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Pride and Prejudice

by Jane Austen · in Portuguese

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ORGULHO e PRECONCEITO

por Jane Austen,

com um Prefácio de George Saintsbury e Ilustrações de Hugh Thomson

Ruskin 156. Charing House. Cross Road.

Londres George Allen.

CHISWICK PRESS:--CHARLES WHITTINGHAM AND CO. TOOKS COURT, CHANCERY LANE, LONDRES.

PREFÁCIO.

_Walt Whitman estabelece algures uma distinção tão bela quanto justa entre «amar por condescendência» e «amar com amor pessoal». Esta distinção aplica-se tanto aos livros como aos homens e às mulheres; e, no caso dos não muito numerosos autores que são objecto da afeição pessoal, traz consigo uma consequência curiosa. Há muito mais divergência quanto à sua melhor obra do que no caso daqueles outros que são amados «por condescendência», por convenção, e porque se sente ser coisa correcta e apropriada amá-los. E na seita—bastante vasta e contudo invulgarmente selecta—dos austenianos ou janitas, encontrar-se-iam provavelmente partidários da pretensão à primazia de quase todos os romances. Para alguns, a frescura e o humor encantadores de_ Northanger Abbey, a sua completude, acabamento e arranjo, _obscurecem os indubitáveis factos críticos de que a sua escala é pequena, e o seu esquema, afinal, o de uma burlesca ou paródia, género em que o primeiro escalão se alcança com dificuldade. Persuasão, relativamente débil de tom, e não cativante no interesse, tem devotos que exaltam acima de todas as outras a sua exquisita delicadeza e propriedade. A catástrofe de Mansfield Park é admitidamente teatral, o herói e a heroína são insípidos, e a autora quase maldosamente destruiu todo o interesse romântico ao admitir expressamente que Edmund só tomou Fanny porque Mary o escandalizou, e que Fanny poderia muito bem ter tomado Crawford se ele tivesse sido um pouco mais assíduo; contudo, as incomparáveis cenas do ensaio e as personagens da Mrs. Norris e outras granjearam-lhe, creio, um partido considerável._ Razão e Sensibilidade _talvez tenha o menor número de admiradores convictos; mas não lhe faltam._

_Suponho, contudo, que a maioria dos votos pelo menos competentes seria, tudo considerado, dividida entre Emma e o presente livro; e talvez o veredicto vulgar (se na verdade a afeição por Miss Austen não for em si mesma uma carta de isenção de qualquer possível acusação de vulgaridade) penderia por Emma. É a maior, a mais variada, a mais popular; a autora, quando a compôs, já vira um pouco mais do mundo, e melhorara o seu diálogo geral, embora não o mais peculiar e característico; figuras como Miss Bates, como os Eltons, não podem deixar de unir os sufrágios de toda a gente. Por outro lado, eu, pela minha parte, declaro-me por Orgulho e Preconceito sem hesitação. Parece-me o mais perfeito, o mais característico, o mais eminentemente quintessential de todos os trabalhos da sua autora; e para esta pretensão, no espaço tão estreito que me é permitido, proponho-me aqui apresentar as razões._

_Em primeiro lugar, o livro (será talvez apenas necessário lembrar o leitor) foi, na sua primeira forma, escrito muito cedo, algures por volta de 1796, quando Miss Austen mal tinha vinte e um anos; embora tenha sido revisto e concluído em Chawton uns quinze anos depois, e só tenha sido publicado em 1813, apenas quatro anos antes da sua morte. Não sei se, nesta combinação do lançamento fresco e vigoroso da juventude, e da revisão crítica da meia-idade, se poderá rastrear a distinta superioridade, no que toca à construção, que, como me parece, possui sobre todos os outros. O enredo, embora não elaborado, é quase bastante regular para Fielding; quase nenhuma personagem, quase nenhum incidente se poderiam suprimir sem perda para a história. A fuga de Lydia e Wickham não é, como a de Crawford e Mrs. Rushworth, um_ coup de théâtre; _liga-se da maneira mais estrita ao curso anterior da história, e conduz ao desenlace com perfeita propriedade. Todas as passagens secundárias— os amores de Jane e Bingley, a chegada de Mr. Collins, a visita a Hunsford, a excursão a Derbyshire—encaixam do mesmo modo despretensioso, mas magistral. Não há tentativa daquele jogo de esconder e procurar, entrar e sair, que nas transacções entre Frank Churchill e Jane Fairfax contribui sem dúvida muito para a intriga de Emma, mas contribui-o num modo que não considero a melhor característica desse livro, aliás admirável. Embora Miss Austen sempre tivesse gostado de algo do género mal-entendido, que lhe proporcionava oportunidades para exibir o talento peculiar e incomparável a notar brevemente, aqui contentou-se com as ocasiões perfeitamente naturais proporcionadas pela falsa versão da conduta de Darcy dada por Wickham, e pela desajeitamento (surgindo com igual naturalidade) da gradual transformação dos sentimentos de Elizabeth, da aversão declarada ao verdadeiro amor. Não sei se a mão tudo-abarcadora do dramaturgo alguma vez se terá pousado sobre Orgulho e Preconceito; e atrevo-me a dizer que, se o fosse, as situações se revelariam pouco espantosas ou vistosas para as luzes da ribalta, o esquema de caracteres demasiado subtil e delicado para a plateia e o balcão. Mas se a tentativa fosse feita, não seria certamente tolhida por qualquer daquelas frouxidões de construção que, por vezes disfarçadas pelas conveniências de que o romancista pode dispor, aparecem de imediato em palco._

_Penso, contudo, embora a ideia pareça sem dúvida herética a mais do que uma escola de críticos, que a construção não é o mérito mais alto, o dom mais precioso, do romancista. Põe em relevo, da forma mais vantajosa para o olho crítico, os seus outros dons e graças; e a falta dela por vezes estragará essas graças—apreciavelmente, embora não de todo conscientemente—para olhos nada ultra-críticos. Mas um romance muito mal construído que excedesse em carácter patético ou humorístico, ou que exibisse um domínio consumado do diálogo—talvez a mais rara de todas as faculdades—seria uma coisa infinitamente melhor do que um enredo sem falhas representado e contado por bonecos com pedras na boca. E apesar da habilidade que Miss Austen mostrou em desenrolar a história, eu, por mim, colocaria Orgulho e Preconceito muito mais baixo se ele não contivesse o que me parecem as obras-primas do humor de Miss Austen e da sua faculdade de criação de carácter—obras-primas que podem de facto admitir John Thorpe, os Eltons, Mrs. Norris, e um ou dois outros à sua companhia, mas que, num caso certamente, e talvez noutros, são ainda superiores a eles._

_As características do humor de Miss Austen são tão subtis e delicadas que são, talvez, em todas as épocas mais fáceis de apreender do que de exprimir, e em qualquer época particular susceptíveis de ser apreendidas de modo diferente por diferentes pessoas. A mim, este humor parece possuir, no conjunto, uma afinidade maior com o de Addison do que com qualquer outro das numerosas espécies deste grande género britânico. As diferenças de esquema, de tempo, de assunto, de convenção literária, são, obviamente, bastante evidentes; a diferença de sexo não conta talvez muito, pois havia um elemento distintamente feminino em «Mr. Spectator», e no génio de Jane Austen havia, embora nada viril, muito do que era masculino. Mas a semelhança de qualidade consiste num grande número de subdivisões comuns de qualidade—modéstia, extrema minúcia de toque, evitação de tons altos e efeitos berrantes. Há também em ambos uma certa crueldade não inumana nem desamável. É costume daqueles que julgam grosseiramente contrastar a boa natureza de Addison com a ferocidade de Swift, a mansidão de Miss Austen com a turbulência de Fielding e Smollett, mesmo com as piadas práticas ferozes que a sua predecessora imediata, Miss Burney, permitia sem grande protesto. Contudo, tanto em Mr. Addison como em Miss Austen há, embora contido e bem-educado, um deleite insaciável e impiedoso em assar e trinchar um tolo. Um homem no início do século XVIII podia, claro, levar este gosto mais longe do que uma senhora no início do século XIX; e sem dúvida os princípios de Miss Austen, bem como o seu coração, ter-se-iam encolhido diante de coisas como a carta do desventurado marido no Spectator, que descreve, com todo o gosto e toda a inocência do mundo, como a sua mulher e o seu amigo o induzem a jogar às escondidas. Mas outra carta do Spectator—a da donzela de catorze anos que deseja casar com Mr. Shapely, e assegura ao Mentor por si escolhido que «ele admira muito os vossos Spectators»—poderia ter sido escrita por uma Lydia Bennet um pouco mais distinta e inteligente, nos dias da trisavó de Lydia; enquanto, por outro lado, alguns (creio que sem razão) encontraram «cinismo» em toques da própria Miss Austen, como a sua sátira aos auto-enganosos pesares de Mrs. Musgrove pelo filho. Mas esta palavra «cínico» é uma das mais mal empregues na língua inglesa, especialmente quando, por uma falsificação chocante e gratuita do seu sentido original, é aplicada, não a invectiva áspera e rosnadora, mas a sátira suave e oblíqua. Se cinismo significa a percepção do «outro lado», o sentido dos «infernos aceites por baixo», a consciência de que os motivos são quase sempre misturados, e de que parecer não é idêntico a ser—se isto é cinismo, então todo o homem e toda a mulher que não é tolo, que não quer viver num paraíso de tolos, que tem conhecimento da natureza e do mundo e da vida, é um cínico. E nesse sentido Miss Austen certamente era uma. Poderá até ter sido uma no sentido mais vasto de que, como o seu próprio Mr. Bennet, ela tirava um deleite epicurista em dissecar, em exibir, em pôr em movimento os seus tolos e as suas pessoas mesquinhas. Penso que ela tirava realmente esse deleite, e em nada a julgo pior como mulher, enquanto era imensamente melhor por isso como artista._

_Quanto à sua arte em geral, Mr. Goldwin Smith observou com verdade que «se gastou a metáfora a retratar a perfeição dela, combinada com a estreiteza do seu campo»; e acrescentou com justeza que não precisamos ir além da sua própria comparação com a arte de um miniaturista. Para tornar esta última observação bastante exacta, não devemos usar o termo miniatura no seu sentido restrito, e devemos pensar antes em Memling, num extremo da história da pintura, e Meissonier, no outro, do que em Cosway ou qualquer outro do seu género. E não estou tão certo de que eu próprio usaria a palavra «estreito» em relação a ela. Se o seu mundo é um microcosmo, a qualidade cósmica dele é pelo menos tão eminente quanto a pequenez. Ela não toca no que não se sentiu chamada a pintar; não estou tão certo de que não pudesse ter pintado o que não se sentiu chamada a tocar. É pelo menos notável que, em dois períodos muito curtos de escrita—um de cerca de três anos, e outro de pouco mais de cinco—ela executou seis obras-primas, e não deixou um único fracasso. É possível que a pasta romântica na sua composição fosse deficiente: precisamos de lembrar sempre que quase ninguém nascido na sua década—a dos anos setenta do século XVIII—apresentou independentemente a plena qualidade romântica. Mesmo Scott necessitou de colina e montanha e balada, mesmo Coleridge de metafísica e de alemão para lhes permitir lascar a casca clássica. Miss Austen era uma rapariga inglesa, educada num retiro campestre, na época em que as senhoras voltavam para dentro de casa se havia uma geada branca que pudesse furar os seus sapatos de cabedal, em que um frio súbito era assunto dos mais graves receios, em que os seus estudos, os seus modos, a sua conduta estavam sujeitos a todos aqueles limites e restrições fantásticos contra os quais Mary Wollstonecraft protestou com melhor senso geral do que com particular gosto ou discernimento. Miss Austen, também, recuou quando a geada branca lhe tocou os sapatos; mas penso que teria feito um trajecto bastante bom mesmo com uma geada preta._

_Pois, se o seu conhecimento não era muito extenso, ela sabia duas coisas que só o génio conhece. Uma era a humanidade, e a outra era a arte. Quanto à primeira, não podia errar; os seus homens, embora limitados, são verdadeiros, e as suas mulheres são, no sentido antigo, «absolutas». Quanto à arte, se nunca tentou o idealismo, o seu realismo é real a um grau que faz o falso realismo dos nossos dias parecer apenas morto-vivo. Tome-se quase qualquer francês, excepto o falecido M. de Maupassant, e veja-se como ele, com trabalho, vai amontoando traços na esperança de dar uma impressão completa. Não se obtém nada; tem-se sorte se, descartando dois terços do que ele oferece, se consegue moldar uma impressão real com o resto. Mas com Miss Austen, os miríades de traços triviais e naturais constroem a imagem como por magia. Nada é falso; nada é supérfluo. Quando (para tomar apenas o presente livro) Mr. Collins mudou de ideias de Jane para Elizabeth «enquanto Mrs. Bennet mexia na lareira» (e sabemos como Mrs. Bennet mexeria na lareira), quando Mr. Darcy «trouxe pessoalmente a sua chávena de café», o toque em cada caso é como o de Swift—«mais alto pela largura da minha unha»—que impressionou o meio-reluctante Thackeray com justa e franca admiração. Com efeito, por fantástico que pareça, eu colocaria Miss Austen tão próxima de Swift em alguns aspectos, como a coloquei próxima de Addison noutros._

_Esta qualidade swiftiana aparece no presente romance como não aparece em mais nenhum lado no carácter do imortal, do inefável Mr. Collins. Mr. Collins é verdadeiramente grande; muito maior do que tudo o que Addison alguma vez fez, quase grande bastante para Fielding ou para o próprio Swift. Disse-se que ninguém jamais foi como ele. Mas, em primeiro lugar,_ ele _foi como ele; ele está ali—vivo, imperecível, mais real do que centenas de primeiros-ministros e arcebispos, de «metais, semi-metais e filósofos distintos». Em segundo lugar, é temerário, penso eu, concluir que um Mr. Collins real fosse impossível ou inexistente no fim do século XVIII. É muito interessante que possuímos, nesta mesma galeria, o que se pode chamar um primeiro esboço estropeado, ou um estudo malogrado dele, em John Dashwood. A formalidade, a falta de criação, a baixeza, estão lá; mas o retrato está apenas meio vivo, e até se sente um pouco não natural. Mr. Collins é perfeitamente natural, e perfeitamente vivo. De facto, apesar de toda a «miniatura», há algo de gigantesco na maneira como um certo lado, e mais do que um, da humanidade, e especialmente da humanidade do século XVIII, o seu filisteísmo, a sua moral bem-intencionada mas estreita, a sua mesquinhez formal, o seu respeito rastejante pela jerarquia, o seu materialismo, o seu egoísmo, recebem exposição. Não admitirei que um único discurso ou uma única acção deste inestimável homem seja incapaz de ser reconciliado com a realidade, e não me surpreenderia se muitas destas palavras e acções fossem historicamente verdadeiras._

_Mas a grandeza de Mr. Collins não poderia ter sido exibida de modo tão satisfatório se a sua criadora não tivesse ajustado tão engenhosamente a ele as figuras de Mr. Bennet e de Lady Catherine de Bourgh. Esta última, como o próprio Mr. Collins, foi acusada de exagero. Há, talvez, uma sombra muito ténue de cor para a acusação; mas parece-me muito tênue de facto. Mesmo agora, não penso que seria impossível encontrar pessoas, especialmente pessoas do sexo feminino, não necessariamente de nascimento nobre, tão arrogantes, tão centradas em si, tão descuidosas das boas maneiras, como Lady Catherine. Cem anos atrás, a filha de um conde, a Poderosa (se não exactamente a Generosa) senhora de uma paróquia fora de mão, rica, há muito fora da autoridade marital, e por aí adiante, tinha oportunidades de desenvolver estas agradáveis características que raramente se apresentam hoje. Quanto a Mr. Bennet, Miss Austen, e Mr. Darcy, e até a própria Miss Elizabeth, foram, inclino-me a pensar, bastante duros com ele pela «impropriedade» da sua conduta. A sua mulher era evidentemente, e sempre fora, uma tola absolutamente irrecuperável; e a menos que ele a tivesse abatido a tiro ou se tivesse abatido a si próprio, não havia saída para um homem de senso e de espírito a não ser a irónica. De nenhum outro ponto de vista ele está aberto a qualquer reparo, excepto por uma desamparabilidade desculpável e não inatural na crise da fuga, e os seus ditos são os mais agudamente deliciosos no género humorístico consciente—no género em que rimos com, e não de—que Miss Austen alguma vez pôs na boca de qualquer das suas personagens. É difícil saber se ele é mais agradável quando fala com a mulher, ou quando põe Mr. Collins às provas; mas o sentimento geral do mundo tem provavelmente tido razão em preferir a primeiro plano o seu consolo à esposa quando ela se lamuria sobre o morgadio, « Minha querida, não te abandones a pensamentos tão sombrios. Esperemos por coisas melhores. Lisonjeemo-nos com a ideia de que eu possa ser o sobrevivente»; e o seu inquérito ao seu colossal primo acerca dos cumprimentos que Mr. Collins acaba de referir como feitos por si a Lady Catherine, « Posso perguntar se estas atenções agradáveis procedem do impulso do momento, ou são o resultado de estudo prévio?» São estas as coisas que dão aos leitores de Miss Austen os prazeres, os deleites thrilling, que são sentidos pelos leitores de Swift, de Fielding, e podemos aqui acrescentar, de Thackeray, como não são sentidos pelos leitores de nenhum outro autor inglês de ficção fora destes quatro._

A excelência das personagens secundárias em Orgulho e Preconceito _já foi aludida, e torna difícil uma detida demora sobre as suas belezas em qualquer espaço, e impossível neste. Mrs. Bennet já a olhámos de relance, e não é fácil dizer se ela é mais exquisitamente divertida ou mais horrivelmente verdadeira. Quase o mesmo se pode dizer de Kitty e Lydia; mas nem todos os autores, mesmo de génio, teriam diferenciado com tão infalível habilidade os efeitos da tolice e da vulgaridade de intelecto e disposição operando sobre as fraquezas comuns da mulher em idades tão diferentes. Com Mary, Miss Austen tomou menos trabalho, embora tenha sido ainda mais injusta com ela; não apenas no texto, mas, como aprendemos com aqueles interessantes apêndices tradicionais que Mr. Austen Leigh nos deu, ao condená-la em privado a casar com «um dos empregados de Mr. Philips». Os hábitos de copiar primeiro e depois revender sentimentos morais, de tocar e cantar em público durante demais, são, sem dúvida, grievous e criminosos; mas talvez a pobre Mary fosse antes o bode expiatório dos pecados das intelectuais naquela geração aconselhada por Fordyce. É, de qualquer modo, difícil não estender a ela uma parte do respeito e da afeição (afeição e respeito de um tipo peculiar; sem dúvida), com que se considera Mr. Collins, quando ela extrai a moral da queda de Lydia. Por vezes desejaria que as exigências da história tivessem permitido a Miss Austen unir estas personagens, e assim ao mesmo tempo conseguir um notável casal e suavizar a angústia da pobre Mrs. Bennet pelo morgadio._

_Os Bingleys e os Gardiners e os Lucases, Miss Darcy e Miss de Bourgh, Jane, Wickham, e o resto, hão-de passar sem comentário especial, para além da observação de que Charlotte Lucas (o seu pai egregious, embora encantador, está apenas um pouco do outro lado da linha entre a comédia e a farsa) é um estudo maravilhosamente engenhoso em pardo de uma espécie, e que Wickham (embora algo da hesitação de toque de Miss Austen ao lidar com homens novos apareça) é um esboço não menos notável em pardo de outra. Só o génio poderia ter feito de Charlotte o que ela é, sem que seja desagradável; de Wickham o que ele é, sem o investir nem de uma atracção donjuânica barata nem de uma velhacaria repugnante. Mas o herói e a heroína não são tons que se possam dispensar._

_Darcy sempre me pareceu, de longe, o melhor e o mais interessante dos heróis de Miss Austen; o único competidor possível seria Henry Tilney, cuja parte é tão breve e simples que mal entra em comparação. Tem-se dito, por vezes, julgo eu, que o orgulho dele é inverosímil logo de início na sua expressão e mais tarde no seu ceder, e que o seu enamorar-se de todo nem é muito provável. Também aqui não posso acompanhar os críticos. A explicação que o próprio Darcy dá da maneira como o seu orgulho foi acarinhado é perfeitamente racional e suficiente; e nada poderia haver, psicologicamente falando, de causa mais verdadeira para a sua súbita restauração a condições saudáveis do que o choque da recusa desdenhosa de Elizabeth actuando sobre uma natureza generosa por hipótese. Nada no próprio Austen é mais belo nem mais delicadamente tocado do que a mudança do seu comportamento no encontro repentino nos jardins de Pemberley. Se ele fosse um pedante vil ou um fanfarrão vil, poderia ainda estar a sofrer com a rejeição, ou a suspeitar de que a rapariga viera à caça de marido. Não ser nenhuma dessas coisas é exactamente conforme com os sentimentos prováveis de um homem estragado no juízo comum, mas não verdadeiramente ferido na disposição, e profundamente enamorado. Quanto a estar enamorado, Elizabeth deu uma exposição tão justa das causas desse fenómeno como Darcy das condições do seu estado não regenerado, só que ela, claro, não contou o que se devia ao seu próprio encanto pessoal._

_O segredo desse encanto muitos homens e não poucas mulheres, da própria Miss Austen em diante, têm sentido, e como a maior parte dos encantos é uma coisa mais para sentir do que para explicar. Elizabeth pertence, claro, à divisão allegro ou allegra do exército de Vénus. Miss Austen foi sempre provocantemente parca em descrições das suas beldades; e, excepto os belos olhos, e uma ou duas alusões a que ela tinha ao menos por vezes um rosto corado, e não era muito alta, nada sabemos do seu aspecto. Mas a sua principal diferença em relação a outras heroínas do tipo vivaz parece residir, primeiro, em ser distintamente inteligente — quase forte de espírito, no melhor sentido dessa palavra objectável — e, segundo, em ser inteiramente desprovida de maldade apesar da sua propensão para troçar e da agudeza da sua língua. Elizabeth pode dar tanto como recebe quando é atacada; mas nunca "arranha", e nunca ataca primeiro. Algumas das mais leves arcaísmos de frase e de maneirismo dão a uma ou duas das suas falas iniciais uma ligeira impertinência, mas isso é nada, e quando ela chega a assuntos sérios, como na grande cena da proposta com Darcy (que é, como deve ser, o clímax do interesse do livro), e no combate final das senhoras com Lady Catherine, é impecável. Além disso, ela é uma rapariga perfeitamente natural. Não esconde de si mesma nem de ninguém que ela ressente a primeira descortesia pessoal de Darcy com um sentimento igualmente pessoal. (De passagem, a censura de que a indelicadeza desse discurso é excessiva é certamente injusta; pois coisas do mesmo género, expressas sem dúvida de modo menos empolado mas mais grosseiro, poderiam ter sido ouvidas em mais de um salão de baile precisamente neste ano, da boca de pessoas que não deviam ser pior educadas do que Darcy.) E ela deixa que o agravo feito a Jane e o desprezo mostrado ao resto da sua família exacerbem esse ressentimento da maneira mais saudável deste mundo._

_Mesmo assim, tudo isto não explica o encanto dela, o qual, tomando a beleza como forma comum de todas as heroínas, talvez consista na adição à sua ludicidade, ao seu espírito, à sua disposição afectuosa e natural, de uma certa intrepidez muito invulgar em heroínas do seu tipo e idade. Quase todas elas teriam ficado mudas de reverência diante do magnífico Darcy; quase todas teriam palpitado e tremerido à ideia de propostas, mesmo abusivas, do fascinante Wickham. Elizabeth, sem nada ofensivo, nada virago, nada da "Nova Mulher" nela, tem por natureza o que as melhores mulheres modernas (não "novas") têm por educação e experiência: uma perfeita liberdade da ideia de que todos os homens a podem intimidar se quiserem, e de que a maioria a levará se puder. Embora de modo nenhum "impudente e machona crescida," ela não tem mera sensibilidade, nem uma melindre desagradável. A forma de paixão comum e que provavelmente pareceria natural no tempo de Miss Austen estava tão invariavelmente ligada à exibição de uma ou outra, ou de ambas estas qualidades, que ela não fez Elizabeth exteriormente apaixonada. Mas eu, pelo menos, não tenho a mínima dúvida de que ela teria casado com Darcy com igual vontade sem Pemberley como com ele, e quem souber ler nas entrelinhas não achará as conversas dos amantes nos capítulos finais tão frígidas como poderiam ter parecido aos Della Cruscas do seu próprio tempo, e talvez pareçam aos Della Cruscas deste._

_E, afinal, que adianta procurar a razão do encanto? — ele está lá. Haveria mais sentido no triste exercício mecânico de determinar a razão da sua ausência onde ele não está. Nos romances dos últimos cem anos há vasto número de jovens senhoras com quem seria uma prenda enamorar-se; há ao menos cinco com quem, segundo me parece, nenhum homem de gosto e de espírito pode deixar de o fazer. Os seus nomes são, por ordem cronológica, Elizabeth Bennet, Diana Vernon, Argemone Lavington, Beatrix Esmond e Barbara Grant. Eu ter-me-ia enamorado mais de Beatrix e Argemone; creio que, para mera companhia ocasional, preferiria Diana e Barbara. Mas para viver com ela e casar, não sei que nenhuma das quatro possa competir com Elizabeth._

GEORGE SAINTSBURY.

PÁGINA

Frontispício iv

Página de rosto v

Dedicatória vii

Cabeçalho do Prefácio ix

Cabeçalho da Lista de Ilustrações xxv

Cabeçalho do Capítulo I 1

"Ele veio ver o lugar" 2

O Sr. e a Sra. Bennet 5

"Espero que o Sr. Bingley goste" 6

"Sou a mais alta" 9

"Montava um cavalo negro" 10

"Quando o grupo entrou" 12

"É tolerável" 15

Cabeçalho do Capítulo IV 18

Cabeçalho do Capítulo V 22

"Sem abrir uma única vez os lábios" 24

Flore章章章章尾 do Capítulo V 26

Cabeçalho do Capítulo VI 27

"Os rogos de várias" 31

"Um bilhete para Miss Bennet" 36

"Auspiciosos prognósticos" 40

"O boticário veio" 43

"Cobrindo uma biomba" 45

"A Sra. Bennet e as suas duas filhas mais novas" 53

Cabeçalho do Capítulo X 60

"Não, não; fique onde está" 67

"Amontoando a lareira" 69

Cabeçalho do Capítulo XII 75

Cabeçalho do Capítulo XIII 78

Cabeçalho do Capítulo XIV 84

"Protestava que nunca lia romances" 87

Cabeçalho do Capítulo XV 89

Cabeçalho do Capítulo XVI 95

"Os oficiais do regimento de ----shire" 97

"Encantados por ver de novo a sua querida amiga" 108

Cabeçalho do Capítulo XVIII 113

"Não se vê muitas vezes dançar tão bem" 118

"Para vos assegurar na linguagem mais animada" 132

Cabeçalho do Capítulo XX 139

"Entraram na sala do pequeno-almoço" 143

Cabeçalho do Capítulo XXI 146

"Voltou a pé com elas" 148

Cabeçalho do Capítulo XXII 154

"Tanta afeição e eloquência" 156

"Protestou que devia estar inteiramente enganado" 161

"Sempre que ela falava em voz baixa" 166

Cabeçalho do Capítulo XXIV 168

Cabeçalho do Capítulo XXV 175

"Ofendeu duas ou três jovens" 177

"Quer vir ver-me?" 181

"Na escada" 189

"À porta" 194

"A conversar com as senhoras" 198

"Lady Catherine," disse ela, "deu-me um tesouro" 200

Cabeçalho do Capítulo XXX 209

"Nunca deixava de os informar" 211

"Os cavalheiros acompanharam-no" 213

Cabeçalho do Capítulo XXXI 215

Cabeçalho do Capítulo XXXII 221

"Acompanhadas pela tia" 225

"Olhando para cima" 228

Cabeçalho do Capítulo XXXIV 235

"Ouvindo-se chamar" 243

Cabeçalho do Capítulo XXXVI 253

"Encontrando-se por acaso na cidade" 256

"A sua reverência de despedida" 261

"Dawson" 263

"A elevação dos seus sentimentos" 267

"Tinham esquecido de deixar qualquer recado" 270

"Como estamos bem apertados!" 272

Cabeçalho do Capítulo XL 278

"Estou determinada a nunca mais falar nisso" 283

"Quando o regimento do Coronel Miller partiu" 285

"Ternamente a flertar" 290

A chegada dos Gardiners 294

"Conjecturando sobre a data" 301

Cabeçalho do Capítulo XLIV 318

"Para se tornar agradável a todos" 321

"Ocupadas junto ao rio" 327

Cabeçalho do Capítulo XLVI 334

"Não tenho um instante a perder" 339

"O primeiro penhor agradável da sua acolhida" 345

O Correio 359

"A quem contei o assunto" 363

Cabeçalho do Capítulo XLIX 368

"Mas talvez quisesse lê-lo" 370

"As velhas senhoras maldosas" 377

"Com um sorriso afectuoso" 385

"Tenho a certeza de que ela não ouviu" 393

"O Sr. Darcy com ele" 404

"Jane virou por acaso a cabeça" 415

"A Sra. Long e as suas sobrinhas" 420

"Lizzy, minha querida, quero falar contigo" 422

Cabeçalho do Capítulo LVI 431

"Depois de um breve exame" 434

"Mas agora vem a lume" 442

"Os esforços da tia dele" 448

"Incapaz de articular uma sílaba" 457

"A obséquiosa cortesia" 466

Cabeçalho do Capítulo LXI 472

Fim 476

É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro, possuidor de uma bela fortuna, deve estar precisando de uma esposa.

Por mais pouco conhecidos que sejam os sentimentos ou as ideias de tal homem ao chegar pela primeira vez a uma vizinhança, esta verdade está tão enraizada nas mentes das famílias em redor, que ele é considerado como o legítimo bem de uma ou de outra das suas filhas.

—Meu querido Sr. Bennet —disse-lhe a esposa um dia—, ouviu dizer que Netherfield Park foi alugado por fim?

O Sr. Bennet respondeu que não ouvira.

—Mas foi —replicou ela—, pois a Sra. Long acabou de estar aqui e contou-me tudo a esse respeito.

O Sr. Bennet não respondeu.

—Não quer saber quem o alugou? —exclamou a esposa, impaciente.

—A senhora quer me contar, e eu não tenho objecção em ouvi-lo.

Este foi convite suficiente.

—Pois bem, meu caro, há-de saber: a Sra. Long diz que Netherfield foi alugado por um jovem de grande fortuna, do norte de Inglaterra; que ele veio na segunda-feira numa carruagem puxada por quatro cavalos ver o lugar, e ficou tão encantado com ele que fez acordo imediatamente com o Sr. Morris; que ele tomará posse antes do São Miguel, e que alguns dos seus criados já estarão na casa no fim da próxima semana.

—Qual é o nome dele?

—Bingley.

—É casado ou solteiro?

—Oh, solteiro, meu caro, certamente! Um homem solteiro de grande fortuna; quatro ou cinco mil libras por ano. Que bela coisa para as nossas filhas!

—Como assim? Como pode isso afectá-las?

—Meu caro Sr. Bennet —replicou a esposa—, como pode ser tão enfadonho? O senhor há-de saber que estou a pensar que ele case com uma delas.

—É esse o intento dele ao instalar-se aqui?

—Intento? Disparates, como pode falar assim! Mas é muito provável que ele se enamore de uma delas, e por isso o senhor deve visitá-lo logo que ele chegue.

—Não vejo necessidade disso. A senhora e as raparigas podem ir — ou pode mandá-las sozinhas, o que talvez seja ainda melhor; pois, como a senhora é tão bonita como qualquer delas, o Sr. Bingley poderia preferir a senhora a todas.

—Meu caro, lisonjeia-me. É certo que tive a minha quota de beleza, mas não finjo ser nada de extraordinário agora. Quando uma mulher tem cinco filhas já crescidas, deve deixar de pensar na própria beleza.

—Nesses casos, uma mulher raramente tem muita beleza em que pensar.

—Mas, meu caro, o senhor tem mesmo de ir ver o Sr. Bingley quando ele chegar à vizinhança.

—É mais do que prometo, garanto-lhe.

—Mas considere as suas filhas. Pense só que estabelecimento seria para uma delas. Sir William e Lady Lucas estão decididos a ir só por essa razão; em geral, como sabe, eles não visitam os recém-chegados. De facto, o senhor tem de ir, pois ser-nos-á impossível visitá-lo se não for.

—É excessivamente escrupulosa, sem dúvida. Aposto que o Sr. Bingley ficará muito satisfeito por vê-la; e enviarei por seu intermédio algumas linhas para lhe assegurar o meu sincero consentimento a que case com qualquer das raparigas que ele escolher — embora tenha de meter uma boa palavra a favor da minha pequena Lizzy.

—Peço-lhe que não faça tal coisa. A Lizzy não é melhor do que as outras: e tenho a certeza de que não é nem metade tão bonita como a Jane, nem metade tão bem-humorada como a Lydia. Mas o senhor está sempre a dar-lhe a preferência.

—Nenhuma delas tem grande coisa que a recomende —replicou ele—; são todas tolas e ignorantes como as outras raparigas; mas a Lizzy tem algo mais de vivacidade do que as irmãs.

—Sr. Bennet, como pode abusar assim dos seus próprios filhos? O senhor deleita-se em atormentar-me. Não tem compaixão dos meus pobres nervos.

—Engana-se, minha cara. Tenho grande respeito pelos seus nervos. São os meus velhos amigos. Ouvi-a mencioná-los com consideração durante pelo menos estes vinte anos.

—Ah, o senhor não sabe o que eu sofro.

—Mas espero que se restabeleça e viva para ver muitos jovens de quatro mil libras por ano chegarem à vizinhança.

—De nada nos servirá que venham vinte desses, uma vez que o senhor não os visitará.

—Pode estar certa, minha cara, de que, quando houver vinte, eu os visitarei a todos.

O Sr. Bennet era uma tão estranha mistura de prendas vivas, humor sarcástico, reserva e capricho, que a experiência de vinte e três anos fora insuficiente para que a esposa compreendesse o seu carácter. O dela era menos difícil de decifrar. Era uma mulher de entendimento medíocre, pouca instrução e temperamento incerto. Quando estava descontente, julgava-se nervosa. O negócio da sua vida era casar as filhas; o seu consolo eram as visitas e as novidades.

CAPÍTULO II.

O Sr. Bennet esteve entre os primeiros a visitar o Sr. Bingley. Sempre tencionara visitá-lo, embora assegurando à esposa até ao fim que não iria; e só na noite seguinte à visita é que ela teve conhecimento do caso. Foi então revelado do seguinte modo. Vendo a segunda filha ocupada a enfeitar um chapéu, dirigiu-se-lhe de súbito, dizendo:

—Espero que o Sr. Bingley goste, Lizzy.

—Não estamos em condições de saber o que o Sr. Bingley gosta —disse a mãe, ressentida—, uma vez que não o podemos visitar.

—Mas a senhora esquece, mamã —disse Elizabeth—, que o encontraremos nos bailes, e que a Sra. Long prometeu apresentá-lo.

—Não acredito que a Sra. Long faça tal coisa. Tem duas sobrinhas. É uma mulher egoísta e hipócrita, e eu não faço caso dela.

—Nem eu —disse o Sr. Bennet—; e folgo por ver que a senhora não conta que ela nos sirva.

A Sra. Bennet dignou-se não responder; mas, incapaz de se conter, começou a ralhar com uma das filhas.

—Não tossas assim, Kitty, pelo amor de Deus! Tem um pouco de compaixão dos meus nervos. Tu dilaceras-me.

—A Kitty não tem discrição nas tosses —disse o pai—; escolhe mal o momento.

—Não tusso para meu próprio divertimento —replicou Kitty, queixosamente—. Quando é o próximo baile, Lizzy?

—Daqui a uma quinzena.

—Ah, sim —exclamou a mãe—, e a Sra. Long só volta na véspera; portanto, ser-lhe-á impossível apresentá-lo, pois nem ela o conhecerá.

—Então, minha cara, podes levar vantagem sobre a tua amiga e apresentar o Sr. Bingley a ela.

—Impossível, Sr. Bennet, impossível, quando eu própria não tenho relações com ele; como pode ser tão importuno?

—Honro a sua circunspecção. Um conhecimento de quinze dias é certamente muito pouco. Não se pode saber o que um homem realmente é ao fim de quinze dias. Mas, se não nos aventurarmos, alguém o fará; e, afinal, a Sra. Long e as suas sobrinhas que tentem a sua sorte; e, por isso, como ela achará acto de gentileza se recusar o cargo, eu próprio o assumirei.

As raparigas fitavam o pai. A Sra. Bennet limitou-se a dizer: —Disparates, disparates!

—O que quer dizer essa exclamação enfática? —exclamou ele—. Considera as fórmulas de apresentação e a importância que se lhes atribui como disparates? Não posso concordar inteiramente consigo nesse ponto. Que dizes tu, Mary? Pois tu és uma jovem de profunda reflexão, sei eu, e lês grandes livros e fazes extractos.

Mary queria dizer algo muito sensato, mas não sabia como.

—Enquanto a Mary ajusta as suas ideias —continuou ele—, voltemos ao Sr. Bingley.

—Estou farta do Sr. Bingley —exclamou a esposa.

—Lamento ouvir isso; mas por que não mo disseste antes? Se eu soubesse tanto esta manhã, certamente não o teria visitado. É muito azar; mas, como de facto já paguei a visita, não podemos agora escapar ao conhecimento.

O assombro das senhoras foi exactamente o que ele desejava — o da Sra. Bennet talvez excedendo todos os outros; embora, passada a primeira tumultuosa alegria, ela começasse a declarar que era o que sempre esperara.

—Como foi bondoso da sua parte, meu caro Sr. Bennet! Mas eu sabia que acabaria por o persuadir. Eu tinha a certeza de que o senhor estimava demasiado as suas filhas para desprezar tal conhecimento. Bem, como estou contente! E é também tão boa graça que tenha ido esta manhã sem dizer uma única palavra até agora.

—Agora, Kitty, podes tossir à vontade —disse o Sr. Bennet; e, dizendo isto, saiu do quarto, fatigado dos êxtases da esposa.

—Que excelente pai vocês têm, raparigas —disse ela, quando a porta se fechou—. Não sei como lhe havíeis de retribuir tanta bondade; nem a mim, pelo mesmo motivo. Na nossa idade, não é nada agradável, posso dizer-lho, fazer novas relações todos os dias; mas por amor a vocês faríamos qualquer coisa. Lydia, meu amor, ainda que sejas a mais nova, aposto que o Sr. Bingley dança contigo no próximo baile.

—Oh —disse Lydia, resolutamente—, não tenho medo; pois, embora seja a mais nova, sou a mais alta.

O resto da noite passou-se a conjecturar quanto tempo levaria o Sr. Bingley a retribuir a visita ao Sr. Bennet, e a determinar quando o deveriam convidar para jantar.

CAPÍTULO III.

Por mais que a Sra. Bennet, contudo, com o auxílio das cinco filhas, pudesse perguntar a esse respeito, nada bastou para arrancar ao marido qualquer descrição satisfatória do Sr. Bingley. Atacavam-no de vários modos, com perguntas descaradas, suposições engenhosas e longínquos pressentimentos; mas ele esquivou-se à habilidade de todas elas; e elas viram-se por fim obrigadas a aceitar a informação de segunda mão da sua vizinha, Lady Lucas. O relatório desta foi altamente favorável. Sir William ficara encantado com ele. Era bastante jovem, maravilhosamente bonito, extremamente agradável, e, para coroar tudo, pretendia estar no próximo sarau com uma grande companhia. Nada podia ser mais delicioso! Gostar de dança era um passo certo para se enamorar; e acalentavam-se vivas esperanças quanto ao coração do Sr. Bingley.

—Se eu puder apenas ver uma das minhas filhas felizmente instalada em Netherfield —disse a Sra. Bennet ao marido—, e todas as outras igualmente bem casadas, nada mais terei a desejar.

Dentro de poucos dias, o Sr. Bingley retribuiu a visita ao Sr. Bennet e esteve com ele cerca de dez minutos na biblioteca. Alimentara a esperança de ser admitido a ver as jovens, de cuja beleza muito ouvira; mas só viu o pai. As senhoras foram um pouco mais felizes, pois tiveram a vantagem de verificar, de uma janela superior, que ele vestia casaca azul e montava um cavalo negro.

An invitation to dinner was soon afterwards despatched; and already had Mrs. Bennet planned the courses that were to do credit to her housekeeping, when an answer arrived which deferred it all. Mr. Bingley was obliged to be in town the following day, and consequently unable to accept the honour of their invitation, etc. Mrs. Bennet was quite disconcerted. She could not imagine what business he could have in town so soon after his arrival in Hertfordshire; and she began to fear that he might always be flying about from one place to another, and never settled at Netherfield as he ought to be. Lady Lucas quieted her fears a little by starting the idea of his

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being gone to London only to get a large party for the ball; and a report soon followed that Mr. Bingley was to bring twelve ladies and seven gentlemen with him to the assembly. The girls grieved over such a number of ladies; but were comforted the day before the ball by hearing that, instead of twelve, he had brought only six with him from London, his five sisters and a cousin. And when the party entered the assembly-room, it consisted of only five altogether: Mr. Bingley, his two sisters, the husband of the eldest, and another young man.

Mr. Bingley was good-looking and gentlemanlike: he had a pleasant countenance, and easy, unaffected manners. His sisters were fine women, with an air of decided fashion. His brother-in-law, Mr. Hurst, merely looked the gentleman; but his friend Mr. Darcy soon drew the attention of the room by his fine, tall person, handsome features, noble mien, and the report, which was in general circulation within five minutes after his entrance, of his having ten thousand a year. The gentlemen pronounced him to be a fine figure of a man, the ladies declared he was much handsomer than Mr. Bingley, and he was looked at with great admiration for about half the evening, till his manners gave a disgust which turned the tide of his popularity; for he was discovered to be proud, to be above his company, and above being pleased; and not all his large estate in Derbyshire could save him from having a most forbidding, disagreeable countenance, and being unworthy to be compared with his friend.

Mr. Bingley had soon made himself acquainted with all the principal people in the room: he was lively and unreserved, danced every dance, was angry that the ball closed so early, and talked of giving one himself at Netherfield. Such amiable qualities must speak for themselves. What a contrast between him and his friend! Mr. Darcy danced only once with Mrs. Hurst and once with Miss Bingley, declined being introduced to any other lady, and spent the rest of the evening in walking about the room, speaking occasionally to one of his own party. His character was decided. He was the proudest, most disagreeable man in the world, and everybody hoped that he would never come there again. Amongst the most violent against him was Mrs. Bennet, whose dislike of his general behaviour was sharpened into particular resentment by his having slighted one of her daughters.

Elizabeth Bennet had been obliged, by the scarcity of gentlemen, to sit down for two dances; and during part of that time, Mr. Darcy had been standing near enough for her to overhear a conversation between him and Mr. Bingley, who came from the dance for a few minutes to press his friend to join it.

“Come, Darcy,” said he, “I must have you dance. I hate to see you standing about by yourself in this stupid manner. You had much better dance.”

“I certainly shall not. You know how I detest it, unless I am particularly acquainted with my partner. At such an assembly as this, it would be insupportable. Your sisters are engaged, and there is not another woman in the room whom it would not be a punishment to me to stand up with.”

“I would not be so fastidious as you are,” cried Bingley, “for a kingdom! Upon my honour, I never met with so many pleasant girls in my life as I have this evening; and there are several of them, you see, uncommonly pretty.”

“You are dancing with the only handsome girl in the room,” said Mr. Darcy, looking at the eldest Miss Bennet.

“Oh, she is the most beautiful creature I ever beheld! But there is one of her sisters sitting down just behind you, who is very pretty, and I dare say very agreeable. Do let me ask my partner to introduce you.”

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“Which do you mean?” and turning round, he looked for a moment at Elizabeth, till, catching her eye, he withdrew his own, and coldly said, “She is tolerable: but not handsome enough to tempt me; and I am in no humour at present to give consequence to young ladies who are slighted by other men. You had better return to your partner and enjoy her smiles, for you are wasting your time with me.”

Mr. Bingley followed his advice. Mr. Darcy walked off; and Elizabeth remained with no very cordial feelings towards him. She told the story, however, with great spirit among her friends; for she had a lively, playful disposition, which delighted in anything ridiculous.

The evening altogether passed off pleasantly to the whole family. Mrs. Bennet had seen her eldest daughter much admired by the Netherfield party. Mr. Bingley had danced with her twice, and she had been distinguished by his sisters. Jane was as much gratified by this as her mother could be, though in a quieter way. Elizabeth felt Jane’s pleasure. Mary had heard herself mentioned to Miss Bingley as the most accomplished girl in the neighbourhood; and Catherine and Lydia had been fortunate enough to be never without partners, which was all that they had yet learnt to care for at a ball. They returned, therefore, in good spirits to Longbourn, the village where they lived, and of which they were the principal inhabitants. They found Mr. Bennet still up. With a book, he was regardless of time; and on the present occasion he had a good deal of curiosity as to the event of an evening which had raised such splendid expectations. He had rather hoped that all his wife’s views on the stranger would be disappointed; but he soon found that he had a very different story to hear.

“Oh, my dear Mr. Bennet,” as she entered the room, “we have had a most delightful evening, a most excellent ball. I wish you had been there. Jane was so admired, nothing could be like it. Everybody said how well she looked; and Mr. Bingley thought her quite beautiful, and danced with her twice. Only think of that, my dear: he actually danced with her twice; and she was the only creature in the room that he asked a second time. First of all, he asked Miss Lucas. I was so vexed to see him stand up with her; but, however, he did not admire her at all; indeed, nobody can, you know; and he seemed quite struck with Jane as she was going down the dance. So he inquired who she was, and got introduced, and asked her for the two next. Then, the two third he danced with Miss King, and the two fourth with Maria Lucas, and the two fifth with Jane again, and the two sixth with Lizzy, and the Boulanger----”

“If he had had any compassion for me,” cried her husband impatiently, “he would not have danced half so much! For God’s sake, say no more of his partners. O that he had sprained his ancle in the first dance!”

“Oh, my dear,” continued Mrs. Bennet, “I am quite delighted with him. He is so excessively handsome! and his sisters are charming women. I never in my life saw anything more elegant than their dresses. I dare say the lace upon Mrs. Hurst’s gown----”

Here she was interrupted again. Mr. Bennet protested against any description of finery. She was therefore obliged to seek another branch of the subject, and related, with much bitterness of spirit, and some exaggeration, the shocking rudeness of Mr. Darcy.

“But I can assure you,” she added, “that Lizzy does not lose much by not suiting his fancy; for he is a most disagreeable, horrid man, not at all worth pleasing. So high and so conceited, that there was no enduring him! He walked here, and he walked there, fancying himself so very great! Not handsome enough to dance with! I wish you had been there, my dear, to have given him one of your set-downs. I quite detest the man.”

CHAPTER IV.

When Jane and Elizabeth were alone, the former, who had been cautious in her praise of Mr. Bingley before, expressed to her sister how very much she admired him.

“He is just what a young man ought to be,” said she, “sensible, good-humoured, lively; and I never saw such happy manners! so much ease, with such perfect good breeding!”

“He is also handsome,” replied Elizabeth, “which a young man ought likewise to be if he possibly can. His character is thereby complete.”

“I was very much flattered by his asking me to dance a second time. I did not expect such a compliment.”

“Did not you? I did for you. But that is one great difference between us. Compliments always take you by surprise, and me never. What could be more natural than his asking you again? He could not help seeing that you were about five times as pretty as every other woman in the room. No thanks to his gallantry for that. Well, he certainly is very agreeable, and I give you leave to like him. You have liked many a stupider person.”

“Dear Lizzy!”

“Oh, you are a great deal too apt, you know, to like people in general. You never see a fault in anybody. All the world are good and agreeable in your eyes. I never heard you speak ill of a human being in my life.”

“I would wish not to be hasty in censuring anyone; but I always speak what I think.”

“I know you do: and it is that which makes the wonder. With your good sense, to be so honestly blind to the follies and nonsense of others! Affectation of candour is common enough; one meets with it everywhere. But to be candid without ostentation or design,--to take the good of everybody’s character and make it still better, and say nothing of the bad,--belongs to you alone. And so, you like this man’s sisters, too, do you? Their manners are not equal to his.”

“Certainly not, at first; but they are very pleasing women when you converse with them. Miss Bingley is to live with her brother, and keep his house; and I am much mistaken if we shall not find a very charming neighbour in her.”

Elizabeth listened in silence, but was not convinced: their behaviour at the assembly had not been calculated to please in general; and with more quickness of observation and less pliancy of temper than her sister, and with a judgment, too, unassailed by any attention to herself, she was very little disposed to approve them. They were, in fact, very fine ladies; not deficient in good-humour when they were pleased, nor in the power of being agreeable where they chose it; but proud and conceited. They were rather handsome; had been educated in one of the first private seminaries in town; had a fortune of twenty thousand pounds; were in the habit of spending more than they ought, and of associating with people of rank; and were, therefore, in every respect entitled to think well of themselves and meanly of others. They were of a respectable family in the north of England; a circumstance more deeply impressed on their memories than that their brother’s fortune and their own had been acquired by trade.

Mr. Bingley inherited property to the amount of nearly a hundred thousand pounds from his father, who had intended to purchase an estate, but did not live to do it. Mr. Bingley intended it likewise, and sometimes made choice of his county; but, as he was now provided with a good house and the liberty of a manor, it was doubtful to many of those who best knew the easiness of his temper, whether he might not spend the remainder of his days at Netherfield, and leave the next generation to purchase.

His sisters were very anxious for his having an estate of his own; but though he was now established only as a tenant, Miss Bingley was by no means unwilling to preside at his table; nor was Mrs. Hurst, who had married a man of more fashion than fortune, less disposed to consider his house as her home when it suited her. Mr. Bingley had not been of age two years when he was tempted, by an accidental recommendation, to look at Netherfield House. He did look at it, and into it, for half an hour; was pleased with the situation and the principal rooms, satisfied with what the owner said in its praise, and took it immediately.

Between him and Darcy there was a very steady friendship, in spite of a great opposition of character. Bingley was endeared to Darcy by the easiness, openness, and ductility of his temper, though no disposition could offer a greater contrast to his own, and though with his own he never appeared dissatisfied. On the strength of Darcy’s regard, Bingley had the firmest reliance, and of his judgment the highest opinion. In understanding, Darcy was the superior. Bingley was by no means deficient; but Darcy was clever. He was at the same time haughty, reserved, and fastidious; and his manners, though well bred, were not inviting. In that respect his friend had greatly the advantage. Bingley was sure of being liked wherever he appeared; Darcy was continually giving offence.

The manner in which they spoke of the Meryton assembly was sufficiently characteristic. Bingley had never met with pleasanter people or prettier girls in his life; everybody had been most kind and attentive to him; there had been no formality, no stiffness; he had soon felt acquainted with all the room; and as to Miss Bennet, he could not conceive an angel more beautiful. Darcy, on the contrary, had seen a collection of people in whom there was little beauty and no fashion, for none of whom he had felt the smallest interest, and from none received either attention or pleasure. Miss Bennet he acknowledged to be pretty; but she smiled too much.

Mrs. Hurst and her sister allowed it to be so; but still they admired her and liked her, and pronounced her to be a sweet girl, and one whom they should not object to know more of. Miss Bennet was therefore established as a sweet girl; and their brother felt authorized by such commendation to think of her as he chose.

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CHAPTER V.

Within a short walk of Longbourn lived a family with whom the Bennets were particularly intimate. Sir William Lucas had been formerly in trade in Meryton, where he had made a tolerable fortune, and risen to the honour of knighthood by an address to the king during his mayoralty. The distinction had, perhaps, been felt too strongly. It had given him a disgust to his business and to his residence in a small market town; and, quitting them both, he had removed with his family to a house about a mile from Meryton, denominated from that period Lucas Lodge; where he could think with pleasure of his own importance, and, unshackled by business, occupy himself solely in being civil to all the world. For, though elated by his rank, it did not render him supercilious; on the contrary, he was all attention to everybody. By nature inoffensive, friendly, and obliging, his presentation at St. James’s had made him courteous.

Lady Lucas was a very good kind of woman, not too clever to be a valuable neighbour to Mrs. Bennet. They had several children. The eldest of them, a sensible, intelligent young woman, about twenty-seven, was Elizabeth’s intimate friend.

That the Miss Lucases and the Miss Bennets should meet to talk over a ball was absolutely necessary; and the morning after the assembly brought the former to Longbourn to hear and to communicate.

“You began the evening well, Charlotte,” said Mrs. Bennet, with civil self-command, to Miss Lucas. “You were Mr. Bingley’s first choice.”

“Yes; but he seemed to like his second better.”

“Oh, you mean Jane, I suppose, because he danced with her twice. To be sure that did seem as if he admired her--indeed, I rather believe he did--I heard something about it--but I hardly know what--something about Mr. Robinson.”

“Perhaps you mean what I overheard between him and Mr. Robinson: did not I mention it to you? Mr. Robinson’s asking him how he liked our Meryton assemblies, and whether he did not think there were a great many pretty women in the room, and which he thought the prettiest? and his answering immediately to the last question, ‘Oh, the eldest Miss Bennet, beyond a doubt: there cannot be two opinions on that point.’”

“Upon my word! Well, that was very decided, indeed--that does seem as if--but, however, it may all come to nothing, you know.”

“My overhearings were more to the purpose than yours, Eliza,” said Charlotte. “Mr. Darcy is not so well worth listening to as his friend, is he? Poor Eliza! to be only just tolerable.”

“I beg you will not put it into Lizzy’s head to be vexed by his ill-treatment, for he is such a disagreeable man that it would be quite a misfortune to be liked by him. Mrs. Long told me last night that he sat close to her for half an hour without once opening his lips.”

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“Are you quite sure, ma’am? Is not there a little mistake?” said Jane. “I certainly saw Mr. Darcy speaking to her.”

“Ay, because she asked him at last how he liked Netherfield, and he could not help answering her; but she said he seemed very angry at being spoke to.”

“Miss Bingley told me,” said Jane, “that he never speaks much unless among his intimate acquaintance. With them he is remarkably agreeable.”

“I do not believe a word of it, my dear. If he had been so very agreeable, he would have talked to Mrs. Long. But I can guess how it was; everybody says that he is eat up with pride, and I dare say he had heard somehow that Mrs. Long does not keep a carriage, and had to come to the ball in a hack chaise.”

“I do not mind his not talking to Mrs. Long,” said Miss Lucas, “but I wish he had danced with Eliza.”

“Another time, Lizzy,” said her mother, “I would not dance with him, if I were you.”

“I believe, ma’am, I may safely promise you never to dance with him.”

“His pride,” said Miss Lucas, “does not offend me so much as pride often does, because there is an excuse for it. One cannot wonder that so very fine a young man, with family, fortune, everything in his favour, should think highly of himself. If I may so express it, he has a right to be proud.”

“That is very true,” replied Elizabeth, “and I could easily forgive his pride, if he had not mortified mine.”

“Pride,” observed Mary, who piqued herself upon the solidity of her reflections, “is a very common failing, I believe. By all that I have ever read, I am convinced that it is very common indeed; that human nature is particularly prone to it, and that there are very few of us who do not cherish a feeling of self-complacency on the score of some quality or other, real or imaginary. Vanity and pride are different things, though the words are often used synonymously. A person may be proud without being vain. Pride relates more to our opinion of ourselves; vanity to what we would have others think of us.”

“If I were as rich as Mr. Darcy,” cried a young Lucas, who came with his sisters, “I should not care how proud I was. I would keep a pack of foxhounds, and drink a bottle of wine every day.”

“Then you would drink a great deal more than you ought,” said Mrs. Bennet; “and if I were to see you at it, I should take away your bottle directly.”

The boy protested that she should not; she continued to declare that she would; and the argument ended only with the visit.

CHAPTER VI.

As senhoras de Longbourn logo fizeram uma visita às de Netherfield. A visita foi retribuída como manda a boa educação. As maneiras agradáveis de Miss Bennet foram conquistando a boa vontade de Mrs. Hurst e Miss Bingley; e, embora se descobrisse que a mãe era insuportável e as irmãs mais novas não valiam a pena a quem se lhes dirigisse, manifestou-se o desejo de conhecer melhor as duas mais velhas. Jane recebeu essa atenção com o maior prazer; mas Elizabeth ainda percebia arrogância no tratamento que dispensavam a todos, mal poupando sequer a própria irmã, e não conseguia gostar delas; embora a bondade para com Jane, na medida em que existia, tivesse um valor, pois provavelmente nascia da influência da admiração do irmão delas. Era geralmente evidente, sempre que se encontravam, que ele de facto a admirava; e para ela era igualmente evidente que Jane estava a ceder à preferência que começara a nutrir por ele desde o princípio, e ia a caminho de apaixonar-se deveras; mas considerou com agrado que provavelmente isso não seria descoberto pelo mundo em geral, pois Jane aliava a uma grande força de sentimentos uma serenidade de temperamento e uma constante alegria de disposição que a guardariam das suspeitas dos impertinentes. Mencionou isto à amiga, Miss Lucas.

"Pode, talvez, ser agradável", respondeu Charlotte, "poder enganar o público num caso destes; mas é por vezes uma desvantagem ser tão reservada. Se uma mulher esconde o seu afecto com a mesma habilidade ao objecto dele, pode perder a oportunidade de o fixar; e será então fraco consolo crer que o mundo está igualmente às escuras. Há tanto de gratidão ou vaidade em quase todas as afeições, que não é seguro deixar nenhuma entregue a si mesma. Todos podemos começar livremente — uma ligeira preferência é natural; mas há muito poucos de nós que tenham coragem bastante para estar verdadeiramente apaixonados sem encorajamento. Em nove casos em cada dez, será melhor uma mulher mostrar mais afecto do que sente. Bingley gosta da sua irmã, sem dúvida; mas pode nunca fazer mais do que gostar dela, se ela não o ajudar a avançar."

"Mas ela ajuda-o a avançar, tanto quanto a sua natureza lho permite. Se eu consigo perceber a sua inclinação por ele, ele há-de ser bem simplório para não descobri-la também."

"Lembre-se, Eliza, que ele não conhece o carácter de Jane como a senhora."

"Mas se uma mulher tem preferência por um homem, e não procura escondê-lo, ele há-de descobri-lo."

"Talvez descubra, se a vir o suficiente. Mas, embora Bingley e Jane se encontrem com razoável frequência, nunca é por muitas horas seguidas; e, como se veem sempre em grandes reuniões misturadas, é impossível que cada momento seja empregado a conversar juntos. Jane deve portanto tirar o máximo de cada meia hora em que possa captar a atenção dele. Quando ele estiver garantido, haverá lazer para se apaixonar à vontade."

"O seu plano é bom", respondeu Elizabeth, "quando nada está em questão senão o desejo de um bom casamento; e, se eu estivesse resolvida a arranjar um marido rico, ou fosse qual fosse o marido, atrevo-me a dizer que o adoptaria. Mas esses não são os sentimentos de Jane; ela não age por cálculo. Por enquanto nem sequer pode estar certa do grau da sua própria inclinação, nem da sua razoabilidade. Conhece-o há apenas uma quinzena. Dançou quatro danças com ele em Meryton; viu-o numa manhã na casa dele, e desde então jantou em sua companhia quatro vezes. Isto não é bem suficiente para ela compreender o carácter dele."

"Não como a senhora o apresenta. Se ela apenas tivesse jantado com ele, talvez só tivesse descoberto se ele tinha bom appetite; mas há-de lembrar-se de que também passaram quatro noites juntos — e quatro noites podem fazer muito."

"Sim: essas quatro noites permitiram-lhes averiguar que ambos preferem o Vinte-e-um ao Comércio, mas, quanto a qualquer outra característica importante, não imagino que muito se tenha revelado."

"Bem", disse Charlotte, "desejo a Jane todo o sucesso do coração; e, se ela casasse com ele amanhã, eu acharia que ela tinha tanta hipótese de felicidade como se estivesse a estudar o carácter dele por um ano. A felicidade no casamento é inteiramente uma questão de acaso. Se as disposições das partes são tão bem conhecidas uma da outra, ou tão semelhantes antes do casamento, isso não adianta a sua felicidade nem um pouco. Continuam sempre a tornar-se suficientemente diferentes depois para terem a sua quota de contrariedades; e é melhor saber o menos possível dos defeitos da pessoa com quem se há-de passar a vida."

"Faz-me rir, Charlotte; mas não é válido. Sabe que não é válido, e que nunca agiria assim."

Ocupada a observar a atenção de Mr. Bingley para com a irmã, Elizabeth estava longe de suspeitar que ela própria se tornava objecto de algum interesse aos olhos do amigo dele. Mr. Darcy, a princípio, mal admitira que ela era bonita: olhara-a sem admiração no baile; e, quando se encontraram da próxima vez, olhou para ela apenas para a criticar. Mas, mal deixou claro para si e para os seus amigos que ela quase não tinha um único bom traço no rosto, logo começou a achar que ele era animado extraordinariamente pela bela expressão dos seus olhos escuros. A esta descoberta sucederam outras igualmente mortificantes. Embora tivesse detectado com olhar crítico mais de uma falha de perfeita simetria na sua figura, foi forçado a reconhecer que ela era leve e agradável; e, apesar de afirmar que as suas maneiras não eram as do mundo elegante, deixou-se cativar pelo seu à-vontade jovial. Disso ela não tinha a mínima consciência: para ela, ele era apenas o homem que nunca se mostrava agradável em parte alguma, e que não a achara suficientemente bonita para dançar.

Começou a desejar conhecê-la melhor; e, como passo para conversar com ela ele próprio, prestou atenção à conversa dela com outros. Isso feito por ele chamou a atenção dela. Foi em casa de Sir William Lucas, onde uma grande reunião estava congregada.

"O que quer dizer Mr. Darcy", disse ela a Charlotte, "com ouvir a minha conversa com o Coronel Forster?"

"Essa é uma pergunta a que só Mr. Darcy pode responder."

"Mas, se ele o fizer mais alguma vez, hei-de certamente dar-lhe a entender que percebo o que ele está a fazer. Ele tem um olhar muito sarcástico, e, se eu não começar por ser impertinente, hei-de acabar por ter medo dele."

Quando ele se aproximou delas pouco depois, embora sem parecer ter qualquer intenção de falar, Miss Lucas desafiou a amiga a mencionar-lhe tal assunto, o que imediatamente provocou Elizabeth a fazê-lo; ela voltou-se para ele e disse:—

"Não lhe pareceu, Mr. Darcy, que me exprimi extremamente bem há pouco, quando estava a importunar o Coronel Forster para nos dar um baile em Meryton?"

"Com grande energia; mas é um assunto que sempre torna uma senhora enérgica."

"A senhora é severa connosco."

"Será a vez dela ser importunada daqui a pouco", disse Miss Lucas. "Vou abrir o instrumento, Eliza, e a senhora sabe o que se segue."

"A senhora é uma criatura muito estranha como amiga! — está sempre a querer que eu toque e cante diante de qualquer pessoa! Se a minha vaidade tivesse tomado um rumo musical, a senhora seria insubstituível; mas, tal como é, prefiro mesmo não me sentar diante daqueles que devem estar habituados a ouvir os melhores executantes." Como Miss Lucas porém insistisse, acrescentou: "Muito bem; se tem de ser, tem de ser." E, olhando gravely para Mr. Darcy: "Há um ditado antigo muito conhecido, que toda a gente aqui decerto conhece — 'Guardai o vosso fôlego para arrefecer a vossa papa' — e eu guardarei o meu para encher a minha canção."

A sua actuação foi agradável, embora de modo algum brilhante. Depois de uma canção ou duas, e antes de poder responder aos pedidos de vários que a instavam a cantar de novo, foi substituída com ardor ao instrumento pela sua irmã Mary, que, por ser a única sem atractivos da família, tendo trabalhado muito em busca de saber e prendas, estava sempre impaciente por se exibir.

Mary não tinha nem génio nem gosto; e, embora a vaidade lhe tivesse dado aplicação, dera-lhe também um ar pedante e maneiras presunçosas, que teriam prejudicado um grau de excelência maior do que o que atingira. Elizabeth, natural e espontânea, fora ouvida com muito mais agrado, embora tocasse metade menos bem; e Mary, ao fim de um longo concerto, ficou satisfeita de comprar elogios e gratidão com árias escocesas e irlandesas, a pedido das irmãs mais novas, que, com algumas das Lucas, e dois ou três oficiais, se juntaram com ardor a dançar num extremo da sala.

Mr. Darcy estava perto delas em silenciosa indignação com tal modo de passar a noite, com exclusão de toda a conversa, e estava tão absorto nos seus pensamentos que não percebeu que Sir William Lucas era seu vizinho, até Sir William começar assim:—

"Que agradável passatempo para os jovens é este, Mr. Darcy! Não há nada como dançar, afinal de contas. Considero-o um dos primeiros requintes das sociedades polidas."

"Certamente, senhor; e tem também a vantagem de estar na moda entre as sociedades menos polidas do mundo: qualquer selvagem sabe dançar."

Sir William sorriu apenas. "O seu amigo toca de forma encantadora", prosseguiu ele, após uma pausa, ao ver Bingley juntar-se ao grupo; "e não duvido que a senhora seja perito na ciência, Mr. Darcy."

"Viu-me dançar em Meryton, creio eu, senhor."

"Sim, em verdade, e não recebi pouco prazer com a vista. Dança a senhora muitas vezes em St. James?"

"Nunca, senhor."

"Não lhe parece que seria uma homenagem própria ao lugar?"

"É uma homenagem que eu nunca presto a lugar algum, se posso evitá-lo."

"A senhora tem casa na cidade, julgo eu?"

Mr. Darcy fez uma reverência.

"Eu tive uma vez algumas ideias de me estabelecer na cidade, pois gosto de sociedade superior; mas não me sentia bem certo de que o ar de Londres conviria a Lady Lucas."

Ele fez uma pausa na esperança de uma resposta: mas o companheiro não estava disposto a dá-la; e Elizabeth, movendo-se naquele instante na direcção deles, foi acometido pela ideia de fazer algo muito galante, e chamou:—

"Minha querida Miss Eliza, porque não está a dançar? Mr. Darcy, tem de permitir que eu lhe apresente esta jovem senhora como parceira muito desejável. Não pode recusar-se a dançar, tenho a certeza, quando tanta beleza está diante de si." E, tomando-lhe a mão, ia dá-la a Mr. Darcy, que, embora extremamente surpreendido, não estaria indisposto a recebê-la, quando ela imediatamente a retirou e disse com alguma perturbação a Sir William:—

"Em verdade, senhor, não tenho a mínima intenção de dançar. Peço-lhe que não suponha que me dirigi para cá a fim de pedir um parceiro."

Mr. Darcy, com gravidade e propriedade, pediu a honra da sua mão, mas em vão. Elizabeth estava decidida; nem Sir William de modo algum a demoveu com a sua tentativa de persuasão.

"A senhora excelíe tanto na dança, Miss Eliza, que é cruel negar-me a felicidade de a ver; e, embora este senhor não goste em geral do passatempo, não pode ter objecção alguma, estou certo, em nos obsequiar por meia hora."

"Mr. Darcy é toda a cortesia", disse Elizabeth, sorrindo.

"É, de facto: mas, considerando o incentivo, minha querida Miss Eliza, não podemos admirar a sua complacência; pois quem objectaria a tal parceira?"

Elizabeth olhou com malícia, e virou-se. A sua resistência não a tinha prejudicado junto do cavalheiro, e ele pensava nela com alguma complacência, quando assim abordado por Miss Bingley:—

"Posso adivinhar o objecto do seu devaneio."

"Suponho que não."

"Está a considerar como seria insuportável passar muitas noites deste modo — em tal sociedade; e, em verdade, sou inteiramente da sua opinião. Nunca estive mais incomodada! A insipidez, e no entanto o barulho — a nulidade, e no entanto a importância que todos estes pessoas se atribuem! O que eu não daria para ouvir as suas críticas severas a respeito delas!"

"O seu palpite está totalmente errado, asseguro-lhe. A minha mente estava ocupada de modo mais agradável. Tenho estado a meditar sobre o grande prazer que um par de belos olhos no rosto de uma bonita mulher pode proporcionar."

Miss Bingley fixou imediatamente os olhos nele e pediu-lhe que lhe dissesse que senhora tinha a honra de inspirar tais reflexões. Mr. Darcy respondeu, com grande intrepidez:—

"Miss Elizabeth Bennet."

"Miss Elizabeth Bennet!" repetiu Miss Bingley. "Estou cheia de assombro. Há quanto tempo é ela tão favorita? E, diga-me, quando é que lhe hei-de desejar felicidades?"

"É exactamente a pergunta que eu esperava que fizesse. A imaginação de uma senhora é muito rápida; salta da admiração para o amor, do amor para o matrimónio, num instante. Eu sabia que me havia de desejar felicidades."

"Pois bem, se a senhora leva isto tão a sério, considerarei o assunto absolutamente resolvido. Terá uma encantadora sogra, de facto, e, claro, ela estará sempre em Pemberley consigo."

Ele ouviu-a com perfeita indiferença, enquanto ela escolheu entreter-se deste modo; e, como a sua calma a convenceu de que tudo estava seguro, o seu espírito fluíu sem detença.

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CAPÍTULO VII.

A propriedade de Mr. Bennet consistia quase inteiramente numa herdade de duas mil libras por ano, que, infelizmente para as filhas, estava vinculada, na falta de herdeiros masculinos, a um parente afastado; e a fortuna da mãe delas, embora ampla para a sua condição, mal podia suprir a deficiência dele. O pai dela fora solicitor em Meryton, e deixara-lhe quatro mil libras.

Ela tinha uma irmã casada com um Mr. Philips, que fora escriturário do pai delas e lhe sucedeu no negócio, e um irmão estabelecido em Londres numa respeitável ramo de comércio.

A aldeia de Longbourn ficava apenas a uma milha de Meryton; uma distância muito conveniente para as jovens, que eram de lá atraídas três ou quatro vezes por semana, para irem cumprir os seus deveres para com a tia e para uma loja de modas mesmo em frente. As duas mais novas da família, Catherine e Lydia, eram particularmente frequentes nestas atenções: as suas mentes estavam mais vazias do que as das irmãs, e, quando nada melhor se oferecia, um passeio a Meryton era necessário para lhes entreter as manhãs e fornecer conversa para a noite; e, por mais pobre de notícias que o campo em geral pudesse estar, elas arranjavam sempre maneira de colher algumas com a tia. Na verdade, presentemente estavam bem providas tanto de notícias como de felicidade com a recente chegada de um regimento de milícias à vizinhança; havia de ficar todo o Inverno, e Meryton era o quartel-general.

As visitas a Mrs. Philips eram agora férteis nas mais interessantes informações. Cada dia acrescentava algo ao seu conhecimento dos nomes e ligações dos oficiais. As suas hospedarias não permaneceram segredo por muito tempo, e por fim começaram a conhecer os próprios oficiais. Mr. Philips visitava-os a todos, e isto abriu às suas sobrinhas uma fonte de felicidade desconhecida até então. Não conseguiam falar de outra coisa senão de oficiais; e a grande fortuna de Mr. Bingley, cuja menção dava animação à mãe delas, era nada aos olhos delas quando confrontada com o uniforme de um alferes.

Depois de ouvir uma manhã as suas efusões sobre este assunto, Mr. Bennet observou com sangue-frio:—

"Por tudo o que posso recolher do modo como falam, devem ser duas das raparigas mais tolas do país. Suspeito-o há algum tempo, mas agora estou convencido."

Catherine ficou desconcertada e não respondeu; mas Lydia, com perfeita indiferença, continuou a exprimir a sua admiração pelo Capitão Carter, e a sua esperança de o ver no decurso do dia, pois ele partia na manhã seguinte para Londres.

"Estou espantada, meu caro", disse Mrs. Bennet, "que esteja tão pronto a achar tolas as suas próprias filhas. Se eu quisesse pensar com pouco caso das filhas de alguém, não seriam as minhas, por mais que fosse."

"Se as minhas filhas são tolas, hei-de esperar estar sempre consciente disso."

"Sim; mas, acontece que elas são todas muito espertas."

"Este é o único ponto, em que me faço essa ilusão, sobre o qual não concordamos. Eu tinha esperado que os nossos sentimentos coincidissem em tudo, mas tenho de divergir de si a ponto de achar as nossas duas filhas mais novas incomumente parvas."

"Meu caro Mr. Bennet, não pode esperar que tais raparigas tenham o discernimento do pai e da mãe. Quando chegarem à nossa idade, atrevo-me a dizer que não pensarão mais em oficiais do que nós. Lembro-me do tempo em que eu própria gostava muito de uma casaca vermelha — e, na verdade, ainda gosto no meu coração; e, se um jovem coronel elegante, com cinco ou seis mil libras por ano, quisesse uma das minhas filhas, não lhe direi que não; e achei o Coronel Forster muito bem visto na outra noite em casa de Sir William, com o seu uniforme."

"Mamã", gritou Lydia, "a minha tia diz que o Coronel Forster e o Capitão Carter já não vão tantas vezes a Miss Watson como iam quando chegaram; ela vê-os agora muito vezes a pé na livraria do Clarke."

Mrs. Bennet foi impedida de responder pela entrada do criado com um bilhete para Miss Bennet; vinha de Netherfield, e o criado esperava resposta. Os olhos de Mrs. Bennet cintilaram de prazer, e ela exclamava ansiosamente, enquanto a filha lia:—

"Então, Jane, de quem é? Sobre o quê? O que é que ele diz? Então, Jane, despacha-te e conta-nos; despacha-te, minha querida."

"É de Miss Bingley", disse Jane, e em seguida leu-o em voz alta.

/* NIND "Minha querida amiga,

Se não tiver compaixão bastante para jantar hoje com Louisa e comigo, correremos o risco de nos odiarmos para o resto dos nossos dias; pois um tête-à-tête de um dia inteiro entre duas mulheres nunca pode terminar sem uma disputa. Venha assim que puder ao receber isto. O meu irmão e os cavalheiros vão jantar com os oficiais. Sua sempre,

CAROLINE BINGLEY."

"Com os oficiais!" gritou Lydia: "estranho que a minha tia não nos tivesse dito isso."

"Sair para jantar", disse Mrs. Bennet; "que azar."

"Posso levar a carruagem?" disse Jane.

"Não, minha querida, é melhor ires a cavalo, porque parece provável que chova; e então tens de ficar lá a noite."

"Seria um bom plano", disse Elizabeth, "se tivesses a certeza de que eles não se ofereceriam para te mandar para casa."

"Oh, mas os cavalheiros terão a sege de Mr. Bingley para ir a Meryton; e os Hurst não têm cavalos para a deles."

"Prefiro muito ir na carruagem."

"Mas, minha querida, o teu pai não pode dispensar os cavalos, tenho a certeza. São precisos na quinta, Mr. Bennet, não são?"

"São precisos na quinta muito mais vezes do que eu os consigo arranjar."

"Mas, se os tendes hoje", disse Elizabeth, "o intento da minha mãe fica satisfeito."

Ela acabou por arrancar do pai o reconhecimento de que os cavalos estavam ocupados; Jane viu-se portanto obrigada a ir a cavalo, e a mãe acompanhou-a à porta com muitos alegres prognósticos de mau dia. As suas esperanças foram correspondidas; Jane não tinha ido há muito quando a chuva caiu com força. As irmãs ficaram inquietas com ela, mas a mãe estava deliciada. A chuva continuou toda a noite sem interrupção; Jane certamente não podia voltar.

"Foi uma ideia feliz a minha, de facto!" disse Mrs. Bennet, mais do que uma vez, como se o mérito de fazer chover fosse todo seu. Porém, só na manhã seguinte soube de toda a felicidade do seu arranjo. O pequeno-almoço mal tinha terminado quando um criado de Netherfield trouxe o seguinte bilhete para Elizabeth:—

/* NIND "Minha querida Lizzie,

A irmã mais velha, encontrando-a ainda indisposta, escreveu-a e pediu-lhe que tomasse alguns remédios; a pedido dela, ficaram em Netherfield. A mãe continuou com ela; as outras raparigas saíram a passeio porque a manhã seguinte estava limpa e atraente.

Mrs. Bennet sentiu-se extremamente encantada com a atenção dedicada à sua filha pelo Sr. Bingley e pelas suas irmãs. Um bilhete para a Sra. Phillips, que continha toda esta informação, foi enviado em breve, e a Sra. Phillips, no seu regresso, contou-o ao Sr. Phillips, que o contou a todos os vizinhos.

A notícia de que Mr. Bingley e as suas irmãs estavam muito bem e extremamente amáveis com Jane e que ela própria tinha ficado com a irmã durante toda a noite não tardou a espalhar-se pelo povoado, o que era muito bom para a família.

Meryton não estava longe; assim, três ou quatro senhoras muito elegantes vieram visitá-la antes do meio-dia, e Mr. Bingley, que também tinha estado a pé, recebeu-as com uma civilidade que algumas delas não tinham esperado. Os que eram modestos e estavam habituados à sociedade sentiram-se bastante à vontade com ele; mas as que se achavam muito importantes não o suportaram de todo, porque ele não se vestia com tanta elegância como elas.

Mary ouviu que era costume entre as pessoas elegantes receberem os amigos de manhã, antes de se vestirem para passar o dia; e como isto lhe parecia uma ideia encantadora, preparou-se para fazer uma visita a Netherfield num momento em que pensava que não encontraria ninguém lá, a não ser a família. Estava a executar o seu plano, quando foi interceptada pela chegada de três senhoritas muito finas, para as quais não tinha nada a dizer e que nada tinham a dizer-lhe, e o resultado foi que ela regressou a casa muito mal-humorada.

A tarde trouxe uma segunda visita do Sr. Bingley, trazendo consigo o Sr. Darcy e o Sr. Hurst. Mrs. Bennet, no entanto, encontrou uma desculpa para a sua ausência do intervalo entre as duas visitas, e quando os cavalheiros chegaram, Elizabeth e Jane estavam a sós com ela. Isto deu-lhe uma excelente oportunidade de tagarelar; e foi com grande prazer que ela falou ao Sr. Bingley da sua expectativa de Jane ser em breve instalada em Netherfield.

Foi impossível resisti-lo; e ela não conseguiu deixar de dizer ao Sr. Bingley que admirava a sua escolha; e ele, tão ingenuamente como qualquer outro homem, respondeu com um sorriso sincero à mãe da jovem que ele preferia. O Sr. Darcy sentiu-se indignado; e quando Elizabeth contou-lhe, sem rodeios, que a irmã o estimava muito, ele disse-lhe que ela lhe causava uma dor que ele nunca esqueceria.

"Oh!" disse ela. "Não diga isso ao meu pai. Ele não gosta de ouvir os meus males."

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Encontrei-me muito indisposta esta manhã, o que, suponho, se deve ao facto de me ter molhado até aos ossos ontem. Os meus bondosos amigos não querem ouvir falar do meu regresso a casa até eu estar melhor. Insistem também que eu veja o Sr. Jones — portanto, não se alarme se souber que ele me visitou — e, a não ser uma dor de garganta e uma dor de cabeça, não há muito que se passa comigo.

"De sua, etc."

"Bem, minha querida," disse o Sr. Bennet, depois de Elizabeth ter lido o bilhete em voz alta, "se a sua filha tiver um ataque grave de doença — se ela morrer — seria um conforto saber que foi tudo em perseguição do Sr. Bingley, e por ordem da senhora."

"Oh, não tenho nenhum medo de que ela morra. As pessoas não morrem de simples constipações sem importância. Ela será muito bem tratada. Enquanto ela ficar lá, está tudo muito bem. Eu ia visitá-la se pudesse ter a carruagem."

Elizabeth, sentindo-se verdadeiramente ansiosa, determinou ir ter com ela, embora a carruagem não pudesse ser obtida: e como ela não era amazona, caminhar era a sua única alternativa. Declarou a sua resolução.

"Como pode ser tão tola," gritou a mãe, "a ponto de pensar numa coisa dessas, com toda esta lama! Não estará apresentável quando lá chegar."

"Estarei muito apresentável para ver a Jane — que é tudo o que quero."

"É isto uma indirecta para mim, Lizzy," disse o pai, "para mandar preparar os cavalos?"

"Não, de certeza. Não pretendo evitar a caminhada. A distância não é nada, quando se tem um motivo; são apenas três milhas. Estarei de volta antes do jantar."

"Admiro a actividade da sua benevolência," observou Mary, "mas todo o impulso do sentimento deve ser guiado pela razão; e, na minha opinião, o esforço deve estar sempre na proporção do que é exigido."

"Iremos consigo até Meryton," disseram Catherine e Lydia. Elizabeth aceitou a sua companhia, e as três jovens partiram juntas.

"Se nos apressarmos," disse Lydia, enquanto caminhavam, "talvez possamos ver algo do Capitão Carter, antes que ele parta."

Em Meryton separaram-se: as duas mais novas dirigiram-se ao alojamento de uma das esposas dos oficiais, e Elizabeth continuou a sua caminhada sozinha, atravessando campo após campo a passo rápido, saltando sebes e poças com actividade impaciente, e encontrando-se por fim com a casa à vista, com os tornozelos cansados, as meias sujas e o rosto resplandecente com o calor do exercício.

Foi conduzida à sala de pequeno-almoço, onde todos, excepto Jane, estavam reunidos, e onde a sua aparência causou grande surpresa. Que tivesse caminhado três milhas tão cedo no dia com tão mau tempo, e sozinha, era quase incrível para Mrs. Hurst e Miss Bingley; e Elizabeth estava convencida de que elas a desprezavam por isso. Foi recebida, contudo, com muita polidez por elas; e nas maneiras do irmão havia algo melhor do que polidez — havia bom humor e bondade. O Sr. Darcy disse muito pouco, e o Sr. Hurst nada disse. O primeiro dividia-se entre a admiração do brilho que o exercício dera ao seu rosto e a dúvida quanto a saber se a ocasião justificava que ela viesse sozinha tão longe. O segundo só pensava no seu pequeno-almoço.

Os seus questionamentos sobre a irmã não receberam resposta muito favorável. Miss Bennet tinha dormido mal e, embora levantada, estava muito febril, e não suficientemente bem para sair do quarto. Elizabeth ficou contente por ser levada imediatamente até ela; e Jane, que só fora contida pelo medo de causar alarme ou incómodo, de exprimir no seu bilhete quanto ansiava por tal visita, ficou deliciada com a sua entrada. Não estava, contudo, em estado para muita conversa; e quando Miss Bingley as deixou a sós, só conseguiu tentativas de expressar a sua gratidão pela extraordinária gentileza com que era tratada. Elizabeth assistiu-a em silêncio.

Quando o pequeno-almoço terminou, as irmãs juntaram-se-lhes; e Elizabeth começou a gostar delas por si mesma, quando viu quanto afecto e solicitude mostravam por Jane. O boticário veio; e tendo examinado a paciente, disse, como seria de supor, que ela apanhara uma forte constipação, e que tinham de tentar vencê-la; aconselhou-a a voltar para a cama, e prometeu-lhe algumas beberagens. O conselho foi seguido prontamente, pois os sintomas febris aumentaram, e a cabeça doía-lhe agudamente. Elizabeth não saiu do quarto dela um instante, nem as outras senhoras estiveram ausentes com frequência; estando os cavalheiros fora, elas, na verdade, não tinham nada para fazer em outro lugar.

Quando o relógio bateu as três, Elizabeth sentiu que tinha de ir, e disse-o com muita relutância. Miss Bingley ofereceu-lhe a carruagem, e ela só precisava de um pouco de insistência para a aceitar, quando Jane manifestou tanta pena de se separar dela que Miss Bingley foi obrigada a converter a oferta da sege num convite para permanecer em Netherfield por agora. Elizabeth consentiu com muita gratidão, e um criado foi despachado para Longbourn, para informar a família da sua estadia e trazer uma muda de roupa.

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CAPÍTULO VIII.

Às cinco horas as duas senhoras retiraram-se para se vestirem, e à meia hora depois das seis Elizabeth foi chamada para o jantar. Às perguntas delicadas que então choviam sobre ela, e entre as quais teve o prazer de distinguir a solicitude muito superior do Sr. Bingley, não pôde dar uma resposta muito favorável. Jane não estava de modo algum melhor. As irmãs, ao ouvirem isto, repetiram três ou quatro vezes quanto lamentavam, como era chocante ter uma forte constipação, e como elas excessivamente detestavam estar doentes elas próprias; e depois não pensaram mais no assunto: e a sua indiferença para com Jane, quando não estava imediatamente diante delas, restituiu a Elizabeth o gozo de toda a sua aversão original.

O irmão delas, de facto, era o único do grupo a quem ela podia olhar com alguma complacência. A sua ansiedade por Jane era evidente, e as suas atenções para com ela própria muito agradáveis; e impediam-na de se sentir tão intrusa quanto ela acreditava ser considerada pelos outros. Ela recebeu muito pouca atenção de qualquer outro além dele. Miss Bingley estava absorta pelo Sr. Darcy, a irmã quase tanto; e quanto ao Sr. Hurst, junto de quem Elizabeth se sentou, era um homem indolente, que vivia apenas para comer, beber e jogar às cartas, que, quando a descobriu a preferir um prato simples a um ragu, não teve nada para lhe dizer.

Quando o jantar terminou, ela voltou directamente para Jane, e Miss Bingley começou a criticá-la assim que ela saiu da sala. As suas maneiras foram declaradas serem muito más de facto — uma mistura de orgulho e impertinência: ela não tinha conversa, nem estilo, nem gosto, nem beleza. Mrs. Hurst pensava o mesmo, e acrescentou:—

"Ela nada tem, em suma, para a recomendar, excepto ser uma excelente caminhante. Nunca me esquecerei da aparência dela esta manhã. Ela pareceu quase selvagem."

"Pareceu de facto, Luisa. Mal pude manter a compostura. Absurdo vir sequer! Por que havia ela de andar a correr pelo campo, só porque a irmã estava constipada? O cabelo tão desalinhado, tão revolto!"

"Sim, e a saia; espero que tenham visto a saia dela, com seis polegadas de lama, tenho a certeza absoluta, e o vestido que fora descido para a esconder não cumpria a sua função."

"O vosso retrato pode ser muito exacto, Luisa," disse Bingley; "mas tudo isto se perdeu para mim. Achei que Miss Elizabeth Bennet parecia notavelmente bem quando entrou na sala esta manhã. A saia suja dela passou completamente despercebida."

"O senhor notou-a, Sr. Darcy, tenho a certeza," disse Miss Bingley; "e inclino-me a pensar que não desejaria ver a sua irmã fazer tal espectáculo."

"Certamente não."

"Caminhar três milhas, ou quatro milhas, ou cinco milhas, ou lá quantas sejam, com a lama acima dos tornozelos, e sozinha, completamente sozinha! o que poderia ela querer com isso? Parece-me mostrar uma espécie abominável de presunçosa independência, uma indiferença de cidade provinciana pelo decoro."

"Mostra um afecto pela irmã que é muito agradável," disse Bingley.

"Receio, Sr. Darcy," observou Miss Bingley, num meio sussurro, "que esta aventura tenha afectado um tanto a sua admiração pelos olhos dela."

"De modo algum," respondeu ele: "foram iluminados pelo exercício." Uma breve pausa seguiu-se a esta fala, e Mrs. Hurst recomeçou:—

"Tenho uma estima excessiva por Jane Bennet — ela é realmente uma rapariga muito doce — e desejo com todo o meu coração que ela estivesse bem casada. Mas com tal pai e mãe, e tais relações baixas, receio que não haja qualquer hipótese disso."

"Creio tê-la ouvido dizer que o tio delas é um advogado em Meryton?"

"Sim; e têm outro, que vive algures perto de Cheapside."

"Isso é excelente," acrescentou a irmã; e ambas riram com vontade.

"Se tivessem tios suficientes para encherem todo o Cheapside," gritou Bingley, "isso não as tornaria nem um pouco menos agradáveis."

"Mas deve diminuir materialmente a hipótese delas casarem com homens de alguma consideração no mundo," respondeu Darcy.

A esta fala Bingley não deu resposta; mas as irmãs deram-lhe o seu vivo assentimento, e entregaram-se à sua hilaridade por algum tempo à custa das relações vulgares da sua querida amiga.

Com um renovar de ternura, contudo, foram ter com ela ao saírem da sala de jantar, e ficaram com ela até serem chamadas para o café. Ela continuava muito mal, e Elizabeth não a deixaria de modo algum, até tarde na noite, quando teve o conforto de a ver adormecida, e quando lhe pareceu mais correcto do que agradável descer ela própria. Ao entrar na sala de estar, encontrou todo o grupo a jogar ao luo, e foi imediatamente convidada a juntar-se-lhes; mas, suspeitando que eles jogavam forte, recusou, e tomando a irmã por desculpa, disse que se entreteria, pelo pouco tempo que pudesse estar em baixo, com um livro. O Sr. Hurst olhou para ela com assombro.

"Prefere ler a jogar às cartas?" disse ele; "isso é bastante singular."

"Miss Eliza Bennet," disse Miss Bingley, "despreza as cartas. Ela é uma grande leitora, e não tem prazer em mais nada."

"Não mereço nem tal louvor nem tal censura," exclamou Elizabeth; "não sou uma grande leitora, e tenho prazer em muitas coisas."

"Ao tratar da sua irmã tenho a certeza de que tem prazer," disse Bingley; "e espero que em breve seja aumentado ao vê-la completamente boa."

Elizabeth agradeceu-lhe do fundo do coração, e depois caminhou para uma mesa onde estavam alguns livros. Ele imediatamente ofereceu-se para lhe ir buscar outros; tudo o que a sua biblioteca pudesse proporcionar.

"E desejaria que a minha colecção fosse maior para seu benefício e para meu próprio crédito; mas sou um sujeito preguiçoso; e embora não tenha muitos, tenho mais do que jamais folheei."

Elizabeth assegurou-lhe que se podia arranjar perfeitamente com os que estavam na sala.

"Estou assombrada," disse Miss Bingley, "que o meu pai tenha deixado uma colecção de livros tão pequena. Que biblioteca deliciosa tem em Pemberley, Sr. Darcy!"

"Deveria ser boa," respondeu ele: "foi obra de muitas gerações."

"E depois o senhor mesmo tanto lhe acrescentou — está sempre a comprar livros."

"Não consigo compreender o descuido de uma biblioteca de família em dias como estes."

"Descuido! Tenho a certeza de que não descuida nada que possa acrescentar às belezas desse lugar nobre. Charles, quando construir a sua casa, desejo que seja metade tão deliciosa como Pemberley."

"Desejo que seja."

"Mas eu realmente lhe aconselharia a fazer a sua compra naquela vizinhança, e tomar Pemberley como uma espécie de modelo. Não há condado melhor em Inglaterra do que Derbyshire."

"De todo o coração: comprarei Pemberley, se Darcy o quiser vender."

"Estou a falar de possibilidades, Charles."

"Na verdade, Caroline, acho mais possível obter Pemberley por compra do que por imitação."

Elizabeth ficou tão presa pelo que se passava, que prestou muito pouca atenção ao seu livro; e, pondo-o de lado em breve, aproximou-se da mesa de jogo, e colocou-se entre o Sr. Bingley e a irmã mais velha dele, para observar o jogo.

"A Miss Darcy cresceu muito desde a primavera?" disse Miss Bingley: "será tão alta como eu?"

"Penso que sim. Tem agora a altura de Miss Elizabeth Bennet, ou um pouco mais."

"Como desejo vê-la de novo! Nunca encontrei ninguém que me agradasse tanto. Tal semblante, tais maneiras, e tão extremamente talentosa para a idade dela! A sua performance ao piano é exquisita."

"É para mim espantoso," disse Bingley, "como é que as jovens podem ter paciência para serem tão talentosas como todas são."

"Todas as jovens talentosas! Meu caro Charles, o que quer dizer?"

"Sim, todas elas, penso. Todas pintam mesas, forram biombos e fazem bolsas de rede. Mal conheço alguém que não saiba fazer tudo isto; e tenho a certeza de que nunca ouvi falar de uma jovem pela primeira vez, sem ser informado de que era muito talentosa."

"A sua lista da extensão comum de talentos," disse Darcy, "tem demasiada verdade. A palavra é aplicada a muita mulher que não a merece de outro modo senão por fazer uma bolsa de rede ou forrar um biombo; mas estou muito longe de concordar consigo na sua estimativa das senhoras em geral. Não posso gabar-me de conhecer mais de meia dúzia em todo o círculo das minhas relações que sejam verdadeiramente talentosas."

"Nem eu, de certeza," disse Miss Bingley.

"Então," observou Elizabeth, "deve compreender muito na sua ideia de uma mulher talentosa."

"Sim; compreendo muito nela."

"Oh, certamente," gritou a sua fiel assistente, "ninguém pode ser verdadeiramente estimado como talentoso se não superar grandemente o que normalmente se encontra. Uma mulher deve ter um conhecimento profundo de música, canto, desenho, dança, e línguas modernas, para merecer a palavra; e, além de tudo isto, deve possuir um certo algo no seu ar e modo de andar, o tom da sua voz, a sua abordagem e expressões, ou a palavra será apenas meio merecida."

"Tudo isto ela deve possuir," acrescentou Darcy; "e a tudo deve ainda acrescentar algo mais substancial no melhoramento da sua mente por meio de leitura extensa."

"Já não me surpreendo por conhecer apenas seis mulheres talentosas. Antes me admiro agora de conhecer alguma."

"É tão severa para com o seu sexo que duvida da possibilidade de tudo isto?"

"Nunca vi tal mulher. Nunca vi tal capacidade, e gosto, e aplicação, e elegância, como descreve, reunidas."

Mrs. Hurst e Miss Bingley clamaram contra a injustiça da dúvida implícita dela, e ambas protestavam que conheciam muitas mulheres que correspondiam a esta descrição, quando o Sr. Hurst as chamou à ordem, com queixas amargas da sua desatenção ao que se passava. Como toda a conversa assim terminou, Elizabeth pouco depois saiu da sala.

"Eliza Bennet," disse Miss Bingley, quando a porta se fechou sobre ela, "é uma daquelas jovens que procuram recomendar-se ao outro sexo depreciando o seu; e com muitos homens, atrevo-me a dizer, consegue; mas, na minha opinião, é um artifício miserável, uma arte muito baixa."

"Indubitavelmente," respondeu Darcy, a quem esta observação era sobretudo dirigida, "há baixeza em todas as artes que as senhoras por vezes condescendem a empregar para cativar. Tudo o que tem afinidade com astúcia é desprezível."

Miss Bingley não ficou tão inteiramente satisfeita com esta resposta que continuasse o assunto.

Elizabeth juntou-se-lhes de novo apenas para dizer que a irmã estava pior, e que não a podia deixar. Bingley instou para que o Sr. Jones fosse mandado chamar imediatamente; enquanto as irmãs, convencidas de que nenhum conselho rural poderia servir de nada, recomendaram um expresso à cidade para um dos médicos mais eminentes. Ela não quis ouvir falar disso; mas não estava tão pouco disposta a concordar com a proposta do irmão; e ficou resolvido que o Sr. Jones seria mandado chamar cedo na manhã, se Miss Bennet não estivesse decididamente melhor. Bingley estava bastante desconfortável; as irmãs declararam que estavam miseráveis. Consoaram, contudo, a sua desgraça com duetos depois do jantar; enquanto ele não encontrava melhor alívio para os seus sentimentos do que dar instruções à governanta para que toda a atenção possível fosse prestada à senhora doente e à sua irmã.

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CAPÍTULO IX.

Elizabeth passou a maior parte da noite no quarto da irmã, e de manhã teve o prazer de poder enviar uma resposta tolerável aos questionamentos que recebeu muito cedo do Sr. Bingley por uma criada, e algum tempo depois das duas elegantes senhoras que aguardavam as suas irmãs. Apesar desta melhoria, contudo, pediu que fosse enviada uma nota a Longbourn, desejando que a mãe visitasse Jane e formasse o seu próprio julgamento da situação dela. A nota foi imediatamente despachada, e o seu conteúdo tão prontamente atendido. Mrs. Bennet, acompanhada pelas suas duas filhas mais novas, chegou a Netherfield pouco depois do pequeno-almoço da família.

Se tivesse encontrado Jane em qualquer perigo aparente, Mrs. Bennet teria ficado muito infeliz; mas, ficando satisfeita ao vê-la de que a doença não era alarmante, não tinha desejo de que ela recuperasse imediatamente, pois a sua restauração à saúde provavelmente a removeria de Netherfield. Não quis ouvir, portanto, a proposta da filha de ser levada para casa; nem o boticário, que chegou quase ao mesmo tempo, o considerou de todo aconselhável. Depois de estar sentada um pouco com Jane, ao aparecimento e convite de Miss Bingley, a mãe e três filhas acompanharam-na até à sala de pequeno-almoço. Bingley encontrou-as com a esperança de que Mrs. Bennet não tivesse encontrado Miss Bennet pior do que esperava.

"De facto encontrei, senhor," foi a resposta dela. "Ela está muito doente para ser mudada. O Sr. Jones diz que não podemos pensar em mudá-la. Temos de importunar um pouco mais a sua gentileza."

"Mudá-la!" exclamou Bingley. "Não se pode pensar nisso. A minha irmã, tenho a certeza, não ouvirá falar da mudança dela."

"Pode confiar, minha senhora," disse Miss Bingley, com fria cortesia, "que Miss Bennet receberá toda a atenção possível enquanto permanecer connosco."

Mrs. Bennet foi pródiga nos seus agradecimentos.

"Tenho a certeza," acrescentou ela, "se não fosse por tão bons amigos, não sei o que seria dela, pois ela está muito doente de facto, e sofre muito, embora com a maior paciência do mundo, que é sempre o seu modo, pois ela tem, sem excepção, o temperamento mais doce que jamais encontrei. Digo muitas vezes às minhas outras filhas que elas não são nada em comparação com ela. Tem um quarto muito agradável aqui, Sr. Bingley, e uma vista encantadora sobre aquele passeio de cascalho. Não conheço um lugar no campo que se iguale a Netherfield. Não pensará em abandoná-lo à pressa, espero, embora tenha apenas um curto arrendamento."

"Tudo o que faço é feito à pressa," respondeu ele; "e portanto, se eu resolvesse abandonar Netherfield, provavelmente partiria em cinco minutos. No presente, contudo, considero-me bastante fixo aqui."

"Isso é exactamente o que eu deveria ter suposto de si," disse Elizabeth.

"Está a começar a compreender-me, então?" exclamou ele, virando-se para ela.

"Oh, sim — compreendo-o perfeitamente."

"Desejaria poder tomar isto como um elogio; mas ser tão facilmente perscrutado, receio, é lamentável."

"Isso é conforme o caso. Não se segue necessariamente que um carácter profundo e intricado seja mais ou menos estimável do que um como o seu."

"Lizzy," gritou a mãe, "lembra-te onde estás, e não continues nesse modo selvagem que te permitem ter em casa."

"Eu não sabia antes," continuou Bingley, imediatamente, "que era uma estudiosa de caracteres. Deve ser um estudo divertido."

"Sim; mas os caracteres intricados são os mais divertidos. Têm ao menos essa vantagem."

"O campo," disse Darcy, "em geral, pode fornecer poucos assuntos para tal estudo. Numa vizinhança rural move-se numa sociedade muito confinada e invariável."

"Mas as pessoas em si alteram-se tanto, que há sempre algo novo para observar nelas."

"Sim, de facto," exclamou Mrs. Bennet, ofendida pelo seu modo de mencionar uma vizinhança rural. "Asseguro-lhe que há tanto disso a acontecer no campo como na cidade."

Todos ficaram surpreendidos; e Darcy, depois de a olhar por um momento, virou-se em silêncio. Mrs. Bennet, que imaginava ter obtido uma vitória completa sobre ele, continuou o seu triunfo,--

"Não vejo, pelo que me toca, que Londres tenha grande vantagem sobre o campo, excepto as lojas e os lugares públicos. O campo é muito mais agradável, não é, Mr. Bingley?"

"Quando estou no campo," respondeu ele, "nunca desejo deixá-lo; e quando estou na cidade, é quase a mesma coisa. Cada um tem as suas vantagens, e posso ser igualmente feliz em qualquer dos dois."

"Ah, isso é porque tem a boa disposição. Mas aquele cavalheiro," olhando para Darcy, "parecia achar que o campo não era nada."

"De facto, mamã, está enganada," disse Elizabeth, corando por causa da mãe. "Interpretou mal Mr. Darcy. Ele apenas quis dizer que não havia tanta variedade de pessoas para encontrar no campo como na cidade, o que tem de reconhecer ser verdade."

"Certamente, minha querida, ninguém disse que houvesse; mas quanto a não se encontrar muita gente nesta vizinhança, creio que há poucas vizinhanças maiores. Sei que jantamos com vinte e quatro famílias."

Só a preocupação com Elizabeth podia permitir a Bingley manter o semblante. A irmã era menos delicada, e dirigiu o olhar para Mr. Darcy com um sorriso muito expressivo. Elizabeth, para dizer alguma coisa que pudesse desviar os pensamentos da mãe, perguntou-lhe então se Charlotte Lucas estivera em Longbourn desde a sua partida.

"Sim, veio ontem com o pai. Que homem tão agradável Sir William, Mr. Bingley--não é?; tão homem da moda! tão distinto e tão afável! Tem sempre alguma coisa para dizer a toda a gente. É essa a minha ideia de boa educação; e aquelas pessoas que se julgam muito importantes e nunca abrem a boca erram completamente o assunto."

"Charlotte jantou consigo?"

"Não, quis voltar para casa. Imagino que a chamassem para as empadas. Pelo que me toca, Mr. Bingley, só mantenho criados que sabem fazer o seu trabalho; as minhas filhas foram educadas de outra maneira. Mas cada qual que julgue por si, e as Lucas são óptimas raparigas, asseguro-lhe. É pena não serem bonitas! Não que eu ache Charlotte assim tão feia; mas depois é nossa amiga particular."

"Parece uma jovem muito agradável," disse Bingley.

"Oh, dear, sim; mas tem de reconhecer que é muito feia. Lady Lucas em pessoa o disse muitas vezes, e tinha inveja da beleza de Jane. Não me gabo das minhas próprias filhas; mas, na verdade, Jane--raramente se vê alguém de melhor aparência. É o que toda a gente diz. Não confio na minha parcialidade. Quando ela tinha apenas quinze anos, houve um cavalheiro em casa do meu irmão Gardiner na cidade tão apaixonado por ela, que a minha cunhada tinha a certeza de que lhe faria uma proposta antes de partirmos. Mas, enfim, não fez. Talvez a achasse demasiado nova. Contudo, escreveu-lhe uns versos, e muito bonitos que eram."

"E assim terminou a sua afeição," disse Elizabeth, impacientemente. "Tenho para mim que houve muitos assim vencidos do mesmo modo. Quem terá sido o primeiro a descobrir a eficácia da poesia para afugentar o amor!"

"Tenho por costume considerar a poesia como o alimento do amor," disse Darcy.

"De um amor fino, robusto e saudável, talvez. Tudo alimenta o que já é forte. Mas se for apenas uma inclinação ligeira e magra, estou convencida de que um bom soneto a matará de fome inteiramente."

Darcy limitou-se a sorrir; e a pausa geral que se seguiu fez Elizabeth tremer que a mãe se estivesse a expor de novo. Desejava falar, mas não lhe ocorria nada para dizer; e após um breve silêncio Mrs. Bennet começou a reiterar os seus agradecimentos a Mr. Bingley pela sua amabilidade para com Jane, pedindo desculpa por o incomodar também com Lizzy. Mr. Bingley foi sinceramente cortês na sua resposta, e forçou a irmã mais nova a sê-lo também, e a dizer o que a ocasião exigia. Ela cumpriu o seu papel, na verdade, sem grande graça, mas Mrs. Bennet ficou satisfeita, e pouco depois mandou vir a carruagem. A este sinal, a mais nova das suas filhas adiantou-se. As duas raparigas tinham estado a cochichar uma com a outra durante toda a visita; e o resultado foi que a mais nova havia de cobrar a Mr. Bingley a promessa que fizera ao chegar ao campo de dar um baile em Netherfield.

Lydia era uma rapariga robusta e bem crescida de quinze anos, com belo tez e semblante bem humorado; predilecta da mãe, cuja afeição a lançara em público desde muito cedo. Tinha grande vitalidade e uma certa importância natural de si mesma, que as atenções dos oficiais, a quem os bons jantares do tio e as suas próprias maneiras fáceis a recomendavam, haviam transformado em segurança. Estava, portanto, perfeitamente à altura de se dirigir a Mr. Bingley acerca do baile, e bruscamente lhe recordou a promessa; acrescentando que seria a coisa mais vergonhosa do mundo se ele não a cumprisse. A resposta dele a este ataque súbito foi deleitosa para os ouvidos da mãe.

"Estou perfeitamente pronto, asseguro-lhe, a cumprir o meu compromisso; e, quando a sua irmã estiver restabelecida, poderá, se lhe aprouver, marcar o próprio dia do baile. Mas não quereria dançar enquanto ela está doente, não é verdade?"

Lydia declarou-se satisfeita. "Oh, sim--seria muito melhor esperar que Jane estivesse boa; e nessa altura, muito provavelmente, o Captain Carter estará de novo em Meryton. E quando der o seu baile," acrescentou, "hei de insistir para que eles dêem outro também. Hei de dizer ao Colonel Forster que seria uma vergonha se não o fizesse."

Mrs. Bennet e as filhas partiram então, e Elizabeth voltou imediatamente para junto de Jane, deixando o seu próprio comportamento e o dos seus parentes aos comentários das duas senhoras e de Mr. Darcy; o qual, todavia, não se deixou arrastar para a sua censura, apesar de todos os gracejos de Miss Bingley acerca de belos olhos.

CAPÍTULO X.

O dia passou quase como o anterior. Mrs. Hurst e Miss Bingley haviam passado algumas horas da manhã com a doente, que continuava, ainda que lentamente, a melhorar; e, à noite, Elizabeth juntou-se à companhia na sala de estar. A mesa de lucco, porém, não apareceu. Mr. Darcy estava a escrever, e Miss Bingley, sentada perto dele, acompanhava o progresso da sua carta, e repetidamente lhe desviava a atenção com recados para a irmã. Mr. Hurst e Mr. Bingley estavam ao piquet, e Mrs. Hurst observava o jogo deles.

Elizabeth pegou num trabalho de agulha, e ocupou-se o suficiente em atender ao que se passava entre Darcy e a sua companheira. Os elogios permanentes da dama, quer à letra dele, quer à regularidade dos seus traços, quer ao comprimento da sua carta, aliados à perfeita indiferença com que os louvores eram recebidos, formavam um diálogo singular, e estavam inteiramente de acordo com a sua opinião de cada um.

"Que deliciada Miss Darcy ficará ao receber semelhante carta!"

Ele não respondeu.

"Escreve invulgarmente depressa."

"Está enganada. Escrevo antes devagar."

"Quantas cartas não terá de escrever no decurso de um ano! Cartas de negócios, ainda por cima! Quão odiosas não me pareceriam!"

"É feliz, então, que me calhem a mim em vez de a si."

"Peça à sua irmã que diga que anseio por vê-la."

"Já lho transmiti uma vez, a seu pedido."

"Temo que não goste da sua pena. Deixe-me consertá-la. Conserto penas extremamente bem."

"Obrigado--mas eu sempre arranjo as minhas."

"Como consegue escrever tão uniformemente?"

Ele calou-se.

"Diga à sua irmã que fiquei encantada de saber do seu progresso na harpa, e queira-lhe dizer que estou completamente extasiada com o seu belíssimo desenho para uma mesa, e acho-o infinitamente superior ao de Miss Grantley."

"Dá-me licença de adiar os seus êxtases até eu escrever de novo? No momento não tenho espaço para lhes fazer justiça."

"Oh, não tem importância. Hei de vê-la em Janeiro. Mas escreve sempre cartas tão charmosamente longas para ela, Mr. Darcy?"

"São geralmente longas; mas se são sempre charmosas, não me cabe a mim decidir."

"É uma regra minha, que uma pessoa que consegue escrever uma carta longa com facilidade não pode escrever mal."

"Isso não serve de elogio a Darcy, Caroline," exclamou o irmão, "porque ele não escreve com facilidade. Estuda demasiado as palavras de quatro sílabas. Não é verdade, Darcy?"

"O meu estilo de escrever é muito diferente do teu."

"Oh," exclamou Miss Bingley, "Charles escreve do modo mais descuidado que se possa imaginar. Salta metade das palavras e borrata o resto."

"As minhas ideias fluem tão depressa que não tenho tempo para as exprimir; razão pela qual as minhas cartas por vezes não transmitem ideia alguma aos meus correspondentes."

"A sua modéstia, Mr. Bingley," disse Elizabeth, "há de desarmar a censura."

"Nada é mais enganador," disse Darcy, "do que a aparência de modéstia. É frequentemente apenas descuido de opinião, e por vezes um gabarolismo indirecto."

"E a qual dos dois chama o meu pequeno recentearranque de modéstia?"

"O gabarolismo indirecto; porque o senhor, no fundo, tem orgulho dos seus defeitos ao escrever, porque os considera decorrentes de rapidez de pensamento e descuido de execução, o que, se nem estimável, ao menos julga muito interessante. O poder de fazer qualquer coisa com presteza é sempre muito apreciado por quem o possui, e muitas vezes sem atenção alguma para a imperfeição da execução. Quando disse esta manhã a Mrs. Bennet que, se alguma vez resolvesse deixar Netherfield, partiria em cinco minutos, pretendeu fazer uma espécie de panegírico, um elogio a si próprio; e contudo, o que há de tão louvável numa precipitação que há de deixar por fazer tarefas muito necessárias e não pode trazer vantagem real nem a si nem a mais ninguém?"

"Qual qual," exclamou Bingley, "é demais, lembrar à noite todas as tolices que se disseram de manhã. E contudo, palavra de honra, acreditava ser verdade o que disse de mim próprio, e ainda agora o creio. Pelo menos, portanto, não assumi o carácter de precipitação gratuita só para me exibir diante das senhoras."

"Atrevo-me a dizer que acreditava; mas não estou de modo algum convencido de que partiria com tal celeridade. A sua conduta seria tão dependente do acaso como a de qualquer homem que eu conheça; e se, ao montar a cavalo, um amigo lhe dissesse, 'Bingley, é melhor ficar até à semana que vem', provavelmente fá-lo-ia--provavelmente não partiria--e, a outra palavra, talvez ficasse um mês."

"O senhor apenas provou com isto," exclamou Elizabeth, "que Mr. Bingley não fez justiça ao seu próprio carácter. Mostrou-o agora muito mais do que ele se mostrou a si."

"Estou extremamente grato," disse Bingley, "por estar a converter o que o meu amigo diz num elogio à doçura do meu temperamento. Mas temo que lhe esteja a dar um sentido que esse cavalheiro de modo nenhum pretendeu; pois ele certamente pensaria melhor de mim se, em tal circunstância, eu desse um rotundo não e partisse a galope o mais depressa possível."

"Mr. Darcy consideraria então a temeridade da sua intenção original como expiada pela sua obstinação em mantê-la?"

"Palavra, não sei explicar exactamente o assunto--Darcy que fale por si."

"Espera que eu dê conta de opiniões que escolhe chamar minhas, mas que nunca reconheci. Admitindo, porém, o caso como o apresenta, deve lembrar-se, Miss Bennet, que o amigo que se supõe desejar o regresso dele a casa, e o adiamento do seu plano, apenas o desejou, pediu-o sem oferecer um único argumento a favor da sua conveniência."

"Ceder com facilidade--com ligeireza--à persuasão de um amigo não é mérito para si."

"Ceder sem convicção não é elogio para o entendimento de nenhum dos dois."

"Parece-me, Mr. Darcy, que não concede nada à influência da amizade e da afeição. Uma consideração pelo requerente levar-nos-ia muitas vezes a ceder de boa vontade a um pedido, sem esperar por argumentos que nos convençam. Não estou a falar particularmente de um caso como o que supôs acerca de Mr. Bingley. Talvez seja melhor esperar, efectivamente, que a circunstância ocorra, antes de discutirmos a prudência do seu comportamento nisso. Mas em casos gerais e vulgares, entre amigos, em que um deles é instado pelo outro a mudar uma resolução de importância não muito grande, acharia mal dela pessoa por condescender com o desejo, sem esperar que a convençam?"

"Não será aconselhável, antes de prosseguirmos neste assunto, estabelecermos com um pouco mais de precisão o grau de importância que há-de atribuir-se a este pedido, bem como o grau de intimidade existente entre as partes?"

"Muitíssimo," exclamou Bingley; "ouçamos todos os pormenores, sem esquecer a altura e tamanho respectivos, pois isso terá mais peso no argumento, Miss Bennet, do que talvez julgue. Asseguro-lhe que, se Darcy não fosse tão grande e tão alto em comparação comigo, não lhe tributaria metade da deferência. Declaro que não conheço objecto mais imponente do que Darcy em certas ocasiões, e em certos lugares; na casa dele sobretudo, e ao domingo à noite, quando não tem nada que fazer."

Mr. Darcy sorriu; mas Elizabeth julgou perceber que ele estava antes ofendido, e por isso reprimiu o riso. Miss Bingley resentiu-se vivamente da indignidade que ele sofrera, admoestando o irmão por dizer tais disparate.

"Vejo a sua intenção, Bingley," disse o amigo. "Não gosta de uma argumentação, e quer silenciar esta."

"Talvez goste, de facto. As argumentações são demasiado parecidas com disputas. Se o senhor e Miss Bennet quiserem adiar a sua até eu sair do quarto, ficar-lhe-ei muito grato; e então podem dizer de mim o que quiserem."

"O que pede," disse Elizabeth, "não é sacrifício da minha parte; e Mr. Darcy fará muito melhor em acabar a sua carta."

Mr. Darcy aceitou o conselho, e acabou a carta.

Concluída essa tarefa, pediu a Miss Bingley e a Elizabeth a indulgência de alguma música. Miss Bingley deslocou-se com presteza para o piano, e depois de um pedido cortês de que Elizabeth tomasse a dianteira, o que a outra tão cortês e ainda mais encarecidamente recusou, sentou-se.

Mrs. Hurst cantou com a irmã; e, enquanto assim se ocupavam, Elizabeth não pôde deixar de observar, ao folhear alguns livros de música pousados no instrumento, quantas vezes os olhos de Mr. Darcy se fixavam nela. Mal sabia como supor que pudesse ser objecto de admiração para um homem tão importante, e contudo que ele a olhasse porque a desprezava era ainda mais estranho. Só podia imaginar, por fim, que ele lhe dedicava atenção porque havia nela algo de mais errado e censurável, segundo as suas ideias do que é correcto, do que em qualquer outra pessoa presente. A suposição não a magoou. Gostava demasiado pouco dele para se importar com a sua aprovação.

Depois de tocar algumas canções italianas, Miss Bingley variou o encanto com uma alegre ária escocesa; e pouco depois Mr. Darcy, aproximando-se de Elizabeth, disse-lhe,--

"Não sente uma grande inclinação, Miss Bennet, para aproveitar tal oportunidade de dançar uma contradança escocesa?"

Ela sorriu, mas não respondeu. Ele repetiu a pergunta, com alguma surpresa ante o silêncio dela.

"Oh," disse ela, "ouvi-o antes; mas não pude decidir logo o que responder. O senhor queria, sei eu, que eu dissesse 'Sim', para ter o prazer de desprezar o meu gosto; mas eu sempre me deleito em derrubar essas espécies de esquemas, e defraudar uma pessoa do seu desprezo premeditado. Resolvi, portanto, dizer-lhe que não quero dançar uma contradança de modo algum; e agora despreze-me, se se atreve."

"De facto não me atrevo."

Elizabeth, que antes esperava afrontá-lo, ficou espantada com a galanteria dele; mas havia na sua maneira uma mistura de doçura e de malícia que lhe tornava difícil afrontar quem quer que fosse, e Darcy nunca fora tão enfeitiçado por nenhuma mulher como o era por ela. Acreditava sinceramente que, não fosse a inferioridade das suas ligações, estaria em certo perigo.

Miss Bingley viu, ou suspeitou, o bastante para ficar ciumenta; e a sua grande ansiedade pela recuperação da sua querida amiga Jane recebeu algum auxílio do desejo de se ver livre de Elizabeth.

Tentava frequentemente provocar Darcy a desagradar a sua hóspede, falando do suposto casamento de ambos, e planeando a felicidade dele em tal aliança.

"Espero," disse ela, ao passearem juntos no arbusto no dia seguinte, "que dê à sua sogra algumas sugestões, quando esse desejável acontecimento se realizar, acerca da vantagem de estar calada; e, se o conseguir, que cure as mais novas de andarem atrás dos oficiais. E, se posso mencionar assunto tão delicado, procure reprimir aquele pequeno algo, beirando a presunção e a impertinência, que a sua senhora possui."

"Tem mais alguma coisa a propor para a minha felicidade doméstica?"

"Oh, sim. Deixe que os retratos do seu tio e da tia Philips sejam colocados na galeria de Pemberley. Ponha-os ao lado do seu tio-avô o juiz. Estão na mesma profissão, como sabe, apenas em diferentes ramos. Quanto ao retrato da sua Elizabeth, não tente fazê-lo, porque que pintor poderia fazer justiça a esses belos olhos?"

"Não seria fácil, de facto, captar a sua expressão; mas a cor e a forma, e as pestanas, tão notavelmente finas, poderiam ser copiadas."

Nesse momento foram encontrados, vindos de outro passeio, por Mrs. Hurst e pela própria Elizabeth.

"Não sabia que tencionavam passear," disse Miss Bingley, algo atrapalhada, temendo que tivessem sido ouvidas.

"Portaram-se de modo abominável connosco," respondeu Mrs. Hurst, "indo-se embora sem nos dizerem que saíam."

Tomando então o braço livre de Mr. Darcy, deixou Elizabeth a caminhar sozinha. O caminho apenas dava para três. Mr. Darcy sentiu a grosseria delas, e imediatamente disse,--

"Este passeio não é largo bastante para a nossa companhia. Será melhor irmos pela aleia."

Mas Elizabeth, que não tinha a mínima inclinação para ficar com eles, respondeu rindo,--

"Não, não; fiquem onde estão. Estão agrupados de modo encantador, e ficam em vantagem invulgar. O pitoresco ficaria estragado com a admissão de um quarto. Adeus."

Afastou-se então alegremente, rejubilando, enquanto vagueava, com a esperança de estar de volta a casa dentro de um dia ou dois. Jane já estava tão restabelecida que tencionava sair do quarto por um par de horas naquela tarde.

CAPÍTULO XI.

Quando as senhoras se retiraram depois do jantar, Elizabeth correu ao quarto da irmã e, vendo-a bem resguardada do frio, acompanhou-a à sala de estar, onde foi acolhida pelas duas amigas com muitas demonstrações de prazer; e Elizabeth nunca as vira tão amáveis como estavam durante a hora que passou antes de os cavalheiros aparecerem. As suas capacidades de conversa eram consideráveis. Sabiam descrever uma festa com exactidão, contar uma anedota com humor, e rir dos conhecidos com espírito.

Mas quando os cavalheiros entraram, Jane deixou de ser o primeiro objecto; os olhos de Miss Bingley voltaram-se instantaneamente para Darcy, e ela tinha qualquer coisa para lhe dizer antes de ele ter avançado muitos passos. Ele dirigiu-se directamente a Miss Bennet com uma polida felicitação; Mr. Hurst fez-lhe também uma ligeira reverência, e disse estar "muito contente"; mas a expansividade e o calor ficaram reservados para a saudação de Bingley. Ele estava cheio de alegria e atenções. A primeira meia hora passou-se a avivar a lareira, para que ela não sofresse com a mudança de sala; e ela mudou-se, a pedido dele, para o outro lado da chaminé, a fim de ficar mais afastada da porta. Sentou-se então junto dela, e mal falou com mais alguém. Elizabeth, a trabalhar no canto oposto, observava tudo com grande deleite.

When tea was over Mr. Hurst reminded his sister-in-law of the card-table—but in vain. She had obtained private intelligence that Mr. Darcy did not wish for cards, and Mr. Hurst soon found even his open petition rejected. She assured him that no one intended to play, and the silence of the whole party on the subject seemed to justify her. Mr. Hurst had, therefore, nothing to do but to stretch himself on one of the sofas and go to sleep. Darcy took up a book. Miss Bingley did the same; and Mrs. Hurst, principally occupied in playing with her bracelets and rings, joined now and then in her brother's conversation with Miss Bennet.

Miss Bingley's attention was quite as much engaged in watching Mr. Darcy's progress through his book, as in reading her own; and she was perpetually either making some inquiry, or looking at his page. She could not win him, however, to any conversation; he merely answered her question and read on. At length, quite exhausted by the attempt to be amused with her own book, which she had only chosen because it was the second volume of his, she gave a great yawn and said, "How pleasant it is to spend an evening in this way! I declare, after all, there is no enjoyment like reading! How much sooner one tires of anything than of a book! When I have a house of my own, I shall be miserable if I have not an excellent library."

No one made any reply. She then yawned again, threw aside her book, and cast her eyes round the room in quest of some amusement; when, hearing her brother mentioning a ball to Miss Bennet, she turned suddenly towards him and said,—

"By the bye Charles, are you really serious in meditating a dance at Netherfield? I would advise you, before you determine on it, to consult the wishes of the present party; I am much mistaken if there are not some among us to whom a ball would be rather a punishment than a pleasure."

"If you mean Darcy," cried her brother, "he may go to bed, if he chooses, before it begins; but as for the ball, it is quite a settled thing, and as soon as Nicholls has made white soup enough I shall send round my cards."

"I should like balls infinitely better," she replied, "if they were carried on in a different manner; but there is something insufferably tedious in the usual process of such a meeting. It would surely be much more rational if conversation instead of dancing made the order of the day."

"Much more rational, my dear Caroline, I dare say; but it would not be near so much like a ball."

Miss Bingley made no answer, and soon afterwards got up and walked about the room. Her figure was elegant, and she walked well; but Darcy, at whom it was all aimed, was still inflexibly studious. In the desperation of her feelings, she resolved on one effort more; and, turning to Elizabeth, said,—

"Miss Eliza Bennet, let me persuade you to follow my example, and take a turn about the room. I assure you it is very refreshing after sitting so long in one attitude."

Elizabeth was surprised, but agreed to it immediately. Miss Bingley succeeded no less in the real object of her civility: Mr. Darcy looked up. He was as much awake to the novelty of attention in that quarter as Elizabeth herself could be, and unconsciously closed his book. He was directly invited to join their party, but he declined it, observing that he could imagine but two motives for their choosing to walk up and down the room together, with either of which motives his joining them would interfere. What could he mean? She was dying to know what could be his meaning—and asked Elizabeth whether she could at all understand him.

"Not at all," was her answer; "but, depend upon it, he means to be severe on us, and our surest way of disappointing him will be to ask nothing about it."

Miss Bingley, however, was incapable of disappointing Mr. Darcy in anything, and persevered, therefore, in requiring an explanation of his two motives.

"I have not the smallest objection to explaining them," said he, as soon as she allowed him to speak. "You either choose this method of passing the evening because you are in each other's confidence, and have secret affairs to discuss, or because you are conscious that your figures appear to the greatest advantage in walking: if the first, I should be completely in your way; and if the second, I can admire you much better as I sit by the fire."

"Oh, shocking!" cried Miss Bingley. "I never heard anything so abominable. How shall we punish him for such a speech?"

"Nothing so easy, if you have but the inclination," said Elizabeth. "We can all plague and punish one another. Tease him—laugh at him. Intimate as you are, you must know how it is to be done."

"But upon my honour I do not. I do assure you that my intimacy has not yet taught me that. Tease calmness of temper and presence of mind! No, no; I feel he may defy us there. And as to laughter, we will not expose ourselves, if you please, by attempting to laugh without a subject. Mr. Darcy may hug himself."

"Mr. Darcy is not to be laughed at!" cried Elizabeth. "That is an uncommon advantage, and uncommon I hope it will continue, for it would be a great loss to me to have many such acquaintance. I dearly love a laugh."

"Miss Bingley," said he, "has given me credit for more than can be. The wisest and best of men,—nay, the wisest and best of their actions,—may be rendered ridiculous by a person whose first object in life is a joke."

"Certainly," replied Elizabeth, "there are such people, but I hope I am not one of them. I hope I never ridicule what is wise or good. Follies and nonsense, whims and inconsistencies, do divert me, I own, and I laugh at them whenever I can. But these, I suppose, are precisely what you are without."

"Perhaps that is not possible for anyone. But it has been the study of my life to avoid those weaknesses which often expose a strong understanding to ridicule."

"Such as vanity and pride."

"Yes, vanity is a weakness indeed. But pride—where there is a real superiority of mind—pride will be always under good regulation."

Elizabeth turned away to hide a smile.

"Your examination of Mr. Darcy is over, I presume," said Miss Bingley; "and pray what is the result?"

"I am perfectly convinced by it that Mr. Darcy has no defect. He owns it himself without disguise."

"No," said Darcy, "I have made no such pretension. I have faults enough, but they are not, I hope, of understanding. My temper I dare not vouch for. It is, I believe, too little yielding; certainly too little for the convenience of the world. I cannot forget the follies and vices of others so soon as I ought, nor their offences against myself. My feelings are not puffed about with every attempt to move them. My temper would perhaps be called resentful. My good opinion once lost is lost for ever."

"That is a failing, indeed!" cried Elizabeth. "Implacable resentment is a shade in a character. But you have chosen your fault well. I really cannot laugh at it. You are safe from me."

"There is, I believe, in every disposition a tendency to some particular evil, a natural defect, which not even the best education can overcome."

"And your defect is a propensity to hate everybody."

"And yours," he replied, with a smile, "is wilfully to misunderstand them."

"Do let us have a little music," cried Miss Bingley, tired of a conversation in which she had no share. "Louisa, you will not mind my waking Mr. Hurst."

Her sister made not the smallest objection, and the pianoforte was opened; and Darcy, after a few moments' recollection, was not sorry for it. He began to feel the danger of paying Elizabeth too much attention.

CHAPTER XII.

In consequence of an agreement between the sisters, Elizabeth wrote the next morning to her mother, to beg that the carriage might be sent for them in the course of the day. But Mrs. Bennet, who had calculated on her daughters remaining at Netherfield till the following Tuesday, which would exactly finish Jane's week, could not bring herself to receive them with pleasure before. Her answer, therefore, was not propitious, at least not to Elizabeth's wishes, for she was impatient to get home. Mrs. Bennet sent them word that they could not possibly have the carriage before Tuesday; and in her postscript it was added, that if Mr. Bingley and his sister pressed them to stay longer, she could spare them very well. Against staying longer, however, Elizabeth was positively resolved—nor did she much expect it would be asked; and fearful, on the contrary, of being considered as intruding themselves needlessly long, she urged Jane to borrow Mr. Bingley's carriage immediately, and at length it was settled that their original design of leaving Netherfield that morning should be mentioned, and the request made.

The communication excited many professions of concern; and enough was said of wishing them to stay at least till the following day to work on Jane; and till the morrow their going was deferred. Miss Bingley was then sorry that she had proposed the delay; for her jealousy and dislike of one sister much exceeded her affection for the other.

The master of the house heard with real sorrow that they were to go so soon, and repeatedly tried to persuade Miss Bennet that it would not be safe for her—that she was not enough recovered; but Jane was firm where she felt herself to be right.

To Mr. Darcy it was welcome intelligence: Elizabeth had been at Netherfield long enough. She attracted him more than he liked; and Miss Bingley was uncivil to her and more teasing than usual to himself. He wisely resolved to be particularly careful that no sign of admiration should now escape him—nothing that could elevate her with the hope of influencing his felicity; sensible that, if such an idea had been suggested, his behaviour during the last day must have material weight in confirming or crushing it. Steady to his purpose, he scarcely spoke ten words to her through the whole of Saturday: and though they were at one time left by themselves for half an hour, he adhered most conscientiously to his book, and would not even look at her.

On Sunday, after morning service, the separation, so agreeable to almost all, took place. Miss Bingley's civility to Elizabeth increased at last very rapidly, as well as her affection for Jane; and when they parted, after assuring the latter of the pleasure it would always give her to see her either at Longbourn or Netherfield, and embracing her most tenderly, she even shook hands with the former. Elizabeth took leave of the whole party in the liveliest spirits.

They were not welcomed home very cordially by their mother. Mrs. Bennet wondered at their coming, and thought them very wrong to give so much trouble, and was sure Jane would have caught cold again. But their father, though very laconic in his expressions of pleasure, was really glad to see them; he had felt their importance in the family circle. The evening conversation, when they were all assembled, had lost much of its animation, and almost all its sense, by the absence of Jane and Elizabeth.

They found Mary, as usual, deep in the study of thorough bass and human nature; and had some new extracts to admire and some new observations of threadbare morality to listen to. Catherine and Lydia had information for them of a different sort. Much had been done, and much had been said in the regiment since the preceding Wednesday; several of the officers had dined lately with their uncle; a private had been flogged; and it had actually been hinted that Colonel Forster was going to be married.

CHAPTER XIII

"I hope, my dear," said Mr. Bennet to his wife, as they were at breakfast the next morning, "that you have ordered a good dinner to-day, because I have reason to expect an addition to our family party."

"Who do you mean, my dear? I know of nobody that is coming, I am sure, unless Charlotte Lucas should happen to call in; and I hope my dinners are good enough for her. I do not believe she often sees such at home."

"The person of whom I speak is a gentleman and a stranger."

Mrs. Bennet's eyes sparkled. "A gentleman and a stranger! It is Mr. Bingley, I am sure. Why, Jane—you never dropped a word of this—you sly thing! Well, I am sure I shall be extremely glad to see Mr. Bingley. But—good Lord! how unlucky! there is not a bit of fish to be got to-day. Lydia, my love, ring the bell. I must speak to Hill this moment."

"It is not Mr. Bingley," said her husband; "it is a person whom I never saw in the whole course of my life."

This roused a general astonishment; and he had the pleasure of being eagerly questioned by his wife and five daughters at once.

After amusing himself some time with their curiosity, he thus explained:—"About a month ago I received this letter, and about a fortnight ago I answered it; for I thought it a case of some delicacy, and requiring early attention. It is from my cousin, Mr. Collins, who, when I am dead, may turn you all out of this house as soon as he pleases."

"Oh, my dear," cried his wife, "I cannot bear to hear that mentioned. Pray do not talk of that odious man. I do think it is the hardest thing in the world, that your estate should be entailed away from your own children; and I am sure, if I had been you, I should have tried long ago to do something or other about it."

Jane and Elizabeth attempted to explain to her the nature of an entail. They had often attempted it before: but it was a subject on which Mrs. Bennet was beyond the reach of reason; and she continued to rail bitterly against the cruelty of settling an estate away from a family of five daughters, in favour of a man whom nobody cared anything about.

"It certainly is a most iniquitous affair," said Mr. Bennet; "and nothing can clear Mr. Collins from the guilt of inheriting Longbourn. But if you will listen to his letter, you may, perhaps, be a little softened by his manner of expressing himself."

"No, that I am sure I shall not: and I think it was very impertinent of him to write to you at all, and very hypocritical. I hate such false friends. Why could not he keep on quarrelling with you, as his father did before him?"

"Why, indeed, he does seem to have had some filial scruples on that head, as you will hear."

"Hunsford, near Westerham, Kent, 15th October.

"Dear Sir,

"The disagreement subsisting between yourself and my late honoured father always gave me much uneasiness; and, since I have had the misfortune to lose him, I have frequently wished to heal the breach: but, for some time, I was kept back by my own doubts, fearing lest it might seem disrespectful to his memory for me to be on good terms with anyone with whom it had always pleased him to be at variance."—'There, Mrs. Bennet.'—"My mind, however, is now made up on the subject; for, having received ordination at Easter, I have been so fortunate as to be distinguished by the patronage of the Right Honourable Lady Catherine de Bourgh, widow of Sir Lewis de Bourgh, whose bounty and beneficence has preferred me to the valuable rectory of this parish, where it shall be my earnest endeavour to demean myself with grateful respect towards her Ladyship, and be ever ready to perform those rites and ceremonies which are instituted by the Church of England. As a clergyman, moreover, I feel it my duty to promote and establish the blessing of peace in all families within the reach of my influence; and on these grounds I flatter myself that my present overtures of good-will are highly commendable, and that the circumstance of my being next in the entail of Longbourn estate will be kindly overlooked on your side, and not lead you to reject the offered olive branch. I cannot be otherwise than concerned at being the means of injuring your amiable daughters, and beg leave to apologize for it, as well as to assure you of my readiness to make them every possible amends; but of this hereafter. If you should have no objection to receive me into your house, I propose myself the satisfaction of waiting on you and your family, Monday, November 18th, by four o'clock, and shall probably trespass on your hospitality till the Saturday se'nnight following, which I can do without any inconvenience, as Lady Catherine is far from objecting to my occasional absence on a Sunday, provided that some other clergyman is engaged to do the duty of the day. I remain, dear sir, with respectful compliments to your lady and daughters, your well-wisher and friend,

"WILLIAM COLLINS."

"At four o'clock, therefore, we may expect this peace-making gentleman," said Mr. Bennet, as he folded up the letter. "He seems to be a most conscientious and polite young man, upon my word; and, I doubt not, will prove a valuable acquaintance, especially if Lady Catherine should be so indulgent as to let him come to us again."

"There is some sense in what he says about the girls, however; and, if he is disposed to make them any amends, I shall not be the person to discourage him."

"Though it is difficult," said Jane, "to guess in what way he can mean to make us the atonement he thinks our due, the wish is certainly to his credit."

Elizabeth was chiefly struck with his extraordinary deference for Lady Catherine, and his kind intention of christening, marrying, and burying his parishioners whenever it were required.

"He must be an oddity, I think," said she. "I cannot make him out. There is something very pompous in his style. And what can he mean by apologizing for being next in the entail? We cannot suppose he would help it, if he could. Can he be a sensible man, sir?"

"No, my dear; I think not. I have great hopes of finding him quite the reverse. There is a mixture of servility and self-importance in his letter which promises well. I am impatient to see him."

"In point of composition," said Mary, "his letter does not seem defective. The idea of the olive branch perhaps is not wholly new, yet I think it is well expressed."

To Catherine and Lydia neither the letter nor its writer were in any degree interesting. It was next to impossible that their cousin should come in a scarlet coat, and it was now some weeks since they had received pleasure from the society of a man in any other colour. As for their mother, Mr. Collins's letter had done away much of her ill-will, and she was preparing to see him with a degree of composure which astonished her husband and daughters.

Mr. Collins was punctual to his time, and was received with great politeness by the whole family. Mr. Bennet indeed said little; but the ladies were ready enough to talk, and Mr. Collins seemed neither in need of encouragement, nor inclined to be silent himself. He was a tall, heavy-looking young man of five-and-twenty. His air was grave and stately, and his manners were very formal. He had not been long seated before he complimented Mrs. Bennet on having so fine a family of daughters, said he had heard much of their beauty, but that, in this instance, fame had fallen short of the truth; and added, that he did not doubt her seeing them all in due time well disposed of in marriage. This gallantry was not much to the taste of some of his hearers; but Mrs. Bennet, who quarrelled with no compliments, answered most readily,—

"You are very kind, sir, I am sure; and I wish with all my heart it may prove so; for else they will be destitute enough. Things are settled so oddly."

"You allude, perhaps, to the entail of this estate."

"Ah, senhor, sei muito bem. É uma situação aflitiva para as minhas pobres filhas, há de convir. Não que eu pretenda culpá-lo por isso, pois sei que tais coisas são puro acaso neste mundo. Nunca se sabe como as propriedades serão transmitidas uma vez sujeitos ao vínculo."

"Sou muito sensível, senhora, à desvantagem das minhas gentis primas, e muito poderia eu dizer sobre o assunto, se não receasse parecer ousado e precipitado. Mas posso assegurar às jovens senhoras que venho preparado para admirá-las. Por ora não direi mais; talvez, quando nos conhecermos melhor----"

Foi interrompido pelo aviso de que o jantar estava servido; e as moças sorriram uma para a outra. Não eram elas, porém, os únicos objetos da admiração do Sr. Collins. O vestíbulo, a sala de jantar e toda a mobília foram examinados e louvados; e os seus elogios a tudo teriam tocado o coração da Sra. Bennet, não fosse a humilhante suposição de que ele considerava tudo aquilo como futura propriedade sua. O jantar, por sua vez, foi também altamente admirado; e ele rogou saber a qual das suas gentis primas se devia a excelência da cozinha. Mas aqui foi corrigido pela Sra. Bennet, que lhe assegurou, com alguma aspereza, que tinham condições de manter uma boa cozinheira, e que suas filhas nada tinham a ver com a cozinha. Ele pediu perdão por tê-la desagradado. Num tom suavizado, ela declarou não estar de modo algum ofendida; mas ele continuou a pedir desculpas durante cerca de um quarto de hora.

CAPÍTULO XIV

Durante o jantar, o Sr. Bennet quase não falou; mas quando os criados se retiraram, julgou ser chegada a hora de travar alguma conversa com o seu hóspede, e portanto introduziu um assunto em que esperava vê-lo brilhar, observando que lhe parecia muito feliz na sua patrona. A atenção de Lady Catherine de Bourgh aos seus desejos e a sua consideração pelo seu conforto pareciam notabilíssimas. O Sr. Bennet não poderia ter escolhido melhor. O Sr. Collins foi eloqüente no seu elogio. O assunto elevou-o a uma gravidade de maneiras acima do habitual; e com um ar importantíssimo protestou que jamais em sua vida testemunhara tal proceder numa pessoa de alta estirpe—tanta afabilidade e condescendência—como aquela que ele próprio experimentara da parte de Lady Catherine. Ela se dignara aprovar os dois sermões que ele já tivera a honra de pregar diante dela. Também o convidara duas vezes para jantar em Rosings, e mandara chamá-lo apenas no sábado anterior, para completar a mesa de quadrilhos à noite. Lady Catherine era tida por muitos como orgulhosa, ele bem sabia, mas nunca nela vira senão afabilidade. Sempre lhe falara como a qualquer outro cavalheiro; não fazia a mais pequena objeção a que ele se juntasse à sociedade da vizinhança, nem a que deixasse a sua paróquia ocasionalmente por uma semana ou duas para visitar os parentes. Até se dignara aconselhá-lo a casar o mais cedo possível, desde que escolhesse com discrição; e uma vez lhe fizera uma visita à sua humilde paróquia, onde aprovara inteiramente todas as alterações que ele vinha fazendo, e se dignara até de sugerir algumas—algumas prateleiras nos armários do andar de cima.

"Tudo isso é muito próprio e civilizado, certamente", disse a Sra. Bennet, "e atrevo-me a dizer que é uma mulher muito agradável. É uma pena que as grandes damas em geral não se lhe pareçam mais. Ela mora perto de si, senhor?"

"O jardim onde se ergue a minha humilde morada é separado apenas por uma vereda de Rosings Park, a residência de Sua Senhoria."

"Pergunto-lhe, senhor: ela é viúva? Tem família?"

"Tem uma única filha, a herdeira de Rosings, e de propriedades muitíssimo extensas."

"Ah!", exclamou a Sra. Bennet, abanando a cabeça, "então ela está em melhor situação que muitas raparigas. E que tal é a jovem? É formosa?"

"É uma jovem absolutamente encantadora. A própria Lady Catherine diz que, em matéria de verdadeira beleza, Miss de Bourgh é muito superior à mais formosa do seu sexo; porque há nela um certo ar de traços que marca a jovem de nascimento distinto. É infelizmente de constituição doentia, o que a impediu de fazer aquele progresso em muitos talentos que de outro modo não lhe teria faltado, segundo me informou a senhora que superintendeu a sua educação, e que ainda vive com elas. Mas é perfeitamente amável, e muitas vezes se digna passar com a sua pequena caleça e póneis diante da minha humilde morada."

"Já foi apresentada? Não me lembro do seu nome entre as senhoras da corte."

"A sua frágil saúde infelizmente a impede de estar em Londres; e por isso, como eu próprio disse um dia a Lady Catherine, a Corte Britânica se viu privada do seu mais brilhante ornamento. Sua Senhoria pareceu satisfeita com a ideia; e pode imaginar que sou feliz em toda a ocasião para oferecer aquelas pequenas finezas de elogio que sempre são aceitáveis às senhoras. Mais de uma vez observei a Lady Catherine que a sua encantadora filha parecia nascida para ser duquesa; e que a posição mais elevada, em vez de lhe dar importância, seria por ela adornada. São essas coisinhas que agradam a Sua Senhoria, e é uma espécie de atenção que me considero particularmente obrigado a prestar."

"Julga muito acertadamente", disse o Sr. Bennet; "e é feliz para si possuir o talento de adular com delicadeza. Permita-me perguntar se estas atenções lisonjeiras nascem do impulso do momento, ou são resultado de estudo prévio?"

"Nascem sobretudo do que se passa na ocasião; e embora eu por vezes me divirta sugerindo e arranjando essas pequenas finezas de elogio que possam servir para ocasiões comuns, desejo sempre dar-lhes um ar tão despretensioso quanto possível."

As expectativas do Sr. Bennet foram plenamente satisfeitas. O primo era tão absurdo quanto ele esperava; e ouvia-o com o mais vivo deleite, mantendo ao mesmo tempo a mais resoluta compostura de semblante, e, a não ser um olhar ocasional para Elizabeth, não precisava de parceiro no seu prazer.

À hora do chá, porém, a dose já era suficiente, e o Sr. Bennet alegrou-se de levar o hóspede outra vez à sala de estar, e, terminado o chá, alegrou-se de o convidar

a ler em voz alta para as senhoras. O Sr. Collins aquiesceu de boa vontade, e um livro foi trazido; mas ao vê-lo (pois tudo indicava que vinha de uma biblioteca circulante) recuou de sobressalto, e, pedindo perdão, protestou que nunca lia romances. Kitty fitou-o, e Lydia exclamou. Foram produzidos outros livros, e após alguma deliberação ele escolheu os "Sermões de Fordyce". Lydia bocejou quando ele abriu o volume; e antes de ter lido, com solenidade muito monótona, três páginas, ela o interrompeu com—

"Sabe, mamãe, que o meu tio Philips fala em despedir o Richard? E se o fizer, o Coronel Forster o contrata. A minha tia me disse ela mesma no sábado. Vou amanhã a Meryton para saber mais, e perguntar quando o Sr. Denny volta da cidade."

Lydia foi mandada calar-se pelas duas irmãs mais velhas; mas o Sr. Collins, muito ofendido, fechou o livro, e disse—

"Muitas vezes tenho observado como as jovens senhoras se interessam pouco por livros de caráter sério, embora escritos exclusivamente para seu proveito. Confesso que me surpreende; pois certamente nada lhes pode ser tão vantajoso como a instrução. Mas não insistirei mais com a minha jovem prima."

Depois, voltando-se para o Sr. Bennet, ofereceu-se como seu adversário no gamão. O Sr. Bennet aceitou o desafio, observando que ele agia muito sensatamente em deixar as moças entregues aos seus frívolos passatempos. A Sra. Bennet e as filhas pediram desculpa com toda a cortesia pela interrupção de Lydia, e prometeram que tal não aconteceria de novo, se ele quisesse retomar o livro; mas o Sr. Collins, depois de lhes assegurar que não nutria ressentimento algum pela jovem prima, e que jamais tomaria a sua conduta como afronta, sentou-se a outra mesa com o Sr. Bennet, e preparou-se para o gamão.

CAPÍTULO XV

O Sr. Collins não era um homem sensato, e a deficiência da natureza fora apenas muito pouco suprida pela educação ou pela sociedade; a maior parte da sua vida fora passada sob a orientação de um pai iletrado e avarento; e embora tivesse pertencido a uma das universidades, limitara-se a cumprir os prazos exigidos sem ali formar qualquer conhecimento útil. A sujeição em que seu pai o criara dera-lhe originalmente grande humildade de maneiras; mas era agora consideravelmente contrabalançada pela vaidade de uma cabeça fraca, vivendo em retiro, e pelos sentimentos de importância própria oriundos de prosperidade cedo e inesperada. Um acaso feliz o recomendara a Lady Catherine de Bourgh quando vagou o benefício de Hunsford; e o respeito que ele tinha pelo seu alto nascimento, e a veneração que lhe dedicava como patrona, misturando-se com uma muitíssimo boa opinião de si mesmo, da sua autoridade como clérigo e do seu direito como reitor, faziam dele no conjunto uma mistura de orgulho e servilismo, presunção e humildade.

Tendo agora boa casa e renda muito suficiente, pretendia casar; e ao procurar uma reconciliação com a família de Longbourn tinha em vista uma esposa, pois tencionava escolher uma das filhas, se as achasse tão formosas e amáveis como eram descritas pela fama. Era esse o seu plano de reparação—de compensação—por herdar a propriedade do pai delas; e considerava-o excelente, cheio de conveniência e propriedade, e excessivamente generoso e desinteressado da sua parte.

O seu plano não variou ao vê-las. O rosto adorável de Miss Bennet confirmou os seus desígnios, e estabeleceu todas as suas mais rigorosas noções do que era devido à primogenitura; e na primeira noite ela foi a sua escolha definitiva. Na manhã seguinte, porém, houve uma alteração; pois numa conversa a sós de um quarto de hora com a Sra. Bennet antes do pequeno-almoço, uma conversa que começou pela casa paroquial e levou naturalmente à confissão das suas esperanças de que uma dona para ela pudesse ser encontrada em Longbourn, arrancou-lhe ela, entre sorrisos muito complacentes e encorajamento geral, uma advertência justamente acerca da mesma Jane que ele escolhera. "Quanto às filhas mais novas, não podia comprometer-se a dizer—não podia responder positivamente—mas não sabia de nenhuma prevenção;—a filha mais velha devia apenas mencionar—sentia ser seu dever insinuá-lo—era provável que estivesse muito cedo noiva."

O Sr. Collins só teve de passar de Jane a Elizabeth—e foi logo feito—feito enquanto a Sra. Bennet mexia no lume. Elizabeth, igualmente a seguir a Jane em nascimento e beleza, sucedeu-lhe naturalmente.

A Sra. Bennet guardou a insinuação, e esperou poder em breve ter duas filhas casadas; e o homem a quem na véspera não podia suportar ouvir nomear era agora elevado ao mais alto grau nas suas boas graças.

A intenção de Lydia de ir a pé a Meryton não foi esquecida: todas as irmãs, excepto Mary, concordaram em ir com ela; e o Sr. Collins iria acompanhá-las, a pedido do Sr. Bennet, que estava ansiosíssimo por se ver livre dele e ter a sua biblioteca só para si; pois até lá o Sr. Collins o seguira depois do pequeno-almoço, e ali continuaria, nominalmente ocupado com um dos maiores fólios da colecção, mas na verdade tagarelando sem cessar com o Sr. Bennet acerca da sua casa e jardim em Hunsford. Tais procedimentos perturbavam o Sr. Bennet sobremaneira. Na sua biblioteca sempre estivera certo de encontrar lazer e tranquilidade; e embora preparado, como disse a Elizabeth, para encontrar loucura e presunção em todas as outras salas da casa, estava acostumado a estar livre delas ali: a sua cortesia foi, pois, prontíssima ao convidar o Sr. Collins a juntar-se às filhas no seu passeio; e o Sr. Collins, sendo de facto muito mais apto para andar do que para ler, ficou extremamente satisfeito por fechar o seu grande livro e ir.

Em pomposas bagatelas da parte dele, e em anuências corteses da parte das primas, o tempo passou até chegarem a Meryton. A atenção das mais novas deixou então de poder ser cativada por ele. Os seus olhos vagueavam imediatamente pela rua em busca dos oficiais, e nada menos do que um chapéu muito elegante, ou um tecido de musselina verdadeiramente novo na montra de uma loja, poderia trazê-las de volta.

Mas a atenção de todas as senhoras foi em breve cativada por um jovem que nunca tinham visto, de aparência extremamente distinta, que caminhava com um oficial no outro lado da rua. O oficial era o próprio Sr. Denny, acerca de cuja chegada de Londres Lydia viera informar-se, e cumprimentou-as ao passar. Todas ficaram impressionadas com o ar do desconhecido, todas quiseram saber quem seria; e Kitty e Lydia, decididas a descobri-lo se possível, tomaram a dianteira atravessando a rua, sob pretexto de desejarem qualquer coisa numa loja em frente, e por sorte tinham acabado de chegar ao passeio, quando os dois cavalheiros, voltando, alcançaram o mesmo ponto. O Sr. Denny dirigiu-se-lhes diretamente, e pediu licença para apresentar o seu amigo, o Sr. Wickham, que voltara com ele na véspera de Londres, e, tinha a satisfação de dizer, aceitara uma comissão no seu regimento. Era exactamente o que convinha; pois ao jovem bastava o uniforme para o tornar absolutamente irresistível. A aparência era-lhe extremamente favorável: reunia o melhor da formosura, um belo rosto, boa figura e maneiras muito agradáveis. A introdução foi seguida da parte dele por uma prontidão feliz de conversa—prontidão ao mesmo tempo perfeitamente correcta e sem presunção; e todo o grupo estava ainda de pé, conversando em grande sintonia, quando o som de cavalos lhes chamou a atenção, e viram-se Darcy e Bingley a descer a rua a cavalo. Ao distinguirem as senhoras do grupo, os dois cavalheiros vieram direitos a elas e começaram as cortesias do costume. Bingley foi o principal porta-voz, e Miss Bennet o principal objectivo. Ia, disse ele, mesmo a caminho de Longbourn com o propósito de saber notícias dela. O Sr. Darcy corroborou-o com uma reverência, e começava a determinar-se a não fixar os olhos em Elizabeth, quando de súbito foram detidos pela vista do desconhecido; e Elizabeth, que por acaso viu o rosto de ambos enquanto se olhavam, ficou absolutamente pasmada com o efeito do encontro. Ambos mudaram de cor: um empalideceu, o outro enrubesceu. O Sr. Wickham, após alguns instantes, levou a mão ao chapéu—saudação a que o Sr. Darcy mal se dignou responder. Que significaria aquilo? Era impossível imaginar; era impossível não desejar saber.

Num instante, o Sr. Bingley, mas sem dar mostras de ter notado o que se passara, despediu-se e seguiu a cavalo com o amigo.

O Sr. Denny e o Sr. Wickham acompanharam as jovens senhoras até à porta da casa do Sr. Philips, e depois fizeram as suas reverências, apesar dos insistentes rogos de Miss Lydia para que entrassem, e até apesar de a Sra. Philips ter aberto a janela da sala e secundado em voz alta o convite.

A Sra. Philips alegrava-se sempre com a vista das sobrinhas; e as duas mais velhas, pela sua recente ausência, eram particularmente bem-vindas; e estava já a exprimir com veemência a sua surpresa com a repentina chegada, que, não tendo o próprio carro delas ido buscá-las, ela nada saberia, se por acaso não tivesse visto na rua o rapaz da loja do Sr. Jones, que lhe dissera que não mandassem mais mezinhas para Netherfield, porque as Miss Bennets tinham partido, quando a sua cortesia foi reclamada para com o Sr. Collins pela apresentação que Jane dele fez. Recebeu-o com a melhor polidez que possuía, que ele pagou com ainda mais, pedindo desculpa pela sua intromissão sem qualquer conhecimento prévio dela, o que ele não podia deixar de lisonjear-se, contudo, que talvez se justificasse pelo seu parentesco com as jovens senhoras que lhas apresentavam. A Sra. Philips ficou deveras intimidada com tamanho excesso de boas maneiras; mas a sua contemplação de um desconhecido foi em breve interrompida por exclamações e perguntas acerca do outro, do qual, porém, só podia dizer às sobrinhas o que elas já sabiam: que o Sr. Denny o trouxera de Londres, e que iria ter uma comissão de tenente no regimento de ----shire. Andara a observá-lo durante a última hora, disse ela, enquanto ele subia e descia a rua;—e, se o Sr. Wickham tivesse aparecido, Kitty e Lydia teriam certamente prosseguido a ocupação; mas por desgraça agora ninguém passava pelas janelas a não ser alguns oficiais, que, comparados com o desconhecido, se tinham tornado "maçadores insuportáveis". Alguns deles iriam jantar no dia seguinte em casa dos Philips, e a tia prometeu que o marido fosse chamar o Sr. Wickham e lhe fizesse também um convite, se a família de Longbourn viesse à noite. Assim ficou combinado; e a Sra. Philips protestou que teriam um jogo de lotaria bem divertido e ruidoso, e um pequeno serão com ceia quente depois. A perspectiva de tais deleites era muito animadora, e separaram-se em boa disposição mútua. O Sr. Collins repetiu os seus pedidos de desculpa ao sair da sala, e foi assegurado, com cortesia incansável, que eram perfeitamente desnecessários.

Ao caminharem para casa, Elizabeth contou a Jane o que vira passar entre os dois cavalheiros; mas, embora Jane estivesse disposta a defender qualquer deles, ou ambos, se parecessem ter culpa, não mais sabia explicar tal proceder do que a irmã.

O Sr. Collins, ao regressar, deixou a Sra. Bennet altamente satisfeita ao admirar as maneiras e a cortesia da Sra. Philips. Protestou que, excepto Lady Catherine e a filha dela, jamais vira mulher mais elegante; pois ela não só o recebera com a maior cortesia, mas até o incluíra expressamente no convite para a noite seguinte, embora absolutamente o não conhecesse antes. Alguma coisa, supôs ele, poderia atribuir-se à sua relação com elas, e contudo jamais em toda a sua vida encontrara tanta atenção.

CAPÍTULO XVI

Como não foi feita objecção ao encontro dos jovens com a tia, e todos os escrúpulos do Sr. Collins de deixar o Sr. e a Sra. Bennet por uma única noite durante a sua visita foram firmemente combatidos, a carruagem os conduziu, a ele e às cinco primas, a uma hora conveniente a Meryton; e as moças tiveram o prazer de ouvir, ao entrarem na sala, que o Sr. Wickham aceitara o convite do tio e estava então em casa.

Dada esta informação, e tendo todos tomado os seus lugares, o Sr. Collins ficou livre para olhar em volta e admirar, e ficou tão impressionado com o tamanho e a mobília da sala, que declarou que quase poderia julgar estar na pequena sala de pequeno-almoço de verão em Rosings; comparação que de início não causou grande satisfação; mas quando a Sra. Philips soube por ele o que era Rosings e quem era a sua proprietária, depois de ouvir a descrição de apenas uma das salas de Lady Catherine, e de saber que só a moldura da chaminé custara oitocentas libras, sentiu todo o peso do elogio, e quase não se teria ofendido com uma comparação com o quarto do mordomo.

Descrevendo-lhe toda a grandeza de Lady Catherine e da sua mansão, com digressões ocasionais em louvor da sua própria humilde morada e das melhorias que esta recebia, ele estava felizmente ocupado até que os cavalheiros se lhes juntaram; e encontrou na Sra. Philips uma ouvinte muito atenta, cuja opinião acerca da sua importância crescia com o que ouvia, e que estava a decidir-se a propalar tudo entre os vizinhos assim que pudesse. Para as moças, que não podiam ouvir o primo, e que nada tinham a fazer senão desejar um instrumento e examinar as suas próprias imitações de porcelana, sem valor, sobre a chaminé, o intervalo de espera pareceu muito longo. Acabou por fim, porém. Os cavalheiros aproximavam-se: e quando o Sr. Wickham entrou na sala, Elizabeth sentiu que nem o vira antes, nem pensara nele entretanto, com o mínimo grau de admiração desarrazoada. Os oficiais do regimento de ----shire eram em geral um grupo muito honroso e distinto, e os melhores deles eram os que ali estavam; mas o Sr. Wickham estava tão acima de todos eles em pessoa, rosto, porte e andar, quanto eles estavam acima do tio Philips, de cara larga e soprando vinho do Porto, que os seguia para a sala.

O Sr. Wickham era o homem feliz para quem quase todos os olhos femininos se voltaram, e Elizabeth a feliz mulher ao lado de quem ele por fim se sentou; e a maneira agradável com que logo entrou em conversa, ainda que fosse apenas sobre ser uma noite chuvosa e sobre a probabilidade de uma estação de chuvas, fê-la sentir que o mais comum, o mais enfadonho, o mais surrado dos assuntos podia tornar-se interessante pela habilidade de quem o apresenta.

Com tais rivais para a atenção das damas como o Sr. Wickham e os oficiais, o Sr. Collins parecia afundar na insignificância; para as jovens senhoras decerto ele nada era; mas tinha ainda, a intervalos, uma espécie de ouvinte na própria Sra. Philips e era, graças à sua vigilância, abundantemente servido de café e queques.

Quando as mesas de jogo foram dispostas, teve ele oportunidade de lhe ser útil, em troca, sentando-se ao whist.

"Sei pouco do jogo por enquanto", disse ele, "mas terei gosto em melhorar; pois na minha situação de vida----" A Sra. Philips ficou-lhe muito agradecida pela deferência, mas não pôde esperar pela sua explicação.

O Sr. Wickham não jogou whist, e com pronta alegria foi recebido na outra mesa, entre Elizabeth e Lydia. A princípio parecia haver o risco de Lydia o monopolizar por completo, pois era uma tagarela de toda a determinação; mas, sendo também extremamente afeita a bilhetes de lotaria, cedo se interessou demasiado pelo jogo, demasiado ansiosa por fazer apostas e exclamar diante dos prémios, para ter atenção para ninguém em particular. Descontadas as exigências comuns do jogo, o Sr. Wickham estava portanto livre para conversar com Elizabeth, e ela muito disposta a ouvi-lo, embora aquilo que sobretudo desejava ouvir não pudesse esperar que lhe fosse contado: a história da sua relação com o Sr. Darcy. Não se atrevia sequer a nomear aquele cavalheiro. A sua curiosidade, porém, foi inesperadamente aliviada. O Sr. Wickham iniciou ele próprio o assunto. Perguntou a que distância Netherfield ficava de Meryton; e, depois de receber a resposta, indagou, com ar hesitante, há quanto tempo o Sr. Darcy ali estava.

"Há cerca de um mês", disse Elizabeth; e logo, sem querer deixar cair o assunto, acrescentou: "é, pelo que sei, um homem de mui vasta propriedade em Derbyshire."

"Sim", respondeu Wickham; "a sua propriedade ali é nobre. Dez mil libras de rendimento certo, pelo menos. Não poderíeis ter encontrado pessoa mais capaz de vos dar informação segura a esse respeito do que eu próprio — pois estive ligado à sua família, de modo muito particular, desde a minha infância."

Elizabeth não pôde deixar de mostrar surpresa.

"Bem podeis surpreender-vos, Miss Bennet, com tal asserção, depois de terdes presenciado, como provavelmente presenciastes, o modo muito frio do nosso encontro de ontem. Conheceis de perto o Sr. Darcy?"

"Tanto quanto jamais desejo conhecer", exclamou Elizabeth, com veemência. "Passei quatro dias sob o mesmo tecto que ele, e acho-o muito desagradável."

"Não tenho direito a dar a minha opinião", disse Wickham, "sobre se ele é agradável ou não. Não estou em condições de a formar. Conheço-o há demasiado tempo e demasiado bem para ser juiz imparcial. É impossível que eu seja imparcial. Mas creio que a vossa opinião a respeito dele, em geral, espantaria — e talvez não a expressásseis com tanta força em qualquer outra parte. Aqui estais na vossa família."

" Palavra de honra que não digo aqui mais do que poderia dizer em qualquer casa da vizinhança, excepto Netherfield. Ele não é de modo algum estimado em Hertfordshire. Toda a gente está desgostosa com o seu orgulho. Não o haveis de ouvir mais favoravelmente de ninguém."

"Não posso fingir pesar", disse Wickham, após uma breve interrupção, "por ele nem por qualquer homem não ser estimado acima dos seus méritos; mas, com ele, creio que isso não sucede amiúde. O mundo é cegado pela sua fortuna e importância, ou intimidado pelos seus modos altos e imponentes, e vê-o apenas como ele escolhe ser visto."

"Eu, ainda pelo meu conhecimento ligeiro, o tomaria por um homem de mau génio."

Wickham limitou-se a abanar a cabeça.

"Quem sabe", disse ele, na primeira oportunidade de falar que se seguiu, "se ele permanecerá muito mais tempo neste condado."

"Não faço a menor ideia; mas nada ouvi sobre a sua partida quando estive em Netherfield. Espero que os vossos planos em favor do ----shire não sejam afectados pela presença dele na vizinhança."

"Oh, não — não me cabe a mim ser posto em fuga pelo Sr. Darcy. Se ele deseja evitar encontrar-me, terá ele de ir. Não estamos em termos de amizade, e sempre me custa encontrá-lo, mas não tenho motivo para o evitar que não possa proclamar diante do mundo inteiro — uma consciência de mui grande injustiça, e os mais dolorosos desgostos por ele ser o que é. O pai dele, Miss Bennet, o falecido Sr. Darcy, foi um dos melhores homens que jamais respirou, e o mais leal amigo que jamais tive; e nunca posso estar em companhia deste Sr. Darcy sem ser pungido até ao âmago por mil ternas recordações. O procedimento dele para comigo tem sido escandaloso; mas, na verdade, creio que lhe poderia perdoar tudo e tudo, antes de lhe perdoar o haver desapontado as esperanças e desonrado a memória do pai."

Elizabeth achou o interesse do assunto crescer, e ouviu-o com toda a alma; mas a delicadeza do mesmo impediu-a de indagar mais.

O Sr. Wickham passou a falar de assuntos mais gerais, Meryton, a vizinhança, a sociedade, parecendo muitíssimo satisfeito com tudo o que até então vira, e falando desta última, em especial, com uma galanteria discreta mas muitíssimo compreensível.

"Foi a perspectiva de sociedade constante, e boa sociedade", acrescentou ele, "o meu principal incentivo para entrar no ----shire. Sei que é um corpo muito respeitável e agradável; e o meu amigo Denny me tentou ainda mais com o relato dos seus actuais aquartelamentos, e das mui grandes atenções e excelente conhecimento que Meryton lhes granjeara. Sociedade, confesso, é-me necessária. Sou um homem desiludido, e o meu ânimo não suporta a solidão. Preciso de ocupação e de sociedade. A vida militar não era o que eu destinara para mim, mas as circunstâncias tornaram-na agora aceitável. A Igreja deveria ter sido a minha profissão — fui educado para a Igreja; e a esta hora estaria de posse de um benefício eclesiástico mui valioso, se tivesse agradado ao cavalheiro de que falávamos agora mesmo."

"Com efeito!"

"Sim — o falecido Sr. Darcy deixou-me, em testamento, a próxima apresentação do melhor benefício à sua disposição. Foi meu padrinho, e ternamente afeiçoado a mim. Não sei dar a justa medida da sua bondade. Pretendia prover-me com largueza, e pensava tê-lo feito; mas, quando o benefício vagou, foi dado a outrem."

"Meu Deus!" exclamou Elizabeth; "mas como tal foi possível? Como pôde a sua vontade ser desrespeitada? Por que não recorristes aos tribunais?"

"Havia no próprio termo da doação tal informalidade que não me permitia esperar nada da lei. Um homem de honra não teria duvidado da intenção, mas o Sr. Darcy escolheu duvidar — ou tratá-la como mera recomendação condicional, e afirmar que eu perdera todo o direito a ela por extravagância, imprudência, em suma, qualquer coisa ou nada. Certo é que o benefício ficou vago há dois anos, justamente quando eu tinha idade para o tomar, e que foi dado a outro homem; e não menos certo é que não posso acusar-me de haver feito realmente coisa alguma que merecesse perdê-lo. Tenho um temperamento vivo e indiscreto, e talvez tenha por vezes dito dele, e a ele próprio, com excessiva franqueza a minha opinião. Não me lembra nada de pior. Mas o facto é que somos homens de mui diversa natureza, e que ele me aborrece."

"Isto é verdadeiramente revoltante! Ele merece ser publicamente coberto de vergonha."

"Cedo ou tarde ele o será — mas não por mim. Até que possa esquecer o pai, jamais me atreverei a defrontá-lo nem a desmascará-lo."

Elizabeth honrou-o por tais sentimentos, e achou-o mais formoso do que nunca enquanto ele os exprimia.

"Mas qual", disse ela, após uma pausa, "pode ter sido o seu motivo? Que o terá levado a proceder tão cruelmente?"

"Uma aversão completa, determinada, por mim — aversão que não posso deixar de atribuir, em parte, ao ciúme. Se o falecido Sr. Darcy me tivesse menos afeiçoado, seu filho ter-me-ia talvez melhor suportado; mas o extraordinário apego do pai a mim irritou-o, creio eu, desde muito cedo. Ele não tinha génio para sofrer a espécie de concorrência em que nos achávamos — a espécie de preferência que tantas vezes me era concedida."

"Eu não julgara o Sr. Darcy tão mau como isto — embora jamais dele tivesse gostado, não o julgara tão perverso — supusera-o capaz de desprezar em geral as suas criaturas, mas não o suspeitara de descer a tão maldosa vingança, a tão grande injustiça, a tão desumana conduta como esta!"

Após alguns minutos de reflexão, todavia, continuou: "Lembro-me, efectivamente, de ele se gabar um dia, em Netherfield, da implacabilidade dos seus ressentimentos, do seu génio incapaz de perdão. O seu temperamento deve ser terrível."

"Não me fio de mim próprio neste assunto", respondeu Wickham; "mal posso ser justo para com ele."

Elizabeth tornou a mergulhar em pensamentos, e após algum tempo exclamou: "Tratar assim o afilhado, o amigo, o favorito do próprio pai!" Poderia ter acrescentado: "Um jovem, além disso, como vós, cujo próprio rosto atesta que vosi amável." Mas contentou-se com: "E um, ainda por cima, que provavelmente fora seu companheiro desde a infância, ligado a ele, como me parece terdes dito, pelos laços mais estreitos."

"Nascemos na mesma paróquia, dentro do mesmo parque; a maior parte da nossa juventude passou-se juntos: companheiros da mesma casa, participantes das mesmas diversões, objecto dos mesmos desvelos paternos. Meu pai começou a vida na profissão que o vosso tio, o Sr. Philips, parece honrar com tanto crédito; mas ele renunciou a tudo para ser útil ao falecido Sr. Darcy, e consagrou todo o seu tempo à administração das propriedades de Pemberley. Era muitíssimo estimado pelo Sr. Darcy, seu amigo íntimo e de toda a confiança. O Sr. Darcy confessava-se frequentemente devedor dos maiores obséquios à activa superintendência de meu pai; e quando, imediatamente antes da morte de meu pai, o Sr. Darcy lhe fez espontânea promessa de prover a meu respeito, estou persuadido de que sentiu ser isso tanto dívida de gratidão para com ele como de afecto para comigo."

"Que estranho!" exclamou Elizabeth. "Que abominável! Maravilha-me que o próprio orgulho deste Sr. Darcy o não tenha tornado justo para convosco. Se não por melhor motivo, ao menos para não ser demasiado orgulhoso para ser desonesto — pois desonestidade é o que lhe tenho de chamar."

"É espantoso", respondeu Wickham; "porque quase todos os seus actos se podem atribuir ao orgulho; e o orgulho tem sido, muitas vezes, o seu melhor amigo. Tem-no aproximado da virtude mais do que qualquer outro sentimento. Mas nenhum de nós é coerente; e no procedimento dele para comigo houve impulsos mais fortes até do que o orgulho."

"Poderá um tão abominável orgulho como o dele tê-lo alguma vez aproveitado?"

"Sim; muitas vezes o levou a ser liberal e generoso; a dar com largueza o seu dinheiro, a mostrar hospitalidade, a amparar os seus rendeiros e a socorrer os pobres. O orgulho de família, e o orgulho filial — pois ele é muito orgulhoso do que o pai foi — fizeram isto. O não parecer desonrar a sua família, o não degenerar das qualidades que lhe grangearam a estima, o não perder a influência da Casa de Pemberley, são motivos poderosos. Tem também o orgulho fraternal, o qual, com algum afecto fraternal, o torna um tutor muito dedicado e desvelado da irmã; e haveis de ouvi-lo geralmente apregoado como o mais atento e melhor dos irmãos."

"Que espécie de rapariga é Miss Darcy?"

Ele abanou a cabeça. "Quem me dera poder chamá-la amável. Custa-me falar mal de um Darcy; mas ela é demasiado parecida com o irmão — muitíssimo orgulhosa. Em criança, era afectuosa e graciosa, e extremamente afeiçoada a mim; e eu consagrei horas e horas ao seu divertimento. Mas agora nada é para mim. É uma rapariga formosa, de quinze ou dezasseis anos, e, segundo me consta, muito distinta. Desde a morte do pai a sua casa tem sido Londres, onde vive com ela uma senhora que superintende a sua educação."

Após muitas pausas e muitas tentativas de outros assuntos, Elizabeth não pôde deixar de voltar uma vez mais ao primeiro, e dizer:—

"Admira-me a intimidade dele com o Sr. Bingley. Como pode o Sr. Bingley, que parece a própria bonomia, e é, na verdade eu o creio, verdadeiramente amável, ter amizade com um homem daqueles? Como se podem eles compaginar? Conheceis o Sr. Bingley?"

"De modo algum."

"É um homem doce de génio, amável, atraente. Não pode conhecer o que o Sr. Darcy é."

"Provavelmente não; mas o Sr. Darcy consegue agradar a quem quer. Não lhe faltam qualidades. Pode ser um conversador ameno, se lhe aprouver. Entre os que lhe são iguais em importância, é um homem mui diverso do que é para os menos favorecidos pela fortuna. O orgulho nunca o abandona; mas, com os ricos, é liberal de ideias, justo, sincero, racional, honrado, e, talvez, agradável — descontado o que se deve à fortuna e à figura."

Pouco depois, como a partida de whist se desfizesse, os jogadores reuniram-se em torno da outra mesa, e o Sr. Collins tomou o seu posto entre a prima Elizabeth e a Sra. Philips. Esta fez-lhe as perguntas habituais acerca do seu êxito. Não fora muito grande; ele perdera todos os pontos; mas, quando a Sra. Philips começou a exprimir o seu pesar por isso, ele assegurou-lhe, com muita séria gravidade, que coisa nenhuma tinha importância; que considerava o dinheiro mera ninharia, e rogava-lhe que não se afligisse.

"Sei muito bem, minha senhora", disse ele, "que quando as pessoas se sentam a uma mesa de jogo hão-de sujeitar-se à sorte destas coisas — e felizmente não me encontro em tais circunstâncias que façam de cinco xelins qualquer objecto. Há, sem dúvida, muitos que não poderiam dizer o mesmo; mas, graças a Lady Catherine de Bourgh, eu estou bem acima da necessidade de atender a pequenas coisas."

A atenção do Sr. Wickham foi despertada; e, depois de observar o Sr. Collins por alguns momentos, perguntou a Elizabeth em voz baixa se as suas relações eram muito intimamente conhecidas da família de Bourgh.

"Lady Catherine de Bourgh", respondeu ela, "muito recentemente lhe deu um benefício. Quase não sei como o Sr. Collins foi primeiro apresentado à sua atenção, mas decerto não a conhece de há muito."

"Sabereis, sem dúvida, que Lady Catherine de Bourgh e Lady Anne Darcy eram irmãs; por conseguinte, ela é tia do actual Sr. Darcy."

"Não, por certo; não sabia. Nada sabia das ligações de Lady Catherine. Só anteontem ouvi pela primeira vez falar da sua existência."

"A filha dela, Miss de Bourgh, possuirá mui avultada fortuna, e acredita-se que ela e o primo hão-de unir as duas propriedades."

Esta informação fez Elizabeth sorrir, ao pensar na pobre Miss Bingley. Vãs seriam, na verdade, todas as suas atenções, vã e inútil a sua afeição pela irmã dele e o elogio que dele fazia, se ele já estivesse predestinado a outra.

"O Sr. Collins", disse ela, "fala muito altamente, tanto de Lady Catherine como da filha; mas, de alguns particulares que ele nos referiu a respeito da sua Ladyship, suspeito que a sua gratidão o engana; e que, apesar de ser sua protectora, ela é uma mulher arrogante e presunçosa."

"Creio que ela o é, e em alto grau", respondeu Wickham; "não a vejo há muitos anos; mas lembro-me muito bem de que nunca me foi simpática, e que os seus modos eram autoritários e insolentes. Goza a reputação de ser notavelmente ajuizada e hábil; mas antes creio que parte das suas qualidades lhe vêm da posição e da fortuna, parte da maneira autoritária, e o resto do orgulho do sobrinho, que escolhe que todos os ligados a ele tenham um entendimento de primeira ordem."

Elizabeth concedeu que ele dera uma explicação muito racional do caso, e continuaram a falar juntos com satisfação mútua até que o chá pôs termo às cartas e deu às restantes senhoras a sua parte das atenções do Sr. Wickham. Não podia haver conversa no ruído da ceia da Sra. Philips, mas os seus modos o recomendavam a todos. Tudo quanto dizia, era dito bem; e tudo quanto fazia, era feito com graça. Elizabeth partiu com a cabeça cheia dele. Não podia pensar noutra coisa senão no Sr. Wickham, e no que ele lhe contara, todo o caminho até casa; mas não houve tempo, durante o trajecto, nem sequer para mencionar o nome dele, pois nem Lydia nem o Sr. Collins estiveram um instante calados. Lydia falou sem cessar dos bilhetes de lotaria, do peixe que perdera e do peixe que ganhara; e o Sr. Collins, a descrever a civilidade do Sr. e da Sra. Philips, protestando que não fazia o menor caso das suas perdas ao whist, a enumerar todos os pratos da ceia, e a temer repetidamente estar a apertar as primas, tinha mais para dizer do que bem podia dar conta antes de a carruagem parar diante da Casa de Longbourn.

CAPÍTULO XVII.

Elizabeth contou a Jane, no dia seguinte, o que se passara entre o Sr. Wickham e ela. Jane ouviu com assombro e preocupação: não sabia como acreditar que o Sr. Darcy pudesse ser tão indigno da estima do Sr. Bingley; e, contudo, não era da sua natureza pôr em dúvida a veracidade de um moço de tão amável aparência como Wickham. A possibilidade de ele ter realmente sofrido tão grande injustiça bastava para interessar todos os seus sentimentos de ternura; e nada, portanto, restava a fazer senão pensar bem de ambos, defender o procedimento de cada um, e lançar para a conta de acidente ou equívoco tudo o que de outro modo se não pudesse explicar.

"Ambos", disse ela, "foram enganados, atrevo-me a dizer, de algum modo que não podemos imaginar. Pessoas interessadas talvez os tenham mutuamente mal representado. Em suma, é impossível para nós conjeturar as causas ou circunstâncias que possam tê-los alienado, sem que haja culpa real de parte a parte."

"Muito verdade, em verdade; e agora, minha querida Jane, que tendes a dizer em favor das pessoas interessadas que provavelmente tiveram parte no negócio? Desculapai-as também, ou havemos de pensar mal de alguém."

"Rí-te quanto quiseres, mas não te hás-de rir para fora da minha opinião. Minha querida Lizzy, considera somente em que luz tão desonrosa coloca o Sr. Darcy tratar assim o favorito do pai — aquele a quem o pai prometera prover. É impossível. Homem algum de humanidade comum, homem algum que tivesse algum apreço pelo seu carácter, seria capaz disso. Poderão os seus amigos mais íntimos estar tão excessivamente enganados a respeito dele? Oh, não."

"É muito mais fácil eu acreditar que o Sr. Bingley tenha sido iludido do que que o Sr. Wickham haja inventado de si próprio a história que ontem me contou: nomes, factos, tudo mencionado sem cerimónia. Se não é assim, que o Sr. Darcy o contradiga. Além disso, havia verdade no seu semblante."

"É difícil, em verdade — é pungente. Não se sabe o que pensar."

"Com licença vossa — sabe-se perfeitamente o que pensar."

Mas Jane só podia pensar com certeza num ponto: que o Sr. Bingley, caso tivesse sido iludido, muito sofreria quando o caso se tornasse público.

As duas jovens senhoras foram chamadas do arbusto, onde esta conversa se passara, pela chegada de algumas das próprias pessoas de quem falavam; o Sr. Bingley e as irmãs vieram dar pessoalmente o convite, há muito esperado, para o baile de Netherfield, marcado para a terça-feira seguinte. As duas senhoras ficaram encantadas de ver de novo a sua cara amiga, disseram que parecia uma era desde que se tinham encontrado, e perguntaram repetidamente o que ela andara a fazer desde a separação. Ao resto da família pouco atenção prestaram; evitando a Sra. Bennet quanto possível, dizendo pouco a Elizabeth, e absolutamente nada às outras. Partiram logo, levantando-se dos assentos com uma actividade que surpreendeu o irmão, e apressando-se como se ansiassem por escapar às cortesias da Sra. Bennet.

A perspectiva do baile de Netherfield foi extremamente agradável a todas as senhoras da família. A Sra. Bennet escolheu considerá-lo como uma deferência à sua filha mais velha, e ficou particularmente lisonjeada por ter recebido o convite do próprio Sr. Bingley, em vez de um cartão cerimonioso. Jane imaginou para si uma noite feliz na companhia das suas duas amigas e com as atenções do irmão delas; e Elizabeth pensou com prazer em dançar bastante com o Sr. Wickham, e em ver uma confirmação de tudo no olhar e no comportamento do Sr. Darcy. A felicidade antecipada por Catherine e Lydia dependia menos de um acontecimento singular, ou de qualquer pessoa em particular; pois, embora cada uma delas, como Elizabeth, tencionasse dançar metade da noite com o Sr. Wickham, ele não era de modo algum o único par que as poderia satisfazer, e um baile era, de qualquer modo, um baile. E até Mary pôde assegurar à sua família que não tinha qualquer aversão a isso.

«Enquanto puder ter as minhas manhãs para mim», disse ela, «é suficiente. Penso que não é nenhum sacrifício juntar-me ocasionalmente a compromissos nocturnos. A sociedade tem exigências sobre todos nós; e declaro-me uma daquelas que consideram os intervalos de recreio e divertimento como desejáveis para toda a gente.»

O ânimo de Elizabeth estava tão exaltado por aquela ocasião que, embora não falasse frequentemente sem necessidade com o Sr. Collins, não pôde deixar de lhe perguntar se tencionava aceitar o convite do Sr. Bingley, e, em caso afirmativo, se acharia apropriado participar no divertimento da noite; e ficou antes surpresa ao descobrir que ele não tinha qualquer escrúpulo a esse respeito, e estava muito longe de temer uma repreensão, fosse do Arcebispo ou de Lady Catherine de Bourgh, por se atrever a dançar.

«Não sou de modo algum de opinião, asseguro-lhe», disse ele, «que um baile deste género, dado por um jovem de carácter, a pessoas respeitáveis, possa ter qualquer tendência perniciosa; e estou tão longe de objectar a dançar eu mesmo, que espero ser honrado com as mãos de todas as minhas formosas primas no decurso da noite; e aproveito esta oportunidade de solicitar a sua, Miss Elizabeth, para as duas primeiras danças em especial; uma preferência que confio que a minha prima Jane atribuirá à causa justa, e não a qualquer falta de respeito por ela.»

Elizabeth sentiu-se completamente lograda. Tera proposto estar comprometida com Wickham precisamente para aquelas danças; e ter em vez disso o Sr. Collins! — a sua vivacidade nunca fora tão mal programada. Não havia porém remédio. A felicidade do Sr. Wickham e a dela própria ficavam forçosamente adiadas um pouco mais, e a proposta do Sr. Collins foi aceita com a melhor graça que ela conseguiu. Não ficou mais bem disposta com a sua galanteria, por causa da ideia que esta sugeria de algo mais. Foi então que lhe ocorreu pela primeira vez que fora escolhida de entre as suas irmãs como digna de ser a senhora da casa paroquial de Hunsford, e de ajudar a formar uma mesa de quadrilha em Rosings, na ausência de visitantes mais elegíveis. A ideia depressa atingiu a convicção, quando ela observou as suas crescentes cortesias para com ela própria, e ouviu a sua frequente tentativa de elogio ao seu engenho e vivacidade; e, embora mais espantada do que gratificada por este efeito dos seus encantos, não passou muito tempo até a sua mãe lhe dar a entender que a probabilidade do casamento delas era extremamente agradável para ela. Elizabeth, contudo, não escolheu atender à insinuação, bem consciente de que uma disputa séria seria a consequência de qualquer resposta. O Sr. Collins talvez nunca fizesse a proposta, e, até ele a fazer, era inútil discutir por causa dele.

Se não houvesse um baile em Netherfield para preparar e de que falar, as mais jovens Misses Bennet teriam estado num estado deplorável naquela altura; pois, desde o dia do convite até ao dia do baile, houve tal sucessão de chuva que as impediu de ir uma única vez a Meryton a pé. Nenhuma tia, nenhum oficial, nenhuma novidade podiam ser procurados; até as fitas para os sapatos para Netherfield foram obtidas por procuração. Mesmo Elizabeth poderia ter encontrado alguma prova da sua paciência com um tempo que suspendeu por completo o progresso da sua amizade com o Sr. Wickham; e nada menos do que um baile na terça-feira poderia ter tornado suportáveis uma sexta, um sábado, um domingo e uma segunda-feira para Kitty e Lydia.

CAPÍTULO XVIII.

Até que Elizabeth entrou na sala de estar em Netherfield, e procurou em vão o Sr. Wickham entre o grupo de casacas vermelhas ali reunido, nenhuma dúvida sobre a sua presença lhe ocorrera. A certeza de o encontrar não fora refreada por nenhuma daquelas recordações que poderiam não irrazoavelmente tê-la alarmado. Vestira com mais do que o cuidado habitual, e preparara-se no melhor dos ânimos para a conquista de tudo o que ainda restava de por subjugar no coração dele, confiando que não era mais do que se poderia ganhar no decurso da noite. Mas num instante surgiu a terrível suspeita de ele ter sido de propósito omitido, para gáudio do Sr. Darcy, no convite dos Bingley aos oficiais; e, embora não fosse exactamente esse o caso, o facto absoluto da sua ausência foi pronunciado pelo seu amigo Sr. Denny, a quem Lydia se dirigiu avidamente, e que lhes disse que Wickham fora obrigado a ir à cidade em negócios no dia anterior, e ainda não tinha regressado; acrescentando, com um sorriso significativo:—

«Não imagino que os seus negócios o tivessem chamado fora justamente agora, se ele não tivesse desejado evitar um certo cavalheiro aqui presente.»

Esta parte da sua informação, embora inaudita por Lydia, foi apanhada por Elizabeth; e, como lhe assegurou que Darcy não era menos responsável pela ausência de Wickham do que se a sua primeira conjectura tivesse sido exacta, todo o sentimento de desagrado contra o primeiro ficou tão aguçado pela decepção imediata, que ela mal pôde responder com tolerável cortesia às perguntas polidas que ele pouco depois se aproximou para fazer. Atenção, tolerância, paciência com Darcy, era uma ofensa a Wickham. Ela estava decidida contra qualquer espécie de conversa com ele, e virou-se com um grau de mau humor que não conseguiu superar por completo nem mesmo ao falar com o Sr. Bingley, cuja parcialidade cega a provocava.

Mas Elizabeth não era feita para o mau humor; e, embora toda a perspectiva dela própria tivesse sido destruída para aquela noite, não podia morar muito tempo no seu ânimo; e, depois de ter contado todas as suas mágoas a Charlotte Lucas, que não via há uma semana, depressa pôde fazer uma transição voluntária para as excentricidades do primo, e apontá-lo à sua atenção especial. As duas primeiras danças, contudo, trouxeram um regresso da angústia: foram danças de mortificação. O Sr. Collins, desajeitado e solene, pedindo desculpa em vez de estar atento, e muitas vezes movendo-se mal sem se aperceber disso, deu-lhe toda a vergonha e miséria que um par desagradável para um par de danças pode dar. O momento da sua libertação dele foi êxtase.

Dançou a seguir com um oficial, e teve o consolo de falar de Wickham, e de ouvir que ele era universalmente estimado. Quando aquelas danças terminaram, ela voltou para Charlotte Lucas, e estava em conversa com ela, quando se viu de súbito abordada pelo Sr. Darcy, que a tomou tão de surpresa com o seu pedido da sua mão, que, sem saber o que fazia, aceitou-o. Ele afastou-se de novo imediatamente, e ela ficou a remoer a sua própria falta de presença de espírito: Charlotte tentou consolá-la.

«Atrevo-me a dizer que o achará muito agradável.»

«Deus nos livre! Essa seria a maior desgraça de todas! Encontrar um homem agradável a quem se está determinada a odiar! Não me deseje um mal desses.»

Quando as danças recomeçaram, contudo, e Darcy se aproximou para reclamar a sua mão, Charlotte não pôde deixar de a prevenir, num sussurro, para não ser parva, e permitir que a sua fantasia por Wickham a fizesse parecer desagradável aos olhos de um homem muitas vezes mais importante. Elizabeth não deu resposta, e tomou o seu lugar na contradança, admirada com a dignidade a que chegara por lhe ser permitido estar em frente do Sr. Darcy, e lendo nos olhares dos vizinhos a sua igual admiração ao vê-lo. Ficaram de pé algum tempo sem dizer uma palavra; e ela começou a imaginar que o silêncio deles duraria pelas duas danças, e, a princípio, estava resolvida a não quebrá-lo; até que de súbito imaginando que seria o maior castigo para o seu par obrigá-lo a falar, fez alguma observação ligeira sobre a dança. Ele respondeu, e tornou a ficar em silêncio. Após uma pausa de alguns minutos, ela abordou-o uma segunda vez, com:—

«Agora é a sua vez de dizer alguma coisa, Sr. Darcy. Eu falei sobre a dança, e o senhor devia fazer qualquer tipo de comentário sobre o tamanho da sala, ou o número de pares.»

Ele sorriu, e assegurou-lhe que tudo o que ela desejasse que ele dissesse seria dito.

«Muito bem; essa resposta serve para o presente. Talvez, daqui a pouco, eu possa observar que os bailes privados são muito mais agradáveis do que os públicos; mas agora podemos ficar em silêncio.»

«Fala por regra, então, enquanto dança?»

«Às vezes. É preciso falar um pouco, sabe. Pareceria estranho estar inteiramente em silêncio durante meia hora seguida; e contudo, para vantagem de alguns, a conversa devia ser disposta de modo que eles possam ter o trabalho de dizer o mínimo possível.»

«Está a consultar os seus próprios sentimentos no presente caso, ou imagina que está a satisfazer os meus?»

«Ambos», respondeu Elizabeth com finura; «pois sempre vi uma grande semelhança no feitio das nossas mentes. Somos ambos de um génio insociável, taciturno, pouco dispostos a falar, a menos que esperemos dizer algo que espante toda a sala, e seja transmitido à posteridade com todo o éclat de um provérbio.»

«Não é este um retrato muito fiel do seu próprio carácter, estou certa», disse ele. «Quão próximo do meu possa estar, não posso fingir dizê-lo. Acha-o decerto um retrato fiel.»

«Não me compete julgar a minha própria interpretação.»

Ele não respondeu; e tornaram a ficar em silêncio até terem terminado a dança, quando ele lhe perguntou se ela e as suas irmãs não iam muito frequentemente a Meryton a pé. Ela respondeu afirmativamente; e, incapaz de resistir à tentação, acrescentou: «Quando nos encontrou lá no outro dia, tínhamos acabado de fazer uma nova amizade.»

O efeito foi imediato. Uma sombra mais profunda de altivez cobriu-lhe as feições, mas ele não disse uma palavra; e Elizabeth, embora se censurando pela sua própria fraqueza, não pôde continuar. Por fim Darcy falou, e num modo constrangido disse:—

«O Sr. Wickham é abençoado com maneiras tão felizes que podem assegurar-lhe a conquista de amigos; se será igualmente capaz de os conservar, é menos certo.»

«Ele tem tido a infelicidade de perder a sua amizade», replicou Elizabeth, com ênfase, «e de um modo de que provavelmente sofrerá toda a vida.»

Darcy não respondeu, e pareceu desejoso de mudar de assunto. Nesse momento Sir William Lucas apareceu perto deles, pretendendo atravessar a contradança para o outro lado da sala; mas, ao aperceber-se do Sr. Darcy, parou, com uma reverência de cortesia superior, para o cumprimentar pela sua dança e pela sua par.

«Fiquei deveras muito satisfeito, meu caro senhor; uma dança tão superior raramente se vê. É evidente que o senhor pertence aos primeiros meios. Permita-me que diga, contudo, que a sua bela par não o desonra: e que devo esperar ter este prazer repetido frequentemente, especialmente quando um certo acontecimento desejável, minha querida Miss Eliza (olhando de relance para a irmã e Bingley), se realizar. Que congratulações então afluirão! Apelo para o Sr. Darcy; — mas não me deixe interrompê-lo, senhor. Não me agradecerá por o deter da enfeitiçadora conversa daquela jovem senhora, cujos olhos brilhantes também me repreendem.»

]

A última parte deste discurso foi mal ouvida por Darcy; mas a alusão de Sir William ao seu amigo pareceu atingi-lo com força, e os seus olhos dirigiram-se, com uma expressão muito séria, para Bingley e Jane, que dançavam juntos. Recuperando-se, porém, pouco depois, voltou-se para a sua par, e disse:—

«A interrupção de Sir William fez-me esquecer do que estávamos a falar.»

«Penso que não estávamos a falar de nada. Sir William não poderia ter interrompido duas pessoas na sala que tivessem menos a dizer. Já tentámos dois ou três assuntos sem êxito, e do que havemos de falar a seguir não consigo imaginar.»

«Que lhe parecem os livros?» disse ele, sorrindo.

«Livros — oh, não! — Estou certa de que nunca lemos os mesmos, ou pelo menos não com os mesmos sentimentos.»

«Lamento que pense assim; mas se for esse o caso, pelo menos não há falta de assunto. Podemos comparar as nossas diferentes opiniões.»

«Não — não consigo falar de livros numa sala de baile; a minha cabeça está sempre cheia de qualquer outra coisa.»

«O presente ocupa-a sempre em tais cenas — não é verdade?» disse ele, com um ar de dúvida.

«Sim, sempre», respondeu ela, sem saber o que dizia; pois os seus pensamentos tinham vagueado longe do assunto, como logo depois apareceu ao exclamar de súbito: «Lembro-me de o ter ouvido dizer uma vez, Sr. Darcy, que o senhor quase nunca perdoa; — que o seu ressentimento, uma vez criado, era inapaziguável. O senhor é muito cauteloso, suponho, quanto a criá-lo?»

«Sou», disse ele, com voz firme.

«E nunca se permite ser cegado pelo preconceito?»

«Espero que não.»

«É particularmente obrigatório para aqueles que nunca mudam de opinião, terem a certeza de julgar bem desde o início.»

«Posso perguntar para onde tendem estas perguntas?»

«Meramente para a ilustração do seu carácter», disse ela, procurando sacudir a sua gravidade. «Estou a tentar compreendê-lo.»

«E qual é o seu êxito?»

Ela abanou a cabeça. «Não avanço nada. Ouço tão diferentes relatos a seu respeito que me confundem extremamente.»

«Posso facilmente acreditar», respondeu ele, gravemente, «que os relatórios possam variar grandemente a meu respeito; e desejaria, Miss Bennet, que não estivesse a esboçar o meu carácter neste momento, pois há razão para temer que a interpretação não me faria honra nem a si.»

«Mas se eu não captar a sua parecença agora, poderei nunca ter outra oportunidade.»

«De modo algum suspenderia qualquer prazer seu», replicou ele friamente. Ela não disse mais, e terminaram a outra dança e separaram-se em silêncio; descontentes de parte a parte, embora não em igual grau; pois no peito de Darcy havia um sentimento bastante poderoso para com ela, que logo lhe granjeou o perdão, e dirigiu toda a sua cólera contra outro.

Não tinham muito tempo separado-se quando Miss Bingley se aproximou dela, e, com uma expressão de desprezo civil, assim a interpelou:—

«Então, Miss Eliza, soube que está deveras encantada com George Wickham? A sua irmã tem estado a falar comigo sobre ele, e a fazer-me mil perguntas; e descubro que o jovem esqueceu de lhe dizer, entre as outras suas comunicações, que ele é filho do velho Wickham, o falecido administrador do Sr. Darcy. Permita-me que lhe recomende, contudo, como amiga, que não deposite confiança implícita em todas as suas asserções; pois, quanto ao Sr. Darcy tê-lo tratado mal, é perfeitamente falso: pelo contrário, ele tem sido sempre notavelmente bondoso para com ele, embora George Wickham tenha tratado o Sr. Darcy da maneira mais infame. Não conheço os pormenores, mas sei muito bem que o Sr. Darcy não tem culpa nenhuma; que ele não suporta ouvir mencionar George Wickham; e que, embora o meu irmão pensasse não poder bem deixar de incluí-lo no seu convite aos oficiais, ficou excessivamente contente ao descobrir que ele se tinha afastado. Vir para o condado de todo é uma coisa deveras insolente, e admiro-me de como pôde presumir fazê-lo. Tenho pena de si, Miss Eliza, por esta descoberta da culpa do seu favorito; mas, na verdade, considerando a sua origem, não se podia esperar coisa melhor.»

«A culpa dele e a sua origem parecem, pelo seu relato, ser a mesma», disse Elizabeth, zangada; «pois ouvi-o acusá-lo de nada pior do que de ser filho do administrador do Sr. Darcy, e disso, posso assegurá-la, ele me informou ele próprio.»

«Peço-lhe perdão», replicou Miss Bingley, afastando-se com um sorriso trocista. «Desculpe a minha intromissão; foi bem intencionada.»

«Insolente rapariga!» disse Elizabeth para si mesma. «Está muito enganada se espera influenciar-me com um ataque tão miserável como este. Não vejo aqui senão a sua própria ignorância voluntariosa e a malícia do Sr. Darcy.» Procurou então a sua irmã mais velha, que se encarregara de fazer averiguações sobre o mesmo assunto junto de Bingley. Jane encontrou-a com um sorriso de tão doce complacência, um brilho de tão feliz expressão, que marcou suficientemente como ela estava satisfeita com os sucessos da noite. Elizabeth leu imediatamente os seus sentimentos; e, naquele momento, a solicitude por Wickham, o ressentimento contra os inimigos dele, e tudo o mais, deu lugar à esperança de que Jane estivesse no caminho mais favorável para a felicidade.

«Quero saber», disse ela, com um rosto não menos sorridente que o da irmã, «o que soube sobre o Sr. Wickham. Mas talvez tenha estado agradavelmente ocupada demais para pensar em qualquer terceira pessoa, e nesse caso pode estar certa do meu perdão.»

«Não», replicou Jane, «não me esqueci dele; mas nada tenho de satisfatório para lhe dizer. O Sr. Bingley não conhece toda a sua história, e é absolutamente ignorante das circunstâncias que principalmente ofenderam o Sr. Darcy; mas ele abonará a boa conduta, a probidade e a honra do seu amigo, e está perfeitamente convencido de que o Sr. Wickham tem merecido muito menos atenção do Sr. Darcy do que a que recebeu; e lamento dizer que pelo relato dele, assim como da irmã, o Sr. Wickham não é de modo algum um jovem respeitável. Receio que ele tenha sido muito imprudente, e merecido perder a estima do Sr. Darcy.»

«O Sr. Bingley não conhece pessoalmente o Sr. Wickham.»

«Não; nunca o tinha visto até aquela manhã em Meryton.»

«Este relato então é o que ele recebeu do Sr. Darcy. Estou perfeitamente satisfeita. Mas o que diz ele do benefício eclesiástico?»

«Ele não se recorda exactamente das circunstâncias, embora as tenha ouvido do Sr. Darcy mais do que uma vez, mas crê que lhe fora deixado apenas condicionalmente.»

«Não tenho dúvida da sinceridade do Sr. Bingley», disse Elizabeth com calor, «mas há-de desculpar-me por não me deixar convencer apenas por garantias. A defesa que o Sr. Bingley fez do amigo foi, atrevo-me a dizer, muito capaz; mas, uma vez que ele desconhece várias partes da história, e soube o resto desse próprio amigo, continuarei a pensar de ambos os cavalheiros como pensava antes.»

Mudou então o discurso para um mais gratificante para ambas, e sobre o qual não poderia haver diferença de sentimento. Elizabeth ouviu com prazer as felizes, embora modestas, esperanças que Jane alimentava acerca da estima de Bingley, e disse tudo o que podia para aumentar a sua confiança nela. Quando o próprio Sr. Bingley se lhes juntou, Elizabeth retirou-se para Miss Lucas; à pergunta desta sobre a simpatia do seu último par, mal respondera, quando o Sr. Collins se lhes aproximou, e lhe disse com grande exultação que tivera a felicidade de fazer uma importantíssima descoberta.

«Descobri», disse ele, «por um singular acaso, que há agora na sala um parente próximo da minha protectora. Por acaso ouvi o próprio cavalheiro mencionar à jovem senhora que faz as honras desta casa os nomes da sua prima Miss De Bourgh, e da mãe dela, Lady Catherine. Como maravilhosamente este tipo de coisas ocorre! Quem teria pensado encontrar-me com — talvez — um sobrinho de Lady Catherine de Bourgh nesta assembleia! Estou muito grato por a descoberta ter sido feita a tempo de eu lhe poder prestar as minhas homenagens, o que vou agora fazer, e confio que me desculpará de não o ter feito antes. A minha total ignorância da ligação deve servir de desculpa.»

«Não vai apresentar-se ao Sr. Darcy?»

—De facto sou. Vou suplicar-lhe que me perdoe por não o ter feito mais cedo. Creio que ele é sobrinho de Lady Catherine. Estarei em condições de lhe assegurar que Sua Senhoria se encontrava de perfeita saúde há uma semana exacta.

Elizabeth tentou por todos os meios dissuadi-lo de semelhante plano; assegurando-lhe que o Sr. Darcy consideraria o dirigir-se-lhe sem apresentação uma liberdade impertinente, e não um elogio à sua tia; que de modo algum era necessário que houvesse qualquer atenção de parte a parte, e que, a haver alguma, cabia ao Sr. Darcy, como superior em posição, dar início ao conhecimento. O Sr. Collins ouviu-a com o ar resoluto de quem segue a sua própria inclinação, e, quando ela cessou de falar, respondeu assim:

—Minha querida Miss Elizabeth, tenho a mais elevada opinião do mundo do vosso excelente discernimento em todas as matérias ao alcance do vosso entendimento, mas permiti-me dizer que deve haver uma ampla diferença entre as formas estabelecidas de cortesia entre os leigos e aquelas que regem o clero; pois, dai-me licença para observar que considero o ofício clerical como igual em dignidade ao mais alto posto do reino—desde que ao mesmo tempo se mantenha uma adequada humildade de comportamento. Deveis, portanto, permitir-me seguir os ditames da minha consciência nesta ocasião, que me levam a cumprir o que considero um dever. Perdoai-me por deixar de aproveitar o vosso conselho, que em qualquer outro assunto será o meu guia constante, ainda que no caso presente me considere mais apto, pela educação e pelo estudo habitual, para decidir do que é justo do que uma jovem como vós;—e, com uma reverência profunda, deixou-a para atacar o Sr. Darcy, cuja recepção das suas investidas ela observava com avidez, e cujo espanto por ser assim abordado era muito evidente. O primo dela precedeu o seu discurso de uma reverência solene, e, embora ela não pudesse ouvir uma só palavra, sentia como se o ouvisse todo, e viu no movimento dos lábios dele as palavras «desculpa», «Hunsford» e «Lady Catherine de Bourgh». Aborrecia-a vê-lo expor-se diante de tal homem. O Sr. Darcy fitava-o com um espanto sem disfarce; e, quando por fim o Sr. Collins lhe deu licença para falar, respondeu com um ar de polidez distante. O Sr. Collins, contudo, não se deixou desencorajar e tornou a falar, e o desprezo do Sr. Darcy parecia aumentar abundantemente com a duração do seu segundo discurso; e, no fim deste, limitou-se a fazer-lhe uma reverência ligeira e afastou-se noutra direcção: o Sr. Collins voltou então para junto de Elizabeth.

—Não tenho motivo, asseguro-vos —disse ele—, para estar descontente com a minha recepção. O Sr. Darcy pareceu muito satisfeito com a atenção. Respondeu-me com a maior polidez, e até me pagou o elogio de dizer que estava tão bem convencido do discernimento de Lady Catherine que tinha a certeza de que ela jamais concederia um favour a quem não o merecesse. Foi realmente um pensamento muito nobre. No conjunto, estou muito satisfeito com ele.

Como Elizabeth já não tinha nenhum interesse próprio a prosseguir, voltou a sua atenção quase inteiramente para a irmã e para o Sr. Bingley; e a cadeia de agradáveis reflexões a que deram origem as suas observações talvez a tornassem quase tão feliz como Jane. Via-a, em imaginação, instalada naquela mesma casa, em toda a felicidade que um casamento de verdadeira afeição pode conferir; e sentia-se capaz, em tais circunstâncias, de tentar até gostar das duas irmãs de Bingley. Os pensamentos da mãe via ela claramente que seguiam o mesmo caminho, e resolveu não se aventurar perto dela, para não vir a ouvir demasiado. Quando se sentaram à ceia, portanto, considerou uma muito infeliz teimosia o facto de se terem sentado uma perto da outra; e muito se aborreceu ao descobrir que a mãe tagarelava com aquela pessoa (Lady Lucas) à vontade, abertamente, e sobre nada mais senão a sua expectativa de que Jane em breve casaria com o Sr. Bingley. Era um assunto animador, e a Sra. Bennet parecia incapaz de cansaço ao enumerar as vantagens do enlace. O facto de ele ser um jovem tão encantador, e tão rico, e morar apenas a três milhas delas, foram os primeiros pontos de sua gratificação; e depois era tão consolador pensar como as duas irmãs gostavam de Jane, e ter a certeza de que deviam desejar a ligação tanto quanto ela. Era, além disso, uma coisa tão prometedora para as filhas mais novas, já que o casamento de Jane as lançaria no caminho de outros homens ricos; e, por fim, era tão agradável, na sua idade, poder confiar as filhas solteiras aos cuidados da irmã, para não ser obrigada a sair em sociedade mais do que desejasse. Era necessário fazer desta circunstância um motivo de prazer, porque em tais ocasiões é o que manda a etiqueta; mas ninguém havia menos propenso do que a Sra. Bennet a encontrar conforto em ficar em casa em qualquer período da sua vida. Concluiu com muitos bons votos de que Lady Lucas pudesse em breve ser igualmente feliz, embora crendo, de modo evidente e triunfal, que não havia hipótese disso.

Em vão tentou Elizabeth refrear a rapidez das palavras da mãe, ou persuadi-la a descrever a sua felicidade num sussurro menos audível; pois, para sua inexprimível mortificação, pôde perceber que o essencial fora ouvido pelo Sr. Darcy, que se achava sentado em frente delas. A mãe limitou-se a repreendê-la por estar a dizer disparates.

—Que tem o Sr. Darcy comigo, diga-me lá, para que eu lhe tenha medo? Estou certa de que não lhe devemos nenhuma especial delicadeza que nos obrigue a não dizer nada que ele possa não gostar de ouvir.

—Pelo amor de Deus, minha senhora, falai mais baixo. Que vantagem podeis tirar de ofender o Sr. Darcy? Jamais vos ireis recomendar ao amigo dele procedendo assim.

Nada do que ela pudesse dizer, porém, teve qualquer influência. A mãe continuaria a falar das suas perspectivas no mesmo tom compreensível. Elizabeth corou e tornou a corar de vergonha e mortificação. Não podia deixar de lançar frequentes olhares ao Sr. Darcy, embora cada olhar a convence do que temia; pois, embora ele nem sempre estivesse a olhar para a mãe, estava convencida de que a atenção dele se achava invariavelmente presa por ela. A expressão do rosto dele mudou gradualmente de desprezo indignado para uma gravidade composta e firme.

Por fim, contudo, a Sra. Bennet não teve mais a dizer; e Lady Lucas, que há muito bocejava com a repetição de prazeres que não via probabilidade de partilhar, ficou entregue aos confortos de fiambre e galinha frios. Elizabeth começou então a reviver. Mas não durou muito o intervalo de tranquilidade; pois, quando a ceia acabou, falou-se em cantar, e ela teve a mortificação de ver Mary, após pouquíssima insistência, a preparar-se para obsequiar a companhia. Por muitos olhares significativos e rogos silenciosos tentou ela impedir semelhante prova de complacência—mas em vão; Mary não os quis entender; tal oportunidade de se exibir era para ela deliciosa, e começou a sua canção. Os olhos de Elizabeth estavam fixos nela, com as mais penosas sensações; e acompanhou o seu progresso pelas várias estrofes com uma impaciência que foi muito mal recompensada no fim; pois Mary, ao receber, entre os agradecimentos da mesa, a insinuação de uma esperança de que pudesse ser persuadida a favorecê-los de novo, após a pausa de meio minuto começou outra. As prendas de Mary não eram de modo algum adequadas a tal exibição; a voz era fraca e a maneira afectada. Elizabeth sofria as angústias. Olhou para Jane para ver como ela suportava aquilo; mas Jane estava tranquilamente a conversar com Bingley. Olhou para as duas irmãs dele, e viu-as a trocar sinais de troça entre si, e para Darcy, que, todavia, continuou impenetravelmente sério. Olhou para o pai a pedir a sua interferência, para que Mary não ficasse a cantar a noite toda. Ele percebeu a insinuação, e, quando Mary terminou a segunda canção, disse em voz alta:

—Chega por agora, minha filha. Já nos deleitaste o suficiente. Deixa às outras jovens o tempo de se exibirem.

Mary, embora fingindo não ouvir, ficou um tanto desconcertada; e Elizabeth, pesarosa por ela, e pesarosa pelo que o pai dissera, temia que a sua ansiedade de nada tivesse servido. Outros do grupo foram agora solicitados.

—Se eu —disse o Sr. Collins— tivesse a fortuna de saber cantar, teria grande prazer, estou certo, em obsequiar a companhia com uma ária; pois considero a música um divertimento muito inocente, e perfeitamente compatível com a profissão de um clérigo. Não pretendo, contudo, afirmar que possamos justificar-nos por consagrar-lhe demasiado do nosso tempo, pois há decerto outras coisas a que atender. O reitor de uma paróquia tem muito que fazer. Em primeiro lugar, deve fazer um acordo para os dízimos que lhe seja proveitoso a ele e não desagradável ao seu protector. Deve escrever os seus próprios sermões; e o tempo que sobra não será de mais para os deveres paroquiais, e para o cuidado e melhoria da sua morada, que não pode deixar de tornar tão confortável quanto possível. E não acho de somenos importância que tenha maneiras atentas e conciliadoras para com todos, em especial para com aqueles a quem deve a sua prebenda. Não o posso isentar desse dever; nem poderia ter boa opinião do homem que omitisse uma ocasião de testemunhar o seu respeito para com qualquer pessoa ligada à família.—E com uma reverência ao Sr. Darcy, concluiu o seu discurso, que fora pronunciado em voz tão alta que metade da sala o ouvira. Muitos ficaram a olhar—muitos sorriram; mas ninguém parecia mais divertido do que o próprio Sr. Bennet, ao passo que a esposa elogiou seriamente o Sr. Collins por ter falado tão sensatamente, e observou, em meio-sussurro a Lady Lucas, que ele era um jovem notavelmente inteligente e bom.

A Elizabeth pareceu que, se a sua família tivesse feito um acordo para se expor o mais possível durante a noite, teria sido impossível desempenharem os seus papéis com mais espírito, ou melhor êxito; e bem-aventurado pensou ela ser para Bingley e para a irmã que alguma da exibição tivesse escapado à sua atenção, e que os sentimentos dele não fossem de molde a ficarem muito perturbados pela loucura de que ele houvera de ser testemunha. Que as duas irmãs dele e o Sr. Darcy, porém, tivessem semelhante oportunidade de ridicularizar os seus parentes já era mau bastante; e não conseguia decidir se o desprezo silencioso do cavalheiro, ou os sorrisos insolentes das senhoras, eram mais intoleráveis.

O resto da noite pouco divertimento lhe trouxe. Foi importunada pelo Sr. Collins, que continuou com a maior perseverança ao seu lado; e, ainda que não pudesse levá-la a dançar com ele outra vez, tirou-lhe a possibilidade de dançar com outros. Em vão suplicou ela que fosse dançar com outra pessoa, e ofereceu-se para lha apresentar com qualquer jovem da sala. Ele assegurou-lhe que, quanto a dançar, era perfeitamente indiferente; que o seu principal objectivo era, por delicadas atenções, recomendar-se a ela; e que portanto faria questão de permanecer junto a ela toda a noite. Não havia argumento contra tal projecto. O seu maior alívio devia-o à sua amiga Miss Lucas, que muitas vezes se lhes juntou e, com boa vontade, chamava a si a conversa do Sr. Collins.

Ao menos estava livre de novas atenções ofensivas da parte do Sr. Darcy: embora muitas vezes a uma distância muito curta dela, inteiramente disponível, ele nunca se aproximou o suficiente para falar. Sentiu ser essa a consequência provável das suas alusões ao Sr. Wickham, e rejubilou com isso.

O grupo de Longbourn foi o último de toda a companhia a partir; e, por uma manobra da Sra. Bennet, teve de esperar pela carruagem um quarto de hora depois de todos os outros terem saído, o que lhes deu tempo de ver quão sinceramente alguns membros da família ansiavam por vê-los partir. A Sra. Hurst e a irmã mal abriram a boca excepto para se queixarem de cansaço, e estavam manifestamente impacientes por ficar com a casa só para elas. Rejeitaram todas as tentativas de conversa da Sra. Bennet e, assim procedendo, lançaram uma languidez sobre todo o grupo, que pouco alívio recebeu dos longos discursos do Sr. Collins, que estava a elogiar o Sr. Bingley e as irmãs pela elegância do seu entretenimento, e pela hospitalidade e polidez que tinham marcado o seu comportamento para com os convidados. Darcy não disse nada. O Sr. Bennet, em igual silêncio, apreciava a cena. O Sr. Bingley e Jane estavam de pé juntos, um pouco afastados dos restantes, e falavam só entre si. Elizabeth conservou um silêncio tão firme como a Sra. Hurst ou Miss Bingley; e até Lydia estava demasiado cansada para articular mais do que a exclamação ocasional de «Senhor, como estou cansada!», acompanhada de um bocejo violento.

Quando por fim se levantaram para se despedir, a Sra. Bennet foi extremamente insistente nas suas expressões de esperança de ver toda a família em breve em Longbourn; e dirigiu-se particularmente ao Sr. Bingley, para lhe assegurar como ele os faria felizes, indo comer com eles um jantar de família a qualquer altura, sem a cerimónia de um convite formal. Bingley mostrou-se grato e satisfeito; e prontamente se comprometeu a aproveitar a primeira oportunidade de a visitar ao regressar de Londres, onde era obrigado a ir no dia seguinte por pouco tempo.

A Sra. Bennet ficou perfeitamente satisfeita; e abandonou a casa sob a deliciosa persuasão de que, descontadas as preparações necessárias de contratos, novas carruagens e roupas de noiva, veria sem dúvida a filha instalada em Netherfield no espaço de três ou quatro meses. Em ter outra filha casada com o Sr. Collins pensava com igual certeza, e com considerável, embora não igual, prazer. Elizabeth era a menos querida de todos os seus filhos; e, embora o homem e o partido fossem bastante bons para ela, o valor de ambos era eclipsado pelo Sr. Bingley e Netherfield.

CAPÍTULO XIX.

No dia seguinte abriu-se uma nova cena em Longbourn. O Sr. Collins fez a sua declaração em forma. Tendo resolvido fazê-lo sem perda de tempo, visto a sua licença de ausência se estender apenas até ao sábado seguinte, e não tendo sentimentos de acanhamento que lhe tornassem o momento penoso, empreendeu-o de uma maneira muito ordeira, com todas as formalidades que supunha parte regular do negócio. Ao encontrar a Sra. Bennet, Elizabeth e uma das filhas mais novas juntas, logo após o pequeno-almoço, dirigiu-se à mãe nestas palavras:

—Posso esperar, minha senhora, pelo vosso interesse junto da vossa bela filha Elizabeth, ao solicitar a honra de uma audiência privada com ela no decurso desta manhã?

Antes de Elizabeth ter tempo para mais do que um rubor de surpresa, a Sra. Bennet respondeu de imediato:

—Ah, meu Deus! Sim, decerto. Tenho a certeza de que a Lizzy ficará muito feliz—tenho a certeza de que ela não pode ter objecção. Anda, Kitty, preciso de ti lá em cima.—E, recolhendo o seu trabalho, apressava-se a sair, quando Elizabeth exclamou:

—Querida mamã, não vos vades. Peço-vos que não vos vades. O Sr. Collins há-de desculpar-me. Não pode ter nada a dizer-me que todos não possam ouvir. Eu mesma vou sair.

—Não, não, disparate, Lizzy. Desejo que fiques onde estás.—E, vendo Elizabeth parecer realmente disposta, com ares de aborrecimento e embaraço, a escapar-se, acrescentou:—Lizzy, insisto em que fiques e ouças o Sr. Collins.

Elizabeth não se oporia a tal imposição; e um breve momento de reflexão fazendo-a sentir também que seria mais prudente resolver a questão o mais cedo e o mais silenciosamente possível, tornou a sentar-se, e tentou esconder, em ocupação incessante, os sentimentos que se lhe dividiam entre aflição e divertimento. A Sra. Bennet e Kitty saíram, e, assim que partiram, o Sr. Collins começou:

—Crede-me, minha querida Miss Elizabeth, que a vossa modéstia, longe de vos prejudicar, antes acrecenta as vossas outras perfeições. Seríeis menos amável aos meus olhos se não houvesse esta pequena relutância; mas permiti-me assegurar-vos que tenho a permissão da vossa respeitável mãe para esta abordagem. Dificilmente podeis duvidar do intento do meu discurso, por mais que a vossa natural delicadeza vos leve a dissimular; as minhas atenções foram demasiado marcadas para se errarem o alvo. Quase tão logo entrei nesta casa vos escolhi como companheira da minha vida futura. Mas antes de me deixar arrebatar pelos meus sentimentos neste assunto, talvez seja prudente expor-vos as minhas razões para casar — e, além disso, para vir a Hertfordshire com o desígnio de escolher uma esposa, como sem dúvida fiz.

A ideia do Sr. Collins, com toda a sua solenidade composta, a ser arrebatado pelos sentimentos, pôs Elizabeth tão perto de rir que não pôde aproveitar a breve pausa que ele lhe concedeu para qualquer tentativa de o deter mais, e ele continuou:

—As minhas razões para casar são, em primeiro lugar, que considero ser dever de todo o clérigo em circunstâncias fáceis (como eu) dar o exemplo do matrimónio na sua paróquia; em segundo lugar, que estou convencido de que acrescentará grandemente a minha felicidade; e, em terceiro lugar, o que talvez devesse ter mencionado primeiro, que é o conselho e a recomendação particular da muito nobre senhora a quem tenho a honra de chamar patrona. Duas vezes se dignou ela dar-me a sua opinião (sem que lha pedisse!) sobre este assunto; e foi exactamente na noite de sábado antes de eu deixar Hunsford—entre as nossas partidas de quadrille, enquanto Mrs. Jenkinson dispunha o escabelo de Miss De Bourgh—que ela disse: «Mr. Collins, haveis de casar. Um clérigo como vós tem de casar. Escolhei convenientemente, escolhei uma gentil-dama por minha causa, e pela vossa; que seja uma pessoa activa e útil, não criada em grande, mas capaz de fazer um pequeno rendimento render bastante. Este é o meu conselho. Encontrai tal mulher o mais cedo que puderdes, trazei-a a Hunsford, e eu visitá-la-ei.» Permiti-me, de passagem, observar, minha prima, que não conto a atenção e a bondade de Lady Catherine de Bourgh entre as menores das vantagens que tenho o poder de vos oferecer. Achareis as suas maneiras para além de tudo o que eu possa descrever; e o vosso espírito e vivacidade, creio, hão-de ser-lhe aceitáveis, especialmente quando temperados com o silêncio e o respeito que o seu rango inevitavelmente激发ará. Até aqui a minha intenção geral em favor do matrimónio; resta dizer por que razões dirigi as minhas vistas para Longbourn em vez de para a minha própria vizinhança, onde vos asseguro que há muitas jovens amáveis. Mas o facto é que, sendo eu, como sou, o herdeiro desta propriedade após a morte do vosso honrado pai (que, todavia, pode ainda viver muitos anos), não poderia ficar em paz sem resolver escolher esposa entre as filhas dele, a fim de que a perda para elas fosse a menor possível quando o triste acontecimento tiver lugar—o qual, porém, como já disse, pode não vir senão dentro de vários anos. Este foi o meu motivo, minha prima, e lisonjeio-me de que não me há-de diminuir no vosso conceito. E agora nada me resta senão assegurar-vos na linguagem mais viva da violência da minha afeição. Quanto a fortuna, sou perfeitamente indiferente, e não farei exigência dessa natureza ao vosso pai, pois bem sei que não poderia ser satisfeita; e que as mil libras em fundos a quatro por cento, que não serão vossas senão depois do falecimento da vossa mãe, é tudo a que jamais podereis ter direito. Sobre esse ponto, portanto, guardarei uniforme silêncio: e podeis estar certa de que nenhum reproche mesquinho jamais me passará pelos lábios quando estivermos casados.

Era absolutamente necessário interrompê-lo agora.

—Sois precipitado, senhor —exclamou ela—. Esqueceis que ainda não dei resposta. Permiti que o faça sem mais perda de tempo. Aceitai os meus agradecimentos pelo cumprimento que me fazeis. Tenho perfeita consciência da honra das vossas propostas, mas é-me impossível fazer outra coisa senão recusá-las.

—Não estou agora a aprender —respondeu Mr. Collins, com um gesto formal da mão— que é costume das jovens senhoritas rejeitar as pretensões do homem que secretamente tencionam aceitar, quando ele pela primeira vez solicita o seu favor; e que às vezes a recusa se repete uma segunda e até uma terceira vez. Não me deixo, pois, de modo algum desanimar pelo que acabais de dizer, e espero conduzir-vos ao altar antes de muito tempo.

—Pela minha palavra, senhor —exclamou Elizabeth—, a vossa esperança é bastante extraordinária depois da minha declaração. Asseguro-vos que não sou uma dessas jovens senhoritas (se é que tais jovens senhoritas existem) tão atrevidamente ousadas que arrisquem a sua felicidade na possibilidade de serem pedidas uma segunda vez. Sou perfeitamente séria na minha recusa. Não me poderíeis fazer feliz, e estou convicta de que sou a última mulher no mundo que vos faria feliz a vós. E mesmo que Lady Catherine, vossa protectora, me conhecesse, estou persuadida de que me acharia sob todos os aspectos mal qualificada para o lugar.

—Ainda que fosse certo que Lady Catherine assim pensasse —disse Mr. Collins, muito gravemente—, não posso imaginar que Sua Senhoria vos desaprovasse de qualquer modo. E podeis estar certa de que, quando tiver a honra de a ver de novo, falarei nos mais elevados termos da vossa modéstia, economia e outras amáveis qualidades.

—Na verdade, Mr. Collins, será desnecessário todo o elogio a meu respeito. Haveis de permitir-me que julgue por mim mesma, e que me pagueis o obséquio de acreditar no que digo. Desejo-vos muito feliz e muito rico, e ao recusar a vossa mão, faço tudo o que está ao meu alcance para evitar que sejais de outro modo. Ao fazer-me a oferta, já tereis satisfeito a delicadeza dos vossos sentimentos para com a minha família, e podereis tomar posse da propriedade de Longbourn quando esta vagar, sem qualquer remorso. Esta questão pode, portanto, considerar-se definitivamente resolvida. —E levantando-se assim que falou, teria saído da sala, se Mr. Collins não se lhe dirigisse nestes termos:

—Quando me fizer a honra de vos falar de novo sobre o assunto, espero receber resposta mais favorável do que a que acabais de me dar; embora esteja longe de vos acusar de crueldade por ora, porque sei que é costume estabelecido do vosso sexo rejeitar um homem à primeira declaração, e talvez tenhais mesmo agora dito tanto para encorajar a minha corte quanto seria compatível com a verdadeira delicadeza do carácter feminino.

—Na verdade, Mr. Collins —exclamou Elizabeth, com alguma veemência—, confundis-me extraordinariamente. Se tudo quanto até agora disse vos pode parecer forma de encorajamento, não sei como exprimir a minha recusa de modo que vos convença de que o é.

—Haveis de permitir-me, minha querida prima, que me lisonjee de que a vossa recusa das minhas pretensões são meras palavras de fórmula. As razões em que me fundo são brevemente estas: não me parece que a minha mão seja indigna da vossa aceitação, nem que a posição que posso oferecer seja outra coisa senão altamente desejável. A minha situação na vida, as minhas ligações com a família De Bourgh e o meu parentesco com a vossa são circunstâncias altamente a meu favor; e deveis ainda ponderar que, apesar das vossas múltiplas atrações, não é de modo algum certo que outra proposta de casamento vos seja algum dia feita. O vosso dote é infelizmente tão pequeno que, segundo toda a probabilidade, anulará os efeitos da vossa beleza e amáveis qualidades. Como devo, portanto, concluir que não sois séria na vossa rejeição, escolherei atribuí-la ao vosso desejo de aumentar o meu amor pela suspense, segundo a prática usual das elegantes senhoras.

—Asseguro-vos, senhor, que não tenho pretensões quaisquer àquela espécie de elegância que consiste em atormentar um homem respeitável. Antes receberia o obséquio de que se acreditasse na minha sinceridade. Agradeço-vos mais uma e outra vez a honza que me fizestes com as vossas propostas, mas aceitá-las é absolutamente impossível. Os meus sentimentos sob todos os aspectos o proíbem. Posso falar mais claramente? Não me considereis agora como uma elegante senhora que intenta atormentar-vos, mas como uma criatura racional que diz a verdade do coração.

—Sois uniformemente encantadora! —exclamou ele, com um ar de galantaria desajeitada—; e estou persuadido de que, quando sancionado pela expressa autoridade de ambos os vossos excelentes pais, as minhas propostas deixarão de ser aceitáveis.

A tal perseverança na voluntária ilusão Elizabeth não responderia, e retirou-se imediatamente e em silêncio; determinada, caso ele persistisse em considerar as suas reiteradas recusas como encorajamento lisonjeiro, a recorrer ao pai, cujo negativo poderia ser proferido de modo decisivo, e cujo procedimento, ao menos, não poderia ser confundido com a afetação e coquetterie de uma elegante senhora.

CAPÍTULO XX.

Mr. Collins não ficou muito tempo entregue à silenciosa contemplação do seu feliz amor; pois Mrs. Bennet, que andara a rondar pelo vestíbulo a fim de espreitar o desfecho da conferência, mal viu Elizabeth abrir a porta e passar com passo rápido para a escada, entrou na sala do pequeno-almoço e felicitou tanto a ele como a si própria em termos calorosos pela feliz perspectiva da sua mais estreita ligação. Mr. Collins recebeu e retribuiu estas felicitações com igual prazer, e em seguida passou a relatar as particularidades da entrevista, com cujo resultado confiava ter toda a razão para se dar por satisfeito, uma vez que a recusa que a prima lhe fizera com firmeza derivaria naturalmente da sua tímida modéstia e da genuína delicadeza do seu carácter.

Esta informação, contudo, alarmou Mrs. Bennet: teria ela gostado de estar igualmente persuadida de que a filha tencionara encorajá-lo com o protestar contra as suas propostas, mas não ousava acreditá-lo e não pôde deixar de o dizer.

—Mas podeis contar com isso, Mr. Collins —acrescentou—, que a Lizzy será trazida à razão. Eu própria lhe falarei nisso já a seguir. É uma rapariga muito obstinada e tola, e não sabe qual é o seu interesse; mas eu lhe hei de fazer sabê-lo.

—Perdoai-me que vos interrompa, senhora —exclamou Mr. Collins—; mas se ela é realmente obstinada e tola, não sei se seria de todo uma esposa muito desejável para um homem na minha situação, que naturalmente busca felicidade no estado matrimonial. Portanto, se ela de facto persistir em rejeitar a minha pretensão, talvez fosse melhor não a forçar a aceitar-me, porque, se for sujeita a tais defeitos de génio, não poderia contribuir muito para a minha felicidade.

—Senhor, interpretais-me muito mal —disse Mrs. Bennet, alarmada—. A Lizzy é obstinada apenas em assuntos como este. Em tudo o mais é a rapariga de melhor coração que jamais existiu. Vou já ter com Mr. Bennet, e em breve resolveremos a questão com ela, tenho a certeza.

Não lhe deu tempo para responder, mas correndo imediatamente para o marido, exclamou, ao entrar na biblioteca:

—Ah, Mr. Bennet, precisam de vós já a seguir; estamos todos numa alvoroço. Haveis de vir e fazer com que a Lizzy case com Mr. Collins, porque ela jura que não o quer; e se não vos apressais, ele mudará de ideias e não a quererá a ela.

Mr. Bennet ergueu os olhos do livro quando ela entrou e fixou-os no rosto dela com uma calma indiferença, que não foi alterada nem um pouco pela sua comunicação.

—Não tenho o prazer de vos compreender —disse ele, quando ela terminou a fala—. De que estais a falar?

—De Mr. Collins e da Lizzy. A Lizzy declara que não quer Mr. Collins, e Mr. Collins começa a dizer que não quer a Lizzy.

—E que hei de eu fazer no caso? Parece um assunto sem remédio.

—Falai vós mesmo à Lizzy sobre isso. Dizei-lhe que insistis em que ela case com ele.

—Que a mandem chamar. Ouvirá a minha opinião.

Mrs. Bennet tocou a campainha, e Miss Elizabeth foi chamada à biblioteca.

—Vem cá, filha —exclamou o pai quando ela apareceu—. Mandei chamar-te por causa de um assunto importante. Compreendo que Mr. Collins te fez uma proposta de casamento. É verdade?

Elizabeth respondeu que sim.

—Muito bem. E esta proposta de casamento tu a recusaste?

—Recusei, senhor.

—Muito bem. Chegamos agora ao ponto. A tua mãe insiste em que a aceites. Não é assim, Mrs. Bennet?

—Sim, ou nunca mais a tornarei a ver.

—Uma alternativa bem triste se te apresenta, Elizabeth. De hoje em diante hás de ser estranha a um dos teus pais. A tua mãe nunca mais te verá se não casares com Mr. Collins, e eu nunca mais te verei se casares.

Elizabeth não pôde senão sorrir de tal conclusão para tais princípios; mas Mrs. Bennet, que se persuadira de que o marido considerava o assunto como ela desejava, ficou excessivamente desapontada.

—Que quereis dizer, Mr. Bennet, falando deste modo? Prometestes-me que havíeis de insistir em que ela casasse com ele.

—Minha cara —respondeu-lhe o marido—, tenho dois pequenos favores a pedir-te. Primeiro, que me permitas o livre uso do meu entendimento na presente ocasião; e, segundo, o do meu quarto. Terá muito gosto em ter a biblioteca só para mim logo que possível.

Todavia, ainda não —apesar do desapontamento com o marido— desistiu Mrs. Bennet do intento. Falou a Elizabeth vezes sem conta; ora lisonjeou-a, ora ameaçou-a. Tentou granjear Jane para o seu partido, mas Jane, com toda a possível brandura, recusou intrometer-se; e Elizabeth, umas vezes com verdadeiro ardor, outras com brincalhona alegria, respondia aos seus ataques. Embora o seu modo variasse, porém, a sua determinação nunca variou.

Mr. Collins, entretanto, meditava em solidão sobre o que se passara. Pensava demasiado bem de si mesmo para compreender com que motivo a prima o poderia recusar; e embora o seu orgulho ficasse ferido, não sofria de outra maneira. A sua afeição por ela era absolutamente imaginária; e a possibilidade de ela merecer o reparo da mãe impedia-o de sentir qualquer pesar.

Enquanto a família se achava nesta confusão, Charlotte Lucas veio passar o dia com elas. Foi encontrada no vestíbulo por Lydia, que, correndo para ela, exclamou a meia voz: «Que bem que vieste, porque aqui está uma brincadeira e pera! Que te parece que aconteceu esta manhã? Mr. Collins fez uma proposta à Lizzy, e ela não o quer.»

Charlotte mal teve tempo de responder antes de se lhes juntar Kitty, que veio dar a mesma novidade; e mal entraram na sala do pequeno-almoço, onde Mrs. Bennet estava sozinha, ela igualmente começou sobre o assunto, apelando para Miss Lucas pela sua compaixão e suplicando-lhe que persuadisse a sua amiga Lizzy a ceder aos desejos da família. «Por favor, minha querida Miss Lucas» —acrescentou, em tom melancólico—, «porque ninguém está do meu lado, ninguém toma o meu partido; sou cruelmente tratada, ninguém se compadece dos meus pobres nervos.»

A resposta de Charlotte foi poupada pela entrada de Jane e Elizabeth.

—Ah, aí vem ela —continuou Mrs. Bennet—, com ar tão indiferente como é possível, e sem se importar mais connosco do que se estivéssemos em York, contanto que possa fazer a sua vontade. Mas eu te digo uma coisa, Miss Lizzy: se te meteres na cabeça continuar a recusar todas as propostas de casamento desta maneira, nunca arranjarás marido algum —e tenho a certeza de que não sei quem te há de sustentar quando o teu pai morrer. Não poderei eu manter-te —e por isso te aviso. Acabou-se para mim desde este próprio dia. Eu te disse na biblioteca, como sabes, que nunca mais te falaria, e verás que sou tão boa como a minha palavra. Não tenho prazer em falar com filhos desobedientes. Não que tenha muito prazer, aliás, em falar com quem quer que seja. As pessoas que sofrem como eu de queixas nervosas não podem ter grande inclinação para conversar. Ninguém pode imaginar o que eu sofro! Mas é sempre assim. Os que não se queixam nunca são compadecidos.»

As filhas ouviram em silêncio esta expansão, cientes de que qualquer tentativa de a convencer ou acalmar apenas aumentaria a irritação. Ela continuou, portanto, sem ser interrompida por nenhuma delas até que se lhes juntou Mr. Collins, que entrou com um ar mais imponente do que o costume, e ao percebê-lo, disse ela às raparigas:

—Ora, insisto em que todas vós fiquem caladas e deixeis Mr. Collins e a mim termos um pequeno colóquio.

Elizabeth saiu tranquilamente do quarto, Jane e Kitty seguiram-na, mas Lydia manteve-se firme, decidida a ouvir tudo quanto pudesse; e Charlotte, detida primeiro pela cortesia de Mr. Collins, cujas perguntas a seu respeito e de toda a sua família eram minuciosas, e depois por um pouco de curiosidade, deu-se por satisfeita indo até à janela e fingindo não ouvir. Em voz lamentosa, Mrs. Bennet assim começou o projetado colóquio:

—Ah, Mr. Collins!

—Minha cara senhora —respondeu ele—, deixemos que seja para sempre silencioso este ponto. Longe de mim —continuou logo, em voz que marcava o seu desagrado— ressentir o procedimento da vossa filha. A resignação aos males inevitáveis é o dever de todos nós: o dever peculiar de um jovem que tem sido tão feliz como eu com uma rápida preferência; e confio que estou resignado. Talvez não menos por sentir uma incerteza acerca da minha positiva felicidade caso a minha bela prima me tivesse honrado com a sua mão; porque muitas vezes observei que a resignação nunca é tão perfeita como quando a bênção negada começa a perder um pouco do seu valor no nosso conceito. Não esperareis, espero, que eu mostre qualquer falta de respeito à vossa família, minha cara senhora, retirando assim as minhas pretensões ao favor da vossa filha, sem vos ter pago a vós e a Mr. Bennet o obséquio de vos pedir que interpusésseis a vossa autoridade em meu favor. A minha conduta poderá, temo-o, ser censurável por ter aceitado a minha demissão dos lábios da vossa filha em vez dos vossos; mas todos estamos sujeitos ao erro. Certamente tive boas intenções em todo este assunto. O meu intento foi assegurar uma companheira amável para mim, com a devida atenção à vantagem de toda a vossa família; e se a minha maneira de proceder foi de algum modo repreensível, peço aqui licença para pedir desculpa.

CAPÍTULO XXI.

A discussão da proposta de Mr. Collins estava agora quase no fim, e Elizabeth só tinha a sofrer com os sentimentos incómodos que necessariamente a acompanhavam, e de quando em quando com alguma alusão irritada da mãe. Quanto ao próprio cavalheiro, os seus sentimentos exprimiam-se sobretudo, não pelo embaraço ou abatimento, nem por tentar evitá-la, mas por uma rigidez de maneiras e um silêncio ressentido. Quase nunca lhe falava; e as atenciosas atenções que ele próprio tão sensivelmente notara foram transferidas, pelo resto do dia, para Miss Lucas, cuja cortesia em o ouvir foi um oportuno alívio para todos, e especialmente para a sua amiga.

O dia seguinte não trouxe qualquer abatimento do mau humor nem da má saúde de Mrs. Bennet. Mr. Collins estava também no mesmo estado de orgulho irritado. Elizabeth esperara que o seu ressentimento lhe abreviasse a visita, mas o seu plano não pareceu minimamente afectado por aquilo. Devia sempre partir no sábado, e até sábado tencionava ainda permanecer.

Depois do pequeno-almoço, as raparigas foram a pé até Meryton, para indagar se Mr. Wickham tinha regressado, e para lastimar a sua ausência do baile de Netherfield. Ele juntou-se-lhes ao entrarem na vila e acompanhou-as até casa da tia, onde o seu pesar e vexame e a preocupação de todos foram longamente discutidos. A Elizabeth, contudo, ele voluntariamente confessou que a necessidade da sua ausência lhe fora auto-imposta.

—Reconheci —disse ele—, à medida que o tempo se aproximava, que era melhor não encontrar Mr. Darcy; que estar no mesmo quarto, na mesma reunião com ele durante tantas horas seguidas, podia ser mais do que eu suportaria, e que poderiam surgir cenas desagradáveis para mais alguém além de mim.

Ela aprovou altamente a sua contenção; e tiveram tempo para uma plena discussão do caso, e para todos os cumprimentos que civilmente se prodigalizaram um ao outro, enquanto Wickham e outro oficial voltavam com elas a Longbourn, e durante o caminho ele teve particularmente atenções para com ela. O facto de as acompanhar era uma dupla vantagem: ela sentiu todo o elogio que isso significava para si própria; e era muito aceitável como ocasião de o apresentar ao pai e à mãe.

Pouco depois do seu regresso, foi entregue uma carta a Miss Bennet; vinha de Netherfield, e foi aberta imediatamente. O envelope continha uma folha de papel elegante, pequeno e acetinado, toda coberta de uma letra feminina, bela e fluente; e Elizabeth viu o rosto da irmã alterar-se à medida que ela lia, e viu-a deter-se atentamente sobre certas passagens particulares. Jane recompôs-se logo; e guardando a carta, tentou juntar-se, com a sua habitual alegria, à conversa geral: mas Elizabeth sentiu uma ansiedade sobre o assunto que lhe desviou a atenção até de Wickham; e mal ele e o seu companheiro se despediram, um olhar de Jane convidou-a a segui-la ao andar de cima. Quando chegaram ao seu próprio quarto, Jane, tirando a carta, disse: «Esta é de Caroline Bingley: o que ela contém surpreendeu-me bastante. Toda a gente já deixou Netherfield a esta hora, e vai a caminho da cidade; e sem nenhuma intenção de voltar. Vais ouvir o que ela diz.»

Leu então em voz alta a primeira frase, que compreendia a informação de que tinham acabado de resolver seguir o irmão diretamente para a cidade, e do seu intento de jantar nesse dia em Grosvenor Street, onde Mr. Hurst tinha casa. A seguinte era nestes termos: «Não pretendo lamentar nada do que deixarei em Hertfordshire exceto a vossa companhia, minha cara amiga; mas havemos de esperar que, nalgum período futuro, gozemos muitos regressos daquela deliciosa convivência que conhecemos, e entretanto possamos diminuir a pena da separação por uma correspondência muito frequente e sem reservas. Conto convosco para isso.» A estas expressões arrebatadas Elizabeth ouviu com toda a insensibilidade da desconfiança; e embora a subitaneidade da partida a surpreendesse, não via nela nada realmente para lamentar: não era de supor que a ausência delas de Netherfield impedisse Mr. Bingley de estar lá; e quanto à perda da sua sociedade, estava persuadida de que Jane em breve deixaria de a considerar, na fruição da dele.

—É azar —disse ela, após uma pequena pausa— que não possas ver as tuas amigas antes de saírem do condado. Mas não poderemos esperar que o período de felicidade futura, para que Miss Bingley olha, chegue mais cedo do que ela pensa, e que a deliciosa convivência que tiveste como amigas se renove com ainda maior satisfação? Mr. Bingley não será detido em Londres por elas.

—Caroline afirma decididamente que nenhum do grupo voltará a Hertfordshire este inverno. Vou ler-to.

«Quando o meu irmão nos deixou ontem, imaginava que os negócios que o levavam a Londres poderiam concluir-se em três ou quatro dias; mas como temos a certeza de que assim não pode ser, e ao mesmo tempo estamos convictas de que, uma vez que Charles chegue à cidade, não terá pressa de a deixar de novo, resolvemos segui-lo até lá, para que ele não seja obrigado a passar as suas horas vagas num hotel sem conforto. Muitas das minhas relações já estão lá para o inverno: bem quisera eu poder saber que vós, minha cara amiga, tínheis alguma intenção de fazer um na multidão, mas disso desespero. Sinceramente espero que o vosso Natal em Hertfordshire abunde nas alegrias que essa estação geralmente traz, e que os vossos pretendentes sejam tão numerosos que vos impeçam de sentir a falta dos três de que vos privaremos.»

—É evidente por isto —acrescentou Jane— que ele não volta mais este inverno.

—Só é evidente que Miss Bingley não tenciona que ele volte.

—Porque haveis de pensar assim? Deve ser obra dele; ele é dono de si. Mas vós não sabeis tudo. Vou ler-vos o trecho que particularmente me magoa. Não terei reservas para convosco. «Mr. Darcy está impaciente por ver a sua irmã; e, para dizer a verdade, nós mal somos menos desejosas de a tornar a encontrar. Realmente não acho que Georgiana Darcy tenha igual em beleza, elegância e dotes; e a afeição que ela inspira em Louisa e em mim é elevada a algo ainda mais interessante pela esperança que nos atrevemos a alimentar de ela vir a ser nossa cunhada. Não sei se alguma vez vos falei dos meus sentimentos a este respeito, mas não deixarei o país sem vos confiar isto, e confio que não os haveis de achar desarrazoados. O meu irmão já a admira muito; terá agora frequentes oportunidades de a ver em termos da maior intimidade; todos os dela desejam a ligação tanto quanto ele próprio; e a parcialidade de uma irmã não me ilude, creio eu, quando chamo a Charles o mais capaz de conquistar o coração de qualquer mulher. Com todas estas circunstâncias a favorecer uma inclinação, e nada que a impeça, tenho eu razão, minha querida Jane, em alimentar a esperança de um acontecimento que assegurará a felicidade de tantos?» Que vos parece desta frase, minha cara Lizzy? —disse Jane, ao acabar de a ler. —Não chega bem? Não declara expressamente que Caroline nem espera nem deseja que eu seja sua cunhada; que está perfeitamente convencida da indiferença do irmão; e que, se suspeita a natureza dos meus sentimentos por ele, tenciona (muito bondosamente!) prevenir-me. Pode haver alguma outra opinião a este respeito?

—Sim, pode haver; porque a minha é totalmente diferente. Quereis ouvi-la?

—Muito de boa vontade.

—Tê-la-eis em poucas palavras. Miss Bingley vê que o irmão está enamorado de vós e quer que ele case com Miss Darcy. Segue-o até à cidade na esperança de o lá reter, e tenta persuadir-vos de que ele não se importa convosco.

Jane sacudiu a cabeça.

—Na verdade, Jane, deveis acreditar-me. Ninguém que jamais vos tenha visto juntos pode duvidar da afeição dele; Miss Bingley, tenho a certeza, não pode: ela não é tão parva. Se tivesse visto em Mr. Darcy metade deste amor por ela própria, já teria encomendado o trajo de noiva. Mas o caso é este: nós não somos suficientemente ricos ou suficientemente ilustres para eles; e ela tanto mais anseia por obter Miss Darcy para o irmão, pela ideia de que, uma vez havido um casamento misto, terá menos trabalho em alcançar um segundo; no que há certamente algum engenho, e aposto que lograria se Miss de Bourgh estivesse fora do caminho. Mas, minha querida Jane, não podeis imaginar seriamente que, porque Miss Bingley vos diz que o irmão admira muito Miss Darcy, ele esteja no mais mínimo grau menos ciente do vosso mérito do que quando se despediu de vós na terça-feira; ou que esteja no poder dela persuadi-lo de que, em vez de estar enamorado de vós, está muito enamorado da amiga dela.

—Se pensássemos ambos da mesma maneira acerca de Miss Bingley —respondeu Jane—, a vossa representação de tudo isto talvez me deixasse bem tranquila. Mas sei que o fundamento é injusto. Caroline é incapaz de enganar deliberadamente quem quer que seja; e tudo quanto posso esperar neste caso é que ela própria esteja enganada.

—Isso mesmo. Não podíeis ter começado com uma ideia mais feliz, já que não quereis consolar-vos com a minha: acreditai que ela está enganada, por todos os meios. Já cumpristes o vosso dever para com ela, e não deveis mais afligir-vos.

—Mas, minha querida irmã, poderei ser feliz, mesmo supondo o melhor, ao aceitar um homem cujas irmãs e amigos todos desejam que ele case com outra?

—Haveis de decidir por vós mesma —disse Elizabeth—; e se, após madura deliberação, achais que a miséria de desagradar às duas irmãs dele é mais do que equivalente à felicidade de ser a esposa dele, aconselho-vos, por todos os meios, a recusá-lo.

—Como podeis falar assim? —disse Jane, sorrindo debilmente—; deveis saber que, embora ficaria excessivamente magoada com a desaprovação delas, não poderia hesitar.

—Não pensei que hesitaríeis; e sendo esse o caso, não posso considerar a vossa situação com muita compaixão.

—Mas, se ele não voltar mais este inverno, nunca me será exigida a escolha. Mil coisas podem surgir em seis meses.

A ideia de ele não voltar mais Elizabeth tratou com o mais absoluto desprezo. Pareceu-lhe apenas a sugestão dos desejos interessados de Caroline; e não podia por um momento supor que tais desejos, por mais abertamente ou astutamente expressos, pudessem influenciar um jovem tão totalmente independente de todos.

Expôs à irmã, com a maior força que pôde, o que ela própria sentia a respeito, e teve em breve a satisfação de ver o seu efeito feliz. O temperamento de Jane não era de desalento; e ela foi-se gradualmente deixando levar a esperar, embora a timidez da afeição por vezes vencesse a esperança, que Bingley voltaria a Netherfield, e corresponderia a todos os desejos do seu coração.

Convieram em que Mrs. Bennet só ouviria falar da partida da família, sem ser alarmada quanto à conduta do cavalheiro; mas, mesmo esta comunicação parcial deu-lhe grande cuidado, e ela lamentou como muitíssimo infeliz que as senhoras houvessem de partir justamente quando se estavam tornando todos tão íntimos. Depois de o lastimar, porém, com alguma extensão, teve a consolação de pensar que Mr. Bingley brevemente desceria de novo, e jantaria em breve em Longbourn; e a conclusão de tudo foi a confortável declaração de que, embora ele tivesse sido convidado somente para um jantar de família, ela haveria de cuidar que houvesse dois pratos completos.

CAPÍTULO XXII.

Os Bennet estavam comprometidos para jantar em casa dos Lucas; e, de novo, durante a maior parte do dia, Miss Lucas foi tão amável que ouvir Mr. Collins. Elizabeth aproveitou uma oportunidade para lhe agradecer. «Mantém-no de bom humor», disse ela, «e estou-vos mais obrigada do que posso exprimir».

Charlotte assegurou à amiga a sua satisfação em ser útil, e que isso lhe recompensava amplamente o pequeno sacrifício do seu tempo. Era isto muito amável; mas a bondade de Charlotte estendia-se mais longe do que Elizabeth tinha alguma concepção: o seu objecto nada menos era do que preservá-la de qualquer retorno dos galanteios de Mr. Collins, prendendo-os a ela própria. Tal era o plano de Miss Lucas; e as aparências eram tão favoráveis, que, quando se separaram à noite, ela ter-se-ia sentido quase certa do êxito se ele não houvesse de deixar Hertfordshire tão brevemente. Mas aqui ela fez injustiça ao fogo e independência do seu carácter; pois isso o levou a escapar de Longbourn na manhã seguinte com admirável astúcia, e apressar-se para Lucas Lodge para se lançar aos pés dela. Ele estava ansioso por evitar a atenção dos primos, na convicção de que, se o vissem partir, não deixariam de conjecturar o seu desígnio, e não queria que a tentativa fosse conhecida antes que o seu êxito pudesse ser igualmente conhecido; pois, conquanto se sentisse quase seguro, e com razão, porque Charlotte se mostrara toleravelmente encorajadora, estava comparativamente tímido desde a aventura de quarta-feira. A sua recepção, todavia, foi da mais lisonjeira espécie. Miss Lucas percebeu-o de uma janela superior enquanto ele caminhava para a casa, e saiu imediatamente a encontrar-se com ele acidentalmente na vereda. Mas pouco ousara ela esperar que tanto amor e eloquência a aguardassem ali.

Em tão curto espaço de tempo quanto os longos discursos de Mr. Collins permitiram, tudo ficou ajustado entre eles para satisfação de ambos; e, ao entrarem em casa, ele pediu-lhe encarecidamente que designasse o dia que o havia de fazer o mais feliz dos homens; e, embora tal solicitação devesse ser adiada por agora, a senhora não sentiu inclinação para brincar com a felicidade dele. A estupidez de que ele era favorecido pela natureza havia de preservar o seu namoro de qualquer encanto que pudesse levar uma mulher a desejar a sua continuação; e Miss Lucas, que o aceitava unicamente pelo puro e desinteressado desejo de um estabelecimento, não se importava com a brevidade com que esse estabelecimento fosse obtido.

Sir William e Lady Lucas foram prontamente solicitados para dar o seu consentimento; e foi concedido com a mais jubilosa presteza. As actuais circunstâncias de Mr. Collins faziam dele um partido extremamente elegível para a filha deles, a quem pouco podiam dar em fortuna; e as suas perspectivas de riqueza futura eram excessivamente lisonjeiras. Lady Lucas começou imediatamente a calcular, com mais interesse do que o assunto jamais

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excitara, quantos anos mais provavelmente Mr. Bennet viveria; e Sir William deu como sua decidida opinião que, sempre que Mr. Collins estivesse na posse da propriedade de Longbourn, seria altamente conveniente que ele e a esposa aparecessem em St. James's. Toda a família, em suma, estava convenientemente exultante com a ocasião. As raparigas mais novas formaram esperanças de sair um ano ou dois mais cedo do que de outra forma poderiam; e os rapazes ficaram aliviados do receio de que Charlotte morresse solteirona. Charlotte, por si, estava toleravelmente composta. Havia ganho o seu intento, e tinha tempo para o considerar. As suas reflexões eram em geral satisfatórias. Mr. Collins, é certo, não era nem sensato nem agradável: a sua companhia era fastidiosa, e a sua afeição por ela havia de ser imaginária. Mas ainda assim havia de ser seu marido. Sem pensar muito nem dos homens nem do matrimónio, o casamento fora sempre o seu objecto: era o único provimento honroso para jovens de boa educação e pequena fortuna, e, por mais incerto que fosse de dar felicidade, havia de ser o mais agradável preservativo contra a necessidade. Este preservativo obtivera-o ela agora; e, à idade de vinte e sete anos, sem ter jamais sido formosa, sentia toda a boa fortuna disso. A circunstância menos agradável do assunto era a surpresa que havia de causar a Elizabeth Bennet, cuja amizade ela prezava acima da de qualquer outra pessoa. Elizabeth havia de admirar-se, e provavelmente havia de censurá-la; e, embora a sua resolução não fosse para ser abalada, os seus sentimentos haviam de ser magoados por tal desaprovação. Resolveu dar-lhe ela própria a informação; e portanto recomendou a Mr. Collins, quando ele voltou a Longbourn para jantar, que não deixasse escapar nenhuma insinuação do que se passara diante de qualquer pessoa da família. Uma promessa de segredo foi, como é de supor, muito devotamente dada, mas não pôde ser guardada sem dificuldade; pois a curiosidade excitada pela sua longa ausência rompeu em tão directas perguntas ao seu regresso, que exigiram alguma engenhosidade para as evadir, e ele estava ao mesmo tempo a exercer grande autodomínio, porque ardia em publicar o seu próspero amor.

Como ele havia de começar a sua jornada muito cedo na manhã seguinte para ver alguma pessoa da família, a cerimónia da despedida foi realizada quando as senhoras se retiraram para a noite; e Mrs. Bennet, com grande cortesia e cordialidade, disse como seria feliz em vê-lo em Longbourn outra vez, sempre que os seus outros compromissos lhe permitissem visitá-los.

—Querida senhora —replicou ele—, este convite é particularmente lisonjeiro, porque é exactamente o que eu andava esperando receber; e podeis estar muito certa de que me aproveitarei dele tão cedo quanto possível.

Ficaram todos surpreendidos; e Mr. Bennet, que de modo algum podia desejar tão breve regresso, disse imediatamente:

—Mas não haverá perigo da desaprovação de Lady Catherine nisto, meu bom senhor? Melhor é negligenciardes os vossos parentes do que correrdes o risco de ofender a vossa patrona.

—Meu caro senhor —replicou Mr. Collins—, sou-vos particularmente obrigado por este amigável aviso, e podeis confiar que não darei passo tão importante sem o assentimento de Sua Senhoria.

—Não vos podeis guardar de mais. Arriscai tudo antes do que o seu desagrado; e, se achais provável que ele seja provocado pela vossa vinda aqui, o que eu deveria julgar extremamente provável, ficai tranquilamente em casa, e ficai certo de que nós não levaremos a mal.

—Crede-me, meu caro senhor, a minha gratidão é vivamente excitada por tão afectuosa atenção; e, ficai certo, recebereis de mim brevemente uma carta de agradecimento por este, bem como por qualquer outra marca da vossa estima durante a minha estada em Hertfordshire. Quanto às minhas formosas primas, conquanto a minha ausência possa não ser bastante longa para o tornar necessário, tomo agora a liberdade de lhes desejar saúde e felicidade, sem exceptuar a minha prima Elizabeth.

Com as devidas cortesias, as senhoras então retiraram-se; todas elas igualmente surpreendidas ao descobrir que ele meditava um breve regresso. Mrs. Bennet desejou compreender por isso que ele pensava em dirigir os seus galanteios a uma das suas filhas mais novas, e talvez Mary pudesse ser induzida a aceitá-lo. Ela avaliava muito mais altamente as suas capacidades do que quaisquer dos outros: havia uma solidez nas suas reflexões que a impressionava amiúde; e, embora de modo algum tão esperto como ela própria, pensava que, se animado a ler e a melhorar-se por tão bom exemplo como o dela, poderia tornar-se um companheiro muito agradável. Mas na manhã seguinte toda a esperança desta espécie foi desfeita. Miss Lucas veio logo depois do pequeno almoço, e numa conferência em particular com Elizabeth relatou o acontecimento do dia anterior.

A possibilidade de Mr. Collins se ter afeiçoado à amiga dela ocorrera uma vez a Elizabeth no último dia ou dois: mas que Charlotte o pudesse encorajar parecia quase tão afastado da possibilidade como que ela própria o pudesse encorajar; e o seu assombro era por conseguinte tão grande que venceu a princípio os limites do decoro, e ela não pôde deixar de exclamar:

—Noiva de Mr. Collins! Minha cara Charlotte, impossível!

O rosto impassível que Miss Lucas lograra manter ao contar-lhe a história cedeu por um momento a uma confusão passageira ao receber tão directo reparo; embora, como não era mais do que ela esperava, recuperou em breve a compostura, e respondeu calmamente:

—Porque haveis de surpreender-vos, minha cara Eliza? Achaís incrivel que Mr. Collins seja capaz de granjear a boa opinião de qualquer mulher, porque não teve a felicidade de conseguir a vossa?

Mas Elizabeth recordara-se então de si própria; e, fazendo um forte esforço, pôde assegurar, com tolerável firmeza, que a perspectiva da sua parentela lhe era altamente agradável, e que lhe desejava toda a felicidade imaginável.

—Vejo o que estais a sentir —respondeu Charlotte—; deveis estar surpreendida, muito surpreendida, tão recentemente como Mr. Collins desejava casar convosco. Mas, quando tiverdes tempo para pensar em tudo, espero que fiqueis satisfeita com o que eu fiz. Não sou romântica, sabeis. Nunca fui. Peço apenas um lar confortável; e, considerando o carácter, as ligações e a situação de Mr. Collins na vida, estou convicta de que a minha hipótese de felicidade com ele é tão boa como a da maior parte das pessoas ao entrar no estado do matrimónio.

Elizabeth respondeu quietamente «sem dúvida»; e, após uma pausa embaraçada, tornaram para o resto da família. Charlotte não ficou muito mais tempo; e Elizabeth ficou então a reflectir sobre o que ouvira. Passou muito tempo antes que de modo algum se reconciliasse com a ideia de tão inadequado casamento. O estranho de Mr. Collins fazer duas propostas de casamento dentro de três dias não era nada em comparação de ele ser agora aceite. Sempre sentira que a opinião de Charlotte acerca do matrimónio não era exactamente como a sua; mas não podia ter suposto possível que, chamada à acção, ela sacrificasse todo o sentimento melhor à vantagem mundana. Charlotte, esposa de Mr. Collins, era um quadro humilhante! E à dor de ver uma amiga desonrar-se a si própria, e decair na sua estima, acrescentava-se a convicção angustiante de que era impossível a essa amiga ser toleravelmente feliz no lote que escolhera.

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CAPÍTULO XXIII.

Elizabeth estava sentada com a mãe e as irmãs, reflectindo sobre o que ouvira, e duvidando se era autorizada a mencioná-lo, quando Sir William Lucas em pessoa apareceu, enviado pela filha para anunciar o seu noivado à família. Com muitos cumprimentos para eles, e muito regozijo próprio pela perspectiva de uma ligação entre as casas, expôs o assunto, a uma assembleia não apenas maravilhada, mas incrédula; pois Mrs. Bennet, com mais perseverança do que cortesia, protestou que ele havia de estar inteiramente enganado; e Lydia, sempre desprecavida e amiúde descortês, exclamou ruidosamente:

—Santo Deus! Sir William, como podeis contar semelhante história? Não sabeis que Mr. Collins quer casar com a Lizzy?

Nada menos do que a complacência de um cortesão poderia ter suportado sem cólera tal tratamento: mas a boa criação de Sir William levou-o através de tudo; e, embora pedisse licença para ser positivo quanto à verdade da sua informação, ouviu toda a impertinência deles com a mais tolerante cortesia.

Elizabeth, sentindo ser seu dever aliviá-lo de tão desagradável situação, adiantou-se agora para confirmar o relato dele, mencionando o seu prévio conhecimento dele por Charlotte mesma; e procurou deter as exclamações da mãe e das irmãs, com a instância das suas felicitações a Sir William, nas quais foi prontamente secundada por Jane, e fazendo uma variedade de observações sobre a felicidade que se podia esperar do casamento, o excelente carácter de Mr. Collins, e a distância conveniente de Hunsford a Londres.

Mrs. Bennet estava, de facto, demasiado oprimida para dizer grande coisa enquanto Sir William ali ficou; mas apenas ele os deixou, os seus sentimentos encontraram um rápido desafogo. Em primeiro lugar, persistiu em descrer de todo o assunto; em segundo, estava muito certa de que Mr. Collins fora logrado; em terceiro, confiava que nunca seriam felizes juntos; e, em quarto, que o casamento podia ser desfeito. Duas inferências, contudo, eram claramente deduzidas do conjunto: uma, que Elizabeth era a verdadeira causa de todo o mal; e a outra, que ela própria fora barbaramente tratada por todos eles; e nestes dois pontos ela sobretudo insistiu durante o resto do dia. Nada a podia consolar nem nada a podia apaziguar. Nem esse dia gastou o seu ressentimento. Passou-se uma semana antes que pudesse ver Elizabeth sem a ralhar: passou-se um mês antes que pudesse falar com Sir William ou Lady Lucas sem ser grosseira; e muitos meses passaram antes que de todo pudesse perdoar a filha deles.

As emoções de Mr. Bennet eram muito mais tranquilas na ocasião, e as que ele experimentou qualificou de muito agradáveis; porque, disse ele, era-lhe grato descobrir que Charlotte Lucas, a quem ele estivera acostumado a julgar toleravelmente sensata, era tão parva como a mulher dele, e mais parva do que a filha!

Jane confessou-se um pouco surpreendida com o casamento: mas disse menos do seu assombro do que do seu vivo desejo pela felicidade deles; nem Elizabeth a pôde persuadir a considerá-lo improvável. Kitty e Lydia estavam longe de invejar Miss Lucas, pois Mr. Collins era somente um clérigo; e isto as afectou de nenhum outro modo senão como uma novidade para espalhar em Meryton.

Lady Lucas não podia estar insensível ao triunfo de poder retorquir a Mrs. Bennet o consolo de ter uma filha bem casada; e visitava Longbourn mais amiúde do que o habitual para dizer como era feliz, embora os olhares azedos e as observações maldosas de Mrs. Bennet pudessem ter bastado para afugentar a felicidade.

Entre Elizabeth e Charlotte havia um constrangimento que as mantinha mutuamente caladas sobre o assunto; e Elizabeth sentia-se persuadida de que nenhuma verdadeira confiança podia jamais subsistir de novo entre elas. O seu desengano em Charlotte fê-la voltar-se com mais carinho para a irmã, de cuja rectidão e delicadeza estava certa que a sua opinião nunca poderia ser abalada, e por cuja felicidade ela se tornava diariamente mais ansiosa, pois Bingley já se havia ido havia uma semana, e nada se ouvia do seu regresso.

Jane tinha enviado a Caroline uma resposta precoce à sua carta, e contava os dias até poder razoavelmente esperar ouvir de novo. A prometida carta de agradecimento do sr. Collins chegou na terça-feira, dirigida ao pai delas, e escrita com toda a solenidade de gratidão que uma permanência de um ano na família poderia ter inspirado. Depois de descarregar a sua consciência a esse respeito, passou a informá-los, com muitas expressões de arrebatamento, da sua felicidade por ter obtido o afecto da sua amável vizinha, Miss Lucas, e explicou então que fora meramente com o propósito de gozar da sua companhia que estivera tão pronto a aceitar o seu amável desejo de o ver de novo em Longbourn, para onde esperava poder regressar numa segunda-feira de quinze em quinze dias; pois Lady Catherine, acrescentava ele, aprovava tão sinceramente o seu casamento, que desejava que se realizasse tão cedo quanto possível, o que ele confiava seria um argumento sem resposta junto da sua amável Charlotte para marcar um dia próximo que fizesse dele o mais feliz dos homens.

O regresso do sr. Collins a Hertfordshire já não era motivo de satisfação para a sra. Bennet. Pelo contrário, estava tão disposta a queixar-se dele como o marido. Era muito estranho que ele viesse para Longbourn em vez de para a Lucas Lodge; era também muito inconveniente e extremamente incómodo. Odiava ter visitantes em casa enquanto a sua saúde se encontrava tão frágil, e os apaixonados eram, de entre todas as pessoas, as mais desagradáveis. Eram estes os murmúrios suaves da sra. Bennet, e só cediam diante da maior aflição causada pela continuada ausência do sr. Bingley.

Nem Jane nem Elizabeth se sentiam à vontade a este respeito. Dia após dia passava sem trazer outras notícias dele além do relato que brevemente prevaleceu em Meryton de que ele não viria mais a Netherfield durante todo o Inverno; relato que altamente indignou a sra. Bennet, e que ela nunca deixou de contradizer como a mais escandalosa falsidade.

Até Elizabeth começou a temer — não que Bingley fosse indiferente — mas que as irmãs dele tivessem êxito em mantê-lo afastado. Por mais relutante que estivesse em admitir uma ideia tão destrutiva da felicidade de Jane, e tão desonrosa para a firmeza do seu amante, não podia impedir que esta lhe ocorresse frequentemente. Os esforços unidos das suas duas irmãs insensíveis, e do seu amigo avassalador, assistidos pelos atractivos de Miss Darcy e pelos divertimentos de Londres, poderiam ser demais, temia ela, para a força da sua afeição.

Quanto a Jane, a sua ansiedade sob esta incerteza era, naturalmente, mais dolorosa do que a de Elizabeth: mas, qualquer coisa que sentisse, estava desejosa de a esconder; e entre ela e Elizabeth, portanto, o assunto nunca era referido. Mas como nenhuma delicadeza semelhante restringia a mãe, raramente passava uma hora em que ela não falasse de Bingley, exprimisse a sua impaciência pela chegada dele, ou até exigisse que Jane confessasse que, se ele não voltasse, se sentiria muito mal tratada. Era necessária toda a brandura firme de Jane para suportar estes ataques com tranquilidade tolerável.

O sr. Collins regressou com toda a pontualidade na segunda-feira de quinze em quinze dias, mas a sua recepção em Longbourn não foi tão graciosa como na sua primeira apresentação. Contudo, estava feliz demais para precisar de muita atenção; e, felizmente para os outros, os afazeres do namoro livravam-nos de grande parte da sua companhia. A maior parte de cada dia era passada por ele na Lucas Lodge, e às vezes só regressava a Longbourn a tempo de pedir desculpa pela sua ausência antes de a família se ir deitar.

A sra. Bennet estava verdadeiramente num estado lastimoso. A simples menção de qualquer coisa relativa ao casamento lançava-a numa agonia de mau humor, e aonde quer que fosse tinha a certeza de ouvir falar nisso. A vista de Miss Lucas era-lhe odiosa. Como sua sucessora naquela casa, considerava-a com horror ciumento. Sempre que Charlotte vinha visitá-los, concluía que ela estava a antecipar a hora da posse; e sempre que falava em voz baixa com o sr. Collins, ficava convencida de que estavam a falar da propriedade de Longbourn, e a resolver expulsá-la a ela e às suas filhas da casa assim que o sr. Bennet morresse. Queixava-se amargamente de tudo isto ao marido.

"Na verdade, sr. Bennet", disse ela, "é muito duro pensar que Charlotte Lucas venha a ser senhora desta casa, que eu seja obrigada a dar-lhe lugar, e viva para vê-la tomar o meu lugar nela!"

"Minha querida, não te entregues a pensamentos tão sombrios. Esperemos por coisas melhores. Deixemo-nos iludir com a ideia de que eu possa ser o sobrevivente."

Isto não foi muito consolador para a sra. Bennet; e, portanto, em vez de dar qualquer resposta, continuou como antes.

"Não posso suportar pensar que eles terão toda esta propriedade. Se não fosse o vínculo, não me importaria."

"Com o que não te importarias?"

"Não me importaria com nada absolutamente."

"Agradecemos por te ver preservada de um estado de tal insensibilidade."

"Nunca poderei estar agradecida, sr. Bennet, por nada relativo ao vínculo. Como alguém pôde ter a consciência de vincular uma propriedade afastando-a das próprias filhas, não posso compreender; e tudo por causa do sr. Collins, ainda por cima! Porque haveria ele de tê-la mais do que qualquer outro?"

"Deixo-te a ti mesma determinar", disse o sr. Bennet.

CAPÍTULO XXIV.

A carta de Miss Bingley chegou e pôs fim à dúvida. A própria primeira frase transmitiu a certeza de estarem todos estabelecidos em Londres durante o Inverno, e concluía com o pesar do irmão por não ter tido tempo de apresentar os seus respeitos aos amigos em Hertfordshire antes de deixar o país.

A esperança acabou, completamente acabou; e quando Jane pôde atender ao resto da carta, encontrou pouco, para além da declarada afeição da autora, que lhe pudesse dar qualquer conforto. O elogio de Miss Darcy ocupava a maior parte. Os seus muitos atractivos eram novamente encarecidos; e Caroline gabava-se alegremente da sua crescente intimidade, e aventurava-se a prever a realização dos desejos que tinham sido expostos na sua carta anterior. Escrevia também com grande prazer sobre o facto de o irmão ser hospede da casa do sr. Darcy, e mencionava com arrebatamentos alguns planos deste último quanto a mobiliário novo.

Elizabeth, a quem Jane comunicou muito em breve o essencial de tudo isto, ouviu-a em silenciosa indignação. O seu coração dividia-se entre a preocupação pela irmã e o ressentimento contra todos os outros. À afirmação de Caroline de que o irmão tinha preferência por Miss Darcy, ela não deu crédito. Que ele fosse verdadeiramente apaixonado por Jane, não duvidava mais do que nunca tinha duvidado; e por mais que sempre tivesse estado disposta a gostar dele, não conseguia pensar sem ira, quase sem desprezo, naquela facilidade de temperamento, naquela falta de resolução própria, que agora o tornavam escravo das suas amigas interessadas, e o levavam a sacrificar a sua própria felicidade ao capricho das suas inclinações. Se porém a sua própria felicidade tivesse sido o único sacrifício, poder-se-lhe-ia permitir brincar com ela da maneira que melhor lhe parecesse; mas a da sua irmã estava envolvida, como ela pensava que ele próprio devia sentir. Era um assunto, em suma, sobre o qual a reflexão se demoraria muito, e havia de ser inútil. Não conseguia pensar em mais nada; e contudo, quer a estima de Bingley tivesse realmente morrido, quer fosse reprimida pela interferência dos amigos; quer ele tivesse estado ciente da afeição de Jane, quer lhe tivesse escapado a observação; qualquer que fosse o caso, embora a sua opinião sobre ele devesse ser materialmente afectada pela diferença, a situação da irmã permanecia a mesma, a sua paz igualmente ferida.

Passou um dia ou dois antes que Jane tivesse coragem para falar dos seus sentimentos a Elizabeth; mas por fim, ao sair a sra. Bennet deixando-as a sós, após uma irritação mais longa que o habitual acerca de Netherfield e do seu senhor, não pôde deixar de dizer:

"Oh, se a minha querida mãe tivesse mais domínio sobre si mesma! Ela não pode ter ideia da dor que me causa com as suas contínuas reflexões sobre ele. Mas não me vou lamentar. Não pode durar muito. Será esquecido, e seremos todos como éramos dantes."

Elizabeth olhou para a irmã com solicitude incrédula, mas nada disse.

"Duvidas de mim", exclamou Jane, corando ligeiramente; "na verdade, não tens razão. Ele pode viver na minha memória como o mais amável homem do meu conhecimento, mas é tudo. Não tenho nada a esperar nem a temer, e nada com que o reprove. Graças a Deus não tenho essa dor. Um pouco de tempo, portanto — vou certamente tentar superar----"

Com uma voz mais firme, acrescentou logo a seguir: "Tenho este conforto imediato, que não passou de um erro de fantasia da minha parte, e que não fez mal a ninguém senão a mim."

"Minha querida Jane", exclamou Elizabeth, "és demasiado boa. A tua doçura e desinteresse são realmente angélicos; não sei o que te diga. Sinto como se nunca te tivesse feito justiça, nem te amado como mereces."

Miss Bennet recusou eagerly todo o mérito extraordinário, e devolveu o elogio ao afectuoso carinho da irmã.

"Não", disse Elizabeth, "isso não é justo. Desejas pensar bem de todo o mundo, e ficas magoada se eu falo mal de alguém. Eu só quero pensar-te perfeita, e tu opões-te a isso. Não temas que eu caia em qualquer excesso, que invada o teu privilégio de boa vontade universal. Não precisas. Há poucas pessoas que eu realmente ame, e ainda menos de quem eu pense bem. Quanto mais vejo do mundo, mais descontente fico com ele; e cada dia confirma a minha crença na inconsistência de todos os caracteres humanos, e na pouca dependência que se pode colocar na aparência quer de mérito quer de senso. Deparei-me ultimamente com dois casos: um não mencionarei, o outro é o casamento de Charlotte. É inexplicável! sob qualquer ponto de vista é inexplicável!"

"Minha querida Lizzy, não te entregues a sentimentos destes. Hão-de arruinar a tua felicidade. Não concedes suficiente allowances à diferença de situação e temperamento. Considera a respeitabilidade do sr. Collins, e o carácter prudente e firme de Charlotte. Lembra-te de que ela é de uma família numerosa; que, quanto a fortuna, é um casamento muito vantajoso; e dispõe-te a acreditar, para bem de todos, que ela pode sentir algo como estima e consideração pelo nosso primo."

"Para te obedecer, eu tentaria acreditar em quase tudo, mas mais ninguém poderia ser beneficiado por tal crença como esta; pois se eu ficasse persuadida de que Charlotte tinha alguma estima por ele, pensaria apenas pior do seu entendimento do que já penso do seu coração. Minha querida Jane, o sr. Collins é um homem presunçoso, pomposo, mesquinho e parvo: sabes bem que é, tão bem como eu; e deves sentir, tão bem como eu, que a mulher que o casa não pode ter um modo próprio de pensar. Não hás-de defendê-la, embora seja Charlotte Lucas. Não hás-de, por causa de um indivíduo, mudar o sentido de princípio e integridade, nem tentar persuadir-te a ti mesma ou a mim, de que o egoísmo é prudência, e a insensibilidade ao perigo segurança de felicidade."

"Devo pensar que a tua linguagem é demasiado forte ao falar de ambos", replicou Jane; "e espero que te convenças disso, ao vê-los felizes juntos. Mas basta disto. Aludiste a outra coisa. Mencionaste dois casos. Não posso interpretar-te mal, mas suplico-te, querida Lizzy, que não me mortifiques pensando que aquela pessoa tem culpa, e dizendo que a tua opinião sobre ele decaiu. Não devemos estar tão prontas a imaginar-nos intencionalmente agravadas. Não devemos esperar que um jovem vivo seja sempre tão comedido e circunspecto. É muito frequentemente apenas a nossa própria vaidade que nos engana. As mulheres imaginam que a admiração significa mais do que realmente significa."

"E os homens têm o cuidado de que assim seja."

"Se é feito de propósito, não podem ser justificados; mas eu não tenho ideia de que haja tanto propósito no mundo como algumas pessoas imaginam."

"Estou longe de atribuir qualquer parte da conduta do sr. Bingley a propósito", disse Elizabeth; "mas, sem maquinar para fazer o mal, ou para tornar outros infelizes, pode haver erro e pode haver desgraça. A inconsideração, a falta de atenção aos sentimentos dos outros, e a falta de resolução, farão o trabalho."

"E atribuis isso a alguma destas causas?"

"Sim, à última. Mas, se continuo, vou desagradar-te dizendo o que penso de pessoas que estimas. Detém-me, enquanto podes."

"Então insistes em supor que as irmãs dele o influenciam?"

"Sim, em conjunto com o amigo dele."

"Não posso acreditar nisso. Porque haviam de tentar influenciá-lo? Só podem desejar a felicidade dele; e, se ele está ligado a mim, nenhuma outra mulher a pode assegurar."

"A tua primeira posição é falsa. Podem desejar muitas coisas além da felicidade dele: podem desejar o aumento da sua riqueza e importância; podem desejar que ele case com uma rapariga que tenha toda a importância do dinheiro, grandes relações, e orgulho."

"Sem dúvida desejam que ele escolha Miss Darcy", replicou Jane; "mas isto pode provir de sentimentos melhores do que estás a supor. Conhecem-na há muito mais tempo do que a mim; não é de admirar que a amem mais. Mas, quaisquer que sejam os desejos delas, é muito improvável que se tenham oposto ao irmão. Que irmã se julgaria com liberdade para o fazer, a menos que houvesse algo muito condenável? Se acreditassem que ele está ligado a mim, não tentariam separar-nos; se ele o estivesse, não poderiam consegui-lo. Ao supor tal afeição, fazes toda a gente a agir de modo antinatural e errado, e a mim desgraçada. Não me mortifiques com tal ideia. Não tenho vergonha de ter estado enganada — ou, pelo menos, é leve, não é nada em comparação do que sentiria ao pensar mal dele ou das irmãs dele. Deixa-me tomá-lo na melhor luz, na luz em que pode ser entendido."

Elizabeth não pôde opor-se a tal desejo; e a partir desta altura o nome do sr. Bingley foi quase nunca mencionado entre elas.

A sra. Bennet continuou ainda a maravilhar-se e a lamentar-se de que ele não tivesse voltado mais; e, embora raramente passasse um dia sem que Elizabeth não desse uma explicação clara para isso, parecia haver pouca probabilidade de que ela alguma vez o considerasse com menos perplexidade. A filha dela procurava convencê-la daquilo em que ela própria não acreditava, de que as atenções dele a Jane tinham sido apenas o efeito de uma afeição vulgar e passageira, que cessara quando deixou de a ver; mas embora a probabilidade da afirmação fosse admitida na ocasião, ela tinha a mesma história para repetir todos os dias. O melhor conforto da sra. Bennet era que o sr. Bingley haveria de vir de novo no Verão.

O sr. Bennet tratava o assunto de modo diferente. "Então, Lizzy", disse ele, um dia, "a tua irmã está contrariada em amor, pelo que vejo. Parabéns. Logo depois de casar, uma rapariga gosta de ser contrariada em amor de vez em quando. É algo em que pensar, e dá-lhe uma espécie de distinção entre as companheiras. Quando chega a tua vez? Mal suportarás estar por muito tempo ultrapassada por Jane. Agora é a tua oportunidade. Aqui há oficiais suficientes em Meryton para desapontar todas as jovens da terra. Que Wickham seja o teu homem. É um sujeito agradável, e desenganar-te-ia com honra."

"Obrigada, senhor, mas um homem menos agradável bastar-me-ia. Não podemos todas esperar a boa sorte de Jane."

"É verdade", disse o sr. Bennet; "mas é um conforto pensar que, seja o que for desse género que te acontecer, tens uma mãe afectuosa que sempre fará o maior partido disso."

A sociedade do sr. Wickham foi de material serventia para dissipar a melancolia que os recentes acontecimentos perversos tinham lançado sobre muitos da família de Longbourn. Viam-no amiúde, e às suas outras recomendações juntava-se agora a da franqueza geral. Tudo o que Elizabeth já tinha ouvido, as suas reclamações contra o sr. Darcy, e tudo o que ele sofrera dele, era agora abertamente reconhecido e publicamente discutido; e toda a gente se alegrava por pensar como sempre tinham desagradado o sr. Darcy antes de saberem alguma coisa do assunto.

Miss Bennet era a única criatura que podia supor que houvesse quaisquer circunstâncias atenuantes no caso desconhecidas da sociedade de Hertfordshire: a sua candura branda e constante advogava sempre por concessões, e instava com a possibilidade de equívocos; mas por toda a outra gente o sr. Darcy era condenado como o pior dos homens.

CAPÍTULO XXV.

Depois de uma semana passada em declarações de amor e projectos de felicidade, o sr. Collins foi chamado da sua amável Charlotte pela chegada do sábado. A dor da separação, contudo, poderia ser aliviada da parte dele por preparativos para a recepção da sua noiva, pois tinha razões para esperar que, pouco depois do seu próximo regresso a Hertfordshire, se fixasse o dia que havia de fazê-lo o mais feliz dos homens. Despediu-se dos seus parentes em Longbourn com tanta solenidade como antes; desejou às suas formosas primas saúde e felicidade de novo, e prometeu ao pai delas outra carta de agradecimento.

Na segunda-feira seguinte, a sra. Bennet teve o prazer de receber o seu irmão e a cunhada, que vieram, como de costume, passar o Natal em Longbourn. O sr. Gardiner era um homem sensato e gentlemanlike, muito superior à irmã, tanto pela natureza como pela educação. As senhoras de Netherfield teriam tido dificuldade em acreditar que um homem que vivia do comércio, e à vista dos seus próprios armazéns, pudesse ser tão bem-educado e agradável. A sra. Gardiner, que era vários anos mais nova do que a sra. Bennet e a sra. Philips, era uma mulher amável, inteligente e elegante, e uma grande favorita das suas sobrinhas de Longbourn. Entre as duas mais velhas e ela em especial, existia uma estima muito particular. Tinham estado frequentemente em sua casa na cidade.

A primeira parte da tarefa da sra. Gardiner, ao chegar, foi distribuir as suas prendas e descrever as modas mais recentes. Feito isto, tinha uma parte menos activa a desempenhar. Era agora a sua vez de ouvir. A sra. Bennet tinha muitas queixas para relatar, e muito de que se lamentar. Tinham sido todos muito mal tratados desde a última vez que vira a irmã. Duas das suas filhas tinham estado a ponto de casar, e afinal não havia nada disso.

"Não culpo Jane", continuou ela, "pois Jane teria arranjado o sr. Bingley se pudesse. Mas, Lizzy! Oh, mana! é muito duro pensar que ela poderia já ser mulher do sr. Collins a esta hora, se não tivesse sido pela sua própria perversidade. Ele fez-lhe uma proposta nesta mesma sala, e ela recusou-o. A consequência disso é que Lady Lucas terá uma filha casada antes de mim, e que a propriedade de Longbourn está tão vinculada como sempre. Os Lucas são gente muito astuciosa, com efeito, mana. Tudo o que querem é aquilo que podem arranjar. Lamento dizê-lo deles, mas é assim. Enerva-me e faz-me adoecer, ser assim contrariada na minha própria família, e ter vizinhos que pensam em si antes de qualquer outro. Contudo, a tua vinda precisamente nesta altura é o maior dos confortos, e estou muito contente por ouvir o que nos contas sobre as mangas compridas."

A sra. Gardiner, a quem o essencial destas notícias já tinha sido dado antes, no decurso da correspondência de Jane e Elizabeth com ela, deu à irmã uma resposta breve, e, por compaixão das sobrinhas, mudou de conversa.

Quando ficou a sós com Elizabeth depois, falou mais sobre o assunto. "Parece ter sido um casamento desejável para Jane", disse ela. "Lamento que tenha falhado. Mas estas coisas acontecem tão amiúde! Um rapaz, como descreves o sr. Bingley, enamora-se tão facilmente de uma rapariga bonita durante algumas semanas, e, quando o acaso os separa, esquece-a tão facilmente, que estas espécies de inconstâncias são muito frequentes."

"Uma excelente consolação a seu modo", disse Elizabeth; "mas não serve para nós. Não sofremos por acaso. Não acontece muitas vezes que a interferência de amigos consiga persuadir um rapaz de fortuna independente a deixar de pensar numa rapariga de quem estava perdidamente apaixonado apenas alguns dias antes."

—Mas essa expressão de “perdidamente apaixonado” é tão gasta, tão duvidosa, tão indefinida, que me dá muito pouca ideia. Aplica-se tantas vezes a sentimentos que nascem apenas de meia hora de convivência como a uma afeição real e forte. Ora dize-me, quão violenta era a paixão do sr. Bingley?

—Nunca vi inclinação tão prometedora; ele tornava-se bastante desatento para com as outras pessoas, e estava completamente absorto nela. Cada vez que se viam, era mais decidida e notável. No baile dele, ofendeu duas ou três senhoritas por não as convidar para dançar; e eu própria falei-lhe duas vezes sem obter resposta. Poderiam haver sintomas mais eloquentes? Não será a grosseria geral a própria essência do amor?

—Oh, sim! desse género de amor que eu imagino que ele tenha sentido. Pobre Jane! Tenho pena dela, porque, com o seu feitio, talvez não consiga esquecer tão cedo. Antes fora contigo, Lizzy; tu terias rido até te livrares disso. Mas achas que ela se deixaria convencer a voltar connosco? A mudança de ares podia ser útil — e talvez um pequeno alívio do convívio de casa seja tão proveitoso como qualquer outra coisa.

Elizabeth ficou extremamente agradada com esta proposta, e sentiu-se persuadida da pronta aquiescência da irmã.

—Espero — acrescentou a sra. Gardiner — que nenhuma consideração relativa a este rapaz a influencie. Vivemos numa zona tão diferente da cidade, todas as nossas relações são tão diversas, e, como bem sabes, saímos tão pouco, que é muito improvável que se cruzem, a menos que ele venha visitá-la de propósito.

—E isso é absolutamente impossível, pois ele está agora sob a tutela do amigo dele, e o sr. Darcy não consentiria que ele fosse visitar a Jane numa zona dessas de Londres! Minha querida tia, como pudestes pensar nisso? O sr. Darcy talvez tenha ouvido falar de um lugar chamado Gracechurch Street, mas mal acharia um mês inteiro de abluções suficiente para o purificar das suas impurezas, se porventura lá entrasse; e, conta com isso, o sr. Bingley não se move sem ele.

—Tanto melhor. Espero que não se encontrem de todo. Mas a Jane não corresponde com a irmã dele? Não conseguirá deixar de a procurar.

—Ela romperá completamente a amizade.

Mas, apesar da certeza com que Elizabeth afetava encarar este ponto, bem como o ponto ainda mais interessante de Bingley ser impedido de ver Jane, ela sentia uma solicitude no assunto que a convenceu, após reflexão, de que não o considerava de todo desesperado. Era possível, e por vezes achava provável, que a afeição dele pudesse ser reanimada, e a influência dos amigos dele eficazmente combatida pela influência mais natural dos encantos de Jane.

A srta. Bennet aceitou o convite da tia com prazer; e os Bingley não ocupavam por então os pensamentos dela senão na medida em que esperava que, como Caroline não vivia na mesma casa que o irmão, pudesse ela de vez em quando passar uma manhã em sua companhia, sem o perigo de o encontrar.

Os Gardiner ficaram uma semana em Longbourn; e, entre os Philips, os Lucas e os oficiais, não houve um só dia sem algum compromisso. A sra. Bennet tinha tão cuidadosamente providenciado o entretenimento do irmão e da cunhada, que eles nem uma única vez se sentaram a uma refeição em família. Quando o compromisso era em casa, alguns dos oficiais faziam sempre parte dele, e entre esses oficiais o sr. Wickham era de certeza um; e nestas ocasiões a sra. Gardiner, tornada suspeita pela calorosa recomendação que Elizabeth fizera dele, observava-os ambos com atenção. Sem supor, pelo que via, que estivessem seriamente enamorados, a preferência de um pelo outro era bastante evidente para a deixar um pouco inquieta; e ela resolveu falar com Elizabeth sobre o assunto antes de deixar Hertfordshire, e mostrar-lhe a imprudência de encorajar tal inclinação.

Para a sra. Gardiner, Wickham tinha um meio de lhe dar prazer, independente das suas qualidades gerais. Uns dez ou doze anos atrás, antes do casamento dela, ela passara um tempo considerável naquela mesma zona de Derbyshire a que ele pertencia. Tinham, portanto, muitas amizades em comum; e, embora Wickham lá tivesse estado pouco desde a morte do pai de Darcy, cinco anos antes, estava ainda em condições de lhe dar notícias mais frescas dos seus antigos amigos do que aquelas que ela tivera ocasião de obter.

A sra. Gardiner tinha visto Pemberley e conhecido de carácter, perfeitamente, o falecido sr. Darcy. Eis aqui, consequentemente, um assunto inesgotável de conversa. Ao comparar a sua recordação de Pemberley com a minuciosa descrição que Wickham podia dar, e ao prestar o seu tributo de louvor ao carácter do falecido proprietário, ela deleitava ambos a ele e a ela própria. Ao ser informada do tratamento que o actual sr. Darcy lhe dispensara, tentou lembrar-se de algo da reputada disposição daquele cavalheiro, quando ele era ainda um rapazote, que pudesse concordar com isso; e ficou certa, por fim, de que se recordava de ter ouvido outrora falar do sr. Fitzwilliam Darcy como de um rapaz muito orgulhoso e mal-humorado.

CAPÍTULO XXVI.

O aviso da sra. Gardiner a Elizabeth foi pontual e afectuosamente dado na primeira oportunidade favorável para lhe falar a sós: depois de lhe dizer honestamente o que pensava, prosseguiu assim:—

—És uma rapariga demasiado ajuizada, para te enamorares só porque te previnem contra isso; e, por isso, não tenho medo de falar abertamente. A sério, quero que te mantenhas de sobreaviso. Não te enredes, nem procures enredá-lo, numa afeição que a falta de fortuna tornaria tão imprudente. Nada tenho a dizer contra ele: é um jovem muito interessante; e, se ele tivesse a fortuna que devia ter, acho que não poderias fazer melhor. Mas, tal como as coisas estão — não deixes a fantasia dominar-te. Tens bom senso, e todos esperamos que dele te sirvas. O teu pai conta com a tua resolução e boa conduta, disso tenho a certeza. Não o desiludas.

—Minha querida tia, isso sim é falar a sério.

—Sim, e espero conseguir que também tu sejas séria.

—Bem, então, não precisas de ter qualquer alarme. Hei-de cuidar de mim, e também do sr. Wickham. Ele não estará apaixonado por mim, se eu o puder impedir.

—Elizabeth, não estás a falar a sério agora.

—Peço-te perdão. Vou tentar outra vez. De momento não estou apaixonada pelo sr. Wickham; não, certamente que não estou. Mas ele é, sem qualquer comparação, o homem mais agradável que jamais vi — e se ele vier realmente a affeiçoar-se a mim — creio que será melhor que tal não aconteça. Vejo a imprudência. Oh, esse abominável sr. Darcy! A opinião que o meu pai tem de mim honra-me profundamente; e eu seria infeliz se a perdem. Contudo, o meu pai tem parcialidade pelo sr. Wickham. Em suma, minha querida tia, lamentaria muito ser causa de infelicidade para qualquer de vós; mas, uma vez que vemos todos os dias que, quando há affeição, os jovens raramente se deixam deter, por falta imediata de fortuna, de se comprometerem um com o outro, como posso eu prometer ser mais sensata do que tantos dos meus semelhantes, se for tentada, ou como sequer hei-de saber que seria mais sensato resistir? Tudo o que te posso prometer, portanto, é não ter pressa. Não me apressarei a crer que sou o primeiro objecto dele. Quando estiver na companhia dele, não estarei a desejar. Em suma, farei o meu melhor.

—Talvez seja prudente desencorajá-lo de vir aqui tão amiúde. Pelo menos não devias lembrar a tua mãe de o convidar.

—Como fiz no outro dia — disse Elizabeth, com um sorriso consciente; — é bem verdade, será prudente da minha parte abster-me disso. Mas não imagines que ele cá está tantas vezes como isso. É por tua causa que ele foi convidado com tanta frequência esta semana. Conheces as ideias da minha mãe quanto à necessidade de constante companhia para os amigos. Mas, na verdade, e palavra de honra, vou tentar fazer o que me parecer mais sensato; e agora espero que fiques satisfeita.

A tia assegurou-lhe que sim; e Elizabeth, depois de lhe agradecer a amabilidade das suas advertências, separaram-se — um admirável exemplo de conselho dado num assunto destes sem ser mal recebido.

O sr. Collins regressou a Hertfordshire pouco depois de ele ter sido deixado pelos Gardiner e por Jane; mas, como se instalou em casa dos Lucas, a sua chegada não foi grande incómodo para a sra. Bennet. O casamento estava agora próximo; e ela estava enfim tão resignada que o considerava inevitável, e até repetia, em tom maldoso, que “desejava que fossem felizes”. Quinta-feira seria o dia do casamento, e na quarta-feira a srta. Lucas fez a sua visita de despedida; e, quando ela se levantou para se despedir, Elizabeth, envergonhada pelas frias e relutantes boas-vindas da mãe e ela própria sinceramente comovida, acompanhou-a até fora da sala. Ao descerem as escadas juntas, disse Charlotte:—

—Hei-de contar com notícias tuas muito amiúde, Eliza.

—Certamente que as terás.

—E tenho outro favor a pedir. Virás visitar-me?

—Hemos de encontrar-nos muitas vezes, espero, em Hertfordshire.

—Não é provável que eu saia de Kent daqui a algum tempo. Promete-me, portanto, que vais a Hunsford.

Elizabeth não pôde recusar, embora previsse pouco prazer na visita.

—O meu pai e a Maria vêm ter comigo em Março — acrescentou Charlotte — e espero que consintas em fazer parte do grupo. Na verdade, Eliza, serás tão bem-vinda como qualquer deles.

O casamento realizou-se: a noiva e o noivo partiram para Kent desde a porta da igreja, e toda a gente teve tanto para dizer ou ouvir sobre o assunto como era habitual. Elizabeth recebeu em breve notícias da amiga, e a correspondência manteve-se tão regular e frequente como sempre fora: que fosse igualmente sem reservas era impossível. Elizabeth jamais lhe podia escrever sem sentir que todo o conforto da intimidade chegara ao fim; e, embora determinada a não esmorecer como correspondente, fá-lo-ia pelo que fora, mais do que pelo que era. As primeiras cartas de Charlotte foram recebidas com muita ansiedade: não podia deixar de haver curiosidade em saber como ela falaria do seu novo lar, como Lady Catherine lhe agradaria, e até que ponto se atreveria a declarar-se feliz; embora, ao serem lidas as cartas, Elizabeth sentisse que Charlotte se exprimia em tudo exactamente como poderia ter previsto. Escrevia com alegria, parecia rodeada de comodidades, e nada mencionava que não pudesse ser louvado. A casa, o mobiliário, a vizinhança e as estradas eram todos do seu agrado, e o procedimento de Lady Catherine era extremamente amigável e prestável. Era o retrato que o sr. Collins fizera de Hunsford e Rosings racionalmente suavizado; e Elizabeth percebeu que teria de esperar pela sua própria visita ali, para saber o resto.

Jane já tinha escrito algumas linhas à irmã, a anunciar a sua chegada em segurança a Londres; e, quando escreveu de novo, Elizabeth esperava que estivesse em condições de dizer algo sobre os Bingley.

A sua impaciência por esta segunda carta foi tão bem recompensada como a impaciência geralmente é. Jane estivera uma semana na cidade, sem ver Caroline nem ter notícias dela. Explicou o facto, contudo, supondo que a sua última carta à amiga, escrita de Longbourn, se perdera por algum acidente.

“A minha tia — continuou ela — vai amanhã a essa zona da cidade, e aproveitarei a ocasião para passar por Grosvenor Street.”

Escreveu de novo quando a visita foi feita, e ela tinha visto a srta. Bingley. “Não achei Caroline bem disposta”, foram as palavras dela; “mas ficou muito contente por me ver, e repreendeu-me por não a ter avisado da minha vinda a Londres. Eu tinha razão, portanto; a minha última carta nunca lhe chegou. Perguntei pelo irmão deles, como era natural. Ele estava bem, mas tão ocupado com o sr. Darcy que quase nunca o viam. Soube que a srta. Darcy era esperada para jantar: quem me dera poder vê-la. A minha visita não foi longa, pois Caroline e a sra. Hurst iam sair. Aposto que as verei aqui em breve.”

Elizabeth abanou a cabeça ao ler esta carta. Convenceu-se de que só por acaso é que o sr. Bingley poderia descobrir que a irmã dela estava na cidade.

Passaram-se quatro semanas, e Jane nada viu dele. Ela tentou persuadir-se de que não o lamentava; mas já não conseguia ignorar a desatenção de Miss Bingley. Depois de esperar em casa todas as manhãs durante uma quinzena, e de inventar todas as noites uma nova desculpa para ela, a visitante por fim apareceu; mas a brevidade da visita e, ainda mais, a alteração do seu modo de estar não permitiam a Jane enganar-se por mais tempo. A carta que ela escreveu nesta ocasião à irmã mostrará o que sentia:—

“Minha querida Lizzy, tenho a certeza, será incapaz de triunfar do seu melhor discernimento, à minha custa, quando eu me confessar totalmente enganada a respeito da estima de Miss Bingley por mim. Mas, minha querida irmã, embora o acontecimento te tenha dado razão, não me tenhas por obstinada se ainda afirmo que, tendo em conta o comportamento dela, a minha confiança era tão natural como a tua desconfiança. Eu de modo algum compreendo a razão por que ela desejava ser íntima de mim; mas, se as mesmas circunstâncias voltassem a ocorrer, tenho a certeza de que seria enganada outra vez. Caroline só ontem me devolveu a visita; e nem um bilhete, nem uma linha, recebi entretanto. Quando ela veio, era muito evidente que não tinha prazer nisso; apresentou uma ligeira e formal desculpa por não ter passado antes, não disse uma palavra que exprimesse desejo de me voltar a ver, e era, em todos os aspectos, uma criatura tão diferente, que, quando se afastou, eu estava perfeitamente resolvida a não continuar a amizade. Tenho pena dela, embora não possa deixar de a censurar. Foi muito errado da parte dela escolher-me como fez; posso dizer, com segurança, que todos os avanços para a intimidade partiram dela. Mas tenho pena dela, porque deve sentir que procedeu mal, e porque estou bem certa de que a ansiedade pelo irmão é a causa disso. Não preciso de me explicar mais; e, embora saibamos que essa ansiedade é perfeitamente desnecessária, se ela a sente, isso explicará facilmente o seu comportamento para comigo; e, sendo ele tão justamente querido pela irmã, qualquer ansiedade que ela possa sentir por ele é natural e amável. Não posso, contudo, deixar de estranhar que ela tenha semelhantes receios agora, porque, se ele de algum modo se interessara por mim, teríamos de nos ter cruzado há muito, muitíssimo tempo. Ele sabe que eu estou na cidade, disso tenho a certeza, por algo que ela própria disse; e, todavia, pelo modo como ela falou, parecia querer convencer-se a si mesma de que ele tem realmente parcialidade por Miss Darcy. Não consigo compreendê-lo. Se não temesse julgar com severidade, estaria quase tentada a dizer que há nisto tudo uma forte aparência de duplicidade. Procurarei banir todo o pensamento penoso, e pensar apenas no que me fará feliz: a tua affeição, e a invariável bondade do meu querido tio e tia. Escreve-me muito em breve. Miss Bingley disse algo acerca de ele nunca mais voltar a Netherfield, de desistir da casa, mas sem qualquer certeza. É melhor não falarmos nisso. Estou extremamente contente por teres tão boas notícias dos nossos amigos em Hunsford. Vai visitá-los, com Sir William e Maria. Estou certa de que te sentirás muito bem lá.

“Tua, etc.”

Esta carta causou alguma pena a Elizabeth; mas o ânimo voltou-lhe, ao pensar que Jane não seria mais iludida, ao menos pela irmã. Toda a expectativa do irmão estava agora absolutamente extinta. Ela nem sequer desejaria qualquer renovação das atenções dele. O carácter dele descia a cada novo reparo que lhe fazia; e, como castigo para ele, e possível vantagem para Jane, sinceramente esperava que ele viesse a casar de facto com a irmã do sr. Darcy, pois, segundo a narrativa de Wickham, ela lhe faria arrepender-se abundantemente do que tinha desprezado.

A sra. Gardiner, por essa altura, lembrou a Elizabeth a promessa respeitante a esse cavalheiro e pediu-lhe informações; e Elizabeth tinha-as tais que poderiam antes dar contentamento à tia do que a ela própria. A aparente parcialidade dele esmorecera, as suas atenções tinham cessado, ele era agora admirador de outra pessoa. Elizabeth estivera bastante atenta para ver tudo, mas podia vê-lo e escrever sobre isso sem grande mágoa. O seu coração fora apenas levemente tocado, e a sua vaidade ficou satisfeita com a crença de que teria sido a única escolha dele, se a fortuna o tivesse permitido. A súbita aquisição de dez mil libras era o encanto mais notável da jovem a quem ele agora se estava a tornar agradável; mas Elizabeth, talvez menos clarividente neste caso do que no de Charlotte, não se zangou com ele por desejar a independência. Nada, pelo contrário, podia ser mais natural; e, embora capaz de supor que lhe custou algumas lutas renunciar a ela, estava pronta a承认 que era uma medida sábia e desejável para ambos, e podia sinceramente desejar-lhe felicidade.

Tudo isto foi confessado à sra. Gardiner; e, depois de relatar as circunstâncias, prosseguiu assim:— "Estou agora convencida, minha querida tia, de que nunca estive muito apaixonada; pois, se eu tivesse realmente experimentado essa paixão pura e elevada, detestaria agora até o nome dele, e lhe desejaria toda a espécie de males. Mas os meus sentimentos para com ele não são apenas cordiais, são mesmo imparciais para com Miss King. Não consigo descobrir que a odeie de todo, ou que esteja sequer minimamente relutante em considerá-la uma rapariga muito boa. Não pode haver amor nisto. A minha vigilância foi eficaz; e, embora eu fosse decerto um objecto mais interessante para todas as minhas relações, se estivesse loucamente apaixonada por ele, não posso dizer que lamente a minha comparativa insignificância. A importância pode, por vezes, ser comprada por preço demasiado alto. Kitty e Lydia levam a peito a sua deserção muito mais do que eu. Elas são jovens nos caminhos do mundo, e ainda não estão abertas à mortificante convicção de que os rapagões bonitos precisam de ter com que viver, tal como os comuns."

CAPÍTULO XXVII.

Sem outros acontecimentos maiores do que estes na família de Longbourn, e de resto diversificados apenas um pouco mais do que pelos passeios a Meryton, ora enlameados ora frios, passaram Janeiro e Fevereiro. Março levaria Elizabeth a Hunsford. A princípio ela não pensara muito a sério em ir para lá; mas Charlotte, descobriu em breve, contava com o plano, e ela gradualmente aprendeu a encará-lo ela própria com maior prazer e também com maior certeza. A ausência aumentara o desejo de ver Charlotte de novo, e enfraquecera a aversão ao sr. Collins. Havia novidade no projecto; e, como, com uma mãe daquelas e umas irmãs tão pouco sociáveis, o lar não podia ser perfeito, uma pequena mudança não era desagradável por si mesma. Além disso, a viagem dar-lhe-ia um relance de Jane; e, em suma, à medida que o tempo se aproximava, teria ficado muito aborrecida com qualquer atraso. Tudo, porém, correu bem, e acabou por se resolver conforme o primeiro esboço de Charlotte. Ela acompanharia Sir William e a segunda filha dele. A melhoria de passar uma noite em Londres foi acrescentada a tempo, e o plano tornou-se tão perfeito quanto um plano pode ser.

A única pena era deixar o pai, que decerto sentiria a sua falta, e que, chegada a hora, tão pouco gostava da sua partida, que lhe pediu que lhe escrevesse, e quase prometeu responder-lhe à carta.

Pois bem — sem mais demora — ei-la:

CAPÍTULO XXVII.

Sem outros acontecimentos maiores do que estes na família de Longbourn, e de resto diversificados apenas um pouco mais do que pelos passeios a Meryton, ora enlameados ora frios, passaram Janeiro e Fevereiro. Março levaria Elizabeth a Hunsford. A princípio ela não pensara muito a sério em ir para lá; mas Charlotte, descobriu em breve, contava com o plano, e ela gradualmente aprendeu a encará-lo ela própria com maior prazer e também com maior certeza. A ausência aumentara o desejo de ver Charlotte de novo, e enfraquecera a aversão ao sr. Collins. Havia novidade no projecto; e, como, com uma mãe daquelas e umas irmãs tão pouco sociáveis, o lar não podia ser perfeito, uma pequena mudança não era desagradável por si mesma. Além disso, a viagem dar-lhe-ia um relance de Jane; e, em suma, à medida que o tempo se aproximava, teria ficado muito aborrecida com qualquer atraso. Tudo, porém, correu bem, e acabou por se resolver conforme o primeiro esboço de Charlotte. Ela acompanharia Sir William e a segunda filha dele. A melhoria de passar uma noite em Londres foi acrescentada a tempo, e o plano tornou-se tão perfeito quanto um plano pode ser.

A única pena era deixar o pai, que decerto sentiria a sua falta, e que, chegada a hora, tão pouco gostava da sua partida, que lhe pediu que lhe escrevesse, e quase prometeu responder-lhe à carta.

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como descreves o sr. Bingley, enamora-se tão facilmente de uma rapariga bonita durante algumas semanas, e, quando o acaso os separa, esquece-a tão facilmente, que estas espécies de inconstâncias são muito frequentes." "Uma excelente consolação a seu modo", disse Elizabeth; "mas não serve para nós. Não sofremos por acaso. Não acontece muitas vezes que a interferência de amigos consiga persuadir um rapaz de fortuna independente a deixar de pensar numa rapariga de quem estava perdidamente apaixonado apenas alguns dias antes."

A despedida entre ela e o sr. Wickham foi perfeitamente amigável; da parte dele, ainda mais. A sua atual ocupação não lhe podia fazer esquecer que Elizabeth fora a primeira a despertar e a merecer a sua atenção, a primeira a ouvir e a compadecer-se, a primeira a ser admirada; e na maneira como se despediu, desejando-lhe todas as alegrias, lembrando-lhe o que devia esperar de Lady Catherine de Bourgh, e confiando que a opinião deles — a opinião deles sobre toda a gente — coincidiria sempre com a sua, havia uma solicitude, um interesse, que ela sentiu que para sempre a ligaria a ele com a mais sincera estima; e separou-se dele convencida de que, fosse ele casado ou solteiro, ele haveria de ser sempre o seu modelo do que é amável e agradável.

Os companheiros de viagem no dia seguinte não eram de molde a fazê-la pensar menos nele. Sir William Lucas e a filha Maria, uma rapariga de bom humor, mas tão vazia como ele, nada tinham que dizer que valesse a pena ouvir, e eram escutados com tanto deleite como o ruído da carruagem. Elizabeth adorava absurdos, mas conhecia os de Sir William há demasiado tempo. Ele nada lhe podia contar de novo sobre as maravilhas da sua apresentação e do seu título de cavaleiro; e as suas atenções estavam gastas, como as suas informações.

Era uma viagem de apenas vinte e quatro milhas, e começaram-na tão cedo que ao meio-dia já estavam na Gracechurch Street. Quando se dirigiram para a porta do sr. Gardiner, Jane estava junto a uma janela da sala a ver chegar; quando entraram no vestíbulo, lá estava ela para os receber, e Elizabeth, olhando-a atentamente para o rosto, alegrou-se por o ver tão saudável e formoso como sempre. Na escada estava um bando de rapazinhos e rapariguinhas, cuja ansiedade por ver a prima não lhes permitiu esperar na sala, e cuja timidez, como não a viam há um ano, os impediu de descer mais. Tudo era alegria e carinho. O dia passou agradabilissimamente; a manhã em azáfama e compras, e a noite num dos teatros.

Elizabeth então arranjou maneira de se sentar junto da tia. O primeiro assunto foi a irmã; e ficou mais triste do que admirada ao ouvir, em resposta às suas minuciosas perguntas, que, embora Jane sempre lutasse por manter o ânimo, havia períodos de abatimento. Era razoável, contudo, esperar que não durassem muito. Mrs. Gardiner deu-lhe também os pormenores da visita de Miss Bingley à Gracechurch Street, e repetiu conversas havidas em diferentes ocasiões entre Jane e ela, as quais provavam que a primeira tinha, de coração, desistido daquela amizade.

Mrs. Gardiner depois gracejou com a sobrinha acerca do abandono de Wickham, e elogiou-a por suportar tudo tão bem.

— Mas, minha querida Elizabeth, acrescentou ela, que tipo de rapariga é Miss King? Teria pena de pensar que o nosso amigo é interesseiro.

— Diga-me, minha querida tia, qual é a diferença nos assuntos matrimoniais, entre o motivo interesseiro e o prudente? Onde acaba a discrição e começa a avareza? No Natal passado tinha medo de que ele casasse comigo, porque seria imprudente; e agora, porque ele anda a tentar conquistar uma rapariga que tem apenas dez mil libras, quer descobrir que ele é interesseiro.

— Se me disser apenas que tipo de rapariga é Miss King, saberei o que pensar.

— É uma rapariga muito boa, creio eu. Não sei nada de mal a respeito dela.

— Mas ele não lhe dedicou a mínima atenção até a morte do avô a ter feito dona desta fortuna?

— Não — e por que havia de fazê-lo? Se não lhe era permitido granjear as minhas afeições, porque eu não tinha dinheiro, que ocasião haveria para cortejar uma rapariga de quem ele não gostava, e que era igualmente pobre?

— Mas parece haver indiscrição em dirigir-lhe as suas atenções tão pouco tempo depois desse acontecimento.

— Um homem em circunstâncias difíceis não tem tempo para todas essas elegantes decências que as outras pessoas podem observar. Se ela não se opõe, por que havemos de nos opor nós?

— O facto de ela não se opor não o justifica. Apenas mostra que ela própria é deficiente em alguma coisa — em juízo ou em sentimento.

— Bem, exclamou Elizabeth, seja como quiser. Que ele seja interesseiro, e ela tola.

— Não, Lizzy, é isso que eu não quero. Teria pena, sabes, de pensar mal de um rapaz que viveu tanto tempo em Derbyshire.

— Ah, se é só isso, tenho uma opinião muito pobre dos rapazinhos que vivem em Derbyshire; e os seus amigos íntimos que vivem em Hertfordshire não são muito melhores. Já estou farta de todos eles. Graças a Deus! Vou amanhã para um sítio onde hei-de encontrar um homem que não tem uma única qualidade agradável, que não tem nem maneiras nem juízo que o recomendem. Os homens estúpidos são, afinal, os únicos que vale a pena conhecer.

— Cuidado, Lizzy; esse discurso cheira fortemente a desengano.

Antes de se separarem com o fim da peça, ela teve a inesperada felicidade de receber um convite para acompanhar o tio e a tia numa viagem de recreio que eles tencionavam fazer no verão.

— Ainda não decidimos bem até onde havemos de ir, disse Mrs. Gardiner; mas talvez, até aos Lagos.

Nenhum plano podia ser mais agradável para Elizabeth, e a sua aceitação do convite foi prontíssima e agradecida. — Minha cara, cara tia, exclamou ela com arrebatamento, que deleite! que felicidade! Dá-me vida e vigor novos. Adeus, desengano e mau humor. Que são os homens comparados com rochas e montanhas? Oh, que horas de transporte havemos de passar! E quando voltarmos, não será como os outros viajantes, sem ser capazes de dar uma ideia exacta de nada. Saberemos onde estivemos — lembraremos o que vimos. Lagos, montanhas e rios não se nos baralharão na imaginação; nem, quando tentarmos descrever qualquer cena particular, havemos de pôr-nos a discutir sobre a sua situação relativa. Sejam as nossas primeiras impressões menos insuportáveis do que as da generalidade dos viajantes.

CAPÍTULO XXVIII.

Cada objecto na jornada do dia seguinte era novo e interessante para Elizabeth; e os seus ânimos estavam num estado de fruição; pois tinha visto a sua irmã com tão bom aspecto que afastava todo o receio pela sua saúde, e a perspectiva da digressão ao norte era uma constante fonte de deleite.

Quando deixaram a estrada principal pelo caminho para Hunsford, todos os olhos procuravam a casa paroquial, e cada curva fazia esperar vê-la aparecer. A paliçada do parque de Rosings era o seu limite de um lado. Elizabeth sorriu ao lembrar-se de tudo quanto ouvira acerca dos seus habitantes.

Por fim a casa paroquial tornou-se visível. O jardim a descer até à estrada, a casa erguida no meio, as estacas verdes e a sebe de louros, tudo declarava que estavam a chegar. O sr. Collins e Charlotte apareceram à porta, e a carruagem parou junto ao pequeno portão, que conduzia por um breve caminho de gravilha até à casa, em meio dos acenos e sorrisos de toda a companhia. Num momento estavam todos fora da carruagem, rejubilando ao verem-se. Mrs. Collins acolheu a amiga com a mais viva satisfação, e Elizabeth ficou cada vez mais satisfeita de ter vindo, ao sentir-se recebida com tanto carinho. Viu imediatamente que as maneiras do primo não tinham mudado com o casamento: a sua civilidade cerimoniosa era exactamente a mesma de antes; e ele deteve-a alguns minutos junto ao portão para ouvir e responder às suas perguntas sobre toda a família. Depois, sem outra demora que não fosse apontar-lhes a limpeza da entrada, foram levados para dentro; e assim que chegaram à sala, ele deu-lhes as boas-vindas uma segunda vez, com ostentosa formalidade, à sua modesta morada, e repetiu pontualmente todas as ofertas de refresco feitas pela esposa.

Elizabeth estava preparada para o ver na sua glória; e não pôde deixar de imaginar que, ao mostrar a boa proporção da sala, a sua orientação e a sua mobília, ele se dirigia particularmente a ela, como desejando fazê-la sentir o que ela perdera ao recusá-lo. Mas, embora tudo parecesse asseado e confortável, ela não conseguiu satisfazê-lo com nenhum suspiro de arrependimento; e antes olhava com espanto para a amiga, por esta conseguir ter um ar tão alegre com tal companheiro. Quando o sr. Collins dizia alguma coisa de que a esposa pudesse razoavelmente envergonhar-se, o que decerto não era raro, ela involuntariamente voltava o olhar para Charlotte. Uma ou duas vezes pôde discernir um leve rubor; mas, em geral, Charlotte prudentemente fingia não ouvir. Depois de estar sentado tempo suficiente para admirar todos os artigos de mobília da sala, desde o aparador até à guarda da lareira, para dar conta da viagem deles e de tudo o que acontecera em Londres, o sr. Collins convidou-os a dar um passeio pelo jardim, que era grande e bem traçado, e para cuja cultura ele próprio atendia. Trabalhar no seu jardim era um dos seus prazeres mais respeitáveis; e Elizabeth admirou o domínio de rosto com que Charlotte falou da salubridade daquele exercício, e confessou que o encorajava o mais possível. Ali, guiando-os por cada aleia e cada atalho, e mal lhes permitindo um intervalo para proferirem os elogios que ele solicitava, cada vista era apontada com uma minúcia que deixava inteiramente para trás a beleza. Ele sabia contar os campos em cada direcção, e dizer quantas árvores havia no mais distante grupo de árvores. Mas de todas as vistas que o seu jardim, ou que o campo ou o reino podiam ostentar, nenhuma se comparava com a perspectiva de Rosings, proporcionada por uma abertura nas árvores que bordejavam o parque quase em frente da sua casa. Era um bonito edifício moderno, bem situado em terreno elevado.

Do seu jardim, o sr. Collins tê-los-ia levado à volta dos seus dois prados; mas as senhoras, que não tinham sapatos para enfrentar os restos de uma geada branca, voltaram atrás; e enquanto Sir William o acompanhava, Charlotte levou a irmã e a amiga a ver a casa, extremamente satisfeita, provavelmente, por ter a ocasião de a mostrar sem a ajuda do marido. Era bastante pequena, mas bem construída e cómoda; e tudo estava arranjado e disposto com um asseio e uma coerência, dos quais Elizabeth deu todo o crédito a Charlotte. Quando o sr. Collins podia ser esquecido, havia realmente um grande ar de conforto por toda a parte, e, pelo evidente deleite que Charlotte demonstrava, Elizabeth supôs que ele devia ser esquecido muitas vezes.

Já tinha sabido que Lady Catherine continuava no campo. Foi de novo falado durante o jantar, quando o sr. Collins, associando-se, observou:

— Sim, Miss Elizabeth, terá a honra de ver Lady Catherine de Bourgh no domingo próximo, na igreja, e escuso de dizer que ficará encantada com ela. Ela é toda afabilidade e condescendência, e não duvido de que será honrada com alguma parte da sua atenção quando terminar o serviço. Mal hesito em dizer que ela a incluirá, a si e à minha irmã Maria, em todos os convites com que nos honrar durante a sua estadia aqui. O seu comportamento para com a minha querida Charlotte é encantador. Jantamos em Rosings duas vezes por semana, e nunca nos permitem voltar a pé. A carruagem de Sua Senhoria está sempre à nossa espera. Devia dizer, uma das carruagens de Sua Senhorio, pois tem várias.

— Lady Catherine é uma mulher muito respeitável e sensata, de facto, acrescentou Charlotte, e uma vizinha extremamente atenciosa.

— Muito bem, minha cara, é exactamente o que eu digo. Ela é a espécie de mulher a quem não se pode tributar demasiada deferência.

A noite passou-se sobretudo a falar de novidades de Hertfordshire, e a repetir o que já tinha sido escrito; e quando terminou, Elizabeth, na solidão do seu quarto, teve de meditar sobre o grau de contentamento de Charlotte, para compreender a sua habilidade em guiar, e a compostura em suportar, o marido, e para reconhecer que tudo era feito muito bem. Tinha também de antecipar como passaria a sua visita, a tranquila rotina das suas ocupações habituais, as fastidiosas interrupções do sr. Collins, e as alegrias do seu convívio com Rosings. Uma imaginação viva resolveu tudo em breve.

Por volta do meio do dia seguinte, estando ela no seu quarto a aprontar-se para um passeio, um súbito ruído em baixo pareceu pôr a casa inteira em confusão; e, depois de escutar um momento, ouviu alguém a subir a escada apressadamente, gritando por ela em voz alta. Abriu a porta, e encontrou Maria no patamar, que, sem fôlego de tanta agitação, exclamou:

— Oh, minha querida Eliza! anda depressa, desce à sala de jantar, que há uma coisa espantosa para se ver! Não te digo o que é. Anda depressa, desce já.

Elizabeth fez perguntas em vão; Maria nada mais lhe quis dizer; e desceram a correr para a sala de jantar, que dava para o caminho, à procura desta maravilha; eram duas senhoras, paradas numa baixa faetonte junto ao portão do jardim.

— E é só isto? exclamou Elizabeth. Pelo menos esperava que os porcos tivessem entrado no jardim, e não há aqui nada mais que Lady Catherine e a filha dela!

— Credo, minha cara, disse Maria, muito chocada com o equívoco, não é Lady Catherine. A senhora idosa é Mrs. Jenkinson, que vive com elas. A outra é Miss De Bourgh. Olha bem para ela. É uma verdadeira criaturinha. Quem havia de pensar que pudesse ser tão magra e tão pequena!

— É absolutamente grosseiro da parte dela manter Charlotte à porta com todo este vento. Porque não entra?

— Oh, Charlotte diz que ela quase nunca entra. É a maior das finezas quando Miss De Bourgh entra.

— Gostei da aparência dela, disse Elizabeth, impressionada por outras ideias. Parece enfermiça e mal-humorada. Sim, serve muito bem para ele. Fará dele uma esposa muito conveniente.

O sr. Collins e Charlotte estavam ambos de pé junto ao portão a conversar com as senhoras; e Sir William, para grande divertimento de Elizabeth, estava postado à porta, na mais séria contemplação da grandeza que tinha diante de si, e curvando-se constantemente sempre que Miss De Bourgh olhava para aquele lado.

Por fim não havia mais nada a dizer; as senhoras seguiram o seu caminho, e os outros voltaram para dentro de casa. O sr. Collins, mal viu as duas raparigas, começou a felicitá-las pela boa sorte, que Charlotte lhes explicou informando-as de que toda a companhia estava convidada para jantar em Rosings no dia seguinte.

CAPÍTULO XXIX.

O triunfo do sr. Collins, em consequência deste convite, foi completo. O poder de ostentar a grandeza da sua protectora diante dos seus visitantes maravilhados, e de lhes mostrar a sua civilidade para com ele próprio e a esposa, era exactamente o que ele desejara; e que uma oportunidade de o fazer surgisse tão cedo era uma tal prova da condescendência de Lady Catherine que ele não sabia como admirá-la o suficiente.

— Confesso, disse ele, que não ficaria nada surpreendido se Sua Senhorio nos convidasse no domingo para tomar chá e passar a noite em Rosings. Antes esperava, pelo meu conhecimento da sua afabilidade, que isso acontecesse. Mas quem poderia ter previsto tal atenção? Quem poderia imaginar que receberíamos um convite para jantar lá (um convite, além disso, que abrangia toda a companhia) tão imediatamente depois da vossa chegada?

— Estou menos surpreendido com o que aconteceu, respondeu Sir William, por causa daquele conhecimento do que são realmente as maneiras da gente grande que a minha posição na vida me permitiu adquirir. Na corte, tais instâncias de criação elegante não são raras.

Quase não se falou noutra coisa durante todo o dia e na manhã seguinte a não ser na visita a Rosings. O sr. Collins andava cuidadosamente a instruí-los sobre o que deviam esperar, para que a vista de tais salas, de tantos criados, e de um jantar tão esplêndido, não os esmagasse por completo.

Quando as senhoras se separavam para se vestirem, ele disse a Elizabeth:

— Não te aflijas, minha querida prima, com a tua roupa. Lady Catherine está muito longe de exigir aquela elegância de trajo em nós que convém a ela própria e à filha. Aconselho-te apenas a pores a melhor das roupas que tenhas — não há necessidade de mais nada. Lady Catherine não pensará pior de ti por andares simplesmente vestida. Gosta que se preserve a distinção de classe.

Enquanto se vestiam, ele veio duas ou três vezes às diferentes portas delas, para lhes recomendar que se apressassem, porque Lady Catherine detestava muito que a fizessem esperar pelo jantar. Tais relatos formidáveis de Sua Senhorio, e do seu modo de viver, assustaram deveras Maria Lucas, que não estava muito habituada a companhias; e ela aguardava a sua apresentação em Rosings com tanta apprehensão como a que o pai tivera aquando da sua apresentação em St. James.

Como o tempo estava bom, fizeram um agradável passeio de cerca de meia milha através do parque. Todo o parque tem a sua beleza e as suas vistas; e Elizabeth viu muito que a agradasse, embora não pudesse entrar nos delírios que o sr. Collins esperava que a cena inspirasse, e ficou apenas levemente impressionada com a enumeração que ele fez das janelas da frente da casa, e com a sua narração de quanto o envidraçamento em conjunto custara originariamente a Sir Lewis de Bourgh.

Quando subiram os degraus para o vestíbulo, o alarme de Maria aumentava a cada momento, e até Sir William não tinha um ar perfeitamente calmo. A coragem de Elizabeth não a abandonou. Nada ouvira acerca de Lady Catherine que a fizesse temível por talentos extraordinários ou virtude miraculosa, e a simples imponência do dinheiro e da hierarquia, pensou ela, podia presenciá-la sem trepidação.

Do vestíbulo de entrada, do qual o sr. Collins apontou, com ar arrebatado, a bela proporção e os ornamentos primorosos, seguiram os criados através de uma antecâmara até à sala onde Lady Catherine, a filha e Mrs. Jenkinson estavam sentadas. Sua Senhorio, com grande condescendência, levantou-se para os receber; e como Mrs. Collins combinara com o marido que o cargo da apresentação seria dela, este foi desempenhado de modo conveniente, sem aqueles pedidos de desculpa e agradecimentos que ele teria julgado necessários.

Apesar de ter estado em St. James, Sir William estava de tal modo intimidado pela grandeza que o cercava, que apenas teve coragem suficiente para fazer uma reverência muito profunda, e sentar-se sem dizer palavra; e a filha, quase fora de si de medo, sentou-se na ponta da cadeira, sem saber para onde olhar. Elizabeth achou-se perfeitamente à altura da cena, e pôde observar com serenidade as três senhoras que tinha diante de si. Lady Catherine era uma mulher alta e corpulenta, com feições muito marcadas, que talvez tivessem sido formosas. O seu ar não era conciliador, nem a sua maneira de os receber era de molde a fazer as visitantes esquecerem a sua posição inferior. Não era tornada temível pelo silêncio: mas tudo o que dizia era dito num tom tão autoritário que marcava a sua auto-importância, e lhe trouxe imediatamente à lembrança o sr. Wickham; e, pelo que observou durante todo o dia, acreditou que Lady Catherine era exactamente o que ele havia descrito.

Depois de examinar a mãe, em cujo rosto e compostura ela logo encontrou alguma parecença com o sr. Darcy, voltou os olhos para a filha, e quase teria podido associar-se ao espanto de Maria por ela ser tão magra e tão pequena. Não havia, nem na figura nem no rosto, parecença alguma entre as senhoras. Miss de Bourgh era pálida e enfermiça: as suas feições, embora não desagradáveis, eram insignificantes; e ela falava muito pouco, a não ser em voz baixa, com Mrs. Jenkinson, na aparência da qual nada havia de notável, e que estava inteiramente ocupada a escutar o que ela dizia, e a colocar um biombo na devida direcção diante dos olhos dela.

Depois de se sentarem alguns minutos, foram todos enviados para uma das janelas para admirar a vista, acompanhados pelo sr. Collins, que lhes apontava as suas belezas, e por Lady Catherine, que benignamente lhes informava que valia muito mais a pena ser vista no verão.

O jantar era assombrosamente elegante, e lá estavam todos os criados, e todas as peças de baixela que o sr. Collins havia prometido; e, como ele também predissera, tomou o seu lugar à cabeceira oposta da mesa, por desejo de Sua Senhoria, e parecia sentir que a vida nada maior lhe poderia oferecer. Ele trincheava, comia e elogiava com ávida alegria; e todos os pratos eram primeiramente louvados por ele, e depois por sir William, que já estava suficientemente restabelecido para fazer eco a tudo o que o seu genro dizia, de uma maneira que Elizabeth se perguntava como Lady Catherine poderia suportar. Mas Lady Catherine parecia gratificada com a sua admiração excessiva, e sorria com a maior graça, sobretudo quando algum prato na mesa se revelava uma novidade para eles. A conversa não abundou. Elizabeth estava pronta para falar sempre que houvesse uma abertura, mas estava sentada entre Charlotte e Miss de Bourgh — a primeira ocupada em escutar Lady Catherine, e a segunda não lhe dirigiu uma única palavra durante todo o jantar. Mrs. Jenkinson tinha como principal mister observar o pouquinho que Miss de Bourgh comia, insistindo que experimentasse outro prato e receando que estivesse doente. Maria achava fora de questão abrir a boca, e os cavalheiros nada faziam senão comer e admirar.

Quando as senhoras voltaram para a sala, pouco havia a fazer senão ouvir Lady Catherine tagarelar, o que ela fez sem qualquer pausa até que o café entrasse, emitindo a sua opinião sobre cada assunto de um modo tão decisivo que provava não estar habituada a ver o seu juízo contestado. Indagou das preocupações domésticas de Charlotte com familiaridade e minúcia, e prodigalizou-lhe uma infinidade de conselhos sobre o modo de gerir todas elas; disse-lhe como tudo devia ser regulado numa família tão pequena como a dela, e instruiu-a sobre o cuidado das vacas e das galinhas. Elizabeth percebeu que nada era demasiado insignificante para a atenção daquela grande senhora, se lhe dava ensejo de ditar aos outros. Nos intervalos da sua conversa com Mrs. Collins, dirigiu uma série de perguntas a Maria e a Elizabeth, mas sobretudo a esta última, de cujas ligações menos sabia, e que, observou para Mrs. Collins, era uma rapariga muito distinta e bonita. Perguntou-lhe por diferentes vezes quantas irmãs tinha, se eram mais velhas ou mais novas do que ela, se alguma delas estava próxima de casar, se eram bonitas, onde tinham sido educadas, que carruagem o pai mantinha, e qual fora o nome de solteira da mãe. Elizabeth sentiu toda a impertinência daquelas perguntas, mas respondeu-lhes com muita compostura. Lady Catherine então observou:

— A propriedade do seu pai está vinculada ao sr. Collins, creio eu? Para teu bem — voltando-se para Charlotte —, folgo que assim seja; mas, de outro modo, não vejo motivo para vincular propriedades pela linha feminina. Não foi considerado necessário na família de sir Lewis de Bourgh. Toca e canta, Miss Bennet?

— Um pouco.

— Ah, então... mais cedo ou mais tarde teremos muito gosto em ouvi-la. O nosso instrumento é excelente, provavelmente superior ao ----. Experimentará qualquer dia. As suas irmãs tocam e cantam?

— Uma delas sim.

— Por que não aprenderam todas? Deviam todas ter aprendido. As Miss Webbs todas tocam, e o pai delas não tem um rendimento tão bom como o seu. Desenha?

— Não, de modo nenhum.

— Como? Nenhuma de vocês?

— Nenhuma.

— É muito estranho. Mas suponho que não tiveram ensejo. A sua mãe devia tê-las levado à cidade todas as Primaveras, para terem mestres.

— A minha mãe não teria objecção, mas o meu pai detesta Londres.

— A vossa preceptora deixou-vos?

— Nunca tivemos preceptora.

— Sem preceptora! Como era possível? Cinco filhas criadas em casa sem preceptora! Nunca ouvi tal coisa. A sua mãe deve ter sido uma escrava da vossa educação.

Elizabeth mal pôde conter o sorriso, enquanto lhe assegurava que não fora esse o caso.

— Então quem vos ensinou? quem de vocês cuidou? Sem preceptora, devem ter sido descuradas.

— Em comparação com algumas famílias, creio que fomos; mas as que de entre nós desejavam aprender nunca faltaram meios. Sempre fomos encorajadas a ler, e tivemos todos os mestres necessários. As que preferiam ser preguiçosas, naturalmente, podiam sê-lo.

— Sim, sem dúvida; mas é isso que uma preceptora evita; e, se eu tivesse conhecido a sua mãe, tê-la-ia aconselhado com o maior empenho a contratar uma. Digo sempre que nada se faz em educação sem instrução firme e regular, e só uma preceptora a pode dar. É admirável quantas famílias tenho eu ajudado a prover desse modo. Regozijo-me sempre por ver uma jovem bem colocada. Quatro sobrinhas de Mrs. Jenkinson estão situadas das mais excelentes maneiras por meu intermédio; e ainda ontem recomendei outra jovem, que apenas me foi acidentalmente mencionada, e a família está encantada com ela. Mrs. Collins, contei-lhe da visita de Lady Metcalfe ontem, a agradecer-me? Ela acha Miss Pope um tesouro. «Lady Catherine — disse ela —, deu-me um tesouro.» Alguma das suas irmãs mais novas já saiu, Miss Bennet?

— Sim, senhora, todas.

— Todas! Como? Todas as cinco a um tempo? Muito estranho! E a senhora é só a segunda. As mais novas fora antes de a mais velha casar! As suas irmãs mais novas devem ser muito novas?

— Sim, a minha mais nova não tem ainda dezasseis anos. Talvez seja nova demais para andar muito em sociedade. Mas, na verdade, senhora, acho que seria muito duro para as irmãs mais novas serem privadas da sua parte de sociedade e divertimento, porque a mais velha talvez não tenha meios ou inclinação para casar cedo. A última nascida tem tanto direito aos prazeres da juventude como a primeira. E ser retida por tal motivo! Não creio que isso promova muito a afeição entre irmãs nem a delicadeza de espírito.

— Com efeito — disse Sua Senhoria —, dá a sua opinião de modo muito decidido para uma pessoa tão nova. Diga-me, por favor, quantos anos tem?

— Tendo três irmãs mais novas já crescidas — respondeu Elizabeth, sorrindo —, Sua Senhoria não pode esperar que eu o declare.

Lady Catherine pareceu bastante espantada por não receber uma resposta directa; e Elizabeth suspeitou de si mesma ser a primeira criatura que jamais ousara brincar com tanta impertinência empertigada.

— Não pode ter mais de vinte, tenho a certeza; portanto, não precisa de ocultar a sua idade.

— Não tenho vinte e um.

Quando os cavalheiros se lhes juntaram, e o chá terminou, colocaram-se as mesas de jogo. Lady Catherine, sir William, e o sr. e a sra. Collins sentaram-se ao quadrille; e, como Miss de Bourgh preferiu jogar ao cassino, as duas raparigas tiveram a honra de ajudar Mrs. Jenkinson a formar a sua partida. A mesa delas era extremamente aborrecida. Quase não se proferiu uma sílaba que não dissesse respeito ao jogo, excepto quando Mrs. Jenkinson manifestava os seus receios de que Miss de Bourgh tivesse demasiado calor ou frio, ou demasiada luz ou pouca. Na outra mesa, falou-se bem mais. Lady Catherine falava geralmente — apontar os enganos dos três outros, ou contar alguma anedota de si mesma. O sr. Collins estava ocupado a concordar com tudo o que Sua Senhoria dizia, a agradecer-lhe cada vaza que ganhava, e a pedir desculpa se achava que ganhara demasiadas. Sir William não dizia muito. Ia armazenando na memória anedotas e nomes ilustres.

Quando Lady Catherine e a filha julgaram ter jogado o suficiente, as mesas foram desfeitas, a carruagem foi oferecida a Mrs. Collins, aceite com gratidão, e imediatamente mandada vir. O grupo juntou-se então junto da lareira para ouvir Lady Catherine determinar que tempo teriam no dia seguinte. Destas instruções foram arrancados pela chegada da carruagem; e com muitos discursos de agradecimento da parte do sr. Collins, e não menos reverências da parte de sir William, partiram. Logo que se afastaram da porta, Elizabeth foi solicitada pela prima a dar a sua opinião sobre tudo o que tinha visto em Rosings, o que, por amor de Charlotte, ela tornou mais favorável do que na realidade era. Mas o seu elogio, embora lhe custasse algum esforço, não pôde de modo algum satisfazer o sr. Collins, e ele bem cedo foi obrigado a tomar nas suas próprias mãos o encómio de Sua Senhoria.

## Capítulo XXX.

Sir William ficou apenas uma semana em Hunsford; mas a sua visita bastou para o convencer de que a sua filha estava extremamente bem instalada, e de que possuía um marido e um vizinho como raras vezes se encontram. Enquanto sir William esteve com eles, o sr. Collins dedicou as manhãs a levá-lo a passear no seu tilbury, e a mostrar-lhe a região; mas, depois de ele partir, a família inteira voltou às suas ocupações habituais, e Elizabeth agradeceu por descobrir que não viam mais o primo por causa dessa alteração; pois a maior parte do tempo entre o pequeno-almoço e o jantar era agora passada por ele, ou a trabalhar na horta, ou a ler e escrever, e a olhar pela janela do seu próprio escritório, que dava para a estrada. A sala em que as senhoras se sentavam ficava para a parte de trás. A princípio, Elizabeth havia estranhado que Charlotte não preferisse a sala de jantar para uso comum; era uma sala maior e com vista mais agradável: mas cedo compreendeu que a amiga tinha excelente razão para proceder assim, pois o sr. Collins teria decerto estado muito menos no seu próprio quarto se elas se sentassem numa divisão igualmente animada; e deu a Charlotte os devidos créditos pelo arranjo.

Da sala de estar não conseguiam distinguir nada na estrada, e deviam ao sr. Collins o conhecimento de que carruagens por ali passavam, e quantas vezes, sobretudo, Miss de Bourgh passava no seu faetonte, facto este que ele nunca deixava de vir comunicar-lhes, embora isso sucedesse quase todos os dias. Ela não raro parava à porta da casa paroquial, e tinha alguns minutos de conversa com Charlotte, mas quase nunca se deixava persuadir a apear.

Decorriam muito poucos dias em que o sr. Collins não fosse a pé a Rosings, e não muitos em que a esposa dele não julgasse necessário ir também; e até Elizabeth se lembrar de que poderia haver outros benefícios eclesiásticos a distribuir, não conseguia compreender o sacrifício de tantas horas. De quando em quando eram honrados com uma visita de Sua Senhoria, e nada escapava à sua observação que se passasse na sala durante essas visitas. Examinava os seus trabalhos, olhava para as suas ocupações, e aconselhava-as a fazê-los de outro modo; achava defeito na disposição do mobiliário, ou apanhava a criada em alguma negligência; e, se aceitava alguma coisa para refrescar, parecia fazê-lo apenas com o fito de descobrir que as peças de carne de Mrs. Collins eram grandes de mais para a sua família.

Elizabeth cedo percebeu que, embora aquela grande senhora não estivesse na comissão de paz do condado, era uma magistrate muito activa na sua própria paróquia, cujas mínimas questões lhe eram levadas pelo sr. Collins; e, sempre que algum dos caseiros se mostrava disposto à contenda, descontente, ou demasiado pobre, ela saía prontamente para a aldeia solver as suas diferenças, silenciar as suas queixas, e admoestá-los até à harmonia e à abundância.

A honra de jantar em Rosings repetia-se cerca de duas vezes por semana; e, descontada a falta de Sir William, e havendo à noite apenas uma mesa de jogo, cada um desses jantares era a réplica exacta do primeiro. Os outros compromissos eram poucos, pois o estilo de vida da vizinhança em geral estava fora do alcance dos Collins. Isto, contudo, não era mal para Elizabeth, e, no cômputo geral, passou o seu tempo bastante confortavelmente: havia horas de conversa agradável com Charlotte, e o tempo estava tão belo para a estação, que frequentemente gozava muito ao ar livre. O seu passeio favorito, e onde ia amiúde enquanto os demais visitavam Lady Catherine, era ao longo do arvoredo aberto que bordejava aquele lado do parque, onde havia um caminho abrigado e aprazível, que ninguém parecia apreciar senão ela, e onde se sentia fora do alcance da curiosidade de Lady Catherine.

Desta maneira tranquila, passou-se rapidamente a primeira quinzena da sua visita. A Páscoa aproximava-se, e a semana que a precedia traria um acrescento à família de Rosings, o que, num círculo tão pequeno, havia de ser importante. Elizabeth ouvira, pouco depois da sua chegada, que o sr. Darcy era esperado ali no decurso de poucas semanas; e, embora houvesse poucas pessoas das suas relações que ela não preferisse, a vinda dele daria mais um rosto comparativamente novo a observar nos serões de Rosings, e poderia entreter-se a ver quão vãos eram os intentos de Miss Bingley sobre ele, pelo seu comportamento para com a prima, para quem ele era evidentemente destinado por Lady Catherine, que falava da chegada dele com a maior satisfação, dele se exprimia nos termos do mais elevado entusiasmo, e parecia quase despeitada por ele ter já sido visto tantas vezes por Miss Lucas e por ela.

A sua chegada cedo se soube na casa paroquial; pois o sr. Collins andara a manhã inteira a passear à vista das cancelas que abriam para Hunsford Lane, a fim de obter a sua mais cedo conhecimento; e, depois de fazer uma reverência quando a carruagem entrou no parque, correu para casa com a grande novidade. Na manhã seguinte, apressou-se a ir a Rosings apresentar os seus respeitos. Havia dois sobrinhos de Lady Catherine a quem os devia, pois o sr. Darcy trouxera consigo um coronel Fitzwilliam, o filho mais novo do seu tio, Lord ----; e, para grande surpresa de todo o grupo, quando o sr. Collins voltou, os cavalheiros acompanharam-no. Charlotte tinha-os visto da sala do marido, a atravessar a estrada, e, correndo imediatamente para a outra, disse às raparigas que honra podiam esperar, acrescentando:

— Posso agradecê-lo, Eliza, este pedaço de fineza. O sr. Darcy nunca teria vindo tão cedo para me apresentar as suas cortesias.

Elizabeth tivera escassa oportunidade de declinar todo o direito ao cumprimento antes de a aproximação deles ser anunciada pela campainha, e pouco depois os três cavalheiros entraram na sala. O coronel Fitzwilliam, que seguia à frente, teria cerca de trinta anos, não era bonito, mas no porte e nas maneiras era, na mais verdadeira acepção, um gentleman. O sr. Darcy parecia exactamente como costumava parecer em Hertfordshire, apresentou as suas cortesias, com a reserva habitual, a Mrs. Collins; e, quaisquer que pudessem ser os seus sentimentos para com a amiga dela, recebeu-a com toda a aparência de compostura. Elizabeth limitou-se a fazer-lhe uma reverência, sem dizer palavra.

O coronel Fitzwilliam entrou logo em conversa, com a presteza e à-vontade de um homem bem-educado, e falou muito agradavelmente; mas o primo, depois de ter dirigido uma ligeira observação sobre a casa e o jardim a Mrs. Collins, sentou-se durante algum tempo sem falar com ninguém. Por fim, contudo, a sua cortesia despertou o bastante para perguntar a Elizabeth pela saúde da família dela. Ela respondeu-lhe da maneira corrente; e, após uma pausa de um instante, acrescentou:

— A minha irmã mais velha tem estado na cidade estes três meses. Nunca lhe aconteceu dar com ela lá?

Ela tinha a perfeita noção de que tal jamais acontecera; mas queria ver se ele daria algum sinal de consciência do que se passara entre os Bingley e Jane; e pareceu-lhe que ele se mostrou um pouco atrapalhado ao responder que nunca fora tão feliz de encontrar Miss Bennet. O assunto não foi levado mais adiante, e os cavalheiros pouco depois retiraram-se.

## Capítulo XXXI.

As maneiras do coronel Fitzwilliam foram muito apreciadas na casa paroquial, e todas as senhoras sentiram que ele devia acrescentar consideravelmente ao prazer dos seus compromissos em Rosings. Passaram-se, contudo, alguns dias antes de receberem qualquer convite para lá, pois, havendo visitantes na casa, eles não podiam ser precisos; e só no dia de Páscoa, quase uma semana depois da chegada dos cavalheiros, foram honradas com tal atenção, e foram apenas convidadas, ao sair da igreja, a aparecer ali à noite. Durante a última semana tinham visto muito pouco, quer de Lady Catherine, quer da filha dela. O coronel Fitzwilliam estivera na casa paroquial mais de uma vez durante esse tempo, mas o sr. Darcy tinham-no visto apenas na igreja.

O convite foi aceite, como é de supor, e, à hora própria, juntaram-se ao grupo na sala de Lady Catherine. Sua Senhoria recebeu-as com civilidade, embora fosse patente que a sua companhia não era de modo nenhum tão aceitável como quando não tinha quem mais; e ela estava, de facto, quase inteiramente absorta pelos sobrinhos, falando-lhes, sobretudo a Darcy, muito mais do que a qualquer outra pessoa na sala.

O coronel Fitzwilliam parecia deveras satisfeito por as ver: fosse o que fosse era para ele um bem-vindo alívio em Rosings; e, além disso, a bonita amiga de Mrs. Collins tinha-lhe prendido muito a fantasia. Sentou-se agora junto dela, e falou tão agradavelmente de Kent e Hertfordshire, de viagens e de estar em casa, de livros novos e de música, que Elizabeth nunca se havia divertido tanto naquela sala; e conversaram com tão bom espírito e tanta fluidez que atraíram a atenção da própria Lady Catherine, bem como a do sr. Darcy. Os olhos dele tinham-se voltado, cedo e repetidas vezes, para eles com um olhar de curiosidade; e que Sua Senhoria, passado algum tempo, partilhasse do sentimento, foi-o ela mais abertamente reconhecendo, pois não hesitou em exclamar:

— Que é isso que estão a dizer, Fitzwilliam? De que estão a falar? Que lhe está a contar à Miss Bennet? Deixem-me ouvir.

— Falávamos de música, senhora — disse ele, não podendo por mais tempo evitar a resposta.

— De música! Então falem alto, por favor. É de todos os assuntos o meu deleite. Tenho de ter a minha parte na conversa, se estão a falar de música. Suponho que haja poucas pessoas em Inglaterra que tenham um verdadeiro gozo da música maior do que eu, ou um gosto natural melhor. Se eu tivesse aprendido, seria uma grande proficiente. E Anne também o seria, se a sua saúde lhe tivesse permitido aplicar-se. Estou certa de que teria um desempenho encantador. Como vai Georgiana, Darcy?

O sr. Darcy falou da irmã com afecto e elogio.

— Muito folgo de ouvir tão boas notícias dela — disse Lady Catherine —; e diga-lhe da minha parte, que não pode esperar excelir, se não praticar muito.

— Asseguro-lhe, senhora — respondeu ele —, que ela não precisa de tal conselho. Pratica com muita constância.

— Tanto melhor. Não se pode praticar demais; e, quando lhe escrever a seguir, recomendar-lhe-ei que não o descure por nada. Digo eu muitas vezes às jovens, que nenhuma excelência em música se alcança sem prática constante. Já disse à Miss Bennet, por mais de uma vez, que nunca tocará verdadeiramente bem, a menos que pratique mais; e, embora Mrs. Collins não tenha instrumento nenhum, é muito bem-vinda, como já lhe disse, a vir a Rosings todos os dias, e a tocar no pianoforte que está na sala de Mrs. Jenkinson. Não estorvaria ninguém, sabem, naquela parte da casa.

O sr. Darcy mostrou-se um pouco envergonhado da falta de educação da tia, e nada respondeu.

Depois do café, o coronel Fitzwilliam recordou a Elizabeth a promessa de tocar para ele; e ela sentou-se imediatamente ao instrumento. Ele puxou uma cadeira para junto dela. Lady Catherine ouviu metade de uma canção, e depois falou, como antes, com o outro sobrinho; até que este se afastou dela e, movendo-se com a sua habitual deliberação para o pianoforte, postou-se de modo a dominar uma vista completa do rosto da bela executante. Elizabeth percebeu o que ele fazia, e à primeira pausa conveniente voltou-se para ele com um sorriso travesso e disse:

— Pretende assustar-me, sr. Darcy, vindo com toda esta pompa para me ouvir. Mas não me amedrontarei, embora a sua irmã toque tão bem. Há em mim uma teimosia que nunca suporta ser intimidada pela vontade dos outros. A minha coragem cresce sempre com cada tentativa de me intimidar.

—Não direi que esteja enganado —respondeu ele—, porque na verdade não pode acreditar que eu tenha algum propósito de alarmá-la; e já tenho o prazer da sua amizade há tempo suficiente para saber que encontra grande deleite em professar ocasionalmente opiniões que, na verdade, não são suas.

Elizabeth riu com gosto diante deste retrato de si mesma, e disse ao coronel Fitzwilliam:

—O seu primo vai dar-lhe uma ideia muito bonita a meu respeito, e ensiná-lo a não acreditar numa só palavra do que eu digo. Sou particularmente desafortunada por encontrar uma pessoa tão capaz de expor o meu verdadeiro carácter, numa parte do mundo onde eu esperava fazer-me passar com algum crédito. Na verdade, sr. Darcy, é muito indelicado da sua parte mencionar tudo o que sabia em meu desfavor em Hertfordshire — e, permita-me dizer, muito pouco político também — pois provoca-me a retaliar, e podem sair à luz coisas que chocariam os seus parentes ao ouvir.

—Não tenho medo de si —disse ele, sorrindo.

—Permita-me ouvir o que tem para lhe acusar —exclamou o coronel Fitzwilliam—. Gostaria de saber como ele se comporta entre estranhos.

—Ouvirá, então —mas prepare-se para algo muito terrível. Da primeira vez que o vi em Hertfordshire, há de saber, foi num baile — e nesse baile, o que acha que ele fez? Só dançou quatro danças! Lamento magoá-la, mas foi assim mesmo. Só dançou quatro danças, embora os cavalheiros escasseassem; e, segundo pude saber com certeza, mais de uma jovem estava sentada à falta de par. Sr. Darcy, não pode negar o facto.

—Naquela época eu não tinha a honra de conhecer nenhuma senhora na assembleia fora da minha própria roda.

—Verdade; e ninguém pode jamais ser apresentado num salão de baile. Bem, coronel Fitzwilliam, o que toco a seguir? Os meus dedos aguardam as suas ordens.

—Talvez —disse Darcy—, eu tivesse julgado melhor se tivesse procurado uma apresentação, mas sou pouco apto para recomendar-me a estranhos.

—Perguntamos ao seu primo a razão disto? —disse Elizabeth, continuando a dirigir-se ao coronel Fitzwilliam—. Perguntamos-lhe por que um homem de senso e instrução, e que tem vivido no mundo, é pouco apto para se recomendar a estranhos?

—Posso responder à sua pergunta —disse Fitzwilliam—, sem precisar de recorrer a ele. É porque ele não se dá ao trabalho.

—Certamente não possuo o talento que algumas pessoas têm —disse Darcy—, de conversar facilmente com aqueles que nunca vi antes. Não consigo captar o tom da sua conversa, nem mostrar interesse pelas suas preocupações, como tantas vezes vejo fazer.

—Os meus dedos —disse Elizabeth— não se movem sobre este instrumento com a mestria que vejo em tantas outras mulheres. Não têm a mesma força nem rapidez, nem produzem a mesma expressão. Mas sempre supus que a culpa fosse minha —porque não me daria ao trabalho de praticar. Não é que eu não acredite que os meus dedos sejam tão capazes como os de qualquer outra mulher de execução superior.

Darcy sorriu e disse:

—Tem toda a razão. Empregou o seu tempo muito melhor. Ninguém que tenha o privilégio de a ouvir pode achar nada em falta. Nenhum de nós toca para estranhos.

Aqui foram interrompidos por lady Catherine, que chamou para saber do que estavam a falar. Elizabeth imediatamente recomeçou a tocar. Lady Catherine aproximou-se e, depois de ouvir durante alguns minutos, disse a Darcy:

—A srta. Bennet não tocaria nada mal se praticasse mais, e pudesse ter a vantagem de um mestre londrino. Tem uma noção muito boa de dedilhado, embora o seu gosto não se compare ao de Anne. Anne teria sido uma executante deliciosa, se a sua saúde lhe tivesse permitido aprender.

Elizabeth olhou para Darcy, para ver com quanto entusiasmo ele concordava com os elogios da sua prima: mas nem naquele momento nem em nenhum outro conseguiu discernir qualquer sintoma de amor; e de todo o seu comportamento para com miss De Bourgh extraiu este conforto para miss Bingley: que ele poderia ter estado tão disposto a casar com ela, se ela fosse sua parenta.

Lady Catherine prosseguiu os seus comentários sobre a execução de Elizabeth, misturando com eles muitas instruções sobre execução e gosto. Elizabeth recebeu-os com toda a tolerância da cortesia; e a pedido dos cavalheiros ficou ao instrumento até que a carruagem de Sua Senhoria estivesse pronta para os levar a todos a casa.

CAPÍTULO XXXII.

Elizabeth estava sentada sozinha na manhã seguinte, a escrever a Jane, enquanto a sra. Collins e Maria tinham saído em assuntos à aldeia, quando foi assustada por uma campainha à porta, o sinal certo de uma visita. Como não ouvira nenhuma carruagem, achou não ser improvável que fosse lady Catherine; e sob essa apreensão estava a guardar a carta inacabada, para escapar a todas as perguntas impertinentes, quando a porta se abriu e, para sua grande surpresa, o sr. Darcy, e só o sr. Darcy, entrou na sala.

Ele pareceu também surpreendido por encontrá-la sozinha, e desculpou-se pela sua intromissão, informando-a de que tinha julgado que todas as senhoras estivessem em casa.

Sentaram-se então, e depois de feitas as suas perguntas sobre Rosings, parecia em perigo de cair num silêncio total. Era absolutamente necessário, portanto, pensar em alguma coisa; e nesta emergência, recordando-se de quando o vira pela última vez em Hertfordshire, e sentindo curiosidade por saber o que ele diria sobre o assunto da sua partida precipitada, observou:

—Que abruptamente partiram todos de Netherfield em novembro passado, sr. Darcy! Deve ter sido uma surpresa muito agradável para o sr. Bingley vê-los a todos tão pouco tempo depois dele; pois, se bem me lembro, ele partiu apenas no dia anterior. Ele e as suas irmãs estavam bem, espero, quando deixou Londres?

—Perfeitamente bem, obrigado.

Ela verificou que não havia de obter outra resposta; e, após uma breve pausa, acrescentou:

—Creio ter entendido que o sr. Bingley não tem muita ideia de voltar alguma vez a Netherfield?

—Nunca o ouvi dizer isso; mas é provável que passe muito pouco tempo lá no futuro. Tem muitos amigos, e está numa idade em que os amigos e os compromissos aumentam continuamente.

—Se ele pretende estar pouco em Netherfield, seria melhor para a vizinhança que ele abandonasse completamente o lugar, pois talvez pudéssemos conseguir ali uma família estável. Mas talvez o sr. Bingley não tenha tomado a casa tanto pela conveniência da vizinhança como pela sua própria, e devemos esperar que a mantenha ou a abandone pelo mesmo princípio.

—Não me surpreenderia —disse Darcy— se ele a abandonasse assim que surgisse alguma compra conveniente.

Elizabeth não respondeu. Temia falar mais tempo do amigo dele; e, não tendo mais nada para dizer, estava agora determinada a deixar a ele o trabalho de encontrar um assunto.

Ele percebeu a insinuação e logo começou:

—Esta parece uma casa muito confortável. Lady Catherine, creio, fez muito por ela quando o sr. Collins veio pela primeira vez para Hunsford.

—Creio que sim —e tenho a certeza de que não poderia ter dispensado a sua bondade a objeto mais grato.

—O sr. Collins parece muito feliz na escolha da esposa.

—Sim, de facto; os seus amigos podem muito bem regozijar-se por ele ter encontrado uma das pouquíssimas mulheres sensatas que o teriam aceite, ou que o teriam feito feliz se o tivessem feito. A minha amiga tem um excelente entendimento —embora não esteja certa de que considere o seu casamento com o sr. Collins como a coisa mais sensata que ela fez. Parece perfeitamente feliz, porém; e, sob uma luz prudente, é certamente um excelente partido para ela.

—Deve ser muito agradável para ela estar instalada a uma distância tão cómoda da sua própria família e amigos.

—Uma distância cómoda, chama-lhe? São quase cinquenta milhas.

—E o que são cinquenta milhas de boa estrada? Um pouco mais de meio dia de viagem. Sim, chamo-lhe uma distância muito cómoda.

—Nunca teria considerado a distância como uma das vantagens do casamento —exclamou Elizabeth—. Nunca teria dito que a sra. Collins estava instalada perto da família.

—Isso é uma prova do seu próprio apego a Hertfordshire. Tudo para além da própria vizinhança de Longbourn, suponho, pareceria longe.

Enquanto ele falava, havia uma espécie de sorriso, que Elizabeth julgou compreender; ele devia estar a supor que ela estava a pensar em Jane e Netherfield, e corou ao responder:

—Não pretendo dizer que uma mulher não possa estar instalada demasiado perto da família. O longe e o perto têm de ser relativos, e dependem de muitas circunstâncias variáveis. Onde há fortuna para tornar insignificantes as despesas da viagem, a distância deixa de ser um mal. Mas não é o caso aqui. O sr. e a sra. Collins têm um rendimento confortável, mas não de molde a permitir viagens frequentes —e estou persuadida de que a minha amiga não se diria perto da sua família a menos de metade da presente distância.

O sr. Darcy aproximou um pouco a sua cadeira dela e disse:

—Não pode ter direito a um apego local tão forte. Não pode ter estado sempre em Longbourn.

Elizabeth olhou surpreendida. O cavalheiro experimentou certa mudança de sentimento; recuou a cadeira, pegou num jornal da mesa e, lançando-lhe os olhos, disse, em voz mais fria:

—Gosta de Kent?

Seguiu-se um breve diálogo sobre o assunto do campo, calmo e conciso de ambas as partes —e cedo terminado pela entrada de Charlotte e da irmã, que acabavam de regressar do seu passeio. O tête-à-tête surpreendeu-as. O sr. Darcy explicou o equívoco que tinha ocasionado a sua intrusão junto de miss Bennet e, depois de ficar sentado mais alguns minutos, sem falar muito com ninguém, retirou-se.

—O que pode isto significar? —disse Charlotte, logo que ele saiu—. Minha querida Eliza, ele deve estar apaixonado por ti, ou nunca nos teria visitado desta maneira familiar.

Mas quando Elizabeth falou do silêncio dele, não pareceu muito provável, mesmo para os desejos de Charlotte, que fosse esse o caso; e, após várias conjeturas, só puderam por fim supor que a visita dele procedia da dificuldade de encontrar algo que fazer, o que era tanto mais assim pela época. Todas as caças e desportos de campo tinham terminado. Dentro de casa havia lady Catherine, livros e uma mesa de bilhar, mas os cavalheiros não podem estar sempre dentro de casa; e na proximidade da casa paroquial, ou na amenidade do passeio até ela, ou das pessoas que nela viviam, os dois primos encontraram uma tentação para, a partir desta altura, irem para lá caminhar quase todos os dias. Passavam a diversas horas da manhã, às vezes separados, às vezes juntos, e de vez em quando acompanhados pela tia. Era claro para todos que o coronel Fitzwilliam vinha porque tinha prazer na companhia delas, persuasão que evidentemente o recomendava ainda mais; e Elizabeth foi lembrada, pela sua própria satisfação em estar com ele, bem como pela evidente admiração dele, do seu antigo favorito, George Wickham; e embora, comparando-os, visse que havia menos suavidade cativante nos modos do coronel Fitzwilliam, acreditava que ele poderia ter o espírito mais bem informado.

Mas por que motivo o sr. Darcy vinha tão frequentemente à casa paroquial era mais difícil de compreender. Não podia ser pela companhia, pois frequentemente ficava ali sentado dez minutos seguidos sem abrir os lábios; e quando falava, parecia o efeito da necessidade mais do que da escolha —um sacrifício à conveniência, não um prazer para ele. Raramente parecia verdadeiramente animado. A sra. Collins não sabia o que pensar dele. O facto de o coronel Fitzwilliam se rir ocasionalmente da estupidez dele provava que ele geralmente era diferente, o que o seu próprio conhecimento dele não lhe poderia ter dito; e como ela teria gostado de acreditar que essa mudança era efeito do amor, e o objeto desse amor a sua amiga Eliza, pôs-se seriamente a trabalhar para descobri-lo: observava-o sempre que estavam em Rosings, e sempre que ele vinha a Hunsford; mas sem grande sucesso. Ele certamente olhava muito para a amiga dela, mas a expressão desse olhar era discutível. Era um olhar sério, firme, mas ela duvidava muitas vezes se haveria nele muita admiração, e por vezes parecia não ser senão ausência de espírito.

Uma ou duas vezes sugeriu a Elizabeth a possibilidade de ele ter inclinação por ela, mas Elizabeth riu sempre da ideia; e a sra. Collins não achou certo insistir no assunto, pelo perigo de suscitar expectativas que pudessem terminar apenas em desilusão; pois na sua opinião não admitia dúvida que toda a aversão da sua amiga desvaneceria, se ela pudesse supô-lo em seu poder.

Nos seus bondosos planos para Elizabeth, às vezes projectava que ela casasse com o coronel Fitzwilliam. Ele era, sem comparação, o homem mais agradável: ele certamente a admirava, e a sua posição na vida era a mais conveniente; mas, para contrabalançar estas vantagens, o sr. Darcy tinha considerável patrocínio na igreja, e o primo não tinha nenhum.

CAPÍTULO XXXIII.

Mais do que uma vez, Elizabeth, no seu passeio pelo parque, encontrou inesperadamente o sr. Darcy. Sentiu toda a perversidade do azar que o levava para onde mais ninguém era levado; e, para evitar que isso voltasse a acontecer, teve o cuidado de informar primeiro que aquele era o seu retiro favorito. Como pôde, pois, acontecer outra vez era muito estranho! E, contudo, aconteceu, e até uma terceira. Parecia maldade deliberada, ou penitência voluntária; pois nestas ocasiões não eram apenas algumas perguntas formais e uma pausa incómoda e depois cada um seguir o seu caminho, mas ele realmente achou necessário voltar atrás e caminhar com ela. Ele nunca disse grande coisa, nem ela se deu ao trabalho de falar ou de ouvir muito; mas ocorreu-lhe, no decurso do seu terceiro encontro, que ele lhe fazia algumas perguntas estranhas, desconexas —sobre o seu prazer em estar em Hunsford, o seu gosto por passeios solitários, e a sua opinião sobre a felicidade do sr. e da sra. Collins; e que, falando de Rosings, e de ela não perceber perfeitamente a casa, ele parecia esperar que sempre que ela voltasse a Kent estaria a hospedar-se ali também. As suas palavras pareciam insinuá-lo. Teria ele o coronel Fitzwilliam nos seus pensamentos? Ela supôs que, se ele queria dizer alguma coisa, devia ser uma alusão ao que poderia surgir por aquele lado. Isso perturbou-a um pouco, e ficou bastante contente por se encontrar junto ao portão nas grades em frente à casa paroquial.

Um dia, enquanto caminhava, estava ocupada a reler a última carta de Jane, e a deter-se em algumas passagens que provavam que Jane não tinha escrito com ânimo, quando, em vez de ser de novo surpreendida pelo sr. Darcy, viu, ao erguer os olhos, que o coronel Fitzwilliam vinha ao seu encontro. Guardando imediatamente a carta, e forçando um sorriso, disse:

—Não sabia antes que costumasse passear por este caminho.

—Estive a fazer o giro do parque —respondeu ele—, como faço geralmente todos os anos, e tencionava fechá-lo com uma visita à casa paroquial. Vai muito mais longe?

—Não, eu voltaria dentro de um momento.

E, conforme o disse, voltou, e caminharam juntos para a casa paroquial.

—Parte certamente de Kent no sábado? —disse ela.

—Sim —se Darcy não adiar outra vez. Mas estou à disposição dele. Ele trata dos assuntos como lhe apetece.

—E se não pode agradar-se a si mesmo na disposição, pelo menos tem grande prazer no poder de escolha. Não conheço ninguém que pareça gostar mais do poder de fazer o que quer do que o sr. Darcy.

—Ele gosta muito de fazer à sua maneira —respondeu o coronel Fitzwilliam—. Mas todos nós gostamos. É apenas que ele tem mais meios de o conseguir do que muitos outros, porque é rico, e muitos outros são pobres. Falo por experiência própria. Um filho mais novo, sabe, tem de estar habituado à abnegação e à dependência.

—Na minha opinião, o filho mais novo de um conde pode saber muito pouco de uma ou de outra. Agora, a sério, quando é que alguma vez conheceu a abnegação e a dependência? Quando foi impedido pela falta de dinheiro de ir para onde quisesse ou de conseguir qualquer coisa que lhe apetecesse?

—São perguntas certeiras —e talvez não possa dizer que tenho passado por muitas privações dessa natureza. Mas em assuntos de maior peso, posso sofrer com a falta de dinheiro. Os filhos mais novos não podem casar com quem querem.

—A não ser que queiram mulheres com fortuna, o que me parece acontecer muitas vezes.

—Os nossos hábitos de despesa tornam-nos demasiado dependentes, e não são muitos os da minha condição que possam dar-se ao luxo de casar sem alguma atenção ao dinheiro.

—Será isto —pensou Elizabeth— por minha causa? E corou com a ideia; mas, recuperando-se, disse em tom animado:

—E, por favor, qual é o preço habitual de um filho mais novo de conde? A não ser que o irmão mais velho seja muito doente, suponho que não pediria acima de cinquenta mil libras.

Ele respondeu-lhe no mesmo tom, e o assunto caiu. Para interromper um silêncio que pudesse levá-lo a supô-la afetada pelo que se passara, disse pouco depois:

—Imagino que o seu primo o trouxe consigo principalmente para ter alguém à sua disposição. Admiro-me de que não case, para garantir uma conveniência duradoura desse género. Mas talvez a irmã lhe sirva para já tão bem; e, como ela está sob o seu único cuidado, ele pode fazer dela o que quiser.

—Não —disse o coronel Fitzwilliam—, essa é uma vantagem que ele tem de repartir comigo. Estou associado a ele na tutela de miss Darcy.

—Está, de facto? E, por favor, que género de tutor faz? Dá-lhe a sua pupila muito trabalho? As jovens da idade dela são por vezes um pouco difíceis de manejar; e, se ela tem o verdadeiro génio dos Darcy, talvez goste de fazer à sua vontade.

Enquanto falava, observou que ele a olhava atentamente; e o modo como ele imediatamente lhe perguntou por que razão supunha que miss Darcy lhes pudesse causar alguma inquietação convenceu-a de que ela de alguma forma tinha chegado bastante perto da verdade. Respondeu diretamente:

—Não precisa de se assustar. Nunca ouvi nada de mal a respeito dela; e atrevo-me a dizer que é uma das criaturas mais tratáveis do mundo. É muito estimada por algumas senhoras da minha amizade, a sra. Hurst e miss Bingley. Creio que já lhe ouvi dizer que as conhece.

—Conheço-as um pouco. O irmão delas é um homem agradável, bem-educado —é grande amigo de Darcy.

—Ah, sim —disse Elizabeth com secura—, o sr. Darcy é invulgarmente gentil para com o sr. Bingley, e toma dele um cuidado extraordinário.

—Cuidado dele! Sim, realmente creio que Darcy cuida dele naqueles pontos em que ele mais precisa de cuidado. Por algo que ele me disse na nossa viagem para cá, tenho razão para pensar que Bingley lhe está muito reconhecido. Mas devo pedir-lhe desculpa, pois não tenho o direito de supor que Bingley fosse a pessoa em causa. Tudo era conjetura.

—O que quer dizer?

—É uma circunstância que Darcy, naturalmente, não desejaria que fosse geralmente conhecida, porque se chegasse à família da senhora seria desagradável.

—Pode estar certo de que não o mencionarei.

—E lembre-se de que não tenho grande razão para supor que seja Bingley. O que ele me disse foi apenas isto: que se felicitava por ter recentemente salvo um amigo dos inconvenientes de um casamento muito imprudente, mas sem mencionar nomes nem quaisquer outros pormenores; e eu só suspeitei que fosse Bingley por o considerar o género de jovem para se meter em embrulhadas dessa espécie, e por saber que tinham estado juntos todo o verão passado.

—O sr. Darcy deu-lhe as razões dele para esta interferência?

—Compreendi que havia alguns obstáculos muito fortes contra a senhora.

—E que artes usou para os separar?

—Ele não me falou dos seus processos —disse Fitzwilliam, sorrindo. Apenas me contou o que agora lhe contei.

Elizabeth não respondeu e continuou a andar, com o coração a transbordar de indignação. Depois de a observar um instante, Fitzwilliam perguntou-lhe por que estava tão pensativa.

«Estou a pensar no que me tem estado a contar», disse ela. «A conduta do seu primo não condiz com os meus sentimentos. Por que havia ele de ser o juiz?»

«Antes pelo contrário, tem tendência para chamar à intromissão dele oficiosa?»

«Não vejo que direito tinha o sr. Darcy de decidir sobre a conveniência da inclinação do amigo; nem por que razão, apenas pelo seu próprio critério, havia de determinar e dirigir de que modo esse amigo deveria ser feliz. Mas», continuou, recobrando-se, «como desconhecemos todos os pormenores, não é justo condená-lo. Não é de supor que houvesse grande afeição em jogo.»

«Não é uma conjetura despropositada», disse Fitzwilliam; «mas diminui bastante a honra do triunfo do meu primo.»

Isto foi dito gracejando, mas pareceu-lhe tão justo retrato do sr. Darcy, que ela não se arriscou a responder; e, mudando bruscamente de conversa, falou de assuntos indiferentes até chegarem à casa paroquial. Ali, encerrada no seu próprio quarto, assim que o visitante os deixou, pôde pensar sem interrupção em tudo o que ouvira. Não era de supor que se tratasse de outras pessoas que não aquelas com quem ela estava ligada. Não poderiam existir no mundo dois homens sobre quem o sr. Darcy pudesse ter tão desmedida influência. Que ele tivesse estado envolvido nas medidas tomadas para separar o sr. Bingley e Jane, ela jamais duvidara; mas sempre atribuíra a Miss Bingley o principal desígnio e a combinação do plano. Contudo, se a vaidade dele não o iludia, ele fora a causa — o orgulho e o capricho dele eram a causa — de tudo o que Jane sofrera e continuava a sofrer. Ele destruíra por algum tempo toda a esperança de felicidade do mais afetuoso e generoso coração do mundo; e ninguém podia dizer que mal tão duradouro poderia ter causado.

«Havia alguns obstáculos muito fortes contra a senhora», foram as palavras do coronel Fitzwilliam; e esses fortes obstáculos provavelmente eram o facto de ela ter um tio que era advogado de província e outro que estava no comércio em Londres.

«Para a própria Jane», exclamou ela, «não podia haver a mínima possibilidade de objeção — toda ela formosura e bondade como é! O seu entendimento excelente, a sua mente cultivada, e os seus modos cativantes. Também nada se poderia alegar contra o meu pai, que, embora com algumas excentricidades, tem capacidades que o próprio sr. Darcy não precisaria de desprezar, e uma respeitabilidade que ele provavelmente jamais atingirá.» Quando pensou na mãe, na verdade, a sua confiança vacilou um pouco; mas não queria admitir que quaisquer objeções ali tivessem peso determinante para o sr. Darcy, cujo orgulho, tinha a certeza, receberia ferida mais profunda da falta de importância das ligações do amigo do que da falta de entendimento delas; e estava bem decidida, por fim, de que ele fora em parte governado por esta pior espécie de orgulho, e em parte pelo desejo de conservar o sr. Bingley para a irmã.

A agitação e as lágrimas que o assunto provocou trouxeram-lhe uma dor de cabeça; e esta agravou-se tanto ao anoitecer que, somando-se à sua relutância em ver o sr. Darcy, a determinou a não acompanhar os primos a Rosings, onde tinham combinado ir tomar chá. Mrs. Collins, vendo que ela estava efetivamente indisposta, não insistiu para que fosse, e tanto quanto possível impediu que o marido insistisse; mas o sr. Collins não conseguiu disfarçar o seu receio de que Lady Catherine ficasse algo desagradada com a ausência dela.

## CAPÍTULO XXXIV

Depois de eles saírem, Elizabeth, como se quisesse exasperar-se o mais possível contra o sr. Darcy, escolheu para sua ocupação o exame de todas as cartas que Jane lhe escrevera desde a sua estadia em Kent. Elas não continham queixa concreta, nem havia qualquer revivescência de ocorrências passadas, nem qualquer comunicação de padecimento presente. Mas em todas, e em quase todas as linhas de cada uma, faltava aquela alegria que costumava caracterizar o seu estilo, e que, nascendo da serenidade de uma mente em paz consigo mesma e bem-disposta para com todos, quase nunca fora toldada. Elizabeth notou cada frase que transmitia a ideia de inquietação, com uma atenção que quase não lhe dedicara na primeira leitura. A vergonhosa jactância do sr. Darcy acerca da miséria que conseguira causar deu-lhe uma sensação mais aguda dos sofrimentos da irmã. Era alguma consolação pensar que a visita dele a Rosings terminaria no dia seguinte ao seguinte, e ainda maior que em menos de uma quinzena ela própria estaria de novo com Jane, e em condições de contribuir para a recuperação dos ânimos dela, com tudo o que a afeição pode fazer.

Não podia pensar na partida de Darcy de Kent sem lembrar que o primo dele iria com ele; mas o coronel Fitzwilliam deixara bem claro que não tinha quaisquer intenções, e, por mais agradável que ele fosse, ela não tencionava ficar infeliz por causa dele.

Enquanto resolvia este ponto, foi subitamente despertada pelo som da campainha da porta; e os seus ânimos ficaram um pouco perturbados com a ideia de se tratar do próprio coronel Fitzwilliam, que uma vez ali viera ao fim da tarde, e poderia agora vir perguntar particularmente por ela. Mas essa ideia logo se desvaneceu, e os seus ânimos foram de modo bem diferente afetados quando, para seu imenso assombro, viu o sr. Darcy entrar na sala. De modo precipitado, começou logo a perguntar-lhe pela saúde, atribuindo a visita ao desejo de saber que ela estava melhor. Ela respondeu-lhe com fria cortesia. Ele sentou-se por uns momentos, e depois levantando-se pôs-se a andar pela sala. Elizabeth ficou surpreendida, mas não disse palavra. Após um silêncio de vários minutos, ele aproximou-se dela, agitado, e começou assim:

«Em vão tenho lutado. Não resulta. Os meus sentimentos não se deixarão reprimir. Permita-me que lhe diga com que ardor a admiro e a amo.»

O espanto de Elizabeth ultrapassou toda a expressão. Fitou-o, corou, duvidou, e ficou em silêncio. Ele considerou isto incentivo suficiente, e a confissão de tudo o que sentia e há muito sentia por ela seguiu-se imediatamente. Falou bem; mas havia sentimentos além dos do coração a expor, e não era mais eloquente a respeito de ternura do que a respeito de orgulho. O sentido que ele tinha da sua inferioridade, de ser uma degradação, dos obstáculos familiares que o critério sempre opusera à inclinação, foram desenvolvidos com um ardor que parecia proporcional à importância que ele estava a ferir, mas muito pouco adequado a recomendar a sua causa.

Apesar da sua aversão profundamente enraizada, ela não podia ficar indiferente ao elogio da afeição de um tal homem, e embora as suas intenções não variassem nem por um instante, ao princípio lamentou a dor que ele iria receber; até que, movida a ressentimento pelas palavras subsequentes dele, perdeu toda a compaixão em ira. Tentou, contudo, recompor-se para lhe responder com paciência, quando ele terminasse. Ele concluiu representando-lhe a força daquela afeição que, apesar de todos os seus esforços, descobrira ser impossível vencer; e expressando a esperança de que seria agora recompensada pela aceitação da sua mão. Ao dizê-lo, ela facilmente viu que ele não tinha dúvida de uma resposta favorável. Falou de receio e ansiedade, mas o seu rosto exprimia verdadeira segurança. Tal circunstância só podia exasperá-la ainda mais; e quando ele cessou, subiu-lhe a cor às faces e ela disse:

«Em casos como este, é, creio eu, o uso estabelecido expressar um sentimento de obrigação pelos sentimentos declarados, por mais desigualmente que possam ser correspondidos. É natural que se sinta obrigação, e se eu pudesse sentir gratidão, agora lhe agradeceria. Mas não posso — nunca desejei a sua boa opinião, e certamente ma concedeu de muito má vontade. Lamento ter causado dor a alguém. Foi, contudo, de modo inteiramente inconsciente, e espero que seja de curta duração. Os sentimentos que me diz terem por tanto tempo impedido o reconhecimento da sua afeição não terão dificuldade em superá-la depois desta explicação.»

O sr. Darcy, que estava encostado à prateleira da lareira com os olhos fixos no rosto dela, pareceu acolher as palavras dela com não menos ressentimento do que surpresa. O seu rosto empalideceu de cólera, e a perturbação do seu espírito era visível em cada traço. Lutava por aparentar compostura, e não abriria os lábios até se julgar tê-la alcançado. A pausa foi terrível para os sentimentos de Elizabeth. Por fim, numa voz de calma forçada, disse:

«E esta é toda a resposta que tenho a honra de esperar! Talvez pudesse desejar ser informado de por que, com tão pouca tentativa de cortesia, sou assim rejeitado. Mas é de pouca importância.»

«Poderia muito bem perguntar», replicou ela, «por que, com tão evidente desígnio de me ofender e insultar, escolheu dizer-me que eu lhe agradava contra a sua vontade, contra a sua razão, e até contra o seu carácter? Não era isto alguma desculpa para a falta de cortesia, se eu fui descortês? Mas tenho outras provocações. O senhor sabe que tenho. Se os meus próprios sentimentos não tivessem decidido contra si, se fossem indiferentes, ou se até fossem favoráveis, pensa que alguma consideração me tentaria a aceitar o homem que foi o meio de arruinar, talvez para sempre, a felicidade de uma irmã muito querida?»

Ao pronunciar estas palavras, o sr. Darcy mudou de cor; mas a emoção foi breve, e ele ouviu sem tentar interrompê-la enquanto ela continuou:

«Tenho todas as razões do mundo para pensar mal de si. Nenhum motivo pode desculpar a parte injusta e indébita que ali tomou. Não ousa, não pode negar que foi o principal, se não o único meio de os separar um do outro, de expor uma à censura do mundo por capricho e instabilidade, o outro ao seu escárnio por esperanças desfeitas, e de os envolver a ambos na mais aguda das misérias.»

Ela fez uma pausa, e viu com não leve indignação que ele ouvia com um ar que provava estar ele absolutamente alheio a qualquer sentimento de remorso. Ele chegou a olhá-la com um sorriso de incredulidade afetada.

«Pode negar que o fez?», repetiu ela.

Com tranquilidade afetada, ele então respondeu: «Não tenho a menor intenção de negar que fiz tudo o que estava ao meu alcance para separar o meu amigo da sua irmã, nem que me alegro com o meu êxito. Para com ele tenho sido mais benigno do que para comigo próprio.»

Elizabeth desdenhou a aparência de notar esta reflexão cortês, mas o seu sentido não lhe passou despercebido, nem era provável que a conciliasse.

«Mas não é apenas este assunto», continuou ela, «em que se funda o meu desprezo. Muito antes de ele ter acontecido, a minha opinião a seu respeito estava firmada. O seu carácter foi-me desvendado na narrativa que recebi há muitos meses do sr. Wickham. A este respeito, que tem a dizer? Em que ato imaginário de amizade pode aqui defender-se? ou com que misrepresentation pode aqui enganar os outros?»

«O senhor toma um interesse muito vivo pelas questões desse cavalheiro», disse Darcy, num tom menos tranquilo, e com a cor mais carregada.

«Quem, sabendo quais foram as suas desgraças, pode deixar de interessar-se por ele?»

«As desgraças dele!», repetiu Darcy, com desprezo. «Sim, as desgraças dele têm sido grandes de facto.»

«E por sua causa», exclamou Elizabeth, com energia; «reduziu-o ao seu estado atual de pobreza — pobreza relativa. Negou-lhe as vantagens que deve saber terem sido pensadas para ele. Privou os melhores anos da vida dele daquela independência que não era menos seu direito do que seu merecimento. Fez tudo isto! e ainda assim pode tratar com desprezo e ridículo a menção das desgraças dele.»

«E esta», exclamou Darcy, enquanto caminhava com passos rápidos através da sala, «é a sua opinião a meu respeito! Esta é a estima em que me tem! Agradeço-lhe que ma explique tão cabalmente. Os meus defeitos, segundo este cálculo, são pesados de facto! Mas, talvez», acrescentou ele, parando no seu andar e voltando-se para ela, «estes agravos pudessem ter sido desculpados, se o seu orgulho não tivesse sido ferido pela minha honrosa confissão dos escrúpulos que por tanto tempo me impediram de formar qualquer projeto sério. Estas acusações amargas puderam ter sido contidas, se eu, com maior prudência, tivesse ocultado as minhas lutas, e a tivesse lisonjeado fazendo-a crer que era movido por inclinação sem reservas nem mistura; pela razão, pela reflexão, por tudo. Mas a dissimulação de toda a espécie é a minha abominação. Também não me envergonho dos sentimentos que relatei. Eram naturais e justos. Poderia esperar de mim que me regosijasse com a inferioridade das suas ligações? — que me congratulasse com a esperança de parentes cuja condição na vida é tão decididamente inferior à minha?»

Elizabeth sentia-se enraivecer a cada momento; todavia, fez os maiores esforços para falar com compostura ao dizer:

«Engana-se, sr. Darcy, se supõe que o modo da sua declaração me afetou de qualquer outra forma que não a de me poupar à preocupação que eu poderia ter sentido em recusá-lo, se se tivesse comportado de uma maneira mais própria de um cavalheiro.»

Ela viu-o sobressaltar-se com isto; mas ele não disse nada, e ela continuou:

«Não me poderia ter feito a oferta da sua mão de nenhuma maneira possível que me tentasse a aceitá-la.»

De novo a surpresa dele foi óbvia; e ele olhou-a com uma expressão de incredulidade e mortificação misturadas. Ela prosseguiu:

«Desde o princípio, desde o primeiro momento, quase posso dizer, do meu conhecimento com o senhor, os seus modos, imprimindo-me a mais plena convicção da sua arrogância, da sua presunção, e do seu egoísta desprezo pelos sentimentos dos outros, foram de molde a formar aquela base de desaprovação sobre a qual os acontecimentos posteriores construíram uma aversão tão inabalável; e eu não o conhecia há um mês quando já sentia que era o último homem do mundo a quem eu alguma vez poderia ser induzida a aceitar por marido.»

«Já disse bastante, minha senhora. Percebo perfeitamente os seus sentimentos, e só me resta agora envergonhar-me do que foram os meus. Perdoe-me por lhe ter tomado tanto tempo, e aceite os meus melhores votos pela sua saúde e felicidade.»

E com estas palavras saiu apressadamente da sala, e Elizabeth ouviu-o um momento depois abrir a porta da frente e deixar a casa. A perturbação do seu espírito era agora dolorosamente grande. Ela não sabia como suster-se, e, de pura fraqueza, sentou-se e chorou durante meia hora. O seu assombro, ao refletir no que se passara, aumentava com cada reexame. Que ela tivesse recebido uma proposta de casamento do sr. Darcy! Que ele tivesse estado apaixonado por ela durante tantos meses! Tão apaixonado que desejasse casar com ela apesar de todas as objeções que o tinham levado a impedir o amigo de casar com a irmã, e que deveriam apresentar-se com força pelo menos igual no caso dele próprio, era quase inacreditável! era lisonjeiro ter inspirado inconscientemente uma afeição tão forte. Mas o orgulho dele, o seu abominável orgulho, a sua desavergonhada confissão do que fizera a respeito de Jane, a sua imperdoável segurança em reconhecer, embora não pudesse justificar, e a maneira insensível com que mencionara o sr. Wickham, para com quem ele nem tentara negar a sua crueldade, venceram logo a pena que a consideração da afeição dele por um momento lhe excitara.

Continuou em reflexões muito angustiantes até o som da carruagem de Lady Catherine lhe fazer sentir como estava incapaz de enfrentar a observação de Charlotte, e a impeliu para o seu quarto.

## CAPÍTULO XXXV

Elizabeth acordou na manhã seguinte com os mesmos pensamentos e meditações que por fim lhe haviam fechado os olhos. Não conseguia ainda recobrar do espanto do que acontecera: era impossível pensar em outra coisa; e, totalmente indisposta para qualquer ocupação, resolveu pouco depois do pequeno-almoço permitir-se um pouco de ar e exercício. Ia a dirigir-se justamente para o seu passeio favorito, quando a lembrança de que o sr. Darcy por vezes ia ali a deteve, e, em vez de entrar no parque, subiu pela vereda que a afastava mais da estrada principal. A vedação do parque continuava a servir de limite num dos lados, e ela passou logo um dos portões para o interior.

Depois de andar duas ou três vezes ao longo daquela parte da vereda, foi tentada, pela amenidade da manhã, a parar nos portões e olhar para dentro do parque. As cinco semanas que já levava passadas em Kent tinham produzido uma grande diferença na paisagem, e a cada dia aumentava o verdor das árvores ainda novas. Ia a continuar o seu passeio, quando avistou ao longe a figura de um cavalheiro dentro da espécie de bosquete que marginava o parque: ele vinha naquela direção; e, temendo que fosse o sr. Darcy, estava logo a recuar. Mas a pessoa que avançava estava já perto de mais para a ver, e, adiantando-se com prontidão, pronunciou o nome dela. Ela tinha-se voltado; mas, ao ouvir-se chamar, embora numa voz que provava ser a do sr. Darcy, moveu-se de novo na direção do portão. Ele tinha entretanto também chegado lá; e, estendendo-lhe uma carta, que ela instintivamente tomou, disse, com um ar de altiva compostura: «Estou a andar pelo bosquete há algum tempo, na esperança de a encontrar. Faz-me a honra de ler essa carta?» e logo, com uma ligeira reverência, voltou para a plantação, e desapareceu em breve.

Sem qualquer expectativa de prazer, mas com a mais forte curiosidade, Elizabeth abriu a carta, e, para seu crescente assombro, viu um sobrescrito que continha duas folhas de papel de carta, escritas até ao fim, em letra muito apertada. O próprio sobrescrito também estava cheio. Continuando o seu caminho pela vereda, começou então a lê-la. Era datada de Rosings, às oito da manhã, e dizia o seguinte:

«Não se alarme, minha senhora, ao receber esta carta, com o receio de que ela contenha qualquer repetição daqueles sentimentos, ou renovação daquelas ofertas, que ontem à noite lhe foram tão desagradáveis. Escrevo sem qualquer intenção de a magoar, ou de me humilhar, detendo-me em votos que, para a felicidade de ambos, não podem ser demasiado cedo esquecidos; e o esforço que a formação e a leitura desta carta hão de causar deveria ter sido poupado, se o meu carácter não exigisse que fosse escrita e lida. Deve, portanto, perdoar a liberdade com que exijo a sua atenção; os seus sentimentos, sei, ma concederão de má vontade, mas exijo-a da sua justiça.

“Na noite passada, Vossa Excelência lançou-me em rosto duas faltas de natureza muito diversa e de nenhum modo iguais em magnitude. A primeira era que, sem atender aos sentimentos de nenhum de nós, eu havia separado o Sr. Bingley da sua irmã; a outra, que eu, em desafio de vários direitos, em desafio da honra e da humanidade, destruíra a prosperidade imediata e desbaratara as perspectivas do Sr. Wickham. Lançar fora, com voluntária e deliberada crueldade, o companheiro da minha juventude, o favorito declarado do meu pai, um jovem que quase não tinha outro amparo senão o nosso patrocínio e que fora educado para esperar o seu exercício seria uma depravação, à qual não poderia comparar-se a separação de duas jovens pessoas cujo afecto apenas de algumas semanas podia ser crescimento. Mas, da severidade daquela censura que ontem à noite tão largamente me foi dirigida a respeito de cada uma destas circunstâncias, espero vir a estar seguro no futuro, depois de lido o seguinte relato das minhas acções e dos seus motivos. Se, na explicação deles, que me é devida, me vejo na necessidade de relatar sentimentos que possam ser ofensivos para os seus, só posso dizer que o lamento. A necessidade tem de ser obedecida, e qualquer pedido de desculpa adicional seria absurdo. Não estava eu havia muito tempo em Hertfordshire quando vi, como toda a gente, que Bingley preferia a sua irmã mais velha a qualquer outra jovem do condado. Mas só na noite do baile em Netherfield tive alguma apreensão de que ele nutria uma inclinação séria. Muitas vezes o tinha visto enamorado antes. Nesse baile, enquanto eu tinha a honra de dançar com Vossa Excelência, fui pela primeira vez informado, por uma casual observação de Sir William Lucas, de que as atenções de Bingley para com a sua irmã haviam dado origem a uma expectativa geral do seu casamento. Ele falou disso como de um acontecimento certo, do qual apenas o tempo poderia estar por decidir. Daquele momento, observei atentamente o proceder do meu amigo; e pude então perceber que a sua parcialidade pela Srta. Bennet ia mais longe do que tudo o que eu jamais presenciara nele. A sua irmã também a observei. O seu olhar e os seus modos eram tão abertos, tão alegres e tão cativantes como sempre, mas sem qualquer indício de particular estima; e fiquei convencido, após o exame daquela noite, de que, embora ela recebesse as suas atenções com agrado, não as convidava por qualquer partilha de sentimento. Se Vossa Excelência não se enganou aqui, eu é que terei de estar em erro. O seu conhecimento superior da sua irmã torna provável esta última hipótese. Se assim é, se fui levado por tal erro a infligir-lhe dor, o seu ressentimento não é desarrazado. Mas não hesitarei em afirmar que a serenidade do rosto e dos modos da sua irmã era tal que poderia ter dado ao mais atento observador a convicção de que, por amável que fosse o seu temperamento, o seu coração não era fácil de comover. Que eu desejasse acreditar na sua indiferença é manifesto; mas atrevo-me a dizer que as minhas investigações e decisões não costumam ser influenciadas pelas minhas esperanças ou pelos meus receios. Não acreditei na sua indiferença porque o desejasse; acreditei por convicta imparcialidade, tão verdadeiramente quanto o desejei em razão. As minhas objecções ao casamento não eram apenas aquelas que ontem à noite reconheci terem exigido todo o esforço da paixão para serem postas de parte no meu próprio caso; a falta de ligações não podia ser mal tão grande para o meu amigo como para mim. Mas havia outras causas de repugnância; causas que, embora ainda existentes, e existentes em grau igual em ambos os casos, eu próprio me houvera esforçado por esquecer, porque não estavam imediatamente diante de mim. Essas causas precisam de ser expostas, ainda que brevemente. A situação da família de sua mãe, embora objectável, era nada em comparação com aquela total falta de decoro tão frequente, tão quase uniformemente revelada por ela própria, pelas suas três irmãs mais novas, e por vezes até pelo seu pai — perdoe-me — custa-me ofendê-la. Mas, em meio à sua preocupação com os defeitos dos seus parentes mais próximos e ao seu desagrado com esta representação deles, deixe-a consolar-se pensando que haver-se conduzido de modo a evitar qualquer parte de semelhante censura é louvor não menos geralmente atribuído a Vossa Excelência e à sua irmã mais velha do que honroso para o bom senso e o carácter de ambas. Direi apenas, mais, que, do que se passou naquela noite, a minha opinião de todas as partes se viu confirmada, e todo o incentivo aumentado, que pudesse ter-me antes levado a preservar o meu amigo do que eu considerava uma ligação desastrosa. Ele partiu de Netherfield para Londres no dia seguinte, como Vossa Excelência, de certo, se recorda, com o propósito de voltar brevemente. A parte que eu representei exige agora explicação. A inquietação das suas irmãs tinha sido igualmente excitada como a minha; a nossa coincidência de sentimento cedo foi descoberta; e, igualmente sensíveis a que nenhum momento se perdesse em separar o irmão delas, resolvemos pouco depois ir ter com ele directamente a Londres. Fomos, pois — e ali me prestei de boa vontade ao ofício de apontar ao meu amigo os males certos de semelhante escolha. Descrevi-os e fi-los valer com instância. Mas, por mais que esta representação pudesse ter abalado ou demorado a sua resolução, não suponho que, em última análise, tivesse chegado a impedir o casamento, se não tivesse sido secundada pela certeza — que eu não hesitei em dar — da indiferença da sua irmã. Ele até aí acreditara que ela correspondia ao seu afecto com sentimento sincero, se não igual. Mas Bingley tem grande natural modéstia, com mais confiança no meu juízo do que no seu. Convencê-lo, pois, de que se havia enganado a si próprio não era tarefa muito difícil. Demovê-lo de voltar para Hertfordshire, uma vez dada essa convicção, foi quase obra de um momento. Não posso culpar-me por haver feito tanto. Há apenas uma parte da minha conduta, em todo este assunto, sobre a qual não reflito com satisfação: é que eu condescendi em adoptar medidas de artifício até ao ponto de lhe ocultar que a sua irmã estava na cidade. Eu próprio o sabia, como o sabia a Srta. Bingley; mas o irmão dela ainda o ignora. Que pudessem ter-se encontrado sem más consequências é, talvez, provável; mas o seu afecto não me parecia bastante extinto para que pudesse vê-la sem algum perigo. Talvez este encobrimento, este disfarce, fosse indigno de mim. Está feito, porém, e foi feito para o melhor. Sobre este assunto não tenho mais nada a dizer, nem outra desculpa a oferecer. Se feri os sentimentos da sua irmã, foi sem o saber; e, ainda que os motivos que me guiaram possam parecer-lhe a Vossa Excelência, muito naturalmente, insuficientes, ainda não aprendi a condená-los. — Quanto àquela outra acusação, mais pesada, de haver eu prejudicado o Sr. Wickham, só posso refutá-la expondo diante de Vossa Excelência toda a sua ligação com a minha família. Do que ele me acusou particularmente, ignoro; mas da verdade do que vou relatar posso invocar mais do que uma testemunha de reconhecida veracidade. O Sr. Wickham é filho de um homem muito respeitável, que durante muitos anos administrou todas as propriedades de Pemberley, e cuja boa conduta no cumprimento do seu encargo levou naturalmente o meu pai a querer ser-lhe útil; e sobre George Wickham, que era seu afilhado, a sua bondade foi por isso liberalmente prodigalizada. O meu pai manteve-o na escola e depois em Cambridge — auxílio importantíssimo, pois o seu próprio pai, sempre pobre em razão da extravagância da esposa, não teria podido dar-lhe uma educação de cavalheiro. O meu pai não só apreciava a companhia deste jovem, cujos modos eram sempre cativantes, como tinha dele a mais alta opinião, e, esperando que a Igreja fosse a sua profissão, tencionava nele provê-la. Quanto a mim, há muitos, muitos anos que comecei a pensar dele de modo muito diferente. As propensões viciosas, a falta de princípios, que ele tinha o cuidado de ocultar ao conhecimento do seu melhor amigo, não podiam escapar à observação de um jovem quase da mesma idade que ele, e que tivera oportunidades de o ver em momentos desacautelados, de que o Sr. Darcy não pôde dispor. Aqui, de novo, hei de dar-lhe uma dor — de que grau, só Vossa Excelência o pode dizer. Mas, quaisquer que sejam os sentimentos que o Sr. Wickham lhe tenha inspirado, a suspeita da sua natureza não me impedirá de lhe revelar o seu verdadeiro carácter. Acrescenta até mais um motivo. O meu excelente pai morreu há cerca de cinco anos; e a sua afeição pelo Sr. Wickham foi até ao fim tão constante, que no seu testamento me recomendou particularmente que promovesse o seu avanço da melhor maneira que a sua profissão permitisse, e, se ele tomasse ordens, desejava que um valioso benefício de família lhe fosse concedido logo que vagasse. Havia também um legado de mil libras. O pai dele não sobreviveu muito ao meu; e dentro de meio ano depois destes acontecimentos, o Sr. Wickham escreveu-me para me informar de que, tendo por fim resolvido contra o tomar de ordens, esperava que eu não achasse desarrazoado esperar dele alguma vantagem pecuniária mais imediata, em lugar da prebenda, da qual não poderia vir a beneficiar-se. Tinha ele, acrescentava, a intenção de estudar Leis, e eu deveria estar ciente de que o juro de mil libras seria nele sustento de todo insuficiente. Antes acreditava do que desejava que ele fosse sincero; mas, em todo o caso, estava perfeitamente pronto a anuir ao seu pedido. Eu sabia que o Sr. Wickham não devia ser clérigo. O negócio ficou, portanto, breve resolvido. Ele renunciou a toda a pretensão a auxílio na Igreja, caso fosse possível que alguma vez estivesse em situação de o receber, e aceitou em troca três mil libras. Toda a ligação entre nós parecia agora dissolvida. Eu pensava dele demasiado mal para o convidar a Pemberley, ou admitir a sua sociedade na cidade. Na cidade, creio, ele viveu sobretudo, mas o estudar Leis era um mero pretexto; e, livre agora de todo o freio, a sua vida era vida de ociosidade e devassidão. Durante cerca de três anos pouco dele ouvi; mas, por morte do incumbente do benefício que lhe fora destinado, ele voltou a dirigir-se-me por carta pedindo-me a apresentação. As suas circunstâncias — assegurou-me, e eu não tive dificuldade em acreditá-lo — eram péssimas. Tinha achado o estudo das Leis muito pouco rendoso, e estava agora absolutamente resolvido a ordenar-se, se eu lhe apresentasse o benefício em questão — do qual esperava não pudesse haver grande dúvida, pois tinha a certeza de que eu não tinha outra pessoa a prover, e eu não poderia ter esquecido as intenções do meu venerado pai. Dificilmente me culpará por recusar anuir a este pedido, ou por resistir a toda a repetição dele. O seu ressentimento foi na proporção da aflição das suas circunstâncias — e foi, sem dúvida, tão violento no abuso que de mim fazia aos outros como nas recriminações que me fazia a mim. Depois deste período, toda a aparência de conhecimento foi abandonada. Como ele viveu, ignoro. Mas no Verão passado ele voltou a intrometer-se do modo mais doloroso na minha atenção. Tenho agora de mencionar uma circunstância que eu próprio desejaria poder esquecer, e que nenhuma obrigação menos forte do que a presente me induziria a revelar a ser humano algum. Tendo dito tanto, não tenho dúvida da sua discrição. A minha irmã, que é mais de dez anos minha junior, ficou sob a tutela do sobrinho da minha mãe, o Coronel Fitzwilliam, e de mim. Cerca de um ano atrás, foi retirada da escola, e nela se formou um estabelecimento em Londres; e no Verão passado ela foi, com a senhora que dele se achava encarregada, a Ramsgate; e para lá foi também o Sr. Wickham, sem dúvida intencionalmente; pois veio a verificar-se que havia conhecimento prévio entre ele e a Sra. Younge, em cujo carácter fomos mui desgraçadamente enganados; e, com o seu conluio e auxílio, ele de tal modo se insinuou junto de Georgiana, cujo coração afectuoso conservava forte impressão da sua bondade para com ela em criança, que ela se deixou persuadir de que estava enamorada e consentiu numa fuga. Tinha ela então apenas quinze anos, o que lhe há-de servir de desculpa; e, depois de referir a sua imprudência, apraz-me acrescentar que o conhecimento do caso lhe devo a ela própria. Eu juntei-me a eles inesperadamente um dia ou dois antes da fuga intentada; e então Georgiana, incapaz de suportar a ideia de magoar e offender um irmão que quase olhava como um pai, confessou-me tudo. Pode imaginar o que senti e como actuei. O respeito pelo crédito e pelos sentimentos da minha irmã impediu qualquer exposição pública; mas escrevi ao Sr. Wickham, que partiu do lugar imediatamente, e a Sra. Younge foi, naturalmente, removida do seu cargo. O objectivo principal do Sr. Wickham era, sem dúvida, o património da minha irmã, que é de trinta mil libras; mas não posso deixar de supor que a esperança de se vingar de mim foi forte incentivo. A sua vingança teria sido completa de facto. Eis aqui, minha senhora, a narração fiel de tudo o que entre nós sucedeu; e se Vossa Excelência não o rejeitar de todo como falso, espero que me absolva, de ora em diante, de crueldade para com o Sr. Wickham. Ignoro de que modo, sob que forma de falsidade, ele a logrou; mas o seu êxito não é, talvez, de estranhar, ignorante como Vossa Excelência antes era de tudo o que a qualquer deles dissesse respeito. A descoberta não podia estar no seu poder, e a suspeita, certamente, não no seu ânimo. Poderá talvez perguntar por que tudo isto não lhe foi dito ontem à noite. Mas eu não era então bastante senhor de mim para saber o que se podia ou devia revelar. Pela verdade de tudo o que aqui se relata, posso apelar mais particularmente para o testemunho do Coronel Fitzwilliam, que, pela nossa próxima parentela e constante intimidade, e ainda mais por ser um dos testamenteiros do meu pai, teve de conhecer necessariamente todas as particularidades destas transações. Se a sua aversão por mim tornar as minhas afirmações sem valor, não a pode a mesma causa impedir de confiar no meu primo; e, para que haja possibilidade de o ouvir, trataré de encontrar ensejo de lhe pôr esta carta nas mãos no decurso da manhã. Só acrescentarei — Deus a abençoe.

“FITZWILLIAM DARCY.”

CAPÍTULO XXXVI.

Quando o Sr. Darcy lhe entregou a carta, Elizabeth não esperava que ela contivesse renovação das suas propostas; de todo não fizera ideia do seu conteúdo. Mas, tais como eram, bem se pode imaginar com que ânsia os percorreu, e que contradição de emoções lhe despertaram. Os sentimentos, enquanto lia, mal se poderiam definir. Com assombro, primeiro compreendeu que ele acreditava estar em seu poder qualquer espécie de desculpa; e ficou firmemente persuadida de que ele não poderia ter explicação alguma para dar, que um recto sentimento de vergonha não ocultasse. Com forte prevenção contra tudo o que ele pudesse dizer, começou o relato do que sucedera em Netherfield. Lia com uma avidez que mal lhe deixava poder de compreensão; e, na impaciência de saber o que a frase seguinte pudesse trazer, era incapaz de atender ao sentido da que tinha diante dos olhos. A crença dele na insensibilidade da sua irmã ela resolveu logo ser falsa; e a exposição, feita por ele, das verdadeiras e piores objecções ao casamento deixou-a zangada demais para ter qualquer desejo de lhe fazer justiça. Não exprimia ele arrependimento do que fizera, que a satisfizesse; o seu tom não era de penitente, mas de arrogante. Tudo era orgulho e insolência.

Mas, quando a este assunto se seguiu o relato do Sr. Wickham — quando ela leu, com atenção um pouco mais clara, a narrativa de acontecimentos que, a serem verdadeiros, haviam de subverter toda a opinião acalentada do seu mérito, e que tanto se assemelhavam à história que ele próprio de si fizera — os sentimentos foram ainda mais agudamente dolorosos e mais difíceis de definir. Assombro, inquietação e até horror a oprimiam. Desejava desacreditar tudo por completo, exclamando repetidamente: “Isto há-de ser falso! Isto não pode ser! Isto há-de ser a mais grosseira falsidade!” — e, quando percorreu a carta toda, sem saber quase nada das últimas páginas, afastou-a apressadamente, protestando que não lhe haveria de dar atenção, que nunca mais a tornaria a abrir.

Neste estado perturbado de espírito, com pensamentos que em nada podiam repousar, ela continuou o seu caminho; mas não era possível: em meio minuto a carta era de novo desdobrada; e, reunindo consigo mesma tudo quanto pôde, recomeçou a leitura humilhante de tudo o que dizia respeito a Wickham, e tanto se compôs que pudesse perscrutar o sentido de cada frase. O relato da sua ligação com a família de Pemberley era exactamente o que ele próprio lhe houvera contado; e a bondade do falecido Sr. Darcy, embora ela não conhecesse de antes o seu alcance, concordava também do mesmo modo com as próprias palavras dele. Até aí, cada narrativa confirmava a outra; mas, quando chegou ao testamento, a diferença era grande. O que Wickham dissera do benefício estava-lhe fresco; e, lembrando-se das suas próprias palavras, era impossível não sentir que havia grosseira duplicidade de um lado ou do outro, e, por alguns momentos, ela lisonjeou-se de que os seus desejos não erravam. Mas, quando leu e releu, com a mais cerrada atenção, as particularidades imediatamente seguintes — Wickham renunciar a toda a pretensão ao benefício, receber em vez dele uma soma tão considerável como três mil libras — de novo se viu forçada a hesitar. Pousou a carta, pesou cada circunstância com o que pretendia ser imparcialidade — deliberou sobre a probabilidade de cada afirmação — mas com pouco êxito. De ambos os lados era apenas asserção. Leu de novo. Mas cada linha tornava mais claro que o assunto, que ela acreditara impossível que qualquer artifício pudesse tão apresentar que tornasse a conduta do Sr. Darcy nele menos que infame, era susceptível de uma volta que o tornava inteiramente inculpado em todo o caso.

A extravagância e geral libertinagem que ele não hesitava em lançar à conta do Sr. Wickham chocaram-na sobremaneira; tanto mais quanto não podia apresentar prova alguma da sua injustiça. Nunca dela ouvira falar antes da sua entrada na milícia de ----shire, na qual ele se alistara por persuasão do jovem que, ao encontrá-lo por acaso na cidade, renovara ali uma ligeira relação. Do seu anterior género de vida, nada se soubera em Hertfordshire senão o que ele próprio

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contava. Quanto ao seu verdadeiro carácter, caso informação estivesse ao seu alcance, nunca ela sentira vontade de a procurar. O seu rosto, a sua voz e os seus modos haviam-no firmado de pronto na posse de toda a virtude. Tentou recordar algum exemplo de bondade, algum traço distinto de integridade ou benevolência, que o pudesse arrancar aos ataques do Sr. Darcy; ou, ao menos, pela predominância da virtude, atenuar aqueles erros casuais sob os quais ela procuraria classificar o que o Sr. Darcy descrevera como a ociosidade e o vício de muitos anos seguidos. Mas nenhuma tal lembrança a socorreu. Via-o imediatamente diante de si, em todo o encanto de porte e maneiras; mas não conseguia lembrar bem mais do que a aprovação geral da vizinhança e a estima que os seus dotes de sociabilidade lhe haviam granjeado na messe. Depois de deter-se neste ponto por espaço considerável, continuou uma vez mais a leitura. Mas, ai! a história que se seguia, dos intentos dele sobre a Srta. Darcy, recebia alguma confirmação do que entre o Coronel Fitzwilliam e ela se passara apenas na manhã anterior; e, por fim, ela era remetida para a verdade de cada uma das particularidades ao próprio Coronel Fitzwilliam — de quem ela recebera antes a informação da sua estreita participação em todos os negócios do primo, e cujo carácter não tinha motivo para questionar. Por um momento, quase resolvera dirigir-se a ele; mas a ideia foi contida pela inoportunidade do pedido, e por fim de todo banida pela convicção de que o Sr. Darcy jamais se haveria arriscado a semelhante proposta, se não estivesse bem seguro da corroboração do primo.

Ela recordava perfeitamente tudo o que se passara em conversa entre Wickham e ela naquela primeira noite em casa do Sr. Philips. Muitas das expressões dele estavam ainda frescas na sua memória. Agora sentia-se impressionada com a inconveniência de tais confianças feitas a um estranho, e espantava-se de que lhe tivessem escapado antes. Via a indiscrição de ele se ter apresentado como fizera, e a incoerência das suas palavras com a sua conduta. Lembrava-se de que ele gabara não ter medo de se encontrar com o Sr. Darcy — que o Sr. Darcy podia deixar o condado, mas que ele permaneceria firme; contudo, evitara o baile de Netherfield logo na semana seguinte. Lembrava-se também de que, até a família de Netherfield abandonar o condado, ele não contara a sua história a ninguém além dela; mas que, depois da partida deles, fora discutida por toda a parte; que então não tivera reservas, nem escrúpulos em macular o carácter do Sr. Darcy, embora lhe tivesse assegurado que o respeito pelo pai o impediria sempre de expor o filho.

Como tudo lhe aparecia agora de modo tão diferente no que dizia respeito a ele! As atenções dele a Miss King eram agora consequência de vistas unicamente e odiosamente mercenárias; e a mediocridade da fortuna dela já não provava a moderação dos seus desejos, mas a sua avidez de agarrar fosse o que fosse. O procedimento dele para com ela mesma não podia agora ter tido motivo tolerável: ou fora iludido quanto à sua fortuna, ou estivera a lisonjear a sua vaidade ao encorajar a preferência que ela acreditava ter mostrado com a maior imprudência. Cada luta renitente em seu favor tornava-se mais fraca e mais fraca; e em maior justificação do Sr. Darcy, ela não podia deixar de reconhecer que o Sr. Bingley, quando interrogado por Jane, havia muito tempo afirmara a sua inocência no assunto; — que, por mais orgulhosos e repulsivos que fossem os modos dele, ela nunca, em todo o decurso do seu conhecimento — um conhecimento que ultimamente os aproximara muito e lhe dera certa familiaridade com os hábitos dele — vira nada que o denunciasse como desonesto ou injusto — nada que indicasse nele hábitos irreligiosos ou imorais; — que entre os seus próprios parentes era estimado e valorizado; — que até Wickham lhe reconhecia mérito como irmão, e que ela muitas vezes o ouvira falar da irmã com tanta afeição que provava ser ele capaz de algum sentimento amável; — que, se os actos dele tivessem sido o que Wickham os representara, tão grosseira violação de tudo o que é recto dificilmente poderia ter sido ocultada do mundo; e que a amizade entre uma pessoa capaz disso e um homem tão amável como o Sr. Bingley era incompreensível.

Sentia uma vergonha absoluta de si mesma. Não podia pensar nem em Darcy nem em Wickham sem sentir que estivera cega, parcial, preconceituosa, absurda.

— Como tenho actuado de modo desprezível! — exclamou ela. — Eu, que me ufanava da minha perspicácia! Eu, que me prezava das minhas capacidades! Que tantas vezes desprezara a generosa franqueza da minha irmã, e agradara à minha vaidade com desconfianças inúteis ou inocentes! Quão humilhante é esta descoberta! E, contudo, quão justa humilhação! Se estivesse apaixonada, não poderia ter estado miseravelmente mais cega. Mas a vaidade, não o amor, foi a minha loucura. Lisonjeada com a preferência de um, e ofendida com a negligência do outro, desde o começo mesmo do nosso conhecimento, cortejei prevenções e ignorância, e afastei a razão onde quer que estivessem em causa. Até este momento, nunca me conheci de verdade.

De si mesma para Jane, de Jane para Bingley, os seus pensamentos seguiam uma linha que logo lhe trouxe à lembrança que a explicação do Sr. Darcy parecera então muito insuficiente; e releu-a. Muito diferente foi o efeito de uma segunda leitura. Como poderia negar crédito às afirmações dele, num caso, quando lho fora obrigada a dar no outro? Ele declarara estar completamente desavisado da inclinação da irmã dela; e ela não podia deixar de se lembrar do que fora sempre a opinião de Charlotte. Também não podia negar a justiça da descrição dele sobre Jane. Sentia que os sentimentos de Jane, embora fervorosos, eram pouco demonstrados, e que havia uma complacência constante no seu ar e maneiras, nem sempre acompanhada de grande sensibilidade.

Quando chegou àquela parte da carta em que a sua família era mencionada, em tons de tão mortificante, ainda que merecida, censura, o seu sentimento de vergonha foi severo. A justiça da acusação impressionou-a com demasiada força para ser negada; e as circunstâncias a que ele particularmente aludira, como passadas no baile de Netherfield, e como confirmando toda a sua primeira desaprovação, não poderiam ter feito impressão mais forte no espírito dele do que no dela.

O elogio a ela própria e à sua irmã não passou despercebido. Acalmou, mas não a podia consolar do desprezo que assim fora auto-atraído pelo resto da sua família; e, considerando que a decepção de Jane fora, na verdade, obra dos seus parentes mais próximos, e reflectindo quanto o crédito de ambas devia ser prejudicado por tal impropriedade de conduta, sentia-se abatida para além de tudo o que jamais experimentara.

Depois de passear pela vereda durante duas horas, entregando-se a toda a variedade de pensamentos, reconsiderando acontecimentos, determinando probabilidades e reconciliando-se, tanto quanto podia, com uma mudança tão súbita e tão importante, o cansaço e a lembrança da sua longa ausência fizeram-na por fim voltar para casa; e entrou na casa com o desejo de parecer alegre como de costume, e a resolução de reprimir tais reflexões que a tornariam inapta para a conversa.

Foi-lhe imediatamente dito que os dois cavalheiros de Rosings tinham estado ali durante a sua ausência; o Sr. Darcy, apenas por alguns minutos, para se despedir, mas que o Coronel Fitzwilliam estivera sentado com eles pelo menos uma hora, esperando pelo seu regresso, e quase resolvendo a ir a pé procurá-la até ser encontrada. Elizabeth apenas pôde afectar alguma pena por o ter perdido; na verdade, rejubilava com isso. O Coronel Fitzwilliam já não era objecto. Só podia pensar na sua carta.

CAPÍTULO XXXVII.

Os dois cavalheiros deixaram Rosings na manhã seguinte; e o Sr. Collins, que estivera à espera perto dos portões para lhes fazer a sua reverência de despedida, pôde trazer para casa a agradável notícia de que eles pareciam em muito boa saúde, e em espíritos tão toleráveis quanto se podia esperar, depois da melancólica cena tão recentemente passada em Rosings. A Rosings apressou-se então a consolar Lady Catherine e a filha; e, ao regressar, trouxe de lá, com grande satisfação, uma mensagem de Sua Senhoria, significando que se sentia tão entediada que muito desejava tê-los todos a jantar.

Elizabeth não podia ver Lady Catherine sem lembrar-se de que, se tivesse querido, poderia já a essa altura ter sido apresentada a ela como sua futura sobrinha; nem podia pensar, sem um sorriso, no que teria sido a indignação de Sua Senhoria. «O que teria ela dito? como teria procedido?» eram as perguntas com que se divertia a si mesma.

O primeiro assunto de conversa foi a diminuição da roda de Rosings. — Asseguro-vos que o sinto extremamente — disse Lady Catherine —; creio que ninguém sente a perda dos amigos tanto como eu. Mas sou particularmente dedicada a estes jovens; e sei que eles são tão dedicados a mim! Tinham imensa pena de ir! Mas são sempre assim. O caro Coronel conseguiu animar-se razoavelmente até mesmo ao fim; mas Darcy pareceu senti-lo mais agudamente — mais, penso eu, do que no ano passado. O seu apego a Rosings certamente aumenta.

O Sr. Collins tinha aqui um cumprimento e uma alusão para inserir, que foram acolhidos com benévolo sorriso pela mãe e pela filha.

Lady Catherine observou, depois do jantar, que Miss Bennet parecia desanimada; e logo dando ela própria a explicação, supondo que não lhe agradava voltar para casa tão cedo, acrescentou:

— Mas, se é esse o caso, deveis escrever à vossa mãe a pedir que vos deixe ficar um pouco mais. A Sra. Collins terá muito gosto na vossa companhia, tenho a certeza.

— Estou muito reconhecida a Vossa Senhoria pelo vosso amável convite — respondeu Elizabeth —; mas não me é possível aceitá-lo. Tenho de estar em Londres no próximo sábado.

— Ora, a esse ritmo, só tereis estado aqui seis semanas. Eu esperava que ficásseis dois meses. Disse-o à Sra. Collins antes de virdes. Não há motivo para vos ir tão cedo. A Sra. Bennet certamente poderia dispensar-vos por mais uma quinzena.

— Mas o meu pai não pode. Escreveu na semana passada para apressar o meu regresso.

— Oh, o vosso pai, claro, pode dispensar-vos, se a vossa mãe puder. As filhas nunca são de tanta importância para um pai. E se ficardes mais um mês completo, terei possibilidade de levar uma de vós até Londres, pois vou para lá no início de Junho, por uma semana; e como Dawson não se opõe ao banco da carruagem, haverá muito bom lugar para uma de vós — e, na verdade, se o tempo por acaso estiver fresco, não me oporia a levar-vos às duas, pois não sois grandes.

— Sois toda bondade, senhora; mas creio que devemos manter o nosso plano original.

Lady Catherine pareceu resignada. — Sra. Collins, haveis de mandar um criado com elas. Sabeis que digo sempre o que penso, e não suporto a ideia de duas jovens a viajar pela posta sozinhas. É altamente impróprio. Haveis de arranjar maneira de mandar alguém. Tenho a maior aversão do mundo a essa espécie de coisa. As jovens devem ser sempre devidamente guardadas e acompanhadas, conforme a sua posição na vida. Quando a minha sobrinha Georgiana foi a Ramsgate no Verão passado, fiz questão de que fossem com ela dois criados. Miss Darcy, filha do Sr. Darcy de Pemberley, e Lady Anne, não poderiam aparecer com propriedade de outro modo. Sou excessivamente atenta a todas essas coisas. Haveis de mandar o John com as jovens, Sra. Collins. Folgo por me ter ocorrido mencioná-lo; porque seria realmente descrédito vosso deixá-las ir sozinhas.

— O meu tio há-de mandar um criado para nos acompanhar.

— Oh! O vosso tio! Ele tem um criado, não tem? Folgo muito por terdes alguém que pensa nessas coisas. Onde haveis de mudar de cavalos? Ah, Bromley, claro. Se mencionardes o meu nome no Bell, sereis bem atendidas.

Lady Catherine tinha muitas outras perguntas a fazer respeitantes à viagem delas; e, como não respondia ela mesma a todas, era necessária atenção — o que Elizabeth acreditava ser uma sorte para si; ou, com o espírito tão ocupado, poderia ter esquecido onde estava. A reflexão tinha de ser reservada para horas solitárias: sempre que estava sozinha, entregava-se-lhe como ao maior alívio; e não passava um dia sem um passeio solitário, no qual pudesse entregar-se a todo o deleite de recordações desagradáveis.

A carta do Sr. Darcy estava ela em bom caminho de a saber de cor. Estudava cada frase; e os seus sentimentos para com o seu autor eram por vezes muito diferentes. Quando se lembrava do estilo do que ele lhe dissera, ainda transbordava de indignação: mas, quando considerava como injustamente o condenara e increpara, a sua cólera voltava-se contra si mesma; e os sentimentos dele desiludidos tornavam-se objecto de compaixão. A afeição dele despertava gratidão, o carácter geral respeito: mas não o podia aprovar; nem podia por um momento arrepender-se da recusa, ou sentir a mais leve inclinação para voltar a vê-lo. No seu próprio comportamento passado havia uma fonte constante de aborrecimento e pesar; e nos desgraçados defeitos da sua família, um assunto de ainda mais pesada mortificação. Eram sem esperança de remédio. O pai, satisfeito por se rir deles, nunca se havia de dar ao trabalho de refrear a leviandade desatinada das filhas mais novas; e a mãe, com modos tão longe de serem correctos, era inteiramente insensível ao mal. Elizabeth tinha muitas vezes unido os seus esforços aos de Jane para reprimir a imprudência de Catherine e Lydia; mas, enquanto elas eram sustentadas pela indulgência da mãe, que possibilidade havia de melhoramento? Catherine, fraca de ânimo, irritável, e completamente sob a direcção de Lydia, fora sempre afrontada pelos conselhos delas; e Lydia, voluntariosa e descuidada, mal lhes dava ouvidos. Eram ignorantes, preguiçosas e vaidosas. Enquanto houvesse um oficial em Meryton, haviam de namoriscar com ele; e enquanto Meryton estivesse a uma distância que se pudesse ir a pé desde Longbourn, haviam de lá ir para sempre.

A ansiedade por causa de Jane era outra preocupação dominante; e a explicação do Sr. Darcy, ao restituir Bingley a toda a sua antiga boa opinião, aumentava a consciência do que Jane perdera. A afeição dele ficara provada como sendo sincera, e a conduta dele absolvida de qualquer culpa, a menos que alguma pudesse caber à falta de franqueza da sua confiança no amigo. Quão dolorosa era então a ideia de que, de uma situação tão desejável em todos os aspectos, tão recheada de vantagens, tão prometedora de felicidade, Jane fora privada pela loucura e indecoro da sua própria família!

Quando a estas recordações se acrescentava o desenvolvimento do carácter de Wickham, pode-se facilmente crer que os espíritos alegres, que tão raramente haviam sido abatidos, ficassem agora tão afectados que se tornasse quase impossível parecer toleravelmente animada.

Os seus compromissos em Rosings foram tão frequentes na última semana da sua estadia como no princípio. A última noite mesmo foi passada lá; e Sua Senhoria tornou a inquiri-las minuciosamente sobre as particularidades da viagem, deu-lhes instruções quanto ao melhor método de arranjar a bagagem, e foi tão insistente quanto à necessidade de colocar os vestidos da única maneira correcta, que Maria se julgou obrigada, ao voltar, a desfazer todo o trabalho da manhã e a fazer a mala de novo.

Quando se separaram, Lady Catherine, com grande condescendência, lhes desejou boa viagem e convidou-as a ir a Hunsford outra vez no ano seguinte; e Miss de Bourgh fez um esforço suficiente para fazer uma reverência e estender a mão a ambas.

CAPÍTULO XXXVIII.

Na manhã de sábado, Elizabeth e o Sr. Collins encontraram-se para o pequeno-almoço alguns minutos antes de as outras aparecerem; e ele aproveitou a ocasião para pagar as atenções de despedida que considerava indispensavelmente necessárias.

— Não sei, Miss Elizabeth — disse ele — se a Sra. Collins já vos manifestou o seu reconhecimento pela vossa amabilidade em vir ter connosco; mas tenho a certeza de que não saireis desta casa sem receber os agradecimentos dela por isso. O favor da vossa companhia foi muito sentido, asseguro-vos. Sabemos bem quão pouco há para atrair alguém à nossa humilde morada. A nossa maneira simples de viver, as nossas pequenas salas, e poucos domésticos, e o pouco que vemos do mundo, devem tornar Hunsford extremamente aborrecido para uma jovem como vós; mas espero que nos acrediteis gratos pela condescendência, e que fizemos tudo ao nosso alcance para vos impedir de passar o tempo desagradavelmente.

Elizabeth apressou-se com os seus agradecimentos e protestos de felicidade. Passara seis semanas com grande deleite; e o prazer de estar com Charlotte, e a amável atenção que recebera, deviam fazê-la sentir-se obrigada. O Sr. Collins ficou satisfeito; e com uma solenidade mais sorridente respondeu:

— É-me da maior satisfação saber que passastes o tempo sem desprazer. Certamente fizemos o nosso melhor; e, muito afortunadamente, tendo nós em nosso poder apresentar-vos a sociedade muito superior, e, pela nossa ligação a Rosings, frequentes meios de variar o quadro doméstico humilde, penso que podemos lisonjear-nos de que a vossa visita a Hunsford não pôde ter sido inteiramente fastidiosa. A nossa situação com respeito à família de Lady Catherine é, na verdade, o género de extraordinária vantagem e bênção que poucos podem gabar. Vedes em que pé estamos. Vedes como somos continuamente ocupados com eles. Na verdade, devo reconhecer que, com todas as desvantagens desta humilde paróquia, não consideraria objecto de compaixão quem quer que nela morasse, enquanto forem participantes da nossa intimidade em Rosings.

As palavras eram insuficientes para a elevação dos seus sentimentos; e ele foi obrigado a andar de um lado para o outro na sala, enquanto Elizabeth procurava unir cortesia e verdade em poucas frases curtas.

— Podeis, de facto, levar um relatório muito favorável de nós para Hertfordshire, minha querida prima. Lisonjeio-me, pelo menos, de que o podereis fazer. As grandes atenções de Lady Catherine à Sra. Collins fostes vós testemunha diária; e, no conjunto, confio em que não pareça que a vossa amiga tirou um partido infeliz — mas, sobre este ponto, será melhor calar-me. Permiti-me apenas assegurar-vos, minha querida Miss Elizabeth, que posso de todo o coração desejar-vos cordiais e iguais felicidades no casamento. A minha querida Charlotte e eu temos uma só mente e um só modo de pensar. Há em tudo entre nós a mais extraordinária semelhança de carácter e ideias. Parece que fomos feitos um para o outro.

Elizabeth pôde seguramente dizer que era uma grande felicidade quando esse era o caso, e, com igual sinceridade, acrescentar que acreditava firmemente e se alegrava com as suas felicidades domésticas. Não lhe pesou, contudo, ver o relato delas interrompido pela entrada da senhora de quem aquelas felicidades procediam. Pobre Charlotte! era melancólico deixá-la em tal companhia! Mas ela escolhera-o de olhos abertos; e, embora evidentemente lamentando que as visitantes se fossem, não parecia pedir compaixão. A sua casa e a sua economia, a paróquia e as suas galinhas, e todos os assuntos delas dependentes, ainda não tinham perdido os seus encantos.

Por fim a carruagem chegou, as malas foram amarradas, os embrulhos colocados dentro, e foi declarado que estava pronta. Depois de uma despedida afectuosa entre as amigas, Elizabeth foi acompanhada até à carruagem pelo Sr. Collins; e, enquanto desciam pelo jardim, ele ia incumbindo-a dos seus melhores respeitos a toda a sua família, sem esquecer os agradecimentos pela amabilidade que recebera em Longbourn no Inverno, e os seus cumprimentos ao Sr. e Sra. Gardiner, embora lhe fossem desconhecidos. Depois ajudou-a a entrar, Maria seguiu-a, e a porta estava no ponto de ser fechada, quando ele subitamente lhes recordou, com alguma consternação, que se tinham esquecido, até então, de deixar alguma mensagem para as senhoras de Rosings.

— Mas — acrescentou — haveis de querer, naturalmente, que lhes sejam entregues os vossos respeitos humildes, com os vossos agradecimentos pela bondade que vos tiveram enquanto estivestes aqui.

Elizabeth não fez objecção: deixou-se então fechar a porta, e a carruagem partiu.

— Santo Deus! — exclamou Maria, após alguns minutos de silêncio — parece que foi só há um dia ou dois desde que chegámos! E, no entanto, quantas coisas aconteceram!

— Muitas, de facto — disse a companheira, com um suspiro.

— Jantámos nove vezes em Rosings, além de termos lá tomado chá duas vezes! Quanto terei para contar!

Elizabeth acrescentou em segredo: «E quanto terei para esconder!»

A viagem decorreu sem grande conversa, nem qualquer alarme; e, dentro de quatro horas depois de terem deixado Hunsford, chegaram à casa do Sr. Gardiner, onde deviam ficar alguns dias.

Jane tinha bom aspecto, e Elizabeth teve pouca oportunidade de estudar os seus ânimos, no meio dos vários compromissos que a amabilidade da tia lhes reservara. Mas Jane havia de ir com ela para casa, e em Longbourn haveria lazer suficiente para a observação.

Não foi sem esforço, entretanto, que ela pôde esperar mesmo por Longbourn, antes de contar à irmã as propostas do Sr. Darcy. Saber que tinha o poder de revelar o que havia de admirar tanto Jane, e ao mesmo tempo havia de lisonjear tanto o que ainda restava da sua própria vaidade que ainda não lograra vencer pela razão, era uma tentação à franqueza que nada poderia ter vencido, a não ser o estado de indecisão em que permanecia quanto à medida do que havia de comunicar, e o seu receio de que, uma vez entrado no assunto, fosse arrastada a repetir algo sobre Bingley, que pudesse apenas magoar ainda mais a irmã.

CAPÍTULO XXXIX.

Era na segunda semana de Maio, aquela em que as três jovens partiram juntas da Gracechurch Street para a cidade de ----, em Hertfordshire; e, ao se aproximarem da estalagem designada onde a carruagem do Sr. Bennet as havia de ir buscar, logo avistaram, em sinal da pontualidade do cocheiro, a Kitty e a Lydia espreitando de uma sala de jantar lá em cima. Estas duas jovens estavam havia mais de uma hora no local, alegremente ocupadas a visitar uma chapelaria em frente, a observar o sentinela de guarda, e a preparar uma salada de pepino.

Depois de dar as boas-vindas às irmãs, elas exibiram triunfais uma mesa posta com as carnes frias que uma despensa de estalagem costuma oferecer, exclamando: "Isto não é agradável? não é uma surpresa deliciosa?"

"E queremos tratar-vos a todas," acrescentou Lydia; "mas haveis de nos emprestar o dinheiro, pois acabámos de gastar o nosso na loja ali." E mostrando as suas compras, "Olhem, comprei este chapelinho. Não acho que seja muito bonito; mas pensei que tanto valia comprá-lo como não. Hei de desmanchá-lo logo que chegue a casa, para ver se o consigo arranjar melhor."

E quando as irmãs o criticaram por ser feio, ela acrescentou, com perfeita indiferença, "Oh, mas havia dois ou três muito mais feios na loja; e quando eu comprar cetim de uma cor mais bonita para o enfeitar de novo, acho que ficará bastante aceitável. Além disso, pouco importa o que se use neste Verão, depois que os de ----shire partirem de Meryton, e eles vão daqui a uma quinzena."

"Partem mesmo?" exclamou Elizabeth, com a maior satisfação.

"Vão acampar perto de Brighton; e eu queria tanto que o papá nos levasse a todas para lá no Verão! Seria um plano tão delicioso, e atrevo-me a dizer que não custaria quase nada. A mamã também gostaria tanto de ir! Pensem só que Verão miserável havemos de ter de outra forma!"

"Sim," pensou Elizabeth; "esse seria, de facto, um plano encantador, e resolveria tudo de uma vez para nós. Santo Deus! Brighton e um acampamento inteiro de soldados, para nós, que já ficámos transtornadas por um pobre regimento de milícias, e pelos bailes mensais de Meryton!"

"Agora tenho novidades para vocês," disse Lydia, enquanto se sentavam à mesa. "O que é que vocês acham? É uma excelente novidade, uma notícia óptima, e acerca de uma certa pessoa que todas nós estimamos."

Jane e Elizabeth olharam uma para a outra, e o criado foi informado de que podia ausentar-se. Lydia riu, e disse:

"Ah, é mesmo o género da vossa formalidade e discrição. Vocês achavam que o criado não podia ouvir, como se ele se importasse! Aposto que ele ouve muitas vezes coisas piores do que eu vou dizer. Mas é um sujeito muito feio! Ainda bem que se foi embora. Nunca vi um queixo tão comprido na minha vida. Pois bem, agora a minha novidade: é sobre o querido Wickham; demasiado boa para o criado, não é verdade? Não há perigo de o Wickham casar com a Mary King — toma! Ela foi para casa do tio em Liverpool; foi lá ficar. O Wickham está a salvo."

"E a Mary King está a salvo!" acrescentou Elizabeth; "a salvo de uma ligação imprudente em matéria de fortuna."

"É uma grande tola por ter ido embora, se ele lhe agradava."

"Mas espero que não haja grande inclinação de nenhum dos lados," disse Jane.

"Quanto a ele, tenho a certeza de que não. Dou a minha palavra de que ele nunca se importou com ela três migalhas. Quem se importaria com uma coisa tão insignificante, sardenta e mal-aparecida?"

Elizabeth horrorizou-se ao pensar que, por mais incapaz que ela própria fosse de tal grosseza de expressão, a grosseza do sentimento era pouco menos do que o que o seu próprio peito havia alimentado e considerado liberal!

Logo que todos comeram, e as mais velhas pagaram, mandou-se vir a carruagem; e, após alguma arrumação, toda a companhia, com todas as caixas, bolsas de trabalho e embrulhos, e a adição bem-vinda das compras de Kitty e Lydia, ficou instalada nela.

"Que bem apertadas que vamos!" exclamou Lydia. "Ainda bem que trouxe o meu chapelinho, nem que seja só pela graça de ter mais uma caixa de chapéus! Pois bem, agora vamos ficar bem à vontade e aconchegadas, e falar e rir todo o caminho até casa. E em primeiro lugar, deixem-me ouvir o que vos aconteceu a todas desde que saíram. Viram homens agradáveis? Tiveram algum flirt? Eu tinha grandes esperanças de que uma de vocês arranjasse um marido antes de voltar. A Jane vai ficar bem velha solteira, aviso desde já. Ela já tem quase vinte e três anos! Deus! como eu me haveria de envergonhar de não estar casada antes dos vinte e três! A tia Philips quer tanto que vocês arranjem maridos que vocês nem imaginam. Ela diz que a Lizzy tinha feito melhor em aceitar o Sr. Collins; mas eu não acho que isso tivesse graça nenhuma. Deus! como eu gostaria de me casar antes de todas vocês! e depois levava-vos a todos os bailes. Meu Deus! tivemos tanta graça no outro dia em casa do Coronel Forster! A Kitty e eu havíamos de passar lá o dia, e a Sra. Forster prometeu dar um pequeno baile à noite; (a propósito, a Sra. Forster e eu somos grandes amigas!) e então ela convidou os dois Harrington; mas a Harriet estava doente, e o Pen teve de vir sozinho; e então, o que é que vocês acham que fizemos? Vestimos o Chamberlayne de mulher, de propósito para fazer de senhora — imaginem a graça! Ninguém sabia, a não ser o Coronel e a Sra. Forster, e a Kitty e eu, excepto a minha tia, porque tínhamos de pedir um vestido emprestado; e vocês não fazem ideia de como ele ficou bem! Quando o Denny, o Wickham, o Pratt, e mais dois ou três homens entraram, não o reconheceram de modo nenhum. Deus! como eu ri! e a Sra. Forster também. Pensei que ia morrer. E foi isso que fez os homens desconfiarem de qualquer coisa, e logo descobriram do que se tratava."

Com este género de histórias das suas festas e boas graças, Lydia, ajudada pelas sugestões e acrescentos de Kitty, procurou entreter as companheiras durante todo o caminho até Longbourn. Elizabeth ouviu o menos que pôde, mas não havia meio de escapar à frequente menção do nome de Wickham.

A recepção em casa foi carinhosa. A Sra. Bennet rejubilou por ver Jane com toda a sua beleza intacta; e mais de uma vez durante o jantar, o Sr. Bennet disse espontaneamente a Elizabeth:

"Estou contente que tenhas voltado, Lizzy."

A reunião na sala de jantar era numerosa, porque quase todos os Lucas vieram cumprimentar Maria e ouvir as novidades; e variados foram os assuntos que os ocuparam: Lady Lucas perguntava a Maria, através da mesa, pela saúde e pelas galinhas da filha mais velha; a Sra. Bennet estava duplamente ocupada, por um lado recolhendo de Jane, que se sentava um pouco mais abaixo, um relato das modas do momento, e por outro, transmitindo-as às mais novas Miss Lucas; e Lydia, em voz mais alta do que qualquer outra pessoa, enumerava para quem a quisesse ouvir os vários prazeres da manhã.

"Oh, Mary," disse ela, "quem me dera que tivesses ido connosco, porque divertimo-nos tanto! No caminho, a Kitty e eu subimos todas as persianas, e fingimos que não havia ninguém na carruagem; e eu teria ido assim todo o caminho, se a Kitty não tivesse ficado enjoada; e quando chegámos ao George, acho que nos portámos muito bem, porque tratamos as outras três com o mais bonito almoço frio do mundo, e se tu tivesses ido, também te tínhamos tratado. E depois, quando saímos, foi tão divertido! Pensei que nunca mais conseguíssemos entrar na carruagem. Eu estava a morrer de riso. E depois fomos tão alegres todo o caminho até casa! falámos e rimos tão alto, que qualquer pessoa nos teria ouvido a dez milhas de distância!"

A isto Mary respondeu muito gravemente: "Longe de mim, minha querida irmã, depreciar tais prazeres. Seriam decerto do agrado da generalidade dos espíritos femininos. Mas confesso que para mim não teriam atractivos. Preferiria infinitamente um livro."

Mas desta resposta Lydia não ouviu palavra. Raramente ouvia alguém por mais de meio minuto, e nunca prestava a Mary a mínima atenção.

À tarde, Lydia instou com as restantes raparigas para irem a pé até Meryton, ver como estava toda a gente; mas Elizabeth opôs-se com firmeza. Não se havia de dizer que as Miss Bennet não conseguiam estar em casa meio dia sem andarem atrás dos oficiais. Havia também outra razão para a sua oposição. Temia voltar a ver Wickham, e estava resolvida a evitá-lo o mais possível. O conforto que lhe dava a próxima partida do regimento era, de facto, indescritível. Dentro de uma quinzena iriam partir, e uma vez partidos, ela esperava que nada mais a pudesse atormentar por causa dele.

Não estava há muitas horas em casa, quando descobriu que o plano de Brighton, de que Lydia lhes havia dado uma pista na estalagem, era frequentemente discutido entre os seus pais. Elizabeth viu logo que o pai não tinha a mínima intenção de ceder; mas as suas respostas eram ao mesmo tempo tão vagas e equívocas, que a mãe, embora muitas vezes desanimada, ainda não desesperara de acabar por conseguir.

CAPÍTULO XL.

A impaciência de Elizabeth para dar a conhecer a Jane o que se passara já não podia ser contida; e por fim, resolvendo suprimir todas as particularidades em que a irmã estivesse envolvida, e preparando-a para a surpresa, contou-lhe na manhã seguinte o essencial da cena entre o Sr. Darcy e ela.

O espanto de Miss Bennet foi logo atenuado pela forte parcialidade de irmã que fazia com que qualquer admiração por Elizabeth lhe parecesse perfeitamente natural; e toda a surpresa cedo se perdeu noutros sentimentos. Lamentava que o Sr. Darcy tivesse expressado os seus sentimentos de uma maneira tão pouco própria para os recomendar; mas ainda mais a penalizava a infelicidade que a recusa da irmã lhe devia ter causado.

"Ele ter estado tão certo de que iria ser aceite é que foi errado," disse ela, "e decerto não deveria ter transparecido; mas considera quanto isso lhe deve ter aumentado o desapontamento."

"De facto," respondeu Elizabeth, "sinto muito por ele; mas ele tem outros sentimentos que provavelmente em breve afastarão dele a estima por mim. Tu, porém, não me culpas por o ter recusado?"

"Culpar-te? Oh, não."

"Mas culpas-me por ter falado com tanta acrimónia de Wickham?"

"Não — não sei que tenhas errado ao dizer o que disseste."

"Mas hás-de saber, quando te contar o que aconteceu logo no dia seguinte."

Ela falou então da carta, repetindo todo o seu conteúdo na parte que dizia respeito a George Wickham. Que golpe não foi este para a pobre Jane, que de boa vontade teria atravessado o mundo sem acreditar que existisse tanta malvadez em toda a raça humana quanta ali se achava reunida num só indivíduo! E a justificação de Darcy, embora grata aos seus sentimentos, não era capaz de a consolar de semelhante descoberta. Com todo o empenho procurou ela mostrar a probabilidade de erro, e tentar salvar um, sem envolver o outro.

"Assim não pode ser," disse Elizabeth; "tu nunca hás-de conseguir fazer com que ambos prestem para alguma coisa. Escolhe, mas tens de te contentar com um só. Há entre eles tanta coisa meritória, que mal chega para fazer um homem razoável; e ultimamente tem andado bastante a mudar de um para o outro. Pela minha parte, inclino-me a crer que tudo é do Sr. Darcy, mas tu hás-de fazer como quiseres."

Passou-se, todavia, algum tempo antes que se conseguisse arrancar um sorriso a Jane.

"Não me lembro de ter levado um choque igual," disse ela. "Wickham tão mau! É quase impossível de acreditar. E o pobre Sr. Darcy! minha querida Lizzy, pensa só no que ele deve ter sofrido. Tão grande desapontamento! e sabendo además da tua má opinião! e tendo de contar tal coisa da irmã dele! É realmente aflitivo de mais, tenho a certeza de que também o sentirás."

"Oh não, o meu pesar e a minha compaixão desaparecem por te ver tão cheia de ambos. Sei que lhe farás tão plena justiça, que de momento para momento me vou tornando mais despreocupada e indiferente. A tua profusão faz-me economizar; e se te lamentares por ele muito mais tempo, o meu coração ficará leve como uma pluma."

"Pobre Wickham! há tanta expressão de bondade no seu rosto! tanta franqueza e suavidade nos seus modos!"

"Houve decerto uma grande falta de critério na educação daqueles dois jovens. Um ficou com toda a bondade, e o outro com toda a aparência dela."

"Nunca achei que o Sr. Darcy fosse tão desprovido dessa aparência como tu costumavas achar."

"E, no entanto, era minha intenção ser invulgarmente esperta, adoptando uma aversão tão decidida contra ele, sem motivo nenhum. É um tão bom aguilhão para o engenho, tão boa abertura para o humor, ter uma aversão dessa natureza. Pode-se estar a injuriar sem parar, sem dizer nada de justo; mas não se pode estar sempre a troçar de um homem sem que de vez em quando se acerte nalguma coisa de espírito."

"Lizzy, quando leste essa carta pela primeira vez, tenho a certeza de que não podias tratar o assunto como agora o tratas."

"De facto, não podia. Estava bastante incómoda, estava muito incómoda — posso dizer que infeliz. E sem ninguém com quem falar do que sentia, sem a Jane para me consolar, e dizer que eu não tinha sido tão fraca, tão vaidosa, e tão parva, como eu bem sabia que fora! Oh, como eu precisei de ti!"

"Que azar teres usado expressões tão fortes ao falar de Wickham ao Sr. Darcy, pois agora parecem de todo imerecidas."

"Certamente. Mas a desventura de falar com acrimónia é a mais natural consequência dos preconceitos que eu vinha alimentando. Há um ponto sobre o qual quero o teu conselho. Quero que me digas se devo, ou não, dar a conhecer a nossa roda em geral o carácter de Wickham."

Miss Bennet fez uma pequena pausa, e depois respondeu: "Certamente que não há motivo para o expor tão terrivelmente. Qual é a tua própria opinião?"

"A de que não se deve tentar. O Sr. Darcy não me autorizou a tornar pública a sua comunicação. Pelo contrário, tudo o que dizia respeito à irmã dele era para ser guardado tanto quanto possível para mim; e se eu tentar desenganar as pessoas acerca do resto da conduta dele, quem acreditará em mim? O preconceito geral contra o Sr. Darcy é tão violento, que seria a morte de metade das pessoas de bem de Meryton, tentar colocá-lo numa luz favorável. Não me sinto com forças para isso. Wickham partirá em breve; e, por isso, não importará a ninguém daqui o que ele é na realidade. Mais tarde, acabará por se saber tudo, e então riremos da tolice deles por não o terem percebido antes. Por agora, nada direi a esse respeito."

"Tens toda a razão. Tornar públicos os erros dele poderia arruiná-lo para sempre. Talvez ele agora esteja arrependido do que fez, e queira restabelecer o seu bom nome. Não o devemos tornar desesperado."

A agitação do espírito de Elizabeth serenou com esta conversa. Livrara-se de dois dos segredos que a oprimiam havia uma quinzena, e tinha a certeza de encontrar em Jane uma ouvinte disposta, sempre que desejasse voltar ao assunto. Mas havia ainda alguma coisa oculta, cuja revelação a prudência proibia. Não se atrevia a contar a outra metade da carta do Sr. Darcy, nem a explicar à irmã como ela fora sinceramente estimada pelo amigo dele. Era um saber de que ninguém podia participar; e sentia que nada menos do que uma perfeita compreensão entre as partes a poderia justificar, lançando fora este último peso de mistério. "E então," disse para si, "se essa eventualidade muito improvável chegar a verificar-se, apenas poderei contar o que Bingley poderá contar de uma maneira muito mais agradável por si próprio. A liberdade de comunicar não pode ser minha enquanto não tiver perdido todo o seu valor!"

Uma vez instalada em casa, estava agora com tempo para observar o verdadeiro estado de espírito da irmã. Jane não era feliz. Continuaria a alimentar uma ternuríssima afeição por Bingley. Por nunca nem sequer ter imaginado estar apaixonada, a sua ternura tinha todo o ardor de uma primeira inclinação, e, dada a sua idade e o seu temperamento, mais estabilidade do que as primeiras inclinações costumam ter; e tão fervorosamente prezava a memória dele, e o preferia a todos os outros homens, que todo o seu bom senso, e toda a sua atenção para com os sentimentos dos amigos, eram necessários para refrear a indulgência daqueles pesares que de outro modo teriam sido nocivos à sua própria saúde e à tranquilidade de todos.

"Bem, Lizzy," disse a Sra. Bennet, um dia, "qual é agora a tua opinião sobre esta triste história da Jane? Quanto a mim, estou resolvida a nunca mais falar nisso a ninguém. Eu disse à minha irmã Philips, outro dia. Mas não consigo descobrir que a Jane o tenha visto em parte alguma em Londres. Em suma, ele é um jovem muito indigno — e não creio que haja a mínima possibilidade no mundo de ela o vir a arranjar agora. Não se fala que ele volte a Netherfield no Verão; e eu já perguntei a toda a gente, a todos quantos é provável que saibam."

"Eu não creio que ele alguma vez torne a viver em Netherfield."

"Oh, bem! é como ele quiser. Ninguém o deseja cá; embora eu vá sempre dizer que ele tratou a minha filha muitíssimo mal; e, se eu fosse ela, não me haveria de submeter. Pois bem, o meu consolo é: tenho a certeza de que a Jane morrerá de coração partido, e então ele arrepender-se-á do que fez."

Mas como Elizabeth não podia receber consolo de semelhante expectativa, não respondeu nada.

"Bem, Lizzy," continuou a mãe, pouco depois, "e então os Collins vivem muito bem, não vivem? Bom, bom, só espero que dure. E que mesa é que eles têm? A Charlotte é uma excelente dona de casa, atrevo-me a dizer. Se ela for metade tão esperta como a mãe, é poupada que chegue. Não há nada de extravagante na economia deles, atrevo-me a dizer."

"Não, nada."

"Muita boa gerência, podes crer. Sim, sim. Hão-de ter cuidado para não gastar mais do que as suas receitas. Nunca hão-de andar apertados por falta de dinheiro. Pois que lhes faça muito bom proveito! E assim, calculo que eles falam muitas vezes em vir a ter Longbourn quando o teu pai morrer. Olham para aquilo como se já fosse deles, atrevo-me a dizer, quando isso acontecer."

"Era um assunto que eles não podiam mencionar na minha presença."

"Não; teria sido esquisito que o fizessem. Mas não tenho dúvida de que falam nisso entre si. Pois bem, se eles podem estar descansados com uma propriedade que legitimamente não é deles, tanto melhor. Eu envergonhar-me-ia de ter uma que fosse apenas vinculada a mim."

CAPÍTULO XLI.

A primeira semana do seu regresso passou-se depressa. A segunda começou. Era a última da estadia do regimento em Meryton, e todas as jovens da redondeza andavam a definhar visivelmente. A prostração era quase geral. Só as Miss Bennet mais velhas ainda eram capazes de comer, beber e dormir, e de seguir o curso habitual das suas ocupações. Eram com grande frequência acusadas dessa insensibilidade por Kitty e Lydia, cuja própria desgraça era extrema, e que não compreendiam semelhante dureza de coração em nenhum membro da família.

"Santo Deus! Que será de nós? Que havemos de fazer?" exclamavam elas amiúde, na amargura da dor. "Como é que vocês podem estar a sorrir assim, Lizzy?"

A afectuosa mãe partilhava toda a sua mágoa; lembrava-se do que ela própria havia sofrido em ocasião semelhante vinte e cinco anos atrás.

"Eu, por mim," disse ela, "chorei dois dias seguidos quando o regimento do Coronel Miller partiu. Pensei que havia de rebentar com o coração."

"Eu sei que hei-de rebentar com o meu," disse Lydia.

"Se ao menos pudéssemos ir a Brighton!" observou a Sra. Bennet.

da dor.

—Ah, sim! — se ao menos pudéssemos ir a Brighton! Mas o papá é tão desagradável.

—Um pouco de banhos de mar havia de me restabelecer para sempre.

—E a minha tia Philips garante que me havia de fazer muito bem — acrescentou Kitty.

Eram desta espécie as lamentações que ressoavam sem cessar pela casa de Longbourn. Elizabeth tentava distrair-se com elas; mas todo o sentimento de prazer se perdia na vergonha. Sentiu de novo a justiça dos reparos do Sr. Darcy; e nunca antes estivera tão disposta a perdoar a sua interferência nos intentos do amigo dele.

Mas a escuridão do horizonte de Lydia dissipou-se em breve; recebeu ela um convite da Sra. Forster, mulher do coronel do regimento, para a acompanhar a Brighton. Esta amiga inestimável era uma muitíssimo jovem mulher, e casada havia muitíssimo pouco. A semelhança no bom humor e na boa disposição recomendara uma à outra, e dos seus três meses de conhecimento tinham sido dois meses íntimas.

O enlevo de Lydia nesta ocasião, a sua adoração pela Sra. Forster, o deleite da Sra. Bennet, e a mortificação de Kitty, são quase indescritíveis. Absolutamente desatenta aos sentimentos da irmã, Lydia voava pela casa numa inquieta exaltação, pedindo os parabéns de todos, rindo e falando com mais violência do que nunca; enquanto a desafortunada Kitty ficava na sala a lastimar-se do seu fado em termos tão desarrazoados como o seu sotaque era queixoso.

—Não vejo por que razão a Sra. Forster não me há-de convidar a mim também, como a Lydia — disse ela —, embora eu não seja a sua amiga particular. Tenho tanto direito a ser convidada como ela, e mais também, pois sou dois anos mais velha.

Em vão tentou Elizabeth torná-la razoável, e Jane, torná-la resignada. Quanto a Elizabeth, este convite estava tão longe de despertar nela os mesmos sentimentos que na mãe e em Lydia, que ela o considerava como a sentença de morte de toda e qualquer possibilidade de senso comum para esta última; e, por muito detestável que tal passo a tornasse, fosse ele conhecido, não pôde deixar de aconselhar secretamente o pai a não deixá-la ir. Representou-lhe todas as inconveniências da conduta geral de Lydia, a pouca vantagem que ela poderia tirar da amizade de tal mulher como a Sra. Forster, e a probabilidade de se tornar ainda mais imprudente com tal companheira em Brighton, onde as tentações haviam de ser maiores do que em casa. Ele ouviu-a com atenção, e depois disse:

—A Lydia nunca ficará descansada enquanto não se expuser em algum lugar público ou outro, e nunca podemos esperar que o faça com tão pouco gasto ou incómodo para a sua família como nestas circunstâncias.

—Se soubesse — disse Elizabeth — do grandíssimo prejuízo para todos nós que há de advir da atenção pública que a maneira descuidada e imprudente da Lydia atrai, e que já advieram dele, tenho a certeza de que havia de julgar diferentemente neste assunto.

—Já advieram dele! — repetiu o Sr. Bennet. — Ora essa! Afugentou algum dos teus pretendentes? Pobrezinha da Lizzy! Mas não te deixes abater. Tais mocinhos melindrosos que não suportam estar ligados a uma pequena extravagância não valem uma saudade. Anda, deixa-me ver a lista dos pobres-diabos que a tolice da Lydia tem mantido afastados.

—Na verdade, está enganado. Não tenho tais agravos para resentir. Não é de males particulares, mas gerais, que agora me queixo. A nossa importância, a nossa respeitabilidade no mundo, hão-de ser afectadas pela volubilidade desenfreada, pela segurança e desprezo de todo o freio que marcam o carácter da Lydia. Perdoe-me — pois hei-de falar com franqueza. Se o senhor, meu querido pai, não se der ao trabalho de reprimir os seus espíritos exuberantes e de lhe ensinar que as suas ocupações actuais não hão-de ser o objecto da sua vida, ela em breve ficará fora do alcance de qualquer emenda. O seu carácter ficará fixado; e ela, aos dezasseis anos, será a mais resoluta coquete que jamais se tornou a si mesma e à sua família ridículas; — uma coquete, demais a mais, no pior e mais baixo grau de coquetterie; sem qualquer atractivo além da juventude e de uma pessoa tolerável; e, pela ignorância e vacuidade do seu espírito, inteiramente incapaz de se defender de qualquer porção daquele desprezo universal que a sua fúria de ser admirada ha-de despertar. Neste perigo está também compreendida a Kitty. Segui-la-á para onde quer que Lydia a leve. Vaidosa, ignorante, preguiçosa, e absolutamente sem freio! Oh, meu querido pai, pode supor possível que não sejam censuradas e desprezadas onde quer que sejam conhecidas, e que as suas irmãs não sejam frequentemente envolvidas na sua desonra?

O Sr. Bennet viu que ela punha toda a alma naquele assunto; e, tomando-lhe afectuosamente a mão, disse em resposta:

—Não te aflijas, meu amor. Onde quer que tu e a Jane sejais conhecidas, haveis de ser respeitadas e estimadas; e não parecereis por ter duas — ou, posso dizer, três — irmãs muito tolas. Não teremos paz em Longbourn se a Lydia não for a Brighton. Que vá, pois. O Coronel Forster é um homem ajuizado, e há-de preservá-la de qualquer maldade efectiva; e felizmente é demasiado pobre para ser objecto de presa para quem quer que seja. Em Brighton será ainda de menor importância, mesmo como coquete vulgar, do que aqui foi. Os oficiais hão-de encontrar mulheres que valham mais a sua atenção. Esperemos, portanto, que o facto de lá estar lhe ensine a sua própria insignificância. De qualquer modo, não pode agravar-se muitos graus mais sem nos autorizar a encerrá-la pelo resto da vida.

Com esta resposta viu-se Elizabeth forçada a contentar-se; mas a sua opinião particular continuou a mesma, e deixou-o desiludida e pesarosa. Não era, contudo, da sua natureza aumentar as suas vexações demorando-se nelas. Estava convicta de ter cumprido o seu dever; e afligir-se por males inevitáveis, ou aumentá-los com ansiedade, não era parte do seu temperamento.

Se a Lydia e a sua mãe tivessem conhecido a substância da sua conversa com o pai, dificilmente a sua indignação encontraria expressão na volubilidade reunida de ambas. Na imaginação de Lydia, uma visita a Brighton abarcava toda a possibilidade de felicidade terrena. Via ela, com o olho criador da fantasia, as ruas daquele alegre lugar de banhos cobertas de oficiais. Via-se a si mesma objecto de atenção para dezenas e dezenas deles presentemente desconhecidos. Via todas as glórias do acampamento: as suas tendas estendidas em formosa uniformidade de linhas, apinhadas de jovens e alegres, e resplandecentes de escarlate; e, para completar o quadro, via-se a si mesma sentada debaixo de uma tenda, ternamente a coquetear com pelo menos seis oficiais de cada vez.

Se ela soubesse que a irmã procurava arrancá-la de tais perspectivas e de tais realidades, quais seriam as suas sensações? Só pela mãe poderiam ter sido compreendidas, que poderia ter sentido quase o mesmo. A ida de Lydia a Brighton era tudo o que a consolava da melancólica convicção de o marido nunca tencionar ir para lá pessoalmente.

Mas ignoravam inteiramente o que se passara; e os seus enlevos continuaram, com pequena interrupção, até ao próprio dia da partida de Lydia.

Elizabeth ia agora ver o Sr. Wickham pela última vez. Tendo estado frequentemente em companhia dele desde o seu regresso, a agitação havia-se quase desvanecido; as agitações de antiga parcialidade, inteiramente. Até aprendera a descobrir, naquela mesma brandura que primeiro a encantara, uma afectação e uma monotonia para desgosto e enfado. No seu comportamento actual para com ela tinha, demais, uma nova causa de desagrado; pois a inclinação que ele breve deu a entender de renovar aquelas atenções que haviam marcado a primeira parte do seu conhecimento só podia servir, depois do que desde então se passara, para a provocar. Perdeu toda a preocupação por ele ao descobrir-se assim escolhida como objecto de tão ociosa e frívola galantaria; e, enquanto o reprimia com firmeza, não pôde deixar de sentir a repreensão contida no facto de ele crer que, por mais longo tempo e por qualquer causa que as suas atenções tivessem sido retiradas, a sua vaidade ficaria lisonjeada, e a sua preferência assegurada, a qualquer momento, pela sua renovação.

No próprio último dia da permanência do regimento em Meryton, ele jantou, com outros oficiais, em Longbourn; e tão pouco estava Elizabeth disposta a separar-se dele em bom humor, que, quando ele fez alguma pergunta acerca do modo como ela havia passado o tempo em Hunsford, mencionou que o Coronel Fitzwilliam e o Sr. Darcy haviam ambos passado três semanas em Rosings, e perguntou-lhe se ele era conhecido do primeiro.

Ele pareceu surpreendido, descontente, alarmado; mas, com um momento de reflexão e um sorriso que voltava, respondeu que o vira muitas vezes em outros tempos; e, depois de observar que era um homem muito cavalheiresco, perguntou-lhe se ela havia gostado dele. A resposta dela foi calorosamente a favor dele. Com um ar de indiferença, acrescentou logo depois: «Quanto tempo disse que ele esteve em Rosings?»

—Quase três semanas.

—E viu-o frequentemente?

—Sim, quase todos os dias.

—Os seus modos são muito diferentes dos do primo.

—Sim, muito diferentes; mas creio que o Sr. Darcy melhora com o conhecimento.

—Na verdade! — exclamou Wickham, com um olhar que não lhe escapou. —E posso, por favor, perguntar... — mas, contendo-se, acrescentou em tom mais alegre: «É no trato que ele melhora? Dignou-se de acrescentar alguma coisa de cortesia ao seu estilo habitual? Pois não ouso esperar», continuou, em tom mais baixo e mais sério, «que tenha melhorado no essencial».

—Oh, não! — disse Elizabeth. — No essencial, creio, ele é exactamente o que sempre foi.

Enquanto ela falava, Wickham parecia não saber bem se havia de regozijar-se com as suas palavras ou desconfiar do seu sentido. Havia algo no seu rosto que o fez escutar com atenção apreensiva e ansiosa, enquanto ela acrescentou:

—Quando eu disse que ele melhora com o conhecimento, não quis dizer que o seu espírito ou os seus modos estivessem num estado de melhoramento; mas que, por o conhecer melhor, a sua disposição é melhor compreendida.

O alarme de Wickham apareceu agora num rosto mais carregado e num olhar agitado; por alguns minutos esteve silencioso; até que, sacudindo o seu embaraço, voltou-se de novo para ela, e disse no mais gentil dos acentos:

—Você, que tão bem conhece os meus sentimentos para com o Sr. Darcy, compreenderá facilmente como devo sinceramente regozijar-me por ele ser bastante avisado para assumir sequer a aparência do que é correcto. O seu orgulho, nesse sentido, pode ser útil, se não a ele próprio, a muitos outros, pois deve desviá-lo de tais torpes maldades como aquelas de que eu fui vítima. Só temo que a espécie de prudência a que você, imagino, se tem referido seja meramente adoptada nas visitas à tia, cuja boa opinião e juízinho ele muito teme. O medo dela sempre operou, eu sei, quando estavam juntos; e muito há que imputar ao seu desejo de promover o casamento com Miss de Bourgh, que tenho por certo que ele muito a peito.

Elizabeth não pôde reprimir um sorriso a isto, mas apenas respondeu com uma ligeira inclinação de cabeça. Viu que ele queria envolvê-la no velho assunto das suas queixas, e ela não estava em disposição para lho consentir. O resto da noite passou-se com a aparência, da parte dele, da costumeira alegria, mas sem mais tentativas de distinguir Elizabeth; e por fim separaram-se com mútua cortesia, e possivelmente um mútuo desejo de nunca mais se encontrarem.

Quando a reunião se desfez, Lydia voltou com a Sra. Forster para Meryton, donde haviam de partir cedo na manhã seguinte. A separação entre ela e a sua família era mais ruidosa que patética. Kitty foi a única que derramou lágrimas; mas chorava de vexame e inveja. A Sra. Bennet foi pródiga em bons votos pela felicidade da filha, e impressionante nas suas injunções para que não perdesse a ocasião de se divertir o mais possível — conselho que havia toda a razão para crer seria atendido; e, na clamorosa felicidade da própria Lydia ao despedir-se, os mais gentis adeuses das suas irmãs foram proferidos sem serem ouvidos.

CAPÍTULO XLII.

Se a opinião de Elizabeth fosse toda tirada da sua própria família, não poderia ter formado um quadro muito agradável de felicidade conjugal ou conforto doméstico. O pai, cativado pela juventude e beleza, e por aquela aparência de bom humor que a juventude e a beleza geralmente dão, casara com uma mulher cujo entendimento fraco e espírito mesquinho haviam muito cedo no casamento posto termo a todo o afecto real por ela. O respeito, a estima e a confiança haviam desaparecido para sempre; e todas as suas perspectivas de felicidade doméstica estavam derrubadas. Mas o Sr. Bennet não era de disposição para buscar conforto para o desengano que a sua imprudência trouxera em algum daqueles prazeres que tantas vezes consolam os desgraçados da sua tolice ou do seu vício. Era afeiçoado ao campo e aos livros; e destes gostos nasciam as suas principais deleitações. À mulher ele era pouquíssimo mais devedor do que do facto de a sua ignorância e tolice haverem contribuído para o seu entretenimento. Não é esta a espécie de felicidade que um homem em geral desejaria dever à sua mulher; mas onde faltam outros poderes de entretenimento, o verdadeiro filósofo tirará benefício de quantos lhe sejam dados.

Elizabeth, todavia, nunca estivera cega para a inconveniência da conduta do pai como marido. Sempre a vira com pena; mas, respeitando as suas capacidades, e grata pelo tratamento afectuoso que dela tinha, procurava esquecer o que não podia deixar de ver, e banish dos seus pensamentos aquela contínua violação da obrigação e do decoro conjugal que, expondo a mãe ao desprezo dos próprios filhos, era tão altamente repreensível. Mas nunca sentira tão fortemente como agora as desvantagens que haviam de acompanhar os filhos de um casamento tão desadequado, nem estivera jamais tão plenamente consciente dos males que advinham de tão mal avisado direccionamento de talentos — talentos que, bem usados, poderiam ao menos ter preservado a respeitabilidade das suas filhas, ainda que incapazes de alargar o espírito da sua mulher.

Quando Elizabeth se regozijara com a partida de Wickham, achou pouca outra causa de satisfação na perda do regimento. As suas reuniões fora de casa eram menos variadas do que dantes; e em casa tinha uma mãe e uma irmã, cujas constantes queixumes da monotonia de tudo à volta lançavam um verdadeiro crepúsculo sobre o seu círculo doméstico; e, embora Kitty pudesse com o tempo readquirir o seu grau natural de senso, uma vez que os perturbadores do seu cérebro se haviam afastado, a outra irmã, de cuja disposição se podiam temer males maiores, era provável que se endurecesse em toda a sua tolice e segurança, por uma situação de duplo perigo como um balneário e um acampamento. No conjunto, portanto, ela encontrou, como às vezes já se encontrara, que um acontecimento para o qual olhara com desejo impaciente, ao verificar-se, não trazia toda a satisfação que prometera a si mesma. Era, por conseguinte, necessário nomear algum outro período para o começo da efectiva felicidade; ter algum outro ponto em que os seus desejos e esperanças pudessem fixar-se, e, tornando a gozar o prazer da antecipação, consolar-se do presente, e preparar-se para outro desengano. A sua digressão aos Lagos era agora o objecto dos seus pensamentos mais felizes: era a sua melhor consolação por todas as horas incómodas que o descontentamento da mãe e de Kitty tornavam inevitáveis; e, se pudesse incluir Jane no plano, toda a parte dele seria perfeita.

«Mas é feliz», pensou ela, «que eu tenha algo para desejar. Se o arranjo inteiro estivesse completo, o meu desengano seria certo. Mas aqui, levando comigo uma fonte incessante de saudade na ausência da minha irmã, posso razoavelmente esperar que todas as minhas expectativas de prazer se realizem. Um esquema do qual toda a parte promete deleite jamais pode ser bem sucedido; e o desengano geral só se evita à custa de alguma pequena e peculiar vexação.»

Quando Lydia partiu, prometeu escrever muito a miúdo e muito minuciosamente à mãe e a Kitty; mas as suas cartas eram sempre muito esperadas e sempre muito curtas. As que escrevia à mãe continham pouco mais do que tinham acabado de voltar da biblioteca, onde tais e tais oficiais as haviam acompanhado, e onde ela vira tais e tão belos ornamentos que a haviam enlouquecido; que tinha um vestido novo, ou uma sombrinha nova, que descreveria mais pormenorizadamente, mas era obrigada a largar tudo com grande pressa, porque a Sra. Forster a chamava, e iam para o acampamento; e da sua correspondência com a irmã ainda menos havia a aprender, pois as cartas para Kitty, ainda que um pouco mais longas, estavam demasiado cheias de sublinhados por baixo das palavras para poderem ser mostradas.

Após a primeira quinzena ou três semanas da sua ausência, a saúde, o bom humor e a alegria começaram a reaparecer em Longbourn. Tudo tomou um aspecto mais feliz. As famílias que tinham estado na cidade durante o winter voltaram, e surgiram os enfeites de verão e os compromissos de verão. A Sra. Bennet foi restituída à sua usual queixosa serenidade; e por meados de Junho Kitty estava tão recuperada que podia entrar em Meryton sem lágrimas — acontecimento de tão feliz promessa que fazia Elizabeth esperar que pelo Natal seguinte pudesse estar toleravelmente ajuizada para não mencionar um oficial mais do que uma vez por dia, a menos que, por alguma cruel e maldosa combinação do Ministério da Guerra, outro regimento fosse aquartelado em Meryton.

O tempo fixado para o começo da digressão ao norte aproximava-se agora rapidamente; e apenas uma quinzena faltava, quando chegou uma carta da Sra. Gardiner, que de uma só vez atrasou o seu começo e diminuiu a sua extensão. O Sr. Gardiner seria impedido por negócios de partir até uma quinzena mais tarde, em Julho, e tinha de estar de volta em Londres dentro de um mês; e, como isso deixava um período demasiado curto para irem tão longe e verem tanto como haviam proposto, ou ao menos para o verem com a calma e o conforto sobre que haviam contado, foram obrigados a desistir dos Lagos e a substituí-los por uma digressão mais restrita; e, segundo o plano actual, não haviam de ir mais para o norte do que Derbyshire. Naquele condado havia bastante que ver para ocupar a maior parte das suas três semanas; e para a Sra. Gardiner tinha ele uma atracção particularmente forte. A cidade onde ela havia outrora passado alguns anos da sua vida, e onde agora haviam de demorar-se uns dias, era provavelmente tão grande objecto da sua curiosidade como todas as celebérrimas belezas de Matlock, Chatsworth, Dovedale ou o Peak.

Elizabeth ficou excessivamente desiludida: tinha posto o coração em ver os Lagos; e ainda pensava que poderia ter havido tempo suficiente. Mas era seu dever estar satisfeita — e certamente, da sua parte, estava disposta a estar contente; e tudo em breve ficou bem de novo.

Com a menção de Derbyshire estavam ligadas muitas ideias. Era-lhe impossível ver a palavra sem pensar em Pemberley e no seu dono. «Mas certamente», disse ela, «posso entrar no condado dele sem prejuízo, e roubar-lhe alguns poucos espatos petrificados, sem que ele me perceba.»

O período de expectativa era agora duplicado. Quatro semanas haviam de passar antes da chegada do tio e da tia. Mas passaram elas, e o Sr. e a Sra. Gardiner, com os seus quatro filhos, apareceram por fim em Longbourn. As crianças, duas raparigas de seis e oito anos, e dois rapazes mais novos, haviam de ficar ao cuidado particular da prima Jane, que era a favorita geral, e cujo senso firme e doçura de temperamento a adaptavam exactamente para tomar conta deles de toda a maneira — ensinando-os, brincando com eles, e amando-os.

Os Gardiner ficaram só uma noite em Longbourn, e partiram na manhã seguinte com Elizabeth em busca de novidade e divertimento. Um gozo era certo — o da conveniência como companheiros; uma conveniência que abrangia saúde e temperamento para suportar incómodos — alegria para realçar cada prazer — e afecto e inteligência, que podiam entre si supri-lo se houvesse desenganos fora.

Não é objecto desta obra dar uma descrição de Derbyshire, nem de nenhum dos lugares notáveis pelo quais passava o seu caminho até lá — Oxford, Blenheim, Warwick, Kenilworth, Birmingham, etc., são suficientemente conhecidos. Uma pequena parte de Derbyshire é tudo o que agora nos interessa. Para a pequena vila de Lambton, cenário da antiga residência da senhora Gardiner, e onde ela soubera ultimamente que restava ainda alguma conhecida, dirigiram os seus passos, depois de terem visto todas as principais maravilhas da região; e a menos de cinco milhas de Lambton, Elizabeth soube pela tia que Pemberley ficava situado. Não ficava no caminho directo; nem a mais de uma ou duas milhas fora dele. Ao falar sobre o trajecto na noite anterior, a senhora Gardiner manifestou vontade de tornar a ver o lugar. O senhor Gardiner declarou a sua boa disposição, e Elizabeth foi consultada sobre a sua aprovação.

— Minha querida, não querias tu ver um lugar de que tanto ouviste falar? — disse a tia. — Um lugar, além disso, com que tantas das tuas relações estão ligadas. O Wickham passou ali toda a mocidade, como sabes.

Elizabeth ficou embaraçada. Sentiu que não tinha nada que ver com Pemberley, e viu-se obrigada a fingir pouca vontade de o ver. Havia de confessar que estava farta de grandes casas: depois de tantas visitadas, já não lhe dava prazer nenhum ver alcatifas finas ou cortinas de cetim.

A senhora Gardiner repreendeu-a por tamanha estultice. — Se fosse apenas uma bela casa ricamente mobilada — disse ela —, eu também não me importaria; mas os jardins são encantadores. Têm alguns dos mais formosos bosques do país.

Elizabeth não disse mais nada; porém, no íntimo, não se resignava. A possibilidade de encontrar o senhor Darcy, enquanto visse a propriedade, ocorreu-lhe de imediato. Seria horrível! Corou só de pensar nisso; e achou que seria melhor falar abertamente com ela do que correr tal risco. Mas havia objecções contra isso; e por fim resolveu que só em último recurso recorreria a semelhante expediente, se as suas perguntas discretas acerca da ausência da família tivessem resposta desfavorável.

Assim, quando se retirou à noite, perguntou à criada se Pemberley não era um lugar muito formoso, qual era o nome do seu proprietário e, com não pequena inquietação, se a família já lá estava a passar o verão. A esta última pergunta seguiu-se a mais bem-vinda das respostas negativas; e, removidos agora os seus receios, ficou livre para sentir muita curiosidade de ver a casa por si mesma; e quando o assunto foi retomado na manhã seguinte e de novo a consultaram, pôde responder com presteza e com um adequado ar de indiferença que, na verdade, não tinha nenhuma aversão ao plano.

Para Pemberley, portanto, deviam ir.

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CAPÍTULO XLIII.

Elizabeth, enquanto seguiam de carro, vigiou com alguma perturbação o primeiro aparecimento dos bosques de Pemberley; e quando por fim entraram pela casa do guarda, tinha os ânimos numa grande agitação.

O parque era muito vasto e continha grande variedade de terrenos. Entraram por um dos seus pontos mais baixos, e correram durante algum tempo por entre um formosíssimo bosque que se estendia por vasta extensão.

Elizabeth tinha o espírito demasiado cheio para conversar, mas via e admirava cada sítio notável e cada ponto de vista. Subiram gradualmente durante meia milha, e depois acharam-se no cume de uma elevação considerável, onde o bosque cessava, e o olho era imediatamente preso pela casa de Pemberley, situada do lado oposto do vale, para onde o caminho descia com alguma brusquidão. Era um grande e elegante edifício de pedra, bem assente sobre terreno elevado, e respaldado por uma serra de colinas altas e arborizadas; e em frente uma corrente de água de não pequena importância natural se alargava ainda mais, mas sem nenhum aspecto artificial. As suas margens não eram nem formais nem falsamente adornadas. Elizabeth ficou encantada. Nunca vira um lugar para o qual a natureza tivesse feito mais, ou onde a beleza natural tivesse sido tão pouco contrariado por um gosto desajeitado. Todos eles eram cálidos na sua admiração; e naquele momento sentiu que ser senhora de Pemberley poderia ser alguma coisa!

Desceram a colina, atravessaram a ponte e seguiram de carro até à porta; e, enquanto examinavam o aspecto mais próximo da casa, todo o seu receio de encontrar o dono tornou. Temia que a criada se tivesse enganado. Ao pedir para ver a propriedade, foram admitidos no vestíbulo; e Elizabeth, enquanto esperavam pela governanta, teve vagar para se admirar de estar ali onde estava.

A governanta veio; uma mulher idosa de aspecto respeitável, muito menos aparatosa e muito mais cortês do que ela alguma vez esperaria encontrar. Seguiram-na até à sala de jantar. Era uma sala vasta e bem proporcionada, elegantemente mobilada. Elizabeth, depois de a examinar de relance, dirigiu-se a uma janela para gozar a vista. A colina, coroada de arvoredo, da qual tinham descido, recebendo maior brusquidão da distância, era um objecto formoso. Cada disposição do terreno era boa; e ela olhava para todo o conjunto — o rio, as árvores dispersas pelas suas margens, e as sinuosidades do vale, até onde lhe era possível acompanhá-lo — com deleite. À medida que passavam para outras salas, estes objectos tomavam posições diferentes; mas de cada janela havia belezas a ver. As salas eram altas e elegantes, e a sua mobília adequada à fortuna do proprietário; mas Elizabeth viu, com admiração do seu gosto, que não era nem espalhafatosa nem inutilmente luxuosa — com menos aparato e mais real elegância do que a mobília de Rosings.

«E deste lugar — pensou ela — eu poderia ter sido senhora! Nestas salas poderia eu agora estar familiarmente conhecedora! Em vez de as visitar como estranha, poderia rejubilar nelas como minhas, e receber nelas como visitantes o meu tio e a minha tia. Mas, não», lembrando-se a si mesma, «isso nunca poderia ser; o meu tio e a minha tia teriam ficado perdidos para mim; eu não teria podido convidá-los.»

Foi uma lembrança feliz — poupou-a a algo semelhante a um pesar.

Ansiava por perguntar à governanta se o senhor da casa estava realmente ausente, mas não teve coragem. Por fim, porém, a pergunta foi feita pelo tio; e ela afastou-se com alarme, enquanto a senhora Reynolds respondia que sim, acrescentando: «Mas esperamos-o amanhã, com um grande grupo de amigos.» Quão rejubilante foi Elizabeth por a própria viagem não ter sido, por nenhuma circunstância, atrasada um dia!

A tia chamou-a então para olhar para um retrato. Aproximou-se e viu a efígie do senhor Wickham, suspensa, entre várias outras miniaturas, sobre a chaminé. A tia perguntou-lhe, com um sorriso, como gostava dele. A governanta adiantou-se e disse-lhes que era o retrato de um jovem, filho do falecido administrador do senhor, que fora criado por ele à sua custa. «Está agora no exército», acrescentou; «mas temo que tenha saído muito desregrado.»

A senhora Gardiner olhou para a sobrinha com um sorriso, mas Elizabeth não lho pôde retribuir.

«E aquele», disse a senhora Reynolds, apontando para outra das miniaturas, «é o meu senhor — e muito parecido com ele. Foi desenhado ao mesmo tempo que o outro — há cerca de oito anos.»

«Tenho ouvido muito falar da bela figura do seu senhor», disse a senhora Gardiner, olhando para o retrato; «é um rosto elegante. Mas, Lizzy, tu podes dizer-nos se é parecido ou não.»

O respeito da senhora Reynolds por Elizabeth pareceu aumentar com esta insinuação de que ela conhecia o senhor.

«Esta jovem conhece o senhor Darcy?»

Elizabeth corou e disse: «Um pouco.»

«E não acha que é um senhor muito elegante, minha senhora?»

«Sim, muito elegante.»

«Estou certa de que não conheço nenhum tão elegante; mas na galeria lá em cima verá dele um retrato maior e mais formoso que este. Esta sala era a sala favorita do meu falecido senhor, e estas miniaturas estão exactamente como estavam então. Ele gostava muito delas.»

Isto deu a Elizabeth a explicação de o senhor Wickham estar entre elas.

A senhora Reynolds chamou então a atenção deles para um de Miss Darcy, desenhado quando ela tinha apenas oito anos.

«E Miss Darcy é tão elegante como o irmão?» perguntou o senhor Gardiner.

«Oh, sim — a mais elegante jovem que jamais se viu; e tão talentosa! Toca e canta o dia inteiro. Na sala ao lado há um instrumento novo que acabou de chegar para ela — uma oferta do meu senhor: ela vem cá amanhã com ele.»

O senhor Gardiner, cujas maneiras eram fáceis e agradáveis, encorajou a sua loquacidade com perguntas e observações: a senhora Reynolds, fosse por orgulho ou por afecto, tinha evidentemente grande prazer em falar do seu senhor e da irmã dele.

«O seu senhor está muito em Pemberley no decurso do ano?»

«Não tanto quanto eu desejaria, senhor; mas atrevo-me a dizer que passará aqui metade do tempo; e Miss Darcy está sempre cá durante os meses de verão.»

«Excepto», pensou Elizabeth, «quando vai a Ramsgate.»

«Se o seu senhor casasse, talvez o visse mais.»

«Sim, senhor; mas não sei quando isso será. Não sei quem é suficientemente boa para ele.»

O senhor e a senhora Gardiner sorriram. Elizabeth não pôde deixar de dizer: «É muito a seu crédito, estou certa, que a senhora pense assim.»

«Não digo mais do que a verdade, e o que toda a gente dirá que o conhece», replicou a outra. Elizabeth achou que isto já ia longe; e ouviu com crescente assombro quando a governanta acrescentou: «Nunca na vida recebi dele uma palavra grosseira, e conheço-o desde que ele tinha quatro anos de idade.»

Era este o elogio de todos o mais extraordinário, o mais oposto às suas ideias. Que ele não fosse um homem de bom génio fora a sua opinião mais firme. A sua mais viva atenção ficou despertada: ansiava por ouvir mais; e ficou grata ao tio por ter dito: —

«São muito poucas as pessoas de quem tanto se pode dizer. A senhora tem sorte em ter tal amo.»

«Sim, senhor, sei que tenho. Se eu fosse correr o mundo inteiro, não poderia encontrar um melhor. Mas sempre observei que os que são de boa natureza em crianças são de boa natureza quando crescem; e ele era sempre o rapaz de melhor temperamento, mais generoso de coração, que havia no mundo.»

Elizabeth quase ficou a olhar para ela. «Será possível que este seja o senhor Darcy?» pensou.

«O pai dele era um homem excelente», disse a senhora Gardiner.

«Sim, minha senhora, era-o na verdade; e o filho será exactamente como ele — exactamente tão afável para com os pobres.»

Elizabeth ouvia, admirava-se, duvidava, e estava impaciente por mais. A senhora Reynolds não a podia interessar em nenhum outro ponto. Relatou os assuntos dos quadros, as dimensões das salas e o preço da mobília em vão. O senhor Gardiner, muito divertido com aquela espécie de prevenção familiar a que atribuía o excessivo elogio do seu amo, voltou logo ao assunto; e ela deteve-se com energia nos muitos méritos dele, enquanto subiam juntos a grande escadaria.

«Ele é o melhor senhorio e o melhor amo», disse ela, «que jamais existiu. Não como esses jovens desregrados de hoje, que só pensam em si mesmos. Não há um único dos seus rendeiros ou criados que não lhe dê bom nome. Há quem o diga orgulhoso; mas eu, por mim, nunca lhe vi nada disso. A meu ver, é só porque ele não tagarela como os outros jovens.»

«Em que luz tão amável o coloca isto!» pensou Elizabeth.

«Esta bela conta dele», murmurou-lhe a tia enquanto caminhavam, «não é muito coerente com o procedimento dele para com o nosso pobre amigo.»

«Talvez nos pudéssemos ter enganado.»

«Isso não é muito provável; a nossa fonte de informação era demasiado boa.»

Ao chegarem ao espaçoso patamar de cima, foram introduzidos numa sala de estar muito bonita, recentemente arranjada com maior elegância e leveza do que os aposentos de baixo; e foram informados de que fora apenas feita para dar prazer a Miss Darcy, que tomara gosto à sala, da última vez que estivera em Pemberley.

«É certamente um bom irmão», disse Elizabeth, enquanto caminhava para uma das janelas.

A senhora Reynolds preveniu o deleite de Miss Darcy quando ela entrasse na sala. «E é sempre assim com ele», acrescentou. «Tudo o que possa dar qualquer prazer à irmã é feito num instante. Não há nada que ele não fizesse por ela.»

A galeria de retratos e dois ou três dos principais quartos de dormir eram tudo o que restava para mostrar. Naquela havia muitas boas pinturas: mas Elizabeth nada sabia de arte; e das que já tinham sido visíveis em baixo, voltara de boa vontade o olhar para alguns desenhos a lápis de Miss Darcy, cujos assuntos eram geralmente mais interessantes e também mais inteligíveis.

Na galeria havia muitos retratos de família, mas tinham pouco que pudesse prender a atenção de uma estranha. Elizabeth continuou a andar em busca do único rosto cujas feições lhe seriam conhecidas. Por fim deteve-a — e viu uma forte parecença do senhor Darcy, com aquele sorriso no rosto que ela se lembrava de lhe ter visto por vezes, quando ele olhava para ela. Ficou diante do retrato alguns minutos em contemplação atenta, e tornou a ele antes de saírem da galeria. A senhora Reynolds informou-os de que fora pintado em vida do pai dele.

Havia certamente naquele momento, no espírito de Elizabeth, uma sensação mais suave para com o original do que jamais sentira no auge do seu conhecimento dele. O elogio que a senhora Reynolds lhe prodigalizava não era de natureza trivial. Que elogio é mais valioso do que o elogio de um criado inteligente? Como irmão, senhorio, amo, considerava quantas pessoas tinham a sua felicidade sob a sua guarda! Quanto de prazer ou de dor estava no seu poder conceder! Quanto de bem ou de mal havia de ser feito por ele! Cada ideia apresentada pela governanta era favorável ao seu carácter; e, como estava diante da tela em que ele estava representado e fixava os olhos nela, pensou na sua estima com um sentimento mais profundo de gratidão do que jamais esse sentimento despertara: lembrou o seu ardor, e atenuou a impropriedade da sua expressão.

Quando toda a parte da casa aberta à visita geral foi vista, tornaram a descer; e, despedindo-se da governanta, foram entregues ao jardineiro, que os aguardava à porta do vestíbulo.

Enquanto atravessavam o relvado na direcção do rio, Elizabeth virou-se para olhar outra vez; o tio e a tia pararam também; e, enquanto aquele conjecturava sobre a data da construção, o próprio dono apareceu subitamente do caminho que conduzia por trás dela para as cavalariças.

Estavam a vinte passos um do outro; e tão abrupta foi a sua aparição, que era impossível evitar o seu olhar. Os olhos encontraram-se de imediato, e as faces de ambos foram cobertas do mais vivo rubor. Ele estremeceu visivelmente, e por um momento pareceu imóvel de surpresa; mas, recobrando-se em breve, avançou para o grupo e falou a Elizabeth, se não em termos de perfeita compostura, pelo menos de perfeita cortesia.

Ela instintivamente voltara as costas; mas, parando ao aproximar-se ele, recebeu as suas amabilidades com um embaraço impossível de vencer. Se a sua primeira aparição, ou a sua parecença com o retrato que acabavam de examinar, não bastassem para assegurar aos outros dois que viam agora o senhor Darcy, a expressão de surpresa do jardineiro, ao deparar com o amo, lhos teria imediatamente revelado. Pararam um pouco afastados enquanto ele falava com a sobrinha, que, atónita e perturbada, mal ousava erguer os olhos para o rosto dele, e não sabia que resposta dava às suas corteses perguntas acerca da família. Atónita com a mudança das maneiras dele desde que se tinham separado pela última vez, cada palavra que ele pronunciava aumentava o seu embaraço; e cada ideia da inconveniência de ali ser encontrada, recorrendo-lhe ao espírito, os poucos minutos em que estiveram juntos foram dos mais incómodos da sua vida. Nem ele parecia muito mais à vontade; quando falava, o seu tom não tinha nada da habitual compostura; e repetiu as perguntas sobre a época em que ela deixara Longbourn e sobre a sua estada em Derbyshire tantas vezes e de modo tão apressado, que claramente revelava a perturbação dos seus pensamentos.

Por fim, toda a ideia pareceu faltá-lhe; e, depois de ficar alguns momentos sem dizer palavra, lembrou-se subitamente de si e retirou-se.

Os outros aproximaram-se então dela e manifestaram a sua admiração pela figura dele; mas Elizabeth não ouviu uma só palavra, e, inteiramente absorvida pelos próprios sentimentos, seguiu-os em silêncio. Estava oprimida de vergonha e contrariedade. O seu aparecimento ali era a coisa mais infeliz, a mais mal-pensada do mundo! Quão estranho lhe deveria parecer! Em que luz tão desonrosa não poderia isso lançar um homem tão vaidoso! Poderia parecer que ela se tinha deitado propositadamente de novo no seu caminho! Oh! por que teria vindo? ou, por que teria ele vindo um dia antes do esperado? Se tivessem chegado apenas dez minutos mais cedo, estariam fora do alcance da sua vista; pois era claro que ele acabara de chegar naquele momento, naquele momento apeado do cavalo ou da carruagem. Corou uma e outra vez ante a adversidade do encontro. E o procedimento dele, tão notavelmente alterado — que significaria isso? Que ele sequer lhe falasse era espantoso! — mas falar com tanta cortesia, perguntar pela família! Nunca em sua vida o vira de maneiras tão pouco dignas, nunca falara ele com tanta suavidade como neste encontro inesperado. Que contraste formava com o seu último discurso em Rosings Park, quando lhe pôs a carta na mão! Não sabia o que pensar, nem como explicá-lo.

Tinham entrado agora num formoso passeio à beira da água, e cada passo trazia à vista uma queda de terreno mais nobre, ou um trecho mais belo dos bosques para onde se dirigiam: mas passou algum tempo antes que Elizabeth se apercebesse de qualquer coisa; e, embora respondesse mecanicamente aos repetidos apelos do tio e da tia, e parecesse dirigir os olhos para os objectos que eles lhe apontavam, não distinguia parte alguma da cena. Os pensamentos estavam todos fixos naquele ponto único da casa de Pemberley, qualquer que ele fosse, onde o senhor Darcy então se encontrava. Ansiava por saber o que naquele momento lhe passava pelo espírito; de que modo pensava nela, e se, apesar de tudo, ela ainda lhe era cara. Talvez ele tivesse sido cortês apenas porque se sentia à vontade; contudo, houvera naquela voz algo que não parecia à-vontade. Se ele sentira mais de dor ou de prazer ao vê-la, não podia dizer; mas decerto não a vira com serenidade.

Por fim, porém, as observações dos companheiros sobre a sua distração despertaram-na, e sentiu a necessidade de parecer mais como ela mesma.

Entraram nos bosques e, despedindo-se por enquanto do rio, subiram por alguns dos terrenos mais altos; donde, nos sítios onde a abertura das árvores deixava o olhar vaguear à vontade, se viam muitas vistas encantadoras do vale, das colinas opostas, com a longa fileira de bosques cobrindo muitas delas, e, de quando em vez, parte da corrente. O Sr. Gardiner manifestou o desejo de percorrer todo o parque inteiro, mas temeu que pudesse ser demais para um simples passeio. Com um sorriso triunfante, informaram-lhes que eram dez milhas em redor. A questão ficou decidida; e seguiram pelo circuito habitual; o qual, após algum tempo, os trouxe, numa descida por entre bosques suspensos, à beira da água, e a uma das suas partes mais estreitas. Atravessaram-na por uma singela ponte, em harmonia com o ar geral da cena: era um sítio menos adornado do que quaisquer outros que tivessem ainda visitado; e o vale, ali contraído num glen, só dava lugar para a corrente e para um estreito caminho por entre o áspero arvoredo de mato que o marginava. Elizabeth ardia por explorar as suas voltas; mas, quando já tinham atravessado a ponte e percebido a distância a que ficavam da casa, a Sra. Gardiner, que não era grande caminhante, não pôde ir mais longe, e só pensava em regressar à carruagem o mais depressa possível. A sobrinha viu-se, pois, obrigada a conformar-se, e tomaram o caminho para a casa pelo lado oposto do rio, na direção mais curta; mas o seu avanço era lento, porque o Sr. Gardiner, embora raramente pudesse dar-se a esse gosto, era muito aficionado à pesca, e andava tão ocupado a observar o aparecimento ocasional de algumas trutas na água, e a falar com o homem acerca delas, que pouco progredia. Enquanto vagueavam assim, vagarosos, foram outra vez surpreendidos, e a surpresa de Elizabeth foi igual à que sentira da primeira vez, à vista do Sr. Darcy que se aproximava deles, e a não grande distância. O caminho, sendo ali menos abrigado do que no outro lado, permitia vê-lo antes de se encontrarem. Elizabeth, por mais surpresa que estivesse, estava ao menos mais preparada para o encontro do que dantes, e resolveu mostrar-se e falar com serenidade, se ele tencionava realmente cruzar-se com eles. Por alguns momentos, na verdade, ela sentiu que ele provavelmente tomaria por outro caminho. A ideia durou enquanto uma curva do passeio o escondeu da sua vista; passada a curva, estava ele imediatamente diante deles. Com um relance, viu que ele não perdera nada da sua recente cortesia; e, para imitar a sua polidez, começou, ao encontrarem-se, a admirar a beleza do lugar; mas não tinha ido além das palavras "delicioso" e "encantador", quando algumas recordações inoportunas se intrometeram, e ela imaginou que qualquer elogio a Pemberley da sua parte pudesse ser maliciosamente interpretado. A sua cor mudou, e nada mais disse.

A Sra. Gardiner ficara um pouco atrás; e, ao vê-la parar, ele perguntou-lhe se lhe faria a honra de o apresentar aos seus amigos. Foi esta uma mostra de cortesia para a qual ela estava de todo desprevenida; e mal pôde reprimir um sorriso ao vê-lo agora a procurar a acquaintance de algumas das mesmas pessoas contra as quais o seu orgulho se revoltara, quando da proposta que ele próprio lhe fizera. "Qual não será a sua surpresa", pensou ela, "quando souber quem eles são! Toma-os agora por pessoas de distinção."

A apresentação fez-se, porém, imediatamente; e, ao declarar ela a relação de parentesco que tinham consigo, lançou um olhar furtivo para ele, para ver como suportava a coisa; e não sem esperar que ele se fosse embora o mais depressa possível de tão pouco dignos companheiros. Que ele ficou surpreendido com o parentesco, era evidente: suportou-o, contudo, com firmeza; e, longe de se retirar, voltou com eles, e entrou em conversa com o Sr. Gardiner. Elizabeth não pôde deixar de se sentir satisfeita, não pôde deixar de sentir um triunfo. Era consolador que ele soubesse que ela tinha umas relações de que não havia motivo para corar. Escutou com a maior atenção tudo o que se passou entre eles, e gloriou-se de cada expressão, de cada frase do tio, que denotassem a sua inteligência, o seu bom gosto ou as suas boas maneiras.

A conversa logo recaiu sobre a pesca; e ela ouviu o Sr. Darcy convidá-lo, com a maior cortesia, a pescar ali quantas vezes quisesse, enquanto permanecesse na vizinhança, oferecendo-se ao mesmo tempo para lhe fornecer apetrechos de pesca, e indicando-lhe aquelas partes da corrente onde havia geralmente melhor divertimento. A Sra. Gardiner, que ia de braço dado com Elizabeth, lançou-lhe um olhar expressivo da sua admiração. Elizabeth nada disse, mas sentiu-se extremamente lisonjeada; o elogio só podia ser para ela mesma. A sua surpresa, porém, era extrema; e sem cessar repetia para consigo: "Por que está ele tão mudado? Donde poderá isto proceder? Não pode ser por minha causa, não pode ser por amor de mim que as suas maneiras se abrandam assim. As minhas repreensões em Hunsford não poderiam operar uma tal mudança. É impossível que ele ainda me ame."

Depois de andarem algum tempo assim, as duas senhoras à frente, os dois cavalheiros atrás, ao retomarem os seus lugares, depois de terem descido à margem do rio para melhor inspeccionarem uma certa planta aquática curiosa, deu-se uma pequena alteração. Teve origem na Sra. Gardiner, que, fatigada pelo exercício da manhã, achou o braço de Elizabeth inadequado para se apoiar, e preferiu por isso o do marido. O Sr. Darcy tomou o lugar dela junto da sobrinha, e continuaram a andar juntos. Após um breve silêncio, a senhora falou primeiro. Desejava que ele soubesse que ela fora informada da ausência dele antes de ir ali, e por isso começou por observar que a chegada dele fora muito inesperada — "pois a sua governanta", acrescentou, "informou-nos que o senhor decerto não estaria aqui antes de amanhã; e, com efeito, antes de sairmos de Bakewell, ficámos a entender que não era imediata a sua vinda ao campo." Ele confirmou a verdade de tudo; e disse que negócios com o seu administrador o haviam obrigado a adiantar-se algumas horas relativamente ao resto da comitiva com quem estivera a viajar. "Juntar-se-ão a mim amanhã cedo", continuou ele, "e entre eles há alguns que hão de reivindicar a sua acquaintance — o Sr. Bingley e as irmãs."

Elizabeth respondeu apenas com uma leve reverência. Os seus pensamentos foram logo arrastados para a época em que o nome do Sr. Bingley fora pela última vez mencionado entre eles; e, se podia julgar pela sua aparência, o seu espírito não andava muito diferentemente ocupado.

"Há também outra pessoa na comitiva", continuou ele após uma pausa, "que mais particularmente deseja ser conhecida da senhora. Permite-me, ou peço demais, que lhe apresente a minha irmã, para que se conheçam, durante a sua estadia em Lambton?"

A surpresa de um tal pedido era grande, na verdade; era grande de mais para que ela soubesse de que modo lhe acedia. Sentiu logo que, qualquer que fosse o desejo que Miss Darcy pudesse ter de a conhecer, devia ser obra do irmão; e, sem ir mais longe, isso era satisfatório; era lisonjeiro saber que o seu ressentimento não o levara a fazer dela um verdadeiramente mau conceito.

Continuaram então a andar em silêncio; cada um deles absorto em pensamentos. Elizabeth não estava à vontade; era impossível; mas sentia-se lisonjeada e satisfeita. O desejo que ele tinha de lhe apresentar a irmã era um elogio da mais alta espécie. Logo ultrapassaram os outros; e, quando chegaram à carruagem, o Sr. e a Sra. Gardiner estavam a meio de um quarto de milha atrás.

Pediu-lhe então que entrasse na casa — mas ela declarou-se não cansada, e ficaram ambos de pé no relvado. Em tal momento muito se poderia ter dito, e o silêncio era muito embaraçoso. Ela queria falar, mas parecia haver um embargo sobre todos os assuntos. Por fim, lembrou-se de que tivera a estar a viajar, e falaram de Matlock e Dovedale com grande persistência. Contudo, o tempo e a tia moviam-se lentamente — e a sua paciência e as suas ideias estavam quase no fim antes de terminada a conversa a sós.

Quando o Sr. e a Sra. Gardiner chegaram, instaram todos com eles para que entrassem na casa e tomassem alguma coisa; mas declinaram, e separaram-se de parte a parte com a maior cortesia. O Sr. Darcy ajudou as senhoras a entrar na carruagem; e, quando ela partiu, Elizabeth viu-o a caminhar lentamente para a casa.

Começaram logo as observações do tio e da tia; e cada um deles o declarou infinitamente superior a tudo quanto tinham esperado.

"É perfeitamente bem-educado, cortês e sem presunção", disse o tio.

"Há nele qualquer coisa de um tanto austero, é certo", respondeu a tia; "mas é coisa que se limita ao ar, e não fica mal. Posso agora dizer, com a governanta, que, embora algumas pessoas lhe possam chamar orgulhoso, eu nada disso lhe vi."

"Nunca fiquei mais surpreendido do que com o seu comportamento para connosco. Foi mais do que cortês; foi realmente atencioso; e não havia necessidade de tal atenção. A sua acquaintance com Elizabeth era muito ligeira."

"Na verdade, Lizzy", disse a tia, "ele não é tão bem-parecido como Wickham; ou, melhor, não tem o rosto de Wickham, embora os seus traços sejam perfeitamente bons. Mas como é que nos foste dizer que ele era tão desagradável?"

Elizabeth desculpou-se o melhor que pôde: disse que ele lhe agradara mais quando se encontraram em Kent do que dantes, e que nunca o vira tão agradável como naquela manhã.

"Mas talvez ele seja um tanto esquisito nas suas cortesias", respondeu o tio. "Os homens importantes são-no frequentemente; e por isso não hei-de levar a sério o que ele disse acerca da pesca, pois talvez mude de ideias noutro dia, e me interdite os seus terrenos."

Elizabeth sentiu que tinham inteiramente interpretado mal o seu carácter, mas nada disse.

"Pelo que dele vimos", continuou a Sra. Gardiner, "realmente não me pareceria que ele pudesse ter procedido de um modo tão cruel com alguém, como procedeu com o pobre Wickham. Não tem ar de maldade. Pelo contrário, há qualquer coisa de agradável na sua boca quando fala. E há qualquer coisa de dignidade no seu rosto, que não daria uma ideia desfavorável do seu coração. Mas, certamente, a boa senhora que nos mostrou a casa deu-lhe um carácter esplêndido! Mal podia deixar de rir às vezes em voz alta. Mas ele é um amo generoso, suponho, e isso, aos olhos de um criado, abrange todas as virtudes."

Elizabeth sentiu aqui que lhe cabia dizer alguma coisa em defesa do seu procedimento para com Wickham; e, por isso, deu-lhes a entender, do modo mais prudente que podia, que, pelo que ouvira dos seus parentes em Kent, os seus actos eram susceptíveis de uma interpretação muito diversa; e que o carácter dele não era de modo nenhum tão defeituoso, nem o de Wickham tão amável, como os tinham considerado em Hertfordshire. Em confirmação disto, relatou os pormenores de todas as transacções pecuniárias em que eles tinham estado ligados, sem nomear efectivamente a sua fonte, mas declarando que era tal que merecia confiança.

A Sra. Gardiner ficou surpresa e preocupada: mas, como se aproximavam já do cenário das suas antigas diversões, toda a ideia deu lugar ao encanto da recordação; e andava ela demasiado ocupada em mostrar ao marido todos os sítios interessantes dos arredores, para pensar em qualquer outra coisa. Fatigada como estivera com o passeio da manhã, mal tinham jantado, saiu de novo à procura das suas antigas relações, e a noite passou-se nas satisfações de um convívio retomado após muitos anos de interrupção.

As ocorrências do dia eram demasiado cheias de interesse para deixar a Elizabeth grande atenção para qualquer destas novas amizades; e ela não podia fazer outra coisa senão pensar, e pensar com assombro, na cortesia do Sr. Darcy, e, acima de tudo, no facto de ele desejar que ela conhecesse a irmã.

CAPÍTULO XLIV.

Elizabeth tinha dado como certo que o Sr. Darcy traria a irmã a visitá-la logo no dia seguinte à sua chegada a Pemberley; e estava, por conseguinte, resolvida a não perder de vista a estalagem durante toda aquela manhã. Mas a sua conclusão era errada; pois, na própria manhã depois da chegada delas a Lambton, vieram esses visitantes. Tinham andado a passear pelo lugar com algumas das suas novas amizades, e acabavam de regressar à estalagem para se vestirem para jantar com a mesma família, quando o som de uma carruagem os levou a uma janela, e viram um cavalheiro e uma senhora numa cabriolé subindo a rua. Elizabeth, reconhecendo logo as librés, adivinhou o que aquilo significava, e não causou pequeno grau de surpresa aos seus parentes, ao informá-los da honra que esperava. O tio e a tia ficaram absolutamente maravilhados; e o embaraço do seu modo ao falar, junto com a circunstância em si e muitas das circunstâncias do dia anterior, abriu-lhes uma nova ideia sobre o assunto. Nada tal lhes ocorrera antes, mas agora sentiam que não havia outra maneira de explicar tais atenções vindas de tal parte, senão supondo uma parcialidade pela sobrinha delas. Enquanto estes pensamentos acabados de nascer lhes passavam pela cabeça, a perturbação dos sentimentos de Elizabeth crescia a cada momento. Ela estava absolutamente espantada com a sua própria descompostura; mas, entre outras causas de inquietação, temia que a parcialidade do irmão tivesse falado demasiado em seu favor; e, mais do que geralmente ansiosa por agradar, suspeitava naturalmente que todo e qualquer poder de agradar lhe haveria de faltar.

Afastou-se da janela, com medo de ser vista; e, ao passear de um lado para o outro no quarto, procurando compor-se, viu nos rostos do tio e da tia tais ares de surpresa inquiridora, que tudo piorava.

Apareceram Miss Darcy e o irmão, e teve lugar esta temível apresentação. Com assombro viu Elizabeth que a sua nova conhecida estava ao menos tão embaraçada como ela própria. Desde que estava em Lambton, ouvira dizer que Miss Darcy era extremamente orgulhosa; mas a observação de muito poucos minutos convenceu-a de que ela era somente extremamente tímida. Achou difícil obter dela sequer uma palavra além de uma sílaba.

Miss Darcy era alta e de proporções maiores que Elizabeth; e, embora tivesse pouco mais de dezasseis anos, a sua figura estava já formada, e o seu aspecto era feminino e gracioso. Era menos bonita que o irmão, mas havia inteligência e bom humor no seu rosto, e as suas maneiras eram perfeitamente despretensiosas e meigas. Elizabeth, que esperava achar nela uma observadora tão arguta e desembaraçada como o Sr. Darcy jamais fora, ficou muito descansada ao descobrir sentimentos tão diferentes.

Não tinham estado juntos muito tempo, quando Darcy lhe disse que Bingley também vinha visitá-la; e mal teve tempo de manifestar a sua satisfação e de se preparar para tal visita, quando o passo rápido de Bingley se ouviu nas escadas, e num momento ele entrou na sala. Toda a cólera de Elizabeth contra ele tinha-se já dissipado havia muito; mas, mesmo que ainda a sentisse, mal poderia ela ter resistido à cordialidade despretensiosa com que ele se exprimiu ao vê-la outra vez. Perguntou, de um modo amigo, embora geral, pela família dela, e olhou e falou com a mesma bonomia fácil de sempre.

Para o Sr. e a Sra. Gardiner ele era uma personagem quase tão interessante como para ela própria. Há muito desejavam vê-lo. A companhia inteira que tinham diante de si, na verdade, excitava uma viva atenção. As suspeitas que acabavam de nascer acerca do Sr. Darcy e da sobrinha deles, dirigiam a sua observação para cada um deles com um exame sério, embora cauteloso; e logo deduziram desses exames a plena convicção de que pelo menos um deles sabia o que era amar. Quanto aos sentimentos da senhora, ficaram um tanto na dúvida; mas que o cavalheiro transbordava de admiração, era mais do que evidente.

Elizabeth, da sua parte, tinha muito que fazer. Queria certificar-se dos sentimentos de cada um dos seus visitantes, queria compor os seus próprios, e tornar-se agradável a todos; e neste último objectivo, onde mais temia falhar, mais certa estava do êxito, pois aqueles a quem procurava dar prazer já vinham predispostos a seu favor. Bingley estava disposto, Georgiana estava ansiosa, e Darcy determinado, a ficarem satisfeitos.

Ao ver Bingley, os seus pensamentos voaram naturalmente para a irmã; e ah! com que ardor desejou ela saber se alguns dos dele se dirigiam do mesmo modo. Por vezes podia imaginar que ele falava menos do que nas ocasiões anteriores, e uma ou duas vezes agradeceu a si mesma a ideia de que, ao olhá-la, ele procurava traçar uma parecença. Mas, embora isto pudesse ser imaginação, não podia ela enganar-se quanto ao seu comportamento para com Miss Darcy, que fora posta como rival de Jane. Não apareceu de parte a parte olhar algum que denotasse particular agrado. Nada sucedeu entre eles que pudesse justificar as esperanças da irmã dele. Sobre este ponto, ficou logo convencida; e duas ou três pequenas circunstâncias ocorreram antes de se separarem, que, na sua ansiosa interpretação, denotavam uma recordação de Jane, não desprovida de ternura, e um desejo de dizer mais que pudesse levar à menção dela, se ele se atrevesse. Observou ele para ela, num momento em que os outros falavam entre si, e num tom que tinha algo de verdadeiro pesar, que "era muito tempo já desde que tivera o prazer de a ver"; e, antes que ela pudesse responder, acrescentou: "São mais de oito meses. Não nos vimos desde o dia 26 de Novembro, quando estávamos todos a dançar juntos em Netherfield."

Elizabeth alegrou-se de lhe ver tão exacta a memória; e ele aproveitou depois uma ocasião para lhe perguntar, quando não era ouvido por nenhum dos outros, se todas as suas irmãs estavam em Longbourn. Não havia muita coisa na pergunta, nem na observação que a precedera; mas havia um olhar e um modo de dizer que lhes davam sentido.

Não era frequente que ela pudesse voltar os olhos para o próprio Sr. Darcy; mas, sempre que conseguia apanhá-lo de relance, via uma expressão de geral complacência, e em tudo o que ele dizia ouvia um acento tão longe do orgulho ou do desdém dos seus companheiros, que a convenceu de que a melhoria de maneiras que ela testemunhara na véspera, ainda que temporária pudesse ser a sua existência, sobrevivera pelo menos um dia. Quando o via assim a procurar a acquaintance e a cortejar a boa opinião de pessoas com quem qualquer relações havia poucos meses teria sido uma vergonha; quando o via assim cortês, não só para com ela, mas para com aquelas mesmas relações que ele abertamente desprezara, e se recordava da última cena viva em Hunsford Parsonage, a diferença, a mudança era tão grande, e impressionava-lhe tão fortemente o espírito, que ela mal podia impedir que o seu assombro se tornasse visível. Nunca, nem sequer na companhia dos seus caros amigos em Netherfield, ou dos seus dignos parentes em Rosings, ela o vira tão desejoso de agradar, tão livre de presunção ou de reserva inflexível, como agora, em que nenhuma importância podia resultar do êxito dos seus esforços, e em que até o conhecimento das pessoas a quem as suas atenções se dirigiam atrairia o ridículo e a censura das senhoras tanto de Netherfield como de Rosings.

Os visitantes ficaram com eles acima de meia hora; e, quando se levantaram para partir, o Sr. Darcy pediu à irmã que se lhe associasse para exprimir o desejo que tinham de ver o Sr. e a Sra. Gardiner e Miss Bennet a jantar em Pemberley, antes de deixarem o campo. Miss Darcy, embora com uma timidez que mostrava não estar muito habituada a dar convites, obedeceu prontamente. A Sra. Gardiner olhou para a sobrinha, desejosa de saber como ela, a quem o convite mais dizia respeito, se sentia disposta quanto à aceitação, mas Elizabeth tinha afastado a cabeça. Presumindo, todavia, que esta ausência estudada denotava antes um embaraço momentâneo do que qualquer aversão ao convite, e vendo no marido, que era amigo de conviver, uma perfeita disposição para o aceitar, atreveu-se a comprometer-se pela sua aceitação, e ficou fixado para daí a dois dias.

Bingley manifestou grande prazer com a certeza de tornar a ver Elizabeth, tendo ainda muito que lhe dizer e muitas perguntas a fazer sobre todos os amigos de Hertfordshire. Elizabeth, interpretando tudo isto como um desejo de a ouvir falar da irmã, ficou satisfeita; e por essa razão, bem como por outras, achou-se capaz, quando os visitantes se retiraram, de considerar a última meia hora com alguma satisfação, embora, enquanto ela decorria, pouco a tivesse gozado. Ansiosa por ficar sozinha e temendo perguntas ou insinuações do tio e da tia, demorou-se junto deles apenas o suficiente para ouvir a opinião favorável que tinham de Bingley, e apressou-se depois a ir vestir-se.

Mas ela não tinha motivo para temer a curiosidade do Sr. e da Sra. Gardiner; não era desejo deles forçar-lhe a confiança. Era evidente que ela conhecia o Sr. Darcy muito melhor do que até então tinham imaginado; era evidente que ele estava profundamente apaixonado por ela. Tinham muito que os interessava, mas nada que justificasse perguntas.

Quanto ao Sr. Darcy, era agora motivo de ansiedade pensar bem dele; e, até onde a sua convivência chegava, não havia culpa a encontrar. Não podiam ficar indiferentes à sua delicadeza; e se tivessem formado o caráter dele a partir dos próprios sentimentos e do que disse o criado, sem referência a qualquer outra informação, o círculo de Hertfordshire em que ele era conhecido não o teria reconhecido como o Sr. Darcy. Havia agora, porém, interesse em dar crédito à governanta; e logo se tornaram sensíveis a que a autoridade de um criado, que o conhecia desde os quatro anos de idade, e cujas próprias maneiras indicavam respeitabilidade, não devia ser precipitadamente rejeitada. Também nada havia nas informações dos amigos de Lambton que pudesse materialmente diminuir o peso dessa autoridade. Nada tinham que lhe censurar além de orgulho; orgulho ele provavelmente tinha, e, mesmo que não tivesse, seria certamente atribuído pelos habitantes de uma pequena vila de mercado que a família não visitava. Reconhecia-se, contudo, que era um homem generoso, e que fazia muito bem aos pobres.

Quanto a Wickham, os viajantes logo descobriram que ele não era lá muito estimado; pois, embora as suas principais questões com o filho do seu protetor fossem imperfeitamente compreendidas, era porém facto bem conhecido que, ao partir de Derbyshire, deixara muitas dívidas para trás, que o Sr. Darcy depois saldara.

Quanto a Elizabeth, os seus pensamentos estavam nessa noite mais em Pemberley do que na anterior; e a noite, embora, ao passar, parecesse longa, não foi suficientemente longa para definir os sentimentos dela para com quem habitava aquela mansão; e ela ficou acordada duas horas inteiras, tentando compreendê-los. Certamente não o odiava. Não; o ódio desaparecera havia muito, e quase desde então se envergonhara de ter alguma vez sentido por ele uma aversão que pudesse assim chamar-se. O respeito criado pela convicção das suas qualidades apreciáveis, embora a princípio admitido de má vontade, havia algum tempo deixara de ser repulsivo para os seus sentimentos; e era agora elevado a algo de natureza mais amiga pelo testemunho tão a seu favor, e que pusera em tão amável luz o seu caráter, que o dia anterior produzira. Mas acima de tudo, acima do respeito e da estima, havia nela um motivo de boa vontade que não podia ser ignorado. Era a gratidão — gratidão, não só por uma vez a ter amado, mas por amá-la ainda o bastante para lhe perdoar toda a petulância e acrimónia do modo como o rejeitara, e todas as acusações injustas que acompanharam a sua rejeição. Aquele que, fora levada a crer, a evitaria como sua maior inimiga, parecia, neste encontro casual, muito desejoso de conservar a convivência; e, sem qualquer demonstração indelicada de estima, nem qualquer singularidade de maneiras, quando só eles dois estavam em causa, andava a solicitar a boa opinião dos amigos dela, e decidido a fazê-la conhecida da irmã. Uma tal mudança num homem de tanto orgulho não só despertava espanto como gratidão — pois ao amor, ao amor ardente, devia ser atribuída; e, como tal, a impressão que nela produzia era de natureza a ser estimulada, de modo nenhum desagradável, embora não pudesse ser exatamente definida. Respeitava-o, estimava-o, estava-lhe grata, sentia um interesse real pelo seu bem-estar; e só queria saber até onde desejava que esse bem-estar dependesse dela, e até onde seria para a felicidade de ambos que ela empregasse o poder que a sua imaginação lhe dizia ainda possuir, de levar à renovação das propostas dele.

Tinha sido decidido na noite anterior, entre a tia e a sobrinha, que tão assinalada delicadeza como a de Miss Darcy, indo visitá-las precisamente no dia da sua chegada a Pemberley — pois só tinha tomado a refeição da manhã, tardia — devia ser correspondida, embora não igualada, por alguma cortesia da parte delas; e que, por conseguinte, seria muito conveniente ir visitá-la a Pemberley na manhã seguinte. Iriam, portanto. Elizabeth ficou satisfeita; embora, perguntando a si própria o motivo, tivesse muito pouco que responder.

O Sr. Gardiner deixou-as pouco depois do pequeno-almoço. O projeto da pescaria fora renovado na véspera, e fora feito um compromisso firme de se encontrar com alguns dos cavalheiros em Pemberley ao meio-dia.

CAPÍTULO XLV.

Agora que Elizabeth estava convencida de que a aversão de Miss Bingley por ela tivera origem em ciúme, não pôde deixar de sentir quão inoportuna seria a sua presença em Pemberley para ela, e ficou curiosa de saber com quanta cortesia, da parte dessa senhora, a convivência seria agora retomada.

Ao chegarem à casa, foram conduzidas através do vestíbulo para a sala, cuja exposição a norte a tornava encantadora para o verão. As suas janelas, abrindo até ao chão, permitiam uma vista muito refrescante das altas colinas arborizadas atrás da casa, e dos belos carvalhos e castanheiros-da-índia espalhados pelo relvado intermédio.

Nesta sala foram recebidas por Miss Darcy, que ali estava sentada com a Sra. Hurst e Miss Bingley, e a senhora com quem vivia em Londres. A acolhimento de Georgiana foi muito cortês, mas acompanhado de toda aquela timidez que, embora procedendo de acanhamento e do receio de errar, daria facilmente àqueles que se sentissem inferiores a crença de que ela era orgulhosa e reservada. A Sra. Gardiner e a sua sobrinha, porém, fizeram-lhe justiça, e tiveram pena dela.

Pela Sra. Hurst e Miss Bingley foram apenas notadas com uma reverência; e, depois de se sentarem, sucedeu-se uma pausa, tão incómoda como taes pausas devem sempre ser, por alguns momentos. Foi primeiro quebrada pela Sra. Annesley, uma senhora distinta e de agradável aspecto, cujo esforço para introduzir alguma espécie de conversa mostrou ser ela verdadeiramente mais bem-educada do que qualquer das outras; e entre ela e a Sra. Gardiner, com a ajuda ocasional de Elizabeth, a conversa foi levada por diante. Miss Darcy parecia desejar coragem suficiente para nela tomar parte; e às vezes aventurava uma curta frase, quando havia menor perigo de ser ouvida.

Elizabeth logo viu que ela própria era atentamente observada por Miss Bingley, e que não podia dizer uma palavra, sobretudo a Miss Darcy, sem chamar a atenção dela. Esta observação não a teria impedido de tentar falar com esta última, se não estivessem sentadas a uma distância incómoda; mas não se lamentou de ser dispensada da necessidade de falar muito: os seus próprios pensamentos ocupavam-na. Esperava a cada momento que algum dos cavalheiros entrasse na sala; desejava, temia, que o senhor da casa estivesse entre eles; e se mais desejava ou temia, mal podia determinar. Depois de estar sentada assim um quarto de hora, sem ouvir a voz de Miss Bingley, Elizabeth foi despertada por receber dela uma fria pergunta sobre a saúde da família. Respondeu com igual indiferença e brevidade, e a outra nada mais disse.

A variação seguinte que a visita lhes proporcionou foi produzida pela entrada de criados com carne fria, bolo e uma variedade de todos os melhores frutos da estação; mas isto só aconteceu depois de muitos olhares e sorrisos significativos da Sra. Annesley para Miss Darcy, para lhe lembrar do seu dever. Havia agora ocupação para todo o grupo; pois, embora não pudessem todos falar, podiam todos comer; e as belas pirâmides de uvas, nectarinas e pêssegos logo os reuniram à volta da mesa.

Enquanto assim ocupada, Elizabeth teve boa oportunidade de decidir se mais temia ou desejava a aparição do Sr. Darcy, pelos sentimentos que prevaleceram quando ele entrou na sala; e então, embora um momento antes tivesse acreditado que os desejos predominavam, começou a lamentar que ele viesse.

Ele tinha estado algum tempo com o Sr. Gardiner, que, com dois ou três outros cavalheiros da casa, estava ocupado junto ao rio; e só o deixara ao saber que as senhoras da família tencionavam visitar Georgiana naquela manhã. Logo que ele apareceu, Elizabeth sabiamente resolveu estar perfeitamente à vontade e sem embaraço — resolução tanto mais necessária de ser tomada, mas talvez não mais fácil de manter, porque viu que as suspeitas de todo o grupo se tinham despertado contra eles, e que não havia quase um olho que não observasse o seu comportamento ao entrar na sala. Em nenhum rosto a curiosidade atenta era tão fortemente marcada como no de Miss Bingley, apesar dos sorrisos que lhe cobriam o rosto sempre que falava a um dos objectos dela; pois o ciúme ainda não a tornara desesperada, e as suas atenções ao Sr. Darcy estavam longe de cessar. Miss Darcy, com a entrada do irmão, muito mais se esforçou por falar; e Elizabeth viu que ele estava ansioso por que a irmã e ela se conhecessem, e favorecia, tanto quanto possível, qualquer tentativa de conversa de parte a parte. Miss Bingley viu tudo isto igualmente; e, na imprudência da cólera, tomou a primeira oportunidade de dizer, com cortês escárnio:

— Diga-me, Miss Eliza, não foram as milícias de ----shire retiradas de Meryton? Hão-de ser grande falta para a sua família.

Na presença de Darcy não ousava mencionar o nome de Wickham: mas Elizabeth compreendeu instantaneamente que ele era o pensamento dominante; e as várias recordações a ele ligadas deram-lhe um momento de perturbação; mas, esforçando-se vigorosamente por repelir o ataque maldoso, respondeu logo à pergunta em tom toleravelmente indiferente. Enquanto ela falava, um olhar involuntário mostrou-lhe Darcy com o rosto mais corado, olhando-a atentamente, e a irmã coberta de confusão, incapaz de levantar os olhos. Se Miss Bingley soubesse que dor estava então a causar à sua querida amiga, sem dúvida teria abstido da insinuação; mas apenas tencionara perturbar Elizabeth, trazendo à baila a ideia de um homem a quem ela a julgava parcial, para a fazer trair uma susceptibilidade que pudesse prejudicá-la na opinião de Darcy, e, talvez, para lembrar a este de todas as loucuras e absurdidades por que parte da família dela se achava ligada àquele corpo. Nem uma sílbara jamais chegara aos seus ouvidos da fuga premeditada por Miss Darcy. A nenhuma criatura fora revelada, onde o segredo era possível, excepto a Elizabeth; e de todas as relações de Bingley o irmão tinha particularmente o cuidado de a ocultar, daquele mesmo desejo que Elizabeth havia muito atribuíra a ele, de virem um dia a ser também dela. Ele certamente formara tal plano; e, sem que isso devesse afectar o seu esforço para o separar de Miss Bennet, é provável que pudesse acrescentar algo à sua viva solicitude pelo bem-estar do amigo.

O comportamento sereno de Elizabeth, porém, logo acalmou a sua comoção; e como Miss Bingley, vexada e desiludida, não ousou aproximar-se mais de Wickham, Georgiana também a seu tempo se recompôs, embora não o bastante para poder voltar a falar. O irmão, cujo olhar ela temia encontrar, mal se recordou do interesse dela no caso; e a própria circunstância que fora imaginada para desviar dele os pensamentos de Elizabeth, pareceu fixá-los nela, cada vez com mais agrado.

A visita não durou muito depois da pergunta e resposta acima mencionadas; e, enquanto o Sr. Darcy as acompanhava à carruagem, Miss Bingley desabafava os seus sentimentos em críticas à pessoa, ao comportamento e ao vestuário de Elizabeth. Mas Georgiana não quis associar-se. A recomendação do irmão bastava para lhe garantir o favor: o juízo dele não podia errar; e ele falara em tais termos de Elizabeth, que deixavam Georgiana sem poder achá-la de outro modo que formosa e amável. Quando Darcy voltou à sala, Miss Bingley não pôde deixar de repetir-lhe parte do que estivera a dizer à irmã.

— Que mal aspecto tem Eliza Bennet esta manhã, Sr. Darcy — exclamou —: jamais em minha vida vi alguém tão mudada como ela está desde o inverno. Ficou tão morena e tão vulgar! A Luísa e eu estávamos de acordo que não a teríamos conhecido.

Por mais que ao Sr. Darcy pudesse desagradar semelhante observação, contentou-se com responder friamente que só notava uma outra diferença, a de ela estar um tanto bronzeada — nenhuma consequência miraculosa de viajar no verão.

— Quanto a mim — tornou ela —, confesso que nunca lhe pude achar beleza. O rosto é magro demais; o colorido não tem brilho; e as feições de modo nenhum são formosas. O nariz carece de carácter; não há nada de marcado nos seus traços. Os dentes são toleráveis, mas nada de extraordinário; e quanto aos olhos, que por vezes se têm dito tão belos, nunca pude descobrir neles nada de extraordinário. Têm um ar agudo, briguento, de que não gosto nada; e no seu ar geral, há uma presunção sem elegância, que é intolerável.

Por mais convencida que Miss Bingley estivesse de que Darcy admirava Elizabeth, este não era o melhor método de se recomendar; mas as pessoas zangadas nem sempre são prudentes; e, vendo-o por fim um tanto agastado, teve todo o sucesso que esperava. Ele ficou, porém, resolutamente calado; e, com o intento de o fazer falar, ela continuou:

— Lembro-me, quando a conhecemos em Hertfordshire, como todos ficámos espantados ao saber que ela passava por bela; e lembro-me particularmente de a si dizer uma noite, depois de terem jantado em Netherfield: «Ela uma bela! Eu chamaria antes à mãe uma mulher de espírito.» Mas depois pareceu melhorar de opinião, e creio que chegou a achá-la bonita por algum tempo.

— Sim — respondeu Darcy, que já não se podia conter —, mas isso foi só ao princípio de a conhecer; pois há muitos meses que a considero uma das mais formosas mulheres do meu conhecimento.

Depois afastou-se, e Miss Bingley ficou com toda a satisfação de o ter forçado a dizer o que a ninguém magoou senão a ela.

A Sra. Gardiner e Elizabeth falaram de tudo o que acontecera durante a visita, ao regressar, excepto do que particularmente interessara a ambas. As aparências e o comportamento de toda a gente que tinham visto foram discutidos, excepto da pessoa que mais tinha prendido a atenção delas. Falaram da irmã dele, dos amigos dele, da casa dele, da fruta dele, de tudo excepto dele próprio; todavia, Elizabeth morria por saber o que a Sra. Gardiner pensava dele, e a Sra. Gardiner teria ficado muito satisfeita se a sobrinha tivesse começado o assunto.

Capítulo XLVI.

Elizabeth ficara bastante desiludida por não encontrar carta de Jane à chegada a Lambton; e esta decepção renovara-se em cada uma das manhãs que ali tinham passado; mas na terceira os seus queixumes cessaram, e a irmã foi justificada, com o recebimento de duas cartas de uma vez, numa das quais estava indicado que fora enviada por engano para outro lado. Elizabeth não se admirou, pois Jane escrevera o endereço de modo notavelmente incorrecto.

Tinham acabado de se preparar para sair a passeio quando as cartas chegaram; e o tio e a tia, deixando-a para as ler em sossego, saíram sozinhos. A que fora enviada errada devia ser atendida primeiro; tinha sido escrita cinco dias antes. O princípio continha um relato de todas as suas pequenas reuniões e compromissos, com as novidades que a terra oferecia; mas a segunda metade, datada um dia depois, e escrita em evidente agitação, dava notícia mais importante. Era neste sentido:

«Depois de escrever o que acima fica, minha querida Lizzy, sucedeu algo da natureza mais inesperada e grave; mas tenho medo de te alarmar — fica certa de que todos estamos bem. O que tenho a dizer diz respeito à pobre Lydia. Chegou um expresso à meia-noite, justamente quando nos íamos deitar, do Coronel Forster, a informar-nos de que ela fugira para a Escócia com um dos seus oficiais; para dizer a verdade, com Wickham! Imagina a nossa surpresa. Para a Kitty, porém, não parece assim tão inteiramente inesperado. Estou muito, muito arrependida. Casamento tão imprudente de parte a parte! Mas estou disposta a esperar o melhor, e que o carácter dele tenha sido mal compreendido. Leviano e indiscreto posso bem crer que ele é, mas este passo (e rejubilemos com ele) nada revela de mau no coração. A escolha dele é desinteressada ao menos, pois deve saber que meu pai não lhe pode dar nada. Nossa pobre mãe está tristemente aflita. Meu pai suporta melhor. Como estou agradecida por nunca lhes termos deixado saber o que dele se tem dito; havemos de esquecê-lo nós mesmas. Partiram sábado à noite por volta da meia-noite, como se presume, mas só foram notados ontem pelas oito da manhã. O expresso foi mandado imediatamente. Minha querida Lizzy, devem ter passado a menos de dez milhas de nós. O Coronel Forster dá-nos motivo para esperar que ele chegue aqui em breve. A Lydia deixou umas linhas para a mulher dele, informando-a da intenção. Tenho de acabar, porque não posso estar muito tempo longe da minha pobre mãe. Receio que não conseguirás ler tudo, mas mal sei o que escrevi.»

Sem se conceder tempo para reflectir, e mal sabendo o que sentia, Elizabeth, ao acabar esta carta, agarrou logo a outra, e abrindo-a com a maior impaciência, leu o seguinte: fora escrita um dia depois do fim da primeira.

"A esta hora, minha irmã muito querida, já terás recebido a minha carta apressada; desejo que esta seja mais inteligível, mas, embora não tenha falta de tempo, tenho a cabeça tão confusa que não posso garantir a coerência. Minha querida Lizzy, quase não sei o que escrever, mas tenho más notícias para te dar, e não podem ser adiadas. Por imprudente que seja um casamento entre o Sr. Wickham e a nossa pobre Lydia, agora estamos ansiosos por nos certificarmos de que ele se realizou, pois há razões de mais para temer que não tenham partido para a Escócia. O Coronel Forster veio ontem, tendo saído de Brighton no dia anterior, poucas horas depois do expresso. Embora a curta carta da Lydia à Sra. F. lhes desse a entender que iam para Gretna Green, algo foi deixado escapar pelo Denny, exprimindo a sua convicção de que W. nunca tencionara ir lá, nem casar com a Lydia de todo; o que foi repetido ao Coronel F., que, imediatamente dando o alarme, partiu de B., com a intenção de seguir a rota deles. Seguiu-os facilmente até Clapham, mas não mais; porque, ao entrar nessa localidade, meteram-se numa carruagem de aluguer, e despediram a chaise que os trouxera de Epsom. Tudo o que se sabe depois disto é que foram vistos a continuar pela estrada de Londres. Não sei o que pensar. Depois de fazer todas as indagações possíveis naquele lado de Londres, o Coronel F. veio para Hertfordshire, renovando ansiosamente as buscas em todas as barreiras, e nas estalagens de Barnet e Hatfield, mas sem qualquer resultado -- ninguém assim fora visto passar. Com a mais bondosa preocupação, veio até Longbourn, e comunicou-nos os seus receios de uma maneira muito honrosa para o seu coração. Lamento sinceramente por ele e pela Sra. F.; mas ninguém lhes pode lançar qualquer culpa. A nossa aflição, minha querida Lizzy, é muito grande. O meu pai e a minha mãe crêem o pior, mas eu não consigo pensar tão mal dele. Muitas circunstâncias poderiam tornar mais desejável que casassem em particular na cidade, em vez de seguirem o primeiro plano; e mesmo que ele pudesse formar um tal desígnio contra uma jovem das relações da Lydia, o que não é provável, posso supô-la tão perdida para tudo? Impossível! Lamento descobrir, contudo, que o Coronel F. não está disposto a confiar no casamento deles: abanou a cabeça quando eu expressei as minhas esperanças, e disse que temia que W. não fosse homem de confiança. A minha pobre mãe está realmente doente, e mantém-se no quarto. Se ela pudesse mexer-se, seria melhor, mas não é de esperar; e quanto ao meu pai, nunca em minha vida o vi tão afetado. A pobre Kitty tem raiva por lhes ter escondido o namoro; mas, sendo uma questão de confiança, não se pode estranhar. Estou verdadeiramente contente, minha querida Lizzy, por te teres livrado de algumas destas cenas angustiantes; mas agora, passado o primeiro choque, hei de confessar que anseio pelo teu regresso? Não sou, porém, tão egoísta que insista, se for inconveniente. Adeus! Pego na pena outra vez para fazer o que acabei de te dizer que não faria; mas as circunstâncias são tais que não posso deixar de vos pedir encarecidamente, a todos, que venhais aqui o mais depressa possível. Conheço tão bem o meu querido tio e tia que não tenho medo de lho pedir, embora ainda tenha algo mais a pedir ao primeiro. O meu pai vai para Londres com o Coronel Forster imediatamente, para tentar descobri-la. O que ele pretende fazer, sei lá; mas a sua excessiva angústia não lhe permitirá seguir qualquer medida da melhor e mais segura maneira, e o Coronel Forster é obrigado a estar em Brighton outra vez amanhã à noite. Numa tal emergência, o conselho e a ajuda do meu tio seriam tudo neste mundo; ele compreenderá imediatamente o que eu sinto, e confio na sua bondade."

— Oh! onde, onde está o meu tio? — gritou Elizabeth, saltando do assento ao terminar a carta, na ansiedade de o seguir, sem perder um instante do tempo tão precioso; mas, ao chegar à porta, foi aberta por um criado, e apareceu o Sr. Darcy. A sua cara pálida e o seu modo impetuoso fizeram-no estremecer, e, antes que pudesse recompor-se para falar, ela, em cujo espírito toda a ideia era suplantada pela situação de Lydia, exclamou apressadamente: — Perdoai-me, mas tenho de vos deixar. Tenho de encontrar o Sr. Gardiner neste momento, por um assunto que não pode ser adiado; não tenho um instante a perder.

— Meu Deus! o que se passa? — gritou ele, com mais sentimento do que polidez; depois, lembrando-se: — Não vos deterei nem um minuto; mas deixai-me, ou deixai o criado, ir atrás do Sr. e da Sra. Gardiner. Não estais suficientemente bem; não podeis ir vós mesma.

Elizabeth hesitou; mas os joelhos tremiam-lhe, e sentia quão pouco se ganharia com a sua tentativa de os seguir. Chamando de volta o criado, comissionou-o, embora num tom tão sem fôlego que a tornava quase ininteligível, que fosse buscar imediatamente o seu senhor e a sua senhora.

Ao ele sair do quarto, sentou-se, incapaz de se suster, e parecendo tão miseravelmente doente, que era impossível a Darcy deixá-la, ou abster-se de dizer, num tom de gentileza e comiseração: — Deixai-me chamar a vossa criada. Não haveria nada que pudésseis tomar para vos dar um alívio imediato? Um cálice de vinho; quer que vos vá buscar um? Estais muito doente.

— Não, obrigado — respondeu ela, tentando recompor-se. — Não tenho nada. Estou bem, estou apenas angustiada com umas notícias terríveis que acabei de receber de Longbourn.

Desatou a chorar ao aludir a isso, e durante alguns minutos não conseguiu pronunciar mais nenhuma palavra. Darcy, em angústia cruel, só pôde murmurar algo indistintamente sobre a sua preocupação, e observá-la em silêncio compassivo. Por fim, ela tornou a falar. — Acabei de receber uma carta de Jane, com umas notícias terríveis. Não pode ser ocultada a ninguém. A minha irmã mais nova abandonou todos os seus amigos — fugiu; atirou-se ao poder de... do Sr. Wickham. Partiram juntos de Brighton. Vós o conheceis bem de mais para duvidardes do resto. Ela não tem dinheiro, nem relações, nada que o possa tentar a... ela está perdida para sempre.

Darcy ficou imóvel de espanto.

— Quando penso — acrescentou ela, com voz ainda mais agitada — que eu poderia ter prevenido isto! Eu, que sabia o que ele era. Tivesse eu apenas explicado alguma parte, apenas alguma parte do que aprendi, à minha família! Se o carácter dele fosse conhecido, isto não teria acontecido. Mas agora é tudo, tudo tarde demais.

— Lamento, na verdade — exclamou Darcy —; lamento... chocado. Mas é certo, absolutamente certo?

— Oh, sim! Saíram de Brighton juntos no domingo à noite, e foram seguidos quase até Londres, mas não mais: certamente não foram para a Escócia.

— E o que foi feito, o que se tentou, para a recuperar?

— O meu pai foi para Londres, e Jane escreveu a pedir o auxílio imediato do meu tio, e partiremos, espero, dentro de meia hora. Mas nada pode ser feito; sei muito bem que nada pode ser feito. Como se há de trabalhar com um tal homem? Como sequer descobri-los? Não tenho a mais pequena esperança. É horrível de todas as maneiras!

Darcy abanou a cabeça em silencioso assentimento.

— Quando os meus olhos se abriram para o verdadeiro carácter dele, oh! tivesse eu sabido o que devia, o que ousava fazer! Mas não sabia — tinha medo de fazer demais. Errado, errado erro!

Darcy não respondeu. Parecia quase não a ouvir, e andava de um lado para o outro no quarto em profunda meditação; o sobrolho franzido, o ar sombrio. Elizabeth logo observou, e imediatamente compreendeu. O seu poder estava a desvanecer-se; tudo devia sucumbir sob uma tal prova de fraqueza familiar, uma tal garantia da mais profunda desonra. Não podia nem admirar-se nem condenar; mas a crença na sua vitória sobre si mesmo nada de consolador trazia ao seu peito, não oferecia nenhuma atenuação à sua angústia. Era, pelo contrário, exatamente o que podia levá-la a compreender os seus próprios desejos; e nunca ela sentiu tão honestamente que poderia tê-lo amado, como agora, quando todo o amor devia ser vão.

Mas o eu-próprio, embora quisesse intrometer-se, não a podia absorver. Lydia — a humilhação, a miséria que ela estava a trazer sobre todos eles — logo engoliu todo o cuidado privado; e, cobrindo o rosto com o lenço, Elizabeth cedo se perdeu de tudo o mais; e, após uma pausa de vários minutos, só foi chamada à sua situação pela voz do companheiro, que, num tom que, embora falasse de compaixão, falava também de contenção, disse:

— Receio que há muito desejeis a minha ausência, nem tenho nada com que me desculpar de ficar, senão uma preocupação real, embora inútil. Pudesse o Céu que algo pudesse ser dito ou feito da minha parte que vos oferecesse consolação a tal aflição! Mas não vos atormentarei com votos vãos, que podem parecer pedir de propósito os vossos agradecimentos. Este lamentável assunto impedirá, receio, que a minha irmã tenha o prazer de vos ver hoje em Pemberley.

— Oh, sim! Tende a bondade de nos desculpar junto da Srta. Darcy. Dizei que assuntos urgentes nos chamam a casa já. Ocultai a triste verdade enquanto for possível. Sei que não pode ser por muito tempo.

Ele prontamente a assegurou do seu sigilo, expressou de novo o seu pesar pela sua aflição, desejou-lhe um desfecho mais feliz do que havia presentemente razão para esperar, e, deixando cumprimentos para os seus parentes, com apenas um último olhar sério, foi-se embora.

Ao sair do quarto, Elizabeth sentiu quão improvável era que alguma vez se voltassem a ver em termos de cordialidade como os que tinham marcado os seus vários encontros em Derbyshire; e, ao lançar um olhar retrospetivo sobre toda a sua convivência, tão cheia de contradições e variedades, suspirou pela perversidade daqueles sentimentos que agora teriam promovido a sua continuação, e que outrora se teriam alegrado com o seu termo.

Se a gratidão e a estima são bons fundamentos de afeto, a mudança de sentimento de Elizabeth não será nem improvável nem culposa. Mas, caso contrário, se a estima nascida de tais fontes é irracional ou antinatural, em comparação com o que tantas vezes se descreve como surgindo num primeiro encontro com o seu objeto, e mesmo antes de duas palavras terem sido trocadas, nada se pode dizer em sua defesa, exceto que ela tinha experimentado um tanto o último método, na sua parcialidade por Wickham, e que o seu mau êxito talvez a autorizasse a procurar o outro modo menos interessante de apego. Seja como for, viu-o partir com pena; e, neste primeiro exemplo do que a infâmia de Lydia devia produzir, encontrou angústia adicional ao refletir naquele miserável assunto. Nunca, desde que leu a segunda carta de Jane, acalentara uma esperança de que Wickham tencionasse casar com ela. Ninguém, senão Jane, pensou ela, podia lisonjear-se com tal expectativa. A surpresa era o menor de todos os seus sentimentos neste desfecho. Enquanto o conteúdo da primeira carta lhe ocupava o espírito, era toda surpresa, todo espanto, de que Wickham fosse casar com uma rapariga que era impossível que ele casasse por dinheiro; e como Lydia alguma vez o pudesse ter cativado parecia incompreensível. Mas agora era tudo demasiado natural. Para um tal apego, ela poderia ter encantos suficientes; e, embora não supusesse que Lydia se tivesse deliberadamente entregado a uma fuga, sem a intenção de casamento, não tinha dificuldade em crer que nem a sua virtude nem o seu entendimento a preservariam de cair uma presa fácil.

Nunca percebera, enquanto o regimento estivera em Hertfordshire, que Lydia tivesse qualquer parcialidade por ele; mas estava convencida de que Lydia só precisara de encorajamento para se prender a qualquer um. À vezes um oficial, às vezes outro, fora o seu favorito, conforme as atenções deles o elevavam na sua opinião. As suas afeições tinham flutuado sem cessar, mas nunca sem objeto. O mal do descuido e da indulgência errada para com uma tal rapariga — oh! como o sentia agora agudamente!

Estava louca por estar em casa — para ouvir, ver, estar lá presente para partilhar com Jane os cuidados que agora deviam recair inteiramente sobre ela, numa família tão transtornada; um pai ausente, uma mãe incapaz de se mexer, e que exigia constante assistência; e, embora quase persuadida de que nada podia ser feito por Lydia, a interferência do tio parecia da maior importância, e até ele entrar no quarto a miséria da sua impaciência era severa. O Sr. e a Sra. Gardiner tinham voltado apressadamente, alarmados, supondo, pela conta do criado, que a sobrinha adoecera de repente; mas, tranquilizando-os nesse ponto, ela comunicou-lhes ansiosamente a causa da sua convocação, lendo em voz alta as duas cartas, e demorando-se no postscripto da última com energia trémula. Embora Lydia nunca tivesse sido uma favorita deles, o Sr. e a Sra. Gardiner não podiam deixar de ficar profundamente afetados. Não Lydia só, mas todos estavam envolvidos; e, após as primeiras exclamações de surpresa e horror, o Sr. Gardiner prometeu prontamente toda a ajuda ao seu alcance. Elizabeth, embora nada menos esperasse, agradeceu-lhe com lágrimas de gratidão; e, todos três animados por um mesmo espírito, tudo o que dizia respeito à viagem foi rapidamente resolvido. Partiriam o mais depressa possível. — Mas o que se há de fazer quanto a Pemberley? — gritou a Sra. Gardiner. — O John disse-nos que o Sr. Darcy estava aqui quando mandastes chamar-nos; era assim?

— Sim; e disse-lhe que não poderíamos manter o nosso compromisso. Está tudo resolvido.

— O que é que está tudo resolvido? — repetiu a outra, correndo para o quarto para se aprontar. — E estarão eles em termos tais que ela lhe possa revelar a verdade? Oh, quem me dera saber como é!

Mas os desejos eram vãos; ou, na melhor das hipóteses, só podiam servir para a distrair na pressa e confusão da hora seguinte. Se Elizabeth tivesse vagar para estar ociosa, teria permanecido certa de que todo o trabalho era impossível para alguém tão miserável como ela; mas tinha a sua parte de afazeres como a tia, e, entre outros, havia bilhetes a escrever a todos os amigos em Lambton, com desculpas falsas pela partida repentina. Uma hora, porém, viu tudo concluído; e o Sr. Gardiner, tendo entretanto saldado a conta na estalagem, nada restava senão ir; e Elizabeth, depois de toda a miséria da manhã, encontrou-se, em menos tempo do que poderia supor, sentada na carruagem, e a caminho de Longbourn.

CAPÍTULO XLVII.

— Tenho andado a pensar nisto outra vez, Elizabeth — disse o tio, ao saírem da vila —; e, na verdade, após séria reflexão, estou muito mais inclinado do que estava a julgar como a tua irmã mais velha. Parece-me tão pouco provável que um jovem forme um tal desígnio contra uma rapariga que de modo algum está desprotegida ou sem amigos, e que estava efetivamente na família do seu Coronel, que estou fortemente inclinado a esperar o melhor. Poderia ele esperar que os amigos dela não dessem um passo em frente? Poderia esperar ser notado outra vez pelo regimento, depois de uma tal afronta ao Coronel Forster? A tentação não é adequada ao risco.

— Pensais mesmo assim? — gritou Elizabeth, iluminando-se por um momento.

— Pela minha palavra — disse a Sra. Gardiner —, começo a ser da opinião do teu tio. É realmente uma violação demasiado grande da decência, da honra, e do interesse, para que ele seja culpado. Não posso pensar tão mal de Wickham. Poderás tu, Lizzie, desistir dele de todo, a ponto de o acreditares capaz disso?

— Talvez não de descurar o seu próprio interesse. Mas de qualquer outro descuido posso crê-lo capaz. Se, de facto, assim for! Mas não ouso esperá-lo. Por que não haveriam de seguir para a Escócia, se fosse esse o caso?

— Em primeiro lugar — respondeu o Sr. Gardiner —, não há prova absoluta de que não tenham ido para a Escócia.

— Oh, mas mudarem-se da chaise para uma carruagem de aluguer é uma tal presunção! E, além disso, não se encontraram vestígios deles na estrada de Barnet.

— Bem, então — supondo que estão em Londres — podem lá estar, ainda que para fins de ocultação, para nenhum outro fim mais condenável. Não é provável que o dinheiro seja muito abundante de nenhum dos lados; e poderia ocorrer-lhes que poderiam casar mais economicamente, embora menos expeditamente, em Londres, do que na Escócia.

— Mas porquê todo este segredo? Porquê qualquer medo de descoberta? Por que há de o casamento deles ser privado? Oh, não, não — não é provável. O amigo mais particular dele, vedes pela conta de Jane, estava persuadido de que ele nunca tencionara casar com ela. Wickham nunca casará com uma mulher sem algum dinheiro. Não o pode permitir. E que direitos tem Lydia, que atrativos tem ela para além da juventude, da saúde e do bom humor, que o pudessem levar a sacrificar, por amor a ela, toda a possibilidade de beneficiar-se casando bem? Quanto à restrição que os receios de desonra no corpo poderiam lançar sobre uma fuga desonrosa com ela, não me é possível julgar; porque não sei nada dos efeitos que tal passo poderia produzir. Mas quanto à tua outra objeção, receio que mal se aguente. Lydia não tem irmãos que dêem um passo em frente; e ele poderia imaginar, pelo comportamento do meu pai, pela sua indolência e a pouca atenção que sempre pareceu dar ao que se passava na sua família, que faria tão pouco e pensaria tão pouco nisso como qualquer pai poderia fazer, num assunto destes.

— Mas podeis pensar que Lydia esteja tão perdida para tudo, exceto o amor por ele, que consinta em viver com ele em quaisquer outros termos que não o casamento?

— Parece, de facto, e é muito chocante — respondeu Elizabeth, com lágrimas nos olhos —, que o senso de decência e virtude de uma irmã num tal ponto possa ser posto em dúvida. Mas, na verdade, não sei o que dizer. Talvez não lhe esteja a fazer justiça. Mas ela é muito nova: nunca foi ensinada a pensar em assuntos sérios; e, durante o último meio ano, aliás, durante um ano inteiro, tem-se entregado a nada além de divertimento e vaidade. Tem-lhe deixado dispor do seu tempo da maneira mais ociosa e frívola, e adotar quaisquer opiniões que lhe aparecessem. Desde que os de ----shire se aquartelaram pela primeira vez em Meryton, nada além de amor, flirt e oficiais lhe ocuparam a cabeça. Ela tem feito tudo o que estava ao seu alcance, pensando e falando no assunto, para dar maior — como lhe chamarei? — suscetibilidade aos seus sentimentos; que são naturalmente bastante vivos. E todos nós sabemos que Wickham tem todo o encanto de pessoa e maneiras que pode cativar uma mulher.

— Mas vedes que a Jane — disse a tia — não pensa tão mal de Wickham que acredite ser ele capaz da tentativa.

— De quem é que Jane alguma vez pensa mal? E quem é que, fosse qual fosse a conduta anterior dela, ela acreditaria capaz de tal tentativa, até que fosse provado contra eles? Mas a Jane sabe, tão bem como eu, o que Wickham realmente é. Ambas sabemos que ele tem sido devasso em todo o sentido da palavra; que ele não tem integridade nem honra; que é tão falso e enganador como insinuante.

— E sabeis mesmo tudo isto? — gritou a Sra. Gardiner, cuja curiosidade sobre o modo da sua informação estava toda desperta.

— Sei, de facto — respondeu Elizabeth, corando. — Disse-te no outro dia do seu comportamento infame para com o Sr. Darcy; e tu, quando estiveste em Longbourn pela última vez, ouviste de que modo ele falou do homem que se tinha portado com tanta tolerância e liberalidade para com ele. E há outras circunstâncias que não estou autorizada a... que não vale a pena relatar; mas as mentiras dele sobre toda a família de Pemberley são infinitas. Pelo que ele disse da Srta. Darcy, eu estava perfeitamente preparada para ver uma rapariga orgulhosa, reservada, desagradável. Contudo, ele próprio sabia o contrário. Deve saber que ela era tão amável e sem pretensões como a encontrámos.

"— Mas Lydia não sabe nada disto? Pode ela ignorar o que tu e Jane pareceis tão bem entender?"

"Oh, sim! — isso, isso é o pior de tudo. Até eu ter estado em Kent, e visto tanta coisa tanto do Sr. Darcy como do seu parente, o Coronel Fitzwilliam, eu própria ignorava a verdade. E quando voltei para casa, o regimento de -----shire devia partir de Meryton dentro de uma semana ou quinzena. Como assim era, nem a Jane, a quem relatei tudo, nem eu, achámos necessário tornar público o nosso conhecimento; pois de que utilidade poderia aparentemente ser para alguém que a boa opinião que toda a vizinhança tinha dele fosse então derrubada? E mesmo quando ficou resolvido que Lydia iria com a Sra. Forster, a necessidade de lhe abrir os eyes para o caráter dele nunca me ocorreu. Que ela pudesse correr algum perigo com este engano nunca me passou pela cabeça. Que uma tal consequência como esta viesse a acontecer, podem fácilmente acreditar que estava bem longe dos meus pensamentos."

"Quando todos eles se mudaram para Brighton, portanto, não tinhas razão, suponho, para acreditar que estavam enamorados um do outro?"

"Nenhuma. Não me lembro de nenhum sintoma de afeição de parte a parte; e se algo do género fosse perceptível, deveis estar cientes de que a nossa não é uma família em que isso pudesse ser desperdiçado. Quando ele entrou pela primeira vez no regimento, ela estava prontinha para o admirar; mas nós todas estávamos. Todas as raparigas em Meryton ou perto de Meryton estavam fora de si por causa dele nos primeiros dois meses: mas ele nunca a distinguiu com nenhuma atenção particular; e, por conseguinte, depois de um período moderado de admiração extravagante e desvairada, o capricho dela por ele desfez-se, e outros do regimento, que a tratavam com mais distinção, voltaram a ser os seus favoritos."

Pode fácilmente acreditar-se que, por mais pouca novidade que pudesse ser acrescentada aos seus medos, esperanças e conjeturas sobre este interessante assunto pela sua discussão repetida, nenhum outro os pudesse demorar dele por muito tempo, durante toda a viagem. Dos pensamentos de Elizabeth nunca esteve ausente. Ali fixado pela mais aguda de todas as angústias, o remorso, não conseguia encontrar nenhum intervalo de alívio ou esquecimento.

Viajaram com a maior brevidade possível; e, dormindo uma noite no caminho, chegaram a Longbourn à hora de jantar no dia seguinte. Foi um conforto para Elizabeth considerar que Jane não poderia ter ficado cansada de longas esperas.

Os pequenos Gardiner, atraídos pela vista de uma carruagem, estavam de pé nos degraus da casa, enquanto eles entravam no cercado; e quando a carruagem se aproximou da porta, a surpresa alegre que lhes iluminou os rostos e se manifestou por todo o corpo, numa variedade de cabriolas e saltinhos, foi o primeiro penhor agradável da sua boa-vinda.

Elizabeth saltou; e, depois de dar a cada um deles um beijo apressado, apressou-se para o vestíbulo, onde Jane, que descia a correr do quarto da mãe, imediatamente a encontrou.

Elizabeth, enquanto a abraçava afetuosamente, com lágrimas a encher os olhos de ambas, não perdou um instante a perguntar se se tinha sabido alguma coisa dos fugitivos.

"Ainda não", respondeu Jane. "Mas agora que o meu querido tio chegou, espero que tudo fique bem."

"O meu pai está em Londres?"

"Sim, partiu na terça-feira, como te escrevi a dizer."

"E tens tido notícias dele com frequência?"

"Só tivemos uma vez. Escreveu-me algumas linhas na quarta-feira, a dizer que tinha chegado em segurança, e a dar-me as suas instruções, que eu lhe pedi especialmente que me desse. Acrescentou apenas que não escreveria de novo até ter alguma coisa de importância a comunicar."

"E a minha mãe — como está ela? Como estais todas?"

"A minha mãe está razoavelmente bem, espero; embora os seus ânimos estejam muito abalados. Está no andar de cima, e terá grande satisfação em ver-vos a todos. Ainda não sai do seu quarto de vestir. Mary e Kitty, graças a Deus! estão bastante bem."

"Mas tu — como estás tu?" — exclamou Elizabeth. "Estás com ar pálido. Quanto deves ter sofrido!"

A irmã, todavia, assegurou-lhe que estava perfeitamente bem; e a conversa delas, que estivera a decorrer enquanto o Sr. e a Sra. Gardiner estavam ocupados com as crianças, foi agora interrompida pela chegada de todo o grupo. Jane correu para o tio e a tia, e deu-lhes as boas-vindas e agradeceu-lhes a ambos, com sorrisos e lágrimas alternados.

Quando estavam todos na sala de estar, as perguntas que Elizabeth já tinha feito foram, como era natural, repetidas pelos outros, e logo descobriram que Jane não tinha nenhuma informação a dar. A esperança confiante do bem, todavia, que a benevolência do seu coração sugeria, ainda não a tinha desamparado; ainda esperava que tudo acabasse bem, e que cada manhã trouxesse alguma carta, fosse de Lydia fosse do pai, a explicar os seus passos e, talvez, anunciar o casamento.

A Sra. Bennet, ao cujas aposentos todos se dirigiram depois de alguns minutos de conversa em conjunto, recebeu-os exactamente como seria de esperar; com lágrimas e lamentações de pesar, invejos contra a conduta vilã de Wickham, e queixas dos seus próprios sofrimentos e maus-tratos; censurando todos menos a pessoa cuja indulgência mal avisada os erros da filha deviam ser principalmente devidos.

"Se eu tivesse conseguido", disse ela, "levar a minha a bem indo a Brighton com toda a minha família, isto não teria acontecido: mas a pobre querida Lydia não tinha ninguém a tomar conta dela. Por que motivo deixaram os Forster alguma vez que ela lhes saísse da vista? Tenho a certeza de que houve alguma grande negligência ou outra da parte deles, pois ela não é o tipo de rapariga para fazer tal coisa, se tivesse sido bem vigiada. Sempre pensei que eram muito impróprios para ter a seu cargo; mas fui ultrapassada, como sou sempre. Pobre, querida criança! E agora aqui está o Sr. Bennet que partiu, e sei que vai lutar com Wickham, onde quer que o encontre, e depois será morto, e o que será de nós todos? Os Collins pôr-nos-ão na rua, antes de ele estar frio na sepultura; e se não fordes bondosos connosco, irmão, não sei o que havemos de fazer."

Todos eles exclamaram contra tais ideias terríficas; e o Sr. Gardiner, depois de garantias gerais da sua afeição por ela e toda a sua família, disse-lhe que tencionava estar em Londres no dia seguinte, e auxiliaria o Sr. Bennet em todos os esforços para recuperar Lydia.

"Não vos deixeis levar por alarmes inúteis", acrescentou ele: "embora seja certo estar preparado para o pior, não há motivo para o encarar como certo. Não faz ainda uma semana que partiram de Brighton. Em poucos dias mais, poderemos obter algumas notícias deles; e até sabermos que não estão casados, e que não têm tenção de casar, não consideremos o assunto como perdido. Assim que chegar a Londres, irei ter com o meu irmão, e fá-lo-ei vir comigo para a Gracechurch Street, e então poderemos consultar juntos sobre o que há a fazer."

"Oh, meu querido irmão", respondeu a Sra. Bennet, "é exactamente o que eu mais podia desejar. E agora faze isto, quando chegares a Londres, descobre-os, onde quer que estejam; e se ainda não estiverem casados, faze-os casar. E quanto a vestidos de noiva, não os deixes esperar por isso, mas diz à Lydia que terá todo o dinheiro que ela quiser para os comprar, depois de casados. E, acima de tudo, impede o Sr. Bennet de lutar. Diz-lhe em que estado terrível eu estou — que estou assustada a perder o juízo; e tenho tais tremores, tais palpitações por todo o corpo, tais espasmos no lado, e dores na cabeça, e tais batimentos no coração, que não consigo descansar de noite nem de dia. E diz à minha querida Lydia que não dê instruções sobre os seus vestidos até me ter visto, pois ela não sabe quais são as melhores lojas. Oh, irmão, como sois bom! Sei que arranjarás tudo."

Mas o Sr. Gardiner, embora lhe assegurasse de novo os seus esforços sinceros na causa, não pôde deixar de lhe recomendar moderação, tanto nas esperanças como nos medos; e depois de conversar com ela desta maneira até o jantar estar na mesa, deixaram-na para dar vazão a todos os seus sentimentos com a governanta, que assistia na ausência das filhas.

Embora o irmão e a cunhada estivessem persuadidos de que não havia necessidade real de tal reclusão do resto da família, não tentaram opor-se; pois sabiam que ela não tinha prudência suficiente para se calar diante dos criados, enquanto serviam à mesa, e julgaram ser melhor que apenas um do agregado doméstico, e aquele em quem mais podiam confiar, compreendesse todos os seus receios e solicitude sobre o assunto.

Na sala de jantar, foram logo acompanhados por Mary e Kitty, que tinham estado demasiado ocupadas nos seus respetivos aposentos para se apresentarem antes. Uma vinha dos seus livros, e a outra da sua toilette. Os rostos de ambas, todavia, estavam razoavelmente calmos; e nenhuma alteração era visível em nenhuma, excepto que a perda da sua irmã favorita, ou a irritação que ela própria havia incorrido no assunto, tinha dado algo mais de mau humor que o habitual aos tons de Kitty. Quanto a Mary, era dona de si suficiente para cochichar a Elizabeth, com um rosto de reflexão grave, logo depois de se sentarem à mesa:—

"Este é um caso muito lamentável, e provavelmente dará muito que falar. Mas temos de suster a maré da malícia, e deitar nos peitos feridos umas das outras o bálsamo da consolação fraternal."

Então, vendo em Elizabeth nenhuma inclinação para responder, acrescentou: "Por mais infeliz que o acontecimento deva ser para Lydia, podemos dele tirar esta lição útil: — que a perda da virtude numa mulher é irrecuperável, que um passo em falso a envolve em ruína sem fim, que a sua reputação não é menos frágil do que bela, e que ela não pode ser demasiado guardada no seu comportamento para com os indignos do outro sexo."

Elizabeth ergueu os olhos com assombro, mas estava demasiado oprimida para dar qualquer resposta. Mary, todavia, continuou a consolar-se com tal género de extrações morais do mal diante delas.

À tarde, as duas Miss Bennets mais velhas puderam estar meia hora sozinhas; e Elizabeth aproveitou imediatamente a oportunidade de fazer perguntas que Jane estava igualmente desejosa de satisfazer. Depois de se juntarem em lamentações gerais sobre a terrível sequência deste acontecimento, que Elizabeth considerava quase certa, e que Miss Bennet não podia afirmar ser de todo impossível, a primeira continuou o assunto dizendo: "Mas conta-me tudo e tudo a esse respeito que eu ainda não tenha ouvido. Dá-me mais particularidades. Que disse o Coronel Forster? Não tinham nenhum pressentimento de nada antes da fuga? Tê-los-iam visto juntos para sempre."

"O Coronel Forster confessou que muitas vezes tinha suspeitado de alguma parcialidade, especialmente da parte de Lydia, mas nada que lhe causasse alarme. Estou tão triste por ele. O seu comportamento foi atento e bondoso ao máximo. Vinha ter connosco, para nos assegurar da sua preocupação, antes de ter qualquer ideia de que eles não tinham ido para a Escócia: quando esse pressentimento primeiro se espalhou, apressou-lhe a viagem."

"E o Denny estava convencido de que Wickham não casaria? Sabia da tenção deles de fugirem? O Coronel Forster viu o Denny pessoalmente?"

"Sim; mas, quando interrogado por ele, Denny negou saber de qualquer coisa do plano deles, e não quis dar a sua verdadeira opinião sobre isso. Ele não repetiu a sua persuasão de que eles não casariam, e por isso inclino-me a esperar que ele pudesse ter sido mal entendido antes."

"E até o Coronel Forster vir pessoalmente, nenhum de vós, suponho, alimentou uma dúvida de que estivessem realmente casados?"

"Como era possível que tal ideia nos entrasse na cabeça? Eu sentia-me um pouco inquieta — um pouco receosa da felicidade da minha irmã com ele em casamento, porque sabia que a conduta dele nem sempre fora inteiramente correcta. O meu pai e a minha mãe não sabiam disso; só sentiam quão imprudente o casamento devia ser. A Kitty então confessou, com um triunfo muito natural por saber mais do que o resto de nós, que na última carta de Lydia ela a tinha preparado para tal passo. Ela soubera, ao que parece, do amor deles um pelo outro havia muitas semanas."

"Mas não antes de eles irem para Brighton?"

"Não, creio que não."

"E o Coronel Forster pareceu pensar mal do próprio Wickham? Conhece o seu verdadeiro caráter?"

"Devo confessar que ele não falou tão bem de Wickham como anteriormente. Acreditava-o imprudente e extravagante; e, depois deste triste caso ter acontecido, diz-se que ele deixou Meryton muito endividado: mas espero que isto seja falso."

"Oh, Jane, se tivéssemos sido menos secretos, se tivéssemos dito o que sabíamos dele, isto não teria acontecido!"

"Talvez tivesse sido melhor", respondeu a irmã.

"Mas expor as faltas passadas de qualquer pessoa, sem saber quais eram os seus sentimentos presentes, parecia injustificável."

"Agimos com as melhores intenções."

"Pode o Coronel Forster repetir as particularidades do bilhete de Lydia à esposa dele?"

"Trouxe-o connosco para o vermos."

Jane então tirou-o do seu livro de memórias, e deu-o a Elizabeth. Era este o conteúdo:—

/* NIND "Minha querida Harriet,

"Hás de rir quando souberes para onde fui, e não posso deixar de rir eu mesma da tua surpresa amanhã de manhã, assim que sentirem a minha falta. Vou para Gretna Green, e se não adivinhares com quem, hei-de pensar-te tola, pois há só um homem no mundo que amo, e ele é um anjo. Nunca seria feliz sem ele, por isso não aches mal que eu fuja. Não precisas de lhes mandar dizer em Longbourn que eu fui, se não quiseres, pois fará a surpresa ser maior quando eu lhes escrever e assinar o meu nome Lydia Wickham. Que boa graça que há-de ser! Mal posso escrever de tanto rir. Roga as minhas desculpas a Pratt por não cumprir o meu compromisso, e dançar com ele esta noite. Diz-lhe que espero que me desculpe quando souber de tudo, e diz-lhe que dançarei com ele no próximo baile em que nos encontrarmos com muito prazer. Mandarei buscar os meus vestidos quando chegar a Longbourn; mas queria que dissesses à Sally para consertar uma grande rasgão no meu vestido de musselina bordada antes de os embalarem. Adeus. Apresenta os meus respeitos ao Coronel Forster. Espero que bebas à nossa boa viagem.

"A tua amiga afectuosa,

"LYDIA BENNET."

"Oh, leviana, leviana Lydia!" — exclamou Elizabeth quando terminou. "Que carta é esta, para ser escrita num tal momento! Mas ao menos mostra que ela ia a sério no objectivo da sua viagem. Seja o que for que ele a pudesse depois persuadir, não era da parte dela um esquema de infâmia. Meu pobre pai! como ele deve ter sentido isto!"

"Nunca vi ninguém tão chocado. Não conseguia articular uma palavra durante dez minutos inteiros. A minha mãe passou mal imediatamente, e a casa toda numa tal confusão!"

"Oh, Jane" — exclamou Elizabeth — "haveria algum criado em casa que não soubesse a história toda antes do fim do dia?"

"Não sei: espero que sim. Mas estar de guarda a uma hora destas é muito difícil. A minha mãe estava com ataques de histeria; e, embora me tivesse esforçado por lhe dar todo o auxílio ao meu alcance, temo que não fiz tanto quanto poderia ter feito. Mas o horror do que possivelmente podia acontecer quase me tirou as faculdades."

"Os teus cuidados com ela têm sido de mais para ti. Não tens bom ar. Oh, se eu tivesse estado contigo! Tiveste todo o cuidado e ansiedade sozinha."

"Mary e Kitty têm sido muito boas, e teriam partilhado de toda a fatiga, tenho a certeza, mas não achei correcto para nenhuma delas. A Kitty é franzina e delicada, e a Mary estuda tanto que as suas horas de repouso não deviam ser interrompidas. A minha tia Philips veio a Longbourn na terça-feira, depois do meu pai ter partido; e foi tão boa que ficou até quinta-feira comigo. Foi de grande utilidade e conforto para nós todas, e Lady Lucas tem sido muito boa: veio aqui a pé na quarta-feira de manhã para nos condoer, e ofereceu os seus serviços, ou os de alguma das filhas, se nos pudessem ser úteis."

"Melhor teria ficado em casa" — exclamou Elizabeth: "talvez tivesse boas intenções, mas, debaixo de uma desgraça como esta, não se pode ver pouco dos nossos vizinhos. O auxílio é impossível; o condoimento, insuportável. Deixem-nos triunfar de nós à distância, e fiquem satisfeitos."

Depois passou a indagar sobre as medidas que o pai tencionara tomar, em Londres, para recuperar a filha.

"Tencionava, creio eu" — respondeu Jane — "ir a Epsom, o lugar onde mudaram pela última vez de cavalos, ver os postilhões, e tentar se se podia tirar alguma coisa deles. O seu principal objectivo devia ser descobrir o número da carruagem de aluguer que os levou de Clapham. Viera com um passageiro de Londres; e, como ele pensava que a circunstância de um cavalheiro e uma senhora mudarem de uma carruagem para outra podia ter sido notada, tencionava fazer perguntas em Clapham. Se conseguisse de alguma forma descobrir em que casa o cocheiro tinha antes deixado o seu passageiro, estava determinado a fazer perguntas ali, e esperava que não fosse impossível descobrir a estação e o número da carruagem. Não sei de quaisquer outros desígnios que ele tivesse formado; mas ele tinha tanta pressa de partir, e os seus ânimos tão perturbados, que tive dificuldade em saber sequer isto."

CAPÍTULO XLVIII.

Toda a gente esperava uma carta do Sr. Bennet na manhã seguinte, mas o correio chegou sem trazer uma única linha dele. A sua família sabia-o, em todas as ocasiões vulgares, um correspondente muito negligente e dilatório; mas numa altura assim tinham esperado algum esforço. Foram forçados a concluir que ele não tinha nenhuma informação agradável a enviar; mas mesmo disso teriam gostado de ter a certeza. O Sr. Gardiner apenas tinha esperado pelas cartas antes de partir.

Depois de ele ir, tinham ao menos a certeza de receber informações constantes do que se passava; e o tio prometeu, na despedida, persuadir o Sr. Bennet a voltar para Longbourn assim que pudesse, para grande consolo da irmã, que o considerava a única segurança de que o marido não seria morto num duelo.

A Sra. Gardiner e as crianças deveriam permanecer em Hertfordshire mais alguns dias, pois a primeira pensava que a sua presença podia ser útil às sobrinhas. Participava nos seus cuidados à Sra. Bennet, e era um grande conforto para elas nas suas horas de liberdade. A outra tia também as visitava frequentemente, e sempre, como dizia, com o desígnio de as animar e encorajar — embora, como nunca vinha sem relatar alguma nova instância da extravagância ou irregularidade de Wickham, raramente saía sem as deixar mais desanimadas do que as encontrara.

Fim da secção anterior.

Toda Meryton parecia competir em denegrir o homem que, três meses antes, fora quase um anjo de luz. Dizia-se que ele devia dinheiro a todos os comerciantes da vila, e que as suas intrigas, todas honradas com o título de sedução, se tinham estendido a todas as famílias dos comerciantes. Toda a gente declarava que era o mais perverso dos jovens; e todos começavam a descobrir que sempre tinham desconfiado da aparência da sua bondade. Elizabeth, embora não acreditasse nem metade do que se dizia, acreditou o bastante para tornar ainda mais certa a sua antiga convicção da ruína da irmã; e até Jane, que acreditava ainda menos, tornou-se quase desesperada, sobretudo porque chegara o tempo em que, se tivessem ido para a Escócia — coisa que ela nunca chegara de todo a perder a esperança de — deveriam muito provavelmente ter obtido algumas notícias deles.

O Sr. Gardiner deixou Longbourn ao domingo; na terça-feira, a mulher recebeu uma carta dele: dizia-lhes que, ao chegar, encontrara imediatamente o irmão e o persuadira a ir para Gracechurch Street. Que o Sr. Bennet estivera em Epsom e Clapham antes da sua chegada, mas sem obter qualquer informação satisfatória; e que ele estava agora decidido a indagar em todos os principais hotéis da cidade, pois o Sr. Bennet julgava possível que tivessem ido para um deles, ao chegarem a Londres, antes de arranjarem alojamento. O próprio Sr. Gardiner não esperava êxito desta medida; mas, como o irmão era diligente nisso, tencionava ajudá-lo a prossegui-la. Acrescentava que o Sr. Bennet parecia de todo indisposto a deixar Londres naquele momento, e prometia escrever de novo muito em breve. Havia também um pós-escrito neste teor:--

"Escrevi ao Coronel Forster para lhe pedir que descubra, se possível, por alguns dos íntimos do rapaz no regimento, se Wickham tem parentes ou relações que possam saber em que parte da cidade ele agora se esconde. Se houvesse alguém a quem se pudesse recorrer, com probabilidade de obter tal pista, poderia ser de consequência essencial. De momento não temos nada que nos guie. O Coronel Forster fará, atrevo-me a dizer, tudo o que estiver ao seu alcance para nos satisfazer neste ponto. Mas, pensando melhor, talvez a Lizzy nos possa dizer que relações tem ele agora vivas melhor do que qualquer outra pessoa."

Elizabeth não custou a perceber donde procedia esta deferência pela sua autoridade; mas não estava em seu poder dar qualquer informação de natureza tão satisfatória como o elogio merecia.

Nunca ouvira dizer que ele tivesse quaisquer parentes, a não ser um pai e uma mãe, ambos mortos havia muitos anos. Era possível, contudo, que alguns dos seus companheiros no ----shire pudessem dar mais informações; e, embora não esperasse grande coisa disso, a diligência era ao menos algo para aguardar.

Cada dia em Longbourn era agora um dia de ansiedade; mas a parte mais ansiosa de cada um era quando se esperava o correio. A chegada das cartas era o primeiro grande objeto da impaciência de cada manhã. Através de cartas, tudo o que houvesse de bom ou de mau a contar seria comunicado; e cada dia que passava se esperava que trouxesse alguma notícia importante.

Mas antes de terem novas notícias do Sr. Gardiner, chegou uma carta para o pai, de outra procedência, do Sr. Collins; a qual, como Jane recebera instruções para abrir tudo o que viesse para ele na sua ausência, ela por conseguinte leu; e Elizabeth, que sabia quão curiosas eram sempre as cartas dele, leu por cima do ombro dela. Era como se segue:--

"Meu caro Senhor,

"Sinto-me obrigado, pela nossa parentesco, e pela minha posição na vida, a condoliar-me consigo pela pungente aflição que agora sofre, da qual fomos ontem informados por uma carta de Hertfordshire. Fique assegurado, meu caro senhor, de que a Sra. Collins e eu sinceramente simpatizamos consigo, e com toda a sua respeitável família, no seu presente infortúnio, que deve ser dos mais amargos, porque procede de uma causa que nenhum tempo pode remediar. Da minha parte não hão-de faltar argumentos, que possam aliviar tão grave desgraça; ou que o possam consolar, numa circunstância que deve ser, de todas, a mais dilacerante para o ânimo de um pai. A morte da sua filha teria sido uma bênção em comparação com isto. E é tanto mais de lamentar, porque há razão para supor, como a minha querida Charlotte me informa, que esta licenciosidade de conduta na sua

]

filha proveio de um grau faltoso de indulgência; embora, ao mesmo tempo, para consolação de si e da Sra. Bennet, eu seja inclinado a pensar que o seu natural deve ser de si mau, ou não poderia ser culpada de tamanha enormidade, em tão tenra idade. Seja como for, é grandemente de lastimar; opinião em que não só me acompanha a Sra. Collins, mas também Lady Catherine e sua filha, a quem relatei o caso. Concordam comigo em recear que este passo em falso numa filha será prejudicial à fortuna de todas as outras: pois quem, como a própria Lady Catherine condescende em dizer, se ligará a tal família? E esta consideração leva-me, além disso, a reflectir, com acrescido satisfação, num certo acontecimento do passado Novembro; pois de outro modo eu estaria envolvido em toda a sua mágoa e vergonha. Permita-me então aconselhá-lo, meu caro senhor, a consolar-se quanto possível, a afastar para sempre do seu afecto a sua indigna filha, e deixá-la colher os frutos do seu hediondo delito.

"Sou, caro senhor," etc., etc.

O Sr. Gardiner não tornou a escrever, até ter recebido resposta do Coronel Forster; e então não tinha nada de agradável a enviar. Não se sabia que Wickham tivesse um único parente com quem mantivesse qualquer ligação, e era certo que não tinha nenhum próximo vivo. As suas antigas relações tinham sido numerosas; mas, desde que ingressara na milícia, não parecia que estivesse em termos de particular amizade com nenhuma delas. Não havia, portanto, ninguém que pudesse ser indicado como capaz de dar notícias dele. E no miserável estado das suas próprias finanças havia um motivo muito poderoso para o segredo, além do seu receio de ser descoberto pelas relações de Lydia; pois acabara de se saber que ele deixara atrás de si dívidas de jogo em quantia muito considerável. O Coronel Forster acreditava que mais de mil libras seriam necessárias para liquidar as suas despesas em Brighton. Devia bastante na vila, mas as suas dívidas de honra eram ainda mais formidáveis. O Sr. Gardiner não tentou esconder estas particularidades à família de Longbourn; Jane ouviu-as com horror. "Um jogador!" — exclamou. "Isto é de todo inesperado; eu não fazia a mínima ideia."

O Sr. Gardiner acrescentava, na sua carta, que podiam esperar ver o pai em casa no dia seguinte, que era sábado. Abatido pelo mau êxito de todas as suas diligências, cedera às instâncias do cunhado para que regressasse à família e lhe deixasse fazer tudo o que a ocasião sugerisse como aconselhável para prosseguirem as buscas. Quando a Sra. Bennet soube disto, não manifestou tanta satisfação como os filhos esperavam, tendo em conta o que fora a sua ansiedade pela vida dele.

"Como! ele vem para casa, e sem a pobre Lydia?" — exclamou. "Claro que não deixará Londres antes de os ter encontrado. Quem há-de combater Wickham, e obrigá-lo a casar com ela, se ele vier embora?"

Como a Sra. Gardiner começava a desejar estar em casa, ficou resolvido que ela e os filhos partiriam para Londres ao mesmo tempo que o Sr. Bennet regressava dele. A carruagem levou-os, pois, à primeira etapa da sua jornada, e trouxe o seu dono de volta a Longbourn.

A Sra. Gardiner partiu com toda a perplexidade a respeito de Elizabeth e do amigo de Derbyshire, que a acompanhava desde essa parte do mundo. O nome dele nunca fora voluntariamente mencionado diante deles pela sobrinha; e a espécie de meia-expectativa que a Sra. Gardiner formara, de serem alcançados por uma carta dele, não dera em nada. Elizabeth não recebera nenhuma desde o seu regresso, que pudesse vir de Pemberley.

O presente estado de infelicidade da família tornava desnecessária qualquer outra desculpa para o abatimento do seu ânimo; nada, pois, se podia legitimamente conjeturar disso — embora Elizabeth, que já a essa altura conhecia bastante bem os seus próprios sentimentos, soubesse perfeitamente que, se nada soubesse de Darcy, poderia ter aguentado melhor o horror da infâmia de Lydia. Ter-lhe-ia poupado, pensava ela, uma noite de insónia em cada duas.

Quando o Sr. Bennet chegou, tinha toda a aparência do seu habitual sossego filosófico. Disse tão pouco como sempre fora seu costume dizer; não fez qualquer menção ao assunto que o levara a sair; e passou algum tempo antes que as filhas tivessem coragem para falar nisso.

Só à tarde, quando ele se lhes juntou ao chá, Elizabeth se atreveu a introduzir o assunto; e então, depois de exprimir brevemente o seu pesar pelo que ele devia ter sofrido, ele respondeu: "Não fales nisso. Quem há-de sofrer senão eu? Foi obra minha, e devo senti-lo."

"Não deve ser demasiado severo consigo mesmo" — replicou Elizabeth.

"Bem me pode prevenir contra semelhante mal. A natureza humana é tão propensa a cair nele! Não, Lizzy, deixa-me sentir uma vez na vida quanto tenho sido culpado. Não tenho medo de ser vencido pela impressão. Passará depressa."

"Supõe que estão em Londres?"

"Sim; onde mais podem estar tão bem escondidos?"

"E a Lydia costumava querer ir a Londres" — acrescentou Kitty.

"Então é feliz" — disse o pai, secamente; "e a sua residência lá será provavelmente de alguma duração."

Depois, após um breve silêncio, continuou: "Lizzy, não te tenho rancor por teres sido justificada no conselho que me deste em Maio passado, o qual, considerando o sucedido, mostra alguma grandeza de alma."

Foram interrompidos pela Srta. Bennet, que vinha buscar o chá da mãe.

"Isto é um aparato" — exclamou ele — "que faz bem; dá tanta elegância à desgraça! Noutro dia faço o mesmo; sento-me na minha biblioteca, com o meu toucado de noite e a minha robe de armar, e dou tanto trabalho quanto puder, — ou talvez o adie até a Kitty fugir."

"Não tenciono fugir, papá" — disse Kitty, queixosa. "Se alguma vez for a Brighton, portar-me-ei melhor do que a Lydia."

"Tu, a Brighton! Não te confiaria nem tão perto como Eastbourne, por cinquenta libras! Não, Kitty, ao menos aprendi a ser cauteloso, e sentirás os efeitos disso. Nenhum oficial voltará a entrar em minha casa, nem sequer a atravessar a aldeia. Os bailes serão absolutamente proibidos, a menos que danceis com uma das vossas irmãs. E não haveis de pôr os pé fora de portas, até que possais provar que gastastes dez minutos de cada dia de maneira racional."

Kitty, que tomou todas estas ameaças a sério, começou a chorar.

"Está bem, está bem" — disse ele — "não te faças infeliz. Se fores boa menina durante os próximos dez anos, levo-te a uma revista ao fim deles."

CAPÍTULO XLIX.

Dois dias depois do regresso do Sr. Bennet, quando Jane e Elizabeth passeavam juntas no arbusto atrás da casa, viram a governanta a dirigir-se para elas e, concluindo que vinha chamá-las para a mãe, avançaram ao seu encontro; mas, em vez da esperada intimação, quando se aproximaram, ela disse à Srta. Bennet: "Peço-lhe perdão, minha senhora, por a interromper, mas esperava que talvez tivesse obtido algumas boas notícias da cidade, por isso tomei a liberdade de vir perguntar."

"Que quer dizer, Hill? Não tivemos notícias da cidade."

"Querida senhora" — exclamou a Sra. Hill, em grande assombro — "não sabe que veio um expresso para o senhor da parte do Sr. Gardiner? Está aqui há meia hora, e o senhor já recebeu uma carta."

As moças correram, demasiado ansiosas para entrar para terem tempo de falar. Atravessaram o vestíbulo para a sala de pequeno-almoço; daí para a biblioteca; — o pai não estava em nenhuma das duas; e estavam a ponto de o procurar em cima, com a mãe, quando foram detidas pelo mordomo, que disse:—

"Se procuram o senhor, minha senhora, está a caminhar para o bosquezinho."

Ante esta informação, voltaram a atravessar imediatamente o vestíbulo e correram pelo relvado atrás do pai, que seguia deliberadamente o seu caminho para um pequeno bosque a um lado do cercado.

Jane, que não era tão leve, nem tão habituada a correr como Elizabeth, logo ficou para trás, enquanto a irmã, arquejante, o alcançou e exclamou, ansiosa:—

"Oh, papá, que notícias? que notícias? teve notícias do meu tio?"

"Sim, recebi uma carta dele por expresso."

"E então, que notícias traz ela — boas ou más?"

"Que boas notícias se pode esperar?" — disse ele, tirando a carta do bolso; "mas talvez queiras lê-la."

Elizabeth tirou-lha impacientemente da mão. Jane chegou nesse momento.

"Lê-a em voz alta" — disse o pai — "porque eu próprio mal sei do que se trata."

/* RUÍDO "Gracechurch Street, segunda-feira, 2 de Agosto. */

"Meu caro Irmão,

"Finalmente posso enviar-vos algumas notícias da minha sobrinha, e tais que, no conjunto, espero vos dêem satisfação. Logo depois que saístes de minha casa no sábado, tive a fortuna de descobrir em que parte de Londres estavam. Os detalhes reservo-os até nos encontrarmos. Basta saber que foram descobertos: vi-os a ambos----"

]

"Então é como eu sempre esperei" — exclamou Jane: "casaram!"

Elizabeth continuou a ler: "Vi-os a ambos. Não estão casados, nem me foi possível descobrir que houvesse qualquer intenção de o fazer; mas se estiverdes disposto a cumprir os compromissos que me aventurei a tomar em vosso nome, espero que não demore muito até que o estejam. Tudo o que se vos exige é assegurar à vossa filha, por contrato, a sua parte igual das cinco mil libras, seguradas entre os vossos filhos depois do falecimento vosso e da minha irmã; e, além disso, entrar no compromisso de lhe permitir, durante a vossa vida, cem libras por ano. Estas são condições que, considerando tudo, não hesitei em aceitar, na medida em que me julgava autorizado, por vós. Mandarei isto por expresso, para que não se perca tempo em me trazer a vossa resposta. Compreendereis facilmente, por estes detalhes, que as circunstâncias do Sr. Wickham não são tão desesperadas como geralmente se crê. O mundo tem sido enganado nesse ponto; e tenho a satisfação de dizer que haverá algum dinheiro, mesmo depois de pagas todas as suas dívidas, para estabelecer na minha sobrinha, além da sua própria fortuna. Se, como suponho que será o caso, me enviais plenos poderes para agir em vosso nome em todo este negócio, darei imediatamente instruções a Haggerston para preparar um contrato adequado. Não haverá a mínima necessidade de voltardes a Londres; portanto ficai tranquilo em Longbourn, e contai com o meu zelo e cuidado. Enviai a vossa resposta o mais breve possível, e tende o cuidado de escrever de modo explícito. Julgámos que seria melhor que a minha sobrinha casse desta casa, do que espero aprovareis. Ela vem para cá hoje. Escreverei de novo assim que algo mais estiver decidido. Vosso, etc.

"EDW. GARDINER."

"É possível?" — exclamou Elizabeth, quando acabou. "Será possível que ele case com ela?"

"Wickham não é então tão indigno como pensávamos" — disse a irmã. "Meu querido pai, dou-vos os parabéns."

"E respondeste à carta?" — disse Elizabeth.

"Não; mas é preciso fazê-lo depressa."

Então ela suplicou-lhe com a maior instância que não perdesse mais tempo antes de escrever.

"Oh! meu querido pai" — exclamou — "volta e escreve imediatamente. Considera quão importante é cada momento num caso destes."

"Deixa-me escrever por ti" — disse Jane — "se não gostas do trabalho."

"Não gosto nada dele" — respondeu ele; "mas é preciso fazê-lo."

E dizendo isto, voltou com elas e caminhou para casa.

"E — posso perguntar?" — disse Elizabeth; "mas as condições, suponho, é preciso aceitá-las."

"Aceitá-las! Só tenho vergonha de ele pedir tão pouco."

"E têm de casar! E no entanto ele é um homem desses."

"Sim, sim, têm de casar. Não há outra coisa a fazer. Mas há duas coisas que quero muito saber: — uma é, quanto dinheiro o vosso tio desembolsou para levar isto a efeito; e a outra, como lhe hei-de alguma vez pagar."

"Dinheiro! meu tio!" — exclamou Jane — "que quereis dizer, senhor?"

"Quero dizer que nenhum homem no seu juízo perfeito casaria com Lydia por tão pequeno atractivo como cem libras por ano durante a minha vida, e cinquenta depois de eu morrer."

"Isso é bem verdade" — disse Elizabeth; "embora não me tivesse ocorrido antes. As dívidas dele saldadas, e ainda fica alguma coisa! Oh, há-de ser obra do meu tio! Homem generoso e bom, temo que se tenha prejudicado. Uma pequena quantia não faria tudo isto."

"Não" — disse o pai. "Wickham seria tolo se a aceitasse com um realzinho a menos do que dez mil libras; sentiria pensar tão mal dele, no próprio começo do nosso parentesco."

"Dez mil libras! Deus nos livre! Como se há-de pagar metade de tal quantia?"

O Sr. Bennet não respondeu; e cada um deles, absorto nos seus pensamentos, continuou em silêncio até chegarem à casa. O pai foi então para a biblioteca escrever, e as moças entraram na sala do pequeno-almoço.

"E vão mesmo casar!" — exclamou Elizabeth, assim que ficaram a sós. "Como isto é estranho! E por isto havemos de agradecer. Que eles casem, tão pequena como é a sua hipótese de felicidade, e miserável como é o carácter dele, somos obrigados a rejubilar! Oh, Lydia!"

"Eu console-me com pensar" — replicou Jane — "que ele certamente não casaria com Lydia, se não tivesse uma verdadeira estima por ela. Ainda que o nosso bom tio tenha feito alguma coisa para o aclarar, não posso acreditar que dez mil libras, ou coisa que se pareça, tenham sido adiantadas. Ele tem filhos seus, e pode ter mais. Como poderia dispensar metade de dez mil libras?"

"Se algum dia conseguirmos saber quanto eram as dívidas de Wickham" — disse Elizabeth — "e quanto ficou estabelecido do lado dele para a nossa irmã, saberemos exactamente o que o Sr. Gardiner fez por eles, porque Wickham não tem nem um real seu. A bondade do meu tio e da minha tia jamais poderá ser recompensada. Recebê-la em sua casa, e dar-lhe a sua protecção pessoal e o seu amparo, é um tal sacrifício em seu favor que anos de gratidão não chegam para reconhecer. A esta hora ela já está com eles! Se tal bondade não a faz agora infeliz, jamais merecerá ser feliz! Que encontro para ela, quando vir pela primeira vez a minha tia!"

"Devemos tentar esquecer tudo o que se passou de parte a parte" — disse Jane — "espero e confio que ainda sejam felizes. O facto de ele consentir em casar com ela é uma prova, quero crer, de que entrou no caminho recto. O afecto mútuo de ambos os firmará; e engano-me se não se estabeleçam tão tranquilamente, e vivam de modo tão racional, que com o tempo faça esquecer a imprudência passada."

"A conduta deles foi tal" — replicou Elizabeth — "que nem tu, nem eu, nem ninguém poderá jamais esquecer. É inútil falar nisso."

Ocorreu então às raparigas que a mãe muito provavelmente nada sabia do acontecido. Foram por isso à biblioteca e perguntaram ao pai se não desejaria que lho comunicassem. Ele estava a escrever e, sem levantar a cabeça, respondeu com frieza:—

«Como quiserdes.»

«Podemos levar a carta do meu tio para lermos-lhe?»

«Levai o que quiserdes e deixai-me em paz.»

Elizabeth tirou a carta da secretária e subiram juntas. Mary e Kitty estavam ambas com Mrs. Bennet: uma só comunicação bastaria, portanto, para todas. Após uma breve preparação para as boas notícias, a carta foi lida em voz alta. Mrs. Bennet mal se podia conter. Assim que Jane leu a esperança de Mr. Gardiner de que Lydia em breve se casaria, a sua alegria irrompeu, e cada frase seguinte acrescentou ao seu excesso. Encontrava-se agora numa agitação tão violenta de deleite como alguma vez estivera de alarme e de vexame. Saber que a filha ia casar era quanto bastava. Nenhum receio pela sua felicidade a perturbava, nem memória alguma da sua má conduta a humilhava.

«Minha querida, querida Lydia!» — exclamou ela —; «isto é deveras delicioso! Vai casar! Hei de voltar a vê-la! Vai casar aos dezasseis anos! Meu bom, meu querido irmão! Eu bem sabia como havia de ser — eu sabia que ele arranjaria tudo. Como anseio por vê-la! E por ver também o querido Wickham! Mas os vestidos, os vestidos do casamento! Vou escrever imediatamente à minha irmã Gardiner a respeito deles. Lizzy, minha querida, corre a falar com teu pai e pergunta-lhe quanto lhe dará. Espera, espera, vou eu mesma. Toca a campainha, Kitty, para vir a Hill. Vou vestir-me num instante. Minha querida, querida Lydia! Como havemos de estar contentes juntas quando nos encontrarmos!»

A filha mais velha procurou dar algum alívio à violência daqueles transportes, conduzindo os pensamentos da mãe para as obrigações que a conduta de Mr. Gardiner lhes impunha a todos.

«Pois devemos atribuir esta feliz conclusão» — acrescentou ela — «em grande medida à sua bondade. Estamos persuadidas de que ele se comprometeu a auxiliar Mr. Wickham com dinheiro.»

«Pois bem!» — exclamou a mãe —; «tudo muito justo; quem havia de fazê-lo senão o próprio tio dela? Se ele não tivesse família sua, eu e os meus filhos teríamos de ficar com todo o seu dinheiro, como sabeis; e é a primeira vez que alguma coisa dele recebemos além de uns pequenos presentes. Pois bem! Estou tão feliz. Dentro em breve terei uma filha casada. Mrs. Wickham! Que bem soa! E ela fez dezasseis anos em Junho passado. Minha querida Jane, estou numa tal confusão que tenho a certeza de que não consigo escrever; por isso ditarei e tu escreverás por mim. Depois ajustaremos as contas com teu pai a respeito do dinheiro; mas as coisas devem ser encomendadas imediatamente.»

Pôs-se então a entrar em todos os particularidades de chita, musselina e cambraia, e em breve teria ditado encomendas bem abundantes, se Jane, ainda que com alguma dificuldade, não a tivesse persuadido a esperar até que o pai estivesse livre para ser consultado. Um dia de demora, observou ela, seria de pouca importância; e a mãe estava demasiado feliz para ser tão obstinada como de costume. Outros projectos lhe acudiram à cabeça.

«Vou a Meryton» — disse —, «assim que estiver vestida, e darei as boas, boas notícias à minha irmã Philips. E à volta posso passar por Lady Lucas e Mrs. Long. Kitty, corre e manda preparar a carruagem. Um passeio far-me-ia muito bem, disso tenho a certeza. Meninas, posso fazer alguma coisa por vós em Meryton? Ah! aqui vem Hill. Minha querida Hill, já ouviste as boas notícias? Miss Lydia vai casar; e todos haveis de ter uma tigela de ponche para festejar o seu casamento.»

Mrs. Hill começou logo a manifestar a sua alegria. Elizabeth recebeu os seus cumprimentos entre os outros, e então, enfastiada daquela tolice, recolheu-se ao seu quarto, para poder pensar com liberdade. A situação da pobre Lydia, na melhor das hipóteses, já seria bastante má; mas que não fosse pior, disso tinha de estar agradecida. Assim o sentia; e, embora, olhando para o futuro, não pudesse esperar com justiça nem felicidade racional nem prosperidade mundana para a irmã, olhando para trás, para o que haviam temido duas horas antes, sentia todas as vantagens do que haviam ganho.

]

CAPÍTULO L.

Mr. Bennet muitas vezes desejara, antes daquele período da sua vida, que, em vez de gastar todo o seu rendimento, tivesse poupado uma quantia anual, para melhor provisão dos filhos e da mulher, caso ela lhe sobrevivesse. Agora desejava-o mais do que nunca. Se tivesse cumprido o seu dever nesse aspecto, Lydia não precisaria de estar grata ao tio por tudo quanto de honra ou de crédito se lhe pudesse agora comprar. A satisfação de induzir um dos mais indignos jovens da Grã-Bretanha a tomá-la por esposa poderia então ter ficado no lugar que lhe competia.

Preocupava-o seriamente que uma causa de tão pouca vantagem para alguém fosse promovida à custa exclusiva do cunhado; e estava decidido, se possível, a inteirar-se da extensão da sua assistência e a saldar a obrigação o mais depressa que pudesse.

Quando Mr. Bennet casara, a economia era tida por perfeitamente inútil; pois, naturalmente, haveriam de ter um filho. Este filho havia de concorrer para cortar o vínculo, logo que atingisse a maioridade, e a viúva e os filhos mais novos ficariam assim providos. Cinco filhas entraram sucessivamente no mundo, mas o filho continuava por vir; e Mrs. Bennet, durante muitos anos depois do nascimento de Lydia, estivera certa de que viria. Por fim já se desesperava do caso, mas então era tarde para começar a poupar. Mrs. Bennet não tinha aptidão para a economia; e só o amor de independência do marido impedira que excedessem o rendimento.

Cinco mil libras foram estipuladas por contrato de casamento a favor de Mrs. Bennet e dos filhos. Mas em que proporções seria dividido entre estes últimos dependia da vontade dos pais. Este era um ponto, ao menos no que dizia respeito a Lydia, que agora havia que resolver, e Mr. Bennet não podia hesitar em anuir à proposta que lhe era apresentada. Em termos de reconhecido agradecimento pela bondade do irmão, embora expressos da forma mais concisa, redigiu então por escrito a sua perfeita aprovação de tudo quanto fora feito, e a sua disposição de cumprir os compromissos assumidos em seu nome. Nunca antes supusera que, caso Wickham pudesse ser induzido a casar com a filha, isso se fizesse com tão pouca incómodo para ele próprio como pelo actual arranjo. Mal sairia perdendo dez libras por ano, em vez das cem que lhes seriam pagas; pois, entre a sua pensão de mesa e a mesada, e os contínuos presentes em dinheiro que lhe chegavam pelas mãos da mãe, as despesas de Lydia tinham ficado muito aquém daquela quantia.

Que fosse feito com tão pequeno esforço da sua parte, também isso era outra surpresa bem-vinda; pois o seu principal desejo no momento era ter o menor transtorno possível no assunto. Quando os primeiros transportes de raiva que haviam produzido a sua diligência em procurá-la passaram, ele voltou naturalmente a toda a sua antiga indolência. A carta foi logo expedida; pois, embora moroso em empreender negócios, era rápido na sua execução. Pedia mais particularidades daquilo por que ficava devendo ao irmão; mas estava demasiado irritado com Lydia para lhe mandar qualquer recado.

As boas notícias depressa se espalharam pela casa; e com proporcional velocidade pela vizinhança. Nesta foram recebidas com filosofia discreta. É certo que teria sido de maior vantagem para a conversa que Miss Lydia Bennet tivesse aparecido na cidade; ou, como a melhor alternativa, fosse encerrada do mundo em qualquer casa de lavoura distante. Mas havia muito com que falar, no facto de ela casar; e os bons desejos de bom coração pelo seu bem-estar, que antes haviam partido de todas as velhas senhoras maldosas de Meryton, pouco perderam do seu ânimo nesta mudança de circunstâncias, porque com tal marido a sua miséria era tida como certa.

Havia uma quinzena que Mrs. Bennet não descia as escadas, mas neste feliz dia tornou a sentar-se à cabeceira da mesa, e com um ânimo opressivamente exaltado. Nenhum sentimento de vergonha lançava um freio ao seu triunfo. O casamento de uma filha, que fora o primeiro objecto dos seus desejos desde que Jane fizera dezasseis anos, estava agora prestes a consumar-se, e os seus pensamentos e as suas palavras giravam inteiramente à volta dos acompanhantes de elegantes núpcias, finas musselinas, carruagens novas e criados. Andava ela activamente à procura, pela vizinhança, de uma residência adequada para a filha; e, sem saber nem considerar quais poderiam ser os seus rendimentos, rejeitava muitas como deficientes em tamanho e importância.

«Haye Park talvez servisse» — disse ela —, «se os Gouldings a deixassem, ou a casa grande de Stoke, se a sala de visitas fosse maior; mas Ashworth fica longe demais. Não podia suportar tê-la a dez milhas de mim; e quanto a Purvis Lodge, os sótãos são horríveis.»

O marido deixou-a tagarelar sem interrupção enquanto os criados estiveram presentes. Mas quando se retiraram, disse-lhe: «Mrs. Bennet, antes de tomardes qualquer uma, ou todas estas casas, para o vosso filho e a vossa filha, convém chegarmos a um bom entendimento. Numa casa desta vizinhança jamais eles serão admitidos. Não incentivarei a imprudência de nenhum dos dois, recebendo-os em Longbourn.»

Uma longa discussão se seguiu a esta declaração; mas Mr. Bennet manteve-se firme: isto conduziu logo a outra; e Mrs. Bennet descobriu, com assombro e horror, que o marido não avançaria uma guinea para comprar vestidos à filha. Ele protestou que ela não receberia dele nenhuma prova de afecto pelo motivo. Mrs. Bennet mal o podia compreender. Que a sua cólera pudesse ir a tal ponto de inconcebível ressentimento que recusasse à filha um privilégio sem o qual o seu casamento mal pareceria válido, excedia tudo quanto ela podia acreditar possível. Estava mais sensibilizada para a desonra que a falta de vestidos novos havia de reflectir nas núpcias da filha, do que para qualquer sentimento de vergonha pela fuga e pela vida em comum com Wickham durante uma quinzena antes de se realizarem.

Elizabeth estava agora profundamente arrependida de que, pela aflição do momento, tivesse sido levada a dar a conhecer a Mr. Darcy os receios pela irmã; pois, uma vez que o casamento daria tão cedo o devido termo à fuga, poderiam esperar ocultar o seu desfavorável começo a todos quantos não estivessem imediatamente presentes.

Não temia que se espalhasse mais, por meio dele. Havia poucas pessoas em cuja discrição pudesse confiar com tanta segurança; mas, ao mesmo tempo, não havia ninguém cujo conhecimento da fraqueza de uma irmã a mortificasse tanto. Não, porém, por qualquer receio de desvantagem que disso lhe adviesse individualmente; pois, de qualquer modo, parecia existir entre eles um abismo intransponível. Ainda que o casamento de Lydia se houvesse concluído nos termos mais honrosos, não era de supor que Mr. Darcy se ligasse a uma família em que a cada outro objecção se viria agora acrescentar uma aliança e parentesco da natureza mais chegada com o homem que ele tão justamente desprezava.

De semelhante ligação não podia admirar-se que ele recuasse. O desejo de granjear a sua estima, de que ela se assegurara de que ele sentira em Derbyshire, não podia, em expectativa racional, sobreviver a um golpe como aquele. Estava humilhada, estava aflita; arrependia-se, embora mal soubesse de quê. Tornou-se ciosa da sua boa opinião, quando já não podia esperar ser por ela beneficiada. Queria ter notícias dele, quando parecia haver a menor possibilidade de obter alguma. Convencia-se de que poderia ter sido feliz com ele, quando já não era provável que se tornassem a encontrar.

Que triunfo para ele, pensava ela frequentemente, se ele soubesse que as propostas que ela rejeitara com orgulho havia apenas quatro meses seriam agora recebidas com alegria e gratidão! Era ele tão generoso, ela não duvidava, como o mais generoso do seu sexo. Mas, enquanto ele fosse mortal, havia-de haver um triunfo.

Começava agora a compreender que ele era exactamente o homem que, em disposição e talentos, mais lhe conviria. O seu entendimento e o seu temperamento, embora diferentes dos dela, teriam satisfeito todos os seus desejos. Era uma união que houvera de ser vantajosa para ambos: pela sua facilidade e vivacidade, o espírito dele poderia ter sido suavizado, os seus modos melhorados; e do seu discernimento, da sua informação e do seu conhecimento do mundo, ela houvera necessariamente de receber benefício de maior importância.

Mas nenhum casamento tão feliz podia agora ensinar a multidão admiradora o que era na verdade a felicidade conjugal. Uma união de tendência diversa, e que excluía a possibilidade da outra, estava prestes a formar-se na família deles.

Como Wickham e Lydia haveriam de ser mantidos em independência tolerável, ela não o podia imaginar. Mas quão pouca felicidade permanente podia caber a um casal que só se juntara porque as suas paixões eram mais fortes que a sua virtude, isso ela facilmente podia conjecturar.

Mr. Gardiner escreveu em breve de novo ao irmão. Aos agradecimentos de Mr. Bennet respondeu brevemente, com protestos da sua eagerness em promover o bem-estar de qualquer membro da família; e terminou com instâncias para que o assunto nunca mais lhe fosse mencionado. O principal teor da carta era informá-los de que Mr. Wickham resolvera deixar a milícia.

«Era grande o meu desejo que ele o fizesse» — acrescentava —, «logo que o casamento estivesse decidido. E creio que concordareis comigo em considerar uma saída desse corpo como altamente aconselhável, tanto por causa dele como da minha sobrinha. É intenção de Mr. Wickham entrar no Exército Regular; e, entre os seus antigos amigos, há ainda alguns que podem e querem assisti-lo no exército. Tem a promessa de uma alferes no regimento do General----, agora aquartelado no norte. É uma vantagem tê-lo tão longe desta parte do reino. Promete bem; e espero que, entre gente diferente, onde cada um deles possa ter um carácter a preservar, sejam ambos mais prudentes. Escrevi ao Coronel Forster para o informar dos nossos presentes arranjos, e para lhe pedir que satisfaça os diversos credores de Mr. Wickham em Brighton e arredores com garantias de pronto pagamento, pelo que me responsabilizei. E dareis-vos ao incómodo de levar garantias semelhantes aos credores dele em Meryton, dos quais juntarei uma lista, segundo a informação dele? Ele entregou a lista de todas as suas dívidas; espero, ao menos, que não nos tenha enganado. Haggerston tem as nossas instruções, e tudo ficará concluído dentro de uma semana. Irão então juntar-se ao regimento dele, a menos que primeiro sejam convidados para Longbourn; e, segundo Mrs. Gardiner, a minha sobrinha deseja muito ver-vos a todos antes de partir para o norte. Está bem, e manda lembranças respeitosas a vós e à mãe dela.— Vosso, etc.

«E. GARDINER.»

Mr. Bennet e as filhas viam todas as vantagens da saída de Wickham de ----shire, tão claramente como Mr. Gardiner podia ver. Mas Mrs. Bennet não ficou tão satisfeita com isso. Que Lydia ficasse estabelecida no norte, justamente quando ela mais esperara o prazer e o orgulho da sua companhia — pois de modo nenhum abandonara o seu plano de residirem em Hertfordshire —, era um forte desapontamento; e, além disso, era uma pena que Lydia fosse tirada de um regimento em que ela conhecia toda a gente e tinha tantos favoritos.

«Ela é tão amiga de Mrs. Forster» — disse ela —; «vai ser muito triste mandá-la embora! E há também vários dos jovens que ela gosta muito. Os oficiais do regimento do General---- talvez não sejam tão agradáveis.»

O pedido da filha — pois assim se podia considerar — de ser admitida de novo na família, antes de partir para o norte, recebeu de início um negativo absoluto. Mas Jane e Elizabeth, que concordavam em desejar, pela causa dos sentimentos e da importância da irmã, que ela fosse notada no seu casamento pelos pais, instaram com ele tão encarecida, mas tão racional e tão moderadamente, para que recebesse Lydia e o marido em Longbourn, logo que casassem, que ele acabou por se deixar persuadir a pensar como elas pensavam e a agir como elas queriam. E a mãe teve a satisfação de saber que poderia mostrar a filha casada pela vizinhança, antes de ela ser desterrada para o norte. Quando Mr. Bennet escreveu de novo ao irmão, enviou portanto a sua permissão para que viessem; e ficou combinado que, logo após a cerimónia, seguiriam para Longbourn. Elizabeth ficou surpreendida, contudo, de que Wickham consentisse em tal plano; e, se consultasse apenas o seu próprio gosto, qualquer encontro com ele seria o último dos seus desejos.

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CAPÍTULO LI.

Chegou o dia do casamento da irmã; e Jane e Elizabeth sentiram por ela provavelmente mais do que ela sentia por si mesma. A carruagem foi mandada ao encontro deles a ----, e deviam regressar nela a tempo do jantar. A chegada deles era temida pelas Miss Bennets mais velhas — e por Jane em especial, que atribuía a Lydia os sentimentos que ela própria teria tido, se fosse a culpada, e estava desgraçada com a ideia do que a irmã haveria de suportar.

Eles vieram. A família estava reunida na sala do pequeno-almoço para os receber. Sorrisos enfeitavam o rosto de Mrs. Bennet, enquanto a carruagem parou à porta; o marido mostrava-se impenetravelmente grave; as filhas, alarmadas, ansiosas, inquietas.

A voz de Lydia ouviu-se no vestíbulo; a porta escancarou-se, e ela entrou correndo na sala. A mãe deu um passo em frente, abraçou-a e acolheu-a com arrebatamento; estendeu a mão, com sorriso afectuoso, a Wickham, que seguia a sua dama; e felicitou-os a ambos, com uma presteza que não deixava dúvida sobre a felicidade deles.

A recepção de Mr. Bennet, a quem em seguida se voltaram, não foi tão cordial. O seu semblante antes ganhou em austeridade; e ele mal abriu os lábios. A facilidade descarada do jovem casal era, na verdade, suficiente para o provocar.

Elizabeth estava desgostosa, e até Miss Bennet ficou chocada. Lydia era ainda a mesma Lydia; indomada, desavergonhada, selvagem, ruidosa e destemida. Passava de irmã para irmã, pedindo os seus cumprimentos; e, quando por fim se sentaram todas, olhou à volta da sala com avidez, notou qualquer pequena alteração nela, e observou, com uma gargalhada, que já lá ia muito tempo desde que ali estivera.

Wickham não estava nada mais contristado do que ela; mas os seus modos eram sempre tão agradáveis que, se o carácter dele e o seu casamento fossem exactamente o que deviam ser, os seus sorrisos e a sua facilidade, enquanto reclamava o parentesco, os teriam encantado a todos. Elizabeth nunca antes o julgara capaz de semelhante desaforo; mas sentou-se, resolvendo consigo mesma a não pôr, no futuro, limites à impudência de um homem impudente. Ela corou, e Jane corou; mas as faces dos dois que causavam a confusão não sofreram variação de cor.

Não faltou conversa. A noiva e a mãe não conseguiam falar com rapidez suficiente; e Wickham, que por acaso ficou sentado perto de Elizabeth, começou a perguntar pelas suas conhecidas daquela vizinhança, com uma descontração bem-humorada a que ela se sentiu muito incapaz de igualar nas respostas. Parecia terem cada um deles as mais felizes memórias do mundo. Nada do passado era recordado com dor; e Lydia conduzia voluntariamente a conversa para assuntos que as irmãs não teriam referido por nada deste mundo.

«Pensem só que já vão três meses» — exclamou —, «desde que parti: parece-me que não há mais de uma quinzena, palavra; e contudo tantas coisas aconteceram neste tempo. Meu Deus! quando parti, posso jurar que não tinha a mínima ideia de casar até voltar! embora pensasse que seria uma grande diversão se casasse.»

O pai levantou os olhos, Jane ficou aflita, Elizabeth lançou um olhar expressivo a Lydia; mas esta, que nunca ouvia nem via nada de que não quisesse permanecer inconsciente, prosseguiu alegremente:

— Oh, mamã, sabem aqui pelas redondezas que eu casei hoje? Tinha medo que não soubessem; e encontrámos William Goulding na sua carruagem ligeira, por isso decidi que ele havia de saber, e então baixei o vidro de correr ao lado dele, tirei a luva e pousei a mão no caixilho da janela, para ele ver a aliança, e depois fiz uma reverência e sorri como se fosse uma louca.

Elizabeth não pôde suportá-lo por mais tempo. Levantou-se e saiu da sala a correr; e não voltou, até os ouvir passar pelo vestíbulo a caminho da sala de jantar. Juntou-se-lhes então a tempo de ver Lydia, com aparato solene, encaminhar-se para a direita da mãe, e ouvi-la dizer à irmã mais velha:

— Ah, Jane, tomo agora o teu lugar, e tu hás-de descer mais um pouco, porque eu sou uma mulher casada.

Não era de supor que o tempo desse a Lydia aquele acanhamento de que tão inteiramente livre estivera ao princípio. A sua desenvoltura e bom humor aumentavam. Ansiava por ver Mrs. Philips, os Lucas, e todos os outros vizinhos, e por ouvir-se chamar «Mrs. Wickham» por cada um deles; e entretanto, depois do jantar, foi mostrar a aliança e gabar-se do casamento a Mrs. Hill e às duas criadas.

— Pois bem, mamã — disse ela, quando todos tinham voltado para a sala do pequeno-almoço —, que achais do meu marido? Não é um homem encantador? Tenho a certeza de que as minhas irmãs todas me têm inveja. Só espero que tenham metade da minha boa sorte. Têm todas de ir a Brighton. É lá que se arranja marido. Que pena, mamã, não termos ido todas!

— É bem verdade; e se eu mandasse, iríamos. Mas, minha querida Lydia, não me agrada nada que vás tão longe. Tem de ser assim?

— Oh, Senhor! sim; nisso não há inconveniente nenhum. Hei-de gostar de tudo. Tu e o papá, e as minhas irmãs, haveis de ir visitar-nos. Passaremos todo o Inverno em Newcastle, e aposto que haverá bailes, e eu tratarei de arranjar-lhes bons pares.

— Nada me agradaria mais! — disse a mãe.

— E depois, quando vos for embora, podereis deixar uma ou duas das minhas irmãs cá; e aposto que eu arranjo-lhes marido antes de acabar o Inverno.

— Agradeço-te a minha parte do favor — disse Elizabeth —; mas não me agrada particularmente a tua maneira de arranjar marido.

Os visitantes não deveriam ficar mais de dez dias em casa deles. Mr. Wickham tinha recebido a sua patente antes de sair de Londres, e deveria juntar-se ao regimento ao fim de uma quinzena.

Ninguém excepto Mrs. Bennet lamentava que a estadia fosse tão curta; e ela aproveitou o tempo ao máximo, visitando com a filha, e dando frequentes festas em casa. Essas festas eram bem-vistas por todos; evitar o círculo da família era ainda mais desejável para os que pensavam do que para os que não pensavam.

A afeição de Wickham por Lydia era exactamente o que Elizabeth esperara encontrar; não igual à de Lydia por ele. Quase não precisara da presente observação para se convencer, pela própria lógica das coisas, de que a fuga fora obra da força do amor dela, e não dele; e ter-se-ia perguntado por que motivo, sem sentir por ela nada de muito vivo, escolhera fugir com ela de todo, se não tivesse a certeza de que a fuga dele fora tornada necessária por apertos de circunstâncias; e sendo esse o caso, ele não era o jovem capaz de resistir à oportunidade de ter uma companheira.

Lydia gostava dele extremosamente. Era o seu querido Wickham em toda e qualquer ocasião; ninguém podia ser posto em concorrência com ele. Ele fazia tudo melhor do que ninguém no mundo; e ela tinha a certeza de que ele mataria mais aves no primeiro de Setembro do que ninguém no país.

Uma manhã, pouco depois da chegada deles, estando sentada com as duas irmãs mais velhas, disse a Elizabeth:

— Lizzy, creio que ainda não te contei o meu casamento. Não estavas presente quando contei tudo à mamã e às outras. Não tens curiosidade de saber como se arranjou?

— Não, a sério — respondeu Elizabeth —; acho que quanto menos se falar no assunto, melhor.

— Valha-me Deus! Que esquisita que tu és! Mas tenho de te contar como correu. Casámos, como sabes, em St. Clement's, porque os quartos de Wickham eram dessa freguesia. E ficou combinado que estaríamos todos lá às onze horas. O tio e a tia e eu iríamos juntos; e os outros haviam de encontrar-se connosco na igreja.

— Pois bem, na segunda-feira de manhã acordei num alvoroço! Tinha tanto medo, sabes, que acontecesse alguma coisa que adiasse, e então enlouqueceria. E tinha a tia, todo o tempo em que me vestia, a pregar e a falar sem parar, como se estivesse a ler um sermão. Mas eu não ouvia uma em cada dez palavras, porque estava a pensar, como podes imaginar, no meu querido Wickham. Morreu-me a vontade de saber se ele se casaria de casaca azul.

— Pois bem, e assim tomámos o pequeno-almoço às dez como de costume: pareceu-me que não acabava nunca; porque, a propósito, tens de saber que o tio e a tia foram horrivelmente maçadores todo o tempo em que estive com eles. Se acreditasses, nem uma única vez pus o pé fora de casa, apesar de ter lá estado uma quinzena. Nem uma festa, nem um plano, nem nada! É certo que Londres estava um pouco vazio, mas em todo o caso o Little Theatre estava aberto.

— Pois bem, e assim, mesmo quando a carruagem chegou à porta, o tio foi chamado por causa de negócios àquele homem horrível, Mr. Stone. E depois, sabes, quando uma vez se juntam, não têm fim. Pois bem, fiquei tão assustada que não sabia o que fazer, porque o tio é que me levaria ao altar; e se passássemos da hora não poderíamos casar o dia todo. Mas, felizmente, ele voltou em dez minutos, e depois partimos todos. Contudo, lembrei-me depois que, se ele não tivesse podido ir, o casamento não precisava de ser adiado, porque Mr. Darcy teria podido fazer o mesmo.

— Mr. Darcy! — repetiu Elizabeth, em absoluto espanto.

— Oh, sim! ele ia lá com o Wickham, sabes. Mas meu Deus! esqueci-me completamente! Não devia ter dito uma palavra sobre isso. Prometi-lhes tão fielmente! Que dirá o Wickham? Era para ser um segredo absoluto!

— Se era para ser segredo — disse Jane —, não digas mais nenhuma palavra a esse respeito. Podes confiar que não vou procurar saber mais.

— Oh, certamente — disse Elizabeth, embora ardendo de curiosidade —; não te faremos perguntas.

— Obrigada — disse Lydia —; porque se fizésseis, eu contar-vos-ia tudo, e depois o Wickham ficaria tão zangado.

Com tal convite a perguntas, Elizabeth viu-se forçada a impedir-se de as fazer, fugindo dali.

Mas viver na ignorância num ponto daqueles era impossível; ou pelo menos era impossível não tentar obter informações. Mr. Darcy estivera no casamento da irmã dela. Era exactamente uma cena, e exactamente entre pessoas, onde ele aparentemente menos tinha a fazer, e menos tentação para ir. Conjecturas sobre o significado disto, rápidas e desvairadas, irromperam- lhe no cérebro; mas nenhuma a satisfazia. As que mais lhe agradavam, por colocarem a conduta dele na luz mais nobre, pareciam as menos verosímeis. Não podia suportar semelhante suspense; e, tomando precipitadamente uma folha de papel, escreveu uma breve carta à tia, a pedir uma explicação do que Lydia deixara escapar, se tal fosse compatível com o segredo que se tivera em vista.

«Podeis compreender facilmente — acrescentava —, qual deve ser a minha curiosidade em saber como uma pessoa sem ligação nenhuma connosco, e, comparativamente falando, uma estranha para a nossa família, se encontrava entre vós em semelhante ocasião. Rogo-vos que escrevais imediatamente, e me façais compreender — a menos que, por razões muito poderosas, deva permanecer no segredo que Lydia parece achar necessário; e então terei de me dar por satisfeita com a ignorância.»

«Nem que eu o consiga, porém», acrescentou de si para si, e terminou a carta; «e, minha querida tia, se não m'o disserdes de uma maneira honrosa, terei forçosamente de recorrer a artifícios e estratagemas para o descobrir.»

O delicado pundonor de Jane não lhe permitia falar em particular com Elizabeth sobre o que Lydia deixara escapar; Elizabeth ficou-lhe grata: — até que se visse se as suas indagações teriam alguma resposta, preferia não ter confidente.

CAPÍTULO LII.

Elizabeth teve a satisfação de receber resposta à sua carta tão cedo quanto possível. Mal a teve em seu poder, entrou a passos apressados no pequeno bosquezinho, onde havia menos probabilidade de ser interrompida, sentou-se num dos banquinhos, e preparou-se para ser feliz; pois o comprimento da carta convenceu-a de que não continha uma recusa.

/* RIGHT «Gracechurch Street, 6 de Setembro.

«Minha querida Sobrinha,

«Acabei de receber a vossa carta, e dedicarei esta manhã inteira a responder-lhe, pois prevejo que um pequeno escrito não abrange tudo quanto tenho para vos dizer. Devo confessar-me surpreendida com o vosso pedido; não o esperava de vós. Não me julgueis zangada, contudo, pois apenas pretendo dar-vos a entender que não imaginara tais indagações necessárias da vossa parte. Se não quereis compreender-me, perdoai-me a impertinência. O vosso tio está tão surpreendido como eu; e nada mais do que a crer que tínheis parte no assunto o teria levado a proceder como procedeu. Mas, se sois realmente inocente e ignorante, tenho de ser mais explícita. No próprio dia em que cheguei a casa vinda de Longbourn, o vosso tio teve um visitante absolutamente inesperado. Mr. Darcy apresentou-se, e esteve fechado com ele várias horas. Tudo tinha terminado antes de eu chegar; por isso a minha curiosidade não ficou tão terrivelmente atormentada como a vossa parece ter ficado. Veio dizer a Mr. Gardiner que descobrira onde estavam a vossa irmã e Mr. Wickham, e que vira e falara com ambos — várias vezes com Wickham, uma vez com Lydia. Pelo que posso deduzir, partira de Derbyshire apenas um dia depois de nós, e viera para a cidade com a resolução de os procurar. O motivo declarado era a sua convicção de que se devia a ele próprio o facto de a indignidade de Wickham não ter sido tão conhecida que impossibilitasse qualquer mulher jovem de carácter de o amar ou confiar nele. Atribuiu generosamente tudo ao seu orgulho mal entendido, e confessou que antes julgara abaixo de si expor as suas acções privadas ao mundo. O seu carácter falaria por si. Chamava-lhe, por isso, um dever dar um passo em frente, e procurar remediar um mal de que ele próprio fora causador. Se tinha outro motivo, tenho a certeza de que nunca o desonraria. Já estava havia alguns dias na cidade antes de conseguir descobri-los; mas tinha algo para orientar as suas buscas, o que já era mais do que nós tínhamos; e a consciência disso foi outra razão para resolver seguir-nos. Há uma senhora, ao que parece, uma Mrs. Younge, que fora há algum tempo governante de Miss Darcy, e fora demitida do cargo por qualquer motivo de desaprovação, embora ele não dissesse qual. Ela tomou depois uma casa grande em Edward Street, e desde então tem-se mantido a viver do aluguer de quartos. Esta Mrs. Younge era, ele sabia-o, íntima de Wickham; e foi a ela pedir informações sobre ele, logo que chegou à cidade. Mas passaram-se dois ou três dias antes de poder obter dela o que queria. Ela não trairia a confiança, suponho eu, sem peita e corrupção, pois na verdade sabia onde o amigo se encontrava. Wickham, com efeito, fora a casa dela logo que chegaram a Londres; e, se ela os pudesse ter recebido em casa, teriam ficado a viver com ela. Por fim, todavia, o nosso amigo benfazejo conseguiu a direcção desejada. Estavam na Rua ----. Viu Wickham, e depois insistiu em ver Lydia. Declarou que o seu primeiro objectivo com ela fora persuadi-la a abandonar a sua presente situação desonrosa, e voltar para os amigos logo que se pudesse conseguir que a recebessem, oferecendo a sua ajuda na medida do possível. Mas encontrou Lydia absolutamente resolvida a ficar onde estava. Não ligava a nenhum dos seus amigos; não queria ajuda dele; nem ouvir falar em deixar Wickham. Tinha a certeza de que casariam mais cedo ou mais tarde, e pouco importava quando. Sendo estes os sentimentos dela, restava apenas, pensou ele, assegurar e apressar um casamento que, na sua primeira conversa com Wickham, facilmente soubera nunca ter sido o intento dele. Confessou que se via obrigado a deixar o regimento por causa de certas dívidas de honra muito prementes; e não hesitou em atribuir todas as más consequências da fuga de Lydia à loucura dela, e só dela. Pensava resignar a patente imediatamente; e quanto ao seu futuro, muito pouco podia conjecturar. Tinha de ir para qualquer parte, mas não sabia onde, e sabia que não teria com que viver. Mr. Darcy perguntou por que não casava logo com a vossa irmã. Embora Mr. Bennet não fosse imaginado muito rico, teria podido fazer alguma coisa por ele, e a sua situação teria sido beneficiada pelo casamento. Mas soube, em resposta a esta pergunta, que Wickham ainda alimentava a esperança de fazer fortuna de modo mais eficaz por meio do casamento, nalgum outro país. Em tais circunstâncias, contudo, não era provável que resistisse à tentação de um alívio imediato. Encontraram- se várias vezes, pois havia muito para discutir. Wickham, é claro, queria mais do que podia obter; mas por fim viu-se reduzido a ser razoável. Estando tudo combinado entre ambos, o passo seguinte de Mr. Darcy foi dar parte ao vosso tio, e foi pela primeira vez a Gracechurch Street na véspera do dia em que eu cheguei a casa. Mas Mr. Gardiner não pôde ser recebido; e Mr. Darcy soube, em posteriores indagações, que o vosso pai ainda estava com ele, mas que deixaria a cidade na manhã seguinte. Não considerou o vosso pai pessoa com quem pudesse conferir tão convenientemente como o vosso tio, e por isso adiou facilmente a visita até depois da partida daquele. Não deixou nome, e até ao dia seguinte apenas se sabia que um senhor viera em negócios. No sábado voltou. O vosso pai já tinha partido, o vosso tio estava em casa, e, como disse antes, tiveram uma longa conversa. Tornaram a encontrar-se no domingo, e então também eu o vi. Nem tudo ficou resolvido antes de segunda-feira: logo que ficou, partiu a carta expressa para Longbourn. Mas o nosso visitante era muito obstinado. Imagino, Lizzy, que a obstinação é o verdadeiro defeito do carácter dele, afinal. Tem sido acusado de muitos defeitos em diferentes tempos; mas este é o verdadeiro. Nada se fazia que ele mesmo não fizesse; embora eu tenha a certeza (e não o digo para ser agradecida, portanto não digais nada a esse respeito) de que o vosso tio teria resolvido tudo com a maior disposição. Discutiram longamente, o que era mais do que quer o senhor quer a senhora em causa mereciam. Mas por fim o vosso tio foi forçado a ceder, e em vez de lhe ser permitido ser útil à sobrinha, viu-se reduzido a ficar apenas com o provável crédito disso, o que lhe custou bastante a engolir; e na verdade creio que a vossa carta desta manhã lhe deu grande prazer, porque exigia uma explicação que o privaria das suas penas emprestadas, e daria o louvor a quem era devido. Mas, Lizzy, isto não deve ir mais longe do que vós, ou no máximo Jane. Já sabeis suficientemente bem, suponho eu, o que foi feito pelos jovens. As dívidas dele serão pagas, totalizando, creio eu, consideravelmente mais de mil libras, mil libras mais além do dote dela próprio, e a patente comprada. A razão por que tudo isto havia de ser feito só por ele era a que dei acima. Devia-se a ele, à sua reserva e falta de consideração própria, que o carácter de Wickham tivesse sido tão mal compreendido, e por conseguinte que ele tivesse sido recebido e tratado como foi. Talvez houvesse alguma verdade nisto; embora eu duvide que a reserva dele, ou a de quem quer que seja, possa ser responsável pelo acontecido. Mas apesar de toda esta formosa fala, minha querida Lizzy, podeis estar perfeitamente certa de que o vosso tio nunca teria cedido, se não lhe tivéssemos atribuído outro interesse no assunto. Quando tudo isto ficou resolvido, ele voltou para os seus amigos, que ainda estavam em Pemberley; mas ficou combinado que ele estaria de novo em Londres quando o casamento se realizasse, e todas as questões de dinheiro receberiam então o último acabamento. Creio que agora vos contei tudo. É uma relação que vós me dizeis vos causará grande surpresa; espero ao menos que não vos cause desprazer. Lydia veio ter connosco, e Wickham teve entrada constante em nossa casa. Era exactamente o que tinha sido quando o conheci em Hertfordshire; mas não vos diria como pouco fiquei satisfeita com a maneira dela durante a estadia em nossa casa, se não tivesse percebido, pela carta de Jane de quarta-feira passada, que a conduta dela ao chegar a casa era exactamente da mesma têmpera, e por isso o que agora te conto não vos pode dar nova dor. Falei-lhe repetidamente da maneira mais séria, representando-lhe a maldade do que tinha feito, e toda a infelicidade que atraíra sobre a família. Se me ouviu, foi por sorte, porque tenho a certeza de que não escutou. Por vezes ficava deveras irritada; mas depois lembrava-me da minha querida Elizabeth e Jane, e por amor a elas tinha paciência com ela. Mr. Darcy foi pontual no seu regresso, e, como Lydia vos informou, assistiu ao casamento. Almoçou conosco no dia seguinte, e devia partir de novo para a cidade na quarta ou quinta-feira. Ireis zangar-vos muito comigo, minha querida Lizzy, se aproveitar esta oportunidade para dizer (o que nunca tive a coragem de dizer antes) quanto ele me agrada? O procedimento dele para connosco foi, em tudo, tão agradável como quando estivemos em Derbyshire. O seu entendimento e as suas opiniões agradam-me por completo; só lhe falta um pouco mais de vivacidade, e isso, se casar prudentemente, a esposa poder-lhe-á ensinar. Achei-o muito discreto; quase nunca mencionou o vosso nome. Mas a discrição parece estar na moda. Perdoai-me, se fui muito presunçosa, ou ao menos não me castigueis a ponto de me excluir de P. Não serei nunca inteiramente feliz enquanto não tiver dado a volta inteira ao parque. Uma baixa faetonte com um bom par de póneis seria mesmo o que mais convinha. Mas não devo escrever mais. As crianças andam a chamar-me há meia hora.

«Vossa, muito sinceramente,

«M. GARDINER.»

O conteúdo desta carta lançou Elizabeth numa agitação de espíritos, na qual era difícil determinar se o prazer ou a dor levava a maior quinhão. Os vagos e incertos receios que a incerteza havia produzido, de que Mr. Darcy pudesse ter andado a fazer algo para favorecer o casamento da irmã dela — receios que ela temera encorajar, por os considerar um exercício de bondade excessivo para ser provável, e ao mesmo tempo receara que fossem verdadeiros, por causa da dor da obrigação — estavam provados, para além de toda a expectativa, como verdadeiros! Ele seguira-os de propósito até à cidade, tomara sobre si todo o trabalho e a mortificação inerentes a tal investigação; na qual fora preciso suplicar a uma mulher que ele devia abominar e desprezar, e onde se viu reduzido a encontrar, a encontrar repetidamente, a discutir, a persuadir, e por fim a subornar o homem que sempre mais desejara evitar, e cujo próprio nome era um castigo para ele pronunciar. Fizera tudo isto por uma rapariga que ele não podia nem estimar nem apreciar. O coração dela sussurrava que ele o fizera por causa dela. Mas era uma esperança logo refreada por outras considerações; e ela sentiu em breve que nem mesmo a sua vaidade bastava, quando se lhe pedia que contasse com a afeição dele por ela, a uma mulher que já o tinha recusado, para vencer um sentimento tão natural como o horror de uma aliança com Wickham. Cunhado de Wickham! Todo o género de orgulho se havia de revoltar contra tal ligação. Ele tinha, é certo, feito muito. Ela tinha vergonha de pensar quanto. Mas ele dera uma razão para a sua interferência, que não exigia nenhum esforço extraordinário de crença. Era razoável que ele sentisse que estivera errado; tinha generosidade, e tinha meios de a exercer; e ainda que ela não se colocasse como o seu principal incentivo, talvez pudesse acreditar que uma parcialidade restante por ela pudesse assistir os seus esforços numa causa em que a tranquilidade de espírito dela estava materialmente em jogo. Era doloroso, extremamente doloroso, saber que estavam em obrigações para com uma pessoa que nunca poderia receber um retorno. Deviam-lhe a restauração de Lydia, a honra dela, tudo. Oh, como lamentava de todo o coração cada sentimento ingrato que alguma vez encorajara, cada fala insolente que alguma vez dirigira contra ele! Por si mesma estava humilhada; mas tinha orgulho nele — orgulho de que, numa causa de compaixão e honra, ele tivesse sido capaz de se vencer a si mesmo. Releu uma e outra vez a recomendação dele feita pela tia. Era mal suficiente; mas agradava-lhe. Era até sensível de algum prazer, embora misturado com desgosto, ao descobrir como firmemente tanto ela como o tio tinham sido persuadidos de que afeição e confiança existiam entre Mr. Darcy e ela.

Foi arrancada do seu lugar e das suas reflexões pela aproximação de alguém; e, antes que pudesse tomar outro caminho, foi alcançada por Wickham.

«Receio interromper o vosso passeio solitário, minha querida irmã?», disse ele, ao juntar-se-lhe.

«Certamente que interrompe», respondeu ela com um sorriso; «mas não se segue que a interrupção seja desagradável.»

«Eu ficaria verdadeiramente penalizado se o fosse. Sempre fomos bons amigos, e agora somos melhores.»

«É verdade. Os outros vêm também?»

«Não sei. Mrs. Bennet e Lydia vão na carruagem para Meryton. E assim, minha querida irmã, descubro, pelo nosso tio e tia, que vós de facto visitaste Pemberley.»

Ela respondeu afirmativamente.

«Quase vos invejo o prazer, e ainda assim acredito que seria demais para mim, ou então podia aproveitá-lo no caminho para Newcastle. E vistes a antiga governanta, suponho? Poor Reynolds, ela sempre teve muito carinho por mim. Mas decerto ela não vos mencionou o meu nome.»

«Sim, mencionou.»

«E o que disse ela?»

«Que tínheis entrado para o exército, e ela temia que—não tivesse corrido bem. A uma distância tão grande como essa, sabeis, as coisas são estranhamente mal representadas.»

«Certamente», respondeu ele, mordendo os lábios. Elizabeth esperava tê-lo silenciado; mas ele logo a seguir disse:

«Fiquei surpreendido ao ver Darcy na cidade no mês passado. Cruzámo-nos várias vezes. Pergunto-me o que ele lá andará a fazer.»

«Talvez a preparar-se para o casamento com Miss de Bourgh», disse Elizabeth. «Deve ser algo particular para o levar lá nesta época do ano.»

«Sem dúvida. Vistes-lo enquanto estáveis em Lambton? Pensei ter compreendido pelos Gardiners que tínheis visto.»

«Sim; ele apresentou-nos à irmã dele.»

«E gostais dela?»

«Muito.»

«Ouvi, de facto, que ela melhorou extraordinariamente neste último ano ou dois. Quando a vi pela última vez, não era muito prometedora. Folgo muito que gostais dela. Espero que ela venha a ser uma boa pessoa.»

«Atrevo-me a dizer que sim; já passou a idade mais difícil.»

«Passastes pela aldeia de Kympton?»

«Não me recordo de que tenhamos passado.»

«Menciono-o porque é o benefício eclesiástico que eu devia ter tido. Um lugar encantador! Excelente casa paroquial! Ter-me-ia convido em todos os aspectos.»

«E teríeis gostado de fazer sermões?»

«Extremamente. Teria considerado isso parte do meu dever, e o esforço em breve teria sido nulo. Não se deve murmurar; mas, na verdade, teria sido uma coisa tão boa para mim! A calma, o recolhimento de tal vida, teria correspondido a todas as minhas ideias de felicidade! Mas não estava escrito. Ouvistes Darcy alguma vez mencionar a circunstância quando estáveis em Kent?»

«Ouvi de fonte autorizada, que considerei tão boa como qualquer outra, que fora deixado para vós condicionalmente apenas, e à vontade do actual padroeiro.»

«Ouvistes! Sim, havia algo nisso; eu vo-lo disse desde o princípio, podeis lembrar-vos.»

«Ouvi também que houve um tempo em que fazer sermões não vos era tão agradável como agora parece ser; que realmente declarastes a resolução de nunca tomar ordens, e que o assunto fora resolvido em conformidade.»

«Ouvistes! E não era inteiramente sem fundamento. Podeis lembrar-vos do que vos disse a esse respeito, quando falámos disso pela primeira vez.»

Estavam agora quase à porta da casa, pois ela andara depressa para se livrar dele; e, sem vontade, por causa da irmã, de o provocar, apenas disse em resposta, com um sorriso bem-humorado:

«Vamos, Mr. Wickham, somos irmãos, sabeis. Não deixemos que discutamos acerca do passado. De futuro, espero que estejamos sempre de acordo.»

Estendeu-lhe a mão: ele beijou-a com galantaria afectuosa, embora quase não soubesse como olhar, e entraram na casa.

CAPÍTULO LIII.

Mr. Wickham ficou tão perfeitamente satisfeito com esta conversa, que nunca mais se afligiu, nem provocou a sua querida irmã Elizabeth, introduzindo o assunto; e ela teve a satisfação de descobrir que dissera o bastante para o manter sossegado.

O dia da partida dele e de Lydia chegou em breve; e Mrs. Bennet foi forçada a submeter-se a uma separação que, como o marido de modo nenhum entrava no esquema dela de irem todos para Newcastle, provavelmente duraria pelo menos um ano.

«Oh, minha querida Lydia», exclamou ela, «quando nos tornaremos a encontrar?»

«Oh, Senhor! Não sei. Talvez só daqui a dois ou três anos.»

«Escreve-me muito amiúde, minha querida.»

«Tão amiúde quanto puder. Mas sabeis que as mulheres casadas nunca têm muito tempo para escrever. As minhas irmãs que me escrevam. Elas não têm mais nada que fazer.»

As despedidas de Mr. Wickham foram muito mais afectuosas do que as da esposa. Ele sorriu, mostrou-se elegante, e disseu muitas coisas delicadas.

«É um sujeito tão distinto», disse Mr. Bennet, logo que saíram de casa, «como algum dia vi. Faz trejeitos, sorri com afetação, e faz-nos a corte a todos. Estou prodigiosamente orgulhoso dele. Desafio até o próprio Sir William Lucas a produzir um genro mais valioso.»

A perda da filha deixou Mrs. Bennet muito abatida durante vários dias.

«Penso muitas vezes», disse ela, «que não há nada tão mau como a separação dos nossos amigos. A gente fica tão desamparada sem eles.»

«Esta é a consequência, como vedes, senhora, de casar uma filha», disse Elizabeth. «Deve fazer-vos mais satisfeita por as outras quatro serem solteiras.»

«Não é nada disso. Lydia não me deixa porque se casou; mas apenas porque o regimento do marido fica tão longe por acaso. Se ficasse mais perto, ela não teria ido tão cedo.»

Mas o estado de prostração em que este acontecimento a lançou foi em breve aliviado, e a sua mente tornou-se a abrir à agitação da esperança, graças a uma notícia que nessa altura começava a circular. A governanta de Netherfield recebera ordens para preparar a chegada do amo, que viria daí a um dia ou dois, para caçar ali durante várias semanas. Mrs. Bennet ficou numa extrema agitação. Olhava para Jane, sorria, e abanava a cabeça, alternadamente.

«Bem, bem, e então Mr. Bingley vem para cá, mana» (pois Mrs. Philips foi a primeira a dar-lhe a novidade). «Bem, tanto melhor. Não é que eu ligue a isso, aliás. Ele não é nada para nós, sabeis, e eu por certo nunca quero voltar a vê-lo. Mas, seja como for, ele é muito bem-vindo a vir a Netherfield, se lhe apetecer. E quem sabe o que poderá acontecer? Mas isso não é nada que nos diga respeito. Sabeis, mana, concordámos há muito tempo em nunca dizer uma palavra sobre o assunto. E então, é bem certo que ele vem?»

«Podeis contar com isso», respondeu a outra, «pois Mrs. Nichols estava em Meryton ontem à noite: vi-a passar e saí de propósito para saber a verdade; e ela disse-me que era coisa absolutamente certa. Ele vem na quinta-feira, o mais tardar, muito provavelmente na quarta-feira. Ia à casa do talhante, disse-me, de propósito para encomendar carne para quarta-feira, e tem três pares de patos mesmo prontos a abater.»

Miss Bennet não pudera ouvir da vinda dele sem mudar de cor. Já tinham passado muitos meses desde que mencionara o nome dele a Elizabeth; mas agora, assim que ficaram a sós, disse:

«Vi-te olhar para mim hoje, Lizzy, quando a nossa tia nos contou a presente notícia; e sei que pareci perturbada; mas não imagines que foi por alguma causa tola. Apenas fiquei confusa por um instante, porque senti que me iam olhar. Asseguro-te de que a notícia não me afeta nem com prazer nem com dor. Folgo com uma coisa: que ele venha sozinho; porque assim o veremos menos. Não é que eu tenha medo de mim mesma, mas temo os comentários das outras pessoas.»

Elizabeth não sabia o que pensar. Se não o tivesse visto em Derbyshire, poderia supô-lo capaz de vir ali sem outro objetivo senão o confessado; mas ela ainda o julgava parcial em relação a Jane, e hesitava entre a maior probabilidade de ele vir ali com permissão do amigo, ou de ser ousado o bastante para vir sem ela.

«Ainda assim é duro», pensava por vezes, «que este pobre homem não possa vir a uma casa que arrendou legalmente, sem levantar toda esta especulação! Vou deixá-lo em paz.»

Apesar do que a irmã declarava, e realmente acreditava serem os seus sentimentos, na expectativa da chegada dele, Elizabeth facilmente percebia que o ânimo dela era por isso afetado. Estavam mais perturbados, mais desiguais, do que ela os vira muitas vezes.

O assunto que fora tão vivamente debatido entre os pais delas, cerca de um ano atrás, foi agora trazido à baila de novo.

«Logo que Mr. Bingley chegar, minha querida», disse Mrs. Bennet, «hás de ir visitá-lo, claro.»

«Não, não. No ano passado obrigaste-me a ir visitá-lo, e prometeste que, se eu fosse vê-lo, ele havia de casar com uma das minhas filhas. Mas não deu em nada, e não me mandareis outra vez numa incumbência tola.»

A esposa representou-lhe como absolutamente necessária tal atenção por parte de todos os cavalheiros da vizinhança, ao ele regressar a Netherfield.

«É uma etiqueta que eu desprezo», disse ele. «Se ele quer a nossa sociedade, que a procure. Ele sabe onde vivemos. Não vou gastar as minhas horas a correr atrás dos meus vizinhos cada vez que eles partem e voltam.»

«Bem, tudo o que sei é que será abominavelmente grosseiro da tua parte se não o visitares. Mas, em todo o caso, isso não impedirá que eu o convide para jantar aqui, estou decidida. Havemos de convidar logo Mrs. Long e os Gouldings. Isso fará treze connosco, portanto haverá exactamente lugar à mesa para ele.»

Consolada por esta resolução, estava em melhor estado de suportar a descortesia do marido; embora fosse muito mortificante saber que os vizinhos poderiam todos ver Mr. Bingley, em consequência disso, antes de elas o verem. Conforme o dia da chegada dele se aproximava:

«Começo a arrepender-me de que ele venha sequer», disse Jane à irmã. «Não seria nada; eu podia vê-lo com perfeita indiferença; mas mal consigo suportar ouvir falar nisso constantemente. A minha mãe tem boas intenções; mas ela não sabe, ninguém pode saber, quanto eu sofro com o que ela diz. Feliz estarei quando a estadia dele em Netherfield tiver fim!»

«Quem me dera poder dizer alguma coisa para te consolar», respondeu Elizabeth; «mas está inteiramente fora do meu alcance. Tu hás de sentir; e a satisfação habitual de pregar paciência a quem sofre é-me negada, porque tu sempre tens tanta.»

Mr. Bingley chegou. Mrs. Bennet, com o auxílio dos criados, conseguiu ter as primeiras notícias disso, para que o período de ansiedade e impaciência da parte dela fosse o mais longo possível. Ela contou os dias que deviam mediar antes de o convite poder ser enviado — sem esperança de o ver antes. Mas na terceira manhã depois da chegada dele a Hertfordshire, viu-o da janela do seu toucador entrar no parque, e dirigir-se a cavalo para a casa.

As filhas foram chamadas apressadamente para participar da sua alegria. Jane manteve resolutamente o seu lugar à mesa; mas Elizabeth, para satisfazer a mãe, foi à janela — olhou — viu Mr. Darcy com ele, e sentou-se outra vez junto da irmã.

«Há um cavalheiro com ele, mamã», disse Kitty; «quem será?»

«Algum conhecido ou outro, minha querida, suponho; tenho a certeza de que não sei.»

«Ah!», respondeu Kitty, «parece mesmo aquele homem que costumava estar com ele antes. Mr. como se chama — aquele homem alto, arrogante.»

«Deus meu! Mr. Darcy! — e de facto parece, juro eu. Bem, qualquer amigo de Mr. Bingley será sempre bem-vindo aqui, sem dúvida; mas de resto devo dizer que odeio a simples vista dele.»

Jane olhou para Elizabeth com surpresa e preocupação. Ela sabia muito pouco do encontro delas em Derbyshire, e por isso sentia o incómodo que a irmã havia de sentir ao vê-lo quase pela primeira vez depois de receber a carta explicativa dele. Ambas as irmãs estavam suficientemente incómodas. Cada uma sentia pela outra, e claro por si mesmas; e a mãe delas continuava a falar do seu desagrado por Mr. Darcy, e da sua resolução de ser civil com ele apenas como amigo de Mr. Bingley, sem ser ouvida por nenhuma delas. Mas Elizabeth tinha fontes de inquietação que Jane ainda não podia suspeitar, a quem ela nunca tivera ainda coragem de mostrar a carta de Mrs. Gardiner, nem de relatar a sua própria mudança de sentimento para com ele. Para Jane, ele só podia ser um homem cujas propostas ela recusara, e cujos méritos ela subestimara; mas para a sua própria informação mais ampla, ele era a pessoa a quem toda a família estava agradecida pelo maior dos benefícios, e a quem ela própria considerava com um interesse, se não de todo tão terno, pelo menos tão razoável e justo, como o que Jane sentia por Bingley. O seu espanto com a vinda dele — com a vinda dele a Netherfield, a Longbourn, e a procurá-la voluntariamente outra vez — era quase igual ao que sentira ao testemunhar pela primeira vez o comportamento alterado dele em Derbyshire.

A cor que fugira do seu rosto voltou durante meio minuto com um brilho acrescido, e um sorriso de deleite deu lustro aos seus olhos, enquanto pensou por esse breve espaço de tempo que a afeição e os desejos dele deviam ainda estar inabalados; mas ela não quis fiar-se.

«Deixa-me primeiro ver como ele se comporta», disse ela; «será então tempo bastante para esperar.»

Sentou-se atentamente ao trabalho, esforçando-se por manter-se composta, e sem ousar levantar os olhos, até que a ansiedade da curiosidade os levou ao rosto da irmã quando o criado se aproximava da porta. Jane parecia um pouco mais pálida que o habitual, mas mais serena do que Elizabeth esperara. Quando os cavalheiros apareceram, a cor dela subiu; contudo, recebeu-os com tolerável à-vontade, e com uma propriedade de comportamento igualmente livre de qualquer sinal de ressentimento, ou de qualquer complacência desnecessária.

Elizabeth disse o mínimo a ambos que a civilidade permitia, e sentou-se de novo ao trabalho, com um afinco que raramente o exigia. Arriscara apenas uma olhadela a Darcy. Ele parecia sério, como de costume; e, pensou ela, mais como costumava parecer em Hertfordshire, do que como o vira em Pemberley. Mas, talvez, ele não pudesse na presença da mãe dela ser o que fora diante do tio e da tia. Era uma conjectura dolorosa, mas não improvável.

Bingley ela também vira por um instante, e nesse curto período viu-o tanto satisfeito como perturbado. Foi recebido por Mrs. Bennet com um grau de civilidade que fez corar as duas filhas, sobretudo quando contrastado com a polidez fria e cerimoniosa da cortesia e do acento do amigo dele.

Elizabeth sobretudo, que sabia que a mãe devia a este último a preservação da sua filha favorita de uma infâmia irremediável, ficou magoada e afligida ao mais doloroso grau por uma distinção tão mal aplicada.

Darcy, depois de lhe perguntar como Mr. e Mrs. Gardiner estavam — pergunta a que ela não pôde responder sem confusão — quase não disse mais nada. Não estava sentado junto dela: talvez fosse essa a razão do silêncio dele; mas não fora assim em Derbyshire. Ali, falara aos amigos dela quando não podia falar a ela própria. Mas agora decorreram vários minutos sem que o som da voz dele se fizesse ouvir; e quando, por vezes, incapaz de resistir ao impulso da curiosidade, ela erguia os olhos para o rosto dele, encontrava-o tão frequentemente a olhar para Jane como para ela, e amiúde para objecto nenhum senão o chão. Mais melancolia e menos ansiedade de agradar, do que quando se encontraram pela última vez, estavam claramente expressas. Ela ficou desapontada, e zangada consigo mesma por isso.

«Poder eu esperar que fosse de outro modo?», disse ela. «Mas então por que veio?»

Ela não estava com disposição para conversar com mais ninguém senão ele; e a ele quase não tinha coragem de falar.

Perguntou pela irmã dele, mas não pôde fazer mais.

«Já lá vai muito tempo, Mr. Bingley, desde que partistes», disse Mrs. Bennet.

Ele concordou prontamente.

«Cheguei a recear que não voltásseis mais. As pessoas diziam que tencionáveis deixar o lugar inteiramente pelo São Miguel; mas, contudo, espero que não seja verdade. Muitas mudanças aconteceram na vizinhança desde que partistes. Miss Lucas está casada e estabelecida; e uma das minhas próprias filhas. Suponho que tereis ouvido falar; aliás, deveis tê-lo visto nos jornais. Veio no *Times* e no *Courier*, eu sei; embora não tenha sido inserido como devia. Apenas se disse: «Recentemente, George Wickham, Esq., com Miss Lydia Bennet», sem se dizer uma palavra sobre o pai dela, ou o lugar onde ela vivia, ou qualquer coisa. Foi o meu irmão Gardiner que compôs o anúncio, e admiro-me como pôde fazer um negócio tão desajeitado. Vistes?»

Bingley respondeu que sim, e apresentou-lhe os seus cumprimentos. Elizabeth não ousou levantar os olhos. Como Mr. Darcy parecia, por isso, não pôde dizer.

—É uma coisa deliciosa, sem dúvida —continuou a mãe dela—, ter uma filha bem casada; mas, ao mesmo tempo, Mr. Bingley, é muito duro tê-la tirada de mim. Partiram para Newcastle, um sítio bem para o norte, ao que parece, e lá hão-de ficar, não sei quanto tempo. O regimento dele está lá; porque, suponho, já ouvistes que ele deixou ----shire, e que entrou nos Regulares. Graças ao céu, ele tem alguns amigos, ainda que, talvez, não tantos quantos merece.

Elizabeth, que sabia que aquilo era dirigido a Mr. Darcy, sentia tão grande mortificação de vergonha que mal podia manter-se sentada. Aquilo, todavia, arrancou-lhe um esforço de falar que nada mais tão eficazmente lograra antes; e perguntou a Bingley se tencionava ficar algum tempo no campo por agora. Algumas semanas, ele julgava.

—Quando tiverdes matado todas as vossas próprias aves, Mr. Bingley —disse a mãe dela—, peço-vos que venhais aqui e cacieis quantas quiserdes na propriedade de Mr. Bennet. Estou certa de que ele ficará imensamente satisfeito por vos obsequiar, e guardará para vós o melhor de cada ninhada.

A miséria de Elizabeth crescia com tão desnecessária, tão oficiosa atenção! Se a mesma bela perspectiva se apresentasse agora, como os lisonjeara um ano antes, tudo, estava convencida, apressar-se-ia para a mesma vexatória conclusão. Naquele instante sentiu que anos de felicidade não poderiam indemnizar Jane nem a ela própria por momentos de tão dolorosa confusão.

—O primeiro voto do meu coração —disse para si mesma— é nunca mais estar em companhia de nenhum dos dois. A convivência deles não pode dar prazer que compense tão grande desdita! Não veja eu nunca mais nem um nem outro!

Contudo, a miséria, para a qual anos de felicidade não haviam de oferecer compensação, recebeu pouco depois um alívio substancial, ao observar quanto a beleza da irmã reacendia a admiração do antigo namorado dela. Quando entrou, falara-lhe muito pouco, mas cada cinco minutos pareciam dar-lhe mais da sua atenção. Achou-a tão formosa como estivera no ano anterior; tão bem-humorada, e tão natural, embora um pouco menos loquaz. Jane estava ansiosa por que não se percebesse nela diferença alguma, e estava realmente persuadida de que falava tanto como sempre; mas o espírito andava tão ocupado, que nem sempre sabia quando estava calada.

Quando os cavalheiros se levantaram para se retirar, Mrs. Bennet lembrou-se da cortesia que tencionava, e foram convidados e comprometidos para jantar em Longbourn dali a poucos dias.

—Estais em dívida comigo por uma visita, Mr. Bingley —acrescentou ela—; pois, quando fôstes à cidade no inverno passado, prometestes vir tomar uma refeição em família connosco logo que voltásseis. Não me esqueci, como vedes; e asseguro-vos que fiquei muito desapontada por não terdes voltado e cumprido o vosso compromisso.

Bingley ficou um tanto atrapalhado com esta reflexão, e disse algo do seu pesar por ter sido impedido por negócios. Depois retiraram-se.

Mrs. Bennet estivera fortemente inclinada a pedir-lhes que ficassem e jantassem ali naquele dia; mas, embora sempre tivesse uma mesa muito bem servida, não achava que menos de dois pratos pudesse ser suficientemente bom para um homem sobre quem tinha tão ansiosos desígnios, nem bastasse para satisfazer o apetite e o orgulho de quem tinha dez mil libras de rendimento.

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## CAPÍTULO LIV.

Mal saíram, Elizabeth saiu a passear para recuperar os ânimos; ou, por outras palavras, para meditar sem interrupção naqueles assuntos que mais haviam de amortecê-los. O procedimento de Mr. Darcy espantava-a e irritava-a.

—Ora, se ele veio apenas para estar silencioso, grave e indiferente —disse ela—, para que veio?

Não conseguia resolvê-lo de modo que lhe desse prazer.

—Ele podia ser ainda amável, ainda agradável para o meu tio e a minha tia, quando estava na cidade; e por que não para mim? Se me teme, por que vir aqui? Se já não gosta de mim, por que silencioso? Homem importuno, importuno! Não quero pensar mais nele.

A sua resolução foi por pouco tempo involuntariamente mantida pela aproximação da irmã, que se juntou a ela com um ar alegre que mostrava estar mais satisfeita com os visitantes do que Elizabeth.

—Agora —disse ela—, que este primeiro encontro passou, sinto-me perfeitamente à vontade. Sei qual é a minha firmeza, e nunca mais me perturbarei com a vinda dele. Folgo que jante aqui na terça-feira. Então ver-se-á publicamente que, de parte a parte, nos encontramos apenas como conhecidos vulgares e indiferentes.

—Sim, muito indiferentes, por certo —disse Elizabeth, a rir—. Oh, Jane! tem cuidado.

—Minha querida Lizzy, não podes pensar-me tão fraca que esteja agora em perigo.

—Penso que estás em grandíssimo perigo de o fazer tão enamorado de ti como nunca.

Não tornaram a ver os cavalheiros até terça-feira; e Mrs. Bennet, entretanto, entregava-se a todos os felizes-projectos que o bom humor e a comum cortesia de Bingley, em meia hora de visita, haviam reavivado.

Na terça-feira havia grande reunião em Longbourn; e os dois que eram mais ansiosamente esperados, para honra da sua pontualidade como desportistas, chegaram em muito boa hora. Quando se dirigiram para a sala de jantar, Elizabeth observou atentamente para ver se Bingley tomaria o lugar que, em todas as suas anteriores reuniões, lhe pertencera, junto da irmã dela. A prudente mãe, ocupada pelas mesmas ideias, deixou de o convidar para se sentar junto dela. Ao entrar na sala, pareceu hesitar; mas Jane por acaso olhou em volta, e por acaso sorriu: ficou decidido. Pôs-se junto dela.

Elizabeth, com sensação de triunfo, olhou para o amigo dele. Ele suportou-o com nobre indiferença; e ela teria imaginado que Bingley recebera licença sua para ser feliz, se não tivesse visto os olhos dele também voltados para Mr. Darcy, com uma expressão de alarme meio a rir.

O comportamento dele para com a irmã dela foi, durante o jantar, de molde a mostrar uma admiração por ela, que, embora mais reservado que dantes, persuadiu Elizabeth de que, se fosse deixado inteiramente a si mesmo, a felicidade de Jane e a dele próprio seriam brevemente asseguradas. Embora não ousasse fiar-se do resultado, recebia contudo prazer ao observar o procedimento dele. Deu-lhe toda a animação de que o seu ânimo podia ufanar-se; pois não estava de humor alegre. Mr. Darcy estava dela tão afastado quanto a mesa o permitia. Estava de um lado da mãe dela. Ela sabia quão pouco tal situação daria prazer a qualquer deles, ou faria qualquer deles parecer com vantagem. Não estava perto o suficiente para ouvir nada do que diziam; mas via como raramente falavam um com o outro, e como formal e frio era o seu modo sempre que o faziam. A falta de graça da mãe dela tornava mais penoso ao espírito de Elizabeth o sentimento daquilo que lhe deviam; e daria, por vezes, qualquer coisa para ter o privilégio de lhe dizer que a sua gentileza não era nem desconhecida nem despercebida por toda a família.

Esperava que a noite oferecesse alguma oportunidade de os aproximar; que a totalidade da visita não passasse sem lhes permitir entrar em algo mais de conversa, do que a mera saudação cerimoniosa que acompanhara a entrada dele. Ansiosa e inquieta, o período que passou na sala antes de os cavalheiros chegarem foi fastidioso e enfadonho a ponto de quase a tornar descortês. Esperava a entrada deles como o ponto de que dependia toda a sua possibilidade de prazer para a noite.

—Se ele não vier ter comigo, então —disse ela—, renunciá-lo-ei para sempre.

Os cavalheiros entraram; e ela julgou que ele parecia disposto a corresponder às suas esperanças; mas, ai! as senhoras tinham-se acotovelado em volta da mesa, onde Miss Bennet fazia o chá, e Elizabeth servia o café, em tão cerrada confederação, que não havia um único lugar vago junto dela que admitisse uma cadeira. E, ao aproximarem-se os cavalheiros, uma das raparigas aproximou-se dela mais do que nunca, e disse, num murmúrio:

—Os homens não hão-de vir separar-nos, estou resolvida. Não precisamos deles; pois não?

Darcy afastara-se para outra parte da sala. Ela acompanhou-o com os olhos, invejou todos a quem ele falou, mal teve paciência para servir café a quem quer que fosse, e depois encolerizou-se consigo mesma por ser tão tola!

—Um homem a quem uma vez se recusou! Como pude eu ser tola ao ponto de esperar uma renovação do seu amor? Haverá alguém do sexo que não proteste contra tal fraqueza como uma segunda proposta à mesma mulher? Não há indignidade tão abhorente aos seus sentimentos.

Reviveu um pouco, todavia, com ele trazer pessoalmente a sua chávena de café; e ela aproveitou a ocasião para dizer:

—A vossa irmã ainda em Pemberley?

—Sim; ficará lá até ao Natal.

—E completamente sozinha? Já todos os amigos dela a deixaram?

—Mrs. Annesley está com ela. As outras partiram para Scarborough há três semanas.

Ela não pôde pensar em mais nada para dizer; mas, se ele desejasse conversar com ela, poderia ter mais êxito. Ele ficou, todavia, junto dela alguns minutos, em silêncio; e, por fim, quando a jovem tornou a murmurar a Elizabeth, ele afastou-se.

Quando se removeu a baixela do chá e se colocaram as mesas de jogo, as senhoras levantaram-se todas; e Elizabeth esperava então ser logo por ele procurada, quando todas as suas perspectivas foram derrubadas, ao vê-lo cair vítima da rapacidade da mãe dela por jogadores de whist, e poucos momentos depois sentado com o resto da reunião. Perdeu agora toda a expectativa de prazer. Estavam confinados para a noite a mesas diferentes; e ela só podia esperar que os olhos dele se voltassem com tanta frequência para o lado da sala onde ela estava, que o fizessem jogar com tão pouco êxito como ela.

Mrs. Bennet planejara reter os dois cavalheiros de Netherfield para a ceia; mas a carruagem deles estava, por infelicidade, mandada vir antes de qualquer das outras, e ela não teve ensejo de os deter.

—Bem, raparigas —disse ela, logo que ficaram a sós—, que vos parece do dia? Penso que tudo correu incomumente bem, asseguro-vos. O jantar estava tão bem guisado como qualquer um que eu jamais vi. O veado estava assado no ponto—e toda a gente disse que nunca vira tão gordo um quarto. A sopa era cinquenta vezes melhor que a que tivemos em casa dos Lucas na semana passada; e até Mr. Darcy reconheceu que as perdizes estavam notavelmente bem feitas; e eu suponho que ele tem pelo menos dois ou três cozinheiros franceses. E, minha querida Jane, nunca te vi tão formosa. Mrs. Long também o disse, porque lhe perguntei se não te achava. E que vos parece que ela disse mais? «Ah! Mrs. Bennet, havemos-de tê-la em Netherfield por fim!» Disse, com efeito. Penso que Mrs. Long é tão boa criatura como jamais houve—e as sobrinhas dela são raparigas muito bem-educadas, e nada formosas: gosto delas prodigiosamente.

Mrs. Bennet, em suma, estava em óptimos ânimos: vira o bastante do procedimento de Bingley para com Jane para se convencer de que a havia de apanhar por fim; e as suas expectativas de vantagem para a família, quando estava de humor feliz, iam tão além da razão, que ficou bastante desapontada por não o ver ali outra vez no dia seguinte, para fazer a sua proposta.

—Tem sido um dia muito agradável —disse Miss Bennet a Elizabeth—. A reunião pareceu tão bem escolhida, tão adequada uma pessoa à outra. Espero que nos possamos encontrar muitas vezes.

Elizabeth sorriu.

—Lizzy, não faças isso. Não deves suspeitar de mim. Isso mortifica-me. Asseguro-te que agora aprendi a gozar a conversa dele como um jovem agradável e sensato, sem ter desejo que vá além disso. Estou perfeitamente convencida, pelo que os modos dele agora são, de que ele nunca teve tenção de cativar a minha afeição. É apenas que ele é abençoado com maior doçura de maneiras, e mais forte desejo de agradar em geral, do que qualquer outro homem.

—És muito cruel —disse a irmã—: não me deixas sorrir, e provocas-me a isso a cada momento.

—Como é difícil, em alguns casos, ser acreditada! E como é impossível noutros! Mas por que quererás persuadir-me de que sinto mais do que reconheço?

—Essa é uma pergunta que mal sei como responder. Todos gostamos de instruir, embora só possamos ensinar o que não vale a pena saber. Perdoa-me; e, se persistires na indiferença, não me faças tua confidente.

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## CAPÍTULO LV.

Poucos dias depois desta visita, Mr. Bingley tornou a aparecer, e sozinho. O amigo dele partira naquela manhã para Londres, mas havia de voltar dali a dez dias. Esteve com elas mais de uma hora, e estava em ânimo notavelmente bom. Mrs. Bennet convidou-o para jantar; mas, com muitas expressões de pesar, ele confessou estar comprometido noutro lado.

—Da próxima vez que vierdes —disse ela—, espero que sejamos mais felizes.

Ele ficaria particularmente feliz em qualquer altura, etc., etc.; e, se ela lhe desse licença, aproveitaria uma próxima oportunidade para as visitar.

—Podes vir amanhã?

Sim, não tinha compromisso algum para o dia seguinte; e o convite foi aceite com alacridade.

Ele veio, e em tão boa hora, que as senhoras ainda não estavam vestidas. Correu Mrs. Bennet para o quarto das filhas, em robe, e com o cabelo meio feito, gritando:

—Minha querida Jane, despacha-te e desce logo. Ele veio—Mr. Bingley veio. Veio, com efeito. Despacha-te, despacha-te. Aqui, Sarah, vai já ter com Miss Bennet, e ajuda-a a vestir o vestido. Não te preocupes com o cabelo de Miss Lizzy.

—Desceremos tão depressa quanto pudermos —disse Jane—; mas atrevo-me a dizer que Kitty está mais adiantada que qualquer de nós, porque subiu há meia hora.

—Oh! vá para o diabo a Kitty! que tem ela com isso? Anda, depressa, depressa! onde está a tua cinta, minha querida?

Mas, quando a mãe saiu, Jane não consentiu em ser persuadida a descer sem uma das irmãs.

O mesmo ardor por os deixar a sós tornou a ser visível à noite. Depois do chá, Mr. Bennet retirou-se para a biblioteca, como era seu costume, e Mary subiu para o seu instrumento. Estando assim removidos dois obstáculos dos cinco, Mrs. Bennet ficou a olhar e a piscar o olho para Elizabeth e Catherine por bastante tempo, sem lhes causar qualquer impressão. Elizabeth não quis atendê-la; e quando por fim Kitty o fez, disse com toda a inocência: «Que é que há, mamã? Porque me fazes sinal com os olhos? Que hei-de eu fazer?»

—Nada, filha, nada. Não te pisquei o olho. —Depois ficou quieta mais cinco minutos; mas incapaz de desperdiçar tão preciosa ocasião, levantou-se de repente, e dizendo a Kitty:

—Vem cá, minha filha, quero falar contigo, levou-a para fora da sala. Jane lançou imediatamente a Elizabeth um olhar que exprimia o seu pesar por tão premeditada manobra, e a súplica de que não cedesse a ela. Dentro de poucos minutos, Mrs. Bennet entreabriu a porta e chamou:

—Lizzy, minha filha, quero falar contigo.

Elizabeth foi obrigada a ir.

—Podemos deixá-los a sós, tu sabes —disse a mãe, logo que ela chegou ao vestíbulo—. Kitty e eu vamos subir para a sala do meu toucador.

Elizabeth não tentou argumentar com a mãe, mas ficou sossegadamente no vestíbulo até ela e Kitty desaparecerem, e depois tornou a entrar na sala.

Os planos de Mrs. Bennet para esse dia ficaram sem efeito. Bingley era tudo o que há de encantador, excepto o declarado namorado da filha dela. A sua descontração e bom humor fizeram dele um acrescimo muito agradável à reunião da noite; e ele suportou a mal-avisada oficiosidade da mãe, e ouviu todas as suas tolas observações com uma tolerância e domínio de rosto particularmente gratos à filha.

Mal precisou de convite para ficar a cear; e, antes de se retirar, formou-se um compromisso, sobretudo por meio dele e de Mrs. Bennet, para que viesse na manhã seguinte caçar com o marido dela.

Depois deste dia, Jane não tornou a falar da sua indiferença. Não passou uma palavra entre as irmãs a respeito de Bingley; mas Elizabeth foi deitar-se com a feliz crença de que tudo devia breve ficar concluído, a menos que Mr. Darcy voltasse dentro do prazo fixado. Sériamente, todavia, sentia-se bastante persuadida de que tudo aquilo devia ter acontecido com a concordância daquele cavalheiro.

Bingley foi pontual ao encontro; e ele e Mr. Bennet passaram a manhã juntos, como fora combinado. Este último era muito mais agradável do que o companheiro esperava. Não havia em Bingley nada de presunçoso ou disparatado que pudesse provocar o seu ridículo, ou disgustá-lo ao silêncio; e era mais comunicativo, e menos excêntrico, do que o outro jamais o vira. Bingley, naturalmente, voltou com ele para o jantar; e à noite o engenho de Mrs. Bennet tornava de novo a trabalhar para afastar toda a gente dele e da filha. Elizabeth, que tinha uma carta a escrever, foi para a sala do pequeno-almoço com esse fim pouco depois do chá; pois, como os outros se punham todos a jogar às cartas, não era necessária para contrariar os planos da mãe.

Mas, ao regressar à sala, quando a carta ficou pronta, viu, para sua infinita surpresa, haver motivo para temer que a mãe tivesse sido mais engenhoosa do que ela. Ao abrir a porta, percebeu que a irmã e Bingley estavam de pé juntos junto da lareira, como se ocupados em conversa séria; e, ainda que isso não levasse a nenhuma suspeita, os rostos de ambos, ao voltarem-se de repente e se afastarem um do outro, tê-lo-iam revelado tudo. A situação deles era já bastante embaraçosa; mas a dela, pensava ela, era ainda pior. Nenhuma sílaba foi proferida por qualquer deles; e Elizabeth estava quase a retirar-se outra vez, quando Bingley, que entretanto se sentara, como a outra, se levantou de repente, e, murmurando algumas palavras à irmã, correu para fora da sala.

Jane não podia ter reservas com Elizabeth, onde a confiança daria prazer; e, abraçando-a imediatamente, reconheceu, com a mais viva emoção, que era a criatura mais feliz do mundo.

—É demais! —acrescentou—, é muito demais. Não o mereço. Oh, porque não é toda a gente tão feliz?

Os parabéns de Elizabeth foram dados com uma sinceridade, um calor, um deleite, que as palavras mal podiam exprimir. Cada frase de bondade era nova fonte de felicidade para Jane. Mas não consentiu em ficar com a irmã, nem em dizer metade do que ainda restava dizer, por agora.

—Tenho de ir imediatamente ter com a minha mãe —exclamou—. Não brincaria, por nada, com a sua afectuosa solicitude, nem lhe permitiria que o soubesse por outra pessoa que não eu. Ele já foi ter com o meu pai. Oh, Lizzy, saber que o que tenho para contar dará tanto prazer a toda a minha querida família! como suportarei tanta felicidade?

Depois apressou-se para junto da mãe, que propositadamente interrompera a partida de cartas, e estava sentada no andar de cima com Kitty.

Elizabeth, que ficou sozinha, sorriu agora da rapidez e facilidade com que um assunto ficou afinal resolvido, que tantas meses de suspense e vexame lhes dera.

—E este —disse ela— é o fim de toda a ansiosa circunspecção do amigo dele! de toda a falsidade e intriga da irmã dele! o mais feliz, o mais sábio e o mais razoável fim!

Dentro de poucos minutos foi por Bingley alcançada, cuja conferência com o pai fora breve e directa.

—Onde está a tua irmã? —disse ele apressadamente, ao abrir a porta.

—Com a minha mãe no andar de cima. Descerá dentro de um momento, atrevo-me a dizer.

Então ele fechou a porta e, aproximando-se dela, reclamou os bons votos e o carinho de uma irmã. Elizabeth expressou com sinceridade e de coração a sua alegria diante da perspectiva daquele parentesco. Apertaram as mãos com grande cordialidade; e depois, até que a irmã descesse, ela teve de ouvir tudo quanto ele quis dizer acerca da própria felicidade e das perfeições de Jane; e, apesar de ele ser um apaixonado, Elizabeth acreditou de verdade que todas as suas expectativas de ventura tinham fundamento racional, porque se baseavam na excelente compreensão e na mais que excelente disposição de Jane, e numa geral semelhança de sentimentos e gostos entre ela e ele.

Era uma noite de alegria incomum para todos eles; a satisfação do espírito da srta. Bennet dava ao seu rosto tal fulgor de doce animação, que a tornava mais bonita do que nunca. Kitty sorria com afetação e desejava que a sua vez chegasse em breve. A sra. Bennet não conseguia dar o seu consentimento nem exprimir a sua aprovação em termos suficientemente calorosos para satisfazer os seus sentimentos, embora não falasse a Bingley de outra coisa durante meia hora; e quando o sr. Bennet se lhes juntou ao jantar, a voz e o modo mostravam claramente como ele era de facto feliz.

Todavia, nem uma só palavra lhe saiu dos lábios em alusão a isso, até que o visitante se despediu para a noite; mas, logo que ele saiu, virou-se para a filha e disse:

— Jane, dou-te os meus parabéns. Serás uma mulher muito feliz.

Jane foi imediatamente ter com ele, beijou-o e agradeceu-lhe a sua bondade.

— És uma boa rapariga —respondeu ele— e tenho grande prazer em pensar que ficarás tão bem estabelecida. Não tenho dúvida de que vos dareis muito bem um ao outro. Os vossos génios de modo nenhum se parecem. Cada um de vós é tão condescendente, que nunca nada se resolverá; tão fácil, que todo o criado vos enganará; e tão generoso, que sempre gastareis mais do que tendes de rendimento.

— Espero que não. A imprudência ou a falta de atenção em questões de dinheiro seria imperdoável em mim.

— Gastar mais do que o rendimento! Meu caro sr. Bennet —exclamou a esposa—, do que está a falar? Pois ele tem quatro ou cinco mil libras por ano, e muito provavelmente mais. E, dirigindo-se à filha: — Oh, minha querida, querida Jane, estou tão feliz! Tenho a certeza de que não vou pregar olho a noite inteira! Eu sabia que havia de ser assim. Sempre disse que tinha de acabar assim, no fim. Tinha a certeza de que não podias ser tão bonita para nada! Lembro-me, assim que o vi, quando ele veio pela primeira vez a Hertfordshire no ano passado, pensei como era provável que vocês acabassem juntos. Oh, ele é o mais belo rapaz que alguma vez se viu!

Wickham, Lydia, todos estavam esquecidos. Jane era, sem competição, a sua filha favorita. Naquele momento, ela não se importava com nenhuma outra. As irmãs mais novas começaram logo a procurar o favor dela para objetos de felicidade que ela talvez no futuro pudesse distribuir.

Mary pediu para usar a biblioteca em Netherfield; e Kitty pediu com muito afinco que se dessem ali alguns bailes todos os Invernos.

Bingley, a partir dessa altura, foi naturalmente um visitante diário em Longbourn; vinha muitas vezes antes do pequeno-almoço e ficava sempre até depois do jantar; a não ser que algum vizinho bárbaro, que não se podia detestar o suficiente, lhe tivesse feito um convite para jantar, que ele se considerava obrigado a aceitar.

Elizabeth tinha agora pouco tempo para conversar com a irmã; pois, enquanto ele estava presente, Jane não tinha atenção a dar a mais ninguém: mas descobriu ser consideravelmente útil a ambos, nas horas de separação que tinham por vezes de ocorrer. Na ausência de Jane, ele ligava-se sempre a Elizabeth pelo prazer de falar dela; e quando Bingley saía, Jane procurava constantemente o mesmo meio de alívio.

— Ele fez-me tão feliz —disse ela, certa noite—, ao contar-me que estava totalmente ignorante de que eu estivesse em Londres na primavera passada! Eu não teria achado possível.

— Já eu suspeitava disso —respondeu Elizabeth. — Mas como é que ele explicou?

— Deve ter sido obra das irmãs dele. Elas decerto não eram amigas do conhecimento que ele tinha de mim, o que não me admira, visto que ele poderia ter escolhido muito mais vantajosamente em muitos aspetos. Mas quando elas virem, como confio que verão, que o irmão delas é feliz comigo, aprenderão a contentar-se, e voltaremos a dar-nos bem: embora nunca possamos ser o que fomos uma para a outra.

— Esse é o mais implacável discurso —disse Elizabeth— que alguma vez te ouvi pronunciar. Boa rapariga! Zangar-me-ia deveras, ao ver-te de novo enganada pelo fingido afeto da srta. Bingley.

— Acreditarias, Lizzy, que quando ele foi a Londres em Novembro passado realmente me amava, e que nada a não ser a persuasão de que eu lhe era indiferente o teria impedido de voltar para cá?

— Cometeu um pequeno erro, é certo; mas isso é crédito da sua modéstia.

Isso introduziu naturalmente um panegírico de Jane acerca da timidez dele, e do pouco valor que ele atribuía às suas próprias boas qualidades.

Elizabeth alegrou-se ao verificar que ele não tinha traído a interferência do amigo; pois, embora Jane tivesse o coração mais generoso e indulgente do mundo, sabia que era uma circunstância que a havia de predispor contra ele.

— Sou decerto a criatura mais afortunada que alguma vez existiu! —exclamou Jane. — Oh, Lizzy, por que sou eu assim destacada da minha família, e abençoada acima de todas elas? Se eu pudesse ver-te tão feliz como eu! Se houvesse apenas um outro homem igual para ti!

— Se me desses quarenta homens como esse, nunca eu poderia ser tão feliz como tu. Até que tenha o teu génio, a tua bondade, nunca poderei ter a tua felicidade. Não, não, deixa-me arranjar-me sozinha; e, talvez, se tiver muita sorte, possa a seu tempo encontrar outro sr. Collins.

A situação das coisas na família de Longbourn não podia ser por muito tempo um segredo. A sra. Bennet tinha o privilégio de sussurrá-lo à sra. Philips, e atreveu-se, sem qualquer permissão, a fazer o mesmo com todos os vizinhos de Meryton.

Os Bennet foram prontamente proclamados a família mais sortuda do mundo; embora apenas algumas semanas antes, quando Lydia fugira pela primeira vez, tivessem sido geralmente apontados como marcados para a desgraça.

## CAPÍTULO LVI

Certa manhã, cerca de uma semana depois de ter sido formado o noivado de Bingley com Jane, estando ele e as senhoras da família sentados juntos na sala de jantar, a sua atenção foi de repente atraída para a janela pelo som de uma carruagem; e viram uma sege puxada por quatro cavalos a subir pela relva. Era demasiado cedo de manhã para visitantes; e além disso a equipagem não correspondia à de nenhum dos vizinhos. Os cavalos eram de posta; e nem a carruagem, nem a libré do criado que a precedia, lhes eram familiares. Como era certo, porém, que vinha alguém, Bingley persuadiu logo a srta. Bennet a evitar o confinamento de tal intrusão, e a ir com ele dar um passeio pelo bosquete. Partiram ambos; e as conjeturas das três que ficaram continuaram, embora com pouca satisfação, até que a porta se abriu de par em e entrou a visitante. Era Lady Catherine de Bourgh.

É claro que todas contavam ficar surpreendidas: mas o seu assombro ia além do que esperavam; e, da parte da sra. Bennet e de Kitty, embora Lady Catherine lhes fosse perfeitamente desconhecida, era até inferior ao que Elizabeth sentia.

Ela entrou na sala com um ar mais do que habitualmente desagradável, não deu outra resposta à saudação de Elizabeth a não ser uma ligeira inclinação de cabeça, e sentou-se sem dizer palavra. Elizabeth mencionara o nome dela à mãe ao entrar Sua Senhoria, embora nenhum pedido de apresentação tivesse sido feito.

A sra. Bennet, toda pasmada, embora lisonjeada por ter uma convidada de tão elevada importância, recebeu-a com a maior cortesia. Depois de estar sentada um momento em silêncio, disse, com muita rigidez, a Elizabeth:

— Espero que esteja bem, srta. Bennet. Aquela senhora, suponho, é a sua mãe?

Elizabeth respondeu muito sucintamente que sim.

— E aquela, suponho, é uma das suas irmãs?

— Sim, senhora —disse a sra. Bennet, deliciada por falar com uma Lady Catherine. — É a minha filha mais nova, menos uma. A minha mais nova de todas casou recentemente, e a minha mais velha anda algures pelo terreno, a passear com um rapaz, que, creio, em breve fará parte da família.

— Têm aqui um parque muito pequeno —volveu Lady Catherine, após um breve silêncio.

— Não é nada em comparação com Rosings, minha Lady, atrevo-me a dizer; mas, asseguro-lhe, é muito maior do que o de sir William Lucas.

— Esta deve ser uma sala de estar das menos cómodas à noite no verão: as janelas dão totalmente para ocidente.

A sra. Bennet assegurou-lhe que nunca ali se sentavam depois do jantar; e depois acrescentou:

— Posso tomar a liberdade de perguntar a Sua Senhoria se deixou o sr. e a sra. Collins bem de saúde?

— Sim, muito bem. Vi-os anteontem à noite.

Elizabeth esperava agora que ela produzisse uma carta para ela, da parte de Charlotte, visto ser o único motivo provável para aquela visita. Mas nenhuma carta apareceu, e ficou completamente perplexa.

A sra. Bennet, com grande cortesia, rogou a Sua Senhoria que tomasse alguma refresco: mas Lady Catherine, muito resolutamente e não muito polidamente, recusou comer seja o que for; e então, levantando-se, disse a Elizabeth:

— Srta. Bennet, parece haver um pequeno e gracioso arvoredo de um lado do seu relvado. Teria muito gosto em dar uma volta por ali, se me fizer a honra da sua companhia.

— Vai, minha querida —exclamou a mãe—, e mostra a Sua Senhoria os diferentes passeios. Creio que ela vai gostar do ermitério.

Elizabeth obedeceu; e, correndo ao seu quarto para buscar a sombrinha, acompanhou a nobre convidada escada abaixo. Ao passarem pelo vestíbulo, Lady Catherine abriu as portas para a sala de jantar e para a sala de estar, e, declarando-as, após um breve exame, salas de aspeto decente, prosseguiu.

A carruagem ficou à porta, e Elizabeth viu que dentro ia a sua dama de companhia. Avançaram em silêncio pelo passeio de cascalho que levava ao copse; Elizabeth estava decidida a não fazer nenhum esforço de conversa com uma mulher que estava agora mais do que habitualmente insolente e desagradável.

— Como é que eu alguma vez pude achá-la parecida com o sobrinho? —disse ela, olhando-lhe para o rosto.

Logo que entraram no copse, Lady Catherine começou da seguinte maneira:

— Não pode estar perplexa, srta. Bennet, quanto à razão da minha viagem até aqui. O seu próprio coração, a sua própria consciência, hão de dizer-lhe porque venho.

Elizabeth olhou com espanto não afectado.

— Na verdade, está enganada, senhora; não consegui de todo explicar a honra de a ver aqui.

— Srta. Bennet —replicou Sua Senhoria, num tom zangado—, devia saber que eu não sou pessoa para se brincar. Mas, por mais insincera que escolha ser, não me há de encontrar assim. O meu carácter sempre foi celebrado pela sinceridade e franqueza; e numa causa de tal importância como esta, certamente não me afastarei dele. Um rumor de natureza alarmante chegou-me há dois dias. Disseram-me que não só a sua irmã estava em vias de um casamento muito vantajoso, mas que a senhora —que a srta. Elizabeth Bennet, muito provavelmente, em breve se uniria ao meu sobrinho —o meu próprio sobrinho, o sr. Darcy. Embora saiba que isso não pode ser senão uma infame falsidade, embora eu não quisesse magoá-lo nem sequer ao supor possível que fosse verdade, resolvi-me de imediato a pôr-me a caminho deste lugar, para lhe poder dar a conhecer os meus sentimentos.

— Se acreditava impossível que fosse verdade —disse Elizabeth, corando de espanto e desdém—, admiro-me de que tenha tomado o trabalho de vir tão longe. Que tencionava Sua Senhoria com isso?

— Imediatamente, exigir que tal rumor seja universalmente contradito.

— O vir a Longbourn ver-me a mim e à minha família —disse Elizabeth com frieza— será antes uma confirmação dele —se é que, de facto, tal rumor existe.

— Se! Então finge ignorar tudo isso? Não tem sido ele industriosamente espalhado por vós? Não sabe que semelhante rumor anda no mundo?

— Nunca ouvi dizer que andasse.

— E pode da mesma forma declarar que não há fundamento para ele?

— Não pretendo possuir a mesma franqueza que Sua Senhoria. Pode fazer perguntas às quais eu não escolherei responder.

— Isto não se pode tolerar. Srta. Bennet, insisto em ficar satisfeita. Ele, o meu sobrinho, fez-lhe uma proposta de casamento?

— Sua Senhoria já declarou ser impossível.

— Assim deve ser; assim tem de ser, enquanto ele conservar o uso da razão. Mas os seus ardis e atractivos podem, num momento de enlevo, tê-lo feito esquecer o que deve a si próprio e a toda a sua família. Talvez o tenha enredado.

— Se o fiz, serei a última pessoa a confessá-lo.

— Srta. Bennet, sabe quem eu sou? Não estou acostumada a uma linguagem como esta. Sou quase a parente mais chegada que ele tem no mundo, e tenho direito a saber tudo o que lhe diz mais respeito.

— Mas não tem direito a saber o que me diz respeito a mim; nem um comportamento como este me levará jamais a ser explícita.

— Permita-me que me explique bem. Este casamento, a que a senhora tem a presunção de aspirar, jamais pode realizar-se. Não, jamais. O sr. Darcy está noivo da minha filha. Agora, o que tem a dizer?

— Apenas isto: —que, se ele está, não tem razão para supor que me fará uma proposta.

Lady Catherine hesitou por um momento, e depois respondeu:

— O noivado entre eles é de natureza peculiar. Desde a infância, foram um para o outro. Era o desejo favorito da mãe dele, tanto como do dela. Ainda nos berços planeámos a união; e agora, no momento em que os desejos de ambas as irmãs se realizariam, há-de o casamento deles ser impedido por uma rapariga de nascimento inferior, de nenhuma importância no mundo, e sem nenhum vínculo à família? Não tem consideração pelos desejos dos amigos dele —pelo tácito noivado com Miss de Bourgh? Perdeu todo o sentimento de decoro e delicadeza? Não me ouviu dizer que, desde as horas mais tenras, ele estava destinado à prima?

— Sim; e eu já o tinha ouvido antes. Mas que tem isso a ver comigo? Se não há outro obstáculo a que eu case com o seu sobrinho, certamente não serei dissuadida por saber que a mãe e a tia dele desejavam que ele casasse com Miss de Bourgh. Ambas fizeram tudo quanto puderam ao planear o casamento. A sua conclusão dependia de outros. Se o sr. Darcy não está, nem por honra nem por inclinação, preso à prima, por que não há de fazer outra escolha? E se eu sou essa escolha, por que não hei de eu aceitá-lo?

— Porque a honra, o decoro, a prudência —e até o interesse— o proíbem. Sim, srta. Bennet, o interesse; pois não espere ser notada pela família ou amigos dele, se actuar voluntariosamente contra as inclinações de todos. Será censurada, desprezada e desdenhada por todos os que com ele se relacionam. A sua aliança será uma vergonha; o seu nome nem sequer será jamais mencionado por nenhum de nós.

— São desgraças pesadas —replicou Elizabeth. — Mas a esposa do sr. Darcy há-de ter, necessariamente, tão extraordinárias fontes de felicidade ligadas à sua situação, que, no cômputo geral, não poderia ter motivo para se lamentar.

— Rapariga obstinada, teimosa! Envergonho-me de si! É esta a gratidão pelas atenções que lhe dispensei na primavera passada? Nada me é devido por esse motivo? Sentemo-nos. Deve compreender, srta. Bennet, que eu vim aqui com a resolução determinada de levar a cabo o meu intento; nem hei de ser dissuadida dele. Não estou habituada a submeter-me aos caprichos de ninguém. Não tenho o hábito de tolerar desapon­tamentos.

— Isso tornará a situação de Sua Senhoria presentemente mais lastimável; mas não terá efeito algum sobre mim.

— Não serei interrompida! Ouça-me em silêncio. A minha filha e o meu sobrinho foram feitos um para o outro. Descendem, pelo lado materno, da mesma linhagem nobre; e, pelo lado paterno, de famílias respeitáveis, honradas e antigas, embora sem título. A fortuna de ambos os lados é esplêndida. Estão destinados um ao outro pela voz de todos os membros das respectivas casas; e o que os há de separar? —as pretensões de uma arrivista, uma rapariga sem família, sem ligações, sem fortuna! Isto é para se tolerar? Mas não, não pode ser, nem há-de ser! Se tivesse consciência do seu próprio bem, não desejaria sair da esfera em que foi criada.

— Ao casar com o seu sobrinho, não me consideraria a sair dessa esfera. Ele é um gentleman; eu sou filha de um gentleman; até aqui somos iguais.

— É verdade. É filha de um gentleman. Mas quem era a sua mãe? Quem são os seus tios e tias? Não me julgue ignorante da sua condição.

— Quaisquer que sejam as minhas ligações —disse Elizabeth—, se o seu sobrinho não lhes faz objecção, não podem ser nada para si.

— Diga-me, de uma vez por todas: está noiva dele?

Embora Elizabeth não respondesse, com o simples fito de ser agradável a Lady Catherine, a esta pergunta, não pôde todavia deixar de dizer, após um instante de reflexão:

— Não estou.

Lady Catherine pareceu satisfeita.

— E promete-me nunca entrar em semelhante noivado?

— Não faço promessa alguma desse género.

— Srta. Bennet, estou chocada e espantada. Esperava encontrar uma rapariga mais razoável. Mas não se iluda com a crença de que eu alguma vez cederei. Não sairei daqui enquanto não me der a garantia que exijo.

— E eu certamente nunca a darei. Não me deixarei intimidar para algo de todo em todo desarrazoado. Sua Senhoria quer que o sr. Darcy case com a sua filha; mas tornaria o meu dar-lhe a promessa desejada de algum modo mais provável o casamento deles? Supondo que ele estivesse ligado a mim, faria o meu recusar a mão dele que ele quisesse concedê-la à prima? Permita-me dizer, Lady Catherine, que os argumentos com que apoiou este extraordinário pedido foram tão frívolos como o pedido foi mal julgado. Enganou-se largamente acerca do meu carácter, se pensa que me pode mover com persuasões destas. Não sei até que ponto o seu sobrinho aprovaria esta sua interferência nos assuntos dele; mas a senhora decerto não tem direito a meter-se nos meus. Devo portanto pedir que não mais me importune sobre o assunto.

— Não tão apressada, se faz favor. Ainda de modo nenhum terminei. A todas as objecções que já apresentei, tenho ainda outra a acrescentar. Não me é desconhecido o particular da infame fuga da sua irmã mais nova. Sei tudo; que o casamento do rapaz com ela foi um negócio arranjado, à custa do seu pai e do seu tio. E uma rapariga dessas há-de ser irmã do meu sobrinho? O marido dela, que é filho do que foi mordomo do falecido pai dele, há-de ser irmão dele? Céus e terra! —em que está a pensar? Hão-de as sombras de Pemberley ser assim poluídas?

— Nada mais tem agora a dizer —respondeu ela com ressentimento. — Insultou-me por todos os meios possíveis. Devo pedir licença para voltar à casa.

E levantou-se ao falar. Lady Catherine levantou-se também, e voltaram para trás. Sua Senhoria estava profundamente indignada.

— Então não tem nenhuma consideração pela honra e crédito do meu sobrinho! Rapariga insensível, egoísta! Não considera que uma ligação consigo o há de desacreditar aos olhos de toda a gente?

— Lady Catherine, nada mais tenho a dizer. Conhece os meus sentimentos.

— Então está resolvida a ficar com ele?

— Não disse coisa nenhuma dessas. Apenas estou resolvida a agir de maneira que, na minha própria opinião, constitua a minha felicidade, sem referência à senhora, nem a pessoa alguma de todo em todo desligada de mim.

— Está bem. Recusa, então, ser-me agradável. Recusa obedecer às exigências do dever, da honra e da gratidão. Está determinada a arruiná-lo na opinião de todos os amigos dele, e a torná-lo o desprezo do mundo.

“Nem o dever, nem a honra, nem a gratidão,” replicou Elizabeth, “têm qualquer possível reclamo sobre mim, na presente circunstância. Nenhum princípio de nenhum deles seria violado pelo meu casamento com o Sr. Darcy. E quanto ao ressentimento da família dele, ou à indignação do mundo, se o primeiro fosse suscitado por ele me desposar, não me daria um momento de preocupação — e o mundo em geral teria demasiado senso para se associar ao desprezo.”

“E essa é a sua verdadeira opinião! Essa é a sua resolução final! Muito bem. Saberei agora como proceder. Não imagine, Srta. Bennet, que a sua ambição será jamais satisfeita. Vim para pô-la à prova. Esperava encontrá-la razoável; mas fique certa de que levarei a minha avante.”

Deste modo falou Lady Catherine até chegarem à porta da carruagem, quando, voltando-se apressadamente, acrescentou:--

“Não me despeço de si, Srta. Bennet. Não mando cumprimentos à sua mãe. Não merece tal atenção. Estou muitíssimo descontente.”

Elizabeth não respondeu; e, sem tentar persuadir Sua Senhoria a voltar para dentro, entrou ela mesma tranquilamente em casa. Ouviu a carruagem partir enquanto subia as escadas. A mãe, impaciente, encontrou-a à porta do quarto de vestir, para perguntar por que Lady Catherine não entrara novamente a descansar um pouco.

“ ela não quis,” disse a filha; “preferiu ir embora.”

“Que mulher tão bem parecida! E a visita dela foi prodigiosamente delicada! Pois veio apenas, suponho, para nos dizer que os Collins passam bem. Vai de viagem para qualquer parte, atrevo-me a dizer; e assim, passando por Meryton, achou que bem podia fazer-lhe uma visitinha. Suponho que não tinha nada de particular para lhe dizer, Lizzy?”

Elizabeth viu-se forçada a ceder aqui a uma pequena mentira; pois reconhecer a substância da conversa entre elas era impossível.

## CAPÍTULO LVII.

A perturbação de ânimo em que esta extraordinária visita lançou Elizabeth não pôde ser facilmente vencida; nem logrou ela, durante muitas horas, deixar de pensar nela incessantemente. Lady Catherine, ao que parecia, tomara realmente a incómoda resolução de fazer esta viagem desde Rosings com o único fim de desfazer o suposto noivado dela com o Sr. Darcy. Era um plano racional, sem dúvida! Mas donde pudesse ter origem a história do noivado, Elizabeth não conseguia imaginar; até se recordar de que ele ser o amigo íntimo de Bingley, e ela ser irmã de Jane, bastava, num tempo em que a expectativa de um casamento fazia toda a gente ansiar por outro, para fornecer a ideia. Ela mesma não esquecera de sentir que o casamento de sua irmã devia aproximá-los com mais frequência. E os vizinhos dela em Lucas Lodge, portanto, (pois, através da comunicação deles com os Collins, o rumor, concluiu ela, chegara a Lady Catherine,) tinham apenas dado como quase certa e imediata uma coisa que ela tinha encarado como possível em algum tempo futuro.

Revolvendo, porém, as expressões de Lady Catherine, não podia deixar de sentir alguma inquietação quanto à possível consequência da persistência dela nesta intromissão. Pelo que dissera a respeito da sua resolução de impedir o casamento, ocorreu a Elizabeth que ela devia meditar um recurso ao sobrinho; e como ele poderia receber uma representação semelhante dos males ligados a uma ligação com ela, não ousava conjecturar. Não sabia até que ponto ia a afeição dele pela tia, nem a dependência do juízo dela, mas era natural supor que ele pensava muito mais altamente de Sua Senhoria do que ela poderia pensar; e era certo que, ao enumerar as misérias de um casamento com uma cujas imediatas conexões eram tão desiguais às dele, a tia lhe falaria no seu lado mais fraco. Com as suas noções de dignidade, ele provavelmente sentiria que os argumentos, que a Elizabeth tinham parecido fracos e ridículos, continham muito bom senso e sólida razão.

Se ele estivera hesitando antes, quanto ao que deveria fazer, o que muitas vezes parecera provável, o conselho e a súplica de tão próxima parenta poderiam resolver toda a dúvida, e determiná-lo de pronto a ser tão feliz como uma dignidade sem mácula pudesse torná-lo. Nesse caso, não voltaria mais. Lady Catherine poderia vê-lo à sua passagem por Londres; e o compromisso dele com Bingley de voltar a Netherfield teria de ceder.

“ Portanto, se uma desculpa para não cumprir a promessa dele chegar ao amigo dentro de poucos dias,” acrescentou ela, “saberei como entendê-lo. Abandonarei então toda a expectativa, todo o desejo da constância dele. Se ele se contentar apenas em lastimar-me, quando poderia ter obtido as minhas afeições e a minha mão, cedo deixarei de o lastimar de todo.”

A surpresa do resto da família, ao saber quem fora a visitante, foi muito grande: mas eles cortesmente a satisfizeram com a mesma espécie de suposição que aplacara a curiosidade da Sra. Bennet; e Elizabeth foi poupada a muita importunação sobre o assunto.

Na manhã seguinte, ao descer as escadas, encontrou o pai, que saía da biblioteca com uma carta na mão.

“Lizzy,” disse ele, “ia à sua procura: venha ao meu quarto.”

Ela seguiu-o até lá; e a curiosidade de saber o que ele tinha para lhe dizer foi aumentada pela suposição de que a carta de algum modo se prendia com a que ele trazia. De súbito ocorreu-lhe que podia ser de Lady Catherine, e antecipou com alarme todas as explicações que se seguiriam.

Seguiu o pai até à lareira, e sentaram-se ambos. Então ele disse:--

“Recebi esta manhã uma carta que me pasmou em extremo. Como se refere principalmente a si, deve saber o conteúdo dela. Eu não sabia que tinha duas filhas à beira do matrimónio. Permita-me que lhe apresente os meus cumprimentos por uma conquista muito importante.”

O rubor subiu agora às faces de Elizabeth na instantânea convicção de que era uma carta do sobrinho, e não da tia; e não sabia se devia antes ter prazer em ele se explicar de algum modo, ou desprazer em a carta não ser antes dirigida a ela própria, quando o pai continuou:--

“Parece-lhe na cara. As jovens têm grande penetração em assuntos desta ordem; mas creio que posso desafiar até a sua sagacidade para descobrir o nome do seu admirador. Esta carta é do Sr. Collins.”

“Do Sr. Collins! E que terá ele para dizer?”

“Alguma coisa muito apropriada, naturalmente. Começa com cumprimentos pelo próximo enlace da minha filha mais velha, do qual, ao que parece, foi informado por algumas das bem-intencionadas tagarelas Lucas. Não vou brincar com a sua impaciência lendo o que ele diz a esse respeito. O que se refere a si é o seguinte:--‘Tendo assim apresentado a V. Exa. e a mim os sinceros cumprimentos da Sra. Collins e meus por este feliz acontecimento, permita-me acrescentar agora uma breve insinuação acerca de outro, do qual fomos avisados pela mesma autoridade. Presume-se que a sua filha Elizabeth não conservará por muito tempo o nome de Bennet, uma vez que a sua irmã mais velha o tenha abandonado; e o escolhido companheiro do seu destino pode com razão ser considerado como uma das mais ilustres personagens desta terra.’ Pode porventura adivinhar, Lizzy, quem é assim designado? ‘Este jovem cavalheiro é abençoado, de uma maneira peculiar, com tudo quanto o coração de um mortal pode mais desejar — esplêndida propriedade, nobre parentela e extenso patrocínio. Contudo, apesar de todas estas tentações, permita-me que advirta a minha prima Elizabeth, e a V. Exa., dos males em que poderão incorrer por uma adesão precipitada às propostas deste cavalheiro, que, naturalmente, estarão inclinados a aceitar de imediato.’ Tem alguma ideia, Lizzy, de quem é este cavalheiro? Mas agora vem a revelação. ‘O meu motivo para vos prevenir é o seguinte:--Temos razões para imaginar que a tia dele, Lady Catherine de Bourgh, não vê este casamento com olhos favoráveis.’ O Sr. Darcy, como vê, é o homem! Agora, Lizzy, creio que a surpreendi. Poderiam ele, ou os Lucas, ter deparado com algum homem, dentro do círculo das nossas relações, cujo nome desmentisse mais eficazmente aquilo que contaram? O Sr. Darcy, que nunca olha para mulher alguma senão para lhe descobrir uma nódoa, e que provavelmente nunca a olhou na vida! É admirável!”

Elizabeth tentou associar-se ao gracejo do pai, mas apenas conseguiu arrancar um sorriso muito relutante. Nunca o engenho dele fora dirigido de maneira tão pouco agradável para ela.

“Então não acha graça?”

“Oh, sim. Continue a ler, por favor.”

“‘Tendo mencionado a probabilidade deste casamento a Sua Senhoria ontem à noite, ela imediatamente, com a sua habitual condescendência, exprimiu o que sentia a esse respeito; quando se tornou manifesto que, por causa de algumas objecções de família da parte da minha prima, ela nunca daria o seu consentimento àquilo que qualificava de aliança tão desonrosa. Julguei meu dever dar à pressa a mais célere informação disto à minha prima, a fim de que ela e o seu nobre admirador saibam aquilo em que se metem, e não se lancem precipitadamente num casamento que não foi devidamente sancionado.’ Acrescenta ainda o Sr. Collins: ‘Regozijo-me verdadeiramente por o triste caso da minha prima Lydia ter sido tão bem abafado, e apenas lamento que o facto de terem vivido juntos antes do casamento seja tão geralmente conhecido. Não devo, contudo, negligenciar os deveres do meu cargo, nem deixar de declarar o meu pasmo, ao saber que recebeu o jovem casal em sua casa logo que casaram. Foi um encorajamento ao vício; e, se eu fosse o reitor de Longbourn, tê-lo-ia combatido com a maior energia. Deve decerto perdoar-lhes como cristã, mas nunca admiti-los na sua presença, nem permitir que os nomes deles sejam mencionados na sua companhia.’ Eis a sua noção de perdão cristão! O resto da carta dele é apenas acerca da situação da sua querida Charlotte, e a sua expectativa de um ramo de oliveira. Mas, Lizzy, parece que não está a gostar. Espero que não se ponha amua, nem finja escandalizar-se com um boato ocioso. Pois para que vivemos, senão para fazer rir os nossos vizinhos, e rirmo-nos deles por nossa vez?”

“Oh,” exclamou Elizabeth, “estou divertidíssima. Mas é tão estranho!”

“Sim, é isso que o torna divertido. Se tivessem escolhido qualquer outro homem, não teria importância nenhuma; mas a perfeita indiferença dele e a sua declarada antipatia tornam-no tão deliciosamente absurdo! Por muito que eu abomine escrever, não trocaria a correspondência do Sr. Collins por nenhuma consideração. Mais: quando leio uma carta dele, não posso deixar de lhe dar preferência até sobre Wickham, por muito que eu preze a impudência e a hipocrisia do meu genro. E diga-me, Lizzy, que disse Lady Catherine acerca deste boato? Veio recusar o consentimento?”

A esta pergunta a filha respondeu apenas com uma gargalhada; e, como fora feita sem a menor suspeita, não a afligiu o repeti-la. Nunca Elizabeth estivera mais embaraçada para fazer com que os seus sentimentos parecessem o que não eram. Era necessário rir quando mais desejaria chorar. O pai magoara-a cruelmente com o que dissera da indiferença do Sr. Darcy; e ela nada podia fazer senão maravilhar-se de tão pouca penetração, ou recear que, talvez, em vez de ele ver de menos, ela pudesse ter imaginado de mais.

## CAPÍTULO LVIII.

Em vez de receber alguma carta de desculpa do amigo, como Elizabeth meio esperava que o Sr. Bingley fizesse, ele pôde trazer Darcy consigo a Longbourn antes de passarem muitos dias depois da visita de Lady Catherine. Os cavalheiros chegaram cedo; e, antes que a Sra. Bennet tivesse tempo de lhe contar que tinham visto a tia dele, do que sua filha estava em constante sobressalto, Bingley, que desejava estar a sós com Jane, propôs que saíssem todos a passear. Assim se combinou. A Sra. Bennet não tinha o hábito de passear, Mary nunca podia dispensar tempo, mas os cinco restantes saíram juntos. Bingley e Jane, porém, logo permitiram que os outros se adiantassem. Ficaram para trás, enquanto Elizabeth, Kitty e Darcy tinham de fazer companhia uns aos outros. Muito pouco se disse de parte a parte; Kitty tinha demasiado medo dele para falar; Elizabeth estava formando secretamente uma resolução desesperada; e talvez ele estivesse fazendo o mesmo.

Caminharam na direção da casa dos Lucas, porque Kitty queria fazer uma visita a Maria; e como Elizabeth não via motivo para fazer disso assunto comum, quando Kitty os deixou seguiu corajosamente com ele a sós. Era agora o momento de executar a sua resolução; e, enquanto o ânimo lhe era grande, disse imediatamente:--

“Sr. Darcy, sou uma criatura muito egoísta, e, para alívio dos meus próprios sentimentos, não me importa quanto possa magoar os seus. Não posso deixar de lhe agradecer a sua inaudita bondade para com a minha pobre irmã. Desde que o soube, tenho estado ansiosíssima por lhe confessar quão agradecida me sinto. Se o resto da minha família o soubesse, não teria apenas a minha própria gratidão para exprimir.”

“Lamento-o, lamento-o profundamente,” replicou Darcy, num tom de surpresa e emoção, “que alguma vez tenha sido informada daquilo que, sob uma luz errada, lhe poderia ter causado inquietação. Eu não pensava que a Sra. Gardiner fosse tão pouco digna de confiança.”

“Não deve culpar a minha tia. A leviandade da Lydia foi quem primeiro me revelou que V. Exa. estivera envolvido no assunto; e, naturalmente, não descansuei enquanto não soube os pormenores. Permita-me que lhe agradeça, mais uma e outra vez, em nome de toda a minha família, aquela compaixão generosa que o levou a tomar tantas fadigas e a suportar tantas mortificações, para os descobrir.”

“Se me quer agradecer,” replicou ele, “que seja só por si mesma. Que o desejo de lhe dar felicidade pudesse acrescentar força aos outros motivos que me guiaram, não tentarei negar. Mas a sua família nada me deve. Por muito que eu os respeite, creio que pensei apenas em si.”

Elizabeth estava demasiado embaraçada para dizer uma palavra. Após uma pequena pausa, o companheiro acrescentou: “É demasiado generosa para brincar comigo. Se os seus sentimentos ainda são os de Abril passado, diga-mo imediatamente. As minhas afeições e os meus desejos permanecem inalterados; mas basta uma palavra sua para me fazer calar para sempre sobre este assunto.”

Elizabeth, sentindo toda a maior que vulgar estranheza e ansiedade da situação dele, obrigou-se agora a falar; e imediatamente, embora não muito fluentemente, deu-lhe a entender que os seus sentimentos tinham sofrido tão material mudança desde o período a que ele aludira, que lhe permitia receber com gratidão e prazer as suas atuais seguranças. A felicidade que esta resposta produziu foi tal como ele provavelmente nunca sentira; e exprimiu-se na ocasião tão sensata e tão calorosamente como um homem violentamente apaixonado se possa supor fazer. Se Elizabeth pudesse encontrar os olhos dele, poderia ter visto como a expressão de um deleite sincero difundido pelo rosto lhe ficava bem: mas, embora não pudesse olhar, podia escutar; e ele contou-lhe sentimentos que, ao mostrarem quanto ela era para ele, tornavam a sua afeição a cada momento mais valiosa.

Caminharam sem saber em que direcção. Havia demasiado em que pensar, e sentir, e dizer, para dar atenção a quaisquer outros objectos. Soube ela então que deviam o seu presente bom entendimento aos esforços da tia dele, que realmente o visitara na sua passagem por Londres, e ali lhe relatara a sua jornada a Longbourn, o motivo dela, e a substância da conversa com Elizabeth; demorando-se enfaticamente em todas as expressões desta, que, na apreensão de Sua Senhoria, denotavam de modo peculiar a sua perversidade e insolência, na crença de que tal relato devia auxiliar os seus esforços para obter do sobrinho aquela promessa que ela própria se recusara a dar. Mas, infelizmente para Sua Senhoria, o efeito fora exactamente o contrário.

“Ensinou-me a esperar,” disse ele, “como eu quase nunca me permitira esperar antes. Eu sabia o bastante do seu carácter para estar certo de que, se estivesse absolutamente, irrevogavelmente decidida contra mim, tê-lo-ia confessado a Lady Catherine com franqueza e sem rodeios.”

Elizabeth corou e riu ao responder: “Sim, conhece-me o bastante pela franqueza para me julgar capaz disso. Depois de o ter injuriado tão abominavelmente na sua cara, não teria escrúpulo em injuriá-lo a todos os seus parentes.”

“Que disse de mim que eu não merecesse? Pois, embora as suas acusações fossem mal fundadas, formadas sobre pressupostos errados, o meu comportamento para consigo na ocasião merecera a mais severa repreensão. Foi imperdoável. Não posso lembrar-me disso sem horror.”

“Não havemos de contender pela maior parte de culpa anexada àquela noite,” disse Elizabeth. “A conduta de nenhum de nós dois, se estritamente examinada, será irrepreensível; mas desde então esperamos ambos ter melhorado em civilidade.”

“Quanto a mim, não posso reconciliar-me assim tão facilmente. A recordação do que então disse, do meu procedimento, dos meus modos, das minhas expressões durante todo o tempo, é agora, e tem sido por muitos meses, inexprimivelmente penosa para mim. A sua repreensão, tão bem aplicada, nunca esquecerei: ‘Se tivesse procedido de uma maneira mais própria de um cavalheiro.’ Foram essas as suas palavras. Não sabe, mal pode conceber, como me torturaram; embora, confesso, tenha passado algum tempo antes de ser razoável para reconhecer a sua justiça.”

“Certamente estava muito longe de esperar que fizessem tão forte impressão. Não tinha a mais pequena ideia de que alguma vez fossem sentidos de tal modo.”

“Posso bem crer. Pensou então que eu era destituído de todo o sentimento próprio, disso estou certo. Nunca esquecerei a expressão do seu rosto, quando disse que eu não a poderia ter solicitado de nenhuma maneira possível que a induzisse a aceitar-me.”

“Oh, não repita o que então disse. Essas recordações não servem de nada. Asseguro-lhe que há muito me envergonho profundamente disso.”

Darcy mencionou a sua carta. “Fê-la,” disse ele,--“fê-la logo pensar melhor de mim? Ao lê-la, deu algum crédito ao seu conteúdo?”

Ela explicou-lhe quais os efeitos que nela produzira, e como gradualmente todos os seus antigos preconceitos tinham sido removidos.

“ Eu sabia,” disse ele, “que o que eu escrevia lhe devia causar dor, mas era necessário. Espero que tenha destruído a carta. Havia uma parte, sobretudo o começo, que receio que tenha o poder de ler ainda. Posso lembrar-me de certas expressões que justamente a poderiam fazer odiar-me.”

“A carta será decerto queimada, se V. Exa. o julga essencial para a conservação da minha estima; mas, embora ambos tenhamos razão para pensar que as minhas opiniões não são inteiramente imutáveis, espero que não sejam tão fácilmente alteráveis como isso implica.”

“ Quando escrevi aquela carta,” replicou Darcy, “julgava-me perfeitamente calmo e frio; mas estou desde então convencido de que foi escrita num amargo de espírito medonho.”

“A carta, talvez, começou em amargura, mas não acabou assim. O adeus é a própria caridade. Mas não pense mais na carta. Os sentimentos da pessoa que a escreveu e os da pessoa que a recebeu são agora tão largamente diferentes do que eram então, que toda a circunstância desagradável que a ela se prende deve ser esquecida. Tem de aprender alguma coisa da minha filosofia. Pense apenas no passado quando a sua recordação lhe dê prazer.”

“—Não lhe posso atribuir mérito por filosofia alguma desse género. As suas retrospeções devem ser tão inteiramente isentas de censura, que o contentamento que delas nasce não é de filosofia, mas, o que é muito melhor, de ignorância. Mas comigo não é assim. Recordações dolorosas hão de intrometer-se, e não podem, nem devem ser repelidas. Fui um ser egoísta toda a minha vida, na prática, embora não nos princípios. Quando criança ensinaram-me o que era certo, mas não me ensinaram a corrigir o meu génio. Deram-me bons princípios, mas deixaram-me que os seguisse no orgulho e na vaidade. Infaustamente um filho único (durante muitos anos filho único), fui mimado pelos meus pais, que, embora bons eles próprios — o meu pai sobretudo, tudo o que havia de benévolo e amável — consentiram, encorajaram, quase me ensinaram a ser egoísta e arrogante, a não me importar com ninguém fora do meu círculo familiar, a fazer pouco de todo o resto do mundo, a desejar, ao menos, fazer pouco do seu entendimento e valor em comparação com o meu. Tal fui eu, dos oito aos vinte e oito anos; e tal poderia ainda ter sido se não fosse você, minha queridíssima, minha amantíssima Elizabeth! O que não lhe devo! Ensinou-me uma lição, severa de início, é certo, mas da mais proveitosa. Por você fui devidamente humilhado. Fui ter consigo sem dúvida alguma sobre a sua acolhida. Você mostrou-me como eram insuficientes todas as minhas pretensões de agradar a uma mulher que merecesse ser agradada.”

“Tinha então persuadido a si mesmo que eu deveria estar?”

“Certamente que sim. Que irá pensar da minha vaidade? Eu acreditava que você desejava, que esperava as minhas declarações.”

“O meu procedimento deve ter estado em falta, mas não intencionalmente, asseguro-lhe. Nunca quis enganá-lo, mas o meu ânimo poderia levar-me muitas vezes para o lado errado. Como me haveria de odiar depois daquela noite!”

“Odiar! Eu talvez estivesse zangado, de início, mas a minha zangado logo começou a tomar a direção acertada.”

“Tenho quase medo de lhe perguntar o que pensou de mim quando nos encontrámos em Pemberley. Censurou-me por ter ido?”

“Não, por certo; não senti senas mais que surpresa.”

“A sua surpresa não poderia ser maior do que a minha por ser notada por si. A minha consciência dizia-me que eu não merecia extraordinary polidez, e confesso que não esperava receber mais do que o que me era devido.”

“O meu intento então”, replicou Darcy, “era mostrar-lhe, por todas as atenções que me fosse possível, que eu não era tão vil que ressentisse o que tinha passado; e esperava obter o seu perdão, diminuir a sua má opinião, deixando-a ver que os seus reparos tinham sido atendidos. Quanto cedo outros desejos se introduziram, mal sei dizer, mas creio que em cerca de meia hora depois de a ter visto.”

Contou-lhe então do prazer de Georgiana com a sua convivência, e da sua desilusão com a interrupção súbita dela; o que, levando naturalmente à causa dessa interrupção, ela logo soube que a sua resolução de a seguir desde Derbyshire em busca da sua irmã se tinha formado antes de ele deixar a estalagem, e que a sua gravidade e ar pensativo ali procediam de outras lutas que não as que tal propósito abrangia.

Ela agradeceu-lhe de novo, mas era assunto doloroso demais para ambos para que nele se detivessem mais.

Depois de andarem várias milhas de modo pausado, e demasiado absortos para saberem do que quer que fosse, descobriram por fim, ao consultar os relógios, que era tempo de estar em casa.

“Que terá sido feito do Sr. Bingley e de Jane?” foi uma pergunta que introduziu a discussão dos assuntos deles. Darcy ficou encantado com o noivado; o amigo tinha-lhe dado a notícia em primeiro lugar.

“Tenho de lhe perguntar se ficou surpreendido”, disse Elizabeth.

“Nada. Quando parti, senti que aconteceria em breve.”

“Isto é, tinha dado a sua permissão. Eu já o calculava.” E, embora ele exclamasse ante a palavra, ela verificou que assim fora quase por completo.

“Na véspera da minha partida para Londres”, disse ele, “fiz-lhe uma confissão, que creio dever ter feito muito tempo antes. Disse-lhe de tudo o que tinha acontecido para tornar a minha antiga interferência nos assuntos dele absurda e impertinente. A surpresa dele foi grande. Nunca tivera a mais leve suspeita. Disse-lhe, além disso, que me julgava enganado em ter suposto, como supusera, que a sua irmã era indiferente a ele; e como eu podia facilmente perceber que a afeição dele por ela não diminuíra, não tinha dúvida alguma da felicidade de ambos.”

Elizabeth não pôde deixar de sorrir com a maneira fácil com que ele dirigira o amigo.

“Falou por observação própria”, disse ela, “quando lhe disse que a minha irmã o amava, ou apenas pelas informações que lhe dei na primavera passada?”

“Pela primeira. Tinha-a observado atentamente durante as duas visitas que ultimamente lhe fiz aqui; e fiquei convencido da sua afeição.”

“E a sua segurança disso, suponho, levou-o de imediato à convicção dele.”

“Levou. Bingley é o mais desassombradamente modesto. A sua timidez impedira-o de confiar no seu próprio discernimento num caso tão melindroso, mas a confiança em mim facilitou tudo. Fiquei obrigado a confessar uma coisa, que por um tempo, e não sem razão, o ofendeu. Não pude permitir-me ocultar que a sua irmã estivera na cidade três meses no inverno passado, que eu o sabia, e de propósito lho escondera. Ele ficou zangado. Mas a zanga dele, estou persuadido, não durou mais do que o tempo em que teve qualquer dúvida sobre os sentimentos da sua irmã. Já me perdoou de coração.”

Elizabeth quis observar que o Sr. Bingley fora o mais delicioso amigo; tão facilmente conduzido que o seu valor era inapreciável; mas travou-se. Lembrou-se de que ele tinha ainda de aprender a suportar gracejos, e era cedo demais para começar. Antecipando a felicidade de Bingley, que naturalmente só seria inferior à dele própria, continuou a conversa até chegarem à casa. Na entrada separaram-se.

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CAPÍTULO LIX.

— Minha querida Lizzy, onde é que vocês terão andado? — foi a pergunta que Elizabeth recebeu de Jane assim que entrou na sala, e de todos os outros quando se sentaram à mesa. Ela só teve de responder que tinham andado vagueando até perder a noção do lugar. Corou ao falar; mas nem isso, nem qualquer outra coisa, despertou a suspeita da verdade.

A noite passou tranquilamente, sem nada de assinalável. Os noivos declarados falavam e riam; os não declarados calavam-se. Darcy não era de temperamento em que a felicidade transborde em alegria; e Elizabeth, agitada e confusa, antes sabia que era feliz do que se sentia feliz; pois, além do embaraço imediato, havia outros males diante dela. Antevia o que se sentiria na casa quando o seu estado fosse conhecido: sabia que ninguém o estimava a não ser Jane; e temia até que com os outros fosse uma aversão que nem toda a sua fortuna e posição pudessem apagar.

À noite abriu o coração a Jane. Embora a suspeição estivesse muito longe dos hábitos gerais de Miss Bennet, neste caso era absolutamente incrédula.

— Estás a brincar, Lizzy. Isso não pode ser! Noiva do Sr. Darcy! Não, não, não me hás de enganar: sei que é impossível.

— É um começo miserável, de facto! A minha única dependência era em ti; e tenho a certeza de que mais ninguém me acreditará, se tu não acreditares. Contudo, na verdade, estou a falar a sério. Não digo senão a verdade. Ele ainda me ama, e estamos noivos.

Jane olhou para ela com dúvida. — Ó Lizzy! não pode ser. Sei quanto tu o desprezas.

— Tu não sabes nada do assunto. Tudo isso é para esquecer. Talvez eu nem sempre o tenha amado tão bem como agora; mas em casos como estes uma boa memória é imperdoável. Esta é a última vez em que eu mesma me hei de lembrar disso.

Miss Bennet continuou a olhar com pasmo. Elizabeth de novo, e mais a sério, lhe assegurou a verdade.

— Deus do céu! será possível que seja mesmo assim? Mas agora tenho de acreditar em ti — exclamou Jane. — Minha querida, minha querida Lizzy, eu, sim, congratulo-te; mas tens a certeza — perdoa a pergunta — tens a certeza de que podes ser feliz com ele?

— Não pode haver dúvida disso. Já está decidido entre nós que havemos de ser o casal mais feliz do mundo. Mas tu estás contente, Jane? Hás de gostar de ter um irmão assim?

— Muito, muito. Nada poderia dar maior prazer a Bingley ou a mim. Mas considerámo-lo impossível, falámo-lo como tal. E será que o amas verdadeiramente o bastante? Ó Lizzy! faz qualquer coisa antes que casar sem afeição. Tens mesmo a certeza de que sentes o que deves sentir?

— Ah, sim! Só vais pensar que sinto mais do que devo quando te contar tudo.

— Que queres dizer?

— Pois, tenho de confessar que o amo mais do que amo Bingley. Receio que te zangues.

— Minha irmã muito querida, sê agora, sê séria. Quero falar muito a sério. Deixa-me saber tudo o que devo saber sem demora. Dize-me há quanto tempo o amas.

— Tem ido crescendo tão gradualmente, que mal sei quando começou; mas creio que o devo datar desde a primeira vez que vi as suas belas terras em Pemberley.

Outro pedido de que fosse séria produziu, todavia, o efeito desejado; e ela logo satisfez Jane com as suas solenes juras de afeição. Uma vez convencida nesse ponto, Miss Bennet nada mais tinha a desejar.

— Agora sou bem feliz — disse ela —, porque hás de ser tão feliz como eu. Sempre o prezei. Ainda que fosse só pelo amor que te tem, sempre o haveria de estimar; mas agora, como amigo de Bingley e teu marido, só Bingley e tu me podem ser mais caros. Mas, Lizzy, foste muito astuta, muito reservada comigo. Quão pouco me contaste do que se passou em Pemberley e em Lambton! Tudo o que sei devo-o a outro, não a ti.

Elizabeth contou-lhe os motivos do seu segredo. Não quisera mencionar Bingley; e o estado indeciso dos seus próprios sentimentos fizera-a evitar por igual o nome do amigo dele: mas agora já não lhe esconderia a parte que ele tivera no casamento de Lydia. Tudo foi reconhecido, e metade da noite passada em conversa.

— Deus nos acuda! — gritou Mrs. Bennet, ao estar junto a uma janela na manhã seguinte — se aquele Sr. Darcy tão desagradável não vem aqui outra vez com o nosso querido Bingley! Que significará ele de tão maçador que está sempre a vir para aqui? Eu não fazia ideia senão que ele iria caçar, ou coisa que tal, e não nos havia de perturbar com a sua companhia. Que havemos de fazer dele? Lizzy, tens de sair outra vez a passear com ele, para que não estorve Bingley.

Elizabeth mal pôde deixar de rir com tão cómoda proposta; contudo ficou deveras aborrecida por a mãe estar sempre a dar-lhe tal epíteto.

Assim que entraram, Bingley olhou para ela de modo tão expressivo, e apertou-lhe a mão com tal calor, que não deixou dúvida alguma das boas notícias que tinha; e pouco depois disse em voz alta: — Mrs. Bennet, não há por aqui mais vielas em que a Lizzy se possa perder outra vez hoje?

— Aconselho o Sr. Darcy, e a Lizzy, e a Kitty — disse Mrs. Bennet — a darem um passeio até Oakham Mount esta manhã. É um bonito passeio longo, e o Sr. Darcy ainda não viu a vista.

— Para os outros pode correr bem — replicou o Sr. Bingley —; mas tenho a certeza de que será demais para Kitty. Não será, Kitty?

Kitty confessou que preferia ficar em casa. Darcy professou grande curiosidade de ver a vista do Monte, e Elizabeth consentiu em silêncio. Ao subir para se arranjar, Mrs. Bennet seguiu-a, dizendo:

— Lamento muito, Lizzy, que sejas obrigada a ter aquele homem desagradável só para ti; mas espero que não te importe. É tudo por causa da Jane, sabes; e não há necessidade de lhe falar senão de vez em quando; portanto, não te ponhas em incómodo.

Durante o passeio ficou resolvido que o consentimento de Mr. Bennet seria pedido no decurso da noite: Elizabeth reservou para si o de requerer o da mãe. Não podia determinar como a mãe o receberia; às vezes duvidando se todo o seu dinheiro e a sua grandeza bastariam para vencer a aversão que ela tinha ao homem; mas, quer ela estivesse violentamente contra o casamento, quer violentamente dele encantada, era certo que o seu procedimento seria igualmente pouco apto para honrar o seu discernimento; e ela não suportaria melhor que Mr. Darcy ouvisse os primeiros arrebatamentos do seu contentamento do que os primeiros ímpetos da sua desaprovação.

Ao serão, pouco depois de Mr. Bennet se retirar para a biblioteca, ela viu Mr. Darcy levantar-se também e segui-lo, e a sua agitação ao vê-lo foi extrema. Não temia a oposição do pai, mas ele ia ser infeliz, e isso por sua causa; que ela, a sua filha favorita, o estivesse a afligir com a sua escolha, enchando-o de receios e pesares ao dispor dela, era uma reflexão miserável, e ficou sentada em angústia até Mr. Darcy tornar a aparecer, quando, olhando para ele, sentiu-se um pouco aliviada pelo sorriso dele. Em poucos minutos ele aproximou-se da mesa onde ela estava sentada com Kitty; e, fingindo admirar a sua obra, disse em voz baixa: — Vai ter com o teu pai; ele precisa de ti na biblioteca. — Ela foi logo.

O pai passeava pela sala, com ar grave e ansioso. — Lizzy — disse ele —, que estás tu a fazer? Perdeste o juízo para aceitar este homem? Não o tiveste sempre odiado?

Com quanta sinceridade ela então desejou que as suas opiniões de outrora tivessem sido mais razoáveis, as suas expressões mais moderadas! Ter-lhe-ia poupado explicações e declarações que era extremamente embaraçoso dar; mas eram agora necessárias, e ela assegurou-lhe, com alguma confusão, a sua afeição por Mr. Darcy.

— Ou, por outras palavras, estás resolvida a tê-lo. Ele é rico, de certo, e poderás ter mais vestidos finos e mais carruagens do que Jane. Mas far-te-ão feliz?

— Tem alguma outra objeção — disse Elizabeth — além da crença de que eu lhe sou indiferente?

— Nenhuma. Todos nós sabemos que ele é um homem orgulhoso e desagradável; mas isso não seria nada se verdadeiramente gostasses dele.

— Eu gosto, gosto — replicou ela, com lágrimas nos olhos —; amo-o. Na verdade ele não tem orgulho desmedido. Ele é perfeitamente amável. Não sabe o que ele é realmente; então, por favor, não me aflija falando dele nesses termos.

— Lizzy — disse o pai —, já lhe dei o meu consentimento. Ele é o género de homem, de facto, a quem eu nunca ousaria negar fosse o que fosse que ele se dignasse pedir. Dou-to agora, se estás resolvida a tê-lo. Mas deixa-me aconselhar-te a pensares melhor no assunto. Conheço-te o génio, Lizzy. Sei que não podias ser nem feliz nem respeitável, a menos que verdadeiramente estimasses o teu marido, a menos que o olhasses como um superior. Os teus talentos vivos por-te-iam no maior perigo num casamento desigual. Mal escaparias ao descrédito e à infelicidade. Minha filha, não me dês a dor de te ver incapaz de respeitar o teu companheiro na vida. Não sabes o que estás a fazer.

Elizabeth, ainda mais comovida, respondeu com fervor e seriedade; e, por fim, com repetidas afirmações de que Mr. Darcy era verdadeiramente o objecto da sua escolha, explicando a gradual mudança que a sua estima por ele sofrera, referindo a sua certeza absoluta de que a afeição dele não era obra de um dia, mas resistira à prova de muitos meses de incerteza, e enumerando com energia todas as suas boas qualidades, ela venceu a incredulidade do pai e o reconciliou com o casamento.

— Bem, minha querida — disse ele, quando ela deixou de falar —, nada mais tenho a dizer. Se assim é, ele merece-te. Eu não poderia ter-te entregado, minha Lizzy, a ninguém de menos merecimento.

Para completar a impressão favorável, contou-lhe então o que Mr. Darcy fizera voluntariamente por Lydia. Ele ouviu-a com pasmo.

— Esta é uma noite de maravilhas, na verdade! E assim, Darcy fez tudo: arranjou o casamento, deu o dinheiro, pagou as dívidas do sujeito, e obteve-lhe a comissão! Tanto melhor. Poupa-me uma carga de aborrecimentos e economia. Se tivesse sido obra do teu tio, eu pagaria, quisesse ou não; mas estes jovens amantes violentos levam tudo à sua maneira. Hei de oferecer-me para lhe pagar amanhã, ele desancará aos brados sobre o amor que te tem, e o assunto terá fim.

Lembrou-se então do embaraço dela poucos dias antes, ao ler a carta do Sr. Collins; e, depois de a ter motejado por algum tempo, deixou-a finalmente ir, dizendo, quando ela saía do quarto: — Se vierem alguns rapazes por causa da Mary ou da Kitty, manda-os entrar, porque estou completamente livre.

A mente de Elizabeth ficou agora aliviada de um peso muito grande; e, depois de meia hora de tranquila reflexão no seu próprio quarto, pôde juntar-se aos outros com compostura tolerável. Tudo era ainda demasiado recente para alegria, mas a noite passou tranquila; já não havia nada de importante a temer, e o conforto do à-vontade e da familiaridade viria com o tempo.

Quando a mãe subiu ao seu quarto de toucador à noite, ela seguiu-a e fez-lhe a importante comunicação. O efeito foi dos mais extraordinários; pois, ao ouvi-la pela primeira vez, Mrs. Bennet ficou absolutamente imóvel, incapaz de articular uma sílaba. Nem foi senão ao cabo de muitas e muitas minutos que ela pôde compreender o que ouvira, embora em geral não fosse tardia em dar crédito ao que fosse para vantagem da família, ou que viesse em figura de pretendente para qualquer delas. Começou por fim a recobrar-se, a mexer-se na cadeira, a levantar-se, a sentar-se outra vez, a pasmar e a benzer-se.

— Deus do céu! Senhor me valha! pensar só! meu Deus! Mr. Darcy! Quem o haveria de pensar? E é mesmo verdade? Ó minha doce Lizzy! como hás de ser rica e grande! Que pinço, que joias, que carruagens terás! O de Jane não é nada em comparação — nada. Estou tão satisfeita — tão feliz. Um homem tão elegante! tão bonito! tão alto! Ó minha querida Lizzy! roga-lhe que desculpe por eu o ter desagradado tanto antes. Espero que ele o esqueça. Querida, querida Lizzy. Uma casa na cidade! Tudo o há de haver de encantador! Três filhas casadas! Dez mil libras por ano! Ó Senhor! que será de mim? Hei de enlouquecer.

Isto bastava para provar que a sua aprovação não carecia de ser duvidada; e Elizabeth, rejubilando por semelhante efusão ter sido ouvida só por ela, retirou-se em breve. Mas antes de ter estado três minutos no seu quarto, a mãe seguiu-a.

— Minha filha muito amada — exclamou ela —, não posso pensar em outra coisa. Dez mil libras por ano, e muito provavelmente mais! É como um lorde! E uma licença especial — hás de casar, e hás de casar por licença especial. Mas, meu amor muito querido, diz-me qual é o prato de que Mr. Darcy gosta particularmente, para o ter amanhã.

Este era um triste augúrio do que poderia ser o procedimento da mãe para com o próprio gentleman; e Elizabeth verificou que, embora na posse certa da mais ardente afeição dele, e segura do consentimento dos seus parentes, havia ainda algo a desejar. Mas o dia seguinte correu muito melhor do que ela esperava; porque Mrs. Bennet tinha por acaso tamanho respeito pelo seu futuro genro, que não se atrevia a falar-lhe, a menos que pudesse oferecer-lhe alguma atenção ou marcar a sua deferência pela opinião dele.

Elizabeth teve a satisfação de ver o pai pôr-se a empenhar-se em conhecer melhor o futuro genro; e Mr. Bennet logo lhe assegurou que ele subia a cada hora no conceito dele.

— Eu estimo muito aos meus três genros — disse ele. — Wickham, talvez, seja o meu preferido; mas creio que hei-de gostar do teu marido tanto como do de Jane.

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CAPÍTULO LX.

O ânimo de Elizabeth, voltando logo à sua habitual viveza, quis que Mr. Darcy lhe explicasse como fora que se tinha enamorado dela. — Como pudeste começar? — disse ela. — Compreendo que pudesses continuar maravilhosamente, uma vez feito o princípio; mas o que te pôde dar o impulso inicial?

— Não posso fixar a hora, nem o lugar, nem o olhar, nem as palavras, que lançaram o fundamento. Foi há já muito tempo. Já estava no meio antes de saber que tinha começado.

— À minha beleza resististe desde logo, e quanto às minhas maneiras — o meu procedimento para contigo andava pelo menos sempre a beirar a descortesia, e nunca te falei sem antes desejar dar-te antes desgosto que não. Ora, sê sincero: admiraste-me pela minha impertinência?

— Pela viveza do teu espírito, sim.

— Bem podes chamar-lhe logo impertinência. Era muito pouco menos. O facto é que estavas farto de civilidade, de deferência, de atenções oficiosas. Enfastiado das mulheres que estavam sempre a falar, a olhar, a pensar só para merecer a tua aprovação. Eu te acordei e te interessei, porque era tão diferente delas. Se tu não fosses verdadeiramente amável, ter-me-ias odiado por isso; mas, apesar do trabalho que tomaste para te disfarçares, os teus sentimentos eram sempre nobres e justos; e no teu íntimo desprezavas de todo as pessoas que te cortejavam com tanto afinco. Pronto — poupei-te o trabalho de mo explicar; e, na verdade, tudo ponderado, começo a achá-lo perfeitamente razoável. É certo que de mim não conheces bem nenhum bem real — mas ninguém pensa nisso quando se enamora.

— Não havia nada de bom no teu afectuoso procedimento para com Jane, enquanto ela esteve doente em Netherfield?

— Querida Jane! quem faria menos por ela? Mas faze de tudo uma virtude, por teu gosto. As minhas boas qualidades ficam sob a tua protecção, e tu hás-de exagerá-las o mais possível; e, em troca, a mim cabe-me procurar ensejos para te azucrinar e contender contigo quantas vezes possa; e hei-de começar já, perguntando-te que te fez tão contrário a chegares finalmente a uma declaração? Que te fez tão tímido comigo, da primeira vez que vieste, e depois quando jantaste aqui? E por que, mormente da primeira vez, tinhas um ar como se eu não te importasse?

— Porque estavas grave e silencioso, e não me davás nenhum encorajamento.

— Mas eu estava atrapalhado.

— E eu também.

— Podias ter-me falado mais, quando vieste jantar.

— Quem menos sentisse, talvez sim.

— Que azar que tenhas uma resposta razoável para dar, e que eu seja tão razoável que a admita! Mas pergunto a mim mesma até onde terias ido, se te tivessem deixado entregue a ti mesmo. Pergunto quando terias falado, se eu não te tivesse interrogado! O meu propósito de te agradecer a tua bondade para com Lydia teve certamente grande influência. _Demasiada_, receio; pois que vem a ser da moral, se a nossa felicidade nasce de uma quebra de promessa, porque eu não devia ter tocado no assunto? Isto nunca poderá ser.

— Não te aflijas com isso. A moral ficará perfeitamente a salvo. Os injustificáveis esforços de Lady Catherine para nos separar foram o meio de me tirar todas as dúvidas. Não devo a minha presente felicidade ao teu vivo desejo de me exprimires a tua gratidão. Eu não estava em disposição de esperar que abrisses uma porta. A notícia da minha tia deu-me esperança, e estava resolvido a saber tudo de uma vez.

— Lady Catherine tem sido de uma utilidade infinita, o que bem pode fazê-la feliz, porque ela gosta de ser útil. Mas diz-me: para que vieste a Netherfield? Foi só para ires a Longbourn e ficares atrapalhado? ou tencionavas consequências mais sérias?

— O meu verdadeiro intento era ver-te, e julgar, se pudesse, se alguma vez me seria lícito esperar que me amasses. O meu intento declarado, ou o que a mim mesmo declarei, era ver se a tua irmã ainda tinha partialidade por Bingley, e, se a tivesse, fazer-lhe a confissão que desde então lhe fiz.

— Terás alguma vez coragem de anunciar a Lady Catherine o que lhe está reservado?

— Mais me há-de faltar tempo do que coragem, Elizabeth. Mas é preciso fazê-lo; e, se me deres uma folha de papel, será feito imediatamente.

— E, se eu não tivesse uma carta para escrever também, poderia sentar-me junto de ti e admirar a firmeza da tua letra, como outra jovem senhora fez outrora. Mas eu tenho uma tia, também, que não posso continuar a negligenciar.

Por uma relutância em confessar quanto a sua intimidade com Mr. Darcy fora exagerada, Elizabeth nunca respondera ainda à longa carta de Mrs. Gardiner; mas agora, tendo que comunicar o que sabia ser-lhe mais grato, quase se envergonhava de ver que o tio e a tia tinham já perdido três dias de felicidade, e escreveu imediatamente o seguinte:

— Eu te teria agradecido antes, minha querida tia, como era meu dever, pela tua longa, amável e cabal exposição de particularidades; mas, a dizer a verdade, estava de humor demasiadamente atravessado para escrever. Supunhas mais do que realmente havia. Mas agora supõe quanto quiseres; dá larga à tua fantasia, entrega a tua imaginação a todos os vôos possíveis que o assunto permita, e, a menos que me creias efectivamente casada, não hás-de errar muito. Tens de escrever outra vez muito cedo, e gabá-lo muito mais do que fizeste na tua última. Agradeço-te uma e outra vez o não teres ido aos Lagos. Como pude ser tão tola em desejá-lo! A tua ideia dos poneis é deliciosa. Iremos dar a volta ao parque todos os dias. Sou a criatura mais feliz do mundo. Talvez outras pessoas o tenham dito antes, mas ninguém com tanta razão. Sou ainda mais feliz do que Jane; ela apenas sorri, eu rio. Mr. Darcy manda-te todo o amor do mundo que de mim se possa dispensar. Haveis todos de vir a Pemberley no Natal. Tua, etc.

A carta de Mr. Darcy a Lady Catherine era de estilo diferente, e ainda diferente de ambas era a que Mr. Bennet remeteu a Mr. Collins, em resposta à sua última.

/* — Caro senhor, */

— Mais uma vez tenho de lhe pedir cumprimentos. Elizabeth será em breve a mulher de Mr. Darcy. Console Lady Catherine o melhor que puder. Mas, se eu fosse o senhor, púnha-me do lado do sobrinho. Ele é quem tem mais que dar.

— De Vossa Excelência sincero, etc.

Os cumprimentos de Miss Bingley ao irmão pelo seu próximo casamento foram tudo o que há de afectuoso e insincero. Escreveu até a Jane por causa do caso, para exprimir o seu contentamento, e repetir todas as suas antigas profissões de estima. Jane não se deixou iludir, mas sentiu-se tocada; e, embora não tivesse nenhuma confiança nela, não pôde deixar de lhe escrever uma resposta muito mais bondosa do que sabia ser merecida.

O gozo que Miss Darcy manifestou ao receber idêntica notícia era tão sincero como o do irmão em a enviar. Quatro folhas de papel não bastaram para conter todo o seu alvoroço, e todo o seu vivo desejo de ser amada pela irmã.

Antes que pudesse chegar qualquer resposta de Mr. Collins, ou qualquer cumprimento a Elizabeth da parte da mulher dele, a família de Longbourn soube que os Collins tinham vindo eles mesmos à casa de Lucas. A razão desta súbita mudança logo se evidenciou. Lady Catherine ficara tão excessivamente encolerizada com o conteúdo da carta do sobrinho, que Charlotte, que realmente se alegrava com o casamento, ansiava por afastar-se enquanto a tormenta passasse. Num tal momento, a chegada da amiga foi um prazer sincero para Elizabeth, ainda que no decurso dos encontros ela devesse às vezes pensar que o prazer lhe saíra caro, quando via Mr. Darcy exposto a toda a pompa e obséquiosa civilidade do marido. Ele o suportou, contudo, com uma calma admirável. Até soube ouvir Sir William Lucas, quando este o felicitou por lhe ter arrebatado a mais brilhante jóia da comarca, e manifestou a esperança de que se encontrassem amiúde em St. James, com muita compostura. Se encolheu os ombros, foi só quando Sir William já estava fora de vista.

A vulgaridade de Mrs. Philips era outra, e talvez maior, prova para a sua tolerância; e, posto que Mrs. Philips, bem como a irmã, tivesse demasiado receio dele para lhe falar com a familiaridade que o bom humor de Bingley incitava, todavia, sempre que abria a boca, tinha de ser vulgar. Nem o respeito que ela lhe votava, embora a fizesse mais quieta, a havia de tornar mais elegante. Elizabeth fez quanto pôde para o resguardar das frequentes atenções de ambas, e andava sempre ansiosa por o guardar para si, e para aqueles da sua família com quem ele pudesse conversar sem mortificação; e, ainda que os desagradáveis sentimentos que de tudo isto nasciam tirassem à temporada do noivado muito do seu encanto, aumentavam a esperança do futuro; e ela olhava com delícia para o tempo em que houvessem de ser arrancados a uma sociedade tão pouco agradável para um e para outro, para todo o conforto e elegância do seu grupo familiar em Pemberley.

CAPÍTULO LXI.

Feliz para todos os seus sentimentos maternais foi o dia em que Mrs. Bennet se viu livre das suas duas filhas mais dignas. Com que deliciado orgulho ela depois visitou Mrs. Bingley, e falou de Mrs. Darcy, é coisa que se adivinha. Eu bem quisera poder dizer, para bem da família, que a realização do seu ardente desejo no estabelecimento de tantas filhas produziu tão feliz efeito que a tornou, para o resto da vida, uma mulher sensata, amável e instruída; embora, talvez, fosse sorte para o marido, que talvez não saboreasse a felicidade doméstica sob uma forma tão invulgar, o ela continuar a estar de quando em quando nervosa e invariavelmente tola.

Mr. Bennet sentiu muito a falta da segunda filha; a afeição que lhe tinha levava-o a sair de casa mais do que qualquer outra coisa poderia fazer. Tinha particular gosto em ir a Pemberley, sobretudo quando menos era esperado.

Mr. Bingley e Jane ficaram em Netherfield apenas um doze meses. Uma vizinhança tão próxima da mãe e das relações de Meryton não era desejável nem para o seu temperamento fácil, nem para o coração afectuoso dela. O caro desejo das irmãs ficou então satisfeito: comprou ele uma propriedade num condado vizinho do de Derbyshire; e Jane e Elizabeth, além de todas as outras fontes de felicidade, ficaram a menos de trinta milhas uma da outra.

Kitty, com seu muito material proveito, passou a maior parte do tempo com as duas irmãs mais velhas. Em sociedade tão superior à que em geral conhecera, o seu melhoramento foi grande. Não tinha temperamento tão indomável como Lydia; e, afastada da influência do exemplo de Lydia, tornou-se, com a devida atenção e governo, menos irritável, menos ignorante e menos insípida. Do maior desproveito da companhia de Lydia foi ela, como é claro, cuidadosamente preservada; e, embora Mrs. Wickham frequentemente a convidasse a ir passar temporadas com ela, com a promessa de bailes e rapazes, o pai nunca consentiu que fosse.

Mary foi a única filha que ficou em casa; e foi necessariamente arrastada da busca das suas prendas pelo facto de Mrs. Bennet ser de todo incapaz de estar sozinha. Mary foi obrigada a misturar-se mais com o mundo, mas ainda assim moralizava sobre cada visita matinal; e, como já não se sentia mortificada pela comparação entre a beleza das irmãs e a sua, o pai suspeitava de que ela sofria a mudança sem grande relutância.

Quanto a Wickham e Lydia, o casamento das irmãs não trouxe revolução alguma aos seus caracteres. Ele suportou com filosofia a convicção de que Elizabeth havia agora de saber tudo quanto da sua ingratidão e falsidade antes lhe fora oculto; e, apesar de tudo, não perdera de todo a esperança de que Darcy pudesse ainda ser induzido a fazer-lhe a fortuna. A carta congratulatória que Elizabeth recebeu de Lydia por causa do casamento deu-lhe a entender que, ao menos por parte dela, senão dele, tal esperança era alimentada. A carta era deste teor:

/* — Minha querida Lizzy, */

— Desejo-te muitas felicidades. Se estimas Mr. Darcy metade do que eu estimo o meu querido Wickham, hás-de ser muito feliz. É uma grande consolação ter-te tão rica; e quando não tiveres mais nada que fazer, espero que penses em nós. Estou certa de que Wickham gostaria muito de um lugar na corte; e não creio que nos chegue o dinheiro para viver sem algum auxílio. Qualquer lugar serviria, de cerca de trezentas ou quatrocentas libras por ano; mas, todavia, não fales com Mr. Darcy no caso, se preferes não falar.

— Tua, etc.

Como acontecesse que Elizabeth antes preferia não, tentou na sua resposta pôr termo a toda a súplica e expectativa daquele género. O alívio, porém, que estava no seu poder dar, pela prática daquilo que se poderia chamar economia nas suas despesas particulares, lho enviou amiúde. Sempre fora evidente para ela que um rendimento como o deles, dirigido por duas pessoas tão despendiosas nos seus apetites e tão descuidosas do futuro, havia de ser muito insuficiente para o seu sustento; e, todas as vezes que mudavam de residência, ou Jane ou ela tinha a certeza de ser solicitada para alguma pequena ajuda no pagamento das contas. O seu modo de viver, mesmo quando a restituição da paz os deixou entregues a um lar, era no extremo desassossegado. Andavam sempre a mudar-se de um lugar para outro, em busca de uma situação barata, e sempre a gastar mais do que deviam. O afecto dele por ela depressa se afundou em indiferença; o dela durou um pouco mais; e, apesar da sua mocidade e dos seus modos, ela conservou todos os títulos à reputação que o casamento lhe dera. Ainda que Darcy jamais o pudesse receber em Pemberley, porém, por amor de Elizabeth, ajudou-o mais adiante na sua profissão. Lydia era de quando em quando visitante ali, quando o marido ia gozar a vida a Londres ou a Bath; e, com os Bingleys, ambos ficavam por lá tantas vezes, que até o bom humor de Bingley cedeu, e ele chegou ao ponto de falar em lhes dar um aviso para se irem.

Miss Bingley ficou profundamente mortificada com o casamento de Darcy; mas, como lhe pareceu aconselhável conservar o direito de visitar Pemberley, depôs todo o ressentimento; estimou Georgiana mais do que nunca, foi tão atenciosa para com Darcy como dantes, e pagou todas as dividas de cortesia para com Elizabeth.

Pemberley era agora o lar de Georgiana; e a afeição das irmãs era exactamente o que Darcy tinha esperado ver. Eram capazes de se amar, mesmo tão bem como haviam proposto. Georgiana tinha a mais alta ideia do mundo de Elizabeth; embora a princípio ouvisse com frequência um espanto que quase tocava em alarme a maneira viva e jocosa como ela falava ao irmão. Ele, que sempre lhe inspirara um respeito que quase vencia a afeição, via ela agora ser objecto de pública chança. O seu espírito recebeu ensinamentos que nunca antes lhe tinham passado pela mão. Pelos conselhos desta começou a compreender que uma mulher pode tomar liberdades com o marido, que um irmão nem sempre permitirá numa irmã mais nova dez anos do que ele.

Lady Catherine ficou extremamente indignada com o casamento do sobrinho; e, entregando-se a toda a genuína franqueza do seu carácter, na resposta à carta que o anunciava, mandou-lhe linguagem tão abusiva, sobretudo de Elizabeth, que por algum tempo todo o convívio ficou cortado. Por fim, porém, pela persuasão de Elizabeth, deixou-se ele levar a esquecer a afronta e procurar uma reconciliação; e, depois de ainda alguma resistência da parte da tia, o seu ressentimento cedeu, ou à afeição que lhe tinha, ou à curiosidade de ver como a mulher dele se havia de haver; e ela dignou-se visitá-los em Pemberley, apesar daquela poluição que os seus bosques tinham sofrido, não só pela presença de tal senhora, mas ainda pelas visitas do tio e da tia da cidade.

Com os Gardiner mantinham sempre as mais íntimas relações. Darcy, bem como Elizabeth, estimava-os deveras; e ambos nunca deixaram de sentir a mais viva gratidão para com as pessoas que, ao levarem Elizabeth a Derbyshire, tinham sido o meio de os unir.

CHISWICK PRESS: — CHARLES WHITTINGHAM AND CO. TOOKS COURT, CHANCERY LANE, LONDON.

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