tornasse sensível ao ridículo de afetar demais em sua presente situação, acrescentou em um tom alterado: "E agora, pelo amor de Deus, feche a porta; e se vocês precisam matar alguém, lá está meu criado no banco — ele é pago por isso."
Este discurso fez os ladrões rirem mais do que nunca; e Lovett, que gostava de uma piada ainda mais do que de uma bolsa, fechou imediatamente a porta da carruagem, dizendo:
"Adeus, meu lorde; e deixe-me dar-lhe um conselho: sempre que descer em uma estalagem de campo e permanecer meia hora enquanto seus cavalos são trocados, leve suas pistolas consigo, ou pode correr o risco de ter a carga removida."
Com esta advertência o ladrão retirou-se; e vendo que o criado lhe estendia uma bolsa verde comprida, ele disse, balançando a cabeça suavemente:
"Patifes não deveriam se aproveitar uns dos outros, meu bom rapaz. Você rouba seu mestre; nós também. Que cada um guarde o que conseguiu."
Long Ned e Tomlinson então, recuando seus cavalos, a carruagem foi liberada; e os cocheiros partiram a um ritmo que parecia demonstrar menos consideração pela vida do que os próprios ladrões haviam demonstrado.
Enquanto isso, o capitão remontou seu corcel, e os três confederados, saltando com estilo galante sobre a sebe através da qual haviam anteriormente alcançado a estrada, galoparam na mesma direção em que haviam vindo; a lua trazendo a todo momento à luz suas figuras fugazes, e o som de muitas gargalhadas alegres ecoando através da distância ao longo do ar gélido.
CAPÍTULO XIII
O que há aqui? —
Ouro?
Tanto disso tornará o preto branco, o sujo justo.
Timon de Atenas.
Veio um certo lorde, limpo, impecavelmente vestido, Fresco como um noivo.
Henrique IV.
Não conheço o homem que eu deveria evitar Tão cedo quanto aquele magro Cássio! Ele lê muito. Ele é um grande observador; e ele olha Através dos feitos dos homens. Frequentemente ele sorri; mas sorri de tal maneira, Como se zombasse de si mesmo ou desprezasse seu espírito, Que poderia ser movido a sorrir por qualquer coisa.
Júlio César.
No dia seguinte, tarde do meio-dia, enquanto Lucy estava sentada com seu pai, não como de costume ocupada com o trabalho ou a leitura, mas aparentemente bastante ociosa, com seu pé bonito sobre o banquinho de gota do escudeiro, e os olhos fixos no tapete, enquanto suas mãos (nunca houve mãos tão macias e tão pequenas quanto as de Lucy, embora possam ter sido eclipsadas em brancura) estavam levemente entrelaçadas e repousavam languidamente sobre seus joelhos — o cirurgião da aldeia entrou abruptamente com um rosto cheio de notícias e horror. O velho escudeiro Brandon era uma daquelas pessoas que sempre ouvem as notícias, quaisquer que sejam, depois de qualquer um de seus vizinhos; e não foi até que todos os fofoqueiros da vizinhança tivessem roído o osso da questão até o fim, que ele foi agora informado, por meio do Sr. Pillum, de que Lord Mauleverer fora na noite anterior parado por três salteadores em seu caminho para sua propriedade rural e roubado em uma quantia considerável.
A fama da desventura do digno Dr. Slopperton tendo sido espalhada muito antes por toda parte, a vizinhança inteira foi naturalmente lançada em grande consternação. Magistrados foram chamados, cães grandes emprestados, bacamartes limpos e uma subscrição feita por toda a paróquia para a criação de uma patrulha. Parecia haver pouca dúvida de que os infratores em ambos os casos eram membros da mesma horda; e o Sr. Pillum, em sua própria mente, estava perfeitamente convencido de que eles pretendiam invadir seu comércio e destruir todos os moradores vizinhos que valessem o trabalho.
A semana seguinte passou nos esforços mais diligentes, por parte dos magistrados vizinhos e da milícia, para detectar e prender os ladrões; mas seus trabalhos foram totalmente infrutíferos; e um juiz de paz, que tinha sido particularmente ativo, foi ele mesmo inteiramente "limpado" por um velho cavalheiro que, sob o nome de Sr. Bagshot — um cognome bastante sinistro —, ofereceu-se para conduzir o magistrado desavisado até o local exato onde os malfeitores poderiam ser presos. Não demorou, porém, para que ele afastasse o pobre juiz de seus camaradas para uma parte solitária da estrada, onde o despiu até a camisa. Ele nem sequer deixou a Vossa Excelência suas ceroulas de flanela, embora o tempo estivesse tão amargo quanto os dias de cão de 1829.
"Não é meu jeito", disse o ancião rufião, quando o juiz implorou pelo menos pela última peça de vestuário — "não é meu jeito. Eu sou lento no meu trabalho, mas faço-o completamente; então tire os trapos, velho."
Este foi, no entanto, o único exemplo adicional de agressão nas proximidades de Warlock Manor-house; e, gradualmente, à medida que o outono declinava e nenhuma outra enormidade era perpetrada, as pessoas começaram a procurar um novo tópico de conversa. Isso lhes foi proporcionado por uma boa fortuna inesperada para Lucy Brandon:
A Sra. Warner — uma senhora idosa a quem ela era levemente parente, e com quem estivera hospedada durante sua breve e única visita a Londres — morreu subitamente e, em seu testamento, declarou Lucy sua única herdeira. A propriedade, que estava nos Fundos e que perfazia 60.000 libras, deveria ser desfrutada pela Srta. Brandon imediatamente após atingir seu vigésimo primeiro ano; enquanto isso, os executores do testamento deveriam pagar à jovem herdeira a soma anual de 600 libras. A alegria que essa notícia criou em Warlock Manor-house pode ser facilmente concebida. O escudeiro projetou melhorias aqui e reparos ali; e Lucy, pobre menina, que não tinha ideia de dinheiro para si mesma, além da compra de um novo pônei ou um vestido de Londres, secundou com prazer afetuoso todas as sugestões de seu pai e deliciou-se com a reflexão de que aqueles belos planos, que deveriam tornar os Brandons maiores do que os Brandons jamais foram antes, deveriam ser realizados pelo seu próprio, próprio dinheiro! Foi nesta mesma época que a pequena nobreza vizinha fez uma descoberta simultânea e grandiosa — a saber, dos méritos surpreendentes e do grande bom senso do Sr. Joseph Brandon. Era uma pena, observaram, que ele fosse de um temperamento tão reservado e tímido — não era adequado a um cavalheiro de uma família tão antiga; mas por que não deveriam tentar tirá-lo de sua aposentadoria para aquelas cenas mais públicas que ele sem dúvida estava bem preparado para adornar?
Consequentemente, assim que o primeiro mês de luto expirou, vários coches, carruagens, charretes e cavalos que nunca haviam sido vistos em Warlock Manor-house antes, chegaram lá um após o outro da maneira mais amigável imaginável. Seus proprietários admiravam tudo — a casa era uma relíquia tão bela dos velhos tempos! — por sua parte, eles gostavam de uma escadaria de carvalho! — e daquelas belas janelas antigas! — e que pavão bonito! — e, Deus nos guarde! aquela magnífica castanheira valia uma floresta! O Sr. Brandon foi convidado a integrar a caça do condado, não que ele caçasse mais, mas que seu nome daria tal consequência à coisa! A Srta. Lucy deveria passar uma semana com suas queridas amigas, as Honoráveis Senhoritas Sansterre! Augustus, o irmão delas, tinha um cavalo de senhora tão doce! Em suma, a mudança habitual que ocorre no caráter das pessoas após a aquisição de uma fortuna ocorreu no caráter do Sr. e da Srta. Brandon; e quando as pessoas se tornam subitamente amáveis, não é de admirar que ganhem subitamente um vasto acesso de amigos.
Mas Lucy, embora tivesse visto tão pouco do mundo, não era totalmente cega; e o escudeiro, embora um tanto obtuso, não era totalmente tolo. Se não foram rudes com seus novos visitantes, não estavam de forma alguma sobrecarregados de gratidão pela condescendência deles. O Sr. Brandon recusou-se a assinar a caça, e a Srta. Lucy riu na cara do Honorável Augustus Sansterre. Entre seus novos convidados, porém, havia um que ao grande conhecimento do mundo aliava uma polidez extrema e até brilhante de modos, o que pelo menos impedia que o engano fosse desagradável, se não totalmente invisível: este era o novo tenente do condado, Lord Mauleverer.
Embora possuísse uma imensa propriedade naquele distrito, Lord Mauleverer até então residira pouco em suas terras. Ele era um daqueles lordes alegres, hoje um tanto incomuns neste país após atingida a maturidade, que levam uma vida fácil e devassa, mais entre seus parasitas do que entre seus iguais, e que ainda assim, com o auxílio de maneiras agradáveis, talentos naturais e um certo cultivo gracioso e leve do espírito (não menos prazeroso por ser universalmente tingido de mundanismo e por uma consideração por si mesmo mais divertida do que ofensiva), jamais perdem sua legítima posição na sociedade; que são oráculos no trajar, nas carruagens, na culinária e na beleza e, não possuindo caráter próprio, são capazes de fixar com uma única palavra um caráter sobre qualquer outro. Assim, embora Mauleverer vivesse mais a vida dissoluta de um jovem nobre, que prefere a companhia de demireps agradáveis à das maçantes duquesas, do que mantivesse o estado decoroso condizente com uma idade madura e um imenso interesse no campo, ele era tão popular na corte, onde detinha um cargo na casa real, quanto no camarim, onde encantava toda atriz do lado direito dos quarenta anos. Uma palavra sua nos legítimos círculos de poder ia mais longe do que uma arenga de outrem; e até as pudicas — ao menos todas aquelas que tinham filhas — confessavam que sua senhoria era um caráter muito interessante. Como Brandon, seu amigo íntimo, ele ascendeu no mundo (de barão irlandês a conde inglês) sem nunca ter mudado sua orientação política, que era ultra-Tory; e não precisamos observar que ele era tido, como Brandon, como um modelo de integridade pública. Ele possuía dois cargos no governo, seis votos na Câmara dos Comuns e oito benefícios na Igreja; e devemos acrescentar, em justiça aos seus princípios leais e religiosos, que não havia nos três reinos um amigo mais firme aos estabelecimentos vigentes.
Sempre que um nobre não se casa, as pessoas tentam tirar-lhe o caráter. Lord Mauleverer nunca se casara. Os Whigs tinham sido muito amargos a respeito do assunto; chegaram a aludir a ele na Câmara dos Comuns — aquela assembleia casta, onde o tema infalível de censura contra o Sr. Pitt era o fato de não possuir um temperamento amoroso; mas até então não tinham prevalecido contra o celibato do vigoroso conde. É verdade que, se ele carecia de esposa, assegurara para si muitos substitutos; sua profissão era a de um homem de galanteria; e embora evitasse as filhas, era apenas para fazer amor com as mães. Mas sua senhoria havia agora atingido certa idade, e finalmente circulou entre seus amigos que ele pretendia procurar uma Lady Mauleverer.
“Poupe suas carícias”, disse seu bajulador-chefe a uma certa duquesa, que tinha três filhas sem dote; “Mauleverer jurou que não escolherá entre sua ordem. Você conhece sua política de alto nível e não se espantará com ele se declarar avesso, tanto no matrimônio quanto na moral, a uma comunhão de bens.”
O anúncio do desígnio matrimonial do conde e a circulação desta anedota puseram todas as filhas de clérigos da Inglaterra em um incêndio de expectativa; e quando Mauleverer veio ao condado, ao obter a honra da tenência, para visitar suas terras e cortejar a amizade de seus vizinhos, não houve uma donzela madura de quarenta anos, que bordasse em ponto largo e nunca tivesse ido a Londres por mais de uma semana de cada vez, que não se considerasse exatamente o tipo de pessoa capaz de fascinar sua senhoria.
Era o fim da tarde quando a carruagem de viagem deste distinto personagem, precedida por dois batedores, na libré de passeio do conde em verde escuro, parou diante da porta principal de Warlock House. O escudeiro estava em casa, literal e metaforicamente; pois jamais sonhava em negar-se a quem quer que fosse, gentil ou simples. Abrindo-se a porta da carruagem, desceu um homem pequeno e esguio, ricamente vestido (pois as vestes de renda e seda ainda não tinham sido totalmente descartadas, embora gradualmente se tornassem menos comuns), e de um ar envolvente e distinto, mais do que digno. Seus anos — pois seu semblante, embora bonito, era profundamente marcado e mostrava os sinais da dissipação — pareciam mais numerosos do que realmente eram; e embora não estivesse propriamente além da meia-idade, Lord Mauleverer poderia facilmente ter recebido o epíteto desagradável de idoso. No entanto, seu passo era firme, seu porte ereto e sua figura era consideravelmente mais juvenil do que sua fisionomia. Passados os primeiros cumprimentos do dia, e tendo Lord Mauleverer expressado seu pesar por sua longa e frequente ausência do condado ter até então o impedido de fazer o conhecimento do Sr. Brandon, irmão de um de seus mais antigos e estimados amigos, a conversa tornou-se, de ambos os lados, um tanto forçada. O Sr. Brandon introduziu primeiro o assunto do clima e dos nabos; perguntou se sua senhoria não era muito afeito (por sua parte, costumava ser, mas ultimamente o reumatismo o incapacitara; esperava que sua senhoria não estivesse sujeito a tal queixa) à caça!
Captando apenas as últimas palavras — pois, além da terrível complexidade das frases do escudeiro, Mauleverer era levemente afetado pela queixa aristocrática da surdez —, o conde respondeu, com um sorriso:
“A queixa da caça! Muito bom, de fato, Sr. Brandon; é raro eu ouvir uma frase tão espirituosa. Não, não sou nem um pouco incomodado por essa epidemia. É um distúrbio muito prevalente neste condado.”
“Meu lorde!” disse o escudeiro, um tanto confuso; e então, observando que Mauleverer não continuava, achou conveniente iniciar outro assunto.
“Fiquei extremamente pesaroso ao saber que sua senhoria, ao viajar para Mauleverer Park (aquela é uma estrada muito feia através das terras baldias; as estradas neste país são em geral muito boas — por minha parte, quando eu era magistrado, era muito rigoroso a esse respeito), foi roubado. Vossa senhoria ainda não detectou, creio eu (por minha parte, embora não professe ser muito político, penso que em assuntos de roubo há uma grande negligência por parte dos ministros), os vilões!”
“Nosso amigo é desafeiçoado!” pensou o lorde-tenente, imaginando que o último termo oprobrioso fosse aplicado aos respeitáveis personagens especificados no parêntese. Inclinando-se com um sorriso polido para o escudeiro, Mauleverer respondeu em voz alta que lamentava profundamente que a conduta deles (referindo-se aos ministros) não contasse com a aprovação do Sr. Brandon.
“Bem”, pensou o escudeiro, “isso é ser cortesão com uma vingança! — Contar com a minha aprovação!” disse ele, calorosamente; “como poderia sua senhoria pensar-me (pois, embora não seja um de seus santos, sou, espero, um bom cristão; um excelente, a julgar pelas palavras de vossa senhoria, vossa senhoria deve ser!) tão parcial ao crime!”
“Eu parcial ao crime!” retrucou Mauleverer, achando que havia tropeçado sem querer em algum democrata ultrajante, mas sorrindo tão suavemente quanto de costume; “vossa senhoria me julga com severidade, Sr. Brandon! Deve me fazer mais justiça, e só pode fazê-lo conhecendo-me melhor.”
Qualquer resposta infeliz que o escudeiro pudesse ter dado foi cortada pela entrada de Lucy; e o conde, secretamente encantado com a interrupção, levantou-se para prestar-lhe sua homenagem e lembrá-la da apresentação que outrora tivera a felicidade de obter através da amizade do Sr. William Brandon — uma “amizade”, disse o galante nobre, “à qual já estive muitas vezes endividado, mas que nunca foi exercida tão agradavelmente em meu favor.”
Diante disso, Lucy, que embora tivesse sido tão dolorosamente tímida durante seu encontro com o Sr. Clifford, não sentiu timidez avassaladora na presença de tão maior personagem, respondeu rindo, e o conde retribuiu com um segundo elogio. A conversa já não era mais um esforço; e Mauleverer, o mais consumado dos epicuristas, a quem até a realeza tremia em convidar sem preparação, ao ser convidado pelo inconsciente escudeiro a participar do jantar em família, aceitou avidamente o convite. Fazia muito tempo que as muralhas cavaleirescas de Warlock não eram honradas pela presença de um convidado tão cortês. O bom escudeiro empilhou seu prato com uma profusão de carne cozida; e enquanto o pobre conde contemplava com desalento os Alpes sobre Alpes que esperavam que ele devorasse, o mordomo de cabelos grisalhos, ansioso por servi-lo com presteza, arrebatou o prato sobrecarregado e logo o devolveu, ainda mais assustadoramente sobrecarregado com um mundo adicional de uma composição de cor pedregosa e aspecto sudorífero, que, após examinar em silêncio por alguns momentos e remover cuidadosamente o melhor que pôde para a extremidade do prato, o conde descobriu ser pudim de sebo.
“Vossa senhoria não come nada, meu lorde”, gritou o escudeiro; “deixe-me dar-lhe — esta está mais mal passada;” segurando entre a lâmina e o garfo, no ar, um fragmento repugnante de escarlate, sacudindo seus cachos sangrentos — “outra fatia.”
Rápido ao comando, caiu sobre o prato de Mauleverer o dedo de harpia e o polegar implacável do mordomo de cabelos grisalhos. “Nem mais um bocado”, gritou o conde, lutando contra o doméstico assassino. “Meu caro senhor, perdoe-me; garanto-lhe que nunca antes comi tal jantar — nunca!”
“Ora, vamos!” disse o escudeiro, protestando, “vossa senhoria realmente (e este ar é tão cortante que sua senhoria deveria satisfazer seu apetite, se segue o conselho do médico) não come nada!”
Novamente Mauleverer estava em apuros.
“Os médicos estão certos, Sr. Brandon”, disse ele, “muito certos, e sou forçado a viver com abstinência; na verdade, não sei se, caso eu excedesse em sua hospitaleira mesa e atacasse tudo o que vossa senhoria me ofereceria, jamais me recuperaria. Vossa senhoria teria de buscar um novo tenente para seu encantador condado, e sobre o túmulo do último Mauleverer o herdeiro hipócrita e sem parentesco inscreveria: 'Morreu da visitação da Carne, João, Conde, etc.'”
Por mais claro que o significado deste discurso pudesse ter parecido a outros, o escudeiro apenas riu do apetite efeminado do orador e inclinou-se a considerá-lo um excelente sujeito por brincar com tanto bom humor sobre sua própria enfermidade física. Mas Lucy tinha o tato de seu sexo e, compadecendo-se da situação calamitosa do conde, embora certamente nunca tivesse adivinhado sua extensão, entrou com tanta graça e facilidade na conversa que ele buscou estabelecer entre eles, que o criado de Mauleverer, que até então fora empurrado pelo zelo do mordomo de cabelos grisalhos, encontrou uma oportunidade, quando o escudeiro ria e o mordomo olhava fixamente, de roubar o prato sobrecarregado, insuspeito e invisível.
Apesar, contudo, desses males de mesa e alojamento, Mauleverer ficou extremamente satisfeito com sua visita; nem a terminou até que as sombras da noite tivessem começado a se fechar, e a distância de sua própria residência conspirasse com a experiência para lembrá-lo de que era possível que a audácia de um salteador de estrada atacasse a equipagem até de Lord Mauleverer. Ele então reentrou relutantemente em sua carruagem e, ordenando aos postilhões que dirigissem o mais rápido possível, envolveu-se em seu roquelaure e dividiu seus pensamentos entre Lucy Brandon e o homard au gratin com o qual propunha consolar-se imediatamente ao retornar para casa. Entretanto, o Destino, que zomba de nossas esperanças mais acalentadas, ordenou que, ao chegar a Mauleverer Park, o proprietário fosse subitamente afligido por uma perda de apetite, um frio nos membros, uma dor no peito e vários outros sintomas indesejáveis de uma doença iminente. Lord Mauleverer foi direto para a cama; permaneceu lá por alguns dias e, quando se recuperou, seus médicos ordenaram-lhe Bath. Os metodistas Whig, que o odiavam, atribuíram sua doença à Providência; e sua senhoria era firmemente da opinião de que deveria ser atribuída à carne e ao pudim. Seja como for, houve um fim, por enquanto, às esperanças das jovens de quarenta anos e aos festejos pretendidos em Mauleverer Park.
“Bons céus!” disse o conde, enquanto as rodas de sua carruagem viravam em seus portões, “que perda para os comerciantes do campo pode ser causada por um pedaço de carne mal passada, especialmente se for cozida!”
Cerca de uma quinzena se passara desde a visita meteórica de Mauleverer a Warlock House, quando o escudeiro recebeu de seu irmão a seguinte epístola:
MEU CARO JOSÉ, — Vossa senhoria conhece minhas numerosas ocupações e, em meio à pressão de negócios que me cerca, perdoar-me-á, tenho certeza, por ser um correspondente muito negligente e relapso. Não obstante, garanto-lhe, ninguém pode simpatizar mais sinceramente com a boa sorte que se abateu sobre minha encantadora sobrinha, e da qual sua última carta me informou, do que eu. Por favor, dê-lhe meu melhor afeto e diga-lhe quão complacente antevejo a sensação brilhante que ela criará, quando sua beleza for entronizada naquela categoria que, estou certo, ela um dia ou outro comandará.
Vossa senhoria não está ciente, talvez, meu caro José, de que tenho estado por algum tempo em um estado de saúde muito fraco e declinante. A velha queixa nervosa em meu rosto tem-me atacado gravemente ultimamente, e a angústia é por vezes tão grande que mal consigo suportá-la. Creio que a grande demanda que minha profissão faz sobre uma estrutura física nunca forte, e agora começando prematuramente a sentir as enfermidades do tempo, é a causa real de minhas doenças. Por fim, contudo, devo absolutamente punir meu bolso e ceder às minhas inclinações por um curto respiro do trabalho. Os médicos — amigos jurados, vossa senhoria sabe, dos advogados, já que fazem causa comum contra a humanidade — ordenaram-me peremptoriamente que repousasse e tentasse um curto curso de ar, exercício, diversões sociais e as águas de Bath. Felizmente, este é tempo de férias, e posso me dar ao luxo de perder algumas semanas de emolumentos, para, talvez, garantir muitos anos de vida. Pretendo, então, no início da próxima semana, reparar para aquele reservatório melancólico dos alegres, onde as pessoas dançam para fora da vida e são levadas ao som de violinos pelo Styx. Em suma, serei um dos aventureiros em busca de saúde que procuram a deusa na bomba de King Bladud. Vossa senhoria e a querida Lucy juntar-se-ão a mim lá? Peço-o pela vossa amizade, e tenho certeza de que nenhum dos dois recuará horrorizado com a proposta de consolar seu parente inválido. Ao mesmo tempo em que recupero a saúde, minha linda sobrinha estará vingando Plutão, ao consignar aos seus domínios muitos heróis melhores e mais jovens em meu lugar. E será um prazer duplo para mim ver todos os corações, etc. — Interrompo-me, pois o que posso dizer sobre esse assunto que a pequena coquete não antecipe? É tempo de Lucy ver o mundo; e embora haja muitos — em Bath, acima de todos os lugares, para quem a herdeira será um objeto de atenções interessadas, há também muitos naquela cidade lotada que de forma alguma são indignos de sua atenção. O que diz vossa senhoria, caro José? Mas já sei: vossa senhoria não se recusará a me fazer companhia em meu pequeno feriado; e os olhos de Lucy já brilham com a ideia de novos chapéus, Milsom Street, mil adoradores e a sala da bomba.
Sempre, caro José, afetuosamente seu,
WILLIAM BRANDON.
P. S. Descubro que meu amigo Lord Mauleverer está em Bath; confesso que essa é uma razão adicional para me levar até lá; por uma carta dele, recebida outro dia, vejo que ele lhe fez uma visita, e agora ele delira sobre seu anfitrião e a herdeira. Ah, Srta. Lucy, Srta. Lucy! Vossa senhoria vai conquistar aquele a quem toda Londres, por anos mais do que me importo em dizer (ainda que não muitos, pois Mauleverer ainda é jovem), assediou em vão? Responda-me!
Esta carta criou uma excitação considerável em Warlock House. O velho escudeiro era extremamente afeiçoado ao irmão e entristeceu-se profundamente ao constatar que ele falava de forma tão desencorajadora de sua saúde. Nem o escudeiro hesitou por um momento em aceitar a proposta de se juntar ao seu distinto parente em Bath. Lucy também — que tinha pelo tio, possivelmente por sua lisonja profusa porém não indelicada, um apreço e interesse muito grandes, embora o tivesse visto pouco —, incitou o escudeiro a não perder tempo em organizar os assuntos para sua partida, de modo a preceder o advogado e preparar tudo para sua chegada. O pai e a filha estando assim de acordo, houve pouca ocasião para atrasos; uma resposta à carta do inválido foi enviada pelo correio de retorno e, no quarto dia após o recebimento da dita epístola, o bom velho escudeiro, sua filha, uma moça do campo na função de aia, o mordomo de cabelos grisalhos e dois ou três bichinhos de estimação, do tamanho e hábitos mais convenientes para viajar, estavam a caminho de uma cidade que, na época, era pelo menos mais alegre, se um pouco menos esplêndida, do que a metrópole.
No segundo dia de sua chegada a Bath, Brandon (como no futuro, para evitar confusão, chamaremos o irmão mais novo, dando ao mais velho seu título patriarcal de escudeiro) juntou-se a eles.
Ele era um homem aparentemente muito afeito a desfiles, embora, no fundo, os desprezasse e detestasse. Ele veio ao seu alojamento, que não fora selecionado na melhor parte da cidade, em uma carruagem puxada por seis cavalos, mas atendido apenas por um criado favorito.
Encontraram-no com melhor aparência e melhor ânimo do que haviam antecipado. Poucas pessoas, quando ele assim o desejava, podiam ser mais agradáveis do que William Brandon; mas, por vezes, misturava-se à sua conversa um sarcasmo amargo, provavelmente um hábito adquirido em sua profissão, ou um matiz ocasional de tristeza morosa e altiva, possivelmente consequência de sua saúde precária. No entanto, seu distúrbio, que se aproximava um pouco daquela aflição dolorosa, a tic douloureux, embora de crises mais raras em ocorrência do que as daquela queixa ordinariamente são, nunca pareceu, nem por um instante, operar sobre seu humor, fosse ele qual fosse. Aquela doença trabalhava invisível; nem um músculo de seu rosto parecia tremer; o sorriso nunca desaparecia de sua boca, a brandura de sua voz nunca enfraquecia como se estivesse com dor e, em meio a uma tortura intensa, sua mente resoluta e severa conquistava toda indicação externa; nem o mais observador estranho poderia ter notado o momento em que a crise o atacava ou o libertava. Havia algo inescrutável naquele homem. Você sentia que tomava seu caráter por fé, e não por conhecimento próprio. O convívio de anos tê-lo-ia deixado igualmente no escuro quanto aos seus vícios ou virtudes. Ele variava muitas vezes, contudo, em cada variação, era igualmente indescritível. Estaria ele interpretando uma série de papéis, ou eram as mudanças ordinárias do verdadeiro temperamento de um homem que você contemplava nele? Comumente suave, quieto, atencioso, lisonjeiro no convívio social, ele era conhecido no senado e nos tribunais de justiça por uma aspereza fria e um veneno cáustico — dificilmente rivalizado mesmo naquelas arenas de contenda. Parecia que os sentimentos mais amargos que ele reprimia na vida privada, ele se deleitava em satisfazer em público. Todavia, mesmo lá, ele não dava vazão a petulância momentânea ou paixão jorrante; tudo parecia com ele sarcasmo sistemático ou severidade habitual. Ele não ultrajava nenhuma forma cerimonial ou social. Ele picava sem parecer consciente da picada; e seu antagonista não se contorcia mais sob a tortura de sua sátira do que pelo desprezo esmagador de seu autocontrole. Frio, pronto, armado e defendido em todos os pontos, sólido no conhecimento, infalível na observação, igualmente consumado na sofística quando necessário para si mesmo, e instantâneo em detectar a sofística em outro; não desprezando nenhuma arte, por mais dolorosa; não se importando com nenhum trabalho, por mais pesado; minucioso nos detalhes, contudo compreendendo o todo do assunto em um só golpe — tal era o caráter legal e público que William Brandon havia estabelecido, e tal era a fama que ele unia à pureza imaculada de sua reputação moral. Mas, para seus amigos, ele parecia apenas o homem agradável, inteligente, vivo e, se nos é permitido usar a expressão inocentemente, mundano — nunca afetando uma santidade superior ou uma ansiedade excessiva pelas formas, exceto em grandes ocasiões; e tornando sua austeridade de maneiras ainda mais admirada, porque ele a fazia parecer tão desacompanhada de hipocrisia.
“Bem”, disse Brandon, enquanto se sentava após o jantar a sós com seus parentes e vira os olhos de seu irmão fecharem-se em sono diurno, “diga-me, Srta. Lucy, o que pensa de Lord Mauleverer; acha-o agradável?”
“Muito; demasiado, na verdade!”
“Demasiado! Esse é um defeito incomum, Lucy, a menos que queira insinuar que o acha demasiado agradável para sua paz de espírito.”
“Oh, não! Há pouco receio disso. Tudo o que pretendi expressar foi que ele parece fazer do ser agradável o único propósito de sua vida, e que se imagina que ele tenha alcançado esse fim através da perda de certas qualidades que se preferiria que ele tivesse.”
“Hum! E quais seriam elas?”
“Verdade, sinceridade, independência e honestidade de espírito.”
“Minha cara Lucy, tem sido o estudo profissional de minha vida descobrir o caráter de um homem, especialmente no que diz respeito à verdade, no mais curto tempo possível; mas você me supera em intuição, se consegue dizer se há sinceridade no caráter de um cortesão no primeiro encontro que tem com ele.”
“Não obstante, estou certa da minha opinião”, disse Lucy, rindo; “e lhe direi um exemplo que observei entre cem. Lord Mauleverer é um pouco surdo e ele imaginou, na conversa, que meu pai dissesse uma coisa — era sobre um assunto muito trivial, o discurso de algum membro do parlamento [o advogado sorriu] —, quando, na realidade, ele pretendia dizer outra. Lord Mauleverer, da maneira mais calorosa do mundo, concordou com ele, pareceu inteiramente de sua opinião, aplaudiu seus sentimentos e desejou que todo o país pensasse como ele. De repente, meu pai falou; Lord Mauleverer inclinou a orelha e descobriu que os sentimentos que ele tanto louvara eram exatamente aqueles que meu pai menos favorecia. Mal fez essa descoberta, girou novamente — com destreza e graça, admito; condenou tudo o que antes exaltara e exaltou tudo o que antes abusara!”
“E é só isso, Lucy?”, disse Brandon, com um escárnio mais agudo em seus lábios do que a ocasião justificava. “Ora, isso é o que todos fazem; apenas alguns com mais gravidade que outros. Mauleverer na sociedade, eu no tribunal, o ministro no parlamento, amigo de amigo, amante de amante, amante de amante — metade de nós está empregada em dizer que o branco é preto, e a outra metade em jurar que o preto é branco. Há apenas uma diferença, minha bela sobrinha, entre o homem inteligente e o tolo: o tolo diz o que é falso enquanto as cores o encaram e o desmentem; mas o homem inteligente pega, por assim dizer, um pincel e literalmente transforma o preto em branco e o branco em preto antes de fazer a afirmação, que então se torna verdadeira. O tolo muda e é um mentiroso; o homem inteligente faz as cores mudarem e é um gênio. Mas isso ainda não é para seus jovens anos, Lucy.”
“Mas não consigo ver a necessidade de parecer concordar com as pessoas”, disse Lucy, simplesmente; “certamente elas ficariam tão satisfeitas se você discordasse delas de forma civilizada e com respeito?”
“Não, Lucy”, disse Brandon, ainda zombando; “para ser apreciado, não é necessário ser nada além de complacente. Minta, trapaceie, faça de cada palavra uma armadilha e de cada ato uma falsificação; mas nunca contradiga. Concorde com as pessoas, e elas farão um leito para você em seus corações. Você conhece a história de Dante e o bufão. Ambos foram entretidos na corte do vaidoso pedante que se intitulava Príncipe Scaliger — o primeiro pobremente, o último suntuosamente. ‘Como pode ser’, disse o bufão ao poeta, ‘que eu seja tão rico e você tão pobre?’ ‘Serei tão rico quanto você’, foi a resposta pungente e verdadeira, ‘sempre que eu puder encontrar um patrono tão parecido comigo quanto o Príncipe Scaliger é parecido com você!’”
“No entanto, meus pássaros”, disse Lucy, acariciando o pintassilgo que se aninhava em seu colo, “não são como eu, e eu os amo. Aliás, penso frequentemente que poderia amar melhor aqueles que mais divergem de mim. Sinto isso nos livros — quando, por exemplo, leio um romance ou uma peça; e você, tio, gosto quase na proporção em que percebo em mim mesma nada em comum com você.”
“Sim”, disse Brandon, “você tem em comum comigo um amor pelas antigas histórias de Sir Hugo e Sir Rupert, e todos os outros ‘Sirs’ de nossa mofada e pretérita linhagem. Portanto, você vai me cantar a balada sobre Sir John de Brandon e o dragão que ele matou na Terra Santa. Vamos nos retirar para a sala de estar, para não incomodar seu pai.”
Lucy concordou, tomou o braço do tio, dirigiu-se à sala de estar e, sentando-se ao cravo, cantou com um tom inspirador, embora um tanto rude, a balada familiar que seu tio exigira.
Teria sido divertido notar no rosto rígido do homem endurecido e habitual da paz e dos pergaminhos um certo entusiasmo que, de tempos em tempos, cruzava suas bochechas, enquanto os versos da balada repousavam em alguma alusão à cavaleiresca Casa de Brandon e seu antigo renome. Era um preconceito antigo, irrompendo apesar de si mesmo — um lampejo de caráter, extraído do duro fóssil em que estava incrustado. Supor-se-ia que o mais tolo de todos os orgulhos (pois o orgulho do dinheiro, embora mais mesquinho, é menos insensato), o orgulho familiar, seria a última fraqueza que, àquela época, o insensível e astuto advogado confessaria, mesmo a si mesmo.
“Lucy”, disse Brandon, quando a canção cessou e ele fitou sua bela sobrinha com um certo orgulho no semblante, “ansio por testemunhar sua primeira aparição no mundo. Este alojamento, minha cara, não é adequado — mas perdoe-me! O que eu ia dizer é isto: seu pai e você estão aqui a meu convite, e em minha casa devem habitar; vocês são meus hóspedes, não meus anfitriões. Já ordenei, portanto, ao meu criado que me conseguisse uma casa e providenciasse o estabelecimento necessário; e não duvido, sendo ele um rapaz rápido, que em três dias tudo estará pronto. Você deve ser então o ímã de minha morada, Lucy; e, enquanto isso, deve explicar isto ao meu irmão e — pois você conhece sua zelosa hospitalidade — obter sua aquiescência.”
“Mas...”, começou Lucy.
“Não me venha com ‘mas’”, disse Brandon, rapidamente, mas com um tom afetuoso de obstinação; “e agora, como me sinto muito fatigado com a viagem, deve permitir-me procurar meu próprio quarto.”
“Eu mesma a conduzirei até lá”, disse Lucy, pois estava ansiosa por mostrar ao irmão de seu pai o cuidado e a previdência que ela dedicara aos preparativos para seu conforto. Brandon seguiu-a para um apartamento que seu olhar soube, de relance, ter sido submetido àquela supervisão feminina que faz tais usos daquilo que os homens rejeitam como insignificante; e ele a agradeceu, com mais do que sua amabilidade habitual, pela graça que presidira, e pela bondade que ditara, seus preparativos. Assim que ficou sozinho, ele moveu sua poltrona para perto do fogo claro e brilhante e, apoiando o rosto na mão, na atitude de um homem que se prepara, por assim dizer, para a indulgência da meditação, murmurou:
“Sim! Estas mulheres são, primeiro, o que a Natureza as faz, e isso é bom; depois, o que o uso as faz, e isso é mau! Agora, se eu pudesse me persuadir de que deveríamos ser minuciosos quanto ao uso que damos a essas pobres marionetes, eu hesitaria em impor o destino que marquei para esta moça. Mas essa é uma consideração mesquinha, e ele é apenas um jogador tolo que perde seu dinheiro por causa de preservar suas fichas. Portanto, a jovem deve servir como mais um ponto para as fortunas de William Brandon. Afinal, quem sofre? Não ela. Ela terá riqueza, posição, honra. Eu sofrerei, ao ceder uma joia tão bela e pura ao coronel de... Puf! Como desprezo aquele cão; mas como eu poderia odiar, esmagar, destruir aquele homem, se pudesse acreditar que ele me desprezava! Poderia ele fazê-lo? Hum! Não, resolvi comigo mesmo que isso é impossível. Bem, esperemos que essa questão matrimonial seja resolvida; e agora deixe-me considerar qual será o próximo passo que darei por mim mesmo — por mim mesmo, sim, apenas por mim mesmo! Comigo perece o último homem de Brandon; mas a luz não deve se apagar sob um alqueire.”
Ao dizer isso, o soliloquista mergulhou em um devaneio mais absorvido e silencioso, do qual foi interrompido pela entrada de seu criado. Brandon, que nunca era um sonhador a menos que estivesse sozinho, rompeu imediatamente suas reflexões.
“Você obedeceu às minhas ordens, Barlow?”, disse ele.
“Sim, senhor”, respondeu o doméstico. “Aluguei a melhor casa ainda desocupada; e quando a Sra. Roberts [governanta de Brandon] chegar de Londres, tudo estará, confio, exatamente conforme seus desejos.”
“Bom! E entregou meu bilhete a Lord Mauleverer?”
“Com minhas próprias mãos, senhor; sua senhoria o aguardará em casa durante todo o dia de amanhã.”
“Muito bem! E agora, Barlow, certifique-se de que seu quarto esteja ao alcance do chamado [as campainhas, embora conhecidas, não eram comuns naquela época], e diga que me recolhi e não devo ser perturbado. Que horas são?”
“Exatamente batendo dez horas, senhor.”
“Coloque sobre aquela mesa minha pasta de cartas e o tinteiro. Apareça, para me ajudar a despir-me, à uma e meia; irei para a cama a essa hora. E... espere... certifique-se, Barlow, de que meu irmão acredite que me recolhi para a noite. Ele não conhece meus hábitos e se preocupará se pensar que fico acordado até tão tarde em meu atual estado de saúde.”
Puxando a mesa com seus apetrechos de escrita para perto de seu senhor, o criado deixou Brandon mais uma vez entregue aos seus pensamentos ou às suas ocupações.
CAPÍTULO XIV.
Criado. Vá embora, eu digo, com esse sino nojento.
Punch. Você chama isso de sino? (batendo nele.) É um órgão.
Criado. Eu digo que é um sino — um sino nojento!
Punch. Eu digo que é um órgão (golpeando-o com ele). O que você diz que é agora?
Criado. Um órgão, Sr. Punch!
A Comédia Trágica de Punch e Judy.
Na manhã seguinte, antes que Lucy e seu pai tivessem deixado seus aposentos, Brandon, que era um madrugador notável, havia perturbado o luxuoso Mauleverer em seu primeiro sono. Embora o cortesão possuísse uma vila a algumas milhas de Bath, ele preferia um alojamento na cidade, tanto por ser mais quente do que uma casa de campo raramente habitada, quanto por ser, para um homem indolente, mais imediatamente conveniente para as diversões e as águas da cidade medicinal. Assim que o conde esfregou os olhos, espreguiçou-se e preparou-se para o colóquio extemporâneo, Brandon despejou suas desculpas pela hora que escolhera para uma visita. “Não mencione isso, meu caro Brandon”, disse o nobre de bom coração, com um suspiro; “fico feliz a qualquer hora em vê-lo, e tenho certeza de que o que você tem a comunicar vale sempre a pena ser ouvido.”
“Foi apenas sobre negócios públicos, embora de uma descrição um tanto mais importante do que o habitual, que me aventurei a perturbá-lo”, respondeu Brandon, sentando-se em uma cadeira ao lado da cama. “Esta manhã, há uma hora, recebi por expresso particular uma carta de Londres, declarando que um novo arranjo será positivamente feito no Gabinete — aliás, nomeando as próprias promoções e mudanças. Confesso que, como meu nome ocorreu, assim como o seu, nessas nomeações, eu estava ansioso por ter o benefício de seu conhecimento necessariamente preciso sobre o assunto, bem como de seu conselho.”
“Sinceramente, Brandon”, disse Mauleverer, com um sorriso meio irritado, “qualquer outra hora do dia teria servido para os ‘negócios da nação’, como os jornais chamam essa farsa incômoda pela qual passamos; e eu imaginara que você não teria rompido meus sonos noturnos exceto por algo de real importância — a descoberta de uma nova beleza ou a invenção de um novo prato.”
“Nem uma nem outra você poderia ter esperado de mim, meu caro lorde”, replicou Brandon. “Você conhece as frivolidades áridas nas quais a vida de um advogado se consome; e belezas e pratos não têm atração para nós, exceto se as primeiras forem donzelas abandonadas e os últimos, patentes invadidas. Mas minhas notícias, afinal, valem a pena ouvir, a menos que você já as tenha ouvido antes.”
“Eu não! Mas suponho que as ouvirei no decorrer do dia. Reze ao Céu para que eu não seja enviado para atender a alguma praga de conselho. Comece!”
“Em primeiro lugar, Lord Duberly resolve renunciar, a menos que esta negociação pela paz seja feita uma questão de Gabinete.”
“Tolo! Deixe-o renunciar. Eu me opus à paz por tanto tempo que está fora de questão. Naturalmente, Lord Wansted não pensará nisso, e ele pode contar com meus distritos eleitorais. Uma paz! — proposição vergonhosa, desonrosa, covarde!”
“Mas, meu caro lorde, minha carta diz que esta firmeza inesperada da parte de Lord Duberly produziu uma sensação tão grande que, vendo a impossibilidade de formar um Gabinete durável sem ele, o rei consentiu com a negociação, e Duberly permanece!”
“O diabo! — o que vem a seguir?”
“Raffden e Sternhold saem em favor de Baldwin e Charlton, e na esperança de que você empreste sua ajuda para...”
“Eu!”, disse Lord Mauleverer, muito irritado. “Eu emprestar minha ajuda a Baldwin, o jacobino, e a Charlton, o filho de um cervejeiro!”
“Muito verdadeiro!”, continuou Brandon. “Mas na esperança de que você pudesse ser persuadido a olhar para os novos arranjos com um olho indulgente, fala-se de você em vez do Duque de para a liga vacante e o cargo de camareiro.”
“Você não quer dizer isso!”, gritou Mauleverer, saltando da cama.
“Algumas outras (mas, ouço dizer, principalmente legais) promoções devem ser feitas. Entre as outras, meu erudito irmão, o democrata Sarsden, terá uma toga de seda; Cromwell será o procurador-geral; e, entre nós, ofereceram-me um cargo de juiz.”
“Mas a liga!”, disse Mauleverer, mal ouvindo o resto das notícias do advogado — “o único objeto, fim e ambição da minha vida. Quão verdadeiramente gentil é o rei! Afinal”, continuou o conde, rindo e jogando-se para trás, “opiniões são variáveis, a verdade não é uniforme. Os tempos mudam, não nós; e devemos ter paz em vez de guerra!”
“Suas máximas são indiscutíveis e a conclusão a que você chega é excelente”, disse Brandon.
“Ora, você e eu, meu caro amigo”, disse o conde, “que conhecemos os homens e que vivemos toda a nossa vida no mundo, devemos rir nos bastidores da cantilena que embrulhamos em lamê e enviamos para desfilar pelo palco. Sabemos que nosso Coriolanus da integridade conservadora é um cabo mantido por uma prostituta, e o Brutus da liberdade Whig é um lacaio posto para fora de casa por roubar as colheres; mas não devemos contar isso ao mundo. Portanto, Brandon, você deve escrever um discurso para mim para a próxima sessão, e certifique-se de que tenha muitas máximas gerais e termine com ‘meu país sangrento’!”
O advogado sorriu. “Você consente então com a expulsão de Sternhold e Raffden? Pois, afinal, essa é a questão. Nossa embarcação britânica, como os malditos mercadores de metáforas chamam o Estado, carrega o bem público seguro no porão como conhaque; e é apenas quando o medo, a tempestade ou o diabo fazem os patifes brigarem entre si e quebrarem os barris, que se consegue mais do que um dedal de cada vez. Deveríamos continuar lutando com o resto do mundo para sempre, se os ministros não tivessem começado a lutar entre si.”
“Quanto a Sternhold”, disse o conde, “é um cão vulgar e votou pela reforma econômica. Além disso, não o conheço; ele pode ir para o diabo, por mim; mas Raffden deve ser tratado com elegância, ou, apesar da liga, voltarei para os Whigs, que, afinal, oferecem jantares toleráveis.”
“Mas por que, meu lorde, Raffden deve ser tratado melhor do que seu irmão recusante?”
“Porque ele me enviou, da maneira mais elegante possível, uma pipa daquele Madeira maravilhoso, que você sabe que considero a principal graça de minhas adegas, e ele desistiu de um projeto de lei de navegação de canal, que teria enriquecido todo o seu condado, quando soube que isso prejudicaria minha propriedade. Não, Brandon, maldita cantilena pública! Sabemos o que isso é. Mas somos cavalheiros, e nossos amigos particulares não devem ser jogados ao mar — a menos, pelo menos, que o façamos da maneira mais civilizada que pudermos.”
“Não tema”, disse o advogado; “você só precisa dar a palavra, e o Gabinete pode preparar uma embaixada para Owhyhee e enviar Raffden para lá com um estipêndio de cinco mil por ano.”
“Ah! Isso é bem pensado; ou poderíamos dar a ele uma concessão de cem mil acres em uma das colônias, ou deixá-lo comprar terras da coroa com um desconto de oitenta por cento. Então, está decidido.”
“E agora, meu caro amigo”, disse Brandon, “direi francamente por que venho tão cedo; sou solicitado a dar uma resposta rápida à proposta que recebi, a saber, a do cargo de juiz. Sua opinião?”
“Um cargo de juiz! Você um juiz? O quê! Abandonar sua brilhante carreira por uma dignidade tão pequena? Você brinca!”
“De jeito nenhum. Escute. Você sabe quão amargamente me opus a esta paz e que inimigos fervorosos fiz entre os novos amigos da administração. Por um lado, esses inimigos insistem em me sacrificar; e, por outro, se eu permanecesse na Câmara Baixa e falasse a favor do que antes me opus, perderia o apoio de uma grande parte de meu próprio partido. Odiado por um grupo e desconfiado pelo outro, um assento na Câmara dos Comuns deixa de ser um objetivo. Propõe-se que eu me retire na dignidade de um juiz, com a promessa positiva e empenhada, embora secreta, da primeira vaga entre os chefes. O cargo de juiz-chefe ou barão-chefe é, de fato, a única remuneração justa para minha renúncia aos ganhos de minha profissão e ao abandono de minha carreira parlamentar e jurídica; o título, que naturalmente lhe será anexado, poderia ir (pelo menos por um exercício de interesse) ao filho mais velho de minha sobrinha — caso ela se casasse com um plebeu — ou”, acrescentou ele, após uma pausa, “seu segundo filho, caso ela se casasse com um par.”
“Ha, verdade!”, disse Mauleverer, rapidamente, e como se atingido por algum pensamento súbito; “e sua encantadora sobrinha, Brandon, seria digna de qualquer honra, seja para seus filhos ou para si mesma. Você não sabe como fiquei impressionado com ela. Há algo tão gracioso em sua simplicidade; e em sua maneira de suavizar as pequenas rugosidades de Warlock House havia uma dignidade tão genuína e tão fácil que declaro que quase me senti jovem novamente, e capaz do autoengano de acreditar estar apaixonado. Mas, oh! Brandon, imagine-me na mesa de seu irmão — eu, para quem os ortolãs são substanciais demais, e que sinto, quando piso, a menor desigualdade nos tapetes de Tournay — imagine-me, caro Brandon, em um quarto de lambris pretos, decorado com seus ancestrais em perucas castanhas com raminhos na lapela; um fogo imenso de um lado e uma corrente de ar do outro; um círculo enorme de carne bovina diante de mim, fumegando como o Vesúvio, e duas vezes maior; um prato cheio (o prato era de estanho — não há um metal assim chamado?) dessa mistura de chama e lava enviado sob meu próprio nariz e, sob pena de má educação, a ser despachado por minha própria boca; um velho cavalheiro de calções de fustão e meias de lã, fazendo as vezes de mordomo, enchendo-me uma caneca de cerveja, e seu digno irmão perguntando-me se eu não preferiria porto; um lacaio magro de libré — tal libré, ó deuses! — escarlate, azul, amarelo e verde, um arco-íris mal feito! — do lado oposto da mesa, olhando para o ‘Lorde’ com olhos e boca igualmente abertos, e grandes o suficiente para me engolir; e seu excelente irmão ele mesmo na cabeceira da mesa brilhando através das névoas da carne, como o sol nascente em uma placa de taberna; e então, Brandon, virando-me dessa imagem, contemple ao meu lado a beleza justa, delicada, aristocrática, porém simples de sua sobrinha, e... Mas você parece irritado; eu o ofendi?”
Já era tempo de Mauleverer fazer essa pergunta, pois, durante todo o relato do conde, o rosto sombrio de seu companheiro literalmente queimara de raiva; e aqui podemos observar como, em geral, o egoísmo, que faz o homem mundano, impede seu possuidor, por uma espécie de paradoxo, de sê-lo de forma consumada. Pois Mauleverer, ocupado pelo prazer que sentia em sua própria sagacidade, e nunca tendo aquela simpatia mágica pelos outros que cria o observador incessantemente atento, não pensara por um momento que estava ofendendo profundamente o orgulho oculto do advogado. Aliás, ele suspeitava tão pouco das fraquezas reais de Brandon que o considerava um filósofo que teria rido tanto dos princípios quanto das pessoas, por mais próximos que pudessem estar estes últimos, e por mais importantes que fossem os primeiros. Dominando com um único esforço, que devolveu à sua face a tonalidade firme de costume, os sinais externos de seu descontentamento, Brandon replicou:
“Ofender-me! De modo algum, meu caro lorde. Não me surpreendo com sua situação penosa na casa de um velho cavalheiro rural, que há séculos não oferece cenas adequadas à presença de um convidado tão distinto — nunca, posso dizer, desde o tempo em que Sir Charles de Brandon recebeu Elizabeth em Warlock, e seu ancestral (conheço meus antigos e mofados estudos sobre esses pontos de obscura antiguidade), John Mauleverer, que era um notável ourives de Londres, forneceu a prataria para a ocasião.”
“Retrucado com justiça”, disse Mauleverer, sorrindo; pois, embora o conde tivesse um grande desprezo pelo nascimento humilde alçado a posições elevadas em outros homens, ele era totalmente desprovido de orgulho em sua própria família — “retrucado com justiça! Mas eu não pretendia nada além de rir da administração doméstica de seu irmão — uma brincadeira certamente permitida a um homem cuja própria exigência sobre esses assuntos é uma piada constante. Mas, pelos céus, Brandon! para mudar de assunto, sua sobrinha é a garota mais bonita que vi em vinte anos; e se ela pudesse esquecer que sou descendente de John Mauleverer, o notável ourives de Londres, ela poderá ser Lady Mauleverer assim que desejar.”
“Ora, vamos ser sérios e falar sobre o cargo de juiz”, disse Brandon, fingindo tratar a proposta como uma piada.
“Pela alma de Sir Charles de Brandon, estou falando sério!”, exclamou o conde; “e, como prova disso, espero que me deixe apresentar meus respeitos à sua sobrinha hoje — ainda não com meu pedido em mãos, pois deve ser um casamento por amor de ambas as partes.” E o conde, lançando um olhar para um espelho oposto, que refletia seus traços atenuados, porém belos, sob sua touca de dormir de veludo com guarnição de Mechlin, riu meio triunfante enquanto falava.
Um escárnio apenas passou pelos lábios de Brandon, e instantaneamente desapareceu, enquanto Mauleverer continuava:
“E quanto ao cargo de juiz, caro Brandon, aconselho-o a aceitá-lo, embora você saiba o que é melhor; e realmente penso que ninguém terá uma chance mais justa para o cargo de juiz-chefe — ou, embora seja um tanto incomum para advogados 'comuns', por que não a própria chancelaria? Como você diz, o segundo filho de sua sobrinha poderia herdar a dignidade de um pariato!”
“Bem, considerarei favoravelmente”, disse Brandon; e pouco depois deixou o nobre para retomar seu repouso interrompido.
“Não consigo rir desse homem”, disse Mauleverer para si mesmo, enquanto se virava na cama, “embora ele tenha muito do que eu deveria rir em outro; e, na verdade, há uma pequena questão pela qual eu poderia muito bem desprezá-lo, se eu não fosse um filósofo. É uma bela moça, sua sobrinha, e com as instruções adequadas poderia dar crédito a alguém; além disso, ela tem 60 mil libras em dinheiro vivo; e, na verdade, não tenho um xelim para meu próprio prazer, embora eu tenha — ou, ai de mim!, tenha tido — cinquenta mil por ano para o de meu estabelecimento! Com toda a probabilidade, ela será a herdeira do advogado, e ele deve ter feito pelo menos tanto quanto a parte dela; nem ele, pobre diabo, tem uma vida muito longa. Além disso, se ele ascender ao pariato? E o segundo filho — Bem! Bem! Não será um casamento tão ruim para o descendente do ourives também!”
Com esse pensamento, Lord Mauleverer adormeceu. Levantou-se por volta do meio-dia, vestiu-se com um cuidado incomum e estava prestes a sair para uma visita à Srta. Brandon, quando de repente lembrou-se de que seu tio não mencionara o endereço dela nem o dele. Referiu-se ao bilhete do advogado da noite anterior; nenhum endereço estava inscrito nele; e Mauleverer foi forçado, com grande desgosto, a renunciar por aquele dia ao prazer que havia prometido a si mesmo.
Na verdade, o cauteloso advogado, que, como dissemos, desprezava a ostentação e as aparências externas tanto quanto qualquer homem, ainda assim estava consciente de seu efeito até mesmo aos olhos de um amante; e, além disso, Lord Mauleverer era alguém cujos hábitos de vida eram calculados para despertar certo grau de vigilância em pontos de pompa doméstica até mesmo nos mais desatentos. Brandon, portanto, resolveu que Lucy não seria visitada por seu admirador até que a mudança para sua nova residência fosse efetuada; e não foi até o terceiro dia a partir daquele em que Mauleverer tivera com Brandon a entrevista que registramos, que o conde recebeu um bilhete de Brandon, aparentemente tratando apenas de assuntos políticos, mas inscrito com o endereço e a direção na forma completa.
Mauleverer respondeu pessoalmente. Encontrou Lucy em casa, e mais bonita do que nunca; e daquele dia em diante, sua mente estava decidida, como dizem as mamães, e suas visitas tornaram-se constantes.
CAPÍTULO XV.
Há um festival onde cavaleiros e damas, E tudo o que a riqueza ou a linhagem nobre reclama, Aparecem.
É ele — como veio dali? O que faz ele aqui? Lara.
Existem duas situações encantadoras na vida para uma mulher — uma, o frescor inicial de ser herdeira e a beleza; a outra, a viuvez jovem, com um grande dote. Foi pelo menos a sorte de Lucy desfrutar da primeira. Assim que ela foi lançada no mundo alegre, tornou-se objeto de idolatria universal. Multidões a seguiam onde quer que ela fosse; nada se comentava ou se sonhava, nada se brindava ou se apostava, a não ser em Lucy Brandon; até mesmo sua simplicidade, e total ignorância das artes da vida elegante, aumentavam o brilho de sua reputação. De alguma forma, os jovens do sexo gentil raramente são mal-educados, mesmo em suas excentricidades; e muitas vezes há uma grande dose de graça na inexperiência. Seu tio, que a acompanhava em toda parte, ele próprio um ímã de atração nada desprezível, via seu sucesso com um triunfo complacente que não permitia a ninguém, exceto ao pai dela ou a ela própria, detectar. À frieza suave de sua maneira, nada teria parecido mais estranho do que o orgulho pela atenção ganha por uma beldade, ou a exultação por qualquer favor conquistado com os caprichos da moda. Quanto ao bom e velho escudeiro, imaginar-se-ia que ele fosse muito mais o inválido do que seu irmão. Ele quase nunca era visto; pois, embora fosse a toda parte, era uma daquelas pessoas que afundam em um canto no momento em que entram em uma sala. Quem quer que o descobrisse em seu retiro, estendia as mãos e exclamava: “Deus me abençoe! Você aqui! Não o vemos há uma eternidade!” De vez em quando, se em um nicho muito escuro da sala uma mesa de cartas tivesse sido colocada, o digno cavalheiro trabalhava em um obscuro bridge; mas, mais frequentemente, ele ficava sentado com as mãos entrelaçadas e a boca aberta, contando o número de velas na sala, ou calculando “quando aquela música estúpida terminaria”.
Lord Mauleverer, embora um homem polido e cortês, cujo grande objetivo era necessariamente conquistar a simpatia do pai de sua pretendida noiva, tinha um horror de ser aborrecido que superava todos os outros sentimentos em sua mente. Ele não conseguia, portanto, persuadir-se a submeter-se ao dever melancólico de ouvir os “discursos longos e encadeados” do escudeiro. Ele sempre deslizava pelo posto do homem honesto, aparentemente com muita pressa, com um: “Ah, meu caro senhor, como vai você? Como estou encantado em vê-lo! E sua incomparável filha? Oh, lá está ela! Perdoe-me, caro senhor — você vê minha atração.”
Lucy, de fato, que nunca esquecia ninguém (exceto a si mesma, ocasionalmente), procurava o retiro de seu pai sempre que podia; mas seus compromissos eram tão incessantes que não terminava com um parceiro e já era reivindicada e levada por outro. No entanto, o escudeiro suportava sua solidão com uma alegria tolerável, e sempre declarava que “estava muito bem divertido; embora bailes e concertos fossem necessariamente um pouco entediantes para quem vinha de um belo e velho lugar como Warlock Manor-house, e não era a mesma coisa que agradava às jovens (pois, para elas, aquele tilintar e risadinhas até as duas da manhã podia ser uma maneira muito bonita de matar o tempo) e a seus papais!”
O que aumentou consideravelmente a celebridade de Lucy foi a atenção marcada e a admiração de um homem tão elevado em posição e tom quanto Lord Mauleverer. Esse personagem, que ainda retinha muito de uma mente e temperamento juvenis, e que era por natureza mais descuidado do que arrogante, preservava pouco ou nenhum cerimonial em seu convívio com os foliões sociais em Bath. Ele não se importava para onde ia, desde que estivesse no séquito da jovem beldade; e o nobre mais exigente da corte inglesa era visto em todos os círculos de segunda e terceira categoria de um grande balneário — o acompanhante, o flertador e, muitas vezes, o motivo de ridículo da filha de um obscuro e quase insignificante escudeiro rural. Apesar da honra de um amante tão distinto, e apesar de todas as novidades de sua situação, a linda cabeça de Lucy Brandon ainda estava, contudo, perfeitamente equilibrada; e quanto ao seu coração, a única impressão que jamais recebera foi feita por aquele convidado errante do reitor da aldeia, a quem ela nunca mais vira, mas que ainda se agarrava à sua imaginação, investido não apenas com todas as graças que, por direito de uma pessoa singularmente bonita, ele possuía, mas com aquelas às quais ele nunca poderia reivindicar — mais perigosas para sua paz, pelo próprio fato de sua origem estar em sua fantasia, não em seus méritos.
Eles já estavam há algum tempo em Bath, e o breve descanso de Brandon estava quase terminando, quando um baile público de atração incomum e múltipla foi anunciado. Ele seria agraciado não apenas pela presença de todas as famílias vizinhas, mas também pela da própria realeza; sendo um fato reconhecido que as pessoas dançam muito melhor e comem muito mais na ceia quando qualquer parente de um rei está presente.
“Devo ficar para este baile, Lucy”, disse Brandon, que, após passar o dia com Lord Mauleverer, retornou para casa em um humor mais alegre do que o habitual — “devo ficar para este único baile, Lucy, e testemunhar seu triunfo completo, mesmo que seja necessário deixá-la na manhã seguinte.”
“Tão cedo!”, exclamou Lucy.
“Tão cedo!”, ecoou o tio, com um sorriso. “Como você é bondosa ao falar assim com um velho valetudinário, cuja companhia deve tê-la fatigado até a morte! Ora, nada de negações bonitas! Mas o grande objetivo de minha visita a este lugar está cumprido: eu a vi, testemunhei sua estreia no grande mundo, com, posso dizer, mais do que a exultação de um pai, e volto para minhas secas ocupações com a satisfação de pensar que nossa antiga e murcha árvore genealógica deu um fruto digno de seu dia mais fresco.”
“Tio!”, disse Lucy, em tom de reprovação, e levantando seu dedo afilado com um sorriso travesso, misturado a um rubor, no qual a vaidade da mulher falava, sem que ela mesma soubesse.
“E por que esse olhar, Lucy?”, disse Brandon.
“Porque — porque — bem, não importa! Você foi criado naquele ofício no qual, como você mesmo diz, os homens dizem inverdades pelos outros até perderem toda a verdade para si mesmos. Mas falemos de você, não de mim; você está realmente bem o suficiente para nos deixar?”
Simples e até frias como as palavras da pergunta de Lucy, quando escritas, parecem, em sua boca elas assumiram um tom tão terno, tão ansioso, que Brandon, que não tinha amigo, nem esposa, nem filho, nem ninguém em sua casa em quem o interesse por sua saúde ou bem-estar fosse algo natural, e que estava, consequentemente, totalmente desacostumado ao sotaque da bondade, sentiu-se de repente tocado e atingido.
“Por que, na verdade, Lucy”, disse ele, em uma voz menos artificial do que aquela com a qual falava habitualmente, “eu gostaria de continuar aproveitando seus cuidados, e esquecer minhas enfermidades e dores em sua sociedade; mas não posso: a maré dos acontecimentos, como a da natureza, não espera por nosso prazer!”
“Mas nós podemos escolher nosso próprio tempo para zarpar!”, disse Lucy.
“Sim, isso é o que dá falar em metáforas”, replicou Brandon, sorrindo; “aqueles que começam sempre se dão mal. Em palavras claras, querida Lucy, não posso dar mais tempo às minhas próprias enfermidades. Um advogado não pode faltar ao trabalho durante o período de sessões sem...”
“Perder algumas guinéus!”, disse Lucy, interrompendo-o.
“Pior do que isso — sua prática e seu nome.”
“Melhor esses do que a saúde e a paz de espírito.”
“Fora com você, não!”, disse Brandon, rapidamente, e quase ferozmente. “Desperdiçamos todo o frescor e a força de nossa vida tentando obter uma escravidão distinta; e quando ela é obtida, não devemos pensar que uma humilde independência teria sido melhor. Se admitirmos esse pensamento, que tolos, que tolos perdulários temos sido! Não!”, continuou Brandon, após uma pausa momentânea, e em um tom mais suave e alegre, embora não menos característico da obstinação de vontade do homem, “após perder todos os prazeres da juventude e o lazer da idade adulta, para que na velhice a mente, a mente que tudo conquista, pudesse finalmente abrir caminho para as opiniões aplaudidoras dos homens, eu seria um ocioso efeminado, de fato, se eu sofresse, enquanto suas partes dissonantes se mantiverem unidas, ou enquanto eu tiver o poder de comandar seus membros, que este corpo fraco frustrasse o trabalho de sua porção melhor e mais nobre, e comandasse aquilo que ele foi ordenado a servir.”
Lucy não sabia, enquanto ouvia, meio com medo, meio com admiração, seu singular parente, que no exato momento em que ele falava assim, sua doença o consumia em um de seus estados mais implacáveis, sem o poder de arrancar dele um único sinal externo de sua tortura. Mas ela não precisava de nada para aumentar sua piedade e afeição por um homem que, em consequência, talvez, de sua superfície comum de propriedades mundanas e frias de temperamento, nunca deixava de causar uma impressão indelével em todos que já tinham visto esse temperamento rompido por sentimentos mais profundos, embora muitas vezes mais malignos.
“Você irá à recepção de Lady--------?”, perguntou Brandon, voltando facilmente aos tópicos comuns. “Lord Mauleverer pediu-me para convidá-la.”
“Isso depende de você e de meu pai.”
“Se depende de mim, respondo sim”, disse Brandon. “Gosto de ouvir Mauleverer, especialmente entre pessoas que não o compreendem. Há um sarcasmo refinado e sutil correndo pelos lugares-comuns de sua conversa, que corta os bons tolos, como a espada invisível da fábula, que decepava cabeças sem causar aos proprietários outra sensação senão uma agradável e autocomplacente titilação. Quão imensamente superior ele é em maneiras e trato a todos que encontramos aqui! Não lhe parece?”
“Sim — não — não posso dizer que pareça exatamente”, replicou Lucy.
“Essa confusão será ternura?”, pensou Brandon.
“Em uma palavra”, continuou Lucy, “Lord Mauleverer é alguém que considero agradável sem fascínio, e divertido sem brilho. Ele é evidentemente realizado em mente e gracioso em maneiras, e, acima de tudo, a pessoa mais desinteressante que já conheci.”
“As mulheres nem sempre pensaram assim”, disse Brandon. “Não posso acreditar que elas possam pensar de outra forma.”
Uma certa expressão, participando de desdém, passou pelos traços duros de Brandon. Era um traço notável nele que, embora estivesse muito ansioso para impressionar Lucy com uma opinião favorável de Lord Mauleverer, ele nunca era totalmente capaz de mascarar uma certa satisfação em qualquer piada às custas do conde, ou qualquer opinião depreciativa ao seu caráter geral de agradar ao sexo oposto; e essa satisfação não era concebida antes de ser imediatamente combatida pela contrariedade que ele sentia por Lucy não parecer compartilhar de seu próprio desejo de que ela se tornasse a esposa do cortesão. Parecia que, a esse respeito, havia um conflito em sua mente entre o interesse, por um lado, e a aversão ou desprezo pessoal, por outro.
“Você julga as mulheres erroneamente!”, disse Brandon. “As damas nunca conhecem umas às outras; de todas as pessoas, Mauleverer é o mais bem calculado para conquistá-las, e a experiência provou minha afirmação. O destino mais orgulhoso que conheço para uma mulher seria a conquista total de Lord Mauleverer; mas é impossível. Ele pode ser galante, mas nunca será subjugado. Ele desafia todo o mundo feminino, e com justiça e impunidade. Chega dele. Cante para mim, querida Lucy.”
O tempo para o baile aproximou-se; e Lucy, que era uma garota encantadora e não tinha nada de anjo, gostava o suficiente de alegria, dança, música e admiração para sentir seu coração bater forte com a expectativa do evento.
Finalmente, o dia chegou. Brandon jantou sozinho com Mauleverer, tendo feito o arranjo de que ele, com o conde, se juntaria ao irmão e à sobrinha no baile. Mauleverer, que odiava pompa, exceto em grandes ocasiões, quando nenhum homem a exibia com melhor graça, nunca permitia que seus servos servissem o jantar quando estava sozinho ou com um de seus amigos peculiares. Os atendentes permaneciam do lado de fora, e eram chamados à vontade por uma campainha colocada ao lado do anfitrião.
A conversa era livre.
“Estou perfeitamente certo, Brandon”, disse Mauleverer, “que, se você vivesse toleravelmente bem, logo superaria suas queixas nervosas. É tudo pobreza de sangue, acredite em mim. Mais um pouco das barbatanas, eh? — Não! Oh, pendure sua abstinência; é d----d inamistoso comer tão pouco! Falando em barbatanas e amigos, o céu me livre de formar novamente uma intimidade com um epicurista pedante, especialmente se ele faz trocadilhos!”
“Por que, o que um pedante tem a ver com barbatanas?”
“Eu lhe direi — ah, este madeira — sugeri ao Lord Dareville, que afeta o gourmet, que coisa capital um prato só de barbatanas (barbatanas de pregado) poderia ser feito. 'Capital!', disse ele, em êxtase; 'jante isso comigo amanhã'. 'Volontiers!', disse eu. No dia seguinte, após me entregar a um devaneio agradável durante toda a manhã sobre a maneira como o cozinheiro de Dareville, que não deixa de ter gênio, realizaria a grande ideia, fui pontualmente ao meu compromisso. Você acreditaria? Quando a tampa foi removida, o sacrílego cão de um anfitrião havia colocado no prato o 'De Finibus' de Cícero. 'Aí está uma obra só de barbatanas!', disse ele.” “Atroz trocadilho!”, exclamou Brandon, solenemente.
“Não foi? Sempre que os gastronomistas estabelecerem uma inquisição religiosa, confio que eles assarão cada canalha ímpio que trata o mistério divino com leviandade. Trocadilho sobre culinária, de fato! A propósito de Dareville, ele vai entrar na administração.”
“Você me surpreende!”, disse Brandon. “Nunca ouvi isso; não o conheço. Ele tem muito pouco poder; tem algum talento?”
“Sim, um muito grande — adquirido, no entanto.”
“Qual é?”
“Uma bela esposa!”
“Meu lorde!”, exclamou Brandon, abruptamente, e meio levantando-se de seu assento.
Mauleverer olhou para cima apressadamente, e ao ver a expressão do rosto de seu companheiro, corou profundamente; houve um silêncio por alguns momentos.
“Diga-me”, disse Brandon, indiferentemente, servindo-se de vegetais, pois ele raramente tocava em carne; e um contraste mais divertido dificilmente poderia ser concebido do que entre o epicurismo sincero de Mauleverer e o desprezo descuidado pela arte sublime manifestado por seu convidado — “diga-me, você que necessariamente sabe tudo, se o governo está realmente decidido — se você vai ganhar a liga, e eu (marque a diferença!) o cargo de juiz.”
“Ora, sim, imagino que será arranjado; a saber, se você consentir em pendurar os patifes em vez de viver dos tolos!”
“Pode-se unir os dois!”, respondeu Brandon. “Mas acredito, em geral, que é vice-versa; pois vivemos dos patifes, e é apenas os tolos que somos capazes de pendurar. Você me pergunta se aceitarei o cargo de juiz. Eu não — não, eu preferiria cortar minha mão fora”, e o advogado falou com grande amargura, “abandonar minha carreira atual, apesar de todos os obstáculos que agora a encumbram, se eu pensasse que este corpo miserável me permitiria por mais dois anos persegui-la.”
“Você me choca!”, disse Mauleverer, um pouco afetado, mas ainda assim aplicando a pimenta ao seu pepino com sua habitual e infalível delicadeza de tato — “você me choca; mas está consideravelmente melhor do que estava.”
“Não é”, continuou Brandon, que falava mais para si mesmo do que para seu amigo — “não é que eu seja incapaz de vencer a dor e dominar os nervos covardes; mas sinto-me ficando cada vez mais fraco sob o esforço contínuo dos meus poderes restantes, e morrerei antes de ter alcançado metade dos meus objetivos, se não abandonar os trabalhos que estão literalmente me despedaçando.”
“Mas”, disse Lord Mauleverer, que era o mais ocioso dos homens, “o cargo de juiz não é uma sinecura fácil.”
“Não; mas há menos exigência para a mente nessa posição do que na minha atual;” e Brandon pausou antes de continuar. “Francamente, Mauleverer, você não acha que eles me enganarão — você não acha que pretendem me deixar para esta morte política sem escrever 'Resurgam' sobre o brasão funerário?”
“Eles não se atreveriam!”, disse Mauleverer, bebendo seu quarto copo de madeira.
“Bem, decidi pela minha mudança de vida”, disse o advogado, com um leve suspiro.
“Assim como eu pela minha mudança de opinião”, emendou o conde. “Vou lhe dizer com o que as opiniões me parecem.”
“Com o quê?”, disse Brandon, absentemente.
“Árvores!”, respondeu Mauleverer, peculiarmente. “Se podem ser úteis permanecendo de pé, não se desfaça de um galho; mas quando atingem aquele porte que rende um bom preço, ou sempre que bloqueiam uma bela vista, corte-as e despache-as de todas as maneiras possíveis! E agora, para o segundo prato.”
“Eu me pergunto”, disse o conde, quando nossos dignatários políticos estavam novamente a sós, “se já existiu um ministro que se importasse minimamente com o povo; muitos se importam com seu partido, mas quanto ao país...”
“É tudo bobagem!”, acrescentou o advogado, com mais significado do que graça.
“Certo; é tudo bobagem, como você expressa de forma tão sucinta. Rei, Constituição e Igreja, para sempre! O que, sendo interpretado, significa: primeiro, Rei ou influência da Coroa, cargos de juiz e ordens de cavalaria; segundo, Constituição, ou honorários para o advogado, cargos para o estadista, leis para os ricos e Leis de Caça para os pobres; terceiro, Igreja, ou benefícios para nossos filhos mais novos, e miséria para seus vigários!”
“Ha, ha!”, disse Brandon, rindo sardonicamente; “nós conhecemos a natureza humana!”
“E como ela pode ser enganada!”, disse o cortesão. “Um brinde à sua sobrinha; e que não demore muito até que você a saude como a noiva do seu amigo!”
“Noiva, et cetera”, disse Brandon, com um escárnio destinado apenas à sua própria satisfação. “Mas marque o que digo, meu caro lorde, não se dê por tão certo dela. Ela é uma moça singular, e de maior independência do que a generalidade das mulheres. Ela não pensará na sua posição e status ao avaliá-lo; ela pensará apenas no dono deles; e perdoe-me se eu lhe sugerir, a você que conhece tão bem o sexo, um plano que pode não ser desaconselhável seguir. Não deixe que ela pense que você é inteiramente dela; desperte seu ciúme, pique seu orgulho, deixe que ela pense que você é inconquistável, e, a menos que ela seja diferente de todas as mulheres, ela desejará conquistá-lo.”
O conde sorriu. “Devo arriscar!”, disse ele, com um tom confiante.
“O velho vaidoso!”, murmurou Brandon, entre os dentes; “agora sua tolice estragará tudo.”
“E isso me lembra”, continuou Mauleverer, “que o tempo voa, e o jantar ainda não terminou; não nos apressemo, mas fiquemos em silêncio, para aproveitar mais. Estas trufas no champanhe... prove-as; ressuscitariam os mortos.”
O advogado sorriu e aceitou a gentileza, embora tenha deixado a iguaria intocada; e Mauleverer, cuja alma estava em seu prato, não viu a rejeição impiedosa.
Enquanto isso, a jovem beleza já havia entrado no teatro do prazer e estava agora sentada com o escudeiro na extremidade superior do salão de baile semipreenchido.
Uma dama alegre, da moda da época e daquela classe intermediária à qual pertencia a aristocracia de Bath — uma daquelas pessoas curiosas que encontramos nos admiráveis romances de Miss Burney, como pertencentes à ordem das damas elegantes — formava o trio com nossa herdeira e seu pai, e apontava-lhes pelo nome os vários personagens que entravam nos salões. Ela ainda estava na maré alta das fofocas quando uma sensação incomum foi visível nas cercanias da porta; três estranhos de porte marcante, trajes festivos e um ar que, embora diferente em cada um, era em todos igualmente notável por uma espécie de segurança “audaciosa”, fizeram sua entrada. Um era de altura incomum e possuía uma cabeleira excessivamente bela; outro tinha um aspecto mais quieto e despretensioso, mas, mesmo assim, trazia no rosto uma expressão arrogante, embora não de mau humor; o terceiro era muitos anos mais jovem que seus companheiros, notavelmente bonito de rosto e figura, com um gosto de vestir-se muito melhor no geral, e possuindo uma maneira que, embora tivesse igual facilidade, não era igualmente notável pela insolência e arrogância.
“Quem podem ser eles?”, disse a amiga de Lucy, em tom de espanto. “Nunca os vi antes... devem ser grandes pessoas... eles têm todo o jeito de gente de qualidade! Deus, que estranho eu não os conhecer!”
Enquanto a boa dama, que, como todas as boas damas daquela estirpe, achava que gente de qualidade tinha modos, lamentava assim sua ignorância sobre os recém-chegados, um sussurro geral de teor semelhante já circulava pelo salão: “Quem são eles?” e a resposta universal era: “Não sei... nunca os vi antes!”
Nossos estranhos não pareciam de forma alguma descontentes com a impressão evidente e imediata que haviam causado. Permaneceram na parte mais conspícua do salão, desfrutando entre si de uma conversa em voz baixa, frequentemente interrompida por ataques de riso — sinais, não precisamos acrescentar, de sua educação supereminente. A figura bonita do estranho mais jovem e a graça simples e aparentemente inconsciente de suas atitudes não eram, no entanto, indignas da admiração que ele excitava; e até mesmo seu riso, rude como realmente era, exibia um conjunto de dentes tão deslumbrante, e era acompanhado por olhos tão brilhantes, que, antes de estar dez minutos no salão, dificilmente havia uma jovem abaixo de trinta e nove anos que não estivesse disposta a apaixonar-se por ele.
Aparentemente alheios aos vários comentários que chegavam aos seus ouvidos, nossos estranhos, depois de terem, de sua posição, examinado suficientemente as belezas do baile, passearam de braços dados pelos salões. Tendo percorrido o salão de baile e a sala de jogos, passaram pela porta que levava ao corredor de entrada e observaram, com outros ociosos, os recém-chegados que subiam as escadas. Aqui, os dois estranhos mais jovens renovaram sua conversa sussurrada, enquanto o mais velho, que era também o mais alto, encostado descuidadamente na parede, ocupou-se por alguns momentos em passar os dedos pelo cabelo. Ao terminar essa ocupação, o estado peculiar de seus punhos forçou-se à observação de nosso cavalheiro, que, após contemplar por alguns instantes um rasgo invejável no punho direito, murmurou algumas palavras indistintas, como “o cão daquela maldita pistola”, e então prendeu o ornamento mutilado com um movimento particularmente ágil dos dedos da mão esquerda; no momento seguinte, distraído por um novo cuidado, o estranho aplicou seus membros digitais ao arranjo e carícia de um broche notavelmente esplêndido, fixado no peito de uma camisa cuja textura grosseira formava um contraste singular com a magnificência do adorno e a finura do único punho permitido pelo nosso Hyperion moderno a aparecer sob a manga de seu casaco cor de canela. Estes pequenos arranjos pessoais concluídos, e uma deslumbrante tabaqueira liberada do confinamento de um bolso lateral, batida três vezes e aliviada de duas pitadas de seu luxo estimulante, o estranho agora, com o olhar vigilante da amizade, dirigiu um olhar perscrutador ao traje de seus amigos. Lá tudo parecia adequado ao seu escrutínio mais rigoroso, exceto, de fato, que o estranho de aparência arrogante, tendo acabado de retirar suas luvas, o forro do bolso de seu casaco — que estava, aliás, um tanto sujo — não havia retornado à sua posição interna; o estranho alto, vendo essa pequena deselegância, gentilmente enfiou três dedos com um mergulho súbito e leve no bolso do amigo, e repeliu efetivamente a ousadia do forro intruso. O estranho arrogante, não mais cedo sentiu o toque, sobressaltou-se e sussurrou ao seu companheiro oficioso:
“O quê! entre amigos, Ned! Ora, contenha a sua natureza por uma noite, pelo menos.”
Antes que o de madeixas esvoaçantes tivesse tempo de responder, o mestre de cerimônias, que nos últimos três minutos observava os estranhos através de seu monóculo, avançou com uma mesura deslizante; e o cavalheiro bonito, assumindo para si a superioridade e precedência sobre seus companheiros, foi o primeiro a retribuir a cortesia. Ele o fez com tanta graça e uma expressão de rosto tão agradável que o censor de mesuras ficou encantado de imediato e, com uma segunda e mais profunda saudação, anunciou-se e a seu cargo. “Vocês gostariam de dançar, provavelmente, cavalheiros?”, perguntou ele, olhando para cada um, mas dirigindo suas palavras àquele que o havia impressionado.
“Você é muito gentil”, disse o estranho garboso; “e, por minha parte, ficarei extremamente grato pelo exercício de seus poderes em meu favor. Permita-me retornar com você ao salão de baile, e lá poderei apontar-lhe os objetos da minha especial admiração.”
O mestre de cerimônias inclinou-se como antes, e ele e seu novo conhecido passearam até o salão de baile, seguidos pelos dois camaradas deste último.
“Vocês estão há muito tempo em Bath, senhor?”, indagou o monarca dos salões.
“Não, na verdade! Chegamos apenas esta noite.”
“De Londres?”
“Não; fizemos uma pequena excursão pelo interior.”
“Ah! muito agradável, este belo tempo.”
“Sim; especialmente à noite.”
“Oho! romântico!”, pensou o homem dos bailes, enquanto respondia em voz alta: “Bem, as noites são agradáveis, e a lua nos é particularmente favorável.”
“Nem sempre!”, disse o estranho.
“Verdade, verdade, a noite antes de ontem estava escura; mas, em geral, certamente a lua tem estado muito brilhante.”
O estranho estava prestes a responder, mas conteve-se e simplesmente inclinou a cabeça como em concordância.
“Eu me pergunto quem eles são!”, pensou o mestre de cerimônias. “Diga-me, senhor”, disse ele, em tom baixo, “aquele cavalheiro, aquele cavalheiro alto, é de alguma forma parente de Lord ----------? Não posso deixar de pensar que vejo uma semelhança familiar.”
“Não é de forma alguma parente de seu lorde”, respondeu o estranho; “mas ele é de uma família que fez barulho no mundo; embora ele, assim como meu outro amigo, seja meramente um plebeu!”, enfatizando a última palavra.
“Nada, senhor, pode ser mais respeitável do que um plebeu de família”, retribuiu o polido Mr. -------, com uma mesura.
“Concordo com você, senhor”, respondeu o estranho, com outra. “Mas, céus!” — e o estranho sobressaltou-se; pois naquele momento seu olho captou pela primeira vez, na outra extremidade do salão, o semblante jovem e brilhante de Lucy Brandon — “vejo corretamente, ou aquela é Miss Brandon?”
“É, de fato, aquela adorável jovem”, disse Mr. -------. “Parabenizo-o por conhecer alguém tão admirado. Suponho que você, sendo abençoado com seu conhecimento, não precise da formalidade da minha apresentação?”
“Hum!”, disse o estranho, de forma bastante curta e descortês. “Não! Talvez seja melhor que me apresente!”
“Por que nome terei essa honra, senhor?”, indagou discretamente o nomenclador.
“Clifford!”, respondeu o estranho; “Capitão Clifford!” Após isso, o metódico mestre de cerimônias, abrindo caminho através do salão que agora se enchia rapidamente, aproximou-se de Lucy para obedecer ao pedido de Mr. Clifford. Enquanto isso, aquele cavalheiro, antes de seguir os passos do espírito tutelar do lugar, pausou e disse a seus amigos, em tom descuidado, mas não sem comando: “Escutem, cavalheiros; obriguem-me sendo tão civis e silenciosos quanto forem capazes; e não se imponham a mim, como estão acostumados a fazer, sempre que não virem oportunidade de me conceder essa honra com o menor sinal de decoro!” Dito isso, e sem esperar resposta, Mr. Clifford apressou-se atrás do mestre de cerimônias.
“Nosso amigo torna-se terrivelmente imperioso!”, disse Long Ned, a quem nossos leitores já reconheceram no estranho alto.
“É o caminho dos seus gênios em ascensão”, respondeu o moralizante Augustus Tomlinson. “Suponho que possamos ir à sala de jogos e preparar um carteado!”
“Bem pensado”, disse Ned, bocejando — algo que ele era muito propenso a fazer em sociedade; “e não desejo nada pior àqueles que tentam nossos carteados do que eles sejam bem depenados por eles.” Após este gracejo, o Colosso das Estradas, olhando para o espelho, pavoneou-se, de braços dados com seu companheiro, para a sala de jogos.
Durante esta curta conversa, a reintrodução de Mr. Clifford (o estranho da Reitoria e salvador do Dr. Slopperton) a Lucy Brandon havia sido efetuada, e a mão da herdeira já estava comprometida, de acordo com o costume daquela época, para as duas danças seguintes.
Passaram-se cerca de vinte minutos após a apresentação acima ter ocorrido quando Lord Mauleverer e William Brandon entraram nos salões; e o burburinho mal havia diminuído antes que a personalidade real esperada para abrilhantar a “cena festiva” (como os jornais dizem de um grande salão com muitas pessoas de aparência miserável nele) chegasse. As pessoas mais atraentes da Europa podem ser encontradas entre a família real da Inglaterra, e a grande personalidade que estava então em Bath, em consequência de certas intrigas políticas, desejava, naquele momento especialmente, tornar-se o mais popular possível. Tendo dado a volta entre as velhas damas e assegurado a elas, como o “Court Journal” assegura às velhas damas nos dias de hoje, que elas eram “estrelas da manhã” e “maravilhas como cisnes”, o príncipe avistou Brandon e imediatamente fez um gesto familiar para ele. O advogado suave, porém saturnino, aproximou-se da presença real com a maneira que o distinguia particularmente, e que misturava, em uma mistura nada deselegante, uma espécie de rigidez que passava para a multidão como independência nata, com uma insinuação flexível que era geralmente considerada o sinal de benevolência latente do coração. Havia algo, de fato, na abordagem de Brandon que sempre agradava aos grandes; e eles gostavam mais dele porque, embora ele não defendesse pontos políticos ociosos — meras diferenças na visão tomada de um fio de cabelo, como uma lei de cereais ou um projeto de lei católico, alteração na Igreja ou uma reforma no parlamento —, ele invariavelmente falava tão como um homem de honra (exceto quando estava com Mauleverer) que sua urbanidade parecia apego aos indivíduos, e suas concessões ao poder, sacrifícios de opinião privada em prol de agradar seus amigos.
“Estou realmente muito feliz”, disse a personalidade real, “em ver Mr. Brandon parecendo muito melhor. Nunca a coroa esteve com maior necessidade de seus serviços; e se os rumores falarem a verdade, eles logo serão exigidos em outro departamento de sua profissão.”
Brandon inclinou-se e respondeu:
“Se agrada a Vossa Alteza Real, eles estarão sempre ao comando de um rei de quem experimentei tanta bondade, em qualquer capacidade para a qual Sua Majestade possa considerá-los adequados.”
“É verdade, então!”, disse sua Alteza Real, significativamente. “Parabenizo-o! A dignidade silenciosa do tribunal deve parecer-lhe uma grande mudança após uma carreira tão movimentada e inquieta.”
“Temo que sentirei isso a princípio, Vossa Alteza Real”, respondeu Brandon, “pois gosto até mesmo do trabalho da minha profissão; e neste momento, quando estou em plena prática, mais do que nunca... Mas” (contendo-se de imediato) “os desejos de Sua Majestade, e minha satisfação em cumpri-los, são mais do que suficientes para remover qualquer arrependimento momentâneo que eu pudesse, de outra forma, ter sentido ao abandonar aqueles trabalhos que se tornaram para mim uma segunda natureza.”
“É possível”, replicou o príncipe, “que Sua Majestade tenha levado em consideração o estado delicado de saúde que, em comum com todo o público, lamento ver que os jornais atribuíram a um dos ornamentos mais distintos da advocacia.”
“Se agrada a Vossa Alteza Real”, respondeu Brandon, friamente, e com um sorriso que o olho mais penetrante não poderia ter acreditado ser a máscara da agonia que então roía seus nervos, “é do interesse de meus rivais exagerar as pequenas enfermidades de uma constituição fraca. Agradeço à Providência por estar agora inteiramente recuperado; e em nenhum momento da minha vida estive menos incapaz de cumprir — tanto quanto minhas incapacidades natas e mentais permitirão — os deveres de qualquer ocupação, por mais árdua que seja. Aliás, assim como o bruto se acostuma ao moinho, eu me tornei casado com o trabalho; e até mesmo o breve relaxamento que agora me permiti parece-me mais incômodo do que prazeroso.”
“Regozijo-me em ouvi-lo falar assim”, respondeu sua Alteza Real, calorosamente; “e confio que por muitos anos, e”, acrescentou ele, em um tom mais baixo, “na câmara mais alta do senado, possamos lucrar com seus talentos. Os tempos são aqueles em que ocorrem muitas ocasiões que obrigam todos os verdadeiros amigos da Constituição a abandonar empregos menores por aquele grande emprego constitucional que nos preocupa a todos, o mais alto e o mais humilde; e” (a voz real baixou ainda mais) “sinto-me justificado em assegurar-lhe que o cargo de juiz-chefe, por si só, não é considerado por Sua Majestade como uma recompensa suficiente para seu generoso sacrifício da ambição atual pelas dificuldades do governo.”
O coração orgulhoso de Brandon inchou, e naquele momento as dores mais extremas do inferno mal teriam sido sentidas.
Enquanto o aspirante a intrigante estava assim agradavelmente ocupado, Mauleverer, deslizando pela multidão com aquela graça que encantava a todos, velhos e jovens, e dirigindo a todos que conhecia algum comentário vivo ou afetuoso, abriu caminho até os dançarinos, entre os quais acabara de vislumbrar Lucy. “Eu me pergunto”, pensou ele, “com quem ela está dançando. Espero que seja aquele sujeito ridículo, Mossop, que conta uma boa história contra si mesmo; ou aquele asno bonito, Belmont, que olha para as próprias pernas, em vez de parecer não ter olhos para ninguém além de sua parceira. Ah! se Tarquínio apenas conhecesse as mulheres tão bem quanto eu, ele não teria tido motivos para ser rude com Lucrécia. É uma pena mil vezes maior que a experiência venha, nas mulheres como no mundo, justamente quando começa a não ser mais de utilidade para nós!”
Enquanto fazia essas reflexões morais, Mauleverer alcançou os dançarinos e contemplou Lucy ouvindo, com olhos baixos e bochechas que visivelmente coravam, um jovem que Mauleverer reconheceu imediatamente como um dos sujeitos mais bonitos que ele já vira. O semblante do estranho, apesar de uma extrema escuridão de tez, era, sem dúvida, pela grande regularidade dos traços, um tanto efeminado; mas, por outro lado, sua figura, embora esguia e graciosa, traía a um olho experiente uma proporção extraordinária de tendões e músculos; e até mesmo o toque de efeminade no semblante era acompanhado por um ar tão masculino e franco, e era tão perfeitamente livre de toda vaidade ou presunção, que não diminuía em nada o efeito cativante de sua aparência. Uma dor raivosa e amarga atravessou aquela porção da estrutura de Mauleverer que o conde achou por bem, na falta de outro nome, chamar de seu coração. “Quão maldita e satisfeita ela parece!”, murmurou ele. “Pelo Céu! aquele olhar furtivo sob a pálpebra esquerda, abaixado tão repentinamente quanto é levantado; e ele... ha! como ele segura firmemente aquela mãozinha! Acho que o vejo brincar com ela; e então o olhar atento e fervoroso do cão... e ela toda corada, embora não se atreva a olhar para cima para encontrar seu olhar, sentindo-o por intuição. Oh, a hipócrita recatada, modesta e envergonhada! Quão silenciosa ela é! Ela pode tagarelar o suficiente comigo! Eu daria minha liga prometida se ela ao menos falasse com ele. Fale, fale, ria, tagarele, apenas sorria, em nome de Deus, e eu serei feliz. Mas aquele silêncio tímido e corado... é insuportável. Graças aos Céus, a dança terminou! Graças aos Céus, novamente! Não sinto tais dores desde o último pesadelo que tive depois de jantar com o pai dela!”
Com um rosto todo sorrisos, mas com um porte em que mais dignidade do que habitualmente assumia era exibida, Mauleverer moveu-se agora em direção a Lucy, que estava apoiada no braço de seu parceiro. O conde, que tinha tato suficiente onde seu egoísmo consumado não o distorcia, sabia bem como agir como amante, sem cair ridiculamente na tolice de parecer representar o velho pretendente. Ele buscava ser mais vivo do que sentimental; e sob o espírito, ocultar o pretendente.
Tendo pago, pois, com uma galanteria descuidada os seus primeiros cumprimentos, ele entrou numa conversa tão animada, entremeada por tantas observações ingénuas, porém palpavelmente justas, sobre as personalidades presentes, que talvez ele nunca tivesse parecido estar tão em vantagem. Finalmente, quando a música estava prestes a recomeçar, Mauleverer, com um olhar descuidado para o parceiro de Lucy, disse: “Permitirá a senhorita Brandon agora que eu cumpra o dever agradável de conduzi-la ao seu pai?”
“Creio”, respondeu Lucy, e a sua voz tornou-se subitamente tímida, “que, de acordo com as leis do salão, estou comprometida com este cavalheiro para mais uma dança.”
Clifford, num tom seguro e natural, respondeu afirmativamente.
Enquanto ele falava, Mauleverer honrou-o com uma observação mais precisa do que a que lhe dedicara até então; e quer houvesse ou não qualquer expressão de desprezo ou arrogância nessa observação, foi o suficiente para fazer subir o sangue da indignação às faces de Clifford. Retribuindo o olhar com interesse, ele disse a Lucy: “Creio, senhorita Brandon, que a dança está prestes a começar”; e Lucy, obedecendo ao gesto, deixou o aristocrático Mauleverer entregue às suas próprias meditações.
Nesse momento, o mestre de cerimónias passou curvando-se, receoso de dirigir a palavra a uma pessoa tão importante quanto Mauleverer, mas desejoso de mostrar o seu respeito pela profundidade da sua saudação.
“Aha! meu caro Sr. -------!” disse o conde, estendendo ambas as mãos ao Licurgo do salão; “como está? Poderia informar-me quem é aquele jovem que está agora a dançar com a senhorita Brandon?”
“É--deixe-me ver-oh! é um Capitão Clifford, meu senhor! Um jovem muito elegante, meu senhor! Vossa Excelência nunca o encontrou?”
“Nunca! Quem é ele? Alguém sob o seu patrocínio mais especial?” disse o conde, sorrindo.
“Ora, na verdade!” respondeu o mestre de cerimónias, com um sorriso de satisfação; “mal sei quem ele é ainda; o capitão só apareceu aqui esta noite pela primeira vez. Ele veio com outros dois cavalheiros... ah! ei-los ali!” e apontou a atenção perscrutadora do conde para as formas elegantes do Sr. Augustus Tomlinson e do Sr. Ned Pepper, que acabavam de emergir das salas de jogo. O pavoneio deste último cavalheiro era tão peculiarmente importante que Mauleverer, por mais irritado que estivesse, mal conseguia conter o riso. O mestre de cerimónias notou a expressão do conde e comentou que “aquele homem de aspeto elegante parecia disposto a dar-se a ares”.
“A julgar pela aparência do cavalheiro”, disse o conde, secamente (o rosto de Ned, para dizer a verdade, denunciava a sua afeição pelo copo), “eu diria que ele está muito mais acostumado a dar-se a grandes tragos!”
“Ah!” continuou o arbiter elegantiarum, que não ouvira a observação de Mauleverer, proferida em voz muito baixa, “ah! parecem verdadeiros galãs!”
“Galãs!” repetiu Mauleverer; “verdade, mercadores!” O Longo Ned, tendo, no exercício da sua profissão, portado-se toleravelmente bem na mesa de jogo, achou que comprara o direito de desfilar pelos salões e mostrar às damas de que material um Pepper é feito.
Apoiando-se com a mão esquerda no braço de Tomlinson, e empregando a direita para se abanar furiosamente com o seu enorme chapeau bras, o longo aventureiro caminhava lentamente, ora estendendo uma perna com vivacidade, ora a outra, e lançando olhares às “damas” com um tipo de ar irlandês — a saber, um olhar entre a piscadela e o encarar fixo.
Liberta da presença de Clifford, que mantinha um certo controlo sobre os seus companheiros, a aparição de Ned tornou-se flagrantemente conspícua; e, por onde passava, seguia-se um sussurro universal.
“Quem poderá ele ser?” disse a viúva Matemore. “É uma criatura engraçada; mas que cabeleira!”
“Pela minha parte”, respondeu a solteirona Sneerall, “acho que é um negociante de tecidos disfarçado; pois ouvi-o falar ao seu companheiro sobre 'fita'.”
“Bem, bem”, pensou Mauleverer, “seria uma gentileza procurar Brandon e dar-lhe a entender em que companhia a sua sobrinha parece ter caído!” E, pensando assim, deslizou para o canto onde, com um velho político de cabelos grisalhos, o astuto advogado ponderava os assuntos da Europa.
Entretanto, a segunda dança terminara, e Clifford conduzia Lucy ao seu lugar, ambos encantados um com o outro, quando se sentiu subitamente tocado nas costas e, voltando-se alarmado — pois tais toques não lhe eram estranhos —, viu o semblante sereno do Longo Ned, com um dedo colocado sagazmente ao lado do nariz.
“Como vai isso?” disse Clifford, entre os dentes cerrados; “não te disse para pores esse teu enorme volume o mais longe possível de mim?”
“Humph!” resmungou Ned; “se estes são os meus agradecimentos, mais vale guardar a minha amabilidade para mim; mas fica sabendo, meu rapaz, que o Advogado Brandon está aqui, espreitando através da multidão neste exato momento, a fim de vislumbrar esse teu rosto de mulher.”
“Ha!” respondeu Clifford, num tom muito rápido; “desaparece, então! Encontrar-me-ei contigo fora do salão imediatamente.” Clifford virou-se então para a sua parceira e, fazendo uma vénia muito profunda, na verdade para esconder o rosto daqueles olhos aguçados que outrora o tinham visto no tribunal do Juiz Burnflat, disse: “Espero, senhora, ter a honra de a encontrar novamente. É, se me permite perguntar, com o seu célebre tio que está hospedada, ou...”
“Com o meu pai”, respondeu Lucy, concluindo a frase que Clifford deixara inacabada; “mas o meu tio tem estado connosco, embora receie que ele nos deixe amanhã.”
Os olhos de Clifford brilharam; ele não respondeu, mas, fazendo uma nova vénia, recuou para a multidão e desapareceu. Várias vezes naquela noite, os olhos mais brilhantes de Somersetshire vaguearam ansiosamente pelos salões em busca do nosso herói; mas ele não foi mais visto.
Foi nas escadas que Clifford encontrou os seus camaradas; segurando o braço de cada um, alcançou a porta sem qualquer aventura digna de nota, salvo que, sendo retido pela multidão por alguns momentos, o moralista Augustus Tomlinson, que honrava os Whigs moderados inscrevendo-se entre eles, pegou, pour passer le temps, numa bengala alta de punho de ouro e, pesando-a sobre o dedo com um ar pensativo, disse: “Infelizmente! entre os nossos apoiantes encontramos frequentemente cabeças tão pesadas, mas de que metal diferente!” A multidão permitindo então, Augustus afastava-se com os seus companheiros e, naquela distração característica dos filósofos, carregava inconscientemente consigo o objeto de ouro da sua reflexão, quando um lacaio imponente, aproximando-se dele, disse: “Senhor, a minha bengala!”
“Bengala, companheiro!” disse Tomlinson. “Ah, estou tão distraído! Aqui tens a tua bengala. Imagina eu levar a bengala do homem, Ned! Ha, ha!”
“Distraído, de facto!” resmungou um cocheiro experiente, observando as figuras que se afastavam dos três cavalheiros; “por minha alma! mas foi a bengala que esteve prestes a estar ausente!”
CAPÍTULO XVI.
Whackum. Meus caros patifes, caros rapazes, Bluster e Dingboy! sois os tipos mais corajosos que jamais assolaram o lugar!--SHADWELL: Scourers.
Catão, o Tessalio, costumava dizer que algumas coisas podem ser feitas injustamente, que muitas coisas podem ser feitas justamente.--LORD BACON (sendo uma justificação de toda a patifaria).
Embora os nossos três dignatários tivessem arranjado um alojamento esplêndido em Milsom Street, que, para agradar a Ned, ficava por cima da loja de um cabeleireiro, em vez de lá voltarem, ou de se dirigirem às tabernas que pudessem parecer mais condizentes com a sua moda e vestuário, eles seguiram de imediato das partes alegres da cidade e não pararam até chegarem a uma taberna de aspeto miserável num subúrbio remoto.
A porta foi-lhes aberta por uma senhora idosa; e Clifford, marchando diante dos seus companheiros para uma sala nas traseiras da casa, perguntou se os outros cavalheiros já tinham chegado.
“Não”, respondeu a dama. “O velho Sr. Bags entrou há uns dez minutos; mas, ouvindo que ainda havia trabalho a fazer, saiu novamente.”
“Traz a bebida e os cachimbos, velha!” gritou Ned, atirando-se para um banco; “nunca nos falta companhia!”
“A ti, de facto, nunca pode faltar, estando sempre inseparavelmente ligado ao objeto da tua admiração”, disse Tomlinson, secamente, enquanto pegava num velho jornal. Ned, que, embora colérico, era um excelente tipo e sabia aceitar uma piada sobre si mesmo, sorriu e, tirando um pequeno par de tesouras, começou a aparar as unhas.
“Que me parta um raio”, disse ele, após um momento de silêncio, “se isto não é diabolicamente muito mais agradável do que fazer de cavalheiro fino naquela grande sala, com uma rosa na botoeira! Que dizes, Mestre Lovett?”
Clifford (como de agora em diante, apesar dos seus outros pseudónimos, denominaremos o nosso herói), que se estendera ao comprido num banco no fundo da sala e parecia mergulhado numa melancolia taciturna, levantou os olhos por um momento e, depois, virando-se e apresentando a parte dorsal do seu corpo ao Longo Ned, murmurou: “Peixe!”
“Escuta, Mestre Lovett!” disse o Longo Ned, corando. “Não sei o que te tem acontecido ultimamente; mas gostaria que soubesses que os cavalheiros têm direito a cortesia e comportamento educado; e por isso, vê bem, se cavalgares o teu cavalo alto sobre mim, que me parta se não hei de ter satisfação!”
“Hist, homem! sê sossegado”, disse Tomlinson, filosoficamente, apagando as velas,--
“'Para os companheiros discutirem, É extremamente imoral.'
“Não vês que o capitão está numa divagação? Que bom homem gosta de ser interrompido nas suas meditações? Até Alfredo, o Grande, não o suportava! Talvez neste momento, com a verdadeira ansiedade de um digno chefe, o capitão esteja a projetar algo para o nosso bem-estar!”
“Capitão, de facto!” murmurou o Longo Ned, lançando um olhar irado a Clifford, que não se dignara a prestar qualquer atenção à ameaça do Sr. Pepper; “pela minha parte, não consigo conceber o que nos deu quando escolhemos este rebento verde da forca para nosso capitão do distrito. Certamente, ele saiu-se muito bem no início, e aquele roubo do velho lorde não foi mal planeado; mas ultimamente...”
“Não, não”, disse Augustus, interrompendo o gigantesco resmungão; “a natureza humana é propensa ao descontentamento. Admite que o nosso atual plano de preparar o alegre Lothario e tentar a nossa sorte em Bath por uma herdeira deve-se tanto à prontidão de Lovett como à nossa invenção.”
“E que bem virá disso?” respondeu Ned, enquanto acendia o seu cachimbo; “responde-me a isso. Não estava eu vestido tão bem quanto um lorde, e não andei três vezes de um lado para o outro naquela grande sala sem ter ganho nada com isso?”
“Ah! mas não sabes quantas conquistas secretas podes ter feito. Não podes ganhar um prémio olhando para ele.”
“Humph!” resmungou Ned, aplicando-se descontente à jovem existência do seu cachimbo.
“Quanto à parceira do capitão”, retomou Tomlinson, que se deleitava maliciosamente em excitar o ciúme do belo “cobrador de impostos” — pois essa era a designação pela qual Augustus achava por bem tratar a si próprio e aos seus companheiros —, “eu tornar-me-ei conservador se ela não estiver já meio apaixonada por ele; e ouviste o velho cavalheiro que se juntou ao nosso jogo de cartas dizer que grande fortuna ela tinha? Fé, Ned, é uma sorte para nós dois termos concordado em dividir os nossos lucros em especulações matrimoniais; imagino que o digno capitão achará que é um mau negócio para si mesmo.”
“Não tenho tanta certeza disso, Sr. Tomlinson”, disse o Longo Ned, olhando azedamente para o seu camarada. “Algumas mulheres podem ser apanhadas por uma pele macia e modos vistosos; mas a verdadeira beleza masculina — olhos, cor e cabelo —, Sr. Tomlinson, tem de prevalecer finalmente; por isso, passa-me o conhaque e cessa a tua falatória.”
“Bem, bem”, disse Tomlinson, “eu proponho um brinde: 'A rapariga mais bonita de Inglaterra', e essa é a senhorita Brandon!”
“Não farás tal brinde, senhor!” disse Clifford, saltando do banco. “Que diabo tem a senhorita Brandon a ver contigo? E agora, Ned”, vendo que o herói alto o olhava com um aspeto desfavorável, “aqui tens a minha mão; perdoa-me se fui descortês. Tomlinson dir-te-á, numa máxima, que os homens são mutáveis. À tua saúde; e não será por minha culpa, cavalheiros, se não tivermos uma noite alegre!”
Este discurso, curto como foi, obteve grande aplauso dos dois amigos; e Clifford, como presidente, instalou-se numa cadeira enorme na cabeceira da mesa. Mal assumira esta dignidade, a porta abriu-se e meia dúzia dos cavalheiros confederados entraram um tanto ruidosamente na sala.
“Suavemente, suavemente, messieurs”, disse o presidente, recuperando toda a sua alegria constitucional, mas misturando-a com um certo comando negligente, “respeito pela cadeira, se faz favor! É o caminho de todas as assembleias onde a bolsa pública é uma questão de interesse deferente!”
“Ouçam-no!” gritou Tomlinson.
“O que, o meu velho amigo Bags!” disse o presidente; “não vieste de mãos vazias, juro; o teu rosto honesto é como a tabela de conteúdos para as boas coisas nos teus bolsos!”
“Ah, Capitão Clifford”, disse o veterano, gemendo e abanando a sua cabeça venerável, “já vi dias em que não havia um rapaz em Inglaterra que roubasse tão largamente, tão compreensivelmente, como eu. Mas, como diz o Rei Lear no Common Garden, 'estou velho agora!'”
“Mas o teu zelo é tão juvenil como sempre, meu caro”, disse o capitão, de forma consoladora; “e se não limpas o público tão completamente como outrora, não é culpa das tuas inclinações.”
“Não, isso não é!” gritaram os “cobradores de impostos” unanimemente.
“E se alguma vez um bolso deve ser picado de forma limpa, silenciosa e eficaz”, acrescentou o elogioso Clifford, “não conheço até hoje, por todos os três reinos, um conjunto de dedos mais limpo, mais silencioso e mais eficaz do que os do Velho Bags!”
O veterano fez uma vénia de recusa e tomou o seu lugar entre os votos de boa sorte de toda a assembleia.
“E agora, cavalheiros”, disse Clifford, assim que os foliões se providenciaram dos seus habituais luxos, potatórios e fumosos, “ouçamos as vossas aventuras e regozijemos os nossos olhos com os seus produtos. O galante Attie começará; mas primeiro, um brinde: 'Que aqueles que saltam de uma sebe nunca saltem de uma árvore!'”
Sendo este brinde bebido com entusiasmo, Fighting Attie começou a recitação da sua pequena história.
“Vejam lá, Capitão”, disse ele, colocando-se numa posição marcial e olhando Clifford fixamente no rosto, “que eu não sou viciado em muita lábia. Pouco choro e muita lã é o meu lema. Às dez da manhã vi o inimigo — na forma de um Doutor em Divindade. 'Que me parta', digo eu ao Velho Bags, 'que eu trato deste reverendo!' 'Que me parta', diz o Velho Bags, 'que não tratarás — vais fazer-nos enforcar se tocares na Igreja.' 'A minha avó!' digo eu. Bags conta aos comparsas — todos agitados com isso —, o que me importa? Ponho um traje decente e vou ter com o doutor como um soldado decadente que fornece as lojas de artesanato. O seu reverendo — um gordo e alegre cão como nunca se viu — estava a jantar um bom leitão assado; por isso digo-lhe que tenho alguns negócios em casa para ele. Que me parta, se o doutor não pensou que tinha encontrado um prémio; por isso calça as botas e vem comigo para a minha casa. Mas quando o levo para um beco, lá saem as minhas armas. 'Rende-te, Doutor', digo eu; 'outros têm de partilhar os bens da Igreja agora.' Não faz ideia da cena que ele fez; mas fiz o que tinha a fazer, e está acabado.”
“Bravo, Attie!” gritou Clifford; e a palavra ecoou à volta da mesa. Attie colocou uma bolsa na mesa, e o cavalheiro seguinte foi chamado à confissão.
“Não importa, não convém”, gentis leitores, registar cada uma das narrativas que agora se seguiram umas às outras. O Velho Bags, em especial, preservou a sua reputação bem merecida esvaziando seis bolsos, que tinham sido enchidos com todos os tipos possíveis de pequenos objetos de valor. Camponeses e príncipes pareciam igualmente ter caído nas suas mãos; e talvez o bom velho tivesse feito na cidade mais para efetivar uma igualdade de bens entre diferentes classes do que todos os Reformadores, da Cornualha a Carlisle. Ainda assim, tão agudo era o seu apetite pelo desporto que o veterano apropriador rebentou absolutamente em lágrimas por não ter “roubado mais”.
“Adoro um entusiasmo de coração caloroso”, gritou Clifford, manuseando os bens, enquanto olhava amorosamente para o antigo furtador. “Que novos casos nunca nos façam esquecer o Velho Bags!”
Assim que este “sentimento” foi devidamente bebido, e o Sr. Bagshot secou as suas lágrimas e se aplicou à sua bebida favorita — que, a propósito, era “ruína azul” —, o trabalho de divisão teve lugar. A discrição e imparcialidade do capitão nesta parte árdua do seu dever atraiu admiração universal; e cada cavalheiro tendo cuidadosamente guardado a sua parte, o jovem presidente pigarreou três vezes, e a sociedade apercebeu-se de um discurso pretendido.
“Cavalheiros!” começou Clifford — e o seu principal apoiante, o sapiente Augustus, gritou: “Ouçam!” — “cavalheiros, todos vós sabeis que, quando há alguns meses tivestes a amabilidade, em parte por instigação do Gentleman George — Deus o abençoe! — em parte pela exagerada boa opinião expressa sobre mim pelos meus amigos, de me eleger para a alta honra do comando deste distrito, eu próprio não estava de forma alguma ambicioso de assumir esse posto, que eu sabia bem estar muito além dos meus méritos, e aquela responsabilidade que eu sabia com igual certeza ser demasiado pesada para as minhas forças. As vossas vozes, contudo, sobrepuseram-se às minhas; e como o Sr. Muddlepud, o grande metafísico, naquele excelente artigo, 'O Asinaeum', costumava observar, 'as suscetibilidades, inatas, extensíveis, incompreensíveis e eternas', existentes no meu peito, eram infinitamente mais poderosas do que as sugestões superficiais da razão — essa coisa ridícula que todos os homens sábios e judiciosos Asinaeanos abafam zelosamente.”
“Praga leve o homem! de que está ele a falar?” disse o Longo Ned, que vimos ser de temperamento invejoso, num sussurro ao Velho Bags. O Velho Bags abanou a cabeça.
“Numa palavra, cavalheiros”, renovou Clifford, “a vossa bondade dominou-me; e apesar das minhas inclinações mais frias, aceitei a vossa lisonjeira proposta. Desde então, tenho tentado, tanto quanto fui capaz, avançar os vossos interesses; mantive um olho vigilante sobre todos os meus vizinhos; estabeleci, de condado em condado, numerosos correspondentes; e as nossas exações foram levadas a cabo com uma prontidão que garantiu o sucesso.
“Cavalheiros, não desejo gabar-me; mas nestas noites de reuniões periódicas, quando cada trimestre nos leva a dividir a meias — quando nos reunimos em privado para discutir os assuntos do público, mostrar os nossos ganhos, por assim dizer, em conselho privado, e dividi-los amigavelmente, por assim dizer, no Gabinete ['Ouçam! ouçam!' do Sr. Tomlinson] —, é costume para o vosso capitão, por essa altura, lembrar-vos dos seus serviços, pedir o vosso perdão pelas suas deficiências e os vossos bons votos para as suas futuras exações. Cavalheiros, alguma vez se disse de Paul Lovett que ele soube de um prémio e se esqueceu de vos dar a sua notícia? ['Nunca! nunca!' vivas altos.] Alguma vez se disse dele que enviou outros para apreender o espólio e ficou em casa a pensar em como deveria ser gasto? ['Não! não!' vivas repetidos.] Alguma vez se disse dele que teve menos parte do que a sua cota do vosso perigo, e mais das vossas guineus? [Gritos na negativa, acompanhados com veemente aplauso.] Cavalheiros, agradeço-vos por estes lisonjeiros e audíveis testemunhos a meu favor; mas os pontos sobre os quais me detive, por mais necessários à minha honra, provariam pouco para os meus méritos; poderiam ser dignos de nota num vosso camarada, vós exigi deveres mais subtis no vosso chefe. Cavalheiros, alguma vez se disse de Paul Lovett que enviou homens corajosos em missões desesperadas; que arriscou as vossas próprias cabeças por tentativas precipitadas na aquisição de retratos do Rei George; que o zelo, em suma, era maior nele do que a cautela, ou que o seu amor por uma guineu alguma vez o tornou negligente da vossa justa aversão a uma cadeia?” [Vivas unânimes.]
“Cavalheiros, desde que tenho a honra de presidir ao vosso bem-estar, a Fortuna, que favorece os audazes, não tem sido impiedosa convosco! Contudo, três dos nossos companheiros faltam às nossas pacíficas festividades. Um, cavalheiros, eu próprio expulsei do nosso corpo por práticas indignas de um cavalheiro; ele furtava lenços de algibeira — era uma ocupação vulgar. Alguns de vós, cavalheiros, tê-lo-iam feito por diversão; Jack Littlefork fazia-o por ocupação. Exprobrei-o em público e em privado; o Sr. Pepper cortou relações com ele; o Sr. Tomlinson leu-lhe um ensaio sobre a Verdadeira Grandeza de Alma: tudo foi em vão. Foi colocado sob a bomba de água pela turba pelo furto de um lenço de algodão. A falta, eu tinha-a tolerado; a deteção foi imperdoável; expulsei-o. Quem aqui está tão vil que deseje ser um gatuno de lenços? Se alguém o deseja, fale; pois a esse ofendi! Quem aqui está tão rude que não queira ser um cavalheiro? Se alguém o deseja, fale; pois a esse ofendi! Faço uma pausa para uma resposta! O quê, ninguém! Então a ninguém ofendi.” [Vivas estrondosos.] “Cavalheiros, posso verdadeiramente acrescentar que não fiz mais a Jack Littlefork do que vós deveríeis fazer a Paul Lovett! A vaga seguinte nas nossas fileiras foi causada pela perda de Patrick Blunderbull. Sabeis, cavalheiros, os esforços veementes que fiz para salvar aquela criatura desencaminhada, a quem fiz esforços não menos sinceros para instruir. Mas ele escolheu burlar sob o nome de ‘Honorável Capitão Smico’; o Peerage desmentiu-o de imediato; o seu caso foi de agravamento, e ele era tão notavelmente feio que não ‘criou qualquer interesse’. Deixou-nos para um exílio estrangeiro; e se, como homem, o lamento, confesso-vos, cavalheiros, que como ‘cobrador de impostos’ consolo-me facilmente.”
“A nossa terceira perda deve estar fresca na vossa memória. Peter Popwell, tão audaz quanto qualquer homem que já respirou, já não está entre nós! [Um movimento na assembleia.] Paz seja com ele! Morreu no campo de batalha; abatido a tiro por um Coronel escocês, a quem o pobre Popwell pensou roubar não mais do que nada com uma pistola vazia. A sua memória, cavalheiros… em silêncio solene!”
“Estes constituem o catálogo das nossas perdas”, retomou o jovem chefe, assim que a “taça vermelha coroou a memória” de Peter Popwell; “orgulho-me, mesmo na tristeza, de pensar que a culpa dessas perdas não recai sobre mim. E agora, amigos e seguidores! Cavalheiros da Estrada, da Rua, do Teatro e da Loja! Gatunos, Salteadores e Escudeiros da Cruz! De acordo com as leis da nossa Sociedade, resigno às vossas mãos aquele poder que, por dois trimestres, confiastes ao meu, pronto para baixar às vossas fileiras como um camarada, nem pouco disposto a renunciar à dolorosa honra que suportei — suportada com muita enfermidade, é verdade, mas pelo menos com um desejo sincero de servir a causa que me confiastes.”
Dito isto, o capitão desceu da sua cadeira entre os aplausos mais estrondosos; e assim que a primeira explosão de júbilo parcialmente diminuiu, Augustus Tomlinson, levantando-se, com uma mão no bolso das calças e a outra estendida, disse:
“Cavalheiros, proponho que Paul Lovett seja novamente eleito como nosso capitão para o período seguinte de três meses. [Vivas ensurdecedores.] Muito poderia eu dizer sobre os seus méritos insuperáveis; mas por que me haveria de deter naquilo que é óbvio? A vida é curta! Por que deveriam os discursos ser longos? As nossas vidas, talvez, sejam mais curtas do que as vidas dos outros homens; por que não haveriam as nossas prédicas de ter uma brevidade adequada? Cavalheiros, direi apenas uma palavra a favor do meu excelente amigo — de mine, digo eu? Sim, de mine, de vossos. Ele é amigo de todos nós! Um primeiro-ministro não é mais útil aos seus seguidores e mais oneroso ao público do que, orgulho-me de dizer, é Paul Lovett.” [Aplausos ruidosos.] “O que arguirei a seu favor é simplesmente isto: o homem a quem partes opostas se unem para louvar deve ter um mérito supereminente. De todos os vossos companheiros, cavalheiros, Paul Lovett é o único homem que pode apresentar uma pretensão a esse mérito.” [Aplausos.] “Todos sabeis, cavalheiros, que o nosso grupo tem estado há muito dividido em duas fações — cada uma ciumenta da outra, cada uma desejosa de ascendência, e cada uma emulando qual colocará o maior número de dedos na tarte pública. Na linguagem dos vulgares, uma fação seria chamada de ‘burlões’, e a outra de ‘salteadores’. Eu, cavalheiros, que sou afeito a encontrar novos nomes para coisas e para pessoas, e sou um pouco político, chamo aos primeiros Whigs, e aos segundos Tories.” [Vivas clamorosos.] “Do primeiro corpo, sou tido como um membro não desinfluente; da segunda fação, o Sr. Bags é justamente considerado o ornamento mais brilhante. O Sr. Attie e o Sr. Edward Pepper dificilmente podem ser considerados como pertencendo inteiramente a qualquer uma; eles unem as boas qualidades de ambas. ‘Compostos britânicos’, alguns lhes chamam; eu chamo-lhes Aristocratas Liberais!” [Vivas.] “Apelo agora a todos vós, Whig ou Burlão, Tory ou Salteador, ‘Compostos Britânicos’ ou Aristocratas Liberais — apelo a todos vós para que me nomeiem um homem em quem todos concordareis eleger.”
Todos: “Lovett para sempre!”
“Cavalheiros”, continuou o sagaz Augustus, “esse grito é suficiente; sem mais uma palavra, proponho, como vosso capitão, o Sr. Paul Lovett.”
“E eu secundo a moção!” disse o velho Sr. Bags.
O nosso herói, estando agora, pelo aplauso unânime dos seus confederados, restaurado à cadeira de comando, agradeceu num discurso elegante; e Scarlet Jem declarou, com grande solenidade, que este honrava igualmente a sua cabeça e o seu coração.
Os trovões da eloquência tendo silenciado, relâmpagos, ou, como diz o vulgar, copos de gim, faiscavam por ali. O bom e velho Sr. Bags mantinha-se, porém, fiel à sua aguardente azul, e Attie à garrafa de bingo; alguns, entre os quais Clifford e o sábio Augustus, pediram vinho; e Clifford, que se esforçou ao máximo para sustentar os deveres alegres da sua posição, encarregou-se de que a canção variasse os prazeres da taça. Das canções, apenas conseguimos preservar duas. A primeira é de Long Ned; e embora confessemos que pouco conseguimos ver nela, ainda assim (talvez por alguma alusão familiar ou outra com a qual somos necessariamente desconhecedores) produziu uma sensação prodigiosa. Dizia assim:
A RECEITA DO VIGARISTA
O teu tolo honesto para num vigarista tornar, Tão grande quanto se possa ver, senhor, Dois vigaristas batidos deves primeiro tomar, E depois colocar o teu tolo entre eles, senhor.
A virtude é um galo de monturo, envergonhado De si mesmo quando emparelhado com os de raça; E os elefantes mais selvagens são domados Se presos entre dois que já têm traça.
A outra efusão com a qual temos a honra de brindar os nossos leitores é um dueto muito divertido que ocorreu entre Fighting Attie e um ladrão alto e magro, que era um sujeito perigoso numa multidão e era, portanto, chamado Mobbing Francis; foi iniciado por este último:
MOBBING FRANCIS:
O melhor de todos os ladrões que já conheci É o audaz Fighting Attie, o orgulho da estrada! Fighting Attie, meu herói, vi-te hoje Uma bolsa cheia de moedas de ouro agarrar; E como, mesmo agora, estou baixo de fundos, Vou pedir-te emprestada uma libra, se te apraz. Oh! audaz Fighting Attie, o sabichão, o elegante, Por todos nós deve certamente ser confessado, Embora os teus carteiristas e gatunos sejam bons ladrões, Um soldado é sempre o melhor.
FIGHTING ATTIE
Cala a boca, Queres-me enganar. Emprestar-te as minhas libras? Nem uma, por Dickey.
MOBBING FRANCIS:
Oh, que besta é um rufia avarento, A pilhar, a agarrar tudo para si! Raios, velho companheiro, dou-te uma bofetada, Já que não me dás uma pitada do espólio. Não tens coração para a aflição geral, Não te importas um bocado se o nosso grupo cair, E se Scarlet Jem não fosse bom numa emergência, Por Deus, seria em breve o fim para todos nós! Oh, Scarlet Jem, ele é de confiança e correto, Como a sua peruca à carapinha, a consciência cola-se a ele; Mas juro que desprezo o sujeito que preza Mais os seus próprios fins do que o pecúlio popular, senhor; E o soldado que rouba para si e para os seus comparsas, Devia ser roubado como um traidor no patíbulo, senhor.
A resposta severa de Mobbing Francis não perturbou minimamente a calma constitucional de Fighting Attie; mas o cauteloso Clifford, vendo que Francis perdera a temperança, e vigilante quanto ao menor sinal de perturbação entre a companhia, pediu instantaneamente outra canção, e Mobbing Francis, mal-humorado, derrubou o Velho Bags.
A noite ia adiantada, e também o juízo dos honestos cobradores de impostos, quando o presidente ordenou silêncio, e os convivas souberam que o seu chefe estava prestes a ditar as ordens para o trimestre seguinte. Nada poderia ser melhor cronometrado do que tais diretrizes — durante a alegria e antes do esquecimento.
“Cavalheiros”, disse o capitão, “vou agora, com a vossa licença, transmitir-vos todos os planos que formei para cada um. Tu, Attie, deves dirigir-te a Londres: que a estrada de Windsor e os arredores de Pimlico sejam o teu cuidado especial. Presta atenção, meu herói, a estas cartas; elas informar-te-ão de muito trabalho. Não preciso de te advertir sobre o silêncio. Como a ostra, nunca abres a boca a não ser por algo. Honesto Velho Bags, um rico criador de gado estará em Smithfield na quinta-feira; o seu nome é Hodges, e ele terá algo como mil libras na algibeira. Ele é ingénuo, inexperiente e ganancioso; oferece-te para o ajudar a defraudar os seus vizinhos num negócio, e não pares até teres feito com ele o que ele desejava fazer aos outros. Sê, excelente velho, como o peixe-sapo, que pesca outros peixes com dois chifres que se assemelham a iscos; a presa atira-se aos chifres, e vai pela garganta abaixo num instante! Para ti, querido Jem, estas cartas anunciam um prémio: gordo é o Parson Pliant; cheia está a sua bolsa; e ele cavalga de Henley para Oxford na sexta-feira — não preciso de dizer mais nada! Quanto ao resto de vós, cavalheiros, neste papel vereis os vossos destinos fixados. Garanto-vos, encontrareis trabalho suficiente até nos voltarmos a ver neste dia daqui a três meses. Eu próprio, Augustus Tomlinson e Ned Pepper, permanecemos em Bath; temos negócios em mãos, cavalheiros, de importância primordial; se por acaso nos encontrardes, nunca nos reconheçais — estamos incógnitos; atacamos caça grande, e vestimos as penas do falcão para o fazer conforme o personagem — compreendeis; mas este acidente dificilmente poderá ocorrer, pois nenhum de vós permanecerá em Bath; amanhã à noite, que a estrada vos receba. E agora, cavalheiros, apressai o copo, e dar-vos-ei um brinde como incentivo:
“‘Muito mais doce do que o mel É o dinheiro dos outros homens!’”
A máxima do nosso herói foi recebida com todo o entusiasmo que os truísmos agradáveis geralmente criam. E o velho Sr. Bags levantou-se para se dirigir à presidência; infelizmente para a edificação da audiência, o pé do veterano escorregou antes de ter avançado mais do que “Sr. Presidente”; ele caiu por terra com uma espécie de cambalhota —
“Como estrelas cadentes caiu para não mais se erguer!”
O seu corpo tornou-se um excelente banco para os pés do luxurioso Pepper. Agora, Augustus Tomlinson e Clifford, trocando olhares, fizeram todos os esforços possíveis para promover a hilaridade da noite; e antes da terceira hora da manhã soar, tiveram a satisfação de testemunhar os efeitos dos seus benevolentes trabalhos nas formas prostradas de todos os seus companheiros. Long Ned, naturalmente mais capaz do que os restantes, sucumbiu por último.
“Como as folhas das árvores”, disse o presidente, acenando com a mão,
“‘Como as folhas das árvores a raça humana se encontra, Agora fresca com o orvalho, agora a murchar no solo.’”
“Bem dito, meu Heitor das Estradas;” gritou Tomlinson; e depois, servindo-se do vinho, enquanto empregava as pernas para remover as formas supinas de Scarlet Jem e Long Ned, continuou a citação homérica, com um tom pomposo e de autogratulação:
“‘Assim florescem estas quando aquelas passaram!’”
“Conseguimos livrar-nos dos nossos amigos”, começou Clifford —
“Como Whigs no poder”, interrompeu o político.
“Certo, Tomlinson, graças às propriedades mais suaves da nossa bebida, e talvez às qualidades mais fortes das nossas cabeças; e agora diz-me, meu amigo, o que pensas da nossa hipótese de sucesso? Iremos apanhar uma herdeira ou não?”
“Bem, na verdade”, disse Tomlinson, “as mulheres são como aqueles cálculos na aritmética, que nunca se conseguem trazer a uma conta exata; pela minha parte, vou encher os meus barris e procurar uma viúva. Tu, meu bom amigo, pareces ter uma hipótese justa com a Srta. ------”
“Oh, não a nomeies!” gritou Clifford, corando, mesmo através do rubor que o vinho espalhara pelo seu rosto. “As nossas não são os lábios pelos quais o seu nome deve ser pronunciado; e, na verdade, quando penso nela, faço-o anonimamente.”
“O quê, já pensaste nela antes desta noite?”
“Sim, há meses”, respondeu Clifford. “Lembras-te de há algum tempo, quando formámos o plano para roubar Lord Mauleverer, como, mais por folia do que por lucro, roubaste o Dr. Slopperton, de Warlock, enquanto eu acompanhava compassivamente o velho cavalheiro a casa. Bem, na casa do pastor conheci a Srta. Brandon — atenção, se eu falar dela pelo nome, tu não deves; e, por Deus! — Mas não vou jurar. Acompanhei-a a casa. Sabes, antes da manhã roubámos Lord Mauleverer; o caso fez barulho, e temi pôr-vos a todos em perigo se aparecesse nas imediações do roubo. Desde então, os negócios desviaram os meus pensamentos; formámos o plano de tentar uma especulação matrimonial em Bath. Vim para aqui — adivinha a minha surpresa ao vê-la —”
“E o teu deleite”, acrescentou Tomlinson, “ao ouvires que ela é tão rica quanto bonita.”
“Não!” respondeu Clifford, rapidamente; “esse pensamento não me dá prazer algum. Estás a olhar fixamente. Vou tentar explicar. Sabes, querido Tomlinson, não sou muito de hipocrisias, e contudo o meu coração encolhe-se quando olho para aquele rosto inocente, e ouço aquela voz suave e feliz, e penso que o meu amor por ela só pode ser ruína e desonra; aliás, que a minha própria abordagem é contaminação, e o meu próprio olhar para ela um insulto.”
“Ora essa!” disse Tomlinson; “estiveste sob as minhas instruções, e aprendeste o verdadeiro valor das palavras, e podes ter algum escrúpulo restante num ponto tão fácil de consciência? É verdade, podes chamar à tua representação de ti próprio como um cavalheiro sem profissão perante ela, e assim ganhar-lhe as afeições, um logro; mas porquê chamar-lhe logro quando um génio para a intriga é uma frase muito mais elegante? Da mesma forma, ao casares com a jovem, se disseres que a arruinaste, mereces justamente ser aniquilado; mas por que não dizer que te salvaste a ti próprio, e então, meu caro, terás feito a coisa mais justificável do mundo.”
“Paciência, homem!” disse Clifford, irritado; “nada dos teus sofismas e escárnios!”
“Pela alma de Sir Edward Coke, estou a falar a sério! Mas olha, meu amigo! Esta não é uma matéria onde seja conveniente ter uma consciência de pés sensíveis. Vês estes tipos no chão, todos d---d espertos, e tal; mas tu e eu somos de uma ordem diferente. Tive uma educação clássica, vi o mundo, e misturei-me em sociedade decente; tu, também, não tinhas estado muito tempo como membro do nosso clube antes de te distinguires acima de todos nós. A Fortuna sorriu à tua audácia juvenil. Tornaste-te particular nos cavalos e no traje, frequentaste locais públicos, e sendo um tipo de aspeto diabolicamente bom, com um ar inato de fidalguia e algum tipo de educação, tornaste-te suficientemente bem recebido para adquirir em pouco tempo a maneira e o tom de um — o que direi? — um cavalheiro, e o gosto de gostar de associados adequados. Este é o meu caso também! Apesar dos nossos labores pelo bem público, os cães ingratos veem que estamos acima deles; um único peito invejoso é suficiente para nos entregar ao carrasco. Concordámos que estamos em perigo; concordámos em fazer uma retirada honrosa; não podemos fazê-lo sem dinheiro. Sabes o dístico vulgar entre o nosso grupo. Nada pode ser mais verdadeiro —
“‘A forca é, na nação, Mais agradável que a inanição!’
Não irás levar contigo parte do stock comum, embora eu pense que justamente o poderias, considerando quanto lá puseste. O que, então, faremos? Trabalhar não podemos, mendigar não queremos; e, entre tu e eu, somos malditos extravagantes! O que resta senão o casamento?”
“É verdade”, disse Clifford, com um meio suspiro.
“Podes bem suspirar, meu bom amigo. O casamento é um procedimento lacrimoso na melhor das hipóteses; mas não há outro recurso. E agora, quando ganhaste um gosto por uma jovem que é tão rica quanto uma Creso, e douraste a pílula tão brilhante quanto a carruagem de um Lord Mayor, que diabo tens tu a ver com escrúpulos?”
Clifford não respondeu, e houve uma longa pausa; talvez não tivesse falado tão francamente como fez, se o vinho não lhe tivesse aberto o coração.
“Quão orgulhosa”, recomeçou Tomlinson, “a boa velha matrona de Thames Court ficaria se casasses com uma dama! Não a tens visto ultimamente?”
“Não há anos”, respondeu o nosso herói. “Pobre alma velha! Acredito que ela esteja bem de saúde, e trato de que ela não esteja pobre de algibeira.”
“Mas por que não visitá-la? Talvez, como todos os grandes homens, especialmente de uma inclinação liberal, tenhas vergonha de velhos amigos, eh?”
“Meu bom amigo, isso parece-se comigo? Ora, tu sabes que os janotas do nosso grupo olham-me de lado por não manter a minha dignidade, roubando apenas na companhia de cavalheiros bem vestidos, e burlar sob o nome de sobrinho de um lorde. Não, as minhas razões são estas: primeiro, deves saber que a velha senhora tinha posto o coração em que eu me tornasse um homem honesto.”
“E tornaste-te”, interrompeu Augustus — “honesto para com o teu partido; que mais quererias de um vigarista ou de um político?”
“Acredito”, continuou Clifford, sem atender à interrupção, “que a minha pobre mãe, antes de morrer, desejava que eu fosse criado honestamente; e, por mais estranho que te possa parecer, Dame Lobkins é uma mulher conscienciosa à sua própria maneira — não é culpa dela se acabei como acabei. Agora, sei bem que a magoaria profundamente ver-me como sou. Em segundo lugar, meu amigo, sob os meus novos nomes, variados como são — Jackson e Howard, Russell e Pigwiggin, Villiers e Gotobed, Cavendish e Solomons — podes bem supor que as boas pessoas nas redondezas de Thames Court não têm qualquer suspeita de que o aventureiro e talentoso rufia, presentemente capitão deste distrito, sob a nova denominação de Lovett, é na realidade nada mais do que o obscuro e sem apelido Paul do Mug. Agora tu e eu, Augustus, lemos a natureza humana, embora na letra gótica; e sei bem que se eu fizesse a minha aparição em Thames Court, e se a velha senhora (como certamente faria, não por falta de bondade, mas por sobriedade — não que ela me ame menos, mas a bebida forte mais) divulgasse o segredo dessa aparição —”
“Sabes bem”, interrompeu o vivaz Tomlinson, “que a identidade da tua antiga baixeza com a tua atual grandeza seria facilmente traçada; a inveja e o ciúme dos teus primeiros amigos despertados; uma dica do teu paradeiro e dos teus pseudónimos dada à polícia, e tu apanhado, com uma ligeira possibilidade de uma consumação de cânhamo.”
“Concebes-me exatamente!” respondeu Clifford. “O facto é que observei que em nove casos de cada dez os nossos homens mais valentes foram levados pela traição de alguma namorada antiga ou pela inveja de algum amigo de infância. O meu destino ainda não está fixado. Sou digno de coisas melhores do que um passeio na carroça com um ramo de flores na mão; e embora não me importe muito com a morte em si, estou decidido, se possível, a não morrer um salteador. Daí a minha cautela, e aquele cuidado prudencial pelo segredo e por asilos seguros, que homens menos sábios do que tu tantas vezes pensaram ser um contraste antinatural à minha conduta na estrada.”
“Tolos!” disse o filosófico Tomlinson; “o que tem a bravura de um guerreiro a ver com o seu seguro contra incêndios da casa?”
“Contudo”, disse Clifford, “envio à minha boa enfermeira um presente fino de vez em quando para a assegurar da minha segurança; e assim, apesar da minha ausência, mostro a minha afeição pelos meus presentes — desculpa um trocadilho.”
“E nunca foste detetado por nenhum dos teus antigos associados?”
“Jamais! Lembra-te em que esfera de vida muito mais elevada fui lançado; e quem poderia reconhecer o trapaceiro Paul de casaco de fustão no cavalheiro Paul de colete galoneado? Além disso, evitei diligentemente todos os lugares onde pudesse encontrar aqueles que me viram na infância. Sabes quão pouco frequento casas de jogo e quão escrupuloso sou ao admitir novos confederados no nosso bando; tu e Pepper sois os únicos dois dos meus associados — salvo o meu protegido, como lhe chamas, que nunca abandona a caverna — que possuem conhecimento da minha identidade com o Paul perdido; e como ambos fizestes aquele terrível juramento de silêncio, o qual desobedecer, até que esteja de facto na cadeia ou na forca, é quase ser assassinado, considero que é pouco provável que o meu segredo seja revelado, salvo com o meu próprio consentimento.”
“Verdade”, disse Augustus, assentindo; “mais um copo, e para a cama, Sr. Presidente.”
“Brindo contigo, meu amigo; o nosso último copo será bebido filantropicamente: ‘A todos os tolos, e que o seu dinheiro seja logo repartido!’”
“A todos os tolos!” gritou Tomlinson, enchendo um copo até à borda; “mas discordo da sabedoria do teu brinde. Que os tolos sejam ricos, e os velhacos nunca serão pobres! Tiraria melhor sustento de um tolo rico do que de uma propriedade fundiária.”
Dito isto, o contemplativo e sempre sagaz Tomlinson virou o seu copo; e a dupla, tendo gentilmente rolado por aplicações pedais o corpo de Long Ned para um canto seguro e tranquilo da sala, subiu as escadas, de braço dado, em busca de acomodações sonambúlicas.
CAPÍTULO XVII
Esse contraste do endurecido e maduro, A fronte calma que medita sobre o projeto sombrio, Com o coração claro e amoroso, e espírito puro Da juventude — amo, contudo, odiando, amo observar!
H. FLETCHER.
Na manhã do dia seguinte ao baile, a carruagem de William Brandon, arrumada e preparada, estava à porta da sua residência em Bath; entretanto, o advogado estava reunido a portas fechadas com o irmão.
“Meu caro Joseph”, disse o advogado, “não te deixo sem estar plenamente sensível à tua bondade demonstrada para comigo, tanto ao vir até aqui, contrariando os teus hábitos, como ao acompanhar-me a toda a parte, apesar dos teus gostos.”
“Não menciones isso, meu caro William”, disse o bondoso cavalheiro, “pois a tua companhia deliciosa é para mim a mais agradável (e isso é o que posso dizer de pouquíssimas pessoas como tu; pois, por mim, geralmente acho os homens mais espertos os mais desagradáveis) do mundo! E penso que os advogados em particular (muito diferentes, na verdade, da tua tribo!) são perfeitamente intoleráveis!”
“Tenho agora”, disse Brandon, que com a sua habitual rapidez nervosa de ação caminhava a passos largos de um lado para o outro do apartamento, e mal notou o elogio do irmão, “tenho agora outro favor a pedir-te. Considera esta casa e estes criados teus pelo próximo mês ou dois, pelo menos. Não me interrompas, não é um elogio, falo pelo benefício da nossa família.” E então, sentando-se ao lado da poltrona do irmão, pois um ataque de gota tornava o cavalheiro um prisioneiro próximo, Brandon revelou ao irmão o seu plano acalentado de casar Lucy com Lord Mauleverer. Não obstante a constância das atenções do conde para com a herdeira, o honesto cavalheiro nunca tinha sonhado com o seu objetivo palpável; e ficou dominado pela surpresa quando ouviu as expectativas do advogado.
“Mas, meu caro irmão”, começou ele, “um tão grande partido para a minha Lucy, o Lorde-Tenente do Cond...”
“E o que tem isso?” gritou Brandon, orgulhosamente, interrompendo o irmão. “Não é a linhagem dos Brandon, que ligou os seus rebentos à realeza, muito mais nobre do que a da estirpe arrivista de Mauleverer? O que há de presunçoso na esperança de que o descendente dos Condes de Suffolk deva regoldar um nome desbotado com um pouco do pó precioso dos antigos ourives de Londres? Além disso”, continuou ele, após uma pausa, “Lucy será rica, muito rica, e antes de dois anos a minha posição poderá possivelmente ser da mesma ordem que a de Mauleverer!”
O cavalheiro ficou boquiaberto; e Brandon, não lhe dando tempo para responder, retomou. É desnecessário detalhar a conversa; baste dizer que o astuto advogado não deixou o irmão até ter ganho o seu ponto, até Joseph Brandon ter prometido permanecer em Bath na posse da casa e da criadagem do irmão; não colocar impedimento ao cortejo de Mauleverer; cultivar a sociedade, como antes; e, acima de tudo, não alarmar Lucy, que evidentemente ainda não favorecia Mauleverer exclusivamente, insinuando-lhe as esperanças e expectativas do seu tio e pai. Brandon, despedindo-se agora do irmão, subiu à sala de estar em busca de Lucy. Encontrou-a debruçada sobre a gaiola dourada de um dos seus favoritos emplumados, e falando com o pequeno habitante naquela linguagem bonita e brincalhona em que todos os pensamentos, inocentes, porém ternos, deveriam ser vestidos. Tão bela parecia Lucy, enquanto estava assim ocupada no seu trabalho de rapariga e carinhoso, e tão completamente diferente de alguém apta a ser o instrumento de desígnios ambiciosos, e o sacrifício de cálculos mundanos, que Brandon parou, subitamente atingido no coração, ao contemplá-la. Não demorou, contudo, a recuperar-se; aproximou-se. “Feliz aquele”, disse o homem do mundo, “para quem carícias e palavras como estas estão reservadas!”
Lucy virou-se. “Está doente!” disse ela, apontando para o pássaro, que estava com as penas rígidas e eretas, mudo e alheio até àquela voz que era tão musical quanto a sua própria.
“Pobre prisioneiro!” disse Brandon; “mesmo gaiolas douradas e tons doces não te podem compensar pela perda do ar e das florestas selvagens!”
“Mas”, disse Lucy, ansiosamente, “não é o confinamento que o deixa doente! Se pensas assim, libertá-lo-ei imediatamente.”
“Há quanto tempo o tens?” perguntou Brandon.
“Há três anos!” disse Lucy.
“E é o teu principal favorito?”
“Sim; não canta tão bem quanto o outro, mas é muito mais sensato, e tão afetuoso!”
“Podes libertá-lo então?” perguntou Brandon, sorrindo. “Não seria melhor vê-lo morrer sob a tua custódia do que deixá-lo viver e não o ver mais?”
“Oh, não, não!” disse Lucy, avidamente; “quando amo alguém, qualquer coisa, desejo que isso seja feliz, não eu!”
Ao dizer isto, tirou o pássaro da gaiola; e levando-o à janela aberta, beijou-o e segurou-o na mão ao ar. O pobre pássaro virou um olho lânguido e doentio ao seu redor, como se a vista das casas apinhadas e das ruas movimentadas não apresentasse nada de familiar ou convidativo; e não foi até Lucy, com uma coragem terna, o sacudir suavemente de si, que ele aproveitou a liberdade oferecida. Voou primeiro para uma varanda oposta; e depois, recuperando-se de uma pausa curta e como que surpreendida, fez um breve circuito acima das casas; e após desaparecer por alguns minutos, voou de volta, circulou a janela e, reentrando, pousou mais uma vez na bela forma da sua dona e aninhou-se no seu seio.
Lucy cobriu-o de beijos. “Vês, ele não quer deixar-me!” disse ela.
“Quem poderia?” disse o tio, calorosamente, encantado por um momento com qualquer pensamento que não fosse o da bondade para com a criatura jovem e suave diante dele, “quem poderia”, repetiu ele com um suspiro, “senão um asceta velho e mirrado como eu? Tenho de partir de facto; olha, a minha carruagem está à porta! Poderá a minha bela sobrinha, entre as alegrias que a rodeiam, condescender de vez em quando em lembrar-se do advogado rabugento, e assegurar-lhe por uma linha da sua felicidade e saúde? Embora eu raramente escreva notas que não sejam sobre casos, tu, pelo menos, podes ter a certeza de uma resposta. E diz-me, Lucy, se há em toda esta cidade alguém tão tolo ao ponto de pensar que estas joias ociosas, úteis apenas como uma válvula para o meu orgulho em ti, podem adicionar um único encanto a uma beleza acima de todo o adorno?”
Dito isto, Brandon produziu um estojo de couro; e tocando numa mola, o brilho imperial de diamantes, que teria feito alegrar muitos corações patrícios, irrompeu deslumbrantemente nos olhos de Lucy.
“Sem agradecimentos, Lucy”, disse Brandon, em resposta à gratidão de sua sobrinha, que recusava e recuava; “faço honra a mim mesmo, não a ti; e agora abençoo-te, minha querida menina. Adeus! Caso se apresente alguma ocasião em que precises de um conselheiro imediato, ao mesmo tempo bondoso e sábio, rogo-te, minha caríssima Lucy, como um pedido de despedida, que não tenhas escrúpulos em consultar Lord Mauleverer. Além da sua amizade por mim, ele está muito interessado em ti, e podes consultá-lo com maior segurança e certeza; porque” (e o advogado sorriu) “ele é talvez o único homem no mundo de quem a minha Lucy não poderia fazer apaixonar-se por ela. A sua galantaria pode parecer adulação, mas nunca é próxima do amor. Promete-me que não hesitarás nisto.”
Lucy deu a promessa prontamente; e Brandon continuou num tom casual: “Ouvi dizer que dançaste ontem à noite com um jovem cavalheiro que ninguém conhecia, e cujos companheiros tinham uma aparência muito estranha. Num lugar como Bath, a sociedade é demasiado mista para não tornar a maior cautela na formação de conhecimentos absolutamente necessária. Deves perdoar-me, minha caríssima sobrinha, se observo que uma jovem deve não apenas a si mesma, mas aos seus parentes, observar a mais rígida circunspecção de conduta. Este é um mundo perverso, e o florescer da personalidade, semelhante ao do pêssego, é facilmente removido. Nestes pontos, Mauleverer pode ser de grande utilidade para ti. O seu conhecimento do carácter, a sua penetração nos homens e o seu tato nas maneiras são infalíveis. Por favor, deixa-te guiar por ele; contra quem quer que ele te avise, podes ter a certeza de que não é digno do teu conhecimento. Deus te abençoe! Escrever-me-ás com frequência e francamente, querida Lucy; conta-me tudo o que te acontece, tudo o que te interessa, aliás, tudo o que te desagrada.”
Brandon então, que tinha aparentemente ignorado os rubores com que, durante o seu discurso, as faces de Lucy tinham sido cobertas, envolveu a sobrinha nos seus braços e apressou-se, como se para esconder os seus sentimentos, para a sua carruagem. Quando os cavalos fizeram a volta na rua, ordenou aos postilhões que parassem em casa de Lord Mauleverer. “Agora”, disse ele para consigo mesmo, “se eu conseguir que este janota esperto apoie os meus planos, e jogue de acordo com o meu jogo e não de acordo com a sua própria vaidade, terei um cavaleiro da Jarreteira para meu sobrinho-por-afim!”
Entretanto, Lucy, toda em lágrimas, pois amava muito o seu tio, correu para o cavalheiro para lhe mostrar o magnífico presente de Brandon.
“Ah”, disse o cavalheiro, com um suspiro, “poucos homens nasceram com mais boas, generosas e grandes qualidades (pena apenas que o seu principal desejo fosse vencer no mundo; pela minha parte, penso que nenhum motivo torna os velhacos mais frios e calculistas) do que o meu irmão William!”
CAPÍTULO XVIII.
Por que o amou ela? Curioso tolo, cala-te! É o amor humano o crescimento da vontade humana? Para ela, ele poderia ser a brandura!
LORD BYRON.
Em três semanas a partir do momento da sua chegada, o Capitão Clifford era o homem mais admirado em Bath. É verdade que os cavalheiros, que têm um tato mais rápido quanto à respeitabilidade do seu próprio sexo do que as mulheres, poderiam ter olhado um pouco de lado para ele, se ele próprio não tivesse evitado especialmente parecer intrusivo, e de facto evitado mais a sociedade dos homens do que a procurado; de modo que, depois de ter combatido num duelo com um barão (filho de um sapateiro), que lhe chamou um tal de Clifford, e ter exibido um cavalo picado de pulgas, admitido como o melhor de Bath, ele ascendeu insensivelmente a um certo grau de respeito com o sexo masculino, bem como de popularidade com o outro. Mas o que sempre atraía e mantinha viva a suspeita era a sua intimidade com um cavalheiro tão peculiar e arrojado como o Sr. Edward Pepper. As pessoas podiam superar uma certa franqueza no trato de Clifford, mas os mais indulgentes ficavam atônitos com a fanfarronice de Long Ned. Clifford, contudo, não insensível ao ridículo associado aos seus conhecidos, conseguiu logo seguir as suas ocupações sozinho; aliás, alugou um alojamento para si e deixou Long Ned e Augustus Tomlinson (este último para servir de controlo sobre o primeiro) ao tranquilo desfrute dos apartamentos do cabeleireiro. Ele próprio comparecia a todas as alegrias públicas; e o seu porte, e a aparência de riqueza que mantinha, garantiram-lhe o acesso a vários círculos privados que pretendiam ser exclusivos... como se as pessoas que tinham filhas pudessem alguma vez ser exclusivas! Muitos foram os olhares gentis, e não poucas as cartas convidativas, que recebeu; e se o seu único objetivo tivesse sido casar com uma herdeira, não teria encontrado dificuldade em alcançá-lo. Mas dedicou-se inteiramente a Lucy Brandon; e para ganhar um olhar dela, teria renunciado a todas as herdeiras do reino. Muito afortunadamente para ele, Mauleverer, cuja saúde era facilmente perturbada, tinha adoecido no próprio dia em que William Brandon deixou Bath; e o seu senhorio ficou assim impossibilitado de observar os movimentos de Lucy e minar ou impedir totalmente o sucesso do seu amante. A Srta. Brandon, de facto, tinha no início, derretida pela bondade do seu tio, e impressionada com o sentido da sua admoestação (pois ela não era uma jovem voluntariosa que estava determinada a estar apaixonada), recebido os avanços do Capitão Clifford com uma frieza que, pela sua maneira na primeira noite em que se tinham encontrado em Bath, lhe causou não menos surpresa do que mortificação. Ele retirou-se e recuou para o cavalheiro, que, paciente e audaz, como de costume, estava sequestrado no seu canto favorito. Por acidente, Clifford pisou o dedo gotoso do cavalheiro; e ao pedir desculpa pela ofensa, ficou tão impressionado com a boa natureza e a peculiaridade de se expressar do velho cavalheiro, que, sem saber quem ele era, entrou em conversa com ele. Havia uma espécie de vivacidade e candura espontâneas, para não dizer espírito, em Clifford, que sempre tinham um encanto para os idosos, que geralmente gostam da franqueza acima de todas as virtudes cardeais; o cavalheiro ficou extraordinariamente satisfeito com ele. O conhecimento, uma vez começado, continuou naturalmente sem dificuldade quando Clifford verificou quem era o seu novo amigo; e na manhã seguinte, encontrando-se na sala de águas, o cavalheiro convidou Clifford para jantar. A entrada na casa assim ganha, o resto foi fácil. Muito antes de Mauleverer recuperar a sua saúde, o dano efetuado pelo seu rival estava quase além de reparação; e o coração da pura, simples e afetuosa Lucy Brandon estava mais de metade perdido para o cavaleiro sem lei e vagabundo que oficia como o herói deste conto.
Uma manhã, Clifford e Augustus passearam juntos. “Vamos”, disse este último, que estava num estado de espírito melancólico, “deixar as ruas movimentadas, e entregar-nos a uma conversa filosófica sobre a natureza do homem, enquanto desfrutamos de um pouco de ar puro no campo.” Clifford assentiu à proposta, e o par caminhou lentamente por uma das colinas que rodeiam a cidade de Bladud.
“Existem certos momentos”, disse Tomlinson, olhando pensativamente para as suas polainas de caxemira, “em que somos como a raposa da rima de embalar, ‘A raposa tinha uma ferida, não sabia onde’... sentimo-nos extremamente infelizes e não sabemos porquê. Uma melancolia escura e triste cresce sobre nós; evitamos a face do homem; embrulhamo-nos nos nossos pensamentos como bichos-da-seda; murmuramos restos de canções lúgubres; as lágrimas vêm-nos aos olhos; recordamos todos os infortúnios que alguma vez nos aconteceram; curvamo-nos no nosso andar e enterramos as mãos nos bolsos das calças; dizemos: ‘O que é a vida? Uma pedra para ser atirada a uma lagoa!’ Ansiamos por um coração compatível e temos um desejo latente de falar prodigiosamente sobre nós mesmos; todos os outros assuntos parecem cansativos, obsoletos e sem proveito. Sentimo-nos como se uma mosca nos pudesse derrubar, e estamos dispostos a apaixonar-nos e a fazer um negócio muito triste com isso. No entanto, com toda esta fraqueza, temos nestes momentos uma opinião mais elevada de nós mesmos do que alguma vez tivemos antes. Chamamos aos nossos vapores a melancolia de uma alma sublime, os anseios de uma indigestão denominamos anseios pela imortalidade, aliás, por vezes, ‘uma prova da natureza da alma!’ Que eu encontre algum biógrafo que compreenda bem tais sensações, e que ele denomine essas emoções comoventes de descendência do carácter poético, as quais, na realidade, são a descendência de... uma costeleta de carneiro!”
[Vide a “Vida de Byron”, de Moore, na qual é satisfatoriamente demonstrado que se um homem jejuar quarenta e oito horas, depois comer três lagostas e beber sabe Deus quantas garrafas de clarete; se, quando acordar na manhã seguinte, se vir abusado como um demónio por metade dos periódicos do país... se, numa palavra, estiver arruinado na sua saúde, irregular nos seus hábitos, infeliz nos seus negócios, infeliz no seu lar, e se então for tão extremamente excêntrico ao ponto de estar desanimado e misantrópico, os desânimos e a misantropia de modo algum devem ser atribuídos às agradáveis circunstâncias acima, mas, sabe Deus, ao “carácter poético”!]
“Tu gracejas agradavelmente sobre o teu desânimo”, disse Clifford; “mas eu tenho uma causa para o meu.”
“Qual então?” gritou Tomlinson. “Tanto mais fácil é curá-los. A mente pode curar os males que brotam da mente. É apenas um tolo e um charlatão e um balbuciador quando professa curar os males que brotam do corpo. Os meus demónios azuis brotam do corpo; consequentemente a minha mente, que, como sabes, é uma mente particularmente sábia, não luta contra eles. Diz-me francamente”, renovou Augustus, após uma pausa, “alguma vez te arrependes? Algumas vezes pensas, se tivesses sido um rapaz de loja com um avental branco à volta da cintura, que terias sido um membro da sociedade mais feliz e melhor do que és agora?”
“Arrepender-me!” disse Clifford, ferozmente; e a sua resposta abriu mais do seu coração secreto, os seus motivos, os seus raciocínios e as suas peculiaridades do que eram frequentemente discerníveis... “arrepender-me! essa é a palavra mais ociosa na nossa língua. Não; no momento em que me arrependo, nesse momento reformo-me! Nunca me pode parecer uma expiação pelo crime meramente lamentá-lo. A minha mente levar-me-ia, não a lamentar, mas a reparar! Arrepender-me! não, ainda não. Quanto mais velho fico, quanto mais vejo dos homens e das vocações da vida social, mais eu, um velhaco aberto, me sinto doente com as desonestidades cobertas e envernizadas ao redor. Não reconheço nenhuma lealdade à sociedade. Desde o meu nascimento até esta hora, não recebi um único favor dos seus costumes ou das suas leis; abertamente guerreio contra ela, e pacientemente enfrentarei a sua vingança. Isto pode ser crime; mas parece leve aos meus olhos quando olho em redor e observo, de todos os lados, os traidores mascarados que reconhecem grandes dívidas para com a sociedade, que professam obedecer às suas leis, adorar as suas instituições e, acima de tudo... oh, quão retamente!... atacam todos aqueles que a atacam, e que ainda mentem e enganam e fraudam e peculam... colhendo publicamente todos os confortos, furtando privadamente todos os lucros. Arrepender-me! de quê? Venho ao mundo sem amigos e pobre; encontro um conjunto de leis hostis aos sem amigos e aos pobres! A essas leis hostis a mim, então, reconheço hostilidade por minha vez. Entre nós estão as condições de guerra. Que exponham uma fraqueza... insisto no meu direito de aproveitar a vantagem; que me derrotem, e eu permito o seu direito de destruir.” — [O autor não precisa, espera ele, observar que estes sentimentos são do Sr. Paul Clifford, não dele.]
“A paixão”, disse Augustus, calmamente, “é o inimigo habitual da razão; no teu caso é o amigo.”
O par tinha agora atingido o cume de uma colina que comandava uma vista da cidade lá em baixo. Aqui Augustus, que estava um pouco ofegante, parou para recuperar o fôlego. Assim que o fez, apontou com o dedo indicador para a cena abaixo e disse entusiasticamente: “Que assunto para contemplação!”
Clifford estava prestes a responder, quando subitamente o som de risos e vozes foi ouvido atrás. “Vamos voar!” gritou Augustus; “neste dia de baço o homem não me agrada... nem a mulher também.”
“Fica!” disse Clifford, num tom trémulo; pois entre aquelas vozes reconheceu uma que já tinha adquirido sobre ele um poder irresistível e fascinante. Augustus suspirou e relutantemente permaneceu imóvel. Presentemente, uma curva na estrada trouxe à vista uma festa de prazer, alguns a pé, outros a cavalo, outros nos pequenos veículos que mesmo nesse dia assombravam os lugares de águas e se chamavam “Moscas” ou “Andorinhas”.
Mas entre o alegre cortejo, Clifford só tinha olhos para uma! Caminhando com aquele passo elástico que tão raramente sobrevive à primeira época da juventude, ao lado da pesada cadeira em que o seu pai era puxado, a bela formosura de Lucy Brandon lançava — pelo menos aos olhos do seu amante — uma magia e um brilho sobre todo o grupo. Ele deteve-se por um momento, acalmando o coração que saltava perante os seus olhares brilhantes e a alegria do seu riso inocente; e então, recompondo-se, caminhou lentamente, e com uma certa consciência do efeito da sua própria pessoa singularmente bela, em direção ao grupo. O bom escudeiro recebeu-o com a sua habitual bondade e informou-o, de acordo com aquela lucidus ordo que ele tão especialmente favorecia, de todos os pormenores da sua excursão. Havia algo digno do esboço de um artista na cena naquele momento: o velho escudeiro na sua cadeira, com o rosto benevolente voltado para Clifford, e as mãos a repousar na bengala; Clifford, ele próprio, a inclinar a sua cabeça imponente para ouvir os detalhes do pai; a bela filha do outro lado da cadeira, o riso subitamente silenciado, o passo insensivelmente mais composto, e o rubor a perseguir o rubor sobre a suavidade de pêssego da sua face; o grupo, de todos os tamanhos, idades e trajes, proporcionando ampla margem para o caricaturista; e a figura pensativa de Augustus Tomlinson (que, diga-se de passagem, era extraordinariamente parecido com Liston) de pé, afastado dos outros, na crista da colina onde Clifford o deixara, moralizando sobre o heterogéneo cortejo, com uma mão escondida no colete e a outra a acariciar o queixo, que, lenta e pendularmente, se movia para cima e para baixo com o resto da cabeça.
À medida que o grupo se aproximava da crista da colina, a vista da cidade lá em baixo era tão impressionante que houve uma pausa geral para fins de observação. Uma jovem, em particular, sacou do seu lápis e começou a esboçar, enquanto a sua mãe olhava com complacência e, alheada, devorava uma sanduíche. Foi nesta altura, na pausa geral, que Clifford e Lucy se encontraram — Deus sabe como! — um ao lado do outro, e a uma distância suficiente do escudeiro e do resto do grupo para se sentirem, de certa forma, sozinhos. Houve um silêncio em ambos que nenhum se atreveu a quebrar; quando Lucy, depois de olhar para uma flor que trouxera do lugar que o grupo fora visitar, e de brincar com ela, deixou-a cair acidentalmente; e Clifford e ela, ao inclinarem-se no mesmo momento para a recuperar, as suas mãos tocaram-se. Involuntariamente, Clifford deteve os dedos suaves nos seus; os seus olhos, que encontraram os dela, enfeitiçaram-na e prenderam-na de tal modo que, pela primeira vez, não se baixaram perante o seu olhar; os seus lábios moveram-se, mas muitas e veementes emoções sufocaram de tal modo a sua voz que nenhum som escapou deles. Mas todo o coração estava nos olhos de ambos; aquele momento fixou os seus destinos. Daí em diante, houve uma era a partir da qual dataram uma nova existência; um núcleo em torno do qual os seus pensamentos, as suas lembranças e as suas paixões se agarraram. O grande abismo fora atravessado; estavam na mesma margem e sentiam que, embora ainda separados e desunidos, nessa margem não havia criatura viva senão eles próprios! Entretanto, Augustus Tomlinson, ao encontrar-se rodeado por pessoas ansiosas por olhar e por ouvir, libertou-se da sua melancolia e reserva. Olhando fixamente para o seu vizinho ao lado, e agitando a mão direita no ar até que a deixou repousar na direção das casas e chaminés lá em baixo, repetiu aquela exclamação moral que fora desperdiçada em Clifford, com uma gravidade mais solene e menos apaixonada do que antes: “Que assunto, minha senhora, para contemplação!”
“Muito sensatamente dito, na verdade, senhor”, disse a senhora a quem se dirigia, que era de um temperamento bastante sério.
“Eu nunca”, retomou Augustus num tom mais alto, olhando à volta em busca de ouvintes, “eu nunca vejo uma grande cidade do cimo de uma colina sem pensar numa botica!”
“Valha-me Deus, senhor!” disse a senhora. O objetivo de Tomlinson fora alcançado. Impressionada com a estranheza da ideia, uma pequena multidão reuniu-se instantaneamente à sua volta para a ouvir desenvolvida.
“Numa botica, minha senhora!” repetiu Tomlinson. “Ali estão os vossos simples e os vossos purgantes e os vossos cordiais e os vossos venenos — todas as coisas para curar e para fortalecer e para destruir. Há drogas suficientes naquela coleção para vos salvar, para vos curar a todos; mas nenhum de vós sabe como usá-las, nem que medicamentos pedir, nem que porções tomar; de modo que a maior parte de vós engole a dose errada e morre por causa do remédio!”
“Mas se a cidade é a botica, o que, no plano da sua ideia, representa o boticário?” perguntou um velho cavalheiro, que percebeu onde Tomlinson queria chegar.
“O boticário, senhor”, respondeu Augustus, roubando a sua ideia a Clifford e baixando a voz para que o verdadeiro proprietário não o ouvisse (Clifford estava ocupado de outra forma), “o boticário, senhor, é a LEI! É a lei que está por detrás do balcão e dispensa a cada homem a dose que ele deve tomar. Aos pobres, dá drogas más gratuitamente; aos ricos, pílulas para estimular o apetite; a estes últimos, prémios para o luxo; aos primeiros, apenas refúgios rápidos da vida! Ai! Ou o vosso boticário não passa de um charlatão ignorante, ou a sua ciência, por si só, está apenas no berço. Ele comete tantos erros como vós cometeríeis se fôsseis deixados à vossa própria escolha. Aqueles que recorrem a ele raramente falam com gratidão da sua perícia. Ele alivia-vos, é verdade — mas do vosso dinheiro, não da vossa doença; e o único ramo da sua profissão em que ele é um adepto é aquele que lhe permite sangrar-vos! Ó humanidade!” continuou Augustus, “que criaturas nobres deveríeis ser! Tendes chaves para todas as ciências, todas as artes, todos os mistérios, menos um! Não fazeis ideia de como deveríeis ser governados; não conseguis elaborar uma lei tolerável, pela vossa vida e pela vossa alma! Tornais-vos tão desconfortáveis quanto podeis por todo o tipo de instituições irritantes e vexatórias, e lançais a culpa sobre o ‘Destino’. Estabeleceis regras que é impossível compreender, muito menos obedecer; e chamais uns aos outros de monstros, porque não conseguis vencer a impossibilidade! Inventais todo o tipo de vícios, sob o pretexto de fazer leis para preservar a virtude; e as artificialidades anómalas de conduta que vós próprios produzis, dizeis que já nascestes com elas; fabricais uma máquina pela arte mais perversa que podeis imaginar, e chamais-lhe, com um suspiro, ‘Natureza Humana’. Com uma multidão de boas disposições a lutar nos vossos peitos, insistis em caluniar o Todo-Poderoso e em declarar que Ele vos destinou a serdes perversos. Aliás, chamais até malicioso e sedicioso ao homem que vos implora e suplica que sejais um pouco melhores do que sois. Ó humanidade! Sois como um ramo de flores comprado em Covent Garden. As flores são adoráveis, o perfume é delicioso. Notai aquele tom glorioso; contemplai aquela pétala a desabrochar! Quão belas, quão redolentes de saúde, de natureza, do orvalho e do sopro e da bênção do Céu sois vós todas! Mas, quanto ao sujo pedaço de cordel que vos prende, dir-se-ia que o apanhastes na sarjeta.”
Dito isto, Tomlinson virou-se sobre os calcanhares, afastou-se da multidão e desceu solenemente a colina. O grupo de passeio seguiu-o lentamente; e Clifford, recebendo um convite do escudeiro para participar no seu jantar de família, caminhou ao lado de Lucy e sentiu como se o seu espírito estivesse ébrio com os ares do Éden.
Um outro escudeiro, que entre as alegrias de Bath estava quase tão desamparado como o próprio Joseph Brandon, partilhou da hospitalidade do Senhor de Warlock. Quando os três cavalheiros se retiraram para a sala de estar, os dois mais velhos sentaram-se para uma partida de gamão, e Clifford ficou entregue ao gozo ininterrupto da conversa de Lucy. Ela estava sentada junto à janela quando Clifford se juntou a ela. Na mesa, ao seu lado, estavam espalhados livros, cujo encanto (eram principalmente poesia) ela só recentemente aprendera a descobrir; ali estavam também espalhadas várias pequenas obras-primas de engenho feminino, nas quais os dedos de fada de Lucy Brandon eram especialmente formados para sobressair. As sombras da tarde escureciam rapidamente sobre as ruas vazias; e no céu, que estava sem nuvens e transparentemente límpido, as estrelas surgiram gradualmente uma a uma, até que —
“Como a água faz a uma esponja, assim a sua luz suave Preencheu o vazio, oco, universal ar.”
Bela tarde! (se nós, tal como Augustus Tomlinson, pudermos entregar-nos a uma apóstrofe) — bela tarde! Por ti, todos os poetas tiveram uma canção e rodearam-te de regatos e cascatas e orvalhos e flores e ovelhas e morcegos e melancolia e mochos; contudo, devemos confessar que, para nós, que nesta era tão sentimental somos uma pessoa azougada, mundana e de espírito rígido, acotovelando os nossos vizinhos e pensando no que é essencial — para nós, nunca és tão encantadora como quando te encontramos a caminhar com o teu capuz cinzento pelas ruas que se esvaziam e por entre os sons agonizantes de uma cidade. Adoramos sentir a quietude onde tudo, duas horas antes, era clamor. Adoramos ver as habitações sombrias do Comércio e do Luxo — esses pacientes inquietos da febre constante da terra — contrastadas e sob o dossel de um céu cheio de pureza, de quietude e de paz. Adoramos preencher o nosso pensamento com especulações sobre o homem, ainda que o homem seja o padeiro, em vez de objetos inanimados — colinas e riachos — coisas sobre as quais sonhar, não sobre as quais meditar. O homem é o assunto de uma contemplação muito mais nobre, de uma esperança muito mais brilhante, de uma veia de sentimento muito mais pura e elevada do que todas as “inundações e montes” do universo; e essa, doce tarde!, é uma razão pela qual gostamos que os pensamentos sinceros e ternos que excitas dentro de nós sejam antes rodeados pelos trabalhos e sinais da nossa espécie do que por ovelhas e morcegos e melancolia e mochos. Mas quer, ó tarde abençoada!, que nos deleites no campo ou na cidade, tu dispões-nos igualmente a fazer e a sentir amor! Tu és a causa de mais casamentos e mais divórcios do que qualquer outra hora nas vinte e quatro do dia! Olhos que antes eram olhos comuns para nós, tocados pelas tuas sombras encantadoras e mágicas, tornam-se inspirados e pregam-nos sobre o céu. Uma suavidade assenta em traços que nos eram ásperos enquanto o sol brilhava; uma suave “luz de amor” repousa sobre a tez que, durante o dia, teríamos mergulhado “cinco braças fundo” num mar de loção da Sra. Gowland. Que perigos e que paraíso trazes tu, então, modesta hipócrita, para aqueles que já amam profundamente?
Silenciosos, e acalmando a respiração que subia em ambos rápida e convulsivamente, Lucy e Clifford sentaram-se juntos. As ruas estavam totalmente desertas; e a solidão, enquanto olhavam para baixo, fazia-os sentir mais intensamente não só as emoções que fervilhavam dentro deles, mas a simpatia indefinida e elétrica que, ao uni-los, os separava do mundo. A quietude à volta foi quebrada por um som distante de música rude; e, à medida que se aproximava, duas formas de ordem não poética tornaram-se visíveis. Uma era a de um pobre cego, que extraía da sua flauta tons em que a beleza melancólica da melodia compensava qualquer deficiência (a deficiência era apenas ligeira) na execução. Uma mulher muito mais jovem do que o músico, e com algo de beleza na sua fisionomia, acompanhava-o, segurando um chapéu esfarrapado e olhando ansiosamente para as janelas da rua silenciosa. Dissemos duas formas; cometemos a injustiça do esquecimento para com outra — um amigo robusto e simples, é verdade, mas um que tanto o menestrel como a esposa tinham muitas e comoventes razões para amar. Tratava-se de um pequeno terrier, de pelo duro e olhos escuros e penetrantes, que olhavam rápida e sagazmente para todos os lados, por baixo da cobertura felpuda que os rodeava. Lentamente, o animal movia-se para a frente, puxando suavemente a trela pela qual era segurado e pela qual guiava o seu dono. Uma vez a sua fidelidade foi tentada: outro cão convidou-o a brincar; o pobre terrier olhou à volta, ansiosa e duvidosamente, e depois, soltando um rosnado baixo de negação, seguiu —
“O rumo silencioso do seu caminho.”
O pequeno cortejo parou debaixo da janela onde Lucy e Clifford estavam sentados; pois o olhar atento da mulher tinha-os percebido, e ela colocou a mão no braço do cego e sussurrou-lhe. Ele compreendeu a dica e mudou a sua melodia para uma de amor. Clifford olhou para Lucy; a face dela estava tingida de rubor. A melodia terminou; outra seguiu-se — era do mesmo género; uma terceira — o refrão permanecia inalterado; e então Clifford atirou para a rua uma moeda, e o cão abanou a sua cauda abreviada e atrofiada e, lançando-se para a frente, apanhou-a com a boca; e a mulher (ela tinha um rosto bondoso!) acariciou o amigo oficioso, mesmo antes de agradecer ao doador, e depois deixou cair a moeda, com uma ou outra palavra animadora, no bolso do cego, e os três errantes seguiram lentamente o seu caminho. Pouco depois, chegaram a um local onde a rua tinha sido remendada e as pedras jaziam espalhadas. Aqui, a mulher já não confiava na orientação do cão, mas apressou-se ansiosamente para o músico e guiou-o com evidente ternura e vigilância minuciosa sobre o caminho acidentado. Quando passaram o perigo, o homem parou; e antes de soltar a mão que o guiara, apertou-a com gratidão, e então tanto o marido como a mulher inclinaram-se e acariciaram o cão. Esta pequena cena — uma daquelas cópias grosseiras da formosura das afeições humanas, das quais tantas estão espalhadas pelas estradas do mundo — ambos os amantes tinham observado involuntariamente; e agora, ao retirarem os seus olhares, esses olhares fixaram-se um no outro — os de Lucy nadavam em lágrimas.
“Para ser amado e cuidado por aquela que amo”, disse Clifford, em voz baixa, “eu caminharia cego e descalço por toda a terra!”
Lucy suspirou muito suavemente; e, colocando as suas mãos bonitas (uma entrelaçada sobre a outra) sobre os joelhos, olhou para elas com melancolia, mas não respondeu. Clifford aproximou a sua cadeira e olhou para ela, enquanto estava sentada; as longas pestanas escuras caindo sobre os olhos e contrastando com as pálpebras de marfim; o seu perfil delicado meio voltado para ele, e colhendo uma beleza mais comovente da luz suave que nele repousava; e o seu peito cheio, mas ainda mal desenvolvido, a arfar com pensamentos que ela não analisava, mas contentava-se em sentir, de uma só vez, vagos e deliciosos. Ele olhava, e os seus lábios tremiam; ansiava por falar; ansiava por dizer apenas aquelas palavras que transmitem o que volumes tentaram expressar e apenas enfraqueceram com detalhes — “Eu amo”. Como ele resistiu aos anseios do seu coração, não sabemos — mas resistiu; e Lucy, após uma pausa confusa e embaraçada, pegou num dos poemas sobre a mesa e fez-lhe algumas perguntas sobre uma passagem particular numa velha balada que ele lhe tinha, outrora, apontado. A passagem referia-se a um chefe fronteiriço, um dos Armstrongs de outros tempos, que, tendo sido capturado pelos ingleses e condenado à morte, extravasou os seus últimos sentimentos num discurso apaixonado para o seu próprio lar — a sua torre rude — e a sua noiva recém-casada. “Acredita”, disse Lucy, à medida que a conversa começava a fluir, “que alguém tão sem lei e ávido de sangue e conflito, como este ladrão é descrito, poderia ser tão capaz de afeições ternas?”
“Acredito”, disse Clifford, “porque ele não tinha a consciência de que era tão criminoso como o considera. Se um homem nutre a ideia de que as suas ações não são más, conservará no seu coração todas as suas sensações melhores e mais gentis, tanto como se nunca tivesse pecado. O selvagem assassina o seu inimigo e, quando regressa a casa, não é menos dedicado ao seu amigo ou menos ansioso pelos seus filhos. Para endurecer e embrutecer as disposições bondosas, não devemos apenas entregar-nos à culpa, mas sentir que somos culpados. Oh! muitos daqueles que o mundo carrega com o seu opróbrio são capazes de atos — aliás, cometeram atos — que noutros o mundo veneraria e adoraria. Quer saber se o coração de um homem está fechado ao poder do amor? Pergunte o que ele é, não para os seus inimigos, mas para os seus amigos! O crime, também”, continuou Clifford, falando rápida e veementemente, enquanto os seus olhos brilhavam e o sangue escuro corria para a face, “o crime — o que é o crime? Os homens incorporam os seus piores preconceitos, as suas paixões mais malignas, num código heterogéneo e contraditório; e tudo o que quebra este código, denominam-no crime. Quando não fazem distinção na penalidade — isto é, na estimação — atribuída tanto ao assassínio como a um pequeno furto imposto à vontade fraca pela fome, não pedimos mais nada para nos convencer de que eles são ignorantes da própria natureza da culpa, e que compensam a falta de sabedoria com a ferocidade.”
Lucy olhou com alarme para o semblante animado e ardente do orador. Clifford recuperou-se após uma breve pausa e levantou-se do assento, com o riso alegre e franco que constituía uma das suas características particulares. “Há uma singularidade na política, Srta. Brandon”, disse ele, “que me atrevo a dizer que observou frequentemente: a saber, que aqueles que são menos importantes são sempre os mais ruidosos, e que as pessoas principais que perdem o temperamento são aquelas que não têm nada a ganhar em troca.”
Enquanto Clifford falava, as portas foram abertas e foram anunciados alguns visitantes para a Srta. Brandon. O bom escudeiro ainda estava imerso nas vicissitudes do seu jogo; e a única tarefa de receber e entreter “a companhia”, como dizem as criadas, recaiu, como de costume, sobre Lucy. Felizmente para ela, Clifford era uma daquelas raras pessoas que possuem eminentemente os talentos da sociedade. Havia muito no seu temperamento alegre e galante, acompanhado como era por sentimento e ardor, que se assemelhava ao nosso ideal de cavalheiros, geralmente peculiares ao Continente — heróis igualmente na sala de estar e no campo. Observador, cortês, espirituoso e versado nas várias competências que combinam (essa união mais infrequente de todas!) vivacidade com graça, ele era especialmente formado para aquele mundo brilhante do qual as suas circunstâncias tendiam a excluí-lo. Sob auspícios diferentes, ele poderia ter sido — Puh! estamos a cair num lugar-comum sem sentido; o que poderia qualquer homem ser sob auspícios diferentes daqueles pelos quais a sua vida tem sido guiada? A música sucedeu logo à conversa, e a voz de Clifford foi, por necessidade, posta em requisição. A Srta. Brandon tinha acabado de se levantar do cravo, quando ele se sentou para desempenhar a sua parte; e ela permaneceu ao seu lado com o resto do grupo enquanto ele cantava. Apenas duas vezes o seu olhar furtou-se para aquele lugar que o sopro e a forma dela tornaram sagrado para ele; uma vez quando começou, e uma vez quando concluiu a sua canção. Talvez a recordação da sua conversa o tenha inspirado; certamente que ela pairava sobre a sua mente naquele momento — lançou um rubor mais rico sobre a sua fronte e infundiu uma suavidade mais significativa e sentida no seu tom.
ESTROFES.
Quando te deixo, oh! não perguntes ao mundo que coração Aquele que te adora possa ter para os outros! Sei que peco quando de ti me afasto, Mas a minha culpa não recairá sobre ti!
A minha vida é um rio que reflete um raio Que se dignou descer de cima; Quaisquer que sejam as margens que ensombram o seu caminho, Ele espelha a luz do teu amor.
Embora as ondas possam correr altas quando o vento da noite desperta, E apressa o curso do rio para a sua queda; Embora quebradas e selvagens sejam as vagas que ele faz, A tua imagem ainda treme sobre todas!
Enquanto este amor ominoso entre Clifford e Lucy encontrava assim novo alimento em cada encontro e em cada oportunidade, o infeliz Mauleverer, firmemente persuadido de que a sua queixa era uma recaída do que ele apelidava de "dispepsia de Warlock", travava uma guerra terrível contra os restos da carne de vaca e do pudim que, como assegurou aos seus médicos entre lágrimas, "se escondiam na sua constituição". Como Mauleverer, embora complacente, como a maioria dos homens de categoria inegável, com todos os seus conhecidos, qualquer que fosse o seu grau, possuía apenas uns poucos amigos suficientemente íntimos para entrar no seu quarto de doente, e nenhum desses poucos estava em Bath, facilmente se perceberá que ele vivia numa ignorância feliz da crescente fortuna do seu rival; e, para dizer a pura verdade, a doença, que faz com que os pensamentos de um homem se voltem muito para si mesmo, baniu muitas das ideias mais ternas que habitualmente flutuavam na sua mente em torno da imagem de Lucy Brandon. A sua pílula suplantou a sua paixão; e sentiu que existem poções no mundo mais poderosas nos seus efeitos do que aquelas nos frascos de Alcidonis. — [Ver o belo conto de Marmontel, "Les Quatres Flacons".] — Pensou muito frequentemente, é verdade, quão agradável seria para Lucy alisar a sua almofada, e para Lucy preparar aquela mistura; mas então Mauleverer tinha um excelente criado, que esperava desempenhar o papel exercido por Gil Blas junto do honesto Licenciado, e nutrir um legado enquanto nutria o seu amo. E o conde, que era de temperamento toleravelmente bom, via-se forçado a confessar que seria dificilmente possível a alguém "conhecer os seus hábitos melhor do que Smoothson". Assim, durante a sua doença, a bela forma da sua pretendida noiva pouco perturbou a paz do nobre adorador. E só quando se viu capaz de comer três bons jantares consecutivos, com um apetite tolerável, é que Mauleverer se lembrou de que estava violentamente apaixonado. Assim que esta ideia foi totalmente restabelecida na sua memória, e tendo sido autorizado pelo seu médico a permitir-se "um pouco de companhia alegre", Mauleverer resolveu ir aos salões por uma ou duas horas.
Pode observar-se que a maioria das grandes personalidades tem algum lugar favorito, alguma Baiae acarinhada, onde adoram despojar-se do seu estatuto e representar o papel de amáveis em vez do de esplêndidos; e Bath, naquela época, pela sua alegria, pela sua facilidade, pela variedade de caracteres que se podiam encontrar nos seus locais de convívio, e pela maneira obrigatória como tais personagens se expunham ao ridículo, era exatamente o lugar calculado para agradar a um homem como Mauleverer, que adorava ao mesmo tempo ser admirado e satirizar. Era, portanto, uma pessoa idolatrada na cidade de Bladud; e, ao entrar nos salões, foi cercado por todo um bando de imitadores e sicofantas, encantados por ver Sua Senhoria com tão bom aspeto e a declarar-se tão convalescente. Assim que o conde fez uma vénia, sorriu e apertou mãos o suficiente para sustentar a sua reputação, dirigiu-se aos dançarinos em busca de Lucy. Encontrou-a não apenas exatamente no mesmo local em que a vira pela última vez, mas a dançar exatamente com o mesmo par que antes provocara todo o ciúme e ira do galante nobre. Mauleverer, embora de modo algum dado a preparar os seus cumprimentos de antemão, acabara de ensaiar um discurso delicado para Lucy; mas, assim que a figura do seu par lhe surgiu diante dos olhos, toda a lisonja desapareceu de imediato da sua memória. Sentiu-se empalidecer; e quando Lucy se virou e, vendo-o perto, se dirigiu a ele no tom ansioso e suave que pensava ser devido ao amigo do seu tio na sua recuperação, Mauleverer fez uma vénia, confuso e silencioso; e aquela paixão de olhos verdes, que teria convulsionado a mente de um verdadeiro amante, alterando um pouco o curso da sua fúria, perturbou efetivamente o comportamento do cortesão.
Retirando-se para uma parte obscura da sala, onde podia ver tudo sem ser notado, Mauleverer ocupou-se então a observar os movimentos e os olhares do jovem par. Era, por natureza, um observador penetrante e rápido e, neste caso, o ciúme aguçou os seus talentos; viu o suficiente para o convencer de que Lucy já estava ligada a Clifford; e, estando, por essa convicção, plenamente persuadido de que Lucy era necessária à sua própria felicidade, resolveu não perder um momento em banir o Capitão Clifford da sua presença, ou, pelo menos, em instituir tais inquéritos sobre os parentes, a categoria e a respeitabilidade daquele cavalheiro que, esperava ele, tornariam tal banimento uma consequência necessária da investigação.
Cheio desta determinação, Mauleverer dirigiu-se imediatamente ao retiro do escudeiro e, envolvendo-o em conversa, perguntou-lhe sem rodeios com quem, diabo, a senhorita Brandon estava a dançar.
O escudeiro, um pouco picado com esta brusquidão, respondeu com um longo elogio a Paul; e Mauleverer, depois de o ouvir até ao fim com o sorriso mais brando que se possa imaginar, disse ao escudeiro, muito educadamente, que tinha a certeza de que a bondade do Sr. Brandon o enganara. "Clifford!", disse ele, repetindo o nome... "Clifford! É um daqueles nomes que são particularmente escolhidos por pessoas que ninguém conhece... primeiro, porque o nome é bom, e segundo, porque é comum. A minha longa e querida amizade com o seu irmão faz-me sentir particularmente ansioso sobre qualquer ponto relativo à sua sobrinha; e, de facto, meu caro William, sobreavaliando, talvez, o meu conhecimento do mundo e a minha influência na sociedade, mas não a minha afeição por ele, supliquei-me a assumir a liberdade de me considerar um amigo, aliás, até um parente seu e da senhorita Brandon; por isso, confio que não considere a minha cautela impertinente."
O lisonjeado escudeiro assegurou-lhe que se sentia particularmente honrado, longe de considerar a Sua Senhoria (o que nunca poderia ser o caso com pessoas tão distintas como Sua Senhoria era, especialmente!) impertinente.
Lord Mauleverer, encorajado por este discurso, habilmente renovou, e conseguiu, se não convencer o escudeiro de que o belo capitão era um caráter suspeito, pelo menos persuadi-lo de que a prudência comum exigia que ele descobrisse exatamente quem era o belo capitão, especialmente porque ele tinha o hábito de jantar com o escudeiro três vezes por semana e dançar com Lucy todas as noites.
"Veja", disse Mauleverer, "ele aproxima-se de si agora; eu retirar-me-ei para a cadeira junto à lareira, e o senhor irá interrogá-lo... não tenho dúvidas de que o fará com a maior delicadeza."
Dito isto, Mauleverer tomou posse de um assento de onde não estava absolutamente fora do alcance da audição (ligeiramente surdo como era) do colóquio seguinte, embora a posição do seu assento o ocultasse da vista. Mauleverer era considerado um homem da mais pontilhosa honra na vida privada, e não teria sido visto no ato de ouvir a conversa de outras pessoas por nada deste mundo.
Limpando a garganta com um ar e recompondo-se à medida que Clifford se aproximava, o escudeiro iniciou assim habilmente o ataque: "Ah, ah! Meu bom Capitão Clifford, e como está? Vi-o (e estou muito contente, meu amigo, como todos os outros, por vê-lo) à distância. E onde deixou a minha filha?"
"A senhorita Brandon está a dançar com o Sr. Muskwell, senhor", respondeu Clifford.
"Oh! Está! O Sr. Muskwell... hum! Boa família os Muskwell... vieram de Primrose Hall. Diga-me, Capitão, não que eu queira saber pelo meu próprio bem, pois sou uma pessoa estranha e singular, creio eu, e estou totalmente convencido (algumas pessoas são censórias, e outras, graças a Deus, não são!) da sua respeitabilidade... de que família vem? Não pensará que a minha... a minha cautela é impertinente?" acrescentou o astuto velho cavalheiro, tomando emprestada aquela frase que ele pensava ser tão amigável na boca de Lord Mauleverer.
Clifford corou por um momento, mas respondeu com uma quietude de olhar malicioso: "Família! Oh, meu caro senhor, venho de uma família antiga... uma família muito antiga, de facto."
"Sempre pensei; e em que parte do mundo?"
"Escócia, senhor... toda a nossa família vem da Escócia; isto é, todos os que vivem muito tempo... os outros morrem jovens."
"Sim, o ar específico condiz com constituições específicas. Eu, por exemplo, não poderia viver em todos os países; não... entenda-me... no Norte!"
"Poucos homens honestos conseguem viver lá", disse Clifford, secamente.
"E", retomou o escudeiro, um pouco embaraçado pela natureza da sua tarefa e pela fria segurança do seu jovem amigo... "e diga-me, Capitão Clifford, a que regimento pertence?"
"Regimento? Oh, aos Rifles!" respondeu Clifford. ("O diabo está em mim", murmurou ele, "se consigo resistir a uma partida, mesmo que parta o pescoço com ela.")
"Um corpo de homens muito galante", disse o escudeiro.
"Não há dúvida disso, senhor!" replicou Clifford.
"E acha, Capitão Clifford", renovou o escudeiro, "que é um bom corpo para se progredir?"
"É bastante mau para se escapar", murmurou o Capitão; e então em voz alta: "Bem, não temos muito interesse na corte, senhor."
"Oh! Mas então há um âmbito mais vasto, como diz o meu irmão advogado... e nenhum homem sabe melhor... para o mérito. Atrevo-me a dizer que já viu muitos homens elevados a partir das fileiras?"
"Nada mais comum, senhor, do que tal elevação; e tão grande é a virtude do nosso corpo, que também conheci não poucos dispostos a transferir a honra para os seus camaradas."
"Não me diga tal coisa!" exclamou o escudeiro, abrindo os olhos a tal magnanimidade desinteressada.
"Mas", disse Clifford, que começava a acreditar que poderia levar o equívoco demasiado longe, e que pensava, apesar da sua brincadeira, que era possível encontrar uma veia de conversação mais agradável... "mas, senhor, se se recorda, ainda não terminou aquela aventura juvenil de caça sua, quando os cães se perderam em Burnham Copse."
"Oh, muito verdade", gritou o escudeiro, esquecendo completamente as suas suspeitas anteriores; e imediatamente começou uma história que prometia ser tão longa quanto a caça que descrevia. Ficou tão encantado, quando a terminou, com o caráter do cavalheiro que a ouvira tão deleitadamente, que, ao juntar-se a Mauleverer, disse ao conde, com um ar importante, que tinha interrogado estritamente o jovem capitão e que se tinha convencido plenamente da excelência da sua família, bem como da retidão da sua moral. Mauleverer ouviu com um semblante de cortês incredulidade; ouvira pouco da conversa que se desenrolara entre os dois; mas, ao questionar o escudeiro sobre vários pormenores do nascimento, ascendência e propriedade de Clifford, encontrou-o exatamente tão ignorante como antes. O cortesão, contudo, vendo que mais explicações seriam vãs, contentou-se em dar uma palmada no ombro do escudeiro e dizer, com uma urbanidade misteriosa: "Ah, senhor, o senhor é demasiado bom!"
Com estas palavras, virou costas e, ainda não desesperançado, procurou a filha. Encontrou a senhorita Brandon acabada de sair da dança e, com uma espécie de galantaria paternal, ofereceu-lhe o braço para passear pelos aposentos. Após algum floreado preliminar e a referência pela milésima vez à sua amizade por William Brandon, o conde falou-lhe sobre aquele "jovem de boa aparência que se intitulava Capitão Clifford".
Infelizmente para Mauleverer, tornou-se um pouco demasiado descuidado, à medida que o seu ressentimento contra a interferência de Clifford aquecia com a sua linguagem, e deixou escapar na sua raiva uma ou duas palavras de cautela, que ofenderam particularmente a delicadeza da senhorita Brandon.
"Cuidado com o modo como encorajo, meu senhor!" disse Lucy, com as faces coradas, repetindo as palavras que tanto a tinham afrontado, "eu realmente devo pedir-lhe..."
"Refere-se, cara senhorita Brandon", interrompeu Mauleverer, apertando-lhe a mão com terna deferência, "a que deve pedir-me que peça desculpa pela minha expressão inadvertida. Fá-lo-ei sinceramente. Se eu tivesse sentido menos interesse pela sua felicidade, acredite, teria sido mais cuidadoso na minha linguagem."
A senhorita Brandon fez uma vénia rígida, e o cortesão viu, com fúria secreta, que a beldade do campo não era facilmente apaziguada, mesmo por um pedido de desculpas de Lord Mauleverer. "Já vi o tempo", pensou ele, "em que as jovens solteiras teriam considerado uma afronta da minha parte uma honra! Teria entrado em histerismo com um pedido de desculpas!" Antes que ele tivesse tempo de fazer as pazes, o escudeiro juntou-se a eles; e Lucy, pegando no braço do pai, expressou o seu desejo de regressar a casa. O escudeiro ficou encantado com a proposição. Teria sido apenas educado da parte de Mauleverer oferecer a sua assistência naquelas pequenas atenções preparatórias para a partida das damas dos bailes. Hesitou por um momento. "Mantém-se tanto tempo naquelas correntes de ar malditas", pensou ele, tremendo. "Além disso, é apenas possível que eu não a despose, e não vale a pena arriscar uma constipação (sobretudo no início do inverno) por nada!" Cheio desta política prudente, Mauleverer resignou então Lucy ao seu pai e, murmurando ao seu ouvido que "o seu desagrado fazia dele o mais miserável dos homens", concluiu o seu adeus com uma vénia penitencialmente graciosa.
Cerca de cinco minutos depois, ele próprio retirou-se. Enquanto envolvia o seu tesouro corporal no seu roquelaure de zibelinas, antes de se imergir na sua cadeira, teve a mortificação de ver Lucy, que com o seu pai, por algum motivo ou outro, tinha sido atrasada no átrio, a ser acompanhada até à carruagem pelo Capitão Clifford. Se o conde tivesse observado mais atentamente do que lhe permitiam os cuidados ansiosos devidos a si próprio, teria notado, para seu consolo, que Lucy deu a mão com um ar frio e desviado, e que as feições expressivas de Clifford ostentavam mais o aspeto de mortificação do que de triunfo.
Não viu, contudo, mais do que a ação; e, enquanto era transportado para casa com os seus archotes e criados a precedê-lo, e o atento Smoothson ao lado do pequeno veículo, murmurou a sua determinação de escrever pelo correio seguinte a Brandon toda a sua raiva por Lucy e todo o seu ciúme do seu evidente amante.
Enquanto esta resoluta determinação animava a grande alma de Mauleverer, Lucy chegou ao seu próprio quarto, trancou a porta e, atirando-se para a cama, desatou num longo e amargo paroxismo de lágrimas. Tão pouco habituais eram tais visitantes ao seu temperamento feliz e exuberante, que havia algo quase alarmante na seriedade e obstinação com que ela chorava agora.
"O quê!" disse ela, amargamente, "terei depositado as minhas afeições num homem de caráter incerto, e será a minha paixão tão clara que um conhecido se atreve a insinuar a sua imprudência? E contudo o seu modo... o seu tom! Não, não, não pode haver razão para vergonha em amá-lo!" E enquanto dizia isto, o coração acusou-a pela frieza do seu modo para com Clifford ao despedir-se dela à noite. "Serei eu", pensou, chorando ainda mais veementemente do que antes... "serei eu tão mundana, tão vil, a ponto de me sentir alterada para com ele no momento em que ouço uma sílaba soprada contra o seu nome? Não deveria, pelo contrário, ter-me agarrado à sua imagem com um maior amor, se ele fosse atacado por outros? Mas o meu pai, o meu querido pai, e o meu bondoso e prudente tio... algo lhes é devido; e eles partiriam o coração se eu amasse alguém que considerassem indigno. Por que não ganhar coragem e falar-lhe das suspeitas a seu respeito? Uma palavra franca dissipá-las-ia. Certamente seria apenas amável da minha parte para com ele dar-lhe a oportunidade de refutar todas as conjeturas falsas e desonrosas. E por que esta reserva, quando tantas vezes, pelo olhar e pela insinuação, se não por confissão aberta, ele declarou que me ama e sabe... ele deve saber... que não lhe sou indiferente? Por que nunca fala dos seus pais, dos seus parentes, do seu lar?"
E Lucy, ao fazer esta pergunta, tirou de um seio cuja tonalidade e forma poderiam ter rivalizado com a daquela que venceu Cymon para ser sábio... [Ver o poema de Dryden, "Cymon and Iphigenia".] — um desenho que ela própria fizera secretamente do seu amante, e que, embora artificial e até rudemente executado, captara a inspiração da memória e respirava as mesmas feições e o mesmo ar que já estavam impressos de forma indelével num coração demasiado sagrado para um ídolo tão manchado. Fitou o retrato como se este pudesse responder à sua pergunta sobre o original; e, à medida que olhava e olhava, as suas lágrimas cessaram lentamente e o seu semblante inocente recaiu gradualmente na sua habitual e eloquente serenidade. Nunca, talvez, o retrato da própria Lucy poderia ter sido captado num momento mais favorável. A graça inconsciente da sua atitude; o seu vestido desapertado; a voluptuosidade modesta e juvenil da sua beleza; a face terna à qual o brilho virgem, desaparecido por um momento, regressava agora todo ele radiante; a pequena mão branca e macia na qual essa face se apoiava, enquanto a outra continha o retrato sobre o qual os seus olhos se alimentavam; o meio sorriso acabado de evocar nos seus lábios cheios, vermelhos e orvalhados, e desaparecido um momento depois, mas restaurado de novo... tudo compunha um quadro de tal beleza encantadora que questionamos se o próprio Shakespeare poderia ter imaginado uma forma terrena mais adequada para encarnar a visão de uma Miranda ou de uma Viola. A quietude e a asseio virginal do aposento davam efeito ao encanto; e havia uma poesia até na mobília alva da cama, nas portadas parcialmente abertas e admitindo um vislumbre da lua prateada, e na lâmpada solitária que lutava apenas com o raio mais puro dos céus, lançando assim uma luz misturada e suavizada em torno da câmara.
Ela ainda contemplava o desenho quando um ténue fluxo de música se esgueirou através do ar por baixo da sua janela, e subiu gradualmente até que o som de uma guitarra se tornou distinto e claro, combinando com, e não perturbando, a quietude enluarada da noite. A galantaria e o romance de outrora, embora na época da nossa história em declínio, não estavam totalmente dissipados; e serenatas noturnas sob as janelas de uma beldade distinta não eram de forma alguma raras. Mas Lucy, à medida que a música flutuava no seu ouvido, corava cada vez mais, como se esta tivesse uma origem mais querida para o seu coração do que a galantaria comum; e, levantando-se sobre um braço da sua posição reclinada, inclinou-se para a frente para captar o som com uma maior e mais infalível certeza.
Após um prelúdio de alguns momentos, uma voz clara e doce acompanhou o instrumento, e as palavras da canção foram as seguintes:
SERENATA DE CLIFFORD.
Há um mundo onde cada noite O meu espírito encontra e caminha com o teu; E esperanças que não ouso contar-te iluminam, Como estrelas de Amor, esse mundo que é meu!
Dorme! — para o mundo desperto o meu coração Tornou-se agora, creio, um estranho; Ah, dorme! para que eu possa sentir que tu estás Dentro de um mundo que é só meu.
À medida que a música morria, Lucy recaiu mais uma vez, e o desenho que segurava foi pressionado (com as faces a arder, embora invisíveis, pelo ato) contra os seus lábios. E embora o caráter do seu amante não estivesse esclarecido, embora ela própria não tivesse chegado a qualquer resolução distinta sequer de o informar dos rumores contra o seu nome, contudo, tão facilmente restaurada foi a sua confiança nele, e tão reconfortante o próprio pensamento da sua vigilância e do seu amor, que, antes de passar uma hora, os seus olhos fecharam-se em sono. O desenho foi colocado, como um feitiço contra a dor, debaixo da sua almofada; e nos seus sonhos ela murmurou o nome dele e, inconsciente da realidade e do futuro, sorriu ternamente ao fazê-lo!
CAPÍTULO XIX.
Vamos, a trama adensa-se! e outra dobra Do manto quente do mistério envolve-nos. .................. E quanto aos seus amores? Vê, o selo está sobre eles!
Tanner de Tyburn.
Não devemos supor que o modo e o tom de Clifford para com Lucy Brandon fossem como pareciam aos outros. O amor refina toda a aspereza; e essa verdade que nutre a ternura nunca é estéril de graça. Quaisquer que fossem os hábitos e os companheiros da vida de Clifford, ele tinha no coração muitas qualidades boas e generosas. Não eram frequentemente perceptíveis, é verdade — primeiro, porque ele era de uma índole alegre e imprudente; segundo, porque não se deixava facilmente afetar por circunstâncias externas; e terceiro, porque tinha a política de exibir entre os seus companheiros apenas as qualidades que provavelmente lhe confeririam influência sobre eles. Ainda assim, contudo, o seu melhor génio irrompia sempre que se apresentava uma oportunidade. Embora não fosse um “Corsário”, romântico e irreal, uma sombra ossiânica tornando-se mais vasta à medida que se afasta da substância; embora não fosse uma mentira grandiosamente imaginada perante as justas proporções da natureza humana, mas um homem errante num mundo muito prosaico e comum — Clifford ainda misturava uma certa generosidade e um espírito cavalheiresco de empreendimento até nas práticas da sua profissão. Embora o nome de Lovett, pelo qual era principalmente conhecido, fosse um nome peculiarmente distinto nos anais dos aventureiros, nunca tinha sido associado a rumores de crueldade ou ultraje; e era frequentemente ligado a anedotas de coragem, cortesia, bom humor ou indulgência. Ele era alguém a quem um amor verdadeiro estava peculiarmente destinado a suavizar e a redimir. A audácia, a franqueza, o altruísmo do seu temperamento eram componentes de uma natureza sobre a qual o afeto invariavelmente exerce um domínio forte e profundo. Além disso, Clifford era de uma índole ávida e ambiciosa; e o mesmo temperamento e capacidades que, em poucos anos, o tinham elevado em influência e popularidade muito acima de todo o bando cavalheiresco com quem estava ligado, quando uma vez inflamados e elevados por uma paixão superior, eram suscetíveis de despertar a sua ambição do nível das suas ocupações atuais e reformá-lo, antes que fosse demasiado tarde, num membro útil, aliás, até honrado da sociedade. Confiamos que o leitor já tenha percebido que, apesar das suas circunstâncias iniciais, o seu modo e trato não eram tais que o tornassem inapto para o amor de uma dama. O refinamento comparativo do seu exterior é fácil de explicar, pois ele possuía uma gentileza natural e inata, um espírito rápido para a observação, um sentido pronto tanto para o ridículo como para o gracioso; e estes são materiais que são rápida e levemente trabalhados da grosseria para o polimento. Ele tinha sido lançado, também, entre os líderes e heróis do seu bando; muitos não absolutamente baixos de nascimento, nem degradados de hábitos. Ele tinha convivido com os Barringtons da época — cavalheiros que eram admirados em Ranelagh e faziam discursos dignos de Cícero quando eram convocados a julgamento. Ele tinha desempenhado o seu papel em locais públicos; e como Tomlinson costumava dizer à sua maneira clássica, “os triunfos alcançados no campo tinham sido planeados no salão de baile”. Em suma, ele era um daqueles salteadores de estrada realizados e elegantes de quem ainda lemos maravilhas, e por quem teria sido delicioso ser roubado: e a aptidão de intelecto que se transformava em espírito com os seus amigos, suavizava-se em sentimento com a sua amada. Existe algo, também, na beleza (e a pessoa de Clifford, como dissemos antes, possuía atrações até incomuns) que eleva um mendigo à nobreza; e havia uma distinção no seu andar e olhar que supria o ar de distinção e o tom das cortes. Homens, de facto, hábeis como Mauleverer nas subtilezas das maneiras, poderiam talvez ter detetado facilmente nele a falta daquela essência indescritível possuída apenas por pessoas criadas na boa sociedade; mas, sendo essa falta partilhada por tantas pessoas de nascimento e fortuna indiscutíveis, não trazia qualquer reprovação particular. Para Lucy, de facto, criada na reclusão e vendo em Warlock ninguém capaz de refinar o seu gosto no que toca ao estilo de um ar ou frase para um padrão de perfeição muito exigente, esta falta era perfeitamente impercetível; ela notou no seu amante apenas uma figura em toda a parte inigualável, um olho sempre eloquente de admiração, um passo do qual a graça nunca poderia ser divorciada, uma voz que falava num tom prateado e proferia lisonjas delicadas no pensamento e poéticas na palavra; até uma certa originalidade de mente, observação e caráter, ocasionalmente aproximando-se do bizarro, mas por vezes também do elevado, possuía um encanto para a imaginação de uma jovem e não pouco entusiasta mulher, e contrastava favoravelmente, em vez do contrário, com a insipidez monótona daqueles que ela via habitualmente. Nem temos a certeza de que o mistério que o envolvia, por mais incómodo que fosse para ela, e por mais desacreditado que parecesse aos outros, fosse totalmente ineficaz no aumento do seu amor pelo aventureiro; e assim o Destino, que transmuta no seu cadinho mágico todos os metais opostos naquele que deseja produzir, avolumou a riqueza de uma paixão mal colocada e ominosa pelas próprias circunstâncias que deveriam tê-la contrariado e destruído.
Estamos dispostos, pelo que dissemos, não a defender Clifford, mas a redimir Lucy na opinião dos nossos leitores por amar tão imprudentemente; e quando eles se lembram da sua juventude, da sua educação, da privação de uma mãe, de toda a amizade feminina, até mesmo do cuidado vigilante e incansável de algum protetor do sexo oposto, não achamos que o que foi tão natural seja considerado por alguém imperdoável.
Mauleverer acordou na manhã seguinte ao baile com melhor saúde do que o habitual e, consequentemente, mais apaixonado do que nunca. De acordo com a sua resolução da noite anterior, sentou-se para escrever uma longa carta a William Brandon: era divertida e espirituosa como sempre; mas o astuto nobre conseguiu, sob o disfarce da sagacidade, transmitir à mente de Brandon um sério receio de que o seu acarinhado projeto matrimonial pudesse falhar completamente. O relato sobre Lucy e o Capitão Clifford contido na epístola instilou, de facto, uma dose dupla de amargura na mente profissionalmente acre do advogado; e como aconteceu que ele leu a carta logo antes de comparecer ao tribunal num caso em que era advogado da coroa, as testemunhas do lado oposto sentiram todos os efeitos do mau humor do causídico. O caso era um em que o réu se tinha envolvido em transações de burla de quantia muito avultada; e entre os seus agentes e assistentes estava uma pessoa das classes mais baixas, mas que, aparentemente desfrutando de vastas ligações e possuindo astúcia e desembaraço naturais, parecia ter sido de grande utilidade na receção e disposição de tais bens obtidos fraudulentamente. Como testemunha contra esta última pessoa apareceu um penhorista, que apresentou certos artigos que lhe tinham sido penhorados em diferentes ocasiões por este humilde agente. Ora, Brandon, ao interrogar o intermediário culpado, tornou-se tanto mais terrivelmente severo quanto mais o homem demonstrava aquela aparência de estolidez inconsciente que as classes inferiores podem assumir tão engenhosamente, e que é tão peculiarmente adaptada para enfurecer e confundir os cavalheiros da barra. A certa altura, Brandon, subjugando e reprimindo completamente a teimosa hipocrisia do culpado, o homem voltou para ele um olhar entre a ira e a súplica, murmurando:—
“Aha! se assim é, Conselheiro Prandon, que soubesse o que eu sei. Não iria atrever-se a intimidar-me assim!”
“E diga-me, meu caro, o que é que sabe que deveria fazer-me tratá-lo como se o considerasse um homem honesto?”
A testemunha tinha agora recaído na carranca e apenas respondeu com uma espécie de grunhido. Brandon, que sabia bem como picar uma testemunha para que ela se tornasse comunicativa, continuou o seu interrogatório até que a testemunha, reavivada pela raiva, e talvez pela indiscrição, disse em voz baixa:—
“Pergunte ao Sr. Swoppem, o penhorista, o que lhe vendi a 15 de fevereiro, exatamente vinte e três anos atrás.” Brandon recuou, os seus lábios ficaram brancos, ele fechou as mãos num espasmo convulsivo; e enquanto todos os seus traços pareciam distorcidos com uma intensidade de expectativa sincera mas temerosa, ele despejou uma saraivada de perguntas, tão incoerentes e tão irrelevantes que foi imediatamente chamado à ordem pelo seu douto colega do lado oposto. Nada mais pôde ser extraído da testemunha. O penhorista foi novamente convocado: ele apareceu um tanto desconcertado por um apelo à sua memória tão recuado quanto vinte e três anos; mas depois de levar algum tempo a considerar, durante o qual a agitação do geralmente frio e composto Brandon foi notável para todo o tribunal, ele declarou que não se lembrava de nenhuma transação com a testemunha naquela época. Em vão foram todos os esforços de Brandon para obter uma resposta mais elucidativa. O penhorista era impenetrável, e o advogado foi forçado, relutantemente, a dispensá-lo. No momento em que a testemunha deixou o estrado, Brandon mergulhou numa abstração sombria — parecia esquecer completamente o negócio e os deveres do tribunal; e tão negligentemente ele continuou a concluir o caso, tão sem propósito foi o resto do seu exame e contra-exame, que a causa foi inteiramente arruinada, e um veredito de “Não culpado” foi proferido pelo júri.
No momento em que deixou o tribunal, Brandon dirigiu-se ao penhorista; e depois de uma conversa com o Sr. Swoppem, na qual convenceu aquele honesto comerciante de que o seu objetivo era mais recompensar do que intimidar, Swoppem confessou que, há vinte e três anos, a testemunha se tinha encontrado com ele numa taberna em Devereux Court, na companhia de outros dois homens, e lhe vendera vários artigos em prata, ornamentos, etc. A grande maioria destes artigos tinha, claro, deixado há muito a casa do penhorista; mas ele ainda achava que um ou outro objeto perdido, sem valor suficiente para ser transformado ou remodelado, nem com moda suficiente para encontrar uma venda rápida, permanecia nas suas gavetas. Ávido, e com mãos trémulas, Brandon remexeu o conteúdo heterogéneo dos reservatórios de mogno que o penhorista agora submetia ao seu escrutínio. Nada na terra é uma visão tão melancólica quanto a gaveta de um penhorista! Aqueles pequenos ornamentos pitorescos e sem valor — aqueles nós de namorados, aqueles medalhões ovais, aqueles anéis batidos, rodeados por iniciais ou alguma breve inscrição de afeição ou de luto — que histórias de afetos, esperanças e tristezas passadas não contam eles! Mas nenhum sentimento de um tipo tão geral entristeceu jamais a mente dura de William Brandon, e agora menos do que em qualquer altura tais reflexões lhe poderiam ter ocorrido. Impacientemente, ele atirou para a mesa, um após outro, as bugigangas outrora guardadas talvez com o mais terno respeito, até que, finalmente, os seus olhos brilharam e, com um aperto nervoso, apoderou-se de um anel antigo que estava gravado com letras e circundava um coração contendo cabelo. A inscrição era simplesmente: “W. B. para Julia.” Estranha e sombria foi a expressão que se instalou no rosto de Brandon ao olhar para esta bugiganga aparentemente sem valor. Após um momento de olhar, ele soltou uma exclamação inarticulada e, enfiando-o no bolso, renovou a sua busca. Encontrou mais uma ou duas bagatelas de natureza semelhante; uma era uma miniatura mal feita, engastada em prata, e ostentando nas costas várias letras meio apagadas, que Brandon interpretou de imediato (embora nenhum outro olho pudesse) como “Sir John Brandon, 1635, AEtat. 28”; a outra era um selo gravado com o nobre brasão da casa de Brandon, “Uma cabeça de touro, ducalmente coroada e armada, de ouro”. Assim que Brandon se apoderou destes tesouros e chegou à convicção de que o local não continha mais nada, assegurou ao consciencioso Swoppem a sua preocupação com a segurança daquela pessoa, recompensou-o munificentemente e seguiu o seu caminho para Bow Street para pedir um mandado contra a testemunha que o recomendara ao penhorista. No caminho para lá, uma nova resolução ocorreu-lhe. “Por que tornar tudo público”, murmurou para si mesmo, “se pode ser evitado? e pode ser evitado!” Ele hesitou um momento, depois refez o seu caminho até ao penhorista e, após um breve mandato ao Sr. Swoppem, regressou a casa. No decurso da mesma noite, a testemunha a que nos referimos foi levada à casa do advogado pelo Sr. Swoppem e lá manteve uma longa e privada conversa com Brandon; o resultado disto pareceu ser um pacto para satisfação mútua, pois o homem foi-se embora seguro, com uma bolsa pesada e o coração leve, embora várias sombras e dúvidas tenham certamente atravessado este último de vez em quando; enquanto Brandon se atirou para trás na sua cadeira com o ar triunfante de alguém que realizou um grande feito, e o seu rosto sombrio traía em cada traço uma alegria e uma esperança que eram convidadas pouco frequentes, deve admitir-se, tanto no seu semblante quanto no seu coração.
Tão bom homem de negócios, no entanto, era William Brandon que não permitiu que o evento daquele dia adiasse além da noite a sua atenção aos seus planos para o engrandecimento da sua sobrinha e da sua casa. Ao romper da aurora do dia seguinte, ele tinha escrito ao Lord Mauleverer, ao seu irmão e a Lucy. Para esta última, a sua carta, redigida em toda a ansiedade da ternura e na cautela da experiência afetuosa, estava bem calculada para causar aquela mistura de vergonha e dor que o astuto advogado julgava corretamente ser o inimigo mais eficaz de uma paixão incipiente. “Ouvi acidentalmente”, escreveu ele, “de um amigo meu, acabado de chegar de Bath, das atenções gritantes que lhe são prestadas por um tal Capitão Clifford; não vou, minha querida sobrinha, feri-la repetindo o que também ouvi sobre a sua maneira de recebê-las. Conheço a má índole e a inveja do mundo; e não imagino por um momento que a minha Lucy, de quem tanto me orgulho com justiça, encorajasse, por uma pequena coqueteria, os avanços de alguém com quem nunca poderia casar, ou demonstrasse a qualquer pretendente uma parcialidade desconhecida dos seus parentes, e certamente colocada num campo que nunca poderia receber a sua aprovação. Não dou crédito aos relatos dos ociosos, minha querida sobrinha; mas se não dou crédito, não os deve ignorar. Apelo à sua prudência, à sua delicadeza, à sua discrição, ao seu sentido de dever, para que de uma vez por todas e eficazmente ponha um fim a todos os rumores impertinentes: não dance mais com este jovem; não o deixe fazer parte da sua companhia em qualquer lugar de diversão, público ou privado; evite até vê-lo se lhe for possível, e lance na sua maneira para com ele aquela frieza decidida que o mundo não pode confundir.” Muito mais escreveu o tio habilidoso, mas tudo com o mesmo propósito e para a prossecução do mesmo desígnio. A sua carta ao irmão não foi menos astuta. Disse-lhe de imediato que a preferência de Lucy pelo pretendente de uma bela fortuna era o assunto de conversa público, e implorou-lhe que não perdesse um momento a abafar o rumor. “Pode fazê-lo facilmente”, escreveu ele, “evitando o jovem; e caso ele seja muito importuno, regresse de imediato a Warlock. O bem-estar da sua filha deve ser mais caro para si do que qualquer outra coisa.”
A Mauleverer, Brandon respondeu com uma carta que versava primeiro sobre assuntos públicos, e depois deslizava descuidadamente para o assunto da informação do conde.
Entre as advertências que se aventurou a dar a Mauleverer, ele insistiu, não sem razão, na falta de tato demonstrada pelo conde ao não manifestar aquele fausto e aparato que a sua posição na vida lhe permitia. “Lembre-se”, insistiu ele, “que não está entre os seus iguais, por quem a parada desnecessária começa a ser considerada uma vulgaridade ostensiva. O método mais seguro de deslumbrar os nossos inferiores é pelo esplendor, não pelo gosto. Todas as pessoas jovens — todas as mulheres em particular — são conquistadas pelo aparato e enamoradas da magnificência. Assuma um maior estado e será mais falado; e a notoriedade conquista o coração de uma mulher mais do que a beleza ou a juventude. Tem, perdoe-me, feito de rapaz há demasiado tempo; uma certa dignidade convém à sua maturidade; as mulheres não o respeitarão se se permitir tornar ‘rançoso e barato para a companhia vulgar’. É como um homem que tem cinquenta vantagens e usa apenas uma delas para atingir o seu objetivo, quando confia na sua conversa e nas suas maneiras, e desperta os recursos da sua riqueza e da sua posição. Qualquer cavalheiro privado pode ser amável e espirituoso; mas qualquer cavalheiro privado não pode chamar em seu auxílio a lâmpada de Aladino possuída em Inglaterra por um par rico. Preste atenção a isto, meu caro lorde! Lucy, no fundo, é vaidosa, ou não é mulher. Deslumbre-a, então — deslumbre! O amor pode ser cego, mas deve ser tornado assim pelo excesso de luz. Tem uma casa de campo a poucos quilómetros de Bath. Por que não se instalar lá em vez de num alojamento desprezível na cidade? Dê entretenimentos sumptuosos — torne necessário que todo o mundo compareça a eles — exclua, claro, este Capitão Clifford; encontrará então Lucy sem um rival. Atualmente, excetuando apenas o seu título, luta em terreno nivelado com este aventureiro, em vez de numa eminência da qual poderia num instante varrê-lo. Aliás, ele é mais forte do que o senhor; ele tem as oportunidades proporcionadas por uma parceria em bailes onde o senhor não pode aparecer em vantagem; ele está, diz o senhor, no primeiro florescer da juventude, ele é bonito. Reflita! — o seu destino, no que toca a Lucy, está nas suas mãos. Passo a outros assuntos”, etc. Ao reler Brandon, antes de assinar, esta última carta, um sorriso amargo pousou nos seus traços duros mas belos. “Se”, disse ele mentalmente, “eu conseguir este objetivo — se Mauleverer casar realmente com esta rapariga — por que, tanto melhor que ela tenha outro, um amante mais belo e mais bem-vindo. Pelo grande princípio de desprezo dentro de mim, que me permitiu escarnecer daquilo que mentes mais fracas adoram, e fazer um escabelo daquela honra mundana que os tolos erguem como um trono, seria para mim mais doce do que a fama — sim, ou mesmo do que o poder — ver este lorde de berço fino como um escárnio na boca dos homens — um corno, um corno!” e ao dizer a última palavra Brandon riu-se à gargalhada. “E ele pensa, também”, acrescentou ele, “que está seguro da minha fortuna; caso contrário, talvez ele, o descendente de ourives, não dignificasse a nossa casa com as suas propostas; mas ele pode errar aí — ele pode errar aí”, e, terminando o seu solilóquio, Brandon terminou também a sua carta com — “Adeus, meu caro lorde, o seu mais afetuoso amigo”!
Não é difícil conjeturar o efeito produzido sobre Lucy pela carta de Brandon. Fez com que se sentisse miserável; recusou-se durante dias a sair; fechou-se no seu apartamento e consumiu o tempo em lágrimas e lutas com o seu próprio coração. Por vezes, o que ela concebia ser o seu dever vencia, e ela resolvia renunciar ao seu amante; mas a noite desfazia o trabalho do dia — pois à noite, todas as noites, o som da voz do seu amante, acompanhado por música, derretia a sua resolução e tornava-a, mais uma vez, toda ternura e confiança. As palavras, também, cantadas sob a sua janela eram especialmente adequadas para a afetar; respiravam uma melancolia que a tocava ainda mais pela sua harmonia com os seus próprios pensamentos. Ora queixavam-se da ausência, ora aludiam ao abandono; mas havia sempre nelas um tom de humilhação, não de reprovação; revelavam um sentido de indignidade no amante e confessavam que até o amor era um crime: e na medida em que reconheciam a falta de mérito, Lucy agarrava-se mais firmemente à crença de que o seu amante era merecedor.
O velho escudeiro ficou muito perturbado com a carta do irmão. Embora impressionado com a ideia da importância pessoal e o amor por um sangue toleravelmente puro, comuns à maioria dos escudeiros rurais, ele de forma alguma ambicionava um casamento para a sua filha. Pelo contrário, o mesmo sentimento que em Warlock o levara a escolher os seus companheiros entre a pequena nobreza tornava-o avesso à ideia de um genro da alta aristocracia. Apesar da boa índole de Mauleverer, a própria desenvoltura do conde irritava-o, e ele nunca se sentia à vontade na sua companhia. Por Clifford, ele nutria uma grande estima; e, tendo-se convencido de que não havia nada a suspeitar naquele jovem cavalheiro, não via motivo terreno para que um companheiro tão agradável não pudesse ser um genro agradável. “Se ele é pobre”, pensava o escudeiro, “embora não pareça, a Lucy é rica!” E este truísmo parecia-lhe responder a todas as objeções. Contudo, William Brandon possuía uma influência notável sobre a mente mais fraca do irmão; e o escudeiro, embora com grande relutância, resolveu adotar o seu conselho. Fechou as suas portas a Clifford e, quando o encontrava nas ruas, em vez de o saudar com a sua habitual cordialidade, passava por ele com um apressado “Bom dia, Capitão!”, que, após o primeiro ou segundo dia, se transformou num aceno distante. Sempre que pessoas muito bondosas são rudes, e injustamente, a rudeza é extrema. O escudeiro sentia-se tão incomodado por ser menos familiar do que dantes com Clifford, que o seu único desejo restante era agora romper de vez com ele; e a esta consumação do conhecimento o cumprimento gradualmente mais frio parecia aproximar-se rapidamente. Entretanto, Clifford, incapaz de ver Lucy, evitado pelo pai dela e obtendo em resposta a todas as suas perguntas olhares rudes do criado, a quem nada senão o mais resoluto domínio sobre os seus músculos impedia de derrubar, começou a sentir, talvez pela primeira vez na vida, que um caráter equívoco é, pelo menos, uma desventura inequívoca. Para aumentar a sua aflição, “os ganhos da sua indústria anterior” — usamos a expressão estimada pelo sábio Tomlinson — diminuíam gradualmente sob as despesas de Bath; e as vozes murmurantes dos seus dois camaradas começavam já a reprovar o seu chefe pela sua ingloriosa ociosidade, e a sugerir a necessidade de um esforço rápido.
CAPÍTULO XX.
Whackum. Olha só! Bem, toda a Europa não pode mostrar um bando de espíritos mais finos e cavalheiros mais bravos.
Dingboy. Fé, são homens bastante espertos.
SHADWELL: Scourers.
O mundo de Bath foi subitamente deleitado pela notícia de que Lord Mauleverer tinha partido para Beauvale (a bela propriedade possuída por aquele nobre nas redondezas de Bath), com a intenção de lá realizar uma série de suntuosos entretenimentos.
As primeiras pessoas a quem o alegre conde anunciou o seu “propósito hospitaleiro” foram o Sr. e a Srta. Brandon; ele chamou à casa deles e declarou a sua resolução de não sair de lá até que Lucy (que estava no seu próprio quarto) consentisse em presenteá-lo com uma entrevista e uma promessa de ser a rainha do seu pretendido festival. Lucy, importunada pelo pai, desceu à sala de estar, sem ânimo e pálida; e o conde, impressionado com a alteração da sua aparência, tomou-lhe a mão e fez as suas perguntas com uma aparência de bondade tão interessante e sentida que predispôs o pai, pela primeira vez, a seu favor, e tocou até a filha. Tão sério, também, foi o seu pedido de que ela honrasse as suas festividades com a sua presença, e com uma lisonja tão habilidosa foi transmitido, que o escudeiro se encarregou de prometer o favor em seu nome; e quando o conde, declarando que não estava contente com aquela promessa de outrem, apelou à própria Lucy, a sua negação foi logo derretida numa aceitação positiva, embora relutante.
Deleitado com o seu sucesso, e mais impressionado com a formosura de Lucy, refinada como estava pela sua palidez, do que alguma vez estivera antes, Mauleverer deixou a casa e calculou, com maior precisão do que até então fizera, a provável fortuna que Lucy herdaria do seu tio.
Não tardou que os convites fossem emitidos para a festa de Lord Mauleverer e nada mais se falasse nos círculos que, em Bath, as pessoas se compraziam em chamar de “o Mundo”.
Mas, no intervalo, toucados são feitos e conversas fluem em Bath; e quando se soube que Lord Mauleverer — o bondoso Lord Mauleverer, o obsequioso Lord Mauleverer — ia realmente ser exclusivo, e de entre mil conhecidos selecionar apenas oitocentos, é espantoso como a sua popularidade se aprofundou em respeito. Agora, então, veio a ansiedade e o triunfo; aquela que era convidada virava as costas à que não o era — velhas amizades dissolviam-se — a Independência escrevia cartas a pedir um bilhete — e, como a Inglaterra é o país mais livre do mundo, todas as Senhoras Hodges e Snodges imploravam para ter a liberdade de levar as suas filhas mais novas.
Deixando o invejável Mauleverer — a causa divina de tanta felicidade e desgraça, triunfo e abatimento — suba connosco, ó leitor, àqueles elegantes apartamentos sobre a loja do cabeleireiro, arrendados pelo Sr. Edward Pepper e pelo Sr. Augustus Tomlinson. Era a hora da noite; o Capitão Clifford tinha estado a jantar com os seus dois amigos; a toalha fora retirada e a conversa fluía sobre uma mesa adornada por duas garrafas de vinho do Porto, uma taça de ponche para a discussão especial do Sr. Pepper, dois pratos de avelãs, outro de biscoitos apimentados e um quarto com três frutos pomáceos, aos quais ninguém tocou.
A lareira estava limpa, o fogo ardia alto e claro, as cortinas estavam corridas e a luz excluída. Os nossos três aventureiros e os seus aposentos pareciam o retrato do conforto. Assim pensou o Sr. Pepper; pois, olhando em volta da câmara e pondo os pés sobre o para-fogo, disse:
“Se o meu retrato fosse pintado, cavalheiros, é exatamente como estou agora que eu gostaria de ser desenhado!”
“E”, disse Tomlinson, quebrando as suas avelãs — Tomlinson era dado a avelãs —, “se eu tivesse de escolher um lar, é num lar como este que gostaria de estar sempre aquartelado.”
“Ah, cavalheiros”, disse Clifford, que estava em silêncio há algum tempo, “é mais do que provável que ambos os vossos desejos possam ser ouvidos, e que possais ser desenhados, aquartelados e algo mais, também, no próprio lugar do vosso merecimento!”
“Bem”, disse Tomlinson, sorrindo suavemente, “fico feliz por vos ouvir gracejar de novo, Capitão, ainda que seja à nossa custa.”
“Custa!” ecoou Ned; “sim, eis a questão! Quem raio há de pagar a despesa do nosso jantar?”
“E os nossos jantares da última semana?” acrescentou Tomlinson. “Esta casca de noz vazia parece um presságio; tem certamente um traço grandioso que se assemelha de forma impressionante aos meus bolsos.”
“Heigho!” suspirou o Long Ned, virando do avesso os conteúdos do seu colete com um gesto significativo, enquanto o talentoso Tomlinson, que era dado a poesia plangente, apontava para os vácuos desconsolados e exclamava:
“Mesmo enquanto as artes mais brilhantes da Moda engodam, O coração desanimado pergunta se isto é a alegria!”
“Na verdade, cavalheiros”, acrescentou ele, depositando solenemente o quebra-nozes sobre a mesa e colocando, como era o seu costume quando prestes a ser luminoso, o dedo direito sobre a palma esquerda — “na verdade, cavalheiros, os assuntos estão a tornar-se sérios connosco, e torna-se necessário, sem demora, conceber algum meio seguro de obter uma competência decente.”
“Estou a ser cobrado de forma confusa”, gritou Ned.
“E”, continuou Tomlinson, “nenhuma pessoa de delicadeza gosta de ser sujeita à importunação de credores vulgares; devemos, portanto, angariar dinheiro para a liquidação das nossas dívidas. Capitão Lovett, ou Clifford, como quer que sejas chamado, apelamos a ti para que nos ajudes num propósito tão louvável.”
Clifford voltou os olhos primeiro para um e depois para o outro; mas não respondeu.
“Imprimis”, disse Tomlinson, “produzamos cada um o nosso capital disponível; pela minha parte, sou livre de confessar — pois que vergonha há nessa pobreza que os nossos esforços estão prestes a aliviar? — que só tenho duas guineus, quatro xelins e três pence e meio!”
“E eu”, disse o Long Ned, tirando um ornamento de porcelana de cima da lareira e esvaziando o seu conteúdo na mão, “estou numa condição ainda mais piedosa. Vê, só tenho três xelins e uma guineu falsa. Dei a guineu ao empregado do White Hart ontem; o cão trouxe-ma de volta hoje, e fui forçado a trocá-la com o meu último xelim. Praga leve a coisa! Comprei-a a um judeu por quatro xelins, e perdi uma libra e cinco no negócio.”
“A sorte frustra os nossos esquemas mais sábios”, replicou o moralista Augustus. “Capitão, produzirás os escassos destroços da tua riqueza?”
Clifford, ainda silencioso, atirou uma bolsa sobre a mesa. Augustus esvaziou-a cuidadosamente e contou cinco guineus; uma expressão de grave surpresa instalou-se na sobrancelha contemplativa de Tomlinson e, estendendo as moedas na direção de Clifford, disse num tom melancólico:
“Todos os teus pequeninos? Disseste todos?”
Um olhar de Clifford respondeu ao interrogatório interessante. “Estas, então”, disse Tomlinson, recolhendo na mão a riqueza comum — “estas, então, são todos os nossos tesouros restantes!” Enquanto falava, tilintou as moedas tristemente na palma da mão e, olhando para elas com um ar paternal, exclamou:
“Ai! Alheias ao seu destino, as pequenas vítimas brincam!”
“Oh, diabo!” disse Ned, “sem sentimentalismos! Vamos ao que interessa de uma vez. Para te dizer a verdade, eu, por mim, estou farto desta caça às herdeiras, e um homem pode gastar uma fortuna na perseguição antes de conseguir ganhar uma.”
“Desesperas, então, positivamente, da viúva que cortejas há tanto tempo?” perguntou Tomlinson.
“Completamente”, replicou Ned, cujas abordagens se tinham limitado apenas às damas da classe média, e que se imaginara a dada altura, como ele expressou num trocadilho, certo de uma querida costela de Cheapside — “completamente; ela foi muito gentil comigo ao princípio, mas quando a propus, pediu-me, com um rubor, as minhas ‘referências’. ‘Referências?’ disse eu; ‘por que, eu quero o lugar de seu marido, minha encantadora, não de seu lacaio!’ A dama foi inexorável, disse que não podia aceitar-me sem uma recomendação, mas sugeriu que eu podia ser o amante em vez do noivo; e quando eu desprezei a sugestão e insisti pelo clérigo, ela disse-me, sem rodeios, com a sua infeliz pronúncia citadina, ‘que ela nunca me acompanharia ao cadafalso!’”
“Ha, ha, ha!” gritou Tomlinson, rindo. “Dificilmente se pode culpar a boa senhora por isso. O amor raramente tolera laços tão permanentes. Mas não tens outra dama debaixo de olho?”
“Não para matrimónio — todos os caminhos exceto os da igreja!” Enquanto este par dissoluto assim conversava, Clifford, encostado ao lambril, ouvia-os com um sentimento doentio e amargo de degradação, que até há poucos dias lhe era estranho ao peito. Foi finalmente despertado do seu silêncio por Ned, que, inclinando-se para a frente e colocando a mão sobre o joelho de Clifford, disse abruptamente:
“Em suma, Capitão, tens de nos conduzir mais uma vez à glória. Ainda temos os nossos cavalos, e eu guardo a minha máscara na minha carteira, juntamente com o meu pente. Vamos pegar na estrada amanhã à noite, correr pelo campo em direção a Salisbury e, após uma curta visita naquela vizinhança a um bando de velhos amigos meus — homens audazes, que teriam parado o próprio diabo quando ele estava em trabalho sobre Stonehenge —, fazer uma digressão por Reading e Henley e terminar com um mergulho em Londres.”
“Falaste bem, Ned!” disse Tomlinson, aprovadoramente. “Agora, nobre capitão, qual é a tua opinião?”
“Messieurs”, respondeu Clifford, “aprovo altamente a vossa pretendida excursão, e apenas lamento que não possa ser o vosso companheiro.”
“Não! E porquê?” gritou o Sr. Pepper, espantado.
“Porque tenho negócios aqui que tornam isso impossível; talvez, em breve, eu possa juntar-me a vós em Londres.”
“Ora”, disse Tomlinson, “não há necessidade de irmos para Londres, se tu desejas permanecer aqui; nem precisamos presentemente de recorrer a um expediente tão desesperado como a estrada — um pequeno negócio calmo em Bath servirá o nosso propósito; e, quanto a mim, como bem sabes, gosto de exercer o meu engenho em algum esquema mais digno dele do que a estrada — uma profissão mais adequada para um rufia do que para um homem de génio. Vamos então, Capitão, planear um projeto de enriquecimento sobre a propriedade de algum comerciante crédulo! Por que recorrer a medidas brutas enquanto pudermos encontrar tolos fáceis?”
Clifford abanou a cabeça. “Admitir-vos-ei com franqueza”, disse ele, “que não posso presentemente tomar parte nas vossas façanhas; aliás, como vosso chefe, devo dar as minhas ordens positivas para que vos abstenhais de todo o exercício dos vossos talentos em Bath. Roubai, se quiserdes: o mundo está à vossa frente; mas esta cidade é sagrada.”
“Corpo de mim!” gritou Ned, ficando corado, “mas isto é demasiado bom. Não serei ditado desta maneira.”
“Mas, senhor”, respondeu Clifford, que tinha aprendido na sua profissão oligárquica a forma de comandar — “mas, senhor, tu o farás, ou se amotinares, deixarás o nosso grupo, e então o carrasco não terá pouca hipótese sobre ti. Vamos, vamos! ingrato como és, o que serias tu sem mim? Quantas vezes já salvei essa tua carcaça comprida da corda, e agora terias a baixeza de te rebelar? Fora com isso!”
Embora o Sr. Pepper ainda estivesse irado, mordeu o lábio em silêncio amuado e não deixou que a sua paixão seguisse o seu curso; enquanto Clifford, levantando-se, após uma curta pausa continuou: “Olhem, Sr. Pepper, conhecem as minhas ordens; considerem-nas peremptórias. Desejo-vos sucesso e fartura! Adeus, cavalheiros!”
“Deixas-nos já?” gritou Tomlinson. “Estás ofendido.”
“Certamente que não!” respondeu Clifford, recuando para a porta. “Mas um compromisso noutro lado, sabem!”
“Sim, percebo-te”, disse Tomlinson, seguindo Clifford para fora do quarto e fechando a porta atrás de si. “Sim, percebo-te!” acrescentou ele, num sussurro, enquanto detinha Clifford no topo das escadas. “Mas diz-me, como vais com a herdeira?”
Sufocando aquela sensação no seu coração que tornava Clifford, imprudente como era, enfurecido e envergonhado, sempre que pelos lábios dos seus camaradas saía qualquer alusão a Lucy Brandon, o chefe replicou: “Receio, Tomlinson, que já sou suspeito pelo velho escudeiro! De repente, ele evita-me, fecha-me a sua porta; a Srta. Brandon não vai a lado nenhum, e mesmo que fosse, que poderia eu esperar dela depois desta mudança súbita no pai?”
Tomlinson parecia vazio e desconcertado. “Mas”, disse ele, após um momento de silêncio, “por que não pôr uma boa cara ao assunto, dirigir-te ao escudeiro e perguntar-lhe a razão da sua falta de bondade?”
“Ora, olha, meu amigo; sou suficientemente audaz com todos os outros, mas esta rapariga tornou-me tão tímido como uma donzela em tudo o que lhe diz respeito. Aliás, há momentos em que penso que posso conquistar todo o sentimento egoísta e alegrar-me por ela, pelo facto de ela ter escapado a mim. Pudesse eu vê-la mais uma vez, eu poderia — sim! sinto — sinto que poderia — renunciar a ela para sempre!”
“Humph!” disse Tomlinson; “e o que será de nós? Realmente, meu capitão, o teu sentido de dever devia levar-te a esforçares-te; os teus amigos morrem de fome diante dos teus olhos, enquanto tu andas indeciso sobre a tua amante. Não tens entranhas para a amizade?”
“Uma trégua com este disparate!” disse Clifford, zangado.
“É sensatez — sensatez sóbria — e tristeza também”, replicou Tomlinson. “Ned está descontente, as nossas dívidas são imperiosas. Suponhamos, agora — apenas suponhamos — que damos um salto ao luar de Bath, será que isso dará bom resultado para ti a quem deixamos para trás? Contudo, isto temos de fazer, se não conceberes algum método de reabastecer as nossas bolsas. Ou, então, consente em juntar-te a nós num esquema adequado às nossas necessidades, ou paga as nossas dívidas nesta cidade, ou foge connosco para Londres e dispensa todos os pensamentos desse amor que é tão raramente amigo dos projetos de ambição.”
Não obstante a maneira como Tomlinson fez esta tríplice proposição, Clifford não pôde deixar de reconhecer a sensatez e justiça contidas nela; e um olhar sobre o assunto foi suficiente para mostrar quão ruinoso para o seu caráter, e portanto para as suas esperanças, seria a fuga dos seus camaradas e o clamor dos seus credores.
“Falaste bem, Tomlinson”, disse ele, hesitante; “e contudo, pela minha vida, não posso ajudar-vos em qualquer esquema que nos possa desonrar pela deteção. Nada me pode reconciliar com a apreensão de a Srta. Brandon descobrir quem e o que era o seu pretendente.”
“Sinto por ti”, disse Tomlinson, “mas dá-me a mim e a Pepper, pelo menos, permissão para nos desenrascarmos; confia na minha conhecida prudência para encontrar algum método de levantar vento sem criar poeira; por outras palavras (este Pepper maldito torna-nos tão vulgares!), de predar o público sem sermos descobertos.”
“Não vejo alternativa”, respondeu Clifford, relutante; “mas, se possível, sejam discretos por agora. Aguentem comigo por mais alguns dias, deem-me apenas tempo suficiente para ver mais uma vez a Srta. Brandon, e comprometo-me a livrar-vos das vossas dificuldades!”
“Falado como tu mesmo, franca e nobremente”, respondeu Tomlinson; “ninguém tem maior confiança no teu génio, uma vez exercido, do que eu!”
Dito isto, o par apertou as mãos e separou-se. Tomlinson juntou-se ao Sr. Pepper.
“Bem, decidiram algo?” perguntou este último.
“Não exatamente; e embora Lovett tenha prometido esforçar-se dentro de alguns dias, contudo, como o pobre homem está apaixonado e o seu génio sob uma nuvem, tenho pouca fé nas suas promessas.”
“E eu não tenho nenhuma!” disse Pepper; “além disso, o tempo aperta! Uns dias! — uns diabos! Estamos certamente farejados aqui, e eu ando por aí como um barril de cerveja no Natal, sob a apreensão horária de ser aberto!”
“É muito estranho”, disse o filosófico Augustus; “mas penso que há um instinto nos comerciantes pelo qual eles conseguem distinguir um velhaco à primeira vista; e eu não consigo (por mais bem vestido que esteja) mais crédito com a minha lavadeira do que os meus amigos Whigs conseguem com o povo.”
“Em suma, então”, disse Ned, “temos de recorrer de imediato à estrada; e depois de amanhã haverá uma excelente oportunidade. O velho conde com o nome difícil dá um pequeno-almoço, ou banquete, ou algum mimo semelhante. Compreendo que as pessoas ficarão até depois de escurecer; vigiemos a nossa oportunidade, estamos montados de forma famosa, e alguma carruagem mais tardia do que o grupo geral pode fornecer-nos tudo o que os nossos corações podem desejar!”
“Bravo!” gritou Tomlinson, apertando a mão do Sr. Pepper calorosamente; “alegro-me com a tua engenhosidade, e podes confiar em mim para fazer as nossas pazes depois com Lovett. Qualquer empresa que lhe pareça galante ele está sempre suficientemente disposto a perdoar; e como ele nunca pratica outro ramo da profissão que não o da estrada (pelo qual confesso que o acho tolo), ele estará mais pronto a relevar as nossas façanhas nessa linha do que em qualquer outra mais subtil, porém menos heroica.”
“Bem, deixo-te a ti propiciar o sujeito ou não, como quiseres; e agora que resolvemos o ponto principal, vamos acabar com o petisco!”
“E”, acrescentou Augustus, tirando um baralho de cartas de cima da lareira, “podemos, entretanto, ter um jogo calmo de cribbage por xelins.”
“Combinado!” gritou Ned, retirando a sobremesa.
Se os corações redobrados do Sr. Edward Pepper, e daquele Ulisses dos ladrões, Augustus Tomlinson, batiam forte à medida que as horas traziam a festa de Lord Mauleverer, o seu líder não estava sem ansiedade e expetativa para o mesmo evento. Ele não estava convidado, é verdade, para a alegre cena; mas ouvira em público que a Srta. Brandon, recuperada da sua recente doença, certamente lá estaria; e Clifford, dilacerado pelo suspense e ansioso por ver mais uma vez, ainda que pela última vez, a única pessoa que alguma vez trespassara a sua alma com um sentido agudo dos seus erros ou crimes, resolveu arriscar todos os obstáculos e encontrá-la em casa de Mauleverer.
“A minha vida”, disse ele, sentado sozinho no seu aposento, observando as brasas moribundas do seu fogo estático e letárgico, “pode aproximar-se em breve do seu fim; está, na verdade, fora das probabilidades que eu possa escapar por muito tempo à condenação da minha condição; e quando, como uma última esperança de me elevar do meu estado desesperado à respeitabilidade e à reforma, vim para aqui e ponderei comprar a independência através do casamento, fui cego para a maldita patifaria da ação! Feliz, afinal, que as minhas intenções fossem direcionadas contra alguém a quem tão cedo e tão adoravelmente aprendi a amar! Se tivesse cortejado alguém a quem amasse menos, talvez não tivesse hesitado em enganá-la para o casamento. Tal como está... bem, é fútil da minha parte pensar assim sobre a minha resolução, quando não tenho sequer a opção de escolher; quando o seu pai, talvez, já tenha levantado o véu sobre as minhas dignidades assumidas, e a filha já se encolha de horror ao ouvir o meu nome. Contudo, vê-la-ei! Olharei mais uma vez para aquele rosto de anjo, ouvirei dos seus próprios lábios a confissão do seu desprezo, verei aquele olho brilhante lançar ódio sobre mim, e poderei então voltar uma vez mais à minha carreira fatal, e esquecer que alguma vez me arrependi de a ter começado. Contudo, que outra alternativa poderia ter eu tido? Sem amigos, sem lar, sem nome... um órfão, pior do que um órfão... o filho de uma prostituta, o meu pai até desconhecido; contudo amaldiçoado com aspirações precoces e inquietação, e um vislumbre de conhecimento, e uma luxúria absoluta por tudo o que parecesse empreendimento... que admiração que eu tenha escolhido qualquer coisa em vez do trabalho diário e da contumélia perpétua? Afinal, a culpa é da fortuna e do mundo, não minha! Oh, Lucy! se eu tivesse nascido na tua esfera, se eu tivesse possuído o direito de te merecer, o que eu não teria feito, ousado e conquistado por ti!”
Tais, ou semelhantes a estes, eram os pensamentos de Clifford durante o intervalo entre a sua resolução de ver Lucy e o momento de a concretizar. Os pensamentos não eram de natureza agradável, embora fossem excitantes; nem eram grandemente acalmados pela ocupação engenhosa de se convencer de que, se ele era um salteador de estradas, a culpa era inteiramente das estradas.
CAPÍTULO XXI.
Sonho. Deixa-me apenas vê-la, caro Leontins. Tenente Humorístico.
Hempskirke. Foi o sujeito, certamente. Wolfort. Quem és tu, insolente? Beggar's Bush.
Ó tu, espírito divino que ardes em cada peito, incitando cada um com o desejo sublime de ser elegante; que incitas os grandes a tornarem-se pequenos para parecerem maiores, e que fazes uma duquesa implorar por um insulto como prova de distinção... tu que te deleitas em tantas formas, multifacetadas mas sempre as mesmas; espírito que tornas o alto desprezível, e o senhor mais vil do que o seu criado; igualmente grande quer enganes um amigo ou cortes um pai; envernizando tudo o que tocas com uma vulgaridade brilhante que os teus devotos imaginam ser ouro... tu que envias os poucos para bailes da moda e os muitos para romances da moda; que atinges tanto o Génio como a Loucura, fazendo com que os favoritos dos deuses se gabem de um conhecimento que não têm com as graças de uma nobreza de cogumelo, em vez do conhecimento que têm das Musas de um Hélicon eterno... tu que não deixas no grande oceano dos nossos costumes nenhum lugar seco para o pé da independência; que cansas o olhar exausto com um panorama móvel e envolvente de vilezas grosseiras, e reduzes as almas dos britânicos nascidos livres a um pó mais fino do que o dos anjos que dançam aos milhares na ponta de uma agulha... quer, ó espírito! te chames Moda ou Tom, ou Ambição ou Vaidade ou Bajulação ou Hipocrisia ou qualquer título igualmente elevado e sublime... quem dera que das tuas asas pudéssemos ganhar apenas uma única pena! Com prazer descreveríamos, em tom adequado, as festividades daquele dia memorável em que o benevolente Lord Mauleverer recebeu e abençoou o universo admirador de Bath.
Mas para ser menos poético, como dizem certos escritores quando têm estado a escrever disparates... mas para ser menos poético e mais exato, a manhã, embora no auge do inverno, estava brilhante e clara, e Lord Mauleverer encontrava-se particularmente de boa saúde. Nada poderia ter sido melhor planeado do que o conjunto dos seus arranjos. Ao contrário daqueles que são ordinariamente escolhidos pela razão expressa de serem o mais estranhos possível à natureza do nosso clima, todos os de Lord Mauleverer foram tornados adequados a uma atmosfera da Gronelândia. Os templos e casas de verão, espalhados pelos terrenos, foram preparados, alguns como cabanas de esquimós, outros como pavilhões russos; as fogueiras eram cuidadosamente mantidas; Mauleverer certificou-se de que os músicos tivessem tanto vinho quanto desejassem; foram colocados habilmente em locais onde não eram vistos, mas onde podiam ser ouvidos. Uma ou duas construções temporárias foram erguidas para aqueles que gostavam de dançar; e como Mauleverer, calculando mal os princípios da natureza humana, pensou que os cavalheiros poderiam ser avessos a exibições ostentatórias, contratou pessoas para patinar minuetes e figuras de oito nos seus lagos, para o entretenimento daqueles que gostavam de patinar. Todas as pessoas que tivessem a amabilidade de se vestir com trajes estranhos e fazer ruídos estranhos, aos quais chamavam canto, o conde tinha cuidadosamente contratado e colocado nos melhores locais para os fazer parecer ainda mais estranhos do que eram.
Havia também muito para comer, e mais do que muito para beber. Mauleverer sabia bem que os nossos compatriotas e compatriotas, qualquer que seja o seu estatuto, gostam de ver os seus espíritos exaltados. Em suma, todo o almoço foi tão admiravelmente planeado que era provável que os convidados não parecessem muito mais melancólicos durante os divertimentos do que teriam parecido se estivessem, de outra forma, ocupados num funeral.
Lucy e o escudeiro estavam entre as primeiras chegadas. Mauleverer, aproximando-se do pai e da filha com o seu modo mais cortesão, insistiu em levar a última sob a sua própria escolta, sendo o seu cicerone através da ronda de preparativos.
À medida que a multidão engrossava, e se observava quão galantes eram as atenções testemunhadas a Lucy pelo anfitrião, muitos e invejosos foram os sussurros dos convidados! Aquelas boas pessoas, naturalmente zangadas com o pensamento de que dois indivíduos pudessem casar-se, dividiram-se em duas partes: uma insultava Lucy, e a outra Lord Mauleverer; a primeira vituperava a sua astúcia, a segunda a sua loucura. “Pensei que ela jogaria bem as suas cartas, criatura enganadora!”, dizia um. “Janeiro e Maio”, murmurava o outro; “o homem tem sessenta anos!” Era notável que a parte contra Lucy fosse composta principalmente por senhoras, a de Mauleverer por homens; tal conduta deve ser, de facto, hedionda para atrair a indignação do próprio sexo!
Inconsciente dos seus crimes, Lucy movia-se, apoiada no braço do galante conde, e sorrindo languidamente, com o seu coração longe, aos seus esforços para a divertir. Havia algo de interessante no simples contraste do par; tão tocante parecia a beleza da jovem rapariga, com a sua face delicada, forma virginal, pálpebra caída e quietude de simplicidade de ar, em comparação com o semblante mundano e a graça artificial do seu companheiro.
Passado algum tempo, quando estavam numa parte isolada dos jardins, Mauleverer, observando que ninguém estava por perto, entrou numa cabana rústica; e tão fascinado estava ele naquele momento pela beleza da sua convidada, e tão adequada lhe parecia a oportunidade da sua confissão, que suprimiu com dificuldade a declaração que lhe subia aos lábios, e tomou o plano mais prudente de primeiro sondar e preparar, por assim dizer, o caminho.
“Não lhe sei dizer, minha cara Srta. Brandon”, disse ele, apertando levemente a bela mão apoiada no seu braço, “quão feliz estou por vê-la como convidada... como rainha, antes... da minha casa! Ah! pudesse o florescer da juventude regressar com os seus sentimentos! O tempo nunca é tão cruel como quando, ao roubar-nos o poder de agradar, nos deixa em pleno vigor o infeliz privilégio de sermos encantados!”
Mauleverer esperava pelo menos uma contradição corada à aplicação implícita de um sentimento tão afetuosamente expresso: ficou desapontado. Lucy, menos desperta do que o habitual para o sentimental, ou o seu reverso, mal percebeu o seu significado, e respondeu simplesmente que era muito verdade. “Isto é o que dá ser, como o meu amigo Burke, demasiado refinado para a sua audiência”, pensou Mauleverer, estremecendo um pouco com a resposta inesperada. “E ainda assim!” retomou ele, “eu não renunciaria ao meu poder de admirar, fútil, aliás, doloroso como é. Mesmo agora, enquanto a contemplo, o meu coração diz-me que o prazer que desfruto, está ao seu comando de uma vez e para sempre transformar em miséria; mas enquanto ele me diz, eu contemplo!”
Lucy levantou os olhos, e algo da sua vivacidade natural brilhou na sua expressão.
“Creio, meu senhor”, disse ela, afastando-se da cabana, “que seria melhor juntarmo-nos aos seus convidados: as paredes têm ouvidos; e qual seria o remorso do alegre Lord Mauleverer se ouvisse novamente os seus belos elogios a...”
“A pessoa mais encantadora da Europa!” gritou Mauleverer, veementemente; e a mão que ele antes tocara, agora apertava-a. Nesse instante, Lucy viu em frente a ela, meio escondida por um arvoredo de sempre-verdes, a figura de Clifford. O seu rosto, que parecia pálido e baço, não estava direcionado para o local onde ela se encontrava, e ele, evidentemente, não percebia Mauleverer ou ela própria; contudo, tão grande foi o efeito que este vislumbre dele produziu em Lucy, que ela tremeu violentamente e, inconscientemente, soltando um grito fraco, retirou a mão de Mauleverer.
O conde sobressaltou-se e, captando a expressão dos seus olhos, voltou-se instantaneamente para o local onde o olhar dela parecia fixado. Ele não tinha ouvido o roçar dos ramos, mas viu, com a sua rapidez habitual de observação, que eles ainda tremiam, como se tivessem sido recentemente deslocados; e captou, através dos seus interstícios, o vislumbre de uma figura que se afastava. Ele saltou para a frente com uma agilidade muito pouco comum aos seus movimentos habituais; mas antes que chegasse ao arvoredo, todos os vestígios do intruso tinham desaparecido.
Que escravos somos do momento! Quando Mauleverer voltou para se juntar a Lucy, que, agitada quase até ao desmaio, se apoiava contra a parede rústica da cabana, ele teria pensado tanto em voar como em fazer aquela oferta generosa de si mesmo, etc., que no instante anterior ardia por oferecer a Lucy. Os vaidosos são sempre sensivelmente ciumentos; e Mauleverer, lembrando-se de Clifford e dos corados de Lucy ao dançar com ele, explicou instantaneamente a sua agitação e a sua causa. Com um ar muito grave, aproximou-se do objeto da sua recente adoração e pediu para saber se não tinha sido algum intruso abrupto que causara o seu alarme. Lucy, mal sabendo o que dizia, respondeu com voz baixa que sim, de facto, e implorou para se juntar imediatamente ao seu pai. Mauleverer ofereceu o braço com grande dignidade; e o par passou para a parte frequentada dos jardins, onde Mauleverer voltou a brilhar em sorrisos e cortesia para todos à sua volta.
“Ele está certamente aceite!” disse o Sr. Shrewd à Lady Simper.
“Que casamento imenso para a rapariga!” foi a resposta de Lady Simper.
Entre a música, a dança, a multidão, o ruído, Lucy achou fácil recuperar-se; e, soltando o braço de Lord Mauleverer ao perceber o seu pai, juntou-se ao escudeiro e permaneceu uma ouvinte paciente das suas observações até tarde, ao meio-dia, quando se tornou um assunto entendido que se esperava que as pessoas fossem para uma sala comprida a fim de comer e beber. Mauleverer, agora atento aos deveres da sua situação e sentindo-se extremamente zangado com Lucy, estava mais reconciliado do que poderia ter estado com a etiqueta que o obrigava a selecionar para objeto dos seus cuidados hospitaleiros uma velha duquesa viúva em vez da beleza da festa; mas teve o cuidado de indicar ao escudeiro os lugares designados para ele e a filha, os quais eram, embora a alguma distância do conde, sob a providência da sua vigilante observação.
Enquanto Mauleverer divinizava a duquesa viúva e refrescava os seus espíritos com um frango e um copo medicinal de madeira, a conversa perto de Lucy girou, para seu infinito desânimo, sobre Clifford. Alguém o tinha visto nos jardins, calçado e em trajes de montar (naquela época, as pessoas raramente montavam e dançavam com a mesma configuração de casaco); e como Mauleverer era uma pessoa precisa sobre esses pequenos assuntos de etiqueta, esta negligência de Clifford tornou-se um assunto de discussão. Gradualmente, a conversa transformou-se na velha questão sobre quem era este Capitão Clifford; e logo que atingiu esse ponto, atingiu também os ouvidos gentilmente ensurdecidos de Lord Mauleverer.
“Peço-lhe, meu senhor”, disse a velha duquesa, “uma vez que ele é um dos seus convidados, o senhor, que sabe quem e o que cada um é, pode possivelmente informar-nos da verdadeira família deste belo Sr. Clifford?”
“Um dos meus convidados, disse a duquesa?” respondeu Mauleverer, irritado muito para além da sua quietude habitual de modos. “Realmente, Vossa Graça faz-me uma injustiça. Ele pode ser um convidado do meu criado, mas certamente não é meu; e se eu o encontrar, deixarei para o meu criado dar-lhe a sua demissão, bem como o seu convite!”
Mauleverer, elevando a voz ao observar, do outro lado da mesa, uma alternância de palidez e rubor no rosto de Lucy, o que picou todas as paixões mais zangadas, geralmente torpes nele, em veneno, olhou em redor, ao concluir, com um ar altivo e sarcástico. Tão alto tinha sido o seu tom, tão direta a ofensa, e tão morto o silêncio à mesa enquanto ele falava, que todos sentiram que o insulto deveria ser levado imediatamente ao conhecimento de Clifford, caso ele estivesse na sala. E após Mauleverer ter cessado, houve uma expectativa universal, nervosa e indistinta, de uma resposta e de uma cena; tudo estava parado, e logo se tornou certo que Clifford não estava no aposento. Quando o Sr. Shrewd se convenceu totalmente deste facto... pois havia um espírito ousado em Clifford que poucos desejavam atrair sobre si próprios... essa personagem quebrou a pausa observando que nenhum homem que se prezasse como cavalheiro se intrusaria, não solicitado e não bem-vindo, em qualquer sociedade; e Mauleverer, apanhando a observação, disse (bebendo vinho ao mesmo tempo com o Sr. Shrewd) que, sem dúvida, tal conduta justificava plenamente os rumores sobre o Sr. Clifford, e o excluía totalmente daquela categoria à qual antes se suspeitava mais do que ter ele direito.
Uma opinião tão luminosa e satisfatória de tal autoridade, uma vez aventada, foi imediata e universalmente ecoada; e muito antes de o repasto terminar, parecia tacitamente acordado que o Capitão Clifford deveria ser enviado para Coventry, e se ele murmurasse contra o exílio, não teria qualquer direito de insistir em ser enviado de lá para o diabo.
O bom e velho escudeiro, consciente da sua antiga amizade por Clifford, e não propenso a mudar, estava prestes a iniciar um discurso sobre a ocasião, quando Lucy, tocando-lhe no braço, suplicou-lhe que se calasse; e tão cadavérica era a palidez da sua face enquanto falava, que os olhos do escudeiro, obtusos como ele geralmente era, abriram-se imediatamente para o verdadeiro segredo do seu coração. Assim que a verdade lhe ocorreu, ele perguntou-se, recordando a grande beleza pessoal e as atenções marcadas de Clifford, como é que isso não lhe tinha ocorrido mais cedo; e, recostando-se na cadeira, mergulhou num dos devaneios mais desagradáveis que alguma vez concebera.
A um dado sinal, a música para os dançarinos recomeçou, e a um aviso nesse sentido por parte do anfitrião, as pessoas levantaram-se sem cerimónia para se dirigirem a outros divertimentos, e permitir que os convidados que até então tinham estado excluídos de comer ocupassem o lugar dos que se retiravam. Lucy, feliz por escapar, foi uma das primeiras a resignar o seu lugar, e com o escudeiro regressou aos jardins. Durante o banquete, a noite tinha caído, e a cena agora tornava-se verdadeiramente feérica e pitoresca; candeeiros pendiam de muitas árvores, refletindo a luz através dos tons mais ricos e suaves; a própria música soava mais musicalmente do que durante o dia; tendas de ciganos estavam montadas em cantos selvagens e arvoredo, e as brilhantes fogueiras de madeira que nelas queimavam ardiam alegremente no ar frio, porém alegre, da noite que crescia. A vista era realmente nova e convidativa; e como tinha sido um assunto entendido que as senhoras deveriam trazer peles, capas e botas, todas aquelas que achavam que ficavam bem em tal traje formaram pequenos grupos e espalharam-se pelos jardins e pelas tendas. Aqueles, pelo contrário, em quem “a luz púrpura do amor” era propensa, pelo gelo, a ser impulsionada das faces para o ornamento central do rosto, ou que achavam que uma lareira numa sala era tão agradável como uma fogueira numa tenda, permaneceram no interior e contemplaram a cena através das janelas abertas.
Lucy ansiava por regressar a casa, nem o escudeiro estava relutante; mas, infelizmente, faltava uma hora para o momento em que a carruagem tinha sido encomendada, e ela juntou-se mecanicamente a um grupo de convidados que tinham persuadido o bondoso escudeiro a esquecer a sua gota e a aventurar-se a ver as iluminações. O seu grupo foi logo seguido por outros, e o grupo engrossou gradualmente até se tornar uma multidão; a multidão permaneceu estacionária por alguns minutos diante de um pequeno templo no qual os fogos de artifício tinham acabado de começar como uma atração adicional à cena. Em frente a este templo, bem como na sua retaguarda, os caminhos e as árvores tinham sido propositadamente deixados na escuridão comparativa, a fim de aumentar o efeito dos fogos de artifício.
“Declaro”, disse Lady Simper, olhando por um dos becos que parecia estender-se na escuridão... “declaro que parece um verdadeiro passeio de amantes. Que bondade a de Lord Mauleverer!... uma atenção tão delicada...”
“Para a vossa senhoria!” acrescentou o Sr. Shrewd, com uma vénia. Enquanto, fazendo parte desta multidão, Lucy observava vagamente as longas filas de luz que de vez em quando disparavam contra o céu, sentiu a sua mão subitamente agarrada, e ao mesmo tempo uma voz sussurrou: “Pelo amor de Deus, leia isto agora e conceda o meu pedido!”
A voz, que parecia subir do próprio coração do orador, Lucy reconheceu de imediato; ela tremeu violentamente e permaneceu por alguns minutos com olhos que não ousavam olhar para o chão. Sentiu que lhe tinha sido deixado um bilhete na mão; e o tom agonizante e sincero daquela voz, que lhe era mais querida do que a plenitude de toda a música, tornava-a impaciente, mas com medo de o ler. À medida que recuperava a coragem, olhou em redor e, vendo que a atenção de todos estava voltada para os fogos de artifício, e que o seu pai em particular, apoiado na sua bengala, parecia desfrutar do espetáculo com um prazer absorvente de criança, ela deslizou suavemente e, entrando despercebida por um dos becos, leu, sob uma lâmpada solitária que ardia à sua entrada, as seguintes linhas, escritas a lápis e com uma letra apressada, aparentemente numa folha arrancada de uma caderneta:
Imploro, suplico-lhe, Srta. Brandon, que me veja, se apenas por um momento. Proponho arrancar-me do lugar onde reside, partir para o estrangeiro, deixar até o local santificado pelo seu passo. Depois desta noite, a minha presença, a minha presunção, não a degradarão mais. Mas esta noite, por amor de Deus, veja-me, ou enlouquecerei! Falarei consigo apenas um instante: isto é tudo o que peço. Se me conceder esta prece, o caminho à esquerda onde se encontra, à entrada do qual há uma lâmpada púrpura, proporcionará uma oportunidade para a sua misericórdia. Alguns metros abaixo desse caminho encontrar-me-ei consigo... ninguém pode ver-nos ou ouvir-nos. Conceder-me-á isto? Não sei, não ouso pensar; mas em qualquer caso, o seu nome será o último nos meus lábios. P. C.
Ao ler este rabisco apressado, Lucy lançou um olhar para o candeeiro acima de si e viu que, por acaso, entrara exatamente no caminho indicado na nota. Ela parou, hesitou; a inconveniência, a singularidade do pedido, assaltaram-na de imediato; por outro lado, a voz ansiosa que ainda lhe soava aos ouvidos, a veemência incoerente da nota, o risco, o opróbrio que Clifford incorrera apenas — sussurrava o seu coração — para a ver, tudo ajudou o seu temperamento simples, os seus sentimentos bondosos e o seu amor pelo peticionário a induzi-la a consentir. Lançou um olhar para trás; todos pareciam ocupados com pensamentos bem diferentes de a notarem; olhou ansiosamente para a frente; tudo parecia sombrio e indistinto; mas, de repente, a alguma distância, avistou uma figura escura em movimento. Sentiu os joelhos a tremerem, o coração a bater violentamente; avançou alguns passos, parou novamente e olhou para trás. A figura diante dela movia-se como se estivesse a aproximar-se; ganhou coragem e avançou; a figura estava ao seu lado.
"Quão generosa, quão condescendente é esta bondade da senhorita Brandon!", disse a voz, que lutava tanto com uma emoção secreta e forte que Lucy mal a reconheceu como sendo a de Clifford. "Não me atrevi a esperar por isso; e agora — agora que a encontro —" Clifford hesitou, como se procurasse palavras; e Lucy, mesmo através da escuridão, percebeu que o seu estranho companheiro estava poderosamente excitado; ela esperou que ele continuasse, mas, observando que ele caminhava em silêncio, disse, embora com voz trémula: "Na verdade, Sr. Clifford, temo que seja muito, muito impróprio da minha parte encontrar-me consigo desta forma; nada a não ser as expressões fortes na sua carta — e — e — em suma, o meu receio de que meditasse algum desígnio desesperado, que eu não poderia adivinhar, levou-me a ceder ao seu desejo de uma entrevista." Ela parou e, como Clifford continuasse em silêncio, acrescentou, com um pouco de frieza no tom: "Se tem realmente algo a dizer-me, deve permitir-me pedir-lhe que o diga rapidamente. Esta entrevista, deve estar ciente, deveria terminar quase assim que começa."
"Ouça-me, então!", disse Clifford, dominando o seu embaraço e falando com uma voz firme e clara; "é verdade o que acabei de ouvir — é verdade que se falou de mim na sua presença em termos de insulto e afronta?"
Cabia agora a Lucy sentir-se embaraçada; temerosa de causar dor, e ainda assim ansiosa para que Clifford soubesse, a fim de que pudesse refutar, o desprezo e a suspeita que o mistério em torno dele atraía sobre o seu nome, ela hesitou entre os dois sentimentos e, sem satisfazer o último, conseguiu realizar o receio do primeiro.
"Basta!", disse Clifford, num tom de profunda mortificação, enquanto o seu ouvido atento captava e interpretava, ainda mais humilhantemente do que a verdade, o significado da sua resposta gaguejada e confusa — "basta! Vejo que é verdade, e que o único ser humano no mundo cuja boa opinião não me é indiferente foi testemunha da maneira insultuosa com que outros se atreveram a falar de mim!"
"Mas", disse Lucy, ansiosamente, "por que dar aos invejosos ou aos ociosos qualquer desculpa? Por que não permitir que a sua ascendência e família sejam publicamente conhecidas? Por que está aqui" — e a sua voz baixou para um tom mais grave — "neste preciso dia, sem ser convidado, e, portanto, sujeito às críticas de todos os que pensam que a pobre distinção de um convite é uma honra? Perdoe-me, Sr. Clifford; talvez ofenda. Mago-o ao falar assim francamente; mas o seu bom nome depende de si, e os seus amigos não podem deixar de se sentir zangados por brincar com ele."
"Senhora", disse Clifford; e os olhos de Lucy, agora habituando-se à escuridão, perceberam um sorriso amargo nos seus lábios, "o meu nome, bom ou mau, é um objeto de pouco cuidado para mim. Li sobre filósofos que se orgulham de não atribuir valor algum às opiniões do mundo. Coloque-me entre essa seita. Mas estou — confesso que estou — ansioso para que apenas a senhorita, de todo o mundo, não me despreze; e agora que sinto que o faz, que deve fazê-lo, tudo o que vale a pena viver ou esperar está no passado!"
"Desprezá-lo!", disse Lucy, e os seus olhos encheram-se de lágrimas; "na verdade, faz um mal a mim e a si próprio. Mas escute-me, Sr. Clifford. Vi, é verdade, pouco do mundo, mas vi o suficiente para desejar ter vivido sempre no retiro. A qualidade mais rara entre ambos os sexos, embora seja a mais simples, parece-me ser a boa natureza; e a única ocupação do que se denomina 'pessoas da moda' parece ser falar mal umas das outras. Nada dá tanto campo ao escândalo como o mistério; nada o desarma como a franqueza. Sei, os seus amigos sabem, Sr. Clifford, que o seu caráter pode suportar inspeção; e acredito, pela minha parte, o mesmo da sua família. Por que não declarar, então, quem e o que é?"
"Essa candura seria, de fato, a minha melhor defensora", disse Clifford, num tom que soou desagradavelmente ao ouvido de Lucy; "mas, em verdade, senhora, repito, não me importa uma gota deste sangue inútil o que os homens dizem de mim: esse tempo passou, e para sempre; talvez nunca tenha existido intensamente para mim — não importa. Vim aqui, senhorita Brandon, sem desperdiçar um pensamento nessas tolices nauseantes, ou no ocioso de cabelos brancos por quem são dadas. Vim aqui apenas mais uma vez para a ver, para a ouvir falar, para a observar a mover-se, para lhe dizer" — e a voz do orador tremia, de modo a ser quase inaudível — "para lhe dizer, se alguma razão para a revelação se oferecesse, que tive a audácia, o crime, de amar — de amar — Ó Deus! de a adorar; e depois para a deixar para sempre!"
Pálida, tremendo, quase impedida de cair pela árvore contra a qual se apoiava, Lucy ouviu esta confissão abrupta. "Atrevo-me a tocar nesta mão?", continuou Clifford, enquanto se ajoelhava e a tomava tímida e reverentemente. "Não sabe, não pode sonhar, quão indigno é aquele que assim presume; contudo, não totalmente indigno, enquanto for sensível a um sentimento tão profundo, tão sagrado como aquele que nutre por si. Deus a abençoe, senhorita Brandon! — Lucy, Deus a abençoe! E se, futuramente, me ouvir sujeito a suspeitas ainda mais negras ou a um escrutínio mais severo do que aquele que agora sustento; se até a sua caridade e bondade não encontrarem defesa para mim; se a suspeita se tornar certeza, e o escrutínio terminar em condenação — acredite, pelo menos, que as circunstâncias me levaram para além da minha natureza, e que sob auspícios mais favoráveis poderia ter sido outro do que sou!"
A lágrima de Lucy caiu sobre a mão de Clifford enquanto ele falava; e, enquanto o seu coração se derretia dentro dele ao senti-la e conhecer a sua própria condição desesperada e irredimível, ele acrescentou:
"Todos a cortejam — os orgulhosos, os ricos, os jovens, os de alto nascimento — todos estão aos seus pés! Selecionará um desse número para seu marido; que ele cuide de si como eu teria feito! — amá-la como eu a amo, ele não pode! Sim, repito-o", continuou Clifford, veementemente, "ele não pode! Ninguém, no meio da multidão alegre, feliz e sedosa dos seus iguais e seguidores, pode sentir por si essa paixão única e dominante que faz de si, para mim, o que todos combinados — país, poder, riqueza, reputação, um nome honesto, paz, segurança comum, a quietude do ar comum, tanto a menor bênção como a maior — são para todos os outros! Mais uma vez, que Deus no céu cuide de si e a preserve! Arranco-me, ao deixá-la, de tudo o que me alegra, abençoa, eleva ou poderia ter-me salvo! Adeus!"
A mão que Lucy tinha cedido ao seu estranho pretendente foi pressionada ardentemente aos seus lábios, largada no mesmo instante, e ela soube que estava, mais uma vez, sozinha.
Mas Clifford, apressando-se rapidamente por entre as árvores, abriu caminho em direção ao portão mais próximo que levava das terras de Lord Mauleverer; quando lá chegou, uma multidão dos convidados mais velhos ocupava a entrada, e uma destas era uma senhora de tal distinção que Mauleverer, apesar da sua aversão a qualquer exposição supérflua ao ar noturno, obrigara-se a acompanhá-la até à sua carruagem. Estava de muito mau humor com esta cortesia forçada, especialmente porque a carruagem demorava muito a aliviá-lo da sua carga, quando viu, à luz do candeeiro, Clifford a passar perto dele e a abrir caminho para o portão. Esquecendo completamente a sua prudência mundana, que o deveria ter tornado avesso a cenas com quem quer que fosse, especialmente com um inimigo em fuga, e um homem com quem, se bem julgasse, pouca glória seria ganha na conquista, muito menos no confronto; e lembrando-se apenas da rivalidade de Clifford e do seu próprio ódio por ele pela presunção, Mauleverer, proferindo um pedido de desculpas apressado à senhora no seu braço, deu um passo em frente e, opondo-se ao progresso de Clifford, disse, com uma vénia de insulto tranquilo: "Perdoe-me, senhor, mas é a meu convite ou ao de um dos meus criados que me honrou com a sua companhia neste dia?"
Os pensamentos de Clifford no momento desta interrupção eram daquela natureza perante a qual todas as pequenas desgraças encolhem até ao nada; se, portanto, ele hesitou por um momento perante o endereço do conde, não traiu qualquer embaraço na resposta, mas, curvando-se com um ar de respeito e não prestando atenção à afronta implícita no discurso de Mauleverer, respondeu:
"A vossa senhoria só tem de dignar-se a um olhar sobre as minhas vestes para ver que não me introduzi nas suas terras com a intenção de reclamar a sua hospitalidade. O fato é, e confio na cortesia de vossa senhoria para admitir a desculpa, que deixo esta vizinhança amanhã, e por algum tempo. Uma pessoa que eu estava muito ansioso por ver antes de partir era um dos convidados de vossa senhoria; ouvi isto e sabia que não teria outra oportunidade de encontrar a pessoa em questão antes da minha partida; e devo agora recorrer à bem conhecida polidez de Lord Mauleverer para perdoar uma liberdade originada por um negócio muito próximo de uma necessidade."
O endereço de Lord Mauleverer a Clifford tinha congregado uma multidão imediata de ouvintes ansiosos e expectantes; mas tão silenciosamente respeitosos e realmente cavalheirescos eram o ar e o tom de Clifford ao desculpar-se, que toda a multidão foi atingida por uma desilusão súbita.
O próprio Lord Mauleverer, surpreendido pelo temperamento e porte do hóspede não convidado, ficou perdido por um momento; e Clifford estava prestes a tirar partido desse momento e deslizar para longe, quando Mauleverer, com uma segunda vénia, mais civil do que a anterior, disse:
"Não posso deixar de ficar feliz, senhor, que o meu humilde lugar lhe tenha proporcionado qualquer conveniência; mas, se não for muito impertinente, permitir-me-á indagar o nome do meu hóspede com quem requereu um encontro?"
"Meu senhor", disse Clifford, endireitando-se e falando grave e severamente, embora ainda com uma certa deferência, "não preciso certamente apontar ao bom senso e bom sentimento de vossa senhoria que a sua própria pergunta implica uma dúvida, e consequentemente uma afronta, e que o tom da mesma não é tal que justifique essa concessão da minha parte que a explicação adicional que exige implicaria!"
Poucos sarcasmos falados poderiam ser tão amargos como aquele silencioso que Mauleverer podia comandar com um sorriso, e com esta expressão elogiosa nos seus lábios finos e sobrancelha levantada, o conde respondeu: "Senhor, honro a habilidade testemunhada pela sua resposta; deve ser o resultado de uma profunda experiência nestes assuntos. Desejo-lhe, senhor, uma muito boa noite; e da próxima vez que me favorecer com uma visita, estou bem certo de que os seus motivos para assim me condescender não serão menos louváveis para si do que no presente."
Com estas palavras, Mauleverer voltou-se para se juntar à sua bela acompanhante. Mas Clifford era um homem que tinha visto em pouco tempo muito do mundo, e conhecia toleravelmente bem as teorias da sociedade, se não a prática das suas minudências; além disso, era de um temperamento agudo e resoluto, e estas propriedades de mente, naturais e adquiridas, disseram-lhe que ele estava agora numa situação em que se tornara mais necessário desafiar do que conciliar. Em vez, portanto, de se retirar, caminhou deliberadamente até Mauleverer e disse:
"Meu senhor, deixarei ao julgamento dos seus convidados decidir se agiu como um nobre e um cavalheiro ao insultar, desta forma, nas suas terras, alguém que lhe deu tal explicação da sua transgressão que o desculparia plenamente aos olhos de todas as pessoas consideradas ou corteses. Deixarei também a eles decidir se o tom da sua indagação me permitiu dar-lhe qualquer outra desculpa. Mas assumirei a responsabilidade, meu senhor, de exigir de si uma explicação imediata do seu último discurso."
"Insolente!", gritou Mauleverer, corando de indignação, e quase pela primeira vez na sua vida perdendo o controlo absoluto sobre o seu temperamento; "trata-me com palavras? Vá-se embora, ou ordenarei aos meus criados que o expulsem!"
"Vá-se embora, senhor! Vá-se embora!", gritaram várias vozes em eco a Mauleverer, daquelas pessoas que consideraram que era agora o momento alto para tomar partido dos poderosos.
Clifford manteve a sua posição, olhando em redor com um olhar de desprezo zangado e desafiador, que, aliado à sua estrutura atlética, ao seu olho escuro e feroz, e a um pesado chicote de montaria que, como que mecanicamente, levantou a meio, efetivamente impediu os murmuradores de prosseguirem para a violência.
"Pobre pretendente a boa criação e a bom senso!", disse ele, voltando-se desdenhosamente para Mauleverer; "com um toque deste chicote eu poderia envergonhá-lo para sempre, ou obrigá-lo a descer do nível da sua categoria para o meu, e a ação seria apenas um retorno suave à sua linguagem. Mas prefiro ensinar-lhe a corrigir. Segundo o meu credo, meu senhor, conquista mais na boa criação aquele que mais se abstém — o escárnio permite-me abster-me! Adeus!"
Com isto, Clifford virou-se nos calcanhares e afastou-se a passos largos. Um murmúrio, aproximando-se de um gemido, da parte mais jovem ou mais tola dos parasitas (os maduros e os sensatos não têm emoção extra para desperdiçar), seguiu-o enquanto ele desaparecia.
CAPÍTULO XXII.
Fora da lei. Pare, senhor, e atire-nos o que tem consigo!
Val. Rufiões, abandonem esse toque rude e incivil!
Os Dois Cavalheiros de Verona.
Ao deixar a cena em que fora um hóspede tão indesejado, Clifford apressou-se para a pequena estalagem onde tinha deixado o seu cavalo. Montou e regressou a Bath. Os seus pensamentos estavam ausentes, e inconscientemente deixou que o cavalo dirigisse o seu curso para onde lhe aprouvesse. Isto foi naturalmente para o local de paragem mais próximo de que o animal se lembrava; e este local de paragem era naquela taverna ilustre, nos subúrbios da cidade, em que tínhamos antes comemorado a reeleição de Clifford para a dignidade de chefe. Era uma casa de reputação estabelecida há muito tempo; e aqui as notícias de qualquer um dos confederados ausentes eram sempre possíveis de obter. Esta circunstância, somada à excelência da sua bebida, à sua facilidade e à corrente elétrica dos primeiros hábitos, tornava-a um refúgio favorito, mesmo apesar das suas atuais ocupações alegres e modernas, de Tomlinson e Pepper; e aqui, quando Clifford procurava o par em horas impróprias, estava, na maior parte das vezes, certo de os encontrar. Como as suas meditações foram interrompidas pela paragem súbita do seu cavalo sob o conhecido sinal, Clifford, murmurando uma maldição zangada sobre o animal, esporeou-o em direção à sua própria casa. Já tinha chegado ao fim da rua, quando a sua resolução pareceu mudar, e murmurando para si mesmo: "Sim, bem poderia arranjar esta mesma noite para a nossa partida!", voltou a cabeça do cavalo para trás e estava mais uma vez à porta da taverna. Atirou as rédeas sobre uma grade de ferro e, batendo com um som peculiar à porta, foi logo admitido.
"Estão ------ e ------- aqui?", perguntou ele à velha, ao entrar, mencionando as palavras de gíria pelas quais, entre amigos, Tomlinson e Pepper eram geralmente conhecidos.
"Ambos foram para os afiados esta noite", respondeu a velha senhora, levantando a sua vela não aparada para o rosto do orador com um olhar inteligente; "Oliver (a lua) está com sono, e os rapazes aproveitarão a sua sesta."
"Quer dizer", respondeu Clifford, respondendo no mesmo tom, que nos tomamos a liberdade de parafrasear, "que estão fora em alguma expedição real?"
"Com certeza", respondeu a dama. "Aqueles que se atrasam na estrada podem precisar de dinheiro para o jantar!"
"Ha! qual estrada?"
"É um belo sujeito para capitão!", respondeu a dama, com um sarcasmo bem-intencionado no seu tom. "Ora, o capitão Gloak, pobre rapaz! conhecia cada volta dos seus homens ao detalhe, e nunca precisou de perguntar o que estavam a fazer. Ah, ele era um sujeito! nenhum dos vossos mudgers com cara de rapariga, que fazem amor às damas, de fato — uma mulher bonita não precisa de olhar longe para um beijo quando ele estava na sala, garanto, por muito grosseiros que fossem os seus trapos; e raios! mas o capitão era um homem sensato, e gostava tanto de uma vaca como de um bezerro."
"Então, então! na estrada, estão eles?", gritou Clifford, pensativo, e sem prestar atenção ao ataque insinuado ao seu decoro. "Mas responda-me, qual é o plano? Seja rápida!"
"Ora", respondeu a dama, "há algum lorde importante que dá um festim hoje; e os rapazes, almas queridas! pensam em pregar uma partida a algum retardatário."
Sem proferir uma palavra, Clifford disparou da casa e estava remontado antes que a velha senhora tivesse tempo de recuperar a sua surpresa.
"Se quer vê-los", gritou ela, enquanto ele dava esporadas ao seu cavalo, "ordenaram-me que tivesse o jantar pronto às------" Os cascos do cavalo abafaram as últimas palavras da dama; e trancando cuidadosamente a porta, e murmurando uma comparação invejosa entre o capitão Clifford e o capitão Gloak, a boa estalajadeira regressou àquelas operações culinárias destinadas a regozijar os corações de Tomlinson e Pepper.
Regressemos nós próprios a Lucy. Aconteceu que a carruagem do escudeiro foi a última a chegar; pois o cocheiro, há muito não iniciado entre as sombras de Warlock na dissipação da vida na moda, entrou na sua estreia em Bath, com todo o vigor caloroso de paixões amadurecidas pela primeira vez libertadas, nas festividades da taberna, e tendo um mestre mais brando do que a maioria dos seus camaradas, o medo do descontentamento era menos forte no seu seio aurigá do que o amor pelo companheirismo; de modo que durante o tempo em que este cavalheiro se divertia, Lucy teve amplo lazer para desfrutar de todos os mil e um relatos da cena entre Mauleverer e Clifford que regalaram os seus ouvidos. Contudo, fossem quais fossem os seus sentimentos nestes relatos agradáveis, uma certa alegria vaga predominava sobre tudo. Um homem sente apenas uma ligeira felicidade comparativa em ser amado, se souber que é em vão; mas para uma mulher esse simples conhecimento é suficiente para destruir a memória de mil aflições, e não é até que tenha dito ao seu coração repetidamente que é amada, que ela começará sequer a perguntar se é em vão.
Era uma noite parcialmente estrelada, mas ténue e obscura, pois a lua tinha estado, durante a última hora ou duas, rodeada por nevoeiro e nuvens, quando finalmente a carruagem chegou; e Mauleverer, pela segunda vez naquela noite desempenhando o papel de escolta, conduziu Lucy ao veículo. Ansioso por saber se ela tinha visto ou sido abordada por Clifford, o subtil conde, enquanto a conduzia ao portão, deteve-se particularmente na intrusão daquela pessoa, e pelo tremor da mão que repousava no seu braço, não tirou nenhum presságio delicioso para as suas próprias esperanças. "Contudo", pensou ele, "o homem vai embora amanhã, e então o campo estará livre; a rapariga ainda é uma criança, e perdoo-lhe a sua loucura." E com um ar de veneração cavalheiresca, Mauleverer curvou o objeto do seu perdão para dentro da sua carruagem.
Assim que Lucy se sentiu sozinha com o seu pai, as emoções tão longamente contidas dentro dela forçaram-se a sair, e recostando-se contra a carruagem, ela chorou, embora em silêncio, lágrimas, lágrimas ardentes, de tristeza, conforto, agitação, ansiedade.
O bom e velho escudeiro demorou a perceber a comoção da filha; tê-la-ia ignorado por completo se, movido por um carinhoso aquecimento do coração para com ela, originado na sua nova suspeita do amor que ela nutria por Clifford, não lhe tivesse passado o braço pelo pescoço; e essa carícia inesperada descontrolou-lhe os nervos de tal maneira que Lucy imediatamente se lançou ao peito do pai, e o seu choro, até então tão silencioso, tornou-se distinto e audível.
“Consola-te, minha querida, querida filha!” disse o escudeiro, quase comovido às lágrimas ele próprio; e a sua emoção, despertando-o da sua habitual confusão mental, tornou as suas palavras menos confusas e equívocas do que costumavam ser. “E agora espero que não te aflijas; o jovem é de facto — e asseguro-te que sempre o achei — um cavalheiro muito encantador, não se pode negar. Mas o que podemos fazer? Vês o que todos dizem dele, e foi realmente — temos de admitir — muito impróprio da parte dele vir sem ser convidado. Além disso, minha querida filha, é muito errado, muito errado mesmo, amar alguém e não saber quem ele é; e — e — mas não chores, meu querido amor, não chores assim; tudo ficará muito bem, tenho a certeza — absoluta certeza!”
Ao dizer isto, o bondoso velho puxou a filha para mais perto de si e, sentindo a mão magoada por algo que ela usava oculto e que pressionava contra ela, perguntou, com alguma suspeita de que o amor pudesse ter progredido para trocas de presentes, o que era.
“É o retrato da minha mãe”, disse Lucy, simplesmente, afastando-o.
O velho escudeiro amara ternamente a sua esposa; e quando Lucy deu esta resposta, todas as memórias afetuosas e calorosas da sua juventude inundaram-no. Pensou, também, em como, no seu leito de morte, essa esposa tinha recomendado ao seu cuidado vigilante a sua única filha que agora chorava no seu peito: recordou como, debruçando-se sobre o que para todas as mulheres parece ser a grande época da vida, ela tinha dito: “Nunca deixes que brinquem com os afetos dela; nunca te deixes persuadir pelo teu ambicioso irmão a fazê-la casar onde não ama, ou a opor-te a ela, sem fortes razões, onde ela ama: embora ela seja apenas uma criança agora, conheço o suficiente dela para estar convencida de que, se alguma vez amar, amará demasiado para a sua própria felicidade, mesmo com todas as coisas a seu favor.” Estas palavras, estas recordações, juntamente com a lembrança do plano insensível de William Brandon, que ele se permitira favorecer, e da sua própria indolência perante o amor crescente de Lucy por Clifford, até que a resistência se tornou ao mesmo tempo necessária e demasiado tardia, tudo o atingiu com uma tristeza remorso, e soluçando ele próprio, disse: “Tua mãe, criança! Ah, quem me dera que ela estivesse viva, ela nunca te teria negligenciado como eu fiz!”
A autocrítica do escudeiro fez com que as lágrimas de Lucy cessassem no instante; e enquanto cobria as mãos do pai de beijos, ela respondeu apenas com veementes acusações contra si própria e elogios à sua demasiado grande ternura e afeto paternal. Este pequeno impulso, de ambos os lados, de amor honesto e simples, terminou num silêncio cheio de pensamentos ternos e misturados; e enquanto Lucy ainda se agarrava ao peito do velho, rude como ele era no temperamento, abaixo até da mediocridade no intelecto, e de todo a última pessoa em idade, mente ou hábito que parecia apta para um confidente no amor de uma rapariga jovem e entusiasta, ela sentiu a velha verdade simples de que, sob todas as desvantagens, existem, neste mundo vazio, poucos em quem se possa depositar tanta confiança, poucos que respeitem a confiança de forma tão delicada e subtil, como aqueles de quem descendemos.
O pai e a filha estiveram em silêncio durante alguns minutos, e o primeiro estava prestes a falar, quando a carruagem parou subitamente. O escudeiro ouviu uma voz áspera junto às cabeças dos cavalos; olhou pela janela para ver, através da névoa da noite, o que poderia possivelmente ser o problema, e deparou-se nesta ação, a apenas uma polegada da sua testa, com o cano saliente e brilhante de uma pistola de cavalaria. Podemos acreditar, sem refletir sobre a sua coragem, que o Sr. Brandon se atirou para o fundo da carruagem com a maior prontidão possível; e no mesmo momento a porta foi aberta, e uma voz disse, não num tom ameaçador, mas suave:
“Minhas senhoras e meus senhores, lamento incomodá-los, mas a necessidade é imperiosa; obriguem-me com o vosso dinheiro, os vossos relógios, os vossos anéis e quaisquer outras pequenas mercadorias de natureza semelhante!”
A um pedido tão delicado, o escudeiro não teve coragem de resistir, especialmente porque se sabia sem qualquer arma de defesa; consequentemente, tirou uma bolsa, não muito cheia, deve-se admitir — juntamente com um imenso relógio de bolso de prata, com um pedaço de fita preta preso a ele.
“Aqui tem, senhor”, disse ele, com um gemido, “não assuste a jovem.”
O gentil requerente, que na verdade não era outro senão o especioso Augustus Tomlinson, deslizou a bolsa para o bolso do colete, depois de sentir o seu conteúdo com um dedo rápido e científico.
“O seu relógio, senhor”, disse ele — e enquanto falava, enfiou-o descuidadamente no bolso do casaco, como um rapaz da escola enfiaria um pião — “é pesado; mas confiando na experiência, uma vez que uma inspeção precisa me é negada, temo que seja mais valioso pelo seu peso do que pela sua execução: no entanto, não ferirei a sua vaidade fingindo ser exigente. Mas, certamente, a jovem, como lhe chama — pois presto-lhe o cumprimento de acreditar na sua palavra quanto à idade dela, na medida em que a noite está demasiado escura para me permitir a felicidade de uma inspeção pessoal —, a jovem tem certamente algum pequeno adorno de que possa dispensar-se. ‘A beleza quando sem adornos’, sabe, etc.”
Lucy, que, embora muito assustada, não perdeu nem os sentidos nem a presença de espírito, apenas respondeu tirando uma pequena bolsa de seda, que continha ainda menos do que a conveniência de couro do escudeiro; a isto juntou uma corrente de ouro; e Tomlinson, pegando nelas com um aperto de mão afetuoso e um pedido de desculpas educado, estava prestes a retirar-se, quando os seus olhos sagazes foram subitamente atingidos pelo brilho de joias. O facto era que, ao alterar a posição do retrato da sua mãe, que tinha sido colocado nos poucos diamantes hereditários possuídos pelo Lord of Warlock, Lucy tinha deixado que ele ficasse pendurado fora do seu vestido, e ao inclinar-se para dar ao ladrão os seus outros bens, os diamantes ficaram imediatamente à vista e brilharam ainda mais convidativamente devido à escuridão da noite.
“Ah, senhora”, disse Tomlinson, estendendo a mão, “tentaria enganar-me, tentaria? A traição nunca deve ficar impune. Favoreça-me instantaneamente com o pequeno adorno à volta do seu pescoço!”
“Eu não posso — eu não posso!” disse Lucy, agarrando o seu tesouro com ambas as mãos; “é o retrato da minha mãe, e a minha mãe está morta!”
“As necessidades dos outros, senhora”, respondeu Tomlinson, que não poderia por nada deste mundo roubar de forma imoral, “são sempre mais dignas da sua atenção do que preconceitos familiares. Seriamente, dê-o, e imediatamente; estamos com pressa, e os seus cavalos estão a debater-se como diabos: eles vão partir a sua carruagem num instante — despache-se!”
O escudeiro era um homem corajoso no geral, embora não fosse um herói; e os nervos de um velho caçador de raposas recuperam rapidamente de um pequeno susto. O retrato da sua falecida esposa era ainda mais inestimável para ele do que para Lucy, e com esta nova exigência o seu espírito despertou dentro dele.
Ele cerrou os punhos e, avançando-se, por assim dizer, no seu assento, gritou em voz alta:
“Vai-te embora, sujeito! Já te dei — por minha parte acho que sim — demasiado; e, por Deus, não terás o retrato!”
“Não me force a usar de violência”, disse Augustus; e colocando um pé no degrau da carruagem, trouxe a sua pistola a poucos centímetros do peito de Lucy, julgando corretamente, talvez, que a demonstração de perigo para ela seria o melhor método para intimidar o escudeiro. Nesse instante, o valoroso moralista viu-se subitamente agarrado com força pelo ombro; e uma voz baixa, trémula de paixão, sibilou no seu ouvido. Quaisquer que tenham sido as palavras que assustaram os seus órgãos, operaram como um encanto instantâneo; e, para seu espanto, o escudeiro e Lucy viram o seu agressor retirar-se abruptamente. A porta da carruagem foi fechada com estrondo, e mal tinham passado dois minutos quando, tendo o ladrão voltado a montar, o seu camarada, até então estacionado junto às cabeças dos cavalos, deu esporas ao seu próprio corcel, e o som bem-vindo de cascos que se afastavam atingiu os ouvidos atordoados do pai e da filha.
A porta da carruagem foi aberta novamente; e uma voz, que tornou Lucy mais pálida do que o terror precedente, disse:
“Receio, Sr. Brandon, que os ladrões tenham assustado a sua filha. Não há, contudo, agora nada a temer; os rufiões foram-se.”
“Deus me livre!” disse o escudeiro; “ora, será esse o Capitão Clifford?”
“Sou eu; e considero-me demasiado afortunado por ter sido da mínima utilidade para o Sr. e a Srta. Brandon.”
Ao convencer-se de que era de facto ao Sr. Clifford que devia a sua segurança, assim como a da sua filha, que ele acreditava ter estado num perigo muito mais iminente do que realmente esteve — pois, para te dizer a verdade, leitor, a pistola de Tomlinson era mais calculada para exibição do que para uso, tendo um cano particularmente longo e brilhante sem nada dentro —, o escudeiro ficou completamente sem saber como expressar a sua gratidão; e quando se virou para Lucy para lhe pedir que ela própria agradecesse ao seu galante libertador, descobriu que, sobrecarregada com várias emoções, ela tinha, pela primeira vez na vida, desmaiado.
“Meu Deus!” gritou o pai alarmado, “ela está morta — a minha Lucy, a minha Lucy, mataram-na!”
Abrir a porta mais próxima de Lucy, retirá-la da carruagem nos seus braços, foi para Clifford obra de um instante. Totalmente inconsciente da presença de qualquer outra pessoa — inconsciente até do que dizia, ele derramou mil expressões selvagens, apaixonadas, mas quase audíveis; e enquanto a levava para um banco à beira da estrada, e sentando-se a apoiava contra o seu peito, seria difícil talvez dizer se algo de deleite — de deleite ardente e arrepiante — não estava misturado com a sua ansiedade e terror. Ele esfregou as mãos pequenas dela nas suas; o seu hálito, todo trémulo e quente, brilhava na face dela; e uma vez, e apenas uma vez, os seus lábios aproximaram-se e, soprando a riqueza despenteada das madeixas dela, prenderam-se num beijo longo e silencioso aos dela.
Entretanto, com a ajuda do lacaio, que tinha agora recuperado um pouco os seus sentidos atónitos, o escudeiro desceu da carruagem e aproximou-se com passos vacilantes do lugar onde a sua filha estava reclinada. No instante em que ele pegou na mão dela, Lucy começou a recuperar; e a primeira ação, na inconsciência atordoada do despertar, foi lançar o seu braço à volta do pescoço do seu salvador.
Poderiam todas as horas e realidades de esperança, alegria, prazer na vida anterior de Clifford ter sido derretidas e concentradas numa única emoção, essa emoção teria sido contida face ao arrebatamento do carinho momentâneo e inocente de Lucy! E num período posterior, embora não distante, quando na cela do criminoso o rosto sombrio da Morte o fitava, pode questionar-se se os seus pensamentos não se detinham muito mais frequentemente na lembrança daquele momento delicioso do que na amargura e ignomínia de um destino que se aproximava.
“Ela respira — ela move-se — ela acorda!” gritou o pai; e Lucy, tentando levantar-se, e reconhecendo a voz do escudeiro, disse fracamente:
“Graças a Deus, meu querido pai, não estás ferido! E eles foram-se mesmo? — e onde — onde estamos nós?”
O escudeiro, aliviando Clifford do seu encargo, envolveu a filha nos seus braços, enquanto, à sua própria maneira elucidativa, a informava onde estava e com quem. Os amantes estavam face a face um com o outro; mas que rubores deliciosos a noite, que escondia tudo menos o contorno das suas formas, não escondeu dos olhos de Clifford!
O coração honesto e bondoso do Sr. Brandon alegrou-se com uma libertação para os sentimentos indulgentes que sempre nutrira para com o suspeito e difamado Clifford, e virando-se agora de Lucy, derramou-se completamente sobre o seu libertador. Apertou-lhe calorosamente a mão e insistiu para que os acompanhasse a Bath na carruagem, permitindo que o lacaio montasse o seu cavalo. Esta oferta ainda estava pendente quando o lacaio, que tinha ido verificar a saúde e o conforto do seu companheiro de serviço, veio informar o grupo, num tom doloroso, de algo que, na confusão e escuridão da noite, eles ainda não tinham ficado a saber — a saber, que os cavalos e o cocheiro tinham desaparecido!
“Desapareceram!” disse o escudeiro, “desapareceram! Ora, os vilões não podem (da minha parte, nunca acredito, embora tenha ouvido tais maravilhas, naqueles truques de prestidigitação) tê-los levado!”
Aqui ouviu-se um gemido baixo; e o lacaio, guiado simpaticamente ao local de onde emanava, encontrou o corpo enorme do cocheiro depositado em segurança, com a face para baixo, no meio da valeta. Depois de este digno ter sido levantado para as suas pernas, e ter sacudido a si próprio para a lucidez, descobriu-se que, quando o ladrão tinha detido os cavalos, o cocheiro, que precisava de muito pouco para subjugar as suas faculdades mais belicosas, tinha — ele próprio disse, por um golpe violento do rufião, embora, talvez, a causa estivesse mais perto de casa — abandonado a almofada do coche pela valeta, os cavalos ficaram assustados, e depois de se debaterem e empinarem até que ele já não se preocupasse em ocupar-se com a detenção deles, o salteador tinha muito calmamente cortado as rédeas, e a esta hora, não era impossível que os cavalos estivessem quase à porta dos seus estábulos em Bath.
O lacaio que tinha informado o escudeiro deste infortúnio era, ao contrário da maioria dos portadores de notícias, o primeiro a oferecer consolação. “Há uma excelente estalagem”, disse ele, “a cerca de meia milha, onde a Vossa Honra poderia conseguir cavalos; ou, talvez, se a Srta. Lucy, pobre coração, estiver fraca, o senhor possa querer parar para passar a noite.”
Embora uma caminhada de meia milha numa noite escura e sob outras circunstâncias não parecesse uma proposta grata, contudo, agora, quando a imaginação do escudeiro tinha apenas pintado para ele as alternativas de passar a noite na carruagem ou de rastejar a pé até Bath, parecia apenas uma dificuldade muito insignificante; e enfiando o braço da filha sob o seu, enquanto dizia com voz gentil a Clifford “para a apoiar do outro lado”, o escudeiro ordenou ao lacaio que liderasse o caminho com o cavalo de Clifford, e ao cocheiro que o seguisse ou fosse para o diabo, o que ele quisesse.
Em silêncio, Clifford ofereceu o seu braço a Lucy, e silenciosamente ela aceitou a cortesia. O escudeiro era o único que falava; e o tema que escolheu não foi ingrato para Lucy, pois era o elogio do seu amante. Mas Clifford mal ouvia, pois mil pensamentos e sentimentos lutavam dentro dele; e o toque leve da mão de Lucy no seu braço teria sido por si só suficiente para distrair e confundir a sua atenção. A escuridão da noite, a excitação recente, o beijo roubado que ainda brilhava nos seus lábios, a lembrança da agitação lisonjeira de Lucy na cena com ela na casa de Lord Mauleverer, a ainda mais quente daquele abraço inconsciente, que ainda formigava por cada nervo do seu corpo, tudo conspirava com a deliciosa emoção que ele agora experimentava na presença e contacto dela para o embriagar e inflamar. Oh, aqueles momentos ardentes no amor, quando o romance amadureceu em paixão, e sem perder nada da sua vaga luxúria mistura o entusiasmo dos seus sonhos com os desejos ardentes da realidade e da terra! Esse é o tempo exato em que o amor atingiu o seu ponto mais alto — quando todos os sentimentos, todos os pensamentos, toda a alma e toda a mente, são tomados e absorvidos — quando cada dificuldade pesada na balança oposta parece mais leve do que o pó — quando renunciar ao objeto amado é o sacrifício mais mortal e duradouro — e quando em tantos peitos, onde a honra, a consciência, a virtude, são muito mais fortes do que podemos acreditar que tenham sido num criminoso como Clifford, a honra, a consciência, a virtude, pereceram de uma vez e subitamente em cinzas perante esse fogo poderoso e irresistível.
O criado, que tinha tido oportunidades anteriores de verificar a topografia da “estalagem” de que falava, e que estava talvez toleravelmente reconciliado com o seu terror recente na antecipação de renovar a sua intimidade com “os espíritos do passado”, direcionou agora a atenção dos nossos viajantes para uma pequena pousada logo à frente. O estalajadeiro ainda não se tinha retirado para o repouso, e não foi necessário bater duas vezes antes que a porta fosse aberta.
Um fogo brilhante, uma estalajadeira oficiosa, um senhorio compadecido, uma bebida quente e a promessa de camas excelentes, tudo pareceu ao nosso escudeiro compensar amplamente a notícia de que a estalagem não estava licenciada para alugar cavalos de posta; e tendo o senhorio prometido enviar imediatamente dois homens robustos, uma corda e um cavalo de carroça para trazer a carruagem para um abrigo (pois o escudeiro valorizava o veículo porque tinha vinte anos), e além disso mandar reparar o arreio, e os cavalos prontos para uma hora cedo no dia seguinte, o bom humor do Sr. Brandon elevou-se a hilaridade positiva. Lucy retirou-se sob os auspícios da estalajadeira para a cama; e o escudeiro, tendo bebido uma taça de bispo, e descoberto mil novas virtudes em Clifford, especialmente a de nunca interromper uma boa história, bateu no ombro do capitão, e fazendo-o prometer não deixar a estalagem até que o tivesse visto novamente, retirou-se também para o repouso da sua almofada. Clifford permaneceu em baixo, olhando abstractamente para o fogo durante algum tempo depois; nem foi até que a sonolenta criada de quarto o tivesse informado pela terceira vez dos confortos preparados da sua cama, que ele se retirou para o seu quarto. Mesmo então, parece que o sono não visitou as suas pálpebras; pois um rico criador de gado, que dormia no quarto abaixo, queixou-se amargamente na manhã seguinte de alguém a andar em cima “a passos de toda a espécie, exatamente como um aparecido de botas.”
CAPÍTULO XXIII.
Viola. E amas-me? Lysander.... Amar-te, Viola? Não fujo eu de ti quando o meu ser bebe a Luz dos teus olhos? — essa fuga é toda a minha resposta!
A Noiva, Ato ii. sc. 1.
As meditações de cortina do escudeiro não tinham sido sem o produto de uma resolução. O seu coração caloroso reabriu-se imediatamente ao gosto que tinha anteriormente concebido por Clifford; ele ansiava por uma oportunidade para compensar a sua falta de gentileza passada, e para testemunhar a sua gratidão presente; além disso, sentia-se ao mesmo tempo indignado e envergonhado da sua conduta recente em juntar-se à popular, e, como agora acreditava plenamente, infundada predisposição contra o seu jovem amigo, e perante um sentimento mais presente e mais forte, a sua deferência habitual pelos conselhos do seu irmão desvaneceu-se facilmente. Juntamente com estes sentimentos favoráveis para com Clifford estavam as suas suspeitas sagazes, ou melhor, a certeza, do apego de Lucy ao seu belo libertador; e ele tinha pelo menos penetração suficiente para perceber que ela não seria propensa a amá-lo menos pela aventura da noite. A tudo isto somava-se a tenra recordação das palavras de despedida da sua esposa; e as lágrimas e a agitação reveladora de Lucy na carruagem foram suficientes para a sua mente simples, que não sabia quão levemente as lágrimas de uma donzela são vertidas e secas, para confirmar a predição da querida falecida. Nem os sentimentos mais generosos e bondosos do escudeiro estavam totalmente desprovidos de considerações egoístas. Orgulhoso, mas nem um pouco ambicioso, ele estava sempre mais pronto a conferir uma honra do que a recebê-la, e no fundo estava secretamente contente com a noção de trocar, como genro, o polido e desconhecido Mauleverer pelo agradável e social Clifford. Tais, em “desordem admirada”, eram os pensamentos que rolavam através do cérebro fértil de Joseph Brandon; e antes de se ter virado para o seu lado esquerdo, o que ele sempre fazia preparatório para se entregar ao sono, o escudeiro tinha chegado plenamente a uma determinação fatal para os planos do advogado e as esperanças do conde.
Na manhã seguinte, enquanto Lucy estava a tricotar
“A solta cauda do seu cabelo que deixa cair âmbar”
diante do pequeno espelho do seu quarto, que mesmo através do seu vidro baço e escurecido devolvia um rosto que poderia ter envergonhado uma visão grega de Aurora, uma leve batida à porta anunciou o seu pai. Havia, no seu semblante rosado e agradável, aquela expressão geralmente característica de um homem satisfeito consigo mesmo, e persuadido de que está prestes a proporcionar prazer.
“Minha querida filha,” disse o escudeiro, afagando ternamente a exuberância do cabelo de Lucy e beijando a sua face de damasco, “vim ter uma pequena conversa contigo. Senta-te agora, e (quanto a mim, adoro conversar à vontade; e, a propósito, fecha a janela, meu amor, está um vento de leste) desejo que cheguemos a um entendimento claro e distinto. Hem! — dá-me a tua mão, minha filha, — penso que nestes assuntos dificilmente se pode falar com demasiada precisão e objetividade; embora eu esteja bem ciente (pois, da minha parte, desejo sempre agir para com todos, e especialmente para contigo, minha querida filha, com a maior consideração) de que devemos proceder com tanta delicadeza quanto concisão. Conheces este Capitão Clifford, — é um jovem corajoso, não é? Bem — ora, não coras tão profundamente; não há nada (pois nestes assuntos não se pode ter todos os desejos, não se pode ter tudo) de que se envergonhar! Diz-me agora, filha, achas que ele está apaixonado por ti?”
Se Lucy não respondeu imediatamente com palavras, os seus lábios bonitos moveram-se como se pudessem responder prontamente; e finalmente fixaram-se num sorriso tão doce e tão seguro que o escudeiro, por muito que apreciasse informações “precisas”, não precisou de resposta mais completa à sua pergunta.
“Sim, sim, menina,” disse ele, olhando para ela com todo o afeto de um pai, “vejo como é. E vamos lá, porque te viras? Achas, se, como acredito, embora haja pessoas invejosas no mundo, como sempre há quando um homem é bonito ou inteligente ou corajoso, — embora, aliás, o que é uma coisa muito estranha aos meus olhos, elas não invejem, pelo menos não de má fé, um homem por ser lorde ou rico, mas, muito pelo contrário, a posição e o dinheiro parecem fazê-las pensar que se possui todas as virtudes cardeais. Hum! Se, digo eu, este Sr. Clifford se revelasse um cavalheiro de família, — pois sabes que isso é essencial, uma vez que os Brandon, como o meu irmão provavelmente te terá dito, foram uma grande linhagem há muitos séculos, — achas, minha filha, que poderias deixar (o gato saiu do saco) este velho lorde e casar com um simples cavalheiro?”
A mão que o escudeiro segurava foi então levada com uma ternura brejeira à sua boca, e quando ele a tomou novamente, Lucy escondeu o rosto resplandecente no seu peito; e foi apenas por um sussurro, como se o próprio ar fosse falador, que ele pôde extrair (pois agora insistia numa resposta verbal) a sua resposta feliz.
Não receamos que o nosso leitor nos culpe por não detalhar o resto da entrevista entre o pai e a filha: não durou mais de uma hora; pois o escudeiro declarou que, quanto a si, detestava mais palavras do que as necessárias. O Sr. Brandon foi o primeiro a descer para o pequeno-almoço, murmurando enquanto descia as escadas: “Bem, que me partam se não estou contente por me ter livrado disso (pois não gosto de pensar muito num assunto tão tolo). E quanto ao meu irmão, não lhe direi até que tudo esteja terminado e resolvido. E se ele se zangar, ele e o velho lorde podem, embora eu não queira ser pouco fraternal, ir ambos para o diabo!”
Quando os três estavam reunidos à mesa do pequeno-almoço, talvez não se pudesse encontrar em parte alguma um contraste mais forte do que aquele que o rosto radiante de Lucy apresentava à expressão abatida e desgastada que desfigurava os traços belos do seu amante. Tão marcada era a mudança que uma noite parecia ter operado em Clifford, que até o escudeiro ficou sobressaltado e alarmado com ela. Mas Lucy, cuja vaidade inocente comprazia-se em justificar a alteração, consolava-se com a esperança de em breve testemunhar uma expressão muito diferente no rosto do seu amante; e embora ela estivesse silenciosa, e a sua felicidade repousasse tranquila e profunda dentro de si, contudo, nos seus olhos e lábios havia algo que parecia a Clifford um insulto à sua própria miséria, e picava-o no coração. Contudo, ele esforçou-se para acompanhar a conversa do escudeiro, e para mascarar tão bem quanto podia a evidência do conflito que ainda fervia dentro dele.
A manhã estava húmida e sombria; era aquela chuva miudinha e enevoada que é tão especialmente nutritiva para o crescimento de melancolias, e o alegre escudeiro não deixou de troçar do seu jovem amigo pela sua suscetibilidade feminina às influências do tempo. Clifford respondeu com gracejos; e a pilhéria, se era má, era boa o suficiente para contentar o gracejador. Desta forma faceta passou o tempo, até que Lucy, a pedido do seu pai, deixou a sala para se preparar para o seu regresso a casa.
Aproximando a sua cadeira da de Clifford, o escudeiro iniciou então, com seriedade real e afetuosa, as suas operações — estas que ele já tinha planeado — na seguinte ordem: primeiro, inquirir e aprender o posto, família e perspetivas de Clifford; segundo, tendo certificado as propriedades do homem exterior, deveriam examinar o estado do interior; e terceiro, caso o nosso habilidoso inquiridor encontrasse as suas suspeitas sobre o afeto de Clifford por Lucy confirmadas, deveriam expulsar o receio modesto de uma recusa, que o escudeiro admitia ser natural, e levar o objeto da investigação ao conhecimento da felicidade que, consentindo Lucy, poderia estar reservada para ele. Enquanto, com a sua engenhosidade habitual, o escudeiro prosseguia os seus desígnios benevolentes, Lucy permanecia no seu próprio quarto, em tais meditações e tais sonhos como eram naturais para um coração tão esperançoso e entusiasta.
Estava sozinha há mais de meia hora, quando a criada da hospedaria bateu à sua porta e entregou uma mensagem do escudeiro, implorando que ela descesse para junto dele na sala de estar. Com um coração que batia tão violentamente que quase parecia consumir a sua própria vida, Lucy desceu lenta e com passos trémulos para a sala. Ao abrir a porta, viu Clifford parado no recesso da janela; o seu rosto estava parcialmente voltado para o outro lado, e os seus olhos baixos. O bom e velho escudeiro estava sentado numa poltrona, e uma espécie de complacência confusa e meio satisfeita dava expressão às suas feições.
“Vem cá, filha,” disse ele, limpando a garganta; “o Capitão Clifford — ahem! — deu-te a honra de... e atrevo-me a dizer que ficarás muito surpreendida — não que, da minha parte, ache que haja muito para estranhar nisso, mas tal pode ser a minha opinião parcial (e é certamente muito natural em mim) — de te fazer uma declaração de amor. Declara, além disso, que é o mais miserável dos homens, e que morreria antes de ter a presunção de ter esperança. Portanto, vês, meu amor, mandei-te chamar, para lhe dar permissão de se destruir da maneira que quiser; e deixo-o mostrar a razão pela qual (é um destino que mais cedo ou mais tarde acontece a todos os seus semelhantes) a sentença de morte não deve ser proferida contra ele.” Tendo proferido este discurso com mais propriedade de palavra do que habitualmente lhe cabia, o escudeiro levantou-se apressadamente e saiu da sala a coxear.
Lucy afundou-se na cadeira que o seu pai tinha deixado; e Clifford, aproximando-se dela, disse com uma voz rouca e baixa: —
“O seu pai, Srta. Brandon, diz corretamente, que eu morreria antes de elevar os meus olhos com esperança para si. Pensei ontem que a tinha visto pela última vez; o acaso, não a minha própria loucura ou presunção, trouxe-me novamente perante si; e mesmo as poucas horas que passei sob o mesmo teto consigo fizeram-me sentir como se o meu amor, a minha loucura, nunca tivesse atingido o seu auge até agora. Oh, Lucy!” continuou Clifford, num tom mais apaixonado, e, como se por um impulso súbito e irresistível, lançando-se aos seus pés, “se eu pudesse ter a esperança de a merecer, — se eu pudesse ter a esperança de me elevar, — se eu pudesse... Mas não, não, não! Estou cortado de toda a esperança, e para sempre!”
Havia uma angústia e um remorso tão profundos, tão amargos, tão sentidos na voz com que estas últimas palavras foram ditas, que Lucy, apanhada desprevenida e esquecendo tudo em simpatia e compaixão maravilhado, respondeu, estendendo a sua mão na direção de Clifford, que, ainda de joelhos, a agarrou e cobriu com beijos de fogo, —
“Não fale assim, Sr. Clifford; não se acuse do que tenho a certeza, absoluta certeza, de que não merece. Talvez — perdoe-me — o seu nascimento, a sua fortuna, estejam abaixo dos seus méritos, e o senhor tenha penetrado na fraqueza do meu pai no que diz respeito ao primeiro ponto; ou talvez o senhor mesmo não tenha evitado todos os erros nos quais os homens são arrastados, — talvez tenha sido imprudente ou irrefletido, talvez tenha (a moda é contagiosa) jogado acima das suas posses ou contraído dívidas: estes são defeitos, é verdade, e de lamentar, mas certamente não irreparáveis.”
Por aquele instante, pode alguém estranhar que toda a resolução e autonegação de Clifford o abandonaram, e levantando os seus olhos, radiantes de alegria e gratidão, para o rosto que se inclinava com benevolente inocência para ele, exclamou, —
“Não, Srta. Brandon! — não, Lucy! — querida, angélica Lucy! Os meus defeitos são menos perdoáveis do que estes, mas talvez não sejam menos a consequência das circunstâncias e do contágio; talvez não seja tarde demais para os reparar. Se a senhora... se realmente se dignasse a ser a minha guardiã, eu poderia não desesperar de ser salvo!”
“Se,” disse Lucy, corando profundamente e olhando para baixo, enquanto falava rápida e ansiosamente, como se para evitar humilhá-lo com a sua oferta, — “se, Sr. Clifford, a falta de riqueza lhe causou de alguma forma inquietação ou... ou erro, acredite em mim — refiro-me a nós — como sendo tão seus amigos a ponto de não hesitar nem por um instante em aliviar-nos de uma pequena parte da nossa dívida da noite passada para consigo.”
“Querida e nobre rapariga!” disse Clifford, enquanto se contorcia nos seus lábios um daqueles sorrisos de poderoso sarcasmo que por vezes distorciam as suas feições, e impressionavam de forma arrepiante em Lucy uma semelhança com alguém muito diferente em reputação e caráter do seu amante, — “não atribua os meus infortúnios a uma fonte tão mesquinha; não é de dinheiro que precisarei enquanto viver, embora me lembre até ao meu último suspiro desta delicadeza em si, e a compare com certas lembranças vis na minha própria mente. Sim! Todos os pensamentos e recordações passadas far-me-ão daqui em diante adorá-la ainda mais do que faço agora; enquanto no seu coração eles farão — a menos que o Céu conceda uma prece minha — que a senhora me despreze e deteste!”
“Por piedade, não fale assim!” disse Lucy, olhando com um alarme indistinto para as feições escuras e agitadas do seu amante. “Desprezá-lo, detestá-lo! Impossível! Como poderia eu, após a lembrança da noite passada?”
“Sim! da noite passada,” disse Clifford, falando através dos dentes cerrados, — “há muito nessa lembrança para viver por muito tempo em ambos nós; mas tu... tu... bela anjo” (e toda a aspereza e ironia desaparecendo de imediato da sua voz e semblante, cederam a uma tristeza terna e profunda, misturada com um respeito que roçava a reverência), — “tu nunca poderias ter sonhado com mais do que pena por alguém como eu, — nunca poderias ter descido da tua alta e deslumbrante pureza para conhecer por mim um tal pensamento como aquele que arde no meu coração por ti, — tu... Sim, retira a tua mão, não sou digno de a tocar!” E cruzando as suas próprias mãos diante do rosto, ficou abruptamente silencioso; mas as suas emoções estavam mal escondidas, e Lucy viu o corpo musculoso diante de si ofegante e convulso por paixões que eram mais intensas e dilacerantes porque foi apenas por alguns momentos que elas conquistaram o seu autocontrolo e lutaram para encontrar uma saída.
Se depois, mas muito depois, Lucy, recordando o mistério das suas palavras, confessou a si mesma que elas traíam culpa, ela estava então demasiado comovida para pensar noutra coisa senão no seu amor e na sua emoção. Inclinou-se e, com um abandono juvenil e carinhoso que ninguém poderia ter resistido, colocou ambas as mãos sobre as dele. Clifford sobressaltou-se, olhou para cima, e no momento seguinte tinha-a apertado contra o seu peito; e enquanto as únicas lágrimas que tinha derramado desde a sua carreira de crime caíam rápidas e quentes sobre o rosto dela, beijou-lhe a testa, a face, os lábios num transporte apaixonado e selvagem. A sua voz morreu dentro dele, — não podia confiar em si próprio para falar; apenas um pensamento, mesmo naquele aparente esquecimento dela e de si mesmo, agitava-se e falava no seu peito, — fuga. Quanto mais sentia que amava, quanto mais terno e confiante era o objeto do seu amor, mais urgente se tornava a necessidade de a deixar. Todos os outros deveres tinham sido negligenciados, mas ele amava com um amor real; e o amor, que lhe ensinou um dever, levou-o triunfantemente através da sua amarga provação.
“Ouvirá falar de mim esta noite,” murmurou ele; “acredite que sou louco, amaldiçoado, criminoso, mas não totalmente um monstro! Não peço opinião mais piedosa!” Afastou-se da sua posição perigosa e partiu abruptamente.
Quando Clifford chegou a casa, encontrou os seus dignos coadjutores à sua espera com alarme e terror nos semblantes. Um feito antigo, no qual se tinham notabilizado, atraíra há muito a atenção rígida da polícia, e certos agentes tinham sido vistos em Bath, e certas investigações tinham sido iniciadas, o que não previa nada de bom para a segurança do sagaz Tomlinson e do valoroso Pepper. Vieram, humilde e penitentemente, pedir perdão pela sua agressão inconsciente à carruagem do escudeiro, e suplicar o conselho imediato do seu capitão. Se Clifford tivesse vacilado antes na sua determinação desinteressada, — se visões de Lucy, de felicidade e reforma tivessem flutuado no seu passeio solitário demasiado frequente e demasiado intensamente diante dos seus olhos, — a visão destes homens, a sua conversa, o seu perigo, tudo bastou para restaurar a sua resolução. “Deus misericordioso!” pensou ele, “e será ao camarada de tais vilões sem lei, a um homem, como eles, exposto a cada hora às mais ignominiosas das mortes, que sonhei por uma fração de momento confiar a rapariga inocente e generosa, cuja confiança ou amor é o único crime que poderia privá-la do destino mais brilhante?”
Curtas foram as instruções de Clifford para os seus seguidores, e tanto fazemos mecanicamente, que foram entregues com a sua habitual previsão e precisão. “Deixarão a cidade instantaneamente; não vão, pelas vossas vidas, para Londres, ou para se juntarem a qualquer dos vossos camaradas. Cavalguem para a Gruta Vermelha; mantimentos estão armazenados lá, e, desde a nossa última alteração no interior, proporcionará espaço amplo para esconder os vossos cavalos. Na noite do segundo dia a partir deste, juntar-me-ei a vós. Mas certifiquem-se de que entram na gruta à noite, e não a deixem por motivo algum até que eu chegue!”
“Sim!” disse ele, quando estava sozinho, “juntar-me-ei a vós novamente, mas apenas para vos deixar. Mais uma ofensa contra a lei, ou pelo menos uma soma arrancada das mãos inchadas dos ricos o suficiente para me equipar para um exército estrangeiro, e deixarei o país do meu nascimento e dos meus crimes. Se não posso merecer Lucy Brandon, serei um pouco menos indigno. Talvez — por que não? Sou jovem, os meus nervos não são fracos, o meu cérebro não é lento, — talvez possa num campo de aventura honrosa ganhar um nome que antes do meu leito de morte eu não possa corar de lhe reconhecer!”
Enquanto esta resolução batia forte dentro do peito de Clifford, Lucy, triste e em silêncio, continuava com o escudeiro a sua curta viagem para Bath. Este último estava muito inquisitivo para saber porque tinha Clifford partido, e o que ele tinha confessado; e Lucy, dificilmente capaz de responder, atirou tudo para a carta prometida da noite.
“Estou contente,” murmurou o escudeiro para ela, “que ele vá escrever; pois, de uma forma ou de outra, embora o interrogasse muito apertadamente, ele escapou-se do meu interrogatório, e explodindo de imediato quanto ao seu amor por ti, deixou-me tão sábio sobre ele mesmo como eu estava antes: sem dúvida (quanto a mim, não vejo o que deveria impedir que ele seja um grande homem incógnito) esta carta explicará tudo!”
Tarde naquela noite a carta chegou. Lucy, felizmente para ela, estava sozinha no seu quarto; abriu-a, e leu o seguinte: —
A CARTA DE CLIFFORD.
Prometi escrever-lhe, e sento-me para cumprir essa promessa. Neste momento, a lembrança da sua bondade, da sua generosa consideração, é quente dentro de mim; e, embora eu deva escolher palavras calmas e comuns para expressar o que deveria dizer, o meu coração é alternadamente derretido e dilacerado por pensamentos que pediriam palavras, oh, tão diferentes! O seu pai questionou-me muitas vezes sobre a minha ascendência e nascimento — até agora, esquivei-me aos seus interrogatórios. Saiba agora quem sou. Num domicílio miserável, rodeado pelos habitantes da pobreza e do vício, recordo as minhas primeiras memórias. O meu pai é-me tão desconhecido como a qualquer outro; a minha mãe — a si não ouso mencionar quem ou o que ela era — morreu na minha infância. Sem nome, mas não sem uma herança (a minha herança foi grande... foi infâmia!), fui lançado ao mundo. Recebi, por acaso, alguma educação, e absorvi algumas ideias não naturais à minha situação; desde então, representei muitos papéis na vida. Não negligenciei de tal modo os livros e os homens que não tenha colhido, em intervalos, algum pequeno conhecimento de ambos. Daí que, se lhe pareci melhor do que sou, perceberá a causa. As circunstâncias fizeram-me cedo senhor de mim mesmo; fizeram-me também alguém que os homens honestos não gostam de olhar; os meus atos têm sido, e o meu caráter é, do mesmo nível que o meu nascimento e a minha sorte. Vim a esta cidade com a nobre esperança de me elevar e redimir, dourando o meu destino com um casamento rico. Vi-a, a si, com quem já me tinha cruzado uma vez. Ouvi dizer que era rica. Odeie-me, Srta. Brandon, odeie-me! — resolvi fazer da sua ruína a causa da minha redenção. Felizmente para si, mal a conhecia antes de a amar; esse amor aprofundou-se — colheu algo puro e elevado de si mesma. A minha resolução abandonou-me; mesmo agora poderia lançar-me de joelhos e agradecer a Deus por si — por si, a mais querida e nobre dos seres humanos — não ser a minha esposa. Agora, a minha conduta é clara para si? Se não, imagine-me tudo o que há de vil, exceto num ponto, onde a senhora está envolvida, e não restará uma sombra de mistério. O seu bondoso pai, sobreavaliando o serviço insignificante que lhe prestei, teria consentido em submeter o meu destino à sua decisão. Coro de indignação por ele — por si — que qualquer homem vivo tenha sonhado com tal profanação para a Srta. Brandon. Contudo, eu próprio fui levado e inebriado por uma esperança tão súbita e tão suave — até eu ousei elevar os meus olhos até si, pressioná-la contra este coração culpado, esquecer-me de mim mesmo e sonhar que a senhora pudesse ser minha! Pode perdoar-me por esta loucura? E, daqui em diante, na sua esfera elevada e cintilante de felicidade conjugal, poderá lembrar-se da minha presunção e conter o seu desprezo? Talvez pense que, por uma confissão tão tardia, já a enganei. Ai de mim! Não sabe o que me custa agora confessar! Eu só tinha uma esperança na vida — era que a senhora pudesse ainda, muito depois de ter deixado de me ver, imaginar que eu não era totalmente inferior ao rebanho com que vive. Esta vaidade ardente, porém egoísta, arranco-a de mim, e agora vou para onde nenhuma esperança me pode perseguir. Nenhuma esperança para mim mesmo, exceto uma que mal merece o nome, pois é antes um desejo rude e visionário do que uma expectativa — é que, sob outro nome e sob auspícios diferentes, a senhora possa ouvir falar de mim num momento distante; e, quando a informar que sob esse nome poderá reconhecer alguém que a ama mais do que todas as coisas criadas, poderá sentir então, pelo menos, nenhuma razão para se envergonhar do seu amante. O que será a senhora então? Uma esposa feliz, uma mãe, o centro de mil alegrias, amada, admirada, abençoada quando o olho a vê e o ouvido a escuta! E é isto que devo esperar, é esta a consolação que deveria animar-me; talvez, daqui a algum tempo, o faça. Não que a ame menos, mas que a amarei menos ardentemente e, portanto, menos egoistamente. Escrevi-lhe agora tudo o que lhe convém receber da minha parte. O meu cavalo espera lá embaixo para me levar desta cidade, e para sempre da sua vizinhança. Para sempre! — sim, a senhora é a única bênção para sempre proibida a mim. Riqueza posso ganhar, um bom nome, talvez até a glória possa aspirar — ao próprio céu posso encontrar um caminho; mas de si, os meus próprios sonhos não me podem dar a sombra de uma esperança. Não digo que, se pudesse atravessar a minha alma enquanto escrevo, a senhora sentiria pena de mim. Pode parecer-lhe estranho, mas eu não quereria a sua pena por nada deste mundo; creio que preferiria até o seu ódio — a pena parece-se tanto com o desprezo. Mas se soubesse que esforço me permitiu domar a minha linguagem, refrear os meus pensamentos, impedir-me de corporizar aquilo que agora faz o meu cérebro girar, e a minha mão sentir como se o fogo vivo a consumisse; se soubesse o que me permitiu triunfar sobre a loucura no meu coração, e poupá-la daquilo que, se fosse escrito ou falado, pareceria o delírio da insanidade, a senhora não poderia desprezar-me, embora pudesse abominar-me.
E agora, que o Céu a guarde e a abençoe! Nada na terra poderia feri-la. E até os ímpios que a contemplaram aprendem a rezar — eu rezei por si!
Assim, abrupta e sem assinatura, terminou a carta esperada. Lucy desceu na manhã seguinte à sua hora habitual e, exceto pelo facto de estar muito pálida, nada na sua aparência parecia anunciar um sofrimento ou emoção passados. O escudeiro perguntou-lhe se tinha recebido a carta prometida. Ela respondeu, com uma voz clara, embora fraca, que sim — que o Sr. Clifford tinha confessado ser de uma origem demasiado humilde para esperar casar com a família do Sr. Brandon; que confiava que o escudeiro guardaria o seu segredo; e que o assunto nunca mais seria mencionado por nenhum dos dois. Se neste discurso havia algo estranho ao caráter ingénuo de Lucy, e doloroso para a sua mente, ela sentiu que era um dever para com o seu antigo amante não trair a totalidade daquela confissão tão amargamente arrancada dele. Talvez, também, houvesse naquela carta um encanto que lhe parecia demasiado sagrado para ser revelado a quem quer que fosse; e mistérios não estavam excluídos nem mesmo de um amor tão mal colocado e aparentemente tão transitório como o dela.
A resposta de Lucy tocou o escudeiro no seu ponto fraco. “Um homem de origem decididamente humilde”, confessou ele, “estava totalmente fora de questão; contudo, o jovem mostrou uma grande dose de franqueza na sua revelação.” Ele prontamente prometeu nunca mais tocar num assunto necessariamente tão desagradável; e, embora suspirasse ao terminar o seu discurso, a extrema quietude da maneira de Lucy tranquilizou-o; e, quando percebeu que ela retomava, embora languidamente, as suas ocupações habituais, sentiu pouca dúvida de que ela superaria em breve a lembrança do que ele esperava ser apenas um capricho juvenil e passageiro. Ele cedeu, com avidez, à proposta dela de regressar a Warlock; e, na mesma semana em que Lucy recebera a carta misteriosa do seu amante, o pai e a filha iniciaram a sua viagem para casa.
CAPÍTULO XXIV.
Butler. O que são estes, senhor?
Yeoman. E de que natureza, para que uso?
Latroc. Imaginai. A Tragédia de Rollo.
Quickly. Ele está no seio de Artur, se algum homem foi para o seio de Artur. Henrique V.
O curso da nossa narrativa conduz-nos agora de volta a William Brandon. As promoções judiciais anteriormente planeadas foram concluídas; e, para surpresa do público, o invejado advogado, submetendo-se à degradação da cavalaria, tinha, no momento em que regressamos a ele, acabado de trocar as suas ocupações laboriosas pela serenidade digna do banco dos juízes. Qualquer arrependimento que este astuto e ambicioso conspirador pudesse ter sentido por uma elevação consideravelmente menos distinta do que razoavelmente esperara, foi inteiramente removido pelas esperanças que lhe foram dadas de uma rápida transferência para um cargo mais brilhante: sussurrava-se, entre aqueles que não estariam longe de prever tais eventos, que o interesse do governo exigia os seus talentos na câmara dos lordes. Precisamente neste momento, também, a doença fatal, cujas devastações Brandon se esforçava, tão zelosamente quanto possível, por esconder do público, parecera subitamente ceder à perícia de um novo médico; e, pela administração de medicamentos que um homem menos severo ou resoluto poderia ter tremido ao adotar (tão poderosa e, na maioria das vezes, mortal era a sua natureza), ele passou de um estado de tortura quase insuportável para um elísio de tranquilidade e conforto. Talvez, contudo, os medicamentos que o alteraram também tenham deteriorado a sua constituição; e era observável que, em dois casos em que o médico obtivera um sucesso semelhante pelos mesmos meios, os pacientes morreram subitamente, exatamente no momento em que a sua cura parecia estar finalmente concluída. Todavia, Sir William Brandon parecia prever muito pouco perigo. A sua maneira tornou-se mais alegre e uniforme do que alguma vez fora; havia uma certa leveza no seu andar, uma certa exaltação na sua voz e no seu olhar, que pareciam os sinais de alguém de quem um fardo pesado fora subitamente levantado, e a quem a avidez da esperança já não era impedida pelas exigências absorventes de uma dor física. Ele fora sempre brando na sociedade, mas agora a sua cortesia respirava menos artifício — assumia um tom mais cordial. Outra alteração era discernível nele, e essa era precisamente o oposto do que se poderia esperar. Ele tornou-se mais poupado, mais atento às despesas da vida do que tinha sido. Embora desprezador da ostentação e do fausto, e demasiado duro para ser luxuoso, era um arquiteto demasiado científico das fraquezas dos outros para não ter mantido, durante a sua carreira pública, uma aparência opulenta e uma mesa hospitaleira. A profissão que adotara requer, talvez, menos exteriores para a ajudar do que qualquer outra; ainda assim, Brandon afetara preservar a importância parlamentar bem como a legal; e, embora a sua casa estivesse situada num bairro inteiramente profissional, estava habituado a reunir em torno da sua mesa hospitaleira todos os que eram eminentes, no seu partido político, por categoria ou talento. Agora, contudo, quando a hospitalidade e uma certa grandeza de despesas melhor assentariam à sua posição, ele tornou-se mais contido e mais exato na sua economia. Brandon nunca poderia ter degenerado num miserável; o dinheiro, para alguém tão habitualmente sábio como ele, nunca poderia ter passado de meio a objetivo; mas ele tinha, evidentemente, por uma causa ou outra, formado a resolução de poupar. Alguns diziam que era o resultado da saúde que regressava, e a esperança de uma vida prolongada, para a qual poderiam ocorrer muitos objetivos para os quais a riqueza é desejável. Mas quando se verificou acidentalmente que Brandon andava a fazer várias inquirições respeitantes a uma grande propriedade nas proximidades de Warlock, anteriormente na posse da sua família, os mexeriqueiros (pois Brandon era um homem sobre o qual se mexericava) já não careciam de um motivo, falso ou real, para a poupança do juiz.
Foi pouco depois da sua elevação ao banco dos juízes, e antes que estes sinais de mudança se tivessem tornado notáveis, que o mesmo estranho maltrapilho que mencionámos antes, como introduzido pelo Sr. Swoppem para uma conferência privada com Brandon, foi admitido à presença do juiz.
“Bem”, disse Brandon, impacientemente, no momento em que a porta foi fechada, “as suas notícias?”
“Vê, sua 'onra”, disse o homem, timidamente, girando uma coisa que servia de procuração para um chapéu, “penso que serei capaz de satisfazer a 'onra de vossa vossa vossa excelência!” Então, aproximando-se do juiz e assumindo um ar importante, sussurrou: “É como eu pensava!”
“Meu Deus!” gritou Brandon, com veemência. “E ele está vivo — e onde?”
“Acredito”, respondeu o confidente decoroso de Sir William Brandon, “que ele está vivo; e se ele está vivo, que me arranquem os dentes se não o farejo! Mas, quanto a dizer onde ele está neste preciso momento, que me partam se posso!”
“Ele está neste país”, disse Brandon; “ou acredita que ele foi para o estrangeiro?”
“Vê, muito de um e não pouco do outro!” disse o eufónico confidente.
“Como! Fale claro, homem; o que quer dizer?”
“Vê, quero dizer, sua 'onra, que não posso dizer onde ele está.”
“E isto”, disse Brandon, com um juramento murmurado — “isto são as suas alardeadas notícias, são? Cão! maldito, maldito cão! se brincar comigo ou me enganar, eu enforco-o — pelo Deus vivo, eu enforco-o!”
O homem recuou involuntariamente perante a testa vingativa e os olhos acesos de Brandon; mas, com a astúcia peculiar ao vício baixo, respondeu, embora num tom mais humilde:
“E que bem fará isso à sua 'onra? Se for o caso de me pendurar, isso colocará vossa excelência no caminho de encontrá-lo?”
Nunca houve um obstáculo na gramática através do qual uma verdade robusta não pudesse romper; e Brandon, após uma pausa sombria, disse num tom mais suave:
“Não pretendo assustá-lo! Não se importe com o que disse; mas pode certamente adivinhar onde ele está, ou que meios de vida segue. Talvez” — e uma palidez momentânea atravessou o rosto moreno de Brandon — “talvez ele tenha sido levado à desonestidade para se sustentar!”
O informante respondeu com grande ingenuidade que tal coisa não era impossível! E Brandon iniciou então uma série de contra-interrogatórios aparentemente descuidados mas astutos, que a ignorância ou a astúcia do homem lhe permitiram iludir. Passado algum tempo, Brandon, desapontado e insatisfeito, abandonou a sua tarefa profissional; e, concedendo ao homem muitas instruções sagazes e minuciosas, bem como uma doação muito liberal, viu-se forçado a dispensar o seu misterioso visitante, e a contentar-se com a afirmação assegurada de que, se o objeto das suas investigações não tivesse já ido para o diabo, o estranho cavalheiro empregado para o descobrir certamente, mais cedo ou mais tarde, trá-lo-ia ao juiz.
Esta afirmação, e a entrevista que a precedeu, inspirou certamente Sir William Brandon com um sentimento próximo da complacência, embora estivesse misturado com uma liga considerável.
“Não vejo”, pensou ele, concluindo as suas meditações quando ficou sozinho — “não vejo o que mais posso fazer! Uma vez que parece que o rapaz nem sequer tinha um nome quando partiu sozinho do seu domicílio miserável, temo que um anúncio tivesse poucas hipóteses de sequer designar, muito menos de encontrar, alguém após tão longa ausência. Além disso, poderia tornar-me a presa de impostores; e, com toda a probabilidade, ou ele deixou o país ou adotou algum modo de vida que o impediria de ousar revelar-se!” Este pensamento mergulhou o soliloquista numa abstração sombria, que durou vários minutos, e da qual ele partiu, murmurando em voz alta:
“Sim, sim! Ouso acreditar, esperar nisso. Agora pelo ministro e pelos pares!” E, a partir desse momento, a raiz da ambição de Sir William Brandon espalhou-se com um aperto mais firme e mais extenso sobre a sua mente.
Lamentamos muito que o curso da nossa história nos obrigue agora a registar um evento que teríamos voluntariamente poupado a nós mesmos a dor de narrar. O bom e velho Escudeiro de Warlock Manor-house mal tinha chegado a casa no seu regresso de Bath, antes que William Brandon recebesse a seguinte carta do mordomo de cabelos brancos do seu irmão:
HONRADO SENHOR, envio isto com toda a pressa, embora com um coração pesado, para o informar da súbita (e temida pelos seus amigos carinhosos e bem-querentes, estes últimos, para dizer a verdade, são todos os que o conhecem) perigosa doença do Escudeiro. Ele foi tomado, pobre cavalheiro querido (pois Deus nunca fez um melhor, sem ofensa a Vossa Honra), no momento em que pôs o pé no seu Próprio Salão, e o que tem pairado à minha volta como uma mó desde então, é que em vez de ele dizer, “Como está, Sampson?”, como era o seu costume, sempre que regressava de partes estrangeiras, como Bath, Londres e similares, ele disse, “Deus o abençoe, Sampson!”, o que me faz pensar de alguma forma que serão as suas últimas palavras; pois ele nunca mais falou desde então, apesar de a Srta. Lucy estar continuamente ao lado da sua cama. Ela, pobre querida, não se desmancha, no que toca a chorar e a essas coisas de mulheres, mas parece, apesar de tudo, por todo o mundo, exatamente como um cadáver. Envio Tom, o postilhão, com este expresso, sabendo que ele é bom a galopar, tendo, há menos de dezasseis anos, batido alguns dos melhores numa corrida. Esperando que Vossa Honra não perca tempo em vir a esta “casa de luto”, permaneço, com todo o respeito, Humilde servo de Vossa Honra às ordens, JOHN SAMPSON.
[O leitor, que sem dúvida notou quão invariavelmente os servos de longa data adquirem um certo tom do dos seus mestres, poderá observar que o honesto John Sampson tinha apanhado do escudeiro o hábito da composição parentética.]
Sir William Brandon não se deu ao tempo de reler esta carta, de modo a torná-la mais inteligível, antes de escrever a um dos seus pares profissionais, pedindo-lhe que ocupasse o seu lugar durante a sua ausência inevitável, na ocasião melancólica da morte esperada do seu irmão; e, tendo-o feito, partiu imediatamente para Warlock. Inexplicável, até para si mesmo, era aquele sentimento, tão próximo de uma tristeza real, que o advogado mundano sentiu perante a perspetiva de perder o seu irmão ingénuo e sem especulações. Será que as mentes turbulentas e ambiciosas, ao escolherem para as suas afeições vacilantes os próprios opostos a si mesmas, sentem (ao perder o companheirismo daquelas almas calmas e justas que nunca cruzaram o seu caminho acidentado) como se perdessem, ao perdê-las, uma espécie de refúgio para os seus próprios pensamentos inquietos e desígnios desgastados pelas tempestades! — seja como for, certo é que, quando William Brandon chegou à porta do seu irmão, e foi informado pelo velho mordomo, que pela primeira vez demorou a saudá-lo, que o escudeiro acabara de dar o último suspiro, a sua natureza austera abandonou-o de imediato, e ele sentiu o choque com uma severidade talvez ainda mais aguda do que aquela que um coração mais genial e afetuoso teria experimentado.
Assim que recuperou a sua compostura, Sir William inquiriu sobre a sua sobrinha; e, descobrindo que, após uma vigília incansável durante toda a breve doença do escudeiro, a natureza a abandonara com a sua morte, e ela fora levada sem sentidos do seu quarto para o seu próprio, Brandon caminhou com um passo muito diferente do seu habitual andar imponente para o quarto onde o seu irmão jazia. Era um dos apartamentos mais antigos da casa, e muito do esplendor antigo que pertencia à mansão antes de o seu tamanho ter sido reduzido, com as fortunas dos seus sucessivos proprietários, ainda distinguia o aposento. A enorme lareira que ascendia até ao teto esculpido em pilastras grotescas, e o trabalho de pergaminho do carvalho mais negro, com os brasões esquartelados de Brandon e Saville esculpidos no centro; as paredes apaineladas do mesmo carvalho escuro; a armaria de ébano; as cadeiras de encosto alto, com os seus assentos de tapeçaria; a cama elevada, com as suas plumas semelhantes a um carro fúnebre e cortinados de um damasco carmesim que parecia, tão maciça era a substância e tão proeminentes as flores, como se fosse mais uma escultura do que uma seda — tudo conspirava com o tamanho do quarto para lhe dar uma solenidade feudal, talvez não adequada ao resto da casa, mas bem calculada para causar um temor sombrio no peito do homem mundano e orgulhoso que agora entrava na câmara mortuária do seu irmão.
Silenciosamente, William Brandon afastou os criados e, silenciosamente, sentou-se junto à cama e olhou longa e melancolicamente para o rosto calmo e plácido do falecido. É difícil adivinhar o que se passou dentro dele durante o espaço de tempo em que permaneceu sozinho naquele quarto. O aposento em si ele não poderia, em outra época, ter habitado sem uma emoção secreta. Era aquele em que, quando menino, ele mesmo se acostumara a dormir; e, já então um intrigante e um aspirante, a simples visão do quarto bastava para trazer de volta todas as esperanças e visões, os projetos inquietos e os desejos febris que agora o haviam levado ao estado invejado de uma celebridade reconhecida e de um corpo destroçado. Deve ter havido algo de terrível na combinação daquelas lembranças ativas com a causa que o levara àquele aposento; e havia uma homilia na face serena do morto, que pregava mais eficazmente ao coração do vivo do que William Brandon jamais teria gostado de admitir. Ele estava há mais de uma hora no quarto, e a noite começara já a projetar sombras profundas através das pequenas vidraças da janela entreaberta, quando Brandon foi sobressaltado por um ligeiro ruído. Ele olhou para cima e viu Lucy diante de si. Ela não o viu; mas, lançando-se sobre a cama, tomou a mão fria do falecido e, após um longo silêncio, irrompeu numa torrente de lágrimas.
“Meu pai!” soluçou ela — “meu querido e bom pai! Quem me amará agora?”
“Eu!” disse Brandon, profundamente comovido; e, contornando a cama, tomou a sobrinha nos braços: “Eu serei teu pai, Lucy, e tu — a última da nossa linhagem — serás para mim como uma filha!”
CAPÍTULO XXV.
A falsidade nele não era a mentira inútil Do orgulho vanglorioso ou da vaidade risonha: Era a arte lucrativa, a arte persuasiva, etc.
CRABBE.
Avante com os cavalos — a caminho de Canterbury, Passo, passo sobre o seixo, e chapéu, chapéu pela poça; Hurra! quão veloz corre o correio tão alegre! ............... “Aqui as leis são todas invioláveis: ninguém arma Armadilhas para o viajante; toda estrada está livre; Aqui...” foi interrompido por uma faca, Com um “Diabo vos leve! vosso dinheiro ou vossa vida!”
Don Juan.
Os infortúnios são como as criações de Cadmo — eles destroem uns aos outros! Despertada do torpor mental causado pela perda do seu amado com a súbita doença do escudeiro, Lucy não teve pensamento para si mesma, nem pensamento para ninguém, nem para nada senão para seu pai, até muito tempo depois de a terra ter coberto os seus restos mortais. A própria atividade deste último pesar era menos perigosa do que a quietude do anterior; e quando a primeira agudeza da dor passou e a sua mente, gradual e mecanicamente, retornou à lembrança de Clifford, foi com uma intensidade menos forte e menos fatal para a sua saúde e felicidade do que antes. Ela considerava antinatural e criminoso permitir que qualquer outra coisa a afligisse, enquanto tinha um pesar tão sagrado como o da sua perda; e a sua mente, uma vez despertada para a resistência à paixão, revelou uma força inata que pouco se esperaria do seu caráter aparente. Sir William Brandon não perdeu tempo em retornar à cidade após o enterro do seu irmão. Insistiu em levar a sobrinha consigo; e, embora com real relutância, ela cedeu aos seus desejos e acompanhou-o. Pelo testamento do escudeiro, de fato, Sir William foi nomeado tutor de Lucy, e faltava-lhe ainda mais de um ano para a maioridade. Brandon, com uma delicadeza muito pouco comum nele quando mulheres (pois era um misógino convicto) estavam envolvidas, providenciou tudo o que pensou que pudesse, de alguma forma, contribuir para o seu conforto. Ordenou que se entendesse no seu estabelecimento que ela era a sua senhora. Organizou e mobiliou, de acordo com o que imaginava ser o gosto dela, uma suíte de aposentos para o seu uso exclusivo; uma carruagem e criados separados foram destinados ao seu serviço; e procurou, através de presentes perpétuos de livros, flores ou música, ocupar os seus pensamentos e compensar a solidão à qual os seus deveres profissionais o obrigavam a condená-la tão constantemente. Estas atenções, que mostravam este homem estranho sob uma nova luz, pareciam realçar muitas amabilidades latentes que estavam habitualmente incrustadas nas calosidades da sua natureza rochosa; e, mesmo apesar das suas causas para o pesar e da profunda melancolia que a consumia, Lucy sentiu-se tocada pela gratidão perante uma bondade duplamente reconfortante num homem que, embora urbano e polido, não era de modo algum dado às pequenas atenções que são consideradas tão gratificantes pelas mulheres, e pelas quais elas, no entanto, frequentemente desprezam — embora gostem — aquele que as oferece. Havia muito em Brandon que se enroscava insensivelmente em torno do coração. Para alguém mais experiente do que Lucy, esta atração involuntária poderia não ter sido incompatível com a suspeita, e dificilmente teria sido associada à estima; e, contudo, para todos os que o conheciam intimamente, até mesmo para o penetrante e egoísta Mauleverer, a atração existia. Sem princípios, astuto, hipócrita, até vil quando isso convinha ao seu propósito; zombando secretamente dos incautos que enganava e não conhecendo outro código senão o do interesse e da ambição; vendo os homens apenas como máquinas e as opiniões apenas como escadas — havia ainda um tom de sentimento poderoso por vezes extraído de um coração que poderia, no mesmo instante, ter sacrificado todo um povo ao mais mesquinho dos objetivos pessoais: e por vezes, com Lucy, a eloquência ou ironia da sua conversa aprofundava-se numa melancolia, numa gentileza de sentimento meio reprimida, que se harmonizava com o estado da sua própria mente e interessava poderosamente os seus sentimentos afáveis. Eram estas peculiaridades na sua conversa que faziam Lucy gostar de o ouvir; e ela aprendeu gradualmente a antecipar com um prazer sombrio a hora em que, após as ocupações do dia, ele se acostumava a juntar-se a ela.
“Pareces indisposto, tio, esta noite”, disse ela, quando certa noite ele entrou no quarto com um semblante mais fatigado do que o habitual; e, levantando-se, ela inclinou-se ternamente sobre ele e beijou-lhe a testa.
“Sim!” disse Brandon, totalmente não conquistado, e até mesmo alheio à carícia, “o nosso modo de vida passa rapidamente para a folha seca e amarelada; e quando Macbeth se lamentava por não poder esperar ter o que deveria acompanhar a velhice, ele tinha ficado caduco e lamentava-se pelo que não tinha valor.”
“Não, tio, ‘honra, amor, obediência, tropas de amigos’, não valeriam certamente a pena suspirar por eles?”
“Poça! Não valem um único suspiro! Os desejos tolos que formamos na juventude têm algo de nobre e algo de corpóreo neles; mas os da velhice são sombras totais, e as sombras de pigmeus! Ora, o que é a honra, afinal? O que é este bom nome entre os homens? Apenas uma espécie de ídolo pagão, erguido para ser adorado por um grupo de tolos e desprezado por outro. Não observas, Lucy, que o homem que ouves ser mais elogiado pelo partido que encontras hoje é o mais insultado por aquele que encontras amanhã? Os homens públicos são apenas elogiados pelo seu partido; e o seu partido, doce Lucy, são uns lacaios tão vis que nos move o baço pensar que somos tão pequenos a ponto de sermos úteis para eles. Assim, um bom nome é apenas o bom nome de uma seita, e os membros dessa seita são apenas patifes maravilhosamente adequados.”
“Mas a posteridade faz justiça àqueles que realmente merecem a fama.”
“Posteridade! Podes acreditar que um homem que sabe o que é a vida se importa com os apitos de latão das crianças crescidas depois da sua morte? Posteridade, Lucy — não! A posteridade não é senão a mesma perpetuidade de tolos e patifes; e mesmo que a justiça fosse desejável por parte deles, eles não a poderiam aplicar. Concordam os homens se Charles Stuart foi um mentiroso ou um mártir? Por quantas eras acreditamos que Nero foi um monstro! Um escritor agora pergunta, como se estivesse a demonstrar um problema, que historiador real poderia duvidar que Nero foi um modelo de perfeição? Os patriarcas das Escrituras foram declarados pela filosofia moderna como sendo uma série de hieróglifos astronômicos; e, com maior aparência de verdade, asseguram-nos que o patriota Tell nunca existiu! Posteridade! A palavra enganou homens suficientes sem que eu acrescente ao número. Eu, que detesto os vivos, dificilmente posso venerar os que ainda não nasceram. Lucy, acredita em mim: nenhum homem pode misturar-se largamente com os homens na vida política e não desprezar tudo o que adorou na juventude! A idade deixa-nos apenas um sentimento — o desprezo!”
“Estás a ser caluniado, então?” disse Lucy, apontando para um jornal, o órgão do partido oposto a Brandon: “estás a ser caluniado quando aqui és chamado de ‘ambicioso’? Quando te chamam de ‘egoísta’ e ‘ganancioso’, sei que te fazem uma injustiça; mas confesso que pensei que fosses ambicioso; contudo, pode aquele que despreza os homens desejar a sua boa opinião?”
“A sua boa opinião!” repetiu Brandon, zombeteiramente: “queremos nós o zurro dos asnos que montamos? Não!” retomou ele, após uma pausa. “É o poder, não a honra; é a esperança de elevar-se a si mesmo em todos os aspectos, no mundo exterior assim como no mundo da própria mente: é esta esperança que me faz trabalhar onde eu poderia descansar, e continuará o trabalho até ao meu túmulo. Lucy”, continuou Brandon, fixando os seus olhos penetrantes na sobrinha, “tens tu alguma ambição — o poder e a pompa e o lugar não têm encanto para a tua mente?”
“Nenhum!” disse Lucy, calma e simplesmente.
“De fato! Contudo, há momentos em que pensei reconhecer o meu sangue nas tuas veias. Tu descendes de uma linhagem outrora nobre, mas caída. És alguma vez suscetível à fraqueza do orgulho ancestral?”
“Tu dizes”, respondeu Lucy, “que não deveríamos nos importar com aqueles que vivem depois de nós; muito menos, imagino, deveríamos nos importar com aqueles que viveram eras antes!”
“Respondeste bem”, disse Brandon, sorrindo. “Dir-te-ei, mais tarde ou mais cedo, que efeito essa fraqueza que já desprezas teve uma vez, muito depois da tua idade, sobre mim. És precocemente sábia em alguns pontos; aproveita a minha experiência e sê-o em todos.”
“Isto é, em desprezar todos os homens e todas as coisas!” disse Lucy, também sorrindo.
“Bem, não te importes com o meu credo — podes ser sábia segundo o teu próprio; mas confia em alguém, minha querida Lucy, que te ama pura e desinteressadamente, e que pesou com balanças equilibradas até ao milímetro todas as vantagens a colher de uma terra na qual, na verdade, penso que a colheita foi feita antes de termos sido nela colocados — confia em mim, Lucy, e nunca penses que o amor, esse sonho de donzela, é tão valioso como a categoria e o poder: reflete bem antes de cederes ao primeiro; aceita os últimos no momento em que te forem oferecidos. O amor coloca-te aos pés de outro, e esse outro é um tirano; a categoria coloca os outros aos teus pés, e todos os que assim são subjugados são teus escravos!”
Lucy moveu a sua cadeira de modo a que a nova posição ocultasse o seu rosto, e não respondeu; e Brandon, num tom alterado, continuou —
“Pensarias, Lucy, que eu fui outrora tolo o suficiente para imaginar que o amor era uma bênção, e algo a ser avidamente procurado? Abandonei as minhas esperanças, as minhas chances de riqueza, de distinção — tudo o que tinha queimado desde os anos da infância até ao meu próprio coração. Escolhi a pobreza, a obscuridade, a humilhação; mas escolhi também o amor. Qual foi a minha recompensa? Lucy Brandon, fui enganado — enganado!”
Brandon fez uma pausa; e Lucy tomou-lhe a mão afetuosamente, mas não quebrou o silêncio. Brandon retomou: —
“Sim, fui enganado! Mas eu, por minha vez, tive uma vingança, e uma vingança adequada; pois não foi a vingança do ódio, mas” (e o orador riu-se sardonicamente) “do desprezo. Chega disto, Lucy! O que eu desejava dizer-te é isto — homens e mulheres crescidos sabem mais da verdade das coisas do que vós, jovens, pensais. O amor é um mero brinquedo, e nenhum ser humano trocou por ele uma única vantagem sólida sem arrependimento. Acredita nisto; e se a categoria alguma vez se colocar sob esses pés bonitos, certifica-te de não rejeitar o escabelo.”
Dizendo isto, com uma pequena risada, Brandon acendeu a sua vela de quarto e deixou a sala para passar a noite.
Assim que o advogado chegou ao seu próprio aposento, redigiu para Lord Mauleverer a seguinte epístola:
“Por que, caro Mauleverer, não vens à cidade? Preciso de ti, o teu partido precisa de ti; talvez o R--i precise de ti; e certamente, se falas a sério sobre a minha sobrinha, o cuidado do teu próprio pedido de casamento deveria induzir-te a querer vir para cá. Preparei o caminho para ti; e penso que, com um pouco de habilidade, poderás antecipar um sucesso rápido. Mas Lucy é uma rapariga estranha; e, talvez, afinal, embora devesses estar no local, seja melhor deixá-la o máximo possível nas minhas mãos. Conheço a natureza humana, Mauleverer, e esse conhecimento é o motor pelo qual trabalharei o teu triunfo. Quanto ao jovem amante, não tenho a certeza de que não seja melhor para o nosso bem que Lucy tenha experimentado uma desilusão nesse aspecto; pois, quando uma mulher amou uma vez, e o amor é totalmente sem esperança, ela afasta todas as ideias vagas de outros amantes da sua cabeça; ela torna-se satisfeita com um marido a quem pode estimar! Doce 'canter'! Mas tu, Mauleverer, queres que Lucy te ame! E assim ela fará — depois de te teres casado com ela! Ela amar-te-á em parte pelas vantagens que deriva de ti, em parte pela familiaridade (para não falar das tuas boas qualidades). Pela minha parte, penso que a domesticidade vai tão longe que acredito que uma mulher está sempre inclinada a ser afetuosa para com um homem que ela viu uma vez de barrete de dormir. No entanto, deverias vir à cidade; a morte recente do meu pobre irmão permite-nos não ver ninguém — a costa estará livre de rivais; o pesar suavizou o coração da minha sobrinha; numa palavra, não poderias ter uma oportunidade melhor. Vem!
“A propósito, dizes que uma das razões que te fez pensar mal deste Capitão Clifford foi a tua impressão de que, na figura de um dos seus camaradas, reconheceste algo que te pareceu assemelhar-se a um dos tipos que te roubaram há alguns meses. Entendo que, neste momento, a polícia está em perseguição ativa de três assaltantes muito habilidosos; nem ficaria nada surpreendido se neste mesmo Clifford se encontrasse o líder do bando, nomeadamente, o notório Lovett. Ouço dizer que o tal líder é um tipo inteligente e bonito, de modos cavalheirescos, e que os seus associados gerais são dois homens exatamente do tipo dos sujeitos que descreveste de forma tão divertida para mim. Ouvi isto ontem de Nabbem, o oficial de polícia com quem travei conhecimento uma vez num julgamento; e, no meu rancor contra o teu rival, insinuei a minha suspeita de que ele, o Capitão Clifford, pudesse não ser impossivelmente este Rinaldo Rinaldini das estradas. Nabbem agarrou a minha dica de imediato; de modo que, se estiver baseada num palpite verdadeiro, posso lisonjear a minha consciência, assim como a minha amizade, com a esperança de que tive alguma mão no enforcamento deste Adônis da minha sobrinha. Seja o meu palpite verdadeiro ou não, Nabbem diz que tem a certeza deste Lovett; pois um dos seus bandidos prometeu traí-lo. Malditos sejam estes cães ambiciosos! Pensei que a traição estivesse confinada à política; e esse pensamento faz-me voltar aos assuntos públicos, nos quais todas as pessoas se estão a transformar com a celeridade mais edificante....”
A epístola de Sir William Brandon encontrou Mauleverer num estado de espírito adequado para Lucy e para Londres. O nosso digno par não tinha ficado pouco desgostoso com a súbita partida de Lucy de Bath; e enquanto estava em dúvida sobre se deveria ou não segui-la, os jornais informaram-no da morte do escudeiro. Mauleverer, estando então plenamente consciente da impossibilidade de insistir imediatamente no seu pedido, esforçou-se, como o verdadeiro filósofo que era, por reconciliar-se com a sua esperança adiada. Poucas pessoas eram mais facilmente suscetíveis de consolação do que Lord Mauleverer. Ele encontrou uma dama agradável, de um rosto menos desbotado do que a sua reputação, a quem confiou o cuidado de aliviar os seus momentos de lazer do tédio; e, sendo uma mulher animada, a confidente cumpriu a tarefa com grande satisfação para Lord Mauleverer, pelo espaço de uma quinzena, de modo que ele começou naturalmente a sentir o seu amor por Lucy a desaparecer gradualmente, pela ausência e por outros laços; mas exatamente quando o triunfo do tempo sobre a paixão se tornava decisivo, a dama deixou Bath na companhia de um guarda alto, e Mauleverer recebeu a carta de Brandon. Estes dois eventos lembraram o nosso excelente amante do seu dever de lealdade; e, não havendo agora em Bath qualquer atração particular para contrabalançar o ardor da sua afeição, Lord Mauleverer ordenou os cavalos para a sua carruagem e, acompanhado apenas pelo seu criado, partiu para Londres.
Nada, talvez, poderia transmitir um retrato melhor do favorito mimado do mundo do que uma visão dos traços finos e exigentes de Lord Mauleverer, espreitando através da janela fechada da sua luxuosa carruagem de viagem; o resto do homem exterior cuidadosamente envolvido em peles, meia dúzia de romances espalhados pelo assento da carruagem, e um cão francês magro, excessivamente parecido com o seu dono, farejando em vão pelo ar fresco, que, para a imaginação de Mauleverer, estava povoado por todo o tipo de asmas e catarros! Mauleverer saiu da sua carruagem em Salisbury, para esticar os membros e para se divertir com uma costeleta. O nosso nobre era bem conhecido nas estradas; e, como ninguém poderia ser mais afável, ele era igualmente popular. O senhorio oficioso entrou apressadamente na sala, para servir ele mesmo o seu senhor e para contar todas as novidades do lugar.
“Bem, Sr. Cheerly”, disse Mauleverer, lançando um olhar penetrante sobre a sua costeleta, “os maus tempos, vejo, não arruinaram o seu cozinheiro.”
“De fato, meu senhor, vossa senhoria é muito bom, e os tempos, de fato, estão muito maus — muito maus, realmente. Há molho suficiente? Talvez vossa senhoria queira experimentar as cebolas em conserva?”
“O quê? Cebolas! — oh! ah! nada poderia ser melhor; mas eu nunca as toco. Então, as estradas estão boas?”
“Vossa senhoria, espero, encontrou-as boas até Salisbury?”
“Ah! Creio que sim. Oh! com certeza, excelente até Salisbury. Mas como estão elas para Londres? Tivemos tempo chuvoso ultimamente, penso eu!”
“Não, meu senhor. Aqui o tempo tem estado seco como um osso.”
“Ou uma costeleta!” murmurou Mauleverer; e o anfitrião continuou —
“Quanto às estradas em si, meu senhor, no que diz respeito às estradas, elas estão bastante boas, meu senhor; mas não posso dizer que não haja algo nelas que pudesse ser melhorado.”
“De modo nenhum improvável! Refere-se às estalagens e às portagens?” replicou Mauleverer.
“Vossa senhoria gosta de ser espirituoso; não! Refiro-me a algo pior do que elas.”
“O quê! Os cozinheiros?”
“Não, meu senhor, os salteadores!”
“Os salteadores! De fato?” disse Mauleverer, ansiosamente; pois ele trazia consigo um estojo de diamantes, que naquela época eram, em grandes ocasiões, muitas vezes os ornamentos do traje de um cavalheiro, sob a forma de botões, fivelas, etc. Ele tinha também uma quantia razoavelmente grande de dinheiro vivo consigo — uma bênção que ele começara recentemente a achar muito rara. “A propósito, os patifes roubaram-me antes nesta mesma estrada. As minhas pistolas estarão carregadas desta vez. Sr. Cheerly, seria melhor pedir os cavalos; é melhor escapar antes do cair da noite.”
“Certamente, meu senhor, certamente. — Jem, os cavalos imediatamente! — Vossa senhoria quer outra costeleta?”
“Nem um bocado!”
“Uma tarte?”
“Um dia... não, pelo mundo!”
“Traga o queijo, John!”
“Muito obrigado, Sr. Cheerly, mas eu já jantei; e se não fiz justiça à sua boa comida, culpe-se a si mesmo e aos salteadores. Onde é que estes salteadores atacam?”
“Ora, meu senhor, a vizinhança de Reading é, creio eu, a pior parte; mas eles são muito incómodos por todo o caminho até Salthill.”
“Diabos! A mesma vizinhança em que os patifes me roubaram antes! Pode bem chamá-los de incómodos! Por que diabo a polícia não limpa o campo de tal espécie móvel de incómodo?”
“De fato, meu senhor, não sei; mas dizem que o Capitão Lovett, o famoso ladrão, é um do grupo; e ninguém o consegue apanhar, temo!”
“Porque, suponho, o cão tem o sentido de subornar além de intimidar. Qual é o número geral destes rufiões?”
“Ora, meu senhor, às vezes um, às vezes dois, mas raramente mais do que três.”
Mauleverer empertigou-se. “Meus queridos diamantes e minha linda bolsa!” pensou ele; “posso salvar-vos ainda!”
“Tem sido há muito tempo atormentado por estes tipos?” perguntou ele, após uma pausa, enquanto pagava a conta.
— Ora, meu senhor, nós temos e não temos. Imagino que eles tenham uma espécie de assombração perto de Reading, pois, por vezes, são intoleráveis precisamente por ali, e noutras, ficam sossegados durante meses a fio! Por exemplo, meu senhor, pensávamos que tinham ido todos embora há algum tempo; mas, ultimamente, têm parado regularmente toda a gente, embora eu ouça dizer que ainda não fizeram grande pilhagem.
Nisto, o criado anunciou os cavalos, e Mauleverer reentrou lentamente na sua carruagem, entre as vénias e sorrisos dos espíritos encantados da estalagem.
Durante a luz do dia, Mauleverer, que era naturalmente de temperamento galante e destemido, não pensou mais nos salteadores — um tipo de perigo tão comum naquela época que os homens quase consideravam desonroso permitir que o receio dele fosse motivo de atraso na estrada. Os viajantes raramente achavam melhor perder tempo para poupar dinheiro; e levavam consigo um coração valente e um par de pistolas, em vez de dormirem toda a noite na estrada. Mauleverer, um *preux chevalier* à sua maneira, era precisamente deste tipo de viandante; e uma noite numa estalagem, quando era possível evitá-la, era para ele, como para a maioria dos ingleses ricos, uma tortura entediante que devia ser zelosamente evitada. Nunca, portanto, passou pela cabeça do nosso excelente nobre, apesar da sua experiência, que os seus diamantes e a sua bolsa poderiam ser salvos de todo o perigo se ele consentisse em depositá-los, juntamente com a sua própria pessoa, num lugar de hospitalidade; nem, na verdade, foi senão quando estava a uma etapa de Reading, e o crepúsculo já tinha caído por completo, que ele se preocupou muito com o assunto. Mas, enquanto os cavalos eram atrelados, chamou os postilhões; e, após observar os seus semblantes com o olhar de um homem habituado a ler fisionomias, dirigiu-lhes a palavra com eloquência:
— Cavalheiros, fui informado de que existe algum perigo de ser roubado entre esta cidade e Salthill. Ora, rogo-vos que saibam que considero quase impossível que quatro cavalos, devidamente conduzidos, sejam parados por menos de quatro homens. A esse número, provavelmente, cederei; a um número inferior, dar-lhes-ei, certamente, apenas balas. Compreendem-me?
Os postilhões sorriram, tocaram nos chapéus; e Mauleverer continuou lentamente:
— Se, portanto — notem bem! — um, dois ou três homens pararem os vossos cavalos, e eu verificar que o uso dos vossos chicotes e esporas é ineficaz para libertar os animais do domínio dos salteadores, pretendo, com estas pistolas — observam-nas? — disparar contra os senhores que vos detêm; mas, como, embora eu seja geralmente um atirador certeiro, a minha visão vacila um pouco no escuro, creio ser muito possível que tenha o infortúnio de disparar contra vós, senhores, em vez de contra os salteadores! Veem, os patifes estarão muito próximos de vós, o suficiente para vos colocar em perigo, a menos, é claro, que os derrubem com o cabo dos vossos chicotes. Menciono isto apenas para que estejam preparados. Caso tal equívoco ocorra, não precisam de ficar inquietos de antemão, pois cuidarei de todas as formas possíveis das vossas viúvas; caso não ocorra, e cheguemos a Salthill em segurança, tenciono testemunhar o meu apreço pela excelência da vossa condução com uma gratificação de dez guinéus a cada um! Cavalheiros, terminei convosco. Dou-vos a minha palavra de honra de que falo a sério. Façam-me o favor de montar.
Mauleverer chamou então o seu criado favorito, que se sentava no banco da frente (*rumble-tumbles* não eram ainda utilizados). — Smoothson — disse ele —, da última vez que fomos atacados nesta mesma estrada, portaste-te de forma maldita. Vê se fazes melhor desta vez, ou poderá ser pior para ti. Tens pistolas contigo esta noite, eh? Bem, isso está certo! E tens a certeza de que estão carregadas? Muito bem! Agora, pois, se formos parados, não percas um momento. Salta para baixo e dispara uma das tuas pistolas ao primeiro salteador. Guarda a outra para um tiro certeiro. Um tiro é para intimidar, o segundo para matar. Compreendes? As minhas pistolas estão em excelente estado, suponho. Empresta-me a vareta. Assim, assim! Sem truques desta vez!
— Matariam uma mosca, meu senhor, desde que a vossa senhoria disparasse diretamente sobre ela.
— Não duvido — disse Mauleverer; — acende as lanternas e diz aos postilhões para seguirem viagem.
Era uma noite geada e toleravelmente clara. O crepúsculo do anoitecer tinha-se dissipado sob a lua que acabara de nascer, e a geada branca brilhava nos arbustos e no relvado, fragmentando-se em mil diamantes ao captar os raios das estrelas. Os cavalos seguiam vivamente, o seu hálito a vaporizar no ar fresco, e os cascos a ressoar alegremente no solo duro. O movimento rápido da carruagem, a frescura revigorante da noite e a excitação provocada pela ansiedade e pela antecipação do perigo, tudo conspirava para agitar o sangue lânguido de Lord Mauleverer numa sensação vigorosa e animada, natural na juventude ao seu carácter, mas totalmente contrária à natureza que tinha absorvido dos costumes da sua idade adulta.
Ele apalpou as suas pistolas, e as suas mãos tremeram um pouco ao fazê-lo — não minimamente por medo, mas por aquela inquietação e avidez peculiares às pessoas nervosas colocadas numa situação nova.
— Neste país — disse ele para consigo —, fui roubado apenas uma vez no decurso da minha vida. Foi, então, um pouco culpa minha; pois, antes de pegar nas minhas pistolas, deveria ter a certeza de que estavam carregadas. Esta noite, certamente evitarei um erro semelhante; e as minhas pistolas têm uma eloquência nos seus canos que é extremamente comovente. Hum, outro marco de milha! Estes tipos conduzem bem; mas estamos a entrar num local de aspeto sugestivo para os *Messieurs* discípulos de Robin Hood!
Era, de facto, um local pitoresco pelo qual a carruagem agora girava rapidamente. A poucos quilómetros de Maidenhead, na estrada de Henley, os nossos leitores lembrar-se-ão provavelmente de uma pequena extensão de terra semelhante a uma floresta, situada de ambos os lados da estrada. À esquerda, o terreno verde estende-se entre as árvores e arbustos; e quem conheça a região pode passar daquele ponto, através de uma paisagem tão pouco habitada como outrora era o verde de Sherwood, para as cadeias de baldios selvagens e bosques profundos de faias que delimitam uma certa porção de Oxfordshire, e contrastam tão belamente com as características gerais daquele condado.
Na época de que falamos, o campo era ainda muito mais selvagem do que é agora; e precisamente no ponto onde as estradas de Henley e de Reading se unem, havia um local (que comunicava então com o baldio que descrevemos), do qual, talvez, poucos lugares pudessem ser mais adaptados aos propósitos de tais homens verdadeiros que recorrem à lei primária da natureza. Certo era que, nesta parte da estrada, Mauleverer olhava mais ansiosamente pela sua janela do que tinha feito até então, e, aparentemente, o crescente empenho da sua vigilância não foi de todo sem recompensa.
A cerca de cem jardas à esquerda, três objetos escuros eram apenas discerníveis na sombra; um momento depois, e os objetos, emergindo, cresceram para as formas de três homens, bem montados, e a cavalgar a um trote vivo.
— Apenas três! — pensou Mauleverer; — isso é bom; — e, debruçando-se da janela da frente com uma pistola em cada mão, Mauleverer gritou aos postilhões num tom severo: — Sigam em frente e lembrem-se do que vos disse! — Lembrem-se! — acrescentou ele para o seu criado. Os postilhões mal olharam para trás; mas as suas esporas foram enterradas nos cavalos, e os animais voaram como um relâmpago.
Os três estranhos fizeram uma paragem, como se estivessem em conferência; a sua decisão foi pronta. Dois viraram-se do seu camarada e dispararam a galope completo pela carruagem. A pistola de Mauleverer já estava projetada da janela frontal quando, para seu espanto, e para a total frustração da sua engenhosa admoestação aos condutores, ele viu os dois postilhões derrubados dos seus cavalos um após o outro, com uma rapidez que mal lhe permitiu uma exclamação; e antes que ele tivesse recuperado a sua compostura, os cavalos, assustando-se (e o seu susto sendo habilmente aproveitado pelos salteadores), a carruagem foi prontamente lançada para uma vala no lado direito da estrada e capotou. Entretanto, Smoothson tinha saltado do seu posto na frente; e, tendo disparado, embora sem efeito, sobre o terceiro salteador, que se aproximava ameaçadoramente dele, ganhou tempo para abrir a porta da carruagem e extrair o seu amo.
No momento em que Mauleverer se viu em *terra firma*, preparou a sua coragem para medidas ofensivas; e ele e Smoothson, de pé, lado a lado, em frente ao infeliz veículo, não apresentavam um aspeto nada temível ao inimigo. Os dois salteadores que se tinham livrado tão decisivamente dos postilhões agiram com não menos determinação para com os cavalos. Um deles desmontou, cortou as rédeas e deixou que os quadrúpedes em pânico fossem para onde quisessem. Esta medida não foi, contudo, permitida com impunidade; uma bala da pistola de Mauleverer passou através do chapéu do salteador com uma mira tão ligeiramente errada que silvou entre os caracóis do estupefacto herói, com um som que enviou um terror ao seu coração, não menos pelo amor à sua cabeça do que pela ansiedade pelo seu cabelo. O choque cambaleou-o por um momento; e um segundo tiro das mãos de Mauleverer teria provavelmente terminado a sua carreira terrena, se o terceiro salteador, que até então tinha permanecido quase inativo, não se tivesse atirado do seu cavalo, que, treinado para tal docilidade, permaneceu perfeitamente imóvel, e, avançando com um passo audaz e uma pistola apontada contra Mauleverer e o seu criado, disse com uma voz resoluta: — Cavalheiros, é inútil lutar; estamos bem armados e determinados a cumprir o nosso propósito. As vossas pessoas estarão a salvo se depuserem as armas, e também tal parte da vossa propriedade que possam desejar particularmente conservar; mas se resistirem, não posso responder pelas vossas vidas!
Mauleverer tinha ouvido pacientemente este discurso para que pudesse ter mais tempo para ajustar a sua mira. A sua resposta foi uma bala, que roçou o lado do orador e rasgou a pele, sem infligir qualquer ferida mais perigosa. Murmurando uma maldição sobre o erro da sua pontaria, e resoluto até ao fim quando o seu sangue já estava quente, Mauleverer recuou um passo, desembainhou a espada e lançou-se na atitude de um campeão bem versado no uso do instrumento que usava.
Mas aquela personagem incomparável estava num bom caminho para verificar que felicidade no mundo vindouro está reservada para um homem que não poupou esforços para se tornar confortável neste. Pois os dois primeiros e mais ativos salteadores, tendo terminado a conquista dos cavalos, aproximaram-se agora de Mauleverer; e o mais alto deles, ainda indignado com o recente perigo para o seu cabelo, gritou com uma voz estentórica:
— Por Júpiter! seu velho tolo, se não atirares para o chão esse teu garfo de torrar, dar-te-ei cabo da vida!
O orador acompanhou a ação com as palavras, engatilhando uma pistola imensa. Mauleverer manteve a sua posição; mas Smoothson recuou e, tropeçando na roda da carruagem, caiu para trás; no instante seguinte, o segundo salteador tinha-se apoderado das pistolas do criado e, sentado calmamente sobre o estômago do homem caído, divertia-se a inspecionar o conteúdo dos bolsos do doméstico. Mauleverer estava agora sozinho; e a sua obstinação enfureceu tanto o rufião alto que a sua mão já estava no gatilho, quando o terceiro salteador, cujo lado a bala de Mauleverer tinha roçado, se meteu entre os dois.
— Espera, Ned! — disse ele, empurrando a pistola do seu camarada. — E vós, meu senhor, cuja imprudência devia custar-vos a vida, aprendei que os homens podem roubar generosamente. — Dito isto, com um golpe destemido do chicote de montar do salteador, a espada de Mauleverer voou para cima e aterrou à distância de dez jardas do seu dono.
— Aproxima-te agora — disse o vencedor aos seus camaradas. — Saqueiem a carruagem, e com toda a rapidez!
O salteador alto apressou-se a executar esta ordem; e o menor, tendo terminado satisfatoriamente a inquisição aos bolsos do Sr. Smoothson, retirou da sua própria bolsa uma corda toleravelmente espessa; com ela, atou as mãos do criado prostrado, moralizando enquanto enrolava a corda à volta dos pulsos do homem caído, no seguinte tom edificante:
— Fique quieto, senhor... fique quieto, imploro-lhe! Todos os homens sábios são fatalistas; e nenhum provérbio é mais profundo do que aquele que diz: "O que não tem remédio, remediado está". Fique quieto, digo-lhe! Pouco, talvez, pense que está a desempenhar uma das mais nobres funções da humanidade; sim, senhor, está a encher os bolsos dos indigentes; e, pela minha presente ação, estou a protegê-lo de qualquer fraqueza da carne que possa impedir um fim tão louvável, e arriscar a excelência da sua ação. Pronto, senhor, as suas mãos estão apertadas... fique quieto e reflita.
Ao dizer isto, com três suaves aplicações dos seus pés, o moralista empurrou o Sr. Smoothson para dentro da vala e apressou-se a juntar-se ao seu camarada alto na sua agradável ocupação.
Entretanto, Mauleverer e o terceiro salteador (que, no verdadeiro espírito de governo, permanecia digno e inativo enquanto os seus seguidores pilhavam o que ele certamente tencionava partilhar, se não monopolizar) estavam a poucos metros um do outro, face a face.
Mauleverer tinha agora convencido a si mesmo de que todo o esforço para salvar a sua propriedade era inútil, e tinha também o consolo de pensar que tinha feito o seu melhor para a defender. Por isso, fez com que todos os seus pensamentos regressassem ao cuidado da sua pessoa. Ajustou o seu colarinho de pele à volta do pescoço com grande *sang-froid*, calçou as suas luvas e, acariciando o seu caniche aterrorizado, que estava a tremer sobre as ancas com uma pata levantada e a tremer nervosamente, disse:
— O senhor parece ser uma pessoa civilizada, e eu sentir-me-ia realmente muito triste se tivesse tido o infortúnio de o ferir. Não está ferido, espero. Por favor, se me é permitido perguntar, como devo proceder? A minha carruagem está na vala e os meus cavalos, a esta altura, estão provavelmente no fim do mundo.
— Quanto a esse assunto — disse o salteador, cujo rosto, como os dos seus camaradas, estava estreitamente mascarado ao estilo aprovado dos salteadores daquela época —, creio que terá de caminhar até Maidenhead... não é longe, e a noite está boa!
— Um contratempo muito trivial, de facto! — disse Mauleverer, ironicamente; mas o seu novo conhecido não fez resposta, nem parecia de todo desejoso de entrar em qualquer conversa posterior com Mauleverer.
O conde, portanto, após observar as operações dos outros salteadores por alguns momentos, girou sobre os calcanhares e permaneceu a cantarolar uma melodia de ópera com digna indiferença até que a dupla terminasse de revistar a carruagem e, agarrando Mauleverer, procedesse a revistá-lo.
Com um lábio enrolado e uma sobrancelha levantada, aquela personagem suprema permitiu-se ser, como o salteador mais alto expressou, "limpa". O seu relógio, os seus anéis, a sua bolsa e a sua tabaqueira, tudo foi. Há muito que os patifes não capturavam tal espólio.
Mal tinham terminado, quando os postilhões, que tinham agora começado a olhar em redor, soltaram um grito simultâneo e, a alguma distância, viu-se uma carroça a aproximar-se pesadamente. Mauleverer queria realmente o seu dinheiro, para não falar dos seus diamantes; e assim que percebeu que havia ajuda à mão, uma nova esperança saltou dentro dele. A sua espada ainda jazia no chão; ele saltou em direção a ela, agarrou-a, soltou um grito de socorro e lançou-se ferozmente sobre o salteador que o tinha desarmado; mas o salteador, defendendo-se da lâmina com o seu chicote, recuou para a sua sela, que conseguiu, apesar das estocadas de Mauleverer, recuperar com impunidade.
Os outros dois já tinham montado e, um minuto depois, nenhum vestígio do trio era visível. — Isto é o que se pode justamente chamar de felicidade solitária! — disse Mauleverer, enquanto, largando a sua espada inútil, metia as mãos nos bolsos.
Deixando o nosso par sem par a encontrar o seu caminho para Maidenhead a pé, acompanhado (para não falar do caniche) por um carreteiro, dois postilhões e o libertado Sr. Smoothson, todos os quatro a encantá-lo com as suas condolências, seguimos com a nossa história os passos dos três *alieni appetentes*.
CAPÍTULO XXVI.
Os patifes estavam muito alegres com o seu espólio. Disseram mil coisas que mostravam a maldade da sua moral. — Gil Blas.
Fixaram-se num local onde fizeram uma caverna, que era grande o suficiente para os receber a eles e aos seus cavalos. Esta caverna estava encerrada dentro de uma espécie de moita de arbustos e silvas. Desta estação costumavam sair, etc. — Memórias de Richard Turpin.
Não foi senão vários minutos depois de a sua fuga ter começado que qualquer conversa passou entre os salteadores. Os seus cavalos voaram como o vento; e o campo através do qual cavalgavam não apresentava à sua velocidade outro obstáculo que não uma sebe ocasional, ou um atalho através das espessuras de algum bosque de faias sem folhas. As estrelas emprestaram-lhes uma luz alegre, e os espíritos de dois deles, pelo menos, estavam em total simpatia com a exultação do ritmo e do ar. Talvez, no terceiro, um certo pressentimento de que a presente aventura terminaria menos alegremente do que tinha começado, conspirou, com outras causas de melancolia, para verificar aquela exaltação do sangue que geralmente se segue a um feito bem-sucedido.
O caminho que os salteadores tomaram serpenteava pelos lados de longos bosques ou através de grandes extensões de terra não cultivada; nem encontraram nada vivo pela estrada, salvo de vez em quando uma coruja solitária, fazendo girar o seu corpo cinzento em torno das orlas dos bosques nus, ou ocasionalmente tropas de coelhos, prosseguindo os seus desportos e desfrutando do seu alimento da meia-noite nos campos.
— Céus! — gritou o salteador alto, cujo incógnito já não precisamos de preservar, e que, como os nossos leitores sem dúvida sabem, atendia pelo nome de Pepper — céus! — gritou ele, olhando para os céus estrelados numa espécie de êxtase, — que vida alegre esta! Alguns tipos gostam de caçar; diabo! que caça é como a estrada? Se há desporto em caçar uma raposa desagradável, quanto mais há em caçar uma carruagem de um nobre limpo e simpático! Se há alegria em obter uma cauda, quanto mais há em obter uma bolsa! Se é agradável voar sobre uma sebe em plena luz do dia, que me enforquem se não for dez vezes melhor desporto passar por ela à noite — aqui vou eu! Vejam como as sebes fogem de nós! e a tola da lua velha dança em redor, como se a nossa visão pusesse a boa senhora de bom humor! Essas velhas solteironas estão sempre contentes por ter um olho sobre rapazes tão finos e impetuosos.
— Sim — gritou o mais erudito e sentencioso Augustus Tomlinson, despertado pelo sucesso da sua habitual sobriedade filosófica; — nenhum trabalho é tão agradável como o trabalho noturno, e as bruxas que os nossos antepassados queimaram tinham razão em cavalgar nas suas vassouras com as corujas e as estrelas. Somos os seus sucessores agora, Ned. Somos os vossos verdadeiros *fly-by-nights*!
— Apenas — disse Ned —, somos muito mais espertos do que eles; pois eles jogavam o seu jogo sem serem um pouco mais ricos por isso, e nós... digo, Tomlinson, onde raio puseste aquela caixa de marroquim vermelho?
— A experiência nunca esclarece os tolos — disse Tomlinson —, ou terias sabido, sem perguntar, que a tinha posto no bolso mais seguro do meu casaco. *Gad*, como é pesada!
— Bem — gritou Pepper —, não posso dizer que desejasse que fosse mais leve! Só de pensar em roubarmos o meu senhor duas vezes, e na mesma estrada também!
— Digo, Lovett — exclamou Tomlinson —, não foi estranho termos tropeçado no nosso amigo de Bath tão sem cerimónias? Sorte a nossa sermos tão rigorosos em roubar com máscaras! Ele não teria uma melhor opinião da companhia de Bath se tivesse visto os nossos rostos.
Lovett, ou melhor, Clifford, tinha estado até então em silêncio. Voltou-se agora lentamente na sela e disse: — Tal como foi, o pobre diabo foi quase despachado. O Long Ned estava a fazer um trabalho curto com ele, se eu não tivesse intervindo!
— E porque o fizeste? — disse Ned.
— Porque não quero mortes; é a maldição da nobre arte da nossa profissão ter professores apaixonados como tu.
“Apaixonado!” repetiu Ned. “Bem, sou um pouco colérico, confesso-o; mas isso não é um defeito tão grande na estrada como seria num arrombamento. Não conheço coisa que exija tanta frieza e domínio próprio como limpar uma casa de cima a baixo — calma e educadamente, nota bem!”
“É essa a razão, suponho, então”, disse Augustus, “pela qual renunciaste totalmente a essa carreira. A tua primeira aventura foi um arrombamento, creio ter-te ouvido dizer. Confesso que foi uma estreia vulgar — não digna de ti!”
“Não! Harry Cook seduziu-me; mas o espécime que vi naquela noite deu-me nojo de abrir fechaduras; põe-nos em contacto com companheiros tão vis. Pensa só, havia um mercador, um mercador de trapos, no grupo!”
“Faugh!” disse Tomlinson, com um nojo solene.
“Sim, podes muito bem torcer o lábio; nunca mais arrombei uma casa.”
“Quem eram os teus outros companheiros?” perguntou Augustus. “Apenas Harry Cook — [Um salteador de estrada notório] — e uma mulher muito singular...”
Aqui a narrativa de Ned foi interrompida por um desfiladeiro escuro através de um bosque, que só permitia a passagem de um cavaleiro de cada vez. Continuaram este caminho lúgubre durante vários minutos, até que, por fim, os levou à beira de um grande vale, coberto de arbustos e espalhando-se um pouco sob a forma de um semicírculo rude. Aqui os ladrões desmontaram e conduziram os seus cavalos fumegantes pela descida. Long Ned, que ia à frente, parou junto a um aglomerado de arbustos que parecia tão espesso que desafiava a intrusão, mas que, cedendo de ambos os lados à mão experiente do ladrão, apresentava o que parecia a boca de uma caverna. Alguns passos ao longo da passagem deste abismo levaram-nos a uma porta que, mesmo vista à luz da tocha, teria parecido tão exatamente semelhante em cor e material às paredes rudes de ambos os lados que teria enganado qualquer olhar desprevenido e que, na escuridão habitual que sobre ela pairava, poderia ter permanecido durante séculos sem ser descoberta. Ao tocar num trinco secreto, a porta abriu-se e os ladrões estavam nas dependências seguras da “Red Cave”. Poder-se-á recordar que, entre os primeiros estudos do nosso herói exemplar, as memórias de Richard Turpin tinham constituído uma parte conspícua; e poderá também recordar-se que, nas aventuras diversas desse cavalheiro, nada tinha encantado mais a imaginação juvenil do estudante do que a descrição da caverna na floresta em que o galante Turpin se costumava esconder, a si próprio, ao seu amigo, ao seu cavalo,
“E àquela doce santa que jazia ao lado de Turpin;”
ou, para falar de forma mais doméstica, a respeitável Sra. Turpin. Tão forte era o domínio que aquela reminiscência inicial exercia sobre a mente do nosso herói, que não tardou a elevar-se a uma posição de destaque entre os seus amigos e a pôr em prática o projeto da sua infância. Tinha selecionado um local admirável para o cenário da sua engenhosidade. Num país pouco povoado, rodeado por terras comunais e bosques, e ainda assim, como diria o Sr. Robins se tivesse de o vender em leilão, “a uma curta distância” de estradas populosas e bem frequentadas, possuía todas as vantagens do segredo para si próprio e da conveniência para a depredação. Muito poucos do bando, e apenas aqueles que tinham sido empregues na sua construção, foram informados do segredo desta caverna; e, como os nossos aventureiros raramente a visitavam, e apenas em ocasiões de necessidade urgente ou de ocultação segura, tinha permanecido durante mais de dois anos sem ser descoberta e sem levantar suspeitas.
A caverna, originalmente escavada pela natureza, devia pouco às decorações da arte; não obstante, a rugosidade das paredes estava dissimulada por um rude mas confortável tapete de esteiras; quatro ou cinco assentos, como os próprios ladrões podiam construir, estavam dispostos à volta de um pequeno mas brilhante fogo de lenha, que, como não havia chaminé, espalhava um fino volume de fumo sobre o compartimento. A altura da caverna, somada ao reconciliador universal (o costume), impedia, contudo, que este mal fosse seriamente desagradável; e, de facto, tal como os inquilinos de uma cabana irlandesa, talvez os ocupantes atribuíssem um certo grau de conforto a uma circunstância que estava ligada às suas mais queridas associações domésticas. Uma mesa, formada por uma tábua grosseiramente aplainada e apoiada por quatro pernas de tamanho irregular, niveladas pela introdução de blocos ou cunhas entre as pernas e o chão, estava ali a aquecer-se junto ao fogo. Num canto, uma carroça coberta constituía uma peça de mobiliário conspícua, sem dúvida útil tanto para transportar pilhagens como provisões; ao lado das rodas estavam descuidadamente atiradas duas ou três ferramentas grosseiras de carpinteiro e as utilidades mais belicosas de uma espingarda, uma carabina e duas espadas largas. No outro canto havia um armário aberto, contendo filas de pratos de estanho, canecas, etc. Em frente à lareira, que ficava à esquerda da entrada, uma escavação tinha sido transformada num dormitório; e, em frente à entrada, havia um par de degraus de madeira largos e fortes, que subiam para um grande espaço oco a cerca de dois metros e meio do chão. Esta era a entrada para as cavalariças; e, assim que os seus donos soltavam as rédeas dos cavalos, os dóceis animais seguiam um a um, calmamente, degraus acima, à maneira dos quadrúpedes educados no seminário público de Astley's, e desapareciam dentro da abertura.
Estes degraus, quando levantados — o que, contudo, devido à sua extrema falta de jeito, exigia a força combinada de dois homens comuns e não era o trabalho instantâneo que deveria ter sido —, tornavam o local acima um reduto toleravelmente forte; pois a parede era perfeitamente perpendicular e nivelada, e só colocando as mãos na saliência, e assim elevando-se gymnasticamente, é que um agressor ativo poderia ter chegado à eminência — um trabalho que os defensores, igualmente ativos, é fácil de supor que não estariam dispostos a permitir.
Esta caverna superior — pois os nossos ladrões prestavam mais atenção aos seus cavalos do que a si próprios, como os animais mais nobres das duas espécies — estava evidentemente equipada com algum esforço. As baias estavam rudemente divididas, a cama de fetos secos estava limpa, os comedouros estavam cheios de aveia e uma grande tina tinha sido abastecida a partir de um lago a uma curta distância. Um arreio de carroça e alguns casacos velhos de carroceiros estavam fixados em cavilhas na parede; enquanto, na extremidade destas singulares cavalariças, havia uma porta fortemente trancada, apenas grande o suficiente para admitir o corpo de um homem. Os confederados tinham feito uma lei expressa de nunca entrar no seu domínio por esta porta, ou de a usar, exceto com o propósito de fuga, caso a caverna fosse alguma vez atacada; caso em que, enquanto um ou dois defendiam a entrada a partir da caverna interior, outro poderia destrancar a porta, e como ela se abria para a parte mais espessa do bosque, através da qual, com grande engenho, um caminho labiríntico tinha sido aberto, não facilmente seguido por perseguidores ignorantes, estas precauções dos salteadores de estrada tinham proporcionado uma esperança razoável de pelo menos uma fuga temporária de quaisquer inimigos invasores.
Tais eram os arranjos domésticos da Red Cave; e admitir-se-á que pelo menos alguma habilidade tinha sido demonstrada na escolha do local, ainda que houvesse falta de gosto nos seus adornos.
Enquanto os cavalos realizavam a sua subida noturna, os nossos três heróis, após trancarem a porta, dirigiram-se imediatamente para o fogo. E ali, ó leitor! foram recebidos por alguém — um conhecido antigo e reverenciado teu — a quem, em tal cenário, te causará igual espanto e dor voltar a ver.
Sabe, então... Mas primeiro descrever-te-emos a ocupação e o traje da personagem Augusta a quem aludimos. Curvado sobre uma grande grelha, delicadamente coberta com bifes de carne da parte traseira, o INDIVÍDUO estava de pé, com o braço direito descoberto acima do cotovelo e a mão direita a agarrar aquele tridente mimético conhecido pelos gastrónomos pelo monossílabo “garfo”. A sua cabeça sem peruca estava adornada com uma touca de dormir de algodão. A sua vestimenta superior tinha sido descartada e um avental esbranquiçado fluía graciosamente pelo seu corpo. As suas meias estavam sem ligas, permitindo, entre o joelho e a barriga da perna, vislumbres interessantes da carne rude. Um sapato de tecido e outro de fabrico de couro calçavam os seus pés amplos. O espírito de empresa, ou o brilho nobre da sua atual profissão culinária, espalhava um rubor ainda mais rosado sobre um rosto precocemente tingido por libações generosas, e, debaixo da cortina das suas pestanas pálidas, os seus olhos grandes e redondos brilhavam intensamente sobre os recém-chegados. Tal, ó leitor! era o aspeto e a ocupação do homem venerável a quem há muito ensinámos a admirar; tal, ai da mutabilidade da terra! era... Um novo capítulo só pode conter o nome.
CAPÍTULO XXVII.
Caliban. Não caíste do céu? Tempest.
PETER MacGRAWLER!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
CAPÍTULO XXVIII.
Deus abençoe o nosso Rei e Parlamento, E faça com que tais velhacos se arrependam! Canções Leais contra o Parlamento Rump.
Ah, traição! meus guardas, a minha cimitarra! BYRON.
Quando o irreverente Sr. Pepper aqueceu as mãos o suficiente para as poder transferir do fogo, levantou a palma da mão direita e, com uma jocosidade de espírito indecente, abordou o antigo ornamento do “The Asinaeum” com uma palmada sonora nas costas, ou em qualquer outra parte da sua compleição.
“Ah, velho!” disse ele, “é desta maneira que guardas a casa para nós? Um fogo que não é suficientemente grande para assar uma lêndea, e um jantar demasiado pequeno para a engordar antes! Mas como raio haverias tu de saber como providenciar para cavalheiros? Aposto que pensavas que estavas na Escócia!”
“Talvez pensasse quando olhou para ti, Ned!” disse Tomlinson, gravemente; “é raro, fora da Escócia, um homem ver um patife tão grande num espaço tão pequeno!”
O Sr. MacGrawler, nos cujos olhos a quiromancia de Long Ned tinha trazido lágrimas de sentimento sincero, e que até então estivera a esfregar a parte afetada, resmungou agora:
“Podem dizer o que quiserem, Sr. Pepper, mas não é frequentemente no meu país que se veem homens de génio a desempenhar o papel de cozinheiro para ladrões!”
“Não!” disse Tomlinson, “estão a desempenhar o papel mais lucrativo de ladrões para cozinheiros, hã!”
“Raio, estás enganado”, gritou Long Ned, “pois nesse país ou não há ladrões, porque não há nada para roubar; ou os habitantes são todos ladrões, que pilharam uns aos outros e levaram o espólio!”
“Que o diabo te apanhe!” disse MacGrawler, picado no íntimo — pois, como todos os escoceses, era um patriota; muito pelo mesmo princípio que uma mulher que tem os piores filhos faz a melhor mãe.
“O diabo”, disse Ned, imitando o “som prateado”, como o Sir W. Scott se agradara jocosamente de chamar à “língua da montanha” (os escoceses em geral parecem pensar que é prata, de tão cuidadosamente que a guardam), “o diabo... MacDiabo, queres dizer, certamente, o cavalheiro deve ter sido um escocês!”
O sábio sorriu com despeito; mas, lembrando-se da paciência de Epicteto quando era escravo, e atento também ao braço forte de Long Ned, conteve o seu temperamento e virou os bifes com o garfo.
“Bem, Ned”, disse Augustus, atirando-se para uma cadeira que puxou para o fogo, enquanto dava palmadinhas suaves nos membros enormes do Sr. Pepper, como se o advertisse de que não eram tão transparentes como vidro, “vejamos o fogo; e, a propósito, é a tua vez de tratar dos cavalos.”
“Praga nisto!” gritou Ned; “é sempre a minha vez, parece-me. Olá, ó escocês do tacho! não podes provar que fui eu que tratei dos animais da última vez? Dou-te uma coroa para o fazeres.”
O sábio MacGrawler ergueu as orelhas.
“Uma coroa!” disse ele, “uma coroa! Pretende insultar-me, Sr. Pepper? Mas, certamente, o senhor tratou dos cavalos da última vez; e este digno cavalheiro, o Sr. Tomlinson, deve lembrar-se disso também.”
“Como!” gritou Augustus; “estás enganado, e dou-te meia guiné para o provares.”
MacGrawler abriu os olhos cada vez mais, tal como se pode ver um pequeno círculo na água alargar-se até à enormidade, se perturbarmos a equanimidade da superfície pela intrusão de uma substância estranha.
“Meia guiné!” disse ele; “não, não, está a brincar. Não sou mercenário. Pensa que sou! Puf, puf! está enganado; sou um homem que quer o bem, um homem de veracidade, e direi a verdade apesar de todas as meias guinéus do mundo. Mas, certamente, agora que começo a pensar nisso, o Sr. Tomlinson tratou dos animais da última vez; e, Sr. Pepper, é a sua vez.”
“Um verdadeiro Daniel!” disse Tomlinson, rindo-se da sua maneira seca habitual. “Ned, não ouves os cavalos a relinchar?”
“Oh, que se lixem os cavalos!” disse o volátil Pepper, esquecendo-se de tudo o resto, enquanto metia as mãos nos bolsos e sentia os ganhos da noite; “vejamos primeiro os nossos lucros!”
Dito isto, marchou em direção à mesa e esvaziou os bolsos sobre ela. Tomlinson, nada relutante, seguiu o exemplo. Céus! que exclamações de deleite saíram dos lábios dos canalhas, enquanto, um a um, inspecionavam as suas novas aquisições!
“Aqui está uma criatura magnífica!” gritou Ned, manuseando aquele relógio soberbo incrustado de joias que o pobre conde tinha, uma vez antes, inutilmente resgatado — “um repetidor, por Júpiter!”
“Espero que não”, disse o fleumático Augustus; “repetidores não servirão bem para a tua conversa, Ned! Mas, pelos poderes que existem! olha para este anel — um diamante da primeira água!”
“Oh, a pedra brilhante! faz crescer água na boca tanto quanto ela própria. Raio, aqui está uma caixa preciosa para rapé — um retrato por dentro e rubis por fora! O velho tinha um gosto excelente; ficaria encantado se visse o quanto estamos satisfeitos com a sua escolha de joalharia!”
“Falando em joalharia”, disse Tomlinson, “quase me esquecia da caixa de marroquim. Entre nós, imagino que temos um prémio ali; parece uma caixa de joias!”
Dito isto, o ladrão abriu aquela caixa que, em muitos dias de gala, tinha dado brilho à pessoa polida de Mauleverer. Oh, leitor, a explosão de arrebatamento que se seguiu! Imagina-a! Não a podemos expressar. Como o pintor grego, deixamos cair um véu sobre emoções profundas demais para palavras.
“Mas aqui”, disse Pepper, quando tinham quase esgotado os seus transportes à vista dos diamantes — “aqui está uma bolsa, cinquenta guinéus! E o que é isto? Notas, por Júpiter! Temos de as trocar amanhã antes que sejam canceladas. Malditos sejam aqueles tipos do Banco! estão sempre a imitar-nos, nós paramos-lhes o dinheiro e eles não perdem um momento a pará-lo também. Trezentas libras! Capitão, que dizes da nossa sorte?” Clifford estivera sentado, observando sombriamente as operações dos ladrões; agora, assumindo uma jovialidade de maneiras correspondente, deu uma resposta adequada e, após alguma conversa geral, procedeu-se à divisão.
“Somos os melhores aritméticos do mundo”, disse Augustus, enquanto guardava a sua parte; “adição, subtração, divisão, redução — temos tudo tão pronto como 'O Assistente do Tutor'; e, o que é melhor, fazemos com que tudo seja aplicável à Regra de Três.”
“Esqueceste-te da multiplicação!” disse Clifford, sorrindo. “Ah! porque essa funciona de forma diferente. As outras regras aplicam-se às espécies do reino; mas quanto à multiplicação, temo que não multipliquemos nenhuma espécie além da nossa própria!”
“Ora, cavalheiros!” disse MacGrawler, austeramente — pois há um decoro maravilhoso nos vossos verdadeiros escoceses. “As ações são ninharias; nada pode ser mais limpo do que as suas palavras!”
“Oh, tu metes a tua sabedoria, é?” disse Ned. “Suponho que queres a tua parte do espólio!”
“Parte!” disse o subtil Tomlinson. “Ele tem nove vezes mais partes do que nós já temos. Não é ele um crítico, e não tem ele as partes do discurso na ponta dos dedos?”
“Disparate!” disse MacGrawler, instintivamente levantando as mãos, com o garfo a cair entre os dedos esticados da palma da mão direita.
“Disparate tu”, gritou Ned; “tens uma parte naquilo que nunca tiraste! Um tipo bonito, deveras! Trata dos teus negócios, Sr. Escocês, e não garfes nada a não ser os bifes!”
Com isto, Ned virou-se para as cavalariças e desapareceu rapidamente entre os cavalos; mas Clifford, olhando para o rosto desapontado e ansioso do sábio culinário, tirou dez guinéus da sua própria parte e empurrou-os para o seu antigo tutor.
“Toma!” disse ele, enfaticamente.
“Não, não”, resmungou MacGrawler; “não quero o dinheiro — é do meu feitio desprezar tal escória!” Dito isto, guardou as moedas e virou-se, resmungando para si mesmo, para a renovação dos seus preparativos festivos.
Entretanto, uma conversa sussurrada teve lugar entre Augustus e o capitão, e continuou até Ned regressar.
“E as iguarias da noite fumegavam ao longo da mesa!”
Almas de Don Raphael e Ambrose Lamela, que coisa encantadora é ser um patife por um pouco de tempo! Como os homens são alegres quando enganam os seus irmãos! Os vossos ingénuos mariquinhas nunca fizeram um jantar tão alegre como fizeram os nossos heróis da estrada. Clifford, talvez, representasse um papel, mas a hilaridade dos seus camaradas era sincera. Era um contraste delicioso — o estrondoso “ha, ha!” de Long Ned e a risada secreta, seca e calculista de Augustus Tomlinson. Era Rabelais contra Voltaire. Uniam-se apenas nos objetos das suas piadas, e o primeiro desses objetos (a sabedoria é sempre o alvo dos frívolos!) era o grande Peter MacGrawler.
Os cães sem graça eram especialmente alegres sobre o tema da antiga ocupação do sábio.
“Vamos, Mac, corta tu este presunto”, disse Ned; “tens prática em cortar.”
O homem erudito cujo nome foi assim desrespeitosamente abreviado procedeu a cumprir o que lhe foi ordenado. Estava prestes a sentar-se para esse propósito, quando Tomlinson subtraiu sorrateiramente a sua cadeira — o sábio caiu.
“Nada de piadas com o MacGrawler”, disse o malicioso Augustus; “quaisquer que sejam as suas faltas como crítico, vês que ele tem uma base sólida, e chega imediatamente ao fundo de um assunto. Mac, supõe que o teu próximo trabalho é intitulado Um Conto de Desgraça!”
Homens que têm grandes mentes são raramente flexíveis — não aceitam uma piada facilmente; assim era com MacGrawler. Levantou-se numa fúria violenta; e se os ladrões tivessem sido mais perspicazes do que se dignaram a ser, poderiam ter notado algo perigoso no seu olhar. Como estava, Clifford, que muitas vezes antes fora o protetor do seu tutor, interveio em seu favor, puxou um assento para o sábio para perto de si e encheu-lhe o prato. Era interessante ver esta deferência do Poder para com a Aprendizagem! Era Alexandre a prestar homenagem a Aristóteles!
“Só há uma coisa de que me arrependo”, gritou Ned, de boca cheia, “sobre o velho lorde — foi uma pena mil vezes que não o tenhamos feito dançar! Lembro-me do dia, Capitão, em que terias insistido nisso. Que tipo alegre tu eras outrora! Recordas-te, numa noite clara de luar, exatamente como a presente, por exemplo, quando estávamos de serviço perto de Staines, como juraste que toda a pessoa que parássemos, com mais de cinquenta anos, dançaria um minueto contigo?”
“Sim!” acrescentou Augustus, “e a primeira foi um bispo de peruca branca. Fé, como o seu senhorio dançou rigidamente! E como Lovett se curvou gravemente para ele, com o chapéu na mão, quando tudo acabou, e lhe devolveu o relógio e dez guinéus — valeu a pena o sacrifício!”
“E a seguinte foi uma velha solteirona de qualidade”, disse Ned, “tão magra como um advogado. Não te lembras de como ela galopava?”
“Certamente”, disse Tomlinson; “e chamaste-lhe muito espirituosamente uma vara de lúpulo!”
“Como ela ficou encantada com a suavidade do capitão! Quando ele lhe devolveu os brincos e o aigrette, ela pediu-lhe, com um suspiro terno, que os guardasse por ela — ha! ha!”
“E o terceiro foi um janota!” gritou Augustus; “e Lovett cedeu-me o seu direito de parceria. Lembras-te de como eu fiz dançar a sua janotice para dentro da vala? Ah! éramos tipos loucos então; mas ficamos saciados — blasés, como dizem os franceses — à medida que envelhecemos!”
“Olhamos apenas para o lucro principal agora”, disse Ned. “A avareza supera a empresa”, acrescentou o sentencioso Augustus.
“E o nosso capitão dedica-se ao vinho com um h após o w!” continuou o metafórico Ned.
“Vamos, estamos melancólicos”, disse Tomlinson, virando um copo cheio. “Parece-me que estamos realmente a ficar velhos, arrepender-nos-emos em breve, e o próximo passo será — o enforcamento!”
“Por Deus!” disse Ned, servindo-se, “não sejas tão agourento. Há duas classes de gente difamada, que deveriam ter sempre o cuidado de evitar certas cores no vestir; detesto ver um verdadeiro rapaz de preto, ou um diabo de azul. Mas aqui está o meu último copo esta noite! Estou terrivelmente sonolento e amanhã levantamo-nos cedo.”
“Certo, Ned”, disse Tomlinson; “dá-nos uma canção antes de te retirares, e que seja aquela que o Lovett compôs da última vez que estivemos aqui.”
Ned, sempre satisfeito com uma oportunidade de se exibir, limpou a garganta e obedeceu.
UMA CANTIGA DE SHERWOOD.
I. Riam conosco do príncipe e do palácio, Na vida da floresta selvagem há melhor alegria; Querem guardar seu riso da malícia do vizinho, Recolham-no aqui em nossos celeiros. Alguns reis arrancam a riqueza de seus súditos, Enquanto ante seus inimigos tornam-se mais pobres; Livres caminham os homens do sábio rei da floresta, E apenas nossos inimigos taxamos. Deixem as trapaças do comércio à astuta boa-esposa, Deixem que os velhos sejam patifes à vontade; Fora com a maré dessa vida impetuosa Que é agitada por uma brisa constante!
II. Riam conosco ao ouvir os enganadores E velhacos solenes dizerem que tipo de patifes somos; O comércio e a lei têm um método de roubar Pior do que uma emboscada na árvore do fora da lei. Digam, a donzela que amamos desprezará Galantes ao menos verdadeiros uns com os outros? Admito que pisamos nos laços legais, Mas ouvi dizer que o Amor também os despreza. Coragem, então — coragem, seus rapazes alegres, A quem o tolo taxa com patifarias! Oh! quem é amado pelo mundo desfruta Metade do que o homem a quem ele odeia?
“Bravíssimo, Ned!”, gritou Tomlinson, batendo na mesa; “bravíssimo! Tua voz está soberba esta noite, e tua canção admirável. Realmente, Lovett, isso faz grande crédito ao teu gênio poético; bastante filosófico, sobre minha honra.”
“Bravíssimo!”, disse MacGrawler, balançando a cabeça solenemente. “A voz do Sr. Pepper é tão doce quanto uma gaita de foles! Ah! tal canção teria sido inestimável para 'O Asinaeum', quando tive a honra de...”
“Ser o Vigário de Bray para aquele estabelecimento”, interrompeu Tomlinson. “Diga-me, MacGrawler, por que chamam Edimburgo de Atenas Moderna?”
“Por causa dos homens sábios e grandes que ela produz”, respondeu MacGrawler, com orgulho consciente.
“Pooh! Pooh! — estás pensando na Atenas antiga. Tua cidade é chamada de Atenas moderna porque sois todos tão parecidos com os atenienses modernos — os maiores patifes imagináveis, a menos que os viajantes os caluniem.”
“Ora”, interrompeu Ned, que estava amolecido pelos aplausos do crítico, “Mac é um bom sujeito, poupa-o. Cavalheiros, à vossa saúde. Vou para a cama, e suponho que não tardareis muito depois de mim.”
“Conta conosco para isso”, respondeu Tomlinson; “o capitão e eu consultaremos sobre os negócios de amanhã, e nos juntaremos a ti no abrir e fechar de olhos, como foi astutamente expresso.”
Ned bocejou seu último “boa-noite” e desapareceu dentro do dormitório. MacGrawler, bocejando também, mas com um bocejo mais grave, como convinha à sua sabedoria, entregou-se ao dever de remover a parafernália da ceia: após mover-se atarefado e sóbrio por alguns minutos, ele abaixou uma cama dobrável no canto da caverna (pois ele não dormia no aposento dos ladrões) e, desvestindo-se, logo apareceu enterrado no seio de Morfeu. Mas o chefe e Tomlinson, aproximando seus assentos das brasas agonizantes, desafiaram o deus preguiçoso e entraram em um colóquio próximo e ansioso com tons baixos.
“Então”, disse Augustus, “agora que realizaste fundos suficientes para teu propósito, tu realmente nos desertarás? Pesaste bem os prós e contras? Lembra-te de que nada é tão perigoso para o nosso estado quanto a reforma; no momento em que um homem se torna honesto, o bando o abandona; o magistrado perde sua taxa; o informante denuncia; e o relutante vai para a forca.”
“Pesei bem tudo isso”, respondeu Clifford, “e decidi meu rumo. Apenas tardei até que meus meios pudessem assistir à minha vontade. Com minha parte do nosso espólio atual e recente, partirei para o Continente. A Prússia dá confiança fácil e promoção pronta a todos que se alistarem em seu serviço. Mas essa linguagem, meu caro amigo, parece estranha vinda de teus lábios. Certamente tu te juntarás a mim em minha separação do corpo? O quê! Tu balanças a cabeça! Não és o mesmo Tomlinson que em Bath concordou comigo que estávamos em perigo devido à inveja de nossos camaradas, e que a retirada se tornara necessária para a nossa segurança? Ora, não foi este o teu principal argumento para a nossa expedição matrimonial?”
“Ora, olha aqui, caro Lovett”, disse Augustus, “somos todos blocos de matéria, formados dos átomos do costume; em outras palavras, somos um mecanismo, do qual o hábito é a mola. O que eu poderia fazer em uma carreira honesta? Sou muitos anos mais velho que tu. Vivi como um patife até não ter outra natureza senão a patifaria. Duvido se não seria um covarde se me tornasse soldado. Tenho certeza de que seria o mais consumado dos canalhas se fingisse ser honesto. Não: enganei-me quando falei de separação. Devo, pois, seguir com meus velhos camaradas, e nos meus velhos modos; até seguir para o laço de cânhamo ou — melancólica alternativa! — o laço matrimonial.”
“Isso é mera loucura”, disse Clifford, de cuja mente nervosa e masculina os hábitos eram facilmente sacudidos. “Não descartamos por tantos anos todas as leis servis dos outros para sermos os escravos abjetos de nossas próprias fraquezas. Vamos, meu caro sujeito, anima-te. O céu sabe, se eu sucumbisse à debilidade do meu próprio coração, estaria perdido de fato. E talvez, por mais que eu lute valentemente, não consiga lutar contra aquilo que se agarra dentro de mim, e que me matará, embora aos poucos. Mas não sejamos covardes, e deixemos que o destino nos afogue em vez de nadar. Em uma palavra, voa comigo antes que seja tarde demais. Um navio de contrabandistas me espera na costa de Dorset: em três dias a partir de hoje eu zarpo. Sê meu companheiro. Ambos podemos domar um cavalo fogoso e manejar uma boa espada. Enquanto os homens fizerem guerra uns contra os outros, essas habilidades impedirão que seu dono morra de fome, ou...”
“Se empregado no campo, não na estrada”, interrompeu Tomlinson, com um sorriso, “de ser enforcado. Mas não pode ser! Desejo-te toda a alegria, todo o sucesso em tua carreira. És jovem, ousado e capaz; e sempre tiveste um espírito mais elevado que o meu. Patife sou, e patife devo ser até o fim do capítulo!”
“Como quiseres”, disse Clifford, que não era homem de muitas palavras, mas falou com relutância: “se é assim, devo buscar minha sorte sozinho.”
“Quando nos deixas?”, perguntou Tomlinson.
“Amanhã, antes do meio-dia. Visitarei Londres por algumas horas, e então partirei imediatamente para a costa.”
“Londres!”, exclamou Tomlinson; “o quê, o próprio covil do perigo? Pooh! não sabes o que dizes: ou pensas que é filial acariciar a Mãe Lobkins antes de partir?”
“Não é isso”, respondeu Clifford. “Já verifiquei que ela está acima do alcance de qualquer necessidade; e seus dias, pobre alma!, não podem, temo, ser muitos. Com toda a probabilidade, ela dificilmente me reconheceria; pois seus hábitos não devem ter melhorado muito sua memória. Quem dera eu pudesse dizer o mesmo de seus vizinhos! Se eu fosse visto nos arredores da pequena gatunagem, sabes, tão bem quanto eu, que algum ladrão de lenços se tornaria informante contra o notório Capitão Lovett.”
“O que, então, te leva à cidade? Ah! tu desvias o rosto. Eu adivinho! Bem, o Amor arruinou muitos heróis antes; que não sejas tu o pior por causa de sua divindade!”
Clifford não respondeu, e a conversa fez uma pausa súbita e longa; Tomlinson a quebrou.
“Sabes, Lovett”, disse ele, “embora eu tenha tão pouco coração quanto a maioria dos homens, sinto por ti mais do que poderia ter pensado ser possível. Eu gostaria de juntar-me a ti; há um tabaco diabolicamente bom na Alemanha, creio eu; e, afinal, não há tanta diferença entre a vida de um ladrão e a de um soldado.”
“Aproveita uma observação tão sensata”, disse Clifford. “Reflete! quão certo de destruição é o caminho que agora trilhas; a forca e os navios-prisão são os únicos objetivos!”
“As perspectivas não são agradáveis, admito”, disse Tomlinson; “nem é desejável ser preservado por outro século na imortalidade de uma caixa de vidro no Surgeons' Hall, sorrindo de orelha a orelha, como se alguém tivesse feito o mais alegre final imaginável. Bem! vou dormir sobre isso, e tu terás minha resposta amanhã; mas o pobre Ned?”
“Ele não se juntaria a nós?”
“Certamente não; seu pescoço é feito para uma corda, e sua mente para o Old Bailey. Não há esperança para ele; ainda assim, é um excelente sujeito. Não devemos nem contar-lhe sobre nossa meditada deserção.”
“De modo algum. Deixarei uma carta para nosso chefe em Londres; ela explicará tudo. E agora para a cama. Considero tua companhia como certa.”
“Humph!”, disse Augustus Tomlinson.
Assim terminou a conferência dos ladrões. Cerca de uma hora depois de ter cessado, e quando nenhum som, exceto a respiração pesada de Long Ned, quebrava a quietude da noite, a expressão inteligente de Peter MacGrawler elevou-se lentamente do travesseiro solitário no qual havia repousado.
Gradualmente, as costas do sábio enrijeceram-se na perpendicularidade, e ele sentou-se por alguns momentos ereto em seu assento de honra, aparentemente em deliberação atenta. Satisfeito com o profundo silêncio que, exceto pela interrupção solitária que especificamos, reinava ao redor, o erudito discípulo de Vatel levantou-se suavemente da cama, apressou-se a vestir-se, roubou na ponta dos pés até a porta, destrancou-a com uma mão silenciosa e desapareceu. Doce leitor! enquanto tu te maravilhas com sua ausência, suponhamos que expliquemos sua aparência.
Certa noite, Clifford e seu companheiro Augustus desfrutavam da diversão racional em Ranelagh, e estavam prestes a deixar aquele lugar célebre quando foram detidos por uma multidão na entrada. Essa multidão estava reunida em torno de um batedor de carteiras; e esse batedor de carteiras — ó virtude, ó sabedoria, ó Asinaeum! — era Peter MacGrawler! Dissemos antes que Clifford possuía um bom porte e uma maneira imponente, e essas vantagens foram naquela época especialmente eficazes em preservar nosso Orbilius da bomba d'água. Assim que Clifford reconheceu o rosto magistral do sapiente escocês, ele audaciosamente lançou-se no meio da multidão e, agarrando o cidadão empreendedor que havia agarrado MacGrawler, declarou-se pronto a garantir a honestidade daquela pessoa muito respeitável cuja identidade fora, evidentemente, tão grosseiramente confundida. Augustus, provavelmente prevendo algum estratagema engenhoso de seu companheiro, secundou instantaneamente a defesa. A turba, que nunca percebe qualquer diferença entre impudência e verdade, cedeu; um policial aproximou-se, tomou o partido do amigo de dois cavalheiros tão excepcionalmente vestidos; nossos amigos foram embora; a multidão arrependeu-se de sua precipitação e, a título de reparação, mergulhou o cavalheiro cujos bolsos haviam sido roubados. Foi em vão que ele tentou defender-se, pois tinha um impedimento na fala; e os senhores da turba, tendo-o mergulhado uma vez por sua culpa, mergulharam-no uma segunda vez por seu embaraço.
No ínterim, Clifford havia retirado seu antigo Mentor para o asilo de uma cafeteria; e enquanto a alma de MacGrawler se expandia com o vinho, ele narrou as causas de seu dilema. Parece que aquele incomparável jornal “O Asinaeum”, apesar de uma série de artigos muito populares sobre os escritos de “Aulus Prudentius”, aos quais foi adicionada uma série requintada de diálogos, escritos em um tom de humor amplo, a saber, escocês amplo (com os escoceses é tudo a mesma coisa), apesar dessas miscelâneas inestimáveis, para não mencionar alguns artigos políticos gloriosos, nos quais estava claramente provado, para satisfação dos ricos, que quanto menos os pobres diabos comessem, melhor para suas constituições — apesar, dizemos, dessas grandes aquisições à literatura britânica, “O Asinaeum” cambaleou, caiu, enterrou seu livreiro e esmagou seu autor. Apenas MacGrawler — escapando, como Teodoro do enorme elmo de Otranto — apenas MacGrawler sobreviveu. “O amor”, diz Sir Philip Sidney, “faz um homem ver melhor do que um par de óculos.” O amor à vida tem um efeito muito diferente na ótica — faz um homem lamentavelmente obscuro na inspeção, e às vezes faz com que veja sua própria propriedade na bolsa de outro homem! Essa deceptio visus enganou Peter MacGrawler? Ele foi a Ranelagh. Leitor, tu sabes o resto!
Tendo o vinho e a engenhosidade dos ladrões extraído essa narrativa de MacGrawler, as barreiras da delicadeza supérflua foram facilmente descartadas.
Nossos heróis ofereceram ao sábio uma introdução ao seu clube; a oferta foi aceita; e MacGrawler, tendo sido primeiro embebedado, foi em seguida tornado um ladrão. O bando envolveu-o em vários pequenos assuntos, nos quais lamentamos relatar que, embora suas intenções fossem excelentes, seu sucesso foi tão ruim que enfureceu completamente seus empregadores; de fato, eles estavam prestes, certa vez, quando queriam propiciar a justiça, a entregá-lo ao poder secular, quando Clifford interveio em seu favor. De ladrão, o sábio definhou a um criado; ofícios servis (os ladrões, os mentirosos patifes, declaravam que tais ofícios eram os mais adequados ao gênio de seu país!) sucederam aos nobres feitos, e o pior dos ladrões tornou-se o melhor dos cozinheiros. Quão vã é toda sabedoria, exceto a da longa experiência! Embora Clifford fosse um homem sensato e perspicaz, embora soubesse que nosso sábio era um patife, ele nunca sonhou que ele pudesse ser um traidor. Achava-o indolente demais para ser malicioso e — humanidade míope! — tolo demais para ser perigoso. Confidenciou ao sábio o segredo da caverna; e Augustus, que era um tanto epicurista, submeteu-se, embora com presságios, à escolha, devido à habilidade do escocês em grelhar.
Mas MacGrawler, como Brutus, escondia um coração intrigante sob uma aparência estólida. A apreensão do notável Lovett tornara-se um desejo sério; a polícia não podia mais ser subornada, de fato, eles estavam agora ansiosos para subornar. MacGrawler esperou seu momento, vendeu seu chefe e estava agora na estrada para Reading para encontrar e guiar até a caverna o Sr. Nabbem, de Bow Street, e quatro de seus atendentes.
Tendo, assim, tão rapidamente quanto pudemos, traçado as causas que trouxeram tão surpreendentemente à tua atenção o mais incomparável dos críticos, nós agora, leitor, retornamos aos nossos ladrões.
“Psiu, Lovett!”, disse Tomlinson, meio adormecido, “pareceu-me ouvir algo na caverna exterior.”
“É o escocês, suponho”, respondeu Clifford: “cuidaste, é claro, da porta?”
“Certamente!”, murmurou Tomlinson, e em dois minutos mais ele estava adormecido.
Não Clifford: muitos e ansiosos pensamentos mantinham-no acordado. Por um momento, quando ele antecipava a abertura de uma nova carreira, um pouco do espírito agitado e elevado que ainda se movia em meio aos hábitos culpados e confusos de sua mente tornava seu pulso febril e seus membros inquietos; em outro momento, uma lembrança agonizante — a lembrança de Lucy em todos os seus encantos, sua beleza, seu amor, seu coração terno e inocente — Lucy, toda perfeita e perdida para ele para sempre — bania toda outra reflexão, e deixava-lhe apenas a sensação doentia de desânimo e desespero. “De que serve minha luta por um nome melhor?”, ele pensava. “Qualquer que seja meu destino futuro, ela nunca poderá compartilhá-lo. Meu castigo está fixado — é pior do que uma morte de vergonha; é uma vida sem esperança! A cada momento sinto, e sentirei até o fim, a pressão de uma corrente que talvez nunca seja quebrada ou afrouxada! E ainda assim, tolo que sou! Não posso deixar este país sem vê-la novamente, sem dizer-lhe que realmente olhei pela última vez. Mas não lhe disse isso duas vezes? Estranha fatalidade! Mas duas vezes falei com ela sobre amor, e cada vez foi para arrancar-me dela no momento da minha confissão. E mesmo agora, algo que não tenho poder para resistir me obriga à mesma indulgência ociosa e fraca. O destino me impele? Sim, talvez para minha destruição! A cada hora mil mortes me cercam. Já obtive tudo pelo que parecia tardar. Ganhei, por um novo crime, o suficiente para me levar a outra terra e me proporcionar lá o destino de um soldado. Não deveria perder uma hora na fuga, contudo corro para o ninho de meus inimigos, apenas por uma palavra inútil com ela; e isso, também, depois de já ter-lhe dito adeus! É este o destino? Se for, o que importa? Já não me importo com uma vida que, afinal, eu reformaria em vão se não pudesse reformá-la por ela; contudo — contudo, egoísta e perdido que sou! será inútil pensar daqui em diante que a redimi da desgraça de ter amado um pária e um criminoso? Se eu puder obter honra, não irá, em meu próprio coração pelo menos — não irá refletir, por mais tênue e distante que seja, sobre ela?”
Tais eram, desnorteadas, insatisfatórias, mas ainda imersas nas cores daquele amor verdadeiro que eleva até o mais baixo, as meditações noturnas de Clifford; elas terminaram, perto da manhã, em um sono inquieto e intermitente. Disso ele foi despertado por um bocejo alto vindo da garganta de Long Ned, que era sempre o primeiro a levantar de seu grupo.
“Olá!”, disse ele, “está quase amanhecendo; e se quisermos trocar nossas notas e mover as joias do velho lorde, já deveríamos estar a caminho.”
“Uma praga em ti!”, disse Tomlinson, sob a cobertura de sua touca de lã; “foi apenas neste instante que eu sonhava que ias ser enforcado, e agora tu me acordas na parte mais agradável do sonho!”
“Que sejas baleado!”, disse Ned, tirando uma perna da cama; “a propósito, tu tomaste mais do que tua parte ontem à noite, pois me devias três guinéus do nosso último jogo de cribbage! Tu serás gentil o suficiente para me pagar antes de nos separarmos hoje: contas curtas fazem longos amigos!”
“Por mais verdadeira que essa máxima possa ser”, respondeu Tomlinson, “conheço uma muito mais verdadeira — a saber, longos amigos farão contas curtas! Deves perguntar a Jack Ketch neste dia mês se não estou errado!”
“Isso é o que tu chamas de sagacidade, suponho!”, retorquiu Ned, enquanto agora, lutando com suas calças, sentia o caminho para a caverna exterior.
“O que, ho, Mac!”, gritou ele, enquanto ia, “mexe essas bobinas tuas, que tu tens o prazer de chamar de pernas; acende uma luz, e que sejas maldito!”
“Uma luz para ti”, disse Tomlinson, profanamente, enquanto relutantemente deixava seu leito, “será de fato uma 'luz para iluminar os gentios'!”
“Por que, Mac, Mac!”, gritou Ned, “por que tu não respondes? fé, acho que o escocês morreu!”
“Apreendam seus homens! — Rendam-se, senhores!”, gritou uma voz severa e súbita vinda da escuridão; e naquele instante duas lanternas escuras foram viradas, e sua luz brilhou cheia sobre as formas estupefatas de Tomlinson e seu camarada esguio! Na sombra escura do fundo, quatro ou cinco formas também estavam indistintamente visíveis; e o raio das lanternas brilhava nas lâminas de cutelos e nos canos de armas ainda menos facilmente resistidas.
Tomlinson foi o primeiro a recuperar sua compostura. A luz apenas brilhou no primeiro degrau das escadas que levavam aos estábulos, deixando o resto na sombra. Ele deu um passo em direção ao lugar ao lado da carroça, onde, dissemos, jaziam algumas das armas dos ladrões; ele fora antecipado — as armas tinham sumido. No momento seguinte, Tomlinson saltou os degraus.
“Lovett! Lovett! Lovett!”, gritou ele.
O capitão, que seguira seus camaradas para a caverna, já estava nas garras de dois homens. De poucos mortais comuns, no entanto, poderiam ser selecionados quaisquer dois como probabilidades temíveis contra um homem como Clifford — um homem em quem uma parte muito maior de nervos e músculos do que é geralmente o lote até mesmo dos fortes fora endurecida, pelo exercício perpétuo, em uma consistência e firmeza de ferro que ligava poder e atividade em uma união pouco menos notável do que a imortalizada na beleza gloriosa do gladiador esculpido. Sua mão direita está sobre a garganta de um agressor; sua esquerda trava, como em um torno, o pulso do outro; mal tens tempo para respirar! O primeiro está no chão, a pistola do segundo é arrancada de seu aperto, Clifford está no degrau; uma bala — outra — zune por ele; ele está ao lado do fiel Augustus!
“Abre a porta secreta!”, sussurrou Clifford para seu amigo; “eu subirei os degraus sozinho.”
Mal ele tinha falado, antes que os degraus já estivessem, embora lentamente, ascendendo sob a força desesperada do ladrão. Enquanto isso, Ned lutava, como melhor podia, com dois oficiais robustos, que pareciam relutantes em usar suas armas sem uma necessidade absoluta, e que se esforçavam, por força bruta, para capturar e deter seu antagonista.
“Cuidem bem da porta!” gritou a voz do oficial principal, “e tragam mais luz!”
Duas ou três lanternas adicionais foram trazidas rapidamente; e, sobre todo o interior da caverna, uma luz fraca, porém suficiente, circulou agora velozmente, conferindo à cena e aos combatentes um aspecto pitoresco e selvagem.
O olhar atento do oficial-chefe discerniu num instante a ascensão dos degraus e a vantagem que os ladrões estavam, por meio deles, adquirindo. Ele e dois de seus homens lançaram-se para a frente, agarraram a escada, se é que assim pode ser chamada, arrastaram-na mais uma vez para o chão e subiram. Mas Clifford, agarrando com ambas as mãos o eixo quebrado de uma carroça que estava ao seu alcance, recebeu o primeiro invasor com uma saudação que o enviou prostrado e inconsciente de volta para o meio de seus companheiros. O segundo compartilhou o mesmo destino; e o robusto líder do inimigo, que, como um verdadeiro general, mantivera-se na retaguarda, hesitou agora no meio dos degraus, consternado tanto pela recepção de seus amigos quanto pela forma atlética que se erguia acima, com armas erguidas e atitude ameaçadora. Talvez aquele momento parecesse ao sensato Sr. Nabbem mais favorável ao parlamentar do que ao conflito. Ele pigarreou e dirigiu-se ao inimigo da seguinte forma:
“Você, senhor, Capitão Lovett, vulgo Howard, vulgo Jackson, vulgo Cavendish, vulgo Solomons, vulgo Diabo — pois eu o conheço bem e poderia jurar sobre você com meio olho, com ou sem suas roupas —, largue seu porrete aí e deixe-me chegar perto de você, e verá que sou tão gentil quanto um cordeiro; pois estou acostumado com cavalheiros durante toda a minha vida, e sei como tratá-los quando os tenho em mãos!”
“Mas se eu não o deixar ‘chegar perto de mim’, o que acontece?”
“Ora, terei que enviar uma destas aqui através do seu crânio, é só isso!”
“Ora, Sr. Nabbem, isso seria cruel demais! Certamente não feriria alguém que tem tanta estima por você? Não se lembra da maneira como o livrei do Juiz Burnflat, quando você foi acusado, você sabe se justamente ou...”
“Você é um mentiroso, Capitão!” gritou Nabbem, furiosamente, temeroso de que algo não apropriado para os ouvidos de seus companheiros transpirasse. “Você sabe que é! Desça, ou deixe-me subir; caso contrário, não serei responsável pelas consequências!”
Clifford lançou um olhar por cima do ombro. Um vislumbre da luz do dia cinzenta já brilhava através de uma fenda na porta secreta, que Tomlinson agora destrancara e estava prestes a abrir.
“Ouça-me, Sr. Nabbem”, disse ele, “e talvez eu conceda o que você exige! O que faria comigo se me tivesse?”
“Você fala como um homem sensato agora”, respondeu Nabbem; “e isso é do meu agrado. Ora, veja bem, Capitão, sua hora chegou, e você não pode mais enrolar. Você teve sua chance; seus anos acabaram, e você deve morrer como um homem! Mas dou-lhe minha honra de cavalheiro que, se você se render, levarei você aos juízes tão ternamente como se você fosse feito de algodão.”
“Dê um passo atrás por um momento”, disse Clifford, “para que eu possa fixar melhor os degraus para você.”
Nabbem recuou para o solo; e Clifford, que, com bastante boa vontade, não desejava danificar desnecessariamente um funcionário tão valioso, não perdeu a oportunidade que lhe foi oferecida. Os degraus desabaram, batendo pesadamente entre os outros oficiais e caindo como uma avalanche sobre o ombro de um dos que prendiam Long Ned.
Enquanto isso, Clifford saltou atrás de Tomlinson através da abertura e viu-se na presença de quatro oficiais, conduzidos pelo astuto MacGrawler. Um golpe de cassetete na bochecha direita e na têmpora de Augustus derrubou aquele herói. Mas Clifford saltou sobre o corpo de seu companheiro, esquivou-se do golpe visado contra si mesmo, apanhou o golpe desferido por outro agressor com a mão aberta, arrancou o cassetete do oficial, derrubou-o no chão com sua própria arma e, disparando através do labirinto da floresta, iniciou sua fuga com um passo rápido demais para permitir a esperança de uma perseguição bem-sucedida.
CAPÍTULO XXIX.
“Em suma, Isabella, ofereço-lhe a mim mesmo!” “Céus!” gritou Isabella, “o que ouço? Vós, meu senhor?” Castelo de Otranto.
Um romance é como um barômetro — onde o homem aparece de uma vez, a mulher de outra. Variáveis como a atmosfera, as mudanças de nossa história agora reapresentam Lucy ao leitor.
Aquela jovem encantadora — que, pode-se notar, é (excetuando-se seu pai) a única personagem ingênua e imaculada nas páginas de uma história de certa forma concebida para mostrar, nas depravações de caráter, as depravações daquele estado social em que os caracteres são formados — estava sentada sozinha em seu apartamento no período em que retornamos a ela. Como o tempo, e aquele fundo inato e insensível de cura que a Natureza colocou no seio dos jovens para que sua grande lei, o passar dos antigos, não deixe uma ferida tão duradoura e aguda, havia suavizado sua primeira angústia com a morte do pai, a lembrança de Clifford retomou seu antigo domínio em seu coração. A solidão de sua vida, a ausência de diversão, até mesmo a sensibilidade e o langor que sucedem ao pesar, conspiraram para investir a imagem de seu amante em um aspecto mais terno e impressionante. Ela recordava suas palavras, suas ações, suas cartas, e empregava horas inteiras, dias e noites inteiros, esforçando-se para decifrar seu mistério. Quem, tendo sido amado, não reconhecerá a força singular e poderosa com que uma garota, ela própria inocente, se apega à crença na inocência de seu amante? Em seios jovens e desconhecedores do mundo, há uma credulidade tão pura na existência do bem sem mesclas, uma relutância tão firme em pensar que onde amamos pode haver aquilo que não estimaríamos, ou onde admiramos pode haver aquilo que deveríamos censurar, que quase se pode considerar um argumento a favor de nosso poder natural de atingir uma eminência maior em virtude do que os hábitos e artes do mundo existente nos permitem alcançar. Talvez não seja paradoxal dizer que dificilmente poderíamos acreditar na perfeição nos outros, se não existisse o germe da perfectibilidade em nossas próprias mentes! Quando um homem vive alguns anos entre as lutas reais das facções sem absorver o preconceito, assim como a experiência, quão maravilhado ele sorri diante de sua adoração a ídolos anteriores, que cor diferente a história assume para ele, quão cauteloso ele é agora em elogiar, quão lento em admirar, quão propenso a criticar! A natureza humana tornou-se a natureza humana da arte; e ele a estima não pelo que pode ser, mas pelo que, nas corrupções de uma semicivilização, ela é! Mas, da mesma maneira que o jovem estudante se apega à crença de que o sábio ou o menestrel, que iluminou sua razão ou acorrentou sua imaginação, é, em caráter como em gênio, elevado acima da manada comum, livre das paixões, das frivolidades, das pequenas mesquinharias e dos vícios sombrios que a carne comum herda, assim uma mulher que ama pela primeira vez se apega à excelência imaginada daquele que ela ama. Quando Evelina fica tão chocada com a ideia de um ocasional ataque de embriaguez em seu “nobre, seu inigualável” amante, quem não reconhece quão naturais eram seus sentimentos? Se Evelina fosse casada há seis anos, e o mesmo amante, então seu marido, fosse realmente culpado do que ela suspeitava, quem não sente que teria sido muito antinatural ficar chocada, ainda que minimamente, com o ocorrido? Ela não o teria amado menos, nem admirado menos, nem ele teria sido menos “o nobre e o inigualável” — ele teria tomado seu copo a mais, feito piadas na manhã seguinte sobre o evento, e a gentil Evelina teria lhe preparado uma xícara de chá; mas o que seria motivo de gracejo no marido teria sido motivo de danação num amante. Mas voltemos a Lucy.
Se é tão difícil, tão repelente, acreditar que um amante seja culpado mesmo de um erro trivial, podemos facilmente supor que Lucy não admitiu por um momento a suposição de que Clifford tivesse sido realmente culpado de erro grosseiro ou crime deliberado. É verdade que as expressões em sua carta eram mais do que suspeitas; mas sempre há um charme na candura da autocondenação. Assim como é difícil acreditar na excelência daqueles que se elogiam, é difícil imaginar como criminosos aqueles que se condenam. O que, também, é o processo de raciocínio de uma mulher? Ai! ela é uma fisionomista crédula demais. O contorno de um pescoço, para ela, é o sinal infalível de nobreza de espírito; e ninguém pode ser culpado de um pecado se for abençoado com uma bela testa! Quão carinhosamente, quão fanaticamente Lucy amava! Ela havia reunido um tesouro precioso e secreto — uma luva, uma pena, um livro, uma folha de rosa seca —, tesouros tornados inestimáveis porque ele os tocara; mas, acima de tudo, ela tinha a série de suas cartas — desde a primeira nota formal escrita ao seu pai, destinada a ela, na qual ele respondia a um convite e solicitava a aceitação da Srta. Brandon para a música que ela desejava ter, até a última carta selvagem e, para ela, inexplicável, na qual ele a renunciara para sempre. Nessas relíquias seus olhos se alimentavam por horas; e, enquanto ela as examinava, e pensamentos profundos demais não apenas para lágrimas, mas para toda expressão ou transmissão, você poderia ter quase literalmente observado o desbotamento de sua bochecha rica e o definhamento de sua forma arredondada e elástica.
Estava exatamente nesse estado de espírito que ela estava enterrada quando seu tio bateu à sua porta pedindo permissão para entrar. Ela escondeu seus tesouros e apressou-se em admiti-lo e cumprimentá-lo.
“Vim”, disse ele, sorrindo, “pedir o prazer de sua companhia para um velho amigo que janta conosco hoje. Mas, espere, Lucy, seu cabelo está mal arranjado. Não deixe que eu perturbe uma ocupação tão importante quanto a sua toilette; vista-se, minha querida, e junte-se a nós.”
Lucy virou-se, com um suspiro reprimido, para o espelho. O tio permaneceu por alguns momentos, observando-a com uma mistura de orgulho e dúvida; então, lentamente, deixou o aposento.
Lucy logo depois desceu para a sala de estar e viu com um pouco de surpresa (pois não tivera curiosidade suficiente para perguntar o nome do convidado) a forma esguia e os traços agradáveis de Lord Mauleverer. O conde aproximou-se com a mesma graça que, em sua juventude, o tornara quase irresistível, mas que agora, pelo contraste dos anos com a maneira, continha uma leve mistura de cômico. Ele fez seus cumprimentos e, ao fazê-los, declarou que deveria deixar para seu amigo, Sir William, explicar todo o perigo que ele correra, com o intuito de se certificar de que a Srta. Brandon não estava menos adorável do que quando a vira pela última vez.
“Sim, de fato”, disse Brandon, com um escárnio quase imperceptível, “Lord Mauleverer literalmente suportou os acidentes de percurso de enchentes e campos — pois ele foi quase exterminado por um salteador de estrada e quase se afogou em uma vala!”
“Recomende-me a um amigo para me apresentar sob a melhor luz”, disse Mauleverer, alegremente. “Em vez de atrair sua simpatia, veja só, Brandon me exporia ao seu ridículo; julgue por si mesma se mereço isso!” e Mauleverer procedeu a dar, com toda a animação que pertencia ao seu caráter, os detalhes daquela aventura com a qual o leitor está tão bem familiarizado. Ele não sentiu, podemos ter certeza, qualquer escrúpulo em representar a si mesmo e a sua bravura nas cores mais favoráveis.
A história mal havia terminado quando o jantar foi anunciado. Durante aquela refeição, Mauleverer esforçou-se para ser amável com infinita habilidade. Adaptando sua conversa, mais do que até então se dignara, ao temperamento de Lucy, e mais ansioso por suavizar do que por deslumbrar, ele certamente nunca antes lhe parecera tão atraente. Somos obrigados a acrescentar que o ponto de atração não foi além da confissão de que ele era um velho muito agradável.
Talvez, se não houvesse uma certa veia semimelancólica em sua conversa, possivelmente menos incompatível para sua senhoria devido à lembrança de seus diamantes perdidos e à impressão de que o cozinheiro de Sir William Brandon era consideravelmente pior que o seu, ele poderia não ter tido tanto sucesso em agradar Lucy. Quanto a ele, todas as impressões anteriores que ela lhe causara retornaram em cores ainda mais vivas; até mesmo o tom delicado e contido de beleza que sucedera ao seu brilho inicial era muito mais encantador para seu gosto exigente e cortês do que seu antigo brilho de espírito e saúde. Ele sentiu-se muito apaixonado durante o jantar; e, depois que terminou e Lucy se retirou, ele disse a Brandon, com um ar apaixonado, que adorava sua sobrinha até a distração!
O astuto juiz fingiu receber a insinuação com indiferença; mas, sabendo que uma ausência muito longa é prejudicial a uma grande paixão, ele não manteve Mauleverer muito tempo com seu vinho.
O conde retornou arrebatado para a sala de estar e implorou a Lucy, com uma voz em que a afetação parecia desmaiar de prazer, que o presenteasse com uma canção. Mais e mais encantado com seu consentimento, ele puxou o banco da música até o cravo, colocou uma cadeira ao lado dela e logo pareceu perdido em transporte. Enquanto isso, Brandon, de costas para o par, cobriu o rosto com o lenço e, ao que tudo indicava, rendeu-se à volúpia de um repouso após o jantar.
O livro de canções de Lucy abriu-se acidentalmente em uma música que fora elogiada por Clifford; e, enquanto ela cantava, sua voz assumiu um tom mais rico e terno do que na presença de Mauleverer jamais assumira antes.
A QUEIXA DAS VIOLETAS QUE PERDEM SEU PERFUME EM MAIO.
À sombra que cai da colina silenciosa Nós dormíamos, em nossos retiros verdes E as chuvas de abril costumavam encher Nossos corações com doçuras.
E embora repousássemos em um humilde caramanchão, Ainda assim todas as coisas nos amavam bem, E a abelha desperta deixava sua flor mais bela, Para conosco habitar.
Mas o quente Maio veio em seu orgulho para cortejar A riqueza de nossa reserva de mel; E nossos corações apenas sentiram seu hálito, e souberam Suas doçuras nunca mais!
E o verão reina no lugar tranquilo Onde habitamos, e seus sóis e chuvas Trazem bálsamo aos corações de nossas irmãs, mas não — Ah! não aos nossos.
Vivemos, florescemos, mas para sempre se foi O encanto da terra e do céu; À nossa vida, ó céus, restaurai esse bálsamo, Ou — ordenai-nos morrer!
Enquanto, com olhos banhados por muitas lembranças e uma voz que se dissolvia em um patético indescritível e vibrante, Lucy cessou sua canção, Mauleverer, encantado para fora de si mesmo, tomou gentilmente sua mão e, segurando o tesouro macio na sua, pouco menos macio, murmurou:
“Anjo, continue cantando! A vida seria como sua própria música, se eu pudesse exalá-la aos seus pés!”
Houvera um tempo em que Lucy teria rido abertamente desta declaração; e, mesmo como estava, um sorriso reprimido e meio travesso brincava nas covinhas de sua bela boca, e contrastava fascinantemente com a suavidade líquida de seus olhos.
Tirando um presságio um tanto errôneo do sorriso, Mauleverer continuou arrebatado, ainda detendo a mão que Lucy tentava libertar:
“Sim, encantadora Srta. Brandon! Eu, que por tantos anos me vangloriei de meu coração invulnerável, estou finalmente subjugado. Lutei muito, por muito tempo, contra meu apego por você. Ai! é em vão; e você me vê agora totalmente à sua mercê. Faça de mim o mais miserável dos homens ou o mais invejável. Encantadora, fale!”
“Realmente, meu senhor”, disse Lucy, hesitando, mas levantando-se e libertando-se de sua mão, “acho difícil supor que fale sério; e talvez isto seja apenas uma galanteria para comigo, por via de prática com outras.”
“Doce Lucy, se assim posso chamá-la”, respondeu Mauleverer, com um olhar ardente, “não, eu a imploro, nem por um momento finja me confundir! Não brinque nem por um momento com o que, para mim, é a ruína ou a felicidade da vida! Ouso esperar que minha mão e meu coração, que agora lhe ofereço, não sejam merecedores de seu escárnio?”
Lucy olhou para seu adorador com um olhar de séria indagação; Brandon ainda parecia dormir.
“Se você está falando sério, meu senhor”, disse Lucy, após uma pausa, “estou verdadeiramente e profundamente arrependida. Pelo amigo de meu tio, terei sempre estima; acredite que estou verdadeiramente sensível à honra que me presta, quando acrescento meu pesar por não poder ter outro sentimento além de estima.”
Um vazio e perplexo desconcerto nublou por um momento os traços expressivos de Mauleverer; passou. “Quão doce é sua repreensão!” disse ele. “Sim; ainda não mereço outro sentimento além de estima. Você não deve ser conquistada precipitadamente; uma longa provação, um longo curso de atenções, um longo conhecimento do meu devotado e ardente amor, apenas me darão o direito de esperar por um sentimento mais caloroso em seu peito. Fixe então seu próprio tempo de cortejo, angelical Lucy! — uma semana, melhor, um mês! Até lá, nem sequer a pressionarei para marcar aquele dia que para mim será o mais brilhante da minha vida!”
“Meu senhor!” disse Lucy, sorrindo agora não mais meio travessa, “deve me perdoar por acreditar que sua proposta não pode ser nada além de uma brincadeira; mas aqui, eu lhe imploro, deixe-a descansar para sempre. Não mencione este assunto para mim novamente.”
“Pelos céus!” gritou Mauleverer, “isto é cruel demais. Brandon, interceda por mim junto à sua sobrinha.”
Sir William sobressaltou-se, naturalmente, de seu sono, e Mauleverer continuou:
“Sim, interceda por mim; você, meu mais antigo amigo, seja meu maior benfeitor! Eu suplico à sua sobrinha; ela finge não acreditar. Você a convencerá de minha verdade, minha devoção, minha adoração?”
“Não acreditar em você!” disse o suave juiz, com o mesmo escárnio secreto que geralmente espreitava nos cantos de sua boca. “Não me admiro que ela seja lenta em creditar a honra que lhe prestou, e pela qual as mais nobres donzelas da Inglaterra suspiraram em vão. Lucy, você será cruel com Lord Mauleverer? Acredite em mim, ele muitas vezes confidenciou-me seu amor por você; e se a experiência de alguns anos vale de algo, não há questão sobre sua honra e sua verdade. Deixo o destino dele em suas mãos.”
Brandon voltou-se para a porta.
“Espere, querido senhor”, disse Lucy, “e em vez de interceder por Lord Mauleverer, interceda por mim.” Seu olhar agora se estabilizou em uma calma e decidida seriedade de expressão. “Sinto-me altamente lisonjeada pela proposta de sua senhoria, a qual, como você diz, eu poderia bem duvidar que fosse seriamente pretendida. Desejo-lhe toda a felicidade com uma dama de maiores méritos; mas falo de uma determinação inalterável, quando digo que nunca poderei aceitar a dignidade com a qual ele me investiria.”
Dito isso, Lucy caminhou rapidamente para a porta e desapareceu, deixando os dois amigos comentarem como quisessem sobre sua conduta.
“Você estragou tudo com sua precipitação”, disse o tio.
“Precipitação! maldito seja, o que você queria? Levei cinquenta anos para me decidir a casar; e agora, quando não tenho um dia a perder, você fala de precipitação!” respondeu o amante, jogando-se em uma poltrona confortável.
“Mas você não levou cinquenta anos para se decidir a casar com minha sobrinha”, disse Brandon, secamente.
“Ser recusado, positivamente recusado, por uma garota do campo!” continuou Mauleverer, falando consigo mesmo em voz alta; “e isso também na minha idade e com toda a minha experiência! — uma garota do campo sem posição, sem tom, sem realizações! Pelos céus! não me importo se o mundo todo ouviu — pois nenhuma alma no mundo jamais acreditará nisso.”
Brandon sentou-se em silêncio, observando o rosto mortificado do cortesão com uma complacência maliciosa, e houve uma pausa de vários minutos. Sir William então, dominando o sentimento estranho que o fazia sempre regozijar-se com tudo o que ridicularizava seu amigo, aproximou-se, colocou a mão gentilmente no ombro de Mauleverer e falou-lhe de conforto e encorajamento. O leitor acreditará que Mauleverer não era um homem que fosse impossível encorajar.
Antes de ele chegar, tudo me amava, e eu tinha mais coisas para amar do que poderia contar pelos cabelos da minha cabeça. Agora sinto que não posso amar senão uma, e essa uma desamparou-me... Bem, que seja assim — que ela pereça, que seja qualquer coisa, menos minha! — Melmoth.
Logo na manhã seguinte, Sir William Brandon esteve fechado por um longo tempo com sua sobrinha, antes de sua partida para os deveres de seu cargo. Ansioso e alarmado pelo sucesso de um dos projetos prediletos de sua ambição, ele não poupou nenhuma artimanha em sua conversa com Lucy, que sua grande engenhosidade de eloquência e maravilhosa percepção da natureza humana pudessem sugerir, a fim de obter ao menos uma base para o levantamento de seu plano. Entre outros recursos de seu tato mundano, ele aludiu ao amor de Lucy por Clifford; e (embora de forma obscura e sutil, como convém à pureza daquela a quem se dirigia) essa pessoa abandonada e astuta não se escrupulizou em insinuar também a possibilidade de satisfazer esse amor após o casamento; embora denunciasse, como o último dos decoros, o crime de encorajá-lo antes. Essa insinuação, contudo, caiu inofensiva sobre o ouvido inocente de Lucy. Ela não compreendeu, nem no grau mais remoto, seu significado; ela apenas, com a face corada e o lábio franzido, ressentiu-se da alusão a um amor que achava insolente da parte de qualquer pessoa até mesmo suspeitar.
Quando Brandon deixou o apartamento, sua fronte estava nublada, e seu olhar ausente e pensativo: era evidente que pouco houve na conferência com sua sobrinha para agradá-lo ou contentá-lo. A própria Miss Brandon estava grandemente agitada; pois havia na natureza de seu tio aquele segredo silencioso e impressionante de influenciar ou comandar os outros, que quase tão invariavelmente e, ainda assim, tão silenciosamente atinge os desejos de seu possuidor; e Lucy, que o amava e admirava sinceramente — talvez não menos por um certo quinhão de medo —, sentia-se muito pesarosa ao perceber quão enraizado nele estava o desejo daquele casamento que ela sentia ser uma impossibilidade moral. Mas se Brandon possuía o segredo da influência, Lucy era quase tão singularmente dotada com o segredo da resistência. Pode ser lembrado, ao descrever seu caráter, que falamos dela como alguém que parecia, aos superficiais, ter um temperamento suave e muito flexível. Mas as circunstâncias desmentiram as maneiras, e provaram que ela possuía eminentemente uma quietude firme e uma resolução latente, que conferiam à sua mente uma nobreza e um poder digno de confiança que jamais teriam sido suspeitados por aqueles que a encontraram entre os caminhos comuns da vida.
Brandon não havia partido há muito tempo quando a criada de Lucy veio informá-la de que um cavalheiro, que se expressara muito desejoso de vê-la, aguardava lá embaixo. O sangue fugiu da face de Lucy com este anúncio, por mais simples que parecesse. “Que cavalheiro poderia estar desejoso de vê-la? Seria... seria Clifford?” Ela permaneceu por alguns momentos imóvel, e literalmente incapaz de mover-se; por fim, reuniu coragem e, sorrindo com desprezo por si mesma diante de uma noção que lhe pareceu, após reflexão, totalmente absurda, desceu para a sala de estar. O primeiro olhar que dirigiu ao estranho, que estava junto à lareira com os braços cruzados, foi suficiente — era impossível confundir, embora o rosto estivesse virado, a forma inigualável de seu amante. Ela avançou ansiosamente com um grito fraco, conteve-se e afundou-se no sofá.
Clifford voltou-se para ela e fixou os olhos em seu semblante com um olhar intenso e melancólico, mas não pronunciou uma sílaba; e Lucy, após pausar na expectativa de sua voz, olhou para cima e captou, alarmada, o aspecto estranho e peculiar de suas feições. Ele aproximou-se dela lentamente, e ainda silencioso; mas seu olhar parecia tornar-se mais ávido e doloroso à medida que avançava.
“Sim”, disse ele finalmente, com uma voz quebrada e indistinta, “vejo-a mais uma vez, depois de todas as minhas promessas de deixá-la para sempre... meu adeus solene, depois de tudo o que lhe custei; pois, Lucy, você me ama, você me ama, e eu estremeço enquanto sinto isso; depois de tudo o que eu mesmo suportei e resisti, volto a colocar-me voluntariamente em sua presença! Como ardi e adoeci por este momento! Como disse: 'Deixe-me vê-la mais uma vez, apenas mais uma vez, e o Destino poderá então fazer o seu pior!' Lucy! Querida, querida Lucy! Perdoe-me pela minha fraqueza. É agora, em amarga e severa realidade, a última de que posso ser culpado!”
Enquanto falava, Clifford afundou-se ao lado dela. Ele tomou ambas as mãos dela nas suas e, segurando-as, embora sem pressão, olhou novamente com paixão para seu rosto inocente, porém eloquente. Parecia como se ele estivesse comovido além de todos os sentimentos comuns de reunião e de amor. Ele não tentou beijar as mãos que segurava; e embora o toque percorresse cada veia e fibra de seu corpo, seu aperto era tão leve quanto aquele em que a primeira timidez do amor de um rapaz se aventura a marcar-se!
“Você está pálida, Lucy”, disse ele, pesarosamente, “e seu rosto está muito mais fino do que era quando a vi pela primeira vez. Quando a vi pela primeira vez! Ah! Queria, por sua causa, que isso nunca tivesse acontecido! Seus ânimos eram leves então, Lucy; seu riso vinha do coração, seu passo repelia a terra. A alegria irrompia de seus olhos, tudo o que respirava ao seu redor parecia cheio de felicidade e alegria; e agora, olhe para mim, Lucy! Erga esses olhos suaves e ensine-os a lançar sobre mim indignação e desprezo! Oh, não assim, não assim! Eu poderia deixá-la feliz — sim, literalmente abençoada —, se pudesse imaginá-la menos perdoadora, menos gentil, menos angelical!”
“O que tenho a perdoar?”, disse Lucy, ternamente.
“O quê! Tudo pelo que um ser humano pode perdoar outro. O engano e o ferimento não foram meus crimes contra você? Sua paz de espírito, sua serenidade de coração, sua vivacidade de temperamento — não arruinei eu estas coisas ou não?”
“Oh, Clifford!”, disse Lucy, elevando-se de si mesma e de todos os pensamentos egoístas, “por que, por que você não confia em mim? Você não me conhece, de fato você não conhece... você é ignorante até mesmo da própria natureza de uma mulher, se me acha indigna de sua confiança! Você acredita que eu poderia traí-la, ou você pensa que, se você tivesse feito aquilo pelo que todo o mundo o abandonou, eu poderia abandoná-lo?”
A voz de Lucy vacilou nas últimas palavras; mas ela mergulhou, como uma pedra mergulha em águas profundas, até o âmago do coração de Clifford. Transportado de toda resolução e de toda condescendência, ele envolveu seus braços ao redor dela em uma longa e apaixonada carícia; e Lucy, enquanto sua respiração se misturava à dele, e seu rosto repousava sobre seu peito, sentiu de fato como se o passado pudesse conter nenhum segredo poderoso o suficiente para sequer enfraquecer a afeição com a qual seu coração se apegava ao dele. Ela foi a primeira a libertar-se do abraço. Ela afastou o rosto do dele e, sorrindo para ele através de suas lágrimas, com um brilho que os sorrisos de sua mais tenra juventude jamais superaram, ela disse:
“Ouça-me. Conte-me sua história ou não, como quiser. Mas acredite em mim, a sagacidade de uma mulher muitas vezes não é um conselheiro desprezível. Aqueles que se acusam mais amargamente não são frequentemente aqueles que é mais difícil perdoar; e você deve me perdoar se duvido da extensão da culpa que você tão profusamente imputaria a si mesmo. Estou agora sozinha no mundo” (aqui o sorriso murchou dos lábios de Lucy). “Meu pobre pai está morto. Não posso ferir ninguém com minha conduta; não há ninguém na terra a quem eu esteja ligada pelo dever. Sou independente, sou rica. Você professa me amar. Sou tola e vaidosa, e acredito em você. Talvez, também, eu tenha a esperança afetuosa que tantas vezes faz das mulheres suas vítimas — a esperança de que, se você errou, eu possa resgatá-lo; se você foi infeliz, eu possa consolá-lo! Sei, Sr. Clifford, que estou dizendo algo pelo qual muitos me desprezariam, e pelo qual, talvez, eu devesse desprezar a mim mesma; mas há momentos em que falamos apenas como se algum poder em nossos corações nos constrangesse, apesar de nós mesmos — e é assim que falei agora a você.”
Foi com um ar muito incomum para si mesma que Lucy concluiu seu discurso, pois sua característica habitual era mais a suavidade do que a dignidade; mas, como se para corrigir o significado de suas palavras, que poderiam de outra forma parecer pouco femininas, havia uma casta, orgulhosa, porém não menos terna e doce propriedade e franca dignidade em seu olhar e modo; de modo que teria sido totalmente impossível para quem a ouviu não ter feito justiça à nobreza de seus motivos, ou não ter se sentido tanto tocado e penetrado pelo respeito quanto por qualquer sentimento mais caloroso ou familiar.
Clifford, que se levantara enquanto ela falava, ouviu com um semblante que variava a cada palavra que ela pronunciava — agora toda esperança, agora todo desânimo. À medida que ela cessava, a expressão endureceu-se em uma resolução firme e compulsiva.
“Está bem!”, disse ele, murmurando. “Sou digno disto — muito, muito digno! Generosa, nobre moça! Se eu fosse um imperador, teria me curvado a você em adoração; mas aviltá-la, degradá-la... não! não!”
“Há aviltamento no amor?”, murmurou Lucy.
Clifford contemplou-a com uma espécie de orgulho entusiasmado e de autogratificação; talvez ele sentisse que ser assim amado e por tal criatura era motivo de orgulho, mesmo nas circunstâncias mais baixas a que ele poderia jamais estar exposto. Ele respirou fundo, cerrou os dentes e respondeu:
“Você poderia amar, então, um pária, sem nascimento, fortuna ou caráter? Não! Você acredita nisso agora, mas não poderia.
“Poderia você abandonar seu país, seus amigos e seu lar — tudo para o que você nasceu e é apta? Poderia você acompanhar alguém sobre quem a espada paira, através de uma vida submetida a cada hora à descoberta e à desgraça? Poderia você submeter-se à melancolia de uma memória maligna e ao silêncio sombrio do remorso? Poderia você ser a vítima de alguém que não tem mérito além de seu amor por você, e que, se esse amor a destruir, torna-se totalmente redimido? Sim, Lucy, eu estava errado — farei justiça a você; tudo isso, mais ainda, você poderia suportar, e sua natureza generosa desdenharia o sacrifício. Mas devo eu ser todo egoísmo e você toda devoção? Deve você ceder tudo a mim, e eu aceitar tudo e não ceder nada? Ah! Eu tenho apenas um bem, uma bênção a ceder, e essa é você. Lucy, eu a mereço; supero-a em generosidade. Tudo o que você abandonaria por mim não é nada — ó Deus! — nada comparado ao sacrifício que faço a você! E agora, Lucy, eu a vi, e devo mais uma vez dizer-lhe adeus; estou na véspera de deixar este país para sempre. Vou alistar-me em um serviço estrangeiro. Talvez” (e os olhos escuros de Clifford brilharam com fogo) “você ainda ouça falar de mim, e não se enrubesça quando ouvir! Mas” (e sua voz vacilou, pois Lucy, escondendo o rosto com ambas as mãos, cedeu às suas lágrimas e agitação), “mas, em um aspecto, você venceu. Eu acreditava que você jamais poderia ser minha — que minha vida passada tinha para sempre me privado dessa esperança! Começo agora, com um arrebatamento que pode me levar através de todas as provações, a formar uma visão mais audaciosa. Uma mácula pode ser apagada — um nome maligno pode ser redimido — o passado não está definido e selado, sem o poder de revogar o que foi escrito. Se eu puder ganhar o direito de merecer sua misericórdia, lançar-me-ei sobre ela sem reservas; até lá, ou até a morte, você não me verá mais!”
Ele caiu de joelhos, deixou seu beijo e suas lágrimas na mão fria de Lucy; no momento seguinte, ela ouviu seu passo nas escadas, a porta fechou-se pesada e estridentemente atrás dele, e Lucy sentiu uma amarga pontada, e, por algum tempo pelo menos, não sentiu mais nada!
CAPÍTULO XXXI.
Muitas coisas caem entre a taça e o lábio! Seu homem agrada-me Com sua presunção. ............... Vem o Cônego Hugh equipado como você vê, Disfarçado! E assim devo eu enganar o condestável? Agora, preparem-se para um homem de armas. ............... O alto-condestável era mais, embora Ele tenha levado Dick Tator pelos calcanhares. BEN JONSON — Tale of a Tub.
Enquanto isso, Clifford caminhava rapidamente pelas ruas que cercavam a casa do juiz e, virando para um bairro mais obscuro da cidade, entrou em uma viela ou beco sombrio. Aqui ele foi abruptamente abordado por um homem envolto em um casaco grosso e felpudo, de aparência um tanto suspeita.
“Aha, Capitão!”, disse ele, “você está fora do seu tempo, mas está tudo bem!”
Tentando, com sucesso indiferente, a calma desenvoltura que geralmente marcava seu modo de falar com seus companheiros, Clifford, repetindo as palavras do estranho, respondeu:
“Está tudo bem! O quê! Os prisioneiros foram libertados?”
“Não, fé!”, respondeu o homem, com uma risada áspera, “ainda não; mas tudo a seu tempo. É um pouco demais esperar que os juízes façam nosso trabalho, embora, pelo Senhor Harry, nós muitas vezes façamos o deles!”
“O que então?”, perguntou Clifford, impacientemente.
“Ora, os pobres rapazes foram levados para a cidade de -----, e levados perante o queer cuffin (Magistrado) antes que eu chegasse, embora eu tenha partido no momento em que você me disse, e feito a viagem em quatro horas. O exame durou todo o dia de ontem, e eles foram mantidos até hoje... vejamos, ainda não é meio-dia; podemos estar lá antes que termine.”
“E é isso que você chama de bem!”, disse Clifford, irritado. “Não, Capitão, não fique nervoso! Você ainda não ouviu tudo! Parece que a única coisa que pesou contra eles foi um robusto criador de gado, a quem gritaram 'Parado!' a uns oitenta quilômetros da cidade; então o queer cuffin pensa em enviar os pobres rapazes para a cadeia do condado onde eles fizeram o serviço!”
“Ah! Isso pode deixar alguma esperança para eles! Devemos ficar atentos à viagem deles; se eles chegarem à prisão, suas únicas chances são a lima e o suborno. Infelizmente, nenhum deles é tão sortudo quanto eu nesse ofício!”
“Não, de fato, não há uma parede de pedra na Inglaterra pela qual o grande Capitão Lovett não pudesse passar, eu juro!”, disse o satélite admirador.
“Selle os cavalos e carregue as pistolas! Encontrarei vocês em dez minutos. Tenha meu traje de fazendeiro pronto, o cabelo falso, etc. Escolha seu próprio traje. Apressem-se; o Three Feathers é o local de encontro.”
“E em apenas dez minutos, Capitão?”
“Pontualmente!”
O estranho virou uma esquina e saiu de vista. Clifford, murmurando: “Sim, eu fui a causa da prisão deles; era eu quem era procurado; é justo que eu dê um golpe por sua fuga antes que tente a minha”, continuou seu curso até chegar à porta de uma taberna. O letreiro de um marinheiro balançava no alto, retratando o alegre marujo com uma bela caneca de estanho na mão, consideravelmente maior do que sua própria circunferência. Um imenso pug estava sentado à porta, com a língua de fora, como se, tendo se empanturrado até a língua, fosse forçado a colocar aquele membro útil para fora de seu lugar apropriado. As venezianas estavam entreabertas, mas os sons de diversão grosseira emanavam jovialmente.
Clifford desconcertou o pug; e cruzando o limiar, gritou em tom alto: “Janseen!”
“Aqui!”, respondeu uma voz rouca; e Clifford, passando, chegou a uma pequena sala contígua à taberna. Lá, sentado a uma mesa redonda de carvalho, ele encontrou o dono da casa — um personagem vermelho, feroz, castigado pelo tempo, mas de aparência inchada, como Dick Hatteraick com hidropisia.
“Como vai, Capitão!”, gritou ele, com um sotaque gutural, e intercalando seu discurso com certas graças holandesas, que, com a permissão do nosso leitor, omitiremos, por sermos incapazes de soletrá-las; “como vai! — ainda não partiu!”
“Não! Parto para a costa amanhã; assuntos me retêm hoje. Vim perguntar se Mellon é totalmente confiável?”
“Sim, honesto até a medula.”
“E você tem certeza de que, apesar dos meus recentes atrasos, ele não terá deixado a aldeia?”
“Certeza! O que mais poderia ser? Não conheço Jack Mellon há vinte anos! Ele ficaria como um tronco na calmaria por dez meses seguidos, sem mover um milímetro, se estivesse sob ordens.”
“E sua embarcação é veloz e bem tripulada, caso haja perseguição de algum oficial?”
“A 'Black Molly' veloz? Pergunte à sua avó. A 'Black Molly' deixaria um tubarão para trás.”
“Então adeus, Janseen; aqui está algo para manter seu cachimbo aceso. Não nos encontraremos dentro dos três mares novamente, penso eu. A Inglaterra é tão quente demais para mim quanto a Holanda é para você!”
“Você é um sujeito excelente!”, gritou o dono da casa, apertando a mão de Clifford; “e quando os rapazes souberem de sua perda, saberão que perderam o mais bravo e verdadeiro camarada que já se dedicou à estrada; então adeus, e que se dane!”
Com esta bênção de despedida, o dono da casa libertou Clifford; e o ladrão apressou-se para seu compromisso no Three Feathers.
Ele encontrou tudo preparado. Vestiu apressadamente seu disfarce; e seu seguidor levou seu cavalo — um animal nobre da grande raça irlandesa, de força e ossatura notáveis, e, exceto pelo fato de ser um tanto agudo nos quartos traseiros (uma falha que aqueles que procuram velocidade tanto quanto graça facilmente perdoarão), de uma beleza inigualável em sua simetria e proporções.
Bem conhecia o corcel, e orgulhosamente prestava reverência ao seu mestre; bufando impacientemente e empinando-se da mão do ladrão assistente, o animal sagaz livrou-se da rédea e, enquanto sacudia sua longa crina na brisa do ar fresco, veio trotando para o lugar onde Clifford estava.
“So ho, Robin! So ho! O que foi, você está irritado porque deixei seu companheiro para trás na Caverna Vermelha! Aquele talvez nunca mais vejamos. Mas enquanto eu tiver vida, não deixarei você, Robin!” Com essas palavras, o ladrão acariciou afetuosamente o pescoço brilhante de seu corcel favorito; e enquanto o animal retribuía a carícia esfregando a cabeça contra as mãos e o peito atlético de seu mestre, Clifford sentiu em seu coração algo daquela velha e estimulante agitação do sangue que fora outrora para ele o principal encanto de sua profissão criminosa, e que, na recente mudança de seus sentimentos, ele quase esquecera.
“Bem, Robin, bem”, renovou ele, enquanto beijava o rosto de seu corcel — “bem, ainda teremos alguns dias como os nossos antigos; você dirá: Ha! ha! à trombeta, e levará seu mestre a empreendimentos mais gloriosos do que aqueles pelos quais ele ainda agradeceu a você por compartilhar. Você será agora meu único familiar, meu único amigo, Robin; nós dois seremos estranhos em uma terra estrangeira. Mas você se tornará bem-vindo mais facilmente do que seu senhor, Robin; e você esquecerá os velhos dias e seus antigos camaradas e seus antigos amores, quando... Ha!” e Clifford voltou-se abruptamente para seu assistente, que o abordava; “É tarde, você diz. Verdade! Olhe, será imprudente para nós dois deixarmos Londres juntos. Você conhece o sexto marco; encontre-me lá, e podemos prosseguir em companhia!”
Não querendo demorar para um último copo, o camarada assentiu à prudência do plano proposto; e após mais uma ou duas palavras adicionais de cautela e conselho, Clifford montou e partiu do pátio da estalagem. Ao passar pelos altos portões de madeira para a rua, o brilho imperfeito do sol de inverno caindo sobre ele e seu corcel, era quase impossível, mesmo apesar de seu disfarce e traje rude, conceber um espécime mais galante e marcante da tribo sem lei e audaciosa à qual ele pertencia; a altura, força, beleza e higiene requintada visíveis no corcel; o olho cintilante, o perfil ousado, o peito musculoso, os membros graciosos e a equitação descuidada e praticada do cavaleiro.
Olhando para seu chefe com um olhar longo e admirador, o ladrão disse ao tratador da estalagem, um homem idoso e definhado, que vira nove gerações de salteadores de estrada surgirem e desaparecerem:
“Lá, Joe, quando você viu um herói como aquele? O coração mais bravo, a mão mais franca, o melhor juiz de um cavalo e o homem mais bonito que já honrou Hounslow!”
“Apesar de tudo,” respondeu o tratador, sacudindo a cabeça trêmula e voltando para o bar,—“apesar de tudo, mestre, o tempo dele está esgotado. Marque o que digo, o Capitão Lovett não passará do ano,—não, nem talvez do mês!”
“Ora, seu velho patife, o que o torna tão sábio? Você não vai entregar ninguém, suponho!”
“Eu entregar! Deus me livre! Mas nunca houve um cavalheiro da estrada, grande ou pequeno, esperto ou estúpido, que tenha sobrevivido ao seu sétimo ano. E este será o sétimo ano do capitão, no dia 21 do mês que vem; mas ele é um sujeito fino, e eu irei ao seu enforcamento!”
“Pish!” disse o ladrão, irritado,—ele mesmo estava chegando ao fim de seu sexto ano,—“pish!”
“Preste atenção, eu lhe digo, mestre; e de alguma forma ou de outra eu penso—e tenho experiência nessas coisas—pelo vaticínio, pelo brilho do seu olho e pela queda dos seus lábios, que o tempo do capitão se esgota hoje!”
Aqui o ladrão perdeu toda a paciência e, empurrando o grisalho arauto do mal contra a parede, girou sobre os calcanhares e buscou um companheiro mais agradável para compartilhar seu brinde de despedida.
Foi na manhã do dia seguinte àquele em que as conversas acima ocorreram que o sagaz Augustus Tomlinson e o valoroso Edward Pepper, algemados e acorrentados, seguiam pela estrada em uma carruagem postal, com o Sr. Nabbem espremido ao lado do primeiro, e dois outros cavalheiros da confiança do Sr. Nabbem montados na boléia da carruagem, interferindo tristemente, como Long Ned observou resmungando, com “a beleza da paisagem”.
“Ah, bem!” disse Nabbem, inevitavelmente enfiando o cotovelo na costela de Tomlinson enquanto retirava sua tabaqueira e se servia fartamente do pó inebriante; “é melhor o senhor se preparar, Sr. Pepper, para uma mudança de perspectivas. Acredito que haja pouco que o agrade em guod [prisão].”
“Nada torna os homens tão espirituosos quanto o infortúnio dos outros!” disse Augustus, moralizando e virando-se, tanto quanto podia, para livrar seu corpo do cotovelo pontiagudo do Sr. Nabbem. “Quando um homem está por baixo no mundo, todos os espectadores, sujeitos bem maçantes antes, tornam-se subitamente engenhosos!”
“Você reflete sobre mim,” disse o Sr. Nabbem. “Bem, não importa nem um pouco; pois, assim que cumprimos nosso dever, vocês sujeitos tornam-se audaciosamente ingratos!”
“Ingratos!” disse Pepper; “que praga teríamos para ser gratos? Suponho que você ache que deveríamos lhe dizer que é o melhor amigo que temos, porque nos enfiou, pescoço e colheita, neste buraco horrível, como perus engordados para o Natal. 'Morte! O cabelo da gente fica amassado como uma panqueca; e quanto às pernas, seria melhor cortá-las de uma vez do que dobrá-las em um lugar de um pé quadrado,—sem falar nestes ferros de patife!”
“Os únicos ferros perdoáveis aos seus olhos, Ned,” disse Tomlinson, “são os ferros de frisar, eh?”
“Ora, se isso não é demais!” gritou Nabbem, irritado; “vocês se opõem a ir em uma carroça como o resto da sua profissão; e quando eu me esforço para atendê-los com uma carruagem, vocês me insultam por isso!”
“Paz, bom Nabbem!” disse Augustus, com a dignidade de um sábio; “você deve permitir um pouco de mau humor em homens tão infelizmente situados como nós.”
A resposta suave desvia a ira. A resposta de Tomlinson amoleceu Nabbem; e, a título de conciliação, ele estendeu sua tabaqueira ao nariz de seu infeliz prisioneiro. Fechando os olhos, Tomlinson aspirou longa e profundamente o luxo, e assim que o oficial, com seu próprio lenço de amarelo manchado, limpou da probóscide alguns grãos remanescentes, Tomlinson falou assim:
“Você nos vê agora, Sr. Nabbem, em um estado de oposição falida; mas nossos espíritos não estão falidos também. Em nosso tempo, tivemos algo a ver com a administração; e nosso conforto atual é o conforto dos ministros caídos!”
“Oho! Vocês eram da linha metodista antes de seguir para a estrada?” disse Nabbem.
“Não é assim!” respondeu Augustus, gravemente. “Éramos os metodistas da política, não da igreja; ou seja, vivíamos sobre nosso rebanho sem uma autoridade legal para fazê-lo, e o que a lei nos negava, nossa astúcia dava. Mas diga-me, Sr. Nabbem, você é viciado em política?”
“Ora, dizem que sou,” disse o Sr. Nabbem, com um sorriso; “e, por minha parte, acho que todos que servem ao rei deveriam defendê-lo e cuidar de suas pequenas famílias!”
“Você fala o que outros pensam!” respondeu Tomlinson, sorrindo também. “E vou agora, já que você gosta de política, apontar-lhe o que ouso dizer que você não observou antes.”
“O que seria isso?” disse Nabbem.
“Uma semelhança maravilhosa entre a vida dos cavalheiros que adornam o senado de Sua Majestade e a vida dos cavalheiros que você está conduzindo para a cadeia de Sua Majestade.”
O PARALELO CALUNIOSO DE AUGUSTUS TOMLINSON.
“Entramos em nossa carreira, Sr. Nabbem, como os seus ministros embriões entram no parlamento,—por suborno e corrupção. Há esta diferença, de fato, entre os dois casos: somos atraídos a entrar pelo suborno e corrupções dos outros; eles entram espontaneamente à força dos seus próprios. A princípio, iludidos por visões românticas, gostamos da glória da nossa carreira mais do que do lucro, e em nossa generosidade juvenil professamos atacar os ricos unicamente por consideração aos pobres! Pouco a pouco, à medida que nos endurecemos, rimos desses sonhos infantis,—camponês ou príncipe, ambos pagam igualmente em nossas mãos imparciais; agarramos o balde, mas não desprezamos o dedal; usamos a palavra 'glória' apenas como uma armadilha para prosélitos e aprendizes; nossos dedos, como a porta de um escritório, estão abertos para tudo o que possivelmente possa entrar neles; consideramos os ricos como nosso salário, os pobres como nossas gratificações. O que é isso, senão um retrato do seu membro do parlamento amadurecendo para um ministro, o seu patriota amadurecendo para o seu ocupante de cargo? E marque-me, Sr. Nabbem! Não é a própria linguagem de ambos tão similar quanto os feitos? Qual é a frase que qualquer um de nós adora empregar? 'Libertar'. O quê? 'O Público'. E ambos não o libertam invariavelmente da mesma coisa,—ou seja, de sua bolsa? Queremos uma desculpa para compartilhar o ouro de nossos vizinhos, ou abusar deles se resistirem? Não é nosso pedido mútuo, nosso mais contundente argumento, 'Dificuldade'? Verdade, o seu patriota chama isso de 'dificuldade do país'; mas ele alguma vez, um pouco mais do que nós, quer dizer qualquer dificuldade exceto a sua própria? Quando somos derrubados e nossos casacos estão gastos, não balançamos ambos a cabeça e falamos em 'reforma'? E quando, oh! quando estamos por cima no mundo, não chutamos ambos a 'reforma' para o diabo? Quão frequentemente o seu homem do parlamento 'desocupa seu assento', apenas com o propósito de retomá-lo com uma bolsa mais pesada! Quão frequentemente, caro Ned, nossos assentos foram desocupados para o mesmo fim! Às vezes, de fato, ele realmente termina sua carreira aceitando os Hundreds,—é 'aceitando as centenas' que a nossa pode ser terminada também! [Ned deu um longo suspiro.] Observe-nos agora, Sr. Nabbem, no auge de nossa prosperidade,—enchemos nossos bolsos, tornamo-nos grandes na boca de nosso partido. Nossos comparsas nos admiram, e nossas mulheres nos adoram. O que fazemos neste verão de curta duração? Economizar e ser poupados? Ah, não! Devemos dar nossos jantares e fazer pouco caso de nossa bebida. Exibimos cavalos na pista de corrida e olhamos com arrogância para a multidão que enganamos. Não é este o seu ministro que assumiu o cargo? Isso não o lembra de sua carruagem, seu palácio, sua prataria? Em ambos os casos, ganho levemente, desperdiçado profusamente; e o público, cujo dinheiro manuseamos, pode pelo menos ter o prazer de boquiabrir-se com a figura que fazemos com ele! Esta, então, é nossa colheita de felicidade; nossos inimigos, nossos amigos, estão prontos para nos devorar de inveja,—ainda assim, o que é tão pouco invejável quanto nossa posição? Não temos ambos nossas vexames comuns e nossos desassossegos mútuos? Não subornamos ambos [Nabbem balançou a cabeça e abotoou o colete] nossos inimigos, bajulamos nossos partidários, intimidamos nossos dependentes e brigamos com nossos únicos amigos,—ou seja, nós mesmos? Não é a pergunta secreta de cada um: 'É tudo terrivelmente fino; mas quanto tempo vai durar?' Agora, Sr. Nabbem, observe-me,—inverta o retrato: estamos caídos, nossa carreira acabou,—a estrada está fechada para nós, e novos saqueadores estão roubando as carruagens que um dia roubamos. Não é este o destino de— Não, não! Eu me engano! Seus ministros, seus aproveitadores, na maioria das vezes ordenham a vaca popular enquanto há uma gota no úbere. Seu chanceler declina para uma pensão; seu ministro atenua-se em um subsídio; os pés de seus grandes patifes podem ter partido das bancadas do tesouro, mas eles têm seus dedinhos no tesouro. Seus serviços passados são lembrados por Sua Majestade; os nossos apenas notados pelo Juiz. Eles salvam a si mesmos, pois dependem uns dos outros; nós vamos para o diabo, pois dependemos apenas de nós mesmos. Temos nosso pequeno dia de público, e tudo acaba; mas nunca acaba para eles. Ambos caçamos a mesma raposa; mas nós somos os seus cavaleiros justos, eles são os seus sabichões,—nós damos o salto e nossos pescoços são quebrados; eles esgueiram-se pelos portões e continuam até o fim!”
Ao concluir, a cabeça de Tomlinson caiu sobre seu peito, e era fácil ver que comparações dolorosas, misturadas talvez com murmúrios secretos sobre a injustiça da fortuna, estavam a corroer seu peito. Long Ned sentou-se em silêncio sombrio; e até mesmo o coração duro do severo Sr. Nabbem foi amolecido pelo paralelo afetante ao qual ele tinha ouvido. Eles seguiram sem falar por duas ou três milhas, quando Long Ned, fixando os olhos em Tomlinson, exclamou,—
“Sabe, Tomlinson, acho que foi uma vergonha ardente da parte de Lovett nos permitir ser levados como carneiros, sem tentar nos resgatar no caminho! É tudo culpa dele que estamos aqui; pois era ele quem Nabbem queria, não nós.”
“Muito verdade,” disse o astuto policial; “e se eu fosse você, Sr. Pepper, que me enforquem se eu não me comportasse como um homem de espírito, e mostrasse tão pouca preocupação por ele quanto ele mostra por você! Ora, Senhor, agora, eu não quero tentá-lo; mas isto eu sei, os juízes estão muito ansiosos para pegar Lovett; e aquele que o entrega, e diz uma ou duas palavras sobre seu caráter, de modo a tornar a condenação certa, pode ele mesmo ter certeza de um perdão gratuito por todas as pequenas farras e assim por diante!”
“Ah!” disse Long Ned, com um suspiro, “isso é tudo muito bom, Sr. Nabbem, mas eu irei para a forca como um cavalheiro, e não entregarei meus camaradas; e agora que penso nisso, Lovett dificilmente poderia ter nos ajudado. Um homem sozinho, até mesmo Lovett, esperto como é, não poderia ter nos forçado a sair das garras de você e seus mirmidões, Sr. Nabbem! E quando estávamos uma vez em-----, eles cuidaram muito bem de nós. Mas diga-me agora, meu caro Nabbem,” e a voz de Long Ned se tornou algo parecido com suavidade,—“diga-me, você acha que o criador de gado vai manter o depoimento?”
“Sem dúvida disso,” disse o impassível Nabbem. O rosto de Long Ned caiu. “E se ele mantiver?” disse ele; “eles podem apenas nos transportar!”
“Não se engane, Mestre Pepper!” disse Nabbem: “você é experiente demais para o exílio. Eles estão decididos a fazer cordas de forca de todos os exemplares como você!”
Ned lançou um olhar sombrio ao oficial.
“Um belo consolador você é!” disse ele. “Eu estive em uma carruagem postal com um sujeito mais agradável, posso jurar! Você pode me chamar de maçã se quiser, mas, eu acho, não sou uma maçã que você gostaria de ver descascada.”
Com este trocadilho pugilístico e ameaçador, o herói alongado recaiu em silêncio meditativo.
Nossos viajantes estavam agora entrando em uma estrada margeada de um lado por um terreno comum de alguma extensão, e do outro por uma sebe espessa, que através de suas aberturas dava vislumbres ocasionais de bosque e pousio, entremeados por estradas transversais e pequenos riachos.
“Lá vai um sujeito alegre!” disse Nabbem, apontando para um homem de aparência atlética, montado antes da carruagem, vestido com trajes de fazendeiro e montado em um grande e poderoso cavalo da raça irlandesa. “Ouso dizer que ele conhece bem o seu criador de gado, Sr. Tomlinson; ele parece mortalmente um do mesmo tipo; e aqui vem outro sujeito” (enquanto o estranho era acompanhado por um homem baixo, robusto e rosado em uma túnica de carroceiro, montado em um cavalo menos vistoso que o de seu camarada, mas da raça alongada, esguia, magra, porém muscular, na qual um jóquei experiente gostaria de apostar). “Agora, isso é o que eu chamo de um rapaz bonito!” continuou Nabbem, apontando para o último cavaleiro; “nenhum daqueles seus sujeitos de rosto fino, escuros e esguios como aquele Capitão Lovett, sobre o qual as mulheres deliram, mas um corpo pequeno, bonito e compacto, com um rosto como uma cenoura! Isso é uma beleza para o meu dinheiro! A honestidade está estampada em seu rosto, Sr. Tomlinson! Ouso dizer” (e o oficial sorriu, pois ele tinha sido um rapaz do crime em seu próprio dia),—“ouso dizer, pobre bobo inocente, que ele não conhece nenhum dos caminhos da cidade de Lunnun; e se ele não tem uma vida tão alegre quanto algumas pessoas, talvez ele possa ter uma mais longa. Mas uma alegre para sempre para rapazes como nós, Sr. Pepper! Digo, você ouviu como Bill Fang foi para Scratchland [Escócia] e foi esticado por distribuir papéis falsos [isto é, enforcado por emitir notas falsas]? Ele morreu agindo como um herói; pois quando seu pai, que era um clérigo de cabelos grisalhos, veio vê-lo após a sentença, ele diz ao governador, diz ele: 'Dê-nos uma gorjeta, velho, para pagar as despesas, e morrer decentemente.' O clérigo lhe dá dez brilhantes, pregando o tempo todo como um louco. Bob deixa cair uma das guinéus entre os dedos e diz: 'Holla, pai, você só me deu nove dos meninos amarelos! Agora mesmo você disse que eram dez!' Nisso, o pastor paroquial, que era tão pobre como se tivesse sido um rato da igreja em vez de um vigário, tira outro; e Bob, virando-se para o carcereiro, grita: 'Enganei o governador em uma guinéu, por Deus!--[Fato]--Agora, isso é o que eu chamo de manter até o fim!”
O Sr. Nabbem mal havia terminado esta anedota quando o estranho com aparência de fazendeiro, que se mantinha ao lado da carruagem, cavalgou subitamente até a janela e, tocando o chapéu, disse com um sotaque de Norfolk:
“Os cavalheiros que encontramos na estrada pertenciam ao seu grupo? Eles estavam perguntando por uma carruagem e par de cavalos.”
“Não!” disse Nabbem, “não há cavalheiros que pertençam ao nosso grupo!” Dizendo isso, ele deu uma piscadela astuta para o fazendeiro e olhou por cima do ombro para os prisioneiros.
“O quê! Vocês estão indo sozinhos?” disse o fazendeiro.
“Sim, com certeza,” respondeu Nabbem; “não muito perigo, eu acho, durante o dia, com o sol saindo tão grande quanto uma moeda de seis pence, que é o maior que já vi neste país!”
Naquele momento, o estranho mais baixo, cuja aparência atraíra o elogio do Sr. Nabbem (essa personagem era ele mesmo muito baixo e rosado), e que até então estivera cavalgando perto dos cavalos da carruagem e conversando com os oficiais na boléia, jogou-se subitamente de seu corcel e, no mesmo instante em que prendeu os cavalos da carruagem, atingiu o cocheiro no chão com um porrete curto e pesado que tirou de sua túnica. Um apito foi ouvido e respondido, como se fosse um sinal: três sujeitos, armados com porretes, saltaram da sebe; e, nesse ínterim, o pretenso fazendeiro, desmontando, escancarou a porta da carruagem e, agarrando o Sr. Nabbem pelo colarinho, jogou-o ao chão com uma celeridade que condizia mais com a redondeza circular da figura do policial do que com a gravidade deliberada de seu digno cargo.
Rápido e instantâneo como tinha sido este trabalho, não foi sem um obstáculo. Embora os policiais não tivessem sonhado com um resgate em plena luz do dia e na estrada principal, sua profissão não era aquela que permitia que fossem facilmente surpreendidos. Os dois guardiões da parte de trás saltaram agilmente para o chão; mas antes que tivessem tempo de usar suas armas de fogo, dois dos novos agressores, que apareceram da sebe, fecharam-se sobre eles e os derrubaram ao chão. Enquanto essa confusão ocorria, o fazendeiro desarmara o prostrado Nabbem e, entregando-o ao confederado restante, libertou Tomlinson e seu camarada da carruagem.
“Psiu!” disse ele em um sussurro, “cuidado com meu nome; meu disfarce me esconde no momento. Apoie-se em mim,—apenas através da sebe; uma carroça espera lá, e vocês estão salvos!”
Com essas palavras entrecortadas, ele ajudou os ladrões o melhor que pôde, apesar de seus grilhões, através da mesma parte da sebe da qual os três aliados haviam surgido. Eles já estavam através da barreira,—apenas as longas pernas de Ned Pepper ficaram para trás,—quando, na extremidade distante da estrada, que era perfeitamente reta, a carruagem de um cavalheiro tornou-se visível. Uma mão forte do interior da sebe, agarrando Pepper, arrastou-o para dentro; e Clifford,—pois o leitor não precisa ser dito quem era o fazendeiro, percebendo o reforço que se aproximava, gritou de uma vez pela fuga. O ladrão que guardava Nabbem, e que na verdade não era outro senão Old Bags, lento como habitualmente era, não perdeu um instante em cuidar de si mesmo; antes que você pudesse dizer “Laudamus”, ele estava do outro lado da sebe. Os dois homens engajados com os policiais não foram capazes de igual celeridade; mas Clifford, lançando-se no conflito e engajando os policiais, deu aos ladrões a oportunidade de escapar. Eles lutaram pela cerca; os oficiais, sujeitos resistentes e astutos, agarrando-se vigorosamente a eles, até que um foi derrubado por Clifford, e o outro, prendendo-se em um toco, foi forçado a soltar seu aperto; ele então saltou de volta para a estrada e preparou-se para Clifford, que agora, no entanto, ocupava-se mais com medidas de fuga do que de guerra. Enquanto isso, no momento em que os outros resgatadores haviam passado o Rubicão da sebe, sua fuga, e a dos cavalheiros que haviam passado antes deles, começou. Neste lado místico da sebe havia uma estrada transversal, cortando de uma vez através de uma parte intricada e arborizada do país, que permitia oportunidades rápidas e amplas de dispersão. Aqui uma carroça leve, puxada por dois cavalos velozes em um estilo tandem, aguardava os fugitivos. Long Ned e Augustus foram acomodados no fundo deste veículo; três sujeitos limaram suas correntes, e um quarto, que até então permanecera sem glória com a carroça, deu o chicote—e deu-o com vontade—aos corcéis. O equipamento sacudiu e partiu; e assim foi alcançada uma fuga ainda memorável nos anais dos eleitos, e longamente citada como um dos feitos mais ousados e arrojados que o empreendimento ilícito já realizou.
Clifford e seu camarada equestre permaneceram sozinhos no campo, ou melhor, na estrada. O primeiro saltou imediatamente sobre seu cavalo; o último não tardou a seguir o exemplo. Mas o policial, que, como foi dito, frustrado em deter os fugitivos da sebe, saltara de volta para a estrada, não estava ocioso enquanto isso. Quando viu Clifford prestes a montar, em vez de tentar agarrar o inimigo, recorreu à sua pistola, que no recente combate corpo a corpo não conseguira usar, e, mirando com precisão em Clifford, a quem julgou imediatamente ser o líder do resgate, alojou uma bala no lado direito do ladrão no exato momento em que ele fincava as esporas no cavalo e se virava para fugir. A cabeça de Clifford pendeu para o pomo da sela. O cavalo saltou ferozmente. O ladrão esforçou-se, apesar de seus sentidos vacilantes, para manter o assento; uma vez ergueu a cabeça, uma vez tensionou seus membros relaxados e apáticos, e então, com um gemido fraco, caiu por terra. O cavalo deu apenas mais um passo e, fiel à disciplina que recebera, parou abruptamente. Clifford ergueu-se com grande dificuldade sobre um braço; com a outra mão, sacou uma pistola. Apontou-a deliberadamente para o oficial que o ferira. O homem permaneceu imóvel, encolhido e fascinado, sob o olhar dilatado do ladrão. Foi apenas por um momento que o homem teve motivo para temer; pois, murmurando entre os dentes cerrados: "Por que desperdiçá-la em um inimigo?", Clifford virou o cano para a cabeça do corcel inconsciente, que parecia inclinar-se para ele com tristeza e melancolia. "Tu", disse ele, "a quem alimentei e amei, jamais conhecerás a adversidade de outro!" e, com uma crueldade misericordiosa, arrastou-se um passo mais perto de seu amado corcel, pronunciou uma palavra bem conhecida, que trouxe a criatura dócil para o seu lado, e, colocando o cano da pistola perto de sua orelha, disparou e caiu inconsciente pelo esforço. O animal cambaleou e caiu morto.
Enquanto isso, o camarada de Clifford, aproveitando-se da surpresa e do pânico repentino do oficial, já estava fora de alcance e, disparando através do campo, ele e seu corcel esfarrapado desapareceram rapidamente.
CAPÍTULO XXXII
Não perco eu Com ele o que a fortuna na vida poderia conceder? Não perco eu a esperança, cordial da vida? .............. De fato, as lições que ele da prudência tomou Estavam escritas em sua mente como em um livro; Lá o que fazer ele lia, e o que evitar, E tudo o que era ordenado era prontamente feito. Ele parecia proceder sem uma paixão, .............. No entanto, alguns acreditavam que essas paixões apenas dormiam! CRABBE.
Relíquias do amor, e da primavera encantada da vida! A. WATTS: Ao queimar um pacote de cartas.
Muitos e tristes e profundos Foram os pensamentos dobrados em teu peito silencioso! Tu, também, podias vigiar e chorar! SRA. HEMANS.
Enquanto Sir William Brandon perseguia seus esquemas ambiciosos e, apesar da recusa firme e constante de Lucy em relação a Lord Mauleverer, ainda estava determinado naquele casamento mal-assarrado; enquanto o próprio Mauleverer comparecia dia após dia à casa do juiz e, embora não falasse de amor, olhava-o com todas as suas forças — tornou-se óbvio para todos, exceto para o amante e o guardião, que a própria Lucy estava rapidamente declinando em aparência e saúde. Desde o dia em que vira Clifford pela última vez, seu ânimo, antes muito abalado, recusara-se a recuperar sequer uma semelhança com seu tom naturalmente alegre e feliz. Tornou-se silenciosa e abstraída; até mesmo sua doçura de temperamento alterava-se, por vezes, em um humor melancólico e irritadiço. Nem aos livros, nem à música, nem a qualquer arte pela qual o tempo é enganado, ela recorria para um alívio momentâneo dos sentimentos amargos em seu coração, ou para um esquecimento passageiro de sua picada. Todo o mundo de sua mente fora abalado. Seu orgulho estava ferido, seu amor irritado; sua fé em Clifford cedeu, enfim, a uma suspeita sombria e obscura. Nada, ela sentia agora, senão um nome assim como fortunas totalmente abandonadas, poderia tê-lo justificado pela teimosia de coração com que fugira e a abandonara. Sua própria autossuficiência já não a consolava na aflição. Ela condenava a si mesma por sua fraqueza, desde o nascimento de seu afeto infausto até a crise que agora adquirira. "Por que não lutei contra isso no início?", dizia ela amargamente. "Por que permiti a mim mesma tão facilmente amar alguém desconhecido para mim, e de posição equívoca, apesar das advertências de meu tio e dos sussurros do mundo?" Ai de mim! Lucy não se lembrava de que, na época em que foi culpada dessa fraqueza, ela não aprendera a raciocinar como raciocinava desde então. Suas faculdades estavam apenas imperfeitamente despertas; sua experiência do mundo era ignorância absoluta. Ela mal sabia que amava, e não sabia de forma alguma que o sentimento delicioso e excitado que preenchia seu ser poderia um dia se tornar tão produtivo de mal e perigo quanto o fizera agora; e mesmo que sua razão estivesse mais desenvolvida e suas resoluções mais fortes, será que o exercício da razão e da resolução sempre ajuda contra a paixão dominante? O amor, é verdade, não é inconquistável; mas quão poucos foram aqueles que, mente e alma, cobiçaram a conquista! O desapontamento faz um voto, mas o coração não o registra. Ou, na imagem nobre daquela que tão ternamente e tão verdadeiramente retratou os sentimentos de seu próprio sexo —
"Nós fazemos Uma escada de nossos pensamentos onde os anjos pisam, Mas dormimos nós mesmos ao pé!" [The History of the Lyre, por L. E. L.]
Antes que Clifford a visse pela última vez, observamos que Lucy tinha (e era uma consolação) se apegado à crença de que, apesar das aparências e de sua própria confissão, sua vida passada não fora tal que o colocasse fora do alcance de seus justos afetos; e havia momentos frequentes em que, lembrando que a morte de seu pai removera o único ser que poderia reivindicar um direito inquestionável de ditar suas ações, ela pensava que Clifford, ouvindo que sua mão estava inteiramente à sua própria disposição, poderia aparecer novamente, e novamente instar um pedido que ele sentia que poucas circunstâncias poderiam induzi-la a negar. Toda essa linha de raciocínio e esperança, meio admitida, porém sincera, desapareceu a partir do momento em que ele deixou a casa de seu tio. Suas palavras não permitiam interpretação errônea. Ele não cedera sequer à sua própria condescendência, e sua face ardeu quando ela se lembrou disso. Ainda assim, ele a amava. Ela via, ela sabia disso em cada palavra e olhar dele! Amargo, então, e sombrio deve ser aquele remorso que poderia ter vencido todos os argumentos, exceto aquele que o instava a deixá-la, quando ele poderia tê-la reivindicado para sempre. É verdade que, quando sua carta formalmente lhe deu adeus, a mesma linguagem de autoacusação foi retomada, as mesmas dicas sombrias e alusões à infâmia ou culpa; mas nunca até agora ela as interpretara rigidamente, e nunca até agora ela sonhara o quão longe seu significado poderia se estender. Ainda assim, que crimes ele poderia ter cometido? Os verdadeiros nunca ocorreram a Lucy. Ela estremeceu ao perguntar a si mesma, e silenciou suas dúvidas em um silêncio sombrio e torpido. Mas, através de todas as suas acusações contra si mesma, e através de todas as suas suspeitas despertadas contra Clifford, ela não podia deixar de reconhecer que algo nobre e não indigno dela se misturava em sua conduta, e causava sua resistência a ela e a si mesmo; e essa crença, talvez, irritava-a mesmo enquanto a tocava, e mantinha seus sentimentos em uma luta e conflito perpétuos que sua estrutura delicada e mente suave eram pouco capazes de suportar. Quando os nervos se quebram uma vez, como se quebra o caráter com eles! Quantos ascetas, murchos e amargurados, encontramos no mundo, que, se não fosse por um choque no coração e na forma, poderiam ter errado pelo lado da mansidão! Quer venha do sofrimento ou da doença, o golpe que estraga uma única fibra causa um caos estranho na mente. Somos escravos de nossos músculos, e marionetes da mola do sangue caprichoso; e a grande alma, com todas as suas capacidades, seus atributos solenes e reivindicações sonoras, é, enquanto na terra, apenas uma piada para este saltimbanco — o corpo —, desde o sonho que brinca com ele por uma hora, até a loucura que o fragmenta em um idiota, rindo enquanto brinca com seus próprios fragmentos, e cambaleando desamparado e cego para a sepultura!
Dissemos antes que Lucy gostava tanto de seu tio quanto de sua sociedade; e ainda, sempre que o assunto de Lord Mauleverer e seu pedido era deixado intocado, havia algo na conversa de Sir William Brandon que despertava um interesse em sua mente, absorta e consumida como se tornara. A tristeza, de fato, e a companheira da tristeza, a reflexão, tornaram-na cada vez mais capaz de compreender um caráter muito sutil e intrincado. Não há segredo para descobrir o coração humano como a aflição, especialmente a aflição que brota da paixão. Se um escritor o surpreende com sua visão da sua natureza, tenha certeza de que ele lamentou; tal saber é a alquimia das lágrimas. Daí a insensível e quase universal confusão de ideias que confunde a melancolia com a profundidade, e encontra apenas inanidade oca no símbolo de um riso. Erro lamentável! A reflexão nos conduz primeiro à melancolia, mas seu próximo estágio é para o brilho. O Filósofo Sorridente alcançou a meta da Sabedoria; Heráclito choramingava na linha de partida. Mas basta para Lucy ganhar até mesmo o vestíbulo da filosofia.
Apesar da sensibilidade que naturalmente experimentamos em relação a todos que pertinazmente despertam um assunto desagradável, e apesar, portanto, do incentivo de Brandon ao cortejo de Mauleverer, Lucy sentia-se inclinada estranhamente, e com algo do afeto de uma filha, em direção a esse ser enigmático; apesar, também, de todo o vício frio e medido de seu caráter — a dureza e a palidez invernal de coração com que ele via o bem-estar dos outros, ou as substâncias da Verdade, Honra e Virtude — a insensibilidade de seus afetos fossilizados, que nenhum ser humano suavizava senão por um momento, e nenhum impulso caloroso e saudável atingia, salvo em um lampejo efêmero e ocioso; — apesar dessa consumada obduração e mundanidade de temperamento, não é paradoxal dizer que havia algo no homem que Lucy achava, às vezes, análogo ao seu próprio ser vívido e generoso. Isso, no entanto, só era notável quando ela o levava a conversar sobre os dias anteriores, e quando, gradualmente, o advogado sarcástico esquecia o presente e tornava-se eloquente, não sobre as ações, mas sobre os sentimentos do passado. Ele falava com ela por horas sobre seus sonhos juvenis, suas ocupações ou seus projetos, quando menino. Acima de tudo, ele adorava conversar com ela sobre Warlock, seus restos de magnificência antiga, as margens verdes do rio plácido que enriquecia seus domínios, e o esplendor estival da madeira e das terras de charneca, em meio aos quais suas visões de meio-dia tinham sido nutridas.
Quando ele falava dessas cenas e dias, seu semblante suavizava-se, e algo em sua expressão, lembrando a Lucy a imagem de alguém ainda mais caro, fazia-a ansiar mais por ele. Um gelo parecia quebrado em sua mente, e correntes de sentimentos liberados e gentis, misturados com sentimentos gentis e generosos, fluíam. De repente, um pensamento, uma palavra, trazia-o de volta ao presente — suas feições murchavam abruptamente em sua fria placidez ou esgar latente; o selo fechava-se subitamente sobre o encanto quebrado e, como a vítima de um conto de fadas, condenada a uma hora determinada a assumir outra forma, o próprio ser a quem você estivera ouvindo parecia ter desaparecido, e substituído por um que você se surpreendia ao contemplar. Mas havia uma época de sua vida sobre a qual ele estava sempre em silêncio, e esse era seu primeiro início no mundo real — o período de sua luta inicial por riqueza e fama. Todo aquele espaço de tempo parecia um abismo escuro, sobre o qual ele passara e mudara de uma vez — como um viajante desembarcando em um clima estranho pode adotar, no momento em que toca sua costa, seu traje e sua língua.
Todos os homens — os mais modestos — têm uma falha comum; mas é uma que muitas vezes assume o dominó e a máscara — o orgulho! Brandon era, no entanto, orgulhoso a um grau muito raro em homens que ascenderam e floresceram no mundo. Das ruínas de todos os outros sentimentos, este sobrevivente imperial fez um grande palácio para sua residência, e chamou a estrutura de "Desdém". O escárnio era a verdadeira essência da natureza de Brandon; mesmo nos disfarces mais suaves, na suavidade de sua voz, na insinuação de seu sorriso, nas graças populares e flexíveis de seus modos, uma irrisão oleosa flutuava, raramente discernível, é verdade, mas proporcionando sua força e quantidade à calma que produzia.
Nesse ínterim, enquanto seu caráter assim se exibia e se contradizia na vida privada, sua fama crescia rapidamente na estima pública. Ao contrário de muitos de seus irmãos, o brilhante advogado superara as expectativas, e brilhava ainda mais conspicuamente nos deveres menos fortuitamente auxiliados do juiz. A própria inveja — e a virulência política de Brandon, apesar de sua afabilidade pessoal, fizera-lhe muitos inimigos — foi levada a reconhecer a profundidade de seu conhecimento jurídico, e a admirar a maneira como as funções peculiares de sua nova dignidade eram exercidas. Nenhum advogado juvenil o intimidava, nenhum casuísta batido o intrigava; mesmo sua atenção nunca vagava do caso mais monótono submetido ao seu tribunal. Um pintor, desejoso de gravar em sua tela o retrato de um juiz íntegro, dificilmente poderia ter encontrado uma realização melhor para seu ideal do que o semblante austero, sereno, aguçado, porém majestoso de Sir William Brandon, tal como parecia nas vestes do cargo e do assento da justiça.
Os jornais não demoraram a registrar a singular captura do notório Lovett. A audácia com que ele planejara e executara o resgate de seus camaradas, somada ao suspense em que seu ferimento manteve o público por algum tempo, quanto à sua fuga de uma morte pela porta dos fundos de outra, causou um fermento e uma excitação muito consideráveis na mente popular; e, para alimentar o impulso, os jornalistas não foram pouco lentos em contar cada anedota, verdadeira ou falsa, que podiam coletar tocando nas aventuras passadas do ousado salteador. Muitas boas histórias vieram então à luz, que participavam tanto do cômico quanto do trágico — pois nenhuma das aventuras do ladrão foi marcada por crueldade ou derramamento de sangue; muitas delas indicavam, antes, um espírito hilariante e jovial de empreendimento festivo. Parecia que ele pensara na estrada um arena excelente para piadas, e só roubava por causa de desabafar uma afeição redundante por gracejos. As pessoas sentiam que era um pecado ser severo com um homem de disposição tão alegre; e era especialmente observável que nenhuma das senhoras que tinham sido espoliadas pelo ladrão podia ser persuadida a processar; pelo contrário, elas sempre falavam do evento como uma das lembranças mais agradáveis de suas vidas, e pareciam ter uma gratidão provocadora pelo belo infrator, em vez de ressentimento. Todos os senhores não eram, no entanto, de temperamento tão apaziguável; e dois fazendeiros robustos, com um criador de gado de lambuja, estavam prontos para jurar, "por tudo", a identidade do prisioneiro com um cavaleiro que civilmente fizera companhia a cada um deles por uma hora em suas várias viagens de volta para casa vindas de certas feiras, e carregara o prazer de sua sociedade, eles afirmavam muito gravemente, consideravelmente além de uma piada; de modo que o estado dos assuntos do prisioneiro assumiu um aspecto muito sombrio, e o advogado — um veterano — encarregado de sua causa declarou confidencialmente que não havia chance. Mas uma acusação ainda mais pesada, porque vinha de um setor muito mais nobre, aguardava Clifford. Na caverna dos ladrões foram encontrados vários artigos correspondendo exatamente à descrição daqueles valores feloniosamente subtraídos da pessoa de Lord Mauleverer. Aquele nobre compareceu para inspecionar os artigos, e para ver o prisioneiro. Os primeiros, ele se viu capaz de jurar, com uma consciência muito tranquilizada; o último, ele viu febril, atenuado e em um momento de delírio, no leito de enfermo ao qual seu ferimento o levara. Ele não teve dificuldade, no entanto, em reconhecer no criminoso preso o alegre e conquistador Clifford, a quem ele certa vez até honrara com sua inveja. Embora suas suspeitas anteriores, obscuras e vagas, sobre Clifford estivessem assim confirmadas, o par de bom coração sentiu algum leve remorso ao comparecer como seu acusador. Esse remorso, porém, desapareceu no momento em que ele deixou o apartamento do doente; e, após uma pequena conversa patriótica com os magistrados sobre a necessidade do dever público — um tema que trouxe lágrimas virtuosas aos olhos daqueles respeitáveis funcionários —, ele reentrou em sua carruagem, retornou à cidade e, após um jantar animado tête-à-tête com uma antiga chere amie, que, de todos os seus encantos, preservara apenas a atração da conversa e a capacidade de saborear um salame, Mauleverer, na mesma noite de seu retorno, dirigiu-se à casa de Sir William Brandon.
Quando entrou no saguão, Barlow, o criado favorito do juiz, encontrou-o com um ar bastante confuso e misterioso e, detendo-o enquanto ele passeava em direção à biblioteca de Brandon, informou-o de que Sir William estava particularmente ocupado, mas que se juntaria a Sua Senhoria na sala de estar. Enquanto Barlow ainda falava, e Mauleverer inclinava seu ouvido direito (com o qual ouvia melhor) em sua direção, a porta da biblioteca se abriu, e um homem com um traje muito grosseiro e brutal saiu desajeitadamente.
"Então este é o compromisso particular", pensou Mauleverer — "um estranho Sir Pândaro; mas esses velhos têm gostos engraçados."
"Posso entrar agora, meu caro, suponho?" disse Sua Senhoria a Barlow; e, sem esperar resposta, entrou na biblioteca. Encontrou Brandon sozinho, e debruçado seriamente sobre algumas cartas que espalhavam sua mesa. Mauleverer aproximou-se descuidadamente e jogou-se em uma cadeira oposta. Sir William levantou a cabeça ao ouvir o movimento; e Mauleverer, imprudente como era aquele personagem, sentiu-se gelado e quase intimidado pela expressão do semblante de seu amigo. O rosto de Brandon era um que, por mais flexível, quase sempre usava um caráter predominante — calma; fosse na suavidade da cortesia social, ou na austeridade de sua posição oficial, ou no sarcasmo amargo que lhe escapava em intervalos não infrequentes, ainda uma certa secura dura e inflexível estampava tanto suas feições quanto seu ar. Mas, neste momento, uma variedade de sentimentos não ordinariamente eloquentes no homem exterior lutava em seu rosto escuro, expressivo de toda a energia e paixão de sua natureza poderosa e masculina; parecia falar de suas feições e olhos algo de vergonha e raiva e triunfo e arrependimento e escárnio. Todas essas várias emoções, que parece quase um paradoxo afirmar que se encontravam na mesma expressão, eram, no entanto, tão individualmente e quase temerosamente estampadas que transmitiam de uma só vez seu significado à mente de Mauleverer. Ele olhou para as cartas, nas quais a escrita parecia fraca e descolorida pelo tempo ou pela umidade; e então, olhando mais uma vez para o rosto de Brandon, disse em um tom bastante ansioso e contido:
"Céus, Brandon! Você está doente; ou algo aconteceu? Você me alarma!"
"Você reconhece estas mechas?" disse Brandon, com uma voz oca; e debaixo das cartas ele retirou alguns anéis de uma tonalidade castanha, e empurrou-os com o rosto virado para Mauleverer.
O conde pegou-as, olhou para elas por alguns momentos, mudou de cor, mas balançou a cabeça com um gesto negativo, enquanto as colocava mais uma vez sobre a mesa.
"Esta letra, então?" renovou o juiz, com uma voz ainda mais impressionante e dolorosa; e ele apontou para as cartas.
Mauleverer levantou uma delas e manteve-a entre seu rosto e a lâmpada, para que o que quer que suas feições pudessem ter traído ficasse escondido de seu companheiro. Finalmente, ele deixou cair a carta com um desleixo afetado e disse:
"Ah, conheço a letra mesmo a esta distância de tempo; esta carta é dirigida a você!"
"É; assim são todas estas", disse Brandon, com a mesma voz de compostura sobrenatural e tensa. "Elas voltaram para mim após uma ausência de quase vinte e cinco anos; são as cartas que ela me escreveu nos dias do nosso namoro" (aqui Brandon riu com desprezo), — "ela as levou embora com ela, você sabe quando; e (uma bela massa de consistência é a mulher!) ela as guardou, parece, até o seu leito de morte."
O assunto em discussão, fosse ele qual fosse, parecia doloroso para Mauleverer; ele virou-se inquieto na cadeira e disse, finalmente:
“Bem, pobre criatura! estas são lembranças dolorosas, já que tudo acabou tão infelizmente; mas não foi nossa culpa, caro Brandon. Éramos homens do mundo; conhecíamos o valor das... das mulheres, e tratamo-las de acordo!”
“Certo! certo! certo!” exclamou Brandon, veementemente, rindo com um desdém selvagem e alto, cuja força intensa seria em vão tentar expressar. “Certo! e, pela fé, meu senhor, não me lamento, nem me arrependo.”
“Assim, assim, isso está bem!” disse Mauleverer, ainda sem estar à vontade, e apressando-se em mudar a conversa. “Mas, meu caro Brandon, tenho notícias estranhas para você! Lembra-se daquele sujeito Clifford, que teve a insolência de se dirigir à sua adorável sobrinha? Eu lhe disse que suspeitava que aquele seu amigo alto tivesse feito meu conhecimento de forma um tanto desagradável, e por isso duvidei do próprio Clifford. Bem, meu caro amigo, este Clifford é... quem você acha? nada menos que o Sr. Lovett, da celebridade de Newgate!”
“Você não diz!” replicou Brandon, apaticamente, enquanto lentamente reunia seus papéis e os depositava em uma gaveta.
“De fato é verdade; e o que é mais, Brandon, este sujeito é um dos próprios salteadores de estrada que me roubaram no meu caminho de Bath. Sem dúvida, ele me prestou o mesmo serviço gentil na minha estrada para Mauleverer Park.”
“Possivelmente,” disse Brandon, que parecia absorto em um devaneio.
“Ora!” respondeu Mauleverer, picado com essa indiferença. “Mas você não vê as consequências para sua sobrinha?”
“Minha sobrinha!” repetiu Brandon, despertando.
“Certamente. Lamento dizer, meu caro amigo... mas ela era jovem, muito jovem, quando estava em Bath. Ela permitiu que este sujeito se dirigisse a ela de forma muito aberta. Aliás... pois serei franco... ela era suspeita de estar apaixonada por ele!”
“Ela estava apaixonada por ele,” disse Brandon, secamente, fixando a frieza maligna de seu olhar no pretendente. “E, pelo que sei,” acrescentou ele, “ela está assim neste momento.”
“Você é cruel!” disse Mauleverer, desconcertado. “Espero que não, pelo bem das minhas contínuas investidas.”
“Meu caro senhor,” disse Brandon, tomando urbanamente a mão do cortesão, enquanto o *anguis in herba* de seu escárnio brincava ao redor de seus lábios contraídos, “meu caro senhor, somos velhos amigos e não precisamos nos enganar. Você deseja se casar com minha sobrinha porque ela é uma herdeira de grande fortuna, e você supõe que minha riqueza, com toda a probabilidade, aumentará a dela. Além disso, ela é mais bonita do que qualquer outra jovem de seu conhecimento e, polida pelo seu exemplo, pode fazer honra ao seu gosto, bem como à sua prudência. Nessas circunstâncias, tenho certeza de que você verá com clemência seus erros de menina, e não a amará menos porque seu capricho tolo a convence de que ela está apaixonada por outro.”
“Ahem!” disse Mauleverer, “você vê a questão com mais senso do que sentimento; mas veja bem, Brandon, devemos tentar, para o bem de ambos, se possível, manter a identidade de Lovett com Clifford sem ser descoberta. Não vejo por que deveria ser. Sem dúvida ele estava de guarda enquanto bancava o galanteador, e não cometeu nenhuma atrocidade em Bath. O nome de Clifford está até agora perfeitamente imaculado. Nenhuma fraude, nenhuma violência estão ligadas à denominação; e se o patife mantiver sua própria discrição, podemos enforcá-lo sem que o segredo transpareça.”
“Mas se me lembro bem,” disse Brandon, “os jornais dizem que este Lovett será julgado a apenas setenta ou oitenta milhas de Bath, e isso dá uma chance de reconhecimento.”
“Sim, mas ele estará diabolicamente alterado, imagino; pois seu ferimento já não foi um grande embelezador para seu rosto. Além disso, se o cão tiver alguma delicadeza, ele naturalmente não gostará de ser conhecido como o galanteador daquela cidade alegre onde brilhou com tanto sucesso, e se disfarçará tão bem quanto puder. Ouço maravilhas de seus poderes de autotransformação.”
“Mas ele pode se comprometer no ponto entre isso e seu julgamento,” disse Brandon.
“Penso em verificar até que ponto isso é provável, enviando meu criado até ele (você sabe que se trata esses cavalheiros salteadores com uma certa consideração, e enforca-os com todo o devido respeito aos seus sentimentos), para insinuar que será, sem dúvida, muito desagradável para ele, sob suas 'atuais circunstâncias infelizes' (não é essa a frase?), ser conhecido como o cavalheiro que desfrutou de uma popularidade tão merecida em Bath, e que, embora 'as leis do meu país me obriguem' a processá-lo, contudo, caso ele deseje, pode ter certeza de que preservarei seu segredo. Vamos, Brandon, o que me diz dessa manobra? Servirá ao meu propósito e fará o cavalheiro... pois sem dúvida ele é pura sensibilidade... derramar lágrimas pela minha generosa tolerância!”
“Não é uma má ideia,” disse Brandon. “Eu o elogio por isso. De qualquer forma, é necessário que minha sobrinha não saiba a situação de seu amante. Ela é uma moça de uma inclinação mental singular, e a fortuna a tornou independente. Quem sabe se ela não poderia cometer uma loucura ou outra, escrever petições ao rei e implorar-me que as apresente, ou ir... pois ela tem um mundo de romance nela... à prisão, para consolá-lo; ou, de qualquer forma, ela pediria meus bons ofícios em seu nome... um pedido peculiarmente embaraçoso, já que, com toda a probabilidade, terei a honra de julgá-lo.”
“Sim, a propósito, você terá. E imagino que a audácia do pobre patife não fará com que você seja menos severo do que costuma ser. Dizem que você promete fazer mais pêndulos humanos do que qualquer um de seus irmãos.”
“Dizem isso, dizem?” disse Brandon. “Bem, confesso que tenho um fel contra minha espécie; detesto sua loucura e seus meios vícios. *'Ridet et odit'* – ['Ele ri e odeia'] – é meu lema; e admito que não é a filosofia que torna os homens misericordiosos!”
“Bem, que a sabedoria de Juvenal seja sua, a minha que seja a de Horácio!” replicou Mauleverer, enquanto limpava os dentes; “mas estou feliz que você veja a necessidade absoluta de manter esse segredo longe da suspeita de Lucy. Ela nunca lê os jornais, suponho? Moças nunca leem!”
“Não! e terei o cuidado de não deixá-los ao alcance dela; e como, devido à recente morte de meu pobre irmão, ela não vê ninguém além de nós, há pouca chance, caso o direito de Lovett ao nome de Clifford seja descoberto, de que isso chegue aos seus ouvidos.”
“Mas aqueles criados malditos?”
“Verdadeiramente! Mas considere que, antes que eles saibam, os jornais saberão; de modo que, caso seja necessário, teremos nosso próprio tempo para adverti-los. Só preciso dizer à mulher de Lucy: 'Um pobre cavalheiro, amigo do falecido proprietário, com quem sua patroa costumava dançar, e você deve ter visto... o Capitão Clifford... será julgado por sua vida. Será um choque para ela, coitada! em seu atual estado de saúde, contar-lhe sobre um evento tão triste para o amigo de seu pai; portanto, fique em silêncio, se você preza seu lugar e dez guinéus',... e posso estar toleravelmente seguro da cautela!”
“Você deveria ser presidente do Comitê de Meios e Fins!” exclamou Mauleverer. “Minha mente está agora tranquila; e uma vez que o pobre Clifford se vá... caído de um alto posto... podemos revelar o assunto gentilmente a ela; e como pretendo, a partir disso, ser muito respeitoso, muito delicado, etc., ela não pode deixar de ser sensível à minha gentileza e afeição real!”
“E se um cão vivo for melhor do que um leão morto,” acrescentou Brandon, “certamente um lorde em existência será melhor do que um salteador enforcado!”
“De acordo com a lógica comum,” replicou Mauleverer, “esse silogismo é claro o suficiente; e embora eu acredite que uma moça possa se apegar de vez em quando à memória de um amante falecido, não creio que ela o fará quando a memória estiver aliada à vergonha. O amor não é nada mais do que vaidade satisfeita; fira a vaidade e você destruirá o amor! Lucy será forçada, após ter feito uma escolha tão ruim de amante, a fazer uma boa escolha em um marido, a fim de recuperar sua autoestima!”
“E, portanto, você tem certeza dela!” disse Brandon, ironicamente.
“Graças à minha estrela... à minha jarreteira... ao meu ancestral, o primeiro barão, e a mim mesmo, o primeiro conde... espero estar,” disse Mauleverer; e a conversa mudou. Mauleverer não ficou muito mais tempo com o juiz; e Brandon, deixado sozinho, recorreu mais uma vez à leitura de suas cartas.
Mal sabemos que sensações teriam sido causadas em alguém que conheceu Brandon apenas em seus últimos anos, se pudesse ter lido aquelas cartas referentes a uma data tão anterior. Havia no caráter agudo e árido do homem tão pouco que lembrasse qualquer ideia de cortejo ou galanteria juvenil que uma correspondência dessa natureza teria parecido quase tão antinatural quanto os amores das plantas, ou as suavizações amorosas de um mineral. A correspondência agora diante de Brandon era descritiva de vários sentimentos, mas todos pertencentes à mesma classe; a maioria delas eram aparentes respostas a cartas dele. Em um momento, elas respondiam ternamente a expressões de ternura, mas sugeriam uma dúvida se a escritora seria capaz de constituir sua felicidade futura e compensar certos sacrifícios de nascimento, fortuna e perspectivas ambiciosas, aos quais ela aludia: em outros momentos, uma veia de coqueteria latente parecia permear o estilo... um ar indescritível de frieza e reserva contrastava com passagens anteriores na correspondência, e era calculado para transmitir ao leitor a impressão de que os sentimentos do amante não eram de todo adequadamente retribuídos. Frequentemente a escritora, como se Brandon tivesse se expressado sensível a essa convicção, reprovava-o por ciúme injusto e suspeita indigna. E o tom da reprovação variava em cada carta; às vezes era alegre e satírico; em outros, suave e exortativo; em outros, gravemente argumentativo, e frequentemente altivamente indignado. Ainda assim, ao longo de toda a correspondência, por parte da amante, havia uma marca de individualidade suficiente para dar a um examinador astuto algum palpite provável sobre o caráter da escritora. Ele a teria julgado, talvez, capaz de sentimentos fortes e ardentes, mas ordinariamente de uma inclinação leve e caprichosa, e aparentemente propensa a imaginar e a ressentir ofensas. Com essas cartas estavam misturadas outras na escrita de Brandon... de que descrição diferente, de que descrição apaixonada! Tudo o que um caráter profundo, orgulhoso, meditativo e exigente poderia sonhar em amor dado, ou exigir em amor retribuído, era derramado ardentemente sobre as páginas; contudo, elas estavam cheias de reprovação, de ciúme, de uma observação minuciosa e torturante, tão calculada para ferir quanto o ardor poderia ser adequado para encantar; e frequentemente a amarga tendência ao desdém que distinguia seu temperamento rompia através do mais terno entusiasmo do cortejo ou dos mais suaves derramamentos de amor.
“Você não me viu ontem,” ele escreveu em uma carta, “mas eu vi você; o dia todo estive ao seu lado: você não deu um olhar que passasse despercebido por mim; você não fez um movimento que eu não registrasse em minha memória. Julia, você treme quando lhe digo isso? Sim, se você tem um coração, sei que estas palavras o apunhalariam até o cerne! Você pode fingir responder-me indignada! Sábia dissimuladora! é muito habilidoso, muito, assumir raiva quando você não tem resposta. Repito, durante todo aquele grupo de prazer (prazer! bem, seus gostos, deve-se reconhecer, são requintados!) que você desfrutou ontem, e que tão fracamente me pediu para compartilhar, meu olho estava em você. Você não sabia que eu estava no bosque quando você tomou o riso do incomparável Digby, com um semblante tão bonito de alarme no momento em que a cobra que meu pé perturbou deslizou pelo seu caminho. Você não sabia que eu estava ao alcance da audição da tenda onde você fez uma refeição tão agradável, e da qual seu riso enviou balidos tão muitos e tão numerosos. Risos! Ó Julia, você pode me dizer que ama, e ainda ser feliz, até a alegria, quando estou longe! Amor! Ó Deus, quão diferente é a minha sensação! A minha compõe todo o meu princípio de vida! A sua! Digo-lhe que penso em momentos que preferiria ter seu ódio do que o sentimento morno que você nutre por mim, e honra com o nome de afeição.' Expressão bonita! Não tenho afeição por você! Não me dê essa palavra doentia; mas tente comigo, Julia, inventar alguma expressão que nunca filtrou um significado mesquinho pelos lábios de outra pessoa! Afeição! ora, essa é uma palavra de irmã, uma palavra de menina para seu esquilo de estimação! Nunca foi feita para aquela boca rubra e mais madura! Devo ir à sua casa esta noite? Sua mãe me pediu, e você... você a ouviu e não disse nada. Ah! mas isso foi reserva de donzela, foi? e a reserva de donzela fez com que você pegasse um livro no momento em que a deixei, como se minha companhia fosse apenas um divertimento comum a ser substituído instantaneamente por outro! Quando eu a vi, sociedade, livros, comida, tudo é odioso para mim; mas você, doce Julia, você pode ler, pode? Ora, quando a deixei, demorei-me junto à janela da sala por horas, até o anoitecer, e você nunca levantou os olhos, nem me viu passar e repassar. Pelo menos pensei que você teria vigiado meus passos quando deixei a casa; mas erro, moralista encantadora! De acordo com você, essa vigilância teria sido baixeza.”
Em outra parte da correspondência, um fluxo de sentimento mais grave, se não mais profundo, lutava para se expressar.
“Você diz, Julia, que se você fosse se casar com alguém que pensa tanto no que renuncia por você, e que exige de você mesma um retorno tão vasto de amor, você tremeria pela felicidade futura de ambos. Julia, a banalidade desse medo prova que você não ama nada. Não tremo por nossa felicidade futura; pelo contrário, a intensidade da minha paixão por você me faz saber que nunca poderemos ser felizes, nunca além do primeiro êxtase de nossa união. A felicidade é um sentimento quieto e tranquilo. Nenhum sentimento que eu possa possivelmente nutrir por você receberá esses epítetos... Sei que serei miserável e amaldiçoado quando estiver unido a você. Não comece! Direi-lhe em breve o porquê. Mas não sonho com felicidade, nem (se você pudesse sondar uma gota do oceano escuro e ilimitado de minhas emoções) você me nomearia essa palavra. Não é o cálculo mercantil e insensível de chances para 'felicidade futura' (que homilia lhe forneceu um termo tão seleto?) que entra no coração que nutre um amor que tudo permeia. A paixão olha apenas para um objeto, para nada além; eu sinto sede, eu consumo, não por felicidade, mas por você. Se sua posse inevitavelmente me levasse a um abismo de angústia e vergonha, você pensa que eu a cobiçaria um pouco menos! Se você carrega um pensamento, uma esperança, um vago capricho, além do evento que faz de você minha, você pode ser mais digna da estima dos outros, mas é totalmente indigna do meu amor.
....................
“Vou lhe dizer agora por que sei que não podemos ser felizes. Em primeiro lugar, quando você diz que sou orgulhoso de nascimento, que sou morbidamente ambicioso, que estou ansioso para brilhar no grande mundo, e que depois que a primeira intoxicação do amor passar, sentirei amargura contra alguém que humilhou tanto meu orgulho e escureceu minhas perspectivas, não tenho certeza de que você erra totalmente. Mas tenho certeza de que o remédio instantâneo está em seu poder. Você tem paciência, Julia, para ouvir uma espécie de história de mim mesmo, ou melhor, dos meus sentimentos? Se sim, talvez esse seja o melhor método de explicar tudo o que eu gostaria de transmitir. Você verá, então, que meu orgulho familiar e minha ambição mundana não se baseiam totalmente naquelas fundações que movem meu riso em outra pessoa; se meus sentimentos a respeito disso são realmente, contudo, como você insinuaria, matéria igual para escárnio, veja, minha Julia, posso rir igualmente deles! Tão agradável coisa é o desprezo para mim, que prefiro desprezar a mim mesmo do que não ter ninguém para desprezar! Mas à minha narrativa! Você deve saber que somos apenas dois, filhos de um proprietário rural, de família antiga, que outrora possuía grandes possessões e algo de renome histórico. Vivíamos em uma velha propriedade rural; meu pai era um cão convivial, um caçador de raposas, um bêbado, contudo, à sua maneira, um cavalheiro fino... e um membro muito desonroso da sociedade. Os primeiros sentimentos em relação a ele que consigo lembrar foram de vergonha. Não muita matéria de orgulho familiar aqui, você dirá! Verdade, e essa é exatamente a razão que me fez valorizar o orgulho familiar em outro lugar. A casa de meu pai estava cheia de convidados... alguns altos e outros baixos; todos eles se uniam no ridículo ao anfitrião. Logo detectei o riso, e você pode imaginar que isso não me agradou. Enquanto isso, o velho caçador, cuja família era quase tão antiga quanto a nossa, e cujos ancestrais haviam oficiado em sua capacidade para os ancestrais de seu mestre desde tempos imemoriais, contava-me história após história sobre os Brandons de outrora. Voltei das histórias para uma história mais legítima, e descobri que as lendas eram toleravelmente verdadeiras. Aprendi a brilhar com essa descoberta; o orgulho, humilhado quando me lembrava de meu progenitor, revivia quando me lembrava de meus ancestrais. Tornei-me decidido a emulá-los, a restaurar um nome caído, e jurei um mundo de bobagens sobre o assunto. O hábito de remoer essas ideias cresceu em mim. Nunca ouvi uma piada quebrada sobre meu guardião paternal, nunca peguei o olhar piegas de seus olhos cambaleantes, nem ouvi alguma inanidade requintada de seus lábios embriagados, sem que meus pensamentos voassem instantaneamente de volta para os Sir Charleses e os Sir Roberts da minha linhagem, e eu me consolava com a esperança de que a degeneração atual passasse. Daí, Julia, meu orgulho familiar; daí, também, outro sentimento que você não gosta em mim... desdém! Primeiro aprendi a desprezar meu pai, o anfitrião, e então desprezei meus conhecidos, seus convidados; pois vi, enquanto riam dele, que eles bajulavam, e que sua alegria não era a única coisa que se permitia alimentar às custas dele. Assim, o desprezo cresceu comigo, e não tive nada para verificá-lo; pois quando olhei ao redor, não vi uma única coisa viva que eu pudesse respeitar. Este meu pai teve o senso de pensar que eu não era um idiota. Ele estava orgulhoso (pobre homem!) dos 'meus talentos', a saber, de prêmios ganhos na escola e cartas de congratulações de meus mestres. Ele me enviou para a faculdade. Minha mente deu um salto lá; eu lhe direi, a mais bonita, o que foi! Antes de ir para lá, eu tinha algumas visões vagas e finas sobre a virtude. Pensei em reviver minhas honras ancestrais sendo bom; em suma, eu era um embrião do Rei Pepino. Acordei desse sonho na Universidade. Lá, pela primeira vez, percebi a consequência real da posição.
“Na escola, você sabe, Julia, os meninos não se importam nada com um lorde. Um bom jogador de críquete, um excelente sujeito, vale todos os condes no pariato. Mas na faculdade tudo isso cessa; bastões e bolas afundam no nada em que corais e sinos haviam afundado antes. Fica-se viril e adora-se coronets e carruagens. Vi que era uma coisa fina ganhar um prêmio, mas era dez vezes uma coisa mais fina ficar bêbado com um par. Então, quando fiz a primeira, minha resolução de ser digno de meus antepassados me fez fazer a segunda... não, de fato, exatamente; nunca fiquei bêbado: meu pai me enojou com esse vício cedo. À sua gula devo minha dieta vegetariana, e à sua embriaguez meu vício em água. Não, não fiquei bêbado com pares; mas eu era tão agradável a eles como se tivesse ficado igualmente embrutecido. Conhecia intimamente todos os 'Chapéus' na Universidade, e a partir de então fui admirado pelos 'Bonés', como se minha cabeça tivesse ganhado a altura de cada chapéu que eu conhecia.
[Em Cambridge, os filhos de nobres e os filhos mais velhos de baronetes têm permissão para usar chapéus em vez do boné acadêmico.]
Mas não fiz isso imediatamente. Devo lhe contar duas pequenas anedotas que primeiro me iniciaram no segredo da grandeza real.”
“A primeira foi esta: eu estava sentado à mesa com alguns membros de um colégio, homens graves e inteligentes. Dois deles, não me conhecendo, conversavam a meu respeito; ouviram dizer, afirmaram, que eu jamais seria um homem tão bom quanto meu pai — que não teria tal adega nem manteria tal casa. 'Conheci seis condes ali e um marquês', disse o outro ancião. 'E o filho dele', retrucou o primeiro doutor, 'só anda na companhia de sizars, creio eu'. 'Ora então', disse eu a mim mesmo, 'para merecer o elogio até mesmo de homens inteligentes, é preciso ter bons vinhos, conhecer muitos condes e renegar os sizars'. Nada poderia ser mais verdadeiro do que minha conclusão.
“A segunda anedota é esta: no dia em que ganhei um alto prêmio universitário, convidei meus amigos para jantar comigo. Quatro deles recusaram porque estavam ocupados (tinham sido convidados depois que eu os convidei) — convidados por quem? Pelo homem mais rico da Universidade. Esses acontecimentos, ocorrendo ao mesmo tempo, lançaram-me em um profundo devaneio. Despertei e tornei-me um homem de mundo. Não resolvi mais ser virtuoso e perseguir a glória dos vossos romanos e dos vossos atenienses — resolvi tornar-me rico, poderoso e de reputação mundana.
“Abjurei meus honestos sizars e, como disse antes, cortejei alguns ricos 'Chapéus'. Contemplai meu primeiro grande passo no mundo! Tornei-me o parasita e o adulador. O quê! Meu orgulho sofreria isso? Em verdade, sim, meu orgulho deleitava-se com isso; pois acalmava meu espírito de desprezo poder usar esses sujeitos elegantes para meus fins! Acalmava-me ver quão facilmente eu podia bajulá-los e a quanta variedade de propósitos eu podia aplicar até mesmo o fastidioso desgosto de sua companhia. Nada é tão tolo quanto dizer que os grandes ociosos não têm utilidade; eles podem ser usados para qualquer propósito que um homem sábio esteja inclinado a fazer deles. Pois bem, Julia, eis! Meu caráter já formado; o orgulho familiar, o desdém e a ambição mundana — aí estão para vós. As circunstâncias posteriores apenas fortaleceram a impressão já feita. Eu desejava, ao sair da faculdade, ir para o exterior; meu pai não tinha dinheiro para me dar. O que significava isso? Procurei descuidadamente por alguma conveniência mais rica do que a mesa paterna; encontrei-a em um Lord Mauleverer. Ele estivera na faculdade comigo, e eu o suportava facilmente como companheiro — pois ele tinha dotes, espírito e bom caráter. Fiz com que ele desejasse ir ao exterior e fiz com que pensasse que morreria de tédio se eu não o acompanhasse. Ao seu pedido nesse sentido, concordei relutantemente e vi tudo na Europa, o que ele negligenciou ver, às custas dele. O que mais me divertia era a percepção de que eu, o parasita, era respeitado por ele; e ele, o patrono, era ridicularizado por mim! Não teria sido assim se eu tivesse dependido da 'minha virtude'. Pois bem, docíssima Julia, o mundo, como eu disse, deu à minha experiência universitária uma autoridade sagrada. Retornei à Inglaterra; e meu pai morreu, deixando-me não um centavo, e ao meu irmão uma propriedade tão hipotecada que ele não podia desfrutá-la, e tão restrita que ele não podia vendê-la. Era agora o momento de lucrar com a experiência da qual eu me vangloriava. Vi que era necessário seguir uma profissão. As profissões são as máscaras do seu patife indigente; elas dão respeitabilidade à trapaça e um diploma para alimentar-se dos outros. Analisei meus talentos e observei os costumes de meu país; o resultado foi minha resolução de seguir a advocacia. Eu tinha um poder inesgotável de aplicação; eu era perspicaz, astuto e audacioso. Todas essas qualidades 'contam' nos tribunais de justiça. Cumpri meu número legítimo de termos; fui chamado; percorri o circuito; não obtive uma causa — nem uma causa, Julia! Minha saúde, nunca robusta, cedeu sob o estudo e a irritação. Fui ordenado a retirar-me para o campo. Vim para este vilarejo, como um lugar salubre e obscuro. Hospedei-me na casa de vossa tia; vós vinheis aqui diariamente — eu vos via — vós sabeis o resto. Mas onde, todo esse tempo, estavam meus nobres amigos? direis vós. 'Pela morte', desde que deixamos a faculdade, eles tinham aprendido um pouco da sabedoria que eu possuía então; não estavam dispostos a dar algo por nada; tinham irmãos mais novos, e primos, e amantes, e, pelo que sei, filhos para sustentar. Além disso, tinham suas próprias despesas; quanto mais rico é um homem, menos ele tem para dar. Um deles teria me concedido um benefício, se eu tivesse entrado para a Igreja; outro, uma patente, se eu tivesse me juntado ao seu regimento. Mas eu sabia que o dia tinha passado tanto para o padre quanto para o soldado; e não era meramente viver, não, nem viver confortavelmente, mas desfrutar do poder, que eu desejava; então recusei essas ofertas. Outros de meus amigos teriam ficado encantados em me manter em sua casa, banquetear-me, brincar comigo, cavalgar comigo, nada mais! Mas eu já tinha o discernimento para ver que, se um homem dança até a distinção, nunca é pelos passos do servilismo. É preciso receber favores e cortejar o patrocínio, mas deve ser com ares de um homem independente. Meus velhos amigos tornaram-se assim inúteis, meus estudos jurídicos proibiram-me de fazer novos, aliás, eles até me afastaram dos antigos; pois as pessoas podem dizer o que quiserem sobre uma semelhança de opiniões ser necessária à amizade — uma semelhança de hábitos é muito mais importante. É o homem com quem jantais, tomais o café da manhã e vos hospedais, com quem caminhais, cavalgais, jogais ou roubais, que é vosso amigo; não o homem que gosta de Virgílio tanto quanto vós e concorda convosco na admiração por Handel. Entretanto, minha principal presa, Lord Mauleverer, tinha partido; ele tomara a Dulcineia de outro homem e buscara um refúgio na Itália. Desde aquele tempo até hoje, nunca ouvi falar dele nem o vi; não sei sequer o seu endereço. Com exceção de algumas raras migalhas do meu irmão, que, bom homem simplório! eu poderia pilhar mais, se não estivesse decidido a não arruinar o patrimônio da família, fui jogado sobre mim mesmo; o resultado é que, embora tão inteligente quanto meus semelhantes, evitei por pouco a inanição — se meus desejos fossem menos simples, não haveria como evitar; mas não se deixa morrer de fome facilmente um homem que bebe água e come por gramas. Um destino mais eficaz poderia ter-me acontecido. Desapontamento, ira, esperança frustrada, orgulho mortificado, tudo isso, que corroía meu coração, poderia tê-lo consumido há muito tempo; eu poderia ter me desgastado como uma vestimenta que a traça come, se não fosse por aquele fundo de obstinada e férrea dureza que a natureza — peço perdão, não existe natureza — as circunstâncias me conferiram. Isso me sustentou e me sustentará ainda através do tempo e da vergonha e da fraqueza corporal e da febre mental, até que minha ambição tenha alcançado uma certa altura, e meu desdém pela mesquinhez humana se deleite nas fontes externas da fortuna, assim como em uma fonte interior de amarga e autossustentada consolação. No entanto, oh, Julia! Não sei se mesmo isso me teria sustentado, se naquela época da vida, quando eu estava mais ferido, mais abatido no corpo, mais azedado na mente, meu coração não tivesse encontrado e se prendido ao vosso. Eu vos vi, amei-vos; e a vida tornou-se para mim um novo objeto. Mesmo agora, enquanto vos escrevo, toda a minha amargura, meu orgulho, desaparecem; tudo o que desejei desaparece; minha própria ambição se foi. Não tenho esperança senão em vós, Julia; bela, adorada Julia! Quando vos amo, amo até mesmo o meu semelhante. Oh, vós não sabeis o poder que possuís sobre mim! Não o traiais; vós ainda podeis me tornar tudo o que minha juventude um dia sonhou, ou podeis endurecer cada pensamento, sentimento, sensação, em pedra.
................
“Eu deveria vos dizer por que não procuro felicidade em nossa união. Vós vistes agora a minha natureza. Vós traçastes a história da minha vida, traçando a história do meu caráter. Vós vedes o que abandono ao ganhar-vos. Não nego o sacrifício. Abandono as próprias essências da minha mente e alma atuais. Deixo de ser mundano. Não posso elevar-me, não posso reviver meu nome ancestral; aliás, irei renunciá-lo para sempre. Adotarei um apelido disfarçado. Mergulharei em outro grau de vida. Em algum vilarejo remoto, por meio de alguma profissão mais humilde do que a que agora sigo, devemos ganhar nosso sustento e sorrir para a ambição. Digo-vos francamente, Julia, quando fecho os olhos do meu coração, quando vos afasto do meu olhar, este sacrifício me apavora. Mas mesmo então vós vos impusestes diante de mim, e sinto que um relance de vosso olho é mais para mim do que tudo. Se pudésseis me suportar — se pudésseis me acalmar — se, quando uma nuvem estiver sobre mim, pudésseis deixá-la passar despercebida e sorrir para mim no momento em que ela se for — oh, Julia! Não haveria então extremo de pobreza, nenhuma degradação da sorte, nenhum abandono dos sonhos precoces que não me pareceriam êxtase se acompanhados da felicidade de saber que sois minha. Jamais meus lábios, jamais meus olhos vos diriam que existe algo na terra por que eu lamente ou que eu pudesse desejar. Não, Julia, se eu pudesse lisonjear meu coração com esta esperança, não me encontraríeis sonhando com a infelicidade e vós unidos. Mas eu tremerei, Julia, quando pensar em vosso temperamento e no meu próprio; vós considerareis um olhar sombrio de alguém nunca alegre como um insulto, e sentireis cada vazão de paixão sobre a Fortuna ou sobre os outros como uma reprovação a vós. Então, também, vós não podeis entrar em minha natureza; vós não podeis descer às suas cavernas; vós não podeis contemplar, muito menos podeis dignar-vos a acalmar, o ciúme exigente e de olhos de lince que ali habita. Docíssima Julia! Cada respiração vossa, cada toque vosso, cada olhar vosso, eu anseio por eles além de todo o desejo de uma mãe pelo filho que lhe foi arrancado há anos. Vossa cabeça recostava-se em uma velha árvore (lembrai-vos dela, perto de ------?), e eu ia todos os dias, depois de vos ver, beijá-la. Admirais-vos de que eu seja ciumento? Como posso amar-vos como amo e ser de outra forma! Todo o meu ser está embriagado por vós!
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“Isso então, vosso orgulho e o meu, vosso prazer na admiração dos outros, vossa leveza, Julia, fazem-me prever uma fonte eterna e jorrante de tortura para minha mente. Não me importo; não me importo com nada, contanto que sejais minha, nem que seja por uma hora.”
Parece que, apesar da natureza estranha, por vezes pouco amorosa e ferozmente egoísta destas cartas de Brandon, algo de um tom genuíno de paixão — talvez sua originalidade — auxiliado, sem dúvida, por alguma eloquência proferida pelo escritor e alguma inclinação traiçoeira por parte da amante, acabou por conquistar; e que uma união tão pouco propensa a receber o sorriso de uma estrela próspera foi, enfim, concretizada. A carta que encerrou a correspondência era de Brandon: foi escrita na noite anterior ao casamento, o qual, segundo a mesma carta, deveria ser privado e oculto. Após uma explosão arrebatadora de esperança e alegria, ela continuava assim:
“Sim, Julia, retrato minhas palavras; não tenho crença de que vós ou eu teremos futuramente qualquer motivo para a infelicidade. Aqueles olhos que pousaram tão ternamente nos meus; aquela mão cuja pressão ainda permanece em cada nervo do meu ser; aqueles lábios voltados tão timidamente, porém, devo dizer, relutantemente de mim — tudo me diz que vós me amais; e meus medos estão banidos. O amor, que conquistou minha natureza, conquistará a única coisa que eu desejaria ver alterada na vossa. Nada poderia jamais me fazer adorar-vos menos, embora vós finjais temê-lo — nada senão o conhecimento de que sois indigna de mim, que tendes um pensamento para outro; então eu não vos odiaria. Não; o privilégio da minha existência passada reviveria; eu me deleitaria em um luxo de desprezo, eu vos desprezaria, eu vos zombaria, e eu seria mais uma vez o que era antes de vos conhecer. Mas por que falo assim? Minha noiva, minha bênção, perdoai-me!”
Ao concluir nossos extratos desta correspondência, desejamos que o leitor note, primeiro, que o amor professado por Brandon parece ser daquela natureza veemente e corpórea que, embora seja frequentemente a menos durável, é muitas vezes a mais suscetível aos mais ferozes extremos de ódio ou mesmo de desgosto; segundo, que o caráter revelado por essa cáustica franqueza exigia evidentemente, em uma amante, ou uma devoção absoluta ou um trato habilidoso; e terceiro, que insinuamos tais qualidades na bela correspondente que não pareciam prometer, de forma otimista, nenhum desses elementos essenciais.
Enquanto com um lábio curvado, mas frequentemente trêmulo, o austero e sarcástico Brandon forçava-se lentamente à tarefa de prosseguir por esses monumentos de antiga loucura e emoção juvenil, a elucidação posterior desses eventos, que agora impeliam rapidamente a uma catástrofe fatal e terrível, estende diante de nós uma narrativa ocorrida muitos anos antes do tempo em que chegamos agora.
CAPÍTULO XXXIII.
Clem. Levantai o véu escuro dos anos! Atrás, o que espera? Um coração humano. Vasta cidade, onde residem Todas as glórias e todas as vilezas; enquanto impuro, Porém silencioso, através do rugido das paixões rola O rio do Pecado Querido, e carrega Uma vida e, contudo, um veneno em sua maré. .............. Clem. Tua esposa?
Vict. Afasta-te! Troquei essa palavra por “desprezo”!
Clem. Teu filho?
Vict. Sim, isso atinge o âmago — meu filho, meu filho!
Amor e Ódio, por --------
Em uma cidade obscura em ------shire, veio residir um jovem casal, cuja aparência e hábitos atraíram para eles, da parte dos vizinhos fofoqueiros, uma atenção mais do que comum. Levavam o nome de Welford. O homem assumiu a profissão de advogado. Veio sem recomendação ou carta de apresentação; seu modo de vida denunciava a pobreza; seu trato era reservado e até azedo; e, apesar da atenção e do escrutínio com que eram observados, não ganhou clientes nem iniciou processos judiciais. A falta de todas aquelas decentes charlatanices que os homens de todas as profissões são quase obrigados a empregar, e a natureza repentina e sem anúncio de sua vinda foram, talvez, a causa desse malogro. “Sua casa era pequena demais”, diziam as pessoas, “para a respeitabilidade”. E pouco bem se poderia tirar de um advogado cujas próprias grades ao redor da porta estavam tão tristemente necessitadas de uma nova demão de tinta! Então, também, a Sra. Welford angariou um grande número de inimigos. Ela era, acima de qualquer expressão, bela; e havia uma certa coqueteria em sua maneira que mostrava estar ela ciente de seus encantos. Todas as damas de ------- odiavam-na. Algumas pessoas visitaram o jovem casal. Welford recebeu-os friamente; seus convites não foram aceitos e, o que era pior, nunca foram retribuídos. O próprio diabo não teria podido sustentar um advogado sob tais circunstâncias. Reservado, maltrapilho, pobre, rude, sem recomendações, uma casa ruim, uma grade sem pintura e uma esposa bonita! No entanto, embora Welford não fosse empregado, ele era, como dissemos, vigiado. Em sua primeira chegada, que foi no verão, o jovem par era visto frequentemente caminhando junto pelos campos ou bosques que rodeavam seu lar. Às vezes caminhavam afetuosamente juntos, e observava-se com que cuidado Welford ajustava a capa ou xale de sua esposa ao redor de sua forma esguia, à medida que o frescor da noite aumentava. Mas muitas vezes seu braço era retirado; ele ficava para trás, e eles continuavam sua caminhada ou retornavam para casa em silêncio e separados. Aos poucos, sussurros circulavam por toda a cidade de que o casal recém-casado não vivia de modo algum feliz. Os homens culpavam o marido de aparência austera; as mulheres, a atrevida da esposa. No entanto, a única serva que mantinham declarou que, embora o Sr. Welford por vezes franzisse a testa e a Sra. Welford por vezes chorasse, eles eram extremamente apegados um ao outro e só brigavam por amor. A criada já tivera quatro amantes, e era possivelmente experiente em tais assuntos. Eles não recebiam visitantes, nem próximos nem distantes; e o carteiro declarou nunca ter visto uma carta endereçada a qualquer um deles. Assim, uma espécie de mistério pairava sobre o par, e tornava-os ainda mais observados e ainda mais detestados — o que é dizer muito — do que teriam sido de outra forma. Por mais pobre que Welford fosse, seu porte e modo de andar denunciavam eminentemente o que as pessoas comuns chamam de gentileza. E nisto ele levava grande vantagem sobre sua bela esposa, que, embora certamente não houvesse nada de vulgar ou plebeu em seu aspecto, carecia inteiramente do refinamento de maneiras, olhar e fraseado que caracterizavam Welford. Durante cerca de dois anos viveram desta forma, e de maneira tão frugal e tranquila que, embora Welford não tivesse meios visíveis de subsistência, ninguém podia muito bem se perguntar de que modo eles subsistiam. Perto do fim desse tempo, Welford investiu repentinamente uma pequena soma em uma especulação do condado. No curso dessa aventura, para grande surpresa de seus vizinhos, ele demonstrou um talento extraordinário para cálculos, e seus hábitos denunciavam claramente um homem de negócios e de habilidade. Essa disposição de capital trouxe um retorno suficiente para sustentar os Welfords, se assim tivessem desejado, em um estilo um pouco melhor do que anteriormente. Eles permaneceram, contudo, quase no mesmo estado; e a única diferença que o evento produziu foi a retirada do Sr. Welford da profissão que abraçara. Ele não era mais um advogado! Deve-se admitir que ele não renunciou a grandes vantagens nessa aposentadoria. Por volta dessa época, alguns oficiais estavam aquartelados em ------ e um deles, um belo tenente, ficou tão impressionado com os encantos da Sra. Welford, a quem vira na igreja, que não perdeu oportunidade de testemunhar sua admiração. Foi maldosamente, mas não sem fundamento, comentado que, embora nenhuma impropriedade absoluta pudesse ser detectada na maneira da Sra. Welford, ela certamente parecia longe de estar descontente com a evidente homenagem do jovem tenente. Um rubor tingia sua face quando ela o via; e o galante pavão afirmava que o rubor nem sempre vinha sem um sorriso. Encorajado pelas interpretações de sua vaidade, e contrastando, como todos os outros, seu próprio rosto animado e trajes brilhantes com a face ascética e sombria, o vestir desleixado e o andar austero que destruíam em Welford o efeito de uma pessoa realmente bela, nosso tenente achou por bem expressar sua paixão por meio de uma carta, que ele entregou no banco da Sra. Welford. A Sra. Welford não foi à igreja naquele dia; a carta foi encontrada por um vizinho bem-intencionado e enviada anonimamente ao marido.
O que quer que tenha acontecido em relação a este evento, na privacidade das relações domésticas, permaneceu necessariamente desconhecido; mas, no domingo seguinte, o rosto do Sr. Welford, que jamais aparecera na igreja, foi discernido por um vizinho vigilante — provavelmente o amigo anônimo — não no mesmo banco que sua esposa, mas em um canto remoto da casa sagrada. E certa vez, quando o tenente vigiava para ler no rosto da Sra. Welford alguma resposta à sua epístola, o mesmo inspetor prestativo declarou que a fisionomia de Welford assumiu um sorriso sardônico e cortante que fez seu sangue gelar. Seja como for, o tenente deixou seus aposentos, e a reputação da Sra. Welford permaneceu insatisfatoriamente imaculada. Pouco depois, a especulação do condado fracassou, e entendeu-se que os Welford estavam prestes a deixar a cidade, para onde ninguém sabia — alguns diziam que para a cadeia; mas então, infelizmente, nenhuma dívida pôde ser descoberta. Suas contas tinham sido “quase nada”; mas, pelo menos, haviam sido pagas regularmente. Contudo, antes que a propalada emigração ocorresse, uma circunstância igualmente maravilhosa para as boas gentes de ------- ocorreu. Em uma brilhante manhã de primavera, uma comitiva de prazer vinda de uma grande casa nas redondezas passou por aquela cidade. O mais notável deles era um jovem cavaleiro, ricamente vestido e de uma aparência notavelmente vistosa e bela. Não pouco consciente da sensação que criava, este cavalheiro demorou-se atrás de seus companheiros a fim de observar mais deliberadamente certas donzelas posicionadas em uma janela, que estavam bem dispostas a retribuir seus olhares com interesse. Neste momento, o cavalo, que se agitava ferozmente contra a rédea que o impedia de alcançar seus companheiros, assustou-se com um amolador de facas, deu um salto violento para o lado, e o gracioso cavalheiro, que estivera pensando, não na atitude mais adequada para preservar seu equilíbrio, mas em exibir sua figura, foi lançado com alguma força sobre um monte de tijolos e entulho que há muito tempo, para escândalo da vizinhança, permanecia diante das grades sem pintura ao redor da casa do Sr. Welford. O próprio Welford saiu na ocasião e sentiu-se compelido — pois ele não era de forma alguma alguém cujas emoções empáticas fluíssem facilmente — a lançar um olhar sobre a condição de um homem que jazia imóvel diante de sua própria porta. O cavaleiro recuperou rapidamente os sentidos, mas viu-se incapaz de se levantar; uma de suas pernas estava quebrada. Apoiado nos braços de seu cavalariço, ele olhou ao redor, e seu olhar encontrou o de Welford. Um reconhecimento instantâneo deu vida ao rosto do primeiro e lançou um rubor sombrio sobre as feições carrancudas do último.
“Céus!” disse o cavalheiro, “é aquele...”
“Quieto, meu senhor!” exclamou Welford, interrompendo-o rapidamente e olhando ao redor. “Mas o senhor está ferido, entrará em minha casa?”
O cavaleiro significou sua anuência e, entre o cavalariço e Welford, foi levado para dentro da porta surrada do ex-solicitador. O cavalariço foi então despachado com uma desculpa para a comitiva, muitos dos quais já estavam correndo ao redor da casa; e embora um ou dois tenham se forçado a cruzar o inospitaleiro limiar, tão logo proferiram alguns palavrões e sentiram seus olhares afundarem sob a aspereza sombria e gélida do anfitrião, convenceram-se de que, embora fosse maldita má sorte para seu amigo, nada podiam fazer por ele no momento; e, prometendo enviar alguém para indagar sobre ele no dia seguinte, remontaram e cavalgaram para casa, com um olho mais atento do que o habitual ao movimento de seus corcéis. Eles não partiram, no entanto, até que o cirurgião da cidade tivesse aparecido e declarado que o paciente não deveria, em hipótese alguma, ser movido. A perna de um lorde era uma dádiva que não acontecia todos os dias para o cirurgião de -------. Todo esse tempo, podemos imaginar o estado de ansiedade vivido na cidade e a agoniante resistência daqueles nervos rurais que são produzidos em populações escassas e têm uma simpatia tão Taliacotiana pelos assuntos dos outros. Um dia, dois dias, três dias, uma semana, uma quinzena, enfim, um mês passou, e o lorde ainda era o hóspede da morada do Sr. Welford. Deixando os fofoqueiros se alimentarem de sua curiosidade — “canibais de seus próprios corações” — devemos lançar um olhar para o interior da inospitaleira mansão do ex-solicitador.
Era quase noite, o sofredor estava apoiado em um sofá, e a bela Sra. Welford, que havia servido como sua enfermeira, estava colocando o travesseiro sob o membro despedaçado. Ele mesmo tentava agarrar a mão dela, que ela recolheu timidamente, e proferindo coisas mais doces e polidas do que ela jamais ouvira antes. Neste momento, Welford entrou suavemente; ele não foi notado por nenhum dos dois; e permaneceu à porta contemplando-os com um sorriso de calma e autossatisfeita zombaria. O rosto de Mefistófeles observando Margarida e Fausto poderia sugerir alguma ideia do quadro que pretendemos pintar; mas a fisionomia de Welford era mais altiva, assim como mais formosa em caráter, embora não menos maligna em expressão, do que aquela que o incomparável Retsch deu ao demônio zombeteiro. Tão absoluta, tão congratulatória, tão soberba era a zombaria nas feições escuras e marcantes de Welford, que, embora ele estivesse naquela situação em que o ridículo geralmente se vincula ao marido, eram o galante e a esposa que teriam aparecido ao espectador sob uma luz humilhante e nada invejável.
Após uma pausa momentânea, Welford aproximou-se com passo pesado. A esposa sobressaltou-se; mas com uma expressão suave e afável, que desde sua estada na cidade de ------- raramente fora visível em seu semblante, o anfitrião juntou-se ao par, sorriu para a enfermeira e congratulou o paciente pelo seu progresso rumo à recuperação. O nobre, bem instruído nos costumes do mundo, respondeu fácil e alegremente; e a conversa fluiu alegremente o suficiente até que a esposa, que estivera sentada abstraída e à parte, roubando de tempos em tempos olhares tímidos para o marido e olhares de significado mais suave para o paciente, retirou-se da sala. Welford então deu um novo rumo à conversa; relembrou ao nobre os dias agradáveis que haviam passado na Itália — das aventuras que compartilharam e das intrigas de que desfrutaram. À medida que a conversa aquecia, ela assumia um tom mais livre e licencioso; e não pouco, cremos, teriam ficado espantadas as boas gentes de -------, se pudessem ter ouvido as piadas alegres e as máximas libertinas que fluíam dos lábios finos daquele frio e severo Welford, cuja fisionomia desmentia a alegria. Das mulheres em geral, falavam com aquele desprezo vívido que é o tom habitual entre os homens do mundo; apenas em Welford assumia um caráter mais amargo, mais profundo e mais filosófico do que em seu convidado mais animado, porém menos enérgico.
O nobre parecia encantado com seu amigo; a conversa era exatamente ao seu gosto; e quando Welford o ajudou a subir para a cama, apertou a mão daquele homem cordialmente e esperou que o visse em breve em circunstâncias muito diferentes. Quando a porta do par fechou-se para Welford, ele permaneceu imóvel por alguns momentos; então, com passo suave, subiu para seu próprio quarto. Sua esposa dormia profundamente; ao lado da cama estava o berço da criança. À medida que seus olhos pousaram sobre este último, a ironia rígida, agora habitual em suas feições, relaxou; ele inclinou-se sobre o berço por muito tempo e em profundo silêncio. O rosto da mãe, misturado ao do pai, estava estampado na fisionomia adormecida e querúbica diante dele; e enquanto, finalmente, despertando de seu devaneio, ele a beijou suavemente, murmurou:
“Quando olho para você, quero acreditar que ela já me amou. Bah!” disse ele abruptamente, e levantando-se, “este sentimento paternal por uma oferta de um ------- é requintado em mim!” Dizendo isso, sem olhar para sua esposa, que, perturbada pela intensidade de suas últimas palavras, agitou-se inquietamente, ele deixou o quarto e desceu para aquele onde havia conversado com seu convidado. Fechou a porta com cautela e, andando de um lado para o outro no humilde aposento, deu vazão a pensamentos organizados de alguma forma na desordem fragmentada em que agora aparecem ao leitor:
“Sim, sim, ela tem sido minha ruína! E se eu fosse um daqueles tolos fracos que fazem um evangelho das mais tolas e melosas loucuras deste estado social, ela agora seria minha desgraça; mas, em vez de minha desgraça, farei dela meu escabelo para a honra e a riqueza. E, então, para o diabo com o escabelo! Sim! Dois anos suportei o que era suficiente para transformar todo o meu sangue em fel — inatividade, desesperança, um coração e uma vida desperdiçados em mim; contumélia do mundo; frieza, brigas, ingratidão daquela por quem (oh, asno que fui!) desisti da parte mais prezada de minha natureza — ou melhor, de minha própria natureza! Dois anos suportei isso, e agora terei minha vingança. Eu a venderei — venderei-a! Deus! Eu a venderei como a mais comum das bestas de um mercado! E esta peça desprezível de moeda falsa me comprará — meu mundo! A vingança de outros homens vem do ódio — um sentimento baixo, precipitado, não filosófico! A minha vem do escárnio — o único estado sábio para a razão repousar. A vingança de outros homens arruína a si mesmos; a minha me salvará! Ha! Como minha alma ri quando olho para este par patético, que pensa que não os vejo, e sei que cada movimento que fazem está em uma malha da minha teia! No entanto,” e Welford pausou lentamente — “no entanto, não posso deixar de zombar de mim mesmo quando penso no arqui-tolo que a loucura deste rapaz, amor — amor, de fato! a própria palavra me enoja de náusea — fez de mim. Se aquela mulher, tola, fraca, autômata como é, realmente me amasse; se ela tivesse consciência do sacrifício inefável que fiz por ela (o de Antônio não era nada comparado a isso — ele perdeu apenas um mundo real; o meu foi o mundo da imaginação); se ela tivesse ao menos condescendido em aprender minha natureza, em subjugar o demônio da mulher que há nela — eu poderia ter vivido nesta ermida tagarela para sempre e me imaginado feliz e resignado — eu poderia ter me tornado um ser diferente. Imagino que poderia ter me tornado o que seus moralistas (charlatães!) chamam de 'bom'. Mas esta frivolidade inquieta do coração, esta luxúria pelo elogio de tolo, esta irritabilidade de temperamento, esta carranca em resposta ao pensamento melancólico, que nela eu não sondava nem perdoava, este definhar vulgar, diário, horário, com os mesquinhos apertos da pobreza do corpo, o lamento doméstico, a queixa do lar — quando eu — eu não tenho um pensamento para tais provações patéticas de afeto; e todo esse tempo minhas maldições, minha esperança enterrada e espírito disfarçado e nome afundado não pensados; a magnitude da minha entrega a ela nem sequer compreendida; não, suas 'inconveniências' — uma lareira apagada, suponho, ou uma mesa sem iguarias — comparadas, sim, absolutamente comparadas com tudo o que abandonei por causa dela! Como se não bastasse — se eu tivesse sido um tolo, um tolo sem ambição e sem alma —, o mero pensamento de que eu ligara meu nome ao de um comerciante — peço perdão, um comerciante aposentado! — como se esse conhecimento — um conhecimento que eu estrangularia toda a minha linhagem, cada um que já me encontrou, viu, antes que eles penetrassem — não fosse suficiente, quando ela fala de 'comparar', para me fazer roer a própria carne de meus ossos! Não, não, não! Nunca houve uma virada tão brilhante em meu destino como quando este coxcomb titulado, com sua voz suave e adereços vistosos, veio para cá! Farei dela uma ferramenta para esculpir minha fuga desta caverna na qual ela me mergulhou. Fomentarei a paixão de 'meu senhor', até que 'meu senhor' pense que 'a paixão' (uma paixão de borboleta!) vale qualquer preço. Farei então meus próprios termos, obrigarei 'meu senhor' ao segredo e me livrarei de minha esposa, de minha vergonha e da obscuridade do Sr. Welford para sempre. Brilhantes, brilhantes perspectivas! Deixe-me fechar os olhos para desfrutá-las! Mas suave! Meu nobre amigo se intitula um homem do mundo, hábil na natureza humana e um zombador de seus preconceitos; verdade o suficiente, à sua própria pequena maneira — graças não a visões ampliadas, mas a uma experiência viciosa — assim ele é! O livro do mundo é uma vasta miscelânea; ele está perfeitamente bem familiarizado, sem dúvida, com aquelas páginas que tratam das modas — profundamente versado, garanto, no 'Magasin des Modes' anexado ao final do índice. Mas serei eu, mesmo com toda a maestria que minha mente deve exercer sobre a dele — serei eu capaz de me libertar totalmente na mente deste 'par do mundo' de uma lembrança degradante? Corno! corno! É uma palavra feia; um corno conveniente e voluntário, humph! — não há grandeza, não há verniz filosófico na frase. Deixe-me ver — sim! Tenho um remédio para tudo isso. Eu me casei secretamente — bem! sob nomes disfarçados — bem! Foi um casamento roubado, longe da cidade dela — bem! testemunhas desconhecidas dela — bem! provas facilmente asseguradas em minha posse — excelente! O tolo acreditará que é um casamento forjado, uma engenhosidade galante da minha parte; lavarei a mancha de corno com a água de outra palavra; farei mercado de uma amante, não de uma esposa. Vou avisá-lo para não a informar deste segredo; deixe-me considerar por que razão — oh! a legitimidade do meu filho pode ser conveniente para mim futuramente. Ele entenderá essa razão, e terei sua 'honra' quanto a isso. E, a propósito, eu me importo com essa legitimidade e guardarei as provas. Amo meu filho — homens ambiciosos amam seus filhos. Posso me tornar um lorde eu mesmo e desejar um lorde para me suceder; e aquele filho é meu, graças aos Céus! Tenho certeza desse ponto — o único filho, também, que jamais surgirá de mim. Nunca, eu juro, me colocarei novamente além do meu próprio poder! Toda a minha natureza, exceto uma paixão, eu dominei até agora; essa paixão será daqui em diante minha escrava, meu único pensamento será a ambição, minha única amante será o mundo!”
Assim terminou o devaneio de um homem a quem as circunstâncias sociais do mundo foram calculadas, como se por sistema, para tornar eminentemente e vilmente perverso, Welford subiu lentamente as escadas e reentrou em seu quarto. Sua esposa ainda dormia. Sua beleza era da ordem justa, juvenil e harmonizada, que amantes e poetas expressariam pela palavra “angélica”; e enquanto Welford olhava para seu rosto, silenciado e quase santificado pelo sono, uma certa fraqueza e irresolução poderiam ter sido discerníveis nas linhas fortes de suas feições altivas. Naquele momento, como se para destruir para sempre o retorno da esperança ou da virtude para qualquer um, seus lábios se moveram, eles pronunciaram uma palavra — era o nome do convidado cortesão de Welford.
Cerca de três semanas após aquela noite, a Sra. Welford fugiu com o jovem nobre e, na manhã seguinte a esse evento, o marido distraído com seu filho desapareceu para sempre da cidade de -------. A partir daquele dia, nenhuma notícia de qualquer espécie a respeito dele jamais alcançou os ouvidos excitados de seus vizinhos ansiosos; e a dúvida, a curiosidade, a discussão, estabeleceram-se gradualmente na crença de que seu desespero o levara ao suicídio.
Embora a infeliz Sra. Welford fosse, na realidade, de um temperamento leve e frívolo e, acima de tudo, suscetível à vaidade pessoal, ela não estava desprovida de afetos ardentes e sensibilidades aguçadas. Seu casamento fora por amor — isto é, da parte dela, o amor comum das garotas, que amam não tanto por um sentimento real e natural, mas por uma predisposição forçada. Sua escolha recaíra sobre alguém superior a ela em nascimento e, acima de tudo, em pessoa e modos, com quem ela habitualmente se encontrava. Assim, sua vaidade auxiliara seu afeto, e algo estranho e excêntrico no temperamento e na mente de Welford havia, embora por vezes despertasse seu medo, contribuído grandemente para inflamar sua imaginação. Então, também, embora não cortesão, ele fora um amante apaixonado e romântico. Ela tinha consciência de que ele desistira por ela de muito do que havia concebido anteriormente como necessário para sua existência; e ela não parou para indagar até que ponto essa devoção provavelmente duraria, ou que conduta de sua parte melhor perpetuaria os sentimentos dos quais ela brotara. Ela fugira com ele. Ela consentira em um casamento secreto. Ela passara um mês feliz e, então, a ilusão desapareceu! A Sra. Welford não era uma mulher que pudesse dar à realidade, ou encontrar nela, o charme igual à ilusão. Ela era perfeitamente incapaz de compreender o caráter intrincado e perigoso de seu marido.
Ela não possuía a chave para as virtudes dele, nem o encanto para os seus vícios. Tampouco o estado a que a pobreza os obrigava era bem calculado para aquela meditação terna, intensificada pela ausência e nutrida pela indolência, que tantas vezes supre quem ama com o segredo da natureza da pessoa amada. Embora não fosse igual ao marido em nascimento ou perspectivas iniciais, a Sra. Welford estava acostumada a certos confortos, muitas vezes mais sentidos por aqueles que pertencem às classes inferiores do que por aqueles que pertencem às mais elevadas, que, ao perder um luxo, muitas vezes renunciarão alegremente a todos. Uma grande dama pode se submeter a mais privações do que sua criada; e todo cavalheiro que viaja sorri diante das privações que atormentam seu criado. A pobreza e seus sombrios companheiros deram lugar a toda uma hoste de irritações mesquinhas e queixas rabugentas; e como nenhum hóspede ou visitante jamais aliviava o descontentamento doméstico, ou interrompia as discussões domésticas, elas geralmente terminavam naquele mau humor taciturno que tão frequentemente encontra o amor em uma sepultura de arrependimento. Nada faz as pessoas se cansarem umas das outras como uma familiaridade que admite o descuido nas brigas e a grosseria nas queixas. O escárnio mordaz de Welford dava acrimônia ao murmúrio de sua esposa; e uma vez que cada um concebeu o outro como o ofensor, ou a si mesmo como o injustiçado, era inútil esperar que um fosse mais cauteloso, ou o outro mais indulgente. Ambos exigiam demais, e a esposa, em especial, concedia pouco demais. A Sra. Welford era completa e enfaticamente o que um libertino chama de “uma mulher” — tal como uma educação frívola faz uma mulher —, generosa nas grandes coisas, mesquinha nas pequenas; vaidosa, irritável, cheia da pequenez de si mesma e de suas queixas, pronta a mergulhar em um abismo com seu amante, mas igualmente pronta a consumir todo o amor com reprovações quando o mergulho já fora feito. De todos os homens, Welford era quem menos podia suportar isso. Uma mulher de coração maior, experiência mais assentada e um intelecto capaz de apreciar seu caráter e sondar todas as suas qualidades poderia tê-lo tornado, talvez, um homem útil e grande e, no mínimo, seu amante por toda a vida. Em meio a uma colheita de sentimentos malignos, a mera força de sua natureza o tornava especialmente capaz de sentimentos intensos e emoções generosas. Quem nele confiava estava seguro; quem contra ele se rebelava confiava apenas no capricho de seu desprezo. Ainda assim, contudo, por dois anos, o amor, embora enfraquecendo a cada hora, lutou em ambos os peitos, e mal se poderia dizer que estava inteiramente vencido na esposa, mesmo quando ela fugiu com seu belo sedutor. Um escritor francês disse com bastante concisão: “Compare por um momento a apatia de um marido com a atenção, a galanteria, a adoração de um amante, e você pode perguntar o resultado?” Ele era um escritor francês; mas a Sra. Welford tinha em seu temperamento muito de francesa. Uma paciente sofredora, jovem, bonita, bem versada nas artes da intriga, contrastada com um marido sombrio que ela nunca compreendera, temera por muito tempo e, ultimamente, duvidara se detestava — ah! um contraste muito mais fraco já tornou muitas mulheres muito melhores em alimento para os advogados! A Sra. Welford fugiu; mas sentiu uma ternura revivida pelo marido na própria manhã em que o fez. Ela levou consigo as cartas de amor dele, bem como as suas, que, quando se casaram, ela reunira em uma hora de afeição — então, um tesouro inestimável! — e jamais seu novo amante recebeu de seus belos lábios um beijo tão apaixonado quanto o que ela deixou na face de seu filho. Por alguns meses, ela desfrutou com seu amante tudo pelo que suspirara em seu lar. Aquele por quem ela abandonara seus laços legítimos era uma pessoa tão habitualmente alegre, cortês e o que é ordinariamente chamado de “de bom coração” (embora tivesse nele tanto da essência do egoísmo quanto qualquer nobre pode decentemente ter), que ele continuou galante com ela sem esforço, muito depois de ter começado a achar possível cansar-se até de um rosto tão adorável. No entanto, houve momentos em que a esposa inconstante recordava o marido com pesar e, contrastando-o com seu sedutor, não achou todas as colorações do contraste lisonjeiras para este último. Há algo em um caráter poderoso e marcado que as mulheres e todas as naturezas fracas se sentem compelidas a respeitar; e o caráter de Welford permanecia, assim, em um relevo ousado e, portanto, vantajoso, embora sombrio, quando oposto às leviandades e fraquezas do atual adorador desta mulher culpada. Seja como for, a sorte estava lançada; e teria sido uma política da dama tirar o melhor proveito de seu jogo atual. Mas ela, que murmurara como esposa, não foi complacente como amante. Reprovações faziam um interlúdio às carícias, o que o nobre amante de modo algum admirava. Ele não era um homem de retrucar, era indolente demais; mas também não era um homem de tolerar. “Minha charmosa amiga”, disse ele um dia, após uma cena, “você se cansa de mim — nada mais natural! Por que atormentar um ao outro? Você diz que a arruinei; minha doce amiga, deixe-me fazer uma reparação. Torne-se independente; fixarei uma anuidade para você; fuja de mim — busque a felicidade em outro lugar e deixe seu infeliz, seu desesperado amante ao seu destino.”
“Você me provoca, milorde?” gritou a bela irada; “ou acredita que o dinheiro pode substituir os direitos de que você me roubou? Pode me tornar novamente uma esposa — uma esposa feliz, respeitada? Faça isso, milorde, e você me compensará!”
O nobre sorriu e encolheu os ombros. A dama repetiu sua pergunta de forma ainda mais irritada. O amante respondeu com uma insinuação que a deixou, de uma só vez, atônita e duplamente enfurecida. Ela exigiu avidamente uma explicação; e o lorde, que fora mais longe do que pretendia, saiu da sala. Mas suas palavras tinham se aprofundado no peito desta mulher infeliz, e ela resolveu obter uma elucidação. De acordo com a política que despiu o viajante da fábula de sua capa, ela deixou de lado a tempestade e preferiu o sol: observou um momento de ternura, aproveitou a oportunidade e, pouco a pouco, apoderou-se de um segredo que a deixou enjoada de vergonha, nojo e consternação. Vendida! Permutada! O objeto de uma pechincha desdenhosa para o comprador e o vendedor, vendida, ainda por cima, com uma mentira que a rebaixou de imediato a um objeto por quem até a piedade se misturava ao escárnio! Roubada já do nome e da honra de uma esposa, e transferida como uma meretriz dos braços cansados de um amante para as carícias caprichosas de outro! Tal era a imagem que se erguia diante dela; e, enquanto num momento despertava todas as suas paixões mais ferozes em loucura, humilhava, no seguinte, sua vaidade até o pó. Ela, que conhecia a paixão dominante de Welford, viu num relance o objeto de escárnio e zombaria em que se tornara para ele. Enquanto se imaginava a traidora, fora traída; viu vividamente diante de si (e estremeceu ao ver) o sorriso gélido de seu marido, seu olho de serpente, suas feições impregnadas de sarcasmo e toda a sua alma zombeteira estampada no semblante, cuja menor zombaria era tão dolorosa. Ela se afastou dessa imagem e viu o rosto cortês do comprador — seu sorriso contido diante de suas reprovações — seu escárnio latente diante de suas reivindicações a uma posição que ele fora ensinado pelo arqui-tramador a acreditar que ela nunca possuíra. Ela viu seu cansaço precoce de seus atrativos, expressado com respeito, de fato — um respeito insultuoso —, mas sentido sem um escrúpulo de remorso. Ela viu em ambos — como ao redor — apenas uma reciprocidade de desprezo. Ela estava em uma teia de profunda humilhação. Mesmo aquele pesar altivo da consciência pelo crime cometido contra outro, que se pica, não humilha, foi engolido por uma sensação muito mais agonizante, para alguém tão vaidoso como a adúltera — a sensação ardente de vergonha por ter ela mesma, enquanto pecava, sido a enganada e a lograda. Sua própria alma estava horrorizada com sua humilhação. A maldição da vingança de Welford estava sobre ela, e fora exercida até o fim! Qualquer sentimento gentil que ela pudesse ter experimentado em relação ao seu protetor foi engolido de imediato por essa descoberta. Ela não podia suportar o pensamento de encontrar o olhar de alguém que fora o beneficiário desta troca ignominiosa; as fraquezas e fragilidades do amante assumiram um matiz desprezível, bem como odioso. E, ao se sentir degradada, ela o detestou. No dia seguinte à descoberta a que nos referimos, a Sra. Welford deixou a casa de seu protetor, ninguém sabia para onde. Por dois anos a partir daquela data, todo rastro de sua história foi perdido. Ao final desse tempo, o que era Welford? Um homem em rápida ascensão no mundo, distinto na Ordem dos Advogados, onde seu primeiro caso o elevara à notoriedade, iniciando uma carreira lisonjeira no senado, ocupando cargos lucrativos e honrosos, estimado pela austera retidão de seu caráter moral, colhendo as opiniões douradas de todos os homens, enquanto avançava para a reputação pública. Ele retomara seu nome hereditário; sua história inicial era desconhecida; e ninguém na obscura e distante cidade de ------ jamais adivinhara que o humilde Welford era o William Brandon cujo louvor era ecoado em tantos jornais, e cujo gênio crescente era reconhecido por todos. Aquela aspereza, rudeza e melancolia que o notabilizaram em ------, e que, sendo naturais a ele, não se dignou a disfarçar em uma posição incompatível com seus talentos e abaixo de suas esperanças, estavam agora brilhantemente envernizadas por uma hipocrisia bem calculada para ajudar sua ambição. Tão doutamente este homem singular podia se adaptar aos outros que poucos entre os grandes o encontravam como companheiro, nem o deixavam sem a disposição de se tornarem seus amigos. Através de seu nobre rival — isto é (para tornar a “certeza duplamente certa” de nosso leitor), através de Lord Mauleverer — ele adquirira seu primeiro cargo lucrativo, um certo patrocínio do governo e seu assento no parlamento. Se ele perseverara na Ordem dos Advogados em vez de se entregar inteiramente às intrigas de Estado, era apenas porque seus talentos eram eminentemente mais calculados para promovê-lo no primeiro caminho para a honra do que no segundo. Tão devotado ele se tornara à vida pública que só se permitira nutrir uma fonte privada de prazer — seu filho. Como ninguém, nem mesmo seu irmão, sabia que ele fora casado (durante os dois anos de seu nome disfarçado, supunha-se que ele estivesse no exterior), o aparecimento deste filho formou o único pedaço de escândalo sussurrado contra a moral rígida de sua fama justa; mas ele mesmo, esperando seu próprio tempo para declarar um herdeiro legítimo, espalhou que era o órfão de um caro amigo que conhecera no exterior; e a comedimento puritano não apenas de vida, mas de maneiras, que ele assumiu, ganhou uma crença bastante ampla na declaração. Este filho, Brandon idolatrava. Como representamos ele mesmo dizendo, homens ambiciosos são comumente afeiçoados aos seus filhos, além da afeição de outros pais. A referência perpétua que os ambiciosos fazem à posteridade é, talvez, a razão principal. Mas Brandon também era afeiçoado a crianças em geral; a filoprogenitividade era um traço marcado em seu caráter, e pareceria desmentir a dureza e o artifício pertencentes a esse caráter, não fosse o mesmo amor tão frequentemente notável nos rudes e artificiais. Parece como se um sentimento semi-consciente, mas prazeroso, de que eles também já foram gentis e inocentes, os faça deleitar-se em reviver qualquer simpatia com seu estado inicial.
Muitas vezes, após o aplauso e o trabalho do dia, Brandon ia ao quarto de seu filho e observava seu sono por horas; muitas vezes, antes que seu trabalho matinal começasse, ele ninava o infante em seus braços com toda a ternura natural e alegria transbordante de uma mulher; e muitas vezes, à medida que um sentimento mais grave e característico o dominava, ele dizia mentalmente: “Você construirá nosso nome arruinado sobre uma base melhor do que o seu pai. Começo tarde demais na vida, e trabalho em uma estrada dolorosa e pedregosa; mas tornarei a jornada para a Fama suave e acessível para você. Nunca, também, enquanto você aspirar à honra, endurecerá seu coração à tranquilidade. Para você, meu filho, serão as alegrias do lar e do amor, e uma mente que não adoece com o passado, e luta, por mero esquecimento, em direção a uma distinção solitária e estéril para o futuro. Não apenas o que seu pai ganha você desfrutará, mas o que o amaldiçoou sua vigilância o levará a evitar!”
Foi assim não apenas que seus sentimentos mais suaves, mas todos os melhores e mais nobres, que mesmo no pior e mais duro peito encontram alguma raiz, voltaram-se para seu filho, e que o homem oco e vicioso prometeu tornar-se o pai afetuoso e, talvez, sábio.
Certa noite, Brandon voltava para casa a pé de um jantar ministerial. A noite estava gelada e clara, a hora era avançada, e seu caminho passava pelas ruas mais longas e iluminadas da metrópole. Ele estava, como de costume, enterrado em pensamentos, quando foi subitamente despertado de seu devaneio por um toque leve em seu braço. Ele se virou e viu uma das infelizes pessoas que assombram as ruas da meia-noite das cidades, parada bem diante de seu caminho. O olhar de cada um caiu sobre o outro; e foi assim, pela primeira vez desde que repousaram suas cabeças no mesmo travesseiro, que o marido encontrou a esposa. Os céus estavam intensamente claros, e a luz dos lampiões brilhava calma sobre os rostos de ambos. Não havia dúvida na mente de nenhum deles. Repentinamente, e com uma consciência assustada e cadavérica, eles se reconheceram. A esposa cambaleou e se agarrou a um poste para se apoiar; o olhar de Brandon era calmo e impassível. A hora que seu espírito amargo e maligno ansiara chegara; seus nervos se expandiram em uma calma voluptuosa, como se para lhe dar um deleite deliberado de sua esperança cumprida. Quaisquer que tenham sido as palavras que naquela entrevista sem testemunhas e quase terrível passaram entre eles, podemos ter certeza de que Brandon não poupou um átomo de seu poder. A esposa perdida e abandonada voltou para casa; e toda a sua natureza, embrutecida como se tornara pela culpa e hábitos vis, endureceu-se em vingança — aquele sentimento sobrenatural que pode ser chamado de esperança do desespero.
Três noites após aquele encontro, a casa de Brandon foi arrombada. Como as casas de muitos homens da lei, ficava em um subúrbio perigoso e pouco povoado da cidade, e era facilmente acessível a roubos. Ele foi despertado por um barulho; sobressaltou-se e viu-se nas garras de dois homens. Ao pé da cama estava uma mulher, erguendo uma luz; e seu rosto, marcado por paixões abrasadoras e lívido com a brancura leprótica da doença e da morte iminente, olhava fixamente para ele.
“Agora é a minha vez”, disse a mulher, com um sorriso de escárnio que o próprio Brandon poderia ter invejado; “você me amaldiçoou, e eu lhe devolvo a maldição! Você me disse que meu filho nunca me nomeará a não ser para corar. Tolo! Triunfo sobre você; ele nunca conhecerá você até o dia de sua morte! Você me disse que para meu filho e o filho do meu filho (uma longa transmissão de execração) meu nome — o nome da esposa que você vendeu vilmente à ruína e ao inferno — deveria ser deixado como um legado de ódio e vergonha! Homem, você não ensinará a essa criança mais nenhuma lição: você não saberá se ele vive ou morre, ou tem filhos para continuar sua raça gabada; ou se, caso tenha, esses filhos não sejam párias da terra, os amaldiçoados de homens e de Deus, a prole adequada da coisa que você fez de mim. Miserável! Atiro de volta para você a denúncia com a qual, quando nos encontramos há três noites, você teria esmagado a vítima de sua própria perfídia. Você trilhará o caminho de sua ambição sem filhos, sem objetivo e sem esperança. A doença colocará seu selo em sua estrutura. O verme banqueteia-se em seu coração. Você terá honras e não as desfrutará; você alcançará sua ambição, e o desespero; você ansiará por seu filho, e não o encontrará; ou, se o encontrar, amaldiçoará a hora em que ele nasceu. Marque-me, homem — estou morrendo enquanto falo — sei que sou uma profetisa em minha maldição. A partir desta hora estou vingada, e você é o meu escárnio!”
Como as naturezas mais duras afundam aterrorizadas diante do olhar pétreo do maníaco, assim, na calada da noite, amarrado por rufiões, a voz selvagem e solene, aguçada pela paixão e loucura parcial, da figura cadavérica diante dele coalhando em suas veias, até o caráter altivo e ousado de William Brandon empalideceu! Ele não proferiu uma palavra. Foi encontrado na manhã seguinte amarrado por cordas fortes à sua cama. Ele não falou quando foi libertado, mas foi em silêncio ao quarto de seu filho — a criança havia sumido! Vários objetos de propriedade também foram roubados; as ferramentas desesperadas que a mãe empregara não trabalharam talvez sem sua própria recompensa.
Mal precisamos acrescentar que Brandon colocou todos os mecanismos e canais da justiça em movimento para a descoberta de seu filho. Toda a astúcia e perspicácia especial de seu próprio caráter, auxiliadas por sua experiência profissional, ele empregou por anos na mesma perseguição. Toda pesquisa foi totalmente em vão; nem o menor vestígio para a descoberta pôde ser rastreado até que fossem encontrados (nós registramos quando) alguns dos objetos que haviam sido roubados. O Destino guardava em seu ventre sombrio, totalmente não detectado pelo homem, a hora e o cenário em que o desejo mais ardente de William Brandon seria realizado.
CAPÍTULO XXXIV.
O Fortuna, viris invida fortibus Quam non aqua bonis praemia dividis. SÊNECA. ............ E como uma lebre, que cães e chifres perseguem, Ofega para o lugar de onde primeiro voou. ............ Aqui, para a criança sem teto da necessidade, Minha porta ainda está aberta. GOLDSMITH.
Lentamente, para Lucy, as semanas de um inverno que, para ela, era a parte mais sombria da vida que já passara, diminuíam. Tornou-se a época para o juiz comparecer a uma daquelas visitações periódicas tão carregadas de pavor e consternação para os miseráveis habitantes das moradias escuras que as leis complexas deste país fornecem tão generosamente — aqueles tempos de grande hilaridade e banquete para a gentalha jurídica —,
“Que se alimentam de crimes e engordam com a angústia, E extraem um riso vil do último excesso do sofrimento.”
Ah! excelente ordem do mundo, a qual é tão perverso perturbar! Quão milagrosamente belo deve ser esse sistema que faz vinho a partir das lágrimas abrasadoras da culpa; e da suspensão sufocante, do medo agonizado, da bravura compelida e autozombeteira, da sentença terrível, do desespero da agonia da morte de um homem, fornece a expectativa sorridente de honorários, a reunião jovial e o feriado mercenário para outro! “Da Lei, nada menos pode ser dito do que que seu assento é o seio de Deus.” — [Hooker's Ecclesiastical Polity.] — Certamente não; Richard Hooker, você está perfeitamente certo. A divindade de uma sessão e a inspiração do Old Bailey são inegáveis!
A atenção de Sir William Brandon havia efetivamente mantido longe dos ouvidos de Lucy o conhecimento da situação ignominiosa de seu amante. De fato, dada a sua saúde delicada, mesmo o olhar severo de Brandon e o vislumbre imprudente de Mauleverer percebiam o perigo de tal descoberta. O conde, aguardando agora o ataque principal a Lucy até que a cortina tivesse caído para sempre sobre Clifford, procedeu com grande cautela e delicadeza em sua corte à pretendida noiva. Ele esperou com maior paciência, na medida em que havia sacado adiantado, junto de seu amigo Sir William, uma parte da fortuna da herdeira; e prontamente admitia que não poderia ter, nesse ínterim, um advogado melhor do que aquele que encontrou em Brandon. Tão persuasiva, de fato, e tão sutil era a eloquência deste hábil sofista que, frequentemente, em suas conversas astutas com a sobrinha, ele deixava até mesmo na mente não viciada e forte, embora simples, de Lucy, uma impressão inquieta e agitada, que o tempo poderia ter amadurecido em uma inclinação para as vantagens mundanas do casamento ao seu alcance. Brandon não era um mediador desajeitado ou um perseguidor violento. Parecia aquiescer à rejeição dela a Mauleverer. Raramente recorria ao evento. Raramente elogiava o próprio conde, salvo pelas qualidades óbvias de vivacidade e bom humor. Mas falava, com todas as cores vivas que podia infundir à vontade em suas palavras, sobre os prazeres e os deveres da posição e da riqueza. Bem podia ele apelar, da mesma forma, a todos os preconceitos e todas as fraquezas do peito humano, e governar a virtude através de suas vulnerabilidades. Lucy havia sido criada, como as filhas da maioria dos cavalheiros rurais de famílias antigas, em uma consciência indevida e ociosa de nascimento superior; e estava longe de ser inacessível ao calor e até mesmo ao sentimento (pois aqui Brandon era sincero) com que seu tio falava do dever de elevar um nome galante afundado em descrédito, e de sacrificar nossas próprias inclinações para o redecorar do esplendor mofado daqueles que vieram antes de nós. Se a confusão de ideias ocasionada por uma vaga pompa de fraseologia, ou a inculcação infantil de um sentimento que é confundido com virtude, tantas vezes faz tolos dos sábios sobre o assunto da ancestralidade; se isso obscureceu até mesmo o sentido sarcástico e agudo do próprio Brandon, podemos perdoar sua influência sobre uma jovem tão pouco versada nas artes do raciocínio sólido como a pobre Lucy, que, pode-se dizer, nunca aprendera a pensar até ter aprendido a amar. No entanto, a impressão feita por Brandon, em seus momentos mais felizes de persuasão, era ainda apenas passageira; desvanecia-se diante do primeiro pensamento sobre Clifford, e nunca sugeriu a ela sequer uma dúvida quanto à pretensão de Mauleverer.
Quando chegou o dia de Sir William Brandon partir para o circuito, ele chamou Barlow e ordenou a esse servidor agudo e inteligente a mais estrita cautela com relação a Lucy. Pediu-lhe que a negasse a todos, de qualquer posição, e que examinasse cuidadosamente todos os jornais que lhe fossem trazidos, bem como retivesse toda carta, salvo aquelas endereçadas a ela na caligrafia do próprio juiz. Brandon já havia conquistado a criada de Lucy para o silêncio; e o tio agora se comprazia em pensar que havia colocado uma guarda eficaz contra qualquer chance de descoberta. A identidade de Lovett com Clifford ainda não havia sido sequer objeto de rumores; e Mauleverer julgara corretamente Clifford ao acreditar que o próprio prisioneiro tomaria todas as precauções contra a detecção desse fato. Clifford respondeu ao bilhete do conde e prometeu, em uma carta redigida em um tom de gratidão tão comovente, porém viril, que até mesmo Brandon ficou tocado ao lê-la. E desde seu confinamento e recuperação parcial da saúde, o prisioneiro manteve-se estritamente isolado e recusou todos os visitantes. Encorajado por essa reflexão e pela crença na segurança de suas precauções, Brandon despediu-se de Lucy. “Adeus!” disse ele, abraçando-a afetuosamente. “Certifique-se de me escrever, e perdoe-me se eu não lhe responder pontualmente. Cuide de si mesma, minha doce sobrinha, e deixe-me ver uma cor mais fresca nessa face suave quando eu retornar!”
“Cuide de si mesmo, meu caro, caríssimo tio”, disse Lucy, agarrando-se a ele e chorando, como seus nervos enfraquecidos a faziam fazer ultimamente diante da menor agitação. “Por que não posso ir com você? Você tem me parecido mais pálido do que o habitual nos últimos três ou quatro dias, e você se queixou ontem. Deixe-me ir com você. Não serei um incômodo, nenhum mesmo; mas tenho certeza de que você precisa de uma enfermeira.”
“Você quer me assustar, minha linda Lucy”, disse Brandon, balançando a cabeça com um sorriso. “Estou bem, muito bem. Senti uma estranha onda de sangue em direção à cabeça ontem, é verdade; mas hoje sinto-me mais forte e mais leve do que há anos. Mais uma vez, que Deus a abençoe, minha filha!”
E Brandon se desvencilhou e começou sua jornada.
O curso errante e dramático de nossa história conduz-nos agora a um beco obscuro na metrópole, que leva ao Tâmisa, e faz-nos espectadores de uma despedida comovente entre duas pessoas, a quem a injustiça do destino e as perseguições dos homens estavam prestes, talvez para sempre, a dividir.
“Adeus, meu amigo!” disse Augustus Tomlinson, enquanto permanecia olhando fixamente para aquele segmento do rosto de Edward Pepper que restava oculto por um chapéu enorme e um lenço vermelho de pescoço. Tomlinson estava vestido com o traje completo de um digno clérigo. “Adeus, meu amigo, já que você permanecerá na Inglaterra — adeus! Sou, exulto em dizer, não menos sincero patriota do que você. O céu seja minha testemunha de quanto tempo olhei com repugnância para a proposta do pobre Lovett de deixar meu amado país. Mas toda esperança de vida aqui está agora acabada; e, realmente, durante os últimos dez dias, tenho sido tão caçado de canto a canto, tão atormentado com convites educados, semelhantes aos feitos pela esposa de um fazendeiro aos seus patos, 'Dilly, dilly, dilly, venham e sejam mortos!', que meu patriotismo esfriou prodigiosamente, e já não recuo diante dos pensamentos de autoexílio. 'A terra', meu caro Ned, como um sábio grego observou muito bem — 'a terra é a mesma em toda parte!' e se me pedirem por meu lar, posso apontar, como Anaxágoras, para o céu!”
“Por minha alma, você me comove!” disse Ned, falando com a voz grossa, seja pelo pesar ou pela pressão do lenço de pescoço em sua boca; “é realmente lindo ouvi-lo falar!”
“Anime-se, meu caro amigo”, continuou Tomlinson; “anime-se contra suas aflições presentes. O que são, para um homem que se fortifica pela razão e pela reflexão sobre a brevidade da vida, as pequenas calamidades do corpo? O que é a prisão, ou a perseguição, ou o frio, ou a fome? A propósito, você não se esqueceu de colocar os sanduíches no bolso do meu casaco!”
“Cale-se!” sussurrou Ned, e ele se moveu involuntariamente; “vejo um homem na outra extremidade da rua.”
“Aceleremos o passo”, disse Tomlinson; e a dupla seguiu em direção ao rio.
“E agora”, começou Ned, que pensou que poderia muito bem dizer algo sobre si mesmo; pois, até então, Augustus, no ardor de sua amizade, estivera discutindo apenas seus próprios planos — “e agora — isto é, quando eu o deixar — apressar-me-ei a mergulhar em busca de abrigo, até que a tempestade passe. Não gosto muito de viver em um porão e usar uma blusa de camponês; mas esses esconderijos têm algo de interessante, afinal! O lugar mais seguro e aconchegante que conheço é o Pays Bas, perto de Thames Court; então penso em alugar um apartamento subterrâneo e fazer minhas refeições nos antigos aposentos do pobre Lovett, o Mug — a polícia nunca sonhará em procurar nesses antros vulgares um homem da minha estirpe.”
“Você não pode, então, arrancar-se da Inglaterra?” disse Tomlinson.
“Não, que se dane! Os sujeitos são tão malditos e afeminados do outro lado da água. Odeio seu vinho e seu 'parley woo'. Além disso, não há diversão lá.”
Tomlinson, que estava absorto em seus próprios pensamentos, não fez comentários sobre as excelentes razões de seu amigo contra as viagens; e a dupla aproximou-se agora da margem do rio. Um barco estava à espera para receber e conduzir ao navio, no qual ele havia reservado seu lugar para Calais, o ilustre emigrante. Mas, conforme o olhar de Tomlinson caiu subitamente sobre os barqueiros rudes e o pequeno barco que o levariam para longe de sua terra natal; conforme ele também olhou através das águas azuis, que um vento forte agitava violentamente, e pensou em quão mais agitado estaria no mar, onde “sua alma” invariavelmente “adoecia com a onda que se erguia” — uma maré inteira de emoções profundas e dolorosas precipitou-se sobre ele.
Ele se virou. O local em que ele estava era um terreno para alugar (como anunciava uma placa) com fins de construção; abaixo, desciam os degraus que o conduziriam ao barco; ao redor, o espaço desolado permitia-lhe ver, em extensão ampla e distante, as torres, as cúpulas e as chaminés da grande cidade cujos habitantes ele talvez nunca mais pudesse pilhar. Enquanto olhava e olhava, as lágrimas brotaram em seus olhos e, com uma rajada de entusiasmo, pouco consoante com seu caráter temperado e filosófico, ele levantou a mão direita do bolso de suas calças pretas e explodiu na seguinte despedida à metrópole de suas costas nativas:
“Adeus, minha amada Londres, adeus! Onde encontrarei uma cidade como você? Nunca, até agora, senti o quão inexprimivelmente cara você era para mim. Você tem sido meu pai, e meu irmão, e minha amante, e meu alfaiate, e meu sapateiro, e meu chapeleiro, e meu cozinheiro, e meu comerciante de vinhos! Você e eu nunca nos desentendemos. Não resmunguei quando vi que casas finas e bons cofres fortes você deu a outros homens. Não! Alegrei-me com a prosperidade deles. Deliciava-me em ver um homem rico — minha única decepção era tropeçar em um pobre. Você deu riquezas aos meus vizinhos; mas, ó generosa Londres, você deu esses vizinhos a mim! Ruas magníficas, todas as virtudes cristãs habitam dentro de você! A caridade é tão comum quanto a fumaça! Onde, em que canto do mundo habitável, encontrarei seres humanos com tantos supérfluos? Onde encontrarei tanta facilidade para atrair, da credulidade benevolente, esses supérfluos para mim? Só o céu sabe, minha cara, cara, querida Londres, o que perco em você! Ó instituições de caridade públicas! Ó instituições públicas! Ó bancos que contradizem axiomas matemáticos e fazem fortunas do nada! Ó constituição antiga sempre a ser questionada! Ó melhorias modernas que nunca funcionam! Ó especulações! Ó companhias! Ó leis de usura que protegem contra usurários tornando-os o mais numerosos possível! Ó igrejas nas quais ninguém lucra, exceto o pároco e as velhas que alugam bancos à noite! Ó teatros soberbos, pequenos demais para parques, enormes demais para casas, que excluem a comédia e o conforto, e têm o monopólio de representar absurdos gigantescamente! Ó casas de gesso, construídas em um dia! Ó palácios de quatro metros de altura, com uma cúpula no meio, destinados a serem invisíveis!
[Não devemos supor que esta apóstrofe seja um anacronismo. Tomlinson, naturalmente, refere-se a algum palácio de sua época; uma das caixas — caixas de Natal — dadas ao rei por sua econômica nação de lojistas. Supomos que tenha sido demolido ou derrubado há muito tempo; é sem dúvida esquecido a esta altura, exceto por antiquários. Nada é tão efêmero quanto grandes casas construídas pelo povo. Seus reis fazem o diabo com seus brinquedos!]
“Ó lojas que valem milhares, e ó lojistas que não valem um xelim! Ó sistema de crédito pelo qual mendigos são príncipes, e príncipes são mendigos! Ó prisão por dívidas, que deixa a égua ser roubada e depois tranca o freio! Ó vigaristas, bolhas, senadores, dândis, tavernas, bordéis, clubes, casas privadas e públicas! — Ó LONDRES, em uma palavra, receba meu último adeus! Que você floresça por muito tempo em paz e abundância! Que seus patifes sejam espirituosos, e seus tolos sejam ricos! Que você altere apenas duas coisas — seus malditos truques de transporte e enforcamento! Esses são seus únicos defeitos; mas, por eles, eu nunca o abandonaria. Adeus!”
Aqui Tomlinson desviou a cabeça e, em seguida, apertando apressadamente a mão de Long Ned com um aperto trêmulo e caloroso, ele correu escada abaixo e entrou no barco. Ned permaneceu imóvel por alguns momentos, seguindo-o com os olhos enquanto ele se sentava na extremidade do barco, acenando com um lenço de bolso branco. Finalmente, uma fila de barcaças arrebatou-o da visão do observador relutante; e Ned, virando-se lentamente, murmurou: — “Sim, sempre ouvi dizer que o local da Dame Lobkins era o asilo mais seguro para infortúnios como o meu. Irei imediatamente em busca de uma hospedagem, e amanhã tomarei meu café da manhã no Mug!”
Que seja nossa tarefa agradável, caro leitor, antecipar o bom ladrão e retornar, na hora do nascer do sol no dia seguinte à partida de Tomlinson, à cena na qual nossa história começou. Estamos agora mais uma vez na casa da Sra. Margery Lobkins.
O cômodo que servia a tantos propósitos ainda era o mesmo de quando Paul o transformou na arena de suas travessuras. O armário de pratos, com suas estantes de faiança e estanho misturados, ocupava sua estação antiga e importante. Apenas poderia ser notado que o estanho estava mais opaco do que outrora, e que várias rachaduras faziam suas caminhadas erráticas sobre a superfície amarela da faiança. O olho da dona tornara-se menos agudo do que anteriormente, e o cuidado da criada, por necessidade, relaxara. O relógio alto ainda tiquetaqueava em advertência monótona; o biombo de cobertores, talvez inocente de sabão desde que o descrevemos pela última vez, com muitas histórias e baladas, ainda desdobrava suas amplas folhas “ricas com os despojos do tempo”; o espeto e o mosquete ainda pendiam da parede em amigável proximidade. E o banco longo e liso, “com muitos textos sagrados nele espalhados”, ainda oferecia descanso ao viajante cansado e um objeto para o olhar vago da Sra. Margery Lobkins, enquanto ela se recostava em seu assento oposto e esquecia o mundo. Mas o pobre Piggy Lob! — aí estava a alteração! A alma da mulher havia partido; o espírito evaporara da garrafa humana! Ela sentava-se, com a boca aberta e o olho vítreo, em sua cadeira, balançando-se de um lado para o outro, com o som baixo e rabugento da idade irritadiça e da dor física; às vezes, esse murmúrio queixoso aguçava-se em uma repreensão estridente, porém sem sentido: “Aí está, seu enforcado! Você tomou as bebidas sem marcar na lousa; você quer enganar a pobre viúva; mas eu o vejo, eu vejo! A Providência protege os idosos e os inocentes — Oh, oh! essas pontadas serão a minha morte. Onde está Martha? Sua vadia, você! sua megera viperina, traga a bebida; não vê como sofro? Você não tem entranhas, para deixar uma pobre criatura cristã perecer por falta de ajuda! É assim com eles, é esse o jeito! Ninguém se importa comigo agora — ninguém tem respeito pelos cabelos grisalhos dos velhos!” E então a voz diminuía para o choramingo de seu “tom habitual”.
Martha, uma moça robusta com cabelos ruivos caindo sobre seus “montes de neve”, não estava, contudo, desatenta às necessidades de sua patroa. “Quem sabe”, disse ela a um homem que estava sentado junto à lareira, bebendo chá de uma caneca azul, e torrando com grande cuidado duas ou três fatias enormes de pão para seu próprio sustento particular e especial — “quem sabe”, disse ela, “o que nós mesmos podemos vir a ser?” E, dizendo isso, ela colocou um copo brilhante ao lado da patroa.
Mas, na prostração profunda de seu intelecto, a velha era insensível até mesmo a esse consolo. Ela bebia, é verdade; mas como se o líquido não aquecesse a região entorpecida pela qual passava, ela continuava a murmurar em um tom enlouquecido e gemedor: —
“É essa a sua gratidão, sua serpente! Por que você não traz a bebida, eu lhe digo? Tenho idade para beber água como um cavalo, sua coisa asquerosa! Oh, pensar que eu viveria para ser abandonada!”
Desatenta a esses murmúrios, que ela sentia serem irracionais, a saltitante Martha deixou agora o cômodo para cuidar de seus afazeres domésticos superiores. O homem na lareira era o único companheiro deixado para a viúva. Olhando para ela por um momento, enquanto ela se sentava choramingando, com uma rude compaixão em seu olho, e mastigando lentamente sua torrada, que ele agora havia passado manteiga e colocado em um prato de faiança sobre a borda da lareira, essa pessoa começou assim, de forma consoladora: —
“Ah, Dame Lobkins, se ao menos o pequeno Paul estivesse com você, seria um conforto para a forca em seu fim de vida!”
O nome de Paul fez a boa mulher inclinar a cabeça na direção do falante; um raio de consciência disparou através de seu cérebro entorpecido.
“O pequeno Paul — eh, senhor! onde está Paul? Paul, eu digo, meu caro. Ai de mim! ele se foi — deixou sua pobre velha enfermeira para morrer como um gato em um porão. Oh, Dummie, nunca viva para ser velho, homem! Eles nos deixam sozinhos e depois levam toda a bebida com eles! Não tenho uma gota de conforto no mundo inteiro!”
Dummie, que naquele momento tinha suas próprias razões para acalmar a senhora, e estava ansioso para aproveitar ao máximo a oportunidade de uma conversa tão sem testemunhas quanto a presente, respondeu ternamente, e com uma astúcia propensa a promover seu fim, censurando Paul amargamente por nunca ter informado a senhora sobre seu paradeiro e seus atos. “Mas vamos lá, senhora”, concluiu ele, “vamos lá, imagino que ele esteja melhor do que tudo isso, e que você não precise quebrar sua velha cabeça para pensar onde ele está, ou o que ele está fazendo. Que me apertem, Mãe Lob — peço perdão, Sra. Margery, devo dizer —, se eu não daria cinco xelins, sim, e cinco a mais, para saber o que o pobre rapaz está fazendo; tenho um interesse mortal por aquele sujeito!”
“Oh! oh!” gemeu a velha, em cujos sentidos paralisados as astutas perguntas de Dummie Dunnaker caíram inofensivas; “meu pobre cadáver pecador! que estado ele está!”
Astutamente, Dummie Dunnaker, nada derrotado, renovou seu ataque; mas a sorte nem sempre favorece os sábios, e ela falhou com Dummie agora, por uma razão dupla — primeiro, porque não era possível para a senhora compreendê-lo; segundo, porque mesmo que fosse, ela não tinha nada a revelar. Alguns dos presentes pecuniários de Clifford haviam sido enviados anonimamente, todos sem direção ou data; e, na maior parte, haviam sido apropriados pela sábia Martha, em cujas mãos caíram, para seus próprios usos privados. Nem a senhora precisava da caridade grata de Clifford; pois ela era uma mulher toleravelmente bem de vida neste mundo, considerando o quão perto ela estava de outro. Mais tempo, contudo, Dummie poderia ter tentado seu caminho inútil, não tivesse a porta da estalagem rangido em suas dobradiças, e a forma volumosa de um homem alto em uma blusa de camponês, mas com uma cabeça de cabelo notavelmente bonita, escurecido o limiar. Ele honrou a dama, que lançou sobre ele um olho sem brilho, com um aceno mal-humorado, porém ambrosíaco, pegou uma garrafa de bebidas espirituosas e um copo, acendeu uma vela, tirou um pequeno cachimbo alemão e uma caixa de tabaco de sua bolsa, colocou esses vários luxos em uma pequena mesa, arrastou-a para um canto distante do cômodo e, jogando-se em uma cadeira e as pernas em outra, desfrutou do resultado de seus esforços em um silêncio mal-humorado e supercílio. Longa e sinceramente, o manso Dummie olhou para o rosto do cavalheiro à sua frente. Fazia alguns anos desde que ele o vira pela última vez; mas era um rosto que não escapava facilmente da memória; e embora seu proprietário fosse um homem que ascendeu no mundo e alcançara o auge de sua profissão (uma posição muito além da esfera diurna de Dummie Dunnaker), e o humilde punguista estivesse, portanto, surpreso ao encontrá-lo nessas regiões inferiores, a recordação de Dummie levou-o de volta a um dia em que haviam compartilhado coisas sem respeito a pessoas, e sido parceiros bem alegres no jogo prático de arruinar o vizinho. Enquanto, contudo, Dummie Dunnaker, que era um pouco inclinado à timidez, deliberava sobre a propriedade de reivindicar o conhecimento, um menino sujo, com um rosto que indicava o gelo, como o próprio Dummie dizia, como uma ameixa morrendo de febre escarlate, entrou no cômodo com um jornal em sua pata direita.
“Boas notícias! Boas notícias!” gritou o garoto, imitando seus originais vociferantes na rua; “tudo sobre o famoso Capitão Lovett, em tamanho natural!”
“Deixe de sua conversa fiada, seu tagarela!” disse Dummie, em tom de repreensão, enquanto arrebatava o jornal.
“O patrão diz que ele precisa dele para enviar a Clapham, e não pode dispensá-lo por mais de uma hora!” disse o menino, enquanto se retirava.
“Eu me lembro do dia,” disse Dummie, com o zelo de um membro de clã, “em que o Mug levava um jornal só para si, em vez de alugá-lo pelo serviço como agora!”
Dito isso, abriu o papel com um estalo e entregou-se à leitura. Mas o estranho alto, levantando-se quase num salto, exclamou:
“Não tem modos para ser comunicativo? Acha que ninguém mais se importa com o Capitão Lovett além de você?” Diante disso, Dummie girou na cadeira e, com um “Que me partam, seja bem-vindo, com certeza”, começou da seguinte forma (copiamos o jornal, não a dicção do leitor):
“O julgamento do notório Lovett começa hoje. Grandes esforços foram feitos por pessoas de todas as classes para obter assentos no Salão Municipal, que estará cheio a um grau nunca antes conhecido nesta província pacífica. Diz-se que nada menos que sete acusações aguardam o prisioneiro; concordou-se que o roubo de Lord Mauleverer deveria ser o primeiro a entrar em pauta. Entende-se que a principal testemunha neste caso contra o prisioneiro seja o delator do rei, MacGrawler. Nenhuma notícia circulou até o momento sobre os suspeitos cúmplices, Augustus Tomlinson e Edward Pepper. Acredita-se que o primeiro tenha deixado o país e que o segundo esteja escondido entre os baixos refúgios de culpa com que o coração da metrópole abunda. A fama fala muito bem da aparência e dos modos de Lovett. Supõe-se também que seja um homem de certo talento, tendo anteriormente trabalhado em um periódico obscuro editado por MacGrawler, chamado ‘Althenaeum’, ou ‘Asinaeum’. No entanto, receamos que sua origem seja notavelmente baixa, e adequada à natureza de suas ocupações. O prisioneiro será muito afortunado no juiz. Nunca ninguém ocupando o mesmo alto cargo que Sir William Brandon conquistou tal reputação em tão pouco tempo. Os Whigs costumam zombar de nós quando insistimos nas virtudes privadas de nossos homens públicos. Que olhem para Sir William Brandon e confessem que a moral mais austera pode estar ligada ao conhecimento mais sólido e ao gênio mais brilhante. O discurso de abertura do douto juiz ao júri em-------é talvez a peça de eloquência mais impressionante e solene da língua inglesa!”
Uma causa para este elogio poderia talvez ser encontrada em outra parte do jornal, na qual se dizia:
“Entre os círculos mais elevados, entendemos que corre o boato de que Sir William Brandon será chamado de volta à sua antiga carreira parlamentar em um cenário mais elevado. Tão altamente são respeitados os talentos deste cavalheiro por Sua Majestade e pelos ministros que eles estão, segundo se relata, ansiosos por garantir sua assistência na Câmara dos Lordes!”
Quando Dummie terminou de soletrar sua “marcha árdua” através do primeiro dos extratos acima, virou-se para o estranho alto e, observando-o com uma espécie de piscadela significativa, disse:
“Então MacGrawler canta, entrega o jogo sobre seus comparsas, hein! Bem, agora, eu sempre suspeitei daquele filho de uma mãe! Sabe, ele costumava estar no Mug muitos dias, ensinando nosso pequeno Paul, e eu dizia ao Piggy Lob, eu dizia: ‘Que me partam, mas esse sujeito é estranho! E se ele não acabar na forca’, dizia eu, ‘será apenas porque ele vai se rebelar e pendurar um de seus próprios amigos!’ Então, você vê” (aqui Dummie olhou em volta, e sua voz baixou para um sussurro), “então você vê, Meester Pepper, eu não era nenhum tolo ali!”
Long Ned deixou cair seu cachimbo e disse asperamente e com um cenho suspeito: “O quê! Você me conhece?”
“Com certeza e certamente que conheço”, respondeu o pequeno Dummie, caminhando até a mesa onde o ladrão estava sentado. “Você não me conhece?”
Ned encarou o interrogador com um olhar sombrio, que gradualmente se iluminou com o reconhecimento. “Ah!” disse ele, com o ar de um Brummel, “Sr. Bummie, ou Dummie, eu acho, hein! Dê aqui a pata, estou feliz em vê-lo. Lembro-me da última vez que o vi, você me ofendeu um pouco. Não importa. Aposto que não foi por mal.”
Encorajado por esta recepção afável do salteador, embora um pouco embaraçado pela alusão de Ned à sua conduta anterior, a qual ele sentia ser justa, Dummie sorriu, puxou um banco para perto de Ned, sentou-se e, evitando cuidadosamente qualquer resposta imediata às queixas de Ned, replicou:
“Sabe, Meester Pepper, o senhor me deixou pasmo! Eu não poderia supor que o senhor se dignaria hoje em dia a vir ao Mug, onde nunca o vi senão uma vez antes. Deus o abençoe, dizem que o senhor vai a todos os lugares finos com babados, com um par de pistolas de prata no bolso do colete! Ora, os garotos por aqui dizem que o senhor e o Meester Tomlinson, e este pobre diabo que está no xadrez, eram os maiores cavalheiros da cidade; e, Deus, pensar na sua civilidade para com um miserável mercador de trapos como eu!”
“Ah!” disse Ned, gravemente, “há princípios tristes circulando agora. Querem acabar com todas as distinções de classes, tornar um duque não melhor que seu criado, e um cavalheiro salteador no mesmo nível que um batedor de carteiras. Mas, maldito seja, se eu não acho que a desgraça nos nivela a todos o suficiente; e a desgraça me traz aqui, pequeno Dummie.”
“Ah! Você quer ficar fora do caminho dos policiais!”
“Certo. Desde que o pobre Lovett foi capturado, o que devo dizer que foi culpa de seu próprio comportamento maldito de cavalheiro para comigo e Augustus (você já ouviu falar de Guz, diz você), nosso grupo parece ter se dissolvido. Os próprios amigos parecem inclinados a trair a gente; e, na verdade, os policiais espreitam tão severamente sobre nós que achei seguro me esconder por um tempo. Então, aluguei um porão e pretendo, pelos próximos três meses, comer no Mug. Ouvi dizer que posso ficar escondido aqui. Dummie, à sua saúde! Dê-nos o fumo.”
“Digo, Meester Pepper,” disse Dummie, limpando a garganta quando atendeu ao pedido, “pode me dizer, se é que encontrou em suas viagens nosso pequeno Paul? Pobre rapaz! Você sabe como e por que ele foi mandado para o xadrez pelo Juiz Burnflat. Bem, quando ele saiu, foi para o diabo, ou algo parecido, e não ouvimos uma palavra dele desde então. Você se lembra do rapaz, um sujeito incrivelmente fino, alto e reto como um ancinho!”
“Ora, seu tolo,” disse Ned, “você não sabe” — então, contendo-se subitamente, — “Ah! a propósito, aquele juramento de enrolação! Eu não devia contar; embora agora não valha a pena se importar, receio! Não adianta procurar o selo quando a carta já está queimada.”
“Que me partam,” gritou Dunnaker, com veemência não afetada, “vejo que você sabe o que aconteceu com ele! Farei muitos favores a você, se você me contar.”
“Ora, ele lhe deve uma dúzia de moedas; ou o quê, Dummie?” disse Ned.
“Não, não,” gritou Dummie.
“O que então, você quer fazer a ele algum tipo de mal?”
“Fazer ao pequeno Paul algum mal!” exclamou Dummie; “ora, conheço o sujeito desde que ele era desse tamanhinho! Não, mas quero fazer a ele um grande serviço, Meester Pepper, e a mim mesmo também, e a você de lambuja, pelo que eu saiba, Meester Pepper.”
“Humph!” disse Ned, “humph! O que você quer dizer? Eu sei, é verdade, onde Paul está; mas você deve me dizer primeiro por que deseja saber, caso contrário pode pedir ao seu avô.”
Uma longa, aguda e ansiosa inspeção lançou o Sr. Dummie Dunnaker ao seu redor antes de responder. Tudo parecia seguro e conveniente para uma comunicação confidencial. Os traços supinos da Sra. Lobkins estavam silenciados em um estupor sonolento; até o gato cinzento que jazia junto ao fogo estava enrolado no abraço de Morfeu. No entanto, foi em um sussurro fechado que Dummie falou.
“Aposto, Meester Pepper, que você se lembra bem de quando Harry Cook, o grande salteador, o pobre coitado! ele foi para onde todos nós devemos ir, trouxe você, então ainda um garoto, pela primeira vez ao pequeno salão dos fundos do Cock and Hen, em Devereux Court?”
Ned acenou com a cabeça.
“E você se lembra de como encontrei Harry e você lá, e eu estava todo com medo de você, por quê? Eu nunca o tinha visto antes, e estávamos prestes a arrombar a casa de um bacana. E Harry falou por você, e disse que, embora você tivesse acabado de chegar à cidade, você já estava pronto para o engodo. Você se lembra, hein?”
“Sim, lembro-me de tudo,” disse Ned; “foi a primeira e única casa que já arrombei. Harry era um sujeito de hábitos baixos; então abandonei sua amizade e me dediquei exclusivamente à estrada, ou a uma engenhosidade ocasional aqui e ali. Não tenho ideia de um cavalheiro virar arrombador.”
“Bem, então você foi conosco, e nós o passamos por uma vidraça na janela da cozinha. Você era o menor de nós, por maior que seja agora; e você deu a volta e abriu a porta para nós; e quando você abriu a porta, você viu que uma mulher tinha se juntado a nós, e você ficou com medo então, e ficou do lado de fora da casa, para vigiar enquanto entrávamos.”
“Bem, bem,” gritou Ned, “o que diabos toda essa enrolação tem a ver com Paul?”
“Agora não fique irritado, mas deixe-me continuar direto ao assunto. Bem, quando saímos, você se lembra que a mulher tinha um embrulho nos braços, e você falou com ela; e ela lhe respondeu rudemente, e deixou a todos nós, e foi direto para casa; e nós fomos e vendemos o butim naquela mesma noite e depois dividimos a parte. E certamente você nos fez rir de verdade, Meester Pepper, quando você disse, você disse: ‘Aquela mulher é uma criatura estranha’. E ela era, Meester Pepper!”
“Oh, poupe-me,” disse Ned, afetadamente, “e seja rápido; você me mantém no escuro. A propósito, lembro-me de que você brincou comigo sobre o embrulho; e quando perguntei o que a mulher tinha nele, você jurou que era uma criança. Muito mais provável que a garota, quem quer que fosse, tivesse deixado uma criança para trás do que levado uma!” O rosto de Dummie cresceu com importância consciente.
“Bem, agora, você não acreditaria em nós; mas era tudo verdade. Aquele embrulho era o filho da mulher, suponho que um filho não natural do cavalheiro; ela nos deixou entrar na casa com a condição de que a ajudássemos a levá-lo. E, que me partam, mas nós nos pagamos bem pelo trabalho. Aquela mulher era uma criatura estranha; dizem que ela tinha sido amante de um lorde; mas, de qualquer forma, ela era tão cabeça quente e estranha quanto se poderia imaginar. Houve uma confusão dos diabos sobre o assunto, e a recompensa por nossa detecção foi tão grande, que como você não era muito testado ainda, Harry achou melhor levá-lo com ele para o campo, e lhe disse que era tudo uma mentira sobre a criança no embrulho!”
“Pela fé,” disse Ned, “acreditei nele prontamente; e o pobre Harry foi enforcado pouco depois, e fui para a Irlanda por segurança, onde fiquei dois anos, e bebi um clarete incrivelmente bom lá!”
“Então, enquanto você estava lá,” continuou Dummie, “a pobre Judy, a mulher, morreu, ela morreu nesta mesma casa, e deixou o órfão para o afeto de Piggy Lob, que era incrivelmente apegado a ele, certamente! Oh! mas lembro-me da noite que foi quando a pobre Judy morreu; o vento assobiava como um louco, e a chuva caía como se tivesse tirado férias; e lá a pobre criatura jazia delirando logo acima deste cômodo em que sentamos! Deus me perdoe, que visão foi aquela!”
Aqui Dummie pausou e pareceu recordar na imaginação a cena que presenciara; mas sobre a mente de Long Ned um raio de luz rompeu lentamente.
“Ué!” disse ele, levantando o dedo indicador, “ué! Sinto cheiro de rato; esta criança roubada, então, não era outra senão Paul. Mas, por favor, a quem a casa pertencia? Porque esse fato Harry nunca me comunicou. Só ouvi dizer que o dono era um advogado, ou um padre, ou alguma coisa assim.”
“Ora, agora, eu vou lhe contar, mas não fique irritado. Então, você vê, quando Judy morreu, e Harry foi enforcado, eu era o único vivo que sabia do segredo; e quando a Mãe Lob estava tomando um gole para se consolar quando Judy partiu, abro uma grande caixa na qual a pobre Judy guardava suas roupas e bugigangas, e certamente encontro no fundo da caixa tantas cartas e coisas do tipo, porque eu sabia que elas estavam lá; então eu pego isso e levo para casa comigo, e pouco depois, a Mãe Lob me vendeu a caixa de roupas por duas libras, porque eu era um mercador de trapos. Então agora decidi, já que o segredo estava todo em minhas mãos, mantê-lo bem fechado; porque primeiro, você vê que eu estava com medo de ser enforcado se fosse contar, porque eu roubei um relógio, e muito mais, assim como o menino; e depois eu estava com medo de que a mãe pudesse voltar e me assombrar da mesma forma que Sall assombrou Villy, porque foi uma noite horrível quando sua alma partiu. E acima de tudo isso, Meester Pepper, pensei que algo poderia surgir mais tarde, em que seria melhor para mim manter meu próprio conselho e pegar a recompensa, se eu algum dia ousasse me revelar.”
Aqui Dummie procedeu a narrar o quão assustado ele ficara de que Ned descobrisse tudo, quando (como se pode lembrar, Pepper informou Paul no início desta história) ele encontrou aquele digno na casa de Dame Lobkins; como esse medo o levara a demonstrar a Pepper aquela frieza e grosseria que tanto enfurecera o altivo salteador; e quão grande fora seu alívio e prazer ao descobrir que Ned não voltava mais ao Mug. Ele então procedeu a informar seu novo confidente de seu encontro com o pai (o leitor sagaz sabe onde e quando), e do que ocorreu naquele evento. Ele contou como, em sua primeira negociação com o pai, resolvendo prudentemente comunicar gota a gota as informações que possuía, ele meramente, além de confessar sua parte no roubo, afirmou que achava que conhecia a casa, etc., para a qual o infante fora entregue, e que, se assim fosse, ele ainda estava vivo; mas que ele iria investigar. Ele então relatou como o pai esperançoso, que viu que enforcar Dummie pelo roubo de sua casa poderia não ser um método tão provável para recuperar seu filho quanto o suborno e a conciliação, não apenas o perdoou por sua agressão anterior, mas aguçou seu apetite pela busca recompensando-o por sua revelação. Ele então prosseguiu afirmando como, incapaz de encontrar Paul em qualquer lugar, ou qualquer vestígio dele, ele entretinha o pai de tempos em tempos com desculpas forjadas; como, a princípio, as somas que recebia o tornavam de forma alguma desejoso de apressar uma descoberta que encerraria tais receitas satisfatórias; como, finalmente, a magnitude da recompensa oferecida, somada às ameaças do pai, o tornaram seriamente ansioso para aprender o destino real e o atual “paradeiro” de Paul; como, a última vez que viu o pai, ele, a título de propiciação e primeiros frutos, levara-lhe todos os papéis deixados pela infeliz mãe e escondidos por ele mesmo; e como ele estava agora encantado ao descobrir que Ned estava familiarizado com o endereço de Paul. Já que desesperava de encontrar Paul por seus próprios esforços sozinhos, ele tornou-se menos tenaz de seu segredo; e ele agora oferecia a Ned, mediante a descoberta de Paul, um terço daquela recompensa que, em sua totalidade, ele uma vez esperara engolir.
Os olhos e a boca de Ned se abriram com esta proposição. “Mas o nome, o nome do pai? Você ainda não me disse isso!” gritou ele, impacientemente.
“Não, não!” disse Dummie, astutamente, “não conto tudo, até que você me conte algo. Onde está o pequeno Paul, digo; e onde podemos alcançá-lo?”
Ned suspirou.
“Quanto ao juramento,” disse ele, pensativo, “seria um pecado mantê-lo, agora que quebrá-lo não pode lhe fazer mal, e pode lhe fazer bem, especialmente porque, em caso de prisão ou morte, o juramento não é considerado obrigatório; embora eu tema que seja tarde demais para a recompensa. O pai dificilmente agradecerá por encontrar seu filho! Saiba, Dummie, que Paul está na cadeia, e que ele é a mesma pessoa que o Capitão Lovett!” O espanto nunca escreveu em caracteres mais legíveis do que os que agora exibia nos traços rudes de Dummie Dunnaker. Tão fortes são as simpatias de uma profissão comparadas a todas as outras, que o primeiro pensamento confuso de Dummie foi de orgulho. “O grande Capitão Lovett!” ele balbuciou.
“O pequeno Paul no topo da profissão! Deus, Deus! Eu sempre disse que ele tinha a ambição de subir!”
“Bem, bem, mas o nome do pai?”
A esta pergunta, a expressão do rosto de Dummie caiu; um horror súbito lutou em seus olhos.
CAPÍTULO XXXV.
Por que é que em certos momentos nos invade um temor, um terror, avassalador, porém indefinido? Por que é que estremecemos sem causa e sentimos o sangue morno da vida parar em seu curso? Estarão os mortos muito perto? FALKLAND
Ah! dizes tu! Pensamento hediondo, sinto-o entrelaçar Sobre meu coração gelado, como se enrola em sua presa A serpente certeira e mortal! ............ O quê! no silêncio e na solidão Passou essa alma terrível? Amor e Ódio.
Na noite anterior àquela manhã em que a conversa acima ocorreu, Brandon passou sozinho em seu alojamento em --------. Sentira-se doente demais para comparecer à folia habitual, e sentou-se indolentemente, meditando na solidão do cômodo de estilo antigo ao qual estava confinado. Lá, duas velas de cera sobre a mesa lisa e antiquada lutavam fracamente contra a escuridão dos pesados painéis, que eram aliviados em intervalos infrequentes por retratos em molduras de carvalho, sujos, severos e importantes com a pompa de vestes rendadas e perucas esvoaçantes. A predileção da proprietária por gostos modernos havia, de fato, em cada lado da enorme lareira, suspendido obras-primas mais recentes das belas artes. Em esplendor emblemático pendiam as pinturas das quatro estações, moças rechonchudas todas, exceto o Inverno, que era deformadamente representado na semelhança de um velho camponês. Estas eram intercaladas por uma gravura de Lord Mauleverer, o tenente do condado vizinho, parecendo extremamente majestoso em suas vestes de par; e por três tipificações de Fé, Esperança e Caridade, senhoras com quem se pode duvidar se o alegre conde alguma vez antes cultivou tamanha intimidade. Cortinas, daquele chita antiga em que feixes de listras se alternam com fileiras de flores, preenchiam os intervalos de três janelas; um aparador pesado ocupava a maior parte de um lado do cômodo; e no lado oposto, atrás de Brandon, uma vasta tela estendia seu comprimento lento, aliviando o conforto despovoado e, por assim dizer, desolado do apartamento.
Pálida e imperfeitamente a luz escorria sobre o rosto de Brandon, enquanto ele se sentava em sua grande poltrona, apoiando a bochecha em uma das mãos e fitando, com a inconsciente intensidade da abstração, o fogo claro. Naquele momento, toda uma falange de pensamentos sombrios varria, em sucessiva disposição, sua mente. Sua ambição precoce, seu casamento de mau agouro, as causas de sua posterior ascensão no mundo de julgamentos errôneos, o primeiro alvorecer de sua reputação, seus rápidos e lisonjeiros sucessos, sua atual elevação, sua esperança aspirante a cargos muito mais altos e honras mais patrícias — todos esses fantasmas passavam diante dele em sombras e luzes entrecruzadas; mas, sempre, com cada um caminhava uma lembrança perturbadora e obscura: a perda de seu único filho.
Entrelaçando sua ambição com o desejo de reviver o orgulho de seu nome hereditário, cada aquisição de fortuna ou de fama tornava-o ainda mais ansioso por encontrar o único que poderia perpetuar essas distinções vazias para sua linhagem.
“Eu ainda o recuperarei!” irrompeu ele, de repente e em voz alta. Enquanto falava, uma dor rápida, lancinante e espasmódica percorreu todo o seu corpo, fazendo-o estremecer, e então fixou-se por um instante em seu coração com um aperto como as garras de uma ave; passou, e foi seguida por uma náusea mortal. Brandon levantou-se e, enchendo para si um copo grande de água, bebeu com avidez. A náusea passou como a dor precedente; mas a sensação fora sentida por Brandon frequentemente nos últimos tempos, e desconsiderada — pois poucas pessoas eram menos afligidas pela autotortura da hipocondria; mas agora, naquela noite, fosse porque fora mais aguda do que o habitual, ou porque seu pensamento tivesse tocado a corda que vibra naturalmente nas mais assustadoras antecipações humanas, não sabemos, mas, ao retomar seu assento, a ideia de sua dissolução iminente disparou como um golpe de gelo através de seu peito.
Tão atento estava este homem intrigante aos objetos vivos do mundo, e tão pouco seus pensamentos estavam acostumados a se voltar para o objetivo final de todas as coisas, que esta ideia, intrometendo-se abruptamente nele, assustou-o com um pavor lúgubre. Ele sentiu a cor fugir de sua bochecha, e uma dor formigante e involuntária correu errante através dos canais de seu sangue, desde as raízes do cabelo até a planta dos pés. Mas a alma austera de Brandon não era uma que sombras pudessem assustar por muito tempo. Ele se preparou para enfrentar o pensamento sombrio assim forçado sobre seu olho mental, e fitou-o com um olhar firme e duradouro.
“Bem”, pensou ele, “minha hora está chegando, ou ainda tenho o termo comum da natureza mortal a esperar? É verdade, tenho sofrido ultimamente essas estranhas convulsões do organismo com uma frequência um tanto alarmante; talvez este remédio, que curou a angústia de uma enfermidade, tenha produzido outra, mais imediatamente mortal. Contudo, por que deveria pensar assim? Meu sono é profundo e calmo, meus hábitos temperados, minha mente ativa e clara como em seus melhores dias. Na minha juventude, nunca traí minha constituição; por que deveria ela me abandonar no limiar da minha velhice? Não, não, estes são apenas espasmos passageiros, arrepios do sangue que começa a ficar ralo. Devo aprender a ser menos rigoroso em minha dieta? Talvez o vinho possa recompensar minha abstinência ao evitá-lo por luxo, tornando-se um cordial para minhas necessidades! Sim, consultarei — consultarei, não devo morrer ainda. Tenho — vejamos, três — quatro graus a galgar antes que a escada seja vencida. E, acima de tudo, devo recuperar meu filho! Lucy casada com Mauleverer, eu mesmo um par, meu filho casado com quem? Rezo a Deus que ele não esteja casado já! Meus sobrinhos e meus filhos nobres! A casa de Brandon restaurada, meu poder alto sob o olhar ascendente dos homens, minha fama estabelecida em uma base mais duradoura do que a habilidade nos caprichos da lei — isso ainda está por vir; não morrerei até ter desfrutado disso! Os homens não morrem até que seus destinos sejam cumpridos. O espírito que incha e voa dentro de mim diz que o destino de William Brandon está apenas começando!”
Com esta conclusão, Brandon buscou seu travesseiro. Quais eram as reflexões do prisioneiro a quem ele deveria julgar? Precisamos perguntar? Imaginemos sua saúde abalada, o languor da doença aumentando a melancolia que faz o próprio ar de uma prisão; sua certeza do destino a ser imposto contra ele; seu conhecimento de que o tio de Lucy Brandon seria seu juiz, que Mauleverer seria seu acusador, e que, em toda probabilidade humana, a única mulher que ele amara deveria, cedo ou tarde, aprender a criminalidade de sua vida e a ignomínia de sua morte; lancemos apenas um olhar sobre a escuridão das circunstâncias acima que o cercavam, e pareceria haver pouca dúvida quanto à natureza de seus pensamentos! Talvez, na verdade, mesmo naquela hora terrível e desolada, um rosto doce brilhasse sobre ele, “e dissipasse toda a escuridão”. Talvez, também, quaisquer que fossem as picadas de sua consciência, um pensamento, uma lembrança de uma tentação dominada e de um pecado evitado, trouxesse aos seus olhos lágrimas que eram doces e curativas em sua origem. Mas o coração de um homem na situação terrível de Clifford é sombrio e inescrutável; e, frequentemente, quando as mais selvagens e sombrias circunstâncias externas nos cercam, seu reflexo dorme como uma sombra, calmo e imóvel sobre a mente.
Na manhã seguinte, a cidade inteira de (uma cidade na qual, lamentamos dizer, um acidente certa vez nos deteve por três dias miseráveis, e que podemos, falando portanto por profunda experiência, afirmar ser em tempos comuns a mais melancólica e despovoada congregação de casas que uma imaginação sóbria pode conceber) exibia uma cena de tal agitação, animação e ansiedade jovial como o julgamento de vida ou morte de um semelhante pode apenas excitar nos peitos fleumáticos dos ingleses. Ao redor do tribunal, a multidão engrossava a cada momento, até que todo o mercado em que ficava a prefeitura tornou-se uma massa viva. As janelas das casas estavam cheias de mulheres, algumas das quais haviam aproveitado a oportunidade para marcar encontros para o café da manhã; e pequenas mesas redondas, com chá e torradas sobre elas, atraíam os olhos dos zombeteiros boquiabertos enquanto olhavam impacientemente para cima.
“Ben”, disse um robusto fazendeiro, lançando uma moeda de meio centavo e apanhando-a com a mão direita, que imediatamente cobriu com a esquerda — “Ben, cara ou coroa que Lovett é enforcado; cara enforcado, coroa não, por uma coroa.”
“Saias, com certeza”, disse Ben, comendo uma maçã; e deu cara!
“Droga, você perdeu!” gritou o fazendeiro, esfregando as mãos ásperas com alegria.
Teria sido uma bela visão para Asmodeus, se ele pudesse ter se empoleirado em um dos telhados do mercado de --------, e olhado para o mar murmurante e agitado de mortalidade abaixo. Oh! O espetáculo de uma multidão ao redor de um tribunal de justiça ou de uma forca deveria fazer o diabo explodir de tanto rir.
Enquanto a multidão se inquietava, empurrava, xingava, sorria, apostava, furtava bolsos, pisoteava pés, rasgava vestidos e se aproximava cada vez mais das portas e janelas do tribunal, Brandon terminava lentamente sua refeição sóbria, preparando-se para comparecer aos seus deveres judiciais. Seu criado entrou com uma carta. Sir William lançou um olhar rápido sobre o selo (um daqueles imensos sacrifícios de cera usados naquele dia), adornado com um enorme brasão, encimado por uma coroa de conde e decorado de cada lado com aqueles suportes tão caros ao gosto heráldico. Ele então rasgou a carta e leu o seguinte:
MEU CARO SIR WILLIAM, — Sabeis que, na última conversa que tive a honra de manter convosco, aludi, embora talvez de forma um tanto distante, à estima que Sua Majestade expressou pessoalmente por vossos princípios e talentos, e ao seu desejo de testificá-la na primeira oportunidade. Haverá, como estais sem dúvida ciente, uma criação imediata de quatro pariatos. Vosso nome está em segundo na lista. A escolha do título Sua Majestade graciosamente deixa a vosso critério; mas ele sugeriu que a respeitável antiguidade de vossa família o deixaria mais satisfeito se escolhêsseis o nome de vossa própria sede familiar, que, se não me engano, é Warlock. Instruir-me-eis, quando vos for conveniente, sobre a maneira como a patente deve ser redigida, tocando na sucessão, etc. Talvez (desculpai a licença de um velho amigo) este evento possa induzir-vos a abandonar vosso celibato há muito cultivado. Não preciso acrescentar que esta ascensão de categoria será acompanhada por elevação profissional. Vereis pelos jornais que a morte de -------- deixa vaga a dignidade de Barão-Chefe; e estou finalmente autorizado a oferecer-vos um posto proporcional ao vosso caráter e talentos.
Com grande consideração, crede-me, meu caro Sir, Muito verdadeiramente vosso,
Privado e Confidencial.
O olho sombrio de Brandon desviou-se rapidamente da assinatura do primeiro-ministro, aposta a esta comunicação, em direção ao espelho à sua frente. Ele caminhou até lá e examinou seu próprio semblante com um longo e ansioso olhar. Nunca, pensamos, um jovem galante prestes a dirigir-se ao local de encontro, no qual belos olhares constituem a maior das vantagens terrenas, olhou com tanta ansiedade para o espelho imparcial como o fez agora o ascético e desdenhoso juiz; e nunca, cremos, o olhar do dito galante retirou-se com uma expressão mais satisfeita e triunfante.
“Sim, sim!” murmurou o juiz, “nenhum sinal de enfermidade está escrito aqui ainda; o sangue flui claro e quente o suficiente; a bochecha parece firme também, e bastante cheia, para alguém que sempre foi das vacas magras. Aha! Esta carta é um cordial, um elixir vitro. Sinto como se um novo contrato tivesse sido concedido ao relutante inquilino. Lord Warlock, o primeiro Barão de Warlock, Lorde Barão-Chefe — o que vem a seguir?”
Enquanto falava, ele caminhou inconscientemente, cruzando os braços com aquele tipo de gesto alegre e complacente que implica a ideia de um homem abraçando a si mesmo em um prazer silencioso. Certamente, se o médico mais habilidoso tivesse olhado então para o rosto ardente e iluminado, o passo firme, o corpo elástico e musculoso, o ar vigoroso de Brandon, enquanto ele continuava mentalmente seu solilóquio, teria previsto para ele um controle tão justo sobre a longevidade quanto as chances da vida mortal permitem. Ele foi interrompido pela entrada do criado.
“São nove horas e vinte e cinco minutos, senhor”, disse ele, respeitosamente.
“Senhor... senhor!” repetiu Brandon. “Ah, bem! Tão tarde!”
“Sim, senhor, e a carruagem do xerife está quase à porta.”
“Hum! Ministro... Par... Warlock... sucessão. Meu filho, meu filho! Quisesse Deus que eu pudesse te encontrar!”
Esses foram os últimos pensamentos de Brandon ao sair da sala. Foi com grande dificuldade, tão densa era a multidão, que o juiz chegou ao tribunal. Enquanto a carruagem passava lentamente, os espectadores se pressionavam contra as janelas do veículo e ficavam na ponta dos pés para vislumbrar o célebre advogado. O rosto de Brandon, nunca por muito tempo indicativo de seus sentimentos, havia se estabelecido em sua gravidade habitual; e a severa altivez de seu olhar gelava, enquanto satisfazia, a curiosidade do vulgo. Havia sido ordenado que ninguém fosse admitido até que o juiz tivesse tomado seu lugar no banco; e esta ordem causou tanto atraso, devido à pressão acumulada do vasto e heterogêneo grupo, que se passou mais de meia hora antes que o tribunal pudesse obter aquela ordem decente condizente com a solenidade da ocasião. Às nove horas e cinquenta e cinco minutos, um movimento universal e indescritível anunciou que o prisioneiro foi levado ao banco dos réus. Lemos em um dos jornais daquele dia que “ao ser levado ao banco dos réus, o prisioneiro olhou ao redor com um olhar longo e ansioso, que finalmente se fixou no juiz, e então caiu, enquanto se observou que o prisioneiro mudou ligeiramente de fisionomia. Lovett estava vestido com um terno escuro simples; parecia ter cerca de um metro e oitenta de altura; e, embora magro e abatido, provavelmente devido ao efeito de seu ferimento e aprisionamento, é notavelmente bem feito e exibe a aparência exterior daquela grande força pessoal que se diz possuir, e que não é raramente a característica de criminosos audaciosos. Seu rosto é bonito e atraente, seus olhos e cabelos escuros, e sua tez pálida, possivelmente devido aos efeitos de seu confinamento; havia uma certa severidade em seu semblante durante a maior parte do julgamento. Seu comportamento foi notavelmente coletado e composto. O prisioneiro ouviu com a maior atenção a acusação, que o leitor encontrará em outra parte do nosso jornal, acusando-o do roubo de estrada de Lord Mauleverer, na noite de ------ de ------ passado. Ele ocasionalmente inclinava o corpo para frente e voltava o ouvido para o tribunal; e observou-se, quando o júri prestou juramento, que ele olhou fixamente para o rosto de cada um. Ele respirava de forma espessa e pesada quando os vários pseudônimos que assumira — Howard, Cavendish, Jackson, etc. — foram lidos; mas sorriu com uma expressão inexplicável quando a lista foi concluída, como se exultasse com a variedade de sua engenhosidade. Às dez horas e vinte e cinco minutos, o Sr. Dyebright, o advogado da coroa, apresentou o caso ao júri.”
O Sr. Dyebright era um advogado de grande eminência; fora um Whig durante toda a vida, mas ultimamente tornara-se notável por sua insinceridade e subserviência aos desejos dos poderes superiores. Seus talentos eram peculiares e eficazes. Se ele tinha pouca eloquência, tinha muito poder; e seu conhecimento jurídico era sólido e extenso. Muitos de seus irmãos o superavam em exibição; mas ninguém, como ele, possuía o segredo de dirigir-se a um júri. Cativantemente familiar; aparentemente sincero a um grau que mal fazia justiça à sua causa, como se estivesse em agonia por medo de persuadi-lo a inclinar-se um milímetro a mais para o seu lado do caso do que a justiça permitiria; aparentemente todo feito de bom e simples sentimento virtuoso, uma consideração desinteressada pela verdade, uma honestidade direta, porém terna, temperada com alguns preconceitos domésticos amáveis, que sempre tocam os corações dos pais de família e britânicos de linhagem pura; versado em todas as sutilezas da linguagem e na magia dos nomes; se ele estivesse defendendo o crime, chamando-o cuidadosamente de infortúnio; se atacando o infortúnio, chamando-o constantemente de crime — o Sr. Dyebright era exatamente o homem nascido para perverter a justiça, para agradar os jurados, para enganar a verdade com um sorriso amigável e para obter uma vasta reputação como um excelente advogado. Ele começou com um longo floreio preliminar sobre a importância do caso. Disse que evitaria com a mais escrupulosa delicadeza qualquer observação calculada para levantar preconceito desnecessário contra o prisioneiro. Ele não aludiria à sua infeliz notoriedade, às suas associações com a escória mais baixa. (Aqui levantou-se o advogado do prisioneiro, e o Sr. Dyebright foi chamado à ordem.) “Deus sabe”, retomou o cavalheiro culto, olhando ansiosamente para o júri, “que meu culto amigo poderia ter se poupado deste aviso. Deus sabe que eu preferiria que cinquenta dos infelizes ocupantes desta prisão do condado escapassem ilesos do que um fio de cabelo do prisioneiro que vedes no banco dos réus fosse injustamente tocado. A vida de um ser humano está em jogo; seríamos culpados nós mesmos de um crime que, em nossos leitos de morte, tremeríamos ao recordar, se permitíssemos que qualquer consideração, seja de interesse, de preconceito ou de medo indevido por nossas próprias propriedades e vidas, nos influenciasse até o ponto de virar uma palha contra o infeliz prisioneiro. Cavalheiros, se me encontrardes viajando um único centímetro do meu caso — se me encontrardes dizendo uma única palavra calculada para prejudicar o prisioneiro aos vossos olhos, e não sustentada pelas provas que apresentarei — então imploro-vos que não dependais da vigilância do meu culto amigo, mas que guardeis esses meus erros em vossa memória e os considereis como tantos argumentos a favor do prisioneiro. Se, cavalheiros, eu pudesse, por qualquer possibilidade, imaginar que vosso veredito seria favorável ao prisioneiro, posso, sem afetação e do fundo do meu coração, declarar-vos que me regozijaria; um caso poderia ser perdido, mas um semelhante seria salvo! Por mais insensíveis que sejamos, da profissão jurídica, acreditados ser, temos sentimentos como vós; e peço a qualquer um de vós, cavalheiros do júri, a qualquer um que já tenha sentido os prazeres do convívio social, a alegria da caridade, a recompensa do coração pela benevolência — peço a qualquer um de vós se, estivesse ele colocado na situação árdua que agora ocupo, todas as persuasões da vaidade não desapareceriam imediatamente de sua mente, e se sua derrota como advogado não seria tornada cara a ele pelas simpatias comuns e carnais de um homem. Mas, cavalheiros” (a voz do Sr. Dyebright ao mesmo tempo se aprofundou e vacilou), “há um dever, um dever doloroso, que devemos ao nosso país; e nunca, no longo curso de minha experiência profissional, lembro-me de um caso em que tenha sido mais exigido do que no presente. A misericórdia, cavalheiros, é cara, muito cara a todos nós; mas é o ferimento mais mortal que podemos infligir à humanidade quando ela é comprada à custa da justiça.”
O cavalheiro culto então, após algumas observações introdutórias adicionais, procedeu a declarar como, na noite de ------- passado, Lord Mauleverer foi parado e roubado por três homens mascarados, de uma soma de dinheiro que totalizava mais de 350 libras, uma caixa de rapé de diamantes, anéis, relógio e um estojo de joias valiosíssimas — como Lord Mauleverer, ao tentar se defender, disparou uma bala através das roupas de um dos ladrões — como seria provado que as vestimentas do prisioneiro, encontradas em uma caverna em Oxfordshire, e positivamente atestadas por uma testemunha que ele apresentaria, exibiam um rasgo semelhante àquele que uma bala produziria — como, além disso, seria positivamente atestado pela mesma testemunha que o prisioneiro Lovett viera para a caverna com dois cúmplices não capturados desde então, desde seu resgate pelo prisioneiro, e gabou-se do roubo que acabara de cometer; que nas roupas e no aposento de dormir do ladrão foram encontrados os artigos roubados de Lord Mauleverer; e que a bolsa contendo as notas de 300 libras, a única coisa que o prisioneiro provavelmente teria obtido tempo para levar consigo, na manhã em que a caverna foi invadida pelos policiais, foi encontrada em sua pessoa no dia em que ele tentara o resgate de seus camaradas, e fora preso nessa tentativa. Ele afirmou, além disso, que o traje encontrado na caverna, e atestado por uma testemunha que ele apresentaria como pertencente ao prisioneiro, correspondia exatamente à descrição das roupas usadas pelo ladrão principal, e atestadas por Lord Mauleverer, seu criado e os postilhões. Da mesma forma, a cor de um dos cavalos encontrados na caverna correspondia àquele montado pelo salteador. Nessas provas circunstanciais, auxiliadas pelo depoimento imediato da testemunha da coroa (aquela testemunha que ele apresentaria), ele fundamentou um caso que poderia, afirmou, não deixar dúvida na mente de um júri imparcial. Tais, breve e claramente alegados, formaram a substância dos detalhes nos quais entrou o culto advogado, que então procedeu a chamar suas testemunhas. O depoimento de Lord Mauleverer (que estava hospedado em Mauleverer Park, que ficava a poucos quilômetros de --) foi curto e claro (foi notado como uma circunstância singular que, ao final do depoimento, o prisioneiro fez uma reverência respeitosa ao lorde). O testemunho dos postilhões e do criado não foi menos conciso; nem toda a engenhosidade do advogado de Clifford pôde abalar qualquer parte de seu depoimento no interrogatório cruzado. A principal testemunha de que dependia a coroa foi então convocada, e o semblante solene de Peter MacGrawler surgiu diante dos olhos do júri. Um olhar de frio e devastador desprezo caiu sobre ele vindo dos olhos do prisioneiro, que não se dignou a olhá-lo novamente durante todo o seu interrogatório.
O depoimento de MacGrawler foi proferido com uma pompa digna do ex-editor do “Asinaeum”. No entanto, pela habilidade do Sr. Dyebright, foi tornada uma história suficientemente clara para deixar uma impressão no júri condenatória aos interesses do prisioneiro. O advogado do lado oposto não demorou a perceber o terreno adquirido pela parte adversária; então, limpando a garganta, levantou-se com um ar de escárnio para o interrogatório cruzado.
“Muito bem, muito bem”, começou o Sr. Botheram, colocando um par de óculos notavelmente grandes, com os quais observou truculentamente a testemunha — “muito bem, muito bem, Sr. MacGrawler — é esse o seu nome, hein, hein? Ah, é, é? Um nome muito respeitável, garanto. Bem, senhor, olhe para mim. Agora, sob juramento, lembre-se, o senhor já foi editor de certa coisa publicada todas as quartas-feiras, chamada 'Athenaeum', ou 'Asinaeum', ou algum nome parecido?”
Começando com essa pergunta insidiosa e autodepreciativa, o douto advogado prosseguiu, tão astutamente quanto podia, através de uma série de interrogatórios calculados para ferir o caráter, o respeitável caráter de MacGrawler, e enfraquecer seu depoimento aos olhos do júri. Ele obteve sucesso em despertar na plateia aquele sentimento de hilaridade com o qual os vulgares sempre se deliciam para intercalar a entediante seriedade de enforcar um ser humano. Mas, embora o próprio júri tenha sorrido, eles não ficaram convencidos. O escocês retirou-se da tribuna das testemunhas “escorchado”, talvez, na reputação, mas não “morto” quanto ao depoimento. Foi logo antes de essa testemunha concluir que Lord Mauleverer mandou entregar ao juiz um pequeno pedaço de papel, contendo apenas estas palavras a lápis:
CARO BRANDON, — Um jantar o espera em Mauleverer Park, a apenas três milhas daqui. Lord — e o Bispo de — o encontrarão. Muitas notícias de Londres, e uma carta sobre você, que não mostrarei a ninguém até nos encontrarmos. Apresse-se e enforque este pobre coitado, para que eu possa vê-lo o quanto antes; e é ruim para ambos esperarmos muito por uma refeição regular como o jantar. Não posso ficar mais tempo, está muito quente, e meus nervos sempre foram suscetíveis.
Seu, MAULEVERER.
Se você vier, dê-me um aceno. Você conhece meu horário — é sempre o mesmo.
O juiz, passando os olhos pela nota, inclinou a cabeça gravemente para o conde, que se retirou; e, um minuto depois, um silêncio pesado e ofegante caiu sobre todo o tribunal. O prisioneiro foi chamado para sua defesa: era singular que tipo de sensação diferente daquela existente em seus corações no momento anterior percorresse, de forma arrepiante, a audiência. Silenciado foi cada sussurro, desaparecido foi cada sorriso que o recente interrogatório cruzado havia provocado; um súbito e gélido senso da terrível importância do tribunal fez-se sentir abruptamente nas mentes de todos os presentes.
Talvez, como na sombria sátira de Hogarth (o Mefistófeles moral dos pintores), a proximidade da dor com o riso fizesse a primeira chegar com o choque mais familiar ao coração; seja como for, uma ansiedade congelante, entorpecendo o pulso e agitando o ar, fez com que cada homem naquela multidão variada sentisse uma simpatia de temor pelo seu vizinho, exceto apenas o endurecido juiz, os advogados calejados e um espectador — um idiota que se enfiara com a multidão geral e permanecia, a poucos passos do prisioneiro, sorrindo inconscientemente, e de vez em quando piscando com um olho vítreo para alguém à distância, cuja vigilância ele provavelmente evitara.
O rosto e o aspecto, até mesmo a atitude do prisioneiro, eram bem adequados para aumentar o efeito que naturalmente teria sido criado por qualquer homem sob a mesma terrível condenação. Ele estava bem à frente da barra, e sua figura alta e nobre estava esticada em toda a sua altura; um brilho de excitação espalhou-se gradualmente por feições sempre marcantes, e iluminou um olho naturalmente eloquente, ao qual várias emoções, naquele momento, davam uma expressão mais profunda e impressionante do que o comum. Ele começou assim:
“Meu senhor, tenho pouco a dizer, e posso desde já aliviar a ansiedade do meu advogado, que agora olha ansiosamente para mim, e acrescentar que esse pouco dificilmente abrangerá o objetivo da defesa. Por que deveria me defender? Por que deveria me esforçar para prolongar uma vida que alguns dias, mais ou menos, terminarão, de acordo com os cálculos ordinários do acaso? Tal como é e tem sido, minha vida é devotada à lei, e a lei terá a oferenda. Pudesse eu escapar desta acusação, sei que sete outras me aguardam, e que por uma ou outra destas minha condenação e minha sentença virão. A vida pode ser doce para todos nós, meu senhor; e fosse possível que a minha fosse poupada ainda por um tempo, essa vida continuada poderia fazer uma reparação melhor pelas ações passadas do que uma morte que, abrupta e prematura, clama por arrependimento enquanto proíbe a reparação.
“Mas, quando o lado sombrio das coisas é nossa única escolha, é inútil contemplar o brilhante; é ocioso fixar nossos olhos na vida, quando a morte está próxima; inútil falar de contrição, quando nos é negada sua prova. É a política habitual dos prisioneiros em minha situação dirigir-se aos sentimentos e lisonjear os preconceitos do júri; discorrer sobre a excelência de nossas leis, enquanto tentam desarmá-las; elogiar a justiça, mas exigir misericórdia; falar em esperar a absolvição, mas gabar-se de submeter-se sem um murmúrio à condenação. Para mim, para quem todos os interesses terrenos estão mortos, essa política é ociosa e supérflua. Não hesito em dizer-lhes, meu senhor juiz — em proclamar a vocês, senhores do júri —, que as leis que quebrei durante minha vida eu desprezo na morte! Suas leis são apenas de duas classes; uma faz criminosos, a outra os pune. Sofri pela primeira; estou prestes a perecer pela segunda.
“Meu senhor, foi o virar de uma palha que me tornou o que sou. Sete anos atrás, fui enviado para a casa de correção por uma ofensa que não cometi. Fui para lá, um rapaz que nunca havia infringido uma única lei; saí, em poucas semanas, um homem preparado para quebrar todas as leis! De onde veio essa mudança? Foi minha culpa, ou a dos meus condenadores? Vocês primeiro me prejudicaram com uma punição que eu não merecia; vocês me prejudicaram ainda mais profundamente quando (mesmo se eu fosse culpado da primeira ofensa) fui sentenciado a viver com infratores endurecidos e graduados no vício e nos métodos de sustentação do vício. As próprias leis causaram que eu quebrasse as leis: primeiro, ao implantar em mim o pungente senso de injustiça; segundo, ao submeter-me à corrupção do exemplo. Assim, repito — e confio que minhas palavras se gravarão solenemente nos corações de todos os presentes —, sua legislação fez de mim o que sou; e agora ela me destrói, como destruiu milhares, por ser o que ela me fez! Se não fosse por isso, a primeira agressão contra mim, eu poderia ter sido o que o mundo chama de honesto — eu poderia ter avançado para a velhice e uma sepultura pacífica através das trapaças inofensivas do comércio ou das mentiras honradas de uma profissão. Aliás, eu poderia ter sustentado as leis que agora desafiei; como o advogado que me opõe, eu poderia ter engordado com os vícios dos outros e avançado para a honra por minha engenhosidade em enforcar meus semelhantes! A parte hipócrita e preconceituosa da imprensa afetou apresentar a vocês os méritos da ‘habilidade honesta’, ou do ‘comércio laborioso’, em oposição às minhas ofensas. O que, rogo-lhes, são os sustentáculos de seu esforço ‘honesto’ — os lucros do ‘comércio’? Não há subornos a servos? Não há adulteração de bens? Os ricos nunca são enganados no preço que pagam? Os pobres nunca são prejudicados na qualidade que recebem? Há honestidade no pão que vocês comem, em uma única necessidade que os veste, alimenta ou aquece? Que aqueles a quem a lei protege a considerem uma protetora: quando ela jamais me protegeu? Quando ela jamais protegeu o pobre? O governo de um Estado, as instituições da lei, professam prover para todos aqueles que ‘obedecem’. Notem! Um homem sente fome — vocês o alimentam? Ele está nu — vocês o vestem? Se não, vocês quebram seu pacto, vocês o levam de volta à primeira lei da natureza, e vocês o enforcam, não porque ele é culpado, mas porque vocês o deixaram nu e faminto!” [Um murmúrio entre a multidão abaixo, silenciado com grande dificuldade.] “Uma coisa apenas acrescentarei, e não para mover a sua misericórdia — não, nem para investir meu destino com um interesse ocioso e momentâneo —, mas porque há algumas pessoas neste mundo que não me conheceram como o criminoso que está diante de vocês, e a quem as notícias do meu destino podem chegar futuramente; e eu não gostaria que essas pessoas me vissem com cores mais negras do que mereço. Entre todos os rumores, senhores, que chegaram a vocês, através de todos os contos e fábulas inflamados por minha infeliz notoriedade e meu destino iminente, eu lhes pergunto se ouviram que cometi uma única ação sanguinária ou uma fraude ruinosa e deliberada. Vocês ouviram que vivi do saque dos ricos — não nego a acusação. Do esmagamento dos pobres, da habitual exploração ou do furto sistemático de meus vizinhos, minha consciência está tão livre quanto da acusação de crueldade e derramamento de sangue. Esses erros eu deixo para a mediocridade honesta ou o esforço virtuoso! Talvez vocês descubram, também, que minha vida não passou por uma carreira de ultraje sem espalhar alguns benefícios pelo caminho. Ao destruir-me, é verdade que vocês terão o consolo de pensar que, entre os benefícios que derivam de minha sentença, estará o salutar encorajamento que dão a outros infratores para ofenderem até o último grau, e para não privar o ultraje de nenhuma agravante! Mas, se isso não lhes parece um incentivo muito poderoso, vocês podem hesitar antes de cortar de qualquer emenda um homem que parece nem totalmente endurecido nem totalmente além da reparação. Meu senhor, meu advogado teria desejado convocar testemunhas — algumas para dar testemunho de pontos redentores em meu próprio caráter, outras para invalidar o juramento da testemunha contra mim — um homem que salvei da destruição para que ele pudesse me destruir. Não acho nenhuma necessária. A imprensa pública já disse de mim o pouco bem que não choca a verdade; e se eu não tivesse possuído algo daquelas qualidades que a sociedade não despreza, vocês não me teriam visto aqui a esta hora! Se eu tivesse me salvado, assim como meus companheiros, teria deixado este país, talvez para sempre, e começado uma carreira muito diferente no exterior. Cometi ofensas; eu os evitei; cometi o que, no meu caso, foi um ato de dever: sou capturado, e pereço. Mas a fraqueza do meu corpo me destrói, não a força da sua malícia. Tivesse eu” (e enquanto o prisioneiro falava, o movimento altivo e rápido, a expansão da forma, produzida pela paixão do momento, tornava impressionantemente visível a todos o notável poder de sua compleição), “tivesse eu apenas minha saúde habitual, meu comando habitual sobre esses membros e essas veias, eu não teria pedido a nenhum amigo, a nenhum aliado, que favorecesse minha fuga. Eu lhes digo, motores e guardiões da lei, que eu teria zombado de suas correntes e desafiado suas paredes, como vocês sabem que eu zombo e desafio antes. Mas meu sangue rasteja agora apenas em gotas através de seus caminhos; e o coração que eu tinha antigamente agita-se debilmente e pesadamente dentro de mim.” O prisioneiro pausou um momento, e retomou em um tom alterado: “Deixando, então, meu próprio caráter à prova do relato, não posso talvez fazer melhor do que deixar ao mesmo critério o da testemunha contra mim. Admitirei candidamente que, sob outras circunstâncias, poderia ter sido diferente. Admitirei candidamente que poderia ter usado os meios que sua lei me concede para obter uma absolvição e prolongar minha existência — embora em um novo cenário; sendo como é, o que importa a causa na qual recebo minha sentença? Aliás, é até melhor sofrer pela primeira do que perdurar até a última. É algum consolo não estar novamente onde estou agora; passar pelas humilhantes solenidades que suportei neste dia; ver o sorriso de alguns, e retribuir o cenho de outros; lutar com a ansiedade do coração e depender do capricho dos nervos excitados. É algo sentir que uma parte do drama da desgraça acabou, e que posso esperar imperturbado em minha toca até que, por uma única vez, eu seja novamente o alvo dos imprudentes e o monstro da multidão. Meu senhor, terminei! A você, a quem a lei considera o advogado do prisioneiro — a vocês, senhores do júri, a quem delegou seu destino —, deixo os riscos da minha vida.”
O prisioneiro cessou; mas o mesmo silêncio pesado que, exceto quando quebrado por um solitário murmúrio, pairava sobre o tribunal durante seu discurso, ainda continuou por vários momentos após aquela voz profunda e firme ter morrido no ouvido. Tão diferente fora a defesa do prisioneiro daquela que se esperava; tão assegurada estava a parte mais calejada da audiência, mesmo enquanto ele prosseguia, que por algum artifício ele acabaria por desembocar nos caminhos habituais da defesa — que, quando seus acentos inabaláveis e quase severos pausaram, os homens não estavam preparados para sentir que seu discurso havia terminado, e a pausa involuntariamente os incomodou como intempestiva e abrupta. Por fim, quando cada um da audiência despertou lentamente para a convicção de que o prisioneiro havia de fato concluído sua oração, um movimento, eloquente de sentimentos liberados de um suspense, que talvez fora tanto mais fervoroso e mais misturado com temor pela ousadia e novidade das palavras em que se prendia, circulou pelo tribunal. Os jurados olharam confusos um para o outro, mas nenhum deles falou, nem mesmo por um sussurro; seus sentimentos, que haviam sido despertados pelo discurso do prisioneiro, não tinham, por sua brevidade, sua singularidade e a altiva impolítica de seu tom, sido tão guiados por seu curso a ponto de se estabelecerem em qualquer estado de espírito claramente favorável a ele, ou o contrário; de modo que cada homem esperava que seu vizinho falasse primeiro, para que pudesse encontrar, por assim dizer, em outro, uma espécie de pista para os sentimentos indistintos e excitados que buscavam expressão nele mesmo.
O juiz, que desde o início fora atraído pelo ar e aspecto do prisioneiro, talvez tivesse, apesar da dureza de sua mente, escutado a defesa de forma mais aprovadora do que qualquer um presente; pois, no desprezo pelas instituições ocas e na honestidade simulada da vida social, tão desafiadoramente manifestado pelo prisioneiro, Brandon reconhecia elementos de mente notavelmente congeniais aos seus próprios; e essa simpatia foi aumentada pela resistência do nervo físico e pela intrepidez moral exibida pelo prisioneiro — qualidades que, entre homens de molde semelhante, muitas vezes formam o motivo mais forte de estima, e às vezes (como lemos sobre o corso imperial e seus chefes) o único ponto de atração! Brandon foi, contudo, logo trazido de volta ao seu eu frio por um murmúrio de aplausos vagos circulando pela multidão comum, entre os quais o impulso geral sempre se manifesta primeiro, e para quem as opiniões do prisioneiro, embora apenas imperfeitamente compreendidas, soaram mais imediatamente familiares do que para as classes melhores e mais ricas da audiência. Sempre atento aos decoros da forma, Brandon ordenou instantaneamente silêncio no tribunal; e quando ele foi restaurado, e compreendeu-se plenamente que a defesa do prisioneiro havia encerrado, o juiz prosseguiu para resumir.
É digno de nota que muitas das qualidades de mente que parecem mais desagradáveis na vida privada muitas vezes conduzem com uma felicidade singular aos fins da pública; e assim, a firmeza pétrea característica de Brandon era uma causa principal que o tornava admirável como juiz — pois os homens no poder erram não menos por seus sentimentos do que por seus interesses.
Passando os olhos por suas anotações, o juiz inclinou-se para o júri e começou com aquela voz prateada e ressonante que distinguia particularmente a eloquência de Brandon, e que carregava consigo, em altos cargos, um tom de persuasão tão majestoso e cândido. Ele apontou, com uma breve clareza, os vários pontos da evidência; demorou-se por um momento na tentativa de lançar descrédito sobre o depoimento de MacGrawler, mas chamou a atenção adequada para o fato de que a tentativa não fora apoiada por testemunhas ou provas. À medida que prosseguia, a impressão feita pelo prisioneiro nas mentes do júri derretia-se lentamente; e talvez, tanto os homens se suavizam quando contemplam claramente o rosto de um semelhante dependente deles para viver, que agiu desvantajosamente para os interesses de Clifford, o fato de que, durante o resumo, ele se recostou no banco dos réus e impediu que seu rosto fosse visto. Quando a evidência foi percorrida, o juiz concluiu assim:
“O prisioneiro, que em sua defesa (sobre cujos princípios e opiniões agora me abstenho de comentar) certamente exibiu os sinais de uma educação superior e uma habilidade alta, embora pervertida, aludiu aos relatos circulados pela imprensa pública e deu algum peso aos vários anedóticos tendentes a seu favor, que supõe terem chegado aos seus ouvidos. Não estou de forma alguma disposto a que o prisioneiro seja privado de qualquer benefício que possa ser derivável de tal fonte; mas não é neste lugar, nem neste momento, que pode lhe ser útil. Tudo o que vocês têm a considerar é a evidência diante de vocês. Tudo sobre o que vocês têm que decidir é se o prisioneiro é ou não culpado do roubo do qual é acusado. Vocês não devem desperdiçar um pensamento sobre o que redime ou aumenta um suposto crime — vocês devem apenas decidir sobre o crime em si. Afastem de suas mentes, rogo-lhes, tudo o que interfira no caso principal. Afastem também de seus motivos de decisão toda previsão de outras possíveis acusações às quais o prisioneiro aludiu, mas com as quais vocês estão necessariamente não familiarizados. Se vocês duvidam da evidência, seja de uma testemunha ou de todas, o prisioneiro deve receber de vocês o benefício dessa dúvida. Se não, vocês estão juramentados a um solene juramento, que ordena que vocês abram mão de todas as considerações menores — que os obriga a observar atentamente para que não sejam influenciados pelas enfermidades naturais a todos nós, mas criminosas em vocês, de inclinar-se para o lado de uma misericórdia que seria, pelo seu juramento, um perjúrio perante Deus, e pelo seu dever como cidadãos imparciais, uma traição ao seu país. Dispenso-os para a grave consideração do importante caso que ouviram; e confio que Aquele a quem todos os corações estão abertos e todos os segredos são conhecidos, lhes concederá o temperamento e o julgamento para formar uma decisão correta!”
Havia no aspecto majestoso e na voz arrepiante de Brandon algo que tornava a forma mais comum de palavras solene e impressionante; e o hipócrita, ciente dessa felicidade de maneiras, geralmente, como agora, adicionava peso às suas palavras conclusivas por uma alusão religiosa ou uma fraseologia bíblica. Ele cessou; e o júri, recuperando-se do efeito de sua adjuração, consultou-se por um momento entre si. O capataz, então, dirigindo-se ao tribunal em nome de seus colegas jurados, solicitou permissão para se retirar para deliberação. Um oficial de justiça sendo empossado, lemos nos diários da época, que notavam as divisões do tempo com aquela escrupulosidade habitual tornada terrível pela reflexão de quão logo todos os tempos e estações podem perecer para o herói da cena, que “foi às duas horas menos vinte e cinco que o júri se retirou”.
Talvez em todo o curso de um julgamento criminal não haja período mais terrível do que aquele ocupado pela deliberação do júri. No caso presente, o prisioneiro, como se estivesse agudamente sensível à sua situação, permaneceu no fundo do banco dos réus e enterrou o rosto nas mãos. Aqueles que estavam perto dele observaram, contudo, que seu peito não parecia inflar com a emoção convulsiva habitual às pessoas em seu estado, e que nem mesmo um suspiro ou movimento agitado escapou dele. O júri estava ausente há cerca de vinte minutos quando um ruído confuso foi ouvido no tribunal. O rosto do juiz virou-se com severidade imponente para o lado de onde procedia. Ele percebeu um homem de vestes grosseiras e aparência mesquinha tentando, ruda e violentamente, abrir caminho através da multidão em direção à bancada, e no mesmo instante viu um dos oficiais do tribunal aproximar-se do perturbador de sua tranquilidade sem intenções amistosas. O homem, ciente do propósito do oficial de justiça, exclamou com grande veemência: “Eu entregarei isto ao meu senhor juiz, que me leve o diabo se não o fizer!” e, ao falar, ergueu bem acima da cabeça um pedaço de papel sujo, dobrado de forma desajeitada como uma carta. No instante em que o olhar de Brandon captou os traços rudes do estranho intruso, ele sinalizou, com um pouco menos de sua lentidão habitual de gestos, a um de seus satélites oficiais. “Traga-me esse papel imediatamente!”, sussurrou ele.
O oficial inclinou-se e obedeceu. O homem, que parecia um pouco embriagado, entregou-o com um ar de triunfo ridículo e presunção.
“Afaste-se, homem!”, acrescentou ele ao oficial de justiça, que agora colocava a mão em seu colarinho. “Você verá o que o juiz diz para aquele pedacinho de papel; e assim verá o prisioneiro, pobre rapaz!”
Essa cena, tão indigna da dignidade do tribunal, atraiu a atenção e (imediatamente ao redor do intruso) o riso da multidão; e muitos olhos se voltaram para Brandon, enquanto, com calma gravidade, ele abria o bilhete e examinava o conteúdo. Em uma letra grande de colegial — era a letra de Long Ned — estavam escritas estas poucas palavras:
MEU SENHOR JUIZ, — tomo a liberdade de implorar que faça tudo o que puder pelo prisioneiro no banco dos réus, pois ele não é outro senão o “Paul” sobre o qual falei a Vossa Senhoria. Sabe ao que me refiro.
DUMMIE DUNNAKER.
Ao ler este bilhete, observou-se que a cabeça do juiz pendeu subitamente, como por uma doença ou um espasmo; mas ele se recuperou no mesmo instante e, sussurrando ao oficial que lhe trouxera o bilhete, disse: “Certifique-se de que aquele louco seja imediatamente removido do tribunal e tranque-o sozinho. Ele está tão perturbado que é perigoso!”
O oficial não perdeu um momento em ver a ordem executada. Três guardas robustos arrastaram o atônito Dummie para fora do tribunal em um instante, ainda mais impiedosamente por suas exclamações:
“Eh, senhores, o que é isto? Eu lhes digo que salvei a própria carne e sangue do juiz! Ora, agora, com calma, aí; vocês pagarão caro por isso, meu bom sujeito! Não se importe, Paul, meu caro; eu lhe fiz um bem puro —”
“Silêncio!”, proclamou a voz do juiz; e essa voz surgiu com um tom de poder tão dominante que intimidou Dummie, apesar de sua embriaguez. Em mais um momento, e antes que tivesse tempo de se recuperar, ele estava fora do tribunal. Durante esse estranho alvoroço, que no entanto mal durou mais de dois ou três minutos, o prisioneiro não levantara a cabeça uma única vez, nem parecera despertado de qualquer maneira de seu devaneio; e mal o intruso fora retirado antes que o júri retornasse.
O veredito foi, como todos previam, “Culpado”; mas foi acompanhado por uma forte recomendação de clemência.
O prisioneiro foi então questionado, na forma habitual, se tinha algo a dizer sobre o motivo pelo qual a sentença de morte não deveria ser proferida contra ele.
À medida que essas palavras terríveis atingiram seus ouvidos, o prisioneiro levantou-se lentamente. Ele dirigiu primeiro ao júri um olhar breve e aguçado, e seus olhos pousaram então, plenamente e com um significado severo, no rosto de seu juiz.
“Meu senhor”, começou ele, “tenho apenas uma razão a apresentar contra a sentença da lei. Se o senhor tem interesse em evitá-la ou mitigá-la, essa razão, creio eu, será suficiente para alistá-lo em meu favor. Eu disse que a primeira causa daquelas ofensas contra a lei que me trazem a este banco foi o meu encarceramento por uma acusação da qual eu era totalmente inocente! Meu senhor juiz, o senhor foi o homem que me acusou dessa acusação e me submeteu a esse encarceramento! Olhe bem para mim, meu senhor, e poderá traçar no semblante do criminoso endurecido que está prestes a condenar à morte as feições de um menino a quem, há uns sete anos, o senhor acusou perante um magistrado de Londres pelo roubo de seu relógio. Sob o juramento de um homem que tem um pé no limiar da morte, a acusação foi injusta. E, apto ministro das leis que representa! o senhor, que agora proferirá minha sentença... O senhor foi a causa dos meus crimes! Meu senhor, terminei. Estou pronto para adicionar mais um à longa e sombria lista de vítimas que são primeiro poluídas e depois sacrificadas pela cegueira e pela injustiça dos códigos humanos!”
Enquanto Clifford falava, todos os olhos se voltaram dele para o juiz, e todos ficaram horrorizados com a mudança medonha e terrível que ocorrera no rosto de Brandon. Os homens disseram, depois, que viram ali escritos, com uma clareza terrível, os caracteres da morte; e certamente parecia haver algo pavoroso e sobrenatural na calma exangue e abatida de seus traços orgulhosos. No entanto, seu olho não vacilou, nem os músculos de seus lábios tremeram; e com ainda mais do que sua altivez habitual, ele enfrentou o olhar do prisioneiro. Mas, como o único ponto de destaque em meio à multidão imóvel e sem fôlego, o juiz e o criminoso olhavam um para o outro, e enquanto os olhos dos espectadores vagavam sobre ambos, uma impressão arrepiante e elétrica de uma semelhança poderosa entre o condenado e o condenador atingiu, pela primeira vez no julgamento, o público e aumentou, embora mal soubessem por quê, a sensação de dor e pavor que as últimas palavras do prisioneiro despertaram. Talvez isso tivesse surgido principalmente de uma expressão comum de emoção feroz conquistada por um caráter de ferro e severidade; ou talvez, agora que a palidez cinzenta da exaustão sucedera o rubor excitado no rosto do prisioneiro, a semelhança de tez assim obtida tornasse a semelhança mais óbvia do que antes; ou talvez os espectadores não tivessem até então fixado um olhar tão perscrutador, ou, se podemos falar assim, tão alternado sobre os dois. Seja como for, a semelhança entre os homens, colocados como estavam em circunstâncias tão amplamente diferentes — aquela semelhança que, como insinuamos, ocorrera em certos momentos de forma surpreendente a Lucy — era clara e inevitavelmente marcante: o mesmo tom escuro de suas tez; o mesmo contorno altivo e romano de seus rostos; a mesma altura da testa; a mesma, até mesmo, uma rigidez desagradável e sarcástica da boca, que tornava o traço mais conspícuo em Brandon, e que era o único ponto que deteriorava a beleza singular de Clifford. Mas, acima de tudo, o mesmo espírito inflexível, desafiador e obstinado, embora em Brandon assumisse o aspecto imponente da majestade, e em Clifford parecesse a severidade desesperada do valentão, estampava-se em ambos. Embora Clifford tenha parado, ele não retomou seu assento, mas permaneceu na mesma atitude em que inverteu a ordem das coisas e fundiu o peticionário no acusador; e o próprio Brandon, sem falar ou se mover, continuou ainda a observá-lo; assim, com testas eretas e semblantes de mármore, nos quais o que era desafiador e resoluto não suprimia totalmente o fermento mortal de dor e pavor, eles pareciam como poderiam ter parecido os dois homens da história oriental que tinham o poder de encarar um ao outro até a morte.
O que naquele momento fervilhava no coração de Brandon, é vão adivinhar. Ele não duvidou por um momento que contemplava diante de si seu filho há muito perdido, seu filho ansiosamente procurado! Cada fibra, cada canto de sua alma complexa e sombria, isso certamente alcançou e fulminou com um brilho hediondo e irresistível. O princípio mais antigo, talvez o mais forte, embora muitas vezes o menos reconhecido de sua mente, era o desejo de reconstruir as honras caídas de sua casa; seu último rebento ele agora via diante de si, coberto pelas ignomínias mais sombrias da lei! Ele cobiçara honras mundanas; ele via seu sucessor legítimo em um criminoso condenado! Ele guardara as poucas afeições que poupara dos objetos de orgulho e ambição em seu filho. Aquele filho ele estava prestes a condenar ao cadafalso e ao carrasco! Ultimamente, ele aumentara as esperanças de recuperar seu tesouro perdido, até uma certeza exultante. Eis! as esperanças foram concretizadas! Como? Com esses pensamentos em guerra, de uma maneira que não ousamos nem mesmo por um epíteto expressar, dentro dele, podemos lançar um olhar rápido sobre o horror do agravamento que suportaram, quando ele ouviu o prisioneiro acusá-lo como a causa de seu atual destino, e sentiu-se, de uma só vez, o assassino e o juiz de seu filho!
Minutos se passaram desde que a voz do prisioneiro cessou; e Brandon agora retirou o capelo negro. Ao colocá-lo lentamente sobre as sobrancelhas, a brancura crescente e cadavérica de seu rosto tornou-se mais visivelmente gritante pelo contraste que este dread adereço de cabeça apresentava. Duas vezes, ao tentar falar, sua voz falhou, e um murmúrio indistinto saiu de seus lábios descorados e desapareceu como um vento caprichoso e fraco. Mas com o terceiro esforço a resolução e a longa autotirania do homem venceram, e sua voz percorreu clara e inabalável a multidão, embora a doçura severa de seus tons habituais tivesse desaparecido, e ela soasse estranha e oca aos ouvidos que a bebiam.
“Prisioneiro no banco dos réus! tornou-se meu dever anunciar-lhe o fim de sua carreira mortal. O senhor foi acusado de um roubo ousado e, após um julgamento imparcial, um júri de seus compatriotas e as leis de seu país decidiram contra o senhor. A recomendação de clemência” (aqui, apenas durante todo o seu discurso, Brandon ofegou convulsivamente por ar) “tão humanamente acrescentada pelo júri, será encaminhada ao poder supremo; mas não posso lisonjeá-lo com muita esperança de sucesso.” (Os advogados olharam com certa surpresa uns para os outros; eles esperavam um mandato muito mais incondicional, de renunciar a toda esperança da recomendação do júri.) “Prisioneiro, pelas opiniões que expressou, o senhor é agora responsável apenas perante o seu Deus; abstenho-me de indiciá-las. Pela acusação que fez contra mim, seja ela verdadeira ou falsa, e pela angústia que me causou, que o senhor encontre perdão em outro tribunal! Resta-me apenas — sob uma reserva muito tênue, como eu disse, para lhe oferecer uma promessa justa de esperança — apenas para — para” (todos os olhos estavam em Brandon; ele sentiu isso, esforçou-se para um último esforço e prosseguiu) — “pronunciar sobre o senhor a sentença severa da lei! É que o senhor seja levado de volta à prisão de onde veio e, de lá (quando a autoridade suprema determinar), para o local da execução, para ser lá enforcado pelo pescoço até que esteja morto; e que o Senhor Deus Todo-Poderoso tenha piedade de sua alma!”
Com este discurso terminou aquele julgamento memorável; e enquanto a multidão, em tumulto apressado e barulhento, dirigia-se para a porta, Brandon, ocultando até o fim com uma bravura espartana a angústia que roía suas entranhas, retirou-se do terrível espetáculo. Durante a meia hora seguinte, ele ficou trancado com o estranho intruso nos procedimentos do tribunal. Ao fim desse tempo, o estranho foi dispensado; e em cerca do dobro do mesmo período, o servo de Brandon o readmitiu, acompanhado por outro homem, de chapéu abaixado e vestindo uma túnica de carroceiro. O leitor não precisa ser informado de que o recém-chegado era o amigável Ned, cujo testemunho foi de fato uma valiosa corroboração ao de Dummie, e cujo apreço por Clifford, auxiliado por um apetite por recompensas, o induziu a arriscar-se até a cidade de -----, embora ele tenha permanecido escondido em um subúrbio seguro, até ser tranquilizado por uma promessa escrita de Brandon de segurança para sua pessoa e uma quantia pela qual poderíamos quase duvidar se ele não teria consentido (tanto tempo ele estivera confundindo meios com fins) em ser ele mesmo enforcado. Brandon ouviu os detalhes desses confederados; e quando terminaram, dirigiu-se a eles assim: “Ouvi vocês e estou convencido de que são mentirosos e impostores. Aí está o dinheiro que lhes prometi” (jogando uma carteira no chão), — “tomem-no; e, escutem, se algum dia ousarem sussurrar, sim, nem que seja um sopro da mentira atroz que vocês agora forjaram, estejam certos de que os farei arrastar para fora do recanto ou esconderijo de infâmia em que possam esconder suas cabeças, e enforcar pelos crimes que já cometeram. Não sou homem de quebrar minha palavra. Vão embora! Deixem esta cidade imediatamente! Se daqui a duas horas forem encontrados aqui, seu sangue cairá sobre suas próprias cabeças! Vão embora, eu digo!”
Essas palavras, auxiliadas por um semblante bem adaptado em todos os momentos a expressões de caráter ameaçador e impiedoso, de uma vez atordoaram e horrorizaram os cúmplices. Eles deixaram a sala em confusão apressada; e Brandon, agora sozinho, caminhou com passos irregulares (cuja fraqueza e vacilação alarmantes ele mesmo não sentia) de um lado para o outro do apartamento. O inferno de seu peito estava estampado em suas feições, mas ele proferiu apenas um pensamento em voz alta:
“Eu posso, — sim, sim, — eu ainda posso ocultar essa desgraça ao meu nome!”
Seu servo bateu à porta para dizer que a carruagem estava pronta e que Lorde Mauleverer pedira que lembrasse ao seu senhor que eles jantavam pontualmente na hora marcada.
“Já vou!”, disse Brandon, com uma ênfase lenta e surpreendente em cada palavra. Mas ele primeiro sentou-se e escreveu uma carta à instância oficial, apoiando fortemente a recomendação do Júri; e podemos conceber como o orgulho se apegou a ele até o fim, quando ele insistiu na substituição da morte pelo transporte perpétuo! Assim que selou esta carta, ele convocou um mensageiro, deu suas ordens calma e distintamente e tentou, com sua habitual imponência de passo, caminhar por um longo corredor que levava à porta externa. Ele sentiu-se falhar. “Venha aqui”, disse ele ao seu servo, “dê-me seu braço!”
Todos os empregados de Brandon, exceto aquele deixado com Lucy, o temiam; e foi com certa hesitação que seu servo se aventurou a perguntar se seu senhor se sentia bem.
Brandon olhou para ele, mas não respondeu. Ele entrou em sua carruagem com leve dificuldade e, dizendo ao cocheiro para dirigir o mais rápido possível, baixou (um costume geral seu) todas as persianas das janelas.
Enquanto isso, Lorde Mauleverer, com seis amigos, aguardava impacientemente a chegada do sétimo convidado.
“Nosso augusto amigo tarda!”, disse o Bispo de -------, com as mãos cruzadas sobre seu estômago volumoso. “Receio que o peixe que vossa senhoria mencionou possa não estar melhor pela demora do julgamento.”
“Pobre rapaz!”, disse o Conde de --------, bocejando levemente.
“A quem se refere?”, perguntou Lorde Mauleverer, com um sorriso, — “ao bispo, ao juiz ou ao peixe?”
“A nenhum dos três, Mauleverer, — eu falava do prisioneiro.”
“Ah, o bom rapaz! Esqueci-me dele”, disse Mauleverer. “Realmente, agora que o menciona, devo confessar que ele me inspira grande compaixão; mas, de fato, é muito errado da parte dele manter o juiz por tanto tempo!”
“Esses miseráveis endurecidos têm muito o que dizer”, murmurou o bispo, azedo.
“Verdade!”, disse Mauleverer; “um canalha religioso teria tido algum sentimento pelo estado da igreja esuriente.”
“É realmente verdade, Mauleverer”, perguntou o Conde de ------, “que Brandon vai suceder?”
“É o que ouço”, disse Mauleverer. “Céus, como estou com fome!”
Um gemido do bispo ecoou a reclamação.
“Suponho que seria contra todo o decoro sentar-se para jantar sem ele?”, disse Lorde --------.
“Ora, realmente, receio que sim”, respondeu Mauleverer. “Mas nossa saúde — nossa saúde está em jogo; esperaremos apenas cinco minutos a mais. Por Júpiter, lá está a carruagem! Peço perdão pelo meu juramento pagão, meu senhor bispo.”
“Eu o perdoo!”, disse o bom bispo, sorrindo.
O grupo assim engajado em colóquio estava posicionado em uma janela que dava para a estrada de cascalho, ao longo da qual a carruagem do juiz era vista agora se aproximando rapidamente; esta janela ficava a poucos metros da varanda e fora parcialmente aberta para melhor reconhecimento da chegada do convidado esperado.
“Ele ainda mantém as persianas baixadas! Ausência de espírito ou vergonha pela falta de pontualidade — qual é a causa, Mauleverer?”, disse um dos membros do grupo.
“Não vergonha, receio!”, respondeu Mauleverer. “Mesmo a imoralidade indecente de atrasar nosso jantar dificilmente poderia trazer um rubor à pele de pergaminho do meu erudito amigo.”
Aqui a carruagem parou na varanda; a porta da carruagem foi aberta.
“Parece haver um atraso estranho”, disse Mauleverer, irritado. “Por que ele não sai?”
Ao falar, um murmúrio entre os atendentes, que pareciam de alguma forma estranhamente se aglomerar ao redor da carruagem, atingiu os ouvidos do grupo.
“O que eles dizem, — o quê?”, disse Mauleverer, levando a mão ao ouvido.
O bispo respondeu apressadamente; e Mauleverer, ao ouvir a resposta, esqueceu por uma vez sua suscetibilidade ao frio e correu para a porta da carruagem. Seus convidados o seguiram.
Eles encontraram Brandon encostado no canto mais distante da carruagem — um cadáver. Uma das mãos segurava a corda de comando, como se ele tivesse tentado involuntária, mas ineficazmente, puxá-la. O lado direito de seu rosto estava parcialmente distorcido, como por convulsão ou paralisia; mas não o suficiente para destruir aquela notável expressão de altivez e severidade que caracterizara as feições em vida. Ao mesmo tempo, a distorção que contraíra de um lado os músculos da boca aprofundara em uma largura surpreendente o meio sorriso de escárnio que geralmente espreitava ao redor da parte inferior de seu rosto. Assim, sem testemunhas e abrupta, fora a desunião da argila e do espírito de um homem que, se passou pela vida como um hipócrita ousado, intrigante, obstinado e inabalável, não estava sem algo elevado mesmo em meio à sua baixeza, seu egoísmo e seus vícios; que parecia menos ter amado o pecado do que, por alguma estranha perversão da razão, ter desdenhado a virtude, e que, por uma solenidade e uma rapidez terrível do destino (pois quem ousará indicar o julgamento da Providência arcana e invisível, mesmo quando parece ao olho mortal a menos obscurecida?), conquistou os sonhos, os objetos, os triunfos da esperança, para ser fulminado por eles no momento da aquisição!
Assim como um cidadão rural — aposentado para um breve feriado, longe das preocupações do mundo e do strepitumque Romae, aos doces refúgios de Pentonville ou às planícies mais distantes de Clapham — conduz algum visitante encantado pelas complexidades daquela obra-prima dedaliana que ele se compraz em chamar de seu labirinto ou dédalo — ora sorrindo furtivamente diante da perplexidade do hóspede, ora ouvindo com calma superioridade suas conjecturas fúteis e errôneas, ora conduzindo-o maliciosamente por um caminho lisonjeiro onde o aventureiro desconcertado é subitamente detido pelos aspectos cegos de uma sebe sem saída, ora tremendo ao ver o hóspede tropeçar inadvertidamente na trilha correta, e ora aliviado ao contemplá-lo, após uma pausa de deliberação, enveredar pelo caminho errado —, assim, ó amável leitor! o sábio romancista te conduz pelo labirinto de seu conto, divertindo-se com teus próprios enganos e tecendo, em prolixo prazer, o fio tranquilo de seu entretenimento a partir das involuções que causam tua ansiedade e perplexidade. Mas, assim como quando, graças à boa natureza ou ao cansaço do anfitrião, o mistério é finalmente desvendado e o hóspede é autorizado a penetrar até mesmo no fim oculto do labirinto folhoso, o honesto cidadão, satisfeito com as agradáveis dores que já dispensou ao seu visitante, não o submete ao trabalho de refazer os passos que ele percorreu de forma tão errática, mas conduz-o em três passadas, e por um caminho mais simples, diretamente à saída do labirinto, e dispensa-o em outro lugar para seu entretenimento; assim também o prudente narrador, uma vez desdobradas as complexidades de sua trama, não causará atrasos obsoletos e inúteis ao seu leitor cansado, mas conduzi-lo-á, com a brevidade conveniente, para fora do labirinto que deixou de reter o interesse de um segredo.
Devemos, portanto, em observância à política do autor, relatar o mais rapidamente possível aquela parte de nossa narrativa que ainda permanece por contar. Na pessoa de Brandon foi encontrado o papel que continha uma inteligência tão fatal sobre seu filho; e, ao ser levado ao Lord Mauleverer, as palavras impressionaram aquela pessoa (que sabia que Brandon estivera em busca de seu filho perdido, o qual, como vimos, fora instruído a supor ilegítimo, embora seja provável que muitas dúvidas sobre se ele não teria sido enganado devessem ter ocorrido à sua sagacidade natural) como suficientemente importantes para merecer uma investigação sobre o autor. Dummie foi facilmente encontrado, pois ainda não dera as costas à cidade quando a notícia da morte súbita do juiz foi trazida a ela; e, aproveitando-se dessa circunstância, o amistoso Dunnaker permaneceu inteiramente na cidade (embora seu longo companheiro a tenha abandonado tão apressadamente quanto pôde), e passou o tempo apresentando-se na prisão e, após alguns esforços ineficazes, conseguindo chegar até Clifford. Facilmente rastreado pelo nome que dera ao governador da prisão, foi conduzido no mesmo dia a Lord Mauleverer; e sua narrativa, confusa como era, e procedendo de uma fonte tão suspeita, arrepiou aqueles órgãos digestivos que, em Mauleverer, faziam as vezes de coração, com sentimentos tão semelhantes ao temor e ao horror quanto nosso bom par era capaz de experimentar. Já abalado em sua filosofia mundana de indiferença pela morte de Brandon, estava mais suscetível a uma impressão de remorso e salutar neste momento do que poderia ter estado em qualquer outro; e ele não podia, sem algumas pontadas de consciência, pensar na ruína que trouxera à mãe do ser que acabara de processar até a morte. Ele dispensou Dummie e, após uma breve consideração, ordenou sua carruagem e, deixando os preparativos do funeral para seu amigo aos cuidados de seu homem de negócios, partiu para Londres, e para a casa, em particular, do Secretário do Departamento do Interior. Não quereríamos injustiçar o nobre penitente; mas arriscamos a suspeita de que ele poderia não ter preferido um pedido pessoal de clemência ao prisioneiro a um por escrito, se não sentisse certos incômodos ao permanecer em uma casa de campo sombreada por cerimônias tão lúgubres como as da morte. A carta de Brandon e o pedido de Mauleverer obtiveram para Clifford uma atenuação de sua sentença. Ele foi condenado ao transporte perpétuo. Um navio estava prestes a zarpar; e Mauleverer, contente por ter salvado sua vida, não estava de forma alguma ansioso para que sua partida do país fosse sobrecarregada com qualquer atraso supérfluo.
Enquanto isso, o primeiro rumor que chegou a Londres a respeito do destino de Brandon foi o de que ele fora encontrado em um ataque e estava gravemente enfermo na casa de Mauleverer; e, antes que a segunda e mais fatalmente certa notícia chegasse, Lucy colhera, através do visível desânimo de Barlow, a quem ela interrogara ansiosamente e que, amando verdadeiramente seu patrão, era facilmente levado à comunicação, a primeira e mais lisonjeira inteligência. Para deleite secreto de Barlow, ela insistiu instantaneamente em partir para o suposto enfermo; e, acompanhada por Barlow e sua camareira, a afetuosa jovem apressou-se para a casa de Mauleverer na noite seguinte ao dia em que o conde a deixara. Lucy não avançara muito antes que Barlow soubesse, pelas fofocas da estrada, do verdadeiro estado da situação. De fato, foi na primeira parada que, com semblante pesaroso, ele se aproximou da porta da carruagem e, anunciando a inutilidade de prosseguir, implorou a Lucy que voltasse. Assim que a Srta. Brandon superou o primeiro choque que essa notícia lhe causou, ela disse com calma:
“Bem, Barlow, se assim é, ainda temos um dever a cumprir. Diga aos cocheiros que continuem!”
“De fato, senhora, não vejo de que utilidade será se atormentar — e a senhora tão fraca. Se a senhora me permitir ir, farei com que toda a atenção seja dada aos restos mortais de meu pobre patrão.”
“Quando meu pai jazia morto”, disse Lucy, com uma gravidade e uma severidade triste em seu modo de agir, “aquele que agora não mais existe não enviou nenhum procurador para cumprir os últimos deveres de um irmão; nem eu enviarei um para cumprir os de uma sobrinha, e provar que esqueci a gratidão de uma filha. Siga em frente!”
Dissemos que havia momentos em que um espírito era despertado em Lucy pouco comum a ela em geral; e agora o comando de seu tio pousava em sua fronte. Os cavalos partiram em disparada, e por vários minutos Lucy permaneceu em silêncio. Sua camareira não ousou falar. Por fim, a Srta. Brandon virou-se e, cobrindo o rosto com as mãos, desatou em lágrimas tão violentas que alarmaram sua atendente ainda mais do que sua imobilidade anterior. “Meu pobre, pobre tio!” soluçou ela; e essas foram todas as suas palavras.
Devemos passar por cima da chegada de Lucy à casa de Lord Mauleverer; devemos passar por cima dos dias exaustivos que transcorreram até que aquele corpo inconsciente fosse entregue ao pó com o qual, se pudesse ter retido ainda uma centelha de seu espírito altivo, ele teria se recusado a misturar seus átomos. Ela amara o falecido incomparavelmente além de seus méritos, e, resistindo a todas as reprimendas em contrário e a todas as formas do costume comum, testemunhou ela mesma a lúgubre cerimônia que legou os restos mortais de William Brandon ao repouso e ao verme. Naquele mesmo dia, Clifford recebeu a mitigação de sua sentença, e naquele dia outra provação aguardava Lucy. Pensamos em transmitir brevemente ao leitor o que foi aquela cena; precisamos apenas observar que Dummie Dunnaker, atraído por seu grande amor pelo pequeno Paul, a quem ele dizia deleitado não ter encontrado nem um pouco “convencido por sua grande fama e elevação”, ainda permanecia na cidade, e não estava apenas ciente do parentesco dos primos, mas colhera de Long Ned, enquanto viajavam para -----, o afeto nutrido por Clifford por Lucy. Sobre a maneira como a comunicação chegou a Lucy, não precisamos falar; basta dizer que, no dia em que prestara o último dever a seu tio, ela soube pela primeira vez da situação de seu amante.
Naquela noite, na cela do condenado, os primos se encontraram.
Sua conferência foi baixa, pois o carcereiro estava ao alcance dos ouvidos; e foi interrompida pelos soluços convulsivos de Lucy. Mas a voz daquele cujos nervos de ferro não eram indignos da descendência de William Brandon era clara e audível aos seus ouvidos, mesmo que proferida em um sussurro que mal movia seus lábios. Parecia como se Lucy, atingida no fundo do coração pela generosidade com que seu amante a arrancara de si no momento em que sua riqueza poderia tê-lo elevado em qualquer outro país muito acima dos perigos e crimes de sua carreira neste; percebendo agora, pela primeira vez, e em toda a sua força, as causas de sua conduta misteriosa; derretida pelo parentesco deles, e esquecendo-se completamente em meio à desolação e à situação sombria em que via alguém que, quaisquer que fossem seus crimes, não fora criminoso para com ela; — parecia como se, levada por essas emoções, ela tivesse cedido inteiramente à afeição e à devoção de sua natureza — que ela desejara deixar casa, amigos e fortuna, e compartilhar com ele seu castigo e sua vergonha.
“Por que”, ela hesitou, — “por que — por que não? Somos tudo o que resta um ao outro no mundo! Seu pai e o meu eram irmãos; deixe-me ser para você como uma irmã. O que resta para mim aqui? Nem um ser a quem eu ame, ou que se importe comigo — nem um!”
Foi então que Clifford reuniu toda a sua coragem, ao responder. Talvez, agora que sentia (embora aqui seu conhecimento fosse necessariamente confuso e imperfeito) que seu nascimento não era desigual ao dela; agora que lia, ou acreditava ler, em sua face pálida e compleição atenuada que a deserção para ela era a morte, e que a generosidade e o auto-sacrifício tinham se tornado tardios — talvez esses pensamentos, coincidindo com um amor nele além de todas as palavras, e um amor nela que era acima da humanidade resistir, o tenham conquistado e subjugado por completo. Contudo, como dissemos, sua voz respirava calmamente aos ouvidos dela; e apenas seu olhar, que brilhava com uma esperança firme e resoluta, traía sua mente. “Viva, então!” disse ele, ao concluir. “Minha irmã, minha amante, minha noiva, viva! Em um ano a partir deste dia — eu repito — eu te prometo!”
A entrevista terminou, e Lucy retornou para casa com um passo firme. Ela estava a pé. A chuva caía em torrentes, contudo, mesmo em seu estado precário, sua saúde não sofreu; e quando, dentro de uma semana a partir daquele momento, ela leu que Clifford partira para o destino de seu castigo, leu a notícia com um olhar firme e um lábio que, se empalideceu, não tremeu.
Pouco tempo depois, a Srta. Brandon partiu para uma cidade obscura à beira-mar; e lá, recusando toda a sociedade, ela continuou a residir. Como o nascimento de Clifford era conhecido por poucos, e sua legitimidade não era suspeita por ninguém, exceto, talvez, por Mauleverer, Lucy herdou a grande riqueza de seu tio; e essa circunstância a tornou mais do que nunca um objeto de atração aos olhos de seu nobre adorador. Achando-se incapaz de vê-la, ele lhe escreveu mais de uma epístola comovente; mas como Lucy continuava inflexível, ele, por fim, desgostoso com sua falta de gosto, cessou sua perseguição e resignou-se à esterilidade contínua de uma vida sem casamento. Conforme os meses passavam, a Srta. Brandon parecia cansar-se de seu retiro; e imediatamente ao atingir a maioridade, o que ela fez cerca de oito meses após a morte de Brandon, transferiu o grosso de sua riqueza para a França, onde se entendia (pois era impossível que o rumor dormisse sobre uma herdeira e uma beldade) que pretendia residir no futuro. Até mesmo Warlock (aquele feitiço para o coração orgulhoso de seu tio) ela deixou de reter. Foi oferecido ao parente mais próximo da família por uma quantia com a qual ele não hesitou em fechar negócio; e pelas vicissitudes comuns da Fortuna, a propriedade dos antigos Brandon, agora percebemos por um jornal semanal, acaba de passar para as mãos de um rico vereador.
Passara-se quase um ano desde a morte de Brandon quando uma carta com carimbo postal estrangeiro chegou a Lucy. A partir daquele momento, seu espírito — que antes, embora sujeito a crises de abstração, fora uniforme e contido, não triste — elevou-se a toda a alegria e vivacidade de sua juventude mais remota. Ela ocupou-se ativamente com os preparativos para sua partida deste país; e, finalmente, o dia foi marcado, e o navio contratado. Todos os dias, até aquele, Lucy caminhava até a beira-mar e, subindo o penhasco mais alto, passava horas, até o anoitecer, observando, com um olhar aparentemente ocioso, as embarcações que se espalhavam pelo mar; e a cada dia sua saúde parecia fortalecer-se, e a cor suave e lúcida que ela outrora possuíra, a florescer novamente em suas faces.
Antes de sua partida, a Srta. Brandon dispensou seus criados e contratou apenas uma mulher, uma estrangeira, para acompanhá-la. Um certo tom de comando tranquilo, anteriormente desconhecido para ela, caracterizava essas medidas, tão ousadamente independentes para alguém de seu sexo e idade. O dia chegou — era o aniversário de sua última entrevista com Clifford. Ao entrar na embarcação, observou-se que ela tremia violentamente e que seu rosto estava pálido como a morte. Um estranho, que permanecera afastado envolto em sua capa, avançou para ajudá-la; esse foi o último vislumbre que seus criados descartados e chorosos tiveram dela, do cais onde estavam para observá-la.
Nada mais se soube neste país sobre o destino de Lucy Brandon; e como seu círculo de conhecidos era estreito, e o interesse em seu destino existia vividamente em ninguém, exceto em alguns corações humildes, a conjectura nunca foi agudamente despertada e logo esfriou no esquecimento. Se favoreceu, após o passar dos anos, alguma noção mais do que outra, foi a de que ela perecera entre as vítimas da Revolução Francesa.
Enquanto isso, lancemos um olhar sobre os destinos de nossos conhecidos mais subordinados.
Augustus Tomlinson, ao separar-se de Long Ned, conseguira chegar a Calais; e após uma rápida turnê pelo Continente, acabou por se dirigir a uma certa cidade literária na Alemanha, onde se tornou notável por sua perspicácia metafísica e abriu uma escola de moral no modelo grego, ensinada na língua francesa. Ele conseguiu, pelo patrocínio que recebeu e pelos alunos que esclareceu, obter uma renda muito decente; e como escreveu um fólio contra Locke, provou que os homens tinham sentimentos inatos e afirmou que deveríamos referir tudo não à razão, mas aos sentimentos da alma, tornou-se grandemente respeitado por sua virtude extraordinária. Algumas pequenas descobertas foram feitas após sua morte, as quais talvez tivessem diminuído um pouco o odor geral de sua santidade, se os admiradores de sua escola não tivessem abafado cuidadosamente o assunto, provavelmente por respeito aos “sentimentos da alma!”
Pepper, a quem a polícia não desejava destruir tão ansiosamente quanto seus dois companheiros, poderia ter conseguido, talvez muitos anos mais, pastar nos campos públicos, não fosse por uma carta, escrita de forma um tanto imprudente, que caíra em mãos erradas. Isto, embora depois de criar um certo alvoroço tenha aparentemente morrido, viveu na memória da polícia e finalmente conspirou, com várias pequenas transgressões, para produzir sua queda. Ele foi preso, julgado e sentenciado a sete anos de transporte. Ele empregou seu tempo em Botany Bay tão vantajosamente, e arranjou as coisas lá tão confortavelmente para si mesmo, que, ao término de sua sentença, recusou-se a retornar para casa. Fez um excelente casamento, construiu para si uma excelente casa e permaneceu na “terra dos bem-aventurados” até o fim de seus dias, notado até o último por sua abundância de cabelo e uma certa afetação feroz de aparência.
Quanto a Fighting Attie e Gentleman George, quanto a Scarlet Jem e Old Bags, confessamo-nos destituídos de qualquer informação certa sobre seus fins. Podemos apenas acrescentar, com relação a Fighting Attie, “Boa sorte esteja com ele onde quer que vá!” e, quanto ao nosso anfitrião do Jolly Angler, que, embora não tenhamos a constituição física para beber “um brinde de gim barato”, ficaremos muito felizes, com qualquer vinho tolerável e na companhia de qualquer convidado agradável, de fazer nossa parte no polido coro de —
“Um brinde a Gentleman George, que Deus o abençoe!”
A Sra. Lobkins partiu desta vida como um cordeiro; e Dummie Dunnaker obteve uma licença para gerir o negócio em Thames Court. Ele gabava-se, até o fim, de seu conhecimento com o grande Capitão Lovett, e da afabilidade com que aquele personagem distinto o tratava. Histórias ele tinha, também, sobre o Juiz Brandon, mas ninguém acreditava em uma sílaba delas; e Dummie, indignado com a descrença, aumentava, por veemência, o maravilhoso das histórias, de modo que, finalmente, o que era acrescentado quase engolia o que era original, e o próprio Dummie poderia ter ficado confuso ao satisfazer sua própria consciência quanto ao que era falso e ao que era verdadeiro.
O erudito Peter MacGrawler, retornando à Escócia, desapareceu pelo caminho. Uma pessoa singularmente semelhante ao sábio foi vista mais tarde em Carlisle, onde desempenhou os deveres úteis e louváveis de carrasco. Mas se esse respeitável funcionário era ou não o nosso idêntico Simon Pure, nosso ex-editor do “The Asinaeum”, não nos daremos ao trabalho de afirmar.
Lord Mauleverer, finalmente decidindo-se por uma vida de solteiro, passou o restante de seus anos em indolente tranquilidade. Quando morreu, os jornais afirmaram que Sua Majestade estava profundamente afetado pela perda de um amigo tão antigo e valioso. Seus móveis e vinhos foram vendidos por preços notavelmente altos; e um Grande Homem, seu íntimo particular, que comprou seus livros, surpreendeu-se ao descobrir, por marcas de lápis, que o nobre falecido lera alguns deles, e exclamou, não de todo sem verdade:
“Ah! Mauleverer poderia ter sido um sujeito terrivelmente inteligente — se ele tivesse gostado disso!”
O conde costumava mostrar como curiosidade um anel de grande valor, que recebera de uma maneira bastante singular. Certa manhã, um pacote lhe foi entregue e ele descobriu que continha uma quantia em dinheiro, o anel mencionado e uma carta do notório Lovett, na qual essa pessoa, ao pedir para devolver a seu senhorio as somas das quais ajudara duas vezes a roubá-lo, agradecia-lhe, com calorosa sinceridade, pela consideração demonstrada para com ele ao não revelar sua identidade com o Capitão Clifford; e aventurava-se, como um leve testemunho de respeito, a incluir o referido anel com a quantia devolvida.
Por volta da época em que Mauleverer recebeu este curioso pacote, vários anedotas de natureza semelhante apareceram nos jornais públicos; e parecia que Lovett agira com base em um princípio geral de restituição — nem sempre, deve-se admitir, fruto do arrependimento de um ladrão. Enquanto os ociosos se maravilhavam com essas anedotas, chegou a notícia tardia de que Lovett, após uma estadia de um único mês em seu lugar de condenação, efetuara sua fuga da maneira mais audaciosa e singular. Se, em seu progresso pelo interior, ele fora morto de fome ou pelos nativos, ou se, mais afortunado, encontrara finalmente os meios de atravessar os mares, era ainda desconhecido. Ali terminaram as aventuras do galante ladrão; e assim, por uma estranha coincidência, o mesmo mistério que envolvia o destino de Lucy envolvia também o de seu amante. E aqui, amável leitor, poderíamos baixar a cortina em nossa cena final, se não achássemos que poderia te agradar segurá-la ainda um momento e te dar mais uma visão do mundo por trás dela.
Em uma certa cidade daquele Grande País onde os sapatos são polidos de forma imperfeita -- [Veja o trabalho recente do Capitão Hall sobre a América] -- e as opiniões não são processadas, residia, vinte anos após a data da partida de Lucy Brandon da Inglaterra, um homem tido em alto e universal respeito, não apenas pela retidão de sua conduta, mas pelas energias de sua mente e pelos propósitos aos quais elas eram dirigidas. Se você perguntasse quem cultivou aquele terreno baldio, a resposta era: "Clifford!"; quem obteve o estabelecimento daquele hospital, "Clifford!"; quem obteve a reparação de tal queixa pública, "Clifford!"; quem lutou por e conquistou tal benefício popular, "Clifford!". Na parte mais gentil de seus projetos e empreendimentos -- nessa parte, acima de tudo, que dizia respeito aos enfermos ou aos necessitados -- este cidadão útil era secundado, ou melhor, superado, por um ser sobre cuja beleza superlativa o Tempo parecia ter voado com uma asa suave e encantadora. Havia algo notável e tocante no amor que este casal (pois a mulher a quem nos referimos era a esposa de Clifford) nutria um pelo outro; como a planta nas planícies de Hebron, o tempo que trazia a esse amor uma força adicional trazia-lhe também um frescor mais suave e viçoso. Embora seus vizinhos atuais desconhecessem os eventos de sua vida anterior ao seu estabelecimento em ----------, sabia-se que eles haviam sido ricos na época em que chegaram pela primeira vez para residir ali, e que, por uma série de fatalidades, haviam perdido tudo. Mas Clifford suportara bravamente a sorte; e em um novo país, onde homens que preferem o trabalho à dependência não podem facilmente passar fome, ele pôde labutar para subir através dos severos estágios da pobreza e da privação com uma honestidade e um vigor de caráter que lhe conquistaram, talvez, uma estima mais sincera por cada esforço sucessivo do que a exibição de suas riquezas perdidas jamais poderia ter lhe adquirido. Seus trabalhos e suas habilidades obtiveram um sucesso gradual, porém seguro; e ele agora desfrutava das bênçãos de uma competência ganha com a mais escrupulosa integridade e gasta com a mais bondosa benevolência. Um vestígio das provações pelas quais haviam passado era discernível em cada um; essas provações haviam roubado a rosa da bochecha da esposa e semeado rugas prematuras na testa larga de Clifford. Havia momentos, também, mas eram apenas momentos, em que este último caía de sua habitual alegria de espírito elástica e saudável em um devaneio sombrio e abstrato; mas esses momentos a esposa observava com uma ansiedade ciumenta e carinhosa, e um som de sua doce voz tinha o poder de dissipar sua influência; e quando Clifford erguia os olhos e olhava de seu sorriso terno ao redor de seu lar feliz e de seus filhos em crescimento, ou contemplava através das próprias janelas de seu quarto os benefícios públicos que criara, algo de orgulho e alegria brilhava em seu semblante, e ele dizia, embora com olhos brilhantes e voz contida, enquanto seus olhares retornavam mais uma vez para sua esposa: "Devo estes a ti!"
Um traço de espírito caracterizava especialmente Clifford: a indulgência para com as faltas dos outros. "As circunstâncias criam a culpa", ele costumava dizer; "esforcemo-nos por corrigir as circunstâncias, antes de vociferarmos contra a culpa!" Seus filhos prometiam trilhar o mesmo caminho útil e honroso que ele próprio trilhava. Feliz era considerada aquela família que tinha a esperança de se aliar à dele.
Tal foi o destino posterior de Clifford e Lucy. Quem nos condenará por preferir a moral desse destino à moral que é extorquida da forca e dos presídios -- que faz espantalhos, não faróis; aterroriza nossa fraqueza, não aquece nossa razão. Quem não admite que é melhor reparar do que perecer -- melhor, também, redimir-se como cidadão do que arrepender-se como eremita? Oh, John Wilkes, Vereador de Londres e Drawcansir da Liberdade, sua vida não foi um iota sequer perfeita -- seu patriotismo poderia ter sido infinitamente mais puro, sua moral teria admitido um emendo indefinido, você não é um grande favorito nosso ou do resto do mundo -- mas você disse uma coisa excelente, pela qual olhamos para você com benevolência, aliás, quase com respeito. Mal sabemos se sorrimos com sua sagacidade ou suspiramos com sua sabedoria. Marquem esta verdade, todos vós, cavalheiros da Inglaterra, que fariam a lei como os romanos faziam os feixes -- um molho de varas com um machado no meio --, marquem-na e lembrem-se! Que viva por muito tempo, aliada à esperança em nós mesmos, mas com gratidão em nossos filhos -- muito depois de o livro que ela agora "adorna" e "aponta" ter entrado em seu sono poeirento --, muito, muito depois de a mão febril que agora a escreve não poder mais defendê-la ou impô-la: "O PIOR USO QUE SE PODE FAZER DE UM HOMEM É ENFORCÁ-LO!"
NOTA.
Na segunda edição deste romance, foram aqui inseridos dois "personagens", "Fighting Attie" e "Gentleman George", omitidos na edição subsequente publicada pelo Sr. Bentley nos "Standard Novels". A pedido de alguns admiradores desses personagens eminentes, que consideraram os esboços biográficos referidos imparciais em si mesmos, e contribuindo para a completude do design para o qual homens tão ilustres foram introduzidos, eles são aqui retidos, embora na forma mais honrosa de um aviso separado e suplementar.
FIGHTING ATTIE.
Quando ele morrer, a estrada terá perdido um grande homem, cujo pé raramente estava fora do estribo, e cuja cabeça lúcida guiava uma mão audaz. Ele levou o senso comum à sua perfeição, e fez do caminho reto o mais sublime. Suas palavras eram poucas, suas ações eram muitas. Ele era o espartano dos ladrões de estrada, e o laconismo era a alma curta de sua legislação profissional!
De qualquer maneira que você o veja, você vê aquelas propriedades de espírito que comandam a fortuna; poucos pensamentos que não confundem um ao outro -- elementos simples e audazes. Seu caráter em ação pode ser resumido em duas frases: "um fato apreendido e um golpe desferido". Se seu intelecto fosse mais luxuoso, sua resolução poderia ter sido menos vigorosa; e seu vigor fez sua grandeza. Ele era um daqueles que brilham apenas na ação -- chaminés (para adaptar o símile de Sir Thomas More) que parecem inúteis até que você acenda o fogo. Assim, em momentos de calma, você não sonhava com sua utilidade, e somente na estrada você ficava mudo com a eclosão de seu gênio. Qualquer que fosse a situação para a qual ele fosse chamado, você encontrava nele o que procurava em vão em outros; pois seu forte senso dava a Attie o que a longa experiência deveria, mas muitas vezes falha em dar aos seus possuidores. Sua energia triunfava sobre o sentido da circunstância nova, e ele rompia num momento as teias de aranha que emaranhavam naturezas menores por anos. Seu olho via um resultado final e desconsiderava o detalhe. Ele roubava seu homem sem chicana; e tomava sua bolsa solicitando-a em vez de conspirar. Se seus inimigos desejam subtrair algo de seu mérito -- um mérito grande, deslumbrante e, contudo, sólido --, eles podem, talvez, dizer que seu gênio o ajustava melhor para continuar façanhas do que para concebê-las; e assim que, além do renome que ele pode justamente reivindicar, ele frequentemente monopolizava inteiramente aquela fama que deveria ter sido compartilhada por outros: ele assumia o empreendimento onde ele cessava no Trabalho e o levava adiante, onde era recompensado com a Glória. Mesmo essa acusação prova um novo mérito de habilidade, e não diminui o mérito menos complicado que lhe permitimos antes. A fama que ele adquiriu pode excitar nossa emulação; a inveja que ele não aplacou pode nos consolar pela obscuridade.
Uma estrofe de poesia grega -- Assim, não muito vigorosamente, traduzida pelo Sr. West --:
"Mas envolta em erro está a mente humana, E a felicidade humana é sempre insegura -- Sabemos que fortuna restará para trás? Sabemos por quanto tempo o presente perdurará?"
GENTLEMAN GEORGE.
Para ti, Gentleman George, para ti, que valediction conclusiva resta? Ai! desde que começamos a estranha e mímica cena em que primeiro tu foste introduzido, o inimigo sombrio bateu três vezes às tuas portas; e agora, enquanto escrevemos -- [Em 1830] -- tu partiste de lá -- tu não existes mais! Um novo senhor preside a tua poltrona, uma nova voz soa de tua mesa alegre -- tu foste esquecido! tu és já, como estas páginas, um conto que é contado a uma memória que não retém! Onde estão tuas pilhérias e manias; onde tuas vaidades imponentes e teus adornos reais? Tua casa e teu pagode, tua chaminé gótica e tua placa chinesa -- estes ainda pedem a mão conclusiva. Tua mão está fria; sua conclusão e o prazer que a conclusão proporciona são para outro! Tu semeias, e teu seguidor colhe; tu constróis, teu sucessor detém; tu plantas, e teu herdeiro senta-se sob a sombra de tuas árvores --
"Neque harum, quas colis, arborum Te, praeter invisas cupressos, Ulla brevem dominum sequetur!"
["Nem nenhuma destas árvores que cultivaste te seguirá, o senhor de curta duração, exceto os odiosos ciprestes."]
Neste momento, tua vida -- pois tu foste um Grande Homem para tua ordem, e eles adicionaram tua biografia à de Abershaw e Sheppard --, tua vida está diante de nós. Que homilia em seus eventos! Alegremente tu riste em tua juventude e correste pelos cursos de tua idade adulta. A sagacidade sentava-se à tua mesa, e o Gênio era teu camarada. A Beleza era tua criada; e a Frivolidade brincava ao teu redor -- um bufão que tu ridicularizavas e, ridicularizando, desfrutavas! Quem entre nós pode olhar para trás para tua era brilhante e não suspirar ao pensar que os homens maravilhosos que te cercavam, e em meio aos quais tu eras um centro e um núcleo, são para ele apenas coisas da história e fantasmas de uma tradição sem corpo? Aqueles jantares brilhantes, cintilando com beleza, cuja memória torna um local (ainda herdado pelo Bachelor Bill) um terreno assombrado e de conto de fadas; todos os que se reuniam naquele círculo de Armida -- os Grammonts e os Beauvilliers e os Rochefoucaulds da Inglaterra e da Estrada --, quem não sente que ter visto estes, embora apenas como Gil Blas viu as festividades de seus atores, do aparador e por trás da cadeira, teria sido um triunfo para os sentimentos mais terrenos de sua velhice recordar? O que, então, deve ter sido vê-los como tu viste -- tu, o falecido e o esquecido! --, vê-los do alto de tua juventude e poder e posição (pois cedo foste dono de uma taverna), e espíritos imprudentes e capacidades vigorosas de alegria? Que prazeres onde o sentido esbanjava suas incontáveis variedades? Que orgias onde o vinho era a menor excitação?
Que a cena mude. Quão estimulante é a mudança! Triunfo e brilho e conquista! Pois teu público era um público de renome; para lá vinham os Guerreiros do Ringue -- os Heróis da Cruz -- e tu, seu patrono, eras elevado sobre sua fama! "Principes pro victoria pugnant, comites pro Principe." -- [Chefes lutam pela vitória -- pelos chefes os soldados] -- Que visões passam por nós! Que glórias tu testemunhaste! Sobre que conquistas tu presidiste! A época mais poderosa, os eventos mais maravilhosos que o mundo, teu mundo, jamais conheceu -- disto não foi, de fato, e deslumbrantemente, teu --
"Compartilhar o triunfo e participar da brisa"?
Que a cena mude. A idade adulta é tocada pela idade; mas a Luxúria é "seguida" pelo Luxo, e a Pompa é a herdeira do Prazer; bugigangas e adornos, em vez de glória, cercam, regozijam e te lisonjeiam até o fim. Lá surgem tuas construções; lá jazem, secretos mas magníficos, os tabernáculos de tua facilidade; e os ganhos de teus amigos, e as riquezas das pessoas que eles saqueiam, são águas para teu redemoinho imperial. Tu estás envolvido em facilidade, como um bicho-da-seda; e a profusão flui de teu alto e invisível asilo como a chuva jorra de uma nuvem. Muito fizeste para embelezar topos de chaminés, muito para adornar os aconchegos onde habitavas. O roubo, contigo, tomou uma forma substancial; e os roubos do público passaram a uma metempsicose de argamassa e tornaram-se casas públicas. Assim lá e desse modo, construindo e planejando, tu teceste teu último fio, até que a Morte veio sobre ti; e quando olhamos ao redor, eis! teu irmão estava em teu lar. E teus parasitas e teus camaradas e teus antigos companheiros e tuas robustas meretrizes, eles fizeram um murmúrio e empacotaram seus bens; mas eles se viraram antes de partir, e teriam adorado teu irmão como adoraram a ti -- mas ele não quis! E tua placa de sinalização já se foi e mofou; e ao Jolly Angler sucedeu o Jolly Tar! E teu retrato está desaparecendo rapidamente das lojas de impressão, e teu nome das bocas dos homens! E teu irmão, a quem ninguém elogiou enquanto tu vivias, está em um pináculo de panegírico construído acima do cemitério que contém tua sepultura. Oh, corações mutáveis e voláteis dos homens! Quem seria dono de uma taverna? Quem dispensar o vinho e os sucos que alegram, quando, no momento em que o pulso da banda cessa, o vinho e os sucos são esquecidos?
À História -- pois teu nome será preservado naquele registro que, seja o calendário de Newgate ou das nações, conta-nos igualmente como os homens sofrem e pecam e perecem --, à História deixamos a soma e o balanço de teus méritos e tuas faltas. Os pecados que foram teus eram os do homem para quem o prazer é tudo em tudo: tu eras, da raiz ao ramo, na seiva e no coração, o que os moralistas chamam de libertino; daí o namoro leve, o rápido abandono, a fé quebrada, a perfídia organizada, que manifestaram teu comportamento para com aquelas criaturas mais gentis que te chamavam de 'Gentleman George'. Nunca para uma mulher solitária, até a última chama baça de tua senilidade, tu te comportaste de modo a não dar fundamento a queixas e não dar voz à injustiça. Mas quem dirá: seja honesto com uma, mas ria da perfídia com outra? Quem restringirá inteiramente a traição a um sexo, se para esse sexo ele não considerar a traição uma ofensa? Assim em ti, como em toda a tua tribo, havia uma frouxidão de princípio, uma insinceridade de fé, mesmo para com os homens: teus amigos, quando a ocasião convinha, tu podias abandonar; e teus luxos eram mais caros para ti do que a justiça para aqueles que os supriam. Homens que amam e vivem para o prazer como tu, são geralmente bem-humorados; pois sua devoção ao prazer surge da força de sua constituição, e a força de sua constituição preserva-os das irritações de nervos mais fracos. Assim foste tu bem-humorado e frequentemente generoso; e muitas vezes com tua generosidade tu unias uma delicadeza que mostrava que tinhas uma simpatia original e terna pelos homens. Mas como aqueles que buscam o prazer são, acima de todos os outros, impacientes com interrupções, assim para com aqueles que interferiam em tua busca principal tu testificavas uma raiva profunda, duradoura e vingativa. Contudo, que tais vícios de temperamento não sejam julgados com muita severidade! Pois a ti foram dados os dois tentadores mais persuasivos do homem, físicos e morais: Saúde e Poder! Teus talentos, tais como eram -- e eram os talentos de um homem do mundo --, enganaram-te em vez de te guiarem, pois deram à tua mente aquela demi-filosofia, aquela indiferença a motivos exaltados, que é geralmente encontrada em um libertino esperto. Tua educação foi miserável; tu tinhas um conhecimento superficial de Horácio, mas não podias escrever inglês, e tuas cartas revelam que tu eras lastimavelmente ignorante de lógica. A fineza de teu gosto foi exagerada; tu desconhecias a nobreza da simplicidade; tua ideia de um todo era grotesca e sobrecarregada, e tua fantasia nos detalhes era vistosa e meretriciosa. Mas tu tinhas tua mão constantemente na bolsa pública, e tinhas planos e conselheiros sempre diante de ti; mais que tudo, tu achavas as casas naquela vizinhança na qual tu construías tão sobrenaturalmente hediondas que tu precisavas de pouca ciência para ser menos assustador em tuas criações. Se tu não melhoraste tua aldeia natal e teus vários lares com um gosto sólido, elevado e nobre, tu, no entanto, melhoraste muito singularmente. E tua posteridade, ao evitar as faltas de tua alvenaria, será grata pelos efeitos de tua ambição. A mesma demi-filosofia que te influenciou na vida privada exerceu um poder muito mais benigno e feliz sobre ti em público. Tu não eras ociosamente vexatório em assembleias, nem ordinariamente tirânico em tua paróquia; se tu eras, por vezes, arbitrário, era apenas quando teu prazer era frustrado ou tua vaidade ferida. Em outros momentos, tu deixavas os eventos seguirem seu curso legítimo, de modo que em teus últimos anos tu eras justamente popular em tua paróquia; e na sepultura tua grande boa sorte ofuscará tuas poucas más qualidades, e os homens dirão de ti com um julgamento gentil, não errôneo: "Na vida privada ele não foi pior do que os Rufers que vieram a este bar; na vida pública ele foi melhor do que aqueles que mantiveram uma taverna antes dele." Escutem! esses vivas! qual é o estribilho desse coro? Oh, britânicos gratos e nunca oportunistas, vocês modificaram já para outro a canção que fizeram tão unicamente em honra de Gentleman George: e devemos nós, para não perder o costume do público e as coisas boas do bar -- devemos nós rugir com gargantas ainda roucas de nosso fervor pelas velhas palavras, nosso ardor pelas novas --
"Aqui está para o Marinheiro Bill, Deus o abençoe! Deus o abençoe! Deus o abençoe! Aqui está para o Marinheiro Bill, Deus o abençoe!"
TOMLINSONIANA;
OU,
OS ESCRITOS PÓSTUMOS
DO CELEBRE
AUGUSTUS TOMLINSON,
PROFESSOR DE FILOSOFIA MORAL NA UNIVERSIDADE DE -------
ENDEREÇADO AOS SEUS ALUNOS,
E COMPREENDENDO
I MÁXIMAS SOBRE A ARTE POPULAR DE CRIAR, ILUSTRADAS POR DEZ PERSONAGENS, SENDO UMA INTRODUÇÃO ÀQUELA NOBRE CIÊNCIA PELA QUAL TODO HOMEM PODE TORNAR-SE SEU PRÓPRIO VIGARISTA.
II BRACHYLOGIA; OU, ENSAIOS CRÍTICOS, SENTIMENTAIS, MORAIS E ORIGINAIS.
INTRODUÇÃO.
Tendo viajado recentemente pela Alemanha, passei algum tempo naquela Universidade na qual Augustus Tomlinson presidiu como Professor de Filosofia Moral. Descobri que aquele grande homem morreu, após uma doença prolongada, no início do ano de 1822, perfeitamente resignado ao seu destino, e conversando, mesmo em seu leito de morte, sobre os mistérios divinos da Filosofia Ética. Não obstante os pequenos pecados aos quais aludi nas últimas páginas de "Paul Clifford", e que seus alunos consideraram aconselhável esconder de --
"O dia vistoso, tagarela e impiedoso",
sua memória ainda era tida em uma terna veneração. Talvez, como no caso do ilustre Burns, as faltas de um grande homem tornem caro para você seu gênio. Em seus últimos dias, o PROFESSOR costumava usar um roupão de seda verde-claro e, como era perfeitamente calvo, um pequeno gorro de veludo preto; seus calções eram salpicados. Esses fatos interessantes aprendi com um de seus alunos. Sua velhice foi consumida em palestras, em conversação e na composição dos pequenos morceaux de sabedoria que apresentamos ao público. Nesses ensaios e máximas, curtos como são, ele parece ter concentrado a sabedoria de sua vida industriosa e honrosa. Com grande dificuldade obtive de seus executores os manuscritos que estavam então sendo preparados para a imprensa alemã. Uma consideração valiosa induziu aqueles cavalheiros a se tornarem filantropos e a considerarem as bênçãos inestimáveis que confeririam a este país ao me permitirem dar os seguintes ensaios à luz, em sua veste nativa e inglesa, no mesmo dia em que aparecem na Alemanha nas graças do disfarce estrangeiro.
Em uma idade em que, enquanto a Hipocrisia caminha, sorri, vai de lado, pavoneia-se e manqueja pelo país, a Verdade também começa a vigiar seu adversário em cada movimento, não posso deixar de pensar que estas lições de Augustus Tomlinson são particularmente oportunas. Acrescento-as como um Apêndice adequado a um Romance que pode não inapropriadamente ser chamado de um Tratado sobre Fraudes Sociais; e se elas contiverem dentro de si aquela evidência de atenção diligente e aquele princípio de bem no qual a sátira do Vício é apenas o germe de sua detecção, elas podem, porventura, não passar despercebidas; nem mesmo ser condenadas àquela leitura apressada na qual a Indiferença de hoje é apenas o prelúdio para o Esquecimento de amanhã.
CONTEÚDO.
MÁXIMAS SOBRE A ARTE POPULAR DE ENGANAR, Ilustradas por Dez Personagens, sendo uma Introdução àquela nobre Ciência pela qual todo Homem pode tornar-se seu próprio Vigarista
BRACHYLOGIA: Sobre a Moralidade ensinada pelos Ricos aos Pobres Emulação Advertência contra os Zombadores da "Farça" Ira Popular contra a Imprudência Individual Dum deflnat Amnis Auto-Glorificadores Pensamento sobre a Fortuna Sagacidade e Verdade Auto-teologia Constituição Gloriosa Resposta ao Cantar Popular de que a Bondade em um Estadista é melhor que a Habilidade Senso Comum Amor e Escritores sobre o Amor O Grande Vinculado A Regeneração de um Patife Estilo
MÁXIMAS
SOBRE
A ARTE POPULAR DE ENGANAR,
ILUSTRADAS POR DEZ PERSONAGENS;
SENDO UMA INTRODUÇÃO ÀQUELA NOBRE CIÊNCIA PELA QUAL TODO HOMEM PODE TORNAR-SE SEU PRÓPRIO VIGARISTA.
Põe um ladrão para apanhar um ladrão.---Provérbio.
I.
Sempre que estiveres prestes a proferir algo espantosamente falso, começa invariavelmente por: “É um facto reconhecido”, etc. Sir Robert Filmer era um mestre neste método de escrita. Assim, com que ar solene esse grande homem tentava ludibriar! “É uma verdade inegável que não pode existir qualquer multidão de homens, seja ela grande ou pequena, etc., sem que nessa mesma multidão exista um homem entre eles que, por natureza, tem o direito de ser Rei de todos os restantes – por ser o herdeiro mais próximo de Adão!”
II.
Quando quiseres algo do público, lança a culpa do pedido sobre o princípio mais sagrado que possas encontrar. Um mendigo comum pode dar-te lições requintadas sobre esta, a mais importante máxima na arte da trapaça popular. “Pelo amor de Deus, senhor, um tostão!”
III.
Sempre que, sobre qualquer assunto, moral, sentimental ou político, te encontres na mais completa ignorância, fala imediatamente das “Leis da Natureza”. Como essas leis não estão escritas em parte alguma – [Locke] –, não são conhecidas por ninguém. Se alguém te perguntar como é que tu sabes tal ou tal doutrina como sendo o ditame da Natureza, coloca a mão sobre o coração e diz: “Aqui!”
IV.
Cede aos gostos de um homem, e ele cederá aos teus interesses.
V.
Quando falares aos semissábios, palra; quando falares aos ignorantes, gaba-te; quando falares aos sagazes, mostra-te muito humilde e pede a sua opinião.
VI.
Tem sempre em mente, meus amados alunos, que os meios de subsistência dependem não das virtudes, mas dos vícios alheios. O advogado, o estadista, o carrasco, o médico, são pagos pelos nossos pecados; aliás, até as profissões mais comuns – o alfaiate, o fabricante de carruagens, o estofador, o mercador de vinhos – extraem as suas fortunas, se não a sua existência, desses vícios menores, as nossas fraquezas. A vaidade é o algarismo prefixado aos zeros da Necessidade. Por conseguinte, ó meus amados alunos! Não vos importeis com quais sejam as virtudes de um homem; não percais tempo a aprendê-las. Agarrai-vos de imediato às suas enfermidades. Fazei a Um o que, se fôsseis um homem honesto, faríeis aos Muitos. Este é o caminho para ser um patife individualmente, tal como um advogado é um patife profissionalmente. Os velhacos são como os críticos – [Nullum simile est quod idem. – EDITOR.] – “moscas que se alimentam da parte ferida e que não teriam nada de que viver se o corpo estivesse saudável.” – [Tatler].
VII.
Todo o homem acha desejável ter lágrimas nos olhos por vezes – sente-se uma simpatia por pálpebras húmidas. A Providência proveu beneficamente a esta necessidade e deu a cada homem, na sua divina presciência, infortúnios dolorosos de recordar. Daí, provavelmente, as calamidades humanas contra as quais o ateu se insurge! Por conseguinte, quando estiveres a proferir algum sentimento comovente para o teu pretendido incauto, pensa no maior infortúnio que alguma vez tiveste na tua vida; o hábito tornará em breve a associação das lágrimas a essa melancólica recordação constantemente felicíssima. Conheci, meus caros alunos, um francês muito inteligente que obteve um legado encantador de um velho poeta ao recitar os versos do bardo com os olhos a verterem lágrimas. “Como eras capaz de chorar à vontade?”, perguntei-lhe eu (eu era jovem então, meus alunos). “Je pensois”, respondeu ele, “à mon pauvre père, qui est mort.” A união do sentimento com a habilidade de burlar tornou aquele francês uma criatura fascinante!
VIII.
Nunca cometas o erro dos excessivamente astutos de considerar a natureza humana pior do que ela é. A natureza humana é tão maldizidamente boa que, se não fosse pela arte humana, nós, velhacos, não conseguiríamos viver. Os elementos primários da mente de um homem não nos sustentam; é aquilo que ele deve aos “cuidados tidos com a sua educação” e às “bênçãos da sociedade civilizada!”
IX.
Sempre que duvidares, meus alunos, se o teu homem é ou não um charlatão, decide a questão observando se ele é um assertor positivo. Nada indica impostura como a confiança. Volney diz bem, “que o mais célebre dos charlatães – [Maomé] – e o mais audacioso dos tiranos inicia o seu extraordinário tecido de mentiras com estas palavras: ‘Não há dúvida neste livro!’”
X.
Existe uma forma de enganar as pessoas peculiar às Ilhas Britânicas, e que, meus alunos, recomendo vivamente que importeis para aqui: enganar por subscrição. As pessoas gostam de ser pilhadas em grupo; o engodo transforma-se então no espírito de partido. Assim, um charlatão solicitou, muito gravemente, que lhe equipassem um navio e o enviassem à volta do mundo como seu capitão para fazer descobertas; e outro sugeriu, patrioticamente, que se subscrevessem 10.000 libras – para quê? – para o colocar no parlamento! Nenhum destes indivíduos teria conseguido arrancar um xelim a qualquer pessoa se lho tivesse pedido num canto; mas uma lista impressa, com “Sua Alteza Real” no topo, faz o diabo com as guineus inglesas. Uma subscrição para indivíduos pode ser considerada uma sociedade para o incentivo ostensivo à ociosidade, à impudência, à mendicidade, à impostura e a outras virtudes públicas!
XI.
Sempre que leres a vida de um grande homem, refiro-me a um homem eminentemente bem-sucedido, perceberás que todas as qualidades que lhe são atribuídas são qualidades necessárias até a um patife medíocre. “Ele possuía”, diz o biógrafo, “a maior destreza [a saber, a faculdade de seduzir]; a mais admirável coragem [a saber, a faculdade de intimidar]; a mais nobre fortaleza [a saber, a faculdade de suportar ser intimidado]; a mais singular versatilidade [a saber, a faculdade de dizer uma coisa a um homem e o seu oposto a outro]; e o mais maravilhoso domínio sobre a mente dos seus contemporâneos [a saber, a faculdade de vitimar as suas bolsas ou seduzir as suas ações].” Por conseguinte, se a sorte te lançar numa vida humilde, estuda assiduamente as biografias dos grandes, a fim de te aperfeiçoares como patife; se num âmbito mais elevado da sociedade, sê profundamente versado nas vidas dos velhacos: assim te tornarás apto para seres eminente!
XII.
A hipocrisia da virtude, meus amados alunos, está um pouco fora de moda hoje em dia; por vezes é melhor afetar a hipocrisia do vício. Aparece generosamente dissoluto e jura com um rosto franco que não pretendes ser melhor do que a generalidade dos teus vizinhos. A sinceridade não é menos um disfarce do que a mentira; um sobretudo de frisa envolve-te tão bem como uma capa espanhola.
XIII.
Quando estiveres prestes a executar algum grande plano e a defraudar várias pessoas, deixa que os primeiros um ou dois do número atribuído sejam os sujeitos mais inteligentes e astutos que conseguires encontrar. Terás então uma referência que, por si só, enganará o resto do mundo. “Esse Sr. Lynx está satisfeito”, bastará amplamente para convencer o Sr. Mole da honestidade das tuas intenções! E os homens astutos não são os mais difíceis de enganar; eles confiam na sua força: os heróis invulneráveis são necessariamente os mais corajosos. Fala-lhes de uma forma profissional e remete de imediato o teu projeto para o seu advogado. O meu amigo John Shamberry era um modelo neste grande golpe de arte. Ele burlou doze pessoas na ordem de alguns milhares, sem outro trabalho além do que lhe custou, primeiramente, burlar – quem pensas tu? – o Secretário da Sociedade para a Supressão da Burla!
XIV.
Divide as tuas artes em duas classes: as que te custam pouco trabalho e as que te custam muito. As primeiras – lisonja, atenção, responder a cartas com a devida prontidão, atravessar a rua para agradar ao homem que pretendes arruinar; estas nunca as deves negligenciar. O homem mais insignificante vale a pena ganhar por um custo reduzido. E, além disso, enquanto te serves a ti mesmo, também obténs uma reputação de civilidade, diligência e bom caráter. Mas as artes que te custam muito trabalho – uma longa submissão a um indivíduo rabugento; imitar a aparência de uma virtude, de uma qualidade ou de um ramo do saber que não possuis, perante uma pessoa difícil de cegar – nunca as inicies, exceto por grandes fins, que valham não só a perda de tempo, mas também o risco de deteção. Grandes esforços para pequenos ganhos é a máxima do avarento. O patife deveria ter mais grandeur d’âme! – [Grandeza de alma].
XV.
Perdoa sempre.
XVI.
Se um homem te dever uma soma de dinheiro – embora sejais meus alunos, podereis, uma vez na vida, ser tão tolos ao ponto de emprestar – e achares difícil reavê-la, apela, não à sua justiça, mas à sua caridade. Os componentes da justiça lisonjeiam poucos homens! Quem gosta de se submeter a um inconveniente porque o deve fazer – sem louvor, sem sequer a autossatisfação? Mas a caridade, meus caros amigos, faz cócegas deliciosamente na ostentação humana. A caridade implica superioridade; e o sentimento de superioridade é muito grato à natureza social. Daí a vulgaridade da caridade, em proporção a outras virtudes, por todo o mundo; e daí notarás especialmente que, na medida em que as pessoas são altivas e arrogantes, mais louvarão a esmola e encorajarão as instituições de caridade.
XVII.
Os vossos patifes distintos não observam suficientemente a astúcia dos vulgares. O mendigo real tira partido de cada ferida; mas o burlão moral é imperdoavelmente obtuso quanto à felicidade de uma enfermidade física. Para obter um favor, não negligencies nenhum método que possa atrair a compaixão. Conheci um digno cura que obteve dois benefícios pela felicidade de uma tosse hética, e um irmão mais novo que subsistiu durante dez anos à conta da sua família em virtude de uma tuberculose lenta.
XVIII.
Quando quiseres apossar-te de uma pequena soma, recorda-te de que a pequena soma deve ser colocada em justaposição com uma grande. Não me expresso claramente – toma um exemplo. Em Londres existem vigaristas que anunciam 70.000 libras para serem adiantadas a quatro por cento; tratar apenas com os principais. O cavalheiro que deseja tal quantia sobre hipoteca vai ver o anunciante; o anunciante diz que tem de descer e ver a propriedade sobre a qual o dinheiro deve ser adiantado; a sua viagem e despesas custar-lhe-ão uma ninharia – digamos, vinte guineus. Deixa-o falar com confiança; deixa que o cavalheiro precise muito do dinheiro à taxa de juro declarada, e é três para um que o nosso vigarista obtém os vinte guineus – uma quantia tão irrisória em comparação com 70.000 libras, embora fosse uma quantia séria se a questão se relacionasse com meios pence!
XIX.
Lord Coke disse: “Traçar um erro até à sua fonte é refutá-lo.” Agora, meus jovens alunos, tomo como garantido que estais interessados na preservação do erro; não desejais, portanto, que ele seja traçado até à sua fonte. Sempre que, então, vires um sujeito astuto a segui-lo, tens duas formas de resolver o assunto. Podes dizer, com um sorriso: “Não, agora, senhor, está a tornar-se especulativo – admiro a sua engenhosidade”; ou então assume um ar grave, cora e diz: “Imagino, senhor, que não existe autoridade para esta afirmação na mais sagrada de todas as autoridades!” O Diabo pode citar as Escrituras, sabes; e é um Diabo muito sensato também!
XX.
Rochefoucauld disse: “O ódio aos favoritos não é outra coisa senão o amor ao favor.” A ideia é um pouco limitada; o ódio que nutrimos por qualquer homem é apenas o resultado do nosso amor por algum bem que imaginamos que ele possui, ou que, estando na nossa posse, imaginamos que ele atacou. Assim, a inveja, a espécie mais comum de ódio, surge do nosso apreço pela glória, pela prataria ou pelo contentamento que contemplamos; e a vingança nasce do nosso respeito pela nossa fama que foi ferida, ou pelos nossos terrenos molestados, ou pelos nossos direitos invadidos. Mas o mais ruidoso de todos os ódios é o ódio aos ricos, pelo amor às riquezas. Observa bem o pobre diabo que está sempre a insultar as carruagens de quatro cavalos! Marca-o como um homem a ser subornado!
XXI.
Meus amados alunos, poucos estudaram ainda suficientemente a arte pela qual a prática de piadas se torna submissa à ciência dos burlões. O coração de um inferior é sempre fascinado por uma pilhéria. Os homens sabem isto na velhacaria das eleições. Sabei-o agora, meus alunos, na velhacaria da vida! Quando dás uma palmada nas costas daquele sapateiro tão afetuosamente, a culpa é tua se não lhe enfias o teu propósito ao mesmo tempo. Repara como Shakespeare (que estudais de dia e de noite – nenhum homem expôs melhor os mistérios da velhacaria!) faz com que o seu vilão mais grandioso e mais realizado, Ricardo III, se dirija aos seus bons amigos, os assassinos, com um panegírico jocoso sobre aquela dureza de coração na qual, sem dúvida, esses pobres diabos mais se orgulhavam:
“Os vossos olhos destilam mós, onde os olhos dos tolos destilam lágrimas – Eu gosto de vós, rapazes!”
Não consegues imaginar o sorriso cúmplice com que os cães receberam este elogio, e a pequena cotovelada furtiva no estômago com que Ricardo soltou aquelas palavras amorosas: “Eu gosto de vós, rapazes!”
XXII.
Assim como a boa índole é a característica do incauto, a boa disposição deveria ser a do velhaco; as duas encaixam-se uma na outra como juntas. Felizmente, a boa índole é um Narciso e apaixona-se pela sua própria imagem. E a boa disposição é para a boa índole o que a Florimel de neve era para a Florimel de carne – uma semelhança exata feita dos materiais mais frios.
XXIII.
SENDO O LOUVOR DA VELHACARIA.
Um velhaco é um filósofo, embora um filósofo não seja necessariamente um velhaco. O que tem um velhaco a ver com as paixões? Qualquer desejo irregular ele deve suprimi-lo; qualquer fraqueza ele deve arrancá-la; toda a sua vida é gasta na aquisição de conhecimento: pois o que é o conhecimento? – a descoberta dos erros humanos! Ele é o único homem sempre consistente e, no entanto, sempre a examinar; ele conhece apenas um fim, mas explora todos os meios; o perigo, a má reputação, tudo o que aterroriza os outros homens, não o intimida; ele enfrenta tudo, mas é salvo de tudo: pois eu sustento que um velhaco deixa de ser velhaco – passou a ser tolo – no momento em que a desgraça lhe acontece. Ele professa a arte de enganar; mas a arte de enganar é enganar sem perigo. Ele é teres et rotundus; os golpes voam da lubricidade do seu polimento e das mudanças da sua formação circular. Aquele que é insensível à glória da sua profissão, que está aberto apenas ao lucro, não é meu discípulo. Considero a velhacaria, como Platão disse da virtude: “Poderia ser vista encarnada, geraria uma adoração pessoal!” Ninguém, exceto aqueles que são inspirados por um entusiasmo generoso, beneficiará das máximas acima, nem (e aqui vos aviso solenemente sobre o solo sagrado, até que a vossa cabeça esteja descoberta e os vossos pés nus no temor da veneração) entrará com proveito nas descrições de caráter que se seguem – aquele Templo dos Dez Estatutos, onde armazenei e consagrei as relíquias mais valiosas dos meus pensamentos percorridos e da minha experiência acumulada.
DEZ CARACTERES.
I.
O homem brando, irresoluto, de boa índole e indolente. Estas qualidades são acompanhadas de bons sentimentos, mas sem princípios. A falta de firmeza demonstra também a falta de qualquer sistema de pensamento peculiar ou profundamente enraizado. Um homem que medita sobre um único e favorito assunto de reflexão torna-se casado a uma ou outra das opiniões sobre as quais revolve. Um homem universalmente irresoluto levou geralmente uma vida desordenada e nunca deu a sua atenção por muito tempo a uma só coisa. Este é um homem muito fácil de enganar, meus amados amigos; enganas-lo mesmo com os olhos abertos. A indolência é-lhe mais cara do que todas as coisas; e se o apanhares sozinho e lhe fizeres uma pergunta direta, ele não consegue responder "Não".
II.
O homem tímido, desconfiado, egoísta e frio. Geralmente, um caráter desta descrição é um excelente homem de negócios e, à primeira vista, pareceria frustrar o vigarista mais engenhoso. Mas tens uma esperança – raramente vi que me enganasse – este homem é geralmente ostentador. Uma pessoa fria, medrosa e, no entanto, mundana, tem sempre um olho nos outros; nota o efeito que certas coisas produzem neles; está ansiosa por aprender as suas opiniões, para não transgredir; gosta de saber o que o mundo diz dele; aliás, a sua timidez torna-o ansioso por repousar o seu egoísmo no bom nome deles. Daí que se torne ostentador, goste daquele efeito que é favoravelmente comentado e daquela exibição que ganha consideração. Ataca-o neste ponto, meus alunos!
III.
O caráter melancólico, retraído, sensível e intelectual. Um tema muito bom este para as vossas velhacarias, meus jovens amigos, embora exija grande discernimento e delicadeza. Este caráter tem uma parte considerável de suspeita mórbida e irritação pertencentes a ele – contra estas deves acautelar-te; ao mesmo tempo, a sua característica predominante é uma vaidade poderosa, mas não reconhecida. É geralmente uma boa opinião de si mesmo, e o sentimento de que não é apreciado pelos outros, que torna um homem reservado; ele julga-se inadequado para o mundo devido à delicadeza do seu temperamento e à falta de uma insensibilidade correspondente naqueles que vê! Esta é a tua alavanca para trabalhar. Ele é particularmente lisonjeado, também, no que diz respeito à devoção e ao afeto; ele exige no amor, como do mundo, demasiado. Ele é um Lara, cujas mulheres devem ser Medoras; e até os seus amigos homens deveriam ser extremamente como Kaleds! Pobre homem! Vês como facilmente pode ser ludibriado. Nota – Entre as pessoas deste caráter encontram-se geralmente essas excentricidades, humores e peculiaridades que são cada uma uma alavanca. Nenhum homem vive fora do mundo com impunidade para a solidez do seu próprio caráter. Cada nova saída para o humor é uma nova entrada para o coração.
IV.
O homem audaz, generoso, franco e afetuoso – geralmente uma pessoa de saúde robusta. A sua constituição mantém-no bem-disposto, e o seu ânimo em coragem e benevolência. Ele não é, obviamente, um caráter difícil, meus bons jovens amigos, para vós enganardes; pois falta-lhe suspeita, e todas as suas boas qualidades expõem-no a vós. Mas cuidado com a sua raiva quando ele vos descobrir! Ele é um terrível Otelo quando a sua natureza é uma vez picada. Nota – Um bom tipo de caráter para seduzir a práticas ilegais; faz um traidor tolerável ou um contrabandista de capital. Vós próprios nunca deveis cometer qualquer ofensa ilegal – não existem "paus de mandado" para as castanhas? Como todas as leis são opressões (apenas opressões necessárias e muitas vezes sagradas, que não precisais de lhe explicar), e o seu caráter é especialmente hostil à opressão, seduzis facilmente a pessoa que descrevemos a afrontar as leis do seu país. Sim! O homem audaz, generoso, franco e afetuoso só tem de nascer numa vida humilde para ter a certeza da forca!
V.
O homem audaz, egoísta, fechado e ganancioso irá, com toda a probabilidade, enganar-vos, meus caros amigos. Pois tal caráter faz o mestre-patife, o material a partir do qual a Natureza forma um Ricardo III. É melhor deixares tal homem completamente sozinho. Ele é mau até para servir. Ele quebra as suas ferramentas quando acaba de as usar. Não, não podes fazer nada com ele, meus bons jovens!
VI.
O homem que come, bebe, irrefletido, sensual, mecânico – o animal comum. Tal criatura tem astúcia e é ou cobarde ou feroz; raramente nestas qualidades mantém um meio-termo. Não é de modo algum fácil de enganar. A Natureza defende os seus brutos mentais pela espessura da sua pele. Ganha a sua amante se possível; ela é a melhor pessoa para o controlar. Tais criaturas são a presa natural das mulheres engenhosas; a sua própria estolidez cobre tudo menos a sensualidade. Ao Sansão, a Dalila.
O homem alegre, enganador, astuto, polido, capaz — o cortesão, o homem do mundo. Na vida pública e agitada, este é o antagonista adequado — muitas vezes o rival bem-sucedido e conquistador do Caráter V. Perceberá que um homem como este varia imensamente em intelecto — desde o talento de mera borboleta ao génio mais raro, desde a pessoa que vê nas cartas à pessoa que vê nos gabinetes, desde o ----- ao Chesterfield, do Chesterfield ao Péricles — que é difícil dar-lhe uma noção exata dos pontos fracos de um caráter tão variado. Mas, embora ele engane os seus iguais e os seus superiores, considero-o, meus atentos alunos, de modo algum um caráter muito difícil para um inferior enganar. E desta maneira deve proceder. Não tente a hipocrisia; ele veria através dela num instante. Deixe que ele pense que é, de imediato e à primeira vista, um patife. Seja sincero quanto a esse assunto; mas deixe que ele pense que é um patife útil. Sirva-o bem e zelosamente; mas admita que o faz porque considera o seu interesse envolvido nisto. Este raciocínio satisfaz-o; e, como os homens deste caráter são habitualmente generosos, ele reconhecerá a sua justiça atirando-lhe muitas sopas e estimulando-o com cordiais generosos. Caso ele não o contente nisto, aparente contentamento; e lucre ao traí-lo (essa é a melhor maneira de o enganar), não pelas suas falhas, mas pela oportunidade. Não observe o seu caráter, mas o seu tempo.
VIII.
O caráter vaidoso, arrogante, corajoso, amoroso, espalhafatoso. Este tipo de caráter atribuíamos antigamente aos franceses, e é ainda mais comum no Continente do que naquela amada ilha que não tornarei a ver! Uma criatura desta descrição é feita de muitas falsas virtudes; acima das outras, é sempre profusa onde o seu egoísmo é apelado, não de outra forma. Deve encontrar, então, o que a agrada, e satisfazer os seus gostos. Assim irá enganá-la — ou enganá-la-á também afetando as falsas virtudes que ela própria admira — pinte os seus sentimentos fortemente e deixe-os pavonear-se com um ar trágico; em terceiro lugar, meus bons jovens, enganá-la-ão por lisonja profusa e chamando-lhe, em especial, "o espelho da cavalaria".
IX.
O homem simples, sensato, honesto — um exemplar favorável, mas não elevado, da nossa raça. Este caráter, meus amados alunos, pode enganar uma vez, mas nunca duas. Nem pode enganar tal homem como um estranho; ele deve ser seu amigo ou parente, ou ter conhecido intimamente alguma parte da sua família. Um homem deste caráter é sempre aberto, embora num grau moderado e calmo, aos deveres e laços da vida. Ele fará sempre algo para servir o seu amigo, o seu irmão, ou o homem cujo pai tirou o pai dele do Serpentine. Não afete com ele nenhum verniz; não exerça artifício algum ao tentar obter a sua assistência. Exponha candidamente o seu desejo por tal ou tal serviço, exponha sensatamente as suas pretensões, insinue modestamente a sua gratidão. Assim poderá enganá-lo uma vez, e depois deixá-lo em paz para sempre!
X.
O homem afetuoso, tolo, crédulo, todo impulso e nenhuma reflexão — como o meu coração incha quando contemplo este excelente caráter! Que Canaã ele apresenta para vós! Invejo-vos por vos lançardes ao mundo com a esperança otimista de encontrar todos os homens assim! Deleitável entusiasmo da juventude — oxalá a esperança pudesse ser realizada! Eis a própria encarnação da ingenuidade. Só tem de o fazer amar-vos, e nenhum ouriço sugou ovo como vós podeis sugá-lo. Nunca tenha medo da sua indignação; vá ter com ele uma e outra vez; apenas lance-se ao seu pescoço e chore. Enganá-lo uma vez é enganá-lo sempre; obtenha o seu primeiro xelim e, então, calcule o que fará com o resto da sua fortuna. Nunca abandone um homem tão bom por novos amigos; isso seria ingrato da vossa parte! E levem convosco, a propósito, meus bons jovens, esta máxima conclusiva: Os homens são como terras; obterão mais prodigalizando todo o vosso trabalho uma e outra vez sobre o fácil do que lavrando terreno novo no estéril! Legisladores — homens sábios, bons, piedosos — os Polegares da ciência moral, que criam gigantes primeiro e depois matam-nos — pensam que as lições acima são vilanescas. Honro a vossa penetração. Elas não são provas da minha vilania, mas da vossa loucura! Revejam-nas novamente, e verão que foram concebidas para mostrar que, enquanto aprisionam, transportam e enforcam milhares todos os dias, um homem com um módico decente de astúcia poderia praticar cada uma dessas lições que vos parecem tão hediondas, e nenhuma das vossas leis poderia tocá-lo!
BRACHYLOGIA;
OU,
ENSAIOS, CRÍTICOS, SENTIMENTAIS, MORAIS E ORIGINAIS.
DIRIGIDOS AOS SEUS ALUNOS
POR AUGUSTUS TOMLINSON.
A ironia nos ensaios precedentes é muitas vezes esquecida no presente. A doença deste grande homem, que aconteceu enquanto compunha estas pequenas joias, tornou-o talvez mais sério do que quando em saúde robusta. — Nota do Editor.
SOBRE A MORALIDADE ENSINADA PELOS RICOS AOS POBRES.
Assim que o miúdo indigente consegue cambalear porta fora, é ensinado a tirar o chapéu e a puxar o cabelo aos da alta. "Um bom menino", diz o senhor; "aí tens um meio centavo". O bom menino brilha de orgulho. Esse meio centavo instila profundamente a lição da humildade. Agora vai o nosso miúdo para a escola. Depois vem o ensino de domingo — antes da igreja, que ordena aos pobres que sejam humildes e que honrem todos os homens em melhor situação do que eles próprios. Uma libra de honra para o senhor e uma onça para o bedel. Depois o rapaz cresce; e o Senhor da Mansão instrui-o assim: "Sê um bom rapaz, Tom, e eu ser-te-ei amigo. Segue os passos do teu pai; ele era um homem excelente e uma grande perda para a paróquia; era uma criatura muito civilizada, trabalhadora e bem-comportada; conhecia o seu lugar; — atenta, e faz como ele!" Assim, o trabalho árduo perpétuo e a abundância de submissão fazem com que as virtudes ancestrais sejam perpetuadas aos camponeses até ao dia do juízo! Outra destilação insidiosa de moralidade é transmitida através de um louvor geral aos pobres. Ouvem-se falsos amigos do povo, que se chamam liberais e conservadores, que têm uma ideia de moralidade meio cavalheiresca, meio pastoral, concordam em louvar as criaturas infelizes que mantêm a trabalhar para eles. Mas notem as virtudes pelas quais os pobres são sempre elogiados — indústria, honestidade e contentamento. A primeira virtude é exaltada aos céus, porque a indústria dá aos ricos tudo o que eles têm; a segunda, porque a honestidade impede que um iota do dito tudo seja retirado novamente; e a terceira, porque o contentamento serve para impedir que estes pobres diabos se oponham a uma sorte tão confortável para as pessoas que lucram com ela. Esta, meus alunos, é a moralidade ensinada pelos ricos aos pobres!
EMULAÇÃO.
O grande erro da emulação é este: emulamos efeitos sem investigar as causas. Quando lemos sobre as grandes ações de um homem, estamos em fogo para realizar as mesmas façanhas, sem tentar determinar as qualidades precisas que permitiram ao homem que imitamos cometer as ações que admiramos. Se pudéssemos descobri-las, quão frequentemente poderíamos descobrir que a sua origem era um certo temperamento corporal, uma certa peculiaridade de constituição, e que, se desejássemos o mesmo sucesso, deveríamos estar a examinar a natureza dos nossos corpos em vez de afiar as faculdades das nossas mentes — deveríamos usar halteres, talvez, em vez de livros; aliás, pelo contrário, contrair alguma queixa grave em vez de aperfeiçoar a nossa salubridade moral. Quem poderia dizer se Alexandre teria sido um herói se o seu pescoço fosse reto; ou Boileau um satírico, se nunca tivesse sido picado por um peru? Seria agradável ver-vos, meus amados alunos, depois de ler "Quintus Curtius", a torcerem o pescoço uns aos outros; ou, frescos de Boileau, a correrem para o pátio das aves na esperança de serem mutilados para a performance de um segundo "Lutrin".
AVISO CONTRA OS ZOMBADORES DO "HUMBUG".
Meus amados alunos, existe um grupo de pessoas no mundo, a aumentar diariamente, contra as quais devem estar muito atentos; existe um fascínio nelas. São pessoas que se declaram veementemente opostas ao *humbug* — rapazes finos, liberais, lúcidos, mas francos. Quando estes sentimentos surgem da reflexão, muito bem — são os melhores sentimentos do mundo; mas muitos adotam-nos em segunda mão. São muito convidativos para a indolência da multidão de cavalheiros que veem o romance de um princípio nobre, não a sua utilidade. Quando um homem olha para tudo através desta filosofia redutora, tudo tem um grande módico de *humbug*. Ri-se com ele quando ele ridiculariza o *humbug* na religião, o *humbug* na política, o *humbug* no amor, o *humbug* nas plausibilidades do mundo; mas pode chorar, meus caros alunos, quando ele ridiculariza o que é muitas vezes o mais seguro de todos para ridicularizar na prática — o *humbug* na honestidade comum! Os homens são honestos por religião, sabedoria, preconceito, hábito, medo e estupidez; mas apenas os poucos são sábios; e as pessoas de quem falamos ridicularizam a religião, estão além do preconceito, não se deixam intimidar pelo hábito, são demasiado indiferentes para o medo e demasiado experientes para a estupidez.
IRA POPULAR CONTINUA IMPRUDÊNCIA INDIVIDUAL.
Devem saber, meus caros jovens amigos, que embora a aparência de magnanimidade seja muito elegante para vós, e assim por diante, trar-vos-á muita má vontade se tentarem praticá-la para o vosso próprio detrimento. Os vossos vizinhos são tão invariavelmente, embora talvez insensivelmente, movidos pelo interesse próprio — interesse próprio — [O Sr. Tomlinson está errado aqui; mas a sua ética era demasiado restringida a princípios utilitaristas. — EDITOR.] — é tão inteiramente, embora cada palavreador o negue, o eixo do mundo moral — que ficam furiosos com aquele que parece ignorá-lo. Quando um homem se arruína, ouçam apenas o abuso que recebe; os seus vizinhos encaram-no como uma ofensa pessoal!
DUM DEFLUAT AMNIS.
Uma razão principal pela qual os homens que foram grandes ficam desapontados, quando se retiram para a vida privada, é esta: a memória torna-se uma fonte principal de prazer para aqueles que deixam de esperar avidamente; mas a memória dos grandes recorda apenas aquela vida pública que os desgostou. A sua vida privada deslizou insensivelmente, deixando vestígios ténues da dor ou da alegria que os encontrou demasiado ocupados para notar as impressões simples e tranquilas de mera vicissitude doméstica.
AUTO-GLORIFICADORES.
A Providência parece ter feito a um certo grupo de pessoas — que veem sempre as suas próprias coisas através de um meio de aumento, consideram a sua casa a melhor do mundo, a sua arma a mais verdadeira, o seu próprio cão de aponte um milagre — como o Coronel Hanger sugeriu que os economistas fizessem; nomeadamente, fornecer aos seus criados um par de óculos grandes, para que uma cotovia pudesse parecer tão grande como uma ave de capoeira, e um pão de dois centavos tão grande como um de quatro libras.
PENSAMENTO SOBRE A FORTUNA.
É muitas vezes a jogada mais fácil que completa o jogo. A fortuna é como a dama que um amante arrebatou de todos os seus rivais colocando um laço adicional nas suas librés.
INTELIGÊNCIA E VERDADE.
As pessoas podem falar sobre a ficção ser a fonte da fantasia, e a inteligência estar em desacordo com a verdade. Ora, algumas das coisas mais inteligentes do mundo são inteligentes unicamente pela sua verdade. A verdade é a alma de um bom ditado. "Afirma", observa o Sócrates dos tempos modernos, "que temos uma representação virtual; muito bem, tenhamos uma tributação virtual também!" Aqui a inteligência está na fidelidade do *sequitur*. Quando Colombo quebrou o ovo, onde estava a inteligência? Na completude da convicção no ovo quebrado.
AUTO-TEOLOGIA.
Não apenas cada seita mas cada indivíduo modifica os atributos gerais da Divindade para assimilação com o seu próprio caráter: o homem justo detém-se na justiça, o severo na ira; os atributos que não agradam ao adorador ele esquece insensivelmente. Por isso, ó meus alunos, não sorrirão quando lerem em Barnes que os pigmeus declararam que o próprio Júpiter era um pigmeu. A vaidade piedosa do homem faz com que ele adore as suas próprias qualidades sob o pretexto de adorar as do seu Deus.
GLORIOSA CONSTITUIÇÃO.
Uma frase é por vezes tão boa como um volume. Se um homem lhe pedir para lhe dar alguma ideia das leis da Inglaterra, a resposta é curta e fácil: Nas leis da Inglaterra há cerca de cento e cinquenta leis pelas quais um homem pobre pode ser enforcado, mas nem uma pela qual ele possa obter justiça de graça!
RESPOSTA AO CANT POPULAR DE QUE A BONDADE NUM ESTADISTA É MELHOR DO QUE A CAPACIDADE.
Como no mundo devemos olhar para as ações, não para os motivos, então um velhaco é o homem que o prejudica; e não investiga se o prejuízo é fruto de malícia ou necessidade. Coloque, então, um tolo no poder, e ele torna-se inconscientemente o velhaco. O Sr. Addington tropeçou nos dois impostos piores e mais vilanescos que a malícia humana poderia ter inventado — um sobre medicamentos, o outro sobre a justiça. Que engenho temível de tirano poderia afligir-nos mais do que impedindo de uma só vez a reparação para os nossos erros e a cura para as nossas doenças? O Sr. Addington era o tolo *in se*, e portanto o velhaco no cargo; mas, abençoado seja! ele nunca teve essa intenção!
SENSO COMUM.
Senso comum — senso comum — de todas as frases, de todos os chavões, este é muitas vezes o mais enganador e o mais perigoso. Olhe, em especial, com suspeita para o senso comum sempre que ele é oposto à descoberta. O senso comum é a experiência de cada dia. A descoberta é algo contra a experiência de cada dia. Não admira, então, que quando Galileu proclamou uma grande verdade, o grito universal fosse: "Pois! o senso comum dir-lhe-á o contrário." Fale com um homem sensato pela primeira vez sobre a teoria da visão, e ouça o que o seu senso comum dirá a respeito. Numa carta do tempo de Bacon, o escritor, de intelecto nada medíocre, diz: "É uma pena que o chanceler deva colocar a sua opinião contra a experiência de tantos séculos e os ditames do senso comum." O senso comum, então, tão útil em assuntos domésticos, é menos útil no mundo legislativo e científico do que geralmente se tem considerado. Naturalmente, o defensor do que foi experimentado, e avesso ao que é especulativo, opõe-se à nova filosofia que apela à razão, e agarra-se à velha que é apoiada pela sanção.
AMOR, E ESCRITORES SOBRE O AMOR.
Meus jovens amigos calorosos, de cabeça quente e ardentes, estais na flor da vossa vida, e a escrever versos sobre o amor — digamos uma palavra sobre o assunto. Existem duas espécies de amor comuns a todos os homens e à maioria dos animais — [A maioria dos animais; pois alguns parecem insensíveis ao amor do costume] — uma nasce dos sentidos, a outra cresce do costume. Ora, nenhum destes, meus caros jovens amigos, é o amor que pretendeis sentir — o amor dos amantes. A vossa paixão, tendo apenas a sua fundação (e essa não reconhecida) nos sentidos, deve tudo o resto à imaginação. Ora, a imaginação da maioria é diferente em tez e grau em cada país e em cada época; assim também, e consequentemente, é o amor da imaginação. Como prova, observem que simpatizam com o amor romântico de outros tempos ou nações apenas na proporção em que simpatizam com a sua poesia e literatura imaginativa. O amor que perambula através da "Arcádia" ou de "Amadis de Gaula" é, para a grande massa de leitores, friamente insípido ou solenemente ridículo. Ai! quando essas obras excitavam entusiasmo, também o fazia o amor que elas descrevem. Os longos discursos, os cumprimentos gelados, expressavam o sentimento do dia. Os madrigais de amor do tempo de Shenstone, ou as galanterias de brocado dos poetas franceses no século passado, qualquer mulher agora consideraria ocos ou infantis, imbecis ou artificiais. Outrora as canções eram naturais, e o amor sedutor. E agora, meus jovens amigos, no ano de 1822, em que escrevo, e provavelmente morrerei, o amor que brilha através de Moore, e caminha tão ambiciosamente ambíguo através do verso de Byron; o amor que consideram agora tão profundo e tão verdadeiro; o amor que formiga através dos corações das vossas jovens senhoras, e vos faz a vós, jovens cavalheiros, contemplar a estrela da tarde — todo esse amor também se tornará estranho ou ridículo para uma era posterior; e as aspirações juvenis e os sonhos ao luar e as vagas ninharias que agora pensam ser tão comoventes e tão sublimes irão, meus caros rapazes, para onde a "Mistress" de Cowley e a "Sacharissa" de Waller foram antes — irão com as Safos e as Cloes, as elegantes "belas encantadoras", e as cavalheirescas "mais formosas princesas!" A única poesia amorosa que resiste ao longo de todo o tempo e apela a todos os corações é aquela que se baseia em uma ou em ambas as espécies de amor naturais a todos os homens — o amor dos sentidos e o amor do costume. Neste último está incluído o que os homens de meia-idade chamam de apego racional, o encanto das mentes congeniais, bem como a acumulação caseira e mais quente de pequenas memórias de bondade simples, ou o mero hábito bruto de ver um rosto como se veria uma cadeira. Estes, por vezes individualmente, por vezes habilmente misturados, fazem o tema daqueles que talvez tenham amado mais honestamente e mais humanamente; estes ainda tornam Tibulo patético, e Ovídio um mestre sobre afeições ternas; e estes, acima de tudo, tornam essa inspiração irresistível e que toca a todos, que subjuga o romântico, o calculista, o velho, o jovem, o cortesão, o camponês, o poeta, o homem de negócios, na gloriosa poesia amorosa de Robert Burns.
O GRANDE VINCULADO.
A grande herança do homem é uma comunidade de erros. Uma raça passa a vida a remendar os erros transmitidos por outra; e a causa principal de todos os erros políticos, isto é, todos os piores e mais gerais, é esta — a mesma regra que aplicamos a casos individuais não a queremos aplicar ao público. Todos os homens concordam que burlar por um cavalo é uma burla — punem o culpado e condenam a falta. Mas num Estado não existe tal unanimidade. Burla, que o Senhor vos ajude! é chamada por algum nome fino; e a trapaça torna-se grandiloquente, e intitula-se "Política". Em consequência disto, há sempre uma batalha entre aqueles que chamam as coisas pelos seus nomes certos e aqueles que pertinazmente lhes dão os errados. Daí todo o tipo de confusão. Esta confusão estende-se muito cedo às leis feitas para casos individuais; e assim, nos Estados antigos, embora o mundo ainda esteja de acordo que a burla privada é burla privada, há uma dificuldade dos diabos em punir a burla do público. A arte de burlar agora é uma coisa diferente da arte de burlar há cem anos; mas as leis permanecem as mesmas. A adaptação em casos privados é inovação no público; por isso, sem revogar leis antigas, fazem novas. Por vezes estas são eficazes, mas mais frequentemente não. Ora, meus amados alunos, uma lei é uma arma que, se falha um pombo, mata sempre um corvo; se não atinge o culpado, atinge outra pessoa. Como cada crime cria uma lei, assim por sua vez cada lei cria um crime; e daí continuamos a multiplicar pecados e males, e faltas e erros, até que a sociedade se torne a desordem organizada para roubar carteiras.
A REGENERAÇÃO DE UM VELHACO.
Um homem que começa o mundo sendo um tolo, muitas vezes termina-o tornando-se um velhaco; mas aquele que começa como um velhaco, se for um homem rico (e portanto não enforcado), pode terminar, meus amados alunos, sendo uma criatura piedosa. E este é o porquê: "um velhaco cedo" obtém rapidamente conhecimento do mundo. Um vício desgastado torna-nos mais sábios do que cinquenta tutores. Mas a sabedoria leva-nos a amar o sossego, e no sossego não pecamos. Aquele que é sábio e não peca dificilmente deixará de fazer o bem; pois basta-lhe proferir uma nova verdade, e nem a sua imaginação pode conceber o limite do bem que ele pode ter feito ao homem!
Compreendeis bem que coisa maravilhosa é o estilo? Creio que não; pois, nos exercícios que me enviastes, os vossos estilos revelaram que não lhes foi dispensada uma consideração muito séria. Sabei, pois, que deveis ponderar bem antes de adotardes qualquer modelo de estilo. Do vosso estilo depende, muitas vezes, o vosso próprio caráter — quase sempre, o caráter que o mundo vos atribui. Se adotardes o estilo elevado — se encadeardes frases nobres e sonoridades retumbantes — tereis expressado, professado, um estado de espírito que, insensivelmente, desejareis honrar; o desejo gera gradualmente a capacidade. A vida do Dr. Parr é o estilo do Dr. Parr posto em ação; e Lord Byron torna-se infeliz ao longo da existência por ter caído acidentalmente numa corrente melancólica de palavras. Mas suponhamos que escapais a esta calamidade por uma peculiar dureza de temperamento, não escapareis à marca da opinião popular. Addison deverá sempre ser tido pelo vulgo como o mais amável dos homens, por causa da amenidade social da sua dicção; e os admiradores da linguagem considerarão sempre Burke um espírito mais nobre do que Fox, por causa da grandeza das suas sentenças. Quantas sentenças sábias foram chamadas de pilhérias por terem sido proferidas com espírito! Quantas trivialidades elevaram o seu autor a sábio, sim, a santo, por terem sido encadeadas pela velha freira hipócrita: a Gravidade!